Você está na página 1de 83

CENTRO DE EDUCAÇÃO, FILOSOFIA E TEOLOGIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

A CONTRIBUIÇÃO DO PENSAMENTO SOCIAL DE JOÃO


CALVINO PARA A FORMAÇÃO DO CIDADÃO

SÃO PAULO

2015
ADELSON LUIZ GARCIA

A CONTRIBUIÇÃO DO PENSAMENTO SOCIAL DE JOÃO


CALVINO PARA A FORMAÇÃO DO CIDADÃO

Dissertação apresentada à Universidade


Presbiteriana Mackenzie, como requisito
parcial para a obtenção do título de
Mestre em Ciências da Religião.

Orientador: Prof. Dr. Ricardo Bitun

SÃO PAULO

2015
G216c Garcia, Adelson Luiz
A contribuição do pensamento social de João Calvino
para a

formação do cidadão / Adelson Luiz Garcia – 2015.

81 f.; 30 cm

Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade


Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2015.
Orientador: Prof. Dr. Paulo Bitun

Bibliografia: f. 77-81

1. Cidadania 2. Ética 3. Educação I. Título II. Calvino, João

LC BX9422.2
À minha esposa Aline Helen
Corrêa Garcia e aos meus filhos
Samuel e Eliel, que participaram
deste projeto, compreendendo
minha ausência de esposo e pai,
estimulando a continuar nos
estudos.
AGRADECIMENTOS

A Deus, em primeiro lugar, que me mostrou necessidade de continuar os estudos e


proporcionou-me momentos agradáveis de volta à sala de aula depois de 21 anos.
A Ele toda a honra e glória!

À minha família, esposa e filhos, grandes incentivadores dos estudos. Pela


paciência que tiveram com as minhas ausências.

Aos meus pais, Leonel Marques Garcia e Luiza Izabel Garcia, que, apesar dos seus
poucos estudos, sempre desejaram para seus filhos formação cada vez melhor.

Ao Conselho da Igreja Presbiteriana de Casa Branca, que aprovou minhas


ausências da cidade para dirigir-me até São Paulo para cursar o Mestrado em
Ciências da Religião.

À Igreja Presbiteriana de Casa Branca, que suportou minhas ausências e ao


mesmo tempo pelas orações de todos os irmãos pela minha vida.

Aos professores do Mestrado em Ciências da Religião, que se dedicaram nos


ensinos, trazendo-me à memória outros conceitos até então não sabidos.

Ao Professor Dr. Ricardo Bitun, meu orientador, pelo tempo dispensado e pelo
pronto atendimento às minhas necessidades do trabalho.

Aos colegas de sala de aula, que de alguma forma contribuíram com as suas
apresentações e pelo tempo que passamos juntos.

Ao Professor Mestre Lando Lofrano, pela paciência e desprendimento, me


ajudando na correção da Língua Portuguesa do trabalho.
RESUMO

Trata-se de um trabalho que procura mostrar a contribuição do pensamento social de


João Calvino para a formação do cidadão. Ao valer-nos deste tema, estudamos que em
fins da Idade Média houve uma grande migração da população para as cidades. Antes
uma figura muito conhecida era do camponês e agora passa a ser a figura do citadino.
Naturalmente que essa transformação haveria de mudar o foco da vida comunitária e
consequentemente a vida em sociedade. Aumentam a intensidade dos laços sociais e
consequentemente mais problemas sociais. A sociedade em transformação precisará de
estrutura sólida e equilibrada para se desenvolver e se manter através de leis e cidadãos
que irão regular essas leis. Durante a Idade Média, houve pouca assistência à pequena
sociedade existente. Com o Renascimento e Reforma Religiosa do Século XVI novos
contornos de pensamento social e assistência passaram a ser aplicados na sociedade de
então. Nesse fermento de transformações sociais surge a figura do Reformador João
Calvino, que, fundamentado nas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, trouxe para
a sociedade de sua época, através de seus pensamentos e idéias, novos rumos para o
cidadão e seu exercício da cidadania. João Calvino, embora não fora um sociólogo, e
sim teólogo, trouxe idéias sociais de convivência e cidadania através de suas obras e
também do modelo-exemplo, deixado na cidade de Genebra, onde pôde aplicar todos os
seus conceitos relativos à sociedade. Assim, aspectos como: político-administrativo,
educacional e assistencial foram pontuais e marcantes na ajuda que João Calvino deu
para o governo da cidade de Genebra. Sua atuação foi tão especial que muitos outros
habitantes de outras regiões da Europa vieram até Genebra para aprenderem seu modelo
e levarem para as suas terras. Os processos que envolvem o estudo do cidadão e
exercício da cidadania são sempre discutidos, uma vez que a sociedade vive em
constantes transformações. No entanto, o cidadão deve priorizar princípios que possam
ser aplicados em qualquer tipo de transformação que a sociedade possa ter. O cidadão
está intrinsecamente envolvido com a sociedade. É parte integrante dela. Sendo assim,
necessita de uma formação de alto nível que o leve a ser agente contributivo da
sociedade, visando ao bem comum da mesma. O cidadão deve atuar na sociedade de
forma a participar tão bem de seu governo, exercendo justiça, quanto como governado,
obedecendo as leis e servindo aos magistrados e governos. João Calvino levou os seus
ensinos aos cidadãos para que fossem bons exemplos de cidadania para a sociedade.

PALAVRAS CHAVE: Cidadão, cidadania, João Calvino, sociedade, ética, educação.


ABSTRACT

It deals of a work that finds to show the contribution of the social thought of John
Calvin to the formation of the citizen. Thinking about this topic, we study that in the
end of the Middle Age there was a great migration of the population to the cities. Before
it a well-known picture was of the peasant and now it goes by to be the picture of the
townsman. Naturally this transformation there would be to change the focus of the
communal life and consequently the life in society. It increases the intensity of the
social ties and thereafter more social problems. The society in transformation will need
solid and balanced structure to develop and maintain itself through the laws and citizens
that will regulate these laws. During the Middle Age, there was little assistance to the
small existing society. With the Renaissance and the Religious Reform of the Sixteenth
Century new contours of social and assistance thoughts go by to be applied in the
society in this time. In this yeast of social transformation arises the picture of the
reformer John Calvin, that, grounded in the Bible Scriptures of Ancient and New
Testament, brought to the society of his age, over his thoughts and ideas, new directions
to the citizen and his army of citizenship. John Calvin, in spite of not to be a sociologist,
and to be a theologian person, brought social ideas of living together and citizenship
through of his works and of the example-model too, that was left in the city of Geneva,
where he could apply all of his concepts related to the society. Therefore, aspect such
as: politic-administrative, educational and assistance were punctual and outstanding in
help that John Calvin gave to the government of the city of Geneva. His performance
was so special that many others inhabitants from other regions of Europe came to
Geneva to learn his model and they will take to his lands. The processes that involve the
study of citizen and the exercise of citizenship are always discussed, since the society
lives in constant transformations. However, the citizen must prioritize principles that
must be applied in any kind of transformation that the society may have. The citizen is
involved intrinsically with the society. He is an integral part of its. Thus, he needs of
high level formation that takes to be a contribute agent of the society, aiming to the
common good of the same. The citizen must act in the society to participate so good of
his government, practicing justice, how as governed, obeying the laws and serving to
the Magistrates and Governments. John Calvin took his teachings to the citizens for that
they were good examples of the citizenship to the society.

Keywords: Citizen, citizenship, John Calvin, society, ethics, education.


SUMÁRIO

1 - INTRODUÇÃO........................................................................................................09

1.1 – Relevância ou Justificativa..................................................................................10

1.2 – Referencial Teórico..............................................................................................10

1.3 – Hipóteses................................................................................................................12

1.4 – Objetivos................................................................................................................13

1.5 – Metodologia...........................................................................................................14

2 – O PENSAMENTO SOCIAL REFORMADO.....................................................14

2.1 – Antecedentes histórico-sociais da sociedade da Idade Média..........................14

2.2 - Um novo tempo: O Renascimento.......................................................................19

2.3 - A Reforma Religiosa do Século XVI e sua relevância social.............................23

2.4 – João Calvino..........................................................................................................28

2.4.1 Sua biografia......................................................................................................28

2.4.2 Sua pregação.......................................................................................................29

2.4.3 Seu pensamento social.......................................................................................35

2.4.3.1 - Aspecto educacional........................................................................................36

2.4.3.2 – Aspecto político-administrativo.....................................................................45

2.4.3.3 – Aspecto assistencial.........................................................................................50

3 - O CIDADÃO......................................................................................................56

3.1 – A Formação do cidadão.......................................................................................58

3.2 – O Cidadão e a cidadania......................................................................................61

4 – A CONTRIBUIÇÃO DO PENSAMENTO SOCIAL DE JOÃO CALVINO


PARA A FORMAÇÃO DO CIDADÃO...............................................................64

4.1 – A Coerência entre o pensamento social de João Calvino e a cidadania..........66

4.2 – A educação dos cidadãos através dos ensinamentos de João Calvino.............72


5 - CONCLUSÃO..........................................................................................................77

Bibliografia.....................................................................................................................77
9

1 - INTRODUÇÃO

Muitos autores, escritores e pensadores, através de suas obras, procuram contribuir


para o progresso da sociedade. Mudanças na sociedade ocorrem muitas vezes através de
revoluções, guerras, pestes, novos ideais, novos governos, novos estadistas, novos
homens e mulheres que se destacam em suas áreas de vocação e formação. Houve um
momento na História da Humanidade, especificamente no Século XVI, que homens
imprimiram seu pensamento na História. Estamos nos referindo à contribuição dos
Reformadores do Século XVI para a sociedade. O trabalho limita-se a falar
especificamente sobre a contribuição do pensamento social de João Calvino para a
formação do cidadão. Pensemos numa definição moderna de cidadão: “Cidadão é
qualquer pessoa que tenha nacionalidade de um Estado” (Do Tratado Sobre o
Funcionamento da União Européia – TFUE, art. 20º.). A partir desta simples definição
podemos dizer que o cidadão é o habitante da sociedade, é aquele que está no gozo de
seus direitos civis, políticos e sociais de um Estado, ou no desempenho de seus deveres
para com ele. Com certeza o pensamento de João Calvino atingiu várias esferas da vida
das pessoas e suas atitudes para com o passado, presente e futuro. No entanto,
priorizamos a formação de cidadãos conscientes de suas responsabilidades e deveres
para o bem comum da sociedade. O pensamento de João Calvino concentrou-se no
campo teológico e religioso, no entanto, impossível não reverberar no campo social. A
Religião está intrinsecamente ligada ao homem e vice-versa.

No mundo em que vivemos e principalmente nos meios acadêmicos distingue-se, com


muita facilidade, o tipo de cultura e de crenças vivenciadas pelas pessoas de maneira
geral. Deparando-nos com essas filosofias de vida não há como não dizer que há uma
profunda influência no cotidiano das pessoas de forma que a práxis do dia a dia é
moldada também por sua formação. O indivíduo traz para o contexto social a sua
bagagem e formação. Ali interage com a sociedade. No seio de uma sociedade o
indivíduo atua como cidadão. Assim sendo, sua formação causará efeitos nesta
sociedade. O desenvolvimento de uma comunidade ou nação está totalmente alinhavado
com o desenvolvimento do indivíduo, enquanto cidadão. O texto dissertativo que ora
propomos visa mostrar toda essa interação entre indivíduo e sociedade pressupondo que
o indivíduo possua bagagem equilibrada. A contribuição do pensamento social de João
Calvino para a sociedade trás princípios de extremo valor para os cidadãos. Esse
pensador, a partir desses contextos, teve oportunidades de elevar o padrão de conduta
10

das pessoas junto à sociedade. Todos os princípios de boa convivência com a sociedade
bem como novas leis que foram dadas aos cidadãos serviram não só para sua época
como para épocas posteriores. Essa é uma oportunidade de conhecermos tais
desenvolvimentos do pensamento humano que podem ser aplicados também nos dias de
hoje.

1.1 - Relevância ou justificativa

Quanto à Relevância Científica, estamos inseridos dentro do programa de Ciências


da Religião, em sua busca por compreensão da religião em suas relações com a
sociedade na interface das ciências sociais. O pensamento social de João Calvino faz
diferença na formação do cidadão e este faz diferença no seu contexto social. Fazemos
igualmente menção do campo religioso cristão, tendo como referencial teórico de modo
geral o pensamento reformado, alinhavando assim a linha de pesquisa. A contribuição à
Academia está intrinsecamente ligada à ética cristã como influenciadora do cidadão e
seu papel na sociedade.

Quanto à Relevância social, a pesquisa ou o trabalho está todo voltado, diríamos


literalmente com o tema. Nossa maior necessidade deve-se à observação de que no
Brasil, os princípios éticos, a educação simplista, os relacionamentos evasivos a
eqüidistância apenas financeira entre as classes, a desvalorização da vida; vai criando
nas pessoas profundo pessimismo quanto à sua importância e contribuição à sociedade.
O cidadão é o principal ator neste enfoque. O que vemos em outras sociedades, também
tidas como cristãs, são valores tais como: ética, responsabilidade, respeito às leis,
altruísmo, investimento e outros afins. A pesquisa poderá abrir nossos horizontes quanto
a resultados que tire a nossa sociedade da pobreza intelectual e moral que vive e levá-la
a abraçar com mais propriedade os valores sociais que conduza ao desenvolvimento do
cidadão.

1.2 - Referencial Teórico

BIÉLER, André – O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo: CEP,


1985.
11

Este trabalho foi ditado por uma preocupação pastoral. Depois do século 16, a
teologia tem carecido de eruditos que, como Calvino e outros tenham tido viva
compreensão dos problemas do mundo e da sociedade à luz de revelação bíblica. A
ausência de questões materiais e sociais na ética cristã conduz os fiéis a trágicas
omissões ou a insuperáveis perplexidades. A redescoberta deste aspecto ignorado da
doutrina reformada talvez ajude alguns crentes a reencontrarem o senso de uma ética
cristã que englobe a totalidade da existência, pessoal e coletiva.
No atual contexto de problemas políticos, econômicos e sociais brasileiros e
mundiais, encontramos propostas de soluções de várias origens. A obra de André Biéler
confronta interpretações distorcidas sobre Calvino e o calvinismo, mas, também, mostra
como a verdadeira exegese responsabiliza os homens, a sociedade e as autoridades
constituídas a respeito das profundas e inomináveis injustiças que se verificam nas
relações políticas, econômicas e sociais que envolvem o poder e o dinheiro.

CALVINO, João – As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. São Paulo: CEP, 1985.

Como já reiteramos antes, a Religião influencia profundamente o cotidiano das


pessoas. Assim as práticas religiosas individuais vão dando o tom do modus vivendi de
cada um. Nesta obra, João Calvino, expõe magnificamente o seu pensamento teológico
que irá nortear e/ou mudar o pensamento religioso cristão a partir do século XVI. R. H.
Tawney resumiu bem a natureza do Calvinismo, quando disse: “O Calvinismo foi uma
força ativa e radical. Foi uma fé que buscava não apenas purificar o indivíduo, mas
reconstruir a Igreja e o Estado, e renovar a Sociedade, fazendo penetrar, em cada setor
da vida pública e privada, a influência da religião”.

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE - Um olhar sobre ética &


cidadania. Coleção reflexão acadêmica. São Paulo: Mackenzie, 2002.

Esta coletânea oferece temas de extremo interesse para quem busca compromisso
social e relacionamento humano solidário. A ética trata dos princípios e valores que
orientam a vida cristã inserida no contexto sócio-político-econômico e cultural. Os
valores definem premissas e estabelecem pontos referenciais para a tomada de decisões.
A cidadania orientada pela ética cristã responsabilizará a todos na busca de um
comportamento coerente e no desenvolvimento de projetos que resgatem a dignidade
12

humana. A ética provoca a reflexão de idéias e propõe valores; a cidadania conduz à


prática social responsável e o envolvimento solidário.

VIEIRA, Liszt. Os argonautas da cidadania – A sociedade civil na globalização. São


Paulo: Editora Record, 2001.

Globalização tornou-se sinônimo de expansão imperialista, exploração econômica,


destruição das identidades nacionais e ruína das culturas locais. No entanto, os
argonautas da cidadania têm navegado contra a corrente da barbárie neoliberal, tecendo
redes invisíveis de solidariedade e recompondo, na dimensão da sociedade civil, os
espaços de participação, de experiência pluralista das diferenças, de exercício criativo
da multiplicidade cultural. Esse livro de Liszt Vieira conta o outro lado da histórica
contemporânea e nos surpreende com a revelação de novos atores, novos movimentos e
da imensa energia libertária que flui das lutas por novas formas transnacionais de justiça
social, democracia e cidadania. Por isso, é um marco de referência.

1.3 - Hipóteses

Considerando que o cidadão é o habitante da cidade, é aquele que está no gozo de seus
direitos civis, políticos e sociais de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para
com ele, encontramos no pensamento social de João Calvino, valores que podem ser
objetivamente aplicáveis em seu contexto. No pensamento social de João Calvino
encontramos uma desvinculação com um passado em que a religião estava distante do
povo, e, sendo assim não poderia ajudá-lo. João Calvino foi um dos reformadores que
passaram a se preocupar com as carências espirituais, morais e sociais do povo de modo
geral. Assim então valores como justiça, caridade e ação social passaram a fazer parte
do cotidiano dos religiosos e da religião.

O pensamento social de João Calvino pode contribuir para a formação do cidadão, no


que diz respeitos às suas definições, valores e desdobramentos de aplicações sociais.
Tudo isso estudado e analisado para um contexto de desenvolvimento de capacidades e
habilidades do próprio cidadão. Os exemplos históricos de contribuição da vida social
de um povo podem ser encontrados nos próprios registros históricos.
13

No universo de uma sociedade, a formação do cidadão é extremamente complexa,


tendo em vista principalmente o mundo globalizado em que vivemos. No entanto,
sempre haverá a necessidade de padrões estabelecidos para a estrutura social. O cidadão
é o ator principal. Exatamente essa bagagem e legado trazido pelo cidadão são os
pressupostos dessa formação. Em muitas sociedades, cuja formação de seus cidadãos
estão construídas, numa base de pensamento reformado há equilíbrio no
desenvolvimento. Sociedades que se estabeleceram sob influência protestante tais como
Suíça, Suécia, Holanda, Inglaterra, Escócia, EUA, etc. Num mundo em constantes
transformações sociais inclusive com forte tendência de nações se voltarem belicamente
contra outras nações, há necessidade de cidadãos bem formados nos cargos de liderança
política e social, que possuam valores advindos de modelos que deram certo no passado
e no presente. Assim temos observado e iremos observar mais no trabalho exposto os
pressupostos dessa formação através do pensamento social do reformador João Calvino.

1.4 - Objetivos

Mostrar como o pensamento social de João Calvino está intimamente ligado à boa
formação do cidadão. Lembramos que o cidadão é aquele que demonstra em suas
atitudes obediência às leis civis e profundo interesse pelo bem estar da sociedade. Já em
1530 o humanismo Renascentista criara o clima em que estava embebido o espírito da
civilização européia. Ganhava foros de cidadania, junto a todas as camadas da
sociedade, pensar e sentir a arte, a elegância das modas e a cortesia do trato entre
pessoas bem como o galanteio de atitudes que se harmonizavam com o prestígio
conferido à dignidade do homem e de seus empreendimentos. São esses os primeiros
passos da humanidade rumo aos valores civis que futuramente deverão marcar a vidas
dos cidadãos. Hoje em dia, no mundo globalizado, precisamos ter a plena consciência
da cidadania como parte da formação educacional da cada indivíduo e isso levará um
país democrático ser bem-sucedido. Inclui-se a plena consciência da cidadania por todos
e o esforço educacional que permite aos indivíduos alcançarem esta consciência. Sem
isso, a sociedade estará comprometida e poderá tornar-se refém ou da tirania ou da
anarquia.

Mostrar que para se ter atitudes de bons cidadãos há necessidade de pressupostos


equilibrados e extremamente estruturados. Isso se dá através de uma formação onde o
14

cidadão adquire valores que moldarão sua vida. Encontramos esses pressupostos
abundantemente na educação através do pensamento social de João Calvino.

1.5 - Metodologia:
A pesquisa seguirá uma linha bibliográfica realizada principalmente através de
consulta de materiais escritos, em geral localizados em bibliotecas sejam fixas ou
móveis como internet. Este tipo de pesquisa está associado com a procura de dados
significativos e interpretações do passado. É bom ter em mente que a pesquisa
bibliográfica, visará ter em mente conclusões não apreciadas previamente. Qualquer
pesquisa, para ser realmente pesquisa, deve oferecer alguma contribuição, da parte de
quem a realiza, ao campo do conhecimento em que foi centralizada. Iremos também
recorrer à pesquisa social, conceituada sumariamente como uma pesquisa voltada a um
estudo da humanidade no seu ambiente social. Um dos aspectos centrais da pesquisa
social é a sua preocupação em melhorar o conhecimento e compreensão de ordens,
grupos, instituições sociais e modos de comportamento. A pesquisa social está-se
tornando cada vez mais importante na vida das pessoas na atualidade não somente pela
vasta gama de estudos existentes relacionados ao comportamento humano, como
também pela necessidade que o ser humano demonstra em conhecer melhor a sua
própria natureza e condicionamento sócio-culturais. A investigação será histórica, como
o próprio nome indica, visa estudar algo que já passou e pertence à história. É aquela
que faz um estudo retrospectivo de um evento, pessoa ou movimento, buscando as suas
origens, influência e projeção quanto ao futuro. Para realizar seus objetivos, deve
trabalhar com fontes históricas, submetendo-as ao crivo crítico, a fim de evitar a fraude
documentária. Devido ao seu próprio caráter e finalidade, a investigação histórica
trabalha, principalmente, mas não exclusivamente, com fontes impressas, midiáticas e
audiovisuais de alguma forma que possa identificá-las como documentos

2 - O PENSAMENTO SOCIAL REFORMADO

2.1 - Antecedentes histórico-sociais da sociedade na Idade Média


15

Este trabalho inicia-se descrevendo fatos sociais a partir da Baixa Idade Média (Sécs.
XI-XV) para chegarmos ao período da Reforma Religiosa do Século XVI. O sistema
político-social que governou esse tempo foi o feudalismo, já com sinais de decadência.
O feudalismo consistia num modo de organização social, político e cultural baseado no
regime de servidão, onde o trabalhador rural era servo do grande proprietário de terras:
o senhor feudal. O feudalismo predominou na Europa durante toda a Idade Média (entre
os séculos V e XV). O feudo era a grande propriedade rural que incluía um castelo
fortificado, as vilas, as terras e as florestas. Nessa unidade o servo desenvolvia suas
atividades pastoris; outras atividades, tais como caça, pesca e pequena fabricação
artesanal. Dentro da vila só se produzia o necessário para o consumo, pois a outra
produção era para o senhor feudal. Havia o trabalho gratuito nas terras do senhor feudal
como parte da exigência de se viver em suas terras. O trabalho gratuito era conhecido
como corvéia. Cabia ao senhor feudal tomar conta do feudo através de exército
particular, protegendo toda a comunidade. A decadência do sistema feudal aconteceu
justamente no período da Baixa Idade Média. Fatores como desenvolvimento dos
centros urbanos, aumento da circulação de moedas, surgimento da burguesia, relações
comerciais entre os povos, levaram os senhores feudais a perderem o poder econômico e
político. Começou a surgir aí um novo sistema: o mercantilismo. O mercantilismo foi
um sistema mais urbano do que rural. Do mercantilismo logo adveio o capitalismo.
Aumentam consideravelmente as relações negociais e interpessoais e a sociedade se
expande.

