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A atualidade da

Teoria Estética
de Theodor
W. Adorno
Organização
Rodrigo Duarte
Daniel Pucciarelli
7 Apresentação

Belo natural e belo artístico Sublimação e experiência estética

15 Silke Kapp 117 Verlaine Freitas


Canteiros da arte: entre Adorno e Ferro Três momentos do conceito de sublimação
em Theodor Adorno

35 Bruno Pucci
A articulação dialética entre o Belo natural 135 Luiz A. Calmon Nabuco Lastória
e o Belo artístico Sublimação na experiência estética

Arte como forma de práxis Aporias da arte contemporânea

57 Douglas Garcia Alves Júnior 157 Rachel Cecília de Oliveira


Nos passos da Teoria Estética: o curso Estética Aporias da arte contemporânea: as teses do fim da arte
(1958/59) de Adorno

171 Rodrigo Duarte


67 Lucyane De Moraes “Teu corpo na fumaça pelo ar”:
Arte como práxis da consciência: notas sobre Adorno e a questão da poesia após Auschwitz
o pensamento estético de Theodor Adorno

Sobre os autores e organizadores


99 Daniel Pucciarelli
A imanência da sociedade na obra de arte
7

Apresentação

Há cinquenta anos era publicada a Teoria Estética de Theodor W.


Adorno, um ano após seu súbito falecimento. Hoje como há meio século,
a obra é objeto de fascinação e de desafio para a crítica. Com efeito, sua
condição de inacabamento confere-lhe aquele brilho enigmático dos
grandes projetos interrompidos que, embora inconclusos, abandona-
dos, muitas vezes inacabáveis ou, no melhor dos casos, arrematados
de forma provisória por outrem, permanecem misteriosamente de pé,
dando à própria fragmentação um aspecto de imponência e perenidade.
Embora inacabada, a obra condensa a reflexão estética de toda uma
vida desse autor que ofereceu uma das contribuições à disciplina mais
decisivas do século passado. Pois trata-se de seu “grande livro sobre a
estética”1, como Adorno se referiu à Teoria Estética em uma das últimas
entrevistas que concedeu. Ao que tudo indica, o livro corresponde à
segunda das três grandes obras de maturidade que Adorno gostaria
de ter legado à posteridade, bem no espírito das três grandes Críticas
kantianas: a primeira delas, a Dialética negativa, fora publicada em
1966 e tem por objeto a filosofia teórica; já a terceira seria provavel-
mente uma obra dedicada à filosofia moral, que afinal não veio a lume.
Juntas, essas obras deveriam representar aquilo que Adorno, nas suas
próprias palavras, “teria a colocar na balança”2.

1   Entrevista concedida à revista alemã Der Spiegel, no ano de sua morte.
2   Cf. Tiedemann, R. “Editorisches Nachwort“, in: Adorno, T. Ästhetische Theorie.
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 8 Apresentação 9

