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GUIA PRÁTICO DE

PRIMEIROS
SOCORROS
O que fazer em casos de
EMERGÊNCIA

Dr. Gerson Trevilato

CASA PUBLICADORA BRASILEIRA


TATUÍ - SÃO PAULO
PREFÁCIO

T este início de século,


com o acúmulo de
^ H informações científi-
cas, com a aceleração das ati-
vidades do dia-a-dia, com o
aumento da expectativa de
vida, muitos conhecimentos
e paradigmas na área de saú-
de estão sendo derrubados
diante do esclarecimento de
dúvidas que por muito tem-
po dificultaram o tratamento
e a prevenção de doenças.
Hoje as palavras de ordem
são renovação, atualização e Gerson Trevilato
revisão freqüente do conhecimento, de forma a se obter
melhor qualidade de vida, tanto física quanto mental, espi-
ritual e social.
Nesse contexto insere-se esta obra, com o objetivo de
abordar, de modo inovador, diversos aspectos da saúde e
dos primeiros socorros, estimulando o leitor a incrementar
seus conhecimentos.
Temos ao mesmo tempo o alvo de desfazer mal-enten-
didos, sepultar formas arcaicas ou perigosas de prestar so-
corro e possibilitar que, de forma prática, estejam ao al-
cance dos que manusearem este volume, informações me-
lhores e atualizadas na área de saúde.
Esta obra não pretende ser definitiva e nem constituir
a última palavra quanto a primeiros socorros. Sua propos-
ta é, também, a de estimular o leitor a manter-se em cons-
tante atualização e aperfeiçoamento.
Não poderíamos terminar estas linhas sem agradecer aos
muitos colaboradores anônimos, que durante três anos con-
tribuíram, direta ou indiretamente, para a realização desta
obra; e em especial às famílias de cada um dos co-autores.
Eles merecem homenagem e agradecimentos especiais,
pela disposição em participar desta obra. Aos doutores
Everton, Bernardo, Kiefer e Marlus, a gratidão pelo
apoio, estímulo e colaboração.
Não poderia deixar de reconhecer a capacitada e gentil
revisão técnica, brilhantemente efetuada pelo Dr. Hélio
Grellmann.
Que a leitura e o exame deste livro contribuam para a
manutenção da vida e promoção da saúde.

Dr. Qerson Trevilato

0 Dr. Gerson Trevilato é formado em Medicina pela


Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, tendo durante o
curso trabalhado e estagiado no Hospital Adventista do Pênfigo,
no mesmo Estado. Prestou Serviço Militar em 1987, no Hospital
Geral de Campo Grande, ainda mantendo atividades no Hospital
do Pênfigo. Sua Especialização em Dermatologia foi feita na
Escola Paulista de Medicina, nos anos de 1988 a 1990, com
ênfase, no último ano, nas áreas de Dermatologia Pediátrica e
Cirurgia Dermatológica. Realizou curso de extensão em
Alergologia Clínica, em 1994, na Policlínica de Alergia do Rio de
Janeiro. Desde 1992 está em atividade na Clínica Adventista de
Porto Alegre.

A s o r i e n t a ç õ e s de st e livro n ã o d i s p e n s a m
n e m substituem as consultas periódicas ao médico.
SUMÁRIO

«ÍTRODUÇÃO - A IMPORTÂNCIA D O S P R I M E I R O S
SOCORROS 07

PREVENIR É MELHOR QUE SOCORRER 31

SEÇÃO 3 3 BÁSICOS 15

Capítulo 1 - CUIDADOS INDISPENSÁVEIS AO SOCORRER 17

Capítulo 2 - C O M O AVALIAR OS SINAIS VITAIS 28

Capítulo 3 MATERIAIS NECESSÁRIOS PARA PRESTAR SOCORRO Sã

Capítulo 4 - C O M O LIDAR COM OS FERIMENTOS MAIS COMUNS 44

Capítulo 5 - O QUE FAZER EM CASO D E HEMORRAGIA 56

Capítulo 6 CURATIVOS E TIPOS D E PROTEÇÃO A FERIMENTOS 83

Capítulo 7 - DICAS PARA PREVENIR ACIDENTES COM CRIANÇAS Ti

Capítulo 8 - RESGATE E TRANSPORTE D E FERIDOS 1%

- PROBLEMAS DE SAÚDE MAIS


85

Capítulo PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO 17

Capítulo 10 - PROBLEMAS DO SISTEMA DIGESTIVO 186

11 - PROBLEMAS DO SISTEMA NERVOSO 128

Capítulo 12 - CÓLICAS MENSTRUAIS E T P M 143

Capítulo 13 - F E B R E , DOR D E DENTE, COCEIRA, DESIDRATAÇÃO


E SOLUÇO 150
SEÇÃO 3 - PRIMEIROS SOCORROS EM 1 7 1

SITUAÇÕES ESPECIFICAS

C a p i t u l o 14 - INSOLAÇÃO, QUEIMADURAS, CÂNCER DE PELE

E HIPOTERMIA 173

C a p í t u l o 15 - PICADAS D E COBRAS, INSETOS E ARACNÍDEOS 199

C a p í t u l o 1 6 - INTOXICAÇÕES, ENVENENAMENTOS E REMOÇÃO

DE CORPOS ESTRANHOS 215

C a p í t u l o 1 7 - FRATURAS, LUXAÇÕES E TRAUMATISMO 225

C a p í t u l o 18 - TRAUMATISMO RAQUIMEDULAR 238

C a p í t u l o 19 - FRATURA DE CRÂNIO E TRAUMATISMO

CRANIOENCEFÁLICO 242

CapítUlO 2 0 - O QUE FAZER EM CASO DE CHOQUES 248

C a p í t u l o 2 1 - PARADA CARDIORRESPIRATÓRIA
(TÉCNICAS D E RESSUSCITAÇÃO) 252

CONCLUSÃO - SAÚDE TOTAL 263

ÍNDICE REMISSIVO 270


"Cada centavo gasto com
prevenção, torna possível a
economia de quatro centavos!9
Prevenir é tnelhm
JC I ^ ^ O Cy O / / /

1. MUDANDO
CONCEITOS

Nos últimos anos


assistiu-se a uma pro-
gressiva conscientiza-
ção coletiva quanto à
necessidade de mu-
danças na área de saú-
de. A maneira de en-
carar esse assunto pre-
cisava ser revista,
atendendo à proposi-
ção da Organização
Mundial de Saúde ( O M S ) , de abranger os aspectos
físico, mental, espiritual e social do ser humano.
Acompanhando essa ampliação de conceitos, tor-
nou-se claro que, ao serem avaliadas propostas quanto
ao atendimento de emergências, preparação e treina-
mento de pessoas para a área de Primeiros Socorros e
Saúde (tanto por razões econômicas quanto técnicas),
o trabalho preventivo seria muito mais efetivo e eco-
nômico. E afirmação conente em epidemiologia que,
a cada centavo gasto com prevenção, tomate possível a
economia de quatro centavos.
Este guia foi concebido dentro dessa perspectiva
educacional, objetivando firmar na mente do leitor
PRIMEIROS SOCORROS

as idéias de prevenção, treinamento e preparação para contingências


de maior gravidade, de forma a atenuar o impacto das agressões a que
todos indistintamente estamos submetidos no dia-a-dia.

2 . EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE

Sob as teorias pedagógicas e


grades curriculares das escolas, a
idéia de fornecer conhecimen-
tos teóricos de saúde às pessoas
é bem aceita. Contudo, existe
ampla discordância quanto ao
tipo de conhecimento, à carga
horária que deve ser ministrada
e ao modo como deve ser provi-
do esse tipo de ensino.
Pontos comuns, geralmente
bem aceitos, são orientações
sobre higiene e noções de ana-
tomia e fisiologia. Pontos mais
controversos incluem, entre ou-
tros, orientações práticas sobre primeiros socorros e funções repro-
dutivas. Grandes divergências existem nas abordagens sobre sexua-
lidade, prevenção de doenças venéreas e contracepção, embora a
AIDS venha mudando algumas posturas mais conservadoras.
Os meios de comunicação também dedicam espaço ao assunto, de for-
ma programada (programações agendadas a intervalos regulares) ou como
resposta a questionamentos do público (através de cartas ou telefonemas).
Ambas as abordagens - nos meios estudantis e através da mídia -
têm dificuldade em atingir o alvo. As escolas sofrem restrições e as
veiculações nos meios de comunicação, embora com menores blo-
queios (alguns assuntos nunca são selecionados por falta de interes-
se espontâneo, ou por gerarem constrangimento), nem sempre con-
seguem atingir de maneira seqüencial os ouvintes/leitores. Por ve-
zes, quem assiste a um programa ou adquire um jornal ou revista não
consegue manter a seqüência, sendo prejudicado o objetivo da cons-
cientização. Fica, assim, mais que justificada a existência de obras
como esta, cujo objetivo é prover informações de conjunto ao lei-
tor, mantendo-se o encadeamento de idéias.
A IMPORTÂNCIA DOS PRIMEIROS SOCORROS
INTRODUÇÃO

Outra forma útil de sé estimular a noção da importância da saú-


de é repassando pessoalmente informações bem fundamentadas, re-
ferenciadas, ensinando o que é relevante e mostrando como man-
ter constante aprendizado „ , ^ , „ „ _ _ ^ ^
uia

(tão importante quanto


ensinar é a orientação de
como aprender).
A educação em saúde de-
ve ter em vista, sobretudo,
a prevenção. Deve-se pro-
curar transformar a postura
passiva e descompromissa-
da em atitude vigilante;
transformar pontos de risco
para a saúde - hábitos errô-
neos, problemas sanitá-
rios/epidemiológicos, con-
ceitos errôneos na área de
prevenção e saúde - em ati
vidades que ajudem a melhorar a expectativa e a qualidade de vida.
E importante discutir com a comunidade a adoção de medidas sa-
nitárias de forte impacto, como obtenção de água tratada, serviço de
esgoto residencial, tratamento de esgoto, despoluição de fontes ou
áreas ambientais, proteção de mananciais, desassoreamento de rios
para evitar enchentes, etc. São medidas que demandam trabalho a
longo prazo, mas trazem benefícios inegáveis.
Outro ponto que requer atuação consciente e apresenta efeitos
positivos, é o que relaciona a educação em saúde e a melhora da ca-
pacidade individual e coletiva com o melhor aproveitamento dos
serviços médicos e paramédicos ofertados pela rede oficial de aten-
dimento (Sistema Único de Saúde) e a rede auxiliar (tanto filan-
trópica como particular e planos pré-pagos de saúde).
Nos serviços de emergência, em virtude do volume de atendimen-
tos, torna-se impossível manter adequado acompanhamento, reali-
zação de exames mais profundos e o estabelecimento da relação mé-
dico/paciente. A educação em saúde redireciona o atendimento dos
pacientes desses serviços para o atendimento em postos de saúde,
consultórios e clínicas, onde as necessidades do paciente podem ser
melhor satisfeitas.
PRIMEIROS SOCORROS

3 . TRABALHO PREVENTIVO

Dentro dessa nova postura mais ativa, de antecipação das ações


de saúde, existem aspectos individuais e coletivos que se interrela-
cionam quando as pessoas começam a trocar informações e idéias
sobre saúde total e preventiva, gerando, mais adiante, postura cole-
tiva e comunitária.
No aspecto pessoal, destacamos, além da educação em saúde e da
higiene e saneamento:

• O desenvolvimento de hábitos saudáveis, como o abandono dos


tóxicos legais (álcool, fumo, medicamentos para emagrecer e para
dormir).
• O uso correto de água pura (de modo abundante, tanto interna
quanto externamente).
• O uso de alimentação predominantemente vegetariana e com
baixo índice de gorduras.
• Exposição adequada (e na medida certa) ao sol.
• Exercícios físicos adaptados ao porte e à idade da pessoa.
• Repouso adequado e controle do estresse, entre outros.

Devido à importância destes aspectos, reservamos espaço especí-


fico no final desta obra para abordá-los.
No aspecto coletivo, destacamos como importantes as ações comu-
nitárias de saneamento e o treinamento de grupos de pessoas através
de igrejas, associações de classe e comunitárias, de modo a disseminar
idéias preventivas, com impacto adequado diante das necessidades de
cada população. De forma coletiva, sempre que possível, devem ser
avaliadas opções vacinais para prevenção de doenças, trabalhando
em colaboração com as autoridades, de modo a proteger:

• Crianças (calendário normal de vacinações).


• Gestantes (tétano e mães Rh-negativas, casadas com homens
cujo sangue seja Rh positivo).
• Idosos (vacinas contra gripe e pneumonia).
• Áreas de endemicidade de algumas doenças (por exemplo, nas
regiões Centro-Oeste e Norte: vacinações para febre amarela; no
Norte: vacinação para hepatite B; e t c ) .
L \ IMPORTÂNCIA DOS PRIMEIROS SOCORROS
INTRODUÇÃO

É importante levar os membros da comunidade a compreender a ina-


dequação das conentes de medicina alternativa contrárias à vacinação.

4 . CORRELAÇÃO SANITÁRIA/EPIDEMIOLÓGICA

É importante notar que, paralelamente aos avanços obtidos indi-


vidual e coletivamente, o foco de atenção vai se deslocando aos
poucos das atividades de cunho curativo para as de cunho preventi-
vo (da reversão de moléstias infecciosas para as doenças de cunho
degenerativo), sendo por isso importante a revisão periódica do fo-
co de atuações coletivas, de acordo com estatísticas de atendimen-
to, dúvidas e queixas individuais ou de grupo.
Além disto a capacidade de atuar rapidamente de forma coletiva
deve ser estimulada, através da divulgação periódica de dados esta-
tísticos, demonstrando o impacto de cada atuação sanitária, seja de
orientação (exemplo: em co-
munidades rurais, a promo-
ção de palestras sobre into-
xicação com defensivos
agrícolas), seja preventiva
(exemplo: campanhas de
vacinação), seja através da
introdução de novos pro-
fissionais na comunidade,
e t c , sobre o bem-estar co-
letivo. Ampliando-se o
número de pessoas envol-
vidas na área sanitária e
epidemiológica, obtém-se
maior rapidez nas ativida-
des subseqüentes.
Finalizamos este capítulo inicial e normativo dos objetivos da
obra (e por isso um pouco filosófico), sugerindo que talvez seja útil
lê-lo no início e no final deste estudo, reavaliando os conhecimen-
tos obtidos sob o prisma da mudança de conceitos, adaptando-os à
realidade pessoal e comunitária em cada caso, para obter melhor be-
nefício e maior capacidade preventiva possível.
Parafraseando um famoso deputado brasileiro que dizia serem as
empresas aéreas o melhor hospital de Brasília (pois permitiam a rá-
P R I M E I R O S
SOCORROS

pida remoção do paciente para hospitais de São Paulo ou Rio de Ja-


neiro), poderíamos dizer que uma das formas mais importantes de
prestar socorro em grande número de situações, é o meio de trans-
porte (carro, ambulância), visando encaminhar o adoentado para o
pronto-socorro mais próximo (se a vítima puder ser removida).
Ressaltamos, por-
tanto, o papel tem-
porário, inicial, rá-
pido e transitório
que deve desempe-
nhar o socorrista.
A expressão as-
sim o indica: primei-
ros socorros, ou seja,
o que se deve fazer
nos instantes ini-
ciais, após o que de-
ve a vítima ser rapi-
damente encami-
nhada a um médico
ou hospital, se ne-
cessário.

William

Í4
SEÇÃO

Primeiros Socorros
asicos

C a p í t u l o 1 - C U I D A D O S INDISPENSÁVEIS AO S O C O R R E R 17

C a p í t u l o 2 - C O M O AVALIAR OS SINAIS VITAIS 28

C a p í t u l o 3 - M A T E R I A I S NECESSÁRIOS PARA PRESTAR SOCORRO 39

C a p í t u l o 4 - C O M O LIDAR COM OS F E R I M E N T O S MAIS COMUNS . . . . 4 4

C a p í t u l o 5 - O QUE FAZER E M CASO D E HEMORRAGIA 56

C a p í t u l o 6 - CURATIVOS E T I P O S D E PROTEÇÃO A FERIMENTOS 63

C a p í t u l o 7 - D I C A S PARA PREVENIR ACIDENTES COM CRIANÇAS 71

C a p í t u l o 8 - R E S G A T E E TRANSPORTE D E FERIDOS 78
CÂ P Í i U L O

Cuidados indispensáveis

1 . TIPOS DE
PRIMEIROS
SOCORROS

a) Quanto ao tempo de
atuação - Quanto melhor
treinado e preparado o socor-
rista, tanto mais rápido será o
tempo de atendimento (e
mais completo). O grau de ca-
pacitação da pessoa que presta
atendimento pode influir na
rapidez com que o socorro é
prestado e na agilidade da
avaliação (isso é especialmen-
te importante nos casos gra-
ves, que necessitam de atuação
médica imediata). Também nos casos onde existam
indicações de ações contínuas ou de manutenção, o
socorrista bem preparado pode complementar de ma-
neira eficiente as orientações e condutas médicas.

b) Quanto ao local de atuação - Além do treina-


mento do socorrista, o local da ocorrência tem in-
fluência importante na forma como o socorro é con-
duzido. Em locais inóspitos, ou com recursos inade-
quados, o atendimento deve ser feito o mais rápido
possível. Já quando o local permite - e de acordo
1*7
PRIMEIROS SOCORROS

com o treinamento individual e o equipamento disponível - , a ati-


vidade de socorro pode ser estendida.
E importante notar que, nos casos em que o paciente não possa
ser removido de forma simples (em caso de traumatismo craniano
ou raquimedular - coluna - , por exemplo), o socorrista deve ade-
quar o local onde estiver o acidentado, provendo condições de su-
porte até a chegada de transporte especializado.

2 , TIPOS DE SOCORRISTAS

a) Sexo — Por razões físicas,


geralmente o socorrista mas-
culino pode efetuar manobras
mais intensas, especialmente
na área de transporte. Embora
creditadas diferenças de preci-
são, a única diferença de capa-
cidade entre socorristas - em
termos de sexo - é realmente
no tocante à força, não estan-
do o sexo feminino prejudica-
do na realização dos atendi-
mentos. Ocasionalmente po-
de haver algum constrangi-
mento quando o socorrista for de sexo diferente do acidentado, em
especial quando a área afetada for íntima; porém, via de regra, na
hora de maior urgência estas diferenças são (ou devem ser) esqueci-
das. E de bom tom que, quando possível, socorrista e socorrido se-
jam do mesmo sexo, facilitando a fluidez do atendimento.

b) Idade - O aspecto idade pode influir de várias formas: um so-


corrista de mais idade despertará maior confiança (pode ocorrer
intranqüilidade se quem presta o atendimento for um adolescente
ou juvenil); o desembaraço ao lidar com áreas íntimas de uma pes-
soa mais velha (ou o embaraço do acidentado e do socorrista, quan-
do houver grande diferença de idade entre ambos).
É especialmente importante que haja calma e tranqüilidade por
parte de quem presta a ajuda, não forçando auxílios que não ve-
nham a ser bem recebidos. Deve-se ganhar a confiança e atuar de
CUIDADOS INDISPENSÁVEIS AO SOCORRER
CAPÍTULO I

maneira pacífica, de molde a acalmar quem já se sente prejudicado


por uma agressão ao seu bem-estar físico, não lhe acrescentando um
constrangimento mental ou social.

senso, para que se faça I


somente aquilo que se tem |
segurança, evitando-se o
desnecessário e não de-
morando na transferência do paciente..
O socorrista mais capacitado, experiente e melhor treinado,
encaminhará rapidamente o caso às mãos do médico, possibili-
tando que o atendimento profissional se inicie num patamar
mais avançado. Mesmo o socorrista menos habilitado, porém,
deve ter consciência de suas limitações, evitando piorar o caso
ao produzir novas lesões (conforme veremos no capítulo sobre
transporte de feridos).

d) Como obter treinamento prático — Com o objetivo de dimi-


nuir o tempo necessário para prestar socorro adequado, a obtenção
de capacitaçãx) prática é fundamental a fim de que haja segurança e
tranqüilidade por parte do socorrista, no momento do atendimento.
Sem treinamento, a insegurança do socorrista pode levá-lo a ser
muito tímido ou muito agressivo (dois extremos) ao lidar com o
evento crítico, além de deixar o paciente mais ansioso. Por isso, é
importante que o leitor não se limite apenas à leitura desta obra,
procurando antes utilizá-la como fonte motivadora da aplicação de
procedimentos práticos.
A esta altura pode surgir a dúvida: "Fazer o treinamento de forma
individual ou coletiva?" Ambas as formas têm o seu lugar.
19
PRIMEIROS SOCORROS

Individual - A forma individual sempre será o ponto de partida pa-


ra alguém que se dispôs a conscientizar sua comunidade. Geralmente,
após o início individual, outras pessoas acabam se unindo (a convite
ou espontaneamente) ao "pioneiro da comunidade" ou da família.
Os locais de treinamento são abundantes e podem ser divididos
em dois tipos: treinamento profissional e eventual.

