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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH


Programa de Pós-Graduação da Escola de Serviço Social

A ESTRATÉGIA DEMOCRÁTICA E POPULAR DO PARTIDO DOS


TRABALHADORES (PT) E A QUESTÃO DA INCOMPLETUDE DO
CAPITALISMO NO BRASIL

Isabel Mansur Figueiredo

Rio de Janeiro
2018
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH
Programa de Pós-Graduação da Escola de Serviço Social

A ESTRATÉGIA DEMOCRÁTICA E POPULAR DO PARTIDO DOS


TRABALHADORES (PT) E A QUESTÃO DA INCOMPLETUDE DO
CAPITALISMO NO BRASIL

Tese apresentada à Escola de Serviço


Social da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do grau de
doutora em Serviço Social.

Orientador
Prof. Dr. Mauro Luís Iasi

Linha de pesquisa
Políticas Sociais

Rio de Janeiro
Junho de 2018
Isabel Mansur Figueiredo

A ESTRATÉGIA DEMOCRÁTICA E POPULAR DO PARTIDO DOS


TRABALHADORES (PT) E A QUESTÃO DA INCOMPLETUDE DO
CAPITALISMO NO BRASIL

Tese apresentada à Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de


Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de doutora em
Serviço Social.

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Mauro Luís Iasi (Presidente)


Escola de Serviço Social/UFRJ

Profa. Dra. Virgínia Maria Gomes de Mattos Fontes


Instituto de Ciências Humanas e Filosofia/UFF e
Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/FIOCRUZ

Profa. Dra. Sara Aparecida Granemann


Escola de Serviço Social da UFRJ

Profa. Dra. Mirella Farias Rocha


Escola de Serviço Social da UFRJ

Prof. Dr. Felipe Abranches Demier


Faculdade de Serviço Social da UFRJ
Ao companheiro Daniel do Vale
Com quem aprendi que a “fé é o instinto da ação”
e que a ação é revolucionária.
Daniel do Vale, presente, hoje e sempre!
À companheira Marielle Franco.
Socialista, mulher, negra, favelada, gay, amiga e companheira
que carregou em si todos os sonhos e lutas do mundo
e virou semente desse novo ciclo que se inicia.
Seus sonhos seguem em nós. Ubuntu.
Marielle Franco, presente, hoje e sempre!
Agradecimentos

