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Parashat Beshalach – Israel saiu do Egito ou Fugiu do Egito?

Neste estudo, faremos outra abordagem da Parashá, desta vez, usando a Hipótese
Suplementar (no outro, analisamos de acordo com a Hipótese Documental.
Agora, vamos observar outra camada de texto tradicional, que está entre as mais antigas,
a Tradição E (chamada, Elohista).
Esta tradição apresenta os Israelitas, expulsos pelo povo Egípcio, e isso perante o rei do
Egito, durante a praga da escuridão. É nesta tradição também que Moshe, é mostrado,
dividindo o mar por conta própria.

Os redatores da tradição J revisaram esta versão do relato, e criaram uma outra história.
Eles procuraram apresentar uma ideia de Divindade todo-poderosa, que estivesse ferindo
os filhos primogênitos Egípcios, forçando por meio disso o Faraó, a ceder e depois,
afogando o Faraó e seu exército no mar, quando Faraó mudou de ideia.

Finalmente, o redator Sacerdotal interferiu com seu próprio olhar na narrativa, e


acrescenta detalhes conforme sua ótica, expandindo o número de Egípcios e Israelitas na
cena, e colocando “sua assinatura” que consistia na inovação teológica: Segundo a
Tradição P, a Divindade é arbitrária e não respeita a questão do livre-arbítrio, por isso,
muda a mente do Faraó e o obriga a perseguir Israel, castigando-o mesmo assim depois.
A saída do Egito, em Shemot 12 a 14 parece uma história direta, à primeira vista. Apenas
quem lê com atenção e, realmente estuda o texto, se dá conta de que, é um mosaico de
trechos de várias tradições, combinados num só texto. E assim é toda a Torá e, grande
parte da Bíblia Hebraica.
Quando se pensa na história como se fosse uma só, a ideia é que a Divindade fere os
primogênitos dos Egípcios, e então o Faraó envia os Israelitas. E no caminho de sair do
Egito, o Faraó muda de ideia e os persegue. Daí os Israelitas chamam a Divindade, que
pede a Moshe para mover os braços no Mar de Juncos (vulgo: mar vermelho) e, quando o
mar se abre, os Israelitas caminham no meio dele.
Uma leitura atenta destes capítulos, revelam seus problemas:

OS PROBLEMAS
- Os Israelitas foram expulsos ou fugiram? Após a morte de todo primogênito no Egito,
o Faraó chama Moshe no meio da noite, e expulsa os Israelitas (Shemot 12: 31 - 32). No
entanto, "o rei do Egito" ouve que os israelitas escaparam (Shemot 14: 5).
- Quantos egípcios / israelitas estavam lá? Shemot 12: 37 afirma que os israelitas
viveram no Egito por 430 anos e que 600.000 homens adultos deixaram o Egito. Em
Shemot 14: 7, a maior parte da força egípcia é de 600 carros, o suficiente para recapturar
um número tão imenso de pessoas, mas os israelitas têm muito medo e gritam ao
HaShem (14: 10).
- Quem separou o mar? Moshe balança o braço e parte o mar (14: 17, 21); ele balança o
braço novamente e o mar volta (14: 27). No entanto, somos informados de que o
HaShem, faz o vento soprar para facilitar esse milagre, e o HaShem joga os egípcios na
água (14: 21, 27). De quem é a ação que divide o mar? [O mesmo problema existe na
narrativa das pragas da locusta e do granizo]
- Quem mudou a mente do Faraó? Em Shemot 14: 4, o HaShem promete a Moshe que
endurecerá o coração de Faraó por ele, a fim de perseguir os israelitas, e ele o faz (14: 8).
Em 14: 5b, no entanto, o próprio Faraó lamenta enviar os israelitas e reunir seu exército.
- A Divindade ou o mensageiro da Divindade? Ao longo do texto de Shemot 13 e 14
(13: 21, 14: 20) o HaShem usa nuvens e fogo para liderar os israelitas e agir como se
fosse, um amortecedor entre eles e os egípcios. Em outro lugar do capítulo 14, é o
mensageiro de Elohim que cumpre esse papel (14: 19).
- Como é chamado o governante do Egito? Embora não seja realmente uma
contradição, a maneira como a história se refere ao governante egípcio é inconsistente
demais. Em alguns versos, ele é chamado de Faraó (por exemplo, 13: 17, 14: 3 - 4), em
outros apenas, Rei do Egito (14: 5), e às vezes Faraó, o rei do Egito (14: 8).
Uma visão geral da solução para a narrativa da saída do Egito: análise de baixo para cima