Treinamento profissional (para os que desejam abraçar profissão na


área de saúde):
• Cursos profissionalizantes de enfermagem (nível de Ensino Mé-
dio) - SENAC, escolas de Ensino Médio, hospitais privados ou uni-
versitários, etc.
• Cursos voltados para profissionais que já atuam na área (como
acadêmicos de medicina, enfermeiros, dentistas, e t c ) .

Treinamento eventual ou parcial (para aqueles que querem ser so-


corristas voluntários ou que desejam maiores conhecimentos na
área de saúde):
• Cursos em entidades como Cruz Vermelha, SENAC, Corpo de
Bombeiros, hospitais, Anjos da
Guarda, etc.

Coletivo - Sob a perspectiva de ca-


pacitação da comunidade na área de
Primeiros Socorros e Saúde, muitas
vezes, segue-se ao treinamento indi-
vidual o convite para expandir este
conhecimento, trazendo para o grupo
os instrutores da instituição-mãe on-
de o primeiro interessado fez o treina-
mento (ou de instituições correlatas).
Inicialmente este trabalho pode ser
feito através de palestras (para atrair
um grupo de potenciais interessados). Depois, por meio de cursos com
cargas horárias reduzidas (para atuar em setores específicos como
doenças venéreas, drogas, vacinas, intoxicações, e t c ) , porém, mais
profundos, que farão uma triagem secundária, separando candidatos
que se dirigirão a cursos mais específicos nas instituições especializadas.
Gradualmente vai se formando um núcleo com maior conhecimento,
20
CUIDADOS INDISPENSÁVEIS AO SOCORRER
CAPÍTULO I

o qual pode atuar fornecendo orientações simples. Ao mesmo tempo, o


grupo se manterá atualizado devido ao fluxo de novos integrantes, que es-
tarão ingressando como aprendizes básicos, ou retornando de instituições
mais avançadas, mantendo a "chama da curiosidade" pelo aprendizado.

3 , INFORMAÇÕES BÁSICAS a DISPONIBILIZAR

Ao se deparar com a situação de urgência, é necessário que o so-


corrista busque e forneça algumas informações de importância que
nortearão o atendimento, estabelecendo uma ponte entre o evento
inicial e o atendimento médico.

Durante o socorro - Ao reconhecer a situação de urgência que


demanda atuação, caso existam outras pessoas presentes, deve o so-
corrista perguntar-lhes: "Existe alguém com treinamento ou capaci-
tação para atender esta situação?" Com isso, ele estará buscando
identificar pessoas com qualificação igual ou superior à sua, a quem
possa auxiliar ou que possam ser-lhe de ajuda no atendimento.
Após este passo, caso a vítima esteja consciente, deve o socorris-
ta apresentar-se expondo suas qualificações, de forma a tranqüilizar
o paciente, assegurando-lhe que está capacitado para atuar no caso.
Deve obter então da pessoa que está sendo atendida dados sinto-
matológicos, como:

• O que a pessoa está sentindo


no momento;
• Se já apresentou estes sinto-
mas antes;
• Se há doenças em curso ou em
tratamento;
• Que medicações está utilizan-
do ou fazendo uso contínuo;
• Funcionamento das funções fi-
siológicas nas últimas 24 horas
(número de vezes que urinou e/ou
evacuou).

Também é importante obter dados


do cotidiano, como: pressão arterial rotineira, se a pessoa se alimentou
PRIMEIROS SOCORROS

no dia da ocorrência, telefones de contato com familiares ou com o mé-


dico do paciente, etc.
Se a vítima estiver inconsciente, a obtenção dessas informações é
secundária, devendo vir em primeiro lugar a avaliação rápida do pa-
ciente, conforme se explica a seguir.
Após esse atendimento é que se deve procurar obter informações
através de documentos que a vítima esteja portando. Lembre-se que se
o atendimento se fizer em via pública, sempre que possível deve ser
acompanhado por, no mínimo, duas testemunhas, enquanto outra pes-
soa é incumbida de procurar auxílio da autoridade policial, tanto por
razões legais quanto para providenciar eventual auxílio na remoção.
Após o socorro - Havendo prestado o atendimento possível, de-
ve o socorrista, ao transmitir o caso ao médico, fornecer todas as in-
formações coletadas, tanto do paciente quanto de suas observações
pessoais, tais como: sinais vitais (ver próximo capítulo), forma co-
mo a vítima foi encontrada, impressão pessoal do caso, condutas to-
madas, forma de transporte, etc.

4 . SEQÜÊNCIA BÁSICA DE EXAME DO PACIENTE

Para exemplificar de maneira prática a seqüência que sugerimos,


analisaremos o atendimento realizado em dois casos:

Caso 1 - Pessoa idosa encontrada


gemendo no chão.
Socorrista se aproxima e pergunta:
- Posso ajudar? O que você está
sentindo?
- A perna direita está doendo, e as
costas, na parte baixa, também.
- Que ocorreu?
- Caí e bati estas áreas.
Até este momento o socorrista so-
mente conversou com o paciente
avaliando indiretamente possíveis
sinais de embriaguez, confusão men-
tal e o grau de intensidade da dor
através da expressão facial e da voz do paciente.
- Consegue mexer as pernas?
72
CUIDADOS INDISPENSÁVEIS AO SOCORRER
CAPÍTULO I

Solicitar à vítima consciente que faça


por si mesma os movimentos de teste
nos membros, para diminuir o risco de
possível agravamento da lesão, uma vez
que ao sentir dor, automaticamente a
pessoa interromperá a atividade.
Exceção importante: Sempre que o
paciente referir dor nas costas, deve ser
orientado a manter-se imóvel, inclusive
evitando mover o pescoço, uma vez que
isso pode representar a diferença entre a
recuperação e a incapacitação.
Como se trata de pessoa idosa, existe chance de fratura devido à
osteoporose. Caso o idoso consiga mover as pernas, o próximo pas-
so é apalpar cuidadosamente a área onde ele sente dor. Se esta pal-
pação leve não piorar a dor, pode-se encaminhar o acidentado ao
seu médico ou a um pronto-socorro, de modo a comprovar através
de radiografia se houve algum dano maior (ver orientações no capí-
tulo 17, pág. 225).
Se, ao contrário, o acidentado não conseguir mover-se, ou se, ao se
apalpar as costas na área onde há dor, ocorrer piora, melhor é acalmar
o paciente enquanto se espera socorro. Nunca se deve deixá-lo sozi-
nho; pode-se colocá-lo em posição confortável sem movê-lo (cobri-
lo, apoiar-lhe a cabeça, e t c ) , pois pode ter ocorrido algum tipo de le-
são na medula espinhal. Ressalte-se aqui a importância de obter auxí-
lio de outras pessoas ao prestar o so-
corro. Enquanto dois ou três atuam
junto à vítima, outra pessoa faz con-
tato com ambulância ou polícia.

Caso 2 — Adolescente encontra


pessoa (aparentando uns 40 anos
de idade) estirada no chão de uma
sala, na escola.
Pode ter ocorrido desde um simples
desmaio até uma síncope cardíaca.
O primeiro passo é avaliar o grau
de consciência da pessoa, achegando-
se a ela, tocando-a e sacudindo levemente seu corpo, perguntando:
23
PRIMEIROS SOCORROS

- Olá! Tudo bem? Como se chama?


Se o caso decorre de simples tontura, ou perda momentânea dos
sentidos, somente o fato de ter ido ao chão poderá ser suficiente pa-
ra que a pessoa recobre a consciência. E importan-
te não cometer o erro comum de tentar levantar
a pessoa. Ao socorrer alguém, o ideal é permitir
que o próprio paciente se levante. No máximo,
jj deve-se auxiliá-lo ou apoiá-lo, de forma a que se
estabilize em posição normal. Não devemos ten-
tar levantar por nossas próprias forças alguém que
estamos socorrendo, pois podemos passar pelo
desprazer de ter que deitá-la novamente, a fim de
evitar que caia. Assim, se a
pessoa apenas perdeu a consciência, em vez de
levantá-la, devemos erguer-lhe as pernas e dei-
xar a cabeça o mais baixa possível, de modo a
fornecer ao cérebro o máximo de oxigênio.
Caso não haja resposta após dois ou três cha-
mados ou estimulações táteis (dentro de 10 a 15
segundos), conferir a presença de pulsação na ví-
tima - no pescoço (artéria carótida) ou no pulso
(artéria radial), conforme descrito no capítulo
sobre sinais vitais (ver capítulo 2, pág. 29).
Se houver pulsação ativa, o passo seguinte é verificar a respiração
(pode ocorrer inicialmente parada respiratória e, logo após, parada
cardíaca). Havendo pulso e respiração, o pró-
ximo passo é avaliar a pupila (menina dos
olhos). Deve-se observar se a pupila reage à lu-
minosidade (sob o estímulo da luz, ela deve se
contrair) e se ambas estão do mesmo tamanho.
Toda esta avaliação deve ser completada
em 30 a 45 segundos. Caso seja positiva em
todos aspectos (pulso e respiração presen-
tes, pupilas fotorreagentes), devem ser ava-
liados outros aspectos passíveis de causar
perda de consciência: hematomas no couro
cabeludo, indicando trauma concussional (batida na cabeça),
eventuais hemorragias, etc.
Se não houver perigo iminente para a vítima inconsciente que
24
CUIDADOS INDISPENSÁVEIS AO SOCORRER
CAPÍTULO I

apresenta pulso normal (60 a 80 batimentos por minuto) e respira-


ção normal (12 a 20 respirações por minuto), pupilas isométricas
(do mesmo tamanho) e fotorreagentes (que alteram o tamanho com
a luminosidade), ela deve ser mantida no local em que está, sob ob-
servação, enquanto algum auxiliar do socorrista procura auxílio
(evitar deixar a pessoa sozinha).
Se há pulso e respiração, mas ocorrem diferenças nas pupilas (ta-
manhos diferentes entre os dois olhos ou pupilas fixas, não reagin-
do à luz), a vítima pode estar sofrendo um acidente vascular cere-
bral (derrame cerebral) ou estar intoxicada com alguma substân-
cia (medicamentosa ou do ambiente). Enquanto pede auxílio, o
socorrista deve procurar recolher indícios de quais substâncias po-
deriam estar relacionadas a uma eventual intoxicação (ver capítu-
lo 16, pág. 2 1 5 ) .
Se há pulso mas não há respiração,
a vítima pode ter desmaiado e estar
com as vias aéreas obstruídas (pela
própria língua, próteses dentárias,
e t c ) . Após verificar se não há obstru-
ção mecânica na boca ou garganta do
paciente, deve-se tracionar-lhe o
queixo (suave mas firmemente) para
trás, de modo a liberar as vias aéreas.
Em muitos casos esta simples mano-
bra pode ser suficiente para o retorno
da respiração e recuperação da cons-
ciência. Caso isto não seja suficiente, iniciar a respiração artificial
(ver capítulo 21, pág. 258).
Se não houver respiração nem pulso, iniciar de imediato a reani-
mação cardiopulmonar, deixando outras avaliações para momento
posterior, pois é vital restabelecer o batimento cardíaco e a oxigena-
ção cerebral (após cinco minutos começa a ocorrer a degeneração
das células cerebrais). Deve-se, portanto, deixar outros procedimen-
tos para depois.
Mais uma vez é necessário frisar que, enquanto transcorre a ava-
liação da vítima, a cada intervalo possível durante o atendimento
do acidentado, deve o socorrista estar procurando recrutar o auxílio
de outras pessoas. Isto para evitar o cansaço de ter de efetuar o aten-
dimento sozinho (com o cansaço, as medidas de segurança e a efi-
PRIMEIROS SOCORROS

ciência do atendimento vão diminuindo), como também para que


seja providenciado socorro mais especializado, e, caso seja necessá-
rio, efetuar o transporte do paciente inconsciente.
Sendo este um capítulo introdutório, vários aspectos serão repeti-
dos e ampliados nos capítulos seguintes, de forma que o leitor fixe
os conhecimentos. No caso de dúvidas específicas, sugerimos uma
procura direta no índice remissivo.

5 . PROTEÇÃO PESSOAL E l e g a l
AO PRESTAR SOCORRO
Alguns cuidados de ordem legal devem ser tomados ao prestar auxílio,
uma vez que, embora todo esforço em salvar vidas seja elogiável, nem por
isto o socorrista está liberado do cumprimento das leis atinentes.
Sugerimos que, ao prestar socorro, sempre que possível sejam
convocadas outras pessoas, de forma a garantir testemunhas de co-
mo se desenrolou o procedimento de auxílio à pessoa - especial-
mente se a vítima estiver inconsciente ou com alteração de percep-
ção ("grogue"). Já houve casos de socorristas acusados de ter provo-
cado ou participado do evento
agressor, ou de se haverem
aproveitado da situação para
roubar a vítima.
Sempre que a situação clíni-
ca for adequada para isto, é
ideal solicitar auxílio da auto-
ridade policial ou do corpo de
bombeiros, no transporte, de
modo a garantir o melhor
atendimento possível, tanto
no trajeto quanto na recepção
hospitalar.

6 . RISCOS PARA O
SOCORRISTA

Outro cuidado a ser tomado na atenção a vítimas é a prevenção


da transmissão de eventuais doenças do acidentado para o socorris-
ta, ou vice-versa (um verdadeiro socorro indesejável).
26
CUIDADOS INDISPENSÁVEIS AO SOCORRER
CAPÍTULO I

É essencial evitar ao máximo o contato direto de áreas feridas ou


cortadas, com secreções orgânicas (como sangue) e as de feridas (linfa
ou pus), não importa se provenientes do socorrido ou do socorrista.
Dentre as doenças transmissíveis, acham-se algumas definidamente
fatais, como a hepatite B e a AIDS; outras de alta morbidade, como a
doença de Chagas (ainda sem cura); para não falar de outras doenças
infecciosas, como a sífilis, ou infecções bacterianas e micóticas.

7 . ENTENDENDO OS MEIOS DE TRANSMISSÃO


DE DOENÇAS

Existem doenças cuja taxa de


transmissibilidade é muito alta, co-
mo a hepatite B. Outras podem ser
rechaçadas ou controladas com re-
lativa facilidade pelo organismo
agredido. Em todo caso, é funda-
(i
mental considerar o estado da de-
fesa imunológica como fator que
determinará o curso de evolução
do contato.
Algumas formas de transmissão
dependem do contato direto de pe-
le lesada, ou mucosas, com as secre-
ções humanas, ou até mesmo com Cartoon Estúdio

gotículas de saliva (é o caso da mononucleose e da tuberculose).


Outras formas de contágio ocorrem por meio de vetores (como o
pernilongo, no caso da malária, ou o carrapato, no caso da doença
de Lyme). Em outros casos ainda, o agente infeccioso pode ficar no
meio ambiente, como ovos de lombriga, larvas de esquistossoma, ou
os fungos da blastomicose (fato importante que deve ser levado em
conta ao se prestar socorro em ambientes hostis).
Por isso é necessário que o socorrista esteja ciente dos riscos en-
volvidos na prestação de auxílio a um acidentado, e das doenças
mais freqüentes na área onde vai atuar, de modo a proteger-se e ao
mesmo tempo prestar socorro eficiente. Não queremos com essas
advertências inibir a atividade do socorrista, mas capacitá-lo a pre-
servar sua própria saúde ao ajudar o semelhante. Assim continuará
ajudando sempre.
27
Como (WúliúT os
sinais vitáis
1 . SINAIS VITAIS

A importância deste capí-


tulo é auto-explicativa, se o
leitor consultou o capítulo
anterior. A correta medida
dos sinais vitais é fundamen-
tal para a avaliação do pa-
ciente nos momentos iniciais
do atendimento (por isso
mesmo chamados de vitais). E
através deles que o socorrista
avalia a gravidade do inciden-
te e a urgência do atendimen-
to. Abordaremos o assunto na
seqüência que sugerimos se-
jam os dados coletados, se-
qüência esta comum aos procedimentos de socorro.
As doenças citadas de forma resumida durante o
estudo de cada item, e que forem de relevância para
o atendimento de urgência, serão analisadas em
maiores detalhes nos capítulos específicos.

2 . MEDIDA DA FREQÜÊNCIA
CARDÍACA (PULSO)
Objetiva principalmente avaliar se o coração está
28
C O M O AVALIAR OS SINAIS VITAIS
CAPÍTULO 2

batendo (uma vez que a sensação detectada como pulsação é causa-


da pela contração cardíaca ao impulsionar o sangue pelas artérias),
e subseqüentemente se o faz com ritmo e freqüência adequados.
Comumente realizada no antebraço, também é chamada de "to-
mar o pulso" ou "medir o pulso", embora nem sempre seja realizada
neste local do membro superior.
O primeiro passo é detectar a pulsação e a seguir contar os batimen-
tos, observando depois a regularidade dos mesmos. Os locais para afe-
rição da freqüência são geralmente o pulso (artéria radial) e o pescoço
(artéria carótida), pela facilidade de acesso que estes oferecem. E im-
portante conhecer as demais áreas, uma vez que num acidente nem
sempre temos as áreas preferenciais disponíveis, em virtude de acesso
bloqueado (vítima sotenada), sangramento ativo ou sujeira (sangue
coagulado ou detritos) no trajeto arterial a ser palpado/pressionado.
As técnicas variam um pouco segundo a área de aferição, embora
tenham pontos em comum.

a. Como detectar a pulsação

Deve-se utilizar a polpa digital (ponta) dos


dedos indicador e médio. Não deve ser utili-
zado o dedo polegar, devido à possibilidade
de confundir a própria pulsação com a do pa-
ciente (existe uma artéria cujo trajeto vai até
a extremidade do polegar).
Os dedos devem exercer pressão gentil, mas com certa intensidade,
sobre o trajeto arterial visado (pressão muito fraca não capta nada), di-
retamente sobre a pele (tentar sentir a pulsação por cima da roupa ge-
^ ralmente é inútil), procurando captar o ritmo;
depois se procede a contagem dos batimentos.
Caso não sejam captadas neste local (nu-
ma urgência, o pulso pode estar fraco, ou o
nervosismo pode atrapalhar a percepção), as
pulsações serão pesquisadas em trajetos arte-
riais de maior intensidade, como no pescoço
(artéria carótida), ou na dobra da coxa/viri-
lha (artéria femoral), dependendo da facili-
dade de acesso (geralmente se prefere o pescoço). Outras artérias uti-
lizadas em casos de acidentes automobilísticos ou em desabamentos,
PRIMEIROS SOCORROS

quando somente algumas áreas do corpo do paciente são acessíveis,


podem ser a artéria umeral (face interna do braço), a artéria tibial
posterior (face interna do calcanhar), e a ar-
téria dorsal do pé (peito do pé).
A identificação das artérias e seus trajetos
será novamente abordada no capítulo sobre
hemorragias, de forma a familiarizar o leitor
com a nomenclatura e localização.
Outra forma de contagem da pulsação é
através do estetoscópio (dispositivo que am-
plifica os sons), de forma a obter diretamente
do coração a freqüência, ritmo e sonoridade
dos batimentos cardíacos. Neste caso podem
ser escolhidos vários locais na porção esquer-
da central do tórax, de acordo com a situa-
. J ção, idade, sexo, etc.

b. Valores normais e alterações fisiológicas

A freqüência das pulsações no adulto geralmente varia entre 60 e


80 batidas por minuto (bpm). Na criança é mais rápida quanto mais
jovem ela for (no recém-nascido pode ser de 120 a 140 bpm, dimi-
nuindo para 100 a 120 bpm por volta dos dois anos, e mantendo-se
entre 80 a 100 bpm após os dois anos).
As variações desses valores normais são muitas, em função de: sexo
(na mulher a freqüência é ligeiramente mais rápida que no homem),
idade (maior na infância; diminui paulatinamente com o crescimen-
to, voltando a aumentar na terceira idade), temperatura (em extremos
de calor e de frio podem ocorrer alterações), estresse/nervosismo/emo-
ções (por estimulação causada pela adrenalina), alterações na pressão
arterial (a diminuição dela aumenta a pulsação e vice-versa).
Levando em conta essas variações, o ideal é que cada pessoa te-
nha conhecimento de sua pulsação habitual. As variações indivi-
duais serão importantes na avaliação da forma física da pessoa.

tros comuns e suas cansas

O mais freqüente equívoco ao se tomar o pulso é fazê-lo com o de-


do errado - o polegar. Isso pode ocasionar confusão com a própria
30
C O M O AVALIAR OS SINAIS VTTAIS
CAPÍTULO 2

pulsação de quem está fazendo a medida, uma vez que, diferente-


mente dos demais dedos, onde a circulação se dá sobretudo nas la-
terais, no polegar ela ocorre também na polpa digital.
Outro equívoco é fazer a medida da pulsação por tempo muito
curto. O intervalo mais adequado é
de 30 segundos a 1 minuto. Por
causa da pressa em finalizar o aten-
dimento, o socorrista às vezes to-
ma a medida durante 5 a 10 segun-
dos e faz a multiplicação, o que po-
de ocasionar margem de erro bas-
tante grande.
Lembre-se: não se deve dar im-
portância isolada ao pulso (como
o faz a medicina chinesa), já que
este é apenas um dos sinais vitais.
Ao socorrista deve interessar o
conjunto dos sinais.

