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Política e religião, abortem essa ideia (http://noticias.r7.

com/blogs/o-
provocador/2010/10/14/politica-e-religiao-abortem-essa-ideia/)

Por Marco Antônio Araújo

Quando a religião começa a se meter na política, estimula-se uma perigosa


hipótese: a de a política se meter na religião. Que os deuses nos livrem disso.
Mas nesse debate sobre aborto e eleições, a democracia é imperativa. Portanto, é
absolutamente legítimo que padres, pastores, monges ou faquires manifestem
seus votos.
E podem inclusive conclamar seguidores a fazerem exatamente o que deles se
espera: seguirem. O voto de fundo religioso é um fato. Os candidatos sabem onde
se meteram: ajoelhou, tem que rezar.
A Dilma declarou ser a favor da descriminalização do aborto. Ponto. Depois
recuou, por motivos estritamente eleitorais. Outro ponto. Ninguém mandou.
Assim como José Serra deu a mesma pirueta, de ministro da Saúde a candidato.
E o motivo é nobre, dos dois: eles serão presidentes de um país inteiro, e não de
suas próprias convicções.
O Estado laico é uma conquista da civilização. Onde isso não foi atingido,
imperam a intolerância e o medo. Oremos por eles.
Cada um que defenda seu ponto de vista. E respeite o que pensa diferente. Onde
há fumaça, há fogo. E fogueiras. Lembra? Melhor não esquecer.

Sobre religião e política (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?


cod=290MEM001)

Por Muniz Sodré em 17/8/2004

Em maior ou menor espaço, os jornais cariocas noticiaram o falecimento, aos 96


anos de idade, do professor Agenor Miranda Rocha, docente durante 46 anos do
tradicional Colégio Pedro II e do Instituto de Educação e o maior
dos babalaôs (adivinhos) restantes da tradição nagô-ketu brasileira. Sobre ele, eu
e Luis Filipe de Lima (jornalista e músico) havíamos publicado um livro (Um Vento
Sagrado, Editora Mauad), em que contávamos a história de uma vida marcada
pela religiosidade, pela poesia, pela música e por uma sabedoria generosamente
distribuída. Uma vida singularíssima, possível apenas, talvez, dentro do jogo
complexo e ambivalente das relações sociais brasileiras.

Entretanto, não trago aqui o fato de seu passamento (para mim, muito doloroso,
pela amizade e pela companhia constantes) com o intuito de repetir homenagens
já prestadas pela mídia e pelo "povo-de-santo" de São Paulo, Rio e Bahia. É que o
assunto pode servir como guia reflexivo para fatos e fenômenos recentes
(acompanhados principalmente pela imprensa escrita), relativos às relações entre
vida política e religião.

Como bem se sabe, política e religião relacionam-se tradicionalmente apenas por


aspectos externos, isto é, pelo jogo de influências entre dois campos que se
pretendem distintos. É uma situação decorrente do fato de que o Estado moderno
se afirma como decididamente laico, logo, dissociado da religião. Estado é a forma
de organização política apropriada à emergência histórica do sujeito da
consciência autônoma, portanto, a um nível de realização humana diverso do
implicado na experiência religiosa.

Primeiro plano

Na Historia do homem ocidental, a experiência que se diz "religiosa" é


basicamente romana, já que os gregos não detinham nem uma experiência
particular dessa ordem, nem mesmo uma palavra que correspondesse a
"religião". Religio provém, assim, seja de religare (o homem ao divino), seja
de relegere, no sentido de reunir ou redispor, no interior de um conjunto
axiomático, ordenações diferentes de poder. A experiência religiosa diz respeito
ao que no homem é transcendente. Em outras palavras, a uma interpelação que,
vindo de um Grande Outro, ultra-humano, sobrenatural, sagrado, perpassa todo o
ser de suas identificações.

Na religião, os valores se absolutizam e tendem a se universalizar, escudados


numa certa violência simbólica (que busca inculcar as suas ordenações de força e
poder advindas da gestão do sagrado), seja por estruturas de subordinação ou de
intermediação. Aí se inclui a própria atividade política: o monoteísmo pode ser
pensado como questão política, assim como a política medieval era
fundamentalmente teológica.

Ora, o homem da modernidade ocidental transita noutro plano, por ser antes de
tudosujeito, quer dizer, uma imanência, exigida pela dinâmica de produção total do
capitalismo emergente. Transformar todo real em objeto e todo homem em sujeito
é o único fundamento universal de qualquer processo modernamente histórico. Na
ordem em que reina o sujeito, caem as transcendências, neutralizam-se os valores
e suspende-se toda forma de violência simbólica do sagrado em função de um
valor único, que é o valor de troca.

A política, e mais precisamente o liberalismo político, é o modo primordial de


encaminhamento das ordenações de força e poder. Essa neutralização da esfera
absoluta dos valores – que o sociólogo alemão Max Weber chamou de
"desencantamento do mundo" – é a possibilidade de existência da política liberal.

Mas a religiosidade não desaparece de fato. É com este pressuposto que se


encaminham afirmações (como a do filósofo alemão Jürgen Habermas, ao
receber, em outubro de 2001, o Prêmio da Paz, outorgado pela Câmara Alemã do
Livro) em favor uma sociedade pós-secular em que a religião continua presente
como fato social. Claro, como pensador radicalmente europeu, ele põe em
primeiro plano o cristianismo, hoje profusamente avaliado como uma verdadeira
experiência secular do amor crístico e como uma fonte de sentido humanista para
a consciência desarraigada diante das forças do mercado planetário.

Julgamentos futuros

Mas a heterogeneidade simbólica presente nas camadas subalternas das


populações "terceiro-mundistas" dá ensejo a que se considerem experiências
mítico-religiosas capazes de produzir formas de pensamento menos totalizantes
(as religiões universais são naturalmente totalizantes) e mais ajustadas aos
imaginários sociais específicos de determinados territórios. No Brasil, as mutações
demográficas das últimas cinco décadas repercutiram fortemente sobre todas as
formas de expressão da vida religiosa, em especial no caso dos migrantes rurais
que tiveram de reconstruir na periferia das grandes cidades as suas referências
simbólicas.

A religião, mas também a televisão, desempenha aí um papel muito importante.

A complexidade desse fenômeno, sobre o qual se debruçam estudiosos brasileiros


e estrangeiros, inibe análises sumárias. Não há dúvida, porém, de que
determinadas seitas têm-se encaminhado para uma espécie de "sacralização do
político", transformando-o anacronicamente em epifenômeno da religião. Não é de
se estranhar, portanto, que a Confederação Nacional dos Trabalhadores em
Educação (CNTE) tenha entrado no Supremo Tribunal Federal (STF) com uma
ação direta de inconstitucionalidade contra a lei do estado do Rio de Janeiro que
institui o ensino religioso nas escolas da rede pública. Diz uma matéria jornalística:

"De acordo com a lei, publicada em 2000, a disciplina é facultativa e


só pode ser lecionada por professores credenciados pela autoridade
religiosa competente. A lei também estabelece que o conteúdo da
matéria é atribuição específica das autoridades religiosas e que o
estado tem o dever de apoiá-lo integralmente" (O Globo, 4/8/04).

Na verdade, a lei fluminense, evidente retrocesso na modernidade liberal, afronta


a Constituição federal em mais de um artigo.

Em que a história de vida do professor Agenor Miranda Rocha pode contribuir


para o arejamento do debate? Lendo-se os seus textos e as suas declarações,
aprende-se sem maiores delongas que a religiosidade que o ligava a uma tradição
africana não implica poder de Estado, nem a pregação de uma verdade única à
qual se devessem dobrar quaisquer outros credos ou denominações religiosas.
Para ele, não havia "religiões verdadeiras", contrapostas às falsas. O amor à
divindade comprovava-se pela fé, provinda de um "coração puro". Ele não
aceitava nenhum dinheiro por sua prática, mas enfatizava a aceitação de outras
formas de crença. Por isto, o Dalai Lama, que foi visitá-lo em sua casa no
Engenho Novo, lhe assegurou: "Você é também budista".
Algo desta lição, provinda das esferas do não-poder, talvez possa inspirar o STF e
os editorialistas de jornais em seus julgamentos futuros.

Política e religião: distância, não separação José María Poirier e Alberto


Barlocci (http://www.miradaglobal.com/index.php?
option=com_content&view=article&id=947:politica-y-religion-distancia-no-
separacion&catid=27:politica&Itemid=74&lang=pt)

Buenos Aires / Política – Há alguns anos, muitos se apressaram em assinar o


certificado de defunção tanto da religião como da política, mas ambas realidades
parecem ainda estar mais vivas que antes. Claro que o panorama cada vez mais
amplo e diversificado desafia uma permanente busca de espaços de diálogo entre
estas duas dimensões fundamentais de nossa existência. Reproduzimos aqui uma
síntese do rico debate organizado em Buenos Aires, no final de julho, por Ciudad
Nueva e Movimento Políticos pela Unidade. Neste evento, dois politólogos, o
sociologo Jean-Yves Calvez, jesuíta francês, e o filósofo Antonio Maria Baggio,
italiano, responderam as perguntas de quem assinam esta nota.

No decorrer da história, política e religião tiveram encontros; e na


modernidade principalmente desencontros. Hoje resulta claro que estes dois
âmbitos devem reconhecer sua mútua autonomia. Por outro lado, quando
essa distância se transforma em divórcio, verifica-se o empobrecimento de
ambas. Por que é necessária, então, a autonomia e por que é conveniente
que não haja um divórcio?

CALVEZ: Deve-se usar palavras tão genéricas com cuidado, porque em todo caso
o problema que mais se confirmou, no decorrer da história, é o da proximidade e
do distanciamento entre autoridades religiosas e políticas. O problema concreto,
na realidade, é o da separação e relação entre as autoridades. Há uma relação
estreita entre os valores políticos essenciais e os valores religiosos. A política é
um lugar de entrega profunda, ocupa um nível muito alto em nossa existência. Por
isso falo de uma certa transcendência no político. Neste sentido se trata de uma
esfera muito próxima ao religioso. O doutor em Letras e Ciências Humanas,
Claude Lefort, que escreveu sobre a relação entre democracia e religião, afirma
que no político há uma transcendência, um lugar vazio que não pertence a
ninguém e que não deve ser ocupado por ninguém. Afirma que não há democracia
sem este nível de abertura a algo superior. Caso contrário, a sociedade seria
organizada de modo puramente positivista, sem poder responder os desejos
profundos dos homens. Mas deve-se estabelecer uma distância prudente com a
autoridade política, já que dispõe de meios de coerção que não podem ser
usados quando a consciência está em jogo. As autoridades religiosas não devem
se aproveitar do poder político em questões de consciência ou de doutrina
religiosa.