A Hipótese Suplementar
Já sabemos que existem diferentes abordagens acadêmicas, procurando explicar como a
Torá foi originalmente escrita e editada. O que todas estas abordagens deixam claro, é
que a Torá em particular e a Bíblia Hebraica como um todo, não consiste de um texto
único, de uma tradição única e imutável. Não é um texto inerrante, muito menos
sobrenatural. E não se trata de um texto preservado sem mudança, mas, muito pelo
contrário, trata-se de um texto altamente modificado. A abordagem que é mais familiar
para muitos como nós, que não são especialistas em estudos bíblicos adultos e
acadêmicos, é a Hipótese Documental, apresentada no estudo anterior. De acordo com
essa abordagem, cada documento (como os da tradição J, E e P) contam uma história
semelhante, que acabaram concluídos e foram mais tarde combinados por um redator
final, por assim dizer. Essa abordagem separa as fontes e lê cada documento por conta
própria.
Mas, a abordagem que considero mais convincente ainda, é a da Hipótese Suplementar,
que sugere que a Torá começou com um texto original, muito mais simples e menor, que
foi expandido por sucessivas adições com o passar do tempo.
De acordo com essa teoria, apenas a camada original nos traria uma leitura sem
problemas, por conta própria - os materiais posteriores, dado que são suplementos, nunca
foram destinados a serem lidos independentemente, geral os problemas que vemos; lê-
los isoladamente produz textos incompletos e incoerentes.
O modelo suplementar específico que o professor Dr e rabino Tzemah Yoreh advoga,
sugere que o texto original sobre o qual todos os outros foram construídos foi o da
tradição E, e o primeiro autor a adicionar ao texto principal da tradição E foi o autor de
tradição J.
UMA VISÃO DAS CAMADAS TEXTUAIS
Antes de “retirar” as camadas, vamos começar recapitulando a visão geral da história da
saída do Egito, conforme foi relatada pelas fontes da Torá, passo a passo.
PRIMEIRA CAMADA (Tradição E) - Fuga do Egito com a proteção de Moshe: Na curta
narrativa original da tradição E, Moshe, que foi designado pela Divindade para libertar os
Israelitas – que era uma pequena tribo de nômades, com uns poucos milhares de
indivíduos - do Egito (Shemot 3), agiu inspirado e por conta própria, e os levou para a
montanha de Elohim no deserto, depois de realizar a terceira de suas três pragas
(granizo, gafanhotos, trevas). Após três dias de escuridão, a população egípcia entra em
pânico e, sem consultar o rei, bane/expulsa os israelitas, que fogem, sob o véu da
escuridão. O rei do Egito descobre que os Israelitas foram embora, e os persegue com
seiscentos carros. Um mensageiro de Elohim intervém, entre os egípcios perseguidores e
os Israelitas em fuga. Moshe separa o Mar de Juncos (sem ajuda divina explícita, ainda
pela inspiração inicial) conduzindo os israelitas por ali e fechando o mar de volta, sobre os
egípcios. Ele então, leva os Israelitas pelo deserto até o monte de Elohim, aonde tinha
tido a visão inicial.
SEGUNDA CAMADA (Tradição J) – A Divindade leva os Israelitas para fora do Egito e
os salva do exército do Faraó: Após o massacre de HaShem dos primogênitos egípcios
(uma praga, na tradição J), o Faraó cede e libera os Israelitas. Depois que eles partem de
lá, ele lamenta sua decisão e os persegue com um grande exército. Os Israelitas ficam
com medo, mas o HaShem assume o controle e diz a Moshe que estique o braço na
direção da costa. Esse ato é puramente simbólico (ou demonstrativo); HaShem divide e
depois enrijecesse o mar com um vento. Ele também semeia confusão no acampamento
egípcio para garantir que todos se afoguem.
TERCEIRA CAMADA (Tradição P) - Endurecendo o coração do Faraó e expandindo
os números em ambos os lados: O autor sacerdotal (P) alterou e adicionou vários
elementos novos, à história original. Ele incluiu detalhes como, a localização dos
Israelitas: em Pi-Hahirot, entre Migdol e o mar (14: 2, 9). Ele adicionou explicação para a
“mudança de coração” do Faraó, alegando que a Divindade realmente “endureceu” o
coração do Faraó, forçando que ele perseguisse os israelitas (14: 4, 8) e assim, forçando
que ele continuasse nessa busca no mar (14: 17). Em vez de meramente um mensageiro
de Elohim, se colocar entre os Egípcios e os Israelitas, o redator da tradição P envolveu o
HaShem mais diretamente na cena, invocando a coluna de nuvem e o fogo milagrosos,
que ajudaram os Israelitas a caminho do mar de juncos. Finalmente, o texto sacerdotal
expandiu enormemente, o número de pessoas envolvidas naquilo tudo, tanto do lado
Israelita quanto do lado Egípcio.