Este livro, assim como o evento homônimo que lhe deu origem3, A segunda seção, Arte como forma de práxis, tem por objeto um
compreendem-se como um gesto de celebração desse fascínio e uma dos aspectos centrais dos construtos artísticos tal como a Teoria Estética
tentativa de confrontação de seu desafio. Como toda celebração de os concebe: seu aspecto social. A primeira contribuição, “Nos passos da
uma efeméride do mundo do pensamento, também esta pretende, a Teoria Estética: o curso Estética (1958-1959), de Adorno”, de Douglas
um só tempo, afirmar e interrogar a sua vitalidade – ou, na melhor Garcia Alves Júnior, propõe um enfrentamento das densas páginas da
tradição crítica, afirmá-la justamente ao interrogá-la, na exata medida Teoria Estética a partir da produção docente de Adorno, cujas transcri-
em que ela permanece sendo um objeto de interrogação produtiva ções vêm sendo publicadas nas últimas décadas. Como demonstra o
para o presente. As seções e contribuições do livro reproduzem as artigo, o curso oferecido por Adorno no final da década de 1950 oferece
do evento que, por sua vez, refletem a diversidade de aspectos que um material profícuo para descortinar o sentido social e político das
compõem a Teoria Estética. principais categorias da estética adorniana. Na segunda contribuição
Como não poderia deixar de ser, a primeira seção dedica-se a da seção, intitulada “Arte como práxis da consciência: notas sobre
uma categoria clássica da estética filosófica: o belo, considerado em o pensamento estético de Theodor W. Adorno”, Lucyane De Moraes
sua duplicidade constitutiva entre belo artístico e belo natural, tal constrói uma reflexão multifacetada para investigar a relação de con-
como ela se consolidou ao menos desde Kant e que permanece cru- vergência entre teoria e práxis tal como ela se apresenta nas obras de
cial para a Teoria Estética. A contribuição de Silke Kapp, “Canteiros arte. No último artigo da seção, “A imanência da sociedade nas obras
da arte: entre Adorno e Ferro”, mobiliza elementos do pensamento de arte”, Daniel Pucciarelli persegue o teor social das obras de arte a
arquitetônico contemporâneo – em particular a partir de Sérgio Ferro, partir dos principais níveis de reflexividade mobilizados pela estética
em uma rica confrontação com Adorno – para refletir sobre o belo adorniana para investigar a obra de arte, procurando demonstrar em
natural em um mundo quase inteiramente transformado pela ação que sentido se pode afirmar que, para Adorno, a sociedade é imanente
humana. Na segunda contribuição da seção, “A articulação entre aos construtos artísticos.
o belo natural e o belo artístico”, Bruno Pucci aborda a questão As contribuições da terceira seção do livro tematizam a ques-
também a partir de objetos estéticos específicos, mas, no seu caso, tão da sublimação na experiência estética. Como se sabe, Adorno
da literatura. Partindo de uma reconstrução do problema na Teoria procurou incorporar muito centralmente certos elementos da teoria
Estética, Pucci recorre ao célebre conto de João Guimarães Rosa, “O psicanalítica em seu pensamento – seja em sua reconstrução crítica
recado do morro”, para investigar os limites e entrecruzamentos da categoria filosófica de sujeito, seja em sua teoria social, seja em
das duas categorias. sua estética. Na primeira contribuição da seção, “Três momentos
do conceito de sublimação em Theodor Adorno”, Verlaine Freitas
persegue – em confronto cerrado com Freud e a tradição psicanalí-
tica – o conceito de sublimação em pontos distintos do pensamento
Gesammelte Schriften. Band 7. Frankfurt am Main: Surkamp 2003, p. 537.
de Adorno, construindo como que uma constelação da sublimação
3   Simpósio A atualidade da Teoria Estética, realizado nos dias 3 e 4 de julho de
em sua obra. Também a contribuição de Luiz Nabuco, “Sublimação
2019 na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, com organização
de Rodrigo Duarte e Rachel Cecília de Oliveira.
e experiência estética”, recorre a Freud, mas mais centralmente a
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 10

Lacan para traçar a relação tensa dos processos sublimatórios com


a experiência estética.
Por fim, ao dedicar-se às Aporias da arte contemporânea, a última
seção do livro interroga mais diretamente a atualidade sempre em
disputa da Teoria Estética de Adorno. Rachel Cecília de Oliveira assina
o primeiro artigo da seção, “Aporias da arte contemporânea: as teses do
fim da arte”, situando criticamente a posição de Adorno no interior do
tópos hegeliano que se tornou, como demonstra a autora, uma espécie
de obsessão das estéticas do século xx. Na segunda contribuição da
seção, enfim, “’Teu corpo na fumaça pelo ar’: Adorno e a questão da
poesia após Auschwitz”, Rodrigo Duarte enfrenta a espinhosa questão
de saber o que significa, afinal de contas, escrever um poema após
Auschwitz para Adorno, reconstruindo suas próprias hesitações e cor-
reções de sua posição original.
Os organizadores agradecem às autoras e autores pelas ricas
contribuições, e também à editora Impressões de Minas, que acolheu
o projeto com entusiasmo. Que o livro possa contribuir para fomentar
a recepção de uma obra que permanece a descobrir.

Rodrigo Duarte
Daniel Pucciarelli
Arte como forma de práxis 99

A imanência da sociedade
na obra de arte
Daniel Pucciarelli

Introdução

Há cinquenta anos morria Theodor W. Adorno – e os intérpretes


se veem diante da embaraçosa tarefa de interrogar a atualidade
de seu pensamento. Não que seja uma tarefa desnecessária: com
efeito, não é preciso resgatar aqui as tão repisadas ideias de “núcleo
temporal da verdade”, de “diagnóstico do tempo” e congêneres para
afirmar que a própria forma de teoria que Adorno procurou prati-
car convida, sempre renovadamente, a esse exercício. Não obstante,
trata-se de uma tarefa embaraçosa pelo que ela parece pressupor:
que o presente, ou determinada compreensão que se tenha dele,
esteja em posição privilegiada, em virtude de sua mera vantagem
temporal, de julgar um construto teórico do passado. Com efeito,
esse pressuposto parece imputar ao pensamento um critério que não
raro lhe é estranho, como se sua verdade ou falsidade dependesse
de sua dimensão prognóstica, confirmável ou refutável de maneira
unilateral por força dos fatos. Nada mais alheio ao pensamento de
Adorno, que compreendia a dinâmica própria à história da filosofia,
como se sabe, no interior de um ritmo oscilante entre permanência e
esquecimento (Dauer und Vergessen)1, irredutível a toda e qualquer

