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UM

CAPITÃO DE
QUINZE ANOS
UM
CAPITÃO DE
QUINZE ANOS

2ª Edição
Expediente
PRESIDENTE E EDITOR Italo Amadio
DIRETORA EDITORIAL Katia F. Amadio
ASSISTENTE EDITORIAL Edna Emiko Nomura
ADAPTAÇÃO Margareth Fiorini
ILUSTRAÇÕES DE CAPA Susy Braz Reijado
REVISÃO Tiago Sliachticas
NOTAS DE RODAPÉ Mônica Hamada
ROTEIRO DE LEITURA Ana Tereza Pinto de Oliveira
EDIÇÃO DE ARTE Hulda Melo
DIAGRAMAÇÃO Denilson dos Santos
PRODUÇÃO GRÁFICA Hélio Ramos
IMPRESSÃO Leograf Gráfica e Editora Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

FIORINI, MARGARETH
COLEÇÃO JULIO VERNE / JULIO VERNE ; ADAPTAÇÃO MARGARETH FIORINI. – 2. ED. – SÃO
PAULO: RIDEEL, 2009.
CONTEÚDO: A ILHA MISTERIOSA – A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS – CAPITÃO HATTERAS
– NORTE CONTRA O SUL – OS FILHOS DO CAPITÃO GRANT – TRÊS RUSSOS E TRÊS INGLESES – UM
CAPITÃO DE QUINZE ANOS – VIAGEM AO REDOR DA LUA – VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS

1. LITERATURA INFANTO-JUVENIL 2. VERNE, JULES, 1828-1905 I. TÍTULO.

09-01444 CDD-
028.5

ISBN: 978-85-339-1174-1

© Copyright - Todos os direitos reservados à

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permissão por escrito do editor.

135798642
0409
Prefácio
Precursor da ficção-científica, Júlio Verne revela sua
importância pela maneira como compreendeu o mundo
em que vivia, a ponto de antever várias das descobertas
científicas que se concretizariam somente no século XX,
como o submarino ou a viagem à lua.
Suas aventuras entretêm adolescentes de todo o
mundo há gerações, levando seus leitores à viagens
espetaculares.
Seu realismo advém de sua estrutura baseada sobre
seu conhecimento científico e sobre sua habilidade em
construir personagens singulares.
Ler Júlio Verne é vislumbrar a perplexidade do
homem do século XIX diante do mundo que se descor-
tinava à sua frente, é viver a emo ção das novas des co-
bertas na companhia de homens intrépidos numa nova
expedição rumo ao desconhecido, é, finalmente, conhe-
cer todos os recônditos da Terra.
Esta coleção traz as obras deste notável autor com
texto adaptado de forma a agilizar a leitura sem prejudi-
car o desenvolvimento de suas narrativas.
Ao rodapé das páginas foi incluído um glossário em
que também constam fatos históricos e coordenadas geo-
gráficas para facilitar a compreensão dos textos e sua
localização espaço-temporal.
Além disso, um Roteiro de Leitura que, preenchido,
resultará num pequeno resumo da obra.
Esperamos, desta forma, resgatar a obra deste autor,
difundindo-o entre todos os brasileiros.

O EDITOR
“Peregrino” era uma embarcação de qua-

O trocentas toneladas, do rico armador1


James Weldon, que se destinava a pesca-
rias e era comandada pelo capitão Hull.
Este barco era dos melhores da frota, apesar do
pequeno porte, e todos os anos percorria os mares
boreais, a região da Tasmânia, do Cabo Horn2 ao
Atlântico. O capitão Hull, com poucos homens, aven-
turava-se nas regiões geladas próximas aos polos,
porque era muito fácil pilotá-lo.
A tripulação do “Peregrino” tinha cinco marinhei-
ros e um aprendiz. O armador Weldon considerava
econômico que a embarcação partisse dos Estados
Unidos para as regiões da Austrália e Nova Zelândia
com marinheiros suficientes para a travessia. No des-
tino da pesca, Hull contratava mão-de-obra local.
Aquele ano de 1873 não começou bem para o 1 Armador: proprietário
ou equipador de
“Peregrino”, já que Hull se vira obrigado a deixar as navios mercantes.
2 Cabo Horn: extremo
regiões da pesca e a demitir a equipe contratada, sul da América do Sul,
devido a insubordinação3. Embora tentasse recrutar no sul do Chile,
famoso por suas
nova equipe, não foi bem-sucedido, pois os marinhei- fortes correntes e
clima tempestuoso.
ros da Auclândia estavam em alto-mar, contratados 3 Insubordinação:
desobediência.
por outras empresas. Assim, ferido em seu orgulho, o

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Coleção Júlio Verne

capitão Hull preparou-se para regressar a São Fran-


cisco com pesca equivalente à metade da capacidade
de seu navio.
Pouco antes do embarque, ele fora procurado
pela senhora Weldon, que lhe solicitou autorização
para embarcar no “Peregrino”, rumo a São Francisco.
Ela estava acompanhada do pequeno Jacques, de
cinco anos, e do primo Benedito. Eles haviam acom-
panhado o armador a negócios, na Nova Zelândia,
não puderam retornar devido a uma enfermidade que
atingiu a criança e se viram obrigados a permanecer
naquele país, até que o pequeno se restabelecesse.
Agora, que se recuperara, a senhora Weldon queria
partir para São Francisco a fim de se reunir com seu
marido, em seu lar.
O capitão concordou imediatamente e colocou
seu próprio camarote à disposição da mulher de seu
patrão, que se instalou nele com seu filho e com sua
criada, Nã. O primo Benedito era um homem de cin-
quenta anos, mais ou menos, e tinha a feição4 boa,
parecendo desligado do mundo, a ponto de se esque-
cer de se alimentar, se não fosse chamado às refei-
ções. Ele era entomologista5, que, dentro da Zoologia,
estuda os insetos hexápodes, ou seja, insetos de seis
pernas.
4 Feição: aspecto; A 22 de janeiro, o navio zarpou em condições
maneira; traço do
rosto. extremamente favoráveis. A senhora Weldon e o
5 Entomologista:
aquele ou aquela
pequeno Jacques ficaram bem instalados e partiram
que se dedica à felizes a caminho da América. A tripulação, como já
Entomologia, parte
da Zoologia que dissemos, era composta por cinco marinheiros e um
estuda os insetos.
aprendiz. Todos eram americanos e há muito tempo

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Um Capitão de Quinze Anos

viajavam juntos, exceção feita a Negoro, o cozinheiro,


um português que fazia sua primeira viagem no
“Peregrino”.
O aprendiz da tripulação era Ricardo Sand, um
órfão encontrado em Nova Iorque que, aos quinze
anos, tinha um porte alto e robusto, aparentando
mais idade. Embora moreno, tinha olhos azuis, o que
denunciava sua origem anglo-saxônica. Sua fisiono-
mia inteligente emanava6 energia. Parecia um empre-
endedor nato7.
O rapaz tinha a capacidade mental de um homem
mais maduro, já que sua própria vida fora uma batalha
contínua contra as adversidades8. Aos oito anos, alfa-
betizado, partira como grumete9 em cruzeiro pelos
mares do sul, apaixonando-se irremediavelmente pelo
mar.
O capitão Hull, que o conhecera num navio mer-
cante, interessou-se subitamente por ele e o apresen-
tou ao senhor Weldon, cuja generosidade não tinha
limites. O armador fez com que Ricardo completasse
sua educação num colégio católico da Califórnia,
onde ele aprendeu a amar a Deus e a estudar geogra-
fia e matemática, no que se aplica à navegação. Para
a família Weldon, Ricardo era como um filho mais
6 Emanar: exalar.
velho, e a senhora Weldon ficava feliz ao ver seu filho 7 Nato: de nascença.
Jacques em companhia do aprendiz, a bordo do 8 Adversidade:
má-sorte; infortúnio;
“Peregrino”. O garoto parecia recuperar as cores do contrariedade.
9 Grumete: marinheiro
rosto pálido nas brincadeiras que Ricardo criava para
de inferior graduação
distraí-lo. que a bordo faz a
limpeza e auxilia os
marinheiros nos
No dia dois de fevereiro, Jacques pareceu avistar diferentes trabalhos
alguma coisa no mar e avisou Ricardo. O aprendiz, profissionais.

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Coleção Júlio Verne

após observar o ponto indicado pelo pequeno, anun-


ciou a toda tripulação a presença de um objeto estra-
nho, a pouca distância deles.
Todos correram, e se formou um pequeno alvoro-
ço entre os que tentavam descobrir o que poderia ser
o escolho10 flutuante.
Era um barco médio virado, e a intenção de Hull
era passar longe, para não comprometer a rota do
“Peregrino”. Porém, como ouviram o latir desespera-
do de um cão, preso no interior do casco, a senhora
Weldon pediu ao capitão que ajudasse o pobre ani-
mal. Assim, um bote desceu ao mar e o capitão, dois
marinheiros e Ricardo seguiram nele.
Um fato estranho ocorreu, sem que ninguém o
percebesse. Negoro, o cozinheiro, foi o único que
não deixou seu posto, no momento em que Sand
avisara sobre o barco abalroado11. E agora, que
saíra da cozinha e fora à proa12, o cão redobrou a
força de seu latido.
Hull e Ricardo observaram o casco do “Valdeque”,
que só tinha essa inscrição, sem mencionar seu porto
de origem. Na proa, via-se um grande rombo causado
10 Escolho: obstáculo. pela colisão. O cão corria em torno e, com seu latido,
11 Abalroado: navio
que sofreu choque parecia querer dizer que havia sobreviventes no inte-
violento com outra
embarcação ou
rior do barco. Depois de amarrarem o bote, fortemen-
outro objeto.
12 Proa: parte anterior
te, a bombordo do “Valdeque”, Ricardo e Hull segui-
do navio. ram o cão, que subiu ao tombadilho13. Lá, puderam
13 Tombadilho: a parte
mais alta de um
encontrar cinco corpos inertes sobre o assoalho.
navio, entre a popa e
o mastro de mezena.
Pensaram que, sem dúvida, eram cinco cadáveres,
mas havia neles um sopro de vida. Respiravam!