ANÁLISE DE CIMA PARA BAIXO


Agora que aprendemos as visões gerais de cada tradição, podemos começar a lidar com
a narrativa como um todo, “descascando” – por assim dizer – cada camada do texto
(especialmente, P e J) para enxergarmos melhor a versão “canônica” de Shemot 12 a 14.
Com isso, podemos explicar o motivo destas camadas realmente representarem tradições
diferentes sobre a história.
P – O REDATOR SACERDOTAL FINAL DA HISTÓRIA DO ÊXODO
Como um redator final da história, os editores sacerdotais adicionaram ao material
original, alterando o texto no objetivo de aumentar a complexidade da história. Apesar de
os redatores de P não deixarem claro, um plano geral que seguissem em suas alterações
– a coisa toda parece meio que aleatória, muitas vezes – acadêmicos foram capazes de
isolar, certos ajustes que são constantes nas alterações que eles fizeram.

QUEM ENDURECEU O CORAÇÃO DO FARAÓ?


O processo de mudança de coração do Faraó é problemático:
:‫ יד‬...‫הֹ וָ ֑ה‬-ְ‫ּובכָל־חֵ ֔ילֹו ְוי ְָד ֥עּו ִמצְ ַ ֖ריִם ִ ּֽכי אֲ ִנ֣י י‬ ְ ֙‫ד ו ְִחּזַ ְק ִ ּ֣תי אֶ ת לֵ ב ּפַ ְרעֹ ֘ה ו ְָר ַ ֣דף אַ חֲ ֵריהֶ ֒ם ו ְִאּכ ְָב ָ ֤דה ְּבפַ ְרעֹ ה‬:‫שמות יד‬
‫אמרּו֙ ַמה ּ֣ז ֹאת עָ ֔ ִׂשינּו ִ ּֽכי ִׁש ַּל ְ֥חנּו אֶ ת‬ ְ ֹ ‫ה ַו ֻּיּגַד֙ ְל ֶ ֣מלֶ ְך ִמצְ ַ ֔ריִם ִ ּ֥כי בָ ַ ֖רח הָ ָ ֑עם ַ֠וּיֵהָ פֵ ְך ְל ֨ ַבב ּפַ ְרעֹ֤ ה ַועֲבָ ָדיו֙ אֶ ל הָ עָ֔ ם ֽוַּי‬
‫ּובנֵ ֣י י ְִׂש ָראֵ֔ ל יֹ צְ ִ ֖אים ְּביָ ֥ד‬
ְ ‫הֹ ָ֗וה אֶ ת ֵ ֤לב ּפַ ְרעֹ ה֙ ֶ ֣מלֶ ְך ִמצְ ַ ֔ריִם וַּיִ ְר ֹּ֕דף אַ חֲ ֵ ֖רי ְּבנֵ ֣י י ְִׂש ָר ֵ ֑אל‬-ְ‫ח ַויְחַ ֵּז֣ק י‬:‫ יד‬...‫י ְִׂש ָר ֵ ֖אל ֵמעָ ְב ֵ ֽדנּו‬
‫ָר ָ ֽמה‬
Então, endurecerei o coração do Faraó, e ele os perseguirá, de modo que eu receba
glória por meio do Faraó e seus exércitos; e os Egípcios saberão que eu sou o HaShem…
O rei do Egito foi informado que o povo havia fugido. O Faraó e seus cortesãos tiveram
uma mudança de coração, sobre o povo, e disseram: O que é isto que fizemos,
liberando Israel de nos servir?…
HaShem endureceu o coração do Faraó, rei do Egito, e ele passou a perseguir os
Israelitas. Conforme os Israelitas saíam do Egito, de modo desafiador.
No versículo 4, HaShem diz que endureceria o coração do Faraó e no versículo 8, Ele o
faz. O problema é que, no verso 5, o Faraó já tinha mudado de ideia, e decide perseguir
Israel por conta própria. Assim, o endurecimento do coração do Faraó por HaShem,
parece não ter nenhum propósito. Isso sugere que, na versão anterior da história, o Faraó
mudou de ideia por conta própria, e daí o redator sacerdotal acrescentou artificialmente,
as seções que continham o endurecimento do coração do faraó, ou seja, versos 1 - 4, 8 -
9, 17 (assim como ele fez na narrativa da praga).
O mesmo problema ocorre num registro sobre a praga, por exemplo, quando o Faraó
reage a praga do granizo:
‫לה וַּֽיֶחֱ זַק֙ ֵל֣ב ּפַ ְרעֹ֔ ה ו ְ֥ל ֹא‬:‫ ט‬:‫לד ַוַּי ְ֣רא ַּפ ְרעֹ֗ ה ִּכ ֽ י־חָ ַ֨דל הַ ָּמ ָ ֧טר וְהַ ָּב ָ ֛רד וְהַ ֹּק ֹל֖ ת ֹּי֣ ַו סֶ ף לַ חֲ ֑ט ֹא ַוּיַכְ ֵ ּ֥בד ִל ּ֖בֹו ה֥ ּוא ַועֲבָ ָ ֽדיו‬:‫ט‬
‫הֹ וָ ֖ה ְּביַד־מ ֶ ֹֽׁשה‬-ְ‫ת־ּבנֵ ֣י י ְִׂש ָר ֵ ֑אל ּכַאֲ ֶ ׁ֛שר ִּד ֶ ּ֥בר י‬ ְ ֶ‫ִׁש ַּל֖ח א‬
Mas, quando o Faraó viu que a chuva, granizo e trovões cessaram, seu coração se
tornou pesado e, ele voltou a seus maus caminhos, tal como seus cortesãos. E o
coração do Faraó foi endurecido e eles não deixou os Israelitas partirem, tal como o
HaShem havia predito por meio de Moshe.

