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LOGÍSTICA REVERSA – A REALIDADE BRASILEIRA

Jacir João de Lima

Resumo: Este artigo tem a finalidade de apresentar uma das práticas que, hoje, as empresas
têm considerado indispensáveis, tanto na redução dos custos finais do seu processo
produtivo, como principalmente na construção e manutenção da sua imagem institucional,
que é a logística reversa. Além destes dois argumentos, há a concientização da própria
sociedade, que através do poder público estipula normas de conduta a serem atendidas, no
sentido de se preservar o ambiente físico. São aboradados, aqui, o conceito e a prática da
logística reversa com ênfase na realidade brasileira os seus efeitos para a sociedade e
estabelecidas correlações à realidade em outros países. A conclusão deste estudo procura....

Palavras-chave: logística reversa, logística, responsabilidade social, organizações.

1. Introdução

A busca pela redução de custos e pela melhoria do nível de serviço prestado, seja ao cliente
externo como ao cliente interno, constituem o foco das atenções das empresas, na
atualidade, uma vez que tais aspectos compõem importante diferencial competitivo em um
ambiente de intensa competitividade.

Nesse contexto surge a logística, como uma área promissora e relativamente pouco
explorada, ainda, por grande parte das organizações. Desta forma, FONTES (1996), ressalta
a importância estratégica da logística, ao afirmar que “O sistema logístico, estabelecendo a
integração dos fluxos físico e de informações, responsáveis pela movimentação de
materiais e produtos é, segundo Peter Druker, ‘... a última fronteira gerencial que resta ser
explorada’ para reduzir tempos e custos, melhorar o nível e a qualidade de serviços, agregar
valores que diferenciem e fortaleçam a posição competitiva da empresa.”

2. Conceito de logística e logística reversa


O conceito de logística pode ser visualizado segundo dois enfoques: uma visão estratégica,
envolvendo objetivos de marketing e uma visão técnica, relacionada à administração de
materiais propriamente dita.
O primeiro enfoque é expresso por CHRISTOPHER (1999), que conceitua a logística como
“[...] o processo de gerenciar estrategicamente a aquisição, movimentação e armazenagem
de materiais, peças e produtos acabados (e os fluxos de informações correlatos) através da
organização e seus canais de marketing, de modo a poder maximizar as lucratividades
presente e futura através do atendimento dos pedidos a baixo custo”.
O conceito de BALLOU (2000) evidencia a visão da operacionalização das atividades
logísticas. Segundo ele, “A Logística empresarial trata de todas atividades de
movimentação e armazenagem, que facilitam o fluxo de produtos desde o ponto de
aquisição da matéria-prima até o ponto de consumo final, assim como dos fluxos de
informação que colocam os produtos em movimento, com o propósito de providenciar
níveis de serviço adequados aos clientes a um custo razoável”.
A logística empresarial, portanto, trata do gerenciamento do fluxo de materiais do ponto de
aquisição da matéria-prima até o ponto de consumo do produto acabado. Existe, contudo,
no sentido contrário, desde o ponto de consumo do produto acabado até o ponto de origem,
da matéria-prima um fluxo logístico que precisa ser gerenciado. Esse fluxo denomina-se
logística reversa. A logística reversa, portanto pode ser vista como a área da logística que
trata dos aspectos de retornos de produtos, embalagens e outros materiais ao seu centro
produtivo, bem como de informações relativas ao fluxo normal e reverso, conforme mostra
a Figura 1.

Figura 1 – Escopo da logística e da logística reversa.