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Um Capitão de Quinze Anos

Com a ajuda dos marinheiros, os cinco negros


foram conduzidos ao bote e bastou um pouco de
água e algumas gotas de bebida alcoólica para os tra-
zerem de novo à vida.
Ao chegarem ao “Peregrino”, todos auxiliaram no
transporte para o repouso dos pobres sobreviventes,
quando outro fato aconteceu, envolvendo o cão e
Negoro. Quando o cozinheiro se aproximou, o cão
ficou com o pelo arrepiado e saltou sobre ele, com
toda a ferocidade.
Indagado pelo capitão se conhecia o cão, o cozi-
nheiro negou e se afastou. Ricardo, porém, ficou pen-
sando que ali havia alguma coisa estranha.
Enquanto aguardava a recuperação dos negros, o
capitão pensava no tráfico de escravos, que continua-
va intenso na África, não obstante as leis severas e as
perseguições de navios ingleses e franceses.
A senhora Weldon, ajudada por Nã e Ricardo, ali-
mentava os pobres homens famintos e sedentos, o
que os recuperou em pouco tempo. O negro que
parecia ser o mais velho, beirando os sessenta anos,
procurou o capitão para agradecer. Ele se chamava
Tomás e explicou em bom inglês que o navio
“Valdeque” fora abalroado havia dez dias, numa noite
escura. Quando ele e seus amigos subiram ao convés,
não encontraram mais ninguém a bordo. Não saberia
dizer se se afogaram ou se foram salvos pelo navio
agressor, que viu partir na noite escura.
Tomás continuou seu relato, dizendo que eles
não eram escravos. Eram homens livres do estado da

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Coleção Júlio Verne

Pensilvânia e haviam ido a Melburne por trabalho


remunerado, em contrato de três anos, mas as econo-
mias se perderam no naufrágio. Ficaram dez dias
sobrevivendo com o pouco alimento que restava, mas
devido à sede perderam os sentidos, quando foram
encontrados pelo “Peregrino”.
O outro sobrevivente, se tivesse o dom da fala,
poderia explicar a razão da antipatia que sentia por
Negoro. Claro que nos referimos a Dingo, que não
poupava hostilidade ao cozinheiro.
Segundo Tomás, o cão se chamava Dingo e per-
tencia a uma raça de mastins14 que se encontra na
Nova Holanda. O capitão do “Valdeque” o encontra-
ra havia dois anos, na costa da África, próximo à
embocadura do Congo15. O cão parecia triste e
demonstrava sentir saudade de um antigo dono, do
qual fora separado à força. Sua coleira trazia as letras
“S.V.”.
Dingo parecia pouco sociável, mas era bom por
natureza. Tomás achava que ele evitava os negros,
ficando sempre a distância deles. Talvez na África
houvesse sido maltratado pelos nativos, o que expli-
cava seu ressentimento para com os negros, de modo
geral.
A senhora Weldon informou-os de que, após
14 Mastins: cães para a parar em Valparaíso, no Chile, o “Peregrino” subiria a
guarda do gado.
15 Congo: grande rio costa americana até a Califórnia, nos Estados Unidos.
da África, com exten-
são de 4.380 km;
Lá, seu marido poderia ajudá-los no regresso à
atravessa o Zaire e
desemboca no
Pensilvânia. Os negros, comovidos, agradeceram à
Oceano Atlântico. boa mulher, colocando-se ao seu serviço.

12
Um Capitão de Quinze Anos

O capitão instalou-os da melhor forma possível.


Aliás, os pobres homens estavam habituados a viver
em duras condições e se contentavam com qualquer
coisa. Os filhos de Tomás, que o acompanhavam,
eram Agostinho, Bartolomeu, Acteão e Hércules.
Logo, os cinco se apresentaram a Hull para ajudar
no que fosse preciso. O capitão agradeceu, mas nada
havia a fazer, já que os ventos eram constantes.
Entretanto, chamava-os sempre que uma manobra
fosse necessária, já que Hércules16 fazia jus ao nome
e parecia um gigante. O pequeno Jacques, que admi-
rou logo o porte do negro, ficou seu amigo. Assim, a
criança dividia seu tempo com Ricardo, Hércules e
Dingo. Jacques modificou o comportamento triste do
animal, brincando com ele a maior parte do tempo.
Dingo tornou-se querido pela tripulação, à exce-
ção de Negoro, naturalmente. No início de fevereiro,
a senhora Weldon conversava com Hull sobre o futu-
ro de Sand, informando-o de que o marido tenciona-
va que ele completasse os estudos e mais tarde viesse
a se tornar um capitão da frota Weldon.
— Ricardo Sand fará honra à marinha americana
— concordou o capitão.
Para passar o tempo, Benedito tentou dar aulas
de entomologia aos negros, que fugiram, um a um,
das monótonas dissertações17 científicas. A senhora 16 Hércules: semideus
grego, famoso por
Weldon usava o tempo a bordo para alfabetizar sua força
descomunal.
Jacques, utilizando-se de cubos vermelhos criados 17 Dissertação:
pedagogicamente18 para esse fim. Os cubos tinham discurso.
18 Pedagogicamente:
impressas letras, as quais, combinadas, davam ori- com a finalidade de
ensinar, educar.
gem às palavras.

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Coleção Júlio Verne

Inexplicavelmente, um dia Dingo pareceu hipno-


tizar-se com os cubos, e embora parecesse brincar,
pegou dois cubos. Justamente os cubos que represen-
tavam as letras “S.V.”, que trazia em sua coleira!
A senhora Weldon gritou diante do episódio19,
que a assombrou. O capitão Hull e Ricardo correram
até ela e souberam do ocorrido. O capitão refletiu e
disse:
— Talvez este cão esteja ligado à sorte do viajan-
te Samuel Vernon, que com o patrocínio da Sociedade
Geográfica de Paris tentou atravessar a África, de
oeste a leste, em 1871... Depois de sua partida, nada
mais se soube. Ou ele não conseguiu chegar à costa
leste por ter sido aprisionado por nativos, ou morreu
a caminho... Dingo poderia ter sido seu cão e, tendo
melhor sorte que seu dono, foi encontrado no Congo
pelo capitão do Valdeque... Agora, como o cão pôde
distinguir as letras, não posso entender...
Naquele momento, Negoro chegou ao convés e
se surpreendeu ao ver o cão segurando as duas letras.
Dingo, ao vê-lo, reiniciou a agressão de antes, fazen-
do o cozinheiro fugir.
— Ah! Se Dingo pudesse falar... — disse Ricardo.
— Talvez nos contaria porque mostra tanto os dentes
a Negoro!
A partir daquele dia, toda a tripulação achava
que Dingo era um cão alfabetizado, que só não fala-
19 Episódio: fato
va porque tinha boas razões para permanecer em
notável relacionado
com outros. silêncio.

14
Um Capitão de Quinze Anos

“Se os papagaios falam, por que os cães não?”,


pensavam os marinheiros.
Na verdade, os papagaios reproduzem o som
humano, sem qualquer sentido. A frase é para eles
como um canto emprestado de língua estranha, sem
significado.
No dia dez de fevereiro, a senhora Weldon observou
nas águas um fenômeno e, curiosa, procurou Ricardo
para saber as razões que levavam as águas a ficarem
vermelhas. O aprendiz lhe explicou que aquilo era
“comida de baleia” e a cor era produzida por milhares
de crustáceos que alimentam os grandes mamíferos.
Naquele momento, um marinheiro gritou:
— Baleia à vista!
— É uma jubarte20 — falou Ricardo, observando-a,
com o que o capitão concordou. Parecia ter uns vinte
metros de comprimento, e Hull observava-a, pensan-
do em como a carga do “Peregrino” poderia ser
aumentada...
Os marinheiros começaram a demonstrar desejo
de arpoá-la, ainda que reduzidos pela falta dos pes-
cadores de reforço, e não demorou para que Hull
aderisse21 à ideia.
Antes que a baleeira fosse lançada ao mar, a
senhora Weldon perguntou ao capitão se não haveria
perigo para ele e seus homens.
— Nenhum perigo, minha senhora. Fique tranqui-
20 Jubarte: espécie de
la! Muitas vezes, pescamos baleias com embarcações baleia.
ainda menores... 21 Aderir: concordar.

