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Pedro Pablo Rodríguez

MARTÍ E AS DUAS AMÉRICAS

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Pedro Pablo Rodríguez

MARTÍ E AS DUAS AMÉRICAS

Tradução: Ana Corbisier

1ª edição

EDITORA
EXPRESSÃO POPULAR

São Paulo - 2006

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Copyright © 2006, by Editora Expressão Popular
Título original: DE LAS DOS AMÉRICAS

Revisão: Dilair Aguiar e Miguel Cavalcanti Yoshida


Projeto gráfico e capa: ZAP Design
Diagramação: Mariana Vieira de Andrade
Impressão e acabamento: Bartira

Todos os direitos reservados.


Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada
ou reproduzida sem a autorização da editora.

1ª edição: julho de 2006


1ª reimpressão: abril de 2009

EDITORA EXPRESSÃO POPULAR


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CEP 01319-010 – São Paulo-SP
Fone/Fax: (11) 3112-0941
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SUMÁRIO

LIBERTAR A AMÉRICA E EMANCIPAR O HOMEM ...........................................................................7

APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................19

PARTE I
“UNA EM ALMA E EM DETERMINAÇÃO”
IDENTIDADE E UNIDADE LATINO-AMERICANAS NA OBRA DE JOSÉ MARTÍ ...................27

GUATEMALA: JOSÉ MARTÍ RUMO À NOSSA AMÉRICA ...............................................................79

MARTÍ NA VENEZUELA: A FUNDAÇÃO DE NOSSA AMÉRICA ...............................................135

PARTE II
NOVA YORK EM CARACAS. AS CRÔNICAS ESTADUNIDENSES DE
JOSÉ MARTÍ PARA A OPINIÃO NACIONAL .....................................................................................203

“DEFINIR, COMUNICAR, ALERTAR... VISÃO MARTIANA DOS


ESTADOS UNIDOS EM A AMÉRICA ..................................................................................................229

SALVAR A HONRA DA AMÉRICA INGLESA. OS ESTADOS UNIDOS COMO


PARTE DO PROGRAMA REVOLUCIONÁRIO DE JOSÉ MARTÍ .................................................255

“O FANTASMA DE BANQUO”. O PROBLEMA SOCIAL NAS CENAS


NORTE-AMERICANAS NOTAS PARA UM ESTUDO .....................................................................275

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LIBERTAR A AMÉRICA E
EMANCIPAR O HOMEM

“Não é à forma das coisas que devemos nos ater, e sim ao seu espírito.
O real é o que importa, não o aparente.
Na política, o real é o que não se vê”.
José Martí

1. O pensamento de Martí tem dois eixos essenciais: seu


latino-americanismo e seu antiimperialismo. É disso que trata
o presente livro. Uma abordagem do processo de formação e
desenvolvimento de sua visão particular de mundo, e como
Martí foi conhecendo aspectos-chave das sociedades hispano-
americanas e de sua relação com a então emergente potência
estadunidense. Examina suas concepções sobre a identidade e a
unidade continentais; oferece um percurso por sua vida e suas
idéias latino-americanistas; sintetiza seus pontos de vista sobre
o vizinho do Norte; apresenta a necessidade de libertar e abrir
verdadeiros caminhos de desenvolvimento para os povos latino-

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americanos, como parte e manifestação de seu humanismo


ecumênico e libertador; destaca que seu latino-americanismo
não é concebível sem seu antiimperialismo – duas posições
complementares, que fundamentam seu projeto transformador
e a cuidadosa estratégia que adotou para tentar realizá-lo.

I
“Viver humildemente, trabalhar muito, engrandecer a América, estudar
suas forças, revelando-as ao continente, pagar aos povos o bem que
me fazem: este é o meu ofício.
Nada me abaterá; ninguém me impedirá”.

2. José Martí (Havana, 28/1/1853 – Boca de los Rios,


19/5/1885) nasceu em uma das últimas colônias da Espanha na
América. Poeta, político e escritor cubano, lutou para subverter
a ordem em seu país, no continente e no mundo. Ocupou-se
prioritariamente da América Latina e suas relações com os
Estados Unidos.
3. Filho de espanhóis, recebeu o “espírito cubano” por duas
vias: a escola – a doutrina liberal na política, na economia e o
romantismo nas letras – e a rua – o ambiente popular, alvoro-
çado e aberto a todos os hábitos marinheiros de Havana, cheia
de carros, carroças e viajantes, contribuindo com seu trabalho
para a escassa renda familiar.
4. Martí, adolescente, manteve-se a par do desastre espa-
nhol com a anexação de Santo Domingo, da vitória dos liberais
mexicanos frente ao império de Maximiliano, e do triunfo do
Norte abolicionista sobre o Sul escravagista nos Estados Uni-
dos. As principais características do contexto sociopolítico era o
liberalismo, o republicanismo, o progresso técnico e científico
e a luta pela a abolição da escravatura.

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5. Exilado, em Madri, com 18 anos, viveu uma cultura


peninsular que, na época, tentava transitar para a modernida-
de, freada pelo clericalismo e o tradicionalismo monárquico e
provinciano. Cursou Direito, Filosofia e Letras.
6. No final do século 19, aquele cubano nervoso e sensível,
de eloqüência torrencial na palavra oral e escrita, de roupas
gastas e sapatos rasgados, atribuiu-se o propósito de impedir
a expansão territorial e econômica dos Estados Unidos para o
sul do continente, pelas Antilhas, como primeiro e necessário
passo de seu percurso dominador.
7. Martí alcançou a plenitude como pensador e político em
seus últimos anos de vida, dedicados às tarefas de organizar a
guerra pela independência. Naquele momento, sua concepção
quanto à identidade continental, que amadurecia progressi-
vamente, começou a abrir caminho por meio da execução de
sua estratégia à realização de uma prática libertadora para o
continente e de projeções universais.
8. Como estadista, correu contra o tempo, para impedir a
materialização do grande perigo externo. Como pensador, con-
cebeu a estratégia de libertação continental que, como político,
ia pondo em prática, contribuindo para reorientar as nações
do continente na base da justiça social para as grandes massas
populares, e que contribuiria, ao mesmo tempo, na construção
da unidade necessária de nossos povos.
9. Propôs uma estratégia completa para a libertação nacional
de Cuba e do continente, a partir, de um lado, da análise e da
crítica do modelo da república liberal hispano-americana e, de
outro, de sua compreensão de que o desenvolvimento industrial
em transição para a formação dos monopólios, nos Estados
Unidos, minava os fundamentos democráticos dessa nação,
direcionando-a para o imperialismo moderno.

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10. Residiu no México, Guatemala, Venezuela e Estados


Unidos, onde publicou diversas obras. Trabalhou incan-
savelmente pelo desenvolvimento da América Latina, que
inspirou também sua obra literária com a qual antecipou o
modernismo. Além de artigos para jornais e revistas, escreveu
Epistolário, Versos sencillos, Versos libres, La pasión de Cuba, La
pasión de América.

II
“Ignoram os déspotas que o povo, a massa sofredora, é o verdadeiro
chefe das revoluções”.

11. Cuba, ilha de escravos e de produção de açúcar para o


mercado capitalista, vivia a fase de estancamento e de degra-
dação do sistema de plantation, prejudicado pelo aumento do
preço dos escravos; pela queda do preço do açúcar devido à
industrialização da produção européia do açúcar de beterraba;
e a espoliação da monarquia e da burguesia espanholas.
A crise do sistema produtivo e da organização social cor-
respondente – a escravidão – explodiu em 10 de outubro de
1868, quando os fazendeiros das regiões orientais encabeçaram
uma formidável insurreição, apoiando-se em diversas classes
e camadas sociais, pretendendo constituir um Estado próprio,
independente, e abolir a escravidão.

III
“Se a Europa fosse o cérebro, nossa América seria o coração”.

12. Com 22 anos, em 1875, Martí chegou à Cidade do Mé-


xico, onde permaneceu até 1887. Conviveu com uma intelec-
tualidade empenhada em terminar a transformação da reforma

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liberal iniciada por Juárez. Aspiravam desenvolver a economia


por meio das máquinas e do comércio, a informar o indígena,
incorporando-o à nação liberal, a entrar, enfim, nas avenidas do
progresso do século 19: indústria, capitalismo, comércio ativo,
liberdades individuais.
13. Empregou pela primeira vez, a expressão “nossa Amé-
rica”. Sua permanência nesse país possibilitou seu encontro
com a autoctonia americana. Data de então a expressão de seu
conceito de identidade latino-americana, notável para sua época
por sua originalidade, sentido de autonomia e projeção para
o futuro, e que constitui a chave metodológica e teórica que
explica o programa revolucionário e a ação de Martí durante
os anos finais de sua vida. Com linguagem peculiar, concebeu
e expôs três idéias essenciais:
a) A América Latina é constituída por povos novos.
b) Existe ali uma natureza particular americana, ou seja,
características espirituais, de psicologia social, próprias e pe-
culiares.
c) As particularidades e especificidades americanas exigem
análises e soluções próprias: “Para conflitos específicos, soluções
específicas”.

IV
“Tendo sido interrompida, pela conquista, a obra natural
e majestosa da civilização americana, criou-se, com a chegada
dos europeus, um povo estranho, não espanhol, porque a seiva
nova rechaça o corpo velho; não indígena, devido à ingerência
de uma civilização devastadora, duas palavras que, sendo an-
tagônicas, constituem um processo; criou-se um povo mestiço
na forma que, com a reconquista de sua liberdade, desenvolve
e restaura sua alma própria”.

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14. A Guatemala era um país governado pelo liberal Justo


Rufino Barrios, um militar que pretendia desenvolver o país
mediante a introdução da estrada de ferro e do telégrafo. Foi
ele quem confiscou e vendeu para particulares os bens da Igreja
católica, eliminando privilégios coloniais.
15. A definição martiana de autoctonia continental ganhou
fundamentação sociológica, histórica e cultural em um de seus
textos da Guatemala. Nossos povos são resultado da fusão –
antagônica e por isso contraditória – de duas civilizações: uma,
conquistadora e dominante; outra, conquistada e dominada.
A autoctonia martiana pode ser desmembrada nos seguintes
elementos:
a) Os povos aborígenes constituíam uma civilização ori-
ginal e autóctone, antes da chegada dos espanhóis.
b) A civilização européia teve, de fato, um comportamen-
to bárbaro por seu caráter devastador, interrompendo aquela
civilização americana.
c) Mediante um processo antagônico, criou-se um povo
novo, diferente do aborígene e do espanhol.
d) A característica desse povo novo é sua mestiçagem “na
forma”, isto é, quanto à cultura, mais do que no aspecto bioló-
gico.
e) A civilização americana original gozou de uma liberdade
que o povo novo agora reconquista para desenvolver e restaurar,
precisamente, essa alma própria ou civilização original.
16. A permanência de Martí na Guatemala o faz compreen-
der a América Latina como uma unidade histórico-social resul-
tante da harmonia de elementos “naturais” e “civilizados”. Essa
leitura constitui a chave metodológica que começa a afastá-lo,
desde sua juventude, das concepções liberais vigentes de então,
as quais consideram o pensamento, as instituições, a tecnologia

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– enfim, as sociedades capitalistas européias e estadunidense –


como o modelo do progresso, e o indígena como um elemento
pelo menos retardatário e mesmo de necessária extinção. A
América é o resultado de um processo histórico: a conquista
européia cortou as possibilidades de desenvolvimento próprio
dos povos indígenas; portanto, a colônia nega o que é latino-
americano, quando tenta eliminar um dos fatores formadores
e, por isso, a independência é o primeiro passo para a síntese
latino-americana que a partir de então, conseqüentemente, há
de reconhecer e recuperar o que é autóctone.

V
“Da América sou filho: a ela me devo.”

17. Se o México significou o encontro com a realidade


continental e a Guatemala, a revelação da identidade histórico-
social da América, a Venezuela, onde viveu de janeiro a julho
de 1881, significou, na evolução de seu pensamento, as missões
de agitá-la (movê-la com energia) e fundá-la (criá-la). Tinha
consciência de que era necessária uma nova América, diferente
das repúblicas de “males novos”, nascidos dos “velhos males” co-
loniais. A Venezuela era governada pelo liberal Guzmán Blanco,
conhecedor de cidades européias e estadunidenses, empenhado
em modernizar e embelezar o aspecto e os costumes de sua
cidade. O positivismo tomava conta das mentes...
18. Na Venezuela, Martí analisa a fundo os problemas do
continente, definindo o caminho adequado para enfrentá-los
e compreendendo a inter-relação histórica e geográfica desses
problemas e de suas soluções:
a) Os princípios liberais não eram aplicados no continente
por meio de uma política democrática – a política e o governo

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estão controlados por uma classe autocrática oligárquica em


seu benefício exclusivo, esquecendo os demais setores da so-
ciedade.
b) O liberalismo em matéria econômica contribui para man-
ter ou para criar relações econômicas com países estrangeiros
em benefício destes, razão pela qual não se modifica o atraso
econômico – tende a reproduzir-se a monocultura ou a mono-
produção em condições de grande atraso técnico e científico.
c) Resultante disso, as condições de desigualdade entre uma
exígua minoria e as amplas maiorias não sofrem alteração.
19. A relevância atribuída por Martí a Bolívar apóia-se nas
idéias deste sobre a unidade continental. Ao se abrigar sob
a sombra de Bolívar e ao descrever sua presença durante os
combates pela independência, emprega o termo alumbramiento
(parto) em meio a uma descrição que faz pensar na erupção
de um vulcão. A relação nascimento-erupção reitera a idéia do
aparecimento violento, com força, com agitação, da fundação
da América nova na época também nova em que lhe coube
viver.

VI
“Parecem, salvo o excessivo amor à riqueza que como um verme rói
suas magnas entranhas, homens talhados em granito”.

20. Os Estados Unidos e, em particular, Nova York, eram


o maior expoente da nova época em que a humanidade estava
entrando. Seu prodigioso desenvolvimento industrial em pleno
curso, acompanhado de uma revolução científica e tecnológica
que parecia limpar todos os horizontes da mente humana,
justificava tal opinião. Nessa “época de transição, sente-se que
a vida nessas grandes cidades consome-se, adelgaça-se e se

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evapora (...) E falta também, na maior parte dos indivíduos, a


esperança no futuro”.
21. Martí refutava o mercantilismo da sociedade estaduni-
dense sob o ponto de vista espiritual: o Norte, frio, calculista,
negociante, “metalizado” e corrupto; o Sul, imaginativo e sen-
sível até a veemência. Esse fundo moral está acompanhado pela
aspiração intensa ao genuíno, à vontade de criar, de ser original
em função do autóctone, na hora de preparar as leis, de ordenar
o corpo social latino-americano.
22. Via uma ausência de desenvolvimento harmônico, de
equilíbrio entre os fatores materiais e espirituais, característica
da psicologia social estadunidense: a primazia do sentido mer-
cantilista: “Tudo empurra, precipita, exacerba, arrasta. Tem-se
medo de ficar para trás. (...) Tudo é trem, telefone, telégrafo.
“... Sente-se que a vida nessas grandes cidades se consome,
debilita e evapora”.
23. Martí indica uma relação entre dois traços da psicologia
social estadunidense: a consciência da própria força e a alma “me-
talizada”. E os dois aspectos eram vistos por ele como a base do
caminho que os Estados Unidos trilhavam em uma modernidade
que implicava no material sobre o espiritual. A própria lógica do
ponto crítico que enfrentava a indústria estadunidense obrigava-a
a vender sua produção no mercado mais favorável de então, ten-
do em vista sua proximidade, nulo desenvolvimento industrial
e produção agrícola e mineral convertidas em matéria-prima: a
América Latina. Mas impor-se a ela, deslocando seus rivais eu-
ropeus, só seria possível se os Estados Unidos melhorassem suas
condições de competitividade, ou seja, se reduzissem o preço de
seus produtos e melhorassem sua qualidade.
24. Daí as razões aventadas por Martí para assumir a críti-
ca repetida e sistemática do protecionismo. Mais do que uma

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abertura comercial, motivada por um apego ortodoxo à doutrina


econômica liberal, via nos impostos protecionistas o nó górdio,
não apenas dos mais graves problemas dos Estados Unidos
naquela conjuntura, mas também o de suas relações com seus
vizinhos do Sul: a necessidade desses mercados.
25. Seu antiimperialismo está condicionado precisamente
porque se evidenciou justo no momento em que surgia aquela
nova etapa histórica, passageira e transitória como qualquer
outra. “No eixo da América estão as Antilhas, que seriam,
se escravas, mero pontão da guerra de uma república impe-
rial contra o mundo zeloso e superior que já se prepara para
negar-lhe o poder, – mero forte da Roma americana; e, se
livres – e dignas de sê-lo pela ordem da liberdade eqüitativa e
trabalhadora – seriam no continente a garantia do equilíbrio,
da independência para a América espanhola ainda ameaçada
e da honra para a grande república do Norte, que no desen-
volvimento de seu território – por infelicidade, feudal já, e
dividido em partes hostis – encontrará mais segura grandeza
do que na ignóbil conquista de seus vizinhos menores, e na
luta desumana que com sua posse travaria contra as potências
da terra pelo domínio do mundo”. Essas frases constituem
provavelmente a melhor síntese de seu pensamento sobre o
assunto.
26. No processo das eleições de 1888, mostra que a política
estadunidense afastava-se cada vez mais de suas origens demo-
cráticas, para se converter em um negócio mercantil em mãos
de grupos profissionais localizados nos dois partidos tradicio-
nais, com nítida tendência a formar uma oligarquia; a íntima
relação entre o que chama às vezes de oligarquia política e os
monopólios em formação; e a influência dos novos interesses
financeiros e monopolistas na política externa da nação.

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27. Essa perspectiva dos interesses antimonopolistas assu-


mida por Martí contribuiu para que ele entendesse um pro-
blema que se aproximava a “passos de sete léguas” das nações
latino-americanas: sua relação comercial e econômica com esses
interesses monopolistas que lutavam para dominar dentro dos
Estados Unidos e para dirigir sua política externa no sentido
da criação de uma zona de domínio territorial e econômico.
Seu fim explícito era barrar o “excessivo amor ao Norte” ou
“ianquemania” entre os latino-americanos.
28. Portanto, desde o repúdio ao protecionismo, o pensa-
mento de Martí avançou na compreensão da grande mudança
econômica e social que se inaugurava nos Estados Unidos em
direção à hegemonia progressiva do capital monopolista, e con-
tra tal setor, seus aliados e servidores na política, dedicaria seu
talento e seu esforço durante os que viriam a ser seus últimos
anos de vida, devorados pela ânsia de tornar efetiva a inde-
pendência de Cuba, de Porto Rico e de Santo Domingo para
transformar estas ilhas em barreira à expansão da emergente
potência imperial.
29. No texto ora publicado pela Editora Expressão Popular,
chama a atenção do leitor brasileiro a total ausência de referên-
cias ao Brasil, tanto a partir de Martí, quanto a partir do autor
deste livro. É como se a América Latina se restringisse à América
espanhola. Daí se deduz a imensa e urgente tarefa de inserir o
nosso país na comunidade latino-americana.

No entanto, José Martí não era um viajante simpático ao ‘novo mundo’.


Era um emigrado e como tal sofreu na própria pele os dramas que
descrevem com referência aos negros, aos italianos, ou aos irlandeses
católicos nos Estados Unidos. Ele não engrandecia o ponto de partida;
sofria a realidade esmagadora de uma sociedade consolidada em expan-

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são. E por aí descobriu o essencial: era preciso avançar na direção de um


pensamento revolucionário próprio da América Latina e forjar soluções
revolucionárias específicas, que não poderiam ser importadas nem da
Europa nem dos Estados Unidos (de onde saíram a velha dominação
colonial e o novo imperialismo). A revolução não é só um ‘produto
político’. Ela é também uma realização histórica, à qual o intelectual
da nossa América deve devotar humildemente a sua vida, toda a sua
vida! Essa é a maior lição de Martí, homem terno e sonhador, mas um
revolucionário implacável. (Florestan Fernandes)

Os editores

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APRESENTAÇÃO

Durante os últimos 12 anos, dividi meu tempo no Centro


de Estudos Martianos entre as tarefas próprias da vice-diretoria
de pesquisa – que ocupei até o começo de 1996 – e a direção
do grupo que prepara a edição crítica das obras completas do
mestre. Em meio a tais responsabilidades, duas preocupações
levaram-me ao exame de alguns aspectos do pensamento mar-
tiano. Primeiro, o processo de formação e desenvolvimento
de sua visão particular de mundo, especialmente por volta do
início da década de 1880, período durante o qual a maioria
dos estudiosos desse autor, inclusive eu, concorda em que se
pode falar de um amadurecimento de seu ideário. E, segundo,
como, concretamente, Martí foi conhecendo aspectos-chave
das sociedades hispano-americanas e de sua relação com a então
emergente potência estadunidense, o que o levou a se propor
um vasto projeto, de alcance continental, que deveria contri-
buir para o equilíbrio do mundo, e onde a independência de
Cuba e a de Porto Rico era um primeiro passo obrigatório; a

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essa tarefa dedicou a plenitude de seu esforço durante os que


viriam a ser os últimos anos de sua vida.
Embora tenha começado a pesquisar alguns dos assuntos
tratados nesses textos durante os anos de 1980, a maioria deles
foi publicada a partir de 1990. Já naquele momento tornara-se
claro para mim que o desenvolvimento do discurso de Martí
era também o desenvolvimento crescente e sistemático de uma
outra opção de modernização, diferente da que fora imposta à
América Latina em seu conjunto pelos grandes centros hege-
mônicos, e pela qual perpassava e perpassaria, tanto seu tempo
histórico, quanto o futuro imediato previsível, do ponto de
vista do final do século 19.
Assim, de algum modo, estive tentando explicar a mim
mesmo o pensamento martiano como uma totalidade, que
dialoga e discorda ao mesmo tempo das idéias e perspectivas
de sua época, e que foi determinado por uma clara consciên-
cia e uma firme decisão de expressar-se com originalidade e
autonomia, não apenas para assumir seu tempo histórico, mas
também – e sobretudo – para transformá-lo, em benefício das
exigências de um desenvolvimento próprio para a América
Latina. Dessa tensão, vivida em plena consciência e até com
angústia por Martí, procede quase certamente sua admirável
capacidade de síntese entre tradição e modernidade; entre o
universal, o regional e o particular; entre o cientificismo e o
espiritualismo. Aquele homem, determinado pelo princípio
filosófico da harmonia, conseguiu fazer desse antagonismo
não apenas um guia para sua vida e sua forma de pensar, mas
também transformá-lo em um princípio metodológico, chave
para sua lógica.
E, embora esta última não tenha constituído meu objeto
particular de reflexão, é indubitável que o desejo de captar e de

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compreender tal lógica esteve no íntimo secreto dos trabalhos


aqui reunidos.
Decidi começar a Parte I por “Una em alma e em deter-
minação”, texto que examina as concepções do revolucionário
cubano sobre a identidade e a unidade continentais, assuntos
intimamente relacionados em seu projeto de libertação, e que
mostram duas facetas de seu pensamento que, naquela época,
suscitaram amplo debate e muito interesse. Este trabalho teve
um destino feliz, do ponto de vista editorial, pois foi publi-
cado, primeiro, pela revista de Buenos Aires, América Libre,
com o título: “José Martí: a identidade latino-americana” (no
7, julho de 1995). Depois, Debates Americanos, a publicação
da Casa de Altos Estudos Fernando Ortiz, da Universidade
de Havana, reproduziu-o com o título atual em seu número
2, correspondente ao semestre de julho a dezembro de 1996;
posteriormente, foi publicado em forma de folheto pela Edi-
tora Pablo de la Torriente Brau (Havana, 1995) e pelo Instituto
Politécnico do México (México, DF, 1996), onde ministrei
um curso sobre identidade e integração latino-americanas no
pensamento de Martí.
“Guatemala: José Martí rumo à nossa América” significou
para mim quase um ano de intensos estudos sobre a revolução
liberal e a presença de Martí naquela nação centro-americana
entre 1875 e 1877; sua primeira versão ficou pronta no início
da década de 1980. Por diversas razões, o texto completo nunca
foi publicado, e durante o tempo transcorrido foi submetido
a mais de uma revisão e à inclusão de novos elementos que
foram aparecendo ou chegaram às minhas mãos.
Da mesma maneira, “Martí na Venezuela: a fundação de
nossa América” pretende oferecer um percurso por sua vida
e suas idéias latino-americanistas durante o período em que

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permaneceu naquele país, na primeira metade de 1881, assim


como fixar o significado desta estadia na evolução geral de
seu pensamento. Terminado em maio de 1982, o trabalho foi
revisto e atualizado em novembro de 1987, sendo finalmente
publicado no no 123 do Anuário do Centro de Estudos Martianos
de 1989. Para esta reprodução procedi a pequenas correções.
A Parte II começa com o trabalho intitulado “Nova York
em Caracas”, que sintetiza os pontos de vista martianos sobre
o vizinho do Norte em seus escritos para A Opinião Nacional,
que, por sua vez, constituem uma primeira sistematização da
abordagem de Martí sobre o tema. Foi apresentado no simpósio
José Martí e as tradições hispânicas em Nova York, realizado
naquela cidade em 1992 e publicado pela revista cubana Islas,
de Santa Clara, em seu número 110, de janeiro-abril de 1995,
e por La Torre, Revista da Universidade de Porto Rico (San Juan),
terceira época, ano 1, no 1-2, julho-dezembro de 1996.
“Definir, comunicar, alertar... Visão martiana dos Estados
Unidos em A América” repete este tipo de análise, desenvol-
vido exclusivamente em uma publicação, neste caso, mensal,
de Nova York, em espanhol, da qual Martí foi redator-chefe e
depois diretor. Este estudo foi minha contribuição para o grupo
de trabalho sobre Martí e os Estados Unidos, patrocinado pela
Latin American Studies Association (Lasa), com pesquisadores
cubanos e daquele país, e foi incluído no livro José Martí e os
Estados Unidos, Havana, Centro de Estudos Martianos, 1998.
A aula Ibero-americana, sediada há alguns anos em uma
sala do Grande Teatro de Havana com patrocínio da Embaixada
espanhola, solicitou-me, em dezembro de 1993, uma confe-
rência sobre o mestre, o que me levou a expor, em “Salvar a
honra da América inglesa”, a singular proposta martiana para
os Estados Unidos, no contexto de seu projeto e de sua estra-

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tégia política, assunto pouco captado por seus estudiosos. Os


organizadores deste foro publicaram o texto depois, no livro
Nossa história comum. Cuba-Espanha. Cultura e sociedade (Havana,
Editorial de Ciencias Sociales, 1995). A Revista Cubana de Ciên-
cias Sociais, editada semestralmente pelo Instituto de Filosofia
da Academia de Ciências de Cuba, incluiu este artigo em seu
no 30, de 1995.
No fim acrescentei um estudo mais recente, “O fantasma
de Banquo”, que deve vir a fazer parte de um volume da co-
leção Arquivos, patrocinada pela Unesco, onde são reunidas
as crônicas martianas sobre os Estados Unidos. Neste texto
tento, pela primeira vez em minhas pesquisas, captar a maneira
como Martí viu o problema social naquele país durante sua
longa permanência ali. Espero em algum momento futuro
transformar essa aproximação em uma monografia, dada a
grande quantidade de referências, assim como a riqueza de
idéias expressas nos escritos martianos sobre o assunto.
Desejo que o conjunto desses textos contribua para um
melhor conhecimento de um homem que se propôs “desa-
marrar a América e desvencilhar o homem”, ou seja, libertar e
abrir verdadeiros caminhos de desenvolvimento para os povos
latino-americanos, como parte e manifestação de seu humanis-
mo ecumênico e libertador. Qualificado com justiça como o
mais universal dos cubanos – e, sem dúvida, um dos mais entre
os latino-americanos – Martí foi, a meu ver, um transgressor
consciente da lógica dominadora imposta pelas mudanças do
fim do século na nova etapa da modernidade que se iniciava.
A consciência que tinha do problema iluminou sua cuidado-
sa, contínua e abundante reflexão sobre os Estados Unidos,
ao mesmo tempo em que esta nação tendia a converter-se no
principal obstáculo a seu anseio de libertação continental.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

Como escrevi há algum tempo, o latino-americanismo


martiano não é concebível sem seu antiimperialismo: são
duas posições complementares, que fundamentam seu projeto
transformador e a cuidadosa estratégia que adotou para tentar
realizá-lo. Razão pela qual estes trabalhos foram reunidos e
também porque foram agrupados em duas seções.
Todos estes textos expressam, claro, meus pontos de vista
em todos os casos, pelos quais sou plenamente responsável.
Vários deles foram debatidos com o coletivo de pesquisadores
do Centro de Estudos Martianos, e todos foram objeto das
críticas de dois colegas que me acompanharam durante os
mais de 30 anos dedicados a analisar o pensamento martiano:
Ramón de Armas Delamarter-Scott e Ibrahim Hidalgo de Paz.
Outros amigos, em Cuba e no exterior, também os leram,
contribuindo com valiosas observações. A todos, obrigado por
enriquecer minhas idéias.
Finalmente, um caloroso agradecimento às minhas compa-
nheiras de trabalho, Maria de los Ángeles Lorigados Quintana
e Marlén Santiesteban Brizuela que, com afetuoso e eficiente
cuidado, transcreveram os textos no computador.

Pedro Pablo Rodríguez


Havana, março de 2002.

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PARTE I

O nosso sonho é que os povos da


América Latina se entusiasmem e se unam.
José Martí: La América,
Nova York, outubro de 1883.

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“UNA EM ALMA E EM DETERMINAÇÃO”
IDENTIDADE E UNIDADE LATINO-AMERICANAS NA OBRA
DE JOSÉ MARTÍ*

O centenário da morte em combate de José Martí, em 19


de maio de 1995, é ocasião propícia para rever suas idéias, em
particular aquelas que dizem respeito ao que ele chamou de
nossa América – o verdadeiro grupo temático principal de seu
pensamento –, sobretudo neste final do século 20 que, de fato,
está abrindo uma época, e na qual, segundo parecem indicar os
grandes interesses dominantes na atualidade, nosso continente
continua sendo induzido, assim como nossos povos, a manter
uma posição submissa e alheia.
Por isso, como parte da indubitável tradição que foi tomando
forma durante esses 100 anos transcorridos desde sua morte
em combate contra o colonialismo espanhol, a assimilação do
ideário martiano – cuja leitura certamente corresponde às exi-

*
A citação de Martí provém do ensaio “Nossa América”, e foi extraída da edição
crítica preparada por Cintio Vitier (Havana, Centro de Estudos Martianos e Casa
das Américas, 1991, p. 23).

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

gências de hoje – deverá constituir parte integrante, tanto do


novo pensamento quanto da nova ação libertadora e em prol do
verdadeiro desenvolvimento autônomo da América Latina.
Durante a última década do século 19 ocorreu uma das
aventuras mais extraordinárias da história contemporânea, não
narrada, é verdade, por nenhum romancista ou cineasta. Um
homem nascido em uma das últimas colônias da Espanha no
Novo Mundo dedicou-se de corpo e alma a tentar subverter
os trilhos que começavam a percorrer então, no mesmo trem,
a história de sua ilha, da América e do mundo.
Àquele cubano nervoso e sensível, de eloqüência torrencial
na palavra oral e escrita, de roupas gastas e sapatos rasgados,
atribuiu-se – consciente e explicitamente – o propósito de im-
pedir a expansão territorial e econômica dos Estados Unidos
para o Sul do continente, pelas Antilhas, como primeiro e
necessário passo de seu percurso dominador. Dominava-o o
anseio de “salvar a independência ameaçada das Antilhas livres,
a independência ameaçada da América livre e a dignidade da
república estadunidense”.1
Semelhantes propósitos não podem ser reduzidos à esfera
da geopolítica ou das relações internacionais daqueles tempos.
Sem desconhecer este ângulo – destacado com ênfase por ele
mesmo – aquele poeta e jornalista, bem conhecido por seus
escritos pela minoria ilustrada da América espanhola da épo-
ca, propôs uma estratégia completa para a libertação nacional
de Cuba e do continente, a partir, de um lado, da análise e da
crítica do modelo da república liberal hispano-americana e, de

1
José Martí: “O terceiro ano do Partido Revolucionário Cubano. A alma da Revo-
lução e o dever de Cuba na América”, em Obras completas, Havana, 1963-1973, t. 3,
p. 43. Na seqüência, as citações desta edição serão identificadas com as iniciais O.c.,
indicando-se apenas o volume e a página.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

outro, de sua compreensão de que o desenvolvimento industrial


em transição para a formação dos monopólios, nos Estados
Unidos, minava os fundamentos democráticos desta nação,
direcionando-a para o imperialismo moderno.
Martí foi, portanto, uma personalidade ímpar, que sonhou
com a redenção humana por meio de uma guerra de libertação
nacional, e cujos amores foram Cuba e nossa América; que fez
da dignidade e do sentido de sacrifício seu modo de agir na vida,
e que se propôs, enfim, nada mais nada menos do que alterar o
curso da história contemporânea, de nossa própria história.
Por isso hoje, no centenário de suas ações para travar essa
luta de libertação de suas duas ilhas – Cuba e Porto Rico –, e
do homem, quando cada vez mais existe consciência de que
o destino humano sobre o planeta só será possível mediante
relações não destruidoras do próprio homem e do meio físico
que o cerca, isto é, quando já se vai compreendendo que neces-
sitamos de uma nova cultura, José Martí alcança a dimensão
universal que merece e de que necessitamos.
Aos fundamentos dessa vigência crescente são dedicadas
essas reflexões onde, seguindo os momentos essenciais de
sua biografia, projetam-se os momentos básicos do complexo
processo de seu pensamento sobre a nova cultura, apropriada
à nossa América, para que esta avance pelo desenvolvimento
pleno de sua identidade e de seus interesses.

1
A primeira coisa a lembrar é o contexto cubano em que
nasceu, 28 de janeiro de 1853, e se formou inicialmente aquele
precoce intelectual e patriota.
Cuba, ilha de escravos e de açúcar para o mercado capita-
lista, vivia a fase de estancamento e de degradação do sistema

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

de plantation, prejudicado pelo aumento do preço dos escravos,


pela permanente tendência à queda do preço do açúcar, devido
à industrialização da produção da beterraba européia, e à im-
piedosa espoliação da monarquia e da burguesia espanholas,
acostumadas a extrair altos dividendos com elevados impostos e
intercâmbio comercial obrigatório da ilha com a Metrópole.
A crise do sistema produtivo e da organização social cor-
respondente – a escravidão – explodiu em 10 de outubro de
1868, quando os fazendeiros das regiões orientais encabeçaram
uma formidável insurreição, apoiando-se em diversas classes
e camadas sociais, pretendendo constituir um Estado próprio,
independente, e abolir a escravidão. Deste modo, a consciên-
cia social cubana da época encarou a solução da aguda crise
estrutural como uma abertura de caminhos, jurídico e estatal,
para uma nação que, pelo menos desde o início do século 19,
fora se auto-reconhecendo como uma identidade, no plano da
cultura e das idéias.
Se, no final do século 18, os nativos de Cuba ainda cha-
mavam a si próprios crioulos – gente da terra – ou utilizavam
identificações regionais – havaneiros, baiameses – já na década
de 1820 passaram a adotar o gentílico cubano. Assim, pelo
menos três gerações sucessivas não hesitaram, desde o fim do
Iluminismo até o fim do Romantismo, em identificarem-se
como cubanas, apesar da contínua imigração espanhola para a
Ilha, das sucessivas levas de imigrantes vindas das possessões
americanas perdidas pelos europeus (Haiti e Santo Domingo,
Flórida e Luisiânia, América do Sul), dos milhares de africanos
devorados pelo trapiche do engenho no ritmo imposto pela
máquina a vapor, do crescimento econômico e da expansão
territorial das antigas Treze Colônias da América do Norte,
vistas cada vez mais como modelo de organização política e

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social, e cuja interrelação comercial com a Ilha provocou uma


contínua – e às vezes intensa – tendência à anexação.
Os naturais do país reconheceram-se entre si desde então
como cubanos, apesar das diferenças de classes e de castas,
acompanhando a cor da pele, e que marcaram toda a sociedade
com condutas e preconceitos racistas, levando, no terreno literá-
rio, a um movimento de insólita ideologia, como o siboneyismo,
que pretendeu relacionar o autóctone a nossos aborígenes, na
prática já extintos fisicamente, para não admitir nessa identi-
dade nem os africanos nem – sobretudo – os cubanos negros
e mulatos, que, estes sim, contribuíam substancialmente para
a cultura nacional em formação, com mil formas de hábitos
e costumes, muito especialmente nos terrenos da música, do
artesanato e da fala coloquial.

2
José Martí, filho de espanhóis imigrantes – de Valência e das
Canárias – de militar e depois funcionário público que terminou
seus dias como alfaiate, e de dona de casa cuja costura, junto com
a de suas duas filhas, assegurou freqüentemente a subsistência
familiar – recebeu o “espírito cubano” por duas vias essenciais: a
escola – como se disse sempre – e a rua, esse ambiente popular,
alvoroçado e aberto a todos os hábitos marinheiros desta cidade
portuária que era Havana, cheia de carros, carroças e viajantes,
por onde perambulou Martí desde menino, contribuindo com
seu trabalho para a escassa renda familiar.
O ensino ministrado na escola abriu-lhe as portas dos lares
e da cultura da classe média cubana da época: professores, fun-
cionários e empregados, médicos e advogados que, garantindo
quase sempre o sustento por essas vias, faziam do jornalismo
sua prática literária e, do debate político, o verdadeiro sentido

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

de suas vidas, ao mesmo tempo em que mantinham estreitas


relações com os donos de engenhos e armazéns em função de
interesses profissionais, políticos e artísticos.
A doutrina liberal na política e na economia e o romantis-
mo nas artes foram o mundo cultural em que seus colegas e
professores introduziram Martí. A abolição da escravidão, a
independência da Espanha e uma república democrática – cujo
modelo mais aceito era a estável e próspera república estaduni-
dense – foram os ideais daqueles cubano que, a partir de meados
do século 19 e durante os anos de 1860, souberam aproveitar sua
posição privilegiada como formadores de opinião – nas aulas
e na imprensa – para expandir suas idéias entre uma geração
que nascera abafada pela crise econômica e social e pelo feroz
despotismo dos capitães-gerais espanhóis.
A poesia, o teatro e o jornalismo assumiram e estimularam
a sensibilidade artística daquele adolescente que aprendeu a
sonhar com uma Cuba livre. Por isso, não é de estranhar seu
rápido amadurecimento quando começou a guerra, em 1868,
e ele teve que cumprir seis meses de trabalhos forçados nos
canteiros de obras de Havana, simplesmente porque defendia
suas convicções independentistas.
Seu professor, Rafael Maria de Mendive, também poeta e
jornalista, abriu-lhe sua biblioteca, bem abastecida de clássicos
da Antigüidade e de clássicos espanhóis, assim como de auto-
res modernos; também lhe proporcionou acesso aos debates
literários e políticos de que participava, além de fortalecer os
sólidos princípios morais que adquirira em casa.
Na escola de Mendive, conheceu os irmãos Valdés-Do-
mínguez, filhos remediados de um ex-padre guatemalteco, em
cuja biblioteca Martí leu avidamente muita literatura centro-
americana e mexicana dos tempos coloniais e republicanos.

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Mendive levou-o às tertúlias de Nicolas Azcárate, figura proe-


minente do foro e do grupo dos reformistas havaneiros que
acreditavam na introdução dos princípios liberais em Cuba e
até na possibilidade da outorga de autonomia para a ilha pelo
governo colonial.
Como aqueles homens e alguns de seus jovens amigos, o
Martí adolescente manteve-se a par do desastre espanhol com
a anexação de Santo Domingo, da vitória dos liberais mexica-
nos frente ao império de Maximiliano, e do triunfo do Norte
abolicionista sobre o Sul escravagista nos Estados Unidos.
Liberalismo político e republicanismo, progresso técnico e
científico, assim como a abolição da escravatura, foram temas
centrais nas idéias que circulavam em torno daquele jovem que,
com 12 anos, pretendeu traduzir o Hamlet de Shakespeare e,
aos 13, pôs luto pela morte de Abraham Lincoln.

3
Quando chegou, exilado, a Madri, com 18 anos, já era
um adulto, com firme vocação patriótica, de pena em riste e
rima fácil e segura. O que viveu do convulsionado Sexênio
Setembrino e de uma cultura peninsular que, na época, ten-
tava transitar para a modernidade, freada pelo clericalismo e o
tradicionalismo monárquico e provinciano, foram elementos
assumidos por ele com o mesmo sentido de escolha com que
assimilara a tradição cultural cubana iniciada pelos sacerdotes
José Agustín Caballero e Félix Varela.
A corrente nacional do pensamento cristão em Cuba, mi-
noritária – na ilha reinou sempre a doutrina oficial católica,
vaticana, monárquica, antiliberal e anti-republicana – enrique-
ceu a consciência nacional, na medida em que lhe forneceu um
método de conhecimento que preconizava a escolha do mais

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

apropriado entre o que era oferecido pelo pensamento da épo-


ca. Por isso, o cristianismo laico de Luz y Caballero – falecido
quando Martí tinha 10 anos – fundou uma verdadeira escola
de pensamento, baseada na pedagogia e nas ciências modernas,
considerando que sua filosofia eram todas e nenhuma filosofia
ao mesmo tempo; nesta escola formou-se a geração intelectual
que precedeu Martí, sob os preceitos do dever e do sacrifício
para alcançar o bem.
Esse espírito de ética cristã e de aspiração a um pensamento
próprio distingue-se da corrente liberal cubana, que justificou
a escravidão e a dominação colonial reformada enquanto am-
bas trouxeram benefícios econômicos, e que partiu do típico
humanismo abstrato burguês para aspirar – com a melhor das
intenções, sem dúvida, mas sem um sentido claro do autóctone
– a que a nação cubana fosse constituída à imagem e semelhança
de seus paradigmas europeus e estadunidenses.
Martí transitou entre essas duas correntes, não necessa-
riamente contraditórias, mas com óbvias diferenças quando
confrontadas à identidade nacional. Foi, portanto, com os
fundamentos da ética cristã e com a preocupação de incorporar
o que havia de melhor para o autóctone, de um lado, e com
firme apego ao sistema republicano, à democracia eleitoral e ao
respeito aos direitos do homem, que Martí cursou, na Espanha,
seus estudos universitários de Direito, Filosofia e Letras.
Por tudo o que foi dito, sua juventude na Península não
constituiu um período de incorporação servil ao pensamento
reinante, mas de assimilação analítica, criadora e eletiva de todos
os elementos que lhe forneciam a universidade e a própria so-
ciedade em seu conjunto, e que, a seu ver, podiam ser-lhe úteis
para entender e resolver os problemas de sua pátria. Por isso,
mais do que um krausista em filosofia – como foi qualificado

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às vezes –, assimilou dessa escola, em moda na época, o que era


compatível com sua já estabelecida ética do dever e do serviço.2
Por isso, também, mais do que uma saudação alvoroçada à
primeira República espanhola, poucos dias depois de instalada,
em 1873, instou-a a admitir a República pela qual se lutava nos
campos de Cuba, sob pena de trair na própria Metrópole seus
fundamentos liberais – como efetivamente aconteceu – por
manter-se em uma posição colonialista e dominadora.3 E por
isso, finalmente, em um Caderno de Notas daquele período,
escreveu o seguinte:
Os norte-americanos submetem o sentimento à utilidade. Nós
submetemos a utilidade ao sentimento. E se existe esta diferença de
organização, de vida, de ser, se eles vendiam enquanto chorávamos, se
substituímos sua cabeça fria e calculista por nossa cabeça imaginativa,
e seu coração de algodão e de barcos por um coração tão especial,
tão sensível, tão novo, que só pode chamar-se coração cubano, como
querem que legislemos com as leis com que eles legislam? Imitemos.
Não! Copiemos. Não! É bom, dizem-nos. É americano, dizemos.

2
A apreciação quanto à confluência das idéias originais de Martí com algumas do
krausismo foi tomando corpo nas últimas reflexões sobre o assunto, negando uma
relação de influência sem mais, ou de mera receptividade acrítica do krausismo por
Martí. Ver Adriana Arpini e Liliana Giorgis: “A presença do krausismo em Hostos e
Martí”, em Boletim de História (Buenos Aires), Fundação para o Estudo do Pensamento
Argentino e Ibero-americano (Fepai), ano 8, no 16, 2o semestre, 1990. As autoras
consideram que nos dois antilhanos, “a preferência pelos temas do krausismo não
significa que adotaram um modelo filosófico acabado e sim a necessidade de romper
com uma tradição especulativa que vinha justificar e manter o esquema de domina-
ção” (p. 5). Ver, também, Mercedes Serna: “Algumas elucidações sobre o krausismo
em José Martí”, em Cadernos Hispano-americanos (Madri), no 521, novembro de 1993,
pp. 137-145. Esta autora afirma que “não se pode falar de uma influência radical do
krausismo sobre o escritor cubano, e sim de certas afinidades que se definem por
diversos critérios pedagógicos, religiosos, filosóficos e artísticos” (p. 137).
3
J.M.: “A República espanhola frente à Revolução cubana”, O.c., t. 1, p. 89. Também em
Obras completas. Edição crítica, Havana, Centro de Estudos Martianos, 2000, t. 1, pp.
101-110. Na seqüência serão citados E.c., o volume e a página.

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Acreditamos, porque temos necessidade de acreditar. Nossa vida não


é semelhante à deles, nem deve, em muitos pontos, assemelhar-se.
A sensibilidade, entre nós, é muito grande. A inteligência é menos
positiva, os costumes são mais puros; como, com leis iguais, vamos
ordenar dois povos diferentes? As leis americanas deram ao Norte um
alto grau de prosperidade, e também levaram-no ao mais alto grau
de corrupção. Metalizaram-no para torná-lo próspero. Maldita seja a
prosperidade a um custo tão alto!4
A citação é longa, mas necessária para que se possa com-
preender como, desde sua adolescência, preocupado com os
conceitos, Martí refutava o mercantilismo da sociedade estadu-
nidense e, sobretudo, como afirmava, desde então, a diferença
de identidade entre as duas partes do Novo Mundo, opondo-se
à imitação, à cópia de lá para cá. Sua pergunta explicita bem
sua maneira de ver: “como, com leis iguais, vamos ordenar dois
povos diferentes?”
As diferenças, evidentemente, eram avaliadas por ele, na
época, do ponto de vista espiritual: o Norte, frio, calculista, ne-
gociante, “metalizado” e corrupto; o Sul, imaginativo e sensível
até a veemência. Sua avaliação baseia-se na ética (como diz, o
Sul é mais puro), de um modo tão decidido que termina, como
vimos, maldizendo a prosperidade obtida graças à “metalização”.
Mas este fundo moral está acompanhado pela aspiração intensa
ao genuíno, à vontade de criar, de ser original em função do
autóctone, na hora de preparar as leis, de ordenar o corpo social
latino-americano. Depois, esta repetida referência à necessidade
de leis próprias mostra a precoce preocupação de Martí com
a organização dos Estados e dos povos latino-americanos,
considerando suas características espirituais peculiares. Não

4
J.M.: Cadernos de notas, O.c., t. 21, pp. 15-16.

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estamos, pois, diante de um marcado e precoce interesse pela


especificidade continental?

4
Com 22 anos já feitos, Martí chegou, em fevereiro de 1875,
à Cidade do México. Sua sensibilidade estética aguçara-se na
Península, com o acesso à pintura e à música; durante uns dias
em Paris conheceu personalidades destacadas, como Vítor Hugo
e a atriz Sara Bernhardt; viu as chaminés das fábricas em que se
afogavam os operários ingleses, em Southampton e Liverpool; e
passou pela primeira vez por Nova York, que já então competia
com a Europa industrial. Mas, sobretudo, embebeu-se da natu-
reza americana: fez escala em Havana e pôde apreciar sua cidade
natal do navio; em dois dias a estrada de ferro levou-o de Veracruz
ao México, da baixa costa do golfo ao planalto de Anáhuac: a
máquina veloz, símbolo da modernidade, permitiu-lhe atraves-
sar diversos climas, floras, faunas, relevos e, ao mesmo tempo,
transitar pela história viva do casario indígena pré-hispânico à
capital de construções coloniais e republicanas, edificadas sobre
as imponentes ruínas indígenas.
Poucas semanas depois já se tornara figura destacada no
México. O escritor-jornalista floresceu com rapidez em meio
a uma intelectualidade que o acolhia com calorosa simpatia
por tratar-se de um patriota republicano exilado, cedendo-lhe
espaço na obra ciclópica em que está empenhada: terminar a
transformação da reforma liberal iniciada por Juárez e garan-
tida pela epopéia de manter a independência frente ao império
conservador de tipo e apoio europeus.
Aspirava-se a desenvolver a economia por meio das máqui-
nas e do comércio, a informar o indígena, incorporando-o à
nação liberal, a entrar, enfim, nas amplas avenidas do progresso

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do século 19: indústria, capitalismo, comércio ativo, liberdades


individuais.
Data de então a expressão de seu conceito de identidade
latino-americana, notável para sua época por sua originalidade,
sentido de autonomia e projeção para o futuro, e que constitui
a chave metodológica e teórica que explica o programa revolu-
cionário e a ação de Martí durante os anos finais de sua vida.
Com linguagem peculiar, não alheia às fontes clássicas e
iluministas em que bebera basicamente até então, o jovem Martí
concebeu e expôs três idéias essenciais:
• A América Latina é constituída por povos novos.
• Existe ali uma natureza particular americana, ou seja,
características espirituais, de psicologia social, próprias e pe-
culiares.
• As particularidades e especificidades americanas exigem
análises e soluções próprias.
É bem verdade que estas idéias aparecem em trabalhos sobre
temas muito diversos e não em uma reflexão particular sobre
o problema da identidade. Mas a reiteração de tais pontos ao
longo de seus textos de 1875 e 1876 indica que esses assuntos
já constituíam preocupação central em seu pensamento. E, por
outro lado, embora ainda não pudesse expressar em uma aná-
lise detalhada, nem o conceito sintetizador, nem a riqueza e a
profundidade do problema que começava a captar, suas palavras
mostram que já buscava essa identidade além da proximidade
geográfica ou da comunidade lingüística, como faziam alguns
autores na época, e que o reconhecimento da autoctonia de
nossos povos era ponto central de sua interpretação.
Foi esse sentido da autoctonia, explícito em tais textos, que
o levou a aconselhar seus leitores a seguinte fórmula, repetida
com ligeiras variantes em mais de um de seus artigos para a Re-

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vista Universal: “Para conflitos específicos, soluções específicas”.5


Ou “para história própria, soluções próprias. Para nossa vida,
leis nossas”.6 Esta idéia – que se insere no fio condutor que já
percebemos nas frases citadas de seu caderno da Espanha – foi
escrita no México, quando se refere criticamente à dependên-
cia da economia mexicana da extração mineral, quando trata
do tema operário, ou quando clama pela criação de um teatro
nacional.
Observe-se a seguir, em suas próprias palavras, o papel que
atribui à criação artística na definição dessa identidade america-
na: “O México tem sua vida: que tenha seu teatro. Toda nação
deve ter um caráter próprio e especial: haverá vida nacional sem
literatura própria? Haverá vida para a criatividade pátria em
um palco ocupado sempre por fracas ou repugnantes criações
estrangeiras? Por que, na nova terra americana há de viver-se
a velha vida européia?”7
Assim, não foi por acaso que, em 1875, ainda no México,
Martí empregou, pela primeira vez, a expressão “nossa Amé-
rica”, ao escrever: “Se a Europa fosse o cérebro, nossa América
seria o coração”.8
O cubano buscava assim identificar sua América mediante
contraste e, de certo modo, contrapondo-a à Europa, tal como
fizera em relação aos Estados Unidos nas anotações feitas na
Espanha. Conseqüentemente, não há dúvida de que desde o
princípio Martí sentiu-se obrigado a definir a identidade con-
tinental por meio da comparação e da diferenciação, procedi-
mentos que lhe permitem relacionar a região latino-americana
5
J.M.: “A polêmica econômica”, O.c. t. 6, p. 334, e E.c. t. 2, p.187.
6
J.M.: “Graves questões”, O.c., t. 6, p. 312, e E.c., t. 2, p. 170.
7
J.M.: “Coisas do teatro”, O.c., t. 6, p. 227, e E.c. t. 2, p. 65.
8
J.M.: “Até o céu”, O.c., t. 6, p. 423, e E.c., t. 3, p. 158.

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àquelas que foram ou continuavam sendo modelos – além de


dominadores coloniais diretos ou controladores de seus recursos
econômicos – para nossas terras. É evidente, portanto, a inten-
ção libertadora – e descolonizadora – no processo de apreensão
do tema da identidade por Martí.
A comparação entre a Europa e nossa América feita no
México também identifica sua região – como fizera nos apon-
tamentos da Espanha – aos sentimentos e à afetividade, quando
utiliza a metáfora do coração. Na citação anterior ainda está
imprecisa a base da identidade latino-americana; poder-se-ia
mesmo dizer que esse raciocínio ainda não está consolidado e,
se a expressão “nossa América” não tivesse se transformado em
um conceito no contexto de seu pensamento – como veremos
mais adiante – poder-se-ia entender essa expressão como um
mero recurso literário.
Talvez tenha sido assim, naquele momento; seguramente,
não houve plena consciência de sua parte ao cunhar a expres-
são, como ocorreria, alguns anos depois, mas os elementos
mencionados permitem perceber que Martí passava então por
um momento importante na apreensão do problema da iden-
tidade continental; portanto, não parece exagerado afirmar que
este era um tema que já constava de seus textos. Por isso, não
posso deixar de suspeitar que seus amigos mexicanos, que já
começavam a receber a influência do positivismo, devem ter se
sentido, às vezes, inquietos ou espantados com aquele cubano
que defendia o governo liberal no poder, mas fazia restrições
ao conceito universalista do progresso modernizador defendido
por tantos deles, e se opunha à aceitação dos modelos sociais
europeu e estadunidense.
Assim, resumindo, esta permanência de Martí no México,
que se estendeu de 8 de fevereiro de 1875 a 2 de janeiro de 1877,

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pode ser qualificada como o momento de seu encontro com a


autoctonia americana.

5
A definição martiana de autoctonia continental ganhou
fundamentação sociológica, histórica e cultural em um de seus
textos da Guatemala. Na nação centro-americana publicou, em
1877, um artigo intitulado “Os códigos novos”, onde deixou
plenamente esclarecido um conceito de identidade verdadeira-
mente revolucionário para seu tempo.
Tendo sido interrompida pela conquista a obra natural e majestosa da
civilização americana, criou-se, com a chegada dos europeus, um povo
estranho, não espanhol, porque a seiva nova rechaça o corpo velho;
não indígena, devido à ingerência de uma civilização devastadora, duas
palavras que, sendo antagônicas, constituem um processo; criou-se
um povo mestiço na forma que, com a reconquista de sua liberdade,
desenvolve e restaura sua alma própria.9
A importância dessa análise ultrapassa em muito seu tempo;
haveria que esperar até que o século 20 estivesse bem adiantado
para que se tornasse natural essa noção de que nossos povos
são resultado da fusão – antagônica e por isso contraditória –
de duas civilizações: uma conquistadora e dominante, outra,
conquistada e dominada.
Para o pensamento continental precedente e contemporâneo
a Martí – liberalismo, romantismo e positivismo, e mesmo para
boa parte dos ideólogos e políticos da independência – essa visão
de nossas sociedades e culturas era, no mínimo, infeliz, e, no
máximo, absolutamente equivocada. Não foi por acaso que
os editores do artigo de Martí – defensores do governo liberal

9
J.M.: “Os Códigos novos”, O.c. t. 7, p. 98 e E.c., t. 5, p. 80.

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no poder, presidido por Justo Rufino Barrios – sentiram-se


no dever de acrescentar uma nota final, lamentando que um
jovem que consideravam talentoso tivesse cometido o desatino
de comparar a civilização, a cultura espanhola (e européia) àque-
les povos atrasados e bárbaros que povoavam este continente
quando os espanhóis aqui chegaram.
Sabe-se, ainda, que, com poucas exceções – Bolívar talvez
tenha sido o mais lúcido e por isso permaneceu em franca
minoria –, a obra da independência culminou com a criação
de Estados nacionais que adotaram uma organização política
copiada ao pé da letra dos países da Europa ocidental e dos
Estados Unidos, os quais marcavam o ritmo do desenvolvi-
mento da modernidade industrial capitalista. Tratava-se, para
a intelligentzia latino-americana da época, de livrar-se da tra-
dição (de nenhuma modernidade) trazida pela Espanha para
suas colônias junto com o atraso representado pela presença
dos componentes pré-hispânicos. Nem a época da reforma
liberal – vivida pessoalmente por Martí no México e na Gua-
temala, e depois na Venezuela – independentemente de seus
matizes locais, conseguiu escapar do espelhismo de buscar
o desenvolvimento do outro, e de imitá-lo no que parecia
o (e não um) caminho de êxito para esse desenvolvimento.
Assim, pois, tanto para aqueles que estavam animados por
um nobre anseio iluminista, quanto para os que praticaram
uma ação genocida, os indígenas (assim como os negros e
mestiços) eram algo alheio à nação branca e civilizada: para
eles cabia apenas, na melhor das hipóteses, a incorporação
forçada ou a aculturação, representada pelos tantos projetos
educacionais implantados então, ou, diante de sua resistên-
cia, excluí-los do cenário por meio de seu desaparecimento
em massa.

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Trata-se, pois, do conflito entre civilização e barbárie, para


utilizar termos daquele século, que ainda germina em algumas
mentes e políticas concretas de nossos dias.
Martí, portanto, orientou-se conscientemente a partir da-
quele artigo por uma ótica bem diferente; a profundidade de
sua análise pode ser desmembrada nos seguintes elementos:
• Os povos aborígenes constituíam uma civilização original
e autóctone, antes da chegada dos espanhóis.
• A civilização européia teve, de fato, um comportamento
bárbaro por seu caráter devastador, interrompendo aquela ci-
vilização americana.
• Mediante um processo antagônico criou-se um povo
novo, diferente do aborígene e do espanhol.
• A característica deste povo novo é sua mestiçagem “na
forma”, isto é, quanto à cultura, mais do que no aspecto bio-
lógico.
• A civilização americana original gozou de uma liberdade
que o povo novo agora reconquista para desenvolver e restaurar,
precisamente, essa alma própria ou civilização original.
É verdadeiramente assombroso e admirável que Martí, em
plena juventude, já considerasse que os povos americanos de
seu tempo não eram algo terminado de uma vez por todas, e
sim o resultado de um processo nada feliz, que produzira uma
cultura nova, diferente e ao mesmo tempo sintetizadora de dois
componentes histórico-culturais antagônicos, mas cuja autoc-
tonia era dada pela civilização interrompida e devastada.
As facetas que encontramos nessa análise martiana não
constituem uma atualização de suas idéias, e sim o reconhe-
cimento da atualidade das idéias de Martí que, aliás, também
foram vistas assim por seus contemporâneos, como fica evidente
com a resistência manifestada pelo editor do artigo.

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As frases citadas de “Os códigos novos” continuam como


segue: “É uma verdade extraordinária: o grande espírito uni-
versal tem um aspecto particular em cada continente. Assim
nós, com todo o raquitismo de uma criança ferida no berço,
temos toda a fogosidade generosa, inquietação corajosa e vôo
valente de uma raça original, orgulhosa e artística”.10
Desta maneira, depois de explicitar seu conceito sobre a
unidade e a variedade do gênero humano, o cubano insiste e
reforça o valor da civilização aborígene para a autoctonia dessa
cultura nova. Se uma leitura apressada de suas palavras pode
levar a pensar que Martí fazia um apelo à volta a um passado
pré-hispânico, já que indubitavelmente fazia pender a balança
para o componente aborígene – o qual, evidentemente, exigia
um resgate que poucos, na época, queriam assumir –, sua
própria noção da identidade latino-americana como processo
impedia categoricamente que tivesse essa visão.
Nem na Guatemala, tampouco antes ou depois, encontra-
mos em Martí um tradicionalismo fatalista e sem saída como
o do romantismo, do indigenismo ou do chamado “romance
da terra”. Com pensamento audacioso e dialético, desde sua
permanência no país do quetzal,* Martí exprimiu sua intenção
de adotar em nossa América tudo o que oferecesse o progresso
científico e tecnológico alcançado em outras regiões do mundo,
mas sempre em função de seus interesses e de suas necessidades
específicas.
Quando idealizou a Revista Guatemalteca que, ao que pa-
rece, nunca pôde editar, propunha-se a propiciar “o comércio

10
Idem em O.c. e E.c.
*
Ave símbolo e moeda da Guatemala.

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intelectual” com a Europa, porque “nós (os latino-americanos)


precisamos entrar nessa grande corrente de invenções úteis, de
livros enérgicos, de publicações amenas, de equipamentos in-
dustriais, emanados do velho mundo, e do setentrião do novo,
onde ferve a atividade de tantos homens, a eloqüência de tantos
sábios, a vivacidade de tantas obras”.11
Há alguns anos, Roberto Fernández Retamar chamou a
etapa guatemalteca de Martí de “revelação de nossa América”,
por considerar que durante sua permanência naquele país a
problemática continental tornou-se patente no pensamento do
cubano e, ainda, que foi nos textos escritos naquele país que
fez uso freqüente da expressão “nossa América”.12 Concordo
plenamente com esse critério, e para apoiá-lo acrescento as
palavras do próprio Martí, que, em sua carta de 27 de novem-
bro de 1877 ao diretor do jornal El Progreso, manifestou um
extraordinário grau de consciência quanto ao sentido latino-
americanista de sua vida e de sua obra. “Viver humildemente,
trabalhar muito, engrandecer a América, estudar suas forças,
revelando-as ao continente, pagar aos povos o bem que me
fazem: este é o meu ofício. Nada me abaterá; ninguém me
impedirá”.13

11
J.M.: “Revista Guatemalteca”, O.c., t. 7, p. 104 e E.c., t. 5, p. 291.
12
Roberto Fernández Retamar: “Martí e a revelação de nossa América”, Prólogo a José
Martí, Nossa América, Havana, Casa das Américas, 1974. Durante sua residência na
Guatemala, Martí usou nossa América em “Os Códigos novos” (O.c., t. 7, p. 98 e E.c.,
t. 5, p. 89) e na carta a Valero Pujol, de 27 de novembro de 1877 (O.c., t. 7, p. 111. Ver
também Epistolário, compilação, ordenação cronológica e notas de Luis Garcia Pascual
e Enrique H. Moreno Pla, prólogo de Juan Marinello, Havana, Centro de Estudos
Martianos e Editorial de Ciencias Sociales, 1993, t. I, p. 98). Um amplo estudo sobre
a importância do biênio vivido na Guatemala para o ideário latino-americanista de
Martí pode ser encontrado em meu texto intitulado “Guatemala: José Martí rumo
à nossa América”, incluído neste livro.
13
J.M.: “Carta a Valero Pujol, 27 de novembro de 1877”, O.c., t. 7, p. 112, e Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 99.

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Essa declaração enfática e categórica sobre seu apostolado


fora precedida, na mesma carta, de uma frase na qual declarava-
se herdeiro do pensamento bolivariano, com firme adesão a seu
legado de unidade continental: “A alma de Bolívar nos alenta:
o pensamento americano me transporta. Irrita-me que não se
caminhe depressa. Temo que não se queira chegar. Disputas
pessoais, fronteiras impossíveis, divisões mesquinhas, como
hão de resistir, quando estiver bem compacto e enérgico, a
um concerto de vozes amorosas que proclamem a unidade
americana?”14

6
A permanência de um ano em Cuba, por ocasião de seu
regresso, em 1878, ao concluir-se a Guerra dos Dez Anos, e
seu vínculo com o mundo estadunidense durante a década
de 1880, marcarão o rumo do processo de amadurecimento
do pensamento martiano, de sua localização, como um dos
dirigentes políticos do povo cubano, e do desenvolvimento de
seu grande jornalismo e de sua arte poética, desenvolvimento
este que fez com que fosse considerado um dos precursores da
corrente modernista na literatura de língua espanhola.
Sua inserção direta na prática revolucionária contra o gover-
no colonial, desde seu retorno a Cuba, e sua atuação na direção
do movimento patriótico desde então, fizeram com que Martí
se propusesse a buscar soluções para suas formas de condução
e para o projeto republicano oferecido pelos independentistas.
É desta época uma frase escrita em suas notas, durante o se-
gundo exílio na Espanha, em 1879, repetida em seu primeiro
discurso para a emigração patriótica em Nova York, em janeiro

14
Ibidem, O.c., p. 111, e Epistolário, ob. cit., t. I, p. 98.

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de 1880: “Ignoram os déspotas que o povo, a massa sofredora,


é o verdadeiro chefe das revoluções”.15
Esta maneira de afirmar sua filiação às massas populares,
às quais atribuía semelhante papel condutor, completou-se no
discurso mencionado com seu apelo à preparação de uma re-
volução em Cuba sob novas formas. Nesse texto memorável,
conhecido como “a oração de Steck Hall” – o salão de Nova
York onde foi pronunciado –, Martí afirmou: “Esta não é apenas
a revolução da cólera. É a revolução da reflexão”.16
Essa preocupação de Martí, de que o novo movimento ar-
mado que explodira em Cuba em 1879 não fosse uma simples
explosão de cólera contra o domínio colonial, expressa seu desejo
de que os patriotas não cometessem os mesmos erros de divisões
e de desorganização que tinham levado ao fim da Guerra dos
Dez Anos sem que a independência fosse alcançada.
Essa bandeira de revolução da reflexão responde também à
campanha de descrédito divisionista lançada pelas autoridades
espanholas contra o movimento patriótico, acusado de promover
uma guerra de negros contra brancos. No mesmo discurso Martí
refere-se ao assunto, comparando-o à campanha semelhante
lançada contra os índios na América continental na época das
guerras de independência: “Mas os prognósticos fatídicos não se
realizaram; os índios não vieram como torrentes transbordando
das selvas, nem caíram sobre as cidades, nem destruíram com
seus pés vingativos o capim nos campos, nem com ossos de bran-
cos foram emparedados os portais dos casarões senhoriais”.17

15
J.M.: Cadernos de notas, O.c., t. 21, p. 108. No discurso escreveu “massa dolorida”,
em lugar de “massa sofredora” (O.c., t. 4, p. 193).
16
J.M.: “Leitura na reunião de emigrados cubanos, em Steck Hall, Nova York, 24 de
janeiro de 1880”, O.c, t. 4, p. 192.
17
Ibidem, p. 202.

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Dissera antes que a América independente tinha “o peito


devorado pelo cortejo de rancores e apetites deixados pela co-
lônia como lúgubre herança”. E assim encaminha o parágrafo
para a idéia principal: “não foram os índios antes, nem eram
tampouco naqueles tempos, os responsáveis pelos males que
af ligiam então as repúblicas latino-americanas; mas sim a
conquista e a colônia avassaladoras, devastadoras”,18 como já
escrevera na Guatemala.
Nem uma única tentativa, nem um único rugido de cólera pertur-
baram a paz do difícil alvorecer. De velhos males vieram os males
novos – e não da vingança, nem da impaciência dos índios. E, diga-se
de passagem, dessa terra [...] de antepassados puritanos, para alívio
das culpas que injustamente são lançadas sobre os povos da América
Latina – que os monstros que turvam as águas hão de responder por
suas ondas revoltas, não o mísero sedento que as bebe; que as culpas
do escravo caiam integral e exclusivamente sobre seu dono. – Pois
não é o mesmo abrir a terra com a ponta da lança ou com a ponta
do arado.19
Note-se, de uma parte, como, desde tão cedo, Martí
preocupa-se com as verdadeiras causas dos problemas que
afligiam as repúblicas hispano-americanas e, de outra, como
encerra a idéia com uma metáfora que alude aos diferentes tipos
de sociedades que os europeus estabeleceram nas duas partes
da América – no Sul, a lança para matar, dominar e extrair
riquezas; no Norte, o arado para semear e obter colheitas para
consumir e trocar.20

18
Idem.
19
J.M.: “Leitura na reunião de emigrados cubanos, em Steck Hall, Nova York, 24 de
janeiro de 1880”, O.c., t. 4, pp. 202-203.
20
Idem. Note-se que esta referência à lança e ao arado voltará a ser utilizada por Martí,
nove anos depois, em seu discurso “Mãe América”.

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Na Venezuela, onde viveu entre janeiro e julho de 1881,


dedicou-se a estudar a fundo os problemas do país e da região,
com seu espírito latino-americanista movido pelo desejo de
fundar uma América nova: entrava desse modo no caminho
do verdadeiro conhecimento da problemática continental e na
compreensão da necessidade de profundas mudanças estruturais
no continente, como diríamos hoje.
Em 22 de março de 1881, em Caracas, escrevera, acerca de
sua missão na vida, ao diretor de La Opinión Nacional, jornal
daquela cidade: “Para servir modestamente aos homens me
preparo; para andar, com o livro no ombro, pelos caminhos
da vida nova; para auxiliar, como humilde soldado, todo brio-
so e honrado propósito; e para morrer pela mão da liberdade,
pobre e orgulhosamente”. 21 O tom humilde que marcava
então seu anseio de servir reforça seu auto-reconhecimento
como um simples lutador a mais. Mas quando, em 27 de
julho de 1881, na véspera de sua precipitada saída de Caracas,
despede-se do mesmo destinatário, em outra carta expõe –
com apenas três contundentes substantivos – todo um vasto
projeto de serviço continental de que indubitavelmente seria
o protagonista: “Da América sou filho: a ela me devo. E da
América, a cuja revelação, agitação e fundação urgente me
consagro, esta é a pátria”. 22
Trata-se, portanto, de que, à missão que se auto-atribuía na
Guatemala, de revelar suas forças à nossa América, acrescenta
agora, na Venezuela, as missões de sacudi-la (ou seja, movê-la

21
J.M.: “Carta a Fausto Teodoro de Aldrey, 22 de março de 1881”, O.c., t. 7, p. 266.
Epistolário, ob.cit., t. I, pp. 209-210.
22
J.M.: “Carta a Fausto Teodoro de Aldrey, 27 de julho de 1881”, O.c., t. 7, p. 267. Para
um estudo do significado da estadia na Venezuela para o pensamento martiano, ver
o capítulo “Martí na Venezuela: a fundação de nossa América”.

