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Gordon Thomas

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Rio de Janeiro
2007
Text Copyright © 2005 Gordon Thomas

Edição original publicada em inglês com o título


The Jesus Conspiracy por Lion Hudson plc, Oxford, Reino Unido.
Copyright ©Lion Hudson plc 2005.
Copyright da tradução © Thomas Nelson Brasil, 2007.
Todos os direitos reservados.

Supervisão editorial Nataniel dos Santos Gomes


Assistente editorial Clarisse de Athayde Costa Cintra
Tradução Miguel Herrera
Capa Valter Botosso Jr.
Copidesque Joel Macedo
Revisão Margarida Seltmann
Magda Cascardo
Érica Carvalho
Projeto gráfico e diagramação Julio Fado

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

T38j
Thomas, Gordon
O julgamento de Jesus: Um relato jornalístico sobre a vida e a
inevitável crucificação de Jesus Cristo/Gordon Thomas; tradução
Miguel Herrera. - Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2007.

Tradução de: The Jesus conspiracy


Inclui bibliografia
ISBN 978-85-6030-3458

1. Jesus Cristo - Paixão. 2. Jesus Cristo -


Biografia. 3. Jesus Cristo - Influência.
4.Jesus Cristo - Historicidade. I. Título.

07-2373. CDD: 232.96


CDU: 232.96

Todos os direitos reservados à Thomas Nelson Brasil


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Rio de Janeiro – RJ – CEP 21402-325
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Para Joachim Kraner
Um amigo que se tornou sogro
— mas permaneceu um amigo.

Há muitos anos falamos, entre outras coisas, de livros. Em sua maneira


direta, você me disse que nenhum poderia igualar-se à Bíblia. Com algum
embaraço, admiti que, desde meus dias de escola, mal tinha olhado para
uma cópia dela. Você me incentivou a corrigir a situação, acrescentando
que uma das tragédias não mencionadas de nosso tempo é a leitura da
Bíblia ter se tornado, em grande amplitude, um prazer do passado. No dia
seguinte, comprei uma Bíblia.
Apesar de você não mais estar fisicamente conosco, a Bíblia continua
sendo uma lembrança sua, assim como uma experiência contínua de leitura.
Literatura não sobrepujada, minha Bíblia levou-me a muitos atalhos — o
que, ao fim, me trouxe a contar a história destas páginas. Ela trata do evento
mais importante da história, que, também você disse, ser o maior desafio
que um escritor pode encarar: compreender a vida de tal modo que venha
a nos mostrar como viver, não por uns poucos anos, mas para sempre.
Ao recontá-la fiel e reverentemente, tive o apoio de uma pessoa que
você, com certeza, aprovaria como colaboradora — sua filha Edith. Como
você, ela tem uma mente investigativa juntamente com a verdadeira fé; não
se preocupa em dar explicações inteligentes para o inexplicável, nem inter-
pretar o que não tem interpretação.
Sumário

Introdução Rumo ao entendimento 9


Capítulo um Jesus 33
Capítulo dois O imperador 69
Capítulo três O procurador 87
Capítulo quatro O tetrarca 107
Capítulo cinco O sumo sacerdote 121
Capítulo seis Com a intenção de matar 143
Capítulo sete Hosana 169
Capítulo oito Assuntos urgentes 197
Capítulo nove Além da prisão 233
Capítulo dez Apressando o julgamento 253
Capítulo onze Respostas romanas 275
Capítulo doze Para Herodes e de volta 293
Capítulo treze O lugar da Caveira 307
Capítulo catorze Reflexões 331

Principais personagens 357


Cronologia 367
Bibliografia selecionada 379
Os tratados 393
Outros evangelhos e escritos 397
Em busca de Cristo

Eu sou a pausa entre duas notas que caem,


Em real concordância, escassa em geral:
Enquanto a nota da Morte quer dominar.
Ambas, no entanto, são reconciliadas
No escuro intervalo tremeluzente.
E o filho, continua sem macular.

R. M. Rilke
O livro das horas, 1
Introdução

Rumo ao entendimento

O que é a verdade? Gracejou Pilatos;


e não ficou para ouvir a resposta.

Francis Bacon
Da Verdade

U ma vez, Jesus perguntou aos seus discípulos: “Quem os ho-


mens dizem que eu sou?” Conforme o evangelho de Mateus,
suas respostas foram variadas: “Alguns dizem que é João Batista; ou-
tros, Elias... ou um dos profetas.” Mesmo entre os que o conheciam
em primeira mão, havia pouco consenso a respeito da identidade do
enigmático pregador da Galiléia.
Quase trinta anos depois que comecei a pesquisa para este li-
vro, a polêmica continua. Quando foi publicado pela primeira vez,
fui brindado com o consenso geral de que o livro, embora bastante
controvertido em suas conclusões, era uma tentativa genuína de es-
clarecimento por parte de alguém que já havia desenvolvido interesse
prévio pelos mistérios da fé, e que encontrou nas origens do Cristia-
nismo uma fonte contínua de fascinação.
Introdução

Ocorreram, inevitavelmente, alguns questionamentos do meu


direito de juntar-me ao debate. Houve uma manhã em que me
sentei no estúdio da rádio nacional de Dublin para escutar a ira de
um sacerdote católico que insistia que “a questão de Jesus não é
para um leigo”.
Visões como esta, sugeri gentilmente, podem bem contribuir
para o declínio da freqüência às igrejas. Aquele sacerdote viu como
“falha” o fato de que cheguei ao meu estudo sobre Jesus sem ter
uma posição teológica como pressuposto. Ele não estava interessa-
do sobre o que eu escrevia a respeito da tradição cristã, ou no fato
de que eu tinha sido levado a escrever o que escrevi por causa de
uma necessidade interior. Mas tentar debater com ele não foi intei-
ramente uma perda de tempo: expandiu meus horizontes, aguçou
minha visão e fez-me compreender que devo continuar a moni-
torar o debate sobre Jesus que se concentra na questão: “Quem os
homens dizem que eu sou?”.
A polêmica acerca da vida de Jesus na terra continua com
vigorosa ferocidade, e trouxe-me, agora, a republicar o texto ori-
ginal. O julgamento de Jesus está, creio eu, de acordo com o espírito
do nosso tempo. Na pesquisa bíblica, não há verdade maior do que
o fato de que nada é permanente, exceto a própria mudança.
Hoje, uma das muitas questões a respeito da vida terrena de
Jesus se focaliza na profundidade com que se envolveu na causa
de sua nação contra Roma: ele foi um revolucionário, ou mesmo
um fanático? Certamente, tanto Judas Iscariotes quanto Simão, o
Zelote, vieram desse contexto. Quando atenderam ao chamado de
Jesus — “Venha e siga-me” —, será que eles abandonaram seu tipo
de vida? Em uma avaliação lúcida, provavelmente não. Seus talentos
especiais como guerrilheiros certamente teriam sido úteis em um
tempo de brutal ocupação romana da Judéia.
Uma vez mais, não se pode discordar de que Jesus, desde o
início de seu ministério, começou a preparar o povo para a ocor-
rência de grandes acontecimentos. Em vez de ficar como outros
rabis ministrando apenas à comunidade local, ele rapidamente se

