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EMÓBIA e SOCIEDADE

NORBERT ELIAS

Norbert Elias nasceu: na 5HIII"™"™ tendo feito


estudos de medicina, psK em diversas
universidades. IniciouLos. seus trabalhos de sociologia com
Karl Mannheim, tendo elaborado as suas obras de base
— A Sociedade de Corte c O Processo de Civilização •—
ainda nos anos 30". Refugiado em Inglaterra devido ao nazismo,
aí se manteve até aos anos 60 a leceíonar na Universidade
de Leicester. O reconhecimento internacional da sua
obra dá-se apenas a partir dos anos 70, facto que o levou a
iniciar um novo ciclo de publicações que o transformaram
numa das grandes figuras de referência do pensamento
contemporâneo ainda antes da sua morte em 1990.
A Condição Humana, um dos textos mais significativos dessa
fase, apresenta uma reflexão profunda sobre o problema
do controle da violência nas relações internacionais.

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EMÍRU e S.BCIEOABE
Coleccão coordenada por Francisco Beitíencouri e Diogo Ramada Curto
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A colecção M E M Ó R I A E
SOCIEDADE dirige-se a um
público diversificado, composto
por professores dos diversos
graus de ensino, estudantes dos
anos terminais do ensino secun-
dário e do ensino universítáric,
quadros e empregados de servi-
ços, novas profissões urbanas,
profissões liberais, agentes
culturais de diferentes sectores,
etc. Cobrirá um campo muito
vasto, procurando apresentar es-
tudos de teconhecida qualidade
sobre problemas pertinentes do
presente e do passado.
Os autores previstos para a pri-
meira fase da colecção consti-
tuem uma garantia da diversida-
de de temas e de pontos de vista.
As suas obras têm vindo a insta-
lar rupturas e a pôr em causa as f à
divisões tradicionais do saber.
Ao mesmo tempo, está em pre-
paração um conjunto de obras
sobre a realidade portuguesa
que, elaboradas no silêncio do
gabinete ou no colorido trabalho
de campo, interessam vastos
círculos de opinião. Contra uma
falsa idéia que faz da obra de
difusão sinônimo de simplifica-
ção forçada, serão dados a conhe-
cer os resultados de cuidadas
investigações, porque só estas
estimulam reflexões aprofunda-
das.
Finalmente, haverá que revalori-
zar textos clássicos, tanto no seu
estatuto, como na força da sua
actualidade. Critério que impli-
ca recuperação do olvidado ou
recolocação do d e m a s i a d o
conhecido, na linha da concilia-
ção das obras pertencenres ao
patrimônio internacional com as
obras portuguesas.
CONDIÇÃO HUMANA
NORBERT ELIAS

CONDIÇÃO HUMANA
Considerações sobre a evolução da humanidade,
por ocasião do quadragésimo aniversário do fim de uma guerra
(8 de Maio de 198 5)

Tradução de
MANUEL LOUREIRO
Revisão literária e técnica de
RAFAEL GOMES FILIPE

Memória e Sociedade

DIFEL
Elias* Norbert

Condição humana consideração s


obre a evolução da humanidade,
por ocasião do q.uadragesimo a
Para Micbael Scbrõter,
3I6/E42c
cuja amizade tornou possível
v _ (153931/99)
esta publicação
Titulo original: Humana Conditio
© 1985, NORBERT ELIAS
Todos os direitos para publicação desta obra em língua portuguesa reservados por:

DIFEL
Dilusáo EBiloiial, Lda

Denominação Social — DIFEL 82 — Difusão Editorial, Lda.


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Memória e Sociedade
Colecção coordenada por Francisco Bethencourt e Diogo Ramada Curto
Capa: Emílio Távora Vilar
Seteccão de cores: Meiotam, Lãa.
Revisão: Ayala Monteiro
Composição: Textype — Artes Gráficas, Lda.
Impressão e acabamento: Tipografia Guerra, Viseu, 1991
Depósito Legal n.D 43958/91
ISBN 972-29-0201-6
PgoibidaàxeprcidHCão total ou parcial sem a prévia autorização do Editor

8ISU0TBCA
NOTA DE APRESENTAÇÃO

Norbert Elias nasceu em 1897 na Alemanha, tendo feito estudos de medi-


cina, de psiquiatria e de filosofia em diversas universidades. Seguiu os cursos
de Honigswald, Rickert, Husserl ejaspers, tendo defendido a sua tese de dou-
toramento sobre Idéia e Indivíduo. Uma pesquisa crítica sobre o conceito
de História. A ascensão do nazismo obrigou-o a abandonar a Alemanha no
início dos anos 30, não tendo sequer defendido a sua tese de «habilitation»
sobre A Sociedade de Corte que lhe teria dado acesso ao posto de assistente da
cátedra de Karl Mannheim na Universidade de Frankfurt. Depois de uma
breve estada em França estabeleceu-se definitivamente em Inglaterra. Aí encon-
trou trabalho como psicoterapeuta de grupo, profissão que exerceu durante
vários anos até ser convidado a leccionar sociologia na Universidade de
Leicester.
O reconhecimento internacional da obra de Norbert Elias é tardio.
Durante os anos 30 trabalhou, com o apoio de Mannheim, numa vasta obra
sobre O Processo de Civilização, publicada em dois volumes por um pequeno
editor suíço em 1939, tendo sido muito limitada a sua difusão. Só em 1969,
sete anos depois da sua jubilação de Leicester, foi feita uma reedição alemã
desta obra, que permitiu a sua «descoberta» pela comunidade científica e
mesmo pelo grande público: seguiram-se traduções em França (1973-75), em
Inglaterra (1978) e em Itália (1982-83). Também em 1969 foi publicado o
texto inédito sobre A Sociedade de Corte, que passou a constituir com os dois
volumes de O Processo de Civilização um tríptico de referência obrigatória
no quadro das ciências sociais. Contudo, a actividade de Norbert Elias não
ficou por aqui. Estabelecido em Amesterdão, onde criou uma espécie de acade-
mia platônica com um conjunto de discípulos, continuou a proferir conferências
10 CONDIÇÃO HUMANA NOTA DE APRESENTAÇÃO 11

em universidades, nomeadamente em Bielefelã. Paralelamente, iniciou um encontramos a revalorização crítica da obra de Auguste Comte, explicitada no
longo ciclo de publicações até à sua morte em 1990 que o transformou num dos livro O que é a sociologia (traduzido pelas Edições 70) e incorporado nas
casos de longevidade criativa mais significativos deste século: O que é a socio- suas abordagens de longuíssima duração, como na célebre conferência realizada
logia (1970), A solidão dos idosos (1982), Envolvimento e distancia- a 26 de Novembro de 1985 no Collège de France a convite de Pierre Bourdieu,
ção (1983), Ensaio sobre o tempo (1984), A Condição Humana onde falou sobre «Continuidades e descontinuidades da transmissão do saber»
(1985) e A Busca da Excítação (com Eric Dunning, 1986). da Babilônia aos nossos dias. Mas esta perspectiva, que fundamenta uma crí-
Este breve excursus biobibliográfico permite situar melhor o sentido de tica cerrada, tanto às visões compartimentadas da historiografia tradicional
uma obra como A Condição Humana; trata-se de uma espécie de testamento como à transferencia selvagem do relativismo cultural antropológico para o
espiritual de uma das grandes figuras do nosso século, formada no rico ambi- estudo do passado, é cruzada pela assimilação do legado de Max Weber, como o
ente intelectual da Alemanha de Weimar, onde o contacto com as primeiras demonstra a análise dos agentes interessados nos processos de conhecimento ou da
abordagens fenomenologistas da teoria do conhecimento caminha a par da origem social das formas de comportamento.
reflexão sobre a obra de Freud ou da análise crítica dos legados de Auguste A importância da obra de Norbert Elias na renovação das ciências sociais
Comte e de Max Weber. A sua tripla formação — filosófica, psiquiátrica e é atestada pela influência exercida no trabalho de alguns dos autores mais sig-
sociológica — está inscrita, desde logo, na sua obra sobre O Processo de nificativos da actualidade, como Pierre Bourdieu, Roger Chartier ou Vitorino
Civilização (traduzido pela Dom Quixote), onde coloca no centro da evolução Magalhães Godinho. A sua longevidade criativa, já atrás referida, permitiu
humana a passagem de mecanismos de coacção externa para mecanismos de desenvolver um pensamento original e produtivo. E por isso que considerámos
autocontrolo. Já então procura identificar as raízes sociais do domínio cres- A Condição Humana como um texto duplamente significativo, por um lado
cente dos sentimentos e das emoções no processo de curialização dos guerreiros do pensamento de Elias, por outro, de uma conjuntura específica, o final do
medievais. Este método inovador de abordagem sociogenética já tinha sido pós-guerra. E no contexto da celebração do 40." aniversário do termo da
ensaiado na Sociedade de Corre (traduzido pela Estampa), onde Elias mos- Segunda Guerra Mundial que devem ser compreendidas as numerosas referen-
tra como as refaçoes de interdependência forjadas pelos círculos de corte impli- cias aos dois blocos e à ameaça de uma catástrofe nuclear provocada pela sua
cam a criação de novos modelos de comportamento baseados no domínio das rivalidade — traços anacrônicos que mostram à saciedade como a análise pros-
pulsões, na dissimulação, no cálculo estratégico e na vigilância mútua dos pectiva trabalha sempre e apenas com possibilidades. Mas a reflexão profunda
actores envolvidos. sobre o recurso constante à violência nas relações internacionais ganha uma
O Ensaio sobre o Tempo assinala a aplicação deste método a um pro- nova actualidade no quadro da fragmentação do Estado soviético, da emergên-
blema mais geral: a origem das concepções do tempo, materializadas na elabo- cia de conflitos nacionais no leste europeu e da ameaça de guerras regionais.
ração de calendários e na definição de períodos cíclicos modelados pelo movi- Com efeito, Norbert Elias retoma neste texto um dos temas centrais da sua
mento aparente ao sol e da lua. De novo deparamos com uma valorização das obra, a violência e os meios de a controlar. As suas considerações sobre a guerra
funções reguladoras da actividade humana, representadas aqui pela interiori- como a expressão mais brutal das relações de violência inserem-se na linha
zação do tempo cíclico — o homem pode dominar o ciclo das actividades agríco- anterior de raciocínio: incorporada até aos nossos dias na «condição humana»,
las ou organizar o ciclo das actividades religiosas, geralmente ligadas às pri- a guerra constitui o último reduto de relações entre povos marcadas pela imposi-
meiras. Mas se Elias sublinha, por um lado, a necessidade de previsão que ção bruta da força. Se a evolução da humanidade é caracterizada, como pensa
implica o trabalho da terra, por outro, alerta para o significado social da cri- Norbert Elias, pelo domínio crescente das pulsões, trata-se agora de estender os
ação e da gestão deste poderoso sistema regulador, protagonizado pelo grupo dos processos de autocontrolo ao relacionamento entre os povos, introduzindo de uma
sacerdotes, como função suplementar de poder. maneira sistemática mecanismos de regulação pacífica dos conflitos em lugar da
O caracter inovador do pensamento de Norbert Elias reside, em grande destruição massiva.
medida, na análise dos sistemas de conhecimento e dos modelos de comporta-
mento enquanto quadros de experiência socialmente produzidos. No seu percurso Memória e Sociedade - Os coordenadores
l
Por vezes é útil, para compreender melhor as questões da actuali-
dade, afastarmo-nos delas em pensamento para depois, lentamente, a
elas regressarmos. Compreendemo-las, então, melhor. Pois quem se
embrenha apenas nas questões do momento, quem nunca olha para
além delas, é praticamente cego.
Este é um dia em que celebramos a paz, a paz depois do fim de
uma guerra terrível. Este dia é também, propriamente, o dia do nasci-
mento da nova República Federal da Alemanha, cujo aniversário,
assim, simultaneamente, festejamos. Celebramos, portanto, um período
de quarenta anos de paz — nós, povos da Europa. Outros povos da Terra
são menos felizes — onde não cessam as guerras e as revoluções, as vio-
lências dos homens entre Estados ou dentro deles. Podemos conside-
rar-nos felizes por vivermos numa região da Terra em que durante qua-
renta anos não houve uma única guerra. Mas que espécie de mundo é
este em que nos podemos congratular por durante quarenta anos,
menos de meio século, não termos sido atingidos directamente pela

* Este pequeno livro nasceu da elaboração duma conferência sobre o mesmo tema
que proferi, a convite da Universidade de Bielefeld, em 8 de Maio de 1985. Um
registo gravado da conferência propriamente dita será publicado no n.° 2 dos Bielefelder
Universitátsgespráche.
A Rudolfo Knijff devo um particular agradecimento pelo seu auxílio na prepara-
ção do trabalho. Também Gottrief Hermelink me prestou uma grande ajuda, pelo que
lhe estou muito agradecido.
O volume aparecerá no âmbito dum projecto editorial (dirigido por Hermann
Korte, Rhut-Universitat, Bochum) patrocinado pela Fundação Fritz Thyssen, à qual
dirijo, igualmente, os meus agradecimentos.
14 CONDIÇÃO HUMANA

ameaça e pela fúria do homicídio recíproco a que chamamos guerra, e


onde, além disso, temos permanentemente de contar com o deflagrar
de um próximo conflito, ainda mais terrível que os anteriores? Que
espécie de homens são esces que não cessam de se ameaçar com a
guerra, o assassínio e o extermínio?
Humana conditio, o destino do homem. Escolhi este título como
ponto de referência para o que me proponho dizer, entre outras razões,
porque os conflitos violentos entre homens a que chamamos guerras,
até onde os podemos observar retrospectivamente, fazem parte do des-
tino, das condições de vida dos homens. São sofrimento criado pelo
homem, horror criado pelo homem. E, contudo, até hoje, as guerras
têm ido e vindo como as inundações e as tempestades, e sem que o
homem as possa controlar. Sejam quais forem as particularidades que Curiosamente, se pensarem nisto a longo prazo e numa perspectiva
distinguem a guerra de Hitler de todas as outras, não faremos justiça ampla - os homens aprenderam, em muitos aspectos, a domar as forças
ao problema humano de que aqui se trata se o nosso olhar se detiver, selvagens da natureza. Os espíritos e os deuses imaginários com que a
fascinado, nesta última guerra européia ou na possível próxima guerra mente humana povoava, outrora, a Terra indomada, com as suas flores-
mundial, se não perguntarmos: porquê, em geral, a guerra? tas sombrias, as suas montanhas solitárias e os seus mares perigosos,
O homem elevou o assassínio recíproco dos povos a uma institui- regressaram aos sonhos dos homens, donde tinham saído.
ção permanente. As guerras pertencem a uma sólida tradição da huma- O desenvolvimento das ciências naturais — o que não deveria
nidade. Estão arraigadas nas suas instituições sociais, assim como no esquecer-se em especial nas universidades — pôs nas mãos dos homens,
habitus social, na imagem colectiva dos homens, mesmo dos que mais em relação a vastos domínios do acontecer natural, um saber sobre os
amam a paz. Masf agora, chegámos ao fim do caminho. Vivemos numa fenômenos naturais relativamente objectívo e próximo da realidade.
época de evolução da humanidade em que uma próxima guerra traria Estas ciências trouxeram à luz do dia, como dantes se dizia, a «ver-
consigo a destruição de uma parte significativa dessa humanidade, dade» acerca da natureza, acabando tanto com o temor-pânico face à
quando não mesmo de coda a Terra habkável, incluindo os próprios natureza demoníaca como com a representação idealizada de uma sem-
beligerantes. Muitos homens sabem-no e, provavelmente, também o pre generosa Mãe Natureza.
sabem alguns membros dos governos que preparam a próxima guerra. Segundo parece, há muita gente que não pode perdoar às ciências
No entanto, a pressão das instituições sociais e do babitus social, que da natureza o facto de terem desencantado a natureza. Também isto
compelem à guerra, é tão grande e, ao que parece, tão inevitável, que o pertence à humana conditio. Creio que, no contexto do que tenho para
medo duma próxima guerra, ainda mais horrível, começa novamente a dizer, não deixa de ser importante mencionar expressamente este facto.
atormentar-nos, a nós que recordamos com lutuosa tristeza a última Muitos homens dizem que querem saber a verdade, que querem saber
guerra, ao mesmo tempo que festejamos, com alívio, um escasso pe- como é, efectivamente, o mundo em que vivem. No entanto, obser-
ríodo de quarenta anos de paz. vando com mais rigor, revela-se com freqüência que o mundo, tal
como ele é realmente, está longe de corresponder aos desejos humanos.
Quando se apercebem disso, muitos homens ficam assustados com a
verdade e recuam. Preferem embalar-se nos seus sonhos e enganar-se a
si próprios. Esta é, de facto, uma das questões centrais da existência
humana: será que se quer ver o mundo, na medida do possível, como
16 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 17

ele é realmente, mesmo quando se revela pouco satisfatório do ponto •para os homens são os próprios homens. Eles podem domesticar e
de vista emocional, e se verifique que não está feito como se desejaria? embelezar a natureza selvagem, ou, também, estropiá-la.
Ou preferiremos envolver-nos nos nossos desejos e ideais como num Talvez eu esteja a remontar demasiado longe no tempo. No
agasalho quente que nos protege do frio da vida, correndo o risco de entanto, parece-me importante, para o que tenho a dizer sobre as ques-
que a realidade não desejada irrompa um dia, subitamente, nos sonhos tões da actualidade, ajustar correctamente o quadro amplo em que se
acalentadores, de modo a termos depois de continuar a viver amargu- desenrolam os problemas de hoje. Não é por acaso que «Conditio
rada, desiludida e cinicamente dos sonhos perdidos e dos ideais carco- Humana» é o título de um poema que resume, do seu ponto de vista,
midos e despedaçados? alguma coisa do que eu procuro aqui dizer. E um poema pequeno.
Dou-vos um exemplo, talvez suficientemente distante para poder Permitam-me que o cite:
ser entendido sem grande dificuldade. A visão global do universo em
que vivemos, tal como ela emerge, lentamente, do progressivo traba- Nór não ouvimos o bramião da Terra peregrina
lho de investigação dos cosmólogos, está muito longe da imagem do fechamos os olhos perante a distância inconcebível
mundo suave e harmônico de Newton - é tudo menos atractiva. A meda e perante a viagem sem fim nem nome
de lenha atômica do Sol, que consome continuamente o seu próprio só às vezes quando lá em cima a calva Lua
material combustível e que um dia se há-de transformar num «anão irradia o brilho da sua luz emprestada
branco»; as formações, chamadas «buracos negros», que absorvem elas quando a hoste cintilante das estrelas sem vida
próprias raios de luz e não os devolvem — numa palavra, o automa- nos olha do alto na sua fria beleza
tísmo brutal e sem orientação do universo real, que os cosmólogos quase sentimos na língua este sabor da Terra solitária
começam a descobrir, está deveras distante da harmoniosa uniformi- com a carga viva que transporta
dade da bela natureza regida por leis, cuja imagem imperava no Século e a tarefa inconcebível dos homens industriosos
das Luzes e inspirava a fantasia dos seus filósofos. na sua viagem pelo deserto do mundo é-nos familiar
Para exprimi-lo numa frase: aquilo que os homens das sociedades então o tempo funde-se, os falsos portões
mais desenvolvidas sentem e experimentam nesta mesma Terra desencantados ficam o princípio e o fim
enquanto natureza, nada tem a ver com a natureza indómita e nunca e cai o bastidor
desbravada pelo homem; trata-se, exclusivamente, da natureza já que dissimula os fins homicidas dos homens.
domesticada pelos homens, transformada por eles para alcançar fins Onde estamos?
humanos. Refiro-o, aquí, pelo facto de esta circunstância possuir um
certo valor simbólico. Hoje em dia, muitos homens das sociedades Aí têm a humana conditio, nua e crua — a Terra solitária com a sua
mais desenvolvidas divinizam a natureza. No entanto, dificilmente o carga viva. O universo em desenvolvimento ou, o que significa o
fariam se tivessem de viver na natureza ainda não trabalhada pelos mesmo, a «natureza», donde os homens saíram para nela nascerem,
homens, ainda não domesticada pelos seres humanos. Visto não terem este universo é completamente insensível. Não é nem bom nem
plena consciência do papel que o trabalho dos homens, tanto o traba- mau para os homens; trata-se de uma evolução cega, sem sentido e
lho físico como o científico, desempenhou para lhes tornar suportável sem objectivo, cuja violência e cuja força, comparadas com as da
o processo da natureza, no meio da qual eles vivem, pensam segundo humanidade, são avassaladoramente grandes. Este acontecer decorre
uma escaía de valores invertida. Fecham os olhos ao facto de que, numa indiferença perfeita face à humanidade e a cada ser humano.
para os homens, o mais importante neste mundo, pelo menos Os processos naturais que ocorrem em todos os homens e que mui-
enquanto não formos alvo de uma chuva de meteoros, não é o pro- tas vezes designamos, metaforicamente, como o seu corpo, seguem
cesso físico, o processo pré-humano da natureza. O mais importante com bastante freqüência o seu próprio rumo sob a forma de doenças,
18 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 19

ou de um declínio genético predeterminado, rápido ou lento — que tiver perante os olhos a imagem de uma humanidade ávida de saber,
determina o envelhecimento e a morte. em busca do sentido e da alegria, habitando um pequeno planeta do
Os homens procuram sempre dissimular esta completa indiferença sistema solar, no deserto gigantesco deste universo desprovido de sen-
do curso cego e não humano dos fenômenos da natureza através de timentos.
imagens fantasiosas que correspondem melhor aos seus desejos. Eu É certo que os homens também podem destruir a habitabilidade
considero esta tendência para ocultar o conhecimento da realidade ou, do seu planeta para os seres humanos, e talvez já estejam em vias de o
se quiserem, da «verdade», por ela ser inoportuna, com imagens idea- fazer. Não deixa, porém, de ser um tanto assustador ver-se que muitos
lizadas, uma atitude perniciosa e perigosa. Através de um tal encobri- homens tiram daí a conclusão de que a natureza ainda não tocada pelo
mento da indiferença para com os homens de todo este mundo não homem é amiga e generosa, e de que só a intervenção dos homens nos
humano, oculta-se, simultaneamente, o facto de, dentre todos os seres processos da natureza é perceptível de provocar os perigos que amea-
do mundo, os únicos que, em todo o caso, podem não ser indiferentes çam a humanidade. A verdade é que, devido ao mal-estar que a natu-
ao destino dos homens são, precisamente, os outros homens. Neste reza neles provoca, os homens vêm trabalhando, há muitos milhares de
mundo nu e indiferente, é somente dos homens que os homens podem anos, com objectivos a curto prazo, no sentido de domesticarem a sel-
esperar dedicação, calor de sentimentos e ajuda nas dificuldades da vática, indómíta e perigosa natureza da Terra. Eles desbravaram as flo-
vida. restas primitivas e transformaram-nas em campos de cultivo e em jar-
Seja por puro desejo de saber, seja na busca de ajuda ou consolo dins. Em algumas regiões, lograram exterminar os lobos, os gatos
fora da humanidade, os cientistas procuram hoje, neste universo sem selvagens, as cobras venenosas, tudo o que lhes era hostil. Agora, nes-
vida, sinais de outros seres que, como os homens, sejam capazes de tas regiões, podem caminhar pacificamente e sem perigo pelos campos
comunicar uns com os outros por meio de símbolos aprendidos, de e achar bela a natureza, entretanto domesticada e pacificada pelos
armazenar conhecimentos e de os utilizar na prática. Mas é perfeita- homens. As feras podem ver-se no jardim zoológico, atrás das grades.
mente possível que somente na Terra se tivessem reunido as circuns- Só os próprios homens, por exemplo, quando se encontram ao volante
tâncias que permitiram que do processo cego, sem desígnio nem de um carro, constituem um perigo uns para os outros. Todavia, a
objectivo, da natureza emergissem homens dotados de conhecimento, ameaça indubitável que representam para os homens as modificações
de sentimentos e de imaginação, e capazes de estabelecerem metas. que eles involuntariamente provocam no seu habitai natural — em
É perfeiramente imaginável que, em todo o universo, não existam mais parte devido à sua quantidade incontrolavei, em parte devido ao seu
nenhuns seres desta espécie, mais nenhumas «inteligências superio- gosto pelos automóveis e a outras características sociais do nosso
res». Pode ser que estejamos a gritar inutilmente para um universo tempo — é apenas a última fase de um processo milenário de transfor-
vazio: «Está aí alguém?» Talvez os homens façam isso na esperança de mação do meio natural pelos homens.
encontrar algures alguém que seja mais forte e sábio do que nós, Em todas as épocas, esta progressiva transformação realizada pelos
alguém que nos alivie do peso da responsabilidade. Já não somos, homens do seu habitat não humano teve conseqüências imprevistas
porém, nenhumas crianças. Ali, não está ninguém. que, a longo prazo, se revelaram em parte favoráveis e em parte desfa-
Talvez,pensem que, para a comemoração de uma paz de quarenta voráveis para os seres humanos. O facto de, actualmente, as conseqüên-
anos, eu esteja a remontar demasiado no tempo. No entanto, a minha cias prejudiciais da transformação do habitat natural pelos homens pos-
percepção do significado momentoso deste dia da paz não é perturbada suírem uma dimensão eventualmente superior à de outros tempos
pela minha preocupação de compreender a situação da humanidade prende-se com duas particularidades do desenvolvimento da humani-
neste mundo. A insensatez das guerras, e portanto, também, da que os dade que, parece-me, também são importantes neste contexto. Quero
nacionais-socialistas fizeram, o significado singular que os homens referir-me a elas sucintamente.
revestem uns para os outros, só se tornam plenamente evidentes se se
3
A situação dos homens na fase actuai do seu desenvolvimento
social é fortemente influenciada por uma peculiar desigualdade no
desenvolvimento do seu arsenal de conhecimentos. E sobretudo nas
universidades onde melhor se pode observar esta desigualdade, embora
ela não seja, de uma maneira geral, entendida nestes termos. O saber
objectivo, próximo da realidade, sobre as conexões não humanas da
natureza aumenta hoje devido ao crescimento dos institutos de investi-
gação, numa proporção que ultrapassa em muito o saber acumulado
em todos os séculos anteriores. Ao mesmo tempo, regista-se um aná-
logo crescimento da tecnologia física, um aumento imenso do controlo
e da manipulação pelos homens de processos naturais não humanos
para fins militares e pacíficos que, simultaneamerite, determinam mo-
dificações significativas da vida social e colectiva dos homens. A apli-
cabilidade prática, não só no domínio da técnica mas, principalmente,
no da medicina, é a melhor prova da adequação à realidade de uma
parte considerável do saber das ciências da natureza.
Ponderem, por favor, sobre o que neste domínio está a acontecer.
Através do avanço do trabalho científico, a natureza tem vindo a ser,
progressivamente, desmitificada. Neste âmbito, os homens aprende-
ram que, quando a sua busca de saber é influenciada por ideais precon-
cebidos, por ilusões e por fantasias, o caminho para um conhecimento
ajustado às coisas, próximo da realidade ou, como antes se dizia, para
um saber «verdadeiro», fica obstruído. As ciências da natureza já
desistiram, efectivamente, há muito de aceitar como ponto de partida
que o universo natural corresponda aos seus próprios ideais ou aos
desejos dos homens. Talvez não seja ainda uma coisa muito divulgada,
22 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 23

mas eu já chamei a atenção para o seguinte: a imagem global do uni- Mesmo a erupção de um vulcão ou um terramoto devastador já não são
verso que vem gradualmente emergindo do trabalho de investigação atribuídos à ira dos espíritos da montanha ou da Terra. Em muitos paí-
dos cientistas não é particularmente atraente para os homens. Tivemos ses, os homens tornaram-se a tal ponto senhores da natureza que a
um pequeno antegosto disso quando vimos de perto, na televisão, a superioridade e a periculosidade não mitigadas desta só excepcional-
paisagem lunar. O satélite da Terra, que, visto de uma grande distân- mente, e como que à margem da sua vida, lhes vêm à consciência. Eles
cia, brilha qual astro dourado dos namorados num céu de Verão, obser- vêem agora os tremores de terra e as inundações como acontecimentos
vado mais de perto revela-se como um deserto sem vida e coberto de naturais, cuja causa e ocorrência se podem investigar cientificamente e
calhaus. Considero perfeitamente possível quef no decorrer do próximo cujo perigo pode ser diminuído com a ajuda de previsões científicas.
século, os homens comecem a enriquecer este miserável deserto com Estamos actualmente ainda tão pouco conscientes da morosidade
plantas, a criar atmosferas onde possam viver e, assim, a transformar deste processo de desmitificação, deste desenvolvimento de um saber
paulatinamente a Lua numa residência agradável para os seres huma- altamente ajustado à realidade no domínio da natureza não humana
nos. A recompensa oferecida aos homens pelo abandono dos seus que, para muitos homens, a elevada adequação à realidade destes seus
medos e desejos quando da busca de conhecimentos, portanto, a cora- conhecimentos sobre a natureza parece-lhes ser, simplesmente, o resul-
gem de ver e descrever a realidade deste mundo sem véus embelezado- tado da sua razão natural ou, mais geralmente, da racionalidade
res, é a capacidade de, dentro dos limites da sua esfera de poder, trans- humana universal, Por isso, mostram-se depois perfeitamente incapa-
formarem o mundo assim conhecido de modo a ele corresponder zes de explicar porque é que os seres humanos, apesar de serem capazes
melhor aos seus desejos e necessidades. de pensar e actuar «racionalmente» em relação ao processo da natureza
E este, se assim quiserem, o segredo da ciência: através da renúncia exterior, não estão manifestamente habilitados para se comportarem
ao pensamento guiado pelo desejo, às fantasias embelezadoras ou, even- com igual «racionalidade» em relação à sua própria vida social e colec-
tualmente, também ao receio e à angústia, desenvolver o saber sobre o tiva. Se se tratasse aqui, verdadeiramente, de uma questão de «raciona-
mundo de modo a que ele se adapte o mais rigorosamente possível ao lidade» humana, da «razão», natural ou do «entendimento» universal,
mundo real. Se possuirmos um tal saber, poderemos empreender a seria pura e simplesmente incompreensível porque é que os homens
transformação de um mundo não desejado e, talvez, até atemorizador, fazem uso da sua «razão» da sua «racionalidade», apenas em relação à
por forma a fazê-lo melhor corresponder às necessidades humanas. natureza, mas não, ou pelo menos não em igual medida, em relação à
Os homens têm memória curta. Nos países mais desenvolvidos já sua vida social colectiva. A inevitabilídade com que os homens, preci-
quase se desconhece como foi difícil e cheia de perigos a vida dos nos- samente na altura em que festejam uma paz de quarenta anos, se
sos antepassados no meio das estepes selvagens, dos rios indomáveis encontram de novo confrontados pelo perigo de uma nova guerra ainda
— que, com freqüência, inundavam de repente as terras — e das florestas mais terrível que as anteriores é um bom exemplo desta típica diversi-
gigantescas, onde todos os seres vivos, plantas, animais e homens, se dade de comportamento e de pensamento em relação à natureza e à
encontravam permanentemente em guerra entre si. A omnipresença sociedade. Se conceitos como «racionalidade» ou «razão» tivessem, de
dos perigos e do medo perante as incompreensíveis forças da natureza algum modo, um significado claro — e eu duvido que seja esse o caso —,
encontrou a sua expressão na multiplicidade de espíritos com que a então, teríamos de explicar porque é que, actualmente, a «racionali-
previdente imaginação dos homens povoou o mundo ameaçador e dade» humana se restringe à orientação no domínio dos processos da
opaco. A desmitificação da natureza foi um longo processo, um traba- natureza, parecendo, porém, recuar ante a ponderação e o comporta-
lho esforçado e não planeado, que durou séculos. Hoje, já quase o mento relacionados com a vida social colectiva dos homens, à qual, de
esquecemos. A dèsmítifícação da natureza tornou-se óbvia. Are mesmo resto, também pertencem as relações entre os Estados. B bastante evi-
a doença mais dolorosa já não é atribuída aos feitiços de uma bruxa; a dente que, com conceitos como «razão», «racionalidade» e «irraciona-
loucura só raramente é atribuída à possessão por espíritos malignos. lidade», não avançamos muito no sentido da solução de tais problemas.
24 CONDIÇÃO HUAÍANA CONDIÇÂO HUMANA 25

