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Cinderela vai ao cinema: uma reflexão sobre a passagem da história dos

livros para o desenho animado

Luciene Aranha Neto1

Resumo

O objetivo deste trabalho é apurar o conhecimento das possibilidades,

vantagens e desvantagens de versões cinematográficas dos Contos de Fadas,

especificamente do Conto da Cinderela. Para tanto, é analisada a perda de

detalhes e de significados das transposições de versões escritas que, filmadas,

recebem acréscimo de personagens e têm o enredo rebuscado em busca de

coerência e para preencher os espaços narrativos das seqüências

cinematográficas mais longas.

Não é considerada a questão de preponderância da literatura sobre o cinema,

ou vice e versa, posto que estas duas formas de expressão artística possuem

linguagens distintas, repletas de especificidades e têm relação diferenciada

com seus públicos. O enfoque é centrado no impacto dos Contos de Fada

reproduzidos no cinema, objetivando saber se a pluralidade de linguagens

favorece o conhecimento e acesso às várias versões da mesma história.

Palavras – chave: Literatura infantil; Contos de Fada; Infância; Cinema

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Mestranda em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie – São
Paulo, SP – sob Orientação do Professor Doutor Paulo Roberto Monteiro

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Resumen

El objetivo es crear conciencia de las posibilidades, vantajes y desventajes de

las versiones cinematográficas de los cuentos de hadas, en particular el cuento

de Cenicienta. Por lo tanto, se considera la pérdida de detalles y significados

de las versiones escritas de las transposiciones que en las películas, recibirán

una tasa de personajes y trama han trabajado en la búsqueda de la coherencia

y para llenar los espacios de la narración ya las secuencias de la película.

No se considera la cuestión de la preponderancia de la literatura sobre la

película, o viceversa, por saber que estas dos formas de expresión artística

tienen diferentes lenguages, llena de concreto y tienen diferentes relaciones

con su público. El foco se centra en los efectos de desempeñar los cuentos de

hadas del cine, si la pluralidad de lenguas fomenta el conocimiento y el acceso

a diferentes versiones de la misma historia.

Palabras – llave: Literatura infantil; Cuentos de Hada; Niños; Cine

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O Conto de Fadas

Os Contos de Fada são das mais antigas formas de contar histórias.

Consideradas variantes dos contos populares ou das fábulas, suas narrativas

são curtas, transmitidas oralmente, com heróis e heroínas que precisam

enfrentar grandes obstáculos antes de seu triunfo final contra o mal. Em sua

maioria envolvem algum tipo de magia, metamorfoses ou encantamentos e,

alguns têm como protagonistas animais falantes em lugar de fadas.

As versões infantis de Contos de Fadas que atualmente consideramos

clássicas, devidamente suavizadas em relação a suas versões originais, teriam

nascido quase por acaso na França do século XVII, na corte de Luís XIV, pelas

mãos de Charles Perrault.

Com base nos estudos de Cashdan (2000), nos países de língua inglesa a

popularização dos contos foi feita por mascates que, entre suas mercadorias,

levavam pequenos livros chamados de “chapbooks” – ou cheap books, “livros

baratos”, na língua inglesa. Vendidos por poucos centavos continham histórias

do folclore e Contos de Fadas em versões simplificadas, que propiciaram sua

popularização pelo acesso de um público maior e menos sofisticado de leitores.

Este gênero literário tem como características predominantes o uso de magia e

encantamentos; a realização pessoal – existencial – do herói ou heroína como

núcleo problemático; e, rituais de iniciação para os protagonistas que aparecem

representados nos obstáculos e batalhas a enfrentar.

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Os significados dos contos têm sido objetos de análise em diversas correntes

da psicologia como as que sugerem serem eles “psicodramas da infância”

espelhando situações e lutas reais. Ainda na visão de Cashdan (2000, p.25):

Embora o atrativo inicial de um conto de fada possa estar em sua

capacidade de encantar e entreter, seu valor duradouro reside no poder

de ajudar as crianças a lidar com os conflitos internos que elas

enfrentam no processo de crescimento.