10
Rumo ao entendimento

tornou uma figura que atraía multidões, primeiramente na Galiléia,


e depois em toda nação, quando foi a Jerusalém nos dias finais de
sua carreira. A partir disso, é razoável deduzir que Jesus viu seu papel
como “alguém com uma missão” expandido a toda nação judaica.
Por que mais ele viajaria constantemente, exortando o povo para
que soubesse que “o tempo está cumprido, e o reino de Deus está
próximo: arrependam-se e creiam no evangelho” ?
Em sua decisão deliberada de formar uma pequena comunidade
— seus discípulos imediatos —, ele estava seguindo um padrão há
muito estabelecido por profetas como Elias e Eliseu. Eles foram
figuras políticas. Será que Jesus se configuraria ao mesmo molde?
Será por isso que, parábola após parábola, ele retoma os mesmos
pontos que, justificadamente, podem ser chamados de fervor apoca-
líptico: que a chegada do reino de Deus será súbita e que somente
os que estiverem preparados para recebê-lo não perecerão? Essa
não é a pregação de um homem cuja mensagem é urgente? E pode
ser considerada apenas doutrinária, apenas palavras de alguém que
está tentando fundar uma nova religião, que está preocupado em
implantar novos padrões morais e um despertar espiritual?
Tudo que podemos dizer sem polêmicas é que, por um curto
período da história judaica, Jesus foi a única esperança para um
grande número, talvez a maioria, do povo judeu. Quantos deles fo-
ram atraídos pela ousadia das reivindicações de Jesus, pelo absoluto
carisma de sua personalidade, pelo poder de seus milagres — e pela
perspectiva de que ele era alguém que poderia conduzi-los para
fora do jugo da ocupação romana? Quantos se desapontaram pro-
fundamente quando ele não lançou uma rebelião violenta? Quan-
tos se voltaram contra ele por essa razão?
A questão de como Jesus via a si mesmo é uma das polêmicas
mais acirradas do Novo Testamento. Uma grande dificuldade é que
Jesus não deixou registros de próprio punho: não escreveu nada.
Os que mais tarde registraram suas palavras pareciam estar preocu-
pados em mostrá-lo como um reformador religioso rejeitado por

11
Introdução

sua própria raça. Mas, suponhamos que Jesus tenha sido um revolu-
cionário de alto nível, podemos aplicar este termo da mesma forma
que o aplicaríamos a George Washington? Em última análise, que
diferença isso deveria fazer em nossa avaliação dele? Ele viveu em
um tempo de fanatismo religioso, e seu povo continua fervoroso
em suas crenças; mesmo o secularismo que confronta Israel nos dias
de hoje não afrouxou os vínculos de fé desse povo.
Nem deveríamos esquecer que Jesus nasceu, cresceu e morreu
como judeu. É uma das muitas ironias que Jesus, na cruz — que é
o mais potente símbolo da fé cristã —, use vestes para cobrir seus
quadris. Não é a decência, mas a teologia que é responsável pelo re-
cato. As vestes sobre os seus quadris escondem a essencial condição
de judeu de Jesus, a marca na carne feita pela circuncisão.
Sobre isso, outras questões desconfortáveis devem ser ainda for-
muladas e respondidas. Se Jesus na cruz fosse um constante lembrete
de que era judeu, os cristãos teriam, através dos séculos, desencadeado
tantos massacres contra seus irmãos judeus? Será que Hitler, mesmo
que por um só instante, hesitou quando se referiu a Jesus em seu livro
Minha Luta como “o Grande Fundador desse novo credo”? Será que
ele parou para pensar que Jesus também era judeu? Por que Hitler,
quando decretou que, sob risco de pena de morte, todo judeu no
Terceiro Reich, acima da idade de seis anos, usasse uma Estrela de
Davi amarela, não obrigou também que todas as imagens de Cristo
crucificado exibidas nas igrejas da Alemanha nazista trouxessem tam-
bém esse símbolo? E supondo que, se Jesus aparecesse como, de fato,
morreu na cruz — nu, como todos os outros milhares que tiveram
o mesmo destino sob a ocupação romana —, os bispos alemães e o
papa Pio XII teriam permanecido mudos? Indiferentes? Esta é uma
questão de interpretação — se eles estavam sempre sendo lembrados
dos antecedentes do seu Filho de Deus crucificado.
Passaram-se quinze longos anos após o Holocausto, antes que
um papa, o compassivo e iluminado João XXIII, compusesse uma das
mais comoventes orações desde as palavras da Oração do Senhor.

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Rumo ao entendimento

O sinal de Caim está estampado em nossas frontes. Através


dos séculos, nosso irmão Abel tem jazido no sangue que
derramamos, e vertido lágrimas que causamos por esquecer
o amor. Perdoa-nos Senhor, pela maldição que falsamente
atribuímos ao nome dos judeus. Perdoa-nos por crucificar o
Senhor pela segunda vez na carne deles. Pois nós não sabía-
mos o que fazíamos.

Nessas palavras do Sumo Pontífice, podemos discernir mais


do que expiação. Podemos sentir uma necessidade de julgar Jesus
apenas pela referência ao seu tempo e lugar na terra. Os judeus de
sua época estavam basicamente preocupados em ganhar a liberda-
de. Não há nada escrito que apresente Jesus como qualquer coisa
que não um judeu normal: um homem completamente sintonizado
com as aspirações religiosas e nacionalistas do seu próprio povo.
E, a despeito de o que quer que continue em discussão sobre Jesus,
existe uma verdade inarredável: a essência de seus ensinos permanece.
Há aqueles que dizem que Jesus não ensinou nada de novo;
que suas idéias foram tiradas do pensamento judeu contemporâneo,
da literatura e tradições de seu povo. Há verdade nisso. A admoes-
tação de Jesus: “Faça aos outros o que gostaria que os outros lhe
fizessem” é muito similar à Regra de Ouro enunciada pelo grande
sábio judeu, Rabi Hillel, que ensinou: “Não façais ao vosso vizinho
aquilo que vos é odioso.” Mais uma vez, o velho provérbio judeu
— “sempre que és misericordioso, Deus é misericordioso contigo”,
é repetido por Jesus: “Bem aventurados os misericordiosos, pois al-
cançarão misericórdia.” Uma vez mais, o dito judaico “Deus ama
aquele que é puro de coração” é oferecido por Jesus como “Bem
aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus”.
Jesus pode, de fato, não ter dito qualquer coisa nova. Apenas
disse melhor. Mas, Jesus era um revolucionário da forma como
entendemos essa palavra? A questão pode ser melhor respondida
ao dizer que ele foi acusado, processado e condenado como um.
O acidente de ter crescido na Galiléia, na época em que a província