Pode-se conceituar a logística reversa, como o processo de planejamento, implementação e
controle do fluxo de material do ponto de consumo até o ponto de origem, com o objetivo
de agregar valor ao produto final, à imagem da empresa ou atender exigências legais.
Esta prática já é utilizada há bastante tempo por algumas atividades industriais. Os
exemplos mais comuns são o do uso de sucata na produção e reciclagem de vidro, os
fabricantes de bebidas que gerenciam o retorno de embalagens (garrafas) dos pontos de
venda até seus centros de distribuição, as siderúrgicas que usam como insumo de produção,
em grande parte, a sucata gerada por seus clientes e a indústria de latas de alumínio, que
aproveita matéria prima reciclada, tendo desenvolvido meios inovadores na coleta de latas
descartadas.
Em outros setores da indústria o processo de gerenciamento da logística reversa é
mais recente como na indústria de produtos eletrônicos, no varejo em geral e no setor de
autopeças. Estes setores voltaram o seu interesse ao fluxo de retorno de embalagens,
devoluções pelos clientes, reaproveitamento de materiais para produção e até mesmo para a
destruição de materiais nocivos ao ambiente.
Apesar desses interesses, a logística reversa é ainda, de maneira geral, uma área, vista
pelas empresas com baixa prioridade. Isso pode ser percebido, pelo reduzido número de
empresas, cuja área de logística dedica alguma atenção ao assunto. Muito, ainda se tem a
explorar e usufruir do gerenciamento eficaz das atividades da logística reversa. Em parte, a
intensificação das ações da logística reversa, ocorridas até agora se devem às pressões
externas, como um maior rigor de legislação ambiental e a necessidade de se reduzirem os
custos, em função da concorrência global.

Na prática, quase todas as empresas exercem a logística reversa, porém nem todas
encaram esse processo como parte integrante e necessária para o bom andamento ou para a
contabilização dos seus custos, apenas utilizam o processo e não despendem maior atenção,
nem investem em pesquisas, para o seu desenvolvimento. Uma empresa que adquire
materiais recicláveis para transformá-los em matéria-prima novamente ou que recebe um
produto como fruto de devolução por qualquer motivo, já está aplicando conceitos de
logística reversa.
OBJETIVOS DA LOGÍSTICA REVERSA

O objetivo principal da logística reversa é a de agregar valor de alguma natureza às