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Coleção Júlio Verne

O “Peregrino” tinha três baleeiras, que habitual-


mente utilizava em conjunto em pescas a baleias.
Contudo, agora, como não dispunham de tripulação
de reforço, descia uma só, com os cinco marinheiros.
Ao deixar o navio, Hull chamou Ricardo e falou
diante de todos:
— Ricardo ficará no comando do “Peregrino” até
eu voltar. Honre o posto de imediato: ninguém, na
sua idade, ocupou-o até hoje!
No momento de partir, o capitão ainda fez algu-
mas recomendações a Sand, que as recebeu atencio-
samente. Até quando tomou lugar na baleeira, ainda
fazia gestos para o aprendiz quanto aos cuidados com
o navio.
No “Peregrino”, ficaram Ricardo, a senhora Weldon,
o pequeno Jacques, o cão Dingo, Nã, o cozinheiro
Negoro, o primo Benedito, Tomás e seus cinco filhos.
Com exceção do cozinheiro, todos acataram a autori-
dade de Ricardo, delegada por Hull.
Na hora que a baleeira se afastava, Dingo deixou
escapar um uivo triste, o que para Tomás era sinal de
mau agouro... Quando Negoro apareceu, o cão se ati-
rou sobre ele com a mesma estranha fúria, o que fez
Ricardo intervir22. Depois que Negoro se retirou,
Ricardo chamou Hércules e o incumbiu23 de vigiar o
22 Intervir: interpor-se. cozinheiro.
23 Incumbir: encarre-
gar.
24 Cetáceo: concernen-
Depois disso, todos se voltaram para a baleeira. O
te aos grandes capitão orientava os marinheiros para que, levados
mamíferos aquáti-
cos, como a baleia, em silêncio, chegassem próximos ao cetáceo24 sem
o golfinho etc. serem notados.

16
Um Capitão de Quinze Anos

Hull estranhava o fato da jubarte não se mover,


mesmo quando eles estavam tão próximos. Estaria
dormindo? Impossível... Pois, só no momento em que
cravou o arpão, pôde entender a razão da imobilida-
de da baleia: estava amamentando o filhote!
Os marinheiros, rapidamente, manobraram a
baleeira, tirando-a dos golpes da cauda poderosa. O
capitão começava a arrepender-se dessa caçada. A
circunstância que a envolvia era muito perigosa,
pois a baleia iria defender-se por dois.
Como a baleia nadava velozmente embaixo da
água, carregava consigo a baleeira a reboque, ligada
pela linha do arpão.
Ricardo Sand, que observava tudo sem perder um
detalhe, achou melhor aproximar o “Peregrino” da
baleeira, mas não contou com a ajuda dos ventos. Na
baleeira, o capitão mandou que os marinheiros remas-
sem depressa na direção do navio.
— Atenção! — gritou Hull. — O monstro vai pre-
cipitar-se sobre nós...
Com efeito, a baleia fez evoluções de modo a
enfrentar a embarcação. Três marinheiros deram-lhe
vigorosos golpes de lança, visando acertar algum ponto
vital, inutilmente. Em poucos minutos, o cetáceo fez
novo movimento, lançando colunas de água e sangue
dentro do bote. Naquele momento de pavor, em que a
baleeira virou, surgiu o filhote da baleia. Vendo-o, ela,
ferida, avançou contra os marinheiros.
— Cuidado, Howik! — foram as últimas palavras
do capitão Hull.

17
Coleção Júlio Verne

Os marinheiros compreenderam que estavam per-


didos e soltaram um grito horrível, desesperado. A
cauda do cetáceo despedaçou a baleeira; os homens
tentaram resistir, mas logo foram tragados pelas águas
agitadas pela fúria do animal.
Quando Ricardo chegou ao local, num bote, com
dois negros, já não encontrou vestígio25 dos amigos.
Apenas sangue na água do mar, que se tornara a
sepultura dos tripulantes do “Peregrino”!
No navio, os passageiros foram tomados de com-
paixão e terror. Todos se ajoelharam e oraram, acom-
panhando a senhora Weldon, que elevou aos céus
uma prece em nome dos mortos.
— E, agora, peçam coragem e força para chegar-
mos ao nosso destino — concluiu.
Que fatalidade! O “Peregrino” perdera sua tripula-
ção em alto-mar! O aprendiz de quinze anos era o
que restava para consolo de todos...
Ricardo, ainda imóvel, olhava o ponto em que
desaparecera Hull e seus homens. Sentia um amor
filial26 pelo capitão e pedia a Deus, naquele momen-
to, que lhe amparasse e lhe desse forças para condu-
zir os passageiros do “Peregrino” a terra firme...
— Quero falar com o capitão Hull — interrom-
peu, insolente, o cozinheiro.
— Você bem sabe que ele está morto — respon-
deu Ricardo.
25 Vestígio: rastro;
indício; sinal. — E quem é o capitão? — quis saber Negoro.
26 Filial: próprio
de filho. — Eu — respondeu o aprendiz, sem hesitar.

18
Um Capitão de Quinze Anos

— Você? Um capitão de quinze anos?


— Sim. Um capitão de quinze anos — repetiu o
rapaz, com voz forte.
— Exatamente — reforçou a senhora Weldon. —
O “Peregrino” agora tem em seu comando o capitão
Sand. Que todos lhe obedeçam! ...Nosso destino está
em suas mãos. Confiamos em você, Ricardo!
— Com ajuda de Deus, vou salvá-los, senhora
Weldon!
A seguir, o capitão Sand e a mulher foram exami-
nar os mapas, onde a localização do “Peregrino” era
rigorosamente marcada pelo capitão Hull. Depois,
Ricardo chamou Tomás e seus filhos, dizendo:
— Vocês são agora a tripulação do “Peregrino”.
Preciso de vocês para salvar a todos. — Sand fez uma
pausa, enquanto os negros concordavam, com boa
vontade. — Vou transformá-los nos melhores mari-
nheiros do mundo!... Chegaremos atrasados, mas em
segurança, pois precisamos ser prudentes27. Nas horas
que precisar repousar, Tomás me substituirá ao
leme...
Sand tomou, então, as medidas necessárias, levan-
tando todas as velas do navio. Os instrumentos do
“Peregrino” eram de seu conhecimento teórico28; che-
gara, portanto, o momento de conhecê-los na prática!
27 Prudente: cauteloso;
O jovem capitão só temia o perigoso efeito das cuidadoso.
28 Conhecimento
correntes, pois para calculá-lo eram necessários cál-
teórico:
culos astronômicos, que ele desconhecia. Pensou em conhecimento
adquirido através de
retornar à Nova Zelândia, pois o caminho lhe parecia livros, sem a prática.

19
Coleção Júlio Verne

mais curto, mas, como os ventos se tornavam favorá-


veis ao destino americano, ele lhes obedeceu.
Com os bons ventos, o “Peregrino” navegava, sem
problemas, sob o comando do “capitão de quinze
anos” e com a ajuda de Tomás e seus filhos. O cozi-
nheiro não mais apareceu, limitando-se a permanecer
na cozinha, cuidando de suas obrigações. O que era
melhor para ele, pois, ao menor sinal de rebeldia,
seria trancado no porão e substituído por Nã, que
sabia cozinhar.
Tudo ia bem a bordo, quando um pequeno inci-
dente aconteceu, deixando o capitão preocupado.
Uma das bússolas29 caíra, numa noite de mar agitado,
e se partira. Ricardo arrumara suas coisas junto ao
leme e, lá mesmo, adormecia algumas horas, quando
se sentia cansado. Nessas ocasiões, Tomás o substi-
tuía ao leme, devidamente instruído para isso.
A vida dos passageiros voltou ao normal. Jacques
brincava o tempo todo com o cão, compreendendo
que Ricardo e Hércules estivessem ocupados. A
senhora Weldon não perdia ocasião de encorajar e
estimular o jovem capitão com palavras.
Dormia poucas horas, às vezes o cansaço o domi-
nava, mas ele continuava ao leme, por instinto. Uma
29 Bússola: caixa do noite, Tomás estava ao leme e foi tomado por uma
feitio de um relógio,
em cujo mostrador, estranha sensação de embriaguez, que o derrubou
com uma
rosa-dos-ventos,
por uns instantes. Naquele momento, Negoro aproxi-
se move uma agulha
magnética para
mou-se na escuridão e colocou sob a bússola um
indicar o rumo metal que alterava suas indicações. Retirou-se, pouco
e a orientação.
depois, sem ser visto.

