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Herbert Spencer - A Justiça (https://filosofia.com.br/figuras/livros_inteiros/265.

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ÍNDICE
PREFACIO DO AUTOR
CAPÍTULO I. - Moral animal
II. - A Justiça infra-humana
III. - A Justiça humana
IV. - O Sentimento de Justiça
V. - A ideia de Justiça
VI. - A fórmula da Justiça
VII. - A autoridade da fórmula da Justiça
VIII. - Os corolários da fórmula da Justiça
IX. - O direito à integridade física
X. - O direito à liberdade de movimentos e de deslocação
XI. - Direitos ao uso dos agentes naturais
XII. - O direito de propriedade
XIII. - O direito à propriedade incorpórea
XIV. - O direito de dar e de legar
XV. - O direito de trocar e contratar livremente
XVI. - O direito à liberdade do trabalho
XVII. - O direito à liberdade de crenças e o direito à liberdade de cultos
CAPÍTULO XVIII. - O direito à liberdade da palavra e o direito à liberdade de publicação
XIX. - Exame retrospectivo e argumentação nova
XX. - Os direitos das mulheres
XXI. - Os direitos das crianças
XXII. - Os chamados direitos políticos
XXIII. - Da natureza do Estado
XXIV. - A constituição do Estado
XXV. - Os deveres do Estado
XXVI. - Os limites dos deveres do Estado
XXVII. - Os limites dos deveres do Estado (continuação)
XXVIII. - Os limites dos deveres do Estado (continuação)
XXIX. - Os limites dos deveres do Estado (fim)
APÊNDICE A - A concepção de Kant acerca do Direito
B - A questão da propriedade da terra
C - O Motivo Moral
D - A consciência nos animais

PREFACIO DO AUTOR

Alguns avisos, repetidos nestes últimos anos com intervalos mais breves e com mais
clareza, dizia eu no Prefacio das Bases da Moral Evolucionista (The Data of Ethics),
publicadas no mês de junho de 1879, demonstraram-me que eu poderia ficar privado das
minhas forças - supondo mesmo que a minha vida se prolongue - antes de ter acabado a
tarefa que a mim próprio me impus. E acrescentava que sendo «a última parte desta tarefa
- a filiação da Moral na doutrina da Evolução - aquela para a qual todas as partes
precedentes não são mais, em meu entender, do que uma preparação, era-me penível
prever que não chegaria talvez a pô-la em prática. Eis o motivo por que me decidi a escrever
imediatamente e por antecipação a obra sobre a Moral evolucionista.
Uma doença, cujos caráteres se aproximavam da catástrofe prevista, abateu-se
gradualmente sobre mim. Durante anos a minha saúde e a minha potência para o trabalho
declinaram: este declínio chegou, em 1886, a um esmorecimento completo, parando todo o
progresso na elaboração da Filosofia Sintética até aos primeiros dias de 1890. A partir desta
época pude novamente assegurar-me cada dia duma parte de trabalho sério. Breve surgiu a
pergunta: Por onde começar? Sem hesitar decidi-me a completar primeiro os meus
Princípios de Moral, pois que as grandes divisões dos Princípios de Sociologia estavam já
terminadas.
Mas uma nova questão se apresentava: «A que parte dos Principias de Moral dar a
primazia?» Como o resto da minha energia não me sustentará provavelmente até ao final da
minha tarefa, conclui que seria acertado começar pela parte mais importante da minha obra
inacabada. Deixando provisoriamente repousar a segunda parte - «As Induções da Moral» -
e a terceira - «A Moral da Vida Individual», consagrei-me a quarta: «A Moral e a vida Social: A
Justiça», que neste momento tenho a felicidade de acabar.
Se a continuação das melhoras da minha saúde persistirem, espero poder fazer aparecer,
lá para o fim do ano, a segunda e a terceira parte, que formarão o complemento do primeiro
volume; se ainda estiver em estado de prosseguir no meu trabalho, abordarei a quinta parte:
«A Moral da Vida Social: A Beneficência Negativa», e a sexta parte: - «A Moral da Vida
Social: A Beneficência Positiva».
A presente obra abrange um âmbito que coincide, em grande parte, com o da minha
Estática Social, publicada em 1850. Entretanto, estes dois livros diferem pela extensão, pela
forma e, até certo ponto, pelas ideias. Diferem principalmente nisto: tudo o que, no meu
primeiro livro, era interpretado como sendo de ordem sobrenatural, desapareceu do
segundo, em que tudo interpretei sem sair da ordem natural, isto é, evolucionaria. Mais, a
Estática Social não ia além da indicação da origem biológica da Moral, ao passo que a
exponho agora com precisão: a elaboração das consequências desta origem imprime o seu
caráter primacial ao meu presente livro. Também fiz assentar cada vez mais a dedução
sobre a indução. Para cada caso particular, provei que a corrente do progresso humano
tem, um a um, confirmado todos os corolários do primeiro princípio que enunciei.
Creio dever acrescentar que os cinco primeiros capítulos deste livro já foram publicados na
Nine-teenth Century (n.05 de março e abril de 1890).
Londres, junho de 1891.
H.S.

A JUSTIÇA

CAPÍTULO I

Moral animal

§ 1. - A epígrafe deste capítulo surpreenderá, talvez, aqueles dos leitores que não conheçam
a primeira parte da minha obra: «As bases da moral evolucionista,» mas os que, tendo-a
lido, se lembrarem da matéria expendida nos capítulos intitulados «a conduta em geral» e a
«evolução da conduta» avaliarão imediatamente o que eu entendo pela expressão - Moral
animal.
(Eis alguns extratos das passagens a que o autor se refere: ... A conduta, na acepção lata
do termo, deve ser considerada como abrangendo todas as adaptações dos atos aos fins,
desde os mais simples aos mais complexos, qualquer que seja a especial natureza destes
e quer a consideremos em conjunto, quer em separado. (As Bases da moral evolucionista,
pag. 3).... A definição de Conduta a que somos levados é esta: ou o conjunto de vários atos
concernentes a um mesmo fim, ou a adaptação de diversos atos a diversos e respectivos
fins... (id. Pag. 3). ... Do exposto se infere, que a Moral tem por embrião a forma que reveste
a conduta universal nas últimas fases da sua evolução (id. Pag. 15)... Abstraindo agora de
outros dos seus fins, podemos desde já concluir que é boa a conduta que damos da
conservação dos indivíduos e má a conduta que tende para a destruição deles (id. Pag. 20)).
ficou demonstrado nesses capítulos que a Conduta de que a ciência da Moral trata, não
deve ser separada da ciência da Conduta em geral, e que a mais perfeita conduta é aquela
que assegure mais duradoura, mais ampla e mais complexa vida.
Esclarecido ficou também que cada espécie de animais tem as suas regras privativas de
conduta, regras duma bondade relativa e que atuam nessa espécie da mesma maneira que
atuam na espécie humana as leis de conduta moral que lograram unânime assentimento.
Há muita gente que pensa que a Moral tem por objeto o estudo da Conduta sob o ponto de
vista da aprovação ou de censura que os atos determinam. Não é, porém, assim: o seu
primordial objetivo é o da conduta, qualquer que ela seja, e embora produza bons ou maus
efeitos para quem a exerce, ou para outrem, ou para quem a exerce e para outrem
conjuntamente.
Com efeito, as próprias pessoas que assinalam à Moral como única missão: a de distribuir
elogios ou vitupérios, reconhecem tacitamente que existe uma moral aplicável aos animais,
por que os atos desses animais ocasionam nelas umas vezes simpatia e antipatia, outras.
A ave que voa solícita à busca de alimento para a sua companheira, enquanto esta fica
retida no ninho a chocar os ovos com o calor do seu corpo, merece-lhes louvores. Quando
uma galinha come os ovos que pôs, ou não os choca, é censurada; e, ao contrário, provoca
admirativas frases o facto de defender com bravura de inimigos ataques, os seus
pintainhos.
Os atos egoístas ou altruístas dos animais são, pois, classificados como boas ou más
ações. Aplaude-se e acha-se natural que o escorialo faça durante o estio as suas provisões
para o inverno e consideram-se como justiceiramente castigados, pela sua imprevidência,
aqueles destes roedores que morrem de inanição em resultado da sua falta de previdência.
É frequente apodarmos de covarde o cão que abandona sem luta o osso que estava roendo
e que outro cão lhe arranca.
É, portanto, certo que julgamos como bons ou como maus os atos dos animais, consoante
estes são úteis ou nocivos para conservação da espécie, ou do indivíduo.

