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Para Saulo,

que honrará nossa Brodowski,


lembrança afetuosa do
Portinari
Brodowski 1953
SAULO RAMOS

CÓDIGO DA VIDA

8a reimpressão
Copyright © Saulo Ramos, 2007

Coordenação editorial: Pascoal Soto


Preparação de texto: Fabiana Medina
Revisão: Tulio Kawata
Diagramação: Nobuca Rachi
Capa: 6P Marketing & Propaganda

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ramos, Saulo
Código da vida / Saulo Ramos. — São Paulo :
Editora Planeta do Brasil, 2007.

Bibliografia
ISBN 978-85-7665-279-3

1. Juristas — Autobiografia 2. Memórias autobiográficas


3. Ramos, Saulo I. Título.

07-2513 CDD-923.4

Índices para catálogo sistemático:


1. Juristas : Memórias : Autobiografia 923.4

Esta obra é uma autobiografia,


sendo de inteira responsabilidade do autor
as informações nela contidas.

http://groups.google.com/group/digitalsource

2007
Todos os direitos desta edição reservados à Editora Planeta do Brasil Ltda.
Avenida Francisco Matarazzo, 1500 — 3º andar — conj. 32B
Edifício New York
05001-100 — São Paulo-SP
vendas@editoraplaneta.com.br
CONTRA CAPA
Saulo:
Acho que esta citação de Rivarol foi feita pensando no seu livro:
“O gênio e o talento: o historiador e o romancista fazem entre eles
uma troca de verdades, de ficções e de cores para dar vida ao que
não é mais.”
Beijos do amigo de sempre,
JÔ SOARES

ORELHAS DO LIVRO
Quando chegou aos meus ouvidos a notícia de que Saulo
Ramos, um dos nossos mais ilustres juristas, estava próximo de
concluir um livro, confesso que hesitei. Num primeiro momento,
imaginei se tratar de um livro puramente acadêmico, dirigido aos
especialistas da área do Direito. Mas a notícia me havia sido dada
por Jô Soares, conhecido no meio editorial como um grande
descobridor de tesouros. Sem maiores delongas, pedi os manuscritos
e me embrenhei na leitura do catatau: sim, os manuscritos somavam
mais de seiscentas páginas.
Mas foi exatamente neste momento que começou o meu
drama... Durante quase duas semanas, esses manuscritos me
acompanharam de maneira implacável. Carreguei-os para todos os
lugares, dos mais óbvios aos inconfessáveis. Desde o momento em
que li suas primeiras páginas, interromper a leitura me doía. Percebi
que estava diante de um daqueles livros que nós, editores, desejamos
em nossos melhores sonhos.
Código da Vida é livro para ser degustado demoradamente.
Nele, a pretexto de contar, com todos os detalhes, um caso
curiosíssimo que viveu como advogado, Saulo Ramos entremeia essa
história de suspense absolutamente verídica com sua história de
vida, desde a infância nas cidades paulistas de Brodowski e
Cravinhos, até os dias de hoje.
Desobedecendo todas as obviedades da estrutura tradicional
das biografias, Saulo Ramos constrói uma obra de qualidade
espantosa, seja pela riqueza vocabular de sua linguagem, seja pela
maestria com que utiliza os recursos literários de uma narrativa.
Mas, como se isso não bastasse, a vida de Saulo Ramos tem
ingredientes dignos das mais importantes biografias já publicadas no
Brasil.
Como o menino do interior chegou a Consultor Geral da
República e a Ministro da Justiça? Saulo, às vezes, responsabiliza o
acaso, as coincidências. Será?
Os fatos que o autor presenciou na vida pública brasileira têm
início no ano de 1961, quando o advogado recém-formado passa a
exercer a função de oficial de gabinete do Presidente Jânio Quadros
em Brasília. A partir daí, o Brasil experimentou tantas tragédias,
tantas conquistas, tantos conflitos, tantas ilusões, tantas
desilusões... Saulo Ramos, às vezes como espectador, às vezes como
personagem dos fatos, às vezes como crítico, nos conta tudo, quase
sempre sob um novo ângulo, e ainda nos revela fatos até hoje
guardados em segredo.
Respire fundo, leitor. Você tem uma grande história nas mãos.

PASCOAL SOTO
Este livro foi escrito sob coação.
Denuncio os coatores:
Jô Soares,
Ovídio Rocha Barros Sandoval,
José Maria Costa e
Napoleão Sabóia.
Explicação necessária

Não raramente, os escritórios de advocacia cuidam de casos


que, na vida real, ultrapassam, em emoção e suspense, os romances
de ficção, os filmes de mistério, drama, ação e comédia, as novelas de
televisão. Mas acabam nos arquivos. O sigilo profissional impõe aos
advogados o dever do silêncio eterno. O público jamais conhecerá
essas histórias fascinantes dos dramas humanos vividos nos
processos que correram em segredo de justiça.
Resolvi contornar essa regra ética, sem quebrá-la. Neste livro,
narro um desses casos, trocando os nomes das pessoas. É
impactante.1 Uma senhora acusa o ex-marido de praticar atos
obscenos com os próprios filhos menores e propõe contra ele ação
judicial para extinguir seu direito de ver as crianças. O juiz concede
medida liminar e proíbe o pai de ter qualquer contato com os
menores.
Desesperado, o pai procura um advogado, que se recusa a
defendê-lo. A prova é cruel: uma gravação. Os filhos contam atos
terríveis e imorais que foram forçados a praticar.
Ameaçando suicidar-se, o cliente pede socorro ao meu
escritório. Meus companheiros e eu aceitamos a causa. Começa
nesse instante uma longa, fantástica e emocionante história de
conflitos incríveis. Ódio, psicose, amor. Atuação de um Magistrado
excepcional e de um Curador de Família exemplar, expoentes do
Judiciário brasileiro. Advogados trabalhando como detetives.
Batalhas de inteligência, raciocínio, jogos de deduções. Enigmas que
atormentam os profissionais do Direito, mas eles sabem como

1 A palavra “impactante” não existe nos dicionários. Com perdão dos ilustres cultores
da nossa querida língua, inculta e bela, os dicionários estão atrasados.
resolvê-los.
A morosidade no andamento dos processos judiciais e a
dificuldade na cuidadosa produção de provas permitem-me jogar
com um tempo virtual e, assim, interromper a narração em vários
pontos, aproveitando para contar fatos da vida pública de nosso país,
alguns dos quais os brasileiros não conhecem em detalhes. Claro que
me limito àqueles com os quais o destino fez minha vida cruzar.
Descrevo as espantosas circunstâncias em que tudo isso se deu.
Algumas cheias de mistérios, que até hoje não entendi. Talvez os
leitores saibam explicar, decifrando os códigos da vida, que nada têm
com o DNA, mas que formulam questões em torno dos imprevisíveis
caminhos dos destinos.
Fui um menino pobre do interior de São Paulo. Comecei a vida
como caminhoneiro, ingressei no jornalismo e, depois, na advocacia
pela mão de um gênio: Vicente Ráo, por meio de intriga urdida por
um grande poeta, Guilherme de Almeida. Como pôde isso ter
acontecido?
A advocacia foi meu sacerdócio, minha desgastante e suave
obsessão. Irresistível é o fascínio de lutar pela defesa do direito de
alguém. Salvar liberdades, honras, patrimônios de toda espécie,
materiais e morais. Poder ajudar na cura de feridas abertas na alma
dos injustiçados, pobres ou ricos. Foi um longo caminho, com
muitas pedras no meio, inclusive as atiradas contra mim, que usei
na construção deste livro.
No trajeto, porém, conheci Jânio Quadros, bebendo caipirinha
num bar do Guarujá, e, depois, presenciei a tragédia de sua
renúncia à Presidência da República, o que resultou em regime
militar durante 21 anos. Conheço detalhes inéditos. Por que eu
estava lá? É um dos códigos da vida que preciso decifrar.
Os processos judiciais enfrentados na ditadura. Florestan
Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Vladimir Herzog,
cadernetas Prestes. Impossibilidade de defender os acusados
mediante invocação do Direito. Processo que fiz desaparecer.
Humilhação da Igreja Católica perante os militares.

Fatos e coincidências vão acontecendo. Conheci Mário Covas,


lancei-o, a pedido de Jânio, candidato a prefeito de Santos. Perdeu a
eleição. O candidato eleito morreu antes da posse. Demanda no
Judiciário contra a investidura do vice. Vinte e cinco anos depois,
ocorre caso semelhante com a doença de Tancredo Neves, e vem a
oposição à posse de José Sarney. Novamente, Mário Covas e eu
envolvidos pelo destino no desate da questão, ele de um lado, eu do
outro. Por que eu estava lá? Fico um pouco arrepiado, por não
desvendar a codificação que esses fatos desenham em minha vida.
Vem a Assembléia Nacional Constituinte, ocorrência mais
importante da história contemporânea do Brasil. O que aconteceu
nos bastidores? Tentativa de golpe parlamentar de Estado, quando
os canhões dos militares ainda estavam fumegando. E muitos
tramavam voltar ao poder. Eu estava lá. O que fiz e por quê?
Aceitei participar do Governo Sarney. Passei a viver espantos
sucessivos. O Brasil não tinha advogados para defender a União.
Coisa fantástica! O país dos bacharéis sem defensores judiciais. E
não havia, igualmente, lei que regulasse a licitação pública e o
contrato administrativo. O Brasil era um país incrível. Como poderia
existir sem esse mínimo de disciplina jurídica? Dá para acreditar?
Não tinha sequer uma lei de defesa dos direitos dos deficientes
físicos! Não possuía nada que protegesse os bens de família, a não
ser uma velharia complicada do antigo Código Civil.
Tantos e tão diversos problemas tive que resolver. Eram
deficiências do meu país. Já que eu estava lá, o melhor era procurar
as soluções em vez de perguntar o porquê de estar lá.
Por que um menino do interior chegou a Consultor Geral da
República e a Ministro da Justiça, quando desejava apenas ser
advogado?
Impeachment de Fernando Collor. Processo no Supremo
Tribunal Federal. Advogado do Senado da República, o que sofri para
vencer aquela causa! Fatos que nunca vieram a público. Terminado o
julgamento, pensei comigo: isso nunca mais vai acontecer no Brasil.
Imperdoável ingenuidade. Aconteceu e, pior, a tal ponto que o
processo de Collor poderia hoje passar para o juizado de pequenas
causas.
Conto tudo, mas procuro ser breve, porque o principal é a
história das crianças submetidas a um simbólico, mas feroz, tiroteio
entre os pais separados. O julgamento emocionante, conduzido por
um juiz fabuloso. E o incrível desfecho da história mais de vinte anos
depois em Londres, cidade predileta dos escritores de mistérios
policiais.
Aproveito para narrar, sem quebra da ética, algumas histórias
curiosas de várias pessoas célebres com as quais me envolvi no
exercício profissional: Roberto Carlos, Che Guevara, José Sarney,
Sérgio Armando Frazão, Ronaldo Cunha Lima, Alceni Guerra,
Eurícledes Formiga, José Frederico Marques, Mário Simonsen,
Juscelino Kubitschek, Lázaro Brandão, Celso da Rocha Miranda e
outros.
Espero que tais fatos esclareçam algumas interrogações
daqueles que os viram acontecer e sejam úteis para as novas
gerações, que ainda dependem dos historiadores, nem sempre muito
fiéis, segundo tenho visto em isoladas manifestações de jornais. Mas
advirto: os fatos são aqui narrados numa espantosa desordem
cronológica, porém fielmente. Detesto a manipulação do passado e o
mascaramento de versões.
Agora elucido: não pedi a nenhum dos meus amigos para
redigir prefácio a este livro. Por quê? Para não comprometê-los. Nas
minhas narrativas, faço críticas amargas a ministros do Supremo
Tribunal. Cheguei a mandar um deles à merda. Censuro
severamente políticos, suas mazelas e mediocridades, e as tentativas
de golpe na Constituinte. Denuncio os agentes da ditadura que
cruzaram meu caminho. Qualquer amigo que prefaciasse este livro
poderia ser considerado pelos criticados como avalista das
chibatadas desferidas contra essa gente.
Claro que examino, com repulsa, a putrefação do governo Lula
e a patriótica corrupção do Partido dos Trabalhadores, que fundou,
afundando-se, a escola da imoralidade para fazer o bem público e
que acabou na vida privada de seus agentes batendo uma lamentável
espécie de recorde na história brasileira das grandes vergonhas. Ou
da falta delas, inclusive a de deixar os pobres cada vez mais pobres
para industrializar esmolas em troca de votos. A descompostura, a
desonra, a rapinagem e a iniqüidade da corrupção, explicada como
singela esperteza eleitoral não contabilizada e por costumeira.2
Esperteza eleitoral vitoriosa para mais uma temporada de
incontáveis desastres “nunca antes neste país” ocorridos.
Todos os fatos aqui narrados são absolutamente verdadeiros,
com nomes fictícios nas causas de Direito Privado. Nas questões
públicas, os nomes dos políticos são expressamente mencionados.
Mas, em mim, há um pouco de lirismo na paixão pela
advocacia, embora tenha ela complicado minha existência com os
fatos históricos dos quais participei. Lidei com todos os códigos —
penal, civil, de processos, de defesa do consumidor, até com o código
de Hamurabi — e acabei tendo que lidar com o código da vida. A
história compõe a genética da nação. Pertenço ao meu país com
todas as minhas entranhas. Não há mais tempo de mudar. Daí o
dever de registrar o código da vida, a minha.

2 O cacófato é proposital.
1
Não gosto de correr na estrada. Ia de Serra Negra para São
Paulo. Trocar o ar puro pela poluição. Paciência. O caso era
dramático. A advocacia é quase sempre dramática. Minha secretária,
nervosa, dissera pelo telefone que havia chegado um homem
desejando consultar-me. Agitado, inquieto, visivelmente perturbado,
de boa aparência, bem trajado, espalhou pânico no escritório.
Ameaçou suicidar-se, caso eu não o atendesse. Não deu outra
explicação. Sentou-se na sala de espera e lá permaneceu,
aguardando que eu chegasse para atendê-lo. Não aceitou café nem
quis ler jornal. Minha secretária estava apavorada.
Na estrada, o guarda rodoviário fez sinal para eu parar. Olhei o
velocímetro: 100 quilômetros. Na Via Anhangüera, a velocidade
máxima é 110. Estacionei no acostamento e peguei os documentos
no porta-luvas. Baixei o vidro. Ele aproximou-se com educação:
— Bom dia.
— Bom dia.
Estendi-lhe os documentos do carro.
— Não precisa — disse ele, olhando para o banco de trás, como
se estivesse procurando alguém escondido.
— Não precisa? O senhor me pára e não vai verificar meus
documentos?
Dei uma olhada no acostamento. Desconfiei da história. Podia
ser assalto. Bandido disfarçado de guarda. Mas ele estava só. A
viatura estacionada sob uma árvore era autêntica, e não havia
ninguém mais por perto.
— Tenho certeza de que estão em ordem — disse ele com
educação. — Seu carro é Mercedes, o senhor me parece um homem
de respeito. Não andaria com documentos irregulares.
— Então, por que me parou?
— O telefone celular. Pareceu-me que o senhor estava falando
ao celular, quando se aproximava. O senhor sabe que acaba de sair
uma portaria proibindo o uso do celular aos motoristas enquanto
dirigem? Onde está seu telefone móvel?
— Não tenho.
— Como não tem? Dono de uma Mercedes, aparência de
homem de negócios, e não tem celular?
— Para começar, seu guarda, o senhor nem sabe se eu sou o
dono deste carro, porque não quis ver os documentos. E, para
continuar, posso parecer homem de negócios, mas sou advogado e
detesto celular. Vou corrigir minha resposta: tenho, mas não trago!
Se quiser, pode me revistar e fique à vontade para revistar o carro.
Quer que abra o porta-malas? — o exagero foi proposital, para
desabafar.
Ele continuava olhando para todos os cantos do carro. Deixei o
porta-luvas aberto, ao pegar os documentos, que ele não quis
conferir.
— Não, absolutamente. Nossa ordem é flagrar motoristas
falando ao celular e não propriamente apreender o aparelho.
— Então me parece decidido — disse eu, já um pouco
impaciente. — Se não tenho o celular, não poderia estar falando.
— Mas tenho certeza de que o senhor estava falando, pois
segurava o volante com uma das mãos e fazia gestos com a outra!
— E qual delas segurava o celular?
— O senhor deve ter daqueles aparelhos chamados de “mãos
livres”, que permitem conversar sem segurar o telefone, mas que
tiram a atenção do motorista da mesma maneira.
— “Seu” guarda, eu podia estar falando sozinho. Costumo
discutir muito comigo mesmo. Ou podia estar rezando. Veja aí,
pendurada no retrovisor, a imagem da santa.
— Eu também sou devoto de Nossa Senhora Aparecida — disse
ele, olhando a imagem com certa reverência.
Recusou-se a revistar-me. É evidente que não vira coisa
alguma. Apenas chutou. Era a primeira semana da proibição baixada
pelo Denatran, e, na cabeça dele, um Mercedes certamente teria um
motorista com celular. Mas desistiu. Disse que eu podia prosseguir
viagem, despediu-se com um até logo e ainda fez continência.
Arranquei, sentindo-me um pouco esperto demais e feliz com o
meu celular, que não tocou durante a conversa com o guarda.
Aparelho moderno. É instalado em um compartimento inacessível do
carro, mas controlado por botões no volante. Na verdade, minha
resistência era uma ligeira rebeldia contra as instruções do
Denatran, proibindo o uso de celulares no trânsito e por portaria.
Minha formação de advogado não admite proibição alguma, senão
em virtude de lei. E o próprio Denatran, que implementei quando fui
Ministro da Justiça, levando para dirigi-lo o Dr. Nerval Ferreira
Braga,3 está hoje abusando com essa história de legislar por
portaria.
O meu telefone móvel, de alta tecnologia, ainda tinha esta
vantagem: era invisível. Claro que posso abrir o compartimento,
desplugá-lo e levá-lo comigo no bolso da camisa ou do paletó. É
pequeno e leve.
Incrível como esses aparelhos, que tiram fotos nítidas,
mandam e recebem mensagens pela Internet, com minúsculo teclado
que permite digitação de pequenos recados, torpedos e e-mails, estão
evoluindo a cada dia. Fotografam, filmam e recebem televisão.
Mudaram o mundo. Fizeram desmoronar até mesmo as antigas
teorias criminalistas de que, em bom sistema prisional, seria possível
a recuperação dos criminosos de alta periculosidade. De dentro dos
presídios, os grandes delinqüentes continuam conectados com o
crime, comandando assaltos, extorsões, assassinatos, falsos
seqüestros. Tudo através de inocentes telefones celulares.
Aliás, hoje pode-se levar no bolso nossa vida digital, Internet, e-

3Nerval Ferreira Braga Filho, delegado de polícia aposentado, foi Delegado Geral da
Polícia de São Paulo e diretor do Denatran, Ministério da Justiça, no Governo Sarney.
mail, música, TV, filmes, fotos, arquivos de documentos e até
telefone. Estes novos tempos são feitos de um susto atrás do outro.
O homem moderno é obrigado a ter olhos dilatados. O telefone
celular, na era eletrônica, lembra o canivete suíço na era mecânica:
servia para tudo. Hoje, somente em pescaria.
A Internet já reúne um bilhão de pessoas, internautas, e
funciona admiravelmente por não ser controlada por ninguém.4 É
verdade que alguns países desejam administrar a rede mundial. Já
estão tentando isso por meio de organismos ligados à ONU. Há um
japonês, chamado Yoshio Utsumi, secretário-geral da União
Internacional de Telecomunicações, que não faz outra coisa senão
conspirar contra a liberdade da Internet. Seu interesse: evitar a
expansão chinesa, embora finja que defende direitos de todos os
povos. Aliás, os chineses estão conquistando os mercados do mundo
e, não contentes com isso, ainda roubaram a glória de Colombo na
descoberta da América. Dizem que foi um navegador chamado Zheng
He quem esteve por estas bandas setenta anos antes do nosso herói
genovês. Modernamente, a China, além do crescimento espantoso,
tanto do PIB, quanto da miséria nas áreas campesinas, construiu a
mais intrincada equação do século XXI: regime comunista com uma
das maiores bolsas de valores do mundo, instrumento tipicamente
capitalista.
Ocorreu-me uma pergunta: o que tem tudo isso a ver com o
meu telefone celular? Não fosse a existência dele, eu não saberia que,
no meu escritório em São Paulo, havia um homem ameaçando
suicidar-se. E nem que a Bolsa de Xangai, da China comunista,
quase conseguiu quebrar as bolsas do resto do mundo capitalista.

4 Uma entidade privada, chamada Icann (Internet Corporation for Assigned Names and
Numbers — Corporação da Internet para a Designação de Nomes e Números), sem
fins lucrativos, faz a administração técnica dos endereços da web. Tem sede na
Califórnia, nos Estados Unidos, embora a Internet que hoje conhecemos, a www
(World Wide Web), tenha sido inventada por uma instituição suíça, de Genebra, a
maior organização científica do mundo, Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire
(CERN). Essa agora criou o grande colisor de hádrons (LHC), enorme acelerador de
partículas que vai colidir prótons em busca da existência de outras dimensões.
2
Quando eu era menino, na fazenda de meu pai, em Cravinhos,
fizemos uma festa com a chegada do primeiro telefone. Antes,
fincaram quilômetros de postes, pelos quais passava o fio que ligava
a fazenda à cidade. Foi um primo meu, chamado Moacir, quem levou
o primeiro telefone para ser instalado na ponta do fio, que já chegara
à nossa casa.
Pregaram-no na parede, diante de meus olhos arregalados. Era
uma caixa retangular, de madeira, com o bocal para falar e um cone
de baquelite para ouvir, que ficava pendurado num gancho, à
esquerda da caixa. Tinha, do outro lado, a manivela, que devia ser
rodada com força, dando-lhe várias voltas, para acionar a energia de
baterias enormes, instaladas na parte inferior da caixa.
Ainda me lembro: o nosso número era 45.
Qualquer pessoa, lá da cidade ou de outra fazenda, que
quisesse falar em casa, deveria pedir para a telefonista ligar no 45.
Essa regra, porém, não era muito severa. Em geral, a gente
acionava a manivela, a telefonista atendia e perguntava “com quem
quer falar”. Bastava dizer o nome da pessoa ou informar o local: a
farmácia, o armazém, o bar do cinema, o Dr. Palma, médico da
cidade, o Salomão barbeiro, apaixonado por teatro, excelente
declamador à moda antiga.
O Salomão, é verdade, que grande artista perdido na província!
Em seu salão de barbeiro (hoje cabeleireiro), declamava poesia
enquanto trabalhava com tesoura, pente e pincel, em largos gestos
dramáticos, que se multiplicavam nos espelhos de sua barbearia, o
Salão do Salomão. Um dia, estava fazendo a barba de um cliente,
enquanto declamava o “Vozes d’África”, de Castro Alves e, ao dizer
“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?”, abriu o braço com
tal força que a espuma do sabão de barba caiu no rosto do freguês
da cadeira ao lado. Filme de pastelão, tal e qual. Furioso, o freguês
atingido virou-se para ele e gritou:
— Mande esse Castro Alves à puta que o pariu! — Levantou-se,
enxugou o rosto, desvencilhou-se da toalha e foi embora. O outro
barbeiro era o irmão do Salomão: quieto, nunca falava nada. Naquele
dia, ficou com a tesoura na mão, parada no ar, e perdeu o cliente.
Era comum a telefonista meter-se na conversa, dependendo do
tema. Um dia, minha prima conversava com uma amiga, a respeito
de um paquera das duas:
— Mas ele está firme com a Sônia. Não vai dar para ir ao baile
com ele no sábado.
— Pode ir. Aquele caso com a Sônia já era. Desde o começo, foi
fogo de palha. A Adelaide me contou que eles acabaram.
A conversa ia render, quando a telefonista entrou na linha:
— Vocês duas precisam tomar cuidado. O Adalberto (era o cara
sobre o qual elas falavam) é muito sem-vergonha. É verdade que ele
acabou com a Sônia, mas hoje mesmo telefonou para a Adalgisa e
combinou com ela ir ao baile, logo em seguida da conversa que teve
com você, Delsa.
Delsa era a minha prima.
Um dia, a gente precisava falar com urgência, não me lembro
com quem. Meu pai acionava a manivela, e nada. Nenhuma
telefonista respondia. Meu tio, que havia trabalhado na companhia
telefônica de Sertãozinho, ensinou uma solução drástica: ligar um
cabo elétrico ao fio do telefone. Com isso, lá no centro telefônico,
todos os plugues cairiam de uma vez só. O sistema funcionava com
cabos que lembravam cordas coloridas. Cada assinante tinha um
terminal composto de um cabo e de um buraco. Quando um
assinante queria falar com o outro, a telefonista puxava o cabo dele e
enfiava no buraco do assinante chamado. Assim, conectava as
linhas, e a ligação funcionava. No centro telefônico, era fácil imaginar
a loucura durante as ligações simultâneas: os cabos todos trançados
de um assinante ao outro, da esquerda para a direita, da direita para
a esquerda, de cima para baixo e de baixo para cima — uma
verdadeira macarronada. Em meio a tudo isso, as telefonistas ainda
encontravam tempo para ouvir conversas de namorados.
Ainda me lembro quando o delegado de polícia de Cravinhos
disse ao meu pai: “Assunto reservado, não converse pelo telefone. A
Gertrudes escuta tudo”
Para mim, a primeira definição de interceptação telefônica, que
popularmente passou a chamar-se “grampo”, tinha um nome: era a
Gertrudes.
Perigo, quando caíam tempestades. Em dia de raio, não se
falava ao telefone.
A não ser no telefone que inventamos, estendendo um barbante
entre duas metades de uma caixa vazia de pó-de-arroz. Bem
esticadas, dava para ouvir o que se falava numa das metades da
caixa. Por esse processo, dei a minha primeira cantada numa
menina:
— Iracema, está me ouvindo?
— Estou.
— Quer me namorar?
— Quero.
— Posso lhe dar um beijo?
— Pode.
— O que mais?
— Tudo o que você quiser.
Senti um calafrio. Tive uma inundação de testosterona (que
hoje sei chamar-se cetona esteroidal hidroxilada), ou seja, tesão, e,
com igual intensidade, um acesso de timidez. Mas, depois, soube que
o Tonho, filho do Zé do Eliazé, estava namorando a Iracema. Deixei
para lá.

3
Essas lembranças me distraíam mais do que qualquer
conversa em meu celular, que o guarda procurava. As coisas
mudaram, menos as cantadas dos jovens pelo telefone.
Olhei para a santa pendurada no retrovisor e descobri que ela
havia colaborado comigo para enganar o guarda. Estava, por simples
coincidência, cobrindo o discreto microfone pelo qual se falava ao
telefone móvel.
Pobre do guarda. Fora enganado em tudo. A santa também não
era Nossa Senhora Aparecida, embora a imagem fosse a mesma. Era
a Santa Preta da igreja da cidade de Einsledeln, cantão de Schwyz,
na Suíça alemã. Minha mulher comprara a pequena imagem e deu-
lhe a incumbência de me proteger. Dizem que a estátua de madeira
de Nossa Senhora ficou preta porque passou séculos recebendo a
fuligem das velas na igreja medieval daquela cidade suíça. As
gerações posteriores passaram a acreditar na Santa Preta. Os
franceses invadiram a Suíça e roubaram a imagem da santa. Não
respeitaram nem a neutralidade, nem a fé dos helvéticos.
Os suíços, naquela região, são extremamente católicos, e a
reação popular foi tamanha, que o governo francês mandou fazer
outra imagem igual e a entregou à igreja. Era de madeira, mas limpa.
Protestos gerais. Então, pintaram a imagem de preto. E fizeram
várias réplicas. Uma delas, dizem, foi trazida ao Brasil. Talvez seja a
que mais tarde foi encontrada no Rio Paraíba. Os historiadores estão
devendo essa pesquisa ao povo brasileiro. E mais: dizem que a
imagem original está hoje na Áustria.
Aí meu telefone tocou. Atendi. Era minha secretária, Dona
Dayse.
— Ele continua aqui, no escritório. O senhor ainda vai
demorar?
— Diga que estou chegando a São Paulo. Terei que enfrentar a
Marginal. Mas creio que dentro de uma hora estarei aí.
— Pelo amor de Deus, Dr. Saulo, venha logo, porque o homem
continua desesperado. Ele disse, em voz calma, mas muito firme, que
vai se matar. Nós estamos todas desesperadas, com medo de que ele
faça uma loucura no escritório.
— Avise que estou chegando.
O trânsito na Marginal Pinheiros movia-se a dez quilômetros
por hora, sem se importar com o homem que queria matar-se diante
de minhas secretárias. Lembrei-me da troca de cartas entre
Fernando Pessoa e Sá-Carneiro, que, em Paris, escrevia para o amigo
em Lisboa, anunciando que iria suicidar-se. Pessoa chegou a
escrever aquele célebre poema: “Se te queres matar, por que não te
queres matar?”.
O problema é que Sá-Carneiro se matou.

4
— Sua secretária informou-lhe a gravidade do meu problema?
— Não. Ela apenas me disse que o senhor falou em suicídio.
Isso, por si só, é grave. Qual o motivo dessa decisão?
— É verdade. Desculpe-me. Para ela, apenas disse que me
matarei, se o senhor não aceitar a minha causa.
— Posso fazer-lhe uma pergunta?
— Pode.
— Como o senhor se chama?
— Olavo Brás.
O desespero atropelara tanto aquele homem, que começou a
falar de seu problema sem se apresentar, pensando que minha
secretária soubesse de tudo sem ele haver contado nada. Estava
realmente atordoado. E eu ia travando um diálogo dramático com
um desconhecido. Olavo Brás, repetiu. Lembrei-me de Bilac, que se
chamava Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, verso alexandrino
perfeito, nome do poeta que sabia ouvir e entender estrelas, um tipo
de loucura lírica, mais tranqüila. Esse outro Olavo falava em
suicídio, tema diferente e traumatizante para mim.
— O senhor precisa explicar-me a gravidade do seu problema,
para que eu avalie a possibilidade de ajudá-lo.
O homem tinha no olhar o brilho típico do desespero, sem
lágrima, quase metálico, numa mistura de aflito e determinado.
Depois de muitos anos, a gente aprende a distinguir a linguagem dos
olhos. Há muita diferença entre os que fingem estar desesperados,
ou supõem que estão, esperando convencer o advogado ou comovê-
lo, e aqueles que realmente estão em situações que os atormentam,
uns com maior, outros com menor intensidade. Somente a
experiência capacita o advogado, que não é psiquiatra, a diferenciar
um tipo do outro.
Ali, na minha frente, estava realmente um homem em
desespero contido, mas forte, pedindo socorro. Olhava para os lados
e para trás, como se temesse a entrada de alguém na minha sala
fechada. Com a mão trêmula, tirou um cartão de visita e o estendeu
para mim. Li. Era presidente de uma empresa, da qual eu nunca
havia ouvido falar.
— Separei-me de minha mulher — começou ele — e ela ficou
com a guarda das crianças: um menino de nove anos e uma menina
de sete. Foi-me assegurado o direito de visita, e, duas vezes por mês,
eu podia passar o fim de semana com as crianças.
— Podia?
— Podia e não posso mais. Minha ex-mulher entrou com uma
ação para anular meu direito de visita e impedir-me de ver meus
filhos pelo resto da vida.
— Isso não existe! — disse eu sem querer, pois, em geral, não
faço comentário algum antes que o cliente conclua suas histórias,
por mais longas que sejam. Na advocacia, o sofá sempre começa
sendo divã. É preciso ouvir tudo, para depois separar as emoções
daquilo que possa merecer análise jurídica.
— Foi a mesma coisa dita pelo advogado que aceitou defender-
me nesse processo. O juiz havia dado uma liminar, impedindo, já de
início, que eu visitasse as crianças.
Narrou-me que o advogado, de posse de sua procuração, fora
ao fórum inteirar-se do problema. Ele ficara no escritório do colega,
esperando. Quando o advogado chegou, contou-me ele, foi
imediatamente “para cima de mim”, que estava sentado no corredor
e, aos gritos, disse:
— O senhor ponha-se daqui para fora. Não aceito sua causa e
já renunciei à procuração logo depois que examinei a prova dos
autos. O senhor é um monstro! — Entrou em sua sala e bateu a
porta. Fiquei apavorado. Nunca podia supor que isso aconteceria
entre cliente e advogado recém-contratado. Ao menos uma
explicação. Creio que eu teria direito a uma explicação!
Conheço o advogado que ele contratara. De excelente conceito
profissional, colega amável e, pelo que eu sabia até aquele momento,
dedicado a seus clientes, batalhador. Não era do tipo explosivo que
acabara de ser descrito pelo homem que ia suicidar-se, caso me
recusasse a aceitar sua causa.
Nesse momento, como não era de estranhar, veio a crise de
choro. A determinação inicial e fria de seu olhar desabou. O homem
caiu em extremas convulsões, soluços profundos. Eu mesmo, para
não constrangê-lo com a presença de minha secretária, fui buscar
um copo de água com açúcar e uma toalha de rosto. Pensei, então,
comigo que algo de muito sério estava para me ser dito, caso ele não
sofresse um enfarto durante a crise de choro convulsivo que durou
uma eternidade.

5
Particularmente, tenho repugnância em ouvir falar de suicídio.
Quando morava em Santos, nos meus tempos de jornalismo, uma
jovem muito bonita namorava um amigo meu, que se hospedava na
casa dela, pois sua mãe alugava quartos para “rapazes solteiros de
boa família”. Alugou um quarto, e não deu outra: namoro.
Um dia, avisaram-me que a moça havia se suicidado. Tomara
formicida. Notícia traumática. Resolvi ir ao necrotério, onde estava
sendo velada, pois conheci sua mãe, mulher que fazia grandes
sacrifícios para a filha estudar, vestir-se bem, ser educada. Não
podia deixar de ser solidário e dar um apoio àquela senhora, sempre
muito amável comigo, quando ia a sua casa visitar meu amigo. Ao
chegar ao velório, levei um susto. Dois parentes da moça vieram para
cima de mim, desferindo golpes com seus guarda-chuvas (em Santos
quase sempre chovia) e, aos gritos, acusando-me de ser o culpado
pela morte da jovem. Tive que sair correndo com a máxima
velocidade que os vinte e poucos anos me permitiam. Fiquei
atordoado. É horrível sofrer agressão física e moral e ser acusado,
aos berros, de algo tão maluco como aquilo. Tudo se passou muito
rápido, de forma estarrecedora; mas foi a primeira e terrível sensação
de injustiça que senti. Que sufoco!
Depois, fiquei sabendo que a moça confidenciara a uma colega
ser apaixonada por mim e iria tomar um pouquinho só daquele
veneno, para chamar atenção sobre seu drama de amor. O
pouquinho só lhe causou a morte. A colega contou para a família que
o gesto extremo fora praticado por minha causa. Daí a confusão geral
e as guarda-chuvadas que tomei no velório. Situação insólita e
ridícula. Procurei meu amigo que, terminando o namoro, se mudara
de lá, antes da tragédia. Ele me assegurou que jamais notara nada.
Que a tal “paixão” por mim, se verdadeira, ficara bem dissimulada
enquanto ele era o namorado. Mistérios da juventude, dramas da
alma.
Como jornalista, já comecei a profissão sob o impacto do
suicídio de Getúlio Vargas, que alvoroçara a redação de A Tribuna de
Santos, naquele dia fatídico de agosto de 1954. Episódio triste e
chocante de uma de nossas muitas crises políticas. Um fato nada
tinha a ver com o outro, mas suicídio era assunto que passara a me
horrorizar. Como alguém pode condenar-se à morte e ser o próprio
carrasco executor de tão drástica sanção? O suicida não dá direito de
defesa a sua vítima — ele próprio — quando está ausente, isto é, fora
de si. Creio que, na história da humanidade, o único suicídio
tolerável de que se tem notícia foi o de Hitler. Automerecido. Mesmo
porque Hitler não fazia parte da humanidade.
Com essas idéias mórbidas sobre suicídio, resolvi participar de
algo que me acenava com a imortalidade: fundar a Academia
Santista de Letras.5

6
Depois de um longo suspiro, o homem, ainda em soluços,
continuou:
— Perdi a paciência, entrei na sala do advogado e, também aos
gritos, pedi explicação. Disse-lhe que eu tinha direito de saber por
que ele abandonava minha causa e ainda me xingava de monstro.
Soluçando menos, contou que o advogado se dispusera a
explicar e lhe dissera ter ouvido uma gravação em fita cassete, que
era uma excrescência. Falara que as crianças tiveram suas vozes
gravadas contando para a mãe, em detalhes, que o pai praticava com
elas atos obscenos, sexo oral e mantinha relações sexuais com sua
amante na frente delas, convidando-as a tirar a roupa e a deitar-se
com o casal. Eram submetidas a carícias e outras barbaridades.
— Tudo gravado, doutor! Com as vozes delas!
— Como o senhor tem certeza de que são delas as vozes?
— Depois que o advogado me disse, fui ao fórum. Quando me
identifiquei, os funcionários quase me lincharam. Segredo de
Justiça? Todos sabiam. O escrivão não queria deixar-me ouvir a fita.
Dizia que não havia aparelho para tocá-la naquele instante. Nesse
momento, o juiz estava saindo para ir embora. Eu gritei para ele:
— Doutor, é mentira. Tenho o direito de ouvir essa maldita fita!

5 Comigo fundaram a Academia Santista de Letras, Álvaro Augusto Lopes, Archimedes


Bava, Cid Silveira, Clóvis Pereira de Carvalho, Durval Ferreira, Edmundo Amaral,
Jaime Franco Rodrigues Junot, Maria José Aranha de Rezende, Mariano Laet
Gomes, Monsenhor Primo Viera e Nicanor Ortiz. O aceno da imortalidade foi ilusão.
Todos morreram. Resto eu com a pergunta incômoda: quando?
— Quem é esse senhor? — perguntou o juiz ao escrivão.
— Aquele cujo direito de visitas Vossa Excelência suspendeu
em liminar.
— Por que o senhor não contrata um advogado?
— Contratei, e ele veio aqui, ouviu a fita, desistiu de minha
causa e ainda me chamou de monstro.
— Para encurtar a conversa — continuou ele —, o juiz me
olhou com certo nojo, mas autorizou o escrivão a permitir-me ouvir a
fita. Doutor, eram as vozes das crianças. Autênticas. Eram elas
contando aquelas obscenidades. Não sei como fizeram isso com elas.
Meus filhos, minhas crianças, falando aquelas coisas horríveis e
falando de mim, dizendo que as forçara a fazer aquilo.
Àquela altura, já não era somente o homem que estava
abalado. Eu mesmo, que, ao longo de minha vida profissional, já
ouvira e vira tanta coisa inexplicável, estava chocado com a história.
Agora entendia por que meu colega se recusara a continuar na
causa. Sua formação moral não tolerava um fato como aquele.
Faltou-lhe, porém, a dúvida: era verdade? Todo acusado
merece, de início, o benefício da dúvida.
O homem em minha frente concluiu:
— Por isso, doutor, se o senhor não aceitar minha causa, não
tenho outra forma de provar minha inocência, a não ser escrever
uma carta dizendo ser tudo mentira e, em seguida, suicidar-me. Não
posso viver com essa carga e não quero que meus filhos cresçam
convivendo com essa mãe maluca, que as faz contar essas safadezas
que elas nem conhecem. São crianças puras, ainda inocentes. O mal
maior não está na acusação; está no fato de despertar na cabeça
delas esses atos obscenos.
Dito isso, ficou em silêncio, olhando para mim. Um mudo
pedido de socorro, que entendi como não sendo para ele, mas para
os filhos. No fundo de minha alma, senti que o homem não era
culpado.
Aceitei a causa e impus, como primeira condição, o banimento
da idéia de suicídio. Não fosse a gravidade da situação, eu lhe teria
dito algo de comédia cinematográfica: se você se suicidar, eu te mato.
Mas retive a piada. Previ que a luta seria árdua, e ninguém poderia
cogitar de fuga. Morto, o que poderia fazer pelos filhos? Aí, sim, é que
a mãe, por ele chamada de maluca, iria educar as crianças e sobre
elas influir pelo resto da infância e da juventude. Não se falaria mais
em suicídio. Nunca mais. Nada de deserção da vida, mesmo que ela
seja “un oignon q’on épluche en pleurant”.6

7
Fuga e deserção também me traumatizavam. Jornalista com
alguma experiência, advogado recém-formado, meu primeiro cargo
“político” foi como oficial de gabinete do Presidente Jânio Quadros
em Brasília, ano zero, isto é, ano inaugural, 1961. Deus, como passa
o tempo! E como se alteram as gentes e os natais. Pelé não joga mais
futebol, e o próprio futebol quase acabou. Restaram apenas
cusparadas, muita porrada, campeonatos fraudados. Ou um
presunçoso como Carlos Alberto Parreira, que se passa por técnico e,
na sua incomensurável teimosia e ignorância, fez, em 2006, 180
milhões de brasileiros chorarem pela segunda vez diante da França,
com uma seleção de velhinhos prontos para o asilo. Até o segredo de
Watergate, do Washington Post, não existe mais: já se sabe quem é o
“Garganta Profunda”: o vice-diretor do FBI, Mark Felt. Conseguiu a
renúncia de Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos, por
informações passadas a jornalistas. E esses guardaram o segredo da
fonte durante trinta anos. “Garganta Profunda” era um filme pornô
da época. A política norte-americana é um filme pornô até hoje.
Henry Kissinger, ex-chanceler dos Estados Unidos, bem conceituou o
problema de sua terra, ao dizer: “Cerca de 90% dos políticos
existentes dão aos 10% restantes uma péssima reputação”.

6 “A vida é uma cebola que se descasca chorando”. Armand Masson.


Jânio chamou-me em seu gabinete e, entregando-me dezenas
de anotações, deu a ordem do dia:
— Estude tudo, com atenção. E, amanhã, vá para Porto Alegre
preparar a reunião de governadores, que realizarei na capital gaúcha.
Fique de olho no governador Leonel Brizola. É um político
complicado, que não gosta de paulistas.
No dia seguinte, sexta-feira, 25 de agosto, tomei, cedinho, um
avião para São Paulo. Aproveitei para marcar um almoço com a
família. O vôo para o Sul sairia no fim da tarde. Meu velho pai ainda
acreditava na salvação do Brasil pela lavoura (hoje chamada de
agronegócio), e não da lavoura pelo Brasil. Cafeicultor teimoso,
abarrotava-me de conselhos sobre o que deveria ser feito em favor do
café, responsável por mais da metade dos parcos quatro ou cinco
bilhões de dólares de nossas exportações. Mas, naquele dia, o almoço
gorou. Quando cheguei ao aeroporto, havia um oficial militar me
esperando com instruções para cancelar a viagem a Porto Alegre.
Deveria eu pegar José Aparecido de Oliveira, secretário particular do
Presidente, que estava num hotel na Rua do Arouche (até hoje não
sei o que ele fazia lá), convocar o Castro Neves, Ministro do Trabalho,
e irmos todos para a base aérea de Cumbica. Dadas as ordens, o
oficial me cochichou, em tom absolutamente reservado:
— O Presidente renunciou.
Liguei o rádio do carro. Chiava muito. Creio que ainda era à
válvula. Mas todas as estações transmitiam, nas vozes de locutores
aflitos:
— Jânio Quadros acaba de renunciar à Presidência da
República. Auro de Moura Andrade pede que deputados e senadores
permaneçam em Brasília e convida para voltar os que já viajaram.
Convocada sessão extraordinária do Congresso Nacional!
Disse ao oficial que podia falar normalmente. Era
desnecessário cochichar. O segredo tornara-se público. José
Aparecido de Oliveira, Castro Neves e eu fomos para Cumbica. No
trajeto, lembro que José Aparecido exclamou: “O chefe só sabe um
jeito. Toca tudo à base de renúncia!”.
Para os que não se lembram, a ironia referia-se à renúncia à
candidatura em plena campanha eleitoral. Depois de renunciar à
renúncia da candidatura, Jânio fora eleito com esmagadora votação
contra o Marechal Lott, que Juscelino, sob coação, lançara
candidato. Durante a campanha, diziam que o marechal era homem
culto, falava vários idiomas. Jânio não se perturbava e, com a
irreverente ironia de sempre, dizia: “Com essas qualidades, pode ser
candidato a porteiro de hotel. Militar no governo? Jamais. Somente o
velho De Gaulle, herói de guerra, que, depois de renunciar, voltou ao
poder nos braços do povo”.
Em Cumbica, a agitação era enorme. Havia um ajudante-de-
ordens do Presidente, major do Exército, que, reservadamente,
chamava os mais íntimos para um canto. Abrindo a túnica e a
camisa, mostrava a faixa da Presidência da República, que havia
escondido e colocado em si mesmo. Coisas do inconsciente. Lembro
que insistimos com o major para devolver a faixa. Estava irredutível e
disse que somente devolveria com ordem do chefe. O chefe, porém,
não sabia da história da faixa. Desistimos. A confusão era muita,
para nos preocuparmos com a faixa e com o major.
O debate entre os grandes, contudo, concentrava-se nos
aspectos jurídicos da renúncia. Eu não era ouvido, mesmo porque
em Direito não tinha qualquer autoridade. Como advogado, era
calouro, a despeito de haver trabalhado no escritório do mestre
Vicente Ráo, de onde saíra para Brasília no ano zero.
A tese de Pedroso Horta, Ministro da Justiça, que se mantinha
em Brasília no meio da confusão política, era ingênua: o Congresso
deveria deliberar sobre a renúncia, aceitando-a ou rejeitando-a, como
se fosse um pedido de demissão de servidor público. Horta esperava
que, durante os debates, o povo viesse às ruas clamar pela rejeição
do “pedido”. Jânio então repetiria o “fico” de D. Pedro, com algumas
pequenas exigências, pequeninas — reforma constitucional,
competência para o Presidente da República legislar por meio de
decretos-leis e outras miudezas institucionais, as quais, tempos
depois, o Brasil teve de engolir a força.
Não se pode julgar o entendimento de Pedroso Horta com
muita severidade. Se o sistema brasileiro considera a renúncia como
manifestação de vontade unilateral, bastante em si mesma, na
América Latina nem sempre é assim.
Na Bolívia, a renúncia do Presidente da República é submetida
à aprovação do Parlamento, o que acaba, quando rejeitada, em voto
de confiança. Coisa de parlamentarismo. Extravagâncias da
latinidade. Mas, naquele país vizinho, o povo resolveu ouvir a voz da
maioria indígena, oprimida desde o descobrimento, e elegeu um índio
aimará para Presidente da República. Evo Morales é a volta de Tupak
Katari,7 e vamos torcer para que faça o país dar pelo menos dois
passos para a frente. Começou tomando a Petrobrás e, com o auxílio
de Hugo Chávez, da Venezuela, enrolou completamente a cabeça do
Lula, se é que ele a tem. Se o petróleo é nosso, a Petrobrás também
é. Com todo o seu esquerdismo, Lula acabou entreguista, porque
entregou bens brasileiros aos bolivianos. Ser entreguista não é
entregar apenas aos norte-americanos, mas aos estrangeiros em
geral, mesmo que pobres. Se for para emprestar a Deus, que se dê
aos pobres brasileiros, tão nossos como o petróleo.
Evo Morales convocou uma Constituinte claramente derivada
da Constituição vigente, pela qual ele próprio foi eleito. Os membros
da Constituinte decidiram transformá-la em originária e
fundamental, ou fundante. Bobagem perigosa por ser golpe
assemblear de Estado.
É a América Latina.

7 Tupak Katari, líder indígena boliviano, comandou, no século XIX, um cerco à cidade
de La Paz, tentando uma revolução contra a opressão sofrida pelo seu povo. Foi
preso e amarrado a dois cavalos, postos para correr em direções contrárias. Seu
corpo foi partido em dois pedaços. Quando estava sendo preso aos cavalos, gritou
que voltaria e que seria milhões. Evo Morales pretende ser a reencarnação de Tupak,
com uma força a mais: é cocaleiro, lidera os cultivadores de coca. Na briga com o
Brasil, parece que afinou, não por temor ao governo brasileiro, mas porque os
traficantes do Rio de Janeiro ameaçaram importar somente da Colômbia. Índio quer
pipoca!
A Constituição do Peru, em 1992, ainda conservava o art. 307,
proibindo o golpe de Estado e, com romântica ingenuidade, dizendo
que, na hipótese de ser violada a democracia, todos os atos de uma
provável ditadura são nulos e, quando restabelecido o regime de
liberdades, os ditadores e seus colaboradores devem ser severamente
punidos. Pode?

Passei a entender por que Jânio tanto falava em De Gaulle, que


renunciara à chefia do Governo da França e voltara aclamado pelo
povo, impondo uma Constituição nova, aprovada em plebiscito, e não
pelo Parlamento. E mais: escrita todinha pelo genial jurista Debret. O
êxito do velho marechal francês fascinou os políticos de sua geração.
Quando Jânio foi eleito, fazia apenas dois anos que De Gaulle voltara
ao poder, depois de uma renúncia espetacular. A diferença consistia
em que De Gaulle, entre a renúncia e a volta, levara seis anos. E
Jânio quis conseguir resultado semelhante em seis horas.
Mesmo sem ser chamado, meti-me na discussão e, claro,
igualmente emocionado, como todos se achavam naquele instante,
expliquei nervosamente e em voz alta, quase aos gritos, que renúncia
de mandato eletivo em nada se comparava com pedido de demissão
de servidor público. Era pessoal, ato autônomo de vontade,
unilateral, renúncia de mandato, igual à renúncia de procuração que
o primeiro advogado do Sr. Olavo Brás fizera para abandonar sua
causa.
E a renúncia da Presidência da República entregue ao
Congresso Nacional constituía apenas uma comunicação de
afastamento definitivo do cargo, para que não se caracterizasse o
abandono. A partir daí, aplicava-se o processo constitucional de
substituição. O substituto era João Goulart. Estava na China. O
cargo seria, então, assumido interinamente pelo presidente da Câ-
mara, Deputado Ranieri Mazzili, até que o Vice-Presidente voltasse
ao território nacional e fosse empossado.
Fui fuzilado por muitos olhares. Então, sugeri que ouvissem o
professor Vicente Ráo. Jânio mandou consultar o mestre. E conferiu.
O advogado calouro tinha razão, o que, aliás, não chegava a ser
grande proeza jurídica, pois era o óbvio em Direito Constitucional.
Logo a seguir, a teoria funcionou na prática: Auro de Moura
Andrade, presidente do Congresso Nacional, cumpriu a Constituição,
declarou extinto o mandato de Jânio, deu posse a Mazzili para o
exercício interino da Presidência da República. O resto todo mundo
sabe.
Jânio, ainda em Cumbica, pediu-me para providenciar uma
passagem de navio para a Inglaterra, de preferência num cargueiro
modesto, que tivesse cabine de passageiro. Passei a missão para
Oswaldo Martins, líder sindical em Santos, e para Mário Covas,
meus companheiros do movimento janista naquela querida cidade
marítima. Providenciaram. Embarque alguns dias depois. Enquanto
isso, Jânio ficaria na casa de um amigo no Guarujá.
Ao nos despedirmos, ainda em Cumbica, perguntei-lhe se
podia fazer uma última sugestão. Qual?
— Mande o major devolver a faixa!
Aos gritos e broncas, deu sua última ordem ao ajudante
militar, acusando-o de estar tramando um ridículo golpe de Estado.
Acabamos, nós que assistíamos à cena, sentindo pena do ajudante-
de-ordens. Anos depois, instalada a ditadura, Jânio foi cassado. Fui
visitá-lo, em gesto de solidariedade. Lembramos daquela passagem
em Cumbica. E ele me disse:
— Foram buscar a faixa de volta, com uma diferença. Em
1961, houve uma tentativa de furto por parte de um oficial. Agora,
consumou-se um roubo à mão armada. Você acha que eu tive culpa?
— Mais ou menos — disse eu, que estava ali para confortar um
amigo com os direitos políticos cassados.
— Mas você é testemunha de que eu mandei devolver a faixa!
Por isso me cassaram. Foi vingança do major.
— Nada disso, meu caro. Você, que é formado em Direito, mas
não advoga, confiou na solução do Horta, que jurava por Deus ser
necessária a aprovação do Congresso no caso de renúncia do
Presidente da República. Veja o que pode causar um erro de
advogado.
— Mas o Pedroso Horta é um excelente advogado.
— É. Creio ser um dos melhores advogados criminalistas do
país. O problema, porém, é o Direito Constitucional, no qual a
maioria dos criminalistas fica apenas em habeas corpus e no direito
de ampla defesa.
Desde aquela época, tenho muito medo ao ver um colega,
advogado criminalista, no Ministério da Justiça. E torço para que
não tenha de resolver questão de alta relevância institucional.

Meu cliente, Olavo Brás, esperava que a procuração fosse


datilografada, enquanto eu divagava nas memórias provocadas pela
idéia de suicídio e por lembranças da renúncia de Jânio Quadros.
Minha secretária estendeu-lhe o papel, ele assinou, e ela indagou
onde poderia reconhecer sua firma.
Quando ia sair, perguntei-lhe:
— O senhor já ouviu falar de Sofocleto?
— Não. Quem é?
— Um escritor espanhol que nos deixou a seguinte frase,
bastante curiosa: “Gostaria de suicidar-me, mas é muito perigoso”.
Ele sorriu e foi embora.

8
Fui pessoalmente ao fórum e pedi vista dos autos fora de
cartório, devidamente autorizado pelo juiz, um jovem muito correto,
inteligente e de impecável formação humana e jurídica. Já o conhecia
havia tempos e o admirava. Falamos um pouco sobre o caso.
— Seu cliente — observou ele — disse que o outro advogado
renunciou ao mandato. Duvidou de sua inocência?
— Não sei. Ficou chocado ao ouvir a fita — respondi. — E a
mim disse que, se eu não aceitasse sua defesa, ele se mataria.
— Não me diga! E o senhor sentiu-se coagido?
— De forma alguma. Vou estudar o processo e depois me
manifestar para apreciação de Vossa Excelência. Ainda me restam
alguns dias de prazo. Aceitei a causa porque acredito sem hesitação
na inocência dele.
— Doutor — disse o juiz —, deixe a sustentação oral para os
debates. Por enquanto, vou apenas deferir seu requerimento para
retirar os autos, levando as fitas anexadas. Cuidado com elas,
embora tenhamos cópias no cofre do cartório.
— E estas anexadas aos autos são as cópias ou as originais?
— Já começou a questionar a prova? São as originais. Boa
sorte.
Saí de lá como velho advogado, carregando eu mesmo o
processo, que ainda não era volumoso. Durante boa parte de minha
vida profissional, fiz isso, não me utilizando dos serviços de
funcionário para o transporte dos autos, salvo quando eram muitos
volumes. Não era fácil vir da Praça João Mendes até a Rua Sete de
Abril, do outro lado do Viaduto do Chá. Além de a distância ficar
maior com o passar dos anos, em épocas mais recentes começaram a
surgir os trombadinhas. De quando em vez, eu era sorteado por um
ou dois deles.
Os assaltos tinham formas variadas. Havia os que vinham
correndo e enfiavam a mão nos bolsos dos passantes com uma
rapidez incrível. Conseguiam enfiar as mãos nos dois bolsos da
calça, e ainda sobrava para o bolso interno do paletó. Tudo em
segundos. Havia aqueles que vinham de frente correndo, trombavam
com a gente e fugiam. No chão, éramos socorridos pelos que
enfiavam as mãos nos bolsos, faziam a limpeza e corriam. Depois,
passava um que parecia o auditor da operação, perguntando se
haviam levado muitos valores e quanto.
— Dez mil dólares — respondi, como um repentista, ao
“auditor”, que se mostrou espantado e feliz ao mesmo tempo. —
Havia acabado de trocar no banco, porque vou viajar hoje. Dez mil
dólares! Veja que prejuízo!
Como não era verdade, alguém, naquele submundo, deve ter
sofrido no acerto de contas. Espero que não tenha sido assassinado.
— O senhor não irá mais sozinho ao fórum — foi o veredicto
dos meus companheiros de escritório.
Minha mesa de trabalho estava lotada de processos. Todos com
prazo a cumprir. Abri um espaço e comecei a ler o processo do meu
quase-suicida. A petição inicial era obra de demolição moral do meu
cliente. Ouvi a fita. O impacto foi maior do que aquele sofrido na rua
pelo assalto dos trombadinhas. Chamei meus estagiários e comecei:
— Quero que levantem tudo sobre a vida dessa mulher. Tudo:
a que horas acorda, o que toma no café-da-manhã, com quem ela
sai, as amigas, os amigos, o que ela faz, o que ela lê, o que ela pensa.
Quero tudo sob a coordenação do Dr. Nerval. E convoquem o Sinval
para amanhã de manhã.
Sinval era um exímio perito, policial aposentado e, dentre suas
várias especialidades, era muito bom em examinar gravações de
vozes. Tinha um aparelho, leitor de espectro, que mostrava em verde
as ondas sonoras das vozes, a curva senoidal, os mínimos incidentes
ocorridos com o processo de gravação de áudio. Detectava tudo, sons
de primeiro, de segundo e até de terceiro plano. .
Minha secretária veio avisar a chegada de uma senhora, que
havia marcado uma entrevista com antecedência. Recebi-a.
— Doutor, tenho um problema muito sério: meu ex-marido
acaba de me tirar a guarda de meu filho.
— Por quê?
— Gravou minhas conversas pelo telefone com alguns
namorados meus, e o advogado dele usou isso para demonstrar que
eu não tenho idoneidade para educar meu filho.
Ah! Meu Deus! Hoje não é meu dia. Com voz calma, movido por
um idiota impulso impensado, indaguei:
— A senhora não está pensando em se matar, não?
— O que é isso, doutor? — respondeu com um ar de espanto,
creio que duvidando de minha sanidade mental. — Não, senhor!
Quero meu filho de volta.
Chamei à minha sala meu colega Paulo de Tarso Santos,
excelente advogado com predileção pelo Direito de Família, que
estava com todo o pique para trabalhar.
— A senhora vai ser atendida pelo Dr. Paulo de Tarso,
especialista em Direito de Família. Conte tudo a ele. Não esconda
nada.
Saíram.

9
Paulo houvera militado na política, fora deputado federal,
prefeito de Brasília no Governo Jânio Quadros, Ministro da Educação
no Governo Jango Goulart e, na ditadura de 1964, seus direitos
políticos foram cassados. Exilou-se no Chile.
Vicente Ráo, dono do escritório, nosso chefe e mestre no
Direito, um dia, em pleno regime militar, recebeu um pedido do
ditador de turno, o General Costa e Silva. Precisava de orientação
para estender a soberania marítima brasileira para duzentas milhas
marítimas, porque já haviam descoberto a existência de imensas
jazidas de petróleo na plataforma litorânea. Era tradição histórica a
soberania das nações no limite de três milhas marítimas (cada milha
equivale a 1.852 metros), o alcance de um tiro de canhão a partir do
litoral. Isso valeu até o início do século XX. Depois foi resolvido
estender o tiro de canhão para doze milhas, em razão de conflitos em
torno da pesca. Foi quando tivemos a Guerra das Lagostas contra os
pescadores franceses.
Na ONU, uma interminável discussão sobre a Convenção das
Nações Unidas quanto aos Direitos do Mar estava sendo
vagarosamente travada desde 1950, com muitas complicações. Uma
delas era o reconhecimento da zona econômica exclusiva de duzentas
milhas, sem se confundir com mar territorial. E havia uma enorme
resistência das nações mais poderosas à alteração daquele limite ou
à introdução de novidades, porque elas pretendiam, é claro, ter o
direito de extrair petróleo dessas plataformas continentais, enquanto
consideradas internacionais. E essas plataformas, hoje se sabe, vão
muito além das duzentas milhas.
Por uma dessas ironias do destino, o Professor Ráo era amigo
do General Costa e Silva, conhecimento travado em São Paulo,
quando o militar fora comandante do Segundo Exército. Falo em
ironia, porque a inteligência de um não combina com a mediocridade
do outro; mas essas coisas acontecem. Quando Costa e Silva foi
“eleito” Presidente da República, pediu ao Professor Vicente Ráo que
escrevesse seu discurso de posse, transmitido pela televisão. A cada
trecho que o público presente à solenidade aplaudia, Ráo, que
assistia em sua casa à transmissão, levantava-se da cadeira e fazia
uma mesura, agradecendo. Além de gênio, era um gozador.
O problema agora era a soberania marítima, e não mais o
discurso. Ráo estudou o caso, e a solução foi o Governo nomeá-lo
presidente da Comissão Jurídica Interamericana, órgão da OEA —
Organização dos Estados Americanos —, com sede no Rio de Janeiro.
Bagunçou nosso escritório, pois passamos a trabalhar todos em
pesquisas sobre o assunto. Ficamos sem o chefe por muito tempo.
Tivemos que fazer pesquisas intermináveis. Não havia Internet, nem
computador, nem o Google. O trabalho era feito na “enxada”,
cavoucando nos livros, arquivos, jornais velhos, bibliotecas. Mas
achamos um precedente: a Inglaterra havia estendido sua soberania
para cento e cinqüenta milhas numa ilha qualquer, não me lembro
mais onde, dentre tantas que o Império Britânico tinha pelos mares
do mundo, creio que no Oceano Índico. Com isso, Ráo conseguiu
obter, depois de trabalhar membro por membro da Comissão, uma
declaração que proclamava ser legítimo o direito de estenderem as
nações americanas sua soberania para além das doze milhas. E
ainda fez uma ressalva: “desde que não colidisse com nações
próximas”, caso de Cuba, próxima ao México e aos Estados Unidos.
Aprovada a declaração por unanimidade dos embaixadores
membros da OEA, o embaixador do México quis recuar, porque
estaria contrariando seu país, cuja Constituição fixava em 12 milhas
a soberania mexicana em seus mares. Ráo convenceu o nervoso
embaixador de que a declaração era de princípios e de que ele estaria
apenas sendo um homem de vanguarda na futura reforma da
Constituição de seu país. Sossegou a fera.
A essa altura, Costa e Silva já havia saído do Governo, e o novo
Presidente da República era o General Garrastazu Médici.
Editada a declaração da Comissão Jurídica Interamericana,
passou-se a ter o ato de um organismo internacional que
legitimamente autorizava a alteração da extensão da soberania
marítima. Médici baixou o Decreto-Lei nº 1.098, de 25 de março de
1970, que estendeu o mar territorial do Brasil para duzentas milhas,
“a partir da linha da beira-mar do litoral continental e insular
brasileiro”. Nada de esperar a ONU e a convenção sobre zona econô-
mica exclusiva. Foi-se direto para as duzentas milhas de mar
territorial. Estava incluída a ilha de Fernando de Noronha.
Alargamos nossas fronteiras pelo mar afora. Ninguém declarou
guerra ao Brasil.
Logo em seguida, o General Médici ligou para o Professor Ráo.
A ligação foi feita pelo Ministro e Chanceler Vasco Leitão da Cunha.
E Médici disse ao jurista e advogado que seu serviço, prestado à
pátria, era inestimável, não havia honorários que o pagassem.
— Há, sim senhor — respondeu o professor. — Tenho um ex-
aluno exilado no Chile, com família grande, filhos, que precisa voltar
ao Brasil. O nome dele? Paulo de Tarso Santos.
Tempos diferentes aqueles da ditadura. Todos os processos
foram arquivados. E Paulo voltou. O irmão dele, Maurício Santos,
trabalhava no escritório. Era um ótimo companheiro. E, com a
mineiridade de ambos, foi fácil encaixar o Paulo na equipe. Passou a
trabalhar conosco. Felicidade geral. As duzentas milhas de nosso
mar territorial deram-nos um excelente colega de trabalho, além de
darem ao Brasil ricos poços de petróleo na plataforma marítima. Mas
houve complicação. E que complicação!

10
Passou o tempo, e Gama e Silva, ex-Ministro da Justiça,
responsável pela edição do AI-5, voltou da Embaixada do Brasil em
Portugal, para onde fora nomeado na troca de ditadores. Prêmio
pelos relevantes serviços. Também havia sido aluno do Professor
Ráo. Não deu outra: pediu ao mestre para trabalhar uns tempos no
escritório, até voltar a ter condições de reabrir sua própria banca.
Ráo chamou-me e decretou:
— Arrume uma sala para o Gama. Ele vai trabalhar conosco.
Fiquei em pânico. Nada poderia causar-me tanto desespero. O
autor do ato mais autoritário da ditadura viria para o nosso
escritório? E nós, que escrevemos tanto contra a ditadura em nossas
razões em quase todos os processos! Eu iria enlouquecer! No sufoco,
respondi:
— Não temos sala, professor — sem muita esperança de ser
ouvido. — Todas estão ocupadas com dois advogados em cada uma,
salvo a minha e a do Paulo de Tarso, que é muito pequena.
— Ponha o Gama junto com o Paulo.
— Mas, professor, pelo amor de Deus, o Gama cassou os
direitos políticos do Paulo. Como vamos juntar cassador e cassado
na mesma sala?
— Aqui no escritório não existe política. Não me interessa o que
cada um deles fez no passado recente ou remoto. Aqui se trabalha
em advocacia e se cultiva o Direito. É isso que os dois têm que fazer.
Ponha-os na mesma sala.
E assim foi feito. Deram-se bem. Um dia, o Gama perguntou ao
Paulo:
— Você não recebe pensão de deputado cassado?
— Não. Isso existe?
— Claro. Você não sabe que, pressionado pelos militares para
efetuar as cassações, eu criei a pensão para os cassados? Era uma
forma de minorar as conseqüências da perda dos mandatos. Você me
passe uma procuração, que eu mesmo vou requerer a pensão. Será
mais rápido. Ainda conheço muita gente por lá.
— Agradeço a informação, meu caro Gama — respondeu o
Paulo. — Mas procuração não passo.
Como advogado, o ex-ministro começava bem em nosso meio,
ao dizer “pressionado pelos militares...”.
Um outro colega, Maércio de Abreu Sampaio, disse-me, não sei
se por ingenuidade ou mordacidade:
— Temos que acreditar. Não podemos duvidar de um
companheiro de trabalho.
Acabou sendo um dos grandes amigos do filho do ex-ministro,
Luiz Antônio Gama e Silva Filho, que também trabalhou no escritório
e se tornou um excelente profissional, orientado pelo próprio
Maércio. Sem política.

11
Saindo do escritório, na Rua Sete de Abril, ao fim do
expediente, eu ia para o Prédio do Zarvos, na esquina da Rua São
Luís com a Consolação. Ali ficava o estacionamento onde todos
guardávamos nossos carros. Costumávamos ir juntos, advogados e
estagiários, não apenas pelo papo durante o trajeto, mas para evitar
trombadinhas.
Paulo de Tarso me perguntou sobre o caso do Olavo Brás.
— Vai ser duro. Já li o processo. Depois convocarei uma
reunião para discutirmos. — E devolvi:
— E o caso da mulher que perdeu a guarda do filho?
— Creio ser mais preconceito do que direito do pai. A mulher
tem realmente uma vida discutível, mas fora de casa. Sai para suas
aventuras ou romances. Em casa, tem empregada, e ali, segundo
apurei, comporta-se bem. Não exerce, assim, nenhuma influência
maléfica na educação da criança. Vamos precisar de uma prova
testemunhal muito forte.
— Não será difícil convencer juizes e desembargadores, todos
bem nascidos e com boas famílias, de que o filho de puta também
tem direito a mãe.
Paulo dava risadas com os meus nomes feios. Ele era incapaz
de dizer palavrão. Ao nosso lado, ia o colega Nerval Ferreira Braga,
grande amigo dele do tempo de infância, aquele que era delegado de
polícia aposentado e tinha sido Delegado Geral do Estado de São
Paulo. Trabalhava conosco por indicação do próprio Paulo. Nerval
interveio no diálogo:
— Quem mais pode amar o filho da puta do que a mãe que o
pariu?
Foi demais para o Paulo.
— Vocês são uns bocas-sujas incorrigíveis.
Chegamos ao estacionamento. Paulo pediu seu carro. Nerval e
eu fomos ao restaurante Paddock, no mesmo andar do
estacionamento, onde tomávamos nosso uísque de aperitivo antes de
ir para casa. Às vezes, encontrávamos ali o Zé do Pé, boêmio
paulistano famoso nas noitadas da capital.8 Naquela noite, ele estava
lá:
— Dr. Saulo — disse-me ele, quando entrei, levantando-se de
sua mesa, como sempre, rodeado de boêmios. — O senhor é um
advogado fantástico. Vendi uns bois de um sujeito, fazendeiro rico,

8 José Paulo Freire.


que não me quis pagar a comissão. Fui dormir aborrecido e sonhei
que devia consultar o senhor e, em sonho, consultei. O senhor me
aconselhou a conversar com o sujeito, levando dois amigos que
servissem de testemunhas. Acordei, segui seu conselho, e o sujeito
confirmou tudo na frente dos meus amigos; mas insistiu em dizer
que não pagava a comissão, porque não tinha contrato.
— E daí?
— Daí, mandei um amigo comum dizer a ele que cobraria a
comissão em juízo, que eu tinha as duas testemunhas e que o
senhor seria meu advogado. E ele pagou.
— E meus honorários, você vai pagar? — perguntei de
brincadeira.
— Fique tranqüilo — respondeu ele, convidando-nos a sentar.
— Na próxima vez que sonhar, eu pago.
Mas Nerval e eu fomos para outra mesa do restaurante.
Precisava que meu colega, ex-delegado de polícia, entrasse no caso
do Olavo Brás. Para isso, ele contaria com a ajuda de seu inseparável
companheiro Carlos Edson Strasburg, nosso colega de escritório,
que, apesar do nome pomposo de jurista austríaco, era chamado de
Casé.
Eu queria dos dois uma investigação completa: vida do casal
antes da separação, período posterior, comportamento de ambos.
Nós mesmos teríamos que descobrir quem poderia testemunhar, já
que testemunhas trazidas pelos clientes nem sempre ajudam o
bastante. Acabam sendo testemunhas de canonização. Só elogiam a
santidade da parte. Precisávamos de fatos, e fatos relevantes,
capazes de influir na decisão da lide, mediante a demonstração
inequívoca de que nosso cliente não era culpado.
— Deixe comigo. Amanhã chamo o Casé, e começamos.
Tomamos o último gole, despedimo-nos do Zé do Pé e saímos.
Eu estava ansioso por chegar em casa, onde, mesmo a altas
horas da noite, esperava-me, com paciência oriental, meu caseiro,
Kazuo Kanashiro. Serviu-me um uísque com “bastante gelo”, antes
do jantar.

12
— Já descobri uma coisa que me intrigou — disse Nerval,
quando entrou em minha sala.
— O quê?
— A mulher do senhor Olavo aprontou durante o casamento, e
ele parece que perdoou.
— Aprontou o quê?
— Adultério, dormiu com outro, corneou o bicho.
— Céus!
— Você esperava o que de uma mulher dessas?
— Não, não, não. Meu espanto é com a segunda parte da
informação. Ele haver perdoado.
— Eu disse que parece haver perdoado, e não que perdoou.
Ainda vou apurar.
— Isso não terá grande utilidade no caso. Coitado do cliente.
Mas apure tudo. E como você já conseguiu descobrir isso?
— Eu sou polícia, meu caro. Ela é de uma família rica, tem
muitos conhecidos, vive na alta sociedade de São Paulo. Estou
conversando com muita gente que a conhece e freqüenta os mesmos
lugares. Esse tipo de coisa não é difícil descobrir. Essa gente fala
muito e sabe de tudo. É gente contrária ao Mário Quintana.
— O que tem a ver o Mario Quintana com este caso?
— Ele afirmou que sempre se sentia isolado nas reuniões
sociais, porque o excesso de gente impedia de ver as pessoas. Coisa
de poeta. Os fofoqueiros vêem tudo.
Nerval adorava poesia. Não combinava muito com a carreira
brilhante que teve na polícia e com a própria polícia, mas sabia de
cor centenas de poemas, além de músicas sertanejas. Basta dizer
que um de seus amigos era João Pacífico, autor de Cabocla Teresa,
freqüentador do escritório para uma cachacinha no fim de tarde.
Acabamos pagando um salário para o poeta sertanejo durante uma
boa temporada, porque com direito autoral ia morrer de fome. E de
sede. Difícil foi contabilizar o pagamento. Justificamos: assessor
cultural.
Nesse momento, entrou Paulo de Tarso:
— Vocês estavam falando de Mário Quintana? Pensei que aqui
só se conversasse sobre Direito!
— Calma, Paulo. As coisas às vezes se cruzam. Você se lembra
de que uma vez fomos acusados de haver roubado o revólver de Fidel
Castro, quando estivemos em Havana? Os fatos mais inesperados
nos surpreendem de repente.

13
Jânio Quadros era candidato a Presidente da República e me
telefonou, dizendo que faria uma viagem a Cuba, cuja revolução
vitoriosa fascinara a nossa geração. E me convidou. Muita gente boa
na comitiva: Rubem Braga, Fernando Sabino e, entre outros,9 Carlão
Mesquita, a alegria da turma tanto nos vôos, como nos hotéis e nas
repetidas reuniões com os políticos cubanos. Todos americanistas
convictos, desde o dia em que Fidel Castro desfilara triunfante em
Nova York, sob chuva de papel picado, até porque a revolução contra
Fulgêncio Batista fora consentida (e financiada) por Washington.
Nessa viagem, conheci Paulo de Tarso Santos.
Em Havana, o embaixador brasileiro, Vasco Leitão da Cunha
(aquele que viria a ser Ministro das Relações Exteriores do Governo
Médici), ofereceu um jantar para a caravana e em homenagem a
Fidel Castro e a Che Guevara, nossos heróis. Quando chegaram as

9 Castelinho, Márcio Moreira Alves, Castejon Branco, Hélio Fernandes, Murilo Mello
Filho, Villas-Boas Corrêa, Afonso Arinos, Quintanilha Ribeiro, José Aparecido,
Murilo Costa Rego, Juracy Magalhães Júnior, Castilho Cabral, Cid Sampaio,
Augusto Marzagão.
duas ilustres figuras, uma depois da outra, os brasileiros cercaram
Che, muito mais carismático, embora de uma simplicidade
comovente. Fidel era posudo, falava pelos cotovelos, ostentando a
farda militar, e, ao chegar (bem depois do Che), deixou o revólver no
banheiro de entrada da Embaixada, como nos tempos de baile do
faroeste americano. Da reunião, dois fatos ficaram registrados na
minha memória: a inveja sem disfarce que Fidel tinha de Guevara,
inveja ostensivamente aristotélica, e um susto geral: roubaram o
revólver do Fidel, que saiu furioso e xingando os brasileiros, sob as
desculpas do embaixador e os tapinhas nas costas dados pelo Jânio.
Era evidentemente um ato de gozação, e, por isso, todos nós,
quando voltamos para o Hotel Rivera, caímos em cima do Carlão. Só
podia ser ele. Jurou inocência. Alguns levantaram a hipótese de ter
sido o repórter Tico-Tico. E ninguém ficou sabendo quem foi, a não
ser Eduardo Lago, hoje diplomata aposentado, que se nega a contar
o fim da história. Tenho certeza de que ele sabe. Quando Fidel
gritava tratar-se de uma relíquia de Sierra Maestra, alguém informou
ser mentira: a arma era um parabélum russo 9 mm, presente recente
do embaixador soviético Anastas Mikoyan, que estava iniciando seu
processo de sedução do enrustido ditador. Uma plaqueta no cabo da
arma comprovava a origem: a dedicatória do diplomata soviético. E
ficamos sabendo disso porque o “ladrão” do revólver devolveu-o ao
Embaixador Vasco Leitão da Cunha, que fez um embrulho para
presente e mandou entregar a Fidel a relíquia “de la Sierra Maestra”,
relíquia soviética.10
O tempo passou. Jânio foi eleito Presidente da República e
renunciou. Rubem Braga e Carlão Mesquita morreram, deixando-nos
com saudades imensas. Cuba tornou-se comunista e baluarte do

10 Edmilson Caminha, em seu livro Brasil e Cuba, informa que o ilustre jornalista
Villas-Bôas Corrêa ficou furioso comigo porque seria minha a versão de que ele
atribuiu a autoria do furto do revólver de Fidel ao repórter Tico-Tico. Estou inocente
nessa coisa. Ao contrário: quando soube dessa história, desmenti-a com veemência,
mesmo porque eu conhecia há muito tempo a história correta. Aquela versão
estapafúrdia partiu de um grupo de assessores de Augusto Nunes, quando colhiam
material para um livro sobre Jânio Quadros. Creio que o livro não foi escrito. Com o
material trabalhado por aqueles assessores, o livro seria imprestável.
antiamericanismo da América Latina, antes de Hugo Chávez na
Venezuela. Fernando Sabino ficou rico, publicando um livro sobre
Zélia Cardoso de Mello no Governo Collor. Depois também morreu.
As saudades aumentam e torturam.

14
Jamais deixei de acompanhar com atenção a política de Cuba,
sobretudo as relações entre Fidel e Guevara. Che era um comunista
romântico e sonhador, certo de que poderia repetir a proeza de Sierra
Maestra em outros países, mesmo sem o consentimento dos
americanos... Depois de uma incursão malograda na África, teve a
idéia de fazer guerrilha na Bolívia. Planejou tudo em Havana, até o
treinamento dos guerrilheiros que o acompanhariam, entre eles Juan
Pablo Chang Navarro e Julio Dagmino Pacheco. Fidel Castro
conhecia os planos em todos os detalhes, inclusive locais de ação e
alternativas de deslocamento.
Na Bolívia, era Ministro de Estado um tal Dr. Antônio
Arguedas, temível e violento perseguidor de esquerdistas, o Bush dos
pobres, e, tal como o Bush rico, também apaixonado por dinheiro.
Coordenou a caçada a Che Guevara, com assessoria da CIA,
por ele especialmente convidada. E foi direto ao lugar onde Che
estava escondido na selva, sem errar um milímetro, mais certeiro que
os mísseis modernos guiados por satélite. O “míssil” parece ter sido
uma guerrilheira de origem alemã, mas de nacionalidade argentina,
que vivia em Cuba desde 1961 e se chamava Tânia. Tânia Bunke,
nome de guerrilha.11 Ela chegou a La Paz, alugou um jipe e foi direto

11 Haydée Tamara Bunke Bíder, nome verdadeiro da guerrilheira, morreu em uma


emboscada em 31 de agosto de 1967, um mês antes da morte de Guevara, que sua
imprudência ajudou a consumar. Imprudência convenientemente estimulada por
Fidel Castro. A emboscada foi efetuada quando Tânia e outros companheiros de
Guevara atravessavam os rios Acero e Oro, em Vado del Yeso, no Vallegrande.
Alguns dizem que Tânia chamava-se Laura Gutierrez Bauer. Haydée ou Laura, a
guerrilheira celebrizou-se como Tânia. Seu corpo foi encontrado às margens do Rio
Grande.
ao esconderijo de Che.
Em filme de espionagem, nada pode haver de mais óbvio.
Intrigante é o fato de que Guevara, em sua ingenuidade, registrou em
seu diário essa “imprudência” de Tânia. E a observação consta
apenas da primeira edição do livro. Nas demais edições,
desapareceu. Mistérios que compõem os indecifráveis códigos da
vida. Houve quem sustentasse a versão de que o artista plástico
argentino Ciro Bustos teria sido responsável pela traição a Guevara.
Não se sabe bem se isso é verdade. Mas, se for, a localização de
Guevara na selva boliviana era conhecida apenas por Fidel Castro.
Isso é verdade indiscutível.
E Ciro Bustos teria que ter trabalhado com Tânia, a enviada
pelo ditador cubano e que fez várias viagens para a Bolívia, via
Buenos Aires. A última foi a viagem da delação. Nem ela sabia que
estava sendo esperada e pagou com sua própria vida pela
imprudência registrada por Che Guevara.
No dia 9 de outubro de 1967, Guevara, depois de ferido na
perna, foi amarrado a uma cadeira. Ali permaneceu até vir a ordem
de execução dada pelo próprio presidente da Bolívia, um sargentão, o
General René Barrientos,12 colega de Fidel Castro. O assassinato,
com um tiro no peito, foi executado por um suboficial chamado
Mario Terán.
Guevara teve as mãos cirurgicamente extraídas e guardadas
em formol. O tal Arguedas ficou com elas. No ano seguinte, esse
mesmo Arguedas abandonou a Bolívia e foi viver, adivinhem onde?
Em Cuba! Levou as mãos de Guevara, dizendo que as entregaria à
viúva, um gesto macabro e repulsivo que ninguém entendeu. Mais
parece a prova de que se serviam os pistoleiros do nosso Nordeste
para receber recompensa pelos contratos executados. Não mereceu a
menor censura de Fidel e, em Cuba, passou a viver com regalias, a
tal ponto que se desconfiou ter sido ele um agente do ditador cubano

12 Barrientos morreu carbonizado dois anos depois, quando seu helicóptero explodiu
ao bater em fios telegráficos.
na Bolívia. Confiram os jornais de Lisboa, julho de 1968, e O Estado
de S. Paulo, de 28 de novembro de 1995.
Na aventura boliviana, ao lado de Guevara, lutou o francês
Régis Debray, preso e depois libertado. Na França, em 1996, Debray
publicou um livro (Loués soient nos seigneurs — Louvados sejam
nossos senhores), criticando Fidel Castro e suscitando dúvidas sobre
como o esconderijo de Guevara foi encontrado pelos militares
bolivianos.
Quatro meses depois, uma senhorita chamada Aleida, que se
proclama filha de Guevara, em entrevista ao jornal Clarín, de Buenos
Aires, acusou Debray de haver delatado a localização de Guevara na
Bolívia (Folha de S. Paulo, 3 de setembro de 1996). Em carta ao Le
Monde, jornal de Paris, Debray fez uma revelação curiosa: a versão
foi encomendada por Cuba, e a senhorita Aleida é fortemente ligada a
Fidel Castro. Che está morto. Não pode desmentir ninguém mais.
Segundo a revista Forbes, o ditador cubano hoje é dono de
quinhentos milhões de dólares. Não sei o que fará com tanto
dinheiro. Não tem privacidade para gastá-lo. Compra consciências e
versões. Faz remessas a movimentos políticos da América Latina.
Contudo, acabou num hospital, com cirurgia no intestino, depois de
47 anos de ditadura em defesa da liberdade. Fidel nasceu no dia 13
de agosto. Não é definitivamente um dia de sorte.
No mês de abril de 2003, Fidel Castro mandou fuzilar três
cubanos que pretendiam fugir de Cuba e tomaram um barco de
passageiros, cuja gasolina acabou e, como a própria ilha, ficou à
deriva no mar do Caribe. Acusados de terrorismo, foram (los três
negritos, como disse Fidel) assassinados rapidamente, sem direito a
processo judicial. No outro lado da ilha, numa base militar chamada
Guantánamo, que pertence aos Estados Unidos, atualmente sob a
direção de Bush, estão presos homens do Afeganistão, acusados de
terrorismo e em condições subumanas, sem direito a qualquer
medida judicial, por não estar tal base em território norte-americano.
Que ilha infeliz!
Qual a diferença entre Bush e Fidel Castro no uso do pretexto
de terrorismo para justificar atos de banditismo? Creio que Bush é
melhor (vejam que tristeza!), porque sobre ele não paira nenhuma
suspeita de haver contribuído para a morte de um amigo que, talvez,
pudesse evitar sua perpetuação no poder, embora Sadam Hussein
tenha sido amigo do Bush pai e cria dos Estados Unidos, os quais,
apesar dos pesares, mantêm eleições mal apuradas e bem pagas,
mas democráticas, com alguns assassinatos sempre inexplicáveis.
Aliás, são inexplicáveis os assassinatos que eliminam alvos temidos
pelos políticos, como também aconteceu no Brasil anos depois com
os prefeitos petistas de Campinas e de Santo André. Não há Sherlock
Holmes que desvende as óbvias responsabilidades criminais.
Bush tem mais charme para cultivar as coisas do mal.
Proclama-se Presidente da Guerra, manda matar mais de cem mil
pessoas no Iraque e se posiciona contra a eutanásia de uma mulher
que, há quinze anos, tinha vida apenas vegetativa. Vai à Igreja.
Canta música gospel. É verdade que estarreceu a humanidade ao
autorizar a CIA a cometer um crime novo. Seqüestrar pessoas e levá-
las a outros países para serem torturadas e interrogadas. Ainda não
se sabe como isso vai acabar. Mas nomeada já foi: operação
“rendição extraordinária”, com envolvimento de várias empresas
aéreas que alugavam seus aviões para transporte clandestino das
vítimas do seqüestro secreto. Não satisfeito, Bush declarou a
supremacia dos Estados Unidos sobre o espaço sideral. É o dono do
Universo. Deus que se cuide, sobretudo por ser brasileiro. Bush veio
ao Brasil para desmentir essa antiga crença nossa. Aqui, negociou
com Lula a produção de etanol, álcool para substituir o petróleo
como combustível de carro. De álcool ambos entendem bastante.
Lula ficou tão embriagado com a possibilidade de o Brasil se
transformar em maior produtor de álcool combustível no mundo, que
declarou: “os usineiros, antes bandidos (na opinião dele), passaram a
heróis nacionais e mundiais”.
Quanto a Fidel Castro, até Saramago, escritor português
comunista, que, por isso mesmo, ganhou o Prêmio Nobel de
Literatura (eu preferia Jorge Amado, muito melhor, e que com ele
concorreu no mesmo ano),13 declarou não mais querer saber de Fidel
Castro, a quem apoiava como ídolo. Vamos repetir Debray: Louvados
sejam nossos senhores! E louvado seja aquele que furtou o revólver
de Fidel na Embaixada do Brasil em Havana, gesto simbólico de
desarmamento de um perigoso e irrecuperável ditador, e também
mentiroso, mas que, infelizmente, continua no poder há meio século.
Ao internar-se no hospital, passou o poder ao seu irmão Raúl Castro.
Na ditadura cubana, a sucessão é consangüínea: dá-se entre irmãos
germanos.14
Aqui estou eu divagando sobre coisas da política, mas é
inevitável, porque, de certa forma e em certa época, as pessoas desse
teatro esbarraram em mim ou trombaram comigo na surpreendente
trajetória que a vida me reservou, nesses mundos de muitos
acontecidos e destinos que se cruzaram com o meu, um menino do
interior, pescador de bagre e com alguma capacidade de sonhar.

15
Minha secretária anunciou a chegada de Sinval. Pedi que o
Paulo e o Nerval me deixassem a sós com o perito, pois ele não
gostava de conversar “em público”. Era cheio de cuidados.
Sinval entrou na sala:
— Ainda não redigi o laudo. Mas examinei detalhadamente a

13 A academia sueca é completamente maluca ao contemplar com o Prêmio Nobel


algumas figuras lamentáveis, como aquele Fo, da Itália, e o escritor alemão Günter
Grass, nazista que foi oficial da Waffen-SS, tropa de elite e espionagem de Hitler,
John Mather e George Smoot, porque teriam comprovado a ocorrência do big bang,
criador do Universo, tão verdade como a de seus antecessores que asseguravam
estar a Terra sobre as costas de um elefante. É isso o big bang: o elefante tropeçou
na cordas cósmicas e soltou um pum. E ainda dizem que ocorreu a 13,7 bilhões de
anos. Gostaram do “vírgula sete”?
14 Dicionário Aurélio — Germano: diz-se de irmãos que procedem do mesmo pai e da
mesma mãe.
fita cassete. Não há montagem, nem adulteração.
Senti um calafrio percorrer-me o corpo. Ele percebeu minha
aflição:
— Mas espere — disse com bastante calma. — A gravação
indica com clareza haver uma interrupção entre as perguntas feitas
pela mãe às crianças e as respostas que estão gravadas.
— Como você identificou esse detalhe?
— No gráfico do som. Há uma interrupção entre cada pergunta
e a respectiva resposta, ao contrário das gravações contínuas, em
que as oscilações do som não se interrompem, inclusive registrando
o som ambiente. Enquanto não se gravam vozes, registram-se os
ruídos, por mais leves que sejam, sem espaçamento de intervalos.
Nestes, nos espaçamentos, os picos da curva senoidal são menores,
mas continuam ativos. Na gravação examinada, a interrupção brusca
demonstra que, a cada pergunta, alguém apertou o botão de pausa
ou parada. E a resposta foi gravada depois dessa interrupção.
— Ah! Maldita mulher! Durante a pausa, ela ditava a resposta
que a criança devia dar?
— É isso. Meu laudo vai afirmar a existência de interrupção
entre a pergunta e a resposta, detalhe que se repete durante toda a
gravação. Demonstrarei claramente que houve esse expediente, de
modo repetido, a cada pergunta. Com esse dado técnico, pelo menos
crio a dúvida. Agora, provar que a mãe, depois de fazer a pergunta,
ditava a resposta é problema seu.
Comecei a pensar em como produzir essa prova. Mais uma vez
tinha que triturar meus neurônios, uns pobres coitados eternamente
condenados a buscar e encontrar soluções. Somente as crianças
podiam informar; mas, como ouvi-las em audiência? A mulher, em
depoimento pessoal, jamais confessaria, por mais habilidade que
tivéssemos na formulação de perguntas, que não são feitas
diretamente, e sim por intermédio do juiz, dando tempo para o
interrogado pensar na melhor forma de mentir.
16
Voltei a me lembrar de Jânio, agora em virtude de uma ação
judicial que ele nos pediu para mover contra o livro publicado por
Adelaide Carraro. Ela incluíra um capítulo sobre ele, descrevendo
situações comprometedoras, atos libidinosos misturados com
paixões e romances. Jânio gritava furioso: “Nem conheço essa
mulher!”. Fizemos as perguntas de praxe: “Alguém veio pedir
dinheiro para não publicar essa coisa? Ela se comunicou com você,
dizendo que o livro ia sair?” Nada. Tudo negativo. O livro, em outros
capítulos, envolvia vários políticos de fama no cenário nacional. A
autora tinha sido, segundo sua narrativa, amante de todos. Que
fôlego!
Propusemos a ação. Naquele tempo, ainda não tínhamos os
avanços processuais de hoje, com as medidas cautelares preventivas
aplicáveis a cada situação de ameaça de irreparável lesão, seguidas
pela ação principal, que pode ser de danos morais ou de abstenção
de prática de ato, conforme o caso. A ação foi penal mediante queixa,
acusando-a de difamação e injúria contra homem público, e pedimos
a apreensão e a destruição do “corpo de delito”, isto é, do livro.
Conseguimos apreender toda a edição por medida preventiva, sem
que fosse ouvida a parte contrária. Exercitamos a inteira liberdade
de prensa.
O processo foi distribuído ao magistrado Edmond Acar, bom
juiz, mas que costumava dizer alguns palavrões nas audiências,
tanto para as partes, como para os advogados e para o promotor.
Veio o dia da audiência. Chegamos reverentes e nos sentamos. Então
o juiz se virou para Adelaide e gritou:
— Você fique de pé. Na minha vara, puta não senta!
Perdemos a fala. Aquilo era uma explosão terrorista.
— Excelência, solicito, por favor, que minha cliente seja
respeitada! —- disse, educadamente, o advogado de defesa.
— Estou tratando sua cliente, meu caro doutor, da mesma
forma como ela tratou as pessoas que incluiu nesse livro infamante!
E com o mesmo vocabulário! Se o senhor quer, pode ditar seu
protesto diretamente ao escrevente.
O advogado ficou em silêncio. Começou-se pelo interrogatório
da ré. E o juiz perguntou:
— Quem escreveu esse livro para você?
— Eu mesma — respondeu ela com convicção.
— Muito bem! — disse o juiz — Pode sentar-se.
E mandou entregar à ré um papel em branco e uma caneta
esferográfica. Pegou o livro, abriu-o numa página qualquer, deu-o à
interrogada e mandou que ela lesse as dez primeiras linhas da
página aberta. Em seguida, recolheu o livro e ordenou:
— Agora, escreva neste papel o que você acabou de ler. Não é
preciso escrever exatamente, mas escreva o que lhe vier na memória.
Adelaide Carraro olhava o papel, com a caneta na mão. E nada.
Passaram-se longos minutos. A sala, em silêncio. O juiz ficou
folheando o livro e, de quando em vez, olhava para ela. Nada.
Nenhuma linha.
Subitamente, ele deu um estrondoso tapa na mesa e perguntou
aos berros:
— Quem escreveu esse livro para você?
— Acindino Campos — respondeu a ré, já apavorada.
— O que ele faz?
— É jornalista.
O juiz, com ares de vitorioso, olhou para nós e disse:
— Estão vendo? A polícia bate, tortura pessoas para obter
confissões. Aqui o réu confessa apenas sob um tratamento
psicológico adequado.
Contrariando todas as regras formais do processo penal, o juiz
dispensou ouvir as testemunhas, as alegações e os prazos, e
sentenciou, julgando a queixa procedente. Condenou a ré por
difamação. Embora o Código Penal mandasse aplicar pena e multa
(na época, de cinqüenta centavos a três cruzeiros), o juiz aplicou
somente a multa — três cruzeiros pela difamação — e absolveu a ré
da acusação de injúria. E deferiu em parte o pedido de destruição do
livro. Mandou extrair dele apenas o capítulo referente a Jânio
Quadros e permitiu a circulação do livro com as demais vítimas,
porque nenhuma delas havia pedido proteção judicial. A ré e seu
advogado aceitaram, pois estavam felizes com a liberação da grande
obra. Adelaide Carraro, mesmo sem o capítulo sobre Jânio, esperava
ganhar dinheiro com aquilo. E não houve recurso. Vencemos a causa
numa rápida prestação jurisdicional, inteiramente fora da lei
processual, mas sumamente prática,

17
Lembrei-me ainda de outro caso, referente a um livro escrito
pelo ex-mordomo do cantor Roberto Carlos, no qual eram narradas
intimidades da vida do artista, deslavadamente mentirosas. Feriram
fundo o sentimento do cantor. O título do livro era O Rei e Eu. Dessa
vez, para impedir a lesão, usamos o Direito Processual Civil, em ação
de abstenção da prática de ato cumulada com o pedido de destruição
do livro. A Constituição então vigente não assegurava as liberdades
plenas inauguradas em 1988. Houve apreensão cautelar. O processo
seguiu seus trâmites legais até o julgamento final pelo Tribunal de
Justiça, e vencemos. O livro acabou sendo condenado à fogueira,
muito antes do ano que é o título da obra de George Orwell. A
incineração foi realizada nos fornos da Prefeitura de São Paulo.
Roberto Carlos é uma criatura de lindos sentimentos. Alma
pura, contagiada de primavera e luz. Além da religiosidade extrema,
é de uma bondade comovente com todas as pessoas. Bom filho, bom
pai, bom tudo. Quando ganhamos a causa contra seu ex-mordomo,
mostrou-se preocupado:
— Ele foi condenado? Vai preso? Eu não queria isso, bicho!
Não queria mesmo!
— Calma, Roberto. A condenação foi civil, isto é, ele foi proibido
de escrever sobre você, e o livro foi queimado. Pronto, acabou! Resta
a condenação por danos e em honorários. Nem você vai cobrar os
danos, nem eu cobro os honorários contra ele. Está bem assim?
Mesmo assim, ficou triste. Seu ex-funcionário havia falado o
diabo da vida dele. Roberto se preocupava em saber se a condenação
envolvia prisão do réu. Afinal, réu é para ser preso. As pessoas às
vezes confundem a condenação civil com a penal, embora muito tipo
de condenação civil bem que podia resultar numa temporada atrás
das grades. Mas as responsabilidades são independentes.

18
Conheci Roberto Carlos quando ele estava negociando com sua
gravadora a renovação de contrato, no Brasil, para a produção de
seus discos. Ainda era o tempo do vinil, o velho bolachão. Procurou-
me, não me lembro quem o aconselhou, para assessorá-lo nas
negociações. O advogado da gravadora era um profissional de alto
respeito, meu amigo e colega de muitos anos, Agilberto Figueiredo
Santos, que foi formidável na condução dos entendimentos iniciais e
me advertiu:
— Os diretores da gravadora, aqui no Brasil, ganham
honorários na proporção inversa daquilo que conseguem tirar do
cantor contratado. Quanto menos a gravadora paga ao cantor, mais
os diretores ganham. Sugiro que você vá negociar este contrato em
Nova York, na sede da empresa.
Falei com o cliente, e fomos para os Estados Unidos, eu,
movido pela coragem ofertada por Deus, pois não falo uma palavra
de inglês. Sou da velha geração do francês e, claro, perdi, por isso, a
globalização subseqüente, fundada no idioma de Walt Whitman.
Mas, em Nova York, podia, naquele tempo, contar com um
valioso apoio, o Embaixador Sérgio Armando Frazão, que servia na
ONU e falava, sem sotaque, vários idiomas. Meu velho amigo,
companheiro dos tempos do governo de Jânio Quadros, pôs à minha
disposição uma funcionária sua, americana, craque em português
com sotaque brasileiro, além de ser altamente competente.
Meticuloso como era, Frazão deu licença não remunerada para
aquela senhora me assessorar por uma semana. Ela adorou, mesmo
porque a assessoria incluía longas reuniões com Roberto Carlos, de
quem era fã incondicional desde os tempos em que passara
temporadas no Brasil, para aperfeiçoar seu português.
As discussões com os diretores da gravadora eram
complicadas. O presidente da companhia parecia mais afável e, de
certa forma, impaciente com as dificuldades que seus colegas de
diretoria criavam a cada momento. Tinha pressa. Viagem marcada
para Londres dentro de alguns dias, não queria que a coisa se
prolongasse muito. Os advogados deles, a cada dia de negociação,
faziam uma minuta de contrato que, ao mesmo tempo, servia de ata
das reuniões, mas tudo muito complicado e longo demais, detalhista,
mania dos causídicos americanos. Eu escrevia outra minuta em
português, minha assessora traduzia para o inglês, ela mesma
datilografava, e a discussão prosseguia.
De repente, chegavam as seis horas da tarde, e todo mundo
desaparecia: datilógrafas, secretárias, advogados. Fim do expediente.
Tínhamos que continuar no dia seguinte. Sem sequer um bye-bye.
Sumiam.
Na manhã de um desses dias seguintes, estávamos na sala de
reuniões tomando um cafezinho, à espera do presidente da empresa.
Aproximei-me da janela, no vigésimo andar do prédio, e vi, entre os
arranha-céus de Nova York, o prédio da Basf. Disse, então, ao
Roberto:
— Olha como é bonito o prédio da Basf!
Minha assessora aproximou-se discretamente e me avisou que
os diretores, que ouviram meu comentário sem compreender,
conversaram entre si, dando a entender que eu me referia a alguma
outra proposta de contratação do Roberto pela Basf, empresa alemã
concorrente deles. Eu disse para a assessora afastar-se com calma,
pegar sua xícara de café e traduzir para eles meu comentário:
— De fato — disse ela aos americanos —, o Dr. Ramos está
comentando com o seu cliente a vantagem da proposta da Basf, mas
não deseja incluir esse argumento nas discussões com os senhores.
Não acha elegante usar esse tipo de pressão. É apenas consideração
entre eles para a decisão a ser tomada hoje.
O clima melhorou demais. O presidente chegou e avisou que
teríamos que fechar as negociações porque, no dia seguinte, viajaria
para Londres. Ele queria assinar pessoalmente o contrato. Mas ainda
permanecia uma pendência quanto ao percentual do valor de face
dos discos a ser recebido pelo artista. Havia uns cálculos
atrapalhados. O valor de saída da fábrica era um, e o de venda nas
lojas era outro. Queriam que Roberto recebesse pelo menor, o preço
de fábrica. Durante a discussão, o presidente da companhia
titubeou. Percebi imediatamente, prática de advogado, quando
alguém hesita em dizer a verdade. No final da reunião, com o auxílio
da minha intérprete, reuni alguns argumentos e desferi uma
saraivada de razões para ele aceitar minha proposta. Ele sorriu,
dando a entender que concordaria. Fomos almoçar. Roberto, alguns
amigos dele, minha assessora e eu.
No restaurante, outro problema. E grave. Roberto me chamou
de lado e falou baixinho, para que ninguém mais ouvisse:
— Bicho, obrigado por tudo que você está fazendo. Mas hoje
não assino o contrato, mesmo se você conseguir todas as vantagens
que exigiu.
— Por quê?
— Porque hoje é dia 13. Não assino nada no dia 13.
Esperei alguns segundos para absorver o impacto da confissão
e ponderei:
— Veja bem. O presidente vai viajar amanhã. Tenho a
impressão de que ele está quase concordando com nossa proposta.
E, se ele concordar, temos que datilografar a versão final do contrato
e assinar hoje. Amanhã, aqueles outros diretores vão criar caso. Sei
não!
Roberto ficou irredutível. Preferia esperar o presidente voltar na
semana seguinte. Enquanto isso, ficaríamos em Nova York. Com
milhares de assuntos pendentes em São Paulo, eu não podia nem
pensar na hipótese.
Voltamos à gravadora. A reunião demorou a começar. Outros
assuntos ocuparam o presidente em outra sala. Os advogados já
tinham o contrato datilografado com dezenas de cláusulas já
impugnadas por nós, que voltaram a ser redigidas por eles.
Deselegância irritante. Eles se acham gênios. Comecei a discutir com
os diretores sem muita paciência. Minha intérprete ia traduzindo
com fidelidade. Anunciaram que o presidente da companhia chegaria
dentro de instantes. E os instantes foram passando. Quando chegou,
aconteceu algo fantástico: os relógios marcaram 18 horas, e a sala
esvaziou-se. Advogados, diretores, datilógrafas, todos saíram.
O presidente pediu as desculpas de seu estoque e, quando ia
propor o adiamento para o dia seguinte, na primeira hora, cedinho,
antes de seu vôo para Londres, minha intérprete teve uma idéia
genial. Disse ao presidente que faltava apenas datilografar o acordo
acertado e que ela se dispunha a fazê-lo. Ele aceitou, mandou servir
café e ficou conversando com Roberto, que já falava razoavelmente
bem o inglês. Fiquei ao lado da assessora, alteramos todas as
cláusulas que nos aborreciam, fixamos os honorários do Roberto
sobre o valor de face na venda ao público, e, rapidinho, rapidinho, o
contrato estava na mesa para ser assinado, em várias vias, nas duas
línguas, inglês e português. Lembrei-me ainda de redigir o foro de
eleição: Judiciário brasileiro.
Chamei o Roberto de lado e disse com firmeza:
— Você acredita em Deus?
— Claro, bicho!
— Então reze, ponha na sua cabeça que foi Deus quem criou o
dia 13 e nos deu a oportunidade de escrever o contrato tal qual nós
quisemos, sem nenhum diretor ou advogado para atrapalhar.
Roberto rezou, fez o sinal-da-cruz e assinou. O presidente nos
cumprimentou, e saímos todos felizes. As condições eram
sensacionais. Fiquei sabendo depois que os diretores quiseram criar
caso, mas o presidente acabou com a festa:
— Assinei, está assinado, não se fala mais no assunto!