3 . MEDIDA DA FREQÜÊNCIA RESPIRATÓRIA

Imediata ou paralelamente à verificação da pulsação, deve o so-


corrista avaliar a respiração da vítima. Caso o coração esteja impul-
sionando o sangue, mas não esteja havendo troca de gás carbônico
por oxigênio, nos pulmões, brevemente o batimento cessará, pois a
falta de oxigenação levará as células cerebrais à morte, e são elas que
controlam o batimento cardíaco. Além disso, as células do coração,
que realizam o batimento, também morrerão.
A respiração é tão essencial quanto o batimento. Devemos ava-
liá-la também nos primeiros instantes.

a. Tipos e freqüência normal

A divisão em tipos de respiração refere-se mais ao tipo de muscu-


latura utilizada na produção de movimentos respiratórios: torácica
(mais observada nos homens) e abdominal (mais observada nas mu-
lheres e crianças). Conhecer os tipos torna-se necessário face às téc-
nicas de mensuração.
Como pode ocorrer alteração no número de respirações efetuadas
PRIMEIROS SOCORROS

pelo paciente consciente, por razões emocionais, recomendamos nun-


ca informar o que estamos fazendo (disfarce e aparente estar fazendo
apenas a contagem do pulso). Se o paciente está inconsciente, obvia-
mente a freqüência não será alterada, pelo menos num curto período.

b. Técnicas de verificação

Pode ser realizada através de inspe-


ção visual da movimentação do tó-
rax/abdome (adultos), acrescida da
movimentação das asas nasais (em
crianças ou em pessoas com insufi-
ciência respiratória). Pode também ser
medida com o estetoscópio, sendo pre-
ferível neste caso auscultar a parte
central direita do tórax, a fim de evitar
que os sons cardíacos atrapalhem a
contagem.
Daniel

c. Importância da medida correta

A avaliação da freqüência respiratória tem impacto vital na ava-


liação da necessidade ou não de se enviar o paciente para hospita-
lização ou para atendimento mais especializado. Em muitos casos
o acompanhamento das alterações na freqüência respiratória pode
indicar agravamento do quadro (em pacientes pós-traumatizados,
diabéticos, asmáticos, etc.). Recomenda-se, pois, que a medição
seja feita a intervalos curtos, especialmente nas primeiras horas de
assistência.

d. Valores normais em repouso e alterações fisiológicas

A freqüência respiratória do adulto costuma oscilar entre 12 e 20


respirações por minuto (rpm), sendo também mais rápida na crian-
ça do que no adulto, tal como a pulsação. Apresenta diminuição
gradual com o crescimento (40 a 45 rpm no recém-nascido, baixan-
do para 20 a 25 rpm até 6 anos, e 18 a 20 rpm acima dos 6 anos).
As condições que causam alterações na pulsação, geralmente,
agem também na respiração, e no mesmo sentido.
32
C O M O AVALIAR OS SINAIS VITAIS
CAPÍTULO 2

4 . PRESSÃO ARTERIAL

A pressão arterial reflete de forma específica a força e a velocida-


de com que o coração impulsiona o sangue pelas artérias, a resistên-
cia dessas vias sangüíneas e a composição e quantidade de sangue
que circula no sistema.
Problemas cardíacos podem diminuir a pressão, a arteriosclerose
(endurecimento e entupimento das artérias) pode aumentá-la, e a
perda de sangue pode diminuí-la.
Para o socorrista, a medida da pressão arterial pode sinalizar im-
portantes indicações diagnosticas, combinando-se a mesma com os
outros sinais vitais. Por exemplo, em caso de acidente com trauma-
tismo torácico ou abdominal, o aumento progressivo da pulsação e
queda gradual da pressão, sugere a possibilidade de hemorragia in-
terna, recomendando procedimento mais agressivo e urgente.

a. Técnicas de verificação

A mensuração da pressão é efetua-


da utilizando-se um aparelho deno-
minado esfigmomanômetro. Este,
através de uma bolsa de ar acoplada a
um sistema de medida, registra as al-
terações de impulsão das artérias de
maneira visual (escala nos manóme-
tros de mercúrio, ou relógio, nos ma-
nómetros aneróides).
A percepção da diferença entre a
pressão aplicada pela bolsa de ar e a
pressão exercida pelas artérias, se faz utilizando um estetoscópio jun-
to com o esfigmomanômetro, de modo a se perceber o ruído presen-
te de acordo com as pulsações.
Efetua-se a medida colocando o esfigmomanômetro ao redor do
braço do paciente, ajustando-o firmemente, de modo a deixar o mí-
nimo de folga. O uso de aparelho com fecho de velcro permite me-
lhor adaptação. Coloca-se então o estetoscópio na projeção da arté-
ria umeral (na face interna do braço, próximo ao cotovelo), ou na
dobra anterior do cotovelo.
O aparelho é insuflado fechando-se a saída de ar e bombeando-se
PRIMEIROS SOCORROS

a pêra do mesmo até a marca de aproxi-


madamente 180 a 200mmHG (milíme-
tros de mercúrio, a unidade de medida de
pressão). Caso o paciente sinta dor, deve-
se insuflar menor quantidade de ar ao re-
petir a medida. Um certo desconforto
sempre ocorre pela compressão da área.
Atingida a marca desejada, a desinsufla-
ção deve ser lenta, deixando escapar o ar aos
poucos, atentando para a marcação na esca-
la ou no relógio aneróide, de modo a captar
o momento em que iniciam os sons da pul-
sação arterial, em especial o instante em que se tornam mais intensos
(pressão sistólica), e quando eles desaparecem (pressão diastólica).
Caso haja dúvida, pode-se repetir a medida após cinco minutos, ou
utilizar o braço oposto. Em alguns casos de doenças de obstrução arterial
pode haver grande diferença entre um braço e outro, mas no momento
do socoreo do paciente isto não deve representar grande dificuldade.
Aparelhos digitais, por sua menor precisão, são menos confiáveis,
não sendo a primeira escolha para aquisição (além disso, também
são mais caros).

b. Valores normais em repouso e alterações fisiológicas

Os valores variam entre adultos e crianças, mas como a medida da


pressão em crianças requer aparelhagem especial (do tipo que geral-
mente só os pediatras têm), citaremos os valores do adulto, que po-
dem variar entre 100 e 130 de pressão sistólica e 70 e 85 de pressão
diastólica, originando resultados como 100x70 ou 120x80 ou
130x85. Via de regra, isto é referido suprimindo-se o último zero (as-
sim o paciente pode mencionar: "Minha pressão é 1 1 por 7 e meio,
ou 12 e meio por 8 ) .
Estando intimamente relacionada com circulação e respiração, a
pressão arterial também sofre influência das emoções, de esforços fí-
sicos, da temperatura, etc. Existe ainda o fato de que é alterada pe-
lo horário do dia, sendo um pouco maior no final da tarde e na me-
tade inicial da noite.
Ao atender uma pessoa, é importante não rotulá-la como hi-
pertensa logo na primeira medida, exceto nos casos em que a
U 3 M G AVALIAR OS SINAIS VITAIS
CAPÍTULO 2

pressão é claramente alta e a pessoa não esteve praticando


exercícios. Por exemplo: uma pessoa está assentada durante 10
ou 15 minutos. Quando lhe medem a pressão, esta chega a va-
lores de 2 0 0 x 1 2 0 .

c. Fontes comuns de erros

Entre os aspectos que podem atrapalhar a precisão na medida da


pressão, um dos mais comuns é a pressa em medi-la, já de início, não
obedecendo ao período de cinco minutos de intervalo, com a pes-
soa em repouso e na mesma posição. Sugerimos o posicionamento
do esfigmomanômetro, seguido da colocação do paciente em posi-
ção de repouso, a medida da freqüência respiratória e cardíaca, e en-
tão a medida da pressão arterial.
Outro aspecto importante é dispor de aparelho bem calibrado e
conferido com freqüência. Sempre que houver dúvidas, deve ser re-
feita a medida com outro aparelho. Assim, se todas as pessoas em
que é feita a medida com determinado aparelho apresentarem pres-
são baixa ou alta, deve-se trocar de esfigmomanômetro.
Detalhe comum nos consultórios, e que pode ocorrer num acidente
devido ao estresse e à preocupação do paciente com seu real estado de
saúde, é que o ato de realizar a medida pode desencadear um pico hi-
pertensivo. No consultório isto é chamado de hipertensão branca, uma
vez que é provocada pela presença e atuação de alguém vestido de bran-
co (enfermeiro ou médico). Assim, não devemos definir como hiper-
tensa uma pessoa ao medir-lhe a pressão „ ,
pela primeira vez, nem dizer-lhe a pressão
real, se indagada. Diga-lhe que está boa e
torne a medi-la após cinco minutos.

5. IEMPERATUKA

Diferentemente de outros sinais vitais,


os valores normais da temperatura cor-
poral variam menos em função da idade
do paciente, embora em crianças meno-
res seja estavelmente mais alta, próxima a
37°C (graus Celsius). Varia mais em função do local onde é realizada a
medida (temperatura oral, axilar ou retal).
35
PRIMEIROS SOCORROS

A medida é realizada usándose termômetros de vários tipos, des-


de os de bulbo de mercurio simples (com escala interna impressa),
passando pelos de sinalização eletrônica, até os termômetros timpá-
nicos, quase completamente instantâneos.
Existem outros dispositivos planos, como o termômetro de fita,
que medem a temperatura na pele do rosto e fazem a devida corre-
ção. Podem apresentar ampla margem de erro e não são recomenda-
dos para uso pelo socorrista, podendo ser aceitos no uso doméstico.
Usualmente é feita a medida da temperatura axilar, com variação
normal entre 35,8°C, durante a madrugada ou cedo de manhã, até
37,3°C. Temperaturas mais altas costumam ocorrer ao final da tarde
e no início da noite. A variação média ocorre entre 36 e 37°C.
A temperatura retal é geralmente 0,4 a 0,5°C maior que a bucal.
Diferenças maiores são indícios de processo infeccioso intestinal, tal
como apendicite.
Alguns fatores não patológicos podem influir na temperatura
cutânea: ansiedade, atividade física e exposição prolongada ao sol
(que será abordada na seção sobre insolação e intermação,
capítulo 14, pág. 173).

6 . SINAIS INDIRETOS
Ijj
O socorrista pode avaliar muitos si-
I . nais indiretos, de modo a complemen-
\
tar os quatro sinais vitais clássicos, le-
vando-o a obter visão mais clara da si-
S/ /
/
tuação do paciente. Citaremos os mais
simples e mais importantes:
7
Colo ração das mucosas Em es-
pecial as mucosas labial e ocular
(parte interna do lábio e da pálpebra), uma vez que alterações
nelas podem sugerir perda sangüínea progressiva, diminuição
da pressão, intoxicação por gases ou anemia. Procure avaliar
sob adequada iluminação. Se tiver dúvida, ilumine a mucosa
ocular com lanterna.

Diâmetro e reflexo pupilar - O primeiro aspecto importante é


analisar o diâmetro da pupila. Se muito dilatada (maior que 5mm)
36
L^OMO AVALIAR OS SINAIS VITAIS
CAPÍTULO 2

ou muito contraída (me-


nor que 3mm), pode ser
indicação de alterações a
serem pesquisadas (into-
xicações medicamentosas,
dor intensa, e t c ) .
Outro ponto importan-
te é se existe diferença
no diâmetro das duas pu-
pilas, e se essa alteração Cartoon Estúdio

(anisocoria) se mantém quando um dos olhos é exposto à luz.


Também é importante analisar se existe esta reação (contração
de ambas as pupilas quando apenas uma delas for estimulada com
luz), e se é rápido o retorno ao normal ao ser retirado o estímulo
luminoso. Alterações na fotorreatividade das pupilas podem suge-
rir lesão intracraniana (estando a pupila mais dilatada do lado afe-
tado) ou lesões oculares.

7 . AVALIAÇÃO DO CONJUNTO DE SINAIS


VITAIS E SUA UTILIDADE PRATICA
A soma das avaliações prove-
rá um quadro sugerindo maior
ou menor gravidade, necessida-
de de transporte imediato, con-
vocação de ambulância e pes-
soal especializado, ou ainda um
tratamento simples pelo próprio
familiar ou socorrista.
Sempre é importante avaliar o
conjunto, não valorizando um
item mais que outro. Um dos
itens pode estar incorreto, ou po-
de requerer reavaliação antes de
se tomar decisão mais definitiva.
Da evolução dos sinais vitais
ao longo do atendimento pode
ser inferido o prognóstico do caso e sugeridas prospectivas de aten-
dimento médico.
37
PRIMEIROS SOCORROS

8 . AVALIAÇÃO DE PACIENTES INCONSCIENTES


ATRAVÉS DAS ÁREAS-CHAVE
Cabeça - Paciente com face congestionada (intoxicação alcoóli-
ca); rosada (intoxicação por monóxido de carbono). Depressões lo-
calizadas (fraturas ou concussões). Perda de líquido claro pelo nariz
ou ouvido (fraturas em áreas que permitem a saída de liquor - risco
de meningite). Múltiplas cicatrizes (antecedentes de epilepsia).

Pele - Vermelhidão geral distribuída em pontinhos muito próxi-


mos (coma por medicação para dormir, do tipo barbitúrico). Suor
intenso e frio (diabético com falta de glicose no sangue).

Hálito - Característico em alguns casos: álcool (intoxicação al-


coólica), acetona (diabetes), pútrido (infecções tipo sinusite, amig-
dalite, pneumonia).

Vômito - Em caso de ocorrência, procurar coletar parte do mate-


rial para envio ao médico, em especial nos casos de suspeita de in-
toxicação ou envenenamento.

Braços ou pernas em posição incomum - Possibilidade de fratu-


ra ou luxação de articulações.

Depressões torácicas ou alterações da superfície abdominal -


Possibilidade de lesões de vísceras, com hemorragia interna.
ULO

Materiais necessários para


prestar socorro

Neste capítulo você encon-


trará orientações tanto para
socorrer acidentados como pa-
ra prevenir doenças. Por moti-
vos práticos e didáticos, divi-
dimos o equipamento em al-
guns grupos:

Material individual cio so-


corrista - Deve estar em local
de fácil acesso, tanto para uso
doméstico como para trans-
porte, ou ainda para efetuar
socorro externo.

Material de uso familiar - Mais amplo, pode


abranger itens de uso interno, dos membros do lar.
Exemplo: medicamentos de uso prolongado, como
anti-hipertensivos. E importante a sua centralização
em um único local, para facilitar seu acesso e dimi-
nuir o risco de uso acidental por crianças, evitando
assim intoxicações.

Material semi-profissional - Para uso de pes-


soas com mais experiência, que tenham partici-
pado de treinamento prático na área de primeiros
39
PRIMEIROS SOCORROS

socorros ou sejam profissionais de saúde (enfermeiros, fisiotera-


peutas, dentistas e médicos).

Material de apoio - Itens não envolvidos diretamente no atendi-


mento, mas que podem auxiliar de alguma forma, por facilitá-lo,
proporcionar conforto, permitir melhor visualização, e por poderem
ser usados para ministrar medicação.
Alguns materiais só poderão ser utilizados adequadamente por pro-
fissionais com treinamento específico e em atividade. Não se justifica
o gasto com itens que o socorrista não saiba manejar. Melhor é adqui-
rir materiais apenas depois de adequadamente treinado para o seu uso.
Deve-se ter uma caixa de primeiros socorros e começar pelos itens
mais usados e mais baratos. De acordo com a necessidade, deve-se
fazer gradativamente os acréscimos.
De início será possível acondicionar o material numa bolsa. Com o
aumento gradual, tem-se a opção das caixas de pesca com várias divi-
sões, de modo a ter todos os itens facilmente acessíveis.
A montagem completa do conjunto pode demorar algum tempo,
mas não precisa haver pressa. Basta manter-se aprendendo e repon-
do o material mais utilizado.
Outro ponto importante é que, após o uso, alguns materiais de-
vem ser adequadamente limpos e desinfetados, ou então descartados
com o aviso de que contêm material biológico.
Tendo em vista facilitar ao leitor a obtenção dos medicamentos para a
sua caixa de primeiros soconos, estaremos, na medida do possível e /ou
necessário, fornecendo o nome químico (genérico) seguido, quando
desejável, pelo nome fantasia entre parênteses. Quando o produto for sem
similares em sua classe ou resultado da combinação de várias substâncias,
forneceremos apenas o nome fantasia, seguido sempre pelo símbolo ®.
Com a constante evolução científica e a freqüente descoberta de
novas substâncias, pode ser importante a atualização dessa listagem
de medicamentos com o seu médico, ao iniciar a montagem da
caixa de primeiros socorros.

1. MATERIAL INDIVIDUAL DO SOCORRISTA

• Gaze - 6 envelopes de 5 unidades


• Agua oxigenada - 10 volumes em frasco plástico de lOOml
• Esparadrapo antialérgico - Johnson®, Micropore® ou Leucopore®
MATERIAIS NECESSÁRIOS PARA PRESTAR SOCORRO
CAPÍTULO 3

• Curativo tipo Band-Aid® - vários formatos e tamanhos


• Bandagem (faixa) de crepe 5/6cm e 10/12cm, não adesiva
• Pacote de algodão hidrófilo pequeno (25g)
• Alfinete de segurança - 2 pequenos, 2 médios, 2 grandes
• Verutex®, Cauterex®, Plastenan®- para curativo em feridas ou
machucados
• Advantam®, Steronide ou
Elocom - para picadas de insetos
ou queimadura solar
• Cotonetes
• Pinça de sobrancelhas
• Tesoura com ponta
(Os cotonetes e a pinça de-
vem ser protegidos para evitar
que acumulem sujeira; e a tesou-
ra deve ser esterilizada através
de fervura em panela de pressão
por 20 a 30 minutos, após uso.)
• Termômetro clínico
• Luvas - se possível de vinil, por serem antialérgicas, ou então
de plástico, descartáveis

2 . MATERIAL DE USO FAMILIAR

• Antiinflamatório Nimesulida gotas e comprimidos - para dor e


prevenir queimadura solar
• Analgésico Acetaminofen (Tylenol® ou Dôrico® 750mg) e go-
tas - para dor e febre
• Anti-histamínico Dexclorfeniramina (Polaramine®) ou Clemastina
(Agasten®) - para coceira (dá sono, prefira usar à noite); Loratadina
(Claritin®/Loranil®) ou Cetirizina (Zyrtec®/Zetir®) ou Epinastina
(Talerc®) - para picadas de insetos (não dão sono)
• Antiemético Bromoprida (Plamet® ou Digesan®) ou Trimebutina
(Debridat®), cápsulas e gotas - para náuseas e vômitos
• Sais para reidratação oral (27,9g) da C E M E ou Pedialyte®
90/Hidrafix® 90
• Sorine® adulto e infantil - descongestionante nasal
• Hexomedine® spray, Flogoral® colutório, Omcilon® orabase,
Gingilone® pomada - dor de garganta/aftas
41
PRIMEIROS SOCORROS

• Otosynalar® gotas - dor de ouvido


• Protetor solar - Spectraban® T, Sundown® 30, Episol® 45,
Helioblock® 60 ou de acordo com o tipo de pele
Obs.: Já existem à venda filtros solares com repelente incorpora-
do. Geralmente são de baixo fator de proteção (de 8 a 15), mas
constituem uma opção para as pessoas mais morenas.
• Protetor solar para lábios - Spectraban® 15, Helioblock® Lips ou
Sundown® 15
• Medicamento de uso
próprio: anti-hipertensi-
vo, anticonvulsivante,'
diabetes, etc.
• Lidocaína gel 2 % e po-
mada 5 % , ou a fórmula
para queimaduras (EM-
LA® creme)
• Lâminas de barbear no-
vas - devem ser manti-
das na embalagem até o
momento do uso e de-
pois ser descartadas; im-
portante não reutilizar.
• Álcool gel, álcool iodado ou Chlorexidina alcoólica, para de-
sinfecção e limpeza das mãos e lesões
• Soro fisiológico - 1 Frasco de 250ml para limpeza de lesões não
infectadas, nebulizações e lavagem dos olhos para remoção de
corpo estranho
• Antiácido Simeco-plus® ou Riopan® líquido/comprimidos -
para azia e dor estomacal
• Epitezan® pomada ou pomada oftálmica equivalente, sem
corticosteróide - para uso em caso de traumatismo ocular
(fazer oclusão)
• Colírio Anestésico Frumtost® ou Anestalcon®
• Antitussígeno Zyplo®, Seki® ou Silomat®, xarope e gotas
• Antiasmático Bricanyl® xarope e comprimidos Duriles,
Bamifix® comprimidos, Aerotide®, Duovent® ou Combi-
vent® spray
• Bolsa térmica para aplicações quentes ou frias
• Carvão ativado para casos de diarréia
42
MATERIAIS NECESSÁRIOS PARA PRESTAR SOCORRO
CAPÍTULO 3

MATERIAL DE USO SEMI-PROFISSIONAL

Esfigmomanômetro
Estetoscópio
Nebulizador e itens como
Berotec®, Atrovent® e Mu-
cosolvan®, em solução para
nebulização

:. MATERIAL DE
APOIO*
Caixa de fósforos
Lanterna elétrica com pilhas
Copos de plástico
Colheres de plástico
Dermacyd® sabonete líquido Cartoon Estúdio

ou Cetaphil®
Jornais
Jogo extra de pilhas para lanterna

(*) Este material não es-


tá diretamente envolvido
no atendimento, mas pode
ser útil durante o socorro:
• Jornais para forrar o
chão, reduzindo a conta-
minação durante o aten-
dimento;
• Lanterna para os aten-
dimentos noturnos, etc.