A diferença com que aqui somos confrontados é elucidativa. Se um mente audaciosa e ajustada às coisas, no caso de perigos naturais de
fenômeno da natureza, como, por exemplo, uma epidemia ou um natureza física e biológica, são já, em geral, uma coisa óbvia. Eles já
meteoro que se aproximasse da Terra, colocasse a humanidade perante quase se não dão conta de que os homens de gerações anteriores experi-
um perigo tão grande como aquele a que ela esrá exposta pela utiliza- mentavam e sentiam a natureza muito menos domesticada e muito
ção de armas atômicas para fins militares, muitas equipas de cientistas mais ameaçadora, tanto à sua volta como neles próprios, num grau
ver-se-iam então confrontadas com a tarefa de investigar a melhor muito superior, através do véu dos seus desejos e do seu medo, por-
maneira de fazer frente a este perigo natural e, caso ele não pudesse ser tanto, de uma maneira mítico-mágica.
afastado, de como se poderia reduzir a grandeza do perigo, proce- Todavia, no que respeita ao esforço para debelar os perigos que os
dendo, por exemplo, à transferência de grupos humanos. Por outras homens representam uns para os outros e, particularmente, em face da
palavras, tentar-se-ia, sem se deixar enganar por ilusões e outras fanta- ameaça recíproca de grupos associados em Estados marcados por tradi-
sias, encontrar uma explicação do perigo o mais próxima possível da ções militares, os seres humanos comportam-se de maneira inteira-
realidade e, com base neste saber ajustado às coisas, seriam tomadas as mente diferente. Verificai-o vós mesmos: relativamente aos perigos
correspondentes medidas práticas. Assim, quando se trata de debelar terríveis a que os homens se expõem uns aos outros — sobretudo, mas
perigos a que estão expostos pelo acontecer não humano da natureza, decerto não só, através da ameaça recíproca com a força física ou, direc-
os homens, unidos em determinadas organizações sociais, já quase se tamente, através da sua utilização -, a humanidade encontra-se hoje,
comportam como adultos. Já não se põem à procura de terceiros que os fundamentalmente, ainda tão desamparada como os nossos antepassa-
possam ajudar. Não praticam nenhuma política de avestruz. Não se dos perante as ameaçadoras forças da natureza, como, por exemplo, os
iludem, pensando que o perigo irá desaparecer, desde que proclamem relâmpagos, as epidemias ou as inundações gigantescas, a que devemos
em coro o desejo de que ele desapareça. Nestes casos, ao enfrentarem o mito da Arca de Noé. Numa palavra, na fase actual do desenvolvi-
perigos de ordem física e biológica, os homens já adquiriram o discer- mento da humanidade, faz parte do destino dos homens o ter-se conse-
nimento de que só eles podem fazer alguma coisa para conjurar o guido em alguns países, graças, sobretudo, às ciências da natureza,
perigo, ou para reduzi-lo, precisamente com base num saber o mais tanto puras como aplicadas, diminuir muito substancialmente as
próximo possível da realidade. Deste saber faz parte, no entanto, como intempéries e os perigos a que os fenômenos naturais incontrolados
é óbvio, um distanciamento consciente do fenômeno ameaçador, uma expõem os seres humanos. Em resumo, pode, por isso, hoje dizer-se
exclusão de todas as fantasias e ilusões. que são os próprios homens que constituem o maior perigo uns para os
Com isto, já nos aproximamos mais do cerne da questão. Em face outros. Levados pela emoção, muitos homens responsabilizam hoje os
de uma ameaça por fenômenos naturais exteriores ao homem, os seres cientistas pelo facto de os Estados se ameaçarem com armas nucleares
humanos são já capazes de refrear os seus desejos e fantasias. A evolu- de uma força destruidora até agora desconhecida. Isso, porém, é apenas
ção que para tal os habilitou foi prolongada e trabalhosa. Agora, um dos mitos com que se dissimula a realidade social. O impulso para
porém, nos países industriais mais desenvolvidos, alcançou-se um o desenvolvimento de armas nucleares militarmente utilizáveis foi
padrão social do falar e do saber que possibilita até mesmo às crianças dado pela corrida aos armamentos desencadeada pela guerra cujo fim
destas sociedades sentirem e experimentarem a natureza domesticada, hoje festejamos. Tal como hoje acontece, na véspera de uma possível
no meio da qual vivem, sem medo dos espíritos ou de feiticeiros. Elas guerra, também durante o último conflito uma das parte em guerra, os
aprendem muito cedo que as criaturas que se movem no ecrã não são Americanos, receava que a outra parte, Hitler e as suas hostes, se lhes
nenhum feitiço, que os computadores são aparelhos criados pelo antecipasse no desenvolvimento de uma arma nuclear utilizável. E a
homem e que podem ser por ele reparados quando teimam em falhar, inimizade recíproca entre grupos humanos e, particularmente, a insti-
E, para os adultos destas sociedades, a desmitificação da natureza não tuição social das guerras que impulsionam o desenvolvimento cientí-
humana, bem como uma intervenção colectiva dos homens relativa- fico de armas sempre mais perigosas. E de supor que, já na Idade da
26 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 27
Pedra, grupos humanos rivais se estimulavam reciprocamente no sen- opinião pública é a função das ciências sociais. No entanto, é difícil aos
tido do aperfeiçoamento das suas armas de pedra. Nessa altura, porém, seus representantes penetrarem o envoltório dos mitos encobridores
a ameaça que as forças da natureza representavam para os grupos que actualmente ainda condicionam em larga medida a imagem que os
humanos era, provavelmente, tão grande, se não mesmo maior, que a homens formam das sociedades por si constituídas.
de outros grupos de homens. Hoje, como já se disse, nas áreas habita- Como vêem, depara-se-nos aqui o rasto de uma singularíssima
das por muitas sociedades, aquela primeira ameaça decresceu. Assim, a cisão do saber, altamente caracterizadora da actual situação dos homens
ameaça que os homens representam uns para os outros surge-nos, com nas sociedades mais desenvolvidas. Ela tem conseqüências do maior
particular acuidade, como o maior perigo ainda não debelado e que alcance para a nossa vida e para o nosso habitus, que não poderei agora
urge conjurar. abordar. A nossa relação com a natureza não humana está marcada por
Talvez devêssemos ainda acrescentar que a atitude dos homens em uma desmitificação e uma secularização muito avançadas do saber
relação a novas descobertas, ao alargamento dos seus conhecimentos social sobre as conexões da natureza. O alto grau de adequação deste
sobre o mundo desconhecido, em que estão inseridos, nem sempre é saber à realidade torna possível um exrenso controlo do acontecer
alegre e positiva. Os mitos antigos dão testemunho de que os novos natural e a sua sempre maior plasmação em conformidade com as
conhecimentos foram desde sempre suspeitos aos olhos dos homens. necessidades humanas. Em contrapartida, a atitude dos homens em
Era melhor aferrar-se ao velho. Nunca se podia estar seguro de que os relação à sua vida em comum, em sociedades de diversos níveis, é
deuses omniscientes não ficariam zangados se os homens presunçosos ainda muito determinada por imagens de desejos e de medos, por
se apropriassem de mais um pouco do seu saber. Nunca se podia prever ideais e contra-ideais, numa palavra, por representações mítico-mági-
que perigos acarretaria a nova descoberta, que vingança os deuses cas. A orientação objectiva das representações é muito menor no domí-
iriam perpetrar sobre os homens, por estes se terem apropriado de um nio da sociedade do que no da natureza, sendo tanto maior a sua sub-
pouco* do seu saber. Chamo a isto o complexo de Prometeu. Prometeu jectividade e o peso do seu significado emocional para o respectivo
roubou o fogo aos deuses e confiou-o aos homens. Eis, pois, um grande sujeito do saber.
benfeitor da humanidade. Mas ele foi, por isso, punido pelo deus
supremo da maneira mais terrível. Foi agrílhoado a um rochedo, e uma
águia devorava-lhe diariamente um pouco das entranhas. Também
Adão foi expulso do Paraíso porque provou o fruto da árvore da sabe-
doria, ainda por cima instigado pela sua mulher. Igualmente neste caso
havia o perigo de os homens poderem compartilhar do saber divino.
Do mesmo modo, não são poucos os que, ainda hoje, suspeitam
dos homens e das mulheres de ciência que continuamente promovem
novos conhecimentos. Falando com mais rigor, eles esquecem as ciên-
cias quando os respectivos frutos contribuem para o seu bem-estar,
quando elas contribuem para que os jovens cresçam mais saudáveis e
os velhos vivam mais tempo, e apenas lhes imputam a responsabili-
dade pelo que não lhes agrada, como, por exemplo, as chuvas ácidas ou
a poluição dos rios. No entanto, em relação a muitos destes fenômenos
que, justamente, são objecto de reprovação geral, trata-se não de pro-
blemas científicos, mas de problemas sociais, ou, mais precisamente,
de problemas de poder. Investigá-los nessa qualidade e apresentá-los à
O nacional-socialismo foi, por certo, um exemplo particularmente
terrifícante e perigoso de um mito social. Mas foi apenas um exemplo,
entre muitos outros. Claro que é assustador que um mito social tão
bárbaro e implacável, só por lisonjear o egoísmo nacional do seu pró-
prio povo e satisfazer a necessidade de confirmação do valor incompa-
rável da própria nação, pudesse encontrar aceitação entre tantos
homens. No entanto, tratou-se apenas de um exemplo particularmente
terrível da insaciável necessidade dos homens de criarem mitos sociais
que demonstrem o valor incomparável da sua nação. Homens que se
emanciparam, em larga medida, dos mitos naturais entregam-se
depois, repetidas vezes, a semelhantes mitos sociais. Olhem só à volta.
Acaso, hoje em dia, não somos de novo impelidos para uma guerra em
nome de mitos colectivos ou, como também se diz, em nome de ideo-
logias sociais que, ao mesmo tempo, também justificam o valor
incomparável da própria nação? Não serão esta enredada teia e esta
deriva em direcção à guerra tão inevitáveis, devido precisamente ao
facto de a substância real do conflito, sobre a qual se poderia discutir,
ter sido de tal maneira exagerada por mitos sociais repletos de cargas
emotivas que se torna impossível falar sobre ela? As estratégias dos
responsáveis políticos são, elas próprias, com freqüência, determinadas
decisivamente por esses mitos e ideologias. Serão eles dignos de que,
em seu nome, se condenem de novo à morte milhões de homens e se
tornem inabitáveis enormes extensões da Terra?
Permitam-me que diga duas palavras sobre a função destes mitos.
Penso que eles se coadunam com o contexto destes dias comemorati-
vos. Além disso, elas não serão inteiramente prescindíveis, caso se
30 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 31
queira, como é minha intenção, falar um pouco sobre o futuro da tribos que se encontrem no seu horizonte e ao seu alcance, e à integra-
Europa e, portanto, também, sobre o da República Federal. Antes de ção forçada destes em formações estatais sempre maiores.
mais, algumas idéias quanto ao diagnóstico do nosso passado próximo. A Terra, porém, é demasiado vasta, e a humanidade é constituída
Tem-se dito de vez em quando, mas talvez valha a pena repeti-lo, por uma abundância demasiado grande de tribos e de Estados hetero-
que o terrível episódio do nacional-socialísmo só pode ser entendido gêneos. Até hoje, todas as tentativas de um povo para alcançar a segu-
no contexto duma situação social que sempre se nos depara no desen- rança absoluta através da hegemonia sobre todos os possíveis rivais aca-
volvimento das relações entre os Estados, bem como, em geral, entre baram por fracassar devido ao facto de, para além de cada fronteira
unidades de sobrevivência relativamente autônomas. Repetidamente se alcançada por um Estado hegemônico - graças à derrota de cada um
verifica que semelhantes unidades de sobrevivência, sejam elas Estados dos adversários que, eventualmente, poderia pôr em perigo a sua pró-
ou tribos, se organizam, ao cabo de uma série de lutas, no sentido de pria segurança -, aparecerem sempre novos grupos humanos, até então
uma hierarquia de status e de poder. No decurso duma série de lutas ainda não derrotados, que, por isso, representam para o povo conquis-
eliminatórias, dois ou três dos Estados envolvidos ascendem ao topo tador uma possível ameaça às suas fronteiras e, assim, a sua segurança.
desta configuração de Estados como os mais poderosos e envolvem-se, O destino do Império Romano, progressivamente mais dilatado, mos-
então, a isso forçados pela própria configuração, numa luta entre si tra com muita clareza o caracter ilusório mesmo da mais bem sucedida
peia supremacia. O desfecho duma tal luta hegemônica pode ser muito série de lutas eliminatórias com possíveis rivais. Evidentemente, os
diverso. Pode conduzir, como no caso das antigas cidades-estado gre- Romanos tornaram-se incrivelmente ricos graças à longa série de
gas, a uma situação de empate. Nem Esparta, nem Atenas, nem Tebas guerras, na sua maioria bem sucedidas, bem como aos despojes de
ou Corinto alcançaram a hegemonia na respectiva esfera estatal pela guerra, aos escravos, aos tributos ou às contribuições de povos subjuga-
qual tinham lutado. Já este exemplo, porém, mostra bem o caracter dos e por fim integrados no Império Romano. Porém, no que diz res-
forçado da situação. Se, numa tal esfera, outros Estados se tornam mais peito à segurança do seu Estado, foram confrontados com aquilo com
fortes através de alianças ou da dominação sobre outros grupos huma- que, nos tempos modernos, se deparou a todos os povos que se deixa-
nos, então os Estados que não se tornam mais fortes ficam, obvia- ram ganhar pela febre hegemônica. Descobriram que, para lá de cada
mente, mais fracos. fronteira que tinham alcançado através da derrota dum povo que,
A história de Roma é um bom exemplo da ascensão dum poder eventualmente, ameaçasse a segurança do seu Estado viviam povos
hegemônico durante uma série secular de lutas eliminatórias. Roma é, ainda independentes e que representavam uma renovada ameaça à sua
também, um bom exemplo daquilo que eu gostaria de chamar a própria segurança, enquanto se não conseguisse chegar com eles, a
embriaguez hegemônica, o furor begemomalis, a febre da hegemonia. Se quem porventura animaria o mesmo desejo de viver em paz, a um
um Estado conseguiu vencer em lutas eliminatórias anteriores dois ou entendimento pacífico sobre relações de vizinhança.
três concorrentes mais ou menos da mesma força e logros forçá-los a Um dos exemplos mais ilustrativos desta pressão de luta concor-
uma aliança ou a prestarem-lhe vassalagem, as suas camadas dirigentes rencial entre unidades humanas de sobrevivência no sentido da dilata-
são, quase invariavelmente, arrebatadas pela idéia de que para a sua ção ilimitada do respectivo espaço de dominação, e, assim, da formação
segurança é necessário ser mais forte do que qualquer outro Estado à de unidades de dominação sempre maiores sob a égide dum povo con-
sua volta. A configuração que formam com outros Estados exerce cons- quistador hegemônico, é o destino de Alexandre, o Grande.
tantemente sobre eles, em cada etapa da luta eliminatória, uma forte As luras eliminatórias das cidades-estado gregas entre si, apesar do
pressão no sentido de desafiarem qualquer possível adversário da perigo comum de serem conquistadas pelos reis persas, ficaram empa-
mesma igualha e garantirem, com uma vitória sobre ele ou com a sua tadas. O pai de Alexandre, Filipe da Macedónia, e depois o próprio
destruição, a segurança do seu próprio Estado. O que conduz então, Alexandre obrigaram, em parte pela persuasão, em parte graças ao seu
precisamente, à afirmação da sua posição hegemônica face a Estados e a poder militar superior, os Estados gregos, tão diferentes entre si pelo
32 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 33

seu caracter nacional e pelas suas tradições, a submeterem-se à hege- que pudesse ser dirigido com eficiência e em paz a partir de um único
monia macedónica e, assim, à unificação. Os exércitos gregos, reunidos centro, bem como defendido duradouramente de ataques exteriores.
sob o comando macedónico, viraram-se então contra aquela porência Existe uma relação muito estreita entre a grandeza do território con-
que havia séculos ameaçava de facto a segurança e a independência quistado e a população de um Estado governável a partir de um centro
tanto das cídades-estado gregas como do reino macedónico e dos seus único e o respectivo nível do desenvolvimento do saber, de que depen-
vizinhos tessálios e rrácios. Sob o cornando de Alexandre, os exércitos dem, entre outras coisas, o estado dos meios de comunicação e de
gregos invadiram os domínios senhoriais dos reis persas, como que em transporte, da técnica física em geral, mas também das técnicas de
vingança pela constante ameaça e pelas invasões ocasionais dos Persas administração, bem como a produtividade da agricultura. A grandeza
nos territórios dos povos de língua grega. e as fontes de poder do povo conquistador também têm nisso um papel
No entanto, uma vez definitivamente derrotado o rei persa, importante. Talvez a desintegração do império de Alexandre pudesse
Alexandre não se satisfez com o facto de, com a destruição do Império ter sido retardada, se ele tivesse vivido mais tempo. No entanto, é
Persa e a edificação dum império unificado greco-persa, ter eliminado improvável que pudesse ter sido impedida.
o perigo para os Gregos. Nos confins asiáticos do Império Persa, depa- O mesmo se aplica, mutaiu mutanãis, ao Império Romano. A con-
raram-se-lhe povos que ainda não estavam submetidos ao seu domínio quisca deste império processou-se muito mais devagar do que a do
e que, por isso, representavam um perigo para as suas novas fronteiras. império de Alexandre, e o seu declínio foi também lento. Todavia, a
Depois de ter derrotado também estes povos e de ter assim alargado as estrutura do desenvolvimento do Império Romano foi, em certo sentido,
fronteiras do seu império ainda mais para o interior da Ásia desconhe- a mesma. Em primeiro lugar, aos Romanos também se deparou, em cada
cida, encontrou outros povos, do outro lado das novas fronteiras, que fase, uma potência rival que ameaçava a existência dos seus domínios.
poderiam pôr em perigo a segurança do império. E, depois de também Finalmente, também eles, na sua embriaguez hegemônica, chegaram
ter Vencido estes últimos, o processo repetiu-se. Alexandre esperava, ao ponto de considerar qualquer grupo ainda independente, situado
manifestamente, através da sua marcha, atingir algures os confins da para lá das fronteiras por eles sucessivamente alcançadas, como um
Terra ou, em todo caso, o fim do continente habitado pelos homens, o perigo para a segurança dos seus domínios, a eliminar através de uma
oceano que rodeava a Terra, garantindo, assim, ao seu império, uma campanha militar e de uma conquista. As tribos celtas independentes
fronteira absolutamente segura. Quando ele, levado por esta febre da Gália representavam uma ameaça para o território até então conquis-
hegemônica — e certamente também por uma curiosidade toda pessoal, tado pelo Estado romano na Península Itálica. Por isso, toda a Gália teve
quase científica, por este vasto mundo desconhecido —, chegou à índia, de ser conquistada e submetida à dominação romana. Algumas tribos
os seus fiéis veteranos opuseram-se ao constante prolongamento da sua celtas da Bretanha prestaram auxílio as tribos gaulesas durante a sua
campanha de conquista. O sonhado oceano não estava à,vista, a fron- resistência contra Roma. Logo, a Bretanha teve de ser conquistada. Já nas
teira absolutamente segura era inalcançável. Eles estavam fartos. Ilhas Britânicas, tornou-se necessário defender o patrimônio romano das
Alexandre foi obrigado, depois de ter garantido a segurança de frontei- tribos selvagens do Norte. Até à época de Trajano, prosseguiu a dilata-
ras tão dilatadas, a voltar para trás e a contentar-se em consolidar a ção do império sob o estímulo da ameaça constante. Ele consolidou o
organização do império gigantesco que ediflcara através de uma série Danúbio oriental como fronteira do império e repeliu ainda as tribos
rebeldes do Norte dos Bálcãs para lá do Danúbio. No entanto, já no
de conquistas bem sucedidas.
Recordamos o destino de Alexandre, neste contexto, como uma tempo de Marco Aurélio os Marcomanos e outras tribos atravessaram o
parábola. Na ânsia de chegar aos confins da Terra e, assim, encontrar a Danúbio, penetraram profundamente no território do império e só com
fronteira absolutamente segura do seu império, Alexandre reunira um grande esforço puderam ser repelidos. Seguindo as pisadas de Alexandre,
vasto domínio que, muito provavelmente, em face do nível do saber de Trajano procurou estancar a ameaça que representavam para o império
então, era demasiado extenso e povoado por demasiados povos para os sucessores dos Persas, os Partos, e sofreu uma derrota devastadora.
34 CONDIÇÃO HUMANA
CONDIÇÃO HUMANA 35
O império gigantesco desmoronou-se tão gradualmente quanto os
Trinta Anos, as duas hierarquias de Estados começaram a fundir-se
Romanos o tinham edificado. Já o imperador Diocleciano reconheceu
uma na outra e o império alemão tornou-se no teatro das guerras de
que o império de então era demasiado extenso para poder ser eficiente-
ambos. A França foi a primeira a ascender à posição de mais forte
mente administrado, pacificado e defendido de inimigos externos, a
poder militar, alcançando, assim, uma posição hegemônica entre os
partir de um único centro. Ele próprio entregou Roma, onde rara-
Estados do continente europeu. Napoleão faria, mais tarde, com o seu
mente pôs o pé, enquanto capital do império ocidental, a um impera-
exército revolucionário, a última tentativa para unificar a Europa sob a
dor adjunto, e limitou-se, tanto quanto possível, à governação das pro-
hegemonia francesa. A tentativa fracassou devido, em larga medida, a
víncias orientais do império. Constantino transferiu depois, oficialmente,
uma política muito coerente da Grã-Bretanha em relação a todas as
a capital imperial para Bizâncio, cuja situação à entrada do Bósforo,
tentativas de unificação dos Estados do continente europeu.
juntamente com as fortificações necessárias, conferia doravante à capi-
A Inglaterra ocupou um lugar especial neste jogo terrível das lutas
tal do império um grau de segurança contra os inimigos externos
européias pela hegemonia. Os Ingleses, na sua ilha, nunca procuraram
impossível de encontrar na velha Roma, mesmo com as melhores forti-
exercer a hegemonia sobre a Europa, e também não estavam em situa-
ficações.
ção de a obter. Em vez disso, seguiam a célebre política do equilíbrio
Roma é um exemplo, extraído da Antigüidade, de um Estado
de poderes, que começou por se impor aos estadistas ingleses em cada
cujos grupos dirigentes — primeiramente, por uma exigência de segu-
caso concreto, mas que se transformaria depois numa espécie de princí-
rança e de integridade físicas, depois levados cada vez mais por um
pio teórico. A Inglaterra considerava ser seu interesse vital impedir por
sentimento de superioridade e de invencibilidade — são impelidos»
meios diplomáticos e, se necessário, militares que uma única potência
sucessivamente, para novas lutas com Estados rivias, eventualmente
continental obtivesse a hegemonia sobre todos os outros Estados do
ameaçadores, ou então com tribos que lhes parecessem perigosas. Eles
continente. Assim, aliava-se sempre à segunda potência mais forte,
são impelidos de uma guerra para outra, de conquista em conquista,
para impedir a vitória do pretendente mais poderoso da altura à hege-
até uma derrota os deter ou uma nova expansão do seu campo de sobe-
monia sobre a maioria dos outros Estados continentais, bem como a
rania ameaçar com a ruptura os seus recursos militares e econômicos,
unificação deste pela força. E, deste modo, vendo as coisas pelo outro
fazendo assim, talvez, perigar o controlo das áreas até então conquista-
lado, nunca se alcançou a unificação da Europa. Esta foi uma das razões
das. Para a sua ascensão de pequena cidade-estado até se converter no
mais importantes pela qual a Europa não foi unificada pela força, nem
centro de um império mundial, o maior da Antigüidade, Roma preci-
sob a hegemonia da França nem, mais tarde, da Alemanha.
sou de uns bons quinhentos anos de guerras eliminatórias. A derrota
na floresta de Teutoburgo impediu a expansão do Império Romano até
ao Elba a decidiu a sua limitação às fronteiras do Reno e do 'Danúbio.
É difícil dizer como é que tudo acabaria se os Romanos lograssem
estender o seu domínio aos territórios a norte do Danúbio, até ao mar
Báltico e até ao Elba.
Há muitos exemplos posteriores de lutas hegemônicas deste tipo.
Houve, por exemplo, a luta pela hegemonia entre a Suécia e a Rússia,
ou a luta entre os Habsburgos e os Bourbons, numa altura em que os
grupos de Estados do Norte e do Sul da Europa, em conformidade com
o nível dos armamentos e dos meios de transporte e do conjunto das
técnicas organizatívas, ainda formavam duas hierarquias de poder e de
concorrência relativamente independentes. Na época da Guerra dos
5