Este mesmo autor conclui que apesar de a função atribuída aos contos, de

espelharem situações vividas pelas crianças, eles não têm como objetivo, ou

atrativo, transmitir lições. Ele coloca que “alguns folcloristas acreditam que os

Contos de Fada transmitem 'lições' sobre comportamento correto e, assim,

ensinam aos jovens como ter sucesso na vida, por meio de conselhos. [...] A

crença de que os Contos de Fada contêm lições, em parte pode ser creditada a

Perrault, cujas histórias vêm acompanhadas de divertidas “morais”, muitas das

quais inclusive rimadas". (Cashdan, 2000, p.23)

De acordo com Franz (2007), os contos expressam de maneira direta os

processos do inconsciente coletivo. A sua história e gênese, ainda segundo

Franz (2007), apontam a presença deste tipo de literatura desde os primeiros

séculos da civilização greco-romana:

Pelos escritos de Platão podemos perceber que as mulheres mais velhas

contavam às crianças histórias simbólicas – “mythoi”. Desde então, os

contos de fadas estão vinculados à educação de crianças. Na

antiguidade, Apuleio, escritor e filósofo do século II d.C., escreveu sua

famosa novela O asno de ouro, um conto de fada chamado Amor e

Psyche, uma história do tipo A bela e a fera. Este conto de fada tem o

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mesmo padrão daqueles que se podem ainda encontrar, hoje em dia, na

Noruega, Suécia, Rússia e muitos outros países. [...] Até os séculos XVII

e XVIII, os contos de fada eram – e ainda são nos centros primitivos e

remotos – contados tanto para adultos quanto para crianças. Na Europa,

eles costumavam ser a forma principal de entretenimento para as

populações agrícolas na época do inverno. (FRANZ, 2007, p, 11-12)

De acordo com Coelho (1993, p.156), o registro mítico literário mostra indícios

de que os primeiros contos teriam surgido entre os celtas, - povos bárbaros que

submetidos pelos romanos (séc. II a.C/séc. I da era cristã) se fixaram

principalmente nas Gálias, Ilhas Britânicas e Irlanda.

A Cinderela dos livros

O conto da Cinderela, ou Gata Borralheira, é considerado como dos mais

antigos e conhecidos. Sobre suas origens encontram-se referências na China,

por volta do ano 860 a.C, com menção a uma personagem que vive entre as

cinzas do fogão, ou borralho. Alguns estudos também indicam a ligação do

tema deste conto à mitologia germânica, onde o episódio do sapatinho perdido,

e depois encontrado, remete ao símbolo jurídico do casamento germânico

medieval, no qual o noivo calçava cerimoniosamente o pé da noiva para a

confirmação de se tornar o responsável por ela.

Existem cerca de 3.000 versões do mito de Cinderela. Quase toda cultura ao

redor do mundo tem uma: ela é conhecida como “Ye Shen” na China,

“Tattercoats” na Inglaterra e é “Mareouckla” para os eslavos.

A história da Cinderela já era bastante conhecida nos anos trinta do século

passado, quando os escritores da Disney se aproximaram dela. Eles

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mantiveram o tema central e seus elementos atemporais, tais como a jovem

garota vestida em andrajos e forçada a trabalhar de servente por sua malvada

Madrasta, o baile, o Príncipe Encantado e a Fada Madrinha. Mas também a

rechearam de pássaros, ratos e outros simpáticos animaizinhos, que se

tornaram coadjuvantes da história principal e ajudaram a incluí-la dentre as

mais bem sucedidas do estúdio.

A figura da Gata Borralheira já era conhecida em Portugal desde o século XVI,

mencionada na comédia Ulyssipo, de Jorge Ferreira, de 1546 (Nicolelis, 1997,

p.46).