43
CA L O

Como lidar com os ferimentos


mais comuns
Dr. Gerson Trevilato
Dr. Everton Ricardo de Abreu Netto

Dentre as medidas a tomar


no socorro ao ferido, um dos
passos é identificar que tipo
de lesão a pessoa sofreu e quão
intensa é a gravidade do caso.
E um assunto que envolve
muitos aspectos e pode ser
classificado de várias formas,
com o objetivo de facilitar a
compreensão e memorização.
A classificação mais simples
divide as lesões básicas em su-
perficiais (escoriações e alguns
tipos de contusão sem forma-
ção de hematoma) e profundas (todas as demais).
Outra maneira de dividir as lesões seria entre sim-
ples (as quatro lesões básicas: contusão, escoriação,
lesão cortante e lesão perfurante) e complexas/mistas
(onde ocorrem combinações de lesões).
Também podem ser classificadas como fechadas,
quando a integridade da pele é mantida, o que reduz
este grupo às contusões, tanto profundas (com for-
mação de hematoma, ou "galo", quando ocorre na
cabeça), quanto superficiais; e lesões abertas (quan-
do a pele é rompida).
44
C O M O LIDAR COM OS FERIMENTOS MAIS COMUNS
CAPÍTULO 4

Um último aspecto a considerar na introdução ao assunto, são as


complicações das lesões básicas que também demandam providências,
tais como o grau de contaminação e intensidade do sangramento.
Estas orientações gerais visam a organizar os primeiros cinco mi-
nutos de atendimento, sempre baseando-se nos três aspectos: dor,
hemostasia (ou interrupção do sangramento) e limpeza das lesões. O
sucesso dos procedimentos seguintes tem direta relação com a for-
ma como foram resolvidos os três problemas iniciais.
Abordaremos individualmente cada tipo de lesão.

1. CONTUSÃO

Lesão não penetrante, de profun-


didade variável, criada por força con-
tundente (impacto), exercendo ação
lesionai por pressão abrupta ou com-
pressão contínua, associadas ou não
ao deslizamento, podendo ou não
causar lesões subcutâneas: equimoses
(superficiais), hematomas (área sob a
pele contendo sangue) ou seromas
(área sob a pele contendo plasma ou
soro), estes últimos de maior profun-
didade. Normalmente a força contun-
dente dá-se em sentido perpendicular à superfície atingida, sendo
tanto mais profunda a lesão quanto maior a intensidade do impac-
to. Pode ser causada por instrumentos de superfície ampla e sem
ponta (barras de ferro, pedras, tocos de madeira), assumindo a lesão
um formato que lembra o objeto traumatizante.
Não há contaminação proveniente do meio externo nem sangra-
mento inicial visível.
Lesões internas que causem ruptura de vasos sangüíneos formarão
equimoses e hematomas ("galos"). Se oconer traumatismo de vasos lin-
fáticos ou de áreas extensas de tecido subcutâneo, teremos os seromas.
Raramente esse tipo de lesão necessita de tratamento médico, exce-
to se houver suspeita de fratura, ou ocorrer perda de movimento da
área contundida. Mesmo nesses casos simples a área afetada deve ter
sua mobilidade parcialmente restringida, ficando em repouso e elevada
nas primeiras 12 a 24 horas, visando diminuir o edema (inchaço).
45
PRIMEIROS SOCORROS

O tratamento deve iniciar logo após a ocorrência do trauma, pela


aplicação de frio local (bolsa de gelo, compressas frias), mantido nas
primeiras 24 horas, com o objetivo de dimi-
nuir o inchaço local e até a formação de he-
matomas, diminuindo assim a dor da lesão.
Após 24 horas deve ser iniciada a aplica-
ção de temperaturas alternadas, começando
com o calor úmido mais intenso suportável
(em banhos locais ou compressas), por três
minutos e meio. Imediatamente alternar
com o frio - que não precisa ser muito inten-
so; pode ser de temperatura ambiente, ape-
nas para fazer contraste térmico - por meio
minuto. Esse contraste de temperatura deve
ser repetido quatro vezes (total de 16 minu-
tos). Os banhos ou compressas de contraste
objetivam estimular a circulação linfática, diminuindo a dor e o in-
chaço decorrentes da contusão, e devem ser repetidos de três a seis
vezes ao longo do dia.
Supondo-se que não haja fraturas ou perda de movimento do lo-
cal atingido, também podem ser utilizados antiinflamatórios por via
oral, como a nimesulida. Se a dor for muito intensa, pode ser asso-
ciado à nimesulida (Nisulid®/Scaflan®) o acetaminofen (Tylenol®
ou Dôrico®). E bom lembrar, contudo, que a maioria dos antiinfla-
matórios são potenciais agressores da mucosa gastroduodenal, sobre-
tudo em uso prolongado. No caso de lesões subcutâneas associadas
(superficiais), as equimoses ou arroxeamentos costumam desapare-
cer entre alguns dias e um mês, mas se forem muito intensas pode-
se fazer uso local de cremes à base de enzimas (Hirudoid®/Hyalozi-
ma®/Thiomucase®) para acelerar a absorção.
Caso se formem seromas ou hematomas, o paciente deve ser en-
caminhado para drenagem pelo médico, com o uso de seringa e agu-
lha hipodérmica, após limpeza prévia da pele com álcool. No caso
específico de hematomas sob a unha, extremamente dolorosos, a
perfuração cuidadosa da unha com agulha hipodérmica é um proce-
dimento simples e de eficiência comprovada.
Na reabsorção do hematoma segue-se uma escala de cores: verme-
lho arroxeado, seguido por um tom esverdeado, a seguir amarelado,
e, finalmente, cor normal da pele, podendo demorar até três sema-
COMO LIDAR COM OS FERIMENTOS MAIS COMUNS
CAPÍTULO 4

nas a recuperação total. Assim a coloração da pele pode ser usada


como guia para avaliar a evolução do caso.

2 . ESCORIAÇÃO

Conjunto de arranhões superficiais, produzidos por atrito violen-


to de uma superfície irregular, áspera, que não ultrapassam as pri-
meiras camadas da pele (epiderme e derme reticular), podendo ser
muito dolorosos se atingirem o nível cutâneo das terminações ner-
vosas. Geralmente apresentam grande quantidade de sujeira que
precisa ser removida para evitar infecção.
Ocorrem em áreas descobertas e na porção
externa de articulações ou juntas (cotovelos,
joelhos) ou face e mãos, podendo situar-se
em áreas cobertas em caso de impacto mais
forte. O sangramento, se ocoree, é pequeno,
sendo possível estancá-lo com compressão
local (veja o capítulo 5, sobre hemoreagias).
O estancamento deve ser realizado após lim-
peza, uma vez que o próprio sangramento
pode ser de auxílio na remoção de detritos.
O tratamento consiste em cuidadosa
limpeza manual da área afetada, usando
água e sabão (se possível antisséptico, como Hibitane® ou Soapex®)
para remover o máximo de sujeira e corpos estranhos. Caso as lesões
sejam muito dolorosas, pode ser necessário o uso de anestésicos lo-
cais, como o EMLA®, para manipulação
adequada e remoção de toda contaminação.
Após a limpeza mecânica, faz-se uso de
soluções antissépticas tópicas como Povidi-
ne® ou Clorhexidina, objetivando inibir ao
máximo a multiplicação de bactérias no lo-
cal. Depois da limpeza deve ser aplicado
curativo para proteger a lesão de sujeira e
poeira, e restabelecer o ambiente úmido da
pele abaixo da camada córnea da epiderme.
Assim, eventuais crostas que se formem se-
rão sempre macias, sem atrasar a cicatrização.
Outra opção são os curativos com camada de hidrocolóide aderi-
PRIMEIROS SOCORROS

da (Duoderm®), que simulam a situação de uma pele substituta ade-


rida à ferida.
Para obter umidade no curativo, existem algumas opções de po-
madas, que dividimos em três grupos:

• Ferida bem limpa, sem secreção, sem contaminação bacteriana


- usar Plastenan creme, que é um cicatrizante puro, sem antibiótico.
• Ferida onde não se obteve limpeza completa, ou onde haja pos-
sibilidade de contaminação bacteriana - sugerimos o uso do Veru-
tex, que é um antibiótico de excelente penetração cutânea e bom
espectro de ação sobre bactérias da pele.
• Ferida onde haja secreção ou onde existam muitas fímbrias de
pele, ou ainda onde a cicatrização esteja
sendo lenta - usar Cauterex® com
Gentamicina, que combina um estimu-
lante de cicatrização com antibiótico.
Outra opção para evitar que o curativo
grude na ferida, é o uso de gaze vaselina-
da (embebida em vaselina líquida), posta
sobre a pomada escolhida.

Deve-se evitar a todo custo:

• Talcos ou pós antissépticos, pois res-


secam a crosta, tornando mais difícil sua remoção.
• Agua Oxigenada - pode ser utilizada no máximo até o quinto
dia após a lesão; a partir de então começa a atrasar a cicatrização por
inibir a multiplicação das células da pele.
• Substâncias coloridas ou que venham a colorir a pele (mer-
cúrio, mertiolate, rifocina, permanganato de potássio ou fura-
cin). Além de alguns poderem causar alergias (mercúrio, mertio-
late e furacin), atrapalham a avaliação da evolução da pele, difi-
cultando a análise de possíveis infecções, cujo primeiro sinal é a
vermelhidão local.
• Pomadas que contenham neomicina (risco de desenvolver aler-
gia ao longo do tratamento).
Lembre-se de usar analgésico para diminuir a dor do traumatis-
mo e a que decorre do tratamento. Geralmente o uso de acetami-
nofen é suficiente.
C O M O LIDAR COM OS FERIMENTOS MAIS COMUNS
CAPÍTULO 4

3 . LESÃO PERFURANTE

Essa denominação para esse tipo de lesão caracteriza a ação de


perfuração (penetração) que nela costuma ocorrer. E produzida
por objetos pontiagudos, longos, e geralmente finos (com diâme-
tro transverso pequeno), tais como esti-
lete, compasso, prego, arame, espinho,
agulha. Produz-se afastamento das fi-
bras do tecido atingido, com mínima
secção das mesmas, deixando um orifí-
cio de entrada de diâmetro menor que
o objeto, graças à elasticidade dos teci-
dos cutâneos. Isso vem a constituir um
dos problemas desse tipo de lesão, por
permitir a permanência de sujeira e
material contaminante na profundida-
de dos tecidos. Cartoon Estúdio

Havendo pouca lesão de tecido, também se produz pouco sangra-


mento, exceto se ocorrer perfuração de um vaso. Isso também favo-
rece a manutenção de detritos no interior da pele. Mesmo ao ocor-
rerem perfurações vasculares, estas são geralmente controladas ape-
nas com compressão local.
Dependendo do tamanho do agente traumatizante e do local
atingido (tórax, abdome), podem ocorrer lesões profundas. Pode-se
requerer cirurgia de emergência para reparar os danos causados às
estruturas mais nobres (pulmões, coração, vasos sangüíneos e órgãos
abdominais como fígado ou intestinos).
Devido à contaminação na profundidade, são freqüentes as infec-
ções e diversos casos de tétano, razão pela qual é necessário especial
cuidado na limpeza dessas lesões. Recomenda-se que o socorrista
proceda apenas a hemostasia, encaminhando o paciente para ava-
liação médica, para ampliação do orifício de entrada com lâmina de
bisturi ou outro objeto cortante estéril, seguida de limpeza mecâni-
ca do trajeto. Fazê-lo mesmo nos casos aparentemente simples.
Talvez o paciente tenha de receber vacina contra o tétano, que de-
ve ser repetida a cada 10 anos. Se já foi vacinado dentro desse perío-
do e o caso é realmente simples, sem lesões profundas ou internas,
deve-se proceder a limpeza mecânica detalhada do local, com água e
sabão e uso de analgésicos leves (como acetaminofen ou dipirona).
49
K \ PRIMEIROS SOCORROS

Nestes casos é importante a reavaliação freqüente do caso, pois po-


de ser necessário o uso de antiinflamatórios e de antibióticos, os
quais preferencialmente devem ser recomen-
dados pelo médico.
Devem ser evitados os mesmos itens mencio-
nados no capítulo 4, pág. 48, com a observação
adicional de que a água oxigenada na profundi-
dade pode causar necrose asséptica das estrutu-
ras atingidas, causando dor local e retardando a
cicatrização. Além disso, pela visualização ex-
terna nem sempre se consegue avaliar a profun-
didade da ferida. Assim, nas lesões penetrantes,
a água oxigenada jamais deve ser utilizada.
Em caso de perfuração de tórax, deve-se realizar limpeza rápida e
oclusão imediata da perfuração com esparadrapo. Devido à pressão
negativa do tórax, pela ocorrência de perfuração começa a ser suga-
do ar atmosférico para a cavidade torácica, restringindo a expansão
dos pulmões, podendo levar à insuficiência respiratória. Qualquer
perfuração torácica deve ser encarada como emergência médica gra-
ve, efetuando-se o encaminhamento imediato para o hospital (po-
derá ser necessária drenagem cirúrgica).
Lesões de abdome, após os cuidados gerais, também devem ser enca-
minhadas para atendimento hospitalar, pela possibilidade de lesão de
órgãos internos e subseqüentes sangramentos graves. Podem ser de vís-
ceras sólidas (fígado ou baço) ou ocas (estômago ou intestinos). Existe
ainda o risco de infecções potencialmente fatais, como peritonite.
Nas lesões de tórax ou abdome, não dar medicação (analgésicos),
nem alimentos ou água, uma vez que o paciente estará sujeito a pro-
cedimento cirúrgico. O curativo deve ser o mais compressivo possí-
vel, para evitar sangramento.

4 . LESÃO CORTANTE OU INCISA

Possui bordas nítidas, geralmente regulares. Há secção das fibras


do tecido; o comprimento da lesão é maior que a profundidade, e em
geral, o centro é mais profundo que as extremidades. E produzida
por objeto cortante, podendo comprometer outros planos além da
pele, e é causada por instrumentos com gume afiado como lâmina
de barbear, lâmina de bisturi, etc.
50
C O M O LIDAR COM OS FERIMENTOS MAIS COMUNS
CAPÍTULO 4

A contaminação costuma ser facilmente removível, pois o sangra-


mento lava a ferida de dentro para fora. Se necessário, esta pode ser
aberta para retirada de fragmentos estranhos. A dor vai de modera-
da a intensa, mas após limpeza e aplicação de curativo, em geral, é
controlável com analgésicos simples.
A atuação do socorrista deve objetivar a limpeza inicial e a he-
mostasia - geralmente só com compressão local, mas em sangra-
mentos mais abundantes pode ser necessário efetuar compressão à
distância. Geralmente o paciente necessita de médico, já que o tra-
tamento consiste na reconstituição cirúrgica das estruturas lesadas,
sendo importante proceder sutura cirúrgica (dar pontos) sob aneste-
sia local, para acelerar o processo de cicatrização e obter uma cica-
triz mais estética.
Para que a sutura ocorra de modo mais seguro, deve ser efe-
tuada até seis horas após o momento do corte. Passado este pe-
ríodo, devido à chance de infecção local, não se efetuam re-
constituições (a não ser em caso de lesões de face), sendo pre-
ferível a cicatrização espontânea para
os casos em que decorreu tempo
maior. Outra opção quando não for
possível suturar, é o ponto falso ou
curativo em grade (utilizar esparadra-
po colocado em tiras paralelas, per-
pendiculares às linhas de tensão da
ferida para aproximar as bordas - ver
descrição na pág. 6 8 ) .
Com sutura ou não, deve ser feito cura-
tivo compressivo, mantido por 24 horas,
para evitar hematomas ao redor da lesão.

5 , LESÃO PERFURO-
CORTANTE

Lesão mista ou complexa, causada por instrumentos de gume afia-


do (faca, canivete). Demanda maior cuidado, porque ocorre por me-
canismo misto, penetrando com a ponta e cortando com o gume.
São geralmente mais graves, apresentando contaminação maior e
sangramento provavelmente intenso.
A dor é variável de acordo com a profundidade e extensão da le-
PRIMEIROS SOCORROS

são, sendo maior em casos de área sob tensão ou de dobras. Como


pode ocorrer lesão de profundidade, é freqüente o sangramento pa-
ra dentro das cavidades abdominal ou torácica, devendo por isso ser
objeto de extensa e cuidadosa avaliação médica.
A atuação do socorrista prende-se muito mais à hemostasia da le-
são (geralmente por meio de curativo compressivo local) e transpor-
te urgente do paciente ao pronto atendimento médico. Não esque-
cer o risco associado de tétano. O paciente não deve ser alimenta-
do nem medicado, já que provavelmente será submetido a cirurgia
para exploração do ferimento e reparação das lesões internas.

6 . LESÃO PERFUROCONTUNDENTE

Causada por arma de fogo. O


orifício de entrada é, em geral, ar-
redondado ou ovalado, dependen-
do da direção de penetração do
projétil. Se o disparo ocorreu de
muito perto, poderão ocorrer bor-
das invertidas e queimadura de
pólvora na pele adjacente. Quan-
do há orifício de saída, é de forma
irregular, bordas evertidas, e, via
de regra, maior que o orifício de
Cartoon Estúdio I
entrada.
A contaminação imediata é pequena, devido ao calor do projétil.
Assim, uma das medidas de atendimento é a proteção dos orifícios
da lesão. Como o sangramento é variável, potencialmente grave, a
proteção será compressiva, de acordo com a intensidade do sangra-
mento. Pode ser necessária compressão local e à distância. A dor va-
ria bastante, dependendo da área atingida.
Impõe-se rápido encaminhamento do paciente ao hospital,
após hemostasia. Lembre-se de fazer ocorrência policial. Se pos-
sível, leve seus documentos e os do paciente.

7. L E S Ã O C O R T O C O N T U N D E N T E

Causada por instrumento de gume afiado, com ação contundente


devido ao seu próprio peso, ou pela força de quem o maneja: facão, foi-
52
C O M O LIDAR COM OS FERIMENTOS MAIS COMUNS
CAPÍTULO 4

ce, machado, dentes (mordida), enxada. O formato da lesão é variá-


vel, dependendo do instrumento. Geralmente apresenta grande con-
taminação e sangramento variável, segundo a área e órgãos atingidos.
Geralmente bastante dolorosa, sobretudo quando ocorre fratura.
Não administrar medicação ou alimentos por via oral (probabilida-
de de cirurgia).
Devido à possibilidade de fraturas, estar atento ao estancar o san-
gramento (médio a intenso, via de regra). Compressão à distância,
se possível, só fazendo-a localmente se existir certeza de que não há
fratura. Não realizar torniquete, a não ser em caso de perda de mem-
bro ou risco iminente de vida (ver capítulo 5, pág. 59).
Provavelmente será necessário fazer raios X (para análise de even-
tuais fraturas) e cirurgia. Por isso, a rapidez é fundamental. Proceder
limpeza superficial e encaminhar com curativo o mais compressivo
possível, mas que não piore a dor do paciente.

8 . CORPOS ESTRANHOS

Terminaremos este assunto


com algumas considerações so-
bre corpos estranhos, seu impacto
no organismo e risco de compli-
cações que podem ocorrer após
as lesões básicas.
As substâncias estranhas de-
vem ser removidas desde que:
• Estejam se projetando atra-
vés da pele ou sob a mesma;
• Causem sintoma;
• Atrasem ou impossibilitem
a cicatrização de uma ferida. I Cartoon Estúdio

Listamos a seguir algumas dessas 'substâncias estranhas":

Terra - é a mais comum; deve ser removida por escovação ou por


dissecção, quando da impossibilidade do uso da escova. Sempre usar
água em abundância.