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com energia) e fundá-la, isto é, criá-la. Portanto, Martí já tinha


consciência de que era necessária uma nova América, diferente
das repúblicas de “males novos”, nascidos dos “velhos males”
coloniais.
Esta obra de fundação, criadora portanto, é também con-
siderada “urgente”. O que provocava essa rápida e enérgica
necessidade de agir em Martí?
Acredito que desde então já esboçara as grandes questões que
o levavam a esta urgência. De uma parte, justamente naqueles
anos, compreendeu que uma nova época se inaugurava em escala
mundial, para a qual, de outra parte, não estavam adequadamente
preparadas as repúblicas hispano-americanas, divididas e ator-
mentadas por lutas internas, pobreza secular, economias precárias
e classes dirigentes com mentalidades colonizadas, mais atentas às
grandes metrópoles industriais do que ao interior de seus próprios
países e às injustiças em que viviam seus povos.
O que acaba de ser dito não é mera retórica contemporânea.
Basta a leitura de um texto em francês intitulado “Un Voyage
à Venezuela” para encontrar análises semelhantes. Preparado
evidentemente para algum jornal estadunidense pouco depois
de seu regresso a Nova York, depois de deixar Caracas, esse
manuscrito inacabado vem a ser um texto capital para a compre-
ensão do entendimento martiano sobre nossa América, desde
seu original conceito da autoctonia continental.
O texto nos transmite também, desde o começo, a chave da
urgência fundadora de Martí, pois nele afirma que as ambições
expansionistas das potências aproveitam-se das divisões e das de-
bilidades internas. Por isso, esse escrito, dirigido, provavelmente,
ao público estadunidense, é um minucioso estudo sociológico
de tais debilidades e de suas razões, entre as quais quero destacar
a importância que Martí atribui, em sua análise, à inadequação

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entre a educação e as idéias da classe dirigente e as necessidades


reais e urgentes do povo, razão pela qual insiste no emprego, na
região, de modelos sociais tirados de suas próprias circunstâncias.
“Desdenha-se o estudo das questões essenciais da pátria; sonha-se
com soluções estrangeiras para problemas originais; pretende-se
aplicar sentimentos absolutamente genuínos, fórmulas políticas e
econômicas nascidas de elementos completamente diferentes”.23
A autoctonia americana proclamada em seus escritos me-
xicanos serve-lhe, sem dúvida, para justificar a necessidade da
fundação urgente da nova América, de maneira a livrar-se de
todos esses problemas enfocados por ele a partir da sociedade
venezuelana, a qual, é verdade, atravessava – já algum tempo
antes de sua chegada – uma reforma liberal que promoveu
milhares de leis e disposições modernizadoras (e até uma cons-
tituição no estilo da constituição suíça), mas que foi incapaz de
tirar o país do estancamento e do atraso.
Na Venezuela, além disso, em notável demonstração da
fina dialética de um político com visão universal que vinha
adquirindo desde aquele ano de 1881, Martí situou claramen-
te o lugar de Cuba independente no contexto de sua obra de
fundação latino-americana.
Em seu discurso no Clube do Comércio de Caracas, afirma
que a luta cubana é o fim do processo libertador do início do
século 19 na América Latina (“sabe-se que falta uma estrofe
no poema de 1810...”) e que a independência de Cuba, quando
lograda, será oferecida “no altar do Pai americano”, numa óbvia
alusão a Bolívar, o que reforça a continuidade histórica que
assinala. E continua explicando que quer ver sua pátria livre
“para que, como pequena embarcação elegante e mensageira de

23
J.M.: “Uma viagem à Venezuela”. O.c., t. 19, p. 160.

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nossas glórias, saia por esses mares fúlgidos a buscar os fatigados


europeus, para dizer-lhes que, para suas conquistas venerandas,
temos um colossal pico perfumado”.24
Portanto, desde sua juventude, Martí indicava o papel de
Cuba como ponte entre a América Latina e a Europa, articu-
lando assim sua consciência patriótica e a firmeza lógica de um
político visionário, com seu espírito latino-americanista.

7
Durante a década de 1880, novos grupos temáticos apare-
cem em seu pensamento, num processo intelectivo em que foi
captando duas questões essenciais e vinculadas às mudanças
que o mundo industrial atravessava, na transição para a etapa
imperialista.
Uma delas é seu entendimento de que se estava inician-
do uma nova época para o mundo, com todas as incertezas
e desencaixes que isso significava. Embora tendo tratado do
assunto em “O caráter da Revista Venezuelana”, texto publicado
no segundo e último número da publicação, é no Prólogo a O
poema do Niágara, do venezuelano Juan Antonio Pérez Bonalde,
publicado em 1882, que desenvolve extensamente o assunto.
Tomo do Prólogo a citação a seguir, espantosa descrição que
serve também para o fim deste nosso século 20.
Não há obra permanente, porque as obras dos tempos de reordenação
e montagem são, por essência, mutáveis e inquietas; não há caminhos
constantes, vislumbram-se apenas os altares novos, grandes e abertos
como florestas. (...) Anseia-se incessantemente por saber algo que con-
firme, ou teme-se saber algo que mude as crenças atuais. A elaboração

24
J.M.: “Fragmento do discurso pronunciado no Clube do Comércio, em Caracas,
Venezuela, em 21 de março de 1881”, O.c., t. 7, pp. 284 e 286.

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do novo estado social torna insegura a batalha pela existência pessoal e


mais difíceis de cumprir os deveres diários que, não encontrando am-
plas alamedas, mudam a cada instante de forma e de caminho, agitados
pelo susto que produz a probabilidade ou vizinhança da miséria.25
Esta não é a ocasião para examinar a fundo esse texto de
Martí, mas não posso deixar de mostrar como para ele, a poesia
se adapta à situação imposta por aqueles tempos de mudança e,
diante de suas indefinições, afirma que os poetas ficam pálidos
e atormentados e, portanto, nem líricos nem épicos, transfor-
mando a “vida íntima febril” em seu assunto principal. E, por
isso, considera O poema do Niágara, de seu amigo venezuelano,
uma obra representativa da época: como não há façanhas hu-
manas, o poeta canta a natureza.26
Sem entrar em maiores considerações sobre a relação esta-
belecida por ele entre a criação literária e a época, não se pode
esquecer que naquele tempo – com o que concordam outros
estudiosos de Martí – seus escritos já iniciavam a renovação
literária que, mais tarde, foi chamada de modernismo. E que, no
ano anterior, insistira, na Revista Venezuelana, em que os novos
tempos exigiam uma nova maneira de escrever.27
O outro grupo temático a que dedicará sua atenção durante
a década de 1880 oferece-nos o ambiente social e econômico,
as estruturas social e histórica que caracterizam esse momento
de mudança, cuja descrição acabamos de ver; trata-se de suas
considerações sobre os Estados Unidos nas crônicas sobre esse
país que redigiu para a imprensa hispano-americana. Percorrer
essas páginas renovadoras da prosa em língua espanhola per-

25
J.M.: “Prólogo a O poema do Niágara”, O.c., t. 7, p. 225.
26
Ibidem, pp. 229 e 232.
27
J.M.: “O caráter da Revista Venezuelana”, O.c., t. 13, p. 427.

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mite apreciar seu processo de conhecimento da formação do


imperialismo.
Desde que começou a redigir suas Cenas norte-americanas,
foi dizendo a seus leitores que os Estados Unidos, e particu-
larmente Nova York, constituíam expoente destacado dessa
época nova em que, a seu ver, a humanidade estava entrando. O
prodigioso desenvolvimento industrial daquele país, depois da
Guerra de Secessão, e sua relevante manifestação na revolução
científica e tecnológica que parecia clarear todos os horizontes
da mente humana, justificavam para ele essa opinião.
Eis como descrevia a vida nova-iorquina: “Tudo empurra,
precipita, exacerba, arrasta. Tem-se medo de ficar para trás. (...)
Tudo é trem, telefone, telégrafo”.28 E afirmava: “Sente-se que a
vida nestas grandes cidades se consome, debilita e evapora”.29
Mas, ao mesmo tempo, via uma ausência de desenvolvimento
harmônico, de equilíbrio entre os fatores materiais e espirituais,
característica da psicologia social estadunidense que, como já
vimos, levou-o a julgar severamente, desde muito jovem, o que
considerava a primazia do sentido mercantilista.
Eis as razões de seu interesse e de sua admiração pelas idéias
de Ralph Waldo Emerson, o qual, por muitos anos, criticou
asperamente a metalização da sociedade estadunidense, sen-
do uma das poucas personalidades dessa nação que se opôs à
guerra contra o México em 1846, por considerá-la uma obra
de conquista e saque, estranha aos fundamentos da liberdade
e da democracia.
Martí, que escreveu páginas memoráveis sobre esse pensa-
dor estadunidense, concordou plenamente com ele em sua opi-

28
J.M.: “O caráter da Revista Venezuelana”, O.c., t. 7, pp. 207-212.
29
J.M.: “Cansaço do cérebro”, O.c., t. 13, p. 427.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

nião de que o progresso civilizatório tinha que ter um sentido


humanista e natural, e que havia possibilidades de trilhar esse
caminho no Novo Mundo. Essa resposta otimista aos aspec-
tos sociais que ambos consideravam negativos na emergente
sociedade industrial burguesa correspondia também à idéia de
Emerson sobre a criação de uma literatura nativa como parte
do vasto projeto de independência cultural que devia suceder
à já obtida emancipação política da Europa. Depois os dois
pensadores preocuparam-se com o problema da autoctonia
americana, sendo possível detectar a marca de Emerson em
mais de uma referência de Martí à dependência e ao mimetismo
cultural estadunidense face à Inglaterra.
Embora não existam estudos rigorosos e exaustivos sobre
a relação entre as idéias filosóficas de ambos, é evidente que o
transcendentalismo de Emerson foi assimilado de forma cria-
tiva por Martí, especialmente quando aprecia o natural como
autóctone e a necessidade de um equilíbrio entre homem,
sociedade e natureza, idéias que, aliás, fervilhavam na cabeça
do cubano desde seus escritos mexicanos.30
A precoce observação de Martí, 31 quanto ao espírito
mercantil nos Estados Unidos, reforçada pelas apreciações
de Emerson, levou o cubano, desde o começo da década de
1880, a preocupar-se com “a soberba consciência de sua força
e o desdém pelas demais raças que hoje caracterizam o povo

30
A melhor síntese das idéias de Martí sobre Emerson está em sua crônica sobre a
morte do filósofo, publicada em A Opinião Nacional, de Caracas, em 19 de maio de
1882 (O.c., t. 13, pp. 15-30). Um recente e precioso estudo sobre as relações entre as
idéias de ambos, que insiste na originalidade da aproximação do cubano ao filósofo
e poeta nascido em Boston, em 1803, é o livro de José Ballón, intitulado Autonomia
cultural americana: Emerson e Martí. Madri, Editorial Pliegos, 1986.
31
Ver uma série de artigos publicados em inglês, no jornal A Hora, de Nova York, entre
julho e outubro de 1880, sob o título “Impressões da América”, O.c., t. 19, pp. 101-125.

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norte-americano”.32 Seu sentido latino-americanista fundador


não podia senão aguçar seu olhar para o interior da sociedade
do Norte, buscando entender como o próprio desenvolvimen-
to socioeconômico da nação transformava esse desdém pelos
demais em um anseio de expansão, diante da debilidade e da
desunião de seus vizinhos.
Por isso, tal como avaliou a formação e o crescente poder dos
monopólios, empenhados em dominar a política e o governo
dos Estados Unidos para sanar suas necessidades de mercados
consumidores e de matérias-primas, suas denúncias sobre
o choque inevitável entre as duas identidades do continente
foram se multiplicando até culminar com especial ênfase em
suas formidáveis crônicas sobre a Conferência Internacional
Americana de Washington, realizada em 1889 e 1890.

8
A temática latino-americana não esteve ausente dos escritos
martianos durante a década de 1880. Suas Cenas norte-americanas
mantiveram-se atentas às relações entre os Estados Unidos e
seus vizinhos do Sul, especialmente no que se refere aos in-
tercâmbios comerciais e aos vínculos políticos e diplomáticos.
Assuntos como os debates e lutas de interesses quanto à cons-
trução do canal interoceânico pelo Panamá ou pela Nicarágua;
a unidade centro-americana e a campanha militar levada a
cabo nesse sentido pelo presidente guatemalteco, Justo Rufino
Barrios; as ameaças na imprensa e de políticos estadunidenses
ao México; a expansão mercantil e os movimentos anexionistas
dirigidos a Cuba, Haiti e República Dominicana; os vai-e-vens
da política tarifária relacionada às produções do continente; a

32
J.M.: “Blaine e Tilden”, O.c., t. 13, p. 265.

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política de “reciprocidade” comercial, foram temas tratados ou


acompanhados por Martí em suas crônicas, à medida que foram
ocorrendo ou se desenvolvendo, ao longo da década de 1880.
Com relação ao tema de que estamos tratando, são de espe-
cial interesse os textos publicados em Nova York, em espanhol,
no jornal A América, do qual foi colaborador e depois diretor,
em 1883 e 1884. A publicação fora fundada em 1882, como um
jornal mensal de circulação continental, destinado a estimular
o comércio entre os Estados Unidos e a América Latina, mas,
nas mãos de Martí, converteu-se em firme defensora da iden-
tidade, da soberania e do desenvolvimento de nossa América,
a ponto de dizer-se que, em suas páginas, o cubano apresentou
um programa completo para o desenvolvimento harmônico e
próprio de nossos povos.
Em seus textos para o jornal, Martí declarou seus propósitos:
Definir, comunicar, alertar, revelar os segredos do êxito, aparente-
mente – e, apenas, aparentemente – maravilhoso deste país; facilitar
com explicações compendiadas e oportunas, e estudos sobre me-
lhorias aplicáveis, a obtenção de um êxito igual, – talvez maior, sim,
maior, e mais duradouro! – em nossos países; dizer à América Latina
tudo o que anseia e necessita saber sobre esta terra que, com justiça,
preocupa-a, e ir informando-a, com a maior vantagem para todos,
com absoluta ausência de toda paixão ou vantagens pessoais, e com
o olhar sempre voltado para o desenvolvimento das artes práticas e o
comércio inteligente, bases únicas da grandeza e da prosperidade de
indivíduos e nações. 33
Dois objetivos essenciais ficam claros nesta citação. O pri-
meiro é o sentido defensivo da soberania e da identidade latino-
americanas. Martí não o desenvolve como o outro, embora

33
J.M.: “Os objetivos de A América em mãos de seus novos proprietários”, O.c., t. 8, p. 268.

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me pareça bem explícito nos verbos que, justamente, iniciam


a citação. Que outra interpretação poderia caber se não esta, a
esses três primeiros verbos, que contêm toda uma progressão
dramática, indicadora de perigos? A América define, isto é, ex-
plica com precisão os problemas, porque quer alertar sobre eles
os povos latino-americanos; mas trata-se de um aviso que leva à
atividade vigilante e não simplesmente ao mero conhecimento:
trata-se de “alertar”.
O segundo propósito da publicação consiste em fornecer
à América Latina os elementos que levaram ao grande desen-
volvimento estadunidense, de maneira a alcançá-lo e – com
ousadia insólita para um pensador latino-americano daquele
tempo – até superá-lo, e de modo mais duradouro, o que – a
meu ver – implica, do ponto de vista martiano, em uma certa
diferença entre o “êxito” dos Estados Unidos e aquele ao qual
Martí aspirava para a América Latina. Trata-se, portanto, de
um objetivo desenvolvimentista.
Assim, pois, defesa e desenvolvimento são as chaves que
explicam como, durante a década de 1880, a concepção martiana
sobre a identidade consolidou-se, para sempre, em sua proposta
de unidade continental.
Os textos de A América são imprescindíveis para a com-
preensão deste processo, já que, em sua condição de diretor,
Martí pôde enfim ser plenamente responsável pelas idéias e pela
política editorial, como pretendera sem êxito na Guatemala e
que fora impedido de continuar na Venezuela. Por isso, embora
sejam textos jornalísticos, que em boa parte dos casos, procu-
ram informar sobre um assunto em particular, esses artigos
devem ser considerados um corpus no contexto de sua obra e
de seu pensamento, dada a explícita intencionalidade com que
elaborou, mês a mês, a publicação.

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O sentido defensivo era imposto, em sua opinião, pelas pró-


prias circunstâncias em curso: “Sabemos que estamos chegando
no instante em que uma empresa dessa ordem devia chegar. Há
vantagem como há perigo na inevitável intimidade entre as duas
partes do continente americano. A intimidade parece tão próxi-
ma, e, talvez, em alguns aspectos, tão avassaladora, que apenas
há o tempo necessário para pôr-se em pé, ver e dizer”.34
Note-se, de uma parte, sua serenidade e realismo ao con-
siderar inevitável essa “intimidade” – da qual, sem dúvida,
exclui a amizade, ou pelo menos, a confiança – na qual vê fa-
tores positivos e negativos para a América Latina. É evidente,
portanto, que esses perigos, avassaladores em alguns aspectos,
levam Martí a uma posição defensiva.
Mas, segundo ele, essa defesa não pode realizar-se a partir
do passado, mas do presente e, sobretudo, para o futuro: só
um verdadeiro desenvolvimento que iguale nossa América
aos Estados Unidos – chegando mesmo a superá-lo – poderá
resolver definitivamente a situação.
Daí o apostolado latino-americanista do jornalismo mar-
tiano em A América, como expressão dessa obra fundadora que,
como vimos, anunciara na Venezuela.
Numa rápida síntese, pode-se dizer que o programa desen-
volvimentista exposto por Martí propunha que a agricultura
poliprodutora para o mercado nacional deveria ser a base do
desenvolvimento econômico continental – idéia que já vinha
expondo desde o México –, tanto por sua função alimentar
quanto por constituir fonte de matérias-primas em que deveria
se basear o impulso industrial, além de vir a garantir a estabili-
dade social graças a um campesinato proprietário. A produção

34
Idem.

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agropecuária e industrial deveria abrir caminho nos mercados


da Europa e dos Estados Unidos, razão pela qual os países
latino-americanos deveriam estar presentes nas exposições
internacionais organizadas na época. Tais ações econômicas
exigiam uma educação com sólido embasamento científico,
capaz de preparar a população para o emprego da técnica e da
tecnologia modernas. Tudo isso, enfim, a partir do conhecimen-
to das realidades e necessidades de nossos povos, de maneira
a aplicar as ciências e o progresso técnico requerido por elas, e
não os que são adotados simplesmente por cópia.35
Na falta de desenvolvimento estava a causa, como indicou
em mais de uma ocasião, da instabilidade política das repúblicas
latino-americanas, pois o cultivo rotineiro, trabalhoso e pouco
remunerativo de terras afastadas dos grandes mercados – aludia
evidentemente aos mercados externos –, as indústrias “raquíticas
e mal acabadas” e o comércio “alheio e sórdido”, não constituíam
instrumento para a atividade “ansiosa e o inesgotável desejo de
grandeza do homem hispano-americano”. “Desta disposição
meramente econômica; desta desigualdade entre as demandas
legítimas da vida (...) e os meios de satisfazê-las”, aproveitavam-
se os “que queriam fazer passar por sobressaltos políticos o que
não eram mais do que desajustes econômicos”.36
Note-se também nas citações anteriores, o cuidado de Martí
em caracterizar a psicologia social do “homem hispano-americano”
e a influência sobre ela das circunstâncias econômicas e históricas.
Não há dúvida de que essa era uma maneira mais concreta de

35
Um precioso exame que considera os textos martianos em A América como expositores
de um programa para o desenvolvimento latino-americano pode ser lido no livro de
Rafael Almanza, Em torno do pensamento econômico de José Martí, Havana, Editorial de
Ciencias Sociales, 1990, pp. 141 e seg. e 170 e seg.
36
J.M.: “México em 1882”, O.c., t. 7, pp. 23 e 22.

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apresentar o espírito americano a que se referira no México. Sem


aludir ainda aos grupos sociais em termos de classes socioeconô-
micas, nem a seus conflitos de interesses, fica claro que naqueles
anos de A América Martí já começava a trilhar um caminho que
buscava definir melhor essa abstração do “homem americano”
– agora “hispano-americano”, com maior precisão –, posto que,
na revista, refere-se mais de uma vez às diferenças entre a massa
inculta e as minorias ilustradas: “A obscuridade e ineficácia atuais
da raça hispano-americana dependem apenas de falta de analogia
entre nossos povos, forçosamente embrionários, e os habitantes
cultos, e relativamente muito cultos, de nossas cidades”.37
Esta frase, extraída de seu artigo “Invenções recentes”, pu-
blicado em A América, em maio de 1884, é seguida de outra, que
sintetiza alguns pontos essenciais de sua idéia sobre os caminhos
para o desenvolvimento continental, as quais nos indicam que,
para ele, seria esse desenvolvimento – implicando ao mesmo
tempo em transformações econômicas e educacionais – que per-
mitiria apagar a contradição ou “falta de analogia” no interior de
nossos países. “Assim, na América, basta repartir bem as terras,
educar os índios onde eles existirem, abrir caminhos pelas férteis
comarcas, semear muito em seus arredores, substituir a instrução
elementar literária inútil – leia-se bem o que dizemos em alto e
bom som: a instrução elementar literária inútil – pela instrução
elementar científica – e esperar para ver crescerem os povos”.38

37
J.M.: “Invenções recentes”, O.c., t. 8, p. 439.
38
Idem. É óbvio o sentido de síntese do parágrafo, mas esta síntese evidencia que ainda
naquela época – diferentemente de quando escreve “Nossa América” – ronda em
Martí um certo espírito dos clássicos esquemas para o desenvolvimento, próprios do
liberalismo latino-americano: educar os índios, abrir caminhos (para o comércio),
ainda que seu apelo à educação científica e não “literária inútil” ultrapasse e modern-
ize – assim como os pressupostos cientificistas do positivismo – o tradicional sentido
ilustrador com que os liberais do continente tenderam a propiciar a instrução.

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O conceito martiano do desenvolvimento da América


Latina incluía, também, a permanência das tradições e dos
elementos que qualificaram a identidade espiritual de nossos
povos, em primeiro lugar a autoctonia trazida pelos aborí-
genes. “O espírito dos homens paira sobre a terra em que
viveram; podemos respirá-lo. Somos descendentes de pais de
Valência e de mães das Canárias, sentimos correr nas veias
o sangue orgulhoso de Tamanaco e Paracamoni, e vemos
como próprio o sangue vertido pelas brenhas do morro do
Calvário, peito a peito com os gonçalos de férrea armadura,
os despidos e heróicos caracas!”39
E, no mesmo trabalho, publicado em A América, em
abril de 1884, explica claramente a estreita relação entre
o desenvolvimento necessário por alcançar e o espírito de
identidade.
Bom é abrir canais, semear escolas, criar linhas de navegação, pôr-
se à altura do próprio tempo, estar ao lado da vanguarda, na bela
caminhada humana; mas é bom, para não desmaiar nela por falta
de espírito ou alarde de espírito falso, alimentar-se, pela recordação
e pela admiração, pelo estudo justiceiro e pela amorosa lástima,
desse fervente espírito da natureza em que nascemos, aumentado e
avivado pelo dos homens de todas as raças que dela surgem e nela
são sepultados.40
Conseqüentemente, também é possível verificar que, com
seu modo peculiar de ver as semelhanças e similaridades entre
as civilizações e as culturas, Martí apela inclusive a que consi-
deremos na identidade as diversas contribuições dos diferentes

39
J.M.: “Autores americanos aborígenes”, O.c., t. 8, p. 336.
40
Idem.

62

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grupos humanos, não considerando aquela expressão única


de alguns deles, diferentemente da opinião que se impunha
cada vez mais, naquele tempo, quanto ao pertencimento ex-
clusivo da América Latina à chamada “civilização ocidental”,
branca e cristã.
Por isso também, em janeiro de 1884, escreveu na revista
sobre o conhecimento das tradições, das características e da
própria fé continentais, referindo-se aos livros “que, com espí-
rito americano, estudam problemas da América”, que considera
“livros honestos, piedosos e fortalecedores”. E diz: “Falamos
desses livros que recolhem nossas memórias, estudam nossa
composição, aconselham o lúcido emprego de nossas forças,
confiam no definitivo estabelecimento de um formidável e bri-
lhante país espiritual americano, e tendem à saudável produção
do homem trabalhador e independente em um país pacífico,
próspero e artístico”.41
Esse país ainda por fundar gozaria, de acordo com suas
palavras, de virtudes não desfrutadas pelas repúblicas latino-
americanas até o momento: seria “pacífico, próspero e artís-
tico”, razão pela qual – pode-se inferir – seria “formidável
e brilhante”, do ponto de vista espiritual. Observemos que
Martí nos fala “do país” e não dos países: o caminho para o
futuro do continente deveria conduzir, a seu ver, para a uni-
dade hispano-americana, idéia repetida em muitos dos textos
de A América.
Em maio de 1884, lembrou que esta era a preocupação
da revista: “a fusão do espírito de todas em uma única alma

41
J.M.: “Biblioteca americana”, O.c., t. 8, p. 314.

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americana”.42 No mês seguinte escrevia: “Povo, e não povos,


dizemos de propósito, por não nos parecer que há mais de um,
do Bravo à Patagônia. Uma há de ser, visto que o é, a América,
mesmo que não o quisesse; e os irmãos que lutam juntos ao final
em uma colossal nação espiritual, hão de amar-se depois”.43
Quero chamar a atenção para várias questões a que Martí
se refere no parágrafo citado.
Em primeiro lugar, se houvesse alguma dúvida quanto a sua
maneira de referir-se repetidas vezes ao americano, aqui expli-
cita de novo – como vimos, já o fizera no prospecto da Revista
Guatemalteca – que quando assim escreve está se limitando ao
território ao Sul do rio Grande ou Bravo, ou seja, que de modo
algum está incluindo os Estados Unidos.
Em segundo lugar, é muito significativa sua maneira de
apoiar a legitimidade da existência desde então dessa unidade
futura (“uma há de ser, visto que o é”). De um lado, isso de-
monstra a peculiar dialética martiana entre o presente e o futuro
continental: este se justifica nessa direção unitária na medida
em que esta se delineia desde a atualidade, posto que vem dada
– como se viu em mais de uma citação – desde o passado. Por
isso, em outro trabalho para A América, em dezembro de 1883,
dissera: “os que ainda não são, e em muitas coisas poderiam
ser, são, por natureza, os Estados Unidos da América do Sul”.44
Isto é, a possibilidade é certeza futura, posto que já existem ele-
mentos dessa realidade no presente vivido por ele; neste caso, a
unidade política seria possível no futuro porque já existe uma
unidade de natureza.

42
J.M.: “A assinatura de A América (...)”, O.c., t. 28, p. 229.
43
J.M.: “Livros de hispano-americanos e rápidas considerações”, O.c., t. 8, p. 318.
44
J.M.: “Buenos Aires e Uruguai”, O.c., t. 28, p. 216.

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Em terceiro lugar, quero refletir sobre o sentido da unidade


preconizada por Martí naquele momento. Trata-se, essencial-
mente, de unidade de espírito, de alma, mais do que de unidade
político-estatal, embora seja a esta que se refira na última citação,
embora sem postulá-la como um absoluto: quando nos diz que
“em muitas coisas poderiam ser” os países latino-americanos
como seu vizinho do Norte, é óbvio que em outras coisas –
menos, talvez, mas evidentemente não em todas – não poderiam
ser um Estado único, pelo menos a curto ou médio prazo.
Ao mesmo tempo, é interessante verificar que Martí empre-
ga como mero ponto de referência uma realidade já existente
(os Estados Unidos), e não como uma analogia conceitual
que de algum modo situasse essa entidade como modelo a ser
seguido.
Essa identidade espiritual entre os povos da América Latina
sinaliza para Martí a possibilidade de unidade entre eles, como
já se viu em citações anteriores.
Em um artigo de outubro de 1883, intitulado “Agrupamento
dos povos da América”, disse: “Andamos tão apaixonados por
povos que têm pouca liga e nenhum parentesco com os nos-
sos, e tão distraídos que deixamos outros países que vivem de
nossa mesma alma, e não serão jamais – ainda que aqui ou ali
um Judas mostre a cabeça – mais do que uma grande nação
espiritual!”45
Note-se como o adjetivo “grande” reforça, não apenas
as dimensões, mas também a importância dessa “nação
espiritual”.
Este trabalho é da maior importância para o assunto de
que tratamos, já que relaciona estreitamente seu ponto de vista

45
J.M.: “Agrupamento dos povos da América”, O.c, t. 7, pp. 324-325.

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quanto à unidade aos modelos copiados de outras realidades e


à época histórica que transcorria então.
Como meninas em estação de amor voltam os olhos ansiosos pelo ar
azul, em busca de galhardo noivo, assim vivemos suspensos de toda
idéia e grandeza alheias, quer tragam o selo da França ou da América
do Norte; e ao plantar astutamente, em solo de certo Estado e de certa
história, idéias nascidas em outro Estado e em outra história, perdemos
as forças de que necessitamos para apresentar-nos ao mundo – que
nos vê carentes de amor e como entre nuvens – compactos no espí-
rito e unidos na marcha, oferecendo à terra o espetáculo jamais visto
de uma família de povos que avança alegremente a passos iguais, em
um continente livre. Lemos Homero: acaso foi mais pitoresca, mais
ingênua, mais heróica a formação dos povos gregos que a de nossos
povos americanos?46
Note-se, portanto, a importância atribuída por Martí à cópia
de modelos alheios – neste caso os impostos pelo pensamento
liberal, como indicam suas referências à França (óbvia alusão à
Revolução de 1789) e à América do Norte (como república ini-
cial, perdurando no Novo Mundo) – como um freio à unidade
continental e, portanto, à própria expressão da identidade.
Dessa relação decorre seu desejo de estimular a união
latino-americana, sentido mais profundo de sua atuação, como
escreveu em cartas pessoais durante seus dias guatemaltecos.
Assim, continua: “O nosso sonho é que os povos da América
Latina se entusiasmem e se unam”.47
As palavras que seguem, neste parágrafo do artigo “Agru-
pamento dos povos da América”, destacam a necessidade de

46
Ibidem, p. 325.
47
Idem.

66

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união diante das novas circunstâncias internacionais que a


época acarretava.
Vemos colossais perigos; vemos maneira fácil e brilhante de evitá-los;
adivinhamos, na nova acomodação das forças nacionais do mundo,
sempre em movimento, e agora aceleradas, o agrupamento necessá-
rio e majestoso de todos os membros da família nacional americana.
Pensar é prever. É necessário ir aproximando o que há de acabar por
estar junto. Se não, crescerão ódios; não haverá defesa adequada frente
aos colossais perigos, vivendo-se em perpétua e infame batalha entre
irmãos, por apetite de terras.48
Fica claro que, para Martí, a identidade latino-americana
(“a família nacional americana”) seria plena desde que uni-
da, agrupada, o que, já sabemos, dependia mais de idéias, de
propósitos e de ação do que de integração político-estatal, e
que essa unidade cumpria missão defensiva frente a perigos
anunciados pelas mudanças na realidade internacional, perigos
estes – certamente – de tal envergadura, que, como vimos,
são qualificados duas vezes, pelo autor, no mesmo trecho, de
“colossais”.
Interessante a correlação estabelecida por Martí entre o pro-
blema conceitual e a influência exercida sobre ele pela mutante
etapa histórica. Em suas palavras, de novo, afirma-se a cons-
ciência de sua própria obra individual nesta frase sentenciosa
que a partir de então escreverá uma e outra vez, ao examinar
o tema dos perigos que ameaçavam a América Latina: “Pensar
é servir”. Duas ações que Martí está praticando com o próprio
texto que comentamos.
Por outro lado, note-se nas palavras citadas como estabe-
lece a defesa diante dos enfrentamentos fraternos – que chega

48
Idem.

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a qualificar de “infames” –, pois essas lutas internas dividem


nossos povos frente àqueles “colossais perigos”.

9
Essa ampliação de seu conceito sobre a unidade continental,
junto a sua análise sobre a realidade estadunidense, que cami-
nhava – a seu ver – para o encontro dominador com a América
Latina, o que para ele ficou claramente definido como projeto de
ação do país do Norte na conferência de Washington, fizeram
com que decidisse dirigir sua vida totalmente para o que viria
a ser sua magna tarefa antiimperialista e de libertação nacional.
Mas, antes de entrar de uma vez em sua implementação prática,
tornou-se necessário para ele ajustar contas definitivamente com
o liberalismo e com o positivismo que, pouco a pouco, domi-
navam a intelligentzia latino-americana do fim do século 19.
Essa é a chave de seu ensaio mais importante, intitulado
“Nossa América”, publicado pela primeira vez em A Revista
Ilustrada de Nova York, em 1o de janeiro de 1891.49
Ali, em umas poucas páginas, traçou o quadro das razões
do permanente desajuste entre as instituições e a realidade
histórica continentais: as normas e formas de organização
liberais das repúblicas latino-americanas penderam uma e
outra vez para o caudilhismo e as ditaduras, por não corres-
ponderem às verdadeiras necessidades da região. Tratava-se,

49
Todas as citações do ensaio correspondem à mencionada edição crítica preparada
por Cintio Vitier. Para uma ampliação das idéias expostas neste item, ver no Anuário
do Centro de Estudos Martianos, Havana, no 14, 1991, os textos de Ramón de Armas,
‘“Como quem vai lutar junto’: sobre a idéia de unidade continental em ‘Nossa
América’, de José Martí”, e o meu, intitulado ‘“Nossa América’ como programa
revolucionário”, reproduzido na coleção “Panorama de nossa América”, no volume
1, José Martí a cem anos de nossa América, México, Centro Coordenador e Difusor de
Estudos Latino-americanos, Universidade Nacional Autônoma do México, 1993.

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para ele, de não isolar o “homem natural” (o índio, o negro, o


camponês) com maneiras de governar estranhas ao país. Por
isso escreveu nesse ensaio: “Governante, em um povo novo,
quer dizer criador”. E esta tarefa criadora deveria partir, a seu
ver, da exata compreensão do significado do “homem natural”
em nossa identidade, marcada, também, pela sobrevivência de
elementos coloniais e ameaçada, já então, pela próxima “visita”
dos Estados Unidos, país – como dizia – de diferentes “origens,
métodos e interesses”.
Razão pela qual postulou, nesse texto fundamental, que
“não há batalha entre a civilização e a barbárie, e sim entre
a falsa erudição e a natureza”, numa clara alusão à célebre
antinomia estabelecida pelo pensamento liberal – que o pen-
samento positivista seguiu –, que entendia a modernidade
industrial capitalista – desideratum ainda por alcançar para
nossos povos – como o elemento civilizador a partir do qual
deveria ser compreendida a especificidade continental. Martí,
no entanto, firme desde 1877 – como vimos –, em uma posi-
ção substancialmente oposta, insiste em “Nossa América” em
afirmar que não se tratava de copiar o modelo europeu oci-
dental ou estadunidense e sim de criar um próprio, adequado
às necessidades de suas classes populares e a suas condições
histórico-sociais.
Assim, a identidade de “nossa América” – expressão que,
com este ensaio, adquire plenamente o valor de um conceito
no pensamento martiano – foi entendida por ele como um
processo que se projetava para o futuro e que seria a garantia
do continente frente aos perigos de uma nova dominação, desta
vez pelo vizinho do Norte.
Embora, repito, o assunto central do ensaio seja explicar a
razão do malogro de determinadas formas de governo, por não

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serem oriundas do país, não podemos deixar escapar o sentido


com que o autor utilizou palavras como cultura e literatura.
Com elas, estamos diante de alguns dos casos mais notáveis,
explícitos e brilhantes do policentrismo no estilo martiano.
Repetidas vezes, Martí contrapõe os elementos e os portadores
da autoctonia ao “livro importado”, aos “letrados artificiais” e
ao “crioulo exótico” para os cultos que não aprenderam a arte
de governo de seus povos. E, por isso, a seu ver, fracassaram
as universidades americanas, já que não ensinaram “os rudi-
mentos” da arte de governar, ou seja, “a análise dos elementos
peculiares dos povos da América”. E, por isso, diz também: “O
prêmio dos concursos não há de ser para a melhor ode, e sim
para o melhor estudo dos fatores do país em que se vive. No
jornal, na cátedra, na academia, deve-se levar adiante o estudo
dos fatores reais do país (...) A universidade européia há de ceder
à universidade americana”.
As frases citadas, mencionadas muitas vezes pelos que
o estudam, deixam bem claro o assunto: para o cubano era
imprescindível criar uma cultura própria, baseada nos fatores
reais da América Latina, em seu homem natural. Deste modo,
em estreita coerência interna, seu pensamento se articula por
todos os ângulos: o desconhecimento da identidade baseada
na autoctonia levou as repúblicas ao malogro; apenas a nova
cultura permitirá assumir em sua plenitude tais identidade
e autoctonia, e por isso, unicamente a cultura real (natural,
popular) possibilitará avanço deste processo de identificação
diante dos apetites do Norte.

10
Desde então – 1881 – correu contra o tempo, para impedir
a materialização do grande perigo externo; como pensador,

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concebeu a estratégia de libertação continental que, como


político, ia pondo em prática: tornar independentes Cuba e
Porto Rico para fundar a “república nova”, verdadeiro esque-
ma de organização republicana que surgiria de nossa Améri-
ca, contribuindo para reorientar as nações do continente na
base da justiça social para as grandes massas populares, e que
contribuiria, ao mesmo tempo, para ir construindo a unidade
necessária de nossos povos.
Os grandes planos não obscureceram o hábil político que
foi Martí, no que se refere à compreensão de que estes não
poderiam ser realizados de uma só vez, e sim passo a passo,
dando-se cada um com muito cuidado para não pôr em risco,
com o fracasso de uma etapa, o grande empreendimento em
seu conjunto. E o primeiro passo foi buscar unificar a ação
da emigração patriótica cubana, para o que fundou o Partido
Revolucionário Cubano, em 10 de abril de 1892.
Eleito seu delegado – original maneira com que, nas bases
do partido, foi denominado seu dirigente máximo, de todos os
pontos de vista uma forma de reforçar a representatividade desse
cargo eletivo –, Martí concebeu essa organização política como
ensaio da “república nova”, ainda que seu propósito imediato
fosse preparar a guerra para a independência das últimas duas
possessões espanholas na América. De fato, em sua opinião, o
férreo domínio colonial apenas admitia o enfrentamento pelas
armas.
O partido – e a guerra –, a seu ver, deveriam ser organizados
e conduzidos respeitando-se a vontade popular e utilizando
práticas democráticas. Por isso o PRC elegia anualmente o
delegado e todos os seus dirigentes; e o voto secreto e direto
dos chefes militares elegeu até Máximo Gómez general-em-
chefe do futuro Exército Libertador. Desse modo, as bases do

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PRC propiciaram apenas um programa republicano, baseado


no “trabalho real e no equilíbrio das forças sociais”.50
Logo, se era importante tirar a Espanha da região antilhana,
já que – além da exploração e do domínio que a Metrópole
exercia – esse status colonial facilitava a ação expansionista dos
Estados Unidos, era ainda mais importante, para Martí, cons-
truir a “república nova” em Cuba e em Porto Rico, e, com o
estímulo de ambas, implantá-la progressivamente na República
Dominicana; destas três ilhas a sociedade republicana autóctone
irradiaria seu exemplo para o resto do continente. Assim, nas
que chamou as “três ilhas irmãs”, deveria haver essa preocupação
com os direitos do homem natural, de maneira a não reproduzir
as repúblicas coloniais, incapazes de assegurar a ação sistemática
de seus próprios princípios constitucionais, criticadas por ele
em seu texto “Nossa América”.
Portanto, as três Antilhas de fala espanhola tinham um
significado múltiplo na concepção martiana de identidade
continental.
De uma parte, contribuiriam para o desenvolvimento dessa
identidade, por utilizar “soluções próprias” e “leis nossas”, como
vinha pedindo desde seus anos no México, que funcionariam
como propostas práticas para as demais nações latino-america-
nas. De outro lado, fundamentariam essa atuação no que lhes
era próprio, na atenção às forças sociais preteridas – o homem
natural –, portadoras da autoctonia frente ao “livro importado”,
aos “letrados artificiais” e ao “crioulo exótico”, como escreveu
em “Nossa América”. Os dois fatores, enfim, também assegu-
rariam, com seus exemplos e experiências, a conservação e ao
mesmo tempo a renovação necessária dos traços característicos

50
J.M.: “Bases do Partido Revolucionário Cubano”, O.c., t. 1, p. 279.

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da identidade continental, tanto por representar o caminho


do verdadeiro abandono dos restos coloniais que limitavam a
expressão dessa identidade desde as independências, quanto
garantir às repúblicas formas de expressão, evitando a nova
dominação que se inaugurava, contrária a essa identidade re-
gional.
Esse sentido dialético, de processo, na hora de considerar
a identidade, é o que permite a Martí, naquele momento, es-
capar da tradição liberal do continente, presa à sua concepção
homologadora entre Estado nacional e nação, incapaz por isso
mesmo – independentemente de seus condicionantes históri-
cos e sociais – de sustentar na prática um projeto de realização
continental. Ao mesmo tempo, tal idéia martiana, concebendo
a materialização plena e lógica da identidade latino-americana
em sua unidade, entendida esta como um processo mais ou
menos longo que não implicava de imediato a união entre os
Estados, evitava o tom voluntarista do ideal bolivariano de uni-
dade, que desconhecia, em seu momento, as particularidades
locais, a partir das quais foram se justificando e implantando
em termos históricos os Estados nacionais.
Lucidamente, o mestre proclamou como objetivo último de
suas idéias e ações a unidade regional – lícita porque fundamen-
tada na própria identidade latino-americana – a partir de sua
implantação nas e desde as Antilhas. Interessante, essa análise
dialética de seu pensamento político: era possível avançar mais
facilmente para o desejado futuro de unidade a partir dos povos
situados ainda no patamar mais atrasado do domínio colonial
direto. “Não parece que a segurança das Antilhas, controladas
de perto pela cobiça pujante, dependa tanto da aliança exibi-
cionista e, do ponto de vista material, insuficiente, a ponto de
provocar reforços e justificar a agressão, quanto da união sutil,

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e explícita em tudo, sem o pretexto da provocação confessa, das


ilhas que hão de manter-se juntas ou juntas hão de desaparecer,
do rol dos povos livres”. 51
O revolucionário cubano inscrevia-se assim no espírito
antilhista manifestado há muito (Luperón, Hostos, Betances e
outros), mas, agora, como patamar inicial prático e fundamen-
tação teórica de libertação nacional para a América Latina.
Aprecie-se a profundidade de suas considerações pela delica-
deza de suas palavras: seguindo as idéias que lançara nos textos
para A América, insiste em que a unidade não devia ocorrer
por meio da aliança “chamativa” e “insuficiente do ponto de
vista material”, ou seja, sem forças para manter-se. Isto é, não
deveria constituir-se um Estado unificado imediatamente,
pois isso daria pretexto, sem que houvesse capacidade real para
impedi-la, à agressão, pelo que se pode deduzir – embora Martí
não o explicite nessa frase – dos Estados Unidos, empenhados
há muito, como o próprio Martí denunciou em mais de uma
ocasião, em apoderar-se das Antilhas, ou pelo menos, de alguns
pontos estratégicos nesses territórios.
Por outro lado, o político convertido em um estadista
completo, desejando encontrar um equilíbrio mundial entre as
potências européias e os Estados Unidos, introduzia também
em seu projeto as concepções sociológicas que, por sua vez,
tinham aberto seu caminho para a elaboração desse projeto.
Como fiel da América estão as Antilhas, que seriam, se escravas, mero
pontão da guerra de uma república imperial contra o mundo zeloso e
superior que já se prepara para negar-lhe o poder, mero forte da Roma
americana; e, se livres – e dignas de sê-lo, pela ordem da liberdade
eqüitativa e trabalhadora –, seriam no continente a garantia do equilí-

51
J.M.: “As Antilhas e Baldorioty Castro”, O.c., t. 4, p. 405.

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brio, da independência para a América espanhola ainda ameaçada e da


honra para a grande república do Norte que, no desenvolvimento de
seu território – por infelicidade, já feudal, e dividido em partes hostis
– encontrará mais segura grandeza do que na ignóbil conquista de seus
vizinhos menores e na luta inumana que com a posse delas travaria
com as potências do globo pela hegemonia no mundo.52
Esse papel como fiel da balança americana, portanto, de
equilíbrio entre as duas partes da América, era a tarefa histórica
que, para Martí, impunham a época e as exigências de uma
identidade obrigada a resgatar sua autoctonia e a lastrear seu
desenvolvimento futuro. E esse dever antilhano baseava-se não
apenas em um imperativo histórico e indubitavelmente ético,
mas também nas próprias condições das sociedades insulares,
singular maneira martiana de vislumbrar um maior desenvolvi-
mento destas na Modernidade. Cuba e Porto Rico entrariam na
liberdade “com composição muito diferente” dos demais povos
hispano-americanos quando estes chegaram à independência
e, embora dispusessem “de elementos ainda dissociados”, era
possível “salvá-las e servi-las”, mediante “a composição hábil e
viril de seus fatores presentes, menos afastados do que os das
sociedades européias, rancorosas e esfomeadas”.53
Ou seja, Martí reconhecia nas Antilhas uma capacidade para
cumprir a tarefa histórica que lhes atribuía, de incorporar-se
criadora, original e defensivamente à Modernidade, baseado
nos fundamentos sociais das ilhas: os povos antilhanos nem
estavam antagonicamente polarizados – mesmo que, com
admirável realismo, considerasse que nelas manifestavam-se

52
J.M.: “O terceiro ano do Partido Revolucionário Cubano. A alma da Revolução e o
dever de Cuba na América”, O.c. t. 3, p. 142.
53
Idem.

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também elementos de dissociação – como no restante da Amé-


rica espanhola, quando alcançou a independência, ou como
a própria Europa sua contemporânea, apesar desta ter sido o
protótipo e indubitavelmente um dos centros da modernidade.
Por isso, a “república nova” buscaria o equilíbrio em seu inte-
rior, seria “com todos e para o bem de todos”, como proclamou
Martí numa palavra de ordem feliz para a emigração cubana
da Flórida.54
Martí alcançou a plenitude como pensador e político, sem
dúvida, em seus últimos anos de vida, dedicados às tarefas de
organizar a guerra pela independência. Naquele momento,
sua concepção quanto à identidade continental, amadurecida
progressivamente, como se viu, começou a abrir caminho no
terreno da realização prática, por meio da execução de sua estra-
tégia, libertadora para o continente e de projeções universais.
Para assegurar e desenvolver essa identidade trabalhou
intensamente, a ponto de que sua própria obra é hoje símbolo
dessa alma continental, em cujo contexto seu conceito de “nossa
América” é elemento essencial. Sua noção do dever latino-
americanista levou-o a dar sua vida nos campos de Cuba, para
onde veio visando “impedir a tempo, com a independência de
Cuba, que avancem pelas Antilhas os Estados Unidos, caindo
com mais essa força sobre nossas terras da América”.55
Deixou-nos, além de seu exemplo, seu pensamento que,
como ele bem sabia, “não desapareceria”,56 conforme escreveu
em sua última carta não concluída, na véspera de sua morte.

54
J.M.: “Discurso no Liceu Cubano”, Tampa, 26 de novembro de 1891, O.c., t. 4, p.
279.
55
J.M.: “Carta a Manuel Mercado, Acampamento de Dois Rios, 18 de maio de 1895”,
O.c., t. 4, p. 167. Também em Epistolário, ob.cit., t. V, p. 250.
56
Ibidem, O.c., p. 170 e Epistolário, ob.cit., t. V, p. 252.

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Esse pensamento foi e é o principal serviço que prestou à sua


(nossa) América de hoje, quando esta se vê diante de novas
encruzilhadas para sua identidade e seu destino.

Havana, dezembro de 1994.

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GUATEMALA:
JOSÉ MARTÍ RUMO À NOSSA AMÉRICA

A viagem
Terminava 1876 e o jovem José Martí preparava-se para
deixar a capital mexicana. Chegara no ano anterior, para reunir-
se à sua família, depois de ter vivido na Espanha como exilado
político. Foi para o México porque caíra o governo liberal que
apoiara diariamente na imprensa: fora mexicano sem deixar de
ser cubano durante esses dois anos, pois, como disse, no orgu-
lhoso final do que foi seu último texto publicado no México
antes de sua partida: “E assim, lá como aqui, para onde eu vá,
como onde estou, enquanto durar minha peregrinação pela
vasta terra – para a lisonja, sempre estrangeiro; para o perigo,
sempre cidadão”.1

1
José Martí: “Estrangeiro”, em Obras completas, Havana, 1963-1973, t. 6, p. 363. Na
seqüência, citaremos por esta edição, identificada com as iniciais O.c., indicando
apenas o tomo e a paginação. Ver também em Obras completas. Edição crítica, Havana,
Centro de Estudos Martianos, 2000, t. 2, p. 300. Na seqüência menciona-se E.c., o
tomo e a paginação.

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O México proporcionou-lhe experiências significativas: a


vida em uma verdadeira nação americana, independente – con-
traste muito sentido porque só conhecera a colônia antilhana e
sua metrópole européia – e o contato com a natureza e o homem
continentais. Terminam os dias mexicanos de juventude exu-
berante, de amores impetuosos, de amizades para a vida toda;
mas não se interrompe o que constitui, desde 1875, uma nova
etapa de sua vida: a da revelação de nossa América.
Parece que a decisão de partir para a Guatemala não foi fácil
para Martí. Durante sua curta permanência clandestina em
Havana, no início de 1877, escreve a Manuel Mercado, em 3
de fevereiro,2 expondo-lhe sua preocupação por não encontrar
um emprego satisfatório para sustentar seu futuro casamento;
oito dias depois, confessa-lhe em outra carta que seu desejo era
voltar ao México para estar próximo de Carmen. Mas, nessa
mesma ocasião, relata ao amigo mexicano a intenção com que
partiu para a Guatemala: “Vou para essa terra humilde com a
alma feliz, clara e inteira. Não pronto para esperar, mas decidido
a operar. Tenho em mim algo de cavalo árabe e de águia: – com
a inquietação fogosa de um, voarei com as asas da outra”.3
Este parágrafo indica-nos que, apesar das dúvidas provo-
cadas pela paixão amorosa, Martí vai para a Guatemala com
um nobre entusiasmo, incutido por amigos mexicanos e gua-
temaltecos que o informaram quanto ao espírito liberal que

2
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 3 de fevereiro de 1877, O.c., t. 20, pp. 23-24. Ver
também em Epistolário, compilação, ordenação cronológica e notas de Luis Garcia
Pascual e Enrique H. Moreno Pla, prólogo de Juan Marinello, Havana, Centro de
Estudos Martianos e Editorial de Ciencias Sociales, 1993, t. I, pp. 68-69.
3
J.M.: Carta a Manuel Mercado, Havana, 11 de fevereiro de 1877, O.c, t. 20, p. 25.
Epistolário, ob. cit., t. I, p. 70. Note-se que faz também esta comparação de si mesmo
ao cavalo árabe e à águia nos apontamentos da viagem de Izabal a Zacapa, já em
território guatemalteco.

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animava o país centro-americano. Sabia que ali foram bem


acolhidos muitos cubanos partidários da independência; ele
mesmo publicara, na Revista Universal, o decreto de 6 de abril
de 1875, em que o governo guatemalteco reconhecia a inde-
pendência de Cuba. Acreditava, portanto, que a Guatemala
seria uma continuação do que fora sua estadia mexicana. E,
efetivamente, o tempo guatemalteco é inseparável dos anos do
México, quando se fala de Martí: durante aquele período for-
mulou aspectos essenciais de seu ideário latino-americanista,
aspectos estes que serviram de fundamento, para sempre, a
sua vida e a sua obra.
Seguramente também influiu em sua decisão o pai de seus
amigos de adolescência Fermín e Eusébio Valdés-Domínguez,
natural da Guatemala e que mantinha relações em seu país natal;
em sua ampla biblioteca Martí adolescente fizera suas primeiras
leituras de autores guatemaltecos. “Muito menino ainda, eu já
admirava, em Havana, a concisão do estilo, o traço enérgico da
frase, o medido pensamento de um letrado guatemalteco, para
quem não era coisa nova ouvir dizer que escrevia à semelhança
do egrégio escritor Jovellanos”.4
E se acrescentarmos a isso as narrações de Bernardo, o
pai dos Valdés-Domínguez, torna-se mais compreensível sua
escolha pela terra do quetzal para fi xar residência.
No início de março de 1877 já estava a caminho da Gua-
temala. Sua família não o acompanhou desta vez; regressou a
Cuba, porque os pais preferiram tentar fortuna em um meio
conhecido. No México permaneceu à sua espera, para casar-se,
Carmen Zayas-Bazán, a camagueyana que conhecera na casa
de Mercado.

4
J.M.: “Guatemala”, O.c., t. 7, p. 145 e E.c., t. 5, p. 272.

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O caminho escolhido para a viagem é difícil. É como se


Martí quisesse mergulhar totalmente na intrincada natureza
americana, para afogar as tristezas pela separação da família
– que não partilha seus ideais políticos – e pelo triste quadro
colonial que observou em Havana durante uma visita clandes-
tina de um mês e meio, entre janeiro e fevereiro.
Sai de Progresso, pequena localidade a noroeste da penín-
sula de Yucatán, depois de ter feito uma excursão a Mérida e a
Chichén Itzá, a cidade dos antigos maias. O caminho seguido
por Martí é um caminho de águas: de canoa, de Progresso à
Ilha Mulheres, em um bote à possessão britânica de Belize, daí
em lancha ao porto guatemalteco de Livingston. Sobre estas
terras de morros cobertos de mata, deixou-nos apontamentos
cheios de poesia, mostrando sua admiração pelos costumes da
população negra do porto caribenho.
A rota para chegar à Cidade da Guatemala, partindo do
chamado lado atlântico, era intrincada. Não havia boas rodovias
ou estradas de ferro, pois o contato guatemalteco com o exterior
realizava-se naquela época pela costa do Pacífico e pela fronteira
mexicana dessa vertente, zonas onde se concentravam os habi-
tantes do país e as rotas de comunicação importantes. Depois de
atravessar o rio Dulce e o lago Izabal, Martí andou por trilhas
de tropeiros, atravessando lugares pouco povoados.
Sobre esta viagem também escreveu notas (ao que parece,
para enviá-las a seus amigos de adolescência, os irmãos Fermín
e Eusébio Valdés-Domínguez) em que narra suas andanças
em linguagem amena, faz reflexões filosóficas e observações
às vezes levemente irônicas. Armado de um revólver que per-
maneceu ocioso, porque “nem mesmo um tigre veio a meu
encontro no caminho”, e sentindo na alma um “leão rugindo”,
um “corcel árabe” e uma “águia altaneira”, foi “montado em

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uma mula ignóbil”, atravessando a Serra das Minas, durante oito


dias, de Izabal a Zacapa, observando com olhos atentos o casal
tropeiro que o guiava e os camponeses que ia conhecendo.5
Quando chegou à capital – supõe-se que nos primeiros
dias de abril –, Martí já reconhecera na terra guatemalteca sua
mãe, a América.6

A estadia na Cidade da Guatemala: “Estes são meus


ares e meu povo”
Desde 1871 havia na Guatemala um governo de perfil li-
beral que confiscara e vendera a particulares os bens da Igreja
católica, eliminando privilégios que datavam da era colonial. O
governo guatemalteco pretendia fazer progredir o país mediante
a introdução da estrada de ferro e do telégrafo, além de abrir a
numerosos jovens o acesso à educação. A alma daquelas refor-
mas era Justo Rufino Barrios, chefe militar dos liberais durante
a chamada revolução de 1871, eleito presidente dois anos depois
e nomeado em 1876 para mais quatro anos.
Partidário da independência cubana, além de reconhecê-
la mediante decreto de abril de 1875,7 Barrios permitira a

5
J.M.: “Guatemala”, O.c., t. 19, pp. 43-62, e “(Diário de Izabal a Zacapa)”, E.c. t. 5, pp.
51-81. Segundo o que narra em seus apontamentos, saiu de Izabal em 26 de março,
chegando a Zacapa no dia 29. Alguns autores dizem que, em seu percurso para a Gua-
temala, Martí teve um encontro amoroso com uma formosa índia, o que estaria na
origem de seu poema “Sede de beleza”, que faz parte de Versos livres: “– a jovem / índia
que às margens do ameno rio / que do velho Chichén os muros banha / à sombra de
um plátano frondoso / e seus próprios cabelos, o esbelto / corpo bronzeado e nítido
enxugava”. (O.c., t. 16, p. 166). Como se vê, não existe aqui alusão amorosa e, quanto
ao lugar descrito era, em todo o caso, o Yucatán, onde se encontram as ruínas maias
de Chichén Itzá. Observações sobre o panorama que viu em Izabal e no rio Dulce
aparecem em seu artigo “Plátanos” (“A América, junho de 1883”, O.c., t. 7, p. 187).
6
“Estou em terras de minha mãe, a América”. Ibidem, p. 58.
7
Foi, provavelmente, este fato que levou Martí a fixar sua atenção na Guatemala de
Barrios.

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instalação na Guatemala de um grupo de cubanos exilados


de seu país por se oporem ao regime espanhol. Entre eles
destacava-se Antonio Zambrana, redator, junto com Igná-
cio Agramonte, da Constituição de Guáimaro; José Maria
Izaguirre, participante pela Província de Oriente da As-
sembléia de Guáimaro; e o poeta de Bayamo, José Joaquín
Palma, colaborador de Céspedes na luta no campo. Os dois
últimos dedicaram-se ao ensino na nação centro-americana,
o primeiro como diretor da Escola Normal para Professo-
res e Palma, como professor de Literatura na Faculdade de
Direito.
Parece que a participação dos cubanos nas tarefas educacio-
nais, na Guatemala de Barrios, foi relevante. Toda a família de
Izaguirre dedicou-se a isso: o irmão, José Manuel, trabalhou
na Escola Normal; suas irmãs mantiveram um colégio misto,
para rapazes e moças.8 O próprio José Maria Izaguirre9 relata
que outro cubano, Luis Felipe Mantilla, ajudou-o a fundar a
Escola Normal e, segundo Casimiro D. Rubio,10 o também
cubano Juan García Purón colaborou com Izaguirre, enquan-
to o professor Anselmo Valdés “dirigiu durante alguns anos
o Instituto Nacional do Ocidente”, em Quezaltenango. Ao

8
Ver Máximo Soto-Hall: A jovem da Guatemala: o idílio trágico de José Martí, Guatemala,
Tipografia Nacional, 1942, pp. 33-34. O autor estudou neste lugar e relata abundantes
lembranças.
9
Ibidem, p. 15. Segundo Calcagno, em seu Dicionário biográfico cubano, Mantilla foi
professor no colégio El Salvador – de História Universal e de Literatura, segundo
Sanguily (José de la Luz y Caballero) – residiu em Nova York desde 1862 até sua morte
em 1878, e não esteve na Guatemala. Parece que Izaguirre pediu-lhe, em Nova York,
sua opinião sobre a Escola Normal da Guatemala, pois foi nessa cidade dos Estados
Unidos que Barrios contratou Izaguirre.
10
Ibidem, p. 255. Diz David Vela em: Martí na Guatemala, Havana, Publicações da Co-
missão Nacional Organizadora dos Atos e Edições do Centenário e do Monumento
a Martí, 1953, p. 238, que Valdés “colaborava nos jornais e tinha definidas opiniões
autonomistas”.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

cubano Hildebrando Martí foi atribuída a direção do Instituto


Nacional, anexo à Universidade.11
José Martí chegou à Cidade da Guatemala com cartas de
recomendação de Bernardo, o pai dos Valdés-Domínguez, que
fora professor de Barrios, e de Ramón Uriarte, embaixador da
Guatemala no México.12 Essas relações asseguraram-lhe ainda
uma entrevista com o presidente Barrios à qual compareceu
conduzido por José Maria Izaguirre.13
Graças a estas amizades e ao nome que ganhara nos meios
intelectuais mexicanos, poucos dias depois de sua chegada,
Martí vê-se totalmente incluído na vida social guatemalteca.
O Ministro de Relações Exteriores, Joaquín Macal, pede-lhe
um parecer sobre o Código Civil, recentemente promulgado
pelo governo;14 no mês de maio foi nomeado professor de
Literatura francesa, inglesa, italiana e alemã, e de História da
Filosofia, na Escola Normal.15

11
D. Vela: Ob. cit., no 10, p. 237. Este Martí, segundo parece, não tem nenhum paren-
tesco com José.
12
Ibidem, p. 64. Diz que levou, também, carta de Antonio Carrillo y O’Farrill, com quem
mantivera contato em Sevilha e que, segundo sabemos com certeza, acompanhou-o
em sua viagem a Paris, em dezembro de 1874, quando deixou a Espanha. Gonzalo
de Quesada y Miranda, em Martí jornalista, Havana Tipografia de Rambla, Bouza e
Comp., 1929, p. 49, afirma que Bernardo Valdés-Domínguez entregou-lhe mil pesos,
quantia elevada para a época.
13
Cf. Félix Lizaso: “A exuberante Guatemala”, em O Imparcial, Guatemala, 8 de outubro
de 1942. Segundo Soto Hall: Ob. cit. Em nota no 8, pp. 93-100, foi Lorenzo Montúfar
que o levou ao presidente.
14
O artigo chama-se “Os Códigos novos”, O.c., t. 7, pp. 98-102, e E.c. t. 5, pp. 89-93.
O interesse que a legislação liberal guatemalteca despertara nele levou-o a manifestar
a idéia de ensinar o Código Civil nas escolas, desde que “reduzido a um brevíssimo
compêndio”. (O.c. t. 21, p. 107).
15
O texto do decreto de nomeação aparece em María Albertina Gálvez: “José Martí,
professor da Guatemala”, em Revista do Professor, Guatemala, ano 7, no 26, novembro-
dezembro de 1952, pp. 38-44. Batres diz em A América Central frente à história, 1821
–1921. Memórias de um século, Guatemala, s.e., 1949, t. 2, p. 457, que foi ele que o
ajudou a conseguir estas aulas.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

Manteve também encontros com José Barberena e Manuel


Herrera, ministros de Governo e de Fomento, respectivamen-
te.16 E, em maio, usou da palavra diante dos chefes políticos das
províncias, reunidos em congresso anual, na capital.17
Ao longo de 1877, Martí desenvolveu uma febril atividade
na Guatemala. Embora tudo indique que não se vinculou à
imprensa, como no México,18 o jovem cubano foi figura desta-
cada da vida literária e intelectual guatemalteca, a qual chegou
a uma intensidade inusitada naqueles anos da década de 1870,
em comparação com os anos precedentes. As instituições do-
centes foram importantes centros difusores de cultura, criando
um ambiente que lhe era favorável, e que ia além dos próprios
educandos. Figuras oficiais do governo de Barrios contribuíram
para isso com sua presença em conferências e debates públicos
e nas animadas tertúlias que aconteciam freqüentemente em
algumas residências.
Nessas atividades Martí conheceu e se relacionou com a
fina flor da intelectualidade guatemalteca. Esta se reunia na
Sociedade Literária O Futuro, onde o cubano foi admitido no

16
J.M.: Guatemala, O.c., t. 7, p. 135 e E.c., t. 5, p. 260.
17
Ver Jean Lamore: “José Martí diante dos caudilhismos da época liberal (Guatemala e
Venezuela)”, em Anuário do Centro de Estudos Martianos, Havana, no 3, 1980, p. 138.
18
M. Soto-Hall em ob.cit. em nota nº 8, p. 64, indica que O Progresso publicou um
único artigo em 1878. Revi a coleção completa da publicação entre 1877 e 1878 e
encontrei apenas este texto assinado por Martí. Jean Lamore (José Martí e a América,
Universidade de Toulouse-Miraille, 1982) atribui a Martí o artigo intitulado “A poesia
e o progresso”, publicado em O futuro, em 20 de julho de 1878, mas não compartilho
de sua opinião pois embora ali se expressem idéias que coincidem com as suas, em
mais de uma ocasião o estilo não parece o seu, assim como a consideração de Zorrilla
à altura de Hugo. Em 1999 examinei uma coleção completa da Revista da Universidade,
entre 1877 e 1880, na biblioteca César Brañas, da Universidade de São Carlos, na
Guatemala, sem encontrar nenhum texto assinado por Martí, ou que pudesse ser-
lhe atribuído. Não obstante, o próprio Martí afirma, no dorso de um convite, que
escrevia sobre filosofia para a Revista da Universidade. (O.c., t. 22, p. 251).

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

mês de sua chegada.19 Segundo Máximo Soto-Hall,20 na Socie-


dade era possível considerar “três grupos, separados pela idade
e, principalmente, pelo nível literário e o prestígio adquirido,
mas intimamente vinculados pelo mesmo entusiasmo e eleva-
dos propósitos que perseguiam”.
No primeiro grupo estavam os mais jovens: Manuel Valle,
poeta jocoso e comediógrafo; Miguel Angel Urrutia, autor de
dramas de estilo romântico e “excelente polemista”; Ramón A.
Salazar, médico, historiador e escritor; Juan Arzú Batres, “de
fina ironia”; Guillermo Hall, poeta “medíocre” e “bom tradu-
tor do inglês”; a poetisa Lola Montenegro, e o poeta Domingo
Estrada, que foi o “predileto” de Martí.21
Os que passavam de 30 anos formavam o segundo grupo:
Antonio Batres Jáuregui,22 polígrafo, historiador e diplomata;
Fernando Cruz, notável jurista dedicado ao Direito Internacio-
nal; Salvador Falla, jurista; Ricardo Casanova y Estrada, que
chegou a arcebispo; e Juan Fermín Aycinena, poeta.
Os mais velhos formavam o último grupo: o poderoso
orador e então secretário de educação, Lorenzo Montúfar; o
clérigo Angel Maria Arroyo, colaborador de Barrios; Antonio
Machado y Palomo, e o romancista José Milla y Vidaurre.
Entre os homens do governo, preocupados com a cultura,
além dos já mencionados, Martí relacionou-se com o poeta
Francisco Lainfiesta, secretário da presidência, cujos versos

19
M. Soto-Hall: Ob.cit. em nota no 8, p. 60. A sociedade realizou sua primeira sessão
em 11 de março de 1877 e em 20 de maio saiu o primeiro número de sua publicação
quinzenal, de igual nome. Ver, também, David Vela, ob. cit. em nota no 10, p. 286.
20
Ver M. Soto-Hall: Ob.cit. , nota no 8, pp. 47-64.
21
Como escreveu o próprio Estrada, depois da morte de Martí, ambos conversaram
com freqüência no escritório do Mestre em Front Street, Nova York.
22
Continuou sua relação com Martí em Nova York, pois em 1883 foi nomeado em-
baixador da Guatemala e de outros países centro-americanos nos Estados Unidos.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

receberam dele calorosos elogios; Joaquín Macal, então minis-


tro de Relações Exteriores e o general José Martín Barrundia,
ministro da Guerra.
Visando contribuir para a difusão cultural, José Maria Iza-
guirre organizou palestras e conferências aos sábados, na Escola
Normal. No mesmo mês de sua chegada à capital, em abril de
1877, o jovem Martí fez uma conferência em que elogiou um
livro do poeta Lainfiesta.23 É significativo que a do cubano fosse
a quarta conferência dos sábados, tendo sido precedido por
personalidades guatemaltecas tão destacadas como Montúfar,
Barrundia e o reitor da universidade.

23
Parece que esta foi a primeira atividade pública de Martí na terra do quetzal. Maria
Albertina Gálvez em ob.cit. na nota no 15 dá como data o dia 21 e reproduz a seguinte
resenha de O Progresso:
O discurso do Sr. Martí, pronunciado de improviso, foi uma saudação à
Guatemala, saudação que cercou de idéias brilhantes e que assumiu a forma
de uma oração correta e amena; convidado o Sr. Martí a reunir para o país
todos os caudais da ciência e as flores da literatura humana; queria que sobre
o patrimônio universal do progresso, a América imprimisse a marca de seu
gênio, de seu caráter, de sua energia; que se o olhar se eleva acima dos vulcões,
perdendo-se no infinito, o espírito voa para as alturas da civilização, bebendo
sempre nova vida de luz moral, novas verdades e conquistando mais dilatada
esfera na prosperidade e nas ciências; emitia o desejo de precipitar o futuro,
unindo aqui o que há de grande em todas as civilizações, o que há de justo
em toda a história; o que há de generoso em toda a humanidade; comparava
as névoas das instituições modernas e a pureza das velhas gerações ao impulso
admirável das gerações que vêm a herdá-las.
Disse muitas coisas, o Sr. Martí, e as disse bem: uma palavra fácil que interpreta
uma imaginação entusiasta; um estilo escolhido que traduz as idéias mais
belas; um sentimento vigoroso e honrado que deseja levar a verdade a todas
as consciências obnubiladas, os raios do sol a todos os espíritos obcecados, e a
segurança a todos os ânimos vacilantes. O Sr. Martí é colaborador daquela ju-
ventude de nosso século que pronuncia a mesma palavra “Avante sempre”.
Martí, por sua vez, em sua primeira carta a Valero Pujol (29 de abril, O.c., t. 7, p. 102.
Epistolário, ob.cit., t. I, p. 79) diz que no sábado último (21 de abril?) falou na Escola
Normal sobre Lainfiesta. Mas, em sua carta, também a Pujol, de 27 de novembro
(O.c., t. 7, p. 109 e Epistolário, ob.cit., t. I, p. 97), ao enumerar as conferências que fizera
na Guatemala, menciona outra conferência anterior, em que enviou uma saudação
ao país, “comovido pela voz de um bardo jovem”.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

Em julho fez uma conferência sobre oratória, comentada


elogiosamente no dia seguinte por O Progresso e que, segundo
alguns, valeu-lhe a nomeação de vice-presidente da sociedade
O Futuro.24 No entanto, o jornal O Futuro não menciona esse
fato, o que traz sérias dúvidas acerca de sua veracidade, pois, em
suas páginas, informava-se sistematicamente a entrada de novos
associados e as mudanças em sua direção.25 Foi esse discurso,
segundo alguns, que deu lugar a que os círculos clericais opos-
tos ao governo de Barrios dessem o apelido de Dr. Torrente ao
jovem estrangeiro, defensor das idéias liberais.26
Em carta a Valero Pujol, de 27 de novembro de 1877,
menciona um discurso em que apresentara “uma inteligente
professora guatemalteca” e outro, pronunciado no primeiro
sarau de O Futuro, em noite em que “correram a meu lado
ares de amor”, e no qual enalteceu a prosperidade do país:
“cantei a Guatemala laboriosa, alvorecer de limpeza, virgem
robustíssima, plena de sementes; cantei uma estrofe do canto
americano que é preciso entoar como grande canto patriótico,
desde o brilhante México até o ativo Chile”.27

24
Ver Jorge Mañach: Martí, o Apóstolo, México, D.F. Editorial Espasa-Calpe, Argentina,
S.A., 1952, 4a ed., cap. 12, p. 96. A este discurso parece referir-se uma nota em seus
cadernos de apontamentos, provavelmente de Madri, de 1879: “Só vai para a alma o
que nasce na alma: disse eu uma vez, sobre oradores, em um discurso.” (O.c., t. 21,
p. 110). Escreveu algo semelhante em outra de suas notas, atribuída a 1894, quando
afirmou, na Guatemala, em “Discurso sobre a eloqüência”: “o que sai do coração
vai para o coração”. (O.c., t. 21, pp. 404-405).
25
Em seu número 1, de 20 de maio de 1877, a publicação referia-se a Martí como
sócio-assistente.
26
Embora segundo José Maria Izaguirre, em “Martí na Guatemala”, Cuba e América,
Havana, 5 de setembro de 1900, p. 7, o apelido lhe foi dado depois da participação,
em abril, na atividade de sábado da Escola Normal. Vela, em ob.cit., nota no 10, p.
372, menciona umas folhas soltas contra Martí publicadas em 3 e 17 de novembro
de 1877 em que é chamado de “Dr. Torrente”.
27
J.M.: Carta a Valero Pujol, 27 de novembro de 1877, O.c., t. 7, pp.109-110. Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 97.