Os pormenores das subsequentes lutas hegemônicas européias são


suficientemente conhecidos. No entanto, a estrutura destas lutas hege-
mônicas, a sua dinâmica específica, o seu variável automatismo nem
sempre são hoje, segundo me parece, pensados com aquele rigor con-
ceptual que tão útil é à compreensão de tais fenômenos, tanto no pas-
sado como no presente.
Sob a liderança de Bismarck, o reino da Prússia conquistou a hege-
monia dentro do império alemão dividido através de uma luta elimi-
natória com a monarquia austríaca. Os Habsburgos, dantes imperado-
res do grande império alemão, retiraram-se da confederação de Estados
alemães com todos os seus domínios dinásticos. Num império alemão
tão reduzido, a Prússia, enquanto potência militar mais forte desse
império, foi-se guindando, sempre mais inequivocamente, a uma posi-
ção de hegemonia.
Em correspondência com a dinâmica imanente às lutas eliminató-
rias entre Estados, ao império alemão, agora sob a liderança da Prússia,
oferecia-se, assim, a oportunidade duma luta concorrencial com o mais
forte poder militar da Europa continental - a França. Os pormenores
históricos são, para o caso, secundários. Basca mostrar a coerência da
dinâmica do desenvolvimento das relações entre os Estados. Corres-
pondeu perfeitamente à tradição até agora vigente o facto de a fede-
ração de Estados alemães, agora fortalecida pela liderança militar e
econômica da Prússia, não ter começado por promover, no seu interior,
uma maior unificação e integração dos Estados alemães, antes prefe-
rindo desafiar o império francês. O esforço da França para alcançar uma
posição hegemônica da Europa fracassara devido à vitória da Inglaterra
CONDIÇÃO HUMANA 39
38 CONDIÇÃO HUMANA
No caso da Alemanha, acrescentava-se o facto de muitos dos seus
e dos monarcas absolutistas coligados do continente europeu sobre os
cidadãos terem sofrido com a situação decorrente da multiplicidade e
exércitos revolucionários de Napoleão. Agora, porém, um novo
da pequenez dos respectivos Estados, bem como com a fraqueza tantas
Napoleão reinava como imperador dos Franceses e como símbolo vivo
vezes humilhante da Alemanha no concerto dos Estados europeus.
da tradicional posição hegemônica da França no continente europeu.
O sentimento nacional, talvez exacerbado à sombra da grandeza pas-
Os homens de Estado do império inglês — envolvido desde há séculos,
sada, foi durante muito tempo ofendido e ferido. Logo após a unifica-
dentro e fora da Europa, numa luta concorrencial com o poder conti-
ção do império, certamente já nas últimas décadas do século XIX, ele
nental mais forte, com o seu inimigo hereditário, a França - tinham
começou a transformar-se no oposto. O pêndulo oscilou para o outro
visto geralmente a ascensão da Prússia com bons olhos. Como sempre,
lado. Em vez da consciência nacional humilhada, surge agora, sob
simpatizavam com a segunda mais forte potência do continente. Ela
múltiplas formas, uma consciência nacional que excede em muito a
era-lhes bem-vinda como contrapeso às pretensões hegemônicas da
realidade. O exagero da autovalorização nacional nos tempos do Kaiser
França. No entanto, a Alemanha saiu unida e fortalecida, enquanto
ainda não ia tão longe quanto o mito da raça de senhores dos tempos
império, da guerra de 1870/71, e a França, pelo contrário, enfraque-
de Hitíer. No entanto, a embriaguez com a imagem da própria gran-
cida. Assim, o equilíbrio de poderes na Europa alterou-se.
deza, que se podia encontrar na Alemanha da época do Kaiser, por-
É um pouco assustador ver a precisão com que os estadistas fazem
tanto, antes da Primeira Guerra Mundial, foi, certamente, uma forma
as jogadas que lhes são sugeridas por uma tal modificação da estrutura
precursora da embriaguez desmedida dos tempos que antecederam a
das relações entre os Estados. Para as camadas dirigentes alemãs, não
Segunda Guerra Mundial. Como esta última, embora ainda não nas
foi suficiente terem alcançado, finalmente, a unificação estatal e a pari-
mesmas proporções, o reforço do sentimento nacional na época do
dade com os velhos grandes Estados europeus, acompanhados de um
Kaiser fez-se acompanhar de um notório crescimento do anti-semi-
desenvolvimento econômico acelerado. Surpreendentemente depressa,
tismo. A imagem ainda não estabilizada e, por isso mesmo, muito exa-
no decorrer de menos de trinta anos, desenvolveu-se também, em lar-
gerada do valor da própria nação, e, também, do próprio indivíduo,
gas camadas da nobreza e da burguesia alemãs - para o que não terá
encontrou a sua formação numa contra-imagem, na imagem do grupo
contribuído pouco a liderança ainda fortemente autocrática de um
minoritário mais visível do império do Kaiser, os Judeus, cuja perver-
novo imperador alemão -, a partir da exigência de paridade com as
sidade e inferioridade ilimitadas deveriam fazer sobressair, por con-
outras grandes potências européias, agora satisfeita, a pretensão a uma
traste, a grandeza e o valor superior dos Alemães.
hegemonia entre os Estados da Europa. «A Alemanha à frente!»
O período antes da Primeira Guerra Mundial foi, também, um
«A segurança da Alemanha exige o exército mais forte e, sobretudo,
período de corrida aos armamentos. Também neste caso, as potências
também uma armada que seja tão forte e, se possível, ainda mais forte do
dominantes se envolveram reciprocamente numa corrida aos armamen-
que a inglesa.» Não posso traçar aqui em pormenor a dinâmica social
tos que tornava sempre mais próximo o perigo de um conflito bélico.
que sempre conduz os Estados a passarem da exigência de liberdade
Depois da fundação do império do Kaiser, os Ingleses compreenderam
em face da hegemonia de outros Estados e da igualdade perante eles à
bastante depressa que o seu inimigo figadal, agora, já não era a França,
pretensão a serem mais fortes do que todos os outros e a alcançarem a
mas sim o império alemão, que constituía o poder militar mais forte
hegemonia sobre eles - numa palavra, que os conduz a uma luta pela
do continente; e as palavras do Kaiser, as vozes dos pangermanistas e
hegemonia que, mais cedo ou mais tarde, acabará sempre por ter de ser
de muitos outros grupos nacionalistas mostravam bem claramente que
decidida pela força das armas. Todavia, a regularidade, digo-o mais
se reclamava para a Alemanha uma posição hegemônica na Europa.
uma vez, com que os Estados, e talvez já antes as unidades de sobrevi-
Mais uma vez em perfeita correspondência com a dinâmica das coníi-
vência pré-estatais, se envolvem, se de qualquer modo o podem fazer,
guraçoes entre Estados, a rápida embriaguez hegemônica da Alemanha
em lutas eliminatórias pela hegemonia é, se a observarmos ao longo de
conduziu a uma aproximação e, finalmente, a uma aliança entre a
milhares de anos, precisamente nestes dias, um tanto assustadora.
40 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 41
Inglaterra e a França. A Inglaterra reivindicava a hegemonia no mar, e bem, a sua posssível intervenção numa guerra ao lado da Inglaterra,
os seus estadistas não permitiam a ninguém duvidar de que qualquer poderia ter uma influência decisiva no equilíbrio de poderes na
ameaça a essa hegemonia conduziria à guerra. No entanto, o imperador Europa.
da Alemanha, em colaboração com o almirante Tirpitz, dedicou A Guilherme II e aos seus conselheiros faltava, manifestamente,
grande parte da sua considerável energia a igualar o potencial militar este sentido da realidade. Pode parecer estranho dizer-se isto do repre-
da marinha de guerra alemã ao da inglesa. Camadas dirigentes cegas sentante duma velha linhagem aristocrática - mas o certo é que este
pela embriaguez da hegemonia! Vendo as coisas com realismo, era segu- imperador tinha algo de arrivista, como, aliás, Hitler, que o era de
ramente uma imprudência fazer da Inglaterra um inimigo. De facco, facto. O Kaiser ajustava-se a uma época em que o ouro velho e a sólida
pode talvez dizer-se que isso foi o princípio do fim do império alemão. patina do antigo povo civilizado tinham sido reiteradamente ultrapas-
Quando hoje olhamos para esta época anterior à Primeira Guerra sados pela ascensão da nova riqueza, em conseqüência das rápidas
Mundial, temos uma imagem particularmente impressionante de industrialização e modernização. Face ao velho imperador, ao avô, que
como é difícil, não só naquele tempo mas na generalidade dos casos, ainda se mantivera aferrado à simples tradição militar da nobreza prus-
para os governantes e os governados, que são arrastados para a guerra siana, o neto encarnava a nova mentalidade arrivista, que encontrava
envoltos no manto protector dos respectivos mitos nacionais, fazerem representantes por todo o país. Os novos alemães de então falavam
uma idéia de algum modo ajustada à realidade do possível curso da alto, eram fanfarrões, enérgicos e brutais.
guerra e das suas próprias possibilidades de vitória. Eles, sobretudo,
dificilmente serão capazes de imaginar o aspecto que o seu país e a
humanidade em geral terão depois da guerra. De facto, é como se nos
tempos anteriores a guerra de 1914 o mito nacional e a embriaguez de
hegemonia que ele despoletou — parafraseando a conhecida expressão
do «sonho americano», poderia dizer-se «o sonho alemão» — tivessem
lesado fortemente o sentido da realidade dos responsáveis militares e
políticos da altura pelo destino alemão, mas também, muitas vezes, o
das camadas dirigentes inglesas, francesas e russas. Igualmente na vés-
pera da Segunda Guerra Mundial, deparam-se-nos, entre homens em
posições de chefia, como Hitler, Chamberlain, Pérain e mesmo
Estaline, perdas semelhantes do sentido da realidade, com perturba-
ções desse sentido devido às próprias ilusões. As camadas dirigentes da
Alemanha do Kaiser não faziam, manifestamente, uma idéia clara do
que poderia significar para o decurso da guerra a possível — e, em face
da ofensiva alemã, provável — entrada dos Estados Unidos na guerra.
Sociologicamente impreparados, não faziam, certamente, urna idéia
das possíveis e talvez prováveis conseqüências sociais de uma guerra.
Bismarck tinha uma idéia definida de que a política externa alemã
necessitava de um cuidado especial para evitar que a Alemanha,
enquanto «país do meio», se visse envolvida numa guerra em duas
frentes, ou seja, a oeste e a leste. Ele entendia mesmo que a solidarie-
dade lingüística e histórica da América com a Inglaterra, e assim, tam-

CE8TRAL S
E não estavam sozinhos. Na Inglaterra, manifestavam-se tendên-
cias análogas. No entanto, ali, tal era designado com uma palavra algo
ridicularizadora —jingoism:
We don't want tofight;
but, byjingo, ifwe do!

A Grã-Bretanha tivera um desenvolvimento do Estado bem menos


acidentado do que a Alemanha. Os Britânicos de então tinham o seu
lugar ao sol e estavam muito seguros do seu próprio valor. Em França
havia grupos bastante activos que reclamavam uma desforra da derrota
de 1871. Havia monárquicos inteligentes que advogavam a restaura-
ção da Grande França mediante o reatar da velha e gloriosa tradição
monárquica francesa.
A febre hegemônica alemã revestia-se de um tom peculiar, talvez,
entre outras razões, porque para os Alemães se tratava de uma coisa
nova. Isto tornou o avanço da Alemanha em direcção a uma posição de
hegemonia, para além da paridade com as outras grandes potências
européias, particularmente arrebatador. E sobejamente conhecido
como muitos milhares de jovens, quando a guerra esperada veio por
fim em Agosto de 1914, marcharam cheios de entusiasmo para o
campo de batalha. No entanto, os militares de ambos os lados tinham-se
enganado nos cálculos. Como se sabe, eles haviam especulado sobre
uma guerra curta, na base de um poder militar muito concentrado,
que acabaria numa vitória rápida e esmagadora. De uma maneira geral,
a imagem de guerra que se tinha à frente dos olhos era a da guerra de
1870/71. Ao embate das duas massas de exércitos inimigos, sucedeu o
44 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 45

martírio da extenuante guerra de trincheiras. Todavia, o sentimento de receptividade a mitos sociais mais globais, de que a lenda da punha-
que a Alemanha estaria predestinada para a vitória não se desvaneceu lada foi um primeiro ensaio.
imediatamente. «Venceremos, porque temos de vencer», dizia cada Em íntima ligação com a embriaguez hegemônica que, numa
um para si. situação determinada, se pode propagar a vastas camadas de um povo
Não é de todo inútil recordarmos a aparente segurança fornecedora encontram-se, normalmente, fantasias colectivas, segundo as quais o
de certezas deste mito social. Se não levarmos em consideração a cer- povo a que se pertence e, assim, o próprio indivíduo estão destinados à
teza absoluta na vitória que tinham largas camadas dirigentes aristo- grandeza - o que significa, habitualmente, à dominação de todos os
cráticas e burguesas no ano de 1914 e ainda em 1915, não poderemos outros povos à sua volta -, seja por ordem divina, seja pela história ou
entender a reacção destas camadas à derrota de 1918. Aqueles grupos pela natureza. A luta pela hegemonia sobre outros povos encontra uma
da burguesia e da aristocracia particularmente atingidos pela embria- legitimação na crença numa missão desse povo entre os outros povos.
guez da hegemonia, e que mesmo quando a derrota já estava próxima Em tempos passados, esta crença na missão de um povo como justifica-
ainda reclamavam a anexação de territórios econômica e estrategica- ção da guerra de conquista tinha, normalmente, um caracter religioso.
mente importantes da Bélgica e, talvez até, da França, nunca tinham A embriaguez hegemônica dos Árabes encontrou a sua expressão na
sequer considerado a possibilidade de um desastre. O mito da vocação crença na missão das tribos árabes de lutarem pela expansão da dou-
natural da Alemanha para a grandeza estava profundamente arraigado trina de Maomé; a dos cruzados, na fé na missão de lutarem pela pro-
em muitos espíritos. Por fim, quando aconteceu, a derrota era incom- pagação da doutrina de Cristo e, particularmente também, pela liber-
preensível. As pessoas negavam-na. Não fora propriamente uma der- tação da Terra Santa do domínio dos infiéis. Em tempos mais recentes,
rota. A Alemanha tinha sido traída. Uma punhalada nas costas, sobre- Franceses e Ingleses justificaram a extensão da sua hegemonia a povos
tudo por parte do operariado (e talvez também dos judeus), tornou de outros continentes através da respectiva missão na qualidade de
impossível aos soldados da frente impedir a ruptura das linhas pelo representantes da civilização. E, nos nossos dias, tendências missioná-
inimigo. Desejaríamos às gerações de hoje que tivessem experimen- rias semelhantes desempenham novamente um papel na luta hegemô-
tado a firmeza de convicção com que muitos homens, naquele tempo, nica entre a União Soviética e os Estados Unidos.
para se enganarem, para ocultarem de si próprios a embriaguez hege- Faz parte das características da tardia pretensão hegemônica alemã
mônica subjacente, acreditavam na lenda da punhalada, por forma a o facto de, tanto quanto o podemos observar, a sensibilidade dos seus
que vissem como uma tal embriaguez pôde arrebatar tantos homens, representantes dispensar qualquer justificação através de uma missão
também na Alemanha. objectiva, de uma tarefe impessoal. A conversão ao islamismo levantou
Já referi, noutro contexto, que, se os mitos desapareceram em larga uma barreira às carnificinas das campanhas de conquista árabes. A luta
medida devido ao saber sobre a natureza, já o conhecimento dos acon- de Napoleão pela unificação da Europa sob a hegemonia da França
tecimentos sociais ainda está muito impregnado de mitos. A célebre ligou-se, inicialmente, a uma luta pelos ideais da Revolução Francesa,
lenda da punhalada é um exemplo do papel e da função dos mitos na mais tarde, a uma luta contra o velho absolutismos não esclarecido e a
vida social dos homens. A lenda pode ter sido posta conscientemente favor do absolutismo esclarecido, que teve a sua expressão no Código
em circulação pelos homens, porque a idéia de uma derrota lhes era Napoleómco. Depois de 1870f a luta da Alemanha por uma posição
insuportável. O encobrimento da realidade assim provocada, tenha ele hegemônica entre os Estados europeus foi entendida pelos seus repre-
sido posto em circulação pela astúcia propagandística de círculos nisso sentantes, pelo que se me afigura, em maior medida que a de
interessados ou não, correspondia a uma situação emocional que já Napoleão, sem a idéia de uma missão objectiva, antes, directamente,
estava presente em largos círculos da nobreza e da burguesia alemãs como uma luta pelo poder. O que estava, talvez, ligado ao facto de os
enquanto força determinante da acção política. Esta situação emocio- Alemães terem sofrido, nos séculos da sua impotência política e mili-
nal explica a disposição para acreditar no apunhalamento; explica a tar e, particularmente, durante a Guerra dos Trinta Anos, as conse-
46 CONDIÇÃO HUMANA

quências do poder mais forte dos outros Esrados num grau muito
superior aos outros povos europeus. O que, no encanto, conduziu a que
a ambição de alcançar o poder por todos os meios parecesse a muitos
alemães uma coisa justificada.
Recordo-me de que já em tempos anteriores a 1914 se ouvia
expressões do gênero: «O palavreado sobre a humanidade é um dispa-
rate. O que interessa na política externa de um Estado e na política
interna das classes e dos partidos é, simplesmente, o poder.» Esta
nudez na ambição de poder por todos os meios criou uma certa
cegueira em relação ao facto de, ao primado indubitável da luta pelo
poder na política dos Estados mais velhos e, se se pode dizer assim, 7
nacionalmente mais saciados, serem impostas determinadas barreiras
por uma mais ou menos sólida educação de consciência nacional. Já no Já falei do choque que representou a derrota de 1918. Muitos ale-
tempo do imperador Guilherme II e, depois, de uma forma mais mães, sobretudo jovens oficiais e estudantes, sentiram a capitulação
desenvolta, no tempo da República de Weimar, nos círculos que se como um atleta que, em plena corrida, embate subitamente num muro.
denominavam a si próprios «círculos nacionais», foi rejeitada a idéia Eles estavam absolutamente convencidos de que a Alemanha se achava
de que pudessem existir restrições civílizacionais, fronteiras da cons- predestinada para a guerra. Esta crença tinha para muitos alemães a
ciência em relação à ambição de poder no interesse nacional. Como tes- mesma certeza que para outros tem uma fé religiosa. Até ao último
temunho da mentalidade do período imperial, ficou-nos na memória a momento, eles não duvidaram da vitória final. De súbito, tudo acabou.
expressão «sonolência humanitária». Não era necessária nenhuma legi- Nesta situação, a idéia de que só uma traição, uma punhalada pelas cos-
timação — a Alemanha queria, simplesmente, como se dizia, ter o seu tas, podia explicar a derrota da Alemanha era redentora. Assim armados,
«lugar ao sol». O mito nacional-socialista desenvolveu esta atitude podiam dedicar-se de novo a conduzi-la ao seu destino histórico, à sua
fundamental, já rnuito difundida entre os círculos «nacionais» durante grandeza, enquanto potência hegemonia natural da Europa. A tarefa,
o último imperador, num sistema de crenças que, em conformidade nos seus traços mais gerais, era perfeitamente clara para muitos oficiais,
com a estrutura democrática da República de Weimar, pudesse encon- acadêmicos, industriais e muitos outros, desde o dia da conclusão da paz
trar ressonância em largas camadas populares. em Versalhes. Estava em jogo libertarem-se das cadeias deste acordo,
E possível que não se tenha dedicado tanta atenção quanto a devida procederem ao rearmamento, repararem a derrota da Alemanha, provo-
à característica ruptura com a tradição burguesa alemã verificada depois cada pela traição, através de uma vitória definitiva e, assim, reconduzi-la
de 1870. No período do absolutismo pré-revolucionário, as figuras ao seu destino histórico.
mais representativas da burguesia alemã tinham desenvolvido uma tra- Não vou investigar aqui porque é que estes objectivos, que logo
dição cultural, em que os ideais do humanismo desempenhavam um após a conclusão da paz já se achavam bem definidos entre os denomi-
papel central. No Segundo Império, e particularmente durante o ter- nados «círculos nacionais», só puderam ser seriamente promovidos por
ceiro e último imperador, os expoentes desta tradição, que sem dúvida Hícler e Hindenburgo, cerca de doze anos mais tarde, no contexto de
ainda existiam, foram gradualmente postos à margem no seio da bur- uma grave crise econômica. Não faltam, porém, provas documentais
guesia, passando cada vez mais para o primeiro plano - talvez sob a da fixação precoce destes objectivos, nem de que as intenções de Hítler
pressão de assegurar a grandeza da Alemanha e, se possível, a sua hege- iam indubitavelmente nessa direcção. Ele ficaria certamente satisfeito
monia sobre os povos da Europa — um nacionalismo anti-humanitário, se fosse possível alcançar na Europa uma posição hegemônica para a
sem escrúpulos de consciência. Alemanha sem recorrer à guerra. No entanto, era perfeitamente evi-
48 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 49

dente que não hesitaria em declarar a guerra, fazendo entrar em acção mais elaborada enquanto sistema de argumentação. Os indivíduos de
o novo exército alemão entretanto fortalecido, a qualquer Estado que raça germânica eram chamados pela natureza e pela história a consti-
se atravessasse no caminho da Alemanha para a posição de grande tuir um escol de senhores, uma espécie de aristocracia da humanidade.
potência. Os serviços de informação dos aliados ocidentais, bem como As outras raças, sobretudo os Judeus e os Negros, eram inferiores e,
os de Estaline, não poderão ter feito um bom trabalho, ou, então, não por isso, inimigos naturais. O melhor seria exterminá-los.
encontraram audiência. Como se poderá explicar de outro modo que Aquilo cuja recordação, ainda hoje, deixa muitos homens preo-
tanto Chamberlain como Estaline, segundo parece, acreditassem real- cupados é o íacto de, entre os Alemães, ter revivido um mito que não
mente que podiam, através de acordos e sempre mais concessões, só contrariava os principais esforços da nossa época por uma maior
impedir Hitler e os seus de compensarem a derrota de 1918 com uma igualdade entre os homens na Terra como, indo mais longe, com base
guerra vitoriosa? na referência ao valor superior do próprio grupo, instituía a desigual-
Se observarmos mais atentamente, descobriremos, também aqui, a dade entre os homens como um valor em si. A humanidade desenvol-
cegueira peculiar dos homens que conduzem os destinos dos povos. As vera-se a muito custo até um ponto em que, embora ainda existissem
muitas concessões que foram feitas a Hitler, as conquistas que ele con- de facto desigualdades gritantes entre diferentes grupos, a igualdade
seguiu sem disparar um único tiro de canhão, contribuíram, apenas, existencial e a paridade social eram largamente reconhecidas como o
pelos vistos, para nele reforçar a certeza mágica de que também ganha- verdadeiro objectivo a atingir. Este trabalho de gerações era, agora,
ria uma guerra. Olhando para trás, reconhecemos nitidamente o explicitamente refutado.
enorme esforço que foi exigido a todo o povo alemão para se manter Além disso, o que, na nossa memória, torna o nacional-socialismo,
pronto e apto para a guerra. Hitler vivia, mais do que talvez se tenha ainda hoje, tão intolerável não é simplesmente a brutalidade dos seus
notado, num mundo semimítico. Um raro talento para ver com rea- representantes. Brutalidades de toda a espécie são, no nosso mundo,
lismo as correlações de poder entre os Estados e no interior do Estado uma coisa trivial. O que ainda hoje assusta é, por um lado, a edificação
ligava-se, nele, a um receio mágico de inimigos internos, que, muitas minuciosa, quase racional ou realista, de uma grande organização e da
vezes, exagerava hiperbolicamente o perigo real. Uma organização e utilização de tecnologias científicas e, simultaneamente, a neutraliza-
uma vigilância extremamente eficazes e, como dantes se dizia, alta- ção e a anulação radicais da consciência face ao sofrimento e à morte de
mente racional e realista da totalidade do povo encontrou a sua legiti- milhões de homens, mulheres e crianças - de seres humanos que não
mação na certeza mágica de que este povo estaria predestinado por um representavam qualquer perigo para o grupo dominante, que não pos-
destino indefinido — pela natureza? — a ser o Povo de Senhores da suíam quaisquer armas e que foram chacinados pior do que reses num
Europa, se não do mundo inteiro. matadouro, de uma maneira abominável.
Como ele procedia com aqueles que o seu mito estigmatizava
como inimigos é sobejamente conhecido, mas talvez seja útil chamar a
atenção para a ligação com o traço caracterial da época do Kaiser, a que
acima me referi. Falei da ambição de alcançar a supremacia sem escrú-
pulos de consciência e sem outra legitimação que não fosse o destino
histórico e o valor transcendente do próprio grupo. Nas declarações da
época do Kaiser, encontram-se abundantes referências de que, para
muitos membros daqueles círcuíos que se consideravam «nacionais», o
próprio facro de ser alemão representava o valor supremo. O mito
nacional-socialista da Raça de Senhores alemã prolongou em linha
recta a tradição imperial, numa forma mais adequada à popularização e
Gostaria muito de poder dizer que tudo isto, que os horrores do
tempo de Hitler e da Segunda Guerra Mundial estão agora, passados
quarenta anos, mais ou menos esquecidos. Eles não estão, porém,
esquecidos. A recordação de Hitler e da grande matança acha-se ainda
extremamente viva por toda a Terra, em muitos grupos de homens,
como símbolo de algo extremamente sinistro, e há poucas perspectivas
de que a recordação do domínio de Hitler e dos muitos milhões de
homens que, de todos os lados, perderam a vida em conseqüência das
suas decisões desapareça num futuro previsível da memória da huma-
nidade. Hoje, choramos estes mortos — eu, sobretudo, os meus, outros,
os seus. Eles não foram esquecidos. Este dia do quadragésimo aniversá-
rio da conclusão da paz é um dia em que nos propomos tudo fazer para
que, dentro de oitenta anos, possamos comemorar o mesmo dia em
pa2, como um dia de festa. Mas não se trata de um dia do esqueci-
mento.
Não se presta ao povo alemão um bom serviço quando se pretende
que, agoraf com a celebração conjunta por todos os povos beligerantes
do dia em que a Segunda Guerra Mundial terminou, também a pró-
pria guerra e a grande matança a ela ligada se acham esquecidas. Eu sei
que há muitos alemães que dizem: «Eu não quero ouvir falar mais de
tudo isso.» Esse é, porém, o caminho errado. Hitler e os seus actos não
desaparecem da memória da humanidade pelo facto de não se falar
mais deles. A forte tendência para vencer o passado reprimindo-o tem
como conseqüência, segundo me parece, o não se conseguir vencê-lo.
A maioria dos alemães hoje vivos não teve nada a ver com Hitler ou com
os nacionais-socialístas. Todavia, é um equívoco acreditar que a incri-
52 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 53

minação do nome alemão através da memória da época hitleriana possa da questão. A maldição deste passado alemão recente não é superável
ser dissipada pelo facto de muitos alemães de hoje, enquanto indiví- através de meras referências à inocência ou à cumplicidade de indiví-
duos, nada terem a ver com os accos dos nacionais-socialistas. O que duos singulares. Trata-se de um problema do destino social dos
acontece é que todos os homens transportam consigo, no seu habitas Alemães e, muito particularmente, da sua identidade nacional. Esta foi
pessoal, particularidades do babítus do seu grupo, e que o destino de manchada por barbaridades, que não são fáceis de afastar da memória
cada homem singular é determinado também pelo destino e pela repu- dos homens. Isto é assustador e aflitivo, pois o número de jovens ale-
tação dos grupos a que ele ou ela pertencem. mães, que, de facto, não têm absolutamente nada a ver com Hitler e as
Eu sei demasiado bem em que medida o meu destino pessoal foi suas hostes cresce constantemente. E, no entanto, também pesa sobre
determinado por eu ser tanto alemão como judeu. Como judeu, tive de eles a memória deste passado colectivo da nação.
abandonar a Alemanha. Porém, ao seguir para o exílio na França e Permitam que me detenha um momento para vos dizer que, se me
depois na Inglaterra, fui internado como alemão, juntamente com esforço por desvendar esta realidade, não é porque tenha censuras ou
outros alemães, em Inglaterra, depois do avanço dos grupos de exército acusações em mente. Nada está mais longe de mim. Falo, um pouco, à
alemães no Ocidente e o correspondente aumento do receio de uma maneira de um médico. A participação do indivíduo no destino e na
invasão. Ainda me recordo nitidamente de como o comandante inglês reputação do respectivo grupo é, como já foi referido, um facto. Faz
do campo de concentração nos reuniu, um dia, com a intenção expressa parte do destino dos homens, é um aspecto da conditio humana. Nada
de nos alegrar, comunicando-nos para tanto a novidade, em seu enten- mais perigoso do que o pendor para evitar uma tal realidade pelo enco-
der muito feliz para nós, de que as tropas alemãs teriam tomado Paris. brimento ou pelo recalcamento. Só olhando-a de frente, com toda a
Não foi possível fazer entender aos Ingleses que, para nós, isso não era coragem e dererminação, podemos colocar-nos a questão: que fazer em
uma notícia feliz, visto, assim, aumentar o perigo de invasão. Simul- tal situação? E esta é, de facto, a questão decisiva. A identidade nacio-
taneamente, porém, os nacionais-socialistas internados no campo de nal dos Alemães foi manchada. Os alemães ocidentais têm a possibili-
concentração procuravam explicar aos judeus alemães, com os olhos dade de discutir abertamente esta questão. Não creio que o modo
brilhantes de alegria, aquilo que as tropas de Hitler fariam com eles, como os alemães orientais procuram ultrapassar o problema possa ter
caso lograssem invadir a Inglaterra. Talvez elas até decidissem vir pri- êxito. Eles parecem actuar segundo a máxima: «O nosso fato velho
meiro à ilha de Man, onde se encontrava o campo de concentração, tem nódoas. Então, façamo-lo desaparecer e vistamos um novo.» Não
para começar aí a limpeza. Posso apenas fazer uma pequena idéia do estou totalmente certo de, neste contexto, poder dizer muita coisa
que tiveram de sofrer os meus antepassados devido ao facto de os seus sobre as tarefas que se impõem quando se coloca o problema da
antepassados, séculos antes, terem sido presumivelmente responsáveis maneira como eu o tentei colocar. No entanto, talvez seja útil esboçar
pela crucificação de Cristo. mais claramente o problema em causa através de uma comparação.
Que o destino e a reputação individual de cada homem sejam, em Trata-se, sem dúvida, de um problema ttágico. Por acaso, tive há
larga medida, determinados pelo destino e pelo prestígio de grupos - e pouco tempo ocasião de reler a tragédia de Sófocles Edipo Rei. Uma
na nossa época, particularmente, pelo destino e prestígio dos Estados, grande desgraça, uma peste, abateu-se sobre o povo de Tebas. O rei
das nações, a que pertencem os indivíduos - é, pura e simplesmente, Édípo fala ao seu povo. E fala-lhe com um calor, com uma simpatia
um facto, um aspecto do mundo dos homens. Não se trata de saber se que comovem o leitor duma maneira particular, talvez porque eles
isso é bom ou mau; é assim que acontece. Em conformidade com isto, estejam, muitas vezes, totalmente ausentes das relações contemporâ-
sinto muitas vezes, quando amigos e conhecidos meus cristãos me neas entre dirigentes e dirigido. «Meus filhos», é assim que Edípo
demonstram com toda a seriedade que nunca tiveram nada a ver com o trata os Tebanos reunidos. Ele diz-lhes que partilha as preocupações
nacíonal-socialismo, a inutilidade dos seus esforços. Eles têm toda a deles e que tudo fará para descobrir porque é que os deuses condena-
minha simpatia, mas sei, também, que eles não estão a ver o principal ram Tebas à maldição da peste. Gradualmente, torna-se evidente que o
54 CONDIÇÃO HUMANA

culpado é ele próprio. Ele próprio, sem o saber, assassinou o pai e casou
com a mãe. Sófocles torna bem claro que Édípo cometeu este crime
odioso com toda a inocência. Ele não sabia que o ancião que o desafiou,
e que ele acabou por matar, era o seu pai. Não sabia que a mulher, com
quem acabou por casar era a sua mãe. Pior ainda: os deuses, na sua
arbitrariedade incompreensível, tinham imposto a Edipo, enquanto
membro de uma família maldita, este mesmo destino já antes do seu
nascimento; eles haviam predeterminado que ele seria o assassino do
pai e o marido da mãe. Inocente, ele tornou-se culpado por decisão dos
deuses, como castigo por um delito que os seus antepassados tinham
cometido. O manchar do bom nome dos Alemães pela desumanidade
do Terceiro Reich não assenta numa maldição dos deuses. Os diferentes
grupos de povos da Terra têm imagens colectivas mais ou menos exac-
O problema de que aqui se trata será mal entendido, se for apre-
tas uns dos outros. A imagem colectiva dos Alemães na memória de
sentado como um caso de culpa colectiva. O problema para que tento
outros povos, e talvez na sua própria memória, foi manchada pelo
chamar a atenção não é de culpa, mas de factos. A sociedade alemã
Terceiro Reich. Noutros países, as vozes da recordação deste passado
contemporânea saiu da anterior. Como noutros Estados nacionais, tam-
tornaram-se menos audíveis. A República Federai muito fez para que
bém na Alemanha existe uma continuidade na tradição dos comporta-
isso fosse possível. O regime parlamentar, antes odiado e combatido pela
mentos. A grande linha desta tradição é bastante mais quebrada do
maioria dos alemães, funciona muito bem. O «milagre econômico»
que a da maioria dos outros Estados nacionais europeus — por razões
contribuiu muito para fortalecer a autoconfiança dos alemães federais.
que não posso aqui abordar. Por conseguinte, também o sentimento de
E foi também graças à prosperidade econômica que a Alemanha se tor-
identidade nacional, a consciência do valor próprio dos Alemães,
nou para outros países um aliado e um parceiro bem-vindo, em espe-
muito particularmente na República Federal, são mais vacilantes, mais
cial no caso dos países menos desenvolvidos da África e do resto do
inseguros, numa palavra, mais problemáticos do que na maioria dos
mundo. Todavia, a questão sobre que gênero de tradições nacionais e,
outros Estados europeus. Os Dinamarqueses, os Franceses, os Ingleses,
principalmente, que características do caracter nacional alemão torna-
apesar da perda de poder e de ítatus que sofreram todos os países euro-
ram possíveis as barbaridades do Terceiro Reich, assim como a outra
peus, ainda não têm, actualmente, grandes dificuldades com a sua
questão sobre se esta tradição nacional poderá de novo prevalecer, não
identidade nacional. Os Alemães, e principalmente os alemães fede-
se tornou, decerto, ociosa.
rais, têm dificuldades consideráveis. Não se fala muito disso, em parte,
porque, devido à consciência nacional convulsivamente exagerada do
Terceiro Reich, quaisquer tentativas dos Alemães para falarem publi-
camente da sua consciência nacional levanta a suspeita de que se estará
a querer reavivar a exagerada consciência nacional do Terceiro Reich.
A este respeito, sou totalmente insuspeito. É mais fácil para mim do
que para muitos outros alemães dizer que o problema da identidade
nacional da República Federal deveria, sem convulsões e, se possível,
sem ligação à tradição do nacionalismo alemão posterior a 1870, ser
examinado a fundo e discutido publicamente como um problema
humano, particularmente das gerações mais jovens.
56 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 57