20
Um Capitão de Quinze Anos

O “Peregrino” continuou, assim, a navegar com


erro de 45° de seu rumo, pela sabotagem30 do cozi-
nheiro. O que pretenderia ele com aquilo?
Os dias passavam e Sand estranhava o fato de não
encontrar outros navios no percurso. Na verdade,
ignorava o que Negoro fizera e, assim, não sabia que
navegava em latitude mais alta do que supunha, isto
é, viajava mais ao sul.
Um dia, conversando com a esposa do armador,
Ricardo disse que estaria mais tranquilo se ela não
estivesse, com Jacques, a bordo.
— Pobre Ricardo! Se eu, Nã, Benedito, Tomás e
seus filhos não estivéssemos aqui, você estaria só no
“Peregrino”, em companhia do homem mau que se
diz cozinheiro...
O jovem aprendiz, elevado a capitão, não estava
adiantado no estudo de hidrografia31. Mas, como
marinheiro, sabia prever o tempo, como ninguém.
Observando o barômetro32, conforme o falecido
Capitão Hull lhe havia ensinado, Sand tomou provi- 30 Sabotagem:
destruição ou
dências para enfrentar as tempestades que estavam danificação de
a caminho. material, instala-
ções, maquinarias,
ferramentas, ou
Os dias que se seguiram foram realmente som- interferência secre-
ta na produção ou
brios, com muitos ventos. O aspecto do céu era nos negócios de
ameaçador, carregado, o que agitava o mar. Negoro uma empresa.
31Hidrografia: topogra-
era o único, entre os passageiros, que parecia ter um fia marítima que tem
por objeto a planta
mau sorriso nos lábios. das costas, ilhas etc.
32Barômetro:
Eram nove de março e o tempo não mudava. instrumento com o
qual se mede a
Fazia quinze dias que estavam expostos aos ventos e pressão atmosférica.
às tempestades. O “Peregrino” sacudia muito e, devi-

21
Coleção Júlio Verne

do à névoa, houve vezes em que Sand navegara ao


acaso, sem nada enxergar.
Numa manhã, Ricardo conversava com a senhora
Weldon e ambos manifestavam estranheza pela demo-
ra para atingirem a terra americana. Naquele momen-
to, Tomás veio avisá-lo de que a linha do velocíme-
tro33 havia partido.
Pobre Sand! Sem meios de conhecer a velocidade
de seu navio, utilizava-se de uma bússola cujas infor-
mações eram falsas!
Quando a tempestade se transformou num fura-
cão, Ricardo deu ordem a todos os passageiros, para
que permanecessem fechados nos camarotes, no que
foi atendido. Amarrou-se ao leme, para evitar ser
levado por alguma onda invasora.
Numa noite, em que foi obrigado a dormir pela
senhora Weldon, que temia por sua saúde, acordou
aos gritos de Tomás e Bartolomeu, que o haviam
substituído. Negoro havia ido até o leme puxar con-
versa, mas, como os negros não lhe deram atenção,
num dado momento, devido a um brusco movimen-
to, o cozinheiro caiu por cima da bússola.
Ricardo correu até o instrumento com o coração
33 Velocímetro: aos saltos. No tombo, o esperto cozinheiro retirara o
aparelho para
medir velocidade.
metal que havia colocado. O capitão alegrou-se ao
34 Repreender: ver o instrumento intacto, mas não se apercebeu da
censurar.
35 Popa: a parte direção que marcava. Se não podia brigar com Negoro
posterior do navio. pelo tombo involuntário, ao que parecia, podia
36 Insolente: atrevido;
grosseiro; repreendê-lo34 por estar na popa35. O insolente36
desaforado.
cozinheiro respondeu que não era contra o regula-

22
Um Capitão de Quinze Anos

mento passear na popa, o que fez Sand saltar-lhe ao


colarinho:
— Quem faz os regulamentos sou eu! Você está
proibido de passear aqui! Da próxima vez, estouro
seus miolos.
Naquele momento, Negoro ajoelhou-se, mas não
era por arrependimento ou humildade. Foi a mão
forte de Hércules que apertou seu ombro.
— Capitão Sand — perguntou o negro. — Quer
que eu o jogue ao mar agora? Os peixes daqui podem
não ser exigentes... — ironizou.
— Ainda não, Hércules — disse Sand, com piedade.
Negoro afastou-se, praguejando contra os dois.
Sand refletiu muito sobre aquele acontecimento e
confidenciou à sua protetora. O que teria levado o
cozinheiro à popa? A primeira bússola que se quebra-
ra, assim como a linha do velocímetro, teriam algo a
ver com ele? Não quereria ele chegar à América,
como os outros? Por via das dúvidas, Dingo passou a
ser o vigia na popa!
Era fim de março e nada de ver terra! O tempo
melhorara e o navio navegava bem. Era incompreen-
sível!
— Terra à vista! — gritou Hércules, naquele
momento.
Todos correram e puderam ver, de longe, que se
tratava de uma pequena ilha. Ricardo supunha que
fosse a ilha de Páscoa e que estavam, portanto, a uns
quatro mil quilômetros do Chile! Como a senhora

23
Coleção Júlio Verne

Weldon achasse incompreensível terem navegado


tanto tempo para andarem tão pouco, Sand falou:
— Tampouco o entendo, senhora. Talvez a bús-
sola indicasse direções erradas...
Naquela noite, um terrível furacão ainda agitou o
“Peregrino”. Na manhã seguinte, o tempo melhorava
e a senhora Weldon foi abraçar Ricardo, aconselhan-
do-o a repousar:
— Você que já era nosso filho adotivo, agora tor-
nou-se legítimo ao salvar seu irmão menor... Quando
terminar seus estudos, vai comandar um navio da
frota Weldon!
Ricardo encheu os olhos de lágrimas. Jamais espe-
rara ouvir aquelas palavras. E, como sempre, a ener-
gia de sua protetora redobrava seu ânimo.
Quando observava o mapa, acompanhado da
senhora Weldon, Sand previa que aportariam o
“Peregrino” entre o Chile e o Peru e que, lá, ela e
Jacques deveriam procurar uma embarcação para
chegarem à Califórnia.
— Você não pretende levar o “Peregrino” até o
senhor Weldon?
— Sim, se puder encontrar um oficial e tripulação.
Temos que descarregar a carga em Valparaíso, como
o faria o capitão Hull. Depois, então, seguiremos para
São Francisco, mas isto atrasará muito a senhora...
O tempo passava e se tornava inexplicável para
Sand que não atingissem a costa americana! Eram
cinco de abril. Fazia dois meses que o “Peregrino”

24
Um Capitão de Quinze Anos

partira de Nova Zelândia! No dia seis, o próprio Sand


subiu ao cesto da gávea37 e anunciou as palavras,
ansiosamente esperadas por todos:
— Terra à vista...
Todos correram ao convés38, com exceção de
Negoro, e viram que o “Peregrino” corria em direção
ao litoral. Era uma região desértica, sem casas, nem
porto. O “Peregrino” estava a dois quilômetros da
praia, quando Sand tentou mudar sua direção para
uma enseada, mas, devido aos ventos, não conseguiu.
Dingo, ao ver a terra e talvez por reconhecê-la,
soltou um latido triste. Negoro, ao ouvi-lo, deixou a
cozinha e caminhou em silêncio até a proa.
Sand orientou os passageiros para que colocas-
37 Cesto da gávea:
sem salva-vidas, já que o “Peregrino” encalharia nos plataforma no alto
recifes39. Instruiu Tomás para cuidar da senhora de um mastro onde
fica um marinheiro
Weldon e ele, Ricardo, cuidaria de Jacques. Os outros de vigia.
38 Convés: espaço
negros ficaram encarregados de ajudar Nã e o desli- entre o mastro
gado Benedito. grande e o da proa,
na coberta superior
do navio, acima
Antes do desembarque, para amenizar40 a coli- dos porões.

são41, Sand, ajudado pelos negros, descarregou mui- 39 Recife: rochedo ou


grupo de rochedos
tos barris, que continham óleo de baleia. O azeite à flor d’água e um
pouco afastados
acalmou as ondas, lubrificando as moléculas das da costa ou praia.
40 Amenizar: tornar
águas. Assim, o barco deslizou mais rapidamente e foi ameno, brando,
direto à praia. suave.
41 Colisão: ação de
42 colidir; choque.
Num certo momento, ouviu-se um estrondoso 42 Estrondoso:
barulho. Era o choque com os recifes, e o navio se um grande
ruído; barulhento.
levantou numa onda enorme, encalhando. A mastrea- 43 Mastreação: conjun-
ção43 caiu, mas felizmente não feriu ninguém. Todos to dos mastros de
uma embarcação.
estavam preparados e, quando o casco foi invadido

25
Coleção Júlio Verne

pelas águas, atingiram a praia por uma fileira de


rochas que iam até lá, sem problemas. Em dez minu-
tos, estavam todos na areia, salvos.
Apesar de tudo, a senhora Weldon ajoelhou-se e
agradeceu a Deus, que os conduzira àquele continen-
te, onde não seria difícil conseguir repatriamento44.
Com tristeza, o capitão de quinze anos via o
“Peregrino” ser destroçado pelas águas. Não teria o
prazer de entregá-lo ao senhor Weldon, mas feliz-
mente havia conseguido salvar os passageiros e, entre
eles, a esposa e o filho do rico armador.
Como pensava estar numa praia da costa perua-
na, estranhava não encontrar uma só palmeira.
Muitos pássaros sobrevoavam o local deserto e se
aproximavam tanto, que Ricardo estranhava o fato
de eles não temerem os homens. Nunca teriam
ouvido um tiro?
Dingo andava pela praia, rosnando, com o rabo
caído e o focinho preso ao chão. Parecia procurar
alguma pista. Negoro parecia fazer o mesmo, do lado
contrário, até que se afastou dos outros.
Era preciso encontrar um abrigo, já que a alimen-
tação que trouxeram do “Peregrino” era abundante.
Hércules encontrara água potável, em um regato pró-
ximo. Fogo poderiam fazer com madeira seca e raízes
encontradas fartamente ali.
Foi Jacques quem encontrou uma gruta habitável,
44 Repatriamento:
que para o pequeno era uma caverna enorme! A
volta, regresso para
a pátria. senhora Weldon falou:

26
Um Capitão de Quinze Anos

— Ricardo querido, em nome de todos, agradeço


a sua dedicação, mas não estou satisfeita. Desejo que
seja nosso guia em terra, também!
Após a refeição, Benedito foi explorar a região à
procura de insetos. Negoro havia desaparecido, miste-
riosamente, sem que ninguém soubesse para onde
teria ido. Deixando Jacques adormecido nos braços de
Nã, a senhora Weldon acompanhou Ricardo, Tomás e
seus filhos até o “Peregrino” para tentar salvar mais
alguma coisa.
Ficaram emocionados quando entraram no navio,
em que tanto haviam sofrido! Ricardo pegou armas
e munições e encontrou uma pequena quantia em
dinheiro. A senhora Weldon estranhou, pois levara
uma grande soma ao embarcar. Depois de algumas
suspeitas, Sand resolveu interrogar Negoro, quando
o visse.
No entanto, o ex-cozinheiro do “Peregrino” não
retornou, quando todos se deitaram para repousar. A
ausência do patife45 mais inquietava a senhora Weldon
do que sua presença.
Dingo ficara à entrada da gruta, como sentinela46.
Sand participava da mesma inquietação da senho-
ra Weldon, achando que Negoro era menos perigoso
perto do que longe. A pobre mulher não conciliava47 45 Patife: insolente;
atrevido.
o sono por causa da preocupação. Aquela terra não 46 Sentinela: guarda;
correspondera às suas expectativas48. Não encontrara vigia.
47 Conciliar: conseguir
nela nem segurança, nem repouso. aliar, unir.
48 Expectativa:
Na manhã seguinte, o grupo correu atrás de Dingo, esperança baseada
em supostas
que latia muito em uma direção. Não era Negoro quem probabilidades.

27
Coleção Júlio Verne

caminhava por ali, mas um outro homem, que se sur-


preendeu ao vê-los. Sand procurou uma conversa ami-
gável com o estranho, que respondeu em bom inglês.
O grupo pôde saber que o homem se chamava
Harris, era norte-americano, mas estava trabalhando
na Bolívia por mais de vinte anos. Assegurava a Sand
que eles estavam nos pampas bolivianos*, quase à
fronteira chilena. Como se dirigisse a uma fazenda
chamada “São Félix”, a trezentos e setenta quilôme-
tros, ofereceu-se como guia, convidando-os a que
fossem todos para a fazenda, onde poderiam arrumar
transporte para Atacama49.
Apesar de Harris não inspirar confiança, ele signi-
* Você deve estranhar o
ficava a única opção para Ricardo naqueles apuros.
fato de Sand ter acredi- Por essa razão, eles deixaram o litoral e se embrenha-
tado em Harris, quando
este o informou de que ram50 na floresta, com o estranho por guia. Gentilmente,
estavam na costa litorâ-
nea da Bolívia. Atual- Harris cedera seu cavalo à senhora Weldon e ao peque-
mente, a Bolívia é um
país sem acesso ao mar; no Jacques, que não disfarçava a antipatia que sentia
porém, até 1879 aquela
região pertencia mesmo
pelo desconhecido.
à Bolívia, que a perdeu
depois para o Chile. Dingo acompanhava-os, ora rosnando, ora latin-
(Nota da adaptadora).
49 Atacama: deserto
do, o que ninguém compreendia. Negoro não partici-
localizado na pava da expedição51 já que sumira desde a noite
América.
50 Embrenhar: anterior, e Harris afirmava não conhecê-lo.
internar-se, meter-se
nas brenhas, Harris os tranquilizava quanto aos perigos da
nos matos.
51 Expedição: grupo densa floresta; dava nomes aos lugares, para afirmar
que se destina a
explorar, pesquisar,
seus conhecimentos. Dissuadiu52 Sand de atirar na
estudar uma região, mata, assim como de fazer fogueira no acampamento
geralmente em
caráter científico. que montaram à noite.
52 Dissuadir:
desaconselhar; A caravana partiu no dia seguinte e Ricardo estra-
despersuadir.
nhava que Harris afirmasse que aquela região era

28
Um Capitão de Quinze Anos

mesmo os pampas. Ora, pampa em linguagem indí-


gena significa “planície”, isto é, região plana, sem
água, sem árvores! Ali, ao contrário, era uma região
de florestas fechadas, solo pantanoso...
Passaram-se mais quatro dias de caminhada.
Jacques estava triste pela viagem monótona. Não vira
beija-flores, nem seringueiras53, nem papagaios colo-
ridos. Só vira aves que não eram novidades para ele.
Benedito também ia piorando o humor por não
encontrar insetos para enriquecer sua coleção...
Chegou o dia dezesseis de abril e eles ainda não
sabiam onde estavam e quanto faltava ainda para
chegarem até a fazenda São Félix.
Começaram, então, a acontecer alguns fatos estra-
nhos. Quando Sand julgou ter visto girafas, Harris
tentou convencê-lo de que não vira bem à luz do luar
e que se tratava de avestruzes! Todos se surpreende-
ram pela diferença.
Quando primo Benedito encontrou uma mosca e
exultou por poder acrescentá-la à sua coleção, afir-
mou que aquele inseto era uma raridade na América
e um verdadeiro perigo para elefantes! Aquelas pala-
vras fizeram Ricardo perder o sono, já que ele nem
queria imaginar a possibilidade de estarem na África.
Fazia doze dias que deixaram o litoral para seguir
Harris. Sand já não poupava rispidez ao estranho, que
captava sua desconfiança dia-a-dia. A senhora Weldon
estava exausta e temia pela saúde de seu filho, que vol-
tara a ter febre. Dingo deixava a atitude de farejar e 53 Seringueira: planta
agora uivava tristemente. Parecia sentir dor ou saudade. que produz borracha.

29
Coleção Júlio Verne

Ricardo e Tomás acreditavam que Negoro os seguia


de perto, mas Harris tentou dissuadi-los. Pelo caminho,
Sand percebeu, assustado, pegadas de elefantes, que
jamais se aclimatariam54 na América, mas não mostrou
a Harris, já que ele daria outra resposta tão tola quan-
to a de comparar girafas com avestruzes!
O aprendiz tomava para si a defesa de seu pes-
soal. Sentia-se o capitão da caravana; queria proteger
os negros e salvar a senhora Weldon e o pequeno
Jacques, que parecia definhar. Sentia em Harris um
traidor e logo esperava ter condições para provar a
todos. Não viam um só vestígio da proximidade da tal
fazenda. Aonde Harris os estaria levando? A dúvida
levava Sand ao desespero.
Noutro dia, avistaram hipopótamos! O aprendiz
sentia vontade de matar Harris. O que significava
tudo aquilo?
No que Harris dizia ser a última noite que passariam
na floresta, Tomás chamou Sand para ver o que ele
encontrara sobre a mata: sinais de sangue e membros
humanos mutilados! Ao lado, algumas correntes que
eram velhas conhecidas de Tomás: usara-as em sua
infância, na África, quando fora vendido como escravo!
À noite, mal tocaram na ceia. A fadiga tomava o
lugar da fome, mas não conseguiram dormir também.
Mais ou menos às onze horas, se viram sobressalta-
54 Aclimatar-se:
dos55 por um rugido de leão! Ricardo ergueu-se de
habituar-se facão em punho e viu Harris fugindo, em seu cavalo.
(a um clima).
55 Sobressaltado:
Agora, ele podia compreender tudo: a bússola o
surpreendido;
assustado. enganara durante a viagem, sem que ele conhecesse

30
Um Capitão de Quinze Anos

as razões. Dobrara o cabo Horn, viera ao Atlântico!


Vira girafas, hipopótamos e ouvia leões... A “planície”
boliviana tinha florestas densas e pântanos! Benedito
encontrara uma mosca africana e Tomás se recordara
dos ferros, que os brancos usavam para caçar negros
na África...
Harris e Negoro estavam cumpliciados56! Negoro
não se afastara da caravana o tempo todo, o que se
explicava pela ferocidade do cão... Estavam na África
equatorial, a região dos traficantes de negros para a
escravidão!
Falemos, agora, um pouco da escravidão e de
seus horrores. Os primitivos, tidos como civilizados e
cristãos, caçavam os negros na África, como animais,
pois necessitavam daquela mão-de-obra em suas
colônias ultramarinas57. Os negros eram dizimados58
nas caçadas e levados às feiras, em condições humi-
lhantes, pelos odiosos mercadores. Quando transpor-
tados às colônias, muitos morriam devido aos maus-
tratos, ao sofrimento, à fome ou à loucura.
Os negros haviam sido escolhidos pelos podero-
sos colonizadores como trabalhadores ideais, pois
reuniam excelentes condições físicas para o trabalho
e adaptabilidade ao clima das colônias.
As grandes potências não tinham vergonha de
mostrar a esse comércio grande indulgência59. Foram 56 Cumpliciados: juntos;
necessários anos de sofrimentos para que só no fim do sócios; de acordo.
57 Ultramarina: que fica
século XIX se começasse a perseguir essa atividade cri- em regiões além do
mar.
minosa. Contudo, como era lucrativa, miseráveis ainda 58 Dizimados: mortos.
se dedicavam a ela. E, entre eles, estavam Harris e 59 Indulgência:
tolerância.
Negoro.