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A sociedade O Futuro somava-se assim à linha de ativida-


des culturais iniciadas pela Escola Normal. Essa noite solene,
de 25 de julho de 1877, foi aberta por Montúfar, seguido por
Martí.28
Martí falou na terceira parte da comemoração, depois
de Montúfar e de Manuel Herrera, filho, então reitor da
Universidade.
No comentário assinado por Santiago I. Barberena diz-se:
“O Sr. Lic. Don José Martí, poderoso paladino da arte do bem
dizer, pronunciou um eloqüente discurso, que agradou mui-
tíssimo aos presentes”.29
O último discurso a que Martí se refere, na carta a Pujol,
é de 16 de setembro, quando, convidado por Izaguirre e por
ocasião do aniversário da independência da América Central,
falou e incentivou as forças do país “a se movimentarem e a
trabalhar”.30 Nessa ocasião, Maria García Granados tocou “O
trovador” ao piano.31

28
Ver M. Soto-Hall: Ob.cit., em nota no 8, pp. 58-59. Segundo Vela em ob. cit., nota no 10,
p. 288, esta noite foi dedicada a comemorar a fundação da Cidade da Guatemala.
29
O Futuro, 6 de agosto de 1877, no 6, pp. 81-82.
30
J.M.: Carta a Valero Pujol, 27 de novembro de 1877, O.c., t. 7, p. 110. Epistolário, ob.
cit., t. I, p. 98
31
Ver Maria Albertina Gálvez: Ob.cit.. em nota no 15, p. 43; D. Vela, em ob.cit. nota no
10, p. 250, reproduz o comentário de O Progresso sobre as palavras de Martí:
Não menos prazenteira a reunião do dia 16 na Escola Normal. O senhor Izaguirre
sabe atrair por sua galanteria e se faz aplaudir por seu bom gosto, por seu acerto
e suas felizes combinações. Também houve ali discursos, canto, música, poesia e
flores; falaram, entre outros, os senhores Montúfar e Martí. Montúfar com sua
gravidade e maestria, Martí com sua riqueza de imaginação e suas erupções de
idéias. Esse jovem, já conhecido entre nós, é uma alma de fogo que leva na cabeça
todo o calor dos pensamentos mais elevados, e no coração todos os brilhos das
mais formosas flores, a energia dos mais doces sentimentos; palavra fácil, expres-
são poética, mas com essa poesia que combina a fluidez, a elegância, a música da
tribuna, com os ideais mais puros da verdade e do direito.

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Como prova do efeito da arte oratória de Martí sobre sua au-


diência, as seguintes impressões de F. Chávez Milanés, publicadas
no final do século 19, constituem eloqüente amostra.
Realizava-se uma noite no colégio a reunião semanal em que, como de
costume, algumas das personalidades nacionais dissertavam sobre um
tema científico ou literário, diante de uma audiência selecionada; e concluía
o doutor Lorenzo Montíjar (Montúfar) – glória americana – sua confe-
rência, quando o jovem professor cubano aproximou-se do amável doutor
Izaguirre, solicitando permissão para dizer duas palavras sobre o mesmo
ponto de arte que acabava de ser brilhantemente exposto pelo orador.
Obteve, sem esforço, a aquiescência; subiu, algo desconcertado, à tribuna; e
falou o jovem pálido, o melancólico professor novo. Coibido diante de um
auditório surpreso e predisposto a julgar mal sua audácia, começou com
voz insegura o discurso, desdobrando, temeroso, seus períodos, inspirados
em originalíssimas idéias e esmaltados de belezas de dicção. O início foi
como um ansioso murmúrio de amor, em que a palavra velada passa rápida,
sem deixar rastro de seu indeciso sussurro; mas esta misteriosa simpatia
que costuma ocorrer entre o público e o orador estabeleceu-se em breve,
e a geral placidez dos semblantes dos espectadores, acariciados como por
ordem interna de sutil poesia, deu novas forças ao discurso escorreito: a voz
adquiriu aquela tonalidade rica em vigor de persuasão, patrimônio de sua
eloqüência; a criação tornou-se mais espontânea; e o tribuno revelou-se
na rápida expressão de sua oratória rica e refinada. Os murmúrios que, no
início, pareciam rumores de floresta converteram-se em sonora, brilhante
cascata de palavras sobre a qual uma coroa de espuma tocada pelos raios de
um sol em todo o seu esplendor acendia um arco-íris de opulentas cores,
quando o discurso chegou ao fim; e o poeta confuso e arquejante desceu
da tribuna, espantado com o estrondo dos aplausos”.32

32
Ver F. Chávez Milanés: “Martí na Guatemala”, em O Fígaro, Havana, vol. XV, 28 de
maio de 1899, p. 169. Para Milanés, esta foi a primeira intervenção pública do orador
cubano na Escola Normal.

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Paralelamente à participação nesses serões, Martí dá suas


aulas na Escola Normal. Nelas, como pode ser observado em
seus apontamentos, 33 dá a conhecer reiteradas vezes os filó-
sofos clássicos alemães que estudou na Espanha por meio do
krausismo dominante naquele país; dá também um curso de
composição “para senhoritas” na escola das irmãs de Izaguirre,
assistido pelas filhas das famílias mais conspícuas da capital,
como as Macal, as Montúfar, Salazar Barberena, além de Adela
e Maria García Granados.34
Em carta a Mercado, de 20 de abril de 1878, o próprio Martí
afirma que também ministrara, gratuitamente, um curso de
literatura européia na universidade, durante o ano anterior, e
que, em 1878, deu outro de Filosofia, também grátis, na Escola
Normal.35
Sem dúvida, estes dados parecem indicar que a situação
econômica do jovem professor não era muito cômoda. Por
um documento36 sabemos que recebeu cem pesos da Admi-
nistração Geral em 22 de março de 1878, talvez por conta de
seu pagamento como professor da universidade, pois segundo
todos os indícios nunca recebeu retribuição alguma pelas aulas
na Escola Normal.
A vida social do jovem cubano completava-se com as as-
síduas visitas às tertúlias nas casas do espanhol republicano

33
Ver o tema filosófico em seus Cadernos de notas, n. 1 e 2, O.c. t. 21, pp. 11-101, e E.c.,
t. 5, pp. 202-215.
34
Maria Albertina Gálvez, em ob. cit., nota no 15, p. 41, diz que essas aulas começaram
em julho e transcreve uma nota, publicada em O Progresso, em junho, anunciando
o curso.
35
J.M. Carta a Manuel Mercado, Guatemala, 20 de abril de (1878), O.c., t. 20, p. 48.
Epistolário, ob. cit., t. I, p. 120.
36
O Arquivo Nacional na comemoração do centenário do nascimento de José Marti y Pérez
(1853-1953), Havana, Publicações do Arquivo Nacional de Cuba, 1953, p. 128.

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Valero Pujol, diretor de O Progresso, e do general Miguel García


Granados, antecessor de Barrios na presidência e pai de Maria,
“a menina da Guatemala”.37
Martí também escreve para teatro, sua paixão desde a ado-
lescência. A obra chamou-se Pátria e liberdade. Drama indígena,
um “drama meu, ou rascunho dramático sobre a indepen-
dência guatemalteca, que o governo fez-me escrever em cerca
de cinco dias”, segundo explicou muitos anos depois, em sua
carta-testamento literário a Gonzalo de Quesada.38
Quanto à criação poética, o que foi conservado nas Obras
Completas é pouco e, em geral, casual, embora seja muito prová-
vel que tenha sido na Guatemala que começou a escrever seus
Versos Livres, pois, à margem dos manuscritos, Martí anota que
começou a trabalhar neles com 25 anos de idade.
Como pode ser observado em sua carta a Mercado, de 28
de outubro de 1877, Martí pensou em revalidar seu diplo-
ma de advogado para exercer a profissão, preocupado com
as necessidades econômicas de seu futuro casamento. 39 No
entanto, não encontramos nenhuma referência quanto a ter

37
Há diferentes versões de como se conheceram Martí e Maria. J. Mañach em ob.cit.,
nota número 24, p. 94, diz que foi nas aulas da Escola Normal, seguramente con-
fundindo estas com o curso de composição na escola das Izaguirre. M. Soto-Hall
diz em ob. cit., nota número 8, p. 115, que foi em uma festa, pouco tempo depois da
chegada de Martí à Guatemala, com o que concorda Quesada em ob. cit., nota no 18,
p. 110, afirmando que José Maria e Manuel José Izaguirre levaram Martí a um baile
a fantasia em casa de García Granados.
38
J.M.: Carta a Gonzalo de Quesada y Aróstegui, Montecristi, 1o de abril de 1895,
O.c., t. 1, p. 25. Epistolário, ob. cit., t. V, p. 139. Lizaso em ob. cit. nota no 13, diz que foi
Batres que solicitou a peça e Soto-Hall em ob. cit. nota no 8, p. 97 diz, contradizendo
o próprio Martí, que lhe foi pedida poucos dias depois da entrevista com Barrios. D.
Vela em ob. cit. nota no 10, p. 289, diz que escreveu também um drama denominado
“Morazán”, que se extraviou.
39
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 28 de outubro de 1877, O.c., t. 20, p. 37. Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 92.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

realizado este trâmite ou a uma atuação sua como advogado


na Guatemala.
Em 6 de novembro, o mestre assinou um documento de adesão
a Justo Rufino Barrios, preparado pelos professores e estudantes da
Escola Normal, por ter sido descoberta naqueles dias uma cons-
piração para assassinar o presidente, sua família e seus principais
colaboradores;40 no entanto, na carta do dia 10 a Mercado, critica
o rigor do governo ordenando a execução dos conspiradores.41
Findo aquele mês, Martí abandonou a Guatemala para casar-
se no México, onde estava Carmen Zayas-Bazán.43 Passou poucos
42

dias na Cidade do México, dedicando grande parte do tempo a


cuidar dos detalhes da impressão de seu livro Guatemala, com o
qual pretendia dar a conhecer a paisagem, as pessoas e as coisas do
país. Em 9 de janeiro empreende o regresso com a esposa,44 depois

40
O texto, com todos os signatários, aparece em Jorge Mario García Laguardia: A
reforma liberal na Guatemala. Vida política e ordem constitucional, Guatemala, Editora
Universitária da Guatemala, 1972, pp. 419-420.
41
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 10 de novembro de 1877, O.c., t. 20, p. 37. Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 95.
42
Segundo D. Vela, em ob. cit. nota no 10, p. 91, saiu em 29 de novembro. Martí anun-
ciou esta data em carta a Mercado de 10 de novembro.
43
J.Mañach, em ob. cit. nota número 24, p. 100, diz que a viagem foi terrestre: a cavalo
pelo rio Grande e a Serra das Minas, até Cobán e daí até a fronteira. No entanto, a
revisão de um mapa indica que se tratava de um caminho muito difícil na época. De
sua parte, Salvador Massip em “Martí viajante”, em Vida e pensamento de Martí, Havana,
município de Havana, 1942, t. 1, p. 209, diz que Martí foi da Cidade da Guatemala
ao porto de São José em diligência e daí a Acapulco por mar. Este autor sustenta sua
afirmação na descrição do itinerário terrestre feita por Martí em seu livro Guatemala.
44
Segundo D. Vela, em ob. cit., nota número 10, p. 92, em 5 de janeiro de 1878 já estava
em Acapulco. Como no dia 15 recomeçavam as aulas, é de supor que entre esses
dez dias tomou um barco até o porto guatemalteco de São José, de onde se dirigiu à
capital. As datas são confirmadas por Alfonso Herrera Franyutti em seu estudo “Nas
pegadas de Martí no México. Aproximação a uma viagem a Acapulco”, em Anuário
do Centro de Estudos Martianos, Havana, número 12, 1989, pp. 130-131, tomando
como base a correspondência a Mercado de 7 a 9 de janeiro de 1878 (O.c., t. 20, pp.
40-41 e 19, respectivamente). A carta de 9 de janeiro aparece erroneamente datada
em O.c. de 1877. Ver Epistolário, ob. cit., t. I, pp. 106-107 e 108. Em Acapulco, o casal
embarcou para o porto guatemalteco de São José de onde se dirigiu à capital.

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de deixar tudo pronto para que o livro saísse naquele mesmo mês,
com prólogo do amigo Uriarte.
O semestre que passou na Guatemala em 1878 foi cheio
de contratempos.45 Ao que tudo indica, desde o ano anterior já
observava algumas manifestações de desagrado em relação à sua
pessoa, como se deduz desta frase, escrita na carta a Mercado
de 11 de agosto de 1877: “Aqui, nem o prazer de fazer viver os
outros faz-me viver eu mesmo, porque não se deixam fazer
viver”.46
Em 25 de novembro O Progresso publicou uma nota em que
elogiava seu desejo de escrever um opúsculo sobre o país, ter-
minando com esta velada advertência: “só é preciso aconselhar-
lhe um pouco de calma, um pouco de domínio sobre o fogo
da idade, e que nunca faça abstração da oportunidade e das
circunstâncias, nem mesmo por motivos generosos”.
Este comentário levou-o a escrever ao diretor do jornal:
“Trabalho bem e estou contente: – Que não prezo as circuns-
tâncias? Um homem nasce para vencer, não para adular. – Ah!
Inoportuno! Se circunstância é repulsa a toda melhora, ira
contra toda útil tentativa, ódio contra toda energia, não, não a
prezo. – Nem o senhor nem eu a prezamos”.47
Em 8 de março de 1878 escreve a Mercado dizendo-lhe que
enfrenta alguns problemas: fala-lhe do livro que “servirá de arma
aos que me têm afeto contra aqueles para quem sou, apesar de

45
Gonzalo de Quesada em Martí homem, Havana, 1940, p. 105, diz que seu livro Gua-
temala foi recebido friamente por muitos, entre eles o próprio Barrios e que Martí,
em um impulso altivo, queimou a edição, depois de presentear José Joaquín Palma
com um exemplar corrigido.
46
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 11 de agosto de 1877, O.c., t. 20, p. 31. Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 85.
47
J.M.: Carta a Valero Pujol, 27 de novembro de 1877, O.c., t. 7, p. 111. Epistolário, ob.
cit., t. I, p. 99.

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meu obscuro silêncio, ameaça ou estorvo”.48 Em abril fica sem


trabalho: renuncia à Escola Normal, em solidariedade a Izaguirre,
que fora despedido da direção pelo próprio presidente.49 Alguns
dias antes, estivera dando aulas de Filosofia na universidade, sem
salário, “por ciúmes inexplicáveis do Reitor”.50
Tudo indica, no entanto, que, apesar de tantos contratempos,
seus discípulos mantiveram uma estreita relação afetiva com
ele. Diz David Vela51 que seus alunos ameaçaram entrar em
greve quando parecia que os cortes no orçamento da educação
poderiam atingir Martí, e em 19 de março de 1878 – dia de seu
santo – deram-lhe uma corrente para seu relógio de bolso, o
que foi relatado pelo próprio Martí a Mercado.52 Vale assinalar
que há testemunho de uma greve dos estudantes da Escola
Normal por ocasião da destituição de Izaguirre.53

48
J.M.: Carta a Manuel Mercado, de 8 de março de 1878, O.c., t. 20, p.41. Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 113. Talvez um dos que o vissem como “ameaça ou estorvo” fosse
Montúfar, que Martí, na mesma carta, diz pretender ocupar o posto de Uriarte como
embaixador no México. Não esquecer que Martí era amigo deste último, o qual,
naquele ano, rompeu com Barrios, depois de conspirar desde antes, segundo Victor
Miguel Díaz em Barrios diante da posteridade, folhetim do Diário da América Centro,
Guatemala, 1935, p. 470.
49
D. Vela, em ob. cit., nota no 10, p. 251. Sua renúncia foi aceita em 6 de abril pelo
secretário de Instrução Pública, José Antonio Salazar (Papéis de Martí, Havana, Im-
prensa Século XX, tomo III, 1935, p. 118). Sem dúvida, Izaguirre reaproximou-se
posteriormente de Barrios, pois em 1882 dirigia um Instituto educacional em Chi-
quimula, com uma dotação de seis mil pesos. Este dado é confiável, pois provém de
uma carta de janeiro daquele ano, do cubano negro Anselmo Valdés, então dedicado,
em Honduras, ao cultivo do fumo, cuja folha vendia na Guatemala, país para onde
viajava com freqüência, por esse motivo (Papéis de Maceo, Havana, Academia da His-
tória de Cuba, 1948, t. II, p. 71). O Futuro (no 28, 4 de julho de 1878, p. 59) anuncia
a fundação do Colégio Cosmopolita por Izaguirre, na Cidade da Guatemala.
50
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 30 de março de 1878, O.c., t.20, p. 46. Epistolário, ob.
cit., t. I, p. 118.
51
D. Vela: Ob. cit. em nota no 10, p. 251.
52
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 30 de março de 1878, O.c., t.20, p. 46. Epistolário, ob.
cit., t. I, p. 118.
53
J.Lamore: Ob. cit. em nota no 17, p. 138.

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Naqueles dias, Martí anunciou, em um prospecto, a Revista


Guatemalteca,54 publicação que corresponderia a seu desejo “de
dar a conhecer o quanto a Guatemala produz e pode produzir,
e de tornar gerais as notícias de letras e ciências, artes e indús-
trias, privilégio hoje do escasso número de felizardos que têm
facilidade para desfrutar das excelentes revistas européias”.55
Mas as dificuldades materiais afligem-no e a revista não che-
ga a sair. Ao renunciar a seu lugar como professor provocara
descontentamento nos círculos oficiais, o que dificultou seus
projetos editoriais.
Durante aqueles meses, em sua correspondência a Mercado, re-
lata os contratempos que enfrenta, mostrando-se descontente com
o governo guatemalteco, a ponto de chamar Barrios de tirano.56
Por essas cartas sabemos também que quase terminou um
livro sobre a história da Revolução cubana, razão pela qual

54
M.Soto-Hall em ob.cit., em nota no 8, pp. 61-63, diz que se tratava de um encargo
do governo e no artigo que reproduz, assinado por D.E. (ver nota 18), diz-se que
a Revista sairia em 15 de abril de 1878. Este trabalho foi reproduzido também, tex-
tualmente, na Revista de Cuba, t. III, de maio de 1878, p. 475, acusando recepção do
jornal guatemalteco O Futuro, parece que do mês de março, pois o texto indica o
aparecimento da Revista para o “entrante” mês de abril. Em carta a Mercado de 30
de março daquele ano, Martí anuncia a saída da publicação: “Vou publicar aqui um
jornal onde terei que me desfigurar muito para pôr-me ao nível comum”. (O.c., t.20,
p. 45. Epistolário, ob. cit., t. I, p. 117). A saída da Revista também foi anunciada em O
Futuro, no 22, 5 de abril de 1878, pp. 342-343, em nota assinada por D.E. (Domingo
Estrada?). Segundo Félix Lizaso em Martí, místico do dever, Buenos Aires, Editorial
Losada, S.A., 3a edição, 1952, p. 139, o trabalho de Martí intitulado “Reflexões
destinadas a preceder os informes trazidos pelos Chefes Políticos às conferências de
maio de 1878”, foi escrito para a Revista Guatemalteca.
55
J.M.: Revista Guatemalteca, O.c., t. 7, p. 104. e E.c., t. 5, p. 291. Durante as pesquisas para
o tomo 5 da edição crítica das Obras completas, concluiu-se que, dada a proximidade das
datas de publicação dos títulos mencionados, é evidente que seu manuscrito “Livros
novos” – incluído sem data em O.c., t. 15, pp. 189-194. e E.c., t. 5, pp. 294-301 – foi
escrito para a Revista Guatemalteca.
56
Ver J.M.: Carta a Manuel Mercado, 6 de julho de 1878, O.c., t. 20, pp. 51-55. Epistolário,
ob.cit., t. I, pp. 122-126. Nela Martí expressa o tremendo conflito de consciência que
perturbou sua alma para tomar a decisão de voltar a Cuba.

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escreveu a Máximo Gómez buscando informações; sabemos,


também, que esteve escrevendo um texto sobre temas jurídi-
cos, assim como um prólogo a um livro de seu amigo, o pintor
Manuel Ocaranza.57 Vela afirma que o livro sobre assuntos
jurídicos estava relacionado a uma possibilidade que se lhe ofe-
receu de obter uma cátedra de Ciências da Legislação, assunto
a que o cubano finalmente não deu seqüência porque iniciou
os preparativos para deixar a Guatemala.
Às dificuldades financeiras e às inimizades acresce que a
esposa insiste em regressar a Cuba, onde terminou a Guerra
dos Dez Anos com o Pacto do Zanjón. A família dele está na
Ilha desde o ano anterior; a dela também está voltando. Carmen
acredita que Pepe deve voltar a Cuba para exercer sua profissão
de advogado e poder ganhar o necessário para o sustento do
filho que está para nascer. Martí pensa em ir para o Peru: não
deseja voltar a Cuba para viver sob a bandeira espanhola. Por
fim, as pressões da família e as vicissitudes econômicas fazem-
no optar pelo regresso à Ilha.
Saiu da Guatemala para Cuba, via Honduras, nos últimos
dias de julho ou nos primeiros dias de agosto de 1878, com
muitas despedidas assinadas no álbum de Carmen, entre elas
a de Miguel García Granados.58 Mas levou para sempre a Gua-
temala e os guatemaltecos no coração. Foi o que disse muitos
anos depois, em Pátria, na seção “Em casa”, em 18 de junho de

57
Ver J.M.: Carta a Manuel Mercado, 20 de abril de 1878 e 6 de julho de 1878, O.c., t.
20, pp. 49 e 54, respectivamente. Epistolário, ob.cit., t. I, pp. 121 e 125.
58
Gonzalo de Quesada y Miranda em ob. cit. nota no 45, p. 107, diz que Martí, atacado
de uma doença na vista, freqüente nas alturas, partiu com sua esposa, em mulas, para
Livingston, o que parece muito improvável, dados os riscos dessa rota para Carmen,
então grávida de vários meses. Ver Mañach, em ob. cit. nota no 24, p. 104, onde afirma
que Miguel García Granados escreveu uma despedida no álbum de Carmen em 26
de julho.

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1892, quando, afirmando que é “cubano todo americano de


nossa América”, disse:
E o é ainda mais se nasceu em um povo onde o cubano encontrou
sempre consolo e abrigo: onde a juventude abriu os braços para o
professor errante, o insurgente ferido, para o poeta das serenatas
tecidas com fio de ouro; onde o agricultor chamou de irmão, dando
casa e emprego, a quem bateu em sua porta, sem mais bens do que a
pobreza e a dor; onde as senhoras bem nascidas adornavam com suas
mãos, como para suas filhas, o toucador de suas humildes hóspedes
cubanas; onde nunca faltou carinho e pão para os cubanos agradecidos.
É cubano todo guatemalteco.59

Guatemala em Martí
O trabalho profissional, os problemas familiares e a ex-
periência do México, onde escreveu diariamente apoiando o
governo derrubado por Porfírio Díaz, provavelmente foram
fatores que influíram para que Martí escrevesse relativamente
pouco sobre os assuntos guatemaltecos durante sua permanên-
cia no país.60 E já vimos como fracassou, quando tentou uma
publicação própria, a Revista Guatemalteca.
De outra parte, nos escritos conservados observa-se que
deu atenção preferencial a problemas mais gerais da América
Latina, estimulado pelo desejo de “dar vida à América, fazer

59
J.M.: “Em casa”, em Pátria, 18 de junho de 1892, O.c., t. 5, p. 376. Este parágrafo
inicia um comentário sobre a visita a Nova York, no caminho para a Guatemala, de
Domingo Estrada.
60
Ver nota 18. Na carta a Mercado, de 8 de março de 1878, O.c., t. 20, p. 43. Epistolário,
ob. cit. t. I, p. 115, Martí promete enviar O Federalista, onde colaborou durante sua
permanência no México, “alimento para algumas colunas”. Mas afirma explicitamente
que não escreve sobre a Guatemala: “Correspondências não mando, porque os fatos
são escassos, e as avaliações, perigosas”.

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ressuscitar a antiga, fortalecer e revelar a nova”, como disse a


Mercado em carta de 21 de setembro de 1877.61
Mas a escassez de páginas não indica despreocupação pelos
acontecimentos guatemaltecos. Pode-se afirmar ainda que o
regime liberal desse país foi acompanhado por Martí durante
seu amadurecimento em Nova York, e lhe serviu de exemplo
histórico significativo para a formação de suas idéias sobre
os problemas que as repúblicas latino-americanas arrastaram
depois da independência.
Em seu primeiro trabalho guatemalteco, “Os Códigos
novos”, elogia o Código Civil, recentemente promulgado,
por constituir uma legislação adequada a seu tempo e a suas
circunstâncias sociais. Chama a atenção, como, já naquele mo-
mento de juventude, Martí expressa um conceito tão acabado
sobre o Direito enquanto forma de consciência social, como
diríamos hoje.
Assim, afirma, em defesa do novo Código, sua contraposi-
ção à época em que “nossos tempos originais eram governados
com leis de épocas caducas, formando-se advogados romanos
para povos americanos e europeus”. E, ao mesmo tempo, por
estimar que os povos americanos eram novos e originais e que
essa originalidade, como veremos adiante, baseava-se na união
entre o aborígene e o espanhol, afirma que “os nascimentos
devem corresponder-se, requerendo, os indivíduos das novas
nacionalidades, novas legislações”.62
E como entende que o país se transforma, considera um
acerto que a legislação seja de transformação e que em seus

61
J.M.: Carta a Manuel Mercado, de 21 de setembro de 1877, O.c., t. 20, p. 32. Epis-
tolário, ob. cit. t. I, p. 87.
62
J.M.: “Os Códigos novos”, O.c., t. 7, p. 99. E.c, t. 5, p. 90.

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artigos expresse modernas relações jurídicas sobre o Direito de


Família – ao fazer da mulher pessoa jurídica – e sobre o regime
de propriedade – ao liberar seu uso e desfrute.63
Em sua brochura Guatemala, Martí também elogia a clareza
expositiva do Código, o que facilita o acesso de todos à lei: “A
justiça à mão, em espanhol, de modo que todo o mundo possa
entendê-la. Derruba-se uma casta de intérpretes, trazendo à luz
princípios utilíssimos. Deixam de ser, os advogados, videntes,
para transformarem-se em sacerdotes”.64
Em geral, nos textos escritos na Guatemala, Martí mostra-se
satisfeito com o fomento das atividades produtivas e da educa-
ção realizado pelo governo de Barrios. E, de acordo com suas
concepções sobre nossa América mestiça, preocupa-se com a si-
tuação da população indígena no país centro-americano. Como
se sabe, Martí deparou-se no México, pela primeira vez, com
este setor da população. Ali compreendeu, diferentemente da
maioria de seus contemporâneos, que a verdadeira formação das
nações de nossa América seria obtida por meio da integração das
comunidades indígenas ao resto da sociedade, e que os meios
para tanto eram o ensino e o “trabalho bem retribuído”.
Na Guatemala, ao mesmo tempo em que atribui um lu-
gar importante à contribuição indígena na formação de nossa
América, Martí reafirma sua preocupação quanto ao modo de
reincorporar a população indígena à comunidade nacional. Por

63
Ibidem, O.c., pp. 100-101. E.c., pp. 91-97.
64
J.M.: Guatemala, O.c., t. 7, p. 1. E.c, t. 5, p. 275. A propósito do Código Civil, o mesmo
Martí narrou a seguinte história, em seus cadernos de apontamentos, revelando nela
seus ideais democráticos: “Mas não podemos ser advogados, se o Direito for ensinado
nas escolas (palavras de um magistrado guatemalteco, quando foi promulgado o
Código Civil e pleiteava eu que, reduzido a compêndio brevíssimo, fosse ensinado
nas escolas). Ao que lhe responde: Pois, amigo, sejamos outra coisa. O princípio
econômico deve estar a serviço da maioria” (O.c., t. 21, p. 107).

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isso, nas “Reflexões” que preparou para a reunião dos chefes


políticos locais, diz que “a melhor revolução será aquela que se
fizer no ânimo teimoso e tradicionalista dos índios”.65
Há que destacar, no entanto, que Martí não parece ter tido
informação suficiente a respeito, ou não chegou a perceber
que a aplicação prática de algumas disposições do governo
Barrios significava um aumento da exploração da população
indígena, e um retrocesso em sua condição de cidadãos. Não
só não encontramos referências negativas ao assunto, como, ao
contrário, em Guatemala pronuncia-se a favor da dissolução da
propriedade comunitária indígena.
Barrios, obrigado pela necessidade de incorporar mão-de-
obra às fazendas de café, promulgou leis para o recrutamento
compulsório de força de trabalho que, de fato, repetiram o em-
prego de formas coercitivas de exploração do trabalho próprias
da época colonial.66 Tais disposições, como é natural, reduziram
a bons desejos as esperanças de Martí de que o regime liberal
guatemalteco solucionaria o chamado problema indígena.67 No
entanto, a experiência da economia cafeeira guatemalteca – entre
outras – trouxe valiosos elementos a Martí para a compreensão
dos problemas essenciais das estruturas das sociedades de nossa
América.
Como se sabe, desde seus dias no México, Martí foi par-
tidário da diversificação produtiva, ao mesmo tempo em que

65
J.M.: “Reflexões”, O.c., t. 7 p. 163 e E.c. t. 5, p. 98.
66
J.M. García Laguardia explica esta situação em ob. cit., nota no 40, reproduzindo
uma citação em que se considera esta uma contradição com os princípios teóricos
do liberalismo.
67
Augusto Cazali Ávila em “O desenvolvimento do cultivo do café e sua influência
no regime de trabalho agrícola. Época da reforma liberal (1871-1885) em Anuário de
Estudos Centro-americanos, São José, Universidade da Costa Rica, no 2, 1976, p. 62 e
seguintes, faz um amplo estudo da política coercitiva do governo de Barrios.

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insistia em considerar a agricultura como o setor de maior


importância para alcançar uma economia forte e estável, no
caso do México. Em sua brochura Guatemala vê com olhos
favoráveis a expansão do cultivo do café naquele país, pois
estimava que abriria novas possibilidades de riquezas, preci-
samente a partir do setor agrícola. Mas, naquele mesmo texto
refere-se também à necessidade de incrementar a pecuária e
de continuar desenvolvendo outros cultivos, assim como a
exploração florestal, para não transformar o café em único
eixo da economia da nação.68
Indubitavelmente, o aumento da produção cafeeira nos
anos seguintes, e seu caráter determinante na vida econômica
da Guatemala, foram experiências observadas pelo olhar de
Martí durante a década de 1880, quando em seu pensamento
já se firmara a tese de que o latifúndio e a monocultura eram
dois aspectos essenciais para explicar a permanência de traços
coloniais atrasados na América Latina.
Prova disso são os três artigos curtos que publicou em 1883,
na revista A América, de Nova York, em que considera positivas
as tentativas do governo guatemalteco de introduzir no país
a produção de bananas, queijos e quinua. Nesses trabalhos,
Martí repete a idéia de que essas produções ajudariam o país
a escapar da monocultura do café, “razão pela qual, se novos
cultivos não forem introduzidos, e o café, produzido hoje com
louco excesso, continuar em queda, haverá uma grande crise,

68
J.M.: Guatemala, O.c., t. 7, pp. 136-139 e E.c. t. 5, pp. 261-265. Seriam por acaso
essas idéias, entre outras coisas, que deram lugar a que seu livro – apesar do amor
pela Guatemala que dele emana – fosse recebido com desagrado nos círculos ofi-
ciais, poderosamente vinculados ao negócio cafeeiro? Vale recordar a afirmação
de Quesada (nota 45) e as próprias palavras de Martí, na carta a Mercado de 6 de
julho de 1878.

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como há de viver todo povo que baseia sua subsistência em um


único cultivo”.69
Não há dúvida que nesses artigos de A América, Martí
indica, embora sem desenvolvê-lo, o nó górdio que explica a
incapacidade do regime de Barrios para tirar verdadeiramente
o país do subdesenvolvimento: a exportação cafeeira manteve a
dependência de nações estrangeiras de maior desenvolvimento
capitalista, mercados consumidores de café e fornecedores dos
produtos industriais; e assim a Guatemala, país que, durante
o governo de Barrios, adequou portos e construiu estradas de
ferro com seus próprios recursos, já no final do século 19 viu-se
submetida aos ditames do capital financeiro.
O período de Barrios pode ser qualificado, de um ponto
de vista atual, como a tentativa da burguesia guatemalteca de
atingir um desenvolvimento nacional capitalista. Até a década
de 1870, mantiveram-se no país privilégios aristocráticos e
eclesiásticos apoiados em uma débil economia exportadora
de tintas naturais, principalmente para a Inglaterra. Quando
foram obtidas tinturas químicas, a crise arrasou a Guatemala e,
por isso, o movimento de 1871, liderado por García Granados
e Barrios, contou com o apoio dos setores cafeeiros, que se
dedicaram a fazer do grão vermelho a principal fonte de renda
do país. A secularização dos bens da Igreja católica favoreceu
com terras a oligarquia cafeeira, vendedora de sua produção
para a Alemanha e os Estados Unidos.
Embora, nos anos de Barrios, o café tenha propiciado o
início de um período de prosperidade econômica, em pouco
tempo novas crises tornaram evidente a debilidade de uma

69
J.M.: “Árvores de quinua”, O.c., t. 7, p. 191. Os outros dois chamam-se “Bananas”
(p. 187) e “Queijos” (p. 188).

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economia que continuou sendo monocultora para exporta-


ção e importadora da absoluta maioria de suas necessidades.70
Assim tornaram-se realidade as advertências de Martí em A
América.
Por isso partilhamos a opinião expressa por Juan Marinello
em Guatemala nossa: “Se me perguntassem qual foi a lição capital
que Justo Rufino Barrios deixou a seu povo, eu diria que foi a
de seu grande malogro”.71
Do ponto de vista político, o governo de Barrios foi dita-
torial e autoritário, com nítido caráter personalista: o general-
presidente era o centro das decisões e como cavaleiro que foi,
manteve firmes as rédeas do poder apenas em suas mãos.
Apesar de que seus inimigos políticos exageraram o rigor
de suas medidas repressivas, Barrios não foi uma exceção no
panorama dos governos de seu gênero na América Latina,
embora, na história política da Guatemala, não possa ser com-
parado ao conservador e clerical Carrera, cuja bárbara repressão
ensangüentou o país.
Mas, para a análise marxista, trata-se de definir qual foi o
sentido daquele governo. Pode ser considerado uma ditadura

70
Note-se no quadro o peso decisivo do café nas exportações guatemaltecas durante a
década de 1880, apesar de que, entre 1882 e 1884, houve um sério decréscimo nos
preços de venda.
Exportações (em milhares de pesos)
Ano Total de exportações Café % do café
1880 4.425 4.057 92
1881 4.084 3.645 89
1882 3.719 3.133 85
1883 5.718 4.849 85
Sanford A. Mosk: “Economia cafeeira da Guatemala no período de 1850-1918”, em
Economia da Guatemala, Semanário de orientação social guatemalteco, Editora do
Ministério da Educação Pública, 1958, no 6.
71
Juan Marinello: Guatemala nossa, Havana, Imprensa Nacional de Cuba, 1961.

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da burguesia cafeeira, que eliminou os obstáculos locais a seu


desenvolvimento, impôs uma legislação e praticou uma polí-
tica em matéria econômica – especialmente no que se refere à
propriedade – inspirada nos princípios do liberalismo burguês.
O próprio Barrios e os chefes políticos, verdadeiros autocratas
locais, constituíram uma casta militar que se enriqueceu no
poder com os negócios cafeeiros e que uniu sua sorte à bur-
guesia produtora e exportadora do grão, na medida em que a
ela se integrou totalmente.72
Dessa forma, parece-me correto considerar o regime liberal
guatemalteco – e Barrios – apesar das características men-
cionadas, um elemento modernizador capitalista, positivo na
medida em que enfrentou e retirou poder dos setores sociais
mais arcaicos, clericais e reacionários, mas incapaz – devido à
fundamentação e à prática de seu modelo de desenvolvimento
– de criar condições para o avanço sustentado e independente
de um capitalismo nacional. Admitida esta avaliação, torna-se
possível uma análise e um juízo justos quanto às opiniões de
Martí sobre Barrios.
Nos primeiros momentos de sua estadia na Guatemala,
Martí pensava que, com as medidas tomadas pelo regime liberal

72
Segundo José Mata-Gavidia, em Anotações da história pátria centro-americana, Guatemala,
Cultural Centroamérica, 1953, p. 394, Barrios possuía 13 casas na Cidade da Gua-
temala, duas em Quezaltenango e uma em Nova York, além de 15 fazendas e duas
salinas. E, provenientes de ações em companhias nacionais e estrangeiras, recebia
mais de 26 milhões de pesos, sem contar o valor das jóias e o dinheiro que guardava
em bancos dos Estados Unidos e da Europa. Por sua vez, Cazali Ávila, em ob. cit.
nota no 68, pp. 80-85, ao falar dos efeitos sociais da política liberal, afirma que com
as divisões de terras formou-se um novo grupo social que controlou o aparato estatal
(militares, altos burocratas, políticos e próximos a Barrios) do qual saíram, junto com
vários estrangeiros, os latifundiários que ainda hoje subsistem. Este grupo, reunido
em torno do café, foi reforçado com elementos do comércio, do setor bancário e da
indústria, e nele coexistiram, etnicamente, crioulos, estrangeiros e mestiços.

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de Barrios, a nação centro-americana avançaria pelos caminhos


da América nova.
Essa avaliação do jovem exilado cubano pode ser observada
em “Os Códigos novos”, Guatemala e “Reflexões para a reunião
dos chefes políticos”. Em três aspectos da obra do governo – a
seu ver, verdadeiros êxitos – Martí baseou sua avaliação posi-
tiva: no desenvolvimento da agricultura, na preocupação pela
educação e no interesse pela incorporação dos indígenas à
comunidade nacional.
Na verdade, Martí nunca desmentiu abertamente essa
opinião. Os trabalhos de 1883 em A América, onde expôs suas
idéias críticas sobre a monocultura, constituem mais uma ad-
moestação do que uma afirmativa. Possivelmente expôs assim
seu pensamento, dominado pela idéia, que manteve e ampliou
quando conheceu melhor os Estados Unidos, de não publicar
avaliações críticas totalmente negativas sobre a situação dos
povos da América Latina, como mais uma forma de contribuir
para a necessária unidade entre eles.
No entanto, suas opiniões sobre a personalidade de Barrios
sofrem um processo diferente: passam da afirmação positiva,
em documentos públicos, a avaliações negativas em suas car-
tas, para terminar com observações negativas em trabalhos
publicados na década de 1880. Isso parece uma exceção, pois
nem sobre o ditador venezuelano Guzmán Blanco, que virtu-
almente o levou a abandonar a Venezuela em 1881, expôs em
trabalhos publicados opiniões tão severas como as que emitiu
sobre Barrios.
Em Guatemala diz: “Barrios usa roupa humilde e humilís-
simo chapéu. Quando olha, pensa”.73 Obviamente, apesar de

73
J.M.: Guatemala, O.c, t. 7, p. 123, e E.c. t. 5, p. 247.

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tão reduzida apresentação, é favorável ao general-presidente.


No entanto, nas cartas de 1878 a Mercado, onde expõe os
dissabores que padece durante aquele ano, insiste na aprecia-
ção desfavorável sobre Barrios: este é um “homem rústico e
brusco”74 e seu regime “desencadeou a tirania”.75 Nessas cartas,
confessa ainda que desde antes tem uma avaliação negativa do
governo de Barrios, mas que não a tornou pública por ater-se
ao princípio de preservar a necessária unidade entre os povos
da América Latina: “É verdade que havia uma disparidade
absoluta entre seu brutal modo de ser e minha alma livre:
é verdade que eu os poetizava diante de mim mesmo para
poder viver entre eles; mas esses segredos nunca deixaram
minha alma”.76
Já alguns meses antes, em carta de 10 de novembro de 1877,
fizera chegar a Mercado suas apreensões, quando, referindo-se
ao esmagamento da conspiração contra Barrios, critica o rigor
do castigo, defendendo o controle do governo republicano por
civis, pois “os sabres cortam. Os fraques, com seus rabos curtos,
podem apenas bater”.77 Bater parece uma alusão ao chicote que,
segundo consta, Barrios empunhava e com o qual – segundo
se diz – bateu em algumas ocasiões em seus inimigos e mesmo
em alguns de seus colaboradores.

74
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 20 de abril de 1878, O.c., t. 20, p. 48. Epistolário, ob.
cit., t. I, p. 120.
75
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 6 de julho de 1878, O.c., t. 20, pp. 51-55. Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 122-126. Também considera os liberais guatemaltecos “auto-suficientes,
que com inteligência e coração aqui não os encontro”. Ver J.M.: Carta a Manuel
Mercado, 30 de março de 1878, O.c., t. 20, p. 45. Epistolário, ob. cit., t. I, p. 117.
76
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 20 de abril de 1878, O.c., t. 20, p. 47. Epistolário, ob.
cit., t. I, p. 119.
77
J.M.: Carta a Manuel Mercado, 10 de novembro de 1877, O.c., t. 20, p. 37. Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 95.

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Depois de abandonar a Guatemala, só há apreciações de


Martí sobre Barrios quando o cubano se refere à unidade
centro-americana.
Em um trabalho escrito em francês fora da Guatemala, “No-
tas sobre a América Central”, Martí expressa sua convicção de
que as nações da região acabariam por unir-se, afirmando que,
naquele momento, dois homens que ambicionavam o poder
de qualquer modo queriam pôr em prática essa unidade: Justo
Rufino Barrios e o também general Tomás Guardia, presidente
da Costa Rica e tenaz inimigo do guatemalteco.78
Martí refere-se a Barrios da mesma forma quando trata, em
várias ocasiões, durante o ano de 1885, da campanha militar
unionista, iniciada pelo mandatário guatemalteco no início
daquele ano e onde o presidente encontraria a morte. Em suas
apreciações, Martí critica Barrios pelo emprego da força, afir-
mando novamente que age movido por ambições de poder pes-
soal. Por isso opõe-se à campanha unionista embora considere
justo o ideal de união centro-americana. Suas palavras sobre
Barrios são contundentes: “esta pessoa bárbara, que se mantém
no poder mais pela corrupção de seus concidadãos do que por
suas qualidades”, chegando a afirmar que sua morte livrou “a
América Central do mais grave dos perigos e nossa história
americana de um período de espanto e de vergonha”.79
É significativa a oposição de Martí à tentativa de unificação
de Barrios, pois como pode se ver em seus textos, há também
uma evidente resistência aos movimentos estadunidenses na
região.

78
J.M.: “Notas sobre a América Central”, O.c., t. 19, p. 77.
79
J.M.: “Cartas de Martí. O conflito da América Central, a morte de Barrios e a atitude
dos Estados Unidos”, O.c., t. 8, p. 93.

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Já naqueles anos, Martí mostrava, nas Cenas norte-ame-


ricanas, sua preocupação com a intenção expansionista dos
Estados Unidos em direção à região centro-americana, a
propósito da discussão no Congresso estadunidense de um
projeto de tratado com a Nicarágua para abertura de um canal
interoceânico.
O problema do canal, como se sabe, esteve presente durante
quase todo o século 19 na política centro-americana, acionado
pelos interesses britânicos e estadunidenses. Na década de
1880, o equilíbrio estabelecido pelo tratado Clayton Bulwer
(1850) – que impedia a Grã-Bretanha e os Estados Unidos de
construírem com exclusividade o canal – estava em vias de
romper-se em favor do último.
Em 1883, formou-se uma companhia – na qual o conheci-
do magnata das finanças Vanderbilt (cujos movimentos Martí
acompanhou de perto) tinha interesses – para construir um
canal pela Nicarágua. Suas gestões culminaram com o tratado
Frelinghuysen-Zavala, assinado em 1884, segundo o qual a
Nicarágua entregava aos Estados Unidos uma faixa de terra
dos dois lados do canal projetado e que estabelecia uma aliança
ofensiva e defensiva entre os dois países.
Antonio Batres Jáuregui, então representante da Guatemala
em Washington, que narrou minuciosamente esse assunto e
nos serve de fonte, viu com maus olhos o tratado, comunican-
do suas opiniões a Barrios. Batres conta que, no final de 1884,
Barrios disse-lhe que o tratado era perigoso para a América
Central e, ainda, em março do ano seguinte, já tendo sido
iniciada a campanha unificadora, o presidente guatemalteco
afirmou-lhe: “Agora, amigo Batres, não haverá Senado que
aprove o tratado do partido conservador da Nicarágua. Não
poderão subjugar-nos como pretenderam. Os Estados Unidos

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não terão ingerência em nossos assuntos. Seremos grandes, se


eu não perder a vida”.80
Baseando-se nas informações fornecidas por Batres, Manuel
Galich81 explicou como, na realidade, a campanha unionista de
Barrios, desencadeada subitamente, do ponto de vista de seus
contemporâneos, teve o objetivo de impedir a consumação do
projeto de canal pela Nicarágua.
O conhecimento e a qualificação da conduta de Barrios fren-
te ao problema do canal são assuntos difíceis. Embora para uma
compreensão cabal de tais temas seja necessária uma pesquisa
sobre as relações entre os grupos de poder existentes então na
América Central e nos Estados Unidos, os dados encontrados
na bibliografia utilizada permitem elaborar algumas idéias.
Fica evidente que Barrios esteve próximo aos círculos
financeiros estadunidenses durante a viagem que realizou
aos Estados Unidos, em 1882. Naquela ocasião tratou-se de
unir por ferrovia a Guatemala ao país do Norte, passando
pelo México, utilizando os serviços de uma companhia na
qual tinha participação o ex-presidente estadunidense Ulysses
Grant. Para o historiador guatemalteco Casimiro D. Rubio,
favorável a Barrios, as condições desse contrato eram “um
tanto onerosas para nossos interesses e bastante liberais para
os concessionários”.82 Finalmente esse negócio não prosperou,

80
Antonio Batres Jáuregui: A América Central diante da história, 1821-1921. Memórias de
um século, Guatemala, 1949, t. 2, p. 479.
81
Manuel Galich: “A campanha antiimperialista de 1885. Um capítulo da história
canavieira da América Central”, em Bohemia, Havana, 28 de março, de 1965, pp. 29
e 82.
82
O próprio Casimiro D. Rubio, em Biografia do general Justo Rufino Barrios: reformador
da Guatemala, recopilação histórica e documentada, Guatemala, Tipografia Nacio-
nal, 1935, p. 484, diz que o convênio dava à companhia estadunidense 25 anos para
importar equipamentos, livros de Direito e isenção do pagamento de impostos.

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com a quebra da companhia de Grant em 1884, em meio a um


grande escândalo financeiro.
De outra parte, quando foi designado novamente para o
cargo em 1880, o presidente guatemalteco estivera pensando
em confederar Guatemala, Honduras e El Salvador, e ofereceu
aos Estados Unidos as Ilhas Bay, em troca de sua colaboração.
Mas os estadunidenses não foram receptivos a este ofereci-
mento.83 Indubitavelmente, se a fusão tivesse se consumado, a
influência dos Estados Unidos na área centro-americana seria
favorecida.
Talvez nessa conduta do general-presidente influíssem as
íntimas relações que seu governo manteve com fabricantes
estadunidenses de armas, os quais abasteceram a Guatemala
desde o triunfo da Revolução de 1871, aumentando assim sua
capacidade militar na região.
É preciso considerar, ainda, que o governo dos Estados
Unidos não resolveu favoravelmente à Guatemala a disputa
territorial desta nação com o México. Quando Barrios foi a
Washington, acreditava que assinaria um convênio vantajoso
para seu país, mas, ao chegar, encontrou uma situação oposta.
Talvez os governantes republicanos dos Estados Unidos esti-
vessem mais comprometidos com o México de Porfírio Díaz
– onde já existiam numerosos investimentos estadunidenses
– do que com a Guatemala de Barrios, onde o capital nacional
construía portos e ferrovias.
Sobre esse assunto, Batres Jáuregui explicitou que James G.
Blaine, secretário de Estado do presidente Garfield, dissera a Lo-
renzo Montúfar, embaixador da Guatemala em Washington, que

83
John D. Martz: Justo Rufino Barrios e a União da América Central, Gainesville, Imprensa
da Universidade da Flórida, 1963, pp. 15-16.

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não se opunha à união centro-americana e que a arbitragem sobre


o problema fronteiriço entre o México e a Guatemala não favo-
receria o primeiro. Para Batres, Blaine opunha-se ao crescimento
do México e “via com desconfiança” o ministro mexicano Matias
Romero. Mas a posição dos Estados Unidos mudou quando foi
assassinado o presidente Garfield, em julho de 1881, e Frederick
Frelinghuysen passou a ocupar a Secretaria de Estado.
Não há elementos que permitam conhecer a reação de Bar-
rios aos Estados Unidos, quando foi obrigado a ceder o território
de Soconusco ao México, embora seja possível supor que, de-
vido a seu temperamento violento, aquela decisão, desfavorável
a seu país, e com a qual viu-se pessoalmente comprometido,
tenha lhe desagradado.
Terá o negócio da ferrovia constituído uma aproximação a
Barrios por parte de grupos relacionados com o setor de Blaine
no Partido Republicano, deslocado do governo com a chegada
à presidência do vice-presidente, Chester A. Arthur?
É interessante observar que, em 1883, quando Frelinghuy-
sen estava articulando o projeto do canal da Nicarágua, apoiou
uma lei no Congresso estadunidense para que o filho de Barrios
estudasse em West Point, onde era proibido o acesso de estran-
geiros. Seria uma aproximação do secretário de Estado – e do
grupo de interesses que representava – a Barrios, para fazê-lo
esquecer a entrega de Soconusco ao México, garantindo seu
apoio ao projetado canal?
Quando Batres Jáuregui, como embaixador em Washing-
ton, tomou conhecimento dos termos do tratado do canal,
chamou-o de “sombra sinistra de William Walker”. Barrios, no
entanto, em 21 de junho de 1884, escreveu a Adrián Cárdenas,
presidente da Nicarágua, apoiando o tratado Frelinghuysen-
Zavala sobre o canal.

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Não sou como muitos centro-americanos, que consideram perigoso


para a integridade e a independência da América Central a intervenção
estadunidense em empresas desta natureza, seja pelo poder que teria
uma potência estranha em nosso território, seja pela ocupação de uma
parte importante dele, com o estabelecimento definitivo de escritórios,
dependências etc., que necessariamente exige uma empresa dessa mag-
nitude; eu, por nenhum motivo, temo esse perigo, não apenas porque
o povo estadunidense não foi nem é um povo conquistador, como
porque acredito firmemente que nem a independência, nem a Repú-
blica correm perigo com o progresso, a civilização, indústria, comércio
etc., que sem dúvida alguma a irrupção estadunidense nos traria. Que
mais podemos desejar, se o país inteiro avançar em todos os sentidos
com esse elemento poderoso, destruindo a ignorância dessas massas
que hoje nem servem nem produzem, redimindo-as com o estímulo
do trabalho e fazendo-as compreender seus direitos e deveres? Deste
ponto de vista, sou americano decidido e prefiro os avanços dessa raça
laboriosa, se eles podem crescer e frutificar entre nós.84
Barrios expressou pontos de vista semelhantes em cartas
aos presidentes de Honduras e El Salvador, apoiando as gestões
relativas ao canal.
Poucos dias depois, em 26 de junho, o presidente guate-
malteco escreveu ao embaixador estadunidense Enrique Hall,
dando resposta afirmativa à pergunta sobre a possibilidade da
construção do canal pela Guatemala, por considerá-lo benéfico
pelas mesmas razões expostas nas cartas já mencionadas.
Note-se que os pontos de vista expostos por Barrios perten-
cem ao campo de idéias tão comum à maioria dos pensadores
e políticos liberais latino-americanos do século 19: o progresso

84
Ver em Victor Miguel Díaz: Barrios frente à prosperidade, folhetim do Diário da América
Central, Guatemala, 1935, pp. 471-472.

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vem para a América Latina de fora, principalmente dos Estados


Unidos, que constituem um modelo político, econômico e
social a ser seguido. O que leva a pensar que esses documentos
expressavam com veracidade o pensamento de Barrios.
Mas, ao recordar as afirmações que fez a Batres Jáuregui,
já citadas, surge a pergunta: que considerações, no contexto da
conjuntura política, levaram Barrios a emitir esses pontos de
vista? Apoiaria realmente a gestão do canal pela Nicarágua ou,
ao oferecer possibilidades para sua construção por território
gualtemalteco, estaria insinuando aos Estados Unidos, de novo,
a conveniência para seus próprios interesses de que esta nação
apoiasse as tentativas unificadoras na América Central, a partir
da iniciativa guatemalteca?
Em favor do último ponto de vista deve afirmar-se que,
entre 1882 e a proclamação unionista de 1885, Barrios manteve
permanentemente contatos e realizou esforços em prol da união,
e parece que a reunião que realizou em setembro de 1884 com
os presidentes de El Salvador e Honduras fez-lhe sentir que seu
objetivo estaria próximo da realização.
Terá Barrios exposto seu verdadeiro modo de pensar a
Batres Jáuregui, cuja oposição ao tratado do canal era conheci-
da? O decreto unionista de 1885 tentaria realmente impedir a
consumação do tratado do canal, como pensa Galich?
Em verdade, além da análise de Galich – que apóia seu ponto
de vista, também no artigo nono do decreto, considerando-o
explícito contra o tratado – a bibliografia consultada não fornece
explicação alguma quanto aos motivos que levaram Barrios a
tentar a união pela força em 1885, pois os diversos autores re-
petem que, até quase o fim de 1884, o presidente guatemalteco
fez declarações pacifistas e que, de repente, no ano seguinte,
mudou de opinião.

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As questões que foram aparecendo não permitem oferecer


conclusões sobre os objetivos de Barrios; muitos pontos ainda
permanecem obscuros. Mas, sem dúvida deve considerar-se
que, tanto o governo conservador da Nicarágua quanto o dos
Estados Unidos concordaram em que o decreto unionista
opunha-se ao tratado do canal,85 e que, além disso, tanto o
México quanto os Estados Unidos opuseram-se à tentativa de
unificação. O primeiro mobilizou tropas para a fronteira com
a Guatemala e o segundo realizou intensas pressões diplomá-
ticas86 contra a tentativa guatemalteca, apesar de que, no Sena-
do, predominava a oposição ao tratado Frelinghuysen-Zavala,
que, finalmente, os senadores não aprovaram. Evidentemente,
o governo democrático de Cleveland, ainda que não tenha
continuado abertamente a política panamericanista dos repu-
blicanos, tampouco demonstrou interesse em uma América
Central unida e, portanto, com maior capacidade de resistência
ao estrangeiro.
Quanto a José Martí, também se opôs ao tratado entre a
Nicarágua e os Estados Unidos, dizendo que a nação centro-
americana “queria vender a este país, por um prato de lentilhas,
sua primogenitura”.87
O cubano fez afirmações que demonstram que manejou mui-
tos dos fios da situação centro-americana que, com toda certeza,

85
Diante de tais acusações, Barrios tornou públicas as cartas a que nos referimos e cita-
mos, dirigidas aos presidentes da Nicarágua, de Honduras e de El Salvador. Ver Paul
Burguess: Justo Rufino Barrios, versão espanhola de Ricardo Letona-Estrada, primeira
edição em espanhol devidamente autorizada. São José, Costa Rica, Editora Universitária
da Guatemala, Editora Universitária Centroamericana (Educa), 1972, p. 394.
86
Uma das mais destacadas e conspícuas figuras da época, no Congresso estaduni-
dense, o senador democrata George Franklin Edmunds, declarou que um ataque à
Nicarágua seria considerado um ataque aos Estados Unidos. Ver Paul Burguess, em
ob. cit., nota no 91, p. 397.
87
J.M.: “Inauguração de um presidente nos Estados Unidos”, O.c., t. 10, p. 169.

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foi acompanhada de perto pela imprensa estadunidense: (a guerra


na América Central) “seguramente destrói toda possibilidade de
que o projeto de canal com a Nicarágua seja aprovado”. Nesse
mesmo trabalho de março de 1885, Martí escreveu que “a guerra
que Barrios trava na América Central” teve como “pretexto” as
tentativas de aliança com os Estados Unidos por parte da Nica-
rágua, por meio do tratado Frelinghuysen-Zavala.
Martí considera que o governo democrata de Cleveland,
que assumira a presidência naquele março de 1885, põe fim aos
desejos dos republicanos que queriam “sob a capa de comércio e
de humanidade, uma política agressiva e alexandrina, sonhando
com Roma e Cartago, vendo-se já senhores de toda a América”.
Por isso o cubano valoriza o novo secretário de Estado, Thomas
Francis Bayard, como “símbolo da política de neutralidade”,
recordando que se opôs no Senado ao tratado com a Nicarágua.
E, durante a primeira metade de 1885, Martí sempre se opôs à
intervenção estadunidense na América Central, não apenas por
considerá-la um perigo para os países da região, mas também
por vê-la como uma ameaça para o México, sobre o qual via
projetar-se novamente a voracidade da águia do Norte.88

88
Salvador Morales estende-se sobre a análise de Martí sobre as intenções expansio-
nistas dos Estados Unidos na região centro-americana, afirmando – sem oferecer
provas – que a tentativa de Barrios foi estimulada pelo país do Norte. No entanto,
Alberto Herrarte, em A união da América Central. Tragédia e esperança. Ensaio político-social
sobre a realidade da América Central, Guatemala, Editora do Ministério de Educação
Pública, 1955, pp. 214-219, afirma que, em 19 de maio de 1885, o Senado dos Esta-
dos Unidos declarou que toda invasão por parte da Guatemala, pela força, contra as
demais repúblicas da América Central, seria considerada um ato de inimizade e de
intervenção hostil contra os direitos estadunidenses, por estar pendente o tratado
sobre o canal da Nicarágua. Para este autor, essa declaração “obrigou” Barrios a
afirmar que a união não afetava os tratados anteriores e que o artigo 9º do decreto
de unificação fora interpretado erroneamente. A. Batres Jáuregui, em ob cit., nota
no 82, p. 479, relata que ele, pessoalmente, leu para Barrios um telegrama em que o
governo dos Estados Unidos declarava ver com maus olhos a união pela força.

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Embora a elucidação desses desentendimentos sobre o canal


exija um estudo mais profundo, é certo – como disse correta-
mente Martí – que a mudança de administração nos Estados
Unidos, levando os democratas ao poder, afastou do governo,
naquele momento, os interesses financeiros mais agressiva-
mente expansionistas e, por isso, não prosperaram as gestões
do canal nicaragüense. Por isso, parece sensato afirmar que
Martí entendeu perfeitamente as linhas essenciais da conjuntura
internacional em que o presidente guatemalteco tentou realizar
a unidade centro-americana.
Pode-se dizer então que a oposição de Martí à campanha
unificadora de Barrios baseia-se em suas avaliações sobre a
personalidade do presidente guatemalteco?
Parece que em 1885 ainda prevaleciam em Martí os juízos
que formara sobre Barrios durante sua permanência na Gua-
temala. O cubano, que sempre cultivou idéias profundamente
democráticas e opostas a qualquer autoritarismo, não estava
ainda em condições, naquele ano, de julgar com toda a objeti-
vidade o presidente guatemalteco.
Para Juan Marinello, nas apreciações de Martí sobre Barrios
prevaleceu “a aproximação sugestiva: a excessiva juventude do
observador – em quem agrada o natural sem malícia e cheio
de entusiasmo – e sua posição idealista e liberal impedem-no
de chegar ao fundo das alteradas contradições”.89
Não obstante, não parece correto atribuir exclusivamente a
seus pontos de vista sobre Barrios as opiniões de Martí sobre
a campanha unificadora na América Central. Provavelmente,
influiu nele o temor de que o governo estadunidense interviesse
na guerra contra a Guatemala, aumentando assim sua influência

89
Cf. Juan Marinello, em ob. cit., nota no 72, p. 125.

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na região pela via da presença militar direta. E, de outra parte,


não podem deixar de ser consideradas as críticas que, como
vimos, o cubano fazia, em 1883, ao sistema econômico da mo-
nocultura que o café significava para a Guatemala, bem como
as opiniões que já expunha naquele ano, contra a concentração
da propriedade da terra em poucas mãos.
Creio que se pode afirmar que, em 1885, o regime liberal
de Barrios já se distanciava muito do modelo social para o
desenvolvimento favorável da América Latina que estava se
esboçando no pensamento de Martí. E como esse modelo
estava então em sua fase de formação, as críticas deste último
dirigem-se fundamentalmente para a personalidade histórica,
mais do que para o processo histórico-social.
É evidente que, em 1885, Martí ainda não realizara em
sua plenitude o salto de amadurecimento de seu pensamento
que se aprecia em “Nossa América” (1891), onde a análise da
problemática latino-americana, apoiando-se em sólidas bases
históricas e sociais, já compreende que tanto as ditaduras caudi-
lhistas quanto as falsas democracias liberais foram incapazes de
resolver os males do continente, por não governar com e para
as grandes massas carentes: o “homem natural”, o indígena, o
negro, o camponês.
Naquela época, se tivesse se dedicado a analisar Barrios
e seu governo, talvez tivesse apreciado ângulos positivos no
guatemalteco,90 fi xando mais nitidamente a crítica ao regime
liberal implantado em 1871 no país centro-americano.

90
Sem emprestar validade absoluta a um testemunho escrito muitos anos depois do que
foi narrado, é ilustrativa, neste sentido, a conversa de Máximo Soto-Hall e Domingo
Estrada com Martí, em Nova York, em 1882, relatada pelo primeiro em ob. cit., nota
no 8, pp. 158-159.

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Mas uma tarefa mais urgente impediu-o de fazer esta re-


avaliação: a luta pela independência de Cuba como primeiro
passo de uma estratégia contra a expansão do imperialismo
estadunidense pelo continente.
O historiador Jorge Ibarra considera que Martí, durante
sua permanência na Guatemala, ainda se encontrava no cam-
po ideológico liberal democrático e que sua principal crítica
a Barrios baseava-se em que não se tratava de um civil go-
vernando. Este autor amplia sua avaliação como segue: “Em
seu conjunto, a crítica à personalidade e à obra de Barrios foi
concebida a partir da esquerda do processo revolucionário,
assinalando-se a inconseqüência de pactuar com a Igreja e
instando-o a completar a obra da revolução, com a entrega da
terra, em pequenas propriedades, ao campesinato. A crítica
não foi pois, concebida como uma melindrosa e reduzida de-

Martí tinha de Barrios a idéia justa que alimentaram ou estimularam todos os


que, serena ou imparcialmente, analisaram esse complexo personagem. Indi-
vidualmente afirmou que o achara muito simpático, que gostou muito de sua
maneira de receber, sem formalidades e sem etiquetas, como se se tratasse de
amigos antigos; que achou sua conversa muito interessante; amplo, quanto aos
pontos de vista; com uma clara visão do futuro e uma fé completa na obra que
realizava. Lembrava que Barrios fora um fator necessário, quase indispensável,
para levar a cabo a reforma radical de que a Guatemala foi laboratório. Com justiça
dava-se conta de que García Granados era incapaz de terminar a empresa que tão
admiravelmente iniciou, não por debilidade de caráter, como alguns quiseram
fazer crer, mas por ter sido impedido por um obstáculo de ordem exclusivamente
pessoal. Tinha uma estreita relação com os mais valiosos elementos do partido
conservador, seja por laços de sangue, seja por vínculos de antiga amizade. Não
podia proceder com a resolução e a energia que as circunstâncias reclamavam.
Ele mesmo, convencido dessa verdade, honradamente renunciou à primeira
magistratura da república. Ao contrário, Barrios, dispondo de independência
absoluta, pôde levar a cabo, vencendo grandes dificuldades, todo o amplo pro-
grama da revolução de 1871. Grande lástima, exclamou, que, devido a seu caráter
violento e a seu temperamento impulsivo, para fazer tudo de bom que fez, e que
foi muito e muito valioso, se valesse com freqüência de procedimentos extremos
e por isso mesmo, condenáveis.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

fesa das ‘liberdades públicas’ frente aos poderes do caudilho


revolucionário”.91
Ibarra é de opinião – que compartilhamos – de que a situa-
ção guatemalteca reclamava uma ditadura revolucionária, bem
burguesa – como efetivamente ocorreu –, bem das classes
médias, e que o equívoco de Martí “estava em aferrar-se um
pouco dogmaticamente à concepção teórica de que o poder e as
instituições civis da democracia burguesa deviam ser mantidos
nas mais diversas condições históricas”.
Ibarra considera, ainda, a ideologia do cubano naquele
momento como mais avançada do que a do general-presidente,
quando propõe que a terra deveria ser de muitos e quando se
opõe a qualquer entendimento com a reação clerical. A seu
ver, Martí partia dos modelos jacobinos da revolução agrária,
os mais avançados para aquela época. “Martí não tinha porque
se alinhar à revolução burguesa de latifundiários preconizada
por Barrios em nome do progresso social, quando existia na
época um tipo de revolução mais justa. Portanto, o idealismo
e o liberalismo que lhe são atribuídos no que se refere às suas
opiniões sobre Barrios, devem limitar-se à sua avaliação quanto
aos propósitos do caudilho, não no que se refere à conveniência
de aceitar como único caminho para a revolução agrária aquele
que foi levado à prática”.
É indubitavelmente certo que o jovem emigrado cubano era
partidário da distribuição da terra em pequenas parcelas, como
ele mesmo escreveu em Guatemala.
Cultivar, empreender, distribuir; como arrastado por secreta força
cega, tal mente guia aquele que preside hoje a Guatemala. A riqueza

91
Ver Jorge Ibarra: José Martí, dirigente político e ideólogo revolucionário, Havana, Editorial
de Ciencias Sociales, 1981, cap. 2, pp. 28-29.

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exclusiva é injusta. Seja de muitos; não dos recém-chegados, novas


mãos mortas, mas dos que honrada e laboriosamente a mereçam. É
rica uma nação que conta com muitos pequenos proprietários. Não é
rico o povo onde há alguns homens ricos, mas aquele onde cada um
tem um pouco de riqueza. Em economia política e em bom governo,
distribuir é fazer gente feliz.92
A análise deste parágrafo mostra que, para Martí, aquele que
presidia então a Guatemala estava guiado pela idéia de distribuir,
ou seja, de aumentar a pequena propriedade. Talvez a oposição
aos recém-chegados – justamente qualificados como “novas
mãos mortas” – seja uma crítica velada ao caminho para o qual
estava se inclinando o processo liberal guatemalteco. Seja como
for, é preciso lembrar que aquele não era ainda o país dominado
pelo latifúndio cafeeiro e que o período em que Martí ali viveu
foi o momento do auge das transformações liberais e de plena
execução da redistribuição das propriedades eclesiásticas, rio
revolto em que o lucro ia freqüentemente para os próximos e os
colaboradores de Barrios, muitos deles provenientes – como o
próprio presidente – dos astutos setores médios, que começaram
assim seu trânsito social para uma burguesia agrária.
De outro lado, a distribuição jacobina da propriedade agrá-
ria, se tivesse sido aplicada na Guatemala, teria significado a
dissolução da propriedade comunitária indígena, como diz o
próprio Martí no texto já citado.

92
J.M.: Guatemala, O.c., t. 7, p. 134, e E.c. t. 5, pp. 259-260. Isso é compatível com
o interesse que lhe despertaram, dias antes de sua saída da Guatemala, os textos
sobre agricultura do Conde de Pozos Dulces, bem conhecido defensor da pequena
propriedade agrária: “Ontem à noite caiu em minhas mãos um livro do Conde de
Pozos Dulces, Coleção de estudos sobre agricultura, e não pude durante toda a noite
afastar meus olhos dele. – Contém muitas coisas em que eu já pensara e outras em
que nunca teria sido capaz de pensar”. (Carta a Francisco Sánchez, 23 de julho de
1878, O.c., t. 20, p. 264. Epistolário, ob. cit., t. I, p. 128).

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

E já falta terra para os que gostariam de possuí-la. Bem fazem os que


hoje regem a vida guatemalteca. A raça indígena, habituada, por im-
perdoável e bárbaro ensino, à preguiça inspiradora e à posse egoísta,
nem sequer deixa semear; e, enérgico e patriótico, o governo a obriga
a semear, ou a permitir que semeiem. E o que eles, preguiçosos, não
utilizam, ele, ansioso de vida para a pátria, divide em lotes e distribui.
Porque apenas para fazer o bem, a força é justa. Somente para isto;
sempre pensei assim.
Note-se que, apesar de que Martí, em seus textos guate-
maltecos – como veremos adiante – atribuiu seu justo lugar à
contribuição indígena para a identidade latino-americana, não
consegue escapar da noção, comum em seu tempo, da preguiça
dos índios, ainda que a atribua a fatores inculcados neles. Seja
como for, é tão contrário a suas concepções democráticas o
despojo sofrido pelos índios, que ao final faz essa declaração
moral sobre o uso da força em função do bem.
Frente à aplicação prática da dissolução da propriedade co-
munitária indígena mediante despojo – processo que não foi
levado a suas últimas conseqüências pelo governo de Barrios –,
cabe perguntar se era este, verdadeiramente, o modelo agrário
mais avançado para a Guatemala. Porque, diferentemente da
revolução agrária jacobina, que parcelou entre os camponeses
os grandes latifúndios feudais, a revolução liberal guatemalteca
despojou apenas a propriedade feudalizante da Igreja, mas não
os grandes proprietários, e afetou seriamente a propriedade
comunitária indígena, sobretudo obrigando seus membros
a um regime de trabalho forçado nas fazendas da burguesia
agrária.
Não se trata apenas do que pretende e dos interesses que
Justo Rufino Barrios representou na Guatemala, frente às idéias
e interesses expressos por Martí, mas do que objetivamente

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

impunha a realidade da nação centro-americana para o desen-


volvimento da economia mercantil capitalista na agricultura,
na medida em que coexistiam formas de propriedade feudali-
zantes e de propriedade comunitária indígena, da qual saiam
os trabalhadores das primeiras. Ou seja, o trabalhador rural
era, essencialmente, o índio, tanto quando empregado pelos
latifundiários, quanto trabalhando em suas comunidades. E
nunca foi convertido naquele pequeno proprietário a quem se
referiu Martí, assunto que, aliás, não era o principal interesse do
indígena como a forma comunitária de propriedade e de regime
de trabalho que coexistisse com o parcelamento individual.
O que, a meu ver, sim, ressalta nas apreciações de Martí
na Guatemala, é como seu pensamento democrático expressa
uma tomada de partido pelas classes populares – incluindo os
indígenas, apesar das opiniões em parte adversas a eles –, não
apenas para satisfazer suas necessidades, como para impedir que
novas classes possuidoras (“novas mãos mortas”)93 as dominem,
como estava acontecendo com a revolução liberal guatemalteca.
E essa tomada de partido – total já desde a década de 1880 –
deu um de seus primeiros passos na Guatemala, lugar onde
ocorreu em seu pensamento a elucidação decisiva da realidade
continental.

