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(I1r., 3H)
PEDRO ROMANO MARTINEZ
Professor da Faculdade de Direito de Lisboa
e da Faculdade de Direito da Universidade Católica

DIREITO DO TRABALHO
3.3 edição

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ALMEDINA
Trabalhos do autor

DlREITO DO TRARALHO
1. Livros
AUTOR
PEDRO ROMANO MARTINEZ
a) Direito Civil e Comercial
EDITOR
EDIÇÕES ALMEDlNA. SA
Rua da E.~trela. n. o 6 I. O Subcolltrato. Almedina. Coimbm. 1989 (211 págs.);
3000·161 Coimbra 2. Cumprimento Defeituoso em especial na Compra e Venda e IUI Empreitai/a.
Telef.: 239851904 Lisboa. 1992 (=) Almedina. Coimbra. 1994 (643 págs.);
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- Cumprimetllo Defeituoso em especial na Compm e l'ellda e 110 Emprei-
editora@almedina.net tada. reimpressão. Almedina. Coimbm. 2001 (602 págs.);
3. Colllrato de Empreitada. Almedina. Coimbra. 1994 (251 págs.);
PR~IMPRESSÂO • IMPRESSÃO' ACABAMENTO 4. Garalllias de Cumprimento (em co-autoria). I.a edição. Almedina. Coimbra.
G.c. - GRÁACA DE COIMBRA. LDA. 1994 (121 págs.);
PALHEIRA - ASSAFARGE
- Garantias de Cumprimellto (em co-autoria). 2.' edição. Almcdina. Coim-
3001-453 COIMBRA
producao@graficadc:coimbra.pt bra. 1997 (183 págs.);
- Gtlrantias de Cumprimetllo (em co-auloria). 3.' edição. Almedina. Coim-
Junho. 2006 bra. 2002 (250 págs.);
- Garantias de Cumprimefllo (em co-autoria). 4.' edição. Almedina. Coim-
DEPÓSITO LEOAL
bra. 2003 (283 págs.);
244456106
5. Empreitada de Obras Ptíblicas. Comentário ao Decreto-Lei II. o 405/93. de lO
Os dados e as opiniüc. in""fi~ na pte""nle publicação de De:.embro (em co-autoria). Almedina. Coimbra. 1995 (373 págs.);
são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autor(es). , 6. Cotllratos em Especial. I.' edição. Universidade Católica Edilora. Lisboa. 1995
(164 págs.);
Toda a reprodução desta obra. por fOlocópia ou outro qualquer processo. - COfllratos em Especial. 2.. edição. Universidade Calólica Editora. Lisboa.
sem prévia autorizaçll0 escrita do Edilor.
1996 (359 págs.);
é ilícita e passível de procedimento judicial contra o infractor.
7. Direito das Obrigações (Parte Especiul). Cotllratos. Compru e Vellda. LoCtl-
çeio. Empreitada. 1.' edição. Almedina. Coimbm. 2000 (478 págs.);
- Direito das Obrigações (Parte Especial). Contratos. Compra e Vellda. Lo-
caçcio. Empreitada. 2'> edição. Almcdina. Coimbra. 2001 (523 págs.);
- Dirrito das ObrigClções (Parte Especial). COlllratos. Compra (' Vellcla.l.o-
cariio. Empreitada. 2.' edição. L" reimpressão. Almcdina. Coimbm. 2003
(523 págs.);
Direito do Trabalho Tra/Xl/lws do Amor Publkudm 7

- Dirá/o das Obriga('(Jes (Parte Especial). Contrato.\'. Compra e Venda. lo- - Código do Trabalho Ano/ado (em co-autoria). 2: edição. reimpressão.
cação. Empreitada. 2.' edição. 2.' reimpressão. Almedina. Coimbra. 2005 Almedina. Coimbra. 2004 (938 págs.);
(523 págs.); - Código do Trabalho Anotado (em co-autoria). 3.' edição. Almcdina. Coim-
8, Contratos Comerciais. Apontamentos. Principia. Ca'icais. 2001 (127 págs,); bra. 2004 (1206 págs.);
- ContralOs Comerciais. Apontamentos. reimpressão. Prim;ipia. Cascais. - Código do Trabalho Anotado (em co-autoria). 4: edição. Almedina. Coim-
2003 (127 págs.); bra. 2005 (1226 págs.);
9. Direito das Obrigaçeies. Apontamentos. L" edição. AAFDL. Lisboa. 2003 - Código elo Trabalho Anotado (em co-autoria). 4: edição. reimpressão. AI-
(285 págs.); medina. Coimbra. 2006 (1226 págs.);
- Direito das Obrigar/ies. Apontamelllos, 2: edição. AAFDL, Lisboa. 2004 6. Apontamelllos sobre o Regime da Cessação tio Colltrato de Trabalho à lu;; elo
(327 págs.); Código do Trabalho. AAFDL. Lisboa. 2004 (169 págs.);
lO. Da Cessaçcio do Contrato. Almedina, Coimbra. 2005 (687 págs.); - Apontamentos sobre o Regime da Cessação do Contrato de Trabalho à lu;;
- Da Cessarüo do Contrato. 2." edição. Alrnedina. Coimbrd. 2006 (689 do Código do Trabalho. reimpressão. AAFDL. Lisboa. 2005 (169 págs.).
págs.);
II. Direito dos Seguros. Relatório. Separata da Revista da Faculdade de Direito
da Universidade de Lisboa. Lisboa. 2006 (153 págs.);
12. Direito dos Seguros, Apontamentos, Principia. Cascais. 2006 (160 págs.). J c) Direito Internacional Público

,I;
. ,
Textos ele Direito Internacional Ptíblico. L" edição. Almedina. Coimbra. 1991:
- Textos de Direito Internacional Público. 2.· edição. Almedina. Coimbra .
b) Direito do Trabalho - ;

1993;
- Textos de Direito Internacional Público. 3." edição. I Volume. Almedina.
I. Direito do Trabalho. Volume I. L" edição. Lisboa. 1994/95 (567 págs.);
Coimbra. 1995;
- Direito do Trabalho. Volume II. L" edição. Lisboa. 1994/95 (272 págs.);
- Textos de Direito Internaciontll Público. 4." edição •• Volume (em co-auto-
- Direito do Trabalho. Volume I. Parte Geral. 2: edição. Lisboa. 1997 (342
págs.); ria). Almedina. Coimbra. 1997;
- Textos de Direito IntemaciOtUlI P,íblico. 5." edição. (em co-autoria). Alme-
- Direito do Trabalho. Volume I. Parte Geral. 3." edição. Lisboa. 1998 (359
págs.); dina. Coimbra. 1999;
- Textos de Direito Internacional Público. 6: edição. (em co-autoria). Alme-
- Direito do Trabalho. Volume II. Contrato de Trabalho. 2.' edição. Lisboa.
1998 (413 págs.); dina. Coimbra. 2000 (451 págs.);
- Textos de Direito Internacional Público. 6: edição. reimpressão. (em co-
- Direito do Trabalho. Volume II. Contrato de Trabalho. Tomo 1.°.3: edi-
ção. Lisboa, 1999 (429 págs.); autoria). Almedina. Coimbra. 2003 (451 págs.).
- Direito do Trabalho. Volume II. Comrato de Trabalho. Tomo 2.°. 3." edi-
ção, Lisboa. 1999 (383 págs.); I
2. Acidentes de Trabalho. Lisboa. 1996 (I II págs.); 2. Artigos
3. Direito do Trabalho. Relatório. Lisboa. 1998 (=) Separata da Rel'ista da Facul-
dade de Direito da Unil'ersidade de Lisboa. Lisboa. 1999 (78 págs.); a) Direito Civil e Comercial
4. Direito do Trabalho. Almcdina. Coimbra. 2002 (1175 págs.);
- Direito do Trabalho. reimpressão. Almedina. Coimbra. 2004 (1175 págs.); I. «Products Liability. Portugal» (em co-autoria). Proelllcts Liabilit)'. An Inler-
- Direito do Trabalho. 2.' edição. Almedina. Coimbra. 2005 (1267 págs.); I/atiol/al Mal/llal of Practice. organizado por Warrcn Frecdman. Oceana Pu-
5. Código do Trabalho Anotado (em co-autoria). I." edição. Almcdina. Coimbra. blications. Londres. Roma e Nova Iorque. 1988. pp. I a 35;
2003 (932 págs.); 2. ",Contrato de Empreitada,). Direito das Obrigações. 3.° Volume. Contratos
- Código do Trabalho Anotado (em co-autoria). 2: edição. Almedina. Coim- em Especial. coordenação de Mcne7,CS Cordeiro. I: edição. AAFDL. Lisboa.
bra. 2004 (938 págs.); 1990. pp. 157 a 252;
8 Direito do Trabalho TrabalhoJ' do Autor Publicados 9

- «Contrato de Empreitada», Direito das Obrigações, 3.° Volume, Contratos 15. «Regime da Locação Civil e Contrato de Arrendamento Urbano». Eswdos em
em Especial, coordenação de Menezes Cordeiro, 2." edição, AAFDL, Lis- Homenagem ao Profes,mr Doutor Inocêncio Gaivão Telles, Volume III. Di-
boa. 1991. pp. 409 a 561: reito elo Arrendamento Urbano. Almedina. Coimbra. 2002. pp. 7 a 32:
3. «A Garantia contra os Vícios da Coisa na Compra e Venda e na Empreitada. 16. ",Subarrendamento... E.Hudos em 1I0menagt'm ao Profeuor DOlltor Ino("(~ncio
Comentário ao Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 23 de Fevereim Gaivão Telles. Volume III, Direito elo ArrellelamenlO Urbano. Almcdina.
de 1988». TribmUl da Justiça, n.os 4/5 (1990), pp. 173 a 192; Coimbra. 2002. pp. 237 a 247;
4. «Aspectos Legais na Construção. Responsabilidade durante e após a Cons- 17. «Contrato de Seguro e Informática». /II Congresso Nacional dr Dirt'ito dos
trução .. , 2. o Encontro sobre Qualidade na Construção. Conferências. LNEC Seguros. Memórias. Almedina. Coimbra. 2003. pp. 29 a 39;
(Laboratório Nacional de Engenharia Civil). Lisboa, 1990, pp. 11.1 a 11.67; 18. «Vício na Formação do Contrato, Interprelação do Negócio Jurídico. Condi-
5. «O Contrato de Empreitada no Direito Romano e no Antigo Direito POI1U- ção Resolutiva e Incumprimento Conlratual>. (em co-autoria). Re~'ista de
guês. Contributo para o Estudo do Conceito de Obra na Empreitada... Direito Direito e de Estudos Sociais. Ano XLIV (2003). n. OS I e 2. pp. 159 a 273:
e Justiça. VII (1993). pp. 17 a 33; 19. «Empreitada de Bens de Consumo. A Transposição da Directivu n.o
6. «Os Grandes Tipos de Contratos de Direito de Autofl>. Num NOWJ Mundo do I 999/44/CE pelo Decrelo-Lei n. ° 67/2003". Estudos do Institllto ele Direito do
Direito de Autor. II Congresso Ibero-Americano de Direito de Autor e Direi- Consumo. Volume II. Almedina. Coimbra. pp. II a 35;
tos Conexos. DGESP (Direcção-Geral de Espectáculos). Cosmos e Livraria 20. "Celebração e Execução do Conlralo de Arrendamento segundo o Regime dos
Arco íris. Lisboa. 1994. Tomo I. pp. 395 a 404; Novos Arrendamentos Urbanos». O Direito. Ano 136 (2004). n.OS 111111,
7. Entradas na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura (Verbo), 2.· edição: O Nom Regime do Arrendamento Urbano. pp. 273 a 288;
- "Crédito» (Volume 8). 21. "O Novo Regime Legal do Comércio Electrónico». Lei do Comércio Electró-
- «CredOfl> (Volume 8). nico Anotaela. Publicação do Ministério da Justiça. Coimbra Editora. 2005.
- «Empreitada (Contrato de)>> (Volume 10). pp. 267 a 274;
- «Hospedagem» (Volume 15). 22. "Celebração e Execução do Contrato de Arrendamento segundo o Novo Re-
- «Locação» (Volume 18): gime do Arrendamento Urbano (NRAU)>>. O Direito. Ano 137 (2005). n.o II.
- «Mediação» (Volume 19); O Novo Regime do Arrendamento Urbano. pp. 337 a 357;
8. «Contrato de Seguro. Âmbito do Dever de Indemnizar,•• I Congresso Nacional 23. «Privilégios Creditórios ... Estuelos em Homef/agem ao Prof DOlltor MllIluel
de Direito dos Seguros. Memórias. Almedina. Coimbra. 2000. pp. 153 a 168; Henrique Mesquita. Coimbra (no prelo);
9. «Responsabilidade Civil do Empreiteiro por Danos Causados a Terceiros na 24. «Compra e Venda e Empreitada», Comemoraçóe.v dm 35 Anos do Código
Execução da Obra». Estudos em Homenagem ao Professor Doutor Pedro Soa- Civil Português. Volume III (Direito das Obrigaçõcs) (no prelo).
res Martíne:. Volume I. Vária. História. Uteratura. Filosofia, Política. AI-
medina. Coimbra. 2000. pp. 785 a 80 I;
10. «Contrato de Empreitada: Prazos de Garantiu. Decisão Arbitra),>. Estudos em b) Processo Civil
Homenagem ao Professor Doutor Manuel Gomes elll Silva. Faculdade de
Direito da Universidade de Lisboa. Lisboa. 200 I. pp. 697 a 106; I. «Conversão do Processo de Execução em Processo de Falência» (em co-auto-
II. «Empreitada» in Dicionário Jurfdico da Administraçüo Pública, 2. Suple-
0
ria), Revü'w ela Ordem dos Advogaelos. 50 (1990), II, pp. 415 a 422;
mento, Lisboa. 200 I. pp. 287 a 30 I; 2. «Venda Executiva - Alguns Aspectos das Alteraçõcs Legislativas Introdu-
12. «Conteúdo do Contrato de Seguro e Interpretação das Respectivas Cláusulas». zidas na Nova Versão do Código de Processo Civil». Aspecto.{ do No\'() Pro-
/I Congresso Nacional de Direito dos Seguros. Memórias. Almedina. Coim- cesso Civil. Lex. Lisboa. 1997. pp. 325 a 337;
bra. 2001. pp. 57 a 71; 3. «Intimação para um Comportamento. Providência Cautelar. Anotação ao Acór-
13. «Empreitada de Consumo». Re~'ista Themis. Ano II (2001). n.O 4. pp. 153 dão do Supremo Tribunal Administrativo de 5/1111996 ... Cademos elt' JIl.ftiça
a 169; Administratim. n. o 2. Março 1 Abril de 1997. pp. 58 a 61;
14. «Garantias Bancárias». ESllldos em Homenagem ao Profrssor Doutor Inocên- 4. «Meios Alternativos de Resolução de Litígios». Conferência: Meios Alter-
cio Gaivão Telles. Volume II. Direito Bancário. Almedina. Coimbra. 2002. lIati~'os ele Resolução llt' Litígios. Ministério da Justiça. Lisboa. 2001. pp. 57
pp. 265 a 288; a 61:
10 {)ireito do Trabalho Traballw-r do Autor Publicados II

5. «Análise do Vínculo Jurídico do Árbitro em Arbitragem Voluntária Ad Hoc». tituição da República Portuguesa de 1976 - El"Olução Constilllcional e Pers-
Eslltdos em Homenagem ao Prof. Doutor António Marques dos Salllos. pectiva... Flllllras. AAFDL. Lisboa, 2002. pp. 149 a 187;
Volume I. Almedina. Coimbra. 2005. pp. 827 a 841. 16. «Pareccr sobre o Relatório da Comissão de Análise e Sistematização da
Legislação Laboral». Revisão da Le}:islação Laboral. Ministério do Trabalho
e da Solidaricdade, Lisboa. 2002, pp. 125 a 128 (=) «Apreciação da Proposta
c I Direito do Trabalho de Novo Articulado de uma Lei Gcral do Tmbalho (Relações Individuais)
Apresentada pela Comissão de Análise e Sistematização da Legislação Labo-
I. «Repereussões da Falência lias Relações Laborais». Revista da Facu/tlade de rab,. Revi.flll da Faculdade de Direito da Uni"ersidade de Lisboa. Ano XLII
Direito da Universidade de Lisboa, Volume XXXVI (1995), pp. 417 a 424; (2001), n.o 2. pp. 1563 a 1567;
2. «A Igualdade de Tratamento 110 Direito Laboral. A Aplicação da Directiva 17. «Cessação do Contrato de Trabalho; Aspectos Gerais», Estudos do 1".\·titlllO
76/207/CEE em Portugal». Direito e Justira XI (1997) pp. 83 a 94; de Direito do Trabalho, Volume III. Almcdina. Coimbra. 2002. pp. 179 a 206;
3. "A Justa Causa de Despedimento». I Congresso Nacional de DireilO do Tra- 18. «Considerações Gernis sobre o Código do Trabalho». R,...·i.fta de Direito e de
balho. Memórias. Almedina. Coimbra, 1998. pp. 171 a 1&0; Estudos Sociais, Ano XLIV (2003). n. OS I e 2. pp. 5 a 28 (=) VI Congresso Nacio-
4. «Relações Empregador Empregado», Direito da Sociedade da Informação, nal de Direito do Trabalho. Mem(1ria.v, Almcdilla, Coimbra. 2004, pp. 41 a 60;
Volume I, Coimbra Editora. Coimbra. 1999. pp. 185 a 200; 19. «Caducidade do Contrato de Trabalho». Estudos em Home"axem ao Prof.
5. «A Razão de Ser do Direito do Trabalho». /I Congresso Nacional de Direito Doutor Raúl Ventura. Volume II. Direito Comercial, Direito do Trabalho,
do Trabalho. Memórias. Almedina, Coimbra. 2000, pp. 129 a 144 (=) Revista Vária. Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. 2003. pp. 695 a 715;
LTR (Brasil). ano 63. Outubro de 1999. pp. 1348 a 1354; 20. «Exigências de um Novo Direito do Trabalho», O Direito Contemporâlleo em
6. «O Regimc Laboral dos Docentes: Alguns Problemas». Educação e Direito. Portugal e 110 Brasil, Almedina. Coimbra, 2004, pp. 349 a 375;
n." 2, 2.°. 1999, pp. 41 a 50; 21. «O Código do Trabalho (Directrizes de Reforma; Sistematização; Algumas
7. «Cedência OcasionaJ de Trabalhadores. Quadro Jurídico». Revista da Ordem Questões)>>. O Direito. Anos 134 e 135 (2002-2003). pp. 45 a 67;
dos Adl"Ogados. 1999, pp. 859 a 870; 22. "A Reforma do Código do Trabalho: Perspectiva Gcral». A Reforma c/o Có-
8. "Obrigação de Informar». in Fundamentos do Direito do Trabalho. E.ftudos digo c/o Trabalho, Centro de Estudos Judiciários e Inspecção-Geral do Tra-
em Homenagem ao Ministro Milton de MOllra Frallça, LTR. S. Paulo. 2000. balho. Coimbra Editora. Coimbra. 2004. pp. 31 a 43;
pp. 34 a 43; 23. «Responsabilidade Civil em Direito do Trabalho», Estlldos de Homellagem ao
9. «Tutela da Actividade Criativa do TrabalhadOr». Revi.\·ta de Direito e de Prof. Doutor Ruy de Albuquerque. Lisboa (no prelo);
Estudos Suciais. XLI (2000). n.~ 3/4, pp. 225 a 243; 24. «Nulidade de Cláusulas de Convenções Colectivas de Trabalho. O Período
10. «Poder dc Direcção: Âmbito. Poder Disciplinar: Desrespeito de Ordens. Co- Experimental no Contrato de Trabalho Desportivo», Estudos em I/omellagem
mentário ao Acórdão do STJ de 20 de Outubro de 1999, Revista de Direito e ao Prof. Doutor António de Sousa Frallco, Lisboa (no prelo).
de Estudos Sociais, XLI (2000), n. OS 3/4, pp. 399 a 408;
II. "OS Novos Horizontes do Direito do Trabalho», /II Cmlgresso Nacional de
Direito do Trabalho. Memória.... Almedina. Coimbra. 200 I' pp. 325 a 351; d) Direito Internacional Público
12. «Trabalho Subordinado e Trabalho Autónomo,), Estudos do Instituto de Di-
reito do Trabalho, Volume I, Almedina, Coimbra, 2001, pp. 271 a 294; «Relações entre o Direito Internacional e o Direito Interno.. , Direito e Jllstiça, IV
13. «Incumprimcnto Contratual e Justa Causa dc Despedimento». Estudos do Ins- (1989/90). pp. 163 a 179.
titllto de Direito do Trabalho. Volume II. Justa Causa de Despedimento. AI-
medina. Coimbra. 2001. pp. 93 a 118;
14. «Os Princfpios c o Direito do Trabalho em Portugal», ifl Os Novos Paradig- 3. Coordenações
mas do Direito do Trabalho (Homenagem tI Valentifl CarrionJ. Coordenação
de Rita Maria Silvestre e Amauri Mascaro Nascimcnto. Saraiva. S. Paulo. I. Manual Prú/ico do Processlltnm/o Laboral. Dashõfer. Lisboa. 1999;
2001. pp. 27 a 52; 2. Estudos do Instilllto de Direi/o do Trabalho. Volume I. Almedina. Coimbra.
15. "A Constituição de 1976 e o Direito do Trabalho», i" Nos 25 AI/o.\· da COflS' 2001 (778 págs.);
12 DireilO do Traba/lUl

- Estudos do In.\"titulO de Direito do Trabalho, Volume II. Justa Cau.ra de


Despedimento. Almedina. Coimbra. 2001 (283 págs.);
- Estudos do Instituto de Direito do Traballro. Volume III. Almedina. Coim-
bra. 2002 (536 págs.);
- Estudos do Instituto de Direito do Traballro. Volume IV. Almcdina. Coim-
bra. 2003 (269 págs.);
3. Revista de Direito e de Estudos Sociais, direcção conjunta com o Senhor Prof. NOTA I'RÉVIA À 3.8 EI>IÇÃO
Doutor Bernardo da Gama Lobo Xavier. desde o Ano 2000;
4. Estudos em Homenagem ao Prof. Doutor Rmil Velltura. Volume II, Direito
Comercial, Direito do Trabalho, Vária. coordenação com os Senhores Profes-
Na medida em que a 2." edição do Direito do Trabalho se esgotou em
sores Doutores Oliveira Ascensão. Ruy de Albuquerque e Martim de Albu-
querque. Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, 2003 (1030 págs.); pouco mais de seis meses. nesta nova edição, tendo em conta outros tra-
5. Portuguese Lobour Code. Dllal úlIIguage. PCJrtuguese I Eng/i.vh. Código do balhos académicos em que me empenhei, em especial na feitura de lições
Trabalho. Edição Bilingue. Português / Inglês. edição do Instituto de Direito sobre direito dos seguros, não tive possibilidade de proceder à necessária
do Trabalho da Faculdade de Direito de Lisboa. Almedina. Coimbra. 2005 actualização de jurisprudência e de doutrina. A 3." edição justifica-se tão-
(661 págs.). -só pela indispensável correcção de alguns lapsos. assim como para adap-
tação do texto do manual às alterações introduzidas no Código do Traba-
lho pela Lei n.o 9/2006. de 20 de Março. Aproveitou-se ainda o ensejo para
reescrever o capítulo respeitante à retribuição.

Porto, Março de 2006


NOTA PRÉVIA À 2." EDIÇÃO

Esgotada a L" edição e a respectiva reimpressão deste manual de Di-


reito do Trabalho, não se justificava fazer uma segunda reimpressão tendo
em conta as múltiplas alterações introduzidas pelo Código do Trabalho.
Na medida em que, neste ano lectivo de 2005/2006, optei por não
assegurar a regência da disciplina de Direito do Trabalho - dedicando-me,
antes, à Introdução ao Direito - talvez nem se justificasse refazer estas
lições, adaptando-as ao novo regime jurídico. Todavia, tendo em conta a
minha participação aturada na feitura do Código do Trabalho e aproxi-
mando-se a data prevista para a sua revisão (2007), não poderia deixar de
apontar algumas das directrizes que presidiram à elaboração do Ante-
projecto de Código do Trabalho e que justificaram parte das alterações
posterionnente introduzidas. Por incumbência do Senhor Secretário de
Estado do Trabalho, Dr. Luís PAIS ANTUNES, organizei um grupo de traba-
lho, que integrei. composto pelos meus colegas Dr. ANTÓNIO NUNES DE
CARVALHO, Dr. Luís MIGUEL MONTEIRO, Ora. JOANA VASCONCELOS, Dr.
PEDRO MADEIRA DE BRITO, Dr. GUILHERME MACHADO DRAY, Dr. JosÉ
MANUEL VILALONGA e Dr. Luts GONÇALVES DA SILVA, grupo esse que, na
dependência directa do Secretário de Estado do Trabalho, elaborou num
curto período de dois meses o Anteprojecto de Código do Trabalho, que
foi divulgado no inÍCio do verão de 2002. Desde então e até à apresentação
• do diploma na Assembleia da República o referido grupo de trabalho
colaborou arduamente na elaboração desta refonna do direito do trabalho.
A minha estreita colaboração nos trabalhos que estiveram na origem
do Código do Trabalho justifica que, estando esgotada a 1.3 edição das
lições feitas pouco antes desta revisão legislativa, proceda agora à sua alte-
ração de acordo com o Código do Trabalho apesar de não reger a disci-
plina. Em vários aspectos, estas lições publicadas em 2002 já reflectiam
algumas das soluções que vieram a ser consagradas no Código do Traba-
lho, nomeadamente no que respeita à relação com o direito civil, à siste-
matização e à tenninologia. Ainda assim, nesta revisão aproveitou-se o
16 Direito do Trabal/w
\

ensejo para fazer cenas modificações no que respeita à sistematização para \


melhor se adequar ao Código do Trabalho.
Apesar de se impor a revisão deste manual de Direito do Trabalho,
adaptando as lições às alterações resultantes do Código do Trabalho, nem
sempre houve disponibilidade para proceder ao necessário desenvolvimento
que a reforma impunha, em especial explicando muitas das implicações
das novas soluções. Em alguns parágrafos. por manifesta falta de tempo. NOTA INTRODUTÓRIA
procede-se a uma simples actualização legislativa, sem explicações quanto (à 1." edição)
à justificação das novas regras, principalmente quando estas coincidem
com as soluções da legislação revogada. Estas lacunas podem ser preen-
chidas pela remissão que. em cada número, se faz para o Código do Tra- I. Depois de ter regido durante sete anos a disciplina de Direito do
bailIO Allotado por quase todos os membros do grupo de trabalho que ela- Trabalho na Faculdade de Direito de Lisboa e na Faculdade de Direito da
borou o Anteprojecto de Código do Trabalho. Por outro lado. o Código do Universidade Católica, de ter orientado no Mestrado da FDL a cadeira de
Trabalho implicou um enorme incremento dos estudos nesta área jurídica Direito do Trabalho durante igual período e de ter coordenado três Cursos
e a revisão do manual feita sob pressão de outros trabalhos académicos não de Pós-Graduação no Instituto de Direito do Trabalho da Faculdade de
permitiu que se fizessem as correspondentes citações. Por último, menos Direito de Lisboa. impunha-se a publicação de lições de Direito do Tra-
de dois anos volvidos sobre a entrada em vigor do Código do Trabalho balho.
ainda não é fácil encontrar jurisprudência dos tribunais superiores relativa As lições de Direito do Trabalho agora apresentadas já tinham sido
à aplicação deste diploma. pelo que as lições enfermam da falta de apoio parcialmente publicadao; em três edições, tendo essencialmente em vista
de jurisprudência recente. não obstante se reconhecer que o estudo das servir de texto de apoio para os meus alunos da licenciatura nos Cursos de
decisões judiciais é imprescindível para se conhecer o Direito em análise. Direito da Faculdade de Direito de Lisboa c da Universidade Católica em
Espera-se, numa próxima edição. colmatar estas lacunas. Lisboa. Neste ano em que me encontro em licença sabática pareceu-me
conveniente proceder à publicação integral dessas lições, reunindo textos
Caminha, Setembro de 2005 e procedendo a várias alterações, justificadas por diversos motivos.
Em primeiro lugar, na versão inicial (1994/95). as lições foram elabo-
radas sob pressão de tempo. tendo unicamente por base a desgravação das
aulas teóricas. Isso levava a que. não raras vezes, a escrita reflectisse uma
linguagem coloquial, com várias imprecisões, faltando as imprescindíveis
referências bibliográficas e jurisprudenciais, que foram acrescentadas.
Mantém-se, todavia, a indicação bibliográfica de obras ponuguesas no
final de cada número ou alínea.
Por outro lado, o decorrer do tempo. permitindo uma melhor reflexão
sobre os problemas - até porque o ano lectivo de 1994/95 foi o primeiro
em que, desde o tempo de aluno, contactei com questões de direito do
trabalho -,levou a que se reconsiderassem algumas tomadas de posição.
que implicaram correcções pontuais. Aproveitou-se igualmente para desen-
volver parte das questões que foram somente indicadas de forma sumária.
Na segunda versão dessas lições (1997) manteve-se o plano inicial.
tendo-se acrescentado com autonomia alguns pontos que eram tão-só
18 Direito do Trabalho Nota IntrodutÓTill 19

aflorados. como o trabalho em regime de comissão de serviço e a protec- Por outro lado. no Capítulo IV. após estudo sobre o incumprimento
ção da maternidade. ao mesmo tempo que se incluiu um estudo. com algum das prestações das partes no contrato de trabalho. incluiu-se uma secção
desenvolvimento. da matéria respeitante aos acidentes de trabalho. Entendeu- sobre acidentes de trabalho atendendo à importância teórica e prática desta
-se que a responsabilidade civil emergente de acidentes de trabalho. não matéria.
obstante o reduzido tratamento por parte da doutrina. encontrando-se Por último. nos dois últimos capítulos. contrariamente ao que tem
omissa nos recentes manuais de direito de trabalho portugueses. carecia de sido usual. inserem-se referências às contra-ordenações laborais e ao pro-
um estudo sistemático. cesso do trabalho. As contra-ordenações laborais. apesar da interligação
Nessa segunda versão. apesar de se manter a estrutura inicialmente com o direito penal. atendendo às suas particularidades devem ser estuda-
traçada. optou-se por dividir as lições em três volumes. O primeiro volume das em direito do trabalho. Ao processo do tmbalho. não obstante ser
versaria a parte geral do direito do trabalho. o segundo o contrato de direito adjectivo. como não é ministrado em nenhuma outra cadeira do
trabalho e no terceiro volume incluir-se-ia a matéria respeitante às relações curso de Direito e apresenta particularidades com respeito ao processo
colectivas de trabalho. às contra-ordenações laborais e ao processo do civil. deve ser feita alusão na cudeira de direito do trabalho.
trabalho. Esta segunda versão ficou incompleta. pois não terminei o
segundo volume - que foi parcialmente publicado em tópicos - e o III. O direito do trabalho desenvolveu-se a partir de um dos contratos
terceiro volume não chegou a ser preparado. em especial. regulados no direito das obrigações. mas em que a multi-
Na terceira versão das lições (1998/99). além de se terem incluído plicidade de excepções ao regime geral o vem a colocar como ramo autó-
alterações no primeiro volume. terminou-se o segundo volume. tendo. nomo. Essas excepções tiveram essencialmente por base razões sociais.
mais uma vez. ficado por fazer o terceiro volume. políticas e económicas. que justificaram o seu aparecimento a partir da
segunda metade do século XIX. com vista a regular questões. como as
II. Publica-se agora a versão integral dessas lições reunidas num condições de trabalho subordinado. as a<;sociações de trabalhadores. as
único volume. lutas sociais. os despedimentos. as férias. etc .• etc. Tais normas surgem
Pela leitura do plano. notam-se algumas diferenças com respeito à criando um ramo novo: o Direito do Trabalho. O direito do trabalho en-
forma usual de exposição da matéria de direito do trabalho. Em primeiro contra-se, pois. vocacionado para a protecção dos trabalhadores, com base
lugar. depois das considerações gerais. constantes dos três primeiros capí- lia ideia de que há um desequilíbrio de forças na relação laboral e o Estado
tulos. em vez de se iniciar o estudo pelas relações colectivas de trabalho. intervém para proteger os mais desfavorecidos. Situação hoje frequente
como tem sido frequente nas Faculdades de Direito em Portugal. achou-se em várias áreas, como acontece. designadamente. em sede de direito do
por bem começar a exposição da matéria pelo contrato de trabalho. por três consumo.
razões. Primeiro. porque para os alunos. depois de terem feito a cadeira de Esta particularidade do direito do trabalho leva a que muitas vezes os
direito das obrigações. onde eventualmente já lhes foi ministrada alguma problemas sejam apreciados com alguma emotividade. tanto na perspec-
matéria de contratos em especial. o contrato de trabalho toPoa-se de fácil tiva de «coitado do trabalhador que é explorado pela entidade patronal».
compreensão. pois é um desses contratos (arts. 1152.° e s. do CC); corres- como na inversa. considerando que «o trabalhador é. por natureza. relapso
pondendo. por conseguinte. a um tema com o qual os alunos se encontranl e descuidado. causando prejuízos ao empregadOr». Estas considerações
familiarizados. Segundo. porque o ponto de partida do direito do trabalho emotivas em nada facilitam a resolução jurídica dos litígios e o jurista tem
é o contrato individual. E terceiro. na medida em que a maioria das ques- de abstrair de tais tomadas de posição extrajurídicas.
tões jurídicas que se suscitam perante os tribunais portugueses surgem no
domínio do contrato de trabalho. IV. Quanto à legislação. encontra-se no Código Civil (art. IISr)
Assim. só depois de ter sido ministrada a matéria respeitante ao uma noção do contrato de trabalho. mas quando se indaga do seu regime.
contrato de trabalho (Capítulo IV) é que se inicia o estudo das relações o artigo seguinte (art. 1153.°) remete para legislação especial. e aqui co-
colectivas de trabalho (Capítulo V). meça o calvário do jurista.
20 Direito do Trabalho

Em primeiro lugar, há a ter em conta a Lei do Contrato de Trabalho


(LCT), aprovada em 1969 e bastante alterada, além de uma série infindá-
vel de diplomas, muitos dos quais parcialmente revogados ou modifica-
dos. Por vezes, como a publicação de leis do trabalho se faz por «grosSO»,
tomam a designação de «pacotes laborais».
Trata-se de uma legislação essencialmente instável que, não raras
vezes, anda ao sabor de ventos políticos com o fito de resolução de pro- PLANO
blemas pontuais, o que acarreta uma consequente falta de homogeneidade
e de visão de conjunto. Por outro lado, a legislação laboral é excessiva-
mente rígida, mesmo comparando com os Estados da União Europeia - CAPÍTULO I - Introdução
facto que é comprovado pela OCDE -, e ainda quando surgem mani-
festações de flexibilidade, como o la)' of!, a inadaptação e a polivalência, § I. Noção de Direito do Trabalho
estabelecem-se demasiadas exigências formais, que, nalguns casos, invia- § 2. Âmbito de aplicação
bilizam o recurso a tais institutos. A rigidez da lei laboral é normalmente § 3. Enquadramento do Direito do Trabalho
apontada como a principal causa da precariedade no emprego e do recurso § 4. Evolução histórica do Direito do Trabalho
a meios alternativos ao contrato de trabalho, por um lado, e como causa do
elevado custo da mão-de-obra, que justifica o pagamento de salários bai-
xos, por outro. CAPÍTULO II - Situação Jurídica Laboral
Tendo isto em conta, o Ministro do Trabalho nomeou uma comissão
§ 5. Sujeitos
para rever a legislação laboral, cuja proposta de uma Lei Geral do Traba- § 6. Trabalho subordinado
lho (Relações Individuais)1 ficou muito aquém das expectativas. Em ter- § 7. Retribuição
mos gerais, pode dizer-se que se trata de uma mera consolidação das leis
em vigor respeitantes a uma parte do direito individual, com uma sistema-
tização deficiente e uma descoordenação terminológica2• CAPÍTULO III - Fontes do Direito do Trabalho
À dificuldade de ordem legislativa acresce a existência de uma abun-
dante jurisprudência social, nem sempre homogénea, em que, por vezes, § 8. fontes internas
prevalecem considerações extra jurídicas. Mas esta jurisprudência corres- § 9. Fontes externas
ponde à realização do direito do trabalho e o jurista tem de se ater a ela. § 10. Interpretação, integração e aplicação das normas de Direito do Trabalho

• CAPÍTULO IV - Contrato de Trabalho

Secção I - Aspectos gerais


§ II. Noção; elementos
§ 12. Características

10 mencionado articulado pode consultar·se na RDES. 2001.Il. M 1/2. pp. 71 ss. Secção II - Distinção de figuras afins
2 As críticas a este articulado foram apresentadas em sessão pública promovida pelo § 13. Figuras não equiparadas ao contrato de trabalho
Instituto de Direilo do Trabalho. na Faculdade de Direito de Lisboa. no dia 15 de Novem- § 14. Figuras equiparadas ao contrato de trabalho
bro de 2001.
22 Direito do Tmbalho PltlI/o 23

Secção III - Sujeitos § 45. Contrato de trabalho com concessionários de serviços públicos
§ 15. Direitos de personalidade § 46. Relações laborais com pessoas colectivas de direito público
§ 16. Trabalhador
§ 17. Empregador Secção VII - Vicissitudes
§ 47. Modificações contratuais
Secção IV - Formação § 48. Redução da actividade e suspensão do contrato
§ 18. Questões prévias § 49. Transmissão
§ 19. Pressupostos do contrato de trabalho
§ 20. Situações jurídicas preliminares Secção VIII - Não cumprimento
§ 21. Encontro de vontades § 50. Incumprimento das prestações contralUais
§ 22. Forma do contrato § 51. Prescrição

Secção V - Invalidade Secção IX - Acidentes de trabtllho


§ 23. Particularidades § 52. Aspectos gerais
§ 53. Responsabilidade civil objectiva e subjectiva
Secção VI - Conteúdo
Subsecção I - Conteúdo característico do tipo contntlual Secção X - Cessação
§ 24. Prestação de uma actividade § 54. Aspectos gerais
§ 25. Retribuição § 55. Caducidade
§ 26. ()cveres acessórios do empregador § 56. Revogação
§ 27. Poderes do empregador § 57. Cessação por iniciativa do empregador (resolução)
§ 58. Cessação por iniciativa do trabalhador
Subsecção II - Conteúdos especiais
§ 28. Liberdade de estipulação
CAPiTULO V - Direito Colectivo
§ 29. Contrato misto. união de contratos e subcontrato
§ 30. Cláusulas acessórias
Secção I - Sujeitos das relações colecti"a.f
§ 31. Teletrabalho § 59. Estruturas de representação colectiva dos trabalhadores
§ 32. Comissão de serviço
§ 60. Empresa
§ 61. Associações sindicais
Subsecção III - Situações especiais de contratos de trabalho
§ 62. Associações de empregadores
§ 33. Contrato de aprendizagem
§ 34. Trabalho temporário Secção II - Instrumentos de regulamellltlção colecth'a de trabalho
§ 35. Contrato de trabalho doméstico Subsecção I - Princípios gerais
§ 36. Contrato de trabalho de porteiro § 63. Regras comuns (remissão)
§ 37. Contrato de trabalho rural
§ 38. Contrato de trabalho portuário Subsecção II - Instrumentos negociais de regulamentação colectiva de trabalho
§ 39. Contrato de trabalho a bordo § 64. Convenção colectiva de trabalho
§ 40. Contrato de trabalho rodoviário § 65. Acordo de adesão
§ 41. Contrato de trabalho ferroviário § 66. Decisão arbitral
§ 42. Contrato de trabalho de desportistas profissionais
§ 43. Contrato de trabalho de profissionais de espectáculos Subsecção III - Instrumentos não negociais de regulamentação colectiva de tra-
§ 44. Contrato de trabalho de docentes balho
24 Direito do Trabalho

§ 67. Aspectos gerais


§ 68. Regulamento de extensão
§ 69. Regulamento de condições mínimas
§ 70. Natureza jurídica dos regulamentos de extensão e de condições mínimas

Secção III - Conflitos colectivo.\" de trabalho


§ 71. Aspectos gerais BIBLIOGRAFIA E OUTROS ELEMENTOS DE ESTUDO 3
§ 72. Greve
§ 73. Resolução de conflitos colectivos
a) Portuguesa
CAPÍTULO VI - Contra-Ordenações Laborais
BAPTISTA. Albino MENDES - Jlllroduç(;o ao Direito Processual do TraballlO. 2.'
edição. Quid luris?, Lisboa. 1999;
§ 74. Regime geral das contra-ordenações laborais
CORDEIRO. António MENEZES - Mal/ual de Direito do Trabalho. Almedina.
Coimbra. 1991;
FERNANDES. António MO!IITEIRO - Direito do Trabalho. 13.' edição. Almedina.
CAPÍTULO VII - Processo do Trabalho
Coimbra. 2006;
loPES-CARDOSO. Álvaro - Mal/ual de Proct!.fSO do Trabalho. Petrony. Lisboa.
§ 75. Particularidades de regime
1994;
MESQUITA. José Manuel ANORAnF. - Direito do Trabalho. 2.' edição. AAFDL.
Lisboa. 2004
PINTO. Mário - Direito do Trabalho. Universidade Católica Editora. Lisboa. 1996;
PINTO. Mário. Pedro FURTADO MARTINS e António NUNES DE CARVAI.HO - Glos-
sário de Direito do Trabalho. Universidade Católica Editora. Lisboa. 1996;
RAMALHO. Maria do Rosário PALMA - Da AlIIol/om;a Dogmática do Direito do
Trabalho. Almedina. Coimbra. 200 I;
- Direito do Trabalho. Parte I. Dogmática Geral. Almedina. Coimbra.
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VEIGA. António da MorrA - lições de Direito do Trabalho, 8." edição. Univer-
sidade Lusíada. Lisboa. 2000;
VENTURA. Raul - Teoria da Relação Jurídica de Trabalho, Estudo de Direito
Privado. Porto. 1944:
XAVIER. Bernardo loBO - Curso de Direito do Trabalho. 2," edição. Verbo. Lis-
boa. 1993:
- Curso de Direito do Trabalho. 3." edição, Volume I. IlIIrodução. Qua-
drO:i Orga"i;;ucio1/uis e Fomes, Verbo, Lisboa, 2004;
- Direito da Greve, Verbo, Lisboa, 1984.

3 Indicam·!'>C tão-só obras editadas (não as policopiadasl que se encontram acessí-


veis nas livrarias ou nas bibliotecas da Faculdade de Direito de Lisboa, do Instituto de
Direito do Trabalho da Faculdade de Direitll de Lisboa e da Universidade Católica.
26 Direito tio Trtl/Jalho Bi/JlioRrtljia e ol//ros Elemelllos c/e ESllltlo 27

b) Brasileira FERRARa. Giuseppe - I ContraI/i (li Lavoro. Cedam, Pádua, 1991:


GHEll.J, Giorgio e Umberto ROMAGNOI.l - II Rapporto di Lavoro. 3," edição.
ANDRADE. Everaldo Gaspar Lopes - C/lrso de Direito do TrtlballlO. 2," edição. Zanichelli, Bolonha e Roma. 1995.
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BARROS. Alice MONTElR DE - C/lrso de Dirt'ito do Trabalho. Ltr. S, Paulo. 2005; - Aggiornametlto. Zanichelli, Bolonha e Romll. 2000;
CARRION. Valentin - Comentários à COl/So/idação das Leis do Trabalho. 25,' ICHINO. Pietro - II Cotltrtll/o c/i Lavoro. Giuffre, Milão. 2000:
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t/liç(;es de Direito do Trabalho, Volumes I e 2. 22.' edição. Ltr. S, Paulo. 2005. \'Oro./1 Rapporto IIIc/ivid/lale. Cedam. Pádua. 1998:
ZANGARI. Guido - Dei Lal'Oro (Am. 2099 - 2/ 14) e (Artt. 2115-2/34). 2 Vols ..
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c) Espanhola

Al.ONSO OLEA. Manuel - Introd/lcción ai Derecho c/el Trabajo. 5,' edição. Civi- e) Francesa
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MARTIN VAI.VERDE, Antonio. Fernlín RODRIGUEZ-SAiWOO GlJTlÉRREZ e Joaquín JAVILUF.R. Jean-Claude - Droil dll Travail. 7.' edição. LGDJ. Paris, 1999:
GARCIA MURCIA - Derecho c/eI Trabajo, lO.' edição. Madrid. 2001; LYON-CAEN, Gérard, Jean Pt:USSIER e Alain SUPIOT - Droit c/II Travail. 18,' edi-
MONTOYA MEl.GAR. Alfredo - Derec/ro (/eI Trabajo. 24," ed,. Tecnos. Madrid. ção. Dalloz. Paris. 1996 - obra continuada por Jean Pt:l.ISSIER. Alain
2005: , SUPIOT e Antoine JEMAUD - Droit dll Tramil. 20.' edição. Dalloz. Paris.
MONTOYA MELGAR, Alfredo. Jesús M, GAUANA MORENO. Antonio V. SEMPERE 2000:
NAVARRO e Bartolomé RIos SAl.MERÓN - Comentarios ai Estatlllo de los RIVERO. Jean e Jean SAVATIER - Droit dll Trtlwzil. 13," edição. Dalloz. Paris.
Trabajadores. Aranzadi, 2," edição. Pa""!plona, 1998: 1993:
PALOMEQUE LÓPEZ. Manuel Carlos c Manuel AVAREZ DE LA ROSA - Derecho dei TF.Yssl~, Bernard - Droi/ dll Travail, Vol. I, Rela/iom II/dil'id/lelles de Truvai/.
Trabajo, 9,' edição. Centro de Estúdios Ramón Areces, Madrid, 2001. Vol. 2, Relations Col/ec:til'es de Travuil. 2.' edição, Litec, Paris. 1992
e 1993:
VERDIER, Jean-Maurice. Alain COEURET e Marie-Arnlelle SOURIAC - Droit (/11
d) Italiana Tral'uil. 11.· edição. Dalloz. Paris. 1999,

ASSANTI, Cecilia - Corso di Diritto dei LaWJro. 2,' edição. Cedam. Pádua. 1993;
28 Direi/o do Trabalho Bibliografia e outrOJ til' bllldo
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-----------------~-----
29

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GAMIu.5CHEG. Franz - Arbeitsrecht. I. Arbeitsvertrags- und Arbeitsschut:.recht,
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LOWISCH. Manfred - Arbeitsrec/II. 3." edição. Wemer, Dusseldorfe. 1991; ALEGRE, Carlos - Código de Processo tio Trabalho MlOtado. 4." edição. Alnu:-
SCIIAUB. Günter - Arbeilsrechls-Handbuch. 9." edição, Beek. Munique. 2000: dina. Coimbra, 200 I;
SÚLLNER. Alfred - GrundrijJ des Arbeitsrecllls. 12." edição. Vahlen. Munique, ALEGRE, Carlos - Regime Jurídico dos Acidentes de Trabalho (' das Doellras
1998; Profi·\·sionais. 2.' edição. Almcdina. Coimbra. 2000:
WIEDEMANN. Herbst. Hartmut Olm<ER e Rolf WANK - Tarifoertragsgeset::. 6.- ALMEIDA, L. P. MomNHO DE - Código de Processo do Trabalho Allotado, 4. 3 edi-
edição, Beck. Munique. 1999; 'rão • Coimbra Editora. Coimbra. 1997;
ZOLLNER. Wolfgang e Karl-Georg LoRITZ - Arbeitsredll. 5.' edição. Beck. Mu- BAfTnsTA. Albino MENDES - Código de Pro("(',fSo do Trabalho AliO/ado. 2." edi-
nique. 1997. ção, Quid luris? Lisboa. 2002;
FERREIRA. Alberto LEITE - Código de Proces.w do Trabalho Anowdo. 4.' edição.
Coimbra Editora. Coimbra. 1996;
g) Inglesa LEITÃO, Luís MENEZES - Código do Trabalho AnntfUlo. Almedina. 2.' edição.
Coimbrd.2005;
BOWERS. John - Employment La\\'. 4." edição. Blackstone, Londres, 1997; loPES-CARDOSO. Álvaro - Código de Proce!iSO do Trabalho Anotado. Petrony.
OEAKIN. Simon e Gillian S. MORRIS - Labour Law. 3." edição. Bunerworths. Lisboa. 2000;
Londres. 200 1; MARTINEZ. Pedro ROMANO. Luís Miguel MONTEIRO. Joana VASCONCELOS. Pedro
KAHN-FREUND. ano - Labour atld the La\\', 3." edi'rão (por P. OAVIES e M. MADEIRA DE BRITO, Guilherme ORA Y e Luís GONÇALVES DA SILVA - Có-
FREEDLANO). Stevens & Sons, Londres. 1993. trad. espanhola. Trabajo y digo do Trabalho Anotado. 4.' edi'rão. Almedina, Coimbra, 2005;
Derec/llJ. Madrid, 1987; MOREIRA, António José - Trabalho Temporário. Rt'gime Jtlrúlico Anotado, 2." edi-
SIiI.WYN. Norman - La", of Employment. II." edição. Butterworthlf Londres. 2000; ção, Coimbra, 200 I;
W"DDERBURN - Tlle Worker and the La\\', 3." edição. Penguin, Harmondsworth, Nl:.o, Abllio - ClJdigo do Trabalho e Legislaçt;o Complemelllar AI/otados,
1986. lrad. italiana, II Diritto dei Lavom, Giuffrê. Milão. 1998. 2." edição. Ediforum. Lisboa, 2005;
- Câdigo de Processo do Trabalho AI/otado. 2." edição. Ediforum. Lisboa.
2000.
II) Comentários de legislação portuguesa

i. Legislação anterior i) Jurisprudência e casos práticos

BRAGA. Armando - Lei dos Despedimenw.{ e da Colltralação a Termo Anotada. Acórdt;os [)o/ltrinários do Supremo Trib/lllltl Administrativo:
4." edição. Porto Editora, Porto. 1993; Boletim do Ministério da Justiça;
30 Direito do Trabalho

Colectânea de Jurisprudência;
Direito do Trabalho. Casos Práticos. coligidos por Pedro ROMANO MARTINEZ,
Jorge BRITO PEREIRA. Abel FERREIRA, Guilherme DRAY e Pedro PAIS DE
VASCONCELOS, AAFDL, Lisboa. 1998;
Jurisprudência do Trabalho Anotada. Relação Individual de Trabalho por Albino
MENDES BAmsTA. 3.' edição. Quid luris? Lisboa. 1999.

ÍNDICE DE ABREVIATURAS

Ac. - Acórdão;
BMJ - Boletim do Ministério da Justiça;
BTE - Boletim do Trabalho e Emprego;
Cb. - Coimbra;
CC - Código Civil:
CJ - Colectânea de Jurisprudência;
CJ(STJ) - Colectânea de Jurisprudência. Acórdãos do Supremo Tribunal
de Justiça;
CCom. - Código Comercial;
CPC - Código de Processo Civil;
CPT - Código de Processo do Trabalho:
CRP - Constituição da República Portuguesa;
esc - Código das Sociedades Comerciais:
Cf - Código do Trabalho;
DR - Diário da Replíblica;
DUDH - Declaração Universal de Direitos do Homem;
Év. - Évora;
IGT - Inspecção-Geral do Trabalho;
LAP - Lei das Associações Patronais (Decreto-Lei n.O 215-CI75. de 30
de Abril);
LAT - Lei dos Acidentes de Trabalho (Lei n.O 100/97. de 13 de Se-
tembro);
LCCf - Lei da Cessação do Contrato de Trabalho (Decreto-Lei n.o 64-
-A/89. de 27 de Fevereiro);
LComT - Lei das Comissões de Trabalhadores (Lei n.O 46179. de 12 de
Setembro);
LCf - Lei do Contrato Individual dI: Trabalho (Decreto-Lei n.O 49 408.
de 24 de Novembro de 1969);
LDT - Lei da Duração do Trabalho (Decreto-Lei n.o 409171. de 27 de
Setembro):
LECf - Legislação Especial do Código do Trabalho (Lei n.o 35/2004. de
29 de Julho);
32 Direito do Tram,lI/O

LFFF - Lei das Férias. Feriados c Faltas (Decreto-Lei n.o 874176. de 28


de Dezembro);
LG - Lei da Greve (Lei n.O 65177, de 26 de Agosto);
LOTJ - Lei de Organização e Funcionamento dos Tribunais Judiciais
(Lei n.O 3/99. de 13 de Janeiro);
LPMP - Lei de Protecção da Maternidade e da Paternidade (Lei n.O 4/84.
de 5 de Abril);
LRCf - Lei das Relaçõcs Colectivas de Trabalho (Decreto-Lei n.o 519-
-CI179. de 29 de Dezembro);
LS - Lei das Associações Sindicais. também designada por Lei Sindi-
cal (Decreto-Lei n.o 215-8175. de 30 de Abril);
LSA - Lei dos Salários em Atraso (Lei n.O 17/86. de 14 de Junho);
LTS - Lei do Trabalho Suplementar (Decreto-Lei n.o 421183. de 2 de
Dezembro);
LTT - Lei do Trabalho Temporário (Decreto-Lei n.o 358/89. de 17 de CAPÍTULO I
Outubro);
Llt. - Lisboa; INTRODUÇÃO
OIT - Organização Internacional do Trabalho;
Pronto - Prontudrio de Direito do Trabalho;
Pt. - Porto;
QL - Questões Laborais:
ReI. - Tribunal da Relação;
RDES - Revista de Direito e de Estudos Sociais:
RFDUL - Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa;
RU - Revista de Legislação e de Jurisprudência;
ROA - Revista da Ordem dos Advogados;
STA - Supremo Tribunal Administrativo;
STJ - Supremo Tribunal de Justiça;
TC - Trihunal Constitucional.
§ 1.°
Noção de Direito do Trabalho

1. Terminologia

I. O direito do trabalho assenta na ideia de «trabalho» como prestação


de facto positivo. Por conseguinte, será com base no termo «trabalho» que
se pode apresentar a noção desta disciplina.
Trabalho é, para este efeito, entendido, essencialmente. no sentido de
actividade, apesar de o termo poder ser usado noutros contextos, como por
exemplo «ir para o trabalho». O vocábulo «trabalho» também pode ser
compreendido no sentido de «emprego» ou então como uma «obra» I.
Assim, em relação a um livro que tenha sido premiado ou a uma casa que
está ser construída pode designar-se por «trabalho». Nesses sentidos, o
termo «trabalho» não interessa para a noção da cadeira.
O mesmo se diga com respeito a outros sinónimos da mesma palavra.
Por exemplo, em Economia estudam-se os factores de produção; os três
clássicos factores de produção são a terra, o trabalho e o capital 2• Quando
se fala de trabalho, como factor de produção, é num sentido demasiada-
mente amplo, que transcende o objecto desta disciplina. À relação laboral
também interessa o trabalho como factor de produção. ma" ele não é só
visto nesse sentido; em termos jurídicos. tal acepção não releva.
O trabalho pode ser entendido em muitos outros sentidos. como ofí-
cio, ocupação e. às vezes, até como preocupação. Na realidade, a semân-
tica da palavra «trabalho» revela que o termo não se relacionava com o
objecto da cadeira de Direito do Trabalho. Trabalho deriva do latim da
palavra «tripalis», que significava aparelho com três paus, onde se pren-

I erro esla<; e outras acepções em MorrA VEIGA, Lições de Direito do Trabalho, 8."
ed., Lisboa. 2000. pp. 21 5.; BERNARDO XAVIER, Curso de Direito do rralJ(/lho, 2." ed,
Lisboa, 1993, p. 13.
2 Crr. SOARES MARTINEZ, Ecotwmia Política, 8." ed., Coimbra. 1998. pp. 412 SS.
36 Direito do Trabalho CtlpÍlulo I - Introdução 37
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diam os animais, entre os quais as bestas para serem ferradas. A evolução vam aos operários, mas não abarcava tudo o que se pretende incluir no
semântica da palavra. de aparelho de três paus. até ao actual significado de âmbito do direito do trabalho. As expressões direito do trabalho e juslabo-
trabalho. talvez se tenha ficado a dever ao facto de segurar os animais no ralismo são bastante mais amplas; outras. como direito operário e direito
sobredito aparelho implicar um certo esforço. «dar algum trabalho» I. Em industrial, sendo mais restritas, foram votadas ao abandono. Ao lado des-
latim, a palavra correspondente a trabalho é «lAbor»; daí, muitas vezes, tas. há a referir a terminologia «Direito Social», com uma raiz. essencial-
falar-se em direito laboral ou juslaboralisml,l. Estas expressõcs derivam mente histórica. pretendendo contrapor o direito do trabalho, que seria
directamente da palavra latina que significa trabalho e, por isso, são usadas «social», ao direito civil, de cariz «individualista» I, que também caiu em
em sinonímia. De facto, é frequente a utilização. como expressões equi- desuso, até pela evolução entretanto verificada no direito civil.
valentes, de direito do trabalho, direito laboral ou juslaboralismo.

II. Em Portugal, a expressão «Direito do Tmbalho»3 aparece por via 2. Prestação de uma actividade
de uma tradução das correspondentes locuções usadas nos direitos alemão.
francês e espanhol. No direito alemão emprega-se o termo Arbeitsrechr. de a) Pre.ssuposros gerais
cuja tradução literal resulta direito do trabalh04. Em França. esta cadeira
aparece denominada por Droir du Travail e, em Espanha, por Derecho dei I. Recorrendo ao Código Civil, no art. 1152. 0 do CC encontra-se uma
Trabajo. As traduções literais das locuções empregues noutros ordena- noção do contrato de trabalho: «Contrato de trabalho é aquele pelo qual
mentos jurídicos influenciaram a doutrina portuguesa quanto à termi- uma pessoa se obriga, mediante retribuição, a prestar a sua actividade inte-
nologia. Como excepção, é de indicar o direito italiano, onde se encontra lectual ou manual a outra pessoa, sob a autoridade e direcção desta». Este
vulgarizado o uso da expressão Diril10 dei lAl'Oro. artigo foi reproduzido no art. I. o da LCT e a mesma redacção subsiste,
Antes de se traduzirem estas expressões estrangeiras usavam-se com uma ligeira alteração, no art. 10.° do CT.
outras. como direito obreiro, direito do operariado ou direito operário, Tendo em conta esta noção de contrato de trabalho, importa dela reti-
frequente ainda no princípio do séculoS. A utilização desta terminologia rar o que pode interessar para o objecto da cadeira em estudo.
que. entretanto, caiu em desuso, apesar de justificável numa perspectiva
histórica, não estaria totalmente correcta, pois só incluiria o estudo das Ib O aspecto principal (Jue, desde logo. importa salientar é a ideia de
regras jurídicas válidas para muitas das situações laborais. que respeita- «prestar uma actividade», no sentido a que aludem, tanto o art. 10. 0 do CT.
como o art. 1152. 0 do Cc.
I Como refere SOARES MARnNEZ. Economia Polilica. cil.. p. 435. li trabalho carac· Da distinção feita em direito das obrigações, entre prestações de facto
leriza·se pela circunstância de a acção desenvolvida ser sempre mais ou menos dolorosa.
e prestações de coisa2 , pode concluir-se no sentido de ser uma prestação
penosa. traduzindo-se num custo. embora. por ,·ezes. produza. em si mesmo. satisfal,'ão.
2 MENEZES CORDEIRO. Manual de Direito do Trabalho. CoimbraOI99I. pp. 19 S5 .•
de fact03. De entre as prestações de facto trdta-se de uma prestação de
usa o lermo «juslaboralismo» como ciência do direito do trabalho.
3 Justificando o uso da expressão .. Direito do Tmbalho». dr. RA(IL VENTURA. Teo· I efr. MOlIITOY A MELGAR, Derecho dei Tmbajo. 22." cd., Madrid. 200 I. p. 30. Con·
ri" da Relaçdo Jurídica de Trabalho. Estudo de Direito Primdo. Porto. 1944. pp. 137 ss. tinuando a aludir ao direilo do tmbalho como direito social. I·d. ARANGUREN in MAZZONI.
4 Para uma explicação sistemática e sucinta do direito do tmbalho alemão. veja·se Manullle di DirillO dei Lavoro. Vol. 1.6." cd .• Milão. 1988. pp. 23 S5. e MEUNIER·BoFFA.
HElNR1CH. «Einführung in das Arbeitsvertrag5recht». JuristÍJche ScI/UluIIg. 1998.2. pp. DroÍl Social. 2." cd .• Paris, 1991.
975S. 2 Cfr. GALVAo TF.lJ.F.s, Direito CÚls Obrigações. 7." ed., Coimbm. 1997. pp. 37 s.;
S Cfr•• entre outros. Ruy ENNES ULRICH. l.egislClfdo OperdrÍlI Portllgllew. Coimbm. AlmJNE.'i VARF1.A. DllS Obr;gafõe.~ em Geral. Vol. I. 10." cd .. Coimbm, 2000, pp. 82 SS.
1906. Quanto à expressão .. Direito Operário ... relacionada com o movimento operário. I'd. Veja·se igualmente MENEZF_'i CORDEIRO. Manlllll. cil., pp. 15 s.
RIVERoISAvAnER. DroÍl dll Tral'tlil. 12." cd., Paris, 1960. p. I. Veja·se igualmente TEI· 3 Repudiando n qualificação da prestação labor'" como prestação de d"re. considc-
XEIRA MANUS. Direito do Trabalho. 6." cd .• S, Paulo. 2001, pp. 44 s. c VICTOR Russo· rondo tmtar·se de uma prestação de facto, dr. RAÜL VF.NTURA. Relação Jurídica de Traba·
MANO. Curso de Direito do TmblllllO. 6.' cd .• Curitiba. 1997. p. 21. lho, cil.. pp. 26 55. e 30 S5.
38 Direito do Trabalho Capítulo 1- l"troduj'clO 39
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facto positivo. Quanto a outras cla'isificações da prestação de facto. desig- b) Actividade humana
nadamente se é fungível ou infungível, não sendo uma questão totalmente
líquida. será matéria desenvolvida a propósito dos sujeitos da situação Em primeiro lugar, há que aludir ao tipo de actividade. Só fazem
jurídica laboral (§ 5.). parte do objecto do contrato de trabalho as actividades humanas I, desde
Pressupondo tratar-se de um contrato em que a prestação devida é de que lícitas. No art. 1152.0 do CC ainda se alude a actividades intelectuais
facto positivo. cabe daí extrair conclusões em tennos de noção de direito ou manuais - e no art. 10. 0 do CT simplesmente a actividades -, as quais
do trabalho. terão de ser necessariamente, ainda que de modo indirecto. desenvolvidas
pelo homem. Não estão, portanto. abrangidas as actividades de animais ou
III. Nas várias acepções de direito do trabalho a que já se aludiu de máquinas 2• Toda a produção que seja obtida mediante o «trabalho» de
interessa, essencialmente. o trabalho como uma actividade; como uma um animal ou de uma máquina estará fora do âmbito do direito do traba-
prestação de facto. Mas só releva a actividade que seja realizada de forma lho; porém. se é um homem que trabalha com a máquina ou com o animal
subordinada. há uma actividade humana. Diferentemente. estando a máquina progra-
Para o contrato de trabalho. como se infere da parte final do art. 10. 0 mada para trabalhar sozinha. excluindo o trabalho prévio de programação.
do CT (e do art. 1152. 0 do CC), importa que a actividade seja prestada sob a actividade por ela desenvolvida não faz parte do objecto do direito do
autoridade e direcção de outra pessoa I. A autoridade e a direcção corres- trabalho. O mesmo se diga quanto a todas as actividades naturais, como a
pondem à designada subordinação jurídica. Este critério da subordinação, energia eólica ou solar, que são factores de produção. mas não se incluem
como se verá adiante (§ 13. e § 24.1), é fulcral para distinguir o contrato no objecto do direito do trabalho. porque não são actividades humanas.
de trabalho de figuras contratuais afins. A subordinação do trabalhador
relativamente à entidade patronal, para além de corresponder a um dos
aspectos que permite distinguir o contrato de trabalho de outras figuras, é c) Actividade produtiva
um elemento identificador deste negócio jurídico. Deste modo, só se en-
contram abrangidas pelo direito do trabalho as situações em que o traba- Em segundo lugar, as actividades a tcr em conta, para efeitos de
lhador presta uma actividade subordinada, isto é. sob autoridade e direcção delimitação do conceito de direito do trabalho. têm de ser actividades
do empregador2• produtivas3 • Há, neste ponto, alguma relação entre o direito do trabalho e
a economia, pois para o objecto daquele atende-se ao trabalho como factor
IV. Vista esta questão prévia, importa apreciar alguns aspectos que de produção. Deste modo, só se têm em conta actividades produtivas. em
delimitam o contrato de trabalho, e, consequentemente, ajudam a determi- contraposição com actividades lúdicas. Na noção de direito do trabalho
nar o objecto do direito do trabalho. cabem as actividades produtivas, mas não as lúdicas. Assim, quando alguém
exerce uma determinada actividade para scu prazer - se, por exemplo, ao
Q fim da tarde, dedica-se à prática de uma modalidade desportiva - está-se

I Cfr. ARANGUREN iII MA:tZONI, Manllalc. cil.. pp. 3 S.


2 Cfr. MÁRIO PINTO. Direito do Trabalho. cil .. p. 67; BERNARIlO XAVIER. Cllrso. cil..
I Corresponde. pois. ao chamado trabalho dependente. por vezes. referido pela p.14.
sugestiva expressão trabalho assalariado (cfr. COUTIlRlER. Droit dll Tramil. I. 3." cd .• 3 Cfr. ARANGUREN in MAzzoNI. Manuall'. cit .• p. 4: MÁRIO PINTO. Direito do
Paris. 1996. pp. 15 s.). que é. porém. uma locução pouco precisa. Trabalho. dt .• pp. 67 S.; BERNARDO XAVIER. Curso. cit.• p. 15. Veja.se. igualmente. RAÚL
2 Cfr. JOSÉ JOÃO ABRANTES. «O Trabalho Subordinado como Objecto do Direito do VEN11JRA. Relaf(io Jurídica de Trabalho, cil.. pp. II ss.• autor que conclui no sentido de
Trabalho», Direito do Trabalho. Ensaios. Lisboa. 1995, pp. 19 S.; MÁRIO PINTO. Direito o trabalho só ser economicamente útil. caso crie directamente riqueza (p. 14). Com uma
do Trabalho. Lisboa. 1996. pp. 74 ss.; RICHARDI. Münchener Kommentar zum Arbeits- reflexão filosófica acerca da questilo. vd. ALONSO OLF.AlCASAS BAAMONDE. Oerecho dei
recht. Vol. I. Munique. 1992. § I. anoto I. pp. Is. Trabajo. 14.' cd .• Madrid. 1995. pp. 35 SS.
40 Direito do Trtlbalho Capítulo I - Imrodllçtio 41

perante uma actividade que não tem qualquer relação com o direito do tra- actividade humana e produtiva. mas exerce-a por conta própria, por exem-
balho; até porque, tendo em conta a origem histórica do termo «trabalho), plo, o carpinteiro que faz as cadeiras para a sua residência, o pedreiro que
parece que actividade apelidada de trabalho implicaria sempre algum constrói a sua casa ou () agricultor que cultiva as suas terras, não se está no
esforçol, e tudo o que é feito sem esforço não caberia na noção de direito âmbito do direito do trabalho l . Tais actividades englobam-se no factor de
do trabalho. Estas considerações carecem de alguma precisão. produção trabalho, mas transcendem o objecto do direito do trabalho. O
A prática do desporto pode ser encarada como uma actividade lúdica, direito do trabalho, como ponto de partida. pressupõe que se esteja perante
mas o desporto pode também estar relacionado com um contrato de traba- um contrato de trabalho. em que a actividade é exercida por conta de
lho. É evidente que. por exemplo, os futebolistas profissionais prestam a outrem. O art. 10.° do cr fala em «prestar a sua actividade a outra ou
sua actividade no âmbito de um contrato de trabalho. Desde que o desporto outras pessoas). A referência a «outra pessoa» significa que a actividade
seja encarado como actividade profissional, há contrato de trabalho (l'd. é desenvolvida por conla de outrem. Não pode haver contrato de 1mbalho
infra § 42.). O problema pode, eventualmente. surgir com respeito aos des- quando a actividade é prestada para o próprio.
portistas amadores, que nem sempre serão verdadeiramente amadores 2,
pois o direito do trabalho só regula as actividades consideradas produtivas,
ou seja, aquelas que se qualificarem como actividade profissional. Nesse e) Actil'idade exercida lil'remente
sentido, os desportistas amadores exercerão uma actividade não englobada
no direito do trabalho. I. O quarto aspecto limitativo respeita à liberdade na prestação dessa
Todavia, o facto de se afirmar que a actividade tem de ser produtiva, actividade. Só existe contrato de trabalho na medida em que a actividade
não pressupõe a existência de resultados. Não obstante a actividade, por seja exercida de forma Iivre 2. Como se referiu anteriormente, estamos no
natureza. ser produtiva, pode. por motivos de vária ordem, apresentar-se, domínio de uma figura obrigacional, que, com o decurso do tempo e por
na situação concreta. como improdutiva, não deixando. por isso, de se motivos vários (l'd. illfra § 4.), em particular a defesa da parte mais fraca
enquadrar na noção de direito do trabalho. (o trabalhador). veio a apresentar particularidades. Como figura obrigacio-
nal que é, parte dos mesmos pressupostos de liberdade na formação do
contrato (art. 405.° do CC); para além disso. importa ler em conta o dis-
d) Actil'idade exercida para outrem posto no art. 47.° da CRP, bem como. nomeadamente, o art. 8.° do Pacto
Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. que apontam no sentido de
Em terceiro lugar. importa esclarecer que. para efeitos do contrato de a ninguém ser imposta a obrigação de desenvolver uma actividade.
trabalho. só são tidas em conta aquelas actividades que não sejam exer- A liberdade de formação do contrato c a liberdade de realização da
cidas por conta própria; por isso, por vezes, alude-se à alienabilidade como actividade têm de existir. Depois de se ter celebrado o contrato de trabalho
característica do direito do trabalh03. Deste modo, se alguém realiza uma pode ficar-se, por força desse negócio jurídico, subordinado à realização
t.
I Como refere RAlIl VENTIJRA. Rdaçtio Jllrídica dl' Trabalho. cit.. 12. o trnbalho
pressupõe a consecução de fins medianle um Sllcrifício. Veja-se também autor e ob. cit..
da actividade a que se vinculou, bem como à prossecução continuada da
prestação pactuada, mas a ninguém pode ser imposta a celebração de um
p.33. contrato de trabalh03. Daí que. verificando-se falta de liberdade na reaJi-
2 A qualificação do desponista como profissional ou amador tr.tfiSCende o objecto
do direito do lrabalho; contudo. na medida em que esta distinção acarreta diferenças a I Cfr. BERNARDO XAVIER, Curso. cit.• p. 16.
nível da siluação jurídica do preslador da aclividade. o direilo do trabalho pode ser 2 Cfr. MONTEIRO FERNANDES, [)jreito do Trabalho, II.' cd .. Coimbm. 1999. pp. II
chamlldo II intcrvir. pam evitar que se solucioncm questõcs idênticas de modo diverso. 5.; BERNARDO XAvn'R. 0".10. cit., p. 16.
3 Cfr. MorrA VEIGA. üções. cil.. p. 22. O recurso à ideia de alienabilidade é fre- J À imagem do que ocorre em qualquer negócio jurídico de execução continuad:I,
quente entre os autores espanhóis, com vista a explicar a necessidade de a aClividade ser no contmlo de tmb;lIho há liberdade quanlo à formação c desvinculação. Exct:plua-se Ião·
realizada para oUlrem, cfr. MONTOYA MElGAR. Vereello dei Trtlhtljo, cil .. pp. 37 5.; só a liberdade relativamente à livre dt:svinculação por pane do empregador (\'tI. infm §
ALO!'óSO OlEAlCASAS BAAMONDE. Derl'cllO dei Tmoojo. cil.. pp. 37 5. 5-U).
42 Direito c/ti TralHllho Capítulo I - IlIIrodllção 43

zação da actividade. deve tal situação ser excluída da noção de direito do são ou a uma pena de multa_ Quando alguém presta um trabalho em alter-
trabalho. nativa a ir para a prisão ou a pagar uma multa. não se pode dizer que exista
verdadeiramente liberdade na constituição dessa situação jurídica. Assim
II. A este propósito. historicamente. é de aludir à escravatura. em que sendo. estes casos não se incluem no âmbito do contrato do trabalho. Além
a situação jurídica daí emergente não se enquadrava no direito do trabalho. disso. como diz o art. 58. 0 • n. o 2, do Código Penal. o trabalho é prestado a
No ordenamento jurídico português subsistem hipóteses em que o trabalho favor da comunidade de forma gratuita. Por este segundo elemento tam-
não é prestado de forma espontânea; ou seja. em que não há liberdade na bém estaria afastada esta hipótese da noção de contrato de trabalho. refe-
formação da situação jurídica e relativamente às quais o direito do trabalho rida no art. 10.0 do CT. onde se afinna que alguém se obriga «mediante
se tem mantido alheado. quanto à sua regulamentação. retribuição». As situações em que não há liberdade na prestação da activi-
Para além do serviço militar obrigatório e da requisição civil. há ainda dade excluem-se do direito do trabalho.
a aludir a duas situações.
Por um lado. no trabalho penitenciário não há verdadeiramente um III. Todavia. a falta de liberdade pode advir de aspectos conjunturais
contrato de trabalho. no sentido usual. até porque esse trabalho pode não comuns a qualquer pessoa. em particular a necessidade de subsistência.
ser realizado de forma espontânea e está relacionado com o cumprimento casos em que a alternativa «forçada» dc lrdbalhar não impede a qualifi-
de uma pena I. Quando os detidos prestam trabalho numa penitenciária. há cação de tais situações no direito do trabalho l .
vários aspectos relacionados com a realização dessa actividade. designa-
damente a remuneração auferida. que não são aferidos pelos parâmetros
do direito do trabalho. f) Actividade exercida de forma subordinada
A segunda situação de trabalho «forçado» verifica-se no caso de
prestação de trabalho a favor da comunidade2. Trata-se de uma pena I. Um quinto aspecto de delimitação do objecto desta disciplina
prevista no art. 58. 0 do Código Penal e que corresponde a uma sanção que relaciona-se com a forma como o trabalho é exercido. Não basta tratar-se
só pode ser aplicada se o réu for considerado culpado. condenado a uma de uma actividade humana. produtiva e exercida livremente para outrem;
determinada pena e aceitar prestar esse trabalho (art. 58. 0 • n. O 5. do Código a forma de realização dessa actividade não poderá ser autónoma. O tra-
Penal). Apesar de esta prestação de trabalho a favor da comunidade care- balho. para efeitos da disciplina em estudo. não deverá ser exercido para
cer da aceitação do réu. ela funciona como alternativa a uma pena de pri- outrem autonomamente. com independência. porque a noção de direito do
trabalho assenta no pressuposto da dependência do trabalhador relativa-
I Quanlo ao regime jurídico do trabalho penitenciário. ,·d. o Decreto-Lci n.o 265n9. mente ao empregador. mediante a designada subordinação jurídica2• inte-
de I de Agosto com as alterações do Decreto-Lei n. ° 49/80. de 22 de Março. em panícular grando-se na organização deste último. Se o trabalhador exerce a activi-
ans. 63.° ss. Refira-se que o an. 65.°. n.o 3 deste diploma contesta a ideia de retribuiçiio a dade de forma independente. deftnindo autonomamente as condições de
pagar ao presidiário. pois não se tem em conta a obtenção de um beneff,*, económico; o tempo. lugar e processo técnico. tal situação não poderá enquadrar-se no
mesmo se diga do art. 72.°. quanto aos descontos no salário. Todavia. há que atender ao
objecto do contrato de trabalhoJ.
regime de trabalho externo (an. 67.°. n.OS 3 e 4). em que o trabalho do presidiário é pres-
tado a Cmpres.1S 011 serviços públicos e II empresas privadas. Veja-se ..inda a remissão para
o regime laboral relativamente ao período de trabalho (an. 68.°. n.o 3) e a acidentes de I crr. MONIF.IRO FF.RNANtms. Direito do Tralmlho. cit .• p. II.
trabalho (art. 68.°. n.o 2). Sobre este regime. consulte-se AI.MFJOA COSTA. «Trabalho Pri- .,,-;" 2 Trata-se de uma opinião generalizada. Crr.• cntre outros. MF.NF.zES CORDI:lRO.
sional». BMJ 208. pp. 5 S5. Manual. cit.. pp. 165.; MON1HRO FERNANDES. uSohre o Objecto do Direito do Trabalho».
Nos termos do art. 2.°. n.°l, alíncól e). do Estatmo de los Trabalhodores (Espanhol). Temas Laborais. Coimbm. 1984. pp. 35 ss. Posição esta que não é específica do ordena-
o trabalho penitenciário é enquadrado entre as relações laborais especiais. mento português. ~·d. PERA. Compem/io di Diritto del/AI·oro. 5.' cd .• Milão. 2000. pp. 107
2 crr. MARIA AMWA VERA JARDIM. Trabalho a Famr da Comunidade. A Punirão S5. e. de modo mais dcsenvoh·ido. Diritto dei Lamro. 6.' ed .• Pádua. 2000. pp. 290 ss.

em Mlldança. Coimbra, 1988. pp. 1955. A este propósito. veja-se o Decreto-Lei n.o 357197. 3 Crr. MONTEIRO FERNANUES. Direito do TralNlllw. dI.. p. 13; BERNAR(~) XA\'IF.R.

de 24 de Dezembro. Cur.w. cit.. pp. 16 s.


44 Direito do TfCllJalho Capítulo I - Introdução 45

Para exemplificar, pode aludir-se à situação jurídica do empreiteiro do direito do trabalho se pode falar no poder disciplinar. Nas actividades
encarregado da construção de uma obra. O proprietário do terreno incumbe- autónomas, independentes, não se aplicam sanções disciplinares. Por isso.
-o de construir uma casa dando-lhe instruções; no entanto, o empreiteiro é o paciente não tem poder disciplinar sobre o médico; pode. eventualmente.
um trabalhador autónomo. pois actua com independência no exercício da demandá-lo judicialmente por qualquer incúria médica. nos termos gerais
sua actividade. É evidente que ele terá de construir a casa nos moldes da responsabilidade civil. mas não lhe é facultado o direito de impor
acordados e segundo as instruções recebidas. mas a forma como exerce o sanções disciplinares ao médico.
seu trabalho - se trabalha oito horas ou sÓ três horas por dia, se o trabalho
é nocturno ou não. etc. - constitui um problema relativamente ao qual o III. Como aspectos que caracterizam o direito do trabalho pode
dono da obra, em princípio, é alheio. Será o empreiteiro a decidir como vai indicar-se que se deverá estar perante uma actividade humana, produtiva e
exercer a sua actividade; ele tem de ter a obra pronta na data acordada, mas exercida livremente para outrem de forma subordinada.
quanto à maneira de construir a casa não está sujeito à subordinação do
dono da obra.
O mesmo vale em relação a um médico. O médico exerce uma activi- 3. Aspectos complementares
dade humana, que também é uma prestação de facto positivo, mas, nor-
malmente, realiza-a de forma independente. não recebendo instruções, I. Atendendo aos elementos referidos quanto à delimitação do
nem da classe profissional, nem do paciente que o contratou. objecto do direito do trabalho, verifica-se que há várias normas incluídas
Os exemplos são múltiplos, normalmente associados ao exercício de neste ramo do direito que não estão abrangidas na noção indicada. Na
profissões liberais I. Não quer dizer que estes profissionais não possam, na realidade. determinadas regras de direito do trabalho não se encontram
qualidade de prestadores de uma actividade. celebrar um contrato de directamente relacionadas com as actividades humanas produtivas e exer-
trabalho, como até se determina do disposto no art. 112. 0 do cr (vd. infra cidas livremente para outrem de forma subordinada l .
§ 13.), mas sendo tais actividades exercidas para outrem, sem subordina- Por exemplo, as normas legais que disciplinam a actividade sindical
ção. prestadas de forma independente, não se enquadram no estudo do não estão directamente concatenadas com uma actividade humana produ-
direito do trabalho. Para ser abrangido pelo objecto do direito do trabalho tiva. São preceitos que regulam o funcionamento de uma associação (o
torna-se necessário que a actividade seja desenvolvida de modo subor- sindicato), bem como a sua intervenção na vida laboral.
dinado; importa que a entidade patronal decida, nomeadamente, o que há- Na noção de direito do trabalho, para além das situações jurídicas
-de o trabalhador fazer, como deve realizar a prestação e quais as horas em emergentes do contrato de trabalho, há outras regras que estão relaciona-
que desempenha o seu trabalho. das com o trabalho subordinado. Tendo em vista uma disciplina global da
actividade laboral. o legislador estabeleceu determinadas normas e princí-
II. Independentemente de alguns destes aspectos estarem regulados pios jurídicos que não se aplicam directamente ao contrato de trabalho, mas
por lei ou convenção colectiva de trabalho, existe sempre Ulla margem de que condicionam a relação contratual emergente deste negócio jurídico.
decisão do empregador2• Além disso, há a ter em conta que só no domínio
II. No contrato de trabalho incluem-se normas reguladoras das activi-
I Para um estudo sistemático e desem·olvido. dr. PF.RUUJ. II Ltn'oro Autonomo. dades humanas exercidas livremente, para outrem e de forma subordinada.
Contralto O'Opera e Professioni Intellettuali. Milão. 1996, mas, associadas a estas, há um determinado número de regras, que não
2 A subordinação jurídica. como melhor se verá adiante (§§ 6. e 27). não pressupõe
uma pennanente sujeição a ordens do empregador. ma... antes uma potencial sujeição a
ordens e instruções. a vulgannente designad.1 disponibilidllde do trabalhador ou heterodis- I Trata-se daquilo II que MENEZE.o; COROElRO. Manlllll. cil .• p. 19. denomina por
ponibilidade (dr. MONTEIRO FERNANOES. «Sobre o Objeclo do Direito do TrabalhoD. cit .• fenómeno de absorção. até porque. segundo o mesmo professor (p. 21). em tomo do con-
p. 42). mediante a qual o trabalhador. por força do contrato de trahalho. disponibiliza·se a lralo de lrubalho. por viii de um "roel.:SSO IIcumullltivo. foram-se agrupando regras dis-
receber unIens da entidade patronal com vistll à relllizaçào de dadllllctividllde. persas.
46 Direito do Trabalho Capítulo I - Introdução 47

regulam directamente o contrato de trabalho, disciplinando antes aspectos relações colectivas, deixando o contrato de trabalho para um segundo
que se encontram. de certa forma, em conexão, designadamente, a relação momento. Não parece ser essa a solução mais correcta. na medida em que
colectiva de trabalho. São, pois. situações jurídicas incluídas na designada o contrato de trabalho antecede as relações colectivas de trabalho e a
relação colectiva de trabalho, interligadas com o contrato de trabalho. problemática destas últimas só tem sentido depois de se conhecerem as
Assim, se, por exemplo. for celebrado um contrato de trdbalho entre um particularidades do contrato de trabalho.
motorista e uma empresa de camionagem. desse contrdto de trabalho cons-
tarão regras específicas, que vão disciplinar a actividade a ser desenvol- IV. Sintetizando. dir-se-á que o direito do trabalho corresponde ao
vida, sendo a relação jurídica regida igualmente por normas legais, impe- conjunto de princípios e normas jurídicas disciplinadoras do contrato de
rativas e dispositivas. aplicáveis a todo o vínculo laboral. Situação própria trabalho; ou seja, que respeitam a uma actividade produtiva exercida
do regime geral dos contratos. livremente para outrem e de forma subordinada. bem como todas a..
Contudo, no direito do trabalho há uma diferença. pois importa ainda restantes normas e princípios que estejam relacionados com o trabalho
ter em conta as convenções colectivas que foram ajustadas entre as asso- subordinado, sempre que tais normas e princípios tenham sido elaborados
ciações sindicais representativas daquela actividade - dos motoristas de com a finalidade de, directa ou indirectamente, regulamentar o trabalho
camionagem - e as associações de empregadores ou empregadores da- subordinado l .
quele ramo de actividade. Essas duas entidades - associações sindicais e
de empregadores - podem ter celebrado uma convenção colectiva que
estabelece princípios básicos, por vezes ba..tante pormenorizados, que os Bibliografia:
contratos de trabalho em vigor têm de respeitar. Neste conjunto de situa-
ções verifica-se que nem todas as normas aplicáveis estão directamente MENEZES CORDEIRO. Manllal, cit.. pp. 15 a 28; MONTEIRO FERNANDf:S.
relacionadas com a actividade produtiva exercida para outrem de forma Direito do Trabalho, cit., pp. 9 a 23 e «Sobre o Objecto do Direito do Trabalho»,
subordinada. Por exemplo, o modo como a negociação de uma convenção Temas Laborais. Coimbra. 1984. pp. 34 a 47; MÁRIO PINTO, Direito do Trabalho,
colectiva se processa só indirectamente se relaciona com a prestação de cit., pp. 61 a 95; ROSÁRIO PALMA RAMAlIIO. Direito do Trabalho. I. cit., pp. 13 e
trabalho. As convenções colectivas. bem como os outros instrumentos de ss.; MOTA Veiga. lições, cit.. pp. 21 a 28 c 39 aSO; RAÚl VENTURA. Teoria da
regulamentação colectiva. existem para disciplinar o trabalho subordinado Relaçüo Jllrfdica de Trabalho. cit.. pp. II a 15,26 a 35 e 137 a 147; BERNARDO
XAVIER. Curso, cit.. pp. 13 a 18.
realizado por cada indivíduo em concreto. ma.. nem todas as suas regras se
aplicam aos contratos de trabalho.

III. O disposto nas convenções colectivas vale inclusive em relação a


quem não seja parte nas mesmas. Os trabalhadores não podem ser parte
nas convenções colectivas; os instrumentos de regulamentlção colectiva
negociais são ajustados por associações sindicais e associações de empre-
gadores (eventualmente também empregadores), e, ainda que o trabalha-
dor não esteja sindicalizado, o instrumento pode aplicar-se à sua relação
laboral, por exemplo, no caso de um Regulamento de Extensão assim o
determinar. Trata-se de uma situação não enquadrável no domínio contra-
tual, pois o contrato de trabalho pode ficar na dependência de uma conven-
ção colectiva de trabalho, negociada por entidades que não são parte na-
1 Tmta-se de uma persJX.'<.1iva essencialmente jurídica do direito do tmbalho; quanlo
quele negócio jurídico. Esta é uma das particularidades do direito do a uma viSllo personalista do Imbalho, relacionada com a Doutrina Social <1.1 Igreja. crr.
trabalho que leva alguns autores a iniciarem a exposição da matéria pela.. MÁRIO PINTO. Direito do TrtlhallUJ. cil .• pp. 84 ss.
§ 2.°
Âmbito de aplicação

I. O direito do trabalho regula quatro aspectos: as relações indivi-


duais de trabalho (o contrato de trabalho propriamente dito); as relações
colectivas de trabalho; as intervenções do Estado na vida laboral (o cha-
mado direito das condições de trabalho); o processo de trabalho l .

II. A relação individual de trabalho corresponde ao núcleo central do


direito do trabalho. Estão em causa regras e princípios respeitantes a um
negócio jurídico entre o empregador e o trabalhador: o contrato de tra-
balho. Esta matéria. que integra o núcleo central do direito do trabalho.
será desenvolvida no Capítulo IV (§§ II. ss.).

III. As relações colectivas de trabalho. também designadas por direito


colectivo do trabalho. têm um âmbito diversificado.
Por um lado. há a ter em conta as regras que disciplinam a constitui-
ção e actividade dos sujeitos colectivos laborais. tanto associações de tra-
balhadores como associações de empregadores.
Em segundo lugar. incluem-se as normas que disciplinam a relação
colectiva. isto é, as que dizem respeito aos instrumentos de regulamenta-
ção colectiva de trabalho, como seja as convenções colectivas de trabalho.
elaborados pelas pessoas colectivas de âmbito laboral, com base nas atri-
• buições conferidas por lei.
Em terceiro lugar. cabem as relações laborais estabelecidas no âmbito
da empresa. dentro da organização empresarial; por exemplo, a relação
que se estabelece entre a empresa e a comissão de trabalhadores.
Em quarto lugar. importa fazer referencia aos conflitos laborais colec-
tivos. em especial a greve.