Da Alta Idade Média para a Baixa Idade Média a sociedade européia passou a ter nova
configuração: Com a desagregação do Império Carolíngio começaram a formar-se na
Europa novos e menores reinos. Assim a estrutura próxima facilitou o comércio e a
troca de mercadorias. A população aumentou num ritmo sem precedentes. No entanto
ainda, a esmagadora população era rural. Passando o tempo juntamente com o
fenecimento da sociedade feudal, as cidades começaram a expandirem-se
demograficamente. Isso já estava acontecendo já em fins da Idade Média. Antes, porém,
para chegarmos ao ponto específico de nosso assunto, na Baixa Idade Média
começaram a surgir cidades proeminentes, tais como, as cidades-Estado. Nessas cidades
verificou-se pujança no desenvolvimento comercial. Surgiram novos processos
financeiros e novas formas de contratos comerciais. As transações deixaram de ser as
antigas trocas do sistema feudal passando para o sistema monetário. Todas essas
16

mudanças acarretaram profundas outras mudanças nos negócios dos agora cidadãos das
cidades-Estado. A mulher urbana continuou como gestora doméstica, podendo também
trabalhar com algumas atividades comerciais. A partir daí também podemos sentir um
pré-renascimento nas artes:

“De espírito frustre e de irradiação limitada o ‘Renascimento carolíngio’ teve,


no entanto, o mérito de conservar e recopiar numerosos manuscritos de autores
antigos; uma preciosa reserva para a posteridade. Os séculos XI e XII viram
também o retomar dos estudos clássicos – e igualmente se falou, quanto a essa
época, certamente com excesso, de ‘Renascimento’... As obras de arte, por seu
lado, provam que a Idade Média não tinha esquecido tanto, como durante
muito tempo se julgou, certos temas e assuntos antigos. Os escultores romanos
inspiraram-se em estátuas, baixos-relevos, estelas e sarcófagos abandonados
pela Antiguidade durante o refluxo”. (DELUMEAU, 1994, Vol. I, p. 87-88).

Dentre todos os reinos da Europa, sobressaíram os reinos da França e da Inglaterra


que durante um bom tempo estariam em guerras menores até o tempo da guerra dos cem
anos (1337-1453). Cresceram também os reinos da península Ibérica: Aragão, Castela e
Portugal.

Na Baixa Idade Média também floresceu a Cultura, a Ciência e a Tecnologia, a


Arquitetura e a Arte; juntamente com o nascimento das Academias.

“Como centro de ensino e pesquisa, a universidade começou em 1200. Em


1400 havia mais de 75 universidades na Europa. Nestas escolas, os estudos
escolásticos tomavam uma parte considerável do currículo. A maioria das
grandes universidades da Europa moderna tem seus primórdios neste período.
O ensino de nível superior se fazia antes da criação das universidades, mas
após seu surgimento a maior parte da educação superior, que foi centralizada
nas escolas monásticas e catedrais, foi ministrada nas salas de aula da
universidade.” (CAIRNS, 1995, p. 194).

Nesses tempos diminuiu consideravelmente o número de servos e camponeses. As


pessoas passaram a trabalhar nas cidades como artesãos, nas construções e artes. As
guerras e conflitos da Baixa Idade Média levaram os reis a terem maior domínio de seu
próprio território e assim aumentaram a distribuição dos impostos sobre a população em
geral. A guerra dos cem anos entre a França e a Inglaterra, embora seja vitoriosa a
França, fez com que a população desta se reduzisse à metade. No entanto essa guerra
deu maior unidade à Inglaterra.
17

Outra ocorrência desastrosa para a sociedade européia na Baixa Idade Média foi a
chamada “peste bubônica” ou “peste negra” eliminando de 25% a 35% da população.
Segundo o Prof. Joffe M. de Rezende:

“De 1348 a 1350 a doença desceu sobre a Europa, trazida da região do Mar
Negro por comerciantes genoveses. Muitas aldeias desapareceram provisória
ou definitivamente. Cidades tiveram sua população dizimada, como Toulouse
na França, que, de 30.000 habitantes em 1348, contava com apenas 24. 000 em
1385; Florença, de 110.000 antes da peste, ficou reduzida a 50.000. A peste
atingiu indiscriminadamente campo e cidade, pobres e ricos, homens e
mulheres, adultos e crianças, sendo explicada pelos cronistas medievais, como
sendo castigo de Deus. Eram tantos os mortos que era necessário a abertura de
valas comuns, por causa da demanda, que era ainda mais intensa às segundas-
feiras. A doença atacava e matava com terrível rapidez”. (REZENDE, in
http://dougnahistoria.blogspot.com.br/2009/01/peste-negra-na-idade-
mdia.html, acessado em 25 jan. 2015).

A Idade Média vai chegando ao seu fim e, segundo historiadores como Renato
Bordone e Giuseppe Sergi ocorrendo em 29 de maio de 1453 com a tomada de
Constantinopla pelos turcos otomanos. A professora de História Patrícia Barboza da
Silva, cita em seu trabalho sobre o fim da Idade Média, baseada na obra de Jacques Le
Goff:

“A conjuntura de epidemias, de aumento brutal da mortalidade e de super-


exploração camponesa que caracterizou a Europa do século XIV trazendo
crise, foi sendo superada no decorrer do século XV, que viu a retomada do
crescimento populacional, agrícola e comercial. No campo, os senhores
feudais, substituindo as corvéias por salários, rompiam com o sistema senhorial
de produção. Nas cidades, o revigoramento do mercado era favorecido pela
ascensão dos preços das manufaturas.” (LE GOFF, 1983).

O fim da Idade Média fornece dados para verificarmos o tipo de sociedade em que
viverão os habitantes das novas cidades que vão surgindo. Com o fim dos feudos,
guerras e pestes, consolidaram-se os reinos e as cidades cujos cidadãos vão tomando
consciência de sua importância no contexto social. Ademais as Academias formam
maior número de professores, mestre e doutores nas diversas artes liberais existentes.

Nosso entendimento diante de todo o exposto é que há pouco envolvimento social dos
habitantes da Baixa Idade Média. As estruturas sociais até então não dão suporte para
18

pensamentos nobres de ajuda mútua nas aldeias e vilas da época. Em menor grau, isso
acontecia nos mosteiros onde alguns poucos eram assistidos pela Igreja. A sociedade
mercantil da época era interessada nas conquistas e na acumulação de riquezas por parte
dos nobres e burguesia. Os pobres eram tidos como servos e de situação inferior,
inclusive pensamento esse apoiado pelo clero. O trabalho não era tido como nobre.

“A tradição greco-romana desprestigiava o trabalho; a cristã, o valorizava. A


Idade Média presenciou o retorno à idéia grega, considerando o trabalho
manual degradante ao ser humano e inferior ao ócio, ao repouso, à vida
contemplativa, bem como à atividade militar. Na visão de Tomás de Aquino
(1225-1274), o trabalho era, no máximo, ´eticamente neutro´ Segundo a Igreja
Romana: [...] a finalidade do trabalho não é enriquecer, mas conservar-se na
condição em que cada um nasceu, até que desta vida mortal, passe à vida
eterna. A renúncia do monge é o ideal a que toda a sociedade deve aspirar.
Procurar riqueza é cair no pecado da avareza. A pobreza é de origem divina e
de ordem providencial”. (LE GOFF, WEBER, PIRENNE apud COSTA, 2007,
p. 155-156)

Os tempos vão mudando a partir dos séculos XV e XVI e nova aurora vai
despontando na sociedade em todas as áreas do conhecimento humano. Não podemos
deixar de citar um acontecimento importante acontecido no século XV que é a invenção
da imprensa por Gutenberg. Este acontecimento contribuiu significativamente para a
proliferação de idéias e um rumo novo de leitura sem precedentes.

“É sintomático que o invento de Gutenberg tenha introduzido em Paris em


1470 por Guillaume Fichet, que foi o iniciador do humanismo em França.
Sabe-se, de resto, que os maiores impressores desse tempo – Aldo Manuzio,
Froben, Josse Bade, os Estienne, Cristophe Plantin, etc. – foram, todos eles,
eminentes letrados. Difundiram as obras dos Antigos entre o público culto. A
imprensa Aldina de Veneza, entre 1494 e 1515, não publicou menos de 27
edições príncipes de autores gregos. As várias obras de Virgílio foram editadas
546 vezes entre 1460 e 1600, tanto em latim como em traduções. Se adotarmos
uma tiragem média de mil exemplares por edição concluiremos que, pelo
menos, 546.000 ‘Virgílios’ foram lançados no mercado europeu entre meados
do século XV e o fim do século XVI. Em 1530, foram impressas em França as
obras de 40 autores gregos – 32 deles na língua original – e de 33 clássicos
latinos. O interesse pelas obras dos Antigos aumentou ao longo de todo o
século XVI. No período anterior a 1550 só conhecemos 43 traduções inglesas
de obras latinas e gregas. Mas, entre 1550 e 1600, houve 119.” (DELUMEAU,
1994, vol. I, p. 98).
19

Surge um novo tempo com a perspectiva de desenvolvimento do ser humano,


inclusive na formação escolar e acadêmica. Novos pensamentos formarão o cidadão e o
levarão a tomar consciência de sua função no meio social.

2.2 - Um novo tempo: O Renascimento

Tempo também conhecido como Renascença ou Renascentismo abarcando o período


de fins do século XIV ao início do século XVII, segundo Peter Burke. Definido como
um tempo de revolução do pensamento humano em todas as áreas do saber bem como
período de grande produção em todas as artes. O movimento causou transformações na
cultura, sociedade, política e religião. Ressurgiu com mais intensidade o interesse pelos
clássicos da antiguidade em prol de um desenvolvimento humanista e naturalista.

“O Renascimento definiu-se a si próprio como movimento em direção ao


passado – característica aparentemente oposta à do nosso mundo moderno, a
caminho do progresso. O Renascimento quis voltar às fontes do pensamento e
da beleza”. (DELUMEAU, 1994, vol. I, p. 85).

“Num sentido amplo a Renascença pode ser definida como aquele período de
reorientação cultural em que os homens trocaram a compreensão corporativa,
religiosa e medieval da vida por uma visão individualista, secular e moderna”
(CAIRNS, 1995, p. 211).

A Itália foi a grande região onde floresceu o movimento sendo também espalhado
para Inglaterra, Alemanha, Países Baixos, Portugal e Espanha. Deter-nos-emos um
pouco mais sobre esse assunto uma vez que nosso tema geral está inserido nesse
período. Nos acontecimentos que se sucederam podemos retirar a imagem do cidadão
dessa época e a influência que sofreu desse importante movimento. Dentre as áreas do
conhecimento humano mudadas e criadas por esse movimento destacamos: pintura,
escultura, música, arquitetura, filosofia, línguas, religião, literatura, ciência, política, etc.
Acima de tudo esse período postulou que no centro do universo está o homem. É uma
passagem da condição mística do homem para seu individualismo conforme supracitado
por Cairns.

“Vários fatores contribuíram para o surgimento deste caminho de vida. As


cidades italianas, onde primeiro apareceu o movimento, tornaram-se ricas
como intermediárias no rico comércio entre a Europa Ocidental e o Oriente
20

Próximo. A riqueza gerava o prazer pelo estudo e permitia aos comerciantes


agir como patrões de filósofos e que pudesse tornar a vida mais agradável e
confortável. O governo centralizado garantia a segurança e a ordem. O advento
da imprensa com o tipo móvel em 1456 na Alemanha possibilitou a
disseminação rápida da informação na última parte da Renascença. O
nominalismo, com seu interesse sobre o indivíduo e sobre a experimentação
como meio de chegar a verdade, estimulara as tendências que floresceram na
Renascença.” (CAIRNS, 1995, p. 212).

Surgiram alterações na política, hábitos e costumes das gentes e dos cidadãos, tirando
todas as concepções medievais de uma vida só contemplativa e menos ativa. O que se
segue a partir do homem como centro do universo é que ele pode construir seu próprio
futuro. A independência de superstições que antes o prendiam leva-o a novas
construções e produções diante dos materiais que vai dispondo, como exemplo, a
invenção da imprensa por Johannes Gutenberg em 1456.

Diante de todas essas descobertas e de todos esses conceitos surgiu o Humanismo,


conceituado como uma nova forma de se chegar ao conhecimento dos textos clássicos,
desprendido de todas as noções arcaicas da Idade Média. Na prática, o Humanismo
evidencia o homem como o ser que está em foco. Essa valorização do homem irá trazer
profundas transformações sociais influenciando o pensamento social da época.

“As ciências sociais surgem como um corpo de idéias a respeito do processo de


constituição, consolidação e desenvolvimento da sociedade moderna. Ela é
fruto dessas transformações e denominada ‘ciência da crise’, porque procurou
respostas às questões sociais impostas por essas transformações”. (TOMAZI,
2008, p. 235).

“Do século XV ao XVII, o conhecimento racional do universo e da vida em


sociedade tornou-se uma regra seguida por alguns pensadores; foi uma
mudança lenta, sempre enfrentando embates contra o dogmatismo e a
autoridade da Igreja, a exemplo do Concílio de Trento e dos processos da
Inquisição, que procuraram impedir toda e qualquer manifestação que pudesse
por em dúvida a autoridade eclesiástica, seja no campo da fé, seja no das
explicações que se propunham para a sociedade e a natureza” (TOMAZI, 2008,
p. 263).

Considerando que o movimento renascentista englobou praticamente todas as áreas do


saber humano, não nos é necessário comentar todos. Igualmente não é foco de nosso
trabalho falar de todas as nuances desse movimento. Pontuaremos sobre as questões
21

sociais envolvidas. Todas as áreas do saber humano influenciam em algum grau as


questões sociais. No entanto, nesse período, já começaram a despontar autores e
cientistas que produziram e falaram sobre as questões sociais. Destacamos uma obra de
cunho político-social “O Príncipe”, de Niccoló Machiavelli. Mais conhecido como
Maquiavel, nascido em 1469 na Itália. Descendente de uma grande família florentina
que foi levada a uma situação financeira precária. No entanto, Maquiavel tinha
formação culta, com vastíssimo conhecimento histórico e de línguas. Sua obra, “O
Príncipe”, fora redigida em 1513 e publicada postumamente em 1531. Por ser uma obra
que pela primeira vez expressou noções de Estado e organização da sociedade que
conhecemos hoje, acrescenta ao nosso trabalho idéias político-sociais reinantes na
época. Vamos observar mais adiante que o sistema proposto e/ou observado por
Maquiavel nos governos, vai contra o pensamento social reformado que iremos
discorrer nos próximos subitens. A leitura de Maquiavel deixa-nos a impressão que os
fins justificam os meios e, quem determina o que é justo é sempre o príncipe. Podemos
dividir em três as divisões do tratado de Maquiavel, em “O Príncipe”: A primeira da
conta dos tipos de principados, a segunda sobre os exércitos e a terceira sobre a glória
do soberano. Nos onze primeiros capítulos, Maquiavel põe-se a falar sobre o cotidiano
dos principados e sua lide para manterem-se no poder. Descreve também suas
derrocadas. A partir do décimo segundo capítulo ao décimo quarto Maquiavel discorre
sobre os exércitos e as milícias e todos os perigos que podem advir. “Digo, pois, que as
armas com as quais um príncipe defende o seu Estado, ou são suas próprias ou são
mercenárias, ou auxiliares ou mistas. As mercenárias e as auxiliares são inúteis e
perigosas [...]” (MAQUIAVEL, 2009, p. 50). Por fim, Maquiavel conclui que as armas
de outros, ou te caem em cima, ou te pesam ou te constrangem, deduzindo da passagem
bíblica de Saul emprestando armamento a Davi e este preferindo lutar com suas próprias
armas e vencendo o gigante Golias. Para Maquiavel o Estado não só se mantém através
das milícias, mas também das boas leis. Tanto uma como outra podem ser usadas pelo
Príncipe ao seu próprio gosto. O importante é o Príncipe manter o seu posto, custe o que
custar. A terceira parte do livro de Maquiavel fala sobre as atribuições desse príncipe
que deve ter capacidade para manter o bem estar do reino, quer seja pela força ou pela
bondade. O jogo de cintura do príncipe deve também pender para os reclamos da corte.
Embora o povo deva nunca ser esquecido, não faltam escrúpulos para o príncipe e a
máxima é: melhor é ser temido do que ser amado.
22

“[...] os homens têm menos escrúpulos em ofender a alguém que se faça amar
do que a quem se faça temer, posto que a amizade é mantida por um vínculo de
obrigação que, por serem os homens maus, é quebrado em cada oportunidade
que a eles convenha; mas o temor é mantido pelo receio de castigo que jamais
se abandona” (MAQUIAVEL, 2009, p. 68).

É importante lembrar-se do contexto italiano em que Maquiavel estava vivendo, ou


seja, uma Itália totalmente espoliada e, segundo ele, mais escravizada do que os
hebreus, mais oprimida do que os persas, mais desunida do que os atenienses, sem
chefe, sem ordem, batida, lacerada, invadida. Maquiavel em “O Príncipe” procura um
redentor para sua pátria. Ao mesmo tempo as atitudes do príncipe podem se voltar
contra ele, pois, percebe-se, em muitos momentos, uma pesada carga imoral no livro
contra o povo. Alguns defendem a idéia de que os pensamentos, sendo interpretativos,
são a favor do povo. Para a nossa pesquisa vale ressaltar o legado para a época no
fermento das transformações sociais.

Ponderamos assim que as atitudes dos governantes acabam reverberando nas classes
nobres e dessas para as classes burguesas e destas para os plebeus de um modo geral. A
sociedade anseia já por modelos genuinamente humanistas.

“Porém, os humanistas e os reformadores protestantes estavam de acordo em


centrar toda a vida religiosa na pregação e na leitura da Bíblia. O Renascimento
quis ser regresso às fontes; ora essa vontade manifestou-se notoriamente – e
talvez principalmente – no domínio da fé. De Lorenzo Valla a Erasmo,
passando por Lefèvre d´Étaples e por Reuchlin, o humanismo cristão foi
unânime no duplo desejo de purificar a Escritura das traduções defeituosas e de
dar aos fiéis o verdadeiro texto da Bíblia.” (DELUMEAU, 1994, vol. I, p. 146).

Os pensamentos humanistas afetaram também os pensamentos e valores


ideológicos/teológicos, pois, justamente nesse período, surge outro grande movimento
conhecido como Reforma Protestante: um questionamento dos valores feudais e
especialmente da Igreja Católica Romana, uma quebra no monopólio de interpretação
das Escrituras (Bíblia) pelos clérigos católicos.

“Na fértil agitação espiritual e intelectual dos séculos XV e XVI existia,


portanto, uma intuição justa: o antigo humanismo, o humanismo
antropocêntrico, aquele da Antiguidade pagã, a despeito de suas invenções
mitológicas fantasistas, frutos de imaginação, devia, despojado de seus
artifícios religiosos, concorrer para o conhecimento do homem, tal qual o
23

propunha o Evangelho e criar assim um humanismo novo, não mais


antropocêntrico, mas teocêntrico, ou melhor, cristocêntrico.” (BIÉLER, 1999,
p. 46).

O Protestantismo busca uma relação mais direta com as Escrituras e com Deus sem a
intermediação dos ministros da Igreja Católica Romana. Nasce assim uma nova maneira
de se relacionar com as coisas sagradas e a partir desses novos conceitos religiosos, uma
nova maneira de se analisar o universo. Passou-se a usar a razão de modo intenso para
conhecimento do universo sagrado. Todos esses movimentos afetaram profundamente o
modo de compreensão das ciências sociais, dando início, assim, aos relacionamentos
entre as novas classes que viriam emergir. O pensador humanista, dentro do contexto
social, passou a ver o homem como alvo de preocupação, no sentido de atender as suas
necessidades mais básicas; muito embora as cidades ainda estavam com parcos recursos
de subsistência. O Século XVI é o palco da Reforma Protestante e do pensamento social
reformado.

2.3 - A Reforma Religiosa do Século XVI e sua relevância social

A Renascença, do ponto de vista humano, preparou o caminho para a Reforma


Religiosa do século XVI. Foi uma verdadeira eclosão de luz, a emergir das trevas
densas da Idade Média, em termos intelectuais e de descobrimento. Uma vez que a
Renascença trouxe o ressurgimento da cultura, propiciou assim subsídios para uma
transformação religiosa na Europa do século XVI.

“O impulso dado ao uso do vernáculo pelos estudiosos e pelos poetas da


Europa dos séculos XIV e XV ajudou mais tarde a dar ao povo a Bíblia e os
cultos da Igreja em sua própria língua. A volta às fontes da cultura do passado
e ao seu estudo científico possibilitou um conhecimento mais perfeito da
Bíblia.” (CAIRNS, 1995, p. 216).

“Na Idade Média dominou o conceito de unidade política e espiritual, pelo que,
na teoria, todos os homens estavam unidos a uma nova Roma, o Santo Império
Romano. Na prática, entretanto, o feudalismo, com toda a sua descentralização,
garantiu a segurança e a ordem nos períodos de caos. O renascimento das
cidades antes da Renascença criou cidades-estados fortes na Itália. O futuro na
Europa pertenceria, porém, à nação-estado como forma de organização
política. A Inglaterra, a França e a Espanha foram as pioneiras na formação
24

dessas nações-estados. A formação na Inglaterra se deu ao longo de uma


monarquia constitucional em que a soberania era dividida pelo monarca e pelo
parlamento. Os corpos representativos do povo na França e na Espanha se
tornaram tão poderosos como o Parlamento na Inglaterra; a França e a Espanha
se desenvolveram como nações-estados em que o soberano era absoluto. À
medida que as cidades cresciam e o comércio se desenvolvia, surgiu a classe
média, e ela procurava participar na vida política e religiosa.” (CAIRNS, 1995,
p. 217).

Assim sendo, além da Renascença, outro dado contributivo para o surgimento do


movimento era a situação política da Europa. A Igreja de então detinha grande parte
das terras européias e o Estado que estava se consolidando tinha interesse nesse ponto.
“Além de promover a pregação clara do evangelho, a Reforma moldou a sociedade
como um todo, inclusive o governo, a cosmovisão das pessoas e a cultura em todas as
suas manifestações” (SCHAEFFER, 2010, p. 251). Estamos diante de um movimento
que imprimirá profundas mudanças na sociedade. “A Reforma ocupou, e deve continuar
a ocupar, um legítimo e significativo lugar na história das idéias”. (McGRATH, 2007,
p. 15). Neste tópico faremos apenas um pequeno apanhado desse movimento. O motivo
da Reforma, na essência, é religioso. Contudo causará implicações sociais, uma vez que
o fermento religioso transforma a sociedade.