Fragmentos de madeira ou metal - em geral são superficiais, fáceis


de se ver, percorrem linha reta e podem ser puxados com pinça, se a
53
PRIMEIROS SOCORROS

extremidade se encontrar visível. Se de ma-


deira, a remoção é necessária e obrigatória, pa-
ra prevenir infecção. Se o fragmento for metá-
lico e assintomático, e difícil de localizar, po-
de ser deixado no local.

Tecido - normalmente são fragmentos de


roupa introduzidos por traumatismos pene-
trantes, junto com outros corpos estranhos.
Se possível, devem ser totalmente removi-
dos, pois costumam dificultar a cicatrização da ferida, ou formar
granulomas (tecido de reação em volta do corpo estranho). Mui-
tas vezes tornam necessária a exploração profunda de ferida que
não cicatriza.

Vidro - são os fragmentos de remoção mais difícil, necessitando


por vezes de monitoração radiográfica se o vidro contiver chumbo
ou algum outro metal.

Anzóis - uma vez que a fisga


entre completamente sob a pe-
le, o modo mais fácil e menos
doloroso de remoção é empur-
rá-lo e exteriorizá-lo por uma
segunda ferida, cortando-lhe a
extremidade e puxando-o de
volta pela ferida de entrada.

9 . MORDEDURAS

As feridas produzidas por mor-


Cartoon Estúdio

deduras apresentam complicações específicas, que podem diferir


conforme o agente causador.

Humanas - a cavidade oral humana apresenta grande contami-


nação por bactérias muito lesivas ao tecido subcutâneo. As feri-
das devem ser tratadas com limpeza mecânica intensiva, usándo-
se bastante água, removendo-se todo tecido desvitalizado e evi-
tando-se o fechamento da ferida (permitindo-se uma aproxima-
C O M O LIDAR COM OS FERIMENTOS MAIS COMUNS
CAPÍTULO 4

ção parcial dos bordos, se ela for muito extensa), pela grande
chance de infecção.

De animais - neste caso, além de


grande contaminação, outro perigo
é a possibilidade de transmissão da
hidrofobia (raiva). Sempre que pos-
sível, o animal causador deve ser
mantido vivo, isolado e alimentado,
para observação por um período de
10 a 14 dias. O tratamento é seme-
lhante ao das feridas por mordedu-
ra humana, e a decisão sobre vaci-
nação pode ser feita com calma,
pois é longo o período de incuba-
ção da hidrofobia.

De cobras - tipo específico


de mordedura animal, que ne-
cessita de tratamento médico
especializado, conforme defi-
nido no capítulo 15, sobre aci-
dente ofídico.

55
CA L O

O ( p i e fazer em
caso d e hemorragia

1 . HEMORRAGIA é to-
do extravasamento de sangue
do seu trajeto original (vaso
sangüíneo: arterial, venoso ou
capilar). Pode ser imperceptí-
vel, drenando para o tecido ou
cavidade do organismo (he-
morragia interna, mais grave
porque pode demorar a ser
diagnosticada); ou exterior-
mente visível (hemorragia ex-
terna, cuja gravidade depende-
rá do volume de sangue perdi-
do e da rapidez com que isso
ocorreu).

2. HEMOSTASIA é de-
finida como todo processo utilizado para estancar
uma hemorragia.
Partindo desta introdução, necessitam-se alguns
conceitos adicionais:

• Artéria - Vaso sangüíneo de parede mais espes-


sa, com elasticidade mais definida, e que conduz o
sangue do coração para os tecidos, o que faz com que
este seja mais claro, pelo alto conteúdo de oxigênio.
Ao diminuir de calibre, é chamada de arteríola.
O QUE FAZER EM CASO DE HEMORRAGIA
O
CAPÍTULO 5

• Veia - Vaso sangüíneo, de parede mais fina, com elasticidade


menor que a da artéria, e que conduz o sangue dos tecidos para o co-
ração, o que faz com que este seja mais escuro pelo baixo teor de oxi-
gênio e alto teor de gás carbônico. Quando menor, é chamada de
vênula. Apresenta válvulas no seu interior. O mau funcionamento
das mesmas gera as varizes.

• Capilar - Vaso sangüíneo muito fino, conduz o sangue nos te-


cidos, fazendo a ponte entre vênulas e arteríolas. Em alguns pontos
são tão finos, que dão passagem a apenas uma hemácia (célula san-
güínea que transporta o oxigênio).

O capítulo 4 aborda uma série de lesões que podem levar à hemorra-


gia. Para se realizar hemostasia adequada, é de vital importância esta-
belecer a diferença entre hemorragia arterial e venosa. Nas lesões de ar-
térias de calibre médio é recomendada a reparação (sutura) das mesmas;
já as veias, só quando de grosso calibre é que necessitam reparação (co-
mo regra, geralmente cada artéria é acompanhada de duas veias).
Costumeiramente, as hemorragias arteriais devem ser avaliadas
por médico, enquanto que hemorragias venosas muitas vezes podem
ser resolvidas pelo socorrista.
Observe esta comparação esquemática:

HEMORRAGIA ARTERIAL HEMORRAGIA VENOSA

• Jorra da lesão de maneira for- • Escorre da lesão continuamen-


te, perceptível, de acordo com te, em maior ou menor quanti-
o batimento cardíaco (em le- dade, de acordo com o calibre
sões superficiais). do vaso afetado.

• Sangue vermelho escuro, qua-


• Sangue vermelho vivo, claro
se roxo (sangue com pouco
(sangue bem oxigenado).
oxigênio).

• Mais intensa e mais rápida • Intensidade geralmente menor


(perde-se maior quantidade de (dependendo do calibre do va-
sangue), por isso é mais grave. so), geralmente menos grave.

57
PRIMEIROS SOCORROS

HEMORRAGIA ARTERIAL HEMORRAGIA VENOSA

• É necessário compressão local


por mais ou menos cinco minutos, • Geralmente só a compressão
e à distância, sobre o tronco arte- local é suficiente.
rial afetado.

A hemorragia capilar costuma ocorrer em escoriações ou lesões


puntiformes superficiais; em geral cessa espontaneamente e não se-
rá abordada em termos de hemostasia.
Conhecidas as características de cada hemorragia, é preciso en-
tender o processo que diminuirá o fluxo de sangue, levando o orga-
nismo a efetuar a coagulação da área rompida e bloquear completa-
mente o sangramento. Duas formas são corretas, sendo uma pouco
usual e geralmente realizada de modo inadequado.

3 . COMPRESSÃO LO-
CAL — Utilizando várias ca-
madas de gaze ou tecido lim-
po, é realizada pressão sobre
o ponto onde o sangramento
é mais intenso, com a palma
da mão. O tempo de com-
pressão variará segundo a
avaliação do paciente, levan-
do em conta os aspectos que
diferenciam hemorragias ar-
teriais e venosas. Se a suspei-
ta é de lesão arterial, o tem-
po mínimo a se manter com-
pressão é de cinco minutos;
se venosa, de dois a três mi-
nutos. Passado esse tempo,
pode ser aliviada a compres-
são e reavaliada a lesão, utili-
zando o material compressivo em alguma área onde persista
sangramento.
Enquanto se realiza o bloqueio da hemorragia, devem ser toma-
53
O QUE FAZER EM CASO DE HEMORRAGIA
CAPÍTULO 5

das medidas em outras áreas, como verificação do pulso, medida


da pressão, preparo para o transporte do paciente, etc.

4 . COMPRESSÃO À DISTÂNCIA - Caso o sangramen-


to se mantenha importante após duas ou três revisões da compres-
são local, deve-se analisar a possibilidade de realizar compressão à
distância, sobre a área do vaso (geralmente arterial) que alimenta o
sangramento. Faz-se necessário conhecer os trajetos dos principais
vasos sangüíneos, descritos a seguir e nas figuras.

5 . T O R N I QUETE — É realizado atando uma faixa, tira de


pano ou outro material macio sobre a área onde se possa bloquear
a circulação de um membro ou dedo. Para um torniquete ser efe-
tivo, é necessário realizá-lo na coxa ou no braço, pois no antebra-
ço e na perna a circulação arterial é mais profunda e protegida en-
tre dois ossos.
Devido ao grande número de procedimentos incorretos, e que
produzem uma segunda lesão no local da aplicação (por uso de ma-
terial incorreto ou pressão excessiva, não relaxada a intervalos), não
indicamos o torniquete, exceto em caso de perda de membro, quan-
do deve ser feito sempre na raiz do membro afetado.
PRIMEIROS SOCORROS

instrumento permite usar a menor pressão necessária para cessar o san-


gramento. Seu uso deve ser associado à compressão local, e após 10 a
15 minutos diminui-se 1/5 da pressão e se reavalia o sangramento.
Para se considerar como efetiva a hemostasia por torniquete, é
necessário que o sangramento cesse completamente ou diminua de
modo substancial. Na última situação, torna-se necessário comple-
mentá-lo com compressão local.

6 . MEDIDAS AUXILIARES PARA A HEMOSTASIA

• Para minimizar a perda


de sangue, o local sangrante
deve ficar em posição supe-
rior ao coração. Por exem-
plo, elevar o membro afeta-
do enquanto se faz simulta-
neamente compressão local
e à distância.
• O paciente deve ser man-
tido aquecido para evitar o
choque.
• O paciente com hemor-
ragia deve ter sua pressão e
pulso monitorizados freqüente-
mente e, se possível, pela mesma pessoa, para avaliar eventuais he-
morragias internas ou determi-
nar se a hemostasia está sen-
do efetiva.
• Manter o paciente deitado
com a cabeça ao nível do corpo
ou mais baixa. Estar atento a si-
nais de choque circulatório. Se
o paciente estiver em pré-cho-
que, já deve estar a caminho do
pronto-socorro.
O paciente deve ser consi-
derado em pré-choque e ne-
Cartoon Estúdio : li - 1 1 1'

cessitando de urgente atendi-


60 mento médico quando em qualquer sangramento ocorrer:
O QUE FAZER EM CASO DE HEMORRAGIA
CAPÍTULO 5

• Queda contínua de pressão;


• Aumento progressivo da pulsação;
• Queixa de fraqueza, tonturas, falta de ar ou sede;
• Presença de palidez, cianose de lábios, mucosas e unhas.

7 . LOCAIS DE HEMORRAGIAS E PONTOS DE


PRESSÃO PARA HEMOSTASIA

• Hemorragia na cabeça - efetuar compressão no local sangrante.


• Hemorragia no braço e antebraço - efetuar compressão local e
com rolete axilar (bola ou faixa de pano que se coloca no oco
axilar para ser comprimida pelo socorrista ou pelo próprio pa-
ciente). Se a hemorragia for abaixo do acesso da artéria umeral,
comprimi-la em lugar da artéria axilar.
• Hemorragia na mão - efetuar compressão local.
• Hemorragia no dedo - efetuar compressão local e na base do dedo.
• Hemorragia no tórax ou abdome - efetuar compressão local. Es-
tar atento à possibilidade de perfurações; existindo dúvidas, en-
caminhar para avaliação médica.
• Hemorragia na coxa e perna - efetuar compressão local e na ar-
téria femoral.
• Hemorragia no dorso do pé - compressão local e tibial anterior.
• Hemorragia na planta do pé - compressão local e tibial posterior.
Ao fazer compressão local, tomar cuidados de limpeza e assepsia
para evitar infecções posteriores.
Como preparo para o próximo capítulo, procure localizar nas fi-
guras a seguir as seguintes artérias, que serão usadas como pontos de
compressão à distância:

1 . ARTÉRIA FACIAL 2 . ARTÉRIA TEMPORAL 3 . ARTÉRIA CARÓTIDA


61
7. ARTÉRIA FEMORAL 8. ARTÉRIA TIBIAL 9. ARTÉRIA TIBIAL
ANTERIOR POSTERIOR

A localização das artérias carótida e radial é importante para a


medida dos batimentos cardíacos através da pulsação, conforme
visto no capítulo sobre sinais vitais (pág. 28).
CA L O

Curativos e tipos de
proteção a ferimentos

1 . PROCEDIMENTOS

Este capítulo complementa


o de "Lesões Básicas" e o de
"Hemostasia", quanto à atua-
ção do socorrista no atendi-
mento de lesões. Pressupõe-se
que as medidas de maior ur-
gência tenham sido efetuadas,
e que doravante a atuação será
de manutenção, ou objetivan-
do o transporte para atendi-
mento especializado.
Será necessária a realiza-
ção de curativo sobre as le-
sões, e este procedimento tem vários objetivos
superpostos, todos eles visando restaurar a prote-
ção perdida pelo organismo quando a pele foi le-
sada. O curativo deve:
• Proteger a lesão, tanto quanto possível, do con-
tato com corpos estranhos, sejam eles agentes físicos
(poeira), substâncias agressivas (materiais químicos
irritantes ou dolorosos), ou agentes biológicos (bac-
térias ou vírus).
• Restabelecer o ambiente originalmente úmido
da pele abaixo da camada córnea da epiderme (ca-
mada externa composta de células mortas, que fun-
63
PRIMEIROS SOCORROS

ciona como capa), o que facilita a migração das células da pele, ace-
lerando a cicatrização.
• Manter sempre macias, flexíveis e facilmente removíveis as
crostas que se formam sobre a lesão, de forma a não criarem um obs-
táculo mecânico que atrase a cicatrização.

O que não utilizar


E importante avaliar primeiro a natureza do atendimento. Se o obje-
tivo inicial foi alcançado, mas o paciente será transferido para atendi-
mento especializado, o curativo deve ser primordialmente protetor (em
lesões estabilizadas), ou compressivo (em lesões hemoreágicas), sem adi-
ção de pomada, creme ou solução, nem realizada oclusão intensa, com
uso de muitas faixas ou esparadrapos, cuja remoção posterior seja difícil.
Caso não seja necessário outro tratamento, com o paciente man-
tido em acompanhamento ou tratamento caseiro, certamente será
necessária alguma medida adicional na realização do curativo.

Observe estes procedimentos:


• Para efetuar limpeza da área, visando a remoção de crostas, se-
creções ou medicações aplicadas, não usar água oxigenada, a menos
que exista secreção mais intensa, e mesmo assim no máximo até o 5 Q

dia da ocorrência do trauma. Após esse perío-


do a água oxigenada inibe a recuperação das
estruturas da pele.
• Não usar qualquer substância colorida:
mercurocromo (pode produzir alergia); Mer-
tiolate® (pode causar alergia, inflamação adi-
cional e dor); Rifocina® (uma boa substância
em si, mas colore a área e atrapalha a visualiza-
ção de uma possível infecção); permanganato
de potássio (também uma boa substância, mas
que resseca a pele e pode causar reações cutâ-
neas se não for bem dissolvido, além de escurecer a pele, atrapalhan-
do a visualização de infecções); ou furacin (pode causar alergias e é
um produto colorido capaz de atrapalhar a visualização de infecções).
• Não usar qualquer tipo de substâncias alergizantes, como Neo-
micina, Fenergan®, Sulfa ou Penicilina, devido à possibilidade de
reação no momento do uso (reação imediata) ou reação posterior
(reação tardia ou sensibilização).
64
CURATIVOS E TIPOS DE PROTEÇÃO A FERIMENTOS
CAPÍTULO 6

Sabendo-se o que não usar, o primei-


ro passo para o curativo é efetuar a
limpeza local. Deve-se lavar sempre a
área da lesão, exceto sob sangramento
ativo. Para isto existem diversas for-
mas, dependendo do tipo de contami-
nação ocorrida.
• A primeira opção é o simples uso de
água e sabão. Prefira sempre um sabão de
baixa agressividade, como o de glicerina, e
se possível sem cheiro, por ser menos alergênico. Esta opção é per-
feitamente válida em lesões de baixa contaminação bacteriana, on-
de tenha ocorrido apenas contaminação física (fragmentos de vidro,
metal ou pedras).
• Opção um pouco mais ampla é o uso de sabonete antissépti-
co (como o Hibitane® ou o Soapex®). Pode ser utilizada em le-
sões com maior grau de contaminação, especialmente se existe
suspeita de contaminação bacteriana ou de material que possa
causá-la (madeira, terra, ou itens com
alto teor de fragmentação, como barro,
argila e areia).
• Desejando-se limpeza ampla, como
na preparação para desbridamento cirúr-
gico, pode ser usado sabão antisséptico e
soro fisiológico estéril em lugar de água,
o que garante desinfecção mais extensa.
• Caso haja restos de curativos ou me-
dicações tópicas, pode ser necessário usar
alguma solução com maior poder de re-
moção de substâncias aderentes, tal como álcool ou éter, mas o uso
destes pode ser doloroso e irritante para as áreas feridas. Por isso use
apenas se realmente necessário, e com moderação. Depois de efe-
tuada a limpeza, recupere a vitalidade da área onde foi feito o desen-
gorduramento, aplicando soro fisiológico.
Após a limpeza, é necessário avaliar qual medicação tópica é pas-
sível de utilização. Já sabemos que não devem ser utilizadas substân-
cias alergizantes ou coloridas. Queremos sugerir algumas opções
com o fim de contribuir na recuperação das condições de proteção
e umidade originais da pele íntegra. São elas:
65
PRIMEIROS SOCORROS

• Se a ferida foi bem limpa (ou no caso de a lesão, já antes tra-


tada, estiver se mantendo limpa), sem secreção ou presença de pus
(provavelmente sem contaminação bacteriana), pode ser usado
Plastenan® creme, que é uma medicação tópica com efeito cicatri-
zante puro, sem nenhum antibactericida ou antifungicida em sua
composição.
• Se a ferida ocorreu em ambiente de alta contaminação (praias,
esgotos), ou foi causada por atrito (escoriação), e não se obteve lim-
peza completa, ou se está em área de fácil contaminação bacteriana
(próxima a orifícios naturais do organismo, como boca, nariz, área
genital), uma opção inicial seria o uso de Verutex® creme, que é
uma medicação tópica composta por um antibiótico de excelente
penetração cutânea (ácido fusídico), e que tem bom efeito sobre as
bactérias da pele.
• Para os casos onde haja secreção purulenta, ou onde existam
muitas franjas (fímbrias) de pele lesada, ou ainda onde a cicatriza-
ção esteja sendo lenta, outra possibilidade é o uso de Cauterex®
com Gentamicina, que combina um removedor enzimático de áreas
desvitalizadas com ação estimuladora de cicatrização, e um antibió-
tico de amplo espectro.
Com o objetivo de recuperar a situação do organismo anterior
ao trauma, e encerrando os itens que terão contato direto com a
lesão, existem diversos tipos de curativos, contendo várias subs-
tâncias gelatinosas ou hidrocolóides, aderidos
em camadas, isoladas por material plástico,
que praticamente reproduzem a condição de
umidade normal dos tecidos. Dentre os vários
existentes no mercado, citamos o Duoderm®,
muito usado em queimaduras e escaras.