13
Introdução

era vista por Roma como o principal reduto da resistência judaica,


foi um potente fator de contribuição. Jesus chegou ao conhecimen-
to das autoridades por sua pregação radical, como político suspeito
e, quando começou a pregar mais abertamente, também como um
religioso suspeito.
Enquanto os crentes através dos séculos continuam a ecoar
a declaração cheia de fé de Pedro — “tu és o Cristo, o filho do
Deus vivo” —, a busca do assim chamado Jesus “histórico” desgasta
a consciência dos eruditos de uma forma não vista desde o cisma
protestante americano dos anos 20. À medida que nos acostuma-
mos às incertezas desse novo milênio, podemos estar certos de que
os iconoclastas e liberais estudiosos bíblicos continuarão a encontrar
formas mais extravagantes de promover seus pontos de vista.
É típica a polêmica iniciada durante a Páscoa de 1996 por
aqueles que foram, uma vez, vistos por muitos como baluartes da
instituição inglesa. A BBC e o The Sunday Times anunciaram que
em 1980 tinham sido encontrados, em um túmulo em Jerusalém,
ossários contendo os nomes José, Maria e Jesus. A razão por que le-
vou tanto tempo para que a notícia viesse à tona sucumbiu no que
foi alardeado como uma “descoberta” verdadeiramente destruidora
da fé. O bombardeio de publicidade implicava que Jesus não só era
filho do homem, mas também, ele mesmo, pai.
O The Sunday Times desejava que seus leitores estivessem cer-
tos da implicação: “Se as urnas funerárias, conhecidas como ossários,
contivessem os restos de Cristo e sua família, elas lançariam dúvidas
sobre a fé cristã que é central para a Páscoa: a Ressurreição”. O jornal
citava Keith Ward, professor de Divindades, em Oxford, declarando
que, se o relato fosse autenticado, deixaria de ser cristão, “porque para
mim isso invalidaria o testemunho dos apóstolos, e sem isso eu não
creria que Jesus teve qualquer importância particular”.
Na segunda-feira após a Páscoa, o que a BBC chamou de
“descoberta” havia sido classificado como “absurdo”. O arqueólogo
L.Y. Rahmani, que catalogou mais de mil ossários encontrados

14
Rumo ao entendimento

em Israel, observou que os nomes José, Maria e Jesus eram comuns


na antigüidade e que, ao longo dos anos, encontrara cerca de dez
ossários contendo o nome Jesus, em suas variações hebraicas e gre-
gas. Havia ainda maior abundância de variações de Miriam, nome
a partir do qual Maria é derivado, e José. Rahmani garantiu aos
cristãos que, apesar da BBC, eles não tinham qualquer razão para
deixar de permanecer firmes em sua fé de que o sepultamento de
Jesus teve duração limitada.
A tagarelice cristológica continua a atacar a autoridade tradi-
cional da Bíblia — insistindo que essa é a única forma de ter “uma
base mais racional para a fé e uma essência mais clara dos ensinos
de Jesus”. No centro dessa declaração, está o assumir que é possível
melhorar as palavras e a imagem de Jesus nos evangelhos. Esta ques-
tão conseguiu atingir, agora, um tipo de massa crítica religiosa que
permeia até mesmo a internet.
Os revisionistas são guiados pela necessidade, nas palavras de
um deles, “de liberar Jesus das prisões das Escrituras e credos nos
quais o sepultaram. É tempo de reinventar o Cristianismo, comple-
tá-lo com novos símbolos, novas histórias e uma nova compreensão
de Jesus”. Essas palavras são de Robert Funk, docente de Estudos
Bíblicos, entre outros lugares, em Harvard. Ele defende que não
mais do que vinte por cento das palavras, e ainda menos dos feitos
atribuídos a Jesus, são autênticos. A Oração do Senhor, as palavras
de Jesus na cruz, quaisquer reivindicações da divindade de Jesus, o
nascimento virginal, a maior parte dos milagres e sua ressurreição
corpórea: tudo deveria ser rejeitado.
Isso tem muito a ver com a redefinição de Jesus, o homem,
começando sua carreira — virtualmente desconhecida — com
cerca de trinta anos, na insignificante cidade de Nazaré. Ele devia
parecer tanto com seus parentes sem instrução que o povo da ci-
dade, que o conhecia, ficou assombrado quando Jesus subitamente
iniciou seu ministério.
Seus atordoados vizinhos são citados dizendo nessa ocasião:
“Não é este o filho do carpinteiro? O nome de sua mãe não é

15
Introdução

Maria, e não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Não estão
conosco todas as suas irmãs?”. E Marcos relata: “E ficavam escan-
dalizados por causa dele” (Marcos 6:3). Era tão forte o sentimento
em Nazaré de que este filho de um carpinteiro não tinha espaço
para fazer o que estava fazendo, ao pregar, que expulsaram Jesus da
sinagoga (Lucas 4:28). E quando ele persistiu em continuar com seu
ministério, seus familiares “saíram para trazê-lo à força, pois diziam:
“Ele está fora de si” (Marcos 3:21).
Só bem mais tarde, quando Jesus havia consolidado sua posição
como pregador na Galiléia, é que sua família viu vantagens em sua
fama. “Então chegaram a mãe e os irmãos de Jesus. Ficando do lado
de fora, mandaram alguém chamá-lo. Havia muita gente assentada
ao seu redor; e lhe disseram: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora
e te procuram.” “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?”,
perguntou ele. Então olhou para os que estavam assentados ao seu
redor e disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Quem faz
a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”
(Marcos 3:31-35)
A partir desse fragmento de biografia humana, os revisionistas
argumentam que Jesus nunca realmente disse quem era. Quando
João Batista perguntou a Jesus, por meio de seus discípulos, “És tu
aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?”, Jesus
enviou uma mensagem: “Voltem e anunciem a João o que vocês es-
tão ouvindo e vendo: os cegos vêem, os mancos andam, os leprosos
são purificados, os surdos ouvem...” (Mateus 11:3-5)
Mas isso foi tudo que Jesus disse. Mesmo em resposta à per-
gunta de Pedro, “Tu és o Cristo?”, Jesus “os advertiu que não falas-
sem a ninguém a seu respeito” (Marcos 8:30). Tudo isso, dizem os
revisionistas, confirma as dúvidas que Robert Funk articulou.
Os tradicionalistas, por sua vez, investem contra o que enten-
dem como heresia, em questões de fundamental importância que
estão sendo distorcidas. Contra o seu tradicionalismo, bate a onda
da incansável maré de reivindicações. Surpreendentemente, boa