1   “Na filosofia, de fato, as perguntas têm outro peso do que elas têm nas ciências
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 100 Arte como forma de práxis 101

linearidade. Antes, mais valeria fazer a pergunta contrária, como I. O teor social da arte
ensina o próprio filósofo em efeméride semelhante (os 125 da morte
de Hegel): antes de medir a verdade de determinado construto teórico É possível perseguir o teor social da obra de arte na Teoria estética
unicamente pelo presente, medir também o presente a partir desse em três níveis de reflexividade distintos, que operam a cada vez como
construto. O que significa: indagar em que medida o presente está à disjunções que o especificam e diferenciam. A cada novo nível, temos
altura do potencial de inteligibilidade e transformação sedimentado simultaneamente uma maior delimitação tanto de onde propriamente
em certa formação intelectual pregressa; de que modo, em outros reside quanto de onde não reside o caráter social das obras. Assim, ao
termos, um pensamento é capaz de desarticular, tornar problemá- passo que cada novo nível elucida a singularidade da posição defendida
tico e rearranjar o que aparece como autoevidente e cristalizado por Adorno na Teoria estética, ele permite também criticar imanente-
ao momento histórico atual; em que medida, enfim, determinado mente as posições alternativas. São eles os níveis: (1) do estatuto da obra
corpus intelectual conserva ainda uma força disruptiva em relação como fato social e como construto autônomo; (2) o de sua produção e
ao presente. de sua recepção; e por fim (3) o da forma e do conteúdo. Como pretendo
É com esse espírito que abordarei a Teoria estética de Adorno reconstruir detalhadamente a seguir, Adorno defende a tese de que o
– não tanto a Teoria estética como um todo, que, como livro, é pro- teor social da arte reside em sua autonomia, no modo de sua produção,
verbialmente impenetrável, mas, antes, seu conjunto de teses sobre a e no nível da forma.
relação entre arte e sociedade, que compõem um elemento essencial (1) Fato social e autonomia. Sabemos que a Teoria estética con-
de seu campo de forças. Em um esforço inicial, procurarei explicitar cebe a obra de arte no interior de uma dualidade fundamental entre
qual o sentido próprio em que se pode falar do teor social de um fato social e autonomia. A obra é fato social na medida em que ela é
construto estético em Adorno (I), para então problematizar o que necessariamente produto de trabalho social, isto é, um artefato criado
poderíamos chamar da teoria do parentesco entre arte e sociedade por homens e mulheres concretos que trabalham e interagem em um
que lhe é subjacente (II). Juntos, teor social e teoria do parentesco contexto sócio-histórico específico. Como todo artefato, portanto,
permitem pensar a relação específica entre arte e práxis postulada pela também a obra de arte é trabalho social objetivado; mais ainda, esse
Teoria Estética. Por fim, tentarei esboçar rapidamente um confronto estatuto intrassocial pode inclusive tornar-se objeto da própria obra,
interno, nesse sentido específico de “atualidade” supramencionado, como ocorre efetivamente, diz Adorno, desde o Dom Quixote (Adorno,
entre os resultados da exposição e alguns desdobramentos recentes [1970] 2003, p. 335), em que os vínculos da obra enquanto artefato com
do mundo da arte contemporânea (III). a realidade social empírica são tematizados abertamente e convertem-
-se em material compositivo da própria obra.
O que pode parecer contraintuitivo à primeira vista, no entanto,
é que não é seu estatuto de artefato intrassocial que constitui, para
Adorno, o teor social próprio à obra de arte. E isso justamente porque
particulares, nas quais elas são dissolvidas pela resposta, ao passo que o seu ritmo
todo artefato, do ponto de vista de sua mera constituição material,
na história da filosofia seria antes o de persistência e esquecimento”. (Adorno,
[1966] 2003, p. 68).
é produto de ação humana, tem uma origem social; isso não basta,
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 102 Arte como forma de práxis 103