BAGGIO: Na origem da reflexão sobre a vida associada, encontramos conceitos


de natureza religiosa. As civilizações construíram a organização política e civil
sobre esta base. Em todas há uma verdadeira analogia entre o universo político e
o universo religioso. Portanto, a visão de Deus, que é uma cosmovisão, confere
uma ordem que influi sobre a política que constrói uma civilização. Quando
pensamos politicamente, usamos conceitos religiosos secularizados. Isto pode
criar uma grande distância, porque as vezes a secularização inseriu modificações
profundas nessa passagem do religioso ao secular. Mas a raiz é a mesma. Esta
relação subsiste em toda a área indoeuropéia. Uma civilização que vê Deus como
um soberano, como um longínquo padrão do universo, como é que vai-se
organizar? Bem como Deus manda no céu, o imperador mandará na terra. Todos
os estudos sobre os antigos impérios reforçam esta idéia. O cristianismo irrompe
com um paradigma completamente novo, esclareço que estou sintetizando, sem
apresentar as inúmeras variações. O Deus cristão em si mesmo comporta uma
relação entre pares, porque são três pessoas diferentes na Trindade. O conceito
da Santísima Trindade é absolutamente novo e não há categorías preparadas
para poder interpretá-lo, pois a humanidade ainda não desenvolveu a idéia de
uma diferença na igualdade. Trata-se de algo tão grande que nem sequer os
cristãos conseguem encontrar uma aplicação civil desta revelação, já que a
consequência sería uma sociedade na qual as diferenças são igualmente
possíveis e apreciadas.

Atualmente o legislador enfrenta dilemas delicados como o divórcio, o


aborto, as uniões homossexuais, as diferentes morais sexuais, etc. São
temas sobre os quais, a partir de sua crença, poderia ter uma determinada
postura a esse respeito. No entanto, às vezes a comunidade da qual é
representante tem outra visão. Como esse conflito seria resolvido?

BAGGIO: Deve-se evitar que uma parte justifique impor algo à totalidade. Se isto
acontecer, estamos numa ditadura. Creio que quando um grupo religioso
considera válido um princípio sob o ponto de vista civil, para fundamentá-lo deve
usar duas linguagens. Um interno, referente a sua comunidade, com o qual se
fundamenta, lançando mão das palavras da própria revelação. Mas quando estiver
num parlamento, no governo da cidade ou numa discussão política, não se pode
usar a linguagem religiosa. Se há algo bom na idéia religiosa, temos que poder
expressá-lo numa linguagem comum a toda a sociedade. A fé tem que ter uma
relevância pública também pelos elementos humanos traduzíveis que contém. Isto
é, deve-se encontrar argumentos baseados nos direitos protegidos pela
democracia.

CALVEZ: Estamos diante de uma grande quantidade de matérias e não é possível


resolvê-las em pouco minutos; além disso, quase nenhuma delas tem uma
resolução universal porque, precisamente, são matérias de manchetes políticas
também. E não há duas sociedades políticas iguais. O bem comum concreto
depende dos aspectos históricos, das características de um povo, da diversidade
dos pertences religiosos. E isto deve ser considerado para oferecer uma solução
viável nessas questões. Ainda que numa comunidade sejam todos bons católicos,
ou todos bons muçulmanos, não é razoável para a vida comum que as leis morais
sejam impostas por lei, através da coerção. A esse respeito, Tomás de Aquino é
muito claro. Para ele, a paz civil é um valor muito grande. Se ao impor uma norma
moral cria uma divisão civil total, uma guerra civil, fazer isso é uma
irresponsabilidade, seja qual for minha posição, de maioria ou de minoria.

Atualmente aparece o tema das convivências civis, que alguns pretendem


equiparar à família. Quem segue a moral católica não compartilha a idéia de
que uma mera convivência, seja ou não homossexual, equipare-se a uma
família. No entanto, é juridicamente relevante que duas pessoas tenham
convivido durante 20, 30, 40 anos. Portanto, uma coisa é não considerar
família uma união que não é e outra coisa é negar efeitos jurídicos a algo
que constitui uma praxe na vida da comunidade civil…

BAGGIO: Numa ordem democrática é bom que o governo ajude todas as formas
de solidariedade civil. Especialmente entre pares, horizontal, porque é muito boa
para melhorar a solidariedade entre todos. Se um amigo e eu compartilhamos
tudo, nós nos ajudamos, fizemos sacrifícios e convivemos fazendo esforços para
ajudar-nos na velhice, eu me preocuparia para que este amigo pudesse receber
quando eu morresse os benefícios que obtive em vida. As leis podem contemplar
esta forma de solidariedade, por exemplo, prever a reversibilidade das pensões. E
não é necessário definir que meu amigo e eu somos uma família, é suficiente que
o Código Civil o permita. Portanto, se a vontade for realmente ajudar esta forma
de solidariedade, que tem muitos matizes, pode ser feita facilmente. Diferente é se
quiser dar início a uma batalha ideológica e pretender que seja família uma forma
de convivência diferente. Um Estado deve fazer referência a sua própria ordem
jurídica, para definir o que é família e o que não é. Há Estados que têm uma
Constituição que define o que é uma família. Se a comunidade nacional considera
que essa definição já não representa o sentir nacional, deve-se mudar essa
Constituição, e aqui se abre um debate cultural.

Como se compagina a missão evangelizadora do cristão com a necessidade


de consenso? Podem estar em contradição?

CALVEZ: Creio que distinguir é a solução para quase todos os problemas que nos
propomos em matéria de religião e política. Deve-se distinguir bem entre minhas
convicções, que devem ser plenamente livres e que devo poder expressar onde
me queiram escutar, e o que é o trabalho político parlamentar como legislador.
Tenho a responsabilidade de elaborar a melhor lei possível, e isso não
necessariamente significa que corresponda em tudo às minhas convicções, mas
deverá ser a melhor lei possível para a comunidade concreta na qual vivemos.
Não há contradição: são dois pontos de vista diferentes. Governar significa
combinar, conjugar, entender-se, negociar. Não creio que necessariamente o ideal
seja recorrer sempre ao voto, determinar tudo por votação. Um bom presidente de
comissão ou de uma assembléia é um homem que raramente apela ao voto. É,
em todo caso, um homem que procura o maior consenso possível, que depois de
ter escutado a todos, pergunta se há ainda alguém que não esteja de acordo em
absoluto com essa solução, e se houver, dá-lhe a palavra. E assim, até não haver
ninguém que levante a mão para opor-se. É o que eu entendo por consenso.
Certamente, essa resolução não corresponderá ao que for melhor para alguém,
mas é a solução política boa, porque o "melhor" é sempre algo relativo. Reflete a
imperfeição do homem, mas se trata da perfeição do político. Há um certo
idealismo absoluto que não respeita a realidade.

Convém indicar os direitos humanos sempre como ponto de referência…

CALVEZ: Creio que é fundamental apoiar-se nos direitos humanos, cuja origem é
principalmente cristã, ainda que não de maneira exclusiva. Figuras não cristãs
também reconhecem isso. João Paulo II dizia que os direitos humanos, em certo
sentido, são mais importantes do que a democracia. Não porque a democracia
não o seja, senão porque está incluída de alguma maneira nos direitos humanos.
Mas, claramente, há níveis diferentes. A vida e a morte são fundamentais, porque
sem eles não há nada. Mas eu, mais do que a vida, proponho sempre a pessoa.
Não foi dito suficientemente que a Igreja não defende a vida de todo ser animado,
senão o direito da pessoa à vida.

Nota: Jean-Yves Calvez, S.J., é presidente do Fórum Ecumênico Social, diretor do


Departamento de Etica Pública do Centre Sèvres de París e professor do Institut
Catholique de París. Antonio M. Baggio é filósofo italiano.
__________________
José María Poirier é Diretor da Revista Criterio:http://www.revistacriterio.com.ar/
Alberto Barlocci Diretor da Revista Ciudad
Nueva: http://www.ciudadnueva.org.ar/v2/index.php

Incompatibilidade entre Política e Religião


(http://www.eurosophia.com/filosofia/acesso_livre/filosofia_da_religiao/incompatibilidade_politica_religiao.htm
)

Segundo o pensamento Ocidental, a religião praticada maioritariamente pelos cristãos é de tipo racional. Ist

é, os ocidentais separam facilmente a fé do fundamentalismo (redução da vida à religião). Para os cristãos,

uma coisa é a fé, a sua crença em Deus; outra coisa, bem diferente, é a vida quotidiana. E a Política insere-

se nesta categoria. Desta forma, facilmente o homem religioso separa, em cada momento da sua prática, o

espaço sagrado do espaço profano. Aliás, o sagrado e o profano são duas categorias bem definidas no

espírito discursivo. É esta capacidade de discernimento que, por exemplo, marca a diferença entre cristãos
islâmicos.

Aprendemos, desde cedo, a não misturar as águas, porque, já o sabemos, quando se misturam ficam turvas

Aliás, também aprendemos com os erros do passado. E o que nos diz o passado? Diz-nos que sempre que

misturamos religião com política, as coisas da vida não correm muito bem. Para ilustrar esta ideia basta que

recordemos a chamada «Santa Inquisição», misto de política e religião. E o que aconteceu com esta mistura

imprudente? Perseguições político-religiosas, deportações, assassinatos. Este é o corolário inevitável da nã

separação da vida religiosa da vida política.

Outra razão, de entre muitas outras, que aconselham a que estas práticas ocorram separadas, é o facto de

existirem múltiplas ideologias políticas que, não raro, são antagónicas. Numa linguagem mais corrente,

diremos que existem as ideologias neo-liberal, liberal, social-democrata, socialista e comunista. Ou, menos

correctamente, existem as ideologias de direita e de esquerda. Ora, em cada uma destas ideologias

encontramos homens e mulheres que professam religiões comuns. Esta realidade é mais do que suficiente

para que defendamos que religião e política não são misturáveis. Não sendo incompatíveis revelam

incompatibilidades.

Vem a nossa reflexão a propósito do que se passa no Iraque pós Saddam, e que nos leva a questionar:

Terminou a guerra no Iraque? Não. Calaram-se as grandes máquinas de guerra, terminou o aparato bélico
americano, terminou o horror que se abateu sobre aquele povo martirizado por Saddam e pelas armas da

«Coligação»; mas não terminou a guerra, ou seja, agora começo outra guerra: a guerra da sucessão, que

será, provavelmente, uma guerra religiosa, a guerra da afirmação de um povo que se sente ocupado e

ofendido, que vê na religião a única forma de exorcizar o inimigo invasor que ocupou a sua terra.

E é aqui que continua o dramatismo deste povo, talvez por incapacidade imediata para racionalizar, a quent

as duas vertentes da praxis humana: a política, a arte de bem governar a polis, e a vida religiosa, o espaç

de ligação entre os homens que comungam os mesmos princípios religiosos e defendem os mesmos

dogmas. É esta circunstância que ainda trará muitos e profundos problemas àquele povo sedento de paz,
harmonia e subsistência.