A revelação de nossa América


“Eu lhes falo do que digo sempre: deste gigante desconhe-
cido, destas terras que balbuciam, de nossa América fabulosa”.94
Estas palavras foram escritas por José Martí, aos 24 anos de

93
Idem em O.c., e em E.c., p. 260.
94
J.M.: Carta a Valero Pujol, diretor de O Progresso, de 27 de novembro de 1877, O.c.,
t. 7, p. 111. Epistolário, ob. cit., t. I, p. 98.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

idade, na cidade da Guatemala, sendo esta uma das primeiras


ocasiões em que encontramos essa expressão em seus textos.
Isso não é casual. A permanência de Martí na Guatemala deve
ser avaliada, sobretudo, como um momento importante de sua
vida e da evolução de seu pensamento porque naquele período
o então jovem exilado chegou a uma primeira síntese da con-
cepção que começa a aparecer já em seus escritos mexicanos: a
compreensão da América Latina como uma unidade histórico-
social diferenciada da Europa e dos Estados Unidos.
Não se trata de dizer que desde o biênio centro-americano
Martí possuía sobre este problema a concepção acabada que
manifestaria em 1891, em seu ensaio “Nossa América”. Para
isso foram necessários seus 15 anos de vida em Nova York,
que lhe permitiram descobrir como, na região setentrional
do continente, tomava corpo uma sociedade não apenas com
óbvias diferenças em relação a suas vizinhas do Sul como,
também, com interesses tão absolutamente opostos a estas,
que a própria dinâmica do desenvolvimento estadunidense
implicava na criação de relações de dominação com os povos
latino-americanos.
Em outras palavras: o latino-americanismo de Martí não é
o mero sentimento fraterno por uma comunidade de origem
e de idioma, mas algo muito mais profundo e verdadeiro: é a
compreensão da necessidade histórica da unidade latino-ame-
ricana como a única maneira, para os povos do Sul, de subsistir
e se desenvolver como identidade sociocultural independente
frente ao imperialismo estadunidense. E, portanto, esse latino-
americanismo só pode se manifestar com esse sentido no final
da década de 1880, quando Martí manifestou apreensão quanto
ao fenômeno imperialista nos Estados Unidos. Daí a contem-
poraneidade e vigência dessas idéias latino-americanistas.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

Mas, é claro, quando nos situamos em um ponto de vista


marxista, que as idéias desenvolvem-se nos pensadores como
um processo, e que esse desenvolvimento é inseparável das rela-
ções histórico-sociais em que vivem. Os 15 meses de residência
na capital da Guatemala constituem para Martí a primeira ma-
nifestação explícita do problema da identidade latino-americana,
marco destacado na evolução de seu pensamento.
Formado nas idéias liberais, que constituíram o substrato
dominante do pensamento cubano de meados do século 19,
Martí teve a oportunidade de conhecê-las como realidade prá-
tica durante a efêmera república espanhola e os dois anos que
passou no México. Além do funcionamento do sistema político
republicano, o país asteca ofereceu-lhe outras experiências de
singular valor, como o conhecimento da população indígena
– separada em suas comunidades do resto da sociedade – e os
problemas de uma economia baseada, desde os tempos co-
loniais, na extração de minérios. Nos textos jornalísticos da
época, Martí expressa seus pontos de vista sobre esses assuntos,
deixando claro seu carinho pela natureza, a história, os homens
e a sociedade mexicana, mostrando assim que não se movia
exclusivamente nos marcos da nacionalidade cubana, mas que
era capaz de unir também a esta o amor, a preocupação e a
dedicação por outros povos.
Armado com a experiência mexicana, Martí chega à Gua-
temala. A partir de então, seus escritos expressam, junto à sua
consciência cubana, uma consciência latino-americanista global.
Também a partir de então aparecem em seus textos organica-
mente as expressões “nossa América” e “mãe América”.95

95
Ver Roberto Fernández Retamar: “Martí e a revelação de nossa América”, prólogo a
José Martí: Nossa América, Havana, Casa de las Américas, 1974, p. 10.

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Poucos dias depois de estabelecido na capital guatemalteca,


manifesta em um documento particular – uma carta a Mercado
– como está avançando pela trilha latino-americanista:
Venho falar de amor a esta terra e a estas gentes; e se não deixo trans-
bordar de mim o quanto as amo, é para que não me tenham por servil
e lisonjeiro. Estes são meus ares e meus povos. Se não existem muitas
inteligências desenvolvidas, venho animá-las, não envergonhá-las nem
feri-las. Não me agrada ouvir estranhos dizerem – os verdadeiramente
estranhos, por seu temível espírito de aversão – que nossa América
enferma carece das ardentes inteligências que lhe sobram.96
Unia assim, pela fórmula magistral – nossa América – seu
amor pela Guatemala e por sua própria pátria, ao superior es-
pírito latino-americano.
Nas notas da viagem de chegada à Guatemala, Martí escreve
“minha mãe América”; em “Os Códigos novos”, escreve “nossa
América”, e no Drama indígena, utiliza os dois termos. Também
emprega “nossa América” na carta a Valero Pujol de 27 de no-
vembro de 1877, de onde tomamos a frase que inicia este item.
Como é sabido, em sua maturidade, Martí emprega os
dois termos, mas com maior freqüência usa “nossa América”,
servindo-lhe inclusive como título do trabalho de 1891 em
que submeteu a aguda crítica o funcionamento do sistema
político liberal na América Latina, julgando-o incapaz de fazer
desaparecer os restos coloniais, o que abria passagem a novas
formas de dominação, introduzidas recentemente pelo nascente
imperialismo estadunidense. Como disse, em clara antinomia:
nossa América está definida por oposição frente “à outra Amé-
rica, que não é nossa”, ou seja, os Estados Unidos.

96
J.M.: Carta a Manuel Mercado, Guatemala, 19 de abril de 1877, O.c., t. 20, p. 27.
Epistolário, ob. cit., t. I, p. 76.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

Já desde 1877 é óbvio que o emprego destas frases indica


tanto a preocupação de Martí em estabelecer uma distinção
nominal para a América Latina – que implicasse na existência
de dois pólos em conflito – quanto seu interesse por demons-
trar sua filiação, por nascimento e por sentimento, a esta parte
do mundo.
No Drama indígena, Martí manifesta um evidente interesse
em diferenciar nossas terras da Espanha.97 Cabe pensar, pois,
que quer distinguir as colônias da metrópole quando, na peça
teatral, diz “mãe América” e “nossa América”; mas, apesar de
que, dado o contexto em que aparecem essas expressões, não se
possa afirmar que faz uma exclusão categórica, por oposição, dos
Estados Unidos, não é possível inferir tampouco que, quando
se refere à sua (nossa) América está pensando naquela nação do
Norte, que quase sempre aproxima da Europa.
Assim, no prospecto da Revista Guatemalteca, diz claramente
que é sua (nossa) América. Mas devemos ler o parágrafo com-
pleto para apreciar a comparação de Martí entre o “espírito”
(isto é, a identidade) de nossa América e a da Europa.
Conheço a Europa e estudei seu espírito; conheço a América e sei o seu.
Temos mais elementos naturais, nessas nossas terras, desde onde corre
o Bravo orgulhoso até onde acaba o digno Chile, do que em qualquer
terra do Universo; mas temos menos elementos civilizadores, porque
somos muito mais jovens em história, não contamos com precedentes
seculares e fomos, nós os latino-americanos, menos afortunados em

97
Embora Bernardo Callejas considere que no Drama Martí já separa os Estados Uni-
dos da América Latina, parece-me claro, nos próprios exemplos que cita, que Martí
refere-se à Espanha. Note-se quando Pedro, o patriota, descreve a variada exploração
metropolitana, nestes versos: “Amo o governador, guia a Igreja, / e cada presumido
mercador que vem de longe, / sua vara de medir por cetro troca!” em J.M.: Pátria e
liberdade. Drama indígena. O.c., t. 18, p. 134 e E.c., t. 5, p. 116.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

educação do que qualquer outro povo; tristes memórias históricas, –


segredos de muitas infelicidades – que não é o caso de trazer à luz...
Mas há mais. No parágrafo que segue manifesta-se favo-
rável a um intercâmbio comercial benéfico entre a América
Latina, de um lado, Europa e Estados Unidos do outro, pois
tal comércio nos daria acesso a invenções, livros, equipamen-
tos industriais; “que o mundo velho, e o setentrião do novo,
lançam de seu seio”.
Na identificação de sua (nossa) América feita pelo jovem
Martí no prospecto em questão, deve-se apreciar seu esforço
para abandonar uma explicação idealista, atribuindo essas
distâncias entre América Latina e Europa (e Estados Unidos)
à evolução histórica diferente. Observe-se que, para Martí,
a América Latina é “mais jovem quanto à história”, não tem
“precedentes seculares” e possui “tristes memórias históricas –
segredos de muitas infelicidades” –, evidente alusão ao período
colonial.
Mas a análise martiana de nossa América torna-se mais
rigorosa e valiosa quando expõe sua compreensão da América
como síntese do europeu e do autóctone (indígena). Roberto
Fernández Retamar afirma que, já em 1877, Martí refuta a opo-
sição entre civilização e barbárie e vê a América Latina como
resultante da harmonia de elementos “naturais” e “civilizados”.
O que constitui precisamente a chave metodológica que começa
a afastá-lo, desde sua juventude, das concepções liberais vigentes
de então, as quais consideram o pensamento, as instituições,
a tecnologia – enfim, as sociedades capitalistas européias e
estadunidense – como o modelo do progresso, e o indígena
como um elemento pelo menos retardatário e mesmo de ne-
cessária extinção, como disse Domingo Faustino Sarmiento,
verdadeiro oposto das concepções de Martí. Trilhar o caminho

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

do entendimento do que é latino-americano, nossa América,


como mistura do europeu e do aborígine significa transcender a
concepção da oposição entre um mundo civilizado e adiantado
e outro, bárbaro e atrasado. É significativo que, quando Martí se
refere ao elemento indígena, não diz atrasado: para evitar uma
comparação que falseie a realidade, dando sentido pejorativo ao
que deseja identificar, sempre se refere ao “natural”.
Em “Os Códigos novos” Martí descreveu essa síntese como
um processo antagônico que assimilou, de uma parte, um povo
conquistado cujo desenvolvimento natural foi interrompido e,
de outra, uma civilização devastadora. Por isso, vê um futuro
necessariamente melhor, visto que se criou um povo novo,
“essencialmente diferente”.
É interessante observar a reação que provocaram estas idéias
de Martí entre os liberais guatemaltecos. Segundo o pesquisa-
dor francês Jean Lamore, Valero Pujol, o espanhol diretor de O
Progresso, ao publicar “Os Códigos novos”, incluiu uma nota da
redação que mostra uma divergência importante com o artigo
de Martí.
Apreciando muito os brilhantes pensamentos do senhor Martí, neces-
sitamos, no entanto, declinar a responsabilidade quanto a certas afirma-
ções, como aquela que inicia o artigo, para evitar que possa criar-se uma
aprovação tácita de opiniões que supõem uma cultura extraordinária
em povos que sem dúvida foram covardemente atropelados, mas que
careciam da grandeza e do desenvolvimento que se lhes atribui. O
que não afeta o conjunto do bem pensado trabalho, que é, em todos os
sentidos, recomendável.
Também em O Futuro, órgão da sociedade do mesmo nome,
foram publicadas idéias semelhantes às de Pujol.
A inclusão do aborígine na América Latina de Martí tam-
bém está explícita no título da obra teatral: Pátria e liberdade são

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assuntos próprios para um Drama indígena. Além disso, com


Martí encontramo-nos diante de um dos primeiros casos de
um pensador latino-americano que aprecia a importância da
participação indígena no processo de obtenção da independên-
cia, aspecto que, como se sabe, será desenvolvido extensamente
em seus trabalhos da maturidade.
Em sua obra Guatemala, Martí descreve a síntese de povos
que é nossa América e anuncia seu progresso futuro, pois de
seu estado larval passará a ser “soberba borboleta”. Mas, nesse
texto, expressa uma idéia ainda mais importante: a necessidade
da unidade latino-americana: “Pela primeira vez parece-me boa
uma corrente para reunir, dentro de um mesmo círculo, todos
os povos de minha América!”
E toma como apoio de seu pensamento unitário os casos
dos povos aborígines, conquistados devido a suas divisões
internas: “Posto que a desunião foi nossa morte, a que vulgar
entendimento ou coração mesquinho será preciso dizer que da
união depende nossa vida?”
Observe-se, nesses textos guatemaltecos que citamos, como
também, ao explicar a identidade de nossa América como síntese
de povos, Martí enfatiza a contribuição indígena, estabelecendo
uma ponte entre as civilizações pré-colombianas e a América
Latina de seu tempo e do futuro. O período da dominação
colonial é para ele essencialmente negativo e antiamericano;
a nova América nossa é, em certo sentido, a recuperação das
culturas autóctones.
Mas, em minha opinião, isso não nos permite inferir que
Martí recusa a contribuição européia. São claras suas palavras
em “Os códigos novos”: criou-se um povo novo, não espanhol,
não indígena. Trata-se de tomar consciência da contribuição
indígena, sistematicamente oculta e negada; por isso a ênfase

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nessa contribuição. O que é uma amostra da agudeza e da fineza


da dialética na análise de Martí desde seus anos juvenis.98
Tal apreciação torna-se mais clara quando se observa como
Martí compreende que sua (nossa) América é o resultado de um
processo histórico: a conquista européia cortou as possibilidades
de desenvolvimento próprio dos povos indígenas; portanto, a
colônia nega o que é latino-americano, quando tenta eliminar
um dos fatores formadores, e por isso, a independência é o
primeiro passo para a síntese latino-americana que, a partir
de então, conseqüentemente, há de reconhecer e recuperar o
que é autóctone. Aqui estão, em estado primário, as idéias de
sua maturidade, que desenvolverá brilhantemente nos textos
“Nossa América” e “Mãe América”. Assim, desde a Guatema-
la, a análise historicista permite a Martí evitar os julgamentos
idealistas que sustentam o latino-americanismo nas idéias, nas
forças morais, em razões geográficas etc.
De outra parte, na formação dos juízos de Martí não se pode
descartar o que significou para ele, em suas viagens, o contato
com a natureza continental em estado virgem e com os vestígios
das sociedades autóctones. Sua personalidade emotiva, ainda
juvenil e em plena formação, não poderia deixar de admirar-

98
Foi, possivelmente, Leonardo Acosta que, pela primeira vez, dedicou-se ao estudo dessas
complexas arestas do pensamento de Martí. Sua obra, José Martí, a América pré-colombiana
e a conquista espanhola (Cadernos Casa, Havana, no 12, Casa de las Américas, 1974), in-
dubitavelmente ajudou a compreender como Martí considerou as culturas indígenas,
situando-se a seu lado ao analisar a conquista e a colônia. No entanto, parece-me que
Acosta não entende que o reconhecimento do aborígine e o repúdio ao colonialismo
europeu (espanhol) não significam uma posição unilateral de Martí ao explicar a
identidade latino-americana. É admirável em seu anticolonialismo não ter caído no
que poderia ter sido um explicável repúdio do europeu como maneira de afirmar o
aborígine e sim que entende, com extraordinária acuidade para seu tempo, algo que
é válido para a análise atual do problema; o continente é uma realidade sociocultural
mista, síntese de contribuições diversas, e sua única possibilidade de permanência e
fortalecimento repousa no desenvolvimento sistemático dessa síntese.

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se diante daquela grandiosidade. E, embora às vezes apresente


a natureza como causa, ao descrever algumas situações, em
geral a análise historicista está presente, dando mais solidez e
permanência aos juízos que formula.99
É indubitável que a permanência na Guatemala inicia para
Martí, de maneira explícita, o processo de tomada de consciên-
cia da identidade latino-americana que vai expressar, clara e
conseqüentemente, em seus anos de maturidade, por meio de
seu antiimperialismo combatente. Ele mesmo o disse em carta
a Valero Pujol, em 27 de novembro de 1877, o que constitui
um verdadeiro decálogo latino-americanista e uma declaração
de princípios aos quais se manteve fiel ao longo de toda a sua
vida: “Viver humildemente, trabalhar muito, engrandecer a
América, estudar suas forças e revelá-las ao continente, pagar
aos povos o bem que me fazem: este é meu ofício. Nada me
abaterá; ninguém me impedirá de exercê-lo”.

99
Embora este seja um tema que requer um estudo especial, não posso deixar de dizer
que, em minha opinião, teve uma importância relevante no processo de tomada de
consciência por Martí da identidade latino-americana e, que, além disso, em geral, a
natureza americana foi vista por ele como intimamente ligada à história da região.

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MARTÍ NA VENEZUELA:
A FUNDAÇÃO DE NOSSA AMÉRICA

Jamais recordo as pequenas amarguras


que passei nessa terra bem amada:
apenas me lembro de suas ternuras.
José Martí: Carta a Diego Jugo Ramírez,
9 de dezembro de 1881.

A viagem: pela causa cubana?


As dúvidas com relação à data da chegada de Martí à
Venezuela parecem definitivamente esclarecidas. Sabe-se
que, em 6 de janeiro de 1881, em Nova York, foi padrinho
de batismo de Maria Mantilla, pois isso consta do registro
correspondente.1 Dois dias depois embarcou no navio Felicia
em Nova York, chegando a La Guaira em 20 de janeiro. Sua
presença em Caracas, no final de janeiro de 1881, fica confir-
mada por uma nota publicada no jornal A Opinião Nacional no
mesmo dia em que o cubano celebraria seu 28o aniversário,
e na qual saudava-se sua chegada à Venezuela, expressando
a satisfação do relacionamento por ocasião da “visita que se

1
Gonzalo de Quesada y Miranda: “Martí, padrinho de Maria Mantilla”, em Pátria,
Havana, no XXVII, (10), outubro, 1971, pp. 1-2.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

dignou fazer-nos”, desejando que adotasse a Venezuela como


sua segunda pátria.2
Por seu lado, o próprio Martí esclareceu a questão nos frag-
mentos conservados de seu discurso no Clube do Comércio de
Caracas, quando escreveu “dias de festa pareceram-me, ainda que
fossem dias de trabalho; são os primeiros que passo em Caracas”,3
referindo-se, ao que tudo indica, aos preparativos para o carnaval
celebrado na época em final de janeiro na capital venezuelana. E
confirma também sua permanência na cidade naqueles dias em
carta de 9 de dezembro de 1881 a Diego Jugo Ramírez, onde re-
corda como eles passaram juntos o primeiro dia daquela festa.
A viagem de 12 dias foi para ele muito prazeirosa, conforme
diz em um relato sobre a travessia: “sob um céu sempre azul e
sobre um mar sempre azul”. Seu entusiasmo aumentou à me-
dida que se internava no mar do Caribe: tendo deixado o frio
inverno de Manhattan, depois de atravessar o canal da Flórida e
talvez intuir no horizonte as linhas da pátria, a navegação pelas
águas antilhanas deu calor a seu corpo e a seu espírito.
Ao amanhecer do dia 16 estava diante de Curaçao, essa pos-
sessão holandesa onde as casas levantam-se como por milagre
da rocha árida, e que era o portal marítimo da Venezuela, por
ser então escala obrigatória no caminho por mar para o país
sul-americano. Apesar de desgostar-lhe o aspecto físico da ilha
(“árida como uma cabeça careca”), e das pessoas empenhadas

2
“Crônica”, A Opinião Nacional, 28 de janeiro de 1881, em Salvador Morales: Martí
na Venezuela. Bolívar em Martí, Havana, Editora Política, 1985, p. 29 e Carlos Ripoll,
ob. cit. p. 63.
3
José Martí: “Fragmento do discurso pronunciado no Clube do Comércio, em Caracas,
Venezuela, em 21 de março de 1881”, em Obras completas, Havana, 1963-1973, t. 7,
p. 281. Na seqüência citaremos por esta edição, identificada com as iniciais O.c. e,
portanto, apenas indicaremos tomo e paginação.

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em discussões em altos brados (“algo assim como uma eterna


disputa entre papagaios e periquitos”), sua prosa encheu-se de
sinais de admiração ao reconhecer ali a alma de sua América:
“Aqui a mulher já começa a ser terna, a criança a ser brilhante, a
ser heróico e generoso o homem!” A extensão e a riqueza de de-
talhes de umas notas que escreveu como se estivesse pensando
em um artigo para jornal – intitulado “Curaçao” – evidenciam
que a permanência na ilha foi de mais de um dia.
De Curaçao o navio dirigiu-se a Puerto Cabello, onde che-
gou depois de poucas horas. O cubano passeou pelas ruas dessa
“pequena cidade pobre e quase arruinada”, ouviu a gritaria de
seus habitantes e tomou água de coco e rum branco de Mara-
caibo. As primeiras horas de permanência em terra venezuelana
foram amáveis para ele: Puerto Cabello – diz – é “uma cesta
de flores que vai em busca dos forasteiros”. Dormiu a bordo
naquela noite de 19 de janeiro e, no dia seguinte, já estava diante
de La Guaira, porta de entrada de Caracas. Ali, atraiu-o a popu-
lação disseminada pelas ladeiras das altas montanhas que caem
até o mar, paisagem que vinha chamando poderosamente sua
atenção durante os dois últimos dias de navegação, enquanto
seu navio contornava as costas venezuelanas.
Como sempre, foi um dia extraordinariamente quente,
aquele 20 de janeiro de 1881; não à toa os visitantes europeus
costumavam chamar La Guairá de “inferno da Venezuela”. O
trajeto para a capital naquela época era áspero e difícil; a ferro-
via ainda não estava funcionando, e embora seja de apenas 9
quilômetros em linha reta a distância de La Guaira a Caracas, o
caminho acidentado alongava-se por mais do triplo da distância,
serpenteando pela cordilheira, fazendo que o viajante sofresse
todo tipo de solavancos na rústica diligência. À medida que o
veículo ia subindo a montanha, baixava a temperatura: Martí

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relata que, primeiro, quis “despojar-se de toda a sua roupa” e,


depois, buscou “as do vizinho”,4 um dos dois comerciantes de
La Guaira que o acompanhavam.5
A viagem foi lenta, e, seguramente, houve muito tempo
para conversar, principalmente porque o cubano era de palavra
fácil e estava interessado no panorama que se oferecia a seus
olhos, permitindo-lhe desfrutar “o saboroso ar do perigo”, pois,
às vezes, entre precipícios, andava-se a mais de 2 mil metros
de altura.
Os viajantes passaram por Curucutu, El Salto, La Venta,
Torrequemada e Sanchorquiz, onde houve uma parada para
almoçar. Tendo retomado a marcha, passaram por Los Castillos
e Ávila, de onde se vê o vale, com seus rios e a formosa capital.
Um certo misticismo latino-americanista deve ter tomado
conta de Martí diante desta vista, que chamou de “a Jerusalém
dos sul-americanos”. Já era noite fechada quando entraram em
Caracas e, sem sacudir o pó do caminho, Martí – como contaria
muitos anos depois às crianças da América em A Idade de Ouro
– foi render uma homenagem silenciosa a Simón Bolívar.
Aquele 20 de janeiro de 1881 foi, portanto, agitado, física e
emocionalmente, para José Martí.
Qual era o objetivo daquela viagem? Por que abandonou
Nova York? O que procurava na Venezuela?
É curioso observar que quase nenhum estudioso da vida
do mestre fez-se essas perguntas, apesar de haver testemunhos
daqueles que fizeram objeções à viagem a Caracas, e de se saber
que a idéia de abandonar Nova York não foi impensada: pelo
menos esteve considerando-a por vários meses, como se deduz

4
J.M.: “Uma viagem à Venezuela”, O.c., t. 19, p. 158.
5
Francisco J. Ávila: Ob. cit., p. 65.

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de sua carta a Emilio Nuñez, de 13 de outubro de 1880 – estan-


do próxima a volta a Cuba da esposa e do filho – em que escreve:
“lançar-me-ei por terras novas ou permanecerei aqui”. A meu
ver, não parece possível atribuir a uma única razão a motivação
que levou Martí a mudar de ares: com toda segurança, influíram
nesta decisão problemas íntimos e políticos.
Geralmente, vincula-se a partida para a América do Sul
exclusivamente a seu drama familiar. Precisamente em 21 de
outubro de 1880, a esposa Carmen Zayas-Bazán e o filho, que
ainda não completara dois anos, regressaram a Cuba, diante das
dificuldades materiais pelas quais passavam na cidade do Norte.
Para a camagueyana bem nascida, desejosa de uma infância
sem problemas materiais para Pepito, era incompreensível a
persistência do marido em suas atividades revolucionárias que
impediam seu regresso à Ilha para exercer a advocacia – profis-
são que, como ela esperava, manifestaria o talento de Martí –,
e para aproveitar as relações de seu pai, Francisco Zayas-Bazán,
com os círculos proprietários, o que lhes propiciaria uma vida
sossegada e sem problemas financeiros.
Diante dessa cisão, pensou-se que Martí partiu para Ca-
racas em busca de uma estabilidade econômica que garantisse
a reunião da família, pois em sua correspondência de Caracas
mostra o desejo de que a esposa vá para a Venezuela. Esse racio-
cínio não é totalmente equivocado, visto que, segundo todos
os indícios, Martí não dispôs de renda fixa durante o ano de
1880.6 Parece mesmo que as dificuldades econômicas persisti-
ram até o fim de sua permanência em Nova York, pois se disse

6
Pelo que se sabe, apenas recebia dinheiro por suas colaborações para o jornal The New
York Sun e o semanário The Hour e durante muito pouco tempo, por aulas de espanhol
que dividia com sua esposa, o que mostra os apuros pelos quais passavam.

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que foi o diretor do The Sun que ajudou Martí nas despesas da
viagem à Venezuela,7 em troca de suas colaborações. Mas tudo
isso explica apenas o desejo de abandonar Nova York, e não a
opção pela capital venezuelana.
Sabe-se que durante seu primeiro ano em Nova York, Martí
manteve amplas relações com a colônia latino-americana resi-
dente na cidade, porque, além da proximidade espiritual com os
cubanos, esta apoiou com freqüência as gestões e atos indepen-
dentistas dos antilhanos. Hospedou-se o tempo todo na pensão
de Carmen Miyares de Mantilla,8 cubana com um ramo familiar
venezuelano pelo lado paterno. Ali também se hospedava gente
vinda de toda a América Latina e, principalmente, da Venezuela.
Sabe-se que desde então Martí já estabelecera relações amistosas
com os venezuelanos Nicanor Bolet Peraza e com o poeta Juan
Antonio Pérez Bonalde, ambos no exílio devido à sua oposição
ao presidente do país, Antonio Guzmán Blanco.
Ainda que as amizades venezuelanas – talvez até a própria
Carmen Miyares – tenham mostrado a vida em Caracas com
boas perspectivas, o cubano percebeu que seus amigos anti-
Guzmán opunham-se à viagem. O próprio Bolet Peraza ten-
tou dissuadi-lo, pintando em tons sombrios o regime político
existente em sua pátria.9 Estes dados aumentam o interesse de

7
Félix Lizazo: Martí, místico do dever, Buenos Aires, Editorial Losada S.A., 1952, 3a ed.,
p. 163.
8
Jorge Mañach: Martí, o Apóstolo, México, D.F., Editorial Espasa-Calpe, Argentina,
S.A., 1952, 4a ed., p. 143. A mais recente edição cubana foi feita em Havana, pela
Editorial de Ciencias Sociales, em 1990.
9
Nicanor Bolet Peraza: “José Martí como literato”, em Assim viram Martí, Havana,
Editorial de Ciencias Sociales, 1971, p. 19. Assim foi relatado por Bolet Peraza em um
discurso pronunciado em 19 de maio de 1896, em Nova York. Bolet se indispusera
com Guzmán Blanco em 1877, embora já em 1867 desse seu apoio aos conserva-
dores, por ocasião da revolução azul. Depois de intrigar com Alcântara, o sucessor
de Guzmán Blanco, para afastá-lo do Ilustre Americano, o triunfo armado dos

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determinar o que o induziu a dirigir-se à Venezuela, contra


essas opiniões.
É lógico que Martí não pensou em radicar-se no México ou
na Guatemala, onde se mantinham governantes autocráticos
que conhecera durante sua permanência nos dois países; mas
não é uma especulação perguntar-se porque não se dirigiu
a outros países da América do Sul ou da América Central, a
Honduras, cujo presidente liberal, Marco Aurélio Soto, abria as
portas do país, precisamente naquele momento, aos combaten-
tes cubanos pela independência; além disso, Martí se relacionara
com muitos de seus colaboradores durante sua permanência
na Guatemala e, possivelmente, durante sua breve passagem
por Honduras, no caminho de regresso a Cuba, entre julho e
agosto de 1878.
Sem desconsiderar a preocupação com a estabilidade fa-
miliar, parece adequado pensar que sua atividade em favor da
independência cubana teve uma influência significativa em sua
opção pela Venezuela.
Vale lembrar que, em março de 1880, com a saída de Calixto
García para pôr-se à frente das operações da Guerra Chiquita
(Guerra Pequena), Martí tornou-se o presidente interino do
Comitê Revolucionário de Nova York, órgão máximo dos pa-
triotas cubanos que continuavam a luta armada. De fato, desde
seu regresso a Cuba, depois do Pacto de Zanjón, convertera-se
em um revolucionário profissional, dedicado de corpo e alma à

guzmancistas, em 1879, levou-o a abandonar o país, estabelecendo-se em Nova York.


Foi um dos dois únicos exilados que voltaram à Venezuela quando, em meados de
1883, Guzmán Blanco incitou todos a voltarem à pátria, para o centenário do nas-
cimento de Bolívar. Pérez Bonalde, por sua vez, de família conservadora, emigrada
por ocasião da Guerra Federal, exilou-se desde 1870 em Nova York, onde escreveu
uma sátira contra Guzmán Blanco.

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tarefa imediata de lograr a independência cubana, o que – como


já se disse – levou ao afastamento da esposa e do filho.
Como ele mesmo explicou – consciente de seu papel de
dirigente – na carta a Emilio Núñez de 13 de outubro de 1880,
autorizando-o a depor as armas, a Guerra Chiquita fracassara
devido à falta de união da emigração e desta com o interior
do país; além disso, com extrema acuidade compreendeu que
a nova tentativa bélica não lograra superar as dificuldades
que levaram ao malogro da Guerra dos Dez Anos. Ou seja, o
mestre compreendeu que havia graves problemas estratégicos
e de organização na condução do movimento revolucionário
cubano; em certo sentido, nas fileiras patrióticas já começava a
haver consciência dessa situação, pois eram freqüentes as críticas
à ausência, naquela ocasião, dos principais chefes da Guerra
Grande, especialmente Máximo Gómez e Vicente García.
No centro de toda aquela tempestade, por sua posição de
dirigente em Nova York, o homem que eletrizara com seu verbo
a emigração cubana da cidade, e que ganhara seu respeito em
poucos meses, explicava ao oficial mambi que começava um com-
passo de espera, que deveria ser aproveitado em tarefas de união e
organização para voltar à luta contra o colonialismo espanhol.
Os fatos demonstram que não faltava razão a Martí em sua
análise. Junto com o avanço organizativo do Partido Autonomista
dentro de Cuba – o qual ganhara alguns destacados insurgentes
da Guerra Grande –, durante a segunda metade de 1880, haviam
se exacerbado as disputas internas na emigração, à medida que
se verificava que a Guerra Chiquita perdia forças; boa parte dos
irredutíveis chefes orientais (originários da região de Santiago
de Cuba) que tinham participado do Protesto de Baraguá estava
presa, sendo que muitos deles na Espanha – para onde também
foi levado o chefe da luta, Calixto García, enquanto líderes de

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prestígio reconhecido, como Gómez e Maceo tinham que tra-


balhar a terra para ganhar seu sustento no exílio.
Parece que na Venezuela não se fizera propaganda patriótica
durante a Guerra Chiquita, apesar da simpatia que o presidente
Guzmán Blanco demonstrara por Cuba durante a Guerra Gran-
de, acolhendo o general cubano Manuel de Quesada, dando-lhe
dinheiro e permitindo o alistamento de um contingente vene-
zuelano e sua saída no navio Virginius, em junho de 1871, com
armas e munição para os insurgentes cubanos. Inclusive, apesar
do conflito diplomático com a Espanha que isso provocou, no
decorrer do qual foi expulso, no ano seguinte, o representante
peninsular em Caracas, Guzmán Blanco, permitiu a entrada
de Quesada. Em duas outras ocasiões, concedeu-lhe créditos
governamentais e permitiu que armas para os cubanos fossem
armazenadas em um castelo de Puerto Cabello. Mas não chegou
a reconhecer oficialmente a beligerância, nem a independência
da República de Cuba em Armas.10 Parecia possível o reatamento

10
Carlos Manuel de Céspedes y Quesada: Manuel de Quesada y Loynaz, Havana, Imprensa
Século XX, 3a ed., 1925, pp. 110-126, 183-187 e 116, respectivamente. Assim explica
esses movimentos, com luxo de detalhes. Em certo sentido, Guzmán Blanco pagou a
Quesada sua ajuda, pois quando este chegou à Venezuela, em 1870, ainda se guerreava
contra os conservadores, e o cubano entregou ao governo liberal 2.100 fuzis, assim
como transportou suas tropas no Virginius. Para Quesada, a retribuição do governo
liberal venezuelano demorou muito, embora ele mesmo tenha dito em carta a Carlos
Manuel de Céspedes que “de fato somos considerados beligerantes (na Venezuela),
pois exercemos os atos próprios daqueles”. O conflito subseqüente com a Espanha
e os que, por diferentes motivos, mantinha com outros governos, provavelmente
influíram na decisão de Guzmán Blanco de retirar das Câmaras, em 1872, a proposta
de reconhecimento da beligerância cubana, e de evitar o envolvimento de venezuela-
nos em uma nova expedição do Virginius, embora tenha mantido a ajuda econômica
a Quesada. Talvez esta não fosse totalmente desinteressada nem tão ampla quanto
desejaria Quesada, mas a solidariedade material do governo de Guzmán Blanco com
Cuba foi objetivamente mais efetiva do que a de muitas declarações feitas por outros
governos do continente. R.A. Rondon Márquez: Guzmán Blanco, o autocrata civilizador.
Parábola dos partidos políticos tradicionais na história da Venezuela (Dados para 100
anos de história nacional), Caracas, Tipografia Garrido, 1943, t. II, p. 217.

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da amizade do presidente venezuelano com a causa cubana; e,


aos olhos dos independentistas cubanos, deve ter sido altamente
desejável contar com semelhante apoio, pois, para os latino-
americanos de então, a Venezuela aparentava prosperidade, em
virtude de sua elevada renda oriunda da exportação de café e à
febre construtora que animava seu presidente, auxiliado pelos
recursos financeiros que obtinha graças a seus contratos com os
círculos bancários europeus. De outra parte, perto de Caracas,
em Riochico, porto de fácil comunicação por mar com a capital,
habitava o general Vicente García, com uma centena de seus
combatentes de Tunas. Estabelecidos ali há três anos, e dedicados
às fainas agrícolas, esse grupo de homens escaldados na luta cons-
tituía uma valiosa força política e militar caso fosse novamente
travada a luta armada em Cuba; evidenciando o reconhecimento
do significado político-militar de García, afirma-se que Guzmán
Blanco ofereceu-lhe a patente de major-general, que o cubano
não aceitou, argumentando que sua espada só seria usada para
defender a liberdade, e não em revoltas civis.11
Não há documentos nem textos conhecidos de Martí que
o afirmem, mas é plausível que, dadas suas opiniões sobre o
malogro da Guerra Chiquita, e a opinião de muitos chefes de
que se devia contar com o general Vicente García em um novo
esforço independentista, o mestre tivesse entre seus objetivos,
indo para a Venezuela, algum tipo de convite a García ou, pelo
menos, conversar com ele sobre a problemática cubana e os
caminhos para sua solução.
Do texto da carta a Emilio Núñez deduz-se que este heróico
combatente, o último a depor as armas na Guerra Chiquita,

11
Gerardo Castellanos: Perfis. Ensaios biográficos, Havana, Imprensa P. Fernández e Cia.
1910, p. 23.

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querendo manter-se na luta, instou ou esperou de Martí – en-


quanto presidente do Comitê Revolucionário – algum contato
com García. A resposta de Martí mostra a falta de comunicação
entre Nova York e Riochico, ao mesmo tempo em que evidencia
suas reservas com relação ao comandante, originário de Tunas.
“O que o general Vicente García poderia fazer hoje, poderia ter
sido feito antes: e se então, seja por ciúme, seja por fraqueza de
vontade, por remorso, ou falta de recursos – que tudo é possível
– não foi feito, não é natural que tentasse fazê-lo hoje. A guerra
assim retomada não responderia às necessidades urgentes e aos
graves e gerais problemas que afligem Cuba. Eis porque não
respondo, nem aconselho ao senhor que espere sua resposta,
como poderia aconselhá-lo que esperasse”.
As palavras finais, em que se nega a apelar a García naquele
momento, devem ser motivadas, a meu ver, mais do que por
suas reservas em relação à pessoa do general, pelo problema de
conjunto que Martí via no movimento revolucionário cubano
de então: não se podia manter a luta armada sem contar com o
povo; a Revolução não era obra de caudilhos nem de grupelhos.12
E, por que não pensar que, com tanta clareza, Martí já estaria,
em 1881, com a disposição de ir sondando vontades com espírito
unitário para reativar a causa cubana em novas bases?
Parece adequado conjecturar que um conjunto de circuns-
tâncias pode ter levado Martí a pensar que sua transferência
para a Venezuela poderia ser útil a suas gestões independentistas.
A esse respeito, são significativas as palavras do venezuelano
Nicanor Bolet Peraza, que falou longamente com Martí sobre

12
“Um punhado de homens, empurrado por um povo, consegue o que conseguiu
Bolívar (...). Mas, abandonado por um povo, um punhado de heróis pode chegar a
parecer, aos olhos dos indiferentes e dos infames, um punhado de bandidos”. (Idem.
Epistolário, ob. cit., t. I, p. 203).

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aquela viagem. Este disse, em 1896, “que, durante aqueles


dias já distantes da peregrinação que José Martí empreendeu
pelos povos da América, atrás de calor para a idéia redentora
que o absorvia, fosse a Caracas (...)”. E, sem mencionar fontes,
Santiago Key-Ayala afirma que o cubano foi para a Venezuela
buscar apoio governamental para a independência de Cuba.13
E, no próprio país sul-americano, Martí confirmou seu com-
promisso com a causa cubana, em público, na noite de 21 de
março, quando disse, no Clube do Comércio:
Lutei em minha pátria, e fui vencido (...). Mas, em vez de estender-me
à sombra de nossas paineiras, chorando sobre os cadáveres de nossos
heróis, desdenho o pranto inútil, porque a obra há de honrá-los mais
do que o pranto; e venho, com todo o brio de uma dor nova, não im-
portunar em hora imprópria, paixões simpáticas, não tirar proveito,
com clamores femininos, de nossas patéticas desgraças, não passar
com olhos chorosos e melancólica postura uma dor fácil no seio de
um povo benévolo; oferecendo, vingo nossas dores.
Assim, com linguagem ambivalente de alguém que não quer
colocar em posição diplomática incômoda o governo que lhe
permitiu entrar no país, termina afirmando de todos os modos
que foi a Caracas para expor a questão cubana, da qual, aliás,
tratou amplamente naquele discurso.
Por isso, em carta pessoal no dia seguinte, manifesta a mo-
tivação da viagem, aludindo a sua persistência no combate pela
independência: “De cair venho, do lado da honra. Mas perder
uma batalha não é mais do que o dever de ganhar outra. Para

13
Santiago Key-Ayala: “Caracas em Martí”, em Revista Nacional de Cultura, Caracas, no
96, janeiro-fevereiro, 1953, p. 10. Não existe texto de Martí, nem nenhum docu-
mento, que confirme gestões do revolucionário cubano nesse sentido, durante sua
permanência em Caracas; é verdade que, se tais iniciativas ocorreram, devem ter
sido acompanhadas da mais absoluta discrição.

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servir modestamente os homens me preparo; para andar, com


o livro no ombro, pelos caminhos da vida nova; para auxiliar,
como humilde soldado, todo brioso e honrado propósito; e para
morrer de mão com a liberdade, pobre, mas altaneiro.14

Caracas: “ali deixei o melhor de minha vida”


Situada no sopé da montanha Ávila e se estendendo até o
vale vizinho, Caracas, que sempre agradou por seu ar fresco e
sua luz clara, oferecia então aos viajantes o inesperado prazer
de ter suas ruas interrompidas pelo caprichoso curso de três
córregos: o Corvate, o Catuche e o Anauco, afluentes do rio
Guaire, que refrescava o lado Sul da cidade. Economicamente, a
capital venezuelana era ainda, na década de 1890, o que sempre
fora: uma cidade agrícola e comercial, para onde convergia a
produção das terras cultivadas ou de pastoreio das planícies do
interior, rodeada ela mesma por cafezais e canaviais. Mas é certo
que o triunfo liberal que levou Guzmán Blanco ao poder em
1870 produzira mudanças em sua aparência: o presidente, co-
nhecedor das cidades européias e estadunidenses, empenhou-se
em modernizar e embelezar o aspecto e os costumes de sua ci-
dade. Assim, em 1881, no exercício de seu novo mandato como
presidente, já existia o correio urbano, enquanto que, naquele
ano, seriam inaugurados os trabalhos de iluminação pública a
gás, o transporte por bondes e as comunicações telegráficas com
a Colômbia; no ano seguinte seria instalada a primeira linha
telefônica com La Guaira. Numerosas construções ampliaram
suas ruas; novas edificações foram motivo de admiração para
seus habitantes, uns 55 mil naquela época. E, também, o país

14
J.M.: Carta a Fausto Teodoro de Aldrey, 22 de março de 1881, O.c., t. 7, p. 266.
Epistolário, ob. cit. t. I, pp. 209-210.

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mostrava um novo clima espiritual, pois o positivismo começava


a tomar conta das mentes, enquanto a proteção oficial às artes
e às letras propiciava uma plêiade intelectual ansiosa por expor
suas aspirações e talentos.
Em janeiro de 1881 Caracas era, sem dúvida, uma cidade
animada, ativa dia e noite, sobretudo para a casta dirigente da
política, da economia e da cultura. Mas o interior continuava
despovoado (2 milhões de habitantes em mais de 900 mil
quilômetros quadrados, ou seja, cerca de dois habitantes por
quilômetro quadrado) e a vida continuava rude e primitiva nas
planícies e nos Andes, onde uma agricultura sem avanços téc-
nicos e uma pecuária primitiva asseguravam minguada renda
a uma população que apenas subsistia. País de contrastes era
aquela Venezuela em que uma elite reduzida aspirava e desfru-
tava do progresso do século 19.
Martí chegou a Caracas bem amparado. Trazia cartas de
apresentação de Carmita Miyares e de Nicanor Bolet Peraza.15 A
primeira escrevia a uma prima, Mercedes Smith de Hamilton,
vagamente aparentada a Guzmán Blanco. Não sabemos para
quem eram as cartas de Bolet, mas deviam ser dirigidas a altos
personagens daquela sociedade, pois o exilado anti-Guzmán era
um político bem conhecido e um homem de letras que colaborara
em A Opinião Nacional e fundara seu próprio jornal, A Tribuna
Liberal, onde atacou a obra de Guzmán Blanco. Uma amostra de
que não teve maiores dificuldades em suas relações iniciais é o
fato de Martí alojar-se na própria residência de Mercedes Smith,16

15
Jorge Mañach (ob.cit., p. 143) e Gonzalo de Quesada y Miranda: Martí homem, Havana,
1940, p. 149.
16
Filha de Guillermo Smith, inglês membro da Legião Britânica, que combateu junto
a Bolívar, durante as lutas pela independência, tendo ocupado cargos importantes
no Estado venezuelano.

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visitar a redação de A Opinião Nacional e ver sua presença em Ca-


racas saudada nas páginas da publicação,17 e, ainda, o fato de ter
assistido ao primeiro dia das festas carnavalescas em companhia
de Diego Jugo Ramírez, militar da reserva e escritor guzmancista,
cuja esposa deu ao cubano um buquê de violetas que este guardou
carinhosamente por muito tempo.18
Na rua chamada então Santa Capela,19 esquina com Mijares,
diante da bonita Praça de Altagracia, em uma casa de amplas
janelas, identificada pelo número 26 ½, viveu Martí em Cara-
cas. Na residência havia uma modesta biblioteca, assim como
numerosos jornais arquivados, que seguramente despertaram
seu interesse.
Essa relação com uma família de distinta linhagem indepen-
dentista, da alta sociedade da capital, seguramente contribuiu
para abrir novas portas em Caracas para Martí. Por isso, ainda
que não saibamos a data exata, não é estranho que o encontre-
mos, pouco depois de sua chegada, dando aulas de francês e de

17
“Este ilustre escritor cubano que há alguns anos era redator, no México, da Revista
Universal, encontra-se em Caracas, onde se dispõe a fixar residência. Tivemos o pra-
zer de conversar com ele, na visita que se dignou fazer-nos, quando ganhou nossas
sinceras simpatias. Desejamos cordialmente que seja feliz entre nós, para que adote
a Venezuela como sua segunda pátria, tão generosa e providente quanto a que lhe
deu o ser”. (“Crônica”, A Opinião Nacional, 28 de janeiro de 1881. Ver supra nota
3). Certamente, a referência à colaboração de Martí na Revista Universal não permite
qualificar – como faz Morales – como “algo evidente” que Aldrey tenha conhecido
o cubano por aqueles escritos, a maioria dos quais publicados com o pseudônimo
de Orestes ou sem assinatura. Essa colaboração pode ter sido conhecida por meio
do próprio Martí, na ocasião de sua visita ao jornal de Caracas.
18
J.M.: Carta a Diego Jugo Ramírez, 9 de dezembro de 1881, O.c., t. 7, pp. 268-269.
Epistolário, ob. cit., t. I, pp. 218-219. Jugo participara da Assembléia Popular de 5 de
julho de 1869, em Caracas, ocasião em que foi solicitado o reconhecimento de Cuba
e de Porto Rico.
19
Francisco J. Ávila (ob. cit., p. 66) e Gustavo Sotolongo y Sainz: “Martí na Venezuela”,
em O Fígaro (Havana, 26 de julho de 1925), p. 396.

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literatura no Colégio Santa Maria,20 famosa instituição fundada


em 1859 por seu diretor, o engenheiro Agustín Aveledo, que
também contribuiu para expandir as relações do cubano.
Um jovem estudante universitário daquela época descreveu
assim o revolucionário cubano: “de expressão garbosa e respei-
tável, de olhar penetrante e luminoso, de testa ampla e livre,
como para conter muitos pensamentos elevados; de modos
cultíssimos, de atividade constante e destacada, e de tal modo
comunicativo, franco e atraente, que, recém-chegado, tornou-se
dono de vontades, teve amigos e admiradores”.21
Como se verifica nessas lembranças, o cubano tornou-se
rapidamente uma figura conhecida da sociedade ilustrada de
Caracas, reduzida em número e unida por laços de parentesco
e interesses materiais. Desde seus primeiros tempos na cidade
é figura freqüente nos salões onde costumava se reunir aquela
elite, para falar de arte e de literatura, fazer negócios e resolver
todo tipo de intrigas políticas; visita numerosas residências
e lê muitos livros de autores venezuelanos sobre história e
assuntos diversos relativos ao país. Há, inclusive, testemunho
de que Martí era assíduo freqüentador do solar dos condes de
Tovar, uma das famílias de Caracas de ascendência mais antiga,
onde segundo se diz, chegou a presidir uma atividade cultural
integrada por jovens.22 Também passeava com freqüência pela

20
Agustín Aveledo (Itinerário biográfico e sentimental de José Martí, Caracas, Impressores
Unidos, 1938, p. 17), Gonzalo de Quesada y Miranda (Martí homem, ob. cit., p. 51)
e Jorge Mañach (ob. cit., p. 147) afirmam que o contrataram depois do discurso
pronunciado no Clube do Comércio, em 21 de março.
21
Juvenal Anzola: “Lembranças universitárias”, em Venezuela a Martí, Havana, Publi-
cação da Embaixada da Venezuela em Cuba, 1953, p. 31.
22
Jesús A. Cova: Ob. cit., p. 736. Agustín Aveledo (ob. cit., nota no 3, p. 18) que,
baseando-se nos relatos de seu avô, conta que nessa casa este apresentou a Martí o
padre Mendoza “de candente oratória”.

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cidade e seus arredores aos domingos, em companhia do poeta


e corretor da bolsa, Eloy Escobar.23
Se em alguns círculos da capital Martí ainda era desconheci-
do, ganhou notoriedade plena com o discurso que pronunciou
na noite de 21 de março de 1881 no Clube do Comércio de
Caracas. A instituição acabava de ser fundada e ocupava uma
casa com balcão situada entre as esquinas de La Palma e o Tea-
tro Municipal.24 O público era numeroso, famílias completas,
conforme o costume da época, embora predominassem os
jovens, organizadores do evento e admiradores do cubano nas
aulas, nos salões e em suas palestras no pátio cheio de árvores
da universidade.25 Na tribuna, cercavam Martí, Felipe Tejera,
Aldrey e os administradores do Clube, Antonio J. Ponter e Eloy
Escobar. Estes tinham concordado em celebrar o ato em carta
resposta, datada do dia 18, à solicitação feita em 8 de março na
missiva assinada por Aristides Rojas, Diego Jugo Ramírez e
Guillermo Tell Villegas.26
O longo fragmento conservado do discurso mostra idéias
de cunho latino-americanista tão novo nos salões de Caracas
como a copiosa e complexa prosa em que eram expostas. A

23
O próprio Martí recordou esses passeios em um artigo publicado em O Economista
Americano, em fevereiro de 1889, por ocasião da morte de Escobar. J.M.: “Eloy Es-
cobar”, O.c., t. 8, p. 203.
24
Gonzalo Picón Febres: A literatura venezuelana do século 19 (Ensaio de história crítica),
Caracas, Empresa El Rojo, 1906, p. 154, e Jorge Mañach, ob. cit. p. 145 dizem que o
discurso foi pronunciado deste balcão, o que, ao que tudo indica, está errado, segundo
os testemunhos conservados.
25
Jesús A. Cova: “Venezuela e os venezuelanos na prosa de José Martí”, em Memória
do Congresso de Escritores Martianos, Havana, 1953, p. 736.
26
Aurelio Álvarez Echezarreta: Martí e a Venezuela, Corporação Venezuelana de fomento
(1977), p. 27. As duas cartas foram publicadas em A Opinião Nacional, em 18 de março
de 1881.

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descrição do que ocorreu naquela noite ficará melhor na pala-


vra entusiasmada de um dos jovens assistentes, Pedro Maria
Brito González.
Promoveu o Clube seu primeiro sarau artístico com o objetivo de apre-
sentar o eminente literato Dom José Martí (...) Toda Caracas já sabia que
Martí pronunciaria um discurso no ato de sua apresentação. A fama que
precedia seu nome dava direito a esperar um êxito estrondoso. (...) Sobe
Martí à tribuna; seu peito não palpitou devido ao temor, mas pinta-se
em seu semblante a complacência que lhe dá a convicção de seu próximo
triunfo. Com efeito, a realidade excedeu todas as expectativas criadas.
Não era um homem; era o gênio vivo da inspiração, personificado no
orador, que povoava o espaço com a harmonia de sua palavra, que in-
flamava os corações com o fogo da eloqüência varonil, que subjugava
as almas com o fluxo de misteriosa e irresistível simpatia. Todos pror-
romperam em frenéticos aplausos e gritos de entusiasmo no primeiro
pensamento saído dos lábios do orador; e aquele entusiasmo, e aqueles
aplausos, e aquelas demonstrações de carinho sincero foram crescen-
do, à medida que aqueles pensamentos eram ouvidos; ora vigorosos e
enérgicos quando implorava o nome da liberdade, para falar nesta terra
clássica do heroísmo, ora ternos e delicados, mas sempre novos, quando
descrevia com mágico arrebatamento a beleza de nossas mulheres e o
brilho das virtudes que resplandecem em suas frontes puras; quando,
mensageiro do futuro, predizia para esta América, o paraíso do mundo,
os triunfos mais gloriosos nas lides do progresso universal. Desceu da
tribuna e caiu nos braços de todos aqueles que o esperavam para dar-
lhe um testemunho do apreço e do respeito que merecem e inspiram as
almas generosas consagradas ao culto do dever e da virtude.27

27
Gonzalo Picón Febres: Ob. cit., pp. 156-157. A Opinião Nacional publicou uma longa
crônica sobre aquele serão, em 23 de maio de 1881. (Aurelio Álvarez Echezarreta:
Ob. cit., pp. 28-30).

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A emoção e o entusiasmo diante da eloqüência de Martí


foram tais que se diz que o cubano foi levado em triunfo pelos
estudantes até sua residência. Outro assistente – depois escritor
famoso – César Zumeta, declarou, anos mais tarde: “Não tenho
memória de um entusiasmo igual entre a juventude”.28
É significativo observar como, nas distintas versões de es-
pectadores e comentaristas daquela noite memorável, destaca-
se o entusiasmo manifestado pelos jovens estudantes: Martí
começava a ser o mestre, rodeado de discípulos. Entre aqueles,
ocorriam freqüentes demonstrações de rebeldia e desacato con-
tra o regime de Guzmán,29 razão pela qual não parece ousado
pensar que foi a pregação libertadora de Martí que encontrou
neles ouvido receptivo e que possivelmente, a partir daquela
noite, o presidente autocrata, sempre muito atento e adequa-
damente informado de quanto pudesse afetar seu exercício
do poder, fixou cuidadosamente sua atenção no cubano – se é
que já não o fizera – seguindo atentamente seus passos. A seus
olhos, com certeza Martí já era potencialmente perigoso por
sua influência sobre os jovens, e pela admiração e carinho que
despertava nos círculos da alta sociedade de Caracas.
Depois do discurso no Clube do Comércio, Martí foi soli-
citado insistentemente por seus jovens admiradores a dar um
curso de oratória. Guillermo Tell Villegas, que fora presidente
provisório durante o “governo azul” derrubado por Guzmán
Blanco, e que ganhava a vida com seu colégio Villegas, ofere-

28
José de la Luz León: “O que de Martí me disse seu amigo Zumeta”, no Arquivo José
Martí, Havana, v. 9, no 2, julho-dezembro, 1945, pp. 276-277.
29
José Luis Salcedo Bastard: História fundamental da Venezuela, Caracas, Universidade
Central da Venezuela, Organização do Bem-Estar Estudantil, 1970, pp. 342-343. Em
1879 criou-se uma sociedade secreta de jovens anti-Guzmán e, no ano seguinte, foi
preso o estudante José Gil Fortoul (Gonzalo Picón-Febres: Ob. cit.).

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ceu o salão principal do edifício para as aulas. Entre os alunos


estavam Juvenal Anzola, Luiz López-Mendez, David Lobos,
José Gil Fortoul, Lisandro Alvarado, César Zumeta, Victor
Manuel Mago, Andrés Alfonso, Ramón Sifuentes, Gonzalo
Picón-Febres, José Mercedes López, José Elias Landínez, Pedro
Maria Brito González. As aulas eram dadas várias vezes por
semana, de 8:00 às 10:00 horas da noite.30 Vestido sempre de
preto,31 a palavra amável, informada e apaixonada do cubano
arrebatou seu jovem auditório, a tal ponto que um dos assis-
tentes, Picón-Febres, conta que suscitou imitadores tais como
Gil Fortoul, Alejandro Urbaneja e Victor Manuel Mago, que,
a seu ver, exageraram na imitação. No próprio colégio, Martí
deu também aulas de francês.
A oratória martiana tomou novamente conta do Clube do
Comércio em 4 de maio,32 quando, a pedido do presidente da
instituição, dirigiu algumas palavras de despedida ao tenor
venezuelano Fernando Michelena, que partiria pouco depois
para a Itália, para estudar, patrocinado pelo governo.
A vida espiritual venezuelana começava a sofrer uma pro-
funda mudança por volta de 1881, que teria como fruto uma
geração que dominaria o final do século 19 e o começo do século
20. Depois da comoção da Guerra Federal (1858-1863) e das
vicissitudes políticas que se lhe seguiram, os Sete Anos (1870-
1877) e o Qüinqüênio (1879-1884) de Guzmán abririam uma
época de relativa estabilidade social e de apoio oficial às manifes-

30
Juvenal Anzola (ob.cit.) por ter sido seu aluno, é quem oferece mais segurança em
suas informações.
31
Lisandro Alvarado: “Uma lembrança de Martí”, epílogo a José Martí: Venezuela e seus
homens, Caracas, Editorial Cecílio Acosta, 1942, p. 153.
32
Aurelio Alvarez Echezarreta: Ob. cit., pp. 33-35. Embora Agustín Aveledo (ob. cit.) diga
que Martí fez três conferências nesse local, só encontrei memória destas duas.

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tações culturais, durante a qual, além disso, essa juventude dos


dias da permanência de Martí, educada sistematicamente nos
preceitos do liberalismo político e do cientificismo positivista,
iria se interessar pelo estudo da história e de alguns problemas
nacionais; buscaria novas formas de expressão literária, rompen-
do com os modelos românticos, e tentaria fincar em sua terra
bravia os ideais do progresso expostos nas obras de Comte e de
Spencer. Por isso o também jovem cubano, com uma extensa
informação sobre as idéias, as artes e as letras contemporâneas,
apesar de sua pouca idade, prestigiado por sua participação na
luta pela independência de Cuba, que inflamara tantos cora-
ções venezuelanos, e expositor constante da identidade latino-
americana com sentido unitário e modernizador, capitalizou
os ímpetos renovadores da juventude de Caracas.
É preciso chamar a atenção para o fato de que não apenas
os de menos idade entusiasmaram-se com Martí. O próprio
diretor de A Opinião Nacional escreveu em tom elogioso sobre
o discurso do Clube do Comércio, 33 e Diego Jugo Ramírez
enviou-lhe uma carta repleta de floreios lisonjeiros, na mesma
noite de 21 de março.34
A relação com Cecílio Acosta culminaria nessa espécie de
direção espiritual de Martí sobre a juventude de Caracas. 35
Advogado e um dos redatores do Código Penal venezuelano,
Acosta, então com 76 anos, era talvez o intelectual mais des-

33
Assim diz o próprio Martí em carta de agradecimento a Fausto Teodoro de Aldrey,
de 22 de março de 1881, O.c., t. 7, p. 265. Epistolário, ob. cit., t. I, p. 209.
34
J.M.: Carta a Diego Jugo Ramírez, 22 de março de 1881, O.c., t. 7, pp. 266-267.
Epistolário, ob. cit., t. I, p. 208.
35
Jorge Mañach: Ob. cit., nota no 20, p. 145. Mañach afirma que foi na casa de Acosta
que Martí conheceu muitos jovens intelectuais, e onde surgiu a idéia de que falasse
em um serão literário.

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tacado fora da Venezuela, por ser membro da Real Academia


Espanhola e membro honorário da Academia chilena de Belas
Artes. Apesar de manter-se afastado dos assuntos políticos,
dedicando-se a escrever sobre temas literários, sociológicos e
filosóficos (na ocasião da chegada de Martí acabava de terminar
uma obra sobre a influência do elemento histórico-político na
literatura dramática e no romance), Acosta era visto como a re-
presentação do anti-guzmancismo pelos inimigos do presidente,
desde que, depois dos Sete Anos, polemizara com Antonio
Leocádio, o pai de Guzmán Blanco.
Quando foi novamente posto a frente do país, por seus
partidários, em 1879, Guzmán Blanco não exerceu represálias
diretas contra o escritor, porém excluiu-o da Academia Vene-
zuelana de Literatura, reorganizando a instituição. A tolerância
presidencial permitia, entretanto, que a casa de Acosta conti-
nuasse sendo um dos centros da vida intelectual de Caracas,
onde possivelmente emergia a crítica da política do governo,
mas aonde não se recusava a ir Fausto Teodoro de Aldrey, o
espanhol que dirigia o jornal oficialista A Opinião Nacional.
Portanto, nada mais natural do que Martí ser recebido com
freqüência na casa do sábio, por quem professou respeito e
carinho, como evidencia o que escreveu por ocasião da morte
de Acosta, apesar do manifesto antagonismo de caráter e de
personalidade entre ambos. O médico e escritor venezuelano
Lisandro Alvarado contou que encontrou Martí um dia, na casa
de Acosta, que naquele momento recebia também a visita do
arcebispo da cidade, Silvestre Guevara y Lira, além de um co-
lombiano de sobrenome Rincón, descrevendo assim o cubano:
“Seus modos, educados e distintos; sua conversa, viva e afável;
sua imaginação, rápida e inquieta. Conservava um sorriso
benevolente, um ar de ingenuidade que um hipócrita teria em

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vão tentado aprender, enquanto nele era véu de discrição, posto


que servia maravilhosamente para dissimular sua vasta erudição.
Parecia diminuído em seu porte intelectual, quase como um
jovem qualquer, quanto à vivacidade e ao talento”.
A permanência na Venezuela transcorreu, portanto, fa-
voravelmente para Martí. As aulas em dois colégios famosos
garantiam-lhe recursos econômicos – não sabemos se elevados,
mas, pelo menos, fixos – suscetíveis de ampliação por meio da
colaboração em A Opinião Nacional,36 e a sociedade de Caracas
tinha prazer com sua presença, num amplo leque que abrangia
tanto políticos quanto homens de letras e de ciências, assim
como colaboradores e inimigos de Guzmán Blanco. Talvez
a pregação do cubano pudesse servir aos adversários de Guz-
mán para criticar o sistema autocrático existente na Venezuela,
mas Martí, pelo visto, seguindo o princípio que praticara na
Guatemala, não emitia opiniões explícitas contra o mandatário,
mantendo estreitas relações com todos os setores de opinião
venezuelanos.
É evidente que sua boa estrela na Venezuela levou-o a tentar
reunir-se à esposa e ao filho.37 Carmen Zayas-Bazán alojara-se
por um certo tempo em casa de umas tias, em Camagüey. Ao
receber o chamado de Martí, transferiu-se para Havana, para a
casa de Manuel Garcia e de sua esposa, Leonor Martí, La Chata,
e consultou várias pessoas sobre a viagem ao país sul-americano,
entre elas Nicolas Azcárate, em cujo escritório de advocacia
Martí trabalhara durante sua permanência em Havana, entre

36
Suas primeiras publicações em A Opinião Nacional foram os dois artigos dedicados
a Calderón de la Barca, em 15 e 28 de junho de 1881, intitulados “O centenário de
Calderón”.
37
Suas cartas a Carmen Zayas-Bazán não foram guardadas, mas o assunto fica claro
em algumas cartas conservadas, dirigidas a Martí por ela e outros familiares.

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1878 e 1879. Esta foi uma das pessoas que a persuadiu a não ir
a Caracas com seu filho, enquanto o esposo não dispusesse de
renda suficiente. Finalmente, estimulada porque os amigos de
Martí em Cuba não viam com bons olhos sua ida à Venezuela,
e encorajada pelo desejo de assegurar à criança uma infância
tranqüila, Carmen voltou a Camagüey, para a casa paterna, em
9 de julho.38
Em Caracas, Martí, ignorando tanto as pressões sobre Car-
men para que não empreendesse a travessia, como sua volta a
Camagüey, dedica horas de emocionada lembrança a seu filho,
diante de um retrato do menino, que enfeita com o ramo de
violetas presenteado pela esposa de Jugo Ramírez no primeiro
dia de carnaval.39 Desde a viagem por mar, em janeiro, o amor
paterno fez pulsar a sensibilidade do poeta. Surge o livro de
versos Ismaelillo, que será publicado no ano seguinte em Nova
York.40 E, em 6 de julho, certamente levado pela boa acolhida
do primeiro número da Revista Venezuelana, insistiu, em carta
a Carmen, para que se transferisse para Caracas.
A Revista era um velho sonho de seus dias da Guatemala, quan-
do lançara um prospecto anunciando a saída de uma publicação

38
Cartas a Martí de Manuel Garcia, de 9 e 17 de agosto de 1881, em Papéis de Martí,
ob. cit., nota no 17, p. 28. Também em Destinatário José Martíi, ob. cit., pp. 66-67). Em
evidente oposição à presença de Martí na Venezuela e mostrando a influência que
exerciam sobre Carmen os que a rodeavam, o próprio cunhado escrevia assim a
Martí, em 17 de agosto: “é uma lástima que um homem de tanto valor tenha ido
perder tempo em um lugar tão miserável e com um futuro tão pouco feliz”.
39
J.M.: Carta a Diego Jugo Ramírez, 9 de dezembro de 1881, O.c., t. 7, pp. 268-269.
Epistolário, ob. cit., t. I, pp. 218-219.
40
O processo formador do livro foi estudado por Angel Augier por meio dos aponta-
mentos martianos de 1881. J.M.: Cadernos de notas, O.c., t. 21, pp. 157-247. O próprio
Martí afirmou que foi em Caracas que escreveu os quinze poemas que formam
Ismaelillo (Carta a Diego Jugo Ramírez, 9 de dezembro de 1881, O.c., t. 7, p. 269.
Epistolário, ob. cit., t. I, pp. 218-219).

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que difundiria na América Latina os avanços ocorridos em outras


latitudes e que contribuiria para o esclarecimento da identidade
continental. Agora, na Venezuela, a empresa começa com êxito:
em 1o de julho sai o número 1, com 32 páginas de uma coluna,
onde Martí explica os objetivos da Revista, comenta três livros
venezuelanos41 e traça o perfil do independentista venezuelano
Miguel Peña.42 Lisandro Alvarado e Romero García contribuí-
ram monetariamente para os primeiros gastos com a impressão,
efetuada nas oficinas de A Opinião Nacional. Foi Eloy Escobar que
sugeriu como tema central dessa edição a figura de Peña, pois, no
final de junho, Guzmán Blanco transferira-se para a cidade de
Valência para inaugurar a estátua do patriota. Como estava em
busca de assinaturas, tanto os exemplares do primeiro quanto os
do segundo número foram presenteados por Martí.43
Assim, pois, apesar da ajuda dos amigos, os gastos com a
saída da Revista devem ter conspirado contra a renda de Martí,
embora fosse de se esperar que as assinaturas cobrissem as
despesas em um futuro não muito distante, dada a calorosa
acolhida recebida pela publicação e a amplitude de relações de
seu editor.
Essa recepção favorável confirma-se com as palavras de
simpatia expressas pela imprensa venezuelana: “Recebemos o

41
“Dicionário de vocábulos indígenas”, O.c., t. 7, pp. 200-204. Trata-se do Ensaio de
um dicionário de vocábulos indígenas, de Aristides Rojas: “Venezuela heróica”, Eduardo
Blanco; e o poema “La venezoliada”, de José Maria Núñez de Cáceres.
42
J.M.: “Don Miguel Peña”, O.c., t. 8, pp. 135-150.
43
Agustín Aveledo: Ob. cit., nota no 38, p. 22. Em uma nota publicada na contracapa do
número 2, estabelecendo as condições da assinatura, diz-se o seguinte: “Por generosa
indicação de respeitáveis amigos do Diretor da Revista, a publicação foi enviada a
várias pessoas da cidade. Destas, serão consideradas escritores (sic) e será dado recibo
a aqueles que não tenham manifestado, em aviso ou pelo correio, sua intenção de
não assinarem”.

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primeiro número da Revista Venezuelana, redigida pelo orador


e escritor senhor José Martí. Agradecemos a ele e comparti-
lhamos com a sinceridade de companheiros e admiradores sua
cortês saudação” (El Siglo). Dirigida pelo senhor José Martí,
apareceu na imprensa periódica a Revista Venezuelana. Seja bem
vinda a formosa companheira, a quem sinceramente oferecemos
nosso aplauso e amizade” (El Angel Guardián).44
A lista dos colaboradores publicada no primeiro nú-
mero indica o apoio do que havia de mais conceituado na
intelectualidade venezuelana daquele momento: o erudito e
versátil cientista Aristides Rojas; o pensador Cecílio Acosta;
os educadores Guillermo Tell Villegas e Agustín Aveledo,
também matemático e engenheiro; o historiador e roman-
cista Eduardo Blanco; o ensaísta, poeta, tradutor e autor de
textos para o ensino de idiomas antigos e modernos, José
Maria Núñez de Cáceres; o poeta e jornalista Félix Sou-
blette, nascido nas Ilhas Canárias; o tradutor de Horácio e
Ovídio, além de poeta, Jesús Maria Morales Marcano; os
poetas e amigos pessoais do editor Eloy Escobar e Diego
Jugo Ramírez; e os também poetas Francisco Guaycapuro
Pardo, Arismendi, o então muito popular Domingo Ramón
Hernández, Julio Calcaño, o satírico José Antonio Arvelo,
Heraclio Martín de la Guardia, e o poeta e jornalista cubano
residente em Caracas, Juan Ignácio de Armas.45 Quase todos
eles mantinham vida política ativa e muitos haviam sido

44
Salvador Morales: Ob. cit., nota no 3, p. 41, no 19. Este autor reviu a imprensa vene-
zuelana e apenas encontrou palavras de apoio à empresa martiana (A Opinião Nacional,
El Reflector, O Século, El Ateneo, El Mentor, El Angel Guardián). E acrescenta (idem, no
20) que José Antonio Cortina saudou-a na Revista de Cuba, Havana, novembro de
1881, t. X, p. 479.
45
J.M.: “Propósitos”, O.c., t. 7, pp. 199-200.