portanto, para distingui-lo como um artefato qua construto estético, exterior, o que lhes atribui estatuto diferenciado de objeto artístico.
isto é, na qualidade de objeto de arte. Ao contrário, é justamente sua Com essa autonomização, no entanto, os artefatos artísticos carregam
autonomia em relação a essa constituição intrassocial que conecta a em si ex negativo a marca do social, o que faz deles ao mesmo tempo
obra de arte à sociedade enquanto obra de arte. Em seu sentido mais construtos artísticos e subterraneamente sociais – ou, como veremos
elementar, essa autonomia se traduz em seu peculiar deslocamento da adiante, artefatos que possuem um parentesco estrutural com a socie-
vida prática no interior da qual ela pôde emergir; com efeito, as obras dade. Como diz Adorno, a antítese da arte à sociedade é, ela mesma,
são construtos sui generis que interpelam os indivíduos sem aparente de natureza social. Esse é o único meio, conclui o filósofo, pelo qual a
funcionalidade ou utilidade social imediata. Antes, elas parecem cons- arte qua arte pode ter um teor social.
tituir um universo de sentido ad-hoc, isto é, uma espécie de mônada (2) Produção e recepção. Dada a autonomia dos construtos esté-
com regras que lhe são tendencialmente imanentes e estranhas a toda ticos, provavelmente o passo mais evidente consistiria em localizar
e qualquer normatividade prática ou epistêmica, tornando-se como o seu teor social, em um segundo nível de reflexividade, mais direta-
que um enclave contemplativo no seio da vida prática. mente na esfera da recepção, isto é, nos efeitos ocasionados nos sujeitos
Paradoxalmente, portanto, é na afirmação de sua aparente inde- por determinado construto. Também aqui a argumentação de Adorno
pendência em relação à sociedade que deve residir, se seguimos Adorno, pode parecer contraintuitiva à primeira vista: é justamente porque a
o teor social da obra. Mais ainda, o filósofo não hesita em interpretar recepção dos construtos é a mais amplamente mediada pela sociedade
essa independência como negação antitética da sociedade: que se deve procurar o seu teor social na esfera da produção. Em pri-
meiro lugar, porque a produção dos construtos é lógica e cronologica-
Social é a arte não graças ao modo de seu surgimento (...) mente anterior a sua recepção, o que lhe confere primado analítico; em
ou à origem social de seu conteúdo. Antes, ela se torna segundo lugar, porque a maneira pela qual a recepção é socialmente
algo social através de sua contraposição à sociedade, e essa mediada se limita essencialmente ao âmbito pré-estético.
posição ela só assume como arte autônoma (...) Social na Em outros termos, a recepção, se compreendida empiricamente,
arte é seu movimento imanente contra a sociedade, não sua é saturada por uma série de contingências heterônomas que são, não
tomada de posição manifesta. Seu gesto histórico afasta de por último, de ordem sócio-histórica, como é o caso das contingên-
si a realidade empírica de que as obras de arte fazem parte cias de classe, gênero, etnia etc; como tais, essas mediações incidem
enquanto coisas (Adorno, [1970] 2003, p. 335, grifos meus). diretamente sobre a recepção e raramente alcançam o nível de obje-
tivação que se pode aferir a partir da esfera da produção. Diz Adorno:
Adorno parece argumentar a partir da seguinte disjunção: ou “As reações humanas a obras de arte são, desde tempos imemoriais,
bem os artefatos não se distinguem imanentemente do nexo de fun- radicalmente mediadas, e não relacionadas diretamente à coisa; hoje,
cionalidade social do qual eles provêm, o que faz com que eles sejam por toda a sociedade. A investigação sobre os efeitos não alcança nem
obviamente sociais como todo artefato, porém não artísticos; ou bem a arte como algo social, nem pode ditar normas à arte (...)” (Adorno,
eles se constituem como artefatos artísticos que, embora de proveni- [1970] 2003, p. 338). Sem mencionar, claro, a tendencial neutralização
ência social, negam imanentemente toda normatividade que lhes seja do potencial disruptivo de uma obra, que se dá a partir de sua exposição
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 104 Arte como forma de práxis 105