Todo fim é um início. Toda a síntese é a expressão de determinações que


transbordam seus limites. Esse trabalho é um pouco disso. Ele não existiria sem vários
outros trabalhos com os quais cruzei no caminho, assim como não seria possível se não
fosse gestado no calor das lutas. Ao passo que não há nada finito, pretendemos, ao
apresentá-lo, contribuir com uma peça na engrenagem da reflexão coletiva. Esse “porto
seguro” que será nosso ponto de chegada é, exatamente, o ponto de nossa partida.
Foram altos e baixos, um processo não linear bastante característico do período,
mas também da escriba. Peço que perdoem, então, as minhas “incompletudes” e tenham
certo que as questões aqui levantadas são, também, estímulo para continuidade da
pesquisa. Como não é o caso de aguardar uma perfeição, que jamais existiria, é no mar
da história, agitado, que aportamos hoje, buscando agregar, se possível, algumas
inquietações ao exercício de reflexão intelectual. Agradeço ter conseguido chegar ao
fim desta longa e trabalhosa rotina com algum fôlego para sua continuidade.
Foram cinco longos anos entre matrícula, disciplinas, pesquisa, escrita e defesa.
O ingresso se deu em 2013, ano em que uma onda de manifestações multitudinárias
iniciava-se na Copa das Confederações: seria o início das “jornadas de Junho de 2013”.
Dali em diante, eleições polarizadíssimas, processo de impeachment de Dilma Rousseff,
avanço da judicialização da política, execução de Marielle Franco (presente!) e a prisão
de Lula. Entre todas as reviravoltas do “aqui e agora”, processo de pesquisa, consultas
de documentos e tentar avançar na escrita foram, sem dúvida, grandes desafios. Aos
meus amigos de turma de doutorado e aos professores do PPGSS, minha gratidão pela
troca e pelos aprendizados nos anos de 2013 e 2014. Ao meu orientador, Mauro Iasi,
com quem fiz a maior parte das disciplinas, meu agradecimento profundo: mais do que
ninguém, Mauro me demonstrou que boas perguntas são o motor da reflexão intelectual.
Chegar até aqui não teria sido possível se a universidade não fosse pública e
gratuita. À militância da UFRJ que deixou essa universidade de pé sem dar um passo
atrás na gratuidade do ensino, meus mais sinceros agradecimentos. A luta em defesa da
universidade pública foi meu maior espaço de aprendizado político-militante e teórico.
Na pós-graduação, não poderia ser diferente. Meu reconhecimento, também, à atual
gestão de reitoria que, na contramão dos cortes, ampliou a assistência estudantil e
garantiu restaurantes universitários nos campi, alargando a possibilidade de
permanência e um melhor ambiente de pesquisa para os estudantes.
Minhas amigas e amigos de graduação e de militância na UFRJ, meu carinho
enorme! “Nós não vamos pagar nada” pela universidade pública!
Esta tese é, acima de tudo, resultado de um acerto de contas com o projeto da
classe trabalhadora brasileira e, de tabela, com minha própria trajetória. Ele não teria
sido possível sem estímulo e parceria intelectual-militante dos companheiros do Núcleo
de Educação Popular 13 de Maio: estimulados pela tarefa coletiva de realizar um
inventário, um “conhece-te a ti mesmo” em sua expressão de classe, nos juntamos em
um grupo de estudos sobre estratégia da revolução brasileira. Paralelamente, alguns de
seus integrantes encaminharam suas pesquisas para objetos específicos e, portanto, o
estudo aqui apresentado é resultado dessa dupla dimensão: a formalidade acadêmica ao
qual responde e seu compromisso de classe, sem o qual sequer teria razão de existir.
Agradeço ao Scapi pelos incentivos de todas as horas, e, através deste, homenageio
todos os monitores e monitoras “do 13”, como dizemos.
Registro agradecimento aos meus amigos militantes da época do PT e
atualmente do PSOL. Se a interpretação contida nesta tese é de minha inteira
responsabilidade, foram os anos de militância que me permitiram chegar nela. Vocês
estão aqui presentes, se não diretamente, indiretamente, a cada passo, cada dúvida e
cada decisão sobre caminho a seguir. Agradeço, em especial, aos companheiros do
primeiro mandato do Marcelo Freixo, companheiros com os quais aprendi o lado mais
duro e mais relevante do debate estratégico. Aos companheiros do Mecanismo Estadual
de Combate à Tortura, minha eterna gratidão por serem compreensivos com a dedicação
que tive que dispensar ao doutorado. Agradeço, ainda, aos companheiros com os quais
trabalhei na Justiça Global e no PACS – Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul.
À minha família, meu porto seguro, meu reconhecimento de sempre. Meu pai e
minha mãe certamente sabem intimamente os motivos pelos quais cheguei a esta tese.
Tenham certeza que meu esforço de reflexão sempre passou pelo respeito que tenho (e
sempre tive) ao nosso comum desejo de mudar o Brasil, mesmo que não tenhamos
acordo em algumas avaliações. Ao meu pai, agradeço também os aportes, sem os quais
a dedicação a essa tese não teria sido possível. Minha tia Cássia, muito, muito
agradecida pela atenção de sempre! Mari, irmã, obrigada pela torcida, irmandade e
parceria.
Pela possibilidade de cursar o doutorado, as aulas e a troca de conhecimento, o
agradecimento é ao Programa de Pós-Graduação da Escola de Serviço Social da UFRJ.
Gratidão pela compreensão e adiamento do prazo de defesa em razão dos meus
problemas de saúde.
Pelo debate de ideias, agradeço aos membros da banca que acompanharam
cuidadosamente o princípio este trabalho: prof. dr. Mauro Iasi, meu orientador; profa.
dra. Virgínia Fontes; profa. dra Sara Granemann. Pela contribuição a partir do avanço
de tese e na defesa, profa. dr. Felipe Abranches Demier. Pela contribuição a partir da
banca de doutorado, profa. dra. Mirella Farias Rocha. Agradeço também, no mesmo
sentido, a meu supervisor ao longo de nove meses de estágio doutoral no exterior, prof.
dr. Michael Löwy e ao prof. dr. Roberto Leher, pela participação na banca de avanço de
tese.
Pelo apoio material-financeiro, agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelas bolsas de doutoramento e de Estágio
Doutoral no Exterior (PDSE); e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de
Janeiro (FAPERJ), pela Bolsa Nota 10.
Minha família do Ilê Axé Ofá, a benção de todos! Obrigada pelo axé de sempre.
Sem vocês nada disso teria sido impossível.
À Flavia, minha companheira: tudo. Fôlego, força e coragem não teriam sido
possíveis sem sua paciência, carinho e sem você do meu lado. Essa tese também é sua,
cada parágrafo, cada palavra. Te amo.
Por fim, agradeço à classe trabalhadora que tudo produz e constrói. E que há de
abrir um novo ciclo histórico: “Ela virá, a revolução conquistará a todos o direito não
somente ao pão mas, também, à poesia” (Leon Trotsky). Ela virá. E ela há de ser
socialista.
(...) Digo adeus à ilusão,
Mas não ao mundo. Mas não à vida,
Meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do terror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato,
um poema,
uma bandeira.