19
Fui agradecer ao embaixador Sérgio Frazão pelo apoio dado
com a disponibilidade de sua genial secretária, e comentamos os
fatos ocorridos.
— Você sempre está envolvido no meio de mágicas — disse ele.
É verdade. Quando fui convidado por Jânio Quadros, para
assessorá-lo na Presidência da República e, sobretudo, na política do
café, o Brasil tinha a tradição de nomear para o IBC — Instituto
Brasileiro do Café — os líderes rurais, fazendeiros e produtores, ou
presidentes das associações cafeeiras. O café era muito importante
para o país naquela época. Ainda é. Mas, em 1961, a exportação
desse produto representava três bilhões de dólares num total de
quatro a cinco bilhões. Recomendei que fosse nomeado para o cargo
um diplomata, bom negociador internacional. A política do café tinha
que se voltar para a conquista do mercado externo. Com esse perfil,
encontramos o ministro de segunda classe do Itamaraty, Sérgio
Armando Frazão.
Trabalhamos juntos nos sete meses do Governo Jânio. Fizemos
tudo o que era possível. Acabamos com o confisco cambial que
pesava sobre a exportação do produto, para felicidade geral da
cafeicultura. Criamos incentivos para a produção de qualidade, a fim
de enfrentar a concorrência do café colombiano e atender à exigência
da maioria dos consumidores de café por esse mundo afora.
Provocamos a inclusão dos importadores no acordo internacional do
café, para que eles ajudassem a vigiar os exportadores que
fraudavam suas cotas fixadas pelo acordo internacional.
Essa questão foi tema de uma discussão brava numa reunião
dos países produtores integrantes da OEA, realizada em Punta del
Este, no Uruguai. Nos debates, tive forte discussão com o
representante da Costa Rica, pois ele reagiu furiosamente a uma
acusação minha contra a fraude às cotas de exportação praticadas
por seu país. Eu tinha até a lista das empresas norte-americanas
que importavam o café costarriquenho fora da cota.
Os demais países produtores, iguais vítimas da fraude,
passaram a dar apartes em meu apoio. E, de repente, uma voz se
levantou na sala dos debates:
— Proponho que se encerre esta discussão com um imediato
voto de censura à Costa Rica e voto de prestígio ao Brasil.
Era o representante de Cuba: Che Guevara.
Estava ele no auge do seu romântico prestígio internacional.
Costa Rica foi massacrada pelo plenário.
Naquela noite, Frazão e eu fomos jantar com Guevara. No dia
seguinte, cedo, o Ministro Clemente Mariani, chefe da nossa
delegação, convocou-me para comunicar:
— Recebi ordens do Presidente Jânio, para informar ao Che
que ele será condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul e para
convidá-lo a ir a Brasília, a fim de receber a condecoração logo após
a reunião da OEA. Isso vai ser uma bomba. Os Estados Unidos vão
nos devorar.
Frazão estava junto. Perspicaz e de uma inteligência invejável,
matou a charada:
— Ministro — disse ele ao Clemente Mariani —, não se
preocupe. O Presidente Kennedy vai adorar o fato. Ele está lutando
no Congresso norte-americano para aprovar verbas destinadas a um
programa de ajuda à América Latina, chamado Aliança para o
Progresso. Esse gesto do Brasil vai assustar os congressistas
republicanos contrários a Kennedy, e a verba será aprovada. Ali as
coisas funcionam à base do medo.
Frazão tinha razão. O melhor combustível para tocar
americanos é o medo. Naquele tempo, o medo era do comunismo na
América Latina. O programa foi aprovado. Porém, ao final, depois do
assassinato de Kennedy, como quase tudo em matéria de verba na
América Latina, terminou em corrupção, confirmando nossa gloriosa
latinidade.
Mas, em Punta del Este, conseguimos incluir no Acordo
Internacional do Café os países consumidores, que passariam a
ajudar no controle das cotas dos exportadores. Sérgio Frazão foi o
herói dessa conquista.
Por que ele falou em mágicas?

20
Um dia, propus a Jânio que promovesse o Ministro Frazão,
Presidente do IBC, a ministro de primeira classe, isto é, a
embaixador, para que ele tivesse, nas rodadas internacionais, o
mesmo status dos demais negociadores, sobretudo o da Colômbia,
cujo representante era um embaixador de altíssimo prestígio. Se não
me engano, chamava-se Jaramillo. Promoção no Itamaraty é sempre
uma guerra. Vencidas as batalhas todas, Jânio autorizou, o decreto
foi datilografado e, antes da assinatura do Presidente da República,
foi referendado pelo Ministro das Relações Exteriores, o Chanceler
Afonso Arinos.
A Casa Civil mandou cópia para o Diário Oficial, e a promoção
foi publicada. Mas, no dia seguinte, Jânio renunciou ao mandato de
Presidente da República e partiu para São Paulo. O país entrou em
polvorosa. Naquele dia, em meio à confusão, Quintanilha Ribeiro,
Ministro Chefe da Casa Civil, recolheu tudo o que estava sobre sua
mesa e voou para São Paulo. No meio dessa papelada, estava —
supúnhamos — o decreto de promoção de Sérgio Armando Frazão
sem a assinatura do Jânio. E o Chico, como chamávamos o
Quintanilha, nem notou.
Depois da posse de Jango Goulart, alguém levantou a questão
no governo. Sempre existe alguém para descobrir essas coisas. Havia
a publicação no Diário Oficial, mas o decreto original desaparecera.
Frazão, que continuou no IBC, telefonou-me preocupado, pois essa
formalidade poderia anular sua promoção. Jânio já havia voltado do
seu exílio voluntário em Londres.
Fui para a casa do Quintanilha, e ele me informou que todos os
papéis da Casa Civil tinham sido devolvidos, assim que passada a
crise da posse de Jango. Não estava com ele. Senti um calafrio.
Mas havia uma esperança. Vários auxiliares do Chico também
haviam recolhido papéis da Casa Civil. Procurei-os todos. Enfim, com
um deles, Ara-ripe Serpa, lá estava o decreto. Peguei-o, enfiei na
minha pasta e fui procurar o Jânio, que estava na casa de Dona
Leonor, mãe dele, em um apartamento modesto na Praça da
República, em São Paulo.
— Você se esqueceu de assinar este papel — disse, quando
entrei.
Leu, meditou e perguntou:
— Você quer que eu assine agora? Não será uma falsidade
ideológica?
— Deixa disso, Jânio. Trata-se apenas do aperfeiçoamento
formal de um ato já publicado no Diário Oficial. E está com o
referendo do Ministro de Estado da época.
— Bem, você foi o único que acertou na conceituação jurídica
dos efeitos da minha renúncia. Confio nos seus conhecimentos de
Direito.
E assinou. Agradeci os elogios que, partindo dele, nunca se
sabia se eram verdadeiros ou simples ironias. Mas saí aliviado, com
um problema conseqüente: como fazer o decreto chegar ao escaninho
em que devia estar desde agosto de 1961?
Consegui um jeitinho. E o decreto descansa lá, sem ser
perturbado. É um dos fatos mágicos a que se referiu Frazão, nosso
Embaixador na ONU, em Nova York, de onde, tempos depois, saiu,
homenageado em um mesmo ato por árabes e judeus, mágica que
conseguiu por suas habilidades diplomáticas extraordinárias.15

21
Em São Paulo, eu tinha um amigo mais velho, experiente, meio
filósofo, meio paranormal, digno de ser personagem de Paulo Coelho.
Não era advogado, mas sempre analisava as coisas com muito bom
senso ou sob intensa explosão sentimental. Fascinava-me ouvi-lo.
Quando podia, passava pela casa dele para um papo e falava dos
meus casos, para ele analisar à sua maneira. Chamava-se Gervásio.
Falava em cachoeira. Somente depois do discurso, dava chance
ao interlocutor. Em uma das muitas vezes, tive que ouvir, no
passado, uma longa dissertação sobre o assassinato de Kennedy, do
irmão, os métodos da CIA, a burrice dos comunistas, as ditaduras
latino-americanas, a vigarice de Fidel Castro, a indústria do medo
das bombas nucleares da União Soviética. Mas analisava tudo muito
bem. E continua assim até hoje. Há pouco tempo, estivemos juntos
e, não sei por que, talvez a propósito da indústria da atual guerra
contra o terrorismo, o novo inimigo da humanidade que tudo
justifica, falei nos métodos dos anarquistas do século XIX. Pronto.
Ele despejou:
— Depois, passamos a assistir aos suicídios dos terroristas
árabes no Oriente Médio e à barbaridade daqueles suicídios em
aviões seqüestrados pelo bando de Bin Laden contra as torres
gêmeas de Nova York, contra o Pentágono, e o terceiro avião, que se

15 Sérgio Armando Frazão teve um filho, Armando Sérgio, que ingressou na carreira
diplomática, tornou-se embaixador e honra a tradição da família servindo o Brasil
no exterior.
estatelou, provavelmente em virtude da reação dos passageiros.
Ninguém se conforma com tal violência e idiotice. Bin Laden
conseguiu, com esse processo, além da morte de milhares de ino-
centes, o crescimento político de um George Bush, político americano
medíocre, como há decênios os Estados Unidos não tinham na
Presidência. Virou herói diante da matança e, como marqueteiro
macabro, aproveitou o impacto das mortes para criar naquele país a
exploração do medo, mantendo-se no poder para exercitar a doutrina
da guerra preventiva, isto é, para atacar países que, em sua opinião,
sejam perigosos para a segurança americana e alimentar a insaciável
fome de dinheiro da indústria de armas e de petróleo. E ninguém
explicou até hoje por que não se encontraram destroços do avião
atirado contra o Pentágono.

22
Sem tomar fôlego, Gervásio continuou:
— O terrorismo, em conseqüência, aumentou, sobretudo
depois da guerra do Iraque, com a utilização mais forte de homens
suicidas, que carregam de explosivos carros e caminhões, ou se
vestem de bombas, para explodir ônibus e centros de diversão
popular, matar crianças, idosos, mulheres, gente inocente. E
provocar respostas descomedidas, como o bombardeio de bairros
inteiros, sob a justificativa de que abrigam terroristas. Hoje, qualquer
assassinato, como faz Israel na Palestina, ou no Líbano, é
plenamente justificado moral, religiosa e juridicamente, se assim é
feito como um direito de defesa exercido contra o terrorismo. Se você
manda um míssil contra uma casa de palestinos, basta dizer que ali
se abriga um terrorista. Não há reprovação alguma. E pensar que
isso se faz em nome dos judeus, que todos nós defendemos contra o
nazismo, que fazia precisamente isso com eles! Tanto que um dos
meus heróis nesse mundo é o Simon Wiesenthal, o caçador de
nazistas. Até esse putão do Putin proibiu, na Rússia, eleição direta
para governadores de província, invocando o perigo do terrorismo.
Quis interromper para fazer um comentário, mas Gervásio
virou sua bússola para o Oriente Médio e metralhou:
— O Oriente Médio está desorientado. Agora surgiu o
Presidente do Irã, um tal de Mohamoud Ahmadinejad, um maluco,
declarando que Israel deve ser varrido do mapa. Ou transferido para
a Europa. E que o holocausto não existiu. Foi tudo mentira. Faltou
dizer que Hitler desentendeu-se com os judeus apenas porque
desejou ser Papa. Realmente está desorientado o Oriente Médio.
Israel perdeu Ariel Sharon. Derrame cerebral. E os palestinos
aderiram de vez ao terrorismo, elegendo, por maioria absoluta, os
membros do Hamas16 para o parlamento deles. Derrame intestinal.
Não tem mais conversa. Israel de um lado e do outro o terrorismo,
como governo formalmente constituído sob falsa coabitação para
receber ajuda de países europeus. Depois vem o Hezbollah, no
Líbano, e declara guerra a Israel.
— Hizbollah.
— Não me importa se é “Hez” ou “Hiz”, mas são uns
energúmenos, todos com z de zebra. E Israel, um Estado
democrático, aceita a declaração de guerra daquele grupelho de
bandidos fanáticos e passa a matar crianças no sul do Líbano. Tem
razão o capitão Amir Fester, do exército israelense, que se recusou à
convocação para combater no sul libanês: sinto que fui chamado para
uma guerra idiota, onde estão morrendo civis e tudo poderia acabar
com um simples cessar-fogo. Foi para a cadeia por insubordinação.
Parou de falar. Fixou os olhos num ponto invisível da sala
como se quisesse enxergar através da parede. O assunto era árido
por definição. Nosso mundo, o ocidental, não entende bem a
civilização árabe. Sobretudo suas doutrinas religiosas. Um jornal da

16 Hamas — Movimento de Resistência Islâmica, milícia armada, que luta pelo


desaparecimento de Israel e promove os atos terroristas em território do país
vizinho. Derrotou o Fatah, partido político fundado por Iasser Arafat, e que estava
no governo palestino tentando negociar a paz com Israel por meios pacíficos.
Dinamarca publicou uma caricatura do profeta Maomé, e as
populações mulçumanas se revoltaram. Incendiaram embaixadas.
Governos romperam relações com países da Europa. Na Arábia
Saudita, um time de futebol, com jogadores brasileiros, hospedou-se
num hotel em Meca para um jogo com o time local. A polícia religiosa
descobriu. Expulsou os brasileiros de seus quartos e da cidade.
Eram três horas da madrugada. Somente voltaram na hora do jogo.
Tiveram que ficar na cidade vizinha. O jogo se realizou na hora
marcada e terminou em 0x0. Mas o time teve seus diretores presos e
foi rebaixado para a segunda divisão. Os ocidentais não sabem disso:
quem não é mulçumano não pode entrar em Meca, onde nasceu o
profeta Maomé. E muito menos se hospedar em seus hotéis.
— Vivemos um período complicado da história humana. Sujo e
burro — comentei.
— Detesto sujeira e não tolero burrice — arrematou Gervásio.
— A humanidade deu uma demonstração maravilhosa de
solidariedade para com o povo da Ásia, na tragédia do tsunami, o
maremoto que matou quase 300 mil pessoas em vários países. O que
está acontecendo? Há ladrões que roubam os donativos e
descaradamente os vendem em mercados. E o Bush? Ofereceu 35
milhões de dólares para ajudar. Depois, passou para 350 milhões.
Você sabe quanto ele gasta no Iraque, para matar pessoas?
— Não.
— Cinco bilhões de dólares por mês! Cinco bilhões a cada
trinta dias! E, para ajudar a Ásia, manda 350 milhões. Um homem
desses é eleito pelo povo americano duas vezes. Agora, ele vai dizer
que a reeleição aprovou todos os seus atos na política externa.
Guerra, torturas, Abu Ghraib, Guantánamo. Aquela história das
armas de destruição em massa no arsenal de Sadam, informada pelo
serviço de espionagem do governo Bush, apresentada agora com
“desculpe, foi engano!”, poderá agüentar uma investigação no futuro?
O serviço secreto inglês cometendo o mesmo erro com os James
Bonds da vida? Um dia, vão descobrir que o 11 de Setembro foi
conluio entre Bush e Bin Laden. Basta perguntar a quem aproveitou
o crime. O enforcamento de Sadam Hussein, depois de um simulacro
de processo penal, foi, na verdade, uma queima de arquivo, pois
Sadam, cria dos Estados Unidos, poderia abrir a boca se não o
mandassem para a forca logo em seguida. O recurso de apelação
nem tramitou.
— Você é contra a condenação de Sadam, ditador sanguinário,
brutal, maluco?
— Ninguém seria contra a condenação se o julgamento fosse
realizado dentro das leis internacionais. E ele condenado, talvez, à
prisão perpétua, como se fez com os nazistas em Nuremberg. Com o
passar dos anos, Sadam começaria a falar. Por isso Bush mandou
enforcá-lo rapidinho.

23
Depois afirmou que tudo no Governo Bush está direcionado
para as empresas de Dick Cheney, o vice, ganharem dinheiro, tanto
na guerra do Iraque, como nos escombros de Nova Orleans. Mas
acentuou que o vice-presidente dos Estados Unidos é sádico,
incentiva e comanda a política de tortura, assessorado por um
tarado: Stephen Cambone, bandido perigoso que integra o governo
norte-americano. Tudo isso ficou muito claro nas revelações da
general Janis Karpinsky, em seu livro One Woman’s Army,17 em que
acusa a tortura de inocentes, como se fosse legal torturar culpados.
Fala com a autoridade de quem foi a comandante-em-chefe da prisão
Abu Ghraib, em Bagdá, no Iraque.
Aliás, a imprensa tem sido condescendente com a roubalheira
no Iraque. Por que os Estados Unidos destinaram bilhões de dólares
para a guerra e em seguida bilhões de dólares para a “reconstrução”
do país? A verba destinada ao armamento é embolsada pelos

17 “Exército de uma mulher só”.


espertos. Ninguém confere quantos tiros deu uma metralhadora. Em
futuro próximo, vamos ver os casos cabeludos que serão revelados
pelo SIGIR, um organismo criado pelo Congresso dos Estados Unidos
para investigar as patifarias financeiras (as outras, todos conhecem).
Uma delas, dentre milhares, já foi descoberta. A construção da
Academia de Polícia em Bagdá, que custou 75 milhões de dólares,
verba fácil, urgente, tudo em nome da segurança. No dia da
inauguração foi interditada. Era tudo falso. Parede, encanamento,
teto, piso. O dinheiro sumiu e deixaram lá um maquetão para fingir
de obra acabada. Guerra também serve para isso.
Gervásio continuou:
— Esse sujeito, o Bush, é o mal em putrefação. Somente
entende de matar e de guerra. Veja a sua ineficácia para a paz, sua
incompetência para salvar as vítimas do furacão Katrina, que
destruiu Nova Orleans. O país mais poderoso do mundo deixou
centenas de pessoas morrendo ao desabrigo, feridos apodrecendo,
famintos e sedentos saqueando uns aos outros. Um horror. O que fez
Bush? Foi à televisão pedir contribuições, ajuda. Seu governo não
tem recursos para socorrer gente em seu próprio território, porque
gasta tudo . matando gente nos territórios estrangeiros. Os norte-
americanos são uns cretinos. Reelegeram um homem desses, depois
de admitirem sua eleição fraudada pelo Governador da Flórida, seu
irmão.
— Nem todos — respondi. — Bush ganhou por uma diferença
mínima: 2%.
— Mas ganhou! Logo, naquele país, a maioria é burra. Todo
medroso é burro. Creio, porém, no Judiciário deles. Chegará o dia
em que algum juiz ou tribunal haverá de declarar a
inconstitucionalidade das prisões sem direito de defesa para os
presos acusados de terrorismo. Tal como a Suprema Corte dos
Estados Unidos declarou inconstitucional o julgamento pelos tri-
bunais militares criados por George W. Bush, seguindo o voto
magnífico do Juiz David Souter, que estraçalhou com a histeria
policial da Casa Branca. Bush é catástrofe em tudo. A humanidade
conseguiu celebrar o mais importante acordo internacional de todos
os tempos: o Protocolo de Kyoto. Receita para salvar o planeta. Bush
é contra, sob aplausos de muitos americanos. Pode?
— É por isso que Vicente Ráo dizia: o americano é o português
que deu certo. E você tem razão. Enquanto houver democracia, o
Judiciário é a esperança.
— E não é de hoje que esses políticos se sustentam, explorando
o medo dos idiotas de seus cidadãos. Você se lembra? A humanidade
viveu, durante muito tempo, sob o medo das ogivas atômicas da
União Soviética. No final, fizeram um aborto na montanha. Resultou
em vários ratos, inclusive um bêbado. Agora é o terrorismo, menos
perigoso que as ogivas, e até um dos ratos abortados, o Putin, usa a
nova moda para ter mais poderes. Você soube o que disse Philip
Zimbardo, um dos maiores psicólogos norte-americanos e um dos
autores da Teoria da Janela Quebrada?
— Não.
— Pois toma lá. Veja que análise perfeita: “O governo Bush
manipula a ansiedade nacional causada pelo 11 de Setembro a
serviço de suas próprias ambições políticas. Essa administração só foi
reeleita porque criou o que chamamos de ‘Síndrome do Estresse Pós-
Traumático’. Não precisamos de um ataque terrorista, estamos
fazendo todo o trabalho para eles”.
Esperou um pouco, tomou fôlego e me perguntou se eu
conhecia o dramaturgo e poeta inglês Harold Pinter.
— Claro — disse eu. — Foi o ganhador do prêmio Nobel de
Literatura em 2005. Mas não conheço a obra dele.
— É quase um Shakespeare do século passado. No seu
discurso perante a Academia Sueca, na solenidade de entrega do
prêmio Nobel, ele disse que a literatura é uma forma compulsiva de
busca da verdade, ao contrário dos políticos, que buscam apenas o
poder, e, para isso, o primeiro valor que matam é precisamente a
verdade. Aproveitou para chamar Bush e Tony Blair de bandidos,
dizendo que deveriam ser julgados como criminosos de guerra.
— Deu uma enorme colher de chá para os árabes, pois no
momento não há outras guerras além das do Iraque e do
Afeganistão, além do mal-estar com o mundo islâmico. Ou Harold
Pinter estava se referindo às guerras preventivas, aquelas que, na
cabeça de Bush, permitem a invasão de qualquer país sob qualquer
pretexto a título de defesa prévia?
— Referia-se aos árabes, sem dúvida alguma. E você acredita
que os árabes, fanáticos tanto quanto Bush, podem tolerar charges e
piadas dos ocidentais, quando seus líderes são acusados de
bandidos por um prêmio Nobel?
— Espera lá, meu caro. Na Turquia, o prêmio Nobel de
Literatura, Orhan Pamuk, fugiu de seu país porque foi ameaçado de
morte. Idéias liberais e críticas em Istambul são motivos de
assassinato. Depois de ver morto a tiros seu colega e amigo,
jornalista e escritor, Hrant Dink, Pamuk se mandou, ou, como diz a
juventude de hoje, vazou rapidinho. O dinheiro do Nobel pode ajudá-
lo a manter-se por algum tempo fora da mira dos fanáticos de sua
terra. Não é apenas Bush que assassina as liberdades.
— Bush é tão desastrado que, na América Latina, conseguiu
ter como inimigo Hugo Chávez, um imbecil, que passou a legislar por
decretos através de uma tal lei habilitante. Bush é incompetente até
para ter inimigos, pois, apesar de Chávez achincalhá-lo todos os
dias, continua comprando petróleo da Venezuela, que, com esse
dinheiro, compra armas e prestígio na região. Outra questão que não
consigo engolir: Lula pediu ao Bush para abolir a taxa que os Es-
tados Unidos cobram na importação do nosso etanol. Resposta
negativa. Mas sobre o petróleo importado da Venezuela não cobram
taxa alguma.
— Ainda bem que o povo norte-americano reagiu impondo uma
fragorosa derrota aos republicanos nas últimas eleições de seu
Congresso e de seus governadores. A Câmara dos Representantes
passou a ter maioria de democratas, e Bush vai ter que dançar baião
de dois se quiser ficar na Casa Branca até o fim de seu mandato, se
não lhe arrumarem um impeachment. Enquanto isso, será divertido
ver o antes todo-poderoso Bush apanhar de duas mulheres: Nancy
Pelosi, na Câmara, e Hillary Clinton, no Senado.

Tive que encerrar a conversa com essas críticas a Bush.


Gervásio sossegou. Ele não é propriamente um adepto do
antiamericanismo, pois, para ser assim, teria que se igualar à
idiotice de Hugo Chávez. Mas é um ferrenho anti-Bush. Os mais
ferrenhos marxistas, quando se declaram antiamericanistas em
geral, esquecem que Karl Marx admirava os Estados Unidos e
afirmou isso em carta dirigida ao presidente Lincoln.18

24
E Gervásio fala, fala. Foi assim sempre. Voltando ao passado
para retomar o fio do novelo, lembro-me daquele dia em que fui
visitá-lo, quando lhe contei, depois de ouvir o discurso sobre
Kennedy, o caso do Sr. Olavo Brás. Contei-lhe tudo: gravações,
perícias, vida da mulher, ameaça de suicídio do meu cliente.
Gervásio ficou em silêncio por alguns instantes e perguntou:
— As vozes das crianças estão nítidas? Não há algum vestígio
de que falam de distâncias diferentes do gravador, tipo mais perto,
mais longe?
— Não. O som é igual o tempo todo. E muito claro. Nada indica

18 Em novembro de 1864, Karl Marx escreveu uma carta ao presidente americano


Abraham Lincoln, cumprimentando-o por sua reeleição, pela guerra contra os
confederados e a favor da abolição da escravatura. Marx prestou homenagem à
grande república democrática e à sua pioneira declaração dos direitos do Homem.
Lincoln respondeu dizendo que “as nações não existem apenas para si mesmas,
mas para promover o bem-estar e a satisfação da humanidade, pelo intercâmbio
benevolente e pelo exemplo. É sob essa luz que os Estados Unidos enxergam sua
causa no presente conflito contra a escravatura, sustentando a insurgência como
uma bandeira da natureza humana”. A resposta foi assinada pelo embaixador
Charles Francis Adams.
afastamento ou aproximação das crianças no momento em que suas
respostas foram gravadas.
— Essa mulher tem um cúmplice! — sentenciou Gervásio.
— O que você quer dizer com isso? Um amante? Um
namorado?
— Não. Um cúmplice na autoria das gravações.
— Por que você tirou essa conclusão?
— Simples. Primeiro, as mulheres não são exímias operadoras
dessas maquininhas modernas de gravar. Segundo, a gravação com
duas crianças é trabalhosa. Você disse uma de sete, a menina, e
outro, o menino, de nove anos?
— Creio ser machismo seu achar que mulher não sabe operar
gravadores. As crianças têm sete e nove anos.
— Numa situação dessas, as crianças não se sentem à
vontade. Falar mal do pai. Ficam constrangidas. Andam de um lado
para outro, querem sair da sala, sentam, levantam, se atiram em
sofá, se houver um por perto, pedem suco, sorvete, querem ir ao
banheiro.
A imaginação de Gervásio não tinha fim.
— E a mãe — continuou ele — não poderia segurar o gravador,
operar as teclas, fazer as perguntas e ditar as respostas, soltar o
gravador depois de feitas as perguntas, sem segurar a criança da vez.
Não teria êxito, se a criança estivesse solta. É impossível mantê-la na
mesma posição, de forma que a voz seja gravada em igual distância o
tempo todo. A mãe tem que segurá-la, ou pelo ombro, ou pelos
braços, ou pela cintura, sem violência, mas tem que segurar. Criança
nessa idade? Gravando essas coisas? Tem que segurar.
— E daí?
— Daí, foi o cúmplice quem executou as operações de grava-
pausa-solta-grava, trabalhando no gravador. A mulher não podia
fazer isso, tendo de segurar as crianças. Ela tem um cúmplice.
Investigue. Você descobre.
Voltou a falar dos problemas do mundo. Despedi-me e fui para
o escritório, agora com um problema a mais: o “cúmplice”, que o
Gervásio enfiou na minha cabeça. Alguém disse uma vez,
misturando cinismo com humor: Quando é grande demais a
confusão, está-se bem próximo da solução. Acho que foi o Lair
Ribeiro, um emérito otimista.

25
O laudo da perícia do Sinval era claro: a cada pergunta
formulada pela mãe, havia um clique sobre o botão de pausa no
gravador, ou, mais provavelmente, sobre o stop, porque a interrupção
das ondas gráficas, no leitor de áudio, era abrupta. Os desenhos
sonoros cessavam completamente e, em seguida, retornavam no
osciloscópio com a resposta da criança. Sinval ilustrou com fotos
todos os trechos em que isso ocorria, numa época em que não era
fácil obter esse tipo de reprodução.
Não havia dúvida: entre a pergunta e a resposta, o gravador era
travado. Daí a certeza de que as frases das crianças foram ditadas
pela mãe. Intuitivamente, meu cliente acertara. O grande mal, a
tragédia irreparável, não era a acusação contra ele, mas o fato de
seus filhos terem sido levados a descrever atos obscenos que
seguramente desconheciam e dos quais, por essa diabólica forma,
tomaram conhecimento.
Sobre a vida da mulher, as informações foram chegando aos
poucos. Nerval, Casé e meus demais assistentes transformaram-se
em agentes policiais, o que sempre ocorria quando precisávamos
colher provas difíceis. Vasculharam tudo. Ela freqüentava a praia do
Guarujá e, por várias vezes, fora vista no “clube da chave”. Ali se
reuniam casais devassos, que se divertiam misturando as chaves dos
respectivos quartos, e cada um dos homens, de olhos fechados,
pegava uma delas para ir dormir com a mulher do outro, que
estivesse ocupando o quarto da chave sorteada. Era invalidada a
escolha quando coincidia de pegar a chave do próprio quarto. Gente
maluca,
A mulher era desquitada, mas freqüentava o clube com um
namorado. Gostava, portanto, desse tipo asqueroso de aventura.
Claro que não seria fácil provar o fato, mesmo porque os demais
freqüentadores jamais admitiriam praticar esse jogo deprimente. Mas
já era alguma coisa. O “clube da chave”, no Guarujá, de alguma
forma, sofria um zunzum sobre essa atividade. Se o zunzum se
espalhou, ainda que discretamente, haveria alguém que ouviu dizer.
Talvez um garçom que serviu bebidas, ou algum entregador de pizza.
Eu teria, primeiro, que demonstrar o que era o “clube da
chave”, achar alguém que prestasse depoimento sobre o que se dizia
do clube e de seus freqüentadores. E, depois, uma outra testemunha
que tivesse visto a mulher entrando ou saindo do local, onde se
supunha que o clube funcionasse.
Mas o que isso teria a ver com o fulcro do processo de guarda
das crianças e o direito de visita do pai? Não sei se o juiz aceitaria a
prova, pois, mesmo se eu a conseguisse, o fato demonstraria que a
mulher era uma devassa, talvez indigna de ter a guarda de filhos
menores, mas não ilidiria a acusação contra o meu cliente,
materializada na gravação da fita cassete. Eu provocaria grande
confusão nos autos e na cabeça de todos. Poderia conseguir a
transferência da guarda das crianças para os avós, que estavam
vivos; mas não devolveria ao meu cliente o direito de visita e não o
livraria das conseqüências penais decorrentes de atos obscenos
praticados com menores, sob o agravante de tê-lo feito com os
próprios filhos.
Mas a mulher é uma grande sem-vergonha. Deixei meus
assistentes continuarem buscando todas as provas. Não seria
demais. Um dia poderia surgir algo que virasse tudo.

26
Certa vez, tive um processo em que duas partes disputavam a
propriedade de umas terras no litoral de Santos. Provas de todos os
jeitos. Testemunhas idosas atestando que cada um deles não
somente tinha a posse, mas também o título de domínio mais
legítimo. A disputa visava ao registro no cartório de imóveis.
A parte contrária apresentou seu título de propriedade, papel
antigo, escrito à mão, emitido pelo fabriqueiro da região no tempo do
Império. Dizia-se “fábrica” o conselho constituído de clérigos e leigos,
sujeito à aprovação do bispo, e cujas funções se restringiam à
administração dos bens de uma paróquia, funções que abrangiam
emitir títulos de propriedade ou de venda e compra entre os
paroquianos.
Submetido à perícia, o título da parte contrária prevaleceu,
pois datava do tempo do Império, e o do meu cliente, embora
formalmente constituído de acordo com o Código Civil de 1916,
perdeu no confronto. Sentença contra.
Durante o prazo da apelação, um colega meu, o Dr. Carlos
Cherto, levou os autos para casa, a fim de estudá-los
minudentemente, como sempre fez. Retirou dos autos o velho título e
o olhou contra a luz. Na linha-d’água do papel, quase imperceptíveis,
estavam as armas da República. O título era “fabricado” e não
emitido pela fábrica da paróquia. Bendito o patriotismo republicano
do fabricante do papel!
O Dr. Ariosto Guimarães costumava contar que um caiçara
uma vez o procurou, para oferecer seus serviços ao ilustre advogado
de Santos, especializado em demandas de terras. E com a maior
tranqüilidade lhe disse:
— Doutor, eu posso arrumar para o senhor qualquer tipo de
documento, pois, nessas brigas de terra, sem documento o senhor
não ganha a questão.
Talvez tenha sido esse caiçara que ludibriou a nós e aos
peritos, que não viram naquele título nenhum indício de falsidade.
Não se pode desistir.
Para mim, no caso do meu cliente que queria suicidar-se, o
“documento” era o laudo do Sinval. Prova segura da materialidade do
embuste, mas restrita às pausas do gravador.
Tive impulso de ir falar com o juiz da causa, magistrado
competente, usando desses pequenos truques de “Vim dizer boa
tarde, porque estava passando por aqui”. E aproveitar para comentar
sobre o laudo particular, revelando os detalhes das pausas na
gravação. Contive-me. Era melhor requerer e esperar a perícia oficial.

27
Em advocacia, é preciso pensar, planejar e ter muita calma,
refletir sempre. Aprendi isso logo cedo, com um excelente advogado
criminalista de Santos, José Gomes da Silva. Recém-formado, fui
fazer estágio em seu escritório. Encarregado de defender um rapaz
acusado de sedução, enfrentei meu primeiro processo com grande
esmero. Aberto o inquérito por advogado com procuração para dar a
“queixa”, ouvidas as partes, relatado pelo delegado, o Ministério
Público ofereceu denúncia, porque o caso é de ação pública. A mim
caberia levar o réu para ser interrogado, fazer a defesa prévia e
requerer provas. Mas verifiquei que, nos autos, não havia a
necessária representação dos pais da menor, o que acarreta a
nulidade absoluta do processo penal nesse caso.
Entusiasmado, comuniquei o fato ao Dr. Gomes da Silva e lhe
disse que liquidaríamos a causa já na defesa prévia.
— Não senhor — disse ele —. primeiro faça as contas. A lei
processual penal fixa em seis meses o prazo para a representação.
Desde a abertura do inquérito, quase contemporâneo à sedução
alegada, não se passaram seis meses. Temos que deixar correr o
prazo da lei, que é de decadência e não pode ser interrompido para
contar de novo, como acontece com a prescrição. Além do mais,
teremos um dia seguro para o começo da contagem, pois, em matéria
de sedução, sempre há muita controvérsia relativa a quando se deve
contar o prazo para a representação.
Aprendi mais essa. Deixei correr os meses e, depois, com a
expressão angélica de advogado moço, aleguei a nulidade. E o
processo foi arquivado. Aprendi a conviver com minha consciência.
Uma solução técnica de ordem processual poderia ter sido razão da
impunidade de um culpado? Se aceitou a causa, o advogado não
deve amargurar-se com essas perguntas. O objetivo é defender seu
cliente, sem abdicar dos valores morais. Foi nosso juramento, ao
receber o diploma e ao entrar na OAB. Não pode, porém, ser rigoroso
consigo, invocando valores morais em mutação na sociedade em que
vive e exerce sua profissão. Foi um gênio aquele que descobriu o
mais óbvio dos lugares-comuns: cada caso é um caso.
A moça seduzida poderia ter seduzido mais do que o rapaz
acusado de sedutor. Nesses encontros e desencontros românticos e
amorosos da juventude, não há muito valor moral a ser censurado,
sobretudo sob enfoque do Direito Penal. Creio que estava certo,
porque esse tipo de crime saiu de moda e foi revogado no Código
Penal.

28
Imperdoável era o “clube da chave”. Ou o fato de ensinar
crianças a contarem coisas imorais, para produzir prova contra ex-
marido. E por quê? O que levaria uma mulher, por mais depravada
que fosse, a deixar de proteger a pureza de seus próprios filhos,
ensinando-lhes não a prática dos atos horríveis narrados, mas como
descrevê-los, o que, na sensibilidade delas, deveria causar o mesmo e
irreparável estrago pelo resto da vida?
Sempre supus que, na vida animal, em qualquer tipo, o
instinto materno era o mais sublime, a começar pela defesa
incondicionada dos filhos, sob todos os aspectos e em todas as
situações. A exceção que agora desmentia minhas convicções deveria
ser única. Tinha que ser a única.
Aquela cliente que eu passara ao Paulo de Tarso levava uma
vida censurável; mas, em sua casa, com seu filho, tinha conduta
exemplar, circunstância que o advogado descobre usando
testemunhas, assistentes sociais e outros recursos. Ela podia ser
mulher doidivanas, mas amava o filho pequeno. Dentro de casa, o
filho crescia respeitando a mãe. Isso é fundamental para o direito da
criança. O direito da mãe é secundário. E o que ela tem não é direito;
é dever e obrigação. Paulo ganhou a causa.
Todos nós temos exemplos comoventes de vivências lindas ao
lado de mulheres fantásticas. Minha mãe foi uma delas. Fazendeiro
pobre, meu pai teimava em cultivar café, esperando que a safra
pagasse pelo menos o financiamento do banco. Nunca acertava. Ele
inventou a eterna esperança no “ano que vem”.
Minha mãe costurava nossas calças e camisas com o tecido de
sacos da farinha usada para fazer pão caseiro, ou com brim cáqui,
quando dava para comprá-lo. Além disso, ela ia colher lenha no
mato, para cozinhar no velho fogão feito de tijolo e barro, pintado de
vermelho. Um dia, olhando para o céu, achei que as nuvens da
minha terra tinham a marca de seus braços. Nunca reclamou de
nada. Vivia alegre, e suas risadas gostosas são um dos melhores
sons que guardo de minha infância, junto com o canto da passarada
nas madrugadas rurais e azuis de Cravinhos. Isso me engasga e
molha os olhos que, com o tempo, foram aprendendo a conter
lágrimas para a garganta engolir em seco. Para mim, hoje, a saudade
é um soluço de lágrimas retidas. Sinto a umidade delas em minha
alma.

29
Não satisfeito em ter prejuízo com sua fazenda de café na terra
roxa de Cravinhos, meu pai comprou outra no norte do Paraná, no
município de Jacarezinho, às margens do Rio Paranapanema, região
que estava sendo desbravada. Creio que passou a ter prejuízo em
dobro. Adquiriu um caminhão F-5, fez-me tirar carta de motorista
profissional e incumbiu-me de fazer transporte entre as duas
fazendas. Momento de glória de minha juventude. Trabalhar! Minha
primeira profissão foi, portanto, a de caminhoneiro. De Cravinhos
para o Paraná, levava material de construção, e, na volta, trazia café
já beneficiado. Muito depois entendi: para vender em Santos, o café
com origem em Cravinhos conseguia preço melhor. Os provadores
profissionais nem percebiam tratar-se de café paranaense.
Não era fácil trabalhar com caminhão naquela época. Estradas
de terra, e, quando chovia, tudo virava lama e barro bravo. O jeito
era colocar correntes de ferro nas rodas do caminhão, para evitar
atolar na estrada. Mas, algumas vezes, desliza daqui, escorrega dali,
o volante golpeia à esquerda, desvira tudo à direita, rabeira para um
lado, dianteira para o outro, vai rumo ao barranco, roda em falso e —
merda! — o caminhão afunda no barro. Meu ajudante (caminhoneiro
sempre tem um ajudante, mas que não dirige) chamava-se Cassiano.
Era um crioulinho magnífico. Foi meu companheiro de muitas
viagens pelos caminhos esburacados do nosso país.
Quando o F-5 encalhava, o trabalho, em algumas ocasiões, era
uma tragédia. Tirávamos toda a carga no muque. E a depositávamos
sobre um encerado estendido no barranco da estrada. Com um
enxadão, removíamos o máximo de barro diante das rodas e
colocávamos pedras, folhas, troncos, qualquer coisa que ajudasse as
rodas a não se afundar nem girar em falso. Concluídos os remendos
na estrada, eu arrancava com o caminhão com toda a força do
motor, para sair do buraco, e, quando saía, procurava, na frente, um
trecho mais seco ou mais firme. E sempre se repetia a cena:
— Pára! Pára! — gritava o Cassiano. — Veja a lonjura em que
está a carga. Nós vamos morrer para recarregar o caminhão.
Não morríamos. Éramos jovens. Carregávamos tudo nas costas
e dando risada.
Na próxima cidade, escolhíamos uma pensão para tomar
banho, trocar de roupa, beber uma cachacinha, jantar e dormir.
Uma vez, Cassiano contou-me, na hora do aperitivo, que estava com
tanta saudade da mãe dele, que chegava a doer. E não havia lido
nenhum poema de Drummond. Na segunda pinga, despejou os
irmãos brincando na roça, mas dizendo que a mãe viúva chegou a
passar fome para os filhos comerem.
— De que morreu seu pai? — perguntei.
— Meu pai morreu matado. — E não quis contar a história.
Voltou a falar da mãe: — Ela servia para nós tudo o que tinha, e era
pouco, dizendo que ia comer mais tarde. Mas eu via: lá dentro não
tinha nada. Isso não foi nem uma, nem duas vezes. Foi durante
muito tempo. Ela trabalhava na enxada. Depois, as coisas
melhoraram. O que ajudou mesmo foi a derriça do café.
— Por que você não leva sua mãe para trabalhar na fazenda de
meu pai? Assim, você fica com ela o tempo todo, enquanto não
viajamos.
— Obrigado, mas não precisa. Agora, ela está muito feliz. Mora
na cidade e, além de trabalhar em casa de gente boa, ajuda o padre
na igreja, dizendo que tem que rezar o resto da vida, por ter criado
bem os filhos. E, graças a Jesus, graças a Nossa Senhora, ela está
levando a vida que pediu a Deus! Uma santa. Eu é que morro de
saudades dela. Você me desculpe o desabafo.
Tomamos a saideira para ir jantar. Os olhos dele estavam
lacrimejando. Ele falava, pois, de uma mulher de alma linda, igual à
da minha mãe, igual à de tantas mulheres, milhares, pobres ou
ricas, em nosso país, pois, afinal, elas iluminam a humanização das
famílias brasileiras. Com sacrifício, privações, seja lá o que for ou
faltar, somos um povo de mães, pais e filhos com valores fundados
no amor e, a maioria esmagadora, na moralidade e na decência.
Que diabo podia ter baixado em uma mulher para negar tudo
isso e degradar os próprios filhos, levando-os a gravar aquela sujeira
toda contra o pai?
30
Chega de cogitações. Minha obrigação era estudar os próximos
passos no processo judicial, aberto em minha mesa, ainda sem
contestação, ao lado de outros quarenta e tantos ali amontoados,
dentre os mais de duzentos que corriam em todo o escritório.
Era quase meio-dia. Resolvi fazer uma visita ao Gervásio.
Entrei. Ele me ofereceu um drinque. Não quis. Apenas à noite. Não
bebo na hora do almoço.
— Faz bem. Quer água?
— Aceito.
— Não foi você quem criou aquele órgão que vigia a ética na
propaganda? Como se chama? Cornar, Colar, ou coisa parecida.
— Conar. Conselho Nacional de Auto-Regulamentação
Publicitária.
— Como funciona essa coisa?
— Coisa não, meu caro. É uma instituição privada da maior
respeitabilidade e funciona muito bem.
— Sem lei, sem nada?
— É por isso que funciona bem. É um tribunal de ética. Foi a
primeira grande organização não governamental do Brasil. Já
completou 25 anos de funcionamento com pleno sucesso.
— Se alguém for condenado, quem obriga o faltoso a cumprir a
condenação?
— Primeiro, é preciso entender a composição do Conar. Todos
os operadores da publicidade integram o Conselho. Anunciantes,
agências de publicidade, veículos, jornais, revistas, rádios e televisão.
Até os que trabalham com outdoor e têm uma central, na época
presidida por Carlos Alberto Nanô, signatário da ata de fundação
daquele órgão. Se um simples anúncio ou qualquer produção
publicitária for considerado antiético depois de um processo
completo no Conar, com direito a defesa plena, réplica e tréplica, os
veículos suspendem a divulgação. Pronto. A condenação está
cumprida.
— E ninguém dá um jeitinho de enrolar, de burlar e continuar
anunciando?
— Não há hipótese, precisamente por não existir lei que regule
o funcionamento da instituição. Por norma, toma-se o Código de
Auto-Regulamentação Publicitária, denominado normas-padrão,
uma genial criação dos publicitários brasileiros, fundada nos
princípios gerais da moral e dos costumes. A instituição é de direito
privado, e todos cumprem esses princípios. Mas eu não vim visitar
você para falar sobre o Conar. Por que a preocupação?
— Eu vi um anúncio na TV e me lembrei de que você esteve
envolvido nessa coisa de censurar publicidade.
— Parado lá, meu caro. Não se trata dessa coisa e muito menos
de censurar. É uma conquista do mundo publicitário brasileiro e
uma grande obra dos veículos de divulgação, dos anunciantes, das
agências de propaganda. Hoje o Conar é citado como exemplo no
exterior, nos países de maior desenvolvimento da publicidade, como
a Inglaterra e os Estados Unidos.
— Você faz esse discurso porque foi seu fundador.
— Fui o coordenador da fundação. O mérito cabe aos líderes
publicitários e aos proprietários dos veículos que, na época,
aceitaram a idéia e lhe deram vida. Para citar apenas alguns:
Geraldo Alonso, Caio Domingues, Mauro Salles, Roberto Marinho,
Dionísio Poli, Petrôneo Corrêa, José Maria Homem de Montes, Luiz
Celso de Piratininga, Luiz Fernando Furquim e muitos outros. Lista
respeitável. Aliás, em muitas reuniões, o Dr. Roberto Marinho foi
representado por seu filho, João Roberto, mocinho e de uma
perspicácia notável. Quando alguém sugeriu que devíamos procurar
o Governo Federal para obter uma lei sobre a matéria — seria um
decreto-lei, pois estávamos em pleno regime militar —, o jovem João
Roberto advertiu:
— Se pusermos o Governo nisso, acabará editando lei para ele,
e teremos censura em vez de liberdade de expressão com
responsabilidade ética.
O garoto fez sucesso. Estava certo. Mesmo porque a ditadura,
embora estivesse chegando ao fim, ou por isso mesmo, tramava
editar normas de censura na propaganda. Na verdade, apressamos
com o surgimento de uma solução de direito privado, e o fato
consumado calou a boca dos que queriam calar a nossa.
— Por tê-los assessorado na constituição do órgão — expliquei
pacientemente ao Gervásio —, na redação de seus estatutos e
regimentos, com a colaboração do grande publicitário João Luiz
Faria Neto, fizeram-me uma homenagem, elegendo-me o primeiro
presidente do Conar. Homenagem e trabalho. Fui um primeiro
presidente não muito primeiro e não muito presidente.
— Por quê?
— Porque, terminada a organização do tribunal de ética, houve
a eleição para o presidente oficial, o de verdade, que foi Petrôneo
Corrêa, o verdadeiro primeiro, ainda que tenha sido o segundo. Ele
lutou muito pela implantação do órgão, contras as dúvidas
levantadas no próprio meio publicitário e teve a sorte de contar com
a colaboração de muita gente competente. Inclusive do Gilberto
Leifert, que deixou a advocacia para dedicar-se unicamente à bela
missão de organizar a liberdade de expressão publicitária exercida
sob a responsabilidade de um código de ética maravilhoso.
— Mas isso funciona até hoje?
— Claro! O Conselho funciona há décadas, e, atualmente, você
não vê um único litígio em torno de publicidade correndo pelo
Judiciário brasileiro, se o assunto tratar de questão ética. Mais um
pequeno detalhe: a própria lei da publicidade (Lei nº 4.680/65) e seu
decreto regulamentar (Decreto nº 57.690/66) tiveram os textos
redigidos por mim. Seu moço, o tempo passa!
— A troco de que você legislou sobre publicidade?
— Colaborei. Quem legislou foi o Congresso, e o Executivo
baixou o regulamento.
— Mas redigido por você.
— Eu era consultor jurídico da ABAP — Associação Brasileira
de Agências de Propaganda (hoje ABP). E prestei também consultas à
ABERT — Associação Brasileira de Rádio e Televisão. Acabei
entendendo do assunto e, sobretudo, me empolgando com a
convivência. Os publicitários, além da criatividade profissional, são,
em geral, muito inteligentes, excelentes redatores, perspicazes, lutam
pela conquista de mercados para o produto de seus clientes,
mantendo a consciência de que lidam com um poderoso instrumento
de educação do povo.
— Mas você já reparou que a maioria das propagandas no
Brasil, a de TV e de rádio principalmente, começa com “chegou!”?
Chegou isso, chegou aquilo. Não haverá outro verbo no vocabulário
desses excelentes redatores? — Gervásio gostava de contrariar meus
entusiasmos.
— Prestei esse serviço a esta atividade essencial ao
funcionamento civilizado de nosso país: a propaganda. Não deboche.
É um mercado de importância enorme e de infinitas possibilidades. E
o Conar veio completar e coroar a organização dos publicitários e
veículos com o exemplar tribunal de ética, que nenhum outro setor
industrial ou comercial conseguiu conceber. É preciso conferir a
jurisprudência que os julgamentos desses anos todos colecionaram
para o setor. Verdadeiras aulas de comunicação decente e
construtiva.
— Como advogado, você arrumou uma ótima saída para livrar
a publicidade do martírio, da morosidade, da insegurança, das falhas
do Judiciário. Não há como criticar a idéia, sobretudo porque está
funcionando. Mas a OAB podia aplicar-lhe uma censura, já que você
tirou muitas causas boas de seus colegas.
— Não fale bobagem. Os advogados podem funcionar, e
funcionam, em todos os processos do Conar. E anote: para os
juristas, o Conar tem uma importância histórica de alta relevância.
Antes de sua fundação, solicitei um parecer do Professor Pontes de
Miranda, que o proferiu com a sabedoria de sempre. Foi o último
parecer jurídico do velho mestre. Logo depois, morreu. Os honorários
que lhe devíamos foram pagos ao seu espólio.
— Não me diga! Isso é preciosidade. Mas as agências de
publicidade daquele tempo não faziam campanhas para políticos
como fazem algumas hoje?
— Que mal há nisso?
— Se ficassem apenas nas campanhas, contabilizando os
verdadeiros custos de acordo com a lei eleitoral, tudo bem. Mas a
intimidade, meu caro, a intimidade com os candidatos acaba
corrompendo a atividade profissional. Eleito, o cliente, pensando na
próxima eleição, passa a favorecer seus marqueteiros com verbas
públicas em propaganda duvidosa, de utilidade duvidosa, de preços
duvidosos, de forma duvidosa nos pagamentos, inclusive no exterior.
A ABP não devia reconhecer essa picaretagem como agência de
propaganda. Pelo que você falou, se o Código Brasileiro de Auto-
Regulamentação Publicitária fosse aplicado à publicidade eleitoral
não aconteceriam tantas baixarias!

31
— Gervásio, meu caro, eu vim falar com você sobre o caso do
Olavo Brás e não sobre a ética na publicidade, nem sobre o Conar.
Vim falar sobre o Olavo Brás. Tenho chance?
— Quem é esse cara?
— Aquele das crianças e da gravação acusando-o de atos
imorais.
— Ah! É verdade. Não me lembrava do nome dele. Foi feita a
perícia?
— Foi. E comprovou-se que, depois de todas as perguntas, foi
apertada a tecla de pausa, o que confirma a suspeita de que as
respostas tenham sido ditadas pela mãe.
— Ou alguém por ela.
— Não. Creio firmemente que o ditado só pode ter sido feito
pela mãe. Criança naquela idade não repetiria as frases contra o pai
se faladas por um estranho. Somente se vindas da mãe.
— Tem razão.
— Achei que você gostaria de saber o resultado que confirma
nossas suspeitas.
— E a distância? A perícia indicou a distância entre as
crianças, enquanto falavam, e o gravador?
— Não desceu a esse detalhe.
— Detalhe? Você está maluco! A distância é essencial para
demonstrar que a criança, enquanto falava, estava imóvel, e que a
mãe a segurava de alguma forma. Isso vai levar a outra dedução:
houve um cúmplice operando o gravador. Eu já lhe disse isso da
outra vez! Passe o caso para outro advogado, porque, pelo jeito, você
está ficando gagá.
Gervásio tinha razão. Saí de lá com raiva de mim, por não
haver advertido o perito sobre o tal “detalhe”. Ainda bem que não se
tratava da perícia judicial, a definitiva. Cheguei ao escritório,
dirigindo-me imediatamente à minha secretária, Dona Dayse:
— Ligue para o Sinval. Urgente!

32
A lentidão do Judiciário brasileiro é antiga e crônica. Piorou
muito com o tempo. Ou mudam as leis processuais e modernizam a
infra-estrutura desse Poder ou vamos acabar tendo um apagão no
sistema e no país todo. Controle externo não é uma bobagem total,
mas com gente estranha infiltrada vai funcionar mal. Adianta nada,
mas atrasa muito. Súmula vinculante pode ajudar um pouco.
Podem atirar pedras, mas a idéia de súmula vinculante foi
minha, e limitada à questão constitucional, por um motivo muito
simples. O Supremo Tribunal declara inconstitucional uma
determinada lei. O juiz de primeiro grau, ou um tribunal qualquer,
sob a presunçosa invocação do juiz natural, acha que o Supremo
está errado e aplica a lei contra o direito do cidadão brasileiro. Se a
vítima tem dinheiro para pagar advogado, pode recorrer e chegar até
Brasília. A vitória está assegurada, porque o Supremo declarou
inconstitucional a lei aplicada contra o recorrente. Aqui já se
misturam dois tipos de recurso: o extraordinário e o mais
extraordinário ainda, que é o recurso financeiro. Sem este, aquele
não anda. Mas o pobre, que sofre lesão igual, não tem como se
defender. Terá seu direito negado por falta de um recurso processual
infraconstitucional. Nosso sistema permite, assim, que transite em
julgado (proteção constitucional) a aplicação da lei declarada
inconstitucional pela Suprema Corte. É coisa de maluco.
Resolvi lançar a idéia da súmula vinculante no Congresso da
Magistratura em Fortaleza, Ceará. Antes de viajar, passei pela Barão
de Limeira, visitei a Folha de S. Paulo e fui falar com o meu amigo de
tantos anos, Octavio Frias de Oliveira, empresário, jornalista e
homem íntegro, brasileiro convicto, espírito público, e que, além
disso tudo, usufrui da sorte de ter filhos formidáveis, que
continuarão sua obra. Pedi o apoio da Folha para a idéia que iria
lançar no Nordeste. Frias entendeu imediatamente o significado da
medida por mim sugerida. E apoiou. Foi um longo caminho. A
súmula vinculante entrou na reforma do Judiciário e hoje mora no
texto constitucional.
Claro que o Judiciário continua vagaroso e, processualmente,
um trambolho. O que resolveria e seria fundamental para agilizar as
deficiências desse Poder é... bem, deixa pra lá! Não vou me meter
nisso agora e aqui. Prefiro que o Walter Ceneviva, que tem paciência
para tudo, cuide da matéria em seus excelentes artigos de jornal.

Meu cliente, Olavo Brás, também precisaria ter paciência, se


possível chinesa, pois não voltaria tão cedo a ver seus filhos. Mas,
desistindo da idéia de suicídio, já me deixava tranqüilo, a menos que
sofresse uma recaída em razão da demora do Judiciário. Contestei a
ação. Defesa resumida, limitada a afirmar que, na inicial, nada era
verdade, que a autora da ação era de moralidade duvidosa e seu
ilustre advogado fora cruelmente enganado. Requeri a perícia na fita
cassete e indiquei o Sinval como assistente. Depois de um debate
formal sobre o cabimento e a utilidade do exame técnico, o juiz
deferiu a prova. A parte contrária indicou seu assistente, e o nobre
magistrado nomeou o perito judicial. Sinval me assegurou que o
laudo seria unânime, ao menos lutaria por isso, porque não havia
dúvida sobre as pausas entre as perguntas da mãe e as respostas
das crianças. Já estava advertido sobre a distância do gravador e a
fonte das vozes. Constava dos quesitos. Deu tempo.
— Quando você imagina entregar o laudo?
— Isso eu não sei. Depende do perito do juiz, que está
sobrecarregado. Vamos ver se podemos agilizar.
Agilizar, em linguagem forense, significa meses e meses.
Enquanto isso, meu cliente continuava sem o direito de visita, mas a
crise de autodestruição estava amainada. Vez por outra, eu o
chamava para um papo descontraído e, na verdade, bancava o
psiquiatra. Tomava cuidado para não falar na investigação do Nerval
sobre o comportamento da ex-mulher durante o casamento. O
homem já estava arrasado diante de mim. Seria imprudência ou
malvadeza falar no adultério da ex-mulher e perguntar como foi, se
era verdade seu perdão, quais as razões.
Refletidamente, não recorri da liminar que lhe suspendeu o
direito de visitas. Seria apenas uma medida para cumprir o dever de
advogado, mas poderia envenenar o tribunal, que ouviria a gravação,
e o recurso não seria deferido. Restaria apenas o veneno.

33
Às vezes, o advogado confronta-se com dilemas complicados
para escolher o melhor caminho de defesa de seu cliente. Em muitas
ocasiões, isso me aconteceu. Em uma delas, foi terrível. O caso do
impeachment19 do ex-presidente Fernando Collor, que, espertamente
e para fugir à pena de inabilitação por oito anos para o exercício de
cargo público, renunciou ao mandato antes da conclusão do
processo no Senado Federal. O impeachment tratava-se de favas
contadas. Nenhuma dúvida havia. O moço seria posto na rua.
Mas o Senado, reunido em tribunal especial para o julgamento
do crime político do Presidente da República, sob a presidência do
Ministro Sydney Sanches, do Supremo Tribunal Federal, considerou
prejudicada a acusação para alijá-lo do cargo, em virtude da
renúncia, e lhe aplicou a pena de inabilitação do parágrafo único do
artigo 52 da Constituição. Não poderia mais exercer qualquer função
pública por oito anos. Collor mudou-se para Miami, nos Estados
Unidos. Instalou-se numa casa na ilha Bal Harbour e foi desfrutar de
um rico descanso, longe de Paulo César Farias, mais tarde assassi-
nado em circunstâncias até hoje misteriosas. Um arquivo bem
apagado.
Porém, antes, Fernando Collor ingressou com mandado de
segurança no Supremo Tribunal Federal contra o Senado Federal.
Seu advogado, Cláudio Lacombe, profissional de alta competência,
fundamentou sua tese numa premissa simples: se a pena principal
não foi aplicada, é inconstitucional a aplicação da pena acessória.
Armou-se o circo.

34
Fui convocado para defender o Senado Federal, autoridade
impetrada no mandado de segurança. Caprichei na defesa por
escrito. Usei de todas aquelas complicações jurídicas de citações em
alemão, italiano, inglês e latim e clamei por justiça perante o mundo,
como diziam os antigos romanos: Fiat justitia, pereat mundus.
Na nossa realidade, citei uma lei do Congresso Nacional (Lei nº
19 Impeachment, expressão inglesa adotada pela linguagem jurídica brasileira, quer
dizer cassação de mandato, impedimento legal de exercer o cargo.
7.106/83), portanto votada pelo Senado, que dispunha sobre a
prescrição de dois anos para aplicação da pena de suspensão
daqueles direitos contra autoridades que deixassem o cargo, quer
voluntariamente, quer por impeachment.
Era uma lei editada especialmente para o Distrito Federal.
Sabe lá Deus o que a inspirou nesses eternos casuísmos dos jogos
políticos do Brasil. De qualquer forma, a conclusão seria única: o
Senado, como órgão legislativo, considerou a aplicação da pena de
suspensão independente da outra chamada de principal. Pena
autônoma, mesmo porque, pela lei por ele votada, poderia ser
aplicada a inabilitação até dois anos depois de a autoridade pública
haver deixado o cargo. Não se podia pedir ao Senado que, como
tribunal constitucional, agisse de forma contrária a seu
entendimento como órgão legislativo.
É fácil imaginar quantas matérias de direito foram debatidas
naquela ocasião. Os especialistas e historiadores que queiram os
detalhes ou a íntegra dos trabalhos encontrarão tudo nos arquivos
da época. Eu mesmo, antes do processo, proferi três pareceres sobre
a matéria, respondendo a consultas de altas autoridades dos Poderes
Executivo e Legislativo. Outros juristas fizeram a mesma coisa. Se
transcrevesse neste livro aqueles trabalhos, estaria recorrendo a um
inegável enchimento de lingüiça, sem qualquer utilidade aos leitores
que tiveram a paciência de chegar até este ponto
Desculpem-me, mas não tenho a menor vontade de reproduzi-
los aqui. Minha história é outra, fora dos autos, mas não fora do
mundo. Versa sobre aquele dilema que atormenta o advogado na
escolha do melhor caminho para a defesa do cliente. Nessa causa, o
meu cliente era o Senado Federal e, por trás dele, o povo brasileiro.
Cláudio Lacombe, defensor de Fernando Collor, costumava,
uma vez por semana, ir a um restaurante em Brasília e passar o dia
bebendo apenas bebida extraída de uva. Começava com vinho
branco, dos melhores, continuava com grandes vinhos tintos durante
o almoço e, depois, como digestivo, conhaque. Simpático e de bom
papo, conversava com todos no restaurante, até que, vencido pela
enolatria, era retirado por seu motorista e levado para casa.
Perguntado por que não escolhia, para esse processo de distensão, o
sábado ou o domingo, respondia que o fim de semana era da família.
O julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal foi
numa quarta-feira. Tribunal lotado. Gente que não acabava mais. As
televisões dando trombadas, com câmeras em todos os ângulos.
Cenário de pressão sobre todos nós, os atores daquele momento
histórico, que o Brasil ia viver naquela sala.
Os advogados que participam do julgamento sentam-se na
primeira fila, vestidos com túnicas pretas chamadas de becas.
Acomodei-me ao lado do Cláudio Lacombe, que iria falar em primeiro
lugar, por ser o advogado do impetrante Fernando Collor, autor do
mandado de segurança. Evitamos que nossas becas se
entrelaçassem, cada qual puxando para seu lado sua saia quase
rodada, como fazem as mulheres com vestidos longos.
— Hoje é quarta-feira. O que você está fazendo aqui? Não é seu
dia de deliciar-se com vinhos?
— Estou cumprindo o meu dever.
— Não vai ter crise de abstinência?
Não consegui perturbá-lo. A sessão foi aberta, e o processo foi
anunciado pelo Presidente do Supremo, Ministro Luiz Octávio
Gallotti. Três ministros deram-se por impedidos: Sydney Sanches,
porque havia presidido a sessão do Senado impugnada pelo pedido
de segurança; Marco Aurélio, porque era parente do impetrante
Fernando Collor; e Francisco Rezek, porque se aposentara do
Supremo, fora ser Ministro do Exterior do Governo Collor e, por
essas mágicas da política brasileira, voltara a ser Ministro do
Supremo. Mas, ao menos, era competente. Acabou sendo Ministro da
Corte Internacional de Haia e, quando voltou, foi ser sócio do
escritório de Ives Gandra Martins, circunstância que, tanto quanto
Haia, atesta seu talento jurídico.
Assim, a sessão prosseguiu com o quorum de oito ministros,
suficiente para o julgamento pelo plenário da nossa suprema corte,
composta por onze membros. Quando o Relator, Ministro Carlos
Velloso, concluiu a exposição dos fatos e as razões do processo,
Lacombe pediu a palavra e começou sua sustentação oral com
absoluta calma:
— Não estamos aqui julgando o Governo Collor, mas somente a
pena, aplicada pelo Senado, de suspensão de direitos de um cidadão
comum, quando não era mais Presidente da República e contra o
qual não podia ser aplicada, e por isso não foi, a pena principal. Sem
essa pena, a principal, a aplicação da acessória é uma rematada
violência contra direito líquido e certo do impetrante.
E prosseguiu, em sua sustentação, com muita habilidade.
Chegou minha vez. Subi à tribuna e sapequei:
— Meu colega tem razão. Não estamos julgando o Governo
Collor, pois, se o estivéssemos, nosso debate não se limitaria a uma
pena de interdição de direitos por oito anos; estaríamos aqui
discutindo a possibilidade de aplicar pena perpétua ao impetrante,
tantos foram os males que causou ao nosso país.
Risadas e um alto murmurejo tomaram conta do ambiente.
Gallotti tocou a campainha, pediu silêncio e solicitou-me, com ar de
censura, que evitasse “desnecessários” recursos de eloqüência.
Concluí a sustentação e sentei-me.
Ao meu lado, Lacombe desferiu um palavrão no meu ouvido,
baixinho. Fingi que não era comigo. O julgamento foi concluído com
quatro votos favoráveis a Collor, concedendo a segurança, e quatro
votos contrários, negando o pedido. Empate.
No processo de habeas corpus, quando existe empate,
considera-se concedida a ordem, pelo princípio do in dubio pro reo.
Mas, no mandado de segurança, o empate significa que a ordem não
foi concedida. Fiquei eufórico. Havia vencido. O regimento interno do
Supremo tem disposição expressa (art. 205, parágrafo único) dizendo
que, no caso de empate, prevalece o ato impugnado pelo mandado de
segurança. Certo que se refere a ato do Presidente do Tribunal, mas
aplicável, por analogia, a casos iguais. Além disso, na hipótese do
impeachment de Collor, nem a aplicação analógica seria necessária,
porque o ato impugnado era igualmente atribuído ao então
Presidente do Tribunal, Ministro Sydney Sanches, na qualidade de
Presidente do Senado para o processo de impeachment. Nessa mesma
qualidade, prestou informações. Por isso, declarou-se impedido de
participar do julgamento em que figurava como autoridade coatora.
Preparei-me intimamente para comemorar a vitória diante do
empate. A segurança não fora concedida.
Aí apreendi a lição de Alain Touraine, sociólogo francês, que
disse um dia:

“Aqueles que pensam que sabem o que vai acontecer no Brasil


devem estar muito mal informados.”

35
Segurança negada? Tudo conversa e teorias. O ilustre Ministro
Gallotti, então Presidente do Supremo Tribunal Federal, resolveu
fazer uma gracinha completamente sem graça que podia acabar em
desgraça. Declarou que iria convocar três ministros do Superior
Tribunal de Justiça para completar o quorum do Supremo Tribunal, e
que teríamos novo julgamento. Aquele terminara empatado e não
valia.
Mas o que é isso? Falta de quorum como? Se houvesse falta de
quorum, o julgamento não teria sido realizado. Ora, acabara de ser
proclamado e visto pelo Brasil inteiro, pelas televisões, o resultado de
um julgamento realizado com votos proferidos por oito ministros. O
art. 40 do regimento interno do STF permite a convocação de
ministros do Superior Tribunal de Justiça apenas para completar
quorum, isto é, quando quorum não há. Deve, pois, ser prévia, isto é,
anterior à sessão de julgamento, que não pode ser realizada pela
falta de número.
Por essas razões, sustentei que a convocação seria ilegítima,
pois, tendo havido o número regimental, o julgamento havia
terminado e era definitivo. A segurança não fora concedida. Os
advogados dos promoventes do impeachment, se não me engano
Evandro Lins e Silva e Fábio Konder Comparato, tentaram também
suscitar questão de ordem. Gallotti não quis saber. Manteve sua
decisão de convocar os membros do STJ, encerrou a sessão e saiu
correndo para o seu gabinete. Não quis falar com ninguém.

36
“Santo Deus! O Gallotti está maluco!” pensei eu com enorme
pesar, pois gostava dele. O fato de haver votado a favor de Collor era
irrelevante para nossas relações pessoais; mas declarar que o
julgamento estava anulado pelo empate e convocar ministros de
outro tribunal por falta de quorum era um disparate sem tamanho.
Lacombe virou-se para mim e ironizou:
— Você pensou que estava vitorioso. Pois, agora, veja como
tudo é relativo. Estamos advogando no processo de maior relevância
para a República nos nossos tempos, e você pensa que isso pode ser
resolvido com um simples 4 a 4, dentro de suas filigranas
processuais?
Fiquei quieto. Ele sabia que estava errado. Era bom
processualista. Mas ganhou um fôlego para seu cliente. Agora, sua
tese tinha o respaldo de quatro ministros do Supremo Tribunal.
Estufou o peito e saiu na minha frente. Foi dar entrevistas a
televisões e rádios, que se acotovelavam na porta do tribunal.

37
Permaneci sentado, não acreditando naquilo que havia
acontecido. Senti-me como o torcedor brasileiro, ao perder a Copa do
Mundo de Futebol em pleno Maracanã, em 1950. Com uma
diferença, porém: naquela tragédia esportiva, o adversário ganhou
por 2 a 1; e, agora, no Supremo, nós ganharíamos, tal como naquele
longínquo e fatídico 16 de julho, com o empate, segundo a melhor
doutrina e o próprio regimento interno do Supremo Tribunal. E
empate houve, Santo Deus!
Falta de quorum? Não, eu não podia sair do tribunal. Fiquei
sentado, digerindo o choque. Naquele instante, não tinha a menor
condição de falar com a imprensa. Precisava me acalmar. Se falasse,
correria o risco de xingar o Gallotti até a décima geração de seus
ancestrais, embora seu pai tenha sido um dos bons ministros do
Supremo, a quem conheci no Governo Jânio, o primeiro a funcionar
em Brasília, em 1961.
O pai dele, que também se chamava Luiz Gallotti, morava no
único hotel que funcionava na nova capital, Hotel do Lago, onde se
hospedavam José Aparecido, secretário particular do Jânio, e
Castello Branco, o “Castelinho” jornalista, porta-voz do então novo
governo. À noite, costumávamos ir ao hotel, pois ali funcionava a
única boate decente da cidade, e podíamos tomar uns uísques, ouvir
música, bater papo. Às vezes, o respeitável ministro estava no hall do
hotel, e nós ficávamos conversando com ele. Ninguém se atrevia a
dizer que ia para a boate. O filho dele, que era advogado, também
participava dessas descontraídas conversas e, depois que o pai se
recolhia, ia conosco para a boate. Por aí se pode calcular a
intimidade ou, ao menos, os longos anos de conhecimento. E
precisamente ele aprontava essa imperdoável falseta no julgamento
do mandado de segurança de Fernando Collor, embora, em outros
casos, tenha sido um jurista exemplar em toda sua carreira.
Em nome daqueles velhos tempos, acalmei-me e saí. Os
jornalistas vieram aos montões. É preciso tomar cuidado para os
microfones não quebrarem nossos dentes. Com absoluta
tranqüilidade, fui respondendo às perguntas, sabendo que o Brasil
inteiro ia ver e ouvir o que eu estava falando:
— O país pode ficar tranqüilo. Nós temos um grande tribunal.
A divergência entre os ministros foi apenas doutrinária. Aqueles que
votaram a favor de Collor estão somente defendendo um ponto de
vista sobre a pena acessória. Entendem que o Senado não poderia
aplicá-la sem haver aplicado a principal. Isto é, a decretação do
impeachment teria sido frustrada com a renúncia.
Fui enrolando os jornalistas o mais que pude.
— Além de tudo isso, o acusado fora suspenso das funções, em
razão do processo autorizado pela Câmara dos Deputados, o que
significa o afastamento do cargo aplicado cautelarmente — expliquei.
— Com a condenação, o afastamento torna-se definitivo, mas a pena
de inabilitação tem que ser aplicada, porque a Constituição diz:”...
perda do cargo, com inabilitação...”, o que é diferente de “sem
inabilitação”. Diante da renúncia, o Senado cumpriu a Constituição,
aplicando aquilo que ela manda aplicar por meio da preposição
“com”.
Mas grande parte da culpa pelas interpretações contraditórias
está na má redação do texto, que vem de longe: art. 52, parágrafo
único. Em vez de redigir como está na lei maior até hoje —
“limitando-se a condenação à perda do cargo, com inabilitação para o
exercício de função pública...” — o constituinte deveria ter escrito:
“limitando-se a condenação à inabilitação para o exercício de função
pública...”. Pronto, se o condenado estiver no cargo, sai. Se renunciar
antes, de nada adiantará. Mas a imprensa insistia. Ninguém estava
interessado em aula de Direito. E os profissionais mais experientes
sabiam que eu estava “enrolando”.
— E a falta de quorum com o julgamento realizado? Como
justificar a convocação de membros do STJ, um tribunal inferior?
— Nada disso. O STJ não é tribunal inferior. Há uma distinção
entre as competências de cada um. O Supremo trata de Direito
Constitucional, e o STJ, do Direito Comum. Os Ministros do Superior
Tribunal de Justiça são excelentes juristas e podem, sem cogitar de
hierarquia alguma, participar de julgamento no Supremo, no mesmo
nível de conhecimento do Direito Constitucional.
— Mas, e o seu argumento sobre a não-concessão da
segurança diante do resultado do empate? — disparou um jornalista
em alta voz.
— Isso é uma questão meramente procedimental. Depende da
interpretação do regimento interno do Supremo.
Se eu fosse um telespectador e me visse e ouvisse dizendo isso,
não teria dúvidas em afirmar: esse advogado não sabe nada. Mas
preferi conter-me naquele blá-blá-blá. Mais importante que o Collor,
mais importante que o Gallotti, mais importante do que eu poderia
parecer para o grande público do Brasil, era a preservação de nossas
instituições. Não convinha colocar em dúvida, perante o povo, o
nosso mais alto tribunal. Pelo menos, a partir daquele dia, o Brasil
ficou conhecendo a existência do STJ, que até então era uma corte
apagada no cenário nacional, pelo pouco tempo de existência. E fui
para casa, silenciosamente indignado. Ninguém percebeu. O mais
difícil ainda estava por vir.

38
Gervásio raramente vinha ao escritório. Mas apareceu sem
avisar. Minha secretária, sabendo da intimidade, fê-lo entrar logo
que chegou, pois eu estava só:
— Estou ansioso por saber — disse ele sem maiores delongas
— se houve tempo para você incluir a questão da distância entre o
gravador e as fontes das vozes, porque fiquei com a impressão, na
última conversa nossa, de que o laudo já estava pronto sem esse
“detalhe”, como disse você.
— Sim, houve tempo. O laudo de que lhe falei era o particular,
que o Sinval havia elaborado antes da perícia judicial e que me
orientou na formulação dos quesitos. Incluí a distância. O próprio
Sinval gostou da idéia e vai examinar a fita também sob esse prisma.
— Ainda bem.
Como era fim de expediente, convidei-o para um uísque e
chamei o Nerval para participar. Papo de cá, papo de lá, Gervásio,
que conhecia quase tudo de minha vida de advogado, perguntou ao
Nerval se ele conhecia os detalhes do habeas corpus do Jânio
Quadros, impetrado por Pedroso Horta perante o Tribunal Federal de
Recursos, contra ato do então Ministro da Justiça, Gama e Silva, que
confinou o ex-presidente em Corumbá.
Nerval não sabia.
— Pois é uma história danada — disse ele — e me foi contada
não pelo Saulo, mas por um jovem advogado que trabalhava aqui, o
José Fernando Rocha.
— Isso é coisa de antanho. Não tem o menor interesse para o
Nerval — disse eu, tentando evitar o assunto.
Nerval protestou. Queria saber. Gervásio resumiu:
— O Jânio pediu para o Saulo redigir o habeas corpus. Foi feito
com extremo capricho, longos fundamentos jurídicos, sólida
argumentação, porque era contra o ato da ditadura militar. Pedroso
Horta não deixou Saulo assinar a peça jurídica e figurar como
impetrante. Quis aparecer sozinho. Ele, Horta, redigiu uma
introdução política, bem feita, aliás, e o resto, a parte de Direito, era
do Saulo, que não assinou a petição.
— Isso não teve a menor importância — disse eu. — O próprio
Jânio aconselhou-me a não me envolver pessoalmente no assunto,
para não me indispor com os militares.
— Conversa fiada. Você advogava para os chamados
subversivos, no tempo da ditadura, em processos cabeludos. Por que
o habeas corpus em favor do Jânio iria comprometê-lo? Era coisa do
Horta, que Deus o tenha. Quis ficar sozinho na história. Sabe o que o
Saulo fez?
— Não tenho a menor idéia — disse Nerval.
— No final da petição, citou um texto da obra do criminalista
Saulo Ramos, abriu aspas e sapecou a doutrina do seu livro.
— Ora, chefe — disse Nerval, virando-se para mim. — Eu não
conheço essa sua obra.
— Ninguém conhece — informou Gervásio. — O Saulo nunca
escreveu livro sobre Direito Penal. Com essa citação, o habeas corpus
ficou assinado por ele. E fez mais. O Tribunal Federal de Recursos
negou a ordem. Jânio teve que recorrer ao Supremo. Aí o Horta pediu
novamente para o Saulo redigir o recurso. Redigiu outro habeas
corpus, pois nem o Horta, nem o Gama e Silva, do outro lado, sabiam
que, em vez do recurso processual depois da publicação do acórdão,
podia-se impetrar desde logo um habeas corpus originário contra o
tribunal que encampou a coação. E concluiu com a mesma citação
de sua obra, apenas alterando um ponto: trocou o “criminalista” por
“jurista”, porque era forçar demais a condição de criminalista para
quem nunca escreveu livro de Direito Penal.
É verdade. Gervásio tinha razão. Eu aprontara aquela quase-
molecagem com o Pedroso Horta, arrumando um jeito de assinar, ou,
antes, de me incluir no trabalho que ficará na História, em razão do
ato da ditadura e da decisão do Supremo Tribunal Federal, que
concedeu a ordem, e Jânio saiu do confinamento, recuperando sua
liberdade de ir e vir, como diz o Direito Constitucional. Outro aspecto
engraçado foi que o Gama, no primeiro habeas corpus, pediu ao
Professor Ráo para redigir as informações, e o professor passou a
tarefa para mim. Fui à sala dele e informei:
— Professor, não posso fazer o trabalho. Fui eu quem redigiu
esta petição.
— E não assinou?
— Coisa do Horta e do Jânio. Mas veja no final da impetração:
há uma citação de trabalho meu, de Direito Penal, que não existe.
Foi meu jeito de assinar.
— Engenhoso. Que bobagem essa do Gama de confinar o Jânio
— comentou ele. E chamou sua secretária, Dona Sílvia:
— Telefone para o Gama e diga que não posso ajudá-lo nesse
assunto: primeiro, porque não estou de acordo com o confinamento,
e porque não lido com Direito Penal, segunda razão prejudicada pela
primeira.
Relembrada essa participação do Professor Vicente Ráo e
falando no direito de ir e vir, fomos para o restaurante Paddock,
aceitando o convite do Gervásio para jantar. No aperitivo, contei-lhes
os detalhes ocultos do processo de impeachment de Collor, narrativa
que se prolongou durante o jantar.

39
Advogado deve separar as coisas. A questão da falta de quorum
poderia ser enfrentada com um agravo regimental para o próprio
plenário do Supremo, que teria de discutir e deliberar sobre o ato de
seu presidente, Ministro Gallotti. Mas, além disso, o advogado tem
que pensar em ganhar a causa e rapidamente trabalhar com outra
hipótese, quando possível.
No dia seguinte ao julgamento do impeachment, que terminou
empatado, fui visitar o Presidente do Superior Tribunal de Justiça,
Ministro William Patterson, jurista de excelente formação cultural,
humano, de grande espírito público. Claro que haveria o
constrangimento de explicar a visita. Nem de longe poderia deixar
transparecer minha preocupação com a escolha que ele faria dos três
membros que deveriam suprir aquela inexplicável “falta de quorum”
no Supremo Tribunal.
Minha intenção era debater a magna questão jurídica criada
com a convocação, o precedente de completar-se quorum para um
julgamento já realizado sob quorum regular. Enfim, eu precisava
encontrar assunto sério para justificar a visita, sem ofendê-lo.
Patterson era um homem afável. Aquela foi a primeira vez que
me atendeu. Houve outra mais tarde.

40
Eu estava encerrando o expediente em meu escritório em São
Paulo, lá pelas oito horas da noite, quando o telefone tocou. Era o
governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, que tinha sido preso
pela Polícia Federal em Campina Grande, onde fora passar o fim de
semana.
— Você, governador, preso? Que maluquice é essa?
— Pois estou preso aqui na Delegacia da Polícia Federal,
embora a competência para o delito seja da Justiça Estadual, que,
claro, não pode prender o Governador. Aí arrumaram um jeito para a
prisão ser efetuada pela Polícia Federal, e o Delegado aqui está
irredutível. Apenas me permitiu telefonar. É o que estou fazendo.
Ronaldo, além de excelente poeta e repentista dos bons, é
advogado, e ele mesmo já foi elaborando o diagnóstico jurídico da
ilegalidade por ele sofrida. Alguém, a esta altura, pode pensar que eu
era muito importante como profissional. Um governador do Nordeste
me telefonar para pedir socorro? Eu deveria ser um tremendo
advogado, com muita fama! Nada disso.
O ilustre governador da Paraíba, meu amigo Ronaldo Cunha
Lima, no tempo da ditadura, teve sua prisão decretada pelos
militares e fugiu para São Paulo, onde conhecia um paraibano, seu
conterrâneo, Eurícledes Formiga, poeta repentista, que também era
meu amigo e amigo do Paulo de Tarso Santos. E mais: amigo íntimo
do Ministro Luiz Gallotti, que conseguiu sua nomeação para diretor
administrativo da Justiça Federal em São Paulo. Formiga apareceu
no escritório e me pediu:
— Preciso de um grande favor seu — falou baixinho,
debruçando-se sobre a mesa, para dar maior ênfase teatral à
enfumaçada cena de sigilo absoluto. — Os milicos do meu estado
querem prender um amigo meu, e ele fugiu para São Paulo. Está
hospedado na minha casa. Trocamos o nome dele, mas, sabe como é,
precisa trabalhar. Venho lhe pedir um emprego para ele. É bom
advogado, redige muito bem, será útil para o serviço interno. Ele não
pode, é claro, assinar petições, nem figurar em procurações. Chama-
se Ronaldo Cunha Lima. Você vai adorá-lo, porque ele também é
poeta e dos bons.
Ao Formiga eu não podia negar nada. Conhecera-o havia
muitos anos, quando ele andava por aí, demonstrando suas incríveis
qualidades de memória. Simplesmente olhava um texto escrito, que
lhe era mostrado por alguns segundos, e, em seguida, repetia-o
integralmente. E ainda criava variantes, dizendo a primeira palavra e
a última, a segunda e a penúltima, até encontrar no meio. Memória
fantástica.
Ronaldo veio trabalhar no escritório. Ao serviço secreto dos
militares seria difícil localizá-lo. Morando na casa do diretor
administrativo da Justiça Federal, trabalhando no escritório do
Professor Vicente Ráo e com o nome trocado, estaria bem protegido
dos agentes que bisbilhotavam nossas vidas naqueles tempos. Ficou
lá muito tempo, trabalhou muito, ganhou honradamente seus
honorários e um dia voltou para sua terra. Com a queda da ditadura,
tornou-se líder na política paraibana, além de ter escrito um dos me-
lhores livros sobre a vida e a obra de Augusto dos Anjos.
Mas, agora, pelo telefone, comunicava-me que estava preso. E
era Governador, com todas as imunidades constitucionais, foro
privilegiado, blindado, naquele tempo, contra processo sem licença
da Assembléia Legislativa. O delegado federal de Campina Grande
não quis saber nada disso. Prendeu o governador.
O crime? Ronaldo estava assistindo à televisão de manhã e viu
um adversário político atacar seu filho, chamando o garoto de
desonesto. Não teve dúvida. Foi ao restaurante onde o oponente
costumava almoçar. O difamador estava lá. Desferiu-lhe um tiro de
revólver. Claro que errou. Ele era bom poeta, mas analfabeto em
armas. Não sei por que pretendeu resolver sua emoção dessa
maneira: “Perdi a cabeça. Podia atacar a mim. Meu filho, nunca!”.
Bem, de qualquer forma, estava preso. E eram oito horas da
noite. Tribunal competente, o Superior Tribunal de Justiça. Telefonei
ao presidente William Patterson, que já estava em casa, e perguntei
se podia pedir um habeas corpus por fax. Ele disse que sim e, por
extrema gentileza, foi, àquela hora, para a sede de seu tribunal,
convocou um procurador e um ministro, a quem distribuiu o
processo, instaurado com o fax. O representante do Ministério
Público opinou pela concessão da ordem, e o ministro relator
concedeu o habeas corpus liminarmente. O alvará de soltura foi
transmitido por fax para a Delegacia da Polícia Federal de Campina
Grande, que, por milagre de Oxum, tinha um aparelho de fax.
Ronaldo voltou a telefonar-me, informando que já estava livre e
que eu podia ir para casa. Era em torno de meia-noite. Os
paraibanos, sempre muito irreverentes, colocaram uma enorme faixa
defronte a casa do adversário de Ronaldo: “A única obra que o
Governador deixou inacabada!”.20
Anos depois, o filho de Ronaldo, Cássio Cunha Lima, alvo da
ofensa que provocara o tiro errado do pai, foi eleito governador da
Paraíba. E reeleito com grande votação.

41
Após essa escala tumultuosa da narrativa na Paraíba, tenho
que voltar a Brasília, para contar, no Paddock, como enfrentei, pela
primeira vez, o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Ministro
William Patterson.
— Claro que o senhor acompanhou o julgamento do mandado
de segurança do Collor ontem, no Supremo — disse eu, depois que
ele me mandou sentar.
— Acompanhamos todos. E com muita atenção. Já fui avisado
de que o ofício do Supremo, convocando os ministros nossos, deverá
chegar aqui hoje à tarde.
Comecei a pensar o que devia falar e a medir as palavras:
— Primeiro, peço desculpas por vir visitar o senhor. Afinal, sou
advogado de uma das partes e não tenho o menor propósito de me
imiscuir na escolha que caberá ao senhor fazer.
— Não se constranja. Ninguém há de pensar que seu propósito
seja esse. Assistimos ontem à sua entrevista pela televisão,
demonstrando a importância do Superior Tribunal de Justiça e

20 Felizmente, a vítima escapou ilesa. Deus seja louvado!


rebatendo a afirmação de tratar-se de tribunal hierarquicamente
inferior ao Supremo. Ficamos muito gratos.
— Exatamente isso, meu Presidente — disse eu. — Minha
presença aqui, hoje, tem esta exata finalidade: a de pedir que os três
ministros a serem escolhidos sejam os melhores juristas da corte, os
mais experientes, para que o Brasil todo, que acompanhará o
julgamento e o voto deles, possa julgá-los também e verificar a alta
capacidade do Superior Tribunal de Justiça. Esse caso Collor está
comovendo o Brasil, os jovens ainda estão nas ruas com os rostos
pintados de verde e amarelo, que usaram para pedir o impeachment,
e agora repetem para comover o Judiciário.
William sorriu. Claramente entendeu minha mal disfarçada
sustentação oral. A pretexto de defender o STJ, estava eu, na
verdade, chamando a atenção para a vontade do povo. Depois,
passamos a conversar sobre a redação defeituosa do artigo da
Constituição, o grande culpado pela divisão nas interpretações do
Supremo.
Serviu o cafezinho. Eu achava que a conversa terminara e me
preparava para despedir-me depois de tomar o café. Ele pegou o
telefone, falou qualquer coisa com a secretária, e, em seguida,
entraram na sala os ministros Torreão Braz e José Dantas. Levantei-
me para cumprimentá-los, e o Presidente me comunicou que já
estava tudo decidido: indicaria esses dois ministros e a si próprio.
Agradeci a primazia de ter sido informado, e o Ministro William
explicou:
— Logo que o Ministro Gallotti encerrou a sessão ontem,
resolvemos nos reunir imediatamente, para deliberar sobre a
escolha, porque, é claro, a importância da questão exige que o
Superior Tribunal de Justiça se faça representar com absoluta
autoridade e de preferência sem divisões de opinião.
Comecei a sentir um frio na barriga. Julguei que me ia ser
revelada a posição deles. Mas foi afobação minha.
— Há outros, e muitos — continuou o Ministro Patterson —,
igualmente competentes, à altura dessa grave missão. Mas a escolha
obedeceu a critérios adotados por unanimidade na reunião de ontem.
Vamos aguardar o material que o Supremo nos enviará e
estudaremos o caso com a máxima dedicação. Posso adiantar ao
senhor que deliberamos estudar em conjunto, e a conclusão a que
chegarmos será refletida no voto dos três. Vamos estudar em
profundidade, e serão bem-vindos os possíveis memoriais de ambas
as partes, se os advogados quiserem nos oferecer.
Agradeci tanta deferência, acabei de tomar o café e me despedi.
Na saída, o Ministro José Dantas, um misto de jurista e santo,
homem de uma pureza comovente, disse-me ter gostado de minha
sustentação oral e agradeceu pela defesa que fiz, na televisão, do
STJ, quando a imprensa o chamou de tribunal inferior. Fui embora
mais ou menos tranqüilo, mas, com a experiência de tantos anos de
lides judiciárias, não podia deixar de considerar a hipótese de tanta
simpatia significar um enterro de luxo.
Lembrei-me de Steven Spielberg, o famoso cineasta norte-
americano, autor de tantos filmes maravilhosos, que costuma dizer:

“Devemos sempre nos preparar para o fracasso. Isso torna


ainda mais gratificante o sucesso.”

No fundo, no fundo, eu estava confiante no sucesso.

42
Quando cheguei ao escritório do meu sócio em Brasília, Luiz
Carlos Bettiol, meu companheiro de tantas causas, sofrimentos e
alegrias, havia um recado: o Ministro Sepúlveda Pertence queria falar
comigo. Lá fui eu para o Supremo Tribunal Federal.
Pertence e eu éramos amigos. Atuamos juntos no Governo
Sarney. Ele era o Procurador-Geral da República, e eu era o
Consultor Geral da República, cargo sempre confundido com o dele
nas embrulhadas tanto dos noticiários de imprensa como nos
protocolos das solenidades que se repetem quase diariamente em
todos os governos. Ainda bem que se transformou em Advogado
Geral da União.
Entrei. Pertence pediu um cafezinho e começou:
— Circulou por aqui que você vai agravar da decisão do
Ministro Gallotti — disse ele, com aquele olhar maroto de mineiro e o
sorriso de envolvente simpatia.
— Como circulou? Ainda não decidi e não falei com ninguém.
Estou pensando. É meu dever, como advogado, exercitar todos os
recursos em favor do meu cliente.
— Claro, claro, claro. Mas você não acha que isso pode atrasar
o julgamento? É mais tempo, mais emoção, o Brasil está
demasiadamente comovido com este caso. O país parou. Melhor
liquidar logo o assunto. O próximo julgamento poderá ser marcado
imediatamente. Se você agravar, suspende tudo.
— E daí? Deixe suspender. Quero ver o plenário se
pronunciando sobre a decisão do Gallotti. Vocês têm que deliberar
sobre os efeitos do empate em mandado de segurança e sobre essa
história de falta de quorum em julgamento realizado.
— Calma, Saulo, guarda a faca. Veja bem. O caso está
mobilizando o país. Se você agrava contra a decisão do Presidente do
Supremo, a discussão no plenário vai pôr em jogo o próprio prestígio
do tribunal. A casa, inclusive, pode entender que houve apenas
proclamação de resultado, ato do qual o Presidente não pode
retratar-se e, portanto, não é passível de recurso de agravo.
— Não vou agravar contra proclamação alguma. O recurso será
contra a convocação dos três ministros para novo julgamento. Isto é,
está anulado o julgamento que ganhei. Vocês não decidiram isso no
plenário, logo não faz parte da “proclamação de resultado”.
Pertence já tinha uma tese para a rejeição do agravo. Mas
ponderou:
— Não convém correr o risco de arranharmos o que ainda
funciona neste país.
— Respeito sua relevante preocupação. Mas esse intocável
tribunal arranhou o direito do país em que ele ainda funciona. E o
fez pela decisão monocrática de seu Presidente. É preciso que os
demais ministros corrijam isso. Ou se suicidem, apoiando esse ato
maluco do Gallotti.
— Pense bem. O agravo regimental contra o Presidente, além
de criar um mal-estar para todos nós, poderá demorar. Cada um dos
ministros vai pedir vista para fundamentar o voto. Você conhece o
ritual. Para que prolongar essa agonia? Hoje, eu fiquei sabendo que
você esteve com o William Patterson.
Levei um susto.
A inteligência do Ministro Pertence é igual à sua habilidade.
Entendi o recado. Ninguém, a não ser os ministros do STJ, e o meu
sócio, Luiz Carlos Bettiol, sabia de meu encontro com o Ministro
William Patterson, poucas horas antes.
— Você vai ganhar no plenário — insistiu Pertence.
— Como você sabe?
— É minha intuição. Está no meu voto negando a segurança.
O voto dele, no primeiro julgamento, fora excelente, tanto
quanto o do Ministro Carlos Velloso, relator. Mas eu precisava
diagnosticar, agora, o que estava por trás daquela conversa típica de
mineiro, não de jurista. Desconfiei que aquela intuição era mais do
que intuída. Resultava de informação concreta.
É preciso fazer vários cursos intensivos e especializados para
se entender a mineiridade. O mineiro diz, mas não diz exatamente o
que quer dizer, de tal forma que somos levados a afirmar que ele
disse. Se isso acontecer, terá como negar e provar que o outro
entendeu mal, sem ofender. A ciência está em inferir o que o mineiro
não diz, quando está dizendo, ou entender a outra coisa que ele está
querendo que você saiba, ao falar de coisa diferente. Mineiro é muito
difícil, muito difícil. Sobretudo quando recorre às suas intuições
sobrenaturais.
Foi por isso que Fernando Sabino escreveu:

“Ser mineiro é não dizer o


que faz, nem o que vai fazer
é fingir que não sabe aquilo
que sabe, é falar pouco e
escutar muito, é passar por
bobo e ser inteligente, é
vender queijos e possuir
bancos.
Um bom mineiro não laça
boi com imbira, não dá
rasteira no vento, não pisa
no escuro, não anda no
molhado, não estica
conversa com estranhos, só
acredita na fumaça quando
vê fogo, só arrisca quando
tem certeza, não troca um
pássaro na mão por
dois voando.”

43
Saí de lá matutando. Santo Deus, o que estou fazendo aqui,
neste tumultuado momento do meu país? Afinal, nasci em
Brodowski, terra de Cândido Portinari, nosso conterrâneo mais
importante. Podia ter ficado por lá. Eu era apenas um dos meninos
de Brodowski, aquela linda pintura com que Candinho encantou o
mundo. Eu não devia nunca ter saído do quadro do Candinho
Portinari. Talvez hoje fosse o dono do armazém ou da farmácia e
sentaria numa cadeira de palha trançada, conversando na calçada
com o pessoal que saía do cinema, e passearia na rua, fazendo hora
para dormir.
Poderia ter casado com a Zoé e criado uma penca de filhos, que
estudariam em Ribeirão Preto, em boas escolas. Quando era moço,
em pleno romantismo, escrevi um poema, que acabou sendo
musicado e tornou-se o hino oficial de Ribeirão. Até o Antônio
Palocci, que foi duas vezes prefeito da cidade, sabe de cor o meu hino
e acabou sendo Ministro da Fazenda, infernizado por um ex-auxiliar
seu que o acusou de receber, para o PT, propina de uma empresa de
lixo. Sem nada ter com isso, nem com o lixo, eu era uma glória
literária da região, muito antes de Palocci. Isso me bastaria. Além de
tudo, o homem mais famoso da região, nascido e criado em
Brodowski, Cândido Portinari, o nosso Candinho, glória
internacional das artes, havia pintado o retrato de meu avô e o meu.
Ambos com dedicatória carinhosa e entusiasta. Estou lá, na galeria
dos retratos pintados pelo gênio. Por que saí de minha terra?
Lembrei-me de Tolstói: escreva sobre sua aldeia e você pode
tornar-se universal. Mas, em vez de escrever coisas de Brodowski,
estava eu escrevendo teses de Direito e falando em Kelsen, que não
era brodosquiano.
Por que me meti a ser advogado? Quanta encrenca o destino
me arrumou! Sem dedicatória.

44
Quando meu pai me mandou estudar em São Paulo, fui morar
numa pensão, na Praça General Osório. Para que eu não passasse
vergonha, o velho me deu um par de sapatos novos, na época o mais
elegante, cromo alemão, se não me engano a marca era Scatamachia
ou algo parecido. Substituiria o par de botinas. Na pensão, repartia
com outro hóspede o quarto e o par de sapatos. Tínhamos o pé do
mesmo tamanho. Quando um de nós ia a alguma festa, o outro
ficava em casa. Meu colega de quarto e de sapatos era investigador
de polícia, mas falava que estudaria tudo o que pudesse. Chamava-
se Edevaldo Alves da Silva. Hoje é dono da UniFMU. Formador de
advogados. Perdi tantas coisas no meu passado. Coisas e outros
destinos, não sei se melhores, mas com certeza diferentes. Não teria
essa esfinge para decifrar no processo judicial de Fernando Collor.

O que o Ministro Pertence quis dizer? Para desvendar a


mineirice, não tinha eu a suficiente, necessária e aguda perspicácia.
Li tratados jurídicos fantásticos, de Kelsen a Pontes de Miranda,
Vicente Ráo e Carnelutti, desvendei mistérios de complicadas ações
judiciais, fiz proezas incríveis em processos difíceis; mas não
conseguia entender o recado em código daquele mineiro meu amigo.
Creio que o escritor Dan Brown, autor do Código Da Vinci, é
descendente de mineiro.
Conformei-me e, por simples intuição, não ingressei com o
agravo regimental contra a decisão do Ministro Gallotti.21 Esperei o
novo julgamento. Os atos foram todos repetidos. Novas sustentações
orais. Cláudio Lacombe lá estava de novo, numa quarta-feira,
afastado de suas bebidas extraídas de uva. Mas o notei um pouco
mais nervoso. Não é preciso perder tempo descrevendo os debates.
Tudo foi mais ou menos repetido, salvo os meus “desnecessários”
recursos de eloqüência.
Resultado do novo julgamento: 7 a 4, a meu favor, isto é, a
favor do Senado e contra o impetrante Fernando Collor. Os três
ministros do Superior Tribunal de Justiça proferiram votos de grande
erudição e claros, todos empenhados em demonstrar que não
pertenciam a um tribunal inferior. José Dantas, aquele ministro que
era um misto de jurista e de santo, concluiu seu magnífico voto com
a expressão: “Deus guarde esta casa!”. Creio que sua bondade queria
salvar a alma do Ministro Gallotti, que teve de proclamar o resultado:
Segurança indeferida! O Brasil e eu respiramos aliviados.

21 Houve agravo, mas não do Senado, como consta dos arquivos do STF. Os
agravantes foram os autores da denúncia, Barbosa Lima Sobrinho e Marcello
Lavenère Machado. O recurso ficou na gaveta e somente foi julgado em dezembro
de 1993. E indeferido, porque a decisão agravada foi considerada simples
proclamação do resultado...
Creio que a mineirice do Ministro Pertence consistiu no
seguinte: ele deve ter conversado com o Ministro William Patterson e
soube que a tendência dos ministros do STJ era favorável ao
indeferimento da segurança, isto é, que votariam contra Collor. Entre
eles, em casos como aquele, há certa liberdade para “troca de idéias”.
Só pode ter sido isso. No mesmo dia de minha visita ao STJ, quase
na mesma hora, Pertence já sabia. Sabia apenas da visita? Sabia
algo mais.
E, por isso, pediu-me que não recorresse da decisão do
Ministro Gallotti, porque colocaria o tribunal em situação pra lá de
delicada. O plenário teria que anular a decisão de seu presidente e
declarar o indeferimento da segurança, ou inventar que se tratara de
simples proclamação de resultado. Com a informação privilegiada
obtida naquela manhã, Pertence quis evitar o constrangimento da
Suprema Corte do Brasil e veio me fazer um pedido que, não fossem
aquelas circunstâncias, seria até ofensivo para o meu dever de
advogado: deixar de interpor o recurso a que meu cliente tinha
direito. O que ele quis dizer com aquela conversa em curva foi que
seria melhor ganhar nos votos do que criar um caso doloroso para o
Supremo Tribunal e ganhar na “filigrana”. Você vai ganhar no
plenário! Como você sabe disso? É minha intuição. Está no meu
voto. Mineiro. Bagre ensaboado.
Depois do resultado, ficou muito claro; mas, até hoje, ele não
admite isso. Diz que eu tenho tendência a interpretar os fatos sob
forte dose de ficção. É desesperadoramente difícil enfrentar um
mineiro inteligente.