2 , TIPOS DE CURATIVOS

Ao mesmo tempo em que objetiva prote-


ção e aceleração do processo de cicatriza-
ção, o curativo deve ser o mais simples pos-
sível, tanto para não encarecer o tratamen-
to quanto para não representar incômodo ao paciente, dimi-
nuindo sua capacidade de desempenhar tarefas por estar osten-
tando um curativo volumoso.
CURATIVOS E TIPOS DE PROTEÇÃO A FERIMENTOS
CAPÍTULO 6

RESUMIREMOS OS TIPOS DE CURATIVOS E M dois grupos - OS SIMPLES


E OS ESPECIAIS:
Curativos simples envolvem itens de fácil acesso e utilização,
não demandam materiais complexos, e são de fácil confecção. Al-
guns exemplos:
• Curativo adesivo do tipo banà-aid (tudo em um: material absor-
vente, antisséptico e adesivo, compactados), aplicado em corte su-
perficial ou lesão puntiforme.
• Curativo simples composto de gaze estéril, medicação tópica de
acordo com o exposto acima e esparadrapo antialérgico, aplicados
em corte mais profundo ou escoriação.
• Curativo simples composto de gaze estéril, medicação tópica
apropriada, bandagem de crepe e esparadrapo de qualquer tipo,
utilizados em corte ou laceração mais extensa, ou ferimento san-
grante, onde haja necessidade de compressão maior. Tal compres-
são será obtida utilizando-se a bandagem ou faixa fixa com espara-
drapo. Por poder causar alergia, o esparadrapo não deve entrar em
contato com a pele, devendo ser aplicado sobre a faixa.
Os curativos especiais representam proteções mais complexas e
podem exigir algum treinamento ou conhecimento específico, já
que demandam materiais pouco disponíveis ou de custo maior. Al-
guns exemplos:
a) Curativo oclusivo com gaze
vaselinada estéril (gaze embebi-
da em vaselina líquida e subse-
qüentemente esterilizada). E uti-
lizado em casos de queimaduras
mais extensas. Demanda, além
de material específico, a utiliza-
ção de faixas de algodão ortopé-
dico para servirem de base de ab-
sorção entre a gaze e a faixa de
crepe que se aplica sobre ambos.
A aplicação deve ser feita obser-
vando-se as seguintes etapas:
• Limpeza da área.
• Aplicação da medicação tópica solicitada pelo médico.
• Colocação das gazes vaselinadas sobre a área afetada, previa-
mente coberta pela pomada prescrita.
67
PRIMEIROS SOCORROS

• Fixação frouxa da gaze com algodão ortopédico, utilizando-se


bandagem em espiral.
• Fixação mais firme de todo o conjunto utilizando-se faixa de
crepe disposta em espiral.
b) Outro exemplo é o curativo em grade ou ponto falso, cuja com-
plexidade está mais em sua correta realização do que nos materiais
utilizados. Efetua-se de acordo com as seguintes etapas:
• Limpeza da área afetada, que deve ter a forma de uma linha reta ou
mesmo Irregular, estar suturada ou sem nenhuma secreção ou sangra-
mento. Não deve ser aplicado nenhum tipo de
medicação tópica, exceto soluções de rápida eva-
poração (álcool iodado ou Chlorohex alcoólico);
as pomadas poderiam atrapalhar a adesão do es-
paradrapo às bordas da lesão.
• Pinçar com o indicador e
o polegar as duas bordas da
ferida, aproximando-as. Esta
manobra deve ser mantida
até o término completo do curativo. Preferencial-
mente deve produzir um pequeno enrugamento da
área lateral à ferida, indicando existir certo grau de
compressão, que terá efeito hemostático, e representará também pe-
quena hipercorreção da junção das bordas, folga esta
que com o passar dos dias se ajustará com a tração lo-
cal provocada pela movimentação.
• Aplicar o esparadrapo antialérgico, na forma de
pequenas tiras previamente cortadas, uma a uma, ini-
ciando em uma das extremidades da ferida e seguindo
até a outra, colocando cada tira sobre a metade da tira
anterior, formando uma escada ou
grade superposta. Em áreas com grande movi-
mentação, pode-se repetir sobre esta primeira
grade, efetuada bem próximo à borda da ferida,
uma segunda grade um pouco mais larga e mais
afastada da borda, de forma a garantir que as
bordas da ferida fiquem próximas uma da outra,
facilitando a cicatrização.
• Esse tipo de curativo pode permanecer apos-
to de um a sete dias, dependendo da presença ou não de secreção
6a
CURATIVOS E TIPOS DE PROTEÇÃO A FERIMENTOS
CAPÍTULO 6

brotando da ferida. Como regra geral, sempre que o curativo apre-


sentar alteração de coloração interna, deve ser trocado em, no máxi-
mo, seis horas. Para que o mesmo não fique molhado após a higiene
pessoal, recomenda-se que seja seco com secador de cabelo, na fase
morna. Deve-se evitar o atrito de toalha,
que poderia tracionar a ferida (contribuin-
do para o retardo da cicatrização), ou des-
colar o esparadrapo.

3 , BANDAGENS OU ATADURAS

São empregadas com o objetivo de


manter no lugar um curativo volumoso,
efetuar imobilização temporária de fratura
ou luxação, ou conter provisoriamente al-
guma parte do corpo. Na falta de ataduras
prontas, improvise com tiras limpas de lençol ou saia, lenço, guar-
danapo ou toalha.
Na aplicação de uma bandagem é necessário tomar os seguin-
tes cuidados:
• A lesão deve estar limpa, com o curativo (no caso de feridas)
ou suporte acolchoado (em fraturas e lu-
xações) corretamente colocado.
• O paciente deve relaxar a muscula-
tura da área, assumindo posição con-
fortável.
• Enfaixe sempre da extremidade pa-
ra o centro (nos membros superiores,
no sentido da mão para o braço), ini-
ciando com várias voltas no ponto ini-
cial (atadura circular) e desenvolvendo
uma espiral cuja volta cubra dois terços
' da volta anterior. Assim, uma volta
contribuirá para fixar a outra, evitando que a bandagem escorre-
gue (atadura em espiral).
• Se for necessário enfaixar uma articulação, ao dela se aproxi-
mar, transforme a espiral novamente em atadura circular, e após
duas ou três voltas da faixa, faça uma atadura em " X " ou em " 8 " ,
deixando o espaço da dobra da articulação relativamente livre.
69
PRIMEIROS SOCORROS

Por ser mais complexa, pode ser necessário solicitar demonstra-


ção a algum enfermeiro ou profissional
de saúde.
• Não aplique pressão excessiva ao en-
faixar. A circulação deve ser mantida.
Deixe sempre as extremidades (dedos) li-
vres, para observar precocemente qual-
quer arroxeamento ou frio na pele local.
Se isso ocorrer, deve ser desfeita a atadu-
ra para recompor a circulação, recolocan-
do-a mais frouxa posteriormente.
• Para maior estabilidade, pode-se apli-
car tiras de es-
paradrapo nas áreas de maior movimento,
de modo a fixar duas ou três voltas de fai-
xa, mas sem circular o membro, para não
provocar bloqueio circulatório.
Qualquer faixa ou bandagem que pro-
voque dor ou arroxeamento da região
posterior à afetada, deve ser afrouxada
imediatamente.

Outro tipo
de bandagem
que pode ser utilizada com relativa tran-
qüilidade e facilidade, é a triangular, efe-
tuada na mão, couro cabeludo ou torno-
zelo, apenas com o objetivo de manter a
área protegida (por suas características,
esta bandagem fornece apenas proteção
da área).

Devido à relativa complexidade, que


demanda treinamento para coneta apli-
cação, atualmente não se propõe o uso por
socorristas leigos de bandagens do tipo espiga, em "T", ou que envol-
vam múltiplos segmentos do corpo (braço, ombro e tronco, ou coxa
e abdome), recomendando-se que este tipo de fixação seja realizado
por profissional de saúde ou após treinamento prático.
70
C A P Í T U L O

Dicas para prevenir


acidentes com crianças
Dr. Gerson Trevilato
Dr. Marlus M. Marconcin

O acidente doméstico é
um problema de saúde públi-
ca mundial, sendo a princi-
pal causa de mortalidade em
crianças maiores de um ano.
Destacamos o fato de que os
adultos precisam estar aten-
tos às atividades das crian-
ças, para tentar evitar aci-
dentes. Sempre ouvimos a
clássica declaração: "Doutor,
eu virei as costas apenas al-
guns instantes!"
A vigilância da criança
não é suficiente para evitar
acidentes. Deve-se pensar em ações preventivas.
Brinquedos em ordem, grades nas janelas, panelas
com cabo para dentro do fogão (nunca para o lado
de fora), venenos e materiais de limpeza em armá-
rios trancados, constituem, entre outras, medidas
preventivas de acidentes domésticos. E necessário
pensar em "tudo" o que deve ser evitado ou providen-
ciado para segurança das crianças.
Sempre que deixar a criança com alguém, forneça
orientações claras e deixe todos os telefones úteis à mão.
71
PRIMEIROS SOCORROS

1 . ACIDENTES DE ZERO A SEIS MESES

a) Queimaduras
Nesta idade a criança não tem como se defender. Por isso, verifi'
que sempre a temperatura da água do banho com o cotovelo.
Nunca fique com a criança no colo ao beber líquido quente.
Cuidado com Vaporizadores -
mantenha-os longe da crian-
ça durante o uso.

b) Quedas
Nunca deixe o bebê sem vi-
gilância ao trocar a fralda. Os
locais mais seguros são o car-
rinho e o berço. Nunca deixe
a criança no carrinho ou no
bebê-conforto sem cinto de
segurança.

c) Brinquedos
Esta é a fase em que o be-
bê conhece o mundo pela
boca. Por isso, os brinque-
dos têm que ser grandes o
suficiente para não ser en-
golidos, sem arestas ou
pontas, e de material agra-
dável de ser tocado e desco-
berto (Ex.: borracha).

d) Objetos peq LCBOS e pontiagudos


Mantenha fora de alcance objetos como moedas, botões, alfinetes
e outros semelhantes.

E) ENVENENAMENTOS
Não use talco na higiene do bebê (além de uritante para a mucosa na-
sal, pode ser aspirado, causando sérios problemas). Prefira amido de milho.
Mantenha sempre remédios, detergentes e substâncias tóxicas na
embalagem original, por causa do prazo de validade e das bulas.
DICAS PARA PREVENIR ACIDENTES COM CRIANÇAS
CAPÍTULO 7

Nunca dê remédios sem orientação médica. Leia antes o rótulo.


Não os troque de embalagem.

f) Sufocamento»
Sacos plásticos, fios de telefone longos, cordões de brinquedos ou
de chupeta podem asfixiar ou sufocar. Não permita que a criança
brinque com objetos que possam sufocar ou ser aspirados. Não utili-
ze travesseiros fofos.

g) Afogamentos
Nunca deixe a criança so-
zinha na banheira ou pisci-
na, mesmo que seja daque-
las para bebês. Na piscina
use sempre a bóia-braçadei-
ra, mesmo com adultos por
perto.

h) Irmão mais VELHO


Cuidado com as crianças
maiores. Elas não têm no-
ção de perigo e, mesmo
brincando, podem machu-
car o bebê.

i) Automóvel
A criança deve sempre fi-
car no banco de trás. Nunca
leve a criança no assento dianteiro; jamais no colo. Faça-lhe uma
contenção adequada no assento traseiro, fixando-a na estrutura
do banco. Existem diversos modelos de cadeirinhas próprias pa-
ra este fim.

2. A C I D E N T E S D E S E I S Além de todos
M E S E S A UM ANO
os cuidados desta
fase, mantenha-se
atento aos citados
Nessa fase a criança começa a movi- anteriormente.
mentar-se e os perigos passam a incluir o
meio ambiente.
PRIMEIROS SOCORROS

a) Choques
Mantenha sempre as tomadas cobertas com protetores próprios,
Cuidado com fios: a mãozinha curiosa pode puxá-los para si e cau-
sar sérios acidentes.

b) Quedas
Quando a criança começar a engati-
nhar ou a sustentar-se de pé, com
apoio, procure manter o ambiente no
qual ela está, livre de móveis com qui-
nas pontiagudas ou objetos leves e fá-
ceis de ser virados ao servirem de
apoio. Cuidado com grandes objetos
de decoração eletrificados, como aba-
jures, e com escadas, berço alto, por-
toes com dobradiças, Procure limitar o espaço, de modo que a crian-
ça se sinta livre para descobertas, mas segura de acidentes.

c) Queimaduras
Nessa faixa etária o espaço mais perigoso é a cozinha. Como re-
gra, não permita a entrada da criança, ou limite sua movimentação
neste espaço com "cercadinhos" ou com um "portãozinho" na porta
do cômodo. A cozinha é local de altíssimo risco de acidentes para a
criança, não somente de queimaduras, mas também de acidentes
com materiais pontiagudos/cortantes e envenenamento.
Não sendo possível manter a criança fora deste espaço, procure manter
sempre um adulto na cozinha, se o fogão ou o forno estiverem sendo uti-
lizados. Mantenha os cabos das panelas voltados para dentro. Não deixe a
porta do forno aberta, mesmo estando ele frio.

3* ACIDENTES DE UM
A TRÊS ANOS Além de todos
os cuidados desta
fase, mantenha-se
Escalar, abrir, descobrir, são as palavras- atento aos citados
chave desta nova fase. anteriormente.
Além dos cuidados anteriores, observe:

ú) Quedas
Gradeie todas as janelas e varandas. Elas são fonte de inesgotável
DICAS PARA PREVENIR ACIDENTES COM CRIANÇAS
CAPÍTULO 7

curiosidade. Retire de perto das janelas os móveis que possam ser es-
calados. Mantenha portas e portões sempre fechados. Use tapete
antiderrapante no banheiro.

b) Choques
Cuidado com aparelhos ligados na rede elétrica.

c) Animais
Atenção.' Todo animal morde, se indevidamente manuseado.
Ensine a criança a não mexer com animais que estejam comendo
ou dormindo, mesmo que sejam conhecidos. Qualquer animal pode
atacar ao se sentir ameaçado.
Em caso de mordida de animal, lave imediatamente o local com sa-
bão de coco, enxágüe bastante e verifique, se possível, a condição de
vacinação do animal. Pro-
cure o Posto de Saúde mais
próximo, com estes dados
em mãos.

d) Cortes
Use louças de plástico
no dia-a-dia da criança.
Cuidado com brinquedos
quebráveis, que se estilha-
çam, e com facas ou obje-
tos pontiagudos/cortan-
tes. Lembre-se: Criança,
longe da cozinha!

e) Sufocamento*
Não dê à criança: pipoca,
amendoim, castanha, chiclete, bola de gude, plásticos em geral.
Acidentes por engasgamento são freqüentes nessa faixa etária.

f) Afogamentos
Além do que foi dito quanto às piscinas, atente para que, em ca-
so de passeio de barco ou bote, seja usado o colete salva-vidas.
Atenção.' Mesmo as águas rasas são perigosas. Inicie os fundamen-
tos da natação nessa fase da vida.
75
PRIMEIROS SOCORROS

g) Queimaduras
Cuidado com fósforos e acendedores de cigarros. Jamais fume ou per-
mita que alguém fume próximo de seu filho ou com ele no colo.
Cuidado com armas de fogo!
Cuidado com fogos de artifício!

h) Brinquedos
Verifique se os brinquedos utili-
zados no play-ground ou em casa
são adequados à faixa etária.

i) Envenenamentos
Nesta faixa etária ocorre o
maior risco destes acidentes. Ob-
serve atentamente as instruções já
fornecidas. Além disso:
• Nunca diga que remédio é doce.
• Nunca deixe bebidas alcoóli-
cas ao alcance.
• Ensine a criança a não aceitar
nada de estranhos.
• Jogue fora os remédios com
prazo vencido.
• Mantenha o material de lim-
peza e inseticidas/raticidas fora do
alcance de crianças.
• Tenha à mão os telefones de seu médico, hospital próximo e do Cen-
tro de Intoxicações.
• No caso de suspeita ou ingestão acidental de medicamentos ou
de substâncias tóxicas, leve a criança ao hospital com as embala-
gens encontradas próximas ou rompidas, ou restos de folhagens. Se
ela vomitar, recolha para análise o que for
expelido.
Além de todos
4 . ACIDENTES DE TRÊS os cuidados desta
fase, mantenha-se
A SEIS ANOS atento aos citados
anteriormente.
Nesta fase a criança ainda não tem no-
ção clara do perigo, mas deve-se conversar sobre
76
DICAS PARA PREVENIR ACIDENTES COM CRIANÇAS
CAPÍTULO 7

ele. Observe o seu próprio comportamento: você é um espelho. Vo-


cê é um adulto cuidadoso?

a) Áreas e brincadeiras perigosas


Cuidado com construções, terrenos baldios, ferro-velho, etc. Não
permita que a criança brinque em pedreiras, minas, escavações ou
próximo a cisternas ou poços.

b) N o tráfego
O cinto de segurança
deve ser usado por todos os
que viajam. Dê o exemplo:
dirija com cuidado, obser-
ve as leis de trânsito, ex-
plique o significado dos si-
nais, ensine a atravessar
corretamente a rua.
Não permita que ela an-
de de bicicleta nas ruas,
sobretudo as movimenta-
das. Ao pedalar, verifique
se ela está devidamente
calçada e usando bicicleta
de tamanho apropriado.
A partir desta idade, a criança passará algum tempo longe de
você. Procure assegurar-se de que está preparada para cuidar de
si, promovendo desde já a participação em sua auto-segurança.
Essa é a melhor prevenção. Ensine o correto manuseio dos ob-
jetos, o perigo da água e do fogo e as regras de trânsito.
Seguindo-se todas as precauções, treinamentos e orientações da-
das até este ponto, a partir dessa idade os riscos de acidentes domés-
ticos são similares aos já descritos, em tipo e freqüência.
Lembre-se que boa parte dos aspectos abordados também pode
ocorrer com adultos. Esteja atento e precavenha-se em todos os
itens possíveis.

"Mais vale um grama de prevenção que um


quilo de tratamento."
Tl
Resgate e transporte
d e f e r i d o s

1. O MAIS
IMPORTANTE
É importante frisar algu-
mas premissas centrais de to-
do atendimento de primei-
ros socorros:
• O atendimento deve ser
seguro tanto para quem pres-
ta quanto para quem recebe
o socorro.
• O primeiro atendimento
deve ser o mais completo dentro
do menor tempo possível.
• Durante o atendimento deve ser providenciado
transporte adequado para a situação. Imediatamente
após o socorro, se necessário, o paciente deve ser re-
movido para avaliação médico-hospitalar.
• Durante o transporte, se necessário, deve poder
ser mantido o atendimento; o paciente deve ser con-
servado em boas condições, sem que piore sua situa-
ção clínica. Deve-se preparar a ampliação do atendi-
mento com maiores recursos, sob avaliação médica.
Nos casos mais simples, onde a pessoa resgatada
estava apenas perdida, o atendimento pode se limi-
78
RESGATE E TRANSPORTE DE FERIDOS
CAPÍTULO 8

tar à hidratação e alimentação do resgatado. Em outros casos, pode


envolver até imobilização total, como na suspeita de fratura de vér-
tebra. A correta avaliação de cada caso é muito importante.

2 . QUESTÕES BÁSICAS A
SEREM ANALISADAS /
MA AVALIAÇÃO
• E possível resgatar ou auxiliar
a vítima sem colocar em perigo o
socorrista?
• Se não, qual a urgência do resgate
e qual o risco potencial para o socorris-
ta (relação custo/benefício)? Exemplo:
a vítima cone risco de vida, e o risco
para o socorcista é de sofrer queimadu-
ras leves ou pequenas escoriações.
• E possível reduzir o risco imedia-
to para a vítima sem movê-la? Exem-
plos: apagar o fogo, aplicar analgésico
em caso de choque neurogênico, aquecê-la em caso de hipotermia.
• Poderá ocorrer lesão adicional se a vítima for transportada (fra-
turas expostas, coluna vertebral, hipotermia) ?
• Pode o socorro ser prestado no local, ou é necessário solicitar
auxílio também para o tratamento, além do transporte?
• Os meios de transporte necessários são terrestres, marítimos ou
aéreos? Que forma de transporte o paciente pode suportar (sentado,
deitado, amarrado)?
• E necessário algum tipo de adaptação do veículo para o trans-
porte (retirada de banco; colocação de suporte reto, como tábua ou
porta)? Se forem necessárias muitas adaptações, não seria melhor
aguardar um veículo apropriado, como uma ambulância?
• De que métodos precisamos ou dispomos para o transporte
imediato (puxando, levantando, arrastando, cadeira de três ou
quatro mãos, maca, levantamento por três, quatro ou seis pessoas,
uso de cordas, etc.)? Nem sempre aquilo de que dispomos é o que
precisamos.
• Transportar para onde? O hospital mais próximo dispõe dos recur-
sos necessários? E necessário avisá-lo com antecedência? Exemplo: ca-
79
PRIMEIROS SOCORROS

so com diagnóstico bem estabelecido, que necessite de algum atendi-


mento específico: anestesia, soro antiofídico, hidratação endovenosa.
• Se o local é de difícil acesso, com a vítima gravemente fe-
rida, é possível oferecer acesso seguro à equipe de socorro e
manter o fluxo de materiais, até a remoção especializada pelo
Corpo de Bombeiros ou Anjos do Asfalto (sinalizar o local,
afastar curiosos, etc.)?

É igualmente importante levar em conta possíveis razões para um


transporte imediato:
• Ferimento na cabeça, com grande perda de sangue, inconsciên-
cia ou fratura.
• Ferimento perfurante abdominal, mesmo sem grande perda de
sangue (risco de infecção).
• Sangramento de qualquer tipo, que altere os sinais vitais (pres-
são ou pulso).
• Desidratação, intermação ou choque térmico em ambiente
sem água.
• Ferimento na caixa do tórax, que permite entrada de ar pela ferida.
• Hipotermia/congelamento.
• Perigo iminente no local: desmoronamento, incêndio, inun-
dação, etc.

O transporte deve ser feito de preferência por várias pessoas e


com meios adequados (se necessário, em padiola), para maior se-
gurança e conforto do paciente, até um veículo adequado. Em ca-
sos especiais, o paciente pode ser transportado manualmente, va-
riando as formas de acordo com o grau de consciência e o tipo de
ferimento.
Sempre que o transporte for feito por duas ou mais pessoas, uma
delas assumirá o comando dos movimentos para torná-los suaves e
lentos, evitando-se que sejam bruscos e haja solavancos.

3 . TRANSPORTE COM PADIOLA OU MACA

Como improvisar uma maca:


Deve-se testar antes, com uma pessoa sã, de peso equivalen-
te, se a padiola suporta bem o peso. Pode ser carregada por
duas ou quatro pessoas. Se for carregada por quatro, cada um
RESGATE E TRANSPORTE

pode pegar em uma ponta (os dois à direita com a mão esquer-
da e os dois à esquerda com a mão direita), ou dois em quatro
pontas (uma pessoa em duas pontas) e cada um dos outros dois
em um lado .
Cada forma tem suas vantagens: com uma pessoa em cada ponta
o peso fica melhor distribuído. Com duas pessoas segurando as pon-
tas e duas outras segurando as laterais, a estabilidade e a segurança
são melhores. Usar as alternativas de acordo com o terreno e o tra-
jeto a percorrer.