§ 2. - Estes exemplos de atos egoístas e de atos altruístas conduzem-nos à descoberta dos


dois princípios cardiais e opostos da ética animal.
Durante a infância dos animais, o auxílio e o mimo é-lhes prestado na razão inversa da
aptidão para subsistirem por si próprios. O membro mais favorecido do grupo familiar é
exatamente aquele que menos mereceria sê-lo, se o seu merecimento fosse avaliado pelos
serviços que presta. Dá-se o contrário na idade adulta; então, as vantagens estão na razão
direta do mérito, sendo este determinado pela adaptação às condições da existência. Os
mais fortes e os mais hábeis gozam os resultados da sua adaptação perfeita; os que o são
menos sofrem as consequências de uma adaptação defeituosa.
lobos (Animal intelligence, de Romanes, Londres 1882, pag. 436) que preconcebem um
plano de ataque em que se distribui a cada um, ou a cada grupo, um objetivo especial a
realizar e, conseguindo assim, apossar-se de presas que lhes escapariam diferenciada
cooperação. Estes fados demonstram que estamos em presença de crescentes vantagens
para os indivíduos e para a espécie, o que nos permite fazer a afirmação genérica de que o
estado de agregação, ou de cooperação mais ou menos ativa, tem como única
determinante as vantagens que desse estado ou dessa cooperação advém para os
indivíduos e para a espécie que organiza esses estados. Do contrário, o predomínio dos
mais fortes opor-se-ia a que tais estados se efetuassem.
Note-se que esta vantajosa associação só em determinadas condições se torna possível. A
procura do sustento de cada um é, por vezes, mais ou menos perturbada pela presença
doutros indivíduos da mesma espécie e com o mesmo intuito, o que dá lugar a lutas
reciprocas e mais ou menos enérgicas. Se estas incompatibilidades se multiplicarem, a
associação deixa de tornar-se util. Para que ela continue a sê-lo é necessário que essas
dissenções fiquem restritas, de modo a subsistir um excedente de vantagens. Caso
contrário, o predomínio dos mais fortes extirpará na espécie a variedade que na associação
havia começado a formar-se.
E aqui nos aparece um fator novo da justiça infra-humana. Submetendo-se aos benefícios e
inconvenientes inerentes à sua natureza e a conduta que essa natureza lhes prescreve,
cada indivíduo só pode seguir essa conduta até ao limite em que ela não embarace, pelo
excesso, a conduta pela qual os outros indivíduos da associação colhem benefícios ou
evitam contrariedades. A conduta média não deve, pois, ser agressiva até ao ponto de
anular as vantagens derivadas da associação. Assim, ao elemento positivo da justiça
infra-humana acresce para os agregados animais um elemento negativo.

§ 9. - A necessária observância do preceito de que cada membro do grupo, obtida a


alimentação para si próprio e para sua prole, não deve entravar a ocupação dos associados,
contribui para a educação da espécie em que a associação se estabelece. Os
inconvenientes experimentados a cada violação destas restrições exercem uma ação
disciplinadora e contínua e ensinam os associados por modo que um respeito às regalias
dos outros se transforma num lema genérico e dominante, um traço caraterístico e natural
da especie. Com efeito, e obvio que a transgressão habitual de tais restrições implicaria
dissolução do agrupamento. Só podem permanecer no estado agregativo as variedades em
que prevalece a tendência hereditária para respeitar a conduta média dos demais
associados. Desenvolve-se assim pouco a pouco, uma apreciação consciente e geral da
necessidade de manter esses limites e criam-se castigos para os membros que os
transgridem, os quais são infligidos não apenas pelos membros lesados, mas por todo o
agrupamento.
O elefante «vagabundo» (isto é, o que se distingue pela sua maldade) sofre a expulsão do
rebanho, de certo pelo seu génio agressivo. Ha quem afirme que os castores preguiçosos
(Dallas in CasselPs Natural History, III, 99) são rechaçados pela colónia para que não logrem
benefícios gratuitos do trabalho alheio. É sabidíssimo que as abelhas operárias matam os
zangãos que se tornaram inúteis. Tem-se observado em diversos países que as gralhas
(Romanes. - Animal Intelligence, 323-5) depois de acalorada e longa discussão executam
sumariamente o associado que se tornou culpado. Uma testemunha ocular assegura que,
quando um casal de corvos rouba aos outros os materiais para a construção do ninho,
estes lhe destroem violentamente para castigo da violação praticada.
e por isso também, o socialismo tomou nela o desenvolvimento considerável, tão
considerável que o chefe do sistema militar alemão propôs a submissão de todas as
classes operárias da Europa a regulamentos regimentários.
Aqui há vinte anos a simpatia revestia o caráter de justiça. Presentemente retrogradou para
a forma de generosidade e essa generosidade manifesta-se pela prática da injustiça. A
legislação operária importa-se diminutamente com que cada um receba o que lhe pertence,
preocupando-se ao contrário, mais em lhe dar o que pertence a outrem. Não se manifesta o
empenho energico de reformar a nossa administração judiciaria de modo a assegurar

CD
cada homem a totalidade dos seus ganhos legítimos, mas procurou com todo o afã
prove-lo, a ela e aos outros, de vantagens para a comutação das quais se não esforçaram.
Ao lado do «deixa andar» mesquinho que vê impassível a ruina de tantos homens que não
conseguiram a promulgação de um corpo de leis que evitem as suas fundadas queixas,
desperdiça-se a atividade em lhes proporcionar grátis e á custa alheia, o prazer da leitura de
romances!

CAPÍTULO VI

A fórmula da Justiça

§ 27. - Temos acompanhado a evolução da justiça desde a sua forma simples,


objetivamente considerada como condição da conservação da vida. Vimos que um fator
novo a modificou, com a constituição de agrupamentos animais, modificação que se tornou
mais acentuada nos agrupamentos humanos. Depois de termos verificado os seus
correspondentes produtos subjetivos: o sentimento de justiça e a ideia de justiça, nascidos
ao contado dessa condição nova, achamo-nos finalmente habilitados a dar uma forma
definida a conclusão a que somos chegados, falta-nos apenas, para isso, encontrar
expressão precisa para a cooperação a que fizemos referência no capítulo anterior.
A fórmula deverá conter um elemento positivo e um negativo. Ha de ser positiva pela
afirmação da liberdade de cada homem, pois que os homens devem colher os resultados,
bons ou maus, das suas ações, Ha de ser negativa pela afirmação de que essa liberdade de
cada homem implica que eles não possam agir a seu discricionário talante, mas com a
restrição que lhes impõe a presença doutros homens que tem direito a igual liberdade. O
elemento positivo é, evidentemente, o que exprime a condição realizável da vida em geral. O
elemento negativo vem restringir esta condição realizável quando, em vez duma vida
isolada, há várias vidas em comum. Precisamos, pois, formular com exatidão a maneira
pela qual a liberdade de cada um tem de ser limitada pelas liberdades análogas de todos os
outros. Essa fórmula redigi-la-emos assim:
Tem todo o homem a liberdade de proceder como melhor entenda, com tanto que não
infrinja a igual liberdade de quem quer que seja.