Ao concluir essa conversa no arrastado jantar do Paddock,


patrocinado por Gervásio, este, pouco afeito à indulgência, não se
conteve:
— Entre os ministros que votaram a favor de Collor, estava
aquele que você conseguiu a duras penas nomear para o Supremo, o
Celso de Mello?
— Estava. Ele concedeu a segurança para Fernando Collor.
— E você acha que foi pelas razões doutrinárias de pena
acessória e principal, aquele papo de não poder aplicar aquela sem
aplicar esta?
— Na verdade, ele votou não a favor de Collor, mas contra mim.
Em qualquer matéria, ele vota contra mim. Essa é, porém, uma
outra história, que fica para outra vez.
— Eu queria ouvir isso de você, porque desconfiava que existia
qualquer coisa por trás, no voto daquele moço.
Já era tarde. Gervásio pagou a conta. Fomos todos embora.
Naquele dia, não conversamos sobre o caso do Sr. Olavo Brás.
Ficamos no caso Collor, que me fez estudar todas as falcatruas
praticadas por Paulo César Farias. Espantosas. Quando venci a
causa, pensei comigo: isso nunca mais vai acontecer no Brasil.
Pois aconteceu. E pior. Mais tarde, faço um resumo desses
novos acontecidos no Governo Lula. Inclusive a tendência do
ministro Celso de Mello em favorecer poderosos: concedeu mandado
de segurança a José Dirceu22 e contra o Poder Legislativo. E Collor, o
próprio Fernando Collor, foi eleito senador por Alagoas declarando-se
favorável a Lula, que o recebeu no Planalto com abraços e elogios.
Em política os iguais não se repelem. A vis é atrativa. Aqui,
acabaram meu tempo e o capítulo.

45
“Aracaju, 30. Chove pra caralho. O que devo fazer?”

Era o telegrama de um repórter de A Tribuna de Santos,


enviado especial para fazer uma cobertura da seca que assolava o
Nordeste brasileiro há vários anos, em mais um dos seus ciclos. No

22 Quando Mário Covas, Governador de São Paulo, foi agredido nas ruas, José Dirceu,
líder do PT, declarou que Mário apanhara no braço e iria apanhar nas urnas. O
destino é cruel. Dirceu subiu ao governo com Lula, tornou-se todo-poderoso,
envolveu-se com a compra de deputados, com Marcos Valério e Delúbio Soares.
Acabou apanhando de bengala de um aposentado e perdeu seu mandato de
deputado nas urnas da Câmara. Esse opróbrio não será minorado pelo passado de
guerrilheiro bem galante, expulso do Parlamento a bengaladas.
auge da estiagem, com as conseqüências de sempre — fome,
migração em massa dos retirantes, discursos de políticos, invocações
da venda das jóias da coroa no tempo do Império —, a tragédia era
acompanhada por todos os jornais.
Olao Rodrigues, secretário da redação daquele fantástico
periódico santista, que tinha um formidável faro jornalístico em
sintonia com a vontade dos leitores, resolveu mandar para o
Nordeste um repórter. E o rapaz chegou lá precisamente no dia em
que a seca acabou com a chegada de uma frente (naquela região a
frente nunca é fria) chamada de inverno, e desabou uma chuvarada
salvadora, forte, abundante, por vários dias. Era água que Deus
mandava!
Olao respondeu ao telegrama, instruindo o “enviado especial” a
fazer reportagens sobre o fim da seca e os resultados da chuva, que,
mesmo sendo água que Deus mandava, trazia estragos misturados
com os benefícios. E era notícia, pô!
Na redação de A Tribuna ficou a piada. Quando chovia muito
em Santos, o que era normal, o pessoal costumava dizer:
— Está chovendo mais do que em Aracaju, no dia 30.
E foi sob uma chuva assim que a cidade sofreu uma tragédia:
desabamento de morros e das favelas neles implantadas. Eu era
repórter novo, meio foca, e fui escalado na equipe para fazer a
cobertura do desastre. Na cena dos acontecimentos, o impacto foi
tanto, que pensei em largar o jornalismo. Cadáveres cobertos de
barro, crianças com metade do corpo para fora, braços, os bombeiros
levantando os escombros, afastando gigantescas pedras despencadas
e encontrando gente morta. Chegavam pessoas de todos os lados
para os serviços de socorro aos feridos. Resultado: nós deixamos a
reportagem para os fotógrafos, tiramos as roupas, ficamos somente
de cuecas e sapatos. E fomos ajudar. Havia os bombeiros, o pessoal
da Santa Casa, os voluntários não sei de onde, todo mundo fazendo
alguma coisa, conduzindo feridos para baixo e entregando-os às
equipes médicas.
Os engenheiros da Prefeitura estavam todos lá e, é claro, além
de ajudar no socorro, providenciavam medidas para evitar novos
deslizamentos de terra, retirando gente que ainda continuava nos
barracos não atingidos, mas sob ameaça. Nessas horas, as cenas são
terríveis, a confusão é total, as pessoas trabalham chorando, alguns
sofrem crise de nervos, mas continuam. Deus do céu, que
barbaridade!
Na equipe de engenheiros municipais, havia um jovem
magrinho, que subia e descia no meio daquela lamaceira toda, ora
com crianças no colo, ora ajudando os que podiam andar, ora
gritando para que retirassem os sobreviventes das casas não
desabadas, mas que corriam o perigo iminente de rolar morro abaixo.
Numa dessas idas e vindas, ele me viu ajudando um bombeiro e me
pediu para levar uma criança. Peguei a criança e levei até embaixo.
Quando subi novamente, lá estava ele mandando aos funcionários
da Prefeitura que cavassem, a outros que colocassem esteios em
pedras penduradas em barrancos, a outros, ainda, que levantassem
telhados caídos.
Fomos madrugada adentro. Ouvi os engenheiros da Prefeitura
e os funcionários chamarem o magrinho de Zuza. Então passei a
chamá-lo também Pelo apelido: “Zuza, o que posso fazer agora?”
“Faça isto, faça aquilo!” Em certo momento, ele parou e me disse:
“Obrigado por estar ajudando!” “Ué? Por que não ajudar?”, disse eu.
Ele respondeu:
— Você é repórter, eu o reconheci de cara, quando o vi. Você
sempre sai nas fotos de suas reportagens. Podia apenas estar
observando e tomando notas. Mas a ajuda é muito bacana!
Então lhe mostrei os outros colegas meus, de calção, que
haviam providenciado para não ficar de cuecas, todos ajudando.
Ninguém ali era mais repórter. No dia seguinte, sim, teríamos
capacidade de descrever com fidelidade a tragédia, porque estivemos
muitas horas dentro dela ou dentro das conseqüências que ela
provocou.
Dormi pouco. Acordei cedo. As cenas que tinha visto iriam
perturbar meu sono por muitos anos. Fui trabalhar para escrever
sobre o desabamento. Tive a idéia de passar antes pela Prefeitura e
colher detalhes, números e informações que os engenheiros e o
pessoal da emergência podiam ter. Perguntei pelo Zuza. Disseram
que ele continuara no morro até parte da manhã, mas acabara de
chegar. O funcionário disse a um outro: “Chama lá o Dr. Mário! Tem
aqui um repórter de A Tribuna que quer falar com ele!”. Perguntei ao
funcionário: “O Zuza chama-se Mário? Mário de quê?”.
— Mário Covas Júnior — respondeu ele.
E o engenheiro magrinho entrou pela porta dos fundos da sala,
todo enlameado, com a expressão cansada, triste, abatida, mas
firme:
— Meu caro jornalista, que noite!
Ficamos amigos para o resto da vida, mesmo porque nossa
amizade começara sob o impacto de muitas mortes, como se
tivéssemos participado de uma sangrenta batalha.
Depois o Zuza se desentendeu com o Prefeito Antônio Feliciano,
um homem estranho. Quando estava nervoso, mastigava lenço. Não
quis tomar providências para evitar novos desabamentos nos morros.
Custaria caro. As futuras mortes não eram incluídas no orçamento
municipal. Mário Covas, apenas contratado, foi embora. Mudou-se
para São Paulo, onde abriu uma pequena fábrica de material com
cera e verniz para tratamento de assoalho. Não deu certo. Foi
esmagado pela concorrência. Voltou para Santos. Fez concurso para
a Prefeitura e acabou, agora sim, nomeado engenheiro municipal de
carreira. Visitou-me na redação de A Tribuna. Tomamos um café.
Ofereceu-me um cigarro, que aceitei. Naquele tempo, Zuza fumava
um maço por dia. Depois, passou a fumar quatro.

46
A vida de jornalista ensinou-me muito, sobretudo o texto curto,
sintético, claro, que me ajudou enormemente na advocacia.
Trabalhava como doido, e, para ganhar um pouco mais, o jornal me
permitiu escrever colunas com pagamento extra. Roberto Mário
Santini era “filho do dono” do jornal, Giusfredo Santini, e neto do
jornalista que tornou A Tribuna um grande veículo, Nascimento Jr.
Roberto foi meu amigo de juventude e me apoiou no início da
carreira. Ele, o pai e o avô, todos já viraram saudades. Não vou
contar a história deles, porque este livro reúne os “meus acontecidos”
e não os acontecidos das pessoas que engrandeceram aquele jornal.
Bem que mereciam um livro exclusivo, igual ao que Pedro Bial
escreveu sobre Roberto Marinho. Estou enganado. O livro do Bial é
fraco, não está à altura do biografado. O pessoal de A Tribuna
merecia um trabalho igual ao que foi escrito por Engel Paschoal: A
trajetória de Octavio Frias de Oliveira,23 vibrante, forte, emocionante,
como a extraordinária vida e obra de Octavio Frias.
Uma das colunas que lancei em A Tribuna, chamada
“Semanascópio”, publicada aos domingos, caiu no gosto do público e
chegou a aumentar consideravelmente a tiragem naquele dia da
semana. Eu assinava simplesmente José. Era uma coluna de
pequenos tópicos, cada qual com a informação e o comentário sobre
um fato ocorrido nos últimos sete dias. Muito anos depois, fiquei
sabendo que “Semanascópio” foi o precursor de colunas de tópicos
como o “Informe JB” e o “Painel da Folha”. Mas aquele tal de José
ficou famoso em Santos, e, como desferia muitas críticas a políticos,
administrações públicas, federais, estaduais e municipais, o
colunista caiçara passou a ser assediado por muita gente, parte
porque queria ser noticiada e parte porque tinha medo de ser notícia
naquela seção.
Nada disso importa para a minha vida, que acabou
desaguando no Direito, e não no Jornalismo. Mas, precisamente aos
domingos, quando minha coluna era publicada, eu aproveitava para
sair de casa e tomar banho de mar nas praias do Guarujá. Lá pela
hora do almoço, costumava ir ao posto de gasolina do Viola, que
tinha, ao lado, um barzinho. Ali se tomavam caipirinhas
maravilhosas e sobretudo, como tira-gosto, o insuperável quibe feito
pela mãe dele. Para mim, nos domingos de sol, a caipirinha e o quibe

23 Edição da Companhia das Letras.


daquele bar tornaram-se obrigatórios.
Era um desses domingos. Ao entrar no bar, vi, apoiada no
balcão, rodeada por algumas pessoas, empertigada e dominante, a
figura mais curiosa de São Paulo: o Prefeito Jânio Quadros, tomando
caipirinha, comendo quibe e lendo A Tribuna, aberta precisamente na
página do “Semanascópio”. Naquele dia, eu havia dado uma nota
sobre a possibilidade de sua candidatura a governador e, felizmente,
tinha elogiado a figura como alguém diferente e moderno na política
brasileira. Assegurei, no texto, que ele não iria esquentar a cadeira
de prefeito, eleito no ano anterior. Seria governador. Ainda bem,
porque o próprio estava lendo o que eu havia escrito.
Pedi meu aperitivo e o quibe. O Viola deixou o posto com seus
frentistas e veio para o bar, julgando-se no dever de ser o anfitrião de
um político e de um jornalista. Apresentou-nos e contou para o Jânio
que eu era o José da coluna que ele acabara de ler, inclusive
mostrada pelo próprio Viola.
Jânio e eu ficamos interesseiramente interessados um no
outro, ele em agradar ao jornalista, e eu em ter acesso à notícia, pois
a figura não apenas me parecia uma fonte curiosa, mas era
teatralmente a encarnação da notícia. É impossível ao jornalista
errar nesse diagnóstico.

47
A aproximação foi facílima. Durou umas oito caipirinhas e não
sei quantos quibes. Então, fiquei sabendo que o pai dele, Dr. Gabriel
Quadros, tinha casa no Guarujá. Ali, Jânio passava muitos fins de
semana. Vinha ao bar do Viola aos sábados e, raramente, aos
domingos. Festejou a inspiração de ter vindo naquele domingo e ter-
me conhecido. Por mais demagogia que aquilo parecesse, comum em
qualquer político diante de um profissional da imprensa, a figura
transmitiu-me a impressão de ser muito inteligente. Falava, com o
sotaque carregado, um português perfeito. Expunha com clareza
idéias sobre qualquer assunto. Disse saber inglês, mas de Londres,
ressalvou, não a porcaria ianque.
E atribuiu a Bernard Shaw a observação de que os Estados
Unidos dominariam o mundo, se os americanos soubessem falar
inglês.
— E você — perguntou ele — somente escreve esta coluna em
A Tribuna?.
— Não, meu caro — a intimidade, pela caipirinha, era total. —
Em jornal do interior, a gente faz de tudo: reportagem policial, cais
do porto, greve, eventos sociais, e eu ainda tenho a incumbência de
escrever sobre a política do café, pois o assunto interessa muito a
Santos, o maior exportador do produto.
— Política do café? Isso existe? — perguntou.
— Claro. O Brasil exporta cerca de cinco bilhões de dólares, e
três bilhões são produzidos pelo café. Têm, pois, a maior importância
as medidas dos governos federal e estaduais, reguladoras de
escoamento da safra, de maior ou menor aperto do confisco cambial,
na taxa do câmbio fixada para a exportação do produto. Tudo isso é
a política do café. Critérios malucos!
Conforme o produto exportado, a taxa de câmbio tinha valor
diferente. Pelo dólar do café, pagava-se menos. Era o confisco
cambial, uma desgraça para a lavoura cafeeira. Pior que geada, pior
que a seca, pior do que qualquer desastre da natureza, pois era
deliberada pelos economistas da época.
— E você entende de tudo isso?
— Eu escrevo sobre isso. Entender é outra coisa.
Conquistei a figura, que gostava de humor refinado. Mas ele
também me conquistou, numa época em que era muito difícil
deparar com políticos inteligentes e de razoável cultura,
circunstância que parece agravar-se a cada dia.
O Prefeito de São Paulo estava, porém, fora da minha
jurisdição de repórter. Era problema para a sucursal paulistana de A
Tribuna.

48
Li, contudo, nos jornais da capital, que havia uma grande
disputa, naquele ano, pela presidência da Comissão do IV Centenário
de São Paulo, instituída em 1951 pelo Governo do Estado e pela
Prefeitura da Cidade, com Ciccillo Matarazzo no comando, seu
primeiro presidente. A Comissão prestara, antes da data, muitos
serviços à história paulista, sobretudo quanto ao projeto Ibirapuera,
nos terrenos reservados por Washington Luís, quando prefeito, muito
tempo antes, para o futuro parque. Mas a disputa, agora, era pelo
cargo de presidente da Comissão no ano máximo das comemorações,
1954, o ano do IV Centenário. Segundo as informações, o Prefeito da
cidade teria peso decisivo na escolha. Eram candidatos vários
políticos ou protegidos de políticos. Fui para São Paulo, falei com um
grande amigo meu e me dirigi ao gabinete do Prefeito.
— O senhor quer falar com o Prefeito? — perguntou-me um
oficial de gabinete. — Sem marcar hora? Vou encaminhá-lo para
Dona Kalime.
Dona Kalime Gadia não tinha a menor idéia de quem eu era.
Na vida de Jânio, quem Dona Kalime não conhecesse podia
considerar-se estranho e, no mínimo, intruso. Após os
cumprimentos, disse-lhe:
— Fale que é o Saulo Ramos, de Santos.
— Saulo Ramos dos Santos?
— Não, minha senhora, Saulo Ramos, da cidade de Santos,
jornalista.
Com uma expressão meio incrédula, ela disse que ia tentar e
entrou no gabinete. Alguns segundos depois, a porta se abriu, e o
próprio Jânio surgiu:
— Meu amigo, que surpresa! Ganhei o dia! — e mandou-me
entrar. Dona Kalime ficou sem entender nada. Nem eu tinha tempo,
nem seria elegante contar-lhe histórias de caipirinha no bar do Viola,
no Guarujá.
— Presidência da Comissão do IV Centenário? Tem interesse
nisso? Você é de Santos, quer promover os Andradas ou homenagear
o Padre Anchieta?
— Nada disso. Primeiro, eu sou de Brodowski, e não de Santos.
— Então quer indicar o Portinari — ironizou.
— Não. Quero fazer uma sugestão ainda melhor. Em vez de
colocar um político, nomeie o Guilherme de Almeida, o poeta de São
Paulo e Príncipe dos Poetas Brasileiros.
Ficou quieto. Pensou. Seus olhos se iluminaram:
— Você acaba de me prestar um grande favor. É a solução. Que
grande idéia! Será que ele aceita?
— Não sei. Convoque-o e proponha. A iniciativa deve partir de
você.
— Farei o possível. Tenho que falar com o governador. A
escolha será de comum acordo. Creio, porém, que o nome do
Guilherme é irrecusável.
Despedi-me e, quando eu estava saindo, ele concluiu:
— Saulo, meu bem. Quando tiver novas idéias a me sugerir,
venha. Não se iniba.
Guilherme aceitou. Eu já sabia, mesmo porque, antes de ir
falar com Jânio, havia sondado o poeta, que se entusiasmou com a
hipótese, mas, bem a seu feitio, desanimou, dizendo que a pressão
dos políticos era imbatível. E que ele não mexeria uma palha para
conseguir o cargo. Achava o Jânio meio maluco e não gostava do
governador. Guilherme era especialista em complicar as coisas.
Imaginação fértil demais. Atalhei: se você for convidado, aceita?
— Aceito.
Assim se fez.

49
A maneira pela qual o destino me fez conhecer Guilherme de
Almeida foi surpreendente peripécia, que me levou a mais peripécias,
umas derivadas das outras. Morando em Cravinhos, na fazenda de
meu pai, telefone 45, havia escrito muitos poemas sobre o café,
lavoura, plantio, geada, floradas, colheita, vida simples da roça,
enxadeiros. Alberto Wately, líder rural e da cafeicultura, amigo de
meu pai, pediu cópia das poesias, para submetê-las à apreciação do
poeta Guilherme de Almeida.
Meu pai chegou em casa com a novidade e com uma pequena
máquina de escrever, que comprara em Ribeirão Preto. Eu deveria
esforçar-me, aprender datilografia e mandar os poemas
datilografados. Não sei se ganhei muita coisa com a poesia, mas
aprendi a escrever à máquina, o que foi fundamental para a minha
vida de jornalista, de advogado e, mais tarde, muito mais tarde, para
dominar o computador. É isso mesmo: dominar o computador. Sei
quase tudo sobre essa máquina fantástica, numa relação
interminável de amor e ódio. Na minha idade, trata-se de proeza
incrível saber a diferença entre um arquivo “sys” e um “dll”. Claro,
cultivo e uso o utilitário e seus periféricos, tendo em mente aquilo
que foi dito por um francês: “L’ordinateur a de mémoire, mais n’a
aucun souvenir”, “o computador tem memória, mas nenhuma
lembrança”.
Voltemos à minha primeira máquina de escrever, como se dizia
então. Datilografei meus poemas. Claro que fiquei extremamente
nervoso, quando minhas poesias, enfiadas num envelope pardo,
foram levadas pelo meu pai e tinham como destinatário o maior
poeta brasileiro vivo. Enfim, eu era um jovem caipira, que vivia em
fazenda e conhecia apenas a estrada entre Cravinhos e o norte do
Paraná, enquanto trabalhei como caminhoneiro. E fiquei quase em
pânico, ao saber que meus versos seriam lidos pelo poeta de quem
todo mundo falava, a professora rural, os intelectuais de Ribeirão
Preto, e que publicava diariamente uma crônica no jornal que meu
pai assinava.
Passou-se o tempo, e Guilherme chamou-me. Disse que estava
lendo e, por enquanto, queria apenas me conhecer. Conversamos. No
final, ele me disse que era candidato a deputado estadual. Trabalhei
por ele em Cravinhos. Teve onze votos. Escreveu-me uma carta
dizendo que os onze votos valiam tanto quanto as onze mil virgens do
paraíso. Não foi eleito e silenciou. Nenhuma notícia. Desisti de
esperar. Tirei da cabeça. Meu pai vendeu a fazenda em Cravinhos, e
mudamos para Santos. E lá recebemos a notícia de Alberto Wately:
Guilherme queria me ver.
Fui encontrar-me com ele em seu escritório, na Rua Barão de
Itapetininga. Recebeu-me com um abraço, chamando-me de poeta, e
comunicou que minhas poesias seriam publicadas em livro e que ele
já havia redigido o prefácio, o qual me estendeu para ler. Ele mesmo
percebeu que eu havia ficado pálido. Era fim de tarde. Acalmou-me e
convidou-me para tomar um uísque num bar ao lado do seu
escritório, num edifício que ostentava um grande letreiro: PRINTAL.
A porta de entrada era exatamente embaixo do N, e o bar era
no primeiro andar, Confeitaria Vienense. Entramos. No bar, ele era
celebridade também como freguês. Em Cravinhos, não me lembro de
ter tomado uísque. Creio que uma vez meu pai me ofereceu uma
dose com soda, gasosa, enjoativa. Meu forte era cachaça, porque
vivia misturado com a caipirada. Misturado é força de expressão.
Sempre fui um deles. Em Santos, não havia sido iniciado na bebida
escocesa. Continuava com pinga, limão e gelo moído. Fase de praia.
Caipira se dá bem com caipirinha e refuga scotch.
Mas o Guilherme tomava uísque com gelo e um pouquinho de
água pura, sem gás. Aderi, pois, afinal, ele era meu mestre. Foi o
primeiro uísque de algumas dezenas de litros que tomamos juntos no
correr da vida, a maior parte em sua casa, na Rua Macapá, pois eu
não tinha dinheiro para bancar o gosto pela bebida escocesa.
Varávamos a noite discutindo poesia, forma, versos livres,
metrificação variada, harmonia e ritmo. Ele ficava um pouco
enciumado, quando se mencionava Fernando Pessoa. Quanto ao
resto, não ligava muito.
No lançamento do meu livro, que se chamou Café: a poesia da
terra e das enxadas, aconteceram aquelas situações de sempre.
Poeta novo na praça, apresentado pelo poeta mais consagrado de São
Paulo, badalação, noticiário, até que um dia, em sua coluna do
Diário de São Paulo, escreveu uma crônica, publicada no dia 1º de
outubro de 1953, comemorando o surgimento do “poeta do café”,
tecendo elogios para a poesia e, de repente, enfiou no texto a
seguinte frase:

“... agora se há dois amigos entre os homens somos nós: Saulo


e eu...”

50
Provocou uma crise dos diabos. O Professor Vicente Ráo, o
maior jurista do Brasil, o advogado mais famoso de São Paulo,
considerava-se, e era, o maior amigo do Guilherme. Eles haviam
cursado, juntos, o ginásio e a Faculdade de Direito. Formaram-se
juntos, e juntos festejaram o início da profissão. E Ráo, no começo
do século XX, começou a advogar no escritório do pai do Guilherme,
Dr. Estevão de Almeida, advogado célebre na época, que, depois,
pediu ao Ráo para abrir um escritório próprio, prometendo que lhe
mandaria clientes. Mas exigiu que levasse o Guilherme, pois seu filho
perturbava o ambiente sério do seu escritório com piadas e vivia
fazendo versinhos.
Assim, Vicente Ráo começou sua advocacia autônoma sem o
Guilherme, que escreveu poemas maravilhosos e nunca redigiu uma
petição. Mas passaram a vida juntos, casaram-se com mulheres que
se tornaram amigas, viveram as mesmas coisas, os mesmos
ambientes paulistas, e ambos, cada qual sob sua vocação, tornaram-
se celebridades nacionais, Guilherme, o Príncipe dos Poetas
Brasileiros, e Vicente Ráo, o maior jurista de nosso país naquela
época e, para mim, de todos os tempos.
— Preciso que você venha para São Paulo amanhã, sem falta —
disse-me o Guilherme pelo telefone. Eu já estava morando em
Santos, onde comecei a estudar Direito, depois de ter feito o colegial
em Ribeirão Preto.
— Por que tanta urgência?
— Pela crônica no Diário de São Paulo, em que falei dos dois
amigos entre os homens, você e eu. Ráo quer tirar satisfação comigo.
Veja bem: ele não quer explicações, quer tirar satisfações, o que é
muito mais grave. Ciúme de homem é a pior coisa que pode existir.
Acaba sendo mais escandaloso e agressivo do que ciúme de amante
francesa. Venha, pois quero ir ao escritório dele, na Rua Sete de
Abril, aqui pertinho, levando você.
No dia seguinte, subi a Serra do Mar, pensando comigo: seja o
que Deus quiser! Como pode uma simples frase causar tanto barulho
entre homens tão ilustres? Mas foi a frase que mudou minha vida
para sempre. E como!

51
Guilherme já me havia apresentado o mundo literário de São
Paulo. Numa época em que não havia televisão, chegamos a formar
um grupo simpático, que saía pelo interior, declamando poesias nos
teatros: Paulo Bonfim, José Carlos Dias, Selene de Medeiros, Ives
Gandra Martins, Eurícledes Formiga e Guilherme de Almeida, que
nem sempre estava disposto a nos acompanhar. Paulo Bonfim e José
Carlos Dias eram “prefaciados” de Guilherme. Em geral, eu ficava na
porta dos teatros, sentado diante de uma mesinha, quando
terminava o espetáculo, vendendo os livros dos poetas. Inclusive o
meu, que era o menos procurado.
O público vibrava com os poetas a declamar suas próprias
poesias. E um dos sucessos maiores dessas apresentações era o
talento para o improviso do paraibano Eurícledes Formiga. Para dar
maior sensação e autenticidade ao improviso, ele pedia que alguém
da platéia lhe desse um verso para ser glosado ou um assunto para
ser desenvolvido em sextilhas. Em geral, os poetas locais,
pressionados pelo público, forneciam os versos românticos, líricos,
fáceis de serem glosados pelo nosso fabuloso repentista nordestino.
Uma noite, um espectador resolveu embaraçar o paraibano e o
desafiou a improvisar sobre o tema “A saudade é um parafuso”.
Ficamos todos gelados. Não tinha jeito de sair daquela
encrenca. O tema era um desastre. Mas o poeta, calmo, pensou um
pouco e, com voz pausada e rouca, devolveu em sextilha com rimas
nas pares:

“A saudade é um parafuso,
Que, quando entra, não cai,
Só entra se for torcendo
Porque batendo não vai.
Depois que enferruja dentro,
Nem destorcendo não sai.”

A platéia delirou. Naquele dia, o livro mais vendido na portaria


foi, claro, o do Eurícledes Formiga. Os dos outros poetas,
principalmente os meus, encalharam.

52
Nerval entrou em minha sala:
— Pensei que você estivesse trabalhando.
— E não estou?
— Não parece. Quando abri a porta, você estava com os olhos
fixos na janela. Parecia perdido num vôo de nuvens lá fora.
— Estava lembrando o tempo dos meus amigos poetas,
enquanto descanso um pouco de umas contra-razões de apelação
com prazo para amanhã.
— Se seus clientes souberem que você divaga na hora de
trabalhar, nós estamos fritos.
— Por isso não publico livro de poesias. Você tem razão. O
cliente, sabendo que seu advogado é poeta, pode chegar à conclusão
de que, no mínimo, corre o risco de perder o prazo nos processos
judiciais.
— Mas o Ives Gandra publica livros de poesia quase todos os
anos e continua sendo um dos advogados mais respeitados do país,
com grande clientela.
— Não tenho a mesma coragem. O Ives é excepcional. Ele faz
de tudo: conferências, organiza conselhos de estudos e congressos,
profere excelentes pareceres jurídicos, é professor, advoga
intensamente e bem. Ainda encontra tempo e paciência para criticar
a política tributária do governo, tarefa patriótica e inútil. E você?
Tem novidade sobre a mulher do Olavo Brás?
— Tenho, e muito interessante. A mulher faz tratamento
psiquiátrico com uma das mais famosas médicas de São Paulo e,
segundo me informaram, tem problemas sérios de perturbações
mentais.
— Mas não podemos obter nada da médica psiquiatra. Ela tem
o dever do segredo profissional.
— O juiz pode.
— Inclusive para o juiz, ela tem o direito de negar-se a fornecer
informações sobre sua cliente. Tire isso da cabeça.
— Eu sei, mas o juiz da nossa causa é um dos mais
inteligentes e hábeis de toda a magistratura paulista na atualidade.
Você sabe disso. Se ele se dispuser a ouvi-la, acabará conseguindo o
que quiser, com integral respeito aos sigilos profissionais de todos os
códigos de ética deste mundo. O moço é um craque! — Nerval quase
discursava, tecendo loas ao magistrado.
— Realmente, ele é muito bom — concordei. — E está
convencido, precisamente por ser excelente magistrado, de que o
deslinde da questão deve ser conduzido pensando-se nas crianças,
independentemente de direito de mãe e de pai.
— Um valor mais alto se alevanta — disse Nerval, depois de
mandar cessar tudo o que antiga musa canta.
— É preciso ter muita coragem. Vamos entrar com uma
petição, requerendo ao juiz o depoimento da psiquiatra antes da
audiência de instrução e julgamento?
— É isso mesmo.
— Seja o que Deus quiser!
No mesmo dia redigi, assinei e mandei protocolar a petição.

53
— Tenho uma excelente notícia para você — disse Sinval, ao
entrar na minha sala.
Imediatamente, peguei o maldito cigarro e acendi, para
intoxicar minha ansiedade.
— Isso vai matar você — sentenciou Sinval. .
— A notícia?
— Não, o cigarro.
— Pára com isso. Quero a notícia.
— Não é apenas seu cliente que tem mania de suicídio. Você
também. Cigarro mata!
Sinval tinha razão. Fumante desde os quinze anos, eu tinha
absoluta consciência do mal que o hábito me causava, e já causara
um enfarte, duas pontes de safena, uma ponte de mamária, um
stent, e eu continuava fumando, menos, mas continuava, o que não
alterava o juízo que eu mesmo fazia de mim: fumar pouco não me
faria menos burro. A burrice era igual. Mas não dei o braço a torcer:
— Se você veio aqui para falar de cigarro, agradeço o gesto de
Exército da Salvação, e pode sair, porque tenho um mandado de
segurança para redigir. Estou lotado de problemas. Quero saber da
notícia. Quer um café?
— Não, obrigado. Se eu tomar o café, você também toma, e lá
vai outro cigarro. Vamos ao que interessa. Fizemos uma reunião, o
perito judicial, o assistente da autora e eu. Concordamos em que a
fita apresenta a pausa depois de cada pergunta. E isso será
unânime.
— Bem, até aí estava mais ou menos previsto. O que mais?
— Aí vem o melhor. Sugeri que o laudo fizesse constar que as
pausas indicavam com segurança que as respostas foram induzidas.
Nenhuma outra razão poderia justificar a pausa depois de todas as
perguntas. E mais: as respostas fluíram sem hesitação, o que
demonstra terem sido as crianças bem ensaiadas para dizer cada
uma das frases gravadas.
Em processo judicial, as perícias são efetuadas por três
especialistas e profissionais habilitados. Um indicado pelo autor da
ação, outro indicado pelo réu, ambos chamados de assistentes. O
perito principal é indicado pelo juiz. Não é comum conseguir um
laudo unânime. Por isso, minha pergunta:
— Você conseguiu isso do perito judicial e também do
assistente da autora?
— Quem conseguiu foi a consciência de cada um de nós. O
próprio perito judicial, depois de se convencer desse aspecto
relevante, doutrinou o assistente da autora, ponderando estar em
jogo não o interesse dela, mas a verdade em favor das crianças.
Submetidas a esse tipo de ditado, as crianças sofreram uma
violência moral inimaginável. Se fez isso, ou mandou alguém fazer,
essa mulher é um perigo para a educação e formação dos próprios
filhos.
— E você não quer que eu fume com uma notícia dessas?
— Não fume! Quero que você dure até o final do processo. Pelo
menos.
— Mas eles aceitaram colocar no laudo uma opinião dos
peritos, que devem se limitar unicamente ao aspecto técnico?
— Aí está a interpretação errada do princípio. O aspecto
técnico pode muito bem levar o perito a concluir o porquê de sua
existência. Muitas vezes, em caso de assassinato por facadas, pode-
se chegar à conclusão de que o assassino é canhoto, por simples
detalhes na direção e formato da perfuração.
— Mas isso ainda é aspecto técnico. Na gravação, temos
apenas a indicação da pausa entre a pergunta e a resposta.
— No caso das facadas, veja bem, estou falando de várias
facadas, não de uma só, a repetição é que facilita a conclusão. E, no
caso da gravação, a repetição da pausa depois de todas as perguntas
faz saltar a conclusão lógica de que a paralisação do gravador só
pode ter acontecido para o ditado da resposta. Não é apenas uma
opinião. É uma conclusão plausível, e nós vamos ter que salientar
isso no laudo. Farei o rascunho para o perito judicial.
— E há previsão para a entrega do trabalho?
— Não sei exatamente, mas fique tranqüilo. Está decidido: o
laudo será unânime.
Quase acendi outro cigarro. Essa afirmação da perícia ia me
facilitar demais na defesa do cliente e no convencimento do juiz:
devíamos ouvir as crianças. Agora eu tinha um motivo técnico para
obter essa prova fundamental.
Lembrei-me do Gervásio:
— E a distância entre a fonte de áudio e o gravador?
— É sempre a mesma. As crianças estão seguramente à mesma
distância quando falam. É simples determinar pelos picos da onda
senoidal no analisador de espectro de áudio. O volume é sempre o
mesmo.
— Onda senoidal?
— Aquelas ondas verdes que o osciloscópio mostra quando
reproduz. As mesmas que desaparecem, quando a gravação sofre
interrupção pela pausa. Conforme a altura da curva senoidal, pode-
se afirmar que as crianças estão imóveis, a uma distância de trinta
centímetros do microfone. É constante.
— Isso vai ficar claro no laudo?
— Claríssimo.
— Dá para concluir que as crianças estavam sendo seguradas
no momento em que respondiam às perguntas?
— Aí já é demais. Não confunda a conclusão que tiramos das
pausas com a hipótese de igualdade da distância entre o gravador e
as crianças. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Como a televisão influencia o vocabulário das pessoas!
— Não se preocupe — tranqüilizei-o. — Essa circunstância, se
bem salientada no laudo, vai me ajudar a sustentar a existência de
um cúmplice na gravação.
Sinval saiu. Fiquei na minha sala, saboreando a notícia e o
cigarro. Ah! Ainda tenho um mandado de segurança para redigir.
Santo Deus! Os prazos e o cigarro vão me matar! Há tanto tempo já
sei disso!
Na época de Shakespeare, o rei James I da Inglaterra já sabia
disso também e era antitabagista em 1615.
“Fumar é um hábito repugnante à vista, odiado pelo olfato,
danoso para o cérebro e perigoso para os pulmões”, escreveu o rei,
em 1616, sobre o novo “mau costume” procedente da América e
popularizado por Sir Walter Raleigh, introdutor do fumo no mundo
dito civilizado daquela época.
Até a Rainha Elisabeth I aprendeu a cachimbar. James I, que a
sucedeu, ao tornar-se monarca da Inglaterra, em coerência com seu
pensamento real, mandou decapitar Raleigh em 1618. Raleigh foi,
portanto, um dos fumantes que não morreu de câncer, salvo que foi
pela decapitação.

54
Então verifiquei que havia outro caso urgente para resolver.
Era um mandado de segurança ao contrário, isto é, requerido e
conseguido liminarmente pelos advogados das concorrentes da NEC,
companhia japonesa, que havia ganho a concorrência pública para
instalar em São Paulo a telefonia celular. Começaria com 60 mil
telefones. Os impetrantes da segurança, advogados competentes,
abusaram um pouco: acusaram a NEC de algumas deficiências
técnicas, inclusive afirmando que ela não tinha o recurso de rooming,
vital para a comunicação entre os telefones celulares de regiões
diferentes. A NEC me contratou para defendê-la.
Chamei o vice-presidente da empresa, Renato Ishikawa, e
perguntei-lhe:
— O que é rooming?
Ele começou a me contar uma história de mãe e criança recém-
nascida, que nada tinha a ver com telefone.
— Rooming-in foi o termo utilizado por Arnold Gessel pela
primeira vez em 1943 — disse ele —, em seu livro Infant and child in
the culture of today, para denominar a prática de permitir a
colocação, no mesmo ambiente, de um pequeno berço para acomodar
o recém-nascido ao lado de sua mãe. Esse termo foi uma derivação
do termo lying-in, que, em inglês, significa estar deitado, e é utilizado
para mulheres em trabalho de parto. Significa alojamento conjunto.
— Mas o que isso tem a ver com telefone móvel?
— Tudo. A expressão foi usada para designar o recurso para o
telefone portátil funcionar em áreas distantes de suas provedoras.
Você pode levar seu celular de São Paulo para Brasília ou para
Manaus, e ele funciona normalmente, tanto para receber chamadas
como para fazer ligações. É apenas um exemplo. Ainda não temos o
conjunto de sistemas instalados no Brasil. Mas será assim dentro de
pouco tempo. É uma tecnologia que permite às várias e diferentes
companhias telefônicas o intercâmbio das comunicações e do
alojamento conjunto dos serviços ao usuário. O rooming-in. O berço
da criança está sempre ao lado do leito da mãe.
— E a NEC tem esse berço? — perguntei.
— Claro que sim.
Com essa informação, redigi um pedido de revogação da
liminar concedida aos concorrentes. A matéria dependia de prova,
existência ou inexistência de tecnologia, detalhe de fato, sujeita à
verificação técnica. Incabível em mandado de segurança. Fui
despachar pessoalmente com o presidente do Tribunal Regional
Federal de São Paulo, Américo Lacombe, um craque em Direito.
Cassou a liminar.
Os concorrentes da NEC recorreram ao Superior Tribunal de
Justiça e se apressaram em ir falar com o relator sorteado, Ministro
Peçanha Martins. Também fui. Ao entrar na sala dele, ouvi logo de
início:
— Seus adversários estiveram aqui e fizeram uma longa
sustentação oral antes da hora. Vou-lhe assegurar o mesmo direito.
Comece.
Peçanha Martins é um excelente jurista. Baiano de talento,
gozador, bem-humorado, muita gente se engana com ele. Por trás da
simplicidade e da enorme barriga, tem uma vasta cultura geral, além
de uma perspicácia invejável para questões de Direito.
— O senhor sabe o que rooming? — perguntei.
— Não tenho a menor idéia — disfarçou ele, já esboçando um
sorriso inteligente. — Sei apenas tratar-se de uma tecnologia que sua
cliente não tem.
— É o que afirmam os impetrantes. Mas ela tem e muito bem
desenvolvida. Vocês vão decidir isso em mandado de segurança? Vão
fazer perícia em processo que apenas examina direito líquido e certo?
Contei a história do leito da mãe e do bercinho. Alojamento
conjunto. Haveria direito líquido e certo em afirmar que a vencedora
da licitação não oferece o recurso de rooming, o que depende de
prova técnica complexa?
A cassação da liminar foi mantida, a segurança, mais tarde, foi
negada, e a NEC, em São Paulo, além dos 60 mil telefones iniciais,
acabou instalando milhões de unidades. Uma delas, o meu celular,
causa de muitos dos meus tormentos.

55
Autorizados por Dona Sílvia, entramos, Guilherme de Almeida
e eu, na sala do Professor Vicente Ráo, para atender ao chamado do
amigo ofendido pela crônica do poeta. Tive o cuidado de levar um
exemplar de meu livro autografado ao grande jurista.
Ráo irradiava uma simpatia cativante e uma simplicidade
comovente. Depois da apresentação, brincou com o Guilherme:
— Você comete o crime e me traz o corpo de delito?
Guilherme, embora poeta, foi prático dessa vez:
— Ráo, não sei quantos advogados recém-formados tentei lhe
apresentar. Estudantes, perdi a conta. Você sempre me embrulhou
com lacinhos de pompom e nunca os recebeu. Somente o impacto
que lhe causei, por declarar que tinha um amigo comparável a você,
possibilitou esta apresentação. O que desejo, na verdade, é que o
Saulo venha trabalhar no seu escritório.
O professor achou curiosa a maneira engendrada pelo amigo de
juventude e me perguntou:
— O senhor é formado por onde?
— Ainda estou estudando na Faculdade de Direito de Santos.
— Então o senhor pretende ser solicitador acadêmico em meu
escritório?
Naquele tempo, não havia a figura do estagiário.
— Senhor Doutor Professor Vicente Ráo — respondi, um pouco
embaraçado —, não pretendo nada. Creio que o Guilherme
precipitou algo. O pedido que ele acaba de lhe fazer, embora muito
honroso para mim, não teve a minha autorização. Minha vinda aqui
tem um único motivo: conhecer o senhor e oferecer-lhe um exemplar
de meu livro.
O professor virou-se para o Guilherme e disse:
— E agora? O que vamos fazer com o seu melhor amigo?
— Leia o livro dele e espere-o formar-se em Direito. Ele voltará
para pleitear o ingresso no seu escritório. Não é, Saulo?
— Guilherme, que coisa mais complicada — respondi eu, já
meio nervoso. — Eu dei para o professor um livro de poesia, mas isso
não me credenciará como advogado. Uma coisa nada tem a ver com a
outra.
— Fique quieto. O Ráo é um bom leitor de poesia. Leu todas as
minhas. Direito é secundário. Desejo que ele conheça sua facilidade
para escrever, para dizer o que sente, o que lhe dará bons elementos
para avaliar o futuro advogado, que, em geral, tem que dizer o que
perna, e não o que sente. E muitos nem sequer sabem pensar.
A conversa parecia luta de espadachins malucos. Misturar
sonetos com razões de Direito, e no futuro. Mas terminou com o
professor Vicente Ráo dizendo que o escritório estaria aberto para
mim, quando quisesse, depois de formado, ou antes.
Guilherme saiu com ares de vitorioso:
— O Ráo deu a palavra, pronto. É um dos homens mais
honrados deste país. Você terá oportunidade de iniciar sua profissão
junto a um dos melhores juristas do Brasil. O destino está
apontando o dedo para você. Não se desvie.
E quase me desviei. Em Santos, acabei conseguindo emprego
de repórter em A Tribuna. Fiquei fascinado pelo Jornalismo.
Mergulhei inteiro na nova profissão, enquanto fazia o curso de
Direito. No vestibular para a Faculdade, passei em primeiro lugar.
Festa na família e entre os amigos. Mas o jornal, o ambiente, os
novos amigos, os novos conhecimentos, a falta de horário, as altas
horas na redação, quando havia crises políticas ou eventos
extraordinários, tudo isso me fascinava. Cheguei a acreditar que
havia encontrado minha profissão. Acabei tendo a honra de ser
escalado para, em alguns dias da semana, escrever o artigo de fundo
de algumas edições, o editorial. Era o máximo.
Ali convivi com jornalistas excelentes: Olao Rodrigues, Geraldo
Ferraz, Patrícia Galvão, Rubens de Ulhoa Cintra, Horneaux de Moura
e outros, e mais outros, e mais outros.
Patrícia Galvão, Geraldo Ferraz e eu fundamos o Centro de
Estudos Fernando Pessoa, para cultivar e divulgar a poesia do
imenso poeta português. Nisso foi incluída extensa correspondência
com Casais Monteiro em Portugal.
Casais era o amigo de Pessoa. A ele, o poeta escreveu a célebre
carta explicando seus heterônimos. Um dia apareceu em Santos,
vindo de um congresso no Uruguai, e nos deu um susto. Fugiu do
navio em que viajava e queria asilar-se no Brasil, porque não
tolerava a ditadura de Salazar, que, pelo jeito, também não
suportava o intelectual português.
Tivemos que providenciar o asilo. Geraldo Ferraz conseguiu
encaixá-lo na redação de O Estado de S. Paulo e, depois, acabou se
tornando professor em Araraquara. Livrou-se de Salazar.
Contei essas coisas por uma razão muito simples: Casais
Monteiro distinguiu-me com um presente preciosíssimo: deu-me os
óculos de Fernando Pessoa, precisamente o célebre pincenê com que
foi retratado por Almada Negreiros. O jornalismo me proporcionou
tudo isso e, de quebra, trabalhando na baixada do litoral paulista, vi
Pelé estrear no Santos Futebol Clube, em 1956, e tive o privilégio de
assistir a todos os seus jogos na Vila Belmiro, nos locais reservados à
imprensa, para onde me levavam o Guenaga e o De Vaney, repórteres
esportivos de A Tribuna.
Para encurtar toda esta conversa: formei-me em Direito e fui
procurar o Professor Vicente Ráo. Admitiu-me no escritório. De
início, eu viajava todos os dias de Santos para São Paulo e vice-
versa. Com um detalhe: esse vice-versa era à noite. Eu ainda ia para
a redação de A Tribuna, trabalhar no período noturno. Vida dura. E
continuava fumando!

56
No escritório de Ráo, naquele começo tímido, tive o apoio de
um advogado fantástico: Ovídio Rocha Barros Sandoval, o discípulo
predileto do velho professor. Ficamos amigos incondicionais.
Lutamos juntos em muitas causas. Depois de uns anos, ele nos
deixou e foi ser juiz. Mas voltamos a nos encontrar em Ribeirão
Preto, onde hoje somos vizinhos e convivemos, como nos velhos
tempos. Aposentou-se da magistratura. E ainda advoga. E bem.
Outro companheiro inesquecível foi José Frederico Marques.
Veio trabalhar conosco na Rua Sete de Abril e deixou funcionando o
seu escritório da Rua 24 de Maio, que transformamos em
departamento criminal. Trouxe de bônus o seu genro, Manuel Alceu
Afonso Ferreira, advogado que se tornou célebre por suas admiráveis
qualidades profissionais e por ser jurista de talento.
Todo mundo era bom naquele escritório, transformado numa
usina de talentos e operadores do Direito. A modéstia me impede de
dizer que eu também não era dos piores. Mas, agora que, sob esse
subterfúgio de falsificar a modéstia, já disse, explico: o problema é
que continuava com a alma de jornalista. Mas tinha que escolher.
A notícia ou a razão de direito? A informação ao público ou a
sustentação diante apenas de um juiz? A manchete, a consulta das
fontes, a rapidez em colher o fato e levá-lo ao texto, ou, diante do
fato, a reflexão, o amadurecimento do raciocínio técnico, o texto
refletido? Foi difícil decidir.
O empurrão veio da ditadura em 1964. Acabaram com a
liberdade de imprensa. Resolvi dedicar-me somente à advocacia. Era
uma forma de lutar pela liberdade das pessoas.
Frederico Marques levantava-se muito cedo, lá pelas quatro da
manhã; dormia antes das nove da noite. E Vicente Ráo, ao contrário,
ia dormir de madrugada e levantava-se ao meio-dia. Isso me fez
observar que o nosso escritório tinha, durante 24 horas, um gênio de
plantão.
Até José Sarney, quando os militares fechavam o Congresso
Nacional, vinha trabalhar conosco. Marly, sua mulher, costumava
dizer que nessas temporadas podia mandar seus filhos para a escola
— Roseana, Zequinha e Fernando — com sanduíches recheados de
goiabada. Sempre bem-humorada, insistia na defesa da tese de que o
marido deveria largar a política e dedicar-se inteiramente à
advocacia. Sonhar é preciso.
Estava eu ali, na sala do Professor Vicente Ráo, chefiando,
após sua morte, o escritório que fora dele. Sua ausência era um vazio
imenso. Chegava a engasgar. Mas nós, Ovídio Rocha Barros
Sandoval e eu, continuamos a conversar com o Professor Ráo, lendo
suas obras. É impressionante a sensação de ouvi-lo em silêncio. E
quanta sabedoria salta a cada parágrafo do que ele escreveu! E como
escrevia simples, claro, sem complicação alguma! Sobre Direito Civil,
foi quem melhor escreveu em língua portuguesa. Aliás, no Brasil, o
próprio Direito Civil se divide em antes e depois de Vicente Ráo, já
que ele trouxe doutrina e ensinamentos que alteraram
completamente a forma de pensar de nossos juristas, até então
limitados a citar Clóvis Beviláqua. Por tudo isso, sobre mim pesava
uma responsabilidade enorme: dar continuidade à advocacia
fundada por um gênio e um dos homens mais honrados do nosso
país, como observara Guilherme de Almeida. Eu não tinha o direito
de falhar. Em nada.
Ráo fumava uns cinco maços de cigarro por dia. Ovídio nem
tanto, mas seguia os costumes do mestre. Frederico Marques era
mais moderado no tabagismo. Em Santos, o meu amigo Mário Covas
consumia uns quatro maços diariamente, o que contribuía para sua
voz ficar ainda mais rouca.
Sarney era a exceção: somente fumou duas vezes na vida —
uma quando foi pedir a Marly em casamento, e outra, quando estava
no colégio, numa rodinha de colegas. O cigarro passava de mão em
mão para uma tragada. Quando chegou a vez dele, foi pego por um
professor. Teve que escrever trezentas linhas contra o cigarro.
Salvou-se.
Excluindo o José Sarney, minha vida era cercada de fumaça,
diversa dessas neblinas que agora estão se desfazendo para eu
descrever os fatos do meu passado.
Fernanda Pessoa, em “Tabacaria”, escreveu:

“Enquanto Deus me conceder, continuarei fumando...”

E acendi um último cigarro, quando acabei de redigir umas


razões quaisquer para um outro processo.
Lembrei-me do Sinval. Isto vai acabar me matando. Espero,
porém, durar até ler, no caso do Sr. Olavo Brás, o laudo assinado por
todos os peritos. Não era pedir demais. Fiquei meditando na outra
frase: “Não é apenas o seu cliente que tem mania de suicídio!” Mas,
enfim, não sou inglês e não vivo no tempo de James I.
Apaguei o cigarro e fui para o Paddock. Quem sabe encontraria
por lá o Zé do Pé. Não deu outra. Ele estava no bar.
— Chefe — ele chamava todo mundo de chefe. — Vou lhe
contar o que me aconteceu ontem. O Olavo Drummond24 conseguiu
me levar ao médico para uma consulta.
— Bendito seja Deus. Afinal você criou juízo.
— Depois da consulta, exames de sangue, aquela baboseira
toda, o médico me disse no retorno: “O senhor está tecnicamente
morto. Tem que parar de beber imediatamente. Nem mais um gole de
hoje em diante!”. — Contou o prognóstico diante de um copo de
uísque.
— Até aí — respondi — todos nós sabemos. Você anda
abusando demais. Não há saúde que agüente. Se o médico disse que
você está tecnicamente morto, pode haver chance de ressurreição.
Pare de beber.
Disse que, na saída do consultório, quando ele e o Olavo
Drummond chegaram à rua, estava passando um carro fúnebre. Não
agüentou e gritou:
— Táxi, táxi!
Deu uma risada gostosa e continuou bebendo.25

57
Fiz uma reunião com meus assistentes e comuniquei-lhes as
novidades contadas pelo Sinval. Teríamos um laudo oficial para
balançar a convicção do Juiz e do Ministério Público, criando o
benefício da dúvida para o nosso cliente. Cada assistente foi

24 Olavo Drummond, Procurador da República, Ministro dos Tribunais de Contas de


São Paulo e da União, Prefeito de Araxá, Minas Gerais, meu querido amigo, amigo
de Juscelino Kubitschek. Deixou muita saudade. Sua filha, Dra. Ana Drummond,
trabalhou em meu escritório.
25 Zé do Pé, José Paulo Freire, tinha o apelido de Zé do Petróleo. Era rico. Depois que
ficou pobre, ele próprio mudou seu apelido para Zé do Pé. Morreu de cirrose.
contando em que pé estavam as suas investigações sobre a vida da
mulher. Parece que, embora residindo em São Paulo, ela conhecia e
freqüentava quase todos os grandes hotéis da cidade, com exceção de
um único, por motivos muito óbvios.
Uma das minhas assistentes, a Dra. Maria Clotilde Simigaglia,
comunicou-me algo surpreendente. Descobriu a escola em que as
crianças estudavam e disse que, por meio de amigos íntimos, ficou
conhecendo a diretora. Tornou-se amiga dela. Passaram a
freqüentar-se, a jantar no fim de semana, chegaram à maior
intimidade. Clotilde sempre teve grande empatia e simpatia. Envolvia
as pessoas com gestos sinceros e tornava-se uma convivência e uma
companhia agradabilíssima. Mas, com a diretora da escola das
crianças? O que isso queria dizer?
— Chefe, a coisa está no seguinte pé — no escritório, eles
tinham a mania de me chamar de chefe. — Depois de algum tempo,
comentei com a diretora o caso, nosso ponto de vista e meu desejo de
conhecer as crianças, jurando, claro, não tocar no assunto. Apenas
conviver um pouco com o menino e a menina, ficar com eles numa
sala de aula e ministrar-lhes lições extracurriculares de pintura,
escultura e uma bela farra de trinta minutos. A princípio, a diretora
estranhou, mas cedeu, fazendo-me jurar, e eu jurei, que não
mencionaria nada do processo e não falaria nem da mãe, nem do pai
delas. Convenci-a de que, se eu me tornasse íntima das crianças,
elas se sentiriam mais à vontade na futura audiência em juízo.
Clotilde tinha, realmente, grande facilidade em relacionar-se
com crianças de qualquer faixa etária. Ficavam fascinadas por ela e
suas brincadeiras. Contou-me que os filhos do Sr. Olavo Brás eram
conduzidos à escola por um motorista, que ia buscá-los no final das
aulas. Geralmente chegava atrasado. As crianças ficavam esperando.
Disse que a diretora apresentou-a como tia “Clô” e arrumou um
tempinho para ficarem juntas. E que passou a freqüentar a escola
todos os dias. Se desse para ficar com as crianças, tudo bem. Se não
desse, voltava no dia seguinte. No fim das aulas, com o atraso do
motorista, teve inúmeras oportunidades bem aproveitadas. A tia
“Clô” já se considerava alvo de absoluta confiança das crianças e
uma companheirona para brincar. Confessou-me que chegou a
estudar e a aprender mágica para seduzir as crianças.
Clotilde assegurou-me que, no dia da audiência, essa
intimidade iria facilitar muito o trabalho de todos: juiz, advogados,
promotor. Mas ela ainda pretendia, antes da audiência, conseguir
algo mais.
— O quê? — perguntei.
— Se conseguir, será uma surpresa, e positiva, para nossa
causa.
— Mas diga, então, até para eu ficar torcendo.
— Não. Talvez você me proíba de fazer. Vou tentar sem seu
conhecimento prévio. Se tiver sucesso, avaliaremos depois.
Mais um mistério no caso do meu quase-suicida. Dessa vez, o
suspense era criado por uma assistente minha. Não podia censurá-
la, nem forçá-la a nada. A verdade é que havia tido uma idéia
brilhante de tornar-se íntima das crianças, detalhe importante para
a futura audiência judicial. Esperávamos que diante do juiz as
crianças contassem a verdade. E Clotilde havia criado as condições
para isso. Realmente era mágica. A lentidão do Judiciário é tamanha,
que dá tempo para tudo isso, até para acompanhar o crescimento de
crianças na escola.

58
Sempre tive sorte com advogados assistentes, meus queridos
colaboradores. Alguns, eu mandava para os Estados Unidos, a fim de
estagiar no escritório de um advogado americano, meu amigo. E de lá
voltavam com boa experiência não tanto em Direito, mas em lidar
com cliente rico.
Uma assistente minha, que veio estagiar no escritório depois de
apresentada por Franco Montoro e era de família humilde de Minas
Gerais, gente que trabalhava na enxada, causou furor na nossa
advocacia, não apenas pela inteligência, mas também pelas idéias
práticas que tinha para resolver problemas. Chamava-se Mara
Galbier.
Certa vez, estávamos com grande dificuldade para citar um
empresário famoso em São Paulo. Sua empresa, respeitada,
tradicional, dificultava ao máximo a entrada de oficiais de justiça. No
escritório, nem pensar, e sua casa era indevassável. Ficamos
colecionando as certidões dos oficiais de justiça, para requerer a
citação por edital, o que também não era fácil. Havia um misterioso
sistema de defesa do empresário contra citações ou notificações judi-
ciais, quando a ele endereçadas pessoalmente. Mara pediu um
tempo. Soube que o empresário estava doente. Vestiu-se de
enfermeira e colocou um avental de médico no oficial de justiça,
inclusive um estetoscópio em seu pescoço.
Chegou às pressas na residência do homem, anunciando o
médico, os portões se abriram, ela entrou e acompanhou o oficial de
justiça até o quarto do empresário. Lá se identificaram e citaram o
réu.
Pela agilidade de raciocínio da moça, entendi que deveria
mandá-la para os Estados Unidos, a fim de fazer estágio no escritório
do meu correspondente. Até então, somente havia mandado os
homens. Ela foi e nunca mais voltou. Casou-se com um dos
advogados sócios do escritório e hoje pertence a uma das maiores
firmas de advocacia em Nova York. Filha de enxadeiros. Mineirinha.

59
Isso tudo aconteceu porque ela me foi apresentada por Franco
Montoro, amigo de Mário Covas. E também de Jânio Quadros, que,
depois da Prefeitura, resolveu ser candidato a Governador de São
Paulo. Em Santos, o ademarismo era absoluto, mesmo porque, além
da força de seu partido político, o PSP, tinha um líder local de grande
prestígio, Sílvio Fernandes Lopes. Rubens Ulhoa Cintra e eu,
jornalistas de A Tribuna, resolvemos apoiar Jânio e nos engajar na
campanha. Atraímos o engenheiro magrinho, Mário Covas, o nosso
Zuza, e conseguimos a adesão da respeitabilidade do advogado
Ariosto Guimarães.
Fizemos tudo o que podíamos fazer nesse exercício vocacional
para o suicídio. Nenhum de nós entendia de política partidária e
muito menos das malícias eleitorais. Jânio, creio, perdeu para os
votos brancos no litoral paulista, mas foi eleito Governador do
Estado de São Paulo.
Depois da posse, já como Governador, visitou Santos e foi
direto para a redação de A Tribuna, agradecer o apoio dos dois
jornalistas. Conquistou todos os outros, inclusive os diretores,
Giusfredo e Roberto Santini, que haviam permitido, em nossas
colunas jornalísticas, o escandaloso partidarismo em favor de um
dos candidatos, quando a postura ética teria que ser a
imparcialidade.
Um dia me chamou a São Paulo, no Palácio dos Campos
Elíseos. Entrei em sua sala escura, meio fantasmagórica. Tinha um
processo sobre sua mesa.
— Quero que você estude isto.
— O que é?
— Política do café.
— Ah! Afinal chegou sua vez — disse-lhe, lembrando nosso
primeiro encontro à beira das caipirinhas.
— São os trabalhos da Secretaria da Fazenda, do Professor
Carvalho Pinto, que reuniu as reivindicações dos fazendeiros
paulistas e dos comissários de café no porto de Santos, inteiramente
antagônicas. Tenho que resumir tudo em documento que assinarei e
entregarei ao Presidente da República como a posição oficial do
Governo de São Paulo para o próximo regulamento da safra. Você
ainda escreve sobre esta geringonça?
— Escrevo.
— E já entende?
— Um pouco.
— Então, por favor, meu amigo, leve este calhamaço e me
devolva com um resumo. Mas venha pessoalmente, para me explicar
suas conclusões.
Levei, estudei, redigi, voltei. Jânio tinha uma perspicácia
fenomenal e uma enorme facilidade para aprender qualquer coisa,
por mais complicada que fosse. Prestava profunda atenção, sem
importar a qual expositor, fazia perguntas sobre pontos que lhe
pareciam obscuros e passava a dominar o assunto com tranqüila
familiaridade.
Depois me contou que reuniu seus economistas e assessores,
inclusive o Professor Carvalho Pinto, e fez a exposição discorrendo
sobre todas as reivindicações da cafeicultura e dos exportadores do
porto de Santos. Criticou-as, rejeitou as absurdas e comunicou suas
conclusões em detalhes. Os funcionários estaduais ficaram
abismados com a facilidade do Governador para entender e resolver
a questão que, para seus antecessores, era o mais puro grego. E
lançou o grito de guerra: enquanto houver confisco cambial, não
haverá regulamento de embarque capaz de salvar o Brasil e sua
cafeicultura. Era o primeiro tijolo de sua candidatura a Presidente.

60
E veio a campanha para Presidente da República. De novo,
engajei-me na política e, dessa vez, ganhar em Santos foi fácil. Mas,
durante a campanha, de quando em quando, Jânio me chamava
para outros lugares. Um dia, fui ao Rio de Janeiro. O assunto era
café. Dei a necessária assessoria. Ele se hospedava no Hotel Glória, e
lá me hospedei também. À noite, no jantar, apresentou-me a um
jovem deputado da UDN, que se chamava José Sarney.
— Quero que os jovens se conheçam. O Brasil precisa da
inteligência de vocês, meus meninos — e foi conversar com os
demais políticos convidados: Carlos Lacerda e outros líderes do
partido de oposição na época.
Sarney e eu, como bons meninos, começamos a nos investigar
cuidadosamente, com perguntas hábeis e respostas cuidadosas.
Naquela época, ambos adorávamos uísque, sobretudo quando era de
graça. Abusamos um pouco, e a conversa ficou mais fácil. De
repente, estávamos falando de poesia. Descobrimos ter a incorrigível
tendência para os versos, literatura, sonhos, ideais e, o mais
surpreendente de tudo, idéias.
A conversa enveredou para Fernando Pessoa. Aí lhe contei que
eu participara do lançamento do poeta português no Brasil, com a
fundação do Centro de Estudos Fernando Pessoa, juntamente com
Geraldo Ferraz e Patrícia Galvão, em 1956. E que essa iniciativa
despertara a atenção de Rui Afonso, que participava do coro dos
tebanos numa peça grega, traduzida por Guilherme de Almeida e
encenada em São Paulo, no Teatro de Arena. Rui teve a feliz idéia de
aproveitar o coro dos tebanos e formar um conjunto de declamadores
chamado Jograis e, no Teatro Oficina, em coral, declamaram as poe-
sias do poeta português. Sucesso absoluto, começando por “Ode
marítima”, poema fantástico.
Sarney ouviu tudo com calma, sorveu um longo e saboroso gole
de uísque e disse:
— Ótima contribuição, mas quem lançou Fernando Pessoa no
Brasil fui eu.
Pulei da cadeira. Impossível! Nossa primeira discussão. Como?
De que forma, em que ano?
— Em 1947, em São Luís, Maranhão. Publicamos poesias dele
trazidas por Bandeira Tribuzi, que as conheceu em Portugal. O poeta
ainda estava vivo.
Não havia jeito. Ele ganhara a batalha. Mas não tinha o
pincenê de Fernando Pessoa, meu prêmio de consolação. Ele seguiu
na campanha de Jânio no Nordeste, e eu fiquei no humilde círculo
municipal de Santos.
Voltamos a nos encontrar em Brasília, depois da posse do
presidente eleito. Jânio me convidara para ser seu oficial de gabinete,
encarregado de assessorá-lo na política do café e outros assuntos.
Sarney foi indicado vice-líder do Governo na Câmara dos Deputados
e todo começo de noite passava pelo Planalto, onde vinha discutir
com o Presidente os problemas do Congresso, e aproveitávamos para
sair juntos, rumo a duas doses de uísque, antes de ir para casa.
O líder do Governo era o Deputado Pedro Aleixo, que se
recusava a comparecer à Câmara para assumir o posto. Estava
magoado com Jânio, em virtude da vitória da chapa Jan-Jan, Jânio e
Jango, e da derrota do candidato a vice pela UDN — União
Democrática Nacional —, Professor Milton Campos. Naquele tempo, a
lei permitia o lançamento de candidato a vice independentemente do
candidato ao cargo principal de Presidente da República. Com isso,
ganhamos a convivência de Sarney.

61
No Planalto, ano zero, trabalhava-se muito. Não havia infra-
estrutura, ainda não existia fax, as comunicações se faziam por
telex, telefone funcionava mal, os ministérios fingiam mudar para
Brasília, mas continuavam no Rio. Confusão total. O maravilhoso
sonho de Juscelino Kubitschek nas primeiras horas era um
pesadelo.

A República estava isolada no planalto goiano. A melhor


colaboração vinha do Gabinete Militar, sob a chefia do General Pedro
Geraldo. Ali se praticavam milagres para manter o Palácio do
Planalto em comunicação com a máquina do Governo. Entre os
oficiais de enorme eficiência, dois se destacaram: o Major Leônidas
Pires Gonçalves e seu colega Ivan de Souza Mendes.
Foi um martírio dar os primeiros passos na administração
pública federal naqueles tempos. Onde está o Ministro da Fazenda?
No Rio. Onde está o Ministro das Relações Exteriores? No Rio.
Acharam o Ministro da Fazenda? Está em trânsito.
Em trânsito queria dizer voando num avião Viscount, que não
chegava nunca, não tinha horário certo para decolar, vôo cancelado,
muita confusão. Mesmo assim, em apenas sete meses de Governo,
Jânio conseguiu fazer o PIB crescer 9%.
— Quero um favor de você, e muito especial — disse-me ele,
acendendo a luz vermelha do lado de fora de sua sala, para ninguém
entrar. — Santos. Você conhece bem a cidade e seus políticos, como
convém a um jornalista competente.
— Conheço, é claro. Qual o problema?
— As eleições municipais, que se realizarão dentro de alguns
meses. Vai haver um confronto entre janismo e ademarismo. Pelo
janismo, o candidato a prefeito será o Athiê Jorge Cury, que perderá
para o candidato do Ademar, seja qual for. Gostaria que você fosse a
Santos, reunisse nossos amigos e lançasse um candidato em nome
do janismo. Sua autoridade lá, sob esse aspecto, é indiscutível.
— Espere um pouco: se eu conseguir que os nossos amigos
lancem um candidato, o Athiê vai desistir?
— Não. Continuará candidato.
— Então vamos perder mais fácil ainda.
— Mas teremos perdido, porque o janismo foi dividido. É essa a
sutileza.
— Uma sutileza de elefante.
— Elefante é o Athiê, que não abre mão da candidatura, e sua
derrota será fragorosa. Lance um outro janista idôneo, se possível
seu amigo, na sua faixa etária, e que tenha participado de nossa
campanha.
— Mário Covas — disse eu.
— Pode até ganhar.

62
Lá fui eu para Santos. Convencer o Zuza foi uma dureza.
Primeiro, porque não queria saber de política. Participar da
campanha do Jânio era uma coisa, mas ingressar ele próprio na
política era outra, que não lhe agradava de maneira alguma. Depois
vacilou. Lila, sua mulher, ajudou-me decisivamente. Com a
vivacidade característica de sua inteligência, Mário Covas fez seus
rápidos cálculos matemáticos (nisso era imbatível) e logo concluiu:
“Além do mais, o eleitorado janista vai ficar dividido, e não temos a
menor chance de ganhar!”. Expliquei-lhe a angústia de Jânio e a
sutileza do elefante. Consentiu em ser candidato.
Athiê não desistiu e atrapalhou o que pôde. Nos fins de
semana, eu ia a Santos e dava à campanha de Covas a
“autenticidade” janista. Finalmente, vieram as eleições, e quase
ganhamos. Covas ficou em segundo lugar, com uma votação
consagradora para um estreante na cidade tão politizada. Athiê
sofreu a prevista rejeição do eleitorado. Jânio vibrou. Telefonou para
o Mário Covas, dizendo que esperava dele a liderança do janismo em
Santos.
Um pouco antes da posse do vencedor do pleito eleitoral pelo
ademarismo, o Dr. Luiz La Scala, o prefeito eleito sofreu um acidente
e faleceu, situação altamente triste, constrangedora, lamentável.
Mas o fato desencadeou um movimento irresistível nos meios
políticos. Deveria assumir o segundo colocado, porque, sem a posse
do titular, o vice, o radialista José Gomes, ainda não teria o direito
de substituí-lo. O pessoal foi discutir no Judiciário. Em primeira
instância (hoje, jurisdição de primeiro grau), a sentença foi clara: o
vice tinha direito autônomo. Se o titular não assume o cargo, o vice
tem direito de tomar posse. Fim de papo.
Fim de papo coisa nenhuma. Recurso para o Tribunal
Estadual. Sentença confirmada. Recurso para o Tribunal Superior
Eleitoral.
Entendimento confirmado: o vice, embora o titular não tenha
assumido, tem direito autônomo ao cargo, para o qual foi eleito tão
legitimamente quanto o seu companheiro de chapa, ou
independentemente dele.
Ficamos conformados. O pronunciamento da Justiça é mais
sábio do que a inexperiência da moçada movida a entusiasmo.

63
Vamos fazer um vôo no tempo, um vôo de vinte e cinco anos
para o futuro. Mário Covas, eleito deputado federal. Tancredo Neves,
eleito presidente da República no Colégio Eleitoral, juntamente com
seu vice, José Sarney.
Na véspera da posse, Tancredo adoece e vai para o hospital,
fato que o País conhece. E armam a encrenca legal que eu conhecia
bem: o titular não tomou posse e, em conseqüência, o vice não pode
assumir. O cargo vago teria que ser exercido pelo Dr. Ulysses26
Guimarães, presidente da Câmara. Confusão geral no país. Rádio,
televisão, juristas dando opinião de um lado, rebatida por outros
juristas, políticos inflamados, e o Dr. Ulysses, é claro, deliciado com
a hipótese, mais pressionado por amigos do que por idéia própria.
Um grupo de deputados, liderados por Freitas Nobre, e de senadores,
instigados por Saldanha Derzi, fazia algazarra para Ulysses assumir
a Presidência da República, solução que, pelo Direito Constitucional
vigente, equivalia a declarar vagos os cargos de Presidente e de Vice-
Presidente, isto é, um golpe de Estado.
Sarney, um eterno e teimoso conciliador, conta essa história de

26 Ulysses Guimarães escrevia-se com “Y”, contrariando todos os demais Ulisses da


língua portuguesa. No francês e no espanhol a letra “Y” é chamada de “i grega”.
Supõe-se que o primeiro Ulysses, o de Homero, tenha grafado seu nome com “Y”.
forma diferente. Afirma que o Dr. Ulysses defendeu a posse do Vice
desde o primeiro minuto. Não é bem assim. Nos primeiros
momentos, o então Presidente da Câmara deslumbrou-se com a
hipótese de assumir a Presidência da República, movido, porém, pela
idéia de convocar eleições diretas no prazo constitucional. Afinal, ele
era chamado de “o Senhor Diretas”. Deixou-se prazerosamente
emprenhar pelos ouvidos.
Para complicar ainda mais, o então Presidente da República, o
último da ditadura, General João Batista Figueiredo, mandou mais
lenha na fogueira. Sarney não podia assumir. Prendo e arrebento.
Seu Ministro do Exército, General Walter Pires, com gestão por mais
um dia, ameaçava acionar seu “dispositivo” para impedir a posse de
Sarney. Figueiredo foi claro: se Sarney assumisse, não lhe passaria o
cargo. Estava de mal, isto é, odiava Sarney, porque possibilitara a
eleição de Tancredo. O candidato do general era Paulo Maluf, que
perdera no colégio eleitoral. Figueiredo e muitos militares achavam
que a culpa era de Sarney. A Aeronáutica queria anular a eleição
pelo Congresso. Confusão dos diabos.
Eu estava num restaurante de Brasília, tomando aperitivo bem
antes do jantar e, com alguns amigos, festejando o fim da ditadura.
Zequinha Sarney me achou:
— Papai quer falar com você agora, lá no apartamento dele. Eu
levo você.
Lá se foi o meu jantar. No apartamento, a maior confusão.
Sarney estava calmo, mas o entorno estava muito agitado. As idas e
vindas do Hospital de Base eram martirizantes. Versões, recados,
comentários, opiniões, vaticínios, deduções e, ainda bem, algumas
orações comovidas. Passado algum tempo, chegou o General
Leônidas Pires Gonçalves, já nomeado Ministro do Exército por
Tancredo, decreto assinado, como todos os demais que seriam
publicados depois da posse do Presidente da República. A nomeação,
portanto, não valia.
Leônidas trazia um exemplar pequeno da Constituição, aberto
no artigo que tratava da posse de Presidente e de seu Vice, e que
dizia:
“Se decorridos dez dias da data fixada para a posse, o
Presidente ou o Vice-Presidente, salvo motivo de força maior,
não tiver assumido o cargo, este será declarado vago pelo
Congresso Nacional” (parágrafo único do art. 76 da
Constituição então vigente).

Esse “ou” era de uma clareza ensolarada. Se um não pode


tomar posse, pode o outro. Logo, depois do “ou”, o outro pode. O “ou”
do texto legitimava a posse do Vice sem a posse do titular. Além do
mais, para entregar o cargo ao Presidente da Câmara, o Congresso
deveria iniciar o processo com uma prévia declaração de vacância, o
que seria uma farsa por duas razões: o Presidente eleito, doente, não
podia tomar posse por motivo de força maior, ressalva expressa no
texto constitucional. E o Vice não estava doente. Nada o impedia de
tomar posse no cargo para o qual fora eleito — o de Vice —, com as
funções de substituir o Presidente em caso de impedimento
temporário, ou de sucedê-lo em caso de morte, renúncia ou
impeachment. É a disciplina constitucional. A urubuzada temia a
primeira hipótese. Se Tancredo morresse, Sarney seria o Presidente
nos seis anos seguintes.
Aproximei-me de Sarney e disse, apontando para o general:
— Eu e meu colega aqui, emérito constitucionalista,
concordamos que o Vice pode tomar posse por causa do “ou”. Se o
Congresso não se reunir, a Constituição autoriza a posse perante o
Supremo Tribunal Federal.
Sarney sorriu, porque eu chamara o general de colega. O
destino é caprichoso. Leônidas tinha pertencido à equipe de Jânio
em 1961, trabalhara na Presidência da República. Fôramos bons
companheiros. Era major naquele tempo, como contei acima. A
amizade permitia a brincadeira, mesmo no ambiente tenso daquela
noite.
Afonso Arinos deu uma entrevista para a televisão:
— O Dr. José Sarney não é vice do Dr. Tancredo Neves; é Vice-
Presidente da República.
Permanecia, porém, o impasse. E Sarney explicou por que me
chamara:
— Claro que quero sua opinião, mas a questão constitucional
não é tão complexa como está sendo pintada pelos políticos. Eu até
preferia esperar o Tancredo para tomarmos posse juntos. Mas temos
todos que nos submeter ao procedimento constitucional. O problema
é que um dos líderes dessa tese doida contra a posse do Vice é o
Mário Covas. Gostaria que você falasse com ele.

— Zuza, aqui é o Saulo. Tudo bem?


— Tudo bem nada — respondeu. — Veja a crise que está nos
ameaçando.
— A crise está sendo criada por vocês do MDB — Movimento
Democrático Brasileiro —, que querem dar a Presidência da
República para o Dr. Ulysses e, para isso, estão enchendo a cabeça
do velho.
— Saulo, respeito sua amizade pelo Sarney, mas a verdade é
que, Tancredo não tomando posse, o Vice não tem a quem substituir,
já que o cargo está vago. Pela Constituição, deve assumir o
Presidente da Câmara, estando vago o cargo.
— Pára com isso, Zuza! Desde quando você virou jurista? E
outra coisa: minha amizade pelo Sarney é igual à que tenho por você.
Nisso o jogo está empatado, e é favor respeitar. Agora me permita
esclarecer o que está escrito na Constituição, pois aqui entra, mais
do que amizade, a minha inteira devoção ao Direito. Dessa matéria
entendo eu.
Descrevi didaticamente. Ele ainda ficou na dúvida, rebatendo
com o argumento de que outros advogados tinham opinião contrária,
acrescendo um fundamento, mais fruto de paixão do que de sua
inteligência: esta Constituição é dos militares.
— Mas você foi eleito por ela. Tancredo e Sarney também. O Dr.
Ulysses é Presidente da Câmara por causa desta Constituição dos
militares. E espere aí. Guarde a faca. O principal objetivo do meu
telefonema é avisar você que já existe jurisprudência na Justiça
Eleitoral, declarando que o vice, mesmo sem a posse do titular, tem
direito autônomo ao exercício do cargo, como substituto no
impedimento, ou sucessor na vacância, independentemente da posse
do titular — repeti. — Jurisprudência firmada há mais de vinte anos.
— Em que caso?
— No seu.
— Quê?
— No seu caso, meu querido, na eleição para a Prefeitura de
Santos. Você mesmo ingressou em juízo para impedir a posse do
José Gomes, o vice do La Scala, que morreu antes de assumir.
— Meu Deus, é verdade!
— Já pensou algum advogado soprar para a imprensa, no meio
desta confusão, que a jurisprudência foi firmada num caso seu, e
você continua a berrar que o Vice não tem direito à posse?
— Você não vai fazer isso comigo!
— Desde que você pare de contrariar a jurisprudência de nosso
país, que você mesmo provocou. E passe a respeitar a Constituição
dos militares, pela qual você se elegeu, até que o Congresso escreva
outra pelos meios normais, com sua ajuda.
— Está bem, está bem. Vou falar com o Ulysses, e acabamos
com essa encrenca.
Já era noite alta, quando Ulysses Guimarães deu entrevista às
televisões e às rádios, reconhecendo que o Vice deveria tomar posse.
Horas complicadas aquelas. Sarney me contou, e a madrugada
já vinha chegando, que Tancredo, com sua enorme experiência e
vivência de muitas crises brasileiras, havia articulado a pacificação
com todas as alas militares já antes da eleição no Colégio Eleitoral. E
nisso teve a ajuda inestimável de Leônidas Pires Gonçalves, inclusive
mais tarde na nomeação de Moreira Lima para Ministro da
Aeronáutica. Uma expressiva parcela da Força Aérea, ligada ao
brigadeiro, inconformada com a vitória de Tancredo, tinha “planos
radicais para cancelar a eleição presidencial”.
Aliás, na campanha pelas eleições diretas, que mobilizou o
povo brasileiro de forma impressionante, os comunistas e
esquerdistas extremados quase puseram tudo a perder. Houve um
comício em Goiânia, ao qual compareceram em peso com bandeiras
vermelhas, foice e martelo, gritando frases duras contra os militares.
Não deu outra: nova conspiração das altas patentes. Vinte anos não
foram suficientes! É preciso mais!”. Fomos salvos, por incrível que
pareça, porque o Congresso Nacional derrotou a emenda das diretas.
Diante disso, os militares passaram a acreditar que poderiam ganhar
as eleições naquele eleitorado encurralado e medroso.
Lançada a candidatura de Tancredo Neves, os militares vieram
com Paulo Maluf, que derrotou Andreazza na convenção do PDS —
Partido Democrático Social —, partido deles. É preciso lembrar que o
sistema autoritário da ditadura resolveu devolver não a liberdade
política aos brasileiros, mas o poder aos civis, certos de que o eleito
seria Paulo Maluf, cria do General Costa e Silva, e fidelíssimo aos
comandantes, inclusive ao General Newton Cruz, que cavalgava
golpes de Estado em todos os seus sonhos.
O Presidente da República, João Figueiredo, declarava em
público que o vencedor das eleições no Colégio Eleitoral seria
empossado. Defendia a legalidade então vigente. Mas, em particular,
dizia: “Tancredo, never!”..
Pois o Colégio Eleitoral elegeu Tancredo Neves por 480 votos
contra 180 dados a Paulo Maluf. Desde esse resultado, começaram
os problemas para a posse do presidente eleito. Tudo era pretexto. As
fotos do comício de Goiânia, bandeiras vermelhas com foice e
martelo, voltaram a circular nos quartéis. O PT agitando o máximo,
com viseiras e sem visão. Quase faz os militares retomarem o poder
por mais vinte anos.
O próprio Tancredo Neves, no Hospital de Base, confidenciou a
seu sobrinho, Francisco Dornelles, temer que Figueiredo não
permitisse a posse de Sarney. Quase acertou. O general engoliu a
posse, mas não transmitiu o cargo.
Depois que Mário Covas se convenceu, Leônidas e Ulysses
Guimarães foram ao Leitão de Abreu, Ministro Chefe do Gabinete
Civil do Presidente Figueiredo, e comunicaram haver harmonia no
entendimento de que o Direito Constitucional vigente determinava a
posse do Vice independentemente de haver assumido o titular do
cargo.
Walter Pires, então Ministro do Exército, ao ter conhecimento
de que seria empossado Sarney, avisou: “Então vou agora mesmo
para o ministério, mobilizar nosso dispositivo”. O doutor Leitão de
Abreu calmamente ponderou: “General Walter Pires, o senhor não é
mais ministro. Nos quartéis, quem já está dando ordens é o General
Leônidas”. A nomeação dele para Ministro do Exército, naquele
momento, não era válida. Leitão de Abreu blefou. E ninguém pagou
para ver.
Na verdade, toda essa conversa de interpretações
constitucionais queria dizer o seguinte: não adianta pensarem em
mais um golpe, pois haverá resistência e, desta vez, com divisão das
próprias Forças Armadas. Leônidas Pires Gonçalves estava do lado
da legalidade, com o controle da tropa e daquele pequenino “ou” do
artigo da Constituição.
Restaurar a democracia, naquele momento, não foi fácil. Eu
estava lá. Meninos, eu vi!
Leônidas voltou ao apartamento de Sarney. Havia pouca gente,
pois a notícia de que Ulysses estava convencido apaziguou os
ânimos. Mas o que se desejava saber era como estavam os “ânimos”
da tropa, não muito afeita a essa história de Direito Constitucional,
mesmo porque o “agito” tinha sido muito grande pela televisão e
rádios. O novo Ministro do Exército, meu antigo amigo “Major”
Leônidas, relatou a conversa com Leitão de Abreu, a engasgada de
Walter Pires e assegurou que tudo estava em ordem. Eram três horas
da madrugada, quando ele ligou para o Sarney e disse:
— Boa noite, Presidente!
Fiquei mais uns dez minutos, tempo para retomar uma dose de
uísque, operação que havia interrompido antes do jantar. Aliás,
acabei não jantando. Foi minha vez de dizer boa noite, observando:
— Sem continência, visto que sou reservista de terceira
categoria.
Sarney devolveu rápido:
— Mas pode fazer continência no uísque. Amanhã precisamos
estar lúcidos.
— Calma, meu compadre! Você precisa estar lúcido. E estará.
Eu não. Depois de sua posse, volto para casa. Não pertenço a seu
governo. Sou advogado em São Paulo, embora exerça a advocacia
com total lucidez .

No dia seguinte, Sarney tomou posse perante o Congresso, sem


contestação de ninguém. Recebeu cumprimentos do Dr. Ulysses
Guimarães e de Mário Covas Júnior, deputado e engenheiro já não
tão magrinho como antes.
Até hoje, ao lembrar esses fatos, Sarney faz enorme confusão
sobre um detalhe importante: costuma dizer que eu queria pedir
mandado de segurança para assegurar sua posse. E dá risada! Na
confusão, ele próprio não entendeu. O que eu afirmei foi que, pela
Constituição vigente (está escrito lá, basta ler), se o Congresso não se
reunisse, a posse poderia ser tomada perante o Supremo Tribunal
Federal. Eu próprio havia feito minhas sondagens, e o Supremo
estava pronto para reunir-se e dar posse ao Vice-Presidente eleito.
Basta conferir com seus ministros. Estão, felizmente, quase todos
vivos.

64
Em pouco tempo, no dia 21 de abril de 1985, Tancredo morreu,
depois de longo e doloroso martírio. Sarney não se sentiu seu
sucessor, mas seu testamenteiro político. Então chegou sua vez de
passar por outra espécie de martírio: assegurar a democracia na
tempestade das balbúrdias que sobrevieram com as liberdades mal
utilizadas, mas ainda espreitadas com grande desconfiança por trás
dos portões dos quartéis.
Um ano mais tarde, José Sarney convidou-me para ser seu
Consultor Geral da República. Passaria Paulo Brossard, jurista e
político de grandes predicados, para o Ministério da Justiça e me
queria ao seu lado para as batalhas jurídicas do Governo. Tentei
resistir. Afinal, estava diante da única oportunidade de minha vida
de continuar advogando em São Paulo e dizer que era amigo do
Presidente da República. Situação nada desprezível. Ir para o Go-
verno tornar-me-ia um servidor público, teria que deixar a advocacia,
perderia a chance de dar palpite do lado de fora, o que é uma delícia.
Passaria a ser apenas mais um “deles”.
Sucumbi diante do argumento fulminante: o país teria uma
Constituinte, que ele convocara, e era preciso trabalhar muito
durante o processo político de elaboração da lei mais importante
para o Brasil na implantação do Estado de Direito, depois de vinte
anos de ditadura. Não sei se estou certo, mas Tancredo talvez não
tivesse convocado a Constituinte logo no início do mandato, que era
de seis anos. Deixaria para o final, depois que o exercício político
democrático estivesse mais consolidado.
Pelo menos essa também era a opinião de um dos maiores
colaboradores de Tancredo, José Hugo Castelo, figura formidável,
com quem tive a ventura de conviver até seu doloroso fim. Mas
Sarney, que já havia restabelecido, sem condições, todas as
liberdades públicas e políticas no país, tinha uma obsessão: cumprir
tudo o que Tancredo prometera ao povo em eleições indiretas...
Sentia-se com a obrigação de um testamenteiro. E queria que eu o
ajudasse.
Aceitei. E, ao aceitar, não havia tomado uma única dose de
uísque. Não sei, porém, se estava lúcido.

65
Na Consultoria Geral da República, levei um susto: o Brasil
não tinha advogados que defendessem a União nas milhares de
ações que corriam na Justiça Federal pelo país afora. Simplesmente
este fato fantástico: o Brasil, o meu país, não tinha advogados que o
defendessem no Judiciário. O colosso pela própria natureza, terra
dos bacharéis em Direito, não tinha advogados para si próprio.
Também nisso era um indefeso!
Claro que eu já sabia, mesmo porque, antes, na minha vida
profissional, havia vencido muitas causas contra o Governo Federal.
Para os advogados brasileiros, litigar contra a União era moleza. Meu
susto consistiu em verificar que a União não tinha, na estruturação,
nenhuma organização ou sistema de intercâmbio e de apoio que
funcionasse na defesa do interesse público federal, trocando estudos,
colecionando jurisprudência, debatendo questões, ajudando-se
reciprocamente.
A atividade era estanque, isto é, cada ministério tinha seus
assistentes jurídicos (e mal remunerados), que atendiam aos casos
internos, proferindo pequenos pareceres sobre a matéria
controvertida. Quando surgia uma ação judicial contra a União, ou
quando a União tinha que propor uma ação judicial contra alguém, o
assunto era estudado isoladamente, no ministério que tivesse
competência administrativa para tratar da matéria. Os outros não
ficavam nem sabendo.
E o encarregado de propor a ação ou de defender a União era
simplesmente um estranho: o Ministério Público Federal. Nos
assuntos internos, quando havia divergência, os ministros
mandavam o problema para a Presidência da República, ouvia-se o
Consultor Geral da República, que proferia parecer. Aprovado pelo
Presidente, o parecer tornava-se norma obrigatória para toda a
administração pública federal. Pelo lado de dentro, o sistema
funcionava razoavelmente. Mas, do lado de fora, era um desastre.
Em juízo, quem ia representar a União e defendê-la era um
promotor público, um Procurador da República, de especialidade
criminal junto às varas federais, em processos penais. Assim, o
representante do Ministério Público Federal com essa função — que
hoje desenvolve com exclusividade — de atuar em ações penais e no
máximo em ações civis públicas era chamado a agir em todos os
processos de interesse da União, nos mais variados e complexos as-
suntos jurídicos e para os quais não estava preparado. Nem podia
estar, tamanha a variedade e a complexidade de assuntos tão
distintos uns dos outros.
Aí vinha o deus-nos-acuda, pois os processos eram
complicados. O pobre do promotor público federal, um criminalista
acostumado a estudar Direito Penal e a lidar com o crime, tinha que
enfrentar casos de contratos difíceis, que haviam sido descumpridos
ou sofrido interpretações contraditórias nas respectivas execuções.
Litígios sobre concessões públicas, licitações, obrigações
administrativas, Direito Público, sonegação fiscal, cobrança de tribu-
tos, brigas nas exportações e nas importações, nas extrações de
minérios, contratos cambiais. Uma infinidade de assuntos, em que
enfrentava, do outro lado, escritórios de advocacia poderosos, de
grande cultura e altamente especializados.
E o deus-nos-acuda foi virando rotina. A defesa da União era
feita ao deus-dará. Os prazos eram cumpridos na marra. Os
promotores se viravam com instruções recebidas dos assistentes
jurídicos dos ministérios. Nas audiências, diante do juiz, em muitos
casos, não todos, dava dó. O defensor da União não entendia do
assunto, perdia-se diante da argumentação dos advogados privados,
a tal ponto que o magistrado federal, em muitas ocasiões, passava
ele próprio a defender a União, numa distorção da devida
imparcialidade. Esse costume até hoje perdura em algumas
jurisdições, mesmo depois de resolvido o problema; mas continua,
pois alguns juizes federais agem de olho na promoção e nas vagas de
tribunais que dependem das autoridades administrativas e políticas
da União.
Somente o Ministério da Fazenda, assoberbado com as
questões tributárias, possuía um corpo de advogados mais atuantes
na Procuradoria-Geral. Mas tinham que alimentar o Ministério
Público com informações e explicações didáticas, que nem sempre
eram absorvidas a tempo e de forma a assegurar boa defesa do
direito da União, quando houvesse. A despeito do título de
Procurador da Fazenda, o profissional não podia oficiar no
Judiciário. Era um procurador sem procuração.
É verdade que tal situação despertou, em muitos procuradores
da República, a consciência profissional de que deviam estudar a
fundo a matéria debatida nos processos, e neles a União teve
defensores notáveis, mas poucos por este Brasil afora. Eram
milagreiros. O problema agravava-se ao extremo pela falta de
sistemática, falta de uma advocacia organizada e integrada, que
tivesse profissionais exclusivamente encarregados de agir em juízo,
na defesa de um cliente tão importante: o nosso país.
Como a Constituinte estava em andamento, consegui, com a
ajuda da chamada bancada do Governo Sarney, a criação da
Advocacia Geral da União, tirando do Ministério Público o antigo e
penoso encargo que nada tinha a ver com sua verdadeira função e
especialização constitucional. Depois de alguns entreveros amáveis
com o Dr. Cid Heráclito Queiroz, Procurador-Geral da Fazenda
Nacional, que puxava a sardinha para os advogados de seu
ministério, por um pouco mais de poder, o que me era indiferente,
concordamos na redação final do texto, e a Constituinte criou a AGU
— Advocacia Geral da União.
Afinal, o Brasil passou a ter advogados para defendê-lo perante
o Judiciário.

66
Mas antes, enquanto o “seu” lobo não vinha, e precisamente
para servir de exemplo ao constituinte, consegui criar, por decreto
executivo, graças à cumplicidade de José Sarney, a Advocacia
Consultiva da União, integrando os serviços jurídicos da
administração federal.
Todo mundo colaborava com todo mundo, acabando com
aquela história de que “isto não é conosco, é com outro ministério”,
para implantar ao menos a mentalidade de advocacia profissional na
administração pública. De quebra, consegui, a duras penas, um
aumento de vencimentos para os assistentes jurídicos. Virei herói,
não tanto pela sistematização e pelas sementes da Advocacia Geral,
mas pela melhoria de suas vidas no fim do mês, pois ser advogado
no serviço público federal era um sufoco sem tamanho. O dinhei-
rinho mal dava para comprar comida e roupa decente, uma
gravatinha, sempre a mesma. Livro de Direito? Brincadeira.
Na Consultoria, eu contava com a colaboração do secretário-
geral, jovem promotor público de São Paulo, José Celso de Mello
Filho, requisitado para prestar serviços à Presidência da República.
Talento inegável.
Trabalhava como poucos, fazia pesquisas jurídicas com grande
facilidade e indiscutível qualidade. Memória invejável, inteligência,
redação excelente, português escorreito.
Ajudou-me muito na Consultoria, ao lado de outros
consultores igualmente competentes e dedicados. Felicidade minha
ter tido uma boa equipe, que, além do trabalho pertinente às
funções, sacrificou-se em incontáveis horas extras durante os planos
econômicos (Cruzado e Bresser) e durante a Constituinte, no
assessoramento de deputados e senadores.
Eis que surgiu mais uma vaga de ministro no Supremo
Tribunal Federal. Sarney já havia nomeado três: Carlos Madeira,
Sepúlveda Pertence e Paulo Brossard. Sugeri a Sarney que indicasse
José Celso de Mello. Estávamos no último ano de governo, o moço
não teria outra oportunidade, pois, como promotor em São Paulo,
jamais conseguiria que alguém o levasse ao Supremo, se não fosse
agora. E merecia. Havia trabalhado muito durante os dias e as noites
difíceis da Constituinte, quando me ajudou a assessorar uma
infinidade de congressistas. Nos planos econômicos: o Plano
Cruzado, inclusive o chamado Plano Cruzado Dois, um desastre, o
Plano Bresser, menos o Plano Verão, do qual não participamos, por
termos sido afastados pela equipe do Maílson da Nóbrega, que nos
achava uns chatos, de tantas advertências sobre
inconstitucionalidade daqui, ilegalidade dali. Juristas apenas
atrapalhavam.
— Mas há um problema — disse Sarney.
— Qual?
— O Oscar Correia quer nomear o Ministro Carlos Velloso, do
Superior Tribunal de Justiça. Você tem que enfrentar a mineiridade.
Não posso contrariar meu Ministro da Justiça. E o Pertence27
também acha que Velloso é muito bom.
Bom mesmo era aquele tempo, em que se discutia a qualidade
do jurista a ser indicado unicamente pelo mérito, jamais pelo
compadrio político, e não por ser deste ou daquele partido, ou por ser
japonês, negro ou índio. O que se exigia era um vasto conhecimento
do Direito e, acima de tudo, muito bom senso no trato com as leis.
Ou, como diz a Constituição, de notável saber jurídico e ilibada
reputação.
— Espera aí — ponderei. — Nada contra a capacidade do
Ministro Carlos Velloso. Ele tem talento e cultura para servir, e bem,
no Supremo. Ocorre que o José Celso, que também ostenta as
mesmas qualidades, além do serviço prestado ao nosso Governo,
nunca mais terá oportunidade, se não for por seu intermédio.
Velloso, por seu notório saber jurídico (é o texto da Constituição e a
opinião que tinha dele, e mantenho), continuará no STJ, e o próximo
Presidente da República certamente o escolherá para uma futura
vaga no Supremo.
Sarney resolveu fazer uma reunião e convocou Oscar Dias
Correia, Ministro da Justiça. A discussão foi amável. Oscar não
arredava pé da indicação de Velloso, e eu finquei o pé na indicação
do José Celso de Mello. Os argumentos foram mais ou menos os
mesmos, mas houve um momento em que o Ministro da Justiça
hesitou e lançou o que achava o fundamento fulminante:

27 Ministro José Paulo Sepúlveda Pertence, que, além de poder julgar um bom jurista,
por ser um deles, era mineiro, como o candidato Carlos Velloso.
— Concordo. O Celso de Mello é excelente, mas tem, em minha
opinião, um defeito: é muito moço.
— Mas esse defeito o tempo corrige — observei de pronto.
Sarney gostou da resposta. Oscar Correia sorriu e, sentindo
que o Presidente estava inclinado pela minha indicação,28 acabou
concordando, mesmo porque era um homem gentil, além de mineiro.
Voltei para a minha sala, ditei para a minha datilógrafa a indicação
do José Celso. Chamei-o à minha sala, estendi-lhe o papel e pedi:
— Faça uma revisão cuidadosa neste documento, porque o
Presidente quer assiná-lo ainda hoje.
Ele pegou o documento sem ler e saiu. Costumava andar
depressa, trocando rápidos passos miúdos. Ali, ele tinha o apelido de
“apressadinho”. Em alguns minutos, voltou lívido, andando devagar,
aproximando-se de minha mesa lentamente. Deu a impressão de que
ia desmaiar:
— Mas o Presidente está de acordo? — perguntou com voz
embargada.
— Você está indicado, meu caro. Pode festejar. Hoje, beba um
uísque.
Brincadeira. Ele nunca sorveu uma gota de bebida alguma,
além de água e café. E como tomava café!

67
Deixando minhas lembranças, volto ao caso da gravação das
vozes das crianças, acusando o pai de atos obscenos. Não tinha eu
ainda como encontrar uma saída “psicologicamente adequada” para
invalidar aquela fita e salvar meu cliente. Incinerado estava sendo
meu cérebro. Pelo menos fervia, quando fui dormir. Sabia que
dormiria mal.

28 Sarney, em sua opinião pessoal, preferia Carlos Velloso; mas sensibilizou-se com o
argumento de que Celso de Mello nunca mais teria outra chance. Ficaria
eternamente no Ministério Público de São Paulo.
Tenho inveja de quem consegue dormir sem se afetar com
problemas. Logo no início de minha gestão na Consultoria Geral da
República, fui designado para representar o Presidente da República
na XI Conferência Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, que
se realizaria em Belém do Pará.
Senti um grande constrangimento diante da informação de
meu chefe de gabinete. Na qualidade de Consultor Geral da
República, teria eu as mesmas regalias e prerrogativas de Ministro de
Estado. Entre elas, a de ser acompanhado por um secretário, quando
viajasse. Um funcionário que carrega a mala ou a pasta, abre as
portas, faz o check in no aeroporto, chama o táxi, rala com a
recepção dos hotéis, pede o drinque e, depois de perguntar se Vossa
Excelência deseja mais alguma coisa”, vai dormir e nos deixa em paz.
Nem quando viajava a serviço do meu escritório, levava
assistente. E tínhamos verba para isso. Não me ajeito bem com essas
coisas. Agora, a consciência ia doer mais, porque a viagem do
ajudante seria custeada por verbas públicas. Gastaria o dinheiro da
União para ter ao meu lado um cara me chateando. Nem pensar!
Eu mesmo arrumei minha mala, um carregador no aeroporto
levou-a até o balcão da companhia aérea. Embarquei, abri um livro e
fui lendo até o Pará. Ao meu lado, sentou-se um senhor mais ou
menos gordo, mais para mais do que para menos. A todo instante,
pedia desculpas por ter que se ajeitar na poltrona, já que o
ajeitamento transbordava para o meu lado.
— O senhor é de Belém ou de Brasília? —, perguntou ele com
evidente vontade de bater papo.
— Moro em Brasília atualmente — respondi, sem tirar os olhos
do livro, que era bom e estava num ponto de suspense.
— É comerciante ou trabalha no Governo?
— Estou de passagem por Brasília — resposta mais cretina.
— Tenho a impressão de que o conheço, não sei de onde.
São os noticiários da televisão. Durante o lançamento do Plano
Cruzado, todos os dias estive dando explicações à imprensa, e a
televisão estava lá. Ainda sem tirar os olhos do livro, respondi:
— É possível. Eu viajo muito neste trecho Brasília-Belém.
Talvez em outra viagem.
— Não sei — disse ele. E se entortou para o meu lado,
desejando conferir meu rosto.
Interrompi a leitura, levantei bem o rosto para ele ver, olhei-o
nos olhos, sorri, pedi licença e voltei a ler. Creio que desconfiou,
ajeitou-se para o lado oposto ao meu e dormiu. Roncou sonoramente.
Não podia deixar de invejá-lo. A aeromoça ofereceu lanche, ele
acordou meio zonzo e recusou. Continuou a dormir. Li em paz até
Belém.
Desci do avião, fui esperar a mala, que veio na esteira giratória.
Procurava um táxi, quando o gordão se ofereceu para me levar.
Tinha um carro a sua espera. Era de um colega seu de Belém,
advogado que o viera apanhar no aeroporto. Ambos participariam da
Conferência da OAB.
Agradeci e, já na fila de passageiros, chegara minha vez de
pegar o táxi.

68
O motorista do táxi, depois que lhe disse o nome do hotel e
antes de arrancar, virou-se para mim e me consultou:
— O senhor me diga: para irmos ao hotel, temos que passar
defronte ao aeroporto. Mas lá há uma imensa confusão neste
momento, trânsito engarrafado, polícia para todo o lado, porque está
aí o Governador do Estado, que veio esperar um figurão. Será melhor
sairmos pelo lado oposto: andamos um pouco mais e fugimos dessa
bagunça.
Concordei, e lá se foi ele pelo caminho dito mais fácil, sem que
eu tivesse a menor noção se era ou não verdade. Estava ansioso por
chegar ao hotel e tomar um banho. O calor de Belém, em alguns
minutos, fez-me entender que o meu problema não era o
Governador, nem o figurão que ia chegar: era uma chuveirada.
No hotel, assinei as fichas na recepção e subi para o quarto já
reservado pelo meu pessoal. Tirei a roupa e ia para o chuveiro. O
telefone tocou. Era da portaria:
— Senhor Ramos, o Governador do Estado vai falar com o
senhor — e passou o telefone.
— Senhor Consultor, boa tarde, sou o Governador Jader
Barbalho. Fui esperá-lo no aeroporto, e o senhor não compareceu à
sala vip. Desencontramos. Gostaria de lhe dar as boas-vindas em
nome do povo do Pará. Posso subir?
Meu Deus! O figurão era eu. No que respondi “pode, é claro”,
voltei a vestir-me num segundo, e tocou o blim-blom da porta. Abri.
Entrou o Governador acompanhado de uma porção de gente, e as
apresentações foram feitas uma atrás da outra. Secretário do
Governo, Secretário da Justiça, Secretário da Segurança, Delegado
da Polícia Federal, mais não sei quem e muitos outros não sei quem
mais. A saleta era pequena para tanta gente ilustre. Pedi desculpas,
levei a mala para o quarto e voltei. E vi um chinelo no chão, perto da
poltrona onde o Governador se sentara. Pedi desculpas, apanhei o
chinelo, levei-o para o quarto e tornei a voltar.
Conversamos sobre os problemas da República, do Estado e
sobre a Conferência Nacional de logo mais da OAB.
— Deixarei um carro à sua disposição com um ajudante-de-
ordens. Encontrar-nos-emos na Conferência — disse o Governador,
ao retirar-se com o séquito. Vários apertos de mão, “muito prazer,
muito prazer, nos veremos logo mais”. Fechei a porta e, afinal, ia
tomar meu banho.
Jader Barbalho, muito moço, cabelos negros, era
extremamente simpático. Deixou-me à vontade naquele primeiro
encontro, pois deve ter percebido meu enorme constrangimento, por
haver causado tanta confusão pelo simples fato de haver entrado na
fila de passageiros e haver apanhado um táxi.