I erro MENF2ES CORDEIRO, Manl/al. cit., pp. 24 sS. Sem aludir 110 processo do 1m·
blllho, "(1. MON'mIRO FERNANI>ES, Direito do Tmlmlha, cit., p. 58; SOLLNI!K, Grlllu/rifl des
Arbeitsrec/lls. 12.' cd.• Munique. 1998., pp. 33 s.; BF.RNAROO XAVIER. CI/rso. cit .. pp. 81 s.
50 Direito do Trabalho Capítulo I - l"trlltlllftl0 51

Por último, em quinto lugar, serão consideradas as regras relativas à de regras que, tendencialmente, protegem o trabalhador. Dito de outro
composição amigável de conflitos. tais como a conciliação. a mediação e modo, o processo do trabalho realiza judicialmente o direito do trabalho l ,
a arbitragem. impulsionado pelos mesmos postulados deste ramo jurídico. A identidade
A matéria respeitante às relações colectivas de trabalho será estudada de valores, que justifica a inclusão do direito processual do trabalho num
no Capítulo V (§§ 59. e ss.). âmbito amplo do direito do trabalho, não obsta à autonomização daquele
ramo do direito em relação ao direito substantivo que realiza, à imagem do
IV. O direito das condições de trabalho ou da protecção do trabalho é que OCorre com o processo civil e o processo penal.
o campo em que, predominantemente, se verifica a intervenção estadual. Como os aspectos específicos do processo do trabalho foram estabe-
O Estado abandona a sua «neutralidade» e intervém nas relações contra- lecidos só para este rumo do direito e não são leccionados noutras cadeiras,
tuais em vários aspectos. Por exemplo, quanto à segurança e higiene no designadamente no direito processual civil. há também, por isso. razões
trabalho, ao período normal de trabalho e aos acidentes de trabalho. Estas para incluir essas particularidades num âmbito amplo desta disciplina,
regras têm como destinatários. tanto as entidades patronais. como os traba- dedicando o Capítulo VII (§ 75.) ao seu estudo.
lhadores. Neste campo não cabem as normas respeitantes à segurança
social, que constituem um ramo autónomo. VI. Apesar de, também em sentido amplo, se poder incluir no âmbito
O direito das condições de trabalho, representando um dos aspectos do direito do trabalho as relações laborais da administração pública. em
que integra o âmbito de aplicação do direito do trabalho, não justifica, razão de algumas particularidades destas últimas, é frequente inseri-las na
porém, um tratamento dogmático autónomo, até porque as referidas condi- área do direito administrativ02.
ções de trabalho têm mais sentido ser estudadas, em particular. a propósito
de especificidades do contrato de trabalho, com respeito ao regime geral VII. O direito do trabalho, como ocorre em qualquer ramo do direito,
dos contratos. mas talvez com maior acuidade, tem repercussões a vários níveis 3 . Para
além da especial conexão entre o direito do trabalho e a economia nas suas
V. Por último, também fazem parte do direito do trabalho as normas várias vertentes, designadamente no que respeita à economia de mercad04 •
processuais, nas quais se estabelecem particularidades com respeito ao cabe aludir às relações com outros ramos do direito.
direito processual civil. Estes preceitos são, porém, direito instrumental
em relação ao direito do trabalho. constituindo direito adjectivo; mas nem I Sobre o carácter instrumental do direito processual, cfr. TEIXEIRA DE SOUSA, «As-
todas as regras processuais constam do Código de Processo do Trabalho; pectos Metodológicos c Didácticos... », cit., pp. 366 ss.
assim, por exemplo a providência cautelar da suspensão do despedimento 2 Vd. infra § 46. Sobre a distinção entre as relaçõcs laborais de direito privado e de
vem prevista no art. 434. 0 do CT. direito público, vd. JoAo CAUPERS, «Situação JurídiclI Comparada dos Trabalhadores da
Num sentido amplo, o direito do trabalho abrange as regras subs- Administração Pública c dos Trabalhadores Abrangidos pela Legislação do Contrato de
Trabalho», RDES XXXI (1989). n.·s 1/2. pp. 243 ss. O autor acaba por concluir que se
tantivas e adjectivas que incidem sobre matéria laboral. As rtormas proces-
verifica uma tendencial (c desejada) aproximação de regimes jurídicos da função pública
suais de trabalho, nas quais se estabelecem particularidades com respeito e do contrato individual de trabalho (p. 254).
ao direito processual civil, constituem direito instrumental (adjectivo) em Quanto à relação de emprego público, regulada pelo direito administr.ltivo, c a
relação ao direito do trabalho (substantivo). conexào com o direito do trabalho, ,·d. LIBERAL FERNANDES, Autonomia Colectil'U dos
O processo do trabalho apresenta especificidades com respeito ao Tmballtadores da Admillistração Pública. Crise do Modelo Clássico de Emprego P,íblico,
direito processual civil, em cujo tronco comum se insere l , derivadas, em Coimbra, 1995 c MÁRIO PINTO. Direito do Traballto. cit., pp. 83 s. e 100 ss.
3 Numa perspectiva similar, CouruRIER. Droit dll Tral'Uil, cit., pp. 81 ss., afirma que
particular, da necessidade de concretização judicial célere de um conjunto
o direito do trabalho é uma disciplina transversal.
4 Quanto à relação entre a ordem económica e o direito do trabalho veja·se ZOLLNERI
I Crr. TEIXEIRA DE SOUSA. «AsJl<."Ctos Metodológicos c Didácticos do Direito Pr0- ILuRITZ, Arbeitsreclll, 5." cd., Munique, 1998, pp. 7 sS., 13 c 16 S5. De facto, no direito do
cessual Civil», RFDUL, Vol. XXXV, 1994. p. 338. trabalho. para além dos aspectos sociais, a.~ questões económicas têm um papel primordial.
52 Direito 110 Traballlo Cllpíl/llo I - Intmdução 53

No direito constitucional há um desenvolvimento jus laboral signifi- Bibliografia:


cativo. com especial relevo em sede de princípios de direito do trabalho.
como seja o da igualdade. ou em ilspectos mais concretos. nomeadamente MENEZES CORDEIRO. Manual. cit .• pp. 22 ii 28; MONTEIRO FERNANDES.
as limitações ao despedimento. Direito do Trabalho. cit.. pp. 55 a 59; MÁRIO PINTO, Diu'ito do Trabalho, cit.. pp.
Do direito penal retira-se a imposição de multas, coimas I e sanções 97 a 126; RosARIO PALMA RAMAUIO. Direito do Trabalho. I. cit .. pp. 26 c sS.;
BERNARDO XAVJr:.R. Cur.w. cito pp. 81, 82 e 92 a 94.
penais na área laboral, por violação de regras de direito do trabalh02. Cer-
tas infracções laborais podem constituir crime; é o que acontece. por
exemplo. estando em causa a violação de normas de segurança por parte
do empregador, que causem danos ao trabalhador em acidente de trabalho.
O direito fiscal preocupa-se, nomeadamente com a tributação de com-
plementos salariais e até com o pagilmento de gorjellls aos trabalhadores.
O direito administrativo. para além de regras respeitantes à fisca-
lização do trabalho ou relacionadas com a segurança social. na parte que
regula as relações laborais dos funcionários públicos. tem sido influen-
ciado pelas regras do direito do trabalho.
O direito internacional público encontra na área laboral um campo
privilegiado de actuação. com uma organização internacional - a OIT -
especialmente vocacionada para resolver problemas laborais.
Para além destas indicações exemplificativas. há a ter em conta que
o direito do trabalho pauta-se igualmente por regras de direito civil. em
particular de direito das obrigações. de direito comercial. de direito inter-
nacional privado e de direito processual civil.

VIII. Atento o vasto âmbito de ilplicação do direito do trabalho e o


facto de o trabalho subordinado representar uma forma comum de pres-
tação de actividade, não é de estranhar a importância prática deste ramo do
direito, constituindo um relevante mecanismo de intervenção política,
social e económica3. Razão pela qual o direito do trabalho dificilmente se
desprende de considerações extrajurídicas.

relaciomldo com a importância quc as empresa~ empregadoras e o Irnbalho nelas preslado


lêm na economia de cada pais.
I Cfr.• enlre oUlroS. os arts. 601. 0 e SS, do cr relalivos ii responsabilidade penal e
conlra·urdenacionallabornl (l·d. itrfm § 14.). repereussão imediala nas relações de trnbalho e as decisões políticas nesle st.'Clor podem
2 Sobre o direilo penallabornJ. l'd. ARANGUREN in MAZZONI. Manuale. cit. pp. 18 s. ajudar a minimizar ou uhrnpassar a crise econúmica. De faclo. as regra.~ de direito do
e bibliogmfia aí cilada. lrabalho podem influir. lanlo na fixação do Cuslo do faclor de produção Irnbalho e. conse-
3 É frequcnle que a polílica social e económica de um governo se veja espelhada na qucnlcmcnle. no preço dos bens e serviços. como na delerminação da laxa de emprego
lomada de posiç'Jo a nívellabornl (cfr. MOITA VEIGA. üções. cito pp. 39 ss.; MONTOYA (crr. SOARES MARTINEZ. Emnomia Política. cito pp. 439 S5.).
MELGAR./Jerecho deI Trabajo. cito pp. 31 s.; COUl1JRIF.R. Droit d" Tral·ail. cil.• pp. 3655.; Acen:a da relevância do dlreilo do Irnbalbo. na medida em que ele regula a ocup;lÇão
SOu..'liER. A,beirsredlls. cil.• pp. 2 s.); além disso. como é sabido. as crises económicas lêm da maioria da população aCliva. cfr. BEKNAROO XAVIER. Cur.w. cil .• pp. 83 s.
§ 3.°
Enquadramento do Direito do Trabalho

1. O Direito do Trabalho como ramo do direito privado

I. A distinção entre direito privado e direito público é frequentemente


feita em quase todas as disciplinas desde a Introdução ao Direito l • porque
a qualificação - como direito privado ou direito público - pressupõe
concepções diferentes. designadamente a nível dos princípios. De facto, os
princípios que infonnam o direito privado e o direito público não são
exactamente os mesmos. Há algumas diferenças sucessivamente reiteradas
no estudo das várias cadeiras que compõem o elenco do curso de Direito.

II. O direito do trabalho insere-se tradicionalmente no âmbito do


direito privado, pois não se colocam dúvidas quanto à qualificação do con-
trato de trabalho como negócio jurídico obrigacional e, consequentemente,
não se punha em causa a natureza privatística deste ramo do direito.
Partindo deste pressuposto, toda a regulamentação de direito do tra-
balho, como se baseia no contrato de trabalho, deveria igualmente enqua-
drar-se no direito privad02. Todavia, são vários os autores que levantam
dúvidas, discutindo se o direito do trabalho será efectivamente um ramo

, do direito privado. Muitos desses autores chegam à conclusão de que


constitui um ramo do direito público. ou então que é uma situação híbrida,
um misto de direito privado e de direito público3•

I Quanto à distinção, ,'d. OLIVEIRA ASCENSÃO, O Direito. IntroJurdo (' 'f'('oria


Gemi, II.' ed., Coimbm, 200 I, pp. 32555.; BAPTISTA MACIIADO, Introduçdo ao 1Jj"'iWe
IUI Discurso Legitimador, Coimbm. 1983, pp. 65 5.0;.
2 Crr. MASCARO NASCIMENTO. Curso de Direito do Trabalho. 14.' cd., S. Paulo,
1997. pp. 176 ss.
l Crr .• designadamente. MENF.Zf.S CORI>ElRO. Manual, cit.. pp. 63 s.; MorHOYA
MB.GAR. Derecho dei Trabajo. cil.. pp. 42 5.; MÁRIO PI~"O. Direito IÚJ Trabalha. cit..
p. 106; RIVERoISAVATlER. Droit du Tramil. 13.' cd .. Paris. 1993. pAI; MOTTA VFlGA. ü·
pk,. cit., pp. 48 S.; BERNARI)() XAVIER. Curso. cil .. pp. 90 s.
56 Direito elo Tralmllw Capítulo I - IIItroduftio
----- --- - - - - 57
-

o direito do trabalho. no elenco nas disciplinas do curso de Direito. A existência de uma codificação neste domínio não é frequente e.
continua a ser considerado como um ramo do direito privado'. Mas isso mesmo quando existe um Código do Trabalho. como em França I. trata-se
não basta. porque tem sido defendido que o direito do trabalho é direito antes de compilações; é o que se verifica no Brasil onde há uma consoli-
público, até para explicar a sua autonomia relativamente ao direito das dação das leis do trabalh02 . Nesses casos, está-se perante uma compilação
obrigações. oficial de leis. De modo diverso. em Itália, aparentemente, o direito do tm-
balho vem regulado no Código Civil, Livro V, arts. 2060 e seguintes; toda-
III. Quanto às distinções entre direito privado e direito público. como via. estes preceitos foram. em grande parte. alterados. complementados e
Ja foram estudadas noutras disciplinas. não é altura de as retomar. Os substituídos por diversas leis. por um lado. e constituem tão-só os pressupos-
vários prismas em que as distinções têm sido apresentadas pressupõem-se tos básicos do contmto de trabalho e não de todo o direito do trabalho 3 .
conhecidos; seja a teoria do interesse (contrapondo interesses públicos e A codificação, assentando em pressupostos de elaboração científica.
privados), a teoria da natureza do sujeito (se é um sujeito de direito público sistematização e carácter sintético. implica um nível de sedimentação que
ou de direito privado) ou a teoria da posição do sujeito na relação jurídica poder-se-ia entender não existir no direito do trabalho. não só em razão da
(se o sujeito está ou não munido de illS imperii ao relacionar-se com a sua evolução recente, como muito especialmente derivado das múltiplas
contraparte ). alterações, inclusive conjunturais.
A estas concepções clássicas pode acrescentar-se uma outra. distin- Mas em Portugal existe hoje um Código do Trabalho. que não
guindo o direito privado do direito público com base na ideia de que. na- abrange toda a legislação de direito do trabalho. mas tão-só a que respeita
quele. valem. essencialmente. princípios de igualdade e de Iiberdade 2• No a regime comum. Além do Código do Trabalho há que atender à extensa
direito privado. as partes actuam numa perspectiva igualitária e numu base legislação complementar (LECT) e a uma multiplicidade de diplomas
de liberdade. enquanto. no direito público. vigora. em especial. a autori- sobre regimes especiais'.
dade e a competência. O facto de o direito do trabalho se encontrar em permanente evolu-
Além disso. o direito privado é um ramo do direito mais sedimentado ção. não é suficiente para concluir no sentido de não ser direito privado.
que. com a sua evolução desde o direito romano, vem mantendo os mes- Em outros ramos do direito privado. a falta de codificação não altera
mos pressupostos com algumas alterações pontuais; enquanto o direito o respectivo enquadramento, Assim, não obstante existir um diploma desig-
público. sendo mais recente. admite com maior facilidade modificações nado Código Comercial. de que poucos preceitos restam em vigor. em
bruscas. por não estar sedimentado. Daí que. por via de regra. o direito matéria comercial. há uma multiplicidade de outras leis. como o Código
privado. se apresente codificado; de facto. vários ramos do direito privado
encontram-se codificados, o mesmo não se verificando em relação ao
direito público. I Acerca do Code elu Tramit. como compilação de leis que foram promulgadas
desde 1910. I'd. RIVERoISAVATIER. Oroil du Tramit. cit., pp, eH S.; LYON CAEN/I'ÉUsstf.R!
ISUPIOT, Droit du Tramit. 18." ed.• Paris. 1996. pp. 42 s,
IV. Atendendo a este último aspecto. poder-se-ia e.ftender que o 2 A CLT corresponde a uma compilação de leis laborais publicada.~ d~'Sde 1930.
direito do trabalho não estava suficientemente sedimentado. o que não consolidada.~ na década seguinte. que se mantêm em vigor com diversas allentçõcs. Crr.
constituía, uinda assim, fundumento pum o aproximur das disciplinas de ORLANIJO GOMES/ELSON GorrscHAlK. Curso c/e Direito 110 Trabalho. 16," ed" Rio de
direito público. Mas com o Código do Trabulho este argumento perde Janeiro. 2000. pp. 37 ss.
grande parte do seu sentido. Quanto à diferença entre codificação e consolidação. cfr. VtCfoR RUSSOMANO.
Curso de Direito do Trabalho, 6." ed., Curitiba. 1997. p. 28,
3 efr. ASSANTI. Corso di DirillO elelwl'oTlJ. 2." ~-d,. Pádua. 1993. pp. 9 SS. e 279 S5.

I Pelo menos na Faculdade de Direito de Lisboa e na Faculdade de Direito da " Quanto à codificação do direito do trabalho. ~'d. 11.\ \:unrerências de MARIO PU"'TO,
llnh'ersidade Católica. SERRANO CARV AJAl e BUI!No MAGANO. A,rais das I Jomadlu Luso-Hispan(/.Brcuileiras l/e
2 Crr. Mf,NIl7.ES CORDFJRO. Tratado ele Direito Cil·it Português. I. Parle Geral. Direit(/ c/(/ Trabalho. Lisboa. 1982, pp. 159 SS •• e os trabalhos da Comissão de Análise e
2." cd .. Coimbra. 2000. pp. 30 ss. e Manual. cit .• p. 62. SistemalÍl.açào da Legislação Laboral.
51! Direito do Trabalho Glpítulo ,- 'trtrodllfão 59

das Sociedades Comerciais. o Código do Mercado de Valores Mobiliários dor não fazem com que o contrato de compra e venda se inclua no direito
ou a Lei Unifonne relativa ao cheque. às letras e às livranças. com as quais público.
é necessário lidar. e. nonnalmente. às compilações - que também são Quanto à natureza do sujeito. é sabido que os intervenientes a nível
particulares - chama-se «Legislação Comercial». O direito comercial. de relações laborais. tanto na relação individual. como nas relações colec-
relativamente ao qual não se põe em causa a sua classificação como um tivas. não são entidades públicas, mas sujeitos de direito privado' (\'d.
ramo do direito privado. é um direito não sedimentado, em que tem havido infra §§ 59. e ss.).
grandes modificações. não estando totalmente codificado. Do mesmo modo, atendendo à posição do sujeito. também se pode
O mesmo se diga em relação a outros ramos do direito não codifi- deduzir que nenhum dos intervenientes está munido de ius imperii.
cados. que não se põe em dúvida a sua integração no direito privado. Por Mesmo no caso de instrumentos autónomos de regulamentação colectiva
exemplo. o direito industrial e o direito do arrendamento. Em particular. o de trabalho não há. verdadeiramente, uma situação de publim pOfeslas. De
arrendamento é uma das matérias que tem sofrido múltiplas alterações por facto. verifica-se uma subordinação dos contratos de trabalho. por exem-
motivos de ordem social; o arrendatário tem sido protegido pelo legisla- plo. às convenções colectivas. mas. nestas. nenhuma das partes se encontra
dor. porque está em causa a defesa da habitação (arrendamento habitacio- no exercício de um poder público. Nos contratos regidos pelo direito
nal) ou do local onde é exercida a sua actividade profissional (arrenda- administrativo, a administração pode actuar munida de ius imperii, o que
mentos para o comércio e indústria ou rural). A intervenção legislativa no não se verifica em direito do trabalho. A predominância de um sujeito em
domínio do direito do arrendamento tem contornos idênticos à que se veri- relação ao outro. possibilitando que uma das partes imponha à outra uma
fica no direito do trabalho; em ambos os casos. o legislador intervém com situação jurídica. não se encontra no domínio juslaboral; mesmo a subor-
vista a proteger uma das partes que se considera social (e contratualmente) dinação jurídica, característica do contrato de trabalho. difere da publica
desprotegida. mas isso não obsta a que se integrem as nonnas relativas ao pOleslas. A autoridade que empregador exerce sobre o trabalhador, em que
arrendamento no âmbito do direito privado. não há uma situação paritária. é alheia à ideia de ius imperii. Pode existir
Pelo facto de no direito do trabalho não se encontrar totalmente codi- um predomínio factual, como se verifica em muitos negócios jurídicos, e
ticado e se encontrar em pennanente mutação, não pode. por isso, consi- o legislador intervém para contrariar tal preponderância em relações labo-
derar-se que se está perante um ramo de direito público. rais; essa eventual superioridade não se identifica com a diferença de esta-
tuto jurídico, que caracteriza as relações de direito público.
V. Importa verificar se as várias características apontadas pelas teo- Cabe acrescentar que, no direito do trabalho. vigora um princípio de
rias com base nas quais se tem feito a distinção entre direito privado e di- liberdade na celebração dos contratos. tanto individuais. como colectivos.
reito público podem levar a considerar o direito do trabalho como um e existe igualdade entre as partes. pelo menos em tennos abstractos. Uma
ramo do direito público. das razõcs do desenvolvimento do direito do trabalho como disciplina
Tendo em conta a teoria do interesse, conclui-se que no direito do autónoma advém da existência de potenciais desequilíbrios de facto e não
trabalho não estão em causa interesses públicos'. Num coltrato de traba- juódicos. Verifica-se que, do ponto de vista factual. as entidades patronais.
lho ou numa convenção colectiva de trabalho, por via de regra. contrapõem- nonnalmente, estão melhor posicionadas do que os trabalhadores. dando
-se interesses privados. Indirectamente. podem estar em causa interesses origem a desequilíbrios, mas não há qualquer desigualdade jurídica.
públicos. em especial referidos à protecção do trabalho. Mas a existência
de interesses públicos relacionados com a protecção das pessoas não é VI. O contrato de trabalho. excluindo a relação laboral da função
exclusiva deste ramo do direito; isso verifica-se. por exemplo, nos deveres pública. é, sem dúvida. obrigacional. O direito do trabalho autonomizou-
contratuais de protecção que decorrem das vendas de produtos eventual- -se do direito das obrigações. mas o seu núcleo essencial - o contrato de
mente prejudiciais à saúde. As regras especiais de protecção do consumi- trabalho - inclui-se no âmbito dos contratos previstos neste ramo do

I Cfr. RAÚL VF.NTllRA. Relardo Jurídica rk Trabalho. cit.• p. 152. I crr. RAÚL VFNl1JRA. Relllfllo JurúJica dI.' Trabalho. cit .• p. 153.
lJireito 110 Trabalho Cap(tl/lo I - Introdl/ção 61
60 - - - - - - ._------'--- .~-------

direito. com algumas especificidades. sendo. por isso. o seu regime de ~er-~e-i:l pensar q~ se. está no domínio de normas de direito público.
direito privado. pOiS. à Imagem das leIS, tats instrumentos de regulamentação colectiva têm
Quanto às normas reguladoras do contrato de trabalho, dificilmente uma hetero-cficácia.
se poderiam considerar inseridas no direito público. Atento este aspecto. Importa averiguar se o facto de estas entidades colectivas actuarem
admite-se que o direito do trabalho tem aspectos de direito privado - o i~pondo consequências a nível dos contratos individuais. deve ser equa~
contrato de trabalho - e de direito público - por exemplo. a protecção Clonado como razão para qualificar esta área do direito do trabalho como
do trabalho - , pondo em causa a clássica distinção entre direito público e sendo de direito público; ou se. pelo contrário. se trata tão-só de uma mera
direito privado l . especificidade deste ramo do direito. que não obsta ao seu enquadramento
Os aspectos de regulamentação que levariam a qualificar o dir~ito do no direito privado.
trabalho como direito público poderiam respeitar às relações colectIVas de 9uando as. as~ocia~ões sindicais e de empregadores. que são pessoas
trabalho. às condições de trabalho e ao processo do trabalho. cokctlvas de dIreIto pnvado. actuam no domínio laboral. fazem-no ao
Importa, deste modo. distinguir o direito do trabalho por áreas ("d. abrigo da lei. que lhes permite celebrar instrumentos autónomos de regula-
.fUpra § 2.) e detemlinar. em cada uma delas. os aspectos que podem levar mentação colectiva, os quais produzem efeitos nos contratos individuais
a que se qualifique como um ramo do direito público ou do direito privado. de trabalho. Mas as associações sindicais e de empregadores não estão
munidas de ius imperi;; negoceiam os acordos com liberdade e numa
VII. Relativamente ao contrato de trabalho. como já foi referido, não situação de igualdade. A convenção colectiva corresponde a um contrato
parece ser questionável a qualificação do seu regime no âmbito do direito de. direito privado, em que as partes actuam tal qual fariam quaisquer outros
privado. De facto, no contrato de trabalho não há manifest~ções de ius pnvados. não apresentando particularidades na sua relação. Oeste modo.
imperii e as partes - empregador e trabalhador -. ao negocIarem o con- os instrumentos de regulamentação colectiva, quando negociados pelas
trato, actuam em pé de igualdade; há liberdade na celebração e igualdade associações sindicais e de empregadores (ou empregadores), enquadram-
na execução do contrato. sendo as excepções estabelecidas justificadas se no âmbito do direito privado; são negócios jurídicos em que as partes.
pela protecção da parte mais fraca. Apesar de tais excepções, o contrato de sendo ~ssoas colecti~as de direito privado. agem segundo os pressupos-
trabalho continua a ser um negócio jurídico obrigacional. não havendo tos de hberdade e de Igualdade. Por conseguinte. a existência de instru-
dúvidas quanto a situá-lo na área do direito privado. mentos de regulamentação colectiva não altera os parâmetros normais do
direito privado l . O facto inovador consiste na intromissão de uma conven-
VIII. Quanto às relações colectivas de trabalho têm-se levantado ção colectiva - ou outro instrumento de regulamentação colectiva _
dúvidas. pois não se encontram no direito privado situações idênticas. Não num contrato (o contrato individual de trabalho) em que as partes são
é próprio do direito privado que um contrato entre dois sujeitos esteja .n.a diferentes.
dependência de uma convenção concertada por outras pessoas. AdmItir C~be, ~ntão, pe.rguntar se a eventualidade de um negócio jurídico
que uma convenção colectiva celebrada entre duas entidacles - associa- prodUZir efeItos relatIvamente a terceiros é alheia ao direito civil. O con-
ções sindicais e de empregadores - vai produzir efeitos em relação aos trato a favor de terceiro é uma figura de direito privado. em que os efeitos
contratos individuais ajustados entre sujeitos. que podem nem sequer estar desse negócio jurídico se produzem relativamente a quem não é. nem
filiados naquelas associações. é estranho ao direito privad02. Por isso. n~nca será, parte nesse contrato. O beneficiário da prestação. apesar de
nao ser contmente naquele negócio jurídico. vai receber os respectivos
I Crr. MENEZES CORDEIRO, Manlla/. cit .• pp. 63 5.; MONTOYA MF.LGAR, Daecho dei benefícios 2.
Trabajo, cit .• pp. 42 S.; MÁRIO PlI',ro, Direito do Tra/ltI/ho, dt., p. 106; RtvERotSAVATIER.
Droit dll TrtJ\'(/iI. cit.. pp. 39 S5.; SOLLNER, Arbeitsrechts. dt.. p. 32; MOITA VEIGA. Lições. todavia, at~"és de um Regulnml.'nto de Extensão. as regras de uma convenção colectiva
cit.. p. 48; BERNARDO XAVIER, C/lrso. dt .. pp. 90 s. podem aplacar-se II quem não csleja filiado m.'ssas associações.
2 Nos tennos do ano 552.· do a, por força do princípio da filiação. a convenção I efr. MI:NEZES CORDEIRO, Manual. CII., pp. 65 S.
roh:ctiva só "incula os trabalhadores e empregadores filiados na~ lL'isoci3ÇÕCS signatária~; 2 Sobre o contraio a fa\'()r de terceiro, dr. GAL V Áo TEU.F_'i. Dirt'Ífo da.1 ()hriR{/rt;••.~,
62 Direito do Trabalho Capítulo 1- II/trodll('iio 63
.--------------~----~~~--------------- .
A convenção colectiva de trabalho não corresponde estruturalmente tanto subordinados, como independentes. Além disso. o funcionamento da
a um contrato a favor de terceiro, já que, neste, apenas se prevê a possibi- segurança social pressupõe uma actividade administrativa.
lidade de alguém ser beneficiário de vantagens e nunca adstrito a obriga- A segurança social apresenta-se. assim. como um ramo autónomo do
ções. No domínio das relações colectivas de trabalho há também uma direito público. com repercussões em vários ramos do direito público e do
submissão a obrigações, mas o que importa retirar desta alusão ao contrato direito privado. São óbvias as ligações entre a segurança social e o direito
a favor de terceiro é o facto de o direito civil não ser alheio à ideia de um do trabalho: é o que ocorre, nomeadamente, nos problemas derivadus de
negócio jurídico (p. ex., uma convenção colectiva de trabalho) produzir faltas justificadas por doença (vd. infra § 24.11.j) e na cessação do con-
efeitos relativamente a terceiros. Além de que esta especificidade dos trato por caducidade em caso de reforma (vd. infra § 55.4). Mas a segu-
instrumentos autónomos de regulamentação do trabalho pode ser expli- ran~a social não é um ramo do direito do trabalho; a previdência tem apli-
cada por um fenómeno de representação colectiva (vd. infra § 64.). caçao noutros sectores não abrangidos pelo direito laboral, como por
Acresce que as entidades que intervêm na celebração de instrumentos exemplo. no trabalho autónomo e na funçãu públical.
de regulamentação colectiva fazem-no sem qualquer ingerência do Estado
ou de qualquer outra entidade munida de ius imperii, as associações de X. As condições de trabalho são frequentemente incluídas no âmbito
empregadores e sindicais são entidades privadas e, ao negociarem, desig- do direito públic02•
nadamente uma convenção colectiva, fazem-no sem interferência de enti- . O legisla~or, verificando a .existência de certas situações de desequi-
dades públicas. líbno na relaçao laboral. na medIda em que, por vezes, a entidade patronal
Com respeito às relações colectivas, está-se, portanto. no âmbito do se encontra numa situação factual de predomínio relativamente ao traba-
direito privado. lhador. intervém, impondo, por via legislativa, regras que não permitem
Esta conclusão não vale, todavia. em relação aos instrumentos nor- perpetuar nem acentuar esse desequilíbrio circunstancial. Esta intervenção
mativos - não negociais - de regulamentação do trabalho (regulamentos tem-se verificado, sobretudo, desde a segunda metade do séc. XIX, para
de extensão e regulamentos de condições mínimas), que correspondem a põr cobro a injustiças que se revelam na relação laboral.
uma ingerência estadual nas relações laborais, com contornos similares à Tem-se entendido que, se o Estado intervém na vida contratual _
intervenção legislativa. inclusive mediante normas constitucionais -, limitando a liberdade con-
~tual, i~pondo. por exemplo, um salário mínimu ou uma duração má-
IX. Quanto à segurança social, que funciona como um seguro para XIma da Jornada de trabalho. está-se no domínio do direito público.
eventuais doença, invalidez, reforma, ou seja, contingências da vida que É evidente que as intervenções do Estado na vida contratual. no final
podem afectar a subsistência das pessoas l, parece que as suas normas de- do século XIX e início do século XX, tiveram especial relevância no
vem ser integradas no âmbito do direito públic02. Na segurança social não domínio do direito do trabalho. porque o princípio liberal da não interven-
há igualdade entre a instituição e os inscritos, nem liberdade, pois vigora ção do Estado na economia levava a que o legislador não se imiscuísse em
um regime de obrigatoriedade de inscrição por parte dosltrabalhadores, nenhuma relação jurídico-privada. Assentando neste postulado liberal,
qualquer intromissão do Estado numa relação jurídica de direito privado.
transformá-la-ia, na parte que respeita a essa intervenção. em direito
cit., pp. 170 SS.; ANTUNES VARELA, Das Obrigaç(ies em Geral, cit., pp. 408 55., bem como público. Para além desta conclusão ser rebatível. hoje, as intervenções do
a monografia de LEITE DE CAMPOS, Contrato a Fal'or de Terceiro, Coimbra, 1980. Estado na vida cuntratual são múltiplas, não se circunscrevendo ao domí-
I Crr. MorrA VEIGA, I.iÇlies, cit., p. 13. Quanto à distinção e às relações entre o
nio laboral. e não podem ser entendidas como regra.. de direito público.
direito do trabalho e o direito da segurança social, ,'d. aUlore obra citados, pp. 13 S.; LYON·
,CAENlPÉusSUWSUPlOT, Droit du Tra~'ail, cit., pp. 125. I Quanto à autonomia entre o direito do trabalho c o direito da segurançll socilll. cfr.
2 Crr. LYON-CAEN/P!;LlSSIERlSUPIOT, Droil du Travai/, cit., p. 13. lJiferentemenlc, ASSANTI, Dirillo dei Lavoro. cit., p. 41.
OLIVEIRA ASCENSÃO, O Direito, cit., p. 341, considera o direito da previdência social como 2 Crr. MENEZES CORDEIRO. Mal/ual. cit., p. 64: MONTEIRO FERNANDES, Direito c/o
direito privado. Trabalho. cit.. p. 58: MÁRIO PINTO, Direito do Trabalho. cit., p. 104.
64 Direito do Trabalho
I Capítulo I - 1"',01/"1'(10
~----------~------------------
65

Por exemplo, a Lei das Cláusulas Contratuais Gerais (Decreto-Lei n.o se as empresas estão a cumprir as regras laborais, designadamente se h.i
446/85, de 25 de Outubro, com as alterações do Decreto-Lei n.O 220/95, menores a trabalhar na empresa ou se os períodos normais de trabalho
de 31 de Agosto) implica uma intervenção clara do legislador em domí- estão a ser cumpridos.
nios contratuais l . Não parece que tais normas reguladoras dos contratos Tendo em conta que o exercício da 'lctividade laboral é fiscalizado
celebrados mediante o recurso a cláusulas contratuais gerais, por força do por institutos públicos. através de funcionários públicos, há uma interven-
disposto naquele diploma. passem a ser direito público, nem que o regime ção estadual na relação contratual, podendo concluir-se que se está perante
das cláusulas contratuais gerais, por pressupor essa intervenção do Estado uma situação de direito público. A conclusão não parece correcta, porque,
na autonomia contratual, seja direito públic02. por esse caminho, haveria outros ramos de direito privado que deveriam
O mesmo se diga quanto à responsabilidade do produtor. O Decreto- ser integrados no direito público.
-Lei n.o 383/89, de 6 de Novembro pressupõe uma intervenção do Estado Os conservadores do registo predial. atendendo ao princípio da lega-
em aspectos de responsabilidade civiP. Relativamente a produtos em lidade (art. 68.° do Código do Registo Predial), na sua função de publicitar
circulação. sendo causados prejuízos ao consumidor. este pode exigir uma a situação dos bens. fiscalizam a actividade dos particulares no que
indemnização ao produtor, com base em responsabilidade objectiva. Esta respeita, nomeadamente, à transmissão da titularidade dos direitos reais
intervenção do Estado c:m rdações jurídico-privadas não altera a qualifica- sobre imóveis. Por via desta fiscalização, o regime dos negócios jurídicos
ção de tais situações. O facto de o Estado «assegurar» uma indemnização translativos da titularidade de direitos reais sobre imóveis não se integra
às pessoas que sofrem danos ocasionados por produtos adquiridos e que no direito público.
não possam, segundo as regras do Código Civil (arts. 483.° e ss.), exigir a Na actividade comercial também há institutos públicos vocacionados
reparação, não transforma a responsabilidade civil em direito público. O para fiscalizar, por exemplo se os produtos alimentares podem ser transac-
contrário seria admitir que todas as normas imperativas, mesmo as que cionados, verificando se têm a qualidade estabelecida por lei. sob pena de
constem do Código Civil, seriam de direito público. aplicação de multas, de apreensão da mercadoria, etc. Mas isto não trans-
No sentido da publicização das condições de trabalho, para além da forma o regime que disciplina a actividade comercial em direito público.
intervenção legislativa, tem-se invocado que o Estado criou institutos Caso contrário, sempre que houvesse fiscalização por parte do Estado
públicos, que visam fiscalizar a actividade laboral4 • De facto, há institutos estar-se-ia perante normas de direito público.
públicos - em particular, a Inspecção-Geral do Trabalho - que verificam As regras respeitantes ao funcionamento desses institutos que fiscali-
zam a actividade laboral são se direito público e pode designar-se esse
ramo por direito administrativo do trabalho, mas as normas que impõem
I Sobre o regime das cláusulas contratuais gerais, para além do comentário de AL- condições de trabalho, como seja o direito a férias, integram-se no con-
MEIDA COSTA/MENEZES CORDEIRO. Cláusulas Contratuais Gerais. Anotação ao Decreto- trato de trabalho, constituindo deveres da partes, sendo de direito privado.
-Lei n.o 446/85. de 25 de Outubro, Coimbra. 1986. veja-se MENEZES CORDEIRO. Tratado Intimamente relacionado com o direito do trabalho, sem dele fazer
de Direito Civil, cit.• pp. 411 SS. e ANTlJNES VARELA. Das Obrigaçõetem Geral. cit.. pp.
directamente parte, há o mencionado direito administrativo do trabalho,
256 ss.
2 RAÚL VENTURA, Teoria da Relação de Trabalho. cit .• p. 152. sustentando a natu-
que é um ramo do direito público. O direito administrativo do trabalho -
reza de direito privado, vem argumentar que. tendo a propriedade. tal como o direito do distinto do direito do trabalho da administração pública, também ramo do
trabalho. uma função social. então os direitos r\..'ais deveriam ser enquadrados no direito direito público - não deve ser considerado parte integrante do direito do
público. trabalho. apesar de algumas das suas regras poderem ser estudadas nesta
3 Sobre a responsabilidade civil do produtor. para além da monografia de CALVÁO disciplina, em particular o papel fiscalizador da Inspecção-Geral do
DA SILVA. Responsabilidade CMl do Produtor. Coimbra, 1990. l'd. ROMANO MARTINEZ. Trabalho.
Cumprimento Defeituoso. em especial na Compra e Venda e na EmpreitadC/. reimpresSlio,
Coimbm. 2001, pp. 66 S5. e bibliografia aí citada. bem como Direito das Obrigaçiies
Do mesmo modo, os preceitos da que se poderá designar administra-
1·..·

(Parte Especial), Contraws. 2." cd.• Coimbra. 2001. pp. 147 s. ção do trabalho têm carácter público. São regras, por exemplo. relaciona-
4 Cfr. MENEZES CORDEIRO. Manual. cit.. p. 64. das com a política de emprego ou a formação profissional.
66 Direito do Trabcllho Capítulo I - IlIIrodllçtio 67
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Portanto. nem o facto de haver intervenção legislativa de carácter 2. Relação entre o direito comum e o direito especial
injuntivo. nem fiscalização das actividades. parecem ser razões para quali-
ficar o direito do trabalho como direito público. I. Tendo presente o elenco de cadeiras que integram o plano do curso
de Direito. denota-se. por vezes. alguma continuidade num ensino que vai
XI. O processo do trabalho é a forola de realização judicial do direito do geral para o particular. Nesse sentido. pode considerar-se que o direito
do trabalho; admitindo que o direito processual é um ramo do direito do trabalho se encontra no fim de uma sequência. iniciada com a disciplina
público l • sendo ele instrumental. em O<lda altera a qualificação do direito de Introdução ao Estudo do Direito. a que se segue a Teoria Geral do
substantivo. Dito de outro modo. o processo do trabalho é direito adjectivo Direito Civil e o Direito das Obrigações.
que dá realização judicial ao direito do trabalho. mas sendo adjectivo. não Em particular. o direito das obrigações representa o tronco comum.
altera a qualificação do direito que se pretende realizar. cm relação ao qual. outras disciplinas se podem enquadrar num direito
designado especial. É isso que ocorre. nomeadamente. com o direito
XII. Por isso. o direito do trabalho não deve ser entendido como um comercial e o direito do trabalho.
composto de direito público e de direito privado. mas antes como um mero O direito do trabalho. tal como aconteceu com o direito comercial.
direito privado. autonomizou-se do direito civil; era direito civil comum e. hoje. é direito
Qualificando o direito do trabalho como direito privado e não como privado especial I.
um misto de direito privado e de direito público. decorrem consequências.
designadamente a nível de interpretação. pois sÓ se recorre aos princípios II. Sendo um ramo do direito privado. pressupõe a aplicação de prin-
do direito privado e não aos de direito público. Por outro lado. como não cípios e de regras de direito civil. sempre que não se tenham estabelecido
raras vezes a regulamentação de diferentes aspectos de direito do trabalho regimes com cspecilicidades2 • Não é. deste modo. concebível o estudo do
apresenta lacunas. a integração faz-se mediante o recurso às soluções de
direito privado; assim. monnente no que respeita à responsabilidade con-
tratual. corno a previsão laboral apresenta inúmeras falhas. há que recorrer
I Discorda.se de MONTOY A MELGAR. DeredlO t/t'/ Trabajo. cit.. p. 43. quando
ao regime do Código Civil 2•
atinna que a distinção enlre direito comum c direito CloJlccial tem um mero interesse
histórico. até porque. contrariando o que este autor atinn" (p. 42). o facto de o direito do
trabalho ter surgido como reacfr-üo às nonnas de direito civil não implica a criação de um
Bibliografia: sistema totalmente novo e distinto. mas antes de um conjullto de regras especiais. em que
alguns dos preceitos constituem excepção ao regime comum. Na realid.1de. contmriando o
MENEZES CORDEIRO. Manual. cit .• pp. 61 a 67; MARIO PINTO. Direito do que atinna MONTOYA MELGAR. ob. cit.. p. 44. o direito do tmbalho não é uma disciplin"
Trabalho. cit .• pp. 104 a 107; MOTA VEIGA. Lições. cit.. pp. 48 e 49; RAÚI. dotada de pressupostos lécnicos e instituiçtk'S próprias. distintos dos do direito civil: a
VENTURA. Teoria da Relação Jurídica de Trabalho. cit .• pp. 149.157; BERNARDO posiç-do deste autor assenta numa. dificilmente sustentável. visão atomística do direito em
XAVIER. ClIr.m. cit.. pp. 90 e 91. gemi e do direito do tmbalho em panicular. desinserindo este ramo do direito de um
panorama global.
No sentido do tellto. considerando o direito do tmbalho como direito privado espe·
I OUVI!lKA ASCENSAo. O Direito. cit.. p. 347. atinna que o direito processual regula cial. que específica princípios. sobretudo do direito da~ obrigações. err. OUVElRA ASCF.N·
uma fonna de actividade do Estado. disciplinando a actÍ\'idade dos juízes na soluçllo dos sÃo. O Dirf'Ílo. cit.. p. 341. Veja·se igualmente MF.NEZF.s CORDEIRO. Mamud. cit .. p. 66.
C;L~OS concretos. Vd. igualmente BAI'1lSTA MACHADO. Introdução ao Direito. cit.. pp. 68 s. 2 É isso que ocorre. como se referiu no número anterior. no que respeita à resJXlO'
2 Veja.se. por ellemplo. RADf.. DroU du Tramil 1'1 Rrsponsabilili CMle. Paris. sabilidade contmtual. que. apeslIr de ter tmtllmento cspt.'Cífico no direito do trablllho.
1997. que depois de ellplicar a aulonomia do direilo do tmbalho atendendo à incapacidade apresenta várias lacuna~. que lêm de ser preenchidas com o recur.;o ao regime do Código
de o direito civil resolver prob1cma~ específicos da~ relafr-ÕCS labomis (pp. I 55.). c'\plica Civil. A propósito. consulte·se o estudo de RADÉ. DroU ti/( Tramil 1'1 Rl'sponsabi/jlé
que. em múltiplos aspectos. o direito civil continua a aplicar·se no âmbito laboml. em CMII'. cit .. nomead.1mentc pp. 63 ss.. quando explica que a Il:sponsabilidade civil garante
panicular no que se refere à resJXlOsabilidadc civil (pp. 63 ss.). a reparação de modo mais l.'OITIpleto do que no direito do trabalho.
6R [)ireito c/o Trabalho Capítlllo I - I",rodllçtio 69
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direito do trabalho desacompanhado. em particular. do direito das obriga- A evolução jurídic~l. em pllrticular no século XX. conduziria ao esta-
ções; a visão interdisciplinar será. pois. essencial'. belecimento de regras e princípios especiais válidos nas relaçõcs laborais.
O enquadramento no direito das obrigações é imprescindível. até por- Tal especialidade não pressupõe um acentuado afastamento dos princípios
que o direito do trabalho deve assentar num pressuposto de neutralidade. gerais. mas antes um~1 adaptação que. nalguns casos, pode implicar uma
sem tomar partido no pontual conflito social; como qualqucr disciplina solução oposta.
jurídica. tem de apresentar soluções gerais. É certo que as concepções
polfticas. não raras vezes. influenciam as soluções jurídicas. mas o direito II. Como postulados do direito do trabalho há a evidenciar um prin-
do trabalho não pode depender de um comprometimento ideológico. que cípio de tutela do trabalhador. de modo a garantir que a eventual desigual-
lhe retira a função estabilizadora das relaçõcs sociais. A neutralidade que dade factual não conduza a uma dependência jurídica do prestador de
se preconiza não pressupõe um acatamentu acrítico das soluções legais e trabalho. concretizado. designadamente. na proibição de despedimentos
jurisprudenciais. mas tão-só que a crítica não pode assentar em pressu- ad nutum. por um lado. e o valor atribuído à autonomia colectiva (em
postos ideológicos. particular à convenção colectiva de trabalho) na fixação de regras laborais.
por outro lado l . A estes dois aspectos. importa acrescentar que no direito
III. Não é despiciendo relembrar que o direito do trabalho surge como do trabalho se detecta uma estreita conexão entre os parãmetros individual
resultado de uma determinada evolução histórica e ainda hoje acompanha e colectivo da intervenção jurídica2 • Mas mesmo estes princípios não
as mutações sociais. Mas isto não corresponde a nenhuma particularidade pressupõem uma alteração dos parâmetros gerais do direito civiP.
deste ramo jurídico; todo o direito surge de conflitos sociais que pretende A autonomia do direito do trabalho advém da aludida especialidade.
apaziguar. resolvendo-os de forma justa. A evoluçãu histórica pode revelar sendo pois imprescindível o seu estudo integrado nos parlmetros do
diferentes critérios para a resolução justa de idênticos conflitos. mas a direito civil. em especial do direito das obrigaçõcs4 •
admissibilidade de várias soluções para o mesmo diferendo em função de Para além disso. há a ter em conta que a autonomia desta disciplina.
concepções políticas é a negação do direito. momlente do ponto de vista didáctico. também se baseia na complexidade
A mudança de critérios relacionada com a mutabilidade social e. por do seu objecto-~,
vezes. condicionada pur alterações política.. e ideológicas. por um lado. e
boa. 1982; RAlÍl. VI;mlJRA, Relaç/io Jllrídira de> Tmball/o. cit .• pp. 158 s.; MarrA VEIGA,
a sucessão legislativa. frequentemente feita sob pressão de necessidlldes
Uçõe.f. cit.• pp. 45 ss.; BERNARDO XAVIF.R. Cur.m. cit.. pp. 86 ss., bem como a disscnação
sociais e políticas. por outro. dificulta a imprescindível neutralidade do de ROSÁRIO PALMA RAMAl UO. DII A/lltJnomia Dognuitica do Dir..iw do Trabalho. Coim-
juristll em matéria laboral. bra, 2001. nomeadamente pp. 516 SS. e 701 ss.
I A autonomia nào de\'e ser elUlhada ao ponto de !>C afirmar que «( ... l o Direito do
trabalho afasta·se decisivamente de certos dogmao; contratuais. como o da autonomia da
3. Autonomia do Direito do Trabalho vontade ( ... l, o dll consensllillidade ( ... l. o da sinalagmaticidade (... )1> (BERNARDO XAVIER,

I. A relação de especialidade preconizada no número anterior não põe


• C/lrso, cito p. 87), porque. não obstante as excepções estabelecidas a nÍ\'cI de autonomia
da mntade. de cOllscllsualismo negocial e do carácter sinalagmático das pn.'Staçõcs. \'alem
as regras gerais dos contratos, sempre que não se estabeleceram normas especiais.
em causa a autonomia do direito do trabalho que. como tem sido regra em Apesar de uma evelltulIl integração empresurial. o contrato de trabalho tem dc ser
outras disciplinas jurídicas. se funda numa origem histórica 2 . entendido nos purJmetros comuns 11 generalidade dos negócios jurídicos.
2 Veja·se ICHINO, II COntrtltW di ÚlI'oro. Milão, 2000. pp. 149 ss.
I É. por isso. interessante atender ao estudo de GAlITIER, "Les Interactions du Dmit 3 Cfr. MENFZES CORnElRO. «I)a Situação JurídiclI Laboral ... cit.. pp. 44 S5 .• 55 ss. e
Civil et du Dmi' du Travail». I.ps SO/lrces c/II Droit d/l Tr{l\'ail, org, por Bernllrd Teyssié. 62 ss.
Paris. 1998. pp. 129 ss .• mormente quando afirma que os grandes juslaboralista.~ são .. Conclui·se. deste modo, com MENEZES CORDEIRO, «Da Situação Jurídica Laboral",
grandes juscivilistas. cit .. p. 64. que a Ilutonomill do direito do trablllho é meramente sistemática.
2 Quanto 11 autonomia do direito do trablllho. I'd. MENEZP.S CORDEIRO, «Da Situação S Distinl:uindo a autonomill do direito do trabalho em tn.~ partes: autonomia legis-
Jurídica Labor.d; Perspectivas Dogmáticas do Din:ilU do Trabalho». Sepllratll ROA. Lis· lativa; Ilutonomill didácticll e autonomill científica. cfr. VlcrOR RUSSOMANO, C/lrso dt'
70 I)ireito do Trabtllho

Bibliografia:

Mr:NF7.FS CORDEIRO. "Da Situação Jurídica Laboral; Perspectivas Dogmá-


ticas do Direito do Trabalho». Separata ROA. Lisboa. 1982; MARIA DO ROSÁRIO
PALMA RAMALHO. Da A/IIOI/Omia Dogmática do Direito do Trabalho. Coimbra.
200 I e Direito do Trabalho. I. cit.. pp. 485 e SS.; RAÚL VEI'mJRA. Relaçt10 Jurí-
dica (Ie Trabalho. cit.. pp. 158 e 159; MOTTA VEIGA. UÇiies. cit.. pp. 50 e SS.;
§ 4.°
BERNARDO XAVIER. Curso. cit.. pp. 86 a 90.
Evolução histórica do Direito do Trabalho

1. Questões prévias

É frequente iniciar-se o estudo da evolução histórica do direito do


trabalho pela Revolução Industrial. a propósito da questão social. tentando
explicar que este ramo do direito teve o seu início com o conflito social
;1 entre as entidades patronais e os trabalhadores; ou seja. que o direito do
trabalho nasce dos problemas criados na segunda metade do século XIX.
:1',:.'. em que houve um conflito. pelo menos latente. entre classes sociaisl.

I Cfr. JOSE JOÃo ABRANTES. "Formaç:io e Evolução Histórica do Direito do Tra


balho». Direito do Trabalho. En.taÍllJ. Lisboa. 1995. pp. 20 s,; BECKER. ArbeilJl'ertrtlg /ln/I
Arbeitnwhiíltnis in Dl'utsclllCltul I'om Begínn der Industríalísierrmg bis ~um Ende des
Kaíserreiclr.s. Francoforte. 1995. pp. 27 ss.; MOl'o'TElRO FERNA~DE.S. Dirt'if(1 do Tralxll/lo.
II." ed .. Coimbra. 1999. pp. 2855,; MOI'......OYA MUGAR. Derecho dei Trabajo. 22." cd .•
Madrid. 2001. p. 162; PALOMF.QUE LoPEZ, Oíreil/1 do Trabalho e Ideologia. trad. porlU-
guesa. Coimbra, 2001. pp. 19 5S.; I'ERA. Cumpt!/Idio di Dirillo dei ÚlI'OW • •~: cd.• Milão.
1996. p. 2; ASSAI'f11. Diritto dei WIWO. cit.. pp, I ss.
Algulls autores francescs iniciam o estudo do direito do trabalho com a Rc\'Olução
Francesa (1789). dr. COlJ11JRIF.R. Oroit du Tramit. cit .• pp. 28 ss.; LYON-CAEN/PÉUsSIF.Rl
!SuPlor. Droit du Tramil, cit.. pp. 5 ss. Esta tomada de posição justifica· se na medida em

• que a Revolução Francesa pôs em prática o liberalismo que. com respeito ao direito do
trabalho. se repercutiu 110 principio da liberdade de trabalho e da igualilitde das partes; o
liberalismo. em matéria social. Icvou aos conhecidos abusos. que desencadearam a Ques·
tão Sociil\. Note-se. todavia. que o liberalismo. com iIS repercussõcs 110 mundo laboral.
surge. pelo menos na Inglateml. cm meados do século XVIII. algumas décadas antes dll
Re\'Olução Franc,-'Sa. Quanto à e\'olução histórica do direito do trabalho cm Inglaterra. n/.
BowF.Rs. Emplo)"mt'nt ww. 4." cd .• Londres. 1997. pp. I ss.
Numa perspectiva muito particular, MÃRIO PlI.....O. Direito do Trablllho. cil.. p. 44.
admite que o direito do trabalho começa com o reconhecil11Çnto jurídico das rclaçücs
Direito do TmballlO. cit.. pp. 27 ss. Veja-se também MASCARO NASCIMENTO. Curso de colectivas. que só se verificou nil 2: metade do século XIX. BERNt\RIJO XAVIER. Curso.
Direito do Tm/ml/IO. 14.' ed .. S. Paulo. 1997. pp. 168 55 .. que acrescenta a autonomia cit.. pp. 33 ss .• também relaciona o nascimento do direito do tr.tbalho com a 2: metade do
jurisdicional. século XIX. cm raLão da.'i altel"ilçü,-"S sociais então verificadas no mundo laboral.
72 Direito do Trabalho Capíllllo I - IlItrodurão 73

Porém. esta concepção histórica. para além de uma eventual conotação polí- Bibliografia:
tica. assenta no pressuposto de o direito do trabalho se apresentar como
fruto da luta de classes. É evidente que o moderno direito do trabalho. pro- JOSÉ JOÃO ABRANTES. «Fonnação e Evolução Histórica do Direito do traba-
duto de uma multiplicidade de regimes especiais. que levou à sua autono- lho». Direito do Trabalho. Ensaios, Lisboa. 1995. pp. 20 e 21; MF.NEZES COR-
mização do direito das obrigações l • surge depois da Revolução Industrial. DEIRO, Manual. cit.. pp. 34 a 36; MONTEIRO FERNANDES. Direito do Trabalho. cit..
mas considerar-se que todo o direito é o produto de um conflito entre duas pp. 28 a 31: MÁRIO PINTO. Direito do TmblllllO. cit.. pp. 44 a 48; BERNARDO
classes. que não conseguem coexistir em colaboração. corresponde a uma XAVIER. Curso. cit.. pp. 33 a 36.
perspectiva inaceitável.
O direito do trabalho também tem em vista a resolução de conflitos
entre empregadores e trabalhadores. mas o contlito latente entre classes 2. Direito Romano
sociais não existirá necessariamente. Os conflitos laborais que surjam têm
de ser vistos numa perspectiva jurídica e não como uma permanente luta I. O contrato de trabalho não tem sentido numa sociedade esclava-
social. gista. em que a relação entre o senhor e o escravo está fora do domínio do
A relação de trabalho não se inicia com a Revolução Industrial; antes direito do trabalho. até porque lhe falta a liberdade na prestação do ser-
desta já havia contrato de trabalho. viço.
A origem do direito do trabalho encontra-se no direito civil. pois. Assim. fazendo uma análise das normas do Digesto que tratam de
fazendo parte do direito privado comum. as suas raízes históricas estão no vários aspectos do direito civil. por exemplo. as respeitantes ao contrato de
direito romano2; até porque a autonomização do direito do trabalho não compra e venda (em especial Livro 18) ou as relativas às coisas (designa-
implicou uma quebra com a tradição. De facto. a relação laboral sempre damente. Livros 37. 38 e 41). comparando-as com as que regulam a rela-
teve na sua base um contrato. o qual se insere nos negócios jurídicos ção laboral (regras esparsas no Livro 19 e um tratamento lateral no Digesto
obrigacionais de fonte romanística. 38.1). verifica-se que estas últimas não têm o mesmo desenvolvimento.
nem aperfeiçoamento técnico. Mas veja-se. por exemplo. o direito à per-
cepção do salário pelo tempo pactuado sendo o trabalho interrompido por
facto não imputável ao trabalhador. previsto em Digesto [9.2.38.
Isto deve-se. não só ao facto de a sociedade romana assentar num
importante sector servil (escravos e colonos). mas também devido ao pre-
I A RevoluÇlio Industrial conduziu ao desenvolvimento de regras que implicaram. conceito. que se manteve mesmo depois da queda do Império Romano. de
nomeadamente, a dignificação de vida dos trabalhadores. e que despertaram uma vocação trabalhar para outrem ser pouco dignificante I. excepto tratando-se de tra-
humanitária e social do Direito. cfr. MENEZES CORDEIRO. Manual. cit. pp. 20 5S.: balho autónom02. Esta concepção reflecte-se na máxima ciceroniana
MONTOYA MELGAR. Derecho dei Trabajo. cit.. p. 29. ,
Mas. contrariamente ao que afirma JOSÉ JOÃo ABRANTES. «Formação c Evolução I Quanto ao desprezo pelo trnbalho e a exaltaçào do 1a1.er como condição necessária
Históric3. .. >•• cit .. p. 21. a Revolução Industrial. a Questão Social e o movimento operário de uma vida de homem. cfr. PAUL VEYNE. «O Império Romano». in Histária dCl VidCl
não levaram «a abandonar o unterior regime jurídico de utilil.ação do lrabalho 3.ssalariado l)ri~·adCl. sob a direcção de Philippe Aries e Gcorges Duby. 2.' cd .• Porto. 1989. p. 124.
e a substitui-lo por um outro»: o regime jurídico de utilil.ação do trabalho continuou a ser Porém. como o mesmo autor refere. este desprezo pressupunha uma distinçào de classes.
o mesmo - o contrnto de trnbulho -. só que foram sendo impostos limites à uutonomia depreciando-se. assim. o grupo social inferior (p. 126), o que estava de acordo com a ideia
privada. Solução similar, e errada do ponto de vista histórico. é a de PALOMEQUE LOPEZ. de que a valorização implicava detenção de riqueza fundiária (p. 128). Acresce que o
Direito do Trabtl/lw e Ideologia. cito p. 19. quando alirma que «[ ... ) as relações feudais de termo «tmbalho» nào tem equivalente exacto ao actual em latim: daí afirmar-se que o
produção (trnbalho em regime de servidão) [foram substituídas I pelo sistema económico político. aquele que gere os seus domínios. o médico ou o liIósofo nào trabalham. ocupam.
capitalista [ ... 1». dando a entender que o feudalismo e a servidão (que nem sempre lhe era se dos seus afazeres; da mesma forma. o escrnvo c o soldado não tmbalhanl. obedecem
inerente) se prolongamm até ao século XIX. (:lUtor e ob. cit.• p. 129).
2 Cfr. MENEZES CORDEIRO. Manual. cit .. p. 34.
2 Apesar de as chamadas artes liberais. como ii medicina. tumbém. por vezes. serem
74 Direito do Trabalh() Capíllllo I - 'IIIrocluréio 75
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(}rillm cum dignirate. compatível com a actividade pública. mas que des- poderia ter por objecto o uso de coisas. mas também a prestação de activi-
prezava o trabalho assalariado'. dades por pessoas. Os homens livres. tanto podiam locar uma coisa. como
A plebe rural (constituída também por colonos) explorava agricola- o resultado de uma actividade (obra) ou a sua força de trabalho. O contrato
mente as terras que detinha. sendo poucos os cidadãos livres que. no de locação respeitava. assim. a bens corpóreos e a actividades'.
campo. trabalhavam para outrem. pois os grandes proprietários tinham. No direito romano. entre os vários contratos - ao lado da emprio
normalmente. escravos. A plebe urbana. em regra. principalmente quando vel/ditio. da .'iOde/as. etc. -. encontrav:l-se a locario conducrio. A locario
se tratava de artífices. prestava serviços. de forma autónoma 2• tendo os cOlldllcrio. pelo menos no período intermédio. subdividia-se em três
senhores (nobres e burgueses) escravos ao seu serviço. Não se quer com tipos2: a localio cOllducti(} rei. que corresponde à actual locação; a locario
isto dizer que não existissem múltiplas situações de trabalho subordinadoJ. COlldllCtio operiJ. antecedente do contrato de empreitada. da chamada
Como exemplo de trabalho livre assalariado é de aludir à referência feita locação de obra; e a !oclltio cOlldllcrio operamm. que corresponde ao
numa tábua da época de Adriano (117-138). relativa ao trabalho nas minas contrato de prestação de serviços. no qual se incluía o trabalho subordi-
de Aljustrel; nesta tábua. quanto à mão-de-obra utilizada. alude-se ao nado e o independente 3• Em qualquer uma destas três situações. uma das
emprego de mercellarii (trabalhadores livres assalariados) e servi partes - o condllctor - tinha de pagar à outra - o locator - uma con-
(escra vos)4. trapartida em dinheiro. designada merce.... Por vezes, no trabalho autó-
nomo. a contrapartida monetária era designada por horlOrarium ou mesmo
II. No direito romano. o contrato de trabalho enquadrava-se numa por salariunr'.
figura genérica. designada locação. A locação era um negócio jurídico que No direito romano encontram-se as regras precursoras do actual
contrato de trabalho na !ocatio cOllductio operarum. prevista no DigestoS.
c:I;crcidas por escmvos. cfr. V A7. GUEDES. A Prestarão do Tmlmllw t' a sI/a Trc/IIsformarão Porém. nem sempre se determina um tratamento diferenciado entre o tra-
Pacífica pelo Direito Ch'il. Lisboa. 1914. p. 32. balho subordinado e o autónomo. assentando estas duas modalidades de
I Cfr. RODRIGUEZ NElLA ... EI Tmbajo cn las Ciudades Romana., de la Bélica.. in EI trabalho nos mesmo parâmetros. Mas é na locario conductio operarllm que
Tmlmjo a Trm'és ele la Historia, Actas dei II. o Congreso ele /tI A.WJciación ele Historia se encontra o ponto de partida do actual contrato de trabalho.
Social. Córdoba. Abril de 1995. org. por SANTIAGO CASTIU.O. Madrid. 19%. p. II. Nos actuais Código Civil Francês e Código Civil Espanhol ainda se
2 Os trabalhadores autónomos organizavam·se. frequentemente. em corporações de
procedeu à divisão tripartida a que se aludiu. tendo o contrato de trabalho.
artífkes. tais como carpinteiros. sapateiros. etc .• para além de outras que. hoje. mais
facilmente se incluiriam na figura de industriais. como padeiros ou transportadon.'s (sendo
esles últimos. por vezes. também comerciantes). I Como refere MENFZF.o; CORDFJRO. ManllCIl, cit., p. 38. a terminologia usada,
3 Como se lê em VAZ GtJEDF_<;. A Prestarão do Trabalho. cit.. p. 33. pamfrascando f37.cndo crer que o trabalho era equiparado a lima coisa. não corresponde a um desinlercssc
Rlanqui. "nessa época vêem-se muilos operários Ii\·res. trabalhando ao lado de operários dos romanos pelo trabalho livre. No mesmo sentido. ,·d. MÁRIO PINTO. Direito do Tra-
escravos (. .. ) nas manufacturas domésúcas dos opulentos senadores romano~ ... Também balho. cil.• pp. 29 s.
VEYNE. "O Império Romano ... cit.. p. 135. acaba por afirmar que é de "'iCOnfiar do ideal 2 Cfr. ROMANO MARTINEZ... O Contrato de Empreilada no Direito Romano e no
de lazer e desprezo pelo trabalho pois. em Pompeia. enconlmmm·se veslígios de vários Anligo Direilo Ponuguês. ConlribUlo para o Estudo do Conceilo de Obra na Empreilada».
proprietários que moslravam orgulho nos seus ofícios de padeiro. fabricante de louças. etc. Direito e Justira. VII (1993). pp. 19 S5. e bibliogmfia aí cilada.
O mesmo aulor acrcscenla que se sabe muilo pouco sobre a mullidUo laboriosa de Roma. .\ De modo dh·erso. RAÜL VEr.TURA. Rt'laçdo Jurídica ele Trabalho. cit.. p. 53.
pois só se conhece como eram vistos pela classe elevada (p. 137). Igualmente no sentido contrapõe a locatio operis ii loccuio opt'rarum. fazendo corresponder ii primeira o trabalho
de proliferarem siluaÇÕC5 de lrabalho subordinado. efr. RODRIGIJEZ NEII.A. "EI Trabajo en aulónOIllO e. à segunda. o trabalho subordinado. Considerando o contrato de trabalho como
las Ciudades Romanas de la Béticu», cit., pp. II s. Parece, por isso. erroneu a ideia de que um contrato de prestação de serviços. cfr. LOWISCH, Arbeitsrecht, 3." cd.• Dusseldorfe.
nll Anliguidade só havia lrabalho escravo. como IIponlam ulguns aUlores (RIIIElRO DOS 199I.p.3.
SANTOS. Movimentos Laborais e Constituição Eco"ómica. Lisboa. 2000. pp. 123 s.). .. Cfr. ROI)RIGUF2 NElLA. «EI Trabajo en Ia.~ Ciudades Romanas de la Béticu". cit..
.. Cfr. JULIO MANGAS. "E! Tmbajo en las Minas de la Hispania Romana ... in EI Tra· p.l3 .
bajo a Trm';S de la Historia, Actas dellf.O Cemgreso ele la A.wciacicí" de IIistoria Social. s Livro 19. que traia da 10m tio nas tres \"Crtentes referidas. Para além disso. no
CI~nl\lba. Abril de 1995.org. por SANTIAGO CASTIU.O, Madrid. 199(•• pp. 52 s. Digt.'Sto 38.1 ençuntram·se nlusties no trabalho dos libertos.
76 Direi/o do Traballw Capítlllo I - IIIIroduçiio 77

aquando da aprovação daqueles diplomas (1804 e 1889), sido enquadrado Por outro lado. a ideia do salário justo. de a retribuição corresponder
numa das modalidades de locação. O Código Civil de 1966. na sequência ao trabalho efectuado. devendo haver justiça na remuneração. passa a ter
do Código Civil Alemão, faz uma distinção diferente, afastando-se da cabimento l .
perspectiva tripartida do direito romano.
II. A partir, essencialmente, do século IX, mas. no fundo, durante
III. Na Antiguidade. há referências, no final do Império, a conflitos todo o período de direito intermédio e com raízes no direito romano.
de trabalho e à existência de associações de trabalhadores, as chamadas verificou-se um grande desenvolvimento do associativismo profissional.
collegia sodalitia l , com finalidades de entreajuda, funcionando, mais ou que veio a ser designado por corporativismo2• A partir do momento em
menos, como seguradoras mutualistas 2, que se organizaram. em particular, que o desenvolvimento económico e a estabilidade política justificavam a
nas cidades. existência de homens dedicados a um só ofício. passou a ser frequente os
tmbalhadores associarem-se em corporações profissionais da sua acti-
vidade.
Bibliografia:
Estas corporações, que se desenvolveram por toda a Europa. encon-
MENEZES CORDEIRO, Manual, cit., pp. 37 a 40; VAZ GUEDES. Â Prestação do travam-se normalmente hierarquizadas. o que significava que os trabalha-
Trabalho e a sua Transfonnação Pacífica pelo Direito Ci,'iI, Lisboa. 1914. pp. 23 dores se reuniam. em função da sua actividade. numa associação com uma
a 42; ROMANO MARTINEZ, «O Contrato de Empreitada no Direito Romano e no estrutura bem delineada3. Esta estrutura apresentava. vulgarmente, uma
Antigo Direito Português. Contributo para o Estudo do Conceito de Obra na hierarquia em três graus: mestres. companheiros e aprendizes. Hierarquia
Empreitada», Direito e Justiça, VII. 1993. pp. 17 a 33; MÁRIO PINTO. Direito do essa que correspondia a uma progressão na carreira, pois era necessário
Trabalho. cit., pp. 28 a 31; Ruy ENNES ULRICH, Legislaçüo Operária Portugueza, fazer exames para ascensão na categoria de aprendiz até mestre. Os mes-
Coimbra. 1906, pp. 6 a 8; BERNARDO XAVIER. Curso. cit.• pp. 19 e 20. tres eram os que tinham feito os exames finais exigidos para aquela activi-
dade e. portanto, tendo prestado provas. demonstravam que sabiam exer-
3. Direito intermédio; corporativismo cer aquele trabalho. Os companheiros, também designados por oficiais ou
operários. seriam aqueles que, ou por terem reprovado no exame de acesso
I. As alterações no período intermédio na relação de trabalho foram à categoria de mestre não chegariam. por isso, ao topo da carreira. ou
essencialmente duas, ambas por influência do cristianismo. aqueles outros que já tinham passado o período de aprendizagem e ainda
Em primeiro lugar, o espírito cristão, relacionado com a dignificação não se tinham apresentado a exame para mestre. Por último, os aprendizes
da pessoa, em que se incluía o serv03, levou a atenuar o desprezo que eram os que iniciavam a carreira numa determinada profissão, juntando-se
existia pelo trabalho subordinado. Esta diferente postura conduziu a um a um mestre e aos companheiros de uma dada corporação para aprenderem
desenvolvimento da relação de trabalh04 . e se prepararem para o exame.
o Havia corporações em várias áreas de actividade. tendo cada uma a
I crr. BERNARDO XAVIER, Curso, cit., p. 20. Veja·se também Ruy ENNES ULRICII. sua estrutura própria com estas características básicas.
Legislafl10 Operária PortllgueZtl. Coimbra. 1906, p. 7 c RODRIGUEZ NEILA. «EI Trabajo en
las Ciudades Romanas de la Bética». cil .. pp. 12 e 23 s. I crr. MENFZF.S CORDEIRO. Manllal. cit.• p. 41. Quanto à introdução da ideia de preço
2 Cfr. VAZ GUEDES. A Prestação do Trabalho. cit .• p. 34. nota I. justo na compra e venda. cfr. ROMANO MARTINEZ. Cumprimento Defeituoso. em especial
3 Cfr. BERNARDO XAVIER. Cllrso, cit.. pp. 20 s. 1/(1 Compra e Vel/(Ia e I/() Empreitada. reimpressão. Coimbm. 2001. pp. 94 s.

"' A Igreja tcria recorrido ao Irdbalho assalariado de muilos daqueles que. fugindo de 2 Crr. SOARES MARTINEZ. Manual de Direito Corporatim, 3." cd., Lisboa. 1971. pp.
iniquidades, nela se refugiavam. crr. VAZ GUEDES. A Prestação do Tmbalho. cit. pp. 45 29 ss.
s. Quanlo a uma evoluç-Jo hislórica da relação de trabalho. desde o séc. XVI. começando 3 Crr. SOARES MARTINEZ, Direito Corporcltü'o. cit .• pp. 33 s.; MÁRIO PJr.'To. Direito
pelo pensamento de F. Vitória, crr. ALONSO OLEA. De la Sen'idllmbre ai Co",rato de do trabalho. cil .. p. 32; MOlTA VEIGA, Uções. cil.. pp. 53 s.; BERNARDO XAVIliR, Cllrso.
Tmblljo. Madrid. 1979. cit .. p. 21.
78 Direito cio Trabalho Capítulo I - Il/trocluÇlio 79
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o principal objectivo das corporações era o de defesa dos interesses Em termos exemplificativos, cabe ainda aludir às regras precursoras
e direitos da classe profissional que a constituía, relativamente a todas as do actual regime de acidentes de trabalho e de segurança social. na medida
pessoas e entidades que pudessem opor-se à sua progressão e dignificação. em que as corporações. por vezes. assumiam igualmente a função de
Apresentavam-se, pois, como um reduto onde aqueles profissionais defen- mutualistas de seguros.
diam os seus direitos contra terceiros. Para além disso, as corporações
prosseguiam um objectivo de entreajuda relativamente aos seus membros, III. No direito intermédio a que se alude, não estava em causa uma
funcionando como uma espécie de mutualistas, acudindo os membros em ideia paternalista com respeito ao direito do trabalho; este ramo do direito
caso de doença, invalidez ou falecimento, neste último caso prestando - que não tinha autonomia dentro do direito privado - era entendido
auxílio aos familiares do associado. como regulador de uma relação de colaboração, num quadro comunitário.
As corporações tinham normalmente regulamentos, regras precisas Não é que não pudessem surgir conflitos, e houve-os l , mas não se preten-
de orientação. que determinavam como deveriam os membros actuar nas dia estabelecer um conjunto de regras que visassem a defesa de uma classe
relações entre eles; disciplinando, por exemplo, a progressão na carreira contra outra 2• O direito do trabalho era visto antes como relação de cola-
ou o tratamento que os mestres deviam dar aos aprendizes e vice-versa J • boração do que como relação de conflito.
A relevância destas associações verifica-se em outros domínios jurí-
dicos para além do direito do trabalho, designadamente em sede de direito IV. Na Europa. as corporações tiveram o seu apogeu por volta do
comercial ou de direito penal, porque nas corporações encontrava-se a século XIII. seguido de um declínio. O declínio acentuou-se a partir do
regulamentação de questões de concorrência desleal. de especulação, de século XVI, derivado essencialmente da abertura de mercados que os
falsificação de produtos, etc. Descobrimentos facilitaram e da consequente alteração ocorrida na socie-
Ao direito do trabalho interessa. entre outros aspectos. a questão da dade que, até então. do ponto de vista económico, se apresentava como
limitação das horas de trabalho, relativamente à qual. não obstante valer fechada. As corporações estavam preparadas para o tipo de transacções
frequentemente a regra de trabalhar de sol a sol (entre o nascer e o pôr do próprio de sociedades economicamente fechadas e, à medida que estas se
sol), não era nenhum exagero tendo em conta o que se passou no séc. XIX, abriam a um comércio mais vasto, a organização corporativa começou a
quando foram usuais períodos de trabalho de doze, catorze e de dezasseis decair, mostrando-se incapaz de se adaptar aos novos circunstancialismos.
horas por dia. De facto, no período intermédio. as limitações à duração da A partir do século XVI, as corporações deixaram de ser associações de
jornada laboral, estabelecidas a nível das corporações, sempre evitavam entreajuda dos trabalhadores de uma determinada classe profissional, pas-
períodos de trdbalho desumanos. sando a apresentar-se como organizações que tentavam defender privilé-
Nas normas disciplinadoras das corporações - algumas derivadas gios e monopólios 3. Eram as defensoras dt: pequenos grupos e já não de
dos usos e outras dos estatutos - também se encontram regras respeitan- uma determinada profissão.
tes ao descanso nos domingos e feriados, quanto à contratação de apren- Para esta evolução contribuiu, não só a abertura de mercados, mas
dizes, ao trabalho nocturno e, especialmente, em relação aoltespedimento também o interesse dos poderes políticos em aumentar a sua innuência, no
dos prestadores de trabalh02. Estas regras, no fundo, visavam a defesa da sentido de um Estado absoluto4 • De facto, a partir do século XVI, as
relação de trabalho, limitando as prepotências que se poderiam efectuar,
nomeadamente, através de despedimentos sem justa causa. I Quanto a uma indicação de alguns desses conflitos. cfr. MÁRIO PINTO. Direito do
Trabalho. cit. pp. 34 s.
2 Contudo, segundo BOWERS. Employmellt Law. 4.' ed .• Londres. 1997. p. I. a
primeira intervenção legislativa a nível laboral deu-se em Inglaterra em 1349. com vista à
I Em França foi codificado um regulamento. conhecido por .. Livro dos Ofícios». de manutenção de salários. que seriam revistos periodicamente.
onde constam tais regras. cfr. SOARF.s MARTINEZ. Direito Corporath·o. cit.. p. 34. 3 Crr. SOARES MARTINEZ, Direito Corporativo. cit.. p. 61.
2 Como refere MÁRIO PINTO. Direito do Trabalho. cit., p. 33. «Era particularmente .. efr. SOARES MARTINEZ. Direito Corporalil·o. cit .. p. 62; MÁRIO PINTO. Direito tio
rica. em comparaç-do com o direito romano. a disciplina medieval do trabalho». Trabalho. cil.. p. 33.
80 Dirt'Í1O do Trabalho Capítulo 1- Imrodução 81
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tentativas de centralização do poder estadual passavam pela destruição das 4. Revolução Industrial; a Questão Social
corporações. pois a centralização estadual. própria do absolutismo. não é
compatível com a existência de corporações. ou seja, de poderes intermé- L Como foi referido, parte dos autores retrocedem na explicação
dios entre o Estado e o cidadão. histórica do direito do trabalho à Revolução Industrial. relacionando a
Um poder autoritário e centralizado não pactua com a defesa do asso- origem deste ramo do direito com a luta de classes então gerada. Foi, sem
ciativismo profissional em termos de liberdade e com poder negocial. Se dúvida, a partir da Revolução Industrial que se estabeleceu uma nova pers-
as associações profissionais tiverem poder de negociação e capacidade pectiva, dando origem ao moderno direito do trabalho l , mas o contrato de
para impor a sua vontade, contrariam as perspectivas de um poder centra- trabalho não teve aqui a sua origem2•
lizado. Quanto mais autoritário e centralizado é o poder, menos força
poderão ter as associações profissionais. Tem sido normal esta luta pelo II- Para se entender a Revolução Industrial e a consequente Questão
poder que contrapõe a centralização à pulverização de pequenos poderes, Social é preciso ter em conta que, após um período de declínio iniciado no
entre os quais o das associações profissionais. século XVI. as corporações foram extintas nos séculos XVIII/XIX e, para
As corporações entraram, pois. em declínio. até que, na Europa, no concretizar a liberdade de trabalho. estava proibida qualquer forma de
tinal do século XVIII. vêm a ser extintas l , tal como ocorreu em Portugal. associativismo profissional; deste modo. na relação laboral. os trabalhado-
mas só no século XIX. res actuavam individua1mente. Por outro lado. o aparecimento da máquina
Mais do lJue a abolição das corporações, a ideia que se tentou difun- a vapor e a consequente industrialização levou a que grandes massas de
dir no final do século XVIII foi a de que qualquer agregação profissional trabalhadores. originários dos campos, se deslocassem para as cidades
contrariaria a liberdade de trabalho e o desenvolvimento tecnológico. Foi para aí «oferecerem})3 a sua força de trabalho4 . Esses trabalhadores esta-
com base nestes pressupostos liberais que, não só as corporações foram vam desorganizados. desunidos e sem possibilidade de se associarem. pois
extintas. como proibida qualquer forma de associativismo profissional. legalmente isso era-lhes vedado. Os trabalhadores. chegados às cidades,
«ofereciam» a sua força de trabalho às empresas de uma indústria incipiente.