\ \
.... . ... •••

-
•IR

a) Com um cobertor e duas varas ou sarrafos, enrolando o cobertor para que


fique com a largura de 6 0 c m e usando seis alfinetes de segurança (dois nas
margens, dois na primeira dobra e dois na segunda).
. , \ : - '

c) Com dois ou três casacos, tendo ás man-


gas viradas para deni ro, abotoadas, o pas-
sando «Is varas pelas mangas. A parle das
costas será a face superior da padiola (evi-
tar os botões).

31
PRIMEIROS SOCORROS

4 , TRANSPORTE MANUAL
Pode ser dividido em transporte por uma, duas, três e quatro pessoas.
Por uma pessoa:
a) Com o paciente consciente • Se puder caminhar, oferecer-
lhe apoio.
• Se não puder caminhar, le-
var como "cavalinho".

b) Com o pa- • Colocá-lo sobre as costas, le-


ciente incons- vando-o de modo que seu abdo-
ciente me fique apoiado sobre o om-
bro/costas do transportador.
Prende-se as pernas e um dos
braços do paciente, de modo que
fique quase como um " U " sobre
os ombros do transportador.

Em caso de fratura o transporte não deverá ser feito por uma só pessoa.
Por duas pessoas:
a) Com o paciente consciente • Cruzada (três mãos) - quan-
do o paciente não consegue le-
vantar-se ou apoiar-se. A quarta
mão e o braço servem de apoio
às costas do paciente.
• Quatro mãos - quan-
do o paciente consegue
levantar-se e apoiar-se.
b) Com o • Usando uma cadeira
paciente in- • Em posição sentada
consciente - o socorrista de trás APOIA o dor-
so do paciente em seu próprio tó-
rax e abdome, passa os braços pe-
la axila do socorrido e segura-lhe
o tronco. O socorrista da frente
sustém as pernas do paciente.

Não deve ser usado em caso de fratura, devido à maior instabilidade.


82
RESGATE E TRANSPORTE DE FERIDOS
CAPÍTULO 8

Por três pessoas:

• Duas pessoas de um lado e uma


do outro. Pode ser feita alternando as
mãos, ou com a pessoa que está sozi-
nha pegando a mão esquerda e direi-
ta das duas do outro lado. Em caso de
fratura de membro superior, colocar
duas pessoas do lado fraturado, de
modo a prover melhor apoio à área
mais afetada.

Não pode ser usado em caso de fratura de coluna ou de membro inferior.

Por quatro ou mais pessoas:

• Necessário para transporte de


pacientes com suspeita de fratura
de coluna ou de membro inferior,
ficando um dos socorristas respon-
sável pela cabeça e pela coluna cer-
vical, e distribuindo-se os demais
de acordo com o caso.

5 . TRANSPORTE EM VEÍCULOS

Deve-se forrar a padiola ou o pa-


ciente com palha ou colchão. Se pos-
sível, alguém deverá ir ao lado do pa-
ciente, para evitar que ele se mova
com freadas e solavancos. Melhor no
caso de caminhão ou camioneta, onde
possa ir mais de uma pessoa, para segu-
rar mais firmemente a padiola. Cuidar
para que ela não sofra desnível.
Em automóveis comuns, retirar ou
dobrar o banco dianteiro e dobrar o banco traseiro; posicionar a pa-
diola de modo que não oscile, já que em veículos pequenos é difícil
colocar uma pessoa para segurá-la. Ou aguardar uma ambulância.
PRIMEIROS SOCORROS

Pontos a serem lembrados EM situações específicas;

• Sempre que disponí-


veis, leve aparelhos para
medir os sinais vitais du-
rante o transporte. Lem-
bre-se de proteger e moni-
torar áreas/funções vitais:
cabeça, pescoço, coluna
vertebral (pelo risco de
lesões que afetem o bati-
mento cardíaco, a respira-
ção e a motricidade); con-
trole de temperatura, uri-
na, pulso, pressão arterial,
respiração, etc.
• aMU"" • No resgate de vítimas
de incêndio, certifique-se antes de que há realmente alguém a ser
resgatado. Se entrar em ambiente enfumaçado, proteja as vias aé-
reas com pano molhado para filtrar a fumaça e esfriar o ar aspirado.
Rasteje rente ao chão ou
agache-se: fumaça e ar
quente sobem.
• Avalie a situação ra-
pidamente, mas levando
em conta várias possibili-
dades. Tome o tempo ne-
cessário para chegar a
uma decisão de consenso
com os demais socorris-
tas, avaliando os riscos
da decisão a ser tomada.
Não entre em pânico.
• Leve em conta o
conforto da vítima du- Cartoon Estúdio

rante o transporte, viabilizando formas para que ela tenha suas ne-
cessidades fisiológicas atendidas, esteja aquecida, medicada para
dor e hidratada. Caso não seja candidata à cirurgia, ao chegar ao
ponto final do transporte, deve receber alimentação.
84
SEÇÃO

Problemas de, Saúde


mais Freqüentes

C a p í t u l o 9 - P R O B L E M A S D O SISTEMA RESPIRATÓRIO 87

C a p í t u l o 1 0 - PROBLEMAS D O SISTEMA DIGESTIVO 106

C a p í t u l o 11 - PROBLEMAS D O SISTEMA NERVOSO 128

C a p í t u l o 1 2 - C Ó L I C A S MENSTRUAIS E T P M 143

C a p í t u l o 1 3 - F E B R E , D O R D E D E N T E , COCEIRA, DESIDRATAÇÃO
E SOLUÇO 150
U
ma doença é identificável através de um conjunto de si-
nais (eventos visíveis ou capazes de ser medidos por
quem está prestando o socorro) e sintomas (eventos re-
feridos pelo paciente). Associando-se um conjunto de sinais e
sintomas, obtemos uma síndrome. Às vezes o socorrista se depa-
ra com situações onde o socorrido pouco ou nada pode informar,
por estar inconsciente ou por achar-se confuso com o acidente.
Assim, é vital estar atento a ambos os aspectos - sinais e sinto-
mas - , se desejamos avaliar corretamente cada situação.
Um ponto importante é que alguns sinais e sintomas podem
assumir relevância tendo em vista a sua evolução (como se com-
portam ao longo do tempo de acompanhamento, uma vez que
podem ser indicativos de doenças em incubação), associação (a
soma de um sinal e um sintoma pode ser indicativo de uma
doença completamente diferente de cada um deles isolados) ou
resposta a atuações terapêuticas (medicamentosas ou não).
Outro aspecto crucial é que o objetivo maior do socorrista
deve ser muito mais que resolver um sintoma. Como bom "de-
tetive", deve analisar e investigar o que pode estar por trás do
sintoma, ou o que se associa a ele, facilitando, adiantando e im-
pulsionando o trabalho do profissional médico, de forma a ace-
lerar o tratamento da pessoa socorrida.
Destacaremos estes sintomas e síndromes por serem de maior
importância na atuação do socorrista: azia, afta, cefaléia, coceira,
cólica menstrual e intestinal, convulsão, crise asmática, desidra-
tação, diarréia, dor de dente, febre, flatulência, gripes e resfriados,
insolação, má digestão, tensão pré-menstrual, tontura e vertigens,
tosse, soluço e vômitos.
CA L O

Problemas do sistema
respiratório

1 . RESFRIADO,
GRIPE E RINITE
ALÉRGICA

O resfriado e a gripe são


doenças causadas por vírus, e
em geral confundidas pela
maioria das pessoas. Aborda-
remos ambas as doenças, até
porque alguns de seus sinto-
mas ocorrem em conjunto.
Quase sempre a infecção
das vias aéreas superiores é
descrita como gripe, seja qual
for a região acometida, já que
a maioria das gripes e resfriados é transitória, relativa-
mente benigna e sara sem medicação. Procuraremos
diferenciar gripe, resfriado e crise de alergia respirató-
ria. Isso é importante, pois pessoas sensíveis à brusca
variação de temperatura, ou mais expostas à poluição,
tornam-se presas fáceis dos vírus.
O local de trabalho e a escola não poderiam ser
mais apropriados ao contágio. Temendo proble-
mas no emprego, muitos adultos gripados não fal-
tam ao trabalho, ao contrário do que ocorre nos
Estados Unidos e Europa (o repouso é importante
87
PRIMEIROS SOCORROS

para a melhora das defesas orgânicas). Esse comportamento pio-


ra o quadro clínico da gripe, pelo estresse de trabalhar adoenta-
do, e ajuda a espalhar o vírus, aumentando a chance de epide-
mias e casos fatais.
Além disso a desnutrição, o estresse e a convivência com doenças
crônicas - problemas comuns no Brasil - aumentam as chances de
contaminação. Enfraquecendo o organismo, os vírus contribuem
para o aparecimento de doenças mais graves. Álcool e fumo atuam
como fatores agravantes. A bebida resseca as secreções, dificultan-
do sua eliminação, e afeta as células do sistema de defesa do orga-
nismo, propiciando infecções
sucessivas. Já o cigarro destrói
ou paralisa os cílios das vias
respiratórias, que funcionam
como "vassouras" microscópi-
cas, responsáveis por empurrar
as secreções (muco) para fora
e remover agentes agressores e
produtos alérgicos.
Sempre que a pessoa suspei-
te estar com uma infecção res-
piratória mais agressiva (gri-
pe), deve procurar auxílio mé-
dico, evitar aglomerações e re-
cintos fechados, e repousar.

Gripe
E causada pelo vírus influen-
za (dos tipos A, B e C, com vá-
rios subtipos). Embora só existam três tipos principais, sofrem cons-
tantes mutações, levando a novas epidemias, de tempos em tempos.
Caracterizada por sintomas mais intensos e mais duradouros que
o resfriado, a gripe apresenta:
• Febre de início mais repentino e mais intensa (38,5°C a 40°C).
• Tosse inicialmente seca, pode apresentar secreção tardia ou nos
casos de complicações, com sintomas respiratórios baixos (o resfria-
do geralmente apresenta apenas sintomas altos).
• Dor de cabeça e dores musculares/articulares que ocasionam
mal-estar acentuado, obrigando a pessoa a manter repouso.
88
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

• Coriza e obstrução nasal.


• Dor de garganta.
• Nas crianças podem
ocorrer náuseas, vômitos e
diarréia, devido ao mal-es-
tar geral (pela ação de subs-
tâncias que o organismo
produz para combater a
agressão virai, chamadas in-
terferon).
• Ocorrência tipo epi-
dêmica, com acometi-
mento de escolas, bairros
e cidades, mais nos meses
de inverno, pois a chance
de contágio é maior, com
as pessoas protegendo-se
do frio e aglomerando-se
em ambientes fechados. A temperatura baixa contrai os vasos
sangüíneos da mucosa respiratória; com menos sangue circulan-
do, é menor a quantidade de anticorpos contra a invasão do ví-
rus. Com a diminuição das chuvas, há o ressecamento, esfria-
mento e maior poluição do ar, o que também contribui para a
redução das defesas orgânicas.
• Complicações mais graves, tanto pelo vírus como por bactérias
oportunistas, com ocorrência de otite, pneumonia, insuficiência
respiratória, e mesmo casos fatais.
• Prevenível através de vacinas, com efeitos positivos em 80 a
9 0 % das pessoas. Devido às constantes mutações do vírus, as va-
cinas devem ser repetidas a cada ano, no final do verão e do ou-
tono - pois seu pleno efeito pode demorar algumas semanas.
Mesmo que a vacina não evite por completo a ocorrência da gri-
pe, tem papel importante ao diminuir a ocorrência de complica-
ções potencialmente fatais ou que podem levar a seqüelas audi-
tivas e respiratórias.
• Duração dos sintomas um pouco mais extensa (sete a 14 dias).
• Em alguns casos, presença de fotofobia (dor e incômodo
ocular provocado pela exposição à luz, e que melhora em am-
bientes escuros).
89
PRIMEIROS SOCORROS

Resfriado
O nome poderia sugerir que o resfriado ocorre pela mudança
de temperatura ou ingestão de gelados, mas ele se propaga pelo
contato com pessoas conta-
minadas por algum dos 200
sorotipos de 12 grupos dife-
rentes de virus (rinovírus,
parainfluenza, adenovírus,
virus sincicial respiratorio,
coronavírus, entre outros).
Outras formas de contágio
incluem exposição a mãos
e objetos de doentes e
transmissão por gotículas
suspensas no ar, mormente
em ambientes fechados. E
interessante notar que
' adultos que convivem com
escolares, apresentam maior
ocorrência de resfriados, uma vez que essa faixa etária é mais
afetada e tal convívio facilita a
transmissão.
E caracterizado por sintomas
mais brandos e mais breves do
que os da gripe, apresentando:
• Febre baixa (37,8 °C a 38,5 °C)
ou ausência de febre.
• Dor de garganta.
• Obstrução nasal; coriza
(maior nos dois primeiros dias,
diminui depois; de início clara e
aquosa, sempre se torna muco-
purulenta - amarelada - com o
aumento de leucócitos nas se-
creções); e espirros (no que pode
confundir-se com a rinite, pois também apresenta sintomas res-
piratórios altos).
• Tosse persistente e irritativa (pode haver escarro).
• Dor de cabeça (que pode indicar a presença de sinusite).
90
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

• Complicações são mais brandas, pois o período de estado em ge-


ral é menor. Restringem-se ao trato respiratório superior, com sinu-
sites, faringites e otites. Também é raro o doente apresentar dores no
corpo ou mal-estar geral intenso e duradouro, cansaço ou fraqueza.
• Mais comum no início do outono e da primavera.
• Duração mais curta dos sintomas, em torno de quatro a sete dias.
• Ainda não existem vacinas, uma vez que a quantidade de vírus
é muito grande. Existem pesquisas no sentido de encontrar mecanis-
mos comuns de penetração do vírus no organismo, com o objetivo
de dificultar esse acesso.

Rinite alérgica
Embora a princípio não pareça razoável que ocorra tanta confu-
são entre alergia e resfriado, é relativamente comum pessoas se de-
clararem em estado de permanente resfriado. Após as descrições aci-
ma, ficou relativamente fácil diferenciar, mas aqui estão algumas di-
ferenças adicionais:
• Em geral o paciente com rinite alérgica possui história fami-
liar de alergias.
• Os sintomas se repetem de tempos
em tempos, ou são contínuos (rinite
perene).
• Presença de outros problemas
alérgicos, como dermatite atópi-
ca e asma.
• Coriza presente, mas é aquosa e
contínua - responde bem a anti-
histamínicos tópicos e orais.
• Congestão nasal - responde
de forma mais rápida e estável à
medicação.
• Presença de prurido nasal (uma
das características mais marcantes,
inclusive no sentido físico, pois gera
uma linha no dorso do nariz, devido
ao atrito e movimentação no ato de coçar). Tal não ocorre nem na
gripe nem no resfriado. Pode ocorrer coceira na garganta.
• Ataques de espirros. Se entendermos que o espirro está para o
nariz como a tosse está para o pulmão, fica fácil entender que o ob-
91
PRIMEIROS SOCORROS

jetivo básico do espirro não alérgico é a remoção de substâncias


acumuladas na mucosa nasal, como as secreções do resfriado. No
caso da alergia isso é impossível. Assim, o espirrar mais de quatro
ou cinco vezes seguidas deve ser considerado indicativo de alergia
(nos casos mais intensos podem ocorrer de 10 a 20 espirros).
• Os sintomas são progressivos durante alguns anos. Sem trata-
mento, começam as complicações, como sinusite, pólipos nasais e
hipertrofia de cornetos (carne esponjosa no nariz).
• Conjuntivite que piora ao piorarem os sintomas respiratórios.
Os agentes alergênicos e as substâncias com as quais o organismo
reage podem ter contato direto com a mucosa do olho ou migrar pe-
lo canal que liga o olho ao nariz.
• Inexistência de febre.
• Agravamento da situação sempre que o paciente entra em con-
tato com substâncias às quais é alérgico. Pode ocorrer piora no iní-
cio do inverno, pelo contato com roupas de frio guardadas durante
o ano e que acumularam mofo, ou na primavera, pela floração e li-
beração de pólens.

Tratamento
Com tantos sintomas em co-
mum, existe superposição de al-
gumas terapêuticas:
• Em caso de febre, usar antitér-
micos do tipo acetaminofen (Dô-
rico® 750), uma vez que a aspirina
pode piorar os sintomas alérgicos.
• Se houver dor de garganta
ou outro sintoma inflamatório,
opte por antiinflamatório seleti-
7
vo, que não piore a alergia nem
cause dor de estômago, como a ni-
mesulida (Scaflan®/Nisulid®).
• Outra opção para a garganta são as pastilhas analgésicas (Foner-
gin®, Benalet®, Cepacaína®) ou mentoladas, que estimulam a produ-
ção de saliva e oferecem alívio enquanto usadas.
• Em caso de dores musculares, prefira miorrelaxantes puros, co-
mo a flupirtina (Katadolon®), tizanidina (Sirdalud®) ou tiocolchi-
cosídeo (Coltrax®).
92
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

• Para congestão nasal, prefira medicações descongestionantes orais


(Allegra D®/Claritin D®) em vez dos descongestionantes tópicos (fa-
migeradas gotas nasais) que, se usados além de quatro dias consecuti-
vos, podem provocar alterações locais (rinite vasomotora). Se o uso for
imprescindível, evite a aplicação diurna, reservando-os para uso à noi-
te, com o objetivo de melhorar a qualidade do sono. Neste caso, use me-
dicamentos que não causem ardência local (Sorine® adulto ou simi-
lar). Evite assoar o nariz com muita força para não piorar a ardência lo-
cal. Durante o dia use bastante soro fisiológico (Rinosoro®), para man-
ter as narinas bem higienizadas.
• Ingira muito líquido (como os famosos chás para gripe), uma vez
que o organismo estará aumentando a taxa de metabolismo para com-
bater a infecção ou alergia, e assim necessitará de uma quantidade
maior de fluidos. Prefira os líquidos mornos ou quentes, para maior
sensação de bem-estar na garganta e na árvore respiratória superior.
• Outra maneira de aumentar a quantidade de líquidos na ár-
vore respiratória são as nebulizações (a frio, com aparelho e solu-
ções adequadas, prescritas por médico), inalações (a quente, ca-
seiras) e saunas úmidas (além de
ajudarem a secreção respirató-
ria, têm o mérito de aliviar do-
res musculares).
• Medicações para tosse (as-
sim como gotas nasais) devem
ser usadas apenas no período
noturno ou no final da crise,
quando tiver deixado de ser
produtiva. Só a tosse seca ou
noturna deve ser combatida
(ver pág. 103).
• Lembre-se que o tratamen-
to visa tornar toleráveis os sin-
tomas, e que deve ser dada ên-
fase especial ao repouso e à boa
alimentação. Independente'
mente de tratamento, a infecção virai será resolvida em quatro a
14 dias, dependendo de ser gripe ou resfriado.
• Não use antibióticos, exceto sob orientação médica. Doen-
ças causadas por vírus não reagem a este tipo de tratamento que,
93
PRIMEIROS SOCORROS

além de caro, pode causar efeitos colaterais e desenvolver resis-


tência microbiana.
• Medicações sem comprovação para gripes e resfriados incluem os
complexos vitamínicos, que muitas vezes contêm doses maiores do que
o organismo pode absorver. Prefira utilizar as vitaminas das frutas e ver-
duras, numa dieta equilibrada.
• Procure imediata avaliação médica, se a qualquer época oconer
dor de ouvido intensa, tosse com expectoração amarelo-esverdeada
ou com sangue, dor de cabeça intensa, dores musculares incapacitan-
tes, febre alta e persistente (acima de 39°C), presença de sangue na
urina, alterações visuais, dificuldades respiratórias (falta de ar), dor
em pontada nas costas, ao respirar fundo, ou ainda se os sintomas,
mesmo que brandos, persistirem por mais de quatro dias.
• Alguns casos precisam ser tratados pelo médico com substâncias
mais potentes, como ribavirina ou outros antibióticos antivirais, nos ca-
sos de infecção secundária. Em caso de sintomas mais intensos que
sugiram influenza (gripe), procure seu médico em, no máximo, 36 horas
após o início dos sintomas mais fortes,
para medicação adequada. Pode ser ne-
cessária internação para medidas de su-
porte mais avançado.
• Casos de alergia devem ser anali-
sados por profissional da área, com
exames apropriados para a detecção de
determinantes alergênicos, e tratados
adequadamente com profilaxia am-
biental, medicações e talvez uso de va-
cinas. Casos provocados por alimentos
í alergênicos podem ocorrer, sobretudo
os causados por determinadas carnes,
laticínios e frutos do mar, fato este
muitas vezes ignorado até por profis-
I sionais não afeitos a essas situações.