§ 28. - Arredemos um erro possível. A fórmula precedente tem por objetivo presumido
excluir certos atos de agressão que parecem não estar excluídos dela. Podia-se bem
argumentar: se Afere a B e se B não ficando impossibilitado com a agressão de A, o fere
por seu turno, o primeiro não usa duma liberdade superior a do segundo. Dir-se-á ainda,
talvez: se A invadiu a propriedade de B, o preceito permanecerá integro desde que B invada
também a propriedade de A. Semelhantes interpretações afastam-se do sentido essencial
da fórmula. Verifica-se isso remontando a sua origem, por que a lei que procuram fixar é a
de que os atos de cada homem constituindo a sua vida no presente e assegurando-lhe
CD
vê-se obrigado a confessar que a justificação capital do absolutismo governativo que ele
defende é de natureza moral. Em face, pois, de qualquer autoridade, monárquica,
oligárquica ou parlamentar, promulgando leis apresentadas como supremas, todos
concordam em que essa autoridade está subordinada a uma outra autoridade de que a
primeira deriva e que é constituída senão da vontade divina, pelo menos da própria natureza
das coisas.
Não implica, portanto, credulidade ingênua e precisa de lógica o manifestar-se algum
respeito por essas opiniões, ás quais ajuntareis as dos juristas alemães sobre o Naturracth.
Pode razoavelmente presumir-se que a essência de tais opiniões é verdadeira, embora a
sua forma se preste muitas vezes a ser criticada.

§ 33. - Parece-me estar ouvindo já esta desdenhosa objeção: «Tudo isso se reduz, afinal, a
convicções a priori que são trazidas como reforço do vicioso método filosófico que pretende
extrair as verdades da profundeza da nossa consciência». É este o argumento que
empregarão aqueles a quem as verdades gerais só se tornam acessíveis depois de uma
consciente indução. Por uma curiosa confirmação da lei do movimento rítmico a fé absoluta
que houve nos tempos idos pelos raciocínios a priori transmudou-se numa incredulidade
também absoluta aceitando-se unicamente os produtos do raciocínio a posteriori. Para
quem tenha observado a marcha ordinária do progresso humano é quase certo que esta
violenta reação será seguida de uma segunda reação e dessa lei pode-se inferir que, não
obstante o abuso que se tem feito de cada um deles, os dois métodos antitéticos do
raciocínio prestam um ao outro importante auxílio. Como se formaram e donde procedem as
convicções a priori? Não me refiro, está bem de ver, a convicções particulares de certas
pessoas e que podem ser o resultado de perversões intelectuais. Refiro-me às crenças
gerais, senão universais - às convicções que todos ou quase todos têm por seguras,
independentemente de indução. A origem dessas convicções é, ou natural ou sobrenatural.
Se é sobrenatural - a não ser, como poderá suceder aos crentes do diabo, que se
considerem demoniacamente sugeridas aos homens para os perder - é forçoso
considerá-las como implantadas por Deus nas nossas consciências para nos servirem de
guia. Nesse caso têm todo o direito à nossa confiança. Se por falta de crença nesta origem
sobrenatural, procurarmos a origem natural, a nossa conclusão será que foi a apreciação
das relações das coisas que determinou essa maneira de pensar. Os que concordam com
as ideias correntias de que há agentes do bem e do mal não têm motivos plausíveis para
negar o valor das doutrinas a priori, mas o evolucionista que necessita ser coerente com o
seu processo filosófico só pode admitir as doutrinas a priori aceitas pela generalidade dos
homens e que tenha promanado senão da experiência de cada indivíduo em particular, pelo
menos das experiências comuns da raça. Tiremos um exemplo da geometria: afirma-se
nela que duas linhas não fecham um espaço. Como é fácil de compreender, esta verdade
não se forma a posteriori porque nunca houve nem lia modo de prolongar duas linhas retas
até ao infinito afim de observar o que sucederá ao espaço entre elas compreendido. É
inevitavelmente necessário, pois, admitir que a experiência que os homens têm feito com as
linhas retas (ou melhor dito com os objetos aproximadamente retilíneos para abrangermos
nessas experiências os tempos primitivos e ainda porque as linhas retas são uma
idealidade dos geômetras) é tal que nos não permite a concepção de um espaço fechado
por duas linhas retas. Essas experiências anteriores obrigam-nos imperativamente a
acreditar que, a não ser que se curvem, as duas linhas não podem fechar o espaço. No
ponto de vista da doutrina do evolucionismo esta intuição fixou-se por motivo da sequência
de relações dos homens com as coisas exteriores, relações que durante um imenso lapso
§ 38. - Resulta do exposto, que os direitos propriamente ditos são corolários da lei de igual
liberdade e que é impossível deduzir dela direitos falsos. Vamos agora estudar esses
corolários, acentuando em primeiro lugar que todos eles sem excepção coincidem com
concepções morais ordinárias e em segundo lugar que todos eles também correspondem a
leis positivas. Veremos também que longe de derivarem da lei escrita são os direitos
propriamente ditos que lhe conferem autoridade.

CAPÍTULO IX

O direito a integridade física

§ 39. - Peço vénia para esta epígrafe aparentemente pedantesca, mas não encontro outra
que enuncie de adequado modo tudo o que vai ficar compreendido neste capítulo. Usamo-la
para podermos abranger todos os prejuízos, desde a violência que lese os outros
fisicamente até às simples desavenças de vizinhança.
Pondo de parte agora outras das suas restrições, a lei de igual liberdade tem como
corolário, evidente por si mesmo, que os atos de todo e qualquer homem não devem ir
senão até onde não causem diretamente a outrem algum prejuízo físico, ligeiro ou grave. Os
atos em que se ultrapasse este limite implicam, salvo o caso de represálias, o exercício
duma liberdade mais extensa dum lado do que de outro e, como vimos, a lei que
formulámos quando bem interpretada não autoriza a agressão nem a contra agressão.
Considerado como o enunciado duma condição indispensável para assegurar a maior soma
de felicidade, também essa lei introduz todo o ato em sofrimento ou perturbação física.

§ 40. - Por ser de primacial evidência, quase seria dispensável incluirmos na epígrafe
adoptada o direito à vida e a interdição do homicídio voluntário que esse direito implica. Este
crime, considerado pelas nações civilizadas como o mais negro dos atentados, não é
inconscientemente, mas conscientemente considerado assim por constituir a violação
extrema da lei de geral liberdade, visto que o homicida não se contenta com perturbá-la,
mas vai o mais além possível anulando por completo a liberdade de ação do indivíduo que
assassinou. É inútil pois insistir na primeira dedução da lei natural, atribuindo à vida um
carácter sagrado. Será, todavia, de instrução e vantagem o observarmos os progressos
sucessivos pelos quais se efetuou o reconhecimento desse carácter sagrado.
Registrando como mais excessivo, o exemplo dos Fidjens (Williams and Calvert. Figi and
the Fijians, 1858, I, pag. 112) que consideram ou consideravam o homicídio como uma ação
honrosa, iremos passando em revista vários outros exemplos colhidos em tribos selvagens
que arrastam os seus ascendentes quando atingem a velhice, os seus doentes e os seus
inválidos. Assim procediam diversos povos da Europa primitiva. Grimm conta que os
Wendes (Grimm. Deutsche Rechtsalterthumer, 488) «matavam os pais, assim como os
outros membros idosos da família e todos os que se tornassem inaptos para a guerra ou
para o trabalho e que os cosiam e comiam, ou os enterravam vivos ... Os Hérulos matavam
igualmente os seus velhos e doentes ... Na Germânia setentrional conservaram-se traços
desses costumes até épocas relativamente pouco afastadas de nós.»
Não se encontra a par desta destruição deliberada dos membros inválidos da tribo,
destruição que tivesse geralmente como desculpa a necessidade de conservação dos
membros válidos, a opinião habitual e pública de que o assassinato constituísse um crime.
Diz Grote, (Grote. A History of Grece, 4a edição, II, pag. 33) que o homicídio nenhumas
outras consequências traziam aos gregos dos tempos homéricos «além da vingança
Grécia, mas os próprios senhores deles tinham maiores restrições, que em geral por outra
parte, de entrarem e saírem à sua vontade da cidade.
Confirmado está, pois, que, em geral, nos estados cujas dimensões e estrutura se
desenvolveram consideravelmente, o seu crescimento implicando natural e invariavelmente
a conquista e a agressão exterior, manteve em compressão a individualidade, não
permitindo que ela deixasse de si senão diminutos vestígios nas leis e nos costumes.