Bibliografia:
I crr. MENEZES CORDEIRO, Mall/UlI, cit., pp. 42 s .• que alude a dois fenómenos
novos: o agrupamento em organismos colectivos e as reformas sociais le\'adas a cabo
VAZ GUEDES. A Prestação do Trabalho e a sua Transformaçiio Pacífica pelos Estados.
pelo Direito Civil. Lisboa, 1914, pp. 42 a 50; SOARES MARTINEZ. Mal/ual de 2 Diferentemente do que afirma Jos~ JOÃo ABRANTES. «Formação e Evolução
Direito Corporativo. 3.a ed., Lisboa. 1971, pp. 29 a 39 e pp. 61 a 69; MÁRIO Histórica... ", cit .. p. 21. a ordem jurídica liberal não desenterrou a \'elha locat;o conductio
PINTO, Direito do trabalho, cit.. pp. 32 a 36; RIBEIRO DOS SANTOS. Movimelltos operarum, porque tratava-se de um contrato sempre usado para regulamentar a relação
!..llborais e Constiflliçiio Ecol/6mica, Lisboa, 2000. pp. 126 a 137; MorrA VEIGA, jurídica de trabalho por conta de outrem. O autor parece querer induzir o leitor (p. 22) no
Lições, cit., pp. 52 a 55; BERNARDO XAVIER, Curso, cit., pp. 20 a ". sentido de. antes da.~ concepções jurídicas liberais, em que aparece o trabalhador como
homem livre, só havia trabalho prestado por escravos e servos da gleba. situação que não
corresponde à verdade. Diferente é a posição sustentada por BECKF.R. Arbeitsl'ertrag IInd
I Na Inglaterra ter.1o começado a ser extintas a panir de 1753. extinção que se gene- Arbeitsverlliiltnis. cit.. p. 29. no sentido de que. anteriormente à revolução libcra1. a relação
mlizou com o Combination Act de 1799 com as alterações introduzidas em 1800 (BOWERS. contratual não assentar no pressuposto de igualdade das partes no contrato. próprio do
Emplo)'ment UlII', cil.. pp. I s.) e, em ~rança, de forma incipiente, pelo édito de Turgot, de Iibemlismo.
1776, e. definitivamente. pela Lei de 17 de Março de 1791 (cfr. VAZ GUEDES. A Pre.ftaçào 3 Como refere ARANGUREN in MAZZONI. DiritlO de/IAl'oro. I. cit.. p. 5. afinnar-se
do Trabalho, cil.. p. 50; SOARES MARTINEZ, Direito CorpOrtltil'O. cil.. pp. 64 5S.). que o trabalhador oferece ou vende o seu próprio tmbalho só é compreensível numa
A extinção das corporações não se confinou à Europa. o mesmo ocorreu em países linguagem metafórica.
da América; cfr., quanto à proibição da organização corporativa no Brasil pela Constitui- 4 O trabalho em fábricas não surge no século XVlIl. mas foi nesta altura que o
ção Imperial de 1824. VICTOR RUSSOMANO. Curso de Direito do trabalho. 6.' ed .• Curitiba. desenvolvimento industrial levou a uma significativa concelllração de trabalhadores cm
1997. p. 17. f:íbricas, com o consequente êxodo dos campos.
82 Direiw do Trabalho Capítulo I - IlItrodllçüo HJ
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mas não tinham qualquer poder de negociação dos contratos de trabalho, cessem, deixando os trabalhadores e suas famílias sem as condições míni-
até porque, muitas das vezes, grassavam situações de desemprego l . mas de sobrevivência.
Surgiram, assim, os problemas sociais conhecidos pela Questão Social. A tudo isto acresce que a máquina a vapor generalizou os acidentes
Cada vez mais se estabelecia uma dissociação entre o capital (empresá- de tmbalho. Os trabalhadores que sofriam acidentes de trabalho não
rios) e o trabalho (assalariados)2. O grande fosso constituído entre os tinham qualquer forma de ser auxiliados, pois ao contrário do que sucedia
detentores do capital e os dadores de trabalho, que se verificou na segunda no período anterior, o princípio de entreajuda de base associativa deixara
metade do século XIX, deu origem a um conflito sociaP, na base do qual de existir e a responsabilidade aquiliana era insuficiente para solucionar o
se construiu a teoria marxista da luta de classes4 • problema. porque a prova dos respectivos pressupostos, em particular a
De facto. a referida dissociação criou tensões graves devido às con- culpa do empregador, era. não raras vezes. difícil (cfr. infra § 52.). O traba-
dições infra-humanas em que trabalhavam e viviam os operários. Para isso lhador acidentado, impossibilitado de trabalhar. não sendo ressarcido,
contribuíram o fluxo de trabalhadores às cidades, a impossibilidade de se estava votado ao risco de não sobreviver.
organizarem em termos profissionais e também o facto de o trabalho ser Com certa frequência, grassaram as situações de desemprego deri-
considerado um dos factores de produção, juntamente com a terra e o capi- vadas de despedimentos lJue tinham por base ciclos económicos de pros-
tal, estando, portanto, sujeito às regras gerais de mercado, ou seja, à lei da peridade e de recessão. Nos períodos de recessão, o desemprego aumen-
oferta e da procura. Este último factor implicava que os salários subissem tava substancialmente, com a consequente aceitação de salários irrisórios
ou descessem em função da oferta e da procura de mão-de-obra. Estas e de condições de trabalho aviltantes.
regras de mercado levaram, com alguma frequência, a que os salários des- Atentas estas razões. a degradação das condições de vida dos traba-
lhadores e suas famílias era uma realidade. Foi este panorama negro vivido
1 Como refere VAZ GUEDES, A Prestaç/ia de Trabalho. cit, p. 50. «( ... ) a Revolu· na segunda metade do séc. XIX. prolongando-se, nalguns casos, pelo sé-
ção ( ... ) não pôde lltribuir a êsse ente. na realidade um proletário, a liberdade económica scm culo XX, que veio a dar origem à chamada Questão Social.
a qual a política não vale muito», e continua (p. 75) «( ... ) pois não usam de liberdade (... )
os que mom:m de miséria».
III. A Questão Social desencadeou um debate ideológico em que se
Esta desigualdade leva a que JosÉ JOÃo ABRANTES, «formação e Evoluçào Histó·
rica... ». cit., p. 22, aluda à ditadura contratual dos patrões e, por outro lado (p. 23), consi·
esgrimiram argumentos de várias correntes de pensamento, tendo sido apre-
derando que a liberdade individualista do liberalismo conduz à liberdade de explorar. sentadas soluções para a resolução desses problemas sociais, essencial-
dando cobertur.tjuridica à servidão económica dos trabalhadores. Veja.se também MÁRIO mente no plano político-ideológico, com óbvias repercussões jurídicasl.
PINTO, Direiw do Trabalho. cit, pp. 39 ss. Entre essas tomadas de posição destacam-se o socialismo (com diversas
2 Crr. BECKF.R. Arbeitsvertrag und Arheim'erhiiltnis. cit.• pp. 43 55.; MarrA VEIGA, vertentes, tendo tido particular relevância o marxismo)2. o corporativismo e
Lições, cil., pp. 56 S.; BERNARDO XAVIER. Curso, cit., p. 24. a doutrina social da Igreja.
3 Cfr. em BF.RNARDO XAVIER, Curso. cit .. pp. 25 ss .. as descriçõcs e ll.~ transcriçõcs
bem esclarecedora.~ desta realidade. Sobre o movimento operário. ,'de LOBO D' ÁVilA
LIMA. O Mm'imento Operário em Portugal. Lisboa. 1905 e EMYGDlO DA ~lI.VA, O Opera· IV. A doutrina social da Igreja, desde há mais de cem anos, através
riado Português IUI Questão Social. Lisboa. 1905. de várias Encíclicas. tem mantido, quanto à Questão Social, uma perspec-
4 Alenlo este conflilo social desencadeado pela industrialização. MARX. Manifesto tiva mais ou menos idêntica. A Igreja começou por tomar partido sobre
do Panido ConltmiJta. trad. Álvaro Pina. Lisboa. 1975, p. 102 (onde se lê: «Para a este problema social na Encíclica Rerum Novarum, de 1891, do Papa Leão
Alemanha vão as principais atenções dos comunistas. porque a AlemlUlha se encontra cm
vésperas de uma revolução burguesa e porque leva a cabo esta reviravolta numas I Não obstante a repercussão jurídica. a questão tinha de ser resolvida no plano
condições de maior progresso da civilização europeia cm geral c com um proletariado politico. pois. como refere JosÉ JOÃO ABRANTES. «Formaçilo c Evolução Histórica... ». cit .•
muito mais desenvolvido do que o que havia na Inglaterra no século XVII e na França no p. 24. as regms de direito civil não se encontravam prepamdas para resolver a Questão
século XVIII, porque a revolução alemã. portanto. pode ser um simples prelúdio para a Social.
imediata revolução proletária»). assentou no pressuposto de que a revolução se iniciaria 2 Quanto às várias COm:llles socialistas. cfr. BERNARDO XAVIER. Curso. cito pp. 28
nos paises induslrializados. o que. de facto. não ocom:u. ~'S. e bibliografia aí citada.
S4 IJireilO do Trabalho Cllpírulo I - Inrroduç'ào !l5
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XIII. Nesta Encíclica vem condenada a situação degradante a que a relação A questão da protecção dos trabalhadores mais desfavorecidos -
laboral votava os trabalhadores. condenando os proprietários das fábricas crianças. mulheres e doentes - também foi tida cm conta. aconselhando-
(O capital) por terem pennitido esse estado de coisas com a sua g~mância -se limitações e dispensas de trabalho, assim como protecção para os que
de lucro. através da exploração dos trabalhadores l . Nesta sequência. na adoeciam ou sofriam acidentes de trabalho.
mesma Encíclica, condena-se o liberalismo económico, que, levado por Esta foi. em termos sintéticos. a perspectiv~, essencial estabelecida na
urna busca incessante do lucro e numa perspectiva individualista. condu- Encíclica Rerum Nowlrum. em 1891. mas a doutrina social da Igreja tem
ziu à ideia de a mão-de-obra ser um mero factor de produção (o trabalho). sido sucessivamente reiterada em Encíclicas posteriores. que reafinnaram
sujeito às contingências do mercado. e completaram estes pontos. São várias as Encíclicas que se debruçam
No direito romano. o contrato de trabalho era visto como um tipo de sobre questões do trabalho. Pelo menos. há a ter cm conta: QlIadragesimo
locação, sendo a mão-de-obra locada, mas isso correspondia a uma técnica Almo (1931). de Pio XI. Ma/er el Magis/ra (1961) e Pacem i" Terri.~
jurídica distinta da consideração do trabalho como mero factor de produ- (1963). ambas de João XXIII. As últimas Encíclicas. já de João Paulo II.
ção. O liberalismo não encarava o trabalho nesta perspectiva técnico- a reter são a Laborem Exercem ( 1981). a Solliei/lIdo Rei Socia/is (1988) e
jurídica, mas sim numa visão puramente económica em que, como factor a Celllesimll.ç Anllus (1991) I.
de produção. não tem de ser atendida a perspectiva social e humana do Pode. deste modo. resumir-se a posição da Igreja quanto à questão do
prestador de trabalho. trabalho em seis pontos.
Para contrapor ao individualismo liberal. a Encíclica propõe a rees- Assenta no primado do homem (lmbalhador) em relação às coisas.
truturação das associações profissionais. considerando que o seu resta- entre as quais o capital e. em geral. todo o processo de produção. e na
belecimento seria uma das fonnas de pôr cobro à situação calamitosa a que dignidade do trabalho.
se chegou do ponto de vista social. Segundo. o trabalhador deve ter. para além do direito a um salário
Além disso, na Encíclica preconizam-se melhores condições de tra- justo que corresponda às suas necessidades de vida. a possibilidade de ser.
balho. que levem à sua dignificação. superando a ideia de que o trabalho é nomeadamente. interessado nos lucros da empresa. estabelecendo-se uma
um simples factor de produção, sujeito às regras de mercado e relem- fonna de ele não pennanecer como um estranho em relação à empresa
brando que o trabalho é efectuado por pessoas, devendo ser tidos cm conta para a qual trabalha. Esta ideia, baseada num espírito de solidariedade.
os aspectos humanos da relação laboral. tem-se concretizado nos últimos anos. por exemplo. através da atribuição
A ideia introduzida pelo cristianismo do justo salário é agora reite- ao trabalhador de acções. nonnalmente sem direito de voto. mas com
rada. devendo. nos tennos da Encíclica. a remuneração corresponder a um distribuição de dividendos. Contudo. o fundamental é que a empresa seja
pressuposto de justiça ligado a um mínimo necessário para a vida das pes- entendida como uma comunidade de homens.
soas, isto é, para garantir uma subsistência honrada. Associado com este Em terceiro lugar. considera-se que não deve ser admitido o trabalho
aspecto. respeitando a propriedade privada dos empregadores, preconi- realizado por crianças. mas só por pessoas que já lenham obtido um certo
zava-se a participação económica dos trabalhadores na etnpresa. favo- grau de amadurecimento. Na mesma sequência. preconiza-se a defesa dos
recendo-lhes o acesso à propriedade. mais fracos (doentes. inválidos e idosos) no exercício da actividade profis-

I
A Igreja também defendeu o estabelecimento de um período de traba- sional. devendo ser apoiados por empresas ou institutos de segurança
lho adequado. não chegando a detenninar qual seria esse número de horas. social. de molde a ser-lhes mantida uma fonna de subsistência. Também
pois isso dependeria de múltiplos factores. em relação às mulheres se justifica uma maior protecção no exercício da
1 O título é c1ucidlllivo do facto de terem decorrido cem anos desde a Encíclica
Rerum NOl'Clrum; repare·se que a Encíclica Qlladragesimo AmlO é divulgada 110 quadragé.
1 Ideia que já se em:ontrava pn:sente na Carta de S. Tiago às doze tribos dispc~. simo aniversário e a Mel/er el Magislra no scptuagt.'simo aniversário da Rerum NOl'a",,,,.
onde. nas «Advertência'i aos Ri<:os». se lê: «O salário dos trabalhadores. que ceifar.un os .=:-. dcmon'itrandll uma continuidade de pcnSólmento. sendo. muita.\ ,'e:u.-s. a'i novas Encíclica~.
vossos campos. foi defraudado por \'ós. e clama» (Tgll. 5.4.), n..capitulaç'~"s das anteriores.
'1"'-
86 Direito do Tmba{I/" Capílll{o 1- IIItrodllçcio 117
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actividade profissional. designadamente pela ponderação das consequên- tativa. A partir da Questão Social surge um elemento novo: li relação labo-
cias derivadas da maternidade. ral deixa de estar somente dependente da vontade das partes. passando a
Defende-se a reconstituição dos corpos profissionais. aludindo-se. existir um terceiro factor: a intervenção estadual.
em especial aos sindicatos. considerando que. no direito do trabalho. para Este intervencionismo denotou-se a partir do século XIX. altura em
não haver dissociação entre trabalhadores e empregadores. com a conse- que surgiram algumas decisões legislativas pontuais neste domínio. Deste
quente desprotecção dos primeiros. deverá promover-se o associativismo modo. o Estado liberal abandonou a designada neutralidade. que o caracte-
profissional. rizava. Na Europa. a começar pela Alemanha. cm que o papel do Chan-
Em quinto lugar. assenta-se no pressuposto de a liberdade de inicia- celer Bismarck foi essencial para o estabelecimento. entre outros aspectos.
tiva dever ser mantida. contrariando a perspectiva de intervencionismo de um sistema de segurança social I. a defesa dos trabalhadores. no que
estadual. pois os problemas sociais. derivados da relação laboral. melhor toca a doenças, acidentes de trabalho. reformas. períodos de trabalho. etc .•
se solucionam com recurso à iniciativa privada do que através da interven- passou a ser. com alguma frequência. objecto de legislação. Verificou-se.
ção do Estado. Não é o Estado. por via da estadualização da economia. que pois. uma tendência para. por via legislativa. se resolverem problemas
se encontra apto para resolver estes problemas sociais. Verificou-se que pontuais de opressão dos trabalhadores. os quais não tinham capacidade
nos países onde predominou a centralização económica. agravaram-se os negocial frente aos empregadores. .
problemas sociais relacionados com a prestação de trabalho. Por isso. a Deste modo. procede-se à reabilitação do associativismo profiSSIO-
iniciativa privada. dentro de certos parâmetros l • tem maior aptidão para nal. que no final do séc. XVIII - e nalguns casos no séc. XIX - havia
solucionar esses problemas. sidu pruibid02. Considerou-se essencial para a defesa dos trabalhadores.
Por último. e na sequência do ponto anterior. a doutrina social da de início. pelo menos a tolerância do associativismo profissionaJ3.
Igreja considera que a manutenção da propriedade privada. subordinada à
destinação universal dos bens, não sendo. pois, um valor absoluto. é im- VI. Estas intervenções legislativas não foram significativas em termos
prescindível para o desenvolvimento. a todos os níveis. inclusive das rela- estruturais. Olhando para as principais legislações oitocentistas. essen-
ções de trabalho. Parte-se do pressuposto de que. estando os meios de cialmente a francesa e a alemã. verifica-se que. a nível gemI. no direito do
produção nas mãos do Estado. não é possível o são desenvolvimento da trabalho não há alterações relevantes. Os respectivos Códigos Civis man-
relação laboral, mas. em contrapartida. o Estado deve intervir com vista a têm a perspectiva tradicional da relação laboral. surgindo, tão-só, diplomas
evitar a exploração dos trabalhadores. a resolver problemas pontuais. como os respeitantes a períodos nor:mais de
trabalho. a protecção de menores e de mulheres e a segurança SOCial. para
V. A Questão Social. consequência dos problemas desencadeados além da liberalização do associativismo laboral4 •
após a Revolução Industrial. levou ao aparecimento do chamado «mo- Quanto ao Código Civil Francês a lacuna é facilmente compreen-
demo) direito do trabalho. no qual se verifica uma crescente intervenção sível. pois. datando ele de 1804. os seus autores não podiam estar ainda
do Estado. De facto. até então, as relações jurídicas labmis. nos seus sensibilizados para a Questãu Social. desencadeada várias décadas depois.
vários aspectos. encontravam-se na dependência da vontade das partes;
eram estas que acordavam quanto à constituição. ao conteúdo e à extinção I err. SOLl.NER. Arbt'itsrt'chts. cit.. p.
II.
do contrato de trabalho a seu bel-prazer. O Estado intervinha só. como 1 Sobre II despennlilllção das relaçõcs colectivas de Imbalho. considerando que o
acontece na maioria dos contratos. para solucionar determinados conflitos reconhecimento destas relações deu origem ao nascimento do Direito do trabalho. dr.
de interesses. estabelecendo como deviam ser dirimidos. numa base equi- MÁRIU PlN"ro. Direito do Tralxlllw. cit .• pp. 43 liS.
3 O a.\sociativismo profissional. no sentido actual. terá surgido em Inglatcrra. princi·

~,
palmente depois da Tradc Union Act 1871 (dr. BUWf.RS, Emp{o)"lIIeIllIA/I\". cit.• pp. 2 s.).
I É evidente que a libcrdllde contratulIl. neste fllnbilo. deve ser cOllrctlldll. mediante Sobre o associativismo operário. com referencills II vários países. I-d. RIIIElRO DOS SANTOS.
limitaçõcs. impostas pdo Esllldo. com vista à prolecção dos trablllhadores; todavia. não \ MOl.imt'nfos IA/borais t' Constituição E4:ollólllica. Lisboa. 2000. pp. 141 S5.
devem os empregadores ser substituídos pelo Estado. 4 Cfr. Josl': Jo'\o ARRANTES. «Fonnação e bolução Histórica... ~. cit .• p. 25.
118 Direito do Trabalho Capítulo I - Introdução 89
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De facto, este diploma. tomando por base o indivíduo e as situações com as alterações verificadas na legislação laboral nos diversos países estão,
ele conexas, como a propriedade. assentava num pressuposto individua- normalmente, relacionadas com a concepção política do partido ou da
lista. pouco consentâneo com os problemas sociais que surgiram. coligação governamental I.
O mesmo não se pode dizer com respeito ao Código Civil Alemão.
que é de 1896. tendo entrado em vigor em 1900 1• A sua feitura data de um
período em que a Questão Social já estava latente e em que se encontrava Bihliogralia:
regulamentação pontual a nível do direito do trabalho. Não obstante, o
Código Civil Alemão (BGB) apresenta a relação laboral inserida no con- JOSÉ JoÁo ABRANTI:S, «Formação c Evolução Histórica do Direilo do Tra-
trato de prestação de serviços. como qualquer outro negócio jurídico. tal balho», Dirt'i1O do Tmbalho. Ensaio.{, Lisboa, 1995, pp. 20 A 27; MENFzES COR-
qual se entendia antes dos problemas desencadeados pela Questão Social. DEIRO, Mal/llal, cit., pp. 41 a 49; V A7. GUEDES, A Pre.~larão tio Trabalho t' a Slltl
O não ter tido em devida conta os problemas sociais. que então tinham Transformação Pacífim pelo Din'ito Ci,·i1. Lisboa, 1914, pp. 50 a 95 c: 141 a 153;
surgido. foi uma das principais críticas que logo se teceu a este diploma2. SOARES MARTINEZ. Mal/llal de Direito Corporalim, 3." ed .. Lisboa, 1971, pp. 94

Mas o facto de diplomas. como o BGB, não apresentarem uma regu- a 102 e pp. 122 II 140; MÁRIO PINTO, Direito do Trabalho, cit, pp. 36 a 48; MalTA
VEIGA, Liçcj('.\·, cil., pp. 56 a 60; BERNARDO XAVIER, Curso, cit.. pp. 23 a 43.
lamentação especial no domínio laboral é compreensível. pois um Código
Civil não tem em vista criar novas soluçõcs. mas antes sistematizar as
regras sedimentadas. E no final do séc. XIX ainda não estavam sedimen-
tadas as regras. continuando as questões laborais em discussã0 3• 5. Evolução histórica do direito do trabalho em Portugal

VII. De facto, foi no séc. XX, após a I Grande Guerra e, em especial, A evoluç~o ~istórica ~o direito do trabalho em Portugal acompanha
depois da II Grande Guerra, que a produção jurídica no domínio laboral de perto a sequencla europeia, apresentando, no entanto, três particularida-
teve um maior incremento. Produção legislativa essa que. a partir de então, des. O panorama jurídico europeu é seguido, por vezes, algumas décadas
deixou de ser só para a resolução de problema pontuais. apresentando-se. mais tarde. Além disso, os problemas sociais foram sentidos de forma bas-
antes, em termos abrangentes", para além de uma internacionalização ins- tante atenuad.1. Por último, diferentemente do que se verificou em outras
titucionalizada dos problemas laborais através da OIT. partes da Europa, o grande motor das reformas no domínio do direito do
Depois de uma época de grande produção legislativa de carácter trabalho foi o próprio Estad02, na sequência do que ocorrera noutros
países.
imperativo. hoje. a tendência aponta para uma flexibilização das regras de
direito do trabalho, admitindo-se, por exemplo, com maior facilidade, o
despedimento ou aceitando-se uma certa maleabilidade na fixação do
horário de trabalho. Para esta flexibilização, em parte. terá contribuído o
a) Corporativismo anterior tIO período liberal
descrédito do marxismo. devido à falência económica las sociedades
socialistas e a consequente renovação na aposta em economias de mer- I. A estrutura corporativa teve, em Portugal, um papel preponderante,
cadoS, aliado ao crescente desemprego. Importa. contudo, esclarecer que apesar de não ter atingido a relevância que se verificou além Pirinéus3.
Desde o século XII que se encontram referências às corporações e à
I Sobre o processo juscientílico de elaboração da codific3ç'do alemã relacionado organização corporativa. Ainda hoje se depara com reminiscências dessa
com o ponto em apreço, crr. MENEZF.'i CORDEIRO, Manual, cit, p. 45. organização corporativa nos arruamentos de algumas cidades, nomeada-
2 Quanto às críticas ao BGB. sintetizando a posição de vários autofl.'S, crr. BECKER,
Arbeil.wertmg und Ameim'erhiil",is, cit, pp. 219 SS. I Veja.se, por exemplo, COlTTURIER, Droit dll Tr/ll'(lil, cit.. pp. 36 ss., onde se faz
J Crr. MENEZES CORDEIRO, Manual. cit. pp. 48 s. uma cronologia do impacto dlls mudanças poJítica~ nlllegislação laboral.
"err. BERNARIXI XAVIER. Curso. cit., pp. J6 ss. 2 Crr. MENEZES CORDEIRO, Mil/llwl. cit., p. 49.
5 Crr. BIlRNAROO XA VIER, Cllrso. cit., pp. 41 SS. J Crr. MUITA VmGA, Li('tj/'J. cit., p. 62.
90 Dirfito do Trabalho Capítlllo 1- IlIIrodlllYio 91

mente em Lisboa. onde. da sua toponímia. constam a Rua dos Sapateiros. podiam infligir aos aprendizes. Além disso. na medida em que ac; corpora-
a Rua dos Correeiros, a Rua dos Fanqueiros, a Rua do Ouro. etc. Em cada ções. por vezes. funcionavam como uma espécie de segurança social para
uma destas ruas sedeavam-se os estabelecimentos do mesmo ofício. os seus membros. dos regimentos constam igualmente regras respeitantes
As corpomçõcs existiam para a prossecução de variadas finalidades. à assistência. As corporaçõcs mais ricas chegaram mesmo a ter os seus
entre as quais a defesa da actividade e a entreajuda dos seus membros. próprios hospícios I.

II. Em Lisboa. pelo menos desde a crise de 1383/1385. conhece-se da IV. Tal como no resto da Europa. também em Portugal as corporações
existência de uma superestrutura corporativa. denominada Casa dos Vinte entraram em declínio. essencialmente a partir dos Descobrimentos. Elas
e Quatro!. Na Casa dos Vinte e Quatro reuniam-se os representantes das transformaram-se em instrumentos de defesa de interesses particulares
várias corporações. que na altura seriam doze. correspondendo a cada contra os «perigOS» da abertura dos mercados.
ofício dois representantes. Ao que parece. também noutras cidades havia O declínio vem a acentuar-se. acabando as corporações por ser extin-
superestruturas idênticac; à Casa dos Vinte e Quatro. nomeadamente no tas pelo Decreto de 7 de Maio de 1834. Para além da extinção das corpo-
Porto. em Coimbra e em Évora 2• rações. no Código Penal de 1852 (art. 277.°) veio igualmente a proibir-se
No século XVI sabe-se 4ue a Casa dos Vinte e Quatro de Lisboa re- as coligações com vista à paralisação do trabalho. E tudo isto com base na
presentava catorze ofícios: I. barbeiros. anneiros. ferradores. ferreiros. etc.• ideia difundida pelo liberalismo de que as associações de trabalhadores
com dois representantes; 2. livreiros. boticários. caixeiros. luveiros. etc .• constituiriam um entrave à liberdade de trabalho e ao desenvolvimento
com dois representantes; 3. sapateiros. curtidores. etc .• com dois represen- económico.
tantes; 4. correeiros, etc .• com dois representantes; 5. tecelões. com um
representante; 6. cereeiros. com dois representantes; 7. pedreiros. carpintei-
ros. tomeiros. etc .. com dois representantes; 8. tosadores e tintureiros. com Bibliografia:
dois representantes; 9. alfaiates. com dois representantes; 10. tanoeiros, com
dois representantes; II. cordoeiros, com dois representantes; 12. ourives SOARF_C; MARllNF7., Manual de Direito Corporativo, 3.' ed .. Lisboa. 1971,
de prata. com um representante; 13. ourives de ouro. com um represen- pp. 39 a 72; MorrA VEIGA. Lições, cit .• pp. 61 a 63; BERNARDO XAVIER. Cur.w,
tante; 14. oleiros. com um representante 3• cit.• pp. 43 a 47.
Cada um destes ofícios tinha o seu santo padroeiro. situação que ainda
hoje se mantém~. O santo padroeiro dos sapateiros é S. Crispim. o dos
carpinteiros S. José. o dos ourives Sto. Eloi, etc. b) Libl!ralisnw

III. As corporações tinham também funções puramente comerciais, I. Extintas as ltssociações profissionais e proibida qualquer organi-
relacionadas com a concorrência. o tabelamento dos preçoi etc. Em maté- zação de trabalhadores. estes passam a estar à mercê dos empregadores no
ria de direito do trabalho. dos regimentos corporativos constavam. usual- que respeita à negociação dos respectivos contratos de trabalho. Desuni-
mente. o período máximo de trabalho. as regras de trato entre os membros dos, os trabalhadores. muitas das vezes. ficavam na dependência do arbí-
da corporação. bem como as que respeitavam às punições que os mestres trio dos empregadores que, normalmente, têm um maior poder negocial.
Associado com este aspecto. o liberalismo em matéria contratual vai per-
I Sobre esta instituiç-lo. ,·d. I..ANr,HANS. A Ca5a dos Vinte e Qllatro. SlIbsrdios para mitir que as desigualdades de facto se venham a transformar em desigual-
C/ .fil/I História. Lisboa. 1948.
dades jurídicas; por via da autonomia contratual, deparavam-se situações
2 efr. SOARES MARllNF..z. Direito Corporati,·o. cit.• pp. 41
s.
3 Cfr. SOAR~ MARllNF2. Direito CorpoTClti,·o. cit.. pp. 45 s .
na /ex contractus de iniquidade. que não eram negociáveis.
.j Quarllo ao \:arácler sc:mi·n:liogioso das corporaçõcs. \'II. BERN,\RllO XAVIER.

Cllno. cit.• p. 44. I err. SOARES MARnsEZ. Direito Corporati,·o. cil.. pp. 52 S5.
92 Direito do Trabalho Capíllllo I - Imroelllçcio 93
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Como consequência desta situação, em Portugal, tal como no resto da negócio jurídico cujo objecto se reportava ao ensino de uma indústria ou
Europa. os casos de pobreza. de desemprego. etc. começaram a verificar- ofício l .
-se em abundância I.
III. As intervenções legislativas no domínio do direito do trabalho,
II. A perspectiva liberal com respeito ao contrato de trabalho melhor ocorreram, essencialmente, em momentos de alguma instabilidade social.
se aprecia analisando o Código Civil de 1867. No Código de Seabra. Instabilidade social essa devida, em particular. a crises políticas. A princi-
relativamente ao contrato de trabalho encontram-se três secções. pal situação de conflito social verificou-se depois da crise criada pelo
Nos arts. 1370. 0 e ss. a legislação civil oitocentista trata do Contrato Ultimato Inglês de 1890 e pela Revolta Republicana de 31 de Janeiro de
de Prestação de Serviço Doméstico e nele denota-se a defesa de uma 1891, que desencadeou problemas políticos, os quais, por sua vez, estive-
posição de igualdade e liberdade das partes (amo e serviçal), tal como na ram na origem de questões sociais. A partir de então admitiu-se alguma
compra e venda ou em qualquer outro contrato obrigacional. A disciplina intervenção dos trabalhadores na vida jurídica, concretamente através da
então estabelecida era, de algum modo, pormenorizada e manteve-se em permissão de associações profissionais, estabelecida no Decreto de 9 de
vigor até ao diploma regulador do serviço doméstico. de 19802 . Maio de 189)2.
Seguidamente, nos arts. 1391. 0 e ss., o Código Civil de 1867 regula Por essa altura, por Decretos de 19 de Maio de 1891 (na sequência da
o Contrato de Serviço Assalariado e, no seguimento do disposto para o Lei de 14 de Agosto de 1889) fordlll criados os tribunais de árbitros avin-
negócio jurídico anterior, preponderam a liberdade e a igualdade das par- dores, com a finalidade de arbitrarem questões laborais e que estiveram na
tes (pessoa servida e assalariado ou serviçal). Foi este negócio jurídico que origem dos actuais tribunais do trabalh0 3.
esteve na base do actual contrato de trabalho do regime comum, preten- Também no ano de 1891, com o Decreto de 14 de Abril, estabeleceram-
dendo regulamentar, em especial, as relações laborais na incipiente indús- -se, entre outros aspectos, restrições relativamente ao trabalho de menores
tria. Tratando-se de relações laborais com um desenvolvimento recente, a e de mulheres4 •
regulamentação apresentava-se de modo bastante genérico. Com a implantação da República, a primeira grande alteração surge
Diferentemente, no contrato de aprendizagem. arts. 1424. 0 e ss. do com o Decreto de 6 de Dezembro de 1910, que vem permitir a greve. As
Código Civil de 1867, encontram-se alguns aspectos de intervenção; neste greves eram, até então, ilícitas, não obstante ter havido inúmeras greves no
caso foi tida em conta a desigualdade das partes. Em particular, a período da Monarquia. Este Decreto não só veio a legalizar a greve como
intervenção legal diz respeito às horas de trabalho. limitando-as em função também o lock ollt.
da idade do aprendiz3 . Foi esta uma das primeiras decisões do legislador
no sentido de proteger o trabalhador, limitando o acesso das crianças ao de s:t1uhridade pública. Sobre indústrias insalubres. incómodas e perigosas. veja-se tam-
mercado de trabalh04 . O contrato de aprendizagem era entendido como um bém o Decreto de 27 de Agosto de 1855 e o Decreto de 21 de Outubro de 1863.
t efr. MorrA VEIGA. Lições. cit.. p. 65.


I Sobre o movimento social e as dificuldades do operariado neste período. ,·d. BER-
NARDO XAVIER. Curso. cit .• pp. 50 SS. e 56 ss. Quanto à Questão Social portuguesa, cfr.
2 Note-se <Iue antes destu data já existiam :Issociaçtics profissionais, só <Iue eram ile-
gais. Não obstante serem ilegais. os estatutos de algumas dessa~ associações profissionais
haviam sido aprovados pelo Ministério das Obras Públicas, o que demonstrava uma certa
PlNlIARAND,\ GOMES. "A Recepção da Encíclica Rerum Novarum em Portugal (1891- ambiguidade (crr. SOARES MARTINEZ. Direito Corpara/im. cit.. pp. 81 s.). Todavia. desde
-19(0)>>, Separata da Humanístiea e Teologia ( 1991). pp. 1 ss. 1864, estava autorizada a constituição de associações de socorros mútuos (cfr. MÁRIO PINTO.
2 Decreto-Lei n.o 508/80. de 21 de Outubro. substituído pelo Decreto-Lei n.o Direito do Trabalho. cil.. p. 50; BERNARDO XAVIER. Curso. cit.. p. 55). Quanto à evolução
235/92, de 24 de Outubro. Sobre esta questão. ,·tI. infra § 35. histórica das relações colectivas. vd. MARtO PINTO. Direito tio Tralxllllo, cit., pp. 50 ss.
3 Sobre estes contratos estabelecidos no Código Civil de 1867. dr. RAUL VENTURA. 3 Crr. MOITA VEIGA. Lições. cit., pp. 66 s.
Relaçeio Jurídica ele Traballlo, eit .• pp. 97 ss. 4 Acerca deste diploma ,·d. Ruy UlRICH. Legislação Operária Portug/leZtl. Coim-
4 Como refere MONTEIRO FERNANDES. Direito do TmlmlllO. cit.. pp. 31 s .• o Decreto bra, 1906. pp. 47 S5. Para uma resenha histórica relacionada com as intervenções legisla-
de 3 de Abril de 1860. sobre estabeh:cillll:ntos insalubn.-s. incómodos e perigosos. nào tivas a partir de 1891. dr. FERNANDA NUNF,S AGRIAlMARIA LUI7A CARDOSO PlIIo'TO. Con.
tinha em vist:l. directamente. a protecção dos trabalhadores. pois assentava em cuidados trato Indh'idlllll ele Trabalho. Coimbra. 1972. pp. 7 SS.
Olreito c/o Trabalho Capítulo 1- IntroJufcl0 1)5
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Posterionnente, no Decreto de 8 de Maio de 1911 vem regulamen- Bibliografia:


tado, de fonna mais ponnenorizada. o descanso semanal. A regra do des-
canso dominical já havia sido instilUída no final da Monarquia para o MENEZES CORDEIRO. Mal/llal, cit .• pp. 49 a 55; MONTEIRO FERNANDES, Di-
comércio e a indústria. pelo Decreto de 3 de Agosto de 1907. reito do Trabalho. cit.. pp. 29 a 33; SOARES MARTINEZ. Manual de Dirt'ito Cor-
Foi também com a República que. com a Lei n.O 83. de 24 de Julho poraril'o. 3." cd .. Lisboa. 1971. pp. 81 a 85; MÁRIO PtNTO. Direito do Tmhalho,
de 1913. surgiu a primeira regulamentação de responsabilidade civil cit.. pp. 48 a 51; MonA VEIGA, Liçijes, cit.. pp. 63 a 69; RAÚL VENTURA. Teoria
objectiva. que dizia respeito a alguns tipos de acidentes de trabalho. Nos da Relação Jurídica de TrahalJw. cit., pp. 97 a 103; BERNARDO XAVIF.R. Curso,
cit.. pp. 47 a 65.
tennos desta lei. as entidades patronais passavam a ser responsabilizadas
pelos acidentes ocorridos com os seus operários. mesmo que não tivessem
culpa. A responsabilidade por acidentes de trabalho foi estabelecida. c) Corpora/ivi.W11O do Es/ado Novo
essencialmente. devido à grande dificuldade, por parte dos trabalhadores,
de fazerem a prova da existência de culpa do empregador (l'd. infra § 52.). I. O corporativismo do Estado Novo teve por fontes. por um lado. o
Partiu-se do pressuposto de que o risco dos acidentes de trabalho deveria corporativismo italiano iniciado em 1922. o corporativismo austríaco. cuja
ser suportado por quem tivesse máquina.. ao seu serviço. delas retirando os tentativa data de 1883 e. em parte. o sistema político espanhol da ditadura
respectivos benefícios - ubi commoda ibi incommoda. Mais tarde, a do general Primo de Rivera. Por outro lado. o corporativismo português
responsabilidade objectiva por acidentes de trabalho foi alargada, pas- baseou-se também. ainda que às vezes com algumas adaptações. na dou-
sando a abranger os empregadores que não possuíssem máquinas ao seu trina social da Igreja. Por último. teve igualmente influência o pensamento
serviço (l'd. infra §§ 52. e 53.). de autores portugueses como António Costa Lobo. Oliveira Martins e
Com o Decreto n. ° 5 516. de 10 de Maio de 1919. estabeleceu-se o ainda a corrente política. desenvolvida a partir de 1916. designada Integra-
período máximo de trabalho em oito horas por dia e quarenta e oito horas lismo Lusitano. em que se destaca António Sardinha.
por semana. O princípio do corporativismo encontrava-se consagrado no art. 5.°
Nesta sequência de diplomas. há ainda a referir o Decreto n.o 10 415. da Constituição de 1933. aparecendo. depois. desenvolvido no Estatuto do
de 27 de Dezembro de 1924, onde. juntamente com o reconhecimento das Trabalho Nacional, aprovado pelo Decreto-Lei n.O 23048. de 23 de Se-
uniões e federações de sindicatos, se conferiu validade às convenções tembro de 1933. Este Estatuto foi. por sua vez. completado por outros
colectiva'i de trabalho. diplomas. relativos a associações de trabalhadores. a associações patronais
É igualmente durante a I." República que se verifica o fomento das (designadamente, os chnmados Grémios l ), à previdência social. etc. 2•
relações internacionais a nível do direito do trabalho, pois desenvolveram- O corporativismo apresentou-se como alternativa, por um lado. ao
-se as ligações internacionais de associações profissionais portuguesas com liberalismo económico. contrariando a perspectiva individualista que tinha
congéneres estrangeiras. internacionalizando-se os problemas de direito caracterizado a Monarquia Liberal e a I. a República e. por outro lado. às
do trabalho. em particular através da participação de P<ltugal na OIT cnrrentes marxistas (socialistas e comunistas) emão em voga.
(Organização Internacional do Trabalho). Este corporativismo, que. tendencialmente. teria por base o associati-
Para além dos aspectos que se têm vindo a referir, a 1.3 República não vismo profissional. não funcionou dentro de um parâmetro de pura liberdade
teve um papel significativo no domínio juslaboral e com respeito às rela- associativa, porque o corporativismo, em Portugal. foi «criado» por lei.
ções com as associações profissionais verificou-se uma grande animosi-
dade l • pois o movimento sindical e a I.~ República mantiveram uma rela- I Grémio é um lenno (Iue. neste contelllo. corresponde ii ullIa evolução das corpora-
de ofícios. cfr. MONSAI.VO Ar.TÓN. «La Debilidad Política e Corporativa dei Anl.."Sa-
Ç(Í\."S
ção de conflito, que dificultou a expansão dos sindicatos.
nado en la.; Ciudades Caslellanas de la Meseta». in EI Trabajo a Tra\'is dI! la I/ütoria.
AclCls lÚllI.· Congreso de la Asociación de Historia Social. Córdoba, Ahril de 1995. org.
I Crr. MF.NFli_'i CORDEIRO. MClII"ul. cito p. 54. nota 72; BERNARDO XAVIF.R. Curso. por SANTIAGO CASTILLO, Móldrid. 1996, p. 102.
eil .. pp. 63 s. 2 Para maiores desenvolvimentos. cfr. MOITA VEIGA. LifCil's. cil.. pp. 69 5S.
96 Oireiw cio Trabalho Capíl/llo I - Introclucào 97
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Ele não surge como fruto da liberdade de associação das pessoas. As asso- visto como um dos negócios jurídicos obrigacionais. Este diploma foi
ciaçfles profissionais. fossem elas de trabalhadores ou de empregadores. substituído pelo Decreto-Lei n. ° 47 032. de 27 de Maio de 1966 que, por sua
foram criadas. directa ou indirectamente. pelo Estado. Além disso. era o vez, veio a ser revogado pela Lei do Contrato de Trabalho (Decreto-Lei 49
Estado que controlava o funcionamento das referidas associações. No fundo. 408, de 24 de Novembro de 1969), que sofreu várias alterações durante a
o corporativismo português acabou por ser um corporativismo estadual. sua longa vigência e foi recentemente revogado pelo Código do Trabalho.
Estes diplomas, do ponto de vista técnico-jurídico. encontram-se bem
II. No domínio laboral foram várias as regras introduzidas durante o elaborados, o que tem justificado a sua longevidade I.
período corporativo. Após a revisão constitucional de 1951. passou a
constar da Constituição de 1933 o direito ao trabalho (art. 8.°). Tal como III. Quanto às relações colectivas de trabalho, o período corporativo
hoje. tratava-se de uma norma programática. foi. de facto, deficitário. Por um lado, o Decreto n.O 13 138. de 15 de Fe-
No Estatuto do Trabalho Nacional encontram-se várias normas rele- vereiro de 1927 proibiu a greve e o /ock out, proibições essas que. depois,
vantes. consideradas novidade. como as que respeitavam à forma de deter- passaram a plano constitucional no art. 39.° da Constituição de 1933 e
minação do salário - nomeadamente. diferenciando a remuneração por foram reiteradas no art. 9.° do Estatuto do Trabalho Nacional. Por outro
trabalho diurno e nocturno ou determinando o pagamento do dobro no caso lado, os conflitos laborais. nos termos das leis então em vigor, tinham de
de trabalho prestado em dia de descanso semanal -. limitações quanto à ser pacificamente resolvidos, mediante conciliação. arbitragem ou pelo
prestação de trabalho por menores e mulheres. o estabelecimento das férias recurso aos tribunais do trabalho; razão pela qual, a partir de 1933, foram
e a instituição da previdência social. reorganizados. sendo dada grande relevância aos tribunais do trabalh02.
Para além do Estatuto do Trabalho Nacional, importa ainda fazer Em suma, do ponto de vista das relações colectivas de trabalho, o
referência a alguns diplomas que desenvolveram aspectos de direito do período corporativo não apresentou soluções válidas para os dias de hoje.
trabalho. talvez à excepção da resolução pacífica de conflitos.
A Lei n. ° 1942. de 27 de Julho de 1936 veio precisar e desenvolver a
matéria da responsabilidade objectiva derivada de acidentes de trabalho.
Estabeleceu-se que essa responsabilidade objectiva passava a ser genérica Bibliografia:
e não só para certas situações. como se determinara em 1913, ao mesmo
tempo que se obrigava as entidades patronais a transferirem essa respon- JosÉ JOÃO ABRANTES. (,Formação e Evolução Histórica do Direito do
sabilidade objectiva para seguradoras, o que dava maior garantia de paga- Trabalho», Direito do Trabalho. Ensaios, Lisboa, 1995, pp. 29 e 30; MENEZES
mento das indemnizações. Este regime veio a ser completado e desenvol- CORDEIRO, Mal/llal, cit., pp. 56 a 58; SOARES MARTINEZ, Mamtal de Direito Cor-
3
vido pela Lei n. ° 2127, de 3 de Agosto de 1965 1• porativo, 3. cd., Lisboa, 1971, pp. 102 a 122, pp. 207 c 209 e pp. 230 a 273;
A Lei n. ° 1952. de 10 de Março de 1937 foi o primeiro diploma que ROSÁRIO PALMA RAMALHO, Direito do Trabalho, I, cit., pp. 46 c SS.; MÁRIO PINTO,
regulou de forma autónoma o contrato de trabalho e que lonstitui antece- Direito do Trabalho, cit., pp. 52 a 55; MOITA VEIGA. Liçõe.t. cit .• pp. 69 a 73;
BERNARDO XAVIER, Curso, cit., pp. 66 a 74.
dente legislativo da actual Lei do Contrato de Trabalho. Trata-se da primeira
regulamentação genérica do contrato de trabalho feita numa perspectiva
actual, diversa da que presidiu à elaboração dos contratos de trabalho no t Crr. JOSÉ JOÃo AORANTF.s. «Formação e Evolução Histórica...... cit., p. 30.
Código Civil de 1867. ou seja. em que o contrato de trabalho já não era 2 O Estatuto do Trabalho Nacional (Decreto-Lei n.· 23048. de 23 de Setembro de
1933) estabelece o regime jurisdicional laboral nos orts. 50.· a 52.°, determinando a
existência de tribunais de trabalho. com magistrados especiais, de cujas decisões haveria
t A Lei n.o 2127 esteve em vigor até ao linal de 1999 tendo sido revogada pela Lei recurso de revista para um tribunal superior (art. 50.°). Esse tribunal superior era o Su-
n.o 100/97. de 13 de Setembro, que entrou em vigor a I de Janeiro de 2000; o Código do premo Tribunal Administrativo. criado (ou recriado) pelo Dccreto-Lei n.· 23185. de 30 de
Trabalho. no que respeita a esta matéria (arts. 281.° e ss.), ainda não entrou em ,·igor por Outuhro de 1933 (are. 1.0). cm cujo are. 2.° se determinava que da orgânica do STA cons.
falta de regulamentação. taria uma secção do Contencioso do Trab.'lIho c Previdência Social.
98 Direito ilo Trabalho
---_._-- --~- ---- Capíllllo I - IlIIroduÇtio 99

d) Silllação aClllal inclusive, no nome do Ministério que tutela o trabalho: tradicionalmente


conhecido por Ministério do Trabalho. foi também designado por Minis-
d.l) Consiclerações xerais tério do Emprego c da Solidariedade Social, Ministério para a Qualifi-
cação e o Emprego. Ministério do Trabalho e da Solidariedade (Decreto-
O
I. As alterações legislativas verificadas no domínio laboral após 1974 -Lei n. 115/98. de 4 de Maio (alterado pelo Decreto-Lei n. o 45. 0 -A/2000.
não são tão significativas quanto poderiam parecer. De facto. tem havido de 22 de Março]. art. 21. 0 e Decreto-Lei n. O 55/98. de 16 de Março),
uma grande produção legislativa, mas. em termos genéricos. a regulamen- Ministério da Segurança Social e do Trabalho (Decreto-Lei n. o 17112004,
tação respeitame ao contrato de trabalho não se alterou substancialmente. de 17 de Julho), Ministério das Actividades Económicas e do Trabalho
O
As modificações a ter em conta dizem. essencialmente, respeito à admis- (Decreto-Lei n. 8/2005, de 6 de Janeiro), e, actualmente. Ministério do
são do direito à greve e a todo o estabelecimento de um regime de relações Trabalho e da Solidariedade Social I.
colectivas de trabalho I ; tem-se entendido a negociação colectiva como via A frequente e abundante intervenção legislativa, muitas das vezes
de dinamização da economia. pela flexibilização e adaptabilidade em previamente discutida na concertação social, em nada facilita o conheci-
sectores determinados. mento deste ramo do Direit02. Nota-se, com alguma frequência, que a
Quanto ao contrato de trabalho. as alterações ocorridas nos últimos legislação laboral é elaborada sem a necessária ponderação, que acarreta,
vinte anos são pouco relevantes, mas importa. todavia, referir aquelas que designadamente, a sua repetida substituição; a título de exemplo, é de
respeitam ao regime dos despedimentos, dos contratos a tenno e do salário mencionar o regime do trabalho dos desportistas profissionais. que depois
mínimo. de largos anos sem regulamentação específica. foi alvo de duas interven-
ções legislativas, pelas quais o Decreto-Lei n. o 305/95, de 18 de Novem-
bro. depois de uma vigência inferior a três anos, foi substituído pela Lei
o
d2) Da Lei cio COllfralO de Trabalho de 1969 ao Código do Trabalho n. 28/98, de 26 de Junho. Neste contexto é ainda conveniente aludir a
de 2003 algumas das mais recentes intervenções legislativas, seguindo a ordem
cronológica. sem aludir à anual alteração do salário mínimo. A Lei dos
a. Explicação Acidentes de Trabalho (Lei n. o 100/97, de 13 de Setembro, finalmente
regulamentada em 1999 (Decreto-Lei n. o 143/99, de 30 de Abril), que
I. Desde a LCf. principalmente nos últimos anos. tem sido promul- deveria ter entrado em vigor a I de Outubro de 1999, mas só se aplica a
gada legislação numerosa neste domínio, reunida muitas vezes nos chama- partir do dia I de Janeiro de 2000 (Decreto-Lei n. o 382-A/99, de 22 de Se-
dos «pacotes laborais»; trata-se. no entanto. quase sempre, de legislação tembro); e este regime, regulado no Código do Trabalho (arts. 281. 0 e ss.),
sobre questões pontuais2• Por outro lado, visto que, com alguma frequên- ainda não entrou em vigor por falta da regulamentaçãoJ. O regime da
cia. os diplomas são elaborados em momentos de crise e s<f grande pressão duração do trabalho (Decreto-Lei n. o 409/71, de 27 de Setembro) foi
social e política. do ponto de vista técnico-jurídico. nem sempre se encon-
tram bem elaborados. donde as frequentes dúvidas que suscitam. sendo I A propósito da frequente inten'enç-do legislativa no ãmbito do direilo do trabalho.
amiúde alterados e substituídos. Esta permanente mutação tem tido reflexos. PALOMI:CJUt; loPEZ. Direilo do ,mlmlllO e Ideologia. cil.. p. 45. fala sugeslivamente numa
«verdadeira loueum legislativa do nosso tempo".
2 Sobre o papel da concertação social podem consultar·se (IS vários artigos de MI-:N';.
I Cfr. MOtmõlRO FERNANOF.s. «A Evolução das Relações de Trabalho desde 1914:
RES PIMENTa. JORGE MIRANDA. JORGE LEl1F.. Luis SÁ. VITAL MOREIRA e CARVAUlO DA
Algumas Tendências Gerais". Temas Laborais. Coimbra. 1984. pp. 14 S5.; MÁRIO PINTO. SILVA. em QL n.o 14 (1999), pp. 123 SS •
Direito do trabalho. cit.• pp. 55 SS. .1 Relacionado com os acidenles de tmlrdlho. veja·se ainda o Decreto·Lei n.o 142JQ9.
2 efr. Jos'; JoAo ABRANTES. «As actuais Encruzilhadas do Direilo do trabalho». de 30 de Abril e o Decreto·Lei n. ° 159199. de I I de Maio. n:spcctivamenle sobre o fundo
Direito do trabalho. Ensaios. Lisboa. 1995. p. 32; MONTEIRO FERNANDES. Direilo do Ira· de acidentes de trabalho e sobre () seguro de acidentes de trabalho para trabalhadores
ballw. cit.. pp. 42 s.; BERNARDO XAVIER. Curso. cit.. pp. 79 s. independentes.
I()() Direito do Trabalho Capíllllo I - 'I/trodu('tlo 101

sucessivamente alterado pela Lei n. ° 21196, de 23 de Julho (conhecida pela Esta indicação, meramente exemplificativa, elucida as dificuldades
Lei das 40 horas), pela Lei n.O 73/98, de \O de Novembro e pelas Leis n.o de aplicação deste ramo do Direito e a necessidade de revisão da legis-
58/99 e 61/99. de 30 de Junho'; relacionado com esta questão. foi lação do trabalho.
publicada a Lei n.o \03/99. de 26 de Julho. sobre trabalho a tempo parcial.
Foi instituído o regime da rotação emprego-formação pelo Decreto-Lei n.O II. A necessidade de rever as leis de trabalho vigentes em Portugal
51199, de 20 de Fevereiro. O regime do processo de despedimento colec- correspondia a um entendimento pacífico, não obstante, recentemente,
tivo foi alterado pela Lei n.O 32/99, de 18 de Maio. Com a Lei n.o 36/99, depois de ter sido apresentado o Anteprojecto de Código do Trabalho (Ju-
de 26 de Maio. institucionalizou-se a participação dos representantes dos lho de 2002), terem surgido algumas vozes que preconizam a subsistência
empregadores na elaboração da legislação do trabalho. A Lei n.o 40/99. de dos textos em vigor; o «velho do Restelo» aparece sempre a contestar
9 de Junho. criou os conselhos de empresa europeus, que asseguram a in- qualquer empreendimento.
formação e consulta dos trabalhadores em empresas ou grupos de empres- De facto, como se lê na exposição de motivos da Proposta de Lei de
as transnacionais. Por via do Decreto-Lei n.o 219/99, de 15 de Junho, Código do Trabalho «A legislação laboral até agora vigente é constituída
reformulou-se o sistema de garantia salarial. depois alterado pelo Decreto- por um conjunto de diplomas dispersos e com origens temporalmente
-Lei n.o 139/2001, de 24 de Abril e pela Lei n.o 96/2001, de 20 de Agosto. diversas, tendo subjacentes concepções políticas e sociais marcadamente
A Lei n.O 58/99, de 30 de Junho, alterou algumas regras do trabalho de me- diferentes que correspondem a distintos momentos históricos. De facto,
nores, nomeadamente os arts. 121.°,122.° e 124.° LCI"2. Só no período de mantêm-se em vigor diplomas elaborados sob Constituições e regimes po-
férias de verão de 1999. o legislador alterou o regime das contra-orde- líticos diversos, e sujeitos a várias alterações ao longo dos tempos - v. g.,
nações laborais (Lei n.o 114/99, de 3 de Agosto, Lei n.o 116/99, de 4 de Lei do Contrato de Trabalho (1969), Lei da Duração do Trabalho (1971),
Agosto e Lei n.· \18/99, de 4 de Agosto), o regime do lay-off (Lei n.o Lei Sindical ( 1975), Lei das Férias, Feriados e Faltas ( 1976), Lei da Greve
137/99, de 28 de Agosto), o regime das férias, feriados e faltas, equipa- (1977), Lei da Suspensão ou Redução da Prestação de Trabalho (1983),
rando os cônjuges aos que vivem em união de facto (Lei n.O 135/99, de 28 Lei dos Salários em Atraso (1986), Lei da Cessação do Contrato de Tra-
de Agosto), o regime de protecção da maternidade e da paternidade (Lei balho e da Celebração e Caducidade do Contrato a Termo (1989), Lei do
n. o 142/99, de 31 de Agosto) - posteriormente alterado pelo Decreto- Despedimento por Inadaptação (1991), Lei dos Acidentes de Trabalho
-Lei n. o 70/2000, de 4 de Mai03 - e no dia 1 de Setembro foi alterado o (1997) e Lei do Trabalho a Tempo Parcial (1999). A isto acresce que a
regime do trabalho temporário (Lei n.O 146/99, de 1 de Setembro). Em regulamentação de vários institutos se encontra dispersa por distintos
Novembro, é aprovado o novo Código de Processo do Trabalho (Decreto- diplomas - assim, a discriminação em função do sexo ( 1979 e 1997) e o
-Lei n.o 480/99, de 9 de Novembro). Já em 2001, foi alterada a Lei 20/98 tempo de trabalho (1971, 1996 e 1998) -, ou em diplomas sucessivamente
sobre trabalho de estrangeiros (Decreto-Lei n.o 4/2001, de 4 de Janeiro), alterados - por exemplo, a protecção da maternidade e da paternidade
modificados alguns preceitos relativos ao contrato a termo (Lei n.o (1984, 1995, 1997,1998, 1999 e 2000)>>.
18/2001, de 3 de Julho), revisto o regime de cobranças de~uotas sindicais Da mencionada proliferação de fontes, associada à constante inter-
(Lei n.o 81/2001, de 28 de Julho), alterados certos aspectos relativos à venção legislativa neste âmbito, resultam múltiplas contradições, com as
garantia de pagamento dos salários (Lei n.o 96/2001, de 20 de Agosto). consequentes dificuldades interpretativas e, sobretudo. uma acentuada
inadequação do regime jurídico à vida quotidiana dos trabalhadores e dos
, Acrescem. ainda. outms alterações de redacção. como por exemplo a a1temção de empregadores. Em suma, a proliferação de fontes e a constante interven-
redacção do art. 29.· LDT (tmbalho nocturno) pelo Decreto-Lei n.· 96199. de 23 de Março. ção legislativa determinam uma significativa dificuldade na aplicação do
2 Regime que já tinha sido altemdo pelo Decreto-Lei n.· 396/91. de 16 de Outubro direito do trabalho.
e que. posteriormente. sofreu nova a1ternç.'io com o Decreto-Lei n.· 170/2001. de 25 de
Impunha-se uma revisão geral da legislação de direito do trabalho.
Maio. Saúda-se, pois, a iniciativa do Governo.
3 Cujo Regulamento foi aprovado pelo Decreto-Lei n.· 230/2000. de 23 de
Setembro.
102 Direito do Tm/J"lhl/ Capitlllo ,- 'IIIrodllçâo 103
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III. O Anteprojecto de Código do Trabalho - divulgado em Julho de fi. Opção por 11111 Código do Trabalho
2002 -. atendendo a múltiplas e pertinentes sugestões bem como aos
acordos conseguidos em sede de Concertação Social. onde houve um Como se lê na exposição de motivos «A opção por um Código do
intenso debate até Novembro de 2002. foi sujeito a diversas modificações Trabalho assentou na circunstância de. por um lado. o direito do trabalho.
tendo. a 15 de Novembro de 2002. sido apresentado à Assembleia da Re- tendo em conta os estudos e a jurisprudência dos últimos quarenta anos. já
pública uma Proposta de Código do Trabalho (Proposta de Lei n.o 29/IX). ter alcançado uma estabilidade científica suficiente para se proceder a uma
acompanhada da correspondente Exposição de Motivos na qual. apon- primeira codificação e. por outro, a mera consolidação de leis. ainda que
tando as principais alterações relativamente à legislação vigente. se resu- sistematizadas. apontar para uma incipiente codificação. O Código do
mem as linhas directrizes da refonna. A Proposta de Código do Trabalho Trabalho. à imagem de outros diplomas aprovados nas últimas dezenas de
foi alvo de ligeiras modificações no debate parlamentar e veio a ser apro- anos com o título Código - como o Código do Imposto sobre o Valor
vada a 10 de Abril de 2003. tendo. posterionnente (15 de Julho de 2003). Acrescentado ou o Código dos Valores Mobiliários - , não corresponde
sido introduzidos três ajustamentos resultantes de declarações de incons- ao clássico conceito de codificação que presidiu à elaboração dos códigos
titucionalidade; concretamente foi acrescentado o n.o 2 do art. 4.° do CTI. oitocentistas ou, no século XX. à feitura do Código Civil e do Código
incluiu-se o n.o 3 do art. 17. 0 do CT2 e alterou-se ligeiramente a redacção Penal. Trata-se de uma sistematização integrada, justificada por valora-
do art. 606.° do CT. que passou a estar dividido em dois números 3. ções específicas do direito do trabalho - e. portanto. diferente da que se
Depois de promulgada a lei de aprovação a 4 de Agosto. o Código foi encontra no Código Civil ou no Código Penal -. com soluções que per-
publicado na 1.3 Série do Diário da Replíblica. em anexo à Lei n.o mitem uma propensão para a estabilidade.
99/2003. a 27 de Agosto de 2003. Como resulta do n. o I do artigo 3.° da «A codificação não obsta. evidentemente. a que as regras agora enun-
mencionada Lei. «O Código do Trabalho entra em vigor no dia I de De- ciadas sejam alteradas. melhoradas e adaptadas a novas circunstâncias.
zembro de 2003». pois qualquer ramo do Direito está pennanentemente em mutação e a sua
O Código do Trabalho teve uma entrada em vigor faseada. pois como evolução não pode ser posta em causa pela existência de um conjunto
resulta dos n. OS 2 e 3 do art. 3.° da Lei n.o 99/2003. detenninados preceitos sistemático - tendencialmente sintético e científico - de nonnas. deno-
só entraram em vigor depois da aprovação da respectiva legislação regula- minado Código. Um Código não pressupõe, por isso. nem a estagnação
mentar. aprovada pela Lei n.O 35/2004. de 29 de Julho. Nesta legislação das relações sociais. nem dos preceitos que as regem. Razão pela qual. no
especial não foi incluída a matéria respeitante aos acidentes de trabalho artigo 20. 0 da Lei n. o 99/2003, se dispõe que «O Código do Trabalho deve
(arts. 281.° e ss. do CT), que ainda aguarda a respectiva regulamentação. ser revisto no prazo de quatro anos a contar da data da sua entrada em
Menos de três anos volvidos sobre a entrada em vigor. o Código do vigon>.
Trabalho foi alterado. em aspectos pouco relevantes. pela Lei n. o 9/2006, «A codificação do direito do trabalho não teria sido possível sem se
de 20 de Março.
, atender aos estudos de insignes juristas, tanto em trabalhos preparatórios
de legislação laboral como noutros trabalhos científicos, e à jurispmdência
I Sobre a questão. veja-se GoSÇALVES DA SILVA. anotação V ao art. 4.° in PF.DRO
social dos últimos quarenta anos» I.
RO~tANO MARTINEZ I LuIs MIGUEL MONTEIRO I PF.DRO MADfJRA OE BkllO I GUIUIERME
DRAY I LuIs GoNÇALVES DA SILVA. Código do Tm/Jalho Anotado. 4." ediç-Jo. Coimbra.
2004. pp. 78 e ss.
2 Consuhe-se GUILHERME DRAY. anotação V ao art. 17.° iII PEDRO ROMANO MARTI- I Quanlo à vantagem decorrente da entrada em vigor do Código do Trabalho. na
NEZ I LuIs MIGUFL MONTEIRO I PEDRO MADEIRA OE tiRITO I GUII.IIEkME DRA YI Luis GON- medida em que facilila a aplicação do Direito do trabalho, com maior lransparência. veja-
(ALVES DA SILVA, Código do Trabalho Anotado, cil., p. 110. se o Relalório da OCDE para Portu!:al, Études Écon(/miqucs de L'OCDE. P(/rlll8111. Vol.
3 Veja-se ROMANO MARTINEZ, anolações III e IV ao art. 606.° in PEDRO ROMANO 2004113. ('uris. 2004, pp. 80 a 83. Na p. 83. depois da explicação sucinta das alteraçõcs.
MARTINEZ I Luis MIGUEl. MONTEIRO I PEDRO MADFJRA OE BRITO I GUII.HERME ORA YI Lufs conclui-se que a reforma é louvável. ma~ insuficiente para o <k-senvolvimento económico
GONÇALVES DA SII.VA. Código do Trtlb"lho Anotad(/. cit.. pp. 947 e ss. e o combale ao desemprego.
104 Direito tio TrabtllJw Capítulo I - Introdurtio 105

y. Directrizes de orientação modificações de regime mediante a incorporação de novas regras


(por exemplo. o regime da mora no art. 364. 0 do CT) ou por
I. Tendo ainda em conta a exposição de motivos, resulta que «Na remissão para regimes de Direito Civil e. em especial. de direito
elaboração do Código do Trabalho. sem descurar as soluções consagradas das obrigações (v. g., arts. 93.°.96.°.363. 0 e 377.° e ss. do CT).
noutros espaços jurídicos. houve a preocupação de inovar sem cortar com d) Incentivo à participação dos organismos representativos de traba-
a tradição jurídica nacional. razão pela qual muitas das suas normas são lhadores e empregadores na vida laboral, em particular no que
idênticas a regras de diplomas agora revogados e os institutos, ainda que respeita à contratação colectiva.
eventualmente modificados. encontram correspondência nos existentes.
"Nas alterações a introduzir impunha-se. por um lado. n respeito III. Quanto a alterações, como se lê na exposição de motivos «( ... ) foi
pelos limites constitucionais. como a segurança no emprego, o papel das introduzida alguma flexibilidade em determinadas áreas. De facto. em
comissões de trabalhadores e das associações sindicais e o direito à greve. várias matérias - nomeadamente. duração do trabalho, local de realização
e. por outro. a adaptação do direito do trabalho nacional a diversas direc- da prestação, funções exercidas - o Código preconiza uma adaptação da
tivas comunitárias em matéria social. Tendo em conta este último aspecto. prestação do trabalhador às necessidades da empresa. Ma.. não o faz
aproveitou-se o ensejo para se proceder à concretização de múltiplas direc- esquecendo ou ignorando a posição jurídica do trabalhador; pelo contrário.
tivas comunitárias. algumas das quais já se encontravam total ou parcial- fá-lo conferindo-lhe direitos. designadamente fazendo depender o recurso
mente transposta'i para a ordem jurídica portuguesa». a determinadas medidas de um procedimento adequado.
«Não há. assim. uma ausência de regras: está em causa tão-só permi-
II. A orientação que presidiu à elaboração do Código do Trabalho tir a adaptação do regime de trabalho à vida real do mundo laboral e, deste
pode ser sintetizada nas seguintes directrizes: modo, conseguir uma maior efectividade do direito do trabalho. pois.
quanto mais próximo este estiver da realidade. antecipando necessidades e
a) Admissão de formas de trahalho. mais adequadas às necessidades
regulando-as de forma justa e equilibrada. mais garantias são assegurada..
dos trabalhadores e das empresas. promovendo a adaptabilidade
ao trabalhador por este ramo do Direito.
e flexibilidade da relação laboral. nomeadamente quanto à orga-
«Acrescenta-se. ainda. que se procedeu a uma maior responsabilização
nização do tempo, espaço e funções laborais. de modo a aumentar
das partes no que respeita ao cumprimento, tanto do contrato de trabalho
a competitividade da economia. das empresas e o consequente
como dos instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho. Essa
crescimento de emprego;
responsabilização passa pelo agravamento das sanções disciplinares. pelo
b) Estabelecimento de um regime laboral coerente de conhecimento
aumento das coimas e pela remissão para regras de responsabilidade civil.
acessível aos operadores jurídicos, sistematizando a legislação
«Resta referir que é objectivo estruturante do Código inverter a
dispersa. elaborada em época'i distintas. atendendo, por isso, à
situação de estagnação da contratação colectiva. dinamizando-a. não só
integração de lacunas e resolução de algumas dú'jidas suscitadas
pelas múltiplas alusões a matérias a regular nessa sede, como por via da
na aplicação das normas agora revogadas. nomeadamente, proce-
limitação temporal de vigência desses instrumentos.
dendo à eliminação de antinomias entre normas e ao esclareci-
mento de situações ambíguas. de que é exemplo o regime do
não resultam só de adapllK,:ão de tennos resultantes da evolução científica operada no
tempo de trabalho;
direito das obrigações. como igualmente da utilização de expressões frequentes no direito
c) Integração das soluções laborais no regime comum do direito administrativo. como o tenno "procedimento". Neste caso, para distinguir de proasjo
civil, não só implicando alterações terminológicas (por exemplo. (<<sequência de actos destinados à justa composição de um litígio, mediante inten'enção de
substituir o termo rescisão por resolução)l. como acarretando um órgão imparcial de autoridade. o tribunal". CASTRO MENDES. Direito ProceSS//lJ1 Ch-il.
Volume I. Lisboa. 1978n9. p. 34). o Código do Trabalho recorreu ao tenno procetlimrnto:
palavras que têm o mesmo étimo latino procedne e que se podem usar em contextos
I Refira.se que 115 alteraçõcs tenninológicas introduzidas pcloCódigo do Trabalho diferentes: proCt'.I'SO judicial e pwadimt'nto intnno (no seio d'1 empresa).
106 Direito do Trllhtllllo Capítulo I - Introduçtio 107
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«Note-se ainda que presentemente o direito do trabalho tem-se inter- m) Estabelecimento de um regime especial de excepção de não cum-
nacionalizado, por via não só das convenções e recomendações da Orga- primento do contrato a invocar pelo trabalhador no caso de falta
nização Internacional do Trabalho, como das obrigações comunitárias. de pagamento da retribuição:
sem esquecer os efeitos incontornáveis du intcrnucionulização du econo- n) Previsão, relativamente aos créditos laborais do trabalhador
mia. No entanto, não se procedeu à mera "importação" de regimes jurídi- emergentes do contrato de trabalho. da sua violação ou cessação,
cos dos nossos parceiros comunitários: tratou-se, sim. de procurar solu- de um regime de responsabilidade solidária das sociedades em
ções que pennitam à nossa economia ser competitiva. sem. todavia. perder relação de domínio ou de grupo. bem como dos sócios que exer-
de vista a realidade sócio-económica nacional». cem uma influência dominante na sociedade ou que sejam geren-
tes, administradores ou directores;
IV. Em particular, na contraposição com as leis revogadas. importa o) Refonnulação do conceito de actividade a prestar pelo traba-
ainda salientar algumas alterações constantes do Código do Trabalho. resu- lhador.
mindo-se as referências constantes da respectiva exposição de motivos: p) Definição de princípios gerais cm matéria de segurança. saúde e
a) Redução da necessidade de autorizações prévias por parte da higiene no trabalho e consagração de um princípio geral sobre
Inspecção-Geral do Trabalho na tomada de decisões empresariais. prevenção de acidentes de trabalho com a subsequente indicação
sem prejuízo. naturalmente. do reforço da sua função fiscali7.a- de deveres a cargo do empregador e do trabalhador.
dora; q) Possibilidade de suspensão preventiva do trabalhador sem perda
b) Consagração de regras sobre direitos de personalidade no âmbito de retribuição. trinta dias antes da notificação da nota de culpa.
laboral; desde que o empregador, por escrito, justifique que. tendo em
c) Reconhecimento expresso e generalizado do direito ao ressar- conta indícios de factos imputáveis ao trabalhador. a sua presença
cimento de danos não patrimoniais; na empresa é prejudicial;
d) Introdução de nonnas relativas ao regime do teletrabalho; r) Previsão da possibilidade de. sendo invocada a ilicitude do des-
e) Fixação de regras aplicáveis ao trabalho a prestar no âmbito de pedimento por motivos fonnais. o empregador poder dar início a
grupos de sociedades; um novo procedimento disciplinar. por uma só vez. interrom-
1) Criação de regras que diferenciam o regime jurídico em função pendo-se os prazos para intentar tal procedimento;
da dimensão da empresa - microempresa, pequena. média ou s) Estabelecimento de molduras para a fixação. pelo tribunal, da
grande empresa -, em diferentes matérias; indemnização devida em caso de despedimento ilícito;
g) Reitera-se a previsão de deveres em matéria de segurança, hi- I) Possibilidade de. em casos excepcionais tipificados na lei (mi-
giene e saúde no trabalho para os sujeitos laborais; croempresas e trabalhadores que ocupem cargos de administra-
h) Introdução de um dever geral de fonnação, tendofresente que se ção ou de direcção), o empregador. que não tenha criado culposa-
trata de um interesse comum das partes; mente as necessárias condições para exercer esse direito. poder
i) Estabelecimento de um critério geral para a admissibilidade da manifestar fundadamente a sua oposição à reintegração do traba-
contratação a tenno; lhador, cabendo a decisão exclusivamente ao tribunal. salvo nos
j) Admissibilidade. por contrato de trabalho ou por instrumento de casos de despedimento fundado em motivos políticos. ideoló-
regulamentação colectiva de trabalho, de regimes de adaptabili- gicos, étnicos ou religiosos. bem como de trabalhadora grávida.
dade limitada do tempo de trabalho; puérpera ou lactante;
I) Aumento, até um máximo de três dias úteis, do período mínimo u) Atribuição de personalidade jurídica às comissões de trabalha-
de férias (vinte e dois dias úteis) em caso de inexistência de faltas dores;
ou de o trabalhador tcr dado um número diminuto de faltas justi- v) Simplificação das regras em matéria de sujeitos colectivos.
ficadas; nomeadamente, de constituição das associações sindicais;
108 Direito do Trabalho Capítulo 1- Imrodução 109
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x) Revitalização da contratação colectiva, nomeadamente através do 548.° do CT), na emissão de instrumentos de regulamentação colectiva de
estabelecimento da obrigação de as convenções colectivas regu- trabalho (arts. 567.° e ss. do CT) e na resolução de conflitos colectivos
larem o respectivo âmbito temporal, e da previsão de um regime (arts. 583.° e ss. do CT). em especial no caso de greve (arts 599.° e 601.°
supletivo aplicável em matéria de sobrevigência e de denúncia. do CT).
sempre que tal se não encontre regulado por convenção.

V. Do exposto, resulta que as modificações introduzidas pelo Código Ó. Enquadramento dogmático da .'ii.'itemlllizaçeio adoptada
do Trabalho não são substanciais. Além de. maioritariamente. os institutos
subsistirem. por via de regra, com poucas ulterações, mantêm-se, em grande I. O Código do Trabalho encontra-se dividido em dois Livros: parte
parte, as tradicionais características do direito do trabalho. geral do direito do trabalho; responsabilidade penal e contra-ordenacional.
O direito do trabalho contínua a ser prolixo e hermético. De facto. O Livro I refere-se à Parte Geral e é constituído por três Títulos:
não só se pode afirmar que existe uma superabundância de normas labo- Fontes, Contrato de Trabalho e Direito Colectivo. Do Livro II constam as
rais l , como também que estas nem sempre são facilmente inteligíveis, normas relativas à responsabilidade penal e contra-ordenacional decorren-
mesmo em relação a intérpretes juristas. Pode. até, afirmar-se que, compa- tes da violação das leis do trabalho. Este II Livro divide-se em dois Capí-
rando com a legislação precedente, o frequente recurso a expressões téc- tulos, Responsabilidade penal (artigos 607.° e ss. do CT) e Responsabi-
nicas no Código do Trabalho - embora mais precisas - dificulta a sua lidade contra-ordenacional (artigos 614.° e ss. do CT). cada um dos quais
compreensão por parte de leigos. subdividido em parte geral e regime especial.
Além de prolixo e hermético, o direito do trabalho é ainda muito
rígido. com um forte pendor formalista e acentuada intervenção estadual. II. Importa atender, em particular, à sistematização do Livro I, do
Apesar de o Código do Trabalho ter atenuado algumas destas caracterís- qual consta a parte geral do direito do trabalho, aguardando-se a divulga-
ticas. nomeadamente reduzindo a intervenção da Inspecção-Geral do Tra- ção da parte especial - que, possivelmente. numa próxima revisão legis-
balho na tomada de decisões empresariais ou conferindo ampla autonomia lativa iní integrar o Código do Trabalho - respeitante a alguns dos con-
à contratação colectiva, subsistem múltiplas regras das quais se infere a tratos de trabalho, tipificados pelo seu uso mais frequente.
rigidez e o formalismo do direito do trabalho. Exemplificando os três No Título I faz-se referência às fontes e a certos aspectos de aplica-
aspectos mencionados: a rigidez encontra-se por exemplo no que respeita ção do direito do trabalho, mormente a questões relacionadas com a sua
a limitações à liberdade contratual no regime da duração e organização do aplicação no espaço, com particular relevo para as regras de destacamento
tempo de trabalho (arts. 155.° e ss. do CT); o formalismo denota-se na internacional de trabalhadores (artigos 7.° a 9.° do CT).
exigência de forma escrita (art. 103.° do CT), de formalidades (art. 131.° O Título II, relativo ao contrato de trabalho, toma por base os sujeitos
do CT), de justificação de actos (art. 314.°, n.o 4, do CT) ou de procedi- (trabalhador e empregador). Como se lê na exposição de motivos «O Có-
mentos (art. 317.° ou arts. 411.° e ss. do CT); a intervençãofestadual, além digo do Trabalho situa-se, pois, numa perspectiva personalista: as pessoas.
de referências esparsas (art. 313.°, n.o I, do CT)2, tem especial relevância em particular os trabalhadores, constituem o fundamento de todas as pon-
em sede de direito colectivo, tanto na constituição de sujeitos colectivos derações. Com efeito, o Código revela, independentemente da expressa
(p. ex .• art. 483.° do CT), como no ajuste de convenções colectivas (art. consagração dos direitos da personalidade. uma preocupação em manter
um equilíbrio entre as necessidades dos trabalhadores e dos empregadores,
tendo presente que sem aqueles não é possível a existência destes, e sem
J Sem alender ao regime processual, aos 689 artigos do Código do Trabalho.
estes aqueles não existiriam». A antiquada concepção do direito do traba-
acrescem 480 artigos da legislação regulamenlar e mais um número (necessariamente)
elevado de artigos relativos aos controlos de trabalho com regime especial. lho como produto do conflito social está ultrapassada (não obstante serem
2 A intervenljão eSladual. num âmbito diverso. tem particular relevância no que ainda frequentes as reminiscências saudosistas de um passado que se quer
respeita ao regime penal e de contra-ordenações laborais (arts. 607. 0 e SS. do CT). presente) e deve, assim, ter-se em conta a interacção das necessidades de
110
___ 0_ _ - Direi/o do TmlHl/l1II
_____________________ - - - - Ctlpí/1I10 I - Inlrodll('till III

trabalhadores e empregadores, ponderando os interesses em confronto_ De 86. o e ss. do CT). A terminar, numa última subsecção, indicam-se regras
facto, o direito do trabalho não é o ((direito dos trabalhadores», mas um '.~ particulares aplicáveis aos empregadores, nomeadamente em razão da
conjunto de regras que ponderam os interesses de trabalhadores e de em- :1 dimensão da empresa ou de relações de grupo (artigos 91. 0 e ss. do CT).
pregadores. Por isso. como se escreve na exposição de motivos: «é impor- °i Identificados os sujeitos, estabelecem-se regras quanto à fonnação do
tante reiterar que o Código revela-se particulannente atento aos valores contrato (artigos 93. 0 e ss. do CT) e à sua invalidade (artigos 114. 0 e ss. do
das pessoas (trabalhadores e empregadores) no contexto actual das rela- CT), assim como relativas ao objecto e ao conteúdo do contrato de tra-
ções de trabalho, que já não correspondem às preocupações específicas da balho (artigos 111. 0 e ss. e 119. 0 e ss. do CT). Trata-se da perspectivn está-
Questão Social surgidas na segunda metade do século XIX. O novo direito tica dn situação jurídica laboral. Com base nesta sistematização justifica-
do trabalho assenta numa relação laboral com outro dinamismo que pres- -se que o regime do contrato a tenno, anterionnente regulado nos arts. 41. 0
supõe regras adaptadas à nova realidade». e ss. da LCCT como um modo de cessação do contrato de trabalho, surja
tratado separadamente: como os aspectos essenciais do contrato a tenno se
III. No Livro I. atendendo ao conteúdo dos Títulos II e III, verifica- relacionam com a fonnação do vínculo, mais propriamente com a inclusão
-se que o tratamento do regime do contrato de trabalho precede o do de uma cláusula acessória (tenno) no contrato de trabalho, o Código do
regime do designado direito colectivo. Trabalho regula esta matéria nos arts. 129. 0 e SS.I.
A opção (precedência sistemática do regime do contrato de trabalho), Depois da visão estática. seguem-se os aspectos relacionados com a
para além de uma justificação de ordem didáctica, tem dois fundamentos. execução do contrato de trabalho (a perspectiva dinâmica), atendendo, em
O direito do trabalho desenvolve-se e autonomiza-se do direito das obriga- primeiro lugar, à prestação de trabalho. Relutivamente à prestação de tra-
ções tendo por base o contrato de trabalho. A intervenção colectiva no di- balho, há dois aspectos a ter em conta: a localização da tarefa e o tempo
reito do trabalho só se pode compreender, em toda a sua amplitude, depois de trabalho, regulados nas Secção II (Local de trabalho) e Secção III
de consagrado o regime específico do contrato de trabalho; até porque (Duração e organização do tempo de trabalho) do Capítulo lI. respeitante
pode haver contrato de trabalho sem direito colectivo, mas o inverso não à «Prestação do trabalho» (artigos 149. 0 e ss. do CT).
é verdadeiro na medida em que o direito colectivo pressupõe a existência A contrapartida da actividadc implica o pagamento de uma retribui-
de contratos de trabalho. ção, a que se dedica o Capítulo III (Retribuição e outras atribuições patri-
moniais), artigos 249. 0 e ss. do CT. Quanto à retribuição, além de consi-
IV. A sistematização do Título referente ao contrato de trabalho assenta derações gerais em particular relacionadas com a respectiva delimitação,
num postulado de lógica jurídica, que se pode sintetizar nos seguintes faz-se referencia ao modo de cumprimento c a certas garantias de paga-
vectores. mento.
Primeiro, toma-se necessário identificar a figura (contrato de traba- Ainda na execução do contrato de trabalho deve. com especial acui-
lho), indicando os elementos para a sua qualificação. dade, atender-se à segurança no trabalho e aos acidentes de trabalho, a que
O regime do contrato de trabalho inicia-se com a referlncia aos sujei- se dedicam, respectivamente, os dois capítulos seguintes; Capítulo IV,
tos (trabalhador e empregador), sem os quais não se poderia celebrar o «Segurança, higiene e saúde no trabalho» (artigos 272. 0 e ss. do CT) e
negócio jurídico (artigos 14. 0 e ss. do CT). Nesta secção, além de questões Capítulos Ve VI, respectivamente, «Acidentes de trabalho» (artigos 281. 0
gerais relacionadas com os sujeitos (em particular o trabalhador), como a e ss. do CT) e «Doenças profissionais» (artigos 309. 0 e ss. do CT).
capacidade, direitos de personalidade e igualdnde, regulam-se aspectos com
maior relevância no domínio laboral. como a protecção da maternidade e I \Á1hc. ll.,-sim. assinalar que as resros relativas uo controto a termo se incluem em
diferentes secçõcs, consoanle as respeclivas previsik.'s: nos arts. 129.° e SS, do CT, a/·-~---..
dos menores (artigos 33. 0 e ss. e artigos 53. 0 e ss. do CT). Na mesma sec-
propósito da formação, in~luem-se ,as regras relativas à cláusula acessória termo, no l}IÍ ~ ~ 0;.0'.
ção, e também como regimes particulares, alude-se a trabalhadores com
o •••• :

214," do CT fixam-se os dllL~ de fénas do lrobalhador conlrotado a tcnnoe nos arts. 3,.,~ • ,.~.;' "\
capacidade de trabalho reduzida (artigos 71. 0 e ss. do CT), a trabalhadores
estudantes (artigos 79. 0 e ss. do CT) e a trabulhadores estrangeiros (artigos
~ 389.° do cr c:stabc:lc:cc:-sc: \I regime de caducidade do controlo a termo certo e a t~%:;;
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112 Direito do Trabalho
----_.-._---_..- Capíwlo I - IlIIrodllçiio lU
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Depois de qualificado o contrato. identificadas as partes. o objecto e pítulo intitulado «Estruturas de representação colectiva dos trabalhadores»
o conteúdo e feita referência às prestações principais. procede-se à regula- (artigos 451.° e ss. do cf), a que se segue ou outro relativo às associações
mentação das vicissitudes típicas da relação laboral, no Capítulo VI de empregadores (artigus 506.° e ss. do cf). Os sujeitos colectivos têm
«Vicissitudes contratuais» (artigos 313.° e ss. do Cf). Entre as vicissi- um papel essencial na adaptação e concretização do Direito do trabalho. O
tudes. cabe destacar as mudanças de local de trabalho ou de actividade subtítulo em causa tennina com o Capítulo III. sobre a participação dos
(artigos 313.° e ss. do Cf). a transmissão de estabelecimento (artigos 318.° sujeitos colectivos na e1aboraçãu da legislação do trabalho (artigos 524.° e
e ss. do Cn. a cedência ocasional (artigos 322.° e ss. do cn e situações ss. do cf).
de redução da actividade ou de suspensão do contrato (artigos 330.° e ss. O Subtítulo II respeita ao regime dos instrumentos de regulamentação
do Cf). Esta sequência lógica justifica que certos aspectos possam encon- colectiva de trabalho (artigos 531.° e ss. do Cf), onde. depois de regras
trar regulamentação em lugares distintos; assim, a actividade, tanto pode gerais (artigos 531.° e ss. do cf) e de nonnas sobre concorrência (artigos
estar relacionada com o objecto contratado (perspectiva estática) - artigo 535.° e ss. do cn, tendo por base a contraposição entre instrumentos
III. ° do Cf -. como com a prestação de trabalho ou as vicissitudes con- negociais e não negociais. se distingue a convenção colectiva (artigos
tratuais (perspectiva dinâmica) - artigos 149.° e ss. e artigos 313.° e ss. 539.° e ss. do CT), o acordo de adesão (artigo 563.° do cD. a arbitragem
do CT). (artigos 564.° e ss. do CT). o regulamento de extensão (artigos 573.° e ss.
Após o tratamento legal da normal execução do contrato, atende-se do CT) e o regulamento de condições mínimas (artigos 577.° e ss. do cf).
ao respectivo incumprimento, onde, depois da consagração de um princí- Por último, surge o Subtítulo III de onde constam as regras relativas
pio geral (artigo 363.° do Cf), não só se regula a poder disciplinar (artigos aos conflitos colectivos de trabalho, tendo em conta a sua resolução (arti-
365.° e ss. do Cf), consequência de incorrecto cumprimento de deveres gos 582.° e ss. do CT), e dando um particular relevo à greve (artigos 591.°
por parte do trabalhador. como as garantias dos créditos laborais (artigos e ss. do CT).
377.° e ss. do CT), pretendendo minimizar o efeito do incumprimento
pontual dessas prestações por parte do empregador. VI. O regime legal estabelecido pelo Código do Trabalho encontra-
O Título II termina com o fim do contrato, ou seja, estabelecendo o -se nalguns aspectos completado pela legislação complementar (Lei n. °
regime geral da cessação do vínculo laboral (artigos 382.° e ss. do cD. 35/2004. de 29 de Julho). A Legislação Especial do Código do Trabalho
Neste Capítulo IX «Cessação do contrato», ao aglutinarem-se as diferentes desenvolve os aspectos cm que o Código do Trabalho remeteu para legis-
formas de cessação do contrato, foram feitas algumas adaptações. Em pri- lação complementar, como por exemplo o destacamento de trabalhadores
meiro lugar, actualizou-se a terminologia à evolução dogmática já verificada (art. 7.°, n.o 2, e art. 8.° do cf). Esta legislação encontra-se sistematizada
no direito civil, fazendo-se referência a quatro modalidades de cessação do no seguimento estabelecido pelo Código do Trabalho, introduzindo tão-só
contrato de trabalho: caducidade, revogação. resolução e denúncia (artigo um Capítulo inicial, de Disposições gerais. e um último Capítulo (XL).
384.° do cD. Por outro lado, distingue-se a cessação da iniciativa do com disposições finais e transitórias. em que se incluem regras próprias.
empregador (despedimento, artigos 396.° e ss. do cn da~ela em que a
iniciativa cabe ao trabalhador (artigos 441.° e ss. do cD. Na extinção do VII. Não obstante as intervenções legislativas relacionadas com o
vínculo por iniciativa do empregador. distinguem-se os modos de cessação direito do trabalho, em especial o Código do Trabalho. subsistem áreas
do procedimento necessário para se concretizar a extinção do contrato, sem regulamentação, em especial as situações de trabalho atípico. e regi-
fazendo-se, por fim. referência à ilicitude du despedimentu (artigo 429.° mes de trabalho especial. designadamente a relação laboral que se estabe-
doCf).

V. O Título III (Direito colectivo) inicia-se com o tratamento dos I Na~ SiIU8\-"ÔCS de IflIbalho IIlípico fI.'Corre·se com frequência. indevidamenle. aos
chamados «recihos verdes». mao; importa distinguir I.oslas hipóteses daquelas em que. por
sujeitos colectivos (comissões de trabalhadores, conselhos europeus de
faltar a subonlinação jUrídica. nào se podem qualificnr como relação laborol. inlegrando n
empresa. associações sindicais e associações de empregadores). num Ca- mulliplicidnde de conlrolos de preslação de serviço (~·d. illfra § 13.).
114 Direito do Trabalho Capítulo I - Imrodução 115
~-----------------

Ieee com professores I c outras profissões em que predomina a autonomia ~', coadunam com o estabelecimento de princípios gerais, que deverão ser
técnica. No fundo. o legislador, num pressuposto igualitário, atende pouca I'
tidos em conta na solução dos casos concretos.
a especificidades de regimes. preconizando a unifonnidade. Até porque o
regime laboral assenta ainda na situação paradigmática do contrato de VIII, A flexibilidade, assente em bases neo-liberais, tem, nos últimos
trabalho baseado no pressuposto de uma relação duradoura a tempo inte- anos. preconizado a liberalização do período nonn~ll de trabalho, da contra-
gral, em que o trabalhador inicia, ainda jovem. a actividade numa empresa tação temporária de trabalhadores, da mobilidade geográfica e funcional
e, depois de uma vida de dedicação. em que foi obtendo fonnação profis- da mão-de-obra - a chamada poli valência profissional -, etc., porque tais
sional derivada da prática, sendo sucessivamente promovido, sem mudar limites sacrificam os desempregados e os jovens à procura do primeiro em-
de empresa e de local de trabalho. termina a vida laboral com a refonna. prego, só beneficiando, de fonna ilusória e temporária. os que têm emprego,
Este modelo tradicional em que o legislador, em grande parte, assenta, pondo em risco a sobrevivência das empresas, pretendendo-se obstar a uma
alterou-se substancialmente, facto que deveria ser ponderado; contudo, as protecção rígida e pouco razoável dos trabalhadores. Em suma. a desig-
alterações legislativas no âmbito laboral têm sempre lima grande resis- nada flexibilidade tem em vista contrariar uma orientação excessivamente
tência, muitas vezes fundada em motivos extra jurídicos. garantística da legislação laboral', mas o problema tem de ser apreciado
Mas não se julgue, numa perspectiva positivista, que seria possível
legislar exaustivamente e de modo correcto todos os aspectos do direito do I Cfr. NUNES DE CARVALHO. «A Flexibilidade do Direito do Trabalho Português».
trabalho. A mutação social e os novos problemas que se colocam2 só se Seminário "Flexibilidade e Relações de Trabalho", Lisboa. 1998, pp. 73 s. e «Ainda sobre
a Crise do Direilo do Trabalho», in /I Congresso Nacional de Direito do trabalho. Memô-
rias. Coimbra. 1999, pp. 49 ss. Sobre a.~ várias medidas de flexibilização introduzida.~ em
Portugal. veja.se NUNES DE CARVALHO. «A F1cltibilidade do Direito do Trabalho Portu-
I Quanto aos docentes universitários. a intervenção legislativa foi prometida pelo guês». cit., pp. 79 ss.
art. 40.°, n.o 2 do Decreto-Lci n." 271189. de 19 de Agosto (hoje revogado) e no art. 24.", Em crítica a estas tomadas de posiÇão, I'd. JORGE LEITIl, «Direito do Trabalho na
n.o I do Decreto-Lei n." 16/94. de 22 de Janeiro, afirma-se: "O regime de contratação de Crise». Temas de Direito do trabalho, Coimbra. 1990. pp. 25 ss.
pcssoaI docente ( ... ) consta de diploma próprio.. , que não eltiste. Sobre a especificidade do Sobre a flexibilidade no mercado de trabalho. I·d. o Relatório Dahrendorf, RDES XXX
regime laboral dos docentes. que justifica a necessidade de est.1belecer regras que se (1988), n." I, pp. 113 ss. Veja-se também JosÉ JoAo ABRAN"mS, «As Actuais Encruzilha-
afastem dos princípios gerais, I'd. ROMANO MARTINEZ, "O Regime Laboral dos Docentes. das ... », cit, pp. 33 ss.; NUNES DE CARVALlIO, «A Flexibilidade do Direito do Trabalho Por-
Alguns Problemas», Educação e Direito, n." 2, 1999, pp. 41 ss. De facto, a autonomia tuguês», cit, pp. 67 SS.; ABa SEQUEIRA FERREIRA, GrtlpOS de Empresas e Direito do Traba-
cientifica e pedagógica na organização do ensino podc colocar em causa garantias dos lho, Dissertação de Mestrado, Lisboa. 1997. pp. 19 ss.; LUPtIRAvAlou,lIlAl'oro Flessibile.
trabalhadores e, em geral, regras laborais, em particular relacionadas com o tempo de Tutti gli Strumetlfi Legali per Superare la "Rigidità" nel Rapporto tli ún'oro, Milão, 1997;
trabalho, a ocupação crectiva e a retribuição (crr. autor e ob. cit.. pp. 47 ss.). FURTADO MARTINS. «O Acordo Económico e Social e a Evolução do Direito do trabalho
2 Exemplificativamente, pode aludir-se aos problemas suscitados pela liberdade de Português». Os Acordos de Concertarão Social em Portugal - Estudos. I, 1993. pp. 138 ss.
opinião nas designadas empresas de tendência (política. religiosa, etc.), que se relaciona e 147 SS.; MASCARO NASCIMF.NTO, Curso de Direito do Trabalho. 14." cd .• S. Paulo, 1997,
t.1mbém com o despedimento baseado em causas externas à relação lat>ral. Sobre esta.~ pp. 106 ss.. em especial pp. 113 55.; ROSÁRIO PAI.MA RAMALHO. Da Autollomia D08mtitica
questões, em particular quanto à liberdade de opinião e empresas de tendência, I'd. GEOR- do Direito do Trabalho, Coimbra, 200 I. pp. 533 S5. e 630 ss.; BERNARDO XAVIER. «Direito
GES DotE, lA Liberté D'Opinioll et de Conscience en Droit Comparé du Tral'OiI. I. Paris. do Trabalho na Crise», Temas Laborais, Coimbra, 1990, pp. \07 ss.• 118 ss. e 12455.
1997. Veja-se também DIAS COIMBRA. ,,"Empresas" de Tendência e Trabalho Depen- Quanto à estabilidade e promoção do emprego, l'd. conferencias de MONTOY A MEL-
dente», RDES, 1989, pp. 197 55.; MOLINA NAVARRETIl. Empre.fO,f de Comllnicación y GAR, MESQUITA BARROS JR. e JORGE I.F.lTE, Anais elas 1 Jorncu[cls LlIso-Hispano-Brasilei-
"Clallsllla de Conciencia" de los Periodistas, Granada, 2000; RAQUEL TAVARES DOS REIS, ras de Direito do Trabalho, Lisboa. 1982. pp. 27 5S. Sobre os problemas do emprego, ~'d.
Liberdade de consciência e Comrtlto de Trabalho tio Trabalhador de Tendência. Qlle o Relatório do BIT (Secretariado Internacional do Trabalho), intitulado O Emprego no
Equilíbrio do pomo de I'ista das RelaçeJes Indil-iduais de Trabalho, Coimbra. 2004; SAN- Mundo 1995, editado em Lisboa, no ano de 1996. no qual, depois de consideraçõcs gerais
TONI. Le Organium.ioni di Tentlenza e i Rapporti di Lavoro, Milão. 1983. (I.' Parte). se estuda os problemas do emprego nos países em vias de desenvolvimento
Quanto ao regime laboral especial de trabalhadores contratados por partidos políti- (2.· Parte), nas ~:conomias da Europa de Leste (3." Parte) e nos países industrializados
cos, veja-se o Decreto-Lei n." 595n4, 7 de Novembro (art. 6.°. n.o 2). revogado pela Lei (4.· Parte). terminando com consideraçôcs sobre a possibilidade de redução do desem-
Orgânica n." 2/2003, de 22 de Agosto (art. 39.". n." 2). prego global (5.· Parte).
116 Direito do Traballlo

numa perspectiva mais ampla, relacionando as repercussões sociais e eco-


nómicas derivadas dos diferentes modelos de contrato de trabalhol.
Todavia, parece óbvio que a garantia de estabilidade do vínculo labo-
rai não deve pôr em causa o direito ao empreg02•

IX. Refira-se, ainda, a crise nas relações colectivas, que tem funda-
mentos variados, pode pôr em causa o relevante papel dos instrumentos de
regulamentação colectiva; por outro lado, a reduzida taxa de sindicaliza-
ção e a dificuldade de introduzir um regime de representatividade sindical
(à imagem do que ocorre em países como Espanha e França), em particular
por violar a regra da liberdade sindical (art. 55. 0 da CRP) e o princípio de
igualdade entre associações sindicais que lhe está subjacente, limitam de
modo considerável a aplicação das convenções colectivas de trabalho. A
isto acresce uma relativa inércia que dificulta a revisão substancial de CAPíTULO II
muitos instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho, que vigo-
ram quase inalterados há mais de vinte anos. SITUAÇÃO JURÍDICA LABORAL

Bibliografia:

Jos!; JOÃO ABRANTES, «As Actuais Encruzilhadas do Direito do Trabalho».