Os Contos de Fada têm se perpetuado na cultura da humanidade devido as

suas características estruturais. O contado parte de situações reais e dá ao

mundo ficcional o tratamento do “maravilhoso”, sendo o conteúdo baseado na

sabedoria popular e trabalhado com emoções conhecidas e vivenciadas pelas

crianças. A transposição para o mundo da fantasia possibilita a vivência dessas

emoções fora dos limites de tempo e espaço. As personagens sempre são

simples e sua ação abraça inúmeras e variadas situações, instigando as

crianças a buscar, junto com as personagens, soluções e respostas para cada

situação e conflito propostos. A ajuda e a intervenção de seres fantásticos do

imaginário infantil garantem o envolvimento e o interesse renovado durante

todo o desenrolar da trama.

A popularização do Conto da Cinderela se deu a partir da organização da

primeira coleção de contos populares, feita por Charles Perrault no livro Contes

de la Mère I’Oie (Contos da Mamãe Gansa), editado em 1697, que reconta

histórias resgatadas da memória popular e dá origem à literatura infantil.

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Charles Perrault (1628–1703), escritor e poeta francês do século XVII,

estabeleceu as bases do gênero literário que passou a ser conhecido como

Conto de Fadas. Contemporâneo de Jean de La Fontaine, Perrault também foi

advogado e exerceu atividades como superintendente na corte do Rei Luís XIV

de França. Em 1695, aos 62 anos, perdeu seu posto como secretário e, já

idoso, resolveu registrar as histórias que ouvia de sua mãe e nos salões de

Paris. A publicação rompeu os limites literários da época e alcançou públicos

de todos os cantos do mundo. Perraut foi o primeiro a dar acabamento literário

a esse tipo de histórias, que antes ficavam restritas a serem contadas entre as

damas dos salões parisienses.

O conto da Cinderela

Segundo a recente versão de Nicolelis (1997) para o conto da Cinderela de

Charles Perrault, a menina Cinderela era filha de rico comerciante falecido

quando ela era muito jovem e foi criada por sua Madrasta malvada, que tinha

duas filhas feiosas. Cinderela é feita de serviçal por elas, com a obrigação de

cuidar do serviço da casa, recebe todo tipo de humilhações e vive condenada

ao isolamento do sótão da casa.

A ação principal da história tem início quando o Rei anuncia que realizará um

baile para o Príncipe escolher dentre todas as moças do reino àquela com

quem se casará. Como a beleza de Cinderela sobressairia e ofuscaria as filhas

da Madrasta, ela é proibida de ir ao baile. Humilhada pelas Irmãs e pela

Madrasta, Cinderela permanece sozinha em casa, em meio às lágrimas de

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tristeza e preces de esperança de dias melhores. É quando aparece sua Fada

Madrinha que a conforta e, com o poder de mágica que as fadas têm, cria o

lindo vestido, a carruagem, seus os cocheiros e ajudantes para Cinderela ir ao

baile. Contudo impõe a condição de seu retorno a casa antes da meia noite,

quando toda a mágica seria desfeita.

Cinderela chega ao baile como princesa e chama a atenção do Príncipe, que

dança com ela a noite toda e se apaixonam, sem ser reconhecida por sua

Madrasta e Irmãs de criação. Cinderela sai correndo ao ouvir as badaladas do

relógio anunciando a meia noite e acaba deixando um de seus sapatinhos de

cristal na escadaria.

O Príncipe, apaixonado, sai por todo o reino à procura da moça, cuja

identidade seria comprovada por calçar com perfeição o pequeno sapatinho de

cristal. Na casa de Cinderela só as Irmãs aparecem para o teste, pois ela é

trancada no sótão para evitar que experimente o sapatinho. Porém, o ajudante

do Príncipe a vê pela janela do sótão e, seguindo as ordens do seu Senhor,

obriga a madrasta a deixá-la descer. Então, ela experimenta o sapatinho, que

calça perfeitamente, e o Príncipe, certo de ter reencontrado o amor de sua

vida, tira Cinderela daquela casa de tanto sofrimento e casa-se com ela, a

transforma em Princesa e vivem felizes para sempre.