§ 47. - Para explicar o aumento nos costumes e nas leis da concepção da liberdade
humana, que hoje está implantada no consenso das raças mais civilizadas, bastará passar
em rápida revista alguns dos principais progressos realizados no decurso da própria
civilização inglesa.
As hordas sucessivas de invasores guerreiros que ora subjugando, ora rechaçando os
possuidores antecedentes, povoaram a Inglaterra nos tempos afastados (Green, Short
History of the English. People, 1880, pp. 56, 90, 91 e 247) deviam necessariamente ter
escravos, classe que tinha a captura por origem, e cujo número aumentava periodicamente
pela adjunção dos devedores remissos e dos criminosos. Com a expansão da população, e
com o paralelo desenvolvimento da organização política, os habitantes que haviam formado
uma classe de homens livres, consoante o sistema original da Mark perderam gradualmente
uma parte da sua liberdade, umas vezes por efeito de conflitos entre grupos, conflitos em
que alguns dos membros adquiriram preponderância; e outras vezes, a maior parte, em
resultado de conflitos exteriores que originaram a conquista do território e a subjugação dos
habitantes pelos chefes da conquista que se transformaram em seus senhores. Os
camponeses foram subjugados pelos thanos e os thanos pelos nobres. No tempo de Alfredo
estatuiu-se que ninguém passasse de senhor, o que implicava a privação da liberdade não
somente para os membros da classe mais ínfima (os escravos que se vendiam e
compravam), mas até para os membros das classes superiores. Durante as modificações
provenientes da conquista normanda esta delimitação da liberdade continua, como se
subentende do juramento de fé e de homenagem; agravou-se mesmo mais, salvo no que
respeita a abolição parcial da compra e venda dos escravos. Uma das transições do estado
de servidão para o estado de liberdade imperfeita resultou do progresso das cidades no
século XI pelo desenvolvimento concomitante das instituições industriais e pela substituição
que este desenvolvimento implicava das relações reguladas pelo estatuto por outras
relações que tinham por bases os contratos. Um século depois a Magna Carta pôs um
travão ao arbítrio governativo e às restrições de liberdade que dele resultavam para os
cidadãos. A influência crescente das classes mercantis traduzia-se na liberdade de
circulação concedida aos negociantes estrangeiros. E, quando um século mais tarde o laço
que prendia o servo à terra se afrouxou primeiro e se rompeu definitivamente depois, o
trabalhador integrado na posse plena da sua liberdade adquiriu o direito de locomoção sem
peias.
Mas, em verdade, tornou a perder uma parte deste direito quando em razão do
despovoamento e da grande elevação dos salários causados pela peste grande se
promulgou o estatuto que tarifava o preço do trabalho e fixava coercitivamente o trabalhador
ao âmbito da sua paróquia. Todavia com a resistência violenta por eles efetuada, estas
restrições determinaram uma intensa afirmação de igualdade que se estendeu a outros
direitos além do da liberdade de locomoção. No decurso desse movimento insurrecional,
excepção aberta para o rei que aconselhava a que se atendessem as suas reclamações,
viu-se quanto era diminuto nas classes dirigentes o direito dos camponeses a liberdade.
Afirmando que os seus servos eram os seus bens, os proprietários de terras declararam
sua posse, foi assim que a totalidade da terra arável, ou pelo menos a melhor parte dela, se
tornou, de facto senão de direito, propriedade privada de algumas famílias.
E informa que em seguida a um movimento quase revolucionário a comunidade, fazendo
valer os direitos dos membros privados da terra agricultável, confiscou aquela de que se
tinham apropriado muitas famílias e organizou um sistema de partilhas periódicas em
virtude do qual cada adulto macho ficaria tendo uma parcela do solo para agricultar.
«Na estepe um mesmo lote de terreno não era geralmente cultivado senão três ou quatro
anos consecutivos. Passado esse tempo era abandonado por um tempo pelo menos duplo
e os cultivadores transportavam-se para uma outra parte do território comunal. Este regime
impede que o princípio da propriedade privada crie raízes; cada família tem mais a posse
duma quantidade determinada do que a dum lote determinado de terreno e contenta-se com
um direito de usufruto; o direito de propriedade fica nas mãos da comuna».
Posteriormente nas regiões centrais, que eram as que mais tinham progredido,
abandonou-se este costume antigo, mas sem lhe destruir inteiramente o carácter essencial.
«Em conformidade com este sistema (de cultura trienal) os cultivadores não emigram
periodicamente duma parte do território comunal para outra, mas amanham constantemente
o mesmo campo e obrigam-se a adubar os lotes que ocupam. Ainda que o regime da
cultura trienal esteja em uso desde há muitas gerações nas províncias centrais, o princípio
comunal da lotação da terra permanece intacto».
Estes e outros fatos análogos e numerosos excluem toda a dúvida de que anteriormente às
modificações introduzidas pelo progresso da organização social nas relações entre o
indivíduo e o solo, estas relações baseavam-se na propriedade coletiva e não tinham o
mínimo apoio na propriedade individual.
Como foi que essa relação se modificou? Qual a única maneira por que pôde efetuar-se?
Não foi, certamente, em virtude dum consentimento livremente dado, porque é impossível
admitir que todos ou que mesmo alguns dos membros da comunidade abandonassem os
seus respetivos direitos.
Pode ter acontecido, de tempos a tempos, que um criminoso perdesse a sua parte da
propriedade comum, mas esses fatos em nada modificaram a relação entre o solo e o resto
dos membros agrários. Uma dívida pode ter dado causa às mesmas perdas, se o facto de
existir a dívida não implicasse o de haver credores. Ora não é admissível que a comunidade
em massa tivesse esse credor; a dívida de um membro da comuna a outro membro dela
não conferia, pois, ao devedor o poder de pagar, alienando uma coisa que não possuía em
próprio nome e que não era susceptível de ser adquirida a título pessoal. É, portanto,
provável que a mesma causa que vimos atuar no regime agrícola da Rússia determinasse
iguais modificações noutros pontos. Houve homens que cultivaram superfícies mais vastas,
acumularam a riqueza com o poder que ela confere e adquiriram possessões de
extraordinária extensão. Mas essa prosperidade excessiva e as consequências que dela
advieram ocasionaram na Rússia um movimento insurrecional e o regresso ao regime
originário. De calcular é, portanto, que nos outros pontos haja provocado a reação também.
O exercício direto ou indireto da força, umas vezes no interior, mas na maioria dos casos
vinda do exterior, deve ser a causa principal da mudança de regime. As disputas e as lutas
que surgiam no seio da comunidade preparavam predomínios (assegurados em certos
casos pela possessão de locais fortificados) e facilitaram usurpações parciais. Os
Suanetas (Freshfield. Procedings of the Royal Geographical Society, junho, 1888, pag. 335)
dão-nos ainda hoje o exemplo de aldeias em que cada família possui uma torre fortificada. É
fácil de compreender que no seio das comunidades primitivas, as lutas intestinas deviam
envolve a do pagamento do seu valor total. Se a comunidade reouvesse sem esse
pagamento, o exercício direto do seu direito de propriedade, adquiriria como uma coisa que
lhe pertence uma soma imensamente maior de coisas que lhe não pertencem. Os direitos
teóricos dos homens tiveram de século para século uma tão inumerável série de
complicações; mas, reduzindo mesmo o problema à sua mais simples expressão, não
poderemos deixar de admitir que a única coisa que a comunidade tem direito a reclamar, é a
superfície do território no primitivo estado inculto. A coletividade nenhum direito tem ao
acréscimo de valor dado ao solo pelo arroteamento, pela cultura prolongada, pelas
vedações, pelas drenagens, pela abertura dos caminhos, pela construção para os
agricultores e para animais, etc., etc., acréscimo que constitui a quase totalidade do seu
valor e que é um produto do trabalho pessoal, do trabalho retribuído, do trabalho dos
antepassados. Tudo isto representa dinheiro legitimamente ganho para quem o embolsou.
Os proprietários atuais estão investidos no acréscimo de valor comunicado à tuna pelo
trabalho e pela arte: despoja-los dele seria um ato de gigantesco latrocínio. A violência e a
fraude presidiram bastas vezes as operações que deram e dão origem aos direitos
existentes da propriedade territorial, mas muitíssimo maior seria a violência e a fraude
praticada pela comunidade se confiscasse o valor que o trabalho e a arte de milhares de
anos deram à terra.