Direito do Trabalho. Ensaios, Lisboa. 1995, pp. 32 a 35; MENEZES CORDEIRO.
Manual. cit.. p. 59; MONTEIRO FERNANDES. Direito do Trabalho. cit.. pp. 38 a 45
e «A Evolução das Relações de Trabalho desde 1974: Algumas Tendências
Gerais», Temas Laborais, Coimbra, 1984, pp. 9 a 21; JORGE LEITE, «Direito do
Trabalho na Crise», Temas de Direito do Trabalho, Coimbra, 1990, pp. 21 a 49;
ROMANO MARTINEZ, «Considerações Gerais sobre o Código do Trabalho», RDES,
Ano XLIV (2003), n. OS 1 e 2, pp. 5 a 28; FURTADO MARTINS, «O Acordo Eco-
nómico e Social e a Evolução do Direito do Trabalho Português», Os Acordos de
Concertação Social em Portugal- Estudos, 1,1993, pp. 138 a 141 e 147 a 153;
MÁRIO PINTO, Direito do Traballlo. cit., pp. 55 a 60; BERNARDj XAVIER, Curso.
cil., pp. 75 a 80 e "O Direito do Trabalho na Crise», Tema:; de Direito do Tra-
bailIO, Coimbra, 1990, pp. 101 a 138.

t Para uma análise económica do contrato de trabalho. com especiais referencias ao


capital humano e à assimetria informativa. assim como ao mercado de trabalho. veja-se
FERNANDO ARAÚJO. «A Análise Económica do Contrato de Trabalho», Estudos do
Instituto de Direito do Trabalho, 1 Vol., Coimbra. 20(H, pp. 189 ss.
2 Vd. ICHtNO, II COl/lrallO di Ulvoro, Milão. 2000, pp. 30 s .• que. relativamente a
"'rança. fala na passagem do droit du t",mil para o droit de lémploi. tendência que é mais
nítida na GrJ-Bretanha. onde a política de trabalho não apoia a segurança no posto de
trabalho. mas a garantia de emplo)'a/Jilil)'.
§ 5. 0
Sujeitos

1. Questões prévias

Evita-se a tenninologia relação jurídica, para se utilizar outra com


um alcance mais amplo. Não se quer com isto dizer que no direito do tra-
balho não haja várias relações jurídicas; estas existem: trabalhador \'ersus
empregador. associações sindicais versus organizações patronais. Todavia.
a expressão «situação jurídica» abrange. não só estas relações jurídicas
que se estabelecem no âmbito do direito do trabalho. bem cumo outms
realidades dificilmente reconduzíveis ao conceito de relação jurídica.
Os sujeitos da situação jurídica labural são aqueles a quem se podem
imputar nonnas de direito do trabalho. ou seja, os titulares de situações
que tais nonnas pretendem regular. De entre os sujeitos do direito do tra-
balho há que distinguir dois níveis: a relação individual de trabalho e a
relação colectiva de trabalho.
Na relação individual de trabalho, a identificação dos sujeitos não
levanta grandes problemas, pois, atendendo ao regime geral dos contratos.
estudado em direito das obrigações, importa ter em conta duas partes: por
um lado, o trabalhador e. por outro. o empregador!.
Os sujeitos no contrato de trabalho podem ser pessoas singulares; a
dúvida reside em saber se às pessoas colectivas é facultada a possibilidade
de serem partes no contrato de trabalho. O problema não se coloca com
respeito ao empregador. que. evidentemente, pode ser uma pessoa colec-
tiva. mas tão-só quanto ao trabalhador, que deverá ser uma pessoa singu-

I Assentando igualmente na ellplicação da~ questõcs laborais com base na contrapo-


siçào entre a situação jurídica do trabalhador subordinado e do empregador, cfr. ROSÁRIO
PAlMA RAMALHO, Da Autonomia Dognuitka do Direito do Trabalho, Coimbra, 2001. pp.
119 SS. e SA E MaLo, "Situaçào Jurfdica Laboral: Notas para a Definição de um Para·
digma». Trabalho e Relaf(je.~ Laborais, Lisboa, 2oo!. pp. 9 SS.
120 Diuito cio Trabalho ((ll'ítulo 1/ - Situação Jurítlictl Laboral 121
--------------------
lar. Para além disso. há ainda que discutir as questões relativas às situações do CT e arts. 14. 0 e ss. da LECf) e. em razão do vínculo. os trabalhadores
em que a posição do empregador é assumida por um grupo empresarial. da função pública. normalmente designados por funcionários I.
Na relação colectiva de trabalho. os sujeitos são as associações sindi-
cais e as associações de empregadores. Ambas têm capacidade jurídica. II. Em termos juslaboralistas. a expressão «trabalhador» tem um sen-
podendo. para além de outras atribuições. negociar convenções colectivas tido próprio. distinguindo-se de diferentes acepções em que se emprega
de trabalho. Em certos casos. os próprios empregadores podem. por si só. noutras ciências. como. por exemplo. na ciência política. na ciência econó-
negociar uma convenção colectiva de trabalho; tal faculdade não é confe- mica. etc. Em direito do trabalho. o conceito de trabalhador é mais restrito.
rida aos trabalhadores. pois só as associações sindicais têm capacidade pois nele não se incluem todos aqueles que trabalhem. sem estar vincu-
jurídica neste âmbito. lados por um contrato de trabalho de direito privado2 •
Entre os sujeitos das relações colectivas de trabalho há também a
aludir às comissões de trabalhadores. que. em nome dos trabalhadores de
uma determinada empresa. têm determinadas funções representativas junto b) Pessoa singlllar 011 colectim
do respectivo empregador. e. hoje. é indiscutível que as comissões de
trabalhadores têm personalidade jurídica. I. Recentemente. tem-se discutido se a noção de trabalhador respeita
tão-só a uma pessoa singular ou se. eventualmente. se poderá estar tam-
bém perante uma pessoa colectiva.
2. Trabalhador Cabe iniciar este estudo pela análise de alguns argumentos apresen-
tados no sentido da admissibilidade de uma pessoa colectiva poder ser o
a) Determinação sujeito passivo do dever de prestar uma actividade na relação laboraP.

I. O trabalhador é aquele que presta. de forma livre. uma actividade II. Um possível ponto de partida reside no facto de o contrato de tra-
produtiva para outrem. estando subordinado a este último na realização balho ter inicialmente na sua base uma relação comunitário-pessoal. esta-
dessa prestação. No contrato de trabalho. apresenta-se como devedor da belecida entre o patrão e o trabalhador - que ainda subsiste em alguns
actividade e credor da retribuição; dito de outro modo. o trabalhador é o contratos de trabalho. como o contrato de trabalho doméstico (usualmente
sujeito passivo na parte que respeita à sobredita actividade. e sujeito activo designado «serviço doméstico») -. que deixou de se verificar. hoje em
no que toca ao pagamento da retribuição l . dia. na maioria das relações laborais4 • Muitas das vezes. o trabalhador de
Tendo por base o art. 10. 0 do cr. conclui-se que o trabalhador será uma dada empresa desconhece para quem trabalha, não sabendo quem é o
aquele que presta uma actividade a outra pessoa (ou outras pessoas). sob a «seu patrão». Tratando-se de uma sociedade. é até frequente não se conhe-
autoridade e direcção desta2 . Desta noção juslaboral de trab~ador excluem- cer os sócios. e. por vezes. dá-se o caso de a sociedade em questão ainda
-se os trabalhadores autónomos (podendo haver equiparação - art. 13. 0
I É importante não confundir os designados funcionários públicos com os trabalha-
I ORI.ANDO GOMESlEI.50N GarrsCHALK. Curso de Direito cio Traballro. 16." ed., Rio dores da administração pública sujeitos ao regime privado. a que se aplica o disposto nll
de Janeiro. 2000. p. 69. afirmam que o trabalhador (que designam por empregado) é o Lei n. o 23/2004. de 22 de Junho. Vd. Itifra § 46.
destinatário dlls normas protectoras do Direito do trabalho. 2 Por exemplo. na Constituição alude-se a Ir.Iblllhadores. numa acepção IImpla. para
2 Do IIn. 10. 0 do cr resulta que trabalhador será aquele que. mediante retribuição. além dos limites de Direito do trabalho. cfr. MENI:71'_'i COROEIRO. Manual eh Direito cio
presta II SUII actividade a outra j>I.'SSOlI sob direcção desta. Os juristas portugueses não Trabalho. Coimbra. 1991. p. 107.
costumam suscitar problemas de terminologia. sendo lr.lbalhador o vocábulo maiorilaria- 3 Crr. MENEZES CORDEIRO. Manual. cit.. p. 108; SC'}{AUB. Arbeitsrechu.llanclbuch.
mente aceile. nào obstanle. por vezes. se falar em empregado. prestador da aClividade. elc. 9.' cd .• Munique. 2000. pp. 8755.
Quanlo à questão terminológica. crr. PAPAIH>NI in MAZZONI. Manuale di Dirillo cI,.'I 4 Sobre a relação comunitário-pesso:t1. veja-se ROSÁRIO PAI MA RAMAlHO. na Auto-
Lal'Oro. Vol. 1.6." ed .• Milão. 1988. p. 356. ,wmia Dogmática. cit.. pp. 347 ss.
Direito do Trabcl/110 Capitulo II - Situação JllrídÍt'a rtlboml 123
122 --------

ser controlada por uma outra. Deixou. pois. de existir a tradicional relação pessoas colectivas 1; mas esta crítica poder-se-á rebater sabendo-se que as
pessoal patrão/empregado; amiúde. o trabalhador foi contratado por um actividades serão sempre desenvolvidas por pessoas físicas. em nome ou
empregmJo ua empresa e este. eventualmente. terá sido contratado por por conta da pessoa colectiva contratada.
outro trabalhador. Uma terceira crítica. e esta mais consistente. tem por base a análise
Na medida em que a ideia tradicional de subordinação. baseada na de normas reguladoras do contrato de trabalho. Analisando algumas nor-
relação pessoal. deixou de existir. o contrato de trabalho deve ser encarado mas. sobretudo do Código do Trabalho. que incidem sobre a relação indi-
noutra perspectiva. A subordinação de que hoje se fala já não se reporta à viduai de trabalho. verifica-se que as mesmas foram feitas partindo do
subordinação pessoal. devenuu ser entendida num sentido técnico-jurídico. pressuposto de o trabalhador ser uma pessoa individual. Quando () legisla-
No fundo. trata-se de substituir a subordinação numa perspectiva psico- dor elaborou os textos legislativos. tanto no que respeita às revogadas Lei
lógica. que era a tradicional. por uma subordinação técnico-jurídica. a qual do Contrato de Trabalho ou Lei da Cessação do Contrato de Trabalho.
valerá. tanto para pessoas singulares. como colectivas. como mais recentemente com o Código do Trabalho. teve em conta o tra-
Nestes termos. admitir-se-ia a possibilidade de pessoas colectivas balhador como um sujeito individual. e não como uma pessoa colectiva.
serem sujeitos passivos do dever de prestar uma actividade no domínio do De facto. há normas que não t~m qualquer sentido quando aplicadas a
direito do trabalho. Nada obstaria a que o trabalhador fosse uma pessoa pessoas colectivas; é o que sucede. por exemplo. nas regras relativas a
colectiva. porque esta também pode estar sujeita a uma subordinação téc- férias. a faltas. ao poder disciplinar. etc. e. em especial. o regime de segu-
nico-jurídica. Ou seja. a uma pessoa colectiva pode igualmente impor-s~ a rança no emprego. Estas normas foram elaboradas partindo do pressuposto
obrigação de prestar uma actividade. com subordinação. numa perspectiva de que quem ia realizar o trabalho era uma pessoa singular2. Em suma. a
técnico-jurídica. Nesta sequência. suplantar-se-ia o panorama tradicional especificidade do direito laboral assenta. em grande parte. na humanização
de subordinação pessoal. que já não existe - à excepção de certos víncu- do trabalho. atendendo a que quem o realiza é um homem (pessoa sin-
los laborais especiais - . e evoluir-se-ia no sentido de admitir que a subor- gular) e não uma pessoa colectiva.
dinação tem de ser vista noutro plano. naUa obstando a que uma pessoa
colectiva seja trabalhador. IV. Em contestação a esta crítica. argumentou-se que. em certas situa-
çõcs. quando as normas destinadas a regular o contrato de trabalho têm em
m. Esta posição é justificável de um ponto de vista teórico. embora vista exclusivamente o prestador de trabalho como uma pessoa singular e
seja necessário ponderar algumas críticas que se lhe podem tecer. não uma pessoa colectiva. recorre-se à figura da desconsideração ou do
A primeira crítica é de ordem histórico-cultural. Nesta acepção. u levantamento da personalidade colectivaJ• Nestes termos. tais normas
contrato de trabalho tem sido encarado. no que se refere ao trabaJhador. aplicar-se-iam à pessoa singular que. estando «por detrás» da pessoa
como sendo uma pessoa singular; na realidade. tanto numa perspectiva colectiva. efectivamente presta a actividade.
histórica. como cultural, entenue-se por trabaJhador uma pessoa singular.
Este argumento pode ser rebatido atendendo às razõ&i invocadas no I crr. Mmmn-A MElGAR. Derecho dei Trabajo. 22.' cd.• Madrid. 2001. p. 36.
sentido da admissibilidade de o trabalhador ser uma pessoa colectiva. por- 2 Crr. MONfFJRO FERNANDES, Direito do Trabalho, II.' cd., Coimbra. 1999. pp. 185
que se demonstrou que o ponto de vista histórico-cultural foi ultrapassado. ss. MÁRIO PINTo/FURTADO MARTINS/NUNES DE CARVALIIO. Comentário às Leü l ..lIborais.
Deste modo. criticar a posição que admite que o trabalhador possa ser uma Vol. I. Lisboa 1994. anol. 11.2 ao ano 3.·. p. 39. a essas nonnas acrescenlam regras da
pessoa colectiva com base na perspectiva histórico-jurídica não tem sen- relação colectiva de trabalho. como o exercício da greve, que pn:ssupõc a intervenção de
uma pessoa singular.
tido. pois parece incorrecto preconizar a subsistência de uma relação pes-
3 Crr. MENEZES COJ(/)I'JRO. M(lIIual. cit.• pp. 1011 s. Sobre a desconsideração ou
soal. quando esta. na maioria dos casos. deixou de existir. levantamento da personalidade colectiva. l'lJ. OU"ElKA ASCENSÃO. Direito Comercial.
Igualmente em contestação à posição que vem sendo apresentada. Vol. I. Lisboa. 1987. pp. 472 SS.; MENEZES CORDEIRO. "Do Lc\'antarnento da Personali·
pode acrescentar-se que o objecto do Direito do trabaJho pressupõe a rea- dade Colectiva". Direito e Justiça. IV (1989190). pp. 147 liS.; PEDRO CORDEIRO. A
lização de uma actividade humana. não englobando prestações a cargu ue lJe,~CI1nsiderarl1o CÚl Per.tonalidade Jllr{dica das Sociedudes Comerciais, Lisboa. 19119.
124 Direito do Trabalho CiI!1íllllo /I - Sitllação Jllrídica úlbortll 125
----------------:---------
Entendendo a pessoa colectiva como uma máscam, no sentido de pregado seu de limpar as janelas. estar-se-á no domínio do contrato de tra-
encobrir pessoas singulares, há que desconsidemr ou levantar essa más- balho; contudo. se tiver contratado uma empresa para realizar o mesmo
cara e descobrir, atrás da pessoa colectiva, quem são as pessoas singulares trabalho, esta também o fará através dos seus empregados. embora o con-
que a integram. trato que foi celebrado com a empresa para a limpeza dos vidros não seja
Assim sendo. relativamente às normas do contrato de tmbalho dirigi- um contrato de trabalho. mas um contrato de prestação de serviços. O con-
das em exclusivo a pessoas singulares, deverá desconsiderar-se a persona- trato de trabalho existirá entre a empresa que limpa as janelas e os seus
lidade colectiva e aplicar esses preceitos às pessoas individuais prestado- trabalhadores, que. na realidade. executam a tarefaI. Admitir que o traba-
ras da actividade a que a pessoa colectiva se encontra adstrita. A aplicação lhador possa ser uma pessoa colectiva. dificulta ainda mais a distinção.
de tais normas às pessoas singulares que estão «por detrás» da pessoa assaz complicada. entre o contrato de trabalho e o contrato de prestação de
colectiva seria feita casuisticamente. perante cada situação concreta. serviç02.
Cabe, então, perguntar, de que serve admitir que o trabalhador possa Em conclusão, os argumentos apresentados parecem suficientes para
ser uma pessoa colectiva, para depois desconsiderar a sua personalidade. se concluir no sentido da inadmissibilidade de o trabalhador ser uma pes-
procurando descortinar a pessoa singular que está «por detrás» da pessoa soa colectiva, devendo ser sempre uma pessoa singular3,
colectiva. No fundo, aceitar como trabalhador uma pessoa colectiva e,
depois, levantar a sua personalidade, para aplicar as normas reguladoras da
relação laboral à pessoa singular que está «encoberta» pela pessoa colec- I Por motivos vários. designadamente de flexibilização e de especialização do tra-
tiva, constitui uma operação intelectual desnecessária, complicando uma balho, são frequentes as substituições de relações laborais por contratos de prestação de
situação que, à partida, seria simples. serviço; as empresas. em vez de contratarem trabalhadores para limparem, efectuarem a
segurança das instalações ou realizar outra.ç actividades, ajustam com empresas l:specia.
lizadas nesses domínios contratos de prestação de serviços para a prossecução dessas
V. A relação de trabalho, tal como se apresenta estruturada na lei, tarefas. Esta prática. só por si. não pressupõe qualquer fraude à lei.
pressupõe que o trabalhador seja uma pessoa singular; não há, pois, a pos- 2 MOm'ElRO FERNANDf,S. Direito do Trabalho. cit.. pp. 186 s.• alude a situações em
sibilidade de celebrar um contrato de trabalho com uma pessoa colectiva que a relação de trabalho se estabelece com um grupo de trabalhadores. encarado como
nas vestes de trabalhador. E admitir a existência de um trabalhador como uma unidade técnico-labora1; porém. tais situações. ou constituem. designadamente um
pessoa colectiva, para depois despersonalizar esta última, procurando a contrato de empreitada com o chefe do grapo - ou com o grupo. se lhe for atribuída per-
sonalidade jurídica -. ou então estar-se-á perante vários contratos de trabalho com cada
pessoa singular que. efectivamente, presta a actividade é considerar que o
um dos pn:stadores de trabalho. sendo o grupo irrelevante. O trabalho realizado por grupo
contrato se celebrou com quem, verdadeiramente, para este efeito, não pode eventualmente relacionar-se com a existência de um subcontrato de trabalho (I'd.
existiu l . infra § 29.4). Sobre a ligura do contrato de trabalho de grupo. que encontra regulamen-
Por outro lado, assentar no pressuposto de o trabalhador poder ser tação especial em Espanha. dr. ALONSO Oll~/CASAS BAAMONDE. Derecho dei Trabajo,
uma pessoa colectiva cria uma complicação acrescida a nível da distinção 14.' cd .• Madrid. 1995. pp. 97 ss.• que aludem (p. 101) a uma situação usual: o contrato
entre o contrato de trabalho e as figuras afins, em particAlar entre o con- (de trabalho) entre o empresário e uma orquestra.
3 Trata-se de uma opinião relativamente generali7.ada. Cfr. MornEIRO FERNANDES.
trato de trabalho e o contrato de prestação de serviços. Sempre que uma
Direito do Trabalho. cit.. pp. 185 s.; AI.ONSO OLEAlCASAS BAAMONDE. Derecho dei Tra-
dada actividade, idêntica à que um trabalhador pode realizar, seja prestada bajo. cit.. p. 63; MÁRIO PINTo/FURTADO MARTINs/NUNES DE CARVALHO. Comentário. ci!..
por uma pessoa colectiva é vulgar qualificar a figura como um contrato de ano!. 11.2 ao art. 3.°. p. 39; SPIl.BÜCIIERlGRILLBERGER. Arbeitsrechl. I. IndMdualar-
prestação de serviço. Assim, se, por exemplo, alguém encarregar um em- beitsrecht. 4,' cd .• Viena, 1988. p. 52; SOLLNER. GrllndrijJ des Arbeitsrechts. 12." cd .•
Munique. 1998. p. 23.
No direito brasileiro a discussão perde sentido. pois o art. 3 da Consolidação das
I Neste sentido. MÁRIO PINTo/FURTADO MARTINSINUNES DE CARVALlIO. Comen· Leis de Trabalho dispõe. textualmente. que o empregado é uma pessoa física; afirmando
tário. cit., anol. 11.2 ao art. 3.°. p. 39. afirmam que «nem se vê qualqul:1' vantagem em VALENTIN CARRION. Comentário cl Consolidação das Leis do Trabalho. 25.' cd .• S. Paulo.
admitir que uma pessoa colectiva possa adquirir a qualidntle de trabalhador subordinado. 2000. anol. 2 ao art. 3.". p. 32. que os serviços prestados por uma pessoa jurídica não
para depois se concluir pela impossibilidade de aplicação do regime labora!>,. podem ser objecto de um contrato de tmbalho.
126 Direito do Trabalho
--------Capítulo /I - SiUlllçtio Jllrídim Laboral 127

c) TIpos tinção entre empregados (trabalhadores intelectuais) e assalariados (traba-


lhadores manuais). A Lei n. o 1952. de 10 de Março de 1937, impunha regi-
I. Não há uma classe única na qual se incluem todos os trabalhadores. mes diferentes, consoante se estivesse perante um assalariado ou um
mas diversos tipos. Anterionnente. no n. o I do art. 1. 0 da LCf detenni- empregado, ou seja, em função de o trabalho ser manual ou intelectual.
nava-se que o trabalhador se obrigava a prestar uma «actividade intelec- Consideravam-se trabalhadores intelectuais, para além daqueles que
tual ou manual» e no art. 5. 0 • n. o 1. da LCf, dizia-se que «A actividade a desenvolviam uma actividade predominantemente intelectual. os colabo-
que o trabalhador se obriga podc tcr carácter intelectual ou manual». Ape- radores de direcção da empresa ou da entidade patronal, os gerentes, os
sar de no Código do Trabalho se ter deixado de fazer referência à contra- empregados de balcão, os contabilistas, os dactilógrafos, etc. Os traba-
posição entre actividade intelectual e manual, esta distinção subsiste com lhadores intelectuais, para além das referência.. indicadas, detenninavam-
os mesmos reflexos. -se por oposição àqueles em que o aspecto físico era predominante na rea-
A questão que se põe é a de saber se a distinção entre trabalho manual lização da actividade, designados assalari~ldos ou trabalhadores manuais.
e intelectual tem relevância na qualificação, devendo contrapor-se o traba- Esta distinção entre assalariado e empregado tinha repercussão ao
lhador manual ao intelectual'. nível do regime jurídico, entre outros aspectos, no respeitante à fonna de
Tanto na Lei do Contrato de Trabalho. como nos diplomas que a alte- detenninação do salário (retribuição paga à semana ou ao mês) ou ao
raram ou completaram, não se distinguia entre trabalhadores manuais e modo de distribuição das férias.
intelectuais2; as alusões a tal diferenciação, que ainda se mantinham nos É evidente que a diferenciação entre trabalhadores manuais e intelec-
artigos da Lei do Contrato de Trabalho citados, têm por base a primitiva tuais levantava dificuldades de qualificação relativamente a casos de
lei reguladora do contrato do trabalho de 1937, em que se estabelecia a dis- fronteira, até porque a especialização do trabalho tem conduzido, por
vezes, uma difícil delimitação entre trabalho manual t: intelectual, por um
I Sobre este aspecto. cfr. MUITA VEIGA. Lições de Direito do Trabalho. 8.· cd .• lis- lado, e porque a distinção entre tipos de trabalhadores pode ser entendida
boa, 2000. pp. 2955.; BERNARDO XAVIER. Curso, cit., p. 317. Quanto a uma distinção entre como discriminatória, por outro'. Tendo em conta estas dificuldades, por
trabalhador intelectual e manual, vd. ALONSO OLEAlCASAS BAAMONDE, DereclllJ llL-l Tra-
um lado, e por uma razão política de igualitarismo entre os trabalhadores,
bajo, cit., pp. 34 s. e 64 s. MENEZES CORDEIRO, Manl/al. cit., p. 107, considera que não
releva uma distinção sociológica entre trabalhadores, que contraponha os altos cargos das por outro lado, tentou-se, a partir de 1966, não distinguir os prestadores de
empresas aos trabalhadores subordinados. trabalho subordinado, deixando de se estabelecer diferenças de regime
2 Quanto a este aspecto. MONTEIRO FERNANDES, «Sobre o Objecto do Direito do entre os vários tipos de trabalhadores 2• Nesta sequência, o Código do
Trabalho», Temas Laborais, Coimbra. 1984. pp. 3955. e Direito do Trabalho. cil.. pp. 185 Trabalho aboliu as referências (históricas) ao trabalho manual e intelec-
s .• critica a inexistência de critério diferenciado de qualificação em relaçiio a (1IIadro~ tual. aludindo simplesmente a actividade.
dirigentes e técnicos das empn.'Sas. para os quais também é a 5ubordinação jurídica o
aspecto relevante para a legislação laboral. Segundo o autor citado. «Sobre o Objecto ... ".
cit.. p. 40. a simplificação de estatuto profissional, levando à uniformifação, tem por base II. Deste modo, a lei hoje prevê uma figura genérica de trabalhador.
«condicionamentos ideológicos conhecidos». Todavia, o mesmo autor. Direito do Traba- embora este entendimento possa levantar algumas dificuldades, por exem-
lho, cit .• p. 184, afirma que a indiferenciação constitui um fenómeno generalizado, para a plo, quanto à subordinação exigível.
qual a «terciarização» aponta. Também em crítica à indistinção, que conduz a uma cate- O grau de subordinação relativamente às actividades manuais pode
goria abstracta de trabalhador. onde se inclui o director de um banco. um operário não não ser equiparável àquele que se verifica no domínio de actividades inte-
especializado, um chefe de orquestra ou um investigador. cfr. MENEZES CORDEIRO. Ma-
nl/al, cit., pp. 109 s. Quanto à diferenciação de tipos de trabalhadores. cfr. PAPALEONI in
MAZZONI. DiritlO dei La~'oro, Vol. I. cit.. pp. 371 55. e pp. 382 55.; RICIIARDI, Mii'lchener I Neste sentido, veja-se TEIXEIRA MANUS. Direito do Trabalho, 6.· ed., S. Paulo,
Kommentar VIm Arbeitsreclll, Vol. I. Munique. 1992. § 23, anol. 36 S5., pp. 326 55.; 2001. p. 294. Trata-se, porém. de uma perspectiva inaceitável. porque o princípio da
SOU.NER, Arbeitsrechts, cit., pp. 2755. Para maiores desenvolvimentos, com indicações de igualdade não obsta à existência de l.Titérios de diferenciação.
direito comparado (incluindo referencias a Ponugal), cfr. WANK. Arbeiter umi Angestellte. 2 Cfr. MÁRIo PINTOlFuRTADO MARTINs/NUNES DE CARVALHO. Comentário. cit.,
Berlim e Nova Iorque. 1992. anoto 11.4 ao ano 1.0, p. 27.
1211 Direito do Trabalho Capítlllo II - Sitl/tl('tio Jllrfdica Laboral 129
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lectuais, em que haverá a ponderar a autonomia técnica (cfr. art. 112.° do questão da maior responsabilidade exigida a determinado tipo de trabalha-
CT)'. Supondo um médico contratado por um hospital privado; a subordi- dores assume particular acuidade em sede de apreciação da gravidade do
nação que ele, como trabalhador, tem relativamente à entidade patronal, comportamento para efeito de ponderar a justa causa de despedimento (art.
não é de forma alguma equiparável à de um empregado encarregado da 396.°, n.o I, do cD. Na ponderação da gravidade do comportamento. não
limpeza desse mesmo hospital. O empregador (hospital) não pode impor se pode estabelecer um critério unívoco. pois a mesma conduta pode
ao médico uma conduta quanto ao modo de curar um determinado doente, revelar-se de extrema gravidade cm relação a um trdbalhador e ser pouco
enquanto a um empregado de limpeza pode indicar. por exemplo. a forma relevante quando praticada por outro trabalhador'.
cumu quer as escadas limpas ou os produtos a utilizar na limpeza. Também Há reais diferenças. a vários níveis. que podem ser tidas em conside-
em relação ao advogado de um banco podem-lhe ser dadas ordens no sen- ração. A protecção conferida ao trabalhador pelo direito do trabalho. aten-
tido de agir ou não agir. consoante, por exemplo, o banco esteja ou não tas até as razões históricas do desenvolvimento deste ramo do direito, não
interessado em reclamar um crédito, mas o advogado não recebe ordens se justifica nos mesmos moldes com respeito a trabalhadores intelectuais.
quanto ao modo como deve elaborar uma petição inicial ou uma reclama- principalmente quando estes ocupam cargos de direcção ou de especial
ção de créditos, pois está-se no âmbito da sua autonomia técnica 2, não confiança nas empresas.
obstante ser um trabalhador do banco. Em suma, o grau de subordinação
exigível a um trabalhador manual ou intelectual pode ser muito diverso. III. Tendo isto em conta. surgem alguns regimes onde a ideia de
Por outro lado, e em cuntrupartida, quanto ao grau de responsabili- i·:: trabalhador em sentido genérico, como um tipo uniforme, já não é aceite.
i
dade requerida a um trabalhador manual ou intelectual não deve igual- estabelecendo-se regras diferentes quanto a certo tipo de trabalhadores.
mente haver equiparação. Enquanto a subordinação deve ser mais elevada Há, pois. casos em que a noção de trabalhador, como tipo unitário. começa
em relação ao trabalhador manual do que ao intelectual, em termos de res- a flexibilizar-se. admitindo-se. em determinadas hipóteses, a existência de
ponsabilidade a situação é oposta; a um trabalhador intelectual, em prin- tipos diferenciados de trabalhadores2•
cípio. deve ser exigida uma maior responsabilização no trabalho que efec- Concretizando, cabe aludir aos arts. 244.° e ss. do cr, sobre o regime
tua do que a um trabalhador manual. Retomando os exemplos anteriores: do trabalho em comissão de serviçoJ, onde se estabelece um regime espe-
se o médico falhou no seu diagnóstico ou medicamentou o paciente de
forma errada, se o advogado não devia ter cobrado a dívida por aquela via
I Como se estabelece no Ac. STJ de 24/1/1986. citado por PEDRO CRuz. A Justa
ou deixou passar o prazo, toma-se responsável perante a entidade patronal; Callsa de Dt'spt'dimento na Jurisprud;ncia, Coimbra. 1990, p. 57. «A gravidade de um
de outro modo. a responsabilidade do trabalhador manual não existirá tão mesmo componamento pode variar consoante as funções. a responsabilidade e o grau hie-
correntemente. Hipóteses idênticas colocam-se em relação, por exemplo. rárquico do trabalhador arguido». De igual modo, no Ac. ReI. Lx. de 2/5/1984, citado por
a contabilistas ou a gerentes e demais trabalhadores que ocupam cargos de PEDRO CRUZ, A Justa Call5a de Despedimento na Jurisprudência. Cil. p. 58, afirma-se:
direcçãu numa empresa3 , em que a sua responsabilidade não pode ser "Para qualificar uma infracção disciplinar como grave, fundamento de despedimento com
justll cllusa. deve atender-se ao grau de responsabilidade e nível cultural do trabalhadOr».
comparada à que é exigível a um operário de uma linha cfe montagem. A
2 Pondo em causa essa perspectiva unitária, veja-se NUNES DE CARVAI.1I0 ...O
Pluralismo do Direito do Trabalho», 11/ Consre.fso Nacional de Direito do Trabalho.
I A autonomia técnica nllo é uma característica da actividade intelectual. ma.~ está Coimbra, 2000, pp. 269 ss. Com base no sistema jurídico italiano. (afiNO, 11 Contratto di
frequentemente associada a estas prestaçõcs. La~'oro, Milão. 2000, pp. 320 55 .• admite que há vários tipos legais de trabalho protegido.
2 À autonomia técnica de muitos trabalhadol\.'S intelectuais. por exemplo. médicos e deduzindo-se que o trabalhador não é um tipo uniforme.
advogados. MENEZES CORDEIRO. Manllal. cit., p. 110. acrescenta a autonomia deontoló- 3 Con.~iderando o regime da comissão de serviço (Decreto-Lei n. o 404191. de 16 de
gica. Acerca desta questão, MONTEIRO FERNANDES. Direito do Trabalho. cit.. p. 133. fala Outubro) «um imponante passo para contrariar aquela tendência uniformizadora que. em
em trabalhadores com subordinaç-Jo juridica e sem dependência técnica. nome de um igualitarismo cego à realidade. acaba por empobrecer o direito do trabalho ...
3 Distinguindo entre trabalhadores consoante tenham ou não funções de direcção. cfr. FURTADO MARTINS, «O Acordo Económico e Social e a Evolução do Direito do
dr. MENtZES CORDEIRO. Manllal. cit.. p. III; AWNSO OlEAlCASAS BAAMONDE. Derecllll Trabalho Português n • Os Acordos dt' Concerttlftl0 Social em Portugal. I. Estudos. Lisboa.
tM Trabajo. cit.. pp. 68 SS. 1993, pp. 135 s. Sobre o regime de comissão de serviço cfr. infra § 32.
130 Direito do Trabtllho Capitulo /I - Situaçdo Jllrídica LAborai 131

cífico só para os trabalhadores que ocupam «cargos de administração ou A dificuldade de delimitação não pode constituir entrave à distinção
equivalentes, de direcção dependentes da administração e as funções de entre os tipos de trabalhadores. pois há verdadeiras diferenças. e importa
secretariado pessoal». O período experimental, previsto no art. 107.° do estabelecê-Ias.
CT, diverge em função do tipo de trabalhador, sendo superior a sua dura-
ção para trabalhadores que exerçam cargos de complexidade técnica, ele- IV. Atendendo à visão unitária da lei laboral, cabe aos tribunais, con-
vado grau de responsabilidade ou funções de confiança (180 dias) e para soante as situações concretas, averiguar das diferenças existentes e decidir
os que desempenhem cargos de direcção e quadros superiores (240 dias). em conformidade.
Quanto à duração do trabalho, admite-se o estabelecimento de regimes Num outro plano, a lei admite certas particularidades com respeito a
especiais para cargos dirigentes (arts. 176.°, n. ° 2, e 177.°, n.O I, alínea aJ, diferentes categorias de trabalhadores. No Código do Trabalho estabeleceu-
do CT). Relativamente ao despedimento por inadaptação, os critérios para -se o regime comum e, em outros diplomas. encontram-se regimes espe-
aferir a inadaptação do trabalhador podem ser mais exigentes tratando-se ciais pard certos prestadores de trabalho. como seja os trabalhadores rurais.
de cargo de complexidade técnica ou de direcção, como decorre do art. domésticos. portuários. da função pública. Esta distinção leva a contrapor
406. 0, n. ° 2, do CT. Refira-se, ainda, que a oposição à reintegração pode o contrato de trabalho de regime comum aos contratos de trabalho sujeitos
ser feita valer em relação a trabalhador que ocupe cargo de administração a regime especial l . Os contratos de trabalho com regime especial estão
ou de direcção independentemente da dimensão da empresa (art. 438.°, sujeitos às regras do Código do Trabalho sempre que estas não sejam
n.O 2. do CT). incompatíveis com a especificidade desses contratos (art. 11.° do CT).
Para além disso, no plano internacional, a contraposição em causa Cabe ainda diferenciar os trabalhadores com um contrato de trabalho
apresenta diferenças a nível legislativo e de terminologia. Em várias (de regime comum ou especial) daqueles que estão obrigados a prestar
ordens jurídicas utilizam-se expressões diferentes quando se faz menção a uma actividade para outrem por via de um contrato equiparado ao contrato
trabalhador manual ou intelectual. Por exemplo, em França distingue-se, de trabalho. tal como prescrevem o art. 13.° do CT e os arts. 14.° e ss. da
em termos jurídicos, o «ouvrier» e o «employé» I, em Inglaterra fala-se em LECT (cfr. infra § 14.).
«worker» e em «employee»2 e na Alemanha contrapõe-se o «Arbeiter» ao Também se podem distinguir os trabalhadores consoante, no exercí-
«Angestellte»3, distinguindo o que trabalha manualmente daquele que cio da sua actividade. actuem ou não como representantes do empregador.
executa uma tarefa intelectual4 • A este propósito cabe fazer referência Nos termos do art. III. 0, n. ° 3, do CT. «Quando a natureza da actividade
especial ao Direito italiano onde, depois de, no art. 2095.1 CC Italiano, para que o trabalhador é contratado envolver a prática de negócios jurídi-
entre os trabalhadores subordinados, se distinguir os dirigentes, os quadros, cos, o contrato de trabalho implica a concessão àquele dos necessários
os empregados e os operários, na Lei 190, de 13 de Maio de 1985 dá-se a poderes». Isto constitui uma excepção às regras gerais, pois o trabalhador,
definição de trabalhadores que ocupam funções de quadros nas empresas5 . cuja actividade implica a celebração de negócios jurídicos por conta do
empregador. tem automaticamente poderes de representação, não care-

I crr. RIVEROISAVATIER. Droít du Tral'ail. 13.' cd.• Paris. 1993. pp. 92 s.
cendo de uma procuração; pelo facto de se encontrar adstrito a praticar
negócios jurídicos, presume-se que lhe foi conferida a necessária represen-
2 crr. ROWERS. Employment LAw. ei!.. pp. 12 SS .• quc alude a vários tipos Ile rela- taçã02 . Tal utribuição tem em vista a protecção das pessoas que negoceiam
ções laborais. em especial. pp. 18 ss. com esse trabalhador; na medida em que é automaticamente concedido um
3 SOLL'IER. Arbeitsrechls. cit.• pp. 27 5.\.; ZOLl.NERlLuRlIZ. Arbeitsrechl. 5." cd .• poder de representação ao trabalhador. a entidade patronal não pode invo-
Munique. 1998. pp. 59 ss.
.. Veja-se ainda a distinção feita no Brasil entre empregados. operários e trabalha-
dores intelectuais. efr. ORLANDO GOMESlELSON GOITSCHALK. Direíto do Trabalho. ci!.. pp.
7855. e 81 ss. I crr. BERNARDO XAVIF.R. Curso. cit.• p. 317.
S Sobre esta questão. ,-do NICOUNI. Manuale di Dirillo delLAmro. 3." cd .• Milão. 2 efr. MÁRIO PINTo/FURTADO MARTINs/NUNES DE CARVALHO. Comentário. dI ..
2000. pp. 325 S5. anoto 11.6 ao ano 5.°. p. 14.
132 Direito do Trabalho Cap(tulo /I - Situação Jurídica I.lllmrlll 133

car a ilegitimidade deste quanto à celebração de contratos em relação às Bibliografia:


pessoas que com ele negociaram.
Uma outra classificação possível pode estar relacionada com a MENEZES CORDEIRO, Manual, cit., pp. 107 a 115: MOmEIRO FERNANDES
qualificação do trabalhador. A diversidade de categoria profissional não Direito do Trabalho, cil., pp. 128, 129 e 183 a 187; FURTADO MARTINS, "O
representa um regime jurídico diferenciado, embora haja aspectos que Acordo Económico c Social e a Evolução do Direito do Trabalho Português», Os
devem ser tidos em conta. De facto, quando a actividade a praticar implica Acordos de Concertação Social em Portugal, I, Estudos. Lisboa, 1993, pp. 134 a
uma determinada aptidão, conferida, designadamente, pela categoria pro- 137; LuIs MIGUEL MONTEIRO. «Algumas Notas sobre o Trabalhador Dirigente».
fissional, pode estar em causa a validade do contrato de trabalho. No art. V/~I Congresso Nacional de Direito do Trabalho. Coimbra, 2005, pp. 235 e ss.;
113.° do CT determina-se a necessidade de posse da carteira profissional MARIO PINTOIFURTADO MARTINS/NUNES DE CARVALHO. Comentário, cit.. anol.
11.4 ao an. 1.0, anot. 11.2 ao art. 3.° e anol. 11.3 e 6 ao art. 5.°. pp. 27, 39, 43 e 44;
para a celebração de certos contratos, pois é a carteira profissional que
MOlTA VEIGA. Lições. cit.. pp. 29 a 38 e 323 e 324; BERNARDO XAVIER. Curso.
habilita o trabalhador a exercer uma dada actividade. Para além da posse cit .• pp. 315 a 318.
da carteira profissional, pode ser necessário que o trabalhador tenha uma
determinada habilitação para exercer uma actividade profissional, que a lei
designa por «título com valor legal equivalente» (art. 113.°, n.o I, do CT). 3. Empregador
É o que acontece sempre que uma empresa pretende contratar um técnico
com determinada especialização, seja em actividades que carecem de um
diploma universitário (como a medicina ou a engenharia) ou de qualquer aJ Determinação
outra aptidão (como técnico de informática). Em função da qualificação
têm de ser feitas distinções entre os trabalhadores; distinções essas com I. O empregador, entidade patronal ou patrão é aquele que. no con-
repercussão a vários níveis, desde o acesso ao trabalho, à fixação do trato de trabalho, ocupa a posição de credor da actividade, a prestação de
salário ou à promoção na carreira. trabalho. sendo devedor da remuneração.
Poder-se-ão ainda distinguir os trabalhadores atendendo a aspectos No art. 1.0, n.o 2, alínea aJ, da LAP - norma suprimida no Código
pessoais, que se relacionam com uma maior necessidade de protecção. do Trabalho - esclarecia-se que se entendia por entidade patronal: «a
Neste ponto, cabe aludir a regras específicas de protecção dos menores, pessoa, individ.ual ou colectiva, de direito privado, titular de uma empresa
das mulheres, de trabalhadores com capacidade de trabalho reduzida ou de que tenha, habitualmente, trabalhadores ao seu serviço». Era uma defini-
trabalhadores-estudantes I. ção legal desajustada, mas que pode servir para explicar a figura, até por-
Tendo em conta as situações factuais, muitas outras distinções se que suscitava diversas dúvidas. Das críticas a esta noção pode-se chegar
poderiam tentar, como, por exemplo, em função da antiguidade, que pode ao conceito de empregador.
ter repercussões em termos de retribuição - diuturnidades (art. 250.°, n.o 2,
alínea bJ, do CT) -, de reforma, etc. , II. Nos termos da mencionada definição legal parece incontestável
Todas estas classificações têm interesse para contrariar o postulado que o ~mpregador possa ser uma pessoa individual ou colectiva, pois, no
da existência de uma categoria unitária de trabalhador. Não obstante ao; domfmo da relação laboral. diferentemente do que ocorre quanto ao
óbvias dificuldades de delimitação em situações de fronteira, as classifica- trabalhador, não há qualquer norma que só tenha sentido na eventualidade
ções têm utilidade para explicar as diferenças de regime, que necessaria- de o beneficiário da actividade ser pessoa singular, excepção feita. talvez.
mente existem. com respeito ao contrato de trabalho em que predomina a relação pessoal.
como o de serviço doméstico l .

I Nos tennos do disposto no ano 2.°. n.OS I e 2. do Decreto·Lei n.o 235/92. de 24 de


Outubro. detenninando·se que é para satisfazer necessidades de um agregado familiar (n. o
I efr. BF.RNARDO XAVIER. Curso. cit.. pp. 317 s. I) e que o regime deste diploma se aplica. com as necessárias adaptações. à prestação das
134 Direito do Trabalho Capíllllo II - Situaçt10 Jurídica Laboral 135

Em princIpIo, o empregador será uma única pessoa (singular ou emprego a uma funcionária para o seu consultório t • Na realidade, na legis-
colectiva), mas pode o contrato de trabalho ser celebrado por várias pes- lação laboral, por via de regra, estão em causa situações em que a entidade
soas na qualidade de empregador com um trabalhador t - distinto do patronal é entendida como uma empresa 2, mas nada obsta à existência de
pluriemprego, em que um trabalhador tem vários contratos de trabalho empregadores não compreendidos na noção de empresa (vd. illfra alínea c).
com distintos empregadores -, tendo em vista, principalmente no caso de Da definição legal infere-se ainda que o empregador tem de ter, habi-
pequenas empresas. a partilha das tarefas do trabalhador, que não pode- tualmente. trabalhadores ao seu serviço. Põe-se, então, o problema de
riam ser aproveitadas por todos os empregadores a tempo integral. Assim, saber se não é empregador quem tiver, esporadicamente, trabalhadores ao
por exemplo, um técnico de informática pode prestar trabalho, de forma seu serviço. A prestação de trabalho esporádico é frequente no domínio
indiferenciada e simultaneamente, a várias empresas segundo diferentes rural, em particular para a realização de tarefas sazonais. O termo «habi-
modelos contratuais, entre os quais mediante um contrato de trabalho com tualmente» está desajustado, pois pode haver empregadores que só contra-
os diferentes beneficiários da actividade, recebendo ordens de todos; um tem trabalhadores por determinados períodos, sem que isso obste à sua
exemplo frequente de pluralidade de empregadores verifica-se em activi- qualificação como entidade patronal.
dades liberais, nomeadamente quando vários médicos contratam uma Por último, na definição constante do preceito em causa fala-se em
secretária para trabalhar no consultório que partilham. Havendo plurali- «trabalhadores», no plural, mas não é necessário que se tenha mais de um
dade de empregadores além de se aplicarem as regras de direito das obri- trabalhador ao seu serviço para se ser considerado entidade patronal, pois
gações sobre pluralidade de devedores e de credores, em particular o dis- o empregador pode ter um só trabalhador.
posto nos arts. 512. 0 e ss. do CC, há que atender ao regime instituído no
art. 92. 0 do CT, sobre pluralidade de empregadores.
Em segundo lugar, nos termos do preceito em causa, só serão empre- b) Terminologia
gadores pessoas de direito privado. No entanto, por vezes, as pessoas
colectivas de direito público, para além de terem ao seu serviço funcioná- I. Na legislação precedente utilizava-se a expressão «entidade patro-
rios públicos, em detenninados casos, podem celebrar contratos de traba- nal», terminologia muito vulgarizada, mas que nem sempre é usada pela
lho regulados pelo direito privado. Deste modo, as normas de direito do mais recente doutrina. Entidade patronal deriva do termo «patrão», ao qual
trabalho aplicam-se às entidades patronais de direito privado, bem como se acrescenta um vocábulo que significa individualidade; ou seja, em ter-
às de direito público, desde que estas ajustem contratos de trabalho nos mos literais, equivale a «individualidade que é patrão», o que, do ponto de
termos comuns. vista linguístico, não tem muito sentido, até porque se está a substituir uma
Afirma-se igualmente que o empregador tem de ser titular de uma palavra «patrão» por uma locução dela derivada. Assim, a expressão «enti-
empresa2 • Todavia, há empregadores que não são uma empresa, como a dade patronal», para além de ter a sua razão de ser ligada à relação de tra-
dona de casa que contrata uma empregada doméstica, ou o médico que dá balho de tipo comunitário-pessoal, corresponde a um junção de palavras

mesmas actividades a pessoas colectivas de fins não lucrativos (n. o 2), é de entender que,
que, Iinguisticamente, encerra um significado pouco consentâne03•

salvo a extensão do n.O 2 do art. 2.·, o empregador terá de ser uma pessoa singular. Neste I Diversamente. COlTflNHO OE ABREU, Da Empresarialidade. As Empresas fiO
sentido, cfr. CARLOS ALEGRE, Contrato de Serviço Doméstico, Lisboa, 1994, anot. 6 ao art. Direito. Coimbra, 1996, p. 106, considera o escritório do protissionalliberal como uma
2.·, p. 19. empresa laboral, apesar de não qualificar o escritório, o consultório ou o estúdio de um
I Sobre os agrupamentos de empregadores no Direito francês. veja·se o Code du profissional liberal como uma empresa (COtmNHO OE ABREU. Curso de Direito Comer·
Tral'ail. arts. 127-1 a 127-8, assim como JAVILlIER. Droil du Tramil, 7." cd., Paris, 1999. eial. Vol. I, Coimbra. 1998, p. 22).
pp. 199ss. 2 A própria expressão «entidade patronal» aponta no sentido de se tratar de uma
2 Também no Brasil, na Consolidaçào das leis do Trabalho, define-se o emprega· empresa.
dor como sendo a empresa, cfr. ORLANDO GOMESlELsoN GOlTSCHALK. Direito do Traba· J BERNARDO XAVIER. Curso. cit.. p. 307. salienta que entidade patronal é uma desig·
lho. cit.. p. 89. nação paternalista. cada vez menos usada.
136 Direito c/o TmlJUlIw CapEmlo 1/ - Situação Jurídica l..lIboml 137

II. Também se usavam outras expressões, como entidade emprega- Não obstante a preferência legislativa pelo tenno empregador. muitas
dora, dador de trabalho e empregador. vezes para evitar repetições. utilizar-se-á, em sinonímia, a expressão enti-
A locução «entidade empregadora», utilizada, por exemplo, na Lei dade patronal.
n.o 65/77, de 26 de Agosto (Lei da Greve) e no Decreto-Lei n.o 398/83, de
2 de Novembro (Suspensão ou redução da prestação de tmbalho - la)'-
-off>, à imagem de entidade patronal, implicava uma desnecessária junção c) F.mpresa
de palavras com um significado pouco expressivo, razão pela qual não tem
sido muito usada '. Como se referiu anteriormente (alínea a) deste número). o emprega-
Dador de trabalho corresponde à tradução das expressões italiana dor. independentemente de ser uma pessoa singular ou colectiva. é nonnal-
(datare di lal'Oru)2 e alemã (Arbeilgeber)3. Esta locução, utilizada por mente entendido como uma empresa. No Código do Trabalho associa-se
alguma doutrina4 , legislaçãoS e também jurisprudência6 , apresenta-se normalmente o empregador ao titular da empresa. assentando no pressu-
como algo equívoca, pois, em português, «dador de trabalho» tanto pode posto - que nem sempre se verifica - de os contratos de trabalho sujei-
ser entendido como o que presta o trabalho (trabalhador)7. como aquele tos ao regime comum pressuporem um empregador que é simultaneamente
que admite trabalhadores ao seu serviço. empresário.
Empregador é um termo que tem tido alguma aceitação por parte da Recorre-se à noção de empresa para resolver um problema concreto:
doutrina portuguesaS e brasileira9 • Advém. essencialmente. da tradução do o da configuração do empregador. que não era solucionado pela tradi-
francês (employellr) e do inglês (employer). A utilização deste termo não cional contraposição entre pessoas singulares e colectivas. Era necessário
era muito frequente em Portugal, não constando, inclusive, da maioria dos ultrapassar o paradigma do contrato de trabalho baseado na perspectiva
dicionários, mas o seu uso tem-se generalizado. O Código do Trabalho. comunitário-pessoal. entre duas pessoas singulares (patrão e trabalhador),
quebrando com a flutuação terminológica. optou pelo termo «empre- e pôr em pé de igualdade as situações jurídicas advenientes de relações
gador». jurídicas laborais. independentemente de o empregador ser uma pessoa
singular~)U colectiva l .

I Segundo MimA VEIGA. Uçiks. cit.. p. 335. «a ellpressão entidade empregadora (... )
não parece ser fórmula mais feliz».
2 Cfr. PAPALIiONI in MAZZONI. Dirillo JeILo,·oro. cit.• pp. 343 SS.; PERA. Compendio
Bibliografia:
di Dirillu dei Lmwo, 3.' cd.• Milão. 1996. p. I.
3 Cfr. RIOIARDI, Münchener Kummenttlr. di .. § 29. anot. I ss .• pp. 401 SS.; SOLlNER, MENEZES CORDEIRO, Manual, cit., pp. 115 a 118; MONTEIRO FERNANDES,
Arbeitsrechls. CII .. pp. 24 SS. Direito do Trabalho, cit.. pp. 239 a 250; Lufs MIGUEL MONTEIRO, anotação ao an.
4 Crr. MONTEIRO FERNANDES. Direito do Trabalho, cit., p. 58, p. 291 e passim. 92.° do cr, in ROMANO MARTINEZlLufs MIGUEL MONTEIRO/JOANA VASCONCELOS/
5 Por ellcmplo, no revogado art. 1.', n.· 2. do Decreto-Lei n."I440/91. de 14 de /MADEIRA DE BRITO/GUtLHERME DRAy/GONÇALVES DA SILVA, C6digo do Trabalho
Novembro. relativo ao trabalho no domicflio e art. 3.°. n.o 3. do Decreto-Lei n.o 252194. Anotado, cit., pp. 223 a 227; MÁRIO PINTO/FURTADO MARTlNslNUNES DE CAR-
de 20 de Outubro. sobre a protecção jurídica dos programas de computador. VALHO, Comentário, cit.. anot. 11.2 ao an. 1.0, pp. 23 e 24; MÁRIO PtI'ITO. Direito
6 Crr. Ac. STJ de 9/111\994. CJ (STJ) 1994. T. III. p. 287.
do Trabalho, cit., pp. 113 a 116; MOITA VEIGA, lições, cit., pp. 334 a 339;
7 Como refere MOITA VEIGA, UÇtJes. cit.. p. 335, «quem dá trabalho é o
BERNARDO XAVIER. Curso. cit., pp. 307 a 315.
lrabalhador».
8 Cfr. MENf.:ll:S CORDEIRO. Manual. cit.. pp. 115 ss.; MONTEIRO FERNANDES. Direito
do Tmbalho. cit .• pp. 239 5S.; MÁRIO PINTo/FURTADO MARTINs/NUNES DE CARVAUIO,
Comentário. cit.. mUlt. 11.2 ao art. 1.0, p. 23. Preconizando, antes o uso da ellpressão «enti-
dade palronal,.. cfr. MOITA VEIGA, Lições. cil., pp. 334 ss.• upl.:sar de considerar que «peca
por certo arcaísmo .. c «evoca ainda um "paternalismo". hoje fora de moda .. (p. 335).
Q efr. ORtANOO GoMEslELsoN Gun~nIALK. Direito do Trabalho. cit .• pp. H9 ss. I Quanto ao conceito de empresa. veja-se infra § 17.
138 Direito do Trabalho Capítlllo /I - Sitllaçdo Juríelica Laboral 139

4. Sujeitos das relações colectivas de trabalho Não obstante a consagração constitucional e a extensa regulamenta-
.: ~ '.
ção constante do Código do Trabalho e, em especial, da legislação com-
Os sujeitos das relações colectivas de trabalho são as associações plementar (nrts, 327.° a 365.° da LECT), na prática. as comissões de
sindicais e as associações de empregadores. podendo. em certos casos. trabalhadores têm um papel francamente reduzido; são muito poucas as
estas últimas ser substituídas pelos próprios empregadores. E com um empresas no País onde se constituíram comissões de trabalhadores. e
campo de aplicação mais restrito importa atender às comissões de traba- mesmo assim. existindo. não têm as funções que inicialmente se pretendi~
lhadores e aos conselhos de empresa europeus. Apesar de limitação de quando, em 1976. o legislador lhes atribuiu foros constitucionais.
poderes destas últimas, na sequência adoptada pelo Código do Trabalho Depois de alguma incerteza no âmbito da legislação precedente. no
(art. 451.°) - que acompanha a sistematização da Constituição - inicia- Código do Trabalho ficou esclarecido que as comissões de trabalhadores
se a referencia aos sujeitos colectivos pelas comissões de trabalhadores. têm personalidade jurídica (art_ 462,°, n,o I. do CT), sendo-Ihes atribuída
capacidade para o exercício de direitos e obrigações necessários ou con-
venientes para a prossecução dos seus fins (art. 462.°. n.o 2, do CT).
a) Comissões de trabalhadores

As comissões de trabalhadores foram criadac; depois da Revolução de b) Conselhos de empresa europeus


1974, como alternativa ou para complementar a actividade sindical I , e
encontram previsão no art. 54.° da CRP. Deste artigo retira-se que é direito Depois de a Directiva 94/95/CEE, de 22/4/1994. ter instituído os
dos prestadores de trabalho subordinado constituírem comissões de traba- conselhos de empresa europeus. por via da transposição para a ordem
lhadores, com vista à defesa dos seus interesses e à intervenção democrá- jurídica ponuguesa desta directriz pela Lei n.O 40/99. de 9 de Junho, foram
tica na vida da empresa2 • constituídos em Portugal os designados conselhos de empresa europeus 2•
As comissões de trabalhadores começaram por ser reguladas na Lei Poder-se-ia admitir que estaria aberta a via para a reestruturação das
n.o 46/79, de 12 de Setembro, a Lei das Comissões de Trabalhadores, comissões de trabalhadores. todavia. como resulta do Código do Trabalho.
encontrando-se hoje a sua disciplina nos arts. 461.° e ss. do cr e arts. subsistem as duas entidades. com finalidades, por vezes. concorrentes.
327.° e ss. da LECf, onde se estabelecem regras quanto à constituição e Os conselhos de empresa europeus vê'm regulados nos arts. 471.° a
respectivas atribuições. As comissões de trabalhadores são constituídas 474.° do CT. mas, atendendo ao ponnenor de regulamentação da directriz
pelos trabalhadores de uma empresa e as suas atribuições respeitam.
essencialmente. à infonnação sobre a vida da empresa e à fiscalização da direito de participação na elaboração de legislação de trabalho e dos planos económico-
sociais que contemplem o respectivo sector ou região.
sua actividade (art. 463.° do CT e art' 354.° da LECT)3.
,
I Sobre esta questão. efr. BERNARDO XA VII:R. «As Recentes Intervenções dos Tmba-
I A....WNIO Jos" MOREIRA. Compênelio eI~ LJis de Tmbalho. 10." ed•• Coimbm. 2002.
p. 195. em nota à revogada Lei das Comissões de Trabalhadores. afirma que estão a cair
cm desuso. havendo cerca de 400 cm tooo o país. ME....'EZES CORDEIRO. Manllal, ci\.. p. 122.
Ihadores nas Empresas». eit.• pp. 35 ss. afirma que, em 1976. sendo a situuç'Jo político-social diversa da de 1974n5. as comissões
2 Acerca das comissões de tmbalhadon::>. "c/. G~RARO DI:SSI'-IGNE. L 'Émlution c/u de tmbalhadon::> (omm consagmdas na Constituição com um relevo (ormal. que não
Comité d'Entreprise, Paris. 1995 e MAURlCE CmIEN.LJ Droit de.t Comités d'Entreprise & corresponde aos poderes efeclivamente reconhecidos. MOI'.'TEIRO FERNANDES. Direito elo
eles Comités de Grollpe, 6." ed.. Paris, 2000. A criação de comissões de tmbalhadores no Trabalho. cil.. p. 698. afirmava quc os esquemas dualistas - sindicatos e !.'Omissões de
seio das empresas não corresponde a uma originalidllde do sistema português. nem da con- trJbalhadores - em razão da dificuldade de articulação. estão em vias de desapareci-
cep;ào política que ,'ingou após a Revolução de 1tJ74. pois no regime nacional-socialista mento. porém. na nova edição. p. 643. considem que o direito comunitário. pela Directiva
constituímm-se conselhos de tmbalhadores. que se ocupavam de questões labomis dentro 94f45fCEE. de 22/411994, veio dar relevo à representação unitária de tmbalhadores da
da empresa, e esta prática continuou a ser seguida na Alemanha depois da guerra. empresa.
3 Pam além disso. ainda se fala, apesar de a sua relevância prática ser insignificante. 2 Vd. JORGE LEITEfLIBERAI. FERNANDES/LEAl. AMAnoIJoÃo RF1S. Conselhos de
se mio nula, no direito de intcrvir na n..'organi7.3Ção das unidades produtivlL'; e no Empresa EI/rtlpell.f. Lisboll. 1996.
140 Direito do Trabalho Capitulo 1/ - Situação Jurfdica lAborai 141

"
mencionada, que se mantinha na Lei n.O 40/99. no art. 474.° do Cf remete- o Segundo. os sindicatos têm de ser associações de carácter perma-
-se para legislação complementar, que são os arts. 365.° a 395.° da LECf. nente; não se admitem, pois, associações ocasionais a integrar a noção de
sindicato. Se os trabalhadores se associarem num determinado momento.
com vista a uma acidental defesa dos seus interesses profissionais, não
c) Associações sindicais constituem um sindicato.
Terceiro, os associados têm de ser necessariamente trabalhadores.
I. Nas relações colectivas de trabalho, em termos históricos, os sin- Para este efeito, tendo em conta a noção constante do art. 10.° do CT,
dicatos têm precedência sobre as organizações de empregadores. O termo trabalhador é aquele que presta a sua actividade a outra pessoa sob direc-
sindicato deriva da palavra grega «syndikos», que significava defensor, ção desta. Por isso. só podem estar filiados em sindicatos trabalhadores
mas que terá sido introduzido no nosso léxico por adaptação do termo subordinados.
francês «syndicat». Quarto, o sindicato prossegue uma finalidade específica: a promoção
As associações sindicais encontram a sua previsão nos arts. 55.° e e defesa dos interesses sócioprofissionais dos associados. entre os quais se
56.° da CRP e. depois de reguladas no Decreto-Lei n.o 215-B/75, de 30 de destaca a negociação de convenções colectivas de trabalho e a condução
Abril, a chamada Lei Sindical - diploma que, sendo de 1975, anterior à de lutas colectivas, em particular a greve. Para além disso, há ainda a
Constituição, assentava em pressupostos que, entretanto, perderam vali- referir a intervenção dos sindicatos nas decisões políticas, tanto por via da
dade, a respectiva regulamentação surge nos arts. 475.° e ss. do Cf. concertação social. como pela participação (consultiva) na elaboração de
Como resulta do n.o 2 do art. 475.° do Cf, a expressão «associação legislação de trabalho.
sindical» engloba o sindicato (associação de base), a união (com suporte
regional), a federação (de base profissional) e a confederação geral (de âm- III. Os sindicatos são pessoas colectivas de tipo associativo e de
bito nacional), sendo, por conseguinte, mais abrangente do que o termo sin- Direito Privado, nos termos dos arts. 157.° e ss. e. em especial, arts. 167.°
dicato l • não obstante, às vezes, por simplificação, se usarem em sinonímia. e ss. do CCI.
Poder-se-ia considerar o sindicato como uma pessoa colectiva de
II. Sindicato. nos termos do art. 476.°, alínea a), do CT, é a «associa- Direito Público, tendo em conta, por um lado, a intervenção estadual, em
ção permanente de trabalhadores para a defesa e promoção dos seus especial na sua constituição e, por outro, o facto de participarem na elabo-
interesses sócioprofissionais». ração de convenções colectivas de trabalho, de onde constam normas
Analisando a noção legal de sindicato dela retiram-se quatro conclu- jurídicas2• Como o art. 483.°, n.o I, do CT prescreve que «As associações
sões. sindicais adquirem personalidade jurídica pelo registo dos seus estatutos
Primeiro, o sindicato é uma associação de pessoas à qual se aplicam no Ministério responsável pela área laboral», é por via estadual que os
as regras gerais do Código Civil (arts. 157.° e ss., em particular arts. 167.° sindicatos adquirem personalidade jurídica. Mas desta situação não se
e ss.), como dispõe o art. 482.° do CT. com as excepções tfevistas nomea- pode concluir que o sindicato seja uma pessoa colectiva de direito público.
damente nos arts. 483.°,484. 0 e 485.° do CT, bem como com a ressalva da As associações previstas nos arts. 167.° e ss. do CC, para terem
inconstitucionalidade determinada quanto à aplicação dos arts. 162.°,2." personalidade jurídica, também deverão preencher os requisitos constantes
parte e 175.°, n.os 2, 3 e 4, do CC às associações sindicais2 • desses preceitos, designadamente, têm de ser constituídas perante notário
(art. 168.° do CC). O facto de se constituir uma associação perante notário
I Como refere MONTEIRO FERNANDES, Direito do Trabalho, cit.• p. 667, «O sindicato
é uma espécie dentro do género associação sindical».
2 Cfr. Acórdãos do Tribunal Constitucional n.·s 64/88, 159/88 e 449/91, respec- I Crr. MENEZES CORDEIRO. Manual. cit.. pp. 119 S.; MÁRIO PINTO, Direito do
tivamente de 18 de Abril de 1988. de 1 de Agosto de 1988 e de 16 de Janeiro de 1992. Trabalho, cit.. p. 197.
Veja-se também VASCO LoBO XAVIERlBERNAROO Looo XAVIER, «Inaplicabilidade do 2 Sobre esle segundo aspecto, dr. MENEZES CORDEIRO, Manual. cit., p. 120; MON-
Código Civil às AssocíaçõcsSindicais», RDES XXX (1988). n.o 3, pp. 305 55. TEIRO FERNANDES. Direito do Trabalho, cit., pp. 664 s.
142 Direilo do Trabalho Capítulo /I - Sitllllrdtl JurldiCCl Laboral 143

não a transfonna numa pessoa colectiva de direito público. Do mesmo As comissões sindicais e as comissões intersindicais encontram-se
modo. o art. 483. 0. n. ° I. do cr não confere às associações sindicais carác- definidas no art. 476.°, respectivamente. alíneas.n e g). do cr. e nelas lê-
tcr público. -se:.n «Comissão sindical de empresa: organização dos delegados sindicais
Apesar de aos sindicatos ter sido atribuído o poder de celebrar con- do mesmo sindicato na empresa ou estabelecimento»; g) «Comissão inter-
venções colectivas. não é razão para qualificar as associações sindicais sindical de empresa: organização dos delegados das comissões sindicais
como entidades públicas. pois não lhes foi conferido qualquer poder Icgis- de empresa de uma confederação. desde que abranjam no mínimo cinco
lativo. mas tão-só a possibilidade de, por via convencional. impor regras delegados sindicais. ou de todas as comissões sindicais da empresa ou
em detenninadas relações laborais'. estabelecimento» I.
Acresce um outro argumento no sentido de os sindicatos deverem ser As funções dos delegados sindicais. das comissões sindicais e das
qualificados como associações de direito privado. Atento o princípio de comissões intersindicais são. essencialmente. duas: prestar infonnações aos
liberdade sindical, os trabalhadores têm liberdade de iniciativa quanto à trabalhadores e ao respectivo sindicato de que fazem parte; fiscalizar a
constituição de associações sindicais (art. 55.°. n.o 2. alínea a). da CRP e actividade empresarial. no que respeita ao cumprimento das regras de
arts. 475.°. n.o I. e 479.° do cr). tendo os sindicatos liberdade de se asso- trabalho. São. pois, finalidades muito específicas.
ciarem em uniões. federações e confederações (art. 55.°. n.o 5. da CRP). Em relação a estas entidades põe-se o problema da sua personalidade
não havendo obrigatoriedade por parte dos indivíduos (trabalhadores) de jurídica. Perante a omissão da lei. tendo em conta que lhes são conferidas
se filiarem em sindicatos. como se infere do art. 55.°. n. ° 2. alínea b). da certas atribuições que não correspondem à actividade individual dos seus
CRP e do art. 479.° do CT. A liberdade não existe só no que respeita à membros e considerando que há uma actividade colectiva, talvez se
constituição, mas também em relação à organização e regulamentação pudesse admitir a existência de personalidade jurídica. Mas a atribuição de
interna das associações sindicais (art. 55.°. n.o 2. alínea c). da CRP e arts. personalidade às comissões sindicais e comissões intersindicais é, sem
480.° e ss. do cr) e ainda quanto ao exercício das suas funções, em parti- dúvida. controversa, até porque, quando. por não haver comissão. o dele-
cular. as associações sindicais têm a liberdade de negociar. nos tennos que gado sindical actua individualmente. não se lhe atribui tal personalidade
entenderem. dentro dos pressupostos legais. as convenções colectivas de autónoma. Parece mais curial considerar que os delegados sindicais. as
trabalho (art. 56.° da CRP). comissões sindicais e as comissões intersindicais são meros representantes
A liberdade - de constituição. de adesão e de exercício da sua dos sindicatos dentro das empresas 2 •
actividade - confonna-se com os princípios de direito privado e não com
os de direito público. pelo que os sindicatos devem ser considerados como
associações de direito privado. Importa ainda referir que. no art. 267.°. n.o d) Associações de empregadores
4. da CRP. se contrapõem as associações sindicais às associações públicas
para efeito de delimitação do âmbito de competências.
, I. A matéria referente às associações de empregadores foi inicial-
mente regulada no Decreto-Lei n.o 215-CI75, de 30 de Abril (Lei das
Associações Patronais)3, e surge. hoje. nos arts. 506.° e ss. do cr. No art.
IV. Segundo os arts. 496.° e ss. do cr. cabe aos delegados sindicais.
506.°. n.O I. do cr dispõe-se: «Os empregadores têm o direito de consti-
comissões sindicais e comissões intersindicais o exercício da actividade sin-
dical na empresa. nos tennos previstos no art. 55.°. n.O 2. alínea d). da CRP2. I Cabe à comissão intersindical convocar o plenário de trabalhadores se. na empresa.
os trabalhadores estão filiados em distintos sindicatos. Ac. ReI. Lx. de 19/311997, CJ
I Cfr. MENEZES CORDFJRO. Malll4Gl. cit.• p. 120. XXII. T. II. p. 164.
2 Sobre os conflitos sociais que se seguiram à Revolução de 1974 e a inte....·ençào 2 Neste sentido, MO/Io"IClRO FERNANDES, Direito do Trabalho. cit.. p. 674.
dos lrabalhadores nas empresas. com alusão às «conquistas». «lutas». «vitórias». etc. dos 3 ('orno refere MOmERO FER.'õANOF.5. Dirf'Íto l/ti rrabtlllw, cit .• p. 678. ,,0 orde-
lrabalhadores. cfr. BERNARDO XAVIER ... As Rccenles Intervenções dos Tmbalhadores nas namento jurídico ponuguês mostra·se considem\'c1mente lacónico na cobenura do a.~so·
Empresas». Separata ROA. Lisboa. 1975. pp. 1455. Quanto ao poder sindical nas cmpre- ciativismo patronal». não lhe fazendo referência na Constituição e sendo a Lei da., AliSO-
sa~. ,·d. autor e ob. cit. pp. 19 SS. ciações Patronais muito menos circunstanciada que II Lei Sindical.
144 Direito do Trabalho Capfrulo /I - Situação Jurídica Laboral 145

tuir associações para a defesa e promoção dos seus interesses empresa-


riais». Há, pois, a possibilidade de vários empregadores se associarem
para a defesa e promoção de interesses empresariais.
.. III. Quanto à qualificação jurídica, as associações de empregadores
devem entender-se como pessoas colectivas de direito privado, de base
associativa. nos tennos dos arts. 167.° e 55. do CC, pelas mesmas razões
Empregador é aquele que contrate um ou mais trabalhadores, me- invocadas a propósito dos sindicatos.
diante a celebração de contrato de trabalho (vd. supra § 5.3) e a associação Tal como acontece em relação às associações sindicais, nos arts.
de empregadores corresponde, tendencialmente, a um agrupamento de 513.° e ss. do cr também se estabelecem excepções às regras gerais do
empresários que são empregadores. Das associações de empregadores só Código Civil relativas à constituição de associações.
podem fazer parte entidades privadas (art. 508.°, alínea a), do Cf); o
empregador, que se agrupa numa associação de empregadores, tem de ser IV. No que respeita à celebração de convenções colectivas de traba-
uma entidade de direito privado e entidades de direito público, que sejam lho e demais instrumentos negociais de regulamentação colectiva do traba-
empregadores, não se podem filiar nestas associações. lho, como corolário da personalidade jurídica das associações de emprega-
dores, bem como das uniões, federações e confederações (art. 513.°, n. o I,
II. Do disposto nos n. OS 2 e 3 do art. 506.° do CT retira-se que as do Cf), têm capacidade para celebrar convenções colectivas de trabalho
associações de empregadores se podem agrupar em uniões (de base (art. 510. o, n. ° I, alínea a), do CT); mas, em detenninadas circunstâncias,
regional), federdções (do mesmo ramo de actividade) e confederações (de têm igualmente capacidade negocial os próprios empregadores (art. 540.°,
âmbito nacional). n.o I, do Cf).
Na medida em que o Código do Trabalho, tal como a legislação Por conseguinte, do lado dos empregadores, a capacidade negocial
precedente, assenta no pressuposto de o empregador ser uma empresa, foi conferida, tanto às associações de empregadores, como aos próprios
levanta-se a dúvida quanto a saber se só as empresas poderiam constituir empregadores; mas, por parte dos trabalhadores, a capacidade negocial s6
associações de empregadores, delas ficando excluído todo o empregador é reconhecida às associações sindicais.
que não fosse empresa. Esta dúvida tem particular pertinência na medida
em que na alínea a) do art. 508.° do cr se indica que na associação de
empregadores se associam «pessoas ( ... ) titulares de uma empresa». Tal Bibliografia:
conclusão não parece admissível, porque nada parece obstar a que um
empregador, que não constitua uma empresa, se possa filiar numa detenni- MENEZES CORDEIRO, Manual, cit •• pp. 118 a 123; MONTEIRO FERNANDES,
nada associação de empregadores para defesa os seus interesses. Por Direito do Trabalho, cit., pp. 643 a 697; ANDRADE MESQUITA, Direito do
exemplo, um agricultor com trabalhadores ao seu serviço pode não consti- Trabalho, cit., pp. 107 e 55.; MARIO PINTO, Direito do Trabalho, cit., pp. 179 a
tuir necessariamente uma empresa, mas é-lhe facultada a sua inscrição 262; GONÇALVES DA SILVA, anotação aos art5. 451. 0 e 55. e ROMANO MARTINEZ,
anotação aos arts. 506. e ss. in ROMANO MARTINEZlLufs MIGUEl. MONTEIRo/JOANA
0
numa associação de empregadores, de que a Confederação de Agricultores
V ASCONCELos/MADEIRA DE BRITO/GUILHERME DRA y/GONÇAL VES DA SILVA,
de Portugal (CAP) representa a associação a nível nacional'
Código do Trabalho Anotado, cit.. pp. 735 e 55. e pp. 795 e SS.; M01TA VEIGA,
Em suma, não parece que esteja vedada a empregadores, não enqua- Lições, cit.. pp. 147 a 216; BERNARDO XAVIER, Curso, cit., pp. 115 a 152, 197 a
dráveis no conceito de empresa, a sua filiação em associações de empre- 200 e 218 a 231.
gadores. É evidente que, na maioria dos casos, são empresas que se agru-
pam nas associações de empregadores, mas isso não obsta a que delas
também façam parte outros empregadores, que não são empresas. Acresce
que nas associações de empregadores, nos termos do disposto no art. 523. 0
do CT, podem associar-se empresários que não empreguem trabalhadores.
Deste modo, nas associações de empregadores filiam-se empregadores -
sejam ou não empresas - e empresários sem trabalhadores.
,.

I § 6.°
I
I Trabalho Subordinado

I. Para se estar perante uma situação jurídica laboral é necessário que


a actividade seja desenvolvida de forma subordinada, pelo que. se o
trabalhador desempenhar uma actividade independente, não há contrato de
trabalho. Como se depreende do disposto no art. 10.° do cr. a actividade
tem de ser prestada sob a autoridade e direcção do empregador.

II. A existência de uma subordinação jurídica é imprescindível e vale.


não só no domínio do contrato de trabalho. mas também das relações
colectivas de trabalho; só há contrato de trabalho se a actividade for desen-
volvida de forma subordinada e. da mesma forma. as relações colectivas
de trabalho. designadamente as convenções colectivas de trabalho. só se
estabelecem relativamente ao trabalho subordinado. O critério da subor-
dinação, como elemento integrador do contrato de trabalho. é válido. tanto
na ordem jurídica portuguesa. como em sistemas jurídicos estrangeiros.

III. A subordinação pode ser entendida em dois sentidos.


Em primeiro lugar. na subordinação económica, melhor designada
por dependência económica. entende-se que o trabalhador necessita da
remuneração para sustentar a sua fanulia, pois esse é o seu único ou
• primordial meio de subsistência I. Este critério sócio-económico encara a
relação laboral numa perspectiva subjectivista e esteve na base do apare-
cimento do direito do trabalho; de facto. as regras de direito do trabalho
tiveram a sua origem relacionada com motivos de protecção da parte eco-
nomicamente mais fraca (o trabalhador).
No art. 13.°. parte final. do CT diz-se. concretamente. que «( ... ) o
trabalhador deva considerar-se na dependência económica do beneficiário

I err. MO/OURO FERNANDES. IJirrif() do Trabalho. cál .• p. 134.


Diráto da TrullCllho Capítulo 11- Situação Jurídica Laboral 149
148
--------------------
da actividade» I. Trata-se de um entendimento que não deve ser tido em do dono da marcenaria (empregador)l. No fundo. a ideia de alienar o tra-
conta para efeitos de Direito do trabalho. porque para o trabalho subor- balho corresponde ao que. no direito romano. se entendia por locação de
dinado interessa apenas a dependência jurídica. A dependência económica actividade; alguém punha à disposição de outrem a sua força de trabalho.
existirá. eventualmente, com respeito a um trabalhador independente. que mediante uma remuneração.
pode encontrar-se na dependência económica daquele para quem trabalha;
mas não se está perante uma típica situação jurídica laboral 2• Deste modo. VI. O dever de obediência encontra várias referências na lei. em
no designado trabalho para-subordinad03. por apresentar. do ponto de vista particular no Código do Trabalho. Assim. no art. 121.°. n.O I. alínea d). do
económico e social. afinidades com a relação laboral. pode justificar-se a CT diz-se que «O trabalhador deve cumprir as ordens e instruções do em-
aplicação de normas de direito do trabalho. como a Lei dos Aci~entes de pregador em tudo o que respeite à execução e disciplina do trabalho ( ... )>>;
Trabalho (art. 2.° da LAT) ou de regimes similares aos estabelecidos para ... ..
:~::
no art. 150.° do CTt sob a epígrafe «Poder de direcção» refere-se que
o contrato de trabalho, por exemplo contratos equiparados (art. I r do CD· «Compete ao empregador ( ... ) fixar os termos em que deve ser prestado o
No segundo sentido, a subordinação será entendida como dependên- trabalho»; e no art. 121.°. n.O 2, do CT estabelece-se que «O dever de
cia jurídica, significando que o trabalhador executa uma actividade sob a obediência (... ) respeita tanto às ordens e instruções dadas directamente
autoridade e a direcção do empregador. Isto implica que o trabalhador pelo empregador como às emanadas dos superiores hierárquicos do traba-
receba instruções e ordens. bem como esteja sujeito ao poder disciplinar lhador. dentro dos poderes que por aquele lhes forem atribuídos».
do empregador. Neste sentido. estar-se-á perante a subordinação em sen- O dever de obediência está relacionado, por um lado, com a genera-
tido técnico-jurídico. em que prevalece uma perspectiva objectivista. lidade e a falta de concretização da actividade laboraJ2, bem como. por
outro, com a mútua colaboração, que é própria da relação laboraJ3. No art.
IV. A subordinação técnico-jurídica pode ser entendida num sentido 119. ° do CT encontra-se estabelecido o princípio da boa fé. O dever de
amplo. abrangendo três realidades: a alienabilidade; o dever de obediên- obediência. na estrutura da relação laboral. tal como foi concebido na lei,
cia; e a sujeição ao poder disciplinar do empregador. Estas duas últimas faz parte do princípio da boa fé. Deste princípio resulta igualmente o dever
(dever de obediência e sujeição ao poder disciplinar) correspondem à subor- de o trabalhador obedecer ao empregador.
dinação em sentido restrito, que se pode traduzir pela sujeição laboral. A obediência significa uma obrigatoriedade de acatar as ordens emi-
tidas pelo empregador, mas não pressupõe uma emissão permanente de
V. A alienabilidade significa que o trabalhador exerce uma actividade comandos; para haver subordinação jurídica basta que o trabalhador esteja
para outrem. alienando a sua força de trabalho; o trabalhador põe à dispo- na disponibilidade de receber ordens4•
sição de outra pessoa a sua actividade, sem assumir os riscos4 • Assim. os
resultados dessa actividade entram. desde logo. na esfera jurídica do em- I Daí que. nos termos do aIt. 14.°. n.O 3. do Código do Direito de Autor e dos Direi·
tos Cunexos. se presuma que o direito de autor de obra realizada pelo trabalhador penença
pregador. Por exemplo. se um trabalhador de uma marcenaria está adstrito ao empregador (~·d. infra § 24.9).
a fazer cadeiras. como ele alienou a sua actividade, quer didr que as cadei- 2 Crr. LuIs MIGUEl. MO~RO. «Da Vontade Contratual na Configuração da Presta·
ras que tiver realizado são. em qualquer fase da sua execução, propriedade ção de Trabalho... RDES. 1990. 1/4. pp. 283 55 .. em especial pp. 287 s.; BERNARDO XA·
VIER. Curso. cit.. p. 289.
À concretização da actividade laboral chama MENEZES COROORO. Manual. cit.• pp.
125 e 127. hetero-determinação. A este propósito. MONTEIRO FERNANDES. Direito do Tra·
I Importa esclarecer que o aIt. 13.° do cr alude a contratos equiparados ao contrato balho. cit.• pp. 123 s .• alude a um estado de dependência potencial (estar à disposição do
de trabalho. como seja o trabalho no domicflio (cfr. infra § 14.). empregador).
2 err. MarrA VEIGA. Lições. cit.. p. 26. 3 Crr. MÁRJO P1r-'TOIFURTADO MARTINs/NUNES DE CARVALHO. Comentdrio. cit..

3 Crr. NtcOUNI. Manuak di Dirino dd La\'UrCJ. cit .• pp. 64 55. anoto 11.4 ao aIt. 20.°. p. 91.
4 crr. ALONSO OUlA/CASAS BAAMONDF.. Derecho dei Trabajo. cit.. p. 29; MONTaVA " erro MONTEIRO FERNANDES ... Sobre o Objecto do Direito do Trabalho ... Temas
MEL.GAR. D~ucho dei Trabajo. cil .• pp. 37 s. Laborais. Coimbra. 1984. pp. 41 sS.
150 Direito do Trabalho Capítulo 1/ - Situação Jurídica Laboral 151
---------------------------------------------------
o dever de obediência é a contrapartida do poder de direcção confe- dade de o empregador aplicar sanções disciplinares ao trabalhador inadim-
rido ao empregudor. O poder de direcção e o correspondente dever de obe- plente. Daí que o poder disciplinar se inclua no Capítulo referente ao
diência têm limites, tal como se infere da 2." parte da alínea d) do n.O 1 do incumprimento do contrato de trabalho: é um poder conferido ao empre-
art. 121.° do CT e do art. 374.°, n.o I, alínea b), do CT. Não há um direito gador perante o incumprimento por parte do trabalhador de obrigações
ilimitado de o empregador dar ordens, tendo o trabalhador direito à deso- emergentes do contrato de trabalho.
bediência legítima'. Quanto aos limites. uns são de ordem genérica, resul- O poder disciplinar é uma consequência do poder de direcção. Como
tando da lei (art. 374.°, n. ° I, alínea b), do CT) e das convenções colectivas a entidade patronal pode emitir detenninadas ordens e há o dever de
de trabalho onde se detennina como deve o poder de direcção ser exercido, obediência em relação às mesmas, se estas não forem respeitadas pelo tra-
e outros são específicos, constando de cada contrato de trabalho. tendo em balhador, a entidade patronal tem a possibilidade de o punir. Mas o poder
conta as particularidades da relação laboral em concreto. Mesmo que os disciplinar existe não só em caso de desrespeito de ordens. como também
limites não tenham sido estipulados no contrato de trabalho ou não resul- na hipótese de incumprimento de regras contratuais e legais, relativas à
tem directamente das regras gerais, podem ser determinados em função relação laboral, que vigoram na empresa.
das particularidades daquela relação de trabalho e da própria actividade À imagem do que ocorre com o poder de direcção, o poder de punir
que é realizada. pois o dever de obediência pode ser maior ou menor aten- também tem limites, sendo abusivas as sanções aplicadas em contrariedade
dendo a circunstâncias várias (cfr. supra § 5.2). aos parâmetros legais (cfr., entre outros, arts. 367.°,368.° e 374.° do CT).
Do que se lê no art. 121. 0 , n. ° 2, do CT, infere-se que o poder de direc-
ção pode ser exercido não só pelo empregador, mas também por outros tra- VIII. Os três elementos indicados (alienabilidade, dever de obediên-
balhadores. Na realidade, com alguma frequência, as empresas encontram- cia e sujeição ao poder disciplinar) pennitem distinguir o trabalho subor-
-se estruturadas hierarquicamente, e aqueles que ocupam os postos cimei- dinado do trabalho independente.
ros, que também são trabalhadores, dão ordens aos inferiores hierárquicos; De facto, numa situação de trabalho autónomo, o prestador de serviço
por isso, estes últimos estão sujeitos ao dever de obediência em relação a não aliena a sua actividade; ele trabalha por sua conta, e poderá, se assim
outros trabalhadores. estiver acordado, alienar o resultado do seu trabalho. Por exemplo, um
marceneiro. se é trabalhador autónomo. faz a cadeira por sua conta e, de-
VII. Em terceiro lugar, a subordinação é representada pela sujeição pois, aliena-a; se é trabalhador subordinado, alienou a sua actividade, faz
ao poder disciplinar do empregador. O poder disciplinar está previsto nos a cadeira por conta do empregador, a qual, desde que começou a ser feita
arts. 365. 0 e ss. do cr e, destes preceitos. depreende-se que este poder é até estar pronta. foi sempre propriedade do empregador'. Nesta sequência.
inerente à relação laboral. fazendo parte do contrato de trabalho. O traba- o art. 3.°, n.o 3 do Decreto-Lei n.o 252/94, de 20 de Outubro, sobre a pro-
lhador tem de sujeitar-se às sanções que o empregador entenda aplicar. tecção de programas de computador, estabelece que se o programa de
sempre que viole deveres impostos pela relação laboral. computador foi criado por um trabalhador no ex.ercício das suas funções,
No Código do Trabalho (arts. 365.° e SS. e arts. 411.1 e ss.), o poder pertencem ao empregador os direitos relativos ao programa realizado; em
disciplinar é visto na sua faceta punitiva, apresentando-se como a facul-

I Sobre esta questão. cfr. infra § 27.1 (Poder de direcção). assim como DIAS COIM- I É evidente qoc. no domínio do contrato de empreitada. se a obra. por exemplo a
ORA. «Desobediência do Trabalhador no Quadro da Imlzoabilidade do Incumprimento do cadeira, foi construída com materiais fornecidos pelo dono da obm. estes «continuam a ser
Empregador. Quanto a Determinada Inovação Tecnológica». Temas de Direito do propriedade dele. assim como é propriedade sua a coisa logo que seja concluída» (ar!.
Trabalho. Coimbra. II)')(). pp. 405 ss.; MO!'íTEIRO FFJtNANDES. Direito do Trabalho. cil .• 1212.·. n.· I. do CC). Crr. ROMANO MARn ...'EZ. Direito das Obrigaçiks (Parte Especial).
pp. 135 s.; DtAS Looo. Responsabilidade Objectim do EmpreRador por Inncti"ülade Contratos. 2.· cd .• Coimbra. 2001. p. 443. Toda\·ia. apesar dc.'Sta semelhança. o emprei-
Temporária del'ie/o a Perigo de UJão ei \'iciel e SllIície cio Trabclilull/or. Coimbra. 1985: teiro. diferentemente do trabalhador, mesmo quando os materiuis são fornecidos pelo dono
MÁRIO P1NToIFURI'AtX) MARTINS/NUNES DE CARVALlIO. Comentário. cit.• anol. 11.4 ao ano da obm. suporta o risco d., actividade (cfr. art. 1227.· do CC. ,·d. ROMANO MARTINEZ.
20.°. p. 91. Veja.se I<lmbém o Ac. ReI. Cb. de 18/10/1990. CJ XV (1990). T. V. p. 89. Obrigap;es. cit .. p. 451 l. pelo que nào aliena o trabalho. ma., II l\.'Sultado.
152 Direito do TraIH,1I1O

sentido diverso veja-se, porém. o disposto no art. 14.°. n. OS I e 2. com a


ressalva do n. ° 3, do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos.
O trabalhador autónomo não está sujeito a um dever de obediência.
não recebe ordens do beneficiário da actividade. o qual se limita, no mo-
mento da celebração do contrato, a dar indicações quanto ao resultado a
obter. Por último, o trabalhador autónomo não está sujeito ao poder disci-
plinar, podendo, em caso de incumprimento dos deveres contratuais, ser- § 7.°
-lhe exigida uma indemnização com base em responsabilidade civil. Retribuição

Bibliograrla: I. Os tennos retribuição. remuneração. salário. ordenado. "enci-


mento. etc. são sinónimos; utiliza-se. de preferência, a palavra retribuição,
MENEZES CORDEIRO. Manual. cit.. pp. 125 a 127; MOf'lTEIRO FERNANDES. de acordo com a tenninologia legal (arts. 249.° e ss. do Cf)l.
Direito do Trabalho. cit., pp. 131 a 136; MÁRIO PlNToIFuRTADO MARTINs/NUNES A retribuição é a prestação que deve ser efectuada pelo empregador
DE CARVALHO. Comentário. cit., anal. 11.4 ao art. 20.°. pp. 91 e 92; MOTTA VEIGA. ao trabalhador, como contrapartida da actividade por este desenvolvida.
Lições, cit .• pp. 23 a 28; BERNARDO XAVIER, Cllrso, cito pp. 286 a 290. A existência de retribuição é um pressuposto do contrato de trabalho.
como se deduz do disposto no art. 10.° do Cf, ao caracterizar o contrato
de trabalho como «aquele pelo qual uma pessoa se obriga. mediante
retribuição». Além disso, no art. 120.°. alínea b), do cr
considera-se que
um dos deveres do empregador é o de pagar pontualmente a retribuição.
Nesta sequência. nos arts. 249.° e ss. do CT inicia-se um capítulo sob a
epígrafe «Retribuição e outras atribuições patrimoniais».