O principal tema da história de Cinderela é facilmente identificado como o da

inveja e da maldade da Madrasta, que maltrata a enteada e protege as próprias

filhas. Há também as metamorfoses mágicas, o encontro do amor, o sofrimento

premiado e um final feliz, ou seja, a vitória do Bem sobre o Mal e do Amor

como solução para enfrentar e vencer todos os obstáculos. O enredo é do

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triunfo de todos aqueles que sofrem com resignação a injustiça dos homens,

são protegidos e amparados por um poder maior e sobrenatural que, ao final,

lhes fará justiça.

Este poder sobrenatural, representado no conto da Cinderela pela Fada

Madrinha que ajuda a pobre menina a se tornar Princesa, é que fundamenta a

estrutura dos Contos de Fada. É ele que possibilita a realização dos sonhos e

ideais das pessoas, podendo ser encontrado em todas as épocas e culturas

com a função de mediação para as realizações humanas.

Outros elementos que são constantes na estruturação dos Contos de Fada e

são encontrados na história de Cinderela:

 A onipresença de metamorfoses mediante encantamento – animais que

se transformam em humanos, seres inanimados que se transformam em

outros;

 O uso de objetos mágicos – a vara de condão da Fada Madrinha;

 A força do destino, em que tudo estava pré-determinado a acontecer: as

fatalidades vividas pela personagem; a morte da mãe; o segundo

casamento do pai; a morte do pai; e, os maus-tratos infligidos pela

Madrasta e pelas Irmãs;

 O desafio do mistério – as exigências que devem ser cumpridas para

sua aceitação como Princesa no baile convocado pelo Rei e a busca

pela verdadeira dona do sapatinho perdido;

 A intervenção mágica – a aparição da Fada Madrinha e sua intervenção

que se identifica com a providência divina, como um milagre;

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 Os valores ideológicos – representados no comportamento e ideal das

personagens envolvidas no conto, principalmente a ética maniqueísta

(nítida separação entre Bem e Mal; Certo e Errado) onde o Bem sempre

é premiado e o Mal castigado.

Neste conto também se evidencia a “ambigüidade da natureza feminina” que,

de acordo com Coelho (1993, p.162), é enfatizada desde as narrativas

orientais, originais, onde a mulher é causa de bem e de mal; tanto pode salvar

o homem com sua bondade e amor, como pô-lo a perder com seus ardis e

traições. Ela tanto pode ser a Amada divinizada pela qual o príncipe luta, como

ser apenas o “instrumento” da procriação desejada pelo homem.

No caso, a Cinderela personifica a beleza, bondade e divindade femininas, que

o Príncipe busca com afinco.

A Madrasta exerce o papel da mulher que manipula o mal por intermédio de

seus ardis para influenciar a enteada.

As Irmãs retratam a inveja e a crueldade moral, capazes de destruir o outro

para alcançar seus objetivos.

A Fada Madrinha personifica a divindade, a face positiva e luminosa da força

feminina, com seu poder de prever e prover o futuro de seus protegidos.

Cinderela no Cinema

Tomando a definição de Farias (2004) a palavra cinema tem sua origem no

cinematógrafo – invenção dos irmãos Lumière – e vem do grego “kinema”,

movimento e “ghapien”, registrar. Portanto, cinema significa registro do

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movimento, e pode ser definido como a arte de produzir imagens em

movimento. Atualmente é também conhecido como “a sétima arte”, expressão

criada pelo crítico e estudioso de cinema Ricciotto Canudo, que, no início da

segunda década do século XX colocou o cinema no mesmo patamar de status

das artes “maiores”: teatro, música, balé, pintura e escultura.

Desde as primeiras exibições públicas o cinema sempre causou o sentimento

de magia e emoção, não só por permitir visualizar as imagens em movimento

como também pelos enredos que tinham a capacidade de reunir a técnica à

arte de reprodução da realidade, com fidelidade nunca antes alcançada por

outra forma de expressão artística.