O problema de identidade nacional da República Federal tem, ráveis. Na altura, houve na Dinamarca homens que perceberam que o
como noutros casos, duas facetas que se completam. Primeiro, temos o futuro do país estaria ameaçado, caso não se facultasse o acesso a um
problema da nossa identidade: que espécie de homens somos nós, nível de formação superior à massa da população camponesa.
enquanto alemães federais? Quais as características, qual o sentido e o Grundtvig, para contrabalançar a derrota, que fora sentida quase
valor da nova vida colectíva alemã federal? Como podem os Alemães como uma catástrofe nacional, lançou os alicerces de um extenso movi-
criar novos valores dentro do concerto europeu? Estas questões não mento de criação de universidades populares, no fundo, portanto, um
serão tão simples como parecem, precisamente porque a imagem do movimento de renovação de toda a nação. A par disso deu-se também
Terceiro Reich, ao cabo de quarenta anos, ainda lança uma sombra um fortalecimento da consciência nacional, até então moderada e
sobre a identidade actual dos Alemães. inofensiva. As conseqüências deste movimento de renovação são hoje
Estas questões são difíceis, em segundo lugar, porque uma identi- ainda perceptíveis. Ele permitiu aos Dinamarqeuses sobreviverem,
dade separada dos alemães federais, para a maneira de sentir de alguns com um sentimento de tranqüila coesão nacional, até mesmo ao pe-
deles, parece consagrar a divisão do velho império alemão. Todavia, ríodo da ocupação na guerra de Hitler, para outros povos tão desesta-
talvez não se devesse estar tão receoso a este respeito. A Baviera, a bilizador.
Saxónia, a Prússia também já foram Estados autônomos, com uma A Alemanha não tem só uma, mas duas pesadas derrotas militares
determinada identidade própria, e talvez a possuam ainda hoje, o que atrás de si. Os seus dirigentes, primeiro o Kaiser e depois Hitler,
tornou a unificação final, talvez, mais difícil, mas de modo algum mobilizaram por duas vezes todo o potencial do povo alemão para con-
impossível. Num futuro previsível, não é de esperar uma análoga uni- quistarem para a Alemanha uma posição hegemônica na Europa.
ficação dos dois Estados alemães contemporâneos. Ela não será impe- O objectivo era atraente — tão atraente que talvez só um estadista do
dida pelo facto de a República Federal começar a promover, final- calibre de Bismarck poderia ter compreendido que o potencial bélico
mente, -com a maior determinação, o seu valor próprio e, assim, a sua da Alemanha, enquanto «país do meio», não era suficientemente
identidade própria. grande para conduzir uma guerra prolongada e, ao fim e ao cabo, vito-
Seja qual for o problema nacional da República Federal a que se riosa contra a maioria das outras grandes potências européias, e, princi-
aluda, ele é sempre doloroso e não isento de perigos. E, por conse- palmente, contra os Estados Unidos da América.
guinte, não se fala disso. No entanto, o problema de identidade na- Bismarck foi um grande homem. No entanto, a sua política foi,
cional da Alemanha Ocidental é um problema sério, e eu acho que se no essencial, uma política de moderação. Após ter vencido a
deveria falar sobre ele. Talvez não achem incorrecto referi-lo neste dia, Áustria, ele apercebeu-se imediatamente da necessidade de conquis-
pois, (k facto, embora não formalmente, o 8 de Maio de 1945 foi o dia tar a amizade da Áustria, de fazer do inimigo de ontem o amigo de
do nascimento da República Federal, o dia que tornou possível o apa- hoje. Ainda não estava cego pelo mito nacional da época do Kaiser e
recimento de uma Alemanha relativamente livre, governada por um de Hitler. Mais tarde, as camadas dirigentes da Alemanha, embria-
regime parlamentar e, neste sentido, democrática. Talvez se possa dizer gadas com a idéia de uma hegemonia alemã, perderam a noção da
hoje, ao fazer a retrospectiva após quarenta anos, que a formação esta- grandeza do risco que faziam correr ao povo alemão. Nunca foi muito
tal que então saiu da três zonas ocidentais de ocupação era algo novo provável que os Estados Unidos assistissem passivamente ao nasci-
na história da Alemanha. Pode ser que não se tenha aproveitado sufi- mento de um grande império alemão sob uma direcção imperial ou
cientemente a oportunidade de renovação. Trata-se de uma falta que mesmo ditatorial, portanto, de um possível rival no espaço euro-asiá-
ainda se poderá, certamente, reparar. tico, com uma ideologia perigosamente agressiva. Todavia, a cegueira
Neste contexto, lembro-me sempre de um episódio da história da profissional, tanto do Governo imperial como da chefatura de Hitler,
Dinamarca. Em 1866, a Dinamarca foi derrotada pela Prússia. As per- impediu-os de tomarem seriamente em consideração o potencial de
das territoriais, principalmente no Schleswig-Holstein, foram conside- guerra americano.
58 CONDIÇÃO HUMANA

No fim de cada uma das duas guerras hegemônicas perdidas pelos


Alemães, os seus dirigentes safaram-se, um para a Holanda, o outro na
morte, deixando ao povo as migalhas que para ele tinham esboroado.
Depois de Bismarck, o povo alemão não teve grande sorte com os seus
dirigentes.

10

A luta pela hegemonia perdida pela Alemanha foi, tanto quanto é


dado ver, a última tentativa de um Estado europeu para conquistar a
supremacia na Europa. A Alemanha foi a grande derrotada dessa
guerra, mas não a única. Também a França e a Inglaterra, nominal-
mente vencedoras da Segunda Guerra Mundial, pertencem, de facto,
aos Estados que a perderam. Oa verdadeiros vencedores foram a União
Soviética e os Estados Unidos. Ambas estas potências passaram, no fim
da guerra, para o vértice da hierarquia dos Estados não só da Europa
mas do mundo inteiro. Estes dois Estados possuíam, agora, as duas
organizações militares mais fortes do mundo.
Não estou bem certo de que seja suficientemente claro o problema
perante o qual se viram as chefias americana e russa quando Hitler e
Goebbels se furtaram pelo suicídio à responsabilidade pelos Alemães,
que eles durante tanto tempo tinham chamado a si, e quando a resis-
tência alemã se desmoronou. As tropas russas vindas de leste e as tro-
pas americanas e aliadas vindas de oeste marcharam através da
Alemanha ao encontro umas das outras. O que não deixava de ser
uma situação perigosa, pois os vencedores ocidentais e orientais
podiam, facilmente, durante o seu avanço, entrar em conflito entre si.
Era, portanto, necessário que se chegasse a um acordo sobre as frontei-
ras entre as zonas de ocupação das forças militares oriental e ociden-
tal, caso se quisesse evitar um possível confronto armado entre ambos
os exércitos.
Não era necessário ser-se particularmente arguto para prever que
uma fronteira instituída por acordo entre os exércitos oriental e oci-
dental se transformaria numa fronteira duradoura. Podia-se antever
60 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUAÍANA 61

que os Russos nunca se retirariam dos territórios conquistados pelo seu Soviética encontram-se, nolem volens, nesta situação dilemática, como
exército sem pressão militar; que não prescindiriam voluntariamente rivais na luta pela hegemonia entre os Estados da Terra.
da hegemonia sobre os territórios por eles ocupados, sobretudo sobre Em épocas passadas, a par de tais lutas bipolares pela hegemonia,
os territórios alemães. Eles tinham sofrido perdas gigantescas e que- ocorriam também contrastes entre formas internas de dominação e de
riam a maior segurança possível para o seu território central. Nada sociedade. A longa luta eliminatória pela hegemonia entre Esparta e
estava, porém, mais longe dos Americanos e dos seus aliados do que a Atenas, por exemplo, travou-se a par do antagonismo dos sistemas soci-
idéia de se envolverem numa guerra com os Russos por causa da uni- ais e das classes sociais que imperavam em ambas as cidades-estado.
dade da Alemanha ou da liberdade de outros territórios ocupados pela À Atenas democrático-popular opunha-se a Esparta aristocrático-oli-
União Soviética. Em contrapartida, para outros Estados europeus, gãrquica. Quando venceu, Esparta impôs aos Atenienses a forma de
cujos cidadãos tinham sofrido sob a ocupação alemã e que haviam dominação aristocrático-oligárquica dos chamados Trinta Tiranos.
saboreado antecipadamente através das SS e da Gestapo o que seria Do mesmo modo, a diferença entre as formas de dominação e de soci-
uma hegemonia da Alemanha de Hitler - particularmente os Fran- edade também desempenham, actualmente, um papel decerto impor-
ceses -, era apenas justo que a Alemanha fosse dividida em duas partes tante nos conflitos pela hegemonia entre a União Soviética e os
pela fronteira entre as tropas ocupantes. O colosso alemão, no Centro Estados Unidos, travados na antecâmara de uma possível guerra.
da Europa, tinha tentado por duas vezes obter a hegemonia no conti- Nestas lutas pela supremacia, desempenha um papel relevante o facto
nente europeu por meio da guerra. Esta tentativa fracassou por duas de a União Soviética ser uma ditadura de um partido, os Estados
vezes, depois de guerras devastadoras. Os Alemães, ao ocuparem outros Unidos um regime parlamentar bipartidário e o facto de, em ambos
países, particularmente durante a guerra de Hitler, apresentando-se os países, dominarem ideologias com concepções antagônicas do
como uma raça de senhores, tinham feito poucos amigos e muitos ini- mundo.
migos.* No fundo, todos estavam muito satisfeitos por este temível No entanto, o grande perigo que a ameaça recíproca destes dois
colosso militar do Centro da Europa ter sido dividido em dois e ter-se candidatos à hegemonia representa para nós, para toda a humanidade,
tornado, assim, menos ameaçador para os seus vizinhos. assenta, em primeiro lugar, naquilo que o seu antagonismo tem em
Todavia, a divisão da Alemanha em duas zonas de ocupação e, comum com as lutas anteriores pela hegemonia. Esse perigo assenta no
depois, em dois Estados, tal como a divisão da Coréia, foi, em última facto de os dois Estados militares, que são de longe os mais fortes, se
análise, apenas uma conseqüência da rivalidade que foi crescendo a confrontarem como rivais. A corrida aos armamentos entre estes dois
pouco e pouco entre as duas potências militares mais fortes da Terra, a Estados, que justificadamente nos preocupa, conheceu incontáveis pre-
União Soviética e os Estados Unidos. Chamei atrás a atenção para a cedentes. Todos eles mostram como é extremamente difícil quebrar o
regularidade com que, numa hierarquia de Estados, após uma série de mecanismo social deste movimento recíproco de escalada. Só quando
lutas eliminatórias, dois ou, às vezes, também três Estados se encon- se deixar de considerar este antagonismo crescente entre a União
tram à cabeça deste grupo de Estados como rivais na luta pela hegemo- Soviética e os Estados Unidos como algo de singular, só quando se vir
nia, normalmente sem que o tenham pretendido ou planeado. Eles que há centenas de casos precedentes, que se trata de uma configuração
vêem-se, assim, confrontados com um dilema, pois cada um dos dois social com certas regularidades, com processos que se repetem, só
ou três candidatos à hegemonia tem forçosamente de recear que a sua então se poderá destacar claramente o que há de original na situação de
independência e a sua liberdade de decisão lhe venham a ser roubadas hoje. Entre as regularidades desta configuração conta-se uma tendência
pelo outro, caso este se torne mais forte do que ele. Eu referi os casos polarizadora de muitos outros Estados da hierarquia estatal, cujo vér-
de Esparta e Atenas, dos Gregos e dos Persas, de Roma e de Cartago, tice é constituído pelas duas potências militares antagônicas. Apesar
dos Habsburgos e dos Bourbons, e poderia apresentar ainda muitos de todas as variações, que podem sempre ocorrer, os outros Estados do
outros exemplos. Nos nossos dias, os Estados Unidos e a União conjunto geral dos Estados mostram uma forte tendência para se um-
CONDIÇÃO HUMANA 63
62 CONDIÇÃO HUftlANA
Há muitas outras regularidades destas lutas bipolares pela hege-
tem a um ou a outro dos dois Estados hegemônicos e para se agrupa-
monia, que se podem observar em quase todos os casos. Quero referir
rem à sua volta como limalha de ferro em torno dos pólos de um
ainda uma delas, que pode ser assustadora, mas não tem qualquer sen-
grande íman.
tido fecharmos os olhos. Não conheço um único caso, no desenvolvi-
Às regularídades desta configuração pertencem igualmente as mano-
mento da humanidade, em que um tal conflito entre as duas potências
bras, por agora sem derramamento de sangue, de ambos os Estados
militares mais fortes, situadas no vértice de uma hierarquia de Estados,
hegemônicos para obterem as melhores posições de assalto em caso de
não conduzisse, mais cedo ou mais tarde, a uma guerra, à solução do
guerra; as manobras com vista a alcançarem posições nos territórios,
conflito latente pela força das armas. E mesmo que existisse o prece-
maiores ou menores, situados entre os núcleos centrais dos dois próprios
dente de um desanuviamento pacífico, da desescalada de uma guerra
Estados. O conflito bélico entre ambos os Estados hegemônicos, quando
pela hegemonia em fase de preparação, não poderíamos deixar de
acontece, começa habitualmente por desenrolar-se nestes territórios
estudar mais rigorosamente a regularidade com que uma tal configu-
intermédios, situados entre as regiões centrais das potências rivais.
ração conduz a um conflito armado. Na verdade, por maiores que
Normalmente, cada uma delas procura formar uma zona de segurança o
sejam as semelhanças com processos anteriores deste tipo, a luta pela
mais ampla possível de aliados e Estados vassalos nas regiões adjacentes
hegemonia dos nossos dias tem também, ao mesmo tempo, determi-
aos seus próprios territórios e, simultaneamente, ganhar para si aliados e
nadas particularidades estruturais que lhe são absolutamente pró-
Estados vassalos na zona de segurança que rodeia as regiões centrais do
prias. Encontramo-nos, hoje, numa situação para a qual não há
adversário. A constituição de uma zona de segurança em torno da sua
quaisquer precedentes. Chegámos, assim, num duplo aspecto, ao fim
própria região central deve tornar o acesso a esta região o mais difícil
possível ao adversário. Em contrapartida, os aliados ou Estados vassalos do caminho.
da zona que rodeia o adversário devem facilitar o mais possível a pene-
tração no.terrítório central do adversário ou a sua destruição.
Deixemos em suspenso a questão de saber se estas manobras com
vista a uma melhor posição de assalto no período anterior à guerra
ainda têm, na época das armas nucleares e dos mísseis, o mesmo signi-
ficado que na época dos canhões e das espingardas ou das lanças, das
setas e das espadas. Mas o determinismo da configuração e decerto
também a tradição militar, que se prolonga ininterruptamente desde o
tempo dos príncipes até ao dos chefes partidários e dos presidentes,
exercem uma forte pressão nesse sentido. Já os czares tentaram assegu-
rar bases no Afeganistão para a defesa do seu território central. Já
então os Ingleses tentaram impedi-los. Os Americanos são agora os
seus herdeiros. Por seu lado, os Russos estão contentes com as suas
bases em Cuba e na Nicarágua e, não nos esqueçamos, no Vietname.
E os Americanos não se poupam a esforços para os desalojar, se possível
sem intervenção do seu próprio exército, da sua perigosa proximidade
na América Central. Este jogo perigoso é tão velho como os próprios
Estados. Já na Antigüidade, Assírios e Egípcios procuraram ganhar a
hegemonia na Palestina, Romanos e Cartagineses na Sicília, antes de
penetrarem nos respectivos territórios centrais.
11
Já disse que não conheço nenhum caso em que a constelação das
duas ou três potências militares mais fortes no vértice de uma pirâ-
mide de Estados, em que cada uma das potências címeiras se sente
ameaçada na sua segurança pela outra, não conduzisse, mais cedo ou
mais tarde, a graves conflitos bélicos. Entre as singularidades da cons-
telação actual de poderes, conta-se o facto de uma guerra entre ambos
os Estados hegemônicos, no estado actual da técnica dos armamentos,
ter como conseqüência a destruição generalizada de ambas as potências
hegemônicas e dos seus aliados e, possivelmente, também, uma dimi-
nuição temporária ou permanente da habitabiiidade da Terra.
Muitos são da opinião de que a grandeza do perigo irá, só por si,
trazer à razão os dirigentes políticos dos dois grandes Estados milita-
res. Mas eu não creio que se possa imaginar a passagem da luta de
posições relativamente incruenta para a guerra sangrenta entre os dois
grupos de Estados, simplesmente como resultado do que, hoje, mui-
tas vezes se designa por «decisão racional». Nesta constelação das
potências ha tantas possibilidades de uma passagem irreflectida,
dominada por desejos e temores, da guerra fria à guerra quente que a
esperança de que a razão humana, mais cedo ou mais tarde, possa pôr
termo à imensa pressão de uma tal constelação no sentido da guerra se
me afigura francamente ilusória. Eu tenho, decerto, uma ídeia do que
se poderia fazer para inverter o movimento do mecanismo, que se ali-
menta a si próprio, da ameaça recíproca crescente das grandes potên-
cias militares na direcção oposta, no sentido de uma desesc01a"a-
Talvez, mais adiante, ainda tenha tempo para dizer alguma coisa
sobre isso.
66 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 67

Referi que a guerra pela hegemonia entre os dois maiores Estados atingiu um período em que os homens, pela primeira vez, se encon-
militares, que começou no fim da Segunda Guerra Mundial, nos anos tram perante a tarefa de se organizarem globalmente, ou seja, como
40 do século xx, é singular, pois com ela a humanidade chegou ao fim humanidade. Esta tarefa coloca-se-lhes em conseqüência de uma
de um caminho. Esta metáfora do fim do caminho não se refere só ao longa evolução. Ao mesmo tempo, ela faculta-lhes as possibilidades
perigo da autodestruição da humanidade numa próxima guerra. técnicas de uma organização da humanidade. Por favor, não me enten-
Mesmo se abstrairmos do caracter inaudito deste perigo, descobrimos dam mal. Não estou a falar aqui do que normalmente se chama uma
que as lutas contemporâneas pela hegemonia entre os dois Estados utopia. A tarefa de desenvolver uma ordem da vida em comum que
militares mais fortes têm um caracter singular. abranja toda a humanidade coloca-se hoje, efectivãmente, aos homens,
Os exemplos de épocas anteriores tornam claro que as lutas deste quer se tenha consciência dessa tarefa quer não. Ninguém pode prever
tipo podem terminar num empate ou numa ascensão do Estado vence- quanto rempo a humanidade precisará para realizar esra tarefa.
dor à supremacia integral sobre o grupo de Estados no seu conjunto. Ninguém pode prever se a humanidade, durante as lutas preparatórias
As lutas eliminatórias das cidades-estado sumárias, assim como as das nessa direcção, se destruirá a si própria e tornará a Terra inabitável.
cidades-estado gregas, terminaram num empate, portanto sem que
Esparta, Atenas, Corinto ou Tebas tivessem logrado conquistar uma
hegemonia sobre as outras cidades-estado e, desse modo, conseguissem
reuni-las num Estado grego unificado. Tal aconteceu, finalmente, por
intermédio de um Estado estranho, através dos soberanos do reino da
Macedónía, Filipe e Alexandre, que conduziram as cidades-estado,
unidas com relutância, à luta final contra o inimigo mortal de há mui-
tos anos, conrra o ameaçador Estado persa.
Se, actualmente, uma das duas potências hegemônicas pudesse
alcançar a vitória sobre a outra sem destruição recíproca, seria possível
que, também assim, se atingisse o fim de um caminho. A União
Soviética ou os Estados Unidos poderiam então ser promovidos a
potência hegemônica de toda a humanidade. Diferentemente de todos
os vencedores anteriores das lutas pela hegemonia dentro de um grupo
de Estados — portanto, diferentemente da China ou dos Romanos, que,
embora se julgassem senhores de um império mundial, se limitaram de
facto a unificar e pacificar uma parte limitada da humanidade —, o ven-
cedor da luta contemporânea pela hegemonia, caso não sobreviva a esta
luta demasiado enfraquecido, estaria em situação de controlar meios
militares e econômicos de uma dimensão tal que tornariam impossível
a concorrência de qualquer outro Estado.
E improvável que uma tal situação possa realmente ocorrer. Mas o
facto que aqui se investiga, e sobre o quaí eu disse que também ele
significava o fim de um caminho, é bem real. Deveria dizer-se talvez:
ele significa o fim de um caminho e o começo de um novo. O desen-
volvimento da humanidade alcançou um ponto ou, melhor dizendo,
12

Durante as etapas anteriores, a pacificação de um grupo de Es-


tados ocorreu sempre, em princípio, devido ao facto de, na seqüência
de lutas eliminatórias no interior de um grupo de Estados, emergir
um único Estado como vencedor e, assim, como potência hegemônica.
A pax romana é disso um exemplo bem conhecido. Indicações neste
sentido mostram-se também no caso das duas maiores potências mili-
tares que, durante a segunda metade do século XX, ocuparam em todo
o mundo o primeiro plano nos conflitos entre Estados.
Ainda meio encoberto, o sonho nacional de uma posição hegemô-
nica sobre toda a humanidade anuncia-se já nas ideologias nacionais das
duas potências militares mais fortes da segunda metade do século XX.
É útil, neste contexto, usar um pouco a inteligência para imaginar
situações possíveis, mesmo que elas não tenham nenhuma ou só uma
muito pequena possibilidade de se tornarem situações reais.
Imaginemos o seguinte: se os Estados Unidos não existissem, a
União Soviética ter-se-ia tornado hoje, depois da vitória sobre a
Alemanha, provavelmente a potência militar de longe mais forte não
só da Europa mas também da humanidade. Naturalmente, permanece
em aberto a questão de saber se a União Soviética poderia ter alcançado
a vitória sobre a Alemanha sem a ajuda dos Estados Unidos e dos seus
aliados. Mas imaginemos que isso tivesse acontecido. O poderio mili-
tar soviético teria alcançado um avanço tão grande sobre o poder mili-
tar de todos os outros Estados da humanidade que a União Soviética se
teria tornado, de facto, na potência hegemônica da humanidade. Neste
caso, os chefes dos partidos comunistas de todos os países seriam os
soberanos efectivos desses países. A direcção do Partido Comunista da
70 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 71

União Soviética, do Estado militar mais forte da Terra, ocuparia então superpotências, tanto mais inequivocamente ela ganhará o caracter de
uma posição hegemônica sobre toda a humanidade. Presumivelmente, potência hegemônica da humanidade. Todavia, só menciono esta possibi-
ela tentaria impedir os conflitos armados entre os Estados vassalos, lidade para tornar compreensível a dinâmica social própria deste tipo de
graças ao seu poderio militar preponderante, e, deste modo, realizar a constelação de Estados. Na realidade, o aumento do poder de uma das
pacificação da humanidade, implantar a pax soviética, duas potências hegemônicas - quer directamente, por intermédio do cres-
O sonho de uma hegemonia mundial russo-soviética está con- cimento do potencial militar, quer por intermédio de uma nova aliança,
tido, sob uma forma um tanto oculta, na doutrina oficial dogmática de uma vantagem posicionai no campo dos Estados não alinhados — pro-
russo-soviética. A doutrina marxista, que se restringe algo unilateral- voca habitualmente, da parte da outra potência hegemônica, uma tenta-
mente às relações econômicas e de classes, oculta-o. Esta doutrina fala, tiva de contrabalançar esse acréscimo de poder por forma a restabelecer o
pura e simplesmente, da necessidade social, com que, mais cedo ou equilíbrio e, com ele, a única forma de segurança que ambas as potências
mais tarde, revoluções comunistas darão origem a ditaduras do prole- hegemônicas podem ter na sua relação uma com a outra. Trata-se de uma
tariado ou, mais exactamente, a ditaduras da direcção do Partido situação difícil. Cada uma das duas potências realiza, constantemente,
Comunista. A unilateralídade da doutrina marxista, que não reconhece tentativas para sobrepujar a outra; cada uma delas tenta, permanente-
às fontes estatais e, principalmente, às fontes militares do poder mente, contrabalançar toda e qualquer pequena vantagem da outra. Cada
nenhum significado social autônomo, oculta um facto que Marx certa- uma procura, involuntariamente, acercar-se sempre mais de uma hege-
mente não poderia ter previsto: o facto de uma vitória do comunismo monia mundial, da posição do Estado militar mais poderoso; cada uma é
na Terra inteira acarretar consigo a posição hegemônica da potência constantemente estorvada, nestes propósitos, pela jogada da outra.
militar comunista mais poderosa, ou seja, da União Soviética. Longe de mim dizer que os governos de ambos os Estados ambi-
A pax soviética, considerada como possibilidade hipotética, tem o cionam conscientemente a hegemonia mundial. Digo apenas que a pe-
seu equivalente na pax americana. O sonho americano, the american culiar situação forçada em que se encontram ambas as potências as
arcam, muito freqüentemente objecto de controvérsia nos próprios impele nesta direcção. Aquilo a que chamamos escalada armamentista
Estados Unidos, não está até hoje orientado, expressamente, para uma é, igualmente, um resultado desta situação. Não creio também que o
posição hegemônica americana. Mas não faltam indicações neste sen- governo de um ou dos dois Estados hegemônicos nos conduza para
tido. Também no caso dos Estados Unidos, à semelhança do que ocorre uma guerra com plena consciência das suas conseqüências. Digo, sim-
na União Soviética, e como resposta à ambição comunista de hegemo- plesmente, que os governos de ambos os países, ao procurarem obter
nia mundial, o zelo posto na defesa do próprio sistema capitalista e involuntariamente vantagens militares ou posicionais em relação à
pluripartidário adquire, com muita freqüência, o caracter de uma mis- parte adversa, aproximam-se cada vez mais de uma guerra. Há boas
são mundial. Tal como na União Soviética, também nos Estados provas de que ambas as partes, tanto a superpotência comunista como
Unidos a preocupação com a própria segurança corre a par da exigência a capitalista - principalmente entre as camadas dirigentes, mas, talvez,
de que o seu próprio poder militar tenha de ser o mais forte do mundo também parte dos respectivos povos — sonham com o desaparecimento
para poder garantir a integridade militar do país. da outra parte. Ambas sonham com o colapso do adversário, e talvez
E esta, também, uma das simetrias características da luta bipolar também façam alguma coisa para provocar esse colapso, se possível, sem
pela hegemonia: enquanto os dois Estados militares mais poderosos se a necessidade de uma guerra. Todavia, os governantes de ambos os lados
mantiverem em equilíbrio, enquanto os seus meios de poder militar e parecem não ver claramente que, se a outra parte sentir que está a ser
econômico se equilibrarem aproximadamente, ainda resta aos Estados encostada à parede pelo adversário e os seus governantes não encontra-
menos poderosos um campo de manobra não despiciendo para decisões rem mais nenhuma saída, será muito grande a probabilidade de lança-
próprias, uma margem de liberdade para a sua autonomia. Quanto rem mão da guerra como último recurso e, portanto, da utilização das
mais o equilíbrio dos poderes se inclinar em favor de uma das duas numerosas armas atômicas armazenadas.
72
CONDIÇÃO HUMANA