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Rumo ao entendimento

parte procede do interior da Igreja Católica Romana, verdadeiro


baluarte da fé tradicional.
São típicas as afirmações feitas por John Meir, um acadêmico
bíblico da Universidade Católica da América, em Washington, DC.
Juntamente com muitos de seus colegas eruditos, Meir argumen-
ta que os evangelhos do Novo Testamento têm um valor limitado
como registros históricos, mas que as informações que eles contêm
permitem uma série de conclusões que podem ser tiradas: que Jesus
nasceu em Nazaré e não em Belém; que Jesus teve quatro irmãos e
pelo menos duas irmãs; que o seu nascimento virginal “não pode ser
provado, e nem o contrário”. Meir concede que não se pode misturar
teologia e pesquisa histórica sem causar uma tremenda confusão.
Com a mesma veemência, Dominic Crossan, um ex-professor
emérito na Universidade St. Paul, em Chicago, manifesta sua re-
jeição ao Jesus convencional. Nascido e criado na Irlanda, Crossan
vê a si mesmo como “católico por dentro e por fora”, a despeito
de revisar alguns dos ensinos centrais de Roma. Ele percebe Jesus
pregando a “justiça radical de Deus” e vivendo por seu conceito tão
integralmente que, se a verdadeira lucidez de sua vida e mensagem
pudesse ser apreendida hoje, o mundo seria um lugar melhor.
Ao usar modernos estudos sociológicos e antropológicos da Pa-
lestina no tempo de Jesus, Crossan argumenta que os indícios que ele
captou nos evangelhos, juntamente com outros textos não canônicos
dos primeiros tempos da Igreja, significam que ele deve rejeitar al-
guns dos mais importantes ensinos do Cristianismo. A Última Ceia
e o aparecimento diante dos discípulos do Jesus ressurreto, argumenta
Crossan, não são mais do que tentativas deles de expressar a “expe-
riência continuada” de sua presença após a crucificação.
Foi deixado para um outro católico romano, Luke Johnson, um
professor de Novo Testamento e Origens Cristãs na Universidade
Emory, em Atlanta, assumir o fardo pelos tradicionalistas. O conhe-
cimento religioso não é o mesmo que o conhecimento histórico,
diz ele; a fé da maioria dos cristãos é uma questão de ser testemunha
do Espírito Santo em sua vida presente. Johnson argumenta que os

17
Introdução

quatro evangelhos, juntamente com as cartas de Paulo, oferecem


uma história confiável da vida e do ministério de Jesus, inclusive
alguns relatos em primeira mão. Estes podem, de fato, ser fragmen-
tados, mas mostram que Jesus era um judeu que pregou o amor e a
generosidade, e foi julgado por Pôncio Pilatos, crucificado, e depois
apareceu perante testemunhas que se dedicaram a espalhar o evan-
gelho pelo mundo. Na Grã-Bretanha, essa declaração confortadora
para os fiéis foi sustentada por dois eminentes acadêmicos, James D.
G. Dunn e N. T. Wright.
Os três argumentam que, por mais interessante que seja pers-
crutar a vida social, política, antropológica e cultural dos tempos de
Jesus, isso não é o âmago das Escrituras. Muitos cristãos conside-
ram blasfema a idéia de fazer distinção entre o Jesus a quem oram
e alguém chamado de “Jesus da história”. Nos Estados Unidos,
as sempre crescentes congregações fundamentalistas e evangélicas
— que também têm aumentado seu número na Grã-Bretanha e na
tradicionalmente católica Irlanda — sustentam que os evangelhos,
Atos dos Apóstolos e Epístolas de Paulo são o melhor de todas as
histórias; que um cristão compromissado não deve discutir se Jesus
ressuscitou Lázaro dentre os mortos, ou polemizar sobre a sua con-
dição de Messias ressureto. Para eles, valem as palavras do pioneiro
do protestantismo Martinho Lutero, de que é suficiente para cada
cristão estabelecer o seu próprio relacionamento com Cristo sim-
plesmente lendo as Escrituras e fazendo delas um motivo condu-
tor. A simples idéia de usar a calibragem precisa e o ceticismo frio
do racionalismo científico é anátema para todos os que acreditam
que Jesus não pode estar subjugado às ferramentas da análise his-
tórica ou literária.
Em prosseguimento a esta batalha teológica, desde minha publica-
ção original estou preso ao fato de que, embora muito do pensamento
religioso tenha mudado, certos aspectos fundamentais não mudaram.
O nascimento de Jesus Cristo continua sendo o ponto de par-
tida da história real de mais de 1,5 bilhão de cristãos. Primeiramen-
te, eles o adoram como ser divino. Muitos consideram confortável

18
Rumo ao entendimento

ficar por aí. Para esses devotos, é de menor importância que existam
argumentos persuasivos de que os quatro evangelhos não foram, na
verdade, escritos pelos apóstolos, mas, provavelmente, por seguido-
res anônimos, ou mesmo por seguidores de seus seguidores.
Os devotos preferem olhar para uma outra descoberta que con-
tinua a dividir o rarefeito mundo do academicismo bíblico: três frag-
mentos de papiros que foram preservados na biblioteca da Faculda-
de Magdalen, em Oxford. Eles contêm passagens do capítulo 26 do
Evangelho segundo Mateus. Escritos em grego, foram originalmente
trazidos na virada do século por um obscuro capelão inglês do mer-
cado de Luxor, no Egito. O consenso entre os especialistas foi de que
o papiro datava dos meados do segundo século d.C.
Então, em 1995, o papirologista alemão Carten Dieter Thiede
anunciou que os três fragmentos datavam de cerca de 70 d.C. As
implicações foram assombrosas. Isso significaria que o Evangelho de
Mateus, assim como o de Marcos, no qual, acredita-se, foi baseado,
não está distante dois séculos do tempo em que Jesus andou por
esta terra. Mateus está na realidade, muito próximo a um relato de
testemunha ocular.
Tomando isso como ponto de partida, Thiede argumenta que
os quatro evangelhos foram escritos antes de 80 d.C.; que um frag-
mento de rolo descoberto na comunidade essênia de Qumran, em
1972, era quase certamente um fragmento do Evangelho de Mar-
cos, e pode ser datado em 68 d.C.; que um outro fragmento que se
encontra na biblioteca de Paris é parte do Evangelho de Lucas, e foi
escrito entre 63 e 67 d.C.
Ainda mais instigante é que Thiede encontrou em três lugares
dos fragmentos de Mateus o nome de Jesus escrito como KS. Esta
é a abreviatura de Kyrios, ou Senhor. Thiede argumenta que esta
forma abreviada — KS — é uma prova de que os primeiros cris-
tãos viam Jesus como um nomen sacrum, um nome sagrado, muito
semelhante à forma como os judeus daquele tempo enfatizavam a
santidade do nome de Deus, encurtando-o no tetragrama YHWH.
A partir disso, Thiede conclui que a própria idéia da divindade de

