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UMA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DO PENSAMENTO ECONÔMICO 1

Prof. Dr. Nali de Jesus de Souza 2

Neste trabalho, será apresentada uma introdução à história do pensamento econômico, com a evolução sumária da Economia através dos tempos, com o objetivo de mostrar que o dia-a-dia das pessoas não está dissociado do aspecto econômico. Tanto a segurança física, a manutenção da vida, como a alimentação e outras necessidades básicas constituem a preocupação fundamental dos seres vivos. Desde que acorda todas as manhãs, o homem procura satisfazer suas necessidades: toma o seu banho, veste-se, alimenta-se, lê o jornal, utiliza-se de um meio de transporte e se dirige para o trabalho. Para pagar por esses bens que consume, para ter um mínimo de conforto, ele precisa de uma renda, que normalmente vem de seu trabalho. Sempre foi assim através dos tempos. Nas comunidades primitivas, o homem preocupava-se com a caça , a pesca e com a segurança do lar. A mulher cuidava pessoalmente da casa e dos filhos, ou administrava os serviços executados por serviçais. Havia uma divisão do trabalho, que naturalmente variava em parte de uma comunidade para outra, de acordo com os costumes. Essa divisão do trabalho evoluiu através dos tempos. Parte dos bens e serviços obtidos domesticamente passaram a ser produzidos fora da casa ou da comunidade, por pessoas que se especializavam em determinadas profissões; estes foram os artífices ou artesãos. Mais tarde, surgiram as fábricas e o trabalho passou a ser assalariado, dando início ao modo de produção capitalista.

1 - ORIGENS DO PENSAMENTO ECONÔMICO

A Economia surgiu como ciência através de Adam Smith (1723-1790), considerado o pai da Economia Política. Sua obra, A Riqueza das Nações, publicada em 1776, constituiu um marco na história do pensamento econômico. Antes disso, a Economia não passava de um pequeno ramo da filosofia social, como atestam as contribuições do abade e filósofo francês Turgot (1727-1781), como será visto adiante. Com o Mercantilismo (1450-1750), as idéias econômicas conheceram algum desenvolvimento, mas na Antigüidade e na Idade Média as relações econômicas eram bastante simples, como será visto a seguir.

1.1 RELAÇÕES ECONÔMICAS NA ANTIGÜIDADE

Mesmo nas sociedades primitivas, os homens precisavam organizar-se em sociedade, para defender-se dos inimigos, abrigar-se e produzir comida para sobreviver. A divisão do trabalho daí decorrente permitiu o desenvolvimento da espécie humana em comunidades cada vez maiores e mais bem estruturadas. Na maior parte dos casos, a produção era basicamente para a própria subsistência. Algumas pessoas produziam um pouco mais, permitindo as trocas, o que gerou especialização. No lar, os homens produziam as ferramentas e utensílios rudimentares para a agricultura, caça, pesca e para trabalhos com madeira (enxadas, pás, machados, facas, arco, flechas e outras armas). Com o tempo, surgiram pessoas com habilidade que se especializaram na produção de cada um dos tipos de bens. Alguns trabalhadores mais habilidosos não só aprenderam uma profissão específica, como passaram a reunir aprendizes e ajudantes. A escala de produção ampliou-se; os produtos adquiriram maior qualidade e os custos de produção se reduziram em função do aumento das quantidades produzidas. Aqueles que produziam armas ou ferramentas específicas tinham pouco tempo para se dedicar à

1 Relatório Pesquisa da área de História Econômica, realizada no NEP PUCRS.

2 Professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da PUCRS. Doutor em Economia pela USP.

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caça, à pesca ou à agricultura: eles precisavam trocar os produtos que fabricavam por alimentos e peles para vestuário. Aos poucos, o trabalho de alguns homens passou a ser suficiente para atender às necessidades de um conjunto cada vez maior de pessoas. As trocas se intensificaram, portanto, entre artesãos, agricultores, caçadores e pescadores. A economia adquiria maior complexidade à medida que as relações econômicas realizadas em determinadas localidades alcançavam comunidades cada vez mais distantes. As trocas colocavam em contato culturas diferentes, com repercussões locais sobre os hábitos de consumo e a estrutura produtiva. Mais tarde, com o surgimento dos líderes comunitários, formaram-se as classes dos soldados, dos religiosos, dos trabalhadores e dos negociantes. Com a divisão do trabalho e as especializações, ficou bem nítida a formação dos diferentes agentes econômicos: governo, consumidores, produtores, comerciantes, banqueiros. O sistema bancário tornou-se importante com o surgimento da moeda, que passou a circular como meio de troca. Na medida em que ela era depositada nos bancos, passou a ser emprestada mediante o pagamento de juros. Contudo, entre os filósofos gregos, com grande influência no mundo antigo, havia restrições filosóficas aos empréstimos a juros, ao comércio e ao emprego do trabalho assalariado. A busca de riqueza era considerada como um mal, tendo em vista que a ambição é um vício. Esse pensamento dificultava o desenvolvimento da economia. De outra parte, na Grécia antiga, como em Roma, a maior parte da população era composta por escravos, que realizavam todo o trabalho em troca do estritamente necessário para sobreviver em termos de alimentos e vestuário. Os senhores de escravos apropriavam-se de todo o produto excedente às necessidades de consumo dos trabalhadores. A economia era quase exclusivamente agrícola; o meio urbano não passava de uma fortificação com algumas casas, onde residiam os nobres, ou chefes militares. Para os gregos, a Economia constituía apenas uma pequena parte da vida da cidade, onde se desenrolava a vida política e filosófica, constituindo segundo eles os verdadeiros valores do homem. Por essa razão, a obtenção de riqueza constituía um objetivo bastante secundário na vida dos cidadãos. Para eles, a questão primordial consistia na discussão acerca da repartição da riqueza entre os homens e não como ela se obtinha. Segundo a filosofia grega, o grande objetivo do homem era alcançar a felicidade, que se encontrava no seio da família e no convívio no interior da cidade, através da interação entre os cidadãos. A busca da felicidade, no entanto, não devia se restringir ao prazer, porque seria voltar à condição de animal e de escravo. A honra era importante na medida em que mostrava ao homem os verdadeiros valores da vida. Segundo eles, embora o comércio não fosse considerado como uma atividade natural, as trocas não eram condenáveis pois permitiam a diversificação das necessidades humanas e levavam à especialização dos produtores. Entretanto, como o comércio era uma atividade que não possuía limites naturais e a moeda facilitava as trocas, criava-se uma classe de comerciantes ricos. Segundo eles, essa possibilidade de riqueza fácil corrompia os indivíduos, que passavam a dar prioridade à busca da riqueza, em prejuízo da prática das virtudes. Pela lógica grega, tornava-se portanto condenável toda prática que levasse à acumulação de moeda, como a existência de trabalho remunerado e a cobrança de juros nos empréstimos. No pensamento de Platão o comércio e o crescimento econômico associavam-se com o mal e com a infelicidade dos homens. Para ele, o trabalho era indigno porque retirava do cidadão o tempo que ele precisava para o lazer e a prática das atividades políticas e filosóficas. Na livro A República, de Platão, os cidadãos que exerciam altos cargos públicos não deviam “trabalhar” para não “poluir a própria alma”. Eles precisavam ignorar o dinheiro, desvencilhar-se da propriedade de bens e esposa, buscando o que necessitavam na comunidade. Sendo o trabalho necessário para a atividade produtiva, ele precisava ser realizado por escravos. A classe inferior, que trabalhava, podiam possuir bens e trocá-los, bem como acumular riquezas dentro de certos limites para não se tornarem maus trabalhadores. Ele condenava o empréstimo a juros, pois o ganho provém da moeda acumulada e, segundo ele, ela devia ser usada apenas para facilitar as trocas. Aristóteles compartilhava da maioria das idéias de seu mestre Platão, mais rejeitou a comunidade de bens por considerá-la injusta por que não compensava o indivíduo segundo o seu

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trabalho. Como os indivíduos não são iguais, eles não deviam ter a mesma participação na posse dos bens. Concluía Aristóteles que a comunidade acabava produzindo mais conflitos do que a

desigualdade em si. Segundo ele, o indivíduo devia preocupar-se mais com aquilo que lhe pertence

e não com a partilha dos bens existentes. A comunidade, ao desestimular a propriedade, produz a

pobreza. Considerava que o trabalho agrícola devia ser reservado aos escravos, ficando os cidadãos livres para exercer a atividade política no interior da cidade. Para a maioria da população, a cidade constituía um local de refúgio em caso de ataques inimigos. Constituía também um local de compras, em que o camponês levava seus produtos para vender e abastecia dos gêneros de primeira necessidade, sobretudo de bens manufaturados. Porém, as cidades da Antigüidade eram pequenas e insalubres, salvo algumas capitais e centros administrativos. A urbanização expandiu-se um pouco com o desenvolvimento das trocas comerciais. Surgiram cidades relativamente grandes, para os padrões da época, como Atenas,

Esparta, Tebas, Corinto e Roma. Devido à pobreza do solo para o cultivo, a navegação tornou-se uma necessidade crucial para os gregos, a fim de aumentar as riquezas de suas cidades, que eram independentes politicamente umas das outras. No mundo grego antigo justificava-se a escravidão pela idéia de que alguns homens possuíam uma inferioridade inata. Esse regime de trabalho atrasou o desenvolvimento da humanidade, pois, como o trabalho era considerado tortura, os escravos nada faziam para aumentar a sua eficiência. O domínio da Filosofia sobre o pensamento econômico implicava nas idéias de igualdade entre os cidadãos e no desprezo pela riqueza e o luxo. O homem devia procurar o aprimoramento de sua alma, dedicando a maior parte de seu tempo à meditação, com prejuízo de sua atividade econômica. Necessitava levar uma vida simples, o que não favorecia o consumo e a produção. Essa posição filosófica dificultava, portanto, o desenvolvimento das relações econômicas. A busca e a posse de riquezas era sinônimo de vaidade, orgulho e luxúria. Já entre os romanos o pensamento econômico estava ligado à política e ao aumento dos domínios nacionais. O espírito imperialista dos romanos levou à expansão das trocas entre Roma e as nações conquistadas. A riqueza era sempre bem-vinda, o que se obtinha pela dominação: os povos conquistados eram obrigados a produzir os bens que os romanos necessitavam consumir. Os romanos, por seu turno, construíram muitas estradas e aquedutos na Europa e partes da África, com

o fim de facilitar o transporte e o abastecimento das tropas; essas construções possuíam, portanto,

um fim político e não econômico. Roma surgiu em torno de 750 a.C. e entre 260 e 146 a.C. ela conquistou a atual Itália, ao vencer seu rival Cartago (reino da África do Norte, que criou colônias na Itália e Espanha). Posteriormente (Séculos I e II), ela transformou a Grécia em uma província romana e conquistou sucessivamente a Ásia Menor, a Judéia, a Síria, a Espanha e a Gália. Este foi o primeiro império. O segundo império romano estendeu-se entre os Séculos III e V da era cristã. As artes se desenvolveram desde o primeiro império. As cidades se organizavam em torno de um centro político, o fórum. Em volta do fórum, ficavam os mercados, os templos, os banhos públicos e os teatros. O abastecimento urbano de água era feito por aquedutos, que eram estruturas áreas sustentadas por grandes pilares. As águas desciam das fontes pelos aquedutos e abasteciam as termas, os edifícios públicos e os domicílios. Com a fundação de Constantinopla em 330 d.C. e a transferência da corte romana para essa cidade, Roma entrou em decadência. Houve uma substancial redução dos gastos públicos e redução

da massa salarial da cidade. O comércio foi enfraquecido, assim como as atividades econômicas, parte das quais havia mudado para a nova capital. O Império do Oriente era uma potência industrial, enquanto o Império do Ocidente definhava em termos econômicos. As rotas comerciais que levavam a Roma foram abandonadas e as invasões dos bárbaros ajudou a afundar o Império do Ocidente.

1.2 RELAÇÕES ECONÔMICAS NA IDADE MÉDIA

Considera-se como Idade Média o período entre o desaparecimento do Império Romano do

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Ocidente, no ano de 476, e a queda de Constantinopla, tomada pelos turcos em 1453. Esse período caracteriza-se particularmente pela pulverização política dos territórios e por uma sociedade agrícola dividida entre uma classe nobre e uma classe servil, que se sujeitava à primeira. A economia conhece um retrocesso, principalmente entre os séculos V ao XI. As trocas passaram a se realizar em nível local, entre Senhor e os servos; as antigas estradas romanas deixaram de ser conservadas e tornaram-se intransitáveis (Hugon,1988, p. 45). Na base do sistema feudal estava o servo, que trabalhava nas terras de um senhor, o qual, por seu turno, devia lealdade a um senhor mais poderoso, e este a um outro, até chegar ao rei. Os senhores davam a terra a seus vassalos para serem cultivadas, em troca de pagamentos em dinheiro,

alimentos, trabalho e lealdade militar. Como retribuição a essa lealdade, o senhor concedia proteção militar a seu vassalo.

O servo não era livre, pois estava ligado à terra e a seu senhor, mas ele não constituía sua

propriedade, como o escravo. As trocas restringiram-se ao nível regional, entre as cidades e suas áreas agrícolas. A cidade, com seus muros, constituía o local de proteção dos servos, em caso de ataque inimigo. Aos poucos, porém, passou a ser o local onde se realizavam as trocas, o mercado. Desenvolveram-se o comércio, as corporações de ofício, surgindo a especialização do trabalho. Com as Cruzadas, a partir de 1096, expandiu-se o comércio mediterrâneo, impulsionando cidades como Gênova, Pisa, Florença e Veneza.

A Teologia católica exerceu um poder muito grande sobre o pensamento econômico da Idade

Média. A propriedade privada era permitida, desde que fosse usada com moderação. Resulta desse fato a tolerância pela desigualdade. Havia uma idéia de moderação na conduta humana, o que levava às concepções de justiça nas trocas e, portanto, de justo preço e justo salário. Nenhum

vendedor de um produto ou serviço poderia tirar proveito da situação e ganhar acima do valor considerado normal, ou justo. “O justo preço é aquele bastante baixo para poder o consumidor comprar (ponto de vista econômico), sem extorsão e suficientemente elevado para ter o vendedor interesse em vender e poder viver de maneira decente (ponto de vista moral)” (Hugon, 1988, p. 51). Similarmente, o justo salário é aquele que permite ao trabalhador e sua família viver de acordo com os costumes de sua classe e de sua região. Essas noções de justiça na fixação de preços e salários implicava também a idéia de justiça na determinação do lucro. Em outras palavras, o justo lucro resultava da justiça nas trocas: ele não devia permitir ao artesão enriquecer. Havia, portanto, julgamentos de valor na conduta econômica, ou seja, a Filosofia e a Teologia dominavam o pensamento econômico. Foi mais tarde que o racionalismo e o positivismo tomaram conta do pensamento econômico, já no século XVIII.

O empréstimo a juros era condenado pela Igreja, idéia que vem de Platão e Aristóteles, pois

contrariava a idéia de justiça nas trocas: o capital reembolsado seria maior do que o capital emprestado. Por não serem cristãos, os judeus receberam permissão para emprestar a juro, razão pela qual se explica a sua predominância no setor financeiro, em muitos países. A partir de 1400, no entanto, as exceções ampliaram-se com o crescimento das atividades manufatureiras e do próprio comércio na era mercantilista.