69
No congresso dos advogados, chamaram as pessoas que
comporiam a mesa diretora dos trabalhos: o Governador do Estado, o
Consultor Geral da República, representando o Presidente José
Sarney, e outras autoridades. O Presidente da OAB era o Dr.
Hermann Assis Baeta, advogado calmo, inteligente, sossegadão.
Ao abrir os trabalhos, Baeta falou bonito sobre a advocacia, os
planos da entidade, fez alguns elogios ao Governador e a mim.
Declarou que o objetivo da Conferência era debater a próxima
Constituição e os trabalhos da futura Constituinte. Prometeu abrir
escritório da Ordem em Brasília, para acompanhar os trabalhos
constituintes, o que acabou fazendo com que a própria OAB se
transferisse para a Capital Federal. Finalizou, lamentando o uso de
decretos-leis pelo Governo, usurpação da função legislativa do
Congresso Nacional, pois naquele tempo não havia nenhum Severino
em evidência.
Ah! O patético Severino Cavalcanti, um pernambucano
apaideguado, nepotista assumido, eleito presidente da Câmara dos
Deputados, virou pregador de perdão a políticos ladrões, entre os
quais ele se encontra em pequenas quantias na medida de sua
insignificância que contrasta com a enorme mediocridade. Receber
propinas de restaurante! Que coisa mais indigesta! Até que um dia
Fernando Gabeira gritou: “Vossa Excelência na Presidência da
Câmara dos Deputados é uma vergonha para o Brasil”.29
O Brasil é de surpresas: foi sob a presidência de um Severino
Cavalcanti que a Câmara dos Deputados chegou ao século XXI e
aprovou experiência científica com células embrionárias,
contrariando os sobreviventes da idade das cavernas e a parte da
Igreja Católica que ainda combate Galileu.30

29 Fernando Gabeira, intelectual de grande valor, hoje deputado federal, participou, na


ditadura, do seqüestro do embaixador norte-americano. E cometeu um erro
imperdoável: trocou-o pelo José Dirceu.
30 Robert Lanza, cientista americano, parece ter encontrado um método de extrair
células dos embriões sem destruí-los, acabando com aquela tese de assassinato
sem certidão de óbito. Vamos ver se os ânimos se pacificam em favor da
humanidade. Descobriu-se também que o líquido amniótico é fonte rica em células-
tronco.
E também há uma pesquisa feita em Madri com células-tronco do tecido adiposo
retiradas do abdome e que, injetadas no coração, servem para regenerar coronárias
e miocárdio enfartados. São chamadas de mesenquimais e extraídas da gordura
obtida com lipo-aspiração. Não se pode mais criticar com tanto rigor as
barriguinhas que homens e mulheres ostentam como pneuzinhos. São preciosas
jazidas de células-tronco.
Nosso país é cheio de altos e baixos. Os baixos, nas eleições de
muitos Severinos, e os altos, em trabalhos como o do Hospital das
Clínicas de Ribeirão Preto, onde médicos liderados pelo Dr. Júlio
César Voltarelli estão trabalhando com células-tronco adultas para
curar diabéticos. E curam.
Nos baixos ficou o Congresso Nacional. Geração espantosa essa
nova leva de congressistas incompetentes e preguiçosos,
preocupados apenas com infinitas reeleições. Mais nada.
Em 2005, nossos legisladores aprovaram apenas 75 projetos, a
maioria sobre nome de ruas, monumentos, ou como aquele que
incluiu o almirante Barroso no Livro dos Heróis da Pátria. Mas
Severino nem sabe ainda o que aconteceu com ele. Meio abestado,
disse que não conhecia a palavra renúncia. E renunciou, acusando
as elitizinhas, juradas em sua perdição, de terem tramado a cuja. E
quase foi reeleito nas eleições de 2006. Ganhou uma suplência.
Volto ao passado, porque esse desvio para o presente me
assusta.
No plenário da Conferência da OAB, Jader Barbalho defendeu o
Governo e o uso do processo legislativo de urgência. Chegou minha
vez. Enalteci a advocacia, afinal minha profissão fervorosa. Os
advogados exercem verdadeiro apostolado em defesa de clientes,
causas e ideais. Aquelas coisas que se dizem nesses eventos. E que
quase sempre são reais.
É verdade também que muitos juristas descambaram na nossa
história. Deram fundamentos jurídicos — que de jurídicos nada
tinham, salvo a forma — a atos arbitrários do passado, tanto no
longínquo, como no recente, atendendo à eterna mania que nossos
militares tinham de dar golpe legal. Chico Campos ajudou a redigir a
polaca, Constituição de 1937, e o Ato Institucional nº 1 do golpe de
1964. Gama e Silva redigiu o Ato Institucional nº 5, estatuto estulto e
permissivo das mais violentas agressões às liberdades. Muitos outros
colaboraram com o arbítrio. O Ministério Público Militar e o Federal
serviam à ditadura como instituições. Poucas exceções individuais. O
Ministério Público Estadual (conheci bem o de São Paulo) foi
igualmente colaboracionista. Fez misérias. Não adianta negar. A CGI
— Comissão Geral de Investigações —, que os militares
centralizaram em São Paulo, em Cumbica, era chefiada por um
Procurador de Justiça do Estado, que chegou à perfeição — além das
práticas ilegais nos inquéritos — de esbofetear os vereadores do
interior por ele interrogados.
A OAB sempre resistiu à ditadura. E com habilidade. Os
milhares de advogados anônimos tinham a coragem de aceitar e
defender as causas dos perseguidos políticos. A entidade
imediatamente socorria os profissionais que se atritavam com os
executores da arbitrariedade e que acabavam presos. Foi um tempo
de trevas. Se a Academia da Suécia resolvesse premiar entes cole-
tivos, a OAB do Brasil mereceria um Prêmio Nobel. Mas poderia
sofrer um recall pelo projeto de reforma política que elaborou
ultimamente. Os altos e os baixos.
Aproveitei o fato de estar sendo realizada a Conferência em
Belém, para advertir sobre o desmatamento da Amazônia,
recordando que a ditadura mandara abrir estradas na floresta sem
planejamento racional para a conseqüente povoação. Lembrei que
tais estradas serviam mais ao desmatamento e ao incentivo de
extração de madeira do que à defesa da Amazônia. Senti que não
deram muita bola à observação. O clima estava mais para os direitos
da nova Constituição, defesa da democracia, função social da
propriedade, universalização do ensino público, democratização da
Justiça. É verdade que a reforma agrária dava algum Ibope. Mas a
derrubada desordenada da floresta amazônica não seduzia muito a
ilustre platéia naquela época.
Depois de falar até demais, concluí com explicações sobre os
decretos-leis editados pelo governo. De repente, lá do fundo, uma voz
gritou:
— Não somos contra o uso do decreto-lei, mas contra o abuso.
O Governo está abusando desse instrumento dos militares.
Olhei para a direção de onde veio o aparte, isto é, o protesto. E
em pé, com um jeito vitorioso, à espera da resposta, lá estava o
gordão dorminhoco, que viajara ao meu lado no vôo Brasília-Belém.
Foi barulhentamente aplaudido, mas eu tive uma quase incontida
vontade de rir.
Respondi, é claro, dizendo que o decreto-lei não era um
instrumento dos militares, mas uma ferramenta da Constituição, que
fora usada pelos militares, porém mal usada. Demonstrei que o novo
Governo se utilizava dessa medida legislativa porque o Brasil tinha
muita coisa a ser consertada com urgência, tantos e tamanhos os
estragos feitos pela ditadura, sobretudo na legislação. Recebi
aplausos com o mesmo barulho. Confiava na Constituinte
convocada. Haveria de encontrar uma saída institucional para a
legislação de emergência, que evitasse abusos. Também tenho minha
dose de inocência.
E ficou tudo por isso mesmo. Congresso de advogados, apesar
de tratar de assuntos sérios e pertinentes, sempre desperta nos
congressistas o espírito dos antigos estudantes. Acaba em alegria,
irreverência e confraternização. Mas a Carta de Belém, aprovada pela
Conferência da OAB, teve lampejos bonitos:
Segundo a Declaração de Belém, “malgrado todas as investidas
dos interesses poderosos comprometidos com a ordem de privilégios
existente, os advogados confiam que o povo brasileiro saberá
encontrar reservas de discernimento e sabedoria para firmar, no
novo texto constitucional, os anseios, aspirações e esperanças dos
despossuídos, como condição e objetivo de uma nova ordem social,
libertada de toda a sorte de exclusivismos, e de todas as formas de
opressão”.
Era um tanto declamatório e poético, mas bonito. Entre os
advogados presentes, estava o meu colega de São Paulo e querido
amigo, Márcio Thomaz Bastos, já em campanha para a presidência
da OAB. Foi eleito no ano seguinte. Muito mais tarde, Márcio foi
Ministro da Justiça de Lula, um bom ministro, sobretudo quanto à
Polícia Federal, que limpou e tornou mais eficiente. Talvez tenha ele
juntado material para escrever um livro mais extenso do que este,
com o martírio que viveu para assessorar o Governo no lamaçal que
o PT — Partido dos Trabalhadores — esparramou no país. Márcio é
um homem honrado. Nada teve com a lambança do governo Lula.
Pode ter sido criticado por algumas condutas prudentes inevitáveis a
todo advogado de defesa.
Na saída da solenidade de abertura, cumprimentos, apertos de
mão, troca de cartões de visita, surge o gordão:
— Eu não disse que o conhecia? Era isso! Consultor Geral da
República viaja ao meu lado, recusa uma carona no aeroporto, fica
na moita, não diz nada para ninguém! Por quê? É medo de ser
identificado como membro do Governo?
Verifiquei que ele gostava de bagunçar os espaços. Mas me
lembrei de que era educado. Pedia desculpas.
— Não, meu caro colega — respondi, percebendo que todos em
volta Prestavam atenção. — Sou absolutamente discreto. Aprendi
com nossa profissão de advogado, de tanto exercitar o segredo
profissional. Acabei absorvendo a discrição como postura pessoal.
Não fosse assim, à sua pergunta de agora há pouco na sessão
plenária, eu teria respondido que o Governo atual não transborda do
seu espaço sobre a poltrona do Legislativo, não dorme e não ronca.
Os gordos, em geral, são muito simpáticos e afáveis. Deu-me
um grande abraço. Levantou o polegar e exclamou:
— Valeu!
Foi a primeira vez que ouvi essa expressão.

70
Embora na conferência da OAB tivéssemos apenas abordado o
problema, a verdade é que a Amazônia se tornou uma terra sem lei.
Tudo ali é mentira: títulos de propriedade privada de terra sobre
áreas devolutas, de domínio público; derrubada de florestas, negócio
altamente rentável, mas desgraçadamente destrutivo das riquezas
ambientais; grileiros, ladrões, pistoleiros, assassinos, misturados
com uns coitados que se dizem trabalhadores sem-terra, mas
igualmente aventureiros, pois ninguém respeita a floresta. Todos
matam a mata. Seja o poderoso grileiro, seja o modesto sertanejo que
chegou a pé, todos têm tara pela tora.
O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, órgão
científico que reúne 2500 cientistas do mundo todo, reunido em
Paris decretou: o aquecimento global é irreversível e provocará
mudanças intensas, longas e violentas. A emissão de gases, desde o
final do século XIX, já comprometeu o clima dos próximos cem anos.
Não há mais volta. As fumaças do carvão, desde as primeiras que
transformaram o mundo econômico, somadas às do petróleo
queimado, enfim, os combustíveis fósseis que moveram as indús-
trias, os navios, os carros, os caminhões, os trens, vão se vingar do
homem. A eles se juntarão os fantasmas das florestas derrubadas e
incendiadas.
Há pouco tempo, com o assassinato da freira Dorothy Stang,
em Anapu, Pará, Gervásio construiu sua própria teoria, que, na
prática, nada tem de diferente:
— Quem matou a religiosa foi o Governo brasileiro. Os
pistoleiros apenas executaram a tarefa. Isso vem de longe. Em 1985,
em Carajás, assassinaram uma outra freira, irmã Adelaide Molinari.
Naquele ano, em Xinguara, mataram mais de dezessete pessoas, e
ninguém foi punido até hoje. Há mais de vinte anos, vêm sendo
executados sindicalistas, gente pobre e maluca, que ouviu histórias
sobre terras fáceis e se mandou para lá.
— Você acha que o Governo pode resolver o problema com
reforma agrária? — perguntei a Gervásio.
— Não. O modelo de reforma agrária pensado pelos brasileiros
já foi para o espaço. Essa história de assentamento de famílias de
pequenos agricultores virou lambança. O que se faz é dar um pedaço
de terra, para os sem-nada poderem apenas morar. Depois, as
confusões surgem naturalmente. Vira movimento político. Só isso.
Hoje não existem mais os sem-terra. O movimento virou
concentração de desempregados, que prestam para realizar marcha.
Nisso são bons, organizados.
Gervásio estava inspirado:
— Assentamento acaba servindo até de esconderijo para
bandido — continuou ele. — Surge o comércio de lotes, o troca-troca
do uso. Veja o que acontece na Serra da Capivara, patrimônio da
humanidade, no Piauí. Os sem-terra invadem e destroem os abrigos
de arenito, onde estão pinturas rupestres de mais de 10 mil anos. E
reivindicam o lote de terra para morar nele. Vivem da caça no local e
do desmatamento. Em outros estados, os sem-terra querem saber de
agricultura? Que nada! Negociam “direitos”, abrem um botequim,
cultivam porres e cachaçadas. Pouco trabalham e fundam
cooperativas.
Gervásio era impressionante. Conhecia fatos nos mínimos
detalhes. E prosseguiu:
— Aos poucos, o crime se infiltra entre eles. No Rio Grande do
Norte, achacam fazendeiros para não invadirem suas terras. E ainda
usam o Incra para ameaçar os que resistem, com declaração de
improdutividade de suas fazendas. Em São Paulo, no município de
São Simão, ocuparam terras da Estação Experimental, estão
destruindo as matas e as plantas do banco genético da Embrapa,31
há mais de dez anos sabe para quê? Para fazer carvão. Os sem-terra
ali viraram carvoeiros. Cada rancho tem seu forno. Cada forno
devora árvores e árvores e árvores. No Pará, a coisa é mais feia. Na
Amazônia, em geral, a questão é insolúvel.
— Mas é fundiária — afirmei.
— Mais que fundiária. É o processo de destruição da floresta
amazônica. Toda vez que o Governo constrói uma estrada naquela
região, o que acontece? Progresso? Civilização? Nada disso! Surgem
os grileiros de terra, que atraem as madeireiras para cortar as
árvores, levar os troncos, deixar as áreas limpas para plantio e fazer
estradas vicinais, por onde transportam a pilhagem. E logo vêm os

31 Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.


sem-terra reivindicando direito de ocupar áreas tomadas pelos
grileiros, porque são públicas. Eles sustentam que as terras, por
serem públicas, são deles. Como são mais pobres, merecem o apoio e
a orientação dos religiosos, em geral estrangeiros, que foram para lá
salvar almas não sei há quanto tempo.
— Mas é uma questão social relevante, pois se trata de pessoas
lutando pela sobrevivência por meio da produção agrícola, o que
interessa ao país. Podiam ser orientadas para explorar a agricultura
sem matar a mata.
— Não interessa, não senhor! — respondeu Gervásio em voz
alta. — Ao país interessa conservar a floresta amazônica e encontrar
meios inteligentes de explorá-la sem destruí-la. Com a bagunça, vão
acabar fazendo da Amazônia o que fizeram com a Mata Atlântica.
— Mas a ida de gente para aquelas bandas é uma realidade
creio que irreversível.
— Coisa nenhuma! As matas ainda estão lá, e, portanto, ainda
há tempo. Tem que pôr para correr os grileiros, os madeireiros, com
todos os seus exércitos de pistoleiros; fechar os cartórios de notas
que fornecem escrituras frias para falsos proprietários de terra, que
dizem tê-las comprado no inventário de Pedro Álvares Cabral. Aliás,
naquelas bandas, cartório de registro de escrituras de quando em vez
pega fogo, e os registros se perdem. Ficam valendo os papéis fajutos,
que foram falsificados para dar títulos de propriedade a grileiros.
— Mas até isso acontece? Fogo nos cartórios?
— Acontece de tudo naquele imundo mundo sem solução e
sem Raimundo, apenas com pistoleiros do tipo Fogoió.32

71
Gervásio estava furioso. E continuou:
— O povo pobre, atraído para lá, foi traído lá mesmo. Tem que
ser conduzido de volta à realidade, a lugares onde possam trabalhar

32 Apelido do pistoleiro que matou a freira Dorothy.


de verdade como gente digna, e não como formigas daninhas
perdidas na floresta. No Pará, é fantástico o número dos crimes de
morte sem solução. Por quê? Porque ali as razões dos assassinatos
tornaram-se motivos considerados justos. Pessoas são mortas por
causa de mulher, boi e terra. Entre eles, não há razão moral para
punir os assassinos.
— Creio que a solução — disse eu — está em medidas
governamentais que levem para lá a presença do Estado de Direito,
polícia, Judiciário, instrumentos de aplicação da ordem legal.
— Faça poesia, meu poeta. Deixe de pensar em solução
jurídica! Lembro-me de um verso seu no livro Café: cada árvore caída
é uma oração interrompida. Uma floresta inteira derrubada é
agressão a Deus. Dentro em breve, teremos um problema que vai
fundir a cuca de vocês, juristas: os povos mais fortes ou organizações
como a ONU começarão a cobrar de nós a preservação da Amazônia
nos termos ditados por eles. Você vai ver. Teremos um choque entre
a soberania nacional e o Direito da Humanidade. Nossos homens pú-
blicos estão preparados para um debate dessa grandeza?
Ultimamente, o povo tem elegido um número enorme de analfabetos,
que não sabem distinguir uma coisa da outra.
— Espera um pouco — interrompi. — Nós temos gente capaz
de enfrentar a discussão. O Professor Aziz Ab’Saber, que conhece
tudo da Amazônia. Gente nossa, nunca ouvida, nem consultada. Um
Cristovam Buarque, por exemplo, grande estudioso da Amazônia.
Sabe das coisas. Ele há muito tempo adverte sobre o embate que se
travará entre soberania política e ética internacional. Acredita
também na hipótese de não cuidarmos da floresta e na conseqüência
de organismos internacionais virem para cá, mesmo contra nossa
vontade.
— Que nada. Ele sabe das coisas para conversar aqui, em
conferências nas universidades brasileiras. Foi candidato a
Presidente da República com uma linda bandeira, a educação. Teve
apenas dois por cento dos votos. O povão não está nem aí. Mas o
pepino está lá fora. Por exemplo: um Pascall Lamy, francês, ex-
comissário para o Comércio da União Européia, hoje diretor geral da
Organização Mundial do Comércio, figura de influência no inundo,
prega abertamente a gestão coletiva de bens públicos mundiais. E
cita a Amazônia, em defesa do direito da humanidade a respirar. Foi
ele que, aliado à incompetência do Governo Lula, matou as
negociações da Rodada de Doha, frustrando o mundo de um acordo
contras as tarifas do comércio externo e os subsídios agrícolas dos
países ricos. Há também um Roger Higman, inglês, que já chegou a
redigir as regras de administração internacional da Amazônia.
— E você acha que isso, um dia, será possível?
— Não sei. Mas tudo tem um começo. E faz tempo que
começou. No século passado, no tempo de D. Pedro II, em 1850, um
tal de Mathew Maury, do Observatório Naval de Washington,
sustentava o direito de livre navegação internacional no Rio
Amazonas. Sabe qual o fundamento?
— Não tenho a menor idéia — respondi, por ignorar
completamente esse dado da História.
— Pelo volume de água do Rio Amazonas, que, só por isso,
deveria ser incorporado ao direito marítimo sob leis internacionais.
Para dar efetividade a essa teoria, os americanos mandaram um
navio invadir o nosso rio. Subiu até Iquitos, no Peru, sem licença do
nosso Governo. Aquele tal de Maury fez a primeira propaganda
internacional da internacionalização da Amazônia. D. Pedro II reagiu
e criou um problema diplomático com os norte-americanos. Seu
embaixador nos Estados Unidos, Sérgio Teixeira Macedo, brigou duro
e convenceu o governo de lá a parar com essas besteiras.
— Pois nunca ouvi falar disso — confessei eu, reconhecendo
minha insuficiência de conhecimentos da História do Brasil, aliás,
tanto quanto a média geral dos brasileiros.
— O mais perigoso — prosseguiu Gervásio — talvez seja a
nossa incompetência em lidar com a matéria. Os militares, no
governo deles, partiram do princípio de que a floresta pode ser
destruída desde que o seja por brasileiros. Os governos civis que se
seguiram não mudaram o rumo da cretinice e permitiram as
madeireiras, os grilos de terra, os falsos assentamentos de sem-terra,
na maioria também falsos. Hoje, existe até site na Internet vendendo
terras na Amazônia para os americanos. No anúncio, além de ofertas
de lotes de até um milhão de acres ou mais, afirma-se que a floresta
é o melhor investimento da atualidade. Acrescentam: ali não tem
furacão, terremoto, terrorismo. Paraíso para viver, com abundância
de água. E mentem: clima fresco, agradável.
— Na Internet?
— Sim, senhor. Pode acessar: www.resourcesbrazil.com.
Pergunto: o que estão comprando aqueles americanos? Dentro de
pouco tempo, aparecerão por aqui com suas escrituras e com tropas
para fazer valer suas propriedades. Tudo isso misturado acaba
sempre em desmatamento predatório e conflitos. O mundo está de
olho. Um dia vai querer pôr a mão.

72
— Você está falando bonito e certo, meu caro Gervásio —
observei diante de seu discurso. — Mas falar certo e bonito nada
resolve. Lembro-me de um livro, publicado em 1970, com o título
Amazônia: expansão do capitalismo, que previu como o
desenvolvimento capitalista da Amazônia seria caracterizado pela
violência e pela brutalidade. Sabe quem é o autor?
— Nem conhecia a existência desse livro! — respondeu
Gervásio, atônito. — Quem o escreveu?
— Fernando Henrique Cardoso.
— Não me diga! Essa é surpreendente!
— Quando ele era professor de sociologia e ainda não havia
sido contaminado pela política — contei —, sabia pensar. Na época,
os militares sustentavam a tese, sempre fundada na maldita
segurança nacional, de que a Amazônia deveria ser povoada pelos
brasileiros e, assim, assegurar nossa posse do território. Nada de
planejamento. Apenas povoar, e o resto que se danasse. Para isso,
abriram a estrada Transamazônica sem nenhum planejamento para
o que viria depois. Abriram a Belém-Brasília. Deu no que deu.
Fernando Henrique previu. O livro dele é muito bom na análise desse
problema.
— E quando Fernando Henrique tornou-se Presidente da
República lembrou-se do que escreveu e fez alguma coisa pelo
problema da Amazônia?
— Fez nada. Permitiu, também sem planejamento, que o
Movimento dos Sem-Terra levasse gente para lá e deixasse o Sul em
paz. E paz não houve. O movimento dos sem-emprego a cada dia
tornou-se mais violento. No Rio Grande do Sul, além das invasões,
adotou-se a estratégia de guerrilha para destruir propriedades e até
centros de pesquisas florestais.
— É verdade. Surgiu uma tal de Via Campesina que,
financiada pelo Ministério do Meio Ambiente, invadiu e destruiu os
laboratórios da Aracruz. Eu não como eucalipto, gritava uma das
mulheres predadoras do horto florestal. Vinte anos de pesquisas
científicas foram pisoteadas e reduzidas a pó. Dinheiro público
sustentando ações de vândalos e bandidos. E Via Campesina tem um
site na Internet, no qual festejou seus atos de violência utilizando-se
de versos de Vinícius de Morais: as mudas gritaram de repente e não
mais que de repente o riso da burguesia fez-se espanto, tornou-se
esgar, desconcerto. Além da destruição de vinte anos de pesquisa
científica, assassinaram o soneto de Vinícius.
— Sob os aplausos do chamado líder do MST João Pedro
Stédile, que ainda está solto em nome da democracia, mas fazendo
agitação contra o agronegócio, dizendo que não há mais o antigo
latifúndio improdutivo. Agora a luta é contra as empresas
produtivas, o capital internacional, o capital financeiro, como
costuma dizer para incentivar quebra-quebra sob os olhares
complacentes do Governo. Uma cantilena antiga, dos anos 60, para
justificar a baderna moderna. E ninguém faz nada para impedir essa
desconstrução da ordem pública e do ordenamento jurídico.
Gervásio estava ferino. Tivemos a boa idéia de tomar um
cafezinho. Ele continuou:
— O PT tem um membro de seu diretório, íntimo amigo do
Presidente Lula, um tal de Bruno Maranhão, que comandou uma
invasão da Câmara dos Deputados pelos sem-terra, integrantes de
uma organização que recebeu mais de cinco milhões de reais do
Governo, dinheiro nosso, do povo, usado para financiar quebra-
quebra do patrimônio público. Quebraram tudo, computadores,
portas e tentaram assassinar um segurança. Lembra-se do dia em
que isso aconteceu?
— Creio ter sido em um dia qualquer de junho.
— Dia qualquer não senhor. Foi no dia 6 de junho de 2006,
que se escreve 6.6.2006, os números da Era da Besta. Trabalham
para o diabo esses seguidores de Fernando Henrique e Lula.
— Mas tudo isso aconteceu no Governo Lula. Fernando
Henrique, creio, nada tem que ver com essa história.
— Claro que tem. Ele plantou as sementes das impunidades,
colhidas e multiplicadas pelo MST. Quanto ao livro, você se lembra,
Fernando Henrique pediu expressamente que os brasileiros
esquecessem tudo o que havia escrito, e sua palavra passou a ser,
para sempre, um risco na água. Hoje está por aí, falando mal do
Governo, querendo voltar ao poder, confessando desejá-lo para
comandar o atraso. No caso da freira Dorothy, parece que ele calou o
bico. Por quê? Porque ele, indiretamente, permitiu as circunstâncias
que mataram a freira. Defender o direito da humanidade é fácil.
Difícil é disciplinar o ser humano.
Depois de refletir um pouco, Gervásio concluiu com a voz
pausada:
— Um dos maiores males que o Fernando Henrique fez ao
Brasil foi ter criado a reeleição e eleito o Lula, que se reelegeu graças
ao grande sociólogo. Ele foi o maior eleitor desse espetáculo de
vacuidade.

73
Conversamos sobre as várias hipóteses para salvar da
devastação aquelas e outras áreas da Amazônia. Expliquei ao
Gervásio que nossa legislação permite três modalidades de defesa:
decretação formal de floresta nacional, que admite, sob vigilância, o
corte sustentável de madeira; criação de parque nacional, que não
admite exploração alguma, a não ser o fim turístico; e, finalmente, a
instituição de estação ecológica, que se torna inviolável, fechada até
para visitas.
— Parece que o Governo Lula resolveu tentar algo diferente —
comentei. — Privatizar a exploração da floresta fundada numa
informação tributária: será possível, segundo cálculos do Ministério
da Fazenda, recolher cerca de cem milhões de dólares anuais em
impostos, se a atividade for permitida a particulares. E querem
permitir sob a forma de concessão por sessenta anos para exploração
de terras públicas. A Receita Federal fez as contas e entende que a
solução renderá altos lucros para o Tesouro Nacional.
— Santo Deus! — disse Gervásio. — A Receita Federal, que
sistematicamente sufoca os empresários brasileiros com a maior
carga tributária do inundo, preparou-se para acabar também com a
Amazônia?
— Tudo em nome do assassinato da freira Dorothy. Disseram
que se devia prestar um tributo ao sacrifício da religiosa, e o Governo
entendeu como arrecadação tributária. E a corrupção? Você pensa
que toda essa madeira, ilegalmente extraída em volumes fantásticos,
anda sozinha pelas matas, pelas estradas e chega aos portos sem
logística? Primeiro é preciso ter Autorização para Transporte de
Produtos Florestais.33 Quem emite? Pode investigar. Tem funcionário
do Ibama, funcionário dos governos estaduais, gente graúda metida
nisso.34
Lembro-me bem que, no Governo Sarney, houve um
desmatamento na Amazônia de 17,6 mil quilômetros quadrados no
biênio 1988/1989. Mais ou menos no grito, e com a colaboração dos
governadores, conseguimos baixar para 13,8 mil quilômetros
quadrados no biênio 1989/1990. Mantida a nossa estratégia, no
início do governo Collor o desmatamento baixou para 11,1 mil
quilômetros quadrados. Depois voltou a degringolar. Em 1994/1995,
chegou a 29,1 mil quilômetros quadrados e, finalmente, no Governo
Lula, com a Ministra Marina Silva prometendo passaportes para o
paraíso, o desmatamento manteve-se em 27,2 mil quilômetros
quadrados em 2003/2004.
É um crime pior do que o caixa dois, coisa de bandido,
segundo o então Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos. Não dá
para dizer que o Presidente Lula não sabia de nada. Vinte e sete mil
quilômetros quadrados de mata derrubada é muito chão. O comércio
de tanta madeira somente pode ser efetivado com a conivência dos
governos estaduais e federal. Ou não?
Basta olhar para o sul do Maranhão. Desmatamento
desenfredado, sobretudo nos municípios de Grajaú e Arame, com a
derrubada de jatobás, ipês, cedros e outras árvores centenárias.
Quase trinta mil hectares. No Governo José Reinaldo, cria do José
Sarney, lembrou-me Gervásio. E acrescentou:
— Os índios guajajaras também vêm desmatando a troco de
dinheiro. Nas suas reservas ninguém entra, a não ser grileiros,
madeireiros, carvoeiros, serradores, plantadores de maconha e
bandidos, uma vez que a polícia não tem coragem de enfrentar os

33 Esse documento, a ATPF, foi substituído, pelo DOF, Documento de Origem


Florestal, fraudado cinco dias depois de adotado.
34 Gervásio me fez esta observação antes da operação Sucupira, da Polícia Federal,

que confirmou o envolvimento do Ibama e de setores dos governos estaduais na


indústria do desmatamento criminoso. Tais medidas são perfumaria.
índios. As toras desfilam sobre caminhões à noite e livremente.

74
De repente, Gervásio me olhou e mudou de assunto:
— Você evitou algo parecido com a Ilha de Fernando de
Noronha. Agora me lembro. O Brasil deve essa a você. Pouca gente
sabe. Ou pelo menos ninguém reconheceu até hoje.
É verdade. Eu mesmo já havia esquecido. A Constituinte,
contrariando a velha regra de que as ilhas oceânicas eram de
domínio da União, no Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias (art. 15), extinguiu o Território Federal de Fernando de
Noronha, “sendo sua área incorporada ao Estado de Pernambuco”.
Lembro-me de que a disposição, aprovada com grande alegria
na Assembléia Constituinte, causou-me arrepios. Uma das mais
lindas ilhas do mundo, com riquíssima vida marítima, praias
paradisíacas, pedaço esplendoroso de beleza, onde, como diria o
poeta, a natureza esmerou-se em quanto tinha, poderia ser atirada à
especulação imobiliária. Tive visões horríveis. Cheguei a sonhar com
arranha-céus e loteamentos por todo o território da ilha, golfinhos
mortos, surfistas banidos das ondas, restaurantes nas encostas, lixo
por toda parte. E acordei assustado com uma idéia me
atormentando.
Era o dia 10 de setembro de 1988. A Constituição seria
promulgada no mês seguinte, no dia 5 de outubro. Havia tempo.
Mandei fazer o levantamento do território. Redigi um decreto cujo
artigo primeiro dizia:

“Art. 1º — Fica criado, no Território Federal de Fernando de


Noronha, o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha,
com o objetivo de proteger amostra representativa dos
ecossistemas marinhos e terrestres do arquipélago,
assegurando a preservação de sua fauna, flora e demais
recursos naturais, proporcionando oportunidades controladas
para visitação, educação e pesquisa científica e contribuindo
para a proteção de sítios e estruturas de interesse histórico-
cultural porventura existentes na área.”

Mostrei o texto para Sarney. Ele vibrou. Chamou o Ministro da


Marinha, Almirante Henrique Sabóia, que exultou e declarou que o
referendava, com a firme convicção de prestar um expressivo serviço
ao Brasil.
Assim, antes da promulgação da Constituição, o Diário Oficial
rodou com o Decreto nº 96.693, de 14 de setembro de 1988, que
transformou o território de Fernando de Noronha em parque
nacional marinho, intocável, pois, pela atividade imobiliária. A ilha
foi transferida para o estado de Pernambuco, mas já era área de
preservação, permitida, apenas e dentro de limitações austeras, à
exploração turística. Pequenos hotéis e pousadas nas bordas, com as
atuais Pousada Maravilha, Pousada Zé Maria, Pousada Alamoa e
tantas outras.
Já que a lei permitia a criação de “parque nacional”,
inventamos o parque nacional marítimo e salvamos a Ilha de
Fernando de Noronha para todo o sempre. Amém.
Não é preciso dizer que os interessados levaram algum tempo
para descobrir. Mas descobriram. Minha venerável mãe, humilde
mulher de agricultor paulista, foi alvo de um festival de xingatório.
“Fio de uma égua!” foi a expressão mais branda, segundo me
contaram. Mesmo assim, Fernando de Noronha, com suas incríveis
dez fortificações construídas pelos portugueses, primeiro e mais
avançado sistema de defesa territorial do Brasil, é um triste
espetáculo de abandono. A expressão “não restará pedra sobre
pedra”, creio ter sido inventada naquele arquipélago, diante dos
fortes construídos pelos nossos descobridores e há séculos sem a
menor conservação.
75
Mas Gervásio não perdoou:
— Vocês podiam ter feito a mesma coisa com muitas áreas da
floresta amazônica.
— Alto lá, meu caro! — respondi, recusando a crítica. — Os
trabalhos com a Constituinte nos absorveram completamente, mas
nos lembramos de lutar por um capítulo inteiro na defesa do meio
ambiente. Está lá. Pode ler. Capítulo V. Começa no art. 225 da
Constituição. O dever do Poder Público e da coletividade de defender
o meio ambiente e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
— E daí? É norma apenas teórica, bem ao estilo de poeta:
norma declamatória. De efetivo, nada! — resmungou Gervásio.
— É melhor você ler a Constituição. O texto é longo e quase
exaustivo. O parágrafo primeiro daquele artigo enumera tudo quanto
o Poder Público deve fazer para assegurar a efetividade deste direito
coletivo: preservação e restauração do processo ecológico; definir em
todas a unidades da Federação, portanto no Pará e no Amazonas,
espaços territoriais a serem especialmente protegidos. Alteração dos
comandos protetores, somente por lei. Tudo escrito na Constituição.
A gente acredita que é para valer.
— Mas não vale. Ou, no caso da Amazônia, não está valendo —
concluiu Gervásio. — Que Deus tenha a alma da irmã Dorothy! Não
sei, porém, ninguém sabe, o que o FBI foi fazer lá no local do crime,
nem por que a Igreja brasileira ficou em silêncio diante do
assassinato da religiosa. O Reino da Dinamarca continua
escondendo coisas. Mais mistérios nos códigos da vida. Mas você
está perdoado.
— Obrigado pelo perdão, mas perdoado por quê?
— Porque, nessa questão ecológica, você foi pioneiro no Brasil
e... posso gabar?...
— Pode.
— ... no mundo, com aquele decreto redigido por você em 1961,
em defesa dos recursos naturais, quando, pela primeira vez no
direito brasileiro, apareceu a palavra “poluição”. E o mundo não dava
a mínima para a defesa da ecologia. Impõe-se registrar, pela
importância e pela larga previsão, o Decreto nº 50.877, de 29 de
julho de 1961, do Presidente Jânio Quadros, que dispôs sobre o
lançamento de resíduos tóxicos ou oleosos nas águas interiores ou
litorâneas. No resto do mundo, a consciência pela defesa do meio
ambiente somente foi despertada bem mais tarde. Para ter uma
idéia, a primeira lei publicada em defesa de recursos naturais foi em
1976, na Itália, quinze anos depois do decreto redigido por você.
— O mérito também é do Jânio, que aprovou a idéia.
— Benditas sejam as caipirinhas no bar do posto de gasolina
do Viola, no Guarujá!

76
A Constituinte, em conseqüência das intermináveis
negociações políticas, deixou para leis complementares e leis
ordinárias quase todas as matérias de importância. Tentamos
colaborar, elaborando projetos e mais projetos para cumprir os
mandamentos da nova Carta da República. Serviço que não acabava
mais. Em meio a tudo isso, Oscar Correa, Ministro da Justiça,
encheu-se com os problemas criados pelo Ministro da Fazenda,
Maílson da Nóbrega, pediu demissão e foi embora.
Eu estava de férias. Havia feito uma “vaquinha” com Toninho
Drummond, que trabalha na TV Globo em Brasília, e João Di Gênio,
um gênio da educação no Brasil: alugamos um barco na Grécia e
fomos passear pela ilhas do Mar Egeu e devorar locais da cultura
grega. O grego, dono do barco, era um vigarista. Deixou-nos
escolher, no mapa de navegação, quais as ilhas que gostaríamos de
visitar; e, depois, fez o roteiro diferente. Levou-nos às ilhas de seu
esquema. Entre elas, estava Mikonos. Felizmente. Quando estávamos
chegando, o rádio do barco recebeu a comunicação de que o
Presidente do Brasil queria falar com o Dr. Saulo Ramos.
O dono do barco passou a nos tratar com mais respeito.
Ancorou em Mikonos e nos indicou uma cabine telefônica de onde
podíamos ligar para o Brasil. Havia uma fila enorme. Preparei-me
para esperar mais de hora. Toninho Drummond ao meu lado,
solidário, e o sol era escaldante. Então ouvi uns turistas franceses
comentarem que, de um hotel ali perto, podia-se falar rapidamente.
Pedi detalhes. Ensinaram-me o caminho. Cheguei. Havia apenas um
casal ao telefone, na recepção do hotel. Chegou minha vez. Liguei
para o Sarney:
— O Oscar Correa — disse ele — pediu demissão. Preciso
substituí-lo. Quero que você assuma o Ministério da Justiça. Posso
anunciar a escolha? Você aceita?
— Aceito — respondi, enquanto olhava um garçom passar com
cervejas geladas sobre uma bandeja.
— Então, volte imediatamente!
— Calma, meu presidente! Eu aceito o convite, mas voltar
imediatamente é outra coisa. Estou no Mar Egeu, sob o sol que
iluminou Aristóteles. Não é fácil deixar tudo isso assim de repente.
Ainda não havia visitado nada. Precisava passar uma tarde na
Acrópole.
— Vou anunciar seu nome hoje. Trate de voltar o mais
depressa possível. Venha trabalhar!
Peguei minha mala no barco, despedi-me do Di Gênio e do
Toninho Drummond. Enfrentei um aviãozinho, que partiu da Ilha de
Mikonos para Atenas. Consegui, no mesmo dia, um vôo para a
França. Na decolagem, vi a Acrópole. Mas meu rumo era Paris.
Sonhei em passar aquela noite tomando um vinho, jantar num bistrô
do Quartier Latin. Encontrar Napoleão Sabóia e jogar conversa fora.
Falar do Maranhão e de seus lençóis de areias desenhadas. Não sei
como acontece: o pessoal do Itamaraty já sabia de tudo. Quando de-
sembarquei na capital francesa, já tinha vôo marcado para o Brasil
na mesma noite. Tudo emendado, rapidinho. Comi sanduíches. Não
vi o Napoleão, nem o Sabóia, nem o Bonaparte.
Lá fui eu para o Ministério da Justiça. Não abomino nada. São
os códigos da vida. Mas, para assumir o cargo, deixei a Grécia, uma
troca pela concórdia. O velho Aristóteles dizia que o homem deve
empenhar-se em favor da concórdia, pois ela pacifica as pessoas de
bom coração.
Não interrompi as tarefas iniciadas na Consultoria Geral da
República. Continuei trabalhando nos projetos das leis previstas pela
nova Constituição e, conforme o assunto, para os de maior
relevância e urgência, sapecava medida provisória. Sarney aprovava
todas, depois de algumas discussões bravas, que nossa amizade e a
recíproca confiança permitiam.
Criamos, por medida provisória (a de n° 143), a
impenhorabilidade do bem de família, incluindo a entidade familiar.
Aquela história do Código Civil, de permitir a instituição do bem de
família por meio de escritura pública, era uma velharia. A maioria
absoluta dos brasileiros nem sabia da existência do permissivo legal.
Instituindo a impenhorabilidade pela lei, a questão teve desfecho
simples: é bem de família, seja imóvel, sejam bens móveis em casa
alugada, instrumento de trabalho, geladeira, televisão, e muito mais
do que a cama do casal, tudo o que esteja dentro de casa, nada pode
ser penhorado ou executado por dívida das pessoas integrantes da
família.
O mundo caiu em cima de nós. Os bancos queriam me matar,
com exceção de um homem de grande visão: Lázaro Brandão,
presidente do Bradesco, dotado de invejável espírito público. Deu-me
uma palavra de apoio, observando que os bancos teriam apenas de
fazer hipotecas nos empréstimos pessoais, custo pequeno diante do
enorme benefício que a nova lei traria para o povo. A medida foi
chamada de “lei do calote”.
Com o tempo, o país compreendeu, e não se discutiu mais. A
lei aí está para sempre (Lei 8.009/90) e prestigiada pelo novo Código
Civil. Quem se interessar pelos fundamentos e pela história jurídica
do instituto, encontrará tudo no livro Impenhorabilidade do bem de
família, de Carlos Gonçalves, Editora Síntese, e no meu prefácio a
essa obra, a partir da terceira edição. Conto tudo: onde nasceu a
idéia, o porquê, que países a adotaram.
Não paramos. Criamos a prisão provisória para os suspeitos da
prática de crimes hediondos. Gritaria dos criminalistas, não sei por
quê. Havia antes a prisão para averiguação, inteiramente
discricionária. Acabaram-se os tempos em que a polícia prendia e
escondia o suspeito, o advogado conseguia um habeas corpus, mas
não encontrava o cliente em delegacia alguma. A prisão provisória
terminou com esse velho e odioso costume policial de esconder
pessoas presas. A polícia ou o Ministério Público requerem, e o juiz
permite o encarceramento para investigação, quando há
fundamentos para isso. No mesmo dia e na mesma hora em que o
Congresso Nacional transformava a medida provisória em lei, a Lei nº
7.960/89, o Supremo Tribunal Federal declarava sua
constitucionalidade, em ação contra ela proposta pela OAB. Creio
que essa coincidência, além de inédita, nunca mais vai acontecer,
pelo menos nos próximos mil anos.
Pena que esse tipo de prisão acabou se banalizando sob
autorização judicial de rotina e se transformou em show policial para
encenação de noticiário de televisão. Se soubesse que ia acabar
assim, em vez de conceber a medida para o ordenamento jurídico
brasileiro teria dado a idéia para o Manoel Carlos usar em alguma
novela da Globo.
Redigimos também o projeto de lei que listava os crimes
hediondos e revogamos a tristemente famosa Lei Fleury, que permitia
a criminosos de alta periculosidade permanecer em liberdade até o
trânsito julgado da sentença que os condenava. Fui honrosamente
xingado e apedrejado por inúmeros e misteriosos delinqüentes. Com
essas pedras, construí este livro. Hoje, sinto-me gratificado com a
aplicação da lei em muitos e muitos casos graves. Foi aplicada contra
vários assassinos e seqüestradores, inclusive contra os cruéis e
execráveis matadores de Tim Lopes, jornalista carioca barbaramente
torturado e trucidado por criminosos hediondos do Rio de Janeiro.
Nesse trabalho todo, José Celso de Mello fazia falta. Mas,
agora, era Ministro do Supremo e já proferia seus primeiros votos.
Brilhantes. Inclusive a favor da prisão provisória. Pena que o
Supremo Tribunal Federal, pressionado pelo Ministro da Justiça do
Governo Lula, Márcio Thomaz Bastos, acabou permitindo, por um
voto e em um caso concreto de crime hediondo, a progressão do
regime de cumprimento de pena dos crimes comuns, o que irá soltar
depois de pouco tempo estupradores, seqüestradores e traficantes.
O país recebeu com revolta a notícia dessa decisão
inteiramente maluca: a declaração de inconstitucionalidade do
dispositivo de lei que manda prender e manter preso o criminoso
hediondo.35 Resolveu-se que se deve prender o criminoso cruel, mas
um pouquinho só. É inconstitucional mantê-lo preso. Embora, em
certos casos, suas vítimas estejam constitucionalmente mortas para
sempre.
Márcio Thomaz Bastos, quando era ministro de Lula, alegou
que a lei dos crimes hediondos foi “escrita sob a emoção da violência”
e que ela “satisfaz os anseios de segurança da sociedade, mas não
coíbe a criminalidade”. Ora, eu escrevi o projeto com serenidade,
para cumprir um comando constitucional muito claro contido no
inciso XLIII, do art. 5º, da nossa Lei Magna, que manda diferenciar o
tratamento de tais crimes, inafiançáveis e insuscetíveis de anistia ou
graça.
Não têm graça alguma as gracinhas do Ministro da Justiça de
plantão, e esta última de uma pequena maioria inafiançável dos
ministros do Supremo Tribunal Federal ao comparar, na execução
penal, os autores de crimes hediondos e os autores de crimes
comuns, reconhecendo-lhes direitos iguais. Aposto que o STF vai

35 Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990.


voltar atrás, como já fez muitas vezes em seus grandes erros. De
qualquer forma o Congresso Nacional, pressionado pelo assassinato
do menino João Hélio no Rio de Janeiro,36 votou lei instituindo
regime diferenciado no cumprimento de penas para os autores de
crimes hediondos.
Mas, infelizmente, a Lei nº 11.464/2007 deixou uma brecha
para os criminosos hediondos saírem das prisões com alguma
facilidade. No Brasil, ultimamente, há uma forte tendência para
proteger-se bandido, tanto nos julgamentos, como na legislação.
No dicionário encontram-se várias definições para
solidariedade, entre elas as seguintes:

“Sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses e


às responsabilidades dum grupo social, duma nação, ou da
própria humanidade.
Relação de responsabilidade entre pessoas unidas por
interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se
sinta na obrigação moral de apoiar o(s) outro(s):
Sentimento de quem é solidário.
Dependência recíproca.”

Qual a que melhor se aplica aos que protegem bandidos?


E precisamos acabar com essa teoria de bobos que sustenta
terem os crimes hediondos aumentado depois da lei, como se a
punição mais severa excitasse os bandidos. O que faz aumentar a
criminalidade, além das condições sociais, é a quase certeza da
impunidade. Se a lei punitiva estimula o crime (que coisa mais

36 João Hélio Fernandes, garoto de seis anos, ficou preso pelo cinto de segurança
enquanto ladrões fugiam com o carro roubado de sua mãe. A pobre criança foi
arrastada por sete quilômetros. Sua morte comoveu o Brasil. A mídia deu grande
destaque à tragédia. Não fez o mesmo com a desgraça de outra menina, Gabriellli
Cristina Eichholz, de um ano e sete meses, encontrada estuprada, estrangulada e
agonizante dentro da pia batismal nos fundos de um templo da Igreja Adventista do
Sétimo Dia, em Joinville, Santa Catarina. Numa sala ao lado realizava-se um culto
religioso. Essa barbaridade aconteceu um mês depois da trágica morte do menino
João Hélio no Rio de Janeiro. Não houve passeatas de protesto contra o crime
hediondo praticado contra a menina de Joinville, assassinada por um Rosário
(Oscar Gonçalves do Rosário).
idiota!), dever-se-ia revogar o Código Penal.

77
Mesmo antes da Constituinte, eu já havia ousado sugerir
outras inovações absolutamente necessárias ao Brasil. Sarney era
avesso ao uso de decreto-lei. Tivemos discussões intermináveis a
esse respeito. Algumas idéias ele recusou, bateu o pé, não quis
saber. Uma vez o pessoal da agricultura levou-o assinar um decreto
de desapropriação para a reforma agrária. Na área a ser
desapropriada, estava incluída toda a cidade de Londrina. Deus nos
acuda. Daquele dia em diante, Sarney não assinava nada sem minha
revisão na parte jurídica e a revisão da língua portuguesa pelo
Joaquim Campeio. Minhas minutas de decretos, decretos-lei,
medidas provisórias, eu próprio levava ao Campeio para as
correções. É um craque. E mais ainda: companheiro de sinuca. Nas
raras folgas, ou fins de semana, ele programava umas partidas,
convidando parceiros para umas tacadas honestas na República.
Consegui, nesse tempo, convencer Sarney a tomar uma
providência que eu julgava fundamental.
Contando agora, as pessoas podem duvidar. O Brasil não tinha
uma lei que regulasse as licitações públicas e o contrato
administrativo. Simplesmente não tinha. Havia algumas regras para
licitação, baixadas pelos militares, no Decreto-Lei nº 200; e o
contrato administrativo era disciplinado — que disciplinado?! —,
tinha como referência o Código de Contabilidade da União, de 1928.
Leram bem? 1928. Eu nem era nascido!
Passei a trabalhar na solução. Não podia conformar-me com
este fato: meu país não tem disciplina legal para dois assuntos de
tamanha importância! E o mais grave: o contrato administrativo
derivava diretamente da licitação, da concorrência pública. E é
matéria de Direito Público, inteiramente distinta dos contratos de
Direito Privado.
Contei com a valiosa e inestimável colaboração do maior
craque na matéria: o mestre Hely Lopes Meirelles. Depois de alguns
meses de trabalho, estava pronto o decreto-lei, reunindo nossas
idéias e, sobretudo, a jurisprudência brasileira que se formara em
torno do vácuo legal. Sarney o estudou durante três dias e voltou
radiante. “Fantástico! Maravilha! É incrível que não tivéssemos um
diploma como este!” E o assinou, depois, é claro, de revisto pelo
Campeio. Decreto-Lei 2.300.
No Brasil, há uma curiosidade intrigante. Quando um assunto
está há anos sem solução e alguém tem a idéia de resolvê-lo, logo
surgem as críticas. E, uma vez resolvido, aparece outro alguém para
alterá-lo, a pretexto de aperfeiçoá-lo. Por que não fez antes? Não há
explicação. Isso aconteceu com o Decreto-Lei 2.300. No Governo
Itamar Franco, alteraram consideravelmente aquela legislação e
conseguiram estragá-la em vários aspectos (Lei 8.666). Mas temos, a
despeito dos remendos, um estatuto legal da licitação e do contrato
administrativo, criado originariamente por um decreto-lei, veículo
que soubemos usar melhor que os militares, em homenagem à
Conferência da OAB em Belém do Pará.
Na história recente do Brasil, essa legislação é a mais
importante ao lado da Lei de Responsabilidade Fiscal, editada no ano
2000 pelo Governo Fernando Henrique, coordenada pelo Ministro
Martus Tavares e elaborada pelos excelentes economistas José
Roberto Afonso e Guilherme Gomes Dias. Não sei se tiveram ajuda de
algum jurista. Se não tiveram, é obrigatório o registro: terá sido a
primeira vez que economistas escreveram lei corretamente. E que lei!
Claro que contra ela os políticos também se insurgiram, à frente toda
a bancada federal do PT, sob o comando de Lula e de Palocci, que
parece haver se penitenciado do erro, quando virou governo. Até ação
direta de inconstitucionalidade propuseram contra o estatuto que se
editava para acabar com o velho costume de gastar dinheiro público
sem qualquer controle.
Registro o fato, para que os advogados jovens possam discernir
entre a mentalidade política e a realidade jurídica. O político
brasileiro é sempre contra tudo o que venha do adversário. Não
reconhece a qualidade jurídica das iniciativas sérias. Depois que vira
governo, delas se utiliza com entusiasmo e até com exagero. E mais:
chega a propagar aos desinformados que eles foram os autores da
idéia.
Assim, Fernando Henrique Cardoso se insurgiu contra meu
parecer que anulou os juros fixados na Constituição. Quando virou
governo, foi o que mais utilizou a liberdade de aumentar a taxa de
juros na política monetarista. E assim os petistas fizeram com ele,
quando mandou para o Congresso o projeto da Lei de
Responsabilidade Fiscal. Votaram contra, criticaram, espernearam,
e, um dia, viraram governo. A lei de Fernando Henrique passou a ser
elogiada e aplicada pelos petistas com religioso entusiasmo. Mas os
petistas têm uma particularidade: não aplicam a lei contra os
correligionários que a infringem.

78
Volto ao meu trabalho, iniciado na Consultoria Geral da
República. Tinha que estudar e elaborar projetos de lei ordenados
pela nova Constituição. No Ministério, havia menos tempo. Mas
trabalhar era preciso. Sem a mesma amplitude e importância do
estatuto das licitações públicas e do contrato administrativo, outras
medidas legislativas precisavam ser implantadas, sobretudo para
limpar a legislação da ditadura que se acumulara durante vinte
anos, o chamado “entulho autoritário” e que continuava vigente.
No meio desse mundão de serviço, minha secretária no
Ministério da Justiça entrou em minha sala e educadamente me
disse:
— Ministro, desculpe interrompê-lo. Há um senhor ao telefone,
diretor da penitenciária, dizendo que um dos reclusos é seu amigo de
infância e quer falar com o senhor. Chama-se Antônio, mas pediu
para dizer que é o Tonho, filho do Zé do Eliazé.
— Qual a linha?
— Linha dois.
Atendi. O diretor da penitenciária passou-me o Tonho:
— Saulo, é o Tonho da Santa Luzia. Você se lembra de mim?
— Claro que me lembro! Que diabo é essa história de você estar
cumprindo pena? Que crime você cometeu?
— Homicídio.
— Meu Deus! Você matou quem?
— Matei a Iracema.
— Jesus! Quando eu saí de Cravinhos, você era o namorado
dela. O que aconteceu para justificar essa tragédia?
— A gente se casou. Chegamos a ter filhos. Depois, a sem
vergonha me traiu. E não foi com um só, não; foi com vários.
Na minha memória, veio aquela brincadeira do telefone de
barbante nas caixas de pó-de-arroz: “Faço o que você quiser!”.
Coitada da Iracema. Coitado do Tonho.
— Eu queria que você fizesse alguma coisa por mim. Você é o
Ministro da Justiça. Acho que pode me ajudar. Diminuir a pena.
Arrumar uma provisória.
— Tonho, preste atenção: o Ministro da Justiça nada tem que
ver com o Poder Judiciário. Todo mundo faz confusão. Eu não posso
fazer nada. A penitenciária é estadual. O Brasil não tem
penitenciária federal, o que é uma vergonha.
Aliás, o sistema penitenciário brasileiro caminha para uma
situação caótica. A superlotação e as condições degradantes dos
presos, tratados como animais, levaram um juiz de Minas Gerais, em
Contagem, à loucura: mandou soltar dezenas de condenados por
assaltos, homicídios e estupros. Nossos governos, estaduais e
federais, em pleno século XXI, ainda não sabem da existência de
Beccaria.37
O pobre do Tonho nada tinha com isso, mas eu já estava com a
mania de constantemente me irritar por não termos presídios
federais38 e invocava essa falha até se estivesse conversando sobre
futebol. Com mais paciência, expliquei-lhe que não podia mexer no
caso de sua condenação; mas, por desencargo de consciência,
prometi mandar, e mandei, um estagiário do meu escritório para
estudar algo, uma revisão ou qualquer coisa que o fizesse sentir-se
atendido por mim. Sobretudo garantir-lhe tratamento humano no
cumprimento da pena. Embora estivesse afastado da advocacia, o
escritório continuava funcionando, proibido por mim de pegar
causas contra a União, o que deixou meus colegas furiosos. Advogar
contra o Governo Federal era, naquele tempo, o filé-mignon da
profissão.

79
Collor já estava eleito, e, em dezembro, Sarney convocou-nos
para uma reunião no Planalto: Ministro da Fazenda, Maílson da
Nóbrega; Ministro do Planejamento, João Batista Abreu; Ministro do
Exército, General Leônidas Pires Gonçalves; Ministro da Aeronáutica,
Brigadeiro Otávio Moreira Lima; Ministro da Marinha, Almirante
Henrique Sabóia; Ministro Chefe da Casa Civil, Ronaldo Costa Couto;
e Ministro Chefe do SNI, General Ivan de Souza Mendes. Estava
ausente de Brasília o Ministro das Relações Exteriores, Roberto de
Abreu Sodré.
Ninguém sabia o objetivo da reunião. O Presidente apenas nos
convocou, porque desejava discutir conosco uma colocação do
Ministro da Fazenda de que a inflação, que estava flutuando sem

37 Cesare Bonesana, Marquês de Beccaria, em 1764, revolucionou o pensamento


jurídico do direito penal em seu livro Dei delitti e delle pene, preconizando a
abolição das torturas e outras condições desumanas no cumprimento das
condenações. Ele tinha apenas 26 anos de idade.
38 O Governo Lula construiu o primeiro no Paraná.
grandes saltos ao longo dos últimos meses, iria, a partir do mês de
janeiro, disparar. Não por motivo do Governo Sarney, que encerrava
o ano com superávit primário e sem déficit mas porque as
expectativas quanto ao novo governo e seu plano econômico iriam
desencadear uma inflação de natureza psicológica nos meses
seguintes (coisas dos economistas, inflação psicológica, deixa estar!),
e essa atingiria números estratosféricos. Isso iria provocar um caos,
e a solução proposta pelo Ministro Maílson da Nóbrega era que o
Presidente Sarney fizesse como o Presidente Raúl Alfonsín — que até
hoje é condenado por isto —: renunciar ao seu mandato, ou
antecipar a posse de Fernando Collor.
O Presidente abriu a reunião, dizendo que ouvira da área
econômica uma análise sombria sobre o que se esperava dos
próximos três meses, até o fim do governo. Ninguém seguraria a
inflação. Então, resolveu reunir os ministros da área militar, da Casa
Civil, da Casa Militar, do SNI e da Justiça, para ouvi-los. Na abertura
da reunião, Sarney disse que deveríamos deliberar sobre a proposta
dos dois ministros da área econômica: Sarney devia renunciar, e
imediatamente!
“Puta merda! O que é isso?”, pensei eu. Outra renúncia na
minha vida? Chegava a do Jânio, que fora um estrago, acabara em
mudança do regime para parlamentarismo e desaguara na ditadura
militar. É sempre assim: um golpe de Estado justifica outro.
Estávamos no fim de um governo democrático. O país tinha um
presidente eleito pelo voto direto. No que resultaria uma renúncia
àquela altura? Seria golpe? Ou pretendiam armar confusão para, no
meio do pega-pra-capar, voltar a um outro tipo de ditadura?
Então Maílson explicou sua tese, com apoio de João Batista
Abreu:
— Não há mais como segurar o estouro da inflação. Nos
próximos meses, a política monetária ficará fora de controle. Tenho
que admitir: o Plano Verão fracassou.39 O Presidente eleito, Fernando

39 Quase bati palmas. E pensei naquela pergunta chata: eu não falei?


Collor, e sua já escolhida Ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de
Mello, estão dando entrevistas incendiárias e insinuando medidas
drásticas que irão tomar. O empresariado e as fontes de produção
vão disparar, numa corrida de aumento de preços insuportável. Não
sabemos a proporção da crise nos últimos meses de nosso Governo,
mas será catastrófica. Se o Presidente renunciar agora, ou antecipar
a posse do eleito, as expectativas serão revertidas e, em caso de
renúncia, assumirá o Governo o Dr. Ulysses Guimarães.
João Batista Abreu era um pouco delicado demais, tinha uns
trejeitos de mãos, falava afetado. Não prestei atenção no que ele
disse. Minha cabeça já estava a mil por hora. O que estão propondo
que façamos com o Brasil? Deixar a bomba para o Dr. Ulysses seria
um ato terrorista. Antecipar a posse de Collor exigiria mudança
constitucional a toque de caixa. De qualquer maneira, haveria
confusão lascada.

80
— O Dr. Ulysses está de acordo? — perguntei por instinto de
advogado que interroga testemunha mentirosa.
— Está — respondeu João Batista.
No Governo, há um ritual iniciado nos primeiros dias da
República. Em reunião de ministros, fala em primeiro lugar o titular
do ministério criado antes dos outros. O primeiro ministério criado
na República foi o da Justiça. E eu ia falar antes. Sarney me passou
a palavra:
— Senhor Presidente, queira me desculpar — comecei eu com
calma —, mas os ministros da Fazenda e do Planejamento estão
propondo uma solução teratológica! É loucura de camisa-de-força.
Acabamos de voltar à democracia com o nosso Governo, temos uma
Constituição legitimamente votada por uma Constituinte livre,
estamos com um Presidente da República eleito pelo voto direto, cuja
posse está marcada para o próximo mês de março, o sistema
institucional funcionando, tudo começando de novo e bem. Um
impacto como este — a renúncia do Presidente da República — pode
balançar os alicerces da democracia brasileira, ainda uma criança,
que está dando seus primeiros passos. Tem apenas cinco anos.
Tanto os brasileiros como os países do resto do mundo não
entenderão um gesto tão imprudente, senão doidivanas como esse.
Seremos vistos como irresponsáveis. Considero a proposta uma
traição não somente ao Presidente da República, mas ao Brasil.
— Traição! Não aceito essa palavra. É muito forte — retrucou
Maílson.
— Vai aceitar, sim senhor — disse o General Leônidas, dando
um tapa na mesa.
Sarney tem um domínio absoluto dos nervos nessas situações.
Inteligente e perspicaz, queria descobrir o que estava por trás
daquilo. E pediu calma aos ministros. Solicitou ao General Leônidas
que esperasse sua vez de falar, pois seria o próximo depois do
Ministro da Marinha, na ausência do Ministro das Relações
Exteriores. Mandou que o Ministro da Justiça concluísse.
— Pedindo vênia ao senhor Ministro da Fazenda — continuei
eu com a macia conversa de advogado —, o termo traição é o único
cabível. O Presidente, ao tomar posse, que já foi tumultuada na
época, jurou cumprir a Constituição, defender o país, promover o
bem geral, sustentar a união e a integridade do Brasil.
Vendo Leônidas do meu lado, aproveitei para usar argumentos
que sensibilizam os militares:
— A renúncia, assim, é uma deserção de suas funções, da
chefia do Governo, do comando supremo das Forças Armadas e uma
traição ao juramento feito, pois a anomalia pode causar impacto nas
instituições, sempre muito submetidas às paixões políticas e às
ambições pelo poder. É melhor não provocar a quebra da regra do
jogo. Se os últimos meses vão ser difíceis, vamos enfrentá-los.
Tomei um fôlego e continuei:
— Creio que a culpa pode ser dos atuais discursos do Collor,
mas em grande parte foi do Plano Verão, executado à base de
portarias e de alergia à legalidade. Tudo o que se faz fora da lei acaba
em desordem. Segundo aprendi, aqui no próprio Governo, o fracasso
dos planos econômicos deve-se ao fato de se tentar a estabilização
financeira apenas no âmbito federal. Deixaram-se de lado, ou não se
conceberam, medidas que impusessem austeridade fiscal aos
estados e aos municípios. Com todo o respeito aos economistas, não
se combate inflação só de um lado do campo, enquanto do outro há
uma farra de gastos acima das receitas.40 Mas que haja apenas a
desordem monetária, sem contágio da ordem institucional. Minha
opinião é esta: o Presidente deve passar a faixa ao Presidente eleito, e
não fazer como o General Figueiredo fez com ele, fugindo pelos
fundos.
O General Ivan de Souza Mendes votou com os ministros da
área econômica, Maílson e João Batista.41
Foi a vez do General Leônidas falar. Ferveu e reagiu a ele, e
disse em voz alta:
— Fica quieto, Ivan! Se você insistir nesse assunto, nós
discutimos lá fora: só eu e você.
Os ministros militares votaram com o Ministro da Justiça.
Inclusive o General Bayma Denis, sempre muito atento a tudo e uma
espécie de termômetro entre o passado recente e o nosso nervoso
presente. O Ministro Costa Couto, especialista em panos mornos,
preocupou-se mais com a hipótese de o Leônidas dar um murro no
Ivan quando saíssem, do que com a idéia da renúncia; e escusou-se
de dar qualquer opinião, como bom mineiro.
Sarney encerrou a reunião, dizendo que não tinha nenhuma

40 Meus “grandes” conhecimentos da matéria eram “cola” de observações de Pérsio


Arida que, após sair do Governo, aperfeiçoou seus estudos e amadureceu a idéia da
responsabilidade fiscal, aplicada muito mais tarde no Plano Real. Em alguns
encontros, comentando o Plano Cruzado, a conversa sempre começava com a
pergunta que não queria calar: onde foi que nós erramos?
41 Esse voto do Ministro Chefe do SNI, ligado às Forças Armadas, fez-me lembrar o
Barão de Itararé: há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira.
decisão a tomar naquele momento, mas que iria pensar no assunto.
Pediu que Leônidas e eu ficássemos, pois tinha outra matéria a
tratar conosco. Era nada. Quis ganhar tempo para o Maílson ir
embora sem atropelos. Eu aproveitei para sugerir:
— Põe esses dois para fora! O anunciado estouro foi provocado
por eles com aquela maluquice do Plano Verão, elaborado sem a
assistência de juristas e num momento em que esse tipo de solução
já estava desacreditado!
Esses grandes erros do Governo, de todos os governos, cada
qual com os seus erros próprios e impróprios, são depois
desmentidos e tudo fica por isso mesmo. É bom lembrar de Sérgio
Porto (Stanislaw Ponte Preta), que observou:

“No Brasil, as coisas acontecem, mas depois, com um simples


desmentido, deixaram de acontecer.”

Serve para muitos outros fatos, os antigos e os modernos.

81
Sarney começara seu governo obstinado a dar ao país todas as
liberdades democráticas. Liberou geral, até o partidão comunista que
não havia conseguido voltar mesmo na era Juscelino. E, ninguém se
lembra, mas havia censura no rádio e na incipiente televisão,
tolerada pelos mais democráticos governos anteriores ao golpe
militar. Sarney acabou com ela.
No Governo Juscelino, a Lei de Imprensa (Lei nº 2.044)
considerava cri-me a crítica às “autoridades constituídas”. Na
ditadura, foi revogada por uma lei pior (Lei nº 5.250/67), que passou
a considerar tudo como crime, e a responsabilidade criminal podia
ser transferida de uma pessoa para outra. Por exemplo: se alguém,
no exterior, escrevesse um artigo contra o regime, prendia-se o chefe
de redação que autorizasse a publicação. Tempos duros. Esse
monstrengo dura até hoje, neste começo do século XXI.
Nós, porém, fizemos esse entulho jurídico cair em desuso. O
Judiciário ajudou muito, menos em alguns setores que permitiram o
surgimento da indústria das indenizações civis contra jornais e
jornalistas. O problema, porém e naquela hora, não era lei alguma.
Era uma nova renúncia.
Não seria no fim de seu governo que Sarney provocaria um
impacto com a renúncia, ato que balançaria as instituições pelas
quais tanto lutou desde o primeiro dia de sua posse. E ninguém, em
sã consciência, poderia prever o resultado. Manteve os dois
ministros.
Fui jantar com ele. Fazer-lhe companhia. O dia tinha sido
emocionalmente massacrante. No Palácio da Alvorada, Dona Kyola,
mãe de Sarney, estava em frente à televisão, assistindo a uma
entrevista de Fernando Collor, que ainda falava mal do Presidente,
ameaçando mundos e fundos, tal como fizera na campanha eleitoral:
— Esse moço vai acabar mal — disse Dona Kyola, quando
chegamos perto.
Sarney agüentou, transmitiu o cargo a seu sucessor no mês de
março, quando a inflação bateu em 84,32%, e isso em virtude das
medidas anunciadas pelo próprio Collor, pois, até dezembro anterior,
o surto inflacionário estava sob controle. E o mais importante: a
democracia era uma conquista irreversível, e o desemprego (para
inveja de muita gente) estava em 2,7%, muito abaixo dos 10%
deixados pela ditadura. Era o que interessava a Sarney. O novo
Presidente empossado confiscou a poupança do povo brasileiro e
acabou posto para fora, não pelo confisco, mas pela imoralidade que
atribuía aos outros. Dona Kyola vaticinou, e os anjos disseram
amém.
Na última reunião do Ministério do primeiro Governo Civil
depois da ditadura, uma semana antes da posse de Fernando Collor,
Sarney fez um discurso demonstrando que, apesar das fantásticas
dificuldades políticas e institucionais, muita coisa fora conquistada,
entre elas o desemprego de apenas 2,7%, número que mata Lula de
inveja, já que ele se proclama melhor em tudo.
Enumerou uma lista expressiva de melhorias. Franqueada a
palavra aos ministros de Estado, fui o primeiro a falar. Dei-lhe mais
um título: o de direito autoral da democracia. Claro que o regime
democrático brasileiro foi conquistado pelo esforço de muita gente,
muito sofrimento, muito sacrifício. Pelas greves dos sindicalistas no
Estado de São Paulo, inclusive Lula, apoiadas por lideranças
expressivas, Franco Montoro, Eduardo Suplicy, Dalmo Dallari, José
Carlos Dias, o destemido Tito Costa, que organizou plantão em praça
pública para enfrentar a ditadura. Passaram por lá Mário Covas,
Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, até Fernando Henrique Cardoso,
em conduta absolutamente sincera e convicta, por incrível que
pareça.
Mas a costura final da democracia em Estado de Direito o país
deve à paciência e à habilidade de Sarney, quando assumiu a
presidência da República, sem nenhuma legitimidade, criticado e
confrontado, que nos levou à Constituinte, assegurando as
liberdades públicas e políticas. Segundo a lógica de Marilena Chauí,
filósofa do PT, Sarney deve ser odiado por isso, posto que o PT,
naquela época, apenas atrapalhava. Não tinha a menor vocação para
elaborar as regras fundamentais das instituições democráticas, coisa
da decadente burguesia.

82
Vários ministros falaram, despedindo-se e declarando-se
honrados de haverem servido sob a presidência de José Sarney.
Dentre eles, Maílson da Nóbrega, que, naquele instante final, fez um
discurso um tanto mea culpa e demonstrou grandeza de alma ao
despedir-se do Governo, reconhecendo que as dificuldades
econômicas não impediram a conquista maior: o fortalecimento das
instituições.
Depois, falou Roberto Cardoso Alves, Ministro da Indústria e
Comércio, relatando sua gestão no ministério e fazendo um enorme
elogio a Maílson da Nóbrega, que, inteligente como é, entendeu
tratar-se de uma “encomenda” de Sarney, amigo íntimo do Robertão,
para um final feliz em suas relações, na despedida do poder.
Cardoso Alves encerrou sua fala comunicando que havia
vendido por licitação pública as vacas leiteiras da Companhia
Siderúrgica Nacional. É isto: a CSN criava vacas. E eram gordas.
Ronaldo Costa Couto saiu do governo e dedicou-se a escrever
história contemporânea, o ótimo Matarazzo42 e, entre outros, o seu
excelente livro Brasília Kubitschek de Oliveira, que inspirou a
minissérie JK, de Adelaide Amaral, escondida pela Globo nas
transmissões das madrugadas. Não sei se Costa Couto um dia irá
lembrar-se de escrever sobre as vacas da Companhia Siderúrgica
Nacional. Mas elas existiram.

83
Clotilde entrou em minha sala esbaforida, fechou a porta e
disse, gaguejando:
— Chefe, aconteceu algo incrível. Hoje, na saída da escola das
crianças, o motorista, como de costume, atrasou-se, e eu fiquei com
elas para mais um papo, pois, além de conquistar a confiança, estou
arrancando coisas aos pouquinhos, gota a gota. E, hoje, elas me
contaram algo fantástico: o juiz foi à casa delas.
— O quê?
— É isso aí. O juiz da causa foi à casa delas.
— Como elas sabem que era o juiz? O que ele fez? A mãe estava
junto?
— Disseram que o juiz, acompanhado de outro homem, chegou

42 Editora Planeta.
sem avisar, hoje de manhã. A empregada deixou-os entrar e, sem
falar com a mãe, levou-os diretamente às crianças. Elas disseram
que ele é bonzinho.
— Ele disse às crianças que era juiz?
— Acho que não. Segundo elas, foi a empregada que falou
tratar-se do juiz.
— Mas como você sabe que é o juiz da causa? Alguém se
apresentou, falou ser o juiz e entrou? Pode ser um juiz de futebol,
um juiz de paz, um vendedor de Bíblia anunciando o Juízo Final!
— Tenho certeza. Elas disseram que a mãe ficou muito
nervosa. E tentou impedir a conversa. Elas ficaram com medo. Mas o
outro homem chamou a mãe e a fez sentar. E o homem, que eu sei
ser o juiz, ficou conversando com elas sobre o pai, sobre o que elas
disseram, como haver dormido sem roupa com a namorada do pai. Aí
eu perguntei: o que vocês responderam?
— Que estávamos com medo da mamãe; que a mamãe que
mandou falar e agora mandou falar que ela não mandou.
Clotilde prosseguiu:
— Pelo que me contaram, as coisas ficaram confusas.
Disseram, porém, que ele passou a mão na cabecinha delas, falou
para terem paciência com a mãe e que um dia, muito breve,
voltariam a receber a visita do pai, o que as deixou na maior
felicidade. Daí minha conclusão bastante óbvia: era o juiz da causa.
Foi minha vez de gaguejar. Teria sido possível? Que fantástico
esse jovem magistrado! A lei processual, isto é, o Código de Processo
Civil, permite a inspeção judicial, art. 440: “O juiz, de ofício ou a
requerimento da parte, pode, em qualquer fase do processo,
inspecionar pessoas ou coisas, a fim de se esclarecer sobre fato, que
interesse à decisão da causa”. Mas, em meio século de advocacia, eu
nunca tinha visto um juiz do cível usar desse permissivo legal,
sobretudo sem observar os preceitos processuais que burocratizam a
diligência.
Em geral, os meritíssimos sentam-se em suas cadeiras de
magistrados e não tiram a bunda de lá, a não ser para ir embora. Em
São Paulo, jamais aconteceu. Mais tarde, conversando com colegas
meus de outros estados, eles até riram. Nunca sequer souberam de
algo igual.
Mas o jovem juiz da minha causa, sem alarde, sem avisar as
partes, quietinho, aplicou o art. 440 de um jeito muito especial e foi
fazer a inédita inspeção judicial na casa das crianças, para ouvi-las,
para sentir de perto o drama que viviam, para descobrir se era
mentira ou verdade o que constava da brutal gravação anexada ao
processo. E dispensou as formalidades do Código de Processo Civil, a
começar pelo acompanhamento da diligência pelas partes. Se
observada a regra, a confusão seria total. O juiz teve que decidir: ou
observava a regra ou observava as crianças. Pelo que Clotilde apurou
junto às crianças, o magistrado não ficou sabendo de tudo com
absoluta segurança. Mas verificou o pavor das crianças diante do
assunto.
E o outro homem? Quem era o outro homem?

84
Já estava encerrado o expediente. Mas o escrivão trabalhava
até tarde. Tentei o telefone. O dia era de sorte. Ele se encontrava no
cartório:
— Hoje de manhã? Não estou sabendo de nada! — respondeu
ele à minha pergunta ansiosa.
Insisti:
— O senhor tem certeza de que não sabe de nada? O juiz não
foi à casa dos filhos do Sr. Olavo Brás, aquele do processo de visitas,
da gravação, da ameaça do suicídio...
— O processo eu conheço, Dr. Saulo. Sei, sim, do que se trata.
Mas posso assegurar-lhe que o juiz não fez qualquer diligência desse
tipo. Eu saberia. O senhor está dizendo que foi hoje de manhã. Ora,
o expediente aqui na vara é à tarde. O juiz iria fazer diligência fora do
expediente? E sem levar ninguém com ele? Lembre-se, doutor, de
que o art. 441 diz que o juiz, na inspeção direta, deve ser assistido
por um ou mais peritos.
— Não, meu caro. A lei diz que o juiz poderá ser assistido e não
que deverá. O magistrado pode muito bem dispensar a assistência
pericial quando a julgar desnecessária. Mas ele levou alguém
consigo. Um senhor o acompanhava, segundo a empregada da casa.
— Impossível — retrucou o escrivão. — Eu saberia. Não
convocou nenhum servidor para acompanhar a diligência. O senhor
tem certeza de que foi ele?
— Tenho. Amanhã passarei por aí. Dê uma sondada em Sua
Excelência. Estarei aí na primeira hora.
Naquela noite, dormi mal. Fiquei muito agitado com a notícia e,
confesso, sem saber se era realmente uma notícia ou uma hipótese
sonhada pela Clotilde. Mas, se as crianças falaram das perguntas
sobre o pai, de detalhes sobre dormir com a namorada dele e
disseram ter medo de contar que a mãe as proibiu de falar, era muita
confusão para a cabeça delas e para a minha também. Só podia ser
verdade.
Esse Olavo Brás ganhou na loteria. Seu caso estava nas mãos
de um dos melhores juizes do país. Eu conhecia as qualidades do
jovem magistrado, a inteligência, a cultura, a seriedade, a dedicação
e o apostolado com que exercia a Magistratura. Mas não esperava
tanto. Não esperava que fosse cumprir o máximo dever de um juiz
em casos como esse: buscar ele próprio a verdade. Poucos fazem
isso. Ou quase ninguém.

85
Na minha vida, conheci juizes formidáveis, dos quais guardo
lembranças entusiastas e profundo respeito. Mas sofri também
grandes desilusões. Algumas lamentáveis. Vou contar uma delas.
Terminado seu mandato na Presidência da República, Sarney
resolveu candidatar-se a Senador. O PMDB — Partido do Movimento
Democrático Brasileiro — negou-lhe a legenda no Maranhão.
Candidatou-se pelo Amapá. Houve impugnações fundadas em
questão de domicílio, e o caso acabou no Supremo Tribunal Federal.
Naquele momento, não sei por que, a Suprema Corte estava em
meio recesso, e o Ministro Celso de Mello, meu ex-secretário na
Consultoria Geral da República, me telefonou:
— O processo do Presidente será distribuído amanhã. Em
Brasília, somente estão por aqui dois ministros: o Marco Aurélio de
Mello e eu. Tenho receio de que caia com ele, primo do Presidente
Collor. Não sei como vai considerar a questão.
— O Presidente tem muita fé em Deus. Tudo vai sair bem,
mesmo porque a tese jurídica da defesa do Sarney está
absolutamente correta.
Celso de Mello concordou plenamente com a observação,
acrescentando ser indiscutível a matéria de fato, isto é, a
transferência do domicílio eleitoral no prazo da lei.
O advogado de Sarney era o Dr. José Guilherme Vilela, ótimo
profissional. Fez excelente trabalho e demonstrou a simplicidade da
questão: Sarney havia transferido seu domicílio eleitoral no prazo da
lei. Simples. O que há para discutir? É público e notório que ele é do
Maranhão! Ora, também era público e notório que ele morava em
Brasília, onde exercera o cargo de Senador e, nos últimos cinco anos,
o de Presidente da República. Desde a faculdade de Direito, a gente
aprende que não se pode confundir o domicílio civil com o domicílio
eleitoral. E a Constituição de 88, ainda grande desconhecida (como
até hoje), não estabelecia nenhum prazo para mudança de domicílio.
O sistema de sorteio do Supremo fez o processo cair com o
Ministro Marco Aurélio, que, no mesmo dia, concedeu medida
liminar, mantendo a candidatura de Sarney pelo Amapá.
Veio o dia do julgamento do mérito pelo plenário. Sarney
ganhou, mas o último a votar foi o Ministro Celso de Mello, que votou
pela cassação da candidatura do Sarney.
Deus do céu! O que deu no garoto? Estava preocupado com a
distribuição do processo para a apreciação da liminar, afirmando que
a concederia em favor da tese de Sarney, e, agora, no mérito, vota
contra e fica vencido no plenário. O que aconteceu? Não teve sequer
a gentileza, ou habilidade, de dar-se por impedido. Votou contra o
Presidente que o nomeara, depois de ter demonstrado grande
preocupação com a hipótese de Marco Aurélio ser o relator.
Apressou-se ele próprio a me telefonar, explicando:
— Doutor Saulo, o senhor deve ter estranhado o meu voto no
caso do Presidente.
— Claro! O que deu em você?
— É que a Folha de S. Paulo, na véspera da votação, noticiou a
afirmação de que o Presidente Sarney tinha os votos certos dos
ministros que enumerou e citou meu nome como um deles. Quando
chegou minha vez de votar, o Presidente já estava vitorioso pelo
número de votos a seu favor. Não precisava mais do meu. Votei
contra para desmentir a Folha de S. Paulo. Mas fique tranqüilo. Se
meu voto fosse decisivo, eu teria votado a favor do Presidente.
Não acreditei no que estava ouvindo. Recusei-me a engolir e
perguntei:
— Espere um pouco. Deixe-me ver se compreendi bem. Você
votou contra o Sarney porque a Folha de S. Paulo noticiou que você
votaria a favor?
— Sim.
— E se o Sarney já não houvesse ganhado, quando chegou sua
vez de votar, você, nesse caso, votaria a favor dele?
— Exatamente. O senhor entendeu?
— Entendi. Entendi que você é um juiz de merda! Bati o
telefone e nunca mais falei com ele.

86
Daí para frente, Celso de Mello passou a sofrer um processo de
distúrbio psicológico com relação a mim, que deve torturá-lo muito.
Há pouco tempo, já passados quase quinze anos, o Supremo
Tribunal julgou um caso muito interessante do ponto de vista
jurídico. O Procurador-Geral da República pediu o arquivamento de
um inquérito aberto contra o Senador Antônio Carlos Magalhães.
Mudou o Governo, e o novo Procurador-Geral da República, no
mesmo inquérito, ofereceu denúncia, sem que o pedido de
arquivamento tivesse sido apreciado e sem qualquer fato novo. A
questão processual penal transformou-se em matéria do mais alto
interesse para os estudiosos. A imprensa a explorar o lado político e,
por isso, confundindo tudo.
Sarney, com sua eterna alma de conciliador, pediu-me que
solicitasse a Celso de Mello estudar o assunto, considerando que já
havia pedido de arquivamento do inquérito pelo procurador anterior.
O novo não podia modificá-lo. Lembrei-lhe que não tinha condições
de falar com o ilustre ministro de Tatuí, pois havíamos tido aquele
entrevero no caso de sua candidatura pelo Amapá. Sarney ponderou
que o incidente estava prescrito. Passaram-se quinze anos. Passei a
desconfiar: Sarney desejava realmente o voto do Celso de Mello ou
queria que eu fizesse as pazes com ele?
A nova questão legal era clara: o pedido de arquivamento pelo
Procurador-Geral não permitia a denúncia pelo novo chefe do
Ministério Público Federal. Não me senti em condições de falar coisa
alguma, mas, como pedido do Sarney me toca no coração, solicitei a
um amigo comum, do Celso de Mello e meu, para falar com ele,
inclusive lembrando votos dele no sentido da tese defendida pelo
advogado de ACM.
Recebeu o amigo comum, que havia sido seu colega no
Ministério Público de São Paulo, homem honrado, culto, excelente
advogado, de uma honestidade e boa-fé a toda prova. Mas este
cometeu o pecado de dizer que eu tinha interesse na tese, embora
não advogasse e nada tivesse a ver com o réu. O que faz o ilustre
Ministro do Supremo? Afirma ao amigo comum que a tese está
correta e manda-lhe mais três ou quatro votos seus, estudos e outros
trabalhos, demonstrando que não se pode oferecer denúncia em
inquérito com pedido de arquivamento.
Meu amigo exultou com a missão cumprida, enviou-me os
votos, e eu os enviei ao advogado do ACM, que os usou em memorial.
Dia do julgamento. O Tribunal pleno rejeita a denúncia contra
apenas dois isolados votos. Um deles era o do Ministro Celso de
Mello. O outro era da relatora, que votou em primeiro lugar. Se não
fosse relatora, teria votado diferente, depois de ouvir a quase
unanimidade dos votos de seus colegas.
Celso de Mello votou contra o ACM, contrariando suas próprias
convicções jurídicas? Aqui surge outra curiosidade intrigante: José
Celso de Mello foi Presidente do Supremo Tribunal na mesma época
em que Antônio Carlos Magalhães era Presidente do Senado Federal.
Os dois, como chefes de poderes, estabeleceram forte ligação pessoal.
E ACM resolveu fazer, no Senado Federal, uma bobagem fantástica:
a CPI do Judiciário. E teve o apoio do Celso de Mello. Vou analisar o
melado.

87
O país pegou fogo. Como poderia um Poder investigar o outro?
O comando constitucional da separação dos poderes e da harmonia
entre eles tinha ido para a cucuia. Nas discussões que se seguiram,
tomei o lado do Judiciário, que estava sendo acusado de lutar por
privilégios. Escrevi artigos de jornal e fiz conferências, demonstrando
que não se tratava de privilégios, mas de prerrogativas
constitucionais, que não podiam ser alteradas ou violentadas contra
a Magistratura, por intermédio de um órgão político de outro Poder.
Ameaçavam as regras de aposentadoria dos juizes e outras proteções
instituídas em âmbito constitucional.
Pois Celso de Mello, Presidente do Supremo Tribunal Federal,
isto é, chefe máximo do Judiciário, postou-se contra o Poder que
chefiava. Mesmo se, no fundo de suas convicções, nutrisse alguma
censura ao Judiciário, devia ser, ao menos, discreto, invocar a
necessidade de maior reflexão, de maiores debates pelo Congresso, e
não em uma CPI, cuidados simples para não expor à execração
pública o Poder que comandava. “Os juizes estão lutando por pri-
vilégios”, sustentava ele do alto da Presidência do Supremo Tribunal
Federal. Que desastre!
Aquilo que eu dissera a Oscar Correia, isto é, que o tempo
corrigiria o único defeito dele, que era ser muito jovem, não
aconteceu. O tempo não corrigiu coisa alguma.
Muitos advogados sabiam que Celso de Mello havia sido meu
secretário na Consultoria da República e nomeado Ministro do
Supremo por empenho meu. Mas não estavam informados do
rompimento. Assim, alguns, quando Celso de Mello era relator de
processo de interesse deles, vinham me pedir para solicitar o
apressamento, dar especial atenção, aquelas conversas sempre
expressas na costumeira frase:
— Peço-lhe o favor de dar uma palavrinha ao ministro.
— Meu querido colega, com esse ministro não posso dar
palavrinha alguma, porque rompi com ele, precisamente por lhe
haver dito um palavrão.
Devo, porém, uma explicação a todos os juizes do Brasil:
aquele desaviso de Celso de Mello contra a Magistratura não era
contra a Magistratura; estava apenas tomando posição contrária à
minha.
Para não aborrecer os eventuais leitores deste livro, evito
transcrever aqui trabalhos meus, salvo alguns indispensáveis. O
artigo de jornal que na época publiquei na Folha de S. Paulo merece
ser transcrito, para que se avalie o clima da briga que travamos
naquele tempo:

“ASSASSINATO DAS INSTITUIÇÕES


O nobre Senador Paulo Souto, relator da CPI do Judiciário,
declarou que todas as denúncias, que já chegaram, estão
chegando e por chegarem, serão apuradas. Logo, não há, como
exige a Constituição, fato previamente determinado. Somente
existe o fato determinante: intimidar a Justiça. O relator
confessa publicamente o que estava óbvio no próprio
requerimento: a inconstitucionalidade da comissão. Não há
dúvida: é devassa nascida da devassidão, da licenciosidade
constitucional, ou, como declarou seu criador, veio para provar
que o juiz não é intocável. É, portanto, tocável.
Conheço muitos casos graves ocorridos no Judiciário. Mas
não os delatarei a nenhum tribunal de exceção. A
independência das instituições deve prevalecer sobre o humano
desejo de ver os corruptos punidos, pois o direito maior, isto é,
o direito constitucional, declara caber ao Judiciário a
competência exclusiva para investigar magistrados e puni-los.
A obediência ao Estado de Direito está acima de qualquer his-
teria punitiva, de qualquer aparato de caça às bruxas sem
contemplação na ordem jurídica, ainda que sob aplausos da
opinião pública conduzida pela opinião publicada.
Nos casos em que atuei como advogado, desci bordoadas
nos juizes de duvidosa moralidade. O bom debate assegura a
moralidade das decisões finais, pois quase sempre o direito e a
justiça acabam prevalecendo no Judiciário brasileiro. Isto tem
que ser preservado, a qualquer custo, até mesmo ao preço de
conter-se o desabafo íntimo e pessoal contra muitos
magistrados indignos da função, cujos nomes deleto do meu
respeito, mas não os delato ao linchamento.
No regimento interno do Senado, em obediência à
Constituição, o art. 146 diz: ‘Não se admitirá comissão
parlamentar de inquérito sobre matérias pertinentes à Câmara
dos Deputados, às atribuições do Poder Judiciário, aos Estados’.
Quanto ao Judiciário, a proibição está sendo atropelada com
base em pesquisa de opinião pública. E quanto aos Estados? O
Estado, composto de três poderes tutelados pela autonomia
constitucional, não pode ter um deles submetido à investigação
de órgão da União. Logo, os fatos imputados aos judiciários
estaduais, se averiguados pelo Senado, resultarão em
descarada intervenção na unidade federativa da República.
Falho é, sem dúvida, o sistema constitucional de punição
dos juizes Mas a Constituição foi elaborada pelo Congresso,
sob a liderança de muitos dos políticos que hoje acusam o
Judiciário. A regra do art. 93 VIII, que admite punir-se o juiz
com a disponibilidade imposta pelo tribunal “respectivo”, por
dois terços dos votos, é ridícula. Primeiro, porque se exige um
número de votos difícil de atingir-se em muitos casos; segundo
porque, e por isto mesmo, o processo corre em segredo, pois,
na hipótese de condenação até por maioria absoluta, o juiz é
considerado absolvido e volta a judicar. Este insuficiente
critério constitucional reclama reforma. É preciso um órgão
disciplinar de competência nacional, com decisões tomadas por
maioria simples. Ao Legislativo cumpre, pois e urgentemente,
fazer a lei, não inquérito.
Esta CPI do Senado nada disto fará. Nem pode, porque sua
limitação em apurar fato determinado não lhe permite girar a
metralhadora, para devassas gerais, como anuncia seu relator
ao admitir denúncias que vão chegando. Será apenas um palco
iluminado para maledicências, delações, deduragem,
acusações de desafetos, um carnaval de trios elétricos de alta
tensão. Nenhuma utilidade terá esta comissão para a única
providência séria: a reforma constitucional do Judiciário. E a
CPI, se perdurar, o que pode fazer? A Constituição (art. 58, §
3º) manda encaminhar suas conclusões ao Ministério Público
para que tome providências junto a quem? Ao Judiciário. Logo,
a CPI vai chafurdar na inconstitucionalidade para, no final,
chover no molhado ao dizer à Justiça: puna-se a si própria, o
que já está dito na Constituição.
Mas o choque entre os poderes, por motivos de divergentes
concepções dos valores institucionais, causará feridas e
ressentimentos. A necessária reforma constitucional não deve,
e não pode, ser debatida e votada em clima de rancor ou sob
um torneio de frases de efeito.
Cabe ao Supremo Tribunal trancar este mostrengo, com
fundamento na separação dos poderes. Será maior o desastre,
se reconhecida apenas a incompetência parcial do Senado
quanto aos estados: qualquer Assembléia Legislativa vai abrir
CPI contra o Judiciário estadual, não só para miúdas
vinganças, mas e também para o processo de intimidação de
um poder contra o outro, nesta teratológica solução contrária
aos fundamentos da democracia, que concebeu a justiça
independente para a defesa dos cidadãos lesados pelo
Legislativo nas leis inconstitucionais, e pelo Executivo no
abuso dos atos arbitrários e ilegais. Nos estados, onde o poder
político ainda impera desafiando a modernização das
instituições, o retrocesso será fatal.
De nada vale dizer que se vai agir com moderação, como
sustentou a ingenuidade de Michel Temer. Não se atenua o
defeito do ato ilícito apenas porque praticado moderadamente.
Matar com moderação, assaltar com moderação. O próprio
presidente do Supremo, chefe do Poder Judiciário, disse ser
legítima a CPI em nome da transparência. Aí está um exemplo
de desastre praticado com moderação, mas não deixa de ser
desastre. Se gosta de transparência, é melhor que Sua
Excelência fale, não sobre o fundamento das instituições, mas
invoque a lingerie da Tiazinha, que, inclusive, usa chicote, e, ao
menos, sacode sua transparência, escondendo o rosto sob uma
máscara de zorra. Não se recomende, porém, a mesma conduta
para o Judiciário, acusando-o de ‘poder que se oculta’.
O Judiciário tem, por definição, profundas diferenças no
exercício de suas funções institucionais. O juiz não é apenas
um servidor público, mas é o próprio poder, exercido
individualmente. Não é possível fazer-se o poder sentar no
banco dos réus, submetido a interrogatório, a não ser pelos
seus pares, jamais pelos seus ímpares. Esta condição não o
transforma em poder absoluto, mas não justifica tampouco sua
submissão ao obsoleto processo de intimidação política e
parlamentar, pois, no sistema constitucional brasileiro, o
Legislativo tem competência apenas para investigar o
Executivo, competência ultimamente atrofiada por falta de uso
ou por excesso de cumplicidade.
A sugestão, que condiciona a legitimidade do Judiciário aos
juizes se despirem diante de inquisidores políticos, é um
atentado ao poder e ao pudor. O juiz passa a ser tocável como
gado para o matadouro. A CPI do Senado inaugura, pelo
desrespeito ao fundamental princípio democrático da
independência da magistratura, uma temporada de caça e de-
vassa como em qualquer ditadura. Atenta-se, é claro, contra os
direitos e garantias constitucionais do povo, por atingir e
intimidar o sistema que os defende e aplica. Rui Barbosa,
baiano ilustre (na minha opinião, o mais ilustre de todos, sem
ofensa ao meu querido Jorge Amado), já deixou advertido:
‘Creio que a Federação perecerá, se continuarmos a desacatar a
Justiça’. Por essa e outras razões, a história registrará a CPI do
Judiciário, não apenas como desmoralizante devassa, mas
como lamentável devassidão, ainda que, pela idade dos
participantes, praticada moderadamente. Ao lado dos assaltos
e violência nas ruas, estamos assistindo ao assassinato das
instituições e, como disse Rui, da própria Federação. Não
temos mais segurança, nem pública, nem institucional.”

Se eu tivesse apoiado a bobagem do ACM, certamente Celso de


Mello teria defendido o Judiciário. O erro foi meu.
É preciso que o Judiciário saiba disso. E o perdoe. No fundo,
no fundo, ele é um bom sujeito. E como já não estou mais advogando
perante o Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello será um bom
juiz até sua aposentadoria em 2015.

88
Não é comum e acaba sendo constrangedor o advogado
indispor-se com um Ministro do Supremo e, sobretudo, quando
Presidente da alta corte. Eu já havia passado por essa experiência,
quando o então Presidente do Supremo Tribunal, Antônio Neder,
deferiu a citação de Roberto Carlos numa ação proposta em Buenos
Aires por um músico argentino que o acusava de plágio. A música
era “Amigos”, sucesso mundial. Cantaram-na para o Papa, se não me
engano, no México. Diante da aclamação internacional pela obra de
Roberto e Erasmo, o argentino resolveu reivindicar a autoria,
acusando a dupla brasileira de haver plagiado uma milonga qualquer
que havia composto antes. Propôs o processo em Buenos Aires e
pediu a citação dos réus por carta rogatória, que, obrigatoriamente,
vai para o Supremo Tribunal deferir ou não, após o exame da
legalidade do pedido da justiça estrangeira.
A canção fora composta no Brasil, lançada no Brasil, os
compositores e cantores eram residentes no Brasil. Não há a menor
hipótese de ter competência a justiça estrangeira para julgar ação
judicial contra brasileiros domiciliados aqui e por atos aqui
praticados. Se alguém, na República do Burundi, ou na Guiné, ou no
Japão, ou no arquipélago de Galápagos, cismar de processar, nos
respectivos países, Chico Buarque, Caetano Veloso ou outros bra-
sileiros, é fácil imaginar a balbúrdia internacional que isso
estabelecerá. O princípio é simples: a soberania nacional que inclui,
por óbvio, a soberania do Judiciário sob cuja jurisdição se
encontram o fato e seu autor.
Todo o mundo sabia disso, menos o Presidente do Supremo
Tribunal da época. Advogado de Roberto Carlos, entrei com agravo
regimental. A questão, por sua relevância, iria para o plenário de
nossa corte suprema. Embora Antônio Neder fosse um ministro
fabricado pelos militares, até soldado raso se emocionava quando se
tratasse de soberania nacional. A redação de meu agravo foi
impiedosa. O argumento mais suave que usei foi que o Presidente do
Supremo Tribunal Federal estava decretando a extradição civil de
brasileiro.
Antônio Neder, ao ler o agravo, deve ter consultado colegas, ou
sei lá quem mais, e me chamou ao seu gabinete. Lá fomos nós, eu e
Luiz Carlos Bettiol, meu sócio de escritório em Brasília. Neder já
sabia que ia perder de dez a um no plenário. Então, resolveu
reformar seu despacho, retratando-se e indeferindo a citação do meu
cliente. E nos pediu:
— Reformei meu despacho. Estou indeferindo a citação. Mas
solicito um compromisso de vocês: não digam nada à imprensa.
Quero a palavra de vocês de que isso ficará entre nós.
Advogado tem que ganhar a causa. Os incidentes colaterais
perdem a importância, se o objetivo principal for alcançado: vitória
do cliente. Bettiol e eu empenhamos a palavra.
No dia seguinte, saiu no Diário Oficial apenas o despacho do
Presidente do Supremo negando a citação solicitada na carta
rogatória da Argentina. Nada, nada sobre o primeiro despacho nem
sobre o agravo. E a imprensa noticiou que o Presidente do Supremo
Tribunal Federal negou o pedido do país vizinho, fundado no
princípio inamovível da soberania do Judiciário nacional e no direito
fundamental de serem os brasileiros, aqui residentes, processados de
acordo com nossas leis. Beleza!
Ao contar isso neste livro, não estou quebrando a palavra
empenhada. Apenas narro um fato histórico, embora de uma questão
simples de Direito, até porque não publico aqui as razões do agravo
que interpus contra o primeiro despacho do ilustre ministro. Era
esse texto que ele não queria ver na imprensa. E, claro, havia
adicionalmente uma pequena malandragem por parte dele: dar a
impressão de que seu segundo despacho era o primeiro.
A partir desse acontecimento, nunca mais tive desavenças com
os presidentes do Supremo. Somente muitos anos mais tarde voltei a
ter com Celso de Mello, não por tê-lo chamado de juiz de merda, pois
naquela época ele ainda não era presidente, mas quando, nessa
condição, em vez de defender a Magistratura, apoiou Antônio Carlos
Magalhães, acusando os magistrados de defenderem privilégios.
Escrevi contra os dois fortes artigos de jornal, iguais ao acima
transcrito e, como convém às publicações na imprensa, não usei um
único nome feio. Nenhum. Podem conferir.
E, porque vivo lendo nossos poetas, costumo adotar na vida
seus ensinamentos, como este de Cecília Meirelles:

“Há pessoas que nos falam e não escutamos.


Há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam.”

89
O mundo gira, a Lusitana roda, tudo dá voltas e cambalhotas.
Um dia, fui internado no Incor, Instituto do Coração, passando mal.
Fibrilação no átrio do coração. Socorrido por médicos competentes,
David Pamplona e José Ramires, dois craques, fui salvo. Voltei para
casa. E parei de fumar. Nunca mais. Por ser considerada a cidade da
saúde, Serra Negra não tem médicos, hospital ou clínicas. Em
Ribeirão Preto, por indicação de um velho amigo de juventude, o Dr.
Ulisses Meneghelli, o cardiologista que me suporta é o Dr. Luiz
Eduardo Mori, perfeito para mim, porque, além de competente, é
médico do Poupatempo. Nas consultas, conta histórias de pescador.
Tempos depois não fui poupado: andei lutando contra anemia.
Perdia sangue. Não se sabia por onde. Fizeram colonoscopia e
descobriram tumores. Malignos. Foram extraídos e me pouparam de
uma perigosa cirurgia. Desta vez, os craques em medicina, a quem
devo minha salvação, foram os doutores Luiz Macedo e Arnaldo
Ganc, ambos do Hospital Albert Einstein, instituição acima da
excelência, dirigido pelo talento do jovem médico Cláudio
Lottemberg.43 E devo também a firme resolução de me aposentar,
como contarei no final deste livro,
Eu estava lá, em Ribeirão Preto, me convalescendo de todos
esses dolorosos sustos. Toca o telefone. Celso de Mello, Ministro do
Supremo Tribunal, queria falar comigo. Vinte anos depois.
Compungido, solidário, preocupado com a crise que sofri. Não sei
como ficou sabendo de minhas andanças hospitalares. Parecia
sincero. Contou de sua hérnia de disco, internação no hospital de
Brasília, dores, dez dias de martírio.
Fiquei comovido. Tive até vontade de deletar os capítulos em
que conto nossas trombadas. Mas estaria mentindo. Odeio mentir.
Passei a mão na cabeça da minha cachorrinha, Nana, deitada
ao meu lado, parecendo querer ajudar-me na cura, transmitindo seu
amor sem palavras. Ela era a festa da casa. Adorava minha mulher.
Toda manhã nos recebia aos pulos, querendo alcançar o colo com
incrível agilidade. O mais impressionante era seu olhar de ternura
expressa com impressionante lealdade em seus grandes e brilhantes
olhos negros. Era a alegria de meu combalido coração.
Dias depois, ela morreu.