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militares; boa parte deles era partidária e apoiava o governo,


embora alguns fossem conhecidos opositores; mas, desde
esse primeiro número, Martí deixou bem claro que seus
fins com a publicação eram mostrar a cultura venezuelana e
difundir os avanços do homem em outras latitudes, animado
com explícitos propósitos latino-americanistas.
O segundo número apareceu com data de 15 de julho, mas
sua saída atrasou-se até o dia 21, porque Martí acompanhou-a
do Ensaio de dicionário de vocábulos indígenas, de Aristides Rojas,
comentado por ele no número anterior e publicado antes em
versão mais breve em A Opinião Nacional. Segundo Martí
anunciara, em uma carta do dia 15 a Fausto Teodoro de Aldrey,
publicada em A Opinião Nacional, esta demora seria de apenas
dois ou três dias. Naquele número foram incluídos dois textos
do cubano: um expunha seu ideário estético e seus pontos de
vista latino-americanistas frente a algumas críticas recebidas
pelo primeiro número, e um extenso ensaio sobre Cecílio Acos-
ta, falecido em 6 de julho.46 Completavam o número uma carta
de Guillermo Tell Villegas ao historiador Eduardo Blanco, um
poema pela morte de Acosta, saído da pena de Jugo Ramírez,
um trabalho histórico sobre o congresso independentista de
1811, assinado por Lisandro Alvarado, e um pequeno poema
de Eloy Escobar, intitulado “A quem?”.
Só uma semana mais durou a permanência de Martí em
Caracas, depois da saída da segunda edição da Revista. Parece
que esta desencadeara a cólera de Guzmán Blanco, que rea-
gia com violência repressiva a toda manifestação direta ou

46
Martí soube de sua morte no mesmo dia, enquanto passeava pela Ponte de Ferro –
na época, a melhor avenida de Caracas – no carro de seu amigo rico, Eloy Escobar
(Francisco J. Ávila: Ob. cit., nota no 5, p. 85).

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indireta contra seu poder, em conseqüência do falecimento


de Acosta. O enterro do sábio ocorrera em silêncio, “em uma
quase clandestinidade”.47 Um amigo de Acosta, o presbítero
José Leon Aguilar, atreveu-se a dizer umas palavras diante do
túmulo e foi detido, encarcerado, maltratado e exilado. Suas
palavras contra a tirania aparecem em um informe policial do
ministro Nicanor Borges a Guzmán Blanco, de 18 de julho; a
detenção, no entanto, não aparece na crônica policial diária de
A Opinião Nacional.48
O próprio Martí, em um fragmento datilografado de data
desconhecida, em óbvia referência ao escrito sobre Acosta, diz
que este tem apenas os méritos de ter sido preparado no correr
da pena, rapidamente, e de lembrar suas conversas, “fresco
ainda o horror de ter visto morrer tal homem pouco menos
que de fome, sufocado como uma ave na máquina do ódio de
seu mesquinho inimigo Guzmán Blanco, e em dias em que
atrever-se a honrar aquele admirável infeliz era afrontar as iras
de seu ódio”.49
Não está totalmente claro como se deu a expulsão de
Martí, embora os elementos anteriores, assim como a discri-
ção oficial que acompanhou sua saída, indique que a decisão
foi tomada, seguramente, pelo próprio governante. Alguns
dizem que este conversou com o cubano, exigindo que, frente
ao elogio a Acosta, e como retratação, publicasse elogios na
Revista Venezuelana, o que Martí teria recusado, provocando

47
Jean Lamore: “José Martí frente aos caudilhismos da época liberal (Guatemala e
Venezuela)”, em Anuário do Centro de Estudos Martianos, Havana, no 3, 1980, p. 142.
48
R. A.Rondon Márquez: Ob. cit., nota no 24, t. I, p. 243. O presbítero Leon disse
apenas no enterro: “Cecilio Acosta jamais inclinou a cabeça frente a tirano algum”.
Por estas palavras esteve seis meses na prisão e seis anos exilado.
49
J.M.: Fragmentos, O.c., t. 22, p. 323.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

a ameaça do presidente.50 Há um testemunho de um assessor


presidencial, o coronel Antonio Nicolas Briceño, que afirmou
em sua velhice ter recebido a missão de comunicar a Martí a
ordem de abandonar a Venezuela.51 O certo é que, na noite de
27 de julho, Martí despediu-se de Escobar e de sua família,52
depois de solicitar uma pequena soma a Aristides Rojas para
comprar a passagem até Nova York,53 e escreveu uma carta de
despedida a Aldrey54 reafirmando seu amor pela Venezuela e
professando sua fé latino-americanista, que foi publicada em
28 de julho em A Opinião Nacional, com uma nota do diretor,
comunicando a partida do cubano naquele dia.55
Tais fatos, e a posterior colaboração de Martí, de Nova York,
nesse jornal, indicam que sua saída foi decidida, e discretamente
manipulada, de muito alto, pois mesmo colaboradores próximos
ao presidente não ficaram sabendo de sua verdadeira motiva-
ção. Ainda em 1o de agosto, A Voz Pública, jornal de Valência,

50
Félix Lizaso (ob. cit., p. 19), Jesús A. Cova (ob. cit. nota no 45, p. 737) e Jorge Mañach
(ob. cit., nota no 20, p. 150) afirmam que Guzmán Blanco fez chegar a Martí a “su-
gestão” de publicar algo sobre ele.
51
Francisco Pividal Padrón: “Briceño e Martí (Relato de algumas confissões surpreen-
dentes)”, em Bohemia, Havana, no 35, 29 de agosto de 1969, pp. 98-100.
52
Assim narrou Martí a despedida, no artigo mencionado em O Economista Americano:
“Venham, filhas minhas, venham dizer adeus a este hóspede que se vai de sua terra; e
dêem-lhe para que leve o melhor que temos! E a filha maior entrou na sala comovida,
trazendo nas mãos uma caixa de nácar”. (J.M.: “Eloy Escobar”, O.c., t. 8, p. 204).
53
O portorriquenho Sotero Figueroa, íntimo colaborador de Martí nas atividades sociais
e patrióticas em Nova York, assim afirmou, em Pátria, 25 de junho de 1895. Assim
viram Martí, ob. cit. nota no 21, p. 92; Francisco J. Ávila: Ob. cit., no 5, p. 95, afirma o
mesmo.
54
J.M.: Carta a Fausto Teodoro de Aldrey, 27 de julho de 1881, O.c., t. 7, pp. 267-268.
Epistolário, ob. cit., t. I, pp. 211-212.
55
Carlos Ripoll: Ob. cit., nota no 2, pp. 68-69; Manuel Isidro Méndez (ob. cit., nota no 2,
p. 125) reproduz o seguinte texto: “Não nos atrevemos a dizer aqui, onde há tantas
capacidades pátrias, que é, para as letras, a ciência e a oratória venezuelana, uma perda
a ausência de Martí, mas sim que o sentimos com profundo pesar, porque... são tão
raros neste mundo os homens bons, os homens de candura angelical”.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

surpreendia-se com a partida precipitada de Martí. E, naquele


mesmo dia, o jornal de Caracas O Século, propriedade de seu
editor, Alfredo Rothe, lamentava a saída de Martí e outra próxi-
ma, do também cubano Juan Ignácio de Armas, atribuindo-as
à reduzida população e à pobreza da Venezuela para acolher o
talento. O jornal assim evocava Martí, ao mesmo tempo em
que afirmava desconhecer a causa de sua partida:
Dom José Martí passou diante de nossos olhos como um brilhante
meteoro, deixando-nos surpresos com a vivacidade e a intensidade de
sua luz, e as variações de seus maravilhosos matizes. Nós o vimos, pela
primeira vez, em um dos inesquecíveis saraus que nos proporcionou
o Clube do Comércio, e sua palavra ardente, fácil, impetuosa, em que
as idéias se precipitam e se chocam, como pérolas, como diamantes,
como aço, cativou-nos. Depois, os dois números de sua Revista nos fez
conhecê-lo como escritor: a elegância da frase e a profundidade do con-
ceito parecem disputar o prêmio da beleza. Há ali um sentimento que
não nos permite a imparcialidade, que nos obriga ao agradecimento:
é a admiração por nossos homens e nossas coisas; esse amor de irmão
que busca pátria em nossos lares, que anseia repousar ao calor de nosso
Sol ardente e sob o carinhoso amparo de uma acolhida benévola. Mas,
não sabemos porque, teve o peregrino que tomar outra vez seu bordão
e, outra vez, continuar sua viagem; luminosa é a lembrança que nos
deixa e inesquecível será sua memória para todos os que sabem estimar
os elevados dotes que o distinguem, como homem de talento e como
homem de coração.
Parece que Martí também foi discreto quanto à razão que
motivava sua saída, tal como o fora quando abandonou a Gua-
temala, sentindo-se ferido com a atuação do presidente Justo
Rufino Barrios. Isso concorda com o interesse do revolucionário
cubano, igualmente manifestado durante sua permanência nos
Estados Unidos, em manter-se afastado da política interna, de

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

maneira que seus propósitos de maior alcance, para Cuba e para


América Latina, não fossem afetados por essas contingências.
Na Revista Venezuelana assim se expressou, quando declarou
que a publicação estava alheia “a toda paixão doméstica e casos
de debate interno”.
Poder-se-ia considerar o fato de Martí ter aceito a sugestão
de Escobar de escrever sobre Miguel Peña no número inicial da
Revista Venezuelana, com isso elogiando a atuação presidencial
que, ao calor do septuagésimo aniversário da declaração de
independência, homenageara o prócer independentista vene-
zuelano, como um sinal em direção contrária. Mas é evidente
que foi mais forte para ele o desejo de homenagear a efeméride;
talvez reconhecesse também como positiva a atuação patriótica
do governo já que, ao longo de sua vida, não deixaria de elo-
giar casos semelhantes. De toda maneira, e seja como for que
tenham sido julgados os objetivos desse texto pelo público de
Caracas, acostumado à exaltação das obras e das palavras do
presidente, não há indícios nem evidências de uma conduta
opositora ou mesmo de crítica pública de Martí ao governo
venezuelano.
Salvador Morales considera que, em torno da Revista Vene-
zuelana, foi se nucleando um significativo grupo de escritores,
cuja composição certamente chamou a atenção do governo. E
relaciona aqueles que, a seu ver, em algum momento, enfren-
taram Guzmán Blanco: Rojas, Acosta, Tell Villegas, Saluzzo,
Aveledo, Guaycapuro Pardo, Tejera, Arvelo e De la Guardia.
Para este autor, os intelectuais guzmancistas não estavam neste
grupo.
No entanto, o caráter e as ações de oposição de muitos des-
ses intelectuais devem ser tomadas com reservas. Não se pode
esquecer que a cultura venezuelana da época era privilégio de

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

uma elite reduzida, vinculada ao poder econômico, e dedicada


ao magistério e ao jornalismo. O governo de Guzmán Blanco
estimulou a vida cultural mediante o elogio e o favoritismo em
relação aos intelectuais, entre os quais eram muito freqüentes
as intrigas e disputas para manter-se nas boas graças do auto-
crata, que, por sua vez, dosou cuidadosamente a violência e
soube ganhar, mediante concessões políticas, administrativas
e financeiras, muitos de seus opositores, exatamente como
ocorreu com vários dos casos mencionados.
Portanto, o antiguzmancismo da lista de colaboradores da
Revista Venezuelana é francamente questionável, principalmente
se recordarmos a presença ativa para a publicação de Fausto
Teodoro de Aldrey. É claro que isso não permite descartar a
suspeita permanente de Guzmán Blanco quanto a toda obra
criadora independente.
Por outra parte, não se pode deixar de considerar que muitos
opositores tinham posições francamente conservadoras, repre-
sentativas dos interesses derrotados com a Guerra Federal, e era
freqüente que tentassem aproveitar os descontentamentos com
o presidente, como ocorreu com o padre Aguilar por ocasião
da morte de Cecílio Acosta.56
Assim, mais que de uma oposição, parece adequado falar
de intrigas palacianas, nas quais, segundo indícios, foi envol-
vido o nome de Martí. Em meados daquele ano travava-se
uma luta surda entre Fausto Teodoro de Aldrey e Eduar-
do Calcaño, diretor do Monitor – jornal publicado naquele
momento em franca oposição a A Opinião Nacional –, por

56
Salvador Morales (ob. cit., nota no 3, p. 57) afirma que o presbítero Aguilar era um “opositor
reacionário” e observa que algumas notas de Martí parecem referir-se a este individuo
que era contra Bolívar e seu país (J.M.: Cadernos de notas, O.c., t. 21, p. 305).

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inclinar-se a seu favor a disposição do presidente. Em suas


cartas a Martí, já estando este estabelecido em Nova York
e colaborando regularmente com sua publicação, Juan Luis
Aldrey, filho de Fausto Teodoro, acusa o diretor do Monitor,
Calcaño, de intrigar contra o cubano: “em recompensa pelo
mau pedaço que você passou aqui pela inveja de um mise-
rável traidor; e, a propósito, sabe que o infame está perdido?
Seu jornal causou profundo desagrado ao presidente que o
repudia com indignação, assim como o público de Caracas”.57
São certas tais acusações? Não sabemos. Mas é admissível a
intriga contra o cubano em um meio autocrático que favo-
recia essas desprezíveis manifestações e que podia explorar a
conhecida amizade do cubano por Acosta para prejudicar o
diretor de A Opinião Nacional, que abrira sua mão, sua bolsa
e seu jornal ao patriota antilhano. Até onde influíram essas
possíveis intrigas na opinião de Guzmán Blanco sobre Martí,
é algo que tampouco sabemos. Mas, se existiram, podem ter
contribuído para dirigir a cólera presidencial ao cubano pelo
artigo francamente elogioso dedicado a Acosta.
Sejam quais tenham sido as razões, o fato é que foi um dia
agitado o último que Martí passou em Caracas, pois, além das
gestões mencionadas, teve que atender a outros muitos assuntos,
como assegurar a devolução do dinheiro dos assinantes da Re-
vista Venezuelana, escrever cartas para sua mãe e para Carmen58
para deter a mudança desta para Caracas, e deixar preparado, no
colégio de Agustín Aveledo, os exames de francês que teriam
lugar em 3 de agosto,59 tudo isso antes de dirigir-se a La Guaira,

57
Papéis de Martí, ob. cit., nota no 17, p. 38 (Fragmentos possivelmente de outubro de
1881). Também em Destinatário José Martí, ob. cit., p. 79.
58
Félix Lizaso: Ob. cit., p. 20.

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em diligência. E dali, em 28 de julho de 1881, partiu para Nova


York, via Puerto Cabello, no navio alemão S.S. Claudius.
Levava entre seus escassos pertences a caixa de nácar, pre-
sente da família de Escobar; deixava para sempre seu retrato
pendurado no colégio Santa Maria,60 e em seu coração guardava
o amor pela cidade e por seus habitantes: “Caracas não está
distante, nem eu deixarei de amá-la nunca”.61

“Da América sou filho, a ela me devo”


Poucas são as páginas venezuelanas de Martí, porém de
substancial ideário latino-americanista. A presença continuada
dessa temática nos textos que escreveu em Caracas lembra suas
estadias no México e na Guatemala. Não há dúvida que a com-
paração com seus escritos naqueles países indica que, durante o
primeiro semestre de 1881, o pensamento martiano moveu-se
em um plano superior: se o México significou o encontro com
a realidade continental e a Guatemala, a revelação da identidade
histórico-social da região, a Venezuela significou, na evolução de
seu pensamento, o momento decisivo, afirmativo da necessidade
das transformações sociais para alcançar a plenitude continental.62
Por isso pode-se dizer que os exatos três anos que transcorrem

59
Agustín Aveledo: Ob. cit., p. 22.
60
Ibidem, p. 17.
61
J.M.: Carta a Diego Jugo Ramírez, 28 de julho de 1882, O.c., t. 7, p. 273. Epistolário,
ob. cit. t. I, p. 241.
62
Jorge Mañach: Ob. cit., nota no 20, p. 151. Há cinqüenta anos, Mañach afirmava que
a Venezuela impeliu-o no sentido americanista, iniciado no México e continuado
na Guatemala. E dizia: “Na Venezuela, com o contraste entre seu passado e seu
presente, encontrou por fim, toda a trágica dimensão da América”. Na verdade, a
totalidade da “trágica dimensão” do continente só a descoberta do fenômeno impe-
rialista, durante sua longa vida em Nova York, a partir de meados de 1881, poderia
facultar-lhe. E, de outro lado, sem desdenhar a apreciação do contraste mencionado
pelo biógrafo, a missão venezuelana de Martí aprofunda-se no sentido do futuro
imediato, sustentando-se solidamente em seu presente.

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desde a sua saída da Guatemala, em 1878, até seu embarque


em La Guaira para voltar a Nova York, em 1881, indicam uma
etapa significativa no processo de desenvolvimento de seu latino-
americanismo, que ele mesmo indicaria como de passagem da
revelação de nossa América à consagração por sua fundação.
Martí deu um vigoroso salto sobre as concepções de seu
tempo na Cidade da Guatemala, ao propor de modo novo a
definição das sociedades latino-americanas, quando afirma
que estas são o resultado histórico-cultural da mestiçagem de
dois povos, o importado pelos conquistadores europeus e o
autóctone americano. O então jovem professor de literatura e de
filosofia evidenciou, ao tratar do assunto, que não tomava como
ponto de partida de suas considerações os esquemas reducio-
nistas e unilaterais, típicos do pensamento burguês liberal, que
tendiam a ver o desenvolvimento histórico em sentido retilíneo,
como um resultado da evolução social européia ocorrida desde
a Idade Média. O revolucionário cubano demonstrou assim, ex-
traordinária agudeza ao situar-se em um ponto mais adequado
para apreciar a originalidade e a especificidade histórico-cultural
das sociedades dependentes latino-americanas.
Se essas concepções martianas são importantes do ponto
de vista teórico e para a história do pensamento, a sociedade
e a cultura continentais, não menos importantes são para as
lutas políticas que se travavam na época naquela zona, pois
governos de perfil declaradamente liberal tendiam a firmar-se
em boa parte da região e a promover uma gestão ativa, que
criava esperanças nas mentes e nos corações mais avançados da
época. Assim, o próprio Martí conhecera no México Lerdo de
Tejada, sucessor de Juárez, substituído pelo regime autocrático
de Porfírio Díaz, que também se dizia liberal e que reuniu a sua
volta a entusiasmada sociedade intelectual conhecida como “os

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

cientistas”; na Guatemala ocorria a revolução liberal conduzida


pelo também autocrático presidente Justo Rufino Barrios. E,
como Martí, antes de historiador, literato ou cientista social,
foi um político, não se pode descartar que suas considerações
refletem geralmente uma intenção prática imediata, muito
atenta ao contexto político latino-americano.
Que não foi um mero expositor e sim um combatente,
demonstram suas palavras na Guatemala, em uma carta de
1877: “Viver humildemente, trabalhar muito, engrandecer a
América, estudar suas forças e revelá-las ao continente; pagar
aos povos o bem que me fazem: este é meu ofício. Nada me
abaterá; ninguém me impedirá de exercê-lo”.63
Assim, pois, seu propósito, expresso por ele precocemente,
é revelar à América suas forças. Mas é preciso perguntar-se: a
que América? Não há dúvida de que, na época, já se referia à
América Latina, pois foi nos textos guatemaltecos que empre-
gou diversas vezes o termo “nossa América”, e onde deixou
claramente estabelecidas as diferenças entre esta e o Norte do
continente.64 Na citação fica patente, além do mais, a vontade
de serviço de Martí quando diz que seu ofício é “viver humil-
demente, trabalhar muito” e “pagar aos povos o bem que me
fazem”. Essa vontade não tem um simples sentido humanista
nem tampouco localista, pois esse pagamento aos povos era para

63
J.M.: Carta a Valero Pujol, 27 de novembro de 1877, O.c., t. 7, p. 112, Epistolário, ob.
cit., t. I, p. 99.
64
Ver o prospecto da Revista Guatemalteca, O.c., t. 7, pp. 104-106. Também em Obras
completas. Edição crítica, Havana, Centro de Estudos Martianos, 2001, t. 5, pp. 291-293.
Na seqüência cita-se E.c, o tomo e a página. Não é o momento de desenvolver a
idéia, mas aqui está a explicação de porque nessa época Martí diz América em óbvia
referência à América Latina: a do Norte não podia ser americana para ele por não ter
assumido o autóctone. E muito provavelmente é por isso que emprega tão poucas
vezes em seus textos da Venezuela o termo “nossa América”, que em sua maturidade
iria lhe servir para diferenciar as duas partes do Novo Mundo. O.c., t. 7, p. 267.

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“engrandecer a América”, com o objetivo – e por isso são frases


escritas uma após a outra – de “estudar suas forças e revelá-las ao
continente”. E não é essa a declaração – na intimidade de uma
carta pessoal – de alguém que vê a si mesmo como um político,
como um dirigente de povos, cuja ação política tenderia assim
a distanciar-se cada vez mais dos trilhos liberais em voga?
Mas talvez o comprometimento de 1877 – apesar de sua
firmeza: “Nada me abaterá; ninguém me impedirá” – possa
ser entendido como se ainda mantivesse implícita a vontade
de luta no que se refere a seus objetivos: revelar não indica cla-
ramente uma tarefa criadora e sim o reconhecimento de algo
preexistente. Quatro anos mais tarde, a Venezuela será a terra
em que Martí fará declarações determinantes nesse sentido. “Da
América sou filho: a ela me devo. E da América, a cuja revelação,
agitação e fundação urgente me consagro, este é o berço”.65
A idéia aparece também em uma carta pessoal, neste caso
dirigida a Fausto Teodoro de Aldrey, na véspera de deixar
Caracas. Analisemos atentamente as frases que conformam
este pensamento latino-americanista. Em primeiro lugar, o
propósito fundamental do remetente é testemunhar ao amigo
dos últimos seis meses o amor pelo país e por seu povo; por
isso o parágrafo citado termina dizendo: “Que me dê a Vene-
zuela em que servi-la; ela tem em mim um filho”. Mas a força
da proclamação latino-americanista de sua obra sobrepõe-se
e inclui o objetivo imediato da missiva para constituir o ele-
mento mais destacado do parágrafo citado. Ao afirmar porque
é filho da América Latina – o que inclui sua relação filial com
a própria Venezuela –, Martí oferece sua declaração de espírito

65
J.M.: Carta a Fausto Teodoro de Aldrey, 27 de julho de 1881, O.c., t. 7, p. 267. Epis-
tolário, ob. cit., t. I, p. 212.

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continental: porque se consagra à sua revelação, sacudida e


fundação urgente.
O que aconteceu entre os dias da Guatemala e os meses
vividos na Venezuela, durante o primeiro semestre de 1881? De
que fenômenos novos Martí tomou conhecimento, ou que ex-
periências viveu que o levaram a propor a si mesmo uma tarefa
de fundador? E por que a extrema urgência deste trabalho?
É preciso buscar as respostas nas experiências e conheci-
mentos que acumulou durante o período transcorrido entre
meados de 1878 e julho de 1881, e especialmente durante a
estadia na Venezuela.
Não é por acaso que tenha demonstrado em Caracas se-
melhante autoconsciência, pois passara os dois anos anteriores
imerso em uma tarefa decisiva, de ordem prática: a participação
direta no combate pela independência de Cuba. Depois do fim
da Guerra dos Dez Anos, Martí regressou a Cuba, vindo da
Guatemala; rapidamente transformou-se em Havana em um
dos conspiradores contra o domínio colonial espanhol. Em
1879 já era o vice-presidente do comitê criado na ilha pelos
clubes conspiradores. Preso o presidente deste comitê, depois
do estouro da Guerra Chiquita, em agosto daquele ano, Martí
assumiu essa responsabilidade, até que foi preso e deportado
para a península, em setembro. Em janeiro do novo ano já
se encontrava em Nova York, depois de fugir da metrópole,
transformando-se em breve em íntimo colaborador do general
Calixto Garcia, chefe do movimento armado, a quem substituiu
a frente do comitê revolucionário de Nova York, quando aquele
foi para os campos de batalha. A Guerra Chiquita trouxe, pois,
para Martí, a experiência do trabalho sistemático nas atividades
para a independência, a partir de diversas frentes, em virtude da
posição de direção a que rapidamente chegara graças ao prestígio

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político que adquirira entre seus compatriotas. Em Havana e


Nova York viu-se obrigado a desenvolver suas qualidades de
líder frente às diferenças pessoais e de opinião que dividiam os
patriotas e emigrados, e para eliminar os receios daqueles que
haviam dedicado seus esforços à independência durante os dez
anos da guerra anterior. Os fatos mostram que superou com
êxito os obstáculos, e, por volta de meados de 1880, quando a
Guerra Chiquita fracassou, Martí já era reconhecido como uma
das figuras mais importantes do grupo anticolonialista. Sua
vocação de político e sua condição de dirigente revolucionário
enraizaram-se firmemente desde então.
O ano de 1880 trouxe-lhe, ainda, outra experiência de
importância singular: o conhecimento direto da sociedade
estadunidense. Não se podem desdenhar esses 12 meses em
Nova York, embora não haja dúvidas de que o amadurecimen-
to antiimperialista de seu pensamento ocorreria estando mais
avançada a década de 1880. Apesar de ocupado com as tarefas
exigidas pela revolução de Cuba, Martí foi, durante seu pri-
meiro ano em Nova York, um observador atento e sistemático
dos Estados Unidos e um estudioso de sua história e de seus
problemas. É o que nos revelam seus cadernos de notas daquele
ano e suas “Impressões da América”, publicadas em The Hour (A
Hora).66 Não podia ser de outro modo, visto sua precoce análise
da identidade latino-americana em seus escritos da Guatemala.
Como não chegou ao país do Norte pensando que este era,
necessariamente, o modelo a seguir no continente, não podia
senão expressar juízos de caráter negativo acerca da debilidade
moral que via no país e questionar o caráter democrático do

66
J.M.: “Impressões da América. (Por um espanhol muito recente)”, O.c., t. 19, pp.
106-110; 115-118; 123-126.

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sistema que via aproximar-se da antiga Europa monárquica. Por


isso, no caminho para a Venezuela pelo mar das Antilhas, de-
monstra contentamento diante da alma de sua (nossa) América
que começa a apreciar a partir da ilha de Curaçao: “Oh, mas
como já se agita, para mim que venho da neve que abafa, – a
poderosa alma americana!”67 E na própria capital venezuelana
reiterou seu repúdio moral aos Estados Unidos: “espantado
de tanta alma solitária e da mesquinharia vestida de grandeza,
como observara na República do Norte”.68
Em Nova York, portanto, Martí confirmou a idéia expressa
na Guatemala de que a sociedade do Norte não é semelhante
aos povos do Sul, constituindo, ambos, identidades histórico-
culturais diferentes.
De outro lado, como se viu, de janeiro a julho de 1881,
o revolucionário cubano viveu em Caracas, onde encontrou
de novo um governo submisso ao liberalismo, mas também
de nítido perfil autocrático. As características aparentemente
antagônicas do guzmancismo devem ser fundamentadas nas
condições socioeconômicas da Venezuela, muito semelhantes
às de outros países latino-americanos. A ruptura da Colômbia
bolivariana deixara a Venezuela com uma estrutura produtiva
de pecuária simples e primária, impedida de desenvolver-se
devido às contínuas lutas internas e especialmente à Guerra
Federal (1858-1863), gigantesca comoção social que acabou
para sempre com a velha aristocracia e com aquela que sur-
gira do generalato da independência, mergulhando o país em
uma aguda escassez de população e de recursos econômicos.

67
J.M.: “Curaçao”, O.c, t. 19, p. 135.
68
J.M.: “Fragmento do discurso pronunciado no Clube do Comércio, em Caracas,
Venezuela, em 21 de março de 1881”, O.c., t. 7, p. 288.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

Aproveitando a permanente insatisfação da população rural


venezuelana, entusiasmada com alguns de seus caudilhos,
como Ezequiel Zamora, o setor liberal da intelectualidade e os
políticos deram um programa àquela explosão de cólera po-
pular, garantido finalmente por um acordo com os elementos
conservadores quando foi assinado o Pacto de Coche (1863),
que permitiu a chegada ao governo do general Juan Crisóstomo
Falcón, chefe dos liberais. Transformado em importante figura
política durante a guerra, por suas qualidades de organizador
militar e fazendo-se eco das posições dos dirigentes populares,
Guzmán Blanco revelou-se um hábil negociador à sombra de
Falcón, obtendo finalmente o poder por meio das armas em
1870, depois de derrubar o governo conservador, chamado
“azul”, que se instalara três anos antes. À chegada de Martí, os
Sete Anos já haviam terminado, e de novo tomara as rédeas do
governo em 1879, em um período que se estenderia até 1884,
para retornar depois, no biênio 1886-1888.
Segundo os historiadores venezuelanos, Guzmán Blanco
foi o único caudilho venezuelano do século 19 com estudos
universitários. Conhecedor de boa parte dos países europeus
e dos Estados Unidos, onde residira durante um tempo como
cônsul, Guzmán Blanco foi quanto às idéias e aos atos o euro-
peizante delatado pelo terno engalanado que gostava de usar em
sua nação. Tão grandes foram seu gosto e sua admiração pelo
Velho Mundo e suas coisas, que durante seus mandatos passou
um longo tempo ali, e depois que foi derrubado estabeleceu-
se em Paris, onde morreu. Sem sombra de dúvida, foi um dos
tipos retratados por Alejo Carpentier no ditador de O recurso do
método. Aluno eminente de seu pai – um político ambicioso e
oportunista que fez carreira nas fileiras do liberalismo –, Guz-
mán Blanco foi introduzido por ele na política e nos negócios,

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chegando a superá-lo notavelmente nos dois campos, a ponto


de ser considerado, por volta dos anos 1880, o homem mais
rico da Venezuela.
Mas, mais do que a personalidade, o que nos interessa é
o sistema criado sob seu império. A revisão da obra do guz-
mancismo dá um resultado impressionante: estabelecimento
do registro de estado civil, criação de um novo e moderno
sistema monetário, realização de um censo da população, mo-
dernização da administração pública, construção de edifícios
públicos (teatros, avenidas), abertura de aquedutos, construção
de vias férreas, instalação de iluminação pública, implantação
da instrução primária gratuita e obrigatória.
A aplicação prática da maioria dos milhares de decretos do
guzmancismo jamais ocorreu, inclusive o da instrução. Por-
tanto, embora tenha sido criado um complicado e moderno
aparelho estatal, as bases sociais e econômicas do país perma-
neceram inalteradas: a Venezuela continuou sendo uma nação
de exportação agrícola medíocre, onde se produzia café e cacau,
ao mesmo tempo em que sofria um agudo processo de invo-
lução, à medida que se transformava em devedora absoluta de
várias potências européias, dedicadas a financiar as edificações
e as ferrovias.
É possível que os governos de Guzmán Blanco tenham
sido os expoentes mais acabados da alienação européia que
caracterizou o liberalismo latino-americano durante o século
19. Decidido a modernizar o país, o guzmancismo pretendeu
criar uma sociedade liberal em um país sem desenvolvimento
capitalista próprio e sem uma burguesia moderna, proprietária
agrícola ou industrial. O resultado foi a abundante e avançada
legislação em uma nação que manteve suas estruturas pecuárias
e agrícolas primárias, latifundiárias, estancadas, e sobre as quais

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viu sobrepor-se o espantoso cabresto da opressão financeira das


potências européias que iniciavam seu caminho para a etapa
imperialista. A obsessão do progresso à moda européia fez do
guzmancismo, assim como de outros regimes com esse perfil no
continente, uma verdadeira caricatura do regime político liberal
burguês próprio da época do capitalismo industrial. Como na
Venezuela daqueles anos não ocorreu o desenvolvimento da
indústria nem de uma agricultura comercial capitalista, capazes
de enriquecer uma burguesia proprietária, o guzmancismo foi
uma autocracia regida com mão forte pelo presidente, que não
permitiu um sistema de representatividade política em que se
expressassem os interesses dos diversos setores sociais popula-
res. Como na Guatemala de Barrios, uma nova oligarquia de
extração popular e de profissão militar foi se formando a partir
do governo e em torno de Guzmán Blanco, e os empréstimos
acertados em Paris e em Londres, junto com a liquidação dos
bens eclesiásticos em meio a uma ruidosa controvérsia com o
Vaticano, serviram unicamente para enriquecer o “ilustre ame-
ricano” – como decidira chamá-lo um Congresso submisso – e
seus colaboradores, iniciadores do cultivo do café em grande
escala nos novos latifúndios de que iam se apropriando. Em
suma, a Venezuela guzmancista continuou sendo um país
subdesenvolvido, de marcada tendência monocultora, com um
crescimento cafeeiro devido ao mercado da Europa industrial
capitalista, cujos centros financeiros lançaram-se com apetite
voraz sobre o país devedor.
A indubitável preocupação do presidente com a cultura e
a educação – ele mesmo gostava de literatura e de filologia – e
seu forte senso patriótico, que o levou a enfrentar a Inglaterra, a
Holanda, os Estados Unidos e a Espanha, em conflitos diplomá-
ticos que chegaram quase às armas, são os traços particulares do

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guzmancismo, sua especificidade enquanto ditadura ilustrada,


devendo ser avaliados em sentido positivo, sem tirar a validade
de sua caracterização socioeconômica.
Assim, o conhecimento ao vivo do regime guzmancista permi-
tiu a Martí a ratificação de uma idéia com a qual vinha trabalhando
desde seus dias mexicanos: como a América Latina não é igual à
Europa, aquela não deve imitar costumes sociais e sistemas eco-
nômicos ou de governo da segunda, devendo, sim, buscar formas
apropriadas a suas características específicas. Mas seus textos de
Caracas demonstram, ainda, que o processo iniciado durante a
permanência no México e na Guatemala chega à maioridade no
país do Sul, pois suas palavras expressam a compreensão de que o
presente e o futuro latino-americanos viam-se ameaçados pelo afã
de reproduzir na região o modelo social liberal próprio das nações
industriais capitalistas da Europa e dos Estados Unidos. E, avançan-
do a fundo nessa crítica, Martí demonstrou, em plena juventude,
com 28 anos de idade, como tal cópia não apenas levava à violação
dos princípios que diziam aplicar, como semelhante violação, mais
do que em caprichos de personalidades,69 fundamentava-se na
situação social e econômica dos países latino-americanos. Assim,
sem oferecer ainda alternativa ao modelo liberal, o reconheci-
mento e a colocação do problema sobre suas bases reais indicam
uma ruptura com as normas pelas que se regiam o pensamento
e a cultura latino-americanos daquela época. Por isso, pode-se
afirmar que a realidade venezuelana completou a formação do
latino-americanismo martiano.
Estudaremos como se dá essa evolução do pensamento do
revolucionário cubano. Já vimos que seu objetivo, declarado em

69
Assim são explicadas atualmente na Guatemala as características autocráticas do
governo de Justo Rufino Barrios.

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terras venezuelanas, era agitar e fundar a América. A freqüência


e os contextos em que esse termo é empregado em seus escri-
tos indicam que se trata de um conceito próprio e não de um
emprego casual da palavra. É óbvio que, quando diz fundar,
Martí quer enfatizar a necessidade de fazer algo que não se fizera
antes; por isso é preciso criar, construir, erigir, instituir, ou seja,
fundar. Mas, então, para ele, não existia a América Latina? E a
história anterior então?
Para responder a essas perguntas que saltam aos olhos de
imediato, é preciso lembrar sua peculiar compreensão do pro-
cesso histórico latino-americano desde seus textos da Guatema-
la: a conquista significou um corte no desenvolvimento natural
das populações indígenas, razão pela qual a colônia representou
uma negação do espírito americano,70 o que se evidenciou du-
rante a epopéia independentista, mas foi de novo interrompido
pelo estancamento e pela desunião republicanos.
No segundo número da Revista Venezuelana71 expôs sem
rodeios como se abria, a seu ver, uma nova época para o conti-
nente, a era fundadora: a Revista “dirige seus esforços no sentido
de elaborar, com os restos da demolição, a grande América nova,
sólida, lutadora, trabalhadora e assombrosa”. Quem ler Martí
pela primeira vez pode deixar passar esta frase, mas, para o
conhecedor, o olfato mostra uma pista conhecida. Não é casual
o adjetivo “nova”, pois com freqüência – sobretudo no jornal
Pátria –, ao referir-se aos objetivos da guerra para a indepen-
dência organizada pelo Partido Revolucionário Cubano, diz
70
J.M.: “Os Códigos novos”, O.c., t. 7, p. 98 e E.c., t. 5, p. 89.
71
J.M.: “O caráter da Revista Venezuelana”, O.c, t. 7, pp. 207-212. A idéia de demolição
que faz pensar no edifício social preexistente é reiterada em Uma viagem à Venezuela.
Ver citação 6 e como na nota publicada no primeiro número sobre o poema de Núñez
de Cáceres refere-se a “esta idade tumultuada de demolição e renovação”. (J.M.: “A
venezuelada”, O.c., t. 7, p. 203).

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Martí: “fundar a república nova”. E sabemos que esse conceito


de república contém suas idéias sobre a transformação da so-
ciedade cubana depois da expulsão da Espanha, para que aquela
servisse de modelo para a América Latina. Prestando atenção
aos demais adjetivos será possível apreciar a crítica implícita ao
que não era a América Latina de então: grande, sólida, lutadora,
trabalhadora e assombrosa.
A Revista Venezuelana oferece-nos uma sólida prova de como
Martí via inaugurar-se essa nova época para o continente, como
considerava imprescindível enfrentar o atraso econômico-social
provocado por três séculos de colonização, e como esclarece
o porquê da urgência fundadora, quando explica que se vivia
“em época na qual se revela, se clama, se desperta”,72 o que, por
um lado, indica perigos para o continente e, por outro, obriga
a olhar para dentro e a recuperar o que é próprio. “Mas nem o
fecundo estudo do maravilhoso movimento universal nos traz
proveito, – antes é causa de amargos ciúmes e dores – se não
nos ilumina em ânsias de combater para pôr-nos com nossas
singulares aptidões a par daqueles que avançam e lutam: nem
devemos olhar com olhos de filhos o alheio, e com olhos de
apóstata o próprio”.73
Os importantes pronunciamentos expostos no segundo
número ampliavam a declaração feita no primeiro, no qual
Martí afirmou: “Assento natural tem na Revista Venezuelana todo
pensamento americano; e quanto contribua ao bem de nossas
terras, e a auxiliá-las a formar conceitos próprios e elevados”.

72
Ibidem, pp. 208 e 210, respectivamente. Uma ampla explicação da nova época que se
abria, em escala universal, a seu ver, foi dada por Martí no ano seguinte, no prólogo
a O poema do Niágara, do venezuelano Pérez Bonalde (O.c., t. 7, pp. 223-238), numa
clara demonstração de como continuou a reflexão iniciada na Venezuela.
73
J.M.: “O caráter da Revista Venezuelana”, O.c, t. 7, p. 210.

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E, nesse mesmo trabalho, intitulado “Propósitos”, estabelecia


o dever continental dos intelectuais latino-americanos, reco-
nhecendo de passagem sua própria responsabilidade pessoal,
assumida na publicação. Assim se manifestava contra a atitude
passiva ou meramente observadora. E lhes pedia, em troca,
um trabalho de estímulo, por meio do conhecimento da his-
tória mais gloriosa, aludindo assim aos anos de combate pela
independência, quando se recuperara, a seu ver, o verdadeiro
espírito latino-americano.
Pôr humílima mão na crescente fervura continental; empurrar com
os ombros juvenis a poderosa onda americana; ajudar a criação indis-
pensável das novas divindades; atalhar todo pensamento dirigido a
reduzir o tamanho portentoso de nosso passado milagroso; descobrir,
com cuidado de geógrafo, as origens dessa poesia de nosso mundo,
cujas raízes e mananciais genuínos, mais próprios e mais profundos
do que os de qualquer poesia conhecida, não se escondem por certo
nesses livros pálidos e fracos que nos chegam de terras cansadas;
recolher com piedade de filho, para nosso sustento, essa poeira de
glória que é aqui elemento natural da terra, e estender para os ga-
lhardos artífices as mãos carinhosas, buscando taças de ouro em que
servi-lo às pessoas.74
Se encarava assim sua missão como intelectual, desenvolvi-
da por meio do trabalho editorial na Revista Venezuelana, onde
buscou reunir estudiosos e criadores literários venezuelanos,
já antes expressara sua missão como visionário e condutor de
povos, no discurso de 21 de março no Clube do Comércio. Ali
indicou várias tarefas importantes de sua obra latino-america-
nista, as quais demonstram a penetração de seu pensamento
nos problemas sociais e econômicos.

74
J.M.: “Propósitos”, O.c., t. 7, pp. 198-199.

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Em primeiro lugar, para que não pairem dúvidas quanto a


seu grau de consciência sobre sua missão fundadora, veja-se,
no fragmento conservado do rascunho, como introduz o tema
expondo diretamente sua responsabilidade pessoal – junto à de
todo latino-americano – em semelhante obra, quando diz: “E
como para todos os que do lado azul do Atlântico nascemos,
há obra comum e magnífica por fazer, venho oferecer, triste
e dignamente, meus serviços aos homens, para pôr mãos à
obra”.75
E, por isso, no mesmo texto, sofre com “esse desconheci-
mento desastroso entre uns e outros homens que trabalhamos
pela realização imediata e absoluta dos ideais da América”.76
Causa admiração ao observador a profunda compreensão
martiana de seu papel como personalidade histórica. É óbvio
que suas palavras – visto o desenvolvimento de seu pensamento
tal como vem sendo exposto – não eram ditadas por petulância
juvenil ou arrogância auto-suficiente. Trata-se de um assombro-
so caso de autoconsciência, a partir de sua cabal compreensão da
época histórica e do necessário papel a desempenhar por parte
da intelectualidade. E, por isso, suas idéias não expressam um
ponto de vista meramente caritativo.
Como se trata de dar resposta aos problemas postos pela
época para a América Latina, a Revista Venezuelana – criação
pessoal de Martí, mas ao mesmo tempo resultado, a seu ver,
de uma contribuição coletiva – é parte da obra necessária, que
exige estudo, pesquisa, exame. Daí que o propósito da publi-
cação seja “não explicações que tenham por objeto cortejar

75
J.M.: “Fragmento do discurso pronunciado no Clube do Comércio, em Caracas,
Venezuela, no dia 21 de março de 1881”, O.c., t. 7, p. 285.
76
Ibidem, p. 283.

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gostos vulgares, nem ceder aos apetites da frivolidade; mas


aquelas que tendam a assegurar o êxito de uma obra sadia e
vigorosa, dirigida, pela via do amor e do trabalho, a trazer à
luz com veemência filial quanto interesse à fama e à ventura
desses povos”.77 Razão pela qual seu trabalho editorial “vem
dar guarida a toda obra de letras que tenha relação visível,
direta e saudável com a história, a poesia, a arte, os costumes,
as famílias, línguas, tradições, cultivos, tráficos e indústrias
venezuelanas”.78 E esse novo sentido do trabalho literário que
Martí pensa cumprir com a Revista Venezuelana exige uma lin-
guagem apropriada, um estilo de acordo com seus objetivos:
“Daí que um mesmo homem fale línguas distintas quando
volve os olhos prescrutadores para as épocas mortas e quando,
com as angústias e as iras do soldado em batalha, esgrime a
arma nova nas coléricas lides da atualidade”. Como também o
estilo da publicação obedece ao momento e ao lugar: “Não se
vai pintar céu do Egito com brumas de Londres; nem o verdor
juvenil de nossos vales com aquele verde pálido da Arcádia, ou
com o verde lúgubre de Erin. A frase tem seus luxos, como a
roupa, e uns vestem-se de lã, outros de seda, enquanto outros
se aborrecem porque sendo seu abrigo de lã, não lhes agrada
que o do outro seja de seda”.79
Essa insistência no estilo da publicação – ou seja, em seu
próprio estilo – expressa, por sua vez, a unidade e a coerência do
pensamento martiano, o que fica evidente para nós desde então
como uma verdadeira unidade sistêmica. A obra de fundação
da América nova, que a tornará adequada à sua época mediante

77
J.M.: “O caráter da Revista Venezuelana”, O.c., t. 7, p. 208.
78
Ibidem, p. 210.
79
Ibidem, p. 211.

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uma renovação socioeconômica, não pode ser aplicada nem


realizada através de formas de dizer antigas ou inapropriadas.
Esse raciocínio, sem dúvida, demonstra como Martí entendeu
cabalmente que uma maneira de pensar diferente exigia uma
forma de dizer também diferente.
Por isso, como parte de seu trabalho como personalidade
histórica, o próprio Martí devia criar um estilo novo. Essa
vontade de estilo que sempre chamou a atenção dos estudiosos
de seus textos, não apenas é exposta nitidamente durante a
permanência em Caracas, como fica evidente em seus textos, a
ponto daqueles que se dedicam a esse aspecto de sua maneira de
escrever insistirem em ver uma mudança radical em seu estilo
durante o ano de 1881.
E, ainda mais, a sagacidade de Fina García Marruz chegou
a apreciar a relação dessa mudança com a própria Venezuela.
Para ela, com sua entrega definitiva à causa continental, Martí
buscava encontrar a “voz” americana, “fazer sentir, a partir do
próprio idioma dos conquistadores, o brio e o ‘tom’ distinto, a
alma própria” de sua América. Daí, pois, que a inspiração mar-
tiana buscasse “aqueles em que esta alma pareceu expressar-se
ou buscar sua saída própria, os homens ‘de ato’”.80
E, por isso, Bolívar não é apenas o pai ideológico e his-
tórico de Martí, como o pai literário, não pelo que escreveu,
mas pelo que fez.81 Portanto, para esta autora, o discurso do

80
Fina García Marruz: “Venezuela em Martí”, em Anuário do Centro de Estudos Martianos,
Havana, no 5., 1982, p. 50.
81
Ibidem, p. 51. Mais adiante analisamos com mais precisão o pensamento de Martí
sobre Bolívar na Venezuela. Quanto a essa original maneira de apresentar “influên-
cias literárias”, suponho que deixará boquiaberta a dogmática estilística que se move
apenas no estudo dos textos em si. Creio que a avaliação e a análise de Fina García
Marruz constituem uma verdadeira abertura para a compreensão do estilo como um
fenômeno psicossocial.

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Clube do Comércio de Caracas, onde Martí afirma sua re-


lação filial com o Libertador, marca “o começo de uma nova
expressão, na ordem da palavra, e o anúncio ou profecia, na
ordem dos atos, de uma América nova, em que o cumpri-
mento do legado bolivariano, fechando seu círculo, parecia
encontrar seu alvorecer na ilha, cuja luz viu surgir daqueles
vales, da mesma forma como quando criança os vira em sua
fantasia maravilhada”.82
O fato é que, com a permanência na Venezuela, o pensamen-
to de Martí aprofunda os problemas essenciais do continente,
identifica o caminho adequado para enfrentá-los, compreende
a inter-relação histórica e geográfica desses problemas e de
suas soluções, e manifesta autoconsciência como homem e
como escritor, aspectos estes que formam um processo único,
ajustando-se perfeitamente uns aos outros.
Analisemos em seguida, pormenorizadamente, os pontos
expressos por ele sobre aquele empreendimento fundador, no
memorável discurso de 1881.
“Há que abrir amplo leito à vida continental, que, afoga-
da em cada um de nossos peitos, inquieta-nos e sufoca-nos;
é preciso dar asas a todos estes gemidos, – tarefa para nosso
gênio desocupado, que desperdiçando o verso, verte as horas
que poderia usar fecundando-o”. (Melhor uso dos talentos e
das capacidades da região).
“Há que semear de povoadores, como aquele par criador
da lindíssima lenda de Moriche, essas selvas perfumadas, que
à espera dos lavradores, seus esposos, encheram seus braços
de robustos frutos”. (Atrair população para trabalhar as terras
incultas e desenvolver a agricultura).

82
Ibidem, pp. 76-77.

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“Há que devolver ao convívio humano interrompido a voz


americana, que se congelou em momento triste na garganta de
Netzahualcoyotl e Chilam; é preciso descongelar, com o calor
do amor, montanhas de homens”. (Incorporar o indígena às
sociedades republicanas).
“Há que deter, com súbito levantamento, cobiças colossais;
é preciso extirpar, com mão inquebrantável, corruptas raízes”.
(Eliminar as imensas desigualdades sociais).
(...) há que armar os pacíficos exércitos para que ostentem uma mes-
ma bandeira, desde o Bravo caudaloso, em cuja margem monta o
apache indômito, até o Arauco, cujas águas matam a sede dos invictos
aborígenes; como se a arrogante América devesse, em suas fronteiras
terrestres ter como limites, como símbolo sereno, tribos há três séculos
indomadas, e por Oriente e Ocidente, mares, só de Deus e das aves
que lhes são próprias; – há que trocar por hino gigantesco, a cujo som
abrasador as montanhas comovidas movam-se e lancem-se por vales
e planícies, como prenúncios da aurora, os povos refugiados em seus
antros, essa coorte gentil de estrofes lânguidas, desmaiadas e soltas, e
todas desmembradas, porque umas não se completam com as outras,
que hoje vagam tristemente, pálidas como virgens estéreis, por entre
os ciprestes que sombreiam o sepulcro quente do passado! (Alcançar
a unidade latino-americana).83
Observe-se a indicação de aspectos econômicos junto com
problemas de tal magnitude como as imensas desigualdades so-
ciais, o afastamento do índio (portador da autoctonia americana)
e a desunião dos povos do continente. A obra latino-americanista
fundadora abarca já, pois, problemas mais profundos. Mas – e esta
é a outra face necessária de sua obra fundadora – será na crítica

83
J.M.: “Fragmento do discurso pronunciado no Clube do Comércio, em Caracas,
Venezuela, no dia 21 de março de 1881”, O.c., t. 7, p. 285.

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ao modelo liberal, mediante sua forma específica na Venezuela


guzmancista – incapaz de realizar aquela obra fundadora – que
virá a expor todo o alcance de seu olhar sobre a problemática
da América Latina. A crítica aparece em um texto redigido em
francês, presumivelmente pouco depois da saída de Caracas, do
qual apenas o rascunho se conserva, e cujo destino final des-
conhecemos. Trata-se de “Uma viagem à Venezuela”, do qual
exporemos sinteticamente os aspectos que indicam, a nosso ver,
até onde chegou Martí na compreensão do problema que nos
ocupa durante sua permanência na Venezuela.
1. É patente que a explicação de porque os princípios liberais
não eram aplicados no continente por meio de uma política
democrática, não é atribuída por Martí à incapacidade dos
latino-americanos – como se costumava fazer na época – mas
a condicionantes sociais: a política e o governo estão contro-
lados por uma classe autocrática oligárquica em seu benefício
exclusivo, esquecendo os demais setores da sociedade.
2. O liberalismo em matéria econômica contribui para manter
ou para criar relações econômicas com países estrangeiros em be-
nefício destes, razão pela qual não se modifica o atraso econômico;
ao contrário, tende a reproduzir-se a monocultura ou a monopro-
dução em condições de grande atraso técnico e científico.
3. De acordo com os aspectos anteriores, as condições de
desigualdade entre uma exígua minoria e as amplas maiorias
não sofrem alteração.
Martí não explicou esses assuntos com as mesmas palavras
que utilizamos hoje; mas a exposição dos problemas mostra que
seu pensamento percorria esses caminhos, embora em seu texto
não sejam apresentados com semelhante ordenamento lógico
e, às vezes, nem de um modo concludente. Em 1891, em seu
ensaio fundamental “Nossa América”, aí sim expõe semelhante

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raciocínio com rigor histórico e dialético em boa medida vigen-


tes até nossos dias. O que admira em “Uma viagem à Venezuela”
é o senso precursor de suas reflexões, as quais mostram que seu
pensamento percorria os caminhos que indicamos.
O rascunho incompleto que se conservou começa indicando
como as ambições expansionistas das potências aproveitam-se
das divisões e das debilidades internas. Sem sombra de dúvida,
Martí considera que nessa ameaça à independência política
da América Latina – como resultado de seu estado de debili-
dade provocado por seus conflitos sociais internos – poderia
buscar-se a razão para a urgência de sua obra fundadora. Mais
adiante, manifesta-se a favor do uso, na região, de modelos
sociais surgidos de suas próprias circunstâncias: “Desdenha-
se o estudo das questões essenciais da pátria; – sonha-se com
soluções estrangeiras para problemas originais; – deseja-se apli-
car sentimentos absolutamente genuínos, fórmulas políticas e
econômicas nascidas de elementos completamente diferentes”.
E, em vista de tal situação, Martí verifica “uma inconformidade
absoluta entre a educação da classe dirigente e as necessidades
reais e urgentes do povo que há de ser dirigido”. Razão pela qual
conclui: “Um país agrícola necessita de uma educação agríco-
la”. Para, mais adiante, ao condenar esse desconhecimento dos
verdadeiros problemas da nação, indicar algumas das situações
socioeconômicas que fundamentam a vida venezuelana, em
um aprofundamento importante, no contexto de sua obra, da
explicação dos problemas histórico-sociais concretos.
Em nada importa que os campos estejam sem cultivar pelo temor à guerra;
que o comércio seja precário pela escassez de produtos de exportação; que
da pobreza geral nasça um mal-estar grave e sensível; que toda a maquina-
ria nacional repouse, apesar do quão ambiciosa e suntuosa é, sobre alguns
pobres camponeses que exploram o café; que não exista outro meio seguro

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de vida do que servir ao Exército, ou trabalhar nos escritórios ou nos


departamentos do governo; que o próprio governo não viva senão graças
às enormes contribuições que impõe ao pobre povo trabalhador, ou aos
pobres comerciantes que introduzem artigos estrangeiros.
E, no final do manuscrito, cortado abruptamente, resume
sua visão do país numa excepcional análise sociológica extensiva
a outras nações da área.
Assim é a cidade – assim é o país: na natureza, uma beleza assombrosa,
espetáculos que levam os joelhos a dobrar-se e a alma, a adorar, no
coração das gentes, todo tipo de nobrezas; nas inteligências, poderes
excepcionais; (várias palavras ininteligíveis), uma falta absoluta de
aplicação às necessidades reais da vida, entre as classes superiores; nas
classes inferiores, uma penosa inércia que provém de uma falta total
de aspirações: ali, para o povo pobre, viver é viver independente, tra-
balhar até ganhar o suficiente para comprar a arepa, o pão de milho, e
amar; – no movimento agrícola, o medo da guerra civil, e os abusos
dos partidos triunfantes; no movimento artístico industrial, uma im-
paciência honrada, sufocada pelas más leis canônicas que abafam as
empresas; nos índios, o desprezo pela cidade e seus homens, e o amor
selvagem, – um amor (palavra ininteligível) uma concha, de seu canto
de mata e de sua cabana miserável; no trabalhador branco (palavra
ininteligível), a despreocupação crioula, e esse orgulho primitivo, esse
desprezo ao trabalho, e essa paixão pelo combate, que caracterizam os
povos nascituros. Na cidade, Paris; no campo, a Pérsia.84
As citações evidenciam, pois, o cuidadoso estudo martiano
do guzmancismo e de suas conseqüências de fundo para o país.
Por isso, diante da repetição dos problemas vistos antes no
México e na Guatemala, compreende sua missão fundadora.
Como compreendera desde seu primeiro encontro com os

84
J.M.: “Uma viagem à Venezuela”, O.c., t. 19, pp. 160, 163 e 167, respectivamente.

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povos de nossa América, não se tratava de uma questão parti-


cular de algum país, mas de problemas comuns à região. Se nos
trabalhos do México e da Guatemala suas advertências tinham
um sentido coletivo, dirigindo-se ao conjunto dos povos latino-
americanos, a Venezuela confirmou suas considerações, pois
ali encontrou males socioeconômicos semelhantes, e a mesma
visão errada que insistia em resolvê-los com o modelo liberal,
o que provocava a ampliação daqueles males.
Assim, escreveu na Revista Venezuelana, reconhecendo a
unidade da problemática latino-americana: “Quem diz Vene-
zuela, diz América: que os mesmos males sofrem, e dos mesmos
frutos se abastecem, e os mesmos propósitos abrigam aquele
que nas margens do Bravo ladeia em terra do México o apache
indômito, e aquele que em terras do Prata vivifica suas fecundas
sementes com a água agitada do Arauco”.85
Por isso vale para toda a área a afirmação sobre a Cons-
tituição venezuelana posta em vigor precisamente em 1882,
por Guzmán Blanco, chamada a Suíça, por seguir o sistema
presidencialista daquele país: “Por meio de uma constituição
política esperam aliviar suas desgraças e obter o desenvolvi-
mento da nação, sem ver que não serão bastante fortes para ter
uma constituição política respeitada e duradoura senão quan-
do forem bastante trabalhadores e bastantes ricos para que o
interesse geral ordene e preserve a fórmula das liberdades que
possam garanti-la”.86
Observe-se que Martí mostra que os fundamentos do siste-
ma político constituem problemas sociais (trabalho e riquezas,
ou seja, empregos e propriedade produtiva) e não o contrário,

85
J.M. “O caráter da Revista Venezuelana”, O.c., t. 7, pp. 210-211.
86
Ibidem, p. 160.

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como afirmavam usualmente os pensadores e políticos liberais


latino-americanos, com o que se torna concreta a formulação
crítica feita em abstrato em época anterior. A experiência ve-
nezuelana lhe permite, pois, não apenas mostrar o desajuste
entre o modelo liberal e a realidade, mas também apreciar a
fundamentação histórico-social do problema.
É interessante estudar a avaliação de Martí quando analisa o
repetido olhar do latino-americano para a Europa, ainda que seja
para adotar idéias avançadas. “Quando o povo em que se nasceu
não está à altura da época em que se vive, é preciso ser ao mesmo
tempo o homem de sua época e o de seu povo, mas é preciso ser,
antes de mais nada, o homem de seu povo”. O revolucionário
cubano insiste em que a realidade regional, com suas condições
histórico-sociais particulares, requer suas próprias soluções. Por
isso critica os que “se consagraram, confusa e isoladamente, às
grandes idéias do próximo século, que não sabem como viver
no presente”. Por suas palavras, nota-se que entre essas grandes
idéias considerava a teoria socialista, pois diz:
As soluções complicadas e sofísticas a que se chega nos povos antigos,
nutridos de velhas serpentes, de ódios feudais, de impaciências justas e
terríveis; as transações de forma brilhante, mas de base frágil, por meio
das quais prepara-se para o próximo século o desenlace de problemas
espantosos, – não podem ser as leis da vida para um país constituído
excepcionalmente, habitado por raças originais, cuja própria mescla ofe-
rece características singulares, – onde se sofre pela resistência das classes
laboriosas, como se sofre no estrangeiro por sua rarefação: onde se sofre
pela falta de população, como se sofre no estrangeiro por seu excesso. – As
soluções socialistas, nascidas dos males europeus, não têm nada que curar
na selva do Amazonas, onde ainda se adoram divindades selvagens.
Observe-se que, além de não distinguir algum tipo parti-
cular de ideal socialista, Martí afirma que essas soluções são

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“nascidas dos males europeus” e que partem de raízes históricas


determinadas (“povos antigos, nutridos de velhas serpentes, de
ódios feudais”), razão pela qual lhes atribui carta de legitimidade
(procede “de impaciências justas e terríveis”); mas sem admiti-
las como “leis da vida” – com o que reconhece nelas certo campo
de ação, desde que não sejam regras de estrito cumprimento –,
por tratar-se de soluções futuras e por encontrar-se no Novo
Mundo povos com características culturais diferentes (“raças
originais cuja própria mescla oferece características singula-
res”) e problemas sociais diferentes (“sofre-se pela resistência
das classes laboriosas” e “pela falta de população”). E, por isso,
depois do que foi citado, continua propugnando uma educação
agrícola em países que têm caráter agrícola.
Assim, pois, fornece-nos a chave de sua atitude pessoal como
condutor de povos. Ele, fundador da América nova, é homem da
época (pois percebe os perigos que esta acarreta, por ser de “demo-
lição e de renovação”), mas, antes de mais nada, é homem de seu
povo latino-americano, primeiro por esquadrinhar os perigos que o
espreitam no horizonte e, segundo, por buscar conhecer esse povo
em suas particularidades, de maneira a poder felizmente evitar os
perigos presentes que já representavam futuras ameaças. Por isso,
sua atitude, mantendo-se atualizado quanto às idéias e problemas
do mundo capitalista desenvolvido de então – e informando seu
povo sobre elas, como pretendeu fazer com a Revista Venezuelana
–, considerando aquelas idéias lícitas quanto à geografia e à época,
o que lhes conferia validade parcial para a América Latina, mas
nunca no plano de regra ou de lei de cumprimento obrigatório.
Se essa foi sua posição diante das idéias do amanhã – como
as soluções socialistas, segundo sua própria opinião –, como
não admitir que depois do conhecimento do guzmancismo
torna-se explícito seu repúdio às idéias do presente, como as

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soluções liberais? Estas eram postas em vigor na América La-


tina desde meados do século pelos setores mais esclarecidos do
continente, a cujos olhos e em cujas palavras apareciam como
a opção renovadora de nossas sociedades, mas evidenciavam já
no último quarto do século 19, para o sagaz olhar de Martí, sua
incapacidade para resolver os problemas acumulados durante
séculos, junto com os que ia criando a nova época.
E por esse afã de preparar-se adequadamente para fazer fren-
te aos novos tempos e seus perigos, expressa seu repúdio às lutas
internas entre os setores sociais explorados e exploradores; a
“luta pueril e indigna entre uma casta desdenhosa e dominadora
que se opõe ao advento da vida das classes inferiores, – e essas
classes inferiores que turvam com seus excessos de paixões e
de apetites a fonte pura de seus direitos”.87
Aqui já se evidencia para nós uma idéia de seu período
de maturidade, que desenvolverá extensamente a propósito
de Cuba durante a década de 1890, quando explica o caráter
da Revolução que prepara para a Ilha e o dever desta junto ao
continente.88 É interessante verificar, nesse momento, que, ana-
lisando a realidade venezuelana de 1881, seu desejo de conciliar
os interesses contraditórios das classes sociais, por um lado,
baseia-se em seu afã de assegurar a unidade nacional frente
aos perigos externos e, por outro, não exclui – antes situando-a
como exigência a cumprir – a superação de males sociais e
econômicos arrastados desde os dias da colônia.89

87
Ibidem, pp. 155-156.
88
J.M.: “O terceiro ano do Partido Revolucionário Cubano. A alma da Revolução e o
dever de Cuba na América”, O.c., t. 3, pp. 138-143.
89
Claro que existe aqui uma contradição em seu pensamento, à medida que não
compreende cabalmente a relação direta entre a permanência desse males e as desi-
gualdades sociais, o que dá um sabor utópico a seu desejo.

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Em apoio ao que foi dito temos suas apreciações sobre Si-


món Bolívar. A personalidade mais citada no conjunto da obra
de Martí aparece nos textos venezuelanos com uma filiação
familiar de que não encontramos referência anterior em seus
escritos. No discurso no Clube do Comércio de Caracas refere-
se a ele no princípio do fragmento conservado, chamando-o de
“pai feliz”,90 e no último parágrafo, enquanto lembra episódios
do início da luta pela independência da Venezuela, chamando-o
de “pai comum”,91 em óbvia explicitação da estatura latino-
americana que tinha para ele a personalidade do libertador.
A meu ver, a paternidade que Martí atribui a Bolívar deve
ser vista em duplo sentido: Bolívar é pai enquanto fundador de
nações e também merece tal ascendência para os seguidores de
sua obra fundadora. Por isso, Martí vê a si próprio como filho
de Bolívar, assim como se via como filho da Venezuela e de
toda a América Latina, à qual se devia, para continuar a obra
bolivariana interrompida. Não é por acaso que chama Caracas
de “Jerusalém dos sul-americanos, berço do continente livre”.92
Com esta metáfora lembra o fato histórico de que a partir do
solo venezuelano abriu-se caminho à epopéia da independência,
para o interior do continente sul-americano. A evidente relação
entre os termos “berço” e “pai” marcam a unidade no âmbito
geográfico e histórico do processo iniciador da América Latina
como unidade histórico-social plena; Bolívar, o “pai”, provocou
o “nascimento” de nossa América no “berço” venezuelano.
Os aspectos de seu pensamento que analisamos até o mo-
mento permitem entender que a relevância atribuída por Martí
90
J.M.: “Fragmento do discurso pronunciado no Clube do Comércio, em Caracas,
Venezuela, no dia 21 de março de 1881”, O.c., t. 7, p. 281.
91
Ibidem, p. 290.
92
J.M.: “Uma viagem à Venezuela”, O.c., t. 19, p. 158.

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a Bolívar apóia-se nas idéias deste sobre a unidade continental.


No mencionado discurso, ao abrigar sob a sombra de Bolívar
e ao descrever sua presença durante os combates pela indepen-
dência, Martí emprega o termo alumbramiento (parto) em meio
a uma descrição que faz pensar na erupção de um vulcão.93 A
relação nascimento-erupção reitera a idéia do aparecimento
violento, com força, com agitação, como ele mesmo afirmava
que ocorreria a fundação da América nova na época também
nova em que lhe coube viver.94 E a unidade continental, tentada
no plano político-estatal por Bolívar ao calor do esforço liberta-
dor comum, é o objetivo maior da obra da fundação martiana
desde seus dias de Caracas. Este raciocínio apóia-se, também,
em suas apreciações sobre a identidade histórico-cultural
latino-americana, obstaculizada em sua manifestação plena
pelas desigualdades da colônia, conservadas e até aumentadas
pelas oligarquias republicanas.95
Assim, pois, os elementos da análise martiana encaixam-se
em um todo harmonioso: para obter a verdadeira expressão do
espírito latino-americano haverá que estabelecer formas de uni-
dade política continental – como pretendeu Bolívar – baseadas

93
Na primeira ocasião escreve: “Assim, tremendo minhas faces ao lembrar-me dos dias
de patriarcal grandeza em que os abraços de boas vindas tiraram o pai feliz de um
cavalo de batalha, como treme a superfície da terra quando movida pelo fogo interior
dos vulcões”. Em outro momento diz: “via por fim nosso pai comum, enxuto o rosto
de ira, crispada a mão elegante, como para erguer com ela o fogo da terra; – como se,
para que tão alta criatura nascesse, fosse necessário que a terra sofresse extraordinária
dor de parto” (J.M.: “Fragmento do discurso pronunciado no Clube do Comércio, em
Caracas, Venezuela, no dia 21 de março de 1881”, O.c., t. 7, p. 281 e 289). Vale apreciar,
de passagem, a identificação entre homem e natureza, coerente com a importância
que Martí dava a esta última como elemento da identidade latino-americana.
94
Ver nota 70.
95
“A Bíblia disse a verdade: são os filhos que pagam os pecados dos pais – são as repú-
blicas da América do Sul que pagam os pecados dos espanhóis”. J.M.: “Uma viagem
à Venezuela”, O.c., t. 19, p. 153.

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nas características e condições específicas dos povos latino-


americanos, o que leva a repudiar o modelo liberal praticado
até então. E, também, em uma notável demonstração da fina
dialética de político de visão universal que já alcançava em 1881,
Martí indicou claramente, na Venezuela, o lugar de Cuba em
sua vasta e polifacética obra de fundação latino-americana.96
Causa assombro verificar como aquele homem tão jovem, des-
provido dos meios que dá o poder de Estado para levar adiante
um projeto político, penetra em cheio, em 1881, no caminho
de entender o nacional como parte e expressão do continental,
assim como seu alcance universal. Apesar de ainda não dominar
a idéia de que estava se abrindo a etapa histórica do imperialis-
mo – conhecimento que lhe permitirá situar cada um desses
planos em seus justos lugares e inter-relações do ponto de vista
histórico-social – durante os dias de Caracas a pena de Martí
exporá muito claramente a importância da independência de
Cuba para a América Latina.
No discurso do Clube do Comércio afirma que a luta
cubana é o fim do processo independentista do princípio do
século 19 na América Latina (“sabe-se que falta ao poema de
1810 uma estrofe”),97 e quando for obtida será oferecida “no
altar do Pai Americano”, em óbvia alusão a Bolívar, o que re-
força a continuidade histórica que está mostrando. E continua
explicando para que quer ver sua pátria livre: “para que, como
pequena nave elegante e mensageira de nossas glórias, saia

96
Já antes, em alguns de seus textos políticos do final da Guerra Chiquita, Martí evidencia a
reflexão sobre a organização e a direção do movimento revolucionário cubano (ver nota
17); mas não conhecemos referência alguma da época a seu alcance internacional.
97
J.M.: “Fragmento do discurso pronunciado no Clube do Comércio, em Caracas,
Venezuela, no dia 21 de março de 1881”, O.c., t. 7, p. 284. As citações seguintes
correspondem ao mencionado discurso.