53. - Regressando ao tema geral deste capítulo os direitos ao uso dos agentes naturais,
convém acentuar que estes direitos vêm gradualmente obtendo a sanção legislativa à
medida que as sociedades se aproximam do tipo superior.
No início do capítulo, vimos- que a asserção legal de igualdade dos direitos dos homens ao
uso da luz e do ar é dos tempos modernos. Nenhuma forma de organização social ou de
interesses de classe se opõe hoje ao reconhecimento desse coro lá rio da lei de igual
liberdade. Acabamos de verificar que atualmente se manifesta, embora por um modo talvez
inconsciente e velado, o reconhecimento da igualdade de direitos de todos os eleitores à
propriedade suprema da ária habitada, direitos que, conquanto latentes, se subentendem
nos Atos do Parlamento que alienam a terra. Ainda que as disposições em vigor entravam
esse direito ao uso da terra inerente a todo o cidadão, torna-se, todavia, impossível o negar
a equidade dos seus títulos, sem que isso implicasse a afirmação de que as expropriações
efetuadas pelo Estado são contrárias à equidade. O Estado não pó de equitativamente
passar a outrem o direito do detentor atual senão por virtude de um direito anterior, em
benefício do direito da comunidade, direito que é igual à totalidade dos direitos individuais
dos seus membros.
Nota. - No apêndice B se encontrarão várias considerações concernentes ao discutidíssimo
assunto da propriedade do solo. Transferi-as para lá, afim de não dar a este capítulo uma
extensão muito maior que a dos demais.

CAPÍTULO XII

O direito de propriedade

§ 54. - Do facto de serem tirados da terra todos os objetos materiais suscetíveis de


apropriação, deduz-se que o direito de propriedade é, pela sua origem, dependente do direito
ao uso da terra. Esta inevitável conexão permaneceu incontestada em quanto não houve
produtos artificiais e os naturais foram os únicos de que o homem se apropriava. No atual e
desenvolvido estadia social, existem inumeráveis objetos suscetíveis de posse, tais como
Torna-se dispensável seguir o desenvolvimento do direito de propriedade, tal como os
legisladores o formularam e como os seus agentes o interpretaram e remontar até aos
mandamentos dos Hebreus para virmos depois pelos tempos fora até aos tempos
modernos em que as leis formulam os mais diversos direitos de propriedade com infinitos
pormenores e com uma grande precisão. Por agora, bastar-nos-á salientar que esta
consequência do princípio da justiça pôde, desde os inícios do progresso social mais
claramente compreendido que as suas outras consequências, e que com o decorrer dos
tempos vem sendo aceita duma forma sucessivamente mais nítida, tomando paralelamente
um caráter cada vez mais peremptório. Atualmente a violação de um direito de propriedade
pela apropriação não autorizada duma folha de couve ou de uma acha de lenha constitui um
crime, e o direito de reprodução de um romance, dum modelo, ou duma marca de fábrica
constitui uma propriedade.

§ 56. - Ha muita gente que procura demolir este direito na suposição de que tem por si um
princípio moral que o justifica e os obriga a esse empreendimento. Os que assim pensam
acham injusto que todo o homem colha vantagens proporcionais ao seu esforço, negam a
cada um que possa honestamente guardar a totalidade do produto do seu trabalho e forçar
os menos aptos a contentarem-se com a soma menor de bens que o trabalho deles
produza. Esta doutrina é assim resumível: «Quantidades e qualidades diferentes de trabalho
devem obter a mesma parte do produto. Procedamos à partilha igual dos produtos
desiguais».
É evidente que o comunismo implica a violação da justiça tal como foi definida nos capítulos
precedentes. Afirmando que a liberdade de cada um não tem outro limite que não seja o da
igual liberdade de todos sustentamos que cada um tem direito a todos os proventos e a
todas as fontes de proventos que procura e encontra sem violar a esfera de ação dos seus
vizinhos. Se, pois, um vigor maior, um espírito mais inventivo ou uma superior aplicação dão
a um homem um acréscimo de proventos ou de fontes de proventos, a lei de igual liberdade
confere-lhe o exclusivo título desse acréscimo com a condição de que não invada as
esferas de ação de outrem.
As instituições do passado permitiam a alguns raros homens superiores enriqueceram à
custa dos seus inferiores. Atualmente há quem brade por instituições que enriqueceriam a
grande multidão dos inferiores à custa duma minoria de homens superiores e raros. Os
defensores do antigo regime social partiam da hipótese de que ele tinha um caráter
equitativo; os defensores do projeto do regime novo pretendem igualmente que ele se
alicerça na equidade. Convencidos do fundamento do seu direito julgam que a força, cujo
emprego justificam sem o confessarem, poderá equitativamente impor uma nova partilha de
bens. Tal como a natureza humana se tem manifestado sempre no passado e tal como ela
se manifesta à volta de nós, nenhum homem abandonará de bom grado os seus ganhos
que ultrapassem os dos outros homens quando tenha adquirido esses ganhos pela
superioridade das suas qualidades físicas ou mentais ou por uma superior faculdade de
trabalho; alguns raros indivíduos consentirão nisso talvez mas o número deles estará longe
de representar a média da humanidade. O facto de que a média superior não abandonará
voluntariamente acréscimo de proventos adquiridos pela sua superioridade implica o
emprego de meios coercivos e arrasta ao uso necessário da força. Os dois partidos
sabem-no; a multidão dos inferiores está na posse dum superior poder físico de
constrangimento e os comunistas pretendem que a equidade justificará a coerção
necessária exercida contra a minoria afortunada pelos que até agora tem estado colocados
numa situação de vida menos vantajosa. Depois do que dissemos nos primeiros capítulos,
Não se contentando com as facilidades naturais, os pseudo partidários da liberdade
lastimam-se pelo facto de se verem obrigados a pagar o preço de um auxílio devido às
aptidões de outrem. Vários dos adversários da propriedade literária manifestaram à
Comissão os seus espantos por verem os autores obcecados pelos seus interesses até ao
ponto de não compreenderem que a defesa dos seus atuais direitos implicava a defesa de
um monopólio. Maior motivo de espanto teriam tido os autores vendo esses opoentes
invocarem princípios económicos, confundir o caso de um homem que, desejoso de exercer
uma indústria, reclama unicamente condições iguais às que existiriam se ele e a sua obra
não existissem, com o caso de um homem que pretende exercer uma indústria de um
modo que só é possível quando exista essa outra pessoa. A argumentação com que se
combate a propriedade literária baseia-se toda na confusão entre duas coisas perfeitamente
distintas, radicalmente opostas, e desaparece logo que sobre a matéria incida a luz dessa
distinção.»
Parece-me, pois, que o direito à propriedade literária, considerado como dedução do
princípio fundamental da justiça, não pode ser posto em dúvida por um só instante que seja.