90
Fui à Vara de Família falar com o escrivão. Usei todo o meu
estoque de simpatia. O homem nem piscou:
— O juiz não fez diligência alguma. Quem lhe disse isso?

43 O Hospital Albert Einstein desde 1999 vem recebendo a principal certificação


internacional de saúde, outorgada pela Joint Commission International (JCI), que
certifica, periodicamente, os serviços hospitalares em mais de sessenta países.
Está, assim, considerado entre os melhores hospitais do mundo. No Brasil, há
pouco tempo outros hospitais ganharam o reconhecimento: Hospital do Coração
(HCor) e o Samaritano de São Paulo, Moinhos de Vento de Porto Alegre, o Hemorio e
o Instituto de Traumatologia e Ortopedia, do Rio de Janeiro.
Pergunta embaraçosa. Não podia admitir a fonte. Fiz como nos
tempos de jornalista. Se contasse que a informação viera das
crianças, teria que revelar a infiltração da minha assistente na
escola, com o intuito determinado de investigar os menores. Se o juiz
e o curador soubessem disso, haveria complicações.
— Confio na sua discrição — respondi. — Mas tenho
investigadores fazendo campana na mulher. E eles viram dois
homens entrarem na casa dela ontem de manhã. Pela descrição, um
deles parecia ser o juiz: magrinho, cabelo bem preto, bigodinho tipo
de galã do cinema antigo, à Clark Gable. Só pode ser ele.
— Fotografaram?
— Não.
— Desculpe, Dr. Saulo. Que campana mais malfeita! Sem
fotografia? Nem parece serviço de seu escritório. Fique tranqüilo: não
foi o meu juiz.
Fingi acreditar, mesmo porque minha história da campana sem
fotografia era realmente horrível. Não tinha muito moral para
continuar forçando um interrogatório do escrivão. E eu havia falado
na empregada. Ele não se lembrou. Ainda bem.
Depois, criei coragem e passei pela sala do juiz, somente para
“cumprimentá-lo”. O mesmo velho motivo: tinha um caso na vara
vizinha (era verdade), estava passando (não era bem verdade, sem
constituir mentira) e viera dizer “boa tarde”.
Sempre muito gentil com todos os advogados, levantou-se,
cumprimentou-me. E perguntou:
— Como vai o seu cliente, o Sr. Olavo Brás?
— Consegui tirar o suicídio da cabeça dele. Está mais calmo.
Fiquei radiante com o fato de o juiz lembrar o nome do cliente.
Era evidente que o caso o impressionara muito. Com centenas e
centenas de processos passando diariamente por sua mesa, lembrar-
se do nome do cliente e associá-lo ao respectivo advogado, antes de
se completar a instrução, demonstrava uma atenção muito especial.
Mas nenhuma palavra sobre diligência, nem sequer sobre a petição
requerendo o depoimento da psiquiatra. Nada.
Quando, voltando ao cartório, contei ao escrivão que o juiz
perguntara pelo meu cliente, mencionando-lhe o nome, ele muito
educadamente observou:
— Doutor, não quero estragar seu entusiasmo, mas o meu juiz
conhece os detalhes de todos os casos que tramitam pela vara. É
impressionante. O nome das partes, o problema discutido e o nome
dos respectivos advogados. Sabe tudo. Tenho muitos anos de
experiência nesta e em outras varas por onde passei: nunca vi um
juiz com tamanha memória. Interesse e atenção, a maioria dos
magistrados dedica aos casos. Mas este, além dessas qualidades,
guarda tudo de cada processo. Até daqueles já julgados e que não
estão mais aqui.
— O senhor não estragou meu entusiasmo. Ao contrário:
aumentou-o. Redobro minha certeza de que o caso do meu cliente
está submetido ao julgamento de um homem competente. Nem
sempre se tem essa sorte em problemas complicados como o do Sr.
Olavo Brás.
O escrivão concordou e, dando a impressão de estar com um
pequeno peso na consciência, confidenciou-me:
— A diligência de que o senhor falou, não houve. Tenho
certeza. Mas ele lhe disse alguma coisa sobre o seu requerimento de
ouvir a psiquiatra da mulher fora de audiência?
— Não disse nada. Apenas passei pela sala dele para
cumprimentá-lo e saí.
— Então o senhor vai ter uma surpresa. A petição foi trazida
por uma assistente sua, a Dra. Patrícia Alessandra Pofo, que a
deixou comigo. Eu mesmo fui despachá-la. Ele mandou juntar e
ouvir o advogado da outra parte. A intimação vai ser feita
pessoalmente. Creio que irá deferir, pois, ao despachá-la, ele sorriu e
comentou: — Ótima idéia!
Voltei ao escritório intrigado. Certeza eu tinha de que o juiz
havia feito a diligência. Mas nenhuma palavra? Nenhuma indireta,
ainda que sutil? Bem, é verdade: que sutileza seria possível num
caso assim? Ou conta tudo, ou não se toca no assunto. E o escrivão?
Sabia ou não sabia? Minha experiência de advogado traquejado
estava sendo cruelmente desmentida.
Invoquei, como um penitente faz em suas orações, todas as
raízes de minha paciência, aquela paciência que constitui a ciência
da espera com sabedoria. Um misto de confiança e atenção, calma e
vigilância, certeza e disposição, para intervir com rapidez, na
hipótese de fraquejar a certeza.
Na advocacia, esse exercício, essa paciência, essa forma de
lutar em todos os planos, no primeiro ou no segundo, a coragem de
enfrentar e, quando necessário, abrandar os termos, enganar o óbvio
para vencer com a surpresa, aprendi durante a ditadura militar. E
precisamente a psiquiatra da mulher do Sr. Olavo Brás, que iríamos
ouvir em depoimento, lembrou-me um antecedente que provoquei
perante a Justiça Militar.

91
Naquela época, defender os acusados de subversão, ou de
serem comunistas, era penoso. O sistema entendia que a defesa
estava advogando contra o regime, e os advogados, em geral, corriam
o risco de serem considerados coniventes com os atos de seus
clientes. A começar pelos “tribunais” de primeira instância, com o
pomposo e aterrorizante título de “Auditoria de Guerra”, composta de
um juiz auditor e oficiais das três armas.
Nos debates orais, se o advogado se distraísse, ou se
empolgasse, e chamasse o sistema de ditadura, não tinha perdão:
era preso por desacato. Lembrem-se de que um dos crimes era
apenas “ser comunista”. Professar a ideologia, sem nenhuma
conduta concreta que ofendesse a ordem jurídica, era considerado
traição à Pátria. Bastava ser “marxista”. Cadeia nele.
Muitas vezes invoquei a velha lição de Burke:

“Somos patriotas sem esquecer que somos cavalheiros.”44

Dizer isso a um capitão? Ele nem sabia quem era Burke, não
entendia o que era ser cavalheiro, e patriotismo para ele era cassar
comunista.
Difícil era aparecer na Auditoria de Guerra quando, contra atos
por ela praticados, o advogado ingressava com recurso para o
Superior Tribunal Militar, sobretudo com habeas corpus, pedindo o
trancamento de ação penal ali instaurada. No texto da petição
endereçada ao tribunal, a gente desabafava. Tudo o que não se podia
dizer durante as sessões de trabalho na Auditoria, dizia-se nos
requerimentos ou recursos ao STM.
Um dia, a ditadura, que tinha no Ministério Público um ativo e
subserviente aliado, resolveu processar os professores universitários.
E surgiu denúncia criminal contra o Professor Florestan Fernandes,
catedrático da Universidade de São Paulo, e seu assistente, Fernando
Henrique Cardoso, entre outros.
Aceitei defender o Professor Florestan, e o meu colega e amigo
Evaristo de Morais Filho, advogado no Rio de Janeiro, ficou com a
defesa de Fernando Henrique.
Combinamos uma estratégia. Eu entraria primeiro com o
pedido de habeas corpus em favor do Professor Florestan, e, se
vitorioso, o pedido em favor de Fernando Henrique ficaria mais fácil,
pois se teria firmado a jurisprudência relativa ao mesmo processo. E
por outro motivo: Florestan era uma figura respeitável, suas
condutas eram de um intelectual autêntico, e seu conceito como
sociólogo era internacionalmente consagrado. Fernando Henrique,
seu assistente, era mais falastrão, bom professor, mas com uma
clara tendência a fazer política partidária, sem ligar muito para o
prestígio da cátedra. Misturava os alhos, de olho em sua carreira,
que, afinal, chegou à Presidência da República, tal como Lula, que
44 “Idéias sobre as causas das desordens atuais”, 1770.
veio do Nordeste em pau-de-arara, vangloriando-se de não precisar
de diploma para subir na vida. Há muita semelhança entre eles,
apesar da diplomação de um e a emplumação do outro.

92
Ingressei com o HC em favor de Florestan Fernandes em junho
de 1966. O processo tomou o nº 28.463.
E sapequei logo de início: “... rogando o impetrante que venha
esse Egrégio Tribunal socorrer, com urgência, a cultura nacional
tragicamente agredida naquele espantoso processo, cujo
trancamento requer pelos seguintes fatos e razões de Direito”.
Entre essas razões, depois de descrever os méritos do
professor, sociólogo de renome internacional, motivo de orgulho para
o Brasil, desci o cacete: “esse homem encontra-se, em nossa terra,
submetido a processo crime e sob a mais espantosa violência de que
se tem notícia na história forense, pois foi levado a essa bárbara
coação por uma denúncia estarrecedoramente inepta, de tatibitate
formulação, peça de completa e lamentável paixão política, sem
suporte fático, sem descrição de conduta punível, sem pé, sem ca-
beça, sem entranhas e, até, sem gramática”.
Ele estava denunciado como incurso no art. 2º, item III, da Lei
nº 1.802, de 5 de janeiro de 1953, isto é: “tentar mudar a ordem
política ou social estabelecida na Constituição mediante ajuda ou
subsídio de Estado estrangeiro ou de organização estrangeira ou de
caráter internacional — Pena: de dez a trinta anos de reclusão”.
A denúncia dizia que o Professor Florestan Fernandes era
“considerado pelo Professor Ricardo Roman Blanco, tanto mais
virulento que o Professor Schemberg, sendo suas aulas autêntica
doutrinação marxista”.
Esse professor Blanco era da Universidade de Brasília, dedo-
duro do regime militar, e sua opinião, na ditadura, já valia como
condenação contra não importa quem ele se voltasse.
A acusação insistia em que Florestan havia sido homenageado
pela União Brasil-URSS e omitia homenagens iguais recebidas dos
Estados Unidos e de Israel. No meu trabalho, argumentei:

Um país capitalista, o mais capitalista da história dos povos,


resolve premiar o mesmo professor homenageado por um país
comunista. O fato demonstra, portanto, a universalidade de
sua obra, cujo nível está muito acima das transitórias
divergências políticas entre nações e, por isto mesmo, não
participa de tais conflitos a não ser na qualidade de analista
científico, como não participa, tampouco, do minúsculo mundo
liliputiano das miniaturas delituosas, que a ficção da denúncia
vê agigantadas apenas por medi-las diante de concepções
policialescas da Idade Média.”

Para não deixar dúvida, mais à frente, voltei a atirar:

“Acresce que o paciente não é comunista, embora sua cultura


sociológica possa, por avançada, evoluída, sábia e livre,
escandalizar superstições medievais.”45

Ganhei o habeas corpus pelo voto condutor do General Peri


Beviláqua, e o Professor Florestan Fernandes foi excluído do processo
por ausência de justa causa, sob a expressa declaração de inépcia da
denúncia. Julgamento em agosto. Em novembro, foi julgado o pedido
de Fernando Henrique Cardoso, beneficiado pela jurisprudência já
firmada. Também foi excluído da ação penal (HC nº 28.567).
Em compensação, fiquei meses sem poder comparecer perante
a Auditoria de Guerra. Meus casos que tramitavam por lá, passei-os
a outros colegas, para não prejudicar os clientes, porque era nesses
que os doutos julgadores se vingavam dos advogados, sobretudo de

45 Este e outros habeas corpus, tantos os impetrados por mim, como por outros
ilustres e lutadores advogados, estão coligidos no livro Justiça fardada, em
homenagem ao General Peri Beviláqua, no Superior Tribunal Militar, obra
organizada pelo Dr. Renato Lemos, Editora Bom Texto.
mim, que os chamara de medievais. Não haveria perdão. Eu iria para
a fogueira, porque realmente eles eram da Idade Média. O comunista
e o socialista eram criminosos. O advogado era bruxo. A escuridão
era total.

93
Naquela mesma auditoria, havia eu tido outro caso em que
aprontei barbaridades. Advogar corretamente, invocando a lei e as
garantias constitucionais, era inútil. Direitos humanos? Brincadeira.
Direito de defesa plena, nem pensar. A gente tinha que inventar.
Inventar qualquer coisa.
Luiz Carlos Prestes, para não ser preso, combinou
descaradamente com o DOPS pagar um preço por sua fuga. Deixaria
em sua casa as cadernetas em que anotara os nomes, endereços e
outras informações sobre seus companheiros do Partido Comunista.
Houve até um detalhe curioso. Combinada a hora de fugir, a busca
seria feita imediatamente após. Mas sua mulher esqueceu o casaco
na residência, e Prestes telefonou ao delegado do DOPS, informando
a falha de memória da esposa e pedindo mais tempo, porque voltaria
à sua casa para pegar o casaco. Assim se fez.
Quando a polícia política chegou, Prestes já havia sumido. O
casaco também. Ficaram as cadernetas. O caso tornou-se famoso,
porque muita gente foi presa. Dezenas de membros do partidão
tiveram que fugir. Centenas de famílias ficaram desorganizadas,
foram massacradas pela brutalidade policial. Trabalhadores, presos
ou foragidos, não tinham como sustentá-las, porque deixaram seus
empregos. Uma vez, contei isso a uma revista e fui processado, por
haver denegrido a memória de Prestes. O Tribunal de Justiça de São
Paulo trancou a ação penal. Assim, o fato, que era conhecido do
DOPS e vazou na época, não tinha prova concreta. Com o processo,
passou a ter o respaldo judicial. Muito mais tarde, com a queda da
União Soviética, esse acontecimento estava bem documentado nos
arquivos da KGB, na Rússia. O DOPS não mentira.
A ação penal contra as pessoas denunciadas apenas por terem
seus nomes nas Cadernetas Prestes materializava uma violência
brutal. Não lembro quantas cadernetas eram. Creio que chegavam a
vinte, ou quase. Todas escritas à mão. Não fizeram sequer perícia
grafotécnica ou grafoscópica, para saber se a letra era de Prestes.
Folheando-as, era possível encontrar, além dos nomes, umas
frases desconexas, algo como “o sol vai nascer na Cordilheira dos
Andes”, algumas tentativas de fazer literatura com a desgraça alheia,
ou com os próprios sonhos e devaneios, sem grande qualidade
literária, ainda que fosse legítima a defesa da ideologia para quem
nela crê. Sonhar é preciso. Matar não.
Aceitei advogar para muitos dos réus presos. Passei horas
examinando aqueles cadernos. Invocar a lei, os direitos
constitucionais, era bobagem. Contra tais direitos, levantava-se a
defesa da Pátria diante da ameaça do comunismo. E, por incrível que
pareça, a maioria dos militares acreditava nisso sinceramente. Havia,
pois, honestidade intelectual dos dois lados: dos que levavam e dos
que davam porradas.
De repente, tive uma idéia para tumultuar o processo. Pedi o
exame das cadernetas por um grupo de psiquiatras, para que se
tivesse certeza sobre a sanidade mental da pessoa que escreveu
aquelas frases e as informações sobre membros do partidão. Essa foi
demais: exame psicológico de cadernetas!
Não pedi que os psiquiatras avaliassem indiretamente a
sanidade mental de Prestes, pois isso somente poderia ser feito
mediante exame pessoal. Pedi a avaliação da escrita, para saber se
havia indícios de distúrbios cerebrais em seu autor. Era uma decisão
difícil. Afinal Luiz Carlos Prestes era um herói nacional, desde a
velha Coluna de sonhadores. Embora advertido da observação de
Paul Claudel de que as pessoas só são heróis quando não podem agir
de outra maneira,46 não me sentia confortável em duvidar da saúde
mental de uma figura ilustre, sobretudo em nosso país tão pobre de
homens assim. Mas centenas de pessoas estavam presas, e
possivelmente essa tática poderia libertá-las.
O problema era fundamentar o requerimento, justificar a
petição. Minha cabeça ferveu, mas consegui.

94
Ainda tenho, por milagre, cópia da petição, pois meus arquivos
são e sempre foram um desastre em matéria de organização. Eis os
trechos iniciais do requerimento:

“... nos autos da ação penal que lhe é movida perante este
Juízo, por seu advogado, vem requerer sejam as anotações das
cadernetas, existentes no processo, submetidas a análise de
uma junta de psiquiatras a fim de constatar-se ou não a
existência de indícios de debilidade mental no autor daquelas
notas. Requer a produção desta prova pelas seguintes razões:
Nº 1 — São as chamadas ‘Cadernetas Prestes’ as únicas
provas materiais de que se serviu a acusação para atribuir aos
réus a conduta típica do artigo 9º e outros da Lei de Segurança
Nacional.
Nº 2 — A despeito de sabermos que o escrito particular
possui fraco valor probatório na ação penal, a acusação deu a
esses documentos uma importância relevante, e os trechos
deles extraídos fundamentam todas as denúncias oferecidas
neste feito.
Nº 3 — Atribuída a autoria das anotações ao Sr. Luiz Carlos
Prestes e estando este foragido, tornou-se impossível a
obtenção do seu depoimento pessoal, complemento
indispensável à apreciação da prova em sentido estrito
46 Les gens ne sont des héros que quand ils ne peuvent pas faire outrement.
produzida por escrito particular.
N º 4 — Através do depoimento pessoal do suposto autor
das cadernetas, poder-se-ia contar com um meio mais seguro
para aferição do valor da prova de acusação, uma vez que,
‘para nós’, o documento é essencialmente prova pessoal: e
prova pessoal não se pode obter, sem a consciência da própria
afirmação, na pessoa afirmante (Nicola Framarino Dei
Malatesta, A lógica das provas em matéria criminal, vol. II, pág.
285).
Nº 5 — Aliás, convém atentarmos para a lição do mestre
italiano que, na mesma obra, adverte: ‘se suprimirmos a
consciência das afirmações escritas, que nos resta? Nada mais
que a exteriorização material de um estado espiritual, que pode
ser simplesmente uma aberração e uma enfermidade.
Nº 6 — Não se pretende, convém frisar, obter, neste
momento, perícia médico-legal para verificação do estado
mental do Sr. Luiz Carlos Prestes, o que só seria materialmente
possível através da ‘Inspectio Corporis’. O que se pretende,
através da análise científica daqueles documentos, é saber se
há ou não a necessidade daquela averiguação, pois, se positiva
a resposta a essa indagação, o processo penal não poderia
prosseguir sem a realização daquele exame médico-legal direto,
uma vez que se não pode admitir um tão grave procedimento
criminal, envolvendo tantas pessoas, fundado em notas
escritas, que podem ser uma ‘aberração e uma enfermidade’.
N° 7 — Aceitando-se a hipótese de serem de autoria do Sr.
Luiz Carlos Prestes aquelas anotações, maior razão nos assiste
em temer sejam elas fruto de um delírio, uma vez que esse
cidadão — e isto é notório — há decênios tem uma fixação de
idéia — a revolução comunista no Brasil — que o pode ter
arrastado, na sua idade atual, a uma das espécies de
esquizofrenia paranóide, em cujo quadro clínico predomina a
tendência de um sistema delirante mais ou menos estruturado,
geralmente num misto de grandeza e perseguição.
Perfeitamente viável seria a hipótese do Sr. Luiz Carlos Prestes,
vítima dessa espécie de enfermidade mental, transpor para os
seus cadernos de notas as alucinações revolucionárias que lhe
teriam afetado a sanidade mental: Insanis, Paule, multae te
literae ad insaniam convertunt.
E poder-se-ia, ainda, estar diante de uma das formas de
psicopatia de que nos fala Von Rhoden (Einführung in die
Kriminalbiologisch Methodenlehre, pág. 150), a pseudologia.
Ora, os pseudólogos têm precisamente nas notas, diários,
cartas, escritos, o meio preferido de manifestar a irrefreável
necessidade de mentir.
Nº 8 — Também o esquizofrênico apossa-se da mania de
escrever. São célebres os estudos de Bunke, fundados
precisamente nos escritos de seus clientes, entre os quais
encontrou uma frase que passou a ser o exemplo mais típico do
pensamento esquizofrênico: ‘devo descender de Diógenes,
porque Diógenes buscava um homem com uma lanterna e eu
acho isto um absurdo’.
Nº 9 — São inúmeras as frases existentes nas chamadas
Cadernetas Prestes que demonstram a mesma desorganização
mental e que figurariam, com destaque, entre os exemplos
citados por Bunke.”

Fez sucesso na Auditoria o trecho que se seguiu:

“Nº 10 — Ora, a utilização da escrita faz parte, no conjunto


de técnicas psiquiátricas, dos exames de sanidade mental.
Entre nós, desde o começo do século, a escrita foi incluída
entre as exigências estabelecidas para os exames mentais,
conforme se vê no antigo regulamento do Serviço Policial do
Distrito Federal, aprovado pelo Decreto 6.440, de 30 de março
de 1907.
Nº 11 — A ciência moderna entende que a pesquisa da
enfermidade mental, ao lado da revolução técnico-material,
deve obedecer a processos superiores através da análise da
inteligência e da vontade, considerando-se a escrita a forma
mais comum de manifestação da inteligência e, em
conseqüência, de suas enfermidades. Assim o entende Kulpe e
seus discípulos, tais como Ach, Michotte e Lindworsky.
Nº 12 — É válida, portanto, a análise científica de escritos
para inferir, não o diagnóstico de insanidade, mas o indício de
sua provável existência, fato esse que, constatado, obrigará que
seja requerida a perícia médico-legal competente pelas pessoas
que têm o poder e o dever de requerê-las, isto é, V. Exa. ex
officio, o representante do Ministério Publico e o defensor do
argüido. O escrito, de próprio punho e volumoso, oferece
caminho seguro aos especialistas para a verificação do indício:
E culmo spica conficitur.
Nº 13 — Se exata essa fundada suspeita, o autor dos
escritos incriminados será penalmente irresponsável, ainda que
verdadeira a hipótese da existência material do delito que lhe
foi imputado. Se os médicos entenderem — sempre no terreno
de hipótese —, que s.s. é apenas semi-responsável, ainda
assim convém que ele próprio reconheça, afinal, na
semilucidez, a verdade de Terêncio: Ego pretium ob stultitiam
fero.
Nº 14 — Não se pode, pois, recusar a prova ora requerida
sem grave cerceamento da defesa e flagrante ameaça à Justiça.
Invocando o estatuído pelo artigo 3º do Código de Processo
Penal, lembramos a lição de Moacyr Amaral Santos: ‘Entre os
casos em que a prática da perícia médico-legal se impõe,
apontam-se:
g) para verificação do estado de sanidade de quem quer que
seja, uma vez que a moléstia, o defeito físico ou a condição de
saúde constituem fatos influentes para a decisão da causa’ —
(Prova Judiciária no Civil e no Comercial, pág. 167).
Nº 15 — Maior cuidado reclama a decisão da causa penal,
quando estão em jogo a liberdade e a honra de cidadãos
honestos, decentes, patriotas, chefes de família. Na espécie, o
estado de sanidade mental do autor das anotações das
cadernetas constitui ‘fato influente para a decisão’ do feito.
Caso contrário, estaríamos desprezando o princípio da
responsabilidade moral para adotarmos o simplismo da escola
positiva, que se satisfaz apenas com a responsabilidade legal,
cuja adoção só se encontra no Código Penal Soviético... Não há
como recusar a aferição da prova por especialistas, ainda que
para nós, leigos, pareçam essas anotações obra da melhor
literatura. Nunca é demais lembrar a advertência do mestre
Nelson Hungria: “Devem ter-se em vista, igualmente, os
prolongados ‘intervalos lúcidos’ ou ‘períodos livres’, próprios de
certas doenças mentais” (Comentários do Código Penal, vol. I,
tomo II, pág. 327). A aparente ‘ordem’ das anotações, para os
psiquiatras, poderá ser o ‘sistema delirante mais ou menos
estruturado’, de que se falou acima: ‘Quand un fou parait tout à
fait raisonnable, il est grandement temps, croyez-moi, de lui
metre la camisole’ (Poe).
Nº 16 — Pressupondo-se verdadeira a autoria das notas das
cadernetas incriminadas, é de se supor, pela idade — e a
senilidade é uma forma de psicopatia para efeitos penais — e
pelo longo desgaste na sofrida e inglória vida política do Sr.
Luiz Carlos Prestes, é de se supor que tais anotações sejam
fruto de sua fixação de idéia, capaz de transformar, pela
imaginação enferma, o simples encontro social, a simples troca
de impressões sobre a situação nacional, em secretas
conspirações ou maquinações fantásticas, já que a debilidade
mental é uma fuga do mundo real e desagradável para um
mundo de fantasias construídas ao sabor do temperamento, do
passado, do desejo e das frustrações de cada doente.
Nº 17 — Assim, Meritíssimo Juiz, deve ser deferida a perícia
requerida, uma vez que o Código da Justiça Militar permite
expressamente a realização de ‘quaisquer exames’, conforme se
pode inferir do artigo 288, letra ‘c’, colocando sob a
competência de Vossa Excelência o procedimento respectivo
(art. 101, letra ‘b’) e permitindo a espécie de prova solicitada
(art. 160, letra e’).”

Chutei mais do que Pelé nos seus tempos áureos.


Processada a petição, apareceu na minha casa, à noite, uma
perua Kombi. Eu morava na Praça Lucélia, no Sumaré, em São
Paulo. Dela, saíram destacados dirigentes do Partido Comunista,
todos na clandestinidade. Entraram e quiseram me forçar a desistir
da prova. Seria a desmoralização do líder Luiz Carlos Prestes, que,
àquela altura, depois de uns tempos no Rio de Janeiro, já estava na
União Soviética. Fugira da repressão com uma facilidade espantosa.
Pena que, naquela noite, eu ainda não sabia do acerto com o DOPS.
Ah! Se soubesse!
— Senhores, entendo a preocupação política de vocês —
ponderei, misturando “senhores” com “vocês”. — Mas se trata da
liberdade de muitos chefes de família, seus companheiros de partido.
Vocês não sabem o que é prisão nesta ditadura e precisam
compreender que o advogado tem obrigação de fazer tudo por seus
clientes. Creio que descobri uma forma de livrar todos da cadeia.
Meu objetivo é esse. Prestes que fique tranqüilo na União Soviética.
Enquanto ele não aparecer por aqui, haverá a dúvida, e ninguém
poderá ser condenado, antes que ele seja examinado pessoalmente.
— É uma questão de princípio. Desejamos a liberdade de todos
os nossos camaradas, mas não a esse preço. Não se pode criar a
menor dúvida sobre a integridade mental de um líder que tantos
serviços prestou à causa brasileira da liberdade.
— Pois, neste momento, estou interessado na liberdade dos
meus clientes, já que essa liberdade brasileira, de que vocês falam, já
foi pro brejo. Os militares ficarão anos no poder, para infelicidade
geral da nação. Vocês vão me desculpar, mas não desisto da prova.
Vou batalhar por ela e espero libertar todo mundo. A causa da
liberdade, agora, não é a de Prestes, mas a dos presos.
— Então fique o senhor sabendo que entraremos em contato
com os camaradas que lhe passaram as procurações, e elas serão
cassadas.
Cassaram coisa alguma. Continuei advogado, com uma
agradável surpresa: os militares adoraram a idéia de levantar dúvida
sobre a sanidade de prestes. O juiz auditor, que se chamava Tinoco,
adiantou-me que ia deferir a prova, e cheguei a formular os quesitos,
cuja cópia perdi, e que eram o melhor da história.
Como o advogado não pode confiar em uma única estratégia,
tratei de participar da impetração de habeas corpus perante o
Superior Tribunal Militar, redigida e assinada em conjunto por um
grupo de notáveis colegas: Heleno Fragoso, Cândido de Oliveira Neto,
Raul Lins e Silva e Modesto de Oliveira. Perdemos lá, mas ganhamos
no Supremo Tribunal. Todos os presos foram soltos. E o exame
psiquiátrico nas “cadernetas” não precisou ser feito. Até hoje me
pergunto: como aqueles dirigentes comunistas, na clandestinidade,
conheceram o teor da minha petição?
Andando na rua, às vezes eu era peitado por alguns
brutamontes, homens fortes, bem vestidos e mal encarados,
invariavelmente de óculos pretos:
— Você está advogando para comunistas. Vai se dar mal!
Agentes do regime autoritário. Até isso faziam para intimidar os
advogados. Depois, desapareciam no meio da multidão. Eram os
trombadões da ditadura.
Tempos duros aqueles. Ficaram com o apelido de anos de
chumbo, batizados por um historiador.
Um amigo, que freqüentava meu escritório apenas para um
bate-papo, Rubens Paiva, um dia desapareceu. Fiquei sabendo que
os militares o apanharam. Simplesmente desapareceu. Nunca mais
se ouviu falar dele. Era um homem afável, inteligente, pacífico.
Sumiu! Nada mais do que isto: sumiu.

95
— Saulo, preciso de você no Rio, e com urgência — falou pelo
telefone Evaristo de Moraes Filho, meu colega e amigo, um dos
melhores advogados criminalistas da nossa geração, aquele que
trabalhou comigo no caso de Florestan Fernandes e Fernando
Henrique Cardoso.
— O que aconteceu? Por acaso dissolveram o Fluminense? —
respondi brincando, porque ele era um tricolor apaixonado.
— Nossos telefones estão obviamente grampeados. Preciso falar
pessoalmente, mas aqui. Gostaria que você viesse para o Rio amanhã
sem falta.
Fui. Nada poderia negar ao Evaristinho. Um dia, havíamos
trabalhado juntos em um caso complicado, quando pegaram uma
porção de brasileiros que investiram dinheiro no exterior, num banco
suíço. Com medo da inflação e da ditadura, várias pessoas caíram na
tentação de corretores paulistas e cariocas. Investiram parte de suas
economias em dólar, em uma instituição financeira meio
mambembe, mas que, por ser na Suíça, oferecia ilusória segurança.
Até o fabuloso Dr. Zerbini, o maior cardiologista da época, caiu na
esparrela. Todos processados por evasão de divisas. Processo feio,
complicado.
Fomos, a convite da instituição, para Genebra. Chamava-se
International Overseas Service — IOS. Lá, contrataram nossos
serviços. Um dos diretores do banco era o filho do ex-presidente dos
Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt. Recebemos o pro labore
em dólares. Eu deixei minha parte depositada no próprio banco.
Evaristinho não quis saber: pôs seus dólares no bolso e veio para o
Brasil com eles. Muita coragem. Mas fez bem. Depois, o banco
quebrou, e lá se foi meu pro labore. Conseguimos absolver os
depositantes, mas não recebemos o resto do contrato.
Fizemos várias viagens à Suíça. A conversa de Evaristo era
deliciosa, menos quando desandava a falar no Fluminense. Não
podia deixar de atendê-lo agora. Ao chegar ao Rio, ele me explicou:
— Foi preso um jovem casado, com filhos, de família do Rio,
minha conhecida, e fui chamado para defendê-lo.
— Até aí não vejo por que você precisa de mim.
— Espera. Um desses esquerdistas malucos participou de um
assalto a banco, nessas operações que eles chamam de
desapropriação do capitalismo para financiar a revolução deles.
— Mas, nesse caso, é assalto, crime comum e grave. Nada tem
a ver com ideologia.
— Espera. Na fuga, o assaltante escondeu-se na casa daquele
jovem. A polícia cercou a casa e prendeu os dois. O assaltante tinha
a chave da porta dos fundos, o que implicou de vez o meu cliente. E
ele é inocente.
— E a chave?
— A mulher dele. Ela é amante do assaltante.
— Rima pobre.
— Ele descobriu agora. Falei com ele na prisão. Já havia
chegado a essa conclusão. Fui conferir com a empregada, e ela me
entregou tudo. A mulher se encontrava com o “namorado” na casa do
próprio casal, pois a porta do fundo era entrada separada do resto da
casa, e havia no jardim um quarto destinado a jardineiro, que nunca
foi contratado. Ali, durante o dia, segundo a empregada, viviam o
romance, até com alguns gritinhos que não conseguiam segurar.
— No que posso eu ajudar nisso tudo? Abafar os gritinhos?
— Estive pensando numa solução ao seu estilo. Fazer tudo
diferente. Meu cliente, se contar essa história no processo aberto
pelos militares, não terá sucesso. Vão dizer que é desculpa de última
hora, ou vão prender a mulher também. Já estou até vendo a cara
dos auditores militares: o réu prefere ser corno a assumir a
responsabilidade de ter dado cobertura ao subversivo e assaltante.
Eu conhecia bem a capacidade de Evaristo e adivinhei o que ele
estava tramando:
— Já sei. Você quer um desquite litigioso, em processo na Vara
de Família, longe dos militares. É isso?
— Bingo! Você matou. Eu seguro a ação na Auditoria de
Guerra, vou pedindo ouvida de testemunhas de canonização, hoje
cada dia mais raras, porque todos têm medo de depor, sobretudo em
favor de réus acusados de crimes contra a segurança nacional.
Ganharei tempo, mas preciso que o desquite litigioso ande a jato.
O cliente dele passou-me procuração. Advogar no Rio é
agradável. Tudo ajuda. Natureza, beleza das praias, alegria das
pessoas, a simpatia folgada dos servidores públicos, sempre solícitos
com a frase pronta: “É pra já!”. E não é verdade. Demora pra
chuchu. Mas sorriem.
A causa não foi muito difícil. A empregada ajudou
decisivamente. Além dela, os parentes, a quem confidenciava o que
estava acontecendo na casa da patroa havia muito tempo. Prova
testemunhal esmagadora.
A mulher, quando viu que estava sendo processada na Vara de
Família, sob acusação de adultério, ficou apavorada. Propôs todos os
tipos de acordo, para fazer o desquite amigável, solução que os
advogados almejam, não apenas para pôr uma pedra em cima do
assunto, como também para evitar a lavagem de roupa suja nos
autos. Minha consciência doeu demais, e a resposta foi seca:
“Acordo, de jeito algum! Quero a condenação dessa mulher”. O advo-
gado dela não acreditou. Aquilo negava tudo o que ele sabia a meu
respeito na advocacia.
Mas eu não podia dizer nada. Era importante manter o sigilo.
Eu precisava de uma sentença, e não de um acordo.
Quando requeri o depoimento do assaltante, ele foi conduzido
algemado para a Vara de Família. Veio escoltado. O juiz mandou a
escolta ficar do lado de fora. Havia, porém, uma figura que
acompanhava a escolta. Mal podia disfarçar. Era agente secreto.
Estava na cara. Com profunda delicadeza, acercou-se de mim e
perguntou:
— Qual a razão desse processo? O indivíduo ali — apontou
para o assaltante — é réu ou testemunha? Do que se trata, afinal?
— O processo está sob segredo de Justiça, meu caro. Isso
equivale a secreto para vocês nas Forças Armadas — respondi e
entrei na sala do juiz, deixando o agente com súbita expressão de
espanto.
Ganhamos o processo. A mulher foi condenada pela prática de
adultério, perdeu a guarda dos filhos, o direito à pensão, todas essas
sanções que a lei velha aplicava nesses casos, constando da
sentença a minuciosa circunstância de que se encontrava com o
amante na própria casa, e a ele dera uma cópia da chave da porta
dos fundos. E que o amante disso se servira para, após um assalto a
banco, refugiar-se na residência dela, comprometendo seu marido,
que fora preso juntamente com o meliante, agravando o ultraje moral
sofrido. Uma injúria incomensurável.
Era o que nos interessava. O advogado da mulher apelou. No
Tribunal de Justiça, o problema estava em fazer a ação andar
rapidinho. Consegui. Confirmada a sentença. Votação unânime. Não
houve recurso ou não foi admitido, não me lembro mais. Com a
certidão do acórdão transitado em julgado, Evaristo acabou com o
processo contra seu cliente. Um acórdão do Tribunal de Justiça não
podia ser invalidado pela Justiça Militar, nem pela Criminal. O rapaz
era inocente.
Não sei em que programa humorístico ouvi esta frase
fantasticamente óbvia: o inventor é aquele que inventa.
Minha outra invenção em processo da ditadura foi mais
sensacional ainda. Pelo menos na minha opinião, despida de
qualquer modéstia, que não passa de pudor do orgulho. Claro que
tive incontido orgulho de vencer os militares no caso que vou narrar
e pelo modo como consegui. Aliás, vencer agentes da ditadura era
uma alegria sempre, mesmo porque raramente acontecia.
96
Foi aberto inquérito contra o Prefeito de Santos, José Gomes, e
seu chefe de gabinete, Juarez Bahia, jornalista, meu amigo. Bahia foi
preso juntamente com o vereador Oswaldo Justo, que sofreu
barbaridade naqueles tempos trágicos.
Nesse caso, encontrei solução absolutamente marota. Vejam a
que ponto cheguei!
José Gomes era Vice de Luiz la Scala, Prefeito de Santos eleito.
Morreu antes de tomar posse. José Gomes assumiu depois de uma
briga judicial sobre o direito autônomo do vice, naquela mesma
eleição em que Mário Covas ficou em segundo lugar na votação.
Implantado o regime militar, José Gomes foi destituído do cargo e
processado juntamente com Juarez Bahia, seu chefe de gabinete. O
inquérito contra ambos era uma sacanagem sem tamanho: fotos
tiradas em campo de futebol, ao lado de líderes sindicais tidos como
comunistas. E filmes que o departamento cultural da Prefeitura
recebia dos consulados e projetava para o povão pobre em sessões ao
ar livre nos bairros. Documentários americanos, franceses e — epa!,
olha o crime! — da Tchecoslováquia e da União Soviética. Os
documentos dos autos descreviam as suspeitas que pesavam, todas
malucas, contra os sindicalistas e aquelas sessões públicas de
cinema. E, por haver se deixado fotografar com “essa gente”, o ex-
prefeito foi indiciado em inquérito policial militar. Em algumas fotos,
aparecia o Juarez Bahia.
Eu nem era advogado deles. Fui ao fórum olhar o processo a
pedido do colega jornalista, que estava desesperado com a situação
de ambos. E Juarez era meu amigo, havíamos trabalhado juntos em
A Tribuna.
— Sem procuração? Nem pensar! — disse o escrevente, quando
cheguei ao cartório e pedi para dar uma “olhada” no processo.
Fiz algumas ponderações, inclusive argumentando que
precisava ver, até para decidir se pegaria a causa.
— Este processo é de interesse dos militares. Ninguém mexe
nele. Só o juiz e o promotor, porque ainda está na fase de inquérito
criminal derivado de um IPM (Inquérito Policial Militar).
Os militares faziam o inquérito e mandavam cópias para a
Justiça abrir outro inquérito contra as mesmas pessoas. Em geral, o
IPM fuçava na vida de centenas de pessoas e depois se dividia em
vários inquéritos separados para as pessoas escolhidas pelos
militares para serem condenadas pela Justiça comum. Convém
observar: as pessoas eram escolhidas não apenas para serem
processadas, mas para serem condenadas. E ai se não fossem!
Em Santos, havia um capitão dos Portos chamado Júlio de Sá
Bierrenbach, cujo posto era capitão-de-mar-e-guerra, que deixou o
mar e virou somente de guerra. Prendia todo mundo no maldito
navio presídio Raul Soares, que fazia inveja a qualquer masmorra de
torturas já inventada e ainda por ser.
Um dia, o Juiz da 2ª Vara Criminal de Santos, Antônio Ferreira
Granda, concedeu habeas corpus para dezesseis presos, que
deixaram o navio por volta das 21 horas. Foram colocados na sala
daquele capitão dos Portos, Júlio de Sá Bierrenbach, de quem
ouviram a pergunta sobre se alguém tinha queixas contra o
tratamento recebido.
Não houve nenhuma resposta, pois a vontade de ir para casa
era muito grande, e ai de quem dissesse ter sido maltratado. O
capitão chamou a imprensa, mandou que os fotografassem e
saíssem. Em seguida, tornou para os presos: “Quero comunicar que
vocês estão soltos e que, agora que estão em liberdade, estou dando
nova voz de prisão, pois, se saíram do processo da Aeronáutica,
ainda não enfrentaram o da Marinha. Estou abrindo novo inquérito”.
E deu ordem para que os soldados os conduzissem de volta ao
navio.47

47 Jornal Preto no Branco, da Cooperativa dos Jornalistas de Santos Ltda. (Jornacoop),


em setembro de 1979.
Mas, no caso do ex-prefeito e do meu amigo Juarez Bahia, não
havia a terrível perspectiva de irem para o Raul Soares, que fora
desativado em fins de 1964. Era vergonhoso demais até para a
ditadura.

97
O mundo e os céus haviam intercedido em favor do Prefeito
José Gomes. Todos achavam uma tremenda injustiça o que estavam
fazendo contra ele. A Associação Comercial pediu por escrito aos
militares que a ordem no município não fosse perturbada. O bispo de
Santos mandou ofício, em nome da Igreja Católica, ao comandante
geral da Praça de Santos, General Carlos Buck. Vejam que tempos:
para formular pedido em favor de alguém, a própria Igreja começava
elogiando a ditadura, numa desesperada demonstração de que era
preciso bajular primeiro, para atrever-se a solicitar depois. O ofício
do bispo começava assim:

“Tem-se dito, e é verdade inconteste, que a segunda fase da


revolução vitoriosa, que baniu de modo surpreendente para
nós o perigo do bolchevismo no Brasil, a 2ª fase, repito, é mais
delicada ainda, porque visa repor armas em seu lugar, alijando
elementos nocivos infiltrados, infelizmente em todos os setores
da vida nacional.
Nesse expurgo, que é necessário, há, contudo, o perigo de
punir pessoas inocentes...”48

E aí pedia pelo Prefeito de Santos, garantindo ser ele inocente.


De nada adiantou. Cópia do ofício foi anexada aos autos para
“constar”, mas, na verdade, constituía documento para, surgida a
hipótese, incriminar aqueles que pediram pelo réu. De nada valiam
as piedosas perorações. Como de nada valia a defesa dos advogados.

48 Documento nos autos do inquérito.


Foi por isso que resolvi “inventar” mais uma vez.
Insisti com o escrevente. Uma olhadinha só nos autos do
inquérito. Ninguém vai ficar sabendo. Ele firme: de nada vai lhe
servir, não há tempo de ler tudo.
Conversamos, conversamos, conversamos. Concordou em
mostrar somente as últimas páginas para eu ver em que fase se
encontrava a “investigação”. De início, verifiquei que, na capa, o
inquérito fora aberto contra Arthur Demétrio Barroso e outros, mas,
por cima desse nome, escreveram à mão, com tinta preta, em letras
grossas, o nome de José Gomes e outros. Chamei a atenção do
escrevente para aquela adulteração material. “Isto é uma bagunça!”
disse ele. Gostei.
Abri na última página, e minha experiência de advogado
imediatamente me fez ver a salvação: o último despacho era do
delegado de polícia do DOPS, devolvendo o inquérito a Juízo, para
obter mais prazo, com o carimbo certificando a remessa. E mais
nada. Mostrei para o escrevente: o inquérito saiu do DOPS e
oficialmente ainda não chegou aqui, porque o cartório não carimbou
a entrada. Era o cartório do Segundo Ofício Criminal da Comarca de
Santos.
— Mas assinamos o recibo — disse ele, entendendo bem minha
observação e a que ponto eu queria chegar. — É verdade que o recibo
é coletivo — completou. — Abrange uns vinte ou trinta processos,
que vão e voltam a cada trinta dias. São tantos, e isso ocorre todos
os dias.
— Mas dentro da bagunça — observei.
Conversamos, conversamos, conversamos. Por dever de sigilo
profissional, não conto qual o objeto das novas conversas.
Afinal ele se convenceu, mandou-me ir para a rua e me postar
na calçada sob uma janela, que ele apontou com o queixo:
— Aquela janela. Pode demorar. Tenha paciência.
Agradeci. Sai do fórum e, na rua, fui para debaixo da janela
combinada Fiquei lá. Às vezes, olhava para cima, e nada. Passavam
poucas pessoas por aquele lado. Mas algumas me reconheceram,
cumprimentaram e se foram. Ainda bem que ninguém quis esticar o
papo.
De repente: plaft! Lá de cima caiu, na calçada, um processo,
que eu peguei imediatamente. Alguns transeuntes viram. Com a
maior calma, observei que alguém deixara cair aqueles autos, e eu ia
devolvê-los. Com o processo sob o braço, encaminhei-me
calmamente para porta principal do fórum, dirigi-me a um dos
porteiros e falei qualquer coisa, talvez sobre algum jogo do Santos.
Fiquei por ali alguns minutos, e nada mais normal do que um advo-
gado, carregando um processo, dirigir-se ao estacionamento, entrar
no carro e ir embora.
Guardei os autos em minha casa, em São Paulo, durante todos
os anos de chumbo. Pretendia oferecê-los como presente ao Juarez
Bahia, para que ele mostrasse à família e aos amigos os absurdos da
acusação. Muitas situações de minha vida se fizeram de boas
intenções, mas deixei de realizá-las enquanto havia tempo.
Mário Covas, quando era Governador de São Paulo, telefonou-
me protestando: “Você ainda não veio me ver Governador. Espero
sua visita antes do fim do mandato, ou será preciso que caiam
morros para você vir me ver?”. Memória e carinho. Não fui. A
advocacia atribulada não deixou. Depois, ele adoeceu gravemente.
Não fui visitá-lo, impedido por uma forte covardia. Tudo acabou
quando assisti pela televisão à chuva de rosas que sobre ele caiu no
seu enterro, em Santos.
Com Juarez Bahia, aconteceu a mesma coisa. Queria dar-lhe
os autos do inquérito que furtei do Judiciário. Deixei para depois.
Juarez escreveu um trabalho sobre Patrícia Galvão e, em seguida,
morreu precocemente. Aquele “depois” ficou tarde demais.
O velho processo ficou no meu arquivo também chamado de
morto. É um dos arquivos da ditadura, ainda vivo, que eu posso
abrir sem pedir licença para ninguém, pois, transcorridos mais de
quarenta anos, já se deu o usucapião sobre a coisa móvel, que nós,
juristas, chamamos de prescrição aquisitiva.
A morte do Prefeito eleito e a posse do Vice-Prefeito José
Gomes, como titular de direito próprio e autônomo, foi o caso que
criou a jurisprudência objeto de minha discussão com Mário Covas
pela posse de Sarney, quando Tancredo foi para o hospital. Que sorte
teve o Zuza em não vencer aquela eleição! Do contrário, na capa do
inquérito teriam escrito, em vez de José Gomes, o nome de Mário
Covas.
Mas haveria a mesma janela, por onde os autos seriam
atirados, e eu estaria, do mesmo jeito, na calçada, esperando a
queda do inquérito.
Império ou inquérito, tudo passa e com o tempo vira neblina.
Quando fui Ministro da Justiça, Mario Covas foi várias vezes me
visitar. Longos papos sobre nossa juventude em Santos e sobre tudo
quanto o destino nos aprontou. Mas jamais fui visitá-lo enquanto era
governador. O tempo envolveu-me em mais neblina e quando
despertei estava enxugando lágrimas.

98
Olavo Brás entrou na minha sala. Queria informação sobre o
processo dele. E foi logo dizendo que soube de uma visita estranha
recebida por seus filhos.
— Que visita? — perguntei.
— Parece que foi o juiz em pessoa.
Aquele frio na barriga não é recurso literário. Acontece
realmente. E aconteceu comigo mais uma vez.
— Não é possível. Quem inventou essa história?
— Doutor, tenho que lhe confessar uma coisa. O senhor disse
que o cliente não pode mentir ao advogado. Sou muito grato pelo
senhor haver pego minha causa. Mas estou desesperado para saber
notícias das crianças, saber qualquer coisa. Consegui fazer um
acerto com a empregada. Pago o dobro do salário que ela ganha da
minha ex-mulher. Ela topou. Sempre me telefona, quando há
novidade. Quando não há, informa sobre a saúde das crianças, o que
estão fazendo, se estão indo à escola, o que fizeram no fim de
semana.
— E daí? — perguntei já um pouco agressivo, mas entendendo
que o suborno da empregada era um gesto legítimo de pai
desesperado e saudoso, Preocupado com o dia-a-dia de seus filhos.
— Novidade? Que novidade pode informar a empregada?
— Ela me contou que o juiz esteve lá, conversando com as
crianças — gaguejou.
— Pois não esteve. Ela confundiu. Foi alguém que usou o nome
do juiz, algum assistente social encarregado de investigar a situação
do ambiente familiar em que vivem. Coisas que a Justiça faz
rotineiramente — procurei embrulhá-lo com papel de seda.
— Mas ela garante que era o juiz e que ele se identificou ao
pedir para entrar. E mais: que minha ex-mulher ficou apavorada.
— Sr. Olavo, vou-lhe pedir um favor. Eu cuido do caso. O
senhor cuida da empregada. Mas somente para saber como vão as
crianças. Os demais aspectos do litígio são meus. Não desejo que o
senhor se meta nisso. E fale com sua empregada...
— A empregada é da minha ex-mulher!
— ...pois fale com ela para não comentar mais isso. Ela
entendeu tudo errado. Bico fechado.
— O senhor soube de alguma coisa?
— Sr. Olavo, quando aceito defender um cliente em caso
complicado, como o seu, procuro saber de tudo.
— Mas eu não tenho o direito de ser informado sobre suas
descobertas?
— Tem em parte. Muitas, devo manter em sigilo para o seu
próprio bem.
— Doutor, o meu caso não tem bem algum. Somente males
desabaram para cima de mim até agora.
Percebi que a conversa se encaminhava para o muro das
lamentações. Resolvi dar uma virada brusca:
— Explique-me, então, meu caro cliente, por que, sabendo que
sua ex-mulher o traía, o senhor a perdoou?
Foi um choque. Ele empalideceu.
— Não é bem assim, doutor. Ela realmente teve uns casos, e eu
descobri. Pensei numa solução drástica, na separação judicial
litigiosa, para, inclusive, deixá-la sem a guarda das crianças. Os
advogados que consultei disseram-me que o adultério serviria para
livrar-me do pagamento da pensão para a mulher, mas em geral não
justificaria a perda do direito de guarda, já que em casa ela tinha
vida regular. É isso?
— Mais ou menos. O seu perdão?
— Tenho que admitir que não foi perdão algum, tanto que
acabamos nos desquitando amigavelmente. Na época, ela estava sob
tratamento psiquiátrico. Ela é louca, doutor!
— Isso o senhor também não me contou. Tive que descobrir
por minha conta a doença de sua ex-mulher. Já que o senhor quer
novidade, requeri que fosse ouvida a médica que a tratou, e o juiz
parece que vai deferir. Estou apenas aguardando o despacho dele,
depois da manifestação do advogado dela.
— Desculpe, doutor. O senhor está atento ao meu caso, e eu
aqui atormentando sua paciência.
Despediu-se, depois que lhe disse ter paciência de sobra,
mesmo porque, entre as figuras brasileiras canonizadas, em primeiro
lugar vem a santa paciência. É verdade. Uma das maiores provas a
que foi submetida minha paciência aconteceu quando eu era
Consultor Geral da República, durante o início dos trabalhos da
Assembléia Nacional Constituinte.
Esse caso é de estarrecer e faz parte da história do Brasil, que
pouca gente conhece.

99
Sete e meia da manhã, a empregada me acordou pelo interfone:
— Doutor, aquele deputado está aí novamente.
Era o Deputado Bernardo Cabral, que passara a me assediar
em casa, na primeira hora da manhã, para não correr o risco de ir à
Consultoria Geral da República, no Palácio do Planalto. E de ser
visto. A residência do consultor não se comparava às dos ministros
de Estado, mas estava entre elas na península em que foram
construídas em Brasília e que, por sua destinação, chamou-se
Península dos Ministros. Tinha algum conforto.
O Deputado Bernardo Cabral chegava cedo e, sempre muito
gentil, trazia pão fresco, rosquinhas saídas do forno e outras
iguarias, que valorizavam o café-da-manhã, muito magro no meu
dia-a-dia.
— Você já falou com o Presidente?
— Já, meu deputado. E falei várias vezes.
— E ele?
— Está trabalhando a idéia. Vocês, políticos, devem entender
que não é fácil alinhavar um consenso nesse caso. Confio na
habilidade do Sarney. Tenha Paciência.
Embora aparentando calma (e Cabral é exímio em aparentar
qualquer coisa), ele insistia em seus argumentos de que, entre os
postulantes ao posto, era o único advogado militante, o único que
havia sido presidente da OAB nacional e o único que seria
incondicionalmente fiel ao Presidente da República em qualquer
hipótese. E tome pão fresco!
O cargo disputado pelo deputado era simplesmente o de
Relator da Assembléia Nacional Constituinte.
— Todos os seus sonhos de jurista — dizia ele, repetindo uma
cantilena de todos os dias no café-da-manhã — serão realizados no
texto da futura Constituição. Tudo o que você escrever incorporarei
ao texto, como se fosse meu, e você será, na verdade, o redator da
nova Carta, se eu for o relator.
— Vamos devagar, deputado — dizia eu, agradecido pela oferta
e pelo pão fresco que ele trazia diariamente. — Obrigado pela
confiança, mas esse é um problema político difícil. Somente o
Presidente pode resolver seu pedido. E ainda depende da Assembléia
Constituinte e de suas lideranças.
Essa cena repetiu-se à exaustão. Testou bem minha paciência.
Meus cafés-da-manhã tiveram dias gloriosos de roscas e pão
quentinho na primeira hora. Mas o deputado amazonense não dava
sossego. Muitos líderes políticos resistiam ao nome dele.
Certa vez, passei uma tarde na casa de Toninho Drummond,
que trabalha em Brasília para a TV Globo, e não fiz outra coisa:
telefonei a todos os parlamentares contrários à indicação de
Bernardo Cabral e seduzi muitos com o convite para serem
entrevistados pela televisão. A Globo, como sempre, seduzia ao
máximo. Toninho me ajudou muito.
Quem mais trabalhou, porém, foi Sarney e conseguiu, com sua
habilidade política, neutralizar a costura do Dr. Ulysses Guimarães
em favor de outro candidato. O Senador Fernando Henrique Cardoso,
já conversado pelo próprio Cabral, não ofereceu resistência. Assim,
obteve-se a indicação do Deputado Bernardo Cabral para Relator
Geral da Assembléia Constituinte.
— Você fica responsável pelo trabalho dele — disse-me Sarney,
depois de resolvida a questão.
Concordei com a indicação por dois motivos: pelo seu pedido e
pelo fato de ele ter sido presidente da OAB, pensando em duas
premissas básicas: sua assessoria e uma simbólica homenagem aos
advogados brasileiros.
— Obrigado pela parte que me toca nas duas hipóteses. Creio
que vai dar certo.

100
Começaram-se os trabalhos. O Congresso havia sido eleito sem
que, na campanha eleitoral, alguém debatesse uma idéia sobre nosso
futuro Direito Constitucional. A eleição coincidiu com a dos
governadores. Deputados e senadores foram eleitos dentro da
normalidade política, segundo a influência de seus partidos. E os
debates deram-se em torno dos candidatos ao governo dos estados.
Nenhuma palavra sobre a importância da Constituinte e a escolha
dos delegados que iriam elaborá-la.
A Constituinte começou, demonstrando que nada entendia do
que ia fazer. Primeiro, surgiu uma proposta permitindo à Assembléia,
desde logo, governar por meio de resoluções, em substituição ao
Poder Executivo e também ao Judiciário. Demitiriam e nomeariam
ministros de Estado, membros do Judiciário. Balbúrdia completa.
Queriam seus autores imitar a Assembléia Constituinte da França,
em 1789, que acabou guilhotinando Luís XVI e Maria Antonieta e
que governava o país com atos “constitucionais”. Coisa de malucos!
A proposta foi, é claro, rejeitada. Mas teve 160 votos favoráveis,
o que indicou a presença considerável de analfabetos raivosos
naquele Parlamento. A mim, o que mais espantou foi o fato de o Dr.
Ulysses Guimarães ter colocado em votação essa teratologia, pois a
novidade nada tinha a ver com o processo normativo constitucional e
resultaria, se aprovada, num simples golpe parlamentar de Estado.
Entendi que, submetida à mesa, o Dr. Ulysses deveria mandar para o
arquivo. Mas eu não tinha que dar palpite. Exercia funções no Poder
Executivo e não podia perturbar os trabalhos da soberana e
autônoma assembléia.
E os trabalhos começaram e foram muitos. Deputados e
senadores transformaram-se em produtores de volumosas propostas
de redação da Constituição, algumas excelentes, outras
estapafúrdias; mas o Congresso, transformado em Constituinte, era
uma explosão de fontes de idéias de todos os tipos, em todos os
campos da vida social do país. Espetáculo bonito. Dá gosto ver a
democracia nascendo de milhares de corações entusiasmados,
Propondo como desenhar o Estado de Direito em que ela vai viver,
mesmo na presença de malucos que, afinal, representam uma
pequena parte da nação, mas que existem.
Claro que havia, como sempre houve e haverá, e há cada vez
mais, grupos de parlamentares farejando uma oportunidade
qualquer para tirar alguma vantagem. Um emprego para parente, um
cargo para cabo eleitoral, um lugar qualquer no qual possa mexer
com verbas públicas, fazer negócios, diretoria de estatais. Por isso, os
partidos políticos, quando aderem ao governo, começam a exigir
posições-chave em ministérios e estatais. Mas o que é isso? Para
apoiar soluções na Constituinte? Quanto um parlamentar vai pedir
para votar a favor do direito à vida? Bota para correr. Essa gente não
entra aqui.
Nem todos eram assim. Havia os idealistas.
Na Consultoria da República, dávamos redação técnica e
redigíamos as justificativas de projetos de muitos e muitos
parlamentares que nos solicitavam, ainda que estivéssemos em
desacordo com o mérito do que propunham. Nossa alegria era
colaborar. A ordem de Sarney era atender a todos os que batiam à
nossa porta para esse tipo de ajuda, embora o Congresso tivesse
assessoria igualmente competente.
Chegamos a redigir três modelos de Constituição, com variáveis
em pontos controversos. Um desses modelos, por alcançar maior
aprovação entre nós e os juristas consultados, foi nomeado Luiza
Brunet.
Demos ao Bernardo Cabral toda a colaboração possível.
Direitos individuais, sistema de governo, tributário, Poder Judiciário,
comandos sobre ecologia e meio ambiente. Redigíamos e enviávamos.
Ele agradecia, elogiava, dizia que estava tudo formidável, que seu
relatório com tais elementos seria um sucesso.
Um dia, tivemos um encontro.
— Está havendo muita pressão para que o relatório adote o
sistema parlamentarista de governo — confidenciou-me ele, falando
baixinho, como se fosse proibido tocar no assunto. ,’
— Não pode — disse eu — de maneira alguma! — Por quê?
— Porque, meu caro, a Assembléia Constituinte é derivada, e
os constituintes são representantes do povo. Titular da soberania é o
povo. E, em 1963, em plebiscito, o povo escolheu o sistema
presidencialista. Uma Constituinte derivada não pode mudar a
vontade do povo.
— Derivada? Derivada de quê?
Senti um calafrio. O nosso relator não sabia o que era uma
Constituinte derivada.
— Derivada, Cabral, da Constituição atual. Tanto que sua
convocação foi efetuada por emenda constitucional, que deu ao
Congresso competência para reformar a Constituição mediante
quorum baixo, isto é, maioria absoluta dos votos dos constituintes. O
processo é de reforma, ainda que total, mas reforma, isto é,
respeitando-se as instituições pétreas da atual e a separação dos
poderes. Dê uma lidinha em Pontes de Miranda.
— O Senador Afonso Arinos acha que não. Sustenta que nossa
Constituinte tem liberdade para decidir qualquer coisa.
— Você leu os livros dele sobre Direito Constitucional? —
perguntei.
— Não tive tempo.
Depois descobri que ele não havia lido livro algum de Direito
Constitucional. Mas ele foi gentil:
— Não se preocupe. No relatório, vou incluir o
presidencialismo. Na justificativa, darei destaque ao plebiscito de
1963. Aquele do Jango, não foi?

101

Nossa Assembléia Constituinte tinha mais uma complicação.


Havia sido criada a Comissão de Sistematização, que, como indica o
nome, tinha competência para sistematizar os textos aprovados —
obviamente pelo plenário — com o voto da maioria absoluta, evitar
contradições, comandos conflitantes, redações dúbias. Mas o
Senador Fernando Henrique Cardoso tomou conta da Comissão e
deu-lhe uma competência extraordinária, com base numa quinta
coluna do regimento interno da Constituinte, especialmente redigido
para essa marota finalidade. Os textos eram aprovados antes na
Comissão dele, por maioria absoluta de seus membros, número fácil
de atingir: 47 votos. Depois, no plenário, o texto aprovado na
Comissão somente poderia ser “alterado” pelo voto da maioria
absoluta dos constituintes, isto é, 280 votos. Do contrário, seria tido
como definitivo, para integrar o texto final da nova Carta.
Malandragem das mais evidentes.
Com esse processo, se 279 constituintes fossem contrários a
qualquer dispositivo aprovado pela tal Comissão, de nada adiantaria.
O regimento interno mandava prevalecer o texto que teve os 47 votos
na panelinha de Fernando Henrique Cardoso... e desconsiderar os
279 votos contrários dos constituintes de segunda classe.
Os mineiros costumam dizer que a esperteza, quando é muita,
acaba comendo o dono. Fernando Henrique, inteligente, culto, é um
grande esperto. Tapeia todo o mundo com a maior facilidade. Estava
conduzindo o Brasil a ter uma Constituição cozida no caldo de
espertezas, que não eram mineiras.
Dei uma entrevista e escrevi um artigo para jornal,
denunciando haver no Congresso constituinte de primeira classe e
constituinte de segunda classe. Os de primeira classe aprovavam o
que bem entendiam na Comissão de Sistematização, e os de segunda
classe teriam que reunir a maioria absoluta de seus votos para
eliminar a tentativa de fazê-los engolir goela abaixo a matéria
aprovada por menos de cinqüenta parlamentares.
Fernando Henrique ficou furioso. Foi à tribuna do Senado e
exigiu que eu saísse do Governo. Estava interferindo nos trabalhos
soberanos da intocável Assembléia Nacional Constituinte. Não queria
perder aquela rica “boquinha” de fazer uma Constituição do jeito que
lhe interessava.49

49 Criticou Lula quando esse teve idéia igual a sua, aquela de convocar nova
assembléia constituinte para reforma política, tipo Venezuela.
A imprensa correu para a Consultoria Geral, e um punhado de
repórteres invadiu minha sala. A chatice de sempre, câmaras,
microfones, perguntas ao mesmo tempo, até que se fez silêncio, e
uma repórter indagou em voz alta:
— O Senador Fernando Henrique, da tribuna do Senado,
acabou de pedir sua cabeça!
— Por quê? — indaguei. — O Senador perdeu a dele?
Depois das risadas, tudo acabou em paz.

102
Veio o grande dia: o Deputado Bernardo Cabral avisou-me que
passaria cedinho pela minha casa para mostrar, em primeira mão, a
minuta de seu relatório final, isto é, a “nova Constituição”.
Dispensou seu carro e me convidou a levá-lo no meu para a casa do
General Leônidas, a quem prometera entregar um exemplar do seu
trabalho.
— Espera aí — ponderei eu. — Não tive tempo de ler! Como vou
ao Ministro do Exército avalizar a entrega desta minuta?
— Vamos, vamos, você lê no caminho.
Senti que ele queria minha cumplicidade. Voltei a insistir:
— Por que o Leônidas? Creio que você deve entregar «primeiro
ao presidente.
— Eu prometi. Vamos.
Entramos no carro do Consultor Geral, e lá fui eu lendo, no
trajeto, o exemplar que ele me entregou. De cara, nos direitos
individuais, topei com aquela célebre bobagem de que os direitos dos
homens e mulheres são iguais em tudo, salvo na gestação.
— Por que você não incluiu a menstruação?
— Não brinca! Esse artigo foi muito pensado, porque a
gestação abrange o direito do nascituro.
— E o homem não tem direitos e deveres quanto ao seu filho
nesse estágio?
Dei mais uma folheada e verifiquei que o sistema de governo
era parlamentarista. Redação horrível, embora se saiba que ele não
redigiu nada. O problema é que ele não tem alfabetização suficiente
para distinguir uma redação má de uma redação boa.
— Parlamentarismo, Cabral?! Parlamentarismo?! Você me
disse, me prometeu respeitar o plebiscito de 1963! Que história é
essa?
— Nas disposições transitórias, há um comando para realizar
outro plebiscito.
— Tudo bem. Mas deve ser o contrário. A Assembléia deve
respeitar o presidencialismo e, aí sim, permitir uma nova consulta ao
povo, para saber se ele quer mudar.
Desisti de discutir. Fui folheando a minuta. Nada do que
havíamos sugerido estava lá. Nada de defesa do meio ambiente. E
tudo malfeito e incluído sem sistematização. Não sei como a
comissão do Fernando Henrique deixou aquela coisa passar.
Enquanto o carro rumava em direção à residência do Ministro do
Exército, caí na real. Tinha sido vítima de um grande estelionato
numa questão vital para o país. O experiente advogado de São Paulo,
discípulo de Vicente Ráo, traquejado nos tribunais, batalhador de
tantas causas, estava ali, vencido por um deputado do Amazonas,
que o levara no bico, graças aos pães quentes no café-da-manhã.
Como um político com essas dubiedades pode ter vencido nas
eleições para a OAB, nada menos, nada mais do que Sepúlveda
Pertence, que, além de mineiro, é uma das melhores culturas
jurídicas do nosso país? Eu já estava procurando justificativa para
me perdoar por cair no conto do Cabral, que se faz de vigário e santo
quando lhe convém.
É porque viajou por todos os estados e enganou cada um dos
presidentes seccionais da OAB. Disseram-me depois que, durante a
campanha, ele repetia um discurso em cada capital onde ia pedir
votos:
— A Justiça e a Advocacia — dizia ele — são dois passarinhos:
um, cego do olho direito; e o outro, cego do olho esquerdo. E cada
um deles tem uma única perna: um, a direita; e o outro, a esquerda.
Assim, têm que voar sempre juntos, para enxergar dos dois lados.
Têm que pousar juntos no mesmo galho e se encostar um no outro,
para não cair.
Com essa incrível oratória, ganhou a eleição da OAB, e por
grande maioria. Não me lembro bem, mas acho que Sepúlveda
Pertence teve apenas dois votos.
Se algo pode consolar o candidato derrotado, mais tarde
excelente Ministro do Supremo Tribunal Federal, aquela ridícula
imagem do discurso de Bernardo Cabral foi inspirada em verso de
um compositor jamaicano e cantor de reggae, o rastafári Bob Marley,
falecido em 1981: “somos anjos de uma asa só. Precisamos nos
abraçar para alçar vôo”.
Chegamos à casa do General Leônidas. O Ministro nos
esperava na porta e nos convidou para entrar. Agradeci, disse que
viera apenas trazer o Bernardo e dera uma lida no trabalho às
pressas, no carro, e não gostara. E que deixava o deputado para
conversar com ele, Leônidas, pedindo para depois conseguir um
carro que o levasse.
— O Saulo é muito brincalhão — disse Cabral para o Ministro.
— Está sempre me pondo no fogo. Ele, que me conseguiu o cargo de
relator, agora fica dizendo essas coisas.
Enquanto os dois estavam entrando, eu, do carro, vidro
baixado, gritei para o Leônidas:
— Ministro, a leitura disso tudo tomará tempo. Mas não deixe
de ver que, nas disposições transitórias, tem um comando que
promove Luiz Carlos Prestes a Marechal!
E mandei o carro tocar. Quando Cabral me disse que, nas
transitórias, estava previsto um novo plebiscito, dei uma olhada e
topei com aquela magnífica bobagem: promoção de Prestes a
marechal, cargo que nem sequer existia mais nas Forças Armadas.
Ainda ouvi a voz do Leônidas:
— O quê?

103
Foram tempos agitados aqueles da Constituinte. O país levou o
maior susto, quando Afonso Arinos, Senador pelo Rio de Janeiro e
inegavelmente um grande jurista, fez um discurso na Assembléia,
sustentando que a Constituinte tinha liberdade absoluta para alterar
as instituições, sem nenhuma vinculação jurídica com o passado ou
com o Direito Constitucional, e que as limitações impostas à
Constituinte derivada eram velharias na doutrina.
Em abono de sua tese, invocou George Burdeau, o maior
cientista político e constitucionalista francês, reverenciado pelos
estudiosos do mundo inteiro, que, diante da proibição constitucional
de abolir a República na França, criou a tese de que o poder
constituinte de um dia não tem nenhum título para limitar o poder
constituinte do futuro. Com isso, a Comissão de Sistematização
aprovou o parlamentarismo, derrotando a emenda presidencialista,
apresentada por Vivaldo Barbosa, por 57 votos a 36. O querido
Professor e Senador Afonso Arinos foi aplaudido de pé, durante dois
minutos, depois do resultado que consagrou suas teses: o
parlamentarismo e a inexistência de Constituinte derivada.
Anotem: com 57 votos e um discurso de Afonso Arinos,
Fernando Henrique e Bernardo Cabral quiseram implantar o sistema
parlamentarista no Brasil. Um tem muito talento, o outro não tem,
mas ambos são inegavelmente corajosos em matéria de ciência
constitucional. Tanto quanto um militar aventureiro, os dois
quiseram mudar o sistema de governo por meio de golpe desarmado.
Escrevi um artigo para o Correio Braziliense, demonstrando que
Afonso Arinos, em seus livros de Direito Constitucional, defendeu
tese oposta, isto é, Constituinte derivada não pode alterar o sistema
de governo sem consulta ao povo. Entre o professor e o senador, era
aconselhável prestigiar o professor.
Fui mais cruel com meu amigo. Demonstrei que sua citação de
George Burdeau estava desatualizada e fora um engodo contra a
Comissão de Sistematização, porque o constitucionalista francês
sustentara aquela tese na sétima edição de seu livro (Manuel de Droit
Constitutionnel), mas depois admitiu que estava errado e repudiou
sua própria posição, como se via na décima edição de sua obra, a
qual eu possuía: aquela que ficou valendo para a História. Coloquei-a
à disposição de todos os constituintes, inclusive do Professor Afonso
Arinos.
A consciência jurídica e política do Brasil levantou-se contra a
trapaça da Comissão de Sistematização. Advogados ilustres, juristas
de nomeada e meios de comunicação foram unânimes nas críticas e
censuras à tentativa de golpe. Esse alerta do país pôde ser retratado
em editorial de O Globo, de 31 de outubro de 1987, sob o título
“Usurpação de poderes”, que começa assim:

“Qual a origem do poder constituinte do atual Congresso?


Todos a reconhecem, sem hesitação e sem possibilidade de
controvérsia: está na Emenda Constitucional número 26, de
1985, promulgada pelo Congresso anterior, emenda que dispõe
sobre o processo e a forma de discussão, votação e
promulgação da futura Constituição.
Ora, não se emenda o que não existe. Se se aprovou uma
emenda constitucional, é porque se reconheceu a vigência de
uma Constituição, ressalvada a matéria submetida à revisão,
de pouco valendo proclamá-la mais adiante de espúria e
carente de legitimidade, exceto como farsa de expressão e
recurso retórico.
[...]
O povo não fez uma revolução, geradora de um poder de
fato, inicial, absoluto, ilimitado e incondicionado. O povo
compareceu às eleições, no quadro de um Estado existente e
sob uma ordem jurídica reconhecida. Não deu, pois, mais
legitimidade aos congressistas que a admitida, pelo menos
implicitamente, no titular da Presidência da República, pelo
tempo já estipulado no seu mandato.
Configura-se, assim, uma tentativa de usurpação: valer-se
de um poder derivado, poder de direito, poder constituído e,
conseqüentemente, limitado, para deliberar sobre o que só
caberia ao poder constituinte originário — modificar, por
exemplo, o tempo de mandato do Presidente da República,
recebido já da Constituição cuja vigência se reconheceu.
Sem dispor do poder constituinte originário, os caminhos
do atual congresso Constituinte na discussão do sistema de
governo e de matérias correlatas abrem-se mais sobre a
subversão da ordem jurídica que sobre o fortalecimento das
instituições e da credibilidade do poder político: quando se
prescinde do povo, não há mais crédito possível para o poder
político, fazendo letra morta da condição da
constitucionalidade, o poder constituinte derivado compromete
todas as instituições políticas e lesa o direito do povo à
segurança jurídica.”

O Brasil deve mais essa ao Dr. Roberto Marinho.


Não resta dúvida de que a posição do Senador Afonso Arinos
estimulou os que entendiam ter a Constituinte poderes ilimitados e
absolutos. Meio no sufoco, escrevi um livro em tempo recorde,
citando, em resumo, todos os constitucionalistas modernos do
mundo inteiro, para demonstrar as limitações da Constituinte
derivada. O livro, que teve o título Assembléia Constituinte, foi
publicado pela Editora Alhambra, com um carimbo vermelho na
capa: “O que pode, o que não pode”. E distribuído para todos os
parlamentares daquela época.
Terminei assim:
“Na elaboração de uma Constituição, que é a carta da
nacionalidade e do direito fundamental, todo cidadão tem a
prerrogativa de opinar, e o jurista tem o dever. Unamuno já
advertiu que, em certos momentos históricos, calar é crime.
Creio no Congresso Nacional, na competência e patriotismo
de muitos e muitos deputados federais e senadores. Sem
dúvida, esses homens farão prevalecer nas decisões do plenário
do Congresso Constituinte, recinto onde se exerce a soberania
em nome do povo, o bom senso da sociedade brasileira,
impedindo o predomínio da incapacidade, dos simulacros de
locutórios vazios, do mercado dos conchavos, da praça de
negócios, dos inimigos da liberdade, que sabem servir-se dela
para comprometê-la ou destruí-la.
Assim creio, espero e rezo para que seja. O Brasil não pode
mais sofrer retrocessos institucionais ou patologias
constitucionais, nem a silenciosa e triste psicose da
resignação.”

Bernardo Cabral, tomado de uma ira inculta e feia, fez violento


discurso contra meu livro. E anunciou (vejam que espantoso!) a
publicação de um livro dele em resposta. Indagado pela imprensa
sobre esse discurso, declarei-me feliz por saber que o deputado
amazonense, afinal, tinha lido um livro de Direito Constitucional, o
que já era um bom começo. Quanto ao livro em resposta, estou
esperando até hoje. Nunca escreveu. Creio que prescreveu.

104
— Que cara-de-pau! — exclamou o General Leônidas, quando
atendi ao telefone.
— Quem?
— O Bernardo Cabral! Você acredita que ele...
— Acredito em tudo! — intercalei na conversa.
— ... que ele tentou me convencer...
— A promoção de Prestes a marechal?
— Não! Não! Essa coisa não passa. O posto não existe mais, e
seria impossível conter a oficialidade das três forças, se uma
aberração desse tamanho constasse da Constituição. Seria até
ridículo para o Brasil.
— Do que então ele tentou convencer você?
— Do parlamentarismo. Sabe qual foi a conversa? “Os militares
vão ficar felizes, porque, em 1961, as Forças Armadas exigiram esse
sistema de governo, como condição para dar posse ao Jango
Goulart”. Quis me convencer de que até eu era parlamentarista.
— E você o que disse?
— Isso foi coisa de mais de vinte anos. Se os militares fossem
parlamentaristas, teriam implantado tal sistema de governo durante
o regime de 1964. No poder, até eles respeitaram o plebiscito de
1963, quando o povo escolheu o presidencialismo.
— É certo, mas foi um presidencialismo meio maroto: eleição
indireta pelo Congresso Nacional, candidato do tipo “você pode casar
com quem quiser, desde que seja com a Maria”.
— Vamos discutir isso outra vez? É melhor cuidarmos da
Constituinte, obrigação que nos cabe agora, cabe a todos os
brasileiros, pois a democracia veio para ficar. Deus nos livre de
recaídas. Precisamente por isso, creio eu, e já falamos tanto sobre o
assunto, que a Assembléia Constituinte não pode contrariar a
vontade do povo expressa em plebiscito, ainda que tenha sido em
1963. Afinal, deputados e senadores eleitos pelo povo têm que
respeitar a decisão de seus representados. Qual moral vão ter eles
para falar dos militares, se derem um golpe para implantar o
parlamentarismo?
O papo se esticou um pouco mais. Leônidas é um homem
lúcido, sempre foi, de enorme paixão pelo Brasil, espírito público e
enérgico. Não admite tipos que dizem uma coisa e fazem outra, que
dizem e depois desdizem, que dão a palavra e não cumprem. Enfim,
não tolera tipos como o então Deputado Bernardo Cabral.
— Ele me assegurou que, no projeto de Constituinte, o sistema
de governo seria o presidencialismo. Agora vem com essa conversa de
que o parlamentarismo vai agradar aos militares, invocando o
episódio de 1961, que a nova geração nem lembra como foi nem por
que aconteceu. Cara-de-pau!
Acabamos a conversa, e o telefone tocou novamente. Era o
Presidente me convocando para uma reunião à noite, no Palácio da
Alvorada:
— Seremos somente nós dois — disse Sarney — e eles dois, o
Cabral e o Fernando Henrique.
Prometi estar na exata hora marcada. E pensei comigo: hoje, a
coisa vai ser uma batalha igual à de Tróia. Será pancadaria para
todo lado. Por que pensei na guerra dos gregos e troianos? Primeiro,
pensei nos gregos, que respeitavam e resolviam tudo por plebiscito. E
segundo, por causa do cavalo. O projeto de Bernardo Cabral era
precisamente o famoso cavalo, presente de grego, que ele queria
empurrar para dentro de nossa democracia recém-conquistada. Mas
nós não éramos troianos, nem eles contavam com Aquiles. No
máximo, podiam contar com o Dr. Ulysses, mas mesmo ele não
admitiria a adoção do parlamentarismo pela via maliciosa do
embuste, ou, mais precisamente, da “embusteirice”.

105
A reunião começou com amabilidades, generalidades e, como
diria Guimarães Rosa, com muitas fingidades. Até que Bernardo
Cabral, bem ao seu estilo, abriu a rodada, procurando seduzir
Sarney:
— Presidente, nossa maior preocupação será preservar seu
mandato de seis anos, mantendo o presidencialismo até o final dele.
Pensamos em propor uma disposição transitória, para que o novo
sistema de governo comece após a gestão de Vossa Excelência.
Sarney, sempre muito rápido no raciocínio, como todo
nordestino poeta, retrucou:
— Meu caro deputado, o mandato nem é meu. É do saudoso
Tancredo Neves. Vou cumpri-lo, porque assim me obriga a
Constituição. Não tenho o menor interesse em saber como vocês
pretendem lidar com esse assunto porque não é matéria da nova
Constituição, já que está regulado e fixado na atual. O ponto de
nossa discussão é o sistema parlamentarista que está no seu projeto,
não me importando quando entrará em vigor.
— Mas foi aprovado pela maioria absoluta dos parlamentares
da Comissão de Sistematização — atalhou o Senador Fernando
Henrique.
— Com 59 votos. E o plenário da Constituinte somente poderá
derrubar se conseguir maioria absoluta de 280 parlamentares —
enfiei-me na conversa. — Vão ser precisos 280 votos para rejeitar
aquilo que foi aprovado por 59 constituintes. Isso quer dizer que
existe parlamentar constituinte valendo mais que outros.
— É muito diferente — afirmou Sarney — obrigar a
Constituinte a reunir maioria absoluta para derrubar a proposta que
já chega “aprovada” e a outra hipótese de aprová-la realmente com o
voto da maioria absoluta do plenário.
— Dá na mesma — insistiu Fernando Henrique.
— Não senhor — contestou Sarney. — Se a proposta for a
plenário sem a obrigação de derrubá-la, isto é, para ser aprovada por
maioria absoluta, pode ser que não alcance o quorum e será
considerada rejeitada. Na hipótese de vocês, repito, a proposta já
entra aprovada, e a Assembléia terá que reunir a maioria absoluta
para rejeitá-la. Isso não existe. Corre-se o risco de se decidir o
destino do nosso país numa sexta-feira, quando é baixa a presença
de congressistas em Brasília.
Bernardo Cabral estava encolhido, depois de ter visto que seu
plano de sedução não funcionara. Agora, a conversa exigia
argumentação nova, o que era demasiado para seu exercício
cerebral.
Por ordem de Sarney, expliquei o efeito institucionalmente
vinculante do plebiscito de 1963, quando o povo, consultado, optou
pelo presidencialismo. Expliquei, em detalhes, as limitações de uma
Constituinte derivada, muito diferente de uma Constituinte
originária, que pode tudo e está vinculada ao movimento político da
qual se originou, para criar uma nova ordem jurídica, enquanto a
derivada está subordinada à ordem jurídica já existente e da qual
derivou, para reformar e aperfeiçoar as instituições, e não substituí-
las.
E ouvimos do Senador Fernando Henrique a seguinte e
espantosa frase textual:
— Eu não entendo nada de Direito Constitucional, mas
entendo de política.
Sarney, repentista maranhense, acrescentou:
— Pois eu entendo dos dois assuntos. Pelo Direito
Constitucional, a atual Constituinte não pode alterar o sistema de
governo. E, pela política, não irão conseguir. Tenho amigos no
Congresso Nacional. Vocês não podem impedir-me de acioná-los,
para evitar essa brincadeira de mau gosto que vocês querem fazer
com o Brasil.
Virou-se especialmente para o Fernando Henrique e disse:
— Fernando Henrique, essa proposta que você está fazendo, de
assegurar à Constituinte soberania plena, inclusive para praticar
atos da competência do Poder Executivo e anulá-los, significa que
vamos ter um retrocesso, porque será grande o impasse que vocês
vão criar: um sistema de governo que bagunça até o próprio
parlamentarismo. O Brasil não agüentará tal decisão. O que vocês
querem é desestabilizar o governo atual, sem pensar no Brasil e nas
conseqüências desse gesto. Estão legislando para este mês, e contra
mim, não para o futuro e em favor do Brasil.
— Presidente — disse Fernando Henrique —, não seria ético o
Executivo interferir nos trabalhos soberanos da Assembléia
Constituinte.
— Claro que não haverá interferência do Executivo como Poder
instituído. Estou falando em interferência minha, pessoal, como
brasileiro que tem direito de postular dos constituintes a melhor
Constituição para o nosso país. Agradeço a visita de vocês e espero
que não fiquem agastados conosco.
Os dois saíram com mil sorrisos.

No dia seguinte, surgiu no Congresso a notícia de que a


Constituinte reduziria o mandato de Sarney para quatro anos, como
se o Supremo Tribunal estivesse fechado. Gente doida. A
Constituição fixava em seis anos o mandato do Presidente da
República, e a Constituinte não poderia alterá-lo, por um motivo
muito simples: todos os mandatos, inclusive os dos deputados e
senadores, derivavam da Constituição então vigente, e, portanto,
todas as instituições jurídicas da República eram derivadas, isto é,
constituídas. A própria Constituinte era derivada. Não podia mexer,
na essência, com os outros Poderes, mas apenas disciplinar suas
competências e atribuições, sem golpe de Estado. São questões de
direito muito difíceis de serem entendidas ou ponderadas em
ambiente de paixões políticas, que transformam os parlamentos em
zorra, caricatura da sempre sonhada casa das leis.

106
Mas Sarney comprovou que realmente entendia dos dois
assuntos: de Direito Constitucional e de política. Em uma semana,
conseguiu mudar tudo Provocou a criação de uma poderosa bancada
de constituintes, que passou a ser chamada de Centrão, acabou com
os poderes da Comissão do Senador Fernando Henrique, e Bernardo
Cabral foi defenestrado da relatoria da Constituinte. O novo relator
passou a ser o engenheiro, geólogo e Deputado José Lins, do Ceará,
que nunca me presenteou com um pão fresco.
Até hoje, Bernardo Cabral apresenta-se por aí, em festas e
solenidades, com o título de “Relator da Constituinte”. Cara-de-pau.
Destituído do cargo, não relatou coisa alguma. O Relator da
Constituinte foi aquele deputado cearense que, por sinal, era geólogo.
Entendia de Constituição tanto quanto Cabral, mas era modesto.
Um dos grandes equívocos da Constituinte, que marcou seus
trabalhos, foi desviar a atenção da nação para a discussão do
mandato de quatro anos do presidente da época e, com isso, baixar o
alerta da população para as enormidades e bobagens que saíram em
nossa Constituição. Inclusive essa coisa ridícula, que se propagou
em âmbito mundial, como marca constitucional da estupidez, os
juros de 12% ao ano, ou aquela de garimpeiro e garimpo nos
comandos gerais da ordem econômica, ou os dois tipos de empresas
brasileiras, e até um tribunal em que se podia ser preso e ter direito
a habeas corpus. Fernando Pessoa uma vez disse: “Tudo, menos o
ridículo!”.
Na verdade, eu, que acompanhei de perto esse episódio, disse a
Sarney que seu mandato era de seis anos, que ele não deveria aceitar
nenhuma negociação em torno dele. Se cometessem qualquer
arbitrariedade, era simples: recorria ao Supremo Tribunal Federal, e
evidentemente a decisão não poderia ser outra, senão aquela que
assegurasse o direito institucional de seis anos, que lhe era conferido
pela Constituição Federal, e que o Presidente jurou cumprir no ato
de posse perante o Congresso Nacional.
Aí, Sarney cometeu o erro de achar que, propondo abdicar de
um ano de seu mandato, acabaria com a discussão pelos quatro
anos, que atormentava o país, imprensa, povo e políticos e causava
discussão até nos botequins. O resultado foi desastroso, porque não
somente ele aceitou reduzir um ano de seu mandato como estimulou
seus adversários a prosseguir, agora com maior violência, na
campanha pelos quatro anos. A imprensa, totalmente contrária ao
Presidente, e, sobretudo, os líderes políticos, que estavam de olho na
candidatura à Presidência, como o Dr. Ulysses, agarraram-se a essa
tese, para minar a autoridade presidencial, já fazendo campanha
sucessória. “Se abre mão de um ano, por que não de dois?”
Até hoje os jornalistas, num erro que não orgulha a imprensa
de nosso país, insistem em dizer que o presidente de então lutou
para obter um ano a mais, isto é, um mandato de cinco anos,
quando, na realidade, ele abdicou de um ano de mandato, que era de
seis.
Interessante é que, nessa época, o General Geisel ligou para
Sarney, dizendo quase a mesma coisa que eu havia dito:
— Sarney, não fale em duração de seu mandato. Não aceite
discutir sobre isso. Você foi eleito para seis anos. Se a Constituinte
diminuir o seu mandato, vá ao Supremo, e a decisão que o Tribunal
decretar você cumpre. E não vejo como eles terão outra decisão a
tomar, senão a de assegurar seu direito adquirido de guiar a nação
por seis anos. Essa Constituinte é uma Constituinte derivada. Existe
porque você a convocou por emenda constitucional e, portanto, não
pode diminuir seu mandato.
Fiquei até impressionado, quando Sarney me informou, com os
conhecimentos constitucionais do General Geisel, que estava certo
política e juridicamente.
Uma ironia do destino contra a liderança da esquerda naquela
época. Justamente um general, que havia sido um dos presidentes
da ditadura, sustentou entendimento constitucional perfeito,
inclusive aconselhando recurso ao Supremo Tribunal Federal.
Realmente, os tempos haviam mudado. E só os políticos não
perceberam.
Devo ressaltar que não me conformo e me irrito toda vez que
vejo o ódio com que alguns jornalistas, ignorantes e passionais,
comentam o assunto do mandato e o repetem numa dolosa inversão
da verdade, tentando o impossível: mudar a história do Brasil. E
mais: mudar a história do nosso Direito Constitucional. É muito
atrevimento. A antiga filosofia alertou para um imaginário erro de
Deus: limitou a sabedoria dos homens, mas se esqueceu de limitar-
lhes a ignorância. Além disso, o jornalista politicamente engajado
tem fascínio pelo inverossímil. Goethe já advertia: “Não há nada mais
terrível que a ignorância ativa”.50
A verdade é que a campanha pelos quatro anos foi um
instrumento de luta política para desviar a atenção do país — como
eu disse —, com a tramada intenção de encobrir o que se estava
fazendo na Constituinte. E o que se estava fazendo lá? Uma
Constituição que presumivelmente deveria durar séculos, assegurar
os direitos públicos e privados dos brasileiros desta e das próximas
gerações, organizar a vida institucional do país, de seus tribunais os
sistemas tributários, os modelos de processos legislativos, as
garantias individuais, a configuração da autonomia dos estados e
dos municípios, um mundão de coisas. Era o universo jurídico para
uma nação nova, uma nova República. Que nada! A moçada queria
saber de discutir um ano a mais ou a menos para o mandato do
Presidente da República da época. O resto, mesmo sendo o universo,
que se danasse! Raciocínio tão miúdo, que não pode ser medido
sequer pela nanometria.
O Dr. Ulysses não acompanhava a parte principal da
Constituinte, a elaboração de textos, a coerência de comandos, a
tipificação dos conceitos ideológicos e a formulação dos princípios;
ele apenas desejava conduzi-la e usufruí-la politicamente, saísse o
que saísse daquela correria. Do Direito, dos cuidados com a redação,
das disposições institucionais com redação clara e coerente, nem
pensar. Era trabalho penoso. Um grande líder político, um
descuidado jurista.
Lembro-me de que se preocupou, por exceção, com o direito de
defesa. Ampla? Ótimo! Judicial e administrativa? Muito bom! No
resto, deixou a moçada ir chutando bobagens, como se as

50 Arte e Antiguidade.
instituições fossem o jogo de futebol em clube varzeano fechado ao
bom senso. Tanto assim que, nos últimos meses, seu grande receio
era que a Constituinte não se concluísse no prazo prometido, e então
passou a colocar tudo em votação a toque de caixa, matérias
complexas e não debatidas. No plenário, qualquer que fosse o
assunto, não tomava posição e apenas insistia:
— Vamos votar! Vamos votar!
Foi nesse clima e nessa balbúrdia elaborada a Constituição
atual, e deram um ano a menos ao mandato de Presidente da
República. Tudo bem. Sarney concordou.
Chegaram a dizer que o mandato do Sarney foi prorrogado para
cinco anos. Reagi, claro, pedindo que os matemáticos ou os
professores de português me explicassem como se pode prorrogar de
seis para cinco.
Publicaram insistentemente que, para obter esse resultado,
Sarney foi obrigado a dar concessões de rádio e de televisão. Até
hoje, vinte anos depois desses episódios, não apareceu ninguém para
dizer que votou na Constituinte por receber uma concessão de rádio
ou televisão. Ou que tenha sido apontado como beneficiário de tais
concessões. Ninguém. Podem dizer que estou aqui advogando para
um amigo meu. Claro que defenderia meus amigos todos, qualquer
um deles, de qualquer injustiça. Neste caso, porém, estou
defendendo o Direito Constitucional de meu país, para que se não
diga, no futuro, que, em plena democracia, os brasileiros alteraram
as instituições pela conveniência política do momento. A defesa é da
história do Direito Constitucional do nosso país.
Para que se tenha uma idéia do absurdo dessa acusação,
Sarney deu concessões para setecentas rádios no país inteiro, mas
para rádios locais, abrindo o mercado de rádio municipal,
possibilitando a informação a muitos municípios que, isolados, não
tinham senão o noticiário nacional. Fernando Henrique deu cinco mil
rádios e uma centena de televisões. Ninguém disse que ele o tenha
feito para comprar a reeleição. E as quantidades, quando com-
paradas, são substancialmente diferentes. Fernando Henrique ganha
longe.
No Brasil, como se vê, as coisas não são fáceis. Se tudo pode
ser complicado, para que simplificar? Dona Marly, mulher de Sarney,
pediu-me um dia para deixar de encher a cabeça do José com idéias
jurídicas sobre a duração do mandato. O melhor seria aproveitar os
quatro anos que a Constituinte poderia fixar, fingir que estava
juridicamente certo e ir embora. Ela estava sofrida demais com o
massacre político sobre o marido. O tiroteio em torno da disputa de
poder, naquele momento inaugural da democracia, era insuportável.
Ela tinha razão. Pelo menos para mim, uma das idéias mais
sedutoras de Governo: ir embora. Que Deus tenha a alma do Jânio!
Nada fácil foi a redação final da nossa Constituição. Para fazer
a revisão do texto, convocaram o professor de português Celso
Cunha. Realizou excelente trabalho corrigindo a batelada de erros
dos constituintes. E morreu.

107
Para um descanso nesse longo desvio, volto ao caso do meu
cliente quase-suicida. Rapidinho, rapidinho. Logo retorno a Brasília,
para continuar com os casos da Constituinte, inclusive um ótimo, o
dos juros de 12% ao ano. Acontece que Sinval me telefonou, dizendo
que o laudo judicial fora entregue e que o juiz da causa já
despachara o “digam”. E mandou especificar provas a serem
produzidas em audiência, sem designar data. Juiz traquejado. Quer
antes examinar as provas que venham a ser requeridas, para,
somente depois, deferi-las ou não, e marcar a audiência. Caldo de
galinha.
Minha petição não foi muito longa. Dei ênfase às pausas
comprovadas na gravação após cada pergunta, explorando a
observação dos peritos de que tal procedimento poderia indicar que
as respostas das crianças foram ditadas pela mãe. Afirmei que os
peritos foram muito gentis ao dizerem que “poderiam indicar”.
Escrevi quase gritando, com letras garrafais: as respostas foram
ditadas pela mãe!
Depois de haver escrito bem claramente essa afirmativa na
petição, reli, tornei a ler e cheguei à conclusão de que deveria mantê-
la assim. Não gosto de fazer escândalos nos meus processos e muito
menos de me valer de recursos gráficos para impressionar o juiz,
único leitor, quanto ao argumento. Mas, dessa vez, deixei a frase
bem destacada, letras maiúsculas e em negrito. Queria que o
magistrado, ao lê-la, não a considerasse uma simples alegação, mas
um grito, uma denúncia, um alerta de horror!
E levantei a hipótese de que ela tivera um cúmplice nas
operações de pausa e play do gravador. Estavam muito perfeitas,
sem nenhum indício de imperícia que comumente, nesse tipo de
gravação, ocorre com os amadores. A distância das crianças era
impecavelmente a mesma no momento de gravar as respostas. O
detalhe poderia indicar estarem seguradas pela mãe, enquanto o
cúmplice operava o gravador.
É verdade que, sobre esse detalhe, não tinha eu nenhuma
indicação plausível; mas o arranquei da intuição e do velho costume
de suspeitar da existência de cúmplice nos grandes crimes,
quaisquer que sejam. E do palpite do Gervásio, meu paranormal
preferido. No fundo, estava contando também com a intimidade entre
a Clotilde e as crianças. Na audiência, ela poderia conseguir a
informação. Era, pois, fundamental que as crianças fossem ouvidas.
Especifiquei as provas, depoimento pessoal da autora, ouvida de
testemunhas e das crianças, como vítimas da trama toda.
Nem sequer fui falar com o juiz. A petição foi recebida por um
assistente no cartório. Carimbou a cópia. O processo corria em
segredo de Justiça, e não se pode, nesses casos, incorrer no erro de
protocolar petições, equívoco mais ou menos comum a muitos
advogados sem experiência.
E esperei.

108
Hoje, sem as paixões da época, é preciso reconhecer que
Sarney mantinha um firme compromisso histórico com as
instituições democráticas ainda tênues. Os militares recolheram-se
aos quartéis, mas a boca dos canhões continuava morna. Aqui e ali,
ouvia-se o tilintar de espadas, e alguns discursos de constituintes
causavam mal-estar na tropa recolhida, que considerava tudo aquilo
um tipo de revanchismo, sentimento que perdurava e vai perdurar
por muitos anos. Naquela época, boa parte da tropa queria voltar à
ditadura por entender que o país demonstrava não estar preparado
para a democracia. Uma grande bobagem, mas continha uma séria
ameaça.
Ninguém pode acreditar que posições radicais ou movimentos
políticos vividos pelo país se apagam do dia para a noite. Embora o
mundo tenha mudado, sistemas de governo tenham sido
ultrapassados, até hoje existem monarquistas, e ainda se vê o
movimento de comunistas com foice e martelo. Seus adeptos não
saem de cena, não aceitam ir para os arquivos, e os próprios
arquivos incomodarão por muitos anos as gerações futuras, que
nada têm a ver com o passado em que esses fantasmas viveram.
Há pouco tempo, um soldado, hoje com 87 anos, que foi
segurança de Adolf Hitler, ajudou na produção de um filme sobre o
ditador alemão e deu entrevista considerando-o um homem normal,
afetivo, amável. Pode?
Pensadores marxistas: Kautsky, Bernstein, Rosa Luxemburgo,
Hilferding, Bukharin, Lênin, diante de um mundo moderno entre o
radicalismo de Bush e do islamismo fanático, transformaram-se em
nada. Teóricos que a realidade superveniente reduziu a pó. Há,
ainda, os que sonham com o Estado socialista, como se o Estado
fosse capaz de sobreviver sem cobrar impostos e, portanto, sem a
existência de empresas capitalistas numa sociedade de mercados. A
última grande potência comunista, a China, misturou socialismo
com capitalismo, instalou bolsa de valores em Xangai e baixou uma
lei de defesa da propriedade privada. Cresce 10% ao ano. Mas não
perguntem sobre a miséria de suas populações rurais.
A busca da justiça para as grandes massas tem um caminho
conhecido: o consumo, que possibilita a vida das empresas, a venda
de seus produtos e o pagamento de impostos para sustentar a
burocracia de plantão. A justiça social, com distribuição de renda e
felicidade geral, somente virá com pleno emprego e bons salários. O
homem empregado é um bom consumidor. Pode pagar um médico e
independe do serviço de saúde pública. Esta é a realidade latino-
americana.
Ou buscamos isso, ou ficamos com as multidões de cocaleiros
da Bolívia, a baderna do Equador, um socialismo caricato de um
Hugo Chávez que legisla por decreto habilitante, uma democracia
fisiológica de pagamentos a deputados, com empregos e cargos, ou
mesadas, como acontece no Brasil há muito tempo e que somente
vira escândalo em duas hipóteses: quando há briga entre os
bandidos ou quando algum deles, por incompetência, deixa-se
apanhar.
Com o PT, as duas hipóteses aconteceram. É verdade que os
partidos de esquerda cultivam os ensinamentos de Lênin. Pratica-se
a imoralidade burguesa tendo em vista a conquista do poder ou a
manutenção e ampliação daquilo que a “revolução” conquistou.
Lênin foi influenciado por um russo chamado Sergei Netchaiev
que escreveu o Catecismo Revolucionário, até hoje professado pelas
esquerdas extremistas. Pode-se assassinar pela causa, pode-se
roubar dinheiro privado ou público, trocando o nome da expressão
por “expropriar”. Tudo é forma de combater o patrimonialismo, como
dizem, da burguesia. São anticapitalistas, mas adoram o capital, pois
o catecismo de Netchaiev prega a necessidade de comprar apoios
políticos por meio do velho recurso financeiro do odiado capitalismo.
Talvez seja por isso que o italiano chama a esquerda de sinistra, que
também quer dizer mau agouro. O conhecimento dessas coisas ajuda
o entendimento de muitas outras que acontecem em todos os
tempos.