II. Assim sendo, o contrato de trabalho c1assificar-se-á como um negó-


cio jurídico oneroso e sinalagmático.
O contrato de trabalho é sinalagmático, porque a remuneração fun-
ciona como contrapartida da actividade desenvolvida pelo trabalhador.
mas a natureza sinalagmática deste contrato apresenta particularidades.
Primeiro, na relação entre a prestação da actividade e o pagamento do
• salário verifica-se que, por um lado, o risco corre por conta do empregador2

I Todavia. a lei usava. por vezes. outra tcnninologia. como seja salário (p. ex .• as
revoglulas I.ei de Bases do Salário Mínimo (Decreto·Lei n. o 69-N87. dc 9 de fevcreirol
e Lei dos Salários cm Atraso (Lei n. o 17/86. de 14 de Junho» e remuneração (art. 86.°
da LCT).
2 O trabalhador. cm tennos factuais. também panicipa no risco. designadamente se
panc do salário fur pago em função de lucros da empresa. bem como na c\'cntualidade de
ocorrer a falência do empregador.
154 Direito do Traballro Cllpitlllo /I - SiJlIllfelo Jllridica Laboral
---------------------------------------------- 155

e, por outro, estabeleceu-se um regime especial quanto à mora no paga- Por isso, a retribuição surge como contrapartida do trabalho. numa
mento da retribuição'. perspectiva sinalagmática, mas há certos factores externos que a condicio-
Segundo, dos arts. 119.° e ss. do cr infere-se da existência de um nam, em especial a política sócio-económica do Estado, na qual tem de se
princípio de boa fé - que esteve consagrado como mútua colaboração (art. ter em conta que o salário corresponde, não raras vezes. à única fonte de
18. ° da LCf), baseado no clássico dever de assistência. Por isso, na alínea rendimento para muitas famílias. Mas a política sócio-económica de um
b) do art. 120.° do cr. a retribuição não é vista verdadeiramente como um governo pode também prosseguir outros objectivos, como, por exemplo, o
preço, determinado pelas regras de mercado. Na remuneração, para além combate à inflação, através de uma contenção salarial.
das regras de mercado, há a ponderar as exigências do bem comum. bem
como a justiça c a sua adequação ao trabalho realizad02• III. Para finalizar. resta referir que a retribuição tem três elementos
Aos critérios de justiça que têm de ser ponderados na remuneração, identificadores'. Primeiro. corresponde. dentro de certos limites, a uma
acresce que o art. 59.°, n. ° I, alínea a), da CRP estabelece vários pressu- contrapartida da actividade prestada. Segundo, terá de ser uma prestação
postos em que a retribuição se baseia: deve ter em conta a quantidade, patrimonial. cm dinheiro ou em bens avaliáveis em dinheiro. mas a remu-
natureza e qualidade do trabalho; deve ser observado o princípio de que neração em bens avaliáveis em dinheiro só pode corresponder a uma par-
para trabalho igual salário igual; deve garantir uma existência condigna ao cela do salário, Terceiro, tem de se apresentar como uma prestação perió-
trabalhador. Seguidamente, o mesmo art. 59.°, n.o 2, alínea aJ, da CRP, dica, a efectuar com regularidade, não sendo retribuição um pagamento
considera como incumbência do Estado estabelecer e actualizar o salário esporádico.
mínimo nacional, para o que se deve ter em conta: as necessidades dos
trabalhadores; o aumento do custo de vida; o nível de desenvolvimento das
forças produtivas; as exigências da estabilidade económica e financeira; e Bibliografia:
a acumulação para o desenvolvimento.
Estas regras constitucionais são completadas, por exemplo, pelo art. MENEZES CORDEIRO, Mmlllal, cit •• pp. 133 a 135: MONTEIRO FERNANDES.
23.°,11.° 3, da Declaração Universal dos Direitos do Homem, pelo art. 7.° Direito do Trabalho, cit., p. 130; MÁRIO Ptmo/FuRTADO MARTINs/NUNES DE
do Pacto sobre Direitos Económicos Sociais e Culturais e pela Convenção CARVALHO. Comentário, cit.. anal. 11.1 e 2 ao ano 19.° e anal. 11.1 ss. ao ano 82.°,
da OIT n.o 131. pp. 87. 88 e 246 a 252; BERNARDO XAVIER, Curso. cil.. pp. 367 a 370.
Há, pois, vários factores que interferem na determinação da retribui-
ção, factores esses condicionados, as mais das vezes. pela política sócio-
-económica.
Não obstante estas considerações. parece indiscutível que, na fixação
do salário, também pesa a lei de mercado; além disso, é preciso ter em
conta que a retribuição do trabalhador não cobre todo o ctAto do factor de
produção trabalho; neste há a ponderar outros custos, como sejam a segu-
rança social, os seguros de trabalho, a higiene e segurança no trabalho.
obras reali7.ada" para conforto dos trabalhadores, etc. 3 .

I Sobre esta questão, dr. infra § 25.7 (Tulela da retribuição).


2 BERNARDO XAVIER, Cllrso, cit., p. 368, alude a que. na contmposição entre o cri·
tério social - salário como rendimento de subsistência - e o critério económico - custo
de produção do factor tmbalho -. o direito do tmbalho dá prevalêncin no primeiro. I err. MÁRIO PINTo/FURTADO MARTINS/NUNES DE CARVAUlO, Comentário. cil.,
3 Crr. BERNARDO XAVIER, Cllrso. cil., p. 369. anol. 11.3 no ano 82.°, pp. 247 sS.
CAPfTULO III

FONTES DO DIREITO DO TRABALHO

I
§ 8.°
Fontes Internas

1. Aspectos gerais

Interessa verificar quais os modos de revelação do direito. em parti-


cular, as fontes das normas de direito do trabalho. De entre os modos de
revelação do direito do trabalho há a ter em conta fontes internas e fontes
externas; distinguindo-se em função da origem, as normas de direito do
trabalho que se aplicam em Portugal, tanto podem ter uma origem nacional
(p. ex., leis e decretos-leis). como internacional (em especial, convenções
internacionais).
Quanto às fontes internas, importa distinguir entre a Constituição.
que tem, neste domínio. um papel relevante, por um lado. e as leis da
Assembleia da República e os decretos-leis do Governo, por outro. Para
além disso, há a aludir ao facto de o costume e de os usos poderem ter
alguma relevância no que respeita à revelação de regras de direito interno.
Importa igualmente fazer menção aos assentos, porque no direito do tra-
balho há uma particularidade neste domínio. não abrangida pela declara-
ção de inconstitucionalidade deste instituto. É ainda de aludir às formas
indirectas de revelação do direito - jurisprudência e doutrina -, mas que
não apresentam qualquer particularidade em sede do direito do trabalho.
• Por último, cabe fazer referência aos instrumentos de regulamentação
colectiva de trabalho. em particular as convenções colectivas de trabalho,
que constituem uma fonte específica, que não encontra paralelo no elenco
de fontes dos restantes ramos de direitol.

I A multiplicidade de fontes não é uma particularidade do sistema jurídico portu-


guês, pois é comum ao direito do trabalho de outros ordenamentos; crr. SERRANO AR-
GOESO, La Teor(a de las Fuentes en el Derecho Individual dei Trabajo. Revisión Cr(tica,
Madrid. 2000. pp. 169 S5.
160 Direito tio Trabalho Capítulo 11/ - Fotltes do Direito do Trabal"o 161
-----------------
2. Constituição conjunto significativo de normas de direito laboral, que, por vezes, se
designa por «Constituição Laboral» I.
I. Da Constituição de 1976, na sequência de outras experiências cons- A alusão à «Constituição Laboral» ou «Constituição do Trabalho»
titucionais estrangeiras, em particular a Constituição Mexicana de 1917 - pode ter interesse para explicar que, no domínio constitucional, há um
que se pode considerar a primeira constituição social - e a Constituição conjunto de normas sobre aspectos laborais, mas é preciso ter em conta
de Alemã de 1919, conhecida pela Constituição de Weimar, constam várias que, ao falar-se em constituição laboral, não se deve particularizar a Cons-
normas que directamente regulam a matéria de direito do trabalho t ; quanto tituiçã02. A Constituição representa um todo e não se podem considerar os
a algumas destas normas, aplicáveis no domínio laboral, pode questionar- artigos da mesma só naquele «bloco», que respeita ao domínio laboral. A
se em que medida se justifica a sua consagração a nível constitucional, ou referência à «Constituição Laboral» como conjunto de normas constitucio-
seja, se o legislador, relativamente a muitos desses preceitos, não deveria nais que disciplinam matéria de direito do trabalho tem interesse, mas as
ter deixado a regulamentação de tais matérias para a lei ordinária2f3. São, normas laborais devem ser entendidas no conjunto mais vasto da Cons-
todavia. considerações de iure condendo, pois da Constituição consta um tituição, na sua globalidade. Deste modo, as regras sobre protecção do
emprego têm de se conciliar, designadamente, com a propriedade privada
e a liberdade de iniciativa privada, em particular no seio da empresa3.

I Relativamente às questões laborais na Constituiçào de 1933, vd. FERNANDA NUNES II. Da Constituição constam direitos fundamentais dos trabalhadores,
AGRlAlMARIA LUIZA PINTO. ContraJo Individual de Trabalho, Coimbra. 1972, pp. 3255.
que visam assegurar condições de vida dignas, sendo, em grande parte,
2 A constitucionalização do direito do trabalho tem-se generalizado também a nível
internacional. cfr., designadamente MONTOY A MELGAR. Derecho dei Trabajo. 22.' ed .•
direitos sociais, apesar de também constarem direitos de participação e
Madrid, 200 I. pp. 85 55., com referências a várias constituições; ASSANTI. Corso di Diritto liberdades4 , Pode assentar-se, pois, no pressuposto de a Constituição asse-
dei Lavoro. 2.' cd., Pádua. 1993. pp. 13 ss.; CmrruRIER, Droit du Tramit. 1.3." ed .• 1996.
pp. 47 s.; SüSSEKIND. ,(OS Princípios do Direito do Trabalho e a Constituição de 1988»,
Fundamentos do Direito do Trabalho, S. Paulo, 2000, pp. 210 55. I Crr. MENEZES CORDEIRO, MUf/l1ll1 de Direito do Trabalho, Coimbra. 1991, p. 138.
A inclusão de regras laborais na Lei Fundamental não é um fenómeno português, Veja-se igualmente JOSE JOÃo ABR,\NTES, ..Os Direitos dos Trabalhadores na Constitui-
(crr. MorrA VElGA, lições de Direito do Trabalho, 8.' cd., Lisboa, 2000, p. 60, que alude 'ião», Direito do Trabalho. Ensaio. Lisboa, 1995, pp. 41 ss. GmlF.S CANOTIUtO. Direito
a uma constitucionalização do direito do trabalho; veja-se igualmente MASCARO NASCI- Constitucional, cit.• p. 340. denomina·a «constituiçào do trabalho ...
MENTO, Curso de Direito do Trabalho. 14." cd., S. Paulo, 1997, p. 35, com referência a 2 GOMES CANOTIUIO, Direito Constiwcional, cit•• pp. 338 S5., aponta para a neces·
várias Constituições das quais consta matéria laboral e o desenvolvido estudo sobre a sidade de concretização constitucional do princípio da democmcia económica e social, em
rUnÇ-dO da Constituição no Direito Laboral de ZOllNERlLoRITZ, Arbeitsrecht, 5." ed., que se inclui a perspectiva laboral. O citado autor (ob. cit., p. 340, nota 20) esclarece que
Munique, 1998, pp. 8955.), mas o desenvolvimento dado a algumas questões, tais como a «constituição do trabalho» não constitui uma realidade autónoma dentro de uma consti-
as comissões de trabalhadores, talvez já constitua uma especificidade do nosso orde- tuição, devendo interpretar-se no conceito global da constituição.
namento. • 3 Sobre a distinção de várias constituições parcelares, ,'d. MENEZES CORDEIRO.
GOMES CANOTIUIO, Direito Constitucional e Teoria da Constituição, 4." cd., Coim- Manual. cit .• pp. 139 s.
bra, 2000. p. 341. afirma que «a Constituiç-do erigiu o "trabalho". os "direitos dos traba- "Crr. JosÉ JOÃo ABRANTES. Cotllrat de Tramil ('I Droils Fondametlla/Lf, Frankfun.
lhadores" e a "intervenção democrática dos trabalhadores" em elemento constitutivo da 2000. pp. 127 ss.; JOÃo C."UPERS. OS Direitos Fundametllais dos Trabalhadores e a Cons-
própria ordem constitucional global e em instrumento privilegiado de realização do princí- tituição, Coimbra, 1985, p. 108. Como refere o mesmo autor, ob. cit., pp. 11855., os direi-
pio da democracia económica e social». Como refere JORGE MIRANDA, Manual de Direito tos fundamentais dos trabalhadores existem independentemente da sua consagração cons-
Constitucional, T. IV. Direitos Fundamentais, 2." ed., Coimbra, 1993, pp, 82 s., o constitu- titucional, podendo ainda discutir-se se todos os direitos dos tnabalhadores consagrados na
cionalismo consiste na garantia progressiva dos direitos daqueles que carecem de protec- Constituição são fundamentais. Quanto aos direitos fundamentais não constantes da Cons-
ção, seja homem, cidadão ou trabalhador. tituição, o autor (ob. cit., p. 136), a título exemplificativo. cita o direito à indemnização cm
3 Uma crítica idêntica, mas mais incisiva. pode ver-se em BERNAROO XAVIER, caso de acidente de trabalho e o direito à não redução da retribuição. Sobre esta questão,
«A Matriz Constitucional do Direito do Trabalho", III Congresso Nacional de Direito do aludindo a direitos fundamentais atípicos. cCr. JORGE BACELAR GoUVFJA, Os Direitos
Trabalho. Memória.t. Coimbra. 2001. pp. 103 s. Fundametllais Atípicos, Lisboa. 1995. em particular, pp. 67 S5. c 313 55.
162 Direito do Trabalho Capítl/lo III - FO/ltes do Direíto cio Trabalho 163

gumr direitos subjectivos aos trabalhadores, muitas das vezes, indepen- m. De entre as normas constitucionais interessam, em particular, as
dentemente da existência de uma típica relação laboral. regras que disciplinam questões laborais e que se aplicam directamente no
Das normas da Constituição importa fazer uma distinção entre aque- domínio do direito do trabalho. Quanto a estes preceitos constitucionais,
las que regulam matérias laborais, daquelas outras que, não obstante faze- tendo em conta o que é indicado pelos estudiosos de direito constitucional,
rem referência a trabalho ou trabalhadores, não têm directamente aplicação pode fazer-se uma distinção entre normas programáticas e preceptivas ou.
no domínio laboral, isto é, no âmbito do designado trabalho subordinado. dito de outro modo, entre normas que carecem de uma conformação poste-
Por vezes, a Constituição usa os termos «trabalhadores» ou «traba- rior e normas que valem independentemente de qualquer concretização l .
lho» sem estarem em causa, directamente, questões laborais, mas sim Numa outra perspectiva, atendendo à sistematização do texto consti-
aspectos económicos. Por exemplo, no art. 83.°, n.O l, da CRP (versão de tucional, há que distinguir as normas laborais que se integram nos direitos,
1976) falava-se nas «conquistas irreversíveis das classes trabalhadoras», liberdades e garantias (Título II), daquelas outras que estão incluídas entre
0
referência sem implicações no âmbito do direito do trabalho l . No art. 80. , os direitos e deveres económicos, sociais e culturais (Título III), vulgar-
alínea]), da CRP (versão de 1992) aludia-se à «Intervenção democrática mente designados por direitos sociais dos trabalhadores 2. No primeiro
dos trabalhadores»2 e no art. 82.°, n.o 4, alínea e), da CRP (versão actual) grupo incluem-se os arts. 47.° e 53.° a 57.° da CRp3 e, no segundo grupo,
faz-se referência a «meios de produção objecto de explomção colectiva em especial. os arts. 58. 0 e 59. 0 da CRP.
por trabalhadores». Nestes casos, também os trabalhadores são mencio-
nados tendo em conta aspectos económicos e não no domínio laboral. Da IV. Como normas programáticas da Constituição Laboral cabe refe-
mesma forma, no art. 93.°, n.O I, alínea b), da CRP (versão actual), em que rir, em primeiro lugar, o art. 58.° (Direito ao trabalho), em cujo n.o 1 se lê:
se fala de «promover a melhoria da situação económica, social e cultural «Todos têm direito ao trabalho». Trata-se de uma norma programática4 ,
dos trabalhadores rurais», o termo «trabalhadores» é usado numa perspec-
tiva sócio-económica. I Cfr. VIEIRA DE ANDRADE. Os Direitos FU/ldamemais na Constituição Portu8ue.~a
Os exemplos referidos estão relacionados com a política económica, de /976. Coimbm. 1983. pp. 254 ss. Veja.se também MANUEL AFONSO VAZ. «O Enqua-
e, não obstante a Constituição, em alguns artigos, fazer alusão a trabalha- dmmento Jurídico-Constitucional dos "Direitos Económicos, Sociais e Cuhurdis"». Juris
dores, tais normas não regulam aspectos de direito do trabalho. et de Jure. Nos Vime Anos da Faculdade de Direito da Uni"ersidade Católica Portuguesa
- Porto, Porto. 1998. pp. 436 55 .• que alude a esta distinção também no conte~to dos
Noutro plano, algumas referências constitucionais ao trabalho são
direitos sociais.
feitas em sentido amplo, como actividade, ainda que exercida de modo GOMES CANOTIUlO. Direito Constitucional, cit, pp. 464 ss .• alude a quatro modelos
autónomo. Assim, quando se prescreve a liberdade de escolha da profissão de positivação de direitos sociais. onde inclui as normas progmmáticas. as normas de orga-
ou género de trabalho (art. 47.°, n.O 1, da CRP) oU o direito ao trabalho nização. as garantias institucionais e os direitos subjectivos públicos. concluindo que são
(art. 58.°, n.o 1, da CRP) abrange-se tanto o trabalho subordinado como o autênticos direitos subjectivos. O mesmo autor (ob. cil., pp. 1140 s.) acaba por concluir no
trabalho independente, e este último não se inclui no direito do trabalho. sentido da "morte" das normas constitucionais programáticas. admitindo tão-só a existên·
I cia de normas-progmma, que têm eficácia vinculativa.
2 Sobre esta distinção. cfr. JORGE MIRANDA. Direito Constitucional. T. IV, cit. pp.
92 ss.
I Refim-se, a prop6silo, o comentário de SOARES MARTINEZ ao art. 83.°. n.o I, da J Como referem GoMES CANOTlUIONITAL MOREIRA. FI/ndamentos da Constituição.
CRP (versão de 1976). Comentdrio.f à Cm~ftit/liçã() Portugue.m de /976. Lisboa. 1978. p. Coimbm. 1991, pp. III S., há uma Irilogia dos direilos.libcrdades e gamnlins, entre os que
137: «A "irreversibilidade" contmria abertamente as conquistas das ciências físicas. os fomm conferidos às pessoas, ao cidadão e ao tmbalhador e os arts. 53.° a 57.° da CRP
ensinamentos da história e as modernas correntes sociológicas. Não parece. pois. curial integmm-sc na categoria de direilos do tmbnlhndor; sendo curioso. como referem os
que os textos legislativos e, por maioria de razão. os de nível constitucional. afirmem o mesmos autores (ob. e loc. cit), que quase todos são direitos colectivos ou direitos de
carácler definiti\'o ou irreversível. seja do que fono. organização de trabalhadores c não direilos individuais.
2 Corresponde. na revisão de 1997. à «Participação das organizaçõt..-s representativas 4 VIEIRA DE ANDRADE. Os Direitos Fundamemais. cit .• p. 205. é de opinião que as
dos Imbalhadores ( ... ) na definição das principais medidas económicas e sociais» (an. 80.°, «normas que prevêem direilos. liben1ndes e gamntias são normas prcccptivas,.. porque
alínea g). da CRP). conferem um verdadeiro poder de exigir de outrem. pelo menos do F..stado. um comporta·
1
I
164 Dirt'ito do Trabalho Capítulo //I - Fontes llo Direito llo Trabalho 165
-------------------------
porque apesar de na Constituição se afirmar que todos têm direito ao tra- Em segundo lugar, na sequência de normas programática cabe fazer
balho. não significa que todos tenham um contrato de trabalho. na medida alusão ao art. 59. 0 da CRP (Direitos dos trabalhadores). Neste preceito
em que. para além de haver desempregados (involuntários e voluntários). encontram-se duas normas de aplicação mediata I.
há quem opte por trabalhar por conta própria l . Em qualquer caso, não há Primeiro, na alínea a), o direito «(à retribuição do trabalho, segundo a
o direito de exigir de outrem uma ocupação remunerada. quantidade, natureza e qualidade, observando-se o princípio de que para
Esta nonna programática está ainda relacionada com outras regras trabalho igual salário igual, de forma a garantir uma existência condigna».
constantes do mesmo preceito. Há alguma correlação. por exemplo, com O dever de pagar a retribuição não é programático, nem sequer a obrigação
o n. o 2, alínea a), onde se fala de «pleno emprego»2, com o n. O 2, alínea de o salário ser fixado em função da quantidade, natureza e qualidade
b), que alude à «igualdade de oportunidades na escolha de profissão» e carece de qualquer conformação, mas a obrigação de garantir uma exis-
com o n. o 2, alínea c), quando trata da ((formação cultural. técnica e profis- tência condigna é programática. A entidade patronal tem de pagar o salário
sional dos trabalhadores»3. mínimo estabelecido por lei. mas não lhe cabe determinar qual é o mínimo
Depara-se. assim, no art. 58. 0 da CRP com várias normas programáti- que garante a existência condigna - até porque se trata de um conceito
cas que têm aplicação no domínio laboral 4 . indeterminado, de difícil concretização -; tal dever não impende directa-
mente sobre o empregador2•
mento. o problema está em saber qual seria o componamento concreto que o desempre· Quanto ao princípio da igualdade da remuneração há aspectos de
gado poderia exigir ao Estado. Tendo isso em conta, VIEIRA DE ANDRADE, Os Direitos aplicação directa (cfr. §§ 16.2.a) e 25.1), que implicam o seu carácter
Fundamelllais, cit., p. 206, quanto aos direitos fundamentais sociais. considera que contêm
preceptiv03/4 •
dircctrizes para o legislador, não conferindo aos seus titulares verdadeiros poderes de
exigir, mas conclui que não são, apesar disso, normas programáticas, no sentido de decla· ao determinar que não havia obrigação de trabalhar por parte daqueles que sofressem de
matórias, pois têm força jurídica e vinculam efectivamente o Estado. Sobre o carácter sub- diminuição em razão da idade, de doença ou de invalide7_ Neste último caso, o problema
jectivo dos direitos sociais. ~·d. VIEIRA DE ANDRADE. Os Direitos Fundamelllais. cit .. pp. podia estar em conexão com o regime dos acidentes de trabalho. NUNES DE CARVALIIO.
208 s. e GOMES CANOTILHO. Direito Constitucional. cit .. p. 466. «Ainda sobre a Crise do Direito do Trabalho». 1/ Congresso Nacional de Direito do
I É claro que o termo «lrabalhadol'lO. neste preceito Constitucional. é usado num Trabalho, Coimbra. 1999, p. 51. afirma que o desapareeimento do dever dc trabalhar «( ... )
sentido amplo. abrangendo, ao lado da relação laboral. as situações de trabalho autónomo. estará ( ... ) na crise do modelo laboral herdado dos "trinta anos gloriosos" e que a Cons·
2 JOÃO CAUPERS. Os Direitos Fundamentais. cit .• p. 127. afirma que um cidadão não tituição pretendeu garantil'lO.
se pode dirigir ao tribunal, pedindo a condenação do Estado a executar uma política de I Considerando igualmente o art. 58.0 da CRP. bem como algumas disposições do
pleno emprego. O Governo tem posto em prática uma política de combate ao desemprego, art. 59. 0 da CRP, como normas programáticas, cfr. JOSE JOAO ABRANTES. «Os Direitos dos
mediante incentivos à contratação de jo\'ens à procura do primeiro emprego e de Trabalhadores na Constituição». cit, p. 53.
desempregados de longa duração; veja·se MÁRIO PINTO, «Garantia de Emprego e Crise 2 A este propósito pode transcrever-se o comentário 2. ao ar\. 53.' CRP (versão de
Económica. Contributo Ensaístico para um novo Conceito», Direito e Justiça III 1976) de SOARES MARTINEZ. Comemários à Constituição Portuguesa de /976. cit.. p. 82:
(1987/88), pp. 141 55. «É evidente a relatividade do conceito de "existência condigna" a que o artigo 53. 0 se
3 JOÃO CAUPERS. Os Direitos Fu"dallletltais, cit., pp. 110 s., con,dera que o direito refere. A base material indispensável à dignidade da existência está sujeita a constantes
ao trabalho apresenta duas perspt:ctivas, consoanle o cidadão tem ou procura emprego; no fluluações. E a garantia daquela dignidade não depende apenas do nível de vida material».
primeiro caso, o direito ao trabalho consubstancia·se através da regra de segurança no 3 Cabe relembrar a parábola do trabalhador da vinha (Mateus 20. 1-16), que. apesar
emprego, designadamente pela proibição de despedimentos sem justa causa; no segundo de ter trabalhado menos· horas, recebia, tal como os outros que haviam trabalhado o dia
caso, o direito ao trabalho passa pela concretização de políticas de emprego e pelo paga· tooo. um denário; a mensagem que Cristo, com esta parábola, pretende tran.çmitir nào
mento de subsídios de desemprego. MÁRIO PINTO. Direito do Trabalho, Lisboa. 1996, pp. assenta nos mesmos parâmetros em que se funda a igualdade na relação laboral.
134 s .• entende que o direito ao trabalho compreende quatro momentos distintos: direito a " Sobre este lema há vários estudos, ,·d. nomeadamente Júuo GoMES, «Algumas
um rendimento mínimo; direito a um posto de trabalho (autónomo ou subordinado, Reflexões sobre o Ónus da Prova em Matéria de Paridade de Tratamento Retributivo ("a
privado ou público); estabilidade no emprego; estabilidade no concreto posto de trabalho. Trabulho Igual Salário Igual")>>. I Congresso Nacioml! ele Direito do trabalho. Memórias.
" Na segunda parte do n.' 2 do art. 58,0 da CRP (revogado na reforma de 1997) Coimbra, 1998, pp. 311 ss. e ABíuo NETO, «Conteúdo e Alcance do Princípio Constituo
constava uma norma não programática. mas que, para além de consagrnr o dever de tra' ciorml "pam Tnlbalho Igual Salário Igual"»,1 Congresso Nacional de Direito do Trabalho.
balhar inseparável do direito ao trabalho. se relacionava com o regime da segumnça social. Ml'I1uírias, Coimbra, 1998, pp. 369 S5.
Capítulo 111- Fontes do Direito do Trabalho 167
166 Direito do Trabalho
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Segundo, na alínea b), quando se estabelece o direito «à organização


fi: V. Com respeito às normas preceptivas no domínio laboral é de
~!~
do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a , ''$I', referir que a inclusão de alguma delas na Constituição está, de certa foma,
realização pessoal», estabeleceu-se uma norma que não vincula directa- 11~r relacionada com o período revolucionário. O legislador. em 1976, preten-
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mente os empregadores 1. ,~.. deu atribuir um estatuto constitucional a vários aspectos que, em princípio,
O incumprimento destas normas programáticas acarreta a responsa- deveriam ter sido deixados para leis ordinárias, como, por exemplo, a
bilidade política do Estado. Não se pode exigir aos empregadores emprego, questão relativa às comissões de trabalhadores, às associações sindicais,
nem retribuição que corresponda à existência condigna, etc., até porque os etc., podendo, por isso, questionar-se se constituem direitos fundamentais
direitos dos trabalhadores consagrados na Constituição, nem sempre pres- em sentido material. De facto, a matéria constante dos arts. 54.°, 55.° e
supõem a existência de um correspondente dever por pane dos emprega- 56. ° da CRP, em toda a sua extensão, não tem dignidade constitucional,
dores; ou seja, principalmente no caso de normas programáticas não há uma mas encontrando-se na Constituição, há que lhe fazer referência a esse
relação sinalagmática decorrente de direitos constitucionais dos trabalha- nível.
dores2. O incumprimento de tais normas conduz a uma responsabilidade As normas preceptivas que se referem a matéria laboral respeitam
do Estado, em princípio, só no campo polític03. tanto às relações individuais de trabalho como às relações colectivas'.
Refira-se ainda que estes direitos fundamentais, enunciados na Cons- Quanto às relações individuais de trabalho, importa, em primeiro
tituição em normas programáticas, «(... ) são direitos em que o tempo e o lugar, mencionar o art. 53.° da CRP, que trata do direito à segurança no
modo de realização depende da evolução da própria sociedade»4. emprego e da proibição de despedimento sem justa causa, nem por moti-
vos políticos ou ideológicos2 • Seguidamente, a protecção das condições de
trabalho vem estabelecida no art. 59.° da CRP. No n.o I, alínea c), deste
preceito estabelece-se o direito à «prestação de trabalho em condições de
1 Sobre esta questão, JOÃo CAUPERS, Os Direitos Fundamentais, cit., p. 144, afinna:
higiene, segurança e saúde» e no mesmo número, na alínea d), consagra-
«Não parece haver dúvidas que o trabalhador não teria êxito se interpusesse nos tribunais -se o direito ao repouso, descanso semanal e férias, reiterado no n. o 2, alí-
de trabalho uma ac~ão com o pedido de condenação da entidade patronal a organizar o nea d). Para além disso, no n. o 1, alínea d) e no n. O 2, alínea b), o direito
trabalho em tais condições e ainda que explicitasse quais eram, em sua opinião, estas». ao limite máximo de uma jornada de trabalho. No n. o I, alínea e). encontra-
2 Crr. GOMES CANarlLHO, Direito Constitucional, cit., pp. 518 s., que esclarece -se referência ao direito à assistêncía material em situações de desemprego
acerca da inexistência de correspectividade estrita entre direitos fundamentais e deveres
e na alíneaj) do mesmo n. o I impõe-se a justa reparação em caso de aci-
fundamentais. Como explica o autor (ob. e loc. cit.), a vinculação das entidades privadas
(art. 18.°, n.o I, da CRP) apenas detennina a eficácia dos direitos constitucionais na ordem
dente de trabalho. Por último, no n.o 2, alínea a), faz-se alusão ao direito
jurídica privada e vigora. neste domínio, um princípio de assinalagmaticidade ou de assi- a um salário mínimo actualizad03 •
metria entre direitos deveres.
3 Eventualmente poder-se-ia pensar na via da inconstitucionalidade por omissão 1 MONTEIRO FERNANDES, Direito do Trabalho, 11.' ed., Coimbra, 1999, p. 65, indica
(art. 283.° da CRP). por não terem sido tomadas as medidas legislativ'f necessárias para «que o grande peso regulamentar da CRP se faz sobretudo na área do chamado Direito
tomar exigíveis estas nonnas constitucionais. Para além disso, atendendo ao princípio do Colectivo», justificando que, como a área do direito individual de trabalho, no período
não retrocesso social, GOMES CANonLHO, Direito Constitucional, cit., pp. 332 ss., consi- corporativo, havia evoluído no sentido dos sistemas europeus, não era necessário que na
dera inconstitucional uma nonna que viole a protecção da confiança e da segurança dos Constituição se consagrassem transfonnações cruciais; diversamente, o sistema de
trabalhadores. Cfr. também VIEIRA DE ANDRADIl, Os Direitos Fundamentais na Constitui· relaçõcs colectivas do período corporativo não se coadunava com os novos postulados,
ção, cit., pp. 206 s. c JORGE MIRANDA «Regime Específico dos Direitos Económicos, sendo relevante a transformação operada (ou ratificada) por via constitucional.
Sociais e Culturais», Estudos em Homenagem ao Professor João Lumbrales, Coimbra, 2 A tutela do emprego é um dos pontos basilares em que assenta o ordenamento

2000, pp. 357 ss. Porém, VIEIRA DE ANDRADE (ob. cit., p. 201), entende que certas regras português, à imagem do que ocorre noutras ordens jurídicas da Europa Ocidental, mas nem
constitucionais correspondem a fins políticos de reali:z.1Ção gradual ou a direitos «sob sempre com a mesma relevância.
reserva do possível». Sobre a inconstitucionalidade de normas que violem o direito à segurança no
4 MANUEL AFONSO VAZ, «O Enquadramento Jurídico-Constitucional dos "Direitos emprego, vd. Ae. TC n.o 162/95, de 28/3/1995, BMJ 446 (Suplemento), p. 615.
Económicos, Sociais e Culturais"», cit., p. 441. 3 Muitas destas regrdS só são exequíveis por mediação de leis ordinárias; por exem-
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168 Direito do Trabalho Capitulo III - Fontes do Direito do Trabalho 169

Para além do art. 59.° da CRP, quanto à protecção das condições de 24.° e ss. da CRP), mais propriamente da liberdade de associação (art. 46.°
trabalho, há ainda a ter em conta o art. 68.°, n.O 3, da CRP, que c?nfere da CRP)I. Neste caso, a liberdade está relacionada com a sindicalização,
uma especial protecção às mulheres trabalhadoras durante a gravIdez e tanto no que respeita à constituição de sindicatos, como à inscrição. Esta
após o parto. regra já constava do art. 16.° da LS (hoje art. 479.° do CT), mas veio a ser
Do art. 47.°, n.o I, da CRP consta igualmente uma norma preceptiva, precisada e alargada na Constituição. Além da liberdade sindical, o art.
ao estabelecer-se o direito à escolha da profissão ou género de trabalho. 55.° da CRP trata de questões conexas como a não discriminação de
Há como determina o preceito constitucional, liberdade de escolha da trabalhadores. Dos arts. 54.° e 56.° da CRP ainda cabe destacar o direito
p~fisSãO ou do género de trabalho, pelo que ninguém pode ser coa~ido a conferido às comissões de trabalhadores e aos sindicatos de participarem
seguir uma profissão, nem impedido de des~nvol~er uma deten.n~nada na elaboração da legislação do trabalho (arts. 54.°, n.o 4, alínea d). e 56.°,
actividade. Esta norma não tem qualquer partlculandade no dommlO do n. ° 2, alínea a), da CRP), assim como as recentes alterações constitucio-
direito do trabalho; trata-se de um princípio geral de liberdade dos cida- nais no que toca à participação das comissões de trabalhadores e sindicatos
dãos, mas que no n.o I do art. 47.° da CRP respeita também ao direito do nos processos de reestruturação da empresa (arts. 54.°, n.o 5. alínea e), e
trabalho'. 56.°, n.o 2, alínea e), da CRP).
Em segundo lugar, quanto às relações colectivas de trabalho há a ter No art. 56.°, n. OS 3 e 4, da CRP, respeitante ao direito à negociação
em conta vários artigos da Constituiçã02. Primeiro, o art. 54.° da CRP que colectiva, foi atribuído nível constitucional aos instrumentos autónomos
trata do direito à constituição de comissões de trabalhadores, indicando de regulamentação colectiva de trabalh02.
como se constituem, que poderes têm, etc., com uma regulamentação tal- Por último, o art. 57.° da CRP estabelece o direito à greve (no n.o I)
vez demasiadamente pormenorizada. e proíbe o lock-olll (no n.o 4). A consagração constitucional do direito à
Depois, no art. 55.° da CRP consagra-se a liben.lad.e sindical ~ue, no greve justifica-se, pois na Constituição de 1933 estabelecera-se a proibi-
fundo, é um corolário dos direitos, liberdades e garantias pessoais (arts. ção da greve. Como na Constituição anterior se proibia a greve, na actual
Lei Fundamental justifica-se o art. 57. 0, n. ° I, da CRP em sentido contrá-
pIo. o limite máximo da jornada de trabalbo. não sendo concretizado. não é invocável rio, admitindo a greve.
perante o empregador, o mesmo se diga com respeito ao salário mínimo se não ~or estabe- O lock-olll pode ser a reacção dos empregadores relativamente à
lecido por diploma legal. Por isso, JOÃo CAUPERS, Os Direitos Fundamenta.is, .c~., p. 14~.
considera que os direitos sociais dos lrclbalhadores constantes da COnStltulçao só sao
greve e não é permitido. Na l.a República, ao mesmo tempo que se admitiu
direitos subjectivos após mediação do legislador. Neste sentido, VIEIRA DE ANDRADE, Os a greve em 1910, também se permitiu o lock-olll. Tratava-se de uma pers-
Direitos FUlldamentais, cit., p. 198, distingue dois regimes diferentes para os direitos fun- pectiva igualitária, já que os trabalhadores podiam recorrer à greve, os
damentais: aquele cujo conteúdo é essencialmente determinado por opções constitucionais empregadores usariam o lock-olll. Depois, com o Estado Novo, qualquer das
e aquele outro enformado por opções do legislador ordinário. Como ref~re este aut~r (ob: situações foi proibida e hoje permite-se tão-só a greve. mas não o lock-oul.
cit., p. 199), neste último caso, só a intervenção do legislador ~e defimr e concretizar ~s Na revisão constitucional de 1997. acrescentou-se um n.O 3 ao art.
preceitos constitucionais, desenvolvendo «a intenção normaU\'a em ,rmos d~ prodUZir
57.° da CRP, de modo a evitar uma interpretação ampla e desrazoável do
direitos ccl10S e determinados». JORGE MIRANDA, Direito Constitucional. T. IV, Clt, p. 106.
parece assentar em pressuposto diverso, ao considerar que os direitos ~~i~is são direit~s n. ° 2 do mesmo preceito, permitindo que a lei defina as condições de
subjectivos, mas o mesmo autor (ob. cit., pp. 106 s.) relaciona a poSSibilidade de os di· prestação dos serviços mínimos e das actuações necessárias à segurança e
reitos sociais serem invocáveis judicialmente com a existência de legislação concretiza· manutenção do equipamento e instalações.
dora, que não se pode cindir das normas constitucionais.
I Sobre a liberdade de trabalho, ~·d. JORGE MIRANDA. «Liberdade de Trabalho e
Profissão». RDES XXX (1988), n. o 2, pp. 145 SS. e JOÃo PACHECO DE AMORIM, «A Liber· I crr. JORGE MIRANDA, Direito Constitucional. T. IV. cit.. pp. 417 SS.
dade de Profissão», Estudos em Comemoração dos Cinco Anos (/995·2000) da Faculdade 2 Como refere JOÃO CAUPERS, Os Direitos Fundamentais. cit., pp. 105 s .. o direito
de Direito da Unil'ersidade do Porto, Coimbra. 200 I, pp. 595 S5. de contratação colectiva integra várias faculdades de natureza e direcção diversas, como
2 Sobre os direitos colectivos. err. JosÉ JOÃo ABRANTES, ..Os Direitos dos Traba· seja propor. negociar e outorgar convenções colectivas, ter com quem negociar. prevenir·
Ihadores na Constituição», cit .• pp. 49 5S. ·se a frustração das negociaçõcs e haver matéria negocial.
170 Direito do Traballlo Capitulo III - Fontt'.{ do IJ;rt'ilo do Trabtllho 171
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Resta fazer referência ao art. 63.° da CRP, que tl"'dtu da matériu respei- os direitos dos trabalhadores, das comissõcs de trabalhudores e d~IS asso-
tante à segurança social. a qual. indirectamente. mantém um nexo com o ciações sindicais (art. 288,°, alínea e), du CRP), constituindo limites mate-
direito do trabalho. Também relacionado de modo indirecto com questões riuis da revisão',
laborais. há a aludir ao art. 92. da CRP. que prevê a constituição do
0

Conselho Económico e Sociul. VII, Por último, como já foi indicado, importu contrapor us nonnas
laborais que se integrum nos direitos. liherdudes e garantias (Título II).
VI. As normas constitucionais preceptivas a que se aludiu já foram daquelas outras que estão incluídas no Títulu III entre os direitos e deveres
regulamentadas por leis da Assembleia da República e decretos-leis do económicos, sociais e culturais, designudus pur direilos sociais dos traba-
Governo. As nurntas prcceptivas da Constituição encuntram-se assim quase Ihadores 2• Entre as primeiras incluem-se os urts, 47. 0 e 53,° a 57.° da CRP
todas concretizadas em legislação ordinária I , em particular no Código do e, no segundo grupo, em especial, os arts. 58. 0 e 59,0 da CRP; preceitos a
Trabalho. Para além disso, nos termos do art. 18.°, n. " I, da CRP, «Os pre- que se fez alusão nas alíneas precedentes, e que, não obstante a diferente
ceitos constitucionais respeitantes aos direitos, liberdades e garantias são localização sistemática, prescrevem todos eles direitos fundamentuis apli-
directamente aplicáveis e vinculam as entidades públicas e privadas»2; cáveis no domínio laboral. Entre estes direitos fundamentais, independen-
razão pela qual, nas relações laborais, mesmo na falta de legislação ordi- temente da sua localiL'lção sistemática. não se estabelece qualquer hie-
nária. as normas constitucionais que respeitem a direitos, liberdades e rarquia 3,
garantias dos trabalhadores, sendo preceptivas, são aplicáveis às entidades
patrunuis 3. Acresce que as leis de revisão constitucionul terão de respeitar VIII. Os direitos constitucionuis estabelecidos na Constituição (e a
Constituição de 1976 foi pródiga no estabelecimento de direitus cons-
I Pois. \:omo refere VIEIRA DE ANDRADE. Os Direitos Funtlllmenwit. cit.. p. 202. é
ao legislador ordinário que se dirigem as directrizes constitucionais a propósito de alguns
titucionais neste domíniu) têm um interesse particular no direilo do tra-
direitos. Porem. como afirma o n1l.:smu autor (ob. CiL. p. 2(4). há uma vinculação do balho, porque a referencia constitucional levu a que, neste ramo du direito,
legislador ordinário na concretização juridico-interpretativa da Constituição. se tenha de fazer a «ponte» entre a Constituição e as normas de direito
2 Regime. eventualmente. e:\tensh'el a outros direitOl> fund.-ullcntais dos trabalha- privado: é uma forma de relacionar o direito privado com as normas cons-
dores. ainda que consagrados fora do Título II (art. 17. 0 da CRP). titucionais e de levar a que a aplicação das normas de direito do trabalho
3 Sobre esta quest.'o. cfr. Jos!! JoAo AORANTES. Contrat de Tral'ai! et Droits Fonda·
seju vista no plano constitucional, o que curresponde, no fundo, ao recurso
mentau.t. cit.. pp. 59 S5.; VIEIRA DE ANDRADE. Os Direitos Fundamentais. cit.. pp. 253 S5.;
MENEZES CORDEIRO. Manual. cit.. pp. 151 SS.; VASCO PEREIRA DA SILVA, "A Vinculação
frequente a uma interpretação conforme à Constituiçã04 , A interpretação
das Entidades Privada~ pelos Direitos. Liberdades e Garantias ... RDES. XIX (1987). n. o 2. de normas de direito privado num sentidu conforme à Constituição não é
pp. 259 55. A este propósito. JosÉ JoAo AORANTES «Os Direitos dos Trabalhadores na específica do direito do trabalho, pois advém da primazia da Lei Funda-
Constituição... cit.• em especial. pp. 44 s. e "O Contrato de Trnbalho e a Vinculação da~ mentai; mas, no caso concreto, decorre da proliferação de regras constitu-
Entidades Privadas aos Direitos Fundamentais». Direito do Traba/llo. Ensaios. Lisboa. cionais em sede laboral. que lêm de ser aplicadas e da necessidade de
1995. pp. 56 ss .• leva longe demais este princípio. De facto. quand&parece considerar
desenvolvimento deste ramo do direito num sentido conforme à Cons-
«atitude discriminatória e intolemnte. contrária aos princípios objectivos da ordem consti·
tucional e aos direitos da aUlodeterminação no plano polílico» (Iue a entidade patronal
proíba um trnbalhador de usar um emblema de delerminado movimento político dentro da I efr. JORGE MIRANI>A. Direito COf/Stitucimwl. T. IV. cit.. pp. 340 ss .. em »articular.
empresa. est.í a fazer uma interprelllção da~ normas constilucionais. num sentido que elas p.343.
não comportam. além de que tal interpretação colide com a liberdllde de iniciativa privada 2 Sobre esta distinção. dr. JORGE MIRANDA. Direito CotlStitucional. T. IV. cil.. pp.
do empresário; do mesmo autor. mantendo a posição indicada. ver "Controto de Trabalho 92 ss.
e Direitos Fundamentais». /I CongrelSo Nacional de Direito l/O Traballlo. Memórias. 3 Vd. itifra n. o 4.
Coimbra. 1999. pp 113 s. Acerea desta questão. veja-se ainda GoMES CASOTILHO. Direito 4 Acerea desta interpretação. cfr. GoMF.5 CANOnJ.HO. Direito ConstitucilltUlI. cit .•
COIlStilllciOfUl/. cit.• pp. 439 ss .• de onde constam algumas hipóteses (pp. 450 ss.) e DotE. pp. 1265 ss.; MF.NEZES CORDEIRO. Manual. cit.. pp. 154 s. e. com maior desen\'olvimento.
La Uberté d'Opinion et de Conscience en Droit Comparl du "(rm'ai!. Paris. 1997. em RUI MEDEIROS. A Decisdo de Inconstitllciona/itllu/e. Os Amores, o Conteúdo (. OJ Efeitos
particular. pp. 52 SS. da Decisdc) lle Inconstitucionalidade dll Lei. Lisboa. 1999. pp. 289 ss.
Direito do Trabalho 111- FOlltes do Direito do Tralmlho
172
- - - - - - - Capítulo 173

tituição; OU, como já se afinnou, a Constituição, neste domínio, «( ... ) tem regulam questões laborais e são normas que. segundo o art. 165.°, n. o I,
uma importância decisiva na refundação do direito do trabalho e na sua alínea bJ, da CRP, fazem parte da competência relativa da Assembleia da
sistematização» 1. República.
Diferentemente. os arts. 58. 0 e 59. 0 da CRP, inseridos no Título 111.
Capítulo I. da Parte 1. que tem por epígrafe «Direitos e deveres econó-
Bibliografia: micos». não estão no domínio da reserva relativa da Assembleia da Repú-
blica e, por conseguinte, estas matérias podem ser legisladas pelo Governo.
JOSÉ JOÃO ABRANTES, «O Código do Trabalho e a Constituição», Estudos sem autorização do Parlamento. Todavia. não obstante as questões cons-
sobre o Código do Trabalho, Coimbra, 2004, pp. 55 e ss.; JOÃo CAUPERS, Os
tantes dos arts. 47.° e 53.° a 57.° da CRP constituírem reserva relativa de
Direitos Fundamelllais dos Trabalhadores e a Constifllição, Coimbra, 1985; ME-
competência da Assembleia da República. o Parlamento pode autorizar o
NF.7.r:S CORDEIRO, Manua/, cit., pp. 137 a 160; MOJIITEIRO FERNANDES. Direito do
Governo a legislar sobre esses assuntos. mediante uma autorização legis-
Trabalho. cit.. pp. 63 a 66; JORGE MIRANDA, « •.• », Estudos do Instituto de Direito
do Trabalho, Vol. I, Coimbra. 2001, pp.; MÁRIO PINTO. Direito do trabalho. cit.,
lativa l .
pp. 132 a 137; ROSÁRIO PALMA RAMALHO, Direito do Trabalho. I. cit.. pp. 145 e Tendo em conta as disposições da Constituição, tanto o Código do
55.; MOlTA VEIGA, Lições, cit., pp. 78 a 80; BERNARDO XAVIER. Curso, cit., pp. Trabalho como a Legislação Especial foram aprovados por Lei da Assem-
237 e 238 c «A Constituição Portuguesa como fonte do Direito do Trabalho e os bleia da República (Lei n. O 99/2003, de 27 de Agosto e Lei n.o 35/2004,
Direitos Fundamentais dos Trabalhadores», Estudos de Direito do Trabalho em de 29 de Julho).
Homenagem ao Prof Manuel A/onso Ofea. Coimbra. 2004. pp. 163 e ss. As restantes matérias, constantes dos arts. 58.° e 59.° da CRP, são
reguladas directamente pelo Governo. por decreto-lei.

3. Leis ordinál"ia'i 11. Quanto à feitura das leis ordinárias, importa ter em conta algumas
particularidades no direito do trabalho. que advêm da própria Constitui-
I. Em relação às leis ordinárias, há a ter em conta. em especial, as leis ção. concretamente, do art. 54.°, n.o 5. alínea dJ, da CRP. onde se lê: «Cons-
da Assembleia da República e os decretos-leis do Govern02• Quanto às leis tituem direitos das comissões de trabalhadores ( ... ) participar na elabora-
ção da legislação do trabalho ( ... )>>; e do art. 56.°, n.o 2. alínea aJ, da CRP,
0
da Assembleia da República, importa referir que, nos termos do art. 165. ,
n.o 1, alínea bJ, da CRP, é da exclusiva competência da Assembleia da que diz: «Constituem direitos das associações sindicais ( ... ) participar na
República legislar sobre direitos, liberdades e garantias, salvo autorização elaboração da legislação do trabalho».
concedida ao Governo. Não é normal que na elaboração legislativa haja interferência de enti-
Parte das normas da chamada «Constituição Laboral» inserem-se na dades privadas, por isso, a participação das comissões de trabalhadores,
regulamentação constitucional sobre direitos, liberdades e garantias (Parte I, por um lado, e das associações sindicais, por outro, na elaboração das leis
Título II, Capítulo III, que tem por epígrafe «Direitos, libtldades e garan- do trabalho é uma particularidade deste ramo do direito.
tias dos trabalhadores»). Por conseguinte, os arts. 47.° e 53.° a 57.° da CRP Nesta sequência, nos arts. 524.° e ss. do CT regula-se a participação
das organizações de trabalhadores (comissões de trabalhadores e associa-
I BERNARDO XAVIER. «A Matriz Constitucional do Direito do Trabalho». III Con- ções sindicais) e de empregadores na elaboração da legislação do trabalh02.
gre.uo Nacional de Direito do Trabalho. Mem6rias, Coimbra. 2001. pp. 99 s.
2 O an. 12. n. o I. da Ler aludia-se a «nonnas legais de regulamentação do tra-
0

balho» que. em especial. abrangia leis ordinárias. (dr. MONTEIRO FF.RNANDES. Direito do I Sobre ,-'Sta questão. cfr. MANUEL AfONSO V AZ. Lei e Reserva da Lei. Porto, 1992,
TralJalho. cil.. pp. 85 55.), mas '-osta referencia foi suprimida no art. 1. 0 do cr. Nas leis em especial. pp. 291 SS., 294 ss. e 298 55.
o
ordinárias. para além das leis da Assembleia da República e dos decretos-leis do Governo, 2 Na precedente Lei n. 16n9. de 26 de Maio. tiO seguimento da imposição cons-
incluem-se os decretos regulamentares e. com âmbito de aplicação nas Regiões Autóno- titucional. só se conferia o direito de participação às organil.açõcs representativas dos tra-
mas. os decretos legislativos regionais e os decretos regulamentares regionais. balhadores; contudo, o legislador. não só porque essa era a prática. como também por
174 Direito do Trabalho Capim/o III - Fontes do Direito c/o Trabalho 175

Depois de ser dada a noção de legislação do trabalho (art. 524.° do Cf), III. São frequentes os pedidos de apreciação da constitucionalidade
fixam-se os parâmetros em que as mencionadas organizações participam .\ "i. de nonnas de direito do trabalho, tendo várias vezes e por diferentes moti-
na feitura das leis do trabalho (arts. 525.° e ss. do CT): assim. a legislação vos o Tribunal Constitucional declarado inconstitucionais preceitos deste
laboral carece de uma prévia apreciação pública, pressupondo a consulta ramo do direitol.
das referidas organizações dos trabalhadores (arts. 527.° e 528.° do CT. A Além de situações controversas que «inundam» o Tribunal Constitu-
apreciação pública, nos tennos do an. 527.° do CT, impõe a publicação cional em relação às quais, as mais das vezes, os conselheiros opinam pela
dos projectos de legislação laboral, a fim de as organizações de trabalhado- constitucionalidade das nonnas 2 e das decisões judiciais, importa, como
res e de empregadores, posterionnente, emitirem parecer, que é meramente exemplo, indicar sectores onde se encontram decisões de inconstituciona-
consultivo (arts. 529.° e 530.° do CT)I. Em alguns diplomas encontram- lidade.
-se referências a essa função consultiva. No designado «direito individual do trabalho» pode aludir-se às deci-
Não se pode, contudo, depreciar este papel consultivo, pois ele tem sões de inconstitucionalidade que respeitam a cláusulas contratuais, con-
sido o fundamento da participação da Comissão Pennanente da Concerta- cretamente à aposição de tennos (Ac. TC n.o 368/2000, de 11/7/2000 e Ac.
ção Social do Conselho Económico e Social 2, e, não sendo o processo TC n. ° 1721200 I, de 12/4/200 I), à execução do contrato, quanto ao traba-
legislativo precedido de consulta, há motivo para a declaração de incons- lho suplementar (Ac. TC n.o 635/99. DR de 21/3/2000) e à cessação do
titucionalidade do diploma 3• contrato (Ac. TC n. o 2321200 I, de 23/5/200 I).
Em relação ao direito colectivo, cabe destacar as várias decisões de
inconstitucionalidade da Lei Sindical (p. ex., Ac. do TC n.o 441/91, de
16/1/1992 e Ac. TC n.o 449/91, de 16/2/1992), as declarações de inconsti-
motivos de igualdade, impôs idêntica participação na elaboração da legislação do trabalho
às associações representativas dos empregadores pela Lei n.· 36/99. de 26 de Maio.
tucionalidade de nonnas da Lei das Relações Colectivas de Trabalho (Ac.
Quanto a e~ta solução legislativa. considerando-a inconstitucional por subverter a lógica TC n.o 517/98, de 15/7/1998 e Ac. TC n.o 634/98, de 4111/1998)3 e a
da Constituiçào. que não equipara as partes na relação laboral. ,·d. BACELAR GOUVEIA. «Os declaração de inconstitucionalidade de algumas alterações introduzidas
Direitos de Participação dos Repn.:sentantes dos Trabalhadores na Elaboração da em 1992 na Lei da Greve (Ac. TC n.o 868/96, de 4/7/1996)4.
Legislação Labora",. Estudos do Instituto de Direito do Trabalho, Vol. I, Coimbra, 2001. A este elenco cabe acrescentara apreciação de constitucionalidade do
pp. 109 ss, cm especial pp. 118 5S. Código do Trabalho, em que foram declarados inconstitucionais três pre-
I Eventualmente. do disposto nos arts. 54.·. n.· 5. alínea d) e 56.·. n.· 2. alínea a).
da CRP poder-se-ia entender que a participaÇãO das organizações de trabalhadores não
ceitos pelo Ac. TC n. o 306/2003, de 25/6/2(03)5.
ficaria circunscrita a funções consultivas. mas foi essa a solução da Lei n.· 16n9. Como
refere LUCAS PIRES em anotação ao art. 56.°. alínea dJ. Estudos sobre a Constituição. 1.0
Vol.. Lisboa. 1977. p. 378. o direito de participação deve ser considerado como um lobby I Atendendo à distinção entre fiscalização de normas jurídicas e controlo de deci-
institucionalil.ado. sões jurisdicionais (Vd. RUI MEDF.\ROS, A Decisão de Incmutilllcionalidade, cit .• pp. 336
Acerea da participação das organizações representativas de trabaljladores na elabo- ss.) cabe esclarecer que. no âmbilo laboral. são frequentes as declarações de inconstitucio-
ração de legislação do trabalho. cfr.• dt:signadamente. os Acórdãos do tc n.· 662/94, de nalidade no primeiro caso e raras no segundo.
14/12/1994. BMJ 446 (Suplemento). p. 80. n.· 215/95. de 2014/1995. BMJ 446 (Suple- 2 Veja-se por exemplo o controwrso tema da constitucionalidade da indemnizaçfio
mento). p. 672 e n.· 178197. de 4/3/1997. BMJ 465. p. 103. estabelecida no art. 13.·. n.o 3. da LCCT (Ac. TC n.· 583/2000. de 201\2/2000); solução
2 Sobre este aspecto. cfr. MF.NF.7.F_<; CORDEtRO. Manual. cit .• p. 162. assim como suprimida no Código do Trabalho.
GONÇALVES DA SII.VA. «Sujeitos Colectivos». Estlldos do Instituto de Direito do Trabalho. 3 Em crítica a estas declarações de inconstitucionalidade, ~·d. BERNARDO XAVIER.
Vol. m. pp. 312 c 55. «A Matriz Constitucional do Direito do trabalho». cit .• pp. 104 s.
3 Cfr. GOMIlS CANOTII.HO, Direito Constitucional. cit .• p. 929. Em sentido contrário 4 Quanto à compatibilização entre os princípios constitucionais da segurança no
veja-se MÁRIO PINTO. Direito do Trabalho. cit.• pp. 143 s. Declarando a inconstituciona- , emprego e da liberdade de iniciativa privada. ~·d. ROMANO MARTINEZ. «A Constituição de
Iidade de um artigo de um diploma. o único preceito que respeitava a matéria laboral. por. 1976 e o Direito do trabalho». Nos 25 Anos da Constituifão da República Portuguesa de
quanto a esta questão. não ter havido consulta das orgaJli/.açÕl.-S dI! trdbldhadorcs. cfr. At:. 1976. E~'olufdo Con.ftitucional e Perspecti,·as de Futuro. Lisboa. 2002. pp. 173 ss.
TC n.· 178/97. DR I Série de 1615/1997. 5 Vd. supra § 4.5.d.2).a.lll.
176 /Jirl'Íto do Trabalho Cap(lIIlo 11/ - Ponte.f do Direilll do Trabalho 177
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Bibliografia: III. Hoje. atenta a enorme produção legislativa. não só no direito do


trabalho. mas em quase todos os ramos. é difícil encontrar situações de
MENEZES CORDEIRO. Manual. cit., pp. 161 a 163; MONTEIRO FERNANDES, costume; sempre que. através de uma prática reiterada. começa a criar-se
Direito do Trahalho. cit., pp. H6 a 103; MARIO PINTO. Dirt'ito do Truhalho. cit .• uma norma com convicção de obrigatoriedade. imediatamente o legislador
pp. 141 a 144; BERNARDO XAVIER. Curso. cit.. pp. 238 a 242. intervém. Num sistema jurídico como o português e. em particular. no
direito do trabalho. onde. para além de uma produção legislativa frequente,
há a referir que. não raras vezes, as convenções colectivas consagram regras
4. Costume consuetudinárias. resta ao costume verificar que as normas não são aplica-
das, ou seja. se uma determinada norma ou diploma. por via consuetu-
I. O costume é fonte imediata de direito que advém de uma prática dinária. deixou de ser aplicado, se ninguém respeitar aquela norma, pode
reiterada (uso) com convicção de obrigatoriedade l . conceder-se ao costume o papel de. pelo menos. «revogar» as disposições
No domínio do direito do trabalho. historicamente. depara-se com que caíram em desuso l . Como exemplo desta situação talvez se possa
várias situações de costume contra legem e de costume praeter legem; indicar a. já revogada. exigência do quorum mínimo para a constituição de
trata-se de situaçõcs históricas. que. todavia. demonstram o papel do cos- uma associação sindical. estabelecida no art. 8.°, n.O 2. da LS.
tume no que respeita à revelação de normas de direito do trabalho.

II. Como exemplo de costume contra legem é de referir o facto de ter Bibliografia:
havido. antes de 1891. associações de trabalhadores constituídas. apesar
de ilegais (estiverdm proibidas desde 1834 e só foram permitidas em MENEZES CORDEIRO. Matlllal, cit., pp. 163 a 165; BERNARDO XAVIER. Cur,w.
1891). e que. inclusive. algumas delas tinham os seus estatutos aprovados cit.. p. 243.
pelo Ministério das Obras Públicas; contra a própria lei. havia um costume
de constituir associações de trabalhadores. O mesmo se diga em relação à
greve 2; esteve proibida até 1910 e voltou a estar proibida de 1927 a 1974. s. Usos
Não obstante se encontrar proibida. nestes períodos. verificaram-se inúme-
ras situações de greve. algumas das quais com sucesso a nível das reivindi- I. Os usos correspondem a uma prática social reiterada, mas sem a
cações dos trabalhadores; mais uma vez. a situação é de costume contra convicção de obrigatoriedade 2•
legem.
Para exemplificar uma hipótese de costume praeter legem pode men- I Cfr. ME."'EZES COROFJRO. Manual. ci!.. pp. 164 s. O desuso. como refere OUVElRA
cionar-se o caso dos instrumentos de regulamentação colectiva a que se ASCENSÃO. O Direito. cito pp. 254 s .• só leva à e:\tinçào da norma se se formar um costume
recorria antes de o Governo. pelo Decreto-Lei n. ° 10 4151 de 27 de De- contra legt'm.
2 Cfr. OUVElRA ASCI;NSÃO. O Direito. cit. pp. 263 ss. O papel dos usos. mais rele-
zembro de 1924, ter regulado a matéria respeitante às convenções colecti-
vanle cm direito do tmbalho do quc cm outros mmos do direito. é frequentclllclIlC: referido
vas de trabalhoJ. Perante a omissão da lei, o costume praeter legem dava
pelos autores. cfr. MONTOYA MEI.GAR. Dt'ret'hll dei Trabajo. cito pp. 106 55.; RIVERoJ
vida a estes instrumentos de regulamentação colectiva. ISAVATIER. Droit du Tramil. 13." ed .• Paris. 1993. p. 67; SPAGNOLO VIGORITA. GIi Usi
Az.iendale.I965.
I Cfr. OuvmRA ASCENSÃO. o Direito. Introdução e Teoria Gt'ral. II." cd .• Coim- MONTElkO FIiRNANOf.5. Direito do trabalho. cito p. 10ll. duvida que os usos
bm. 200 I. pp. 249 ss. constituam verdadeim fonte de Direito. pois. para este autor (ob. cito pp. 99 s.). os usos só
2 Cfr. ME!'''EZES CORDEIRO. Manual. cit .• pp. 163 s. têm irnponãncia como mero elemento integrador. tendo em conla o carácter informal da
j Cfr. RUY ULRICH. Legislação Operária Portugut'za. Lisboa. 1906. pp. 439 ss .. que relação jurídica de trabalho. Em sentido idêntico. cfr. MÁRIO PINTO. Direito do TrabCl/l/O.
aludc ao "Conlmcto colleclÍvo de tmbalho». admitindo·o com base em regms gemis (pp. cito pp. 155 s. Esta é. contudo. uma visão demasiado restrita da figura. em particular tendo
465 s.). cm conta o disposto no actual art. 1.0 do CTe no precedente an. 12.0.n.o 2. da LCf. Não
178 Direito do Trabalho Capítulo 111- Fomes do Direito do Trabalho 179
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o art. 3.° do CC dá valor aos usos quando a lei o detennine e o art. concretamente passando a valer como instrumentos de regulamentação
I. ° do cr faz uma remissão para os usos, ao dizer que «O contrato de colectiva de trabalho.
trabalho está sujeito (... ) aos usos que não contrariem o princípio da boa
fé»It2. No que respeita aos usos das empresas, toma-se, por vezes, parti- II. Mesmo assim. no direito do trabalho há ainda várias remissões para
culannente difícil distingui-los das liberalidades concedidas aos traba- os usos, na medida em que aspectos concretos não tenham sido incluídos
Ihadores3 ; a diferença poderá eventualmente encontrar-se no animus que em convenções colectivas de trabalho. Por exemplo, no art. 249.°, n.o I,
preside a tal concessão. do cr considera-se que a retribuição pode ser detenninada pelos usos; nos
Tal como o costume, os usos vão perdendo actualidade e relevância, tennos do art. 260.°, n. ° I, do cr. os usos podem levar a que detenninadas
pois é frequente que, perante a existência de um uso, o legislador inter- importâncias se considl!rem integrantes da remuneração; nesta sequência,
venha; e, no direito do trabalho, quando um detenninado uso começa a no art. 261,°, n. ° 2, do cr, aceita-se que, por via dos usos, as gratificações
generalizar-se, há a ter em conta que, para além da intervenção legislativa sejam integradas na retribuição; no art. 267.°, n.o 2, do cr estabelece-se
frequente, as convenções colectivas de trabalho regulamentam igualmente que a parcela não pecuniária do salário não pode ser superior ao valor
usos4 , passando estes a estar incluídos nas fontes de direito do trabalho, corrente na região; no art. 269.°, n.o I, do cr admite-se que os usos esta-
beleçam uma regra diversa quanto ao vencimento da retribuição. Da
se duvida que os usos, muitas das vezes, lenham uma função interpretativa de regrns; mas mesma fonna, na Portaria de Regulamentação do Trabalho para a agricul-
nada obsta a que, por via dos usos, se criem nonnas novas. designadamente pam integmr tura, de 8 de Junho de 1979 1, Base XV, diz-se que, em caso de deslocação
lacunas da lei ou do contmto de trab:dho. Neste sentido, dr. MOlTA VEIGA, Lições, cit., de trabalhadores para fora da área de trabalho, a alimentação e a donnida
p.103.
I Alenda-se à identidade de referencia nos dois preceitos: tanto no luto 3.°, n. ° I, do
dos mesmos são detenninadas pelos «usos e costumes regionais»; na Base
CC, como no an. 1.0 do CT. admitem-se os usos que não sejam «contrários aos princípios XVII, n. ° 2, considera-se que os descansos do trabalho podem ser deter-
da boa fé». Quanto a esta referencia à boa fé, cfr. MENEZES CORDEIRO, Manual, cit., p. 166. minados pelos «usos e costumes locais atendíveis»; na Base XXXIV, n. OS
2 No Direito Italiano. nos tennos do art. 2078 CC Italiano, para além de se atender I e 3, para os casos em que o trabalho não pode ser realizado por razões
aos usos, detennina·se que, sendo mais favoráveis aos tralr.t1hadores, podem prevalecer climatéricas, a retribuição será devida confonne os «usos e costumes
sobre a lei. Sobre esta questão, "d. NICOUNI. Manuale di Dirillo dellA~'oro, cit., pp. 15 ss. locais atendíveis»; na Base XXXVI, n.O 2. detennina-se que o vencimento
Quanto às particularidades dos usos da empresa, dr. autor e ob. cit. pp. 18 ss. Sobre os
da retribuição pode resultar dos usos. Nesta PRT para a agricultura, com
usos da profissão e da empresa no direito francês. dr. COtrrURIER. Droit du Tramil, I, cit.
pp. 64 sS. uma deficiente técnica jurídica, fala-se em usos e costumes em sinonímia,
3 No caso dirimido pelo Ac. ReI. Pt. de 3/12/1990, CJ XV (\990), T. V, p. 243, não obstante corresponderem a conceitos diferentes; os usos e costumes a
decidiu-se que a mera tolerância da entidade patronal, que consentia na antecipação da que se faz referência na PRT para agricultura são os usos locais, mas se
saída para as 2h na véspera de feriados. não obstante ser prática seguida há 19 anos na houver uma convicção de obrigatoriedade integrarão o costume.
empresa, do uso não resultam direitos e, por isso, tal direito não poderia ser adquirido,
mesmo que resultasse de uso da empresa. No mesmo sentido, Ac. Rei fb. de 22/411992,
III. Os usos têm ainda relevância no domínio de práticas laborais
CJ XVIII (1993), T. II, p. 78. A solução é criticável, pois o an. 168.°, n.o I, do CT
(correspondente ao ano 8.°, n.o I, da LDT) não impede que a redução do período nonnal criadas no seio das empresas, assim como em certas artes e ofícios, Os
de trabalho seja acordado pelas panes ou que advenha de uso da empresa, justifica-se, usos da profissão e das empresas podem ser afastados por cláusula escrita
todavia, partindo do pressuposto. em que assentam a dois arestos, de haver uma mera do contrato de trabalho ou por regulamento de empresa (que dificilmente
liberalidade e não um uso. Refira-se ainda que não são considerados usos as práticas da não estará sujeito à fonna escrita, efr. art. 153.°, n.o 3, do CT)2.
empresa contrárias à lei. mesmo que mais favoráveis ao trabalhador, como seja a atri-
buiçãode uma pensão complementar de refonna (Ac. STJ de 161611993. CJ (STJ) I, T. III,
p.261). I As portarias de regulamentação do trabalho passaram a ser designadas no Código
4 Cfr. MÁRtO PtI'ITOIFURTADO MARTlNSfNUNES DE CARVAI.HO, Comelllário às l.eis do Trabalho por regulamentos de condições mínimas (arts. 577.° e ss. do CT).
do Trabalho, Vol. I, Lisboa. 1994. anoto 11.6 ao art. 12.°. p. 63. Veja-se igualmente NICO· 2 Nào parece de aceitar a tese de os regulamentos internos da empresa constituírem
UNI, Manuale di Dirillo dellA~'oro, cit., pp. 17 S. fonte de Direito do trabalho. como preconizam MENEZES CORDEIRO, Manual. cit., pp. 176 SS.;
180 Direito do Tra/ml/IO Cllpíllllo III - Fontes do Direito cio 1"l"/Ibll/OO II!!
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Bibliografia: Eliminados os assentos, na nova versão do Código de Processo Civil
(arts. 732. 0 -A e 732.°-8. do CPC) passou a admitir-se um julgamento
MENEZf,S CORDEIRO. Mal/Ilal. cit.. pp. 165 a 167 MONll!lRO FERNANDES. ampliado de revista. com intervenção do plenário das secçõcs cíveis. para
Direito do Trabalho. cit.. pp. 108 c 110; MÁRIO PINlO. Direi/o do Trabalho. cit.. assegurar a unifornlização de jurisprudência. sempre que haja connito
pp. 154 a 156; MÁRIO PINTo/FuRTADO MARTINS/NuNES DE CARVAUm. COII/elllá- entre decisões judiciais (arts. 678.°, n.o 4 e 732. 0 -A. n.o I. do CPC)I. O
rio. cit.. anol. 6 ao al1. 12.°. pp. 62 e 63; MOITA VEIGA. Lições. cil.. pp. 101 a 104. acórdão proferido pelas secçõcs reunidas do Supremo Tribunal de Justiça
é publicado na \." Série-A do Diário da República (art. 732.°-8. n.o 4, do
CPC). à imagem do que ocorria com os assentos. mas não é vinculativo
6. Jurisprudência uniformizada para os tribunais. que podem. em outro litígio. decidir de modo diverso à
jurisprudência unifoffilizada; contudo. em tal caso. haverá sempre recurso
I. Nos ternlOS do revogado art. 763.°. n. ° 1. do CPC. podia-se recorrer para o Supremo Tribunal de Justiça (art. 678.°. n.o 6. do CPC)2.
para o Tribunal Pleno (para o pleno do STJ) quando houvesse contradição
entre. em princípio. dois acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça. E como II. No direito do trabalho. relativamente aos assentos. para além das
dispunha o revogado art. 768.°, n.O 3. do CPC. perante um conflito de regras do Código de Processo Civil, que valem no processo do trabalho
jurisprudência. o Tribunal Pleno deveria resolvê-lo lavrando um assento. (art. 1.°. n.O 2. do CPT). importa atender às disposiçõcs próprias do Código
Nos ternlOS do revogado art. 2.° do Cc. os assentos tinham força de Processo do Trabalho. Por via da remissão constante do art. 79.° do
obrigatória geral. sendo publicados no Diário da República. ao lado das CPT para o art. 678.° do CPC. em processo do trabalho também há recurso
leis e dos decretos-leis. para o Supremo Tribunal de Justiça (Tribunal Pleno) nos casos em que
Todavia. tendo em conta a polémica suscitada em tomo do valor dos exista contradição entre dois acórdãos. em princípio do Supremo Tribunal
assentos. em particular quanto à sua força obrigatória geral. o legislador de Justiça. e atendendo à alteração introduzida no Código de Processo
revogou o instituto dos assentos I depois de o Tribunal Constitucional se Civil. na sequência da declamção de inconstitucionalidade dos assentos.
ter pronunciado. ainda que parcialmente. pela sua inconstitucionalidade 2•

MÁRIO P1r-.-roIFlIRTAOO MARTINslNUNES DE CARVAUIO. Comentário. cit.. anol. 3 ao art. acórdão foi inconclusivo. O Tribunal Constitucional considerou o ano 2.° do CC parcial-
39.°. pp. 191 S.; MOITA VElGA.l..ifões. ci\.. pp. 99 ss. No sentido preconizado. veja·se o mente inconstitucional. na parte em que detennina ter o assento força obrigatória geral. por
Ac. Trib. Cons\. de 20/1111996. DR 2.' Série de 7/211997. onde se afinna que o regu- contrariar o disposto no ano 115.°. n.O 5. da CRP (actualmente art. 112.°. n.o 6. da CRP).
lamento interno não é fonte de Direito. não estando. por isso. sujeito a controlo de consti- Mas. no demais. o Tribunal Constitucional decidiu pela constitucionalidade dos assentos.
tucionalidade. mas sim de ilicitude. Como se refere no Preâmbulo do Decrcto-Lci n. ° 329-A/95. a jurisprudência constitucio-
De facto. o regulamento interno tem o seu fundamento no contrato de trabalho. em nal quebrou a força vinculativa genérica dos assentos.
particular no poder de direcç:l0 do empregador e na correspondente subordinação do Sobre a inconstitucionalidade dos assenlos. ,·d. por todos CASTANHEIRA NEVES. Co-
trabalhador. e o contrato não é fonte de direito; mesmo na parte organi~tiva e disciplinar mentário ao Acórdão do Tribunal Constitucional n.O 810/93. de 7 de Dezcmbro de 1993.
do trabalho. o regulamento dc empresa funda·se num podcr do emprcgaJor quc emerge do RU 127 (1994/95). pp. 63 a 72 e 79 a 96 ou O Problema da Constitucionalidade dos
contrato. Independentemente destas considerações. seria estranho que uma fonte de direito Assentos (Comentário ao Acórdão n. o 810/93 do Tribunal COlIStitucional). Coimbra. 1994.
do trabalho pro\'iesse de uma parte. que a impõe à outra. Resla referir que. diferentemente Em crÍlica à eliminação do instituto dos asscnlos. considcrando-o genuinamente nacional.
do que parece d,.'<luzir-se da afinnação de MOITA VEIGA. Lições. cit•• p. \01, os regula- dr. MENEZF~'i DE CORDEIRO. Anotllçiio. ROA 56 (1996) I. pp. 307 ss. Vejll-se também.
mentos internos Dilo são obrigatoriamentc publicados. como sucede com as leis e as con· TFJXF.IRA DE SOUSA. «Sobre a Constitucionalidade da Conversão do Valor dus Assemos".
venções colectivas; a lei exige tão-só que se dê publicidade ao seu conteúdo. designada. ROA 1996. II. pp. 707 5S.
mente mediante afixação na sede da empresa (an. 153.°. n.o 3. do CT). I Sobre esta questão. cfr. TFJXF.IRA DE SOUSA. Estuclos sobre o NOI"II Processo CMl.
I Cfr. Preâmbulo do Decreto-Lci n." 329-A/95. de 12 de Dezembro e urts. 3.° e 17.° 2.' cd .• Lisboa. 1997. pp. 556 sS.
deste diploma. que dctenninam a imediata revogação dos arts. 763.° a 770.° do Código de 2 A solução é similar no domínio do Processo Penal. nos tennos em tjuc dispõem os
Processo Ch·i1. ans. 437.° e ss. do Código de Processo Penal. ('(r .. porém. o Assento n.o 1/98. DR. I Série
2 efr. Acórdão n.O 8\0/93. de 7 de Dezembro (RU 127 (\994/95). pp. 35 ss.). Este de 29 de Julho de 1998.
1112 Direi/o d() 'f'mlml/I(} Capftul(/ III - FOflles d(/ Direi/o do Trabalho 183

no processo do trabalho haverá igualmente a possibilidade de recorrer para tam ou declaram a anulabilidade de cláusulas de convenções colectivas de
se obter acórdão de jurisprudência uniformizada'. trabalho, porque a questão não foi suscitada.
No art. 186.° do CP1' estabeleceu-se uma situação especial de acórdão
III. Para além disso. o art. 186. ° do CPT determina que o acórdão do uniformizador no domínio do direito do tmbalho em virtude das particula-
Supremo Tribunal de Justiça sobre questões de anulação ou interpretação ridades que existem no que respeita às convenções colectivas de trabalho.
de cláusulas de convenções colectivas de trabalho tem o valor ampliado de Uma vez que este instrumento de regulamentação do trabalho corresponde
revista em processo civil 2• a um acordo celebrado entre duas entidades, que produz efeitos relativa-
Portanto. no domínio do direito do trabalho. ao lado da jurisprudência mente a outros contratos e a outras pessoas que não foram parte nesse
uniformizada - tal qual como ocorre no processo civil - acresce uma acordo, quando as cláusulas dessas convenções são interpretadas ou anula-
especificidade: o acórdão previsto no art. 186.° do CP1: por remissão para das, as consequências que daí advenham também produzem efeitos nos
o art. 180.° do CP1'. contratos individuais de trabalho.
Trata-se de um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que se pro- Deste modo, quando num acórdão do Supremo Tribunal de Justiça se
nuncia sobre questões de anulação ou de interpretação de cláusulas de con- considera uma determinada cláusula nula ou que deve ser interpretada
venções colectivas de trabalho. ao qual foi conferido o valor de jurispru- num certo sentido. esta tomada de posição relativamente à convenção colec-
dência uniformizada; não sendo necessário o recurso para o Tribunal Pleno, tiva vale para todos os contratos individuais de trabalho por ela regulados.
porque é o próprio acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que tem esse justificando a uniformização do acórdão'.
valor3 . Daí que tenha de ser publicado no Diário da Replíblica, La Série e Na medida em que o Tribunal Constitucional considerou o art. 2.° do
no Boletim do Trabalho e Emprego (art. 186.° do CP1'). CC inconstitucional. na parte em que este se referia à força obrigatória
geral dos assentos, cabe indagar se o acórdão uniformizador previsto no
IV. Sobre este acórdão específico do direito do trabalho. o Tribunal art. 186.° do CP1' estará ferido da mesma inconstitucionalidade. Relativa-
Constitucional não se pronunciou, pois a sua apreciação respeitava. tão-só. mente aos assentos anteriormente previstos no processo civil, a inconstitu-
aos assentos anteriormente previstos no Código de Processo Civil. O Tri- cionalidade advinha de se estar perante uma violação do art. 112.°. n.o 6,
bunal Constitucional não tomou posição sobre os acórdãos que interpre- da CRP, que não admite actos de natureza diferente da lei. neste caso
emanados do tribunal, a interpretar. integrar. moditicar ou revogar precei-
I CARLOS AlEGRE. Códi/:o de ProceSlO do Trabalho Actuali;:.m/o e Anotado. Coim- tos legislativos.
bm. 1996. anol. 3 ao an. 74.·. p. 233, na anterior versão do Código de Processo do Traba· Quanto ao acórdão previsto do art. 186.° do CPT. não está em causa
Ihn. sem juslificllr. p,1recia igualmente advogar que o recurso para o tribunal pleno fosse a interpretação ou a anulação de leis. mas antes de cláusulas de conven-
tendo em \'ista obter uniformidade de jurisprudência.
ções colectivas de trabalho. que não têm o valor de lei, nem são consi-
2 \ld.• designadamente o Assento 2196. de 111/10/1995. DR. I Série-A. de 221311996.
sobre a interpretação da cláusula 54.' do acordo de empresa respcitantt aos trabalhadores
derados actos legislativos nos termos do n.o I do art. 112.° da CRP. Assim.
da Rodoviária Nacional. E.P .• tirado na Secção Social do Supremo Tribunal de Justi~"a. To- os argumentos invocados no sentido da inconstitucionalidade dos assentos
da\'ia, possivelmente por uma questão de uniformização terminológica, o Supremo Tribu- não valem relativamente ao acórdão previsto no art. 186.° do CP1'.
lIal de Jusliça passou a designur estes assentos por ucórdãos, cfr. Acórdão STJ n." 11/97,
de 23/411997, DR I Série de 5/611997, BMJ 446, p. 359 e Acórdão STJ n.· SnOO5. DR I
Série de 10111/2005. Esta diferente terminologia nào parece acarretar distinção u nh'el de
efeitos. I CARI.OS ALEGRE. CâdiNo de Processo do Tmbalho Anotado, 2." ,,-doo Coimbm.
3 QUilnto à diferençu entre o assento do Processo Civil e esta figura esJll.'Cial do 1987, ano!. ao an. ISO.o, p. 220, diferentemente do que ocorre na 3.' cd. da mesmu obm
Direito do 1mbalbo, dr. LFJTE FERREIRA. Código de Processo do Trabalho Anotado, 4." supra citada. anoto ao ano 180.°. pp. 476 s .• qucstinna porque rd7.ão sú se atribui força
cd., Coimbm, 1996, anol. II an an. 180.·, p. 743. Veju-se também CARI.OS ALEGRE, CódiNo obrigutória gemi ao acórdão do Supremo, na medida cm que a.~ decisõcs tomadas nu 1..
de Prt)(·es.w do Trabalho. cit .. anol. ano 180.°, p. 477, quc alude u umu nova categoria de instãncia, assim como os acórdãos das Relações também vinculariam aqueles a quem se
a.~scnto.
destinam a.~ convenções colcctiva.\.
184 Direito do Trabalho Capíwlo 111- Fontes do Direito do Trabalho 185

Bibliografia: As fontes colectivas são os instrumentos de regulamentação colectiva


de trabalho, fontes típicas do direito do trabalho, que podem regulamentar
MENEZES CORDEIRO, Manual, cit., pp. 168 a 170; MÁRIO PINTO, Direito do aspectos vários, como salário, carreiras profissionais, férias, ou em geral,
Trabalho, cit., pp. 156 c 157; MOlTA VEIGA, Lições, cit., pp. 82 a 83; BERNARDO condições de trabalho. e destinam-se a vigorar para uma determinada cate-
XAVIER, Curso, cit., pp. 242 e 243. goria profissional, ou sector empresarial. As fontes colectivas, para além
de previsão constitucional (art. 56.°, n. OS 3 e 4, da CRP) e de serem incluí-
das entre as fontes de direito do trabalho (art. 1.0 do CO, vêm, depois.
7. Jurisprudência e doutrina reguladas nos arts. 531. 0 e ss. do CP.
De entre os instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho, tal
Neste ponto não há qualquer particularidade relativamente ao direito como prescreve o n. o I do art. 2. 0 do CT, importa distinguir os negociais,
do trabalho. produto da auto-regulamentação de interesses (convenção colectiva de tra-
A jurisprudência, excluindo a especificidade dos assentos, no domí- balho, acordo de adesão e decisão arbitral), dos normativos ou não nego-
nio do direito do trabalho, tem o mesmo valor que nos demais ramos do ciais, impostos por via estadual (regulamento de extensão e regulamento
direito. O conjunto de decisões que exprimem a orientação seguida pelos de condições mínimas). De todos estes instrumentos, a cOllv~n'fão colec-
tribunais do trabalho l é particularmente relevante, em especial quando se tiva é aquele que apresenta maior relevância teórica e prática.
trata de jurisprudência constanle2 , que, mesmo não sendo vinculativa.
deve ser tomada em consideração para o conhecimento do direito do
trabalho. b) Convenção colectiva
A doutrina pode igualmente ter um papel indirecto dc revelação de
normas, sem qualquer especificidade com respeito aos outros ramos do I. A convenção colectiva é um fenómeno de auto-regulamentação de
direito, não sendo verdadeiramente fonte de direito do trabalho, tal como interesses, sendo negociada pelos representantes de trabalhadores e empre-
ocorre com a jurisprudência. gadores; os intervenientes na celebração das convenções colectivas são os
interessados na concertação dos seus interesses2•