Durante roda a minha longa vida, pelo menos desde o meu úlrimo
ano do liceu, os comunistas meus conhecidos e amigos fizeram sempre
os seus cálculos de modo que a crise da altura seria a última crise do
capitalismo, à qual se seguiria, necessariamente, a revolução comunista
e, por sobre a ditadura do proletariado, a sociedade sem opressão, tudo
isto quase sem a necessidade de um governo. Ouvi isto em 1913, ouvi-o,
de novo, no início desre ano; e, nos anos que decorreram entre estas
datas, ouvi-o outra e outra vez, sempre com a mesma convicção inaba-
lável. O ideal comunista de que a profecia marxista do fim do capita-
lismo se consumaria dentro de pouco tempo, de que a crise final do
capitalismo teria finalmente chegado, inspirou ao longo de todo esre
século a imaginação dos fiéis.
13
Todavia, a idéia de que o colapso do adversário se dará sem a neces- Que fazer? O regime comunista e ditatorial da União Soviética não
sidade de uma guerra não se restringe, de modo algum, a uma das par- faz tenções de desaparecer por sua própria iniciativa. O regime capita-
tes. Também entre os Americanos e nos países europeus da aliança oci- lista e parlamentar dos EUA também não tenciona desaparecer do
dental se encontra com bastante freqüência a idéia de que o bloco de mesmo modo. Uma guerra entre os dois Estados não é de modo
Leste irá conhecer dentro de pouco tempo uma crise, dissolvendo-se, algum impossível, mas seria uma calamidade tão grande para toda a
então, por si mesmo. Tenho a impressão de que esta ilusão de um humanidade que, talvez, se devesse reflectir mais sobre as alternativas
colapso espontâneo do comunismo na União Soviérica e nos Estados de
à guerra.
Leste ganhou mais força e uma mais vasta audiência nas últimas déca- A guerra entre o grupo de Estados liderados pela União Soviérica e
das, e, como se disse já, faz-se sempre ainda qualquer coisa para de pelos Estados Unidos acabaria, porventura, com uma vasta destruição
algum modo contribuir para o desejado e iminente desmoronamento e, certamente, com um enorme enfraquecimenro de ambos os grupos
espontâneo do comunismo.
de Estados. Os vencedores previsíveis de um tal conflito seriam outros
Creio que esras idéias sobre o presumível desmoronamento auto- países - caso possam manter-se fora da guerra e salvaguardar a sua
mático dos regimes capitalista e comunista não passam de sonhos ilu- população, o seu território e o seu capital das conseqüências desrruido-
sórios. Falta-lhes toda e qualquer base, além disso, são ilusões perigo- ras de uma guerra nuclear. A índia, o Brasil e, principalmenre, a China
sas. Os comunistas desde sempre contribuíram activamente para o estariam então entre os candidatos às posições dirigentes na hierarquia
desmoronamento do capítaíimo, profetizado por Marx, e, nos últimos dos Estados do mundo. Vale a pena assinalar que as idéias sobre as
tempos, um governo americano parece ter o mesmo em mente em rela- relações reciprocas dos Estados do mundo, caso não se comecem a
ção ao regime comunista. Se um dos dois Estados conseguisse efectiva- modificar gradualmente antes de uma guerra nuclear, conhecerão, por
menre encurralar o outro, isso aumentaria enormemente o perigo de
certo, uma modificação radical depois de uma tal guerra.
uma guerra. Já o disse atrás, mas vale a pena dize-lo duas vezes.
Actualmente, faz parte de uma quase incontestável tradição da
humanidade, e, no fundo, rambém da humana conditio, do destino ine-
xorável dos homens, a idéia de que, em caso de conflito, os Estados se
podem ameaçar mutuamente com a guerra. A organização de todos os
Estados assenta na possibilidade de um confliro bélico. Praticamente
todos os Estados têm instituições militares capazes de defender o pró-
prio país de ataques militares de outro país ou, no caso de um conflito
74 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 75

com outro país, de atacar este último. Em termos mais prosaicos: hoje sua própria população mas ainda uma parte considerável da humani-
em dia, praticamente em todo o mundo, os Estados estão preparados dade a uma morte mais ou menos cruel, ao mesmo tempo que tornarão
para, em caso de conflito com outros Estados, fazerem uso da violência inabitável para os homens uma vasta parte da Terra, senão mesmo a
física, ou, por outras palavras, ferirem e matarem os cidadãos e as cida- Terra inteira.
dãs de um Estado inimigo, destruírem todos os seus meios de produ- A poderosa coacção exercida por esta tradição milenar da humani-
ção, o seu potencial militar e quebrarem a sua resistência, por tanto dade no sentido da solução dos conflitos entre grupos pela força das
tempo quanto for necessário para que o Estado inimigo fique exausto armas; a fraca medida em que os dirigentes dos Estados mais impor-
ou, pura e simplesmente, sucumba. A maneira como está tradicional- tantes são capazes de se libertar da pressão desta tradição, da pressão
mente organizada a maioria das sociedades estatais do mundo deter- das instituições e dos hábitos de actuação que ela criou, está hoje
mina que, em caso de conflito nas relações entre os Estados, elas façam patente com uma clareza assustadora. A guerra parece ser o destino
aquilo que é estritamente proibido e punido nas relações internas dos eterno da humanidade. Nenhuma compreensão da singularidade da
Estados, ou seja, tentem decidir o conflito a seu favor recorrendo à vio- situação contemporânea parece estar em condições de quebrar a força
lência física. desta tradição de actuação que impele para a guerra.
Não é absurdo supor que depois da próxima guerra, se ela ocorrer, O que é tanto mais surpreendente quanto os Estados mais impor-
a humanidade sobrevivente chegue à conclusão de que é necessário tantes da Terra já não são, como muitos Estados do passado, governa-
quebrar com a tradição que não só faculta aos Estados como are lhes dos por homens educados na tradição da nobreza guerreira. Os diri-
recomenda que, em caso de conflito com um outro Estado, procurem gentes da União Soviética legitimam-se como representantes do
decidir a situação em seu favor pelo recurso à força física, através de operariado industrial; os dos Estados Unidos como representantes do
uma luta de vida e de morte, numa palavra: pela entrada em acção de empresariado industrial. Para ambos, a nobreza militar e agrária, a
uma organização müirar que cada Estado mantém para esse fim. nobreza feudal, como por vezes lhe chamam, fora um adversário nos
Então, talvez os homens possam fazer causa comum e dizer: «Não há conflitos internos dos respectivos Estados. Não deixa de ser instrutivo
nada pior do que a guerra. Que podemos fazer para evitar a guerra?» ver a inexorabílidade com que representantes da burguesia e do opera-
Sob a impressão causada por uma tal guerra, é provável que eles este- riado industrial, agora que exercem funções dirigentes, seguem o
jam mais facilmente em situação de fazer aquilo que nós hoje somos exemplo dos príncipes da nobreza, sendo arrastados pelo peso das ins-
capazes de realizar: isto é, criar instâncias de arbitragem dos conflitos tituições estatais para a tradição de actuação dos seus antecessores so-
entre os Estados, a que todos eles se devem submeter. ciais. A compreensão da singularidade da situação contemporânea
Esta condição da vida humana, esta condiria humana, o vaivém das parece ser completamente impotente face às pressões da tradição mile-
guerras, parece ser hoje, bem como ao longo de todo o desenvolvi- nar de utilização da força física como meio de resolver os conflitos
mento da humanidade, inevitável. Hoje, porém, talvez o deva dizer entre unidades de sobrevivência mais ou menos autônomas, ou, actual-
mais uma vez, encontramo-nos numa situação sem precedentes, numa mente, entre Estados independentes e soberanos.
situação inédita no desenvolvimento da humanidade. Nós chegámos, Depara-se-nos aqui um exemplo típico de uma particularidade do
como disse, ao fim do caminho. Se os Estados hegemônicos da actuali- desenvolvimento da humanidade que sempre se repete. O desenvolvi-
dade, ou seja, os Estados com maior poder militar, seguirem hoje a tra- mento da humanidade realiza muito menos através de processos de
dição milenária da humanidade — segundo a qual é evidente que gru- aprendizagem baseados no discernimento, no conhecimento anteci-
pos humanos rivais podem lurar pela sua segurança e, se possível, pela pado das conseqüências possíveis do agir colectivo de um grupo
própria posição de supremacia entre os demais grupos humanos, recor- humano, do que através de processos de aprendizagem na seqüência de
rendo para tanto à violência física, a uma luta de vida e de morte -, decisões erradas e das amargas experiências que elas determinam. Não
estarão a abandonar, com toda a probabilidade, não só grande parte da será totalmente absurdo, como já se disse, supor que, após uma guerra
76 CONDIÇÃO HUMANA

nuclear, a humanidade sobrevivente, ensinada pela dura experiência,


esteja mais inclinada a esforçar-se no sentido da criação de instituições
visando resolver por meios não volentos os conflitos entre Estados.
Podemos muito bem imaginar quef após uma guerra nuclear, o saber
que a soberania dos Estados encontra os seus limites ali onde a existên-
cia e o bem-estar da humanidade estão em jogo já não será considerado
utópico, mas, pelo contrário, extremamente realista. O governo de um
país que, então, segundo o velho hábito, prepare a guerra contra outro
país ou que chegue mesmo a invadi-lo pela força das armas, com os
conseqüentes morticínos, será levado ao tribunal mundial como um
grupo de criminosos contra a humanidade — quer através da pressão 14
de sanções econômicas por parte de todos os países do mundo ou pela
pressão da opinião pública mundial, quer mediante a intervenção de Perante a visão de uma Terra meio destruída, ou talvez somente ao
um corpo expedicionário conjunto dos Estados aliados do mundo. recordá-la, será mais fácil habituar até mesmo os governos de Estados
muito grandes e populosos a submeterem as suas divergências de inte-
resses e de opinião, sobretudo as diferenças de opinião entre os Estados
no que se refere a questões de segurança, a um tribunal dos Estados
aliados da Terra. E em relação a diferenças de crença ou de sistema
social poder-se-ia então esperar que todos os lados se mostrassem natu-
ralmente tolerantes. O luto da humanidade pelo esplendor desapare-
cido da Terra pode vir também, é certo, tarde de mais. A Terra que
conhecemos pode ficar irremediavelmente perdida e os homens, caso
ainda existam, recuarem para um regime de vida familiar nas cavernas.
No entanto, se as condições de organização estatal que se encontram
nas tradições dos Estados contemporâneos ainda existirem nessa altura,
talvez seja mais fácil adoptar uma providência, cuja aplicação se tornou
já hoje urgente, ante a perspectiva de uma guerra nuclear, mas que,
devido a uma tradição" esclerosada, se nos afigura ainda totalmente
utópica e irrealizável.
A impotência relariva do Tribunal Internacional de Haia mostra
claramente o ponto fraco da estrutura desta instituição. Ao contrário
dos tribunais nacionais, os tribunais internacionais carecem de órgãos
executivos, graças aos quais as suas decisões conseguem fazer-se cum-
prir, mesmo naqueles casos em que homens ou grupos de homens
poderosos se procuram furtar à sentença. Parece-nos hoje ilusório pen-
sar que se poderia levar Estados poderosos como a União Soviética e os
Estados Unidos da América a submeterem as suas constantes acusações
recíprocas a um tribunal de homens e mulheres cuja integridade e
78 CONDIÇÃO HUMANA
CONDIÇÃO HUMANA 79
isenção são universalmente reconhecidas. É ilusório porque, apesar do irrealizáveis. Talvez só seja possível dar os passos necessários para a for-
perigo coleccivo de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a mação de organizações supra-estatais, que possam funcionar efectiva-
União Soviética, os Estados do mundo reunidos não podem falar com mente como vigilantes da paz, depois de uma tal guerra.
uma só voz, não são capazes de impor medidas econômicas ou policiais De qualquer modo, pode desde já indicar-se onde se deverá procu-
conjuntas que pudessem garantir o respeito por uma sentença do seu rar o núcleo da resistência à formação de instituições eficazes que
tribunal mesmo por parte de quem lhes resistisse. diminuam o perigo de guerra. Trata-se, sem sombra de dúvida, de
Além disso, já se tornou hoje suficientemente claro que, nas con- determinadas particularidades estruturais da tradicional organização
versações directas entre ambas as porências hegemônicas que ameaçam estatal que entravam o desenvolvimento efectivo de instituições de
a paz no mundo, os argumentos apresentados por ambos os lados são prevenção da guerra. No centro desta resistência, depara-se-nos a idéia
com freqüência tão determinados pelo imperativo de ocultar as pró- da soberania absolutamente ilimitada e inviolável de cada Estado sin-
prias intenções, pela pressão da propaganda e, sobretudo, por uma tal gular.
incapacidade de compreender as preocupações e receios reais do outro Esta idéia e as instituições que lhe correspondem também foram
lado, que nada parece mais desejável e necessário do que uma comissão herdadas pelos principais Estados nacionais da actualidade ou, melhor
neutral de vigilância. Nada será também, sem dúvida, mais ilusório. dizendo, pelos Estados governados por representantes de um partido,
Mas se uma tal comissão, como é de admitir, não poderia funcionar de dos antigos Estados monárquicos. Todo o governante principesco rei-
imediato como tribunal de arbitragem, ela poderia, ao menos, começar vindicava o governo absoluto e ilimitado dentro da sua esfera de domi-
por informar a opinião pública sobre a situação real subjacente aos nação. Embora, na realidade, os príncipes mais poderosos violassem e,
argumentos bem pouco transparentes e em larga medida incompreen- eventualmente, até liquidassem a soberania de príncipes menos pode-
síveis para o público de todo o mundo apresentados por ambas as par- rosos, a idéia da autonomia e da soberania absoluta e ilimitada do
tes. Os media assumiram, em parte, a tarefa de informar o público dos Estado manteve-se, mesmo assim, como doutrina obrigatória de todos
diversos Estados sobre o que está por detrás das ocultadoras comunica- os Estados monárquicos absolutos. Ela conservou-se, essencialmente,
ções oficiais das duas superpotências. Uma entidade pública de devido a uma derradeira solidariedade entre todos os príncipes e gover-
homens e mulheres imparciais que esteja em situação de informar com nos dirigidos por príncipes. Visto todos os príncipes reclamarem para
grande regularidade o público mundial sobre as intenções e os receios si próprios a soberantía absoluta — e assim, também, o direito de
que se escondem por detrás das comunicações ideologicamente veladas decidirem da paz e da guerra —, todos eles tinham interesse em con-
e dissimuladas de ambos os governos hegemônicos poderia exercer, a ceder aos seus pares, em princípio, uma igual autonomia e inviolabili-
longo prazo, uma influência substancial sobre o envolvimento das duas dade da sua soberania. As guerras anteriores já tinham tornado mani-
grandes potências nas suas perigosas estratégias de ocultação. E seria festo que, na prática, o princípio da soberania absoluta dos príncipes
certamente desejável que os governos das grandes potências que amea- era frágil. Todavia, quando o governo dos príncipes foi substituído
çam a paz procurassem diminuir os seus temores não só por meio de pelo dos representantes de partidos políticos, o princípio de que todos
negociações directas — que, evidentemente, são úteis e indispensá- os Estados são soberanos manteve-se.
veis — mas pudessem, ainda, contar com a ajuda de entidades supra- Nesta fase do desenvolvimento, torna-se particularmente evidente
partidárias com funções consultivas ou de arbitragem (como as que que o reconhecimento e o respeito pela autonomia absoluta de um
intervieram recentemente, por exemplo, no caso do Peru e do Chile), Estado por parte de todos os outros tem, para todos eles, uma função
sobretudo quando as negociações caem num impasse e não conseguem protectora. Até um certo grau, ela salvaguarda qualquer Estado da
avançar.
perda ou da restrição da sua independência. Também aqui podemos
Todavia, como se disse, neste período de antes da guerra nuclear, observar, de novo, uma espécie de solidariedade entre rodos. Uma vez
até mesmo estas modestas propostas para diminuir o perigo podem ser que cada Estado atribui grande valor à sua própria soberania, à sua
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autonomia e à sua independência em relação aos outros Estado, a maio- dos armamentos gerou uma situação inconciliável com o tradicional
ria dos governos respeita, na medida em que os seus interesses o per- direito soberano de os Estados decidirem, por si sós, sobre a guerra e a
mitem, a soberania de outros Estados, No entanto, apesar de o respeito paz. Por isso mencionei, atrás, o problema da criação de instâncias
pela soberania estatal, enquanto princípio, usufruir de um reconheci- supranacionais e suprapartidárias que — talvez apoiadas pela opinião
mento universal, na realidade este princípio é sempre de novo desres- mundial — possam ajudar, a nível consultivo ou pela arbitragem, as
peitado e desconsiderado, em função das grandes diferenças de poder potências militares, desesperadamente envolvidas no seu antagonismo
entre os Estados. Os Estados menos poderosos têm, com freqüência, e na corrida aos armamentos, quando os próprios governos de ambos os
apenas uma soberania limitada. A crescente interdependência econô- Estados não conseguem encontrar uma saída para o corpo-a-corpo em
mica dos Estados põe, igualmente, limites à independência de cada um que mutuamente elas se imobilizaram.
deles. O grau relativamente mais elevado de independência, de «sobe- O árbitro aproxima-se dos pugilistas engalfinhados um no outro e
rania», e, portanto, também, um maior campo de manobra, só o pos- separa-os. Em nome da sua soberania, nenhuma das superpotências se
suem os Estados militares mais poderosos, situados no vértice da hie- submete a um árbitro, e pode muito bem acontecer que a embriaguez
rarquia de Estados. da hegemonia tape os ouvidos aos seus dirigentes. Talvez tenha, no
Com este exame, aproximamo-nos do âmago do problema do entanto, chegado a hora de apresentar a exigência de que, se ambas as
actual perigo de uma guerra. Os avanços na técnica dos armamentos potências hegemônicas não são capazes de, através de negociações
criaram uma situação singular também no que diz respeito a este directas, realizar a desaceleração da corrida aos armamentos e o desanu-
aspecto da questão. Hoje em dia, os governos de ambas as potências viamento da «sua» guerra fria, que ameaça toda a humanidade, recor-
hegemônicas podem decidir acções, pelas quais não só se ameaçam ram, para tanto, a uma entidade neutra! consultiva. E talvez esteja na
reciprocamente com uma vasta destruição e, talvez mesmo, com o ani- hora de reflectir sobre que aspecto deverá ter uma tal entidade estrita-
quilamento total — mas poderia dizer-se que isso só a eles diz res- mente apartidária e como ela poderá ser suficientemente apoiada pela
peito. O cartaginês Aníbal ameaçou Roma, e os Romanos, depois da opinião pública da humanidade. Porquê protelar a criação de uma tal
sua vitória, destruíram Cartago e venderam a população sobrevivente instância até depois da guerra? Se os dois gigantes não estão em condi-
como escrava. O raio de destruição das armas nucleares, porém, não pode ções de se libertarem, por si mesmos, do corpo-a-corpo imobilizado em
ser localizado. Ambos os governos, o da União Soviética e o dos Esta- que se encontram, então deveriam ter, pelo menos, o discernimento
dos Unidos, têm a possibilidade de tomar decisões que comprometem suficiente para solicitarem a ajuda de peritos isentos. De outro modo,
o destino de toda a humanidade ou, em todo o caso, de uma parte o perigo que ambos representam para a humanidade é demasiado
substancial da humanidade. E aqueles que são atingidos pelo perigo grande.
mal podem, com a sua organização actual, ter influência nestas decisões. Os homens não são capazes de eliminar a morte, mas estão, sem
Em nome da soberania do Estado, ambos aqueles governos, talvez de dúvida, em condições de eliminar o morticínico recíproco.
acordo com largas camadas da população dos seus países, arrogam-se o
direito de tomar decisões, das quais dependem não só o bem-estar da
sua própria população mas também o dos habitantes de muitos outros
Estados e, talvez, a existência da Terra, enquanto morada dos homens.
Poderia pensar-se que depois da próxima guerra — partindo sem-
pre da suposição de que irão sobreviver grupos de homens suficiente-
menre bem organizados — o problema que se nos depara será reconhe-
cido com mais clareza e resolvido mais facilmente do que hoje acontece,
ou seja, antes da guerra. Hoje em dia, o desenvolvimento da técnica
15

Referi já o facto de o conflito actual entre duas grandes potências


militares que lideram uma hierarquia de Estados ter também, a par de
muitas semelhanças com as anteriores lutas hegemônicas deste tipo,
determinadas características estruturais próprias. Entre estas peculiari-
dades conta-se o facto de a guerra, para a qual são accualmente arrasta-
das as duas superpotências em luta, caso aconteça, ter um caracter des-
truidor de dimensões superiores a qualquer luta final anterior entre as
potências militares mais poderosas.
Nos casos anteriores, é possível, como já disse, observar duas for-
mas de desfecho, que se repetem, de um tal combate decisivo. Num
dos casos, que se nos depara freqüentemente, a luta permanece inde-
cisa, na medida em que nenhuma das potências cimeiras logra alcançar
a hegemonia efectiva sobre o conjunto de Estados e, assim, integrá-los
a todos como membros ou súbditos de um Estado de ordem superior,
de um Estado unitário, sob a direcção da potência hegemônica vence-
dora. A luta pela supremacia entre Atenas e Esparta fornece o exemplo
de um exemplo da ascensão de uma potência hegemônica ao longo de
mais de quatrocentos anos. As lutas elminatórias dos Estados alemães
também tiveram, durante muitos séculos, o caracter de um equilíbrio
multipolar entre Estados. Embora os imperadores viessem formal-
mente à cabeça, o poder efectivo estava nas mãos dos múltiplos prínci-
pes reinantes e das cidades livres do império, até que, por fim, a
Prússia, ao cabo de uma longa série de lutas eliminatórias, em que se
viu freqüentemente à beira do abismo, ascendeu a potência hegemô-
nica e, nessa qualidade, reuniu os diferentes Estados alemães anterior-
mente autônomos num Estado unitário — renunciando ao Império
84 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 85

dos Habsburgos, que, de tão multíforme que era, não se deixava inte- mente permitirá que se realize uma paz global sob a forma mais tradi-
grar facilmente num Estado alemão unitário. cional, freqüente e generalizada da pacificação de grupos humanos
Vale a pena reflectir sobre as possibilidades que se oferecem, no anteriormente independentes e com freqüência hostis entre si por
plano actual, ao vencedor de uma luta pela hegemonia, quer se trate de intermédio do poderio militar superior de caracter monopolista de um
um dos dois Estados envolvidos, ou seja, a União Soviética ou os único grupo de homens. E certo que determinados aspectos do pro-
Estados Unidos, ou — no caso de estes dois Estados se terem enfraque- gresso técnico, como, por exemplo, o desenvolvimento monopolista
cido mutuamente, como é de esperar — um dos Estados eventual- das viagens interplanetárias das colônias espaciais, favorecem as ten-
mente não envolvidos, por exemplo, a China. Será acaso verosímil que dências que vão no sentido de uma hegemonia militar. Mas as malhas
uma União Soviética vitoriosa, uns Estados Unidos vitoriosos, ou uma da rede da humanidade são muito extensas e o número dos Estados,
China que não se envolveu na guerra, ao ascenderem então à hegemo- grandes e pequenos, habituados à independência, é demasiado conside-
nia de um império mundial que abarcaria a maioria dos Estados, rável para que um único Estado ou grupo de Estados tenha alguma vez
pudessem instituir, à semelhança dapax romana, umapax soviética, ame- uma boa oportunidade de estabelecer uma hegemonia económico-mili-
ricana ousinica^ tar duradoura sobre toda a humanidade. O significado das diversidades
A resposta a esta pergunta não é simples, porque também aqui se nacionais para o sentimento de identidade dos homens que formam
verifica que a tarefa que se coloca a uma potência hegemônica na fase estes Estados está demasiado profundamente arraigado para que eles
accual, depois de ela ter eliminado todos os possíveis concorrentes, é, em possam, no seu conjunto, suportar a longo prazo a dominação autocrá-
certo sentido, diferente das tarefas análogas em todas as fases anterio- tica de um único Estado e com ela, também, a de uma única cultura,
res. Actualmente, a tarefa de uma potência hegemônica consistiria em sem que surjam constantemente movimentos de resistência.
assegurar a sua dominação efectiva sobre todos os Estados do mundo e, Bem entendido, não estou a dizer que uma pacificação da humani-
assim, com base na sua supremacia, reuni-los num Estado mundial dade baseada na hegemonia económico-militar de um único Estado
unificado. Nesse caso, estaríamos, de facto, perante um impertum seja uma coisa desejável. Limito-me, pura e simplesmente, à investiga-
munâi, fosse ele uma criação soviética, americana, ou mesmo chinesa. ção do potencial efectivo dos Estados, e penso que a oportunidade de
Não é por demais ousado supor que nos próximos dois séculos alcançar aquela supremacia de meios de poder de que um Estado preci-
— com ou sem guerra — se irá reforçar a necessidade de desenvolver saria para instituir uma hegemonia duradoura sobre todos os outros é
instituições estatais mundiais, de que são modelos a Sociedade das muito pequena. Sob este ponto de vista, também hoje nos encontra-
Nações e as Nações Unidas. Se observarmos mais atentamente a confi- mos numa situação singular.
guração total dos Estados na Terra, parece ser bastante improvável que
um único Estado possa alguma vez estar em condições de obrigar
todos os Estados do mundo a reunirem-se num Estado unitário sob o
seu domínio. Quero, em primeiro lugar, referir brevemente que, na
minha opinião, o poderio de um único Estado — mesmo o do mais
populoso, o da China, ao nível de Estado industrial plenamente desen-
volvido — não bastaria para estabelecer um imperium mundi efectivo e
duradouro, uma dominação do mundo por parte de um Estado ou de
um grupo de Estados, e para instaurar a pacificação da humanidade, a
eliminação da instituição tradicional da guerra à maneira romana, ou
seja, pelo poder bélico avassalador de um único Estado e dos seus alia-
dos. A configuração da humanidade, quero eu dizer com isto, dificil-
16
A dinâmica da constelação que, num dado momento, lança as
potências militares mais poderosas de um grupo de Estados umas con-
tra as outras e que promete ao vencedor dessa «eliminatória» uma
posição hegemônica nesse grupo de Estados não é hoje menor, e a febre
hegemônica, a idéia embriagante da que o próprio povo possa vir a ser
o mais forte, o mais rico e prestigiado de todos os desse grupo de
Estados não é, para os dois candidatos à hegemonia na fase de desen-
volvimento actual, manifestamente menos cativante do que o foi em
«eliminatórias» análogas, em fases anteriores do desenvolvimento da
humanidade. Falei da embriaguez hegemônica de Alexandre, o Grande.
Referi a série de guerras que permitiram aos Romanos ascender à posi-
ção de potência hegemônica dos países do Mediterrâneo. Poderia ter
aludido à série de lutas no decorrer das quais os pequenos reis de Paris
se assenhorearam lentamente dos variados domínios, anteriormente
autônomos, que constituem hoje a França unida e internamente pacifi-
cada; ou à ascensão da Inglaterra à supremacia sobre todas as Ilhas
Britânicas, incluindo temporariamente o Estado hoje independente da
Irlanda. Vem a propósito pensarmos na luta pela supremacia dos
Alemães, mais tardiamente unificados, e na embriaguez hegemônica
das épocas do Kaiser e de Hitler. Como disse, a dinâmica da configura-
ção que impele, hoje em dia, a União Soviética e os Estados Unidos da
América, ambos preocupados com a sua própria segurança, um contra o
outro, e assim, quer o saibam quer não, para uma confrontação militar
decisiva com vista a uma posição hegemônica monopolista entre os
Estados do mundo, não é menos forte do que a de muitas lutas hege-
mônicas análogas de tempos passados.
88 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 89