e assimilação sistemática nos circuitos artísticos; paradigmaticamente, em relação a sua própria imediaticidade, ele obedece inconsciente-
Adorno interpreta a história do surrealismo desse modo (Adorno, mente um universal social; a cada correção bem-sucedida, o sujeito
[1970] 2003, p. 339-340). total (das Gesamtsubjekt) o olha por sobre os ombros, sujeito total esse
É por essa razão que Adorno sustenta que o teor social da arte se que ainda não é bem-sucedido” (Adorno, [1970] 2003, p. 343).
manifesta mais propriamente no âmbito da produção. Seu principal (3) Forma e conteúdo. Nessa solicitação que os materiais exercem
modelo teórico para concebê-la foi elaborado majoritariamente ainda sobre o sujeito criador, é evidente que a escolha temática e demais
em sua juventude, nos tempos de correspondência com o compositor questões de conteúdo também terão alguma relevância e serão de
Ernst Krenek, e se deixa subsumir em larga medida sob a ideia de natureza fundamentalmente social; sua função no teor social da arte,
dialética do material. Esse conceito procura circunscrever um tipo de no entanto, é “a mais superficial e enganosa” (Adorno, [1970] 2003, p.
experiência específica a que vários artistas no decorrer da história da 341). Evidentemente, isso valerá tanto para a figuração artística do
arte fazem referência, de Shakespeare a Drummond, de Schoenberg próprio social e da política, como é o caso da arte diretamente enga-
a Dorival Caymmi, com maior ou menor grau de elaboração teórica. jada, quanto para a figuração estética de uma determinada “visão de
Trata-se da experiência de uma peculiar dinâmica de estranhamento mundo”, “posição política” ou “lugar de fala”.
e solicitação da parte dos materiais artísticos; como se os materiais Aqui, o argumento de Adorno não me parece exatamente
de que dispõe o sujeito criador o interpelassem e fizessem demandas conservador, como o acusam seus detratores; antes, ele se baseia
intraestéticas a que ele pode ou não consentir. Essa dinâmica se dei- sobretudo na tese formalista de que a conformação estética possui
xaria verificar em virtualmente todos os passos da produção, desde a uma lógica própria, refratária a toda figuração de conteúdo que não
eventual escolha temática, passando pelo uso das técnicas específicas o submeta à sua lei interna: “a forma funciona como um imã que
de elaboração formal até a atenção aos imperativos de determinado ordena os elementos da empiria de modo a estranhar sua existência
padrão de gosto sócio-histórico. Quanto mais o artista acredita lidar extraestética, e apenas por meio disso eles podem se apoderar da
com uma espécie de coisa viva que possui uma misteriosa lógica interna sua essência extraestética” (Adorno, [1970] 2003, p. 336). Por isso,
e demandas que devem ser a cada vez negociadas no processo de pro- não é incomum que a arte diretamente engajada tenha ou bem de
dução da obra, tanto mais ele se encontrará, para Adorno, no âmbito se desengajar tão logo ela alcance maior consistência formal, como
da autonomia da arte – e, consequentemente, em seu teor social. Ou ocorre paradigmaticamente, para Adorno, com os melhores momentos
ainda, essas demandas são elas mesmas de ordem social, apresentan- da obra de Brecht (Adorno, [1970] 2003, p. 336); ou bem que ela traia
do-se em âmbito propriamente estético, à diferença da série de contin- imanentemente seus próprios objetivos em virtude da acachapante
gências pré-estéticas envolvidas na recepção. Diga-se de passagem que discrepância entre o suposto caráter progressista de seu conteúdo
é evidente que também o sujeito criador possui uma posicionalidade e seu conservadorismo formal.
saturada por contingências sócio-históricas; elas, no entanto, conforme É na forma, portanto, que deve residir o teor social da arte.
sustenta Adorno, entram apenas negativamente na solução de compro- Segundo uma tese sustentada por Adorno ao menos desde o texto
misso que é a constituição de cada obra de arte: “Na medida em que o “Sobre a situação social da música”, redigido em 1932 e publicado
artista se comporta, na sua produção, sempre também negativamente postumamente, as contradições e fraturas sociais se sedimentam
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 106 Arte como forma de práxis 107