O PROBLEMA POPULACIONAL
Um dos maiores problemas no centro das narrativas sobre o êxodo e das cenas ocorridos
no deserto, é o número impossível de Israelitas. De acordo com Shemot 12: 37 - 41,
Bamidbar 11: 21 e os dois censos em Bamidbar 1 e 26, o número de Israelitas adultos do
sexo masculino era (aproximadamente) 600.000.
No entanto, os Israelitas podem ser encontrados às vezes bebendo em um poço
(Bamidbar 21: 16) ou banqueteando-se em setenta tamareiras (Shemot 15: 27) – algo
impossível a Seiscentos mil pessoas.
Além disso, Moshe parece não ter problemas em falar com todo o povo de uma só vez
(Shemot 14: 13 - 14), algo que seria totalmente impossível com uma população de mais
de um milhão de indivíduos, contando mulheres e crianças minimamente. No relato da
saída propriamente dito, a tensão entre assumir uma população acima de um milhão, e
uma população muito mais modesta, é mais aparente, no número insuficiente de carros
que o faraó envia após os israelitas – apenas seiscentos (14: 7) - se seu plano era mesmo
abater uma população de alguns milhões de pessoas, estava faltando pessoal…
O editor posterior, percebendo a insuficiência das forças do Faraó, aumenta o número
sem considerar a realidade de nada, produzindo uma passagem um tanto embaraçosa,
para um leitor que não estuda de modo crítico:
‫ְׁש ִל ִ ׁ֖שם עַ ל־ּכ ֻּֽלֹו‬
ָ ‫ׁש־מ ֥אֹות ֶ ֙רכֶב֙ ּבָ ֔חּור ְו ֹ֖כל ֶ ֣רכֶב ִמצְ ָ ֑ריִם ו‬
ֵ ‫ז וַּיִ ֗ ַּק ח ֵׁש‬:‫שמות יד‬:
Ele tomou seiscentos mil de seus carros escolhidos; E o restante das carruagens do
Egito, todas com oficiais sobre elas.
Oi? A frase “todas as carruagens do Egito” dita antes, estão falando de quantas,
exatamente? Se a resposta for 600, então este comentário é totalmente sem pé nem
cabeça. E se a resposta for, mais de 600, então as duas declarações são contraditórias!
O que se vê aqui é um embelezamento numérico. Ele ocorre em Shemot 12: 37 – 40,
aonde são apresentados 600.000 indivíduos, acompanhados por um período de 430
anos, como se fosse o tempo para explicar a explosão populacional de 70 para 600.000.
Esta também parece ter sido a motivação por trás de Shemot 1: 7:
‫ּובנֵ ֣י י ְִׂש ָראֵ֗ ל ּפָ ֧רּו וַּֽיִ ְׁש ְרצ֛ ּו וַּיִ ְר ּ֥בּו ו ַַּיֽעַ צְ ֖מּו ִּב ְמאֹ֣ ד ְמאֹ֑ ד ו ִַּתּמָ ֵל֥א הָ ָ ֖א ֶרץ אֹ ָ ֽתם‬
ְ ‫ז‬:‫שמות א‬
Mas, os Israelitas eram férteis e prolíficos. Eles se multiplicaram e aumentaram
enormemente, de modo que a terra se encheu deles.
Parece provável que fontes posteriores desejassem inflar significativamente o número de
israelitas, talvez na tentativa de cumprir (forçadamente) as promessas a Avraham e
Iáacov, aos quais foi prometida descendência mais numerosa, que as estrelas no céu e a
areia à beira-mar. Os redatores da tradição P (e da tradição H, que teria sido um autor
sacerdotal posterior) foram os mais enfáticos em suas tentativas de inflação, adulterando
os textos sem muitos problemas. Vale lembra que os editores da tradição J também
participaram desse “embelezamento” às vezes, embora não com a mesma atenção à
grandeza numérica.