1.3 MERCANTILISMO

O Renascimento cultural e científico e o Mercantilismo abriram os horizontes da Europa, a

partir de 1450. A reforma de João Calvino (1509-1564), exaltando o individualismo, a atividade econômica e o êxito material, deu grande impulso à economia. Enriquecer não constituía mais um pecado, desde que a riqueza fosse obtida honestamente e pelo trabalho. A cobrança de juro e a obtenção de lucro passaram a ser permitidas. Entre os protestantes, o verdadeiro pecado veio a ser a ociosidade, quando a mente desocupada passa a se ocupar do mal. Como a leitura da Bíblia tornou- se fundamental no culto, incentivou-se a educação, o que se repercutiu na melhoria da produtividade do trabalho e no desenvolvimento econômico. No início da era mercantilista, ocorreu uma transformação política na Europa, com o

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enfraquecimento dos feudos e a centralização da política nacional. Aos poucos, foi se formando uma economia nacional relativamente integrada, com o Estado central dirigindo as forças materiais

e humanas, constituindo um organismo econômico vivo. O governo central forte passou a criar

universidades e a realizar grandes empreendimentos, como as navegações que abriram as mentes das pessoas. No plano internacional, as descobertas marítimas e o afluxo de metais preciosos para a Europa deslocaram o eixo econômico do Mediterrâneo para novos centros como Londres, Amsterdã, Bordéus e Lisboa. Até então, a idéia mercantilista dominante era a de que a riqueza de um país media-se pelo afluxo de metais preciosos (metalismo). O afluxo excessivo de ouro e prata provocou inflação na Espanha, cuja taxa chegou a 20% ao ano na Andaluzia, entre1561/1582 (Sachs e Larrain, 1995, p. 820). Com a idéia de garantir afluxos significativos de ouro e prata para os seus países, os

Mercantilistas sugeriam que se aumentassem as exportações e que se controlassem as importações. Entre os principais autores Mercantilistas, podem ser citados (ver Hugon, 1988, p. 59 e

seguintes):

a) Malestroit (Paradoxos sobre a moeda, 1566): segundo ele, o aumento do estoque de metais preciosos não provocava inflação;

b) Jean Bodin (Resposta aos paradoxos do Sr. Malestroit, 1568): para ele, maior quantidade de moeda gerava aumento do nível geral de preços;

c) Ortiz (Relatório ao rei para impedir a saída de ouro, 1588): ele afirmava que, quanto mais ouro o país acumulasse, tanto mais rico ele seria;

d) Montchrétien (Tratado de economia política, 1615): ensinava que o ouro e a prata suprem

as necessidades dos homens, sendo o ouro muitas vezes mais poderoso do que o ferro;

e) Locke (Conseqüências da redução da taxa de juro e da elevação do valor da moeda, Londres, 1692): argumentava que os metais preciosos precisavam permanecer no país.

f) Thomas Mun (Discurso sobre o comércio da Inglaterra com as Índias orientais, 1621).

Através dessa obra, Mun exerceu grande influência sobre o colonialismo inglês. Na França, o Mercantilismo manifestou-se pelo Colbertismo, idéias derivadas de Jean Baptiste Colbert (1619-1683), segundo as quais as disponibilidades de metais preciosos poderiam aumentar pelas exportações e pelo desenvolvimento das manufaturas. Colbert foi Ministro das Finanças de Louis XIV e chegou a controlar toda a administração pública. Protegeu a indústria e o comércio. Trouxe para a França importantes artesãos estrangeiros, criou fábricas estatais, reorganizou as finanças públicas e a justiça, criou empresas de navegação e fundou a Academia de Ciências e o Observatório Nacional da França. Com a proteção à indústria, as exportações seriam mais regulares

e com maior valor. Com esse objetivo, os salários e os juros passaram a ser controlados pelo Estado,

a fim de não elevar os custos de produção e poder assegurar vantagens competitivas no mercado

internacional. O Colbertismo implicava na intervenção do Estado em todos os domínios e caracterizava-se pelo protecionismo, ou seja, pela adoção de medidas pelo governo para proteger as empresas nacionais contra a concorrência estrangeira. Seu pensamento encontra-se na sua obra Cartas, instruções e memórias, 1651 a 1669. Outro importante autor francês que se afastou do pensamento mercantilista foi Richard Cantillon (Ensaio sobre a natureza do comércio em geral, 1730). Cantillon viu no trabalho e na terra os principais fatores da formação da riqueza nacional. A moeda ingressa no país pelo fato do valor das exportações ser maior do que o valor das importações. Contudo um excesso de moeda eleva os preços internamente, o que provoca o encarecimento das exportações e o barateamento das importações, gerando posteriormente déficit na balança comercial e a saída de ouro e prata do país. Na Espanha, o Mercantilismo não teve esse caráter desenvolvimentista da França, mas foi mais puro em sua essência, ou seja, a preocupação central era simplesmente obter o ingresso no país de metais preciosos, seja pelo comércio internacional (maximização das exportações e controle de importações), seja pela exploração de minas nas colônias. A preocupação central do governo era financiar a pesquisa e a exploração de ouro e prata na América espanhola.

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Assim, com o objetivo de maximizar o saldo comercial e o afluxo de metais preciosos, as metrópoles estabeleceram um pacto colonial com suas colônias. Por meio desse “pacto”, todas as importações da colônia passaram a ser provenientes de sua metrópole, assim como todas as suas exportações seriam destinadas a ela exclusivamente. A metrópole monopolizava também o

transporte dessas mercadorias. Para maximizar os ganhos, ela fixava os preços de seus produtos em níveis mais altos possíveis; inversamente, a fixação dos preços de suas importações eram os mais baixos. Segundo Celso Furtado, esse “pacto” deu origem ao subdesenvolvimento contemporâneo, porque implicava em uma sangria permanente de riquezas que fluíam para as metrópoles.

O principal defeito do Mercantilismo foi ter atribuído valor excessivo aos metais preciosos na

concepção de riqueza. Contudo, sua contribuição foi decisiva para estender as relações comerciais do âmbito regional para a esfera internacional. Ele constituiu uma fase de transição entre o feudalismo e o capitalismo moderno. Com o comércio, formaram-se os grandes capitais financeiros

que de certa forma financiaram a revolução tecnológica, precursora do capitalismo industrial.

O sistema mercantilista não favoreceu a agricultura, como poderia ter ocorrido, na medida que

todos os países procuram importar o mínimo possível, mesmo quando havia escassez de alimentos, ou quando se necessitava de matérias-primas para a indústria nascente. Isso ocorreu na França, pois Colbert cobrava impostos de importação relativamente altos para a importação de carvão coque para a fundição de metais. Naquela época, como nos países em desenvolvimento dos dias atuais, a agricultura constituía praticamente todo o produto nacional. Inicialmente, os campos eram cultivados uma vez por ano, com baixa produtividade. Posteriormente, as lavouras passaram a ser divididas em duas partes, ficando uma em descanso, para recuperar fertilidade. Mais tarde, o sistema passou a ser de três

campos, o que resultou em aumento substancial da produção agrícola por área cultivada. Isso fez com que a população européia duplicasse entre os anos 1000 e 1300. O número de cidades aumentou, assim como sua população. Com o Mercantilismo, as trocas de novos produtos intensificaram-se entre os países europeus, asiáticos e árabes. 3 Desenvolveu-se o sistema manufatureiro doméstico, artesanal, dando nascimento à indústria capitalista. Inicialmente, o mercador-capitalista fornecia ao artesão a matéria-prima, para que transformasse em produto a ser comercializado. Posteriormente, o mercador-capitalista passou a fornecer as máquinas, as ferramentas e, às vezes, o prédio onde os bens seriam produzidos. Finalmente, em vez de comprar dos diferentes artesãos os produtos que vendia no mercado, ele acabou contratando também os trabalhadores

necessários à produção, passando a reuni-los em um mesmo local, originando a fábrica. A formação de grandes capitais, a expansão dos mercados e o surgimento do trabalho assalariado deram nascimento ao sistema capitalista. No Mercantilismo, a ética paternalista cristã, católica, ao condenar a aquisição de bens materiais, entrava em conflito com os interesses dos mercadores-capitalistas. Aos poucos, o Estado nacional passou a ocupar o lugar da Igreja na função de supervisionar o bem-estar da coletividade. Gradativamente, os governos tornaram-se influenciados pelo pensamento mercantilista. Leis paternalistas, como a Lei dos pobres, deram lugar a leis que beneficiavam os interesses dos Mercantilistas e do capitalismo nascente, como a Lei do cercamento das terras, ou as leis que davam incentivo à indústria ou criavam barreiras às importações.

A idéia central do Mercantilismo de que o acúmulo de metais preciosos era sinônimo de riqueza

foi muito criticada pelos economistas das escolas fisiocrática e clássica. A moeda passou a ter um fim em si mesma e não um meio de troca. A produção foi relegada a um plano secundário. No entanto, a valorização dos metais preciosos como moeda trouxe segurança nos pagamentos internacionais. De outra parte, o aumento do estoque de metais preciosos, ou seja, de moeda, reduzia as taxas de juro, o que estimulava os investimentos, a produção e o emprego, contribuindo para o surgimento do modo de produção capitalista.

3 No Feudalismo, além das trocas serem basicamente locais e regionais, elas não formavam o centro do sistema econômico, como no Mercantilismo. O feudo era muito fechado em si mesmo e as relações externas limitavam-se ao estritamente necessário.

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2 - CAPITAL E CAPITALISMO EM PERSPECTIVA HISTÓRICA

O capital é um dos fatores de produção utilizados para facilitar o trabalho humano e aumentar a

sua produtividade, ou seja, para permitir a obtenção da maior quantidade possível de produto por

trabalhador, durante determinado período de tempo. Ele é constituído pela soma de bens, monetários e não monetários, possuídos por uma pessoa ou por uma empresa, constituindo um patrimônio, e que tem como finalidade gerar uma renda, através de aplicações financeiras ou por seu emprego na produção, com o fim de produzir outros bens e gerar lucro.

2.1 EVOLUÇÃO DO CAPITALISMO

O capitalismo caracteriza-se pelo emprego de trabalhadores assalariados, juridicamente livres,

que vendem a sua força de trabalho aos proprietários dos meios de produção, denominados empresários, que os contratam para produzir bens ou serviços a serem destinados ao mercado, com

o fim de obter lucro. Para gerar esse lucro, definido como a diferença entre as receitas totais e os custos totais, o capitalista aluga ou constrói prédios, compra máquinas e matérias-primas e contrata trabalhadores, incluindo-se pessoal de escritório e técnicos de nível médio e superior.

O capitalismo é um sistema econômico e social que sucedeu o Mercantilismo e que se baseia na

propriedade privada dos meios de produção e de troca. Esse sistema se caracteriza pela busca do lucro, pela livre iniciativa e pela concorrência entre os indivíduos e as empresas. O capitalista é

aquele que possui capitais e que os empresta para a realização de empreendimentos por terceiros ou que os aplica diretamente na produção de bens e serviços. Assim, qualquer pessoa que tenha determinada quantia de dinheiro e que compre ações em uma corretora, ou que aplique no sistema financeiro para receber juros, está se comportando como capitalista. O capitalismo, tal qual conhecemos hoje, passou por várias fases evolutivas. Primeiro, ele emergiu no próprio Mercantilismo. Com o empobrecimento dos nobres, houve grande migração rural-urbana, dando surgimento aos burgos, ou cidades relativamente grandes que serviam de mercado para cidades menores e para as áreas rurais. Os habitantes dos burgos passaram a ser conhecidos como burgueses por se dedicarem ao artesanato e ao comércio. Aos poucos, os burgueses passaram a fazer parte de uma nova classe social, distinta da nobreza e dos agricultores. Os burgueses fizeram fortuna com o comércio, sendo que alguns deles criaram bancos e se dedicaram ao comércio internacional (séculos XIII e XIV). O capital comercial antecedeu, portanto, o modo de produção capitalista propriamente dito. As trocas consistiam no modo de produção característico da Antigüidade e Idade Média. O sucesso de um comerciante mede-se pelo lucro absoluto que retira de seu negócio e pela taxa de lucro. O lucro absoluto é a diferença entre o valor das vendas (receita total) e o valor das compras e de outras despesas (custo total). A taxa de lucro define-se como a razão entre o lucro absoluto e a quantidade de dinheiro empregado na aquisição das mercadorias a serem vendidas, incluindo outros custos, como mão-de- obra e transporte. Assim, se o comerciante gastou R$ 8.000 na compra de mercadorias e R$ 2.000 com outros custos e obteve um lucro total de R$ 1.000, a sua taxa de lucro foi de R$ 1.000 / R$ 10.000, ou seja, 10%. Com a mesma taxa de lucro de 10%, ele pode aumentar o volume de seu lucro absoluto ao empregar mais capital na compra de mercadorias e outros insumos. Empregando R$ 30.000, a taxa de lucro de 10% indica que os lucros absolutos foram iguais a R$ 3.000. A taxa de lucro irá se reduzir pela concorrência, com o ingresso de novos vendedores no mercado. Isso pode implicar na redução dos preços de venda e/ou das quantidades vendidas pelo comerciante típico. No exemplo anterior, mesmo com o preço constante, os lucros absolutos cairão para R$ 2.000, com a limitação das quantidades vendidas, se o empresário-capitalista só puder aplicar R$ 20.000. Inversamente, com a redução do número de concorrentes, o comerciante aumentará seu lucro

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absoluto pelo aumento das quantidades vendidas por unidade de tempo. Assim, se ele vender 16,5 mil unidades de produto por mês, ao preço de R$ 2 a unidade, o volume de vendas montaria a R$ 33.000. Descontando as compras de mercadorias e os gastos com mão-de-obra e outros materiais

(R$ 30.000), o lucro absoluto seria igual a R$ 3.000, o que asseguraria a taxa de lucro de 10%.

Se as vendas aumentarem para 20 mil unidades do produto por mês, as receitas totais subirão

para R$ 40.000. Os lucros absolutos crescerão se os custos aumentarem menos do que proporcionalmente, digamos para R$ 35.500, o que daria um lucro absoluto de R$ 4.500 e uma taxa de lucro de 12,7%. Assim, os lucros absolutos aumentam com a taxa de lucro (receitas elevando-se mais do que os custos) e com o crescimento das quantidades vendidas e dos preços de venda. Desse modo, no Mercantilismo, o capital comercial era constituído pelas mercadorias a serem vendidas e pelos gastos necessários por essa atividade, como aquisição de escravos e sua manutenção, ou o pagamento de salários aos empregados. O capital se reproduzia na forma de dinheiro (D), mercadoria (M) e uma quantidade maior de dinheiro (D’), ou seja: D M D’. O lucro monetário sendo igual a (D’ – D), sendo D’ maior do que D, a taxa de lucro assume a forma (D’ – D) / D. Com o desenvolvimento das trocas e o surgimento do sistema bancário, o capital mercantilista passou a assumir também a forma de capital financeiro (C): o dinheiro D ampliou a sua função de capital mercantil, usado na aquisição de mercadorias para revenda, para exercer uma função financeira. Isso foi a reciclagem do capital mercantil em excesso, que passou a ser utilizado no

empréstimo a reis e a grandes empreendedores, a fim de financiar os seus gastos, como no caso das grandes navegações, ou no tráfico de escravos.