“A concepção da Reforma como um movimento originariamente religioso não


implica a compreensão de que esteve restrita a apenas esta esfera da realidade;
pelo contrário, entendemos que a Reforma foi um movimento de grande
alcance cultural, institucional, social e político na História da Europa,
posteriormente, em todo o Ocidente.” (COSTA, 2009, p. 19)

“A Reforma não foi nem pretendeu ser em primeiro lugar uma reforma da
sociedade apenas; nem mesmo unicamente uma renovação moral, a base
indispensável sobre a qual se constroem as relações humanas. Procurando
restaurar um Cristianismo fiel as suas origens, ela pretendia reproporcionar ao
mundo o conhecimento do ser humano, tal qual ele é em sua complexidade, e
sobretudo indicar a cada indivíduo as possibilidades de sua restauração, na
perspectiva de uma vida política co-participante e de relações econômicas
equitativas. Propunha-se dignificar os fundamentos originais da vida espiritual,
donde derivam os valores morais e cívicos imprescindíveis à boa marcha das
sociedades.” (BIÉLER, 1999, p. 50).
25

O aspecto social do movimento reformador é claramente sentido por causa do


envolvimento das massas. Desde os pré-reformadores pregadores o povo começou a ter
ouvidos para a pregação. Essa pregação evangélica cai em solo fértil que há muito
estava acostumado a rituais vazios e de difícil compreensão devido aos dogmas da
religião de então.

“Nunca será demais insistir-se de um ponto de vista sociológico, na nova


importância da pregação. Vicente Ferrer, Manfredo de Vercelli, Bernardino de
Siena, Oliver Maillard, Savonarola, deveram a sua celebridade ao ascendente
que exerciam sobre as multidões, que sucessivamente levavam a estremecer,
chorar e ter esperança... É notável e significativo que esta predicação tenha
tomado, muitas vezes, aspecto social.” (DELUMEAU, 1994, vol. I, p. 136,
137).

Embora a Reforma tenha sido um movimento, em sua essência, religioso, haveria de


reverberar dentro da sociedade transformações sociais. “A influência da Reforma sobre
a cultura não foi reservada a uma elite, mas envolveu todas as pessoas” (SCHAEFFER,
2010, p. 56). Os reformadores produziram obras religiosas que respingariam na
sociedade de então. Pelas biografias de tais reformadores percebemos serem homens
cultos, letrados, estudiosos, grandes oradores e acima de tudo influenciadores do meio
de então.

“Quanto à Reforma, na medida em que fez intensificar a leitura da Bíblia pelo


povo, auxiliou poderosamente a consolidar e difundir as línguas vernáculos.
Lutero foi, sem querer, o principal autor da unificação, pelo menos relativa, dos
falares alemães”. (DELUMEAU, 1994, vol. I, p. 48).

A Igreja Cristã estava sofrendo sua maior transformação desde o Édito de


Constantino. A partir dessa época a fé cristã já não era mais uma propriedade particular
de uma denominação religiosa. O trono papal deixa de ser visto como um poder
religioso a que todos devem obediência às cegas. É preciso lembrar que até então a
Igreja Católica Romana só estava trazendo medo para a sociedade, principalmente com
a venda das Indulgências. O que era ensinado para o povo era um comércio religioso
através da acuação. Terríveis males assolavam a Igreja Cristã a partir do Século XV:

“O declínio da vida monástica era indiscutível, Pico de Mirandola e Erasmo


estigmatizam a vida monacal, cujo modo de recrutamento é, muito
frequentemente, deplorável. Será preciso repetir as sátiras de Erasmo e de
Rabelais contra os religiosos? E o papel odioso que Margarida de Navarra dá
26

em tantos dos seus contos aos frades mendicantes? Por outro lado, dominicanos
e franciscanos esgotam-se em querelas mesquinhas... É verdade que o baixo
clero, por sua vez, também deixa muito a desejar... Aí encontramos
frequentemente padres cheios de brutalidade, envolvidos em querelas e dados
ao concubinato. E mais ainda: são pouco instruídos e muito pobres,
especialmente no campo, pois os beneficiários são absentistas e fazem-se
substituir por servidores a quem pagam o mínimo possível. É vulgar o padre ter
de trabalhar para viver; às vezes ‘vende’ os sacramentos. Os locais de culto
estão mal conservados, as bases da religião são mal ensinadas, os sacramentos
são pouco e mal distribuídos... Quanto mais se sobe nos escalões da hierarquia
maior parece o escândalo. Numa Roma corrompida pelo luxo do
Renascimento, os cardeais são, mais que nunca, os ‘sátrapas’ montados em
cavalos ajaezados a ouro, que pouco falta para que sejam também ferrados a
ouro... Que há de espantoso na impressão de caos dada por uma Cristandade
assim dirigida e enquadrada nas vésperas da Reforma?” (DELUMEAU, 1994,
vol. I, p. 124-125).

“A organização hierárquica, com suas exigências de celibado e obediência


absoluta ao papa, e a feudalização da Igreja Romana provocaram um declínio
na moral e na moralidade dos clérigos. O celibato contrariava os instintos
naturais do homem e as afirmações bíblicas em favor do casamento. Muitos
sacerdotes tornaram concubinas ou se perderam em casos de amor ilícito com
mulheres de suas congregações. Alguns tiveram que enfrentar o problema de
cuidar dos filhos nascidos dessas uniões e davam mais atenção a eles que a
suas tarefas clericais. Outros, especialmente durante a Renascença, gozaram
uma vida de luxúria. O feudalismo era ainda um problema porque a dupla
obediência ao papa e ao senhor feudal criava uma divisão de interesses em
muitas situações. Os clérigos dedicavam mais tempo às suas responsabilidades
seculares do que às suas tarefas de ordem espiritual.” (CAIRNS, 1995, p. 199).

A escala de valores era invertida. Isso, com certeza, fazia com que o povo também
dentro da sociedade, vivesse os relacionamentos deturpados. O amor ao próximo
deixava a desejar. “Desde o princípio a Reforma foi um movimento tanto religioso
quanto ético” (BAVINCK, 2012, p. 180).

“A amplitude da influência da Reforma em diversos setores da vida estava


implícita em sua própria constituição. Era impossível alguém abraçar a
Reforma apenas no campo da religião e continuar, em tudo o mais, a ser um
homem de uma ética medieval, com a sua perspectiva da realidade e prática
intocáveis” (COSTA, 2009, p. 20)
27

O impacto social de tudo isso no mesmo período da Renascença é, de certo modo,


quase indescritível. No entanto, o nosso trabalho procura mostrar um pouco dessa
poderosa influência. A Reforma veio para “adoçar e disciplinar os costumes”
(D´AUBIGNÉ, vol. II, p. 297). Todas as classes da época sejam camponeses, artesãos,
burgueses e nobres começaram a perceber o valor da mensagem religiosa. Eles próprios
já não eram considerados pelos reformadores uma classe imunda, pois cada um era peça
importante para a sociedade. As vocações eram diversas não sendo umas menos
espirituais do que outras. Essa mensagem agora vinha com um tom de autoridade junto
com autenticidade. Os reformadores estavam também conectados com a influência de
outras artes necessárias para que outros objetivos fossem alcançados como a
transformação da sociedade. Agora, a mensagem na novel Igreja Cristã não tinha um
cunho mercantil e muito menos misticista. A mensagem, além de contemplar as
verdades bíblicas, estava voltada para o cotidiano do camponês e do citadino. Haveria
de acontecer uma profunda influência no pensamento do cidadão que o levaria a ter
mais consciência quanto ao seu próprio valor diante da sociedade. Havia uma relação
com o “amor ao próximo” pregado pelo mestre do cristianismo: Jesus Cristo. Essa
relação iria causar profundas mudanças no seio da sociedade. Os reformadores estavam
imbuídos dessa causa. Eles mesmos procuravam serem exemplos de vida para os fiéis.
Veremos isto a partir de suas pregações, seus escritos, seus ensinos, seus atos e até
através de suas mortes.

Reconheceremos nos pensadores reformados, as bases de uma nova sociedade a partir


de seu pensamento religioso e sua vida piedosa. Acima da cultura individual de cada
reformador surgia a sua influência. Ela entra no domínio dos governos e das nações.
Elevou-se para lugares superiores cobrindo assim grandes extensões. Em pouco tempo
toda a Europa haveria de estar inflamada com o movimento.

“No princípio do século XVII, o reino da Boêmia, tendo na sua maior parte
adotado a Reforma, gozava de um lugar privilegiado no conjunto de territórios
governados pelos Habsburgos na Europa central: e o soberano gostava de
residir em Praga” (DELUMEAU, 1994, vol. I, p. 38).

“’O que importa reter aqui’, ajunta ainda Boegner, ‘é que ao lado do papa e do
imperador que disputavam na Idade Média o governo do mundo, a Reforma fez
despontar em cena um novo ator, aquele que, até então, era o galardão da luta
entre aqueles dois, o povo, ou mais precisamente os povos, as nações.’”
(BOEGNER apud BIÉLER, 1999, p. 65).
28

Voltando à época da Reforma Religiosa do Século XVI, de modo mais específico,


falaremos sobre o pensamento social de João Calvino, sua relevância e significados para
a época e desdobramentos futuros.

2.4 - JOÃO CALVINO

2.4.1 - Sua Biografia

Nascido na França em 10 de julho de 1509, em Noyon, na Picardia. Propagandista da


Reforma na França e na Suíça.

“João Calvino nasceu a uns 90 quilômetros ao norte de Paris, em Noyon,


Picardia, em 10 de julho de 1509. As gerações anteriores de sua família eram
de Pont-I’Evêque, uma vila próxima a Noyon. Seu avô era um barqueiro ou
tanoeiro (isto é, um fazedor de barris); e seu pai, Gérard, depois de migrar para
Noyon, que tinha uma catedral, duas abadias e quatro paróquias, se tornou o
tabelião e promotor da catedral (um equivalente eclesiástico do promotor civil).
Ele ascenderia à escala social do ofício eclesiástico, de tabelião a tabelião
apostólico e tabelião fiscal, até que, em 1497, se tornou bourgeois. Gérard se
casou com Jeanne Le Franc, filha de um dono de hospedaria. Assim como
Gérard, o pai de Jeanne acabara de se tornar bourgeois; mas também recebera
um assento no Conselho da Cidade e, conforme todas as informações
disponíveis tinha condições financeiras mais seguras. O casamento duraria
menos do que vinte anos. Jeanne morreu em 1515, havendo dado à luz a cinco
meninos. Além de João, havia Charles (o mais velho), Antoine e François, que
morreram jovens; e outro Antoine, que recebeu o nome de seu irmão falecido.
Três meninos e duas meninas sobreviveram até se tornarem adultos. As
meninas, Marie e sua irmã (cujo nome é desconhecido) nasceram da segunda
esposa de Gérard. João não tinha 6 anos de idade (talvez 4 ou 5) quando sua
mãe faleceu. Aos 11 ou 12 anos, foi enviado a Paris para estudar no Collége de
La Marche e preparar-se para ingressar posteriormente na Universidade de
Paris. Ali, João Calvino estudou gramática, incluindo latim, sob a instrução de
um dos maiores professores de latim da época Mathurin Cordier (a quem, mais
tarde, Calvino dedicaria seu Comentário sobre I Tessalonicenses). De lá, João
foi à escola do monastério, em Montaigu (um estabelecimento destinado a
preparar jovens para o sacerdócio)... Montaigu serviu como escola preparatória
para a Universidade de Paris e o diploma de Bacharel em Artes, que conduziria
ao estudo de Teologia.” (THOMAS In PARSONS, 2010, p. 43-45).
29

O estabelecimento de Calvino foi na Suíça, especificamente em Genebra e ali pode


realizar sua obra. É bom entender que nesta época a Suíça estava no seguinte estado:

“Também a Suíça confirmou a sua originalidade, quase atingindo, a partir do


fim do século XV, as fronteiras atuais. Os seus soldados fizeram tremer a
Europa no tempo de Carlos, o Temerário. A Suíça foi um dos centros da
Reforma. A Paz de Vestefália separa-la-á oficialmente do Império.”
(DELUMEAL, 1994, Vol. I, p. 33)

A influência de Calvino provocou a origem democrática da autoridade religiosa.


Suprimiu o cerimonialismo da Igreja Católica Romana; negou a tradição, admitiu a
doutrina da predestinação, reduziu os sacramentos ao batismo e a eucaristia.

Calvino é considerado um dos mais eruditos reformadores. Escreveu a “Instituição


Cristã”, considerada um das obras mais notáveis da antiga literatura francesa. O que
Lutero foi para a língua alemã, Calvino foi para a língua francesa. Foi profícuo escritor,
e fez comentários de quase todos os livros da Bíblia.

Calvino fora perseguido na França após ter redigido a “Instituição Cristã”. Persuadido
por Guilherme Farel, francês que implantara a reforma de Zwinglio em Genebra,
Calvino resolve permanecer na cidade junto com Farel. A partir de então, essa cidade
passa a ser a principal morada de João Calvino. Nela ele estabeleceu e aplicou todos os
seus princípios reformadores. Estabeleceu leis, abriu escolas, estimulou o comércio
exterior, cuidou diaconalmente dos necessitados, pregou e ensinou.

2.4.2 – Sua Pregação

A pregação de João Calvino decorre de seu raciocínio teológico. Sua teologia


marcante da soberania e glória de Deus são pontos fortes que norteiam todo o seu
pensamento. Pontuaremos aqui refletir sobre sua pregação considerando os aspectos
humanísticos e sociais. As idéias a favor do bem estar dos homens estão presentes em
suas obras. Isto se deve ao seu aprendizado com as Escrituras onde o amor ao próximo é
evidenciado pelo próprio Deus. Calvino sempre foi cuidadoso em expor as Escrituras de
modo que evidenciasse o grande amor de Deus pelos homens. “A pregação é um
instrumento para a consecução da salvação dos crentes” (CALVINO, apud COSTA,
2006, p. 226). Calvino foi um dos pregadores mais profícuos e abundantes do seu
tempo, senão o mais profícuo e abundante. Impressiona a quantidade de sermões
pregados e escritos pelo reformador. “Durante sua vida, Calvino escreveu mais do que a
30

maioria das pessoas é capaz de ler. Além das Institutas, dos comentários e dos sermões,
ele escreveu numerosos folhetos e tratados”. (GEORGE, 1994, p. 188). Uma das
grandes preocupações de Calvino, baseado nas Escrituras, era conscientizar os fiéis da
vida cristã autêntica. Isso ele procurava fazer através da pregação. O púlpito deveria ser
bem usado e o pregador comprometido com os ensinamentos das Escrituras. “Um
pregador do evangelho, portanto, deve ter como sua meta, na realização de seu ofício,
oferecer a Deus as almas purificadas pela fé” (CALVINO, apud COSTA, 2006, p. 229).
No entanto, na pregação do evangelho, é indispensável a ação poderosa do Espírito
Santo. O mesmo Espírito que inspirou a Palavra nos capacita para expô-la de modo a
interpretá-la aos homens. “O ‘Espírito’ está unido à palavra, porque, sem a eficácia do
Espírito, a pregação do evangelho de nada adiantará, mas permanecerá estéril”.
(CALVINO, apud COSTA, 2006, p. 226).

Através da pregação, Calvino ensinava os fiéis da época a terem comprometimento


com o bem estar da sociedade. O púlpito não poderia ser uma falação estéril onde não
havia qualquer tipo de finalidade. Assim como a voz de Deus (vox Dei) trouxe do nada
todas as coisas, assim também o púlpito deveria ser producente. “o fiel não é chamado a
deixar o mundo e a ingressar em um monastério, mas a ingressar plenamente na vida do
mundo e, assim, transformá-lo” (McGRATH, 2004, p. 263). Uma das formas que
Calvino usou para denunciar os males sociais da Genebra de sua época foi através do
púlpito, procurando levar os líderes civis a tomarem as providências para a assistência
aos menos favorecidos. “Calvino era antes de tudo um pregador e, como pregador, via-
se a si mesmo com um professor da Bíblia... Ele considerava a pregação o seu trabalho
mais importante”. (BOYCE apud FERREIRA, In:
https://sites.google.com/site/espacodabiblia/artigos-1/joao-calvino-e-a-pregacao-das-
escrituras - acessado em 01 jan. 2015. A ação de João Calvino através da pregação em
Genebra trouxe inumeráveis benefícios para aquela cidade. Genebra, antes de Calvino,
era uma cidade onde faltavam inúmeros recursos para a população que vivia em miséria
intelectual, moral e espiritual. Faltava um toque espiritual para a transformação social.
Calvino foi esse pavio que deu início às transformações sociais necessárias para o
momento da cidade. Sua atuação também se deu junto aos poderes civis. Mas todo o
trabalho era gerenciado pelos pastores que ficavam a cargo de ensinar as Escrituras.

A pregação de João Calvino tinha também como alvo alcançar o maior número de
civis e por isso ele se dirigia aos nobres, príncipes e reis. Neste caso Calvino lembrava a
31

responsabilidade de tais cargos, uma vez que o governo civil era amparado pelas
Escrituras. O governo civil deveria demonstrar um cuidado especial para com os
governados. A justiça, equidade, o valor do cidadão não poderiam ser tratados com
desprezo pelo governo. Assim Calvino se expressa falando ao rei:

“Ora, é ofício vosso, Senhor, não desviar nem vossos ouvidos, nem vossa
coragem de uma defesa tão justa, principalmente quando é questão de coisa de
tão grande monta, isto é, como a glória de Deus será mantida sobre a terra;
como sua verdade reterá sua honra e dignidade; como permanecerá o reino de
Cristo em sua integridade e plenitude. Matéria digna de vosso ouvido, digna de
vossa jurisdição, digna de vosso trono real! Este pensar faz um verdadeiro rei:
se ele se reconhecer ser verdadeiro ministro de Deus no governo de seu reino;
ao contrário, porém, aquele que não reina com esta finalidade de servir à glória
de Deus, não exerce reino, mas, pilhagem... Ora, muito se engana quem espera
longa prosperidade em um reino que não é governado pelo cetro de Deus, isto
é, por sua Santa Palavra, pois que o edito celeste não pode mentir e ele declara
categoricamente que o povo será dissipado quando o Profeta faltar - Pv 29.18”
(CALVINO, apud BIÉLER, 2012, p. 124).

O alvo da pregação de João Calvino também se estende ao poder temporal. A sua


teologia contemplava o homem com um ser integral, onde, corpo e espírito estão sob os
cuidados de Deus. O legado deixado pelo Reformador imprimiu reformas estruturais na
pequena Genebra, no entanto outros estudantes e trabalhadores da Europa viriam até
Genebra e aprenderiam com as transformações ocorridas. Quanto a Genebra, Biéler
comenta:

“E como a igreja antiga partilhava com os magistrados do exercício do poder


temporal, não é a vida eclesiástica somente que deveria ser reorganizada, pelo
contrário, a própria cidade em seu todo. Se não se queria cair na anarquia ou
sofrer a tutela estrangeira dos bernenses, que buscavam por todos os meios
apossar-se do antigo poder episcopal, impunha-se realizar com a máxima
presteza uma obra, a um tempo, eclesiástica, moral, social e política. Só um
espírito de excepcional envergadura poderia inspirá-la e dirigi-la. Um conjunto
verdadeiramente providencial de circunstâncias faz aparecer o homem de quem
Genebra precisa nesse momento crucial: João Calvino” (BIÉLER, 2012, p.
132).
32

Assim Calvino reage diante de toda a desordem seja de ordem espiritual ou social, já
que, para o bem estar da sociedade, deve-se combater o mal que é alimentado por
práticas antigas e viciosas. Genebra experimenta uma revolução até nos costumes:

“Foi decidido que se faria uma inquirição acerca das insolências e os maus
costumes que lavram por sobre a cidade, e que se diligenciaria para que bons
costumes houvesse na cidade, e que se viva segundo Deus. Proíbe-se,
especialmente, cantar cantigas chulas; jogar jogos de azar; ter, no domingo,
durante o sermão, qualquer espécie de posto comercial aberto, ou de apregoar
nas ruas a venda de comestíveis; conservar em casa imagens e ídolos.”
(RILLIET apud BIÉLER, 2012, p. 137).

Ainda falando sobre Genebra, lembramos do ínterim que passou Calvino em


Estrasburgo depois de ter sido expulso de Genebra em 1538. Até então a pregação de
João Calvino vinha tendo uma sequência, trazendo ensinamentos e paz aos reformados
genebrenses. Continuando a agir de forma bastante ética, quando Calvino retornou à
Genebra, reiniciou a pregação no mesmo versículo onde havia parado, como nos conta
Biéler:

“No domingo seguinte à sua chegada, Calvino recomeça a pregar; em vez do


discurso sensacional que os ouvintes aguardam com impaciência, em vez de
vangloriar-se da vitória de seus partidários e de denunciar a inútil agitação de
seus inimigos, nenhuma palavra profere quanto ao passado; após breve
definição de suas funções e encargos, começa a exposição da Escritura no
mesmo versículo onde havia parado quando de seu banimento”. (BIÉLER,
2012, p. 150).

Calvino, em suas pregações, sempre teve em mente um ideal humano baseado em


fundamentações da fé evangélica. Sempre o encontramos valorizando o ser humano tal
qual Deus valoriza e ama sua criação. O ser humano tem valor. Há grandes
possibilidades de se viver uma sociedade fraterna. Para Calvino a vivência fraterna em
Igreja seria uma extensão para se viver em sociedade. Tudo o que contribui para a
proliferação do mal na sociedade deve ser cortado pela raiz. Isso pode ser visto na
pregação de João Calvino sobre João Batista:

“João Batista não somente deu uma regra a todos sem exceção, mas ainda,
quando os cobradores de impostos e os milicianos vieram ter com ele, lhes
declara o que era próprio ao estado de cada um. Ora, fala-se especialmente dos
cobradores de impostos e dos milicianos para mostrar que, em Nosso Senhor
33

Jesus Cristo, a porta da vida e da salvação está aberta a todos. Se há gente no


mundo que seja desregrada e de quem se possa esperar bem pouco, são os
milicianos, que se permitem muito de licença, que são dissolutos e
descomedidos em todo o seu viver. Pois que, se eles se vendem por dinheiro
contado e fazem de seu viver objeto de comércio, é de presumir-se que sejam
meio feras brutas, porquanto um homem tem de ser desprovido de humanidade
quando, em vez de gerir seus negócios, em vez de aplicar-se a algum trabalho
honesto e legítimo, corre atrás de um soldo a quem mais lhe dê. E sob que
condição? Para matar e ferir ou, então, para ser morto ele próprio. E, ainda,
muitos serão tomados de avareza e se farão indivíduos preocupados com lançar
mão de tudo que lhes será possível, ao invés de contentar-se com o que Deus
lhes tenha dado, e, em gerindo-o, sustentar-se pacificamente em suas casas.”
(CALVINO, apud BIÉLER, 2012, p. 173).

Outra característica da pregação de João Calvino estava na capacidade didática.


Usava-a para ensinar. Dar direção ao cidadão. Procurava deixar os assuntos relativos à
Igreja e ao governo civil claros. Sabia separar as funções de cada cidadão em meio à
sociedade das funções dos magistrados. E, como sempre, usava as Escrituras para
ensinar todos os pormenores que apareciam. Um bom gerenciamento de todas as
responsabilidades do cidadão dentro da sociedade contribui para o bem comum. Em
determinado contexto, em Genebra, Calvino prega sobre a paciência que deve ter um
cristão com os incrédulos. Calvino era contrário à defesa da fé cristã pela violência.
Sociedade assim não pode subsistir:

“Eis por que tenho dito que ninguém pode usar de força e de violência, senão
desde que tenha autoridade obtida daquele a quem ela pertence.
Consequentemente, outros não há que possam fazer uso das armas senão os
reis, os príncipes e magistrados, e com os quais também se possa unir. Eis aqui
um artigo que nos deve ser estabelecido, pois, que aconteceria se, em sofrendo
alguma injúria, cada um se lançasse em campanha? Horrível confusão haveria
por toda a parte. Ademais, São Paulo, para manter-nos como se blindados e
para exortar-nos à paciência, cita o que se diz no cântico de Moisés: É a mim
que pertence a vingança, diz o Senhor. Em suma, pessoas privadas não se
devem apenas abster de toda violência, mas ainda precisam ter um ânimo
cordato para sofrer quando a Deus apraz humilhá-los...” (CALVINO apud
BIÉLER, 2012, p. 176).