estruturalmente na própria fibra da forma sob a figura de problemas II. Teoria do parentesco e práxis
técnicos específicos, que por sua vez incidem sobre toda a constituição
da obra (Adorno, [1932] 2003). No melhor dos casos, o conteúdo pode Os intérpretes do pensamento tardio de Adorno têm familiari-
ter alguma relevância na medida em que também ele se plasmar na dade com sua teoria do parentesco ou do protoparentesco. Na Dialética
forma; mas, no limite, ele é totalmente indiferente, ou mesmo malé- negativa, por exemplo, ela é introduzida em um momento crucial, em
fico para a determinação de seu teor social: “Lutas sociais, relações que se trata de especificar os termos da conexão entre princípio de
de classe são impressas na estrutura das obras de arte; as posições troca e princípio de identidade – conexão essa que, por sua vez, deverá
políticas que as obras de arte assumem são epifenômenos em face fundamentar o liame entre teoria social e teoria do conhecimento, uma
a isso, na maioria dos casos às custas da conformação das obras de das premissas da obra: “O princípio de troca, a redução do trabalho
arte e, com isso, no fim das contas, às custas também de seu conte- humano ao conceito geral abstrato do tempo médio de trabalho, tem
údo de verdade social” (Adorno, [1970] 2003, p. 344, ênfase minha). um protoparentesco [urverwandt] com o princípio de identificação. Na
Há, portanto, uma espécie de paralelismo estrutural entre os troca ele tem seu modelo social, e a troca não seria sem ele; através
problemas técnico-formais do material artístico e as contradições dele, entes singulares e desempenhos não-idênticos se tornam comen-
sociais; segundo me parece, esse paralelismo corresponde à dimensão suráveis, idênticos” (Adorno, [1966] 2003, p. 149). Significativamente,
mais profunda do teor social das obras de arte. Adorno pensa aqui é exatamente nos termos de uma tal teoria do parentesco que Adorno
em termos bem concretos, estabelecendo correspondências mais ou procura fundamentar também essa relação de correspondência interna
menos diretas entre, por exemplo, os problemas técnicos implicados entre arte e sociedade:
na consolidação da polifonia, de um lado, e a reinvenção da ideia
de República durante o Renascimento, de outro. Não se trata, é bom O fato de que a sociedade ‘apareça’ nas obras de arte, tanto
frisar, de correspondências externas, mas fundamentalmente inter- com verdade polêmica quanto ideologicamente, conduz à
nas às obras; como afirma o filósofo explicitamente, o teor social da mistificação histórico-filosófica. Muito facilmente a espe-
obra reside no fato de que a sociedade é imanente às obras, e não o culação poderia recair na ideia de uma harmonia pres-
contrário – embora, bem entendido, a arte obviamente também seja tabelecida pelo espírito do mundo entre a sociedade e as
imanente à sociedade (Adorno, [1970] 2003, p. 345). Por sua vez, essa obras de arte. Mas a teoria não deve capitular diante dessa
correspondência interna entre arte e sociedade é explicitada nos relação. O processo que é levado a cabo nas obras de arte e
termos de uma teoria do parentesco, de fundamental importância imobilizado nelas deve ser pensado no mesmo sentido que
não apenas para a Teoria Estética, mas para a sua obra tardia como o processo social, ao qual as obras de arte estão atreladas;
um todo. Como veremos, é aí que reside a relação específica das segundo a fórmula de Leibniz, elas representam o processo
obras de arte com a práxis. social sem janelas. A configuração dos elementos da obra
de arte para com a totalidade do processo social obedece
imanentemente a leis que tem um parentesco [verwandt]
com as leis da sociedade lá fora. Forças produtivas e relações
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 108 Arte como forma de práxis 109