Os lucros obtidos pelo capital financeiro dependem da taxa de juro a que são emprestados, do

volume de dinheiro emprestado e do tempo em que ele ficar de posse do tomador do empréstimo. Os juros podem ser simples, quando incidem somente sobre o principal, e compostos, ao incidirem tanto sobre o principal, como sobre os juros vencidos, ainda não pagos. Um capital emprestado a juros compostos produzem uma quantidade maior de juros, sobre um mesmo capital, do que no caso dos juros simples.

Os juros simples são iguais à seguinte expressão:

Juros = (capital emprestado x taxa de juro x tempo da aplicação) / 100), ou J = C.i.t / 100 Assim, um capital de R$ 1.000 emprestado a 10% ao ano durante 3 anos gera como juros a quantia de R$ 300, ou seja: (R$ 1.000 x 10 x 3) / 100 = R$ 300

A lei da usura proíbe os empréstimos a juros muito altos. No Brasil, a Constituição de 1988

limitou a cobrança de juros reais a 12% ao ano. No entanto, esse dispositivo constitucional ainda necessita de regulamentação, através de lei complementar, pois não define o que se entende por “juro real”, nem estabelece punições aos infratores. A equipe econômica do Governo Federal é contra esse dispositivo, pois é através de altas taxas de juro que o Governo pode conter o consumo interno, lançar títulos públicos no mercado e atrair capitais estrangeiros (ver Souza, 2003, cap. 8).

Na Idade Média, a cobrança de juros constituía um problema ético, sendo considerado usura,

não importando o valor da taxa cobrada. A expansão do comércio mundial e o crescimento dos excedentes de capitais sem aplicação em alguns segmentos da sociedade, ao mesmo tempo em que

havia carência de recursos em outros setores, levou a Igreja a fazer concessões, passando a proibir os empréstimos a juros somente para o consumo pessoal.

A Reforma Calvinista do século XVI justificou teologicamente a cobrança de juros, porque

constituía uma renúncia a um investimento lucrativo, enquanto o tomador do empréstimo poderia

obter lucros com os capitais emprestados. Logo, quem emprestasse o seu dinheiro também poderia participar desses lucros, mediante o recebimento de juros.

O capitalismo propriamente dito somente emergiu na Europa no século XVI, com o

desenvolvimento da produção manufatureira, na esfera produtiva. Este foi o capitalismo manufatureiro, fase intermediária entre o artesanato e as grandes corporações industriais da Revolução Industrial. Essa forma de capitalismo começou, de um lado, com os comerciantes empregando mão-de-obra assalariada na indústria doméstica incipiente; de outro lado, o capitalismo

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manufatureiro surgiu no momento em que determinados burgueses e artesãos romperam com as limitações das corporações de ofício e passaram a contratar trabalhadores assalariados (Singer, 1993, p. 137). As suas tarefas limitavam-se a de alugar prédios, comprar matérias-primas, supervisionar a produção e os trabalhadores e a vender os produtos acabados no mercado.

As corporações de ofício eram associações de pessoas que exerciam uma mesma profissão. Os artesãos se dividiam em mestres, companheiros e aprendizes. Os artesãos mantinham no interior da corporação os segredos de seu ofício. Elas foram suprimidas em 1791 pela Revolução Francesa, por entravarem o desenvolvimento econômico.

O capitalismo aperfeiçoou-se logo que os empreendedores passaram a utilizar ferramentas e

máquinas cada vez mais eficientes, o que elevou a produtividade do trabalho e a taxa de lucro. Com o tempo, novos capitais ficaram disponíveis. Com a redução da taxa de juro dos empréstimos, cresceram os investimentos na indústria e nos transportes, o que desenvolveu a atividade

manufatureira.

A invenção da máquina a vapor, o aperfeiçoamento de novas máquinas de fiar e tecer e o

surgimento das ferrovias constituíram inovações tecnológicas que expandiram a atividade produtiva em nível mundial. Esta foi a Revolução Industrial, surgida na Inglaterra entre 1750 e 1830, que consolidou o capitalismo industrial e impulsionou a economia inglesa, tornando-a a maior potência econômica antes do final do século XIX (ver Souza, 1999, Cap. 2). O capitalismo industrial caracteriza-se pelo emprego intensivo de máquinas e equipamentos, bem como pela adoção crescente de inovações tecnológicas poupadoras de mão-de-obra. Com as inovações, surgem novos produtos e novos processos de produção, mais baratos e mais eficientes. A Revolução Industrial inglesa foi precedida por uma verdadeira revolução na agricultura e

pela revolução nos transportes. A revolução agrícola caracterizou-se pela introdução da lei do cercamento das terras, 4 pelas práticas de drenagem de solos alagados e de irrigação em solos secos, pelo uso de fertilizantes e o cultivo de pastagens e forragens para alimentar o gado no inverno.

A revolução dos transportes foi a construção de canais navegáveis no interior da Inglaterra, a

introdução da navegação a vapor e a construção das ferrovias. Com isso, reduziram-se os custos dos transportes, aumentando o alcance espacial dos bens, ou seja, os produtos passaram a ser vendidos

nos mais distantes territórios. Com a industrialização dos grandes centros e a absorção de grandes contingentes de trabalhadores, os salários subiram relativamente aos preços. Por conseguinte, os custos das empresas se elevaram e a taxa de lucro se reduziu. As empresas menos eficientes (com custos mais altos) acabaram sendo compradas por empresas mais eficientes, ou simplesmente encerraram as suas atividades. Em muitos ramos industriais, o número de empresas reduziu-se substancialmente, gerando oligopólios (poucas empresas) ou monopólios (apenas uma empresa dentro da indústria para produzir e atender o mercado). Desse modo, com a concentração de capitais na forma de grandes empresas e conglomerados industriais, o capitalismo industrial transformou-se em capitalismo monopolista. Pelos ganhos de escala e redução de custos, as grandes empresas conseguem afastar os competidores, permanecendo poucos produtores no mercado ou, às vezes, apenas um produtor. A empresa oligopolista (e, com mais facilidade, a empresa monopolista) domina o mercado, determinando os seus preços com o fim de maximizar lucros. Os ganhos de produtividade, pelo emprego de máquinas mais eficientes, não acarreta redução dos preços dos oligopolistas na proporção do que ocorreria nos mercados de concorrência perfeita (ver Souza, 2003, Cap. 5).

2.2 CONCENTRAÇÃO DO CAPITAL

A concentração do capital é inerente ao modo de produção capitalista, não apenas porque toda

pequena e média empresa procura crescer e tornar-se grande, como também porque, no mundo dos

4 O agricultor que não possuía recursos para o cercamento foi obrigado a vender as suas terras, provocando o aumento do tamanho médio das propriedades rurais.

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negócios, muitas empresas são absorvidas por outras. No processo de inovação tecnológica, característico das economias modernas, a tendência é a de que as empresas não inovadoras venham a fechar as suas portas. Com a introdução de novos produtos e novos processos produtivos, os preços dos fatores de produção e das matérias-primas e componentes manufaturados sobem, pela maior procura, o que eleva os custos de todas as empresas. Como os preços dos novos produtos também sobem, as empresas inovadoras não apenas suportam os custos maiores, como ainda realizam lucro extraordinário. A concentração empresarial ocorre tanto na indústria, como no comércio, nos serviços e no setor financeiro. A própria concorrência capitalista, como já foi referido, aumenta a necessidade de o capitalista aumentar o seu estoque de capital, a fim de elevar a produtividade do trabalho e manter a sua taxa de lucro em crescimento. Desse modo, cada trabalhador possui a sua disposição uma quantidade de equipamentos cada vez maior. O trabalhador japonês ou americano é bem mais equipado do que o trabalhador mexicano ou brasileiro. Assim, a relação capital/trabalho é bem maior nos países desenvolvidos do que nos países em desenvolvimento, o que favorece a formação de grandes empresas e a concentração do capital na maioria dos setores industriais. Por seu turno, com a concentração do capital, os produtos são obtidos com maiores quantidades de capital e menos trabalho e o número de empresas em cada indústria se reduz ainda mais, gerando oligopolização. De outra parte, com a centralização do capital em grandes empresas, gera-se uma concorrência desigual entre estes oligopólios e as empresas de menor porte. Em nível mundial, essa dicotomia materializa-se entre as grandes empresas multinacionais, dos países desenvolvidos, com as empresas de capital nacional, dos países em desenvolvimento. As empresas multinacionais, possuindo uma escala de produção de maior dimensão, de nível mundial, conseguem custos médios inferiores aos das empresas nacionais atuando no mesmo setor, o que lhes permite maior competitividade internacional e maior taxa de lucro. A tendência é essas empresas multinacionais crescerem cada vez mais, ou seja, intensificando a concentração de capital em detrimento de empresas de menor escala, com mercados restritos e dificuldades de exportação. 5 Essas grandes empresas multinacionais controlam também o mercado de capitais em nível mundial. Exceto poucos casos (Microsoft, Rede CNN etc.), elas não possuem um dono em particular, mas uma miríade de acionistas, incluindo fundos de pensão e clubes de investimentos. A propriedade dessas empresas, em pequenas partes, ou na sua totalidade, é transacionada no mercado de capitais, mediante a venda e a compra de ações, que são títulos emitidos pelas empresas, com direito a dividendos, que representam participação nos lucros da empresa respectiva. Os donos das ações são os capitalistas, que hoje em dia se distribuem aos milhões nos países desenvolvidos, podendo ser um jovem, uma viúva, ou um multimilionário, como Bill Gates, dono da Microsoft. O capitalista, detentor do dinheiro, poderá aplicá-lo em um fundo de investimentos, recebendo juros, ou comprar diretamente uma ação de uma empresa. Neste caso, ele assume riscos de possíveis prejuízos, recebendo dividendos, em caso de lucros. Conforme o tipo da ação, ele poderá ter direito a voto nas assembléias da empresa, passando a influenciar o seu destino. Com o desenvolvimento da informática e dos meios de comunicação em geral (Internet, telefone celular, fibra ótica, transmissão via satélite, redução de tarifas telefônicas etc.) ocorreu um processo de globalização da produção em nível mundial, aumentando os fluxos de capitais entre países. Esses capitais podem ser de risco, ou especulativo (volátil). Os capitais de risco são de longo prazo e correspondem aqueles capitais aplicados diretamente no setor produtivo, quando o aplicador poderá obter ou prejuízos. Os capitais voláteis são de curto prazo e emigram via Internet de um país para outro, instantaneamente, em função dos diferenciais das taxas de juro. Esses investidores podem obter lucros especulativos rápidos, em função de mudanças de curto prazo das condições econômicas das diferentes economias.

5 No caso brasileiro, há o chamado “custo-Brasil”, devido ao excesso de encargos que as empresas sofrem: pesada legislação trabalhista, alta carga tributária (incluindo impostos de exportação), altos custo de transporte entre o local de produção aos portos de exportação (deficiência dos meios de transporte), baixa escolarização da mão-de-obra, altas tarifas portuárias etc.

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3 - PENSAMENTO LIBERAL E CRISES ECONÔMICAS

O Mercantilismo provocou grandes distorções no setor produtivo das economias, como

abandono da agricultura em benefício da indústria, excessiva regulamentação e intervencionismo exagerado do Estado nos negócios privados. Aos poucos, porém, foram surgindo novas teorias sobre o comportamento humano, de cunho liberal e individualista, mais de acordo com as necessidades da expansão capitalista. Como foi visto, o capitalismo foi um sistema que emergiu dos artesãos e comerciantes que se tornaram financistas e grandes empreendedores. Eles recebiam a oposição da nobreza, grandes proprietários de terras, que possuíam privilégios, não pagavam impostos e muitas vezes recebiam rendas vitalícias do Estado.

3.1 FISIOCRACIA E DOUTRINA DO LAISSEZ-FAIRE

Na França, o pensamento econômico constituía um segmento do pensamento filosófico. Com o

movimento enciclopedista liderado por Diderot e d’Alembert, nas primeiras décadas do Século XVIII, os escritos econômicos se multiplicaram. Surgiram pensadores como Turgot (1727-1781), que defendeu a livre circulação de grãos entre as regiões francesas, assim como a liberdade para o comércio internacional e o saneamento das finanças públicas. Antes de Adam Smith (1723-1790), ele formulou o princípio dos rendimentos decrescentes na agricultura e formulou os rudimentos da teoria do equilíbrio econômico. Além do Enciclopedismo, outro movimento intelectual daquela época foi a Fisiocracia, que constituiu a primeira escola econômica de caráter científico. A Fisiocracia foi liderada pelo médico

francês François Quesnay (1694-1774), autor da obra O quadro econômico, em que analisa as variações do rendimento de uma nação. Para “os economistas”, como passaram a ser conhecidos a partir de então, os fenômenos econômicos precisam circular livremente no espaço e entre setores, seguindo leis naturais, como o sangue no organismo humano. Essa idéia de ausência de obstáculos para uma melhor circulação dos bens e serviços, assim como do fluxo de rendas, constituiu o embrião das teorias econômicas modernas. Segundo a doutrina fisiocrática, a sociedade é formada pelas classes produtiva (agricultores), pela classe dos proprietários de terras e pela classe estéril, compreendendo esta última todos os que se ocupam do comércio, da indústria e dos serviços. A agricultura era considerada produtiva por ser, para os Fisiocratas, o único setor que gera valor. Desse modo, os preços agrícolas deviam ser os mais elevados possíveis (teoria do bom preço), a fim de gerar lucros e recursos para novos investimentos agrícolas. Os consumidores seriam compensados pela cobrança de um imposto único sobre a renda dos proprietários de terras e por medidas que reduzissem os preços industriais. A idéia de classe estéril resultou da reação fisiocrática contra a doutrina mercantilista. A moeda passou a ter apenas função de troca e não de reserva de valor, pois este encontra-se somente na agricultura. A indústria e o comércio constituem desdobramentos da agricultura, pois apenas transformam e transportam valores. A terra produz valor por sua fertilidade, seguindo leis físicas, ou de ordem natural. Desse modo, a agricultura precisava ser incentivada para aumentar o produto nacional. No entanto, não era isso que se via na prática: a agricultura era penalizada pela ação discriminatória do Estado. Quando havia boas colheitas, a abundância de produtos reduzia os preços, pois os produtos não podiam ser escoados de regiões com produção abundante para regiões com produção insuficiente. Em caso de más colheitas, a escassez resultante de produtos tendia a aumentar os preços. No entanto, os controles de preços do Governo, para não elevar o custo de vida da população, não permitiam que os agricultores saíssem do prejuízo. Ao mesmo tempo, eles eram sobrecarregados de impostos, uma vez que o Governo obtinha suas receitas com base na classe produtiva. Os nobres e o clero praticamente não pagavam impostos.