Ferreira Gullar, “Agosto 1964”.


(...) Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno
grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem
esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco
bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e
afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não
conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido,
odeio os indiferentes.

Gramsci, “Os indiferentes”.


Resumo

Este trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa sobre a estratégia democrática e


popular do Partido dos Trabalhadores (PT) entre 1979 e 2002. A história do PT, e de
sua estratégia, é marcada por inúmeras reviravoltas e metamorfoses teórico-práticas,
mudanças que impactam profundamente o conteúdo do seu projeto político socialista.
Fruto de sua adesão, na década de 1990, à perspectiva da revolução gradual e
continuada, tal processo esteve marcado, em termos analíticos, pela interpretação do
capitalismo brasileiro como portador de insuficiências e incompletudes na democracia e
no mercado. Ao expressar-se em delineamentos estratégicos, a revolução estaria cindida
em dois momentos distintos: um de emancipação política e econômica, e outro,
socialista. Se realizaria, enfim, como uma estratégia restrita à revolução brasileira,
calcada em uma reedição sui generis do etapismo.

Buscaremos demonstrar, ao longo desta tese, que tal conclusão baseia-se,


fundamentalmente, em uma perspectiva nacional. Na contramão da compreensão sobre
a expansão do capital-imperialismo, esta perspectiva percebe na estratégia democrática,
nacional e popular o meio para a remoção dos óbices à igualdade formal. Em seu bojo,
encontramos dois pilares que precisam ser apreendidos em sentido crítico: a percepção
processual da democracia e a adesão à igualdade formal via mercado, em especial o
mercado de consumo.

Palavras-chave: Socialismo. Estratégia. Luta de classes. Teoria social. Incompletude


do capitalismo.
Abstract

This work presents the results of a research on the democratic and popular strategy of
the Workers' Party (Partido dos Trabalhadores – PT) between 1979 and 2002. The
history of PT and its strategy are marked by innumerable twists and theoretical-practical
metamorphoses, changes that impact deeply the content of its socialist political project.
As a result of its adherence, in the 1990s, to the perspective of the gradual and
continuous revolution, this process was pronounced, in analytical terms, by the
interpretation of the brazilian capitalism, according to inadequacies and incompleteness
of democracy and the market. In expressing itself in strategic guidelines, the revolution
would be divided into two distinct moments: one of political and economic
emancipation and, the other, socialist. It would materialize then as a restricted strategy
to the brazilian revolution, based on a sui generis reedition of etapism.

We aim to demonstrate, throughout this thesis, that such conclusion relies,


fundamentally, on a national perspective. Contrary to the understanding of the
expansion of the capital-imperialism, this perspective perceives in the democratic,
national and popular strategy the removal of the obstacles to formal equality. In its
bulge, we find two pillars that need to be apprehended in a critical sense: a procedural
perception of democracy and an adherence to the formal equality of the market, in
special the consumption market.