De igual modo, Calvino não poupou em suas pregações e sermões, combatendo os


pecados relativos às transações comerciais da época. O despontar do século XVI é
34

marcado por desajustes na economia da Europa. Genebra é também assolada com a alta
dos preços e a carência de víveres. Diante de tais fatos desenvolve-se nas pessoas da
época atitudes nada éticas, para ganhar dinheiro, como os jogos de azar e de toda e
qualquer natureza. Tudo era motivo para se jogar e apostar, inclusive o sexo dos recém-
nascidos. Calvino arrazoou em suas pregações contra tais atitudes e principalmente
usando as Escrituras contra o perigo das riquezas.

Assim percebemos o viés social em grande parte da pregação de Calvino. Esse viés é
no sentido de proteção e equilíbrio da sociedade. No nosso entendimento o cidadão era
desafiado a viver uma vida que contribuísse para o desenvolvimento equilibrado da
sociedade. Calvino sustentava que os valores espirituais aprendidos deveriam aparecer
na sociedade. Seu objetivo era também preparar vidas bem formadas que comandariam
com ética as instituições, sejam elas públicas ou privadas. A aplicação do texto dos
Ensinos do Monte do Senhor Jesus de que o cristão deve ser “sal e luz” é uma realidade
pregada por João Calvino. O cidadão sendo “sal e luz” é agente transformador da
sociedade.

“Mas, os Reformadores eram homens de ação e não somente de discurso.


Tomemos como exemplo a ação de Calvino em Genebra. Persuadido por
Guilherme Farel, Calvino se deixa ficar em Genebra para auxiliar nas reformas
necessárias. Logo ficou claro que, para ele, isto incluía ir além das reformas
eclesiásticas. O Hospital Geral, fundado por Farel, dá assistência médica
gratuita aos pobres, órfãos e viúvas, com médicos de plantão pagos pelo
Estado. É criada a primeira escola primária obrigatória da Europa. Os
refugiados chegados a Genebra recebem treinamento profissional e assistência
médica e alimentar, enquanto se preparam para exercer uma profissão. Os
pastores intercedem continuamente diante do Conselho de Genebra em favor
dos pobres e dos operários. O próprio Calvino intercedeu várias vezes por
aumentos de salários para os trabalhadores. Os pastores pregavam contra a
especulação financeira e fiscalizavam parcialmente os preços contra a alta
provocada pelos monopólios. Debaixo da influência dos pastores, o Conselho
limita a jornada de trabalho dos operários. A vadiagem é proibida por leis:
vagabundos estrangeiros, que não têm meios de trabalhar, devem deixar
Genebra dentro de três dias após a sua chegada. E os vagabundos da cidade
devem aprender um ofício e trabalhar, sob pena de prisão. O Conselho institui
cursos profissionalizantes para os vadios e os jovens, para que eles possam
entrar no mercado de trabalho. E, finalmente é digno de nota que havia uma
vigilância da parte de Calvino e demais pastores de Genebra contra a má
35

administração pública. Houve inclusive o caso de um funcionário corrupto que


foi despedido por influência de Calvino.” (LOPES in
www.mackenzie.br/homilias_sal_terra_luz_mundo.html, acessado em 05 mai.
2015).

2.4.3 – Seu Pensamento Social

Dentre todos os reformadores João Calvino foi o que mais colaborou com reformas
sociais. Naturalmente todo o seu pensamento social decorre de sua teologia bíblica, da
qual retira fundamentos e princípios para uma sociedade moderna e desenvolvida. No
contexto de sua imensa obra escrita encontra-se também uma grande quantidade de
material que corrobora seu pensamento social. Não só há o legado escrito como também
o exemplo de vida deixado pelo reformador no que tange ao compromisso social.

‘... o calvinismo não pode ser limitado à soteriologia; ele afeta todas as
questões da igreja, em especial o culto e a espiritualidade. De fato, como o
próprio cristianismo o faz, o calvinismo se aplica a toda a vida, incluindo a
política, a economia, a arte e a arquitetura. (...) O calvinismo é uma
cosmovisão que molda e instrui a nossa maneira de lidar com toda a vida. (...)
O calvinismo ressoa, de modo profundo, a verdade bíblica; aborda todas as
áreas da vida e do pensamento humano”. (HAYKIN In BEEKE, 2012, p. 9-10).

O seu lugar de partida para transformações sociais ocorreu na cidade Suíça de


Genebra, com aproximadamente treze mil habitantes. Essa cidade em meados de 1536
vivia uma vida desorganizada, mas já simpática à Reforma e o famoso pregador
Guilherme Farel insiste para que Calvino tome a direção da cidade. Calvino tomou sob
seus ombros a árdua tarefa de provocar mudanças em Genebra, cidade que carregava na
sua bagagem histórica um passado de lutas contra a tirania déspota de um poder civil
dominado pelo poder eclesiástico, sem autoridade moral, sem calor humano e sem
decência. Uma Genebra que se tornara refúgio de perseguidos que para lá se dirigiam de
várias partes da Europa em busca de liberdade de crença. Isso ocorre por um tempo,
pois, logo após, seriam eles (Calvino e Farel) expulsos da cidade, pois os habitantes
daquele local não estavam dispostos à Reforma nos moldes de Calvino. No entanto,
mais tarde, em 1541, foram novamente chamados para dirigirem a cidade e assim
iniciaram a grande Reforma, cujos efeitos terão consequências além do território de
36

Genebra. Devido à extensão de seu trabalho, iremos dividir seu pensamento social em
três aspectos: educacional, político-administrativo e assistencial.

2.4.3.1 – Aspecto Educacional

Juntamente com Martinho Lutero, Calvino foi um dos propulsores da educação


pública. “Calvino foi o pai da educação popular, o inventor do sistema da escola
pública” (BANCROFT, apud SCHAFF, 1963, p. 515). É verdade, se a observação se
aplicar aos descendentes espirituais de Calvino, na América e nos países calvinistas da
Europa Ocidental. Como prova de sua grande causa à educação, João Calvino funda em
1559 a Academia de Genebra, futura Universidade de Genebra. Era impossível para
Calvino uma sociedade desenvolver sem o estabelecimento de escolas e pesquisas.
Nossa observação é que Calvino foi para a língua francesa aquilo que Lutero foi para a
língua alemã.

“Uma vez livre das lutas políticas internas, e após haver levantado o edifício
eclesiástico e disciplinas da Igreja, Calvino procura, por sua vez, dar à Reforma
uma escola superior encarregada da educação acadêmica dos protestantes da
língua francesa. Humanistas e reformadores, ainda que divididos em mais de
um ponto, estão de acordo, no entanto, em declarar indispensável à formação
do homem e do cristão em ensino tão completo e tão avançado quanto possível.
[...] Cabe lembrar que o primeiro cuidado de Calvino, chegado a Genebra em
1536, foi dotar a Igreja de um bom catecismo e, depois, isso nunca mais se
afastou de suas preocupações pedagógicas; para ele, a escola constitui parte
essencial de uma organização eclesiástica eficaz e não cessa de intervir junto
aos Conselhos para melhorar as próprias condições do ensino e o Estado nos
locais escolares”. (BIÉLER, 2012, p. 189).

O protestantismo num todo insistiu, desde o começo, na educação universal. Na Idade


Média a educação ficava a cargo das escolas catedralícias e abaciais e eram destinadas
apenas para pouco preparo do clero. É inegável que a instrução de um povo o leva a um
maior desenvolvimento social. As relações entre as pessoas são mais respeitosas e a
convivência gera progresso. No caso, ainda Calvino procurara mestres que fossem
reconhecidos pela excelência no ensino. A dedicação a essa causa era mola mestra para
uma sociedade reconhecida por qualidades que levassem o cidadão a ser responsável e
consciente de seus direitos e deveres.
37

O cidadão a partir de seus estudos não iria apenas visar ao bem próprio, mas sim da
coletividade. Começam então, no século XVI, a surgir novas formas de concepção da
sociedade que até então não se viam. As relações sociais na Idade Média eram
eminentemente baseadas em conquistas militares e de abuso da propriedade alheia, tanto
por parte do governo como do clero. Quando Calvino chegou a Genebra a cidade não se
diferenciava muito das cidades medievais do início do século XVI no que tange à
educação.

“A educação genebrina antes de Calvino obedecia ao mesmo estilo medieval


como em toda a Europa, havia um colégio fundado em 1428 com uma
finalidade de preparar jovens para o clero. Conta nos André Petitat (1994) que
seu currículo e a pedagogia que o orientava eram puramente medievais. Em
1559, Calvino e Teodoro de Béze o restaurou tornando público o ensino deste
colégio para o serviço do Citoyen(cidadão). Foi deste o modelo que se
espalhou para a constituição de colégios protestantes na Europa dos séculos
seguintes. De acordo com os seus interpretes, Calvino trazendo na bagagem a
experiência de docência no sistema educacional de Strasburgo, quando ali
esteve exilado, ao se fixar em Genebra, dedicou grande parte de suas energias a
lida educacional, criando escolas e reformando o ensino. Mesmo sem dedicar
um texto específico à educação, foi nesse campo em que sua Reforma teve
sucesso mais duradouro, haja vista as repercussões do calvinismo nos países da
Europa ocidental, e na América do Norte.” (Disponível em:
http://revistas.pucsp.br/index.php/nures/article/viewFile/5515/3942, p. 3-4,
Acessado em 10 out. 2014).

Considerando que o Renascimento trouxe para a Europa a paixão pelas letras e pelos
clássicos, Calvino, como homem de seu tempo, trouxera novos ares para a educação.
Aliou o conhecimento de Deus ao conhecimento do homem. São idéias que irão nortear
o caminho da educação reformada pelos futuros tempos e épocas na Europa Ocidental e
outras regiões. Acima de tudo é formar o cidadão útil para a sociedade com base nos
ensinos escriturísticos e, para isso, usando do domínio das línguas clássicas e nas
humanidades (artes e ciências), a fim de que o mesmo pudesse se tornar o construtor de
um novo mundo. Para Calvino os Ministros tinham a função de docência em todas as
fases da educação. Isso levaria os alunos a serem bons cidadãos para futuramente
tomarem parte do governo civil e no trabalho do dia a dia. A oportunidade de se educar
jovens visa a uma necessidade futura de produção cultural, bem como aplicações nos
diversos setores da sociedade. Em Genebra, Calvino implantou uma educação não só
38

para o seu tempo, mas também para o futuro. Genebra seria modelo de educação para a
sociedade e para uma nova realidade de cidadania. A visão desse modelo é percebida
quando a instrução passa a ser vista como uma obrigação para todos os cidadãos e, é
dever da Igreja e do Estado fomentar esse aspecto na sociedade. Assim sendo, Calvino
reestrutura o velho colégio de Genebra, que, como antes tínhamos dito, se tornou a
Universidade de Genebra. Ali incluíram-se as gramáticas das línguas, Grega e Latina, o
estudo da História e da Filosofia.

As Igrejas se tornaram responsáveis pelas escolas primárias conhecidas como “escola


de paróquias”. Toda essa estrutura se tornou conhecida na Europa de então e viriam
pessoas de várias partes da Europa para estudar em Genebra. A educação era
efetivamente para a preparação do cidadão para as diversas atividades na sociedade. Na
sua obra magna “As Institutas”, encontramos:

“Seguem-se as artes, sejam as liberais, sejam as manuais, em aprender as quais,


por isso que nos é a todos inata certa aptidão, também nelas se evidencia o
poder do humano acúmen. Mas, se bem que não são todos aptos para aprendê[-
las] a todas, todavia, é marca bastante segura da energia comum, que [não] se
acha quase ninguém cuja proficiência em alguma arte se não evidencie. Nem se
encontra à mão a só energia a capacidade para aprender, mas também para
inventar algo novo em cada arte, ou para aperfeiçoar e burilar [o] que hajas
aprendido de outrem que veio antes [de ti]. [...] Logo, estas evidências atestam
claramente que é, de natureza, instilada nos homens a universal compreensão
da razão e da inteligência. Todavia, [este] bem é tão universal que deva cada
um nele reconhecer a peculiar graça de Deus a seu favor. [...] Com efeito, a
invenção ou o ensino sistemático das próprias artes, ou [seu] conhecimento
mais íntimo e mais eminente, que é próprio de poucos, por certo que não é
sólida prova da perspicácia universal. Contudo, porque atinge indistintamente a
piedosos e a ímpios, com razão se conta entre os dons naturais” (CALVINO,
1985, vol. II, p. 31-32).

Esse texto mostra-nos que toda a teologia de Calvino estava em sintonia com a
capacidade humana de construções, invenções, transformações geradas pelo ensino e
consequentemente pela educação. As transformações que haveriam de acontecer na
sociedade eram geradas pela educação do povo e isso precisava ser consolidado. Essa
consolidação viria com a criação de escolas e através das artes na academia. O ensino
deveria ser sistematizado e bem organizado. O indivíduo produziria os benefícios para a
sociedade a partir do estudo. As instituições de ensino deveriam ser priorizadas pelas
39

Igrejas e pelo governo. O desenvolvimento do bem estar da sociedade estava


intimamente ligado a programas de educação do cidadão. A construção de um mundo
melhor passaria pelo estágio da educação e para Calvino esse benefício foi dado tanto
para piedosos como para ímpios, através dos dons naturais. No que tange à educação e
ao ensino, não pode haver discriminação.

“Calvino acreditava na religião inteligente, fruto do intelecto, tão bem como


das emoções. Dizia ele que um dos mais tenazes inimigos da verdadeira
religião é a ignorância. Calvino insiste que a ignorância é a mãe da heresia. [...]
Calvino desenvolveu uma perspectiva de vida que reconhecia os valores da
razão e da inteligência humana. No sentido profundo e total, o propósito da
Civitas Dei – o Reino de Deus – é Educação, e atende a todas as atividades do
cidadão, mesmo que seja velho, na sua maneira de pensar, de agir por meio de
seus atos. O cidadão está sendo educado na mais fecunda glorificação de Deus;
o seu professor é Deus pela sua Palavra. [...] Não há, para Calvino, uma
separação entre o ensino, quer seja de ciência, língua e história, é o ensino
religioso, porque todo o ensino visa o aperfeiçoamento do homem para a sua
vocação, e essa vocação ou chamado divino tem por fim o cumprimento de um
papel na sociedade na qual o indivíduo se realiza, pois, além das bênçãos que
recebe para si na vida cotidiana, atinge o mais alto propósito da existência
humana – a Glória de Deus” (FERREIRA, 1985, p. 183-184).

Com certeza a filosofia educacional de João Calvino abrangia um universo


extremamente amplo. Trabalhava para que não houvesse discriminação, não houvesse
nada que impedisse a disseminação da cultura e que não houvesse ignorância. Nesse
aspecto novamente Calvino era um homem do seu tempo, pois a Renascença surgiu
lutando contra toda a forma de desmerecimento da ciência. Através da obtenção dos
títulos escolares, para Calvino, era dever do cidadão desempenhar funções civis, com a
maior eficácia possível.

“Calvino, no entanto, vê a escola num plano mais elevado ainda. Não se trata
apenas de um instrumento para aperfeiçoamento da sociedade, como um fim
em si mesmo, mas de um meio para alcançar a mais alta finalidade da vocação
humana, a glória de Deus. Por isso, cuida com carinho da educação nos seus
diferentes graus, de modo que pudesse aqui na terra preparar para uma vocação
que transcende às finalidades puramente terrenas. [...] Calvino quis fazer da
educação um instrumento hábil para produzir indivíduos capazes de servir na
vida pública ou qualquer outra função, com a consciência do dever e sentido de
40

vocação, tudo para a mais alta finalidade – a glória de Deus”. (FERREIRA,


1985, p. 188-189).

Toda a paixão de Calvino pela educação decorria de toda a sua paixão pela glória de
Deus. Fazia bem feito tanto uma coisa como outra. Daí todos os seus escritos seguirem
uma linha culta e com profundidade de pesquisa. Como já citamos antes, domínio das
línguas e dos clássicos fazia parte de sua produção. É necessário se esmerar nos estudos
para interpretar bem os escritos do reformador.

“Calvino só poderia compreender um Estado sólido e bem dirigido, cumprindo


a sua tarefa de zelar pelo bem estar dos cidadãos, em todos os sentidos, sob a
direção de homens que, no exercício de suas funções, dotados do melhor
preparo possível, fossem possuídos de um senso de missão a eles confiada por
Deus”. (FERREIRA, 1985, p. 194).

A sociedade seria beneficiada com essa nova postura sobre educação. A boa formação
de cidadãos é fruto de uma formação escolar. E isso desde criança, passando pelo
estágio da juventude e depois uma formação acadêmica por excelência. O preparo de
bons cidadãos depende do bom preparo nas carteiras escolares. Para isso, Calvino em
Genebra, sempre esmerou-se na escolha de bons e preparados mestres para o seu povo.
No que tange à Academia fundada por Calvino, foi ele apenas professor.

“Calvino não quis ser o diretor da escola; foi o seu fundador e professor de
Teologia. Embora enfermo, cuidou das construções e procurou dotar a
Academia do melhor corpo docente que pode encontrar. Aproveitou alguns que
tiveram de abandonar o seu posto em Lausanne, acolheu aqueles bons
professores que eram perseguidos por causa da Reforma. Mathurin Cordier, seu
antigo professor de Latim e Francês em Lamarche, integrou o corpo docente.”
(FERREIRA, 1985, p. 195).

Calvino e Theodore de Beza também eram professores. Para Calvino o ensino não
poderia ser jogado às traças. Não poderia ser leviano. A responsabilidade de formar
pessoas para os diversos postos na sociedade era levada muito a sério. Afinal, homens
comandariam a sociedade, o estado, os cargos públicos. Havia necessidade de um
desenvolvimento da sociedade, no sentido de ser desarraigada da ignorância, das
superstições da Idade Média. Ainda sobre a Academia:

“Dividiu Calvino o programa da sua Academia em dois cursos. A Schola


Privata, baseada essencialmente na gramática, lógica e retórica, além de
41

história e de escritores latinos e gregos. A ênfase na Schola Privata era na


leitura corrente, na fala com fluência, na escrita com elegância. Não havia
preocupação com a matemática, nem com a geometria, ou estudo de música,
como no antigo quadrivium. Os Salmos eram cantados como única parte da
música. Depois vinha a Schola Publica, em que a ênfase era na oratória e
retórica. Os discursos de Cícero, com o De Oratore, Filosofia Moral, Poesia. O
Latim e o Francês deviam ser sabidos corretamente pelos alunos. Calvino
prometeu no início que a sua Academia teria uma faculdade de Medicina e uma
de Direito. A Medicina veio antes do seu falecimento, Direito só depois de sua
morte.” (FERREIRA, 1985, p. 195).

“No que respeita às disciplinas jurídicas (e econômicas), ´impõe-se-nos


confessar o que se segue: é que, sendo o homem dotado de natureza gregária, é
também inclinado de natural afeição a entreter gerais relativas a uma
honestidade e ordem civil impressas no entendimento de todos os homens. [...]
No que concerne às artes, sejam mecânicas, sejam liberais, até onde temos
certa aptidão para aprendê-las, nisso se evidencia que, neste aspecto, há certa
capacidade no entendimento humano. Ainda mais, não apenas há a capacidade
e facilidade de aprendê-las; vemos também que cada qual, em sua arte,
frequentemente inventa algo de novo ou aperfeiçoa e incrementa o que
aprendeu de outros´. Em todas estas disciplinas, as próprias contribuições dos
cristãos não são superiores às dos outros, porque Deus se serve do labor de
todos para fazer viver e enriquecer as sociedades. ´Entretanto, não há esquecer
que todas essas graças são dádivas do Espírito de Deus, que ele distribui com
quem bem lhe parece, para o bem comum do gênero humano´. Uma vez que
nenhuma dessas dádivas deve ser negligenciada, de mister é votar a máxima
atenção à educação intelectual e prática”. (BIÉLER, 2012, p. 532-533).

Para a Academia vieram muitos estudantes de várias partes da Europa. A sua


modernidade contribuiu para a sua fama. O compromisso de seus professores, bem
como uma exigente grade curricular, levou o nome da Academia de Genebra para outros
reinos. A sociedade então renascentista via a formação de novos cidadãos para uma
nova sociedade. Os tempos exigiam uma nova mentalidade diante das transformações
sociais que estavam ocorrendo no período da Renascença do Século XVI.

“Aliás, a reforma que Calvino se propôs realizar em Genebra não era um plano
restrito à pequena cidade de Leman, mas algo que devesse ser levado a todas as
partes. A Academia se tornou um instrumento hábil e indispensável à infra
estrutura deste movimento colossal. Warfiel, no seu ´Calvino e Agostinho´,
afirma: ´Chamamo-lo o Reformador de Genebra, mas reformando Genebra pôs
42

ele em exercício forças que estão ativas e operantes até o dia de hoje´. E, dentre
estas forças, podemos destacar uma nova filosofia de educação aliada a uma
nova filosofia de vida, ambas centralizadas na doutrina da educação e vocação
cristã e que foram transmitidas pela escola através de lideranças que essa
escola espalhou pelo mundo inteiro” (FERREIRA, 1985, p. 197).

A influência da educação calvinista se espalhou para vários países da Europa e


futuramente iria além da Europa. Começamos com John Knox, o Reformador Escocês,
que levou para sua pátria os princípios de ensino calvinista após, ele próprio, ter
estudado na Academia de Genebra. A França fora tremendamente influenciada pelos
protestantes através dos Huguenotes que eram adeptos da doutrina calvinista. João
Milton na Inglaterra ensinou a educação nos moldes calvinistas. Universidades como
Oxford e Cambridge seguiam o modelo calvinista. Na Alemanha temos Francke cuja
filosofia educacional assemelha-se à de Calvino. Na Holanda a Universidade de
Leyden, que se tornou famosa na Europa, foi fundada por professores calvinistas.
Encontramos na Alemanha também a Universidade de Heidelberg com forte influência
calvinista. A partir da colonização da América do Norte, os puritanos levaram todo um
sistema de administração e educação protestante para a novel colônia. Sendo assim, o
modelo calvinista, a partir dos puritanos, foi implantado na Nova Inglaterra. Ali
surgiram grandes Universidades tais como Havard, Yale e Princeton, que no seu início
pautaram pelo modelo calvinista de ensino, uma vez que seus fundadores eram
calvinistas. Chegou até aqui no Brasil a influência calvinista através de pregadores que
cruzaram o oceano e fundaram instituições de ensino tais como a Universidade
Mackenzie em São Paulo e o Instituto Gammon em Lavras, Minas Gerais. Para se ter
uma idéia do contraste entre a educação protestante e a católica, veja o texto:

“Seria difícil, senão impossível, encontrar uma encíclica papal, publicada antes
do período da Reforma ou durante ele, que defendesse a educação geral, ou
uma encíclica endereçada, em qualquer tempo, a países característicamente
católicos romanos, chamando a atenção para ela. Em países católicos romanos,
a ignorância assinala notável contraste com a porcentagem dos alfabetizados
em terras reconhecidamente protestantes, ou em países como a França, onde,
pelas leis de 1882-1905, as escolas eram leigas, sendo excluídos o ensino e os
mestres religiosos. O contraste se estabelece pela comparação entre Espanha e
Itália, de um lado, a Prússia e Escócia de outro; ou entre Estados Unidos e o
Canadá, de um lado, e, de outro, os demais países do continente ocidental. Na
Itália há na população 37% de analfabetos; na Espanha, 45%; enquanto que na
43

Prússia todos, à exceção de 0,3%, sabem ler e escrever; e na Escócia sabem-no


todos, exceto 1,6%. Nos Estados Unidos, onde a imigração de católicos
romanos da Europa introduziu, em anos recentes, grande multidão de pessoas
incapazes de ler e escrever, há 8% de analfabetos, enquanto que no México e
nos países da América do Sul a porcentagem de analfabetos varia entre 49 a
70%. Quem é responsável por essas condições?” (SCHAFF, 1964, p. 515-516).