Como prevenir gripes e resfriados


• Evite a permanência em locais fechados ou mal ventilados. Man-
tenha o ar circulando para que os vírus não se concentrem no local.
• Lave com freqüência as mãos, se possível com sabonete anti-
séptico (Stiefderm® ou Dermacyd®), para eliminar os germes cau-
94
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

sadores de resfriado ou gripe. A reinoculação de partículas virais


ajuda a manter o quadro infeccioso por mais tempo.
• Beba muito líquido (8 a 12 copos diários). Prefira água pura, su-
co de fruta ou chá. Os líquidos mantêm o corpo hidratado, além de
ajudar a eliminar as toxinas produzidas pelos vírus ou pelo processo
de combate aos mesmos.
• Mantenha o ar dentro de casa com umidade adequada, pois o ar
muito seco provoca irritação das vias aéreas, facilitando a penetra-
ção dos germes que provocam resfriados e gripes. Se necessário, use
umidificador de ar nos ambientes mais freqüentados. Já o excesso de
umidade facilita o aparecimento de mofos e bolores.
• Mantenha as narinas bem hidratadas. Se o ar estiver muito seco e
não for possível umidificá-lo, coloque algumas gotas de soro fisiológico
glicerinado nas narinas, para evitar que fiquem ressecadas e se irrite a
mucosa respiratória.
• Respire pelo nariz. A mucosa nasal tem a função de aquecer e
umedecer o ar inspirado, evi-
tando que chegue frio ou se-
co aos pulmões. Se você res-
pirar pela boca, o ar não re-
cebe o tratamento adequa-
do, facilitando as doenças
respiratórias.
• Use lenços de papel ma-
cio em vez de lenços de pano,
que acumulam grande quanti-
dade de germes e secreções,
espalhando no ar os vírus e
reinfectando tanto o portador
como as pessoas à sua volta.
Lave sempre as mãos após as-
soar q nariz.
• E melhor ficar em casa
ao suspeitar de um quadro
infeccioso. Se você estiver
gripado ou resfriado, mante
nha repouso. Com descanso e relaxamento o sistema imunológico
se torna mais ativo, fazendo a infecção virai sarar mais rápido. Além
disso, agindo assim você evita passar a doença a outros.
95
PRIMEIROS SOCORROS

• Reduza o estresse. Pesquisas mostram que pessoas estressadas


adoecem mais, em função da diminuição das defesas do organismo.
• Torne seu ambiente mais saudável, com menos poluição, menos
alérgenos ambientais, nem fumaça de cigarro; pois todos esses fato-
res aumentam a freqüência das infecções, seja por diminuição das
defesas do organismo, seja por destruição das camadas de proteção
das vias respiratórias. Esse processo é causado pelo cigarro ou por in-
flamações provocadas por alérgenos.
• Tenha uma alimentação natural. Coma com equilíbrio, ajudando a
manter o organismo com boa resistência contra infecções. Alguns ali-
mentos ajudam a dar maior resistência ao corpo, como frutas, verduras
cruas, iogurte, alho, gengibre, ginseng e geléia real, devido ao seu conteú-
do de vitaminas e sais minerais. Você também economiza ao não usar os
caros suplementos vitamínicos, cujo excesso pode ser causa de doenças.
• Vacine-se contra a gripe no início do outono, para evitar qua-
dros mais graves no inverno. Dependendo de sua idade, pode estar
indicada também a vacina contra o pneumococo.
• Trate os processos alérgicos. Eles podem contribuir para maior
freqüência de infecções.

I 2 . CRISE ASMÁTICA

A asma é uma doença crô-


nica recorrente. Apresenta-
se controlada em certos está-
gios, e há momentos em que
escapa ao controle. Pode
apresentar crise mais aguda.
Abordaremos a situação de
urgência, sem entrar em to-
das as minúcias do tratamen-
to cotidiano (preventivo) da
doença, mas sugerindo dire-
trizes para que as crises não
fujam ao controle. O papel
que esta doença assume é ca-
da vez mais importante, com aumento gradativo de pessoas afetadas
na população (incidência da doença acima do esperado em relação
ao aumento populacional).
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

Durante muito tempo foi atribuída à asma uma origem unicamente


alérgica, mas o enfoque atual a encara como uma doença inflamatória
crônica das vias aéreas de múltiplas causas. Produz aumento da secre-
ção dos brônquios (subdivisões da árvore respiratória), edema (incha-
ço) no tecido de revestimento das vias aéreas e aumento da resposta da
musculatura brônquica a substâncias alergênicas (hiper-reatividade).
Assim, embora a alergia continue sendo o fator mais importante, pois
está envolvida nos três mecanismos da doença, o seu combate não mais
constitui o único objetivo do tratamento. As conseqüências da reação
alérgica têm igualmente papel importante na manutenção e repetição
das crises. Todas as três alterações fazem com que a área útil de passa-
gem de ar diminua, conduzindo à crise asmática.
O paciente em crise apresenta tosse (pela alergia e aumento de se-
creção), chiado no peito (alergia e edema das vias aéreas) e sensa-
ção de falta de ar (hiper-reatividade, edema e aumento de secreção).
Os sintomas pioram à noite (por diminuir a produção de substâncias
que relaxam o brônquio e facilitam a passagem do ar). Pode ocorrer
dor no peito/costas, devido ao esforço muscular durante inspirações
forçadas, em especial nas crises intensas. O estreitamento da aber-
tura do brônquio em geral é reversível, espontaneamente ou com
uso de medicações. Com o passar do tempo e das crises, porém, po-
de ocorrer obstrução irreversível
das vias aéreas e redução da área
útil respiratória.

O que desencadeia ou agrava


a crise asmática
A asma tem numerosas cau-
sas, sendo mais freqüentes as
reações alérgicas a substâncias
em suspensão no ar (pólen, mo-
ios, pó de casa), liberadas pelos
ácaros ou animais domésticos;
penas (as do periquito são mais
alergênicas); cosméticos; taba-
co; fumaça de lareira. Outras
fontes são alimentos (nozes, me-
lão, amêndoa, trigo, banana, camarão e outros frutos do mar, cho-
colate, ovos, leite, cerveja); medicamentos (aspirina, outros antiin-
97
PRIMEIROS SOCORROS

flamatórios, antibióticos, remédios para o coração à base de beta-


bloqueadores, alguns tipos de gotas oftálmicas).
Existem ainda os fatores físicos, como exercício, frio (sobretudo na
transição de ambientes com temperaturas muito diferentes), e excesso
de calor ou sol. Não devemos esquecer a asma ocupacional, causada por
substâncias químicas, poluentes e alérgenos no ambiente de trabalho.
Lembramos por fim os fatores emocionais, como estresse e mudanças
de vida (residência, emprego, localidade); endocrinos (gravidez, doen-
ças da tiróide); causas infecciosas (infecções respiratórias virais, sinusi-
tes); doenças como o refluxo gastro-esofágico (ver azia, na página 114).
Com o passar do tempo, pacientes asmáticos ou seus familiares
aprendem a distinguir sinais e sintomas da crise próxima, tais como dor
de garganta, coceira na garganta/nariz, crises de espinos; isso torna pos-
sível medicar o paciente antes que se instale uma crise mais grave.

O que fazer em uma crise asmática


• Primeiro passo: avaliar a gravidade da situação. Doentes com sinto-
mas intensos serão mais beneficiados com remoção imediata para atendi-
mento médico e tratamentos portáteis realizados enquanto se busca o
pronto atendimento, do que com tratamentos realizados pelo soconista.
Geralmente o paciente em crise grave se encontra agitado, com dificulda-
de para falar, usando a musculatura acessória da respiração, com sibilos au-
díveis em toda a respiração, com fre-
qüência respiratória e cardíaca au-
mentada e movimentação das asas
do nariz. Pacientes gravíssimos, com
risco de parada respiratória iminen-
te, tornam-se sonolentos, arroxea-
dos, com freqüência cardíaca e res-
piratória diminuída, sem resposta a
estímulos e ausência de sibilos audí-
veis, dando uma falsa impressão de
melhora. Assim, pessoas em crise
grave e que melhoram de repente,
sem razão aparente, podem na verdade estar agonizantes.
• Casos de maior gravidade devem ser imediatamente removidos,
administrando-se no transporte medicações através de sprays com es-
paçadores (Aerotide®/Duovent®/Combivent®) ou pós inaláveis (Bri-
canyl Turbhaller®/Foradil®), sendo preferíveis os últimos em função
?5
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

da maior facilidade de controle de sua inalação, mesmo em momentos


de transporte. Ao chegar à unidade de emergência, deve o paciente es-
tar acompanhado por quem o atendeu, de forma a ser encaminhado ra-
pidamente para outros tratamentos, inclusive uso de oxigênio.
• Sendo a crise mais leve, com o paciente lúcido, pouco chiado,
sem arroxeamento de lábios, indagar-lhe qual sua medicação habi-
tual e atuar de forma complementar, descrita a seguir:
a) Se o paciente usa beta-agonistas (Aerolin®, Brycanil®, Bero-
tec®), dar bamifilina (Bamifix® 600mg) ou teofilina solução para
crianças (18 a 20mg/kg/dia, divididas a cada seis ou oito horas).
b) Se o paciente já usa alguma xantina (teofilina, aminofilina, ba-
mifilina), dar Aerolin® (0,2mg/kg/dia, dividido de oito em oito ho-
ras até o máximo de 2mg por dose).
c) Como a medicação oral só fará efeito em 45 a 60 minutos, adminis-
trar um ou dois "puífs" de Aerotide®/Duovent®/Combivent®, usando es-
paçadores; ou fazer nebulização com Berotec® (1 gota para cada 5kg até o
máximo de oito gotas por nebulização) associado ao Àtrovent® (5 gotas
para crianças, 10 gotas para juvenis e 20 gotas para adultos) e soro fisioló-
gico. Aguardar. Se em 30 minutos não houver melhora, repetir a dose.
d) Se em 60 minutos não houver melhora, ou ela for pequena, encami-
nhar o paciente de imediato para atendimento médico. Considerar como
caso grave mesmo sem os sintomas
descritos antes, uma vez que a cri-
se não respondeu à medicação.
e) Mesmo crises leves devem
ser encaminhadas a curto ou mé-
dio prazo para revisão médica,
análise das causas da crise e reali-
zação de testes respiratórios, exa-
mes de alergia e pesquisa de pos-
síveis doenças associadas.

Aspectos importantes pa- | j |


ra orientação de pacientes e
familiares
• A asma necessita de trata-
mento nas crises e nos períodos
entre elas, de modo a possibilitar espaços cada vez maiores sem
sintomas e crises gradativamente mais leves.
PRIMEIROS SOCORROS

• A fumaça do tabaco em suas diversas formas (cigarro, cachim-


bo, charuto) agride as vias respiratórias, aumentando os sintomas
da asma, ou atrapalhando a atividade normal dos pulmões e favo-
recendo a ocorrência de infecções respiratórias- O asmático deve
evitar não apenas o uso, mas também a permanência em ambien-
tes com presença de fumo.
• Certas infecções respiratórias aumentam a chance de crise
aguda de asma ou seu agravamento. Devem ser prontamente
avaliadas por médico quanto à necessidade de antibiótico. Este
não deve ser iniciado sem orientação específica, até porque al-
guns antibióticos podem desencadear ou piorar a crise asmática.
Sempre que a um paciente asmático for receitada alguma me-
dicação, sua condição deve ser informada ao profissional que
o está atendendo.
• Podem ocorrer
ataques agudos de as-
ma em pacientes que
pratiquem esforços fí-
sicos superiores à sua
capacidade normal
por mais de cinco mi-
nutos. Esse tipo de as-
ma é prevenível atra-
vés de medicamento,
que deve ser usado 20
a 3 0 minutos antes do
início de uma ativida-
de intensa.
• Estresse, tensão nervosa e estados emocionais podem precipitar
crises asmáticas. Em muitos casos pode haver benefício com o
acompanhamento psicológico, tanto do paciente isoladamente co-
mo em associação com terapia familiar. Como ocorre em qualquer
doença crônica (branda ou grave), a asma afeta psiquicamente em
maior ou menor grau o doente e a família. O entendimento deste fa-
to constitui parte essencial do tratamento global do doente.
• Sob controle e acompanhamento, a vida do asmático é se-
melhante à das demais pessoas, tanto no aspecto de outros tra-
tamentos (mesmo cirúrgicos, uma vez que existem anestésicos
que aumentam o fluxo de ar nas vias respiratórias, tornando a
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

anestesia geral mais segura), como nos planos de vida profissio-


nal e particular. Não existem restrições de atividades ou quan-
to à gravidez, pois há razoável segurança no uso de várias me-
dicações durante a maior parte do período de gestação: salbuta-
mol (Aerolin®), fenoterol (Berotec®), terbutalina (Bricanyl®)
e teofilina (Talofilina®); prefere-se a via inalatória à oral. Tam-
bém é considerado seguro o uso de corticóides após a sétima se-
mana e em especial no final da gestação, quando passam a ser
preferidos nos casos em que o controle clínico tenha sido difí-
cil até o oitavo mês.
• A manutenção do tratamento deve incluir corticóides inalados,
tais como a fluticasona (Flixotide®), budesonida (Pulmicort®) ou
similar. Se preferida a via oral, podem ser incluídos os bloqueadores
da degranulação de mastócitos, como o cetotifeno (Zaditen®) ou
inibidores de leucotrienos, como o zafilurkast. Se a adesão ao trata-
mento for correta, ainda pode ser usado o nedocromil (Tilade®) ou
o cromoglicato de sódio (Intal®), embora este apresente a desvan-
tagem de necessitar quatro usos diários.
• A fisioterapia respiratória, com reeducação e treinamento
da musculatura pertinente e aprendizado de manobras que fa-
cilitam a expiração completa durante a crise (com a finalida-
de de combater a hiperinsuflação, más posturas e assincronis-
mos respiratórios), embora não atue no sentido de diminuir as
crises, possibilita melhor travessia das mesmas. Capacita o
doente - no desencadeamento da e durante a crise - a poupar
e melhor utilizar os músculos expiratórios. Combate o cansaço
que agrava a falta de ar. Educação física e prática de desportos
melhoram a capacidade respiratória, devendo fazer parte do
plano de vida do asmático.

Como evitar crises asmáticas


A ação do paciente é vital para evitar crises de asma, com medi-
das bem simples, como:
• Evitar contato com substâncias desencadeadoras (com o pas-
sar do tempo estas vão sendo identificadas e reconhecidas). O
controle dos alérgenos ambientais é parte fundamental do trata-
mento - um objetivo a ser perseguido e mantido. Inclui remoção
de carpetes, cortinas e outros itens que sirvam de abrigo ou ali-
mento para ácaros e baratas, ou que acumulem poeira.
PRIMEIROS SOCORROS

• Manter alimentação saudável, com frutas e verduras, de mo-


do a ter o sistema imunológico corretamente estimulado. Acima
de tudo, evitar alimentos alergizantes (sobretudo na infância,
incentivando o aleitamento materno) e diminuir o uso de pro-
teína animal.
• Usar líquidos em
abundância, para manter
secreções bem fluidas e
facilmente elimináveis.
• Evitar o excesso de
peso (a obesidade au-
menta a dificuldade res-
piratória).
• Prevenir-se da fadiga
excessiva; dormir o nú-
mero de horas suficientes
para sentir-se descansado
e disposto pela manhã.
• Evitar mudanças re-
pentinas de ambiente, em
especial sob condições de
grande diferença de tem-
peratura, umidade ou ressecamento do ar.
• Evitar o contato com pessoas que sofrem de infecções respiratórias.
• Seguir as instruções do médico no tocante a medicamentos.
• Manter um programa de exercícios diários, preferencialmente
aeróbicos - caminhadas, ginástica de baixo impacto e natação, en-
tre outros.
• Evitar o fumo (cigarros, lareiras, oficinas) e ambientes poluídos.

3 . TOSSE

A tosse é um poderoso mecanismo de defesa do sistema respirató-


rio, com as seguintes funções:
• Expulsar substâncias estranhas que atinjam as vias aéreas, nariz,
boca e faringe.
• Mobilizar e remover o catarro, que é a secreção protetora da ár-
vore respiratória.
Isto se torna necessário porque, embora as vias aéreas superio-
102
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

res filtrem, aqueçam e umedeçam o ar para adaptá-lo à tempera-


tura do corpo, junto com o ar por vezes ultrapassam as barreiras
do organismo elementos
agressivos, tais como
poeira, pêlos, fumaça
(especialmente em fu-
mantes), os quais ficam
retidos no muco (subs-
tância gelatinosa de
proteção formada pela
mucosa respiratória).
Com o acúmulo desses
elementos, ou pelo au-
mento da produção de
muco devido a algum
agente infeccioso, irri-
tante ou alérgico, ocorre
o estímulo das termina-
ções nervosas da mucosa
respiratória da laringe
das vias aéreas inferiores. Estas enviam impulsos para o sistema
nervoso central; a resposta é um reflexo, com a contração do dia-
fragma, um dos principais músculos da respiração. Ocorre a ex-
pulsão rápida e violenta do ar, que é a tosse.
A tosse ocorre em 5 % a 4 0 % das pessoas, dependendo do núme-
ro de fumantes e de outros fatores ambientais (poluição e demais
fatores alergênicos nas diferentes comunidades).
Causa comum de tosse são as infecções por vírus (resfriados e gri-
pes) levando à afecção aguda do trato respiratório superior. Nestes
casos a tosse vem sem grande quantidade de catarro, dura pouco
tempo e cessa com o término da infecção. Antigamente a coquelu-
che era comum, e caracterizada por tosse espasmódica. Hoje está in-
tegrada aos esquemas normais de vacinação, e deve ser prevenida
dessa maneira.
Em outros casos a tosse vincula-se ao aumento da produção de
muco, por alergia ou alterações genéticas, ou a uma doença res-
piratória crônica, como asma (alguns equivocadamente a cha-
mam de bronquite). Em alguns pacientes, entretanto, não há
causa óbvia e a tosse pode durar anos, necessitando de exames
103
PRIMEIROS SOCORROS

aprofundados. Embora seja importante resolver sintomas, é fun-


damental determinar os fatores causais ou o mecanismo fisiopa-
tológico associado.
Ao efetuar o tratamento da tosse e de qualquer outro sintoma,
é importante não prejudicar os mecanismos de auto-regulação e
limpeza do organismo, ou atrapalhar suas funções básicas de res-
piração, pulsação, digestão, sono, etc. Assim, o tratamento da
tosse assume importância,
pois é um sintoma que le-
va à piora do sono e da
qualidade de vida do pa-
ciente. A tosse seca, que
não esteja cumprindo
função útil na remoção
de detritos ou material
infectado, deve ser blo-
queada, mas sem causar
sonolência ou alterações
no ciclo respiratório.
A última causa a ser
mencionada é a tosse co-
mo efeito colateral de al-
I guns medicamentos con-
I tra hipertensão arterial
W (captopril e similares). Se
apos o inicio de alguma me-
dicação a pessoa começa a apresentar tosse, deve contatar seu médi-
co para reavaliação do caso.

Que fazer nos casos de tosse


Avalie os sintomas associados à mesma. Talvez a situação exija
análise médica. Se impossível, ou se a tosse for seca e pouco inten-
sa, opte pelo uso de medicações, sobretudo à noite. Assim, man-
tém-se a qualidade do sono, com menos risco de efeitos colaterais,
como sonolência. Inicialmente prefira medicações com apenas
uma substância, tais como butamirato (Besedan®), dropropizina
(Tussiflex®, Vibrai®), levodropopizina (Zyplo®), dextrometorfano
(Helifenicol®), cloperastina (Seki®), clobutinol (Silomat®) e pi-
pazetato (Selvigon®), sempre utilizando as doses mínimas indica-
104
PROBLEMAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO
CAPÍTULO 9

das na bula e promovendo aumentos gradativos, se necessários.


Caso não obtenha bons resultados, pense em trocar a medicação ou
em usar medicamentos com associações, como o Notuss®, Reve-
nil®, Santussal®, Silencium®, Silomat Plus®, Tetrapulmo®, Tople-
xil®, Trifedrin®.
Evite medicações à
base de gluconato de
cálcio, cloreto de amó-
nio, citrato de sódio, io-
deto de potássio, guaife-
nesina (éter-gliceril-
guaiacólico), tinturas de
plantas, sulfaguaiacola-
to de potássio, benzoato
de amónio, becantex,
citrato de fenetilamina,
bromofórmio, dibunato
de sódio, benzoato de
sódio, prometazina (iso-
ladamente ou em asso-
ciação). Estes, ou não
têm efeito cientifica-
mente comprovado, ou
apresentam efeito infe-
rior aos citados anterior-
mente, ou desenvolvem efeitos colaterais.
Caso essa terapêutica seja insuficiente, existem medicamentos de
ação mais específica, mas todos necessitam de receita médica,
portanto, é importante uma análise pessoal com profissional
habilitado.

105
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