Keywords: Socialism. Strategy. Class struggles. Social theory. Capitalism


incompleteness.
Sumário

Introdução .................................................................................................................p. 15

Capítulo 1 – Criadores e criações: a questão das estratégias ................................p. 20

1.1 Introdução: método e estratégia


1.2 A estratégia em movimento
1.3 Controvérsias sobre a estratégia
1.4 Algumas breves linhas sobre a estratégia democrática e popular e a questão da
incompletude

Capítulo 2 – A estratégia democrática e popular e o Partido dos Trabalhadores na


década de 1980...........................................................................................................p. 43

2.1 Introdução
2.2 A classe trabalhadora “entra em cena”
2.3 O Movimento pelo Partido dos Trabalhadores (1979-1980)
2.4 O Partido dos Trabalhadores: da fundação (1980) ao 2º Encontro Nacional (1982)
2.5 O 2º e o 3º Encontro Nacional do PT: A primeira experiência eleitoral (1982) e seu
balanço (1984)
2.6 O Encontro Nacional Extraordinário (1985): contra o continuísmo e o pacto social,
por uma alternativa democrática e popular
2.7. O 4º Encontro Nacional do PT (1986): capitalismo dependente e desigual, mercado
incompleto e linhas de fundamentos da estratégia democrática e popular
2.8 O 5º Encontro Nacional do PT (1987): delineando a estratégia democrática e
popular
2.9 O 6º Encontro Nacional do PT (1989): às vésperas da primeira eleição nacional
2.10 Eleições de 1989: a estratégia democrática e popular em ação

Capítulo 3 – A estratégia democrática e popular e o Partido dos Trabalhadores na


década de 1990.........................................................................................................p. 120

3.1 O 7º Encontro Nacional do PT (1991): antineoliberalismo e democracia, um


primeiro divisor de águas
3.2 O 1º Congresso do PT (1991): colapso do Leste e revisões no rumo estratégico
3.3 O 8º Encontro Nacional do PT (1993): uma breve tentativa de retomada
3.4 O 9º Encontro Nacional do PT (1994): preparando novas eleições
3.5 O 10º e o 11º Encontro Nacional do PT (1995/1997) e o Encontro Extraordinário
(1998): governos FHC e o antineoliberalismo
3.6 O 2º Congresso Nacional do PT (1999), 12º Encontro Nacional (2001) e eleições de
2002: a estratégia em seu ponto de chegada

Capítulo 4 – Breve inventário: interpretando a revolução brasileira.................p. 164

4.1 Interpretações “clássicas” sobre a revolução brasileira: imperialismo, latifúndio, pré-


capitalismo, estrangulamento do mercado interno e ausência de democracia
4.1.1 Octávio Brandão, agrarismo versus industrialismo
4.1.2 Nelson Werneck Sodré: feudalismo, prussianismo, dependência e tarefas
peculiares à revolução burguesa
4.2 Interpretações nacional-desenvolvimentistas: heteronomia econômica,
estrangulamento do mercado interno e desenvolvimento nacional
4.2.1 Ignácio Rangel: dualidade básica da economia brasileira
4.2.2 Celso Furtado: desenvolvimentismo e expansão do mercado interno
4.2.3 Álvaro Vieira Pinto: desenvolvimento e consciência nacional
4.2.4 As principais teses do nacional-desenvolvimentismo
4.3 Faoro: a tese patrimonialista e o ―capitalismo político‖
4.4 Revolução brasileira e o golpe: economia e política entre 1964 e 1975
4.5 Antidualismo e revolução socialista
4.6 Weffort, Ianni e o populismo como via de desenvolvimento do capitalismo
4.7 Interpretando a década de 1980: Weffort, Faoro e uma breve menção a Carlos
Nelson Coutinho
4.8 Florestan Fernandes: Nova República, Constituinte e a estratégia democrática e
popular rupturista
4.9 Os governos Lula e o lulismo
4.9.1 Lulismo: pacto pelo mercado interno de consumo de massas e reformismo
fraco
4.9.2 Lulismo como ―Estado de compromisso‖
4.9.3 Hegemonia lulista e fordismo periférico
4.9.4 Lulismo como hegemonia às avessas
4.9.5 Lulismo como hegemonia da pequena política
4.9.6 Lulismo, mercado interno de consumo, de trabalho e valorização do salário
mínimo
4.9.7 Lulismo em busca de uma ―nova sociedade‖

Capítulo 5 – Estratégia democrática e popular do PT e a questão da incompletude do


capitalismo no Brasil ..............................................................................................p. 269