A redução do jugo do Estado poderia diminuir com uma conduta mais liberal, deixando o

mercado agir naturalmente. Turgot pregava a livre circulação de bens e a liberdade total para

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empreender, assim como os Fisiocratas, como uma maneira de desenvolver a economia. Com a presença de uma lei natural regulando a ordem econômica, os homens precisam agir livremente; qualquer intervenção do Estado inibiria essa ordem, ao criar obstáculos à circulação de pessoas e de bens. Assim, eles propunham a redução da regulamentação oficial, para aumentar a produtividade

da economia, e a eliminação de barreiras ao comércio interno e a promoção das exportações. Ao se proibir as exportações de cereais, aumenta a oferta interna e reduz os preços, o que reduz os lucros, impede novos investimentos e diminui a produção na safra seguinte. Em relação aos demais setores da economia, para manter baixos os preços das manufaturas e beneficiar os consumidores, os Fisiocratas propunham o combate aos oligopólios (poucos vendedores) e o fim das restrições às importações. O pensamento fisiocrático era, portanto, liberal,

traduzindo-se na famosa divisa laissez-faire, laissez passer

O principal defeito do pensamento fisiocrático era a premissa de que somente a terra gerava

valor. Com isso, eles se mantinham muito tolerantes em relação à classe dos proprietários e à nobreza. Este era a diferença fundamental entre os Fisiocratas e Turgot. Para este último, o valor encontra-se no trabalho e esse pensamento faz dele um precursor da Economia clássica.

(deixai fazer, deixai passar

).

3.2 ECONOMIA CLÁSSICA

O liberalismo e o individualismo dos clássicos estavam associados ao bem comum: os homens,

ao maximizarem a satisfação pessoal, com o mínimo de dispêndio ou esforço estariam contribuindo para a obtenção do máximo bem-estar social. Tal harmonização seria feita, segundo Adam Smith (1723-1790), por uma espécie de mão invisível: o livre funcionamento do mercado, com o sistema

de preços determinando as quantidades a serem produzidas e vendidas, gera automaticamente o equilíbrio econômico. No preço correspondente ao equilíbrio, as quantidades demandadas pelo público corresponde às quantidades ofertadas pelas empresas. Não há excesso de produtos não vendidos (aumento dos estoques não desejados), nem escassez dos mesmos (consumidores não atendidos). O mercado funciona como se houvesse uma mão invisível regulando o equilíbrio entre as quantidades ofertadas e demandadas.

A idéia de satisfação pessoal dos consumidores e de maior bem-estar do conjunto da população

está relacionada com a doutrina hedonística do prazer 6 . Essa doutrina, igualmente presente entre os Fisiocratas, também leva à idéia de racionalidade: os consumidores vão optar pela obtenção de

maiores quantidade de bens (maior satisfação) e pelo pagamento de menores preços; os produtores desejam sempre maiores lucros, motivo pelo qual tendem a pagar menos pelos insumos e a pedir os maiores preços possíveis pelos seus produtos.

A Reforma protestante de João Calvino contribuiu para a difusão do individualismo, mola

mestra do pensamento clássico, ao defender o trabalho como vocação e o sucesso pessoal resultante. Quando todos trabalham arduamente para obter maiores salários e maiores lucros, aumenta simultaneamente a riqueza nacional, o que gera novos empregos, maior arrecadação de impostos e o desenvolvimento econômico. A busca de maiores lucros, de fortuna pessoal, é motivada por uma

espécie de egoísmo individual, mas que leva ao bem-estar coletivo.

O pensamento dos economistas clássicos fundamenta-se, portanto, na liberdade individual e no

comportamento racional dos agentes econômicos. Ao Estado caberia assegurar essa liberdade, proteger os empreendimentos e os direitos de propriedade; manter a ordem e a segurança dos cidadãos; investir na educação, saúde e em certas obras públicas. Com a publicação da Riqueza das nações, em 1776, tendo como experiência a Revolução Industrial inglesa, em curso desde as primeiras décadas do Século XVIII, Adam Smith estabeleceu as bases científicas da teoria econômica moderna (Smith, 1983). Ao contrário dos Mercantilistas e Fisiocratas, que consideravam os metais preciosos e a terra, respectivamente, como os geradores da riqueza nacional, para Adam Smith o elemento essencial da riqueza é o trabalho produtivo. Assim,

6 Ver no Glossário o termo Hedonismo.

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o valor pode ser gerado fora da agricultura, toda vez que uma mercadoria for vendida a um preço superior ao seu custo de produção.

O trabalho fica ainda mais produtivo com o emprego de mais capital; a maior produtividade

resultante incrementa o valor do produto total, por unidade de tempo. São as trocas e a expansão das áreas de mercado que aumentam a demanda, possibilitando maior volume de produção, com menor custo (economias de escala), mediante o emprego de trabalho e capitais adicionais. A seqüência maior escala, menores custos, maior produtividade dos fatores capital e trabalho e maiores lucros implica em novos investimentos e geração de novos empregos; em suma, implica no crescimento econômico nacional. Desse modo, quando os mercados tornam-se nacionais e internacionais, fica possível a especialização produtiva dos trabalhadores, o que gera a seqüência referida. De outra parte, o aumento da massa salarial da economia nacional dinamiza o setor de mercado interno. O aumento

da produção desta vez para satisfazer o mercado interno nacional possibilita nova divisão do

trabalho (especialização produtiva) e uma nova seqüência redução de custos médios e crescimento econômico.

A economia de Adam Smith conhece, portanto, expansão contínua, enquanto for possível

ampliar a dimensão dos mercados e empregar novos trabalhadores produtivos. A acumulação de capital desempenha também um papel crucial ao aumentar a produtividade dos trabalhadores. O progresso técnico resultante permite aos empresários o pagamento de salários mais elevados,

enquanto o crescimento demográfico e a concorrência entre os trabalhadores exercem efeito oposto.

O pensamento de Adam Smith foi aperfeiçoado por seu principal discípulo, David Ricardo

(1772-1823), autor de Princípios de economia política e tributação (Ricardo, 1982). Para Ricardo,

o crescimento demográfico exerce efeito nocivo sobre a economia, ao elevar a demanda de

alimentos. Isso ocorre porque o aumento do custo de vida repercute-se sobre a expansão dos salários industriais, reduzindo a taxa média de lucro do conjunto da economia. Com isso, os investimentos reduzem-se, afetando o nível de emprego e o produto total.

Desse modo, o grande problema da economia estava na agricultura, pela existência de rendimentos decrescentes, à medida que ela mostrava-se incapaz de produzir alimentos baratos para

o consumo dos trabalhadores. Como a agricultura constituía mais de dois terços do produto

nacional, o aumento dos custos de produção da agricultura e a conseqüente redução da taxa de lucro

se repercutia automaticamente no conjunto da economia, provocando estagnação econômica. Ricardo elaborou a teoria da renda da terra, segundo a qual, à medida que a população cresce,

ocupam-se terras cada vez piores, aumentando os custos na margem de cultivo, enquanto a renda da terra, embolsada pelos proprietários, expande-se nas terras de melhor fertilidade. Por definição, no início do processo de ocupação de uma área geográfica, a população ocupa as melhores terras (tipo A). Nessa área, não havendo nenhuma outra terra pior sendo utilizada, não existe renda. A receita total gerada apenas cobre os custos e os lucros são normais. O valor da produção, ou receita total, é distribuído somente entre os capitalistas arrendatários e os trabalhadores. Crescendo a população, aumenta a demanda de alimentos e os preços sobem, o que justifica o emprego de terras piores, do tipo B. Nessa terra pior não existe renda, pois, da mesma forma, as receitas apenas cobrem os custos de produção. Nas terras do tipo A, no entanto, o maior rendimento

da produção agrícola por unidade de área gera uma receita maior do que os custos. Essa diferença é

a renda da terra que os proprietários embolsam. Com o crescimento demográfico persistindo, os preços dos alimentos sobem novamente. Ocupam-se terras ainda piores, do tipo C, embora nestas terras as receitas apenas cobrem os custos totais. Os diferenciais de produtividade geram, no entanto, uma renda nas terras do tipo B e uma renda ainda maior nas terras do tipo A. Essas rendas decorrem, portanto, das diferenças da produtividade da terra, sendo embolsada pelos proprietários, ficando os capitalistas arrendatários apenas com o lucro normal. 7 Ricardo demonstrou que, com o crescimento demográfico no longo prazo, caem tanto os lucros

7 Para maiores detalhes, ver Souza (1999, p. 103-107).

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dos arrendatários, como os salários reais (salário individual/preço dos alimentos) e a taxa de lucro (lucro absoluto/capital empregado). Por outro lado, aumentam os preços dos alimentos, os salários monetários e a renda da terra dos proprietários. A queda da taxa de lucro reduz os investimentos na agricultura e em toda a economia.

A solução apontada por Ricardo foi o controle da natalidade e a livre importação de alimentos,

para consumo dos trabalhadores. Com a importação de alimentos, evita-se que os preços subam e

que a agricultura se desloque para terras piores, o que evita o aumento dos custos, a deterioração da taxa de lucro e a queda dos investimentos em toda a economia. A teoria da população de Thomas Malthus, adotada pelos clássicos, diz que a população

ao passo que, na melhor das hipóteses, a

A população crescerá sempre que os

salários nominais (w) estiverem acima do salário mínimo de subsistência (w*), definido por Ricardo

como aquele salário pago na margem extensiva de cultivo. Nesse caso, haverá incentivo para casamentos precoces e aumento do tamanho da família. A população irá reduzir-se se os salários

monetários pagos no mercado forem inferiores ao salário mínimo de subsistência (w < w*); a população permanecerá estacionária quando tais salários forem iguais por um período relativamente longo (ver Souza, 1999, p. 148).

A igualdade entre o salário nominal de mercado e o salário mínimo de subsistência é uma

característica do estado estacionário, situação de longo prazo em que cessa toda acumulação de capital. Isso ocorre porque a taxa de lucro de mercado (r) iguala-se à taxa de lucro mínima (r*), definida como o juro pago pelo capital emprestado (i), mais um pequeno diferencial correspondente ao risco dos negócios (i*). Desse modo, o produto da economia não cresce mais, assim como o

nível de emprego e a população total.

O estado estacionário foi melhor estudado por Stuart Mill (1806-1873), em sua obra Princípios

de economia política (Mill, 1983). Segundo ele, tanto a concorrência entre os capitalistas por melhores oportunidades de negócios, como o crescimento demográfico, que leva o cultivo para as piores terras, aproximam o estado estacionário, enquanto a livre importação de alimentos e as inovações tecnológicas (recuperação de terras alagadas ou áridas, novos métodos de cultivo, sementes geneticamente melhoradas, uso de fertilizantes e corretivos do solo) afastam o fantasma do estado estacionário para épocas futuras. Quando o progresso técnico deixar de ocorrer, em um futuro muito remoto, o estado estacionário acabará finalmente acontecendo. Toda a população, porém, apresentará nível de vida tão elevado, que o objetivo social não seria mais o consumo e o enriquecimento, mas o lazer e a busca do aperfeiçoamento cultural e espiritual. Como se percebe, os economistas clássicos enfatizaram a oferta, isto é, o lado da produção. A idéia era a de que tudo o que fosse produzido seria consumido. Essa suposição foi melhor explicitada por Jean-Baptiste Say (1767-1832), ao formular a lei dos mercados (lei de Say) em seu livro Tratado de economia política (Say, 1983). Segundo ele, “a oferta cria a sua própria procura”. Isso se explica porque os clássicos supunham que a produção realiza-se com proporções fixas, ou seja, todo acréscimo de produção exige o aumento simultâneo e proporcional de capital e de trabalho. Assim, ao aumentar a produção há ao mesmo tempo o pagamento de uma renda na mesma

proporção que irá ser gasta nessa produção adicional. Os economistas clássicos supunham que a economia encontrava-se em equilíbrio com pleno emprego de fatores, isto é, que ela sempre se

aumenta em proporções geométricas (1, 2, 4, 8

produção de alimentos cresce a taxas aritméticas (1, 2, 3, 4

),

).

encontrava sobre a fronteira de possibilidades de produção. Uma nova acumulação de capital retirava trabalhadores subempregados de outros setores e gerava um fluxo de renda correspondente ao valor dos novos bens levados ao mercado, restabelecendo de imediato o equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada.

A lei de Say do equilíbrio dos mercados foi criticada por Thomas Robert Malthus (1766-

1834), em sua obra Princípios de economia política. Segundo ele, existem crises no sistema capitalista resultantes do subconsumo da população, ou seja, do crescimento insuficiente da

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demanda efetiva 8 (Y D ), definida como a soma do consumo agregado (C), gastos com investimento (I), gastos do Governo (G) e exportações menos importações (X-M). A demanda efetiva define,

portanto, o nível do produto total doméstico absorvido pela economia, em função de sua capacidade de pagamento.

O subconsumo decorre da redução gradual dos salários reais, o que impede a população manter

seu consumo em crescimento ou nos mesmos níveis ano após ano. Com estoques não vendidos, as empresas reduzem a produção no período seguinte. Se a queda do poder de compra da população for sistemática, a acumulação de capital tende a declinar, assim como a oferta total (Y S ) e o nível de emprego. Desse modo, aumentos de oferta não geram demandas adicionais no nível correspondente, havendo uma tendência de Y S manter-se acima de Y D .

A lei de Say não se verifica também, segundo Malthus, porque os clássicos não levaram em

conta os gostos e as necessidades dos consumidores e porque os trabalhadores desempregados já

mantém algum nível de consumo prévio. Além disso, a paixão pela acumulação e o receio da concorrência leva o capitalista a investir acima das necessidades da demanda total.

3.3 ECONOMIA MARGINALISTA OU NEOCLÁSSICA

As idéias marginalistas surgiram por volta de 1870 como reação aos movimentos socialistas de meados do século XIX, que eclodiram devido à concentração de renda e à intensa migração rural-urbana decorrentes da industrialização. Os marginalistas ou neoclássicos combatiam a teoria clássica baseada no valor-trabalho e na idéia de que a renda da terra não era socialmente justa. Novas teorias foram desenvolvidas para o valor, distribuição e formação dos preços. Suas suposições são as de que a economia é formada por um grande número de pequenos produtores e consumidores, incapazes de influenciar isoladamente os preços e as quantidades no mercado. Os consumidores, de posse de determinada renda, adquirem bens e serviços de acordo com seus gostos, a fim de maximizarem sua utilidade total, derivada do consumo ou da posse das mercadorias. Essa é uma concepção hedonista, segundo a qual o homem procura o máximo prazer, com um mínimo de esforço. Dados os preços de mercado, os produtores adquirem os fatores de produção necessários a fim de combiná-los racionalmente e produzir as quantidades que maximizarão seus lucros. Os fatores têm preços determinados por sua escassez e utilidade no processo produtivo. Não há mais conflito entre as classes sociais na distribuição do produto, como na Economia clássica, mas harmonia entre

os agentes. Isso se explica porque, no pensamento marginalista, a distribuição do produto efetua-se segundo as produtividades marginais de cada fator; os salários passaram a ser flexíveis (determinados pela interação entre a oferta e a demanda de trabalho) e não mais de subsistência (fixos), como no pensamento clássico.