NUVEM OU MENSAGEIRO?
Como os Israelitas foram protegidos durante a saída do Egito?
‫מד‬
ֹ ֖ ‫יהם וַּיִ ּסַ֞ ע עַ ּ֤מּוד ֶ ֽהעָ נָן֙ ִמ ְּפנֵיהֶ֔ ם וַֽ ַּי ֲע‬
֑ ֶ ‫ֹלהים הַ הֹ לֵ ְך֙ ִל ְפנֵי֙ ַמחֲ נֵ ֣ה י ְִׂש ָראֵ֔ ל וַּיֵ ֖לֶ ְך ֵמאַ חֲ ֵר‬
ִ ֗ ֱ‫יט וַּיִ ּסַ֞ ע ַמ ְל ַ ֣אְך הָ א‬:‫שמות יד‬
‫כ ַוּי ָ֞ב ֹא ֵ ּ֣בין׀ ַמחֲ נֵ ֣ה ִמצְ ַ ֗ריִם ּובֵ ין֙ ַמחֲ נֵ ֣ה י ְִׂש ָראֵ֔ ל ַוי ִ ְ֤הי ֶ ֽהעָ נָן֙ וְהַ חֹ֔ ֶׁשְך וַּיָ ֖אֶ ר אֶ ת הַ ָ ּ֑ליְלָ ה וְל ֹא ָק ַ ֥רב זֶ ֛ה אֶ ל‬:‫ יד‬:‫יהם‬ ֽ ֶ ‫ֵמאַ חֲ ֵר‬
‫זֶ ֖ה ּכָל הַ ָ ּֽליְלָ ה‬
O mensageiro do Elohim, que estava indo à frente do exército Israelita, agora se movia e
seguia atrás deles; e a coluna de nuvens passou diante deles e ocupou um lugar atrás
deles. E ficou entre o exército dos Egípcios e o exército de Israel. Assim havia a nuvem
com a escuridão de um lado, e uma luz durante a noite do outro, para que um grupo não
pudesse se aproximar do outro, a noite toda.
O verso 19 começa nos dizendo que o mensageiro da Divindade (Mala’h haElohim) vai
atrás do acampamento Israelita para bloquear os egípcios perseguidores, apenas para
continuar dizendo, que a nuvem o fez. Como a nuvem e o anjo cumprem a mesma
função, ou seja, agir como um amortecedor entre os egípcios e os israelitas, um ou outro
é secundário.
A fonte da Torá que usa a Divindade / Elohim neste ponto do livro de Shemot é a tradição
E (já a tradição P muda para HaShem depois de introduzir esse nome a Moshe no cap.
6).
Além disso, a aparência da Divindade (ou seja, a sua <kavod> - honra) em uma nuvem, é
como um “carimbo” como se fosse, do texto sacerdotal (ver, por exemplo, Bamidbar 9).
Assim, parece melhor atribuir a história do mensageiro a tradição E, e entender a menção
da aparência da nuvem (que é redundante de qualquer forma) como uma redação
sacerdotal posterior.
Tendo retirado essas diversas adições sacerdotais, agora examinamos o texto restante.
QUEM TIROU OS ISRAELITAS DO EGITO? A ALTERAÇÃO DA TRADIÇÃO “J” NO
MATERIAL DA TRADIÇÃO “E”