19
Introdução

Jesus não é um desenvolvimento mais tardio da fé cristã, mas foi


uma crença entranhada na Igreja primitiva.
Inevitavelmente,Thiede foi alvo de severos ataques de especia-
listas, que duvidaram tanto das credenciais do papirologista quanto
do método que utilizou para chegar a suas conclusões. A isso, Thie-
de respondeu:

Se os evangelhos são mais autênticos do que pensamos, en-


tão talvez a brecha entre o Jesus da história e o Cristo da Fé
não seja tão grande quanto os eruditos disseram e os cristãos
temeram. Para os não crentes, esses achados não vão forçar
ninguém a se tornar cristão. Mas o relato de testemunhas
oculares da geração de Jesus torna os evangelhos mais dignos
de crédito, pelo menos como relato histórico.

Assim como muitas outras coisas nesta arena superaquecida da


atual pesquisa bíblica, as afirmações de Thiede deram ainda mais
combustível à polêmica.
Olhado de um outro ponto de vista, os evangelhos ofere-
cem apenas mínimas sugestões a respeito da vida terrena de Jesus.
As narrativas são tão isentas de detalhes que Jesus parece estar se
movendo no vácuo; não há qualquer indício de como era sua
vida quotidiana e quase nada a respeito do relacionamento com
as pessoas que encontrou. E sabemos quase nada sobre elas. Todas
as suas parábolas e falas parecem, freqüentemente, suspensas no ar;
mesmo quando o ponto simbólico é claro, seu posicionamento
nos evangelhos varia, consideravelmente, de um relato do mesmo
incidente para outro. O quarto Evangelho, de João, cobre não mais
do que três anos da vida pública de Jesus; os outros três acres-
centam apenas mais alguns meses. Novamente, se calcularmos o
tempo que levaria para que Jesus efetivamente pronunciasse todas
as palavras a ele atribuídas, estaremos falando apenas de algumas
horas; se acrescentarmos todas as ações atribuídas a Jesus, elas co-
brirão não mais do que algumas semanas.

20
Rumo ao entendimento

Surgem mais dificuldades. Cristo é apresentado nos evangelhos


como a essência da divindade. No entanto, ele chega a uma terrível
violência que culmina em sua morte horrenda. Ele é chamado de
eterno e divino, embora as genealogias detalhadas não apenas o co-
nectem com a casa real de Davi, mas o vinculem a uma família que,
de tempos em tempos, o vê como perigosamente iludido. Sua visão
do judaísmo, a fé de sua mãe, é bastante convencional. Jesus parece
ser manso, embora reivindique ter mais sabedoria do que Salomão, e
ainda reivindica o seu direito de assentar-se à direita de Deus. Con-
dena o uso de injúria, embora constantemente ataque seus oponentes
com os mesmos meios. O batismo é constantemente elogiado, mas
somos informados de que o próprio Jesus nunca batizou ninguém.
Multidões o aclamam um dia, e o rejeitam a seguir. Quando os seus
discípulos o saúdam como o Messias, ele os proíbe de fazê-lo. Como
se não bastasse, os evangelhos apresentam peças de um quebra-cabe-
ças e contradições que demandam uma fé inabalável.
A tudo isso, a resposta conservadora é: aconteceu, não duvi-
de. As diferenças entre os evangelhos são colocadas de lado como
“omissões e paráfrases” que são parte natural da cultura oral do
tempo. Aceite isso, nos dizem, e o retrato de Jesus que os evangelhos
oferecem é fundamentalmente correto.
A verdade é que, como apontou Geza Vermes, examinador de
Estudos Judaicos, em Oxford, em seu convincente estudo Jesus, o
judeu, quase qualquer pessoa quando lê os evangelhos o faz com
idéias pré-concebidas. Os cristãos os lêem à luz de sua fé; os judeus,
habituados a sua suspeita ancestral; os agnósticos vão a eles prontos
a se chocar; os profissionais em Novo Testamento os abordam utili-
zando as viseiras de seu negócio.
Quando pela primeira vez me sentei para escrever este livro, o
fiz com a esperança de que tivesse esvaziado minha mente de pre-
conceitos e idéias erradas, e que poderia vir aos evangelhos como
se fosse pela primeira vez. Isso me pareceu a única forma de lidar
com minha premissa de que cada um tem o seu Jesus de Nazaré. Isto
continua verdadeiro.

21
Introdução

Existe um Jesus católico, um Jesus protestante e um Jesus judeu,


assim como um Jesus dos celtas, latinos, gregos, nórdicos, russos e
chineses. Existe um Jesus muçulmano, um profeta verdadeiramente
nascido de uma virgem e que só é superado por Maomé, e o Jesus
da África, Ásia e América Latina — símbolo do poder imperial que
os conquistou em nome da religião. O colonialismo morreu, mas
a memória do Jesus que foi trazido permanece: uma mão de ferro
carregando uma cruz; uma figura de Jesus pela qual milhões enfren-
taram morte violenta, quer pelo que criam, ou pelo que não criam.
Por esta figura crucificada foram cruzados oceanos, continentes fo-
ram conquistados e impérios fundados.
Ainda é feito muito mal em nome de Jesus, por pessoas que
dizem pregar sua palavra e viver seus mandamentos. Quem não se
horrorizou com a terrível limpeza étnica na Bósnia? E quem não
tem uma sensação de desespero com a violência que ainda permeia
a terra natal de Jesus?
Cada nova igreja, desde a Reforma, criou o seu próprio Jesus.
Da mesma forma, os ateus e agnósticos, os carismáticos, os ecu-
mênicos e o povo de Jesus de todas as confissões. E cada vez mais
os crentes — e nesta questão, até não crentes — escolhem o que
podem aceitar a respeito de Jesus de Nazaré. Enfrentam uma tarefa
cada vez mais confusa e, muitas vezes, contraditória. Uma estatística
confiável avalia que houve mais escritos sobre Jesus nas últimas duas
décadas do que nos dois mil anos anteriores.
O resultado de todo esse derramamento é que o destino ter-
reno de Jesus não é mais utilizado como desculpa grosseira para
difamar os judeus. Ocorreu uma dramática redução na hostilidade
entre as duas religiões, construída por um laço comum que nun-
ca poderá ser cortado. É aceito que as ligações com o judaísmo
sempre estiveram presentes em todas as proclamações a respeito da
vinda do Cristo; removam-se a história e princípios do judaísmo
do Novo Testamento, e o Cristianismo parecerá não ter sentido.
O Novo Testamento, assim como o Velho, estará sempre conosco,
e a história no antigo sempre produzirá dor, tristeza e angústia
para os cristãos. Mas o ódio aos judeus foi reduzido.