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por esses mares luminosos, buscando os fatigados europeus,


a dizer-lhes que para suas venerandas conquistas nós temos
colossal inflorescência perfumada”. Observe-se como, desde
sua juventude, Martí já indicava o papel de Cuba como ponte
entre a América Latina e a Europa: ainda não utiliza o conceito
de equilíbrio que utilizará 10 anos mais tarde, mas a concepção
do assunto está basicamente esboçada na Venezuela. Considera
este sentido intermediário no plano geográfico, comercial e
quanto à aproximação dos povos:
Vejo-a, já carregado o seio dos frutos do povo colombiano, ir trocá-
los pelas serenas ciências e laboriosas indústrias do povo de Japhet,
e avançar sobre a água mansa, com graça indígena, ao encontro dos
homens de terras escuras que vêm a nós enamorados do Sol ardente!
E já vejo, naquela zona que parece enfeitada por mão superior, para
celebrar a festa dos povos, como sondando espiritualmente a terra sobre
a ponte pitoresca, prenhe de bananas, salpicada de laranjas, atapetada
de flores, a comunhão colossal que virá, no seio da natureza rejuve-
nescida das civilizações mais velhas e provadas na história radiante
dos homens: – Imenso e grave beijo dos mundos; ciclópico tálamo
de onde surgirá enfim, assombrosa como filha de Ciclopes, glória
definitiva destas terras!
E, na seqüência, para reforçar sua tese, descreve como na
Cuba colonial viveu-se e sonhou-se desde muito antes com
essas idéias, tomadas de diversos pensadores latino-americanos,
com o que demonstra que existiu uma consciência dessa vin-
culação entre Cuba e os povos latino-americanos, e que esta
não é uma invenção caprichosa de seu desejo, mas continui-
dade de um antigo ideal. Assim, pois, suas palavras diante do
entusiasmado público de Caracas mostram claramente que o
malogro da Guerra Chiquita não o levou a desistir de seu em-
penho libertador e que, ainda mais, sua consciência patriótica

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articula-se, com firmeza lógica de político visionário, com seu


espírito latino-americanista. E, a propósito, diremos, por últi-
mo, que os dias na Venezuela também contribuiriam para seu
labor como guia do povo cubano, embora este assunto esteja
além dos limites desse trabalho.
É de sumo interesse verificar como seu pensamento, ao
enfrentar o regime guzmancista, vai estabelecendo uma relação
que será decisiva para os anos vindouros, e que o levará a encon-
trar a via certa para encarar a situação cubana. Trata-se de que,
diante do problema das transformações sociais não assumidas
pelo processo liberal venezuelano reformista, Martí inclina-se
para a conclusão de que aquelas deveriam, além de ultrapassar os
marcos institucionais e teóricos liberais, assentar-se na satisfação
das necessidades das diversas camadas populares e não exclusi-
vamente na satisfação das necessidades das oligarquias coloniais
ou de novo corte. O que ia desbravando seu caminho para a
solução do problema da organização e da direção do movimento
independentista cubano, seriamente agravado depois do malogro
da Guerra Chiquita e do evidente refluxo revolucionário na Ilha.
Em outras palavras: o fato de irem se tornando claras em sua
mente as tarefas a cumprir nas repúblicas latino-americanas –
ou seja, os verdadeiros objetivos a alcançar com a independência
cubana – servia-lhe, ao mesmo tempo, para ir colocando em
seus justos termos o modo de conseguir expulsar a Espanha. Ao
fundamentar suas considerações sobre o autoritarismo de Guz-
mán Blanco, Martí – como vimos – vai além da personalidade
do presidente para compreender que o sistema político criado
durante seu governo apóia-se em um setor social de caráter
oligárquico cujos interesses particulares impõem limitações ao
desenvolvimento nacional integral. E vai transcendendo assim
a polêmica militarismo-caudilhismo que escondia da vanguarda

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patriótica cubana de então as verdadeiras causas que impediam,


tanto sua própria unidade, quanto a unidade e coesão populares
em torno de seu anseio de independência.
Assim, com a experiência de Caracas – síntese superadora do
que observara no México e na Guatemala –, o revolucionário
cubano abria caminho por um terreno novo: o de ir propondo
para que serviria a república cubana – quais seriam suas tarefas
–, e, em conseqüência, que setores o fim do colonialismo espa-
nhol deveria beneficiar. Daí decorre, portanto, seu repúdio, três
anos depois, ao plano de San Pedro Sula, dirigido por Gómez
e Maceo – uma vez que, liderado exclusivamente por militares,
com métodos de ordem e de mando, e objetivos limitados ao
êxito do empreendimento bélico, de seu seio poderia surgir
uma nova oligarquia dominante, como afirma em sua conhe-
cida carta a Gómez, de outubro de 1884 –,98 e seu paciente e
cuidadoso trabalho, que culminaria com a fundação do Partido
Revolucionário Cubano, em 1892, já com a compreensão de
que a independência cubana deveria bloquear o caminho ao
imperialismo expansionista estadunidense.
Os elementos estudados mostram, indubitavelmente, que a
permanência no berço da liberdade latino-americana, ao lado do
pai Bolívar, aprofundou o espírito patriótico e latino-americanista
do revolucionário cubano. Assim, é compreensível que, no final de
1881, tenha escrito, referindo-se à Venezuela: “ali onde pus minhas
esperanças, e as perdi, ali deixei o melhor de minha vida”.99 E suas
esperanças, sua obra fundadora, implicam já então, ao que tudo
indica, na realização de transformações sociais e econômicas em

98
J.M.: Carta ao general Máximo Gómez, 20 de outubro de 1884, O.c., t. 1, pp. 177-
180. Epistolário, ob. cit., t. I, pp. 280-283.
99
J.M.: Carta a Diego Jugo Ramírez, 9 de dezembro de 1881. O.c., t. 7, p. 268. Epistolário,
ob. cit., t. I, p. 218.

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dois sentidos principais: a superação do atraso econômico e a elimi-


nação das abismais desigualdades sociais, problemas não resolvidos
pela reforma liberal guzmancista. Portanto, cabe afirmar que desde
então fica claro na elaboração de seu projeto revolucionário que
este deve ultrapassar os limites do liberalismo.100
Para dizê-lo com palavras de hoje: com a permanência em
Caracas, Martí encarou a necessidade, para a América Latina, de
alcançar um desenvolvimento próprio, nacional, independente
e equilibrado em termos sociais. Desde então, seu pensamento
rumou firmemente no sentido da compreensão de que seria
necessário romper os vínculos de dominação e de dependência
com os países de elevado desenvolvimento industrial capitalista,
em um processo que daria formosos e saborosos frutos alguns
anos mais tarde, quando esboçasse seu projeto de república nova
que, a partir de Cuba, seria o exemplo e o modelo a ser seguido
pela América Latina.
E talvez por esse indubitável sentido de amadurecimento
para seu pensamento, só conservou a lembrança das ternuras
venezuelanas.

Maio de 1982 – novembro de 1987

100
Outros aspectos do significado da Venezuela para Martí escapam a meu propósito
nesta ocasião, mas não se pode deixar de indicar seu uso de vocábulos do país (Angel
Rosemblat. Os venezuelanismos de Martí Caracas, Imp. da Diretoria de Cultura e Belas
Artes, 1953) onde encontrou “a boa fala”, tanto entre escritores como Eloy Escobar
e Morales Marcano, quanto a de “trabalhadores e moços que andam por Caracas, e
pastores em longas camisas, que usam o castelhano parecendo formados na academia”.
(“Manual do veguero venezuelano”, O.c., t. 7, p. 248). Também há que considerar
a incorporação de lendas e mitos aborígines a seu mundo referencial, como mostra
Cintio Vitier (“Uma fonte venezuelana de José Martí”, em Temas martianos. Segunda
série, Havana, Centro de Estudos Martianos e Editorial Letras Cubanas, 1982, pp.
105-142) em valioso estudo demonstrativo de que foram os escritos de Aristides
Rojas a fonte de Martí para o conhecimento da idéia do Grande Semí.

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PARTE II

Amamos a pátria de Lincoln,


tanto quanto tememos a pátria de Cutting.*
José Martí, “Vindicação de Cuba”
The Evening Post, Nova York, 25 de março de 1889

*
A.K.Cutting: Aventureiro estadunidense que tentou criar problemas entre o México
e os Estados Unidos, a fim de despojar o México dos Estados do Norte.

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NOVA YORK EM CARACAS
AS CRÔNICAS ESTADUNIDENSES DE JOSÉ MARTÍ PARA
A OPINIÃO NACIONAL

1
Naqueles mesmos dias de maio e por aquelas mesmas ruas,
há exatamente 11 décadas, caminhava José Martí. Era então um
migrante que dividia sua vida entre os trabalhos políticos para
libertar sua ilha do domínio colonial espanhol e as longas horas
escrevendo para o diário de Caracas A Opinião Nacional.1
Esses textos – vistos por ele como um ganha-pão –2 cons-
tituiriam o início de uma nova etapa em seu labor jornalístico:

1
Em carta a Manuel Mercado, em 13 de novembro de 1884, solicitando-lhe que faça
gestões para obter colaborações para a imprensa mexicana, indica que a redação das
crônicas implicava em mais trabalho “do que o de um redator diário assíduo” e que
as de A Opinião Nacional ocupavam todo o seu tempo. (Obras completas, Havana,
1963-1973, t. 20, p. 77. Doravante, citaremos esta edição, identificada com as ini-
ciais O.c., indicando apenas tomo e página. Ver também em Epistolário, compilação,
ordenamento cronológico e notas de Luis Garcia Pascual e Enrique H. Moreno Pla,
prólogo de Juan Marinello, Havana, Centro de Estudos Martianos e Editorial de
Ciencias Sociales, 1993, t. I, p. 287).
2
Por crônica pagavam-lhe 50 dólares-ouro. (Carta a Mercado, 22 de março de 1886,
O.c., t. 20, p. 85).

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o amadurecimento de sua prosa por meio da explicação do


que acontecia em outras partes do mundo, principalmente nos
Estados Unidos.
O debate se abre quando se trata de classificar estes textos,
embora eu esteja entre os que opinam que eles exemplificam
um dos casos mais notáveis em língua espanhola desse gênero
que é a crônica, enigmaticamente limítrofe entre o jornalismo
e a literatura. Portadoras sempre de suas opiniões sobre os
homens e os eventos narrados – repletas inclusive de ditados e
sentenças –, estas crônicas martianas já evidenciam as caracte-
rísticas de seu estilo, que dariam justo reconhecimento e fama
a seus trabalhos posteriores para La Nación, de Buenos Aires,
e O Partido Liberal, do México.
O vespertino de Caracas que publicou as 6 colunas na im-
prensa venezuelana3 teve assim o privilégio de instaurar no país
um jornalismo moderno, para cuja fisionomia contribuíram
decisivamente os textos do revolucionário cubano.
Para o cronista, por sua vez, aquela foi a oportunidade longa-
mente esperada4 e natimorta na própria Venezuela, quando teve
que abandoná-la devido a sua saída precipitada do país em julho
de 1881, tendo publicado apenas dois números de sua Revista
Venezuelana: tratava-se de chegar, por meio do jornalismo de notí-
cias – o meio de comunicação mais efetivo da época, possibilitado
pelos avanços nas técnicas de impressão e nas grandes tiragens –
às minorias ilustradas do país sul-americano e de outros lugares
do continente, para informá-las sobre os eventos contemporâneos
e fazê-las compreender a necessidade de preparar nossa América

3
Francisco J. Ávila: Martí no jornalismo caraquenho, Caracas, 1968, pp. 73 e 66.
4
Lembremos sua tentativa de editar uma Revista Guatemalteca em 1877, que ficou ape-
nas no prospecto. (O.c., t. 7, p. 104. Também Obras completas. Edição crítica, Havana,
Centro de Estudos Martianos, 2001, t. 5, pp. 291-293).

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para os novos tempos que se abriam, mantendo e desenvolvendo


os traços de sua identidade própria.5
Portanto, se em alguma ocasião enfatizou o propósito ime-
diato de subsistência que então e depois teriam suas crônicas,
não se deve esquecer que ele mesmo reconheceu nelas valores
artísticos, quando recomendou como reuni-las e ordená-las,
junto com seus versos, no momento de compilar sua obra
literária.6 Como, da mesma forma, não é lícito passar por alto
que essas crônicas são documentos imprescindíveis – junto a
seu epistolário, fabuloso por seu volume e valor literário – para
conhecer a evolução de seu pensamento e de seus projetos
sociais a partir de 1881, já que, como se sabe, jamais escreveu
um livro especialmente para expô-los.7
Entre os textos que Martí enviou a Caracas, pretendo deter-
me exclusivamente nos que se referem aos Estados Unidos,
primeiro conjunto dentro da totalidade de suas Cenas norte-
americanas, com o objetivo de mostrar, não apenas como Nova
York esteve presente neles quanto que esta cidade foi, também,
o laboratório social graças ao qual aproximou-se e entendeu
as gigantescas e aceleradas mudanças sofridas por aquele país
durante a década de 1880.

5
Na própria Caracas escrevera, antes de seu regresso a Nova York, ao diretor de A
Opinião Nacional, que sua missão era consagrar-se à “revelação, agitação e fundação
urgente” da América. (O.c., t. 7, p. 267 e Epistolário, ob. cit. t. I, p. 212).
6
Ver sua chamada carta-testamento literário a Gonzalo de Quesada (O.c., t. 1, pp.
25-28). Ver também em Testamentos de José Martí, edição crítica, Havana, Editorial de
Ciencias Sociales, 1996, pp. 16-54.
7
O pensamento do revolucionário cubano durante sua permanência nos Estados Uni-
dos pode ser abordado por vias e métodos diferentes, mas considero especialmente
válido fazê-lo por meio das próprias publicações em que escreveu regularmente,
vendo-as como “unidades fechadas”, com o que o sentido e o alcance de suas idéias
podem ser apreciados segundo os propósitos e características que lhe impunham tais
publicações, mediadoras na comunicação com seus leitores.

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O leitor de nossos dias, no entanto, deve estar consciente de


que provavelmente, em mais de uma ocasião, não estará diante
do texto real, saído da pena do cubano. Não apenas devido aos
erros na transcrição do jornal, repetidos nas sucessivas edições
de suas Obras completas, – os quais estão sendo recuperados na
cuidadosa revisão dos microfilmes do jornal feita atualmente
no Centro de Estudos Martianos para a edição crítica em pre-
paração – como, sobretudo, devido às freqüentes manifestações
de descontentamento com seu conteúdo, feitas ao redator pelos
editores, que chegam mesmo a dizer-lhe, com relação às refe-
rências aos Estados Unidos, “que procure, em suas avaliações
críticas, não tocar com conceitos ácidos nos vícios e costumes
desse povo, porque isso não agrada aqui, e me prejudicaria”.
Na mesma comunicação, o diretor do jornal, Fausto Teodoro
de Aldrey, explicava a seu correspondente que muitos de seus
escritos não tinham sido publicados por tornarem-se velhos,
“atrasados” e “por não ser conveniente” a maneira como Martí
tratava os assuntos.8
Não sabemos se os editores chegaram a ponto de mudar os
textos, mas o descontentamento com o ponto de vista martiano
é tão claro como determinantes – e até ameaçadoras – foram
as orientações que repetidamente lhe enviaram acerca do que
e como escrever.
As palavras de Aldrey não expressam apenas sua opinião
pessoal, mas também o fato de que o jornal era porta-voz e
expressão do ideário positivista que dominava, rapidamente, a
consciência e a cultura latino-americanas, e a publicação foi líder

8
Carta de Fausto Teodoro de Aldrey, 3 de maio de 1882. (Em Gonzalo de Quesada,
Papéis de Martí, Havana, 1933, t. III, pp. 41-42. Também em Destinatário José Martí,
compilação, ordenação cronológica e notas de Luis Garcia Pascual, Havana, Casa
Editora Abril e Centro de Estudos Martianos, 1999, p. 97).

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– e, ao mesmo tempo, exemplo prático, a partir de seu próprio


formato – da modernidade capitalista que na época enchia de
otimismo os liberais da América espanhola, empenhados em
“civilizar” nossos povos e em fazê-los sair do atraso.
Assim, Juan Luis, o filho do proprietário, em carta de 10 de
agosto de 1881, considerava Martí feliz por estar vivendo “no
grande mundo da civilização moderna”, enquanto ele e seus
pais vegetavam “na terra do cacau e do café”.9
Fica, portanto, evidente, o choque de pontos de vista entre
Martí e seus editores venezuelanos: o cubano, supostamente
feliz devido à sua residência em Nova York, é confrontado pou-
cos meses depois, por suas ácidas opiniões sobre esse mundo
de civilização moderna.
Terão sido desse tipo as opiniões expressas por Martí para seus
leitores sul-americanos?10 Em que já divergiam suas opiniões da-
queles que seus editores – como expressão da intelectualidade e da
cultura dominantes – pretendiam reproduzir e impor às reduzidas
camadas letradas, com capacidade econômica e culturalmente
treinadas para comprar e ler cotidianamente os jornais?
Busquemos as respostas naquele primeiro grupo de crônicas
que ele chamou de suas Cenas norte-americanas,11 escritas em
Nova York durante os anos de 1881 e 1882.

9
O próprio remetente relaciona assim agricultura e matérias-primas com atraso e
barbárie, diante da moderna civilização industrial. (Gonzalo de Quesada: Ob. cit., t.
III, p. 35. Também em Destinatário José Martí, ob. cit., p. 69).
10
Não disponho de dados sobre a circulação do diário, mas não se pode duvidar que,
além de ser vendido fora da capital venezuelana, tinha leitores em outras grandes
cidades da América espanhola, sem esquecer a crescente colônia espanhola de Nova
York, onde se destacavam escritores e comunicadores venezuelanos do porte de Juan
Antonio Pérez Bonalde e Nicanor Bolet Peraza, ambos muito próximos de Martí.
11
J.M.: Carta a Gonzalo de Quesada y Aróstegui, 1o de abril de 1895, O.c., t. 1, p. 26.
Também em Epistolário, ob. cit., t. V, p. 139.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

2
As 25 crônicas com temática estadunidense publicadas em A
Opinião Nacional podem ser organizadas quase cronologicamente
quanto aos temas tratados. Nas 14 publicadas entre 5 de setembro
e 27 de dezembro de 1881 sobressaem o atentado, a agonia e a
morte do presidente Garfield e, sobretudo, o processo judicial
de seu assassino, sendo as quatro últimas dedicadas inteiramente
a esse assunto, enquanto apenas uma das que foram publicadas
durante o ano de 1882 trata do assunto, caracterizando-se estas
últimas por sua maior variedade temática.
Ao explicar o magnicídio e suas seqüelas judiciais, o cubano
expõe sutilmente a intimidade da política estadunidense, onde a
corrupção enraizara-se, pondo em perigo – a seu ver – a própria
existência da república.12
Lembremos que depois dos escândalos da administração
do general Grant, a consciência crítica despertou em todos
os Estados Unidos, alcançando grande intensidade durante o
processo eleitoral vencido por Garfield e sacudindo o próprio
Partido Republicano no governo, o qual foi considerado em
muitas ocasiões, pela imprensa e pelos políticos, como o res-
ponsável por essa enorme e extensa corrupção.
A opinião de Martí a esse respeito baseia-se no aspecto moral
do assunto, como já fizera em suas “Impressões da América”,
publicadas em inglês em The Hour, durante sua estadia de 1880:
atribui a corrupção ao afã desenfreado por dinheiro, à metali-
zação que notava nesta sociedade.13

12
A corrupção política faz perigar “a independência e a dignidade da nação”. Carta de
Nova York. O ‘boss’ e os ‘halls’”, O.c., t. 9, p. 98.
13
No primeiro dessa série de três artigos, publicado em 10 de julho de 1880, apela
ao país para que tempere e dignifique o “amor pela riqueza” com “o ardente amor
pelos prazeres intelectuais”, pois “o poder material, como o de Cartago, se cresce

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Em suas apreciações – e foi assim desde a série de três


artigos de dois anos antes – nota-se um olhar agudo sobre a
psicologia social da nação, de todos os pontos de vista afinada,
diante do contraste que via, com o tradicional senso dos va-
lores em que se criara em Cuba e que conhecera na Espanha
e durante sua residência em terras de nossa América, valores
freqüentemente mencionados em sua obra, até então para
caracterizar a identidade latino-americana. No entanto, não
fala das causas mais profundas desse problema, isto é, das
diferenças de “origens, métodos e interesses entre os dois fa-
tores continentais”, como dirá 10 anos depois, em seu ensaio
“Nossa América”.14
Além das referências obrigatórias a assuntos do governo
quando fala de Garfield, o olhar martiano sobre a política
detém-se em Nova York. A cidade e o Estado eram, por volta
do último trimestre de 1881, declarado campo de batalha dos
dois partidos. Já desde a primeira crônica, publicada em 5 de
setembro,15 Martí apresenta positivamente o enfrentamento
de Garfield com a corrupção nas próprias fileiras republica-
nas, ao mesmo tempo em que menciona os choques entre
Roscoe Conkling – o chefe republicano de Nova York – e o
vice-presidente Arthur, de um lado, e o secretário de Estado,
James G. Blaine, do outro.

rapidamente, rapidamente declina”. (“Impressões da América”, O.c., t. 19, p. 107).


O original em inglês em t. 19, p. 103: “If this love of richness is not tempered and
dignified by the ardent love of intelllectual pleasures (...). Material power, as that of
Carthage, if it rapidly increases, rapidly falls down”.
14
O.c., t. 6, p. 21. A edição crítica deste ensaio foi preparada por Cintio Vitier e publicada
em Havana pelo Centro de Estudos Martianos e Casa das Américas, 1991.
15
Na realidade, suas primeiras colaborações apareceram em 15 e 28 de junho daquele
ano, dedicadas aos festejos celebrados na Espanha pelo centenário de Calderón.

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Apesar de seu evidente desagrado frente ao boss de Nova


York na crônica datada de 26 de outubro,16 estuda o fenômeno
do caciquismo na cidade com profunda penetração sociológica,
ultrapassando a natureza dos protagonistas dos acontecimentos.
Expõe como tanto no Partido Republicano quanto no Demo-
crata tinham sido criadas “corporações tenazes e absorventes,
tendo como objetivo, mais do que o triunfo dos ideais políticos,
a obtenção e o gozo dos cargos públicos”. Estuda a maneira
como essas corporações obedecem a um chefe que antepõe
seus interesses pessoais aos interesses gerais de seu partido e
até à política nacional, relatando longamente como Conkling
foi vencido pelos half-breeds (que traduz por “meio sangue”),
assim como o democrata John Kelly, enquistado no Tammany
Hall, foi vencido por seus rivais de Irving Hall.17
Como será hábito desde então em suas crônicas, ao narrar
aqueles acontecimentos, Martí explicitou sua avaliação negativa
sobre a corrupção e o caciquismo, embora o mais notável, em
minha opinião, seja o ponto de vista em que se situa, exposto
desde o primeiro texto publicado em A Opinião Nacional: “pa-
rece, em suma, que, como que cansados estivessem de tanta
política mesquinha, corre um ar puro pelas assembléias políticas
deste país, aparentemente senhor de todos os povos da terra, e na
realidade escravo de todas as paixões mais baixas que perturbam
e pervertem os demais povos. E é esta nação única que tem o
dever absoluto de ser grande. Em boa hora nós, os povos que
herdamos tormentas, vivemos nelas. Este povo herdou calma
e grandeza: nelas há de viver”.18

16
J.M.: “Carta de Nova York. Grande batalha política”, O.c., t. 9, pp. 63-69.
17
Ibidem, pp. 64-65.
18
J.M.: “Carta de Nova York. Melhora de Garfield”, O.c., t. 9, p. 27.

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Note-se, de um lado, sua maneira de opor-se à noção, co-


mum naquela época, de excepcionalidade dos Estados Unidos
e, de outro, seu alerta quanto às paixões que poderiam afastar
o país da tradição de calma e grandeza, que reconhecia ali, e
cujo cumprimento exigia daquela nação.
Essa aparência – para ele, indubitavelmente cheia de espe-
rança – de aproximação entre o dever ser e o ser dos Estados
Unidos é explicitada por Martí em outra de suas crônicas de
1881, quando fala das eleições parciais para o Estado de Nova
York e para a Prefeitura do Brooklin. De novo a política em
Nova York serve-lhe para mostrar o espírito do país.
A importância desse ato eleitoral consiste em “despertar
o povo para a consciência e uso de si, e arrancá-lo das mãos
de traficantes ousados ou de senhores arrogantes que vinham
dispondo, como seus, dos votos públicos”.19 Ou seja, o enfren-
tamento da corrupção e do caciquismo é a maneira de despertar
o povo para a prática de seus direitos. Mas, ao soltar sua pena
explicando a disputa eleitoral, Martí amplia as arestas socioló-
gicas da sua visão do assunto.
Trata, sobretudo, da luta por um lugar no Senado, entre
o aristocrático Jacob Astor – neto do fundador da fortuna, de
mesmo nome – e o “humilérrimo” Roswell Flower. Esboçando
verdadeiros perfis das duas personalidades – algo que fará com
muitas figuras públicas norte-americanas – Martí estabelece
uma comparação entre o que considera a segunda geração de
milionários, que despreza o trabalho manual e da qual nasceu
uma “aristocracia política”, e a primeira geração dos enrique-
cidos com seu próprio esforço, “que conserva ainda, como

19
J.M.: “Carta de Nova York. Povos preguiçosos”, O.c., t. 9, p. 107.

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troféu de vitória, seu chapéu sem abas e seus sapatos rasgados”,


a exemplo de Flower.20
Por isso, na candidatura de Astor, apoiada por Grant e
Conkling, vê “um ensaio inoportuno do sistema aristocrático
da Inglaterra”,21 e o perigo para o sistema republicano: “Uma
aristocracia política nasceu dessa aristocracia pecuniária, e
domina jornais e vence eleições; nas assembléias costuma
dominar essa casta soberba, que dissimula mal a impaciência
com que aguarda a hora em que o número de seus seguidores
lhe permita pôr mão forte sobre o livro sagrado da pátria,
e reformar para o favor e privilégio de uma classe, a Carta
Magna de generosas liberdades, ao amparo das quais criaram
esses vulgares poderosos a fortuna que sonham ampliar hoje
ferindo-as gravemente”.22
Exemplo da primeira geração de ricos é o italiano Lorenzo
Delmónico, fundador de uma cadeia de restaurantes, a quem,
após sua morte, Martí dedica comentários elogiosos por sua
dedicação pessoal ao trabalho. Chama-o de “italiano modesto,
tenaz e honrado”, “resplandecendo em toda sua figura a bela
dignidade do trabalho”. E o qualifica de “rico humilde, que
jamais abriu mão de seu avental de algodão e de seu guarda-
napo branco”.23
Mas Nova York não é apenas o meio social a partir do qual
e por meio do qual Martí aprofundou-se na compreensão da
sociedade estadunidense e de suas características mais notáveis.
Desde 1881, a própria cidade esteve presente em seus textos:

20
Ibidem, p. 109.
21
Ibidem, p. 108.
22
Idem.
23
J.M.: “Notícias dos Estados Unidos”, O.c., t. 9, pp. 43 e 45.

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sua paisagem – como geografia e como contexto humano –,


sua história, costumes e habitantes.
Na crônica datada de 16 de setembro, narra a construção
do edifício da Bolsa na rua Broadway, onde, para o trabalho
noturno empregava-se a luz elétrica, o que era uma novida-
de. 24 Na seqüência, em longo parágrafo, o clima serve-lhe
para descrever os costumes: a proximidade do inverno (“a
estação trabalhadora”) permite-lhe descrever as roupas para
esta temporada e o andar dos trenós; e o outono que ainda não
começou, as fogueiras de folhas secas feitas por mãos infantis,
a bruma que sobe dos rios, as crianças que morrem devido aos
miasmas do verão, o corte dos bosques próximos. O cronista
teatral de longa trajetória no México ressurge também neste
texto, e Martí passa em revista a cena de Nova York naquela
quinzena: duas versões de Miguel Strogoff, de Júlio Verne, uma
delas no teatro do famoso Edwin Booth, além de uma repre-
sentação dos Minstrels de São Francisco, “espécie de Aristófanes
pintados de preto”.25
Como sempre faz quando acha que algo é útil, recomenda a
seus amigos venezuelanos que assumam a experiência da leitura em
público como se faz em Nova York, tanto de obras próprias quanto
alheias, pois, diz, “os talentos fortificar-se-iam com o estímulo, –
dignificando-se com esse uso grato, próprio e airoso”.26
Durante o mês de outubro de 1881, quatro eventos em Nova
York foram apresentados aos caraquenhos. Os dois primeiros:
o incêndio de um depósito de bondes,27 por meio de uma ví-

24
Ibidem, p. 45.
25
Ibidem, p. 46.
26
Ibidem, p. 47.
27
J.M.: “Carta de Nova York. Medalha de ouro”, O.c., t. 9, p. 78.

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vida descrição, cheia de dramaticidade e de movimento, digna


antecessora de “O terremoto de Charleston”, publicado em
La Nación em 1886; e a ameaça de escassez de água na cidade
devido à seca.28
O terceiro acontecimento serve-lhe para abordar o assunto
das eleições para a prefeitura de Brooklin: descreve a assembléia
do Partido Democrata na academia de música da localidade,
em que foi aprovada a candidatura de Seth Low. Na verdade, o
cronista utiliza suas artes para apresentar o discurso pronunciado
por Henry Ward Beecher, no que é, provavelmente, sua primeira
referência ao famoso orador. O estilo de Martí, entrando em
seu pleno amadurecimento, pinta o homem por meio de sua
oração, elogiando sua capacidade de expressar o caráter nacional,
por meio de frases que denotam que o cubano já compreendia
a alma popular daquele país: “Vê as coisas com olho americano
(...). Conhece o espírito de seu povo, e se arvora a dar forma oral,
sempre oportuna e feliz, ao que mexe na mente popular. Com
ele os americanos espantam-se, orgulham-se, deleitam-se. Tem,
como eles, vivacidade, penetração, ironia quanto ao romântico,
grandeza e candura (...). A palavra nua, vigorosa, familiar, desen-
volta, pitoresca; a palavra brusca, sincera, cândida, plana, a palavra
ianque: – essa é a de Henry Ward Beecher”.29
O quarto acontecimento em Nova York que relata nessa
crônica de 29 de outubro relaciona-se também com o ambiente
eleitoral: outra reunião dos democratas, ocorrida duas noites
antes, no Instituto Cooper, como continuação da “campanha
de reforma [da] democracia nova-iorquina”.30

28
J.M.: “Carta de Nova York. O ‘boss’ e os ‘halls’”. O.c., t. 9, pp. 99-100.
29
Ibidem, pp. 99-100.
30
Idem.

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No texto datado de 12 de novembro inclui longas referências


a dois espetáculos que, ao que tudo indica, vira naqueles dias,
em Nova York: Hamlet, representado por Ernesto Rossi, no
teatro de Booth, e a soprano Adelina Patti, na sala Steinway.
Mas o amante da música e dos palcos não deixa, quatro linhas
antes, de relatar o desabamento de duas casas de pobres “que
aqui parecem ninhos de vermes”, ocasionando a morte de nove
crianças “pela incúria dos avarentos proprietários”.
Em 26 de novembro de 1881, na primeira crônica sobre o
julgamento de Guiteau, o assassino de Garfield, dá várias no-
tícias de Nova York. Nelas menciona pela primeira vez o ban-
queiro Jay Gould, personalidade contra quem irá pronunciar-se
freqüentemente, motivado nesta ocasião por uma tentativa de
chantagem sofrida por Gould, que resultou na prisão do cul-
pado pelo delito nas Tumbas, “o fétido e sombrio cárcere de
Nova York”31. Também se refere às tentativas de Gould para
criar uma nova bolsa.
A passagem de um ano para outro leva Martí a tratar dos
costumes: em 24 de dezembro redige uma crônica que se inicia
com o ambiente natalino da cidade. Com mão igualmente mes-
tra, o cronista relata a animação da urbe submersa na compra
de presentes, ao mesmo tempo em que mostra os contrastes
entre pobres e ricos e traça uma comparação entre “o Natal do
ianque” e “as Páscoas do fidalgo”.
Vejamos uma amostra da agitação desses dias e sua explícita
tomada de partido pelos pobres, em um parágrafo que não cito
em toda sua extensão, mas cujo fragmento permite apreciar a
riqueza do estilo, capaz de unir sem costuras a descrição e o
juízo de valor.

31
J.M.: “Carta de Nova York. Processo de Guiteau”, O.c., t. 9, p. 131.

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Nova York é, nestes dias, uma cidade ocupadíssima: é festa de ricos


e de pobres, de crianças e de adultos. São dias de gentilezas entre os
amantes, de efusão entre os amigos, de regozijo, susto e esperança para
as crianças. A mãezinha pobre esperou o Natal para fazer para sua filha
a roupa nova de inverno, com que sairá no domingo, como cabritinho
em dia de sol, a saltitar pelas ruas populosas. Há rubis caríssimos nas
ricas joalherias, mas nenhum vale o que valem essas gotas de sangue
que inibem os dedos trabalhadores da boa mãezinha!32
Depois deste parágrafo, que marca os contrastes sociais (“A
alegria é colar de jóias, manto de rica púrpura, punhado de gui-
zos. E a tristeza – pálida viúva!”,33 diz no final), Martí recorda
as festas na Espanha, cujo centro é o jantar em família, durante
o qual apagam-se as diferenças de classe (“o duque e o tenente
jantam juntos, assim como a costureira e a plebéia”), 34 para
reiterar dessa maneira as diferenças que está vendo nessa cidade
do Norte, cujo centro é o presente, o obséquio: “O Natal é a
festa de dar e receber; de fazer donativos para o parente pobre;
de ostentar sobra de dinheiro; de buscá-lo para ostentá-lo”.35
Para destacar estes contrastes, dedica dois parágrafos a espe-
cificar a compra dos rubis caríssimos de que falou no começo
da crônica, referindo-se às vendas na famosa joalheria Tiffany,
assunto que provoca sua condenação: “Ira e piedade suscita o
punhado de pessoas ávidas que cerca sempre a vitrine dos dia-
mantes. Parecem escravas, ajoelhadas diante do senhor. Uma
escrava é mais dolorosa de ver do que um escravo. Quanto
desejo! Quanto sorriso forçado! Quanta tristeza! Oh, se olhas-

32
J.M.: “Carta de Nova York. O Natal”, O.c., t. 9, p. 199.
33
Ibidem, p. 200.
34
Idem.
35
Ibidem, p. 201.

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sem dessa maneira a alma de seus filhos, quantos formosos


diamantes encontrariam!”36
A primeira cena estadunidense datada de 7 de janeiro de
1882, serve-lhe para continuar tratando do ambiente festivo,
descrevendo como se passa o primeiro dia do ano na cidade,
seguindo o antigo costume de fazer visitas, vindo da época em
que os holandeses fundaram o povoado.
A crônica começa relatando que o Ano Novo trouxe uma
nevasca e a confissão do cronista de como a neve fez fugir sua
alma para o bosque de si mesma. Depois desse toque pessoal,
a descrição pontual e cheia de colorido: “É dia de ir e vir, o dia
primeiro do ano; dia de jubileu, em que não se trocam dívi-
das, senão as de cortesia; dia de anseio e estréia para as damas,
e de peregrinação para os galantes cavalheiros. Esvaziam-se
de carruagens os vastos estábulos; ruas de Semana Santa em
povoado católico parecem as avenidas: parece todo o mundo
montado a cavalo; diante de cada porta há um carro; o galã que
entra tropeça com o galã que sai; adivinha-se o plácido rosto
dos homens que acabam de ver as damas”.37
A crítica de costumes também sai de sua escrita nessa
ocasião: “não herdaram os nova-iorquinos a simplicidade dos
fundadores”, diz, para comparar desfavoravelmente com épocas
anteriores o que apresenta como um esbanjamento e ostentação
de riquezas nas visitas daquele Ano Novo de 1882, feitas como
diz, “à maneira de brilhante tempestade”.38 É interessante obser-
var o sutil contraste implícito nesta crítica: depois de terminar a

36
Ibidem, p. 202.
37
J.M.: “Carta de Nova York. Ano Novo”, O.c., t. 9, p. 213. Observe-se a comparação
com a Semana Santa, referência para seus leitores venezuelanos.
38
Ibidem, p. 215.

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descrição daquele Ano Novo em Nova York, Martí conta como


no Brooklin uma procissão de 2 mil pessoas saudou o orador
Beecher, tantas quantas recebeu o presidente na Casa Branca,
enquanto o assassino de Garfield recebia 300 visitantes em sua
cela, o que o cronista repudia, proclamando na frase final do
texto: “Deve ser culto nas famílias o horror ao crime”.39
Durante o semestre em que continua escrevendo para A
Opinião Nacional, o cubano trata uma maior variedade de as-
suntos relativos aos Estados Unidos, mostrando Nova York em
novas facetas de seu cotidiano.
A carta datada de 7 de janeiro começa com a visita de Oscar
Wilde à cidade, notícia que serve ao cronista para avaliar o espírito
artístico deste país: “Nessa dependência da Europa vivem os Esta-
dos Unidos em letras e artes: e como novo rico a quem nada parece
bom o bastante para enfeitar a mesa, ou adornar a casa, fazem-se
de desdenhosos e descontentes, censurando com ares superiores
aquilo mesmo que invejam e se apressam em copiar”.40
O tema imigração é abordado nesta crônica de um modo tão
gráfico que evidencia a observação direta e continuada do cronista
nos cais e ruas do Brooklin, onde morava na época: “Manadas,
não grupos de passageiros, eis o que parecem quando chegam”.41
E considera a imigração o elemento-chave para o desenvolvimento
do país: “Eis aí o segredo da prosperidade dos Estados Unidos:
abriram os braços”.42 Passar em revista as nacionalidades européias
dos imigrantes leva-o a uma breve descrição do dia de São Patrício
em Nova York (“não há festa em que mais se ria”),43 quando fala

39
Ibidem, p. 217.
40
J.M.: “Carta de Nova York. Processo de Guiteau”, O.c., t. 9, p. 223.
41
Idem.
42
Ibidem, p. 224.
43
Ibidem, p. 225.

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dos irlandeses, de cuja “tenacidade e engenho aproveitam-se os


ianques, que riem deles”,44 e cujo espírito patriótico Martí admira.
Suas referências aos trabalhadores imigrantes terminam com uma
nova demonstração de sua tomada de partido. Diz: “Os homens
costumam ter mãos rudes e espíritos mansos! Aperto com prazer
toda mão calosa”.45
Na crônica datada de 21 de janeiro, na qual menciona as
bibliotecas de Lenox, Cooper e Astor (“livrarias de dia, para
desocupados especialistas e ricos”),46 louva a idéia da criação
de uma biblioteca noturna, “onde possam ir, como a um lar
da alma e do corpo, em que ambos recebem amparo do frio,
quantos não saibam como empregar essas tediosas noites de
Nova York, escuras, longas, desocupadas, fúnebres e inúteis.
Deseja-se casa para os que não a têm, rica livraria de estudantes,
de artesãos, de trabalhadores”.47
A neve, que, como vimos, só lhe causa má impressão, dá ocasião
à sua pena para iniciar a crônica de 4 de fevereiro, em que estabelece
singular contato entre sua pessoa, tão congelada que lhe é difícil
até escrever, e o ambiente de regozijo que anima as ruas. Descreve
as brincadeiras com a neve no Parque Central durante as horas
noturnas, e os momentos de vento forte, em que o calor do fogo
e do licor enche as tabernas e os bailes, estes últimos “rivalidade
e fausto dos ricos nova-iorquinos”.48 Em nítido contraste, Martí
transfere seu olhar deles, para um incêndio na manhã, em um

44
Idem.
45
Ibidem, p. 226.
46
J.M.: “Carta de Nova York. Processo de Guiteau”, O.c., t. 9, p. 239. Observe-se
essa curiosa tradução, segundo parece, de library por livraria. (A tradução exata seria
biblioteca. N. da T.)
47
Ibidem, pp. 239-240.
48
J.M.: “Carta de Nova York. Neves, prazeres e tristezas”, O.c., t. 9, p. 245.

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edifício ocupado por vários jornais, fazendo um relato minucioso


em que voltam a brilhar seu senso do movimento e da cor.
O acidente serve-lhe para entrar no tema da mulher, por
meio de uma referência às “frágeis mulheres” que carregam as
caixas de blocos tipográficos daqueles jornais “em troca de um
parco salário”.49
Na verdade enche de pena ver chegar de distantes subúrbios, nessas
manhãs sombrias que parecem madrugadas, essas operárias corajosas
que, ao voltar na noite anterior da pesada faina, reclinaram a inquieta
cabeça, sem tempo de sonhar, em seu travesseiro duro e frio. Carros
e barcos parecem a essa hora casas de órfãs. Têm a cor murcha; o
nariz vermelho; os olhos, como de chorar; as mãos inchadas. Vão os
operários cobertos de trajes grossos e elas, de tecidos sem cor, finos e
ruins. Fazem o trabalho de um homem.50
Deve-se apreciar como o tom sombrio e os epítetos fortes
aplicados por Martí ao que seguramente observava diariamente,
provocam seu repúdio e reprovação – e até ira –, mas nunca a
piedade filantrópica diante da exploração dessas mulheres, tanto
enquanto operárias, quanto por sua condição feminina.
Faz também uma comparação entre a percepção da mulher
no Norte e no Sul do continente, para, apesar de manifestar
sua falta de concordância com essa bandeira, considerar “dignas
das reformas pelas quais lutam” as sufragistas participantes de
um congresso com esse objetivo que se realizava naqueles dias
em Nova York.51

49
Ibidem, p. 247.
50
Ibidem, pp. 247-248.
51
Ibidem, pp. 248-250. Além da óbvia contradição em suas opiniões sobre a mulher,
deve notar-se que seu repúdio ao que considera atributos viris nela, baseia-se em sua
reprovação a aspectos da vida urbana moderna que está conhecendo em Nova York.

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Em 17 de fevereiro faz uma vívida descrição da multidão


agitada diante de um evento de muito interesse, a luta em Nova
Orleans por um campeonato de boxe, mostrando sua preocu-
pação com as crianças que vendem jornais: “são como frutos
novos, apodrecidos na árvore”.52
Nesta mesma crônica aproveita o aniversário de Peter Coo-
per, em 9 de fevereiro, quando “os melhores foram desejar-lhe
o bem e se sentaram à sua mesa”, para traçar um perfil breve
e muito favorável desta pessoa, que acompanhará atentamente
durante os anos seguintes.53
Um bom espaço é dedicado também ao hábito de entregar
cartões no dia de São Valentim, 14 de fevereiro; explica como,
durante muito tempo, manteve seu tradicional sentido inglês
de dia dos namorados, mas que já se espalhou pelos Estados
Unidos com o propósito de fazer troça do felicitado.54
No final desta crônica, em nota de quatro linhas, dá conta
de dois espetáculos na Academia de Música.55
Em 4 de março volta à crítica de costumes. Trata de uma
competição de resistência entre caminhantes, em Madison,
explicando o interesse entre os numerosos expectadores como
resultado da ausência de virtudes morais, para terminar quali-
ficando o fato de um “retrocesso do homem ao selvagem”.56
Quanto à comemoração do sesquicentenário do nascimento
de George Washington, em 22 de fevereiro, foi considerada por
Martí sem fervor popular e demasiadamente fria (“aqui este

52
J.M.: “Carta de Nova York. Uma luta pelo prêmio”, O.c., t. 9, p. 254.
53
J.M.: “Peter Cooper”, O.c., t. 13, p. 48.
54
J.M.: “Carta de Nova York. Uma luta pelo prêmio”, O.c., t. 9, pp. 259-261.
55
Ibidem, p. 261.
56
J.M.: “Carta de Nova York. Os bárbaros caminhantes”, O.c., t. 9, p. 266.

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aniversário é dia de folga e de passeio, mas não de reverência”),57


em particular em Nova York, onde a estátua do patriota recebera
“raquíticas grinaldas e minguadas coroas, postas ali pela mão
marcial de soldados piedosos”.58 O que o leva a preocupar-se
com o futuro deste povo: “Começa a ser desventurado o povo
que principia a ser mal-agradecido. O grão de ouro há de ser
colhido nos campos e nas almas. Corre perigo de perder forças
para atos heróicos novos aquele que perde, ou que não conserva
suficientemente, a memória dos atos heróicos antigos”.
É de 12 de março um dos trabalhos do cronista, essencial
para o conhecimento de seu pensamento social; ali emite sua
opinião sobre esse assunto, favorável aos trabalhadores, profe-
tizando como os Estados Unidos seriam o cenário de conflitos:
“Nesta terra hão de decidir-se, embora pareça prematura pro-
fecia, as leis novas que hão de governar o homem que realiza
o trabalho e o que ele comercia. Neste colossal teatro chegará
a seu fim este problema colossal. Aqui, onde os trabalhadores
são fortes, lutarão e vencerão os trabalhadores”.59 Conforme esta
crônica evidencia, as greves que mais adiante relata, ocorridas
em vários lugares do país, provocam suas considerações sobre
um problema do qual já vinha se ocupando em textos anteriores
para A Opinião Nacional.
Creio, portanto, que não é ousadia afirmar que Nova York
foi durante os meses precedentes à explosão dos conflitos ope-
rários, o cenário que lhe permitiu ir conhecendo o assunto, não
apenas graças à concentração industrial – e de operários – na
cidade, como, também, porque o fato de residir no Brooklin pôs

57
Ibidem, p. 269.
58
Ibidem, p. 268.
59
J.M.: “Carta de Nova York. O Mississipi transbordado”, O.c., t. 9, p. 277.

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Martí em contato direto com as grandes e crescentes massas de


imigrantes empregados nas fábricas e que na época moravam
nesse povoado de Long Island, indo trabalhar diariamente em
Manhattan, viagem que Martí também realizava.60
Nessa mesma crônica há ainda breves notícias sobre as-
suntos de Nova York: a falta de reconhecimento da Patti,61 o
desfile dos irlandeses no dia de São Patrício e a caminhada de
um circo por ruas com iluminação elétrica.
No dia 1o de abril Martí escreveu outra crônica onde o
tema da incorporação da mulher à vida social ocupa favoravel-
mente sua atenção, e onde apóia seu direito ao voto, a ocupar
cargos públicos – como diz, houve duas mulheres no governo
de Nova York, com resultados satisfatórios – e a estudar nas
universidades cujas portas este Estado queria abrir-lhes. O cro-
nista compara esse espírito com a negativa de abrir o cofre do
Estado de Nova York a todos os imigrantes, ao explicar uma lei
em debate que pretendia impor um imposto, a ser pago pelos
imigrantes para manter seus próprios carentes.
Os costumes de Nova York reaparecem na crônica de 15
de abril, quando trata do Easter, da páscoa na primavera ou das
festas da ressurreição no final da Semana Santa católica; a pena
do narrador corre rápida, contando a cena que seguramente
viu, de uma “menininha linda, bem calçada e enluvada, pre-
so o broche de pérolas de sua mãe à gola de preciosa renda”,
depositando seu cartão de Páscoa para uma amiga na caixa de

60
Uma pesquisa interessante e necessária seria a busca de informação sobre o Brooklin
daquela época e, em particular, sobre os bairros onde habitavam Martí e os cubanos
com quem mantinha freqüente contato.
61
J.M.: “Carta de Nova York. O Mississipi transbordado”, O.c., t. 9, p. 278. Por isso,
chega a qualificar Nova York de “cidade provinciana”, recordando assim seus juízos
quando da visita de Oscar Wilde quanto à dependência estadunidense da Europa em
matéria artística.

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correio.62 Também explica detalhadamente o uso dos ovos de


Páscoa e a arte de colori-los e desenhá-los.
Em seu último trabalho sobre os Estados Unidos publicado
em A Opinião Nacional, Martí refere-se ainda a três temas de
Nova York.
O primeiro é o jornal The New York Herald, uma de suas
mais mencionadas fontes de informação ao longo desse ano de
escritos para Caracas, citado em alguns deles como exemplo
de grande e poderosa empresa. Agora se refere à infortunada
expedição de la Jeannette ao Ártico, organizada pelo “rico
jornal”, evidentemente, em sua opinião, com fins comerciais:
“Este jornal assombroso entende que necessita, para viver, estar
causando permanente assombro”.63
Dedica um bom espaço na crônica ao tema irlandês. Narra
uma reunião presidida pelo prefeito da cidade, tumultuada e
polêmica, que finalmente decide condenar ao mesmo tempo o
assassinato de dois políticos da Inglaterra na Irlanda e a violenta
repressão desencadeada naquela ilha subjugada.64
Finalmente, o cronista teatral encerra a crônica falando de
um festival musical que reuniu 300 instrumentos e 800 vozes
durante uma semana para interpretar composições de Haendel,
Berlioz, Beethoven e Wagner.65

3
Dadas as referências martianas a Nova York, pode-se afirmar
que, sem dúvida, esta cidade e seus habitantes são os principais

62
J.M.: “Carta de Nova York. ‘Ostera’ e a Páscoa”, O.c., t. 9, p. 293.
63
J.M.: “Carta de Nova York. Política”, O.c., t. 9, p. 304.
64
Ibidem, pp. 309-310.
65
Ibidem, pp. 312-313.

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protagonistas das primeiras Cenas norte-americanas escritas pelo


revolucionário cubano. Isso está determinado, logicamente, em
primeiro lugar, pelo fato de que a cidade foi o local de sua resi-
dência e, também, por suas próprias características como centro
comercial, financeiro e econômico de todo o país, contendo
seus aspectos sociais mais significativos, em especial aqueles
que indicavam os novos caminhos que percorreria a nação: a
grande indústria moderna, o desenvolvimento tecnológico e
científico, a explosão demográfica provocada pelos imigrantes
e os conflitos entre grupos e classes sociais, fruto daquelas
mudanças que a levavam pelos caminhos do imperialismo
contemporâneo e de potência de porte mundial.
Assim, enquanto Nova York constituía, como vimos, o grande
laboratório social em que se manifestavam plenamente os traços
que caracterizariam essa nova etapa histórica, José Martí foi seu
excepcional cronista, graças, por um lado, à sua clara compreensão
de que a humanidade iniciava então uma nova fase – como escre-
veu justamente na Venezuela,66 uns meses antes de iniciar essas
crônicas estadunidenses – idéia perfeitamente adequada em seu
pensamento, por outro lado, à sua já bem definida consciência
da necessidade de incorporar a América à ordem universal em
transição, mantendo seus traços de identidade e com o objetivo de
alcançar um desenvolvimento próprio e independente.
Foram, portanto, os objetivos e pontos de vista do cubano
que lhe permitiram ver o que a maioria de seus contemporâneos
do Sul não podia avaliar, permanecendo na simples admiração
frente às maravilhas das contínuas realizações materiais alcan-
çadas no Norte, atribuídas, geralmente, às magnificências da
ordem institucional daquela sociedade.

66
“O caráter da Revista Venezuelana”, O.c., t. 7, pp. 207-212.

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Por isso, como vimos, os textos do cubano não transitam


pela admiração ingênua nem pelo desejo de imitar, mas pelo
estudo crítico dos Estados Unidos. Seus julgamentos, no entan-
to – e creio que as citações utilizadas permitem compreendê-lo
desta forma –, não constituem críticas ácidas: como observador
daquele presente e do futuro provável, para aquela que cha-
mou de nossa América, também tomou partido pelos Estados
Unidos, pelas forças e idéias mais representativas existentes
no país do que considerou as melhores expressões dos ideais
humanos.
Seu senso da democracia real – verdadeiramente participativa
para todos os setores populares e não redutível ao mero exercício
do sufrágio eleitoral – base de seu grande anseio de justiça social,
leva-o, como vimos em suas próprias palavras, a defender as
tradições de democracia e igualdade que embasaram a repúbli-
ca estadunidense, sem desconhecer – como o fará em crônicas
posteriores para Buenos Aires – suas limitações, geradas pela per-
manência da escravidão e pelo já evidente espírito mercantil.
Por isso insiste, desde essas primeiras Cenas norte-americanas
para Caracas, no apelo ao espírito fundador desta nação, que
considera, também, um ponto essencial de sua autoctonia,
ameaçada pela multidão de imigrantes – cuja presença estima,
no entanto, favorável à liberdade – e pelo espírito aristocrático,
tipo inglês, que vê aflorar nas camadas mais abastadas.
Assim, Martí não projetou uma imagem antiestadunidense.
Não poderia fazê-lo, uma vez que jamais foi um anti-estadu-
nidense. Como fica evidente neste primeiro grupo de crônicas
que passamos em revista, sua postura ao lado dos pobres, dos
trabalhadores e dos proprietários que contribuíam com seu
esforço para o bem-estar comum, junto à sua preocupação
com a necessidade de expressar um espírito e uma consciência

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próprios, verdadeiramente nacionais, por serem autóctones e


não servos da cultura européia, permite afirmar com toda a
propriedade que Martí, desde estes textos de 1881 e 1882, foi
um defensor de outros Estados Unidos, diferentes dos que
historicamente iriam se delineando sob seu olhar vigilante de
cronista durante aquela década de 1880.
Por isso, quando, já no final daquela década, torna-se claro
para ele que nesta nação predominavam os interesses de uma
casta oligárquica dominadora das finanças, dos monopólios e
do governo, lançaria repetidos apelos a salvar o que restava de
honra no país. Portanto, seu vasto projeto de libertação nacional
para Cuba e a América Latina, frente à expansão estadunidense,
pode ser qualificado com justiça como antiimperialista, mas
não como antiestadunidense. Além disso, vale lembrar que,
no documento em que explicou ao mundo as razões que
levaram os patriotas cubanos a iniciar uma nova guerra pela
independência, fazia-o, não só pelo bem maior do homem e o
equilíbrio vacilante do mundo, mas também pela confirmação
da república moral na América.67 Portanto, para ele, tratava-se
não apenas de salvar sua América Latina, como também de
salvar os próprios Estados Unidos.
Eis aí, por conseguinte, a razão do apreço que desde suas crô-
nicas para a Venezuela demonstra por homens como Emerson,
exemplo de uma consciência própria estadunidense, e Beecher,
expressão da fala e da consciência popular; de seu repúdio a
Astor, o aristocrata, ou a Conkling, o imoral cacique de Nova
York; de sua ira diante da inumana exploração das crianças
vendedoras de jornais e das operárias gráficas; de seu respeito
pela vida social desenvolvida pela mulher estadunidense, ape-

67
J.M.: Manifesto de Montecristi, O.c., t. 4, p. 101.

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sar de seu honesto reconhecimento de sua avaliação diferente


sobre a mulher; de sua exigência de um tratamento igual para
o imigrante europeu e o chinês.
São seus propósitos que fundamentam a seleção de fatos que
mostra em suas crônicas. Para ele não se trata de fornecer um
caleidoscópio completo de acontecimentos, mas aqueles que
indicam os caminhos, a seu ver, por onde andava e para onde
ia a nação. Essa é a totalidade que desejava explicar a seus lei-
tores latino-americanos, que harmonizou plenamente com seu
estilo da maturidade, como esses jogos de luzes e de sombras,
para dar os matizes próprios daquela sociedade; essa brilhante
capacidade de sua prosa de expressar movimento, para buscar
plasmar o tremendo dinamismo de Nova York, esse emprego
do diálogo e da comparação para dar as várias dimensões dos
homens dali.
Parafraseando-o, podemos dizer que nos entregou crônicas
portentosas, ao falar-nos de uma sociedade e de tempos por-
tentosos. Eis aí o valor permanente das Cenas norte-americanas
de José Martí.

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“DEFINIR, COMUNICAR, ALERTAR...


VISÃO MARTIANA DOS ESTADOS UNIDOS EM A AMÉRICA

Em abril de 1882 começou a circular A América. Revista de


Agricultura, Indústria e Comércio, editada mensalmente em Nova
York por seu proprietário, o cubano Enrique Valiente, com o
objetivo de fomentar o desenvolvimento do comércio de ex-
portação dos Estados Unidos para a América Latina.
Seu editor-proprietário dirigia também, há pouco mais de
um ano, a Agência Americana de Nova York, instituição que
funcionava como uma casa comissária, encarregada de fornecer
informação sobre as indústrias estadunidenses a seus vizinhos
do Sul interessados no assunto, e que dispunha de uma filial em
Havana. Este escritório ocupava-se, também, das assinaturas de
A América na capital de Cuba, ilha onde tinha representantes em
mais 12 cidades, assim como os tinha em todas as demais nações
hispano-americanas, inclusive Porto Rico, menos o Paraguai.1

1
A América, Nova York, no 1, abril de 1882.

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Durante mais de um ano a preparação da revista esteve nas


mãos de outros cubanos: seu diretor, Rafael de Castro Palo-
mino, e seu redator, José J. Luis, ambos vinculados há muito
tempo às lutas patrióticas cubanas.2
Portanto, são presumíveis a relação e a possível influência da
revista junto aos cubanos emigrados e na própria Ilha e o alcance
continental de seu trabalho de informação e propaganda.
A publicação cumpria seu objetivo mediante numerosas in-
formações de redação própria ou tomadas de outras publicações,
sempre ilustradas, e com boa quantidade de anunciantes, justi-
ficados por seu declarado caráter de publicação de anúncios.
No número 12, correspondente a março de 1883, aparece
José Martí como colaborador, e no dia 15 este já aparece na man-
chete como diretor, enquanto em uma breve nota informava-se
que fora “encarregado da seção das letras”.3 Até julho de 1884 –
último número conservado em Havana –, manteve-se a frente
da publicação, isto é, durante pelo menos 13 meses assumiu esta
responsabilidade, ratificada, em janeiro de 1884, por seu novo
proprietário, o também cubano Ricardo Farrés.4

2
Os dois destacaram-se por sua oposição ao Pacto de Zanjón e contribuíram nos
Estados Unidos para o esforço insurrecional encabeçado de Nova York pelo general
Calixto Garcia, que terminaria na fracassada Guerra Chiquita e do qual participou
também Martí, com quem travaram relações desde sua chegada à cidade, em janeiro
de 1880.
3
Não estamos em condições de precisar com exatidão quando começou em A América,
pois nunca martiano algum afirmou ter visto os números compreendidos entre agosto
de 1882 e fevereiro de 1883. A única coleção localizada em Cuba e no estrangeiro
encontra-se incompleta na antiga biblioteca da Sociedade Econômica de Amigos do
País, hoje sede do Instituto de Literatura e Lingüística.
4
Uma contemporânea que visitava a casa de Farrés em Nova York afirma que esta
era freqüentada por elementos aristocráticos de seus compatriotas residentes e de
passagem pela cidade. (Blanche Zacharie de Baralt, O Martí que eu conheci, Havana,
Centro de Estudos Martiano e Editorial de Ciencias Sociales, 1980, p. 100).

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A ausência até o momento de uma coleção completa faz


com que o mistério envolva o afastamento de Martí da revista.
No último número ao nosso alcance, de julho de 1884, faz-se
o seguinte esclarecimento: “Por tudo que não foi assinado. O
diretor. José Martí”. Em suas Obras Completas foram incluídos
alguns textos de setembro e novembro daquele ano e até um de
1887, mas não dispomos de mais informação sobre eles, nem
de exemplares da publicação que nos indiquem até quando
Martí manteve-se como diretor nem quando terminou seu
trabalho de redação ou cessou definitivamente de escrever em
suas páginas.
O próprio Martí manifestou a elevada conta em que tinha
esses escritos, pois, em carta de 1o de abril de 1895, orientou
Gonzalo de Quesada a que, junto aos incluídos em outras publi-
cações periódicas, escolhesse, entre seus trabalhos de A América,
o material “dos seis volumes principais de sua obra”.5
A América é, portanto, a primeira publicação assumida sis-
tematicamente com plena responsabilidade editorial por Martí,
para expressar aspectos de seu pensamento, como pretendera
sem êxito em 1878, com a Revista Guatemalteca – que nunca foi
impressa – e, em 1881, com a Revista Venezuelana, que não pôde
passar de seu segundo número, tendo sido Martí obrigado a
abandonar Caracas pelo presidente Antonio Guzmán Blanco.

5
José Martí: Carta a Gonzalo de Quesada y Aróstegui, Montecristi, 1o de abril de
1895, em Obras completas, Havana, 1963-1973, t. 1, p. 25. Na seqüência, citaremos
por esta edição, identificada com as iniciais O.c.; portanto apenas serão indicados
tomo e página. O Pérez mencionado por Martí foi identificado com o colombiano
Santiago Pérez Triana (José Martí: Epistolário, compilação, ordenamento cronológico
e notas de Luis García Pascual e Enrique H. Moreno Pla, prólogo de Juan Marinello,
Havana, 1993, Centro de Estudos Martianos e Editorial de Ciencias Sociales, t. V, p.
138). No entanto, não encontrei referência alguma ao assunto nas memórias deste,
nem pode tratar-se de seu pai, o político e pedagogo Santiago Pérez, que esteve em
Nova York apenas de passagem.

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A linha de continuidade entre aquelas e a revista de Nova


York é direta e expressa: nos três casos fica explícito o sentido
latino-americanista que animava Martí a trabalhar, manifesto
nas três publicações pelo propósito de pôr em contato aquela
que já chamava de nossa América com os avanços científicos,
tecnológicos, agrícolas e industriais da Europa e dos Estados
Unidos.6
De fato, pois, desde muito jovem houve no cubano um
anseio modernizador no que se refere ao conhecimento e à
adoção das conquistas obtidas em outras partes do mundo,
sempre do ponto de vista da incorporação destas a partir das
reais necessidades de nossos povos, de seus próprios tempera-
mentos e com os objetivos de assegurar a permanência de sua
identidade e de garantir sua independência.
Assim, diz-nos no editorial de dezembro de 1883, onde se
explica a mudança de proprietário, que A América “foi fundada
e dirigida de maneira a, gradualmente e por si própria, acabar
por ser um órgão severo, fiel e vigilante dos interesses gerais da
América espanhola e especiais desta nos Estados Unidos”.7
Ratifica e amplia estas idéias no editorial de janeiro de
1884:
Definir, comunicar, alertar, revelar os segredos do êxito aparentemen-
te – e apenas aparentemente, – maravilhoso deste país; facilitar, com
explicações compendiadas e oportunas, e estudos sobre melhorias
aplicáveis, a obtenção de êxito igual, – talvez maior, sim, maior, e
mais durável! – em nossos países; isto é, à América Latina, tudo o que

6
Ver o prospecto da Revista Guatemalteca (O.c. t. 7, pp. 104-106. Também em Obras
completas. Edição crítica, Havana, Centro de Estudos Martianos, 2001, t. 5, pp. 291-293)
e “Propósitos” da Revista Venezuelana (O.c., t. 7, pp. 197-200).
7
“Os novos proprietários de A América”, dezembro de 1883, O.c., janeiro de 1884, t.
28, p. 214.

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anseia e necessita saber sobre esta terra que, com justiça, preocupa-a,
e ir dizendo-o com o maior aproveitamento geral, com absoluto de-
sentendimento de toda paixão ou proveito de pessoas, e com o olhar
sempre voltado para o desenvolvimento das artes práticas e do comércio
inteligente, únicas bases da grandeza e da prosperidade de indivíduos
e de nações.8
O trabalho de Martí em A América faz parte, portanto,
do momento em que sua paixão e sua fé latino-americanistas
enriquecem-se, de um lado, com a concepção de um mundo em
mudança, prenhe de incertezas e indefinições quanto aos rumos
da história e, de outro, com seu estudo continuado e sistemático
dos acontecimentos estadunidenses à sua volta, o que lhe permitiria
aprofundar o conhecimento íntimo daquela sociedade, quanto a
seu desenvolvimento, características e projeções. Esses grandes
núcleos de problemas que informarão seu pensamento a partir
do início da década de 1880 contribuiriam para estimular sua
exposição sistemática em A América de uma diversidade de idéias
sobre assuntos econômicos e sociais variados, o que fez com que
o conjunto de seus textos na publicação fosse considerado um
verdadeiro programa de desenvolvimento para nossa América.9
Em conseqüência, a visão martiana dos Estados Unidos na
revista chega-nos filtrada por este prisma latino-americanista
embora, por sua vez, tal visão constitua componente essencial
do mundo de idéias e problemas que lhe permitem conformar
este programa.

8
J.M.: “Os propósitos de A América sob a direção de seus novos proprietários”, janeiro
de 1884, O.c., t. 8, p. 268.
9
Rafael Almanza Em torno do pensamento econômico de José Martí, Havana, Editorial de
Ciencias Sociales, 1990, pp. 141 e 170. O autor demonstra como os vários assuntos
tratados por Martí na revista foram expostos com grande coerência e articulação,
e com o propósito explícito de oferecer a seus leitores os caminhos concretos para
uma ação de política econômica.

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Considero importante destacar, também, que suas opiniões


sobre os Estados Unidos na publicação de Nova York são, com
toda a probabilidade, as que com mais exatidão reproduzem
sua verdadeira visão do país e de sua gente, já que sua condição
de diretor durante 13, dos 14 meses em que encontramos seu
nome em exemplares da revista, permitiu-lhe escapar da censura
a que se via submetido nas outras publicações periódicas com
que colaborava na época.10
Por isso, suas palavras são bem claras quando se refere ao
superobjetivo de defesa latino-americanista de A América: “Sabe-
mos que chegamos no instante em que uma empresa desta or-
dem devia chegar. Há vantagem como há perigo na intimidade
inevitável das duas seções do continente americano”. E continua,
fundamentando nessa relação bivalente e inevitável a razão de
sua tarefa jornalística na revista: “A intimidade mostra-se tão
próxima, e talvez por alguns aspectos tão avassaladora, que há
apenas o tempo necessário para pôr-se em pé, ver e dizer”.11
Nestas palavras encontra-se, portanto, o segredo da leitura
que Martí vinha fazendo dos Estados Unidos desde sua chegada
a Nova York, em 1880: estudar as vantagens e os perigos dessa
intimidade inevitável.
Para o cubano, os Estados Unidos e, em particular, Nova
York, eram o maior expoente da nova época em que a hu-

10
É preciso lembrar que o cubano foi censurado em suas opiniões sobre os Estados Unidos
em mais de uma ocasião pelos proprietários do diário de Caracas, A Opinião Nacional,
e por Bartolomé Mitre, diretor de La Nación, de Buenos Aires. (Ver Papéis de Martí,
Havana, 1933, t. III, pp. 35 e 83, e Destinatário José Martí, compilação, ordenamento
cronológico e notas de Luis García Pascual, Havana, Casa Editora Abril e Centro de
Estudos Martianos, 1999, pp. 76, 97-98 e 107-109). Se, em A América, seus proprietários
impuseram condições, o que não sabemos, os editoriais citados antes mostram, pelo
menos, seu apoio à linha editorial explicada e praticada pelo diretor.
11
J.M.: “Os propósitos de A América sob a direção de seus novos proprietários”, janeiro
de 1884, O.c., t. 8, p. 268.

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manidade estava entrando. Seu prodigioso desenvolvimento


industrial em pleno curso, acompanhado de uma revolução
científica e tecnológica que parecia limpar todos os horizontes
da mente humana, justificava tal opinião.
Com plena consciência de que sua escrita haveria de captar e
expressar essa época, para ser também parte dela, Martí descreve
em A América, com veemência, essa nova etapa da modernidade:
“Tudo empurra, precipita, exaspera, exacerba, arrasta. Tem-se
medo de ficar para trás. (...) Tudo é trem, telefone, telégrafo”.12
E, em outra ocasião, insiste nesse dinamismo e em seus efei-
tos sobre a vida moderna: “o escarvar, o rastejar, o caracolar, o
desnudamento, fadiga e atropelo da vida moderna”.13
Observe-se nas duas citações como a sensação do dinamismo
moderno nos é transmitida por meio da enumeração de ações de
movimento rápido, junto com indicações de alteração espiritual, e
como a enumeração das mais recentes invenções é parte e expressão
desse dinamismo. E, finalmente, como a própria expressão literária
empregada – a enumeração – contribui indubitavelmente para que
o leitor receba essa impressão de velocidade imposta pela época.
Nessa “época de transição”, diz Martí que se vive com angústia
em todas as partes do mundo14; “sente-se que a vida nessas grandes
cidades consome-se, adelgaça-se e se evapora (...) E falta também,
na maior parte dos indivíduos, a esperança no futuro”.15
Esta descrição, que combina dinamismo e incerteza, estra-
nha àquele fim de século de unilateral e absoluto otimismo po-
sitivista, não significa que Martí visse o futuro necessariamente

12
J.M.: “Cansaço do cérebro”, abril de 1884, O.c., t. 13, p. 427.
13
J.M.: “Repertórios, revistas e publicações mensais literárias e científicas de Nova
York”, fevereiro de 1884, O.c., t.13, p. 429.
14
J.M.: “A exibição sanitária”, maio de 1884, O.c., t. 13, p. 437.
15
J.M.: “Cansaço do cérebro”, abril de 1884, O.c., t. 13, p. 427.

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sob maus augúrios, mas que, ao contrário, sua postura busca


e baseia seu otimismo na realização do homem. “Dá gosto ver
os homens de agora. Pode-se garantir que já começa a era da
verdadeira revelação. A do homem a si próprio”.16
Por isso, em um artigo em que informa sobre uma invenção
para impedir os choques de trens em caso de problemas visuais
dos maquinistas, ao desenvolver o tema da relação entre o pro-
gresso material e o homem, declara: “Ciência e literatura have-
rão de copiar a natureza, onde o útil está sempre acompanhado
do transcendental. Há que tender a desenvolver o homem todo
e não um lado do homem. O mero progresso mecânico, se não
se encaixasse no glorioso movimento universal, seria como a
habilidade estéril de uma cigarreira chinesa”.17
Esta habilidade estéril pode ser entendida como uma crítica
ao emprego do espírito artístico em uma obra cujo objetivo
era ser reduzida a cinzas; daí sua falta de transcendência, sua
inutilidade para o desenvolvimento humano.
A ausência desse desenvolvimento harmônico nos Estados
Unidos, do equilíbrio entre os fatores materiais e os espirituais,
significa um momento decisivo em sua visão sobre o país e a
modernidade industrial capitalista: sua juvenil condenação da
corrupção e da “metalização” nos Estados Unidos, ratificada nos
primeiros textos publicados sobre essa nação,18 fundamenta-se,

16
J.M.: “Um mastodonte”, agosto de 1883, O.c., t. 8, p. 410.
17
J.M.: “Invenção muito útil”, agosto de 1883, O.c., t. 8, p. 407. Curiosa comparação
com a cigarreira chinesa. Terá visto uma em Nova York? Observe-se, na citação, a
busca da analogia entre a natureza e o homem, uma das idéias fundamentais do que
poderíamos chamar suas concepções filosóficas.
18
Ver Cadernos de notas (O.c., t. 21, p. 16 e “Impressões da América” (O.c., t. 19, pp.
101-126). Repetiu esta idéia em suas crônicas para A Opinião Nacional e La Nación
durante os anos de 1881 e 1882. Jean Lamore estuda a metalização em “O tema da
‘riqueza condenável’ em José Martí e Ruben Darío”, no Anuário do Centro de Estudos
Martianos, Havana, no 15, 1992, pp. 143-152.

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desde a década de 1880, na análise da sociologia e da psicologia


social do povo estadunidense nas condições dadas pela tran-
sição pela qual passava então, assim como por sua evolução
histórica.
Assim, tanto em A América quanto em suas crônicas da-
queles anos para os diários latino-americanos, Martí oferece a
seus leitores de língua espanhola uma visão dialética, de luzes
e sombras, que pretende captar as contradições que à época,
seu próprio desenvolvimento histórico e as conjunturas do
momento impunham ao país do Norte e a seus habitantes.
Daí, portanto, a acuidade e a permanência de sua análise,
essencialmente crítica, sobre os Estados Unidos, totalmente
isenta do repúdio absoluto ou da aceitação em bloco daquela
sociedade: em sua condição de defensor da independência e
também – como se diria hoje – da identidade e do desenvolvi-
mento próprio da América Latina – o que foi declarado expli-
citamente nos editoriais da revista –, o cubano olha os Estados
Unidos de dentro, com os olhos do “outro”, mergulhando
profundamente, como poucos, nos fundamentos e caracterís-
ticas dessa sociedade.
Por isso, sua obra faculta uma das panorâmicas mais ricas,
cheias de nuances e completas dos Estados Unidos durante
a década de 1880, e um dos conjuntos de apreciações mais
lúcidas de então sobre o desenvolvimento histórico pelo qual
enveredavam as duas regiões do Novo Mundo.
Assim, em A América, considera digno de elogio o sentido
de grandeza do povo dos Estados Unidos, baseado em seu de-
senvolvimento material: “Ver grandeza torna grande: – quem
entra em uma oficina norte-americana (...) não se espanta de
que tais aprendizes tenham feito tal povo. – O maravilhoso é
para eles natural, porque se criaram nele. Empreendem tudo,

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porque viram empreender tudo. De nada se surpreendem,


porque vivem em meio ao surpreendente”.19
Entretanto, em outra ocasião refere-se a esse sentido de
grandeza com um tom crítico, quando escreve que os Estados
Unidos são terra “que em tudo quer ares de gigante, luminárias
como crateras e circos como planícies”.20
Esse lado negativo aparece em sua pena quando descreve
o trânsito pela ponte do Brooklin – maravilha da engenharia
cuja inauguração relatou em crônica inesquecível para A América
–, quando diz que tanto seus criadores, quanto aqueles que a
mantinham e os que cruzavam por ela “parecem, salvo o ex-
cessivo amor à riqueza que como um verme rói suas magnas
entranhas, homens talhados em granito”.21
Observem-se os elementos de sinal contrário para apre-
sentar-nos os nova-iorquinos de então: parecem talhados em
granito, isto é, são fortes, duradouros, de tamanho histórico;
mas, por dentro, são roídos pelo verme da metalização; logo suas
entranhas, ainda que magnas, são, ao mesmo tempo, débeis.
Parece-me evidente que Martí indica uma relação entre
dois traços da psicologia social estadunidense: a consciência
da própria força e a alma metalizada. E os dois aspectos eram
vistos por ele como a base do caminho que os Estados Unidos
trilhavam em uma modernidade que implicava no material
sobre o espiritual.
Sua análise dessas características psicossociais evidenciou-
se na revista em suas reflexões sobre a imigração, tema de que
também tratou com freqüência em suas crônicas do início
19
J.M.: “Invenção muito útil”, agosto de 1883, O.c., t. 8, p. 408-409.
20
J.M.: “Exibição de cavalos em Nova York. Castas e prêmios”, outubro de 1883, O.c.,
t. 8, p. 358.
21
J.M.: “A ponte do Brooklin”, junho de 1883, O.c., t. 9, p. 424.