5.1 A estratégia democrática e nacional do Partido Comunista Brasileiro (PCB)


5.1.1 A estratégia democrática e nacional do PCB entre 1950 e 1964
5.2 Organizações da Nova Esquerda: entre ruptura e continuidade
5.3 Algumas linhas prévias sobre interpretações da realidade brasileira e estratégia
5.4 Buscando o ―novo‖: a afirmação da identidade petista e a perspectiva das
heteronomias
5.5 Interpretação da realidade brasileira, natureza e tarefas da revolução: a estratégia
democrática e popular e suas metamorfoses
5.6 Lulismo e heteronomias econômica e política
5.7 Marxismo, economia e política
5.8 Capital-imperialismo: aprofundamento e nova qualidade da relação-capital
5.9 A questão da incompletude do capitalismo no Brasil: estratégia e teoria da revolução

Considerações finais................................................................................................p. 333

Referências...............................................................................................................p. 338
Introdução

O trabalho que o leitor tem acesso resulta de uma pesquisa sobre a estratégia do
Partido dos Trabalhadores (PT). Buscamos investigar duas arenas de pesquisa
interligadas: uma diretamente relacionada à estratégia da revolução brasileira e a outra,
às interpretações teóricas sobre a formação social brasileira. Tais vertentes
influenciariam de forma decisiva a configuração dos projetos políticos vinculados à
classe trabalhadora no Brasil, fundindo-se em uma amálgama coerente cuja expressão,
após o final da década de 1970, é a estratégia democrática e popular do PT.
A história deste partido é marcada por inúmeras reviravoltas e metamorfoses
teórico-práticas, mudanças que impactaram o conteúdo do seu projeto político.
Certamente seria correto afirmar – e vários autores o fazem – que se tratam de dois ou
mais projetos antagônicos. Nossa abordagem, porém, parte de outro ângulo de análise.
Tentaremos demonstrar nas páginas seguintes que esta mudança de projeto traz elos de
continuidade com premissas da estratégia democrática e popular. Assim, calcada em
uma interpretação da realidade brasileira baseada em insuficiências ou incompletudes da
economia e da política, tal estratégia se manteria, em seu evolver, nos limites da ordem.
Ao abordar o tema, devemos, ainda, sublinhar uma ressalva: de que o solo histórico de
tais metamorfoses não é a teoria, mas a interação entre teoria e prática, relação
inseparável na edificação de uma configuração estratégica.
A estratégia do PT passa atualmente, como notório, por uma derrota histórica.
Ainda que ela permita atentar para os limites desta estratégia, devemos analisá-la com
os devidos cuidados. Neste sentido é que optamos por acompanhá-la em movimento e
não simplesmente a partir do seu desfecho, buscando entendê-la como expressão da
maneira pela qual a classe leu a realidade e constituiu um projeto para sua superação.
Do ponto de vista da luta de classes, o balanço histórico do PT não exclui o
reconhecimento de que sua derrota é uma derrota histórica da classe trabalhadora.
Para tanto, o trabalho se encontra dividido em cinco capítulos. No primeiro,
situamos o leitor em uma sintética exposição metodológica do materialismo histórico e
dialético e as controvérsias do debate estratégico. Estratégia, lógica e algumas
mediações se encontram aí balizadas para avançarmos, em seguida, na observação do
objeto.

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No segundo, abordamos a estratégia do PT da fundação à sua primeira
experiência eleitoral, o ano de 1989. Perseguindo, a partir das resoluções de congressos
e encontros do partido, a interpretação atribuída ao capitalismo e à revolução brasileira
em movimento sistematizaram as bases de configuração da estratégia democrática e
popular calcada em tarefas democráticas e populares, anti-imperialistas,
antimonopolistas e antilatifundiárias, tarefas ―em atraso‖ ou não cumpridas por uma
revolução de cunho burguês. Nesta década, tal estratégia se apresentaria em um duplo
sentido, o de ocupar os espaços de poder e o de reagir a uma possível resistência da
burguesia. Afirmava-se, portanto, como uma estratégia rupturista e de classe contra
classe.
Já no terceiro capítulo, abordamos a estratégia democrática e popular na década
de 1990, momento em que ela sofre suas principais metamorfoses, a ponto de tornar-se
quase irreconhecível. De rupturista, a estratégia vira o seu avesso: gradualista,
continuada, processual e pacífica. Seu programa sofrerá, por sua vez, um abrandamento
sucessivo até chegar à proposição de um ―novo contrato social‖, baseado no ―interesse
geral‖ e na ampliação econômica pela via do ―mercado de consumo de massas‖.
Após averiguação da estratégia em movimento, partimos para um breve
inventário político de interpretações da revolução brasileira em autores e/ou épocas. O
intuito do capítulo 4 é o de fundamentar as perspectivas teóricas que influenciaram as
estratégias socialistas, principalmente no que tange a análise sobre o Brasil e a
revolução brasileira. Em tom notoriamente ensaísta, antes voltado para o embasamento
de nossa própria interpretação do que para um balanço minucioso da teoria social,
perseguimos algumas chaves de leitura que serão retomadas no capítulo posterior sobre
a questão da incompletude do capitalismo nas estratégias.
No quinto e último capítulo, apresentamos, então, a análise sobre a estratégia
democrática e popular, a teoria social brasileira e a questão da incompletude do
capitalismo. Sob a suposição de insuficiências e incompletudes que motivariam um
período de mudanças prévio ao socialismo, observa-se um retorno sui generis à
concepção etapista, agora calcada na processualidade e no gradualismo. A questão
democrática e a questão do mercado interno de consumo de massas despontam como
principais elementos desta suposta insuficiência, fato que ensejaria a realização da
estratégia prisioneira aos limites da ordem, sem rupturas entre classes.
O resultado a que chegamos – ao perseguir o devir desta estratégia – trouxe à
tona uma série de hipóteses, uma central e algumas outras secundárias, que trataremos