Observe-se o que já está a acontecer: uma das poderosas forças religiosas quer impor à outra os seus

pontos de vista, querendo implantar um estado islâmico, portanto, um estado religioso, teocêntrico, obedien

e temente. Esta emotividade religiosa, dogmática, fechada, irracional, ainda não entendeu a gravidade da

situação; ao invés de procurar consensos alargados, que vá ao encontro dos ideais do maior número

possível de líderes e do povo iraquiano, que é «correr com a coligação», quer impor, aos outros o que não

quer que lhe imponham a si! Chama-se a isto irracionalismo puro, cegueira religiosa, o fundamentalismo qu

não é capaz de entender que cada pessoa desenvolve o seu ponto de vista político e o seu modo de estar n

religião ao longo da maturação do seu processo formativo, cultural e psicológico.

É esta a grande diferença que notamos, no nosso tempo, entre os povos cristãos e islâmicos. Aqueles sabe

separar a vida sagrada da vida profana, defendendo, por isso, estados laicos; estes não são capazes de

separar o que não é unificável e defendem estados religiosos, onde tudo se confunde. É a cultura dos povos

(António Pinela, Reflexões, Abril de 2003).

Política e religião (http://correiodobrasil.com.br/politica-e-religiao/159685/)

12/1/2010 16:49, Emir Sader - Carta Maior

Uma das mais importantes conquistas democráticas no mundo contemporâneo é a


separação entre religião e política. Não é que não tenham nada a ver, mas as
relações políticas, sociais, cívicas, não podem ser orientadas pelas opções
religiosas. Os Estados democráticos são Estados laicos.
Todos devemos ser iguais diante das leis, sem influência de nossas opções
individuais – religiosas, sexuais, de diferenças étnicas, etc. Somos diversos nas
nossas opções de vida, mas devemos ser iguais nos nossos direitos como
cidadãos.
Os Estados religiosos – sejam islâmicos, sionistas ou outros – fazem das
diferenças religiosas elementos de discriminação política. Xiitas e sunitas têm
direitos distintos, conforme a tendência dominante em países islâmicos. Judeus e
árabes são pessoas com direitos totalmente distintos em Israel. Para dar apenas
alguns dos exemplos mais conhecidos.
Um Estado democrático, republicano, é um Estado laico e não religioso, nem
étnico. Que não estabelece diferenças nos direitos pelas opções privadas das
pessoas. Ao contrário, garante os direitos às opções privadas das pessoas.
Nestas deve haver a maior liberdade, com o limite de que não deve prejudicar a
liberdade dos outros de fazerem suas opções individuais e coletivas.
Por razões de sua religião, pessoas podem optar por não fazer aborto, por não se
divorciar, por não ter relações sexuais senão para reprodução, por não se casar
com pessoas do seu mesmo sexo. São opções individuais, que devem ser
respeitadas, por mais que achemos equivocadas e as combatamos na luta de
idéias. Mas nenhuma religião pode querer impor suas concepções aos outros –
sejam de outras religiões ou humanistas.
A educação pública deve ser laica, respeitando as diferenças étnicas, religiosas,
sexuais, de todos. Os que querem ter educação religiosa, devem tê-la em escolas
religiosas, conforme o seu credo. Os recursos públicos devem ser destinados para
as escolas públicas.
Da mesma forma a saúde pública deve atender a todos, conforme suas opções
individuais, sem prejudicar os direitos dos outros.
A Teologia da Libertação é um importante meio de despertar consciência social
nos religiosos, como alternativa à visão tradicional, que favorece a resignação
(esta vida como “vale de lágrimas”, o sofrimento como via de salvação). Mas não
pode tentar impor visões religiosas a toda a sociedade que, democrática, não opta
por nenhuma religião. Os religiosos devem orientar seus fieis, conforme suas
crenças, mas não devem tentar impor aos outros suas crenças.
Religião e política são coisas diferentes. A opção religiosa ou humanista é uma
opção individual, da mesma forma que as identidades sexuais, as origens étnicas
ou outras dessa ordem.
Misturar religião com política, ter Estados religiosos – Irã, Israel, Vaticano, como
exemplos – desemboca em visões ditatoriais, até mesmo totalitárias. Na
democracia, os direitos individuais e coletivos devem ser garantidos para todos,
igualmente. Ninguém deve ter mas direitos ou ser discriminado, por suas opções
individuais ou coletivas, desde que não prejudique os direitos dos outros.
Que possamos ser diversos, desde que não prejudiquemos aos outros. Iguais, nos
direitos e nas possibilidades de ser diferentes. Diferentes sim, desiguais, não.
Emir Sader é jornalista.

Artigo: Política e religião: separados, mas aliados - Patrus Ananias


(http://www.mds.gov.br/noticias/artigo-politica-e-religiao-separados-mas-
aliados-patrus-ananias)
24/07/2009 08:25

Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

“A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. A civilização ocidental


esperou até o início da Idade Moderna para que esse ensinamento cristão se
traduzisse nas teorias de constituição do Estado, a partir dos conceitos de
secularização desenvolvidos pelos contratualistas, tendo em Hobbes a principal
referência. Separa-se o trono do altar, a Igreja do Estado, o poder invisível
(espiritual) do poder visível (temporal, do Estado), representando uma conquista
civilizatória.

Ninguém questiona a importância de um Estado laico, plural, tolerante,


republicano, para que possa agir de maneira independente na defesa do bem
comum. Os valores trazidos pela secularização têm essa dimensão republicana,
tão cara às democracias modernas. Mas reconhecer isso não nos impede de
perguntar: em que medidas estamos correndo o risco de distorcer o conceito e
usar a defesa de uma pretensa secularização para promover um esvaziamento
ético e espiritual da vida pública?

Uma coisa é estabelecer campos distintos entre Igreja e Estado e assim deve se
organizar a vida pública. Isso não pode implicar em banir a dimensão espiritual,
eliminar a possibilidade de trocas entre os vários campos da mesma vida pública.
Dizia Hannah Arendt, ao analisar historicamente esse processo de separação em
seu livro A Condição Humana: “a secularização significa separação entre Igreja e
Estado, entre religião e política (...) e não uma perda de fé e transcendência ou um
novo e enfático interesse nas coisas do mundo”.

Se fizemos muito bem em buscar os limites que separam, de maneira clara, Igreja
e Estado, penso que muito bem também fazemos se aceitarmos o desafio de
continuar a pensar como, respeitando os princípios da secularização, religião e
política se integram. Se está claro o que os separa, também claro deve estar o
que os une, já que ambos se pautam pelo compromisso com a vida. Todas as
tradições religiosas têm na defesa da vida seu mais elevado objetivo. E o que
media a construção de um conceito vigoroso de bem comum senão a defesa da
vida? A desejada justiça social se orienta por esse princípio. A função social da
propriedade e do lucro, essencial para consolidar a justiça social, é definida textos
constitucionais, mas também se ampara em textos religiosos. Ambos perseguem
os direitos presentes na construção da dignidade humana.

Na vida pública, encontramos muitos exemplos de religiosos que unificaram a


espiritualidade e a política. Homens que vivenciaram as experiências místicas sem
perder de vista o compromisso com o mundo dos homens e também
enriqueceram o mundo dos homens com os ensinamentos da transcendência.

No Brasil, um dos nossos exemplos é de Dom Hélder Câmara, que colocou os


ensinamentos da Igreja a serviço da construção do bem comum. Sacerdote, não
perdeu a dimensão do homem público. Da mesma maneira, o pastor protestante
estadunidense Martin Luther King orientou sua liderança espiritual na luta contra a
discriminação. Mahatma Gandhi é outro grande exemplo de encontro das duas
dimensões do homem na vida pública. Para ele, quem dizia que política e religião
não têm relação entre si não entendia de nenhuma das duas coisas.
A Igreja separa-se do Estado para que não submeta as questões plurais das
relações sociais a leis eternas. Mas não podemos nos esquecer que as vontades
dos homens que governam e decidem os futuros do mundo carecem de
referências éticas e morais, dois grandes temas das questões religiosas.

Eis um desafio da vida pública: os valores da transcendência estão presentes em


nossa condição humana e, por isso, acredito que temos de repensar o Estado à
luz das grandes questões filosóficas que nos envolvem. A secularização não
poder ser sinônimo de pragmatismo absoluto. Nessa tentativa de recuperar as
grandes questões da condição humana, todas as correntes de pensamento
precisam ser consideradas e penso que as tradições religiosas têm muito a
contribuir.

Isso não significa, obrigatoriamente, uma simples inclusão da Igreja como


aparelho de Estado, não implica em trazer a igreja para a burocracia estatal. Essa
é a estrutura que alguns contratualistas apontam como a porta de dominação do
povo pela religião. Mas as esferas de poder, mantidas em campos distintos porém
dialogantes, pode nos trazer grandes ganhos, sobretudo na defesa do bem
comum e, numa dimensão libertária da religião, investir em uma educação
emancipadora que mantenha e fortaleça no ser humano o desejo de ir além.

Política e religião se discute sim! (http://www.jornalmundogospel.com/?


p=2499)