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da década de 1880 para Caracas e Buenos Aires, dada a óbvia


importância para qualquer observador da enorme corrente
migratória que os Estados Unidos recebiam na época.
Precisamente em A América, em fevereiro de 1884, Martí
publicou um de seus trabalhos mais significativos sobre esta
matéria: “Sobre a imigração inculta e seus perigos”. Ali deixou
estabelecido um preceito precursor cuja validade geral destacou
expressamente: “essa é a lei capital na introdução de imigrantes:
apenas deve buscar-se a imigração cujo desenvolvimento coin-
cida, e não entre em choque, com o espírito do país”.22
Daí vem sua preocupação com o tipo de imigrante que
chegava aos Estados Unidos. Para um país em rápido e poten-
te desenvolvimento industrial, o cubano considera perigosa a
imigração inculta, ou seja, a que chega sem educação industrial
e sem família.23 Portanto, considera inculto aquele desterrado
não apto a impulsionar no país do Norte um progresso moder-
no e harmônico. Embora também aprove os escandinavos, ao
examinar os grupos migrantes da Europa, não apenas porque
os suecos “costumam vir com as famílias” mas também por
sua condição de agricultores.24 Ao que tudo indica, Martí com-
preendeu a importância que o cultivo dos imensos territórios
novos do centro e do Oeste tinha para os Estados Unidos; mas
também influiu em seu julgamento o valor dessa imigração
de camponeses para as tradições democráticas do país, pois
escreveu que “de um povo de agricultores nunca se fará um
rebanho”.25

22
J.M.: “Sobre a imigração inculta e seus perigos”, fevereiro de 1884, O.c., t. 8, p.
384.
23
Ibidem, p. 382.
24
Ibidem, p. 383.
25
Idem.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

É evidente que seu apoio à imigração culta faz Martí ver com
bons olhos a imigração dos franceses, pois “cada um traz uma
arte”.26 Mas, nos três grupos nacionais com maiores contingen-
tes que chegavam aos Estados Unidos – alemães, irlandeses e
italianos – vê fatores de perigo para o espírito nacional.
Considera os alemães, ainda que trabalhadores, destituídos
de grandes amores humanos e preocupados principalmente com
o bem pessoal, além “de menos condições de distúrbio e mais
partículas passíveis de serem integradas ao corpo nacional do
que qualquer outro imigrante”. Destaca que se aglomeram nas
cidades, produzem o que consomem e seus filhos são amigos do
país e do trabalho. Qualifica os irlandeses de plantas parasitas
sem crescimento próprio, por não gostarem da agricultura e
serem diaristas sem ofício, isto é, uma verdadeira imigração
inculta.27 Quanto aos italianos, observa como favorável seu
“trabalho com mansidão e em silêncio”, em canais e ferrovias,
chamando-os de “bons e silenciosos trabalhadores”.28 Mas vê
como elemento desfavorável neles, desnecessário para um povo
novo, seu excessivo interesse pelo lazer e sua dedicação ao pe-
queno comércio de verduras e a “ofícios vergonhosos”.29
Creio que, para qualquer estudioso da história dos Estados
Unidos e do tema da imigração no final do século 19, estas
opiniões do cubano serão valiosas. Mas o que desejo, nessa
análise, é chamar a atenção para o fato de que suas referências a

26
Idem.
27
Ibidem, p. 383. Incluía referência à citação anterior. Esta opinião contrasta com a que
expressa mais de uma vez em La Nación, considerando os imigrantes alemães – junto
com os anarquistas russos – como os principais portadores, para os Estados Unidos,
dos ódios europeus e da violência.
28
J.M.: “Imigração italiana”, outubro de 1883, O.c., t. 8, p. 379-380.
29
Ibidem, p. 379.

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cada grupo nacional buscam sempre estabelecer a relação destes


com o espírito do país. Isto é, não se trata propriamente para
Martí de submeter a exame ou de julgar essas nacionalidades
européias, embora lhes atribua determinadas características,
mas de encontrar as relações entre os traços psicossociais dos
grupos que migravam para os Estados Unidos, e os que estes
encontravam em sua chegada ao país. Por isso, creio que, quando
fala dos perigos da imigração, estes devem ser vistos – da mesma
forma como o que se poderia chamar suas virtudes – provocados
tanto pelo choques quanto pelas coincidências entre os traços
originais e os novos. De tal prisma é que podemos entender, a
meu ver, suas indicações de aspectos nitidamente contrastantes
quando se refere aos grupos imigrantes mais numerosos.
Para Martí, que os alemães fossem na época “mais facil-
mente incorporáveis ao corpo nacional”, devia-se tanto a fatores
positivos (serem trabalhadores) quanto negativos (sua preocu-
pação “principalmente com o bem pessoal”). Esta ambivalente
adaptação de sua personalidade ao espírito do país é explicada
por Martí com maior precisão em outro de seus textos para
a revista, quando declara que os problemas causados pelos
irlandeses poderiam ser remediados pelos alemães “se não
fossem tão dados ao gozo de si próprios e tão desinteressados
do bem alheio”. E, no entanto, diz-nos que por essas mesmas
razões o filho do alemão educa-se no estudo, na vida familiar
e no trabalho, abonando assim novamente sua opinião de que
este migrante era mais facilmente incorporável à sociedade
estadunidense.
Nesse mesmo artigo defende a opinião, expressa na disser-
tação de uma recém-graduada sobre “o danoso influxo da ig-
norante imigração irlandesa nas cidades, onde com seu número
sufoca o voto, apoderando-se dele”. Acrescenta que nela não há

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acesso à cultura “por seu hábito de não se reunirem senão com


gente de seu rincão e por não ser o idealismo elemento singular
de sua natureza”. Por tudo isso, seu número tão elevado ameaça
Nova York de “miséria mental e moral”.30
Embora seu julgamento bastante duro sobre os irlandeses
fique evidente, não se deve perder de vista que o interesse de
Martí não é a análise da personalidade social deste povo, mas
a relação entre a que traziam seus imigrantes e a que encon-
travam em Nova York, e como isso contribuía para fortalecer
determinadas condições sociais que encontravam na cidade.
Por isso sintetiza assim sua avaliação negativa da contribuição
ao espírito americano das duas imigrações: “Vê-se que são um
mau alicerce de um povo formidável o embrutecimento e o
egoísmo”.31 Isto é, a que chama de imigração inculta (a irlande-
sa) choca-se com o espírito do país, mas a culta (a alemã) pode
contribuir com o que o cubano, desde muito jovem, condenou
como deformação espiritual dos Estados Unidos.
De outra parte, as condições de vida nas grandes cidades –
para ele, centros da vida moderna – afetam, a seu ver, o bom
desenvolvimento físico e espiritual do homem: “A vida agitada,
pestilenta e devastadora da cidade vai embrutecendo assim a
espécie. Nasce-se agora de pais cansados, exaustos, coléricos,
exangues, viciados”.32 Neste caso referia-se a Paris, mas é ób-
vio que tinha também em mente Nova York, pois assim nos
indica sua dramática descrição do verão nos bairros pobres da
cidade.

30
Ibidem, p. 441.
31
Ibidem, p. 442.
32
J.M.: “Pedras, frangos e crianças – Progressos da ciência”, fevereiro de 1884, O.c., t.
8, p. 435.

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Nos bairros pobres, é de chorar. De dia nas casas da vizinhança, repletas


de gente miserável, os maridos bêbados brigam com suas mulheres
desesperadas, que em vão tentam fazer calar seus filhos pequenos,
comidos pela cholera infantum. As pobres crianças parecem como se um
inseto enorme, instalado em suas entranhas, lhes houvesse sugado as
carnes. Olham com olhares cavernosos. Estendem suas mãozinhas
como pedindo socorro. Através da pele aparece a ponta dos ossos. Os
malvados converter-se-iam à virtude vendo semelhante espetáculo.
Mas, não; há muitos que vivem diante dele impassíveis, passando a seu
lado, coléricos porque tal miséria passa diante de seus olhos. 33
Como em muitas outras ocasiões, a descrição apresenta a injus-
tiça da cidade polarizada, ao mesmo tempo em que sua avaliação
indignada expressa claramente sua tomada de partido pelos nova-
iorquinos pobres, imigrantes na maioria, sendo este um elemento
importante para compreender que em Martí não existe um passa-
dismo bucólico e pastoril contra a vida urbana – embora algumas
vezes contraponha-a à vida rural, favorecendo esta última –, mas
o repúdio irado às injustiças sociais e às deformações morais que a
vida moderna ia impondo às grandes aglomerações de população.
Seu juízo crítico também não é contra a paisagem urbana em si
mesma, apesar de sua indubitável defesa da harmonia natural, mas
investe contra aspectos da estrutura social, especificamente contra
o problema social de seu tempo.34

33
J.M.: “Verão”, junho de 1884, O.c., t. 13, p. 488.
34
Não é por acaso que, justamente em 1883 e 1884, mostre em suas crônicas para La
Nación sua aproximação dos grandes conflitos operários que ocorriam então nos
Estados Unidos, e que igualmente essas tensões da modernidade ocupem a mente
do poeta em seus Versos livres. Basta tomar como exemplo da coerência entre sua prosa
e seus versos o poema intitulado “Amor de cidade grande”, datado de 1882 (Poesia
completa. Edição crítica, preparada pela equipe que, no Centro de Estudos Martianos,
realiza a edição crítica das Obras completas de José Martí, Havana, Editorial Letras
Cubanas, 1985, t. I, pp. 89-90).

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Assim, traça um paralelo entre a criação e a formação dos


jovens nas grandes cidades e no meio rural, ou em cidades
pequenas.
O rapaz estadunidense da cidade não é certamente modelo desejável,
– porque a ânsia de prazeres, a facilidade para satisfazê-los e o amor
desenfreado e desequilibrado ao lucro relaxam suas forças, ou lançam-
nas em caminhos aventurosos, ou não lhe permitem a necessária
disciplina e desenvolvimento. – Mas o rapaz do campo, ou de cidade
pequena, que vive em contato mais direto com os trabalhadores, e
deve esforçar-se mais para obter o que deseja, – constitui uma espécie
nobre de homem que, a uma astúcia singular, une um cego e grandioso
ímpeto, a que nada põe medo ou cobro.35
É óbvio que o modelo da grande cidade estadunidense era
Nova York, a única, aliás, que Martí conhecia diretamente na-
queles anos em que escrevia para A América e, indubitavelmente,
a grande metrópole de desmedido crescimento populacional e
urbanístico nos Estados Unidos da época. É importante notar na
citação que os elementos negativos que oferece aos jovens essa
vida de cidade grande (“ânsia de prazeres” e “amor desenfreado
e desequilibrado ao lucro”), são aspectos que como já vimos
considerava de sinal negativo no caráter nacional estadunidense.
Conseqüentemente, esta apreciação que fundamenta sua pre-
ferência pela vida rural ou de pequena comunidade estaduni-
dense permite explicar porque Martí considera que esse caráter
nacional mostra seus traços negativos, com os que lhe confere
a grande cidade moderna, cujo modelo era Nova York.
Seu evidente desagrado diante de tais aspectos da moder-
nidade, que considerava negativos, em auge descomunal naque-
les Estados Unidos em que vivia, levam Martí, em seus textos

35
J.M.: “Barcos de papel”, novembro de 1883, O.c., t. 8, p. 420.

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de A América, a contrapor o caráter nacional daquela época ao


de épocas anteriores.
Assim, em um texto em que explica a arquitetura da Bolsa de
Mercadorias de Nova York, por meio de um diálogo entre dois
comerciantes da rua Nassau, a propósito do objetivo da torre
que arrematava o edifício, oferece-nos uma análise comparativa
entre esses dois momentos do caráter estadunidense.
E essa é toda a chave, medula, força do caráter estadunidense: não fazem
nada sem objetivo. Não do caráter dos americanos de hoje, gozadores
descuidados e rápidos, que já não têm fruição como a tiveram seus
pais, em ver crescer e frutificar sua riqueza, mas desejam-na apenas
pela soma de prazeres que produz: do caráter dos americanos funda-
dores falamos que, se não tinham a levedura da arte que amadurece,
embalsama e preserva da obra destruidora dos séculos para as nações,
tinham uma poderosa e ingênua sensatez que se transformava, na
prática, em um grande amor aos alicerces, e em desamor não menor
ao ornamento. Por isso este povo cresceu; pela frase dos samuéis de
Nassau Street; porque não se dedicaram a ornamentar senão depois
de possuir tal edifício, que com o peso luxuoso dos adornos pode vir
estrepitosamente ao chão. 36
Aparte a alusão crítica implícita ao caráter latino-americano
– de excessivo amor ao ornamento, segundo escreveu em mais
de uma ocasião –, vale ressaltar como Martí aprecia nos “ame-
ricanos fundadores” sua sensatez prática, preocupada com os
alicerces, que os levou a aumentar suas riquezas, enquanto que
para o cubano seus contemporâneos continuam sendo quase
uns hedonistas, dedicados a desfrutar essa riqueza.37

36
J.M.: “Qual é o objetivo da torre?”, outubro de 1883, O.c., t. 9, p. 475.
37
Essa paixão que desemboca no luxo exibicionista e desenfreado foi assunto de fre-
qüente atenção em suas crônicas dos anos de 1880.

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E essa espécie de degradação favorece a incorporação da-


queles traços que qualificou de perigosos em vários dos grupos
imigrantes mais numerosos os quais, por sua vez, repercutem
em sentido contrário aos valores originais desse espírito na-
cional.
aquele bíblico espírito neoinglês, contente no bem-estar doméstico e
na robustez corporal, reto e astuto de coração, amplo e sadio, e mente
pouco universal e aberta: o primitivo espírito nacional (...) obscurecido,
perturbado e atropelado já, sem dúvida, pela horda trabalhadora, pela
multidão de todas as terras que, espantada com sua miséria original,
emprega enfaticamente o resto de sua vida em livrar-se dela, educan-
do seus filhos no terror à miséria, razão pela qual a existência destes,
esporeados pelo luxo alheio, consagra-se toda a acumulação ardente e
ao gozo desatento da fortuna. 38
A até certo ponto idílica apresentação feita por Martí do “pri-
mitivo espírito nacional”, e que talvez responda a seu desejo de
fazer-nos compartilhar sua condenação moral ao espírito de seus
contemporâneos, não o impede de ressaltar – com indubitável
carga negativa – a característica da intolerância (“mente pouco
universal e aberta”), tal e como procedeu na citação anterior
ao indicar nos estadunidenses fundadores, a falta da “arte que
amadurece, embalsama e preserva”. Os dois exemplos mostram-
nos sua análise essencialmente crítica e de base sociológica do
assunto, mais além das próprias convicções morais que o ani-
mam e das quais seus escritos tratam de convencer-nos.
Aprecie-se assim em suas palavras, primeiramente, como
relaciona esta com a pobreza nos países emissores, e em segun-
do, como influi sobre ela “o luxo alheio”, esse que, como vimos

38
J.M.: “Repertórios, revistas e publicações mensais literárias e científicas de Nova
York”, fevereiro de 1884, O.c., t.13, p. 430.

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anteriormente, criticava em seus contemporâneos estaduni-


denses, razão pela qual o descendente do desterrado também
se metaliza (sua vida “se consagra toda à acumulação ardente
e ao gozo desenfreado da fortuna”). Essas particularidades de
sua análise permitem-lhe compreender, ao mesmo tempo, as
transformações do caráter nacional carreadas pelas correntes
migratórias para a vida espiritual e cultural estadunidense:
Nota-se, apenas aprofunda-se um pouco, que nos Estados Unidos
há duas correntes intelectuais diversas: – autóctone uma, perspicaz,
preocupada, às vezes ingênua e às vezes brutal: a corrente puritana; – e
móvel, brilhante, perfilada, mais culta, mais artística, menos concreta
a outra, que é a que, não vencida certamente pelo espírito do país,
cresceu com a mescla das várias correntes intelectuais da Europa. –
Na obra americana genuína vêem-se as botas do tio Sam e as calças
recortadas. 39
O texto continua avaliando a presença de numerosos es-
trangeiros nos jornais estadunidenses da época.
O que representa no jornal americano cor, movimento, graça, variedade
e vida, foi feito por mãos francesas, italianas, alemãs, inglesas: – ou por
uma plêiade nova e brilhante de jornalistas jovens do país que abriram
mão, como das roupas de pano rústico, da descolorida e empolada
prosa ianque. – E da mescla dos dois espíritos, do penetrante, frio e
faustoso do país – e do artístico, depurado, amplo, variado e brilhante
espírito europeu, está se fazendo um jornal novo, que logo terá com
toda a amenidade de um diário parisiense, muito mais variedade, e mais
seriedade e alcance. Já não é pequena nos Estados Unidos a imigração
dos artesãos da pena.40

39
J.M.: “Sobre a imigração inculta e seus perigos”, fevereiro de 1884, O.c., t. 8, pp. 383-
384.
40
Ibidem, p. 384.

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E no que é com toda probabilidade um ângulo quase único


no enfoque da sociedade da época, destaca-se o forte contraste
entre a avaliação martiana do caráter do povo estadunidense e
sua descrição totalmente favorável dos aborígines do Norte,
cujas obras de arte atraíram particularmente sua atenção: “O
índio é discreto, imaginativo, inteligente, disposto por natureza
à elegância e à cultura”.41
Sua evidente simpatia para com estes povos leva-o a denun-
ciar e a condenar a espoliação de terras que vinham sofrendo,
justamente quando estava em seu apogeu a conquista do Ve-
lho Oeste. “Por que lhes roubam os vales onde nasceram, e
nasceram seus filhos e seus pais? Por que lhes prometem, ao
despojá-los de um campo fértil, dar-lhes outro que não parece
tão fértil, e mal se descobre que é fértil, tiram-nos dali, rompen-
do o tratado; e a eles, e a suas esposas, e a seus filhos pequenos,
pregam-nos nas árvores e metralham-nos se resistem?”42
Não se pode omitir estas frases, prenhes de tão emotiva e
nobre indignação frente ao genocídio da população aborígine
da América do Norte, como lemos antes a propósito dos bair-
ros miseráveis de trabalhadores imigrantes de Nova York. É
interessante que o cubano também tenha tomado partido por
aqueles índios, cujo extermínio não era sequer mencionado
pelos reformadores e lutadores sociais da época.
Restringindo-nos ao tema que nos ocupa, devemos advertir
que, de algum modo, suas palavras parecem evidenciar que, a
seu ver, a população aborígine poderia ter contribuído positiva-
mente para o caráter estadunidense, o que se pode depreender
também quando fala do desaparecimento a que parecia fadado

41
J.M.: “Arte aborígine”, janeiro de 1884, O.c., t. 8, p. 329.
42
J.M.: “O Century Magazine”, maio de 1884, O.c., t. 13, p. 447.

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o índio “esmagado pela formidável pressão branca ou diluído


na raça invasora”, e de seu caráter de “fator constante” no resto
do continente, cujo caminhar considerava imprescindível para
o progresso real das sociedades latino-americanas.43
A todos os elementos que para Martí acentuavam naquela
época as características de metalização do espírito estaduni-
dense, acrescenta ainda “a soberba consciência de sua força e o
desdém pelas demais raças que hoje caracterizam o povo norte-
americano”.44 E tudo isso está na origem de sua preocupação
com a intimidade inevitável e tão próxima que vislumbrava
entre as duas partes do Novo Mundo.
Seu senso de previsão quanto ao assunto ficou explícita e
sistematicamente demonstrado nas sólidas e acuradas análises
que publicou em A América, explicando as causas que levavam
o vizinho do Norte a essa aproximação, no que constitui um
dos temas centrais da revista.
Para ele, tratava-se de que o crescimento industrial estadu-
nidense, indubitavelmente favorecido durante um bom tempo
por uma política protecionista aliada a grandes vendas de cereais
por bom preço, chegava naquele momento a um ponto crítico.
Martí considerava que se produzira a vitalidade do mercado
interno ao mesmo tempo em que a indústria estadunidense
estava impedida de conquistar mercados externos, não apenas
em virtude da concorrência européia – com produtos mais
perfeitos – mas também pelos altos custos de seus produtos,
dado que seu protecionismo determinava também a elevação
dos preços das matérias-primas importadas.45

43
J.M.: “Arte aborígine”, janeiro de 1884, O.c., t. 8, p. 329.
44
J.M.: “Blaine e Tilden”, abril de 1884, O.c., t. 13, p. 265.b
45
Ver “Proteção e livre câmbio”, fevereiro de 1884, O.c., t. 10, pp. 13-17.

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Essa situação, para Martí, ameaçava criar uma crise social


cujos sinais mostrou em várias de suas referências ao tema das
violentas lutas sociais de então, sobretudo em suas Cenas norte-
americanas para La Nación, de Buenos Aires. Em A América apenas
menciona o assunto em duas breves frases, utilizando os mesmos
termos para descrever o perigo da explosão social: fome e ira. Em
um caso, diz: “A proteção (...) ameaça criar uma tremenda crise
de fome e de ira, nos países em que se mantém”.46 E, em outra
ocasião, refere-se ao “dano e risco em que lança um país a acu-
mulação de uma população industrial que se encontrará por fim,
devido ao excesso e ao alto preço de sua produção, demasiada para
o país e muito cara para os outros, de revolta, ira e fome”.47
Essa opinião de que o peso da contradição em que viviam a
indústria e a economia estadunidenses recairia sobre as camadas
trabalhadoras, obrigadas a pagar caro por produtos deficientes,
era o sacrifício “das grandes massas populares ao egoísmo de
diminutas classes privilegiadas”.48
Embora a política estadunidense tenha sido um tema acom-
panhado sistematicamente em suas crônicas para La Nación, na
revista nova-iorquina, no entanto – muito provavelmente por seu
declarado propósito de promoção comercial – em apenas dois
textos refere-se às posições e tendências dos dois partidos mais
importantes, e aos candidatos à disputa eleitoral de 1884.
No que foi publicado primeiro, analisa em detalhe os pré-
candidatos presidenciais dos partidos Democrata e Republicano,
especialmente os do segundo: o presidente Chester Arthur, o
general Sherman e James G. Blaine. E, no segundo artigo, faz

46
J.M.: “Liberdade, asa da indústria”, setembro de 1883, O.c., t. 9, p. 452.
47
J.M.: “México, os Estados Unidos e o sistema proibitivo”, fevereiro de 1884, O.c., t.
7, p. 30.
48
J.M.: “A questão tributária alfandegária”, março de 1883, O.c., t. 9, p. 375.

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um paralelo entre os que foram finalmente selecionados como


candidatos: Blaine e Grover Cleveland.
Conseqüente em sua posição de defesa latino-americanista,
Martí inclina sua preferência para Cleveland, pois este enfrentara a
corrupção como governador do Estado de Nova York e propunha
em seu programa respeito à soberania das demais nações.49 Nos
dois textos mostra-se claramente contrário a Blaine, de “espírito
napoleônico”, pois era “o chefe temido e brilhante dos republica-
nos que sentem o poder de sua nação, e consideram indigno de
um país de negociantes perder as oportunidades que hoje se lhe
oferecem para exercitar suas forças com proveito”.50
O cubano considerava, portanto, que na pessoa do candida-
to presidencial republicano uniam-se os interesses industriais
protecionistas – que começavam então a converter-se em mono-
pólios – aos políticos interessados em expandir para a América
Latina os limites do país, por meio da força e da imposição de
convênios comerciais, como o que foi proposto ao México em
1884, e cuja falta de reciprocidade foi cabal e brilhantemente
denunciada e analisada por Martí no primeiro número con-
servado em que colaborou para A América.51
A influência política determinante desses setores industriais
protecionistas levou-o a afirmar: “nos Estados Unidos, os re-
presentantes costumam ser os servos das empresas colossais e
opulentas que decidem, contra ou a favor, com seu peso imenso
na hora do voto, a eleição do candidato”.52

49
J.M.: “Candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos”, julho
de 1884, O.c., t. 13, p. 277.
50
J.M.: “Blaine e Tilden”, abril de 1884, O.c., t. 13, p. 264.
51
J.M.: “O tratado comercial entre os Estados Unidos e o México”, março de 1883,
O.c., t. 7, pp. 17-22.
52
J.M.: “Em comércio, proteger é destruir”, março de 1883, O.c., t. 9, p. 382.

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Para Martí, a própria lógica do ponto crítico que enfrentava


a indústria estadunidense obrigava esta a vender sua produção
no mercado mais favorável de então, tendo em vista sua proxi-
midade, nulo desenvolvimento industrial e produção agrícola e
mineral assimiláveis como matéria-prima: a América Latina.
Mas impor-se a ela, deslocando seus rivais europeus, só seria
possível se os Estados Unidos melhorassem suas condições de
competitividade, ou seja, se reduzissem o preço de seus produtos
e melhorassem sua qualidade.53
Daí as razões aventadas por Martí para assumir a crítica
repetida e sistemática do protecionismo em A América. Mais
do que um livre-cambismo radical, motivado por um apego
ortodoxo à doutrina econômica liberal,54 o cubano via nos im-
postos protecionistas o nó górdio, não apenas dos mais graves
problemas dos Estados Unidos naquela conjuntura, mas tam-
bém o de suas relações com seus vizinhos do Sul: a necessidade
desses mercados. É compreensível, portanto, sua preocupação
previdente com o tema: desenvolvimento industrial e protecio-
nismo, imigração e crescimento urbano, economia e política,
foram fenômenos da sociedade estadunidense analisados pelo
revolucionário cubano como um conjunto de aspectos interli-
gados que tendiam a orientar o futuro imediato daquela nação
para buscar a solução de seus problemas, até por meio da força,
na América meridional, o que era favorecido por uma psicologia
social mercantilizada, consciente de seu poder como nação, que
ignorava e desdenhava os povos latino-americanos.
O jornalismo de Martí em A América faz parte e é expressão
do processo de desenvolvimento de seu pensamento durante

53
Ver J.M.: “Proteção e livre câmbio”, fevereiro de 1884, O.c., t. 10, p. 17.
54
Rafael Almanza: Ob. cit., pp. 141-175.

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a década de 1880, em que o amadurecimento literário de sua


prosa foi acompanhado de um indubitável aprofundamento
da análise social, particularmente dos Estados Unidos. Seu
declarado propósito de alertar a América Latina quanto ao
impulso expansionista que ia tomando corpo naquele país, sus-
tentado no conhecimento de diversas facetas daquela sociedade
e de seus homens, mostra que o revolucionário cubano já se
tornava um estadista de visão e ação continental e universal.
Daí, a importância de seu olhar penetrante para o interior dos
Estados Unidos, com o coração posto ao lado de seus homens
do trabalho e preocupado com o destino dos melhores valores
e tradições desse povo.

Havana, 2 de abril de 1993 e agosto de 1994.

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SALVAR A HONRA DA AMÉRICA INGLESA
OS ESTADOS UNIDOS COMO PARTE DO PROGRAMA
REVOLUCIONÁRIO DE JOSÉ MARTÍ

1
Creio que muito se tem insistido – com toda a justiça, so-
bretudo porque durante boa parte do século 20 não recebeu
a ênfase necessária – no caráter e objetivos antiimperialistas
da obra de Martí, e me parece que ao apresentar, reiterada e
sistematicamente, certas avaliações do mestre sobre os Estados
Unidos, às vezes fortemente condenatórias, pode-se ter contri-
buído para dar a impressão de que nele explicitava-se uma visão
antiestadunidense, ou seja, que negava ou repudiava a sociedade
estadunidense em seu conjunto e em suas diversas facetas.
No entanto, todo aquele que conheça, ainda que minima-
mente, a obra do revolucionário cubano sabe que essa não foi sua
posição: reiteradas vezes ele expressou sua admiração e respeito
por muitas personalidades daquele país, chegando a divulgar
diversos aspectos de sua vida social que considerava positivos,
com o objetivo – nem mais nem menos – de que fossem estu-
dados para seu adequado aproveitamento na América Latina.

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Da mesma forma, Martí tampouco pregou ódio contra pessoa


ou povo algum, pois considerava que as condutas e a psicologia
social dos povos não são traços fatalmente impressos, mas ex-
pressão de seu desenvolvimento histórico-social específico.
“Não há raças: há apenas modificações diversas do homem, nos
detalhes de hábito e formas, que o transformam no que é idêntico e
essencial, segundo as condições de clima e de história em que vive.
É típico de homens de prólogo e de superfície – que não tenham
mergulhado os braços nas entranhas humanas, não ver, da altura
imparcial, ferver em forno igual as nações que, no ovo e no tecido de
todas elas não encontrem o mesmo permanente duelo entre o desin-
teresse construtor e o ódio iníquo – o entretenimento de encontrar
variedade substancial entre o egoísta saxão e o egoísta latino, o saxão
generoso ou o latino generoso, o burocrata latino ou o burocrata
saxão: de virtudes e defeitos são capazes igualmente latinos e saxões.
O que varia é a conseqüência peculiar dos diferentes agrupamentos
históricos”.1
Apelo a esta longa citação, não tão divulgada, porque coin-
cide plenamente com as frases escritas em 1891 em “Nossa
América”, onde afirmou: “Nem se pode supor, por antipatia
provinciana, uma maldade congênita e fatal no povo louro do
continente”. Nesse ensaio fundamental sustentou a mesma po-
sição ao repudiar a idéia de raças (“não há ódio de raças, porque
não há raças”) e emitir sua opinião favorável à semelhança da
identidade humana (“a alma emana, igual e eterna, de corpos
diversos na forma e na cor”).2

1
José Martí: “A verdade sobre os Estados Unidos”, em Obras completas, Havana, 1963-
1973, t. 28, pp. 290-291. Na seqüência, citaremos por esta edição, identificada com
as iniciais O.c., indicando apenas tomo e página.
2
J.M.: “Nossa América”, O.c., t. 6, p.22.

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Apreciações como estas devem fazer-nos compreender as


bases em que descansa o alcance universal da obra do mestre,
cujas verdadeiras e últimas pretensões não se limitam à sua
aspiração pela independência de Cuba e de Porto Rico, nem
mesmo ao seu afã estratégico de alcançar um equilíbrio entre
as duas Américas, mas consistiam – como ele disse mais de
uma vez – em buscar o equilíbrio no mundo. “É um mundo
o que estamos equilibrando: não são apenas duas ilhas que
vamos libertar”.3
Conseqüentemente, a exata compreensão e situação de suas
concepções – e de suas críticas – sobre a sociedade estaduniden-
se fazem parte e se integram às suas idéias sobre as transforma-
ções por obter nas Antilhas e em toda a América Latina, e nos
próprios Estados Unidos, para assim alcançar um equilíbrio em
escala planetária, para cuja realização prática dirigiu tanto sua
estratégia quanto sua ação para Cuba e para o continente.
Sabemos também que esse projeto, com indubitável caráter
revolucionário, quando considerados seus objetivos, inscreveu-se,
por outra parte, em amplos propósitos éticos, de elevado sentido
humanista. “A guerra de independência de Cuba (...) é evento de
grande alcance humano e serviço oportuno que o heroísmo judi-
cioso das Antilhas presta à firmeza e ao tratamento justo das nações
americanas, e ao equilíbrio ainda vacilante do mundo. Honra e
comove pensar que quando cai em terras de Cuba um guerreiro
pela independência (...), cai pelo bem maior do homem”.4
Nessa dimensão ética do projeto martiano, inevitável para
sua exata compreensão, descansa provavelmente o maior sentido

3
J.M.: “O terceiro ano do Partido Revolucionário Cubano. A alma da Revolução e o
dever de Cuba na América”, O.c., t. 3, p. 142.
4
J.M.: Manifesto de Montecristi, O.c., t. 4, pp.100-101.

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de sua universalidade e transcendência. Seu antiimperialismo


está condicionado precisamente porque se evidenciou justo no
momento em que surgia aquela nova etapa histórica, passageira
e transitória como qualquer outra. Sua ética de serviço humano
e de justiça social é um imperativo moral essencial à própria
existência da sociedade e às relações entre os homens; daí sua
permanência, para além das condições histórico-sociais de seu
tempo e do nosso, e muito provavelmente do futuro.
Por outro lado, estamos às vésperas do terceiro milênio;
para muitos, estamos vivendo já no século 21, em um novo
momento da história da humanidade. E, ao que parece, essa
época vai se caracterizar, entre outras coisas, pela formação de
grandes blocos econômicos no mundo, se olharmos para além
da conjuntural prova de força dos Estados Unidos durante
essa primeira metade da década de 1990: estende-se cada vez
mais a noção de que esse país está no início de sua queda como
potência hegemônica e de que está começando um período
de compartilhamento desse poderio estadunidense com o de
outras zonas e blocos do mundo capitalista.
Isso significa que se atendermos às expectativas do mundo
imediato e mediato do ponto de vista dos povos da América La-
tina e do chamado Terceiro Mundo, essa era de mudanças e de
transformações deve ser estudada para buscar dar-lhe a direção
mais adequada a nossos problemas e necessidades. Trata-se de
não deixar que os outros continuem impondo unilateralmente o
rumo que desejam à história. Para isso, as observações e a ótica
de Martí sobre os Estados Unidos são muito úteis e válidas,
na mesma medida em que em sua estratégia geral de transfor-
mação das Antilhas e da América Latina, e em sua busca do
equilíbrio continental e mundial, o mestre incluiu a renovação
dos próprios Estados Unidos.

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Com singular perspicácia como estudioso da sociedade, e


com peculiar ousadia para um político que não pôde imple-
mentar sua ação por meio de um Estado, o mestre baseou sua
estratégia política na íntima dialética entre as mudanças que se
propunha para nossa América e o necessário redirecionamento
que considerava urgente dos Estados Unidos para caminhos
mais vinculados aos princípios que lhe deram origem como
país soberano.

2
Nas últimas décadas, as apreciações de Martí sobre os
Estados Unidos foram abordadas de dois pontos de vista,
não contraditórios, mas com aspectos diferentes, que, caso se
complementassem, auxiliariam no entendimento mais cabal
do assunto.
Por um lado, muitos temos insistido em seu antiim-
perialismo a partir da análise quase exclusiva de seu programa
de ação continental para impedir a expansão estadunidense
para o Sul do continente e, por outro, permaneceu a tendência
a considerar Martí como um crítico de sua época – e, portanto,
dos Estados Unidos – do que se costuma chamar a Moderni-
dade.
Creio que o primeiro plano da análise deve partir dos pro-
pósitos da reflexão e da ação de Martí em relação aos Estados
Unidos. Mas, sem dúvida, o grau de compreensão da totalidade
e universalidade do pensamento do revolucionário cubano au-
menta se for confrontado com os grandes problemas e temas
com que se defrontava a humanidade da época.
Em duas palavras, e para dizê-lo de modo rápido e talvez
imperfeito: trata-se de não limitar Martí a suas fronteiras
insulares – corpo referencial central, dado que sua aspiração

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primeira era a independência de Cuba, mas de elevá-lo, a partir


dele mesmo, até as grandes linhas do desenvolvimento histó-
rico-universal de seu tempo. Esse confronto de suas idéias, de
algum modo filhas de sua época, mas que a transcenderam por
meio de um grande projeto de transformação social que incluía
vários espaços geográficos e sócio-econômicos diferentes e às
vezes até contraditórios, é o que explica seus pontos de vista
a favor e contra a vida moderna, e seu afã de transcendê-la
mediante uma sociedade nova nas Antilhas, que pretendia
mudar a rota histórica que se iniciava de desenvolvimento
do imperialismo, como uma fase superior da modernidade
industrial capitalista.
Para tanto, é altamente significativo examinar os propósitos
particulares de seu programa com relação aos Estados Unidos.
Aparecem em especial em seus textos da década de 1890, sem-
pre no contexto do tema da luta pela independência de Cuba,
justamente quando a organização desta campanha era o centro
da atenção de sua vida cotidiana.
Assim, em seu artigo publicado em Pátria, intitulado “O
terceiro ano do Partido Revolucionário Cubano”, ao referir-se
ao que chama no subtítulo “O dever de Cuba na América”,
escreve o seguinte:
No eixo da América estão as Antilhas, que seriam, se escravas, mero
pontão da guerra de uma república imperial contra o mundo zeloso
e superior que já se prepara para negar-lhe o poder, – mero forte da
Roma americana; e, se livres – e dignas de sê-lo pela ordem da liber-
dade eqüitativa e trabalhadora – seriam no continente a garantia do
equilíbrio, da independência para a América espanhola ainda ameaçada
e da honra para a grande república do Norte, que no desenvolvimento
de seu território – por infelicidade, feudal já, e dividido em partes hos-
tis – encontrará mais segura grandeza do que na ignóbil conquista de

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seus vizinhos menores, e na luta desumana que com sua posse travaria
contra as potências da terra pelo domínio do mundo.5
Estas frases constituem provavelmente a melhor síntese
de seu pensamento sobre o assunto: naquela conjuntura
mundial de fim de século, as Antilhas espanholas ganhavam
uma importância geopolítica particular, frente à próxima
abertura do canal do Panamá, e sua independência verda-
deira – segundo esta apreciação de Martí – contribuiria para
que os Estados Unidos não se convertessem na antítese de
seus fundamentos como nação, ou seja, em uma república
democrática dedicada à expansão e ao domínio de seus vi-
zinhos do Sul.
Logo, a independência antilhana teria uma dupla função
para a nação do Norte: ajudaria a evitar-lhe – tanto na conjun-
tura da política internacional imediata quanto no terreno das
novas relações internacionais que se delineavam – um enfrenta-
mento, até mesmo militar, com as grandes potências européias,
cujos interesses viam-se ameaçados pela intenção expansionista
estadunidense, ao mesmo tempo em que permitiria ao gran-
de país dedicar suas enormes e crescentes potencialidades ao
interior de seu próprio território, conturbado por profundos
conflitos sociais.
É certo que, no texto citado, de 1894, Martí não determina
com exatidão quais eram aqueles males, ainda que não se deva
desprezar tampouco, nessa citação, a indicação deles como
fenômenos de sinal contrário aos fundamentos republicanos e
democráticos: caracterizava o país como “feudal” e submetido
a fortes tensões internas.

5
J.M.: “O terceiro ano do Partido Revolucionário Cubano. A alma da Revolução e o
dever de Cuba na América”, O.c., t. 3, p. 142.

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A leitura de suas Cenas norte-americanas dá a ampla e multi-


facetada explicação de tais fenômenos. Interessa agora fixar-nos
na rica e acurada dialética de seu pensamento, como político e
estadista, a par das perspectivas gerais de seu tempo histórico e
com o anseio de influir neles a partir do previsível rumo de tais
perspectivas, segundo sua capacidade de análise. E, dado o tema
de que tratamos, verificar como fazem parte de suas análises,
assim como de seus objetivos e estratégia – enquanto elemento
necessário – tanto sua visão sobre os Estados Unidos de então,
quanto o sentido desejável e possível que deveria buscar-se para
seu desenvolvimento imediato.
De tal perspectiva, parece-me impossível deixar de indicar
o brilho e o tino da análise martiana, mesmo considerando-se
que os fatos posteriores não coincidiram exatamente com suas
previsões: o fato de não ter ocorrido a guerra entre as potências
européias e os Estados Unidos não pode levar-nos a descartar
a singular avaliação do revolucionário cubano sobre as então
nascentes rivalidades interimperialistas e o significativo papel
que atribuía à independência antilhana para assegurar um des-
tino histórico favorável ao desenvolvimento dos povos latino-
americanos. Singular e dialético protagonismo histórico foi
atribuído por Martí a essas ilhas, totalmente alheio aos enfoques
predominantes na época, que viam aquela zona – como qual-
quer outra dos povos dominados ou de menor desenvolvimento
– como meros receptores das influências e determinações das
grandes potências industriais e financeiras.
Ao mesmo tempo, não se deve passar por alto a ética que em-
basa a análise geopolítica de Martí, pois, como se viu na citação
anterior, a independência antilhana seria a garantia “da honra
para a grande república do Norte”, idéia que reitera em outros
textos. “As Antilhas livres salvarão a independência de nossa

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América, e a honra já duvidosa e lastimada da América inglesa,


e talvez acelerem e mantenham o equilíbrio do mundo”.6
Ética que Martí expressa também em um documento pú-
blico como o Manifesto de Montecristi, quando diz que ao cair
um guerreiro da independência em terras de Cuba, cai “pelo
bem maior do homem” e “pela confirmação da república moral
na América”. Propósitos estes de indubitável alcance universal,
que acompanhavam os de caráter mais estritamente geopolítico,
pois a citação continua mencionando um terceiro objetivo: “a
criação de um arquipélago livre onde as nações respeitosas
derramem as riquezas que por sua vez hão de cair sobre o
cruzeiro do mundo”.7
Assim, não parece audacioso afirmar que a estratégia revolu-
cionária traçada por Martí queria não apenas obter a salvação de
nossa América, mas também a dos Estados Unidos, na mesma
medida em que a estratégia buscava evitar a materialização dos
traços imperialistas nesse país, sua transformação na “Roma
americana”. Em duas palavras, para o cubano, não se tratava
apenas de salvar nossa América de ser absorvida pela expansão
imperialista, mas de salvar também a própria república estadu-
nidense do domínio desses interesses.

3
Como e porque Martí chegou a propor a si mesmo se-
melhante dialética para o futuro imediato do Norte e do Sul
da América é tema que pode ser rastreado ao longo de suas

6
José Martí: Carta a Federico Henríquez y Carvajal, 25 de março de 1895, em O.c., t. 4,
p. 111. Ver também em Epistolário, compilação, ordenamento cronológico e notas de
Luis García Pascual e Enrique H. Moreno Pla, prólogo de Juan Marinello, Havana,
1993, Centro de Estudos Martianos e Editorial de Ciencias Sociales, t. V, p. 118.
7
J.M.: Manifesto de Montecristi, O.c., t. 4, p. 101.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

crônicas sobre os Estados Unidos para os jornais hispano-


americanos.
Ainda falta muito por conhecer sobre os fundamentos do
conhecimento em que Martí assentou sua compreensão do que
chamamos de imperialismo. Mas são claramente discerníveis,
a meu ver, três traços básicos da sociedade estadunidense que
foram captados naqueles textos e que se integram plenamente
em seu pensamento.
O primeiro deles é sua avaliação de que a política estaduni-
dense afastava-se cada vez mais de suas origens democráticas,
para converter-se em um negócio mercantil em mãos de grupos
profissionais localizados nos dois partidos tradicionais, com
nítida tendência a formar uma oligarquia.8 Em mais de uma
ocasião mostrou o perigo de uma aristocratização com sentido
britânico da política estadunidense.9
Justamente quando Martí analisava esses temas começa-
va também a fazer as primeiras referências significativas aos
monopólios.10 E, nos anos seguintes, pode-se ver com clareza,
em suas Cenas norte-americanas, como assumiu e integrou à sua
própria crítica sobre a política estadunidense, aquela que existia
dentro dos Estados Unidos sobre os males que acarretavam os
monopólios de ferrovias para os pequenos produtores rurais,
assim como os nascentes trustes industriais para o capital de
livre concorrência e para o povo consumidor.
Parece-me que se trata de um momento decisivo em seu
processo de conhecimento dos fundamentos daquela sociedade

8
J.M.: “Cartas de Martí. História da queda do Partido Republicano nos Estados Unidos
e do ascenso ao poder do Partido Democrata”, O.c., t. 10, pp. 181-209.
9
J.M.: “Carta de Nova York. Povos preguiçosos”, O.c., t. 9, p. 108.
10
J.M.: “Cartas de Martí. A procissão moderna”, O.c., t. 10, pp. 83-85.

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em acelerada mutação, pois as críticas a tais mudanças surgidas


dentro dela permitiram-lhe ir compreendendo as estreitas rela-
ções entre interesses econômicos e políticos, e entre os grupos
de poder que se articulavam nas duas esferas.
Por isso, no processo das eleições de 1888, mostra mais de
uma vez a íntima relação entre o que chama às vezes de oligar-
quia política e os monopólios em formação. Esta relação é o
segundo dos traços básicos da cambiante sociedade estaduni-
dense analisados por Martí.
O terceiro ângulo captado pela análise martiana será a in-
fluência dos novos interesses financeiros e monopolistas na
política externa da nação, o que explicitou em suas crônicas
sobre a primeira Conferência Panamericana de 1889-1890,
embora salte aos olhos que, desde 1884, estava assimilando a
compreensão do fenômeno, quando escreveu seu trabalho sobre
o tratado comercial entre o México e os Estados Unidos.11
Neste artigo, publicado em A América, de Nova York, Martí
mostra claramente o objetivo pretendido por aquele documen-
to, que não chegou a ser ratificado, quanto a abrir o mercado
mexicano para o excedente industrial dos Estados Unidos
e à obtenção por este país de determinadas matérias-primas
mexicanas. É claro que o cubano baseou sua análise crítica no
conceito contemporâneo de assimetria, razão pela qual pôde
descrever o inevitável signo de dependência econômica que o
Tratado estabeleceria para o México, na medida em que fora
elaborado em função dos interesses econômicos dos Estados
Unidos.
Sem dúvida nenhuma, o afastamento do governo de James
G. Blaine, substituído na Secretaria de Estado pelo presidente

11
J.M.: “O tratado comercial entre os Estados Unidos e o México”, O.c., t. 7, pp. 17-22.

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Arthur, quando este assumiu a presidência, depois da morte de


Garfield, foi visto por Martí da mesma forma como viu o episódio
a maioria dos círculos políticos e a imprensa estadunidense
da época: a ala do Partido Republicano encabeçada pelo novo
presidente pretendia dedicar-se essencialmente aos problemas
internos, passando ao segundo plano a preocupação com a Amé-
rica Latina. Em duas palavras: os círculos financeiros ainda não
estavam em condições de impor ao país sua política externa.
Durante o resto da década continuaram ocorrendo fatores
históricos, de política e de estrutura, na sociedade estaduni-
dense, que terminaram por evidenciar para Martí o alcance
do que viria. Atento e sistemático comentarista dos debates
sobre protecionismo e livre câmbio, e cronista habitual dos
problemas de uma sociedade industrial limitada por seu
próprio mercado e necessitada de novas fontes de matérias-
primas, o cubano referiu-se uma e outra vez a estes assuntos,
assumindo sempre a perspectiva dos interesses das grandes
maiorias, da população obrigada a consumir a preços eleva-
dos mercadorias protegidas, e submetidas também às tarifas
impostas pelos monopólios das ferrovias.12
Essa perspectiva dos interesses antimonopolistas assumida
por Martí contribuiu para que ele entendesse um problema que
se aproximava a passos de sete léguas das nações latino-ameri-
canas: sua relação comercial e econômica com esses interesses
monopolistas que lutavam para dominar dentro dos Estados
Unidos e para dirigir sua política externa no sentido da criação
de uma zona de domínio territorial e econômico.

12
Rafael Almanza: Em torno ao pensamento econômico de José Martí, Havana, Editorial
de Ciencias Sociales, 1990, cap. 5. Este valioso livro é um estudo acurado do tema
econômico em Martí, sendo seus capítulos 6 e 7 de consulta imprescindível para o
conhecimento da fundamentação do antiimperialismo martiano.

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O triunfo dos republicanos em 1888 e o regresso de Blaine


à Secretaria de Estado, convocando de imediato a Conferência
Internacional Americana que não pudera efetuar-se quatro anos
antes, evidenciou que de novo o Estado estadunidense abria
caminho para aqueles interesses que necessitavam dessa zona
de domínio. Não se pode esquecer que já então setores-chave
eram propriedade dos trustes, como a produção de aço e de
ferro, a extração de petróleo e o refino de açúcar, tão importante
para a economia cubana.
As linhas da época tendiam assim a unir a ação dos polí-
ticos imperialistas às necessidades dos monopólios nascentes.
Por isso, as denúncias martianas quanto aos propósitos de tipo
imperialista que animaram a convocação do encontro de Wa-
shington encerram o ciclo de sua compreensão do fenômeno.
Jamais houve na América, da independência até hoje, assunto que exija
mais sensatez, nem que necessite de mais vigilância, nem que peça exa-
me mais claro e minucioso, do que o convite que os poderosos Estados
Unidos, repletos de produtos invendáveis, e determinados a estender
seu domínio na América, fazem às nações americanas de menor poder,
ligadas pelo comércio livre e útil aos povos europeus, para articular uma
liga contra a Europa e fechar tratados com o resto do mundo.13
Desde então, estavam delineadas para ele a necessidade e
as múltiplas arestas que dariam vida a seu projeto de libertação
continental.

4
O interesse do que resta de honra na América Latina, o respeito que
impõe um povo com decoro, a obrigação que tem esta terra de não

13
J.M.: “Congresso Internacional de Washington. Sua história, seus elementos e suas
tendências”, O.c., t. 6, p. 46.

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se declarar ainda diante do mundo um povo conquistador – o pouco


que resta aqui de republicanismo sadio – e a possibilidade de obter
nossa independência antes que seja permitido a este povo pelos nossos
estender-se por suas proximidades, e dirigi-los a todos – eis aí nossos
aliados, e com eles empreendo a luta.14
Este fragmento de uma carta escrita nos dias daquela con-
ferência mostra claramente o alto grau de consciência de Martí
ao traçar sua estratégia revolucionária e o papel de aliados que
atribuía a alguns setores dos Estados Unidos.
Antes de prosseguir, quero referir-me a outra parte de seus
aliados: “o que resta de honra na América Latina”. A frase, in-
dubitavelmente, não é simpática. Creio que deve ser entendida
como outra prova da consciência martiana, nesse caso com
relação às limitações e oposições que seu programa despertaria
junto às oligarquias latino-americanas.
O que nos leva a refletir sobre o papel atribuído por Martí a
seus escritos jornalísticos sobre os Estados Unidos. Lembre-se
que o cubano foi o divulgador da realidade estadunidense para
seus leitores, isto é, as elites – as oligarquias e seus ideólogos,
principalmente – que liam os jornais em que publicava suas
Cenas. Logo, essas crônicas, além de mostrar-nos o caminho
do conhecimento seguido por Martí com relação ao Estados
Unidos, cumpriam para ele a função essencial de alertar esse
setor social, que tinha em suas mãos o controle do Estado e a
hegemonia nas sociedades latino-americanas, quanto aos peri-
gos que estavam criando para seus países e para si próprios.
Tratava-se para ele de dar a conhecer a esta elite a ameaça
crescente que representava o vizinho do Norte e como se en-

14
J. M.: Carta a Gonzalo de Quesada, 16. de novembro de 1889, O.c., t. 6, p. 122.
Epistolário, ob. cit. t. II, p. 156.

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fraqueceria a capacidade de resistência, se não fosse eliminado


o espírito colonial mantido apesar das reformas liberais da
segunda metade do século 19, que não propiciaram o acesso à
justiça social para as grandes massas, o “homem natural”, como
disse Martí em “Nossa América”.
É para esses leitores da América Latina – políticos, diploma-
tas, intelectuais, homens de negócios – que o cubano explicava
o que acontecia nos Estados Unidos e a quem pedia apoio para a
independência de Cuba contra as intenções anexionistas articu-
ladas por trás dos bastidores na conferência de Washington.
Creio que a extensa obra jornalística do mestre nos situa
diante de um trabalho em profundidade, que mostrava a seu
público os perigos a que o expunha sua própria ação, e que
estimulava a busca do conhecimento e o respeito por parte
dos elementos ainda sadios, não ganhos pelo expansionismo
imperialista, no seio da sociedade estadunidense.
Esses aliados procurados por Martí nos Estados Unidos
eram precisamente os setores críticos do capital monopolista.
Três exemplos ilustram este assunto que, aliás, merece um
estudo mais profundo.
O primeiro. A personalidade estadunidense mais destacamento
apresentada por Martí, sempre sob um aspecto positivo, foi Emer-
son. O filósofo é um caso praticamente único, pois nem no que
se refere a alguém que tanto admirava, como Lincoln, deixou de
criticar suas idéias de converter Cuba em destino de negros para
tirá-los de sua presença nos Estados Unidos. Tampouco a Frederick
Douglas, o grande abolicionista, perdoou suas manobras anexio-
nistas como diplomata, na República Dominicana e no Haiti.15

15
J.M.: “Congresso Internacional de Washington. Sua história, seus elementos e suas
tendências”, O.c., t. 6, p. 48.

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Graças aos estudos de José Ballón16 pode-se perceber que


ao mesmo tempo em que o sentido ético da obra de Emerson
fazia uma ácida crítica a essa sociedade “metalizada”, suas idéias
foram utilizadas pelos contemporâneos de Martí, durante a
década de 1880, para atacar o nascente domínio dos monopó-
lios e esse mesmo espírito metalizado que se exacerbava nos
Estados Unidos.
O segundo. Em contraste com a maneira de apresentar
Emerson chama a atenção a maneira como a prosa martiana
nos apresenta seus contemporâneos dos Estados Unidos, prin-
cipalmente políticos e capitalistas, vários deles em transição
para transformarem-se em capitães do mundo monopolista e
financeiro. Em seus numerosos perfis Martí jamais descreve
homens de um só matiz: insiste várias vezes em mostrar quando
e como muitos deles representam perigo intervencionista para
a América Latina ou têm uma moral duvidosa.
Talvez um dos casos mais bem resolvidos, literária e bio-
graficamente, seja o do general Grant. Mas seu método de ver
as personalidades estadunidenses em seus tons brancos, negros
e cinzentos foi aplicado igualmente aos generais Sheridan, Lo-
gan e Hancock; a políticos como Arthur Blaine e Cleveland;
e a homens de negócios como Vanderbilt ou Jay Gould.17 Esse
método foi empregado tanto em extensos perfis quanto nos de
algumas linhas – e às vezes até de uma frase – dentro de uma
crônica tratando de vários assuntos.
Vale notar, por um lado, que Martí nunca aplicou seme-
lhantes julgamentos a figuras latino-americanas. Nem Porfírio

16
Autonomia cultural americana: Emerson e Martí, Madri, Editorial Pliegos, 1986.
17
A maioria desses perfis está reunida no tomo 9 de O.c., sob a epígrafe de “Estaduni-
denses”.

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Díaz, nem Guzmán Blanco, nem Justo Rufino Barrios – perso-


nalidades que conhecera bem durante suas estadias no México,
na Venezuela e na Guatemala – levaram-no a escrever perfis ou
avaliações públicas, ainda que saibamos que nenhum desses três
governantes lhe era simpático ou atraente. Há apenas breves
frases em uma crônica, criticando o caminho da força trilhado
por Barrios para impor a união centro-americana em 1885.18 É
de notar essa ausência de julgamentos pessoais visto que, por
outro lado, Martí brandia diante deles, em sentido contrário a
suas idéias e seus atos em boa parte dos casos, seu projeto de
uma república nova e de sincera democracia.
Portanto, as eventuais chicotadas da pena martiana em
personalidades estadunidenses, buscavam, evidentemente, mais
do que mostrar os defeitos daqueles indivíduos, explicar como,
ainda que submetidos a condições sociais e históricas diferentes,
semelhantes defeitos e taras morais podiam manifestar-se entre
os grandes homens do Norte como entre os do Sul. Seu fim
explícito era barrar o “excessivo amor ao Norte” ou “ianque-
mania” entre os latino-americanos.19
Por isso escreveu sobre as grandes personalidades do Norte,
portadoras, em muitos casos, de vícios semelhantes a muitos
de seus próprios leitores, a fim de fazer compreender que não
eram modelos a seguir ou imitar.
E, por esta razão, apresentou aqueles que considerou porta-
dores dos melhores valores na sociedade estadunidense, aqueles
que, certamente, quase todos eles, foram críticos daquela socie-
dade que se modernizava a passos gigantescos e eram, vários
deles, lutadores declarados pela reforma social.

18
J.M.: “Inauguração de um presidente nos Estados Unidos”, O.c., t. 10, p. 169.
19
J.M.: “A verdade sobre os Estados Unidos”, O.c., t. 28, p. 293.

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Esse interesse é o que leva Martí a transformar pessoas


como o padre McGlynn – o sacerdote excomungado que
enfrentou o corrupto aparelho político de Nova York – ou
Henry George – autor muito divulgado de um programa
de reforma social e figura política do movimento de con-
testação da década de 1880 contra a política tradicional – em
atores protagonistas do teatro estadunidense descrito em
suas crônicas. 20 Tratava-se, portanto, de mostrar, na medida
do possível, as opções ou dissidências que apareciam então,
confrontando-se ao avanço da sociedade metalizada sob o
domínio dos monopólios.
Seu acompanhamento atento do problema social, muito
exacerbado durante a década de 1880 no país, leva-nos ao
terceiro exemplo que permite entender porque Martí consi-
derava que ainda existia honra nos Estados Unidos. Conflitos
entre o capital e o trabalho foram várias vezes relatados pelo
cubano. Chegou a dizer o seguinte: “Estamos em plena luta
entre capitalistas e operários”.21 E, até mesmo vaticinou sobre
o futuro do seguinte modo: “como há de vir, construído pelos
trabalhadores, um universo novo”.22
De onde seu interesse em descobrir as idéias socialistas de
sua época e os movimentos inspirados nelas, considerando,
de um lado, que aquelas eram um resultado lógico da história
européia; embora se opondo, tenazmente, a que fossem com-
batidas com a mesma política com que eram enfrentadas no
Velho Mundo: a violência. Nela – e na escandalosa miséria e

20
Ver, por exemplo, O.c., t. 11: “Cartas de Martí. As eleições de outono”, p. 89; “O cisma
dos católicos em Nova York”, p. 139 e “A excomunhão do padre McGlynn”, p. 241.
21
J.M.: “Cartas dos Estados Unidos. Morte de Guiteau”, O.c., t. 9, p. 322.
22
J.M.: “Carta a A República”, O.c., t. 8, pp. 22-23.

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superexploração iníqua das massas trabalhadoras, que descreveu


várias vezes – encontra o caldo de cultivo dentro dos próprios
Estados Unidos para o protesto social e as idéias reformadoras.
De onde, também, por outro lado, seu olhar favorável para os
Cavaleiros do Trabalho, a quem atribuiu uma autoctonia ou raiz
estadunidense, sobretudo por admitir o sistema democrático
do país, que afiançavam com sua ação.
O fato de relatar diversas vezes em suas crônicas as ações
do movimento operário e dos grupos anarquistas e socialistas
dos Estados Unidos tinha o objetivo básico de demonstrar aos
latino-americanos, não a viabilidade no Sul daquelas idéias,
mas os profundos desajustes internos que enfrentava aquela
república, vista por tantos como modelo, e que, dentro dela,
havia pessoas, grupos e movimentos que conservavam a honra
da nação, que não se deslumbravam com o poderoso e precioso
paraíso da modernidade industrial capitalista e que, por con-
seguinte, tampouco se deixavam iludir pela ascendente moral
metalizada daquela sociedade.
Por tudo isso, ocorre-me pensar que, assim como existem
setores intelectuais nos Estados Unidos que começam a tomar
consciência de que sua sociedade não é a primeira do mundo,
que começa a viver um certo declínio, e que o século 21 não será
o século do domínio hegemônico da superpotência estaduni-
dense, seria muito bom poder entender Martí, porque ajudaria
a perceber como, dentro de sua própria história e dentro dos
próprios Estados Unidos, será possível, talvez, encontrar forças
para uma renovação a partir do interior.
Martí, portanto, tem muito a nos dizer ainda, ao Sul e ao
Norte do continente. E dessa maneira pode ajudar hoje ainda
nessa nobre e necessária tarefa de salvar o que possa restar de
honra nos Estados Unidos.

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“O FANTASMA DE BANQUO”
O PROBLEMA SOCIAL NAS CENAS NORTE-AMERICANAS
NOTAS PARA UM ESTUDO

Mas agora os mortos ressuscitam


com vinte feridas mortais na cabeça
e nos arrancam de nossos assentos.
W. Shakespeare: Macbeth
(cena IV, terceiro ato)

1
A consciência culpada faz Macbeth ver o que ninguém
mais vê: o espectro do general Banquo, que mandou assassi-
nar, e que ocupa o posto do rei na mesa de um banquete no
palácio.
Os mortos voltam para atormentar seus assassinos – esta é
obviamente uma das leituras que se pode fazer deste episódio da
tragédia de Shakespeare. E é óbvio que o dramaturgo também
quer dizer-nos que fazem isso para se situarem na posição de
cúpula para cujo desfrute o rei escocês mata todos aqueles que
considera seus possíveis rivais.
José Martí, leitor sistemático e perscrutador do dramaturgo
desde sua precoce adolescência, evocou o espectro de Banquo
naquele 27 de abril de 1886, enquanto escrevia uma de suas
Cenas norte-americanas, com uma frase que provavelmente fez

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recordar a muitos de seus leitores o ditado: mais vale prevenir


que remediar.
Viver bem e sem preocupações é bom e confortável; mas não basta para
espantar os problemas desses tempos que, à nossa revelia, sentam-se à
mesa do banquete, como o fantasma de Banquo.
A referência literária põe-nos diante do que seria sempre um
dos objetivos da escrita jornalística martiana: prevenir seus leito-
res da América espanhola quanto às características e problemas
do mundo moderno e adiantar critérios para que a incorpora-
ção da região à marcha do planeta, que considerava necessária,
ocorresse a partir de sua própria perspectiva, em função de seus
interesses particulares e mantendo-se o sentido da autoctonia.
Tratava-se, como o próprio Martí o fez ao longo de sua vida e
de sua obra, de ser criador, de pensar com originalidade, graças
ao conhecimento da alma e dos problemas próprios dos povos
latino-americanos.
Foi partindo de tais pré-requisitos que o cubano analisou o
problema social nos Estados Unidos, conflito que se estendia por
todo o mundo moderno da época e que, previsivelmente, não
tardaria em manifestar-se nos países latino-americanos, se é que
já não se fazia sentir discretamente em alguns deles, de acordo
com seu incipiente desenvolvimento industrial.

2
Na vasta produção intelectual de José Martí sobre os Estados
Unidos, um dos temas que sobressai – tanto pelo espaço quanto
pelo destaque que lhe é dado pelo próprio autor – é o que a se-
gunda metade do século 19 chamou de problema social, ou seja,
a luta de classes entre capitalistas e operários, cujo incremento e
internacionalização foram convertendo em problema central do
capitalismo da época.

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Claro que esse era ainda um tema limitado àquela parte


do planeta onde o desenvolvimento do capitalismo industrial
provocava a relação conflituosa entre as duas classes sociais; em
outras regiões, outros eram os problemas sociais a enfrentar.
Assim, em Cuba, a abolição definitiva da escravidão em 1886
não eliminou, nem sequer da linguagem, a expressão das
desigualdades raciais como o problema social por resolver. O
próprio Martí empregou em mais de um caso a frase relacio-
nada ao assunto.1
Por sua vez, a sociedade estadunidense viu, justamente na
época em que Martí residia em Nova York e escrevia as Cenas
norte-americanas, aparecer subitamente o moderno problema social
que atormentava a Europa há tanto tempo. A década de 1880 pôs
na berlinda os limites que o impetuoso crescimento industrial do
país já alcançava, favorecido pela solução da escravidão, o arcaico
problema social herdado da colônia.
Uma combinação de fatores tornou evidente que o desen-
volvimento industrial dos Estados Unidos adotaria novas formas
que pouco a pouco abririam caminho através da monopolização
da produção e da influência do capitalismo bancário dirigido
para o controle do setor produtivo. O que Karl Marx previu
como tendência do capitalismo (a centralização e a concentração
produtivas) iniciava sua transição para o imperialismo, como
diriam mais tarde dois de seus seguidores teóricos: Hilferding
e Lenin.

1
Ver as cartas a Antonio Maceo, de 20 de julho de 1882, e a Serafín Bello, de 16 de
novembro de 1889. Em José Martí: Obras completas, Havana, 1963-1973, t. 1, pp. 171-
173 e 253-254, respectivamente. Na seqüência, citamos por esta edição, indicando
portanto, apenas tomo e página. Ver também Epistolário, compilação, ordenação cro-
nológica e notas de Luis Garcia Pascual e Enrique H. Moreno Pla, prólogo de Juan
Marinello, Havan, Centro de Estudos Martianos e Editorial de Ciencias Sociales,
1993, t.I, pp. 234-236 e t. II, pp. 158-159.

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Aquele momento de crise do capitalismo industrial nos Es-


tados Unidos foi potencializado – como sempre acontece – no
caso dos setores sociais dominados, neste caso, os pequenos pro-
dutores rurais e os operários; no caso destes últimos, mediante a
baixa do salário nominal e a recusa dos empregadores de encurtar
a jornada de trabalho; no caso dos primeiros, por meio das ta-
rifas impostas pelos monopólios das ferrovias – os primeiros e
mais rápidos a se formarem – que deprimiram aceleradamente
os preços agrícolas.
Em conseqüência, pequenos produtores rurais e operários se-
riam setores contestatórios da sociedade estadunidense durante a
década de 1880; com sua luta tentaram – e conseguiram – formas
de atuação unificadas por suas reivindicações mais imediatas, as
quais chegaram a alcançar dimensões políticas. Aquela época de
auge das lutas populares, por mais de uma razão, atraiu a atenção
e o acompanhamento jornalístico de Martí.2

3
Uma rápida revisão das crônicas martianas sobre os Estados
Unidos permite verificar que o tema social é sistematizado a
partir de 1886; entre março e junho daquele ano domina quase
completamente suas páginas. É claro que o poderoso movimento
grevista que abalou a nação durante aqueles meses não podia es-
capar ao olhar do jornalista, que devia assegurar uma informação
atualizada a seus leitores hispano-americanos sobre os aconteci-
mentos mais importantes que ocorriam no país do Norte. Mas
isso não quer dizer que até então o tema estivesse ausente de

2
Sobre o tema social em Martí é imprescindível o livro de José Cantón Navarro: Algumas
idéias de José Martí sobre a classe operária e o socialismo, Havana, Direção Política das FAR,
1970, 2a edição, Havana, Centro de Estudos Martianos e Editora Política, 1980.

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seus textos; apenas o enfocara esporadicamente. E embora tenha


lhe atribuído importância primordial para o presente e o futuro,
tanto dos Estados Unidos quanto da humanidade moderna, o
problema social permanece um assunto secundário até 1886,
em função de seu acompanhamento sistemático, sobretudo, dos
vai-e-vens da política e do governo estadunidenses.
É claro que não se pode esquecer de modo algum que as
Cenas norte-americanas deviam cumprir os requisitos impostos
por seu caráter jornalístico. Em uma época em que ainda nem
se imaginava a rapidez atual da informação, as crônicas dos cor-
respondentes eram obrigadas a ampliar as notícias transmitidas
de modo breve pelo telégrafo; no caso de Martí, estas eram
envolvidas e até superadas por sua rica trama analítica e suas
maravilhosas narrações de alto valor literário e estilístico.
Além disso, como é sabido, ele teve que adaptar seus textos,
em expressão e conteúdo, ao que lhe pediam e lhe permitiam
os diretores dos jornais para os quais escrevia; é de supor que
em La Nación, de Buenos Aires, dada sua longa colaboração de
uma década, foi ganhando, na prática, certas liberdades quanto
à seleção de assuntos e ao enfoque que lhes dava.3
Fica evidente que houve no cubano uma vontade expressa de
assumir o problema social nos Estados Unidos e de mostrá-lo de
seu ponto de vista a seus leitores hispano-americanos quando,
em março de 1883, depois de relatar durante um bom espaço
as honras a Marx depois de sua morte e de reclamar atenção e

3
Ver as cartas a Martí de Fausto Teodoro e Juan Luis Aldrey, e de Bartolomé Mitre y
Vedia, onde são definidas as linhas editorias de seus respectivos jornais (A Opinião
Nacional, de Caracas e La Nación, de Buenos Aires) e são fixados os limites permi-
tidos a seu correspondente em Nova York. Em Destinatário José Martí, compilação,
ordenação cronológica e notas de Luis García Pascual, Havana, Casa Editora Abril
e Centro de Estudos Martianos, 1999, pp. 73, 76, 79, 96, 97, 100, 101 e 107.

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melhora nas infra-humanas condições de vida e de trabalho das


mulheres operárias da cidade, acrescenta o seguinte, com relação
à opinião pública nova-iorquina: “Mas a cidade não fala muito
destas coisas”.4 Isto é, o jornalista cubano entrava, com plena
consciência de sua transgressão, em um tema que a imprensa e os
meios sociais da grande metrópole evitavam, por não considerá-
lo então de primeira importância.
E se, por outro lado, considerarmos que seus textos pre-
tendiam demonstrar a seus leitores que os Estados Unidos não
tinham porque ser vistos como um modelo para os povos de
nossa América, como ele mesmo disse, – aspecto este que me
atreveria a afirmar foi o objetivo primordial de suas Cenas norte-
americanas –,5 é evidente que seria equivocado transformar o
corpo de idéias expressas nessas crônicas em análises próprias
da história, da sociologia, da economia ou da política.
Trata-se, portanto, de compreender, a partir destas discipli-
nas sociais, que a função imediata e essencial daqueles textos é
a comunicação jornalística e não o exame acadêmico, o que – é
claro – não impede que em suas páginas haja rigor analítico e
profundidade, e até uma perspectiva tão original e criadora que,
em mais de uma ocasião, revelam a realidade social estaduniden-
se com mais penetração que a de muitos cientistas sociais seus
contemporâneos; tanto é assim, que seu testemunho da época
ainda traz elementos valiosos para o estudioso de hoje.
Para as elites ilustradas hispano-americanas que constituíam
o universo potencial de leitores daquelas crônicas, a política era

4
J.M.: “Carta de Martí. Suma de sucesos”, O.c., t. 9, p. 390.
5
Em sua carta a Manuel Mercado de 22 de março de 1886 diz que com suas crônicas “pôs
em seu lugar certas afeições que em nossos países sentem por este, sem entrar jamais em
denúncias nem censuras concretas”. O.c., t. 20, p. 85. Epistolário, ob. cit., t. I, p. 325.