Sem dúvida que a consciênca da alta recompensa que representaria Na seqüência da Revolução Russa, políticos de partido, cujo prin-
para o vencedor de uma tal «eliminatória» a conquista de uma posição cipal meio teórico de orientação era uma teoria que não entendia a fun-
hegemônica sobre os Estados do mundo é, em ambos os casos, algo ção específica de um Estado e do seu governo, viram-se na posição de
perturbada pelo reconhecimento do risco terrível que comporta uma membros do governo e de representantes do Estado. Eles sofreram no
guerra nuclear. Todavia, a pretensão de ambos os lados de serem mili- próprio corpo as conseqüências da autonomia das funções estatais e,
tarmente mais fortes do que o respectivo rival e de se tornarem, assim particularmente, das governamentais — autonomia que não era redu-
áefacto, social e militarmentef o Estado dirigente e modelar da Terra, é tível a funções econômicas —, e depressa aprenderam com a prática a
claramente perceptível em ambos os casos. utilizar os instrumentos de política interna e externa do poder estatal.
Como noutros, esta pretensão exprime-se na crença numa missão No entanto, eles não puderam modificar as estruturas fundamentais da
mundial própria. Em fases anteriores, de que também já falámos, a doutrina social delineada por Marx, e aperfeiçoada por Lenine, que
crença na missão de difundir ou de fazer prevalecer uma religião sobre- legitimava a sua revolução.
natural associou-se muitas vezes ao ideal de dilatar o próprio domínio. Estas estruturas fundamentais eram economícistas e assentavam
A entrada de Napoleão na luta pela hegemonia ocorreu sob a bandeira nas relações entre classes. Enquanto, na prática, o governo do Estado e,
da difusão dos objectivos da Revolução e, mais tarde, também, em nome sobretudo, a utilização do monopólio da força física, representado
da pátria francesa, da sua tarefa civilizadora e da sua glória. No caso de pelos militares e pela polícia, tiveram uma influência determinante no
Hitler, cal ocorreu em nome da própria raça. As potências hegemônicas desenvolvimento do Estado comunista, conservou-se, ao mesmo
do fim do século xx legitimam a sua luta pela hegemonia sobre a huma- tempo, a crença ortodoxa de que o governo tinha apenas uma função
nidade através da missão que se arrogam de expandir uma determinada superstrutural, ou seja, em primeiro lugar, uma função de defesa de
ordem social, capitalista ou comunista, segundo o lado que se considere. uma classe exploradora. Enquanto o Estado conquistado pelos políticos
Quajido na Rússia, a seguir a uma revolução, um grupo de políticos revolucionários de partido se envolvia inevitavelmente no turbilhão
de partido, para quem a doutrina social de Marx servia de guia, tomou das relações de força da política internacional, tal era interpretado,
o comando, a função desta doutrina modificou-se. A doutrina de Marx pura e simplesmente, em conformidade com a orientação teórica, como
prognosticava que os conflitos sociais entre empresários industriais e uma continuação da luta de classes. Enquanto, na prática, a ditadura
operários terminariam, mais cedo ou mais tarde, em todo o mundo, da classe operária, que talvez fosse pretendida de início, há muito que
com a vitória e a ditadura temporária do operariado. A doutrina ali- se tornara já numa ditadura do Partido Comunista, os meios de orien-
mentava a esperança no advento inevitável de uma sociedade sem clas- tação teórica mantiveram-se largamente inalterados, tal como tinham
ses e, por fim, de uma humanidade sem ricos nem pobres, sem explora- sido desenvolvidos por Marx e Lenine. A ditadura do proletariado,
dores nem explorados. A doutrina de Marx da vitória final do comunismo como estes tinham previsto, desaparecerá quando o capitalismo tiver
em todo o mundo, exactamente como a doutrina oposta do liberalismo sido vencido definitivamente, ou seja, em todos os países. E, assim,
econômico clássico, revelava uma peculiar cegueira teórica relativa- defendia-se a ditadura do partido e, principalmente, a da cúpula do
mente à função própria do Estado e às fontes específicas de poder de um partido, referindo-se, a propósito, a necessidade de proteger o Estado
governo estatal. Esta afinidade entre ambas as classes industriais no soviético dos ataques dos países em que o capitalismo ainda subsistia,
século XIX, e talvez ainda no século xx, é facilmente compreensível. nos quais a esperada revolução ainda não se consumara.
Do ponto de vista dos operários, o Estado, no século xix, não passava A função da doutrina de Marx foi, assim, como que curiosamente
de um aliado dos empresários; do ponto de vista dos empresários, o alterada. A idéia da transição nacional para uma ordem social comu-
Estado, sobretudo o governo, através dos seus decretos, intervinha com nista, que, segundo Marx, deveria ocorrer em todos os países capitalis-
freqüência no curso dos processos econômicos de uma maneira apenas tas devido à lógica interna do capitalismo, convertia-se agora numa
perturbadora e sem critério. arma da política externa soviética, em larga medida determinada pelos
90 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 91
interesses do próprio Estado. O Estado soviético estava agora envol- É bonito que a exigência de respeito pelos direitos humanos ele-
vido, como outros Estados antes dele, na luta pela hegemonia. A profe- mentares encontre hoje mais audiência. Tal significa um fortaleci-
cia marxiana da Revolução Mundial era-lhe, agora, útil. Mas também mento da consciência humana, da simpatia e da compaixão dos
a função desta foi alterada, provavelmente sem que se tivesse plena homens uns para com os outros, que na Alemanha sob o domínio nazi
consciência disso. Na prática, ela significava, agora, a dilatação da desapareceu temporariamente por completo. Ainda hoje não se encon-
supremacia de um Estado — a União Soviética. tram vestígios desta elementar simpatia entre os homens e, por maio-
O facto de a profecia marxiana de uma revolução bem sucedida da ria de razão, para com os adversários, nas câmaras de tortura e nos
classe operária de todos os países ter adquirido, durante algum tempo, campos de concentração das numerosas ditaduras. E encorajador que o
uma nova função — a de profetizar que a União Soviética revolucio- governo de um Estado milítarmente tão poderoso como os Estados
nária e, em especial, a sua nação hegemônica, a República Socialista Unidos intervenha tão decididamente em defesa dos direitos do
da Rússia estariam destinadas a alcançar a supremacia sobre todos os homem. Todavia, assim como os lemas da propaganda soviética de luta
Estados do mundo — desempenhou, seguramente, um papel de peso pela igualdade entre os homens e contra a opressão se destinam, essen-
no crescente conflito entre a União Soviética e os Estados Unidos. cialmente, à exportação, também o empenho do governo americano na
Tinha-se, assim, a impressão, que até certo ponto ainda hoje persiste, defesa dos direitos humanos visa, sobretudo, a exportação. Por mais
de que à direcção do Partido Comunista Russo não seria inteiramente sérios que sejam estes objectivos, não nos podemos furtar à suspeita de
estranha a idéia de uma hegemonia da União Soviética sobre os que eles estejam a ser utilizados por este governo para, sobretudo,
Estados do mundo. Actualmente, os porta-vozes da União Soviética reforçar a sua pretensão a uma posição hegemônica entre os Estados do
acentuam constantemente o seu desejo de igualdade e de coexistência mundo.
com os Estados Unidos. O que é, em si, promissor. E o caminho cor-
recto.-Todavia, não se pode esquecer tão depressa que, até há pouco
tempo, a União Soviética não propagandeava a igualdade e a coexis-
tência com o mundo capitalista, mas a ruína deste. A profecia de
uma futura revolução em rodos os Estados capitalistas e, assim, da
sua sintonização com a União Soviética, não foi, certamente, a causa
do antagonismo tantas vezes acerbo entre as duas superpotências e da
escalada armamentista, da corrida aos armamentos. Mas a propa-
ganda ofensiva, a agressiva doutrina dogmática soviética, contribuiu,
sem dúvida, para uma agudização da luta pela hegemonia com os
Estados Unidos.
O governo americano procura, agora, pagar da mesma moeda. Para
tanto, serve-se igualmente de uma crença ofensiva, que reivindica o
prestígio e a validade mundial do sistema econômico e político, para o
efeito um tanto embelezado, dos Estados Unidos. Até há pouco, fal-
tava aos Estados capitalistas sob a égide destes um traço humanista
universal. Nos últimos tempos, o credo capitalista, um tanto árido no
que respeita a humanitarismo, adquiriu um rosto mais humano e
ganhou força combativa, graças ao empenho dos seus representantes na
defesa dos direitos humanos no mundo inteiro.
17

Eis, pois, duas potências que lutam entre si pela hegemonia a nível
global e que começam por empregar meios relativamente pacíficos.
Tenho boas razões para crer que estas diligências no sentido de con-
quistar uma posição hegemônica entre os Estados da Terra podem ser,
no caso de uma potência singular, bem sucedidas temporariamente,
mas nunca a longo prazo. As tentativas de fundar um Estado mundial
dominado pela União Soviética, pelos Estados Unidos, pela China, ou
seja por quem for, portanto, um imperium romanum global, podem, tal-
vez, resultar a curto prazo, mas, a longo prazo, estão irremediavel-
mente condenadas ao fracasso. E importante afirmá-lo claramente, pois
seria uma grande calamidade, caso alguma potência quisesse empreen-
der uma tal tentativa de hegemonia mundial. Actualmente, ao que
parece, nem os dirigentes da União Soviética nem os dos Estados
Unidos são imunes aos ataques da febre hegemônica. Eles não são
invulneráveis à tentação do sentimento exaltado, que se pode exprimir
assim: «Queremos, temos de ser a potência mais forte da Terra!», ou
então: «Nós somos a potência mais forte da humanidade.»
Peco-vos, mais uma vez, que não me interpretem mal. Não falo
aqui dos meus próprios desejos. E certo que não me sentiria bem num
mundo em que um Estado ou um grupo de Estados dominasse toda a
humanidade. Apesar disso, poderia reflectír-se sobre se a hegemonia de
um Estado, que fosse o mais poderoso de todos, seria realmente um
preço demasiado alto a pagar pela pacificação da humanidade e, conse-
quentemente, pela abolição das guerras enquanto instituição perma-
nente nas relações entre os Estados. Poderia mesmo dizer-se que, se um
determinado Estado obtivesse a supremacia militar sobre todos os
94 CONDIÇÃO HVMANA CONDIÇÃO HUMANA 95

outros - ao ponto de possuir de facto um monopólio global da violência fracos. Além disso, o caminho para uma posição hegemônica de uma
física e de o seu exército, convertido numa espécie de polícia do mundo, só potência, no actual estado de coisas, passa com toda a certeza por
poder impedir todos os outros Estados de utilizar a sua própria organi- uma guerra nuclear e desembocará, provavelmente, como conseqüência
zação militar em caso de conflitos —, se, pois, este Estado fosse tão pode- disso, num ciclo de actos de violência.
roso que realizasse a pacificação da humanidade, a sua libertação das Para entender esta situação, não é de modo algum necessário supor
guerras, valeria a pena pagar por isso, pelo menos por algum tempo, o que os governos dos actuais pretendentes a uma hegemonia mundial
preço da subjugação a um Estado hegemônico e suportar a soberba do anunciem franca e expressamente o objectivo de alcançar uma posição
povo dominante, que nunca deixa de surgir nestes casos. E bastante cor- hegemônica global, seja por intermédio de estratégias não bélicas, seja
rente que um povo, militar e economicamente mais poderoso do que os por meio de uma guerra. Eu constato, simplesmente, que a situação
outros, desenvolva uma imagem orgulhosa de si próprio. Afigura-se aos em que eles se encontram os empurra, a ambos, nesta direcção. Para
seus cidadãos, habitualmente, serem eles os melhores por nascimento, e ganhar segurança, cada uma das duas potências hegemônicas aumenta
terem, portanto, mais valor do que os outros povos. Digo, mais uma vez, constantemente o seu potencial militar. O crescimento deste potencial
que não desejo para mim, nem para vós, que vivamos num mundo com afasta-as cada vez mais da esfera de concorrência de todos os outros
uma semelhante estrutura da humanidade. Estados, que, assim, ficam em posição sempre mais desvantajosa.
Todavia, quando disse acima que pensava ser muito improvável Simultaneamente, cada uma das potências hegemônicas tenta suplan-
que um Estado singular conseguisse obter uma hegemonia efectiva tar o seu adversário na corrida aos armamentos. E o que pretendo fazer
sobre todos os outros Estados do mundo, não o disse por não o desejar. ver quando digo que ambas são impelidas pelo automatismo da sua
Falava e falo-vos como sociólogo, que investiga problemas da socie- situação para uma posição hegemônica. Ao constatar que ambos os
dade humana da mesma maneira e com a mesma atitude com que um Estados são forçados, por uma situação compulsiva, a assumir uma
médico procura estabelecer diagnósticos sobre o estado de saúde de hegemonia global, quando a probabilidade de um único Estado vir a
uma pessoa. Se um médico, ao fazer um diagnóstico, se deixa influen- exercer uma hegemonia efectiva e duradoura sobre todos os outros é
ciar pelos seus desejos, o diagnóstico não vale nada e não passa, prova- diminuta, estou a tentar tornar compreensível o caracter paradoxal
velmente, de urn diagnóstico errado. O mesmo se passa em relação a desta situação e, também, o seu perigo.
um diagnóstico sociológico. Em fases anteriores do desenvolvimento dos Estados, como se
Neste sentido, puramente do ponto de vista diagnóstico, já chamei disse, as coisas nem sempre se passaram assim. Os Britânicos, por
a atenção para o facto de a configuração social da humanidade — princi- exemplo, no decorrer de quatro ou cinco séculos, conseguiram uma
palmente a sua divisão em mais de cento e cinqüenta Estados, uns integração, orientada a partir da Inglaterra, dos povos que viviam nas
maiores outros mais pequenos, dos quais muitos possuem uma mar- Ilhas Britânicas. A Inglaterra transformou-se na potência hegemônica,
cada tradição nacional, uma conformação nacional personalizada — e o inglês na língua unificadora das ilhas. Os dialectos celtas sobrevi-
torna improvável a hegemonia permanente de um único Estado. Já as veram, aqui e ali. A consciência nacional escocesa e galesa enfraqueceu,
duas guerras mundiais, em que a Alemanha procurou realizar a sua para o que não terá contribuído em último lugar a comparticipação
aspiração a uma posição hegemônica na Europa mediante uma vítótia nos dividendos do império mundial britânico. Só a tradição própria
militar, fracassaram pelo facto de o potencial na Alemanha não ter sido dos Irlandeses, em parte sob a influência da religião, impôs, mesmo ao
suficente para fazer frente aos meios de poder somados da França, da cabo de vários séculos, uma fronteira ao movimento britânico de inte-
Inglaterra e dos Estados Unidos, e, na Segunda Guerra Mundial, tam- gração. Este é um dos muitos exemplos de processos prolongados de
bém aos da União Soviética. Não vejo que haja um único Estado no assimilação e de integração.
mundo cujos meios de poder bastem para lhe garantit a hegemonia em Um breve relance de olhos pelo processo de integração, quase ple-
face de uma aliança entre um número considerável de Estados mais namente conseguido, por parte de um país hegemônico mais antigo,
96 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 97

corna mais compreensível o processo de integração em curso sob a guerra? Poderá esperar, realmente, a União Soviética uma maior segu-
égide de uma potência hegemônica actualmente em ascensão, que rança de fronreiras tão alargadas? Não seria de admitir que, durante
ainda não vingou, mas que poderá vir a resultar. Observo com atenção séculos, iriam deflagrar sempre novas lutas de libertação dos povos
redobrada os esforços que a Rússia Soviética investe na integração, ou refractários à assimilação e que estas iriam consumir as forças do país
talvez melhor dizendo, na russificação dos diferentes povos da União hegemônico?
Soviética e, para além disso — ainda de forma hesitante —, do bloco de E o mesmo se passaria no caso de uma supremacia mundial dos
Estados do Leste. O que de modo algum implica que os dirigentes da Estados Unidos da América. Um considerável trabalho de assimila-
União Soviética entendam este acontecimento como um processo de ção é-lhes já hoje exigido, mesmo quando se trata apenas de absor-
assimilação e integração. Influenciados por uma teoria de Estaline que ver no interior do Estado os muitos grupos de emigrantes. Nem
acentua a autonomia das nações, eles poderão não estar conscientes da sequer é ainda previsível se a população de língua inglesa dos
dinâmica a longo prazo destes processos de formação de Estados. Uma Estados Unidos estará em condições de absorver a população que
integração dos povos da União Soviética, que avance ao longo de sécu- fala espanhol, ou se a língua espanhola se irá estabelecer nos EUA
los até se tornar irreversível, situa-se, em todo o caso, no domínio do como segunda língua, em ligação com elementos da tradição cultu-
possível. A russificação da Bulgária também é imaginável, mais difícil, ral latino-americana. Partamos, também neste caso, da idéia ilusória
porém, será conceber a da Romênia, da Hungria ou da Polônia. de que um dos dois Estados hegemônicos inimigos do mundo
Mas poderemos, acaso, imaginar que a União Soviética - partindo actual, os Estados Unidos, pudesse sobreviver a uma guerra nuclear
da premissa de que numa possível guerra futura algum dos partici- como vencedor. Também este Estado estaria, então, em condições
pantes pudesse sair vencedor —, sendo a vencedora de uma tal guerra, de providenciar, dando o exemplo ou exercendo pressão, para que
estaria em condições de levar os partidos comunistas ao poder em em todos os Estados do mundo fossem criadas instituições políticas
todos os países da Terra? Seria, acaso, provável que a União Soviética e econômicas que correspondessem aos ideais dos grupos americanos
também então estivesse em condições de enfraquecer, por meio da dominantes, ou seja, sobretudo, formas parlamentares de governo e
assimilação e num espaço de tempo razoável a consciência nacional uma economia de mercado livre. Se, por um curro espaço de tempo
dos povos por ela dominados em toda a Terra, dos Indianos e dos e na pior das hipóteses, ainda seria possível que a União Soviética
Chineses, dos Senegaleses e dos Nigerianos, dos Ingleses, dos Italianos conseguisse manter todos os Estados do mundo sob a sua vigilância
e dos Franceses, dos Brasileiros e dos Argentinos, de tal modo que eles militar e policial e, desse modo, fundar provisoriamente um mono-
cessassem de sentir a posição hegemônica dos Russos no mundo como pólio do poder, um Estado unificado abrangendo toda a Terra, tal
uma dominação estrangeira? Será, acaso, imaginável que mesmo uma seria, para um país regido por instituições parlamentares, uma
hegemonia indirecta da União Soviética sobre os Estados do mundo, tarefa quase impossível. Não podemos excluir a possibilidade de os
por intermédio de presidentes autóctones do partido colocados à Estados Unidos, como aconteceu com Roma, sob a pressão da neces-
cabeça de uma hierarquia de partido que abrangesse a totalidade de sidade de garantir a sua hegemonia no mundo, se transformarem de
cada país, seria suportável, a longo prazo, por parte de muiros Estados, uma república oligárquica num país governado ditatorialmente ou,
com os seus perfis nacionais bem marcados, sem provocar constante- eventualmente, numa ditadura presidencial. Todavia, seja qual for a
mente a mais veemente das resistências? Mas se a possibilidade de forma do seu governo, o potencial militar, econômico e populacio-
uma dominação comunista de todos os Estados do mundo por um par- nal dos EUA seria ainda menos suficiente do que o da União
tido, mesmo que sob a hegemonia de um império soviético que abran- Soviética para criar uma pax americana, um Estado global unificado,
gesse toda a Europa, é improvável e torna, de facto, provável o surgi- governado a partir de um único centro, que abranja toda a multifa-
mento de renovados movimentos de oposição por parte dos povos cetada humanidade e que assuma o papel de polícia dessa mesma
oprimidos, para quê, então, a vitória? E então para quê, sobretudo, a humanidade.
18

O que procuro demonstrar com estes ensaios de reflexão é o


seguinte: em todas as fases anteriores do desenvolvimento da humani-
dade foi possível que o vencedor de uma luta pela hegemonia realizasse
a integração efectiva de unidades de sobrevivência mais pequenas,
anteriormente autônomas, no quadro de uma organização mais abran-
gente de dominação, e esse foi, de facto, em numerosos casos, o cami-
nho pelo qual uma multiplicidade de tribos mais pequenas se transfor-
maram em tribos maiores ou também em Estados, e uma variedade de
Estados mais pequenos se transformaram num Estado maior. Todavia,
a união, e com ela também a pacificação da humanidade, não é realizá-
vel deste modo - por intermédio de uma guerra. Muitas guerras passa-
das foram guerras pela hegemonia. Fossem quais fossem os fins a curro
prazo dos próprios beligerantes, estas guerras tiveram freqüentemente
como conseqüência a integração e, com ela também, a pacificação de
grandes regiões. Os homens, na sua inevitável cegueira, só raramente
encontraram, até hoje, outro meio para levar a paz a grandes regiões
que não fosse o do conflito bélico. Esta longa tradição chegou até aos
nossos dias. Instituições como o exército permanente e todo um com-
plexo tradicional de meios de orientação que impelem constantemente
para conflitos bélicos entre os Estados são disso o indicio.
Agora, porém, encontramo-nos, nós, a humanidade — repito-o —,
perante um problema sui generis. Trata-se de um problema que é, em
determinados aspectos, diferente dos que se colocaram aos homens em
fases anteriores do seu desenvolvimento. Antigamente, a questão que
se punha era a da união e, habitualmente também, a da pacificação de
partes da humanidade. Agora, alcançámos um nível em que a questão
r

100 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 101

é a pacificação num plano global, portanto, de toda a humanidade. única alternativa possível à catástrofe — embora, claro, sem grande
Esta tarefa não é realizável de modo tradicional, com as instituições e esperança. E bem possível que os homens só possam ser motivados
os modos de pensar tradicionais, que em boa parte remontam à época para um corte com a tradição rotineira, para uma renúncia voluntária,
dos Estados dos príncipes. O paradoxo desra nova situação assenta no inclusivamente por parte dos Estados mais poderosos, à defesa da segu-
facto de a humanidade, devido às distâncias de tempos remotos, se ter rança dos respectivos territórios por meios violentos, através da calami-
tornado extremamente multifbrme, e, por outro lado, simultanea- dade de uma nova guerra. Mas, então, pode ser já demasiado tarde.
mente, devido ao actual encurtamento das distâncias e ao facto de os Chamei já, várias vezes, a atenção para as peculiaridades da embria-
laços de interdependência se tornarem sempre mais longos, complexos guez hegemônica. A política das duas grandes potências actuais só é
e sólidos, se terem aproximado extraordinariamente todas as suas par- explicável neste sentido, nomeadamente pela esperança secreta dos seus
tes, mesmo as mais recônditas. As duas grandes potências da actual dirigentes de que poderiam liquidar, desta ou daquela forma, o adversá-
humanidade desenvolvem o seu armamento em concorrência uma com rio sem serem atingidos no centro do seu próprio potencial, de modo
a outra, como se para elas, à semelhança das potências de outros tem- que o seu próprio Estado se tornaria, então, com toda a segurança, na
pos, ainda existisse a possibilidade de uma vitória e de obterem uma potência dominante da humanidade. Tais esperanças só se podem acalen-
maior segurança para o seu território central por intermédio da anexa- tar na base de um sentido reduzido das realidades. Não é difícil admitir
ção de territórios ou da incorporação de grupos da população do adver- que, na situação actuaí, as armas de ataque ou de defesa não podem ofe-
sário derrotado. Mas a idéia de que se pode conseguir maior segurança, recer a um país a segurança suficiente que lhe permita sair de uma
como aconteceu por vezes em períodos anteriores, por intermédio de guerra sem os mais graves prejuízos para o seu potencial de poder, por-
uma guerra é ilusória. Quando se pensa assim e se age também em tanto, sem perder por longo espaço de tempo, talvez para sempre, o seu
conseqüência, é porque se procura, pura e simplesmente, enfrentar papel dirigente entre os Estados do mundo. Nesta situação, só acordos é
uma,situação nova com meios intelectuais antiquados. que podem oferecer segurança aos Estados. A ratificação de acordos vin-
Talvez soe como uma trívialidade se eu disser que a segurança de culativos entre os Estados pressupõe, porém, um grau considerável de
um Estado já não é alcançável, na situação actual, pelos meios da esca- confiança recíproca. Mas é em relação a este aspecto que estamos mal.
lada armamentista, ou até mesmo da guerra. Que fazer, então? Qual é A extrema desconfiança, constantemente alimentada por uma maré de
o problema? Ele é quase insolúvel, pelo menos, por agora. Uma vez propaganda, determina hoje em dia as relações entre muitos Estados e,
que a coacção do exterior, na forma de um poder hegemônico, já não em particulat, entre as duas grandes potências.
parece ser muito prometedora para assegurar a paz a nível mundial, os Surge, assim, no centro do nosso campo de visão, uma tarefa que
povos da Terra encontram-se, hoje, perante a rarefa alternativa de con- talvez não seja totalmente irrealizável e sobre a qual, em todo o caso, se
tribuir gradualmente para a renúncia às instituições bélicas tradicio- pode trabalhar: a da redução da desconfiança. Se se quiser evitar a
nais, mediante a sua auto-restrição voluntária e, eventualmente, tam- supremacia de um só povo, ou seja, a coacção vinda do exterior, será
bém pela subordinação voluntária à arbitragem da humanidade. Talvez necessário colocar exigências maiores a si mesmo, à própria capacidade
a massa dos homens e, em particular as camadas dirigentes dos de tolerância. A diminuição da desconfiança entre os Estados não é rea-
Estados, possam evoluir muito gradualmente até este nível civilizacio- lizável de hoje para amanhã. Ela exige o esforço conjunto e paciente de
nal. Todavia, face à dura hostilidade, à aversão tenaz e selvática, ao des- muitos homens, que lutem nos seus países para que cresça a disponibi-
respeito infundado, que determinam hoje com bastante freqüência, lidade para resolver os conflitos entre os Estados, seja por meio de com-
aberta ou encapotadamente, a conduta de membros de Estados diferen- promissos não violentos, seja por via da arbitragem exercida por órgãos
tes nas relações entre si, a tarefa de uma pacificação da humanidade supra-estatais. A diminuição multilateral e não apenas unilateral das
não imposta do exterior, mas assente em decisões voluntárias, começa hostilidades absolutas entre grupos humanos é, sem dúvida, uma das
por afigurar-se insolúvel. Ela poderá apenas ser divulgada como a tarefas que a guerra que nos ameaça coloca aos homens ainda vivos.
102 CONDIÇÃO HUMANA