Quem dividiu o mar?


Já na versão textual da tradição “J” e “E”, e com certeza na formatação final da Torá (que
ocorreu bem depois), o HaShem é descrito como o herói do êxodo. Não obstante a isso,
uma apresentação de Moshe com participação mais ativa, está presente na mais antiga
tradição E, que pode ser descoberta removendo suas edições, como num trabalho de
arqueologia textual.
A tensão entre o papel da Divindade e de Moshe no êxodo, se torna mais perceptível
quando se presta atenção na descrição das pragas do granizo e da locusta e, de uma
forma mais sutil, na praga da escuridão (em Shemot 9 – 10) mas, também se percebe no
relato da saída, especialmente em 14: 21 e 14: 26:
‫הֹ וָ ֣ה׀ אֶ ת ֠הַ ּיָם ְּב ֨רּוחַ ָק ִ ֤דים עַ ּזָ ה֙ ּכָל הַ ֔ ַּליְלָ ה וַּיָ ֶׂ֥שם אֶ ת־הַ ּיָ ֖ם‬-ְ‫ֹׁשה אֶ ת יָד ֹ֘ו עַ ל הַ ָּי ֒ם ֣וַּיֹולֶ ְך י‬
֣ ֶ ‫כא ַו ֵּ֨יט מ‬:‫שמות יד‬
‫לֶ חָ ָר ָ ֑בה וַּיִ ּבָ ְק ֖עּו הַ ָ ּֽמיִם‬
Então, Moshe estendeu sua mão sobre o mar. HaShem lançou o mar de volta, num forte
vento leste por toda a noite, e transformou o mar em terra seca; As águas foram divididas.
‫כז‬:‫ יד‬:‫הֹ וָה֙ אֶ ל מֶֹׁש֔ ה נְ ֵ ֥טה אֶ ת י ְָדָך֖ עַ ל הַ ָּי ֑ם ְויָֻׁש ֤ בּו הַ ַּמ ֙ יִם֙ עַ ל ִמצְ ַ ֔ריִם עַ ל ִרכְ ּ֖בֹו וְעַ ל ָּפ ָרָֽׁש יו‬-ְ‫אמר י‬ ֶ ‫כו ֤וַֹּי‬:‫שמות יד‬
‫הֹ וָ ֛ה אֶ ת ִמצְ ַ ֖ריִם ְּב ֥תֹוְך‬-ְ‫אתֹו ַו ְינ ֵ ַ֧ער י‬
֑ ‫ּומצְ ַ ֖ריִם נ ִ ָ֣סים ִל ְק ָר‬ ִ ‫יתנ֔ ֹו‬
ָ ‫ַוּיֵט֙ מ ֶֹׁ֨שה אֶ ת י ָ֜דֹו עַ ל הַ ָּ֗ים ַו ָּ֨י ָׁשב הַ ָּ֜ים ִל ְפ ֥נֹות ֹּ֙ב ֶקר֙ ְל ֵ ֣א‬
‫יהם ּבַ ּיָ ֑ם ֽל ֹא־נִ ְׁש ַ ֥אר ּבָ ֶ ֖הם‬
֖ ֶ ‫ָׁשבּו הַ ֗ ַּמ יִם ַו ְיכ ַּ֤סּו אֶ ת הָ ֶ ֙רכֶב֙ וְאֶ ת הַ ָ ּ֣פ ָר ֔ ִׁשים ְל ֹכ ֙ל ֵ ֣חיל ּפַ ְרעֹ֔ ה הַ ּבָ ִ ֥אים אַ חֲ ֵר‬
֣ ֻ ‫כח ַוּי‬:‫ יד‬:‫הַ ָּיֽם‬
‫עַ ד אֶ ָ ֽחד‬
Então, o HaShem disse a Moshe, estenda sua mão sobre o mar, de modo que as águas
possam voltar sobre os Egípcios, sobre suas carruagens e cavaleiros. Assim, Moshe
estendeu sua mão sobre o mar, e ao amanhecer o mar retornou a sua profundidade
normal. Conforme os Egípcios fugiam perante isso, HaShem jogou os Egípcios no mar. As
águas retornaram e cobriram as carruagens e os cavaleiros, todo o exército do Faraó que
os seguiu no mar; Nenhum deles restou.
Nos versículos 7 - 8, HaShem declara que viu as aflições de seu povo e que desceria
para salvá-los. Então, no versículo 9 - 10, ele diz novamente que viu como os egípcios os
oprimiam e que Moshe deveria salvá-los. De acordo com o texto da tradição J (3: 7 - 8), o
HaShem livraria pessoalmente, os Israelitas do Egito. De acordo com o texto da tradição
E (3: 9 - 10), o HaShem nomeia Moshe para libertar os israelitas do Egito, para agir “como
Elohim” tendo Aharon, como seu “profeta” (de Moshe).
Se o HaShem teve todo o trabalho de trazer o vento para que soprasse sobre o mar,
fazendo o mar recuar, por qual motivo Moshe precisava estender o braço? O texto não
oferece indicação alguma, de que este ato servia nem para mera ostentação ou ritual,
dado que não declara que ninguém estava olhando. A sugestão do Rabino Yoreh é a de
que, o ato de Moshe – na tradição original, que é a E – era, um ato instrumental de fato,
necessário para a abertura do mar. Daí, o redator posterior da tradição J, adicionou que o
HaShem é que tinha o controle ativo da situação, relegando a Moshe um gesto simbólico.
A tradição J enfatiza a liderança do HaShem por todo o texto de Shemot 14, de diversas
maneiras:
- Os Israelitas clamam pelo HaShem (verso 10)
- HaShem luta por Israel (verso 14)
- Moshe clama pelo HaShem (verso 15)
- HaShem espalha confusão entre os Egípcios (verso 24)
- HaShem é mencionado pelo nome em Shemot 14, dezessete vezes; Moshe é
mencionado apenas 8.