“Pode-se acrescentar hoje: daí também decorre a cautela dos países europeus
de tradição protestante, os países nórdicos especialmente, quanto a se deixarem
enclausurar numa Europa política de tipo excessivamente centralizado,
concebido algo demasiado segundo o modelo romano autoritário e
centralizador, e a propensão desses países para formarem, a exemplo da Suíça,
modelos confederados, europeus e mundiais, ao mesmo tempo coordenadores
das nações e respeitosos das diferentes identidades. A responsabilidade por seu
próprio desenvolvimento espiritual, moral, intelectual e até físico, cabe pois,
em primeiro lugar a cada fiel, mas também a cada comunidade encarregada de
prover a educação cultural de cada indivíduo. Ela acarreta o florescimento da
pessoa, que logo repercute na vida política e econômica. Esse é o ponto de
partida obrigatório para que desabroche e funcione uma civilização
democrática completa.” (BIÉLER, 1999, p. 53).

Nelson Mandela, líder do movimento apartheid e ex-presidente da África do Sul,


disse: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”
(Disponível em: http://pensador.uol.com.br/frase/MjM3NjU1/. Acessado em 21 out.
2014).

Os Reformadores eram homens comprometidos com o ensino cristão e davam


também prioridade ao ensino das artes. A leitura e escrita eram essenciais para o
desenvolvimento do cidadão em qualquer profissão ou vocação que iriam exercer.
Hermisten cita John Milton:

“O objetivo da aprendizagem é corrigir as ruínas de nossos primeiros pais,


recuperando o conhecer a Deus corretamente; a partir deste conhecimento,
amá-lo, imitá-lo e ser como ele, do modo mais aproximado possível, tornando
nossas almas possuidoras de verdadeira virtude que, unida à graça celestial da
fé, constrói a mais alta perfeição. Chamo de educação completa e generosa
aquela que capacita um homem para atuar justa, habilidosa e magnanimamente
em todos os ofícios, tanto privados como públicos, de paz e de guerra”
(COSTA, 2009, p. 328).
44

O movimento moderno, no seio da renascença, também começa com a Reforma


Religiosa. A partir de então, a educação e o aprendizado são vistos sob um novo prisma
onde aparece a liberdade de consulta às obras clássicas. “Com o estabelecimento da
Academia, o historiador Charles Borgeaud (1861-1941), antigo professor da
Universidade de Genebra, disse que essa foi a primeira fortaleza da liberdade nos
tempos modernos´” (COSTA, 2009, p. 336). O mundo moderno que estava surgindo no
Século XVI recebe uma influência de educação calvinista. Os educadores que foram
formados em Genebra seriam também missionários em outras terras. Assim sendo era
espalhada da idéia de uma educação e aprendizado por excelência.

“Sabe-se da atenção que Calvino consagrou aos problemas do ensino em


Genebra e das admiráveis realizações que efetuou nesta área. A opinião de
cristãos mal avisados que pensam que, estando o conhecimento de Deus ligado
à fé, não à inteligência, não há necessidade de cultivar-se esta, opõe Calvino a
vontade de Deus que convoca o homem a valorizar todos os dons recebidos e
não menosprezar nenhum deles, ao risco de culposa impiedade. Observa
notadamente que se os Apóstolos não foram renomados intelectuais, não
constitui isso regra nem exemplo que deve impedir os servidores da Igreja de
consagrar-se a sério labor intelectual. [...] Intelectuais ou trabalhadores
manuais, os dons todos do homem devem ser postos em ação para o serviço de
Deus e da sociedade” (BIÉLER, 2012, p. 533-534).

Na sua obra magna, “As Institutas”, Calvino expõe sua primeira doutrina, dizendo que
fé também é conhecimento. Sendo assim, notadamente, expressa que conhecimentos
intelectuais fazem parte da vida do cristão. Não há no seu pensamento divergência entre
fé e conhecimento, no entanto, uma ajuda o outro. É possível uma compatibilidade
producente entre fé e conhecimento. Fé e conhecimento não são excludentes e sim se
completam. Os alunos que seriam formados em Genebra saberiam entender claramente
a importância da fé e do conhecimento. A formação destes alunos, sem dúvida, seria
mais completa, distinguindo-se de quaisquer crenças misticistas da sociedade medieval.

“Sem dúvida, entre os Reformadores, Calvino foi quem mais amplamente


compreendeu a abrangência das implicações do evangelho nas diversas facetas
da vida humana, entendendo que ´o evangelho não é uma doutrina de língua,
senão de vida. Não pode ser assimilado somente por meio da razão e da
memória, senão que chega a ser compreendido de forma total quando possui
toda a alma e penetra no mais íntimo recesso do coração´. Por isso, ele exerceu
poderosa influência sobre a Europa e Estados Unidos. Schaff chega a dizer que
45

Calvino, ´de certo modo, pode ser considerado o pai da Nova Inglaterra e da
república Americana´” (COSTA, 2009, p. 339).

Para o bom funcionamento da sociedade é imprescindível haver educação. Se a


educação primar pela excelência, a sociedade tende a desenvolver-se mais e mais. A
formação de cidadãos depende também dessa educação. Calvino, em Genebra, aplicou
seus princípios, dentre eles, a não discriminação, possibilitando naquela época formação
de bons cidadãos.

2.4.3.2 - Aspecto Político-administrativo

Em nosso trabalho estamos considerando o aspecto social do pensamento de João


Calvino, tendo em vista a formação do cidadão. No entanto, impossível pensar no
aspecto social sem tratar do político-administrativo. Entendemos que a vinculação é
natural, uma vez que toda a estrutura político-administrativa, bem como as
consequências das decisões nessa área influencia diretamente a vida social do indivíduo.
Essas duas idéias encontram-se intimamente ligadas. Os sistemas políticos trabalham
com vistas às transformações sociais. Por isso iremos pontuar algumas idéias de João
Calvino quanto ao assunto pela dificuldade de uma ruptura entre o político-
administrativo e o campo social. Mas é necessário deixar claro que Calvino nunca quis
ser político. Ele era teólogo e a sua teologia era sua prioridade de estudo e trabalho. No
entanto sua teologia era abrangente atingindo todas as facetas da vida humana, inclusive
a política. Calvino e se via na necessidade de pronunciar-se sobre todas as questões que
apareciam.

“Calvino se viu na curiosa posição de um homem que, empenhado numa


reforma religiosa, dentro de um pequeno estado livre, como era a cidade de
Genebra, onde mais do que em outros lugares, a organização eclesiástica e o
governo civil se confundiam em certas áreas; embora não fosse ele um chefe de
Estado, nem um mero eleitor, durante a maior parte do seu tempo ali, acabou,
sem intenção de fazê-lo, formulado idéias políticas. O que Calvino realmente
fazia era formular o seu sistema teológico, procurando torná-lo pertinente à
sociedade cristã que ali queria implantar” (FERREIRA, 1985, p. 204).

É sabido que Calvino era favorável à separação entre a Igreja e o Estado. Mas mesmo
nesse contexto Calvino praticava uma espécie de colaboração da Igreja para com o
46

Estado. Muito daquilo que cabia ao Estado fazer, principalmente a assistência social, a
Igreja comandada por Calvino acabava fazendo por força da própria piedade cristã.
Entretanto Calvino não poupava nos seus sermões, chamando a responsabilidade do
Estado. Genebra vivia num contexto onde recebiam muitos refugiados que buscavam
uma condição de vida livre da tirania de onde vieram e, assim, precisava de um
programa político de acolhimento de todas essas pessoas. Muitos grandes estudiosos da
vida de João Calvino, inclusive Biéler, vão falar sobre o seu pensamento político-
administrativo. No entanto, cabe-nos entender o que contribui para a boa formação do
cidadão.

“E prossegue Glasgow, para fundamentar sua tese, dizendo que a influência


política de Calvino é resultante da sua doutrina da soberania de Deus que
abrange toda a criação, em todos os reinos do visível e do invisível; soberania
na natureza; no Estado; na Igreja e no indivíduo. E cita James Stephen,
professor da Universidade de Cambridge e jurista, que apontava quatro grandes
princípios daquilo que ele chama a República Espiritual de Calvino e seus
discípulos em Genebra. São eles: Primeiro, que a vontade do povo era a fonte
do legislativo; segundo, que o poder era, de maneira mais própria, delegado
pelo povo aos seus governantes; terceiro, que num governo eclesiástico, o
clérigo e o leigo têm autoridade igual e coordenada; quarta, que entre a Igreja e
o Estado nenhuma aliança ou dependência mútua, ou outra relação definida,
necessariamente ou propriamente existe. Desse modo dizia ele, o Calvinismo
defende um sistema de governo popular, de acordo com as leis – governo cuja
autoridade verdadeira repousa, humanamente falando, no consentimento dos
governados.” (FERREIRA, 1985, p. 209).

Muito podemos apreender dessa citação, principalmente diante do tema de nosso


trabalho. Cabe ao cidadão a escolha de seus governantes. Sem dúvida, em uma nação
onde o cidadão tem a liberdade de escolher seus governantes, existe uma possibilidade
muito grande de desenvolvimento da sociedade.

Num contexto de Idade Média o que mais oprimia era a falta de liberdade do povo;
liberdade de pensamento, liberdade religiosa, liberdade política. Os livros eram
queimados, outras crenças eram perseguidas e só o rei ou senhor feudal mandava.
Tomamos as idéias de Calvino, neste capítulo, como altos ideais de liberdade para o
indivíduo em todas as esferas da vida. Compreendemos que para o exercício da
cidadania há necessidade de estruturas de governo comprometidas com a proteção do
47

cidadão em todas as áreas da vida. Nesse aspecto Calvino, através de suas idéias, dá um
grande passo e deixa como legados para a humanidade princípios equilibrados.

Calvino não escreveu tratado de sociologia política, mas a sua preocupação com os
governos está transparente em suas obras teológicas. Há esperança para os cidadãos que
vivem uma tirania política e o Calvinismo surge numa época em que os governos estão
em ebulição, transformação e evolução. Na sua obra magna, “As Institutas”, Calvino
dedica um capítulo à administração política. Nesse diz que o reino de Deus e o governo
civil, apesar de natureza diferente, não se excluem. Descreve as funções do magistrado
civil, das leis e o dever do povo. Ensina-nos cidadania através da necessidade de
obedecer a autoridades. Diante de outras idéias teológicas correntes na época, ele é
firme em dizer que a autoridade civil é estabelecida por Deus e que representa até
mesmo uma dádiva divina. As Escrituras nos mandam obedecer, acatar e respeitar. O
cidadão que assim se comporta é consciente de suas obrigações. Citamos abaixo o texto
de Calvino que mostra sua preferência pelo governo aristocrático:

“E, obviamente, assaz ocioso seria discutido ser de homens privados, aos quais
não cabe deliberar quanto a constituir-se alguma organização governamental,
qual haverá de ser a mais conveniente forma de governo nesse lugar em que
vivem. De mais, também se não poderia isso definir simplesmente, senão às
cegas, quando o grande fator desta discussão esteja posto nas circunstâncias E
se às próprias formas [de governo] também entre si [as] compares à parte das
circunstâncias, a tal ponto contendem em iguais condições, que fácil não seja
discernir qual prepondere em utilidade. Proclive é a queda do reino à tirania,
mas, não muito mais difícil [a queda] do mando dos aristocratas à facção de
uns poucos; em muito, porém, o mais fácil [é a queda] do domínio popular à
sedição. Com efeito, se em si, consideram essas três formas de governo que os
filósofos assinalam, de modo nenhum haja [eu] de negar que, seja a
aristocracia, seja o regime temperado da própria [aristocracia] e de
[conveniente] organização governamental, longe às outras todas excele.”
(CALVINO, 1989, vol. IV, p. 460).

Diante do exposto cabe ao cidadão cumprir a sua vocação. Ele deve exercer influência
aplicando os princípios de liberdade quanto à escolha de seus governantes. Igualmente,
o cidadão poderá, segundo as normas estabelecidas pelas leis vigentes, arrazoar com o
Estado caso este esteja infringindo as Leis de Deus. Poderá o cidadão requerer outro
governo caso houver tirania e despotismo. Durante a Idade Média todos os indivíduos
sofriam com governos tiranos e estes ainda eram apoiados pelo poder eclesiástico.
48

Tanto o poder civil como eclesiástico da Idade Média estava alicerçado no


episcopalismo.

“Por tradição, a Igreja Católica Romana defende a monarquia, que ela


considera a mais excelente forma de governo, e reclama para o papa superior
jurisdição nos negócios humanos. A teoria protestante, conforme se
exemplifica nas instituições americanas, encara a democracia como a melhor
forma de governo terreno e favorece a separação entre a Igreja e o Estado,
sendo cada um soberano nas respectivas esferas. O governo procede do povo e
o poder supremo é exercido por magistrados escolhidos pelo povo, os quais
podem ser despojados do ofício pelo mesmo povo. Se, por dispensação divina,
como se tem alegado, o pontífice romano se tornou supremo ditador na esfera
da religião e da moral, o exercício dessa prerrogativa é de molde a se chocar
com a teoria moderna da competência da lei civil e com direitos individuais”.
(SCHAFF, 1964, p. 489).

“Calvino, ademais, conferiu à doutrina cristã do direito de resistência às


autoridades um vigor novo. Mas, antes de insistir sobre esse ponto importante
de seu pensamento, convém notar que, na prática, ele não cessou de exortar os
cidadãos, particularmente os crentes perseguidos, à prece pelos seus
governantes, à paciência, podendo ir até ao martírio. Essa insistência prende-se
ao fato de que a propensão à contestação revolucionária, sem motivo moral
imperativo, constitui ameaça permanente à democracia. Pois, esclarece
Calvino, o homem é, por natureza, anarquista insubmisso e ávido de poder
pessoal. A submissão por razão moral é um efeito da vontade de Deus.
‘Quando os povos se submetem aos reis, príncipes, magistrados’, escreve,
‘...certamente isso ocorre sob um impulso e um instinto divinos. Foi Deus
quem inspirou aos homens esse temor, sem o qual, certamente, eles nunca se
submeteriam. Sabemos quanta é a ambição inata em cada homem e quanto
cada indivíduo é ávido de dominação, e que é absolutamente contrário à nossa
natureza curvar nosso pescoço sob um jugo.” (BIÉLER, 1999, p. 62).

O dever do cidadão deve levá-lo à justiça, à verdade e à lealdade, pois também


representa ao seu Senhor que está servindo. Calvino nos ensina a viver em sociedade
com espírito de brandura, moderação e cordialidade. A sociedade será sempre
extremamente complexa: variadas formas culturais; crenças diversas; diversidade
étnica; confronto de gerações; etc. Nesse misto convive o cidadão com necessidade de
equilíbrio para a própria manutenção de sua liberdade. Quanto a esse assunto assim
expõe Calvino:
49

“Tais, portanto, assim tenham [para si] que legítimas são as ações judiciais, se
alguém [delas] usa retamente. Reto uso é, porém, quer ao proponente de
propor, quer ao réu de defender, se este, de fato, levado a juízo, se apresenta no
dia designado e, com a exceção com que pode, defende [sua] causa sem
amargor, mas somente com esta disposição, que proteja [o] que é seu de
direito, aquele, porém, indignamente oprimido, seja na pessoa, seja nas posses,
à proteção do magistrado se confie, exponha a queixa, postule [o] que é justo e
bom, mas longe de todo desejo de prejudicar ou de vingar, longe de aspereza e
ódio,, longe de ardor de contenção, senão que, antes, preparado a ceder o seu e
suportar o que quer que seja, que de ânimo inimigo ser levado para com o
adversário. Por outro lado, onde os ânimos foram inundados de malevolência,
corrompidos de inveja, incendidos de iracúndia, respirando vingança, ou a tal
ponto, finalmente, inflamados de ardor de contenciosidade que algo remitam da
caridade, toda ação de causa até mesmo justíssima não pode ímpia não ser.
Ora, convém a todos os cristãos ter sido fixado este axioma: nunca de alguém
poder ser tratada justamente uma demanda, por mais equânime, a menos que ao
adversário contemple com igual dileção e benevolência, como se a questão que
está sendo controvertida já houvesse sido amistosamente transacionada e
resolvida.” (CALVINO, 1989, vol. IV, p. 471-472).

Quando Calvino fala sobre o Estado e sobre os magistrados, fala com propriedade,
haja vista seus estudos jurídicos no início de carreira. Quando um cidadão concorre a
um cargo público também age de conformidade com a vontade de Deus e procurará
pautar sua vocação na prudência, moderação e pureza.

“Em 1559, à luz das experiências tidas com os Conselheiros de Genebra,


Calvino afirma: ´A excelência maior e mais duradoura de um governo é que
muitos dele participem ajudando-se mutuamente e lembrando reciprocamente
seus deveres; e se acontecer que um deles queira preponderar, os outros ajam
como censores e preceptores´”. (STROHL, 1964, p. 244).

As questões de Estado para o cidadão devem ser consideradas de suma importância. O


ensino teológico de Calvino estabelece que a autoridade máxima seja de Deus e dEle
provêm todas as demais autoridades. Assim o cidadão poderá recorrer à justiça dos
homens sem prejuízo da justiça de Deus. A consciência de um dever cumprido não está
pautada sobre como o outro cumpre seus deveres para conosco e, sim, o que nos cabe
fazer. Os ensinos de Calvino, com certeza, irão reverberar tanto na sociedade de então
como nos futuros governos. Acontecerão fatos que serão motivos de estudos nos
processos sociológicos futuros.
50

“Em contrapartida, não nos parece possível ignorar o lado sociológico desses
processos que, talvez, tenha desempenhado o papel mais importante em seu
desfecho. Se a Igreja debatia uma questão espiritual, certo é que a cartada da
luta se revestia, para o Estado e para a opinião pública, de um caráter social e
político acima de tudo: é como um flagelo social, como real ameaça, de
subversão da sociedade que a heresia era acossada de uma e outra parte. Se o
cristão, vivendo na fé, lutava por uma questão de fidelidade, o cidadão, o
homem da rua e o homem político lutavam sobretudo por sua segurança. A luta
teológica revestia-se para a consciência social do século 16, vivendo em um
clima religioso, exatamente do mesmo caráter de que se reveste a luta
ideológica moderna para a consciência política profana e secularizada do
homem de hoje”. (BIÉLER, 2012, p. 178).

A relação do cidadão com a sociedade é totalmente intrínseca. Os processos sociais


são construídos a partir dos atos de cada cidadão. A partir da participação político-
administrativa do cidadão no Estado ou governo haverá influências no meio social. O
cidadão que se formou na Genebra de Calvino seria exigente quanto às
responsabilidades para com a sociedade, no sentido do desenvolvimento da mesma.
Pautaria pelo cumprimento das leis; lutaria pelo bem comum; exerceria a sua vocação
não como um fim em si mesmo, mas para a glória de Deus. Enfim viveria a vida
gozando os privilégios da liberdade de pensamento.

2.4.3.3 – Aspecto Assistencial

Com certeza uma das grandes preocupações de Calvino era com o bem estar da
população. Haveria de envidar todos os esforços possíveis para cumprir o ideal cristão
de “amar o próximo como a si mesmo”. As necessidades básicas deveriam ser supridas
pelo Estado em primeiro lugar. No entanto a Igreja deveria fazer a sua parte. A provisão
de alimentos, teto e trabalho eram fundamentais para uma cidade civilizada. Cidadãos
precisavam engajar-se nessa obra. Embora o “trabalho” fosse tido na Idade Média como
um fardo, para Calvino era uma vocação. Deveria ser cumprido, olhando sob a ótica de
sua teologia. À luz da sua teologia, o trabalho possuía uma finalidade superior: a glória
de Deus. Isso posto, não haveria lugar para vagabundos e preguiçosos na cidade de
Genebra.

“Calvino, fundamentando-se nas Escrituras, é um dos raros teólogos a por em


evidência, com tanta clareza, a participação do trabalho do homem na obra de
Deus. Destarte, conferiu ele ao labor humano dignidade e valor espirituais que
51

jamais teve na Escolástica, nem, por mais forte razão, na Antiguidade. Este fato
irá ter grandes repercussões no desenvolvimento econômico das sociedades
calvinistas” (BIÉLER, apud COSTA, 2009, p. 349).

No que diz respeito à dignidade humana em relação ao mundo, Schaff faz um grande
contraste entre o pensamento da Reforma e o pensamento medieval:

“Outro princípio que se tem tratado como feição característica do ensino dos
Reformadores, é a dignidade do homem, encarado individualmente. Aquele
ensino realça o sacerdócio de todos os crentes e seu direito de imediato acesso
a Deus e ao trono da graça. O sacerdócio medieval havia dificultado esse
acesso, graças às prescrições sacramentais, como as folhas de outono obstruem
o deslizar das torrentes. A Reforma fez de cada homem um sacerdote. Ainda
mais: ela lhe assegurou que o mundo e os bens temporais se destinam ao uso e
bem-estar humano, e não para serem evitados. A religião não consiste na
abstenção das coisas boas Na Idade Média, os mais religiosos eram os que
fugiam do mundo, renegando a sociedade, o lar e as satisfações usuais da vida.
A existência solitária e penosa constituía a existência ideal. Um assunto sobre
que muito se escreveu, foi o desprezo com que o mundo devia ser encarado:
sobre tal assunto até Inocêncio III escreveu. A Reforma aboliu o ascetismo
como prática obrigatória. Ensinou que o homem com seu arado e a menina com
sua vassoura prestam melhor serviço do que o monge que vivia separado de
seus semelhantes, praticando austeridade. Rompeu as amarras da disciplina do
celibato e exaltou as virtudes da vida doméstica, a labuta do campo e o
comércio, ensinando o devido uso da propriedade. Uma vez mais anunciou as
palavras que dizem: ´Toda criatura de Deus é boa e nada deve ser desprezado,
se o recebe com ações de graças´. Os reformadores não insistiram no milênio,
mas animaram o povo da Europa a orientar o pensamento através de novas
linhas. Deram aos interesses humanos e aos bens da natureza uma importância
que o medievalismo desdenhou. Nesse sentido, eles puseram o mundo às
avessas”. (SCHAFF, 1964, p. 72-73).

De modo incisivo João Calvino vai procurar meios de assistir aos pobres. Essa visão
de Calvino decorre de sua teologia prática, pois o mesmo vivia uma vida extremamente
simples. Sabia contentar-se com o que possuía e com certeza o maior legado de Calvino
para a humanidade não foram os poucos florins que deixou de herança e sim uma vida
piedosa e de caráter ilibado.