Publicado por fernando em quinta-feira - 9 de setembro de 2010 // Nenhum


Comentário
O Brasil é um Estado laico. O governo não prega religião, mas ela tem influência
nos aspectos social, cultural e político do país. As informações foram assumidas
por dom Milton Santos, 64, arcebispo da Arquidiocese católica de Cuiabá, e pelo
pastor evangélico-luterano Teobaldo Witter, 60, em entrevista concedida, em
agosto, ao Diário de Cuiabá.
Eles orientam os fiéis de suas congregações a escolherem bem em quem vão
votar. Recomendam pesquisar o passado do candidato e a não votar nos “fichas-
sujas”. A Igreja Católica incentiva fiéis leigos a entrarem na vida política, mas não
permite que padres se candidatem. Já pastores podem ser candidatos, para
trabalhar não apenas para o seu grupo de pessoas, mas para toda a sociedade.
Dom Milton informou que a Arquidiocese de Cuiabá iniciou movimento cívico-
religioso com professores paroquiais, que são os multiplicadores leigos para as
512 comunidades de 27 paróquias, envolvendo 18.500 pessoas nos grupos de
reflexões.
Pastor Teobaldo disse que a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
(IECLB) está no país desde 1824, quando migrantes edificaram comunidades e
escolheram seu presbitério, seus ministros religiosos, a presidência de sua igreja e
seus conselheiros. A Igreja pede para, antes de votar, ouvir, pesquisar, indagar,
questionar, propor, selecionar.
“É hora de olhar nos olhos dos candidatos e não se deixar enganar por belas
palavras e slogans políticos vazios, vendo neles a real intenção dos seus
programas de governo, dos seus projetos legislativos e a vontade política de
defender a vida humana desde a sua concepção até o seu final natural, de
promover a família brasileira fundada sobre o casamento entre o homem e a
mulher, de preservar o meio ambiente no respeito aos vários biomas existentes
em nosso país”, defendeu dom Milton.
Na campanha ficha-limpa o povo brasileiro deu um bom exemplo de ajuda para a
transformação da sociedade. “Toca agora a cada eleitor escolher pessoas
honestas, competentes, desprovidas de interesses pessoais, de grupos ou de
setores privilegiados da sociedade, mas que promovam o bem comum e tenham
compromisso social com os mais necessitados. Eles têm o direito de saber para
votar conscientemente e a responsabilidade de não eleger quem desmereceu sua
confiança”, enfatizou o prelado católico.
Para o pastor Teobaldo, a lei da ficha-limpa é muito importante. “O fato de
denúncias de desonestidade de alguns mandatários serem levadas ao público é
sinal de que as coisas estão melhorando. Já não é mais tão simples esconder a
corrupção. A participação da indignação popular cresce na busca por
transparência e justiça. A lei da ficha-limpa é uma consequência do clamor de
parte considerável da população brasileira. Ela deve ser, agora, aplicada
adequadamente pelos órgãos responsáveis”, ratificou.
O voto não tem preço, tem consequência: é uma decisão da consciência e
exercício da cidadania que se reflete na vida das pessoas, frisou dom Milton.A
igreja apoia as práticas políticas da luta por trabalho, moradia, água tratada,
alimentação, saúde pública, segurança, lazer, terra, escola, coleta e tratamento de
lixo, enfim, as coisas necessárias para a vida humana com dignidade, emendou o
pastor Teobaldo.
O pluralismo na política é necessário para a saúde da democracia. Sem isso, não
há regime democrático. No púlpito, a linguagem é bastante simbólica e se refere
ao sagrado. Diante do sagrado, as pessoas silenciam. Elas ficam sem
argumentos. Na política, não pode haver silêncio. Deve haver argumentação.
Houve época na história em que Igreja e Estado eram uma coisa só. Foi tempo
muito ruim, com escravidão, terrorismo e guerra santa, lembrou o pastor luterano.
A Arquidiocese de Cuiabá está sistematizando um setor de elaboração de projetos
na dimensão social na área administrativa com esta finalidade. É dever dos
governos municipal, estadual e federal destinarem verbas para o social, para a
educação, mas é preciso que tudo se comprove com Projetos e Prestações de
Conta, assumiu dom Milton.
O pastor Teobaldo entende que quem deve fazer este trabalho é o Estado. Para
isso ele foi criado e para isso o cidadão vota e paga impostos. A Igreja deve cuidar
da vida de fé, enquanto o Estado cuida da vida temporal, material, humana. Mas,
como o Estado tem fracassado, não dá conta, a sociedade se organiza, através do
terceiro setor, das igrejas, do movimento social.
Fonte: Diário de Cuiabá

Mistura entre estado e religião no Brasil: é preciso mudar a Constituição


(http://www.blogdojoao.com/mistura-entre-estado-e-religiao-no-brasil-e-
preciso-mudar-a-constituicao/)

Várias violações aos direitos básicos da pessoa humana vem ocorrendo por conta
da mistura entre estado e religião no Brasil, garantida no preâmbulo da
Constituição de 1988.

Pessoas de outras religiões que não a cristã, por exemplo, são obrigadas a
seguirem práticas sociais das quais discordam. Pagam imposto para o Estado
gastar alguns milhões em compras de crucifixos nos parlamentos, tribunais,
delegacais, salas de autoridades e por aí vai.

E no Natal têm que aguentar aquela hipocrisia do feliz natal enquanto a maior
parte dos humanos não tem o que comer ou estão sem água de qualidade em
algum canto do planeta devastado.

Os que misturam religião com politica não reconhecem o direito da metade da


humanidade que, estatisticamente, não crê em absolutamente nada, nem mesmo
na possibilidade de crer - os agnósticos e os ateus, os semreligião, despossuidos
do conceito ocidental ou oriental de alma, vida após morte e todas estas coisas
que se consideram superstições à luz do conhecimento científico.

Para induzir suas crenças, espalhar suas verdades, os defensores de deus no


preâmbulo da Constituição são muitas vezes os mesmos que recorrem aos mais
baixos truques de propaganda enganosa, pegando os incautos na hora da
dificuldade e ocupando espaços públicos de forma a se passar como verdade
institucional.

Juntar uma coisa com outra é como ocorreu no golpe militar de 64, apoiado pela
marcha da familia com deus pela liberdade, deu no que deu: tortura e assassinato,
corrupção e falta de liberdade em nome da religião, sua ética e sua moral. E
depois perseguição aos padres da teologia da libertação. This is what religion is all
about.

Assim como os ditadores, autoridades eclesiáticas fazem atos institucionais -


como ficar dando palpite em assuntos de sobreviência humana como células
tronco e uso de preservativos, como fez o letrado papa atual, recentemente.

É o conhecido cardeal estrategista Joseph Ratzinger, no passado encarregado de


sanar o quebrado banco do Vaticano, agora tentando dar as rédeas ao aspecto
psicossocial do mundo, com os exercitos de arautos de que dispõe todo domingo
nas igrejas do mundo inteiro.

Com estas legiões se dá o direito de imiscuir na questão civil do aborto, do direito


da ciëncia desenvolver novos remédios com as células tronco, dos casais usarem
métodos preservativos e contraceptivos, direitos de minorias como a união civil e a
homossexualidade (que, por sinal, é coisa que a igreja enfrenta dentro de si e não
resolve há milênios). E outros tantos assuntos polêmicos mas que só dizem
respeito à vida pessoal.

E nas questões geopolíticas que se mete a dar palpite finge defender o meio
ambiente mas faz de conta que não viu ter se esgotado padrão econômico atual,
o capitalismo. Como se não houvesse nada de errado com termos passado de 3
bilhões depois da II Guerra para atuais 6,5 bilhões, a caminho dos 9 bilhões em
poucos anos -usando o mesmo recurso natural finito.

Finge não ver o que a ciência demonstra, que está em curso uma reação normal
da raça humana, reagindo darwinianamente com menos fertilidade devido ao
esgotamento dos recursos, a superpopulação, as doenças, a contaminação do
solo e das águas, a deterioração da qualidade biologica da vida após duzentos
anos de poluição do planeta. Sob a benção da religião.

Esta tentativa de palpitar por parte de lideres religiosos não parece dar resultado
mas reverbera e tem influência na governança do mundo todo, pois além das
bancadas religiosas que elegem nos parlamentos democráticos, tem também seus
aliados que ajudam nos partidos. Como alguns nanicos inspirados no social-
cristianismo ou na ação do Vatino para derrubar o comunismo com o apoio ao
sindicato Solidariedade, de Gdansk, Polônia.

No Congresso, em Brasilia, virou lugar comum encontrar rituais religiosos bem


cedo, antes de expediente, nas salas das comissões e outros auditórios, espaços
públicos. Antes era no fim do expediente, agora é antes do começo. Como se
fosse normal que todos devessem seguir ou ouvir aquelas ideias derivadas de
uma fonte mágica de conhecimento.

No plenário volta e meia fazem sessão solene sobre a biblia ou dia disso ou
daquilo, o que pode parecer ser o exercicio do culto à diversidade mas revela
apenas o atraso politico do país. Não tem nada a ver com respeito à diversidade.
Na prática é propaganda de cada seita, cada corrente religiosa. E os mais fortes
se sobrepõem, é claro. Já viu uma sessão em homenagem ao Corão?

Enfim, usando a boa-fé da sociedade, com base no principio constitutucional da


liberdade de culto, acabam misturando religião com vida funcional e civil numa
casa política paga pelo Tesouro republicano, onde não se devem misturar em tese
politica e religião, sob o primado republicano.

Mas misturam, e figem não perceber que estão gastando tempo e recursos com
cultos e missas e outros mitos mais, como se fossem curiosidades antropologicas.

Só que a luz e o cafezinho, os funcionários, ou a estrutura - tudo compõe a


planinha de custos pagos com o dinheiro dos impostos de todos, creiam ou não
em duendes.

É a luta por corações mais do que mentes, passando pela via da lavagem
cerebral. e do uso indevido do espaço do parlamento.

Por isso é que as manifestações publicas de fanatismo religioso são reforçadas


e incentivadas por biolionarios investimentos em redes de televisão sectárias e
espaço de propaganda religiosa nos canais abertos. Trata-se do marketing
religioso, que resulta em mais contribuições, e como tal deveria ser objeto de
tratamento similar à propaganda enganosa.

Trata-se no final de dinheiro - mas se vocë reclama eles invocam o principio da


liberdade religiosa.

- Tem que respeitar o direito do outro acreditar .

De acreditar sim, mas de impor a mistura de religião e política, não. Melhor


o calvinismo americano que vai direito ao ponto: você se organiza em torno da
religião que quiser, se não encontrar uma que sirva, funde você mesmo a sua.

Crie seu sagrado, seu ritual, seu sacramento e pronto. It’s your business. Not
mine.

Mas lá tiveram o cuidado, desde os pais fundadores da pátria americana, de


separarem muito claramente a política, a organização dos poderes, da
administraçao pública, de um lado, e de outro a questão religiosa, a tal liberdade
de culto.

Aquilo era levado a sério, tinha sido motivo de terem largado a Inglaterra
conservadora para criarem suas igrejas livres nas 13 colônias originais na América
do Norte.

Sabiam que religião e guerra costumam andar juntas quando se mistura com
politica. Os constituintes deles tiveram o bom senso de separar coisas diferenes,
inclusive para que não viesse a religião ser motivo de guerras intestinas que
inviabilizassem a união das colônias na formação dos Estados Unidos da América.

Tiveram o cuidado de não permitir que se misturassem a esfera pública, a


administração e a gestão do bem comum, com as crenças teológicas da esfera do
particular, que não fazem parte do direito coletivo.

Não misturam até hoje leis com ideologia religiosa. Por isso tanto faz terem um
presidente católico como John Kennedy ou um protestante como George Bush.
Ou, agora, um Barack Obama, que afastou-se de um pastor radical e estaria
frequentando outra igreja evangelica, alem de ser filho de muçulmano africano
com mãe branca cristã.
Paradoxalmente, nos Estados Unidos atuais a religiosidade manipulada
politicamente vinha se mostrando um fator de atraso cultural e político, como na
sustentação de Bush por oito anos.

Muito diferente da secular Europa, onde metade das igrejas virou centros
comunitários, salas de espetáculos musicais e museus. Pode-se avaliar que para
a metade dos europeus a questão da existência de deus tornou-se secundária,
eles amadureceram filosoficamente e passaram por cima da teologia.

Exceto na Italia com seus próprios interesses geopoliticos e econômicos no


catolicismo.