31
Coleção Júlio Verne

Ricardo imaginava que estariam na terrível Angola,


centro de caçadas de negros. Terra habitada por indí-
genas canibais, clima e terrenos péssimos, que desen-
volvem febres horríveis. Tinha em sua expedição um
grupo cansado e esgotado; uma mãe enlouquecida
com a saúde do pequeno filho; e cinco negros, que
eram — sem dúvida — preciosa mercadoria para os
traficantes. O que sabia — e sabia pouco — deixava
Sand aflito, mas sua energia moral elevada não o dei-
xava cair em desespero.
Realmente, o aprendiz tinha razão: Harris e
Negoro eram cúmplices e se encontraram, conforme
combinado, a cinco quilômetros de onde estava o
grupo de Ricardo. Os dois formavam uma dupla de
bandidos da pior espécie e relatavam60 um ao outro
os acontecimentos desde a última “caçada”.
Negoro fora preso pelas autoridades portuguesas,
mas conseguira fugir num navio que ia à Nova
Zelândia. De lá, empregara-se como cozinheiro do
“Peregrino” e depois relatou tudo o que se sabe.
Destilava ódio61 pelo capitão de quinze anos, com
quem achava que tinha contas a acertar.
Harris relatou a Negoro as dificuldades do
comércio de escravos, agora perseguido por várias
nações do mundo, mas o tranquilizou quanto à cap-
tura. A dezesseis quilômetros dali, uma caravana
conduzida pelo árabe Ibne Hamis estava à espera
deles com um exército de indígenas para caçar Sand
60 Relatar: mencionar; e seus companheiros.
narrar; contar.
61 Destilava ódio: tinha De repente, Dingo avançou furioso sobre Negoro.
tanto ódio que se
sentia no ar. O português, rápido, tomou a espingarda e deu-lhe

32
Um Capitão de Quinze Anos

uma forte pancada, abrindo fogo. Ouviu-se um uivo


de dor, quando Dingo voltou correndo à mata, dei-
xando gotas de sangue pelo caminho.
— Parece que o cão o detesta, Negoro. O que
você fez a ele?
— Contas antigas — resumiu Negoro, sorrindo
maldosamente.
Sand, embora aflito, compreendia tudo e propu-
nha a Tomás que se calassem sobre suas descobertas.
Deveriam procurar a costa e, através dela, navegarem
em uma embarcação qualquer, feita às pressas, para
o norte ou para o sul. Não seria sensato voltar pelo
mesmo caminho, para não deixar pistas para Harris e
Negoro. Seria prudente construir uma jangada sólida
e aproveitar um rio, que os levasse ao mar...
A senhora Weldon quis saber sobre Harris e Sand
limitou-se a dizer que se tratava de um traidor, alia-
do a Negoro. Estavam, pois, abandonados naquelas
regiões e deveriam procurar a costa, novamente.
Embora não compreendesse as razões da traição e
da cumplicidade entre Harris e Negoro, a senhora
Weldon limitou-se a sacudir a cabeça e a incentivar
Sand, pondo-se de pé para demonstrar uma força
que já não sentia.
Todos partiram, sem Dingo. Acreditavam que o
cão houvesse seguido a pista de Negoro e, se sobre-
vivesse, viria a ter com eles, onde estivessem.
Ao meio-dia, pararam para descanso e alimenta-
ção. A senhora Weldon esforçava-se por se alimentar
para não causar maiores problemas para o grupo. Sua

33
Coleção Júlio Verne

força e seu ânimo haviam desaparecido e, quando


questionava Ricardo com o olhar sobre a região em
que se encontravam, o capitão baixava os olhos, sem
coragem de mentir.
Tomás e Sand observaram, chocados, ossadas
humanas pelo caminho. Os pobres negros eram con-
duzidos pelos traficantes, como rebanhos, e muitas
vezes morriam no caminho, abandonados à fome, à
doença. Ou, mesmo, eram assassinados pelos merca-
dores quando a alimentação escasseava.
À tarde, depois de caminharem muito, uma forte
chuva se prenunciou62. Ricardo encontrou abrigo em
um formigueiro enorme! Segundo o primo Benedito,
eram construídos por formigas típicas da África, as
térmites... E o cientista estranhava o fato de ele estar
vazio. Aonde teriam ido as formigas? Por que teriam
abandonado o abrigo?
Sand não lhe deu atenção e ficou feliz por ter
encontrado aquele abrigo, que media uns três metros
de altura, por uns dois de largura, onde todos pude-
ram se esconder da chuva que desabara.
Após a refeição, todos adormeceram ouvindo
Benedito dissertar sobre as formigas africanas, donas
daquele abrigo e que o teriam cedido por alguma
razão ainda obscura ao cientista. Só Ricardo não con-
seguia conciliar o sono, pensando em sua gente,
preocupado. Foi quando sentiu a mão da senhora
Weldon sobre o ombro:
62 Prenunciar: anunciar — Sei onde estamos, meu filho. Confie em Deus.
com antecedência. Ele há de nos salvar... — sussurrou ela.

34
Um Capitão de Quinze Anos

Pela madrugada, o formigueiro foi invadido pelas


águas das chuvas, o que de certa forma vinha a con-
firmar a hipótese63 de que um rio próximo houvesse
transbordado. O formigueiro ameaçou desabar, soter-
rando todo o pessoal de Ricardo, o que para Benedito
justificou a ausência das formigas.
Com muitas dificuldades, eles conseguiram sair
do formigueiro, quando o dia nascia. Fora, realmente,
a planície havia sido inundada e algumas embarca-
ções indígenas esperavam por eles.
Sand ainda tentou dar combate, mas o inimigo era
numeroso, de forma que logo todos foram aprisionados
e levados em dois botes, com destinos diferentes e
ignorados, sobre o rio improvisado naquela planície.
A senhora Weldon, Jacques e Benedito foram
desaparecendo num bote, enquanto Ricardo, a velha
Nã e os negros seguiam em outro, distante.
Quando chegaram a terra, Hércules saltou e
enfrentou dois indígenas, que deixou ao chão com os
crânios fraturados, e sumiu pela floresta, sob uma
saraivada64 de balas.
Ricardo e os outros foram amarrados como escra-
vos.
Estavam às margens do rio Coanza, um rio ango-
lano que deságua no Atlântico. Aquela caravana,
patrocinada pelo traficante Alves — patrão de Negoro
e Harris — seguia para o mercado de Cazondé.
Ricardo também estava preso, como escravo, mas 63 Hipótese: suposição.
64 Saraivada: descarga.
de forma diferente de Tomás e seus filhos. Esperava

35
Coleção Júlio Verne

ver Negoro, ou Harris, a qualquer momento. Tinha


certeza de que estavam por trás daquele ataque. Ah!
Como o aprendiz se arrependia: tivera os dois na mão
e não os matara...
A caravana era composta por umas oitocentas
pessoas. O sofrimento dos cativos era coisa indescri-
tível e suas mortes, por atos de selvageria, coisa bár-
bara e repugnante65. Os indígenas serviam aos trafi-
cantes, como um verdadeiro exército. Os mercadores
também obtinham escravos das brigas entre as tribos,
onde os vencedores vendiam os vencidos. Assim se
explica a despovoação dos vastos territórios, que se
transformam em desertos, na África...
Ricardo só pensava na triste situação da senhora
Weldon com o pequeno Jacques e Benedito, com
quem não podia contar.
O aprendiz estava preso somente nas mãos;
seus pés estavam soltos e, assim, ele procurou
diminuir a distância que o separava dos quatro
negros, salvos do naufrágio, para lhes contar o que
ouvira: que seguiriam para Cazondé e que não
desanimassem, pois poderiam fugir... Porém, os fei-
tores66 adivinharam sua intenção e aumentaram a
distância entre ele e seus companheiros, depois de
o esbofetearem.
65 Repugnante:
repelente; que No dia seguinte, a tempestade cessara67, mas o ar
indigna.
66 Feitor: capataz.
estava carregado. A caravana prosseguia rumo a
67 Cessar: parar; Cazondé. Seu chefe era o conhecido de Harris, o
interromper.
68 Suplício: tortura; árabe Ibne Hamis, que determinava os maiores suplí-
tormento. cios68 aos negros!

36
Um Capitão de Quinze Anos

Tomás e seus filhos, como os outros negros, iam


presos a uma forquilha69, que lhes impedia o menor
gesto. Tomás deixava as lágrimas rolarem, vendo o
sofrimento dos filhos, homens livres da América e
escravizados na África! Nã também não encontrara
melhor sorte: estava acorrentada a uma jovem mãe,
que trazia duas crianças pequenas. Nã carregava uma
delas para ajudar a negra e se lembrava de Jacques e
da senhora Weldon, com saudades. Ver-se-iam nova-
mente algum dia?
Sand ia atrás, perdido nos próprios pensamentos
sombrios. Pensava na senhora Weldon, no pequeno
Jacques, na própria sorte, quando fosse torturado por
Negoro.
A caravana passou por uma aldeia, da qual,
após o saque70, restaram quinze mortos e dois pri-
sioneiros, fazendo toda a população fugir. Em outro
dia, obrigados a fazer uma travessia dentro de um
rio, alguns se afogaram e outros foram atacados por
crocodilos.
Um dia, cheio de compaixão e revolta, Sand viu
Nã sangrar, após receber chicotadas. O caminho con-
tinuava difícil e a caravana não se detinha por nada.
Sand pensava em Hércules. Que destino teria encon-
trado? A liberdade? Ou a morte?
O mês de maio entrou e as misérias aumentaram.
Sand talvez tivesse sido atingido por alguma doença,
69 Forquilha: corrente
causada por sanguessugas que atingiam seu corpo, e, que se prende ao
pescoço à maneira
em meio ao delírio, só pensava em resistir para salvar de coleira.
70 Saque: roubo.
a senhora Weldon e Jacques.