“Evidentemente, Calvino postula não uma vida ascética de absoluta ausência


de prazeres, mas, uma vida de obediência à vontade de Deus, na qual há muito
lugar para apreciar aquilo que é lícito, e desfrutar das bênçãos que nos são
52

concedidas, com a reverência de quem as recebe das mãos providenciais do


Senhor e as usa com discrição e temperança. No tratamento do imoderado
desejo de riquezas, lembra que somos mordomos de Deus, que todas as coisas
nos são dadas pela bondade divina para nosso benefício, são confiadas aos
nossos cuidados, e delas devemos dar conta um dia” (FERREIRA, 1985, p.
231).

Na assistência aos pobres, aos discriminados, aos refugiados, aos menos favorecidos,
Genebra foi o palco da ação de Calvino. Desdobrava-se para assistir a todos e dar
dignidade ao ser humano. Usava os seus sermões e influência no meio político para que
não houvesse falta de recursos. Muito lutou com os poderes civis para que o Estado
cumprisse sua função de assistência. E muitas vezes, quando o Estado falhou no
cumprimento de seus deveres, Calvino apelou para a Igreja, também na sua função
diaconal.

“Quando se lembra que Genebra se tornou abrigo preferido para um número


enorme de refugiados, que, por suas convicções religiosas, para ali se dirigiam
e onde cada dia chegava, com necessidade de se instalar permanentemente e
ganhar a vida, entende-se melhor como Igreja e Estado, no intuito de acolher
com simpatia e caridade esses recém vindos, teriam que muitas vezes se
confundir. Quem havia de cuidar dessa população, o Estado ou a Igreja? [...]
W. F. Graham atribui a Calvino uma boa medida de pragmatismo na busca do
bem comum da sociedade, chegando mesmo a dizer que o que era capaz de
promover a felicidade do homem na sociedade era bom para Calvino; e tudo
que prejudicava a existência do homem era para ele um mal”. (FERREIRA,
1985, p. 204,206).

O cuidado de Calvino para com os necessitados de Genebra teve consequências


positivas para a cidade. Levou a todos a procurarem trabalho para ser feito. Esses
ganhavam de presente caixas de ferramentas para o trabalho. Ganhavam condições de
trabalho. Cada um, em sua função, seja sapateiro, marceneiro, cabeleireiro, etc. podia
exercer profissão para o desenvolvimento da cidade. Nesse aspecto o cidadão começou
a exercer sua função plena de cidadania e não evitando assim a ociosidade.

“Um supervisor distrital fazia triagem de todos os pedidos e apresentava aos


diáconos os que ele achava que deviam ser aprovados. Os diáconos visitavam
as casas para verificar as necessidades. Cerca de 5% da população de Genebra
receberam ajuda financeira, quase sempre por pouco tempo. Os diáconos,
pensando com uma mentalidade empresarial, às vezes usavam os recursos da
53

igreja para comprar ferramentas, matéria-prima ou pagar o aluguel inicial de


uma loja. Os refugiados que eram artesãos podiam trabalhar”. (WILSON,
2011, p.67-91).

Calvino muito lutou com o poder público sendo energicamente cuidadoso para que a
população pudesse ser assistida em suas necessidades básicas. Ao mesmo tempo,
Calvino tinha plena consciência que, tanto na riqueza quanto na pobreza, podemos ser
assistidos por Deus. Embora não sendo um adepto da pobreza ou mendicância
medieval, pregava que tanto um estado como outro podem glorificar a Deus.

“Calvino entendia que a indolência e a inatividade são amaldiçoadas por Deus.


A terra foi outorgada ao homem com esta condição: que se ocupasse em
cultivá-la, de onde se segue que foram os homens criados para empregar-se em
fazer alguma coisa e não para estarem ociosos e indolentes. Verdade é que esse
labor era bem alegre e agradável, longe de todo aborrecimento e cansaço;
todavia, quando Deus quis que o homem se habituasse a cultivar a terra, na
pessoa dele condenou todo repouso indolente” (COSTA, 2009, p. 350).

Pensando ainda em formas de ajuda mútua, Calvino insiste que a melhor forma é
trabalhando. Inclusive aqueles que possuem mais deveriam ajudar àqueles que possuem
menos. O benefício social é sempre comum. A sociedade que se comporta desse modo
tende a ser promissora e cumpridora dos valores cristãos.

“Há modos diferentes de se trabalhar. Quem ajuda a sociedade dos homens


pela indústria, ou regendo sua família, ou na administração pública, ou em
negócios privados, ou aconselhando, ou ensinando, ou de qualquer outra
maneira não será considerado entre os inativos. Paulo censura aqueles zangões
preguiçosos que querem viver pelo suor dos outros, não contribuindo assim
com nenhum serviço em comum para ajudar a raça humana” (COSTA, 2009,
apud CALVINO, p. 351).

“Interpretando Hebreus 13.6, Calvino disse que os benefícios que prestamos


aos homens se constituem parcialmente em culto a Deus, sendo isto uma
grande honra que Deus nos concede. Não amar o nosso próximo constitui-se
em uma ofensa a Deus e às pessoas. Em contrapartida, o nosso auxílio
recíproco revela a unidade do Espírito em nós. [...] Contudo, o repartir com os
outros é mais que fazer o bem. Nele, estão incluídos todos os deveres pelos
quais os homens se auxiliam mutuamente; ‘é um genuíno distintivo do amor
que os que se encontram unidos pelo Espírito de Deus comunicam entre si’.
(COSTA, 2009, p. 353).
54

É notável a preocupação de Calvino com os menos assistidos. Aqui paramos um


pouco para refletir sobre a formação do cidadão. No que diz respeito a esse aspecto, a
acumulação de bens tem sido um gerador de problemas para a sociedade. Pensando
sobre sociedade moderna, que iremos tratar com mais profundidade no próximo
capítulo, poucos são os cidadãos comprometidos com os mais necessitados. O assunto é
complexo. As mais diversas teorias são publicadas gerando discussões quase infinitas
sobre o assunto. No entanto, Calvino apresenta um plano gestor de uma pequena
sociedade e nos dá exemplo de uma prática que atinja realmente os menos assistidos.

“A pregação do Reformador é o prolongamento de sua ação. A modéstia em


que vive com seus colegas é proverbial e toca as raias da pobreza. Suas
providências em favor dos deserdados são constantes. Importuna
persistentemente os conselheiros da cidade para que tomem medidas de
atendimento aos pobres. Depois da chacina dos protestantes em Provença, em
1545, organiza pessoalmente uma coleta geral, subindo as escadarias dos
edifícios repletos de refugiados para recolher a esmola de todos”. (BIÉLER
apud COSTA, 2009, p. 354).

Calvino expõe em seus comentários vários conselhos de ajuda mútua. Trabalha ele na
sua teologia a favor dos desafortunados. Lembra a todo o momento que o que temos
vem de Deus e somos apenas simples mordomos de todos os bens que recebemos dEle.
Um dos seus grandes princípios éticos é a simplicidade ou frugalidade. Conforme o
ensino do Apóstolo Paulo, devemos viver contentes em toda e qualquer situação.

“Ele também entende que na pobreza tendemos a nos tornar mais humildes e
fraternos. Devemos aprender a repartir e, igualmente, a ser assistidos pelos
nossos irmãos. ‘Todas as pessoas desejam possuir o bastante que as poupe de
depender do auxílio de seus irmãos. Mas quando ninguém possui o suficiente
para suas necessidades pessoais, então surge um vínculo de comunhão e
solidariedade, pois cada um se vê forçado a buscar empréstimo dos outros.’
Admito, pois, que a comunhão dos santos só é possível quando cada um se vê
contente com sua própria medida e ainda reparte com seus irmãos as dádivas
recebidas, e em contrapartida admite ser também assistido pelas dádivas
alheias” (COSTA, 2009, p. 357).

São inúmeras as contribuições de João Calvino no que diz respeito à assistência


social. Ele aplicou isso na cidade de Genebra. Criação de um hospital geral;
estabelecimento de um ministério diaconal, criação de possibilidades de trabalho, luta
55

por salários dignos, luta contra toda ostentação e luxo, assistência à invalidez e velhice,
etc.

“Recordar-se-á que em Genebra, em 1535, é fundado o Hospital Geral,


destinado a dar assistência aos enfermos, aos pobres, aos órfãos e aos idosos.
Depois, em consideração à penúria de víveres, à pobreza de uma parte da
população e à avareza de outra, medidas de ordem econômica são tomadas
imediatamente contra o monopólio e a especulação para colocar os produtos
básicos da alimentação ao alcance de todas as bolsas. O Conselho fixa o preço
de venda do pão, do vinho e da carne. Esta decisão é ratificada pelo povo em
Conselho Geral a 21 de maio de 1536, ao mesmo tempo que adota
definitivamente a Reforma. Enfim, toma o governo medidas referentes à
jornada de trabalho: declara feriado o domingo e suprime as antigas festas de
guarda. E uma vez que a comunidade garante o sustento de todos quantos
sejam vítimas de incapacidade social, qualquer que seja o motivo, na cidade
nova não se deve ver nenhum vadio, nenhum mendicante, nenhum ocioso.”
(BIÉLER, 2012, p. 210).

Embora já dissemos que Calvino não tenha escrito nenhum tratado sobre a sociedade,
naturalmente sua mensagem atingia-a frontalmente. Por exemplo, Calvino era contra o
tráfico de escravos. Sabendo que a Escritura ensina liberdade para todo ser humano,
impossível Calvino ser a favor de brutal atitude por parte de seres humanos.
Comentamos isso, tendo em vista que na sua época havia pontuais indícios de
escravidão sendo perpetrados pelos europeus, muçulmanos e orientais. Assim ele
descreve sobre o assunto:

“Mostra-nos, com efeito, o ensino da Bíblia, Calvino o diz alhures, que a


escravidão é inteiramente contrária à ordem natural fixada por Deus; é ela
visível e odiosa conseqüência do pecado. [...] A escravização é comparada ao
assassínio, porquanto privar alguém da liberdade equivale a tirar-lhe a vida:
despojar um homem de tão grande bem, é quase cortar-lhe a garganta”.
(BIÉLER, 2012, p. 229-230).

Ainda falando sobre a sociedade tiramos a conclusão de que a ordem social pregada
por Calvino tende a incutir no cidadão uma consciência do bem comum. Isto é muito
claro e evidente no seu pensamento sobre a sociedade. O cidadão está bem situado e
cônscio de suas obrigações e deveres para com a sociedade. A forma agregária de se
viver; o casal; a família; o trabalho; as trocas; a solidariedade econômica e a igualdade
social são marcas dos ensinos calvinistas.
56

“Deus dispôs a sociedade humana segundo uma ordem natural harmoniosa.


Esta ordem de criação desempenha marcante papel no pensamento social
calvinista. Dúvida não tenho de que haja o Apóstolo querido significar a ordem
que Deus dispôs para governar o gênero humano... o termo ordem vem bem ao
caso, termo pelo qual Pedro ressalta que Deus, fabricador do mundo, não
deixou o gênero humano em confusão e desordem, para que viva à maneira dos
animais brutos; pelo contrário, quis que fosse cada parte colocada em seu
devido lugar, como em um edifício bem estruturado. E esta ordem é chamada
humana: e isso não que os homens a tenham inventado, mas porque o modo de
viver bem ordenado e compassado pertence propriamente aos homens. O
primeiro característico da ordem social criada por Deus é a solidariedade que
une todos os seres uns aos outros. O gênero humano é unificado em um todo
mercê de um laço sagrado de comunidade. São todos o próximo um do outro.
Para que alguém seja o nosso próximo, basta que seja um entre humano, pois
que não nos cabe apagar a natureza comum.” (CALVINO apud BIÉLER, 2012,
p. 298).

Com efeito, Calvino, diante de seu pensamento social, estava bem à frente de sua
época. Procurava dar à sociedade uma nova estrutura, de forma que o cidadão pudesse
ser não um simples indivíduo, mas totalmente integrante do meio. A finalidade do
indivíduo não estava em si mesmo e sim na capacidade de envolver-se, interagir e
contribuir positivamente para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e
harmoniosa.

Calvino deixa para a posteridade exemplo enorme de ativismo social mesmo sem ser
sociólogo e, sim teólogo. Sua teologia reverberava na ação social do dia a dia das
gentes. Havia compromisso da teologia com a sociedade. O fato de seu pensamento não
se adequar ao monasticismo levava-o a integrar-se completamente com o meio onde
vivia. As pessoas trabalhavam, viviam em famílias, viviam em Igrejas e possuíam
comprometimento de causa umas com as outras. O cidadão era assim formado em meio
a uma práxis diária sendo igualmente fomentado por uma pregação de verdades
equilibradas e absolutas, com base nas Escrituras (Bíblia).

3 - O CIDADÃO

O conceito de cidadão irá se desenvolver a partir do próprio desenvolvimento da


sociedade. A partir do momento em que a população migra dos meios rurais para os
57

meios urbanos. Inicialmente pode-se dizer que é na política que Aristóteles desenvolve
o seu conceito de cidadão. Ele exclui dessa categoria, mulheres, escravos e crianças.
Cidadão é aquele que participa da política. Cidadão é aquele que exerce os seus direitos
e deveres na cidade.

“Um cidadão integral pode ser definido por nada mais nem nada menos que
pelo direito de administrar justiça e exercer funções públicas (...) o que é um
cidadão passa a ser claro (...); afirmamos agora que é aquele que tem o direito
de participar da função deliberativa ou da judicial da comunidade na qual ele
tem esse direito. E essa comunidade (uma cidade) é uma multidão
suficientemente numerosa que passa assegurar uma vida independente na
mesma. (ARISTÓTELES, 1989, livro III, capítulo I, 1275b-1276a, p. 78-79).

Ser cidadão é ter consciência de direitos e deveres. É acima de tudo ser responsável e
visar ao bem comum. Auxiliar a sociedade nas várias áreas que ela administra. É
atender ao bom funcionamento de todas as instituições civis e privadas. É sentir-se parte
integrante do meio de forma que vem a ser socialmente participante da política e do
governo.

O cidadão está totalmente agregado. Vemos o cidadão intrinsecamente ligado a todo


um processo de vivência comum. Ao longo do tempo, outras classes passam a ter
direitos e deveres iguais na sociedade, como as mulheres. Extingue-se o trabalho
escravo e as crianças têm o seu papel na sociedade. Os conceitos de cidadão variam com
o tempo e alguns se complementam como este:

“Originalmente, cidadão é o burguês, isto é, o habitante do burgo(cidade). Ser


cidadão significa ser sujeito de direitos e deveres. Cidadão é aquele que está
capacitado a participar da vida do burgo(cidade) e, por consequência, da
sociedade. Historicamente, a concepção do conceito, concretiza-se com a
revolução francesa (1789), através do princípio de liberdade, igualdade e
fraternidade. Entretanto, esse processo de concretização dos direitos do cidadão
se dá junto ao advento do capitalismo que significou a constituição da
sociedade burguesa, da sociedade cujo centro das decisões se localiza na
cidade.” (ARAÚJO, 1998, p. 42-43).

Todo o processo de construção do cidadão passa pelas fases históricas da construção


da sociedade. As revoluções, as conquistas, as ideologias, o nascimento das cidades-
estados, o movimento dos sistemas políticos têm papel fundamental quanto à influência
sobre o cidadão enquanto conceito e pessoa. No entanto, percebemos que o cidadão não
58

deixa de ser o habitante da cidade que participa de todo o processo social de construção
da sociedade. É aquele que tem assegurado o direito à participação social de modo
consciente. Há um traço histórico que por fim registramos sobre o cidadão:

“... a todo cidadão caberia o domínio sobre seu corpo e sua vida, o acesso a um
salário condizente para promover a própria vida, o direito à educação, à saúde,
à habitação, ao lazer. E mais: é direito de todos poder expressar-se livremente,
militar em partidos políticos e sindicatos, fomentar movimentos sociais, lutar
por seus valores. Enfim, o direito de ter uma vida digna de ser homem. Isso
tudo diz mais respeito aos direitos do cidadão. Ele também deve ter deveres:
ser o próprio fomentador da existência dos direitos de todos, ter
responsabilidade em conjunto pela coletividade, cumprir as normas e propostas
elaboradas e decididas coletivamente, fazer parte do governo, direta ou
indiretamente, ao votar, ao pressionar através dos movimentos sociais, ao
participar de assembléias – no bairro, sindicato, partido ou escola.” (COVRE,
1991, p. 9).

3.1 - A Formação do Cidadão

Compreendemos que a formação do cidadão se processa em vários ambientes. Dentre


eles podemos destacar inicialmente a família e depois outros como igreja, escola,
sociedade, trabalho etc. Passando por esses ambientes há um misto de influências
psicossociais, espirituais e ideológicas. Entendemos que a formação do cidadão é o
conjunto de idéias e práticas que estará absorvendo durante a vida levando-o a ser
agente ativo na participação e influência na sociedade. A formação do cidadão visa ao
seu desenvolvimento enquanto ator no palco da sociedade. Toda a bagagem cultural e
de valores devem ser usadas em prol do bem comum. A sociedade espera do cidadão
uma contribuição que também a leve a um desenvolvimento e progresso. Não se pode
de modo algum subestimar a formação do cidadão. É através da sua formação que se
sustenta a estrutura de uma sociedade. Quanto maior o grau e/ou nível de formação de
um cidadão, tanto maior o desenvolvimento de uma sociedade. A formação do cidadão
visa ao bem público. Ela está arraigada num processo educacional bem estruturado.
Assim sendo, é necessário assegurar educação de qualidade aos cidadãos cujos efeitos
reverterão para o bem da sociedade. É também uma troca, onde o cidadão recebe do
Estado sua formação educacional e depois devolve através de seu engajamento nas
59

instituições que servirão a sociedade, quer públicas ou privadas. No Brasil aconteceu o


que segue:

“A questão da formação do cidadão e de sua respectiva identidade foi tema de


inúmeros estudos após 1988, ano em que foi implantada a chamada
‘Constituição Cidadã’. Essa Constituição foi assim chamada devido o seu
caráter de promoção da cidadania, que envolvia valores como liberdade e
igualdade, além de assegurar a ordem social calcada em princípios de justiça,
igualdade, liberdade, segurança, bem-estar e, sobretudo, exercício dos direitos
civis, políticos e sociais”. (COVRE, 1991, p. 8).

De modo geral a formação do cidadão leva-o a ter um maior conhecimento das


mudanças e características do mundo que os cerca. Leva-o a repassar padrões de
comportamento para as gerações futuras. Esse é um ponto de suma importância na
construção de uma sociedade que dê valor à justiça, à ética, à solidariedade e aos bons
costumes. Vivemos numa sociedade contemporânea e pós-moderna com carência de
valores. “Consequentemente, as pessoas precisam, desde cedo, assumir esses princípios
éticos, desenvolvendo sua capacidade de autonomia moral, elegendo, conscientemente,
valores éticos de conduta pessoal e social.” (TAGATA, 2008, p. 119). Sem dúvida, a
educação ocupa papel fundamental na formação do cidadão. No entanto, entendemos
que se a educação é apenas fundamentada em transmissão de conceitos e informações,
ela é deficitária. Há necessidade de transmissão de valores e aprimoramento dos
aspectos morais para que o cidadão seja confrontado com seus próprios valores. Há
necessidade de princípios ético-sociais voltados para a própria cidadania.

“O agir moral significa, em breves linhas, não se ater apenas ao seu próprio
ponto de vista, mas ser capaz de realizar essa ‘descentração’, pois, assim, o
indivíduo vai ser capaz de questionar, pensar e criticar, construindo um ponto
de vista próprio, mas absorvendo aquilo que a sociedade tem para oferecer.
Deve reconhecer que o mundo é feito por seus semelhantes que, apesar de
humanos, são muito diferentes, mas com quem devem partilhar tudo, inclusive
conhecimentos.” (MARTINS, 2008, p. 1-2).

A educação exerce papel fundamental como mecanismo para se formar o cidadão


crítico. A preparação do cidadão hoje leva em conta o mundo pós-moderno, a
globalização e a pluralização da sociedade. O cidadão deve estar engajado com todas as
demandas do mundo complexo em que vive. As informações são rápidas e não podem
passar despercebidas pelo cidadão. A todo o momento estamos inseridos dentro de uma
60

nova tecnologia que terá consequências na sociedade que irá se apoderar dela e usá-la.
O cidadão deve estar atento às transformações sociais, políticas e econômicas do meio
em que vive. Usará sua formação para atingir o maior número de pessoas possíveis. O
cidadão precisa conhecer suas obrigações e as cumpra de forma a garantir a justiça e a
igualdade de direito a todos, deve trazer validade e legalidade às tomadas de decisões,
sem temores, e sem compromissos particulares, vislumbrando tão somente o bem da
sociedade. Assim o cidadão desempenha seu verdadeiro papel social para a efetiva
construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

Nos tempos atuais, o cidadão será bem formado quando se abrir para a educação e
para o compromisso com a sociedade. O seu referencial é a busca de garantias
individuais e coletivas. Busca de liberdade e justiça. Luta pelos direitos humanos. Isso
porque, querendo ou não, vivemos em sociedades sempre desiguais. As oportunidades
não são as mesmas para todos. Assim a formação do cidadão passa por essa realidade
nua e crua.

“As chances de vida nunca são igualmente distribuídas. Não conhecemos


nenhuma sociedade na qual todos os homens, mulheres e crianças tenham as
mesmas prerrogativas e gozem dos mesmos provimentos. Não conhecemos
sequer uma em que todos os homens tenham o mesmo status. Provavelmente
essa condição não é possível. ‘Semelhantes não constituem um estado’, dizia
Aristóteles. Se todos fossem iguais, ou mesmo quase iguais, poderia haver
dunas de areia humanas ou outras formações moleculares engendradas pelos
elementos, mas não haveria estrutura, nem sentido, nem progresso. A
sociedade é necessária porque pessoas diferentes têm que criar instituições
comuns para sobreviver e melhorar de vida. Suas diferenças são importantes,
pelo menos na medida em que os vários interesse se inserem uns nos outros, se
não também porque alguns têm a capacidade de impor sua vontade a outros,
seja pela força ou por mau-olhado.” (DAHRENDORF, 1992, p.40).

No processo de formação do cidadão encontramos o poder e as desigualdades geradas


por ele mesmo que podem ser transformados em avanços em termos de liberdade. O
cidadão é o indivíduo em plena ação dentro de uma sociedade e isso implica fazer
história. Implica participar na transformação de todo o complexo social: cultura, raça,
direitos, deveres, política, desigualdades sociais, impostos, guerras, opressão, educação
etc. Todos os cidadãos devem buscar qualidade de vida para si e para o coletivo. Apóia-
se na estrutura social com suas instituições de modo que seu objetivo seja sempre uma
61

boa formação. Poderíamos aqui descrever a relação entre o cidadão e todos os


complicadores sociais, mas nosso objetivo, neste momento, é apenas situar o cidadão
em meio a esses complicadores. Ou seja, o cidadão faz parte e é agente construtivo.

3.2 - Cidadão e cidadania

A relação entre cidadão e cidadania é por demais intrínseca e isso veremos nos
conceitos de cidadania que adiante pontuaremos. Devido à complexidade de fatores que
envolvem a cidadania, ainda não há um consenso sobre a definição do termo.
Etimologicamente a palavra cidadania deriva dos conceitos de cidade que é a polis
antiga identificada por Aristóteles como comunidade última que tem por finalidade o
bem soberano:

“Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade e toda comunidade se


forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são
praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades
visam a algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui
todas as outras tem mais que todas esse objetivo e visa ao mais importante de
todos os bens; ela se chama cidade e é a comunidade política”
(ARISTÓTELES, 1989, L. I, cap. I, 125 a, p. 12).