E o problema na Europa agora são as minorias, principalmente árabes e africanos,


exigindo seus direitos de terem escolas separadas, poderem usar seus simbolos,
como os veus e as burkas, querem manter sua cultura islâmica de maneira meio
forçada, no meio da sociedade mais cética que ja se produziu no ocidente, que é
a da Europa do Norte.

Seria uma contrareforma muçulmana em territorio europeu, que tem sido brecada
pelo estado laico derivado da república francesa.

E duzentos anos depois do exemplo franco-americano de separação estado-


religião, o ibérico Brasil ainda resolveu fazer politicagem com coisa séria.

Para contentar gregos e troianos, fechou em 1988 um acordo de elite para


colocar Deus logo na primeira frase da Constituição. Foi o nosso equivalente ao
“em Deus nós confiamos“ que o presidente José Sarney queria copiar do dólar
para colocar no dinheiro de seu plano antiinflação em 1986.

Na constituinte de 1987 muita gente se opôs mas ao final o texto promulgado ficou
com o jeitinho brasileiro - ficou lá, como algo inofensível, agradando supostamente
a todos. Por mais pouco republicano e democrático que seja.

Passou a inspirar um instituto de salvaguarda das liberdades que tem sido tão mal
utilizado quanto outras leis erradas - no caso, sustenta o principio de que no
Brasil se respeita o direito de cada um ter a religião que quiser e inclusive de
tentar impingi-la a força aos que não querem ter religião alguma.

Mesmo que seja ao lado de sua casa, gritando nos micofones em altíssimos
decibéis. Mesmo que seja tomando o dinheiro dos pobres sem nada dar em volta
a não ser exemplos de enriquemento ilicitio, sonegação e escândalos no exterior,
como o casal de bispos da igreja universal condenados na Florida.

Outra coisa é o desrespeito ao outro. Para serem respeitados, os que tem religião
seriam obrigados a respeitar os direitos de outros, que não têm e não querem ter
religião. Mas isso vai contra o princípio de espalhar o envangelho.

Imaginem que não conseguem respeitar os ateus e agnóticos quanto mais o que
tem religião diferente do cristianismo ocidental - os budistas, por exemplo, as
religiões afro-animistas etc, os seguidores de Maomé, os mitos indígenas,
africanos, em geral. Não respeitam mesmo, querem converter à força.

E o islaminismo - os cristãos brasileiros um dia vão aceitar, digamos, no


parlamento, muçulmanos ditando suas regras como querem hoje a bancada
evangélico-católica ditar as suas opiniões em questões profanas como
transgenicos, celulas tronco, aborto, contraceptivos e união civil gay?

Só se for como aceitaram as religiões das centenas de tribos e nações indígenas


que encontraram nesta terra - enfrentaram, tentaram envangelizar, acabaram
matando-os por doenças e crenças.

Isso faz parte da tradição ibérico-portuguesa, desde a guerra contra os invasores


árabes e depois a presença predominante de judeus ( obrigaram a mudar de
crença e nome, resultando na maioria de cristãos novos com nomes de árvores e
bichos).

Em 1988 no Brasil, o que houve é que os politicos fizeram um acordo para


viabiliar outros acordos que diziam respeito a interesses mais concretos e
decidiram fazer uma constituição que, para ser aprovada, teve que introduzir logo
no primeiro parágrafo a palavra Deus. Contrariando toda a teoria republicana
scular.

Algo que o velho herói-raposa da redemocratização, Ulisses Guimarães, teve que


negociar entre a esquerda e a direita para conseguir aprovar - foi o possivel, não o
desejável.

Agora, vê-se que não ficou nem aceitável.

Veja como é preâmbulo da Constituição em vigor no Brasil desde 1988:


“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional
Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-
estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de
uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia
social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução
pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a
seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.“

Nós quem, carapálidas?

Conheço muita gente como eu que não nos sentimos representados por esta
constituição, que começou mal ao invocar algo acima do povo, como a origem do
poder político dado à sociedade naquele momento.

Quem garante que existe Deus e proteção divina para se colocar isso num acordo
social entre todos os cidadãos? Onde está o consenso sobre isso, se 99% dos
cientistas de ponta não acreditam em deus? Se era controverso, não deveria estar
na constituição.

Para representar a cena, melhor do que invocar a época do Direito Divino, antes
do atual direito natural positivista que está levando ao fim da natureza, basta fazer
a conexão com o imaginário bíblico de Moisés entregando as leis feitas sob
inspiração de Deus.

Grande cena revivida no cinema, que se aplica agora à cada vez que o presidente
das mesas do Congresso abre as sessões, seguindo o preâmbulo da Constituição.
Sob os mandamentos de Alá, declaramos aberta a sessão deste parlamento…
pode?

Mas pode enquanto são os cristãos os pseudodominantes da cena. E assim como


na parede atrás das mesas do Congresso, acima de cada autoridade em todo o
país está sempre um crucifixo - mas os protestantes, com suas bancadas da fé e
da moralidade, não protestam contra a idolatria da imagem no catolicismo?

Não, pois são todos da bancada cristã quando, por exemplo, trata de perseguir as
mulheres vitimadas pelo aborto clandestino. E sabem que se exigem a retirada do
crucifixo vão ficar sem o direito de fazerem suas sessões solenes biblico-
evangélicas. Há na verdade um pacto, eles se unem nas comissões na hora do
aborto, por exemplo.

Agora pense: e se no plenário tivermos um dia desses uma bancada, digamos,


muçulmana, de religião islâmica - como ja existem parlamentares assim em
estados europeus, devido à imigração.

Neste caso, os islâmicos do Congresso brasileiro, no futuro, poderiam exigir a


retirada da imagem de Jesus Cristo na cruz, na parecede atrás da mesa diretora,
que seria substituida por uma meia lua, por exemplo?

E ainda poderiam exigir que o regimento parasse de três em três horas as


sessões para fazerem suas ablações voltados para Meca, no estado estrangeiro
da Arábia Saudita - ou não é a invocação de Deus no preâmbulo da Carta de 88?
Teria que haver espaço para se ajoelharem no plenário ou seria no salão verde?

Dá pra notar a confusão? Tudo isso culpa do preâmbulo da Constituição, que


precisa urgentemente ser reescrito por uma PEC (proposta de emenda à
constituição), que retire a expressão SOB A PROTEÇÃO DE DEUS.

Deus e a gente que não gosta de misturar os mundos naturais e sobrenaturais,


agradecemos.

Isso parece pouco, mas um dia vai levar ao extremo a necessidade


da rediscussão da mistura entre religião e política no Brasil dos próximos tempos.
Pois cada vez mais se misturam os interesses eleitoreiros sob este tipo de
democracia que temos.

Olha um exemplo local, como gostam os ecos: somente em Brasilia, antes do final
do ano, estão regularizando os lotes ilegais, em invasões, de uns 400 templos em
Brasilia.

Tudo por interesse eleitoreiro.

Altas rendas, altos templos, altos votos.

E no futuro, a certeza de altas guerras religiosas. Não é melhor tirar logo o


preâmbulo?
POLÍTICA E RELIGIÃO. Qual a fronteira?
(http://ccbsemcensuras.forumeiros.com/assuntos-de-interesse-de-
todos-evangelicos-e-religiosos-f3/poltica-e-religiao-qual-a-fronteira-
t76.htm)
Fernando em Sex Jul 24, 2009 8:27 am

Um fenômeno sócio-político-religioso tem tomado vulto aqui no Brasil, quiçá em


alguns outros países, nos últimos vinte anos. É o crescente envolvimento de
igrejas de forma direta, no processo sucessório político-administrativo.

A partir do envolvimento em campo aberto, na militância política (militância temos


cá, com o sentido de atuação, exercício, prática) de igrejas expressivas como a
Igreja do Evangelho Quadrangular, Assembléia de Deus e Universal do Reino de
Deus, pelo número de templos que detém (milhares) e pelo número de seus
adeptos seguidores (milhões), foram estas objeto de estudos em sociologia, teses
de mestrado em ciências sociais e fórum de debates em núcleos teológicos.

É pertinente trazermos como tema para nossa reflexão este assunto, visto que
aqui no Brasil estamos num ano eleitoral, quando serão renovados os quadros
executivos e legislativos nacionais, tanto nos estados como a nível federal.

Tendo as igrejas acima mencionadas como pontas-de-lança, outras tantas estão


se organizando politicamente e fincando bases e plataformas políticas em suas
respectivas áreas de influência, ou seja, na sua membresia.

A Igreja Universal do Reino de Deus, foi a primeira a conseguir, em setembro de


2005, o registro oficial de um partido político à si vinculado; trata-se do nóvel PMR-
Partido Municipalista Renovador, que objetiva, sobretudo, defender os interesses
daquela igreja, conforme pronunciamento obtido na imprensa pela fala de seus
dirigentes. Pela mesma imprensa, o renomado jurista brasileiro Dalmo Dallari
declarou ver como extremamente perigoso à democracia e à liberdade de credo
um partido político ligado a uma igreja.

O universo das igrejas pentecostais não é coeso entre si; sua formação histórica
origina-se de cismas doutrinários em igrejas protestantes, chamadas tradicionais,
ao longo do tempo estas mesmas igrejas pentecostais fragmentaram-se, por
outros cismas, dando origem a um sem número de igrejas conhecidas como neo-
pentecostais. Segundo estatísticas, a cada dia duas novas denominações neo-
pentecostais assentam registros em cartórios brasileiros. Há uma rivalidade velada
entre elas, o que seria natural, pois cada líder novo que surge cria um rebanho
para si e preserva-o por todos os meios. Reproduzirei aqui e agora a fala do ex-
articulador político da Igreja Universal, bispo Carlos Alberto Rodrigues, egresso da
mesma, conforme publicado no Jornal do Brasil aos 20 de dezembro de 2004,
coluna do jornalista Bernardo Mello Franco: “A Universal é grande e precisa de um
partido próprio para apoiar sua estrutura de comunicação”.

Desta afirmação depreendemos que os interesses do povo brasileiro como um


todo não são levados em conta mas sim os interesses midiáticos da Universal. Daí
que a política para a Universal é um meio de ampliar sua influência, aumentar o
seu rebanho preservando o já existente.

Entendo que ministros de confissão religiosa seja ela qual for, tem o direito de
pleitearem cargos públicos enquanto cidadãos, não enquanto ministros e
dirigentes de igrejas ocupando púlpitos. Conforme proposta apresentada ao
Congresso Nacional Brasileiro em 16 de novembro de 2004, ainda não votada, a
Juíza Deputada Sra. Denise Frossard Loschi pede o afastamento; no mínimo 12
(doze) meses anteriores ao pleito; do pretendente a qualquer cargo público nas
áreas executivas ou legislativas, do seu cargo ou função que exerce na hierarquia
da instituição religiosa a qual pertence, seja católica, protestante, judaica, islâmica,
induista , religiões orientais , afro-brasileiras, etc. Projeto de Lei Complementar –
Lei das Inelegibilidades .