§60.-0 costume primeiramente, e as leis depois, abriram o direito às reivindicações dos


produtores intelectuais. Nos tempos antigos, do auditório ou do patrocínio das pessoas
ilustres a quem os autores recitavam as suas obras, é que provinha a remuneração aos
autores. Era incorreta, ou mesmo talvez desonesta, a esquivança a essa obrigação. Em
Roma (W. A. Copinger. The Law of Copgright, 2a edição, pag. 2), o direito de propriedade
chegou já a adquirir valor mercantil. Copinger cita diversos autores que venderam as suas
obras, entre os quais Terêncio que vendeu o Eunuco e o Hecyro e Stacio que vendeu o seu
Agave. Os copistas adquiriram consuetudinariamente, se não aos olhos da lei, o direito
exclusivo da reprodução dos manuscritos. Na Inglaterra os direitos de autor estão
assegurados desde há dois séculos (Robertson. Artigo «Copyright», na Enciclopédia
Britânica, 9a edição). Um Ato de Carlos II proíbe a impressão de qualquer obra sem o
consentimento do autor; sob o império desta lei os direitos de autor eram suscetíveis de
compra e venda. Em 1774 decidiu-se que a Lei Comunal tinha conferido perpetuamente ao
autor e aos seus auxiliares o direito exclusivo de publicação, mas que um Estatuto o
restringiu posteriormente a um período determinado. Um artigo de Robertson mostra
pormenorizada e cronologicamente como este princípio se estendeu a outros produtos da
inteligência: às obras de arte no reinado de Jorge II (Ato dos ano 8°, capítulo 13) e no reinado
de Jorge III (Atos dos anos 7° e 38°, capítulos 38 e 71, este último para os modelos e para as
moldagens); no reinado de Guilherme IV, às produções dramáticas (3° e 4° anos, capítulo
15) e aos cursos e conferências (5° e 6° anos, capítulo 65); no reinado de Vitória, às obras
musicais (5° e 6° anos, capítulo 45); às litografias (15° e 16° anos, capítulo 12), e, finalmente,
às obras picturais em 1862.
O legislador e os pensadores que se tem dedicado ao estudo deste assunto no seu ponto
de vista ético, preocuparam-se e preocupam-se com a duração que convêm marcar aos
direitos de propriedade literária e artística. O problema não é de fácil solução. Deve-se
marcar para essa duração a vida do autor e seus descendentes sem limite algum, ou a vida
do autor e um certo número de anos posteriores à sua morte, ou a vida do autor somente?
Não há razão alguma que recomende para este género de propriedade um regime legal de
propriedade e de transmissão testamentária diferente daquele que rege toda a outra
propriedade. A língua, a ciência e os demais produtos da civilização anterior de que o autor
se serviu, pertencem, como se tem dito, à comunidade, mas esses produtos intelectuais da
chamada indevidamente, causa maiores males do que todos os crimes juntos. Mas

0)
crença na legitimidade do direito de dar esmolas esta tão universalmente espalhada, que
ninguém pensa em contestá-lo invocando motivos de expediência aparente.
A legislação sanciona nitidissimamente este corolário da liberdade de dar derivado da lei de
igual liberdade. É provável que não exista lei alguma que afirme expressamente o direito de
dar; é, porém, inútil o trabalho de investigar esse ponto, bastando-nos citar uma lei de Isabel
(Leis do 13° ano de Isabel, cap. 5o, e lei do 29° ano, cap. 5o) que implica o reconhecimento
desse direito. Com efeito, declarando que um ato de doação pode ser oposto ao doador,
mas não pode ser oposto às reivindicações dos credores, implica que uma pessoa tem o
direito de dar o que lhe pertence, mas que não tem o direito de dar o que, equitativamente
pertence a outrem.

§64.-0 direito de dar envolve o direito de legar, pois que o legado não é senão uma dádiva
retardada. Quem pode legitimamente alienar os seus bens, pode legitimamente fixar a
época em que a tradição se há de efetuar. Quem aliena por testamento, efetua, em parte, a
alienação, mas estipulando que essa alienação não surtirá os seus efeitos completos se
não quando expirar o prazo em que o testador cessa de ter o poder de possuir. O seu direito
de propriedade importa o direito de subordinar uma doação a esta condição; aliás o seu
direito de propriedade seria incompleto.
A equidade não permite, portanto que se submeta a restrições a decisão que um testador
faz dos seus bens, quer essas restrições digam respeito a designação dos legatários, quer
à fixação das partes que o testador lhes marca.
Se um grupo de homens, agindo em virtude da sua capacidade corporativa, decidem que o
testador deve dar ou não dar a B, ou que deverá dar a A e a B, etc., numa proporção
determinada, esses homens arvoram-se em coproprietários do testador; coagem-no às
disposições que eles preferem e desviam-no das disposições que tinha em vista como
testador. Mesmo em vida, pois, os seus bens seriam dessa maneira subtraídos à sua posse
na medida em que o seu poder de testar fosse circunscrito.
Está geralmente admitido que o homem civilizado goza de uma soma de liberdade superior
à do homem pouco civilizado; assim, relativamente ao direito de legar, vê-se que ele apenas
aparece indefinido e vago nos primeiros tempos, desenvolvendo-se depois gradualmente.
Antes que a lei se constitua, o costume, que não é menos peremptório do que ela,
prescreve de ordinário os modos de transmissão hereditária da propriedade.
Na maioria dos Polinésios, a herança vai para o primogénito. Em Sumatra, os bens são
partilhados pelos filhos varões. Os Hotentotes e os Damaras impõem a primogenitura na
linha masculina. Na Costa do Ouro e nalguns pontos do Congo, os parentes podem herdar
na linha feminina. Nos Eghas e povos vizinhos, a herança do filho mais velho compreende
as mulheres de seu pai, com excepção da mãe do herdeiro. No Tombutú, a parte de um filho
é dupla da de uma filha; os Ashantis, e a maioria dos fulahs, quase sempre, admitem à
sucessão os filhos adotivos e os escravos: estas raças africanas superiores gozam pois de
uma certa liberdade de testar. Na Ásia, o costume dos Árabes, dos Todas, dos Ohonds, dos
Bodos e dos Dirnals é o da divisão da herança por todos os filhos. Os filhos de uma irmã
podem herdar os bens de um Kasia; pelo pouco que se sabe a respeito dos Karens e dos
Mishmis, o pai tem a liberdade de dispor dos seus bens como melhor entenda. As primitivas
raças europeias proporcionam-nos exemplos análogos. Segundo Tácito, os antigos
Germanos desconheciam o testamento. Belloguet chega à conclusão de que nem o
costume céltico, nem o costume germânico admitiam o direito de testar e o mesmo se
dava, na opinião de Kcenigswarter com os Frisões. Quando o regime da propriedade
razões políticas a motivos de equidade. Na agitação contra a lei dos Cereais so muito
vagamente se invocou o «direito» do livre câmbio. Atualmente mesmo o que mais se
censura aos protecionistas, tanto em Inglaterra como no estrangeiro, não é a falta de
equidade, mas o caráter ilusório da sua política. Não é, pois, para admirar que as massas
populares inglesas não reconheçam ainda a liberdade das trocas em matéria de trabalho

CD
de salários. Obcecados pelo que reputam o seu interesse, os operários recusam
tacitamente ao contratante e ao contratado o direito de discutirem a soma de numerário que
há de ser paga como retribuição do seu trabalho. A lei, neste particular, adiantou-se à
opinião, assegurando a cada cidadão a liberdade de pactuar à sua vontade nos contratos
que tenham os seus serviços por objeto. De modo que o direito escrito assegura já esta
liberdade contra a qual numerosos cidadãos protestam ainda.