8. Fontes colectivas -se no âmbito do direito do consumo. MA<1EL JÚNIOR. Com'enção Coleti~'u de Consumo
(Estudo dos Interesses Difusos. Coletivos e de Casos Práticos: Aspectos Comparativos
a) Aspectos comuns entre a Experiência do Direito do trabalho e do Direito do CotlSumidor na Formação da
,~ I. Legislação Material e Processual). Belo Horizontc. 1996. e CORREIA OE ARAÚJO. «Regu-
lações Coletivas dc Consumo e de Trabalho: As Semelhanças cm Busca do Equilíbrio
O direito do trabalho apresenta, neste ponto, uma especificidade, Social». Rel'ista da ESMAPE, 3 (1998). pp. 213 ss.
pois, ao lado da.. fontes heterónomas, comuns a todos os nlnos do direito, I Relativamente à função pública. vd. Lei n.o 23/98, de 26 de Maio.
surgem as fontes autónomas. produto da auto-regulamentação de inte- 2 Como refcre BARROS MOURA, A COllvenção Colectiva entre as Fontes de Direito
resses 3 . do traballlo. Coimbra, 1984, p. 84, atcndendo à participação dos interessados, a convcnção
colectiva «revcla-se uma técnica maleável de adaptação do regime jurídico cstadual do
I Quanto a esta noção de jurisprudência, crr. BAYI1STA MACHADO, Introdução ao trabalho às características peculiares do sector dc actividadc económica. da profissão ou
Direito e ao Discurso Legitimador, Coimbra. 1983. p. 162. da região a quc diga respeito».
2 Cfr. OLIVEIRA ASCENSÃO, O Direito, cit.. pp. 313 s. A convcnção colectiva está gencralizada a nívcl internacional, com tcnninologia
3 Quanto à dicotomia entre fontes heterónomas c fontes autónomas, cfr. MOI'ITElRO idêntica nos países latinos. Em Espanha dcnomina-se «convénio colectivo» (Mol'ITov A
FERNANDES. Direito do trabalho. cit.. p. 63. MELGAR, Derecho dei Trabajo, cit, pp. 15555.), na Itália «contraUo colleuivo» (AssAl'm.
A regulamentação colectiva, que se desenvolveu no direito do trabalho, tem sido Dirino dei ttn·oro. cit.• pp. 171 ss.) e em França «convention collective» (RlvERoISAvA'
preconizada também noutros domínios em que se justificaria um trdtamcnto idêntico; veja- TlER. Droit du Tramit, cit.. pp. 304 55.). Diferentemente. na Alemanha. relacionando a
1116 Direito do Trabalho Capítlllo /II - Fontes do Direiw do Trabalho 187
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II. Poder-se-ia pensar que as convenções colectivas de trabalho não Além das convenções colectivas de trabalho internas. pode também
apresentam qualquer particularidade relativamente ao direito civil, porque admitir-se. com reservas. a existência de convenções colectivas de traba-
os seus outorgantes - sindicatos e associações de empregadores - se- lho a nível internacional e a nível comunitário'. As reservas advêm do
riam representantes daqueles - trabalhadores e empregadores -, para os facto de a diversidade de sistemas jurídicos, mesmo a nível comunitário,
quais elas, primordialmente, se destinam. De facto, as associações sindi- impedir ou, pelo menos. dificultar a celebração de tais convenções2 • No
cais representam os trabalhadores e as associaçõcs de empreglldores os futuro. talvez seja possível. pelo menos na União Europeia. celebrar essas
respectivos associados. destinando-se as convenções colectivas unica- convenções. mas. para já. a diversidade de regimes jurídicos entre os vinte
mente a vigorar em relação aos filiados. Tendo em conta o art. 552.° do e cinco Estados membros não o pcnnite.
Cf, verifica-se que, no n.o I, está consagrado o princípio da filiação. nos
tennos do qual as convenções colectivas obrigam os empregadores que as IV. Nos tennos do art. 2.°, n.o 3. do Cf, a convenção colectiva subdi-
subscreveram ou inscritos nas associações signatárias. assim como os vide-se em três tipos: contratos colectivos, acordos colectivos e acordos de
trabalhadores sindicalizados numa das associações sindicais celebrantes, empresa.
desde que trabalhem para um empregador abrangido pela mesma con- Os contratos colectivos são convenções celebradas entre associações
venção'. sindicais e associações de empregadores. No acordo colectivo. a conven-
Com base no princípio da filiação. poder-se-ia chegar à conclusão de ção é ajustada entre associações sindicais e vários empregadores. não
que as convenções colectivas não têm qualquer particularidade, sendo associados. titulares de distintas empresas. Os acordos de empresa são
meros acordos negociados pelos representantes dos trabalhadores e empre- convençõcs celebradas entre associações sindicais e um único emprega-
gadores 2 • Porém, o princípio da filiação tem excepções. no caso de acordo dor. Existem algumas diferenças entre elas. nomeadamente a nível de apli-
de adesão e. especialmente. na eventualidade de regulamento de extensão. cação (vd. infra § 64.).
Verificando-se uma hipótese de extensão. a convenção colectiva pode
vir a aplicar-se a quem não seja filiado nas associações signatária... V. Na convenção colectiva distingue-se usualmente o conteúdo obri-
gacional - que não aparenta particularidades com respeito aos negócios
III. As convenções colectivas surgem entre as fontes de direito do
trabalho. no art. 1.° do Cf3.
1· jurídicos de direito civil - e o conteúdo regulamentar ou nonnativo (cfr.
art. 541. 0 do Cf).
As soluções estabelecidas numa convenção colectiva. na parte regu-
convenção colectiva com a discussão sobre a matéria salarial. designa-se por "Tarifver- lamentar. aplicam-se aos contratos de trabalho que vinculam emprega-
trag» (SOI.l.NHR. Grutulri.u des Arbeitsrechts. 12." ed .• Munique. 1998. pp. 11955.; WIE- dores e trabalhadores por ela abrangidos, não podendo. nestes. em princí-
I>"MANN/OETKERIW ANK. Tarifi·ertragsgesetz. 6." cd .• Munique. 1999).
I O princípio da filiaçào. nos precisos termos estabelecidos na lei portuguesa. não borais: primeiro. considerando que aprcscntum as características da generalidade e da
tem a mesma consagraç-lo a nível internacional (cfr. em Espanha. ~ONTO"A MELGAR. abstracção - que. sendo regm. poderá. eventualmente. não se verificar -; segwldu. que
D"recho dei Trabajo. cit .• p. 174 e. em França. JAVIWEK. Droit du Tral'ai/. 7." ed .• Paris. não são aplicáveis as regra.. da representaçilo - solução discutível. atendendo ao princípio
1999. pp. 194 55.). da filiação. Snhre estas questões. efr. BARROS MOURA. A COllvençdo Colectiva. cit,. pp,
2 Quanto à natureza jurídica das convençócs colectivas. em que se opõem as teses 118 ss .• que (pp. 121 55.) relaciona o reconhecimento da convenção cok'Ctiva como fonte
contratualistas às normativas. I'd. infra § 64.7. de direito ,"'Om a importância económico-~ocial dos sindicatos e com uma aptidão para
3 O mesmo ocorria no ca.o;o do art. 12.·. n.· I. da LCf. embora este preceito. defender os interesses dos trabalhadores.
aquando da sua entrada em vigor. th'esse um âmbito de aplicação mais vasto do que o I Quanto às conveR\i~ colectivas a nlvel comunit:\rio. ,'eja-se o disposto no art.
Ilctual. pois. por princípio. a convenção colectivu IIbrangia 05 trabalhadores nuo sindica- 118,·-B do Tratado de Roma. disposição introduzida pelo Acto Único Europeu. Cfr.
lizados e os empregadores não inscritos - cfr. art. 33.° do Estatuto do Trabalho Nllcional. MarrA VEIGA. Direito do tramll/w Intermldollal e El4rt1pell. Lisboa. 1994. pp. 102 SS.; em
MENEZES CORDBRO. Manual. cil. p. 173. afirma que a referência constante do art. 12.°. n.o relação à aplicabilidade a nível internacional. dr. MotlRA RAMOS. Da Lei Aplicál'ef ao
I. do LCf é uma qualifiC3Ç'do legal não vinculath'a; todavia. o mesmo autor (oh. cit .• p. Contrato de Trabalho Interntlcitmal. Coimbra. 1990. pp. 3355.
172) apresenta duas razões para admitir que as convenções coh.'Ctivas são fontes jusla- 2 Cfr. BARROS MOURA. A Com'enfeio Colectil'tl. cit.. p. 1!6.
188 Direito do Tralx,lIlO Capítulo 11/ - Fontes do /)ireito do Trabalho 189

pio. dispor-se de fonml diversa da que consta na convenção (art. 531.° do rência aos instrumentos negociais (v. g .• convenção colectiva) em detri-
en l . A existência de uma convenção colectiva. por exemplo num deter-
mento dos não negociais (p. ex., regulamento de condições mínimas).
minado sector. levará a que os contratos de trabalho nesse mesmo sector Relativamente ao concurso entre várias convenções colectivas apli-
tenham de a respeitar. não descurando. contudo. o princípio da filiação. cáveis a alguns trabalhadores estabelecem-se no art. 536.° do cr várias
No entanto. nos termos do citado art. 531.° do cr. há casos em que soluções. No n.O 1. alínea a) determina-se que prevalece a convenção
o contrato de trabalho pode dispor de forma diversa da convenção colec- colectiva em função de um critério de especialidade. sendo esta especiali-
tiva. admitindo-se a validade da cláusula se a solução estabelecida for mais dade aferida em relação a empregadores: preferem os acordos de empresa
favorável ao trabalhador do que a prevista na convenção colectiva. O con- e os acordos colectivos aos contratos colectivos; dito de outro modo.
trato de trabalho só pode estabelecer de forma diversa se daí advier uma prefere a convenção colectiva firmada entre uma associação sindical e um
situação mais favorável. mas é necessário que das disposições do instru- só empregador à convenção colectiva celebrada entre uma associação
mento não resulte o contrário; isto é. que não haja oposição por parte da sindical e uma associação de empregadores. na medida em que, por princí-
regulamentação convencional. Entende-se que, por via de regra. na con- pio, no acordo de empresa. celebrado entre uma associação sindical e um
venção colectiva se estabelece um mínimo: aquilo que não pode ser afas- só empregador, foram tidas em conta as particularidades daquela empresa,
tado pela vontade das partes; e no contrato de trabalho pode-se ir além do enquanto o contrato colectivo destina-se a vigorar numa multiplicidade de
disposto na convenção colectiva. não sendo lícito ficar aquém 2 • empresas. Nesta sequência. esclarece-se na alínea b) do n. ° 1 do mesmo
preceito que o acordo colectivo. por ter um campo de aplicação mais
VI. No que respeita ao concurso, é necessário distinguir a relação específico. afasta a aplicação do contrato colectivo.
entre diferentes instrumentos de regulamentação colectiva e entre várias A segunda preferência. constante do n.o 3 do art. 536.° do CT, deter-
convenções colectivas aplicáveis a alguns trabalhadores. mina que prevalece a convenção colectiva escolhida pelos trabalhadores.
No concurso entre diferentes instrumentos de regulamentação colec- Havendo conflito entre convenções colectivas firmadas por vários sindi-
tiva de trabalho. tendo em conta o disposto no art. 3.° do cr. dá-se prefe- catos, não solúvel pela regra da especificidade, cabe aos tmbalhadores
abrangidos determinar por qual optam, devendo comunicar a escolha ao
I A aplicação directa da convenção colectiva não pressupOC a incorpomção das suas
empregador.
nonnas em cada cOnlrmo de tmbalho. mas simplesmente o respeilo pelo que nela se
encontm disposto; não é necessário ficcionar a recepção de nonnas de convençõcs colec· "; .•
:~ Não sendo viável nenhum destes meios. aplica-se o instrumento mais
tivas pelos contmtos de tr.tbalho pam que as partes nestes negócios jurídicos as tenham de recente (art. 536.°, n.O 5. do CT) e, por último. prefere a convenção que
respeitar. regular a principal actividade da empresa (art. 536.°. n.o 6. do CT).
Quanto à justificação e modos de sujeição dos contratos individuais de trabalho à
convenção colectiva. seja por via da recepção automática. da sujeição à autonomia colec- VII. Tendo em conta o disposto no art. 2.°. n. ° 2. do cr, verifica-se
tiva ou por via de um condicionamento externo, cfr. BARROS MOURA. A Com'enção Colec-
que a regulamentação colectiva de trabalho. para além de convenção
timo cit.• pp. 192 5S. Não obstante esta vinculaç'do. afinnou-§c no Ac.'"ribunal Constitu-
cional n.o 98/95. de 221211995. BMJ 446 (Sup.). p. 435. que as cláusulas da convenção colectiva. pode ser feita por acordo de adesão, decisão arbitral e via admi-
colectiva não são norma.. para efeitos de integrarem objecto idóneo dos recursos de nistrativa.
constitucionalidade. porque estes instrumentos não são actos dotados de eficácia externa.
2 O contrato de trabalho não pode. por via de regra. dispor em sentido diverso da-
quele que consta de convenção colectiva. mas não parece que esta asserção se justifique com c) Acordo de adesão
base no princípio do tr.ttamento mais fllvorável. pelas mesmas rnzõcs que levam ao afas-
tamenlo deste postulado nas relações hierárquicas entre fontes do Direito (I·d. infra § 10.).
Sobre esta quelltão. cfr. Ac. Rei. Pt. de 24/211997. CJ XXII (1997). T. I. p. 279; Ac. ReI.
O acordo de adesão. previsto no art. 563.° do CT. corresponde a um
É,'. de 18/211997. CJ XXII (1997). T. I. p. 316. EAplicando a dependência do contr.tto de ajuste celebrado por uma entidade que não foi parte na convenção colec-
trabalho em relação à convenção cok-ctiva com base no princípio do tratamento mais favo- tiva. mas que pretende que esta se lhe aplique. Esse interessado celebrará
rável. cfr. SÜU.NER. Arbeitsrechl.r. cit .. p. 47. o acordo com as entidades que seriam contraparte. caso ele tivesse nego-
190 Direito do Trabalho Cap(wlll III - Fontes do Direito do Trabalho 191
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ciado a convenção colectiva. Por exemplo. se um determinado emprega- O regulamento de extensão é uma forma de estender a convenção
dor. que não é parte numa dada convenção colectiva. pretende que os efei- colectiva a quem não seja filiado nas associações signatárias da mesma:
tos desta lhe sejam aplicáveis. pode aderir à convenção. através de um trabalhadores e empregadores não associadus.
acordo de adesão a celebrar com a associação sindical que. juntamente Nos termos do art. 552. 0 do cr. vigora o princípio da filiação. que
com a associação de empregadores na qual o empregador não está filiado. sofre excepções no caso dos regulamentos de extensão. previstos nos arts.
negociou a sobredita convenção. O acordo de adesão constitui uma forma 573. o e ss. do cr. O regulamento de extensão tem uma proveniência
de alongamento do âmbito inicial de aplicação de uma convenção colec- governamental. e determina a ampliação do âmbito de destinatários duma
tiva de trabalho. cujas regras passarão. a partir de então. a vincular igual- dada convenção colectiva. aplicando-se a empregadores do mesmo sector
mente trabalhadores ou empregados não abrangidos pela convenção (cfr. de actividade e a trabalhadores da mesma profissão ou de profissão aná-
infra § 65.). loga. que não estejam filiados nas associações signatárias. Com o regula-
mento de extensão procede-se ao aproveitamento de conteúdos norma-
tivos já existentes; concretamente. negociados para ajuste da convenção
d) Decisão arbitral colectiva.
No preceito em causa, admite-se igualmente que a extensão da con-
A decisão arbitral difere da convenção colectiva na medida em que o venção colectiva. em termos excepcionais. poderá abranger empresas e
acordo não foi conseguido pela via da negociação. mas produz os mesmos trabalhadures de área diversa. mas só quando não existam associações de
afeitos (art. 566.°. n. o 1. do cD. A decisão arbitral. prevista nos arts. 564. 0 empregadores e sindicais naquele sector de actividade empresarial ou
e ss. do cr. em princípio. tem em vista tão-só dirimir conflitos concretos. naquela profissão. respectivamente. Exige-se. contudo. que haja identi-
que possam advir da celebração ou da revisão duma convenção colectiva. dade económica e social.
sendo voluntária. a arbitragem pressupõe um acordo entre a associação
sindical e a associação de empregadores ou o empregador (cfr. infra § 66). II. O Governo pode ainda. nos termos dos arts. 577. 0 e ss. do CT.
através de regulamentos de condições mínimas. em vez de mandar aplicar
convenções já celebradas. criar um conjunto de normas específicas para
e) Regulamentos de extensão e de condições m(nimas regular situações concretas. Recorre-se a estes regulamentos quando esti-
verem preenchidas as seguintes condições: não ser possível o recurso a um
I. Por via de uma intervenção estadual. a regulamentação colectiva regulamento de extensão. por não estarem verificados os pressupostos des-
pode ser feita nos termos previstos nos arts. 573. 0 e 577.° do cr. São tas; não existirem associações de empregadores ou sindicais naquele sec-
instrumentos que dependem da autoridade do Estado. mas relacionam-se. tor. Por último. é necessário que estejam em causa circunstâncias econó-
assemelham-se e até se subordinam (cfr. art. 3. 0 do cr)1 às convenções micas e sociais que justifiquem a emissão do referido regulamento. Estes
colectivas 2 • • regulamentos são. portanto. similares às convenções colectivas. mas não
assentam num acordo. são impostas pelo Governo.
Diferentemente do que ocorre com os regulamentos de extensão. não
I Salientando «o carácter marcadamente subsidiário" das portarias de extensão e de é frequente o recurso a regulamentos de condições mínimas. Como exem-
regulamentação do trabalho. cfr. MARIO PINTO. Direito do TraIxJlho. cit.. p. 151; MOITA plo. pode indicar-se o trdbalho rural. em que existe uma portaria de regula-
VFJGA. üções. cit .• p. 98. mentação do trabalho para a agricultura. de 8 de Junho de 1979 1, consi-
2 Cfr. MENEZES CORDEIRO. Manual. cit., pp. 174 s. MONTEIRO FERNANDES, Direito
do Trabalho, cit.• p. 103, qualifica-as como fontes estaduais. Atendendo à sua origem
estadual. MÁRIO PINTO, Direito do Trabalho. cit., pp. 150 s .• afinna que estes instrumenlos
colectivos não têm o mesmo sentido das convenções colectivas, em p:uticlllar porque não I As portarias de regulamentação do trabalho foram substituídas pelos regulamen-
sào produto da negociação colectiva. tos de condições mínimas (art.~. 577. 0 e ss. do Cn.
.\
192 Direito do Trabalho

derando-se. no preâmbulo desta portaria. que não existiam associações


patronais e sindicais com capacidade negocial. não estando portanto cria-
das as condições para a celebração duma convenção colectiva.

Bibliografia:
§ 9.°
PAULA PONCt:S CAMANHO. (,Cunvenções Culectivas de Trabalho. Acordo de
Fontes Externas
Empresa. Conflito de Convenções». RDES 2002, pp. 187 e S5.; MENFZES COR-
DEIRO, Manual. cit.. pp. 172 a 176; MONTEIRO FERNANDES. Direito do Trabalho.
cit.. pp. 103 a 108; ANDRADE MESQUITA. Direito do Trabalho. cit.. pp. 141 e ss.;
1. Qucstões prévias
BARROS MOURA, A COlI\'enção Colecti\'a entre as Fontes de Direito do Trabalho.
Contributo para a Teoria da Com'enreio Co[ectil'U de Trabalho 110 Direito Portu-
guês, Coimbra, 1984; MÁRIO Pll'ofro. Direito do Trabalho. cit., pp. 145 a 154; o
direito do trabalho. por motivos vários de ordem internacional e
ROSÁRIO PALMA RAMALHO. Direito do Trabalho. 1. cit.. pp. 229 e ss.; GONÇAl.VES comunitária. internacionalizou-se e globalizou-sei. denotando-se. nalguns
DA SILVA. Notas sobre a Eficácia Normati"a das Convenções Colectil'Cls. Coim- aspectos, mais do que noutros ramos do direito, uma preocupação unifor-
bra. 2002. pp. 49 e 5S.; MOlTA VEIGA. Lições. cit.. pp. 84 a 98; BERNARDO XAVIER, mizadora de soluções. Daí a relevância das fontes externas.
Cllrso, cit.• pp. 244 a 253. Em relação às fontes externas. importa distinguir os modos de revela-
ção do direito do trabalho de origem internacional e comunitário. com
peso e influência diversos no sistema jurídico português. De entre as fon-
tes internacionais, abstraindo de questões gerais. comuns aos vários ramos
de direito, como seja a aplicabilidade de princípios de direito internacional
público 2 • cabe contrapor as convenções comuns às celebradas no âmbito
da Organização Internacional de Trabalho (OIn. com particularidades
par.. o direito do trabalho.

2. Convenções internacional..

. I. O desenvolvimento das relações entre os Estados e o consequente


t mcremento do direito internacional deu azo a um problema jurídico com
plena actualidade: a aplicabilidade directa ou indirecta das normas de
direito internacional na ordem jurídica interna portuguesa3.

I crr. SCHAUB. Arbeitsrechu·llumlbllcll, 9." cd .• Munique. 2000. pp. 9 s.


2Sobre esta questão. crr. GONÇAI.VES PEREIRA/FAUSTO DE QuADROS. Manllal de
Direito InterlUlciOlUl1 Público. 3.' cd .• Coimbra, 1993, pp. 257 SS.
3 Crr. GONÇAI.VES PERElRAlFAU~O UE QUADROS, Direito InternaciolUll. cit., pp. 81
SS., ROMANO MARTINEZ. «Relações entre o Direito Internacional e o Direito Interno ...
Direito e Justiça. IV (1989/90), pp. 163 SS.
I~ IJireitll do Trabalho Capít/llo 11/ - Pontes do Direito do Trabalho 195
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Em resposta a este problema surgem duas teorias: o dualismo e o normas de direito internacional transformadas em direito interno e outras
monismo. que se aplicam directamente. sem necessidade da sua transformação. E a
Segundo a tese dualista. o direito internacional e o direito interno são cláusula geral de recepção plena. em que o direito internaciomll se con-
duas ordens jurídicas independentes. distintas. com igual poder. mas em verte automaticamente. atendendo ao mecanismo constitucional vigente.
planos separados. com diversidade de fontes e de destinatários. não ha- sem qualquer incorporação no direito interno; deste modo. o direito inter-
vendo qualquer ponto de contacto entre elas. nacional vale no espaço interno sem perder o seu carácter internacional.
Na perspectiva monista. que se subdivide em monismo com primado Em Portugal. quanto ao direito internacional convencional. nos ter-
da ordem jurídica internacional e monismo de direito interno. defende-se. mos do art. 8.°, n.o 2. da CRP. apesar de não ser opinião unânime. parece
no primeiro. que prevalecem as normas de direito internacional sobre as prevalecer a ideia da recepção plena. porque o direito internacional con-
normas de direito interno. e, no segundo. o contrário. Para o monismo com vencional passa a valer automaticamente em Portugal, sem necessidade de
primado da ordem jurídica interna. o direito internacional não passa de um qualquer transformação'. As convenções internacionais necessitam. toda-
direito estadual externo. via. de ser publicadas no Diário da República. após aprovação ou ratifi-
No monismo de direito internacional ainda se distingue o moderado. cação. e valem no espaço interno desde que estejam em vigor na ordem
em que o direito internacional prevalece. mas, não havendo condições para jurídica internacional.
a sua aplicabilidade no direito interno. não decorreria obrigatoriedade rela-
tivamente aos particulares. existindo tão-só responsabilidade do Estado; e II. Quanto à hierarquia das fontes. a posição mais generalizada no
o monismo radical. nos termos do qual as normas de direito internacional que respeita às convençõcs internacionais - excepção feita à Declaração
valem em detrimento da ordem jurídica interna e os Estados estão sempre Universal dos Direitos do Homem. onde se encontram três artigos que
obrigados a respeitá-las. assim como os particulares. respeitam ao direito do trabalho. e que. nos termos do art. 16. 0. n. ° 2. da
A ideia mais generalizada, e que parece aceite na Constituição. no art. CRP. tem aplicação na ordem interna com um valor diverso do das res-
8.°. n.o 2, é a de um monismo moderado de direito internacional'. tantes convenções - vai no sentido de elas ocuparem uma posição infra-
Na perspectiva do monismo moderado. o direito internacional con- constitucional. no sentido de valerem no ordenamento jurídico português
vencional não se aplica directamente aos cidadãos; as convenções interna- sem contrariar o disposto na Constituição. Esta conclusão funda-se. essen-
cionais 2 só valem na ordem jurídica do Estado após percorrido um pro- cialmente, em duas razões: por um lado. os arts. 1.°. 3.°. e 7.°. n. ° I. da
cesso interno. CRP estabelecem princípios constitucionais não derrogáveis. e. por outro.
Relacionada com esta. surge a questão da aplicabilidade do direito tendo em conta o processo de fiscalização da constitucionalidade das con-
internacional na ordem interna; importa determinar como se aplicam as venções internacionais. constante dos arts. 204.°. 277.°. n.o 2. 278.°. n.O I
normas do direito internacional convencional em Portugal. e 280.°. n.O 3. da CRP. conclui-se que as normas destes instrumentos não
Perante este problema apresentam-se três soluções. A transformação podem dispor contrariando a Constituição.
do direito internacional em direito interno, através da chAnada (<naciona- Quanto ao direito ordinário (em particular. leis da Assembleia da
lização». por via da qual as normas internacionais são incorporadas no República e decretos-leis do Governo) parece poder admitir-se que as
direito interno mediante leis do Parlamento ou decretos-leis do Governo. convenções internacionais ocupam uma posição supralegal, colocando-se
A cláusula geral de recepção semiplena, em que existem determinadas entre a Constituição e as leis ordinárias2 • Esta solução pode inferir-se do

I Cfr. GoNÇALVES PERBRAlFAtJSTO DE QuADROS. Direito IlIterlUlciotwl. cit.. pp. 92 s.


Veja· se. porém. em sentido algo diverso. StLVA CUNHA. Direito /lIterlUlcWIUlI Público. I Cfr. GoNÇALVES PF.REJRAffAUSTO DF. QUADROS. Direito InJerlUlciolU11. cit. pp. 110
Lisboa. 1981. pp. 40 ss. SS.; ROMANO MARTINEZ. «Relações entre o Direito Internacional ...... cit.. pp. 167 5S. Em
2 Com respeito às fontes de direito do trabalho. interessa tão-só aludir às con\'ençõcs sentido di\'erso, veja-se SII.VA CUNHA. Direitll/nternaciolUll. cit.• pp. 39 e 46.
internacionais. pois os princípios e regras do direito internacional geral dificilmente apre· 2 erro ROMANO MARTINEZ. "Relações entre o Direito InternacionaL ... cito pp. '71 S.
sentamo especifICidade no domínio do direito do trabalho. \'a1endo nos termos gerais. Veja-se também, MmOF.lRO FF.RNANI>t:s. Direito do Trabalho. cit. pp. 110 S.
196 Direito do Trabalho Capítulo III - Fontes do Direito Jo Trabalho 197

disposto no art. 8. 0, n. ° 2, da CRP, ao conferir valor ao direito internacional higiene no trabalho (arts. 7.°, alínea b) e 12.°, n.o 2, alínea b»; direito ao
convencional, sem necessidade de qualquer adaptação; para além disso. há repouso (art. 7.°, alínea d); liberdade sindical (art. 8.°. n.o 1. alíneas a), b),
uma razão prática que se prende com a responsabilidade internacional do e c); direito à greve (art. 8.°, n.o I, alínea d); direito à segurança social
Estado. Sendo admissível <Iue uma lei ordinária pudesse contrariar um tra- (arts. 9.° e 10.°).
tado internacional, surgiriam. com facilidade. situações de incompatibili- Na Convenção Europeia dos Direitos do Homem', aprovada no âm-
dade entre leis internas e tratados, com a consequente responsabilidade do bito do Conselho da Europa, cabe indicar, no art. 4.°, n.o 2, a proibição de
Estado pela violação das convenções internacionais. Quando se pretende trabalhos forçados, com a excepção prevista no n. ° 3 do mesmo preceito,
pôr em prática na ordem interna uma solução diferente da que decorre do e no art. 11.°. n. ° I, a liberdade sindical.
tratado. cabe ao Estado proceder à denúncia da convenção internacional. Na Carta Social Europeia (Revista)2. também aprovada no âmbito do
Conselho da Europa, a Parte II. de onde constam os arts. 1.° a 31. 0, contém
III. Tendo em conta estas regras do direito internacional público, igualmente um elenco de direitos dos trabalhadores3 : direito ao trabalho
importa fazer referência às convenções internacionais que regulam matéria (art. 1.0); direito a condições de trabalho justas (art. 2.°); direito à segu-
de direito do trabalho'. rança e higiene no trabalho (art. 3.°); direito a uma remuneração justa (art.
A Declaração Universal de Direitos do Homem (DUDH), aprovada 4.°); direito sindical (art. 5.°); direito à negociação colectiva (art. 6.°);
pela Assembleia Geral das Nações Unidas a IOde Dezembro de 1948. tem direito das crianças e dos adolescentes à protecção (art. 7.°); direito da<;
um papel fundamental no ordenamento jurídico português, tendo em conta trabalhadoras à protecção da maternidade (art. 8.°); direito à orientação
o disposto no art. 16.°, n.o 2, da CRP. Da DUDH consta uma relação de profissional (art. 9.°); direito à formação profissional (art. 10.°); direito à
direitos dos trabalhadores. devendo o direito do trabalho ser entendido em segurança social (art. 12.°); direito dos trabalhadores imigrantes e das suas
função desses preceitos. As referências encontram-se nos arts. 23.°, 24.° e famílias à protecção e à assistência (art. 19.°); direito à igualdade de
25.° da DUDH. que regulam aspectos concretos de direito do trabalho: oportunidades e de tratamento em matéria de emprego e de profissão, sem
direito ao trabalho (art. 23.°. n.o 1); liberdade de escolha do trabalho (art. discriminação baseada no sexo (art. 20.°); direito à informação e consulta
23.°, n.o I); protecção do emprego (art. 23.°. n.o 1); a igualdade salarial (art. 21.°); direito a tomar parte na determinação e na melhoria das con-
(art. 23.°, n.o 2); remuneração justa (art. 23.°, n.O 3); direito ao repouso dições de trabalho e do meio de trabalho (art. 22.°); direito à protecção em
(art. 24.°); direito a um período normal de trabalho razoável (art. 24.°); caso de despedimento (art. 24.°); direito dos trabalhadores à protecção dos
direito a férias periódicas e pagas (art. 24.°); direito a constituir e a filiar- seus créditos em caso de insolvência do seu empregador (art. 25.°); direito
-se em sindicatos (art. 23.°, n.o 4) e direito à segurança social (arts. 23.°, à dignidade no trabalho (art. 26.°); direito dos trabalhadores com respon-
n. ° 3 e 25.°, n. ° 1). Estas regras valem pelo peso de uma convenção interna- sabilidades familiares à igualdade de oportunidades e de tratamento (art.
cional, que eventualmente consagra o direito internacional geral, mas tam- 27.°); direito dos representantes dos trabalhadores à protecção na empresa
bém pela sua recepção constitucional, nos termos do art. 16.°, n. ° 2, da CRP.
O Pacto Internacional sobre Direitos Económicos, tociais e Cultu-
I Concluídll cm Roma em 1950 c aprovada para ratificação pela Lei n. o 6Sn8. de 13
2
rais apresenta também um elenco de direitos: direito ao trabalho (art. 6.°, de Outubro.
n.o 1); liberdade de escolha do trabalho (art. 6.°. n.o 1); protecção do em- 2 Na primeira versão. a Carta Social Europeia foi concluída em 1961 c ratifH:ada
prego (art. 6.°. n.Os 1 e 2); direito a uma remuneração adequada (art. 7.°, pelo Decreto n. o 38/91. de 6 de Agosto (aprovada para ratificação pela resolução da
alínea a); não discriminação salarial (art. 7.°. alíneas a) e i); segurança e Assembleia da República n. o 21191); posterionnente. a Carta foi refonnulada. passando o
novo texto concluído em 1996 a designar-se .,Carta Social Europeia Revista», e foi
ratificada pelo Decreto n. o 54·Al2001. de 17 de Outubro (aprovada para ratificação pela
I A este propósito. ARANGtJREN in MAZZONI. Manuelle Ji Diritto JellAvoro. Vol. I. Resoluljãu da Assembleia da República n. o 64-A/2(01).
6.' ed.• Milão. 1988. pp. 20 s.• alude ao Direito Internacional do Trabalho. 3 Nem todos os preceitos desta Pane respeitam a questões laborais. pois a Carta
2 Concluído em Nova Iorque cm 1976 c aprovmlu para ratificação pela Lei n. o também se atém a problemas sociais dissociados da relação laboral. como o direito à
4Sn8. de II de Julho. habitação (art. 31. 0 ).
198 Direito do Trabalho Capítulo III - FonteJ d(/ Direito do Trabalho 199
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e facilidades a conceder-lhes (art. 28.°); direito à informação e consulta eleitos, em representação dos Governos. dos patrôcs e dos sindicatos (art.
nos processos de despedimento colectivo (art. 29.°). 17.°, n.o 1. da Constituição da OIT).
O Conselho de Administração. previsto no art. 7.° da Constituição da
OIT, é. parcialmente. eleito pela Conferência Geral. por um período de três
3. Convenções e recomendações da OIT anos (art. 7.°. n.o 5. da Constituição da OIT). Do Conselho de Adminis-
tração fazem parte 56 membros, 46 são eleitos e 10 são de nomeação
I. A Organização Internacional do Trabalho foi criada em 1919, efectiva. Os membros eleitos também se integram na composição tripar-
constando a sua regulamentação da Parte XIII do Tratado de Versalhes, tida, pois 18 representam os Estados, 14 representam associações sindicais
celebrado para pôr termo à Primeira Grande Guerra e que deu origem à e outros 14 representam as associações patronais (art. 7.°. n.o I, da Consti-
Sociedade das Nações l . Com a extinção da Sociedade das Nações, a OIT tuição da OIT)l. Os membros efectivos são nomeados pelos dez Estados
foi integrada na Organização das Nações Unidas, como agência especia- de maior importância industrial (art. 7.°, n.o 2. da Constituição da Orno
lizada. sendo. no momento presente. a Alemanha, o Canadá. a China. os Estados
A OIT é uma organização internacional com uma estrutura original, Unidos da América. a França, a índia. a Itália, o Japão, o Reino Unido e a
pois apresenta uma composição tripartida sob dois aspectos: no que res- Rússia. O Conselho de Administração tem, entre outras incumbências. por
peita ao número de órgãos e em relação à representatividade dos próprios função estudar os problemas relativos ao direito do trabalho e elaborar as
órgãos. propostas de convenções, que vão ser apresentadas à assembleia.
Os órgãos, nos termos do art. 2.° Constituição da OIT, são a Confe- O Secretariado Internacional do Trabalho (arts. 8.° e ss. da Consti-
rência Geral, o Conselho de Administração e o Secretariado Internacional tuição da OIT)2 tem poderes de execução e é chefiado por um Director
do Trabalho. Geral, designado pelo Conselho de Administração.
Na Conferência Geral há uma representação tripartida, pois nela têm
assento os representantes dos Estados, das associações sindicais e das as- II. A OIT tem um papel essencial no domínio do direito do trabalho.
sociações patronais. Cada Estado tem quatro representantes, dois nomea- em especial através da Conferencia Geral que. na sua reunião anual, toma
dos pelo Governo. um pelas associações sindicais e um pelas associações decisões com vista à resolução de problemas latentes na área laboral. A
patronais (art. 3.°, n.O I, da Constituição da orno
Esta representação Conferência GemI tem competência para aprovar recomendações e con-
tripartida, nos Estados democráticos, corresponde a diferentes tendências, venções (art. 19.° da Constituição da OIT). As deliberações da Conferen-
porque os representantes sindicais e patronais não dependem de nomeação cia Geral para a aprovação de convenções e recomendações são tomadas
governamental e não têm de respeitar a orientação do seu próprio Governo por maioria de dois terços (arts. 19.°. n.O 2 e 21.°. n.o 1, da Constituição
nas votações (art. 4.°, n.o I, da Constituição da 0IT)2. A Conferência da OIT).
Geral, em princípio, reúne uma vez por ano (art. 3.°. n.o I. da Constituição
da OIT), sendo presidida por um presidente e três vice-prelidentes por ela
I Foi aprovada uma alteração. que entrará em vigor depois de ratificada por dois
terços dos Estados membros. no sentido de o Conselho passar a ser composto por 112
I Quanto aos antecedentes e à fonnação da OIT. cfr. MONTOY A MELGAR. Derecho representantes. 56 em nome dos governos. 28 pelos sindicatos c 28 pelos empregadores.
dei Trabajo. cit.• pp. 196 ss.: GoNÇALVES PEREIRA/FAUSTO QUADROS. Dirl'ito Intl'rnacio- 2 Em português não há unidade de entendimento quanto à tradução do Bureall

nal. cit. p. 554; ARANGUREN in MAZZONJ. Diritto dei Lal'Oro. I. cit .• pp. 62 ss.; MorrA Internacional du Trm'ail (BIT). que surge como «Serviço Internacional do Trabalho»
VEIGA, Dirl'ito do Trabalho Internacional. cit.• pp. 34 SS. (GONÇAI.VF-'i PERF.IRAlFAIJSTO QIJAIlROS. Direito InteTIILlcional. cil.. p. 558). «Gabinele
2 Como refere ARANGUREN in MAZZONJ. Diritto dei LtlWlro. I, cito p. 64, «Todos os Intemacional do Trabalho» (MENEZES CORDEIRO, Manllal. cit.. p. 185) e «Repartição Inler-
delegados votam individualmente. não por Eslado ou por grupo. de modu a que os nacional de Trabalho» (texto da Constituição da OIT. eonslante do Compêndio de !Ris do
delegados patronais e operários de um país são livres de votar de acordo com os delegados Trabalho. organi7.ado por ANTÓNIO JOSÉ MOREIRA). Tendo cm conta a expressão usada nas
patronais e operários de OUlros pafses, mesmo contra o voto dos delegados do r(.'Spectivo demais organizaçõcs internacionais. optou-se pelo emprego da locução «Secrelariado
govemo». Internacional do Trabalho».
l
I
I

200 Dirl'ito do Trabalho Cap(wlo 111- Fontes do Direito do Tmbtllho 201

As convenções que emanam da Conferencia Geral têm algumas Desde 1926. no âmbito da OIT. foram incentivadas as formas de con-
particularidades relativamente às convenções internacionais comuns. Tais trolo da aplicação tanto das recomendações como. em especial. das con-
convenções seguem o regime geral, na medida em que têm de ser aprova- venções l . Existe uma comissão técnica que visa fiscalizar a aplicação das
das e ratificadas pelos Estados. que passarão a ser partes nas mesmas (art. convenções e recomendações. fa7.endo petições aos Estados que não te-
19.°, n.o 5, da Constituição da OIT), mas. contrariamente ao que é usual. nham respeitado as recomendações ou que não ratificaram as convenções.
elas não são negociadas pelos Estados l . Assim. pode impor-se a um Es- A referida comissão c1abord também relatórios da situação dos Estados
tado uma convenção com a qual ele não concorda. visto que as convenções sempre que estes não levam em consideração as petições por ela formu-
são aprovadas por uma maioria qualificada de dois terços. e o Estado em ladas. Estes relatórios têm um certo peso político. pelo que poderão vir a
questão pode ter votado contra. Todavia. a simples aprovação da conven- influenciar os Estados no sentido de acatar as recomendações ou de rati-
ção na Conferencia Geral não importa a automática vinculação do Estado; ficar as convenções. A comissão pode ainda estabelecer contactos directos
para que tal aconteça. a convenção dever.i ser ratificada. mas caso o Es- entre o Estado incumpridor e a OIT. de modo a resolver a situação.
tado a não ratifique, nos termos do art. 19.°, n.o 5. alínea e), da Constitui- Foi também criada uma comissão tripartida que tem como função
ção da OIT. deverá. periodicamente, enviar um relatório ao Director-Geral analisar a legislação dos vários Estados membros, procurando verificar em
sobre o estado da sua legislação. explicando que medidas foram tomadas. que medida as recomendações e as convenções foram postas em prática.
As convenções aprovadas no âmbito da OIT, reguladas no art. 19.°. n.o 5. Esta comissão elabora tão-só pareceres e relatórios no âmbito da OIT. não
da Constituição da on~ depois de ratificadas, correspondem a verdadeiros tendo competência externa. Mas como os seus relatórios são analisados na
tratados internacionais2• Deste modo. para valerem na ordem jurídica Conferencia Geral (art. 23.°. n. O 1. da Constituição da 011) e os Estados
portuguesa. têm de ser ratificadas nos termos do art. 8.°. n.o 2. da CRP e acabam por ter conhecimento do estado em que se encontra a legislação de
publicadas no jornal oficial; perdendo a sua validade a partir do momento cada um deles, a comissão tem uma função persuasora.
em que forem denunciadas. Por outro lado. tanto as organizações sindicais e patronais. como
As recomendações, previstas no art. 19.°, n.o 6. da Constituição da qualquer membro pode. respectivamente. reclamar ou apresentar queixa
OIT. não constituem legislação internacional: trata-se. como o nome junto do secretariado. pelo facto de um Estado desrespeitar regras de uma
indica. de uma mera recomendação. Das recomendações constam medidas convenção por ele ratificada (arts. 24. 0 e 26.°, n, o I. da Constituição da
a pôr em prática pelos Estados membros, que não são vinculativas 3 • OIT), podendo. em última análise. qualquer membro manifestar ao Direc-
Mas. tal como vem estabelecido no art. 19.°. n.o 6. alíneas c) e dJ. da tor Geral que pretende submeter a questão ao Tribunal Internacional de
Constituição da OIT. os Estados ficam obrigados a prestar informações Justiça (arts. 29.°. n. o 2. 31.° e 32. 0 da Constituição da OIT).
periódicas ao Secretariado, relativamente às medidas tomadas no que se
refere às questões objecto das recomendações. especificando em que
,
medida se deu ou é proposto dar-se seguimento às medidas recomendadas.
III. A OIT. nos seus quase 90 anos de existência. já aprovou mais de
180 recomendações e mais de 170 convenções. Portugal é parte. aproxi-
madamente. em 70 convenções2 • Note-se que. muitas das convenções. em

I Sobre os trâmilcs necessários para a elaboração e adopção de convenções, dr. J Sobre esta queslão, cfr. ALONSO OLEAlCASAS BMMONDE, Daecho dei 7'rabajo,
AI.ONSO OLEAlCASAS BMMONDE. Deucho dei Trabajo. 14." 00 .• Madrid. 1995. p. 616; cit.. pp. 617 SS.; MonA VEIGA. Direito do Trabalh() Internaciontll. cit. pp. 52 5S.
MonA VEIGA. Direito do Trabalho Internacional. CiL. pp. 43 5S. 2 Os textos das convenções apro\'adas pela orr e ratificadas por Ponugal podem
2 No mesmo sentido, cfr. MOITA VEIGA, Direito do Traballw Intertlacional, cil., consultar-se em Convt'tI«(jes dll OIT Ratifil"lldas por Portugal, l.ishoa, 1994. Crr. lambém
p.49. as listas das convenções (e recomendações) aprovadas pela 01'1'. com indicação daquelas
3 Como refere MONTEIRO FERNANDES. Dirl'ito do Trabalho. cit. p. 70. «A impor. que foram ratificadas por Ponugal. nas colectâneas da legislaç-Jo do trnbalho org:mizadas
tância das recomendações não deve, porém. ser subestimada... porque podem estar na ori· por JORGE LmnJCOlJTlNIIO DE ALMEIDA (Legisla(e10 do Trabalho) e ANTÓNIO JosIO Mo-
gem de uma futura convenção c podem desempenhar uma função complementar relativa- REIRA (Compêlldio de Leis c/o Trabalho) c. mais recentemente, ANTÓNIO Jos" MORf.IRAI
mente a uma convenção aprovada. {fERESA COI,U10 MORFJRA. CMigo do Trabalho. Coimbra, 2004. pp. 48 e ss.
202 Direito do Trabalho Capítulo 111- Fontes do Direito do Trabalho 20]
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especial as mais antigas. pen.lemm gmnde parte da sua relevância. pois os mias com condições de trabalho desumanas e espaços económicos onde
problemas que procuravam resolver deixaram de existir como tal. tendo são salvaguardados direitos essenciais dos trabalhadores l .
surgido outras convenções com uma perspectiva mais apropriada à nova Quanto a este último ponto, o papel da OIT nào tem sido positivo.
form" que os problemas tomaram; ocorre até que, por vezes, as conven- pois não conseguiu evitar que alguns Estados desenvolvessem a sua eco-
ções mais antigas foram substituídas por outras, como é o caso da conven- nomia à custa de deficientes condições de trabalho, que tem contribuído
ção n. o 52 (1936), sobre férias remunemdas, que foi revista pela conven- para o comummente designado dumpillg sucial 2, mediante o qual se trans-
ção n.o 132 (1970), também relativa às férias remuneradas, ratificada por ferem empresas para países do chamado terceiro mundo, em que os
Portugal em 1980 (Decreto n.o 52/80, de 29 de Julho). salários e o «preço» das condições de tmbalho são mais atractivos para os
As convenções são numeradas, tendo a primeira sido aprovada na I. a empresários. Estas situações colocam sérios entraves à concorrência inter-
sessão. que teve lugar em 1919. A convenção n. ° 1 da OIT respeita à dura- nacional, levando a questionar a justificação da manutenção de algumas
ção do trabalho na indústria e foi a primeira convenção ratificada por Por- regras laborais, principalmente nos sistemas jurídicos mais proteccio-
tugal (Decreto n.O 15361. de 14 de Abril de 1928). nistas 3.
É frequente indicar-se algumas convenções da OIT como sendo as De facto, seria mais relevante que a OIT se preocupasse. por exem-
mais importantes, e, entre estas, pode destacar-se a convenção n. ° 87 plo, com a fiscalização da aplicação das convenções sobre salário mínimo
( 1948). que trata da liberdade sindical, ratificada por Portugal (Decreto n. ° (n.o 131, de 1970) ou sobre idade mínima de admissão ao trabalho (n.o 138.
45/77. de 7 de Julho), a convenção n.o 95 (1949), relativa à protecção do de 1973), do que acerca de especificidades do despedimento.
salário, ratificada por Portugal (Decreto n.O 88/81, de 14 de Julho), a con-
venção n. ° 98 (1949) sobre a negociação colectiva I, ratificada por Portu-
gal, (Decreto-Lei n.o 45758, de 12 de Junho de 1964), convenção n.o 100 Bibliografia:
( 1951). quanto à igualdade salarial, ratificada por Portugal (Decreto-Lei
MENEZES CORDEIRO. Manual. cit.. pp. 183 a 187; MONTEIRO FERNANDF_'i.
n.O 47302. de 4 de Novembro de 1966); convenção n.o 103. sobre a pro-
tecção da maternidade, ratificada por Portugal (Decreto n. ° 63/84. de IOde Direito do Trabalho. cit.. pp. 66 a 74, 110 c III; ROMANO MARTINEZ. «Relaçõcs
entre o Direito Internacional e o Direilo Interno». Direito e Justiça. IV (1989/90).
Outubro); a convenção n.o 156 (1981). relativa à igualdade de oportuni-
pp. 165 a 175; MOITA VEIGA. Direito do Tralmlho Internacional e Europeu. Lis-
dades no acesso ao trabalho, ratificada por Portugal (Decreto n. ° 66/84, de
boa, 1994. pp. 34 a 64; BERNARDO XAVIER. Curso, cit., pp. 96 a 100,234 e 235.
II de Outubro); e a Convenção n.o 158 (1982) sobre a cessação da relação
de trabalho por iniciativa do empregador, ratificada por Portugal (Decreto
n.O 68/94, de 27 de Agosto). Uma das últimas convenções ratificadas por

,
Portugal. a convenção n.o 181 (1997). respeita às agências privadas de
colocação (Decreto n. o 13/200 I, de 13 de Fevereiro).

IV. A OIT, por intermédio das recomendações e convenções, tem tido


um papel relevante na evolução do direito do trabalho em vários países da I Sobre csta queslão. err. MENEZES CORDEIRO, Manual. cit.. p. 184.
comunidade internacional. entre os quais Portugal. Esta evolução. não 2 Cfr. BERNARDO XAVIER, "A RcaJi7.açào do Direito do Trabalho Europeu cm
Ponugal .. , RDES XXXVI (1994). n. OS 1/3. pp. 227 s. QuanIO à rcl3Ç"do entre a prolecção
obstante fundar-se em razões de ordem humanitária e de solidariedade a
social c a mundialização das trocas internacionais. \'eja-se também COUTURlER. Droit du
nível internacional. também se prende com aspectos de ordem económica. Tramil. I. cit.. p. 72.
designadamente para minimizar os efeitos da concorrência entre econo- j ARANGlIREN in MAlZOSI. Diritto ele! La,·oro. I. cit., p. 48. apresenta uma visão
alhcilda da realidadc. bem mais favorável. afinmllldo que «Todos os paísl..'S têm. p<manto.
I Esta convenção foi complctada pcla COllvcnção n.o 154. de 1980. também sobre um intcresse comum cm adoptar as mcsma~ medid:1S económicas c sociais cm aplic.1çào
IIC/:oci:lç;io colectiva. dos princípios fundamentais da OIT".
204 Direito do Tralmllw Ctlflíllllo 11/ - Fontes llo IJireito do Trabalho 205
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4. Direito comunitário livre circulação de tmbalhadores está na base da tentativa de uniformiza-
ção do direito do tmbalho unível comunitário l .
a) Preliminares Em segundo lugar. no Título V. arts. 94.° a 97.°. inserem-se preceitos
que respeitam à harmonização de legislações a nível social.
É necessário contrapor o direito comunitário do trabalho (objecto Como terceiro aspecto é de referir o disposto nos arts. 125.° a 130.°
deste número) ao direito do trabalho comunitário. No primeiro sentido. sobre o emprego.
pode entender-se como o conjunto de regras laborais de origem comuni- Em quarto lugar. no Título XI. relativo à política social. educação.
tária aplicáveis a todos os trabalhadores que desempenham a sua activi- formação protissional e juventude. Capítulo I. encontram-se disposições
dade em Estados da União Europeia. A segunda expressão tem um sentido sociais (arts. 136.° a 145.°). sobre as condições de trabalho. pretendendo-se
mais restrito. pois pressupõe uma situação de transnacionalidade. nomea- uma harmonização da legislação laboml a nível comunitário. especialmente
damente quando um trabalhador de um Estado desenvolve a sua actividade no que respeita ao acesso ao emprego. à fonnação profissional. à segu-
em outro Estado da União Europeia l . rança social. à protecção contra acidentes. à higiene no trabalho. etc. 2.
No direito comunitário importa distinguir os tratados que instituíram Podendo o Conselho adoptar directivas neste âmbito (art. 137.°. n,o 2)3 e
a Comunidade Europeia, que vigoram na ordem interna nos termos do art. devendo criar um Comité da Protecção Social, para promover a coopera-
8.°. n.o 2. da CRP. dos instrumentos jurídicos provenientes da União Euro- ção em mutéria de protecção social (art. 144.° do Tratado).
peia. que produzem efeitos no ordenamento nacional. nos termos do art. Por último. como quinto aspecto. do Título XI. Capítulo II. consta a
8.°. n. OS 3 e 4. da CRP2. regulamentação relativa ao Fundo Social Europeu (arts. 146.° a 148.°); o
Fundo Social Europeu tcm cm vista promover a facilidade de emprego
bem como a mobilidade geográfica e profissional dos trabalhadores.
b) Tratados As normas constantes destas três partes valem na ordem interna
portuguesa nos termos do art. 8.°. n.o 2. da CRP. pois o Tratado constitui
o tratado que instituiu a Comunidade Europeia. conhecido pelo Tra-
I Sobre a liberdade de circulação de trabalhadores. nas suas diferentes modalidades
tado de Roma3• no domínio do direito do trabalho. tem cinco aspectos a
(deslocação, aces.~ ao emprego. panicipação sindical. etc.). crr. MorA OE CAMPOS. Direito
considerarf5.
Comu"ittirio. Vol. III. 2." ed .• Lisboa. 1997. pp. 308 ss.; Bl.ANPAIN/ENGELS. European
Primeiro. Título III. sobre a livre circulação de pessoas e capitais. o Labour Law, cit .• pp. 139 5S.; LIDERAL FERNANOES. O Direito de U"re Circulação dllS
Capítulo I trata da livre circulação dos trabalhadores (arts. 39.° a 42.°). A Trabalhadores ComunitdrioJ. O Mercado Europeu de Trabalho. Lisboa. 1998. pp. 45 ss.
2 A nível comunitário. a intcr\'cnção mais significath'a respeita ii liberdade dc
I \'d. MARIA LulSA DUARTE. «Direito Comunitário do Trabalho. Tópicos de Identifi· circulação dc trabalhadores na União Europeia. prevista no art. 48.°. n.o I. do Tratado dc
cação ... Estudos do Instituto de Direito do Trabalho. Vol. I. Coimbra. 2001. p. 155. nota 3. Roma; cfr .• designadamentc o Rcgulamento CEE n.o 1612168 do Conselho. de 15 de
2 Cfr. MOTA DE CAMPOS. Direito Comunitário. Vol. 11.4." ed .• L,boa. 1994. p. 392. Outubro de 1968. Sobre esta questão. \·eja-se. entre outros. MARIA LuIsA DUARTE. A Liber·
3 Quanto à génese da Comunidade Europeia (hoje. União Europeia) e aos três dade de Circulação de Pessoas e a Ordem Pública no Direito Comunitário. Coimbra,
tratados que estiveram na sua origem. bem como à.~ respectivas alterações. ~-d. MOTA OE 1992; atendendo em particular à Iiberdade de circulação de trabalhadores comunitários. I'd.
CAMPOS. Direito Comunitário. II. cit.• p. 392. MOTA OE CAMPOS, Direito Comunitário. III. cit.. pp. 308 ss.; ALONSO OlEAlCASAS
.. Para maiores desem·olvimcntos. ,-do BtANPtAIN/ENGELS. European Lobour La\\'. BAAMONOE. Derecho dei Trabajo. cit.. pp. 629 5S.; BERNARDO XAVIER. «A Realização do
3." ed .• DcventenIBoston. 1995. Veja.se igualmente ARRtGO. /I DirillO dei La\'Oro Direito do Trabalho Europeu em Portugal ... cit.. pp. 231 ss.
deU'Unione Europea. Tomo J. Principi, Fonti, Libera Circola:.ione e Sicure.rza Sociale 3 Na sequência do disposto no anterior art. 118.° -A do Tratado de Roma (actual art.
dei LllI'Oratori. Milão, 1998; TEYsstÉ, Droit Europée" du Tra\'tJiI. Paris. 2001; ZOU.NERI 137.°. que sofreu alterações com o Tratado de Nice, 2(01). tendo em vista a harmonização
fLoRITZ, Arbcirsrecht, cit.. pp. 125 sS. na protecção da segurança e saúde dos trabalhadores. o Conselho adoptou a Directiva
5 Nas indicações de artigos. atende-se à ver.;ão do Tratado de Amesterdão. pois a 93/104/CE, de 23 de Novembro de 1993. Sobre esta questão. cfr. LIDERAI. FERNANDES,
dcsignada Constituição Europeia, que nestc uSlXocto niio pressupunha signifrcativa.~ altem- «Harmoni711Çiio Social na Comunidade Eumpcia no Âmbito da ()urnç,'io do Trabalho .. ,
ções. estará eventualmente votada ao fmca.'iso. Pront. n.o 46 (1994/95), PI'. 41 ss.
r

206 Direito do Trabalho Capítlllo III - Fontes do Direito do Trabalho 207

uma convenção internacional ratificada pelo Estado Português e publicada directa aos cidadãos. mas é de aplicabilidade imediata. pois vincula o Es-
no jornal oficial. tado desde a sua entrada em vigor_ A dificuldade decorrente da inaplica-
Para concluir. importa ter em conta que na harmonização de legisla- bilidade directa da directiva pode ser atenuada por via de uma preconizada
ção a nível social vale um princípio de não competência exclusiva da interpretação do direito nacional em conformidade com o direito comu-
União. prevalece. antes. um sistema de competência partilhada. com com- nitário l .
petência reservada aos Estados l . No domínio comunitário. há ainda a ter em conta. para além dos dois
instrumentos legislativos já mencionados. as recomendações. que não são
vinculativas e as decisões. que são obrigatórias (art. 249.°. IV e V. do
c) Imlrumentos jurídicos provenientes da União Europeia Tratado). assim como a jurisprudência do Tribunal das Comunidades em
matéria social 2.
I. A União Europeia põe em prática os seus objectivos mediante dois
instrumentos: os regulamentos e as directivas comunitárias (art. 249.° do 11. Os actos comunitários em matéria social são relativamente nume-
Tratado). Os regulamentos e as directivas tanto podem ser adoptados pelo rosos 3• mas incidem, em especial. sobre aspectos de pormenor. razão pela
Conselho - isolada ou conjuntamente com o Parlamento Europeu - qual. por esta via. não se tem obtido a harmonização da legislação no seio
como pela Comissão (art. 249.° do Tratado)2. da comunidade4. Pode dizer-se que a harmonização se tem feito em três
Os regulamentos valem na ordem jurídica. directamente. sem neces- domínios interligados: condições de trabalho: segurança dos tmbalhado-
sidade de qualquer intervenção do poder legislativo (art. 249.°. II. do Tra- res; protecção do trabalho no que respeita ao modo da sua realização.
tado e art. 8.°. n.O 3, da CRP). Deste modo. tendo em conta o Tratado e os instrumentos. será de concluir
As directivas vinculam o Estado membro quanto ao resultado a al- que. nos diferentes Estados da União Europeia. há equiparação legislativa
cançar, deixando. no entanto. às instâncias nacionais liberdade relativa- no que respeita à liberdade de circulação de trabalhadores e ao princípio
mente à escolha da forma e dos meios 3 . A directiva não vale no ordena- da igualdade. há uma tendencial harmonização em relação à higiene e
mento jurídico interno. não sendo aplicável directamente aos cidadãos (art.
249.°. III. do Tratado)4. Perante uma directiva comunitária. o Estado
Português terá de a pôr cm prática. mediante regulamentação legislativa. I err. MARIA LulsA DUARru. «Direito Comunit.írio do Trabalho ... ». cit.. pp. 164 ss.
2 A abundanle e relemnte jurisprudência comunitária permile falur num direito
por lei ou decreto-lei - eventualmente. também por via de negociação
comunitário de inspiração pretoriana.
colectiva (art. 137.°. n.O 3. do Tratado); não o fazendo. o Estado pode ser 3 Uma relação desses actos pode consultar-se na Legillação do Trabcllho. organi-
responsabilizado por essa omissão. Mas importa distinguir a aplicabili- zad:l por JORCiF. LElTElCOIJTINIIO DE AUREU. assim como o elenco de directivas em maléria
dade directa da aplicabilidade imediata: a directiva não tem aplicação de política social. constante do Compêndio de Leis do Tmbalho. organi7.ado por ANTÓNIO
JosÉ MOREIRA. Quanto ii hannoni1A,çll0 de legislação do trabulho no que respeila à organi-
I Sobre a hannonização das regulamentaçõcs nacionais. cfr. ~arA OE CAMPOS. zação du dumção do Imbalho. ~·d. LIUERAL FERNANDES. «Hurmonização Legislutiva Comu-
Direito Comunitário, III. cit.. pp. 153 ss.; quanlo à repanição de competências neste nitária no Domínio dn Organização do Tempo de Trabalho... Pront.• n.· 45 (1993194). pp.
âmbito. ~·d. MARIA LulsA DUARTE. «Direito Comunilário do Trabalho ... -. cit.. pp. 156 ss. 29 ss.
2 Acerea da noção e relevância dos regulamentos e din:cti\·as. ~·d. MarA OE CAMPOS. "' A intcn'cnção comunitária tcm-se vcrificado primordialmentc na área da protec-
Diuito Comunitário. II. cit.• pp. 101 ss. e 121 55. ção do trabalhador. tanlo no que respeita à melhoria da.~ condições de segurança e saúde
3 Sobre a liberdade de \..'Scolha da forma e dos meios. com exemplificações. crr. no trabalho. como à protecção de jovens e de: trabalhadoms grávidas c luctantes. aspectos
MOTA DE CAMPOS. l>ireito Comunitário. II. cit.. pp. 128 5S. t.'Stes também relacionados com a segurança social.
4 Quanto à problemática da eventual aplicabilidade directa das directivas e à possi- Ilustrando a reduzida innuência comunitária no âmbilo do direito do trabalho.
bilidade de serem invocadas pelos cidad:los. cfr. MorA DE CAMPOS. Direito Comunitário.II, LIBERAL FERNANDES. «Hannoni1.ação Legislativa Comunitária... '" cil.. p. 29. afirma: «( ... )
cit .• pp. 132 s. e 290 55.; So~lA OUVElRA PAIS... Incumprimento das Directivas Comuni- uma simples comparação entre os n.-sultados alcançados a nh'el económico c o progresso
tárias. Do Efcito Din:cto à Responsabilidade do Estado". Dois Tema.t de Direito Comuni- (p-dl"Co) obtido II nível da harmonização do direito comunitário do tmblllho e dll segurança
tário. Pono. 2000. pp. 13 ss. social ilustra bem a discrepância c:\islente entre os dois domínios ( ... )>>.
208 Direito do Trabalho Capítulo 1/1 - Fomes tio Direito do Tra/}(,Iho 209
-~---------'-----------_.~------~----

segurança no trabalho. à protecção de acidentes de trabalho e às condições d) Lil're circulação de trabalhadores


de trabalhol. e desannonia quanto ao direito sindical - monnente a
representatividade e princípios de igualdade e liberdade sindical -. à A liberdade de circulação de trabalhadores no espaço da União Euro-
negociação colectiva. ao regime do contrato de trabalho - em particular peia. prevista nos arts. 39.° e ss. do Tratado. compreende o direito de res-
quanto à respectiva cessação -. à greve e ao foro competente. ponder a ofertas de emprego. de se deslocar livremente no território dos
É previsível. todavia. que a produção de regulamentos e directivas Estados membros para responder a essas ofertas. de residir num Estado
venha a ser incrementada. precisamente com o objectivo de hannonizar a membro para exercer a sua actividade laboral e de pennanecer no território
legislação no campo do direito do trabalho. Mas as dificuldades de unifor- do Estado membro depois de ter desenvolvido a actividade laboral (art.
mização. por diferenças legais e de mentalidade. levam inclusive a aplicar 39.°. n.O 3. do Tratado) I.
diferentemente idênticas regras comunitárias: exemplo disso é o trata- . '~. A primeira dificuldade surge no que respeita à noção de trabalhador
_.
mento igualitário. Pode. assim, concluir-se que a União Europeia é uma comunitário. O Regulamento n. o 1612168 do Conselho. de 15 de Outubro.
associação de Estados soberanos. que por quererem continuar a ser sobe- tal como o Tratado depois da revisão de Maastricht. considera que traba-
ranos, não prescindem de certas particularidades (cfr. art. 137.°, n.o 2, do lhador comunitário será um nacional de qualquer Estado membro. sem
Tratado). que justificam a dificuldade de hannonização da legislação de introduzir uma qualificação jurídica de ordem laboral. Porém. o Tribunal
trabalho. de Justiça da Comunidade Europeia acrescentou àquela noção a prestação
No Tratado estabelece-se uma relação entre estes instrumentos e o de trabalho a favor de outra pessoa sob direcção desta. recebendo lima
direito internacional. nomeadamente as convenções da OIT. A Comuni- remuneração. Mas o trabalhador pode não ser efectivo, se está à procura
dade pode ser parte em convenções internacionais incluindo as conven- de emprego (durante um período razoável) ou se se encontra desempre-
ções celebradas no âmbito da OIT (art. 300.° do Tratado) e em caso de gado à procura de outro emprego. também durante um período razoável 2 .
conflito prevalece o direito internacional convencional. por exemplo a A liberdade de circulação tem excepções. pois não é aplicável a em-
convenção da 011'2. pregos na administração pública e sempre que sejam invocadas razões de
A evolução do papel da União Europeia vai no sentido de aumentar ordem pública. segurança pública e saúde pública3.
o seu peso em matéria social. até porque a Carta Comunitária dos Direitos Quanto à liberdade de circulação de trabalhadores valem os princí-
Sociais fundamentais dos Trabalhadores3 (e Protocolo relativo à Política pios da igualdade e da não discriminação entre os trabalhadores nacionais
Social). não obstante ser uma declaração política, pretende influenciar as dos diferentes Estados membros. A igualdade pressupõe que os trabalha-
regras de direito do trabalho nos vários Estados membros4 . dores de diversas nacionalidades estão sujeitos ao mesmo regime de acesso
ao emprego. de relações laborais - nomeadamente quanto a remunera-
ção" -. de protecção do desemprego, de acidentes de trabalho e de
, I Sobre a questão. I'd. UOERAL FIiRNANIlF_'>, O l>ireito de UI're Circulação dos Tra-
I Nomeadamente no que respeita ao tempo de trabalho. efr. MARIA DE FATIMA ba/lwdore.f Comunitários, cit .• pp. 45 ss.
RIBEIRO. "O Tempo de Trabalho no Direito Comunitário. A Directiva 93f104/CE, de 23 2 Veja.se o Regulamento n.· 125lnO da Comiss:l0, de 29 de Julho. Contudo. como
de Novembro... Dois TellUlS de Direito Comunitário. Porto, 2000. pp. 109 ss. esclarece LIBERAL FERNANDES, O Direito de Ul're Circulação dos TraballUldores
2 Vd. MARIA LulsA DUARTE, «Direito Comunitário do Trabalho...... cil., p. 162. Comunitários. cil., p. 58, não têm surgido conflitos de hannonizaçào entre as diversas
3 Adoptada pelos chefes de Estado ou de Governo dos (doze) Estados da Comu- fonk'S.
nidade Europeia (à excepção da Grã-Bretanha) - no chamado Conselho Europeu -. a 9 3 Veja-se a Directiva do Conselho n.· 64122 IICE, de 25 de Fevereiro e LIBERAI. FER-
de Dezemhro de 1989. NANtll'.s. O Direito lÚ Lúore Circulll{'ão dOJ Traba/luuJores Comunitários, cit .. pp. 103 ss.
u
4 LIDERAI. FF.RNANDES, «Harmonização Legislativa Comunitária...... cil.. p. 30, 4 Cfr. art. 141.°. n. I. 2." parte. do Tratado. mas veja·se, contudo. os problemas
afinna que, sendo a eficácia vinculativa nula, o relevo jurídico da Carta é muito limitado. decorrentes do destacamento de trabalhadol\.'S a que se alude no § 1O.4.b), em particular
Cfr. também BERNAROO XAVIER. Curso, cil.. p. 237. no que respeita à aplicação de convellÇÕCS colt.'Cti\·lJS locais.
210 Direito do Trabalho Capitulo 11/ - f'ontes do Direilll do Trulmlllo 211

participação sindical. Por seu turno, a não discriminação implica que não exemplo do Princípio da Subsidiariedade», RDES, 1991. n.os 3/4. pp. 239 a 259;
haja um tratamento diferenciado em razão do sexo, raça, etc., como pres- PAULA QUINTAS, «A Directiva n.o 801987 (quanto à Aproximação das Legislaçõcs
creve o art. 141. 0 do Tratado e a Directiva n. O 76/207/CEE, de 9 de Feve- dos Estados-membros respeitantes à Protecção dos Trabalhadores Assalariados
reiro, permitindo-se o estabelecimento de medidas positivas para promo- em caso de Insolvência do Empregador). O Antes e o Depois de Fronc(JI'ich», QL,
ver a igualdade (art. 141.°, n.o 4, do Tratado)l. Como resulta do art. 13. 0 n.o 16 (2000), pp. 176 a 189; ROSÁRIO PALMA RAMALHO, Direito do Trabalho, I.
cit.. pp. 163 e ss.; MARIA DE FÁTIMA RIBEIRO, «O Tempo de Trabalho no Direito
do Tratado, as medidas necessárias para combater a discriminação em
Comunitário. A Directiva 931104/CE, de 23 de Novembro». Dois Temas c/e
razão do sexo, raça, origem étnica, religião e orientação sexual têm de ser
Direito Comunitário, Porto, 2000. pp. 109 a 180; SABINA PEREIRA DOS SANTOS.
tomadas pelo Conselho por unanimidade. Direito do Trabalho e Po/(tica Sacia/na U"ião Europeia. Cascais. 2000; MOlTA
Resta referir que a livre mobilidade de trabalhadores suscita questões ,. VEIGA. Direito do Trabalho Intemacio"al e Europeu. Lisboa. 1994, pp. 65 a 85;
circulares, relacionadas com a pennanência do trabalhador comunitário BERNARDO XAVIER. Curso. cit., pp. 100 a 102. 236 e 237 e «A Realização do
num Estado membro sem contrato de trabalho e da pennanência dos fami- Direito do Trabalho Europeu em Portugah>. RDES XXXVI (1994), n. OS 1/3, pp.
liares do trabalhador no Estado onde este presta a sua actividade. Neste 225 a 251.
ponto tem sido delineada uma tendência abrangente, que se reflecte, em
particular na Directiva n. o 68/300/CEE, de 15 de Outubro2.

Bibliografia:

JosÉ JOÃO AORANrES. "Do Tratado de Roma ao Tratado de Amesterdão. A


Caminho de um Direito do trabalho Europeu?», QL. n.o 16 (2000), pp. 162 a 175;
MOTA DE CAMPOS. Direito Comunitário. Vol. III, O Ordcnamclllo Económic:o, 2.3
ed., Lisboa. 1997. pp. 308 a 369; DIAS COIMBRA, «A Convenção Colectiva no
Âmbito Europeu. Eficácia Jurídica». QL 1(1994), n.o 3. pp. 144 a 153; MENEZES
CORDEIRO, Manual, cit., pp. 189 a 192; MARIA LufsA DUARTE. «Direito de Resi-
dência dos Trabalhadores Comunitários e Medidas de Excepção. Reflexão sobre
o Significado do Estatuto de Trabalhador-Cidadão na União Europeia», RFDUL,
XXXIX (1198), n. o 2. pp. 497 a 509 e «Direito Comunitário do Trabalho. Tópicos
de Identificação», Estudos do InstimlO de DireilO do Trabalho. Vol. I, Coimbra,
2001, pp. 153 a 188; LIBERAL FERNANDES. «Hannonização Legislativa Comunitá-
ria no Domínio da Organização do Tempo de Trabalho». Pront., n.O 45 (1993/94),
pp. 29 a 35, «Hannonização Social na Comunidade Europeil no Âmbito da
Duração do Trabalho». Pront., n. o 46 (1994/95), pp. 41 a 49 e O Direito de Livre
Cirm/ação dos Traba/haciores Comullitários. O Mercaclo Europeu de Trabalho.
Lisboa, 1998; MONTEIRO FERNANDES, Direito do Trabalho. cit.. pp. 74 a 85; SOFIA
OLIVEIRA PAIS, «Incumprimento das Din:clivas Comunitárias. Do Efeito Directo
à Responsabilidade do Estado, Dois Tema,ç de Direito Comullitário, Porto, 2000,
pp. 13 a 103; FRANCISCO LUCAS PIRES, "A Política Social Comunitária como

ISobre a questão, veja.se ;,ifm § 16.2).


2 Vd. LIBERAI. FERNANDES, O Direita de Livre Circulação dos Tmbalhadares
Comul/itários, cit.. pp. 88 ss.
§ 10. 0
Interpretação, integração e aplicação
das normas de direito do trabalho

1. Questões prévias

Contrapor a interpretação à integração e à aplicação das normas pres-


supõe uma distinção entre estas figuras, que não passa de um formalismo.
pois, na realidade. não há fases separadas. A diferenciação referida é inca-
paz de retratar a riqueza das situações concretas e corresponde a uma
inversão metodológica l . O método da subsunção pressupõe a dissociação
de fases. por vezes. até de forma mais pormenorizada. mas o jurista. na
prática, trabalha com um todo, na medida em que a realização do direito
corresponde a um processo unitári02•
A distinção entre a interpretação, a integração e a aplicação faz-se.
todavia, por razões didácticas, sem descurar que o direito é um todo. Além
disso. existe direito do trabalho, não só na solução jurídica de casos con-
cretos, como também quando se discutem questões hipotéticas e ainda.
sempre que. independentemente de casos concretos. se procura o sentido
de normas jurídicas).
Aos motivos de ordem geral. já referidos. acresce a frequente alusão.
, em direito do trabalhu, aofilvor laboratoris, que justifica um estudo dife-
renciado da interpretação. integração e aplicação de normas laborais. A esta
especificidade há ainda que incluir as particularidades da interpretação de
convenções colectivas de trabalho por comissões paritárias (art. 542.° do
CD e por assentos do Supremo Tribunal de Justiça (art. 180.° do CPT).

I crr. MENEZES CORDEIRO, «Os Dilemas da Ciência do Direito no final do Século


xX .. :!nt~oduçàooà ~içào portug~sa do Pensamento Sistemático e Conceito de Sistema~.,o.
na üenclQ do D"ello, de c.-W. CANARJS. pp. CU s. / c·:o.~~~: o~
2 Crr. MliNEZES CORDEIRO, «Os Dilemas cil.. p. CIV.
o •• " . ~~'{/;;f;~~;.~'~
3 Cfr. OI.lVElRA ASCENSÃO. O Direito. Introduçilo e Teoria Gemi. II.' cd., CoilT(í~t~i~~ ,~\'b
200I.po219. 1\.::>,:·tJ."lo·(:'~'
... ....
\..:~ " ''';.
V?:'''~''': ;0'
<:::~;/:o~i
214 Direito do Tmbalho Capíflllo 111- Fontl'.~ do Direito tio TfIlbtl_lh_o_ _ _ _ _ _2_1_5
----
2. Interpretação que as conve~ões colectivas de trabalho, na parte regulativa. como pro-
duzem efeitos em relação a terceiros. se aproximam da lei. quanto à sua
a) Aspectos gerais interpretação deve recorrer-se ao art. 9.° do CCI. Mas é preciso ter em
conta que a convenção colectiva de trabalho se distingue da lei. não tendo
I. A interpretação das normas de direito do trabalho está sujeita às as mesmas características; por outro lado. as normas de uma convenção
regras gerais do art. 9.° do CC. encontrando-se igmllmente na dependência colectiva provêm de negociações entre sujeitos privados (associações sin-
do estabelecido nos arts. 236.° e ss. do Cc. dicais e associações de empregadores), não emanando unilateralmente do
Relativamente à interpretação das leis não há dúvida que se aplica o poder central ou regionaJ2. Por isso. das negociações havidas podem. nal-
art. 9.° do CC. mas com respeito às convenções colectivas de trabalho. guns casos. retirar-se elementos importantes para a interpretação das
pelo menos na parte obrigacional. será antes de ter em conta o disposto nos regras constantes da convenção colectiva de trabalh03,
arts. 236.° e ss. do CCI; mesmo na parte regulativa. as convenções colec-
tivas de trabalho continuam a assentar nos parâmetros de uma figura nego- II. Não existem. contudo. diferenças fundamentais entre o disposto
ciaI. distinta da lei 2• no art. 9.° do CC e nos arts. 236.° a 238.° do CC4. Em qualquer dos casos
As normas constitucionais. as leis da Assembleia da República. os a interpretação é objl."Ctiva5 ; prevalece o sentido objectivado no texto,
decretos-leis do Governo. as convenções internacionais e as normas de tanto da lei. como do negócio jurídico. Além disso. o pensamento do autor
direito comunitário interpretam-se nos termos do art. 9.° do cc. da regra não pode ser atendido se não tiver um mínimo de correspondência
Quanto às convenções colectivas de trabalho. na parte obrigacional verbal no texto; deste modo. se da letra da lei ou do escrito no documento
dever-se-ão aplicar os arts. 236.° e ss. do CC3. Partindo do pressuposto de não se puder depreender um determinado sentido. nunca se poderá obter
uma interpretação com esse teor (arts. 9.°. n.o 2 e 238.°. n.o 1. do CC),
I Crr. MENEZES CORDEIRO, Manual. cit.. p. 306; BERNARIX) XAVIER, Curso, cit.. p. 266. Às convenções colectivas de trabalho não se aplica o disposto no art.
2 Há quem pn:conizc que as convenções colectivas têm o valor de lei material. crr. 236.°. n.o 2. do CC. que admite uma interpretação segundo a vontade real
FERNANDA NUNES AGRJAlMARIA lutZA Plt.,o. Cllntrato IndÍl'Ídllal de Trabalho. Coimbra.
1972, p. 35. em panicular a propósito da citação do Ac. STA de 28/1/1964. p. 35. nota 2.
Sobre esta questão. que se prende com a problemática das teorias publicist<l!' c contra· mentos colectivos. sem distinguir a parte obrigacionnl da parte regulativa. crr. RAÚL
tuaJislas. cfr. § 64.7. VENTURA. TeorÚJ da Relarão Jurídica de Trabalho. Porto. 1944. p. 207.
3 Por \·czes. sem se distinguir a p;'rte obrigacional da regulativa das convenções I crr. Ac. STJ (Plenário) de 11/4nooo. DR I Série- A. de: 24/5nooo.
colectivas, propende·se para a aplicação do art. 9.° do CC. No Ac. STJ de 9/11/1994. CJ
(STJ) II (I~). T. III. p. 284. considerou·se aplicável às convenções colecth'as as regras
! 2 No Ac. Tribunal Constitucional n.o 98/95. de 22/2/1995. BMJ 446 (Sup.). p. 435.
determina.se que as cláusulas de convenções colectiva.. não são normas par" efeitos de
de interpretação da lei. porque. na parte regulativa. está-se perante «autênticas normas integrarem o objecto idóneo dos recursos dc constitucionalidade.
jurídicas» (p. 286): efr. também Ac. STJ de 22/1/1992. BMJ 413. II. 377; Ae. STJ de J Cfr. MENEZES CORDEIRO. Manual. cit.. p. 306.
10/1111993. CJ (STJ) I (1993). T. III. p. 291. em especial. pp. 292 s., Acórdão STJ n.o 4 No mesmo sentido quanto ao Direito alemão. cfr. SOLt.NER. Arbeitsrechts. cit..
8/2005. DR I Série de 10/11/2005 Neste sentido aponta a doutrina maioritária. justificando p.136.
com a necessidade de objectivar a interpn.'1ação das convenções colectivas. crr. MENEZES S Quanto à orientação objectivista na interpretação da lei. cfr. OUVEIRA ASCENSÃO.
CORumRo, Manual, cit.. p. 307; BARROS MOURA, A c.:onvenr{7(/ Clllectim. cit.. p. 157. O Direito. cit.. pp. 385 55.; BAYrtSTA MACHADO. Itttmdução {III Direito e {lO Discurso
Quanto à aplicação dos ans. 236.° e 5S. do CC à interpretação dos contratos de Ú'gitimaJor. Coimbra. 1983. pp. 17955. Relativamente à interpretação de negócios j~ri.
trabalho. cfr. Ac. de 2/12/1993. CJ XVIII (1993). T. V. p. 189. dicos. a teoria da impressão do destinatário (art. 23(,.°. n.O I CC) aponta num scntldo
BERNARDO XAvmR. C"rso. cil .• p. 266 e nola 2 segue esla solução de compromisso: objectivista. crr. MENEZES CORDFJRO. Trauu!o dI' mrrifll C;"iJ Português. I. Parte Gl'ral.
admite a aplicação dos arts. 236.° e SS. do CC «mais no AE que num contrato colectivo» 2.' cd .• Coimbra. 2000. pp. 551 5S.; MOTA PINTO. Teoria Geral do Direiw C;\·iJ. 3.' cd .•
c «mais nas cláusulas contratuais que na~ normativas». No Ac. STJ de 9/11/1994. BMJ Coimbra. 1986. pp. 447 SS. Contudo, MF.NF2ES CORDEIRO. Mat/Uol. cit .• p. 305. afirma que
441. p. 110. prcconi7.ou·se a aplicação dos arts. 236.° e 55. do CC à interpretação de nor· «a interpretação da lei segue uma linha mais marcadamente objectivista ( ... ) leJ a
mas obrigacinnais da ccr e do art. 9.° do CC à.~ norma.. de cllri7. rcgulali\'o. inlerprctação do negócio jurídico ( ... ) é ( ... ) de configuração mais subjectivista. temperado
Admitindo a aplicação da.. regras dll interpretação de negócios jurídicos aos instruo embora pela tutela da confiança».
216 Direito do Trabalho Capítulo 11/ - fimleJ do DireilO c/o Trtlbalho 217
,---------

das partes, apesar de não corresponder à vontade declarada. Tal regra não b) Princípio do rratamefllo mais favorável
vale quanto às convenções colectivas de trabalho, por força do disposto no
art. 238.°, n. o I, do CC, nos tennos do qual, sendo o negócio fonnal - I. A base legal do princípio do tratamento mais favorável ao trabalha-
como é o caso (art. 532.° do CT) -, a vontade das partes tem de estar dor. também designado por favor laboraror;s. encontrava-se nos ans. 13. 0

