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‫ – למודי תנך מתקדמים‬ESTUDOS BÍBLICOS AVANÇADOS – Parashat Re’eh

Reflexão sobre a Parashat Re’eh


O Propósito do Judaísmo é perturbar

‫ה אלהיך כי בחדש האביב הוציאך יהוה אלהיך ממצרים לילה‬-‫ו‬-‫ה‬-‫שמור את חדש האביב ועשית פסח לי‬

Observem o mês da primavera e celebrem o Pessach para o HaShem – vosso Elohim – pois, no mês
da primavera, o HaShem seu Elohim, tirou vocês da terra do Egito a noite. (Devarim 16:1)

Não resta dúvida que, a Halahá – a lei normativa judaica – é uma ideia, uma concepção que
dificulta a vida cotidiana, de quem a levar em conta. Se uma comparação for feita com outras
religiões, nota-se que esta ideia de ter um grupo de normas pessoais, requer muita dedicação e
atenção aos detalhes. O sistema possui regras em quase todas as facetas da vida. Existem
literalmente milhares de volumes de livros, Responsas, registrados sobre um enorme número de
assuntos.

A exata quantidade de Matzá que deve ser ingerida em Pessach é um caso exemplar. A norma requer
o consumo de um “kezait” (unidade de volume de uma azeitona) para que se cumpra a obrigação.
Mas, qual é exatamente o volume de uma azeitona? Por cerca de cem anos, estudiosos da Halahá
debateram sobre isso, e deliberaram sobre a medida exata de uma azeitona. Hoje em dia, o volume
de uma azeitona é similar ao volume considerado no tempo Bíblico, ou no Talmud? Muitas opiniões
foram propostas e, até hoje um número expressivo de observantes, adere a uma enquanto rejeita
outra opinião; acreditando que, apenas uma grande medida assegurará que a pessoa, tenha
concluído sua obrigação de acordo com todas as opiniões.

Uma Halahá Obsessiva

O mesmo será verdadeiro sobre o Lulav e o Etrog. Para quem não sabe, Lulav é o título que se dá a
um Ramo da Palmeira, e Etrog refere-se a Cidra Amarela; usando na celebração de Sucot, conforme
Vaicrá 23: 40. Qual o comprimento do Lulav? Quão verdes devem ser as folhas, para que sejam
consideradas adequadas para uso? O que determina um Etrog perfeito para o uso? O que faz o fruto
ser haláhicamente aceitável? Qual o tamanho adequado? O que fazer, se o “pitom” (parte que os
botânicos chamam de Stigma) estiver ou for danificado? Note: Existem centenas de questões como
estas, relacionadas ao uso, que foram pensadas e trabalhadas no Talmud e nos registros de
autoridades posteriores.

E até hoje, os que apreciam o estudo do Judaísmo derivam prazer ao estudar estes debates,
discutindo sobre eles, como se a vida deles dependesse disso. Para alguém de fora de nossa
Tradição, isso parecerá loucura. Seria bem mais fácil abandonar todas as regras e “fazer do jeito que
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der”. Em geral, religiões são assim: faça de qualquer jeito [o ritual], pois o que importa é a intenção.
Não o Judaísmo, porém.

Causaria surpresa em cristãos, por exemplo, perguntar qual o exato tamanho que uma árvore de
natal deve ter, quais os enfeites devem ser colocados. Quantos devem ser. Se o enfeite tem um
volume específico, se deve preencher a árvore ou não. Se as folhas da árvore devem ser verdes ou
se podem haver folhas secas. Se pode ser árvore de verdade ou só um molde de plástico. E o que
fazer, se algum enfeite for danificado?

O que está por trás deste modo, alguns diriam, obsessivo; de a Halahá lidar com os assuntos? É
importante entender isso, pois, esta é uma das peças fundamentais do entendimento do Judaísmo.
Para muitos, religião é questão de sentimento, crenças e opiniões. Esta postura da Halahá não
parece estar de acordo com isso.

Uma das respostas que se pode dar para isso, está na Parashá desta semana:

‫ה אלהיך כי בחדש האביב הוציאך יהוה אלהיך ממצרים לילה‬-‫ו‬-‫ה‬-‫שמור את חדש האביב ועשית פסח לי‬

Observem o mês da primavera e celebrem o Pessach para o HaShem – vosso Elohim – pois, no mês
da primavera, o HaShem seu Elohim, tirou vocês da terra do Egito a noite. (Devarim 16:1)

De acordo com a narrativa de nossa Tradição, este verso instrui o povo de Israel a garantir que o
Pessach – que comemora uma das mais importantes narrativas da Torá – sempre, seja celebrado da
primavera.