empresas, pelo retorno dos bens ao ciclo de produção ou de abastecimento. A natureza do
valor a ser agregado varia, de acordo com o ramo da atividade desempenhada; para
algumas atividades o valor agregado é meramente econômico, já para outras ele se traduz
na própria imagem da empresa, junto aos seus clientes ou à comunidade. Com certeza, o
objetivo econômico, aquele que agrega valor monetário é o mais evidente na
implementação da logística reversa nas empresas, por ser o que traz resultados efetivos
mais imediatos e visíveis. Porém, considerado o outro aspecto, a imagem da empresa,
surgem duas outras razões para se intensificar as atividades da logística reversa. São elas:
• Questão ambiental – o que hoje se conhece como “logística verde” é uma forte
tendência já praticada por um grande número de empresas. A legislação ambiental
já bastante desenvolvida em outros países, no Brasil tende a criar instrumentos que
forçam as empresas a assumirem a responsabilidade pelo destino dos seus
produtos, mesmo após o seu consumo, ou seja, por todo o seu ciclo de vida. As
exigências, cada vez mais incisivas, obrigam as empresas a buscarem soluções
para amenizar ou eliminar os efeitos nocivos causados pelo seu produto ao meio
ambiente físico. Aliada a essa legislação, a consciência ecológica dos
consumidores potencializa os efeitos da questão ambiental na conduta das
empresas. Como conseqüência dessa situação, as empresas, não só para atender as
exigências legais, mas, sobretudo para transmitir ao público uma imagem de
empresa responsável e ecologicamente correta, tem adotado práticas no sentido de
preservar o ambiente, a saúde e o bem estar da sociedade. Segundo
ALCOFORADO (2002), a “logística verde ou ecológica” e a logística reversa
agem em conjunto, no sentido de minimizar o impacto ambiental, incluindo-se o
controle dos resíduos na esfera da produção, do pós-consumo e dos demais
impactos ao longo do ciclo de vida dos produtos. Como resultado prático desta
situação, nota-se um crescimento considerável no número de empresas que
trabalham com reciclagem de materiais. Um exemplo de sucesso e grande adesão,
por parte da população em geral é o projeto “Replaneta”. No inicio do segundo
semestre de 2001, com o objetivo de ampliar a coleta de latas de alumínio e entrar
no segmento de garrafas plásticas PET, a empresa “Tomra Latasa Reciclagem”
lançou, na cidade do Rio de Janeiro, um projeto-piloto de logística reversa,
batizado de “Replaneta”, que consiste numa rede de centros de coleta formada por
oito postos, instalados no estacionamento das lojas dos supermercados “Extra” e
equipados com máquinas especialmente desenvolvidas para o tratamento de latas
de alumínio(1). De lá para cá, a empresa desenvolveu uma série de projetos e
promoções para estimular a formação de uma industria recicladora, como o Projeto
Escola, por meio do qual as instituições de ensino trocam latas de alumínio por
material didático. O projeto voltou-se, a seguir, também para a reciclagem das
garrafas PET.
• Nível de serviço ao cliente – diferenciação por serviço prestado. A visualização
desta razão se dá, com predominância no ramo varejista. O retorno de bens
defeituosos, danificados, fora de especificações ou recusados pelo consumidor por
motivos diversos, é bastante freqüente nesse ramo. As políticas organizacionais
que tratam desse aspecto têm demonstrado grande flexibilidade. Uma empresa é
bem vista pelo cliente, não apenas por fornecer bens ou prestar serviços com
qualidade, mas também pelo atendimento dispensado ao cliente, particularmente
na solução de seus problemas. Esses problemas ocorrem, normalmente quando o
cliente não se satisfaz após a aquisição de um produto. Políticas liberais ágeis e
descomplicadas, nesse caso, são sempre bem-vindas. Isto requer uma estrutura em
pessoal e material para recebimento, classificação e expedição de produtos
retornados. As empresas que possuem um processo de logística reversa bem
gerido, nesta situação tendem a se sobressair no mercado, uma vez que podem
atender melhor o seu cliente, que os seus concorrentes o fariam. Esta tendência é
reforçada pela existência da legislação de defesa do consumidor, garantindo-lhe o
direito de devolução ou troca, em situações específicas.
• Redução de custos – em muitos casos, a prática da logística reversa tem trazido
consideráveis retornos para as empresas. Com a utilização de embalagens
retornáveis ou com o reaproveitamento de materiais para produção, as empresas
têm obtido resultados econômicos bastante favoráveis. O uso de matéria-prima
reciclada, em geral barateia o produto, em razão do menor custo dos insumos,
desde que a tecnologia usada no reprocessamento seja economicamente viável e
eficiente. Por esse motivo, tem-se investido cada vez mais no desenvolvimento e

(1)
A Tomra Latasa Reciclagem foi criada em março de 2001,quando a norueguesa Tomra Systems
ASA, líder mundial em soluções para reciclagem, comprou a brasileira Latasa, maior fabricante de
latas de alumínio do país.
na melhoria dos processos, tanto da logística reversa, como de produção. O
resultado, contudo, tem justificado os investimentos realizados.
• Minimizar o aumento dos custos com restituições – ao contrário do que ocorre
quando se usa matéria-prima reciclada ou embalagens retornáveis, não se podem
ignorar os custos que o processo de logística reversa decorre de materiais que
voltam aos seus centros produtivos devido a falhas na produção, pedidos emitidos
em desacordo com aquilo que o cliente queria, troca de embalagens, etc. Neste
caso, os custos decorrem da duplicidade de atividades como armazenagem,
separação, conferência, transporte e outras, além do próprio custo de retrabalho na
produção, se este for necessário.