37
Coleção Júlio Verne

Via coisas terríveis e achava que a morte para os


negros era um consolo. Não havia por que sobrevi-
ver, mesmo quando eram exterminados por animais
selvagens de forma bárbara. A epidemia de bexiga71,
ou “nedué”, atingiu e matou muitos negros. Ricardo
sentia-se cercado por esqueletos animados.
Um dia, reviu a pobre Nã, que continuava presa
e já não carregava a criança, como antes. Ricardo ten-
tou falar com ela, mas um feitor a afastou a chicota-
das. Quando se precipitou contra ele, revoltado, foi
afastado pelo árabe, que pronunciou algumas pala-
vras, que ele não entendeu, e citou o nome de
Negoro.
Noutro dia, a caravana saqueou outra aldeia,
assassinando uns duzentos homens, para aprisionar
dez escravos!
Numa noite, Ricardo pressentiu a chegada de um
animal. Desarmado, esperava que a fera se aproxi-
masse e já contava morrer nos próximos momentos,
quando visualizou melhor e se deparou com Dingo!
— Bendito instinto! — pensou o aprendiz, olhan-
do as letras “S.V.” gravadas na coleira de seu único
amigo. De súbito, teve a idéia de arrebentar a coleira
e lá encontrou um bilhete de Hércules, informando-o
de que a senhora Weldon, Jacques e Benedito eram
conduzidos em uma liteira vigiada, pessoalmente, por
Harris e Negoro. Ele, que fugira para ser útil ao grupo,
encontrou Dingo ferido e o tratou. Hércules pedia a
Sand que repetisse o recado a Tomás, assim que
71 Epidemia de bexiga:
pudesse, a fim de lhes dar esperanças, ao pai e aos
epidemia de varíola.
irmãos.

38
Um Capitão de Quinze Anos

Sand não se conteve: chorou de alegria e deu gra-


ças a Deus por aquele bilhete! Era um bálsamo sobre
suas dores. Poderiam se rever em Cazondé, poderiam
escapar ilesos72!
Porém, faltavam mais dez dias de infortúnios e
misérias. Muitos sucumbiriam73 até lá, mas ele reno-
vava sua energia para sobreviver.
A varíola ainda atingiu grande parte dos miserá-
veis. Os doentes eram abandonados pelo caminho.
Um dia, vinte cativos não conseguiam mais caminhar
e foram mortos a machadadas pelos feitores. Nã fazia
parte deste grupo e, horrorizado, Sand passou por
seu cadáver, pensando que Deus chamava para si o
primeiro sobrevivente do “Peregrino”.
Quando chegaram a Cazondé, metade da carava-
na havia sucumbido. Aquela cidade era “comandada”
pelo traficante José Antônio Alves, um negro que
prosperara no comércio de seus irmãos de raça.
Um feitor foi abrir o quarto onde estavam Tomás
e os filhos e os trouxe consigo à presença do trafican-
te, que sorria satisfeito. O pobre Tomás disse:
— Somos cidadãos livres dos Estados Unidos.
— Claro — respondeu José Antônio Alves. —
Sejam bem-vindos!
O homem que acompanhava o patrão dos trafi-
cantes começou a examinar Agostinho, fingindo não
ouvir o que Tomás dissera. Com desrespeito, quis 72 Ilesos: salvos;
incólumes.
abrir a boca do filho de Tomás, à força, mas levou um 73 Sucumbir: não

espetacular soco, que arrancou boa parte de seus poder resistir; morrer.

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Coleção Júlio Verne

dentes. Uma porção de indígenas avançou sobre


Agostinho e só não o matou porque Alves impediu.
Agostinho era mercadoria preciosa e fazia muito
tempo que o traficante não ria tanto da cara de idiota
de seu empregado.
Ricardo também foi levado à presença do trafican-
te, por um feitor.
— O pequeno ianque74... — saudou-o o homem
odioso.
Enquanto Alves falava com Ibne Hamis, Sand
murmurou a meia voz para Tomás:
— Recebi bilhete de Hércules por Dingo... A
senhora Weldon foi conduzida por Harris para cá...
Paciência e coragem, Deus nos tirará daqui.
Naquele momento, uma mão pousou sobre o
ombro de Sand: era Harris.
— Onde está a senhora Weldon?
— Não resistiu à morte de seu filho. Pobre mãe!
— sorriu o maldito.
Compreendendo que perdera os que mais amava
no mundo, Sand perdeu o equilíbrio. Encolerizado,
arrancou a faca que Harris trazia em sua cintura e a
enterrou no coração de seu dono. O amigo de Negoro
caiu morto.
Sand ia ser morto no ato, mas a intervenção de
Negoro salvou-o momentaneamente. O português
74 Ianque: diz-se dos
pretendia torturá-lo e mandou que o prendessem,
habitantes dos
Estados Unidos. acorrentado num barracão.

40
Um Capitão de Quinze Anos

Dois dias depois, os escravos foram levados à


feira. Tomás e seus filhos seguiam, envergonhados,
cabisbaixos. Notaram a ausência de Ricardo e imagi-
naram que, talvez, já estivesse morto.
Lembravam-se de Hércules. Nada mais souberam
do gigante, mas, mesmo que estivesse morto, estaria
melhor do que eles.
Na feira, Tomás e seus filhos foram comprados
por um rico árabe, traficante em Tanganica, que os
transportaria para Zanzibar.
Às quatro da tarde, com grande estrondo e pompa,
o rei de Cazondé, Moini Lunga, chegou à feira, acom-
panhado de sua comitiva. Estava embriagado e exigia
aguardente. Negoro ofereceu ao rei o sangue de um
jovem branco, que seria sacrificado por ter assassi-
nado Harris, com o que o rei devasso75 concordou.
Alves preparou um ponche para os selvagens,
não poupando aguardente forte, canela, pimenta e
gengibre. Cambaleando, o rei foi até a bacia e rece-
beu uma tocha acesa das mãos de Alves. Um aciden-
te incompreensível resultou em combustão espontâ-
nea para Moini Lunga, que se contorceu e pareceu
incendiar-se internamente. Um ministro ainda tentou
ajudá-lo, mas, estando ainda mais bêbado do que o
rei, acabou por morrer junto.
No dia seguinte, na cerimônia de enterro do rei,
a rainha sucessora recebeu pedido de Negoro para
que incluísse o nome de Sand entre os escravos que 75Devasso: libertino;
seriam sacrificados e foi atendido. desregrado.

41
Coleção Júlio Verne

Não satisfeito, Negoro foi visitá-lo, onde Sand


estava preso, após torturas. Sem forças, o aprendiz
entendeu que não tinha como enfrentá-lo, embora
todo o seu ser se agitasse febrilmente contra a presen-
ça daquele demônio.
— Então, capitão, o que o senhor deseja para o
almoço? Não se lembra mais de seu cozinheiro? —
dizia o miserável, gargalhando. — Como o senhor
chegou à África, se navegava para a América?
Depois de uma pausa, aproximou-se de Sand e
disse, feroz:
— Hoje, o capitão sou eu e sua vida está em
minhas mãos.
— Fique com ela. Estou pronto para morrer...
Mas saiba que no céu há um Deus que pune os cri-
minosos...
O português, fora de si, tentou estrangular o capi-
tão do “Peregrino”, mas se conteve e saiu, batendo a
porta. Aquela visita teve o estranho poder de fazer
Ricardo Sand renascer. Sua força moral voltava a lhe
fazer companhia.
Seminu, foi amarrado a um poste e acompanhou
o enterro do rei. Orava e pedia forças a Deus. Não
queria fraquejar até o fim.
A uma ordem da rainha sucessora, as águas repre-
sadas do rio inundaram a região onde se encontra-
vam os escravos. Entre eles, estava o capitão de quin-
ze anos, que ainda relutava contra as cordas que o
prendiam ao poste. A água subia lentamente para

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Um Capitão de Quinze Anos

prazer dos sádicos76, que aplaudiam ao ouvir os gri-


tos dilacerados77 das vítimas, que se afogavam.
Negoro e Harris mentiram sobre a morte da
senhora Weldon. Na verdade, desde que fora arre-
batada do formigueiro, ela havia sido poupada, com
seu filho e Benedito. As razões ainda eram desco-
nhecidas.
Ela estava num estabelecimento que lhe fora des-
tinado pelo rico traficante sob liberdade vigiada, de
forma que desconhecia tudo o que ocorria além dos
muros da feitoria.
Três dias após a cerimônia macabra78 do enterro
do rei, Negoro a procurou e relatou a ela as mortes
de Ricardo, Nã e a venda de Tomás e seus filhos. A
piedosa mulher não conteve as lágrimas, enquanto
ouvia os planos do português em relação a ela: sob
pena de matar o pequeno Jacques, ele exigia que ela
escrevesse uma carta ao marido, apresentando Negoro
como mediador de um resgate. Isso mesmo, o portu-
guês exigia de James Weldon o resgate que represen-
tava toda a fortuna do armador, se ele quisesse rever
a mulher e o filho.
Para ganhar tempo e refletir a respeito, a senhora
Weldon pediu a Negoro o prazo de uma semana, que
lhe foi concedido. O que preocupava a mulher não
era a questão do dinheiro, mas o fato de James
Weldon se arriscar por eles, indo buscá-los naquelas 76 Sádico: que tem
terras, de onde dificilmente sairiam com vida. Uma prazer no sofrimento
alheio.
semana depois, Negoro procurou-a e aceitou sua exi- 77 Dilacerado: tortura-
gência: ela escreveria a carta se o local do resgate do, mortificado.
78 Macabra: fúnebre;
fosse em uma cidade próxima à costa. trágica.