109
Tudo isso é, porém, discurso inútil e divagação vagarosa. O
problema que nos apavorava nos primeiros dias de liberdade em
1985 estava no subconsciente de cada um: é verdade que estamos
livres?
No Brasil, naquele início de democracia, era preciso ter
cuidado. A imprensa ainda falava em “urutus” os tanques de guerra
recolhidos aos quartéis.
Ministro da Justiça, Paulo Brossard, sob o maior segredo,
convocou uma reunião das lideranças políticas do Congresso, que
representavam cerca de 80% dos constituintes. E transmitiu-lhes a
preocupação com a fixação do mandato em quatro anos, dizendo que
Sarney somente teria dois caminhos: considerar que seu próprio
mandato seria atingido e, nesse caso, preferia renunciar; ou recorrer
ao Supremo Tribunal, para fazer valer o comando da Constituição
vigente. Ambas as soluções seriam traumáticas e inspiravam
cuidado.
Na mesma época em que o Ministro da Justiça tomou essas
providências, eu convidei todos os ministros do Supremo para um
jantar em minha casa, inclusive o Procurador-Geral da República, o
hoje Ministro Sepúlveda Pertence. Reunião plenária, mas
descontraída. Claro que rolaram todos os assuntos relevantes da
Constituinte, debatidos por interlocutores competentes e mestres em
Direito Constitucional. Com aqueles cuidados clássicos de que juiz
não opina sobre casos que possivelmente venha a julgar, os assuntos
institucionais, de interesse do país, mais relevantes, quebram as
reservas pessoais. No cafezinho, depois da sobremesa, tive a certeza
inabalável: submetidos ao Supremo os dois assuntos, mandato do
Presidente da República e sistema de governo, os julgamentos seriam
unânimes: a Constituinte derivada não podia alterar nem um nem
outro.
Pedi a Roberto Cardoso Alves que comentasse com as
lideranças convocadas por Brossard o cardápio do meu jantar e a
opinião dos convidados. Mas nada falei ao Ministro da Justiça,
porque Paulo Brossard era parlamentarista ferrenho, discípulo
antigo e fiel de Raúl Pila. Declarou-se de acordo com a implantação
do parlamentarismo para o futuro governo, preservando-se o sistema
presidencialista enquanto durasse o mandato de Sarney. Com ele,
era difícil discutir. Não tanto por seus inteligentes argumentos, e
mais por sua cativante simpatia. Falava devagar, debulhando sílaba
por sílaba, sotaque gaúcho. Expunha suas idéias educadamente e
com uma força quase hipnótica. Plebiscito de 1963? Convenhamos
que, depois do golpe de 1964, houve ruptura. Tivemos 21 anos de
rompimento constitucional e, a tal ponto, que a Constituinte pode
ser considerada inaugural. Seduzia, mas não estava certo. Caía em
algumas contradições ao defender a idéia de se retornar pura e
simplesmente à Constituição de 1946, esquecendo-se de que aquela
carta adotara o presidencialismo. Mas defendia, lembrando as
posições de Raúl Pila, a adoção do parlamentarismo para o próximo
período de governo. Pura paixão, sem nada de jurídico-institucional.
Era preciso enfrentar esse poderoso raciocínio, mais
substancioso do que as bobagens de Bernardo Cabral. Brossard
tinha prestígio político, além de autoridade jurídica, e estava no
Governo, era o Ministro da Justiça. Fui devagar. Não é bem assim.
Houve ruptura política em 1964, mas a própria ditadura se instalou
sob a declaração solene e cínica: “fica mantida a Constituição de
1946, com as seguintes alterações”. E lá vieram as cacetadas em
cima das liberdades civis, embora inicialmente aplaudidas por boa
parte do povo, que, depois, foi se cansando do engodo. O próprio
Brossard disse um dia: “a revolução divorciou-se da honra”. Nunca
fui adepto de designar o movimento militar como “revolução”,
porquanto, na essência, foi um golpe bem à maneira dos militares
brasileiros: golpe “legal”, segundo seus curiosos hermeneutas.
Quebra-se a legalidade dentro da lei. Jabuticaba. Só dá no Brasil ou,
talvez, no Havaí, como susto encaroçado.
De qualquer forma, mantiveram a Constituição, com o estrago
das emendas dos atos institucionais, até que o povo, em campanha
maravilhosa, começou a lutar por liberdade, pedindo o quê? Eleições
diretas para Presidente da República. Isso significava alteração da
Constituição por emenda (a primeira foi rejeitada) e sistema
presidencialista de governo, pois, no parlamentarismo, a eleição do
Presidente da República é indireta, tal como constou da emenda
proposta por Bernardo Cabral e da mais antiga, proposta por Raúl
Pila.
Logo, a idéia de parlamentarismo para depois do mandato do
atual Presidente era, igualmente, uma grande tapeação institucional.
Não se tratava do mandato do Sarney, nem ele estava interessado
nisso, mas, sim, do sistema de governo para o resto dos tempos.
Além do plebiscito de 1963, e de ser a Constituinte derivada da
Constituição em vigor — razões muito sérias —, o povo rompera com
a ditadura, pedindo “diretas já”. Diretas para quê? Para eleição de
Presidente da República, logo, para o presidencialismo. Tancredo e
Sarney foram eleitos pela Constituição então vigente. Assumindo o
governo, pelo trágico e até hoje sofrido drama de Tancredo, Sarney
convocou a Constituinte por emenda constitucional. Emenda do
quê? Emenda da Constituição em vigor.
Sem qualquer tipo de paixão política, o jurista isento teria que
reconhecer uma inafastável verdade institucional: o povo foi
pressionando Executivo e Congresso e, aos poucos, obtendo as
reformas na então vigente Carta da República, até chegar à
convocação da Constituinte, a qual, portanto, era derivada daquela
emenda e tinha poderes de reforma, sem a menor legitimidade para
alterar o sistema de governo. Eu estava certo, tanto que, em novo
plebiscito, o povo pronunciou-se mais uma vez em favor do
presidencialismo. A solução contrária teria violentado a vontade
popular e o Estado de Direito. Seria um papelão, além de
comprometer nossa seriedade perante o mundo, dando razão à frase
atribuída a De Gaulle.51
Insisto nessa observação, para deixar meu testemunho de um
dos mais importantes momentos da História do Brasil moderno, isto
é, da época em que foi elaborada a Constituição que nos rege hoje.
Os parlamentaristas brasileiros, com Fernando Henrique Cardoso à
frente, tentaram um golpe parlamentar de Estado, evitado pelo bom
senso de Sarney. Esse é o verdadeiro motivo do ódio contra o
maranhense. O parlamentarismo foi banido do projeto de
Constituição. O golpe foi abortado. Imaginem a desgraça para o país
se fosse adotado o parlamentarismo, com a qualidade dos
parlamentares que temos hoje. Já pensaram em um Severino
Cavalcanti como Primeiro-Ministro e Chefe do Governo?
Frustrada a tentativa de golpe, ficaram, depois, discutindo a
bobagem dos quatro anos de mandato. A mentira não é odiosa em si
mesma, mas porque se acaba por acreditar nela.52 Sempre entendi
que a mentira dolosa é uma falsificação da alma.
Itamar Bopp, ilustre genealogista e historiador, deixou-nos a
lição: “A História poderá ser esquecida durante algum tempo, porém
nunca será apagada”.

110
Não foi possível, porém, melhorar o texto todo do projeto da
Constituição. Uma Constituinte sempre se transforma numa panela
de tensões, e os políticos brasileiros, quando redigem texto de lei
51 “O Brasil não é um país sério”.
52 Marcel Arland, O caminho escuro, 1899.
constitucional, têm a mania de elaborar coisas parecidas com
estatutos de clube recreativo. Incluem detalhes, miudezas,
competências de diretor artístico, de diretor esportivo, de tesoureiro,
acabam embaralhando regras que se entrelaçam e se contradizem,
algumas ridículas, outras ousadas, mas quase todas frutos de
irrefletidos embates ideológicos mal digeridos. Essas extravagâncias
alucinam o legislador ordinário, para não dizer do enlouquecimento
que provocam nos intérpretes e nos hermeneutas.
Conseguiu-se, contudo, eliminar a gestação da igualdade de
direito entre homens e mulheres, melhorar as garantias
fundamentais, o capítulo do meio ambiente, o da família. Criou-se a
Advocacia da União, a proteção ao deficiente físico. Acabou-se com a
discriminação entre os filhos. Mas a ordem econômica ficou com
aquelas trapalhadas de empresa nacional e empresa brasileira,
mantido o direito de garimpeiro nos comandos que deveriam ser
apenas gerais para o futuro legislador comum. Permaneceu até o
artigo admitindo que tribunal pudesse ser paciente em habeas
corpus e, portanto, réu e preso. Alguns até que mereciam.
E restou o pior. Os constituintes, quando não se entendiam ou
não entendiam bem o assunto que debatiam, pegaram a mania de
mandar a matéria para lei complementar ou lei ordinária. A
Constituição foi promulgada, mas para funcionar inteiramente
dependia de 41 leis complementares e 285 leis ordinárias a serem
editadas pelo Congresso.
Até hoje não foram elaboradas todas.

111
Vamos deixar tudo isso de lado e passar a uma questão mais
saborosa.
No artigo 192, quando tratou do sistema financeiro nacional, a
Constituinte, no parágrafo terceiro, fixou o máximo dos juros reais
em 12% ao ano, emenda do então Deputado Fernando Gasparian,
fortemente apoiada pelo Senador Fernando Henrique. Fernando
Gasparian era um idealista, puro, ingênuo. Achava que podia
resolver tudo por decreto e norma jurídica. Tenho saudades dele.
Inflação ameaçando o país por todos os lados. Os planos
econômicos não davam certo, porque não cuidavam da disciplina
fiscal dos três níveis de governo: federal, estadual e municipal. A
moçada gastava muito mais do que arrecadava. Não havia
tabelamento que segurasse. Nem política cambial que, sozinha,
pudesse dar conta da gastança interna.
Dia 4 de outubro, fim de tarde. No dia seguinte, seria
promulgada a Constituição de 1988. Enfim, a democracia por
escrito, com muitos erros, mas conseguimos! Eu era Consultor Geral
da República e, como brasileiro, estava feliz. O telefone tocou. O
Presidente Sarney me chamou. Reunião no gabinete, que estava
lotado. Maílson da Nóbrega, o finado Roberto Cardoso Alves e muitas
outras autoridades, inclusive as monetárias, entre as quais o
presidente do Banco Central, que deveria usar babador. Um imbecil
enciclopédico.
Assunto: o art. 192 da Constituição (sistema financeiro), que,
segundo alguns, entraria em vigor “na data da promulgação”, e,
segundo outros, dependia de lei complementar. A ameaça maior era
o § 3º, que fixava os juros reais em 12% ao ano, coisa do Fernando
Gasparian, que, num momento de Padre Vieira e inspirado pelo
constituinte Fernando Henrique Cardoso (Comissão de
Sistematização, lembram-se?), teve a idéia de fixar os juros no texto
constitucional, único na história da humanidade e do dinheiro. Mas
nem um nem outro sabia o que era juro real, nem a diferença de juro
nominal. Muita discussão no gabinete. “O sistema vai quebrar!”;
“Como não cuidaram disso antes?!”; “O texto era um inciso do artigo
e, de repente, virou parágrafo!”; “Vai entrar em vigor?”; “Houve
sabotagem!”.
Resumindo: sobrou para mim. Sugeri elaborar um parecer
jurídico que, aprovado pelo Presidente, vincularia o Banco Central, e
esse baixaria ato, obrigando o mercado a esperar a lei complementar
prevista naquele artigo. As pessoas ficaram aliviadas e se foram.
Lembrei-me de que, por ser feriado o dia da promulgação da cidadã,
havia dispensado meu pessoal, que trabalhara exaustivamente
durante meses e meses na assessoria dos constituintes. Mereciam
um fim de semana prolongado antes da enorme legislação
complementar e de concreção, que a Constituição nasceu pedindo.
Tudo bem, mas eu estava sozinho, sem sequer um assistente para
pesquisar alguns dados na biblioteca da Consultoria mal iluminada,
mas não mal-assombrada.
Peguei uns livros. Ia trabalhar em casa. Então me lembrei do
lançamento do livro do Carlos Chagas. Gostava muito dele e fui lá.
Pronto! Passava da meia-noite quando comecei a trabalhar. O
parecer ficou pronto ao amanhecer. Podia ser título de filme. E o
Diário Oficial rodou no dia 6 uma edição especial com a nova
Constituição e uma normal, mais modesta, com o meu parecer,
dizendo que o art. 192 não entrava em vigor.
Lembro que estudei tudo sobre juros aqui e nos outros países e
em outras épocas. Passei até por Dom Sebastião em Portugal, o rei
menino, que baixou uma ordem régia proibindo cobrar dinheiro
sobre o dinheiro. Creio ter sido por isso que os mouros o mataram
em Alcácer Quibir.

112
A imprensa atirou de todos os lados. Confundiu tudo e
baralhou mais o debate. Diante de palavras como anatocismo,
aumentaram as vendas de dicionários. Mas um aspecto curioso da
discussão sobre o que entraria ou não em vigor deu-se na semana
seguinte, no Piantela, restaurante de Brasília, onde fui almoçar e
encontrei o então Senador Fernando Henrique Cardoso. Ele me
questionou:
— Você pensa que vai impedir a vigência da Constituição com
um simples parecer jurídico?
— Penso. E já está suspensa.
E o Supremo Tribunal pensou a mesma coisa. Quando
atacaram meu simples parecer jurídico com uma Adin (ação direta de
inconstitucionalidade, hoje mudou de sigla para ADI), acabou a
festa. Além de dizer que não entrava em vigor, o STF ainda declarou
que a regulamentação legal de todos os comandos do art. 192 teria
que ser feita por meio de uma única lei complementar. Uma só.
Assim estava na Constituição, escrito pelos dois Fernandos, o finado
Gasparian e o Henrique Cardoso.
Com suas ironias caprichosas, o destino fez um terceiro
Fernando, o Collor, ser defenestrado do poder, e o professor
Fernando Henrique eleger-se Presidente da República na vaga do
xará, depois do Plano Real, de Itamar Franco, no qual Pérsio Arida
afinal acertou.
E, na sua política monetária, Fernando Henrique foi quem
mais usou os juros como ferramenta. Criou o COPOM, com viés para
cima, viés para baixo (Que palavra horrível essa tal de viés! É por
demais oblíqua!). Já pensaram: convocar uma Constituinte para
baixar ou levantar meio ponto dos juros, ou para declarar que o mês
é de viés para cima ou para baixo?
Quando estudei o assunto, verifiquei ser uma grande bobagem,
além de fantástico erro técnico, a Constituição fixar juros no sistema
capitalista, ou tabelar o preço do chuchu, ou dizer que uma dúzia de
abobrinhas tem que ter exatamente doze pequenas abóboras,
detalhes e miudezas que nossos constituintes adoravam.
Meu parecer jurídico teve eficácia durante quinze anos,
mantendo suspensa a vigência da Constituição naquele ponto.
Somente em 2004, já no Governo Lula, o artigo 192 da Constituição
foi reformado, e aqueles 12% de teto para os juros foram revogados.
Delfim Neto, quando contou essa história em seus artigos de
jornal, me chamou de “São Saulo”. Que eu saiba, foi o mais custo
processo de canonização da história dos santos. Somente quinze
anos.
Antes que me esqueça: Fernando Henrique transferiu o cargo a
seu sucessor com juros em 27% ao ano na Selic, taxa básica de
juros.
Não me orgulho de haver derrubado aquela bobagem da
Constituição, a taxa real de juros de 12% ao ano. Fiz o que era certo
para o jurista. Constituição não é lugar para se fixarem juros. Mas o
Brasil prossegue com essa mania monetarista de combater inflação
por intermédio de juros altos. Uma tragédia para a atividade
produtiva. Creio que há vinte anos temos os juros mais altos do
mundo. E os economistas não propõem a alteração do modelo. Ficam
por aí repetindo justificativas idiotas como parrot fashion, para usar
expressão inglesa. Eles adoram. Além disso, ainda ostentamos a
maior carga tributária dos países emergentes, nova designação para
subdesenvolvidos. Fácil, não?
Nunca mais me encontrei com Fernando Henrique no Piantela.
Mas lhe reconheço um mérito: em seu governo, promoveu reformas
constitucionais, corrigindo os erros mais grosseiros da Constituição,
que foram por ele defendidos na Constituinte. O destino sempre
cuida um pouco de ironias, pois, com todas as reformas promovidas
ao longo de seus oito anos de governo, inclusive a própria reeleição,
Fernando Henrique nunca mais nem conversou sobre
parlamentarismo. É possível que em particular ainda converse sobre
esse regime político com Bolívar Lamounier, um sonhador puro que
acredita piamente no sistema, sem explicar como isso seria possível
com os nossos atuais partidos políticos, quase todos com elevado
número de parlamentares de duvidosos costumes.
Eu continuei proferindo pareceres jurídicos. Afinal é disso que
vivo. E de minha advocacia, graças a Santo Ivo.

113
Reunião no escritório. Convoquei todos os advogados e
advogadas para debatermos um fato novo e de suma importância. À
frente, com ares de generala vitoriosa, vinha a Clotilde, brandindo na
mão uma fita cassete. Mais uma boa notícia. Maré favorável.
— Chefe, consegui!
— Para isso estamos reunidos aqui. Queremos saber o que
você conseguiu.
— Uma gravação com as crianças. Não adianta descrever ou
contar o que é. Vamos ouvi-la. É auto-explicativa.
Colocou a fita no aparelho e apertou a tecla play.
— E somente me respondam a verdade. Não quero saber de
mentirinha. Vocês gostam do papai? — a voz era da Clotilde, e a
gravação estava com excelente qualidade. Inclusive, antes da
pergunta, ela gravou a data.
— Eu gosto — respondeu a menina.
— Eu também gosto — acrescentou o garoto.
— Estão com saudade do papai?
— Estou.
— Estou.
A gravação seguia ótima, sem pausa, áudio corrido, inclusive o
som ambiente entre uma fala e outra. Imaginei o gráfico que se
desenharia no exame técnico: as ondas senoidais não teriam
interrupção.
— O papai tem namorada?
— Não.
— Vocês nunca viram a namorada do papai?
— O papai não tem namorada.
— Quando vocês dormiam com o papai, no fim de semana, ele
não dormia com namorada?
— O papai não tem namorada, tia Clô.
— O papai já fez coisa feia com vocês?
— Que coisa feia?
— Assim, por exemplo... — a Clotilde gaguejou, ficou alguns
segundos sem saber explicar a própria pergunta, mas continuou:
— ...por exemplo, tirar a roupa para deitar com ele.
— Não — respondeu a menina sem titubear.
— Só para pôr o pijama — acrescentou o menino.
— Então vocês gostam muito do papai?
— Muito, muito, muito.
Stop. A gravação terminou aí. Caí de costas sobre o espaldar de
minha poltrona.
— Como você conseguiu isso, criatura de Deus?
— Com jeitinho. E inspirada na visita do juiz. Já que elas
falaram nas perguntas que o ilustre magistrado havia feito,
aproveitei o embalo para fazer perguntas semelhantes. Tirei o
gravador de minha bolsa. Elas estavam familiarizadas com o
aparelho.
— “Você vai gravar o quê?” — me perguntaram.
— Eu queria ver como fica a voz de vocês gravada. Se vocês não
quiserem, não gravamos, e pronto. Ameacei guardar o equipamento,
e elas próprias disseram: “Pode gravar!”. Por isso, comecei dizendo
que somente queria a verdade. Quase provoquei o juramento dos
filmes americanos: “A verdade, somente a verdade, nada mais que a
verdade”.
— Excelente. Foi um excelente trabalho. Mas não vou usar isso
no processo.
— Chefe! Não é possível! Temos uma gravação legítima, em que
as crianças desmentem as afirmações pornográficas existentes na
gravação feita pela mãe. O pai não tem namorada. A história de fazer
sexo na frente das crianças está aí totalmente destruída. E mais:
resisti à tentação de fazer pergunta sobre a visita do juiz. Mereço o
prêmio Nobel da prudência.
— Calma. Não vou correr risco algum. Já saiu o laudo pericial,
e já envenenamos o processo com as cabíveis suspeitas, quase
certeza. Vamos aos poucos. A prova da acusação tem que ser
demolida devagar. Com aquelas benditas pausas depois das
perguntas, vou insistir na tese, isto é, na verdade em que creio
firmemente, de que as respostas foram induzidas, foram ditadas pela
mãe. Temos o mistério da inspeção judicial. Até hoje o juiz está
calado.
— Chefe, o juiz está guardando o resultado da inspeção para a
sentença. Ele não vai tocar no assunto antes das provas finais,
inclusive para compará-las com a que ele colheu pessoalmente —
observou um dos meus companheiros de escritório, Maércio de
Abreu Sampaio.
— Mas há algo nesta história que me intriga — observei. — O
juiz fez a inspeção, deve ter se convencido, sem dúvida, da falsidade
da prova, da loucura da mulher. Tanto que deferiu a intimação da
psiquiatra, para depor fora de audiência. A data está marcada.
Vamos ouvir a médica. E, com tudo isso, não revogou a liminar que
suspendeu o direito de visita do nosso cliente.
— O senhor requereu a revogação? — perguntou Maércio.
— Não — respondi seco.
— Ele está agindo com extremo cuidado — comentou outra de
minhas companheiras de escritório, a Doutora Elizabeth Ferreira de
Souza, advogada extremamente hábil. — Não seria este o momento
de revogar a liminar, pois estaria antecipando a decisão de mérito, e
o advogado da mulher poderia recorrer. A fita seria ouvida no
tribunal. Pode ser um desastre antes de uma prova mais conclusiva
sobre as circunstâncias fáticas em que a gravação foi realizada.
Ela não abria mão do vocabulário técnico.
— Correto. Tudo muito correto. Mas, no despacho que
revogasse a liminar, o juiz poderia fundamentá-lo com suas
convicções pessoais resultantes da visita às crianças. A palavra do
juiz faz fé pública, mesmo sem auto que registrasse a inspeção
direta. Mas vocês têm razão. Ele deve estar esperando completar-se a
instrução com todas as provas. Tanto que vai ouvir a psiquiatra.
Ademais, eu mesmo tive a ingenuidade de dizer a ele que o meu
cliente desistiu de suicidar-se.
— Um momento, meu chefe — insistiu a Doutora Elizabeth
Ferreira de Souza. — Vocês estão debatendo essa inspeção judicial
sem atentar para um detalhe importante: o juiz não a realizou
formalmente. Foi uma visita pessoal. Pelo Código de Processo Civil, a
inspeção está sujeita a ritos legais bem definidos. O juiz pode
dispensar peritos, mas as partes têm direito, a lei diz “sempre”, de
assistir à inspeção, prestando esclarecimentos e fazendo observações
que reputem de interesse para a causa. É o que está escrito no art.
442, parágrafo único, do Código de Processo Civil.
— E mais — acrescentou Maércio Sampaio —, realizada a
inspeção direta, o juiz, sob pena de nulidade, mandará lavrar auto
circunstanciado, mencionando nele tudo quanto for útil ao
julgamento da causa. Nada disso foi obedecido. Essa inspeção está
muito misteriosa.
— Vocês não deixam passar nada! — observei, sorrindo para os
meus companheiros de escritório. — Creio, porém, que o comando do
art. 440 do CPC não está necessariamente condicionado aos
procedimentos previstos nos artigos seguintes. Abre ao juiz amplo
arbítrio para proceder como entender melhor em cada caso. E,
conforme o problema, fazer o que foi feito: não avisar ninguém, ir
pessoalmente e não mandar lavrar auto algum. Daí o silêncio dele
sobre a inspeção que fez. A meu ver, é válido para a formação de
convicção pessoal. Dito tudo isso, não vamos juntar a gravação
realizada pela Clotilde, embora esta prova demonstre que estamos no
caminho absolutamente certo.
Os companheiros de escritório sorriram, mas não concordaram
com minha decisão contrária à juntada da fita gravada pela Clotilde.
Demonstraram-se desapontados comigo. Tinham uma prova que
consideravam esmagadora, mas que, para mim, ia tumultuar a
instrução antes da hora. Haveria uma oportunidade para usar a
nova gravação, mas isso se nenhum dos meus planos desse certo.
Seria in extremis.
— Façam várias cópias dessa fita, guardem em lugares
diferentes, e a original, no cofre do escritório. E mais uma coisa: não
digam nada ao cliente. Quero absoluto sigilo.
— Chefe, o senhor manda. Mas creio que voltamos ao tempo da
ditadura. E o senhor está agindo como se ainda advogasse nas
auditorias de Guerra — disse Maércio Sampaio, que nós
chamávamos de Maercinho e que era, além de competente, um
tremendo gozador.
— E tem outro detalhe mais importante ainda, antes que vocês
percam tempo me acusando de arbitrário. Precisamos esperar o
resultado dessa misteriosa visita feita pelo juiz, que ninguém está
sabendo, nem o escrivão, nem o advogado da mulher, com quem
falei, e, oficialmente, nem nós também. E temos que descobrir quem
foi a pessoa que acompanhou o juiz naquela inspeção, pois o
escrivão da vara assegura que nenhum servidor foi convocado.
— Foi o Curador de Família que funciona naquela vara —
informou vitorioso o Dr. Nerval Ferreira Braga.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Como você ficou sabendo disso?
— Simples: sou policial.
— E o escrivão não sabe? — perguntei.
— Ninguém sabe — respondeu Nerval. — Os dois estão
guardando absoluto segredo.
— Além de ser policial, como você conseguiu a informação, se
ninguém sabe, nem o escrivão?
— Chefe, não desdenhe de minha teimosia e persistência.
Estou no encalço da mulher. Ela se apavorou com a visita do juiz e
com as perguntas que ele fez às crianças. Desesperada, falou com o
advogado dela, que mentiu quando conversou com você, negando a
diligência. Mas ela cometeu um erro fatal: falou com uma de suas
amigas e informou o nome dos dois.
— Pelo amor de Deus, não me diga que você está grampeando o
telefone da mulher!
— Não, chefe, jamais faria isso sem ordem judicial e sem avisá-
lo. Não estamos fazendo grampo algum. Nem no telefone dela, nem
do advogado, nem das amigas. Mas tenho um amigo da amiga, que
consegue saber tudo deste caso, a meu pedido, nas conversas do
Clubinho, onde se reúnem literatos, escritores e poetas.
— A amiga freqüenta o Clubinho?
— É escritora. Num dia qualquer, serei capaz de trazê-la ao
escritório para vocês conversarem sobre poesia...
— Não, obrigado. Vamos parar por aí! Estou feliz com os
resultados do trabalho de vocês. Obrigado a todos.
— E a fita da Clotilde, fica no cofre?
— Fica. Além do mais, a Clotilde não conseguiu nada das
crianças sobre o cúmplice na gravação. Temos que esperar a
audiência.
— Cúmplice? Que cúmplice? — perguntou a Clotilde
espantada.
— A gravação das crianças acusando o pai. Foi feita com um
cúmplice. E você está passando batida nesse seu esforço em
arrancar informações dos garotos.
— Eu não sabia! — disse ela bem chateada.
— Pois eu sabia. Fiquei quieto para ver se você conseguia
arrancar a informação das crianças. Não conseguiu. Por isso, essa
sua gravação vai para o cofre.
Nerval sorriu. Tentara prestigiar a colega, quando insistiu
comigo para aproveitar a gravação. Mas ele conhecia o meu jeito de
trabalhar. Decidida uma questão, dificilmente eu voltava atrás, a não
ser por uma razão muito forte. Uma vez, no tempo bravo da ditadura,
ele entrou na minha sala e me comunicou:
— O Dr. João Gomes Martins, juiz da Sétima Vara da Justiça
Federal, quer urgentemente falar com você. Perguntou-me se pode ir
à sua casa. É urgente e assunto sigiloso. Não me disse do que se
trata. Você o recebe na Chácara Flora?

114
Minha casa era lá, na Chácara Flora, onde, nos fins de
semana, meus amigos se reuniam para jogar sinuca. Um deles era o
Nerval. Sydney de Mori, também delegado de polícia. Carne Frita.
Miguel Nassif, cardiologista, Reynaldo Ramalho, meu velho amigo.
Foi ali, em torno da mesa de sinuca, enquanto um de nós procurava
encaçapar a bola sete, que os dois delegados me contaram o acerto
do Prestes com o DOPS, no caso das cadernetas. E disseram que o
delegado do DOPS era colega deles, Dr. Boncristiano, mais um outro,
cujo nome não lembro.
Minha turma de sinuca além do lazer deu-me muitas alegrias e
várias soluções de problemas difíceis. Todos os anos, eu tinha uma
enorme dor de cabeça com o Roberto Carlos, sempre vítima de
atrapalhadas em suas finanças bagunçadas por seus
administradores escolhidos no meio artístico. Um dia, resolvi pedir
para Reynaldo Ramalho, que trabalhava na Volkswagen, para aceitar
ser uma espécie de gerente geral do Roberto.
— Não entendo nada de música — disse ele meio espantado.
— Basta entender de honestidade. Quero que você tome conta
do dinheiro do Roberto, não deixe ninguém passar a mão naquilo
que ele ganha com tanto sacrifício e organize sua contabilidade, vida
tributária, gastos da família. Evite processos judiciais provocados
pela bagunça, os fiscais e os criminais.
Roberto Carlos nunca mais teve dor de cabeça. Nem eu.
Reynaldo Ramalho, economista competente e de total honestidade,
passou a gerenciar os negócios do nosso querido cantor para
tranqüilidade geral há mais de vinte anos. A Volkswagen perdeu um
grande funcionário.

Mas eu tinha que responder à pergunta do Dr. Nerval sobre o


juiz federal que queria me visitar:
— Tudo bem. Pode dizer ao Dr. João Gomes que eu o recebo
em casa, com muito prazer.
João Gomes Martins era uma pessoa amável, homem bom,
gostava de literatura. Usava barba à maneira antiga, tipo
Washington Luís, havia sido constituinte em 1946, democrata e
idealista, temperamento calmo, apaixonado pela mulher, Dona Gina.
Chegou a ser candidato a Vice-Governador de São Paulo, na chapa
de Prestes Maia. João Gomes e Dona Gina formavam um casal
maravilhoso, e, para a minha idade na época, um par de velhinhos
muito simpáticos.
Quando João Gomes era diretor do fórum da Justiça Federal,
passou por um momento que considerou de pânico. Chamou-me
para ajudar. Um juiz federal daquela leva nomeada pelo então
Ministro da Justiça, Gama e Silva, despachando um mandado de
segurança, em que o impetrante requereu a ouvida da autoridade
coatora sob pena de confessa, deferiu o requerimento e marcou dia
para audiência. Uma barbaridade. Erro colossal, que, certamente,
engrossaria o anedotário forense do Brasil. João Gomes não queria
que isso acontecesse na Justiça Federal, sobretudo quando ele era o
diretor do fórum.
— Não tem jeito — disse eu, com o processo na minha frente,
depois de ter lido o despacho. — A autoridade coatora vai recorrer e,
no caso, cabe um mandado de segurança direto contra o despacho,
tal a monstruosidade do erro jurídico.
— Posso chamar o juiz? Ele respeita muito você.
— Pode, e chame também o Chefe da Secretaria! — como era
designado o escrivão.
Chegaram. O juiz era até humilde, sabia nada de Direito, não
tinha a menor idéia do que tinha feito no seu despacho,
desculpando-se, porque o advogado do impetrante intitulava-se
“professor”.
Para resumir, e sabendo que ninguém mais tinha cópia do
pândego despacho, dei um conselho prático para corrigir o erro
processual: sugeri que rasgassem a página do despacho, colocassem
outra no lugar, numerada e rubricada. E o juiz perguntou:
— Como deve ser o despacho?
— Simples — respondi. — “Indefiro o processamento. Não há
direito líquido e certo quando sujeito a produção de prova, conforme
protesta o próprio impetrante. Arquive-se.”.
Acabou a crise.

115
Mas, agora, o Dr. João Gomes Martins queria conversar comigo
em minha casa, embora tivesse toda a liberdade de me chamar para
comparecer à Justiça Federal, naquela época instalada na Praça da
República, pertinho da Rua Sete de Abril, onde estava meu
escritório. Assunto secreto. O que seria?
Chegou à noitinha, em seu carro dirigido por motorista, que lhe
abriu a porta e retirou do banco da frente uns autos de processo, os
quais levou até minha sala de visitas.
— Desculpe invadir sua casa e depositar sobre a mesa estes
autos, antes de conversar com o senhor — disse o Dr. João Gomes.
— Fique à vontade. Quer um aperitivo? Refrigerante? Posso
avisar minha mulher que o senhor jantará conosco?
— Não, obrigado. Aceito um refrigerante. Mas tenho que jantar
com a Gina. E vou imediatamente expor minha aflição. Esses autos
aí se referem a uma questão séria e já me vieram conclusos para
sentença. A instrução está terminada. Gostaria que o senhor os
examinasse e me ajudasse com subsídios para fundamentar a
sentença, porque vou julgar a ação procedente e preciso de sólidos
fundamentos jurídicos. Do contrário, os militares vão me fuzilar.
— Mas qual é a ação? — perguntei, excitado de curiosidade.
— É o processo proposto contra a União pela viúva e filhos
menores de Vladimir Herzog. O senhor aceita trabalharmos em
conjunto na sentença?
— Claro, Dr. João! Conte comigo. Deixe o processo aí.
Começarei a lê-lo hoje mesmo — disse eu, depois, é claro, de ter
levado um grande susto, daqueles de curar soluço.
Com a educação de sempre, levantou-se e encaminhou-se para
a porta de saída, falando baixo, para o motorista não ouvir:
— O pedido é procedente. Não há a menor dúvida. Embora a
viúva e os filhos menores, por seus ilustres advogados, tenham
proposto uma ação singelamente declaratória da responsabilidade da
União pela morte do marido e pai, enquanto se encontrava sob a
custódia do Exército, entendo que devia ser indenizatória, para
condenação direta da União. O caso foi de assassinato.
— E por que razão apenas o pedido declaratório?
— Talvez seja cuidado dos advogados. O assassinato deu-se
apenas há três anos, ou menos, quando ingressaram com a ação. E a
ditadura continua. É verdade que o fato abalou a opinião pública.
Não conseguem mais sustentar a versão de suicídio. Mas você sabe
como são as coisas neste regime. Uma sentença judicial declarando a
responsabilidade da União vai mexer com os alicerces do arbítrio.
Precisa ser bem fundamentada. Conto com sua ajuda.
Embora, na minha opinião, o arbítrio não tenha alicerces,
concordei com ele e prometi os estudos pedidos.
Entrou no carro e foi jantar com Dona Gina. Minha mulher me
perguntou se eu queria aperitivo. Recusei.
— Tenho que ler aquele processo ali e vou fazê-lo logo depois
do jantar. Varo a noite, se for preciso.
— É tão urgente assim?
— Urgente não é, mas importante. E o assunto despertou em
mim uma ansiedade enorme.
— Do que se trata?
— Do assassinato de Vladimir Herzog.
— Mas não foi suicídio?
— Não diga bobagem!

116
Li tudo e, a cada página, fui me emocionando. Os advogados da
viúva, Dona Clarice, e de seus filhos eram amigos meus: Heleno
Fragoso, Sérgio Bermudes, Marco Antônio Rodrigues Barbosa e
Samuel Mac Dowell de Figueiredo. O depoimento de Rodolfo Konder,
torturado na sala ao lado de Herzog, era impressionante. Como isso
pôde ter acontecido no Brasil?
Esses fatos estão assim registrados nos Grandes advogados,
grandes julgamentos, de Pedro Paulo Filho, Depto. Editorial OAB-SP:

“Em 19 de abril de 1976, deu entrada na Justiça Federal de


São Paulo, sendo distribuída para a 7a Vara Cível, uma ação
declaratória intentada por Clarice Herzog e seus filhos Ivo e
André, contra a União Federal, pleiteando que fosse declarada
a responsabilidade da União pela prisão, torturas e morte do
jornalista Vladimir Herzog, marido e pai dos autores.
A inicial relatou que Vladimir era brasileiro naturalizado,
professor e jornalista da TV Cultura — Canal 2 e que na noite
de 24 de outubro de 1975 compareceu às dependências do
DOI/CODI do II Exército, por solicitação de seus agentes, a fim
de prestar esclarecimentos.
Fizeram-no apresentar-se no dia seguinte, à Rua Tomás
Carvalhal, 1030, na capital paulista. No final da tarde do
mesmo dia, o Comando do II Exército fez distribuir nota na
qual comunicava a morte de Vladimir Herzog, e entre outras
inverdades dizia que o jornalista ‘admitiu exercer atividades no
PCB; que, por volta das 15 horas, deixado, sozinho, em uma
sala, redigiu declaração dando conta de sua militância no
Partido Comunista; que, aproximadamente, às 16 horas, ao ser
procurado na sala onde ficara, foi encontrado morto, enforcado
em uma tira de pano’.
A nota afirmava que, solicitada a perícia, pelos técnicos foi
constatada a ocorrência de suicídio e que ‘o cadáver de
Vladimir Herzog foi encontrado, junto à janela, em suspensão
incompleta e sustido pelo pescoço, através de uma cinta de
tecido verde’ e que ‘o traje que vestia o cadáver compunha-se
de um macacão verde de tecido igual ao da referida cinta’.
O fato provocou a maior repercussão em todo o país.
Em 30 de outubro de 1975, o general-comandante do II
Exército instaurou inquérito policial para apurar as
circunstâncias em que ocorreu o ‘suicídio’ do jornalista
Vladimir Herzog, que concluiu, como era esperado, pela
ocorrência de suicídio.
Ocorre que Rodolfo Konder compareceu, espontaneamente,
no dia 7 de novembro de 1975, às 16 horas ao escritório de
advocacia dos Drs. José Carlos Dias, Maria Luiza Flores da
Cunha Bierrenbach, José Roberto Leal de Carvalho e Arnaldo
Malheiros Filho, no centro de São Paulo, e ali, na presença dos
referidos advogados e, mais ainda, do Dr. Prudente de Moraes,
neto, do Prof. Gofredo da Silva Telles Jr., do Dr. Hélio Pereira
Bicudo e do padre Olivo Caetano Zolin, prestou declarações
que esclareceram a morte de Vladimir Herzog.
‘Às seis horas da manhã do dia 24 de outubro do corrente,
tocaram a campainha de minha casa, e, quando fui atender, vi
que eram três agentes da Polícia, os quais me disseram que eu
deveria acompanhá-los para prestar alguns esclarecimentos.
Fui levado numa caminhonete até as dependências do DOI, na
rua Tomás Carvalhal, 1.030, endereço este que vim a conhecer
posteriormente. Na estrada, colocaram-me um capuz de pano
preto na cabeça e me levaram para o interior do DOI. Lá dentro
me fizeram tirar a roupa e me deram um macacão do Exército,
e eu fiquei sentado num banco com o macacão e o capuz.
Fiquei cerca de uma hora esperando, tempo que eu não posso
calcular com certeza por terem me tirado o relógio, e fui
chamado para o interrogatório. Fui levado para o primeiro
andar, pois estava no térreo, e alguém começou a me fazer
perguntas sobre minhas atividades políticas. Esta pessoa eu
não posso identificar porque eu estava com o capuz na cabeça.
Ela começou a se exasperar e me fazer ameaças, porque não
estava satisfeita com as respostas que eu dava, e chamou
umas duas pessoas para a sala de interrogatório, pediu a uma
delas que trouxesse a ‘pimentinha’, que é uma máquina de
choques elétricos e, a partir daí, eu comecei a ser torturado.
Uma pessoa que mais tarde pela voz eu identifiquei como o
chefe da equipe, e era forte, barrigudo, moreno, de cara
rasgada. Este homem que batia com as mãos e gritava que ele
era um anormal, o que eu achei muito estranho. Depois
instalaram nas minhas mãos, amarrando no polegar e no
indicador as pontas de fios elétricos ligados a essa máquina; a
ligação era nas duas mãos e também nos tornozelos.
Obrigaram-me a tirar os sapatos para que os choques fossem
mais violentos. Enquanto o interrogador girava a manivela, o
terceiro membro da equipe, com a ponta de um fio, me dava
choques no rosto, por cima do capuz e, às vezes, na orelha,
para isso levantando um pouco o capuz, para que o fio
alcançasse a orelha. Para se ter uma idéia de como os choques
eram violentos, vale a pena registrar o fato de que eu não pude
me controlar e defequei, e, freqüentemente, perdia a
respiração.
[...]
No sábado de manhã, percebi que Vladimir Herzog tinha
chegado. Como o capuz é solto, por baixo dele, quando a
vigilância não é severa, pode-se ver os pés das pessoas que
estão perto. Ao meu lado estava sentado George Duque
Estrada, de O Estado de S. Paulo, e eu comentei com ele que
Vladimir Herzog estava ali presente, isto porque Vladimir
Herzog era muito meu amigo e nós comprávamos sapatos
juntos, e eu o reconheci pelos sapatos. Algum tempo depois,
Vladimir foi retirado da sala. Nós continuamos sentados lá no
banco, até que veio um dos inter-rogadores, levou a mim e ao
Duque Estrada a uma sala de interrogatório no andar térreo,
junto à sala em que nós nos encontrávamos. Vladimir estava
lá, sentado numa cadeira, com o capuz enfiado e já de
macacão. Assim que entramos na sala, o interrogador mandou
que tirássemos os capuzes, por isso que nós vimos que era
Vladimir, e vimos também o interrogador, que era um homem
de 33 a 35 anos, com mais ou menos 1,75 metro de altura, uns
65 quilos, magro, mas musculoso, cabelo castanho-claro, olhos
castanhos apertados e uma tatuagem de uma âncora na parte
interna do antebraço esquerdo, cobrindo praticamente todo o
antebraço. Ele nos pediu que disséssemos ao Vladimir ‘que não
adiantava sonegar informações’. Tanto eu como Duque
Estrada, de fato, aconselhamos Vladimir a dizer o que sabia,
inclusive porque as informações que os interrogadores
desejavam ver confirmadas já tinham sido dadas por pessoas
presas antes de nós. Vladimir disse que não sabia de nada, e
nós dois fomos retirados da sala e levados de volta ao banco de
madeira onde nos encontrávamos, na sala contígua. De lá,
podíamos ouvir nitidamente os gritos, primeiro do interrogador
e depois de Vladimir e ouvimos quando o interrogador pediu
que lhe trouxessem a ‘pimentinha’ e solicitou ajuda de uma
equipe de torturadores. Alguém ligou o rádio, e os gritos de
Vladimir se confundiam com o som do rádio. Lembro-me bem
que durante esta fase o rádio dava a notícia de que Franco
havia recebido a extrema-unção, e o fato me ficou gravado, pois
naquele mesmo momento Vladimir estava sendo torturado e
gritava. A partir de determinado momento, a voz de Vladimir se
modificou, como se tivessem introduzido alguma coisa em sua
boca; sua voz ficou abafada, como se lhe tivessem posto uma
mordaça. Mais tarde os ruídos cessaram. Depois do almoço,
não sei exatamente a que horas, o mesmo interrogador veio me
perguntar sobre uma reunião política na minha casa, realizada
em 1972, com a presença de um homem de cabelos grisalhos.
Eu não me lembrava dessa pessoa, embora me lembrasse de
um único encontro realizado em minha casa naquele ano, com
a presença de uma outra pessoa, esta de cabelos escuros. O
interrogador saiu novamente da sala e dali a pouco voltou para
me apanhar pelo braço e me levar até a sala onde se
encontrava Vladimir, permitindo mais uma vez que eu tirasse o
capuz. Vladimir estava sentado na mesma cadeira, com o
capuz enfiado na cabeça, mas agora me parecia
particularmente nervoso, as mãos tremiam muito e a voz era
débil.’
‘Que o declarante, da mesma forma que todos os outros
presos que teve oportunidade de ver nas dependências do DOI,
foi deixado apenas com o macacão, o capuz e os sapatos, sendo
que das pessoas que usavam sapatos com cordão para amarrar
os cordões eram retirados, não ficando nenhum instrumento
que pudesse ser usado contra a vida.’
‘Que quando se iniciou a tortura de Vladimir, o declarante,
estando na sala ao lado, chegou a ouvir sons de pancadas que
lhe eram desferidas.’
Vladimir Herzog foi cruelmente torturado, e, depois disso,
redigiu a declaração que o comprometia com agremiação
política ilegal. O fato de haver rasgado o papel comprova que
repudiou totalmente a suposta confissão, obtida mediante
métodos violentos.
Ademais, não poderia ter se suicidado com o cinto do
macacão, pois, segundo Rodolfo Osvaldo Konder, ‘o macacão
que lhe deram para vestir nas dependências do DOI, a exemplo
de todos os outros, não tinha cinto’.
Os advogados Heleno Cláudio Fragoso, Sérgio Bermudes,
Marco Antônio Rodrigues Barbosa e Samuel Mac Dowell de
Figueiredo sustentaram que o artigo 107 da Constituição
Federal obriga as pessoas jurídicas de direito público a
responder pelos danos que os seus funcionários causarem a
terceiros.
Já o artigo 15 do Código Civil Brasileiro é expresso: ‘As
pessoas jurídicas de direito público são civilmente responsáveis
por atos dos seus representantes que, nessa qualidade,
causem dano a terceiros, procedendo de modo contrário ao
direito ou faltando a dever prescrito por lei, salvo o direito
regressivo contra os causadores do dano’.
A prisão foi ilegal e arbitrária, pois efetuada com desatenção
ao artigo 153, parágrafo 12 da Carta Magna. Ao torturarem
Vladimir Herzog, os agentes da União Federal desrespeitaram o
parágrafo 14 do artigo 153 da Constituição Federal, que impõe
a todas as autoridades o respeito à integridade física e moral
do detento e do presidiário, constituindo abuso de autoridade
nos expressos termos dos artigos 3º e 4º de Lei Federal nº
4.898, de 9-12-65.
Na forma do artigo 4º do Código de Processo Civil, Clarice
Herzog e seus filhos, ao invés de postularem a condenação da
União Federal, pediram apenas que fosse declarada a sua
obrigação de indenizá-los, em decorrência dos fatos que
culminaram com a morte de seu marido e pai. Queriam uma
reparação moral.
A União Federal, através do procurador da República, Tito
Bruno Lopes, em 2 de julho de 1976, contestou a ação,
alegando que os autores da ação eram carecedores por se
basearem em fatos considerados inexistentes pela Justiça
Militar. Aduziu que a responsabilidade civil é independente da
criminal e que, de conformidade com o artigo 1.525 do Código
Civil, não se poderia questionar sobre o fato ou quem seja o
seu autor, quando estas questões já tenham sido decididas no
crime. Acrescentou ainda que a ação declaratória era inepta,
porque escondia, subjacentemente, uma ação condenatória
contra a União Federal.
No mérito, confirmou a existência de suicídio, conforme os
laudos dos legistas Arildo de T. Viana e Harry Shibata, que
concluíram pela inexistência de sinais de violência ou tortura,
acrescentando não ter havido culpa dos funcionários, que
agiram no estrito cumprimento do dever legal.”

117
Diante de tudo isso e de outras provas, a ajuda que resolvi dar
a João Gomes Martins foi minutar a própria sentença com os
subsídios possíveis. O laudo pericial era falso. Assinado por dois
energúmenos, capachos da ditadura, concluía pelo suicídio sem
culpabilidade dos funcionários que agiram em estrito cumprimento do
dever legal. Agiram? Os funcionários agiram? Qual a ação praticada
no estrito cumprimento do dever legal? Suicidaram o Herzog!
Em Direito, há uma regra respeitada por todos os juristas:
nada pode ser considerado fora dos autos. Somente o que nos autos
existe é lícito ser analisado e tomado como elemento de convicção.
Mas num processo judicial da ditadura, mesmo proposto pela família
da vítima, não poderia constar toda a verdade.
Resolvi procurar algumas pessoas que conheciam bem os fatos
no momento em que se deram. Falei com Audálio Dantas, presidente
do Sindicato dos Jornalistas à época. Contou-me coisas
estarrecedoras. Depois conversei com Hélio Damante, jornalista de
enorme inteligência e muito bem informado. Deu-me elementos
preciosos. Hélio, além de tudo, teve a idéia de organizar o ato
ecumênico realizado na Catedral da Sé, em São Paulo, em ho-
menagem à memória de Herzog. Precisamente esse ato, a que
compareceram umas dez mil pessoas sem medo das forças policiais e
militares, marcou o início do fim da ditadura.
Ouvi pessoas que conversaram com o Coronel Audir Santos
Maciel, que comandava o DOI-CODI53 quando mataram Herzog. O
coronel, desonrando as mais sérias tradições do Exército brasileiro,
mente até hoje. Jura que Herzog se suicidou, mesmo diante da
esmagadora prova em contrário. Poderia ingressar no PT e participar
da degradante farsa das mentiras orquestradas para proteger
bandidos que conseguem chegar ao governo e de lá não querem sair,
ou, quando saírem, desejam estar cobertos pela túnica da
impunidade.
Entreguei ao Dr. João Gomes o rascunho da sentença para que
ele a corrigisse e alterasse como quisesse.

53 DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de


Defesa Interna).
Ele voltou pessoalmente à Chácara Flora para buscar o
processo e levou a minuta, já com as modificações que entendeu
fazer, mesmo porque sabia escrever muito bem. Mas cometeu uma
ingenuidade: mandou datilografar a sentença no próprio cartório.
Resultado: o escrevente dedou para o promotor, em tempos de
muitas delações, premiadas ou simplesmente safadas. E a
Procuradoria da República ingressou no Tribunal Federal de
Recursos com um mandado de segurança contra João Gomes
Martins, que havia marcado dia e hora para a leitura da sentença. O
promotor pediu que fosse suspensa a prolação da sentença. A que
ponto chegou-se!
Qual o direito invocado pelo impetrante daquele mandado de
segurança? Um nada absoluto. A leitura da sentença era uma
ameaça à ordem pública. Pastelão, palhaçada a serviço da ditadura.
Da mesma forma que o ilustre representante do Ministério Público
havia dado parecer afirmando cinicamente que Herzog se suicidara.
Pois, creiam-me: no Tribunal Federal de Recursos, foi concedida a
liminar, e o juiz federal foi impedido de ler a sentença! O ministro
que concedeu a liminar, Jarbas Nobre, tempos depois me confessou:
a liminar ou a cassação de sua investidura. Que tristeza!
Cheguei a sugerir ao Dr. João Gomes Martins que desistisse da
leitura e mandasse a sentença, mesmo diante da liminar, para o
Diário Oficial. Afinal a liminar fora concedida para impedir a leitura
da decisão no dia marcado. E não se falou em Diário Oficial. E fosse o
que Deus quisesse. Ele, porém, levava muito a sério o Poder a que
pertencia. Por mais absurda e arbitrária que tivesse sido a liminar,
iria cumpri-la. Outro detalhe típico da época: a liminar durou até o
mês seguinte, quando João Gomes Martins completou setenta anos
de idade e teve que se aposentar compulsoriamente. Uma vez
aposentado, a liminar foi revogada, e o relator no tribunal, Ministro
Jarbas Nobre, indeferiu a segurança, por incabível. Vejam com que
detalhes a ditadura tramava dentro do Poder Judiciário, auxiliado
fielmente pelo Ministério Público de então.
Mas levou ferro (desculpem!). O juiz substituto da Sétima Vara
Federal, Dr. Márcio José de Moraes, julgou o processo e declarou
procedente a ação. Uma sentença diferente daquela prolatada por
João Gomes, mas igualmente corajosa, e duplamente, pois enfrentou
a ditadura e o próprio Tribunal, que pensava haver intimidado, com
a liminar contra o juiz titular, o magistrado que o substituiria. Em
homenagem a ambos, transcrevo a carta que João Gomes Martins,
aposentado, escreveu ao seu sucessor depois de prolatada a nova
sentença:

“Chegamos, por palavras diferentes, à mesma conclusão...


Senti uma tristeza imensa ao verificar até que ponto podia
chegar a tentativa de sufocar uma manifestação do Poder
Judiciário... Não poderia desconfiar de um golpe dessa
natureza e tanto é assim que havia marcado com antecedência
o dia e hora para a prolação da sentença.
Veio o telex, anunciando a proibição da leitura e requerendo
também informações sobre o processo no mandado de
segurança impetrado pelo procurador, que se considera o
detentor único da verdade e o cavaleiro andante da honra e do
renome nacional. Alegava que a sentença poria em risco a
segurança do Estado, e que, por isso, deveria ser impedida,
como se a declaração de responsabilidade pela tortura e morte
de um homem pudesse constituir-se em perigo para a honra e
a segurança das instituições.
Ninguém sabia o teor da sentença, a não ser eu.
O Brasil inteiro ficou sabendo por esse telex qual seria o
seu teor, pois ele já confessava a culpa publicamente. Ninguém
mais duvidava daí em diante das conclusões do juiz... Lançou-
se sobre o Poder Judiciário a dúvida a respeito da dignidade,
da coragem e da honradez do juiz que me substituísse. Supôs-
se que, com o afastamento de um, a lição permaneceria com o
outro e que talvez a verdade não aflorasse com a veemência
que se deduzia da ação.
Enganaram-se os que assim pensaram porque, talvez mais
forte, mais elegante e mais alta, se elevou a voz de um jovem
magistrado para deixar bem claro que ainda há juizes no
Brasil...”

A essa carta, somente faço um reparo à frase um tanto


ingênua: Ninguém sabia o teor da sentença, a não ser eu. Não foi bem
assim: o escrevente, que a datilografou, sabia,54 e o Procurador da
República também. Daí o mandado de segurança contra a leitura da
decisão judicial prolatada sob segredo de pôr chinelo para Papai
Noel.

118
Minha secretária avisou-me que o juiz da Quarta Vara Cível
estava ao telefone e queria falar comigo. Atendi:
— Meu caro magistrado, a que devo a honra deste chamado?
— Se você estiver de pé, sente-se. Tenho aqui na minha frente
um fato fantástico: vocês propuseram uma ação, que caiu na minha
vara, e, hoje, vocês mesmos entraram com a contestação defendendo
o réu. Estão advogando dos dois lados.
— Meu Deus! Não é possível! Aqui é tudo controlado. Como
pode ter acontecido uma barbaridade dessas? Quem assinou a inicial
e quem assinou a contestação?
— O Professor Frederico Marques. Assinou ambas as peças: a
inicial e a contestação.
— Meu juiz, pelo amor de Deus, não faça nada. Estou indo
para aí imediatamente.

54 No dia 23 de maio de 1929, a Câmara Criminal do Tribunal da Relação de Minas


Gerais julgou insubsistente uma sentença de pronúncia por ela estar datilografada,
determinando ao juiz que a lançasse, nos autos, com a sua letra; isso porque a
datilografia não oferecia seguro penhor de sigilo de que se deve cercar a sentença
até o momento de sua publicação. Parece que continuou tendo razão nos tempos da
ditadura.
Verifiquei com os meus próprios olhos. Era verdade. A ação
proposta no papel timbrado do escritório e a contestação também.
Ambas assinadas pelo Frederico, com as respectivas procurações
outorgadas a todos nós, advogados integrantes do escritório. Implorei
ao juiz para desentranhar a contestação e os documentos que a
acompanhavam. Com ironia, ele observou:
— Sou juiz do cível, mas ainda me lembro do artigo 355 do
Código Penal: patrocínio infiel.
— E seu parágrafo único — acrescentei —, que manda aplicar
a mesma pena ao advogado que defende, na mesma causa,
simultânea ou sucessivamente, partes contrárias.
— Creio, porém, que não houve dolo. É pura desorganização.
Você leva a contestação e me traga imediatamente outra, assinada
por advogado de fora do escritório. Despacharei com a data de hoje,
para que o réu não seja prejudicado com perda de prazo.
Agradeci mil vezes e levei o maldito documento. No trajeto, fui
pensando no rigor ético do escritório. Não podíamos advogar contra
clientes em causa alguma, por mais diferente que fosse. Nem pensar.
Se defendêssemos um empresário qualquer em seus litígios de
negócio, não podíamos aceitar nada contra ele, nem pedido de
desquite da mulher. Quando cheguei ao escritório, muito nervoso, fui
diretamente à sala do Professor Frederico e, sem bater, abri a porta.
Ninguém.
— Onde está o nosso gênio do Direito Processual? — perguntei
em voz alta.
— Está viajando — respondeu-me Dona Daisy.
— E a secretária dele?
— Tirou folga.

119
José Frederico Marques era um dos maiores processualistas
brasileiros, orgulho do nosso escritório. Companheiro fantástico e
simples. Desembargador aposentado, amaldiçoava os processos,
quando começou a trabalhar em advocacia, porque vinham com o
pedido inicial sem a contestação, quando defendíamos o réu. E,
quando éramos advogados do autor, começava-se do nada.
Costumava dizer, bem-humorado, que a vida de juiz era muito
mais fácil. Tinha tudo mastigado nos autos pelos patronos das
partes. Apenas lia os argumentos dos dois lados e decidia. O
advogado, ao contrário, precisava criar. Trabalho em excesso!
A despeito disso, trabalhava muito, mas era profundamente
distraído e desorganizado. Tivemos que escalar, depois do deplorável
evento, um arquivista somente para ele e, sem computador, que não
existia, providenciar um fichário dinâmico e completo para as causas
a ele entregues.
Aceitou propor uma causa cível contra uma determinada
pessoa. Escreveu uma longa inicial, com argumentos bem
articulados, tudo inteligente, como sempre fazia. Mas não mandou
arquivar sequer a cópia, nem informou à administração do escritório
a propositura da ação para o devido acompanhamento.
Passados alguns meses, foi procurado pelo réu da ação, que o
contratou como advogado para a defesa. Naquele tempo, a contrafé
(documento que o oficial de justiça deixa com o réu no momento da
citação) era datilografada, e a inicial da ação proposta copiada à
máquina pelo cartório; mas a cópia era resumida apenas ao texto.
Nem sempre constava o nome do advogado que assinava, nem, claro,
os documentos juntados, que deviam ser examinados em cartório.
Frederico, porém, contestou a ação, proposta por ele próprio,
sem mandar ninguém ao cartório da vara cível. Contestou de bate-
pronto, servindo-se somente da leitura da cópia deixada pelo cliente.
E mais: argüiu umas cinco preliminares de inépcia da inicial.
Pedi a um advogado amigo meu a gentileza de contestar a ação.
Chamei o cliente, expliquei; ficou de olho arregalado, mas entendeu.
Passou procuração para o novo advogado, que copiou a contestação
do Frederico e assinou. Foi pessoalmente despachar com o juiz. Fui
junto. Alívio geral.
Quando Frederico voltou da viagem, caímos todos em cima dele
e mostramos a contestação por ele assinada. Pediu mil desculpas.
Prometeu submeter-se à administração do escritório. E, no final,
reclamou de nós:
— Mas vocês fizeram uma grande sacanagem comigo!
— Poxa! Salvamos a reputação do escritório e tiramos você do
parágrafo único do artigo 355 do Código Penal. Isso é sacanagem?
— Claro que é. Vocês mandaram o outro advogado assinar o
que eu escrevi e não cortaram as preliminares de inépcia. Agora, o
inepto sou eu, que assinei a inicial.
Não dava para discutir com ele. Somente se organizou depois
que a Doutora Helena de Mingo passou a trabalhar ao seu lado.

120
O Professor Vicente Ráo aceitou um caso complexo: defender a
Mannesmann AG, da Alemanha, cujo conceito estava sendo atingido
pelo estouro no mercado de capitais, causado por títulos emitidos
pela filial brasileira, que tinha o mesmo nome.
A causa era do Escritório Gabaglia, Barros e Velloso, do Rio de
Janeiro, que cuidava dos interesses da companhia alemã e se
associou conosco para enfrentar a explosão. Trabalhei muito naquele
escritório carioca. Ficava na Rua Correia Dutra, no Flamengo.
Colegas excelentes.
O professor José Frederico Marques e eu fomos encarregados
pelo Professor Vicente Ráo de cuidar do caso, isto é, da pauleira. E
pauleira das bravas.
Naquele tempo, a lei do mercado financeiro permitia a emissão
de letras de câmbio, para que as companhias levantassem recursos
junto ao público, por meio de corretoras credenciadas. A
Mannesmann tinha conceito. Vendeu muitos títulos. De repente, o
estouro: milhões e milhões foram recusados pela empresa por
falsidade e, obviamente, o dinheiro arrecadado com a venda dos
títulos não entrou para os cofres da companhia.
Por quê? Coisa que somente acontece no Brasil: parte das
letras vendidas era legítima. Outra parte era “meio” legítima. E
grande volume era falso. Deu um bolo federal!
Explico: as legítimas tinham a assinatura de dois diretores. As
“meio” legítimas tinham a assinatura verdadeira de um diretor e
falsificada a do outro diretor. O diretor responsável por essa
brincadeira, um grande estelionatário, que participou da emissão
legítima, isto é, com a assinatura de dois diretores, resolveu fazer
uma emissão somente para si e chamou um falsário para imitar a
assinatura do colega de diretoria. Disse ao meliante que não se
tratava de um golpe, mas era necessidade premente da empresa,
porque o outro diretor estava doente.
O falsário fingiu que acreditou e assinou o nome do outro
diretor em todas as letras emitidas. E, claro, aproveitou a idéia e
lançou um grande lote de letras na praça, falsificando as duas
assinaturas. Daí o estouro com a variedade de emissões.
Os portadores das letras se reuniram e resolveram entrar na
Justiça para cobrar da Mannesmann todas as letras, sem distinção,
num monstruoso litis-consórcio ativo, isto é, todos juntos numa
única ação judicial. Assim, misturavam as legítimas com as falsas e
esperavam que a empresa devedora pagasse todas.
Pela lei, os títulos legítimos, isto é, com as duas assinaturas
verdadeiras, podem ser cobrados por meio de ação de execução,
começando com penhora de dinheiro preferencialmente. A
Mannesmann não se recusava a pagá-las, mas queria saber, e tinha
esse direito, quais eram as verdadeiras. Por aquelas outras, que
tinham uma assinatura verdadeira e outra falsa, a Mannesmann
também era obrigada a responder, mas por via de ação ordinária,
porque a condenação seria em razão da responsabilidade civil
decorrente do ato ilícito de seu preposto, um diretor. Tinha a
Mannesmann o direito de saber quanto somavam, para cobrar,
depois, o prejuízo do diretor malandro em ação regressiva.
E, quanto às demais, inteiramente falsas, a companhia não
tinha qualquer responsabilidade.

121
Naquele tempo, a gente podia sair do escritório da Correia
Dutra, no Flamengo, e ir a pé até o Largo do Machado, tomar um
chope e voltar caminhando até o Hotel Glória, onde me hospedava.
Tudo tranqüilo. Não havia balas perdidas, nem assaltos. Fernando
Veloso e William Monteiro de Barros eram os advogados contratados
pela Mannesmann AG, isto é, pela empresa da Alemanha. Dois
colegas ótimos. Furiosos com as falsificações dos títulos.
Nossa obrigação, como advogados, era separar o joio daquele
trigo meio bom, meio podre.
José Frederico Marques e eu fomos para Belo Horizonte.
Reunimo-nos com os diretores da Mannesmann brasileira e seus
advogados mineiros. Debatemos longamente o absurdo daquele tipo
de litisconsórcio. Na época, a lei permitia apenas o litisconsórcio
obrigatório, o facultativo e o recusável. Horas e horas de debates.
Esperteza dos advogados em misturar tudo para dificultar a defesa.
Esperteza dos corretores, que intermediaram a venda dos títulos e
que responderiam pela identidade e existência real da emitente.
Esperteza de muita gente, que queria receber o dinheiro e deixar o
resto por isso mesmo.
Decidimos jantar. Frederico sugeriu que fôssemos ao Tavares,
restaurante que ele adorava e que servia pratos de caça. Os
ecologistas acabaram fechando o local. Frederico não abria mão.
Mesmo tarde da noite para ele, que levantava às quatro horas da
madrugada, queria jantar caça.
No restaurante, continuamos a discutir o litisconsórcio. Veio o
garçom, e fizemos o pedido. Frederico pediu paca e feijão tropeiro
com couve mineira. Inclinou a cabeça para frente e dormiu. Sono
profundo.
Um dos advogados mineiros, creio que Autran Dourado,
entusiasmado com o debate sobre a mistura de autores, afirmou que
estavam tentando contra a Mannesmann um novo tipo de
litisconsórcio, e, virando-se para o Frederico:
— Não é, Professor?
— Com couve mineira! — respondeu Frederico ao acordar
assustado.
Tratando-se dele, um dos maiores processualistas brasileiros,
estava inventado o quarto tipo de litisconsórcio. Com couve mineira.

122
O caso deu um trabalho sem fim.
A Mannesmann chegou a fundar uma empresa, sociedade civil,
para comprar os títulos falsos movida pela ingenuidade de não
causar prejuízo ao investidor de boa-fé, que acreditou no nome dela,
e juntar as provas materiais para futuro processo contra os falsários
e seus asseclas.
O diretor responsável pelas falsificações chegou a ser detido
pelos agentes da ditadura e, com a capacidade de enrolar todo
mundo, um dos maiores talentos nessa especialidade, mais o
dinheiro que amealhou com o golpe, conseguiu o apoio do governo
militar, também golpista (ao contrário do tratamento dado a Herzog),
que chegou a baixar dois decretos-leis específicos: um mandando a
Mannesmann pagar todos os títulos, sem indagar sobre sua
legitimidade, sob pena de cadeia para seus diretores brasileiros
(Decreto-Lei nº 697, de 23 de julho de 1969), com um artigo expresso
excluindo o crime do diretor falsário; e outro decreto-lei, no mesmo
dia, nº 698, fechando a empresa privada, a tal sociedade civil, e
confiscando os títulos que comprara, “recolhidos pelo Banco
Central”. E deu sumiço no corpo de delito. Beleza! Quando a
ditadura está do lado do crime, tudo compensa.
Os processos criminais contra a falsidade documental foram
arquivados. Os beneficiados por essa sem-vergonhice engrossam o
número de pessoas que não reclamam da ditadura. O Ministério
Público Federal, quando se tratava de pessoa amiga do regime
militar, fingia não ver nada, amolecia o rigor, fazia lembrar
Carnellutti: “Ele pode ser o responsável pela impunidade de meu
assassino”.
A tese de Jarbas Passarinho de que o Governo da ditadura não
foi corrupto (o que iludiu muitos oficiais das Forças Armadas, os de
boa-fé) fica aí bem contestada com esses decretos-leis evidentemente
comprados pelos bandidos que se enriqueceram com o caso
Mannesmann.

123
Frederico e eu passamos a ir a Belo Horizonte e de lá voltar
constantemente. Em uma dessas ocasiões, fomos na segunda e
voltamos na sexta-feira.
Naquele fim de semana, eu estava exausto. Quando isso
acontecia, viajava para Boiçucanga, no litoral paulista. Ia visitar meu
irmão Luiz Carlos, meu companheiro de toda a vida, que, desde o
nosso poço de saudade, a infância, a tenra infância, como se diria
em narrativa feita por mal traçadas linhas, apoiava-me em tudo, no
cansaço, na tristeza, na euforia, sem qualquer indagação. Quando
estava ao meu lado, estava realmente ao meu lado, acariciando-me a
alma e regando tranqüilidades sobre meus desesperos, ou
desânimos, ou excesso de euforia.
Depois de um banho, fomos assistir ao pôr do sol na praia, pois
Boiçucanga é, no Brasil, o único lugar do nosso litoral, na costa
leste, em que o sol se Põe no mar. Sentamo-nos num tronco de
árvore jogado na areia pela maré.
Então, chegou Mané Rita, pescador antigo daquelas bandas,
caiçara queimado de muitas manhãs, e embarcado, que gostava de
contar “causos”. Meu irmão pediu que ele narrasse a história do
peixe nunca visto antes, nem depois.
Fixos os olhos no mar, entre ver e adivinhar, fisgado de anzol o
horizonte, que lhe não escapa. Olhos de muitas águas e anos, pele
marcada no castigo do vento, pescador de muitas histórias, sem
limites entre o imaginar e o viver de verdade o que imaginou e viveu,
pois o que a vida nega, a imagem dos sonhos claros faz de conta que
foi realmente vivido. Mané Rita fala manso e ritmado na beira da
tarde esparramada na areia da praia. Tendo o mar por testemunha,
ele contou:

“Já conheci muitas águas, doutor, viajei longe por esses


tibórnios todos, daqui até o sul, onde o mar faz curva para o
outro mundo. Mas foi aqui mesmo que vi o peixe nunca visto
antes nem depois, peixe doido, doidão, que até duvido ter visto,
não fosse os outros lembrarem, o que me afirma a idéia de que
foi verdade.
Faz anos. A gente conta o tempo pelos que morreram, e
morreram muitos. Os vivos ainda se lembram.
Antigamente, esta praia vivia cheinha de cação. Cada bruto
passava perto da arrebentação, ali mesminho, devagar, que, de
tão perto chegava, fazia mulher correr, para recolher criança da
areia.
Vi muitos aí mesmo, com o lombo de fora, remexendo as
galhadas remadeiras, floresta dentro d’água.
Naquele tempo, tinha muito peixe, mas não tinha sal. Hoje
temos sal e gelo, mas o peixe encantou por essas águas afora.
Não vem mais. Tempos malvados esses de agora.
Antigamente, tempos de meu avô e de meu pai, era fartura,
e do meu. Águas ricas, fervidas de peixes. A gente saía,
caiçarada sempre rindo, nem nascido o sol, canoas
caprichadas, de timbaúba ou de guapiru, dois palmos de geme,
dava para confiar.
Tempos bons de matar peixe. E tanto peixe se matava, que
a canoa voltava chapadinha. E tudo matado na linha, tirado
d’água na munheca do pescador, nesta aqui, olha. Havia um
fio de linha, aquele era fio forte, marca São Jorge, que, para
matar peixe grande e valente, era ótimo de bom.
Hoje, o material está caro, custa muito cipó e é de pouca
valia; mas caiçara continua teimando. Não é contra o peixe que
se briga hoje em dia; é contra a fome, mas fome de verdade,
dessa que dói e dá medo. Antes, fome só se falava a palavra
para dizer outra coisa, quando se chegava tarde para o almoço
ou janta, era fome de apetite. O almoço e a janta estavam lá,
todos os dias, certeza do mar, que não falhava.
Mas ainda acontece de vir, em tempos entortados, montes
de tainha e xarelete. Aí é fartura. Não há mais certeza. Quem
tem sal, salga e guarda. Quem não tem, pede espaço na
geladeira do Walkir ou do Teixeira. Um tal de frízer [sic],55
disseram que chama o buraco mais frio daquela geringonça.
Eu salgo. Guarda o gosto e pode acabar a luz.
Mas eu lhe dizia, doutor. Quando foi um dia, nunca vi. Olha
que tenho visto e matado muito cação, babaqueira, anequim,
tintureira; mas, como aquele, nunca.
Não tinha lixa. Era couro. A galhada remadeira rabiscava o
céu. Se tivesse lua, estava rasgada, modo de dizer.
Era um colosso muito grande.
Chegou na praia com cinco baladas. Contamos uma a uma.
As “despois”, ninguém sabe quem atirou, nem de onde veio ele.
A língua era de vaca, a carne igual à de boi. Ninguém quis
comer. Bicho estranho. Só o Tião Verde experimentou. Disse
que era muito bom.
Que trabalho deu para tirar d’água, mesmo com as baladas
no corpo. Fisgamos o bruto, arpão de gancho, amarrado em

55 Freezer.
corda. Cada um de nós, tempos de moço, canoa leve, de pé
dentro dela, equilibrando com o ferro na mão, remo na outra,
entre o mar balançado e o peixe frojando, cada um chegava,
ferrava, atava a corda e fugia para a praia, levando a ponta.
Teve hora que o danado resolveu fugir, deu um corcovo,
rumou proa para a ilha dos Gatos, empinou peito e galhada; e
lá se foi. Quem estava segurando as cordas na praia, foi só
tombo.
Mas cercamos, canoazinha pequena para cada um de nós,
mas cercamos. Embrulhamos o bruto com rede grossa, todas
que tinha na hora. Moçada corajosa. Acho, só Deus sabe, que o
bicho se entregou de medo da nossa gritaria, porque a zoada
da moçada era tanta, os gritos tão altos, que, nas outras
praias, longe, pensaram que fosse guerra.
Os dentes eram de tigre. Dava medo! De esfriar o estômago!
Pensar dar de topo com ele lá fora, a gente sozinho, uma canoa
só, não, nem pensar.
Preto. De tão preto, era azul. Uns dez metros. Era aquele
toco ali Lembro perfeitinhamente.
Não era peixe de nossas águas. Deve ser de águas
estrangeiras, das de longe, de muitas léguas afastadas das
nossas. Veio vindo de água em água, pois tudo é mar. Deve ter
assustado algum barco armado, levou os tiros e continuou
viagem. Até que chegou. Nossa praia é remanso bom para peixe
ferido. Era. Aqui, eles podem comer peixes pequenos sem fazer
força. Podiam. O bicho sabia e veio para cá.
Lembro perfeitinhamente. Frojou-se lá o danado e saiu com
a proa para a ilha dos Gatos. Foi o cerco mais louco que já
fizemos nestas águas nossas. Sorte que o mar estava manso,
ajudando. Deus deve saber: nessas horas, o mar ajuda o
pescador. Quando embravece, nem pescador, nem peixe. Na
tempestade, só o mar existe. Nada mais. A loucura é somente
dele.
Já perguntei para muito embarcado o nome desse bicho,
descrevendo antes a figura dele, que guardo igual fotografia. O
medo pode amarelar quem sente, mas tira fotografia que não
amarela nunca.
Nos primeiros dias depois daquele, nós esperávamos
encontrar o parceiro. Peixe grande anda sempre de dois.
Nunca mais!
Batemos essas águas aí afora, fomos de parcel em parcel,
de ponta a ponta. Nada. Nadinha.
Medo?
A gente tem, não do peixe, mas das águas e do vento. Medo
do tempo. É bom ter medo, doutor. O medo faz ter uma idéia
de juízo. Quem corre, escapa.
Esse bruta mar aí fora é cama mole. Quem não sabe,
quando o tempo vira, e é rápido, de repente, vem o vento, e as
águas carregam com tudo. Dizem que não é assim lá pra cima,
pros lados do norte.
Mas aqui é num átimo. A prática faz a gente apreender e
saber antes. Dia de manhã pode estar azul, bonito; mas, lá
adiante, se tiver uma nuvenzinha redonda bem em cima do
pico do montão de trigo, pode contar que não demora. É
tempestade que vem do sul. E das bravas.
E o danado do mar é tão bonito em dia de viração, que nós
tratamos de rebojo. Em dia de rebojo, o mar dá liga, fica
lisinho, a vontade é agradar com a mão.
Mas não queira, doutor, ver esse bicho frojando-se e saindo
em cima da gente.
Quando não vira o barco, tira a tinta da madeira, de tanto
que bate: é o mesmo que pegar uma caranha e escamar. Se
pega a gente com o vento acochado, ou se o danado embarca
na canoa, só Deus.
É isso. Quando está com raiva, engrossa o pescoço das
águas e se atira doido na costeira. Não que eu desgoste, pois
vivo dele, mas me alegra ver ele se arrebentar nas pedras. Ali
ele quebra a cara.
O mar, doutor, é de muitas questões. Já vivi muito, sempre
com ele. Não sei se os antigos pensavam como penso. Sei que
ele foi visto por muita gente, daqui e do estrangeiro, nos outros
tempos, gente que já morreu. E ele continua. Para mim, a cada
dia, ele tem respostas novas. É preciso conhecer para
aventurar. Bicho danado! Não se entrega nunca!”

Parou de falar, olhos longe, dentro do horizonte, entre o seu


bicho danado e o céu. Anoiteceu. Havia rebojo, e a Lua, sem nenhum
arranhão de galhas remadeiras, veio espiar a história, que ainda
balançava na arrebentação, com sabor de areia e espumas. Então
fomos tomar aperitivos para sonhar mais quente. Afinal, o mar
continuará para sempre, com muitas histórias e respostas novas.
Nós, que certamente acabaremos, enquanto ele continua, talvez
possamos quebrar a cara num copo de cachaça e fazer nossas
histórias maiores do que são, na curta realidade que nos sobra.
Ali, casos como aqueles da Mannesmann, do Olavo Brás, de
Vladimir Herzog, por um breve tempo, não conseguiam me
atormentar. Viravam cerração, mesmo sob o luar que voava por cima
dos telhados das casas de janelas iluminadas à vela, dos caiçaras
recolhidos para a pesca do dia seguinte.
Meu irmão passou a mão sobre minha cabeça e aconselhou-me
a deitar. Luiz Carlos era a metade de mim. A metade boa.
Naquela noite, consegui dormir bem.

124
Na segunda-feira seguinte, voltei para São Paulo. Tinha que
trabalhar. Afinal, eu era advogado. Essa profissão não permite
descanso, pois exige permanente plantão, para atender as aflições
das pessoas. E o juiz havia deferido meu requerimento para ouvir a
ex-mulher do Sr. Olavo Brás. Precisava saber se ela fora intimada e
qual o dia da audiência.

Advogado. Coisa estranha. No princípio, me senti meio padre,


meio psiquiatra. As pessoas contavam seus dramas, nem sempre
fielmente; mas eu as ouvia com atenção, para pinçar, no meio da
história, algo que demonstrasse um ponto de Direito lesado, que,
afinal, deveria ser o objeto da causa.
Depois, sozinho, estudava tudo. Ráo, meu chefe, ensinava:
“Primeiro leia a lei de regência e verifique você mesmo o que a norma
lhe diz. Reflita e tire suas próprias conclusões. Jurisprudência e
doutrina ajudam, mas são subsídios que se agregam depois”.
Sob o ponto de vista jurídico, aprendi que a aflição humana
causada por uma lesão de Direito, por mais individual que seja,
sempre é um fato social, porque resulta de costumes, da convivência,
de atritos, da cultura e da previsão legislativa. Fato social.
Assim, fui entrando para os tribunais com o fato social às
costas, enfiando-lhes roupas antigas, costuradas por Vivante,
Carnellutti, Clóvis, Pontes, Vicente Ráo, Mazeaud et Mazeaud,
Kelsen. De quando em vez, um remendo era meu. Roupa nova no
fato social. Sobretudo naquele atormentado pela dor na alma.
E começou um não-acabar-mais. Clientes, clientes, clientes,
grandes empresas, gente famosa, gente pobre, gente rica, gente e
mais gente.
Adeus, abacaxi de Brodowski; adeus, cafezais de Cravinhos;
adeus, chope do Pingüim; adeus, Ribeirão Preto; adeus, meu
jornalismo de Santos. Agora, estava em São Paulo, rodeado de gente
e de fatos sociais, lendo leis, estudando Direito, devorando livros.
Sem perceber exatamente o quando, transformei-me em
advogado famoso, considerando-se que a fama é medida pela
afluência de clientes. Por mais que quisesse, hora para consulta
começou a escassear. Novos clientes na fila, esperando meses, fato
que os fascinava e os mantinha à espera, quando não houvesse
urgência.
Fui um ganhador de causas. Venci quase todas. Não sei como
sabiam disso, pois não fazia publicidade. Jamais permiti notícias
sobre resultados de processos, até porque, longe da imprensa, o
litígio é mais sereno para o cliente, para o advogado e para o juiz.
Mas as pessoas ficavam sabendo e forçavam a porta do
escritório, para alegria das minhas secretárias, meus assistentes e
meus colegas e para os meus cansaços, embora, ao aceitar uma
causa, passasse a dar tudo de mim, como se fosse a única.
Claro que a privilegiada situação profissional rendeu
dividendos. Nas proporções devidas, ganhei bem. A Vicente Ráo, que
sabia tudo de quase tudo, consegui, depois de muito tempo, ensinar
uma única coisa: cobrar honorários.
No escritório, porém, jamais deixei de atender a pessoas
pobres, que nada podiam pagar, quando o caso era de evidente
justiça.
Tive um enorme prazer em atender um paraplégico pobre e
ganhar sua causa depois de longa demanda. O caso dele despertou-
me para um problema: no Brasil, não existia um único texto legal em
defesa do deficiente físico. Dei-lhe até os honorários de sucumbência,
isto é, pratiquei o assistencialismo, mas senti que o problema era
mais profundo e ficou me remoendo. Muitas pessoas sem recursos
me procuravam por ouvir dizer. Entre os ilustres clientes “de graça”,
a União Nacional dos Estudantes, a UNE. Ganhei para eles o direito
de pagar meia-entrada em todos os espetáculos públicos, a começar
pelo cinema. Quando vinha o cliente pobre, a primeira frase era co-
mum a todos: “Não posso, doutor, pagar um advogado como o
senhor, mas...”. Depois desse “mas”, quase sempre um drama
humano, a angústia, a dor, o pedido de socorro.
Se a causa fosse simples, encaminhava para advogados mais
jovens e os compensava com participação em outras, de boa
remuneração. Se a questão de Direito fosse intrincada, eu mesmo
ficava com o problema. E um pobre, pela simplicidade de suas vidas
e relações, pode ter questão de Direito complexa? Pode, e como!
Nada disso foi feito por demagogia ou por exibicionismo,
mesmo porque, como já disse, jamais fiz publicidade ou permiti
noticiário sobre meus casos. Há um momento, na vida de todo
homem, em que o exercício da solidariedade, por ternura ou amor ao
próximo, não depende de remuneração. Creio que os advogados,
quase todos, cultivam esse sentimento. Enfim, esses auto-elogios
estão sendo escritos num elegante — penso eu — exercício de
cabotinismo, para contar como fiquei sabendo da existência desse
bicho chamado advogado.

125
Uma noite, ao sair do escritório, tarde, cedo mais que a
madrugada andei pelas ruas do centro de São Paulo, exposto aos
trombadinhas da época que, além de aborrecerem pelo assalto, eram
uns chatos, por interromperem as divagações que, nessas horas
calmas, invadem o pensamento, precisamente para propiciar
descanso ao cérebro.
Naquela noite, seria um crime, se qualquer trombadinha
interrompesse meus devaneios. Veio-me à memória um fato ocorrido
quando eu tinha oito anos de idade e morava na Fazenda Santa
Luzia, em Cravinhos. Infância: tempo de fazer perguntas.
Minha mãe chamou-me, para dizer que eu iria com meu pai a
Ribeirão Preto, no dia seguinte.
Ir com meu pai à cidade! Não consegui dormir.
De manhã, minha mãe vestiu-me calça curta de veludo azul-
marinho (e Ribeirão Preto estourava de calor), sapatos de verniz,
blusa de babados.
Tudo isso me apertava, talvez porque a roupa e os sapatos
tivessem sido comprados quando eu era menor. Mas tinha que
servir, mesmo apertando, porque eu ia para Ribeirão com meu pai.
Afinal, eu era apenas um pescador de bagres no córrego de
baixo, que corria no fim do pasto da velha fazenda de café. Descalço,
livre, queimado de sol, timoneiro de árvores que navegam o infinito
das terras roxas dos cafezais condenados à morte, sem que eu
soubesse.
Mas ir a Ribeirão Preto com meu pai valia o sacrifício da roupa
apertada e que podia ser considerada nova pelo pouco uso, desde
que fora comprada sob medida pela minha então moça e sempre
linda mãe.
Era uma baratinha Chrysler, carro importado, não me lembro o
ano, antigo, mas em bom estado. Não havia automóvel nacional. Isso
veio muito depois, com Juscelino Kubitschek.
Meu pai usava guarda-pó. Dezoito quilômetros de estrada de
terra, morros, pirambeiras, porteiras de outras fazendas, que eu
abria para a baratinha passar. Primeiro atravessava-se a fazenda
Santa Rosa, de João Bighetti, depois uma estação ferroviária,
chamada Arantes, ramal da Mogiana.
Então ele me explicou:
— Vamos a Ribeirão Preto consultar um advogado.
— O que é um advogado?
— É um homem que conhece as leis e defende o direito das
pessoas.
Não entendi bem por que o direito das pessoas devia ser
defendido; mas, se meu pai dizia, era verdade.
— E por que o senhor vai consultar um advogado?
— Porque estou sendo executado pelo Banco do Estado.
— O que é ser executado? O senhor vai preso?
— Não — e riu. — Fique tranqüilo! A safra de café não deu para
pagar todo o custeio que o banco financiou. Não foi possível pagar o
saldo devedor, e eles executam para receber o dinheiro.
— No ano que vem não terá mais café?
— Terá, mas eles não esperam.
Abri mais uma porteira. A viagem continuou. Meu pai
executado. Isso me parecia grave. Fiquei triste e fiz enorme esforço
para entender o que era custeio financiado, saldo devedor, sem saber
por que não se podia esperar a próxima safra para pagar o restante
da dívida, se tudo era por causa da mesma lavoura, na mesma
fazenda, o mesmo café.
Meu pai executado. Parecia fuzilamento, cadeira elétrica. Tive
vontade de chorar, mas Ribeirão Preto abriu-se à nossa frente, linda
e quente, clara e alegre, rica e humana.
Naquele dia, aprendi que Ribeirão Preto faz bem aos tristes e,
mais tarde, verifiquei que aquela cidade, não sei o porquê,
tranqüiliza as coisas da alma, que se agitam sem motivos. Seria
perfeita se não existissem políticos que, salvo as exceções,
complicam a pureza da cidade.
— O advogado é o Dr. Guião — disse meu pai com ar de
solenidade. E explicou: — É o melhor da cidade, tanto que é
advogado da Dona Sinhá Junqueira.
Não sabia eu quem era um e outra; mas, se meu pai dizia que
eram importantes, eram realmente importantes.
Entramos. Sala de espera pequena. Secretária, algumas
pessoas. Percebi meu pai um pouco fora do natural, preocupado em
parecer mais educado do que era, embora já o fosse suficientemente.
Esperamos. As pessoas se olhavam. E nada diziam.
Afinal, chegou nossa vez.
Na sala, espantou-me a prateleira de livros, todos encapados,
vermelhos uns, pretos outros, alguns com títulos, quase todos com
números romanos. Nenhum de poesia.
Meu pai falou da execução, da citação, do oficial de justiça, a
quem até explicara do que se tratava. O advogado perguntou se tinha
a contrafé.
Olhei, curioso. Meu pai disse que sim e tirou do bolso do paletó
um papel. Deu-o ao advogado. O Dr. Guião, simpático, falava manso,
muito educado. Leu, leu, leu. Abriu um livro, olhou qualquer coisa e
disse:
— Ainda temos prazo.
— Recebi ontem — informou meu pai com ares esperançosos.
Falaram coisas, sem que eu as entendesse. Lembro-me de
expressões como “o banco é implacável”, “a ação é executiva”,
“haverá penhora”, “24 horas”, “teremos prazo para embargos”,
“ganharemos tempo até o leilão”.
Senti que meu pai sofria com esperanças, atitude dos
agricultores em geral, mesmo diante da certeza de que haverá leilão.
Mas sofria, e isso me fez mal.
Em seguida, assinou uma procuração e um cheque.
Saímos.
Na volta, o velho disse:
— Se o banco não me quebrar, o advogado me quebra. O
homem é bom, mas é caro.
No fundo, porém, ele estava orgulhoso. O advogado mais
famoso de Ribeirão Preto o aceitara como cliente. Embora executado,
equiparava-se a Sinhá Junqueira. Notei que era muito importante
para meu pai ter um advogado famoso. Isso o tranqüilizava, mesmo
na causa perdida. A situação equipara-se à morte assistida por
médico famoso. Morre-se igual a qualquer um, mas o médico era o
melhor.
Antes de ir embora para a fazenda, passagem obrigatória pela
casa das minhas tias. Meu pai contou-lhes tudo. “O Dr. Guião? Você
não poderia ter outro! É o melhor!”
Na fazenda, explicou tudo para minha mãe. O Dr. Guião
aceitara a causa. Ele “ajustara” o Dr. Guião, porque “ajustar” um
advogado famoso, que aceitasse a causa, já era uma glória. O banco
ia ver.
Contou do cheque. Era de outro banco, para evitar risco de
penhora, segundo instruções do Dr. Guião.
Fiquei realmente orgulhoso de meu pai ter me feito participar
de momento tão solene para a família, segundo o testemunho de
minhas tias e a aprovação de minha mãe. Mas tirei aquela roupa
complicada, fiquei descalço, voltei para a pescaria de bagres e
esqueci.
Depois de muito e muito tempo, fiquei sabendo que meu pai
havia sido lançado na lista negra do banco, entre devedores
inadimplentes, impropriamente chamados de remissos.
Não sei se a culpa foi da insuficiência da penhora, ou da safra
do ano seguinte, insuficiente como todas, ou do Dr. Guião, que não
ganhou o tempo prometido. Nem sei se houve leilão.
Sei que meu pai não tocava no assunto. Para ele, era uma
desonra aquela situação cadastral no Banco do Estado de São Paulo.
E se explicava para si e para os outros, dizendo coisas sobre quem
produz para o país e não pode pagar o financiamento da produção,
porque o preço cai na hora de vender o “produto colhido”.
Maldizia os preços do mercado e os custos financeiros, que não
incluíam o que ele pagava — e como pagava bem para os parâmetros
da época — aos seus enxadeiros. Coisas que somente fiquei sabendo
depois, inclusive quando aprendi o sentido da palavra “parâmetro”.

126
Já advogado em São Paulo, conhecendo quase todo mundo, fui
procurado por um diretor do Banco do Estado, que me disse:
— Seu pai está na lista dos devedores remissos. É preciso
apagar isso. Se você quiser, dou um jeito.
Primeiro, não gostei de haver o diretor descoberto esse enorme
segredo de família. Por que se meteu no assunto? E o sigilo
bancário? Um pouco sem delicadeza, disse-lhe para não se
incomodar. Meu pai já não tinha mais fazenda; era apenas diabético.
Vivia tranqüilo em sua casa de Santos, longe das complicações das
lavouras de café. Em Ribeirão Preto, nem café havia mais. Somente
canaviais e usinas. E não havia mais a minha infância, que ficou
remida (no sentido certo) com a dívida da safra insuficiente.
Tempos depois, no auge de minha carreira profissional, meu
pai morreu, ainda “remisso” no cadastro do Banco do Estado. Por
ironia, jamais um agricultor me procurou para discutir dívidas com
aquele banco. Nesse aspecto, os advogados do interior têm a
indiscutível preferência. E são melhores. Vivem dentro do drama de
seus clientes.
Mas, precisamente entre pessoas famosas, surgiu um
executado pelo Banco do Estado de São Paulo, que me procurou
para defendê-lo. Era Edmundo Monteiro, diretor dos Diários
Associados, executado por haver avalizado enorme dívida cambiária
da empresa para com o banco. Aquelas coisas de Assis
Chateaubriand. Aceitei a causa, sem nada cobrar.
— Mas como?
— O banco vai pagar tudo.
— Mas, doutor, é aval, obrigação cambiária, não há como me
livrar disso!
— O senhor me procurou para quê?
— Para ganhar tempo, fazer um acordo mais tarde, dificultar
as coisas para o credor!
Sua intuição, já naquele tempo, estava certa. O Judiciário é o
paraíso dos devedores. Ganha-se tempo, ganha-se a eternidade, e
enlouquecem-se os credores que, algumas vezes, celebram acordos
lesivos aos seus créditos.
— Nada disso! — respondi eu e, com o máximo atrevimento,
completei: — Vamos ganhar a causa!
Incrédulo, assinou a procuração. Não sei o que ele disse para
sua família àquela altura. Mas ganhei a causa. Aleguei ter sido o aval
obtido sob coação do banco e da empresa contra seu empregado,
quando não estava em condições de levantar tão vultoso empréstimo,
concedido por gestão temerária da diretoria da instituição financeira,
tudo provado, com testemunhas, laudos, balanços. Bingo! Sentença
linda, confirmada no tribunal. Transitou em julgado. E os honorários
de sucumbência foram realmente polpudos. Em valores reais, recebi
cem vezes mais do que meu pai devia ou devera ao banco. Recebi,
portanto, mais de cem boas safras de café nunca produzidas pela
Fazenda Santa Luzia.
Um diretor dos Diários Associados,56 naquilo que sobreviveu do
enorme grupo de comunicação, não se esqueceu da façanha. Até
hoje, quando me encontra, fala no aval do Edmundo e me pede para
contar o segredo.
Contei a história a meu filho Fernando Saulo, e ele pediu-me
para comprar-lhe um carro. Não comprei. Apliquei os honorários no
tratamento médico de minha mãe, que sofria de glaucoma. Com
acompanhante, mandei-a para a Espanha, Paris, Roma, com farto
suprimento de dólares, a conselho de um excelente oftalmologista de
Ribeirão Preto, Dr. Guilherme Ortolan, que confiava nos avançados
recursos europeus. Adiantou pouco. Depois de várias cirurgias,
perdeu a visão de um olho. Mas ficou encantada por haver visitado a
Espanha, terra do pai dela, meu avô, que morreu não acreditando
em avião. “Se quisesse que o homem voasse”, dizia ele, “Deus lhe
teria dado asas.” Não tinha jeito. Avião não existia.
Meu pai, porém, continua na lista dos inadimplentes do Banco
do Estado de São Paulo, que hoje se chama Santander, comprado
pelos espanhóis, conterrâneos do meu avô, que não acreditava em
avião. Meu pai era agricultor, circunstância que o faz inadimplente,
mesmo depois de morto.
Não tenho vagas para clientes novos. Meu escritório continua
repleto de causas. E como tenho clientes! Todos absolutamente
inocentes! Sei que me tornei advogado famoso, mas, no fundo, devo a
meu pai inadimplente o cuidado com o qual estudo as questões dos
injustiçados. Ele era um deles, quando “ajustou” o Dr. Guião. Que
fim levou a Sinhá Junqueira? Como dói a saudade de Ribeirão Preto
e de Cravinhos, saudade julgada e condenada à revelia, sem
advogado que a defenda! Não há defesa para a melancolia de estar
longe do ventre de minha infância. A saudade dói, mas não transita
em julgado. Carlos Drummond apenas descobriu que ela doía.
56 Hoje a direção dos Diários Associados está entregue às competentes mãos de Ari
Cunha, Edison Zenobio, Alvaro Teixeira da Costa, Evaristo de Oliveira, Manuelito
Eduardo Campos, Joezil Barros, Gladstone Belo e Maurício Dinepi.
127
O caso do Sr. Olavo Brás, embora caminhando lentamente,
como tudo no Judiciário, teve alguns avanços significativos. O
requerimento para ouvir a médica da ex-esposa mereceu um
substancioso parecer favorável do Curador de Família, um dos mais
dedicados e cultos membros do Ministério Público de São Paulo.
Observou ser absolutamente imperiosa a necessidade de ouvir da
especialista o diagnóstico do estado mental da mãe das crianças para
avaliar a consistência ou a fantasia das acusações contra o ex-
marido, além de colher elementos para o deslinde principal: qual
destino dar à guarda das crianças. A semente da dúvida estava
germinando naquele processo.
Além disso, o Curador ainda insistiu na conveniência de se
obter, caso confirmada alguma doença mental grave, um prognóstico
de seu desenvolvimento, pois estava em jogo o interesse da educação
futura dos menores sob a guarda da mãe.
Fiquei tão alegre com o parecer do Ministério Público que tive
de aplacar minha consciência. Eu achava realmente que a mulher
era louca, por ter feito o que fez. Mas, claro, além de não a conhecer,
não tinha a menor idéia sobre o tipo de doença mental que sofria.
Que sofria alguma, sofria. Era, sem dúvida, uma psicótica. Ninguém
contrata uma psiquiatra de fama apenas para falar mal da vizinha
ou para contar as gracinhas de seu gato de estimação. Enfim, eu
estava realmente torcendo para que a mulher fosse clinicamente
louca. E torcendo mais ainda para a médica contar tudo isso em
audiência
Não seria fruto de uma censurável parcialidade do advogado?
Meu Deus, não é bem assim! O advogado, na defesa do cliente, tem
que ser parcial não há outro jeito. Não apenas fazer tudo em favor do
direito dele, como também bombardear, sem incorrer em nenhuma
prática ilícita, as pretensões da parte contrária. Paciência! Era meu
dever. Tomara que a mulher fosse louca. Melhor ainda se fosse louca
varrida.

Afinal, chegou o dia da audiência na Vara de Família, marcada


para ouvir a psicanalista da ex-mulher do Sr. Olavo Brás. Quando
entrei na sala do juiz, ele me contou uma curiosidade. Disse que,
quando o oficial de justiça intimou a médica para depor, informando
do que se tratava, a psiquiatra exclamou:
— O que será que ela aprontou desta vez?

128
A doutora, psicanalista e psiquiatra, foi convidada a se sentar
pelo próprio juiz, que, num gesto de gente educada, saiu de sua
poltrona e puxou a cadeira, para que a senhora se acomodasse com
maior facilidade. Podia ter mandado o escrevente fazer isso. E fez as
apresentações:
— Aqui estão o Curador de Família, os advogados das partes,
aquele senhor ali é o patrono do Dr. Olavo Brás, e esse doutor, ao
seu lado, representa sua cliente.
— Ex-cliente — atalhou desembaraçadamente a médica.
— Agradeço à senhora por atender à intimação para vir depor.
Sua obrigação legal já está cumprida. A senhora pode recusar-se a
responder as perguntas que, a seu critério, contrariem seus deveres
éticos de guardar sigilo sobre a intimidade de sua ex-cliente. Apenas
gostaria de enfatizar que estamos tratando de um problema grave, no
interesse de dois menores, filhos dela, procurando encontrar a
melhor solução para as crianças. E nisso a senhora pode nos ajudar
muito.
— No que puder, estou disposta a ajudar — respondeu a
doutora.
— A sua ex-cliente fez tratamento com a senhora, segundo
temos informações — começou o juiz, usando de sua costumeira
habilidade, que se esmerava pela delicadeza e educação. — E
gostaríamos de saber qual o tipo de doença diagnosticada pela
senhora.
— A princípio, parecia tratar-se de paranóia simples, aquela
doença psiquiátrica cuja característica central é um delírio bem
organizado. As idéias falsas persistem no tempo e são contraditórias
às evidências da realidade, mas não desorganizam completamente a
personalidade e o funcionamento do indivíduo, como a esquizofrenia.
Ela apresentava mania de perseguição, e o principal perseguidor era
o marido, pois, na época, estava casada.
— A senhora disse “a princípio”. O que descobriu, além da
paranóia simples? — perguntou o magistrado.
— Algo muito mais complicado: além do delírio paranóide, da
certeza da perseguição, descobri, logo depois, em sessões
continuadas, que cumulava igualmente a paranóia com delírio
erotômano.
— A senhora pode nos explicar, todos somos leigos na matéria,
o que é delírio erotômano?
— É, igualmente, mania de perseguição, mas por pessoas que,
na sua fantasia, desejam ter um caso romântico com ela, viver uma
aventura, fazer sexo. Esse aspecto é perigoso, porque o doente, às
vezes, conhece uma pessoa na realidade, numa festa, numa reunião,
é apenas apresentado e vai para casa com a sensação nítida de que
recebeu um convite para a aventura. Torna-se tão real que, no dia
seguinte, é capaz de telefonar para a pessoa, ou censurando o
desrespeito, ou aceitando a proposta, o que deixa perplexo o alvo de
seu desejo.
— Mas, por enquanto — observou o magistrado — estamos no
terreno da paranóia. A senhora diagnosticou algum outro tipo de
patologia psicótica?
— O pior deles, a esquizofrenia, que, talvez, tenha derivado da
paranóia na juventude, mas é muito mais nociva e grave. Não se
trata da doença que popularmente é considerada loucura, a
esquizofrenia hebefrênica,57 que desorganiza completamente o
cérebro do doente. No caso da minha então cliente, era evidente a
esquizofrenia paranóica. Isso quer dizer que sofria todas as fantasias
da paranóia com capacidade de dissimulá-las, mas cultivava o ódio e
o desejo de vingança, característicos da esquizofrenia. A perseguição
para o esquizofrênico, é para destruí-lo, matá-lo, fazer mal físico,
enquanto para o paranóico, é para bajulá-lo, adorá-lo como a um
ídolo, que ele se sente ou porque entende haver despertado grande
paixão em alguém. Quando essas duas doenças se manifestam
juntas, o problema é grave, embora esse tipo de esquizofrenia
encoraje melhor prognóstico, tem tratamento, e com bons resultados
em muitos casos, regredindo para a esquizofrenia indiferenciada.
— Ela procurou a senhora espontaneamente para se tratar?
— Não. Esse tipo de doente nunca admite precisar de
tratamento, mesmo porque eles se consideram normais. Ela foi
levada pelo marido, antes da separação do casal. E a ele expliquei
que o apoio da família era fundamental. Depois do desquite, ela me
avisou que não iria mais. Talvez quando mais precisasse, pois a
separação agrava a esquizofrenia.
O juiz franqueou-nos as perguntas. Começou pelo Curador de
Família, membro do Ministério Público respeitado no meio judiciário,
jurista de grande talento e estudioso. Formulou uma pergunta que
até a mim espantou:
— Devo informar à senhora que os oficiais de justiça, no
cumprimento de suas diligências, têm a obrigação de tudo observar
e, quando se deparam com um fato de interesse da causa, relatam ao
juiz ou fazem constar de um termo especial. No seu caso, o oficial de
justiça informou-nos que, ao notificar a senhora, ouviu uma
expressão sua de forte significado: “O que será que ela aprontou

57 Forma de esquizofrenia observada, em geral, em adolescentes, e que se caracteriza


por distúrbios de afetividade, regressão e hipocondria, hebefrenia.
desta vez?”. A senhora pode nos dizer a que fato anterior, praticado
por sua ex-cliente, estava se referindo?
— É verdade. Deixei escapar a exclamação. Mas peço
desculpas e, conforme me foi assegurado no início da audiência,
gostaria de não responder, porque interfere no meu dever de segredo
profissional.
Todos concordamos, mesmo porque não havia outro jeito.
O advogado da autora formulou uma única pergunta:
— A senhora acha que sua ex-cliente poderia agir por impulso
contra alguém, em momento de crise ou de surto da doença, ou seria
capaz de planejar algo coerente para prejudicar o ex-marido?
— Ambas as hipóteses são plausíveis. O doente psicótico tem
capacidade de planejar ou de explodir, comportando-se como um
aldrabão.
Chegou minha vez de perguntar, creio que para alívio geral:
— A senhora me desculpe, mas o que quer dizer “aldrabão”?
— Pessoa que age com loucura e trapaceia para enganar os
outros.
Confesso que não sabia, mas adorei a resposta. Mandei outra
pergunta:
— Nas suas sessões de tratamento, a senhora verificou se a ex-
cliente odiava o marido?
— Claro! Odiava e muito. Na sua obsessão, o marido era o
perseguidor que lhe faria mal. Chegou a ter medo de dormir com ele.
— A senhora soube o motivo?
— Doutor, esse tipo de doença não tem motivo concreto algum
na situação presente. O doente cisma, e pronto. O que é preciso
saber é a origem da cisma, a causa remota do mal. No caso dela, o
próprio marido se preocupou e a trouxe ao meu consultório. E foi
várias vezes falar comigo, para saber como ia o tratamento,
mostrando-se preocupado por não ver resultados imediatos.
— Agora me diga, doutora — perguntei, olhando fundo nos
olhos dela. — No processo judicial de que estamos tratando aqui,
existe uma fita gravada pela sua ex-cliente, em que ela faz perguntas
específicas sobre atos obscenos praticados pelo pai com os filhos, e
as crianças respondem confirmando. A senhora acha que o ódio
dessa mulher forçaria seus próprios filhos a confirmarem tais atos do
pai, ainda que não sejam verdadeiros?
— A característica do seu tipo de esquizofrenia paranóica é
vingar-se das pessoas que julga suas perseguidoras. Seria bem
possível que fizesse isso para vingar-se do ex-marido, mesmo sem ter
motivo ou causa para isso. Mas poderia estar transferindo ao marido
o ódio e desejo de vingança que tivesse nutrido contra outra pessoa
no passado.
— Em hipótese, quais as pessoas que poderiam ter causado
essa patológica conduta?
— Em geral, essas situações traumáticas, os pacientes as
sofrem na infância, quando submetidos a abusos, violência ou atos
sexuais. Podem ser culpa dos pais, de parentes próximos, de
vizinhos. É preciso investigar.
— A senhora não conseguiu desenterrar de sua cliente a
lembrança de uma situação que pudesse ter em tese dado causa à
sua atual situação mental?
— Não consegui. Toda a vez que chegávamos a esse ponto,
perguntas sobre sua infância, sua mãe, seu pai, ela encerrava a
conversa. Levantava-se e ia embora. Claro que minha experiência na
matéria deu-me a convicção de que a causa de tudo era algo em sua
infância, relacionado com a mãe ou com o pai. Com o tratamento
interrompido, não tive oportunidade de tentar obter dela um regresso
ao passado que revelasse essas causas e que, talvez, pudesse aliviá-
la de algum pesadelo que a atormentasse desde pequena.
Declarei-me satisfeito e não fiz mais perguntas.
O juiz reduziu tudo a termo (mandou o escrevente datilografar),
todos assinaram, e a audiência foi encerrada.
Levantamos, e o advogado da mulher perguntou-me:
— O senhor acredita realmente nessa sua tese?
— Tenho certeza! E o senhor tome cuidado, porque essa
mulher ainda vai dizer que foi coisa sua propor a ação de cassação
do direito de visitas.
Ele não gostou muito, mas saiu assustado, pensativo, com
fortes vincos na testa. Não deu para disfarçar. Fui despedir-me do
juiz e dele ouvi:
— Parece que o senhor está virando o jogo. O depoimento da
médica foi muito favorável ao seu cliente.
— Favorável às crianças, meu respeitável doutor — devolvi a
observação que ele não se cansava de fazer. — Mas há algo ainda
que preciso obter neste processo: ouvir as crianças.
Ao lado, estava o Curador, que deixou escapar:
— É fundamental essa providência. Temos que ouvir essas
crianças outra vez.
— Outra vez? — perguntei com ares de absoluto espanto.
Os dois se entreolharam. Percebi um sorriso enigmático do
juiz, meio de Mona Lisa, e o Curador corrigiu:
— Outra vez a que me refiro é uma nova audiência, como essa
que tivemos hoje. Ouvir as crianças em uma outra vez.
Os dois estavam me enrolando gentilmente, mas senti que
caminhava seguro para ganhar a causa. E ouvir as crianças era meu
grande trunfo. O definitivo.