Em última análise, todo este trabalho visa criar uma confederação


pacífica dos Estados a nível mundial, assente na união voluntária des-
tes e que possua órgãos eficientes para a resolução de conflitos enrre
Estados e para a penalização daqueles que desrespeitem a paz. Ela é a
alternativa à corrida aos armamentos das duas potências hegemônicas,
à sua dominação e à muito freqüente paralisação dos esboços de uma
tal confederação, além de ser também, com toda a certeza, a alternativa
à hegemonia de uma única grande potência sobre todos os Estados do
mundo.
Uma tal confederação válida de todos os Estados começa por ser
apenas, seguramente, uma grande palavra. Muita água correrá sob as 19
pontes antes que essa palavra se traduza em actos. Todavia, talvez não
seja inútil continuar a ter em vista este mesmo objectivo, como algo Além disso, esta tarefa não é realizável sem uma compreensão inte-
em direcção ao qual se trabalhe com muita paciência e cautela, mesmo ligente das relações de equilíbrio muito instáveis da hierarquia dos
que ele não seja realizável durante o tempo de uma vida. Muitos Estados. Tomemos, por exemplo, o caso actual dos Estados europeus
homens cometem, a este respeito, um erro. Fundamentalmente, eles só ocidentais. Eles são aliados dos Estados Unidos. Uma tal posição exige
se sentem capazes de se responsabilizar por objectivos a curto prazo. Só uma elevada compreensão das questões relativas ao equilíbrio político.
se interessam por aquilo que crêem que se possa realizar amanhã, Nos países europeus, alguns grupos exigem o abandono completo da
depois de amanhã ou, em todo o caso, durante o tempo da sua própria aliança americana. Se esta exigência fosse satisfeita, isso significaria
vida. «Depois de nós, o dilúvio», é o que eles dizem; «o que acontecer uma oscilação muito significativa do equilíbrio do poder em favor da
depois da minha morte não me diz respeito.» Porém, é precisamente União Soviética. Porém, ao mesmo tempo, mantém-se o perigo, não
disso que se trata: trabalhar pela paz entre os homens é uma tarefa a pequeno para os Estados europeus, de resvalarem do papel de aliados
longo prazo. para o de Estados vassalos. Esre perigo seria certamente mais pequeno,
se os Estados da Europa ocidental ou, pelo menos, alguns deles, se
unissem. Por outras palavras, a situação mundial actuai põe os Estados
europeus, e talvez muito particularmente a República Federal, em
risco de se tornarem defacto Estados vassalos da União Soviética ou dos
Estados Unidos. Manter o justo equilíbrio entre estas duas possibilida-
des talvez só seja possível em associação com os outros países europeus.
Todavia, esta indicação mostra, simultaneamente, como é irrealista
pensar em termos de alternativas absolutas e, portanto, também, de ini-
mizades absolutas. Na situação actual de polarização antagonista, é este
freqüentemente o caso. Pensa-se em termos de preto e branco, de tudo
ou nada: ou afastamento dos Estados Unidos, ou dedicação incondicio-
nal a eles. Manter o justo equilíbrio em casos destes é uma tarefa polí-
tica muito mais difícil do que fazer uma política do «tudo ou nada».
Não menos difícil para os países europeus, e, particularmente, para
a Alemanha Federal, é a compreensão de que a decisão sobre a guerra
104 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 105

nuclear já quase não está nas suas mãos, mas quase exclusivamente nas poderosa da Terra. No entanto, com este deslocamento do equilíbrio
mãos das superpotências e dos seus governos. De momento, não quero de poder em seu prejuízo, os dirigentes da União Soviética poderiam
ocupar-me dos problemas de outros países europeus que, como a sentir-se gravemente ameaçados; poderiam sentir que, desse modo,
Inglaterra e a França, graças à posse de armas nucleares próprias, pos- ficariam numa posição de inferioridade permanente em relação aos
suem um certo grau de autonomia. Para os cidadãos da República Estados Unidos. Não se pode prever como reagiriam os dirigentes da
Federal não deixa de ser importante que romem consciência de que a União Soviética quando chegassem à conclusão de que estariam em
decisão sobre se irão viver em guerra ou em paz só em muito pequena perigo de não conseguir acompanhar mais a corrida aos armamentos;
medida depende deles. Eles só têm voto no que diz respeito ao seu des- quando tivessem de reconhecer que estariam a perder terreno, devido a
tino na medida em que possam influenciar as decisões de ambos os uma desigualdade crescente dos potenciais econômicos e militares em
Estados hegemônicos e o equilíbrio de poderes entre eles. Para um relação aos Estados Unidos. Seria perfeitamente imaginável que os
povo que estava habituado à independência, é difícil não fechar os dirigentes da União Soviética, num caso destes, e talvez tomados de
olhos para o facto de que o seu Estado, depois de ter perdido duas pânico, se decidiriam por uma guerra preventiva, mesmo sabendo que
guerras, perdeu boa parte da sua autonomia. Talvez seja mais difícil esta decisão seria idêntica a um acto de autodestruição.
ainda tirar deste facto as conseqüências práticas que se impõem. Entre Como é natural, o inverso também é válido. Os grupos dirigentes
estas conseqüências está o facro de, para os alemães federais, ser quase dos Estados Unidos, numa situação de pânico, por exemplo, devido à
impossível realizar uma política de paz por conta própria. Façam eles o descoberta inesperada de armas soviéticas até então mantidas secretas,
que fizerem, a questão decisiva é a do significado que isso possa ter também poderiam tomar a decisão de antecipar o ataque esperado da
para o equilíbrio de poderes entre as duas potências hegemônicas. Se a parte dos Soviéticos.
República Federal se distanciar do seu aliado americano, por exemplo, Estas considerações, a descrição antecipadora de futuros possíveis,
através de uma tentativa de neutralismo, tal significaria, automatica- não são jogos ociosos da imaginação. Se atentarmos em situações
mente, um enfraquecimento dos Estados Unidos da América e, em deste tipo, estaremos mais bem colocados para ponderar sobre o que
conseqüência disso, um fortalecimento da União Soviética. se pode e o que se não pode fazer. É habitual, em face de tais perigos,
Certamente, não caberá a toda a gente ver estes problemas políti- como o da decisão, devido à sensação de se estar a ser encostado à pa-
cos como problemas de equilíbrio de poderes. Porém, é esta a verda- rede pela outra parte, de uma guerra preventiva suicidaria chamar-se
deira estrutura das relações entre os Estados; só nos aproximamos do a atenção para a necessidade do equilíbrio militar entre os dois
núcleo da questão se tivermos uma compreensão da instabilidade do Estados. O esforço contínuo no sentido de manter a paridade do ar-
equilíbrio do poder entre os Estados. mento mediante negociações entre os representantes de ambas as
Na corrida aos armamentos, o problema é sempre o do equilíbrio. potências militares mais poderosas é certamente imprescindível, mas
Ambas as potências hegemônicas receiam constantemente ficar atrás dele decorre, também, que seja inevitável o receio do desequilíbrio.
da potência adversária no que respeita às alianças ou aos sistemas de Quando os representantes de ambas as potências não conseguem rea-
armas. Há pouco tempo ainda, os Soviéticos tinham a iniciativa na lizar progressos nos seus esforços, talvez devessem soar de todos os
corrida aos armamentos. Actualmente, têm-na os Americanos. lados, mais alto e com mais veemência, as exigências dos outros paí-
Todavia, a tentativa do governo americano de, com o desenvolvimento ses no sentido de as duas grandes potências recorrerem à ajuda de
de novos sistemas de armas, obrigar os Soviéticos, economicamente conselheiros e de árbitros neutrais. Com efeito, não estou certo de
mais fracos, a acompanhá-los — logo, a fazerem despesas com arma- que se possa realmente esperar que sejam os políticos dirigentes dos
mentos que dificilmente poderão suportar — não deixa de ser peri- dois Estados hegemônicos a decidir, sozinhos e sem a ajuda de conse-
gosa. Com isso, os Americanos obteriam, temporariamente, a posição lheiros menos directamente envolvidos, sobre o destino da humani-
de potência hegemônica sem igual, portanto, de potência militar mais dade.
20

Estou absolutamente certo de que o problema da escalada arma-


mentista não se resolve restringindo as negociações a acordos sobre os
armamentos.
O receio de uma possível supremacia militar do adversário é, hoje
em dia, em larga medida reforçado pelas manifestações de uma profunda
hostilidade emocional por parte dos representantes de ambos os Estados.
Esta hostilidade, como todos sabeis, não tem as suas raízes somente na
ameaça militar recíproca; tem-nas, também, no facto de as duas maiores
potências militares do mundo representarem credos sociais diferentes e,
de facto, opostos. De um lado, estão os representantes de um sistema
social comunista, inspirados pela crença no valor insuperável deste sis-
tema para toda a humanidade. Do outro lado, encontram-se os represen-
tantes de uma ordem social capitalista. Estes são igualmente inspirados
pela idéia de que o seu sistema econômico, a instituição de uma concor-
rência empresarial relativamente livre, é a melhor organização, é a orga-
nização ideal, e de que só ela poderá assegurar o bem-estar crescente e o
progresso da humanidade. Esre antagonismo entre instituições e ideais
sociais é depois ainda reforçado pelo facto de, com a Revolução Russa, se
ter instalado uma ditadura de partido que se perpetua, ao passo que a
instituição econômica da concorrência empresarial mais ou menos livre,
na maioria dos Estados mais desenvolvidos e, principalmente, nos pf°~
prios Estados Unidos da América, se associou à instituição política "°
sufrágio individual e secreto e à concorrência relativamente livre e flao
violenta de pelo menos dois partidos, portanto, a uma emulação aos
partidos com vista a ganharem os votos dos cidadãos e, por seu interr^6"
diof o acesso aos postos de governo.
108 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 109

No conflito das duas grandes potências agem permanentemente tico, a utilização da força física, aparece como a única via para a resolu-
um sobre o outro dois impulsos, dois receios elementares, estreita- ção dos conflitos entre trabalhadores e empresários. O sistema confes-
mente relacionados, mas que podem ser claramente destrinçados na sional comunista apresenta a queda do capitalismo como se se tratasse
prática e na teoria. Primeiramente, temos a preocupação dos povos de uma necessidade imanente ao desenvolvimento da humanidade.
americano e soviético, e dos povos seus aliados, pela respectiva segu- Esta é a razão pela qual, nos países capitalistas, ao receio da destruição
rança física — o receio ancestral que um grupo humano sente de ser física pelo poder militar comunista se alia o receio da destruição das
destruído por outro. Este temor é uma condição até agora inalterável formas tradicionais de vida e de poder, e o da sua substituição por ins-
da vida dos homens, uma conditio humana. Se a União Soviétida e os tituições de modelo soviético. As camadas dirigentes da aliança de
seus aliados obtivessem militarmente a supremacia, estariam em situa- Estados encabeçada pelos Estados Unidos sentem-se particularmente
ção de matar milhões de cidadãos dos Estados Unidos e dos países seus ameaçados por este perigo. Uma vitória militar da aliança de Estados
aliados na Europa ocidental e na Ásia; poderiam pôr estes países de comunistas — partindo do princípio de que ela seria possível apenas
joelhos. O mesmo se passaria se o equilíbrio dos armamentos se modi- com a utilização de armas convencionais, e sem uma contaminação
ficasse em favor dos Americanos. Então, os Estados Unidos e os seus motivada pela utilização de armas nucleares — acarretaria consigo
aliados poderiam levar a destruição e a morte aos povos da União uma completa degradação social dos grupos humanos anteriormente
Soviética e aos seus aliados. dirigentes e, em muitos casos, o seu encarceramento ou a sua deporta-
Mas isto não é tudo. Ao receio da ameaça física, alia-se, em ambos ção para campos de concentração distantes.
os lados, um outro: o receio de serem ameaçadas as próprias institui- Os diferentes sistemas confessionais das sociedades capitalistas
ções sociais e o da perda do sentido e do valor da vida, em conseqüên- apresentam contornos menos nítidos do que os das sociedades comu-
cia da sua destruição. Enquanto força motriz das hostilidades, da per- nistas, que se acham expostos numa série de livros autorizados, dos
manente difamação mútua, não se deverá atribuir a este receio um quais são dados a ler excertos aos indivíduos já na escofa, e que contri-
significado menor do que ao temor do extermínio e da destruição buem, em conformidade com a forma ditatorial de governação, para
física. uma uniformização relativamente elevada das formas individuais do
Graças a um poder bélico superior, os Soviéticos poderiam impor saber e do pensamento. Todavia, apesar de nas sociedades capitalistas
aos Americanos e aos seus aliados as suas instituições políticas e sociais. faltarem livros que desempenhem um papel fulcral semelhante,
Na base de um poder militar superior, poderiam instituir uma dita- enquanto representantes de um sistema social confessional, como as
dura do Partido Comunista nos EUA e, em cada um dos Estados seus obras de Marx, Engels e Lenine o fazem na União Soviética, não falta,
aliados, poderiam transformar todas as empresas privadas em empresas no entanto, um consenso ideológico bastante alargado que não se
estatais — numa palavra, poderiam abolir as formas de vida e de poder esgota, certamente, numa recusa do sistema confessional característico
existentes e colocar, em seu lugar, outras, segundo o seu próprio dos países comunistas, mas que encontra nessa recusa a sua expressão
modelo. talvez mais concisa e generalizada. Em ligação com estas expressões
Os livros autorizados do sistema confessional comunista, muito colectívas de rejeição do sistema confessional comunista, que se esten-
particularmente também as obras de Karl Marx, imprescindíveis para dem, com uma grande riqueza de cambiantes por todo um espectro de
a legitimação da ditadura comunista do partido, contêm numerosas ideais não comunistas, encontramos também contrapartidas da estig-
expressões de desprezo e de ódio dirigidas contra todos os que se recu- matização e da difamação do capitalismo, para as quais Marx criou o
sam a partilhar a palavra de ordem de uma luta de classes implacável modelo quase insuperável e que, na União Soviética, foram transferi-
ou a crença na necessidade de uma revolução sangrenta e de uma dita- das, inesperadamente, do plano da política interna para o da política
dura como sua conseqüência. No sentido da tradição que remonta a externa. Inseridas nos diferentes sistemas confessionais dos países capi-
Marx e a Lenine, uma revolução, portanto, de um ponto de vista prá- talistas, encontram-se numerosas contrapartidas da forma de argumen-
110 CONDIÇÃO HUMANA

cação introduzida por Marx, que estigmatiza o adversário, pura e sim-


plesmente, como digno de destruição, como se fosse um mal absoluto.
Assim, o receio que existe no lado americano também ocorre no
lado soviético. Também deste lado não se trata só do receio da des-
truição física, mas, ao mesmo tempo, do da destruição social. Uma
supremacia militar irresistível dos Estados Unidos e dos seus aliados
ameaça, para além da existência física dos povos do bloco de Leste,
igualmente as suas formas actuais de vida e de poder. E o perigo para
as camadas dirigentes é também, neste caso, particularmente grande.
Seriam, sobretudo, os membros dos partidos comunistas, que desem-
penham nestes países um papel determinante, quem correria o risco 21
de perder as suas posições privilegiadas após uma derrota militar.
Grupos inteiros seriam, talvez, condenados pelos tribunais de um Quando apelamos a uma reflexão sobre possíveis estratégias de
novo regime — como, no caso de uma vitória comunista, aconteceria desanuviamento, é útil conceber, com mais clareza do que acontece
com os grupos dirigentes dos países capitalistas — a uma vida nas habitualmente, estas duas raízes da ameaça mútua e do receio de
prisões ou em campos de concentração. Também, neste caso, o perigo ambos os lados um em relação do outro, o seu aspecto social e físico.
da guerra não significa para muitos homens apenas uma pura e sim- Temos, por vezes, a sensação de que, freqüentemente, a alguns homens
ples ameaça à sua vida, mas, ainda, uma ameaça à sua existência parece ser muito simples e evidente o que se poderia fazer para libertar
social, representando, assim um grave perigo para tudo o que, aos os grupos dirigentes de ambas as superpotências, intrincadas uma na
seus olhos, dá sentido e valor à vida. outra, do corpo-a-corpo congelado em que se encontram e, deste
modo, também, da compulsão fatal da escalada armamentista. A mui-
tos parece ser suficiente mostrar ao mundo inteiro que eles próprios
são pessoas de boa vontade e que, consequentemente, são pela paz.
Só isso já seria um contributo significativo para evitar o perigo da
guerra. Muitos homens parecem pôr, hoje, as suas esperanças nos acor-
dos das duas potências militares sobre a restrição dos armamentos.
Tais acordos são, sem dúvida, de grande utilidade. Porém, é precisa-
mente quando estamos conscientes da dupla raiz da ameaça bilateral
que devemos colocar a questão de se os acordos sobre armamentos
militares, só por si, podem ser alguma vez suficientes, se eles são
sequer possíveis, enquanto a outra raiz da profunda hostilidade recí-
proca das duas potências hegemônicas não for igualmente tomada em
consideração.
Com isto, quero dizer o seguinte: por muito úteis e indispensáveis
que sejam os acordos sobre restrições dos armamentos, eles só têm uma
probabilidade muito pequena de gerarem, a longo prazo, uma para-
gem na corrida aos armamentos, pois a continuação desta, sob a forma
de uma escalada que se incrementa a si própria, será sempre de novo
112 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 113
alimentada pelo receio mútuo, pela desconfiança de ambos os lados e, imaginar que os Estados com regimes parlamentares sejam capazes de
sobretudo, pela inimizade implacável de ambas as camadas dirigentes, fazer um acordo duradouro sobre a corrida aos armamentos enquanto,
que encontra a sua expressão na contínua difamação ideológica de simultaneamente, os seus parceiros de negociações propagam a crença
ambas as partes, e para a qual, além disso, há, como se disse, boas na ocorrência inevitável de uma revolução sangrenta nestes Estados.
razões. Creio que a probabilidade de parar o processo de corrida aos Entretanto, é certo que a idéia de que os Estados capitalistas desapare-
armamentos é pequena enquanto não nos esforçarmos, simultanea- cerão por eles mesmos, com a ajuda de uma revolução, ainda durante a
mente, por um desarmamento ideológico. Esta é, porém, uma tarefa vida dos crentes, perdeu muito da sua força persuasiva. Mas os moi-
que exige, em larga medida, uma estratégia bem diversa do procedi- nhos da propaganda continuam a girar a toda a velocidade com os mes-
mento que se encontra no centro dos acordos sobre armamentos. Sem mos cabeçalhos. E difícil ter esperanças na possibilidade de uma coexis-
dúvida que as negociações entre especialistas desempenham um papel tência relativamente pacífica com outros grupos de homens a quem, ao
fundamental nos esforços para o desarmamento ideológico entre ambos mesmo tempo, se ameaça permanentemente com o declínio e que se
os grupos de povos que se ameaçam reciprocamente. Porém, dentro consideram, do ponto de vista ideológico, como desprovidos de valor.
dos povos ameaçados, há também outros círculos que podem e devem O mesmo é válido para o outro lado. Enquanto soviéticos e comu-
participar nesta tarefa. nistas, os dirigentes da União Soviética têm mostrado, com freqüência,
E bastante irrealista ter esperanças de que ambos os lados estejam uma susceptibilidade muito especial em face de medidas ou de afirma-
em condições de parar, efectivamente e a longo prazo, a dinâmica auto- ções que parecem recusar-lhes o reconhecimento como grande potência
-sustentada da corrida aos armamentos, caso eles continuem a manifes- de pleno direito entre os Estados mais desenvolvidos da Terra. Como
tar, nos seus discursos de propaganda, a implacável hostilidade recí- resposta à tradicional ofensiva ideológica dos países comunistas, tem
proca que se exprime, sobretudo, na crença comum de que a outra vindo a reforçar-se, ultimamente, a ofensiva ideológica dos países capi-
parte, .mais cedo ou mais tarde, terá de desaparecer da face da Terra. talistas, particularmente dos Estados Unidos. Fala-se do mundo civili-
Se observarmos mais rigorosamente o desenvolvimento desta zado do Ocidente, visando as ditaduras de partido dos países comunis-
guerra fria, verificaremos que a força e o impacte dos insultos recípro- tas, que surgem aos olhos desse Ocidente como a expressão da não
cos estão sujeitos a oscilações. Durante algum tempo, os comunistas liberdade e da não igualdade institucionalizadas. Tal como os homens
estiveram por toda a parte na ofensiva em matéria de injúrias contra os se deixam muitas vezes enganar nos países comunistas pela mágica
capitalistas. Em todas as crises dos países capitalistas, que de resto per- expectativa de que o capitalismo desaparecerá por si próprio, por obra
tencem à sua especificidade estrutural normal, eles viam a crise final. e graça da tão ansiada revolução, também há quem se entregue espe-
Todas as gerações comunistas esperavam sempre de novo que a profecia rançosamente, segundo parece, em muitos círculos do Ocidente, à
marxista do declínio do capitalismo se consumasse durante o tempo da expectativa mágica de que o regime comunista, mais cedo ou mais
sua vida. Em cada esquina era vaticinada triunfalmente a revolução. tarde, desaparecerá na União Soviética e nos Estados seus aliados, seja
Em certa medida, Marx tinha conseguido esterilizar teoricamente o devido à inércia inibitiva da sua burocracia, seja por eles não consegui-
processo de uma revolução. Por isso, poderia facilmente esquecer-se rem acompanhar o desenvolvimento dos Estados de regime parlamen-
que as revoluções são acontecimentos sociais exactamente tão violen- tar. Também aqui se multiplicam as expressões de desprezo ideológico
tos, sangrentos e homicidas como as guerras. Anteriormente, falava-se, pelo lado oposto.
com freqüência, de uma guerra justa ou injusta; pode ser que, aos É esta situação que torna necessário um desarmamento ideológico,
olhos de muitos comunistas, uma revolução apareça como um acto de mas não o entendo como um abandono dos objecrivos e das convicções
violência justo, e uma guerra como um acto de violência injusto. Em sociais próprios. Não há nenhuma razão para que os comunistas não
todo o caso, isto é bem um exemplo da dificuldade em promover o possam conservar a sua atitude valorativa e os capitalistas a sua.
desarmamento sem recorrer a um desarmamento ideológico. E difícil Também não recomendo o neutralismo, tudo isso está longe de mim.
114 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 115

O que eu recomendo é uma política ampla e geral de moderação — ciso dar-lhe o golpe de misericórdia. Ambos os lados subestimam a
uma moderação substancial da hostilidade face a grupos humanos ou a força e a vontade de resistência do lado oposto. Mas que acontecerá se a
indivíduos que não partilham a convicção de outros. Em face do perigo desejada e magicamente esperada auto-execução do adversário não
de uma guerra atômica, polêmicas apaixonadas e intolerantes entre tiver lugar num espaço de tempo previsível? A probabilidade de que
homens de diferentes crenças partidárias são perigosas. Penso, por- os sentimentos de mútua inimizade que foram acumulados, que, além
tanto, que será necessário falar mais e mais claramente sobre aquilo disso, são constantemente reforçados em ambos os lados por um sis-
que diz respeito a todos nós, pois o nosso fervor e a nossa própria pai- tema cerrado de argumentação, sejam descarregados involuntariamente
xão no ódio ou no desprezo pelo outro lado incrementam a passíonaü- em actos bélicos e abram assim o ciclo de violências é, pois, muito
dade do conflito, que ainda hoje anima ambos os governos, os governos grande. Não é estranho que, apesar de se estar consciente do perigo que
principais responsáveis, em última instância, pela guerra e pela paz. as grosseiras armas físicas representam, não se esteja consciente do
O perigo de uma guerra nuclear é demasiado grande e as conse- perigo que representam as armas do pensamento, da maneira de pensar,
qüências de uma tal guerra, para os povos da Terra que viessem a ser que despertam esperanças falsas e que empurram para a guerra por meio
afectados por ela, são demasiado terríveis para que, na nossa época, nos do atiçar de inimizades mútuas? Como se poderá tomar providências
possamos continuar a dar ao luxo de uma hostilidade implacável e quando só se negoceia e reflecte sobre a redução de armamentos e não,
inconciliável, de uma incessante difamação e imprecação mútuas, simultaneamente, sobre o que os homens que decretam o fabrico des-
numa palavra: ao luxo da intolerância ideológica. Como disse, isto tas armas e eventualmente a sua utilização pensam uns dos outros?
nada tem a ver com a rejeição das convicções próprias, refere-se apenas Falei anteriormente na anulação da desconfiança. Isto é imprescindível,
ao tom de voz com que as defendemos. Mais do que isso: exige o reco- mas trata-se de um processo difícil e longo. Não exige apenas uma
nhecimento, no campo dos países de orientação capitalista, de que o maior moderação dos interlocutores envolvidos na guerra fria — na
regime-comunista dos países do bloco de Leste é demasiado forte e guerra de prevenção — de ambas as grandes potências, exige, além
poderoso para que possa ser suprimido de outra maneira que não seja disso, algo muito mais difícil: a renúncia a determinados axiomas peri-
por uma vitória sem ambigüidades em conseqüência de uma guerra gosos da concepção de mundo de ambos os partidos; assim, por exem-
nuclear. Exige, por outro lado, o reconhecimento, no campo dos países plo, a renúncia à esperança de que o lado adversário, a par da sua forma
de orientação comunista, de que os países governados de um modo de regime e de economia, desaparecerá brevemente da face da Terra e
capitalista são demasiado fortes e poderosos e de que, além disso, a ori- que será substituído pela forma oposta de regime e de economia.
entação parlamentar dos homens e a economia de mercado estão ali Seria bom, e também muito útil para minimizar o perigo de
demasiado enraizadas para que possam ser eliminadas de outro modo guerra, se os Americanos e os seus aliados reduzissem a propaganda
que não seja por meio da violência nua e crua vinda do exterior, por- que apresenta o comunismo como algo totalmente diabólico. Talvez
tanto, por meio de uma vitória comunista numa guerra nuclear. Em ainda não se esteja neste bloco muito consciente de que os Estados plu-
ambos os casos, é mais do que duvidosa a possibilidade de uma vitória ripartidários terão de viver, num futuro previsível, como vizinhos dos
numa guerra deste gênero, e que tal guerra não tenha, em última aná- países do bloco de Estados governados de um modo comunista e dita-
lise, por conseqüência o povoamento das regiões contaminadas por torial, a não acontecer uma guerra que modifique todo o mapa da
uma nova população e, assim, uma transformação completa do mapa Terra. A violência não distingue entre as suas vítimas. Não se pode
da Terra. abominar e estigmatizar o apelo à violência da revolução no interior
Os dirigentes de ambos os campos entregam-se certamente à espe- dos Estados e, ao mesmo tempo, preparar e louvar o emprego da força
rança de que o regime adversário se irá desmoronar por si próprio den- nas relações entre os Estados.
tro de pouco tempo, devido às suas contradições internas ou à sua E, por outro lado, seria bom que os dirigentes do bloco soviético
incapacidade burocrática, de tal modo que, no fim, talvez só seja pre- pudessem de igual modo amenizar gradualmente a sua propaganda
116 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 117

revolucionária. Para o bloco soviético também é válido o facto de que estivesse a obstruir-lhe o caminho. A isso acrescenta-se, naturalmente,
os homens que o constituem terão de viver num futuro previsível jun- a diferença das suas instituições e ideais sociais, que ambas tentam
tamente com os Estados governados de um modo parlamentar e provi- difundir por toda humanidade. Não é devido a reivindicações territo-
dos, em medida variável, de uma economia de mercado livre. Não se riais inconcílaveis, mas, sim, enquanto rivais na luta pela hegemonia
pode esperar que uma vida pacífica conjunta seja possível, que o perigo entre os Estados do mundo e enquanto representantes de sistemas sociais
de guerra diminua, enquanto no bloco soviético as crianças tiverem de opostos, que elas se ameaçam reciprocamente, que os grupos dirigentes
aprender na escola e, mais ainda, os estudantes, nas universidades que de ambas as grandes potências se confrontam com a maior das descon-
os países do bloco de Estados capitalistas e parlamentares se irão trans- fianças. Cada um deles crê que o futuro lhe pertence. Os que se vêem
formar, mais cedo ou mais tarde, por meio de uma revolução san- como libertadores da opressão de uma classe exploradora são, para o
grenta, em ditaduras comunistas do partido do proletariado, em con- outro lado, opressores ditatoriais do povo. Este intrincado de atitudes e
formidade com o modelo da União Soviética. Como jã se disse, a sentimentos fundamentalmente hostis impregna todas as negociações e
violência não distingue entre as suas vítimas. Não se pode esperar uma dificulta todos os esforços com vista a alcançar compromissos.
diminuição do perigo de virem a ser cometidos actos de violência
bélica nas relações entre Estados e, ao mesmo tempo, profetizar e pro-
pagar, como palavra de ordem altamente louvável, uma subversão vio-
lenta, uma revolução no interior de outros Estados.
A diminuição da desconfiança é, certamente, uma tarefa de alguma
urgência, mas não devemos iludir-nos: trata-se de uma tarefa difícil.
As duas grandes potências em luta corpo a corpo apenas poderão tentar
diminuir, durante um espaço de tempo prolongado e passo a passo, a
inimizade entre elas e ganhar, assim, um pouco mais de confiança uma
na outra.
Talve2 este processo possa ser favorecido pelo facto de elas não esta-
rem a ser instigadas uma contra a outra e a fazer guerra por um daque-
les conflitos de interesses que tornam impossível a coexistência
enquanto povos autônomos. Os povos do bloco soviético, para pode-
rem existir com relativa autonomia, não precisam da terra onde vivem
os Americanos, e os estes, enquanto povo, não precisam das regiões da
União Soviética. Se o conflito de interesses fosse deste tipo, seria então
significativamente mais difícil desviar a humanidade de uma guerra.
Porém, os conflitos de interesses de ambas as grandes potências não
assentam em reivindicações de territórios; eles baseiam-se, principal-
mente, no facto de elas se ameaçarem reciprocamente na sua segurança
e, ao mesmo tempo, no de se terem tornado involuntariamente rivais
na luta pela posição cimeira na hierarquia de Estados, pela posição de
potência mais poderosa da humanidade. Hoje, cada uma das duas
grandes potências, a União Soviética ou os Estados Unidos, seria de
facto, eventualmente, a nação mais poderosa da Terra, caso a outra não
22

Estes sentimentos de hostilidade são, certamente, partilhados por


largas camadas de ambos os grupos populacionais. Pode ser prejudicial
para a existência social das pessoas, talvez até perigoso para a sua exis-
tência física, se for posta em dúvida a sua lealdade relativamente às
crenças sociais doutrinárias sancionadas oficialmente na sua sociedade.
Com uma certa margem de tolerância nas sociedades governadas de
modo parlamentar, e quase sem ela nas governadas de modo ditatorial,
é ainda hoje válido o velho princípio: Cuius regia, eius religto. Por outras
palavras: é aconselhável mostrar que se é partidário de uma das confis-
sões sociais aprovadas na sua própria sociedade estatal e evitar a sus-
peita de que se partilha uma crença social que é negada, proscrita e fre-
qüentemente também odiada na sua própria sociedade.
Se se observar de uma certa distância a situação de guerra fria, até
agora característica, apesar de algumas oscilações, da segunda metade do
século xx, verificar-se-ã, sem dificuldade, que a «guerra quente» — para
a qual nos guiam os dirigentes de ambos os blocos, na qualidade de pro-
pulsores e, simultânea e irremediavelmente, de propulsionados — tem,
sob muitos aspectos, o caracter de uma guerra religiosa. Ainda não foi
há muito tempo que grupos de protestantes e de católicos se enfrenta-
ram em muitas regiões da Europa numa inimizade inconciliável,
lutando uns contra os outros pela hegemonia, em várias guerras de vida
ou de morte. Relações em que os homens se odeiam e matam devido às
suas diferentes crenças religiosas prolongam-se em algumas partes da
Europa, por exemplo, na Irlanda do Norte, até aos fins do século xx.
Todavia, de uma maneira geral, o furor da inimizade inconciliável
cedeu a um clima mais ameno de relações entre protestantes e católicos.
120 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 121