22
Rumo ao entendimento

Em parte, isso foi devido a um trabalho de construção de pon-


tes entre Roma e Jerusalém. O papa visitou a Terra Santa no ano
2000. Na frente diplomática, ocorreu uma troca de enviados entre
o Vaticano e Israel.
A grande pedra de tropeço, que foi o “evangelho da verdade”
para os cristãos e nenhuma boa nova para os judeus — que os
judeus tinham total responsabilidade pela crucificação de Jesus —
foi aplacada, primeiramente pela oração corajosa e maravilhosa do
Papa João XXIII e, mais tarde, por uma vigorosa linha de pesquisas
que argumenta, persuasivamente, que muitas das passagens duras do
Novo Testamento deveriam ser vistas, essencialmente, como pro-
paganda por parte dos cristãos primitivos. Esta escola de reinter-
pretação defende que a hostilidade de Jesus contra os judeus, como
está registrado nos evangelhos, era, na realidade, o sentimento dos
próprios escritores que utilizaram Jesus para mostrar sua hostilidade
contra os judeus de um tempo posterior.
Apesar disso, muitos judeus continuam convencidos de que o
anti-semitismo que perturbou sua vida por séculos — as expulsões,
os atos de violência em massa contra judeus conhecidos como po-
groms, culminando com o Holocausto — se prolongará até que o
tema central dos evangelhos seja também removido: que Jesus foi
preso por ordem do sumo sacerdote do Templo; que ele foi julgado
antes por um Sinédrio de outros sacerdotes; que ele foi entregue
pelo sumo sacerdote ao procurador romano; que ele foi condenado
à crucificação por reivindicar ser o Rei dos Judeus. Durante todo
esse processo, os judeus estão na linha de frente de todas as acusa-
ções dos evangelhos.
É hoje amplamente aceito que a responsabilidade pela morte
de Jesus pode ser igualmente atribuída ao sistema imperial roma-
no, e especificamente ao procurador na Judéia, Pôncio Pilatos. Foi
o imperador romano que o indicou; foi Pilatos que escolheu o
sumo sacerdote, José Caifás, efetivamente tornando-o um vassalo de
Roma. Foram as duras sanções da ocupação romana que levaram o
desassossego à Judéia, que alimentou o surgimento de revolucioná-
rios e produziu os carismáticos.

23
Introdução

Em um parecer com o qual é difícil discordar, Ellis Rivkin,


um eminente erudito e professor de História Judaica na Faculda-
de União Hebraica, em Cincinnati, argumenta que tanto Pilatos
quanto Caifás eram motivados por um interesse em comum: a pre-
servação do poder do império perante qualquer perigo — assegu-
rando a continuidade do ofício do sumo sacerdote e uma coleta
ininterrupta de tributos para os cofres de Roma, garantindo, assim,
a estabilidade de Pilatos. Tudo mais na história de Jesus e sua morte
decorreriam dessa aliança.
Foi Caifás e um grupo de seus sacerdotes que colocaram
em marcha os acontecimentos que lhes permitiram entregar Jesus
a Pilatos para execução. Eles não agiram em nome do povo
judeu, mas por puro interesse próprio. Ao perceber o risco do
julgamento final, Caifás e Pilatos agiram por conveniência pessoal.
Dois homens fracos condenaram um homem forte a uma morte
desumana. Lançar de qualquer outra forma esse grande crime às
portas do povo judeu é uma calúnia que o então Papa João XXIII
finalmente reconheceu.
E o próprio Jesus entendeu tudo isso muito claramente. Pen-
durado em agonia na cruz — o símbolo máximo de como Roma
lidava com seus inimigos —, ergueu sua cabeça para o céu e pediu
a Deus: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”
(Lucas 23:34).
A busca de novas respostas a antigas questões acelerou-se com
a virada para o terceiro milênio da Igreja Cristã. O ano 2000 foi um
marco emocional para os teólogos e exegetas. Nos primeiros anos
do novo século — hoje —, os dados históricos foram reinterpre-
tados para sugerir que Jesus pode, de fato, ter morrido na cruz sem
jamais ter tido qualquer intenção de fundar uma nova religião.
Entretanto, totalmente convencidos de que Jesus os ama, e eles
o amam, centenas de milhões de pessoas comuns ainda prosseguem
vivendo em seu nome. E já que ele lhes deu esperança por sua pró-
pria morte, só pedem que possam, por sua vez, esperar seu próprio
fim terreno com aquela certeza de que ninguém jamais chegou
sequer perto de inocular.

24
Rumo ao entendimento

Muitos desses cristãos continuam olhando para o Novo Testa-


mento como seu único guia, embora haja outros escritos bíblicos
igualmente importantes aceitos nos primórdios da Igreja, mas pos-
teriormente rejeitados na formação da doutrina, que cresceu junto
com a intolerância, a perseguição e a inveja cega.
Enquanto o Novo Testamento pode ainda ser lido sem uma
compreensão dos augúrios da situação política, social e econômica
dominante, uma verdade simples e inevitável permanece: deve ha-
ver um patamar no qual a linguagem das Escrituras pode ser ple-
namente aceita, sem uma compreensão clara do mundo no qual a
Palavra foi escrita.
É particularmente importante, na compreensão do homem
Jesus e sua missão, enxergá-lo no contexto de seu tempo; tentar en-
tender como os que o cercavam viviam, sua família imediata; Maria
e Marta, e seu irmão Lázaro, em Betânia; os sacerdotes no Templo;
Pôncio Pilatos e sua esposa, Cláudia Prócula; a aristocracia judaica;
os romanos em suas fortalezas. Esta compreensão demanda conheci-
mento de seus estilos de vida, seus hábitos de vestuário e alimentação,
seu sistema jurídico; demanda a recriação, com toda a fidelidade, do
mundo em que a Palavra foi primeiramente pregada — e compreen-
der seus efeitos nos que a ouviram pela primeira vez.
Da mesma forma, é perfeitamente verdadeiro que a fé não se
baseia, ou sucumbe, nos detalhes da história. Deus, ao inspirar pes-
soas, permitiu que escrevessem dentro da moldura de seu próprio
tempo, mente e cultura. O que eles criaram não foi — como algu-
mas igrejas insistem — simplesmente uma série de verdades eternas
e imutáveis. Proclamar isso é reduzir as Escrituras a pouco mais do
que princípios teológicos, virtualmente esvaziados, da verdadeira
revelação de Deus. Pelo contrário, as Escrituras trazem sua própria
verdade singular — no caso do Novo Testamento, pode ser chama-
da de verdade do evangelho —, misturando parábolas, casos, atos,
declarações formais, leis, milagres, poesias e hinos. A riqueza disso
é parte história, parte hagiografia, parte biografia e alguma coisa a
mais: a mensagem da revelação de Deus que, embora baseada em
fatos, não depende de cada detalhe desses fatos.