Agora vejamos se sob a análise das Escrituras sacerdotes de confissão religiosa


evangélico-protestantes têm o direito de utilizarem a máquina institucional religiosa
a que pertencem, para se promoverem politicamente. Muitos não o fazem como
candidatos diretos, porém defendem em púlpito candidaturas escolhidas entre
seus pares. Tendo entre seus membros uma grande maioria de pessoas simples e
incultas, apresentam-se como detentores de um mandato divino na condição que
estão como pastores, bispos ou modernos apóstolos e passam a imagem de que
também, agora, detém um mandato adjacente para atuarem na área de legislação
e administração públicas.

Pelas palavras e instruções do N.S. Jesus Cristo, entendo que o dar a César o
que é de César e a Deus o que é de Deus, eqüivale dizer que Igreja e política
partidária não podem ser irmãs, no máximo podem ser primas, oriundas de
diferentes famílias com funções diametralmente opostas, pois uma cuida da
elevação moral e espiritual do povo e outra dos negócios seculares.
Sem dúvida, todos os ramos das atividades salutares humanas que concorram
para um aprimoramento de todas as instituições e produzam um, cada vez mais,
elevado padrão de vida física, material, moral, intelectual e espiritual de um povo
(ou dos povos) devem ser buscados e cultivados, inclusive a política. O código
moral, espiritual bíblico-evangélico é universal e apartidário, daí a igreja não poder
ater-se a um partido político, senão perde o seu caráter de universalidade e
imparcialidade.

Outro destaque bíblico que cabe aqui é que ninguém pode servir a dois senhores
e muitos largaram a mão do arado e voltaram-se para trás.

Veja-se Mateus 6:24 e Lucas 9:62.

Vejo com muita preocupação a posição de muitos líderes evangélicos ao


manipularem suas membresias com o discurso de que fazer política partidária é
também uma responsabilidade da igreja. Assim estão os tais se convertendo em
políticos ao invés de converterem os políticos ao Evangelho.

Se também bem entendi o Velho Testamento, lá está escrito que Deus fez uma
nítida separação entre a condução e administração dos negócios de Estado ou
Nação dos negócios da religião, sendo que religião é ‘religare’: o processo de
religar o homem a Deus (elo rompido no Jardim do Édem).

Moisés foi legislador/administrador e Arão e os levitas os que exerciam o poder


sacerdotal. Samuel era o oráculo (profeta) de Deus, Saul o administrador da
nação enquanto Estado. Inclusive Saul foi destituído porque entendeu que sendo
rei (político) poderia imiscuir-se nas coisas espirituais. I Samuel 13:8/14

Diante do exposto estamos assistindo aqui no Brasil, não sei como estão os outros
países do mundo, a um desvirtuamento da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo,
no que concerne a ser a detentora do poder espiritual provindo do alto: Espírito
Santo; para a redenção dos povos, para a maior glória de Deus nas alturas, a
partir dos terráqueos na face da terra.

Somente posso aceitar a igreja com a posse de um partido político e detentora de


um poder político, se ambos (poder político e partido político) receberem do alto o
Espírito Santo, como que línguas de fogo repartidas. Caso contrário é rebeldia, e
rebeldia é pior que crime de feitiçaria: ASSIM ESTÁ ESCRITO. I Samuel 15:23.

Está aberto o debate: SENHORAS E SENHORES.

Saudações à todos com a Paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Paulo Rogério Pires de Miranda

Religião e Política no Brasil atual (http://sul21.com.br/jornal/2010/09/religiao-


e-politica-no-brasil-atual/)
Por Idelber Avelar, publicado orginalmente na Revista Fórum
Entre as grandes tarefas que a esquerda enfrentará na avaliação do legado do
lulismo, uma das mais complexas será o entendimento real, sem clichês ou
preconceitos, de qual tem sido o papel do neoevangelismo lulista, que floresceu
justamente no governo do Partido de Trabalhadores fundado, em parte, por
militantes católicos.
O assunto que me ocupa hoje é complexo, multifacetado, cheio de nuances. O
papel que a religião tem cumprido nesta campanha eleitoral ainda não foi bem
analisado, provavelmente não o será por um bom tempo e o máximo que este post
pretende é levantar algumas indagações iniciais. Como sabe quem lê o Biscoito,
sou ateu convicto e participante de movimentos em defesa do estado laico. Não
acredito que religiões devam ser “respeitadas”, se por “respeito” entende-se o
comum neste caso, ou seja, a blindagem delas a questionamento, crítica, paródia
ou ridicularização. Entendo-as como ideias sujeitas à apropriação, como quaisquer
outras. Isso é diferente de não respeitar as pessoas religiosas como interlocutores
adultos e maduros ou mesmo como eventuais parceiros de alianças políticas.
Afinal de contas, o maior presidente da história do Brasil é um firme crente em
Deus, e isso não o impediu de ir muito mais longe que o sociólogo ateu no
reconhecimento dos direitos dos casais homossexuais.
Discordo frontalmente dos amigos ateus que repetem uma rasa cantilena sobre a
suposta equivalência entre Record e Globo como dois males idênticos e
intercambiáveis. Essa cantilena é fruto da confusão mais característica das
análises de uma certa classe média (e rara, diga-se, entre o povo pobre): a
confusão entre moral e política. Se querem me dizer que Record e Globo se
equivalem moralmente, eu posso considerar a propositiva como digna de
elucubração. Se o que estamos discutindo é política, como suponho ser o caso
aqui, eu digo a esses amigos ateus: no em dia em que a TV Record ajudar a
patrocinar um golpe de Estado contra um governo legítimo, ocultar e beneficiar-se
do assassinato de centenas e da tortura de milhares de brasileiros, editar
criminosamente um debate presidencial para influir na eleição e esconder o maior
acidente aéreo da história brasileira para exibir fotos ilegalmente obtidas das mãos
de um delegado, de novo com puros objetivos eleitorais, aí eu discuto essa
suposta equivalência no terreno da política. Se alguém vir o jornalismo da Record
tratar o MST como um bando de criminosos, que é como ele é retratado na Globo,
por favor me avise. O próprio MST já percebeu que ele é tratado de outra forma
por lá.
Não há como se tratar do papel da religião na campanha eleitoral de 2010 sem
falar da figura de Marina Silva. Aqui, é importante diferenciar entre a crítica
legítima a posições que Marina pode ter assumido por causa de convicções
religiosas, e o ataque puro e simples ao fato de ela ser evangélica, que é coisa
que nenhuma coalizão política brasileira está em condições de fazer sem cair na
incoerência — com a exceção clássica, o PSTU. Critiquei Marina quando ela ainda
estava no PT por se recusar a prestar apoio à Frente Parlamentar pela Cidadania
LGBT, que contava com nove senadores do partido, mas não com ela. Nesta
campanha eleitoral, no entanto, com a exceção de uma menção a “mostrar os dois
lados” na escola (entendendo-se “dois lados” como criacionismo e evolucionismo),
eu não tenho qualquer crítica a declarações ou posições de Marina advindas de
seu evangelismo. Pelo contrário, achei que as respostas aos temas polêmicos na
sabatina do Globo foram excelentes, especialmente a parte sobre saber científico
versus saber narrativo. Tenho várias críticas a Marina, mas elas não passam por
aí.
Entre as mistificações desta campanha, algumas precisarão ser dirimidas com
pesquisa estatística e sociológica séria. Por exemplo, seria interessante saber
quais são os índices de intenção de voto a cada candidato dentro de cada religião.
Não tenho dados sobre isso, mas suponho que eles seriam surpreendentes para
muitos. Pelo que tudo indica, os índices de Marina entre evangélicos não são
superiores aos que ela atinge na população em geral. Também na base de puros
indícios, suspeito que as intenções de voto em Dilma nas comunidades religiosas
não são significativamente inferiores às que ela possui em toda a pólis. Apesar da
histeria de alguns pastores e padres, e da rasa análise de alguns ateus de classe
média, não há qualquer indicação de que a religião tenha polarizado intenções de
voto nesta eleição, pelo menos não da forma como costuma fazer, por exemplo,
nos Estados Unidos, onde ela é quase uma marca identitária na cédula.
Entre as grandes tarefas que a esquerda enfrentará na avaliação do legado do
lulismo, uma das mais complexas será o entendimento real, sem clichês ou
preconceitos, de qual tem sido o papel do neoevangelismo lulista, que floresceu
justamente no governo do Partido de Trabalhadores fundado, em parte, por
militantes católicos. Confesso que tenho me assombrado com a incapacidade de
alguns camaradas de compreenderem sem pré-conceitos (ou seja, antes de
avaliar empiricamente os dados da realidade) qual é política se constrói e se
articula na aliança insólita entre o lulismo e um naco significativo da comunidade
evangélica—esta é somente uma entre várias outras insólitas alianças que são
características do lulismo.
Praticamente nenhum desses camaradas demonstrou saber algo, por exemplo,
sobre o papel do evangelismo na defesa a Lula nos difíceis idos de 2005, quando
da cisão do PL que deu ao PRB sua forma atual. Celebrar os ganhos do lulismo
quando Lula conta com 85% de aprovação é fácil; um pouquinho mais difícil é
rever análises rasas à luz do genuíno estudo da história recente. Sou ateu
convicto, mas começo a perceber, nos sistemáticos ataques à comunidade
evangélica, uma mistura de classismo, desespero global e antilulismo de vísceras.
Esses ataques, curiosamente, não se estendem ao catolicismo, que não fica atrás
de igreja evangélica nenhuma em termos de preconceito, homofobia, misoginia e
obscurantismo. Entender a aliança política que sustenta o lulismo nas
comunidades evangélicas exige um outro olhar. Conte-se comigo na luta pelo
estado laico. Conte-se comigo na luta pelos direitos dos ateus. Conte-se comigo
para o eventual sarrinho a mistificações religiosas. Mas não vou misturar análise e
militância política com ataques seletivos, dirigidos somente a uma comunidade
religiosa, justamente aquela que, entre os mais pobres, é aliada do movimento
que tem transformado o modo como os brasileiros entendem a cidadania.

Religião e Política: impasses e perspectivas


(http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=50441)

Pe. Gilberto Tomazi *

Sinais no céu

O livro do Apocalipse (capítulo 12 ) fala de dois sinais no céu: uma mulher vestida
de sol, pronta para dar à luz um filho; e, um dragão cor de fogo, que tinha 7
cabeças e 10 chifres e este queria devorar esse filho logo que nascesse. Esse
dragão parecia ter um poder invencível pois somente com o seu rabo ele
conseguia estraçalhar ou destruir a terça parte das estrelas do céu. É interessante
notar que os dois sinais apareceram no céu. Deus estava no primeiro sinal, porém,
muitos ficavam fascinados e se deixavam seduzir pelo segundo sinal, que também
se apresentava como sendo Deus. Ao perguntar nas comunidades de Pinheiro
Preto, porque o dragão apareceu no céu, um menino me respondeu: "porque ele
tem asas". De fato muitas pessoas acreditaram, no passado, que só podem estar
no céu as pessoas que faziam a vontade de Deus e respeitavam os seus
mandamentos, mais os anjos e as aves que possuem asas. Desta maneira fica
difícil imaginar que também uma serpente ou um dragão pudesse criar asas e
aparecer no céu, apresentando-se como sagrado ou divino. Mas aqui, de fato, não
somente Deus apareceu no céu como também o seu maior inimigo, o comandante
ou o chefe de todo mal, de toda violência, opressão e morte.