A NARRATIVA DA SAÍDA DA TRADIÇÃO E


Como o rabino Yoreh esclareceu ao falar das pragas, o relato da tradição E incluía apenas
3 pragas: granizo, locusta e escuridão.
Isso faz um certo sentido intuitivo. A reação Egípcia a essa praga é surpreendentemente
desanimadora. A escuridão por três dias, implica na afetação do domínio, de um dos
deuses mais importantes do panteão egípcio - o Deus do Sol, Rá.
Os Egípcios então que teriam visto o sol, considerado como a fonte de toda a vida, e Rá,
o deus egípcio do sol e criador da vida, ser afetado. Fazer o sol desaparecer sem sinal de
retorno implicaria que o caos (<isfet>, em Egípcio) estava vencendo e derrubando a
ordem (<ma’at>) e que tudo e todos, morreriam. O esperado era pânico geral.
No entanto, tudo o que acontece é o Faraó mandando Moshe embora, mais uma vez.
Nem parece que eram Egípcios mesmo, que estavam naquela cena.
Essa reação sem brilho a uma praga tão assustadora e impactante para uma cultura,
mostra evidências de que, é uma consequência da edição posterior de um autor que não
sabia muito (talvez, quase nada) da cultura Egípcia. A reação original, muito mais forte, à
praga das trevas, ainda pode ser encontrada no texto da Torá, mas foi escondida, e
realocada como parte da reação à praga dos primogênitos:
‫לג ו ֶַּתחֱ זַ ֤ק ִמצְ ַ ֙ריִם֙ עַ ל־הָ עָ֔ ם ְל ַמ ֵ ֖הר ְל ַׁש ְּל ָ ֣חם ִמן־הָ ָ ֑א ֶרץ ִ ּ֥כי אָ ְמ ֖רּו ּכ ָֻּל֥נּו ֵמ ִ ֽתים‬:‫שמות יב‬
Os Egípcios forçaram as pessoas a se apressarem na saída da terra, pois disseram:
“Todos nós vamos morrer!”
Preste muita atenção ao fato de que, na atual formatação, isso faz pouco sentido. O
Faraó havia acabado de liberar os Israelitas no verso anterior; qual o sentido de o povo
“forçar as pessoas a se apressarem” agora?
Na Tradição E entretanto, o verso faz todo sentido. A Tradição E não contém as
negociações com o rei do Egito. Moshe usa de força para vencer os Egípcios. Assim, não
é surpresa que o povo mesmo reagiu. Além do mais, dentro da reação deles, não há dica
alguma de que o povo estivesse lamentando por seus filhos mortos, mas, está claro o
tremo de que eles seriam mortos, caso não atendessem as exigências de Moshe. Esta
tradição conecta a praga (da escuridão) à saída do Egito.
Esta reconstrução é apoiada pelo fato de que, o rei do Egito, no texto em 14: 5 – na
primeira parte - não parece nem saber, que os Israelitas foram embora, até ser informado:
‫ה‬:‫שמות יד‬a ‫ַו ֻּיּגַד֙ ְל ֶ ֣מלֶ ְך ִמצְ ַ ֔ריִם ִ ּ֥כי בָ ַ ֖רח הָ ָ ֑עם‬
O Rei do Egito foi informado, de que o povo havia fugido…
E uma assinatura adicional da Tradição E, uma de suas características, é o uso da
designação para o Faraó, como “rei do Egito” - ‫ מלך מצרים‬-, que surge nos textos da
tradição E, em Shemot 1: 8 – 22, 3: 19 e 5: 4. Esta designação não é presente em outras
versões.