Já no século XXI havia homens que se horrorizavam perante os realização desta tarefa, terá também um papel decisivo a disponibilk
excessos de intolerância e hostilidade que ocorriam entre diferentes dade dos representantes do Estado de ambos os lados para baixarem o
grupos humanos. Porém, arautos da moderação e da tolerância, como tom da voz, para moderarem os seus ataques verbais, numa palavra:
Montaigne e Erasmo, apesar de terem sido respeitados, encontraram, para a tolerância recíproca. Todavia, como já foi referido, os governa-
nessa qualidade, pouca audiência. O ódio e a ameaça entre os que per- dos podem colaborar, em larga medida, nesta tarefa, pois não esqueça-
maneceram fiéis à velha Igreja e os que aderiram às novas igrejas e sei- mos o seguinte: a guerra é, em última instância, uma instituição
tas eram demasiado grandes, as feridas demasiado recentes para que social, um acontecimento que, sendo sempre de novo reproduzido
pudesse ser posto fim às violências e ao sofrimento sem sentido que os pelos homens, não pode ser eliminado precisamente porque se trata de
partidários das diferentes religiões causavam uns aos outros. Muitos um hábito — tanto o hábito do ódio como o de decidir os conflitos
séculos passaram antes que a hostilidade implacável entre os diferentes entre Estados pela utilização do poder militar — profundamente arrai-
grupos religiosos se atenuasse, bem como a rendência irresistível para gado nas estruturas da personalidade.
atacar com palavras e actos os homens de outra fé, e para tentar con- Numa época em que o desenvolvimento da técnica dos armamen-
vertê-los, se possível, à verdadeira fé. Hoje, passados três ou quatro tos e, mais ainda, da técnica em geral, lançou nas mãos dos homens
séculos, aquilo que então parecia irrealista, aquilo que o jovem meios poderosos, com os quais eles podem destruir grande parte da
Thomas More descreveu como um ideal e que parecia ser realizável, humanidade e talvez, até, tornar inabitável a Terra, é necessário sub-
quanto muito, no país das utopias — a tolerância recíproca entre os meter a um exame todas as formas tradicionais de vida colectiva e, par-
dois grupos religiosos — tornou-se substancialmente maior. Não fal- ticularmente, os padrões de comportamento a todos os níveis. A am-
tam ressonâncias da velha condenação infamante entre protestantes e plitude das destruições que os homens podem provocar com os meios
católicos, porém a inimizade profundamente sentida dissipou-se quase técnicos dos nossos dias é bem maior do que alguma vez no passado.
por completo. Partidários de ambos os grupos religiosos são muitas Poderá mesmo dizer-se que a elevação a um nível até hoje nunca alcan-
vezes capazes de viver em paz e amizade. Parece ser quase incompreen- çado do perigo que os homens, nas suas unidades de sobrevivência,
sível porque é que eles se odiavam tanto em tempos passados, a ponto sobretudo nos Estados, representam uns para os outros significa a tran-
de se guerrearem entre si. sição para uma era nova. Encontramo-nos perante a necessidade de
Que a actual inimizade, tão profundamente arraigada como a ante- optar enrre a autodestruição generalizada da humanidade e a supressão
rior e que é certamente alimentada por palpáveis antagonismos de das atitudes que conduzem à guerra como meio de resolver os conflitos
interesses, em especial os dos grupos dirigentes, possa diminuir entre entre Estados. A segunda alternativa exige um novo passo civilizacio-
os Estados em que imperam doutrinas confessionais comunistas e capi- nal, exige, particularmente, uma moderação superior à que alguma vez
talistas poderá parecer, hoje, uma coisa utópica. O problema, porém, é foi mostrada na abordagem de conflitos sociais por parte de todos os
que o tempo urge. Já não dispomos de três a quatro séculos para espe- interessados.
rar que os ânimos arrefeçam. Hoje, uma das tarefas mais urgentes é a Um dos problemas que, neste contexto, temos de enfrentar é o de
de orientar os nossos esforços tanto com vista a uma diminuição do que o desenvolvimento das relações entre os homens e entre institui-
armamento como também a uma atenuação dos amargos sentimentos ções que os enquadram se processa, actualmente, muito mais devagar,
de hostilidade e do respectivo receio mútuo que conduzem dois grupos além de ser muito mais difícil, do que o desenvolvimento das relações
de Estados, com instituições e doutrinas sociais diferentes, a uma esca- entre os homens e a natureza não humana, portanto, do que o do saber
lada armamentista imparável e com ela, finalmente, a uma possível das ciências naturais e da técnica. As dificuldades que daí resultam são
destruição do adversário e de si próprio. Esta é a razão pela qual me ainda reforçadas por uma tradição do saber que, apesar do seu caracter
parece ser importante combinar os esforços por um desarmamento manifestamente discutível, se mantém com uma força inalterável e que
militar com o empenho por um desarmamento ideológico. Com vista à consiste no hábito tradicional da apresentar as relações dos homens
122 CONDIÇÃO HUMANA

com a natureza não humana e as dos homens entre si no seu desenvol-


vimento, por intermédio da fala e do pensamento, como processos
completamente independentes. É apenas um pequeno exemplo desta
tendência para classificar os novos acontecimentos arrumando-os em
gavetas diferentes o facto de os representantes dos maiores Estados
militares da actualidade crerem poder chegar a acordos efectivos sobre
a extensão dos seus arsenais e o tipo de armas aí armazenadas sem,
simultaneamente, refrearem a inimizade recíproca e examinarem com
o maior cuidado a natureza dos conflitos e das suas próprias atitudes,
que constantemente fornecem novos incitamentos à escalada arma-
mentista. 23
A encapotada mas persistente inimizade entre os dois principais
Estados militares dos nossos dias empurra permanentemente ambos os
lados para uma característica deturpação dos fãctos. São os governantes
quem costuma dar o tom, no lançamento destas deturpações; uma
parte significativa dos governados acredita piamente nelas, pois lison-
jeíam o seu ego.
Ao núcleo das profissões de fé sociais de ambos os lados pertence
uma imagem idealizada da sociedade que cada uma delas legítima e
uma imagem depreciativa da do adversário. Como em muitos outros
casos — antigamente, por exemplo, entre protestantes e católicos — a
diferença entre as instituições sociais e as doutrinas confessionais dos
Estados capitalistas e comunistas apresenta-se também, hoje, aos
homens nelas envolvidos, como um antagonismo entre o bem e o mal
absolutos. Parece mesmo tratar-se de um antagonismo insuperável,
que radica na própria existência da humanidade. Ele duraria eterna-
mente — é assím, pelo menos, que o mito se impõe à consciência de
muitos homens — a não ser que o próprio lado, portanto, o lado bom,
consiga a vitória sobre o mal absoluto, representado pelo outro lado.
O comunismo vitorioso, ou o capitalismo vitorioso, apresentam-se,
neste sentido, como o estádio final do desenvolvimento da humani-
dade, como o ideal tornado realidade. No ardor da batalha, cegamente
arrastados pela dinâmica desta situação de pré-guerra, muitos partidá-
rios de ambos os blocos são incapazes de pensar em seja o que for que
esteja para além da vitória final da sua própria crença social e da orga-
nização de toda a humanidade segundo o seu modelo, mesmo quando,
noutro compartimento mental, estão conscientes de que o enfraqueci-
124 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 125

mento de todos os participantes, depois de uma terceira guerra mun- livre. Seria, certamente justificável se se dissesse que os homens, nos
dial, seria, com toda a probabilidade, suficientemente grande para que Estados de regime parlamentar, podem levar, na generalidade, uma
o papel dirigente dos Estados Unidos e da União Soviética entre os vida individual mais livre, com todos os seus riscos, do que nos países
Estados da humanidade passasse definitivamente para outras mãos. de regime ditatorial. Porém, falar, simplesmente de uma sociedade
Tal como as coisas estão, parece que ambas as potências hegemôni- livre, em sentido absoluto, significa pura gabarolice. O que quero
cas, envolvidas no seu combate, só podem continuar a pensar, apesar dizer com isto é o seguinte: através da constante idealização da sua
da modificação das condições de luta, dentro dos parâmetros habituais. própria ordem social, que é a contrapartida da difamação da ordem
A dinâmica da configuração que ambas constituem é, de facto, tão social inimiga, os homens dão a impressão de que a ordem social
forte como isso. O comunismo vitorioso, o capitalismo vitorioso sur- vigente no seu lado seria um estádio último da humanidade, o ideal
gem como o estádio derradeiro da humanidade. Para além disso, nin- realizado.
guém pensa. Os governantes de ambos os lados sentem a necessidade Seria útil para o desanuviamento se se distinguisse, mais clara-
de preparar os seus cidadãos para uma possível guerra. Se esta vier, mente do que é habitual fazer-se, entre a imagem ideal de uma socie-
então, para ambos os lados, muito depende da moral dos soldados, da dade comunista e a sociedade real da União Soviética; entre a imagem
disposição dos membros do grupo a que cada um pertence para sacrifi- ideal de uma sociedade capitalista e parlamentar e a sociedade de facto
car a vida pela boa causa do seu lado. Isso obriga a um esforço prepara- existente nos Estados Unidos. Será então mais fácil compreender que
tório para consolidar profundamente na sensibilidade dos homens do nem o comunismo nem o capitalismo são um estádio derradeiro no
seu próprio partido a crença no bem absoluto da própria causa e no desenvolvimento das sociedades humanas. Ambos são fases de um
mal absoluto da do adversário. desenvolvimento que, com grande probabilidade, caso não sobrevenha
Pode aceitar-se que as camadas dirigentes de ambos os grupos de uma guerra, conduzirá para além das formas sociais actuaís, portanto,
Estados agem com toda a sinceridade. Elas próprias podem estar, até, para além do capitalismo e do comunismo no sentido actual destes ter-
profundamente impregnadas da crença no bem absoluto do seu pró- mos, em direcção a outras formas sociais. Assim, tal como hoje se nos
prio ideal social e, correlativamente, da crença no mal absoluto do do apresentam na realidade, as sociedades comunistas e capitalistas estão
adversário. Desta crença, de sinal contrário conforme o caso, parecem cheias de defeitos evidentes que carecem e são passíveis de ser corrigi-
partilhar os grupos dirigentes e talvez, também, largas camadas de dos. Não vale de todo a pena correr o risco de uma guerra em que o
ambos os blocos de Estados adversários. E ela é, manifestamente, um futuro da humanidade está em jogo só por causa do antagonismo entre
dos motivos ímpulsionadores decisivos da desconfiança inextinguível duas formas de sociedade, cada uma com os seus méritos e desvanta-
entre ambos os lados, desconfiança essa que desempenha um papel de gens próprias, mas que, em relação às necessidades dos homens que as
peso como o motor da corrida aos armamentos, tão difícil de parar. constituem, são ainda formas muito imperfeitas e transitórias da vida
A estratégia actual da argumentação em defesa do comunismo ou em sociedade.
do capitalismo é, de facto, como se pode ver, bastante estranha. Ela Uma questão inteiramente diferente é a de se, ao compararmos uma
seduz e desencamínha graças a uma mistura peculiar de ideal e de rea- sociedade comunista com uma sociedade capitalista reais, e com pleno
lidade. Assim, por exemplo, nem sempre se torna claro se, aos olhos conhecimento dos seus defeitos aqui e agora, preferimos uma destas
dos seus representantes, a ordem social soviética actual constitui, já, a sociedades à outra. Eu, pessoalmente, estou convicto de que o sistema
realização do ideal comunista, portanto, se é uma ordem social comu- social ocidental é de longe preferível ao oriental. Os meus talentos, fos-
nista, ou se se encontra apenas a caminho dela; e, neste último caso, sem eles o que fossem, teriam estiolado, quisesse o destino que eu
seria interessante saber se o caminho para a realização deste ideal é ficasse na Alemanha oriental, onde nasci. Todavia, a questão que todos
f
ainda muito longo. Com o sistema social capitalista e parlamentar os homens devem colocar, pertençam eles a que campo pertencerem, e
passa-se algo não muito diferente. Habituámo-nos a falar do mundo esta: valerá a pena, por causa de uma opção partidária, particularmente
126 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 127

de uma parcialidade emocional, racharmos as cabeças uns aos outros, Salientei já que nenhuma das duas formas de sociedade, cujos
lutando por dois sistemas sociais tão imperfeitos, mais exactamente: representantes lutam actualmente pela hegemonia, é perfeita. Em
suscitar e correr o risco de uma guerra nuclear devido aos ataques ambos os casos trata-se de fases do desenvolvimento da humanidade,
constantes e implacáveis contra o outro lado? Este perigo, em que que eventualmente avançará ou recuará. Pessoalmente, pode preferir-se
todos nos encontramos, não exigirá, só por si, uma política de tole- as formas de sociedade e de governo ocidentais às do bloco soviético,
rância? mas não é indispensável que a decisão pelas formas de vida do mundo
Refiro-me aqui, portanto, repiro-o mais uma vez, a uma causa para ocidental se associe a uma nota de hostilidade e de menosprezo em
a qual todos os homens que se interessam activamente por tais proble- relação às formas de vida do bloco oriental. O bem-estar da humani-
mas podem contribuir com a sua parte. O perigo de uma nova guerra dade torna forçoso, mesmo no caso de uma tal decisão, defender uma
de religião, de uma guerra entre partidários de confissões sociais anta- maior tolerância em relação ao outro lado, defender o direito dos países
gônicas, é grande. O problema que se nos coloca é o de como pôr fim à de governo comunista a poderem seguir o seu próprio caminho sem se
escalada não só dos armamentos mas também da hostilidade entre os sentirem ameaçados — com uma só restrição: esta atitude só pode lan-
grupos humanos que se encontram frente a frente - pois os armamen- çar raízes nos países ocidentais se assentar numa reciprocidade, se tam-
tos não crescem por si próprios. O que provoca a sua escalada é o bém os homens do bloco comunista se esforçarem por reduzir gradual-
medo, o receio, a inimizade expressa ou tácita entre os grupos huma- mente a sua ameaça aos países ocidentais, muito particularmente a que
nos. É aqui, pois, que temos de actuar. é representada pela propaganda revolucionária. Entre as teses da ideo-
Que aconteceria se se pudesse levar os dirigentes de ambos os gru- logia comunista, inclui-se a de que as dificuldades dos países soviéticos
pos de Estados a demonstrar, pela prática, que a forma de sociedade e, principalmente, a existência prolongada de uma ditadura de partido
por eles criada, enquanto projecto de homens para os homens, é não podem ser eliminadas devido à inimizade dos Estados capitalistas
melhor que a outra? E possível que o que hoje se possa dizer sobre isso e à ameaça que eles tepresentam para os Estados comunistas. Ora o que
seja utópico, seja um mero exercício intelectual. Que aconteceria se os é perigoso, em todos os grandes ciclos de violência, é precisamente o
dois grupos adversários fizessem um pacto em que renunciassem a facto de se tratar sempre de uma inimizade recíproca e de os sentimen-
resolver os seus conflitos pela força e, em vez disso, entrassem em com- tos e actos de hostilidade de ambos os lados se exacerbarem mutua-
petição um com o outro para apurar qual dos dois grupos de Estados mente. A violência do regime czarista encontrou o seu equivalente nas
estará, no decorrer dos próximos cinqüenta anos, em condições de violências da Revolução Russa; esta, por sua vez, teve a sua contrapar-
melhor providenciar no sentido do bem-estar, da liberdade e da igual- tida nas violências das tropas contra-revolucionárias, em parte, de paí-
dade dos homens que o constituem? Considero muito provável que, ses capitalistas.
durante um longo período de paz, em que estaremos porventura a Ora bem, esta engrenagem de inimizades recíprocas, de ameaças
ponto de entrar, os sistemas sociais de hoje se modificarão substancial- mútuas de dois grupos de Estados no sentido de se eliminarem um ao
mente. A ser assim, afigura-se-me muito provável que, por exemplo, outro pela violência militar, conduziu a humanidade a um dilema.
com base num maior bem-estar e numa maior cultura da população, a Não é esta a primeira vez que este dilema surge entre Estados, não e
ditadura dos partidos comunistas se modificaria muito significativa- esta a primeira escalada das hostilidades numa luta hegemônica, talvez
mente, no sentido de uma maior reciprocidade do controlo dos gover- antes seja a última. Muitos homens sentirão, por certo, actualmente, a
nantes e dos governados, e que, também nos Estados Unidos, a recipro- gravidade desta escalada. A ameaça de uma nova guerra anda na boca
cidade do controlo dos governantes e governados, ainda relativamente de toda a gente. Os jovens, particularmente, sofrem com a perspectiva
limitada devido às particularidades do sistema eleitoral, durante um de terem de viver durante toda a sua vida à sombra de uma guerra
longo período de paz, e na base de um bem-estar e educação crescentes nuclear. Não tenho a pretensão de dizer que conheço uma saída. Tudo
da população, se desenvolveria mais a favor desta última. o que se poderá fazer, de imediato, é explicar o nó duplo que liga uma
128 CONDIÇÃO HUMANA

à outra as duas grandes potências, a tenaz com que se prendem entre


si; o que se pode fazer é preparar instrumentos intelectuais que mos-
trem onde está a chave, com a ajuda da qual, gradualmente, com tena-
cidade e paciência, se poderia afrouxar o aperto dessa tenaz.
Esta chave não se encontra nas armas — por muito útil e desejável
que seja uma diminuição do número de armas, tal não elimina o
perigo. Ela reside, como se compreenderá, nos próprios homens que
utilizam as armas. Embora isto seja óbvio, nem sempre é, porém, dito
clara e distintamente. O perigo assenta, única e exclusivamente, na
atitude dos homens uns em relação aos outros. Se fosse possível dimi-
nuir a inimizade e a desconfiança entre os dois grupos de Estados e, 24
particularmente, entre as suas camadas dirigentes, o perigo também se
atenuaria. Só se poderá ver os problemas de que aqui falei de uma forma desfo-
No entanto, tal só teria sentido se ocorresse em simultâneo de cada e pouco nítida se os considerarmos numa perspectiva a curto prazo,
ambos os lados, o que seria, certamente, um processo lento, que exigi- inteiramente circunscrita à actuaüdade. Tentei mostrar um pouco do
ria um longo período de tempo. Teria de dizer-se no Ocidente: que se torna visível destes problemas, quando os articulamos num con-
«Deixemos os Soviéticos mostrarem aquilo de que são capazes. Eles texto de longo prazo. Permitam-me, para concluir, que volte mais uma
sempre têm afirmado que a sua ordem social é a melhor. Conflrmar-se-á vez aos problemas da República Federal. Espero que, também estes, se
isso, uma vez desaparecida a ameaça da guerra?» E, nos países de Leste, possam ver melhor se elevarmos o olhar para além das questões quoti-
deveria dizer-se: «Deixemos que os países capitalistas mostrem aquilo dianas e se, como disse, os abordarmos com uma certa moderação. Talvez
de que são capazes. Eles também têm afirmado constantemente que a se compreenda, então, melhor que é justamente na República Federal
sua ordem social é melhor do que a comunista. Manter-se-á essa afir- onde muito poderá ser feito para contrariar a selvajaria, a embriaguez
mação, durante um período de paz prolongado e de competição pací- hegemônica, que com freqüência se manifestam num ou noutro lado.
fica entre os diferentes sistemas de Estado?» Isto é o que eu entendo A situação actual da República Federal lembra-me muitas vezes
por desarmamento ideológico. Ele requer, de facto, um avanço civüiza- uma história que ouvi, uma vez, há já muito tempo, e que me ficou na
cional, urna maior moderação e tolerância por parte dos diferentes gru- memória apenas nos seus traços gerais. A história trata de um grupo
pos de Estados nas suas relações entre si. de homens que moravam num grande palácio. Durante uma guerra, o
Não digo que esta modificação de atitude e, particularmente, a palácio foi consumido pelas chamas. A partir daí, o grupo dos antigos
modificação simultânea das atitudes, de ambos os lados do Muro, seja locatários revê de passar a viver em tendas. Eles instalaram-se, sofrivel-
realizável. Limito-me a apresentar um diagnóstico. Digo, apenas, que mente, na sua cidade de tendas e sentiram-se, a princípio, satisfeitos,
o perigo de uma guerra nuclear não é inevitável, que as gerações vin- pois os mais velhos disseram-lhes que as tendas eram uma habitação
douras não estão incondicionalmente condenadas a viver sob o perigo provisória, havendo apenas que aguardar uma oportunidade para
constante de uma guerra devastadora. É certo que, para as camadas reconstruir o palácio destruído pela guerra. E assim continuaram a
dirigentes das grandes potências, detentoras de grandes arsenais de viver nas tendas. Os jovens tornaram-se adultos. Cresceu um nova
armas, é difícil recolher as garras. Mas não vejo outro caminho. geração, que perguntou aos mais velhos: «Porque é que temos de viver
A questão é, tão-só, a de saber se uma tal modificação do comporta- em tendas? Podemos construir aqui uma casa nova, em vez de viver-
mento, se uma moderação dos Estados nas relações uns com os outros, mos em tendas.» — «Não», disseram os mais velhos, «se construirmos,
é alcançável sem a experiência avassaladora de uma guerra. aqui, uma casa nova e modesta, perdemos a oportunidade de recons-
130 CONDIÇÃO HUMANA CONDIÇÃO HUMANA 131
truir o belo palácio antigo.» E assim se continuou a viver na cidade de Federai uma tradição de humanismo, de que já hoje existem indíçjos
tendas, geração atrás de geração. Comemoram, assim, o quadragésimo Isto porque a modificação civilizacional de atitudes, que atrás rçf er j
aniversário da fundação da cidade de tendas, depois o quinquagésimo, talvez já esteja realmente a ocorrer.
o sexagésimo, o septuagésimo quinto. Os mais novos continuavam a Então, também seria mais fácil alcançar aquilo a que, por vezçs se
perguntar: «Porque é que não podemos construir uma casa nova e chama a superação do passado. Já o disse: Hitler e a recordação de tO(jo
sólida, em vez desta cidade de tendas?» E os mais velhos diziam sem- o horror que este nome significa não desaparecerão da história alenta" £
pre: «Não. Se construirmos, aqui, uma casa nova, perdemos o direito de difícil, particularmente, para os jovens, abordar e superar este p ro _
reconstruir o velho palácio, a partir das ruínas do incêndio.» E assim blema enquanto a República Federal se assumir apenas como um provj-
continuaram a esperar, geração atrás de geração, pelo dia em que pode- sorium e não como um Estado alemão de pleno direito, com a sua cu ]_
riam reconstruir o velho palácio. tura e as suas tradições. E estranho que se imagine que com is$o se
Sinto, por vezes, que seria bom para o futuro da República Federal se renunciaria à possibilidade de uma reunificação com o outro Estado
nos tornássemos conscientes de que nos transformámos lentamente num alemão. Se a oportunidade surgir, se ambos os lados quiserem e pude-
Estado nacional com as suas tradições próprias, com uma identidade rem, não representará, decerto, um obstáculo a essa tal aproximação o
própria. Poderíamos, então, entregar-nos a toda uma longa série de tare- facto de a República Federal fazer aquilo que a RDA já fez há muito
fas, difíceis de realizar enquanto se viver na República Federal apenas tempo, ou seja: assumir-se como um Estado alemão com a sua própria
como num campo de tendas provisório. Ha tanta coisa para fazer... cultura, a sua própria tradição e, ao mesmo tempo, também, com a
Presentemente, a consciência de si da República Federal assenta velha tradição alemã comum. Talvez, então, também se entendesse
sobretudo, ao que parece, no fortalecimento da economia. Ela poderia melhor o significado que num Estado destes reveste a formação de
também, encontrar satisfação no facto de os Alemães terem conseguido uma cultura autônoma, o cultivo da criatividade individual e, como se
criar, peja primeira vez e a longo prazo, na República Federal, um sis- disse, do humanismo, ou seja, entre outras coisas, também o desenvol-
tema pluripartidário que funciona. Não se trata de um sistema ideal vimento de atitudes cordiais e solidárias face a outros grupos de
mas talvez veja este sistema com outros olhos, diferentemente da maioria homens, tanto no próprio como noutros países.
de vós, quem tenha vivido tanto como eu. Eu recordo ainda, perfeita- Embora os países europeus, entre eles a Alemanha ocidental, não se
mente, com que aversão conhecidos meus, que eram nacionalistas, fala- possam comparar em poder militar, quer individualmente quer em
vam do regime parlamentar da República de Weimar, com que ódio conjunto, com nenhuma das grandes potências actuais, não há razão
eles falavam daquela câmara de tagarelas. «Nós não podemos ter», alguma para que os habitantes de países pequenos não possam realizar
diziam eles, «nenhum parlamentarismo na Alemanha. Isso não é ale- algo de grande. A idéia, ainda hoje muito difundida, de que os Estados
mão, é algo que foi imposto pelo Ocidente, algo que não está na tradi- militares mais poderosos têm de estar também à cabeça da humani-
ção alemã.» Ainda me lembro muito bem disso. Realmente, não estava dade em aspectos não militares e, particularmente, em matéria de
nada na tradição alemã. Mas, agora, um dos grandes e novos méritos direitos humanos ou de criatividade artística, científica e técnica, e
deste novo Estado, da República Federai da Alemanha, é o ter ela um uma lenda angustiante. A própria lenda, assim como o ferrere de infe-
governo parlamentar que realmente funciona; agora, portanto, depois rioridade tão facilmente imposto aos membros de Estados menos
de uma guerra, depois da amarga experiência de uma guerra, foi possí- poderosos, pode contribuir significativamente para a paralisação ou ate
vel romper com determinados hábitos. Se, finalmente, deixássemos de mesmo para a estiolação da sua criatividade.
considerar esta República Federal como algo provisório, se a pudéssemos Este perigo é particularmente grande no caso dos muitos países
ver como ela é realmente - um novo Estado alemão que, como há razões europeus que já foram Estados hegemônicos e militares de primeira
para esperar, ainda viverá muitas décadas em paz e prosperidade —, grandeza. Não só a República Federal, mas quase todos os Estados
poderia, então, mais conscientemente, começar a edificar-se na República oeste-europeus vivem hoje à sombra do seu grande passado. Também
13 2 CONDIÇÃO HUMANA

eles precisam de construir uma casa nova. Todos eles têm, corno her-
deiros de uma grandeza desaparecida, de superar um passado que os
oprime com a sensação de, enquanto nação, terem descido na conside-
ração do mundo. O que eles têm de superar é muito diferente, segundo
os casos concretos. Ele coloca aos vivos de hoje, por exemplo, aos
Italianos ou aos Holandeses, uma tarefa diferente da que coloca aos
Espanhóis e aos Suecos. Os sucessores das seculares potências hegemô-
nicas da Europa, os Franceses e os Ingleses, encontram-se colocados
perante uma tarefa de superar o seu passado em muitos aspectos dife-
rente, embora não menos difícil, da dos alemães federais. Todavia, se se
observar a Europa de alguma distância, o caracter colectivo do destino
dos Europeus torna-se bem nítido. Vê-se, enrão, que a Segunda Guerra
Mundial trouxe uma modificação mais decisiva da situação das nações
européias do que as guerras anteriores. Não foi só um único país euro-
peu mas os países europeus no seu conjunto que perderam, em boa
parte, a sua posição como grupo dirigente da humanidade, que tinham
ocupado durante três ou quatro séculos.
Trata-se, como referi, de uma situação que não deixa de ser peri-
gosa. Podia recordar-vos o caso de Estados que, mesmo ao longo de
muitos séculos, não se refizeram totalmente de uma perda deste tipo e
que, devido a isso, prejudicaram seriamente a sua capacidade actual de
criatividade. Neste contexto, porém, temos de limitar-nos a aludir ao
problema, cingindo-nos a chamar a atenção para um dos traços
comuns do destino europeu.
Tenho a impressão de que, nesre domínio, a República Federal está
no bom caminho. Não precisamos de esquecer o passado, nem a tarefa
de o superar, quando dirigimos decisivamente os olhos para o futuro.
Se tal acontecer, cornar-se-ã mais claro o significado que tem o facto de,
na República Federal, se fortalecer, com o tempo, a consciência: aqui
terá nascido um novo Estado alemão, um Estado humano, cujos cida-
dãos são capazes de associar um sentimento de filiação comum ao da sua
pertença ao grupo dos Estados europeus. Se esta consciência se fortale-
cer, e, com ela, o sentimento da criatividade própria, não só no domínio
da economia como em todos os outros sectores da actividade humana,
então, parece-me, será também mais facilmente possível que as jovens
gerações da República Federal, ao serem abordadas no estrangeiro a res-
peito de Hitler, possam dizer com alguma serenidade: «Hitler? Sim,
com certeza, isso aconteceu. Mas, hoje, nós somos diferentes.»
Colecção
MEMÓRIA E SOCIEDADE

AAW
Estudos Portugueses
Homenagem a Luciana Stegagno Piccbio
Almeida, Pedro Tavares de
Eleições e Caciquismo
no Portugal Oitoceníista (1868-1890)
Bourdieu, Pierre
O Poder Simbólico
Cabral, João de Pina
Os Contextos da Antropologia
Chartier, Roger
A História Cultural
entre Práticas e Representações
Crespo, Jorge
A História do Corpo
Geertz, Clifford
Negara. O Estado Teatro
no Século XIX
Ginzburg, Cario
A Aíicro-História e Outros Ensaios
Godinho, Vitorino Magalhães
Mito e Mercadoria. Utopia
e Prática de Navegar
Oliveira, Antônio
Poder e Oposição Política em Portugal
no Período Filipino <1580-l640)
Revel, Jacques
A Invenção da Sociedade
El Norbert

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C o n d i ç ã o h u m a n a con
o b r e a e v o l u ç ã o da Burke, Pecer
por o c a s i ã o d o qu Antropologia Histórica
31ó/E42c Dunning, Eric e
Elias, Norbert
A Busca da Excitarão
Elias, Norbert
A Condição Humana
Shils, Edward
Centro e Periferia