Inspirados no primeiro sinal muitas comunidades fraternas e solidarias iam sendo


organizadas. E, em torno do segundo sinal também se reuniam muitos
adoradores, oportunistas, exploradores, principados, potestades, forças, falsos
profetas, doutores, governadores e outros poderes diversos. Os primeiros não
tinham como objetivo maior matar o dragão e sim viver dignamente, livremente,
amorosamente. Os seguidores do segundo sinal queriam devorar os filhos,
violentar as mulheres, oprimir os trabalhadores, escravizar, estraçalhar e deixar na
miséria pelo menos a terça parte dos filhos e filhas do verdadeiro Deus. A mulher,
vestida de sol, não se deixa derrotar mas é obrigada a se recolher no deserto,
dirigir-se para um lugar preparado aonde o dragão não poderia fazer nada, e, o
seu filho, depois de realizar a sua missão no mundo, foi elevado ao céu. Na
verdade, foi depois que o Filho foi elevado ao céu que os dois sinais foram
plenamente reconhecidos. Jesus passa a ser reconhecido como o Cristo Senhor,
enviado de Deus, o próprio Deus (segunda pessoa da Trindade Santa) e o dragão
não é apenas o rei e o império com seus poderes e forças, mas também todo
aquele que se coloca contra Jesus, contra as comunidades cristãs e que
perseguem, violentam, escravizam, dominam, alienam e matam as pessoas.

Religião não deve se meter em política?

É comum ouvir hoje em dia, como também era comum ouvir ao longo de todo o
século XX, que religião não deve se meter em política. Algumas pessoas e grupos
diversos batem tanto nessa tecla que não demora muito para ela se quebrar.
Parece não haver a possibilidade de uma aproximação razoável entre essas duas
dimensões. Caso existisse apenas uma forma de fazer política e uma única
maneira de viver a religião então sim seria possível acreditar nisso, separar essas
duas esferas da vida humana de tal forma que ambas ficassem opostas e
inconciliáveis. Porém, essa questão não é tão simples e para compreender o
problema ao menos duas questões precisam ser postas:

1. Que não se faz política da mesma forma em todos os países do mundo e que
também muda a forma dela ser exercida em épocas diferentes. Logo, se não há
uma política eternamente igual, então, também não se pode fazer um discurso
afirmando que "nenhum político presta" ou "que todos são iguais";
2. Também no campo religioso aparecem problemas semelhantes. Sabe-se que
existem muitas formas de se dirigir e de se viver uma religião. O catolicismo hoje
não é o mesmo de um século atrás. Uma mesma religião não é igual em
diferentes países. E a diversidade de igrejas e religiões é enorme. Há inclusive,
ainda hoje, guerras entre religiões. Desta forma, se há grandes diferenças entre as
mesmas não se pode afirmar que "todas as religiões são iguais", que "ser religioso
é ser alienado" ou que "qualquer religião é boa".

Existe a política de uns e a política de outros, a religião de uns e a religião de


outros!

Logo, aqueles que apontam para a religião como coisa de Deus ou para a política
como diabólica (ou o inverso dessas duas afirmações) podem estar acertando ao
olhar para certas realidades mas também podem falhar ao observar outras
realidades. E, geralmente, falham. Toda forma de generalização, em relação às
coisas deste mundo, é burra! Em relação ao céu pode-se afirmar existir a
perfeição absoluta, apesar de que o dragão também se impunha no céu com
sendo o seu lugar. Só depois que Jesus foi elevado ao céu que a vontade de Deus
se tornou plenamente revelada e que o mal foi desmascarado e o sinal do dragão
passa a aparecer como aquilo que seduz e conduz para a morte, para o inferno. A
realidade humana, porém, continua contraditória. Há muitas coisas que prejudicam
a vida, que acabam com a saúde, que impedem uma boa convivência humana,
que geram destruição, violência e morte, que se apresentam como sagradas, que
atraem e fascinam uma boa parte das pessoas. As pessoas que lutam de maneira
obsecada pelo capital, aquelas que vivem para consumir, as que se deixam
corromper na política, as que promovem guerras e as instituições que exploram os
fiéis ou os cidadãos são alguns exemplos de adoradores do dragão.

Sendo assim, se é verdade que a religião de uns é diferente da religião de outros


e que a política de uns é divergente da política de outros, então não se pode negar
que uns e outros, tanto na política quanto na religião, podem concordar ou
divergir, se aproximar ou se distanciar em certos momentos de sua vida e de sua
história. Desta forma não se pode pensar que política e religião são como os dois
trilhos do trem que nunca se encontram ou que sempre sinalizam para a mesma
direção. O problema, portanto, não estaria no fato de ambas se encontrarem ou
não, de ambas se aliarem ou não, de caminharem na mesma direção ou de
maneira oposta, de terem discursos e linguagens diferentes ou parecidas e, sim,
naquilo que efetivamente fazem, nos rumos que tomam, nas leis e projetos que
defendem, enfim, nos princípios e objetivos que as movem. Mas como resolver
esse impasse?

Existem situações em que política e religião se confundem


Na atualidade, quem governa a maioria das nações do nosso planeta terra é a
política, são os poderes executivo, legislativo e judiciário, são os regimes
democrático ou ditatorial, são as monarquias ou as repúblicas, é o
parlamentarismo ou o presidencialismo, entre outras coisas. Porém, já houve e
ainda há países onde religião e política são os dois lados de uma mesma moeda,
não se distinguem e nem se separam. É preciso ser um líder religioso para poder
chegar a ser também um chefe de Estado. Um chefe de Estado entende que
recebeu de Deus o poder de governar, portanto, não pode instituir leis ou defender
projetos que sejam opostos às doutrinas religiosas. Também as leis do mercado,
ou seja, do capitalismo neoliberal, procuram apresentar a realidade presente como
única possível e melhor de todas, tende a confundir o real com o ideal e, o sonho
de outro mundo possível é forçado a desaparecer.

E o cristianismo das origens?

Ao refletir sobre as origens da religião cristã, costuma-se lembrar que as primeiras


comunidades cristãs procuravam se organizar de tal forma que todas as
dimensões da vida humana estivessem integradas e fossem consideradas e
valorizadas de maneira equitativa. Diz o livro dos Atos dos Apóstolos (2, 42-47)
que eles partilhavam os seus bens (economia), se reuniam para ouvir os
ensinamentos dos apóstolos (educação), viviam em comunhão fraterna (política,
democracia direta e participativa) e eram unidos na oração (esperança, utopia, fé).
Esses quatro elementos formavam a religião cristã, definiam a política e a forma
de organização econômica das comunidades, o poder era um serviço em prol de
todos e o espírito que unia e movia as comunidades era o da liberdade, da
solidariedade e o da edificação de um mundo de irmãos e de paz. A política do
império Romano, vista pelas comunidades como sendo o dragão, perseguia as
comunidades e matava os cristãos. Depois de três séculos de perseguição, no ano
313, a religião cristã passou a ser tolerada e se tornou uma das religiões oficiais
do império romano. Mais ao final desse século ela se torna a única religião oficial e
os outros cultos são proibidos.

Separação entre Igreja e Estado

No Brasil houve uma separação entre a Igreja e o Estado no final do século XIX,
no ano de 1890. Até então o catolicismo era a religião oficial do Estado e as
demais religiões, desde a constituição de 1824, eram proibidas. A Igreja Católica
geralmente era subvencionada pelo Estado e, por sua vez, abençoava e dava
legitimidade aos chefes de Estado. A partir de então o Estado permitiu a liberdade
religiosa e para dar legitimidade aos seus projetos bem como para satisfazer os
seus interesses houve um fortalecimento crescente das instituições políticas,
especialmente dos poderes executivo, legislativo e judiciário, bem como da
burocracia. Desta forma a religião deixou de ser fundamental para os fins e
interesses da política. Inclusive o Estado passou a substituir a Igreja em muitas de
suas antigas funções: educação, saúde, assistência social, direitos, justiça,
aconselhamento psicológico, cemitérios, casamentos, entre outras. O Estado
passou a se apresentar como a instituição mais importante e mais necessária aos
cidadãos. Para sobreviver o Estado procura o reconhecimento do povo através de
obras e projetos que ele executa e para se tornar poderoso ele tem obrigado os
cidadãos a pagar impostos cada vez maiores e os mais diversos possíveis.

Religiões e Igrejas diante da atual constituição brasileira

A atual Constituição brasileira, de 1988, proíbe, à União, aos Estados e aos


Municípios, "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-
lhes o funcionamento, ou manter com eles ou seus representantes relações de
dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse
público." Por mais interessante que se pareça esta lei, o absurdo está na forma
como ela geralmente é interpretada. Exemplo disso é o fato de as igrejas não
conseguirem recursos públicos para as suas iniciativas sociais, culturais,
educacionais, em defesa da saúde, da ecologia, e outras mais, pelo simples fato
de ser "coisa de igreja" ou por serem dirigidas por instituições e lideranças
religiosas. Há em toda parte vereadores, prefeitos, deputados e juízes
"inteligentes" que interpretam a lei dessa forma, achando que as Igrejas não são
competentes ou capazes de promover o "interesse público". As igrejas são
forçadas a abrirem instituições sociais para estas finalidades porque elas próprias
geralmente não são reconhecidas.

Todavia, o fato de ter havido essa ruptura histórica e legal entre uma Igreja e o
Estado não significa que, da mesma forma, houve uma separação radical entre
religião e política. E também a negação ou o enfraquecimento de uma Igreja não
significou o fim da religião e sim a sua multiplicação e diversificação. Uma ruptura
radical entre religião e política só seria possível quando os políticos fossem todos
ateus ou não praticantes de religião alguma e, também, quando houvesse uma lei
que proibisse de se candidatar a cargos públicos as pessoas que não abrissem
mão de sua pertença, prática ou convicção religiosa. Fato é que isso não
aconteceu. Há inclusive representantes oficiais, ordenados de diferentes igrejas e
religiões que se candidatam e assumem cargos públicos. Queira Deus que fosse
por causa da ressalva na lei, isto é, em vista da defesa do "interesse público".

O povo brasileiro é religioso, suas igrejas e religiões tem credibilidade!