ESCOPO E ATIVIDADES

O escopo da logística reversa envolve duas áreas de atuação que, não obstante as
inúmeras similaridades, em razão da diferença do produto logístico considerado, dos
objetivos estratégicos, dos canais de distribuição e das técnicas operacionais utilizadas,
devem ser estudadas separadamente. São elas:
• Logística reversa de pós-venda – denomina-se logística reversa de pós-venda o
conjunto de atividades desempenhadas para tratar do retorno de produtos
devolvidos por razões comerciais, erros no processamento dos pedidos, defeitos ou
falhas de funcionamento, garantia dada pelo fabricante, avarias no transporte, entre
outros motivos. As atividades da logística reversa, neste caso, envolverão os
diversos elos da cadeia de abastecimento direta. Por esta razão, as atividades de
retorno se valem, normalmente dos mesmos meios usados pela cadeia direta,
sobretudo os meios de transporte.
• Logística reversa de pós-consumo – denomina-se logística reversa de pós-
consumo, a área de atuação da logística reversa que trata do fluxo físico e das
informações correspondentes ao material remanescente do consumo. Trata-se de
materiais descartados pela sociedade e que retornam ao ciclo de negócios ou ao
ciclo produtivo por canais de distribuição reversos específicos. Incluem-se nesta
categoria, os resíduos industriais e materiais destinados ao descarte.
Na prática, o processo geralmente é composto por um conjunto de atividades que
envolvem a coleta, a separação, a embalagem e a expedição dos itens que retornarão ao
fornecedor, serão revendidos, recondicionados, reciclados ou descartados, em razão da sua
função ou adequabilidade ao uso.
Os materiais, objetos das operações da logística reversa, podem ser divididos em dois
grandes grupos: produtos e embalagens. No caso dos produtos, os fluxos de logística
reversa se darão pela necessidade de reparo, reciclagem, ou porque os clientes desistem da
compra e os retornam.
No caso da logística reversa de pós-venda, os materiais podem retornar diretamente
ao fornecedor. Neste caso, se enquadra o retorno de embalagens, paletes e devoluções dos
clientes. Os meios usados podem, e normalmente são os mesmos utilizados no canal
logístico direto, o que gera economia de escala, reduzindo-se, desta forma os custos. As
denominadas embalagens secundárias (caixas de garrafas, bandejas, etc.) e terciárias ou de
transporte (paletes e contenedores) são os materiais mais suscetíveis de serem reutilizados.
Após passarem por uma triagem ou manutenção, são inseridas novamente na cadeia de
abastecimento. Os fluxos de logística reversa, no caso das embalagens ocorrem em função
da perspectiva de reutilização ou devido a imposições legais, que impedem seu descarte no
meio ambiente, sem um tratamento adequado.
Em razão da possibilidade de reutilização da embalagem, tem-se buscado desenvolver
embalagens mais resistentes, que possibilitem inúmeras reutilizações. Essa iniciativa tem
aumentado o seu custo de produção, tornando-as consideravelmente mais caras que as
embalagens one way. Contudo, em razão da alta rotatividade de uso dessas embalagens, o
seu custo por viagem tende a ficar menor que o custo da embalagem one way. O
incremento no giro de materiais como paletes e contenedores, cria problemas à qualidade
da embalagem usada, uma vez que a sua restauração, muitas vezes não inclui o controle de
qualidade adequando.
As devoluções, por sua vez, podem ser revendidas, depois de contabilizadas e se
ainda estiverem em condições adequadas de comercialização, ou recondicionados, desde
que haja justificativa econômica, portanto incorporadas novamente na cadeia de
distribuição. A tabela 1 mostra taxas de retorno devido a devoluções de clientes, em
algumas indústrias. Em razão das altas taxas de retorno, em algumas delas, o gerenciamento
eficiente do fluxo reverso torna-se fundamental para o negócio.
Tabela 1 - Percentual de retorno de produtos
Indústria Percentual de retorno
Vendas por catálogo 18 a 35%
Computadores 10 a 20%
Impressoras 4 a 8%
Peças automotivas 4 a 6%
Produtos eletrônicos 4 a 5%

Fonte: Lacerda (2002).