Naturalmente que o conceito de cidadania se desenvolve ao longo da história e com as


transformações da sociedade:

“A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade


de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem
cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de
decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social.”
(DALARI, 1998, p. 14).

A cidadania está também ligada à conquista dos direitos humanos por parte da
humanidade. É no processo de desenvolvimento da sociedade que surgem idéias para
que o mundo viva melhor. O cidadão exercerá sua cidadania a partir dos novos rumos
das leis e estabelecimentos de novas instituições.

“O desejo de libertar-se de estruturas sociais, que não permitem viver uma vida
verdadeiramente humana é o passo inicial no processo de conscientização do
homem. Entretanto essa consciência crítica/transformadora não se constrói
62

espontaneamente, a partir meramente da existência dos problemas. Nesse


sentido, opressão / consciência crítica / conscientização / transformação da
condição de opressão são passos fundamentais na caminhada pela conquista de
condições humanas de vida. Esses passos se relacionam diretamente com o
desenvolvimento de um processo de busca por direitos de cidadania.”
(ARAUJO, 1998, p. 6).

Vamos percebendo todo esse misto de conceitos e variações do entendimento da


cidadania e, em vários períodos da história acrescentam-se novos elementos de
fundamentação. A importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos é
fundamental hoje para o cidadão e seu modo de exercer cidadania. A consciência dos
povos, bem como sua união, estabelece princípios importantes neste contexto de
cidadão/cidadania. Um dos princípios básicos dessa declaração é que todos os cidadãos
são iguais perante a lei e assim todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e
direitos.

“O conceito de cidadania, enquanto direito a ter direitos, foi abordado de várias


perspectivas. Entre elas, tornou-se clássica, como referência, a concepção de
Thomas H. Marshall, que, em 1949, propôs a primeira teoria sociológica de
cidadania ao desenvolver os direitos e obrigações inerentes à condição de
cidadão. Centrado na realidade britânica da época, em especial no conflito
frontal entre capitalismo e igualdade, Marshall estabeleceu uma tipologia dos
direitos de cidadania. Seriam os direitos civis, conquistados no século XVIII,
os direitos políticos, alcançados no século XIX – ambos chamados direitos de
primeira geração – e os direitos sociais, conquistados no século XX, chamados
direitos de segunda geração.” (VIEIRA, 2001, p. 33).

A relação entre cidadão e cidadania se dá através de atitudes éticas e essas são,


durante a história, incorporadas às leis havendo comum acordo. O consenso da
sociedade levará a mudanças nas leis conforme a aplicabilidade de atitudes do cidadão.
“O comportamento humano é o grande fator distintivo da ética, o modo como o ser
humano age diante de si mesmo e de terceiros é o que determina se sua conduta é ética
ou não.” (ARISTÓTELES, 2001, p. 114).

“A plena consciência da cidadania como parte da formação educacional de


cada indivíduo é absolutamente necessária para a construção de um país
democrático e bem-sucedido. Mais que isto, é uma necessidade para que haja
um futuro feliz para toda a humanidade. Cabe, portanto, aos pensadores e
educadores que se empenhem para que a plena consciência da cidadania torne-
63

se uma realidade para todos, tanto no que se refere aos direitos quanto no que
se refere aos deveres.” (GOUVÊA, 2002, p.12).

A partir do momento em que o cidadão tem plena consciência de sua cidadania,


começa a agir a favor da sociedade levando em conta o bem alheio. Aqui temos um
ponto fundamental na visão do tema do nosso trabalho, que é a formação do cidadão e o
exercício da cidadania que têm plenas consequências sociais. Impossível a construção
de uma sociedade justa e igualitária se o cidadão não agir de acordo com os princípios, a
ética, as leis que fundamentam a própria sociedade.

“O valor ético não está em definir regras imutáveis e prontas para a conduta e o
comportamento humano. Pelo contrário, a ética não se direciona no sentido de
prescrever normas de conduta, mas busca exprimir um sentido racional e
voluntário para as condutas humanas. Portanto, o modo ético de agir advém
dos desejos humanos e se caracterizam pela repetição de atitudes boas e justas,
donde se depreende que a formação do caráter está ligada ao hábito e à
instrução e a expressão da personalidade ética da pessoa deverá traduzir a
conexão entre o seu ethos como caráter e o seu ethos como hábito.”
(OLIVEIRA, 2005, p. 17).

Acrescenta-se a isso que conceitos como valores culturais, identidade nacional,


consciência política, justiça social, liberdade de expressão, religião, autonomia civil,
respeito racial são requisitos necessários para uma boa formação cívica. O cidadão tem
a ver com a civilidade, com a civilização. Ele está integrado ao meio e suas condutas
dizem respeito não só a ele mesmo, mas a todos. A construção de uma sociedade
depende diretamente da participação do cidadão exercendo cidadania com sua ética. O
Cidadão é ator em todos os atos da coletividade. Representa-a em todas as esferas
políticas e sociais.

Ainda falando dessa relação intrínseca entre cidadão e cidadania, podemos dizer que
no aspecto social (político-administrativo, educacional, assistencial) o cidadão bem
formado irá ter papel preponderante para o desenvolvimento equilibrado de uma
sociedade. É através dele que a sociedade vai alcançar graus mais elevados de satisfação
comum.

“A cidadania concerne, desse modo, à relação entre Estado e cidadão,


especialmente no tocante a direitos e obrigações. Teorias acerca da sociedade
civil, preocupadas com as instituições mediadoras entre o cidadão e o Estado,
64

adicionam à compreensão dessa relação uma gama mais variada de


possibilidades.” (VIEIRA, 2001, p. 36).

No contexto atual da sociedade encontramos modelos de cidadania onde o cidadão é


levado a participar mais dos processos de transformação da sociedade. O que se chama
hoje de inovação e alternativas é também emprestada às normas de conduta do cidadão
e seu exercício da cidadania.

“A cidadania, no âmbito desse esforço coletivo, não pode mais ser vista com
um conjunto de direitos formais, mas sim como um modo de incorporação de
indivíduos e grupos ao contexto social. No intuito de solucionar a relação
conflituosa entre as múltiplas tradições de cidadania, baseadas em status,
participação e identidade, alguns autores pretendem formular um complexo
sistema, com o acesso a direitos garantidos por instituições locais, nacionais ou
transnacionais.” (VIEIRA, 2001, p. 48).

“Assim, a participação de uma diversidade de cidadãos expressa reivindicações


específicas por cidadania; todavia esses grupos ‘pós-modernos’ poderiam lutar
por novos direitos e obrigações não só de forma a se beneficiarem
especificamente, mas também a outros. É precisamente nesse sentido que esses
direitos se mantêm nas fronteiras de uma cidadania universal.” (VIEIRA, 2001,
p. 50).

4 - A CONTRIBUIÇÃO DO PENSAMENTO SOCIAL DE JOÃO CALVINO


PARA A FORMAÇÃO DO CIDADÃO

O estudo profundo de João Calvino das Escrituras Sagradas, inclusive aprofundando


nas línguas clássicas, levou-o a tirar conclusões teológicas sobre o ser humano e a partir
daí pensamentos sociais até então não postos em prática pela Igreja Cristã da época.
Suas referências ao progresso do homem em seu contexto social fez-se sentir no meio
onde vivia. Genebra, onde mais aplicou seus ensinos, se tornou palco de mudanças
sociais importantes, tanto que viriam outros apreender com seus ensinos. O cidadão
aprenderia a exercer cidadania quando participando da Igreja, em Genebra, recebesse
ensinamentos cristãos de “amor ao próximo”. Prefaciando a obra de André Biéler, “A
força oculta dos protestantes”, Paulo Manoel Protasio diz:

“A reforma de Calvino é, de princípio e essencialmente, uma reforma teológica


e tem em mira em primeiro lugar as relações do homem com Deus. Não é
65

senão secundariamente e, em conseqüência dessas relações, que a Reforma


assume teor moral, social, político e econômico. Se não nos damos ao trabalho
de conhecer as grandes linhas da sua doutrina do homem e da sociedade,
expomo-nos a nada compreender das razões profundas pelas quais o grande
teólogo interveio de forma tão precisa na área leiga.” (PROTASIO In BIÉLER,
1999, p. 12).

Não poderia haver uma ambigüidade de pensamentos e ações, como se na Igreja se


vivesse um comportamento de vida e na sociedade outro comportamento. O homem,
cidadão era também formado na Igreja. Usavam-se as Escrituras Sagradas para sua
formação. Temos que lembrar que todo esse ensino era completado pelas ciências na
escola, desde criança até a juventude. Assim, João Calvino deu a atenção devida à
escola e a academia. Seus esforços para a construção de uma sociedade mais justa e
cidadã eram vistos quando no meio social havia estímulo ao trabalho, à assistência
social, à proteção aos refugiados, ao ensino nas escolas, ao combate da pobreza e
ociosidade.

A sociedade carece de fundamentos precisos que possam levá-la a um


desenvolvimento não de igualdade entre todos os seres humanos, mas de justiça. A
partir da “vocação eficaz” ensinada por João Calvino, Deus confere ao homem uma
existência plena. Deus concede dignidade à nova vida e responsabilidade intransferível,
quer perante ele próprio, quer perante o próximo. Daí decorre toda a sua nova conduta,
sendo que o indivíduo trabalha na sociedade fundamentado na solidariedade. Novos
rumos e princípios podem nortearem a vida do homem, agora cidadão envolvido na
transformação social.

“Iluminados os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as


coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando-
lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua
onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo,
mas de maneira que eles venham mui livremente, sendo para isso dispostos
pela sua graça” (CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, 2008, X.1, p. 92).

O pensamento social de João Calvino pode contribuir para a formação do cidadão, a


partir de suas idéias a respeito de valores humanos que poderão ser aplicados na
sociedade. Lançamos mão aqui do humanismo cristão que encontramos em Calvino,
que, chegando a Genebra em 1546, deu início a uma série de reformas, dentre elas, a
66

instituição do diaconato que iria auxiliar o Governo no cuidado com as camadas mais
pobres. Assim nos ensina Biéler sobre o pensamento social de João Calvino:

“A vida religiosa e a vida material do crente estão ambas sujeitas à mesma


ordem de Deus. São elas a tal ponto dependentes uma da outra que o serviço
social dos diáconos é concebido como um ministério eclesiástico, ao mesmo
título que o ministério pastoral e a função magisterial. Distribui-se ele por duas
funções: a gestão dos bens da comunidade e o cuidado dos enfermos.”
(BIÉLER, 1985, p. 211).

Calvino, através de um olhar político-administrativo, educacional e assistencial,


provê para o cidadão novas fórmulas para serem postas em prática na sociedade. Os
novos contornos sociais da época de Calvino estavam saindo de um modelo feudal que
tratava os homens como gado. As chamadas Cidades-Estado procuravam-se adaptarem-
se de forma a atender à população. Calvino lança luzes para uma convivência social
equilibrada e que vise ao desenvolvimento e progresso. O homem tem seu valor a partir
da concepção de Calvino do valor que Deus dá ao ser humano. A título de exemplo,
podemos citar a relação homem/trabalho que, via de regra, está historicamente
relacionada à cidadania.

“Essa valorização do trabalho – primeiro marco para a existência da cidadania


– pode ter sua origem datada com as revoltas religiosas e revolução protestante
no século XIV. Se com Lutero (1483-1546) tivemos as primeiras disputas, foi
com Calvino (1509-1564) e a ética protestante que se desenvolveu e
sistematizou essa valorização do trabalho. Não havia mais como assegurar o
plano divino com a compra de indulgências (pedaços do Céu) pelos ricos em
doações à Igreja, como acontecia antes. O Reino dos céus já cabia aos pobres
pelo seu sofrimento.” (COVRE, 1991, p. 22).

4.1 – A coerência entre o pensamento social de João Calvino e a cidadania

Se, em resumo, pensarmos na cidadania como sendo o exercício de direitos e deveres


do cidadão para o bem da sociedade, afina-se aos conceitos e concepções do
pensamento social de João Calvino. Para Calvino, cabe ao homem expressar-se como
luzeiro para um mundo sem luz. Isso posto, a partir de prédicas, livros e catecismos,
João Calvino elabora modelos espirituais que também surtirão efeitos sociais em
Genebra. O que temos até aqui estudado sobre cidadania permite-nos ver uma relação
67

com o direito do homem de ter uma vida digna. A cidadania tem a ver com o progresso
da sociedade e assim acontece com Genebra:

“Genebra, cidade comercial, colocada na intersecção das rotas do comércio que


conduziam dos países do oeste da Europa às cidades suíças e alemãs e do
Mediterrâneo ao Reno, conhece, muito naturalmente, uma evolução
sensivelmente similar à evolução de outras cidades ocidentais do mesmo
gênero.” (BIÉLER, 1985, p. 193).

Uma das marcas que o cidadão deixa para a sociedade é a sua aplicação ao trabalho. O
trabalho sempre esteve associado com o exercício da cidadania. Nesse aspecto o
pensamento social de João Calvino está completamente coerente com a cidadania, pois,
a partir da visão teológica de que o trabalho é tarefa nobre dada por Deus ao homem, ele
fomenta a cidadania.

“Sendo os produtos da terra os sinais da graça de Deus e os meios pelos quais


sua providência sustém a vida dos homens, não há ocupação que testemunhe
desta graça mais diretamente que a do homem do campo, não há trabalho
humano que seja mais visivelmente um trabalho de Deus, obra em que se
discirna mais imediatamente a ação divina.” (BIÉLER, 2012, p. 524).

Temos asseverado que o exercício da cidadania leva em conta os deveres do cidadão


para com a sociedade, como o respeito às leis e àqueles empossados em seus cargos da
magistratura. Um fator que contribui para o equilíbrio de um governo e sociedade é o
fortalecimento das instituições. As instituições são fortalecidas à medida que cidadãos
bem formados estão no comando, trabalhando todos para o bem comum da sociedade.

“Uma vez que, antes de constituída a cidade, todas as coisas pertenciam a todos
os homens e tudo o que fosse chamado por alguém de seu, algum outro teria o
mesmo direito de o dizer da mesma maneira seu (pois onde todas as coisas são
chamadas em comum, nada pode ser propriedade de um único homem),
entende-se que a propriedade origina-se no mesmo lugar onde as cidades têm a
sua e a propriedade de um particular não é nada mais do que aquilo que pode
ser por ele conservado graças às leis e ao poder da cidade como um todo, ou
seja, daquele a quem o comando supremo sobre ela foi conferido. Disso
entendemos que nenhum cidadão tem o direito de se apossar da propriedade
particular de seu concidadão, uma vez que estão todos obrigados pelas mesmas
leis; mas tal propriedade não elimina o direito do governante supremo, cujo
comando é lei, cuja vontade contém a vontade de cada particular, e que foi
constituído juiz supremo por cada indivíduo.” (HOBBES, 2013, p.100-101).
68

João Calvino foi, dentre os reformadores, o principal estimulador da obediência civil.


Para ele todos os que são investidos de autoridade pelo povo o são também por Deus.
Sua doutrina, nesse aspecto, ensina que o governo civil, o Estado, os magistrados, os
reis são instituídos por Deus para cumprir e fazer cumprir as leis para o bem da
sociedade. Calvino era totalmente contrário à anarquia, ou seja, os poderes civis
constituídos eram fundamentais para o estabelecimento de uma sociedade mais justa e
solidária.

“A função dos magistrados atestou o Senhor não só ser-Lhe aprovada e ser[-


Lhe] aceitável, mas também de honorificentíssimos títulos, ademais, havendo-
lhe cumulado a dignidade, mirificamente [no-la] recomendou. Para lembrar uns
poucos: que deuses são chamados todos quantos exercem [a função de]
magistrados, não pense alguém nesse designação residir leve momento, pois,
com ela se significa terem [eles] um mandato de Deus, haverem sido providos
de divina autoridade e representarem inteiramente a pessoa de Deus, Cujas
vezes, de certo modo, desempenham. Não é isto cavilação minha, mas
interpretação de Cristo. “Se a Escritura”, diz [Ele], “chamou deuses àqueles a
quem sobreveio a Palavra de Deus...” [Jo 10.35], que é isto, senão que lhes foi
por Deus conferida a incumbência de que O sirvam em seu múnus e, [o] que a
seus juízes, a quem constituíam em cada cidade de Judá, diziam Moisés e
Josafá, exerçam o juízo não segundo o homem, mas segundo Deus? [Dt 1.16-
17; II Cr 19.6]. Ao mesmo [fim] respeita [o] que a Sabedoria que Deus afirma
pela boca de Salomão:obra Sua ser “que reinam os reis e os conselheiros
decretam [cousas] justas, que os príncipes exercem o principado e munífices
[são] todos os juízes da terra” [Pv 8.15-16]. Ora, isto vale exatamente como se
houvesse sido dito não de humana perversidade acontecer que nas mãos de reis
e outras autoridades esteja na terra o arbítrio de todas as cousas, mas de divina
providência e santa ordenação [de Deus], a Quem assim pareceu [bem] regular
as cousas dos homens, uma vez que presente lhes está e também preside em
formularem-se as leis e [em] exercer-se a equidade dos juízos.” (CALVINO,
1989, vol. IV, p. 456).

Nesse pensamento, a sociedade não pode viver sem hierarquias, sem tomadas de
decisões. A sociedade não pode viver sem rumos, sem perspectivas. O cidadão, ao
exercer a sua cidadania, está participando ativamente do governo de sua cidade, estado
ou país. Assim percebemos essa coerência das idéias de Calvino com todo o arcabouço
político-administrativo do Estado. Os princípios são equivalentes.
69

“Impõe-se aos príncipes e magistrados pensar a que servem eles em seu ofício
e de nada fazerem indigno de ministros e lugar-tenentes de Deus. Ora, quase
toda a solicitude lhes deve estar nisto, que conservem em verdadeira pureza a
forma pública da religião, que regulem a vida do povo por meio de excelentes
leis e que busquem o bem e a tranqüilidade dos seus governados, tanto em
público quanto em particular. Isto não se pode obter senão... com ter-se em
salvaguarda os inocentes e sustê-los, preservá-los e livrá-los... com resistir-se
ao ímpeto dos maus, conter a violência e punir as impiedades” (CALVINO
apud BIÉLER, 2012, p. 352).

“Calvino também influenciou o avanço da democracia porque aceitou o


princípio representativo da direção da Igreja e do Estado. Ele entendia que a
Igreja e o Estado foram criados por Deus para o bem do homem e que,
portanto, deviam, ambos, cooperar para o progresso do cristianismo.”
(CAIRNS, 1995, p. 254).

“A Reforma (Calvinista) dirá que os homens, em todos os níveis, podem


governar-se porque a luz divina é concedida a todos. Para o não-cristão, a
democracia é apenas o melhor sistema de governo. Para o cristão, ela é,
ademais, a oportunidade que lhe é oferecida para participar do governo dos
homens desejado por Deus. Ela estimula-o a uma cidadania ativa.” (BIÉLER,
1999, p. 63).

A cidadania está diretamente associada aos direitos e bens do cidadão, tais como
educação, saúde e salário. Se formos tomar esses três pilares para a cidadania, com
certeza nós iremos ter em Calvino um bom mentor para a condução de uma sociedade.
Isto se deu em Genebra quando Calvino foi chamado novamente àquela cidade para
dirigir a Igreja e participar do conselho da cidade. Assim Calvino fundou escolas,
manteve o Hospital Geral da cidade e proveu meios para que houvesse recursos
pecuniários aos cidadãos. Até os refugiados eram de alguma forma assistidos pelos
recursos da cidade e da Igreja.

“Calvino também incentivou a educação. Em substituição à Academia, ele


criou em Genebra um sistema de educação em três níveis, hoje conhecida
como Universidade de Genebra, fundada em 1559. Sua ênfase sobre a
educação chegou aos Estados Unidos, quando algum tempo depois os
puritanos, calvinistas, criaram escolas no novo mundo. Sob sua liderança,
Genebra tornou-se uma inspiração e um modelo para os de fé reformada de
outros lugares e um refúgio para os perseguidos por sua fé reformada. John
70

Knox por algum tempo se refugiou em Genebra e se curvou à eloqüência da


pregação de João Calvino.” (CAIRNS, 1995, p. 254)

A cidadania preocupa-se com os que estão marginalizados e, aqui, figura-se, de modo


especial, a situação dos materialmente pobres. A sociedade sempre enfrenta um
contingente grande de parcos recursos. Na época de Calvino não era diferente,
principalmente pela falta de víveres e trabalho para a população local e também
imigrantes refugiados. Calvino arregimenta grupos na cidade e na Igreja (diáconos) para
socorro dos materialmente pobres. Evidentemente que na perspectiva teológica de João
Calvino somos administradores dos bens de Deus e devemos usá-los não só a nosso
favor mas também a favor do próximo. Assim estabelece-se uma conexão entre
cidadania e o pensamento social de João Calvino. “Esforços por melhoria social
surgiram dentro das igrejas luterana e calvinista, mas estas foram mais características
das igrejas reformadas.” (LATOURETTE, 2006, vol. II, p. 1038).

“Convém aqui salientar que a assistência social é (...) concebida da parte de


Calvino e da Reforma como uma função coletiva da igreja e da comunidade
civil. À coletividade calvinista pode, pois, permitir-se proibir a mendicância e
condená-la; uma vez que providencia todos os órgãos necessários para ir em
auxílio aos verdadeiros necessitados, esses nenhuma razão mais têm de
recorrer à mendicância.” (BIÉLER, 2012, p. 211-212).

No exercício da cidadania, o cidadão irá lutar belo bem comum e viverá princípios de
honestidade fugindo do mero egoísmo. A sociedade egoísta engessa os homens
levando-os a se tornarem insensíveis quanto ao cuidado com o próximo. Assim
prolifera-se a desonestidade nos negócios e o descumprimento dos contratos.

“A cosmovisão calvinista implica em um sofisticado sistema de checagens e


balanceamentos que visam a promover a justiça e evitar que todos sofram pela
fraqueza de alguns. A prática da auditoria, que está se tornando cada vez mais
comum hoje em dia até mesmo em governos e sociedades filantrópicas é o
resultado da influência dessa mentalidade em que a transparência é valorizada
como um bem supremo da sociedade e indispensável para o sucesso
econômico." (GOUVÊA, 2002, p. 18).

Percebemos que o pensamento de Calvino está aliado a princípios justos de


convivência. Como já dissemos em outro tópico, neste trabalho para Calvino não deve
haver uma duplicidade de vida nos cristãos. A sua prática espiritual deve estar de acordo
com todas as suas práticas da lide diária, ou seja, no trabalho, nos negócios, nos
71

relacionamentos. Toda forma de vivência falsa deve ser erradicada, porque, na sua
teologia do “novo homem”, Deus o restaurou para uma nova vida.

“Estamos envolvidos em todas as partes do mundo num conflito de valores e o


futuro das gerações depende dos rumos a serem tomados por líderes orientados
por seus próprios valores. É responsabilidade primordial da educação discutir
os valores culturais, religiosos e éticos, que estabelecem as diretrizes
comportamentais da convivência social. Os valores definem as ações, portanto,
a prática da cidadania... A cidadania se efetiva em ações que demonstram
responsabilidade social e ética no respeito ao ser humano e à sua dignidade e
identidade pessoais.” (HACK; GOMES, 2002, p. 56).