O Rabino Ovadia Sforno (1475-1550) comenta dizendo:

Tenham imenso cuidado para que [o mês de] Nissan, caia na primavera; por meio do “ibur”, i.e., o
alinhamento dos meses lunares e solares – por meio dos cálculos matemáticos corretos. De modo
que, os meses lunares estejam adequados aos solares.

Uma leitura atenta ao comentário do Sforno, revela uma visão sagaz, que lida diretamente com
nossa reflexão. Posto que o ano lunar tem menos dias que o solar e, considerando que o calendário
Judaico é, tanto lunar quanto solar; torna-se necessário que, após alguns anos lunares, seja
adicionado um mês extra – Adar “sheni” - para ter certeza que o mês de Nissan (e portanto,
Pessach) caia na primavera, nunca no inverno.

Neste caso, de acordo com a alusão de Sforno, a questão mais importante é: Por qual razão o
calendário Judaico, simplesmente não segue o cálculo unicamente solar? Se, de qualquer modo,
devemos ter certeza que o Pessach deve cair da Primavera, qual o propósito de seguir os cálculos
lunares, quando o objetivo força a alinhar tais cálculos com os solares de qualquer modo?
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O Propósito do Judaísmo – Perturbar!

A resposta é óbvia: O objetivo é complicar. Para fazer o mês de Nissan e a celebração do Pessach,
sempre cair na Primavera, exige-se que se façam complicados cálculos astronômicos. Deste modo, a
Torá está, flagrantemente, complicando o calendário Judaico, por dar um modelo de calendário
lunar mas, ordenando que seja adequado ao solar; obrigando que a matemática seja usada
obrigatoriamente, para que a pessoa consiga cumprir a obrigação. Isso forçou os sábios a estudarem
tais questões e desenvolverem soluções.

Certamente, seria muito mais fácil, se o calendário fosse apenas solar. Mas, não é o caso. Tal como
no ditado, “mar calmo não forma um bom marinheiro”, do mesmo modo; o objetivo dos rituais não
é facilitar mas, complicar. Forçar o preguiçoso intelectual a pensar.

O que se percebe é que o Judaísmo deseja fazer a comunidade ter ciência constante, de que estão
“na presença da divindade”. E para atingir tal objetivo, a comunidade não deve procurar abordagem
fácil do cotidiano. Deve prestar atenção. Rituais com a tutela das “intenções do coração” não
precisam de atenção. Mas, os rituais judaicos precisam. Apenas, por meio de foco constante aos
mandamentos, aos seus detalhes que, removem a pessoa do “tempo psicológico”; por meio dos
obstáculos que eles trazem, para que sejam resolvidos “agora”, é que se pode estar realmente ciente
da Presença da Divindade, agora.

Neste sentido, de acordo com a cultura judaica, o papel da religião é perturbar. Ela deve garantir
isso, num nível bem pragmático do nosso cotidiano. Por meio de desafios, complicações é que
somos surpreendidos com novos aprendizados. Tarefas que exigem atenção, geram maravilhamento.
E a sensação de maravilhamento é o que queremos dizer, com estar na Presença da Divindade. Não
estamos falando da imaginação, de se imaginar formas de luz. A Divindade é abordada no nível
intelectual, na constatação da realidade da vida. Então, é só por meio da ação, no aqui e no agora,
no cotidiano, por nossa própria iniciativa e determinação; é que podemos, estapar da mediocridade,
da superficialidade e, nutrir uma concepção de consciência e de atenção. Por estudar astronomia,
encontrando complexidades ainda maiores; usando os atuais métodos da ciência para conhecimento
da realidade, não só se garante que o Pessach seja celebrado na Primavera sempre, mas que sejamos
forçados a buscar soluções via intelecto. Judaísmo é uma religião intelectual. E o intelecto perturba.