A essência do pensamento marginalista pode ser sintetizada em 10 pontos (Oser & Blanchfield,

1983, p. 207):

1) raciocínio na margem: a decisão de produzir ou consumir vai depender do custo ou benefício proporcionado pela última unidade; 2) abordagem microeconômica: o indivíduo e a firma estão no centro da análise, cada bem levado ao mercado é único ou homogêneo, possuindo um preço que equilibra sua oferta com a demanda; 3) método abstrato-dedutivo: abstração teórica, argumentação lógica e conclusão; 4) concorrência pura nos mercados, sendo o monopólio uma exceção: muitos vendedores e compradores concorrem no mercado por bens e serviços; as firmas são pequenas e individualmente não conseguem influenciar o preço de equilíbrio de mercado; 5) ênfase na demanda como elemento crucial para determinar os preços, ao contrário dos clássicos que enfocavam a oferta, ou custo de produção;

8 Termo empregado por Keynes em 1936. A demanda efetiva foi definida como sendo o ponto em que, em um determinado momento, a demanda agregada torna-se igual ao produto total da economia (Keynes, 1990, p. 38).

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6) teoria da utilidade: a utilidade que as pessoas têm no consumo dos bens, determinada por seus gostos, influencia as quantidades demandadas de cada bem e, então, seus preços. Há uma

ênfase em aspectos psicológicos, com a consideração da abordagem hedonista de prazer (satisfação)

e sofrimento (custos);

7) teoria do equilíbrio: as variáveis econômicas interagem e o sistema manifesta uma tendência ao equilíbrio pelo jogo das livres forças de mercado; 8) direitos de propriedade: cada proprietário recebe pela posse de um fator de produção, o que reabilitou a renda da terra, considerada por Ricardo como um pagamento desnecessário e

improdutivo;

9) racionalidade: as firmas e consumidores maximizam lucro ou satisfação e não agem por impulso, capricho ou por objetivos humanitários. Embora este último ponto possa ser louvável, ele não faz parte das suposições econômicas marginalistas;

10) laissez-faire, ou liberdade de mercado: toda e qualquer interferência nos automatismos do mercado gera custos e reduz o bem-estar social. Em sua obra Princípios de Economia, de 1890, o inglês Alfred Marshall (1842-1924) realizou

a chamada primeira síntese neoclássica, tentando conciliar os pensamentos clássico e marginalista, dando nascimento ao termo neoclássico (Marshall, 1982). Segundo os economistas neoclássicos, a utilidade de um produto determina o valor dos bens, a quantidade demandadas e, então, o preço de equilíbrio do mercado de cada bem. Isso foi representado por Marshall em um gráfico de duas dimensões, determinando o equilíbrio parcial pela interação da oferta e da demanda de cada bem, segundo os seguintes passos:

1 o - quanto maior a utilidade do bem, tanto mais ele será procurado pelas pessoas e tanto maior será o seu valor e seu preço; 2 o - quanto maior for o preço, tanto mais as firmas querem produzir e vender tal produto; 3 o - o equilíbrio do mercado é aquele em que há um preço único para vendedores e compradores, em que a quantidade demandada é igual à quantidade ofertada, como se pode ver na Figura 2.1. Nessa figura, observa-se que quando os preços são baixos, as pessoas desejam comprar maiores quantidades do produto. Assim, quando o preço (P) for igual a 1, as quantidades demandadas (Q) do bem são iguais a 40; com P = 2, Q = 30; P = 3, Q = 20; P = 4, Q = 10; P = 5, Q

= 0.

Essa relação inversa entre quantidades demandadas e preços gera uma curva de demanda negativamente inclinada. Para derivar esta curva de demanda negativamente inclinada, Marshall supôs que, no curto prazo, as utilidades marginais de cada indivíduo permanecem constantes, isto é, que os consumidores são racionais e que os gostos não mudam. A oferta apresenta-se regulada pelos custos de produção e uma série de quantidades são produzidas em função de um conjunto de preços. Quando os preços são altos, as empresas desejam produzir e vender maiores quantidades. Com o preço igual a 5, as quantidades ofertadas pelas empresas são iguais a 40 unidades do produto; com P = 4, Q = 30; P = 3, Q = 20; P = 2, Q = 10; P = 1, Q = 0. A relação direta entre quantidades ofertadas e preços gera uma curva de oferta positivamente inclinada.

= 1, Q = 0. A relação direta entre quantidades ofertadas e preços gera uma curva

17

A interação entre a oferta e a demanda determina o preço e as quantidades de equilíbrio de mercado. Na Figura 2.1, observa-se que quando o preço do produto for igual a 3, a quantidades demandadas são iguais a 20, as mesmas quantidades que as firmas estão dispostas a ofertar no mercado. Este é o preço de equilíbrio, em que não falta nem sobra produto no mercado. Marshall manteve os princípios clássicos da “mão invisível” da concorrência e a liberdade de mercado (laissez-faire). Esses princípios asseguram que a maximização de lucros leva os proprietários dos fatores a receber de acordo com a contribuição de cada um no processo produtivo (produtividade marginal). A produtividade marginal de um fator corresponde ao acréscimo do produto total proporcionado pelo emprego de uma unidade a mais do mesmo. O empresário terá interesse em empregar essa unidade adicional (por exemplo, o operador de uma máquina) até o ponto em que o valor da produtividade marginal for igual a seu preço (salário) (raciocínio pela margem). Os salários e os preços, perfeitamente flexíveis, são regulados pela oferta e demanda de trabalho, ou pela oferta e demanda de bens e serviços no mercado. A produção obtém-se com proporções variáveis de capital e trabalho, cujo emprego dependerá de seus custos: um mesmo nível de produto pode ser obtido com mais capital e menos trabalho e vice-versa. Na economia clássica, pelo contrário, a função de produção apresentava proporções fixas: todo acréscimo de produção necessitava de adição simultânea de capital e trabalho. Uma diferença fundamental entre a Escola neoclássica e a Escola clássica diz respeito à teoria do valor. Enquanto nesta última o valor é determinado pela quantidade de trabalho incorporado nos bens, na primeira o valor depende da utilidade marginal. Desse modo, pelo pensamento neoclássico, quanto mais raro e útil for um produto, tanto mais ele será demandado e valorizado e tanto maior será o seu preço.

3.4 TEORIAS DO VALOR

Em economia, um produto é considerado um bem porque possui um valor, que pode ser definido pela utilidade, ou pela quantidade de trabalho produtivo incorporado. A primeira definição é a da teoria do valor-utilidade, proveniente da Escola neoclássica; a segunda é a da teoria do valor-trabalho, adotada na Escola clássica e na Escola marxista. Pela teoria do valor-utilidade, um bem possui valor porque apresenta utilidade para o consumidor, ao mesmo tempo em que lhe proporciona satisfação. O alimento ingerido por uma pessoa elimina a sua fome e satisfaz uma necessidade, que é a da alimentação. No entanto, as pessoas têm preferências distintas pelos diferentes alimentos. Embora a carne seja rica em proteínas, o vegetariano prefere legumes; algumas pessoas contentam-se apenas com arroz, feijão e carnes; outras “necessitam” ainda de saladas. Na medida em que os produtos são mais procurados, os seus preços se elevam, porque o seu “valor” aumenta. Significa dizer que a noção de valor, por essa teoria, é subjetiva: os preços de alguns produtos sobem mais do que o de outros ao se tornarem mais procurados. Assim, a carne bovina possui maior preço do que outras carnes; as roupas da estação que se avizinha possui maior procura e, portanto, maior preço do que as roupas da estação que está chegando ao fim. Um vestido da moda é mais valorizado do que um vestido fora de moda. Entre os vestidos da moda, o seu preço dependerá ainda de vários fatores, como qualidade do tecido, desenho, nome da etiqueta que o desenhou (grife) e outros detalhes, incluindo a cor e a preferência das mulheres. Através de campanhas publicitárias ativas, determinadas marcas de produtos ampliam seu espaço no mercado, porque as agências de publicidade conseguem convencer os consumidores de que o produto em questão possui qualidade superior. Assim, quando essas marcas tornam-se preferidas e mais procuradas, os preços desses produtos se elevam. Como exemplos, podem ser citadas determinadas marcas de refrigerantes, de sapão em pó e de outros produtos de limpeza. Quando algumas marcas de produtos são lançadas no mercado, de forma pioneira, elas chegam a ser confundidas com o próprio produto. É o caso da Gillette e da Xerox, que chegaram a ser

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confundidas, respectivamente, com lâminas de barbear e cópias fotostáticas. Em muitos casos, as marcas tornam-se aceitas pelos consumidores em função da qualidade do produto. Com o tempo, surgem produtos concorrentes no mercado, de boa qualidade, o que ajuda a reduzir os preços dos produtos mais tradicionais. As campanhas publicitárias tornam-se então mais acirradas, podendo virem a ser classificadas como propagandas enganosas, com sanções previstas no Código de Defesa do Consumidor. 9 A teoria do valor-trabalho considera que o valor de um produto depende da quantidade de trabalho produtivo incorporado na sua fabricação, medido pelo tempo empregado. Essa teoria parte da idéia de que a atividade econômica realiza-se em termos coletivos, ou socialistas. A atividade produtiva não seria apenas técnica, envolvendo também relações sociais entre patrões e empregados. Por essa teoria, se um vestido saiu da moda, o seu valor permanece o mesmo, porque ele continua necessitando do mesmo número de horas para a sua confecção. Supõe-se, nas sociedades coletivas, que as pessoas vão continuar comprando os mesmos produtos, com a mesma intensidade, em todos as épocas do ano, sem qualquer influência das grifes. Em outras palavras, não há subjetividade na determinação do valor e no comportamento do consumidor. A idéia é a de que o valor dos bens depende apenas do grau de dificuldade de sua fabricação. Assim, segundo essa teoria, um barril de petróleo extraído do mar pela Petrobrás, a dois mil metros de profundidade, deveria custar mais caro do que um barril de petróleo extraído em terra a poucos metros do solo. Como o produto é o mesmo, ocorre um impasse ao chegar no mercado. O preço acabará sendo fixado pelos custos dos locais de extração mais difícil; ocorrerá lucro puro nas jazidas de menor profundidade, em terra. Este é, em essência, o pensamento de David Ricardo, exposto anteriormente. Percebe-se, desse modo, que o valor não fica determinado pelo mercado, como na teoria do valor-utilidade, mas do lado da produção. Para os economistas clássicos, do século XVIII, os custos do fator trabalho, constituindo praticamente a totalidade dos custos de produção, determinava o valor dos bens. Assim, o custo médio de produção de um bem Y coincidia com o seu preço, denominado preço de produção, ou preço natural (p n ). Ao levar esse bem Y no mercado, se o produtor conseguisse vendê-lo por um preço de mercado (p m ) superior ao preço natural, então ele teria um lucro extraordinário (lucro puro), uma vez que o lucro normal está incorporado nos custos de produção (é a remuneração do produtor, como executivo). No século XVIII, as relações comerciais eram muito precárias e as relações econômicas muito simples. Toda a atenção estava centrada no ato de produzir, de onde derivou a lei dos mercados ou lei de Say: tudo o que fosse procurado seria vendido, pois as rendas geradas pela nova produção correspondia, ao mesmo tempo, aos recursos necessitados pelos consumidores para a aquisição da produção aumentada. Desse modo, não haveria crise econômica pela existência de produção não vendida, com aumento de estoques, seja pelo fato das empresas terem produzido acima das necessidades de consumo (crise de superprodução), seja porque o consumo não cresce na proporção da oferta por insuficiência de renda, ou achatamento salarial (crise de subconsumo).

3.5 CRISES ECONÔMICAS

Como na análise clássica, os economistas neoclássicos mantiveram uma visão otimista da economia. Para eles, os frutos do progresso técnico e do crescimento econômico são distribuídos de modo eqüitativo para todos os agentes econômicos, sem conflitos, segundo sua contribuição ao processo produtivo. Contudo, na prática, em muitas oportunidades ocorreram crises econômicas permanecendo a

9 O Art. 37 do Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078 de 11/9/90) define propaganda enganosa ou abusiva qualquer informe

publicitário “capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.” Ao deixar de informar algum dado essencial sobre o produto, a publicidade ainda é considerada enganosa. O código considera abusiva toda publicidade discriminatória, “que incite a violência,

desrespeite valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de

explore o medo ou a superstição

, forma prejudicial ou perigosa à sua saúde e segurança.”

19

oferta agregada (Y S ) maior do que a demanda agregada (Y D ), com desemprego de trabalhadores. Essas crises resultam de superprodução (demanda agregada encontra-se em seu nível correto, estando a oferta acima do nível normal), ou de subconsumo (a oferta agregada encontra-se em seu nível correto, estando a demanda agregada abaixo de seu nível normal). 10 As crises de subconsumo já haviam sido apontadas por Sismonde de Sismondi (1773-1842), em 1819, um pouco antes de Malthus. Afirmava ele que o grande afluxo de trabalhadores irlandeses para a Inglaterra reduzia os salários, concentrando a renda, fazendo com que a população não conseguisse comprar toda a produção gerada pela economia. A crise resulta tanto do achatamento da renda dos trabalhadores, como pelo fato dos empresários empregarem mais máquinas do que trabalhadores, de modo que a receita das empresas cresce, assim como os lucros, mas essa renda adicional não fica nas mãos dos trabalhadores que vêem o seu consumo crescer lentamente. Essa discussão acerca das crises econômicas intensificou-se na França, Alemanha e Rússia porque, para outros pensadores, pelo contrário, o desnível entre oferta e demanda agregadas (Y S > Y D ) resultava, não do subconsumo dos trabalhadores, mas de erros de previsão dos capitalistas (crise de superprodução). Em outras palavras, a partir de um determinado momento, as empresas passariam a produzir além das necessidades de consumo do conjunto da população do país, levando em conta apenas considerações do lado da oferta, como produzir as quantidades exigidas pela maximização de lucro, melhorar a qualidade do produto e reduzir custos, tendo em vista o acirramento da concorrência no mercado. As crises de superprodução resultam, segundo os revisionistas como Tugan-Baranowsky, de erros de avaliação dos capitalistas, uma vez que as decisões de produção são desvinculadas das decisões de demanda. O planejamento central foi então sugerido para coordenar as ações entre os agentes econômicos. Segundo ele, a acumulação de capital aumenta a produtividade, o que eleva a taxa de lucro e estimula novos investimentos. Não importa o quanto o consumo se mantenha baixo, desde que as empresas coordenem a sua produção no nível da demanda. Desse modo, a oferta agregada Y S se manterá sempre igual à demanda agregada Y D sem crise de superprodução ou de subconsumo. Os marxistas adeptos da teoria do subconsumo, como Rosa Luxemburgo (1870-1919), autora de A acumulação do capital (Luxembourgo, 1988), criticam a posição dos revisionistas, porque seria retornar à lei de Say segundo a qual a oferta cria a demanda correspondente. Para os subconsumistas, as crises resultam do subconsumo dos trabalhadores, em razão do achatamento salarial e da concorrência entre os capitalistas. Esta concorrência provoca acumulação acelerada de capital e adoção de tecnologias poupadoras de trabalho. Resulta crescimento maior dos meios de produção em relação à massa salarial paga aos trabalhadores, futuros consumidores. Desse modo, a conquista de mercados externos ao país torna-se a salvação do capitalismo, para escoar a produção excedente através das exportações. Segundo Karl Marx (1818-1883), autor de Contribuição à crítica da economia política (1857), o subconsumo dos trabalhadores resulta de sua exploração pelo capitalista, que procura pagar-lhes salários cada vez menores e a estender a jornada de trabalho. A discussão acerca das crises do sistema capitalista está intimamente associada com a teoria marxista e com a questão da distribuição de renda entre as classes sociais, tema das seções seguintes.