25
Introdução

Isso explica por que, por exemplo, o Jardim do Sepulcro, em


Jerusalém, não é o túmulo de Jesus; o pavimento sob as fundações do
convento das Irmãs de Sião, na Cidade Velha, não é o local mencio-
nado em João 19:13, onde Pilatos julgou Jesus; nem foi o arco Ecce
Homo, na Via Dolorosa, construído quando Cristo foi apresentado
ao sumo sacerdote dos judeus com o brado do procurador: “Ecce
homo” — Vejam o homem”. Ou será que foi “Vejam o Homem”?
Entretanto, peregrinos continuam suas jornadas até esses locais,
cheios do desejo profundo de estar próximo aos lugares onde Jesus
passou seus últimos dias. A peregrinação religiosa tem conduzido a
uma santidade que efetivamente mostra que a fé não depende de
fatos puramente históricos. Que seja sempre assim.
Em meus escritos sobre Jesus, é essencial ao leitor saber o que
está por trás de mais uma tentativa de explicar.
Tanto quanto consigo me lembrar, sempre quis crer. Meu in-
teresse em sua vida e morte começaram quando, ainda criança, fui
levado à Terra Santa. O mapa do que era então a Palestina se tornou
o primeiro que desenhei e colori: a linha reta da costa, a cadeia
central de montanhas e, além, o rio Jordão — todos eles recebendo
seus tons de cobre a violeta, inesquecíveis para os que viveram ali.
Como jovem, comecei a estudar seriamente a vida de Cristo; meu
prêmio de Escrituras na graduação é o único que mantive de meus
dias de escola.
Em uma carreira, inicialmente como jornalista — grande par-
te dela passada no Oriente Médio —, e, depois, como escritor em
tempo integral, tornei-me bastante interessado nos exegetas protes-
tantes que surgiram nos anos 50. Homens como Günther Gorn-
kanmm, Hans Conzelmann, Ernst Käsemann e Ernst Fuchs ofere-
ceram conceitos teológicos diferentes e desafiadores a respeito de
como e quando os quatro evangelistas vieram a incluir determinado
material e deixar de fora outros dados. Aqueles críticos alemães pro-
testantes foram o centro de grandes discussões que freqüentemente
levaram a religião à primeira página dos jornais em que eu traba-
lhava. Desempenhei um papel na promoção do debate — e não

26
Rumo ao entendimento

escapei à sua influência. Estava a ponto de aceitar que o formato de


evangelho, a partir do qual a vida e morte de Jesus haviam sido es-
tabelecidas, era vulnerável. Eu me tornara uma vítima voluntária de
outras mentes mais persuasivas, tal como a de Huxley, que declarara
que os “milagres não aconteceram”, e a de Matthew Arnold, que
insistia que poderia haver um “Cristianismo não miraculoso”.
Já quando cheguei à pessoa de Jesus, mantive a visão adequa-
damente respeitosa que minha mãe implantou em mim naquelas
primeiras viagens à Terra Santa. Muito mais tarde, quando havia
experimentado a fome, a peste e a carga de trabalho natural de
qualquer correspondente estrangeiro, ainda sentia um choque de ira
diante do mau uso de seu nome. Eu era ingênuo — e só menciono
isso agora como parte de uma tentativa de explicar como e por que
cheguei a escrever este livro.
Esta não é também minha primeira tentativa de colocar no
papel meu relato de sua vida e inevitável crucificação. Há cerca de
trinta e cinco anos, quando passava por uma crise difícil, escrevi
uma peça com base em seu julgamento. Ela nunca foi encenada,
mas escrever deu-me a coragem para continuar minha pesquisa,
eventualmente chegando a este livro.
Agora, como resultado de escrevê-lo, minha própria interpre-
tação de Jesus — retrato de um homem de poderosa eloqüência e
magnetismo, que se tornou uma ameaça tão grande que seu destino
foi selado por um amplo processo de auto-interesse — está alcan-
çando um público maior do que jamais imaginei. Deverá também
ser filmada, a partir de um roteiro que escrevi. Apoiado pela So-
ciedade Bíblica, esta é a sua primeira grande ventura no mundo da
indústria cinematográfica. O fato de este projeto ter vencido todos
os obstáculos que, inevitavelmente, um desafio como este enfrenta,
em que são comprometidos milhões de dólares com uma projeção
de duas horas, deve-se, em grande parte, à condução enérgica de
Clive Manning, o produtor executivo.
Caso não consiga mais nada, desejo responder à questão que
Jesus colocou para seus discípulos: “Quem os homens dizem que eu

27
Introdução

sou?”. A busca dessa resposta levou-me a ter contato com eruditos


que encorajaram e aprofundaram o meu interesse no julgamento e
execução de Jesus.
Se o nascimento de Jesus é o ponto de partida de toda história
real para 1,5 bilhão de cristãos, então pode ser dito, sem medo de
enfrentar oposição, que seu julgamento é o mais notável na histó-
ria do mundo. Nenhum outro julgamento — nem mesmo o de
Sócrates, condenado por introduzir deuses estranhos e corromper
a juventude ateniense, ou o de Joana D’Arc, sentenciada à fogueira
por acreditar que Deus lhe deu uma missão junto ao seu povo —,
embora memoráveis pelo heroísmo moral dos condenados, chega a
adquirir a significância ligada ao julgamento e execução de Jesus.
Em uma de nossas muitas reuniões, S. G. F. Brandon, então
professor de Religião Comparativa na Universidade de Manchester,
forneceu-me as diretrizes que deveria seguir se quisesse dar algum
sentido aos acontecimentos que levaram à morte de Jesus: “Avalie
os fatores vários e complexos que estão por trás da composição dos
quatro evangelhos deste evento trágico.”
Nos muitos anos subseqüentes, tendo recolhido no caminho
a sabedoria coletiva de muitos eruditos, tanto protestantes quanto
católicos, compreendi que, não obstante o tempo que permanecesse
na estrada, nunca teria esperança de encontrar o fim, a menos que
discutisse o assunto com eruditos judeus.
Na volta a Jerusalém, li durante o vôo as palavras de um ho-
mem, Frank Morison, que quase sessenta anos antes tinha colocado
uma questão que não era diferente da minha. O seu livro Quem
moveu a pedra? não tinha uma nota sequer sobre suas fontes. Nem
ele se sobrecarregou com uma defesa ou ataque, linha por linha,
da narrativa passional dos evangelhos. No final, ele produziu um
livro onde podia se achar tanto seu testamento pessoal, quanto um
admirável apelo universal ao bom senso. Ele se concentrou na res-
surreição. Mas a abordagem de Morrison me surpreendeu com um
valioso modelo para atacar de diversas maneiras a incumbência mais
difícil: dar um sentido ao julgamento de Jesus.