Viver significa estar desperto

Estar desperto é um conceito distinto do senso comum, de estar meramente acordado. Estar desperto
implica estar alerta conscientemente. Significa prestar atenção intensa aos detalhes da vida. A
civilização ocidental dedica-se mais a facilitar atividades e perde este conceito de vista. A
facilitação tem o objetivo de te permitir fazer algo, “sem atenção”. Muitas das invenções
tecnológicas, tem este objetivo. Botões intuitivos, que são pressionados “sem olhar”. Alega-se que
estão vendendo “menos distrações” mas, é o contrário. O objetivo é que você use mais aparelhos,
enquanto se distrai com alguma coisa. É uma competição pela atenção. Já que a atenção, gera
consumo.
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O mercado disputa uma área da espiritualidade real. A atenção das pessoas. Para garantir seu
sucesso, o mercado criou religiões marqueteiras. Elas conseguem os recursos que precisam
conforme providenciam o entretenimento. A pessoa literalmente paga para ser distraída. Distraída
do que? Da realidade do momento presente.

Tal postura gerou enorme capital para tais empresas. Mas, gerou efeitos devastadores para as
pessoas. Gerou o tédio, a desesperança e principalmente, o vício em tais distrações. Gerou novos
hábitos, como o hábito do culto. O hábito de ter comandado a crer em ideias que ‘fazem sentir
bem’. Como qualquer vício, o efeito é grande no começo e, vai esvaindo conforme o uso. E muitos
chegam em estados bem ruins, com angústia e até depressão. A exploração do mercado gera
consequências devastadoras na sociedade. Mas, os exploradores não estão preocupados com isso. O
mercado nunca esteve melhor. E sempre haverão substitutos para os que sucumbirem.

A pesquisa científica revela saberes sobre nosso universo que, eram impossíveis a algumas centenas
de anos. Para isso, os pesquisadores têm que dedicar a vida toda num tipo específico de estudo.
Eles devem prestar atenção aos detalhes. Não podem se distrair. Em geral, eles são as pessoas que
menos se distraem, ou não são capazes de realizar esta enorme tarefa. Eles são fascinados com as
descobertas sobre o comportamento das células, hábitos dos insetos, detalhes do código genético. E
isto está alinhado com as concepções judaicas de como a vida deve ser vivida. Para nós, não é o
“diabo” mas, Deus que está nos detalhes…

O escrutínio

É por buscar e exercer tal postura perante a vida, que no mundo antigo, os sábios procuravam pelos
mínimos detalhes no saber da Tradição, para que o conhecimento fosse experimentado ao máximo.
Embora o conhecimento em geral fosse limitado, a postura dos sábios era focada na busca
apaixonada pelo conhecimento. Daí a necessidade de saber, qual o volume exato da matzá que deve
ser ingerido em Pesach, quanto o tamanho exato do Lulav para uso, quais as características exatas
do Etrog. Tudo isso, focava a atenção do praticante do ritual da religião, naquele momento
específico que vivia. Nada era para ser praticado, “como de costume”. Tudo deveria ser, todos os
anos, reavaliado, medido, analisado e, toda a atenção deveria existir na execução das atividades.
Neste sentido, se percebe que os sábios queriam que o sistema da Halahá fosse, antitédio. Era como
se fosse, uma procura pela Presença Divina com um microscópio, no momento presente.

De fato, o propósito dos rituais da Tradição são mesmo, de complicar a vida para que, com isso, seja
criado um ambiente psicológico aonde a pessoa viva de modo consciente. Consciente da Presença,
da Realidade da Divindade, neste momento. Não se trata, portanto, de focar na extravagância do
ritual. A postura atenta está no centro do objetivo.

A nossa religião é, como se fosse, um protesto contra a vida “tal qual é”. Não existe fenômeno
considerado, insignificante, ou ações que sejam “aceitas pela intenção”. O Judaísmo exige
consciência diária, exige a correta e exata noção de Deus, para que haja real participação nisso.
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Este é o sentido da declaração feita no Talmud, pelo Rabino Hananiah ben-Akashia, quando diz: “O
SANTO – bendito seja – desejou tornar Israel digno. Portanto, lhes deu a Torá e os Mandamentos,
em abundância, como está dito [Ieshaiahu 42:21]: Deus desejou, por sua própria justiça, que a
Torá fosse expandida e fortalecida”. [Talmud, tratado de Makot 23b]

Mas, basta remover do sistema a atenção, a ação consciente; que o sistema perde completamente
seu sentido. Se torna ritualismo. A ênfase da Ortodoxia, na ritualística; em vez de, na Consciência
que ela deve gerar, é uma das maiores deturpações do Judaísmo e, talvez, uma dos mais longos
desvios do povo de Israel. A prática pelo hábito, a ação inconsciente, foi um problema abordado
desde a era dos profetas. Nenhuma ação inconsciente pode ser chamada de “Mitzvá”
(mandamento), pois, apenas a ação absolutamente consciente é uma Mitzvá de fato.