Vejamos outro aspecto. Mais de 90% da população brasileira se identifica e se


afirma pertencente ou participante de uma igreja ou religião e os próprios políticos,
eleitos com os votos desta população, não costumam negar, ao menos no
discurso, a sua pertença ou afiliação religiosa. Há inclusive uma bancada
evangélica no congresso. E, por mais que houvesse por parte de alguns políticos
o interesse de governar desconsiderando e até desprezando a religião ou mesmo
a religiosidade do povo, isso não se evidencia devido ao fato de que se assim eles
procederem, possivelmente não teriam chances de exercer um segundo mandato,
perderiam a confiança e apoio de muita gente numa nova eleição. O contrário é
até mais verdadeiro: certas pessoas mudam de religião acreditando que com isso
poderão receber mais votos e se eleger.

Fato é que a própria religião tem sido julgada por diversas instituições
educacionais, políticas e especialmente por vários veículos de comunicação, como
sendo a culpada de muitos males e problemas que a sociedade enfrenta. A
religião tem sido atacada de todos os lados perdendo assim parte de sua força e
credibilidade. É verdade que a religiosidade das pessoas e também as instituições
religiosas não são puras, todas são, de alguma forma, mais ou menos, pecadoras.
Elas, tanto quanto outras instituições sociais, políticas, educacionais ou
comunicacionais possuem ambiguidades e contradições. Porém, não se pode
esquecer que ainda hoje, junto com a família, a(s) Igreja(s) ou a(s) religião(ões)
tem aparecido em várias pesquisas como uma das instituições de maior
aprovação e credibilidade do povo. Já os partidos políticos e o Congresso
Nacional normalmente aparecem entre os piores índices.

Religião e espaço público


A primeira questão que emerge enquanto análise dessas pesquisas de opinião
pública em relação ao exercício do poder político é, que o congresso nacional e os
partidos políticos não levam em consideração as demandas ou proposições das
Igrejas bem como a esperança das pessoas (sua fé, suas crenças, suas utopias) e
por isso eles não são dignos de confiança por parte da maioria do povo que, por
um lado, preferia não votar ou então acaba por "negociar" esse voto com
candidatos corruptos e, por outro, procura exercer a sua cidadania tendo como
inspiração os princípios e valores que brotam da sua religião. Neste caso, é
possível que um dos elementos da reprovação dos políticos por parte do povo é
porque eles não consideram e não valorizam as igrejas ou religiões.

Um governo, seja ele municipal, estadual ou nacional, que se afirma democrático


e prima por esse valor, deveria incorporar as demandas religioso-populares, de
pessoas que se reúnem em comunidades e se identificam como crentes,
evangélicas, umbandistas, católicas ou de outras caracterizações religiosas. Fato
é que este povo jamais ou dificilmente tem sido consultado a respeito de suas
necessidades e prioridades. Pergunte a uma comunidade de fé quantas vezes ela
foi consultada por um vereador, prefeito, deputado, etc., a respeito de suas
necessidades e urgências. A desculpa geralmente é que não se consulta uma
comunidade de fé porque naquela sua assembleia, reunião ou celebração não se
encontram as outras, mas o inverso não seria mais edificante? Eles irem para
onde quer que tenha gente se reunindo a fim de consultá-los em relação a
projetos de Lei que lhes dizem respeito? O interesse público é apenas algo geral e
abstrato ou é a soma dos interesses das minorias, dos grupos, pessoas,
instituições, movimentos, e outras coisas mais?

Acordo entre o Estado brasileiro e o Vaticano

Recentemente a Igreja Católica, através do Papa Bento XVI e de seus


representantes legais, procurou estabelecer um diálogo com o Sr. Luiz Inácio Lula
da Silva, Presidente da República, a fim de estabelecer um acordo entre Estado e
Igreja Católica, sendo que esta reivindicava maior reconhecimento e a
implementação, por parte do Estado brasileiro, de alguns de seus interesses e
projetos. Dentre os quais aparece um artigo em relação ao ensino religioso nas
escolas. Talvez esses projetos não representassem "interesse público" devido ao
fato que outras igrejas e religiões poderiam se sentir prejudicadas diante de tal
acordo. Porém as manifestações da parte das mesmas não foram tão expressivas.
Não vem ao caso aqui julgar o valor e a legalidade dos 20 artigos desse acordo,
fato é que muitos parlamentares e intelectuais protestaram e se posicionaram
contra tal acordo afirmando haver ai inconstitucionalidade e diversos outros
problemas.

A Constituição Federal é a lei maior de um país

De fato, sendo a lei maior de um país, a Constituição Federal deveria ser


respeitada por todos os cidadãos, a começar pelos governantes e por suas
estruturas de poder. Então eu me pergunto se esses parlamentares que não
aceitaram o acordo entre a Igreja Católica e o Estado brasileiro, também foram às
ruas protestar quando o Brasil estava sendo privatizado e o patrimônio público
estava virando sucata, ou quando os EUA impôs a ALCA e instalou a base de
Alcântara, ou quando a Vale do Rio Doce foi praticamente doada à iniciativa
privada, ou quando o salário mínimo chegou e equivaler a 55 dólares e tinha que
(ao menos) matar a fome de uma família durante um mês, ou quando os seus
salários, às escondidas, duplicavam de valor (tirados dos impostos provindos do
sangue do/a trabalhador/a); ou ainda, se foram às ruas protestar quando a maioria
de nossas estradas pavimentadas foram entregues à iniciativa privada, quando
foram detectados diversos focos de escravidão em nosso país, quando a fome
chegou a torturar 30% da população de nossa nação, quando os grandes meios
de comunicação passaram a atacar de forma violenta a religião, a família e o valor
das culturas e tradições, ou também quando o narcotráfico e as drogas passaram
a dominar e a destruir a vida de quase a terça parte da população jovem; só para
citar alguns exemplos... Ou será que a Constituição Federal nada diz a respeito
disso?!

A religiosidade é uma dimensão da vida humana

É interessante notar que diversos dos mesmos parlamentares e intelectuais que


julgam ser a religião desprovida de sentido, vazia de significado ou uma ideologia
entre outras, são os mesmos que ficam apavorados quando uma Igreja procura
ocupar espaços ou insistir em seus princípios junto a um Estado ou nação. Mesmo
que seja uma nação, como no caso do Brasil, que possui 125 milhões de
católicos, mais 50 milhões de evangélicos, mais alguns milhões de membros de
outras denominações religiosas, parece que as demandas desses cidadãos não
podem ser reconhecidas nem consideradas relevantes. Talvez seja, porque o
Estado deve continuar privatizado, nas mãos de empresários, de latifundiários, de
partidos políticos, de poderosas instituições sociais, turísticas, educacionais e da
comunicação e não na mão dos cidadãos, do povo que é também cristão ou
religioso.

Os animais não tem espiritualidade ou religiosidade, os humanos de todos os


tempos e culturas, com raríssimas exceções, sempre tiveram. Talvez seja porque
estes necessitam dela e os outros não. Não estou aqui defendendo os interesses
de uma instituição religiosa e combatendo ou menosprezando aquelas pessoas
que optam por não participar de qualquer religião ou por fazer a sua escolha
diante de um mundo religioso plural. Mas estou sugerindo uma reflexão sobre o
potencial e a importância da religião, bem como sobre a falta de reconhecimento
da mesma no espaço público. Se a religiosidade é considerada uma das grandes
dimensões e necessidades da vida humana (saber, fazer, conviver, ser, crer),
então porque, praticamente, apenas as dimensões do saber e do fazer e um
pouco também do conviver são consideradas relevantes no espaço público? O ser
humano não é apenas homo sapiens e homo faber, mas também homo
symbolicus, e outros mais.

A Igreja não sabe a força que tem!

A Igreja (entenda-se igrejas/religiões), enquanto povo ou enquanto comunidade de


comunidades de fé, poderia reivindicar dos poderes públicos muito mais do que
geralmente o faz, diante do número de pessoas que ela tem capacidade de reunir
em torno de uma causa. Muitos falam: a nossa Igreja não sabe a força que tem!
Realmente, partindo do princípio democrático de que 1% do eleitorado, através de
abaixo assinado, pode propor projetos de lei (Cf. Lei 9709/98), a exemplo do que
recentemente aconteceu com o abaixo assinado contra a corrupção eleitoral, do
qual surgiu a lei nº 9840/99, muitas mudanças importantes podem acontecer
mediante a mobilização popular, em torno de abaixo assinados e outras iniciativas,
a partir de uma Igreja ou da articulação de igrejas, religiões e outras organizações
da sociedade.

Outro aspecto importante da religião é a sua dimensão profética e utópica


É nesse sentido que ela aponta para um sonho possível, alimenta a esperança e
denuncia todos os projetos e instituições que impedem ou barram a realização
desse sonho ou dessa nova realidade pretendida; critica os projetos que são
excludentes e contra a dignidade humana e a vida num sentido mais amplo.
Então, caso a política esteja sendo exercida de maneira oposta a esta esperança,
de maneira a impedir a justiça e o bem comum, de maneira prejudicial ao povo,
cabe à religião ter uma atitude profética de denuncia dessa realidade e de anúncio
de mudanças, de projetos que sejam de acordo com a vontade das comunidades
e do povo em geral. Nesse sentido os conflitos poderão voltar a aparecer, porque
os desejos do dragão não coincidem com o projeto da mulher vestida de sol. Esta
quer dar à luz a vida e o outro procura devorá-la. Desta forma, os dois campos
podem voltar a parecer opostos inconciliáveis. Porém, tanto no campo religioso
como no da política existem as duas possibilidades: defender a vida ou estraçalha-
la. Logo, para defender a vida tendem a se unir políticos e religiosos, mas o
contrário também acontece. Então, se isso é verdade, aonde ou quando
poderemos encontrar o dom do discernimento e saber qual é a vontade de Deus?

- quando duas ou mais pessoas se reúnem para ouvir e dialogar sobre a Palavra
de Deus;
- quando uma criança pobre ou doente sorri diante de uma atitude de alguém;
- quando as pessoas se movem pelo amor e a solidariedade e não pela cobiça;
- onde existe um movimento popular defendendo uma causa que não é apenas de
algumas e sim de muitas pessoas;
- quando os mais fracos vão ficando mais fortes e os mais violentos se tornam
humanos e pacíficos, os mais pobres e os mais doentes vão se tornando menos
pobres e mais saudáveis, os mais depressivos, oprimidos e tristes vão se tornando
menos depressivos e mais libertos e felizes, quando o salário dos parlamentares
diminui e o dos(as) trabalhadores(as) aumenta, quando os agricultores
conseguem viver dignamente no campo e os bairros das cidades são atendidos
em suas maiores necessidades, quando os meios de comunicação divulgam a
verdade, quando os políticos agem com ética, quando os direitos humanos são
defendidos e garantidos, quando as igrejas e religiões se tornam menos
pecadoras e mais santas...