de produção sociais, segundo sua mera forma, depurados [C]omo negação da essência prática, a arte é ela mesma,
de sua facticidade, regressam nas obras de arte, porque no entanto, também práxis, e de modo algum meramente
trabalho artístico é trabalho social. Em si mesmas, as forças graças à sua gênese, à ação de que carece todo artefato. Ao
produtivas nas obras de arte não são distintas das forças movimentar-se em si mesmo, seu teor não permanece o
produtivas sociais, mas apenas através de sua ausência mesmo; de modo que as obras de arte objetivadas em sua
constitutiva da sociedade real. Dificilmente poder-se-ia história se tornam novamente modos de comportamento
fazer ou criar algo nas obras de arte que não tivesse o seu práticos, e voltam-se à realidade. Nisso a arte é igual à
modelo na produção social, mesmo que latente. A força vin- teoria. Ela repete em si, de forma modificada e, se se quiser,
culante das obras de arte para além do círculo encantado neutralizada, a práxis – e, por isso, ela assume posições
de sua imanência funda-se naquela afinidade [Affinität] (Adorno, [1970] 2003, p. 358).
(Adorno, [1970] 2003, p. 350s).
Ou como escreveu o filósofo quase quarenta anos antes: “Da
Não entrarei aqui na enorme discussão sobre os problemas teó- música que queira conservar hoje seu direito à existência, deve-se
ricos levantados por essas passagens. Em termos gerais, pode-se dizer exigir caráter de conhecimento. Em seu material, ela deve conformar
que a teoria do parentesco procura dar sustentação ao caráter holístico os problemas de modo puro, problemas que o material – ele próprio
e interdisciplinar da teoria crítica sem os instrumentos teóricos de que nunca material natural, mas produzido de maneira sócio-histórica – lhe
o idealismo dispunha para fundamentá-lo. No caso da mediação entre coloca; as soluções que ela encontra equivalem-se a teorias” (Adorno,
arte e sociedade, é esse parentesco que autoriza o estabelecimento das [1932] 2003, p. 732).
correspondências internas entre as contradições sociais e os problemas A arte repete em si, de maneira modificada e neutralizada, a
técnico-formais do material artístico. Assim, graças a tal parentesco e práxis, isto é: ela se constitui ela mesma como reflexão da práxis, através
a tais correspondências internas, Adorno procura sustentar a tese de de sua autonomia e lógica formal específicas. Como tal, ela é simultane-
que, à medida em que o sujeito criador responde aos problemas técnico- amente mais e menos do que a práxis: menos porque ela é justamente
-formais da obra imanentemente, na própria conformação artística, ele um modo de reflexão, que “recua diante do que deve ser feito”; mais
responderá, paralelamente, também às contradições sociais. Nesse sen- porque, como reflexão, ela é também crítica à práxis: “Segundo sua mera
tido, cada tentativa de dirimir esteticamente os problemas técnico-for- forma, a práxis tende àquilo que, se ela fosse consequente, ela aboliria;
mais de um construto artístico podem ser interpretados como tomadas a violência é imanente à práxis e se conserva em suas sublimações; já
de posição específicas em face de problemas sociais correspondentes. as obras de arte, mesmo as mais agressivas, advogam a não-violência”
Em outros termos, cada obra condensa em si uma reflexão sobre (Adorno, [1970] 2003, p. 358s). Assim, se se pode falar de uma dimensão
a práxis; ela é um “modo de comportamento” (Verhaltensweise) ou prática dos construtos artísticos, ela se dará necessariamente sob o signo
uma “figura da práxis”. Isso faz com que a arte seja fundamental- dessa dualidade: internamente atrelada à sociedade e a uma certa ideia
mente da mesma natureza que a teoria, tal como a compreende o de transformação social, toda arte é, ao mesmo tempo, crítica à violência
materialista Adorno: sempre contida implícita ou explicitamente na práxis.
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 110 Arte como forma de práxis 111

III. Notas sobre a atualidade da Teoria Estética incidem diretamente sobre a recepção: desta vez, portanto, não tanto
em termos de contradições sociais plasmadas na forma, mas sempre
Recapitulemos nossas reflexões. Sustentei que se deve perseguir situadas em contextos de recepção específicos e dinâmicos. Nesses
o teor social da arte, na Teoria Estética, em três níveis de reflexividade termos, o caráter social das obras variaria contextualmente, podendo
distintos: (1) no da autonomia da arte, em contraposição à sua dimen- a mesma obra, inclusive, apresentar teores sociais distintos a depender
são de fato social; (2) no nível da produção, explicitada pela dialética dos receptores envolvidos. Parece intuitivo, como mencionado acima,
intraestética do material, em oposição à recepção, saturada por con- conceber a experiência estética nesses termos, em que cada receptor,
tingências pré-estéticas; (3) e no âmbito de sua forma, que sedimenta digamos, “retira dela o que lhe cabe”. Além disso, o deslocamento de
imanentemente em sua própria fibra, sob a figura de problemas de ênfase para a recepção possibilitaria uma maior politização da experi-
ordem técnico-formal, a fratura social. Assim, torna-se possível afirmar, ência estética, na medida em que ela permitiria investigar mais concre-
com Adorno, que o teor social da arte reside fundamentalmente na tamente o que impede, limita e condiciona o acesso de determinados
imanência da sociedade na obra, e não o contrário. Após isso, procurei grupos sociais a uma experiência estética informada.
demonstrar que o teor social da arte assim compreendido envolve uma Já no que concerne ao conteúdo, parece haver atualmente uma
teoria do parentesco estrutural entre arte e sociedade, de resto basilar crescente naturalização da ideia de que a arte seria o reduto privi-
para o pensamento tardio de Adorno; essa teoria permite qualificar a legiado de expressão e autocompreensão de grupos sociais especí-
obra como figura da práxis, modo de comportamento prático e reflexão ficos constituídos por uma identidade compartilhada. O teor social
da práxis, que no entanto não tem por vocação incidir diretamente em das obras residiria aí majoritariamente na figuração estética mais ou
contextos práticos. Em sua imanência estética radical, a obra de arte menos imediata de uma cosmovisão sistematicamente marginalizada
reencontra a sociedade mediatamente. e, com isso, no próprio direito à cidadania estética dos grupos sociais
Embora a Teoria Estética tenha sido considerada “o padrão para subalternizados. Segundo esse argumento, a centralidade conferida à
qualquer estética contemporânea” (Bürger, 1984, p. 94), como afirmou depuração formal em detrimento do conteúdo invisibilizaria estetica-
Peter Bürger, parece claro que ela se encontra em sentido oposto de mente a posição assimétrica de certos grupos no interior da fratura
várias tendências hegemônicas que caracterizam a autocompreen- social. De fato, Adorno se refere ao sujeito criador, como vimos, como
são do mundo da arte das últimas décadas. Particularmente evidente um Gesamtsubjekt, um sujeito total (Adorno, 1970, p. 343) ainda mera-
parece a ênfase contemporânea na recepção e no conteúdo como media- mente potencial que, na lide produtiva com a forma, teria uma visada
dores fundamentais do caráter social da arte, elencados como tais pelo necessária à universalidade. Nada mais distante de certa orientação
próprio Peter Bürger, sem mencionar o aparente abandono de certos identitária que parece conquistar hegemonia também no mundo da
valores tipicamente modernistas que orientam a estética de Adorno, arte atual.
como o de autonomia e progresso técnico. É verdade que, face a essas tendências, a Teoria Estética de
De fato, um proponente das estéticas da recepção poderia susten- Adorno aparece, ao contrário do que diz Bürger, como um construto
tar que, para aferir o caráter social da arte, ainda que ex negativo, não teórico pertencente inevitavelmente a um passado distante e irrecu-
se pode desconsiderar justamente as contingências extraestéticas que perável. Não creio que se trate de procurar reformá-la visando uma
A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno 112