minimamente expressa no texto: não se pode, pois, interpretar uma con- n.o I, e 14.°, n.o 2, da LCT e no art. 14. n.O 2. alínea b). da LRCT. onde. a
venção colectiva em sentido diverso daquele que consta no texto do res- propósito do conflito de nonnas, se considera que, em detcnninadas cir-
pectivo documento. cunstâncias, vale a solução mais favorável para o trabalhador'; hoje, com
Por conseguinte, apesar de as cláusulas da parte regulativa da con- algumas diferenças, importa atender ao art. 4.° do CT, assim como ao art.
venção colectiva não serem nonnas legais deve-se-Ihes aplicar o disposto 531.° do CT. Daqui se poderia retintr a prova da existência do fm'or
no art. 9. 0 do CC, mas a diferença entre a interpretação de leis e de con- laboratoris, como princípio geral do direito do trabalho.
venções colectivas de trabalho (na parte obrigacional) acaba por não ser Mas os artigos acima referidos - tanto da legislação revogada como
relevante. Há. no entanto, uma particularidade, que respeita à interpretação do Código do Trabalho - pretendem só resolver os conflitos de nonnas.
dos casos duvidosos, estabelecida no art. 237.° do CC; preceito que, na pelo que, apenas nessas situações, aplica-se a nonna onde se estabeleça
parte final. para as situações duvidosas de interpretação de negócios jurí- um regime mais favorável para o trabalhador; não se pode generalizar esta
dicos onerosos, aponta para uma solução de equilíbrio'. o que não ocorre solução a todos os casos de interpretação de regras de direito do trabalho.
com respeito ao art. 9.° do Cc. Dito de outro modo, os arts. 4.° e 531.° do CT - tal como anterionnente
A interpretação de regras dúbias no sentido que conduza a um maior os arts. 13.°. n.O 1 e 14.°, n.o 2, da LCT. assim como o art. 14.°, n.o 2. alí-
equilíbrio poderia valer no domínio das convenções colectivas de traba- nea b), da LRCT - não consagram um princípio geral de interpretaçã02 •
lho2 e ter também cabimento no que respeita à interpretação dos contratos
de trabalho. Mas há a ter em conta uma particularidade do direito do Trtlbtllho. cit .• p. 114 s. Este último autor (ob, cit .. p. t18) considerol. porém. que o lamr
trabalho: o princípio do tratamento mais favorável ao trabalhador. Para laboraloris corresponde a um prills relativamente ao esforço interpretativo. MOTTA VEIGA.
UçlJes. cit.. pp. 129 S5 •• admite o fin-or laborultJriJ com função interpretativa. pam deter·
alguns autores, este princípio é de relevância extrema, não sendo as situa-
minar se a nonna preceptiva tem ou não carácter mínimo; fom deste caso. o autor (ob. cit.
ções duvidosas - tanto as que advenham da interpretação do contrato. p. 153) não confere ao princfpio mIar hennenêullco. Posição idêntica parece ser susten·
como de convenção colectiva e ainda da lei - interpretadas no sentido tada por BERNARDO XAVIER. «Sucessão no Tempo de Instrumentos de Regulamentaç'Jo
que conduza a um maior equilíbrio. devendo. antes, procurar-se a solução Coh:\:tiva e Princfpio do Tratamento mais Favorável». RDES XXXIX (1987). n.· 4. pp.
mais favorável ao trabalhador3• 468 s. RAÚL VENTURA. TeorÚl da Relação Jurídica de Trabalho. cit.. pp, 207 s .. admite
-. quc a máxima in c/ubio pro labt"alore pode ser tida em conta «numa medida muito
I Aplicando este preceito a um contrato de trabalho. ~·d. Ac. ReI. Lx. de 211211993. restriti,'a .. no campo da interpretação. mas afirma que «Acima dêle (principio in c/ubio)
rJ XVIII. T. V. p. 189. deve colocar-se o escopo do conseguimento do justo equilíbrio dos interesses das partes».
2 Numa convenção colectiva de tmbalho. os casos duvidoso!>f em que não se I Podcr-se.ia igualmente aludir ao revogado art. 22.·. n.O 8. da Ler. onde. a pro·
detennina o senlido pretendido pelas partes. rulo serão muilO frequentes. mas em última pósito do ius \'ariandi. se fazia referencia ao tratamento mais favorável. Ma~ este preceito
análise. não havendo outros elementos. e tendo em conla a especificidade do campo de nada tinha que \'cr com a interpretaç.l0 ou aplicação das nonnas de Direilo do Trobalho.
aplicação do instrumemo colectivo - p. ex .• uma cláusula de paz sociul -. não choca o pois referia-se tão·só à situação laboral do trabalhador: sc. por via do ius ,'arÍt",di.
recurso à solução mais cquilibmda (art. 237.°. parte final. do CC) . desempenhar aClividade correspondente II umll categoria superior. lerá direito ali
.I Cfr. ANTONIO DE ARAÚJO. «Princípio "Pro Operario" e Interpretação de Nonnas tmtamento devido aos trabalhadores dessa categoria. A solução não é hoje diversa.
Juslaboraisll>. Re~'ista Jurídica. AAFDL. n.o 15 (1991). pp. 46 s.; ACÂno I.oURENÇü... o atendendo ao an. 314.° do cr.
Princípio do Tratamento mais Favorável,.. E.uudos sobre Temas de Direito do Traba/l/{). 2 Consciente desta situaç-Jo. ANTÓNIO OE ARAÚJO ... Princípio "Pro Operario" ......
Lisboa. 1979. p. 104; RosÂRlo PALMA RAMALHO. Da Autonomia Dogmática dl' /)jreilo c/o cit .• p. 32. faz uma distinção tcnninológica: a expressão «trotamento mais favorável ..
Trabalho. Coimbra. 2001. pp. 926 ss,; M. VICTOR RussoMANo. «Aspectos da Hennenêu· uliliza·se nos conflitos hierárquicos de nonnas c. para a interpretação de nonna~ labomis
tica do Direito do Trabalho". Temas de Direito c/li Traballw. Coimbm. 1990. pp. 592 c 598. - sitU3ljão não prevista no an. 13.' da LCl'{ncm no an. 4.° do CT) - n:\:orre·se ao prin·
respeclivamentc quanto a leis e convenções colectivas: MONTEIRO FERNANDF.S. Direito c/o cípio pro operario. O mesmo autor (ob. cit .. p. 45) acaba por concluir que o princípio pm
218 Direito do TraballJo Capitulo 11/ - Fomes c/o Direi/o do TrtllmllJo 219
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II. Para explicar o princípio do tratamento mais favorável. importa e se interpretavam as nonnas de direito civil no sentido mais favorável ao
relembrar que o direito do trabalho se autonomizou do direito civil com trabalhador.
vista a proteger o trabalhador. Enquanto o direito civil coloca as partes no No art. 13. 0 do projecto da LCT de 1966 preconizava-se o tratamento
negócio jurídico em pé de igualdade. o direito do trabalho surge pam favo- mais favorável na interpretação e aplicação das normas de Direito do
recer a parte mais fmca. e o favor laboratori.Ç. num sistema jurídico inci- Trabalho. No entanto. esta solução não veio a ser acolhid.a pelo Decreto-
piente. serve para combater a desprotecção do trabalhador. concedendo-lhe -Lei n. O 47.032 (anterior LCT). na medida em que. nessa .altura. o direito
um estatuto privilegiado'. do trabalho já era composto por um conjunto de normao; coerentes. pelo
O princípio do tratamento mais favorável tem, contudo, de ser enten- que deixara de carecer deste princípio. que tinha sentido quando só se
dido num contexto actual 2• Hoje. o direito do trabalho, autonomizado do aplicavam as regras de direito civil às relaç()Cs laborais'.
direito civil. continua a privilegiar a protecção do trabalhador subordi-
nado, mas com nonnas próprias. As nonna.. de direito do trabalho foram III. O favor laboralOr;s deve ser hoje entendido numa perspectiva
elaboradas tendo em vista a protecção do trabalhador). e como elas cons- histórica. sem uma aplicação prática: o direito do trabalho não foi estabele-
tituem. cm si, um sistema coen:nte. retomar a ideia tradicional do favor cido para defender os trabalhadores contra os empregadores. ele existe em
laboratoris é um contra-sens04. defesa de um interesse geral. onde se inclui toda a comunidade2 • A comu-
Antes de o direito do trabalho se ter autonomizado, não tendo ainda nidade. de que fazem parte trabalhadores e empregadores. beneficia da
nonna.. próprias. precisava de recorrer aos preceitos de direito civil. que mútua colaboração e da paz social. A ideia de que no direito do trabalho
assentam no pressuposto de as partes se encontrarem num plano igualitá- se pretende favorecer o trabalhador contm o empregador dificulta inclu-
rio. e fazia sentido que fosse concedido ao trabalhador um estatuto privile- sive a criação de novos empregos. pelo receio que os empregadores têm
aiado: mas hoje essa justificação não persiste. É absurdo que. existindo um das consequências que daí poderão advir.
~orpo de nonnas destinadas a proteger o trabalhador, se vá interpretá-Ias Do ponto de vista jurídico. o princípio do favor labora to ris leva ao
no sentido do tratamento mais favorável ao próprio trabalhador. Isso só empirism03 e ao subjectivismo na aplicação da lei. já que. admitindo-se o
tinha sentido quando o direito do trabalho era um ordenamento incipiente postulado do favorecimento de uma das partes em litígio. colide-se com
um dos princípios fundamentais do direito. que é o da certeza das decisões.
operario nlio encontra consagração legal no ordenamento ponuguês. Sobre o princípio pro relacionado com a segurança jurídica4fS.
operario na interpretação. veja·se também AI.ONSO OLEAlCASAS BAAMONDE. DereclJo dei
Trabajo. cit.. pp. 850 s. Quanto à interpretação de normas laborais. considerando preva· I ANTÓNIO DE ARAlIJO. "Princípio "Pro Operario" ... ». cit.. pp. 39 s.• cnnsidera que
lente um sentido sociológico. ,-do M. VICTOR RUSSOMANO. "AspeCIOS da Hermenêutica ... ». a redacção dada ao act. 13. 0 LCT demonstra clammente a inlenção do legislador de
cit.. pp. 587 ss.• em especial. pp. 59t 55. restringir II efectividade do famr laboratoris aos conflitos hier.\rquicos.
I Cfr. GALvÀo TELLES. «Contratos CivisJ>. BMJ 83. p. 169. que alude a um privilé- 2 Como refere MENEZF.s CORDEIRO. «Princípio do Tratamento m.lÍs FavoráveL.".
gio. justificado para contrariar o desequilíbrio de facto. Veja.se igualfente RAÚl VF.N- cit.. p. 113 ... o Direito do trabalho não deve ser entendido como o Direito dos pobres ou
TURA. Teoria da Relarão Jurftlica di' TraballJl). cit.. p. 195. dos desprotegidos». Também no sentido de o direito do trabalho tender para o estabele·
2 Crr. MENEZES CORDEIRO. "O Princípio do Tratamento mais Favorável no Direito cimento do equilíbrio entre IL~ panes e o interesse gerol. dr. BERNARtX) X,\vIER. Curso.
do Trab'llhn Actual ... Dirc'i/o t' Justira III (1987/88). pp. 112 e 134 S. cit .• p. 265 e "Sucessão no Tempo ... ». cit., p.471.
3 Por isso, fala-se igualmente no favor Itlbortl/ori.f como princípio de política legis- 3 Cfr. MF.NI'7F_'i CORDEIRO. Manual. cit .. p. 72, RERNARUO XAVIER. "Sucessão no
lath'a. cuja relevância parece indiseutível. Quanto ao famr IaboralOris como princípio de Tempo... J>. cit .• p. 470. considera que o apelo a tal princípio envoh'e uma técnica jurídica
política legislati\'a. dr. Ar..-róNlo DE ARAÚJO. «Princípio "Pro Operario" ... ". cit.• p. 30; rudimenL'lr.
Ml'Nr:ZES CORDEIRO. MClnllul. cit.. pp. 70 S. e «Princípio do Tratamento mais Favorável ...... 4 As soluções subjectivistas. contrárias à segumnça jurídica. baseadas no fa~'Or
cit.. p. 113. laboralOris encontram-se mais IIU domínio dos acidenles de trabalho. mas não exclusiva·
4 Mo ... A VHGA. LiriíC'j. cit .• p. 133. afirma que o fa~'or laboratoris corresponde a mente. Todavia. a jurisprudência. ,"'Om a sua saudável prudência. não lem por uso. pelo
um estádio da evolução social e económica que deveria. hoje em dia, considerar-se menos nlL~ últimlL\ decisõcs. recorrer de modo expresso ao princípio do trotamento mais
supcracL'l. fa\'orá\'el. Mas. em termos e\cmplificalivos. pode indicar-se o Ac, STJ de 5/511993. CJ
220 Direilo do Tmflt.lfho Capi/ufo 11/ - Fontes do Direi/o do Tmbtl/ho 221
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Por estas razões. o favor labOrtllOris deve ser entendido tal como no dúvidas na produção da prova, se presumir que ela foi feita a favor do tra-
direito das obrigações se alude ao favor debitoris. do qual não se retiram balhador l .
consequências práticas. O legislador de direito do trabalho consagrou um Na repartição do ónus da prova há a ter em conta a existência de
regime favorável ao trabalhador; é neste sentido que se deve entender o presunçõcs legais, estabelecidas pelo legislador. com vista a atingir certas
favor laboralor;s. finalidades. como é o caso do art. 374.°. n.o 2. do CT. em que se presume
abusivo o despedimento ou a aplicação de sanções disciplinares em deter-
IV. Assim. as normas de direito do trabalho - nas quais se inclui a minadas circunstâncias 2• Mas ao intérprete. perante a omissão do legis-
parte regulativa dos instrumentos colectivos I - . quanto à interpretação. lador, não cabe estabelecer presunções legais.
regem-se pelas regras gerais do art. 9.° do CC e não há que recorrer. nem Sempre que o legislador não estabeleça nenhuma presunção, terá de
sequer em situações de dúvida. a uma interpretação mais favorável ao recorrer-se à regra geral da repartição do ónus da prova. prevista no art.
trabalhador. pois nada na lei permite tal conclusã02. 342.° do CC. sob pena da incerteza das soluçõc.-s. Assim. nos termos da
regra geral, se aquele a quem incumbe o ónus da prova. não conseguir
V. Relacionado com a interpretação. importa ainda contestar o favor fazê-la, os factos têm-se por não verificados. Deste modo. a repartição do
laboratoris como modo de apreciação da prova. no sentido de. havendo ónus da prova não apresenta qualquer particularidade no direito do traba-
lho. Se. por exemplo. o trabalhador considera que foi ilicitamente despe-
dido terá. primeiro, de fazer a prova da existência do contrato de trabalho
e. depois. demonstrar que foi despedido: ao empregador cabe a prova dos
(STJ) I (1993). T. II. p. 274 (nUo obstante ter sido atribuída incapacidade total à traba-
factos que conduzem à justa causa de despedimento. Por isso. sendo o
lhadora para o desempenho da actividade para a qual fora contratada. o tribunal considerou
que a empresa deveria empregá-Ia noutra actividade. pois só haveria caducidade se a trabalhador candidato ou membro de corpos sociais de uma associação
trabalhadora não pudesse desenvolver nenhuma actividade). Numa perspectiva diferente. sindical. não há verdadeiramente uma presunção de falta de justa causa no
implicando uma inversào metodológica. no Ac. ReI. Lx. de 17/1/1190. Jurisprudência do despedimento (art. 456.°. n.O 2. do CT)3. Apreciar a prova a favor do tra-
Trabalho Anolada. de MENOHS BAPrlSTA. 3.' ed .. Lisboa. 1999. p. 31. perante a dúvida de
qualificação. optou-se por considerar que se estava perante um contrato de trabalho «à luz
do princípio do "favor laboratoris.... (p. 36). I Sobre presunções legais no domínio laboral. cfr.• entre outros. Ac. ReI. Pt. de
S MOlTA VEIGA. Lições. cit.. p. 133. considera que a máxima fa"or labom/oris 21110/1996. CJ XVI (1996). T.IV. p. 268. que afasta o princípio in dubio pro operario em
representa um desvio ao princípio da igualdade (art. 13.°. n.o 2. da CRP). privilegiando ou matéria probatória nos processos laborais (pp. 271 s.). afinnando: .. Quanto ao princípio
beneficiando alguém (o trabalhador) em razão dn sua condição social. MONTEIRO FERNAN- "in dubio pro operario". a sua invocação a propósito do ónus da proVII é. no mínimo.
or,s. DireilO do Tmba/lro. cit .. p. 114. contt.'SIII. nfinnando que () princípio do famr labo- despropositlldll. uma vez que o direito laboral nUa tem nenhumn especilllidnde relativa-
ralOris só «aparentemente (é) contrário ao "dogma" da igualdade perante a lei ... mas não mente às regras do ónus da prova. tendo nele plena aplicação as regras gerais já referidas ...
jUl>tifica. Quanto à inadmissibilidade dofamr se:mpre que implique: um tratanu:nto diM:ri- (p. 272). Se:gundo ORLANDO GoME.SIELsoN Gurrs<.1fAl.K. Curso de Direi/o do Trabalho.
minatório. dr. ARANGUREN in MAZZONt. Diri/IO dei Lamro. I. cit.. p. 215. 16." cd .• Rio de Janeiro. 2000. p. 31. a jurisprudência brasileira. inclusive em matéria de
I Independentemente de se tratar de instrumentos negociais ou nonnativos (,·d. infra facto. tem recorrido ao princípio in dubio pro misero. até porque a regm dll interpretaç-Jo
§ 63.) a interpretação segue ns mesmas regras e n competência pllra interpretar as c1áusullls favorável no trabalhador encontm apoio nll dOlllrina brasileira. cfr. MASCARO RUSSOMANO.
de tais instrumentos é. em qunlquer easo. atribuída IIOS tribunnis de trabalho. Neste sentido Curso de Dirt'ilo do Trabclllw. 14.' ed .• S. Paulo. 1997. pp. 245 sS.
quanto à Portaria de Extensào. "~do GONÇALVES DA SILVA. COnlrilmlO para o Es/uclo da 2 Vejn.se também a presunção constante do m. 23.°. n. O 3. do CT. no que respeita
Portaria de Ex/ensOO. DissertllÇ'do de Mestrado. Lisboo. 1999. p. 148. à proibi~-ão de discriminação. Sobre esta questão. cfr.. com base na anterior legislação.
2 Há autores que. não nceitando como princípio uma interpretação de nonnas ROMANO MARnNFZ. «A Igualdade de Tratamento no Direito Laboral. A Aplicação da
Inbomis mais fólvorável no trabalhador. a aceitnm em situações de dúvida (AmÓNIO OE Directiva 76/207/CEE em Portugal». Direito e Jus/iça XI (1997). T. 2. p. 94. c. atendendo
ARAlÍJO. «Princípio "Pro Opemrio..... ». cit.. pp. 4655.; M. VICTOR RUSSOMANO. «Aspectos ao regime do Código do Trabnlho. veja-se GUILIIERME DRA Y. anotnção VII. ao art. 23. 0 in
da Hermenêutica... ». cit.. p. 592); 1111 pressuposto. mesmo para hipóteses limite. nào deixlI ROMANO MARTtNEZ/Luís MtGUEI. MONTEIRo/JOANA VASCONCELOslMAOHIRA DE BRITo!
de constituir uma solução sem bao;e legal e que conduz ao subjectivismo e à incertc7.11 d.'l.'i /GUIl.HFRMf. DRAV/GoNÇALVF_" DA SILVA. Código do TmlNllho Anotado. cil.. pp. 122 e S.
docisõcs. 3 Vil. infm § 58.2.b).
222 Direito do Tralml"o Capitulo III - Foflle.f do DirdlO do Trabalho 223
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balhador corresponde a um subjectivismo inaceitável e sem qualquer fun- em relação a convenções colectivas não poderem ser afastados por cláu-
damento legal. sula de contrato de trabalho (art. 5.° do Cf). Assim. quando. por exemplo,
no art. 366.° do Cf se determina que, para além das sanções previstas na
lei. podem ser fixadas outras em instrumento de regulamentação colectiva.
c) Especificidades na illlerpretação não pode do contrato de trabalho constar uma sanção diferente das que se
encontram nas alíneas do citado art. 366. ° do Cf ou de convenção colec-
I. Quanto à interpretação dos preceitos de convenções colectivas tiva aplicável I.
prevê-se uma solução excepcional no art. 542.° do Cf. Nos termos do n. ° Este princípio. constante anteriormente do art. 13.°. n.o 2. da LCf.
I deste artigo, na convenção colectiva deve prever-se a constituição de defendeu-se que valia não só no domínio do diploma onde foi consagrado,
uma comissão mista paritária com competência para interpretar e as suas pois correspondia a uma particularidade interpretativa de tooo o direito do
disposições. Esta comissão será composta por igual número de membros trabalho. justificada pela complexidade de fontes e pelo papel atribuído
das associações sindicais e de empregadores (ou empregadores) que nego- aos instrumentos de regulamentação colectiva2• A solução veio a ser
ciaram a convenção. sendo. por isso, paritária e mista. A referida comissão consagrado no Código do Trabalho. onde o art. 5.° do Cf estabelece como
terá de ser prevista na convenção, pois não se constitui automaticamente. princípio geral esta regra de interpretação, que se aplica a todas as disposi-
Sempre que a comissão mista paritária, por unanimidade I , interpretar ções deste diploma, mas igualmente em outros diplomas reguladores de
em determinado sentido uma norma da convenção colectiva, essa inter- matéria laboral. como os regimes especiais. por força do art. I I. ° do Cf.
pretação integra-se no instrumento (art. 542.°, n.o 4. do Cf), sem o valor
da interpretação autêntica do art. 13.° do CC2.
Bibliografia:
II. A segunda especificidade a ter em conta respeita à interpretação
judicial de cláusulas de convenções colectivas, para a qual se estabeleceu ANTÓNIO DE ARAÚJO. "Princípio "Pro Operario" e Interpretação de Nonnas
um processo especial (arts. 180.° e ss. do CPT). Juslaborais». Revista Jurídica. AAFDL. n.O 15 (1991). pp. 29 a 48; MENEZES
Como foi referido anteriormente (§ 8.). o acórdão do Supremo Tribu- CORDEIRO. Manllal. cit.. pp. 69 a 76 e 305 a 312 e "O Princípio do Tratamento

nal de Justiça que interpretar uma cláusula de convenção colectiva tem o


I Tr.lla·~e: daquilo a que: MENEZES CORDEtRo, MUIIlUlI. cit.• p. 308. designa por nor-
valor ampliado de revista (art. 186.° do CPT), vinculando essa interpre-
mas con\·énio-dispositivas. que nào podem ser afastadas pelas partes no contrato de traba-
tação os outorgantes e os destinatários do instrumento. Esta interpretação lho. mas que estão na disponibilid.1de das panes colectivas.
judicial, à imagem da interpretação feita pela comissão mista paritária, 2 Admitindo que era. já então. um princípio válido para todo o direito do trabalho.
mas diferentemente da interpretação autêntica (art. 13.° do cq, não tem da\'am-se alguns exemplos que justificavam a aplicação abrangente da citada norma da
eficácia retroactiva. pois a lei não lhe atribui esse efeito.
,
III. Como terceira e última especificidade interpretativa, há a assina-
LCf. Assim sendo. quando no art. 59.°. n.o I. da LCCf se admite a alteração de algumas
regras sobre cesl;aÇ"do do contrato de trabalho por instrumento de regulamentação colectiva
de nalUrel.a con\·encional. está Vetblda tal modifICação por contrato individual de trabalho.
De modo diverso. no art. 55.°. n.o 3. da LCCT. o legislador admitiu que a duração do
lar o facto de os preceitos legais de onde consta o seu carácter supletivo período experimental fosse reduzida por convenção colectiva de trabalho ou contrato
individual de trabalho. À mesma ,:onc1usão se devia chegar atendendo ao disposto no 00.
I Não obstante a lei aludir à unanimidade. nada impede que. na própria convenção 5.°. n.O 9. da LOT. quando se previa o aumento, até duas horas. do período normal de tra·
colectiva de trabalho. se estipule que a comissão tome as delibernções por maioria simples balho por convenção colectiva. exc1uindo-se. por \'ia interpretativa, que tal solução fosse
ou qualificada. acordad.1 em contrato de trabalho. Refira·se ainda. como exemplo deste princípio. o dis·
2 I'odcr-se-ia pensar que a posição de MF.NF.7J:.s CORDEIRO. Manual. cit.• p. 311. é posto no revogado art. 1.0. n.o I. do Dccreto-Lei n.o 404/91. de 16 de Outubro, onde se
diversa. ao afirmar que a interpretação feita por comissão paritária é autêntica; todavia. o admitia que. e:m convenção colectiva, fossem prcvisl:lS outras funções a ser exercidas em
mesmo autor (ob. e loc. cil.) considera que. nos termos do art. 12.° do CC. não lhe deve regime de comissão de serviço; não se tolerando. evidentemente. que tal constasse de con-
ser lltribuída efICácia retroactivll. traIo de: tmbalhll.
224 Direito c/o TrIlbaU/() Capítlllo 11/ - f(mte.~ da DirálO c/o Trabalho 225
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mais Favorável no Direito do Trabalho Actual ... Direito e Jusliça III (1987188). mia. não se compadece com uma visão unitária que justifique tratamentos
pp. III a 139; MONTEIRO FERNANDES. Direito do Trabalho. cit.. pp. 114 a 119; idênticos.
AcÁcIO loURENço. «O Princípio do Tratamento mais Favorável ... E.fludos sobre
Temas l/e Direito do Trabalho. Lisboa. 1979. pp. 91 a 110; ANDRADE MESQUITA. II. Importa referir que, não obstante a distinção legal (arts. 10.° c
Direito do Trabalho. cit.. pp. 223 e ss.; ROSÁRIO PALMA RAMAI.HO. Direito do 239.° do CC). na grande maioria das situaçõcs, as diferenças práticas não
Trabalho. I. cit.. pp. 251 e ss.; MOITA VEIGA. Lições. cit.. pp. 127 a 134; RAÚL serão relevantes. porque tanto o art. 10.° do CC como o art. 239.° do CC
Vt:~mJRA. Teoria da Relação Jllrfdica lle Trabalho. cit.. pp. 195 a 199.207 e 208; apontam para a mesma solução: em qualquer deles a integração deverá ser
BERNARDO XAVIER. Curso. cit.. pp. 264 a 266. feita num parâmetro objectivista I. Poder-se-ia pensar o contrário tendo em
conta que o art. 239.° do CC remete para a vontade hipotética das partes
e. como tal. estaria em causa uma perspectiva subjectivista. Porém, na
3. Integração leitura do artigo em causa denota-se que a vontade hipotética das partes
está na dependência de uma boa fé objectiva. e como esta prevalece sobre
I. À integração das lacunas de direito do trabalho aplicam-se os arts. a vontade hipotética. prepondera a concepção objectivista2• Acresce ainda
10.° e 239.° do Cc. que a boa fé objectiva. a que se recorre na integração dos negócios jurídi-
As lacunas das leis de trdbalho (leis da Assembleia da República, cos, vai determinar a vontade hipotética de uma pessoa colectiva, ou seja.
decretos-leis do Governo. etc.) são integradas nos termos do disposto no de uma associação sindical ou de uma associação patronal. A vontade
art. 10.° do CC, nos mesmos moldes em que se procede em outros ramos hipotética de uma pessoa colectiva dificilmente não redunda numa pers-
de direito l . pectiva objectivista.
A integração de lacunas de convenções colectivas de trabalho pode Por isso. não haverá diferenças substanciais entre a integração de
suscitar alguma perplexidade 2 • Tendo em conta o que foi referido a propó- lacunas feita nos termos de qualquer um dos dois artigos: ambos apontarão
sito da interpretação das normas de convenções colectivas de trabalho. para uma solução objectivista.
parece que, em sede de integração da parte regulativa. deverá valer o dis-
posto no art. 10.° do CC. aplicando-se o art. 239.° do CC à integração de III. Quanto a especificidades cabe salientar as regras já enunciadas a
lacunas da parte obrigacional da convenção colectiva3. propósito da interpretação. que valem igualmente em sede de integração.
A integração de lacunas na parte regulativa do instrumento colectivo Concretamente. a integração de lacunas de uma convenção colectiva por
apresenta uma particularidade. na medida em que não parece que se possa parte da comissão paritária (art. 542.° do CT) e a integração de lacunas de
recorrer à analogia entre diferentes instrumentos; a lacuna de uma conven- convençõcs colectivas por via de um acórdão do Supremo Tribunal de Jus-
ção colectiva não poderá ser integrada com base na solução análoga cons- tiça (art. 180.° do CPT). Estas particularidades no âmbito da interpretação
tante de outra convenção. pois cada instrumento, em razão da sua autono-
,
I Acerca da integração de lacunas. err.• por todos. OUVEIRA ASCENSÃO. O Direito.
seguem o regime enunciado anteriormente. relativo à interpretação (supra
n.O 2).

cit .• pp. 415 SS. I Quanto ao objectivismo na integração iliL~ lacunlL~ da lei. cfr. OLIVEIRA ASCF.NSÃO.
2 Quanto à proibição do recurso à analogia nas convenções colectivas de trabalho no O Direi/o. cit.. pp. 454 ss.; BAPTISTA MACIIAOO. ""rodIlÇiio ao Direito. cit.. pp. 102 ss.
direito italiano. cfr. ARANGUREN in MAUoNt. DirillO dei un"Oro.l. cit .• pp. 218 s. 2 efr. MENI'.ZES CORDEIRO. Tratado de Direito Cil·iI. cit.. pp. 551 s. Sobre esta ques·
3 Sem proceder a tal distinção. cfr. RAUL VFN11JRA. Teoria da Relação Jurídica de tão. ma.~ sem uma afirmação concreta no sentido do texto. \'eja-se CARVALHO FERNANDF_'\.
Trabalho. cit.. p. 212. No sentido do texto. MF.NEZES CORDEIRO. Manual. cit.. pp. 306 s .• Teoria Geral do Direito Cil-il. Vol. 11.3.' ed .• Lisboa. 2001. pp. 426 s.; HORSlU. A Part..
considera aplicável o 3rt. 239. do CC à integração de lacunas no conteúdo obrigacional
0
Geral do CMigo Cil'iI Português. Teoria Geral do Direito CMl. Coimbra. 1992. pp. 513
da \."On\'enç'dO colectiva. pois. na parte regulativa. valem as regras gerais da integração da S.; MorA PllflO. Teoria Geral do Dir..ito Cil-il. J .• ~-d .• Coimbra. 1986. p. 460. Diferen-
lei (an. ln. o do CC). BERNARDO XAVIER. Cllrso. cit.. p. 267. na sequência do que defendera temente. OLIVEIRA ASCENSÃO. Teoria Geral tio Direito Ch·iI. VOI. 11. Coimbra. 1999. p.
quanto à interpretação. também preconiZo1 uma solução de compromisso cm relação ii 172. não ohslanle aludir a um critério de r.I7.oabilidllde. na nota 208 afirma que a «JXJloi~ã()
integntl;ão de lacunas em convenções colectivas. objectiva ( ... ) p.1rcce ter sido afa.'itada JX.-la nossa lei ...
226 Direito do Trabalho _ _ _ _ _ _C_a...:p_í_tu_lo_I/_I_-_f_·m'~~ do f)jr('ito dI> Trabll/~ 227
-------------------------
IV. Ainda relativamente à integração das normas de direito do traba- a) Aplicaçelo no tempo
lho. há a referir que neste ramo do direito existem algumas omissões. as
quais são imprescindíveis. pois há aspectos não regulados no direito do
trabalho. uma vez que não se justificaria a sua previsão neste ramo do di- I a.l) Sucessão de leis 'lO tempo

reito. Essas situações que. aparentemente. poderiam ser consideradas lacu- I. A problemática da sucessão de normas no tempo foi estudada na
nas. no fundo representam a normal falta de plenitude de um ramo do I
'I
disciplina de Introdução ao Direito. sabendo-se que. como princípio geral.
direito que vai sendo preenchido pelo direito civil. em especial pelas a lei nova revoga a antiga e rege as relações jurídicas após a sua entrada
regras da teoria geral e do direito das obrigações. Por exemplo. o problema em vigor l . A lei nova. ao pretender directamente substituir a lei antiga ou
da capacidade das partes não é naturalmente regulado no direito do traba- porque regula a mesma matéria. revoga esta última.
lho - à excepção das especialidades próprias -, e tem de se recorrer ao O princípio geral da aplicação imediata determina que a lei nova. no
direito civil. O direito do trabalho continua, não obstante a sua autonomia, momento em que entra em vigor. substitui, de imediato. a lei antiga (art.
dependente de regras gerais l ; por conseguinte, tais lacunas. por serem 12.°. n.o 1. do CC)2. Apesar de a aplicação da lei nova ser imediata. por
aparentes. são preenchidas por normas de direito civil. não se recorrendo via de regra. só regula para o futuro. não valendo para situações passadas.
às regras de integração. É o princípio da não retroactividade da lei.
;
Este princípio basilar do ordenamento jurídico pode ser afastado
sempre que a lei pretenda ser retroactiva. Não há nenhum imperativo cons:
Bibliografia: 1 titucional no que respeita à irretroactividade da lei - excepção para a leI
criminal e a fiscal (arts. 29.° e 103.°. n.o 3. da CRP) -. mas. por via d:1
MENEZES CORDEIRO. Manllal. cit .• pp. 305 a 307; RAÚL VENTURA. Teoria da ~ ." regra. a lei não é retroactiva 3 •
Relaçeio Jurídica de Trabalho. cit.. pp. 208 a 212: BERNARDO XAVIER. Curso. cit..
pp. 266 e 267.
II. O princípio da não retroactividade pode ser encarado na perspec-
tiva de defesa dos direitos adquiridos4 • Entender a não retroactividade pelo

4. Aplicação I Sobre a aplicação no tempo de nonnas jurídicas. ,·d. OUVElRA ASCENSÃO. O Di·
reito. cit. pp. 52955.; BAPIlSTA MACHADO. Introdução ao Direito. cit .. pp. 231 ss.
A este propósito importa tratar da aplicação das normas laborais no 2 D-.tí que o princípio da aplicação imediata das nonnas labomis não apresente
tempo. no espaço e do concurso hierárquico de normas de direito do tra- qualquer cspecificidade. Sobre esta pretensa particularidade. cfr. BER~~RDO XAVI~.R.
balho. Curso. cil.• p. 269. Este autor. especialmenle no seu estudo «Sucessão no I empo...... CII .•
pp. 473 ss .• parece sugcrir que o princípio da imediata sujeição do contmto de lrabalho às
No estudo destas três questões. em especial no concurso hierárquico.
novas nonnas é uma especificidade do direilo do Irnhalho. fundado no sell carácter I.-slntll·
cabe aludir, de novo. ao princípio do tratamento mais favt>rável ao traba- tário. Não parece que eltista uma verdadeim diferença. porque ao conteúdo de qualquer
lhador. contmlo aplica-se imediatamente a lei nova e os factos constitutivos. modilicativos e
clttintivos regem-se pela lei vigente à data em que se verificaram.
3 Acerca do princípio da niio relroactividlldc da ki. efr. OUVEIRA ASCENSÃO. () Di·
reiltJ. cil.. pp. 533 ss. e 537 S5.; BAPTISTA MACHADO. Introdução ao Direito. cit.. pp .. 223
55. A este propósito. refira-se que. nos tennos gemis. em relação às infrm:çlX."S penais no
domínio laboral. por imperativo constitucional. as regras incriminadoras não podem ser
retroactivas. Trata-se de um princfpio que. primonlialmente. tutela o empregador.
I Neste sentido. RAÚL VINIURA. Teorit, du Relação Jurídica de Trabalho. cil.. pp. .. efr. OLIVEIRA ASCENSÃO. O Direito. cit.. pp. 540 ss. e 547 ss.; BAPnSTA MA-
211 s .. depois de longa explicação acerca da <.-sp..-cialidadc do diTcito do trabalho. ~ de ntADO. Introdução t/() Direito. cit.• p. 223. A doutrina dos direitos adquiridos. nos tennos
opinião que. também em sede de integração... p1icam·se as regras de direito comum. da qual -seria retroactiva a lei que \'iolassc direitos já constituídos ( ... ). foi sendo posta de
228 Direito c/o Trabalho Capíllllll 11/ - Fmlles do Direito c/li Tmba/lro 229
-----~!:..:.:...----------------- -_.. _-

prisma dos direitos adquiridos, não obstante as críticas a esta teoria I, terá
relevância e. em sede de direito do trabalho. mais propriamente da relação
I -á às novas exigências jurídicas. De outro modo, tendo um contrato sido
celebrado nas vésperas da revogação de uma lei, o seu conteúdo seria dife-
jurídica laboral. pode levar a concluir que certas particularidades não cor- rente do de um outro ajustado alguns meses depois; passando a subsistir
respondem a verdadeiras excepções. dois contratos com conteúdo diverso, o que não teria sentido.
A não retroactividade implica que a lei só dispõe para o futuro; por- Nos termos do art. 12.°, n.o 2, do CC. pretende-se pôr em pé de
tanto, os efeitos jurídicos verificados no domínio da lei anterior não são pos- igualdade todas as situações negociais vigentes.
tos em causa. Poderia, por isso, dizer-se que os direitos adquiridos com efei- Mas, em particular. tem sentido falar na aplicação da lei nova ao con-
tos produzidos no domínio da lei antiga, não seriam afectados pela lei nova. teúdo relativamente a contratos cuja execução se protela no tempo, não assim
nos negócios jurídicos de execução instantânea. Quando a execução do con-
III. Tendo isto em conta, importa aludir à distinção constante do art. trato se protela no tempo - como é regra na relação jurídica laboral -. o
12.0. n. ° 2, do CC, quanto à aplicação da lei nova: por um lado, os factos seu conteúdo tem de se adaptar às exigências da nova legislação. Assim se
constitutivos (modificativos e extintivos), e, por outro. o conteúdo desses a lei nova estabelece outro regime compensatório para a cessação do con-
mesmos factos. trato de trabalho (p. ex .• art. 388.°, n.o 2, do CT), o novo valor aplica-se
A não retroactividade determina que a lei nova não se aplica aos aos contratos celebrados antes da entrada em vigor da lei que cessem
factos constitutivos de situações criadas no pretérit02. mas, como diz o art. depois dessa data.
12. 0, n. ° 2, do CC, aplica-se ao conteúdo das relações jurídicas estabeleci-
das no domínio da lei antiga. Assim. se o contrato de trabalho foi cele- IV. Nesta sequência. dispõe-se no art. 8.°, n.o I, da Lei n.o 99/2003
brado na vigência da lei antiga, quer dizer que, com respeito à sua cons- (que aprovou o Código do Trabalho): «( ... ) ficam sujeitos ao regime do
tituição, designadamente em relução à forma do negócio jurídko, vigora a Código do Tmbalho os contmtos de trabalho e os instrumentos de regula-
lei antiga. Mas quanto ao conteúdo, aos direitos e obrigações das partes, a mentação colectiva de trabalho celebrados ou aprovados nntes dn sua
partir do momento em que entra em vigor a lei nova. o contrato de trabalho entrada em vigor. salvo quanto às condições de validade e aos efeitos de
passa a estar sujeito a esta última. factos ou situações totalmente passados anterionnente àquele momento».
A não retroactividade implica tão-só que não sejam postos em causa Norma idêntica encontra-se no art. 6.° da LECT e a mesma solução esta-
os factos constitutivos, porque o conteúdo do negócio jurídico adaptar-se- belece-se em relação às estruturas de representação colectiva de traba-
lhadores e empregadores constituídas antes da entrada em vigor do Código
lado ( ... ) por causa da sua grande impn,"\:i~o .. (BAI'Il:"A MACHADO. Introduf'ão ao Di·
reito. cit.. p. 232), o que não tem obstlldo à imponância de saber se a situaçào jurídica já (art. 8.°, n. ° 2. da Lei n. ° 99/2(03).
\.osta\·a constituída à data da entrada em vigor da lei nova e que explica o facto de os Deste preceito não se deduz qualquer especificidade de regime, pois
tribunais recorrerem ao conceito de direito adquirido (BAPTISTA MACHAtlO,lntrocluf'ão ao dispõe. exactamente, no mesmo sentido do art. 12.°. n. ° 2, do CC.
lJireito, cit., p. 236). Cfr. em Ol.lVFJRA ASCENSÃO, O Direito, cit., pp. 540 5S., a consa-
grnçào da tutela do direito adquirido no Direito brnsileiro. Quanto à ,,*rência a direitos V. Como resulta do princípio geral de aplicação das leis no tempo, «A
adquiridos por Iribunais de Irnbalho, veja-se o Ac. ReI. Cb. de 6/611 99 f, CJ XVI (1991),
lei só dispõe para o futuro», mas em relação às situações jurídicas duradou-
T. III, p. 124,
I Cfr. OLIVEIRA ASCENSÃO, O Direiw, cit., p. 541. A alusão a direitos adquiridos no ras, constituídas antes da entrada em vigor do Código do Trabalho, a lei nova
texto subsequente não é feita como critério de cxplicaçào do princípio da não retroacti- aplica-se-Ihes; deste modo. um contrato de trabalho ou um instrumento de
vidade, mas paro resolver um problema de direito do trnbalho. regulamentação colectiva de trabalho celebrado antes da entrada em vigor
2 Esta regrn vale também pam os actos modificativos c cxtintivos de situações do Código do Trabalho. subsistindo a sua execução, passa a ser disciplinado
jurídicas. Assim, se dada situaçào jurídica se extinguiu por acto das partes. a posterior pelo disposto neste diploma após a data de início de vigência. Dito de outro

·Ii
alternção legislativa não vai produzir efeitos na já e:\linta situação; exemplificando, se um modo, no que respeita ao conteúdo das relações jurídicas laborais, o Código
conlrnto de trnbalho foi re\'ogado por acordo escrito (an. 39-J. o dom. a maior exigência
do Trabalho «abrange as próprias relações já constituídas, que subsistam à
de forma imposta pelo ano 395. 0 do CT - reconhecimento notarial presencial das a.'ósina-
turas - não se aplica ao acordo revogatório cclebmdo antcs da cntladl' em vigor da lei. data da sua entrada em vigop> (artigo 12.°, n.o 2, injine, do CC).
1

I
I

230 Direito tIo 1'm}m/lw CtI/lílll/O JJ/ - Fontes do Direito do 1'",bl.llllO 231

Esta regra de aplicação do Código do Trabalho às situações jurídicas Por isso. no que respeita às situações que derivam da relação laboral.
em execução, mas constituída.. antes da sua entrada em vigor, sofre duas independentemente da data da celebração, importa averiguar em que
excepções: as condições de validade são aferidas no momento da sua momento se constituiu o direito, porque. quanto ao mesmo contrato de
constituição (p. ex., quanto às exigências de forma deve atender-se às que trabalho pode estar em causa, simultaneamente, a aplicação da lei nova e
vigoravam ao tempo em que a situação jurídica se constituiu); os factos já da lei antiga, dependendo das situações concretas.
produzidos ou situações totalmente passada.. antes da entrada em vigor do
Código do Trabalho são regidos pela lei anterior, pois este diploma não se VI. Na sequência das regras comuns e do entendimento geral, sabendo-
lhes aplica (assim, o Código du Trabalhu não se aplica às retribuições ou -se que qualquer alteração legislativa pode ser fonte de iniquidades e de
às férias vencidas antes da sua entrada em vigor). A expressão «totalmente desigualdades, pretende-se que o Código do Trabalho se aplique a todas as
passados» tem de ser entendida na sua amplitude: o Código do Trabalho relações laborais, independentemente da data da respectiva constituição,
não se aplica a situações constituídas e extintas no âmbito da lei anterior, evitando as assimetrias entre os diferentes sujeitos laborais. Ainda que as
pelo que, se subsistem sequelas. nomeadamente relacionadas com o expectativas de uns possam ser postas em causa é preferível que não se
incumprimento. neste ponto. pode aplicar-se a lei nova (v. g .• se a falta de estabeleçam desigualdades em função da data da constituição do vínculo
cumprimento da retribuição se verificou no domínio da lei antiga. mas laboral.
persiste durante a vigência do Código do Trabalho, aplicam-se, p. ex .• as
garantias de cumprimento neste previstas; do mesmu mudu, se u contrato VII. Quanto à aplicaçãu nu tempo. importa ainda ter em atenção o
de trabalho cessa depois da entrada em vigor do Código do Trabalho por disposto no art. 9.° do cr. que constitui excepção ao disposto no preceito
motivo ocorrido antes dessa data aplica-se o disposto neste diploma). anterior, afastando-se da regra geral de aplicação das leis no tempo rela-
Refira-se ainda que, não obstante no n. o 1 se aludir à aplicação no tivamente a alteração de prazos (artigo 297.° do CC).
tempo dos instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho, a solu- As três excepções constantes do art. 9.° do CT correspondem a
ção constante do preceito em anotação sofre excepções neste âmbito, prazos curtos (10, 30, 60 dias), não excedendo, em princípio. um ano e,
constantes dos artigos 13.°, 14.° e 15.° da Lei n.o 99/2003. por via de regra, o Código do Trabalho não altera os prazos constantes da
No n.o 2 encontra-se a mesma disciplina adaptada às estruturas de lei anterior. Nas poucas situações em que os prazos são alargados (v. g.,
representação colectiva, maxime sindicatos e associações de emprega- aumento do período experimental de 60 para 90 dias ou do prazo de
dores. O Código do Trabalho aplica-se-Ihes não obstante as respectivas resposta à nota de culpa de 5 para 10 dias) a aplicação do n.o 2 do artigo
associações se terem constituído antes da sua entrada em vigor, excepto no 297. ° do CC, além de não estar enraizada no espírito. mesmo dos práticos
que respeita às condições de validade e a aspectos relacionados com actos do direito, poderia ser de aplicação difícil. Do mesmo modo, sendo reduzi-
de constituição ou de modificação. em que prevalece a lei vigente na data dos os prazos (p. ex .• diminuição do prazo para oposição escrita ao regula-
em que se realizaram tais actus. mento de empresa de trinta para vinte e um dias) dever-se-ia aplicar o n.o 1
Relativamente a um contrato de trabalho celebrado noltomínio da lei
antiga, o acto de constituição e os efeitos produzidos não são postos em ·An5 rege-se pela nova lei - LCcr, de 1989); Ac. ReI. Lx. de 19/211992. CJ XVII
causa por alterações legislativas. Se, entretanto, entra em vigor a lei nova (1992). T. I, p. 208 (tendo o conlralo a termo sido celebrado no domínio do Decreto·Lei
que, por exemplo, modifica o regime de férias, as férias que o trabalhador n.o 874n6, cessando já na vigência da LCCr, o Irnbalhador tem direilo ii compensação
gozou no domínio da lei antiga, ou que se venceram na vigência desta. não que esle diploma prevê no an. 46.°, n.O 3 LCCT); Ac. ReI. Év. de 26/5/1992. CJ XVII
são postas em causa pela a lei nova. mas as férias a que o trabalhador vai (1992), T. m. p. 361 (num contraio de trabalho sem lenno celebrado com trabalhador que
já atingiu os 70 anos. com a entrada em "igor da LCcr transforma·se em contraio a
ter direito nos anos seguintes, são reguladas pela lei nova l .
lenno): Ac. STJ de 9/1111994. CJ (STJ) II (1994), T. 111. p. 282 (tendo o trabalhador
prcslado trabalho suplementar lextraordinário) na "igência dos arts. 16.° e ss. da LDT. até
I Quanlo a outros exemplos. dr. Ac. ReI. Cb. de 6/6/1991. Cl XVI (I99\). T. III. ii cnlrada cm vigor do Decrelo·Lci n.o 421/83. as horas a mais serão remunerndas nos
p. 124 (a cessação do conlrato de lrabalho l.-clebrado na vigência do Decreto·Lei n.O 372· lemlOs prescritos nos preceitos revogados).
232 Dirá/o do Tralmllw Capi/lllo III - "·on/t!s do Dirá/o do Tmlmllro 233

do artigo 297.° do CC. cuja solução traria várias dificuldades de aplicação. Não há nenhuma particularidade no direito do trabalho. na medida
monnente atendendo ao disposto na parte final deste último preceito. em que vale um princípio comum a toda a ordem jurídica. A não retroacti-
O regime excepcional constante do artigo em análise só se aplica nos vidade da lei acarreta a salvaguarda dos direitos adquiridos na vigência da
casos especialmente previstos. Nas demais hipóteses vale o regime geral lei antiga.
do artigo 297.° do Cc. Com base nesse postulado de manutenção dos direitos adquiridos
Quanto à alínea b) do art. 9.° do cr. estão em causa prazos de pres- poder-se-ia admitir que. no direito do trabalho. se salvaguardam as situa-
crição ou de caducidade iniciados antes da entrada em vigor do Código do çõcs constituídas ao abrigo de contratos de .trabalho que tenham sido cele-
Trabalho, que não se alteram, mas não os efeitos da prescrição ou da cadu- brados na vigência da lei antiga. na medida em que esta seja mais favo-
cidade. Por isso, a excepção constunte da alínea b) não detenninu. nomea- rável ao trabalhador em detenninados aspectos'.
damente. a aplicação da LCcr à caducidade de um contrato a tenno cele- Assim. os direitos adquiridos pelos trabalhadores à sombra da lei
brado durante a sua vigência mas que cessa depois da entrada em vigor do antiga. sendo mais favoráveis ao prestador de trabalho. manter-se-iam
Código do Trabalho. depois da entrada em vigor da lei nova. Esta seria uma especificidade do
No caso da alínea c) do art. 9.° do cr. têm-se em conta detenninados direito do trabalho.
aspectos relacionados com procedimentos iniciados antes da entrada em Se ao trabalhador foram concedidas detenninadas regalias na vigên-
vigor do Código do Trabalho. que não se alteram, mas não estão cm causa cia da lei antiga. a essas vantagens somar-se-iam aquelas que se constituí-
os respectivos efeitos. Assim sendo. as consequências de um despedi- ram ao abrigo da lei nova. Parte-se do pressuposto de que não pode ser
mento efectuado depois da entrada em vigor do Código do Trabalho na se- retirado aquilo que foi atribuído. devendo ser somado ao que. entretanto.
quênciu de um procedimento iniciado anterionnente são as previstas neste aparece de novo.
diploma.
IX. Esta concepção baseia-se numa ideia, talvez algo ingénua. de que
VIII. Não obstante a mera concretização de princípios gerais com há um progresso social contínuo e. por conseguinte. depois de atribuídas
ligeiras excepções. poder-se-ia admitir a existência de uma particularidade certas regalias, não podem ser retiradas. devendo só ser aumentadas. Parte-
no direito do trabalho. que o distinguiria dos outros ramos do direito. por -se do pressuposto de, relativamente ao trabalhador. se impor um progresso
vigorar um princípio de manutenção dos direitos adquiridos. Postulado sem qualquer retrocesso, que. do ponto de vista da relação laboral. implica
esse que se filiaria. ou melhor. adviria. do princípio do tratamento mais uma concessão contínua de melhorias na situação jurídica do prestador de
favorável ao trabalhador. trabalho'.
No fundo. isso implicaria que. no direito do trabalho. contrariamente
ao que se verifica nos outros ramos do direito. haveria uma especificidade.
porque os direitos adquiridos pelo trabalhador seriam salvaguardados.
como consequência do princípio do tratamento mais favorlvel. Esta seria dos não ser o modo mais correcto de justificar a não retroactividade; alude-se aos direitos
mais uma das particularidades que uutonomizaria o direito do trabalho dos adquiridos pam contrariar a pretensn cspecificidnde do direito do trabalho, neste domínio.
I Quanto ao princípio geral de o «estatuto contratual» se subordillllr ao «cstatuto
outros ramos do direito. Icgal .. da nova lei, cfr. BAPTISTA MAC/lADO, In/TOllllção ao Direito. cit., pp. 240 s. Sobre
Não parece correctu esta fonnu de encarar o problema. A salvaguarda a distinção entre o «estatuto contratual .. e o «estatuto legal» na relação laboral, w/. BER-
de direitos adquiridos não constitui nenhuma especificidade do direito do NARDO XAVIER, Cllrso. cit., pp. 268 ss. Não admitindo a aplicaçilo da regm mais favorável
trabalho. pois verifica-se em todos os ramos do direito. sendo consequên- constante de convenção colecti\'a anterior à entmda em vigor da Lei da Cessnção do
cia do princípio da não retroactividade da lei que pode. eventualmente. ser ConU-dto de Trabalho, cfr. Ac. ReI. u. de 8/411992. O XVII (1992), T. II. p. 203.
2 Em crítica a esta tomada de posição. cfr. BERNARDO XAVIER. Cllrso. cito p. 270.
contrariado pelo legislador'.
Tod:lVia, o mesmo autor (ob. cit, pp. 276 s.) admitc que a entrada em vigor da lei nova
tem de sal vaguardar o princípio do tratamento mais fa\·or.ível ao trabalhador, não obstante
I Atenda-se. todavia, ao façto de. como já foi referido. a acoria dos direitos adquiri- estabelecer \'árias restrições a esta sah·aguanla.
234 Direito do Trabalho Cap{tlllo 11/ - "·mlles do Direito do Trabalho 235

Deste modo. não se permitiria que. mediante uma alteração legisla- direito ao uniforme. A nonna nova afasta a aplicação da anterior. não se
tiva. onde se viesse a prever um retrocesso nessa melhoria constante das podendo cumular as respectivas consequências. porque a nova regalia
condições de trabalho. se pusessem em causa as vantagens de que os traba- compensa e faz desaparecer a prel."Cdente.
lhadores já gozavam. Assim. quando num momento de retrocesso no
desenvolvimento económico, se pretendesse retirar regalias aos trabalha- x. Acresce ainda um outro aspecto. As regras de um determinado
dores. tal não poderia ser admitido. porque isso iria contra esta perspectiva diploma. seja uma convenção colectiva de trabalho. um decreto-lei do
de que a lei só pode trazer mais vantagens. e nunca retirar aquelas que já Governo ou uma lei da Assembleia da República. não podem ser vistas
foram concedidas. isoladamente. É inaceitável «retirar» uma norma de um determinado di-
Na prática. não é assim. Em momentos de depressão ou por altera- ploma revogado, mantendo-a em vigor. para somar as suas soluções com
çõcs de conjuntura económico-política têm-se verificado modificações as estabelecidas nas regras de um outro diploma: as normas de cada
legislativas que retiram regalias: por vezes. certas concessões acabam por diploma não podem ser vistas separadamente. pois elas fazem parte de um
ser afastadas. com o consentimento dos trabalhadores. para evitar. por todo incindível.
exemplo, um despedimento colectivo. A ideia de uma evolução sem retro- As disposições constantes de um diploma encontram-se interligadas.
cesso, de que as regalias nunca podem ser retiradas. é utópica. pelo menos, dentro de certos grupos e, portanto, não tem sentido que se
Para além disso. há a ter em conta que. manter em vigor normas «retire» uma norma de um diploma revogado. dotando-a de sobrevigência.
revogadas, é inadequado. De facto, considerar que se encontram em vigor para a juntar com as de outros diplomas; a norma daquele diploma tinha
nonnas de um determinado diploma revogado relativamente ao conteúdo sentido na estrutura onde estava inserida. Uma disposição não pode ser
de certos contratos de trabalho celebrados na vigência daquela lei. traz aplicada no domínio de outra legislação, na medida em que, estando desin-
graves complicações a nível jurídico. tegrada da sua fonte e da sua estrutura, perderá a sua razão de ser.
Por outro lado. admitir que as normas de um detenninado diploma. Supondo um artigo onde se estabelece que os trabalhadores têm di-
depois de revogado, se manteriam em vigor relativamente ao conteúdo dos reito a vinte dias de férias e. noutra norma do mesmo diploma. determina-
contratos de trabalho ajustados durante a sua vigência é inaceitável. Na -se que os dias de férias são dias úteis. não se contando, por conseguinte,
medida em que certas regras de um diploma revogado continuariam cm sábados, domingos e feriados. Sendo este diploma revogado. a nova lei
vigor, juntamente com os preceitos da nova lei, poder-se-iam encontrar dispõe que os trabalhadores têm direito a trinta dias de férias, os quais, nos
situações em que a lei A. revogada pela lei B. e esta depois revogada pela termos de outro artigo do mesmo diploma são contados como prazos cor-
lei C, relativamente a alguns preceitos. estariam todas cm vigor, desde que ridos, incluindo sábados. domingos e feriados'. Nesta hipótese, não pode um
se encontrassem contratos de trabalho celebrados na vigência das três leis. trabalhador alegar que, nos termos da lei nova, tem direito a trinta dias de
Mas isto seria um absurdo. férias mas, sendo mais conveniente a forma de contagem dos prazos da lei
Tomando por base o exemplo de uma convenção colectiva de traba- antiga. os trinta dias seriam úteis. Tallucubração não tem sentido. porque a
lho na qual se estabelece que o empregador tem de pagar ufn
subsídio para lei antiga, quando falava em vinte dias. tinha em conta que eram dias úteis.
uniformes. sendo esta convenção colectiva substituída por uma outra onde correspondendo. aproximadamente aos trinta dias corridos da nova lei.
se detennina que o empregador tem de fornecer os uniformes aos trabalha- Cada norma está inserida dentro de um determinado contexto, pelo
dores'. Nesta hipótese. parece evidente que um trabalhador não possa exi- que é irreal admitir-se a soma de regalias de um diploma com regalias de
gir o subsídio mais o uniforme, porque não tem sentido admitir-se a exis- outro. As normas de um diploma não estão preparadas para se desintegra-
tência da regalia anterior (subsídio para unifonnes). De facto. estando a rem do mesmo, aplicando-se noutm situação jurídica. Só se justifica a
regalia anterior substituída por outra, não se justifica mantê-Ia. Deste aplicação das normas no seu contexto. e dentro dos pressupostos em que
modo, o trabalhador perde o direito ao subsídio pam uniforme, porque tem foram estabelecidos num dado diploma.

I Crr. este exemplo em BERNARDO XAVIER. C"rso. cit .• pp. 262 e 275. I crr. este exemplo em BERNARDO XAVIER. CllrS(/, cit., pp. 270 s.
236 Virei/(} do Trabalho Cupítulo /1/ - F()lIIe.~ do Direito do Tralxllho 237

XI. Estas considerações não põem em causa que os direitos adquiri- apresenta alguma particularidade. pois as expectativas também seriam
dos em determinado contrato. celebrado ao abrigo de umu lei antiga. sejam tuteladas I.
salvaguardados. Poder-se-ia chegar a essa conclusão através do seguinte argumento.
Quando. por via de um contrato de trabalho ajustado na vigência de Sendo um contrato de trabalho celebrado ao abrigo de determinada lei (ou
uma lei antiga. se constituíram direitos para uma das partes ao abrigo da convenção colectiva de trabalho). a partir desse momento os diplomas em
referida lei. os mesmos serão respeitados. Mas isto é. pura e simplesmente. vigor incorporar-se-iam no negócio jurídic02. Isto implica que do contrato
a consagração do princípio geral da não retroactividade da lei (art. 12. 0 do de trabalho constarão. não só as pf()prias cláusulas. como também serão
CC). sem qualquer particularidade. nele incorporadas as leis e as convenções colectivas de trabalho em vigor
Em princípio. se os direitos estão constituídos. sabe-se que não vão à data da sua celebração.
ser postos em causa. desde que a lei nova não disponha em contrário. Deste modo. sendo a lei revogada ou a convenção colectiva de traba-
Pode. é certo. uma lei nova inviabilizar. inclusive. direitos adquiridos à lho substituída. como ao; normas estavam incluídas no contrato de trabalho.
sombra da lei antiga. desde que pretenda ter efeito retroactivo; mas. por mantêm-se em vigor. continuando a reger a relação jurídica laboral.
via de regra. a lei não é retroactiva. Supondo que u lei A entrou em vigor em 1990 e foi revogada pela lei
B. em 2000. sendo o contrato de trabalho celebrado em 1998. quer dizer
XII. Importa distinguir os direitos adquiridos dos que. por ainda não que se lhe aplicam as próprias cláusulas mais as normas da lei B. bem
se terem vencido. constituem meras expectativas. como as da lei A que sejam mais favoráveis.
Imaginando um contrato de trabalho celebrado uo abrigo de determi- As soluções de maior favor que existissem na lei A continuariam a
nada lei. na base da qual se constituíram direitos subjectivos. por exemplo. vigorar. não por força da própria lei. porque estava revogada. mas na
créditos de férias ou de salários. Esses direitos subjectivos. constituídos na medida em que se encontravam incorporadas no contrato de trabalho. E.
esfera jurídica do trabalhador durante a vigência da lei antiga. são direitos enquanto o contrato de trabalho se mantivesse em vigor. as normas da lei
adquiridos e. como tal. não vão ser postos em causu pela lei nova. A mais favoráveis tumbém se aplicavam. porque tinham sido incorporadas
Levanta-se. contudo. o problema relativamente aos direitos a consti- no negócio jurídico.
tuir; os direitos que o trabalhador. tendo em conta o contrato de trabalho e
I Tmta-se de mems expectath'as e não de eXp'-'Ctativas jurídicas. A expectativa é
na base da lei antiga. se previa que se constituiriam no futuro. por exem- uma situação activa que não c~d>e na noção de direito subjectivo (cfr. MF.NEZES CORDEIRO.
plo. o direito a X dias de férias daqui a dois anos ou a Y salário no próximo Tratado de Direito Ci"j/ Portuguh. I. 2.' t.-<I •• Coimbm. 2000. p. 181; DIAS MARQUES.
mês. não são direitos adquiridos. Supondo que a lei nova dispõe de forma Teoriu Geral d(/ Direito Ci\·iI. Vol. I. Coimbm. 1958. pp. 272 s.). todavia. sendo uma ex-
diversa. o trabalhador não tem direito ao gozo de férias como estava esta- pcctath-a jurídica - p. ex .• situações sob condição suspensiva (arts. 272. 0 e ss. do CC) -.
belecido na lei antiga. pois esse direito. não estando ainda constituído na estar-se-á pemnte verdadeiros direitos. tutelados pela ordem jurídica (cfr. MENEZES COR·
altura da alteração legislativa. regular-se-á pela lei nova. DElRO. Trat(/do. cit.. p. 181. HoltSTER. A Purte Geral. cit.. p. 224; DIAS MARQUES. T~(/ria
Ger(//. cit.. p. 273). Diferentemente. a I11Cm expectativa ou expectativa de facto COITeS'
Em princípio. os direitos a constituir. que o trabalhaddr previa adqui-
ponde a uma simples esper.tnÇa que. por não representar uma situação jurídica. não des·
rir. não estão abrangidos pelo princípio da não retroactividade. aplicando- fruta de tutela (cfr. OUVFJRA ASCENSÃO. Teoria Geral do Direito Ci,·i1. Vol. IV. Lisboa.
-se a tais situações a lei nova. 1993. p. 97). Como mera.. expectativa.... par.t além dos exemplos referidos pela doutrina
Relativamente aos direitos a constituir pode suscitar-se o problema (expectativa sucessória) pode indicar·se n situação da pane num contrato que espera
do tratamento mais favorável ao trabalhador. admitindo-se a salvaguarda manter inaltemdos os direitos c obrigações decorrentes do negócio jurídico. não obstante
destas expectativas. Isto pressuporia a não aplicação da regra geral do art. o decurso do tempo: é uma simples expectativa a ~ituação do inquilino quanto à inadmis-
0 sibilidade de livre actuulil.ação da renda no futuro. O legislador veio dar tutela a essa
12. do CC. de onde se conclui que as meras expectativas. não sendo direi-
expectativa do inquilino. sendo. no presente. um direito. mas com isso criou uma situação
tos adquiridos. não estão garantidas pelo princípio da irretroactividade. de desigualdade entre os inquilinos com contmto anterior ou posterior a 1985. Esta proble-
mática do urrendamenlo é facilmente tmnsposta par.. o direito do trabalho.
XIII. Interessa averiguar se o direito do trabulho. neste domínio. 2 Cfr. AI.ONSO OI.l;A/CASAS BAAMONI>E. Derecho dei Trabajo. cil.. pp. 840 5S.
238 Dirf'ito do Trabalho Capítulo 111- f"/11l1es do Direito 110 Trtllxllho 239

Deste modo, as leis antigas incorporadas nos contratos continuariam de 2002. enquanto outro ajustou o contrato cm Fevereiro de 2003. se em
a vigorar mesmo depois de revogadas, e as regalias criadas ao abrigo da Janeiro tiver havido uma alteração legislativa. quer dizer que. por uma
lei antiga seriam intocáveis. Esta tomada de posição assenta no pressu- diferença de um ou dois meses. os dois trabalhadores que executam a
posto de que as normas da lei A passem a valer como lex nego/ii, impli- mesma actividade. têm estatutos diferentes na empresa. Esta situação
cando que as leis (sejam leis da Assembleia da República. decretos-leis do conduz a uma injustiça. admitindo tratamento diferente de situaçõcs iguais;
Governo, etc.) e as convenções colectivas de trabalho se transformem em o princípio da igualdade de tratamento inviabiliza a tese da incorporação.
«lei contratual» e, por essa via, mantêm-se em vigor. Em terceiro lugar. há a considerar que. por princípio. não se podem
cumular as regalias de uma lei com as de outra, porque, por via da regra.
XIV. A concepção segundo a qual as normas revogadas se mantêm
em vigor, porque se encontram incorporadas no contrato de trabalho. não
iI cada diploma constitui um todo. com a sua coerência, interligações, etc.
Assim sendo. as vantagens estabelecidas num diploma justificam-se numa
parece aceitável por várias razõcs I. determinada conjuntura, com uma certa interligação. Considerar que algu-
Primeiro, porque as leis não se transformam em cláusulas negociais. mas dessas regalias deixam de subsistir, mas outras mantêm-se, cumulando-
Quando se celebra um contrato de arrendamento. não se incorporam nesse -se com as vantagens estabelecidas no novo diploma. seria criar um sis-
contrato as normas do Código Civil. É evidente, que as normas do Código tema disfuncional. em que falta uma compatibilidade entre normas.
Civil têm de se aplicar ao negócio juódico celebrado, mas não fazem parte A individualização de regalias. para as ir somando. é incoerente. che-
deste_ Sendo as normas do Código Civil, entretanto, revogadas. elas não gando mesmo a criar situaçõcs aberrantes, como no referido exemplo dos
continuariam em vigor por força de um contrato de arrendamento ainda uniformes. não sendo. pois. admissível.
em execuçã02. Por isso, não se pode dizer que as normas legais se incor-
poram nos contratos. sendo inaceitável transformá-Ias em lex nego/ii. XV. O princípio da salvaguarda dos direitos adquiridos. com efeitos
Por outro lado. admitir que as normas legais se incorporam nos con- produzidos. existe no direito do trabalho. tal como em qualquer outro ramo
tratos seria um modo de criar estatutos privilegiados para alguns trabalha- do direito. Se um direito se constituiu na esfera juódica de uma determi-
dores_ Um trabalhador que tivesse um contrato de trabalho celebrado à luz nada pessoa ao abrigo da lei antiga. a situação jurídica pretérita não vai ser
de uma determinada lei tinha um estatuto privilegiado relativamente a outros contestada com a entrada em vigor da lei nova.
trabalhadores cujos contratos datassem de momento posterior; admitindo- Trata-se do princípio geral da não retroactividade. sem especificida-
-se a possibilidade de dois ou mais trabalhadores, que realizassem idêntica des no domínio do direito do trabalho.
actividade na mesma empresa. estarem sujeitos a normas diferentes. Su- Nos termos do an. 12. 0 do CC. a lei nova tem aplicação imediata.
pondo que um trabalhador celebrou o contrato de trabalho em Dezembro pelo que, com a sua entrada em vigor não se podem manter estatutos cons-
tituídos ao abrigo da lei antiga. Havendo direitos adquiridos. a lei nova não
vai pô-los em causa; mas em relação às meras expectativas. que o trabalha-
I Quanto à inadmissibilid..de d .. lese da incorpum~iio de lIonlUl., dr. BERNARDO
dor pressupôs atendendo ao contrato celebrado com base na lei então
XAVIER. Curso, cil., pp. 271 s. Veja-se. todavia. a cxccpção constantc do rcvogudo ano 6.°.
n.O 2. da LRCf, disposiçãO tmnsitória, quc pretcndia sa1vaguardarsituaçõcs constituídas a vigente, não há tutela.
nh'cl de regulamentação colectiva «cm tcnnos de conlmto individual de tmbulhoJ>. Assim. tendo surgido uma alteração legislativa com vista a regula-
Z O Regimc do Arrendamento Urbano (Decreto-Lei n.o 321-B/90. de 15 de Outu- mentar de fonna diversa certa situação laboral, o contrato de trabalho cele-
bro) revogou vários preceitos do Código Civil e as regras do RAU. independentemente de brado na vigência da lei antiga manter-se-á válido. Porém, as soluçõcs nele
serem mais ou menos favorávcis a qualquer uma das panes no contmto de arrendamento previstas só subsistem na medida em que forem toleradas pela lei nova.
urbano. aplicam-se aos controtos de arrendamento celebmdos antes de 1990, no que res- mesmo que se considerem mais favoráveis ao trabalhador. É evidente que
peita à sua execução. não podendo nenhuma das panes in\'Ocar as disposiçõcs revogadas
do Código Civil. argumentando que se incorpommm no contrnto. A questão volta a
as leis, muitas das vezes, permitem uma margem de discricionariedade e
colocar-se com a recente Lei n.O 612006. de 27 de Fevereiro. que re\'ogou o Regime do se o regime estabelecido no contrato de trabalho estiver no âmbito desse
arrendamenlo IImano. e se aplica:lll'i L"Ontrntos em eXt:cuçào, arbítrio, manter-se-á.
240 Direito do Tmbalho Capítulo 11/ - Fontes do Direito do Trabalho 241
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Toma-se necessário ainda ter em conta que, eventualmente. as regras Seria ilógico que as duas obrigações fossem cumuláveis. tendo o
estabelecidas no contrato de trabalho podem estar indissociavelmente liga- empregador de fornecer o uniforme. tal como a lei impõe. e. além disso.
das ao regime da lei antiga. Se da lei nova advém um regime diverso. a por via contratual. pagasse um subsídio para uniforme.
solução consagrada no contrato pode não ter aplicação. porque leva a uma Mas pode ocorrer uma outra situação. Perante a omissão da lei.
distorção do equilíbrio contratual. e deverá adaptar-se à nova solução estabelece-se no contrato de trabalho um determinado regime de faltas. em
legal. Trata-se de situações cm que o «estatuto contratual» não se coaduna que. por exemplo. se dispõe no sentido de as faltas injustificadas não pre-
com o novo «estatuto legal». judicarem a antiguidade do trabalhador e acrescenta-se que as faltas injus-
Supondo que no contrato de trabalho se estabeleceu um regime sobre tificadas em dois dias consecutivos. correspondem a uma infracção disci-
determinado aspecto. com base num pressuposto existente na altura, que plinar grave. Como a nova lei estabelece que as faltas injustificadas
era condição sine qua 11011 da solução contratual. Se a lei nova põe em prejudicam a antiguidade do trabalhador e que só se considera infracção
causa o pressuposto com base no qual o contrato se celebrou. a regra esta- disciplinar grave as faltas injustificadas em três dias consecutivos. o
belecida no negócio jurídico também não se pode manter. O contrato de trabalhador não poderá. ao abrigo da lei nova. recorrer às soluções mais
trabalho tem. então. de se adaptar à lei nova. tendo em conta que o seu vantajosas dos dois regimes. O facto de naquele contrato de trabalho se ter
regime estava indissociavelmente relacionado com a lei amigai. admitido que as faltas injustificadas não se repercutiam na antiguidade
Com alguma frequência. a lei nova. ao criar um novo regime. substi- teve também como contrapartida uma situação mais gravosa. conside-
tui integralmente o anterior. Assim sendo. os pressupostos em que o con- rando dois dias de faltas injustificadas como uma infracção disciplinar
trato se baseou também foram substituídos, logo, as regras contratuais que grdve.
se basearam nesses pressupostos têm de se adaptar às novas situações e
não se podem manter inalterm.las. XVI. As soluções legais e contratuais têm de ser vistas em conjunto
Voltando ao exemplo dos uniformes 2 • A lei antiga era omissa em e o contrato de trabalho não pode prevalecer sobre a lei. Assim sendo. não
matéria de uniformes e o contrato de trabalho, tendo isso em conta. estabe- seria possível conjugar os dois regimes ou estatutos (o legal e o contra-
lecia que o empregador tinha de pagar um subsídio para unifonnes. Sur- tual). pois. desse modo. criar-se-ia uma situação diversa da prevista na lei.
gindo, entretanto. uma lei nova onde se dispõe que os empregadores têm não tendo a mesma enquadramento possível.
que fornecer os uniformes aos trabalhadores. a regra de origem contratual. Em conclusão. pode dizer-se que as regras contratuais mais favorá-
que impunha ao empregador a obrigação de pagar um subsídio para uni- veis só subsistem na medida em que o disposto nesse contrato seja tole-
formes. não pode subsistir. porque foi estabelecida atendendo à omissão da rável pela lei nova, isto é. se estiver no âmbito de liberdade admitido pela
lei nessa matéria. lei nova. Fora desse âmbito de tolerância não se podem aplicar regras con-
tratuais, que. ao abrigo de uma lei antiga. disponham de forma diferente.
ainda que mais favorável ao trabalhador.

I

Em o ,(ue ocorreria com a proibição legal de pensões complementares de refonna
Por isso. no que respeita à sucessão das leis no tempo. o direito do
trabalho não apresenta nenhuma particularidade, seguindo os mesmos
(art. 6.°. n.· I. aHnea e). da LRCl' - proibição a que o Código do Tmbalho pôs tenno). parâmetros dos outros ramos do direito.
que inviabilizaria a manutenção de situações válida.. anterionnente constituídas. não fora
a rcssah'a estatuída no n.o 2 do art. 6.° da LCCT. Cfr. Ac. STJ de 221211995. BMJ 444.
p. 322; veja·se igualmente NUNES OE CARVAUlO. "Pensão Complementar de Refonna e a.2) Sucessão no tempo dos instrumentos de regulamentação colec-
Regulamento de Empresa». RDES 1993.1/4. pp. 353 5S.
tiva de trabalho
2 Veja·se igualmente o Ac. STJ de 1011 1/19')3. CJ (STJ) 1 (1993). T. III. p. 291. no
qual se dl.'cidiu que os tmbalhadon:s não podiam exigir o subsídio de refeição a partir do
momento em que a empresa. em .. refeitório próprio.limpoe accs."h·c1,.. gamntiu o forneci· I. O art. 560. 0 • n. o I. do CT dispõe: «Os direitos decorrentes de con-
mento de refeições aos seus Imbalhadores (p. 293). venção colectiva só podem ser reduzidas por nova convenção de cujo texto
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2~2 [)iri'Í(() (lo Tmbalho Capítulo 11/ - FonteJ do Direito cio Tra/m/lro 243
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conste, em tennos expressos. o seu carácter globalmente mais favorável». Na realidade. depara-se com múltiplos casos em que tal não sucede;
Nestes tennos. a nova convenção colectiva de trabalho só pode «reduzir» há convenções colectivas de trabalho que não estabelecem. globalmente.
as regalias dos trabalhadores se demonstrar que é globalmente mais favo- nenhuma melhoria. pois. perante uma conjuntura depressiva. não há outra
rável ao prestador de trabalho. Admite-se. pois, que possam ser retiradas solução senão aceitar uma redução das regalius. para evitur. designada-
vnntngens desde que, em contrapartidn. a nova convenção colectiva seja, mente um despedimento colectivo. Para além de suspensão de regalias
de fonna global, mais favorável para o trabalhador l . constantes de convenções colectivas nas empresas em situação económica
No art. 560. 0 • n. o 2. do cr. ao estabelecer que «( ... ) a nova conven- difícil. frequentemente os sindicatos aceitam alterações em convenções
ção prejudica os direitos decorrentes de convenção anterior. salvo se. na colectivas de trabalho. incluindo soluções menos favoráveis. para evitar a
nova convenção, forem expressamente ressalvados pelas partes». admite- falência da empresa e um inerente despedimento dos trabulhadores t. Em
-se a sua não subsistência do regime anterior2• tal caso. pode considerur-se, contudo. que, não obstante a redução de van-
Do art. 560. 0 do cr resulta que o novo instrumento pode retirar rega- tagens. a nova convenção é, globalmente, mais fuvorável. porque evita o
lias. mas. ao fazê-lo, terá de compensar o trabalhador. que. em tennos despedimento colectivo; mas o argumento é falacioso.
globais, deverá ficar em melhor situação. Mas deste preceito consta, toda- O n. O 3 do art. 560. 0 do cr não é. pois, ajustável à realidude e. em
via, uma regra de conteúdo irrealista. cuja aplicação se pode apresentar tennos constitucionuis. não há nenhuma regra que imponha uma irreversi-
problemática. Não tem sentido detenninar que uma convenção colectiva bilidade de direitos dos trabalhadores 2. Não tendo a irreversibilidade de
só pode retirar regalias se admitir a constituição de uma situação. global- direitos consagração a nível constitucional e legal. em detenninadas cir-
mente. mais favorável para o trabalhador3 • cunstâncias. por via de negociações entre associações sindicais e de empre-
gadores (ou empregadores), podem ser retiradas aos trabalhadores certas
regalias. concedidas cm anterior instrumento de regulamentação colectiva.
I Sobre a (Iuestão. veja·se MENEZF.5 CORDEIRO. "Dos Connitos Temporais de Ins- desde que não implique violação da lei 3. O princípio da irreversibilidade
trumentos de Regulamentação Colectiva de Trabalho ... Estudos em Memória do Professor de direitos poderia pôr em causa. em tennos económicos. o relançamento
Doutor João de Castro Mendes. Lisboa. sd .• pp. 460 ss. Cfr. MOl'oTEIRO FERNANDES. Di· empresarial.
rt'i(() do Tral1Clllw. cil.. p. 786. que refere uma concepção tradicional de «irreversibilidade
de vantagens». BERNARDO XAVIER ... Sucessão no Tempo...... cil.. p. 492. explica que o
pl\.'Ceito apal\."Ce na sequência de uma norma de 1970 (an. 5. 0 do Decreto-Lci n. ° 492170).
esdarccendo·se que .. vivia-se então. no domínio do direi lo do trabalho. num período de I Cfr. BERNARDO XAVIER. Curso. dI.• p. 258. Sobre as convenções colectivas
euforia mundial. em que só se pre\'iam crescentes benefícios pam os trabalhadores». derrogatórias de regalia~. concedidas inclusive por regras de fonte superior. introduzidas
2 É necessário atender ao facto de o ano 560.° do cr, contmriamente ii correspon- cm França a partir de 1982. dr. COlITlIRIER. Oro;t clu Tramil. cil.. pp. 55 S. Neste sentido.
dente norma da LRCT (an. IS.O). não aludir a direitos adquiridos. Relativamente ao revo- veja-se também as recentes alterações legislativas que. no Bmsil. passamm II permitir que.
gado ano 15. 0 da LRCT. admitindo que também não representava um regime excepeional. por con\'enção colectivól. se reduzam benefícios. entre os quais o salário. cfr. ORLANDO
cfr. MOITA VEIGA. U('(;es. cit .• pp. 1385.; BERNARDO XAVIER ... Su~o no Tempo...... GoMF_<;/EI.SON GonSCIIALK. Curso de Direito do Trabalho. 16.' ed.. Rio de Janeiro. 2000.
cil.. p. 484. Não se entende bem a solução preconizada por MONTEIRO FERNAJI/I)ES, Direito p.28.
cio Trabalho. cil.. p. 790, ao afirmar que. tendo em conta o disposto no ano 15.°. n.O 2. da 2 Em crítica ao pl\.'Ceito. veja-se GONÇALVES DA SII.VA. anotação V. no ano 560.°. iII
LRCT. "FicarJo sempre intactos os direitos e obrigações gemdos pelas estipulações d.1S ROMANO MARTINEZ I LI/Is MIGUEL MONTEIRO I JOANA VASCONCEWS I MADEIRA DE BRITO
panes». Mesmo (Iue se refiro ao çontmto de trdbalho. os direitos e obrigações das panes I GUILHF.RME DRAY I GoNÇALVES DA SILVA. Cádigo 1ft> Trabalho Anotado. dt.• p. 87S.
(conteúdo do negócio jurídico) têm de se sujeitar à nova regulamentação colectiva. Diferentemente. MONTFJRO FERNANDES. Direito do Trllbal/IO. cit .. p. 786. considera que o
pudendo não ficar intactos; pense-se na hipótese de perda de direito ao subsídio de refeição pressuposto da irre\'ersibilidade se inspim em "uma concepção Mrcali~ta" da contmtaçào
- previsto no contrato - quando a nova convenção colectiva impt'je qne o empregador colectiva... No sentido do tellto. explicando que o prineípio do "sempre mais» e do contí-
gamnla o almoço em refeitório próprio. nuo progresso social entrou em crise. cfr. BERNARDO XAVIER. "Sucessào no Tempo ... ».
3 MENIi7.F.5 CORDEIRO. ManllaJ. cil.. p. 199. alude à eventu:1I formação de .. uma par- cil.. pp. 49S 5S.
ticular regrd de Direito laboral tmnsitório que s,1lvaguante sempre os direitos adquiridos 3 Por exemplo. a nO\'a çonvenção colectiva não pode baixar a categoria do traba·
dos trabalhadores ... não a aceitando. todavia. em moldes rígidos. Ihador. sob pena de violar o disposto no an. 122.°. alínea ('). do CT.
244 Direito do Traballro Capíflll/J 11/ - Fomes do Direito do Trabalho 245

II. Assim sendo. o disposto no art. 560.°, n.O 3, do Cf poderá valer vamente a um determinado contrato de trabalho, esteja em causa a aplica-
tão-só como regra interpretativa das convenções colectivas de trabalho. ção de dois ou mais ordenamentos jurídicos, poder-se-á estar perante um
visando, na medida do possível, o estabelecimento de uma situação mais problema de conflito de leis laborais no espaço, devendo atender-se às
favorável ao trabalhador l . regras de direito internacional privado. As hipóteses em que uma relação
Nestes termos, da expressão «mais favorável» constante do n.O 3 do laboral se encontra plurilocalizada, em contacto com várias ordens jurídi-
art. 560.° do Cf não se pode concluir que, no direito do trabalho, a nível cas, são múltiplas l .
das relações colectivas, haverá sempre um acréscimo da posição jurídica
do trabalhador, no sentido de que as regalias concedidas jamais serão reti- II. Em direito do trabalho, as situações de conflito entre ordenamen-
radas. Tal entendimento do art. 560.° do CT implica conferir ao irrealismo tos jurídicos poderão surgir, essencialmente, em cinco casos.
estatuto jurídico. Primeiro, quando uma empresa portuguesa (por exemplo, um emprei-
teiro) contrata um cidadão português, mediante um contrato de trabalho
III. Quanto à aplicação no tempo de instrumentos de regulamentação celebrado em Portugal, para executar um trabalho no estrangeiro. Tem sido
colectiva de trabalho, resta referir que, depois de se estabelecer o princípio frequente que empreiteiros nacionais, aos quais foram adjudicadas obras
geral de que não têm eficácia retroactiva (art. 533.°, n.o l. alínea c), do no Iraque, na Líbia2 • na Arábia Saudita3 , etc., ou, mais recentemente, em
Cf), admite-se que as cláusulas de natureza pecuniária. mormente as que
.i·:
.':"?;. Angola e Moçambique. contratem trabalhadores portugueses. cm Portu-
fixam a retribuição, possam ter efeitos retroactivos (art. 533.°, n.o I, alínea gal. para a execução das obras a realizar no estrangeiro.
e). in fine, do Cf). Segundo. na hipótese de uma empresa estrangeira contratar, no estran-
geiro. um português. para trabalhar em Portugal. Por exemplo, técnicos
portugueses que fizeram estágios de especialização no estrangeiro são,
Bibliografia: muitas das vezes, contactados pelas empresas onde estagiaram para fica-
rem a trabalhar, nas respectivas sucursais, em Portugal.
MENEZES CORDEIRO, «Da Aplicação da Lei no Tempo e das Disposições Terceiro, quando uma empresa estrangeira celebra um contrato de tra-
Transitórias». Sep. de Legislação. INA, 1993, pp. 7 a 29, <,Dos Conflitos Tempo- balho com um português, em Portugal. Frequentemente, sociedades estran-
rais de Instrumentos de Regulamentação Colectiva de Trabalho". Estudos em Me- geiras, com sucursais instaladas em Portugal, celebram contratos de traba-
mória do Professor Doutor João de Castro Mendes. Lisboa. sd. pp. 459 a 473 e lho com portugueses, e, por vezes, esses contratos seguem os modelos
Manual. cit.. pp. 197 a 200; MONTEIRO FERNANDES. Direito do Trabalho. cit.. pp. legais dos ordenamentos jurídicos do país da sede de tais sociedades.
785 a 791; ANDRADF. MESQUITA. Direito (/0 Trabalho, cit., pp. 235 e 55. ; MorrA
VEIGA. Lições. cit.. pp. 136 a 139; BERNARDO XAVIER, Curso, cit., pp. 267 a 280
e «Sucessão no Tempo de Instrumcntos dc Regulamentação Colectiva c Princípio
do Tratamento mais Favorável», RDES. 1987. n.o 4, pp. 465 a 51f. I Quanlo à crescenlc inlcrnacionalil..ução das relações laborais. ,·d. MOURA RAMOS.
Da Lei Aplicável ao Contmto de Tmballw /tlft'macioTlClI. Coimbm. 1990. pp. I 5S. e "o
Contnllo Individual de Trablllho cm Direilo Internacional Privado», J/lris el de Jllre Nos
Vinte AtlOS da Faculdade de Direito dCl UtI;ver.fidClde CCltólica Portuguesa. /'orto. Porto.
b) Aplicação "0 espaço
1998. pp. 41 SS. Essa inlernacionalização pennite inclusil'e que uma convenção coleclivil
se aplique a relações plurilocalizada... dr. RODIERE. La Com'ention Col/ecti"e de Tramil
I. No direito do trabalho, à imagem de outros ramos do direito. tam- en Droit /nternational. Paris. 1987.
bém surgem conflitos de aplicação das leis no espaço. Sempre que, rclati- Rclalivamenle ao direilo inlcrnacional privado do lrabalho. dc cnlre autores eslmn·
gciros. pode ,'cr·se ALONSO OtI:A!CASAS RMMONDE. Dereclw dei Trabajo. cil.. pp. 643 .'iS.
I BERNARDO XAVIER. "Sucessão no Tempo...... cit .• p. 499. sUSlenla uma intcrpre· 2 Ac. Rcl. Lx. de 28/1011988. CJ XIII (1988). T. IV. p. 166.
lação contra kgem. ou melhor diLCndo rorrecti,·a. embora com contornos limitados. cscla· J Ac. STJ de 7/611983. BMJ 328. p. 447; Ac. ReI. L,. de 18/11/1987. RMJ 371.
f«'cndo que tem sido essa a prática. p.53-$.
-,
I

246 Direito do Trabalho Capítulo III - f(}"'e.~ do Direito do Trabalho 247


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Quarto. tratando-se de trabalhadores estrangeiros. imigrados pam pelo menos. em causa ordens jurídicas de dois Estados, que pretendem ou.
Portugal. essencialmente provenientes das antigas colónias. que são con- melhor. estão em condições de se aplicar à mesma situação jurídica laOOml.
tratados por empresas portuguesas. em particular no sector da construção
civil. bem como outros estrangeiros contratados com funçõcs técnicas III. Perante situações em que há um tendencial conflito de aplicação
especializadas I. de diferentes ordens jurídicas em relação ao mesmo contrato de trabalho.
Quinto. relações laborais com missões diplomáticas e consulares para resolver a questão. importa. em primeiro lugar, verificar se há con-
estrangeiras em Portugal 2 ou portuguesas no estrangeiro3. Com respeito às vençõcs internacionais que apresentem uma solução. Por via de regra. não
missõcs diplomáticas e consulares. não obstante as regras de direito inter- interessam as convenções internacionais que estabelecem princípios bási-
nacional. designadamente as constantes da Convenção de Viena sobre cos, mesmo no campo do direito do trubalho, como a Declaração Univer-
Relações Diplomáticas (art. 37.°) e da Convenção de Viena sobre Relações sal de Direitos do Homem ou o Pacto Internacional sobre Direitos Econó-
Consulares (arts. 40.° e ss.), podem suscitar-se conflitos de aplicação de micos. Sociais e Culturais. Justifica-se tão-só indagar acerca d~1 existência
normas laborais de diferentes ordenamentos jurídicos4 • de convenções específicas de onde constem soluções concretas para casos
Existem outras situações 5• mas estas são aquelas em que. com maior de conflito entre ordens jurídicas em matéria laboral.
frequência. surgem conflitos de jurisdições a nível de contratos de traba- Neste âmbito destacam-se. em especial. as seguintes convenções
lho. por estes se encontmrem plurilocalizados. Nestes cinco exemplos estão. internacionais.
A convenção n.o 19 da OIT. de 1925. aprovada para ratificação pelo
Decreto n.O 16588. de 12 de Março de 1929. que regula a igualdade de
I Ac. Rei. Pt. dc 25/1111991. CJ XVI (19911. T. V. p. 232.
2 Ac. ReI. Lx. de 9/1211998. CJ XXIII. T. V. p. 168; Ac. ReI. Lx. dc 7/3/2001. CJ tratamento entre trabalhadores estrangeiros e nacionais. essencialmente na
XXVI. T. li. p. 142. reparação de acidentes de tmbalho. Aplica-se. sobretudo. às situações refe-
3 Os tribunais portugueses têm·se visto. frequentcmcnte. confrontados com situa· ridas no quarto exemplo; ou seja. no caso de um trabalhador estrangeiro.
ções jurídicas laborais dc trabalhadores portugueses e estrangeiros contratados por missix."l> contratado por uma empresa nacional. ter um acidente de trabalho. pam
diplomáticas portugucsas no estrangeiro. às quais mandam aplicar a lei local. cfr. Ac. ReI. efeitos indemnizatórios. é equiparado ao trabalhador nacional.
Lx. de 19/611991. CJ XVI (1991). T. III, p. 220; Ac. ReI. L.\. de 3/611992. CJ XVlI (1992),
A convenção n.o 143 da OIT. de 1975. aprovada para ratificação. pela
T. III, p. 271; Ac. ReI. É\". de 161211993. CJ XVIII (1993). T. I. p. 293; Ac. ReI. Lx. de
10/3/1993. CJ XVIII (1993). T. li. p. 155; Ac. STJ dc 19/311992. BMJ 415. p. 412; Ac.
Lei 11.° 52/78, de 25 de Junho, que pretende resolver o problema das
STJ de 121111994, CJ (STJ) li (1994). T. I. p. 274; Ac. STJ dc 26/10/1994. QL, III (1996), migrações em condições abusivas, procurando estabelecer uma promoção
n.o 8. p. 158. da igualdade de oportunidades e de tratamento entre os trabalhadores
Todavia. no Ac. ReI. Lx. de 1011/1996. CJ XXI (\996). T. I. p. 160, não obstante o nacionais e imigrantes. Enquanto que na primeira convenção referida esta-
contrato ter sido cclebrado em Bclgrado, onde o trabalhador residia. para desempenhar vam só em causa os acidentes de trabalho, nesta. a igualdade é mais vasta.
funções na Embaixada Portuguesa e de o tribunal ter considerado que a lei aplicávcl cra a A convenção n.o 157 da OIT, de 1982. ainda não ratificada por Por-
jugoslava. recorreu à lei portuguesa em matéria de despedimento, cuja.'f"Cgras considerou
tugal. visa promover a igualdade. a nível da segurança social. entre os tra-
serem de aplicação necessária e imediata. atenta a protecção do emprego estabelecida no
art. 53.° da CRP. Em sentido idêntico, estando toda\'ia em causa a lei amcricana do Estado balhadores imigrantes e os nacionais.
de Nova Iorque, dr. Ac. ReI. Lx. de 10/3/199.1, \J XVIII (1993). T. li. p. 155. Por último, a Convenção Europeia Relativa ao Estatuto Jurídico do
4 Relativamentc ao pessolll que preslll serviços externos na rede diplomática e Trabalhador Migrante, elabomda no âmbito do Conselho da Europa. a 24
consulllr que o Estado Português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros. dispõe de Novembro de 1977. aprovada para ratificação pela Lei n.o 162/78. de
em diversos países. que são ccrc:1 dc 1800 trabalhadores das mais diversa.~ nacionalidades. 27 de Dezembro. tem também em vista a igualdade entre os trabalhadores
há que atender ao respectivo estatuto, aprovado pelo Dccreto-Lei n.o 444199. dc 3 de
Novcmbro.
nacionais e estrangeiros.
S Por exemplo. contratos dc trabalho de cooperantes portugueses nos países aln·
canos de língua oficial portuguesa. cfr. Ac. STJ de 19/1011994, CJ (STJ) II (199-$). T. 111, IV. Num outro plano. dever-se-á atender à Convenção de Roma de
p.275. 1980. mais propriamente. Convenção sobre a Lei Aplicável às Obrigações
248 f)ireito do Trabalho Capíltllo 111- Fomes do Direito do Trabalho 249
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Contratuais. assinada em Roma a 19 de Junho de 1980 I. Nos termos do art. prescrevem a responsabilidade do empregador em caso de acidente de
6. 0. n. ° I. desta convenção. o contmto de tmbalho rege-se. em princípio. trabalho l , Mas nem todas as normas de direito do trabalho são imperativas
pela lei escolhida pelas partes. pois aplicam-se-Ihe us regras estabelecidus e. ainda que il1juntivas, pode o regime laboral português ser preterido
pam os demuis negócios jurídicos. regms essas que constam do art. 3.° da mediante opção das panes por um outro ordenamento, excepto com res-
convenção. Nos termos deste último preceito. vigora o princípio da peito a princípios fundamentais, onde existirão normas de aplicação ime-
autonomia privada na escolha da lei aplicável 2• diata 2 • a que também alude o art. 7.° da Convenção de Roma.
Mas. tal como dispõe o ano 6.°. n.O I. da Convenção de Roma. não é Para o caso de as panes não escolherem a lei aplicável. rege o art. 6.°,
válida a escolha de uma lei aplicável se a opção feita pelas panes vier a n. ° 2, da Convenção de Roma. Nos termos deste preceito. vale a lei do
afastar normas imperativas do ordenamento jurídico determinado pelas \"0 local de execução do trabalho (alínea a»; aplicar-se-á a lei do Estado onde
regras de conflitos. que têm em vista tutelar o trabalhador. Neste caso. a actividade tiver sido primordialmente desenvolvida. Mas. na eventuali-
encontram-se. designadamente. as disposições que, quanto à ordem jurí- dade de o trabalho ser executado em vários Estados, estabelece o mesmo
dica ponuguesa. regulam a cessação do contrato de trabalh03/4. e as que preceito que prevalece a lei do país onde esteja situado o estabelecimento
do empregador para o qual o trabalhador foi contratado (alínea b). As
I À qual Portugal aderiu. lendo sido aprovada par.! ratificação a convenção de adesão duas regras precedentes não se aplicam sempre que exista uma lei que
pela Resolução da Assembleia da República n.· 3~ e ratificada pelo Decreto do Presidente apresente mais afinidades com aquele contrato de trabalho; em função das
da República n.· 1/94. publicados no DR I Série-A de 3/211994. tendo entrada em vigor na circunstâncias pode detectar-se a existência de uma conexão mais estreita
ordem jurídica portuguesa a I de Setembro de 1994 (a\'iso n.· 240/94. de 19de Setembro). com a lei de um outro país, que será nesse caso aplicável (an. 6.°. 11.° 2. iII
2 No art. 3.·, n" 1, da Convenção de Roma lê-se: "O contrato rege-se pela lei
filie, da Convenção de Roma)3. A conexão mais estreita poderá advir,
eseolhida pelas panes...
3 A jurisprudência portuguesa tem obstado à aplicação das nonnas de ordenamen-
tos jurídicos estrangeiros em matéria de des~..dimento. alegando que as regras sobre ces- QL III (1996), n" 8. pp. 166 sS .• critica a solução constanle do Ae. STJ de 26110/1994.
sação do contrato de trabalho. em particular no que respeil."l ao despedimento. são de apli- BMJ 440. p. 253 e QL III (1996). n" 8. p. 159. que considerou aplicável a lei americana
cação necessária e imediata, atendendo à protecção constitucional que lhe foi conferida ao despedimento de um trabalhador do Consulado Português de Rhode Island. alendendo
(an. 53. 0 da CRP). Cfr., apesar de nem sempre, de todos os arestos, constar a mesma a que a proibição de despedimento sem justa causa corresponde a uma regm de ordem
justificação. Ac. ReI. LlI. de 18/11/1987. BMJ 371, p. 534: Ac. ReI. Pt. de 25/1111991, O pública internacional do Estado Português (pp. 17555 .• em eSIX'Cial pp. 178 ss.).
XVI (1991), T. V. p. 232: Ac. ReI. LlI. de 10/1/1996, O XXI (1996). T. I, p. 160; Ac. ReI. Sobre as nonnas de apliC'dção imediat.1. cfr. MARQUES OOS SANTOS. As Normas de
LlI. de 5nt2000. CJ XXV, T. IV, p. 159. A solução é ellplicada por MARQUES OOS SANTOS, Aplicação Imediata no Direito InterlUlcional Primdo. Vols. I e II. Coimbra. 1991. pp. 607
As Normas de Apliraçiio Imediata no Dirâto Intertwciemal Primdo, Vol. II, Coimbra. ss. e 834 ss .• que alude. em particular às nonnas espacialmente aUlolimitadas (pp. 897 ss.)
1991, p. 833, nota 2681 e p. 851, nota 2718, atendendo ao recurso, no foro. a nonnas de e. com recurso a exemplos de jurisprudência estmngeira. indica regras de aplicação
aplicação imediata. ... ,) imediata no direito do trabalho. por ellemplo. férias pagas (p. 7. nota 14).
Sobre esta questão, ellplanando o sentido do ano 6.°, n" I, da Convenção de Roma ) I Quanto à eseolha da lei cm caso de relação laboral plurilocalizada. ocorrendo um
e com entendimento idêntico ao da jurisprudência. cfr. MOURA RAMos,I>a Lt-i Aplicól·el. acidente de trabalho sem qualquer conexão com a lei e os tribunais ponuguescs. dr. MAR-
cit., pp. 807 ss. e 798 s.• respectivamente. Quanto à ellplicação do sentido e razão de ser QUES J)os SA/'ITOS, As NormllS de Aplicação Inuodiata. Vol. II. cit.• pp. 857 ss.
doart. 6.°. n.o I. da Convenção de Roma. relacionando a solução com a protecçãodocon- 2 Diferentemente. no Ac. ReI. U. de 24/11/1980. CJ V. T. V. p. 56. considerou-se
traente débil. cfr. MARIA MARGHERITA SALVATORI. «La Protezione dei C'ontraente DeOOle <Iue toda a legislação laOOml. pela sua injuntividade. integm-se na ordem pública. Diversa
(Clmsumalori e Lnvoralori) nella Convenzione di Roma ... in La CcmwlIl.ione di Roma sul ,? ": foi a solução preconizada no Ac. ReI. U. de 26/10/1988. C'J XIII. T_ IV. p. 166. onde
Diritto Applicabi/e ai Contratti InternaziolUlli. organizado por SACERoonIFRIGO. 2.' ed .• prevakceu a autonomia privada. Sobre esta questão vd. MARQUES OOS SANTOS. A.r Normas
Milão. 19'14. pp. 121 SS., em especial. pp. 140 SS.; também cm ellplicação do preceito, de Aplicação ImedialiJ. Vol. II. cit.. pp. 913 SS.
\'ejam-se os comentários de GIUUANO e LAGARDE na mesma obra colectiva. pp. 294 ss. J Trata-se, como refere SALVATORI, "Ln Protezione... ". cit.. p. 145. de um critério
Igualmente no sentido de justificar a limitação. tendo em vist."l evitar a opressão da parte com carácter elástico. que tem um papel central na detenninação, em concreto. da lei
rnais fraca. JOÃO RF1S ... Lei Aplicável ao Conlrato de Trabalho ~gundo a Convenção de aplicável e que depende da interpretação a fazer quanto à conexão mais estreila. Segundo
Roma». QI.II (1995). n." 4, p. 45. a mesma autora (ob. cit., pp. 145 s,). é uma cláusula ClIccpcional com função l.'Orrectiva.
4 JOÃO REIS ... Contrato de Trabalho PI urilocaJizado e Ordem Plíblica Internacional", que nào pretende necessariamente assegurar a aplicação da lei mais favorável ao trabalha-
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250 Direito do Tralxlllw • Capítulo 111- Fontes do Direito do Trabalho 251
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nomeadamente, do facto de o trabalhador, transterido para uma sucursal no local para onde o trabalhador é destacado, nomeadamente quanto ao
noutro país. continuar a receber ordens e o pagamento do salário na sede. período de trabalho, férias. retribuição mínima. assim como segurança,
Tendo em conta a parte final da alínea aJ do n.o 2 do art. 6.° da Con- higiene e saúde no trabalho (art. 8. 0 do CT)1.
venção de Roma, cabe fazer uma referência ao designado destacamento de
trabalhadores 1. Nesta alínea alude-se ao destacamento temporário do V. O Código Civil estabelece igualmente regras quanto a esta maté-
trabalhador para outro país; terminologia usada em direito administrativo ria, mas difere do esquema instituído na Convenção de Roma.
(art. 27.° do Decreto-Lei n.o 427/89, de 7 de Dezembro), mas não em No Código Civil, importa cotejar o art. 41.° do CC, para o caso de as
direito do trabalho, onde o chamado destacamento do trabalhador pode partes terem escolhido a lei aplicável. com o critério supletivo do art. 42.°
corresponder. pelo menos. à execução do contrato de trabalho, à mudança do CC, na hipótese de omissão dos outorgantes. O art. 41. o do CC permite
do local de trabalho e à cedência ocasional. Encontra-se, porém, implícito que as partes escolham a lei aplicável. regra que coincide, de certa forma,
no texto da mencionada alínea que se teve em conta situações em que o com a da Convenção de Roma (art. 6.°, n.o I). Do art. 41.°, n.o 1. do CC
trabalhador, independentemente do fundamento - execução do contrato consta o princípio da liberdade contratual, admitindo-se que as partes, ao
de trabalho, cedência ocasional de trabalhadores, etc. -, desenvolve a sua celebrarem um contrato, escolham a lei aplicável. No entanto. o art. 41.°.
actividade, temporariamente. noutro Estado diferente daquele onde traba- n.o 2, do CC vem acrescentar que essa escolha tem de corresponder a um
lha. Como nesses casos. por via do disposto no art. 6.°, n.o 2, alínea aJ, in interesse sério dos declarantes ou que exista uma conexão entre a lei
fine, da Convenção de Roma. se aplicaria a lei do Estado onde o trabalha- escolhida e aquele contrato de trabalho.
dor normalmente labora. estava criada uma via para se recorrer ao dum- O princípio é idêntico ao da Convenção de Roma: prevalece a auto-
ping social; situação que ocorreu, em particular, com empresas de constru- nomia privada. embora as restrições sejam diferentes2 . Para além disto, do
ção civil de países do sul da Europa que concorriam para a adjudicação de Código Civil não consta nenhuma norma relativa ao contrato de trabalho,
obras em Estados da Europa do norte com preços competitivos atendendo como o art. 6.° da Convenção de Roma3• A este propósito. refira-se que.
ao facto de recorrerem a mão-de-obra mais barata. pois tratava-se de nem o Código Civil. nem a Convenção de Roma, aludem à possibilidade
trabalhadores destacados. a que se aplicava. nomeadamente quanto ao de escolha de convenção colectiva aplicável; parece que nada obsta à
salário, a lei do país de origem. Para obviar a esta situação surge a Direc- escolha das regras de um determinado instrumento, mas não valendo nos
tiva do Parlamento Europeu e do Conselho n. ° 961711CE, de 16 de Dezem- termos do Código do Trabalho, a opção das partes só pode valer como
bro, transposta para a ordem jurídica portuguesa, primeiro, pela Lei n. O disposição contratual, não tendo. portanto, o valor de fonte colectiva4 _
9/2000, de 15 de Junho e, depois, pelos arts. 7.° e 8.° do CT, assim como
pelos arts. II. o a 13.° da LECT, onde se estabelece que aos trabalhadores,
independentemente da nacionalidade, destacados para prestar trabalho em I Para maion.'S desenvolvimentos. veja-se DÁRlo MOURA VICENTE. «Dcstacamenlo

território de um país da União - no caso, Portugal -, por uma empresa Inlernacional de Trabalhadores». cit.. pp. 789 e 55.
2 MOURA RAMOS, Da Lei Aplicá~·el. cit .• p. 798. aludindo a jurisprudência portu-
estabelecida noutro Estado, se aplicam as condições de trlbalho vigentes
guesa que nem admitia a autonomia privada na escolha da lei aplicável ao contrato de
trabalho. refere-se ao lexforismo. Salicnte-se que este autor (ob. cit.. pp. 793 ss.) preconiza
dor. JOÃo REIS. «Lei AplicáveL». cit.. p. 46. refere igualmente que a convenção não a validade da aUlonomia privada na escolha da Ici aplicávcl ao contraio de trabalho.
recebeu o princípio do tratamcnto mais favorável. estabelecendo. todavia. limites quanto à perversão de lal escolha.
I Sobre a figura. consulte-se I'ALMA BORGES. O Destacamento em Direito do Tra- 3 MOURA RAMOS. Da Lei Aplicúl·cl. cil .. pp. 70 s .• salienla o facto de o legislador
balho: Regime. COllceito. Modalidades e Figuras Afills. Relalório de Mestmdo, Lisboa, pOl1uguês ter submetido o contrato de trdbalho ao regime comum dos conlmtos. não esta-
2000, com várias referências ao destacamento, em particular relacionadas com aspectos de belecendo norma especial para este negócio jurídico. como é regra em legislações recen-
segurança social (pp. 37 55.), e DARIO MOURA VICENTE. «1À.'Stacarncnto Internacional de k'S. até porque a protCCÇ'dO da partc mais fraca - em que se inclui o trabalhador - tem
Trabalhadores". Estudos em HomellOgem ao Professor Doutor Raúl Ventura. Vol. II. lis- sido tendência comum (cfr. autor e ob. cit.. pp. 721 55. c 76755.).
boa. 2003. pp. 7119 e 5S. Veja-se ainda Bo.'IATERI. Tra.fferimetllo dei ún'(lfatore Subordi- 4 Sobre esta questão. veja-se PEDRO MAIA. «Conflitos Internacionais de Convcnções
lIato Primlo. Milão. 1992. pp. 147 ss. Colectivas». Boletim da Faculdade de Direito de Coimbm LXVIII (1992). pp. I R I 5S.
252 Direito do Tmoolho Capítulo 111- FOl/tes do Direito do Trabalho 253