O cinema de animação é a arte dos movimentos desenhados e é tão antigo

quanto o cinema de imagens. Sua principal característica é o fato de não fazer

uso de atores ou cenários naturais, mantendo o objetivo do cinema de

reconstituir o movimento diferenciando-se apenas no processo de feitura.

A origem deste tipo de cinema reporta-se às antigas experiências com sombras

chinesas.

Conforme Farias (2004):

O cinema de animação consiste no registro de fases elementares dos

movimentos, interrompendo-se a filmagem após a fixação de cada

fotograma. Assim, sua unidade fundamental é a imagem, não o plano [...] e

compreende: 1) o filme de bonecos; 2) o filme de recortes; 3) o cinema

abstrato; 4) o desenho animado; 5) e, mais recentemente, a animação

computadorizada.

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O filme de bonecos (animação de marionetes) tem seu expoente em Jiri

Trinka, autor de “Velhas Lendas Checas” e outras maravilhas vistas

somente em festivais. O filme de recortes usa, em lugar de bonecos,

cartões de papel colorido, como na pintura de “colagem”, e é bem

desenvolvido na Polônia. O desenho animado é a parte mais industrializada

do cinema de animação e por isso mesmo a mais convencional no terreno

artístico. O desenho animado, os filmes de bonecos e de recortes são três

tipos de cinema de animação que não dispensam a câmera. O cinema

abstrato, ao contrário, caracteriza-se por eliminar primeiro a figura, e depois

a própria câmera. Os filmes abstratos constituem tentativas de

“interpretação visual” da música. Apresentando um jogo frenético de formas

em movimento, procuram o equivalente plástico do ritmo musical, numa

espécie de vertigem ou alucinação sonoro-visual. Desse modo, o cinema

abstrato permite uma tríplice fusão de música, pintura e cinema.

Atualmente, temos a animação computadorizada, uma integração de texto,

gráficos, som, animação e vídeo. Categoria geral de aplicações de

computador que converte documentos, ilustrações, fotografias e outras

imagens em dados que podem ser armazenados, distribuídos, acessados e

processados por computadores.

Desde o final da década de 30 do século passado, com a produção de Flash

Gordon, que data de 1936, foi despertado o interesse da indústria

cinematográfica em adaptar para o cinema as Histórias em Quadrinhos. O

sucesso de ver em movimento seus heróis permitiu aproxima-los ainda mais do

público leitor infantil e mesmo do adulto, a ponto desses heróis dos anos 30

serem cultuados até hoje.

Há similaridades entra os dois tipos de arte, cinema e quadrinhos, visto que

ambos utilizam a imagem e a palavra como meio de expressão, possuem ritmo

visual e têm recursos de montagem muito parecidos.


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Apenas no final dos anos 70 em diante foi que a o público em geral começou a

perceber a simbiose do cinema com os quadrinhos, conseqüência das grandes

produções de Hollywood baseadas em famosos heróis de quadrinhos, como

ocorreu com os clássicos Super Man (1978) e Batman (1989). Este ramo do

cinema vem se desenvolvendo continuamente e acompanha passo a passo a

evolução das novas tecnologias cinematográficas.

No entanto, permanece a polêmica sobre a fidelidade das adaptações aos

roteiros originais, principalmente devido à mudança de foco das produções,

que objetivam cada vez mais atingir o maior número de pessoas. Para tanto, os

roteiros são alterados à vontade, re-interpretados livremente, sem medir

esforços para otimizar o retorno financeiro dos investimentos. As adaptações

cinematográficas das histórias infantis tornaram-se um grande negócio que

transborda o filme em si, que é apenas mais um produto dentre a profusão de

outros que ele gera para comercialização e consumo: miniaturas, brinquedos,

reedições de revistas, livros, material escolar, peças de vestuário, embalagens

de produtos alimentícios, decoração de mobiliário, utensílios domésticos etc.

Em contrapartida, há que se considerar que as versões cinematográficas e a

miríade de produtos que acompanham os seus lançamentos certamente

acabam sendo importante fator de atração para a formação de novos leitores.