28
Rumo ao entendimento

Em Jerusalém, recebi dos eruditos judeus uma série de rein-


terpretações desafiadoras daquele julgamento. Haim H. Cohn, uma
elevada autoridade judaica em história jurídica e juiz da suprema
corte de Israel, guiou-me por ramificações desse julgamento que,
até então, eu ignorava. A complexa argumentação do juiz Cohn
pode ser resumida em uma crença de que, quase certamente, o
Cristianismo teria começado de forma bem diferente se esse jul-
gamento tivesse sido conduzido de outra maneira — e igualmente
importante, se tivesse sido relatado de forma mais completa pelos
evangelhos canônicos. Ze’ev W. Falk, então professor de Lei Fami-
liar na Universidade Hebraica, em Jerusalém, estava entre os que me
ofereceram um longo catálogo do que Falk chamou de “os descui-
dos históricos daqueles evangelhos”. Eu rapidamente me convenci,
como cristão, de que a interpretação desse julgamento pelos judeus
devia receber total crédito.
Comecei a incorporar outros raciocínios. Eles se basearam em
minha própria leitura, bastante extensa. Aqueles que desejarem per-
correr esse caminho, podem fazê-lo através da bibliografia. O que
essa listagem não poderá explicar, evidentemente, são os critérios
que usei. Mas que utilidade poderia ter para alguém se, por exemplo,
eu favoreci a interpretação de Kung, em um ponto, em detrimento
da afirmação de Bultmann — ou vice-versa? Meu parecer não per-
tence a mais ninguém; a quem mais poderia pertencer? Muitos dos
estudiosos das últimas décadas, brilhantes como muitas vezes foram,
se concentraram excessivamente em desmistificar e em desacreditar,
assim me pareceu. Algumas das opiniões mais cruéis foram relegadas
a notas de rodapé.
Ao preparar este livro, decidi, sabendo que o risco de críticas era
grande, que não sobrecarregaria ou incomodaria os leitores com no-
tas de rodapé ou citações de fontes. Para que serviriam? Minhas fontes
são os evangelhos — e não apenas os canônicos, mas os descartados
nos concílios de Nicéia e Calcedônia. Minha pesquisa inclui também
um respeitável corpo de literatura judaica e não cristã, como os trata-
dos do Mishanah,Tosophta,Talmude, Midrashim e Tarquamin. Uma

29
Introdução

listagem poderá ser encontrada no final deste livro. Porém, ela ainda
não será completa para revelar o caminho para desembaraçar o nove-
lo de preconceitos, paixão e intrigas políticas que envolvem a vida e
a morte de Jesus, que, no fim, deve ser uma questão de interpretação.
Nesse caso, e o digo com humildade, esta é minha.
Desde o início até a conclusão — se eu tomar como ponto de
partida meu encontro com Brandon —, este livro consumiu-me
vinte anos de constante reflexão, pesquisa intermitente e muitos
rascunhos. No intervalo escrevi outros livros, antes de voltar a esta
história que me senti compelido a escrever. A cada rascunho, as
interpretações que dei aos fatos foram inevitavelmente diferentes.
Mas, de alguma forma indefinível, minha perspectiva foi mudada
pelos fatos que não podiam ser mudados. Jesus viveu uma vida curta
durante um período em que o judaísmo estava sujeito a aconteci-
mentos traumáticos nas frentes política e social. Se eu deixasse de
levar isso em conta, seria como tentar entender Dante sem consi-
derar as condições da Florença medieval.
Se Jesus, de fato, nasceu ou não em Belém é, no final das con-
tas, de pouca importância. Quando Marcos diz (6:3) que ele tinha
irmãos — Tiago, Judas, Simão e José — a respeito dos quais sabe-
mos quase nada — isso também não importa muito. Se foi no ano
26 ou 27 a.C. — ou conforme a contagem dos judeus, no ano 3788
desde a criação do mundo — que Jesus foi batizado, não é, ao final,
tão relevante.
Entretanto, essas questões são retratadas como fornecendo uma
última pista para Jesus. Os eruditos de diversas disciplinas começam
e terminam suas carreiras tentando provar, ou provar o contrário, o
número de vezes que Jesus visitou Jerusalém, qual o caminho que
percorreu, quem foram os discípulos mais próximos a ele, e em que
ordem os evangelhos foram escritos: a versão de Marcos precedeu
a de Mateus, a de Lucas veio antes da de João? Cada vez mais são
trazidos procedimentos clínicos para tentar desvendar sua estatura,
peso, cor dos olhos e cabelo — como se qualquer dessas informa-
ções tornasse Jesus mais fácil de compreender.

30
Rumo ao entendimento

Quando Jesus perguntou aos seus discípulos a questão mais


importante, “Quem os homens dizem que eu sou?”, seguramente
não desejava que se desenvolvesse um debate sobre sua aparência.
A frase de Wilfred Sheed, “um outro maldito teólogo vem rosnando
da Floresta Negra” nunca foi mais adequada. Existe um movimento
crescente e perturbador, empenhado em desmitificar, em substituir
a fé por ceticismo e até mesmo descrença. Em algum lugar do ca-
minho o Jesus comum, do povo, foi perdido. Os que tentaram ex-
propriar Jesus de suas palavras e envolvimento com a humanidade
afastaram-no também de uma real compreensão do Cristianismo.
O que importa, afinal, é que um judeu religioso bastante sensível
estava convencido de que nasceu para reformar Israel e, então, inau-
gurar o reino de Deus.
É este o Jesus do qual estas páginas se ocupam; o homem, assim
como o Deus-homem. Em todos os pensamentos e atos, Jesus de-
monstrou que sua vida e morte continuam sendo a maior história
jamais contada — e que a única forma de contá-la é apresentá-lo,
no verdadeiro sentido das palavras, como um homem real, assim
como o único homem perfeito. Seguramente, ele não pediria mais
que isto. E eu não tentei menos que isso.

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