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Coleção Júlio Verne

Assim, o ex-cozinheiro do “Peregrino” partiu ime-


diatamente, com carta dirigida a James Weldon, escri-
ta pela própria esposa.
No dia seguinte, Benedito se pôs a perseguir um
inseto e, distraído, não percebeu que saiu da feitoria.
Mais tarde, a senhora Weldon, preocupada, procurou-o
em vão e, desesperada, comunicou o fato ao traficante
Alves, que se irritou com a fuga do prisioneiro.
Um novo fato aconteceu. Devido às insistentes
chuvas, a rainha Moina chamou um feiticeiro, aten-
dendo o apelo dos supersticiosos, que pediam inter-
venção79 mágica contra as inundações. Atraídos pelo
barulho, a senhora Weldon e Jacques foram observar
a dança pública do feiticeiro. No término da dança,
ele esticou as mãos na direção da mulher e do meni-
no, o que significava que eles deveriam morrer para
salvar a cidade.
Aquilo gelou o traficante Alves, que tentou inter-
vir pensando no alto valor do resgate, mas, vendo a
autoridade de Moina, desistiu.
O feiticeiro conduziu a mulher desmaiada de ter-
ror e o pequeno garoto à floresta. Com gestos, infor-
mou à multidão que iria executá-los, sozinho, e não
queria que ninguém o acompanhasse!
Na floresta, quando a senhora Weldon voltou a si,
descobriu que o feiticeiro era o gigante Hércules, que
assaltara o verdadeiro feiticeiro que Moina chamara,
vestindo-se com seus trajes. E que felicidade invadiu
79 Intervenção:
intercessão;
a pobre senhora quando reviu Ricardo, Dingo e
interferência. Benedito!

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Um Capitão de Quinze Anos

Hércules era o grande herói, tendo se arriscado


por todos eles. Cuidara de Dingo, salvara Ricardo,
“sequestrara” Benedito: e, agora, ela e seu filho...
Naquela mesma noite, embarcaram numa piroga80
indígena, encontrada ao acaso à beira do rio.
Encobriram-na com ervas para ocultá-la e protegê-la
de ataques indígenas ou de animais.
Durante doze dias, seguiram a correnteza do rio,
sem incidentes. Alimentavam-se com o que caçavam e
com as frutas que encontravam nas árvores da margem.
A dezenove de julho, ansiosos, esperavam a qual-
quer momento avistar o mar; porém, mais uma vez, a
força do gigante impediu que a embarcação fosse
levada por uma queda de água de mil e quinhentos
metros.
Quando desembarcaram, Dingo parecia chorar de
dor. De repente, pôs-se a correr, sendo seguido pelos
demais. Parou, latindo, à porta de uma choupana,
que estava vazia. Ao entrarem, notaram que o chão
estava juncado81 de ossos embranquecidos. O antigo
dono de Dingo fora assassinado e abandonado ali.
Ricardo teve a ideia de abrir uma pequena caixa
e lá encontrou um bilhete de Samuel Vernon, comu-
nicando, em letras entrecortadas com sangue, que 80 Piroga: nome
fora assassinado por Negoro, o guia de sua expedi- comum às embarca-
ções
ção, que o roubou. Na figueira, em frente à choupa- compridas, estreitas
e velozes usadas
na, havia duas iniciais enormes “S.V.” e lá Dingo tal- pelos indígenas da
África e América,
vez houvesse aprendido a reconhecê-las. algumas das quais
são feitas de um só
Naquele exato momento, atônitos, viram Dingo tronco cavado.
81 Juncado: coberto.
sair correndo e puderam ouvir que se atracava com

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Coleção Júlio Verne

alguém. Pela ferocidade, todos deduziram: era Negoro!


O português, antes de seguir à América, parara naque-
le local, onde matou Samuel Vernon, para reaver o
produto de seu roubo, que culminara na morte do
viajante. Dingo, porém, o impedia e, na luta que se
travou entre eles, ambos morreram. O português,
atingido na jugular, caiu sobre o buraco onde enter-
rara seu roubo.
Hércules deu uma sepultura cristã para os ossos
de Vernon e de seu fiel cão. A caravana partiu, na
mesma piroga, para uma parte navegável do rio e,
dois dias depois, encontrou uma equipe de honestos
comerciantes de marfim que a ajudou a chegar a
Emboma, de onde partiu para a Califórnia, com ajuda
das autoridades consulares.
James Weldon não acreditava no milagre de rever
a esposa e o filho e soube bem demonstrar sua dívida
eterna com Ricardo Sand e Hércules. O primeiro apli-
cou-se aos estudos e, aos dezoito anos, recebeu o
diploma de Hidrografia, passando a comandar um
navio da frota Weldon. O armador também não teve
paz enquanto não descobriu o paradeiro de Tomás e
seus filhos, trazendo-os de volta aos Estados Unidos,
quase quatro anos depois de todas essas aventuras.
O dia da volta dos negros foi comemorado na casa
dos Weldon com uma grande festa, e o reencontro
deles com Hércules foi inesquecível. O melhor brinde
foi erguido pela senhora Weldon — e todos correspon-
deram emocionados — ao Capitão de Quinze Anos...

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Um Capitão de Quinze Anos

Roteiro de Leitura
01. Quem era o capitão Hull?
02. O “Peregrino” preparava-se para voltar a São Francisco
quando a senhora Weldon, esposa do armador, dono do
“Peregrino”, pediu para embarcar. Quem ia junto com ela?
03. O “Peregrino” contava com cinco marinheiros e um
aprendiz. Quem era Negoro?
04. Ricardo Sand era o aprendiz da tripulação, um órfão
encontrado em Nova Iorque e por quem o senhor Weldon
se interessara e fizera com que estudasse. Um dia, avisado
por Jacques, Ricardo viu algo no mar. O que era?
05. Uma vez, no “Peregrino”, quem o cão atacou?
06. Quem eram os sobreviventes do “Valdeque”?
07. O cão Dingo era querido de toda a tripulação. Quem, no
entanto, era odiado pelo cão?
08. Toda a tripulação do “Peregrino”, com exceção de
Ricardo, saiu um dia na perseguição de uma baleia e
morreu. Quem passou a comandar o navio?
09. Todos aceitaram Ricardo como capitão e a ele obedece-
ram. Quem não se conformou com isso?
10. A tripulação do “Peregrino” era agora formada por Ricardo,
Tomás e seus cinco filhos e o cozinheiro Negoro. O que
fez este último certa noite?
11. Sem saber da sabotagem de Negoro, Ricardo continuou a
viagem. Mas estranhava a demora para atingir a terra ame-
ricana. Um dia avistaram terra. O que ocorreu?
12. Aonde pensavam os sobreviventes terem chegado?
13. Já em terra, Negoro desapareceu misteriosamente, o que
fez com que Ricardo e a senhora Weldon se preocupassem.
Numa manhã os sobreviventes encontraram um homem.
Quem era?

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Coleção Júlio Verne

14. Harris lhes serviu de guia por aquela região que dizia
serem os pampas bolivianos. Que fatos começaram a fazer
Ricardo desconfiar de que não estavam na América?
15. Ricardo desconfiava de Harris e acreditava que Negoro os
seguia de perto. Quando Harris fugiu, Ricardo entendeu
que este e Negoro eram cúmplices. Onde eles estavam?
16. Por que havia ossadas pelo caminho que o grupo seguia?
17. O que aconteceu quando o grupo abrigou-se num formi-
gueiro vazio?
18. O grupo capturado dividiu-se em dois: a senhora Weldon,
Jacques e Benedito seguiram num bote, enquanto Ricardo,
a velha Nã e os negros seguiam escravizados, num outro.
Só Hércules conseguira fugir. Uma noite Ricardo deparou-se
com Dingo. O que havia em sua coleira?
19. Chegando a Cazondé, Ricardo soube, por Harris, que a
senhora Weldon e Jacques haviam morrido. O que fez?
20. Ricardo não foi morto pelo seu ato porque Negoro tinha a
intenção de torturá-lo. Tomás e seus filhos foram vendidos
como escravos e transportados para Zanzibar. O que Negoro
sugeriu que o rei de Cazondé fizesse com Ricardo?
21. Por que Negoro poupava a senhora Weldon, Jacques e
Benedito?
22. A rainha, sucessora do rei de Cazondé, chamou um feiti-
ceiro para que houvesse uma intervenção mágica contra as
inundações. O que aconteceu então?
23. Quem era o feiticeiro e o que aconteceu?
24. Durante a fuga, salvos mais uma vez por Hércules, chega-
ram a uma choupana onde encontraram os restos mortais
de Samuel Vernon, dono de Dingo, assassinado por
Negoro. O que ocorreu nesse local?
25. O que fez James Weldon para demonstrar sua gratidão por
rever sua esposa e seu filho?

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