Principalmente as crianças sem hábito de leitura são influenciadas pela mídia

de massa, passam a se interessar pelos personagens no formato original e

tornam-se leitores de livros e revistas, podendo enriquecer seu imaginário com

as histórias contadas, exatamente como àqueles refinados leitores dos salões

da corte de Luis XIV, no século XVII.

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Atualmente a produção cinematográfica para o público infantil se mostra cada

vez mais diversificada: seja a partir de roteiros originais ou das inúmeras

adaptações de obras literárias e teatrais, nas quais quase sempre há o

predomínio de assuntos em que a fantasia é o elemento principal. Isso remete

diretamente aos Contos de Fada, que passaram a ganhar versões mais

sintonizadas com a realidade atual, frequentemente permitindo interferências

de outras histórias e personagens, sem a necessidade de manter estrita

fidelidade aos textos originais. O intuito dessas adaptações é o de incorporar

fatos dos dias de hoje, dinamizar a ação, intensificar a emoção e possibilitar

experiências de aventuras mais de acordo com a velocidade e práticas do

mundo moderno.

E, pode-se ver que quase sempre em filmes de roteiros originalmente

desenvolvidos para o público infantil são constantemente encontrados na trama

elementos próprios das narrativas dos Contos de Fada. Isso demonstra a

busca de comunicabilidade pelo uso desses elementos, como por exemplo: a

dialética entre o Bem e o Mal; a repetição de problemas pessoais das

personagens em situações já universais para as crianças; a família como

referência; e muitas outras.

Como foi dito no início ao definirmos o objetivo deste estudo, evitamos a

questão da preponderância da literatura sobre o cinema e vice e versa, porque

estes são meios de expressão distintos, que têm forma e recursos estéticos

específicos, além de usarem linguagens diferenciadas para se comunicar com

o público. Bem como, o objetivo primordial é fazer a análise e a avaliação do

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impacto dos Contos de Fada reproduzidos no cinema e perceber como isso

favorece o conhecimento e acesso às várias versões da mesma história.

As lembranças mais vívidas que muitas crianças e adultos têm dos Contos de

Fada vêm dos filmes de Walt Disney. Em seus estudos Cashdan (2000, p.278)

conclui:

Embora os respeitados contos de fadas de nossa infância continuem a

pronunciar suas palavras mágicas, a forma como são contados tende a

mudar. Como já dissemos, originalmente os contos de fada eram

comunicados oralmente, pelos contadores de histórias. Recontados nas

reuniões de família e na cama das crianças, foram se espalhando de boca

em boca e passaram a fazer parte do discurso social do dia-a-dia. Com o

tempo, as histórias passaram a ser transmitidas através da palavra escrita,

por escritores como Basile, Perrault e os irmãos Grimm, que as

colecionaram e registraram em seus livros. Mas até isso já mudou.

Durante os últimos cinqüenta anos, os contos de fada evoluíram para a

forma de arte visual, em grande parte devido ao trabalho pioneiro de Walt

Disney e dos estúdios Disney. Hoje em dia, até as versões em livro dos

contos de fada clássicos são acompanhados de ilustrações baseadas no

trabalho dos artistas de Disney. [...] Em conseqüência disso, os ícones e

representações visuais vêm dominando cada vez mais os contos de fada.

Embora as histórias sejam contadas e lidas, é comum as crianças serem

apresentadas aos feitos de Branca de Neve, Cinderela e Dorothy através

de filmes e vídeos. Toda vez que os estúdios Disney colocam seu selo

num conto de fada, quebram-se novos recordes de bilheteria. Não só

filmes como a Pequena Sereia e A Bela e a Fera tiveram grande sucesso;

todas as edições de aniversário dos clássicos Disney atraem novas

platéias a cada ano.

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A análise da primeira versão para cinema de Cinderela, realizada pelos

estúdios Disney, em 1950, evidencia a preocupação de tornar essa heroína

mais forte e independente do que a Branca de Neve, por exemplo, que

apresenta comportamento bem mais complacente e compassivo.