4 - REPARTIÇÃO DE RENDA

Existem duas grandes questões em Economia, a saber: como manter o produto nacional em crescimento contínuo e como repartir os frutos desse crescimento entre as classes sociais. A primeira questão diz respeito ao emprego dos fatores de crescimento: capital (nacional e estrangeiro), disponibilidade de mão-de-obra (quantidade, qualidade), gastos em educação (geral e profissionalizante), investimentos em novas tecnologias (assim como importações de técnicas

10 Distingue-se, ainda, as crises decorrentes da redução da taxa de lucro, mas, no fundo, toda a crise, independente de sua natureza, resulta na redução da taxa de lucro, definida pela razão entre lucro absoluto e capital aplicado.

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geradas em outros países), gastos com saúde, investimentos em infra-estruturas etc. Questões subjacentes ao crescimento, como inflação, crescimento do déficit público, aumento da dívida

pública (interna e externa) e fatores políticos desfavoráveis dificultam a manutenção no tempo de um crescimento econômico mais acelerado. A segunda questão, a distribuição da renda, assume um papel primordial porque ela pode inibir ou entravar a trajetória do crescimento econômico. Se a renda for distribuída em maior proporção para setores que apenas consomem, o investimento total se reduz ao longo do tempo, o que inibe o crescimento econômico. No mesmo sentido, se os salários dos trabalhadores crescerem mais do que

a sua produtividade, a taxa de lucro dos empresários irá se reduzir, desestimulando novos

investimentos. Inversamente, se os salários dos trabalhares forem sistematicamente achatados, haverá redução gradativa de seu consumo, afetando o crescimento do produto no longo prazo. De modo geral, a distribuição da renda entre as classes sociais determinará uma estrutura produtiva específica. Assim, se a renda da classe média subir mais rapidamente do que a renda dos trabalhadores de mais baixa remuneração, então a dinâmica da economia será comandada pela produção de bens de consumo duráveis, como tem sido o caso no Brasil nas últimas décadas. Atualmente, o Governo, nas três esferas, consome grande parte do produto social, porque os seus gastos não param de crescer (pagamentos de juros da dívida interna e externa, previdência social, funcionalismo público etc.). Esse fato prejudica o investimento global, pois o Governo retira dinheiro da economia, mediante a emissão de títulos, a fim de poder pagar os seus gastos, o que reduz o montante que poderia ser destinado ao investimento. Isso ocorre, porque os altos juros pagos pelo Governo torna mais rentável para os investidores (bancos, particulares, empresas produtivas) comprar títulos públicos do que investir no setor produtivo.

4.1 DISTRIBUIÇÃO DE RENDA PELA VISÃO CLÁSSICA E NEOCLÁSSICA

Como foi visto anteriormente, Ricardo preocupava-se com o problema da distribuição da renda. No seu modelo, a renda distribuía-se de maneira desigual entre as três classes sociais consideradas por ele: donos da terra (rentistas), capitalistas (arrendatários) e trabalhadores. Ao longo do tempo, o volume de renda recebida pelos donos da terra crescia mais rapidamente do que os lucros e os salários. Isso se devia ao crescimento demográfico acelerado e à proibição de importar alimentos, que deslocava a produção agrícola para terras piores e mais distantes dos mercados. Os preços dos alimentos subiam, assim como os salários monetários pagos, o que reduzia

a taxa de lucro dos capitalistas. Os salários reais 11 se reduziam, diminuindo o poder de compra dos trabalhadores. Isso piorava as condições econômicas dos arrendatários e dos trabalhadores, enquanto a situação dos rentistas melhorava cada vez mais, uma vez que eles passavam a receber uma renda adicional pelos diferenciais de produtividade das terras melhores e mais próximas dos mercados. Ricardo combatia essa situação, porque a redução da taxa de lucro dos capitalistas acabava afetando a sua propensão a investir, o total dos investimentos e a taxa de crescimento do produto nacional. Isso era importante, porque a taxa de lucro da produção agrícola afetava a taxa de lucro da indústria e do setor terciário. Ricardo acabou demonstrando que a taxa de lucro da indústria e da economia como um todo acabava sendo determinada pelos salários pagos aos trabalhadores rurais

na fronteira agrícola. A solução apontada por ele foi o controle demográfico e a livre importação de

alimentos e matérias-primas mais baratas do resto do mundo. Essa idéia fundamentava o pensamento liberal dos economistas clássicos. Mais tarde, Stuart Mill acabou demonstrando que as inovações tecnológicas na agricultura, por aumentar a produtividade, neutraliza em parte os rendimentos decrescentes da agricultura, viabiliza terras improdutivas marginais (áreas secas, ou alagadas, terrenos com declives muito acentuados) e

11 Os salários nominais (w) são os valores efetivamente recebidos pelos trabalhadores, enquanto os salários reais são a relação entre os salários e os preços (w/p), ou seja aquilo que eles podem realmente comprar. Assim, se os salários nominais subirem 10% e os preços (p) também subirem 10%, ou salário real e o poder de compra dos salários permanecem inalterados.

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mantém o crescimento econômico. 12 Para os economistas clássicos, portanto, a situação econômica na margem de cultivo afetava o conjunto da economia. Esse raciocínio foi mais tarde consolidado pelos economistas neoclássicos, ou marginalistas, a partir de 1870, que romperam com a teoria clássica do valor-trabalho. Como foi visto, para eles, o valor determina-se pela utilidade dos bens e pelo grau subjetivo de satisfação que eles proporcionam aos consumidores. Essa utilidade é decrescente, como pode ser visto quando temos sede: os primeiros goles de água nos proporcionam um grau maior de satisfação, que vai decrescendo à medida que a sede diminui, chegando a um ponto de saturação. Para os neoclássicos, o produto depende da combinação eficiente dos fatores produtivos capital, trabalho, capacidade empresarial e recursos naturais. A produtividade de cada fator diminui à proporção que o seu emprego aumenta no processo produtivo, permanecendo os demais fatores fixos. No equilíbrio, a produtividade marginal de cada fator é igual a seu preço. Assim, os trabalhadores receberão um salário igual à sua produtividade marginal; ou seja, o último trabalhador receberá um salário, na margem, exatamente igual ao que irá produzir. Este equilíbrio será retransmitido para toda a economia em um mundo onde predomina a concorrência perfeita. Desse modo, o total da renda gerada na economia será distribuída da seguinte maneira: aos capitalistas, mediante os juros que recebem pelos capitais emprestados; aos empresários, pelos lucros de seus empreendimentos; aos donos das terras, prédios e jazidas pelos aluguéis recebidos; finalmente, aos trabalhadores, pelos salários a que têm direito. Quando a economia cresce, há uma distribuição automática das novas rendas aos proprietários dos fatores capital (juros), capacidade empresarial (lucros), recursos naturais (aluguéis) e trabalho (salários), em função da produtividade marginal respectiva. Incluindo-se a tecnologia como um quinto fator, teríamos os royalties, ou direitos, como a remuneração correspondente. Na visão neoclássica, a distribuição de renda em função da produtividade marginal opera-se, portanto, harmoniosamente.

4.2 DISTRIBUIÇÃO DE RENDA PELA VISÃO MARXISTA

Já na visão marxista, pelo contrário, a distribuição de renda entre os diferentes grupos ocorre com conflitos entre as diferentes classes sociais. A dicotomia fundamental, por essa visão, ocorre entre o empresário (confundido com o capitalista) e o trabalhador assalariado. Este produz um excedente às suas necessidades de consumo, ou seja, ao produzir uma mesa no final de oito horas de trabalho, ele recebe como salário um valor inferior a essas oito horas; esse excedente corresponde a uma mais-valia que o capitalista se apropria às custas do trabalhador. A existência de mais-valia está indicada pelo fato de que o trabalhador não consegue comprar o produto que confecciona pelo salário correspondente. A idéia é a de que o valor de um produto seja igual à quantidade de trabalho que ele incorporado. Assim, o produto líquido de uma economia é igual à soma do trabalho necessário à

reprodução do trabalhador (salários, ou capital variável, V) e o valor extraído dos trabalhadores, ou mais valia, M, ou seja:

(1)

Y L = V + M.

Acrescentando-se em (1) os valores necessários para a reposição do maquinário e as compras de materiais produtivos (capital constante, C), tem-se o produto bruto da economia:

(2) Y = V + M + C. Os conflitos sociais, que geram a luta de classes, segundo Karl Marx, ocorre entre os capitalistas e trabalhadores para obterem as suas respectivas fatias V e M do produto social líquido, Y L . A participação de cada classe na repartição do produto não depende das produtividades marginais, ou seja, não possui um caráter técnico como postulam os economistas neoclássicos, mas

22

tem um caráter social. Os empresários-capitalistas organizam-se em sindicatos patronais (Federação de Indústrias, Associações Comerciais, Clube de Lojistas, Confederação de Produtores etc.) e os trabalhadores associam-se em sindicatos de trabalhadores (Central Única dos Trabalhadores, Força Sindical, Sindicato dos Bancários etc.). Por ocasião dos dissídios coletivos, os sindicatos negociam com os patrões e, em caso de impasse, pode acorrer greves por tempo indeterminado. Em alguns casos, o Governo intermedia negociações; em outros, é o próprio mercado quem regula tais interações: em caso de altas taxas de desemprego, os trabalhadores e seus sindicatos se enfraquecem e os acordos são fechados em condições menos favoráveis para eles. Inversamente, com baixas taxas de desemprego e escassez de mão-de-obra especializada, são os empresários quem possuem menor poder de barganha. Para manter sua taxa de lucro, eles podem fechar fábricas em regiões ou países com altos salários e abrir em outros locais com menor custo de mão-de-obra. Foi o que ocorreu com a Renaud, que fechou uma fábrica em Bruxelas (Bélgica) e abriu outra em São José dos Pinhas, na Região Metropolitana de Curitiba. A luta dos empresários, para aumentar a sua participação na renda, não se restringe somente ao exercício de seu poder de barganha com os sindicatos de trabalhadores. Eles procuram infiltrar-se no Governo e no Congresso, a fim de obterem bons contratos para obras, ou influenciar a política econômica governamental ou a votação de projetos importantes. São as chamadas atividades de lóbi, que nos Estados Unidos é regulamentada em lei. Essas atividades, denominada rent-seeking (procura pela renda), podem dar margem à corrupção e levar à redução do produto social, porque gera desperdícios de recursos (ver Souza, 1999, cap. 10). A taxa de lucro do capitalista tende a se reduzir no longo prazo, porque o achatamento dos salários dos trabalhadores encontra limites legais, biológicos e econômicos, devido à concorrência

no mercado. Isso pode ser visto pela taxa de lucro (r), que é igual ao lucro absoluto (mais-valia, M), divido pelo capital total (constante, C, e variável, V):

(3)

r = M / (C + V)

Devido à concorrência, os preços no mercado se reduzem, ao mesmo tempo em que o empresário se vê obrigado a comprar máquinas mais modernas, o que aumenta o capital constante C mais do que proporcionalmente à mais valia M. Assim, mesmo que os salários contidos no capital variável V não aumentem, haveria uma tendência da taxa de lucro r se reduzir no longo prazo, o que levaria a economia a um ritmo menor de crescimento. Surge uma contradição no interior do processo de produção, que é a tendência do capital se acumular cada vez mais, ao mesmo tempo em que a renda recebida pelos trabalhadores cresce em

ritmo mais lento. Segundo Marx, isso explicaria as crises periódicas do sistema capitalista, que acabaria conduzindo a sociedade ao socialismo, como será visto mais adiante. No entanto, a taxa de lucro média da economia volta a crescer com o aumento dos lucros absolutos, ou mais valia M, pelo surgimento de novos produtos e processos produtivos mais eficientes e poupadores de trabalho. A conseqüência é o crescimento econômico com aumento da taxa de desemprego e concentração de renda na maioria dos países capitalistas.

4.3 DESEMPREGO E MEDIÇÃO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

Desemprego e distribuição de renda estão associados, pois quanto mais um país cresce poupando trabalho e desempregando pessoas, tanto mais a renda nacional se concentra . Em agosto de 1999, mais de 4,7 milhões de pessoas estavam desempregadas no Brasil, valor que se reduziu para 4,4 milhões em 2000. A taxa de desemprego é igual ao número de desempregados x 100, divido pela população economicamente ativa. Essa taxa foi igual a 7,6% em 1999 (4.714.213 x 100 / 62.029.120 = 8,7%) e a 7% em 2000 (4.439.308 x 100 / 63.418.686 = 7,0%). Em junho de 2001, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), essa taxa se reduziu para 6,8%. A população economicamente ativa (PEA) é formada pelas pessoas empregadas e desempregadas, em um dado momento. A PEA é um subconjunto da população em idade ativa

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(PIA), que no Brasil compreende as pessoas com 10 anos e mais. A PIA é composta, portanto, da PEA, mais os indivíduos que não trabalham (estudantes, inválidos, rentistas, idosos, réus, aposentados, pensionistas, donas de casa, outros).

O desemprego existente na economia brasileira se deve:

a) à redução do crescimento econômico, provocado pela crise da Argentina e do menor ritmo de crescimento da economia dos Estados Unidos, o que provoca redução das exportações e elevação da taxa de juro interna, o que desacelera os investimentos produtivos;

b) à abertura econômica promovida pelo Brasil desde o Governo Collor, em 1990, que aumenta as importações de produtos agrícolas e manufaturados, reduzindo a produção interna e o emprego;

c) à modernização tecnológica da indústria, que, devido à globalização, necessita acelerar a troca de máquinas mais antigas, tornadas obsoletas prematuramente pelo aumento da concorrência, por máquinas mais produtivas, poupadoras de mão-de-obra;

d) ao uso de robôs e tecnologias intensivas em capital e poupadoras de trabalho;

Em alguns países, a taxa de desemprego encontra-se em níveis superiores à que vigora no Brasil em 2001, como Alemanha (9,3%) e França (8,8%). Em outros países, neste mesmo ano, a taxa de desemprego é menor, como no Japão e Reino Unido (4,9%), Estados Unidos (4,5%). Neste último país, a taxa de desemprego era de apenas 4% em 2000. O menor ritmo do crescimento econômico e

o conseqüente aumento do desemprego na economia mais importante do mundo, tem reflexos

mundiais, pela redução de suas importações. Na Grande São Paulo, o maior centro industrial do Brasil, a taxa de desemprego é mais alta do que no conjunto do País: 10,2% em 2000 e 10,7% em junho de 2001. O desemprego formal é portanto maior nas áreas mais industrializadas (em 1999, a taxa de desemprego era de 10,6% na

França, 10,2% na Alemanha e 9,4% para o conjunto da União Européia).

O desemprego aumenta quando a economia deixa de crescer, se moderniza, trocando máquinas

e quando o crescimento econômico ocorre concentrando a renda. Para medir o grau de

concentração da renda de uma economia, costuma-se utilizar o Coeficiente de Gini, que é um

índice de desigualdade de distribuição inventado pelo estatístico italiano Conrado Gini (1884- 1965); trata-se de uma das medidas de concentração de renda mais utilizadas.