Nas situações em que não é possível ou economicamente viável a inserção do


material diretamente na cadeia de abastecimento, o tratamento dado à sua movimentação
difere bastante do caso anterior e são adotados procedimentos específicos. Este é o caso da
logística reversa de pós-consumo. Os materiais que se destinam à reciclagem seguem um
canal que passa por intermediários – muitas vezes cooperativas voltadas exclusivamente à
coleta e triagem – indo até o ponto de reutilização da matéria-prima.
Em último caso, o destino dos materiais pode ser o seu descarte final. Há uma forte
tendência em se atribuir a responsabilidade do descarte final ao produtor do material, por
razões ambientais ou sanitárias. Com o intuito de se adaptar a essas novas tendências, as
empresas têm buscado alternativas que envolvem, desde a utilização de embalagens
biodegradáveis até mesmo o desenvolvimento de produtos com características especiais ou
que não usem componentes nocivos à saúde. Essas medidas podem reduzir os custos
logísticos reversos, consideravelmente.
Há uma situação em que o fluxo reverso de produtos é usado para manter estoques
reduzidos, diminuindo o custo com a manutenção de itens de baixo giro, no ponto de venda.
Tal prática pode ser observada na comercialização de revistas e de C D’s musicais ou
outros produtos em que se adota o sistema de vendas por consignação. Com o intuito de
expor o produto ao público, os fornecedores incentivam os varejistas a adquirir um mix
variado de produtos, com o compromisso de aceitarem a devolução dos itens que não forem
vendidos ou que não tenham bom comportamento de vendas. Esse procedimento gera
custos, contudo estes não superam o lucro auferido, mantendo-se o produto à disposição do
cliente.
A LOGÍSTICA REVERSA E A AMPLIAÇÃO DO CONCEITO DE CICLO DE
VIDA

A logística reversa amplia o conceito de ciclo de vida do produto. A vida de um


produto, para efeito de apropriação de custos logísticos ao produto, não termina com sua
entrega ao cliente ou com o seu consumo. O produto pode apresentar defeito ou se tornar
obsoleto e, portanto, retornar ao seu ponto de origem para, após o tratamento adequado, ter
o seu destino que pode ser a sua reinserção na cadeia de abastecimento normal ou o seu
descarte. Além dos custos da matéria-prima, da mão de obra, impostos e taxas e das
atividades da logística direta, o ciclo de vida de um produto inclui também os custos
relacionados ao seu fluxo reverso. A Figura 1 representa a reinserção de materiais
reaproveitáveis através do processo logístico reverso, no processo logístico direto.

Figura 1 - Representação dos processos logísticos direto e reverso

Fonte: Lacerda (2002).