espécie de meio termo, o que implicaria apenas em perda de radica-


lidade. Antes, seria o caso de utilizar seus recursos para pensar as
limitações constitutivas das estéticas contemporâneas da recepção e
do conteúdo; em suma, de interrogar o presente a partir dela. Com sua
ênfase na autonomia, na produção e na forma, a vocação da Teoria
estética insiste em articular teoricamente a experiência estética não
tanto como exercício de afirmação da posicionalidade dos agentes
estéticos em suas demandas situadas; não tanto, em outros termos,
como instância de comunicação de conteúdos e tomadas de posição
políticas a eles atreladas – mas, antes, como exercício de negatividade
e descentramento subjetivo, em que se desestabilizam as ideias mesmas
de identidade, posicionalidade e comunicação. Ao que tudo indica,
também esse confronto tem seu conteúdo social.

Referências bibliográficas

ADORNO, T. Ästhetische Theorie [1970]. In: Gesammelte Schriften. Volume 7. Editado por

Rolf Tiedemann e Gretel Adorno. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003.

__________. Negative Dialektik [1966]. In: Gesammelte Schriften. Volume 5. Editado por Rolf

Tiedemann e Gretel Adorno. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003.

__________. Zur gesellschaftlichen Lage der Musik [1932]. In: Gesammelte Schriften. Volume

18. Editado por Rolf Tiedemann e Gretel Adorno. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2003.

BÜRGER, P. Theory of the Avant-Garde. Trad. Michael Shaw. Minneapolis: University of

Minnesota Press, 1984.


A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno
Impressões de Minas, 2020

Organização Rodrigo Duarte e Daniel Pucciarelli


Coordenação editorial Elza Silveira
Revisão Autores e organizadores
Projeto gráfico Rita Davis

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

A atualidade da Teoria Estética de Theodor W. Adorno / A886


2020
Bruno Pucci ... [et al.] ; organizado por Rodrigo Duarte, Daniel
Pucciarelli.
- Belo Horizonte : Impressões de Minas, 2020.
188 p.
ISBN: 978-65-86729-08-5
1. Filosofia. 2. Teoria Estética. 3. Theodor W. Adorno. I. Pucci,
Bruno. II. Pucciarelli, Daniel. III. Alves Júnior, Douglas Garcia.
IV. Moraes, Lucyane De. V. Lastória, Luiz A. Calmon Nabuco.
VI. Oliveira, Rachel Cecília de. VII. Duarte, Rodrigo. VIII. Kapp,
Silke. IX. Freitas, Verlaine. X. Título. CDD: 193
CDU:1(43)

Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410

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Rua Bueno Brandão 80 Floresta 31015-178
Belo Horizonte - MG
Tel. (31) 3492 2383
www.impressoesdeminas.com.br
Este livro foi impresso 50 anós após a publicação póstuma da Teoria Estética
de Theodor W. Adorno, em outubro de 2020 na gráfica da editora Impressões de Minas.
Miolo em papel Pólen Soft 80g e capa em papel Craft 250g
em tipologia Noto Serif e Larsseit.

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