§70.-0 direito à liberdade dos contratos confunde-se com o direito à liberdade das trocas;
a transformação do direito de trocar em direito de contratar opera-se por um adiamento do
cumprimento duma troca, ora subentendido, ora expresso.
Para exemplo citaremos os contratos de serviços concluídos, em condições certas, os
contratos de uso da terra e das habitações, os contratos tendo por objeto a execução de
trabalhos especificados, os contratos de empréstimo de capitais, que são todos espécimes
de contratos que os homens podem livremente realizar sem praticarem nenhuma agressão,
tendo, portanto, o direito de os discutirem e ultimarem.
Nos tempos idos, as restrições ao direito de trocar tinham por naturais companheiros as
restrições ao direito de contratar como o atesta a inumerável multidão de leis a respeito de
salários e de preços que de século para século se foi acumulando na jurisprudência das
nações civilizadas. Estas intervenções, enfraquecendo pari-passa com o governo coercivo
desapareceram nos tempos modernos, quase de todo.
Uma dessas graduais modificações, a da lei sobre a usura, pode servir de tipo às restantes;
o pagamento de juros por um empréstimo de capital era interdito pela legislação de vários
povos que só realizaram frouxos progressos para a organização de instituições livres.
Verifica-se isso nos Hebreus e na velha Inglaterra, na França da época do predomínio do
absolutismo monárquico. Com o decorrer do tempo, nota-se a introdução de atenuações
dessa restrição absoluta, sob a forma de fixação do juro máximo: Cicero estabeleceu-o na
sua província; na Inglaterra Henrique VIII arbitrou-o em 10%; Tiago I, em 8 %, Carlos II e a
rainha Ana em 6 %; em França, sob Luiz XV, foi fixado em 4 %. Posteriormente,
desapareceram todos esses diferentes entraves e os contratantes adquiriram a liberdade de
pactuarem à vontade.
A lei foi-se, portanto, aproximando gradualmente da equidade. Há, todavia, um caso
excepcional em que ambas se encontraram de acordo para pronunciarem uma interdição
comum e que é a referente ao caso em que um homem vendesse a sua própria pessoa,
tornando-se escravo. Remontando à origem biológica da justiça, verificamos, que a servidão
quebra as relações que devem ser mantidas entre os produtos dos esforços empregados
com o fim de se assegurar a continuação da vida. O homem que para colher um benefício
imediato reduz a sua pessoa à escravidão, coloca-se assim em oposição com o princípio
fundamental de toda a moralidade social. No ponto de vista imediato da ética, um contrato
só se conforma com a lei de igual liberdade quando cada uma das partes entrega
equivalentes exatos ou aproximados. É, portanto, evidente que, no sentido rigoroso dos
termos, não pode existir um contrato cujas condições sejam incomensuráveis e é isso que
se dá quando um homem a troco duma imediata vantagem abandona a outra a sua
existência. A lei, recusando-se a reconhecer a validade dum tal contrato, e proibindo-o,
ficam subordinadas às necessidades da conservação e, por vezes, à expansão da vida do
conjunto. De resto, em igualdade de circunstancias, as tribos ou as nações que não
mantivessem esta subordinação, seriam submetidas ou defraudadas pelas tribos ou nações
que as mantivéssemos. A crença dominante neste tipo social e que para ele é incontestável,
é a de que a guerra constitui o único modo de vida. Este critério associa-se ao de que todo o
indivíduo deve ser vassalo duma comunidade, o que os gregos exprimiam, dizendo que o
indivíduo não pertence a si próprio, nem à sua família, mas à cidade.
É natural que, em estados assim organizados, o indivíduo fosse absolvido nos seus direitos
pelos direitos do agregado e que este o coaja, em conformidade com o critério adotado, à
disciplina, aos exercícios e à direção tida como precisa para fazer dele um bom soldado e
um bom servidor do Estado.
É impossível citar exemplos suficientemente satisfatórios da terceira categoria de
sociedades, porque elas não existem ainda na sua forma plenamente desenvolvida. As
desfavoráveis condições do seu habitat impedem as raras tribos inteiramente pacíficas que
se encontram nalgumas das ilhas Papuá ou nas regiões doentias da índia, em que a malária
detém em respeito as raças belicosas circunvizinhas, de se desenvolverem em grandes
sociedades dedicadas ao trabalho. Os Bodos, os Dimals, os Kocchs e outros povos
aborígenes da índia vivem da agricultura e juntam-se em aldeias de dez a quarenta fogos,
transportando-se para territórios novos quando esgotam os antigos. Só praticam a divisão
do trabalho entre os sexos e não conhecem outra cooperação que não seja a de se
ajudarem na construção das habitações e no amanho das terras. Em geral, é pelos
resultados das conquistas que as pequenas comunidades se consolidam e transformam
em comunidades mais importantes e que nascem as circunstâncias propícias ao
desenvolvimento da dependência mútua que os homens criam entregando-se a indústrias
diferentes. Durante um largo espaço de tempo, a organização industrial permanece como
serventuária da organização militar e não se expande. Atualmente, porém as nações de
mais adiantada civilização, estão organizadas em conformidade com um princípio
fundamental diferente do da maior parte das grandes organizações do passado. Abstraindo
das tendências retrogradas que prevalecem na Europa e comparando as sociedades
antigas e as da idade média com as sociedades contemporâneas e especialmente com a
Inglaterra e os Estados Unidos da América descobrem-se entre as primeiras e as últimas
diferenças fundamentais. Nas primeiras todos os homens livres eram soldados e o trabalho
reservava-se exclusivamente para os escravos e os servos. Nas segundas poucos homens
livres são soldados e a quase totalidade entrega-se ao trabalho da Produção e da
distribuição da riqueza. Numas os numerosos soldados eram-no quer quisessem, quer não,
nas outras os soldados, comparativamente raros, são-no em virtude dum contrato. É, pois,
evidente que o contraste essencial consiste em que, no primeiro caso, o agregado exercia
uma poderosa coerção nas unidades que o constituíam, ao passo que no segundo a
coerção que ele exerce é frouxa e tende a diminuir com o declinar do espírito militar.
Que significação se deve atribuir a esse contraste circunscrito nos seus termos inferiores?
Nos dois casos, o bem das unidades constitui o fim que a sociedade, na sua capacidade
corporativa (o Estado) deve procurar, pois que a sociedade não é como agregado dotada de
sensibilidade e a sua duração só é um desideratum enquanto presta utilidade às faculdades
de sentir dos indivíduos. Como lhes presta ela, porém? Em primeiro lugar, prevenindo os
estorvos à conservação e desenvolvimento das vidas individuais. Nos estados primitivos, a
sociedade incorporada tem por objeto principal, senão único, prevenir a morte e o prejuízo
infligido aos seus membros pelos inimigos externos e a ética sanciona a restrição que esta
necessidade impõe aos seus membros. Nos estados superiores, tem principalmente, senão
exclusivamente, o objetivo de proteger os seus membros contra a morte e os prejuízos
resultantes das violações efetuadas no interior, e a sanção moral da restrição não vai além
do que é necessário para prevenir essas lesões.