GERENCIAMENTO EFICIENTE DA LOGÍSTICA REVERSA

Grande parte das empresas trata a logística reversa como um conjunto de atividades
eventuais e não como um processo regular. Como tal esse processo deve ser planejado,
organizado e ter a sua execução acompanhada e controlada adequadamente.O
gerenciamento eficiente de um sistema de logística reversa requer o atendimento a alguns
requisitos básicos. São eles:
• Realização de triagem inicial – É importante que o planejamento do fluxo
reverso contemple uma triagem do material com o objetivo de classificá-lo de
acordo com o seu estado de conservação e possibilidade de reaproveitamento.
Nesta etapa são dados diferentes destinos ao material, de acordo com a finalidade
definida. Parte do material pode entrar no ciclo de produção, parte pode ser
destinada ao descarte, ou revendida. Desta forma pode ser evitado o retrabalho,
com custos desnecessários.
• Organização da estrutura – A operação da logística reversa requer uma infra-
estrutura logística que seja adequada para tratar os fluxos de entrada de materiais a
serem processados. Parte desta estrutura física pode ser a mesma usada na
logística direta, principalmente quando se trata do retorno de devoluções do
cliente e embalagens. Pode ser necessário que se disponha de instalações para a
armazenagem e sistema de transporte adequado ao tipo material a ser manipulado.
• Controle e acompanhamento do processo – O acompanhamento do ciclo reverso
requer atenção a aspectos bastante diferenciados entre si. As ações para se avaliar
o impacto das devoluções dos clientes no custo final do produto, não têm qualquer
relação ou semelhança com as relativas ao retorno de material para a reciclagem.
Por essa razão, cada tipo de material merece acompanhamento e controle
específico. O controle é fundamental para que se possa avaliar a viabilidade
econômica dos processos utilizados. Pode-se optar por reciclar ou revender como
sucata algum tipo de material em função do seu custo de reciclagem, comparado
com o valor obtido com a sua revenda ou mesmo com o seu descarte.
• Integração dos elos da cadeia reversa – Assim como ocorre no fluxo direto,
percebe-se que para se obter os resultados mais eficazes com a operação reversa, é
importante que os elos envolvidos no processo ajam de forme integrada e
colaborativa. Devem ser definidas claramente responsabilidades de transporte,
triagem, armazenagem e controle, bem como os custos inerentes a essas
operações. As práticas de ECR – Efficient Consumer Response – adotadas na
cadeia de distribuição podem ser aplicadas também na cadeia reversa.
A LOGÍSTICA REVERSA EM NÚMEROS

Os dados relativos ao volume de materiais reciclados, aqui apresentados foram


fornecidos pelo CEMPRE(2). Os dados econômicos baseiam-se em estimativas projetadas
por algumas pesquisas realizadas nos EEUU, por diversos órgãos e setores.
Nos EEUU, pesquisas estimam os custos de retorno de bens – devolução de clientes –
a em cerca de 0,5% do PNB do país, ou 4% dos custos logísticos totais.
Estima-se que o setor de computadores, equipamentos de rede, equipamentos de
automação, e eletrodomésticos, nos EEUU, tenha atingido US$ 7,7 bilhões no ano 2000
com o fluxo reverso. O instituto de pesquisa em informática Gartner Group prevê um valor
de US$11 bilhões de retorno de bens no segmento do e-commerce nos EEUU, um dos
setores de maior potencial para a logística reversa.
Quanto à reciclagem, por abranger uma extensa gama de materiais, como exemplo
foram escolhidos os mais significativos, para serem expostos os dados relativos ao ciclo
reverso.
LATAS DE ALUMÍNIO
Esse material volta à produção de latas ou é repassada para fundição de autopeças. A
lata de alumínio é o material reciclável mais valioso. Em 2003, o Brasil reciclou mais de
8,2 bilhões de latas de alumínio, o que representa 112 mil toneladas. Cerca de 50% desse
volume é recolhido por 130 mil sucateiros. O mercado de sucata de latas de alumínio
movimentou, nesse mesmo período, cerca de R$1,1 bilhão. Foram reciclados 89% da
produção nacional de latas em 2003, superando países como a Inglaterra e os EEUU.
EMBALAGENS PET
As garrafas são recuperadas através de catadores, além de fábricas e da coleta seletiva
operada por municípios e entidades diversas. Elas têm a vantagem de serem recicladas
várias vezes sem prejudicar a qualidade do produto final. O Brasil consumiu 300 mil
toneladas de resina PET na fabricação de embalagens em 2003 sendo que 40%das
embalagens foram recicladas, totalizando 120 mil toneladas.
VIDRO
(2)
O Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre) é uma associação sem fins lucrativos
dedicada à promoção da reciclagem dentro do conceito de gerenciamento integrado do lixo.
Fundado em 1992, o Cempre é mantido por empresas privadas de diversos setores.
O Brasil produz em média 890 mil toneladas de embalagens de vidro por ano, sendo
cerca de 45% de matéria-prima reciclada na forma de cacos. Parte dela é representada por
refugo das fábricas e parte retorna por meio da coleta. Cerca de 45% das embalagens de
vidro são recicladas no Brasil, somando 390 mil toneladas por ano.
PNEUS
A reciclagem de pneus se dá pela trituração e adição de produtos químicos
desvulcanizantes, produzindo uma pasta destinada à produção de tapetes de automóveis,
solado de sapato, pisos industriais e borrachas de vedação, entre outros produtos. O pó
gerado na recauchutagem e os restos de pneus moídos podem ser aplicados na composição
de asfalto de maior elasticidade e durabilidade que o comum. Os pneus podem ser usados
na geração de energia pela queima em fornos especiais. Cerca de 55% das 260 mil
toneladas de pneus inservíveis que, se estima serem descartadas por ano no Brasil foram
destinadas a fornos para a produção de cimento.
O valor econômico movimentado pela logística reversa na cadeia do ferro e aço é de
mais de 30% do valor de venda do produto do setor, representando no Brasil, mais de R$
5,2 bilhões ao ano.
Segundo a Automotive Parts Rebuilders Association(3), nos EEUU, a desmontagem
de automóveis e remanufatura de peças conta com a atuação de 12 mil empresas em
atividade atualmente.
Os dados apresentados, representam apenas uma amostra das dimensões da logística
reversa de pós-venda e de pós-consumo, o que torna justificáveis os esforços voltados para
uma administração eficiente do setor.