A observância da Halahá porque a pessoa se diz “ortodoxa”, nada mais é do que imitação. Nada
mais é do que aderência a um sistema de controle. É um desperdício de informações e da riqueza
cultural judaica. Uma deturpação do real sentido do Judaísmo. Ação inconsciente não gera
espiritualidade, mas seu oposto: completa alienação da realidade. E esta alienação, este desvio de
atenção do real para o imaginário, se vê explicitamente na ortodoxia hoje em dia. Isso ocorre à
séculos. Deste que a mistificação ganhou espaço dentro da cultura judaica. Desde que a imaginação
substituiu o conhecimento.

A Halahá tornou a religião insuportável

Por causa deste desvio, a vida de acordo com os rituais, na era pós moderna (e desde a era moderna)
se torna, mais e mais insuportável. Não é mais um ato de elevada consciência. Virou um ato de
preservação do retrógrado, do que já foi comprovadamente demonstrado como falso. Virou uma
defesa do delírio, da crença cega, do obscurantismo. O sistema religioso atual, promove justamente
o que deveria combater: pensamento de manada, alienação social. Hipocrisia e desonestidade
intelectual. O sistema se tornou político, corrupto (uma coisa é ligada a outra) e mercantilista.

A Halahá precisa de renovação. Mas, para isso o público precisa de maturidade. A mentalidade
retrógrada é sobretudo infantil. Incapaz de abandonar seus brinquedos. Incapaz de encarar os fatos.
É negacionista e carente emocional. Quem estuda a Tradição Judaica Clássica deveria aprender a
perguntar. Aprender o ceticismo, a ser mais que questionador. A ser investigador. A curiosidade não
deve ser tolhida por autoridades arrogantes e despreparadas, com medo de perder a relevância. Eles
já perderam e não se deram conta ainda. A busca pelo conhecimento deve lidar com os mistérios da
vida, com o incompreendido. Não devem cobrir o mistério, com falsidades, mentiras místicas,
crenças delirantes. A realidade deve ser o barômetro da verdade. Deve-se cultivar o
maravilhamento, e substituí-lo pela subordinação à ignorantes que se passam por sábios.

Nós estamos na era pós moderna. Há muito conhecimento a ser explorado e pouca consciência
sobre como viver a realidade. Há muita distração dos fatos, e pouca atenção ao momento presente.
A halahá, nas mãos de pseudointelectuais, se tornou um sistema autoritário, separado de sua raiz
fundamental.
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Nenhuma Halahá pode ser ensinada como dogma, sem contexto, sem desafio. O conhecimento
apenas pode ser transmitido quando alinhado com o momento presente. Seria preciso assegurar que,
a Halahá seja uma inspiração tal, que convide seres humanos a viver a realidade, do Agora. Códigos
Jurídicos que refletiam a mentalidade, o conhecimento do mundo antigo; devem ser substituídos por
novas elaborações que acompanhem um mundo em constante transformação. Estudar códigos
ultrapassados repetidamente, é inútil pois, remove a pessoa da realidade do aqui e agora, aonde a
Divindade está. Deus não está no passado, nem num futuro inexistente. Deus está Neste Momento.

Na obra, “Além do Bem e do Mal”, Nietzsche diz: Qualquer um que observar profundamente o
mundo, pode deduzir o quanto de sabedoria repousa na superficialidade do homem.

A grande tragédia do sistema religioso atual é, sua vanidade, sua superficialidade. O não
aprendizado do que os exemplos do Mundo Antigo providenciavam. A insistência em viver na
imaginação de um “passado glorioso”, em vez da observância do momento presente, e dos
vislumbres que a realidade provê a todos, Agora mesmo. O Judaísmo visto deste modo, se torna
mais e mais obsoleto. E para sobreviver, usa das técnicas de sobrevivência de todas as formas de
idolatria moribundas: Misticismo, engano, cultivo de preconceitos, doutrinação fanática e,
mercantilismo.

Que nos lembremos de Avraham Joshua Heschel: A Halahá não tem importância alguma, a
menos que tenha Importância Suprema.

A. Bentzion

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