Nos tennos do art. 42.°. n.o 1. do CC. se nada for clausulado. como Do disposto no art. 6.° do CT não poderá resultar qualquer violação
critério supletivo. recorre-se à residência habitual comum das partes. Na da regm do primado do direito internacional, pois, não obstante o art. 20.0
omissão das partes quanto à escolha da lei aplicável. teria de se saber qual da Convenção de Roma, este tratado internacional prevalece sobre as
a residência habitual do empregador e do trabalhador; não havendo rt.osi- nonnas de conflitos dos sistemas internos de cada Estado.
dência habitual comum. prevaleceria a lei do local da celebração do
contrato de trabalho (art. 42.°. n.o 2. do CC). VII. No art. 7.° do CT começa por se definir destacamento de traba-
lhadores. pressupondo que «o trabalhador. contratado por um empregador
VI. Seguindo o esquema da Convenção de Roma e da Directiva estabelecido noutro Estado e enquanto durar o contrato de trabalho. preste
lJ6171/CE. de 16 de Dezembro. importa atender ao disposto no art. 6.° do a sua actividade em território português num estabelecimento do emprega-
CT. bem como nos arts. 7.° e 8.° do CT. complementados pelos arts. 11.° dor ou em execução de contrato celebrado entre o empregador e o benefi-
e ss. da LECT. A este regime cabe acrescentar a regra constante do art. 9.° ciário da actividade. ainda que em regime de trabalho temporário» (n. ° I).
doCT. determinando que «as normas deste Código são aplicáveis. com as limita-
No Código do Trabalho (art. 6.°). tal como na Convenção de Roma ções decorrentes do artigo seguinte. ao destacamento de trabalhadores
(artigo 3.°). assenta-se no princípio da liberdade de as partes escolherem a para prestar trabalho em território português ( ... )>> (n.o 2).
lei aplicável ao contrato de trabalho. Na falta de escolha pelas partes. nos Na sequência da directriz comunitária. no art. 7.° do CT delimita-se
n. OS 2 a 6 indicam-se os critérios que pennitem determinar qual a lei o âmbito do destacamento, relacionando com várias formas de executar
aplicável. em termos idênticos aos constantes do n.O 2 do art. 6.° da um contrato de trabalho noutro Estado. Importa. porém. fazer dois esclare-
Convenção de Roma. Refira-se. ainda. que. tal como prescreve o n. ° I do cimentos. Não obstante se proceder à transposição da mencionada Direc-
citado artigo da Convenção de Roma. no n. ° 7 do preceito em análise não tiva. o destacamento no artigo em análise não está circunscrito a relações
se pcnnite que a escolha de lei efectuada pelas partes tenha como conse- laborais celebradas e executadas em países comunitários. pois o regime
quência privar o trabalhador da protecção fixada de modo imperativo no aplicar-se-á. mesmo, no caso de o outro Estado não se encontrar integrado
Código do Trabalho se a lei portuguesa for aquela que apresenta maior na União Europeia. Tal como na directriz comunitária. neste preceito só se
conexão com a situação jurídica laboral em causa; assim sendo. caso a lei atende a uma perspectiva unilateral do destacamento: trata-se de trabalha-
portuguesa apresente maior conexão com o contrato de trabalho nos ter- dores que vêm (destacados) prestar a sua actividade em território português.
mos prescritos nos n. OS 2 e seguintes. não podem as partes escolher uma lei A situação inversa. em que o trabalhador (português) é destacado para pres-
estrangeira que prive o trabalhador da protecção imperativamente fixada tar a sua actividade noutro Estado. não se encontra prevista na Directiva.
no Código do Trabalho. constituindo uma novidade inserida no Código do Trabalho (art. 9.°).
Apesar de o artigo ter tido por fonte a Convenção de Roma, a sua O destacamento pressupõe a execução de um contrdto de trabalho,
aplicação não se encontra circunscrita ao âmbito comunitário, mesmo na mas a prestação de trabalho em território português não depende da exis-
acepção ampla resultante do art. 2.° da Convenção. Cabefesclarecer que, tência de uma relação laboral com o beneficiário da actividade, vcrificando-
não obstante a diferente redacção (mais simples), no preceito em análise -se em qualquer das seguintes duas situações: I) a actividade prestada num
estabelece-se o mesmo regime resultante dos arts. 3.°,6.° e 7.° da Con- estabelecimento do empregador situado em território português; 2) a acti-
venção de Roma, tendo. por isso. predominantemente uma função infor- vidade prestada no estabelecimento de um terceiro. situado em território
mativa). português. em execução de contrato celebrado com o empregador (l'. g .•
empregador estrangeiro que se obriga. com os seus trabalhadores. a exe-
I Veja·se, contudo. MENEZES LEITÃO, Código do Trabalho Anotado. 2.' edição, AI·
medina, Coimbra, 2004, anotação 3 ao artigo 6.°, p. 26, e DÁRlo MOURA VICENTE, «O Di· cutar uma actividade em benefício de terceiro em Portugal). Esta última
reito Internacional Privado no Código do Trobalho», Estlldos do Instituto de Direito do hipótese ocorre na execução de uma multiplicidade de contratos. podendo
Traha/lJO, Volume IV. Coimbra, 2004. pp. 17 e SS., autor que. a p. 21. considera não haver inclusive tn.tar-se de um contrato de trabalho temporário (p. ex .• empresa
conlrodição entre as regras do Código do Trobalho e as da Convenção de Roma. de trabalho temporário contrata trabalhadores noutro Estado para pres-
254 Direito do Trabalho Ct'pítlllo 111- Fonte.t do Dirál" do Tralx,lht} 255

tarem a sua actividade junto de uma empresa beneficiária situada em Por- A Directiva n. ° 9617 IICE e. na sua sequência. a Lei n. ° 9/2000 aten-
tugal). dem só à perspectiva dos Estados da União Europeia «importadores» de
Pretende-se que o trabalhador destacado não seja prejudicado nem mão-de-obra. De facto. tendo-se procedido ti uma regulamentação unilate-
que a respectiva utilização constitua um mcio dc distorcer a sã concorrên- ral do destacamento. só se prevê a situação de trabalhadores deslacados
cia entre empresas. pelo que. cm princípio. o destacamento não prejudica para prestar a sua actividade em Portugal.
a aplicação das regras do Código do Trabalho. É nccessário. todavia, Importava. por isso. prever igualmente a situação. com particular
atender a dois aspectos: em primeiro lugar. vigora o princípio de liberdade relevância para os trabalhadores portugueses. em que o destacamento se
de escolha da lei aplicável. que pode não ser a portuguesa: por outro. verifica para outros Estados. Esta hipótese corresponde a uma situação
independentemente da escolha das partes. a conexão mais estreita não assaz frequente de trabalhadores portugueses. contratados por empregador
corresponde necessariamente à lei do local de execução da actividade estabelecido em Portugal. que são destacados para prestar a sua actividade
(Portugal). justificando a aplicação de outra ordem jurídica. Estes dois noutro Estado, principalmente em execução de contrato celebrado entre o
a .. pectos. associados com as explicações indicadas no início do parágrafo. empregador (português) e o beneficiário da actividade (estrangeiro).
justificam não só o regime constante do artigo seguinte. como a possibili- Assim. prevê-se no art. 9.° do Cf a situação inversa à regulada no
dade de se estabelecerem outras excepções em legislação especial. art. 7.°; garantindo-se ao trabalhador (normalmente português) destncado
Além da sã concorrência entre empresas (particularmente no mer- para prestar n sua actividade noutro Estado. caso não se aplique o Direito
cado comunitário), pretende-se que o destacamento não constitua o meio nacional, o recurso a regras de protecção mínimas. indicadas no art. 8.° do
de diferenciar os trabalhadores e. principalmente. de sonegar aos desta- Cf; no fundo. é-lhe gamntida a protecção decorrente de normas de ;Iplica-
cados direitos que são imperativamente atribuídos aos trabalhadores a cuja ção necessária e imediata.
relação laboral se aplica a lei portuguesa. Ao trabalhador (por via de regra português) que for destacado para
Assim sendo. na.. alíneas do art. 8.° do Cf indicam-se certos direitos prestar trabalho noutro Estado devem-lhe ser prestadas as infornlaçôes
dos trabalhadores que. tendo em conta a sua relevância. têm de ser respei- constantes do art. 100.°.
tados mcsmo em relação a trabalhadores que prestam a sua actividade em
Portugal sem se lhes aplicar a legislação nacional. Correspondem a situações VIII. Em sede de acidentes de Ir.tbalho. vigora um princípio de igual-
que a doutrina designa por normas de aplicação (necessária e) imediata l . dade entre trabalhadores portugueses e estrangeiros (art. 4.° da LAT e art.
Do elenco das situações (similares às constantes da Directiva citada) 282. ° do Cf), admitindo-se, porém, que os trabalhadores estrangeiros pos-
depreende-se que a opção assenta em dois motivos: de ordem económica; sam não beneficiar do regime português de ucidentcs de trabalho se for
de índole pessoal. ainda que. nalguns casos. exista conexão entre eles. possível aplicar a legislação do Estado de origem neste domínio (art. 4.0.
Assim. por exemplo. a duração máxima do tempo de trabalho, a existência n.O 3. da LAT e art. 282.°. n.O 3. do CT).
de férias retribuídas, o pagamento de uma retribuição mínima e de trabalho Diferentemente do que se estabeleceu em 1965 nu Lei dos Acidentes
suplementar. não obstante constituírem importantes direitls dos trabalha- de Trabalho (base IV). a LAT de 1997 não retira o direito à indemnização
dores. visam especialmente equilibrar a concorrência em espaços econó- aos trabalhadores estrangeiros que beneficiem de um regime protector do
micos distintos. Já a segurança no emprego (novidade relativamente à Estado de origem. pois estabeleceu-se que o trabalhador estrangeiro pode
Directiva), assim como a protecção da maternidade e do trabalho de meno- optar por qualquer dos regimes (art. 5.° da LAT)I. situação que se mantém
res, ainda que também possam ter subjacente um motivo económico rela- no Código do Trabalho (art. 283.°).
cionado com a concorrência no espaço europeu. têm particularmente em
vista a protecção do trabalhador.

I Cfr. MARQUES DOS SANTOS. As Normas de Aplicação lmetliata no Direito Interna· I Sobre a questão. veja·se LIMA PINHEIRO, Direito IIIIernacional Pril'UtltJ. Parte
cional Pril'Utlo. Esboço de uma Teoria Geral. Volume II. cit .• pp. 6ffl e ss. e pp. 815 e ss. E.tpecial (Direito de Conflito.t). Coimbrn. 1999. pp. 11I9~.
256 Direito cio Trabalho Capítlllo 1/1 - l:mlleJ do Direito cio Trabalho 257
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IX. Não obstante estes princípios. a tendência para a maximização na tuadas entre os Estados. mesmo de uma família jurídica comum. Além
aplicação da [exfori (lei do local onde é dirimido o conflito). leva a que os disso. é igualmente de referir o melindre na condenação de Estados estran-
tribunais de trabalho. por vezes. apliquem a lei do foro e não aquela que geiros na qualidade de empregadores. podendo-se invocar a respectiva
se determinaria pelas regras de conflitos'. Quando uma determinada ques- imunidade de jurisdição'.
tão laboral é suscitada perante um tribunal de trabalho português. a regra Na ordem jurídica laboral. a maximização da /ex fori. nalgumas hipó-
de conflitos pode determinar. como lei aplicável. a de outro Estado. mas o teses, é realçada pelo princípio da [ex [oei executiollis. também chamado
juiz português que. em princípio. não terá conhecimentos suficientes para kt [oei [aboris 2• Nos termos deste princípio. deve prevalecer a lei do local
aplicar qualquer lei laboral estrangeira2, atendendo a critérios correctivos3• onde o trabalho é executado. De certo modo. esta solução encontra-se
pode considerar aplicável a lei portugucsa4 ; até porque os tribunais do consagrada no art. 6. 0, n. o 2. da Convenção de Roma. assim como no art.
trabalho portugueses. nos termos do art. 10.° do CPT - de modo impe- 6.°, n.o 3, alínea a), do cr.
rativo (cfr. art. 11.° do CPT) -. para além das regras gerais de compe- Mesmo quando as partes. com base na liberdade contratual. estabele-
tência internacional5• podem conhecer de litígios em que esteja em causa ceram como lei aplicável a de um Estado ou quando as regras de connitos
um trabalhador domiciliado em Portugal ou cujo contrato de trabalho apontam num determinado sentido, a regra do lugar da execução do tmba-
tenha sido. ainda que parcialmente. executado em território nacional 6• lho pode prevalecer.
No direito do trabalho. o problema da maximização da [ex fori tem O princípio da [ex [oó execlllionis tem sentido porque. pam além de
uma importância acrescida. visto que. por um lado, o postulado da protec- atender primordialmente ao conteúdo do contrato. assenta num pressu-
ção do trabalhador dificulta a aplicação de normas estrangeiras7 e, por posto de igualdade3 ; deste modo, se um estrangeiro trabalhar num deter-
outro, as diversidades de regulamentação, a nível laboral. são mais acen- minado país, estará sujeito às leis que vigoram nesse Estado.
Mas pode ocorrer que a [ex [oei laboris seja diversa da [exfori, tendo
I Quanto à tendência paro a maximimçiio du lei do foro. cfr. MARQUF-~ 1>05 SANTOS. em contll ~I 1I1argada competêncill internacional dos tribunais do tmbalho
A~ NOrllUJS de Aplicação Imediata. cit.. Vol. I. pp. 41 SS. portugueses (art. 10.° do CPT) e a regra da conexão mais estreita do art.
2 No Ac. ReI. Lx. de 10/1119%. CJ XXI (1996). T.I. p. 1(,0. os juízes. relativamente
6,°, parte final Convenção de Roma e art. 6.°, n.o 4. do cr. Isto levaria a
à oruem jurídica jugoslava, eventualmente aplicável ao caso sub iudia. alirntamm que não
que o juiz nacional tivesse de aplicar a lei de um outro Estado. o que.
a conheciam na íntegra (p. 161). o que é perfeitamente razoá\'el.
J Cfr. a situação referida por SAI.VATORI. "la Protezione ...... cit.. p. 145. Sobre as
particularmente em matéria laboral, nem sempre será fácil que ocorra 4 .
cláusulas de excepção. dr. MARQUES DOS SANTOS. As Normas de Aplicaç(io Imediata. cit..
Vol. I. p. 475. I No Ac. Rei. Lx. de 9/1111988. CJ XI11. T. V. p. 53. em que uma trabalhadom do
" Cfr. Ac. STJ de 7/611983. BMJ 328. p. 447; Ac. ReI. Lx. 10/1/1996. CJ XXI Instituto f:spanhol demanda\'a o Instituto e o Estado Espanhol. o Tribunal da Relação
(1996). T. I. p. 160. Sobre esta questão. I·d. também MENEZES CORDFJRO. Manllal. cit.. invocou a imunidade de jurisdição dos Estados. Sobre esta questão. cfr. MARQ\lF_~ IlOS
p.203. SANTOS. As Normas de Aplicação Imediata. Vol. II. cit .. p. 809. nota 2612. Veja·se igual.
0
S As regras gerais de competência internacional constam dos art. 65.° e 65. ·A do mente o Ac. ReI. Lx. de 1211/1989. CJ XIV. T. IV. Jl. 178. com o comcntáriode MOITINIIO
CPC; contudo. na nova versão do ano 65.0·A CPC deixou de constar a antiga alínea c). em OE AL\tEII>A (Código de Processo c/o Tmballlo Anotado. 4." cd .• Coimbm. 1997. p. 19) ao
llue se atribuía competência exclusiva aos tribunais ponugueses para al'ções referentes a ano 11.° dll cpr e o Ac. ReI. Lx. de 7/3/2001. CJ XXVI. T. II. p. 142. sobre a imunidade
relações de trabalho. Sobre esta quest.'1o. veja·sc o disposto no ano 3.° da Convenção de diplomática no caso de uma tmblllhadom do serviço doméstico que prestava a sua activi.
Bruxelas e o comentário de TEIXEIRA DE SousA/MOURA VICENTE. Com..ntdrio () COn\'en- dade na fl'Sidência do embaixador de Isrocl.
çtio de BrlLTeJtIS. Lisboa. 1994. p. 81. 2 Neste sentido. SALVATORI. «L'I Protczione... ». cit.. p. 144.
6 Ar;. Rei. Lx. de 1I/1O/1995.CJ XX (1995). T.IV. p. 161. Sobre\.'Staqu\."Stão.l·d. J Cfr. JoAo REIS. «Lei Aplicável ...... cit.. p. 47.
MOURA RAMOS. Da Lei Aplicál·eI. cit.. pp. 777 55. " No Ac. STJ de 7/611983. BMJ 328. p. 447. o tribunal ponuguês. pemnte o qual se
7 Pum além de as normas labomis ~-n:m. por VC7.l.'S. de aplicllliàll lIel:\.~sária às dirimia UIl1 conflito relativo a uma empn:sa de construçào civil nacional que levou um
relaçiies executadas no país do foro. pode·se estar perante a chamllda aplicação possí\'eI tmbalhador ponuguês pam exccutar uma obm na Arábia Saudita, aplicou a lei ponuguesa.
de tais normas a relações executadas no estmngeiro. err. MARQUF.s OOS SANTOS. As Nor· Com base no princípio da Il'.t toei e.teclltionis. o tribunal ponuguês deveria aplicar a lei na
"uu de Aplicação Imediata. Vol. II. cit .• p. 732. nota 2398. Ar.íbia Saudi!.'I. mas afa~lou a aplil'aç;iu da It',( loci laboris e recorreu à 1(',( for; (lei ponu.
25M Direito c/o TflIballlO Ctlflíllllo III - f-otlles c/o Direito do Tmblllho 259

Os tribunais de trabalho de cada Estado têm tendência para aplicar o Trabalho segundo a Convenção de Roma», QL 11 (1995). n.o 4. pp. 3S a 49 e
direito nacional. e o princípio da lex loei execlIliollis ou a regra da conexão «Contrato de Trabalho Plurilocalizado e Ordem Pública Internacionah•• QL III
mais estreita serve. muitas das vezes. para reiterar a aplkação da lex fori. (1996). n.o 8. pp. lfifi a 181; MARQur:s DOS SANTOS. As Normas de ApliCClçiio
Imedialll 110 Direito II/Iemadotllll Privado. Esboço de lima Teoria Geral. Vols. I
e II, Coimbra. 1991 e «Alguns Princípios de Direito Internacional Privado e de
Bibliografia: Direito Internacional Público do Trah.1Iho». Emulos do Inslilllto (Ú! Direito do
Trabalho. Vol. III. Coimbra. 2002. pp. IS a 50; MOTIA VEIGA. Direito do TrIlllll'
DIAS COIMBRA. «O Novo Direito Europeu nos Contratos Internacionais:
1110 11II('rlUlcillflal t: ElIropt'lI. Lisboa. 1994. pp. 117 a 181; DÁRIO MOURA VI·
CEI'HE. «Destacamento Internacional de Trabalhadores». Estllllos em Homenagem
Impemtividade e Ordem Pública. no Âmbito do Contrato de Trabalho" RDF.5.
1997. n.Os 113. pp. 23 a 49; MENFZES CORDEIRO. Manual. cit .• pp. 201 a 203;
ao Proles.mr DO/llor Rmíl Vel/lllra. Volume 11. Faculdade de Direito de Lisboa.
Lisboa. 2003. pp. 789 e ss. c ,,0 Direito Internacional Privado no Código do Tra-
ROMANO MARTINEZ. anotação aos ans. 6. 0 e ss. in ROMANO MARTINFZ I Luis MI-
balho». ESludos do Inslillllo ele DireilO do Trabalho. Volume IV. Almedioa.
GUEL MomclRO / JOANA V ASCONCEl.OS I MADFJRA DE BRITO / GuIl.HERME DRA Y I
Coimbra. 2004. pp. IS e ss.: BERNARDO XAVIER. Curso. cit.. pp. 280 a 282.
I GONl,"Al.VF.5 DA SILVA. Código do Trilbal/UI AIlOlalÚJ. cit .•. pp. 8S e SS.; MOURA
RAMOS. A Lei ApliccÍl'el ao Conlralo dt' Trabalho Internacional. Coimbra. 1991 e
"o Contrato Individual de Trabalho em Direito Internacional Privudo». )uris ('I
de Jun' Nos Vinte Anos da FaCilidade de Direito ela Univer.ridade Católica Portu- C) Hierarquia c/tU fontes
guesa. Porlo. Pono. 1998. pp. 41 a 81; JOÃo REIS. «Lei Aplicável ao Contrato de
c.l) Aspectos geraiJ
guesa). ateOlo o disposto no an. 42. 0 Cc. Rcfim·se. lIx1avia. apeslIr de esta lomadll de
posição não ter tido relevância prálica. que o tribunal reconheceu a vulidade da remissâo I. Em direito do trabalho. aos conflitos hierárquicos de fontes tem
cOlltmtual pam a lei c usos locais da Arábill SlIudilll em relllção a horário de Imhlllho. sido dada uma imponância acrescida. comparando com o que sucede 1I0S
desellnsos. actividllde política e religiosa. etc. (II. 449).
No Ac. STJ de I 2111 19<N. CJ (STJ) II (19W). T. I. p. 274. o tribunal aplicou a lei
outros ramos do direito. Esta relevância deve-se. essencialmente. a dois
fmllcesa. mas nào obstante a.~ alusões ao Direito fr.mcês. enlcndeu a C<lUSU real séria do factores.
Coe/e clu Trtlmil nos parâmetros da justa causa do ano 9.° LCIT. Não se qll\.'Stiona a Por um lado. a multiplicidade de fontes. na medida em que. para além
juste7.a dcst<l similitude. mas pode concluir·se que os Iribunais de tmbalho ponugucses das fontes comuns aos outros ramos do direito. no direito do trabalho
aplicam Direito cstranl(ciro se houver identidade de soluções com o Direilo nacional. daí acrescem os instrumcntos dc regulamentação colectiva de trabalho.
que no Ac. ReI. Lx. de 10/1/1996. CJ XXI (1996). T. I. p. 160. l\.'Conhcccndo·se que a lei E. por outro. as várias fontes de direito do trabalho têm proveniência
jugoslava em a aplicável. dirimiu-se a questão com base no direito ponuguês.
O Ac. STJ de 11/6/1996. CJ (STJ) IV (1996). T. II. p. 266. poderia ser invocado
diversa; podem ter a sua origem no Estado. no domínio internacional. ou
como ellcepção à ideia enunciada. pois aplica a lei alemã: todavia. esle doulo acórdão. j; advir da vontade das partes (associações sindicais e associaçõcs de empre-
longo. bem formulado e com pcnincntes comparaçoc'S entre os Dij\:itos ponuguês e gadores).
;.":
alemão. limita-se a confirmar a \'a1idade do acordo elttmjudid<ll que :t! panes celebmmm
T Para além destes dois aspectos. ainda há a ter em conta o princípio do
na sequência de uma queixa aprcsenlada pcl<l trabalhadom 110 Tribunal de Tmbalho de tratamento mais favorável ao trabalhador. estabelecido na lei a propósito
Dusscldorfe. dos conflitos hierárquicos. nos arts. 4. 0 e 531. 0 do cr.
No Ac. STJ de 19/10/1994. BMJ 440. p. 237 e CJ (STJ) II (199-$). T. III. p. 275.
assim como no Ac. ReI. É\·. de 121111999. eJ. XXIV. T. I. p. 294. alendendo ao acordo
das pan\.'S. aplicou·se a lei GcraI do Tmbalho de Angola. relativamente à qual. pela II. Os conflitos hierárquicos resolvem-se mediante uma ordenação
simililudc de sistemas jurídicos. dcsignadamenle no que rcspcila à.'i regras da prescrição fonnal. tendo em conta a respectiva prevalência das fontes. que se rela-
- questão em litígio - não levanta grandes dificuld<ldcs de aplicação. Ne.~te ca.~ \'aleria ciona com as entidades das quais emanam as nonnas l .
alé a «ideia segundo a qual deve presumir-se que II lei estmngeim é semelhante à la!or;».
MARQUES uos SAI'ITOS, A.r Normas de ApliC'llI'/io IIIU!dilll/l. Vol. I. cil. p. 133. nola 437. I crr. OuvmRA AS('J~SA(). o Dirl'ÍM. di .• Ptl. 571 ss.; BAPTISTA MACHADO. Imm·
citando SIMON·DEPlTRE. c/I/pio /lO Direi/o. cit .. pp. 16(1 SS.
260 Direito do Trab(lll/O 261
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o direito do trabalho. no que respeita à ordenação hierárquica das No citado art. 4.° do CT altera-se substancialmente a regra de conflito
fontes. não apresenta qualquer particularidade. devendo recorrer-se às vigente na legislação precedente. No art_ 13.°. n. ° I. da LCT estipulava-se
regras gerais de Introdução ao Direito. Todavia. atendendo ao princípio do que a fonte superior prevalecia. a não ser que a fonte inferior estabelecesse
fill'or laboratoris. os conflitos de normas em direito do trabalho poderão um tratamento mais favorável para o trabalhador e. neste caso. teria de ser
ter alguma especificidade. sem oposição daquela'; daqui se inferia que as fontes inferiores podiam.
As normas de direito do trabalho estabelecidas a propósito do con- eventualmente. estabelecer contra as fontes superiores. sempre que estas
flito hierárquico são os citados arts. 4.° e 531.° do CT. fixassem garantias mínimas de protecção do trabalhador e da fonte inferior
Nestas regras. aludindo ao conflito hierárquico de normas. poder-se- resultasse um tratamento mais favorável ao trabalhador2• Seguidamente.
-ia entender que se estabeleceu o princípio de ser d.tda prevalência aos no art. 6.°, n.o I, alíneas b) e c), da LRCT dispunha-se no mesmo sentido
preceitos de modo a favorecer os trabalhadores. do citado art. 13.°, n. ° I, da LCT, estabelecendo que os instrumentos de
regulamentação colectiva de trabalho não podiam contrariar normas legais
III. O conflito de normas em direito do trabalho é solucionado com imperativa>; (alínea b».
Reilerava-se o princípio de que a convenção
recurso à hierarquia estabelecida em moldes idênticos ao dos outros ramos colectiva de trabalho não podia dispor contra normas legais. ou seja. tinha
do direito. E. assim. o primeiro lugar é ocupado pelas normas constitucio- sempre de se sujeitar às fontes superiores. Na alínea c) do n.o I do art_ 6.°
nais. depois as regras de direito internacional geral e convencional'. em da LRCT determinava-se que os instrumentos de regulanu:ntação colec-
terceiro lugar as normas emanadas de órgãos estaduais. na sua ordem nor- tiva não podiam «incluir qualquer disposição que importe para os trabalha-
mal (leis da Assembleia da República e decretos-leis do Governo. de~rc­ dores tratamento menos favorável do que o estabelecido por lei». Isto que-
tos. portarias. etc.)2. em quarto lugar os instrumentos de regulamentação ria dizer que as regras de uma convenção colectiva de trabalho nunca
colectiva de trabalho e. por último. se houver omissão no contrato de tra-
balho. os usos da profissão e da empresa 3.
Perante este elenco de fontes. poder-se-ia concluir no sentido de estar
solucionado o problema do conflito hierárquico de normas em direito do I No Ac. Rcl. Lx. de 4nJl990. CJ XV (1990). T. IV. p. 186. não se admitiu que o
prazo de prescrição do proc\.-dimcnto disciplinar do art. 31.·. n.· I. da LCT (correspon-
trabalho. No entanto. é preciso ter em conta o princípio do tratamento mais
dentc ao art. 372.·. n.· I. do (T). por ser impCr.lli\·o. fossc afastado por con\'enl,-ão colcç-
favorável ao trabalhador. tiva; também no Ac. ReI. Lx. de 8/411992. CJ XVII (1992). T. II. p. 203. dctcrminou-se
que o prazo de período cxperimcntal de 60 dia.~ não permile a aplicação do pmzo dc
IV. No art. 4. ° do CT. sob a epígrafe «Princípio do tratamento mais período cxperimental constante de convenção colectiva anterior à entmda cm vigor do
favorável». dispõe-se: «As normas deste Código podem ( ... ) ser afastadas diploma - com prazo dc 15 dias. idênlico ao mI lei em vigor à dai.. d .. celebmção d\."Ssc
por instrumento de regulamentação colectiva de trabalho. salvo quando instnlmcnto -. não obstantc ser mais favorá\'C1 no trnbitlhador. porque (} novo diploma
delas resultar o contrário» (n.o I) e ((( ... ) só podem ser afastadas por con- afaslou a aplicação inclusive de situações mais fa\·oráveis. consignadas em instrumenlo dc
regulamentação colectiva (ar!. 2.·. n.· 2. da LCCf); dr. também Ac. ReI. Lx. de
trato de trabalho quando esta estabeleça condições mais fatoráveis para o
30/10/1996. CJ XXI (1996). T. IV. p. 188. De igual modo. no Ac. Rei. '-\. de 8/3/1995.
trabalhador e se delas não resultar o contrário» (n.o 3). Aludindo-se ao CJ XX (1995), T. II. p. 161. considerou-se que. sendo o n.· 11 da Portaria 76n7. de 16 dc
tratamento mais favorável para o trabalhador. Dezembro. uma norma imperativa. não podia ser afaslada por cláusula mais favorável dc
convcnção colectiva de Imbalho. No Ac. Rcl. eh. de 6/211997. CJ XXII (1997). T. I. p. 70.
determinou-se a nulidadc do acordo de empresa 'Iue dispunha cm sentido conlrário ao art.
I Acerea da posição hierárquica da~ normas internacionais. dr. sI/pra § 9.2. 4.· LClT; neslc sentido. dr. igualmcntc Ac. STJ de 22110/1997. BMJ 470. p. 483.
2 Dá.se pre\'aJência aos diplomas prm'cnicnles de órgãos \."Sladuais (Assembleia da 2 Cfr. Ac. Rei. Cb. de 241111991. CJ XVI (1991). T. I. p. 113; Ac. ReI. Cb. de
República e Governo) em detrimento dos de órgãos hx:ar... nào se estabelecendo hierarquia 23/311995. CJ XX (1995). T. II. p. 53. A referência à imperatividadc das normas da Lci
entre leis e decretos-leis. das Férias Feriados e Faltas. conslante do Ac. Rei. Lx. dc 13/311996. CJ XXI (1996). T.
_1 Reitera-se a posilrõiu nu sentido de os regulamentos de empresa. tal como o con· II. p. 165. devcr-se-á possivclmentc ao facto de o disposto na convcnção colectiva ser mais
trato dc tmbalho. não constituírem fontc de direito do lrabalho (vd. sI/pra § 8.5.111). gmvoso pam o trabalhador.
262 [)irl'i/o tio TmlJillho Capíllllo //I - {;(m/l'.\ tio /)irei/o do Trabalho 263

podiam cstatuir de modo menos favorável do que o constante da lei injun- Mas estas duas regras. em que se alude ao tratamento mais favurável
tiva. visto que se trata de uma fonte inferior l. pam o trabalhador, não trazem nada de novo relativamente aos pressupos-
Este regime surge modificado no Código do Trabalho (art. 4.°. n.o I). tos cm que assenta o conflito de nonnas. Em primeiro lugar. não está cm
na medida em que a fonte inferinr - instmmento de regulamentação colec- causa um conflito de fontes. mas um .. divergência enlre cI;íllslllas contra-
tiva de trabalho - pode dispor em sentido diverso das nonnas do Código tuais e nonnas legais ou disposições de instrumento de regulamentação
e afastar a aplicação destas, salvo quando se trate de disposiçõcs impem- colectiva de trabalho; ora, as regras contratuais não são fonte de direito.
tivus. Como resulta do n.o I do urt. 4.° do CT, diferentemente do disposto Em segundo lugar. admite-se que as normas legais ou as disposiçõcs de
na legislução revogada, u fonte inferior que disponha em sentido diverso instrumento de regulamentação colectiva de trabalho possam ser afastadas
do previsto na lei aplica-se uinda que não estabeleça um tratamento mais por cI;íusula contratual, na medida cm que daquelas não resulte o contrá-
favonível para o trabalhador. Em suma, a regra de concurso entre fonte rio: ou seja, a própria lei ou a disposição de convenção colectiva já pre-
superior e inferior não se encontra condicionada pelo tratamento mais vêem, ainda que implicitamente. a possibilidade de não se aplicarem. Dito
favor.ível. podendo a convenção colectiva afastar as nonnas do Código de outro modo, a possibilidade de aplicação de cláusulas contratuais em
detenninando um tratamento menos favorável para o trabalhador2. detrimento de nonna (legal ou de instrumento colectivo) assenta no carác-
No n.O I do art. 4.° do CT. o princípio do tratamento mais favur.ível ter supletivo desta, que aceita o seu afastamento. Em suma. a referência ao
ao trabalhador nem sequer é invocado na resolução de um conflito hierár- princípio do tratamento mais favor.ível nestas duas nonnas (art. 4.°. n.o 3.
quico de nonnas. não tendo qualquer aplicação na situação usual de con- e art. 531.° do CT) não constitui um regime de excepção, pois do contrato
flito entre a lei e o instrumento de regulamentação colectiva de trabalho. de trabalho não poderão constar regras em violação de preceitos impera-
Esta regra de conflito tem, contudo, uma excepção no que respeita a um tivos, mesmo para consagrar regimes mais favoráveisl.
tipo de instrumento de regulamentaçãu colectiva de trabalho: o regula-
mento de condições mínimas. que não afasta a aplicação das nonnas do V. No contrato de trabalho tem de se estipular um regime adequado à
Código (art. 4.°. n.o 2, do CT). lei. e só poderá estabelecer-se uma solução mais favorável, desde que esta
Porém, no 11.° 3 do urt. 4.° do cr alude-se ao tratamento mais favo- o pennita. Não decorre daqui nenhuma excepção à regra geral do conflito
rável ao trabalhador. Na relação entre as nonnas do Código do Tmbalho e hierárquico de nonnas.
cláusulas contratuais só se admite que estas afastem a aplicação daquelas O princípio do tratamento mais favorável ao trabalhador. que tem
se estiverem preenchidos dois pressupostos: se as cláusulas contratuais sido considerado um dos bastiões da autonomia do direito do trabalho. cm
estabelecerem condições mais favoráveis para o trabalhador do que as sede de conflito hierárquico de nonnas. não impõe nenhum regime espe-
resultantes da lei; se as nunnas du Códigu do Trabalho forem supletivas. cial. O teor dos preceitos mencionados nãu se afasta dos princípios gemis
pennitindu o seu afastamento por cláusula contratual. de direito nesta matéria.
Por último, no art. 531.° do CT reitera-se solução idêntica, detenni-
nando que as disposições de instrumentu de regulamentaç~ colectiva de
trabalho podem ser afastadas por cláusula de contrato de trabalho quando
estas estabelecerem condições mais favoráveis para o trabalhador. desde ;~:.

que daquelas disposições não resultar o contrário.


I erro Ac. ReI. Lx. de 8/411992. CJ XVII (1992). T. II. p. 203: Ac. ReI. l.x. de
H/3/1995. O XX (1995). T.II. p. 161; Ac. Rei. L,. de 30110/19%. ('J XXI (1996). T. IV.
I erro Ac. ReI. b. de 13/3/1996. eJ XXI (1996). T. II. p. 165. p.18!!.
2 Sobre este regime c as dúvidas que suscita. \·cja.se GONÇAL\T:.S DA SII.VA. anota· No Ac. STJ de 11/1211996. CJ (STJ) III. T. III. p. 265. admitiu·se a derrogação
ç.l0 ao ano 4.· in ROMANO MARTINF.z 1 Llrts MIGtrEL MONTEIRO 1 JOANA VASCONUI.OS 1 contmtual de um sistema de pagamellto de ajudas de custo previsto cm cOllwnção colec·
1 MAllllRA DE BRITO 1 GUIUIERME DRAY 1 GoNÇALVES DA SILVA. CódigoJo Tmbtllh" Ali'" tiva. JXlr outro mais vantajoso pam os tmbalhlldofCS. porque se estava JX.-rnnte uma nonna
Itltlo. cit .• pp. 77 e 55. impemtiva de limites mínimos.
:.;.
.:::
L
264 Direi/o do Trabalho Capítulo III - do Direito do Tralml/IO 265
----- FOllleJ
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c.2) Princípio do tratamento mais favorável baseiam-se em fundamento divenio. pode chegar-se a uma conclusão errada
quanto ao tratamento mais favorável. sempre que se procedu à comparação
I. Para explicar o princípio do tratamento mais favorável ao trabalha- de conjuntos de nonnas de distintos diplomas. Além disso. não é pucífico
dor. no cuso de conflito de normas. tradicionalmente. têm-se debatido que num diploma se possam destac~lr grupos de normas com algum~l rela-
várias teorias I. ção entre si; isto porque. cada grupo de nornlas pode. por sua vez. estar na
dependência de outras disposições.
II. Para a teoria do cúmulo. a solução mais favorável para o trabalha- Se, por exemplo. num diploma se estabelece que ~IS férias são de
dor será aquela que for aferida. regra a regra. Deste modo. perante cada vinte dia.. e que o trabalhador pode dar. em cada ano. sem perda de venci-
regra. em concreto, há que verificar qual a solução mais favorável para o mento. dez faltas injustificadas. na realidade são conferidos trinta dias de
trabalhador. férias. Se num outro diplomu se vem dizer que as férias são de trinta dias
As regras são. pois. analisadas isoladamente; em cada diploma. e e que ao trabalhador não é concedido o direito de dar faltas injustifICadas,
tendo em conta cada uma das suas disposições, chega-se à conclusão qual não se podem comparar em globo as regras quanto a faltas. por um lado. e
a que constitui a melhor solução. somando-se. depois. os resultados mais as relativas às férias. por outro.
vantajosos de diferentes diplomas. Importa concluir que. mesmo os grupos de normas, podem não ter
Esta teoria pode ser criticada atendendo ao facto de as regras não po- uma verdadeira autonomiu. sendo difícil chegar-se a uma solução viável
derem ser vistas em separado. na medida em que. dentro de cada diploma. através da teoria da conglobação.
das constituem um conjun~o homogéneo. Esta teoria é incoerente. porque
põe em causa a unidade do diploma. na medida em que as regras. no seu IV. A teoria da conexão interna, como uma subespécie da teoria da
conjunto. têm um detenninado sentido. que se perde caso as mesmas conglobação, considera necessário procurar grupos de normas incindíveis.
sejam vistas isoladamente. Não parece admissível deslacar uma norma de de modo a compará-los. São esses grupos de nonnas de cuda diploma. por
um diploma. para a aplicar conjuntamente com a de outro. se encontmrem numa conexão interna. que vão ser comparados. de modo
a chegar à solução mais favorável para o trabalhador.
III. A teoria da conglobação. para fazer face às cóticas apresentadas Mantêm-se aqui. de certa forma. todas as cóticas feita.. à teoria da
à teoria do cúmulo. considera que o tratamento mais favorável deverá ser conglobação. Para além disso. em relação à teoria da conexão interna
dcternlinado tendo em conta o diploma. na sua globalidade. acresce a dificuldade de saber quando é que as normas fuzem parte de um
Esta teoria critica-se pela grande dificuldade que existe em efectuar grupo em conexão interna. pois não sercÍ pucífica a determinação da exis-
uma comparação entre conjuntos de nonnus. Cada diploma. no seu con- tência de um grupo incindível de normas.
junto. purte de pressupostos diversos e. por isso. comparar regras. mesmo
no seu conjunto. que assentam em parâmetros diferentes. pode levar. even- V. Qualquer uma das tres teorias indicadas revela-se, por um lado.
tualmente. a soluções aberrantes. De facto. se um determimlio1:onjunto de inadequada ao assentar em parâmetros subjectivos l • e. por outro. toma-se
regras assenta num dado pressuposto. e. em outro diploma. as soluções difícil encontrar utilidade nas soluções preconizadas.
Tendo cm conta as considerações fcitns nesta alínea deve concluir-se
I Sobre as várias teorias. cfr. MENFZES COROEIRO. Mallllal. cit.. pp. 208 5S. c "Prin- que. em direito do trabalho. o conflito hierárquico de normas deve ser
cípio do Tratamento mais Fa\'Orá\'el... ... cit., pp. 124 5S.; ACÁCIO LoURFJIIÇO, "O Princípio
resolvido de acordo com as regras gerais. Não pare<:e que existam razões
do Tratamento ... », cit., pp. 105 SS.; ARANGUREN in MAZZONI, Dirillo dt'l LaI'oro.I, cit.. pp.
215 5.; Mmrroy A MElGAR. Dm'cho dI!! Trabajo. cit.. pp. 223 5S.; MASCARO NASClMEIO'O. pam estabelecer soluções diversas das que vigoram nos outros ralllos do
Curso (/~ Direito do Trabalho. 14.' cd .• S. Paulo. 1997, pp. 23655.; RAUl. VENTURA. T~orÍlI direito.
da R~/artio Jurídica d~ Tmhal/ro. cit., pp. 198 s. e .. O Cúmulo e II Conglobação nll
Disciplina das Relações de Tmbalho». O Direilo 94 (1962). pp. 201 SS.; BERNARDO XA-
VIER ... Sucessão no Tempo..... cit .• pp. 485 ss. I Cfr.. lOOa\'ia. em sentidu diferente MF..NF.7.f_>; ('ORDEIRO. Malllltll, cit.. p. 211.
266 Direito tio Trabalho Capítlllo 111- FOllles do Direito do Trabalho 267
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VI. Assim, o conflito hierárquico de normas no direito do trabalho Em segundo lugar. quando emana de fonte superior uma regra dispo-
deve ser resolvido nos seguintes termos. sitiva. designadamente supletiva. nada impede que uma norma inferior
Como princípio básico vale a regra de a norma superior prevalecer estabeleça um regime mais favorável ao trabalhador. De facto, se a norma
sobre él inferior, mas importa distinguir duas situações. superior dispõe num determinado sentido. não sendo imperativa. admitiu-
Primeiro, é sabido que a nornm proveniente de fonte superior preva- -se tão-só uma solução supletiva. que não se impôs (p. ex .. os prazos de
lece sobre a de fonte inferior, mas é preciso saber se a disposição de fonte procedimento disciplinar não são totalmente imperativos, art. 383.°, n.O 2.
superior estabelece uma norma imperativa (ou injuntiva l ). No caso de do CT)I. Neste caso. a norma inferior pode estatuir em sentido diverso.
constar da fonte superior uma norma imperativa, a regra proveniente de dentro de uma margem de liberdade conferida pelo regime instituído por
fonte inferior tem, necessariamente, de a respeitar; não pode esta última fonte superior, estabelecendo uma regra mais favorável ao trabalhador2/ 3•
estabelecer contra o disposto numa norma injuntiva de fonte superior. Mas. em contrapartida, atendendo ao disposto no art. 4.°. n.o I. do CT.
mesmo que seja em sentido mais favorável ao trabalhador. Assim. no caso nada obsta a que. sendo a norma dispositiva. uma convenção colectiva
de uma lei da Assembleia da Rcpúblka impor um determinado regime de estabeleça um regime mais gravoso pam os trabalhadores do que o pres-
modo imperativo, está vedado a uma convenção colectiva de trabalho crito na lei. por exemplo quanto a certos aspectos do tempo de trabalho. à
estabelecer regra mais favorável para o trabalhador do que a constante da
lei 2 . Por isso. não podem incluir-se numa convenção colectiva limites à
contratação a termo diferentes dos constantes nos arts. 129.° e ss. do CT. - que foi banida pelo Código do Tmbalho -. efr. Ac. STJ de 24/6/1992. BMJ 418.
p. 653; Ac. STJ de 16/6/1993. O (STJ) I. T. III, p. 261; Ac. STJ de 22/211995. CJ (STJ).
mesmo que tais limitações se considerem mais favoráveis ao trabalhador,
-~<.: I. T. I. p. 275.
ou uma redução das situações de justa causa de despedimento, previstas no I Considerando que a convenção colectiva pode estabelecer em sentido diverso de
art. 396. ° do CT, apesar de tal diminuição ser favorável ao trabalhador3, ou norma dispositiva da lei. dr. ARANGUREN iII MA7Z0SI. Dirillo dei Lavoro. I. cit.. p. 214.
um aumento do número de dias de faltas justificadas, estabelecido no art. Do mesmo modo. SOlLNER. Arbeüsredlls. cit .. pp. 46 s .• aceitando que a lei ocupa uma
227.° do CP, assim como estabelecer períodos de funcionamento das posição hierárquica superior à convenção colectiva. distingue normas impemtivas e
empresas de que possa resultar vantagens para os trabalhadores (art. 533.°, dispositi vaso
n.O I. alínea b), do CT)5. 2 A norma dispositiva, tanto permissiva como supletiva. não tem de conferir um"
total liberdade de actuação. pode. antes. permitir uma actuação dentro de certos limites; ou
seja. em determinados casos. a norma pode ser só parcialmente dispositiv3. Como refere
I Quanto à queslão terminológica. cfr. OLIVEIRA ASCENSÃO. O Dirt!Íto. cit .• pp. MmITEIRO FERNANDES. Direito do Tmbal/IO. cit.. pp. 112. a norma pode ser «imperati\·a.
506 ss. limitativa» de condições mínimas: com 11m elemento imperativo e outro permissivo. "d.
2 AI.ONSO OLEA/CASAS BAAMONDF.. DerecllO dei Trabajo. cit., p. 838. acrescentam também AcÁCIO loURENÇO. "O Princípio do Tmtamento ... ». cit.. pp. 98 e 101 s.; BARROS
Ilue a convenção colectiva não pode igualmente dispor em matéria de reserva absoluta de MOURA. A COllvl!lIção Colectil'a. cit .• pp. 1485S.
lei. subtmída ao poder normativo destes instrumentos. Atenta esta considemção. é de A propósito destas normas impcmtivas de condições mínimas. BARROS MOURA. A
pondcmr. designadamente. a inadmissibilidade de qualquer trutamentolnnis favorávcl ao COI/I'I!II(t10 Colectim, eit.• pp. 169 .'Is. c MÁRIO PINTO, Direito do TralmlllO. cit.. pp. 168
tmballmdor cm matéria de greve. constante de convenção colectiva. .'Is .• aludem à chamada «ordem pública social». Os autores franceses costumam tmtar o
.\ Cfr. Ac. ReI. Lx. de 4n1199O. CJ XV (1990). T. IV. p. 186. no que respeita a problem" do lal'Or Itlboratoris na relação hierárquica de normas recorrendo à idci:1 de
pm7.os de procedimento. «ordem pública social». cfr. COtrrURIER. Dmit c/II Tramil, I. cit.. pp. 54 s.: LVON CAENI
.\ MOITA VEIGA. lições. cit.. pp. 129 s.• é de opinião que as faltas por altura do IPáJ!iSIERlSUPIOT. Droit dll Tral'llil. 18! ed .• Paris. 1996. pp. 54 sS .
casamento (aIt. 23.°. n.o 2. alínea a). da LFFF - correspondente ao art. 225.°. n.o 2. alínea 3 Contestando esta forma de solucionar o problema. por a considerar de tipo estatu·
a). do Cn não estão sujeitas à limitaçào constante do art. 24.°. n.o 3. da L1'Ff (corres· tário. dr. MENEZES CORDEIRO. Mal/llal. cit. •.pp. 211 .'IS. e «O princípio do Tratamento mais
pondente ao art. 226.° do CT). onde se considem nula qualquer alteração às regra.o;legais FavoráveL». cit.. pp. 128 55. O autor (Manllal. cit .. pp. 219 .'Is. e "O Princípio do Tr.Jta·
constante de contmto individual ou instrumento de regulamentação colectiva. E.'Ita inter· mento mais favoráveL». cit.. pp. 135 S5.) propõe que () conflito hierárquico de fontes em
pretação não conduz. contudo. a uma unidade do sistema de faltas. Direito do Tmbalho se resolva pela aplicação da norma mais favorável ao 1mbalhador -
5 Quanto à anterior proibição de a convenção colectiva regular benefícios comple· determinada através da teoria da conexão inten13 -. excepto na hipótese de a norma supe·
mcntares gamntidos pelo sistema de Scgllmnça Social (art. 6.°. n. o I. alínea d. da LRCT) rior tcr uma pretensão de aplicação efectiva.
/Jjrei/o do TralHl/lw CU{Jíllllo 111- Fotllf".f do l)irdto do Trabalho 269

admissibilidade da contratação em regime de comissão de serviço ou a Estas são as únicas possibilidades '1ue existem relativamente ~10 con-
regras de procedimento disciplinar. flito hierár'luico. Todos os casos deverão ser resolvidos dentro destes parâ-
metros l .
VII. Em relação a esta última hipótese (nonna legal dispositiva). im- Em suma. o conflito hierárquico de normas no direito do trabalho
porta ainda distinguir tn,~ situações. deve ser resolvido 1I0S lennos gerais.
A lIomla de fonte superior. sendo pennissiva. pode estabelecer um
limite máximo imperativo. Por exemplo, quando se estatui que o trabalho VIlI. Do disposto nos arts. 4.° e 531." do CT pude concluir-se que.
suplementar tem como limite cento e cinquenta horas por ano (art. 200.°, em direito do trabalho. não há qualquer particularidade no que respeita ao
n.o I, alínea b). do Cn.
a nonna de fonte superior estabelece o máximo, conflito hierár'luico de nonnas, pois vale o regime regra.
mas poderia impor-se um número inferior a cento e cinquenta horas numa Das expresslx.'S «salvo quando delas resultar o contrário,) (art. 4.°.
regra proveniente de fonte inferior l . Do mesmo mudo, quando se fixa um n.o l. do CT). «se delas não resultar o contrário» (art. 4.°, n.o 3. do CI') e
período nonnal de trabalho máximo de oito horas por dia e quarenta horas «se daquelas disposições não resultar o contrário» (art. 531.° do CT) é de
por semana (arl. 163.°, n.o I, do Cn,
a nonna inferior pode detemlinar um concluir que vigora a regra geral de aplicação de nonnas, em detrimento
lIúmero de horas inferior ao máximo legal. Nestes casos, a pennissividade do favor lllb()ralOr;.~2. A aplicação preferencial do instrumento de regula-
da norma tem um limite máximo. mentação colectiva ou de cláusula contratual em detrimento da lei só vah:
Diferentemente, como segunda hipótese, a norma permissiva supe- na medida em que a nonna legal o admita.
rior pode estabelecer o limite mínimo. Por exemplo, estatuiu-se uma retri- Tendo em conta que o direito do trabalho. antes de se autonomizar.
buição mínima de X euros (art. 266.° do CT) ou o período anual de férias fazia parte do direito civil, o princípio do tratamento mais favorável
com a duração mínima de vinte e dois dias (art. 213.°, n.o I. do CT). A justificava-se por uma razão de ordem histórica; pretendia-se aplicar as
nonna inferior (p. ex., uma convenção colectiva) pode estabelecer uma nonnas de direito civil de forma diversa. o mesmo se passando quanto aos
retribuição acima do limite mínimo. mas não lhe é facultada a possibili- contlitos hierárquicos. Mas. em 1969. por altura da elaboração da Lei do
dade de determinar um salário abaixo daquele limite; o mesmo se diga Contrato de Trabalho, assentou-se no pressuposto de não ser necessário
com respeito ao período de duração das férias. estabelecer o princípio do tratamento mais favorável. Nestes tennos, o art.
Terceiro. a nonna superior estabelece uma margem de discricionarie-
dade entre. nomeadamente uma vantagem máxima e mínima. dentro da I Conlrariamente ao que afinnam MO:''TEIRO FERNASDES, Direito do Trabalho. dt..
qual a norma inferior pode dispor. Por exemplo. se a norma superior deter- pp. 118 s .• ACÁcIO loURENÇO, «Princípio de Trotamentu ... ». cit.• p. 99 e BARROS MOURA.
mina '1ue o período de trabalho diário deverá ser intem)mpido por um A COn\'ençào Coke/im. dt.. p. 158. não parec:e que se de\'a presumir no sentido de. na
intervalo de duração não inferior a uma hora, nem superior a duas (art. dúvida. a nonna superior estabcleçer çondiçõcs mínimas. pennitindo que a fonte inferior
174. ° do CT). a convenção colectiva de trabalho pode estabelecer um des- disponha em sentido m:ús fa\·orn\'el. Todavia. em direito prh·ado. por via de regra. quando
nada se disponha em sentido contrário. cstabck-çem·se regimes supleti\'os que. çomo tal.
canso entre esses dois limites 2. ,
podem ser afastadas pelas partes no contrato ou por fonles inferiores. Este princípio de
direito privado. não obslante em direito do trabalho existir um menor número de nonnas
de c:ar.kter dÍ'iJ!O"ilivo. pode. nalguns çasos. levar a çoncluir que o legislador estabcleçeu
uma regro suplelÍvu. :Ité porque. como refere BERNARDO XAVIER. Curso. cit., p. 259, a
adaptabilid:lde da legislação labornl. retirando-the a çarga injuntiva. tem vantagens. QU:Ulto
I Exçepcionalmente. no ano 369.°. n.o I. do LI admite·se que os Iimilt.'S máximos ao prindpio da supletividade do direito privado e as suas derrogaçõcs em direito do
çonstantes do art. 368.° do CT (quanto aos montantes da~ multas e dias de suspensão) trabalho. dr. ALOSSO OI.EAlCASAS BAAMONDE. Derec/w dei Trrlbajo. dt.. pp. 1129 s.
podem ser e1e\'ados até ao dobro por instrumento de regulamentação çolt.-ctiva do trabalho. JAVII.lIER. Droit du Tml"Cli/. dt.. pp. 156 ss .• çontrariando a tradidonal rigidez do direito
Tuis agrolvamentos. que têm çomo limite máximo o dobro \.'SI:lbcleddo na lei. senio natu· do lrobalho, ulude a ullliltclIllênda para n desregulamentação laboral. admitindo a supres·
mlmenlc menos favoráveis ao trabalhador. sào de prote~:çõcs.
2 Sobre esta questão. atenda·se. çonludo. ao disposto no n. ° I do art. 175 .. do (T. 2 Nesle sentido. MARIO "lrilO. Dir<"Í/o do TmJxuho. cit.. pp. 164 S.
270 Direilll tio Trabalho CaJlíllllo III - FOl/tes tio Direito do TmlmlllO 271

13.° da LCT determinava que o conflito hierárquico se resolvia nos termos ::... mesmo neste aspecto não tem relevância o princípio do tratamento mais
gerais. podendo a norma inferior impor um tratamento mais favorável para favorável. pois a norma ~ fonte hierarquicamente inferior (instrumento de
o trabalhador. se não estiver em oposição com a superior. O Código do regulamentação colectiva), no seu campo de aplicação específico. mais
Trabalho. no art. 4. 0. nesta senda de histórica de limitação do princípio do concreto, pode estatuir de forma mais ou menos vant~ljosa do que. em ter-
tratamento mais favorável. estabeleceu que o conflito hierárquico se mos genéricos. era pretendido pela norma de fonte superior (art. 4.°. n.o I.
resolve nos termos gerais, podendo a norma de fonte inferior. na medida do Cf). Dito de outra forma. naquela margem de liberdade que a norma
em que a norma de fonte superior o permita. estabelecer num sentido mais superior deixa à inferior, estu pode dispor no sentido mais ou menos van-
ou menos favorável ao trabalhador. tajoso para o trabalhador, tendo em conta o parâmetro genérico determi-
Mas o facto de se considerar que não há qualquer particularidade em nado na norma de fonte superior.
sede de conflito hierárquico de normas não retira ao direito do trabalho a
sua autonomia. O direito do trabalho continua a ser um ramo do direito
autónomo. não obstante a inexistência de um princípio de tratamento mais c.3) Conflito elltre instrumentos de reglllamel/taçcio colectiva de tra-
favorável. bailIO

IX. A solução contrária. admitindo que em caso de conflito hierár- I. Não se tratu de um verdadeiro problema de conflito hierárquico de
quico prevaleceria a norma mais favorável ao trabalhador. ainda que pro- normas, mas de oposição entre regras que se encontram no mesmo plano l .
veniente de fonte inferior. levaria ao puro subjectivismo. à incerteza das Só há verdadeiramente conflito quando as duas convenções colecti-
decisões e a soluções injustas. Aceitar. por exemplo, que uma convenção vas se mantêm em vigor. pois havendo substituição, a que se aludiu ante-
colectiva de trabalho. por ser mais favorável ao trabalhador. pode dispor riormente (n.o 4.a.2», está-se perante uma hipótese de sucessão no tempo
contra regras imperativas de uma lei é inadmissível. de instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho.
Deve. pois. prevalecer a norma de fonte hierarquicamente superior e No art. 14.°, n.o 2, alínea bJ. da LRCT detenninava-se que, no caso
não aquela que conduza à melhor solução. dentro dos parâmetros já de conflito entre convenções colectivas. prevaleceria aquela que. no seu
indicados. conjunto, fosse mais favorável para o trabalhador. Mas a escolha cabia ao
Assim. o princípio do tmtamento mais favorável ao trabalhador, rela- sindicato representativo do maior número de trabalhadores. Esta solução
tivamente ao conflito hierárquico de normas. à imagem do que se referiu foi abandonada pelo Código do Trabalho, pois no wrrespondente preceito
a propósito da interpretação. será entendido como um mero resquício (art. 536.°, n.O 3. do CT), deixou de se fazer alusão quer ao tratamento
histórico. não se retirando dele qualquer solução concreta. mais favorável quer à escolha pelo sindicato mais representativo; segundo
o citado preceito, em caso de conflito não resolvido pelos critérios de espe-
X. Porém, como na grande maioria das situações. a norma de fonte cialidade enunciados no n.o I do art. 536.° do CT, compete aos trabalha-
superior estabelece uma regra genérica. com limites máxinIJ ou mínimo. dores da empresa em relação aos quais se verifique a concorrência. esco-
a norma da fonte inferior, tendo um campo de aplicação mais restrito. mais lher, por maioria. o instrumento aplicável (art. 536.°. n.O 3, do Cf).
delimitado. prevalecerá; esta prevalência não tem por base o princípio do Enquanto uma lei nova revoga a anterior. a nova convenção colectiva
tratamento mais favorável, trata-se de uma razão de especialidade, enten- de trabalho. se não for celebrada exactamente pelas mesmas partes, não
dida no âmbito genérico de supletividade da norma superior. A norma de afasta a aplicação da precedente2 ; podem. assim, manter-se em vigor
fonte superior, por ser mais genérica. deixa um campo de actuação espe-
cífico à norma de fonte inferior e. nessa medida. esta aplica-se I. Mas
, .~.
I Sobre esta questão. consulte-se AAVV. P/llra/idad y SlIcesiólI de COII\'ellios .\'
COlltro/ de Sll Cllmp/imief/lo. Madrid. 1992: AA VV. Rapporti tra Commlli Co//et/i\'i di
I crr. MENI;ZF-~ CORDEIRO. Mal/ual. cit.. p. 21!!: MmrrEIRO FERNANDES, Direito do Diverso Lh'e//o. Milão. 1982.
Trabalho. cit.. p. 112: BERNARDO XAVIEK. Cllrw. cil.. pp. 256:.. 2 Não há conflito se numa empresa vigorar mais de uma convenção colectiva. cclc-
272 Direito do Traballlo _ _ _ _ _Ca!JÍlu{o /JI - FOI/teor do lJireito do TralJt/1I1O 273

várias convençõcs colectivas de trabalho, havendo interesse em resolver o III. Mas não se estando perante um conflito entre convençõcs colecti-
conflito que possa surgir. Na medida em que as convenções colectivas em vas específicas e genéricas. em que prevalecem as primeiras. recorre-se ao
confronto tenham campos de aplicação diferentes. mas convirjam em disposto no art. 536.°. n. ° 3, do CT, e, nesse caso. vale a regra da escolha
alguns aspectos. pode existir um conflito de aplicação. por parte dos destinatários (trabalhadores) sem se atender ao princípio do
Este é um problema especítico do direito do trabalho. tratamento mais favorável. Na ausência de escolha. vale o instrumento de
Mas de modo diverso do que se dispunha no art. 14.°, n.O 2. alínea b), publicação mais recente (art. 536.°, n.O 5, do CT).
da LRCT, no citado n.o 3 do art. 536.° do CT não se invoca o princípio do
tratamento mais favorável ao trabalhador. Esta solução de recurso, que só
se aplica depois de inviabilizados outros mecanismos (n.o I do art. 536.° Bibliografia:
do CT), jlí não faz qualquer alusão ao princípio do tratamento mais
favorável. LEAL AMADO. «Tratamento mais Favorável e art. 4.°/1. do Código do Tra-
Sempre que duas ou mais convenções se encontrem em oposição, há balho: o fim de um princípio», Temas Laboruis. Coimbra. 2005. pp. II e ss.;
que distinguir. MENEZES CORDEIRO. Manual, cit.. pp. 204 a 223 e «O Princípio do Tratamento
Primeiro. nos termos do art. 535. ° do CI. importa averiguar se se está mais favorável no Direilo do Trabalho Actual». Direito e Jus/iça. III (19&7/88),
perante uma sucessão entre uma convenção colectiva. chamada horizontal
,. pp. III a 139; MONl"EtRO FERNANDES. Direito c/o Trabalho, cit., pp. 110 a 119;
e uma convenção colectiva. denominada vertical. Nos termos do art. 535.° ACÁCIO louRENÇO. «Ü Princípio do Tratamento mais Favorável», ESflldos sobre
Temas de Direito c/o Trabalho. Lisboa. 1979. pp. 91 a 110; BARROS MOURA,
do CI. o conflito entre as convenções colectivas profISsionais (horizon-
A Convenção Colectiva entre as Fontes de Direito c/o Truba/JIO. Coimbra. 1984.
tais) e as convenções colectivas de um ramo de actividade (verticais) é
pp. 147 a 183: MÁRIO PtNTO. Direito do Trabalho. cit.. pp. 160 a 170; MÁRIO
dirimido a favor destas última.;;; prevalecem as convenções verticais por-
PINTo/FURTADO MARTINS/NUNES DE CARVALHO. Comefltârio, cit.• anot. 11.1 e 2 o
que são mais específicas. pois as convenções colectivas profissionais, cha- art. 13.°. pp. 64 a 67: GONf,-ALVES DA SILVA. anotação aos arts. 4.° e 531. in
0

madas horizontais. ao abrangerem uma ou mais profissões. apresentam-se ROMANO MARTINEZ 1 Luis MIGUEL MONTEIRO 1 JOANA VASCONCEl.OS 1 MADEIRA
com um âmbito mais genérico. DE BRITO 1 GUILHERME DRAY 1 GONÇALVES DA SILVA. Código do Trabulho Ano-
Em segundo lugar, o art. 536.°. n.o I. alíneas a) e b), do CT dispõe tado. cit.. pp. 77 e S5. e 823 e s.; RAÚL VENTURA. Teoria da Relaçiio Juríc/ica de
que. sendo o conflito entre acordos de empresa e acordos colectivos, por Trabalho. cit., pp. 195 a 206; MalTA VEIGA. Lições, cit., pp. 129 a 134; BER-
um lado, e contratos colectivos, por outro, prevalecem os primeiros, por- NARDO XAVIER. Curso, cit .• pp. 253 a 264.
que o acordo de empresa é um instrumento colectivo mais específico. na
medida em que foi negociado por uma associação sindical com uma só
empresa, atendendo às especificidades desta. O mesmo argumento vale no
confronto entre os acordos colectivos e os contratos colectivos.
Dos arts. 535.° e 536.°. n.o I, do CT retira-se que olonflito entre
instrumentos de regulamentação colectiva se resolve mediante um princí-
pio de especialidade I.

bradas por sindicatos diferentes. pois cada uma aplica-se aos Irnbalhadores filiados na
associação sindical outorgante. cfr. Ac. STJ de 27/5/1992. BMJ 417. p. 545; Ac. STJ de
13/411994. CJ (STJ) II. T. I. p. 295; Ac. STJ de 2/10/1996. BMJ 460. p. 499.
I Neste sentido. cfr. MOITA VEIGA. Lições. cit.. pp. 130 s.
CAPÍTULO IV
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SECÇÃO I

ASPECTOS GERAIS

§ 11.°
Noção; elementos

I. Negócio jurídico bilateral

I. O contrato de trabalho é um negócio jurídico obrigacional. ou seja.


estruturalmente. apresenta-se como um contrato de direito civil. em parti-
cular. de direito das obrigações. correspondendo a um dos contratos em
especial (arts. 874.° e ss. do CC). No Código Civil. o contrato de trabalho
inclui-se. pois. entre os regimes especiais previstos no Título II. do Livro
respeitante ao direito das obrigações.
Nesta perspectiva obrigacionaI. importa aludir ao contrato de traba-
lho. não sendo pelo facto de reportar o estudo deste negócio jurídico ao
direito das obrigações que o direito do trabalho perderá a sua autonomia.
como se esclareceu supra § 3.• n.O 3.
Sendo o contrato de trabalho um negócio jurídico obrigacional apli-
cam-se-Ihe, nomeadamente. as regras gerais do negócio jurídico (arts.
217.° e ss. do CC). dos contratos (arts. 405. 0 e SS. do CC). do cumprimento
I das obrigaçõcs (arts. 762.° e ss. do CC) e do não cumprimento das obriga-
çõcs (arts. 790. 0 e ss. do CC).

II. A noção de contrato de trabalho encontra-se no art. 10.° do Cf.


que transcreve. com ligeiras alteraçõcs. o disposto no art' 1152.° do CC:
«Contrato de trabalho é aquele pelo qual uma pessoa se obriga. mediante
retribuição. a prestar a sua actividade intelectual ou manual a outra pessoa.
sob a autoridade e direcção destn ... No art. 10.° do Cf. atendendo ao facto
de se admitir a pluralidade de empregadores (nrt. 92.° do Cf). altera-se a
parte final do preceito transcrito do seguinte modo: «a outra ou outras
271< Oirálo do Traballlo Ca{lítlll/lIV - Colllra/o til' Tmballro 279
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pessoas. sob autoridade e direcção destas». Por outro lado. no referido legislador relaciona o contrato de trabalho com a activid~lde realizlIda na
preceito do Código do Trabalho deixa de se fazer referência à «actividade fábrica. no escritório; em suma. na empresa. Parte do pressuposto de que
intelectual ou manual». substituindo. simplt.-smente por «actividade». pelos o çontrato de trabalho é um negócio jurídico bilateral ajusHldo para pro-
motivos indicados infra § 16.1. duzir efeitos no seio empresarial.
Como definição legal. não vincula o intérprete:. aplicador do direito.
mas deve ser tida em conta para dela se retirarem os elementos identifica-
dores do contrato de trabulho l . Antes disso. cabe esclarecer que. por vezes. 2. Prestação de uma acth'idadc
tanto a legislação. como a doutrina e a jurispmdência empregum a expres-
sào «contrato individual de trabalho». por oposição u contrato colectivo de I. O segundo elemento que se retira da definição constante dn ~Irt.
trabalho. mas estu contraposição. ulém de não ser terminologicamente cor- 10. 0 do CT implica a obrigação de prestar uma actividade por parte do
recta 2• é desnecessária. pelo que. tal como se fixou correctamente no Côdigo trabalhador; ou seja. o objecto principal do Ile:gócio jurídico. o que melhor
do Trabalho. se utilizará tão-só a locução «contrato de trabalho». identifica o contmto de trabalho. é a prestação de uma actividade humana.
Por vezes. distingue-se o contrato de trabalho da rclélção laboraP. intelectual ou manual. O pagamento da retribuição. sendo uma contra-
correspondendo esta à execução de prestações laborais. ainda que não partida indispensável. não corresponde ao elemento mais representativo
exista um contrato de trabalho fonnal ou que essa execução já não corres- do contrato de trabalho.
ponda ao prescrito inicialmente no negócio jurídico. Todavia. utili7.ar-se-á.
em regra. a expressão «contrato de trabalho» como vínculo dinâmico que. II. No domínio da relação laboral pressupõe-se a existência de uma
por ser de execução continuada. se modifica pela sua própria execução. prestação de facto. De entre as prestações de facto. a actividade laboral
O primeiro elemento constante da noção transcrita respeita ao facto corresponde a uma obrigação de meios. que impõe uma actividade a
de se estar perante um negócio jurídico bilateral; sendo um produto da
autonomia privada e resultando do encontro entre uma proposta c uma
aceitação. Como negócio jurídico bilateral. pressupõe duas declamçõcs de it
prosseguir. independentemente da obtenção do seu fim; deste modo. a não
obtenção do fim é. em princípio. irrelevante. pois não afecta. nem a vali-
dade. nem a perfeita execução do contrato de trabalho. Assim. se o traba-
vontade contrapostas. que estão na origem do contrato de trabalho.
Apesar de a definição legal não circunscrever a relação laboral a um
tipo específico. muitas das vezes. monnente no Código do Trabalho. o
I,, lhador desenvolver a actividade diligentemente. mas, por causa que não
lhe seja imputável. o fim pretendido pelo empregador não se veriticar. a
remuneração continua a ser devida I.
O empregador terá de providenciar no sentido de a actividade desen-
I Cfr. MF.NEZES CORDEIRO. Manllal dl' Direi,o do Trabalho. Coimbra. 1991. p. 517.
j volvida atingir o fim pretendido; se este não for obtido é um risco du enti-
A definÍ\"ào legal do contrato de trabalho constitui uma especificidade do nosso • dade patronal. na medida cm que tem de pagar a retribuição devida pela
ordenamento, não se encontrando. por via de regra. tal noção em diploma... de outros países
(dr. MOlTA VEIGA. Liçc;es dl' Dirá,o cio Tmbalho. H.' ed .• Lisboa. 2(XXJ p. 307). Mas a
c\istência de uma noção legal ,,:lo é c\c1usiva destc ncgócio jurídico; vcja-se. por eltem-
J
,I'"
actividade do trabalhador. não obstante o objectivo não se ter atingido.
Pelo contrário. a prestação de resultado é característica do contntto de
pio. as definições de compra c vcnda (an. H74.0 do CC'). de locação (an. 1022.° do CC) ou i prestação de serviço (art. 1154. 0 do CC). A actividade labontl não terá de
dc cmpreitada (an. 1207.° do CC). ser. nem efectiva. nem proveitosa para o empregador. basta que o trabalha-
2 O conlrato colcctivo de trabalho é um tipo de conwnção colectiva de trahalho. dor esteja à disposição da entidade patronal para a realizar2_
que. por sua vez, é uma das modalidades de instrumento de regulamentação colectiva de
tmbalho (~'cI. supra § 8.8).
3 Cfr. SCHAUB. Arbt'itsr..dlls-Htlllllhl/ch. 9 .. cd., Muniquc. 2000. pp.l99 ss. I Pressupõe-se que o trab;llhador tcnha agido com a diligência quc. no ca.<;() con-
I'ERSIAStll'RoIA. Cotllralto l' Rapporro di Lmwo. Pádua. 2001. p. 67. afinnam que a rela-
ção dc tmlr.dho tem origem no contraio c tcm uma ..-strutura complclta. Idêntica contrapo-
r creIo. lhe erd cltigida. atendendo ao disposto no ano 121.°. n.o I. alínea d. do ( I c ano
4H7.0 do CC
sição é feita por ROSÁRIO PAL'IA RAMALHO. Da A/IIOflClmia Dogmática do Direito do Tra-
/J<I/h ... Coimbra. 200 I. pp. I t 7. 126. 239 c 465.
i 2 Cfr. MorHElRO FF.RNANOF_'i. Dirt'i'/1 c/o Traballro. II.' ..-d .• Coimbra. t99Q. pp, 123
5.; MOITA VfJG .... Liçõe.t. cit .. pp. 308 S.

i
2!!() Dirt'ito do Trabalho ("111"11110 IV - Colllrato dt' Traballro 281

III. Sendo o objecto do contrato de tmbalho uma prestação de facto, II. O poder de direcção resulta de dois factores: a falta de concretiza-
é errónea a ideia de que o trabalhador «vende a sua força de trabalho». O ção, própria da actividade laboral. e a mútua colaboração, que caracteriza
trabalho não se vende, presta-sei. a relação de tmbalho.
A falta de concretização da prestação do trabalhador corresponde a
uma peculiaridade do contrato de trabalho. pois. por via de regra. nele não
3. Retribuição se específica. ao pnrnlcnnr. de forma cxaustiva. ;1 activid'lde a desenvol-
ver. em cada momento. pelo trabalhador l ; admite-se que o trabalhador
Como terceiro elemento da noção constante do art. 10.° do cabe cr. possa dcsempenhar várias actividades dentro do parâmetro determinado.
aludir ao carácter oneroso do contrato; a actividade tcm dc ser prestada em particular pelo objl.octo do contrato. Como é normal que haja um acordo
mediante retribuição. A retribuição. sendo contrapartida da actividade genérico quanto à actividade a desenvolver, toma-se necessário que o
desenvolvida, é imprescindível, pois não há contrato de trabalho sem retri- empregador possa. em cada momento. concretizar a actividade a realizar
buição; ou seja. o contrato de trabalho não poderá ser gratuilo2. efectivamente. Esta faculdade de especificar a actividade. derivada da
natural indeterminação laboral. é. por vezes. designada por heterodeter-
mi nação do serviço2.
4. Acth'idade subordinada O poder de direcção tem em vista individualizar a prestação do tra-
balhador. concretizando &I &lctividade .1 desenvolver3• Daí afirmar-se que a
I. Em quarto lugar, a actividade deve ser exercida de fonna subordi- prestação é realizada sob &IS ordens e a direcção do empregador.
Por seu turno. o trabalhador tem o dever de obediência relativamente
nada. O art. 10.° do cr prescreve: «( ... ) sob a autoridade e direcção des-
às ordens emanadas do empregador (art. 121.°, n.o 1. alínea ti). do CT).
tas» [empregador(es)]; é a designada subordinação jurídica do trabalhador
Estes aspectos. associados com a &llienabilidade da actividade e a
ao empregador.
sujeição ao poder disciplinar. consubstanciam a subordinação jurídica.
A subordinação jurídica, para além da alienabilidade e do poder
disciplinar (l·d. supra § 6.), na sua vertcnte mais característica, tcm duas
III. O poder de direcção e o correspondente dever de obediência têm
facelas: o dever de obediência, que recai sobre o trabalhador e o poder de
limites; por isso. a definição c a detcrminução do trabalho a executar pelo
direcção. conferido ao empregador.
trabalhador não podem ser feitos em ternlOS que excedam os parâmetros
dentro dos quais o contrato foi ajustado. Por exemplo. tendo um trabalha-
dor sido contralado para um serviço de secretaria. não se lhe pode adjudi-
I PAPALEONI in MAZZONI. Diritto dei W\"Oro. 1.6.- t:d .• Milão, 19118. pp. 31855.• car um trabalho dc limpeza; as ordens do empregador têm de se inserir nos
explica que o COnlmlO de lrabalho não se pode reconduzir ao esquema da compm e venda. limites em ljue se circullscn:ve a activid'lde acordada. isto é. atendendo à
Num senlido divcr.io. sem carácler jurídico. MARX. IJas KapitClI. l.cipzigf 1929. Li\'m I. categoria do trabalhador.
2.- Secção. imilula o Capílulo IV Kauf und"erkauf der Arbeit.d:raft (compm e "enda da
fO~"lI de Imbalho). onde relaciona o Imbalho com as coisas (pp. 127 ss.). chegando a afir-
mar (p. ex .• p. 129). que a força de lrabalho é colocada no mercado como uma mercadoria.
2 Todavia. o volunlariado. não consubsranciando uma relaç;jo labord!. pode jusli- I Cfr. BERNAR[)O XAVIER. Curso d,' IJirt'ifO do Trabalho. 2.- cd .• Lisbo.1. 1993. pp.
ficar a aplicação de nonuas proteclora.~. como as que ad"êm do regime de acidenles de tra- 286s.
balho. Sobre esla questão. \·d. PEDRO UrrÃO PAIS OE V ASroNCUOS. Aplu'ClÇão Transtípil"a 2 Cfr. MF.NFZES CORI>EIRO. MClnlllll. cil .. p. 518.
cio Lá clt' Acidentes de Trabalho tu)S Contratos de /'r('stClrüo de S..rI·içm s('m Oef't'ndên· JApcsolr de não ser ngolUSo. pode dll.ef"-Se que. no contrato de trabalho. o empre-
Cicl f.i:muimiCCl. Lisboa. 1998. designad."U11ente. pp. 33 ss. O regime do volunlariado consta
gador dá ordens ao trabalhador. enquanto. no contrato de preSlação de serviço. o beneficiá-
da l.ci n.o 71/98. de 3 de Novembm (Bases do enquadramenlo jurídico do voluntariado). rio fornece inslruçõcs ao 1'!\.'Stlldor da actÍ\·idade.
da '1uul consta um elenco de direitos do voluntário no urt. 7.°. 1:0111 destaque pam a 4 Cfr. MARIO PINTo/FURTADO MARTINS/NuNES DE CARVAlIIO. Comentârio (h Lál

indemnização por acidentes de trabalho e doenças profissionais (n.o I. alínea}). cio Trabalho. Vol. I. Lisboa. 1994. ano\. 11.3 ao art. 1.0. p. 25.
282 [)irt'ilo do Trabalho

IV. Em segundo lugar. a boa fé na realização da activid'lde. prevista


110liart. 119. 0 do CT, sob a epígrafe «Princípio geral». a propósito dos di-
reitos e deveres das partes no contrato de trabalho, pressupõe que o traba-
lhador e o empregador cooperem na prossecução de vantagens mútuas.
Para que no cumprimento das respectivas obrigações e no exercício dos
correspondentes direitos as partes procedam de boa fé, toma-se necessário
que, entre outros aspectos, a um seja conferido o poder de dirigir o traba- § 12.0
lho. devendo o outro acatar essas ordens. Características

V. A subordinação jurídica apresenta-se como imprescindível; é uma


necessidade técnica I, em especial nas modernas produções empresariais, J. Negócio jurídico de direito privado
onde se exige da parte do trabalhador uma permanente adaptação ao traba-
lho a executar, porque cada vez mais é difícil estabelecer. no contrato, uma I. O contrato de trabalho é uma figura negocial de direito privado l ,
actividade concreta a desenvolver. estando. por conseguinte, subordinado ao princípio da autonomia privada.
nas