O coeficiente de Gini é derivado da curva de Lorenz, 13 como mostra a Figura 2.1, construída a

partir dos dados da Tabela 2.1, que mostra a distribuição de renda para dois períodos diferentes de tempo, com o respectivo coeficiente de Gini, segundo cinco estratos diferentes (dados fictícios). Na primeira linha da tabela, percebe-se que a população 25% mais pobre recebia, em 1970, 10% da

renda nacional; e os 25% menos pobres 20% da renda; enquanto os 25% mais ricos detinham 45% e os 25% menos ricos 25%.

Tabela 2.1 - Estrutura de distribuição de renda de uma economia em dois períodos de tempo

Classes da população Segundo os níveis de renda (%)

Renda recebida por classe (%)

Classes da

Renda recebida por classe (% acumulado)

população

1970

1990

(% acumulado)

1970

1990

0 – 25 (mais pobres)

10

5

0

- 25

10

5

25 – 50 (menos pobres)

20

10

0

- 50

30

15

50

– 75 (menos ricos)

25

20

0

- 75

55

35

75

– 100 (mais ricos)

45

65

0 - 100

100

100

 

Coeficiente de Gini (C G )

 

0,275

0,475

Em 1990, percebe-se que aumentou a concentração da renda nacional: os 25% mais pobres passaram a receber um percentual menor da renda total (5%); enquanto os 25% mais ricos passaram a ser contemplados com 65%. Houve igualmente uma piora na distribuição de renda para as faixas

13 Uma curva de Lorenz, aplicada pela primeira vez em 1905 por M. C. Lorenz, representam duas distribuições (como a renda), para períodos ou países diferentes.

24

intermediárias. As três últimas colunas da Tabela 2.1 apresentam os percentuais acumulados das classes da população segundo os níveis de renda e os percentuais acumulados da renda nacional recebida em cada classe da população. As duas últimas colunas fornecem duas curvas de Lorenz e estão representadas na Figura 2.1. No eixo vertical do gráfico estão representados os percentuais acumulados das rendas recebidas pela população e, no eixo horizontal, os percentuais acumulados da população. A curva de Lorenz para o período 1 é y 1 (Renda 1970) e, para o período 2, é y 2 (renda 1990).

Figura 2.2 - Curva de Lorenz de Distribuição de Renda 100 80 60 Reta y
Figura 2.2 - Curva de Lorenz de Distribuição de Renda
100
80
60
Reta y
y1=Renda 70
40
y2=Renda 90
20
0
0
25
50
75
100
% Acumulado da População
% Acumulado da Renda

Unindo-se os pontos extremos dessa curva [(0, 0) e (100, 100)], obtém-se a reta y, de 45 o , representando a perfeita igualdade na distribuição da renda: o mesmo percentual da população, em cada classe, recebe o mesmo percentual da renda, ou seja: 25% da população mais pobre, receberia 25% da renda nacional; os 25% menos pobres, mais 25%; e, assim, sucessivamente, culminando-se com os 25% mais ricos recebendo também 25% da renda nacional. À medida em que a curva de Lorenz afasta-se da reta y, da perfeita igualdade, a distribuição de renda nacional piora, como y 2 (Renda 90), cuja distribuição é pior em 1990 do que a distribuição representada por y 1 , em 1970. O coeficiente de Gini (C G ) pode ser calculado dividindo-se a área entre a reta y e a curva de Lorenz y 1 , (para 1970) ou entre a reta y e a curva de Lorenz y 2 (para 1990), pela área do triângulo formado pela reta y, o eixo horizontal e o eixo vertical do lado direito da figura, como segue: 14

Área entre a diagonal e a curva de Lorenz

(1)

C G =

Área entre a diagonal e os eixos horizontal e vertical da direita

O coeficiente de Gini C G varia de 0 a 1. Quando ele for zero, a distribuição de renda é perfeitamente igual (determinado percentual da população recebe o mesmo percentual da renda). Neste caso, a curva de Lorenz coincide com a reta y de 45 o ; quando o coeficiente de Gini aproxima- se de 1, a distribuição de renda torna-se perfeitamente desigual (umas poucas pessoas recebem toda a renda). Neste caso, a curva de Lorenz aproxima-se dos eixos horizontal e vertical da direita. Assim, quanto mais alto for o coeficiente de Gini, tanto mais concentrada será a distribuição da série que se está estudando, no caso, a renda. No exemplo da Tabela 2.1, o Coeficiente de Gini era

14 A área do triângulo entre a diagonal e os eixos horizontal e vertical da direita é igual a: (base * altura) / 2 = (1 * 1) / 2 = 0,5. A área C entre a Curva de Lorenz e os eixos pode ser calculada, aproximadamente, dividindo-se essa área em triângulos e quadriláteros. Somando-se as áreas desses triângulos e quadriláteros tem-se a área C. A área entre a diagonal e a curva de Lorenz é igual a: 0,5 – C. Aplicando-se a fórmula (1) acima, tem-se que C G = (0,5 – C) / 0,5.

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0,275 em 1970, passando para 0,475 em 1990. A concentração da renda aumentou: a participação dos mais ricos na renda nacional cresceu e a participação dos mais pobres se reduziu. A piora na distribuição de renda pode ser constatada pelo fato de que a curva de Lorenz y 2 está em 1990 mais distante da diagonal da perfeita igualdade. No Brasil, a distribuição de renda piorou entre 1960 e 1985 e melhorou entre 1985 e 1993. O índice de Gini do Brasil passou de 0,50, em 1960, para 0,66, em 1985, caindo para 0,60 em 1993. Com o advento do Plano Real, estudos recentes mostram que a distribuição de renda melhorou entre 1994 e 1997, mas piorou nos últimos anos, pelo aumento do desemprego. A população brasileira de menor renda, entretanto, empobreceu. Em 1960, os 10% mais pobres detinham 1,9% da renda, percentual que caiu para 0,7% em 1993; enquanto 1% da população mais rica, que detinha 12,1% da renda nacional, em 1960, passou para 15,5%, em 1993 (cfe. IBGE). O mesmo fenômeno ocorreu nos Estados Unidos: em 1973, os 20% mais pobres recebiam 5,5% da renda nacional, passando para 4,2%, em 1991; enquanto os 20% mais ricos aumentaram sua participação de 41,1%, para 44,2%, no mesmo período (Miller, 1994, p.711). No longo prazo, a visão otimista da economia afirma que o progresso tecnológico aumentará o bem-estar do conjunto da população, alimentando e vestindo a todos e ofertando um conjunto de bens variados, incluindo novos medicamentos para a cura de doenças, como câncer e AIDS. No entanto, os novos produtos, que estimulam o capitalismo por serem ofertados a altos preços, requerem aumento do poder de compra do conjunto da população. Isso leva os economistas a acreditar que, em um determinado momento do tempo, todas as necessidades estarão saciadas e as inovações tecnológicas deixarão de ocorrer. A sociedade estará então em um estado estacionário de crescimento nulo tanto para a população como para a renda. Esse estado estacionário, sem acumulação de capital, seria o socialismo.

5 - SOCIALISMO

Segundo Marx, a luta de classes e as contradições internas do modo de produção capitalista, que levam às crises periódicas, acabarão destruindo o sistema capitalista, emergindo o socialismo como uma etapa posterior do desenvolvimento das forças produtivas. Na concepção dos economistas clássicos, o socialismo seria a conseqüência da chegada do estado estacionário, ou de crescimento econômico zero. Nesse momento, não haveria investimento, nem crescimento demográfico, pois a população também estacionaria. Porém, na visão do sistematizador do pensamento clássico, Stuart Mill, essa situação não seria calamitosa, ao contrário do que pensavam Adam Smith e David Ricardo. Para Stuart Mill, a sociedade somente chegaria ao estado estacionário quando houvesse esgotado todas as possibilidades de adotar novos processos tecnológicos e descobrir novos produtos. O ideal da sociedade não seria o crescimento econômico, ou seja, a aquisição de bens materiais, mas ela estaria voltada para o lazer e para a realização de atividades culturais e espirituais. Esse seria o estado de máximo bem-estar, em que tudo estaria regulado pelo coletivo, em substituição ao individualismo, aspecto característico e fundamental do capitalismo. Esta também foi a mesma visão de Schumpeter, segundo a qual o estado estacionário chega pelo esgotamento da função empresarial, que é adotar inovações e assumir riscos. Segundo ele, no longo prazo, toda inovação passará a ser rotineira e qualquer gerente tornar-se-á capaz de tocar os negócios. Os lucros deixarão de ser o elemento procurado, uma vez que desaparecerá a noção de propriedade das empresas, estando as ações das mesmas pulverizadas em uma miríade de pequenos acionistas. Os executivos e os gerentes estarão preocupados com a maximização de seus salários e não com a obtenção de lucros máximos, como no capitalismo dirigido diretamente pelos proprietários de grande parte do capital. Na visão marxista, contudo, o socialismo decorre de um processo revolucionário e se apresenta como um modo de produção superior ao do capitalismo. No socialismo, as forças produtivas seriam comandadas pelos trabalhadores, restaurando a harmonia das forças produtivas, com o

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desaparecimento dos capitalistas. A economia socialista seria “superior” à economia capitalista por três razões (Singer, 1990, p. 158):

a) sendo a economia planificada, ela não estaria mais sujeita às crises, ao desemprego e ao desperdício de recursos;

b) com o desaparecimento das classes sociais, todos seriam proletários e desapareceria a propriedade privada dos meios de produção;

c) aumentaria o bem-estar dos mais pobres, com a supressão dos ricos, implicando na

substancial redução das desigualdades econômicas entre as pessoas. Contudo, existem controvérsias acerca das possibilidades do sistema de economia planificada manter-se em crescimento contínuo ao longo do tempo. Ocorrem conquistas sociais, mas o crescimento econômico não é suficiente para elevar o bem estar do conjunto da população. Isso explica o atraso de economias como a albanesa e a cubana, dependente no passado da ajuda russa. A dissolução da União-Soviética e o surgimento do modo de produção capitalista nos países desmembrados resultantes, assim como na China e nos demais países do Leste Europeu, contradiz a suposição marxista da superioridade do socialismo. Na teoria marxista, o capitalismo constitui uma etapa para a economia alcançar o socialismo. A Rússia e os demais países do Leste Europeu adotaram o comunismo sem estarem industrializados. Através da planificação central, o Estado procurou implantar infra-estruturas e desenvolver a indústria. Controlando centralmente os preços e as quantidades a serem produzidas em cada região, produto por produto, o sistema gerou uma enorme burocracia, o que dificultou o desenvolvimento econômico. O resultado foi o fim da União Soviética em dezembro de 1991, sendo substituída pela Comunidade dos Estados Independentes, um simples fórum de coordenação das repúblicas, sem um governo central. Em 1992, o Presidente Yeltsin anunciou um programa de desestatização da economia e liberalização de preços. A transição para o capitalismo, rota inversa preconizada por Marx, trouxe aos russos inflação, recessão, desemprego e o crime organizado.

Na Alemanha, caiu o muro de Berlim em novembro de 1989, abrindo o caminho para a reunificação das duas Alemanhas. A unificação monetária ocorreu em julho de 1990 e a unificação política em outubro do mesmo ano. A Alemanha ocidental gastou bilhões de dólares com a reunificação, mas o desemprego ainda é elevado, principalmente do lado oriental.

Cuba e a Albânia ainda resistem em retornar ao sistema de livre mercado e o isolamento internacional tem restringido o desenvolvimento desses dois países. Cuba vem sofrendo pressões dos líderes russos, desde 1985, para promover uma abertura econômica e política. O fim da União Soviética, em 1991, implicou no fim da ajuda econômica que Cuba vinha recebendo, o que causou um grande colapso financeiro no país. Sua situação econômica piorou ainda mais com o aumento do embargo econômico norte-americano, após 1992. Privado do petróleo russo e com as exportações em queda, a partir de 1995, Cuba promoveu o ingresso do capital estrangeiro em vários setores, exceto na saúde, educação e defesa. A pálida abertura econômica não foi seguida pela abertura política, pois Fidel Castro ainda insiste em permanecer no poder.

A Albânia, no entanto, embora fechada ao exterior, promoveu algumas concessões, após as primeiras greves e manifestações em 1990. Ela permitiu a formação de partidos de oposição e reintroduziu a liberdade religiosa (o ateísmo era a religião oficial). Em 1991, diante de novas manifestações e da fuga de 15 mil refugiados albaneses para a Itália, o Governo albanês convocou eleições diretas. Nessa transição para o capitalismo, a economia albanesa encontra-se desmantelada, com dois terços da indústria desativados e queda da produção de cereais, necessitando a população da ajuda de organismos internacionais. Em 1997, a taxa de desemprego chegava a 25% da população em idade economicamente ativa.

Apesar das dificuldades da implantação de uma economia socialista, as economias liberais têm sido criticadas pela persistência do desemprego, dando surgimento a chamada terceira via, sob a liderança do Tony Blair, exercendo o cargo de Primeiro Ministro da Inglaterra desde 1997. Blair

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chegou ao poder depois de convencer o Partido Trabalhista a substituir o quarto parágrafo de seus estatutos, de 1918, em que propugnava pela “propriedade comum dos meios de produção, distribuição e comércio”, pela intenção de criar uma sociedade “em que o poder, a riqueza e as oportunidades estejam em mãos de muitos e não de poucos”.

Essa mudança de postura afastou o Partido Trabalhista inglês da ideologia socialista e o aproximou da economia de mercado e pela condução coerente da política econômica por parte do Governo. Por exemplo, como medidas de saneamento econômico do Estado, em janeiro de 1998 Blair anunciou cortes em determinados gastos sociais, como redução das despesas da previdência social, e estímulo a setores industriais dinâmicos. Com isso, a economia cresceu e a taxa de desemprego se reduziu para cerca de 5%.

6 - PENSAMENTO ECONÔMICO MODERNO

O liberalismo puro, defendido pelos economistas clássicos, relegava ao Estado apenas o desempenho de suas funções básicas, como segurança nacional, educação, saúde, manutenção da ordem e da justiça, além da manutenção dos direitos de propriedade. O Estado deveria deixar que o setor privado se preocupasse com a produção e o comércio de bens e serviços. No entanto, com o aumento da freqüência das crises econômicas, gerando desemprego crescente, o Estado tem sido chamado a participar do gerenciamento da economia e estimular a atividade privada através de sua política econômica, ao mesmo tempo em que atua em áreas sociais, direta e indiretamente, procurando melhorar os indicadores de desenvolvimento do País (redução da taxa de mortalidade infantil, índice de analfabetismo e da evasão escolar, entre outros). As críticas ao liberalismo econômico acentuaram-se com a Grande Depressão dos anos de 1930. Com a falência de inúmeras empresas e o desemprego em massa, passou-se a aceitar com mais naturalidade a presença do Estado na economia. Para muitos economistas, ficou evidente que o bem-estar social não será atingido sem que o Estado intervenha, a fim de assegurar, não só os direitos de propriedade e a liberdade de mercado, como maior nível de emprego. Nas duas primeiras décadas do século XX, a economia americana havia conhecido um crescimento espetacular. O índice de produção da indústria de materiais de transporte e bens de capital, por exemplo, passou de 100 em 1899, para 969 em 1927, enquanto os índices das indústrias de aço e artefatos, papel e gráfica e maquinaria chegaram nesse ano, respectivamente, a 780, 614 e a 562 (Hunt & Sherman, 1978, p. 163). Durante os anos de 1920, o crescimento econômico dos EUA e do resto do mundo foi ainda mais intenso. No entanto, a grande queda da Bolsa de New York, ocorrida em 24/10/1929, desencadeou uma grande depressão mundial sem precedentes nos anos de 1930. A queda dos investimentos e da produção desempregou milhões de pessoas, não só na Europa e Estados Unidos, como também em países como o Brasil. O nível da produção agregada caiu muito abaixo das fronteiras de possibilidade de produção, desempregando os recursos produtivos. No entanto, por suas próprias forças as economias não conseguiam reunir forças para reagir. Tornou-se necessário identificar as causas do desemprego. A explicação parecia estar no mau funcionamento das instituições de mercado do mundo capitalista, o que passou a justificar o aumento da participação do Estado na economia. Esse foi o ponto de partida da economia keynesiana dos anos de 1930.