João Calvino aderiu à doutrina do sacerdócio universal dos fiéis e neste sentido, faz
uma ruptura com o pensamento da teologia Católica Romana da Idade Média onde
havia uma enorme diferença entre o trabalho do clero e o trabalho dos leigos. Essa
diferença provoca uma discriminação no sentido em que o trabalho do clero é mais
importante. A Reforma e João Calvino deram dignidade ao trabalho leigo interpretando
que todo o trabalho é feito para a glória de Deus.

“Os leigos tem a mesma dignidade que os ministros. Todas as profissões e


atividades são igualmente valiosas aos olhos de Deus. Os ministros
diferenciam dos leigos simplesmente nisso: foram escolhidos para realizar
certos deveres definidos, para que haja ordem na casa de Deus. Foi esse
princípios do sacerdócio de todos os crentes que libertou os homens do temor e
dependência do clero. É o grande princípio religioso que jaz na base de todo o
movimento da Reforma. Não somente Lutero, mas todos os demais
reformadores o afirmaram, em especial João Calvino”. (MATOS in
http://www.mackenzie.br/6967.html acesso em 08/06/2015).

“O princípio do sacerdócio universal estará na base da concepção democrática


da Igreja, primeiro, e da cidade, depois, quando os protestantes terão dele
apreendido todo o significado religioso e político. (...) Nas sociedades
protestantes, essa comunicação da autoridade – importa repeti-lo porque é
essencial para compreender as diferentes mentalidades político-religiosas dos
povos – orienta-se, portanto, exatamente no sentido inverso daquele que
prevalece na concepção católica romana, porquanto, lá, a autoridade vem do
alto descendo até o povo. A respeito da primeira afirmação básica do
pensamento reformado que se acaba de mencionar, o chamamento de Deus que
suscita a responsabilidade pessoal, Marc Boegner escreve: ‘Seguramente, ... as
liberdades intelectuais, sociais, políticas, estão implicitamente contidas na
72

liberdade espiritual que Lutero, Calvino e seus companheiros de luta usaram


em face da Igreja, de sua doutrina e de sua disciplina.” (BIÉLER, 1999, p. 52-
53).

Diante do exposto é natural que pensemos na cidadania em termos de liberdades


conquistadas ao longo da História. Vemos a contribuição de um movimento religioso
para estabelecer bases para uma sociedade justa e igualitária. A coerência do
pensamento teológico de João Calvino traz para o campo social atitudes
indiscriminatórias entre cidadãos quer sejam religiosos ou leigos. A cidadania promove
tais conceitos que estão sempre no início de muitas Constituições de cada povo ou país.

“Podemos afirmar que ser cidadão significa ter direitos e deveres, ser súdito e
ser soberano. Tal situação está descrita na Carta de Direitos da Organização
das Nações Unidas (ONU), de 1948, que tem suas primeiras matrizes
marcantes nas cartas de Direito dos Estados Unidos (1776) e da Revolução
Francesa (1798). Sua proposta mais funda de cidadania é a de que todos os
homens são iguais ainda que perante a lei, sem discriminação de raça, credo ou
cor.” (COVRE, 1991, p. 9).

4.2 – A educação dos cidadãos através dos ensinamentos de João Calvino

Do mesmo modo partimos da teologia de João Calvino e sua aplicação na vida dos
cidadãos. Reveste-se de singular importância o valor dado por João Calvino à educação
e essa deveria cumprir o seu papel não somente na teoria, mas muito mais na prática do
dia a dia. O objetivo de João Calvino era ver em cada cidadão aqui da terra a expressão
do cidadão do “Reino de Deus”. Para isso aplicou-se no estabelecimento de princípios
norteadores de educação de forma que o cidadão estivesse também comprometido com
os valores do “Reino de Deus”. Assim nós podemos ver uma diferença, dentro da
Reforma, dos pressupostos de Lutero e Calvino:

“Por isso, é preciso permanecer atento à observação feita, com referência a


cada ética em particular, pelo professor Roger Mehl. ‘Se’, escreve ele, ‘se
pretende repor a ética social no contexto de diálogo entre as confissões da
Reforma’, importa dizer que essa ética insiste sobre ‘a deliberação luterana de
nunca permitir que o Evangelho se torne lei’, isto é, uma moral autoritária
destacada da fé, e sobre ‘a decisão calvinista de organizar, transformar e
renovar o mundo para atestar a glória de Deus’. Isso significa, noutros termos,
que a ética decorre da fé e não poderia reduzir-se a uma lei moral autoritária
73

(Lutero) e que não poderia existir fé cristã viva sem engajamento ético
concreto, de natureza política, econômica e social no mundo (Calvino). Lutero
insiste sobre a conversão e a vida nova que provém da comunhão com o Cristo.
Calvino sublinha e desenvolve as consequências dessa renovação para a
permanência de uma vida harmoniosa dos indivíduos e das sociedades.”
(BIÉLER, 1999, p. 56).

Voltemos aos ensinamentos de João Calvino, que focou na Igreja como escola para
todos. Ela instrui de forma a dar aos cristãos e consequentemente cidadãos o melhor
remédio para uma vida exemplar o consciente de suas responsabilidades. Os ensinos de
Calvino não são no sentido de que o cristão deve isolar-se da sociedade como se vivesse
num mundo estranho. Ao contrário, é pertencer à sociedade e transformá-la para a glória
de Deus.

Se lembrarmos da educação da Idade Média, perceberemos que sua fundamentação


estava focada na escolástica. A escolástica ou escolasticismo (do latim scholasticus) é
uma espécie de fusão da teologia com a filosofia, apreendida principalmente nos meios
monásticos da Idade Média. A grande obra de Thomas de Aquino conhecida como
Summa Theologica é conhecida como a principal obra da escolástica.

“O escolasticismo pode ser definido como a tentativa de racionalizar a teologia


para que sustente a fé com a razão. A teologia, pôde, então, ser tratada sob uma
perspectiva mais filosófica do que bíblica. Os dados da revelação deveriam ser
organizados sistematicamente através do uso da lógica dedutiva de Aristóteles
e harmonizados com a filosofia de Aristóteles, recentemente descoberta. Os
escolásticos enfrentaram um problema semelhante ao enfrentado pela Igreja do
século XIX, quando as novas descobertas da ciência tinham que ser
harmonizadas com a religião. Eles tinham que reconciliar a filosofia natural de
Aristóteles, conquistadas por processos racionais, com a teologia revelada da
Bíblia, aceita pela fé.” (CAIRNS, 1995, p. 187).

A Reforma do Século XVI rompeu com esse pensamento, fazendo uma total
distinção entre a teologia e filosofia. Assim a educação seguiria linhas diferentes e as
pessoas poderiam apreender com as Escrituras ou com a Filosofia. João Calvino,
embora não sendo um filósofo da Educação, e sim teólogo, deu grande contribuição
para a educação e isso começando desde cedo, onde ele deu atenção para as crianças até
a sua formação universitária.
74

“Calvino possuía um propósito definido em sua filosofia educacional: ele


queria que as crianças de Genebra viessem a ser úteis à sociedade, mas que
suas mentes fossem formadas pelos ensinos das Santas Escrituras. Ele queria
futuros cidadãos de Genebra bem preparados não somente na fé bíblica, mas
também ‘na linguagem e nas humanidades’. Por isso, ele dava uma ênfase
primordial à educação voltada para a Escritura, bem como para as artes e as
ciências. Ele queria cidadãos devidamente formados e formados de uma
maneira completa, a fim de que pudessem assumir a liderança futura do mundo
que os esperava. ‘O principal propósito da universidade era eminentemente
prático: preparar os jovens para o ministério ou para o serviço no governo.’ Daí
podemos entender a sua ênfase na Escritura e na teologia, de um lado, e o seu
esforço na volta aos clássicos, do outro lado, a fim de que os jovens pudessem
absorver a experiência passada para enfrentar os desafios do futuro.”
(CAMPOS, 2000, p. 32).

O aspecto singular da educação de Calvino visando ao bem do cristão e futuro cidadão


está relacionado diretamente com os ensinos da Escritura. É sobre esta fundamentação
que, segundo Calvino, se instrui e acontecem as transformações necessárias para que o
cidadão desempenhe papel de contribuição para sociedade.

“Por trás desse ardor pedagógico e social herdado da Reforma, estava um firme
fundamento teológico. Essa perspectiva amparava-se em um conceito de Deus,
do homem e do propósito do homem nesta vida: a) Deus é reconhecido como o
Criador e Senhor de todas as coisas, sendo o doador da vida e de tudo que
temos, a quem devemos conhecer experiencialmente, amar, obedecer e cultuar
– ‘o conhecimento de Deus é a genuína vida da alma’; b) o homem como
‘imagem e semelhança’ de Deus deve ser respeitado, amado e ajudado. Por
mais indigno que possa nos parecer, devemos considerar: ‘A imagem de Deus
nele é digna de dispormos a nós mesmos e nossas posses a ele’. Por isso, ‘não
temos de pensar continuamente nas maldades do homem; antes, darmos conta
de que ele é portador da imagem de Deus’. Essa perspectiva deverá nortear
sempre nossa consideração a respeito do ser humano. A educação, portanto,
visava a preparar o ser humano para melhor servir a Deus na sociedade, a fim
de que Deus fosse glorificado.” (COSTA, 2009, p. 327).

No universo do conhecimento, a educação figura-se como um dos pilares para a


formação do cidadão e construção de sociedade desenvolvida. No entanto, percebe-se
que falta algo para o cidadão operar na sociedade, uma transformação que implica em
valores. A educação que conhecemos e recebemos está imersa numa rede de
conhecimentos apenas no que diz respeito às ciências naturais. João Calvino
75

experimenta o modelo de educar nas ciências naturais e ao mesmo tempo não


desprezando o conhecimento teológico. A transformação do ser humano não acontece
somente com uma educação materialista, mas principalmente com os valores do “Reino
de Deus”. Usa-se a Revelação das Escrituras do Antigo e Novo Testamento para dar ao
homem subsídios de valores morais, éticos e sociais.

“Existe uma profunda relação entre religião e ética, religião e educação,


educação e ética. A religião, através dos seus valores, fornece o substrato para
o desenvolvimento da ética de um povo. A religião pode ainda estar na base da
cosmovisão educacional de um grupo e, finalmente, a educação procura ser o
instrumento de construção das atitudes éticas e morais de uma nação através do
processo ensino-aprendizagem e da relação ensinante-aprendente.” (HACK;
GOMES, 2002, p. 53).

Já fizemos menção que a obra de João Calvino é extensa e nesse sentido ele pode
ensinar aos da sua época sobre várias áreas da vida. Partindo de pressupostos teológicos
e escriturísticos, Calvino se destaca como grande educador da Reforma do Século XVI.
Seus ensinos foram escritos em obras teológicas, pregações, interpretações, folhetos,
confissões, etc. Nesse sentido, neste tomo, destacamos a educação dos cidadãos através
dos seus ensinos. Educação essa que prepara o cidadão para o exercício da cidadania
através dos valores do “Reino de Deus”. Assim não são deixados de lado aspectos
como: a ação social da Igreja, a importância do trabalho, a importância da família como
célula principal da sociedade, a solidariedade social, a honestidade nos negócios e
transações comerciais, o respeito à autoridade, a prática voluntária, a honra da profissão,
o equilíbrio na pobreza e riqueza, etc. Quanto à educação, Calvino era essencialmente
inimigo da ignorância.

“No tocante ao reino de Deus e a tudo quanto se acha relacionado à vida


espiritual, a luz da razão humana difere pouquíssimo das trevas; pois, antes de
ser-lhe mostrado o caminho, ela é extinta; e sua perspicácia não é mais digna
do que a cegueira, pois, quando vai em busca do resultado, ele não existe. Pois
os princípios verdadeiros são como as centelhas; essas, porém, são apagadas
pela depravação da natureza antes que sejam postas em seu verdadeiro uso.”
(CALVINO apud COSTA, 2009, p. 212).

Sendo João Calvino um grande expositor das Escrituras, infunde nas pessoas os seus
ensinamentos, a sua educação. Das Escrituras retiram-se ensino, correção, educação na
76

justiça, cordialidade, abnegação, conforto, fortalecimento, justiça, paz, etc. Esses


valores são por demais importantes para o cidadão e o exercício de sua cidadania.

“Pode soar estranho, mas, ao que parece, a gravidade do ensino bíblico


juntamente com a seriedade de suas reivindicações faz com que o homem não
queira saber dele, preferindo uma mensagem mais ‘light’, que quando muito
mexa com seus músculos, mas não com a sua mente e coração. Para muitas
pessoas, a religião ocupa um lugar reservado para as crianças, as mulheres, os
pobres, os velhos ou, quando a medicina confessa a sua impotência, aí, nessa
brecha, a religião pode ter algum relevo: peço ou encomendo algumas orações.
O homem longe de Deus e avesso à sua Palavra, quando possível, fabrica e
molda seus mestres e domestica os outros.” (COSTA, 2013, p. 209).

Um bom exemplo de que a educação de Calvino em Genebra estava funcionando era a


atração que acontecia por parte de além das fronteiras da cidade. Para ali acorriam
pessoas da França, Alemanha, Boêmia e Inglaterra. Todos esses viam beber de fontes
mais maduras no que diz respeito à formação para a vida. Os ensinamentos de João
Calvino totalmente fundamentados nas Escrituras despertavam nas pessoas e
consequentemente cidadãos notável diferenciação. Para isso Calvino não mediu
esforços para, em Genebra, levar ensino não só para adultos, mas também preparando
crianças.

“Ao apresentar o seu Catecismo formulado para a igreja de Genebra, afirmava


Calvino que o ensino do catecismo era um meio de voltar aos costumes
primitivos, que, pela ação de Satanás, tinha sido abolido. Era preciso cuidar
que as crianças fossem devidamente instruídas na religião cristã. Para que isso
fosse feito mais convenientemente, era preciso ter não somente escolas abertas
como no passado e indivíduos emprenhados no ensino de sua família, mas era
também preciso adotar como costume público e prática a interrogação das
crianças na igreja, sobre temas mais comuns e bem conhecidos dos cristãos.
Por isso, explicava ele, escrevera o seu catecismo e as Institutas (...) Calvino
acreditava na religião inteligente, fruto do intelecto, tão bem como das
emoções. Dizia ele que um dos mais tenazes inimigos da verdadeira religião é a
ignorância. Calvino insiste que a ignorância é a mãe da heresia. Dillistone
afirma que para Calvino a Igreja é a escola da doutrina, o lugar onde os homens
aprendem o verdadeiro conhecimento e são instruídos no caminho do Senhor.”
(FERREIRA, 1985, p. 182-183).
77

5 - CONCLUSÃO

Pontuando uma sociedade entre várias, sob muitos aspectos, a sociedade brasileira
tem deixado a desejar quanto a valores que são caros para a sociedade, num mundo pós-
moderno e globalizado onde o relativismo está em alta e ampara uma sociedade que não
valoriza a justiça na cidadania. Na realidade valores sociais universais muitas vezes têm
sido deixados de lado em nome de um progresso estritamente material. No entanto, a
formação do cidadão é necessária para o devido desenvolvimento da sociedade sob
todos os aspectos. Os dois princípios éticos da Religião Cristã deixados por Jesus Cristo
são: “Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a ti mesmo” (Marcos,
c. 12, vs. 30,31). Espelhando-se nessas duas fantásticas afirmações, espera-se uma
sociedade justa e comprometida muito mais com a cidadania. A bandeira de luta da
cidadania deve contemplar a todos, no sentido de que a vida deve ser respeitada e
amparada por valores humanos. A valorização da família, das leis, dos códigos de
justiça norteia as sociedades cristãs seguras. A abordagem reformada da Religião Cristã
está fundamentada em conceitos que dizem respeito à valorização do ser humano num
contexto de sociedade e/ou comunidade. O desenvolvimento do cidadão ganhará muito
com os pressupostos de formação do pensamento social de João Calvino. Através dos
seus ensinamentos e conduta pessoal exemplar a sociedade ganhará muito no que tange
aos compromissos do cidadão com valores que levem em conta a equidade social.

BIBLIOGRAFIA

ARAÚJO, Eliany Alvarenga de. A Construção Social da Informação: Práticas


Informacionais no Contexto de Organizações Não-Governamentais/ONGs
Brasileiras. 221 f. Tese (Doutorado) – Departamento de Ciência da Informação,
Documentação, Universidade de Brasília, Brasília, 1998.

ARISTÓTELES, Ética a Nicômacos. Trad. Mário da Gama Cury, Brasília: UnB,


2001.

ARISTÓTELES, Política. Trad. Mário da Gama Cury, Brasília: UnB, 1989.


78

ASSEMBLÉIA DE WSTMINSTER. Confissão de Fé de Westminster, São


Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008.

BAVINCK, Herman, Dogmática Reformada. Vol. 4, São Paulo: Cultura Cristã,


2012.

BIÉLER, André – A Força Oculta dos Protestantes. São Paulo: Cultura Cristã,
1999.

BIÉLER, André – O Pensamento Econômico e Social de Calvino. São Paulo:


CEP, 2012.

CAIRNS, Earle E., O Cristianismo Através dos Séculos – Uma História da


Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 1995.

CALVINO, João. As Institutas. Vol. II e IV, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana,
1985 e 1989.

CAMPOS, Heber Carlos de. A “Filosofia Educacional” de Calvino e a Fundação da


Academia de Genebra – Fides Reformata. Vol. 5, número 1, São Paulo: Editora
Mackenzie, 2000.

COSTA, Hermisten Maia Pereira. Fundamentos da Teologia Reformada. São Paulo:


Editora Mundo Cristão, 2007.

COSTA, Hermisten Maia Pereira. Introdução à Educação Cristã. Brasília: Editora


Monergismo, 2013.

COSTA, Hermisten Maia Pereira. João Calvino 500 anos – Introdução ao seu
pensamento e obra. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2009.

COSTA, Hermisten Maia Pereira. Pensadores Cristãos – Calvino de A a Z. São Paulo:


Editora Vida, 2006.

COVRE, Maria de Lourdes Manzini. O Que é Cidadania. São Paulo: Editora


Brasiliense, 1991.

DALLARI, D. A., Direitos Humanos e Cidadania. São Paulo: Moderna, 1998.


79

D´AUBIGNÉ, J. H. Merle. História da Reforma do XVI Século. Vol. II, São Paulo:
Casa Editora Presbiteriana. Undated.

DELUMEAU, Jean. A Civilização do Renascimento. Vol. I, Lisboa: Editorial Estampa


Ltda, 1994.

DO TRATADO DA UNIÃO EUROPÉIA E DO TRATADO SOBRE O


FUNCIONAMENTO DA UNIÃO EUROPÉIA – CARTA DOS DIREITOS
FUNDAMENTAIS DA UNIÃO EUROPÉIA. A união européia. Luxemburgo: Serviço
das Publicações Oficiais das Comunidades Européias, 2010.

FERREIRA, Franklin. João Calvino e a Pregação das Escrituras. In:


https://sites.google.com/site/espacodabiblia/artigos-1/joao-calvino-e-a-pregacao-das-
escrituras, acessado em 01 mai. 2015.

FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: Vida, Influência e Teologia. Campinas: Luz Para
o Caminha, 1985.

GEORGE, T. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1994.

GONZALES, Justo L., A Era dos Reformadores. Vol. VI, São Paulo: Vida Nova, 1989.

GONZALES, Justo L., Uma História do Pensamento Cristão. Volume 3, Da Reforma


Protestante ao século 20. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1989.

GOUVÊA, Ricardo Quadros. Ética e Cidadania – A Busca Humana por Valores


Solidários. Coleção Reflexão Acadêmica. São Paulo: Editora Mackenzie, 2002.

HACK, Osvaldo Henrique; GOMES, Antônio Máspoli de Araújo. Reflexões sobre


Educação, Ética e Cidadania a Partir do Pensamento Reformado. Coleção Reflexão
Acadêmica. São Paulo: Editora Mackenzie, 2002.

HAYKIN, Michael A.G. Em Apresentação à obra de Joel R. Beeke, Vivendo Para a


Glória de Deus: Uma Introdução à Fé Reformada. São José dos Campos: Fiel, 2012
(reimpressão).

HOBBES, Thomas. Do Cidadão. São Paulo: Editora Martin Claret, 2013.

KUHN, Ademildo. Caderno Universitário: Cultura Religiosa. Palmas: Centro


Universitário Luterano de Palmas, 2008.
80

LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Volume 2, São Paulo:


Editora Hagnos, 2006.

LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Editorial Estampa,


1983.

LOPES, Augustus Nicodemos. Sal da Terra e Luz do Mundo (homilia de 13/08/2008)


In www.mackenzie.br/homilias_sal_terra_luz_mundo.html, acessado em 05 mai. 2015.

MACHIAVELLI, Niccolò. O Príncipe. Tradução de Roberto Grassi. 5ª. Ed. Rio de


Janeiro: Difel, 2009.

McGRATH, A. E. A Vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

McGRATH, A. E. Origens Intelectuais da Reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.

MARTINS, Lincoln C. Contribuições à Dimensão Ética no Processo de Formação


Universitária,In:https://www.ufmg.br/bioetica/trabalhos/contribuicoes_a_dimensao_etic
a_lincoln_c_martins.doc, acessado em 07 mai. 2015.

MATOS, Alderi Souza de. O Sacerdócio Universal dos Fiéis. In:


http://www.mackenzie.br/6967.html, acessado em 08 jun. 2015.

OLIVEIRA, J. S. de. Notas para Pensar a Ética, Educação e a Escola, Sumaré:


Intellectus – Revista Acadêmica Digital das Faculdades UNOPEC, a.2, n.4, Jan/Jul
2005.

PROTASIO, Paulo Manoel. Prefaciando a obra de André Biéler, A Força Oculta dos
Protestantes. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999.

REZENDE, Joffre M. de. A Peste Negra na Idade Média. In:


http://dougnahistoria.blogspot.com.br/2009/01/peste-negra-na-idade-mdia.html,
acessado em 25 jan. 2015.

SCHAEFFER, Francis A., Como Viveremos? São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

SCHAEFFER, Francis A., O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A


Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
81

SCHAFF, David S. Nossa Crença de a de Nossos Pais. São Paulo: Imprensa Metodista,
1964.

STROHL, Henri. O Pensamento da Reforma. São Paulo: ASTE, 1963.

TAGATA, Cláudia Maria. Ética na Pesquisa Científica – O Papel do Professor na


Construção de um Cidadão Ético. Umuarama: Revista de Ciências Jurídicas e Sociais
da UNIPAR, v. 11, n. I, Janeiro/Junho de 2008.

THOMAS, Derek W. H. Quem era João Calvino: In PARSONS, Burk. João Calvino –
Amor à Devoção, Doutrina e Glória de Deus. São José dos Campos: São José dos
Campos, 2010.

TOMAZI, Nelson Dacio, Iniciação à Sociologia. 2ª. Ed. São Paulo: Atual 2000, 2008.

VIEIRA, Liszt, Os Argonautas da Cidadania – A Sociedade Civil na Globalização. São


Paulo: Editora Record, 2001.

UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, Um Olhar sobre Ética &


Cidadania – Coleção Reflexão Acadêmica. São Paulo: Editora Mackenzie, 2002.

WILSON, Douglas J., O Roteiro Sagrado no Teatro de Deus: Calvino, a Bíblia e o


Mundo Ocidental: In: John Piper; David Mathis, orgs. Com Calvino no Teatro de Deus:
A Glória de Cristo e a Vida Diária. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 67-91.