129
Em geral, tenho sorte em audiências. Consigo demonstrar
mentiras nas testemunhas e, muitas vezes, virar o jogo. Uma vez
aconteceu isso na CPI do Café, instaurada na Câmara dos
Deputados, para investigar o que chamavam de negociata praticada
pelo Instituto Brasileiro do Café (IBC) e pela Comal, empresa de um
cliente nosso, Mário Simonsen, um sonhador e idealista que, no
Governo Juscelino Kubitschek, montou um sistema para vender
produtos brasileiros no exterior.
Chegou a ter escritórios em quase cinqüenta países do mundo,
numa época em que a caipirada daqui somente sabia vender FOB,
isto é, nos portos. Ninguém se aventurava a atravessar os mares e
vender lá fora, onde seria possível obter melhores preços pelos
produtos brasileiros e maior receita de divisas para o Brasil.
Mário Simonsen partiu por esse mundo afora, para conquistar
mercados. Vendia tudo: café, açúcar, tecidos, cachaça, tudo o que o
país produzisse. Em sociedade com Celso Rocha Miranda, comprou a
Panair do Brasil, para contar com o transporte aéreo e, sobretudo,
com as empresas de retifica de motores de avião e uma especial,
avançadíssima, com sistema de antenas precursoras dos radares,
que orientava todos os vôos que se aproximavam da América do Sul.
Quando começou a sofrer campanha difamatória por sua ousadia,
fundou a Televisão Excelsior, que foi um sucesso, quebrando a hege-
monia de Chateaubriand, que monopolizava o mercado com a TV
Tupi.
Veio o golpe militar. Acusaram Simonsen de negociata, porque
havia feito para o Governo a intervenção de compra da safra cafeeira
no Estado do Paraná. A razão dessa medida intervencionista era a
seguinte: a produção de café era muito grande naquele ano, acima de
nossa capacidade de exportação. O excesso de oferta faria baixar o
preço nos mercados internacionais. Aí, o Governo Juscelino
Kubitschek bolou um plano: o IBC compraria, como comprou, a
safra toda, pagando bom preço aos cafeicultores e, depois, exportaria
aos poucos, sem depreciar as cotações nos mercados externos. O
excedente seria estocado à custa do governo. O café rendia mais de
três bilhões de dólares num total de exportação que não chegava a
cinco bilhões. Era o nosso ouro.
Tinha que ser defendido, insistiam os economistas da época.
Outras empresas ficaram com as compras nos estados de São Paulo
e Minas Gerais. Simonsen ficou com as do Paraná. Mas somente a
empresa de Simonsen sofreu forte campanha difamatória depois que
se instaurou o governo militar, cujos líderes cismaram com o
empresário, porque, depois da renúncia de Jânio, ele prestigiou a
posse de Jango, que estava na China e fez um longo percurso para
voltar ao Brasil. Uma das escalas foi em Paris, onde Simonsen deu
apoio logístico a João Goulart e pagou sua hospedagem no Hotel
Prince de Galles, na Avenida George V.
As demais empresas eram inofensivas. Compravam o café,
armazenavam, entregavam para o IBC, recebiam o dinheirinho delas
e... até a próxima! Quando precisar, me chame! Simonsen era
diferente. Ele próprio se encarregava de exportar para empresas suas
no exterior e concorrer com as grandes companhias que dominavam
o mercado internacional de grãos. Loucura! Naquela época, o
empresário latino-americano que fizesse concorrência aos grandes do
mundo estava frito.

130
Mário Simonsen, como empresário, cultivava idéias muito
avançadas para o seu tempo. Sonhava com a globalização e achava
que os brasileiros tinham que ir para o exterior, levar seus produtos,
e não se limitar à rotina da exportação, isto é, esperar que os
estrangeiros viessem aqui para comprar, ou que as nossas vendas se
processassem por meio de ofertas pelo correio. Dizia que o
empresário brasileiro tinha que abrir empresas no exterior e, em
alguns países, abrir no mínimo escritórios de vendas e
intermediação, para forçar a oferta de produtos nossos. Em outros
países, associar-se a empreendedores.
A partir dessas idéias, quis dar o exemplo, abrindo sua
principal empresa lá fora, a Wasin, que teve escritórios em vários
países: Estados Unidos, Inglaterra, França, Suíça, Itália e muitos
outros.
A Wasin vendia no exterior o café que, no Brasil, era comprado,
processado e selecionado pela Comal, a firma dele, especializada em
comercialização cafeeira.
Panair e TV Excelsior foram empresas sem importância
econômica para ele. Serviam de meios para implementação de suas
idéias, a primeira para transporte internacional e a segunda para
divulgação no Brasil do que ele entendia correto e necessário na
orientação ou, pelo menos, no debate do comercio e da política
econômica. As empresas de comunicação daquele tempo eram todas
subservientes ao governo, sobretudo o grupo mais poderoso, os
Associados. O preço que Chateaubriand cobrava para uma
campanha era mais alto que comprar uma emissora de TV.
Mas, ao comprar uma emissora de televisão, Mário Simonsen
acirrou os ânimos dos concorrentes, temerosos com a possibilidade
do possível sucesso. Começou com programas modernos e com
grande audiência. Contratou profissionais capacitados, como Álvaro
Moya, Manuel Carlos, Bibi Ferreira, Boni (José Bonifácio Sobrinho),
Cláudio Abramo (jornalismo) e outros. Cheguei a trabalhar com eles
na Televisão Excelsior. Eram fantásticos. Manoel Carlos, antes de
escrever novelas, fazia críticas aos políticos e contava anedotas no
Gigetto, restaurante obrigatório de nossos jantares, mesmo porque
era uma espécie de filial do velho restaurante Carlino, da Vieira de
Carvalho, ambos ingredientes da saudade do centrão de São Paulo.
A TV Excelsior nada interferiu na derrocada do Grupo
Simonsen. O que provocou a guerra contra ele foi sua capacidade de
concorrer no exterior com as empresas norte-americanas, que até
então mantinham o monopólio dessa comercialização por meio de
um cartel muito conhecido naqueles velhos tempos: o ABCD (André
& Cia., Bunge & Born, Continental e Dreyfus).58 Tais empresas
monopolizavam a comercialização de grãos. Até hoje isso acontece,
incluindo a banana e o chá, agora por intermédio de várias multina-

58 A Bunge & Born teve uma filial no Brasil chamada Lubeca, a primeira empresa a
apoiar Lula, em 1989, com recursos não contabilizados. A Prefeitura de São Paulo
era do PT. Que o digam o advogado do partido Eduardo Carnelós e o Deputado
Ronaldo Caiado, que viu os cheques.
cionais que engoliram as empresas regionais. Segundo denúncias da
Action Aid, publicada no jornal inglês The Guardian, a tarefa de
monopolizar o comércio desses produtos está sendo exercida na
atualidade pelas respeitáveis Nestlé, Monsanto, Unilever, Tesco, Wal-
Mart, Bayer, Cargill e outras, embora tenha eu alguma reserva
contra a imprensa inglesa — fica o registro.

131
Naquela época, porém, o comércio de grãos era monopólio do
cartel ABCD. A Wasin passou a vender café agressivamente na
Alemanha, no leste europeu, na Itália e (ato suicida) em Nova York,
no mercado green coffee (café verde), com alguma iniciativa para
ingressar no mercado de café torrado e moído. Crime explícito,
porque, afinal, um país tradicionalmente colônia não podia desejar
mais do que vender matéria-prima em seu próprio território.
Informação útil: uma saca de café de 60 quilos valia no Brasil
(FOB) cerca de cinqüenta dólares. Vendida em xícaras no exterior, a
mesma saca produzia US$1200,00. É fácil imaginar a margem de
negócios que havia entre os US$50 e os US$1200,00. Mário queria
que o Brasil e ele próprio abocanhassem os dólares que se acresciam
nesse espaço.
Mas as firmas estrangeiras concorrentes estrilaram, não tanto
porque Wasin fosse uma ameaça, mas pelo exemplo e precedente,
que poderia alastrar-se para outros países, como a Colômbia, os da
América Central e alguns africanos. Bem, isso já é dedução
elementar, porque a reação foi realmente organizada, inclusive com a
contratação de marqueteiros para a campanha publicitária.
Algumas dessas firmas eram ligadas ao Bank of America e aqui
contavam com um aliado eficiente, o Deputado Herbert Levy, dono do
Banco América, que se aproveitou do cargo de parlamentar e fez uma
campanha mortal contra Mário Simonsen. Começou pela CPI do
Café, onde deu longos shows de acusação durante meses, com a
cobertura entusiasta da TV Tupi em todo o Brasil.
Uma das providências políticas do Governo foi cassar a Panair,
concessionária de transportes aéreos, para felicidade do Rubem
Berta. A Varig se apoderou de todos os bens da Panair aqui e no
exterior, de prédios na Europa, com a conivência do interventor
nomeado pelo Governo. Até hoje, não houve prestação de contas
sobre o destino daqueles bens, que pertenceriam à massa falida
daquela empresa e a seus funcionários.
As denúncias, às centenas, tiveram uma orquestração bem de
acordo com a moda: órgão de imprensa para o devido escândalo e, na
Câmara dos Deputados, Comissão Parlamentar de Inquérito para
rigorosa apuração dos fatos denunciados. Tudo começou naqueles
tempos. Não é de hoje, portanto. O ambiente do governo militar era
fértil para a acusação de corrupção. Constituía a moda. Quando não
era subversão, era corrupção. A ditadura prometeu acabar com o
binômio. Acabou apenas com o primeiro. O segundo “nômio”
continua até hoje.

132
Os Diários Associados, de Chateaubriand, topavam qualquer
campanha para faturar, e os políticos queriam mostrar serviço para
os militares em moralizadoras investidas contra a corrupção. A
acusação, mesmo sem provas, contra corruptos, verdadeiros ou
inocentes, tinha líderes expressivos, como Ademar de Barros, logo
seguido por Paulo Maluf, que foi lançado na vida pública pelo
General Costa e Silva.
Na Câmara dos Deputados, instalou-se a CPI do Café para
apurar a corrupção do Grupo Simonsen e do IBC, Instituto Brasileiro
do Café. Como relator, o Deputado Herbert Levy, dono do Banco
América e ligado a firmas norte-americanas que negociavam com
café.
O Professor Vicente Ráo aceitou a defesa de Simonsen. E lá
fomos todos nós para a luta, em todas as frentes: televisão, Câmara
dos Deputados, Rio de Janeiro, Nova York, Paris, Londres, Suíça.
Começamos pela CPI. Somente se admitia um advogado de
defesa dos acusados. Era, pois, o próprio Professor Ráo. Para eu ir
como assessor, tive que ser nomeado diretor da Comal, Diretor
Jurídico. Tudo bem. Começa o interrogatório de um outro diretor da
Comal, e o Deputado Herbert Levy faz acusações, em vez de
perguntas. Aquela mania parlamentar de atrair holofotes. E lá
vieram as expressões apenas adjetivas: grave, estranha, inexplicável,
suspeita, imoral, quase o dicionário todo.
Depois de horas, o Professor Ráo resolveu intervir:
— Senhor Deputado: até agora, Vossa Excelência se referiu a
hipóteses abstratas, embora carregadas de adjetivos escandalosos,
mas que nada dizem de concreto. É preciso que ao menos um fato
seja indicado. Fato, senhor Deputado. Sem fatos, não existe
acusação, apenas injúria.
— Um fato? O senhor me pede um fato? Vou apontar. Entre as
regiões produtoras e os armazéns que recebiam o café, a Comal, que
os despachava, ficava com as vias ouro dos conhecimentos, o que
demonstra que levantou dinheiro com elas. Onde está esse dinheiro?
A bobagem era elefântica. Foi minha vez de esclarecer:
— Deputado, ninguém levanta dinheiro usando conhecimento
de embarque, papel provisório para documentar o transporte da
carga. No caso do café, o conhecimento tem várias vias: uma vai para
o IBC; outra, para o armazém geral destinatário; outra fica com
quem despachou a mercadoria. Cada via tem uma cor. A via de quem
despachou é amarela. No Paraná, tomou o apelido de via ouro,
apenas em razão da cor. Nada tem que ver com dinheiro.
Houve algumas risadas entre os membros da CPI. José Maria
Alkmin, que presidia a sessão e estava tirando uma soneca,
despertou, aprumou-se e pediu silêncio. Naquele tempo, sessões de
CPI não eram televisionadas. Não havia, Portanto, grande número de
exibicionistas, nem as atuais inquirições repetitivas, na maioria
medíocres, um risível campeonato de vaidades. A Constituição era
respeitada. Cuidava-se apenas do fato determinado. Não se
transformava a CPI em devassa geral contra o Governo. Apenas o
relator saía nos jornais, mas também apenas o relator podia fazer
trapaça com as provas.
Continuei explicando. Para levantar financiamento, dando o
café em garantia, era preciso que ele estivesse armazenado e
“warrantado”. Isto é, o armazém que o estocasse expedia um
documento de duas folhas, picotado no meio. Um lado era o
chamado “Certificado de depósito”, e o outro lado, “warrant”. O
portador do documento poderia endossar a primeira folha, chamada
certificado de depósito, para transferir a propriedade da mercadoria
depositada, caso e quando a vendesse.
A Comal endossou tais certificados e os entregou ao IBC, dono
do café. Para levantar financiamento, o endosso teria que ser no
verso da outra metade do papel, chamado warrant, que, nesse caso,
era destacado e ficava com o financiador, em geral uma instituição
financeira. Mas a Comal não havia endossado um único warrant,
nem o havia destacado do certificado de depósito, o que demonstrava
a inexistência de financiamento. Somente havia endosso no
documento que transferia a propriedade do produto para o IBC.
Esses detalhes são chatos, mas existe uma razão para contá-
los. A CPI, no final de seus trabalhos, aprovou, com votos
dissidentes, o relatório do relator, enviando-o ao Ministério Público.
E lá veio a denúncia. Eu, no meio, como réu, porque o deputado me
indiciou por co-autoria a posteriori, isto é, por tentar, como
advogado, encobrir os crimes dos clientes, na qualidade de diretor
jurídico da empresa, nomeado especialmente para essa maroteira, e
embaralhar os fatos da acusação.
E, fundada no relatório, a denúncia do Ministério Público
descreveu um acontecimento grave: o financiamento do café pela
Comal, por meio de endosso dos warrants. E lá estavam, anexadas à
peça acusatória, fotocópias daqueles papéis emitidos pelos
armazéns, com o endosso nos respectivos versos. Escândalo
nacional. Jornais e televisões reproduziam a “prova” indiscutível. Até
eu próprio cheguei a duvidar dos meus clientes, quando um deles me
afirmou:
— É montagem!
E era. Fotocópia do anverso do warrant e do verso do
certificado de depósito. Falsificação material escandalosa. E o pior de
tudo foi que eu, na CPI, devo ter despertado essa idéia no relator,
quando expliquei o funcionamento correto em caso de financiamento.
Para trancar a ação penal, ingressamos com habeas corpus no
Tribunal Federal de Recursos e juntamos os mesmos documentos
com frente e verso sem endossos. Os advogados eram de nomeada:
Vicente Ráo, José Frederico Marques, Canuto Mendes de Almeida e
outros, inclusive eu próprio, de carona.
O tribunal somente concedeu a ordem para trancar o processo
em relação a mim, porque era demais a acusação contra o advogado,
por ter defendido o cliente perante a CPI. Aí não dava para forçar a
barra. Mas negaram a ordem para os demais acusados. Falsificação
das fotocópias? Matéria de prova, incabível em habeas corpus.
Fomos para o Supremo Tribunal Federal, e a ordem foi
concedida para todos os nossos clientes e os diretores do IBC. Em
plena ditadura, nossa máxima corte constitucional declarou
solenemente que toda a história da campanha dos Associados, de
Herbert Levy, da CPI, do Ministério Público, do escambau, era falsa.
O estrago, porém, estava feito. O Grupo Simonsen não resistiu
à campanha, sobretudo pelos seus reflexos no exterior, onde seu
crédito ficou profundamente abalado. Sofreu um assassinato igual a
qualquer opositor da ditadura que fosse apanhado pelo DOI-CODI.
E nenhum falsário foi processado e condenado. Essas
circunstâncias bem brasileiras estimularam gerações futuras de
malandros a cometer crimes sob a absoluta garantia da impunidade,
ao meu ver o maior dos males nacionais.

133
Temendo que a Panair do Brasil pudesse escapar do desastre
geral, o Governo Federal cassou sua permissão para voar. O que
tinha a ver a Panair com os negócios da Comal? Nada. Mas se
lançaram contra ela. A Panair resolveu pedir concordata, distribuída
à Sexta Vara Cível do Rio de Janeiro, naquele tempo Estado da
Guanabara.
O Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Eduardo Gomes, foi
pessoalmente à Sexta Vara Cível. Mandou o juiz indeferir a
concordata e decretar a falência. O magistrado, diante de um
ministro do Governo Militar, teve vá-rios tipos de diarréia, intestinais
e cerebrais. E obedeceu.
Tempos mais tarde, um novo juiz assumiu a vara e resolveu
fazer negociata com o caso. Destituiu o Banco do Brasil do cargo de
síndico e nomeou um credor trabalhista para a função. O nomeado
recusou a nomeação meia hora depois. Em seguida, o magistrado
nomeou outro, que da mesma forma declinou do cargo vinte minutos
depois. Assim aconteceu também com o terceiro. Tudo no mesmo
dia. Aí o juiz poderia nomear alguém de sua livre escolha, porque a
velha lei o permitia após três recusas. O honesto magistrado
providenciou as três recusas no mesmo dia, para realizar
imediatamente seu grande golpe.
Nomeou para síndico um militar amigo dele, que, por sua vez,
convocou mais outros militares para auxiliá-lo, todos bem
remunerados. Dilapidaram as agências da Panair no exterior.
Estranhamente, mantiveram um funcionário do Banco do Brasil no
esquema de liquidação da companhia hospedado na Europa nos
melhores hotéis. Convidado de Rubem Berta, que pagou a conta e
ainda recebeu carta de agradecimento.
Está no livro de Daniel Sasaki, Pouso forçado:

“Isso sem mencionar a liquidação das agências no exterior,


outrora tidas como verdadeiros consulados brasileiros
localizados nas mais nobres esquinas da Europa e América do
Sul. O major Adriano responsabilizou-se pela realização do
ativo das lojas de [...]. Visitou as localidades, mas nunca
prestou contas. Constou dos autos apenas que ele obteve, por
todo o acervo no exterior, a irrisória quantia de 500 libras.
Apurou-se que, na verdade, a liquidação irregular dos bens
da Panair no exterior se deu ainda na sindicância do Banco do
Brasil e foi invocada como motivo para a sua destituição como
síndico da falência pelo juiz Rui Octávio Dominguez. Consta
que todo o patrimônio na Europa, Oriente Médio, África, Ásia e
América do Sul foi vendido sem leilão e por praticamente uma
só pessoa, Adolpho Schermann, funcionário do BB, que antes
de deixar as localidades queimou toda a documentação da
Panair. Em alguns casos, nem houve arrecadação de bens, mas
venda a particulares — por preços simbólicos ou até sem
avaliação. Apenas recentemente se teve amplo acesso aos
documentos sobre a atuação do banco no processo, que
efetuou diversas transações sem qualquer formalidade ou
prestação de contas.”

Muito antes de Marcos Valério, o Banco do Brasil sofreu


injunções políticas com nomeação de diretores indicados pelos
poderosos do dia. A instituição é séria, um patrimônio do povo
brasileiro. Lamentável, porém, que seus estatutos admitam
nomeações políticas para cargos de relevantes funções.
A União desapropriou os aviões da Panair e, pelo valor das
aeronaves fixado nos próprios laudos dos peritos da falência, a dívida
do Tesouro Federal estaria paga e ainda a massa teria direito a
crédito. A Receita Federal teve o descaramento de falsificar uma
dívida ativa, de inscrevê-la, e a União, por um membro do Ministério
Público Federal, fiscal da lei, cometeu um enorme crime: habilitou-se
novamente no processo como credora, utilizando-se de um crédito
falso. Assim, impediu o final do processo na Justiça.
O que havia por trás de tudo isso? Rubem Berta, dono da
Varig, manobrava os militares, sobretudo os da Aeronáutica, porque
desejava obter as linhas aéreas para a Europa. Não escondia nada de
ninguém. Manipulava abertamente. Distribuía carteirinhas da Varig
para o pessoal do governo viajar de graça.
E os altos escalões, de escalada em escalada, assassinaram a
Panair, não apenas para servir Rubem Berta, mas porque tinham
ódio político do Grupo Simonsen-Rocha Miranda, que apoiou a posse
de João Goulart na Presidência da República, depois da renúncia de
Jânio. Simonsen e Rocha Miranda deram cobertura a Jango na
viagem de volta da China até o Brasil. Três anos depois, Jango foi
deposto. Começou o processo de vingança, a serviço da Varig.
Vejam como as coisas se entrelaçam nos mistérios e nos
desígnios dos planos demoníacos. Chamo atenção para o
impressionante estudo do Professor Alexandre Fortes
(http://www.duke.edu/web/las/Council/fortes.html), mostrando a
cultura administrativa da empresa, desde a década de 1930, quando
seu fundador, Otto Ernest Meyer, além de transportar nos aviões da
Varig os jornais e o caixa de um embrionário Partido Nazista
Brasileiro, escrevia artigos no Neue Deustsche Zeitung, um jornaleco
pró-nazista de Porto Alegre. Em sua correspondência oficial, Meyer
sempre terminava com a saudação Heil Hitler! Seu braço direito em
tão repulsivas tarefas era um jovem, Rubem Berta, que também viria
a presidir a empresa. Já a Folha de S. Paulo, alguns anos atrás,
demonstrou de forma cabal, em reportagem jamais desmentida, o
envolvimento comprovado e o apoio absoluto da Varig com uma
extensa rede de espiões do III Reich que agiam no Brasil durante a
Segunda Guerra.59
Fácil, portanto, o entrosamento com os militares da ditadura

59 Ruy Nogueira, em artigo no seu blog.


brasileira. E foram usados os mesmos processos violentos
absolutamente fiéis ao estilo nazista na destruição da Panair do
Brasil. E os delitos de falsidade documental, habilitação falsa de
crédito em processo judicial, de uso de documento falso pelo próprio
Ministério Público, ficaram impunes. Por isso não se pode estranhar
muito quando Lula declara em Paris para uma repórter que essas
coisas são costumeiras neste país para justificar que seu partido, o
PT, também tem o mesmo costume.

134
A Varig hoje sofre grave crise financeira, sem muita esperança
de se safar, salvo ajuda do Governo, ou estatização, ou venda para
companhia estrangeira. Podem apostar: é maldição da Panair. O
sacrifício de inocentes um dia é cobrado pelos céus. Sobretudo se o
sacrifício foi imposto a uma empresa que precisamente honrava os
céus do mundo com seus vôos prestigiados por muitos povos.
Tudo o que a Panair tinha foi dado de mão beijada para a
Varig, que já sabia da cassação e, naquela noite, colocou seus aviões
para efetuar os vôos internacionais da empresa cassada. Rubem
Berta estava mais bem informado do que o Diário Oficial.
Quando Nelson Tanure, um armador baiano com nome de
japonês, mas descendente de libanês, ameaçou comprar o espólio da
Varig, o Vice-Presidente da República e Ministro da Defesa, José
Alencar, ao explicar que o Governo nada tinha que ver com o
negócio, teve a coragem de afirmar:

“Há um sentimento nacional em relação à Varig. Todo mundo


gosta da Varig. Então todo mundo deseja salvar a Varig. A
Varig foi a companhia que primeiramente começou a voar para
Nova York, Tóquio, Londres, Frankfurt, Roma e Paris.”

“Mineirim, onquetá côa cabeça, pra dizê um trem desse sô?


Tomô pincumel e tá mardofigo, da cuca, do bestunto.”

135
Vamos voltar à Panair.
A Celma, companhia subsidiária da Panair, especializada em
conserto e manutenção de motores de aviões, a pistão e a jato, única
na América Latina, foi invadida e ocupada por tropas militares.
Explicação: defesa de seu patrimônio, que ninguém ameaçava.
Resultado: a defesa consistiu em tomar para si, invasores, o
patrimônio defendido. Na legislação brasileira, o fato tem tipificação
inequívoca: roubo.
Durante o processo falimentar, verificou-se que os bens da
Panair eram mais do que suficientes para pagar o passivo, menor
que o ativo. O trabalhista foi pago com recursos da própria Panair,
embora fosse de responsabilidade da União, ao cassar-lhe a
concessão sem motivo legal. Demonstrado isso sem qualquer dúvida
no processo judicial, os diretores da companhia de aviação, com
Celso da Rocha Miranda à frente, requereram concordata
suspensiva, para poder administrar o pagamento das dívidas e a
apuração dos ativos. Desejavam, com razão, livrar-se de soluções
predatórias, que sempre ocorrem nos casos de falência, regidos pela
lei obsoleta que regulava a matéria e permitia a suspensão da
falência para transformá-la em concordata.
Então, o Governo Militar baixou um decreto-lei determinando:
empresas concessionárias de transporte aéreo, que tiveram sua
falência decretada, não podem requerer concordata suspensiva. O
nome da Panair não foi mencionado e, por óbvio, não era preciso. Se
quiserem conferir, Decreto-Lei nº 669, de 3 de julho de 1969,
dispondo que “não podem impetrar concordata as empresas que,
pelos seus atos constitutivos, tenham por objeto, exclusivamente ou
não, a exploração de serviços aéreos de qualquer natureza ou infra-
estrutura aeronáutica”.
Essa “legislação” da ditadura durou até pouco tempo,
impedindo a Varig, em cujo favor foi editada, de pedir concordata em
meio à grave crise, que anos depois sofreu. A nova Lei de Falência
revogou o monstrengo em 2005, mas não limpou de nossa história a
vergonha a que, com sua simples existência, submeteu a cultura
jurídica brasileira.

Dessa barbaridade, restou apenas a música de Milton


Nascimento e Fernando Brant, uma bonita canção em homenagem à
Panair, “Conversando no bar”, que fez sucesso pelo lirismo e pela
saudade dos vôos daquela companhia, gravada por Elis Regina. E o
lamento do nosso poeta Carlos Drummond de Andrade, que escreveu
no Jornal do Brasil:

“Assim acabava aquilo que foi uma grande empresa, cujo nome
sonoro retinia por toda a parte. Leilão melancólico: poltronas
geminadas de avião, louça, ‘tristes trastes’. Era de cortar o
coração menos aeroviário ver tanto esforço, tanto espaço
brasileiro conquistado (e tanto espaço internacional também)
reduzido àquele bater de martelo sobre os restos físicos de uma
grande companhia que, nacionalizando-se, dera a medida de
nossa capacidade no ramo de transportes aéreos.”

O ex-Senador Jarbas Passarinho costuma enumerar os atos


bons praticados pela chamada “revolução”. Alguns realmente válidos.
Insuficientes, porém, para um processo de canonização, como
pretende o simpático político paraense. A ditadura militar mereceu
os adjetivos de arbitrária, cruel, violadora de direitos, mas ninguém a
chamou de corrupta. No caso da Panair, porém, houve corrupção às
claras. Merece o acréscimo no elenco dos adjetivos. Ditadura
corrupta. E burra. No caso da Panair e da Mannesmann. Eu estava
lá e vi. Meninos, eu vi.
A Varig manteve o estilo de corrupção pelo tempo afora. No
Governo Lula, comprou os “serviços” de Roberto Teixeira, compadre
do Presidente da República, aquele que emprestava apartamento
para Lula morar quando era sem-teto. Companhia de aviação de vôos
rasteiros.

136
Minha impaciência comprometeu a educação com que sempre
tratei meus companheiros de escritório. Há muito tempo estava sem
notícias sobre as investigações no caso do Sr. Olavo Brás. Convoquei
uma reunião:
— E daí? Vocês viraram funcionários públicos? Não descobrem
nada da vida da mulher?
Nerval sentiu-se tocado em seus brios:
— Chefe, não seja injusto. Estamos fazendo campana na casa
da mulher, conversando com pessoas de todos os lugares por ela
freqüentados, ate nas lojas onde ela faz compra. Um dia vamos
descobrir mais alguma coisa. Tenha paciência.
— Paciência? Como paciência? Não sei há quanto tempo vocês
estão investigando e até agora somente descobriram uma psiquiatra
que tratou da mulher. Até hoje estou sem saber se essa mulher tem
mãe, pai, família, onde moram, onde se reúnem na Páscoa e no
Natal, onde festejam os aniversários. Preciso saber de tudo.
Nos olhos dos meus colegas consegui entender a silenciosa
expressão de que tais detalhes poderiam ser obtidos com simples
perguntas ao Sr. Olavo Brás. Afinal, o cliente havia sido marido dela.
O que eles não sabiam é que eu já havia indagado tudo isso ao
nosso cliente e ele preferiu não falar no assunto, o que me irritou
profundamente.
Claro que era preciso conhecer a família inteira por várias e
óbvias razões. De algum de seus membros, pai, mãe, irmão, irmã,
poderia ter partido a idéia de incriminar o ex-marido, o que nos
cumpria investigar para providenciar a devida sanção, se possível.
Ou, podia ser, quem sabe, que pai, mãe, irmão, irmã fossem
inocentes e normais. Neste caso, podiam ser convidados a doutrinar
e aconselhar a megera a desmentir as acusações, antes que fosse
tarde.
Nerval, porém, já havia feito um levantamento completo. A
mulher não tinha mãe, nem irmãos. Mas tinha pai, um sujeito rico,
explorava hotéis. Era meio misterioso, não se conseguia muita
informação sobre ele. Mantinha-se à distância.
Isso me parecia grave. Afinal, a filha estava processando o ex-
marido sob acusação de prática de atos obscenos com seus netos.
Alguma coisa ele devia fazer contra o ex-genro. Não digo dar-lhe um
murro na cara, mas ao menos visitar a filha para oferecer-lhe
solidariedade. Colocar-se à disposição para o que desse e viesse.
— Na campana que vocês estão fazendo, viram o pai da mulher
visitar a casa? Quantas vezes?
— Nenhuma.
É muito estranho, pensei. Nerval, porém, havia colhido mais
informações sobre o misterioso homem. Em seus hotéis, havia muito
entra-e-sai de mulheres. E de políticos com malas, não se sabe se
para amá-las ou para negociar entre eles. Trocadilho horrível.
Todavia, os fatos eram irrelevantes para a nossa causa. Nerval,
contudo, achava que o homem era algo mais do que dono de hotel.
Pelos seus contatos devia tratar de seus interesses de acordo com o
momento ou com as pessoas tão diferentes que o visitavam. Era uma
espécie de camaleão.
Essa observação provocou um mergulho em minha memória.

137
— Plano Camaleão? — perguntei, aturdido.
— É isso aí! Plano Camaleão, projeto secreto para assegurar
um sistema de comunicação do Presidente da República diante da
ameaça de greve dos sindicatos dos trabalhadores em
telecomunicação — respondeu-me o Professor Carvalho, ao entrar na
minha sala na Consultoria Geral da República, em Brasília,
informando que o documento fora roubado de algum gabinete da
Casa Civil e publicado pelo jornal Correio Braziliense. Na íntegra.
Entregou-me um exemplar do jornal. Li. Nada de mais.
Precavido, o SNI montara um plano de emergência, diante da
possibilidade de greve. Se uma eventual paralisação nas
telecomunicações calasse todo o país, o “Plano Camaleão”
asseguraria ao Presidente da República um sistema privativo de
telefonia. Sarney estaria conectado a todos os ministros e aos
governadores de estado. Minucioso, o plano informava tudo. Até a
localização da torre que centralizaria o sistema de comunicação do
presidente. Ficava na ESNI (Escola Nacional de Informações), no
Setor Policial Sul de Brasília.
O SNI era chefiado pelo General Ivan de Souza Mendes, bom
sujeito, que trabalhara também no Gabinete Militar do Governo
Jânio, sob o comando do General Pedro Geraldo. A despeito da
abertura democrática, o SNI ainda infundia medo em todo mundo.
As lembranças da ditadura eram vivas diante de tantos mortos.
Servidor público tinha pavor só de ouvir falar na sigla. E o General
Ivan não fazia muito esforço para reverter a fama do órgão.
Quando assumiu a Presidência da República, Sarney resolveu
abolir as proibições que o regime anterior havia decretado contra os
jornalistas. Antes, deviam manter-se comportados na sala da
imprensa e ali receber as informações que o Governo lhes entregasse.
Era proibido circular. Sob Sarney, a rotina de informação do Planalto
ganhou nova dinâmica. Jornalistas passaram a freqüentar salas
outrora indevassáveis. Transitavam com desenvoltura por todos os
andares, eram recebidos nos gabinetes de maior importância. Pisa-
vam até o carpete do sacrossanto quarto andar, onde funcionava o
SNI do General Ivan Mendes.
Mas o general estava uma fera com a publicação de seu plano
no Correio Braziliense.
— E daí? — perguntei, acrescentando: — O jornal deu um
“furo” e pronto! O general que trate de investigar qual o funcionário
que deixou vazar a informação! E o “furo”, creio eu, em nada
prejudica o Governo. Ao contrário: demonstra aos articuladores da
possível greve e ao povo que o serviço público está preparado para
defender-se e não sofrer as conseqüências da paralisação. Quanto ao
vazamento da notícia, o problema não é comigo nem com a
Consultoria Geral da República.
— O problema é seu, sim — insistiu o professor. — O Fernando
César Mesquita não conseguiu demover o general, que quer porque
quer processar o jornalista Josias de Souza pela Lei de Segurança
Nacional.
— O quê?
— Sim senhor, Lei de Segurança Nacional! Agora o problema é
seu! Na Casa Civil, todos estamos sob suspeita, inclusive eu, porque
as cópias do plano eram numeradas, e parece que a publicada tinha
o número daquela destinada ao nosso gabinete.
Fernando César Mesquita era responsável pela imprensa.
Seguia as ordens de Sarney: liberdade absoluta. Josias de Souza,
jornalista jovem, educado, chamava atenção, porque se vestia com
alguma extravagância para a época, tipo assim de terno branco com
gravata verde. Estava começando na profissão e era um azougue de
esperto, além de inteligente. Hoje trabalha na Folha de S. Paulo em
Brasília.
Lei de Segurança Nacional, aquela maldita lei, que serviu de
fundamento para os processos arbitrários e malucos contra a
liberdade de opinião dos perseguidos políticos, para a censura à
imprensa, para as perseguições mais asquerosas e repugnantes? De
jeito nenhum! Só passando por cima de meu cadáver — pensei eu —,
querendo ser herói tardio diante da hipótese de aplicação daquela lei
em pleno Governo Sarney, sob o meu pobre nariz de jurista liberal,
provisoriamente respondendo pela Consultoria Geral da República.
Eu mesmo havia sido advogado de acusados, nos anos de
chumbo, precisamente sob os malditos dispositivos daquela lei. Na
ditadura, como advogado dos perseguidos políticos, todas as noites,
na hora de dormir, eu amaldiçoava aquela lei, minha inimiga
pessoal.
Fui conversar com o Fernando César. Confirmou. Fui falar com
o General Ivan. Frio. Resolvido. Não quis saber de conversa. O
jornalista seria enquadrado, como dizia ele, nos rigores da lei, por
haver atentado contra a segurança nacional. Discutimos feio. A
única concordância que dele obtive foi comprometer-se a ouvir o
Presidente da República antes de qualquer providência. Nisso militar
é bom. Quando se fala em chefe, concorda.
Perplexo, fui para a sala do Presidente Sarney. Esperei sair
alguém que estava em audiência e entrei. Contei a história. E fui logo
dizendo que eu sairia do Governo se o general abrisse aquele
processo.
— Eu também saio — disse Sarney, com o sorriso irônico de
seus dias de bom humor. — Saímos todos. Fique tranqüilo!
Camaleão? Isso lá é nome de plano?
Fui trabalhar. Depois, fiquei sabendo que o General Ivan,
disciplinadamente, pediu audiência ao Presidente e compareceu ao
gabinete na hora marcada. Mas a pauta estava atrasada, e ele
sentou-se na ante-sala, à espera de ser recebido. Entre os servidores
que estavam de plantão, havia um oficial de gabinete, Osvaldino
Gonçalves de Brito, chamado pelos íntimos de Brito ou Britinho. Um
mineirinho, jeitoso, vivo, amigo do Sarney há milênios. Ofereceu café
ao chefe do SNI.
E o general cometeu um erro comum às pessoas que esperam
em ante-salas de autoridades, mas imperdoável para um oficial do
serviço de inteligência. Contou o que ia falar com o Presidente e
desancou o pau em mim:
— O Dr. Saulo está muito radical com essa história de Estado
de Direito. Não é possível! Afinal, Estado de Direito também tem que
se defender, não pode abrir mão da segurança nacional. Mesmo a
democracia não subsiste sem a rigorosa disciplina da lei para punir
abusos desse tipo, que colocam em risco a ordem pública.
Como entendia de democracia! Falou, falou, falou. O Brito não
queria imiscuir-se na filosofia do general, mas, como a pregação era
dirigida a ele, resolveu mineiramente responder:
— General, como o senhor trata o Presidente?
— De Excelência.
— Então tome cuidado, porque o Dr. Saulo o chama de Zé.
O general entrou na sala do Presidente e saiu sem falar com
ninguém. O Zé proibiu o processo.

138
O Professor João Carvalho conhecia tudo na estrutura do
Governo Federal. Sabia quem era quem em cada um dos ministérios,
autarquias e empresas públicas. Além dessas qualidades, era um
excelente professor de português, o que para mim indicava quanta
dificuldade teria ele tido para conviver com os governos militares. No
Gabinete Civil, depois do episódio do Plano Camaleão, passou a ser
discriminado pelos chamados “linhas-duras” que remanesciam no
Governo, somando-se à discriminação discreta, mas real, dos
integrantes advindos da designada Nova República, porque havia
servido durante muitos anos da ditadura.
Aproveitei a situação, que o incomodava realmente, e o levei
para ser o Chefe de Gabinete da Consultoria Geral da República.
Ótima solução. Quando se entra em governo, a grande tortura é não
conhecer a máquina, não saber quem faz o quê e não ter condições
de saber quem não faz nada. E máquina federal é um paquiderme.
Há exceções, é claro.
Certa vez, observei que o Governo Federal (não conheço os
outros) tem a maior concentração de incompetência por metro
quadrado. Os servidores do segundo escalão adoram ministro novo,
porque fazem dele o que bem entendem. Enganam, dão informações
truncadas, assessoram mal, com, repito, honrosas exceções, que são
honrosas precisamente por serem exceções.
Nossos costumes políticos contribuem para isso. O Poder
Executivo nomeia ministros que nada entendem da matéria da pasta
que assumem. Basta ser deputado ou senador, ou ter sido, ou
candidato derrotado, para ocupar, como se fosse curinga em cartas
de baralho, Ministério do Planejamento, da Ciência e Tecnologia, da
Saúde, da Fazenda, e outros, sem nunca ter planejado nada, sem
entender de ciência, sem nunca ter ouvido falar em tecnologia, sem
ser médico, sem ser economista. Em todos os governos, acontece
sempre a mesma bagunça. São incontáveis os exemplos que
resultam no lamentável espetáculo de um Waldir Pires, Ministro da
Defesa do Governo Lula, dando entrevistas sobre colisão de aviões,
planos de vôos, transpander, operação padrão de operadores de
radares, apagão aéreo. Uma lástima.
A composição do ministério do segundo mandato de Lula
ofereceu um espetáculo deprimente e longo de barganhas, troca-
troca, toma cá se me der lá, algumas às escâncaras sob falsa
desculpa de composições para o noticiário político. Mas como tudo
visa a entrega de ministérios, que exigem competências técnicas para
lidar com parcelas fabulosas do orçamento reservadas a serviços e
obras, as pessoas envolvidas negociaram, na verdade, o que os
franceses chamam “sous la table” ou “sou par sou”. Ou como disse
Millor Fernandes: “não chega a ser uma reforma ministerial, apenas
mudou de cúmplices”.
Houve, porém, exceções nos últimos tempos. Uma delas foi
Antônio Palocci, médico, que conduziu com grande eficiência o
Ministério da Fazenda e a política macroeconômica do Governo Lula,
a despeito do PT. Pelo menos nos primeiros anos. Claro que contou
com um excelente professor; Henrique Meirelles, uma das melhores
cabeças do Governo Lula. Palocci, infelizmente acabou enredado em
misteriosas passagens ressuscitadas por seus ex-auxiliares do tempo
de prefeito de sua cidade.
Seu sucesso, parece-me, deve-se ao fato de ser de Ribeirão
Preto e de haver respirado os ares que vêm de Brodowski, terra do
Portinari e minha. Mas ainda tem muito que aprender. Até o Lula lhe
disse isso quando o despediu do governo. E precisa parar de mentir.
Começou afirmando que não haveria aumento da carga tributária
para os brasileiros. E terminou dizendo para uma CPI, diante da
televisão, que jamais freqüentara a casa alugada por seus amigos em
Brasília. Ainda está para nascer um Ministro da Fazenda que não
aumentará impostos e contribuições em nosso país. Hors de
question, como dizem os franceses.
Aumenta-se imposto por medida provisória publicada no
último dia do ano, o que é de uma inconstitucionalidade absoluta.
Não podia fazer isso alguém que sabia de cor o Hino a Ribeirão Preto.
Não combina. Por isso, Deus castiga fazendo ressurgir em sua vida
fantasmas como Buratti, e, por aumentar impostos, é perseguido
pelos rugidos de leões e leões. Quem com ferro fere não sabe como
dói. Sempre se confirma: quem mente, com mentiras será alvejado.
Na vida pública do Brasil, há sempre um motorista ou um caseiro
que sabe de tudo e acaba contando.
E por falar nisso, em caseiro que cria caso, e em Ministro da
Fazenda, alguns malucos do Instituto Brasileiro de Planejamento
Tributário conseguiram fazer um levantamento das normas
tributárias editadas no Brasil a partir da Constituição de 1988.
Número fantástico: 225.600 entre federais, estaduais e municipais.
Pelos cálculos, até o dia em que foi publicado o estudo, o Brasil teve
36 novas normas tributárias por dia. Há um cálculo diferente,
tomando-se apenas os últimos dezoito anos. Neste caso, tivemos 55
normas tributárias por dia.60 Mesmo não desejando incorrer em

60 “As dificuldades impostas ao contribuinte pelo fisco brasileiro”, de Rubens Branco.


irregularidade, não há contribuinte que possa viver dentro deste
cipoal.
É mais do que derrama. É derrame cerebral. Vamos
enlouquecer. Por isso, recebo sob reserva todo ministro que começa
no posto declarando que não aumentará tributos. Quando
recuperamos a democracia, os brasileiros pagavam impostos
equivalentes a 20% do PIB. Hoje, estamos chegando aos 40%,61
pouco menos, mas é o diabo porque não temos serviços públicos
prestados ao povo a despeito desse dinheirão todo arrecadado pelos
nossos impolutos administradores e políticos detentores dos poderes
que lhes damos pelo voto. Com essa carga de impostos, não é
possível desenvolvimento e, por via de conseqüência, não há emprego
suficiente para absorver as gerações novas, pois milhões de jovens
chegam por ano ao mercado de trabalho e não encontram emprego.
Grande parte se desvia para o crime.
A essa calamidade, acrescenta-se a dívida pública que, nos
últimos dez anos, custou 1 trilhão e 200 bilhões de juros, chamados
pelo eufemismo62 de serviço da dívida.

139
Os ministros políticos sentam-se na cadeira e começam a
tomar conhecimento dos assuntos. Pensam que aprendem. Dão
entrevista. Adoram aparecer na televisão. Mas saem de lá sem saber
nada. O pior é que não levam especialistas para a assessoria e
comem pela mão do pessoal da casa. Sempre acaba em indigestão. O
pessoal da casa não lava as mãos. E, quando surge um Pilatos que
as lava, é para entregar o ministro às feras.
A Constituição declara que ministros de Estado são auxiliares
do Presidente da República. Presume-se que eles entendam dos

61 37,37% do PIB no fim do primeiro Governo Lula.


62 Eufemismo: Ato de suavizar a expressão duma idéia substituindo a palavra ou
expressão própria por outra mais agradável, mais polida.
assuntos das pastas para as quais são nomeados. Mas, com as
exceções de sempre, entendem nada. São escolhidos e convocados
em razão de quantos votos podem controlar na Câmara dos
Deputados ou no Senado. Costume retrógrado. E tomem
mediocridades gritantes!
O pior é a indicação que, por meio dos respectivos ministros ou
à revelia deles, os partidos fazem para os cargos de livre provimento
tanto na administração direta como nas empresas estatais. O
Governo Federal tem mais de vinte mil cargos para atender essa
cupinchada e os aventureiros. Quando estouram os escândalos, os
governantes muito espantados dizem que de nada sabem. E que
mandarão apurar com o máximo rigor, tomando as “medidas
cabíveis”. Já é tarde.
E, quando se descobre dinheiro rolando por trás dos cargos, a
explicação é invariável: despesas de campanha eleitoral. Na
concepção de alguns políticos, a campanha eleitoral, simples luta
pelo poder, justifica as imoralidades. Quem luta pelo poder pode
tudo. Deve ser isso que dizem em casa para suas famílias. Criam um
tipo de ética ficcional. E acreditam nela. Aliviam suas consciências. É
o catecismo revolucionário de Netchaiev, que passou a valer para
todos os profissionais da política, ressalvadas sempre as honrosas
exceções. Aquelas que são honrosas precisamente por serem
exceções.
No Brasil, um bom exemplo da teoria aplicada de Netchaiev foi
José Dirceu, que, de guerrilheiro romântico, chegou ao poder e
consentiu a manipulação de recursos não contabilizados da
burguesia para alimentar a base política de aloprados que deveria
sustentá-lo no comando do governo durante vinte anos. O Brasil, no
seu entender, seria salvo do domínio econômico com os próprios
recursos das classes dominantes. Deu errado no primeiro embate.
Os brasileiros não gostam de imoralidade, nem mesmo como ferra-
menta para revoluções socialistas. Falta-lhes apenas aprender a não
acreditar nos culpados que dizem não saber de nada.
José Dirceu ainda não desistiu. Continua orientando ações no
Governo Lula e no PT “sous la table”. Busca a anistia. Quer ser
Presidente da República.63

140
Quando assumi o Ministério da Justiça, trouxeram-me, logo no
primeiro dia, um processo para despachar, com uma fita de papel
marcando a última página, em que já havia um despacho
datilografado e um pequeno X, a lápis, onde eu devia assinar.
Traquejado advogado, dei a primeira instrução: eu mesmo dou
os meus despachos e somente o faço depois de ler os processos. É
inútil trazer processos com essas tiras de papel marcando a página
em que devo assinar. Afinal, o advogado passa a vida lendo
processos.
Li aquele primeiro. Era um caso de traficante de drogas,
estrangeiro e condenado em primeira instância. Não apelou da
sentença. Transitada em julgado a decisão condenatória, abriu-se
um processo no Ministério da Justiça para expulsá-lo do país. Assim
era o procedimento tradicional havia anos, sem que ninguém notasse
que se tratava de uma grande imoralidade. O traficante era expulso,
voltava para seu país de origem e, claro, arrumava um passaporte
falso e regressava ao Brasil, ou ia perambular pelo mundo,
exercendo sua lucrativa profissão de crimes.
Por isso, os advogados não apelavam da condenação. Deixavam
transitar em julgado a sentença de primeiro grau, para não retardar
a “expulsão”. O Brasil tornou-se um paraíso para os criminosos
estrangeiros. Preso, condenado, expulso. Havia garantia de voltar

63 “O mito Lula anula qualquer possibilidade de esquerda. A pobreza se tornou algo


administrável com o Bolsa Família e o ProUni. Criou-se o consenso do
conformismo. Isso é a pior coisa que pode acontecer numa sociedade tão desigual
quanto a nossa. Essa será a grande herança de Lula. Os ricos consentiram que a
política seja assunto dos pobres, desde que não toque nos seus interesses mais
fundamentais. Os pobres, representados por Lula, governam para os ricos. Cria-se
uma situação em que todo o mundo está satisfeito.” Francisco de Oliveira, sociólogo
e fundador do PT.
para casa. Livre.
Mandei meu primeiro despacho. Indeferi a proposta de
expulsão e determinei que o processo expulsório somente poderia ser
aberto depois do cumprimento da pena. Cacete neles. Canetei
pesado.
Vejam como são as coisas no ministério. Dias depois, surge na
minha mesa outro processo de expulsão do mesmo jeitinho, com a
tira de papel na última página, despacho já escrito e determinando a
expulsão e o X na linha onde eu devia assinar.
Não é possível! Chamei o diretor responsável pelo
departamento, dei-lhe a maior bronca. Ele se desculpou, disse que
não havia visto o despacho anterior. Argumentou ser bobagem o país
gastar dinheiro com a prisão desses vagabundos, que a política de
expulsão era mais econômica para o sistema penitenciário, que a
tradição era essa havia muito tempo, toda uma doutrina bem
arrumadinha para cima de mim.
Ouvi tudo e devolvi um caminhão de desaforos. Somente não
abriria inquérito administrativo porque não havia fato típico a ser
imputado aos servidores. Era rotina e dentro da lei. Despachei o
novo caso no mesmo sentido do primeiro, negando a expulsão e
mandando aguardar o cumprimento da pena. Além de assegurar a
liberdade dos criminosos na sua terra de origem, se lá não tivessem
condenação, aquela malandra solução tornava-se um desrespeito ao
Judiciário que os condenava. E tornava-se uma evidente
materialização da impunidade nos crimes praticados em território
nacional.
Pensei: se é tradição, fizeram com os outros ministros que me
antecederam na pasta. E, se tentaram fazer comigo, os meus futuros
sucessores estarão sujeitos a embarcar nessa tapeação. Aconselhado
por inteligente jurista que levei para trabalhar comigo no Ministério
da Justiça, Dr. Ronaldo Marzagão,64 redigi um decreto determinando
a proibição de expulsão de condenados estrangeiros, tornando-a

64 Aposentado do Ministério Público, o Dr. Ronaldo Marzagão foi trabalhar em meu


escritório. Revelou-se excelente advogado. Suspendeu o exercício da advocacia para
ser Secretário da Segurança em São Paulo.
inclusive obrigatória, mas depois do cumprimento da pena. Sarney
assinou, e acabamos com aquela teoria. Um decreto pelo menos, não
seria facilmente revogável pelos futuros governos sem um grande
escândalo.
Mas, antes disso, vários traficantes condenados requereram
perante o Superior Tribunal de Justiça vários habeas corpus contra
mim, acusando-me de estar negando o direito líquido e certo de
serem expulsos do país. Até isso aconteceu.

141
Nem Collor teve coragem para revogar aquele decreto. Ninguém
teve. Mas, no Governo Itamar Franco, inventaram uma saída especial
para os seqüestradores de Abílio Diniz. Vejam como o crime sabe
trabalhar, comprar, corromper... descaradamente.
Com dezenas de assuntos internacionais a serem resolvidos
por meio de acordos, o Brasil celebrou um tratado com o Canadá.
Não foi com a Bolívia, Itália, Colômbia, Argentina, Estados Unidos,
França ou República do Borundi. Precisamente com o Canadá, que
tinha em São Paulo dois cidadãos cumprindo pena pelo crime de
seqüestro e formação de quadrilha. Christine Lamont e David
Spencer.
O documento celebrado autorizava as altas partes contratantes
(isto e, os dois países) a trocar prisioneiros entre si, em tempo de paz.
Assunto de alta relevância na cabeça daquele governo. Os
canadenses aqui condenados seriam enviados ao Canadá para o
devido cumprimento da sentença naquele país. E vice-versa. Itamar
Franco jurava acreditar nisso piamente.
Acontece que não havia brasileiros cumprindo pena por lá.
Logo, não houve troca, nem vice, nem versa. Apenas remetemos os
canadenses para aquela nação do norte, conforme o artigo 5º do
documento internacional aprovado pelo Senado, que, segundo a
imprensa, não sabia da situação de fato concretizada na prisão dos
dois canadenses, seqüestradores, mafiosos, quadrilheiros. Essa
história de “não sabia” não foi patenteada. É de domínio público.
Do lado de fora da cadeia, houve muito trabalho em favor da
celebração (de triste celebridade) do tratado, que, pelos
inconfessados objetivos, estava mais para tratante do que para
acordo internacional.
Arrumaram a novidade: pelo tratado internacional, expulsa-se
o condenado estrangeiro sob a garantia de que a pena será cumprida
no país de sua nacionalidade. Nossas prisões são desumanas,
imundas, com população carcerária muito superior ao número de
reclusos. Assim, os criminosos estrangeiros, acostumados às
comodidades do primeiro mundo, prisões com televisão e
aquecimento para as noites nevadas, livram-se do convívio infecto do
pé-de-chinelo brasileiro, do perigo representado pelo companheiro de
cela, especialmente aquele com aids, livram-se do PCC e do
Comando Vermelho. Desejam regalias que não são dadas às vítimas
dos seus seqüestros.
E os dois seqüestradores canadenses, um rapaz e uma
senhorita, David Spencer e Christine Lamont, foram-se flanando e,
no Canadá, não cumpriram a pena que lhes foi imposta pela Justiça
brasileira. Em alguns meses, estavam na rua. Creio que até
mandaram, no fim do ano, cartão de boas-festas para Itamar Franco.
Esses dois foram condenados aqui no Brasil pelo seqüestro de Abílio
Diniz, embora haja evidência de que tenham participado de outros,
como o de Luiz Salles e de Alvarez, diretor do Bradesco.
Houve uma pressão danada sobre Itamar para não vetar o
tratado, sem nenhuma utilidade para o país. Vozes autorizadas de
brasileiros advertiram o Presidente da República para que vetasse
aquela maroteira do crime organizado. Vetou não. Venceram os da
pressão. O crime triunfou e compensou. Itamar teve topete.
Sancionou aquele vergonhoso arranjo. Terminado seu governo, foi
premiado com embaixadas e direito de levar namorada.
Mas o decreto de Sarney continuou vigente. Nem todo
traficante estrangeiro e preso será capaz de providenciar um tratado
internacional entre o Brasil e seu país para livrar-se da cadeia. Uma
vez foi o bastante. Márcio Thomaz Bastos, no processo de pedido de
extradição do seqüestrador Maurício Hernandez Norambuena,65 em
vez de deferir o pedido do governo chileno, determinou a expulsão do
meliante, mas para ser efetivada após o cumprimento integral da
pena no Brasil.66 Gostei. Prestigiou o meu decreto Norambuena terá
que ficar na cadeia brasileira até o ano de 2032. Depois disso pode ir
para o Chile cumprir o que lhe resta da prisão perpétua a que foi
condenado em seu país. Pena que Márcio deixou o governo. Ele era
uma das poucas coisas boas que existiam por lá.

Mas, ao contrário disso tudo, no Canadá, hoje, os


seqüestradores de Abílio Diniz, Christine e David, vivem em
Vancouver, uma das cidades consideradas entre as melhores do
mundo pelo baixo nível de criminalidade. Casaram-se e não têm
filhos. David faz roteiros para cinema e escreve para jornais, usando
pseudônimo. E Christine estuda, na Universidade Simon Fraser,
criminologia. Pode?

142
Nossas concessões com criminosos levam a conseqüências
terríveis. O chileno Maurício Hernandes Norambueno, professor de
educação física, ingressou, em seu país, numa organização
esquerdista que pregava a revolução socialista pelas armas. Acabou
no crime comum, seqüestro e assassinato. Condenado à prisão
perpétua no Chile, Norambueno realizou uma fuga espetacular da
penitenciária chilena saindo de helicóptero. E veio para o Brasil.

65 Comandou o seqüestro de Washington Olivetto e foi preso numa casa de veraneio


em Serra Negra.
66 Diário Oficial da União, 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo.
Aqui seqüestrou o publicitário Washington Olivetto. Deixou a
vítima em São Paulo e foi se esconder nas delícias climáticas de
Serra Negra, cidade pequena, onde todo mundo sabe da vida de todo
mundo. Chamou a atenção dos guardas particulares de um
condomínio afastado da cidade e acabou preso. Na cadeia, no Brasil,
ensinou Marcola e os demais líderes do PCC, Primeiro Comando da
Capital, a desestabilizar o sistema com tumulto nas prisões,
assassinatos de agentes penitenciários, ataques às delegacias
policiais, agencias bancárias, incêndios de ônibus, pânico na
população. O PCC aprendeu e já fez isso várias vezes em São Paulo
para delírio das autoridades da segurança pública.
Por que deixaram Norambuena junto com Marcola ou com
líderes do PCC?
Vejam o seqüestro de um jornalista da TV Globo sob a
exigência de que a emissora transmitisse um vídeo produzido pelo
PCC, o que foi atendido como forma de salvar a vida do repórter. O
vídeo mostrava um encapuzado, igual aqueles do Iraque, lendo um
manifesto contra o Regime Disciplinar Diferenciado, o RDD, das
penitenciárias paulistas. E como fundamento o manifesto invocava
trechos de parecer do Conselho Nacional de Política Criminal e
Penitenciária do Ministério da Justiça. O PCC porta-voz do CNPP! E
usando seqüestro para se fazer ouvir. Tudo ao melhor estilo político
Norambuena. Márcio Thomaz Bastos fez bem de indeferir a expulsão
do meliante antes do cumprimento da pena.

143
Nerval e Casé entraram na minha sala:
— Chefe, não queira saber! Houve um bolo federal entre a
mulher e a médica.
— Como não queira saber? Quero saber sim, senhores!
Contaram que estavam na campana da mulher, quando ela
saiu de casa e foi direto ao consultório da psiquiatra. Dois guarda-
costas a acompanharam. Eles foram atrás e também entraram no
prédio. Subiram até o andar do consultório da médica. Os guarda-
costas estavam postados diante da porta.
Resolveram, Casé e Nerval, ficar do outro lado do corredor e
simularam estar esperando o atendimento em outro consultório ou
escritório. Ali, ficaram cerca de meia hora. De repente, a porta do
consultório da médica se abriu, e a mulher saiu de lá aos gritos:
— Eu mando matar você! Aqui estão meus guarda-costas! Você
vai pagar caro por tudo isso!
A médica surgiu logo atrás e parecia que ela própria havia
perdido o controle, pois respondeu no mesmo tom:
— A senhora não me apareça mais aqui! Se aparecer, chamo a
polícia! Não me interessam seus guarda-costas! Se eles me tocarem,
serão presos!
A recepcionista e uma enfermeira, que trabalhavam com a
médica, estavam dando cobertura à psiquiatra. E o pior: ambas com
tesouras na mão.
Os guarda-costas tiveram o bom senso de segurar a cliente
deles e arrastá-la para o elevador. Desceram com ela, que ainda
proferia palavrões sem parar
Nerval e Casé correram em direção à médica e se
apresentaram. Ela não os reconheceu. Nerval ofereceu seus
préstimos, para lavrar uma ocorrência policial e providenciar um
segurança durante algum tempo. A doutora não aceitou e lhes
perguntou:
— O que os senhores estão fazendo aqui?
— Nós estamos com a incumbência do Dr. Saulo de seguir essa
sua cliente por onde ela for.
— Ex-cliente.
— Quando vimos que ela se dirigia para seu consultório e com
dois guarda-costas, tomamos a liberdade de subir até aqui, para
ajudar, se fosse preciso.
— Está bem, obrigada — disse a médica. — Já que os senhores
estão aqui, gostaria que explicassem que história foi aquela de
completo segredo de Justiça no meu depoimento, se essa mulher
sabia de quase tudo?
Nerval e Casé se entreolharam e ficaram mudos por alguns
segundos. Casé, que é de uma coragem sem fim para chutar
explicações, arriscou:
— Somente pode ter sido o advogado dela.
Nerval, como bom agente de polícia, quis saber dos detalhes:
— A senhora disse que ela sabia de quase tudo. Pode nos dizer
o que ela contou e qual a razão desse ataque de fúria na saída do seu
consultório?
A psiquiatra explicou resumidamente que a mulher chegou
dizendo saber do depoimento e do diagnóstico de sua doença mental.
Até então com calma, perguntou por que a doutora havia rompido o
segredo profissional a que estava obrigada. A psiquiatra respondeu:
— Pelo bem de seus filhos.
— O que a senhora disse a respeito de meus filhos?
— Que a senhora não tem condições de educá-los, se não
continuar um rigoroso tratamento médico.
— “É isso o que você quer!” — contou-nos a médica, repetindo
a acusação da mulher. — Você quer o meu dinheiro! Quer viver à
minha custa, sua vagabunda!
Embora preparada e acostumada com esse tipo de doença,
disse a doutora que tentou acalmá-la, mas não conseguiu. As
reações da mulher davam a impressão de que desaguariam em
violência. Então resolveu convidá-la a se retirar, levantou-se e abriu
a porta para ela sair.
Foi nesse momento que ela, aos gritos, disse que iria matá-la.
Nerval insistiu muito em lavrar um boletim de ocorrência, pois,
em sua opinião, a ameaça de morte poderia ajudar-nos no processo,
demonstrando a perigosa instabilidade da mulher para continuar
com a guarda dos filhos. A doutora recusou. Demonstrou
preocupação com o rompimento do segredo profissional e não queria
mais saber do assunto. Ela própria afirmou que a doente ficaria na
ameaça e não tomaria qualquer providência para concretizá-la. O
paranóico vive de ficção e, longe do objeto de seu ódio, desvia a .
atenção para outro problema dentre tantos que diariamente cria.
Consolei-os. Tal como a história do clube da chave, o boletim
de ocorrência de pouco serviria para a defesa de nosso cliente. O
fulcro de nossa questão era provar a falsidade do conteúdo da
gravação e a autoria daquela prova maluca. Estávamos perto de
conseguir isso. Muito perto.
Não podia, porém, deixar de conferir com o advogado dela a
quebra do segredo de Justiça e de informar o que sua cliente acabara
de “aprontar mais uma vez”.
Telefonei para ele.

144
— O senhor há de convir que não existe segredo de Justiça
para a própria parte — disse o advogado da mulher. — Eu tinha que
falar com ela, sobretudo para adverti-la sobre os riscos que correria
com a suspensão do tratamento diante do diagnóstico e do
prognóstico da médica.
— Sim, entendo — respondi. — Mas houve, no mínimo, uma
imprudência do colega ao detalhar o depoimento da psiquiatra, pois
sua cliente, desculpe, é completamente louca e ameaçou matar a
médica.
— Meu Deus, é verdade? E como senhor soube disso?
Ainda bem que me preparei para essa pergunta. Seria um
desastre admitir para o colega que eu estava fazendo “campana” em
sua cliente. Acabaríamos num conflito ético, e admito que eu estaria
em flagrante desvantagem.
— A médica reclamou comigo a quebra do segredo de Justiça e
me contou da ameaça. Fui imediatamente falar com ela — e isso era
verdade, porque, depois da informação do Nerval, voltamos ao
consultório da psiquiatra. — E confesso que tentei convencê-la a
registrar a ocorrência policial, não para me servir dela no processo
judicial, mas para prevenir evento mais grave, uma vez que, apesar
das teorias médicas, tudo se pode esperar de gente maluca.
— E ela registrou a queixa, a ocorrência?
— Felizmente para o senhor, a médica se recusou. Mas é meu
dever pedir-lhe que, não agora, por favor, dê um tempo, com calma,
o senhor fale com sua cliente e a convença a não mais agredir
ninguém neste caso.
— O senhor acha que ela voltará a ameaçar a doutora?
— Não acho nem desacho, colega. O senhor conhece sua
cliente melhor do que eu. Estou apenas observando que ocorreu o
fato e pode ser possível que se repita. Será um desastre!
Ele, no final, me agradeceu o aviso. Prometeu tomar
providências com o devido cuidado. Então resolvi advertir:
— Por que sua cliente anda com guarda-costas?
— Não sei! Uma vez ela me disse temer que o ex-marido
pudesse agredi-la em virtude do processo judicial. Mas não falou em
guarda-costas.
— Pois anda com dois guarda-costas. A médica me contou que,
ao ameaçá-la, referiu-se expressamente a dois seguranças, chegando
a insinuar que eles se encarregariam do serviço. Já pensou, se
formos para um inquérito policial, a embrulhada que tudo isso vai
causar?
Ele concordou comigo. Não fiz propriamente uma ameaça. Nem
quis coagir o colega. Mas estava especulando, inclusive para
assustá-lo um pouco. Afinal, ele tinha a obrigação de conter as
loucuras de sua cliente. Inclusive no interesse dele próprio, pois, em
caso complicado como aquele, a omissão do profissional em vigiar e
aconselhar seus clientes pode ser mais grave do que cometer erros
jurídicos no processo.
Sempre impliquei com ambas as deficiências. O advogado não
pode errar na conduta, nem no Direito. Sustentei essas guerras
quando Consultor Geral da República. Para mim, não há diferença
entre o advogado de militância privada e o advogado público. Um
Ministro da Fazenda faminto por tributos pode fazer mais estragos
na ordem jurídica do que uma mulher esquizofrênica, se os
respectivos advogados não contiverem seus desregramentos.

145
Minha vida na Consultoria Geral da República fervia. Todos os
membros do Governo Sarney levaram a sério a advertência geral feita
por mim: é proibido cometer erros jurídicos! Dei instruções aos
ministérios para ouvirem sempre os advogados antes de baixar
qualquer ato. Enfatizando a orientação, salientei: até para assinar
cartão de Natal, consultem antes o advogado. Em caso de dúvida,
mandem o problema para a Consultoria Geral.
E mandavam todos os dias. Isso demonstra que estávamos
diante de um recorde mundial de dúvidas.
A providência tinha sua razão de ser. No lançamento do Plano
Cruzado, vimos minutas de atos inteiramente ilegais e muitos
inconstitucionais. Alguns conseguimos evitar, os assistentes
jurídicos dos ministérios, os membros da Consultoria Geral e eu.
Quase morremos afogados naquele oceano de papéis.
Durante a discussão dos Planos Cruzados, ouvi algo espantoso
dos funcionários do Ministério da Fazenda, a turma da casa, que
estava lá há séculos. Quando nós, os juristas, advertíamos que
determinada medida era inconstitucional ou ilegal, eles respondiam
com a demonstração de uma estatística fantástica:
— Contra atos da Fazenda Nacional, apenas ingressam em
juízo cerca de 30% dos prejudicados. A maioria, portanto, não
reclama. Pode haver alteração para mais ou para menos,
dependendo de dois fatores principais: 1) se a imprensa der destaque
à ilegalidade, o que não acontece sempre, porque os jornalistas, em
determinadas questões, passam batido; 2) se as quantias envolvidas
não forem individualmente expressivas. E os que entram com ações
contra a União levam cerca de dez anos para receber, o que adia o
problema para os governos posteriores.
Meninos, eu vi! E várias vezes. Não é preciso registrar que, em
muitas ocasiões, houve quebra-paus fortes. Algumas vezes, consegui
demovê-los; em outras, fiquei vencido, porque existe no governo, em
todos os governos, a mentalidade de que a ilegalidade em favor do
Tesouro Nacional é eticamente legítima.
Assim aconteceu com os empréstimos compulsórios na compra
de carros e na compra de gasolina durante o Governo de que
participei. E em outros casos. Até hoje, a Fazenda Nacional tem o
costume desonesto de cobrar dívidas fiscais já pagas. De preferência,
de quatro a cinco anos atrás, jogando com a hipótese de o
contribuinte não haver guardado os comprovantes do pagamento.
Como o beneficiário é o Tesouro Nacional, não consideram o roubo
imoral. E mais: tem por hábito enfiar textos de normas legais em
medidas provisórias ou projetos de lei que tratam de coisas
diferentes. Pratica deslavadamente o contrabando legislativo. Se
houver um texto legal que regule a colheita do bacabaçu, cuidado,
pode haver lá um artigo aumentando um imposto federal qualquer.
Quando se descobrem as maroteiras, vêm as demagógicas
explicações: maior justiça fiscal, combate à sonegação, moralidade
na arrecadação, que a própria Receita administra. Como dizem os
hispânicos: siempre de lo mismo Recentemente o Governo criou a
Super-Receita, unificando a da Fazenda com a da Previdência. E deu
poderes aos fiscais para desconsiderarem atos jurídicos sem
interferência do Poder Judiciário. A disregard doctrine67 aplicada em
multa trabalhista. Que fim levou Kelsen, o filósofo da doutrina pura
do Direito?
A Receita Federal, no Brasil, é o centro mundial do cinismo,

67 Desconsideração da pessoa jurídica, que o juiz, em processo próprio, pode adotar


com a finalidade de punir as pessoas físicas responsáveis pela prática de atos
ilícitos, de natureza criminal, sob o disfarce de atos empresariais.
especializada em agressão ao patrimônio de empresas e cidadãos.
Inegavelmente, há os funcionários honestos, competentes, dedicados,
mas uma ostensiva minoria não resiste ao confronto entre o que
recebem de vencimentos e o patrimônio acumulado, por um motivo
simples: não são fiscalizados pelo imposto de renda.
Tudo isso funciona na permanentemente tensa relação com
grandes empresas e trabalhadores. A legislação e a burocracia
empurram os pequenos empresários para a clandestinidade,
situação que piorou muito no Governo Lula. Seria o caso até de
recordar, para o gosto do PT, de Joseph Stalin, que mesmo no
governo comunista desabafou: de dez em dez anos é preciso fuzilar a
burocracia e substituí-la.
Lembro do meu avô dizendo que “ou o Brasil acabava com a
saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. Hoje temos que trocar a
saúva pela burocracia e manter a mesma frase como advertência até
que alguém faça alguma coisa antes que se apague a luz do
aeroporto.
Além dos absurdos contra os empresários honestos, a Receita
Federal exige desconto do imposto de renda na fonte dos
trabalhadores em geral quando recebem horas extras ou férias.
Cobra-se imposto sobre verba claramente indenizatória. E de gente
pobre.
Ives Gandra Martins observou em uma de suas obras:

“Em função da teoria da participação desmedida do Estado no


fato econômico, a imposição tributária ganha a formulação de
norma de rejeição social, pois os que a ela estão sujeitos sabem
que devem pagar não só o que é necessário objetivamente ao
Estado, mas também o que constitui desperdício estatal, na
identificação dos objetivos daquele com os objetivos pessoais
dos que detêm o poder.
Os formuladores do sistema jurídico-tributário brasileiro,
intencional ou intuitivamente, apreenderam toda a
característica própria da fenomenologia impositiva tributária,
cuja relação, em face da interferência crescente do Estado, tem
natureza de rejeição social, elegendo, como o gênero
fundamental da imposição, a obrigação tributária.”68

Quando se trata, porém, de gente ligada ao Governo, tal como


Duda Mendonça ou um Marcos Valério, as maiores negociatas
passam sem a menor ingerência do fisco, que, nesses casos, nunca
viu nada e não sabe de nada, a não ser quando estoura o
escândalo.69 E as empresas de Marcos Valério se utilizaram de cerca
de 80 mil notas frias. Anotaram? Oitenta mil notas frias. Ainda bem
que os contribuintes brasileiros, os honestos, contam com excelentes
tributaristas, como Ives Gandra Martins, Léo Krakowiac e outros
para defender-se daqueles diabólicos devoradores de suor e
completos deficientes diante de bandidos.
Os economistas não conseguiam explicar se o fato de o Brasil
ser o vice-campeão mundial em concentração de rendas (0,625),
perdendo apenas, e por muito pouco, para Serra Leoa (0,629), país
africano, era resultado da inflação, ou da política fiscal, ou da falta
de estímulo a atividades produtoras e geradoras de emprego.70
E hoje não explicam por que nosso crescimento é o menor em
toda a América Latina, ganhando apenas do Haiti.

146
No primeiro Plano Cruzado, foi bom trabalhar com Pérsio Arida
e com o Lara Rezende. Eles entendiam bem os fundamentos jurídicos
e concordavam em alterar ou cancelar os pontos legais mais
polêmicos.

68 Uma teoria do tributo.


69 No caso do “mensalão”, o Brasil deve a denúncia a Roberto Jefferson. Do contrário,
todos estaríamos como Lula, sem saber de nada.
70 A concentração de rendas é medida pelo índice de Gini, que varia entre dois
extremos hipotéticos: de zero, uma situação em que todos os habitantes teriam a
mesma renda, a 1 (um), o que indicaria toda a renda do país concentrada em uma
única pessoa. Ainda hoje continuamos entre os dez piores países do mundo nesta
odiosa desigualdade.
Fui falar com Sarney:
— A parte jurídica do plano está pronta. Eu não entendo de
economia Aliás, nem chego a entender os termos que os economistas
usam quando conversam. Parecem de outro planeta. Mas vim lhe
perguntar: você vai decretar o congelamento de preços?
— Vou. O Dílson Funaro me convenceu ser necessário. É uma
medida de misto político. Dá-se o choque inicial, e depois, aos
poucos, liberam-se os preços, até voltarmos à normalidade do
mercado. E o João Sayad concordou. A decisão é o resultado de
longa conferência entre nós.
Saí. Fui embora. Não tinha jeito, e a matéria não era da minha
competência. Mas confesso que fiquei preocupado por pura intuição.
Congelamento é medida artificial e contrária às regras do mercado.
Pode complicar. Naquele dia, Fernando Henrique Cardoso havia feito
um discurso desancando o Governo, seguido de uma longa entrevista
ao Jornal do Brasil, chamando João Sayad de enfeite de bolo. O
ambiente estava nervoso. Anunciado o Plano Cruzado, Fernando
Henrique ficou com a cara quebrada. Ele não tem sorte nessas
coisas. Quando concorreu com Jânio à Prefeitura de São Paulo,
sentou-se na cadeira de prefeito para uma foto antes das eleições.
Jânio ganhou. Resultado: quando tomou posse, Jânio foi fotografado
desinfetando a cadeira.
Com o Plano Cruzado, Sarney virou herói. Surgiram os famosos
“fiscais”, pessoas do povo que foram tomar conta dos preços em
nome do Presidente da República. Se ele quisesse, poderia ter
implantado a monarquia e teria sido proclamado rei.
Vieram as eleições. O partido do governo, o PMDB, ganhou
tudo. Depois, já no fim do ano, surgiram os problemas. Os preços
explodiram. Pareciam rolhas de garrafas de vinho estragado. Escutei
por lá entre eles: onde foi o erro? No congelamento!
Desde então, observo algo interessante em relação aos
economistas: eles passam a metade do tempo prevendo os
acontecimentos futuros, e a outra metade explicando por que não
aconteceu nada do que previram. As explicações são mais dolorosas
do que as frustradas previsões.
O mais célebre deles, nesse esporte de chutar bola de cristal, é
um famoso especialista norte-americano chamado Stephen Roach,
economista-chefe da firma financeira Morgan Stanley, que se
notabilizou por prever todos os anos, em congressos nacionais e
internacionais, uma grande crise a ser deflagrada no ano seguinte. E
com centenas de estatísticas verdadeiras demonstra a veracidade de
suas trágicas previsões. Vai a todos os encontros econômicos e não
se corrige: é o meteorologista das crises mundiais. Em Davos, foi alvo
de chacotas.71 Mas em todas as reuniões aparece por lá. E continua
anunciando o começo do fim do mundo.
Tenho muitos amigos economistas; gosto deles, mas não
entendo nada do que falam e muito menos do que fazem. No fim,
sempre alguma coisa acaba errada. Creio que apenas Keynes, no
século passado, andou acertando, quando advertiu não haver
salvação fora do pleno emprego. E o Prêmio Nobel Robert Mundell,
que previu a criação do euro. Homem de muita coragem, posto que a
Itália faz parte da Comunidade Européia. E certamente não abrirá
mão da tarantela inflacionária. Creio ter sido Mussolini o autor da
observação: “Governar a Itália é fácil, mas é inútil”.
Outro economista notável é Jeffrey Sachs, autor de O fim da
pobreza, livro que os políticos deviam ler até porque tem o prefácio
redigido por Bono Vox, o vocalista do U2. Se Lula não se gabasse
tanto de ser iletrado, eu tentaria fazer José Sarney convencê-lo a ler
o livro. Afinal, ler um livro, ainda que seja um só, não fará mal
algum. Parece, contudo, que os áulicos do Presidente do Brasil,
apesar de se dizerem defensores da justiça social, estão prestigiando
as teorias de Friederich Hayek,72 o que é uma pena.

71 Clovis Rossi, Folha de S. Paulo, 1 de junho de 2006.


72 Friederich Hayek, filósofo, defendeu a tese de que a idéia de justiça social é uma
quimera. Entende que o mundo é regido pelo mercado, produto da ordem natural,
espontânea, que se auto-organiza e, portanto, não sabe o que quer dizer justiça.
Claro que esse entendimento é frio e quase cínico. Mas há uma explicação: Hayek
era economista.
147
Em um desses dias do início do primeiro Plano Cruzado,
esmagado de trabalho, minha secretária veio comunicar-me que
estava na portaria um amigo meu, vindo de São Paulo. Chamava-se
Gervásio. Mandei entrar.
— O que você veio fazer em Brasília? Não acredito que tenha
deixado a paulicéia desvairada, para vir ao sossego do planalto
goiano.
— Alguma coisa me fez vir aqui. Eu ia para o hotel e de lá
pensava em telefonar e convidá-lo para jantar à noite. Mas, de
repente, mandei o táxi vir direto. Minha mala está aí na sala de sua
secretária. Como se chama?
— Eunice.
— Quando a vi, fiquei sabendo o porquê do impulso de vir aqui.
Bati um papo com ela, enquanto esperei você me receber.
— Como está repercutindo em São Paulo o Plano Cruzado?
— É ela!
— Ela é o que, homem de Deus? Você nem sequer presta
atenção à minha pergunta. Quero saber do Plano Cruzado!
— O plano não interessa. É coisa para o povo e para os
políticos. O que interessa é sua secretária. Você vai se casar com
essa moça.
— Eu? Você endoidou de vez! Dona Eunice é casada, tem uma
filha, é de boa família, segundo me informou o ex-Consultor Geral,
hoje Ministro da Justiça, Paulo Brossard. Eu venho de uma
separação e, enquanto estiver no Governo, nem penso em casar de
novo. Muito menos com a minha secretária daqui, do serviço público.
— Pois vai casar. É ela. Pode escrever. Ela tem um problema
com o marido, não é grave, apenas de convivência. Aconteceu entre
eles aquele fenômeno do desamor. Eles vão se separar
amigavelmente. Aí entra você. Ela se apaixona, você se comove, e
bingo! Casamento.
Eu sabia que Gervásio era um paranormal. Mas, claro, tinha
muitas reservas às suas previsões, a maioria delas não
concretizadas. E as que acertara no passado eram mais ou menos
óbvias. Nossos amigos comuns acreditavam nele mais do que eu,
sempre cético com essas coisas. Ele previu a renúncia do Jânio,
fundado na renúncia anterior da candidatura. Deixou no ar qualquer
coisa sobre o assassinato de Kennedy. Previu os vinte anos de
governo militar. Antecipou o tricampeonato do mundo para o Brasil
em 1970. Tinha a seu crédito esses acertos. Se bem que a Copa de
1970 era mais ou menos moleza para os futurólogos, sobretudo com
o Pelé jogando tudo o que sabia. Mas ele apostou.
— Deixa de bobagem, Gervásio — disse eu, já incomodado. —
Você viu a moça, deve ter se convencido de que, por sua
simplicidade, poderia agradar-me, já que eu sou um inveterado
caipira. E criou essa fantasia toda. Fora de cogitação!
— Pede para ela nos servir um café.
— Quem serve o café é o garçom.
— Então, chame-a aqui. Dê-lhe alguma instrução, qualquer
coisa. Quero vê-la na sua frente.
Chamei. Dona Eunice entrou, e eu, meio sugestionado, olhei-a
com um pouco mais de curiosidade. Claro que sempre a tratei, como
a todos os que trabalhavam comigo, com atenção. Olhei-a de forma
diferente, quero dizer. Mas cortei. Era indução psicológica do
Gervásio. Dei-lhe um manuscrito para ser datilografado. Ela era
exímia datilógrafa. Professora.
— A senhora trabalha em Brasília há muito tempo? —
perguntou Gervásio.
— Há alguns anos. Comecei na Eletronorte e fui convocada
pelo Ministro Brossard para vir trabalhar no Planalto. Pretendia
voltar para lá, mas o Dr. Saulo pediu para eu ficar, dizendo que
teríamos muito trabalho. E foi verdade. Essa Consultoria nunca teve
tanto movimento como na preparação do Plano Cruzado. E, depois
de sua edição, o trabalho aumentou.
— Pois a senhora se prepare, porque o movimento vai
aumentar muito mais, quando for instalada a Constituinte. Vocês
vão ficar loucos.
— Mas Constituinte é no Congresso. O senhor acha que vai
interferir nos trabalhos da Consultoria?
— Vai, e muito. A senhora é de onde?
— De Goiás, uma cidade chamada Iporá.
Interrompi a conversa e pedi para Dona Eunice levar o
manuscrito, pois queria o trabalho datilografado antes do fim do
expediente. Era um longo parecer. Naquele tempo, eu escrevia à mão
e usava lápis. Somente voltei a bater em teclado quando aderi ao
computador.
Gervásio, depois que a secretária saiu, voltou-se para mim e,
com a expressão triunfante, reafirmou:
— É ela! Você vai casar com ela.
— Está bem. Vamos jantar hoje. Mandarei um carro levar você
agora para o hotel e passo por lá logo mais. Então você me explica as
razões de sua profecia.
Ele se foi. Atendi outras pessoas, para cumprir a agenda do
dia. Dona Eunice trouxe o trabalho datilografado, e dessa vez nem
olhei para ela. Já estava fora da influência do Gervásio. E precisava
trabalhar.

148
No jantar, tomamos aperitivos, e ele não tocou no assunto. Ao
contrário, Pediu-me para contar com calma o episódio entre Celso da
Rocha Miranda e mim, no dia em que estourou o golpe militar,
chamado à época, 1964, de revolução.
— Você me contou pela metade.
— E por que você quer saber agora daquele caso?
— Tenho minhas razões. Desembuche!
Tive que lhe contar mais uma vez. No fim do Governo Jango,
estávamos conduzindo um acordo com as autoridades monetárias,
para um acerto de contas entre o Grupo Simonsen e a Fazenda
Nacional. As empresas tinham crédito pela compra da safra de café
na intervenção no Estado do Paraná e débito no Banco do Brasil, que
fornecera os respectivos recursos. Foi celebrada uma compensação
entre débito e crédito e concedido prazo para pagar o saldo. Carvalho
Pinto, Ministro da Fazenda do Governo Jango, conhecia bem o
assunto, e aprovou as negociações. Mas saiu do Ministério no final
do ano. João Goulart nomeou Ney Galvão, que ninguém conhecia,
mas que concordou em continuar com os entendimentos. Celso da
Rocha Miranda achou um jeito de aproximar-se dele. E conseguiu o
objetivo. O acordo estava redigido. Faltavam as assinaturas.
Eu tinha ido para o Rio e estava hospedado no Hotel Glória,
pois naquela semana o acordo seria celebrado na Sumoc —
Superintendência da Moeda e do Crédito —, autarquia que, mais
tarde, foi transformada no Banco Central do Brasil. O contrato foi
lavrado em livro próprio da Sumoc e seria assinado por todos: os
representantes das empresas do Grupo Simonsen, o Ministro da
Fazenda, os diretores do IBC e os diretores daquela Superin-
tendência. Segundo Celso da Rocha Miranda, o livro estava no
gabinete do Ministro da Fazenda, Ney Galvão, e a maioria das
assinaturas já havia sido colhida. Faltavam as dos nossos clientes e
as de alguns diretores da Sumoc.
Estourou a chamada revolução. Era primeiro de abril. O
General Mourão Filho marchava com suas forças para o Rio de
Janeiro, vindo de Minas Gerais. Confusão geral no país. O noticiário
das rádios era confuso, contraditório, mas algumas informações
asseguravam que Jango preparava-se para fugir de Brasília e que a
fuga estava sendo negociada com os militares. Somente no Brasil
essas coisas e a jabuticaba acontecem. Os líderes esquerdistas
debandaram. Os direitistas proclamavam vitória sobre os
“comunistas”.
Celso da Rocha Miranda chegou ao Hotel Glória para me
buscar. Eu estava embaixo, na portaria, ouvindo rádio. Dezenas de
hóspedes se amontoavam no salão, em busca de notícias.
— Vamos aproveitar esta confusão — disse Celso — para ir ao
Ministério da Fazenda.
— Como? — perguntei. — O ministério deve estar fechado com
essa balbúrdia toda. O que vamos fazer lá?
— Pegar o livro da Sumoc. O Ministro disse-me que estava com
ele e que me entregaria para as assinaturas dos diretores do Grupo
Simonsen. Vamos embora! O carro está aí fora.
Saímos, e levei um susto. O carro era um senhor Rolls Royce,
lindo, não muito novo, mas impecável, brilhante, digno de um lorde
inglês. O Celso, aliás, parecia um lorde inglês pela elegância e pela
educação. Essa observação é por ouvir dizer, porque eu mesmo
nunca vi um lorde inglês. E perguntei:
— Não é perigoso a gente andar num carro grã-fino como este?
— É o carro que vai nos permitir entrar no ministério. As
notícias de rádio estão clamando que os capitalistas venceram os
comunistas, e não haverá ninguém na garagem do prédio que terá
coragem de barrar um Rolls Royce. Veja o motorista. Ele está de
luvas brancas.
Não deu outra. Entramos com facilidade e fomos tratados com
o maior respeito. Subimos direto ao gabinete do ministro. Ninguém.
Um cemitério. Entramos na sala do Ney Galvão, que ainda era o
ministro nominal. Ninguém. Depois de alguns minutos, apareceu um
contínuo. Informou que o ministro havia saído às pressas. Olhou
para a elegância do Celso e ofereceu café. Aceitamos. Lá foi ele
buscar o café na copa. Fuçamos tudo no gabinete.
E, sobre uma mesinha, bem ao lado da poltrona do ministro, lá
estava o nosso tesouro: o livro da Sumoc. Abrimos na última página
e lemos o texto do acordo com algumas assinaturas, faltando outras.
Celso agarrou o livro e o enfiou na pasta. Voltou a sentar-se. Foi o
tempo exato. O contínuo chegou com o café.
— Que confusão, doutor! — disse, servindo o café. — O senhor
acha que o Governo caiu?
— Caiu, não há a menor dúvida. Jango já deixou Brasília, e as
forças militares todas estão unidas contra o Governo. Há apenas
uma resistência no Rio Grande do Sul.
— É, eu ouvi no rádio — respondeu o contínuo. — E os
senhores vieram aqui para tomar o Ministério da Fazenda?
A pergunta era espantosa e, durante anos, demos risadas ao
lembrarmos dela.
— Não — disse Celso, com a maior tranqüilidade. — Estamos
aqui para oferecer proteção ao ministro. Mas creio que ele não vai
voltar. Agradecemos o seu café e vamos embora.
Celso levou o livro. Lutou para colher as assinaturas que
faltavam. Conseguiu. O governo Castelo Branco já se havia
constituído. O Ministro da Fazenda era o Dr. Gouveia de Bulhões,
meu amigo, pois havíamos trabalhado no Governo do Jânio, quando,
juntos, elaboramos as resoluções 204 e 205 a da reforma cambial e a
que acabou com o confisco do café na exportação resoluções da
Sumoc, da qual ele era o presidente.
Pedi audiência, e ele nos recebeu. Depois de contar toda a
história do acordo, expliquei:
— Estávamos com o livro da Sumoc para colher as assinaturas
dos empresários, pois as autoridades monetárias todas já haviam
assinado. O acordo está formalmente perfeito.
— Eles entregaram o livro para os particulares? Que falta de
responsabilidade! E o sigilo de outras decisões? O certo é convocar as
pessoas para assinar na sede da Sumoc. Esses membros do Governo
do Jango eram uns doidivanas!
Ficou com o livro, nada prometeu, lembrou fatos do Governo do
Jânio, acabou por concluir que a renúncia tinha sido a causa de
tudo. E não estava muito errado.
149
— Por que você queria saber dos detalhes? — perguntei ao
Gervásio.
— Aquele acordo, que fim levou?
— Fim algum. Os militares o ignoraram. Nós não tínhamos
cópia. O livro sumiu. E acabaram com o Grupo Simonsen. Ponto
final.
— E o Bulhões?
— Nada pôde fazer. Era um homem excelente. Devolveu o livro
para a Sumoc, e ali o documento desapareceu.
— Minha idéia é a seguinte — disse Gervásio. — Você hoje está
no Governo. Podia fazer algo para reparar aquela injustiça.
Sobretudo quanto à Panair. Agora é moda reparar as pessoas físicas
vítimas da repressão. Por que não as pessoas jurídicas que sofreram
as mesmas arbitrariedades?
— Não me crie caso! — respondi. — Você sugere que se edite
uma lei de anistia também para as empresas que sofreram
repressão?
— Por que não?
— Você não é advogado, e por isso o perdôo. Ademais, o caso
da Panair está na Justiça. Nem conheço os atuais advogados dos
herdeiros do Celso da Rocha Miranda. O governo tem outras
prioridades: além dessa tentativa de estabilização econômica, haverá
uma Constituinte. Sabe lá o que é isso? Todas as atenções têm que
se concentrar no processo de configuração constitucional do Estado
de Direito. Não vai dar para fazer mais nada.
— E aquele general que se infiltrou no Grupo Simonsen, sob o
pretexto de defendê-lo?
— O General Ayrton Salgueiro de Freitas?
— É esse mesmo.
— Era um vigarista. Antes da ditadura, tinha um escritório de
“detetives”. Depois do golpe, chegou a ser Superintendente da Polícia
Federal do Rio de Janeiro. Na época, havia uma camuflada
necessidade de que grupos empresariais contratassem oficiais
militares reformados para “contactos” com o Governo. Faziam os
“contactos” na ida e na volta, isto é, forneciam informações
policialescas aos serviços de espionagem do Governo e, em troca,
obtinham alguns favores para mostrar prestígio.
— E esse Ayrton. Ajudou no quê?
— Em nada. Andou usando o nome da Comal para efetuar
vendas falsas de câmbio. Foi descoberto por um diretor do Grupo
Simonsen, o mais eficiente: Max Rechulsky, que era da Wasin.
Resultado: numa lista de nomes a serem cassados pelo Governo,
pessoal da Petrobrás, o general incluiu o nome daquele diretor da
Wasin. Rechulsky, profissional competente em negociações
internacionais, nunca mais voltou para o Brasil. Vive na Suíça até
hoje.
— Você conhece detalhes do caso — voltou a insistir Gervásio.
— E pode, muito bem, fazer alguma coisa para apurar as
responsabilidades desses picaretas todos.
— Desculpe-me, Gervásio, mas não tenho a menor vocação
para policial e, sobretudo, para ficar remexendo o passado político do
Brasil. Temos uma Constituinte pela frente. Nessa matéria, sim, vou
trabalhar tempo integral. Olhar para frente, meu caro. O futuro
espera um Estado de Direito. Por que perder tempo com a ditadura?
Quando foi preciso, eu a enfrentei em alguns processos difíceis. Mas,
agora, é matéria para os historiadores.
— Quando você voltar a dizer que o Brasil não tem jeito,
lembre-se de que grande parte da culpa é sua. A Panair foi espoliada,
violentada, roubada, assaltada. Você sabe disso e não quer fazer
nada?
— Está bem. Assumo a parte da culpa que me toca. Mas quero
saber: por que vou casar com minha secretária?
150
— É simples, mano velho! — Gervásio tomou ares de maior
solenidade — Tive um sonho em que me foi dito que você precisa
casar de novo.
— Mas isso todo mundo me diz sem sonho algum. Desde meu
irmão até o Itamaraty, que anda me convidando para festas e me
apresentando moças prendadas. Basta existir um homem solteiro ou
divorciado, para que todos o aconselhem a casar. No Governo é a
mesma coisa. Com relação a mim, somente minha mãe não me
pressiona.
— Exatamente aí as coisas passam a ter lógica. Você precisa
encontrar a mulher certa para o seu resto de vida, ou o resto da sua
vida...
— ...essa última forma de dizer é mais simpática...
— ...até para cuidar de sua mãe viúva, que jamais mereceu de
sua parte uma nora digna do imenso amor que ela lhe dedica e
precisa ver em torno de si uma família que participe desse tipo de
privilégio. O amor, para quem ama, é problemático, quando se trata
de sentir a felicidade que ele proporciona. Amar apenas não basta. É
preciso ver a pessoa amada feliz por receber o amor que lhe é
dirigido, perceber que produziu o efeito da ternura, saber que a
irradiação emanada vai acender luzes no coração do filho, quando se
trata do amor de mãe.
— Gervásio, ótima filosofia! — ponderei. — Mas você está
falando de minha mãe, e não da minha secretária. É uma bruta
confusão essa sua para-normalidade, se é que é paranormalidade.
— Deixe essa história de paranormalidade. Sou absolutamente
normal. O caso é o seguinte: você precisa de uma mulher simples,
que ame você, que queira realmente fazer você feliz e ser feliz com
você. E sua mãe precisa ver isso e com urgência, pois somente assim
ela mesma poderá ser feliz por inteiro. Foi pensando nisso que tive a
idéia de vir a Brasília, porque, mesmo de longe, senti que você tinha
conhecido uma mulher capaz de realizar esse prodígio. Eu esperava
ficar alguns dias, conviver com seus amigos e amigas, freqüentar
seus ambientes, porque tinha certeza clara de que eu iria identificar
a mulher, ou que talvez você já a estivesse namorando. Pensei que
levaria alguns dias para fazer, digamos, o diagnóstico.
— E por que você se preocupou com isso? Se encontrar essa
mulher-maravilha, eu mesmo resolvo o que devo fazer ou não,
partindo do principio de que ela concorde.
— Quando vinha do aeroporto e ia para o hotel, alguma coisa
me fez ir direto para sua Consultoria.
— A Consultoria não é minha. É da República — insistia eu em
descontrair a conversa, que estava descambando para coisas
misteriosas.
— E, quando entrei e me deparei com Dona Eunice, tive a
sensação plena de que não precisava conhecer mais ninguém dentre
suas relações em Brasília. É ela, meu mano velho! É ela! Tanto é ela,
que vou embora amanhã. Missão cumprida. Não preciso conhecer
mais ninguém.
— Calma, Gervásio! Eu tenho muitas amigas, algumas até
merecendo maior atenção e que posso apresentar-lhe. Assim, você
deixa sua intuição estender-se para um círculo mais amplo e, creia,
aceitarei suas observações e conselhos. Pelo menos os levarei em
conta para uma questão como esta, inegavelmente séria. Mas minha
secretária está fora de cogitação. Ela é casada, e tudo indica que vive
bem.
Gervásio encerrou o assunto:
— É Dona Eunice, e não se fala mais nisso! Vai separar-se.
Talvez ela mesma ainda não saiba, mas vai. Lembre-se apenas de
que lhe avisei. Não a perca. Você já tem experiência. Do Governo,
pode-se sair a qualquer momento. Se você voltar para São Paulo sem
se casar com ela, fique certo: perdeu a única oportunidade que o
destino lhe deu. Você pode voltar a ter muitos casos, viajar pelo
mundo afora, viver aquela vida boa de Paris, ir para o Nordeste, usu-
fruir as praias de Pernambuco, Maranhão, curtir os seus violeiros e
repentistas; mas a única oportunidade é esta. Não terá outra.
Lembre-se de que você não sabe escolher mulher para casar. Dois
fracassos são provas suficientes.
E Gervásio foi embora no dia seguinte. Fiquei intrigado. O
velho amigo se deslocou de São Paulo, em plena agitação nacional
com a implantação do Plano Cruzado, eu no meio da fogueira dos
debates, das contestações, das explicações, e ele aparece para dizer
que devia me casar com a secretária.
Enlouqueceu de vez!

151
Cerca de um ano depois, já havia me esquecido da conversa
com o Gervásio. A Constituinte absorvia a totalidade dos trabalhos
da Consultoria Geral da República. Estava pronto o projeto de
Constituição. Ia começar o segundo turno, quando inventaram que,
nessa segunda fase, somente seriam admitidas emendas
supressivas. Mais nada, salvo as de redação. Outra encrenca.
Arrumei nova briga com a soberana.
A convocação da Assembléia Constituinte, emenda nº 26, era
clara: os dois turnos tinham que ser de discussão e votação, isto é, o
segundo igualzinho ao primeiro. Logo, havia mandamento
constitucional de força cogente:73 no segundo turno, era assegurada
aos constituintes a apresentação de todos os tipos de emendas:
supressivas, supletivas, aglutinativas, substitutivas. Tanto que eles
próprios, os constituintes, haviam apresentado cerca de duzentas
emendas para serem apreciadas no segundo turno. O debate foi
longe.
Fui convidado a participar de um programa de televisão, Roda
73 Do latim, cogente, cogere, racionalmente necessário, obrigatório, expressão usada
em linguagem jurídica.
Viva, na TV Cultura, onde tudo isso acabou sendo discutido. Alguém
chamou a atenção para um artigo no projeto, que autorizava aos
estados e municípios a emissão de títulos para o pagamento de
precatórios judiciais em parcelas iguais durante oito anos.
Perguntado sobre aquela disposição, respondi que era uma, dentre
muitas, que desmoralizava o projeto e, com certeza, iria desmoralizar
o Brasil. Causaria escândalos. Estados e municípios abusariam da-
quela permissão de emitir títulos fora dos limites constitucionais
impostos pelo Senado e iriam se esbaldar. Não era futurologia. Quem
conhece o Brasil pode prever essas coisas: acabam em maroteira.
Não deu outra: o escândalo dos precatórios, que acabou na CPI
dos títulos públicos, outro escândalo (uma coisa chama a outra),
porque o relator, o então Senador Roberto Requião, resolveu fazer
palco para si mesmo, baralhou tudo, acusou inocentes, inocentou
culpados, e o único resultado real que obteve foi acabar com a
credibilidade do mercado de títulos públicos estaduais e municipais
neste país. Estados e municípios não conseguem mais vender títulos.
E a CPI acabou em pizza.
Minha entrevista à TV, prevendo o desastre, está gravada.
Tenho uma cópia, que eu mesmo converti para DVD. A entrevista
ocorreu era 18 de outubro de 1987. Única prova de que em algum
momento fui bom profeta. Pelo menos uma vez. A pizza de Requião,
servida fria, deu-se mais de uma década depois de promulgada a
Constituição.
Vários estados emitiram letras de seus tesouros, receberam o
dinheiro e não pagaram os investidores.