Apesar de se mostrar bondosa e sonhadora a Cinderela não se deixa

subestimar passivamente pela Madrasta e Irmãs, demonstrando até alguma

ironia em certas falas e ela também assume sua posição como parte da família

ao reivindicar que o convite recebido para o baile seja extensivo a ela.

Na versão cinematográfica do Conto da Cinderela a interpretação das vozes

dos personagens foi fator decisivo. E, no caso da personagem da Cinderela, o

grande mérito é que, em nenhum instante, sua voz perde a postura e nobreza

de Princesa de Contos de Fada, repleta dos tons da autoconfiança que uma

autêntica heroína contemporânea requer.

A presença da Madrasta como vilã perversa fortalece a personificação de

Cinderela como heroína do Bem. A Madrasta vilã do filme ganha substância de

enorme realidade porque não é provida de nenhum poder mágico, mas apenas

é mostrada como uma pessoa fria, que faz todas as maldades, sem se

intimidar em mostrar suas intenções aos demais personagens. Ela não mede

esforços para destruir Cinderela. Sua presença proporciona alguns dos

melhores momentos do filme, em situações e diálogos com os personagens,

principalmente com a Cinderela, que alternam comportamento calmo e frio com

momentos de súbita fúria, que na realidade é o que sempre se espera de uma

pessoa perigosa.

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Como ocorre com outras versões de contos para o cinema, a trama da história

não é suficiente para sustentar um filme de longa metragem e acaba recheada

de sub-enredos e novos personagens. No caso do filme de Cinderela foi

adicionada uma galeria de animais que fazem companhia para a solitária

heroína. Estas personagens coadjuvantes – ratos, passarinhos, um gato e um

cachorro – recebem tratamento com traços cômicos, trazem leveza à narrativa

e acabam por torná-lo mais simples e familiar. Ao final todas as personagens

também alcançam o sucesso e vitória sobre os adversários e compartilham do

final feliz com a protagonista principal.

Considerações Finais

O mundo está em constante transformação e, obviamente, esta constatação se

aplica à literatura, à literatura infantil, aos Contos de Fada e a história da

Cinderela.

O livro impresso permanecerá. Contudo, hoje, já não há como ignorar o fato de

que o livro eletrônico de leitura em tela já começa a ser comercializado em

alguns países e logo será difundido em todo o mundo. Por outro lado, sabemos

que as crianças e os jovens são os que têm maior facilidade de assimilação

das inovações tecnológicas. A literatura infantil certamente transformará sua

linguagem, adaptando-a as formas de expressão que as novas tecnologias

possibilitam.

Foi demonstrado que a experiência das adaptações da literatura infantil para o

cinema não esgota, nem tampouco prejudica as histórias que há séculos vem

sendo contadas para dezenas de gerações de crianças: primeiro oralmente,

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depois em livro, revista em quadrinhos, desenho animado, cinema. Com

certeza, multiplicaram-se as formas de expressá-las e também o encantamento

de as crianças absorverem o contado por essas histórias, que continuarão a

cumprir função cultural essencial para a formação das pessoas.

Os meios de difusão dessas narrativas é que se transformarão para manter sua

função e poder de ensinamento, formação, educação. Para tanto, têm que

permanecer refletindo o contexto histórico cultural nas quais as histórias são

transmitidas, sem que suas atualizações e adaptações esvaziem o sentido e

função de espelhar as situações vividas pelas crianças. Pois, abrindo o livro, na

sala do cinema, em frente à tela da televisão ou ao monitor do computador, é

por intermédio das histórias contadas que as crianças conseguem vivenciar o

mundo encantado de seu imaginário e experimentar as questões emocionais e

de relacionamento social que enfrentam no mundo real.

A infância passa, mas, surgindo das páginas do livro ou das telas, Cinderela, o

Príncipe Encantado e a Madrasta Malvada permanecem vivos em todos nós.

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