6.1 ECONOMIA KEYNESIANA

Em sua obra Teoria geral do emprego, juro e da moeda, John Maynard Keynes (1883-1946) procurou apontar soluções para a crise do mundo capitalista (Keynes, 1990). Ele explicou que o valor dos bens e serviços produzidos pelas empresas tem uma contrapartida de renda, que são os salários, juros, aluguéis, impostos e lucros; que essas rendas, encaradas como custos pelas firmas,

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na verdade vão ser gastas em novos bens e serviços. O mesmo raciocínio vale para a economia em seu conjunto. Se parte da população não pode gastar, por não ter um emprego, a economia estará

impossibilitada de produzir em níveis mais altos. Esse é o fluxo circular de produto e renda, cujo funcionamento não é automático e possui vazamentos: parte do dinheiro não gasto permanece entesourado em casa ou nos bancos. Em outras palavras, o problema existe porque parte da poupança não é emprestada e, portanto, não participa dos gastos. Desse modo, a demanda efetiva (Y D ) tende a ficar aquém das possibilidades de produção da economia (Y S ). Keynes identificou outros vazamentos, que ocorrem com as importações e com o pagamento de impostos. Para que esses vazamentos sejam compensados, em caso de recessão (Y D < Y S ) é preciso que:

(a)

os

bancos elevem seus empréstimos para consumo e investimento;

(b)

as

exportações sejam estimuladas; e,

(c) o Governo aumente seus gastos.

O maior fluxo de renda resultante estimulará a demanda agregada (Y D ), retomando-se o caminho

da prosperidade. No entanto, é necessário que os gastos com investimento (I) sejam iguais às poupanças (S) realizadas em cada período. Como as rendas aumentam com a prosperidade geral da economia e o consumo não cresce na mesma proporção, haverá uma tendência de S expandir-se de modo mais acelerado. Assim, o investimento precisa crescer cada vez mais para absorver esse excesso de poupança e manter o equilíbrio entre demanda agregada e oferta agregada (Y D = Y S ). Contudo, as oportunidades de negócios rentáveis nem sempre são suficientes para manter esse ritmo acelerado de crescimento do investimento. Sendo S > I, o Governo precisa aumentar seus gastos para compensar o excesso de poupança. Keynes preferia que os gastos do Governo fossem investimentos em áreas sociais, como escolas, estradas e hospitais, que acabariam beneficiando também o setor produtivo. Esses preceitos keynesianos tornaram-se aceitos, ao ponto do Congresso norte-americano aprovar, em 1946, a Lei do Emprego, segundo a qual o Governo passou a ter obrigação de utilizar impostos na preservação do nível do emprego. Keynes baseou sua teoria na rigidez de salários (w), devido à existência de contratos. Como os preços (P) também são relativamente inflexíveis, pela concorrência e a própria recessão, o ajuste, para evitar maiores quedas do nível de lucro (π), é feito pela demissão de trabalhadores (L). Isso pode ser demonstrado como segue: supondo que os custos das empresas sejam predominantemente com salários (wL), então o lucro será a receita total (PQ) - wL. Com a recessão, as quantidades Q se reduzem, assim como os preços; para evitar maiores reduções dos lucros, os salários w precisariam se reduzir, como eles são inflexíveis, então as empresas demitem trabalhadores (L se reduz). Este é o desemprego keynesiano, ou desemprego involuntário, situação em que a pessoa não encontra trabalho aos salários vigentes. Os economistas clássicos só admitiam o desemprego voluntário (as pessoas não aceitam trabalhar aos salários oferecidos) e o desemprego temporário, existente enquanto as pessoas trocam de emprego, ao passarem de uma atividade para outra.

6.2 A SEGUNDA SÍNTESE NEOCLÁSSICA E A CONTRA-REVOLUÇÃO KEYNESIANA

Com a grande crise econômica dos anos de 1930, os economistas liberais passaram a dividir-se em neoclássicos conservadores e em neoclássicos liberais. Estes últimos começaram a aceitar alguma participação do Estado na vida econômica. Para eles, a concorrência não existe em sua forma pura e irrestrita liberdade de mercado gera muita instabilidade. Argumentam que o Governo pode reduzir essa instabilidade mediante políticas monetárias e fiscais apropriadas (Hunt, 1982:

479).

Seguindo a linha de Pigou, reconhecem a existência de externalidades e recomendam a ação do Governo. Da mesma forma, no caso dos bens públicos (segurança, estradas, escolas, saúde pública), o Governo participa de sua produção, ou a delega a particulares, mediante contratos de concessão de serviços públicos. Portanto, concordam que apenas a ação da “mão invisível” não se mostra

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suficiente para levar a economia ao equilíbrio, necessitando da ação complementar do Estado.

O principal economista da corrente neoclássica liberal é o norte-americano Paul Samuelson, 15

cujas idéias passaram a dominar o mundo acadêmico após a Segunda Guerra Mundial. Sua visão humanista da Economia assemelha-se à de Stuart Mill, autor que realizou em suas obras uma grande síntese do pensamento clássico. Como Mill, e juntamente com o inglês John Hicks (1904-1989), autor de Valor e capital (Hicks, 1984), Samuelson elaborou a segunda síntese neoclássica, com a qual procurou integrar o pensamento keynesiano dentro dos postulados neoclássicos. Segundo essa síntese, havendo pleno emprego (a economia funcionando sobre a fronteira das possibilidades de produção, ou muito próximo dela), utilizam-se integralmente as proposições teóricas neoclássicas, desde que o mercado funcione segundo os postulados neoclássicos para alocar recursos e distribuir renda. Entretanto, isso só é possível com o Governo adotando políticas fiscais e monetárias, regulando oligopólios e atuando na produção de bens públicos (Hunt, 1982, p. 482). Em caso de desemprego (estando a economia nitidamente abaixo da fronteira das possibilidades de produção), a recomendação é a adoção das políticas keynesianas, ou seja, o aumento dos gastos públicos, incentivo às exportações, aos investimentos e ao consumo privado interno, mediante redução das taxas de juro e expansão da oferta de crédito.

A contra-revolução keynesiana foi provocada pela corrente neoclássica conservadora, que

da Escola de Chicago, assim como Ludwig von

tem como expoentes Milton Friedman (1912-

Mises (1881-1973) e Friedrich Hayek (1899-1992), da Escola Austríaca. Friedman defende uma abordagem empírica para a Economia e a exclusão de qualquer julgamento normativo, ou juízos de valor; enquanto os economistas da Escola Austríaca postulam uma abordagem racional. Estes economistas da corrente conservadora não concordam com as objeções dos neoclássicos

liberais em relação ao mau funcionamento da economia no laissez-faire. Segundo Friedman (1978), autor de O papel da política monetária, a Grande Depressão resultou de falhas do Governo e não de falhas do mercado; ou seja, políticas econômicas erradas desviaram ainda mais a economia de sua trajetória de crescimento equilibrado, gerando falência de empresas e alto desemprego. Isso significa que eles acreditam na lei de Say do automatismo do mercado Da mesma forma, consideram que a existência de grandes empresas não acarreta influências significativas sobre a fixação de preços no mercado e que, se isso existir, é porque os Governos criam facilidades para elas. Eles ignoram a questão das externalidades 16 (vantagens ou desvantagens para as empresas vindas de fora delas mesmas), porque implicaria maior intervenção do Governo na economia. Em suma, os liberais conservadores prescrevem reduzir ao mínimo a participação do Governo na economia, para assegurar a ação da “mão invisível” do funcionamento do mercado.

A crítica de Friedman aos neoclássicos liberais e keynesianos, em geral, relaciona-se com as

estratégias e teorias relativas à demanda agregada. A teoria keynesiana focaliza as determinantes da demanda agregada e atribui um papel menor à política monetária. Para Friedman e outros economistas da Escola de Chicago, políticas fiscais que levam ao aumento dos gastos públicos causam mais inflação do que efeitos positivos sobre a demanda agregada. Os empréstimos efetuados pelo Governo para financiar seus gastos substituem a demanda privada, sem efeito real sobre o produto total, provocando maior inflação. Conclui Friedman que a política monetária não provoca efeitos reais sobre a produção e o

emprego, apenas gera mais inflação. Desse modo, o monetarismo de Friedman limita a ação do Governo ao rígido controle do crescimento da oferta de moeda, para evitar inflação, uma vez que se fundamenta no livre funcionamento dos mercados.

),

15 Samuelson nasceu em 1915 e recebeu o Prêmio Nobel de Economia de 1970; foi professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, autor da importante obra Fundamentos da análise econômica, publicada em inglês, em 1947, e em português, em 1983 (Samuelson, 1983). 16 Ver Glossário.

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6.3 A CORRENTE ESTRUTURALISTA

Os estruturalistas têm mantido uma posição crítica ao pensamento dos economistas neoclássicos conservadores e liberais. Essa corrente surgiu dos trabalhos realizados por economistas pertencentes à Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), com sede em Santiago do Chile. Entre esses economistas, podem ser citados Raul Prebisch, o brasileiro Celso Furtado, Anibal Pinto, entre outros. Os estruturalistas entendiam que o desenvolvimento dos países latino-americanos tem sido bloqueado por causas estruturais, como estrutura agrária inadequada e improdutiva, baseada simultaneamente no latifúndio e no minifúndio. Os agricultores latifundiários mantêm um modo de produção extensivo, em grandes extensões de terra, com baixa produtividade. A produção é feita basicamente para consumo próprio, com pequenos excedentes levados ao mercado. No caso dos pequenos agricultores dos minifúndios, a escassez de terras não lhes permite, da mesma forma, obter ganhos de produtividade. A produção obtida nem sempre é suficiente para o próprio consumo familiar. Os excedentes de produção levados ao mercado, no conjunto dos agricultores, é portanto muito baixo. Como conseqüência, os agricultores dos países subdesenvolvidos não são sensíveis às variações de preços no mercado, ou seja, não mudam o nível da produção quando o preço dos produtos agrícolas aumentam ou diminuem no mercado. Como resultado, há uma oferta insuficiente de alimentos e de matérias-primas para o abastecimento do mercado interno e para a exportação. Essa rigidez da oferta traz duas conseqüências: primeira, eleva-se internamente os preços, provocando inflação; segunda, o lento crescimento das exportações gera uma tendência ao desequilíbrio na balança comercial, o que dificulta o aumento de importações para o atendimento da indústria nascente. Aumento de preços de bens importados, como petróleo e máquinas, agrava o desequilíbrio na balança comercial. O Governo desvaloriza a moeda nacional para reduzir o déficit comercial. Com a taxa de câmbio mais alta (como R$/US$), os exportadores recebem mais em reais pelas exportações feitas em dólares, o que estimula o aumento das exportações; os importadores precisam desembolsar mais reais por uma mesma quantia de importações feitas em dólares, o que desestimula tais operações. Como resultado, déficit externo se reduz, mas o aumento de preços das importações de bens de consumo e de produtos para a indústria se retransmite no interior da economia provocando pressões inflacionárias. A solução apontada pelos estruturalistas é a reforma agrária, atacando simultaneamente os latifúndios e os minifúndios, de sorte a aumentar o tamanho médio das propriedades, para que a terra se torne mais produtiva. Desse modo, com a elevação do rendimento agrícola, haveria estímulo para que os agricultores investissem na modernização tecnológica da atividade agrícola (mais tratores, colheitadeiras, semeadoras, irrigação, fertilizantes, herbicidadas, medicamentos etc.), elevando ainda mais a produtividade da terra e do trabalho na agricultura. Os estruturalistas também identificaram uma tendência dos preços internacionais dos produtos agrícolas e de matérias-primas em geral crescerem mais lentamente em relação aos preços dos produtos manufaturados. Desse modo, os países que exportam principalmente produtos primários teriam mais uma explicação para essa tendência de desequilíbrio da balança comercial. Para combater essa tendência, seria necessário que a pauta exportadora se diversificasse, com a inclusão gradativa de bens manufaturados. Com isso, as exportações totais manteriam o seu valor, porque o preço internacionais de produtos manufaturados teriam uma tendência de crescer no longo prazo. Como se observa, em oposição ao monetarismo, os estruturalistas alegam que a inflação tem causas básicas, derivadas da limitação e rigidez do sistema econômico, e causas circunstanciais, como aumento dos preços das importações, e não simplesmente em função do aumento interno da oferta de moeda. O aumento dos preços seriam provocados por causas reais, exigindo em contrapartida maiores volumes de moeda em circulação. Em outras palavras, a inflação teria origem no interior das empresas, que repassam os custos para os preços de seus produtos, e não por emissões de moeda feitas compulsivamente pelo Banco Central.

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Outras correntes do pensamento econômico tem se destacado desde a segunda metade do século passado. Com relação à inflação, a maioria concorda que ela tem tanto causas reais do lado dos custos (inflação de custos), como causas monetárias do lado da demanda (inflação de demanda). Pressões de custos (aumento de salários e de preços de matérias-primas importadas, por exemplo) elevam a inflação porque as firmas tendem a repassar esses aumentos para os preços de seus produtos. Aumento dos meios de pagamentos (maior volume de dinheiro em circulação) e facilidades de crédito (como juros mais baratos), estimula a demanda por parte dos consumidores o que sanciona as elevações de preços. Com a globalização, aumentou a interação entre os países e cresceu o comércio mundial. Está se tornando também mais difícil para o Brasil aumentar rapidamente as suas exportações de produtos manufaturados, tendo em vista a grande concorrência existente por parte dos novos países industrializados e com níveis de desenvolvimento similares. Exportar mais exige maior volume de crédito e os recursos financeiros são escassos. É preciso também reduzir a carga tributária das empresas exportadoras, o que não pode ser feito na intensidade desejada porque o Governo não pode abrir mão de receitas, a fim de cobrir suas despesas. Outro ponto que precisa ser levado em conta, para aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no exterior, é aumentar a qualidade e reduzir os custos médios de produção. Isso requer novos investimentos em novos equipamentos e em treinamento de pessoal e em educação geral. Nesse sentido, as novas teorias do crescimento econômico tem apontado que o capital e o trabalho não são os únicos fatores de crescimento, cabendo especial destaque ao capital humano e às novas tecnologias. O progresso técnico passa a ter um papel ativo, determinado por investimentos em novas tecnologias e em capital humano, o que gera aumentos de produtividade e rendimentos crescentes à escala.

BIBLIOGRAFIA

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HUNT, E. K. História do Pensamento Econômico : uma perspectiva crítica. Rio de Janeiro:

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1983.

SOUZA, Nali de Jesus. Desenvolvimento Econômico. 4 ed., São Paulo : Atlas, 1999.

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