§ 103. - Não é agora o momento apropriado para averiguarmos se outras funções podem vir
a juntar-se a esta função. O tema deste capítulo é somente a «natureza do Estado» e para
acabarmos de determina-la bastar-nos-á tão somente observar a diferença radical que
separa os dois tipos sociais. O princípio em que é de vantagem insistir, é este: um corpo
político chamado a atuar sobre outros corpos semelhantes e devendo, para este efeito
dispor das forças combinadas das unidades que o compõem é fundamentalmente diferente
dum corpo político que não é destinado a agir senão nas unidades de que se compõe.
Qualquer raciocínio que tome para ponto de partida a hipótese de que o Estado teve sempre
e em toda a parte a mesma natureza, conduz a conclusões radicalmente erróneas.
Resta-nos salientar um outro ponto. Produziram-se, produzem-se e hão de produzir-se no
passado, no presente e em determinados períodos futuros alterações ora retrogradas ora
progressivas, aproximando as sociedades umas vezes dum tipo e outras doutro: estes tipos
entrelaçam-se pois e não tem limites nítidos. Não admira, portanto, que continuem a
espalhar-se opiniões vagas e indefinidas acerca da natureza do Estado.

CAPÍTULO XXIV

A Constituição do Estado

§ 104. - As diferenças de fins implicam, de ordinário, diferenças de meios e não é provável


que a estrutura melhor apropriada para realizar um determinado fim, seja igualmente
apropriada para um fim diverso.
No intuito de conservar a vida das suas unidades e a liberdade de cada uma poder realizar
os desígnios que tem em geral as sociedades independentes, uma sociedade deve usar da
sua ação corporativa contra as sociedades que a rodeiam.
A sua organização deve, pois, ser tal que possa em lugar e tempo, dispor da força
eficazmente combinada das suas unidades. Se essa força não atuar concordem ente, as
unidades serão vencidas e anuladas ou subalternizadas; o exercício da sua ação, torna
indispensável, para que se realize harmonicamente a submissão das unidades a uma única
autoridade. A coação deverá assegurar esta submissão e, para que haja sequência nas
ordens da autoridade coactora, as ordens deverão emanar de uma só autoridade suprema.
O estudo da génese do tipo militar (Vide Principias de Sociologia, §§ 547-561) conduzem
irresistivelmente à conclusão de que a centralização é necessária para o êxito da ação
exterior duma sociedade em luta com outras sociedades e à de que a centralização se
acentua na razão do carácter habitual da ação exterior. Devem ser submetidos ao poder
despótico que governa, não só o corpo dos combatentes, mas também a comunidade que o
subvenciona e sustenta. Atuando por intermédio do poder que governa e que é o produto da
evolução do agregado, esse agregado calca e anula as vontades dos membros individuais e
apenas lhes consente por tolerância, que usem de alguns direitos atenuados.
Quando o regime militarista predomina, a constituição do Estado submete os cidadãos
ordinários ou a um autocrata ou a uma oligarquia, da qual tende sempre a surgir um
autocrata. Como temos acentuado desde os primórdios deste livro, esse estado de sujeição
assim como a perda da liberdade e a perda contingente da vida, que a acompanham, goza
duma sanção quase ética, quando é imposta pela guerra defensiva: com efeito, a
sem querer, reforçando com esse ato inconsciente a energia das afirmativas que
discussão me provocava. Ao voltarmos a casa e quando o desatrelaram, estava eu fora da
linha reta que ele tinha a percorrer para chegar à porta da cavalariça. Em vez de seguir a
direito, conforme era seu costume, encaminhou-se para mim e depois de procurar várias
vezes chamar a minha atenção tocou-me com o focinho e levou-o em seguida tão perto
quanto pôde das marcas que o chicote lhe havia causado. Repetiu estas indicações até que
eu o mandei friccionar. Dois meses passados, procedeu, em análogas circunstancias, de
igual modo.
No corrente outono de 1886 fui à Ware numa carruagem tirada pelo meu pônei. Quando à
porta duma loja ia a subir para a almofada notei que o «Prince seguia com os olhos os meus
movimentos. De ordinário o cocheiro só subia quando a carruagem ia já em marcha. Eu
disse a minha mulher que fizesse avançar o cavalo e ela tentou, mas infrutiferamente que
se pusesse em marcha. Só principiou a caminhar quando viu que eu estava sentado. Esta
experiência foi por várias vezes repetida e é para salientar o complicado raciocínio que
determinava uma obrigação diferente conforme se tratasse dum coxo (como eu) ou duma
pessoa vigorosa e sã, como o cocheiro.
No referido outono, íamos de Wearside para Hadam e encontrámos no caminho um grupo
de crianças, duas das quais em velocípedes. O encontro tornou-se, para nós, embaraçoso:
várias das crianças acumularam-se junto a uma paliçada que marginava o lado esquerdo da
estrada, outras e um dos velocipedistas achavam-se um pouco mais longe à esquerda; o
outro velocipedista ainda mais para a direita.
As distâncias entre c, pl e p2 e a paliçada da esquerda eram pouco mais ou menos iguais.
Havia largo espaço para passar entre p1 e p2, mas as crianças tinham formado um
agrupamento confuso e fugiam em todas as direções. «Vamos a ver, disse minha mulher,
se o Prince consegue sair-se da dificuldade». Abandonei as rédeas. O Prince continuou no
rápido trote em que vinha até 7 ou 8 yards das crianças, meteu depois a passo, desviou
para a direita e passou rente da paliçada desse lado, voltando a cabeça durante essa curva
para se assegurar de que a carruagem não chocava com o velocípede da esquerda. Logo
que este ficou uns três yards atrás tomou bruscamente o lado esquerdo da estrada (Em
Inglaterra as carruagens tomam a esquerda dos caminhos e não a direita, como por
exemplo é uso em França) e, sem intervenção alguma da minha parte, recomeçou a trotar
pelo caminho fora.
Em novembro de 1887, depois da morte de minha mulher, veio fazer-me companhia uma
parenta. Gostava de guiar o Prince; era, porém, muito surda e como não ouvisse o ruído das
carruagens que pudessem vir atrás de nós, tinha o cuidado de me sentar sempre ao lado
dela para a avisar de que desviasse para a esquerda, afim de dar a passagem a qualquer
veículo que quisesse tomar-nos a dianteira.
Ora uma vez em que a minha parenta conduzia a carruagem e em que subíamos uma
íngreme ladeira da estrada de Ware e em que o «Prince» caminhava à vontade, com as
rédeas bambas, ouvi uma pesada carroça que seguia no nosso encalço. O condutor vinha
embriagado e, conquanto tivesse largo espaço, tomando pela direita; para nos passar
adiante, deixou-se ficar atrás e de modo que o cavalo que tirava a carroça levava o focinho
dentro da nossa carruagem aberta.
No intuito de verificar o procedimento do Prince não dei à minha parenta o costumado aviso.
O pônei parecia nervoso e agitado; voltava a cabeça o mais que podia para observar à
direita e atrás; mas como a carroça vinha colada à traseira da nossa carruagem, o Prince
não conseguia vê-la. Após três ou quatro minutos de angustias (sirvo-me deste termo,
porque os movimentos das orelhas e a tensão dos músculos do pônei justificam o seu