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assunto prioritário, enquanto o grande enigma que as assombrava


era ver os Estados Unidos transformarem-se em uma grande
potência produtora e em uma das sociedades paradigmáticas da
modernidade. Em conseqüência, o problema social tinha que ser
mostrado pelo correspondente nova-iorquino sem violar as regras
do jogo; nossa análise atual de suas idéias sobre o assunto deve
considerar esses limites à plena expressão de seu pensamento.

4
É o protesto operário na forma de greve que faz aparecer o
assunto nos escritos martianos. Na carta a A Opinião Nacional, de
Caracas, de 12 de março de 1882, Martí informa sobre várias gre-
ves: dos trabalhadores nos moinhos de Chicago, dos mineiros de
Cumberland no Estado de Maryland, dos ferreiros de Pittsburg,
das fiandeiras de Lawrence e dos empregados em terraplanagem
de Omaha. É a greve nesta última cidade que relata na crônica,
com eficaz dramaticidade, justamente porque houve violência e
foi morto um operário, evento com o qual precisamente inicia
esse item do texto, que se refere também a outros assuntos.
A greve, os fatos de Omaha, no então bem distante Estado
de Nebraska, são apresentados no final do texto; depois das pri-
meiras linhas da crônica, dedicadas ao transbordamento do rio
Mississipi, estende-se em considerações gerais sobre o problema
social e seu significado para a vida moderna, o que permite veri-
ficar a grande importância que, já então, atribuía ao assunto.
Expõe várias idéias nesse primeiro e longo parágrafo da crô-
nica. A primeira é que as greves “são ensaios tímidos” da revolta
“colossal e desastrosa” que, no futuro, provocaria no país a luta
entre os homens do trabalho e os do dinheiro. O parágrafo ter-
mina precisamente com o retorno a este ponto central do texto,
quando afirma que essa luta decidiria as novas leis entre os dois

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fatores sociais. Em seguida, vem a tão citada frase: “Aqui, onde


os trabalhadores são fortes, lutarão e vencerão os trabalhadores”.6
Vista às vezes como prova de sua tomada de partido por uma
sociedade de trabalhadores, o contexto apenas permite com-
preendê-la, a meu ver, como seria nos Estados Unidos, onde
os operários, por serem fortes – diferentemente da Europa –,
conseguiriam uma justiça social que permitiria um equilíbrio,
uma acomodação com os endinheirados e não o desequilíbrio
absolutamente desfavorável para os trabalhadores em que se
vivia então. Nem nesse texto, nem em nenhum outro anterior
ou posterior, mostrou-se o cubano favorável a uma sociedade de
trabalhadores apenas, que excluísse proprietários e ricos.
Essa importante tese de que no país do Norte o equilíbrio
social seria obtido mediante uma luta tremenda contrasta e ao
mesmo tempo complementa seu ponto de vista no prólogo a
O poema do Niágara,7 escrito provavelmente pouco antes desta
crônica. Neste importante texto, Martí refere-se ao momento
de “reavaliação e reajuste” que vivia o mundo moderno, cujo
destino e rumo ainda obscuros e imprecisos marcavam a poesia
e o pensamento da época. A esperançosa profecia com relação aos
Estados Unidos como a terra em que se travaria e se resolveria
“a batalha social tremenda”, é uma amostra a mais de como o
pensamento martiano considerava a sociedade do Norte capaz de
cumprir os sonhos democráticos de seus fundadores, ainda que
para isso tivesse que ocorrer uma grande disputa. Com muita pro-
babilidade tinha presente a também colossal e desastrosa guerra
em que se aboliu a escravidão, pois em textos posteriores insistirá
na relação entre a Guerra de Secessão e a batalha social.

6
J.M.: “Carta de Nova York. O Mississipi transbordado”, O.c., t. 9, p. 277
7
J.M.: “O poema do Niágara”, O.c., t. 7, pp. 221-238

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Uma segunda idéia nessa crônica de 1882 é que o operário


nos Estados Unidos, em sua grande maioria, não é nativo do país
e chega da Europa carregado de ódios.
O vínculo com o tema da imigração era inevitável, como con-
tinuaria sendo em suas análises posteriores do problema social,
dada a explosão que estava ocorrendo na chegada de europeus,
muitos deles transformados em assalariados na América, mas
muitos outros também com experiência anterior nessa condição,
com tradição de organização e de fortes ideologias de conteúdo
social, como o anarquismo e o socialismo.
O tema da migração, como sabemos, chamou com força
a atenção de Martí desde os primeiros momentos de sua per-
manência em Nova York, não apenas por sua óbvia e transcen-
dental importância nos Estados Unidos, como também porque
era um assunto amplamente debatido em muitas das nações
latino-americanas, inclusive na Cuba colonial, a ponto de que
para muitos, favorecer a imigração era condição indispensável ao
desenvolvimento econômico e social moderno.8
Portanto, para Martí, apreciar as dificuldades criadas pela
onda de estrangeiros que chegava então aos Estados Unidos era
também uma maneira de alertar os latino-americanos quanto a
seus perigos, especialmente os leitores de La Nación, pois a Argen-
tina estava empenhada na época em atrair imigrantes europeus
em grande escala: os operários do país austral seriam estrangeiros
até bem avançado o século 20, como nos Estados Unidos.
A idéia de que o trabalhador europeu chegava envenenado não
é original de Martí, claro. Já há muito isso era dito nos Estados
Unidos, constituindo um dos pilares do mito do país da liberdade
8
Ver, de Ramón de Armas, “Conflito social, violência e autoctonia nos Estados
Unidos”, em José Martí e os Estados Unidos, Havana, Centro de Estudos Martianos,
1996.

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e da democracia, destinado pela divina providência a estendê-las


ao mundo inteiro; portanto, os ódios sociais – e a luta de clas-
ses – não eram conseqüência das condições sociais dos Estados
Unidos e sim problemas trazidos do Velho Mundo.
Até bem adiantada a década de 1880 Martí partilharia essa
opinião, como expressou com freqüência. No entanto, no mesmo
parágrafo apresenta outro aspecto que em escritos anteriores e
posteriores de fato, considerou uma característica peculiar da
psicologia social estadunidense que, se persistisse, poria em
perigo as bases democráticas e republicanas do país. Refiro-me
ao afã de enriquecimento pessoal como objetivo supremo, que
o faz dizer que era “explícito e formidável o apetite de possuir”,
tanto nos cultos como nos ignorantes.9 Em plena maturidade, a
metalização daquela sociedade seria para ele o que teria levado os
Estados Unidos a um beco sem saída em seu caminho imperial
e antidemocrático.10
A última idéia contida na crônica de 1882 é que os ricos
estavam se agrupando e buscavam um governo para si contra
os pobres. Ai estava, evidentemente, um dos elementos de sua
afirmação quanto ao caráter colossal da batalha pelo equilíbrio
social que via aproximar-se nos Estados Unidos: ao poder da
propriedade sob a lógica da ganância somar-se-ia o do Estado,
como repressor do movimento operário. É provável que tal
avaliação fosse uma baliza para sua compreensão posterior do
movimento do capital monopolista, hegemônico econômica e
politicamente, que ia se formando na casta enriquecida com o
protecionismo industrial, a reconstrução do Sul, a especulação
e a corrupção.

9
J.M.: “Carta de Nova York. O Mississipi transbordado”, O.c., t. 9, p. 277
10
Ver “A verdade sobre os Estados Unidos”, Pátria, 1894. O.c., t. 28, pp. 290-294

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Quase um ano depois, em 29 de março de 1883, Martí enviou


outra crônica para o mesmo diário de Buenos Aires, dedicando
a primeira parte ao problema social; esta crônica inclui suas opi-
niões sobre Karl Marx, freqüentemente citadas.
O fato que motiva a pena do jornalista é precisamente a ho-
menagem a Marx, devido a seu recente falecimento em Londres,
prestada pelos socialistas de Nova York, alemães em sua maioria.
Mais que o simples relato daquela jornada de recordação, Martí
enfoca de novo as lutas operárias nos Estados Unidos, da mesma
perspectiva do texto anterior, sem ocultar a antipatia que lhe causa
a violência e sua desqualificação da mesma como caminho para
obter melhorias para os trabalhadores. Assim, diz: “A conquista
do futuro há de ser feita com as mãos limpas”.11
Para Martí, a responsabilidade pela manifestação de uma cor-
rente de ira e de ódio deve ser atribuída aos “sofridos e coléricos
da Europa”, os alemães, franceses e russos, cujas reações considera
excrescências da monarquia. Diferentemente daqueles, considera
que o operário nativo do país americano contém a cólera graças
ao bom senso e ao fato de ter nascido em berço livre. Mais uma
vez, para ele, a ação que está analisando dos trabalhadores dos
Estados Unidos não é natural das condições do país, mas con-
seqüência da imigração européia.12
Depois de expor essas considerações, e antes de descrever o
ato de homenagem a Marx, em Nova York, expõe suas conhe-
cidas opiniões sobre o líder da Primeira Internacional. Não é o
caso agora de discutir até onde o cubano acertou na avaliação
do pensador socialista; trata-se de entender como se articula sua
apreciação do líder à sua perspectiva naquele momento quanto

11
J.M.: “Carta de Martí. Suma de sucessos”, O.c., t. 9, p. 387.
12
Ibidem, pp. 387-388.

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ao problema social. Sua opinião sobre a pessoa é eminentemente


ética: “Como se pôs do lado dos fracos, merece honra”. A opinião
sobre o dirigente revolucionário desqualifica seu método de luta
que, para ele, incita à violência: o bem não consiste em indicar
o dano e querer remediá-lo, mas em indicar “remédio brando
para o mal”.13
E para que não pairem dúvidas quanto ao remédio, que lhe
parece inadequado, diz em seguida várias frases que mostram
seu repúdio à violência: “Espanta a tarefa de lançar os homens
sobre os homens. Indigna a forçosa bestialização de alguns ho-
mens em proveito de outros. Mas há de se encontrar saída para
a indignação, com o fim da besta, sem passar dos limites nem
causar constrangimento”.14
Curiosa esta afirmação de Martí. Não há dúvida quanto a sua
simpatia intuitiva e emocional para com os operários, e sua in-
dignação diante da exploração a que são submetidos; no entanto,
não nos diz concretamente qual seria esse remédio brando que
impediria a expressão da transformação de homens em animais.
Mas no começo do parágrafo seguinte dá um indício do rumo de
seu pensamento: em uma república democrática com liberdades
não havia lugar para tais ódios. Vejamos suas próprias palavras:
“Nova York está se transformando em um sorvedouro: tudo
que no mundo ferve cai nela. Aqui sorriem para quem foge;
lá, fazem-no fugir”. E, para reafirmar até onde vai sua opinião

13
A avaliação sobre Marx que Martí estende um pouco mais adiante não situa este
como um apóstolo da violência; a falta essencial que vê nele é que sua solução não
emergia “de gestação natural e laboriosa”. No entanto, seu julgamento é, sem dúvida,
francamente simpático, porque aprova suas motivações éticas: Marx “despertou os
adormecidos, e lhes mostrou o modo de lançar por terra os alicerces apodrecidas”;
foi “observador profundo da razão das misérias humanas, e dos destinos dos homens,
e homem devorado pela ânsia de fazer o bem”.
14
Ibidem, p. 388.

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quanto ao remédio adequado, conclui: “Dessa bondade veio a


força deste povo”.15
Outra vez, pois, a república estadunidense, seu sistema políti-
co e suas instituições oferecem o remédio que a Europa não pode
dar, presa às desavenças e ódios de tantos séculos de monarquia.
Julgamentos como estes justificaram algumas opiniões sobre
Martí que teria sido, tanto um reformista, quanto um admirador
do sistema estadunidense, e cujas críticas procuravam apenas
aperfeiçoar seu funcionamento.
Mas talvez ambas as avaliações tenham pecado igualmente, ao
trabalhar com frases deslocadas do contexto em que foram escri-
tas e, sobretudo, aproximar-se da análise dos temas concretos sem
considerar a perspectiva e a visão martianas mais gerais. No caso
de que nos ocupamos, sua preocupação com o problema social
nos Estados Unidos, não podemos excluir da análise – embora
por razões de espaço o façamos aqui de maneira sumária – que
o cubano formou um juízo totalizador sobre aquela nação, presi-
dido por uma dupla visão que fundamentou desde muito jovem
seu pensamento e sua atuação: o repúdio moral à metalização16
e o alinhamento explícito aos pobres da terra.
O que não quer dizer que na formação e amadurecimento
de seu pensamento não tenha havido o constante ajuste que tal
visão imprimia às noções, problemáticas e lógicas que lhe iam
sendo mostradas ou que foi recebendo, e que eram dominantes
no pensamento de seu tempo. Para quem se formara nos círculos
liberais e republicanos de Havana, na Cuba colonial, submetida
ao absolutismo monárquico, o sistema político estadunidense,

15
Idem.
16
Ver suas notas sobre este assunto no Caderno de notas 1, presumivelmente escrito
na Espanha. O.c. t. 21, pp. 15-16.

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cujo funcionamento regular e equilibrado só se alterou com a


Guerra de Secessão, era inquestionavelmente mais próximo, e
sua análise tornava-se imprescindível para aqueles que, como
Martí, desde 1880 pelo menos,17 aspiravam pela constituição de
uma república democrática de maioria popular em Cuba.
Parece claro nessas primeiras aproximações do problema
social nos Estados Unidos que não há – nem poderia haver, de
modo nenhum – uma ruptura expressa com o esquema domi-
nante de considerar aquele país como o símbolo das liberdades.
Já era o bastante para a época, incluindo a crítica à metalização
e sua recusa em considerar o país do Norte como modelo para
a América Latina.
Semelhante visão da sociedade estadunidense como benéfica
para moderar e equilibrar o problema social, é manifestada na
crônica para o jornal de Buenos Aires, de 5 de setembro de 1884.
Ali Martí refere-se à implementação do dia do trabalho, celebrado
nos Estados Unidos na primeira segunda-feira de setembro, com
desfiles de trabalhadores, que ele chama da procissão moderna.
Diz: “Os que constróem o mundo querem mostrar-se a ele
uma vez por ano: assim, diante do solene espetáculo, decidir-
se-ão a agir com justiça os que abusam, e terão medo os dés-
potas: ficará mal aquele que queira sentar-se sobre todos esses
homens”.18
É evidente que Martí não acreditava ingenuamente que o fato
de organizar uma marcha pelas ruas das cidades estadunidenses
resolvia o problema social, mas é óbvio que essa demonstração
de força dos operários, permitida pelas autoridades, revelava para
ele a capacidade dessa sociedade de ir abrindo espaço à justiça

17
Tal propósito é exposto por Martí claramente no discurso de Steck Hall, lido em
Nova York, em 24 de janeiro de 1880. O.c., t. 4, pp. 183-211.

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social. Torna inclusive explícito na crônica seu conceito do equi-


líbrio entre capitalistas e operários, quando chama enfaticamente
“vermes”* os ricos que desprezam os pobres, afirmando em
seguida: “que ninguém tenha um direito que ofenda o outro”,
razão pela qual chama a reduzir as pretensões do pobre quando
este exagera seus direitos.19
Por isso dedica todo o texto à narração, em linguagem sole-
ne e grandiosa dos incidentes do desfile que evidentemente viu
naquele ano pelas ruas de Nova York e cuja impressão favorável
leva-o a explicitar em vários momentos sua calorosa aproximação
aos trabalhadores, embora não deixe de insistir no papel negativo
da imigração européia que traz os ódios que se expandem pelas
cidades onde se concentram grandes massas operárias, gerando
o risco de uma enorme revolta.
Nesta crônica Martí pronuncia-se ao mesmo tempo de
maneira decidida contra a metalização, responsável, a seu ver,
pela formação dos monopólios que oprimem os trabalhadores.
Já não se trata apenas, para ele, de uma característica negativa da
psicologia social estadunidense, e dos imigrantes europeus que
almejam a fortuna pessoal de qualquer maneira, mas sim do
ilimitado anseio de enriquecimento de um grupo que tende a
agir como uma casta fechada e superior. É aqui que escreve uma
frase citada freqüentemente para sintetizar sua opinião sobre os
monopólios: “O monopólio está sentado, como um gigante im-
placável, na porta de todos os pobres”.20 E emite também opiniões

18
J.M.: “Cartas de Martí. A procissão moderna”, O.c., t. 10, p. 77.
*
Talvez citando Martí, a palavra “gusano” (verme) para os cubanos de hoje significa
também “vagal”, preguiçoso, e, ainda, aqueles que se foram para Miami. (N.T.)
19
Ibidem, pp. 77-78.
20
Ibidem, p. 84.

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expressivas sobre a singular importância que dava ao assunto,


para o futuro do país e de suas tradições democráticas.
O monopólio é um gigante negro. Tem o raio suspenso sobre a cabeça.
Os trovões atroam seus ouvidos. Sob seus pés ardem vulcões. A tirania,
encurralada no político, reaparece no comercial. Este país industrial tem
um tirano industrial. Este problema, indicado aqui de passagem, é um
daqueles graves e sombrios que talvez não possam ser resolvidos, e haverá
de resolver-se aqui onde se criou, antes talvez que termine o século.21
O momento em que nos diz que apenas se refere ao problema
de passagem significa que o jornalista não deseja interromper
por muito tempo o relato da manifestação operária, embora seja
patente seu conhecimento do assunto que observa com tanta
gravidade, e que a partir de então aparecerá em suas crônicas
mais de uma vez, sendo várias delas dedicadas inteiramente a
explicar suas conseqüências internas para os Estados Unidos
e suas manifestações na política externa, em particular para a
América Latina, como fará em mais de uma das crônicas sobre a
Conferência Panamericana de Washington, em 1888 e 1889. Mas,
o mais significativo, é que já avalia o problema dos monopólios
como algo próprio da sociedade estadunidense, que deve ser en-
frentado por esta para sua solução em prazo não muito longo.
A esperança com que encerra o parágrafo, alusivo a uma
decisão desfavorável aos monopólios, é indício adicional de que
Martí ainda via capacidade no sistema estadunidense para im-
por suas tradições democráticas. É interessante como, em uma
crônica em que a descrição e a narração do desfile operário em
Nova York têm um peso decisivo, seu autor introduz o tema
do monopólio, a grande ameaça à estabilidade estadunidense, a
seu ver, e cujo desenvolvimento posterior estimulará em Martí

21
Ibidem, p. 85.

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a perda de confiança até mesmo na capacidade regeneradora


daquele sistema.
E, por outro lado, é interessante verificar que ao referir-se aos
monopólios Martí introduz também um setor social ao qual dera
pouco espaço em seus escritos: os pequenos produtores rurais.
Estes costumam aparecer desde então, quando trata do tema dos
monopólios, e também depois de 1886, quando os pequenos
produtores rurais se unem aos operários para tentar conseguir
o poder político pela via eleitoral.
Por último, em clara demonstração de como se amplia sua
análise social estimulada por sua tomada de partido pelos pobres,
nesta crônica encontramos pela primeira vez uma justificativa
– tímida, porém explícita – dos “excessos” dos operários: “mas
quando as castas privilegiadas e seus órgãos, que aqui aquelas
e estes existem, como em todo lugar, negam-lhe o que huma-
namente lhes pertence, e por lei será seu algum dia, como não
haverão de exasperar-se os trabalhadores, solicitando de vez em
quando mais do que é justo?”22

5
A primavera de 1886 degelou de súbito e em escala impressio-
nante o problema social nos Estados Unidos, e o verão levou-o a
altas temperaturas, de tal modo que os políticos e toda a sociedade
tomaram consciência por encontrar-se frente a um problema
de importância capital, de que era imprescindível cuidar e levar
a bom termo antes que uma pavorosa luta social derrubasse o
edifício social desde seus alicerces.

22
Ibidem, p. 87. Note-se a intenção de fazer compreender a seus leitores hispano-
americanos que nos Estados Unidos repetiam-se problemas semelhantes aos de suas
próprias terras.

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As crônicas que entre março e junho daquele ano Martí


enviou para La Nación de Buenos Aires e O Partido Liberal, do
México, relatam detalhadamente os acontecimentos da agitação
operária e seus momentos de violência, mostrando as maneiras
como o país do Norte reagiu diante da tempestade social.
A primeira é de 25 de março, e, em clara manifestação da
importância que atribuía ao assunto de que tratava ali, não se
limitou a incluir o subtítulo habitual depois do nome da seção
“Cartas de Martí”, dando-lhe o significativo título de “A revo-
lução do trabalho”.23 Na leitura fica bem claro porque usa esse
termo, tão carregado de ameaças e desordem social para seus
leitores hispano-americanos. A intenção do texto é precisa: ilus-
trar, por meio da greve dos condutores de bondes de Nova York,
como a ação unificada dos assalariados podia afetar a cidade e
a nação inteira. Depois há dois sentidos evidentes: tratava-se de
uma revolução tanto na maneira de agir daqueles, quanto porque
comovia a ordem social estabelecida.
A transcendência do acontecimento grevista foi enorme,
diferentemente de outros anteriores, afastados geograficamente
dos grandes centros de população do Leste, onde ainda se con-
centrava a dinâmica da sociedade estadunidense, e cujas con-
seqüências faziam-se sentir mais em longo prazo no conjunto
da sociedade. O protesto ocorria em Nova York, paralisada em
sua vida cotidiana, com gigantescas e imediatas perdas econô-
micas, dado seu caráter de grande centro industrial, comercial
e financeiro do país. O cronista faz essa avaliação: “foi o maior

23
O diário La Nación publicou este texto em 7 de maio de 1886 e dois dias depois outro,
intitulado, a meu ver pelos editores, “As greves nos Estados Unidos”, uma óbvia
continuação do anterior, como o indicam o fato de que estejam datados do mesmo
dia em Nova York, a extensão relativamente curta dos dois trabalhos e a evidente
continuidade da análise.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

motim de trabalhadores que já houve em Nova York”.24 Trata-


se, portanto, de uma greve cujos efeitos não se restringem aos
grevistas e seus empregadores, mas se fazem sentir de imediato
no conglomerado social. É o “assunto maior que hoje comove a
atenção pública”,25 diz-nos o jornalista, que também viveu suas
manifestações e sofreu seus efeitos diretamente.
O mais importante deste texto é que nele Martí nos oferece
sua medida para avaliar o quão justa era a ação operária. “A jus-
tiça de uma causa é desmerecida muitas vezes pela ignorância e
pelo excesso na maneira de defendê-la”.26 Parece que a ele mes-
mo este critério pareceu imbuído de preconceito burguês, pois
reconhece na seqüência que o operário exige seus direitos à sua
maneira, ignorante e excessiva, pois não foi “educado em finezas
mentais”, nem em “doçuras evangélicas”. Para ele, essa rudeza
e rusticidade próprias dos trabalhadores prejudicam a justiça de
suas lutas, porque as tornam perigosas na ação social e obrigam
o governante a reprimi-las.
Apesar disso, a greve dos condutores de bondes de Nova York
reclamando aumento salarial é justa para Martí visto as duras
condições de trabalho, descritas pateticamente na crônica. Por isso
adverte que essa justeza fez com que não houvesse então quem
não aplaudisse o movimento. E mantém tal avaliação, apesar de
que durante a greve houve um momento em que os trabalhadores
causaram danos à propriedade, ao virar alguns bondes que os
donos tentaram fazer circular, coisa que, no entanto, em outros
momentos, Martí condena como manifestação de uma violência
desnecessária e injusta.

24
J.M.: “A Revolução do trabalho”, O.c., t. 10, p. 398.
25
Ibidem, p. 394.
26
Ibidem, p. 396.

293

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Mas existem tensões no texto; talvez o cronista tente


equilibrar seus julgamentos entre as distintas partes, pois esta
declarada simpatia para com os grevistas nova-iorquinos não
evita o sentido de tragédia que transcende de suas palavras
quando descreve o momento em que se temeu a incorporação
dos empregados do trem elevado ao movimento, o que teria
significado a paralisação total da cidade: “houve um instante de
verdadeiro pânico, em que a cidade sentiu como se perdesse o
fôlego, notando-se nos rostos a inquietação e o transtorno”. Ou
a descrição quase vexatória dos habitantes do bairro operário
de Bowery: “homens tão robustos e sombrios que inspiravam
respeito, mas davam medo”.
Parece evidente que o cronista oscila entre a simpatia e o
temor pela ação dos operários, embora a balança incline-se decidi-
damente pela primeira.27 Sua perspectiva não é a dos capitalistas,
obviamente, mas tampouco é definidamente a dos operários.
Talvez seja a da pequena burguesia, presa entre os dois pólos,
atemorizada pela ação violenta e destrutiva que poderia vir a afetar
seus interesses e suas esperanças de ascensão social, cerceada esta,
também, pelo crescente poder do grande capital naquela socie-
dade. Poderia tratar-se ainda da perspectiva martiana em sentido
estrito ou de sua adequação à perspectiva dominante entre seus
leitores e exigida por seus editores de Buenos Aires.
Leva a esse ponto de vista o repúdio carregado de indignação
ética expresso por Martí no início do texto, contra aqueles que
se empenhavam em manter a política protecionista. Estes são
para ele os poderosos e seus aliados, que recebem suas migalhas,

27
Juan Mestas considera que neste trabalho Martí apresenta os operários como vítimas
e como heróis ao mesmo tempo, e observa que, no caso desta greve não condena o
uso da força pelos grevistas, mas sim considera desmedida a repressão das autoridades.
Ob. cit., pp. 107-108.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

a quem chama de glutões, ou seja, de ambiciosos que desejam


muito mais do que necessitam.
Na seqüência desse texto de 25 de março de 1886, publi-
cado em 9 de maio, refere-se ao movimento grevista em toda
a União, conduzido pelos Cavaleiros do Trabalho, o que lhe
permite avaliar a política desta organização, seus métodos de luta
e o momento particular que atravessava na época o movimento
operário estadunidense.
No contexto da onda de greves daqueles dias, menciona as
dos ferroviários do Texas – apoiada pelos ferreiros de Pittsburg,
pelos sapateiros da Nova Inglaterra e pelos cigarreiros de Nova
York – e a dos mineiros de Monongahela, na Virgínia Ociden-
tal. As duas greves, organizadas pelos Cavaleiros do Trabalho,
servem-lhe para manifestar-se de fato contra o sistema salarial
e a favor da entrega aos operários de parte dos produtos, como
solicitavam: “Se acaso seja o que predomine, como único meio
justo de dar na produção da obra a porção correspondente ao
dono e aos operários”.28 A justificativa deste sistema distributivo
é expressa na crítica às condições de vida do operário, pois diz
que este trabalha a vida inteira e “tem que viver de esmolas, que
nem sempre encontra”.
Mas quando se refere à greve dos ferroviários do Sudoeste,
que interrompera o transporte em todo o Missouri e no Kan-
sas, indica com evidente conotação negativa a violência exercida
contra a propriedade.
Seja como for, o conjunto dessa onda de greves é considerado
pelo jornalista como “movimentos precursores”, prematuros e
inevitáveis, da tarefa daqueles que preparam os trabalhadores

28
J.M.: “As greves nos Estados Unidos”, O.c., t. 10, p. 404.

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“para um levantamento geral e pacífico, graças ao qual se che-


gue a uma reforma essencial na condição do trabalho”. Indubi-
tavelmente essas palavras fazem pensar em seguida na grande
batalha futura que, quatro anos antes, predissera que seria ganha
pelos trabalhadores. No entanto, não explica em que consistiria
essa “reforma essencial” da condição do trabalho, embora suas
palavras anteriores contra o salário sejam talvez um indício de
que estava pensando então em uma forma de distribuição mais
direta do produto do trabalho.
É interessante notar que prediz um levantamento geral e
pacífico, com o que deixa claro, de um lado, a consciência do
crescente poder do protesto operário e de suas demonstrações
sistemáticas de atuação unificada, como classe, e, de outro lado,
enuncia seu desejo de desterrar a violência, posto que na realidade
histórica dos Estados Unidos houve uma marcada tendência a
que esta se manifestasse desde então e durante o resto da década
de 1880.
Martí considera que se avança para este fim, obviamente justo
e adequado a suas idéias, a partir da unidade, da determinação e
da energia daquelas greves. Portanto, seu balanço do movimento
de greves trabalhistas de 1886 é positivo. Vê, inclusive, a favor
dessas ações o fato de terem chamado a atenção do país e do
estrangeiro, manifestando assim novamente a importância que
dava ao reconhecimento da opinião pública.
E, finalmente, pronuncia-se contrário à violência exercida
contra os fura-greves e contra a propriedade, a ponto de chamar
esse tipo de violência de “conflito maior” do movimento grevista,
pois podia pôr em perigo “a simpatia respeitosa com que visi-
velmente” a Ordem dos Cavaleiros do Trabalho é saudada por
sua prudência. Ao referir-se a este assunto, no encerramento do
texto, nota-se que Martí toma uma certa distância, uma espécie

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de tom objetivo que desaprova a violência dos operários, mas que


ao mesmo tempo deseja manter-se distante da contra-violência
dos proprietários e das autoridades. Tudo parece indicar que sua
postura mantém-se nos termos em que concebia o problema
social desde antes: parece aconselhar prudência aos trabalhado-
res, que despertam sua simpatia de lutador pela justiça social, e
dos quais espera e deseja que mantenham o apoio da maioria
de suas reivindicações para avançar para a solução definitiva do
problema do trabalho.
Um mês depois, em 27 de abril, volta ao tema em um longo
texto intitulado “As grandes greves nos Estados Unidos”, pu-
blicado em duas partes por La Nación, de Buenos Aires, em 4 e
6 de junho, no qual faz uma espécie de resumo e avaliação dos
protestos operários naqueles meses e de suas próprias opiniões
sobre o tema.
Em sua primeira parte, o texto expõe várias considerações ge-
rais, onde Martí enquadra a análise concreta do que aconteceu.
Primeiro: o problema social, que chama de “fantasma de
Banquo”, é universal, e se manifesta pela Europa e pela América.
Nos Estados Unidos adquire as características do próprio país:
manifestou-se como ele, “colossal e súbito”, embora considere
que seus excessos estão matizados pelo amor arraigado e tradi-
cional ao próprio país, afetado, no entanto, pela enorme e recente
imigração.
Segundo: o que pedem os operários é justo: remuneração
suficiente para o sustento e a velhice.
Terceiro: os trabalhadores não entendem que a causa de sua
miséria está no estado da indústria, cuja proteção tarifária provoca
excesso de produção e excesso de população operária.
Quarto: os operários não podem ver as causas profundas, per-
cebendo apenas o imediato: o desprezo e as insolências do capital

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

organizado, que mantém o operário na miséria; e, por isso, não


discute, mas luta “com uma justiça aqui, e uma violência ali”.29
Quinto: os operários, além de combater essa exploração,
sentem necessidade de dominar, têm “veleidades de déspota” e
querem impedir que seus empregadores tenham a mesma dig-
nidade e a mesma liberdade humana que reclamam para si. Por
isso, conclui: “Aí está sua debilidade, em sua injustiça: e, desta
vez pelo menos, aí está sua derrota”.30
Assim, embora tenha justificado as demonstrações de vio-
lência operária pela própria atuação dos patrões, também as con-
dena energicamente, por princípio: “Todo aquele que não cuida
do direito alheio como do próprio, merece perder o próprio”.31
Fica claro, portanto, que Martí considera igualmente neces-
sários os dois pólos sociais, o capital e o trabalho.
E, justamente, localiza a causa do fracasso de várias das greves
daqueles meses na perda do limite entre o justo e o injusto, ao
apelar para formas de violência e de desrespeito pelos direitos
de outros, como aconteceu em sua opinião com as da ferrovia
Missouri Pacific, e com as dos condutores de bonde de Nova
York, Brooklin e Nova Jersey. Enquanto pediram o que era justo
(maiores salários, evitar sua substituição por fura-greves), foram
apoiados pela opinião pública. Mas este apoio cessou quando
atacaram os fura-greves e destruíram propriedades; então as
greves perderam legitimidade.
No entanto, como se viu em textos anteriores, nesta crônica,
Martí tende novamente a justificar a ação que considera impru-

29
J.M.: “As grandes greves nos Estados Unidos”, O.c., t. 10, p. 413..
30
Ibidem, pp. 413 e 414, respectivamente.
31
Ibidem, p. 415.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

dente, a de violenta confrontação assumida pelos trabalhadores,


chegando a considerar que o que ele chama de “extravagâncias”
das reivindicações operárias (como pretender acionar as indústrias
apenas com os próprios operários), não são mais que respostas
lógicas aos ataques públicos e encobertos das companhias contra
as associações operárias.
Por isso dedica um bom espaço da segunda parte do texto
a analisar o que significou a onda grevista para a Ordem dos
Cavaleiros do Trabalho, modelo de associação operária para ele,
por sua moderação, prudência e previsão frente ao elemento que
chama de fanatismo, embora considere que a agitação expandiu
de uma só vez a organização, sem lhe dar tempo de impor sua
disciplina geral, e que ela não foi responsável pelos excessos da
greve dos ferroviários do Sudoeste.
Em resumo, esse trabalho mostra que Martí vê a propriedade
capitalista como necessária e como um direito justo; que defende
o direito do operário a um nível melhor de vida; e que a verda-
deira causa social da agitação operária era o excesso de produção
industrial devido à tarifa protecionista, que impedia também o
acesso aos mercados externos como compensação pela saturação
do mercado interno.
Observe-se como, já nesses textos de 1886, Martí reitera que
a responsabilidade pela agitação social recai sobre o que chama
“o estado da indústria” que, evidentemente, em sua opinião,
estava atravessando uma crise de superprodução, sem mercados
externos alternativos. E era a política protecionista a causa daquela
situação, pois saturava o mercado interno de produtos caros e de
baixa qualidade. Claro está que esta análise é bastante questio-
nável em termos econômicos, já que o cubano situava o centro
do problema em uma política, isto é, em uma ação econômica
levada a cabo pelo governo, e não no próprio desenvolvimento do

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

capitalismo industrial estadunidense; tal enfoque não lhe permitia


compreender – apesar de toda sua simpatia pelo operário – que
eram os próprios mecanismos de funcionamento do capital que
levavam à exploração da força de trabalho.
No entanto, esse enfoque – certamente compartilhado por
boa parte da imprensa estadunidense da época e pelos críticos
do nascente monopolismo naquele país – foi decisivo para a
evolução do pensamento martiano para uma postura clara e
definidamente antiimperialista desde o final da década de 1880
e princípio da década de 1890. Flexível segundo as orientações
de originalidade e autoctonia de seu pensamento desde a adoles-
cência, Martí ateve-se sempre ao critério de que cada realidade
exigia suas próprias soluções, critério este que aplicou igualmente
a seus pontos de vista sobre a sociedade estadunidense. Como
ele mesmo escrevera muito tempo antes no México, quando
se debatia entre protecionistas e livre-cambistas, não se tratava
de adequar-se a uma teoria ou a uma política na moda em de-
terminados lugares, mas de empreender ações de acordo com
as características e necessidades de cada sociedade.32 E se Martí
combateu sistematicamente a tarifa protecionista nos Estados
Unidos, sabemos que o fez não por inimizade conceitual em
relação a ela, mas porque considerava que, desde muito tempo,
cumprira seu papel de contribuir para o desenvolvimento da
indústria local.
Martí foi compreendendo também que essa política prote-
cionista favorecia, em curto prazo, os grandes capitais que já se
concentravam e centralizavam e que surgiam naquela década de
1880 os primeiros grupos de caráter monopolista. E nesta for-

32
Ver “Boletim. Graves questões”, O.c., t. 6, pp. 309-312, e Obras completas, Edição crítica,
Havana, Centro de Estudos Martianos, 2000, t. 2, pp. 168-171.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

ma de estruturação do capital viu o perigo maior para a própria


democracia republicana estadunidense, para o balizamento e
solução das aspirações dos setores populares e explorados, como
os pequenos produtores rurais e os operários, e para a manuten-
ção da independência da América espanhola, na medida em que
tais monopólios estimulavam o governo dos Estados Unidos a
exercer uma política externa favorável à abertura de mercados
imprescindíveis para o excesso de sua produção.
Portanto, desde o repúdio ao protecionismo, o pensamento
de Martí avançou na compreensão da grande mudança econô-
mica e social que se inaugurava nos Estados Unidos em direção
à hegemonia progressiva do capital monopolista, e contra tal
setor, seus aliados e servidores na política, dedicaria seu talento
e seu esforço durante os que viriam a ser seus últimos anos de
vida, devorados pela ânsia de tornar efetiva a independência de
Cuba e de Porto Rico para transformar estas ilhas em barreira à
expansão da emergente potência imperial.
Mas, insisto. Sabemos, porque ele mesmo o disse mais de
uma vez,33 que seu anseio tinha pretensões planetárias, pois visava
contribuir para o equilíbrio da América e do mundo, e salvar a
honra republicana dos próprios Estados Unidos.
Suas análises do problema social no país vizinho ajudaram-no
a precisar o significado dos nascentes monopólios, seu poderio
e hegemonia crescentes, assim como seu progressivo controle
das direções dos partidos políticos e seu percurso no sentido do
controle do próprio governo da nação.
Ainda que a extensão de alguns assuntos e a reiteração de
algumas idéias permitam caracterizar, sem dúvida, em Martí,
33
Ver, entre outros textos, “O terceiro ano do Partido Revolucionário Cubano. A alma
da Revolução e o dever de Cuba na América”, Pátria, 17 de abril de 1894, O.c., t. 3,
pp. 138-143.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

um pensamento econômico sobre os Estados Unidos, não se


pode esquecer que nem sua vontade nem sua perspectiva foram
as de um economista, e que aquele exercício do jornalismo não
era meramente trabalho para subsistência, nem prática de reno-
vação literária, mas, sobretudo, expressão das idéias que se iam
formando naquele político, empenhado cada vez mais em que
o mundo caminhasse pelos trilhos da justiça social. Portanto, é
significativo compreender para que lhe serviu esse enfoque do
protecionismo em sua análise global sobre os Estados Unidos.
Como também está claro que, ainda que nos tenha legado
páginas de indubitável e originalíssima análise sociológica sobre
aquela nação, Martí enfrentou o problema social não com o
escalpelo do pesquisador social, mas com a profundidade do re-
volucionário que, na mesma medida em que ia compreendendo
as características do problema e especialmente suas conseqüências
para o próprio país em seu conjunto, para seus vizinhos mais
próximos e para as relações internacionais, vê-se levado por esse
exame a um enfrentamento consciente para o qual buscaria como
aliados os setores afetados pelos monopólios dentro dos Estados
Unidos, incluindo os setores trabalhadores.
O melhor resumo de suas idéias sobre o problema social em
1886 foi escrito por Martí para iniciar sua correspondência com
O Partido Liberal, do México. O trabalho, datado de 15 de maio,
apareceu naquele diário no dia 29 do mesmo mês. Não se trata a
rigor de uma crônica, mas de um artigo com perfil de ensaio, em
que o jornalista expõe sua análise sobre a agitação operária estadu-
nidense, ao mesmo tempo em que narra alguns fatos para explicar
suas idéias, como um encontro entre policiais e trabalhadores em
Chicago, o assalto a uma farmácia e os eventos de Haymarket
que ocasionaram a morte de vários agentes da ordem. Seu título
é “O levante dos trabalhadores nos Estados Unidos”.

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P E D R O P A B L O R O D R Í G U E Z

Observe-se a similaridade deste título com o utilizado no


texto para La Nación, de 25 de maio: “A revolução do trabalho”.
Obviamente Martí quer que também seus leitores mexicanos
tenham desde o começo uma impressão da grande magnitude e
transcendência do movimento grevista nos Estados Unidos.
Sabedor de que no México já se tornara pública a explosão
da bomba em Chicago em 4 de maio, que ocasionou a morte de
vários policiais e provocou a prisão de vários líderes anarquistas
acusados do fato, o jornalista começa por dizer que esses eventos
expressam um problema que não é local, mas sim de alcance na-
cional e internacional, problema que explica pela superexploração
e extrema miséria existente entre os operários, devido à articu-
lação “rápida e visível” da riqueza que provoca como resposta a
união dos trabalhadores. E para que não haja dúvidas quanto ao
setor em que Martí pensa quando se refere à riqueza, diz que
se trata de uma “casta endinheirada que legisla e governa”, dos
magnatas que se apoderam das terras públicas e das ferrovias,
das corporações “compostas de príncipes da Bolsa, que vivem
como reis”. Casta endinheirada, magnatas e príncipes da Bolsa
que dominam os principais meios de produção e que pagam
os políticos para servi-los. Não há dúvida de que não pensava
na massa de proprietários e sim em um setor numericamente
pequeno que concentra capital, recursos financeiros e meios de
produção, ou seja, no capital monopolista.
Em seguida esclarece que os problemas assumem em cada
país características próprias e, assim, o do trabalho ocorre nos
Estados Unidos com elementos originais: o exercício da liber-
dade, a seu ver, ainda deixa espaço para medidas paliativas. No
entanto, a formação da classe trabalhadora não obedeceu a essas
características, pois embora o problema tenha nascido no mesmo
país, os operários dali buscaram enfrentá-lo com as leis, e assim

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surgiram as greves, os grêmios e os boicotes. Mas a questão se


agravou e transformou-se em crise quando o protecionismo levou
ao excesso de produção e de operários, e aos preços altos.
A resposta dos industriais foi baixar os salários e importar
novos trabalhadores baratos, o que favoreceu o boom imigratório.
Mas estes imigrantes, especialmente os alemães, traziam “o
ódio do servo, o apetite pela fortuna alheia, a fúria de rebelião”.
E então explodiu nos Estados Unidos o que fora engendrado
na Europa: “Por isso pode ser que aqui o fruto não amadureça,
posto que não é desta terra!”34 De novo se manifesta a confiança
de Martí na capacidade do sistema estadunidense de conduzir o
protesto operário pelo caminho da prudência. Na Alemanha há
explosões porque não há válvulas; mas, nos Estados Unidos, os
operários não se levantam como servos, e sim como homens,
“visto que têm a prática de sê-lo”. E como prova do papel negativo
desempenhado por esses imigrantes, explica que entre os alemães
chegaram os anarquistas presos em Chicago, que descreve de
forma bem desagradável, até quanto ao físico.35
Para o jornalista, era um direito justo reivindicar a jornada
de 8 horas, mas não era um direito impedir o trabalho dos fura-
greves nem atacar as propriedades. Quem age assim, diz, “não são
os verdadeiros trabalhadores americanos”, que podem chegar até a
“momentos de fúria”, mas não preparam atentados.36 E como era
recente a explosão de Haymarket, sua palavra condena duramente
os atentados anarquistas, que considera “raiva das bestas”.37 No

34
José Martí: Outras crônicas de Nova York, pesquisa, introdução e índice de cartas de
Ernesto Mejía Sánchez, Havana, Centro de Estudos Martianos e Editorial de Ciencias
Sociales, 1983, p. 23.
35
Ibidem, pp. 27, 23-24.
36
Ibidem, p. 26.
37
Ibidem, p. 27.

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entanto, imediatamente, talvez preocupado ele próprio com tal


qualificativo, aproxima-se dos trabalhadores e qualifica de “de-
lito” de “alma ruim” ver sem piedade a vida dolorosa “do pobre
operário moderno, da pobre operária, nestas terras frias”,38 cuja
presença na neve antes do amanhecer ou à noite, no regresso da
jornada de trabalho, ele mesmo descreve em mais de uma de
suas Cenas norte-americanas.
Conseqüente com estas idéias, Martí apresenta os Cavaleiros
do Trabalho como originais e lutadores próprios da realidade
estadunidense, descrevendo seus princípios, política e história nas
páginas finais do texto. Ao referir-se às idéias de seu líder, Uriah
Stevens, acrescenta que este via os monopólios de um lado e do
outro, todos os que sofrem por causa deles. Assim, os Cavaleiros
do Trabalho dignificam-se a seus olhos também por enfrentar
esse poder, no qual Martí identifica o inimigo principal de seu
tempo e do futuro.
Resumindo, repete o que já dissera em sua crônica de 27 de
abril para La Nación: as greves dos Estados Unidos foram um
enfrentamento entre a prudência, representada pelos Cavaleiros
do Trabalho, que finalmente conseguiram tomar as rédeas do
movimento, e o fanatismo, representado pela violência anar-
quista.
No entanto, será o processo dos 7 anarquistas de Chicago
que contribuirá decisivamente para radicalizar a perspectiva
martiana sobre o problema social, na medida mesma em que
vai compreendendo a reunião desses interesses que chegam a
ponto de justiçar pessoas inocentes dos crimes de que são acu-
sadas. E essa violência da classe dominante, exercida por meio
do Estado, será sem dúvida elemento decisivo para que Martí

38
Idem.

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M A R T Í E A S D U A S A M É R I C A S

chegue a um ponto claramente crítico em relação ao sistema


estadunidense.

6
Um momento significativo nesse processo ocorre no mesmo
ano de 1886, quando, já no verão, Martí escreve uma crônica
em que, ao traçar um panorama do ocorrido durante o mês de
junho, inclui o seguinte subtítulo: “Os tribunais condenam os
grevistas”. Na realidade, apenas comenta brevemente a atuação
dos tribunais contra os operários e se refere ao julgamento dos
anarquistas de Chicago, pois o maior espaço é utilizado para
destacar o que faziam os dirigentes dos Cavaleiros do Trabalho,
a quem chama de homens originais, que procuram fechar a porta
ao ódio e que defendem a distribuição eqüitativa dos produtos
da terra, assunto sobre o qual tinha opinião favorável.
Sabemos que a originalidade era característica muito apre-
ciada por Martí, tanto no mundo artístico e literário quanto
em qualquer esfera da sociedade, e que chegava a considerá-la
uma necessidade para que o desenvolvimento social estivesse
em harmonia com a autoctonia de cada povo. Portanto, atribuir
tal característica a essas lideranças operárias é, sem sombra de
dúvida, mais uma demonstração da alta estima que lhes dedica-
va, enquanto essa proposta de distribuição é, ao mesmo tempo,
evidência dessa originalidade.
Mas, além da pertinência de tal sistema em uma economia
mercantil de alto desenvolvimento e complexidade, é preciso
observar que, para o cubano, trata-se de uma maneira concreta
de enfrentar a ação de rapina dos monopólios nascentes, que
denuncia com inquestionável virulência nessa crônica publicada
em La Nación, de Buenos Aires, em 15 de agosto de 1886. Note-
se, na citação seguinte, não apenas a importância que atribuía ao

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controle da terra nesse processo, como também sua crescente


influência na vida política.
Do abuso da terra pública, fonte primária de toda propriedade, decorrem
essas ousadas acumulações de riquezas que arruínam na concorrência
estéril os aspirantes pobres; essas corporações monstruosas, que inundam
ou encolhem com sua avareza e abalos a fortuna nacional; esses iníquos
consórcios de capitais que obrigam o operário a morrer sem trabalho, ou
a trabalhar por um grão de arroz; essas empresas milionárias que elegem
a suas custas senadores e representantes, ou compram-nos depois de
eleitos, para garantir o apoio às suas leis que os mantêm no gozo de seu
abuso e dividem com a autoridade da nação novas porções da terra pú-
blica, em cujo produto continuam acumulando sua tremenda força.39
Não é o caso, agora, de esclarecer até onde sua análise, ba-
seada, sobretudo, nos casos do setor ferroviário, é exata e válida
em termos econômicos; mas sim de observar como ficam claros,
tanto seu repúdio aos monopólios e às suas práticas – que tor-
nam mais desigual a distribuição – quanto sua compreensão de
que estas não apenas afetam os operários, como também outros
setores sociais majoritários da nação. Em duas palavras: tanto o
tom, quanto as idéias induzem o leitor a ver os monopólios como
algo perigoso para todo o país do Norte e, eventualmente, para
os vizinhos próximos.
De modo que a luta dos Cavaleiros do Trabalho lhe era
simpática também porque se opunha à “aliança ilícita” entre as
empresas e os congressistas; considera um triunfo deles (um ato
“de acatamento ao poder dos trabalhadores”)40 a aprovação pelo
Congresso da lei que proibia a posse da terra por estrangeiros.
Embora na seqüência pareça conceder que a administração da

39
J.M.: “Nova York em junho”, O.c., t. 11, p. 19.
40
Idem.

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justiça ainda é fiel a seus princípios de igualdade, dado que castiga


igualmente a violência dos trabalhadores e aquela que é praticada
pelas coalizões empresariais contra os operários e, além disso,
insiste em justificar o castigo judicial contra os trabalhadores
amotinados.
Um mês depois repudia energicamente o que considera vio-
lência operária, em uma crônica dedicada à imposição da pena de
morte aos 7 de Chicago, onde narra o julgamento, apresentan-
do-o como um ato que evidenciou claramente a culpabilidade
daqueles. Sua postura parte do critério de que os réus prepararam
e lançaram a bomba porque traziam consigo o ódio da Europa,
desnecessário a seu ver nos Estados Unidos, onde “o mais infeliz
tem na boca a palavra livre que denuncia a maldade, e na mão o
voto que faz a lei que há de derrubá-la”.41 Portanto, a liberdade
de expressão e o direito ao sufrágio constituem, para o cubano,
pontos essenciais do sistema estadunidense: impedem os ódios
cultivados pelas monarquias e a falta de liberdades políticas no
Velho Mundo.
Não desqualifica apenas os acusados, mas o anarquismo em
seu conjunto, cujo ato violento em Chicago não foi apoiado nem
pelos socialistas nem pelos grêmios operários, que não protesta-
ram contra a condenação à morte. Mostra os anarquistas como
fanáticos, destruidores e charlatães, seguidos apenas pelos igno-
rantes, não pelos cultos operários estadunidenses. É tão evidente
o repúdio que, numa rara alusão à sua pessoa, chega a declarar-se
incapaz de levantar a voz em defesa da vida dos condenados: “E
mais, o estrangeiro de alma compassiva, o pensador que vê nas
causas, entristeciam-se e calavam-se”.42

41
J.M.: “O processo dos sete anarquistas de Chicago”, O.c., t. 11, p. 56.
42
Ibidem, p. 59.

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Não há dúvida, portanto, de que, críticas à parte, Martí con-


tinuava expressando confiança nas possibilidades regeneradoras
do sistema democrático estadunidense, e que repudiava energi-
camente a violência terrorista.
Um ano depois, em fevereiro de 1887, já se evidencia sua
mudança de perspectiva, quando se refere a várias greves do
começo daquele ano. No dia 2 data uma crônica em que trata
de vários temas e que culmina com as greves ferroviárias. Con-
sidera que essas são provocadas e agravadas pela injustiça, pelos
ares altivos e alardes de força. Julga que os operários avançaram
muito, durante aquele inverno, na compreensão da raiz de seus
males, e considera que é a condição social das greves que deve
ficar clara antes de empreenderem-se as reformas.
Estas avaliações contrastam com as que expusera durante a
onda de greves do ano anterior: agora Martí começa suas refe-
rências ao problema social, se não abertamente do lado oposto
ao dos proprietários, pelo menos expondo as responsabilidades
destes nos acontecimentos, ao mesmo tempo em que indica que
a resposta ao problema deve ser buscada no conhecimento do
mesmo. Isto é, não confia nas condições do sistema estadunidense
para reformar a sociedade, mas trata de estudar o problema em
si mesmo, idéia reforçada em um parágrafo de tom filosófico
onde diz que os problemas da vida humana não devem ser cui-
dados com leviandade mas sim bem conhecidos para ser possível
solucioná-los.
Provavelmente para dar idéia de qual era a condição social
das greves, debate expressamente com aqueles que consideram
boas as condições de vida dos trabalhadores sem realmente
conhecê-las, acrescentando: “os que desejam falar com critério
sobre a condição dos operários devem chegar até eles e conhecer
de perto sua miséria”. Por isso, para que seus leitores conheçam

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com propriedade essa miséria operária, descreve vívida e exten-


samente as duras condições de vida e de trabalho dos mineiros,
narrando pateticamente como foram agredidos pelos detetives
da célebre agência Pinkerton.
Os mercenários fazem carga sobre as crianças, matando uma delas a bala.
Que fizeram os grevistas? Encheram-se de fúria? Pagaram morte com
morte? Despedaçaram com os dentes o baú que guarda as riquezas da
companhia? Não. Em número de 10 mil, com a cabeça descoberta, em
silêncio, acompanharam o funeral da infeliz criança, deixando sobre seu
caixão uma coroa de pobres flores. Ao nosso companheiro!43
Assim, apresenta tanto a violência cotidianamente exercida
pelos proprietários contra os mineiros, impedindo-os de ter
uma vida decente, quanto a violência que faz correr sangue,
iniciativa dos agentes repressivos dos capitalistas, que não é res-
pondida na mesma moeda, postura que, evidentemente, agrada
ao cronista.
Mas talvez o mais significativo neste texto é que Martí,
em sua avaliação das greves, destaca positivamente que estas já
começam a transcender a reivindicação salarial imediata e, em
muitos casos, ocorreram em solidariedade àqueles que deman-
dam aumentos salariais; ou seja, importante para ele é a unidade
de ação classista demonstrada pelos operários.
Doze dias depois o cubano enviava outra crônica para O
Partido Liberal. Trata-se de sua versão para o México da greve dos
mineiros do carvão, à qual somou-se a dos navios.
Explica como os mineiros venceram, obtendo a reposição
de seus antigos salários, que eram mais altos, contando com a
contribuição dos Cavaleiros do Trabalho. Declara que é impor-

43
J.M.: “Cartas de Martí. Um mês de vida norte-americana”, O.c., t. 11, pp. 158 e 159,
respectivamente.

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tante o ensinamento desta greve, embora não possa dedicar na


crônica todo o espaço que o assunto merece. A lição que a seu
ver é preciso extrair é que os trabalhadores poderão algum dia
chegar a paralisar toda a nação. Por isso argumenta que os re-
médios para evitá-lo por meios legais constituem um conjunto
de reformas na sociedade estadunidense: barateamento do custo
de vida, mediante modificação da tarifa tributária, eliminação de
impostos desnecessários e solução dos danos públicos originários
da acumulação de terras e direitos por companhias privadas. É
óbvio o sentido antimonopolista na primeira e na terceira de
suas propostas. Talvez seja demasiado qualificar estes pontos de
programa antimonopolista, mas inquestionavelmente constituem
uma tendência nesse sentido.
Se estes remédios não forem adotados, conclui que “prospe-
rará essa nação de operários na sombra, acabando por oferecer
batalha à nação legal de proprietários”. De novo o cronista cumpre
seu objetivo habitual de prever e alertar quanto aos caminhos fu-
turos dos Estados Unidos. É o fantasma de Banquo, que ameaça
deslocar o monarca de seu assento privilegiado.
Em suma, tais idéias não estão muito distantes das que ex-
punha em 1886. Mas em uma longa citação deste texto mostra
claramente como já fraqueja sua convicção anterior de que o país
do Norte resolveria o problema social.
O mais temível dessa luta é que, enquanto os prudentes afrontam-na e
os demagogos precipitam-na, aqueles que se consideram, graças à sua
enorme fortuna, os magnatas do país, articulam-se para defender seus
privilégios e andam procurando um chefe. Onde anda aquele respeito
do americano por sua cidadania, aquela fé inquebrantável no exercício
do livre arbítrio, aquele orgulho de ver levantar-se da humildade seus
apóstolos e seus líderes? Fingem ainda defender essas idéias, mas já as
abominam. A guerra que assegurou a União e o crédito criou uma

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geração de agiotas felizes, sem prática nem fé em uma liberdade obs-


curecida pela arrogância do triunfo e sem respeito pelas instituições
transformadas em comércio pelos encarregados de conservá-las. Esta
geração criou tribunais servis e senados de milionários, chegando a
fazer da Casa de Representantes, da fonte das leis, um mercado aberto
onde estas se vendem e se compram, um conclave iníquo de agentes
poderosos solicitantes ou de empresas ricas. E esta geração agora se
nega, quando o país sente-se rendido e volta a si, a abandonar essa vida
de roubos disfarçados, a devolver o que adquiriu ilegalmente, a permitir
que a nação livre-se deles e se reconstitua.44
Esse chefe desejado pelos ricos, segundo explica no subtítulo
seguinte, era Chauncey Depew, advogado da rica e aristocrática
família Vanderbilt, que pleiteava então a candidatura presiden-
cial pelo Partido Republicano. Chama a atenção, no parágrafo, a
análise histórica e sociológica para explicar aquele presente que se
distanciava das tradições democráticas: Martí sabe e expõe a seus
leitores que os problemas são resultado de processos longos, em
que influem diversos fatores, de maneira que as soluções possam
ir ao fundo, à raiz, e não permaneçam no epidérmico. E descreve
a crescente hegemonia – dada sua acumulação de fortunas e sua
corrupção dos políticos – do que já era de fato uma oligarquia,
como ele mesmo a qualificaria mais tarde.
Ainda considera que a luta social é precipitada pelos demago-
gos, palavra de carga negativa evidente, mas é interessante que já
não são eles os responsáveis por essa luta, e sim o que chama de
geração gananciosa e corrupta, que torna necessário reconstituir o
país. Verbo preciso este, empregado pelo cronista: é preciso voltar
a começar, pois já não vale a antiga fé nas virtudes democráticas.

44
J.M.: “Correspondência particular de O Partido Liberal. Novidades de Nova York”,
O.c., t. 11, p. 167.

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Fica claro, portanto, que sua opinião sobre o problema social


já não está dominada pelo otimismo pleno de que a sociedade
estadunidense não sucumbiria a esse conflito, considerado por
ele de alcance universal.
Encontramo-nos, pois, diante de um processo de mudança
em seu pensamento, que não se produz de um dia para o outro,
que não pode ser identificado de uma vez, plena e totalmente, de
um texto para outro durante um dado momento, e que transcen-
de sua compreensão do problema social para abarcar a sociedade
estadunidense em seu conjunto. O problema social é um aspecto,
importante para ele, sem dúvida; tanto que, em minha opinião,
sua aproximação ao mesmo será um dos caminhos concretos
para poder verificar esse processo de transformação em suas
idéias. Mas é apenas um aspecto e não a totalidade. E é esta que
sempre importou para Martí, de seu ponto de vista e interesse
latino-americanos. Não há, portanto, outra maneira de apreciar
sua crescente variação de mentalidade senão tomando em suas
crônicas jornalísticas – ricas em análises, mas que não são artigos
nem monografias de temas sociais – os traços e elementos que
vão mostrando a transformação da perspectiva.
Em 15 de março de 1887 termina outra de suas cartas para
La Nación, de Buenos Aires, cujo primeiro subtítulo sintetiza seu
conteúdo: “Movimento social e político dos Estados Unidos”.
Sua palavra é taxativa: “Nos Estados Unidos ferve agora a huma-
nidade nova (...) Pela lei ou pela força, aqui há de haver justiça”.
Trata-se, pois, de que na nação do Norte luta-se pela justiça, tal
é o fervilhar da humanidade nova.
E essa luta pela justiça confronta duas classes opostas: a de-
sempregada, que costuma pedir justiça de forma ruim, ou quer
fazê-la por suas próprias mãos, mas que já se move pela coisa
pública como em sua própria casa; e os que querem resistir ou

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retardar o advento da justiça, que, com ira mal contida, chama


de tartufos.
O Estado novo a que se há de chegar é descrito em ter-
mos éticos positivos: o homem sairá aperfeiçoado, será um
Estado social “amável e justiceiro”; avançar-se-á na liberdade
e na felicidade. E responde a sua disjuntiva afirmando que
provavelmente entrar-se-ia nele pela violência.45
Martí situa a causa dessa opção “pela força” em lugar de
pela lei na própria luta de classes nos Estados Unidos, cuja
tendência a agravar-se atribui aos proprietários, ou melhor,
aos endinheirados, sua maneira, a meu ver, de referir-se à
oligarquia monopolista.
Vejamos suas palavras para apreender sua riqueza e suas
nuances: “O trabalhador, que é aqui o Atlas, está ficando
cansado de levar o mundo nas costas, e parece decidido a
sacudi-lo de seus ombros e buscar um modo de caminhar
sem tantos suores pela vida”. É evidente que achava justa
esta aspiração. Mas os ricos, os que esperam sê-lo e os que
prosperam à sua sombra, “não se preocupam em atender a
estes reclamos por justiça, mas em subornar os que fazem
as leis, para que mantenham atadas a seus pés as liberdades
públicas”.46 E, tampouco, importam-se com o problema os
partidos políticos, a imprensa e o Congresso.
Portanto, já não considera o sistema político estadunidense
e a própria imprensa, cuja eficiência democrática admirara
anos antes, capazes de propiciar a regeneração, à luz do grande
problema universal que via manifestar-se na nação.

45
J.M.: “Cartas de Martí. Movimento social e político dos Estados Unidos”, O.c., t.
11, p. 172.
46
Ibidem, p. 173.

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“Um drama terrível” é uma das obras primas do jornalis-


mo martiano. Escrita em 13 de novembro de 1887 e publicada
em La Nación, de Buenos Aires, no dia 1º de janeiro do ano
seguinte, é uma das crônicas em que Martí desenvolve seus re-
cursos literários, especialmente sua capacidade narrativa. Não
é por acaso, a meu ver, tal cuidado com a forma. Ao que tudo
indica, trabalhou cuidadosamente o texto, buscando alcançar
o efeito desejado: convencer seus leitores da inocência dos
enforcados, assim como despertar a piedade e a simpatia para
com eles, o que se verifica nos momentos finais da narração,
quando relata a última noite dos condenados, o amanhecer
do dia fatídico, a saída das celas, a caminhada para o pátio da
prisão, e o macabro momento da morte.
Um drama que tanto tem de Shakespeare quanto de És-
quilo e Calderón – paradigmas martianos desde sua juventude
– de Beethoven e até de Wagner, em sua grandiosa arquitetura
sinfônica. “Um drama terrível” é texto que evidencia como
se efetuou em seu autor a mudança de perspectiva frente ao
problema social, a ponto de contradizer algumas afirmações
de anos precedentes.
Ele mesmo esclarece seu ponto de vista desde o prin-
cípio do texto, em valioso exemplo de ética jornalística e
intelectual:
Nem o medo das justiças sociais, nem a simpatia cega pelos que ten-
tam, devem guiar os povos em suas crises, nem aquele que as narra.
Apenas serve dignamente a liberdade quem, com risco de ser tomado
por seu inimigo, preserva-a sem temer os que a comprometem com
seus erros. Não merece o epíteto de defensor da liberdade quem
perdoa seus vícios e seus crimes pelo temor feminino de parecer tíbio
em sua defesa. Nem merecem perdão os que, incapazes de domar
o ódio e a antipatia que o crime inspira, julgam os delitos sociais

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sem conhecer e pesar as causas históricas de que nasceram, nem os


impulsos de generosidade que os produzem.47
Para explicar todo o processo que levou à morte dos exe-
cutados sem razão, desmonta com fino cuidado os fatores que
se uniram para propiciar o que culminou em um monstruoso
crime jurídico:
A república amedrontada pelo poder crescente das camadas populares,
pelo despertar súbito das massas operárias, contido apenas pela rivalidade
de seus chefes, pela divisão próxima da população nacional nas duas clas-
ses de privilegiados e descontentes que agitam as sociedades européias,
decidiu valer-se, por um acordo tácito, semelhante à cumplicidade, de
um crime nascido de seus próprios delitos, tanto como do fanatismo
dos criminosos, para aterrar com o exemplo deles, não a ralé sofrida
que jamais poderá triunfar em um país racional, mas as assustadoras
camadas emergentes.48
O sujeito “a república” parece ter vários sentidos, algo nada
estranho na polissêmica prosa martiana: pode aludir tanto ao
Estado estadunidense, quanto à comunidade nacional e talvez,
em alguns momentos, até a ambas ao mesmo tempo. O certo é
que Martí analisa no texto o repúdio quase unânime ao terroris-
mo, junto com a vontade de castigar os culpados. O cubano diz
claramente que o ato de violência indiscriminada que significa
a bomba de Chicago foi conseqüência também da ausência de
uma resposta positiva às reivindicações operárias. Logo, a culpa
não era apenas dos fanáticos que a lançaram.
O cubano encontra outros dois fatores que contribuíram
para o alcance repressivo e punitivo que adquiriram os acon-
tecimentos posteriores: “O horror natural do homem livre ao

47
J.M.: “Um drama terrível”, O.c., t. 11, p. 333.
48
Ibidem, p. 334.

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crime” e a animosidade dos imigrantes irlandeses contra alemães


e eslavos implicou em que a simpatia e a ajuda de boa parte do
movimento operário estadunidense tomassem o partido dos
privilegiados, embora esta classe sofresse dos mesmos males,
desamparo, trabalho bestial e dilacerante miséria que motivou
os anarquistas de Chicago.
Note-se que, embora Martí já soubesse que os 7 líderes
anarquistas eram inocentes, ainda parece crer que a bomba foi
ativada por mãos anarquistas, que identifica com o fanatismo.
Apesar de sua opinião contrária a esta corrente operária, estende-
se no texto na análise das formas e razões porque ela avançou em
Chicago, mostrando, no sentido de justificar seus atos violentos,
a sangrenta violência repressiva exercida contra os operários du-
rante as greves por reivindicações salariais e a redução da jornada
de trabalho. Por isso já não lhe atribui a plena responsabilidade
pelos sangrentos acontecimentos de Chicago, considerando que
tais eventos representaram uma guinada desastrosa para o país.
Em suas palavras, a morte dos anarquistas significa o seguinte:
“Esta república, pelo culto desmedido à riqueza, caiu, sem ne-
nhuma das travas da tradição, na desigualdade, na injustiça e na
violência dos paises monárquicos”. E, mais adiante: “De uma
aldeia aprazível e tranqüila, a república transformou-se em uma
monarquia dissimulada”.49
Trata-se, em duas palavras, de que a república estava ne-
gando a si própria; por isso, posteriormente, escreveria que os
Estados Unidos eram uma república imperial, de césares, a
Roma americana. Como dissera em textos anteriores, considera
que o processo que levou a essa transformação foi estimulado
pela Guerra de Secessão, as colossais fortunas acumuladas e a

49
Ibidem, p. 335.

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imigração desordenada. A história recente unia-se ao espírito de


metalização que via naquele país desde sua adolescência.
Repete essas idéias na crônica que escreve para La Nación, de
Buenos Aires, em 10 de abril de 1888: a república vive em seu
apogeu o problema social e se encontra em um ponto crítico:
Os Estados Unidos chegaram a uma hora de balanço – ao debilitar-se
a prosperidade que obtiveram com a guerra, examinam e condenam os
vícios e falsos sistemas criados à sua sombra – que a república, tendo
caído nas mãos de um partido conquistador, que parou ao fundar uma
camada aristocrática, decide por restabelecer a antiga base da igualdade
e livre luta que era em tempos de menos luxo a garantia da remunera-
ção justa do trabalho do homem, tirado hoje do combate, a não ser na
categoria de servo, pelas empresas privilegiadas, quer ajam por si, quer
se unam em ligas monstruosas.50
Martí repudia os monopólios, chama de “congregação cada
dia mais descarada e alarmante” os trustes,51 e considera que
se criou “na democracia mais livre do mundo a mais injusta e
desavergonhada das oligarquias.52
Por isso sua pena tende a endurecer cada vez mais diante das
ações contra os operários realizadas por essa oligarquia, o que
o faz justificar as respostas daqueles, ainda que não mude de
opinião, favorável aos métodos e propósitos dos Cavaleiros do
Trabalho.53
Quando da nova greve dos condutores de bonde de Brooklin
e de Nova York, no começo de 1889, no dia 31 de abril escre-
ve para La Nación, de Buenos Aires, e defende o direito de os

50
J.M.: “Cartas de Martí. Estados Unidos”, O.c., t. 11, p. 435.
51
Ibidem, p. 436.
52
Ibidem, p. 437.
53
Ver O.c., t. 11, pp. 435 e 386. Na segunda página elogia a condução por eles da greve dos
mineiros da companhia Reading.

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operários manterem sua organização sindical que a empresa


quer fazer desaparecer. Neste texto, certamente, modifica seu
critério sobre a imprensa e escreve: “a imprensa, da qual a elite
se apoderou, com raras exceções, defende a elite”.
No caso deste movimento Martí admite a violência contra
os fura-greves, utilizando em seu relato a voz de um operário,
cujas idéias de ação violenta o jornalista não refuta nem condena:
“com tijoladas, pontapés, a bala, se preciso for, perseguiremos os
traidores que venham oferecer-se como cocheiros e condutores
às empresas!” No entanto, condena a brutal repressão policial
contra os grevistas dedicando um bom espaço, em seu melhor
estilo de cronista, à narrativa do choque destes com os fura-
greves e a conseqüente intervenção da polícia.
A tomada de partido pelos operários tornava-se mais defi-
nida e explícita, sem que isto signifique que o cronista para a
América espanhola se pronunciasse absoluta e favoravelmente
por alguma das teorias socialistas ou ideologias operárias. Fica
evidente que Martí previa e ansiava por um novo estado social
que brilhasse pela justiça, e que esta justiça devia passar nas
sociedades modernas por uma mudança radical nas condições
de vida dos trabalhadores e de suas famílias, obrigados a traba-
lhar ainda em piores condições quando se tratava de mulheres
e crianças.
Sua perspicácia baseia-se, portanto, não só em ter compreen-
dido a importância do problema social e em indicar para ele uma
saída justiceira, mas também em compreender que o nascente
capital monopolista estimulava a luta de classes e aumentava o
grau de violência na própria sociedade estadunidense. E, em
sua condição de pensador e de dirigente revolucionário, soube
compreender que uma estratégia para evitar o domínio destes
monopólios sobre os recursos da América e a expansão terri-

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torial do país do Norte, estimulado pela oligarquia financeira,


devia incluir a união dos múltiplos interesses afetados pelo
crescimento dos monopólios, a quem devia interessar o que
sucedia nas Antilhas espanholas e no resto das terras do Sul, e
vice-versa.
A análise contínua do problema social nos Estados Unidos
permitiu-lhe perfilar seu conhecimento daquela sociedade, das
íntimas inter-relações entre suas diversas características e fatores,
assim como a importância do assunto para o presente e para o
futuro do continente: Banquo, ou melhor, seu fantasma, seria
um aliado tácito na descomunal luta de Martí para impedir que
se impusesse a lógica dos monopólios.

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