152
A coisa funcionou assim: o estado ou o município que tivesse
condenações judiciais poderia emitir títulos no exato montante de
tais dívidas, vendê-los no mercado financeiro e pagar aos credores
dos precatórios. Alguns, porém, que tinham, por exemplo, cinqüenta
milhões a pagar, emitiram quinhentos milhões. Fraudaram o
permissivo constitucional. Endividaram-se fora dos limites. Houve,
no meio do caminho, negociatas, comissões, o diabo.
No final, os investidores, isto é, os desavisados, que compraram
os títulos acreditando na segurança do sistema, foram acusados de
facilitar as vendas, porque compraram. Só no Brasil isso acontece. E
a jabuticaba. Os títulos foram lançados mediante prévia autorização
do Banco Central e por intermédio da Cetip — Central de Custódia e
Liquidação Financeira de Títulos —, depois de resolução do Senado
Federal autorizando a emissão e o lançamento. O investidor que
acreditou nisso danou-se.
No final, a União teve que arcar com os custos e assumiu a
dívida dos estados e municípios.
Mas os fatos encheram o prato dos espetáculos políticos. Na
CPI dos Títulos Públicos, apelidada de CPI dos Precatórios, o Senador
Roberto Requião esbaldou-se. Ficou sob holofotes durante meses. E
uma de suas prediletas cambalhotas era acusar o Banco Bradesco,
que chamava de Bancão. O Bradesco era culpado de tudo. Se não
tivesse comprado os títulos, os estados não os teriam vendido. E,
sem comprador, não se endividariam. Lógica de gênio!
O Bradesco me procurou para defendê-lo no caso, e, entre as
medidas cogitadas, estava processar o Senador pelo Paraná. Ele já
havia sido “meu” réu em outro processo, quando fui advogado do
Tribunal de Justiça daquele estado contra ato dele, então
Governador, que determinou o não pagamento da correção monetária
aos vencimentos do Judiciário, porque era muito moroso. Levou
cacete do Supremo Tribunal Federal e teve que pagar tudo. Foi eleito
e reeleito governador mais uma vez. O Estado do Paraná persiste no
erro.
O processo, que, naquela época, planejei contra ele, seria mais
complicado, porque Senador pode falar o que quiser e tem absoluta
imunidade por suas palavras, desde que pronunciadas no exercício
da função. Atuação na Comissão Parlamentar de Inquérito é
exercício de função parlamentar. Pode caluniar, injuriar, difamar.
Não responde a processo. Imunidade absoluta. Torna-se inviolável,
como diz a Constituição, art. 53.74
Tive uma idéia. A Constituição original, de 1988, não continha
a expressão civil e penalmente, o que permitia ao ofendido processar
o parlamentar pelo direito civil. A nova redação, malandra, foi dada
em 2001, pela Ementa Constitucional nº 35.
Minha idéia era propor contra o Senador pelo Paraná uma ação
prevista no art. 287 do Código de Processo Civil.75 Uma ação ótima,
por cujo intermédio se pode obrigar as pessoas deseducadas a agir
com educação. Por exemplo: se alguém atira lixo no seu quintal, você
pode pedir ao juiz para impedi-lo de fazer e condená-lo a pagar multa
pesada toda vez que o fizer. Por que não poderia processar alguém
que atirasse lixo sobre a moral da vítima?
Claro! A idéia era excelente, pois Pontes de Miranda entendia
que até para impedir a prática de crime aquele tipo de ação poderia
ser usado. Ação de abstenção da prática de ato.
Ora, nada mais útil do que usar contra um político a ação de
abstenção contra a mentira. Não pode mentir! Cada vez que acusar a
vítima com uma mentira será multado. Mentiu? Multa nele! A lei
chama de pena pecuniária. Dá na mesma. Sanção cominatória.
Redigi a petição inicial. Citei todas as mentiras que o então
Senador Requião havia desferido contra o Bradesco, demonstrando a
falsidade das acusações, e pedi que o réu fosse condenado a abster-
se de mentir e, se o fizesse de novo, pagaria a pena pecuniária.
Caprichei. Tinha a certeza de que o Poder Judiciário iria
aproveitar a oportunidade e criar uma fantástica jurisprudência para
impedir políticos de mentir. Era só levantar a bola.
Mas não deu. Lázaro Brandão, presidente do Bradesco, homem
de formação pacífica, calmo, tranqüilo, não gosta de processar
ninguém. Limita-se a defender sua instituição, quando atacada. Está

74 Art. 53: “Os deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por
quaisquer de suas opiniões, palavra e votos”.
75 Art. 287: “Se o autor pedir que seja imposta ao réu a ação de abstenção da prática
de algum ato, tolerar alguma atividade, prestar ato ou entregar coisa, poderá
requerer cominação de pena pecuniária para o caso de descumprimento da
sentença ou da decisão antecipatória da tutela”.
permanentemente mergulhado em estudar problemas e encontrar
soluções para assuntos de interesse do Brasil, embora na minha
opinião calar um político mentiroso seria algo de alto interesse
público. A administração do Bradesco é voltada para aquele objetivo
permanente. Foi Amador Aguiar quem decretou a configuração dessa
filosofia empresarial. A solidez e eficiência da instituição financeira
de nada valerão, se não forem para beneficiar o país em todos os
aspectos.
Para isso, escolheu Lázaro Brandão como seu sucessor. Sérgio
Bermudes escreveu sobre o fato:

“Consciente da necessidade de escolher sem erro o seu


sucessor, Amador Aguiar procurou, demoradamente, entre os
seus companheiros, pela meticulosa observação de cada um,
quem fosse a incandescência dos valores que ele entendia
indispensáveis ao prosseguimento da sua obra. Distinguiu
Lázaro Brandão, temperamento semelhante ao dele, de idêntica
obsessão pelo trabalho, mesma visão dos negócios do grupo,
modéstia e despojamento, descortino e discrição, indiferença à
lisonja, paciência e capacidade de dedicar-se a cada problema
como se fosse o único, incomparável no hábito de deliberar
perguntando, para deixar no interlocutor a sensação de
paternidade da decisão, nervos de aço para enfrentar as
vicissitudes, compreensão das fraquezas e possibilidades
humanas. Por certo, apreciava um dos aspectos dominantes da
personalidade do escolhido: aquela impavidez, do tipo que
levou Horácio a dizer do próprio pai que, se o mundo se
estilhaçasse, as ruínas o feririam impávido.”

153
Lázaro Brandão demonstrou que Amador Aguiar estava certo.
Não é comum encontrar banqueiro com essa convicção
obstinadamente desenvolvida todas as horas do dia, durante anos e
anos e anos. Contagiou sua equipe. Desconfio de que ele use cueca
verde e amarela. O normal em homens nesse ramo do mercado é,
primeiro, pensar no lucro e, depois, se der para ajudar o país, vamos
ver.76
O Bradesco, sob a direção de Lázaro Brandão, além de
incontáveis escolas em todo o país, mantém centro de
desenvolvimentos científicos e, por incrível que pareça, ajuda no
desesperado esforço de conservação do que resta da Mata Atlântica.
Encurtando a história, não ingressei com a ação. Na
trapalhada dos precatórios, em dezenas de complicações, consegui
ganhar a maioria das causas.
Mas Roberto Requião livrou-se de uma ação judicial que seria
uma delícia: a obrigação de abster-se de mentir. Parece que continua
no mesmo estilo antigo, porém com uma novidade: passou a comer
sementes de mamona. Elegeu-se Governador do Paraná, mais uma
vez, e um de seus auxiliares instalou no seu Governo uma quadrilha
especializada em escutas telefônicas de empresários e adversários.
Pego pela polícia e preso, o assessor de Requião, Décio Augusto
Rasera, contou com a proteção dos advogados da campanha de
reeleição do Governador paranaense para uma suprema ousadia:
tentaram impedir a publicação de reportagem na Folha de S. Paulo, o
que foi negado pela Justiça. E mais: pediram a escuta telefônica de
vários jornalistas e de membros do Ministério Público. Quanto à
tentativa de censura, a gravidade da pretensão provocou um
pronunciamento da ANJ (Associação Nacional de Jornais), atribuindo
ao próprio Requião a absurda iniciativa que demonstra vocação
autoritária e falta de espírito democrático.
Reeleito finalmente, Requião desabafou xingando a imprensa.
Mereceu da Folha de S. Paulo, em editorial, a seguinte qualificação: o
governador Roberto Requião, conhecido pela sua boçalidade.77
Mas não se emenda. No seu último governo, não se sabe por
76 O Bradesco não patrocina a publicação deste livro.
77 Editorial “Volta a truculência”, Folha de S. Paulo, 1º de novembro de 2006, dia de
Todos os Santos.
que, fez graves acusações contra José Richa, que já morreu há muito
tempo. José Richa era uma alma pura. Foi Governador do Paraná.
Acontece que o Prefeito de Curitiba, Beto Richa, filho do bom José,
defendeu a memória do pai e chamou Requião de covarde, leviano,
histérico, caluniador e ensandecido. Caberiam outros adjetivos.
Requião está sempre metido em rixas.

Pontes de Miranda tinha razão: a ação de abstenção da prática


de ato pode prevenir a prática de crime.
Creio (ah! O verbo crer!) que são igualmente boçais os petistas
ou lulistas (pode haver distinção) que, depois da reeleição de Luiz
Inácio, ameaçaram com desaforos e palavrões os jornalistas Clovis
Rossi, Dora Kramer, Eliane Cantanhêde, Merval Pereira, Elio
Gaspari, Janio de Freitas entre outros. A truculência tem a
pretensão de intimidar a crítica, isto é, de assassinar a liberdade de
imprensa.

154
Na Consultoria Geral da República, minha sala era quase toda
de vidro. Muitas cortinas foram necessárias para impedir a visão do
lado de fora, sobretudo dos jornalistas, que ficavam por lá, vigiando
as notícias que entravam e saíam. As notícias eram os ministros.
Pegaram a mania de consultas pessoais, o que era mais trabalhoso,
porque exigia um esforço didático para traduzir em linguagem
simples os assuntos que podiam ser tratados em “juridiquês”, se
mandassem os advogados do ministério deles.
Numa dessas ocasiões, dois ministros, depois de longa reunião,
deixaram uma enorme papelada para eu estudar. Quando ia me
concentrar na leitura, minha secretária, Dona Eunice, entrou na sala
e me deu um susto:
— Doutor Saulo, acabei de me separar de meu marido.
Amigavelmente. A separação já foi homologada em Juízo. Preciso de
um favor seu.
— Mas assim, sem ninguém saber? Qual é o favor?
— Meu marido, isto é, meu ex-marido trabalha no Ministério
da Fazenda e sempre sonhou em ser transferido para o Rio, onde tem
a família dele. Gostaria que o senhor falasse com o ministro para
transferi-lo. Se o senhor conseguir, ficarei imensamente grata, pois
creio que ele ficará feliz em morar perto da família e se adaptará
melhor à separação.
— E a menina, sua filha, como está?
— Está ótima. Ambos conversamos com ela, e aceitou bem a
nova situação.
— Como ela se chama?
— Márcia. É o nome da irmã de meu ex-marido, a quem admiro
muito. Criatura boníssima. O senhor me fará esse favor?
Cuidei de atendê-la. Em um mês, a transferência foi efetuada.
A primeira parte da profecia de Gervásio estava consumada. E a
segunda? Nem indício. Pensei comigo: na minha advocacia, eu havia
patrocinado quase dois mil processos de desquite (era o nome da
separação judicial antes da Lei do Divórcio, do Senador Nélson
Carneiro). A tranqüilidade de Dona Eunice demonstrava que tudo
estava bem. Não havia traumas. Caso típico de desamor sem
ressentimentos. Minha prática de advogado experiente assegurou-me
que a separação não deixara qualquer trauma na minha secretária.
Mas me deu um susto danado em razão da profecia do
Gervásio.

155
E, por falar em ressentimentos, volto à minha história
principal. Afinal, essa mania de contar tantos fatos diferentes
atrapalha-me. Perco aquele fio da meada, do qual falava minha avó.
O advogado da mulher do Sr. Olavo Brás voltou a me telefonar:
— O colega tem razão. Falei com minha cliente, e ela está
furiosa com a psiquiatra. Tive imenso trabalho para apaziguar sua
crise de ferocidade.
Afinal, ouvi dele um diagnóstico razoável: sua cliente era
realmente uma fera. Conversamos sobre o comportamento do
esquizofrênico paranóico, e o aconselhei empenhadamente a que a
convencesse a voltar ao tratamento, ainda que fosse com outro
médico. E arrisquei uma pequena chantagem:
— Embora não me interesse levar esses fatos ao conhecimento
do juiz da nossa causa, mesmo porque a psiquiatra não quis lavrar a
ocorrência nem formalizar queixa ou notitia criminis pela ameaça de
morte, penso seriamente que o desfecho do caso poderá privar sua
cliente da guarda das crianças. Claro que lutarei para que seja
transferida para o pai, mas poderá ser confiada aos avós.
— Ao pai, desculpe, creio que você não conseguirá. A acusação
contra ele é muito forte. Mas a hipótese de não ficar a guarda com
ela nem com ele é bem plausível. Talvez seja o melhor para as
crianças.
— De qualquer forma, meu caro, haverá de ser decidido o
direito de visitas. Não desejo ensinar o pai-nosso ao vigário, mas as
coisas serão mais fáceis para sua cliente, se ela retomar o
tratamento. Se você chegar à audiência de instrução e julgamento
com essa notícia nos autos, o direito de visitas poderá ser
assegurado de maneira mais amena.
— Como assim?
— Sem o inconveniente de visita acompanhada por parente ou
por assistente social. Você sabe como essas coisas funcionam no
Judiciário. O juiz tem que tomar precauções, ainda que formais, para
a subsistência de uma leve esperança de defender os menores.
— Tentarei convencê-la.
Não conseguiu. Anotei para, na futura audiência, perguntar se
a mulher retomou o tratamento. Se a resposta fosse negativa,
ganharia pontos.
Depois chamei o Nerval, o Casé e a Clotilde:
— Como estão as investigações? Descobriram se a mulher teve
cúmplice na gravação?
— Eu não tive sucesso — respondeu Clotilde. — Embora tenha
continuado a visitar a escola e a conversar com os meninos, quando
se toca no assunto da gravação, se a mãe chamou alguém, se
mandou dizer as respostas, as crianças demonstram verdadeiro
pavor e cortam qualquer possibilidade de diálogo.
— Tenho tentado com as amigas, com os maridos das amigas,
mas ninguém sabe de nada — acrescentou Nerval. — Você tem
certeza de que houve cúmplice?
— Certeza, não tenho. Há a teoria do Gervásio, confirmada pela
perícia, de que a distância entre as crianças e o gravador foi sempre
a mesma durante a gravação. É lícito deduzir que a mãe segurou as
crianças para mantê-las paradas, ou imóveis, quando proferiam as
respostas.
— São coisas do Gervásio. Vamos ficar loucos, se acreditarmos
em tudo o que ele profetiza — disse Nerval, um pouco irritado com o
nosso amigo paranormal, pois um policial não poderia admitir esse
tipo de “chute” ou “inspiração”. Polícia não usa forças sobrenaturais
no combate ao crime. É tapa, algema, tiro e queda.
— Mas houve confirmação da perícia. Não podemos desprezar a
hipótese — disse eu, pensando provocar o Nerval. Ele não se abalou
e informou uma novidade mais interessante ainda:
— Descobri que a mulher não tem gravador. Ela pediu
emprestado um aparelho. Precisamos descobrir de quem e quando.
— Opa! Essa é de alta relevância. Como você descobriu?
— A empregada, doutor. A empregada nunca viu um gravador
naquela casa. Nem mesmo depois da briga judicial. Ela usou e
devolveu. Quem descobriu isso foi o Casé, que está se revelando um
grande investigador, tanto quanto advogado.
Sob os sorrisos de Carlos Edson, Nerval concluiu:
— Vou aprofundar a investigação nesse aspecto.
Deixamos o nosso caso de lado e, para relaxar, passamos às
conversas descontraídas de fim de dia, que começava com um uísque
servido por Isabel, nossa incansável copeira, que, mesmo sem
ninguém pedir, entrava na sala com bandeja, garrafa, copos e balde
de gelo. Clotilde não aceitou a oferta preciosa da Isabel e foi
trabalhar. Estudava um processo para o júri. E estava um pouco
nervosa, porque seria sua estréia na modalidade. Esse detalhe
tornou imperiosa a recordação de uma de minhas histórias colhidas
no Nordeste.

156
O Nordeste é muito rico em histórias. Contaram-me, certa vez,
que um jovem advogado, recém-formado, aceitou defender um réu
acusado de ser matador profissional, mas somente matava bandido
por encomenda da família das vítimas assassinadas por outros
pistoleiros. Sob o conselho de seu pai, o causídico procurou o chefe
político da cidade onde se realizaria o julgamento pelo júri popular.
Meio vexado, procurou o coronel.
E explicou que a acusação era exagerada: homicídios
qualificados, agravantes de todas as espécies, tocaias, emboscadas,
crimes continuados mediante paga, pena de doze a trinta anos de
reclusão. Tentou justificar que seu cliente agia em razão de relevante
valor social, pois era um justiceiro. Foi quando o coronel o
interrompeu:
— Pode parar, meu filho! Essas coisas não contam! São muito
complicadas. Sou amigo de seu pai e vou atender ao pedido dele.
Diga-me, sem arrodeios, o que você quer.
O advogado disse que queria para seu cliente a pena mínima
do homicídio simples: seis anos reduzida de um terço.
No dia do julgamento, o promotor fez sustentação não muito
eloqüente, e ele caprichou na defesa, citando juristas nacionais e
estrangeiros; examinou detalhadamente a denúncia, qualificou-a de
inepta e não sofreu apartes do acusador. Final: o júri deliberou, e
seu cliente foi condenado a quatro anos, tal como pedira ao coronel.
Exultante com a vitória, foi agradecer ao coronel e ouviu:
— Tem nada não, meu filho. Não podia deixar de atender a um
pedido de seu pai. Mas não foi fácil! Tive que dobrar muitos cabras
teimosos. Foi difícil, porque os jurados queriam absolver seu cliente.
Agora me diga: quer que ele cumpra a pena ou posso mandar soltar?
Além dessa demonstração de como funciona o controle externo
do Judiciário, quando exercido por chefes políticos, o jovem
causídico descobriu também por que o promotor não lutou como
devia: sabendo das tratativas e de que o réu seria condenado ao
menos a quatro anos, não quis fazer nada que pudesse absolvê-lo.

157
Dentre tantas histórias, uma aconteceu comigo. Sempre que
podia, passava férias no Nordeste. Maranhão, Pernambuco, Paraíba,
Bahia. Na Paraíba, juntava-me aos cantadores repentistas, e um dia
resolvemos promover um congresso de violeiros. Eurícledes Formiga,
Severino Pinto, Oliveira de Panelas, Otacílio Batista e outros. Era a
comissão organizadora. Primeiro Congresso Brasileiro de Repentistas
em João Pessoa. Fui eleito presidente da mesa julgadora.
Sucesso. Inscreveram-se cerca de cinqüenta cantadores vindos
de vários estados. A cada dia, escolhíamos um grupo de vencedores,
que continuava a disputa no dia seguinte. Valia desqualificar o
repentista que cometesse um erro grosseiro durante a cantoria.
Chegou a vez de um cantador de Alagoas. Estava improvisando
um “oito pés ao quadrão”. Visivelmente embriagado, o que era quase
normal entre eles. Mas quebrou o pé do verso e errou a rima ao
fechar a estrofe. Na mesa julgadora, ninguém disse um “pio”. Resolvi
usar minha autoridade de presidente e desclassifiquei o violeiro.
Aplausos na platéia. Os demais e ilustres componentes da
mesa, Formiga, Severino, Otacílio, mudos. Resolveram suspender os
“trabalhos”. E me convidaram para uma reunião no fundo do palco.
Salinha modesta, mas isolada.
— Você está maluco! — exclamou Formiga, com sua voz rouca
e uma expressão de desespero nos olhos. — Esse cara que você
desclassificou é o maior matador profissional das Alagoas. O homem
tem mais de quinze mortes nas costas. É um perigo! A gente deve
deixá-lo ir até o fim. Outros serão os vencedores, e tudo ficará bem.
Mas desqualificá-lo agora pode acirrar o ódio dele, e todos nós
estaremos ameaçados. E muito mais você, que nem é do Nordeste, é
paulista.
Jamais poderia supor um problema desse tamanho e dessa
espécie. Matador? E profissional? Com mais de quinze mortes e solto
por aí, cantando viola, participando de congresso de repentistas?
Eta, Nordeste!
— Meus caros amigos, vou manter a decisão. Ele está
desclassificado, e não há matador neste mundo que me faça voltar
atrás — disse eu, resolvido — Nem por cima do meu cadáver! Tem
mais: vou falar com ele. E é agora!
Tentaram me dissuadir. Mas resolvi enfrentar a situação. Do
contrário, seria melhor me retirar do congresso e ir embora. Tudo
muito divertido: a criatividade admirável daqueles artistas populares,
as lindas poesias improvisadas, nossos menestréis do agreste. Mas
medo de bandido não dava! Não por ser paulista, mas, sobretudo,
por ser advogado.

158
Saí, encontrei o indigitado, convidei-o para ir até a sala isolada
no fundo do palco. Convidei-o a sentar-se. E, com o devido cuidado,
comecei:
— Disseram-me que o senhor é das Alagoas, e ali tem como
profissão algo não muito comum. Parece que o senhor é chegado a
um contrato.78 E tem fama de muitos contratos já executados. Mais
de quinze. É verdade?
— Vosmincê não é polícia, pois não? — perguntou ele, olhando
para a porta de saída.
Senti que ele estava com mais medo de mim do que eu dele.
— Não. Sou advogado em São Paulo.
— São Paulo presta não, senhor doutor! Já estive lá, e por
qualquer coisa a gente é preso. É um lugar apaideguado, mas se o
vivente não tem astúcia dá com os burros n’água.
— Está bem. Mas eu quero saber, agora, se o senhor ficou com
raiva de mim e vai usar dessa sua profissão para tirar a forra.
— Que profissão? — perguntou com ares de espanto.
— A profissão de sicário! — falei de vez, para encurtar a
solução.
— Sei que é isso não! Sicário? Que diabo o seu doutor está
dizendo, que disso nunca ouvi falar? Vosmincê, doutor advogado,
fala difícil demais nessas modas jurídicas já desenganadas até pelos
tribunais.
— Matador! Matador profissional, pago para executar a vontade
do contratante.
— Doutor, Vosmincê está doido, me desculpe a expressão. Mas
essas coisas, que dizem que eu faço, podem ser verdade, mas nem
sempre são. O Vosmincê mesmo disse que me chamaram de
profissional. Não que eu confesse que faço, mas se faço é pela raiva
dos outros.
Senti um grande alívio e quase dei uma risada pela resposta,
afinal engraçada. Ele continuou:
— Não se amofine em razão de acontecidos de somenos. Não
sou vigancista nem neste, nem noutros confins. O doutor é paulista,

78 Na linguagem nordestina, “contrato” significa a encomenda de morte mediante


pagamento.
é um chegante na Paraíba e desconhece certas coisas. Disseram
mais de quinze?
— Disseram.
— Não que eu seja de arrotar pabulagem, pois muito mais
tenho feito das tais. Mas nenhunsíssima por motivo de malinações
próprias e nem de maldade sem procedência. Aceitei acertar coisas
erradas de mulher botadeira de chifre no marido, ou de moço novo
fornicador de donzela virgem, dessas coisas que o vivente macho
costuma fazer estragando o bom viver de família cristã.
— Mas você não sente nada? Executa e pronto? A consciência
não dói?
— Não executo, não. Faço um furinho. Quem mata é Deus. Na
medida em que vai crescendo o número de gente por Deus levada
nessa minha obra de vivente carregado de precisão, o peso da
cacunda aumenta. Um pouco também é da velhice, que mal faz
piormente que a consciência.
Levantei-me, ele também, e saímos. Ao passar pela porta,
virou-se e disse:
— O Vosmincê está certo. Eu errei na cantoria. Mereci ser
desclassificado. Tomei umas cangibrinas a mais, não que elas me
derrubem, porque com as tais e com mais outras estou acostumado,
mas hoje fiquei meio abestado. E coisa de somenos. Vosmincê não se
amofine.
Chamei meus companheiros e comuniquei o diálogo.
Apaziguaram-se os ânimos, e Formiga sugeriu que os sobreviventes,
isto é, os componentes da mesa fossem tomar uma cachacinha, uma
das tais, no bar Meu Cacete, em João Pessoa.

159
Severino Pinto (Pinto de Monteiro), o maior repentista de todos
os tempos na história das cantorias do Brasil, era o alvo das
atenções. Em determinado instante, foi ao banheiro.
Voltou, e percebi que estava com a braguilha aberta,
inteiramente desabo-toada. Brinquei com ele, ao acusar seu desleixo
com o xará. Respondeu na hora:
— Logo se vê que paulista nada entende de Nordeste. Aqui, seu
doutor, casa que tem defunto não fecha a porta.
Severino era um repentista fantástico. Um dia, na cidade dele,
Monteiro,79 o prefeito e os vereadores foram comunicar-lhe que
haviam dado seu nome a uma das principais ruas da cidade.
— Uma rua? Agradeço muito, mas não precisava tanto.
Bastava uma casa no meu nome.
Um dia, ele pelejava com um violeiro mais jovem, e ambos
glosavam as costumeiras vantagens. Seu adversário atreveu-se:

“Isso foi quando era homem,


Quando você era macho;
Mas surgiu alguém mais novo,
Cortou o produto por baixo,
Jogou no meio da rua,
E o gato comeu o cacho.”

Severino bateu a viola e respondeu:

“Ofendido agora me acho


Por violeiro mau e bruto.
É verdade, ainda me lembro
Quando perdi o produto:
Sua mãe ficou tão triste
Que até hoje está de luto.”

O incorrigível Nordeste e seus violeiros fabulosos! Era comum a


gente ouvir reclamações contra os flagelos que se abatem sobre eles
em frases de maravilhoso bom humor:

79 Cidade de homens ilustres, como Rafael Mayer, ex-Presidente do STF, e Djaci


Falcão.
— Aqui, doutor, é tão seco, tão seco, que sapo de cinco anos
ainda não sabe nadar.
Ou observações irônicas sobre a pobreza:
— Por estas bandas, a pobreza é tanta, que o arco-íris é em
branco e preto.

160
Também na história judiciária, o Nordeste tem passagens
fantásticas. Aproveito estar misturando casos em datas diferentes,
para lembrar, sobretudo aos estudantes de Direito, uma das
sentenças célebres proferidas pelo Judiciário do Sergipe em 1833.
Reprodução de documento autêntico de sentença proferida pelo
juiz Manoel Fernandes dos Santos, em Vila de Porto da Folha,
Sergipe, em 15 de outubro de 1833.

“SENTENÇA JUDICIAL:
O adjunto de promotor público, representando contra o cabra
Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora
Sant’Ana, quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já
perto dela, o supracitado cabra, que estava de tocaia em uma
moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita
mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a
lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela,
deitou-a no chão, deixando as encomendas delia de fora e ao
Deus dará. Elle não conseguiu matrimônio, porque ella gritou e
veio em assucare delia Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que
prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas
testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz
prova.
CONSIDERO: QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher
de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer
chumbregâncias, coisas que só marido delia competia
conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja
Cathólica Romana;
QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado, que
nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que
quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha,
moças donzellas;
QUE Manoel Duda é um sujeito perigoso e que se não tiver
uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está
metendo medo até nos homens.
CONDENO o cabra Manoel Duda pelo malifício que fez à
mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser
feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na
cadeia desta Villa. Nomeio carrasco o carcereiro.
Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos Juiz de Direito Vila de Porto da


Folha (Sergipe), 15 de outubro de 1833”.80

Não se espantem, nem julguem que o estilo seja originário do


Nordeste brasileiro. Essas criatividades foram herdadas dos
portugueses. Uma das mais curiosas sentenças judiciais lusitanas
data de 1487, antes do descobrimento do Brasil. É condenatória de
um padre namorador na cidade de Trancoso. Confiram:

“Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de 62


anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas
públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e
postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo
crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo
acusado de ter dormido com 29 afilhadas e tendo delas 97
filhas e 37 filhos. De cinco irmãs, teve 18 filhas; de nove

80 O colunista Osmário Santos, do Jornal da Cidade, de Sergipe, atesta a veracidade


da sentença, que compreende duas folhas manuscritas de livro de cartório que se
encontra arquivado no fórum municipal da cidade de Gararu-SE. Quando foi
prolatada a decisão judicial (1833), a Vila de Porta da Folha pertencia ao termo de
Gararu.
comadres 38 filhos e 18 filhas; de sete amas teve 29 filhos e
cinco filhas; de duas escravas teve 21 filhos e sete filhas;
dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve
três filhas, da própria mãe teve dois filhos. Total: 299, sendo
214 do sexo feminino e 85 do sexo masculino, tendo concebido
em 53 mulheres.”

A pena não foi cumprida, porque El-Rei D. João II lhe perdoou


a morte e o mandou pôr em liberdade aos 17 dias do mês de março
de 1487 e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença,
devassa e mais papéis que formaram o processo.81
Dizem que estudar Direito, sobretudo a história do Judiciário,
é uma atividade árida. Mas, quando se depara com uma sentença
desse tipo, vale o sacrifício. Há, porém, algo intrigante nesses dois
casos: as sentenças são engraçadíssimas, não há dúvida, pelo menos
quando lidas agora; mas o fulcro do litígio é sempre o mesmo: as
taras sexuais. No Brasil, o cabra Manoel Duda; em Portugal, o padre
Francisco da Costa.
Nem tudo, no debate jurídico, é engraçado. Entre nós, quando
se discute baixar a responsabilidade penal para dezesseis anos,
dizem que não se deve legislar sob emoção. O Presidente Lula
declarou que estão querendo prender até o feto. Liana Friedenbach,
de dezesseis anos, foi estuprada e assassinada por uma gangue
chefiada por um adolescente de dezesseis anos, conhecido como
Champinha.
Akitero Nagao foi morto a tiros por um garoto de dezessete
anos na Freguesia do Ó, em São Paulo.
Todos os dias aumenta o número de jovens envolvidos em
crimes bárbaros. Se menores de dezoito anos, passarão apenas três
internados na mentirinha socioeducativa. Suas vítimas ficarão
mortas para sempre.
Quando Lula, comentando o caso do menino João Hélio
81 Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal, sentença proferida em 1487,
no processo contra o Prior de Trancoso — Autos arquivados no armário 5º, maço 7.
Fernandes, defendeu para os menores de dezoito anos a prerrogativa
de matar, lembrei-me de que o surto de criminosos adolescentes
aumentou precisamente no seu governo. Ele não pode esquecer que
esses garotos de dezesseis e dezessete anos tinham apenas dez e
onze quando ele chegou a presidente. O que fez para evitar que eles
crescessem modelados pelo diabo?82 Muitos discursos, torturou a
língua portuguesa, mas para a educação, nada! A educação no Brasil
é considerada da pior qualidade, professores ganhando miséria,
escolas sem infra-estrutura, métodos de ensino em plena desordem.
Que pena! Cidadania pode ser uma palavra sonora no discurso
demagógico, mas somente passa a existir quando seu conteúdo for a
educação plena, um pouco mais do que o título de eleitor.

161
Voltemos a Brasília. Lá vem mais um caso de grande relevância
jurídica. Gostaria que os advogados novos soubessem dos detalhes.
Claro que neste livro não posso contar todos os meus “acontecidos”
profissionais. Ainda estou contido pelo dever ético do sigilo
profissional e, na verdade, seria muito chato narrar milhares de
lances em “juridiquês”. Mas aqueles ocorridos na vida pública, conto,
porque alguns, como o próximo, são surpreendentes.
Seigo Tsuzuki era o Ministro da Saúde no Governo Sarney.
Quando assumi o Ministério da Justiça, Seigo diariamente, bem
cedinho, passava pela minha casa, na hora do café-da-manhã. Todo
santo dia:
— Você pensou sobre o problema, apenas pensou? — cobrava

82 Somente três países no mundo mantém esta velharia de maioridade penal aos
dezoito anos: Brasil, Colômbia e Peru. O resto do universo fixou a responsabilidade
penal abaixo dos dezesseis anos, a maioria aos dez. E o fizeram racionalmente, sem
emoção, isto é, diante da realidade atual cientificamente comprovada: o jovem
acima de dez anos distingue perfeitamente entre o bem e o mal. O cumprimento da
pena, sim, é diferenciada. Enquanto menor, em instituições educacionais. Ao
atingir a maioridade é transferido para a penitenciária. Transforma-se em preso
alfabetizado, mas fica longe da rua até o final da pena.
ele educadamente.
— Seigo, desculpe. Não tem jeito. Em Direito, há um instituto
chamado prescrição. Já se passaram cinqüenta anos. Os melhores
advogados cuidaram do assunto, inclusive aquela fera do Kazuo
Watanabe, jurista da maior competência. O Judiciário declarou
prescrito o direito. Ponto final.
Seigo queria dar um jeito de devolver à colônia japonesa o
Hospital Santa Cruz, em São Paulo, o qual, durante a Segunda
Guerra Mundial, fora roubado pela ditadura de Getúlio Vargas.
Pretexto: era propriedade de imigrantes oriundos de um dos países
do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). A segurança nacional (sempre
ela!) impunha que o hospital ficasse, primeiro, sob intervenção do
Governo Federal durante a guerra. E, depois, foi devolvido aos sócios
brasileiros que, de minoritários, passaram a ser os exclusivos
proprietários.
Os japoneses sempre sonharam em pleitear de volta o hospital.
Eles tinham verdadeira veneração pelo nosocômio, porque os
equipamentos, de última geração na época, foram doados pelo
Império nipônico. A própria imperatriz havia visitado o Brasil e
comparecera ao hospital, para formalizar a doação, prestigiando a
colônia japonesa. A própria imperatriz. Honra. Grande honra!
Tudo muito bonito, mas o tempo passou. Acabou a ditadura,
voltou a democracia. A colônia japonesa pleiteou os direitos que lhe
haviam sido truculentamente suprimidos. Mas já estavam prescritos.
Com Seigo Tsuzuki, médico do Incor, no Ministério da Saúde,
os japoneses de São Paulo e seus descendentes pressionavam o
patrício para dar um jeito. Ele estava no Governo. Devia encontrar
uma fórmula. E ele transferia a pressão para mim todos os dias, no
café-da-manhã. Todo santo dia!
O assunto parecia um velho disco de vinil riscado. Provocava
um pulo da agulha para trás e ficava repetindo sem parar o mesmo
trecho da música.
— Você já pensou no assunto?
— Seigo, não há mais jeito! Passaram-se cinqüenta anos. Não
somente os ex-proprietários não podem mais reclamar de nada, como
também os novos donos, os brasileiros beneficiados pela ditadura
Vargas, tiveram seus direitos consolidados com o passar do tempo.
Para os japoneses, houve prescrição extintiva; e, para os brasileiros,
a prescrição aquisitiva.
— Mas eu quero que você apenas pense sobre o caso. Houve
uma injustiça histórica. Não há um meio qualquer de reparar a
injustiça?
Pergunta profundamente dolorosa. Quantas injustiças clamam
por serem reparadas contra atos de violência jurídica praticada pela
arbitrariedade, em períodos que eu chamo de patologia
constitucional, mas que, na verdade, são ditaduras. As injustiças de
Vargas, a entrega de Olga Benário para Hitler, a queima de safras de
café confiscado aos lavradores. As injustiças do regime militar
instaurado em 1964. Assassinatos por motivos políticos. Perseguição
a empresas, como a Panair, roubada, assaltada, massacrada, por
motivos igualmente políticos e para servir a um concorrente
apadrinhado por meia dúzia de poderosos do momento. Os
interrogatórios sem fim de Juscelino Kubitschek, o confisco de seus
bens, as prisões de seus amigos, as torturas de jornalistas,
intelectuais, o martírio de Graciliano Ramos, isso tudo misturado no
caldeirão de nosso passado amargo e sem glória.
A todo esse quadro de trágicas injustiças, somava-se o Ministro
Seigo, que vinha pedir pelo Hospital Santa Cruz, de São Paulo.
Quando ele esgotava os pretextos para ir à minha casa, arrumava
um amigo para me cumprimentar. Em geral, era o Deputado Diogo
Nomura, simpático, amabilíssimo, e vinha com o mesmo e impossível
pedido.
O Governo nada podia fazer. Somente a ditadura viola
situações jurídicas consolidadas. Se o Judiciário e o Legislativo não
podem, o Executivo muito menos.
Em todos os papéis que Seigo me trouxe para estudar, havia
um detalhe: referência aos números dos decretos do tempo de Vargas
e suas respectivas datas, mas não transcreviam seus textos. Apenas
era informado que o primeiro decreto determinara a intervenção e
que o segundo, tempos depois, suspendia o ato intervencionista e
devolvia a propriedade do hospital aos sócios brasileiros. Alguém
deve ter dado o nosso famoso “jeitinho”.
Quem lia as petições, os pareceres e as sentenças ficava
sabendo o teor dos atos praticados, suas datas e seus efeitos. Mas
não o texto. Afinal o que a ditadura escrevera?
Lembrei-me das lições do meu mestre, Vicente Ráo. Doutrina,
pareceres, estudos, tudo é importante. Mas, primeiro, leia a lei.
Advogado e jurista têm que ler a lei e somente depois estudar a
opinião dos outros.
Mandei buscar os decretos originais. Não estavam, claro, no
Ministério da Justiça em Brasília. Estavam no arquivo do Rio de
Janeiro.
— Tirem cópias. Quero xerox dos originais imediatamente.
Vieram. Li. Bingo!
No segundo decreto, o texto suspendia a intervenção no
Hospital Vera Cruz e devolvia sua propriedade aos sócios brasileiros.
O datilógrafo da ditadura cometera um erro imperdoável. O hospital
chamava-se Santa Cruz.
Por ser um erro de redação de ato do Poder Executivo, o
Governo poderia baixar novo decreto, corrigindo o equívoco. E o
prazo de prescrição seria contado novamente. Diante disso, chamei
os japoneses e os proprietários brasileiros. Informei que o Presidente
da República concordava em baixar o decreto, para corrigir o nome
do hospital e que esse ato devolveria aos japoneses o direito, antes
extinto, de reclamar perante o Judiciário a antiga expropriação da
ditadura. Estaria afastada a prescrição.
Ouviram todos muito atentos. Os brasileiros pediram uma
semana para tentar um acordo. Consultaram seus advogados e
conferiram. Realmente, o Presidente da República poderia baixar
decreto, corrigindo o erro de redação, pois, afinal, aos brasileiros
havia sido devolvido um hospital chamado “Vera Cruz”, que não
existia.
Voltaram, na semana seguinte, com um acordo celebrado,
assinado, sacramentado. Os japoneses reassumiam o hospital,
comprometendo-se a trazer equipamentos modernos; os brasileiros
ficavam com a minoria histórica. Todos ganhavam, sobretudo os
doentes.
Caprichei na redação do decreto do Executivo. O artigo
primeiro referia-se ao erro do decreto anterior e corrigia o nome do
hospital. E acrescentei um artigo segundo, homologando o acordo
entre os sócios, em função da “devolução” da propriedade aos seus
antigos donos.
Hoje, o hospital ostenta na entrada uma grande placa de
agradecimento ao Presidente José Sarney e ao seu Ministro da
Justiça.
Seigo Tsuzuki exultou.
Passei a tomar meu café-da-manhã em paz.

162
Clotilde havia escalado dois de nossos estagiários, Luiz Carlos
Monreal Escorei de Carvalho e Liliana Coury, eficientes e atentos a
tudo, para discretamente fazerem plantão diante do cartório da Vara
de Família, por onde tramitava o processo do Sr. Olavo Brás. Nada
de ficar lá parados ou passar pelo cartório várias vezes,
ostensivamente. Vigiar de longe, passar por lá apenas algumas vezes
para perguntar sobre despachos, intimações, publicações. Es-
tagiários podem abusar desse tipo de insistência. Os servidores do
Judiciário sabem que eles se dedicam ao extremo no
acompanhamento de processos, ou perdem o direito de estagiar nos
bons escritórios.
Luiz Carlos Escorei e Liliana eram craques. Jeitosos, educados,
acabaram conquistando os serventuários todos que lidavam com o
processo do Sr. Olavo Brás, tal como faziam com os outros processos
em outros cartórios.
Nessa função, acabaram descobrindo que um homem
estranho, magro, alto, bem vestido, foi várias vezes ao cartório da
vara e perguntou pelo processo. A atenção deles foi despertada
porque não se tratava nem de estagiário, nem de advogado da parte
contrária. Estavam no balcão indagando a um escrevente sobre
qualquer coisa do processo, quando o homem se encostou do lado
deles e perguntou sobre o processo do Sr. Olavo Brás. Quase
desmaiaram.
O homem surgiu do nada e passou a conversar com os
escreventes sobre o caso, a perguntar detalhes, a despeito das
negativas dos funcionários, já que o processo corria em segredo de
Justiça.
Mas tanto Escorei como Liliana acreditaram nos serventuários,
amigos deles, quando afirmaram que nada disseram e nada
mostraram ao homem que insistia em conhecer detalhes do
processo.
Um dia, resolveram seguir a misteriosa figura, logo que o
homem deixou o cartório da vara, depois de uma outra tentativa
aparentemente frustrada de ler os autos do processo. Seguiram-no e
verificaram que o misterioso personagem entrava em quase todos os
cartórios do fórum, era bem recebido e festejado. Distribuía
presentinhos, caixas de chocolate, frascos de perfume
Mas o que pretendia ele com o “nosso” processo?
Não conseguiram saber. Mas levantaram a ficha do
personagem. Nome, endereço, locais que freqüentava, pessoas de
cuja intimidade desfrutava, sobretudo dos funcionários da Justiça.
E me entregaram.
Era caso para o Nerval investigar. Mas estava eu tão atribulado
com outros assuntos que, no primeiro momento, me esqueci de
chamar meu colega e deixei as anotações dentro de uma pasta sobre
minha mesa. Ali ficaram, e delas me esqueci.
Culpa do Roberto de Abreu Sodré, que chegou ao escritório
naquele momento para um papo descontraído sobre um livro que
planejava escrever. O ex-Governador era meu amigo havia muito
tempo, e nossa amizade ainda mais se estreitou no Governo Sarney,
quando fomos colegas de ministério. Ele costumava me cobrar:
quando era Governador, foi a Brodowski inaugurar o Museu Cândido
Portinari. Assim, como brodosquiano, eu lhe devia agradecimentos
por essa atenção à minha terra.
E, por falar nisso, ele me fez viver um dos fatos mais curiosos
dos meus atribulados dias de Brasília.

163
Roberto de Abreu Sodré, Ministro das Relações Exteriores,
estava ao telefone. Atendi.
— Fizeram uma sacanagem com o Brasil! — gritou ele do outro
lado da linha. — Sujaram nossa imagem na Europa! Essa coisa vai
correr mundo.
— Que coisa?
— A reportagem de um jornalista francês. Filmou uma índia
ianomâmi morrendo numa rede até o último suspiro. O filme passou
inicialmente na Eurovisão. Agora todas as televisões da Europa estão
reprisando. Somos uns monstros! Deixamos nossos índios morrerem
de fome! E a índia era idosa. “Morreu como um passarinho!”, dizem
os que assistiram à reportagem.
— Índio morrer de fome? — retruquei. — Isso não existe em
lugar algum das nossas selvas. Há sempre uma fruta, um peixe, uma
caça, uma folha qualquer que eles encontram para comer. Se a
mulher era idosa, mais uma razão: índio não abandona os mais
velhos. Se estava numa rede, somente podia estar na taba. Não havia
ninguém por perto?
— Como vou saber? — gritava Sodré. — Não vi o filme! Fui
informado pelo nosso embaixador em Paris.
— Consiga mais detalhes. Nome do jornalista. Qual a empresa
responsável pela divulgação dessa farsa.
— Você acha que é farsa?
— Claro, meu amigo. Índio algum morre de fome, se viver no
mato. No Brasil, somente os “protegidos” pelos órgãos
governamentais, Funai, Funasa, correm o risco de desnutrição. Na
Amazônia, ninguém passa fome. Os ianomâmis são de lá. Podemos
convocar alguns produtores de televisão e elaborar uma
demonstração disso. Usaremos como direito de resposta nas
televisões européias.
— Está bem. Mas estou lhe telefonando por outra razão: o
jornalista francês ainda está no Brasil. Você, agora no Ministério da
Justiça, pode fazer alguma coisa para evitar outros estragos?
— Posso mandar prendê-lo.
— E suas convicções sobre a liberdade de imprensa, as mais
absolutas que eu conheço?
— Nada tem a ver uma coisa com a outra. Se o jornalista
filmou uma índia idosa morrendo, sem ninguém ao seu lado, se
manteve ligada a filmadora até que a mulher expirasse, isso é crime:
omissão de socorro, artigo 135 do Código Penal.
— O que diz o artigo? — Perguntou ele, já interessado na
prisão do jornalista.
Peguei o Código Penal e li:

“Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem


risco pessoal, a criança abandonada ou extraviada, ou a pessoa
inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente
perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade
pública:
Pena — detenção de um a seis meses, ou multa.”
— Só isso de pena para um filho-da-puta que não presta
socorro nessas condições?! — gritou ele. Sodré, de quando em vez,
não se continha: xingava feio e em voz alta.
— Há, no parágrafo único, uma agravante para o caso em que
da omissão de socorro resulta a morte. A pena é triplicada.
— De que vale isso? Seis meses vezes três, temos dezoito
meses. É muito pouco para um crime tão grave.
Roberto Sodré, por causa de um jornalista francês, já estava
revoltado contra o Código Penal Brasileiro. Era um ótimo sujeito.
Havia sido Governador de São Paulo durante a ditadura e abrigara,
no Palácio do Governo alguns “subversivos” perseguidos pelos
militares. Geraldo Vandré foi um deles.

164
Quando Sarney sucedeu definitivamente a Tancredo Neves, fui
passar, como sempre fazia, um fim de semana em Boiçucanga, praia
do litoral paulista, onde morava meu irmão Luiz Carlos. Sodré tinha
casa na praia vizinha, Maresias. Telefonou, conferiu e foi lá.
— Que tragédia a morte de Tancredo! — começou ele sério. E
mais sério ainda continuou: — Você precisa ir para Brasília ajudar o
Sarney. Vai ser muito, mas muito difícil ele segurar esse rojão.
— Por que não vai você? — perguntei. — Afinal, você é político,
tem experiência, foi Governador, sabe lidar com aquele emaranhado
de interesses. Seria mais útil do que eu, que sou apenas advogado e
estou empregado...
— Se o Sarney me convidar, irei na mesma hora.
— Ainda não o convidou?
— A mim não, mas a você tenho certeza de que convidará.
— Por que a autodiscriminação?
— Porque ele não precisa de político neste momento. Precisa de
advogado, de jurista. A legislação que o governo militar deixou é uma
tragédia. Alguém precisa dar um jeito nessa bagunça, até que se
instale a Constituinte. Você precisa ir. Vou falar com ele.
— Meu querido Sodré, agradeço a demonstração de confiança,
mas não faça isso. De jeito algum! Meu escritório em São Paulo está
indo de vento em popa. Tenho muitos advogados sob meu comando.
Se largar tudo agora, não sei o que será da minha advocacia. Se
meus companheiros se dispersarem agora, adeus, bela viola. Nunca
mais vou reuni-los de novo. E, além disso, quero usufruir do
prestígio, isso sim me alegra, de ser, como você, amigo pessoal do
Presidente da República.
— Sarney precisa dos amigos ao lado dele! Você não entende?
Essa Presidência para ele vai ser uma pauleira. Vai ter oposição até
dos pernilongos do Lago Paranoá.
Lembrei-me dos caipiras da minha terra, quando diziam que a
mordidinha do pernilongo não incomodava tanto, mas o que
aborrecia muito era a maldita da cornetinha que tocava antes de
picar. A esquerda é sempre oposição a tudo. A direita luta por mais
privilégios. Ambas as extremas, na verdade, lutam para conquistar o
poder e nele permanecer custe o que custar. E neste “o que custar”
entra tudo: imoralidade, dinheiro, safadeza, muito pouco idealismo.
Mas a cornetinha mais chata era a do PT. Ainda não picava, mas
como zumbia! Hoje, com as negociatas de Marcos Valério, Delúbio
Soares e outros muitos, dólares na cueca, dinheiro de bingo e do jogo
do bicho, soubemos que, no Brasil, a esquerda realmente não é
direita.
Acabei indo para o Governo. Quando Sarney precisou
preencher a vaga no Ministério das Relações Exteriores, com a saída
de Olavo Setúbal, recordei-me daquele fim de semana em
Boiçucanga. O Presidente precisava de amigos ao lado dele. Arrisquei
um palpite que, tinha certeza, agradaria a Sarney:
— Sodré — sugeri durante as discussões.
Sarney me olhou, parou para pensar e me disse:
— Está resolvido! Fale com ele. Chame-o imediatamente.
O sonho de Sarney seria contar com o Embaixador Sérgio
Armando Frazão. Mas, infelizmente, Frazão havia morrido logo no
início do novo governo. Cirurgia no Rio de Janeiro. E lá veio Roberto
de Abreu Sodré para o Itamaraty.

Estava, agora, ao telefone, protestando contra o Código Penal


Brasileiro. Informei-lhe:
— Esse código é obra da ditadura. É de Costa e Silva.
— O general?
— Não. Do tempo da ditadura Vargas. Costa e Silva, o jurista,
não o militar.
— E o jornalista? Você vai ou não vai mandar prendê-lo?
— Vou. Mas preciso de um detalhe: o nome dele.
Mandou-me o nome e a localização. Estava no Rio. Chamei o
Diretor da Polícia Federal, Dr. Romeu Tuma, e dei a ordem: prendam
o jornalista.
—?
— Não se preocupe! Prendam e autuem pelo crime de omissão
de socorro. Prova? O próprio filme que ele fez da índia agonizante até
à morte, e, segundo o áudio dessa grande obra cinematográfica, ela
teria morrido de fome. Um pouquinho de água e um pedaço de pão,
ou brioche, para lembrar Maria Antonieta, teriam salvo a mulher
ianomâmi.
Preso o jornalista, a mulher ianomâmi apareceu viva em
Roraima, algumas horas depois. Assim, o francês se livrou do crime
de omissão de socorro. Mas, na França, teve que desmentir a morte
da índia e admitir a fraude de sua reportagem. A desmistificação,
segundo me informaram, foi noticiada em horário sem audiência
alguma, numa das madrugadas parisienses, quando os televisores
estão desligados, ou quando um telespectador dormita na frente do
écran azul, depois de um champanha rosé, comendo um croque
monsieur frio.
165
Os ianomâmis são autênticas crianças. Mas se julgam espertos
e, com isso, vivem enganados por todo tipo de gente: garimpeiros,
contrabandistas de pedras preciosas, tipos que se dizem religiosos,
pesquisadores de plantas medicinais, um sem-número de
aventureiros que se alongam nas nossas selvas. Há na Amazônia
índios que falam inglês, francês e holandês, muitos, e poucos falam
português.
Ministro da Justiça, fui olhar de perto a situação deles. Romero
Jucá era o Governador de Roraima e me recebeu. Fomos juntos, de
helicóptero, visitar várias aldeias. Um chefe ianomâmi, creio que se
chamava Davi Ianomâmi. chegou-se a mim e, sem que o Governador
ouvisse, falou baixinho:
— Ministro, precisa tirar garimpeiro daqui. Só traz desgraça:
doença, rouba mulher de índio, vicia meninos em cigarro, drogas.
Acaba com nossa vida.
Depois, chegava ao Governador e dizia, a uns três metros longe
de mim:
— Governador, diga para Ministro que garimpeiro tem que
ficar. Ele e bom para índio. Traz remédio, radinho, bateria, roupa
nova, faca, facão, chocolate, tudo que precisamos para viver.
Não era fácil acertar um ponto de verdade com o chefe e com
seus auxiliares. Todos mentiam. Infelizmente essa é a marcante
característica da mais autêntica brasilidade: mentir. Disseram-me
depois que esse comportamento infantil decorria do medo que
tinham do homem branco e que mentiam como um esforço
psicológico de defesa, a qual era concebida pela deterioração
cognitiva que a civilização lhes impusera.
Com auxílio de vários técnicos conhecedores da região e dos
costumes, elaborei uma solução que, na época, me pareceu viável e
eficaz para evitar conflitos naquela imensa região. Seria fazer uma
demarcação de uma área para garimpo, isolando-a completamente
das comunidades indígenas. Índio não entra, garimpeiro não sai. O
governo encarregaria a Caixa Econômica de comprar o produto dos
garimpos para evitar os descaminhos e outras falcatruas. Polícia nas
fronteiras das áreas demarcadas. Ficaria mais simples do que
policiar toda a Amazônia. Punição rigorosa para garimpeiros que
invadissem as áreas indígenas, ou os atraíssem para qualquer tipo
de convivência.
De alguma forma e no exercício do direito de sonhar, entendi
que os índios não deveriam ser atraídos para a atividade garimpeira,
nem usufruir das riquezas do ouro ou das pedras preciosas. Se isso
acontecesse, ou acontecer, estariam, ou estarão, sendo lançados aos
costumes dos civilizados. Comprariam carros, aviões, helicópteros.
Já não mais seriam índios.
Apenas sonhei. Hoje, eles se matam por lá. Matam-se uns aos
outros, matam garimpeiros, apossam-se de suas máquinas e querem
ficar com o lucro das preciosidades de suas terras. É tudo legítimo,
na teoria, na prática, menos na filosofia. Mas tem um toque de
felicidade: não pagam impostos.
Dentro em breve, estarão organizados em cooperativas e
vendendo o produto de suas terras à Caixa Econômica Federal, ou
para americanos, japoneses ou europeus. Pagarão tributos em
português, sem saber falar a língua de Camões. Terão sistemas de
computadores. Serão orientados por economistas.
O chefe ianomâmi não achará graça em mentir. Não será mais
criança. Terá perdido a pureza.
E por que Ministro da Justiça tem que tomar conta de índio?

166
Volto ao caso do Sr. Olavo Brás, mesmo porque estavam
acontecendo coisas estranhas. Advogado precisa estar preparado
para tudo. Em São Paulo de tempos em tempos, aparecem uns
picaretas, tipos de paqueiros, que farejam casos complicados e se
enfiam no meio do assunto, dizendo-se amigos do juiz, do promotor,
do escrivão ou de alguém muito poderoso que pode resolver qualquer
problema daquele tipo. O tipo é sempre o problema da gente. Caras-
de-pau! Mas como existem e como insistem!
Na questão do Sr. Olavo Brás, apareceu um desses no meu
escritório. E somente queria falar comigo. Outro advogado não
servia. Assunto de alta importância. A gente sempre sabe que essa
“importância” é dinheiro. Começou jeitosamente:
— Conheço bem quase todas as varas do fórum e, em
particular, aquela vara de família, onde o senhor defende seu cliente
Olavo Brás.
— Eu também conheço. Se o senhor precisa de sigilo para dizer
isso, não vejo que utilidade pode haver para a causa.
— Não, doutor, não é bem assim. Conheço pessoas que têm a
maior intimidade com o juiz.
Lembrei-me das informações dos meus estagiários. A descrição
física conferia exatamente. Homem alto, magro, bem vestido. Abri a
pasta onde havia esquecido as anotações. Ele insistia em intimidade
com o juiz por intermédio de terceiras pessoas, ou quartas ou
quintas. Nessa hora, a gente passa da conta e quase perde a calma.
Toquei-me. O homem certamente iria falar em corrupção. A
princípio, pensei que fosse referir-se ao escrivão, ou a algum outro
funcionário, como, infelizmente, é costumeiro nessas circunstâncias.
Quando mencionou intimidade com o juiz, acendeu minha luz de
alarme. Dei corda, para ver ate onde teria coragem de chegar.
Quanto ao magistrado, não havia qualquer dúvida: era de uma
honestidade a toda prova.
— O juiz — continuou o cara-de-pau — tem um tio eclesiástico,
da Igreja Católica. O seu cliente, Sr. Olavo Brás, é um homem de
posses. Pode efetuar um donativo à Igreja, um donativo expressivo,
que toque o sentimento do religioso. Na certa, ele não se recusará a
falar com o sobrinho sobre a generosidade do doador. Pedirá, é claro,
decisão favorável a tão nobre alma.
Filho-da-mãe! O sujeito era corajoso. E havia realmente
maquinado uma verdadeira engenharia para “descolar algum” do
meu cliente. O meliante descobriu que o juiz tinha um tio bispo
católico. Era verdade. E não insinuou nada, nadinha, de corrupção
por parte do magistrado. Limitou-se a sugerir uma doação à Igreja
Católica por intermédio do tio do magistrado. Resolvi fazer-me de
bobo e perguntei:
— Diga-me onde posso encontrar o religioso, e pedirei para o
meu cliente procurá-lo.
— O senhor vai me desculpar — respondeu ele com expressão
de extrema candura. — Levei tempo para descobrir como se chega a
esse juiz, porque diretamente é impossível. Trata-se, doutor, de um
investimento meu, honesto. Pesquisei muito. A doação, porém, deve
ser feita por meu intermédio. Assim, poderei falar do caso do seu
cliente e claramente pedir por ele.
— E o bispo aceitará? O senhor já fez isso antes com esse
sacerdote, para obter favor do seu sobrinho?
Notei um ligeiro embaraço na expressão facial do picareta.
Claro que jamais havia utilizado o expediente. Estava literalmente
tentando me passar o conto do vigário. Lembrei-me de que, na
Antigüidade, a palavra “sacerdote” significava aquele que tratava dos
assuntos religiosos e tinha o poder de oferecer vítimas à divindade.
— Tenho que ser honesto com o senhor — balbuciou. — É a
primeira vez; mas, pelas pesquisas feitas por mim, a coisa vai
funcionar. O tio tem enorme influência sobre o juiz. Vai funcionar.
Segundo o Código de Processo Penal, art. 301,83 eu poderia
prendê-lo em flagrante. A lei faculta a qualquer cidadão efetuar a
prisão e a torna obrigatória quando se tratar de autoridade policial.
Desisti, porém. O escândalo traria maiores prejuízos a todos.

83 Art. 301, do CPP: “Qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus


agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito”.
Envolveria o juiz, um eclesiástico, a Igreja Católica, a imprensa
exploraria o caso. E, se bem conhecia eu o magistrado, ele
abandonaria o processo. Dar-se-ia por impedido.
— Como o senhor ficou sabendo do processo, se ele está
tramitando em segredo de Justiça? — perguntei.
— Ora, doutor! Para quem conhece o fórum de São Paulo, como
eu conheço, segredo de Justiça é uma figura de ficção.
Realmente, o sujeito era cínico, mas sabia das coisas. Pelo
menos, de algumas. Resolvi encerrar a conversa. Já havia dado
muita trela para o vigarista:
— Meu caro senhor, agradeço sua visita. Já que o senhor
conhece tantas coisas do Judiciário, sabe igualmente que eu poderia
prendê-lo pelo crime de extorsão e de promessa de corrupção de um
magistrado. Prefiro que o senhor se retire imediatamente.
— Mas, doutor...
— Não tem mas, nem mais, nem menos — interrompi,
apertando a campainha de chamar minha secretária. Meu pessoal já
estava do lado de fora, esperando. Entraram o Nerval, com seu
corpanzil enorme e voz grossa, o Maércio Sampaio e o Carlos
Strasbourg:
— Esses senhores vão acompanhá-lo até o elevador. Pode sair,
por favor.
O homem saiu, meio pálido.
Nerval me disse depois que envenenou ainda mais a situação,
ao comentar, enquanto esperavam o elevador:
— O chefe hoje fez algo muito raro: pediu um gravador antes de
receber este senhor na sala dele. Será que gravou a conversa que
tiveram?
— Pare com isso, Nerval! — intercedeu o Maércio. — As coisas
do chefe não se comentam!
Histórias de corrupção, de “intermediação”, de venda de
sentenças sem que os juizes saibam, há muitas. Essa foi mais uma
tentativa, bem engendrada, por sinal. Infelizmente eu não tinha
gravador algum.
Nerval fez uma investigação do homem que se atreveu a tentar,
literalmente, o conto do vigário no caso do Sr. Olavo Brás. Descobriu
tratar-se de um estelionatário conhecido nos meios forenses, mas
que insistia em “vender decisões judiciais”. Um jogo parecido com a
roleta no preto ou vermelho. Cinqüenta por cento de chance. Se
acerta, leva a vantagem indevida, e o advogado que concordou em
usar tal expediente ficará o resto da vida duvidando da honestidade
do juiz da causa. Se erra, vem a desculpa: a outra parte pagou mais;
desta vez não deu por isso, por aquilo. Mas é uma figura que ainda
existe. Creio que todos os advogados, escrivães e serventuários deve-
riam banir esses célebres intermediários exploradores de prestígio.
Fazem um mal tremendo ao conceito do Judiciário, maior que o
próprio juiz realmente corrupto, tipo que existe, mas é muito raro.
O tio do juiz, bispo católico, nem sequer tinha contatos com o
sobrinho. Exercia seu sacerdócio no Estado do Espírito Santo. Era
uma figura de alta respeitabilidade. Os vigaristas, porém, descobrem
tudo e montam suas versões, de forma a tentar o golpe com
aparência confiável e atrativa. A regra infalível nessas horas é
recusar. A recusa sempre acerta.
Contrariando essa doutrina, Canuto Mendes de Almeida
costumava dizer:
— O advogado que não der dinheiro para o escrivão não é
honesto para com seu cliente.
Canuto, que fora Procurador-Geral da República no Governo
Jânio Quadros, quando passou a advogar, incorporou-se à nossa
equipe no escritório de Brasília, chefiado pelo Dr. Luiz Carlos Bettiol.
Tinha frases notáveis. Ao dar aula de Direito Processual Penal,
lembrava aos seus alunos:
— Vocês vão encontrar definições cultas e profundas nos
grandes autores que desenvolveram a doutrina jurídica da matéria. A
mais perfeita, porém, é a de Lupicínio Rodrigues, compositor gaúcho,
que foi bedel na Faculdade de Direito em Porto Alegre. Em uma de
suas músicas, sintetizou a essência do Direito Processual Penal, ao
compor este verso: “Primeiro é preciso julgar, para depois condenar”.
Sua concepção de desonestidade do advogado que não desse
dinheiro para o escrivão era engraçada, mas, no nosso escritório, não
fez sucesso.
O assunto era proibido. Ovídio Rocha Barros Sandoval, um dos
diletos discípulos do Professor Vicente Ráo, levantava-se e saía da
sala indignado, se alguém falasse, ou simplesmente insinuasse, em
dar uma “gratificação” para alguém de um cartório do Judiciário.
Isso, é claro, não impedia os presentes de fim de ano,
invocando-se o Natal; mas nada tinha com o toma-lá-dá-cá em casos
específicos sob nosso patrocínio profissional. Não me arrependo do
critério. Durante anos e anos, mantivemos um índice de vitórias
definitivas em 93% de nossas causas. Um dia, a revista Veja fez uma
reportagem sobre minha advocacia, chamando-me de “Romário dos
Tribunais”, na época em que o baixinho estava jogando tudo o que
sabia. E sabia muito. O repórter da revista perguntou-me o porquê
de tão expressivo número de vitórias. Respondi:
— Uma graça de Deus, que só me permitiu clientes inocentes.

167
A Constituinte rolava agitada. Na Consultoria da República não
se fazia mais nada: assessoria permanente aos parlamentares. Não
me lembro quem teve a idéia, creio que foi a Dra. Tereza Helena,
Consultora da República, de incluir nos direitos dos trabalhadores a
proibição de qualquer discriminação “no tocante a salário e critérios
de admissão do trabalhador portador de deficiência”.
Todos se dizem a favor, mas surgem as ponderações de ordem
técnica: “Por que na Constituição?”; “Vamos deixar para a lei
trabalhista!” Conversa! Se deixar para lei, alguém vai colocar uma
vírgula em qualquer frase, e lá se vai o direito do deficiente. Ora, no
projeto de Constituição, havia até fixação de juros reais em 12% ao
ano; por que não poderia haver uma garantia fundamental em favor
do deficiente físico?
Incluímos no projeto do Centrão. É hoje o que consta no art.
7º, inciso XXXI. E, por uma questão de lógica, lutamos pela inclusão
expressa de permissivo constitucional para admissão em empregos
públicos. No Congresso, incluíram o “percentual”, mania de cotas,
mas tudo bem; o que interessava era que a matéria constasse dos
comandos da lei maior, endereçados ao legislador ordinário.
As lideranças dos deficientes físicos brasileiros são
extremamente atuantes e de altíssima eficiência. Na época da
Constituinte, andavam por lá. Não sabiam bem o que deveria ser
feito, mas alguma coisa devia ser feita.
À frente, uma batalhadora incansável: a Sra. Tereza da Costa
Amaral, Presidente do Instituto de Defesa das Pessoas Portadoras de
Deficiência. Tinha entrada livre na Presidência da República. Era
irmã de Pedro Costa, assessor de Sarney até hoje. Recebi-a na
Consultoria Geral da República. Revelou-me algo espantoso: o
deficiente físico não tinha sequer um texto legal que falasse dele, que
expressamente instituísse algum direito em seu favor e a forma de
defendê-lo. As escusas políticas eram as de sempre: “Seus direitos
estão assegurados nas garantias gerais do cidadão”; “Especificá-los
seria discriminar”.
Enquanto isso, as garantias gerais eram gerais, menos para o
deficiente físico. Aquela conversa poderia servir para embalar o sono
de uma boiada, mas não convencia minha desconfiada observação de
advogado. No Brasil, se a lei não diz claramente, expressamente,
detalhadamente, esperar que o direito surja de interpretação
extensiva equivale a excluí-lo.
Na Consultoria Geral da República, tomamos a iniciativa, por
meio de emendas apresentadas por parlamentares amigos, de
aumentar referências no projeto de Constituição, incluindo nas
competências administrativas (art. 23, II) e legislativas (art. 24, XIV)
da União, estados e municípios, a proteção e a integração social das
pessoas portadoras de deficiência física.
Não houve o menor problema para a aprovação pela
Constituinte. Até o PT votou a favor. Promulgada a Constituição, com
tais normas programáticas, era preciso tornar efetiva a proteção
jurídica instituída pela Constituinte. Naquele trabalhão todo que
tivemos para elaborar projetos de lei de concreção prevista pela nova
Constituição, não nos descuidamos de providenciar a lei de defesa
completa do deficiente físico. Mesmo porque Dona Tereza da Costa
Amaral continuava lá. De plantão! Cobrava-nos providências,
apoiada pelo irmão e pela Dra. Tereza Helena.
Estudamos todos os memoriais e considerações redigidos por
suas lideranças, modelos de legislação, sugestões de medidas, e
acabamos redigindo um anteprojeto bonito, do jeito que sempre
gostei que fossem as leis: completas, abrangentes de todas as
atividades, sem subterfúgios, nada de ambigüidades e com sanções
penais claras para a desobediência de seus comandos, além de
incumbências expressas ao Ministério Público na defesa dos direitos
difusos e coletivos, nas ações civis públicas e nas ações penais.
Porque criava e reestruturava órgãos na administração pública
federal, o anteprojeto teve que ser enviado ao Ministério do
Planejamento, de onde deveria retornar como iniciativa do respectivo
ministro, cuja fama era cozinhar tudo em água gelada. A
regulamentação da Advocacia Geral da União ficou lá até terminar o
Governo e não consegui sua implementação. Depois realizaram por
medida provisória, que foi repetida umas vinte vezes, para desespero
do Dr. Geraldo Quintão, que ousou mexer naquele favo de abelhas.
Mas, no caso do deficiente, o projeto veio rápido. Sarney
interveio pessoalmente. Dona Tereza não dava trégua. Eu estava
empenhado em dar o exemplo, isto é, se a Constituição mandou
legislar em favor do deficiente físico, a União devia desde logo
cumprir o comando maior, para que os estados, Distrito Federal e os
municípios, em seus respectivos âmbitos, fizessem o mesmo. Fizeram
pouco.
Mas a lei federal saiu. Foi promulgada pelo Presidente José
Sarney, Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989, e referendada pelo
Ministro João Batista Abreu, que, ao menos nessa matéria, fechou a
cozinha do seu ministério.
Apenas para registro, transcrevo o artigo 1º e seu parágrafo:

“Art. 1º — Ficam estabelecidas normas gerais que asseguram o


pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas
portadoras de deficiência, e sua efetiva integração social, nos
termos desta Lei.
§ 1º — Na aplicação e interpretação desta Lei, serão
considerados os valores básicos da igualdade de tratamento e
oportunidade, da justiça social, do respeito à dignidade da
pessoa humana, do bem-estar, e outros, indicados na
Constituição ou justificados pelos princípios gerais de direito.”

Na redação desse parágrafo primeiro, emocionei-me. O texto


poderia servir para um poema, se norma jurídica a isso se prestasse.
E pode haver emoção na redação de um texto de lei, tal como num
verso decassílabo ou num alexandrino? Claro que pode! Basta que
seja iluminado por um toque de humanidade. Aquela história de que
leis não devem ser redigidas sob emoção é coisa de gente fria e
indiferente.
Quero, porém, observar um detalhe: além de especificar os
valores básicos a serem respeitados, ao mencionar outros, indicados
na Constituição, fiz incluir os “justificados pelos princípios gerais de
direito”, antiga e preciosa lição que recebi de Vicente Ráo.
Ele ensinava que, por meio dos princípios gerais, o direito
confere harmonia à vida e assim é que só com o direito dignamente
se vive. Dizia que “assume o direito o caráter de força social
propulsora, quando visa proporcionar, por via principal aos
indivíduos e por via de conseqüência à sociedade, o meio favorável ao
aperfeiçoamento e ao progresso da humanidade”.
O decreto regulamentar, previsto para ser editado em noventa
dias, levou dez anos para sair. Collor não quis saber do assunto. Seu
governo não deu a menor bola. Ainda bem que vários comandos da
lei eram auto-aplicáveis, e pagamos essa enorme dívida com os
princípios gerais do direito. O homem não é um simples material de
construção das novas estruturas legais, mas o objetivo supremo é
sua felicidade, pois o direito disciplina a vida social e não abandona
o ser humano à sua própria sorte; antes, lança-o no caminho da
perfeição, do desenvolvimento e do progresso, não só de sua vida
física, mas também de sua vida psíquica, para construir, por esse
modo, sim, uma coletividade mais bem formada por seres
melhores.84
Há pouco tempo, li na Internet um artigo de Dona Tereza da
Costa Amaral — “Sem cerca de arame farpado” — em que ela
reclama contra a falta de integração dos deficientes físicos na vida
brasileira, acusando a existência de uma situação semelhante ao
campo de concentração escondido na in-consciência generalizada.
Causou-me tristeza. A “nossa” lei pode ter ajudado, mas não
resolveu.

168
Não posso dizer que tudo se deu abruptamente, porque o meu
bruxo predileto, o Gervásio, havia previsto com muita firmeza. Fui
convidado para jantar na casa de Paulo Brossard, que era Ministro
da Justiça e havia sido Consultor Geral da República antes de mim.
Ele requisitara Eunice, funcionária da Eletronorte, para ser sua
secretária na Consultoria Geral. Como ficaram, ele e sua mulher,
Dra. Lúcia, muito amigos dela, convidaram-na também.
— Vamos jantar juntos hoje — disse eu, quando Eunice entrou
na minha sala naquele dia.

84 Vicente Ráo, O Direito e a vida dos direitos, Introdução.


— É verdade — respondeu. — E será um prazer! Pelo menos
poderemos conversar de outras coisas sem ser de serviço.
— Isso será ótimo! A senhora quer que passe em sua casa para
levá-la?
— Não vai dar muito trabalho? Se o senhor me levar, vai ficar
com a obrigação de me entregar em casa de volta.
— Combinado. Às oito horas, estarei lá. O motorista sabe onde
é?
— Sabe.
Chegamos juntos à casa do Ministro da Justiça. Chefe e
secretária. Esse detalhe, para Brasília, é motivo de todas as fofocas
possíveis. “Estão rolando coisas entre eles!” A imprensa sempre está
atenta. Creio que fizeram uma foto, quando saímos do carro.
Poucos convidados. Paulo Brossard, na verdade, queria
conversar com alguns amigos — eu, entre eles — sobre um convite
de Sarney para nomeá-lo Ministro do Supremo Tribunal. Haveria
uma troca. Oscar Correa ia aposentar-se e assumiria o Ministério da
Justiça. O sonho de Brossard em ser Governador do Rio Grande do
Sul havia se desmanchado. Boa solução ir para o Supremo.
Sarney nada me havia dito, a não ser, algum tempo antes, a
insinuação, a primeira, para que aceitasse a vaga do Oscar no
Supremo. Minha resposta foi prática:
— E eu vou ficar impedido de tomar uísque no Florentino? Não,
obrigado! Quando sair do Governo, volto para São Paulo correndo.
Minha vida é a advocacia. E estamos conversados!
Mas a idéia de nomear Paulo Brossard pareceu-me ótima. Era
um bom jurista. Eu o conhecera muito antes de participarmos do
Governo Sarney, nos seus tempos de parlamentar: grande orador,
bom legislador, sério. Sobretudo o conhecera como advogado.
Tivéramos divergências na Constituinte, pois sua fixação pelo
parlamentarismo impregnava até sua respiração um pouco ruidosa.
Não era fumante. Mas tragava as idéias de Raúl Pila com todas as
forças de seus pulmões.
Como em todo jantar, conversa-se com um, conversa-se com
outro. Acabei conversando com Dona Eunice, afinal minha
acompanhante. E levei um choque: ela não bebia! Pensei comigo que
devia ser uma chata. Naquela época, em Brasília, todo mundo
gostava de uísque ou vinho. Naquela época, desculpem, é maneira de
dizer. Em todas as épocas. Eu mesmo, quando me aproximei de
Dona Eunice, já havia tomado umas duas doses de um ótimo
escocês.
Brossard estava tomando vinho. O filho dele passou por perto,
e ele ofereceu uma taça. O rapaz respondeu:
— Obrigado, pai, mas o senhor sabe que não tomo álcool.
— Isto não é álcool, meu filho. É vinho.
Voltei-me para Dona Eunice e perguntei:
— Nem vinho?
— Não, nada de álcool. Sou como o filho do Ministro Brossard.
Mas a conversa rolou descontraída. Ela me contou coisas de
sua família, casos de suas irmãs e irmãos, todos de Iporá, Goiás. E
deu risadas gostosas nos trechos mais engraçados. Contou os
tombos que levou na infância, quando fraturou o maxilar. E riu.
Notei que suas risadas eram iguais às da minha mãe. Sonoras,
espontâneas. Divertia-se imensamente com suas próprias histórias
simples. Gente do interior, qualidade que eu conhecia bem. E de que
gostava.
Ela me julgava um tremendo paulista de quatrocentos anos.
Tive que contar minha infância na roça, minha vida de motorista de
caminhão, minha juventude pobre, meu tempo de jornalista até
chegar à advocacia, minha última paixão. Ali mesmo ela ficou
sabendo que eu recusara o convite para ser indicado ao Supremo
Tribunal e passou a ter certeza de que eu estava no Governo para
ajudar, e não para tirar proveito de nada. Parece que, afinal, nos
conhecemos. No trabalho, nada disso acontece. Não há tempo para
papo desse tipo.
Resumindo: voltei a convidá-la para jantar, dessa vez em
restaurante. Demos mais e ótimas risadas. Ela sem beber nada, e eu
mandando brasa no uísque. Brasa com bastante gelo. Depois,
jantamos em minha casa, e eu a pedi em casamento. Ela aceitou. E
vivemos, até hoje, um amor imenso, que tornou minha vida a
sagração do bem e da verdadeira felicidade. “Adoro as coisas simples.
Elas são o refúgio do espírito complexo.”85

169
Acabou o Governo Sarney, fomos para São Paulo. Eunice
cuidou de pôr ordem nas minhas coisas. Foi a Serra Negra, e minha
mãe, pela primeira vez, sentiu e proclamou que eu agora tinha a
mulher certa. E se apaixonou por ela também. Meu irmão, que não
suportou as cunhadas anteriores, deslumbrou-se com a simplicidade
daquela goiana pura e com a verdade de seu amor por mim. Coisas
que raramente acontecem naquela altura em que estava minha vida.
Mas aconteceram. Minha vida foi para as alturas. Sujeito de
sorte! Eunice ainda trouxe sua filha Márcia, que se tornou outra
paixão na minha alegria de viver. Além disso, Márcia se encantou
com Ribeirão Preto, estudou arquitetura naquela cidade, ali se
formou e disse que não quer sair de lá. Pode haver glória maior para
mim, cuja primeira ousadia literária foi escrever a letra do Hino a
Ribeirão? Sujeito de sorte!
Meus antigos casamentos acabaram melancolicamente. O mais
triste é quando se descobre que a imaginada eternidade chega ao
fim. Sofocleto tinha razão: é eterno enquanto dura, definição que o
nosso Vinícius de Morais andou pegando emprestada. De um
daqueles casamentos, pelo menos tive um filho, Fernando Saulo, que
me deu duas netas, Priscila e Larissa. Trazem felicidade, mas meu
sonho era a família no dia-a-dia, nas conversas do café-da-manhã,
nas desculpas do porquê se atrasou para o almoço, no planejamento

85 Oscar Wilde.
das viagens de férias. Isso faz muita falta ao homem só.
O atual Papa Bento XVI disse que o segundo casamento é uma
praga. Por isso passei logo ao terceiro. Casar pela terceira vez é,
portanto, o triunfo da esperança sobre a experiência.86
Claro que o Gervásio ficou sabendo de tudo. Foi jantar em
minha casa, na Chácara Flora, em São Paulo, num fim de semana
em que programamos uma rodada de sinuca com todos os demais
amigos: Nerval, Casé, Miguel Nassif, Reynaldo Ramalho, meu irmão,
Luiz Carlos.
Nerval organizava também noites de música e convidava
cantores consagrados para participar de nossos jantares. Naquela
ocasião, levou João Pacífico e as Irmãs Galvão. Ouvimos canções
sertanejas, a maioria composta Pelo João. E muito Adoniran
Barbosa, que as Irmãs Galvão interpretavam com rara originalidade.
Foi uma noite linda. Mesmo em São Paulo.
Na hora de ir embora, Gervásio pronunciou aquela pergunta
irritante:
— Eu não disse?
— Disse o quê? — respondi para irritá-lo também.
— A felicidade existe. É necessário ter sabedoria para encontrá-
la. O caminho está escrito nas estrelas. É preciso ouvir e entender
estrelas, já dizia o velho Bilac.
São Paulo sempre teve o céu nublado. E poluído. Ali, é
impossível ver estrelas. Por isso me mudei para Serra Negra, onde
brilham juntas, e intensamente, as estrelas e a Eunice.

170
Há certos acontecimentos, na vida da gente, inexplicáveis. Mas
o destino é caprichoso. Uma coisa puxa outra e, de repente,
acontece. Nasci em Brodowsky, cidadezinha do interior de São Paulo,

86 Samuel Johnson.
terra de Cândido Portinari. Fui jornalista, e o máximo em minha vida
foi ter sido advogado. Funções públicas não contam, sobretudo
quando eventuais e passageiras.
De que serve, por exemplo, ter sido Ministro de Estado? Talvez
um neto meu ou neta possam contar aos seus coleguinhas de escola:
“Meu avô foi ministro!”. Duvido se saberão o que isso quer dizer; mas
meu neto ou neta merecerão algum respeito a mais, porque todos os
dias ouvem falar de ministros no rádio e na televisão. Deve ser algo
importante. Importância terá, porém, o que o ministro conseguiu
fazer, enquanto exerceu o cargo.
Quando fui convidado a ir para o Ministério da Justiça,
particularmente, cá entre nós, senti uma certa emoção, porque o
meu mestre em Direito, Vicente Ráo, havia ocupado aquela pasta. E
realizou muita coisa boa. Minha alegria, porém, acabou, quando,
instalado o Governo Collor, o Deputado Bernardo Cabral foi
escolhido para me suceder. A glória do cargo foi para o brejo. Vou
proibir meus netos de dizerem que fui ministro. Na galeria dos
retratos dos ministros da Justiça, mandei colocar o meu com o rosto
virado para o lado contrário ao espaço em que futuramente seria
colocada a foto do meu sucessor.
Collor declarou que o deputado havia sido relator da
Constituinte que, portanto, era o que mais conhecia o novo Direito
Constitucional. Começou a afundar seu governo exatamente nesse
ponto. Em matéria de Direito, Bernardo Cabral era uma enciclopédia
de ignorância: não sabia nada a respeito de tudo. Para justificar-se
perante o país, declarou haver feito um curso na Sorbonne, a célebre
Universidade de Paris.
Houve um corre-corre para apurar a desinformação dos
brasileiros. Como ninguém sabia disso? Apura daqui, apura dali, a
própria Sorbonne também de nada sabia. Aí surgiu um jornalista e
descobriu. A Universidade de Paris aluga salas durante as férias de
verão para companhias de turismo. Os clientes são convidados a
visitar o histórico prédio e, antes ou depois da visita, ouvem, na sala
alugada, alguém discorrer sobre a história da escola francesa. Era o
curso do Cabral, relator da Constituinte de 1988.
Nessa ordem de idéias, também eu teria feito um curso na
Universidade de Viena. Fui convidado a participar de um congresso
jurídico sobre as relações Europa-América Latina.
Prédio lindo, antiqüíssimo, medieval, séculos de cultura
espionando as paredes. Sessão solene de abertura do Fórum
Científico na Kleiner Festsaal Universität Wien, de estudos de
Direito, sociais e econômicos. Professores russos, poloneses,
alemães, austríacos, holandeses, húngaros, suecos, italianos,
franceses, espanhóis e latino-americanos. Idiomas oficiais do
congresso: espanhol, francês e (eta, nóis!) português. Dentre os
sessenta participantes do fórum, somente um falava português: eu.
Sensacional a cultura dos professores europeus participantes
do congresso: todos falavam correntemente o castelhano.
Especialista em direito latino-americano? Não se conquista a cátedra
sem falar espanhol. O discurso inaugural foi do Presidente da Costa
Rica, Rafael Calderón Fournier, lido por seu Ministro Oscar Alvarez.
Belo trabalho sobre Direito Ambiental e sobre a dívida externa dos
países latino-americanos.
Em seguida, o jurista italiano Pierangelo Catalano, da Ceisal e
professor da Universidade La Sapienza, de Roma, anuncia o segundo
e último orador da solenidade. Lá fui eu para a tribuna, pernas
tremendo diante de platéia tão qualificada, pedindo a Deus que me
protegesse, menino de Brodowski, único brasileiro convidado a
participar do fórum. A emoção era agravada pela arquitetura
majestosa da universidade austríaca mandada construir por Maria
Teresa, mãe de Maria Antonieta, a rainha decapitada pela revolução
francesa Porque mandou o povo comer brioche, quando reclamou da
falta de pão.
No fundo da sala, minha mulher, mãos cruzadas, olhos
fechados. Não havia dúvida: rezava. Eunice é profundamente
religiosa. Quando estou em apuros, ela lança sobre mim o manto
protetor de sua fé.
Mandei bala. Perdido por perdido, truco, como dizia um velho
tio caipira e boiadeiro das bandas de Ribeirão Preto. Direito
Ambiental e dívida externa. Não haverá defesa do meio ambiente
enquanto os países latino-americanos sofrerem os bolsões de miséria
que marginalizam milhões de seres humanos, vivendo fora do próprio
Estado de Direito. Em conseqüência, não tomarão, nem podem
tomar, conhecimento do Direito Ambiental. A Amazônia está sujeita à
destruição pelo desmatamento devastador. Dívida externa que
transformou nossos países em exportadores de capital, não é a única
sangria econômica dos subdesenvolvidos, mas é a pior. Há outra: os
preços aviltados que o mercado internacional paga por nossas
exportações — café, cacau, soja, cereais, minérios —, preços que não
resultam das livres regras da oferta e da procura, mas de evidentes
manobras especulativas e baixistas, comadadas pelas bolsas de
Londres e de Nova York, além dos subsídios que os governos
americano e europeus dão aos seus produtores agrícolas, produtores
de fancaria.
Essas bolsas de commodities são responsáveis também pelos
nossos bolsões de miséria. E, por fim, os processos protecionistas
que os países europeus e os Estados Unidos pagam aos seus
agricultores e fazendeiros em nome de uma teoria malandra: a auto-
suficiência em comida. A comida deles é dinheiro. Podem, assim,
vender seus produtos abaixo do custo, concorrendo com os que
realmente são os pobres lavradores e enxadeiros de calos nas mãos.
Qualquer homem do campo, na Europa ou na América do Norte, tem
um belo carro de passeio, casa com água e esgoto, escola perto dos
filhos. Há vergonhosos roubos dos tesouros públicos em
cumplicidade com os políticos. Basta um esperto comprar alguns
acres de terra, duas ou três vacas, e cadastrar-se para receber
recursos dos governos. Até o Príncipe Albert, de Mônaco, recebe
propina da França porque tem alguns palmos de terra ditos
cultivados no território francês.
Para que se tenha uma idéia da orgia das tarifas protetoras dos
fazendeiros europeus e os subsídios aos norte-americanos, basta
imaginar o que eles fazem com o montante que recebem: um bilhão
de dólares por dia!87
Numa grande farsa, os países (149) da Organização Mundial do
Comércio iniciaram, na capital do Qatar em 2001, negociações para
eliminar as tarifas nas importações, sobretudo dos produtos
agrícolas, bem como aqueles escandalosos subsídios. Deram a essa
peça teatral o nome de Rodada de Doha. Ficaram fazendo turismo,
reunindo-se cada vez em um país diferente,88 durante cinco anos e
chegaram à conclusão de que não há jeito de acabar com o dinheirão
governamental aos agricultores europeus e norte-americanos. O
chanceler Celso Amorim, um estoque de ingenuidades, acha que
ainda há esperança. Quando estiver bem velhinho, semanas antes de
morrer, estará balbuciando: a rodada de Doha não morreu. Aí morre
ele.
Mas ele não morrerá facilmente. Bush esteve em São Paulo e
Lula, em saudação ao presidente norte-americano, abordando a
questão do protecionismo contra nossos produtos agrícolas,
sobretudo o etanol, deixou de lado as parábolas futebolísticas e
resolveu alterar seu estilo literário para um desastre fantástico.
Falou (e como fala!) que os países pobres e ricos na OMC
(Organização Mundial do Comércio) estão próximos de encontrar o
ponto G.89 Por mais que isso nos doa foi assim que ele se referiu à
rodada de Doha.
Voltei ao meu discurso: o latino-americano anda de carro-de-

87 New York Times, 8 de dezembro de 2005.


88 A rodada de Doha começou em Doha (Qatar), e negociações subseqüentes tiveram
lugar em: Cancún (México), Genebra (Suíça) e Paris (França).
89 O “Ponto G”, cuja existência é questionada, não na OMC, mas na ciência, é uma
velharia dos anos 50 e que teria sido identificada pelo médico alemão Ernest
Grafenberg. Consiste numa concentração de terminações nervosas, vasos
sanguíneos e glândulas ligadas ao clitóris que se localiza em torno da uretra da
mulher. Sensível às leves pressões, pode, se estimulado, proporcionar intensos
orgasmos. Caiu em descrédito e passou a ser considerado como piada sobre
masturbação feminina. Convenhamos que isso constar do discurso de um chefe de
Estado é um deboche. Celso Amorim não morre mais.
boi, de jumento. Quando falam em combater a fome no mundo
subdesenvolvido, ou em qualquer parte do mundo, há muita
hipocrisia. A fome se combate não só permitindo o trabalho e
remunerando dignamente os produtores por meio de seus produtos,
mas com desenvolvimento. E cheguei a uma conclusão espantosa: a
fome no mundo moderno deriva das dívidas externas, da falta de
financiamento, dos juros altos, da escassez de recursos para a
maioria e concentração de renda para poucos. A fome é hoje um
fenômeno monetário. Deus, a que ponto chegamos!
A reação da douta platéia foi espetacular. Aplaudiram de pé.
Olhei para minha mulher, que tinha máquina fotográfica a tiracolo, e
apenas vi uma compreensível expressão de alívio. Fiz-lhe um discreto
gesto, e ela respondeu com um sorriso alegre. Queria que ela batesse
uma foto naquele instante. Não entendeu e não bateu. Podia? Claro
que podia. Mas, naquele lugar solene? Ora, quando voltássemos ao
Brasil, iria contar essa história e acabaria passando vergonha.
Brasileiro não acredita nessas coisas, sobretudo depois daquele
outro ex-ministro, que se dizia professor da Sorbonne. Desculpe.
Tem nada não. Fomos ouvir uma valsa de Strauss.
Prosseguiu o congresso, não mais em Viena, mas no Castelo de
Schlaining, num vilarejo isolado, sem nada para fazer ou ver. Gente
sabida. Com isso, asseguravam freqüência plena às sessões de
trabalho. Fosse em Viena...

171
Dois professores não se conformavam. Lucio Cabrera Acevedo,
da Universidade do México, e Ramón Martín Mateo, reitor da
Universidade de Alicante, Espanha, porque queriam jantar
fartamente, e a cidadezinha não tinha capacidade para atender à
justa reivindicação. “Donde cenamos?” O jeito foi trabalhar duro.
Lucio fez uma excelente exposição sobre os direitos humanos de
terceira geração no México, e Mateo nos deixou maravilhados com
aulas sobre a iusgenética.
E tome trabalho, conferências, debates, Direito e Economia,
temas variadíssimos, sérios, bem desenvolvidos. O professor Alain
Gandolfi, da Université d’Aix Marseille, falou sobre a cooperação
entre a Comunidade Européia e a América Latina, em perfeito
castelhano, e, às tantas, deu-me uma piscadinha de olho e passou a
falar em português, o que resultou em alegria geral, pois outro
congressista usou também a última flor do Lácio, inculta e bela.
Finalmente, a conferência da genial espanhola Guadelupe Ruiz
Gimenez, deputada do Parlamento Europeu, que explodiu em elogios
ao Brasil pelo processo de impeachment contra Collor, afirmando que
o exemplo conduzia a América Latina ao definitivo estágio da
legalidade, sem retorno. Cumprimentou-me por ter sido advogado do
Congresso Brasileiro no processo de Collor contra o Senado, perante
o Supremo Tribunal.
Fiquei, claro, orgulhoso com os elogios ao meu país e ao nosso
povo. Naquela noite, para alegria de Lucio e Mateo, de volta a Viena,
jantamos bem. Nevou fora de época. O motorista entrou em pânico.
Não tinha no carro pneus para neve. Mas era excelente a estrada.
“Foi construída por Hitler!”, disse o motorista, com um disfarçado
orgulho; pelo menos me pareceu.
Minha mulher disse que era implicância minha, por causa da
histeria neonazista na vizinha Alemanha, acompanhada com
interesse pelos austríacos. O que posso fazer? Detesto o nazismo,
mesmo sem que tivesse feito nada contra mim. Fez, porém, contra
minhas idéias de liberdade. Depois de algumas boas derrapadas,
chegamos a Viena: Avenida Mozart, Restaurante Mozart, Vinho
Mozart, bombom Mozart (Mozartkulgeln).
Tudo lá é Mozart. Sobra pouco para Strauss, tanto para o João
como para o José, porque o Danúbio não é mais azul. A poluição
forçou obras gigantescas. Canal para todos os lados, margens de
cimento. Resultou em três Danúbios: o velho, o novo e o reservado
aos banhos e à pesca. Nenhum é azul. Temos que nos lembrar disso
na aplicação do nosso Direito Ambiental. É preciso conservar,
também, a cor dos rios, sobretudo se formos alterar o curso do São
Francisco.
A Áustria é um país lindo. Até Beethoven foi viver lá, para
respirar o mesmo ar respirado por Mozart. Pena que Hitler tenha
sido austríaco e construído uma estrada por onde a gente é obrigado
a passar vindo de Schlaining para Viena.

172
Uma vez, fui convidado para um congresso de Direito
Constitucional em Salamanca, Espanha. A viagem começou com
problemas. Além do tradicional atraso da Varig na decolagem do
Brasil, cheguei a Madri, onde dormiria, e, no dia seguinte, domingo,
iria para a antiga cidade universitária espanhola. No hotel, tomei um
banho, vesti pijama e caí na cama. Acordei, procurei cueca limpa na
mala, e nada. Eunice esquecera de colocar cuecas. Saí para comprar.
Tudo fechado. “Calzoncillos? Hoy? No es posible! Tiendas de panos
menores están cerradas.”
O jeito foi usar um calção de banho, pois tinha que partir logo
para Salamanca. Se tivesse verificado na véspera, teria tido tempo de
lavar a cueca que usei na viagem e “planchala”90 para secar.
Devo ter escandalizado o pessoal do hotel em Salamanca,
porque cheguei perguntando onde poderia comprar calzoncillos.
Disseram que “solo mañana”.
Do Brasil, foram vários outros juristas: Franco Montoro,
Antônio Chaves, da Faculdade de Direito de São Paulo, e Carlos
Fernando Mathias, reitor da Faculdade de Direito de Brasília, hoje
desembargador do Tribunal Regional Federal de Brasília. Foi bom o
congresso, depois de resolvido o meu problema da cueca. Comprei

90 Planchar: passar a ferro.


algumas, espanholas, enormes. Pareciam calções de banho do século
XVII. Os companheiros do PT — Partido dos Trabalhadores —
podiam ir à Espanha comprar aquelas cuecas. Para o transporte de
dólares seriam perfeitas.
Começaram os trabalhos. Conferências. Debates.
Fui assistir à palestra de Antônio Chaves.
Estava ele, professor de Direito Civil, dissertando sobre
peculiaridades do Direito brasileiro, quando foi interrompido por um
professor de Direito da Universidade de Roma, malcriado:
— Vocês, brasileiros, não têm muito a contribuir para os
nossos estudos — falou o italiano. — Vocês copiam servilmente
nossas leis. Um exemplo é o Direito Penal do Brasil, cópia servil do
Direito Penal italiano.
Nada tinha a ver uma coisa com a outra. Que diabo deu na
cabeça daquele romano? Devia ter bebido um três litros de chianti. O
congresso era de Direito Constitucional, o conferencista brasileiro,
professor de Direito Civil, e ele vinha reclamar do nosso Direito
Penal. Mascalzone!
Antônio Chaves sentiu-se embaraçado. O aparte, além de
grosseiro, consistia em desvio dos debates que estavam sendo
realizados. Não agüentei e também pedi um aparte. Devolvi para o
italiano:
— O ilustre professor da Universidade de Roma tem razão.
Nosso Direito Penal copiou muitos dispositivos da parte especial do
Direito Penal italiano. Mas há uma razão técnica e histórica para
isso: a Itália é o maior laboratório de crimes no mundo, sobretudo
em forma de estelionato. Não copiamos, por isso, o Direito Penal
suíço. O italiano é muito mais amplo, porque ali se cometem todos os
tipos de delitos, e a lei penal se desenvolveu mais, em razão do
ambiente.
Carlos Mathias, que gosta de bagunçar as coisas, bateu
palmas. Só para encher o saco do italiano. Mas todos os
congressistas o acompanharam. Foi o aparte mais aplaudido do
congresso. O único, porque, em geral, aparte não se aplaude.
O bom daquele congresso, porém, foi descoberto pelo próprio
Carlos Mathias. Um restaurante que servia um delicioso cochinillo
(leitãozinho) crocante. Comemos ali todos os dias. Leitãozinho,
somente voltei a encontrar, e melhor, no restaurante do João, em
Ribeirão Preto, La Pyramide. João é um cardiologista que abandonou
a medicina para cozinhar. Vive no futuro, quando todo cozinheiro
será médico e todo o médico terá que estudar culinária. Um dia,
convidarei o Mathias para ir jantar lá.

173
Fazia muito tempo que Gervásio não vinha me visitar no
escritório. Disse que não queria incomodar. Cobrei. Acabou vindo.
Estava com saudade de seus discursos. Depois do cafezinho,
despejou:
— Você se lembra quando Sarney quis lançar a ferrovia Norte-
Sul?
— Quiseram matá-lo! Nunca vi tantos ataques, e irados, contra
um Presidente da República.
— Pois bem. Naquele tempo, o Brasil, um dos maiores países
do mundo em território, tinha apenas 30 mil quilômetros de ferrovia.
Sabe quantos tem hoje?
— Não faço a menor idéia!
— Não chega a 27 mil quilômetros. Para você ter uma idéia
nessa cabecinha de advogado, que somente conhece agravo de
instrumento e recurso especial, o Japão, uma ilhota pequena, tem 43
mil quilômetros; a França, com território equivalente ao Estado de
Minas Gerais, 35 mil quilômetros, sem contar o TGV, trem de grande
velocidade; a China, quase 60 mil quilômetros; a Índia, 62 mil; e os
países da ex-União Soviética têm 150 mil quilômetros. Os Estados
Unidos, embora prestigiem o transporte rodoviário para forçar o
consumo de carros e pneus e as construções de estradas de
rodagem, têm 200 mil quilômetros de ferrovias funcionando e
transportando riqueza pela metade do custo das rodovias.
— Gervásio, mas o que tenho eu a ver com isso?
— Você é brasileiro, vive aqui, precisa saber. Com sua velha
mania de defender o Sarney, convém guardar esses números, para
entender por que lhe mandaram o cacete, quando quis construir a
ferrovia Norte-Sul. No Brasil, há uma indústria de muitos e variados
interesses por trás das rodovias. O uso de veículos automotores gera
inúmeras despesas indiretas, como o policiamento, os serviços de
emergência, a engenharia de tráfego, a recuperação dos feridos, o
provimento de espaço para estacionamento, o congestionamento e a
poluição, sem contar as vidas que se perdem nos milhares de
acidentes. Os Estados Unidos estimam esses custos em quase 400
bilhões de dólares por ano. Li essa informação num artigo do Antônio
Ermírio de Moraes. É seu amigo, não é?
— É e entende muito bem dessa matéria e de outras, além de
ser um empresário patriota e muito pouco ouvido pelos governos
brasileiros.
— Governo? Todo governo se julga dono da sabedoria absoluta.
Ouve ninguém. Já sei: menos o do Sarney.
— E o do Juscelino Kubitschek!
— É verdade. Você também ficou amigo de Juscelino.
— Quem não ficaria? Era uma explosão de simpatia. Exilado
em Paris Juscelino morava no Trocadero, e quase toda tarde passava
pelo escritório da Wasin, na Rua Cristóvão Colombo, travessa da
Avenida George V, no Champs Elysées. Ia ler os jornais do Brasil,
ainda trazidos pela Panair.
— E você, o que fazia lá?
— Estava cuidando do encerramento dos negócios do Grupo
Simonsen na Europa. Fui escalado pelo Professor Vicente Ráo. Tarefa
não muito agradável, porque trabalhosa em excesso; mas em Paris
sempre compensa. Morei em um apartamento perto do escritório, na
Rua François Premier. Quando Juscelino aparecia no fim de tarde,
era uma festa. Algumas vezes, saíamos juntos e passávamos pelo bar
que havia na esquina. Esquinas costumam ter um bar. Eu brincava
com ele: “O defeito de Brasília é não ter esquinas!”.
— Esquina é contra o motor! — respondia ele com o sorriso
aberto em cinemascópio, hoje, diria em widescreen.
Nessa ocasião, ele lamentou não ter estimulado a ligação de
Brasília com o centro industrial do país por meio de ferrovias.
Admitiu que a construção da nova capital poderia ter sido mais
barata, se fosse precedida de uma grande estrada de ferro, que
continuou fazendo falta.
Entramos no bar da esquina com a Avenida George V.
Chamava-se Vernet. Perto da agência do Banco do Brasil, então
instalada naquela avenida. Tomamos um copo de vinho branco
gelado. E falamos sobre o Brasil. Juscelino era uma figura
encantadora. Como amava o Brasil!
Acompanhei-o até o carro. Ele entrou, fechou a porta e se foi.
Coisa estranha! Juscelino Kubitschek, o Presidente da República que
construiu Brasília, teve como Ministro da Fazenda seu compadre
José Maria Alkmin. Implantada a ditadura no Brasil, Juscelino
estava com seus direitos políticos cassados e exilado em Paris. E seu
ex-Ministro da Fazenda, o Dr. Alkmin, era o Vice-Presidente da
República do regime militar. Outra jabuticaba. Somente acontece no
Brasil. Está entre os enigmas a serem decifrados dentro do código
das vidas. E Gervásio explicou:
— Você não pode entender os mistérios da política. Por mais
que queira e se esforce. Lembre-se bem de que a ditadura cassava
políticos e direitos sob dois fundamentos: corrupção e subversão. Os
cassados eram os comunistas, de um lado. Do outro, os homens que
tivessem feito negociatas nos governos anteriores, no entender dos
militares, quando funcionavam como magistratura de japona.
— Mas Juscelino não podia ser acusado nem de comunista,
nem de corrupto! — disse eu.
— Vamos supor que sobre ele pesasse a suspeita de corrupção.
Quem, em seu governo, teria feito negociatas? Ou permitido alguma
operação lesiva aos cofres públicos? O Ministro da Fazenda!
Ninguém mais!
— E José Maria Alkmin foi designado Vice-Presidente da
República no governo da ditadura, enquanto Juscelino foi cassado
sob a acusação de ser corrupto.
— Veja que a gloriosa revolução, tão defendida pelo
inegavelmente idealista Jarbas Passarinho, sempre foi uma farsa. Foi
farsa em tudo. Enquanto Alkmin exercia o poder na Vice-Presidência
da República, Juscelino, nas vezes que veio ao Brasil, era submetido
a infindáveis interrogatórios em mais de noventa processos
instaurados contra ele. Decifra aí: quando foi escrito o Código de
Hamurabi?91
Hoje, quando volto a Paris, o bar Vernet não existe mais,
fecharam a agência do Banco do Brasil na Avenida George V.
Somente continua existindo a esquina com outro prédio e loja para
turistas...
...e uma grande indagação moral sob