SUMÁRIO
A concepção teológica que conduz a Tradição J, na narrativa das pragas e da saída do
Egito
Em textos da Tradição E, Moshe é uma pessoa poderosa ou imponderada pela Divindade,
e por isso é enviado independente pela Divindade, para tirar os israelitas do Egito.
Essa concepção foi considerada teologicamente inaceitável, para o redator da tradição J;
ele não estava à favor da ideia de um ser humano assim, tão poderoso, ou de uma
concepção de Divindade que estivesse tão oculta, especialmente numa história que
estava ganhando bastante importância para Israel, com o passar do tempo.
O protesto de Moshe, de que a Divindade não deveria enviá-lo, porque ele era fraco e
incapaz de falar, parece ter como objetivo, justamente, combater a narrativa da tradição E,
segundo a qual, Moshe não tinha tais “defeitos”.
Ele, deste modo, o redator da tradição J reformulou o material da tradição E, para situar
as maravilhas de Moshe, incluindo a separação do mar, como milagres da Divindade
apenas.
A ideia de que o HaShem libertou os israelitas do Egito, é o principal motivador de grande
parte da história da tradição J sobre a saída do Egito. Isso explica por que a tradição J
adicionou mais pragas – procurando ampliar a “capacidade” ou “poderes sobrenaturais”
do HaShem.
Quando o HaShem fere os egípcios repetidamente, isso servia para enfatizar sua
absoluta superioridade, sobre o deuses do Egito.
Assim, a tradição J trabalha até para minar Moshe, retratando-o como fraco na narrativa,
e enfatizando a superioridade da Divindade sobre o maior líder israelita. Isso leva ao fato
de que, ao contrário dos textos da tradição E, a tradição J diz que Moshe não estava
preparado para a tarefa sozinho.

A concepção teológica e perspectiva narrativa, da tradição E


A tradição E apresenta uma imagem pouco familiar, especialmente para quem não estuda
a Bíblia Hebraica de modo profundo como fazemos por aqui. Nesta versão, os israelitas
em fuga, são um pequeno grupo. As pragas assustam o povo egípcio, mas não deixam
vítimas. O rei do Egito nunca concordou com as exigências de Moshe, mas perseguiu os
israelitas quando ouve a fuga, e se afoga no mar com suas carruagens selecionadas. De
acordo com a mais antiga tradição de Israel, a Tradição E, a Divindade nunca nem entrou
no Egito. Do começo ao fim do relato, é Moshe que, inspirado pela Divindade desde o
começo, salva os Israelitas com seus poderes dados pela Divindade, enquanto a
Divindade Mesma, espera em Seu monte Sagrado, até que Seu emissário escolhido a
dedo viesse, para trazer Seu povo escolhido a Ele.

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