A LOGÍSTICA REVERSA NO BRASIL

A legislação brasileira que trata do processo da logística reversa é bastante escassa e


qualquer iniciativa nesse sentido, especialmente quando de trata da logística verde, esbarra
em fortes resistências por parte de lobbyes que defendem interesses de certos ramos de
atividades. Isso ocorre em razão dos elevados custos com que alguns setores deveriam
arcar, caso fossem obrigados por lei a efetuar algumas atividades de logística reversa,
especialmente se tratando do descarte. Algumas resoluções são aplicadas, ainda que não
(3)
A Automotive Parts Rebuilders Association (APRA) é uma associação de empresas fundada
1941 destinada a buscar soluções para a indústria de reciclagem, voltada ao ramo automobilístico.
haja uma fiscalização efetiva ao seu cumprimento, como por exemplo, a Resolução
Conama(4) nº258, de 26/08/99, que estabelece no seu Art. 1º:

“As empresas fabricantes e as importadoras de pneumáticos para uso em veículos


automotores e bicicletas ficam obrigadas a coletar e dar destinação final
ambientalmente adequada aos pneus inservíveis existentes no território nacional, na
proporção definida nesta Resolução relativamente às quantidades fabricadas e/ou
importadas”.

Isso, praticamente obriga as empresas desse segmento a sustentarem políticas de


logística reversa.
O Código de Defesa do Consumidor estabelece regula condições em que a empresa se
obriga a aceitar devoluções do cliente, o que também pode induzir as empresas a manter
canais que viabilizem tal prática. Contudo, esta situação, na maioria das vezes não é
suficiente para que se adotem políticas perenes e consistentes dirigidas ao fluxo reverso. As
devoluções ainda são vistas, muitas vezes como eventos contingenciais e como tais, são
tratadas.
A despeito das dificuldades apresentadas no sentido de se ter uma legislação que
efetivamente motive as empresas a adotar práticas concretas de logística reversa, o conceito
propaga, cada vez, a consciência da necessidade de se considerar os custos adicionais e as
reduções de custos que este processo pode gerar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Carla Ferreira,
Centro Universitário Assunção - UniFAI
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Trabalho de conclusão de Curso apresentado no Curso de Administração de
Empresas para obtenção de grau de Bacharel em Administração de
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Logística Reversa - Uma visão sobre os conceitos básicos e as práticas operacionais


Leonardo Lacerda (2002)
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janeiro/2.004
Ronderley Miguel Netto,
Coordenador de Negócios - Kom International - ABPL & Associado
Administrador com habilitação em Comércio Exterior.(UNIP)
Mestrando em Engenharia de Transportes (Unicamp)
Pesquisador da UND ( Universidade corporativa) pertencente ao ABGroup.
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