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no âmbito dessa pesquisa. As hipóteses secundárias compuseram o que podemos
chamar de hipótese central. A primeira delas nos levaram a perceber o transformismo da
versão rupturista da estratégia democrática e popular da década de 1980, em seus
pontos de contato com as controvérsias da estratégia da esquerda do ciclo histórico
anterior, qual seja, a estratégia democrática e nacional do PCB. Apregoando uma
nuance gradualista que constrange a estratégia na perspectiva da democratização, a
leitura da realidade social brasileira que subsidia a afamada Declaração de Março de
1958 do PCB se aproxima àquela do PT da década de 1990. Como resultado, a segunda
hipótese é que, em seu câmbio, a estratégia democrática e popular assume uma
perspectiva nacional-democrática e popular.
O fio condutor entre as duas hipóteses anteriores, que têm como cerne o
movimento da configuração estratégica do Partido dos Trabalhadores, por sua vez,
permitiu a hipótese central, materializada na interpretação que apresentaremos na parte
final deste trabalho: que a questão da incompletude do capitalismo apresenta-se como
elo entre estratégia democrática e popular, estratégia democrática e nacional, o
nacional-popular e, enfim, o Lulismo. Desarmando o caráter socialista e cedendo à
percepção gradual da revolução dentro da ordem, o sentido íntimo da incompletude é o
de superar a heteronomia política e a heteronomia econômica, e, secundariamente, a
heteronomia do classismo.
De uma forma um pouco diferente do que se espera normalmente de uma
introdução, elencaremos, aqui, uma série de outras hipóteses que serão abordadas ao
longo deste trabalho. Isto porque toda pesquisa parte, antes de tudo, de um conjunto de
questões. Vejamos:
a) A estratégia democrática e popular do PT tem dois momentos principais: um
rupturista e um gradualista. A lógica interna desta estratégia, sua tensão permanente
entre acúmulo de forças e ruptura, tendeu a constrangê-la nos marcos da ordem. Assim,
a estratégia democrática e popular não foi abandonada, mas realizada sob as condições
próprias de suas contradições internas. Ao modificar táticas e alianças, a própria
estratégia metamorfosear-se-ia em uma estratégia nacional, democrática e popular. A
realização desta estratégia parece ter passado pela constituição do que Florestan
Fernandes chamou de uma ―democracia de cooptação‖ no Brasil, e pelo processo de
transformismo das suas direções políticas.
b) A estratégia democrática e popular guarda elos de ruptura e continuidade
com a estratégia democrática e nacional, num sentido de superação-conservação-

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reapresentação. A estratégia socialista seria uma maneira de superar o impasse posto
pela tensão entre ―acúmulo de força‖ e ―etapa‖ – ambas prisioneiras do mesmo
pressuposto, qual seja, a ―imaturidade para a transição socialista‖.
c) A permanente tensão entre ―permanentismo‖ e ―etapismo‖ correspondentes às
estratégias socialistas para revolução brasileira pode, atualmente, ser avaliada em um
novo patamar: a partir do encerramento deste ciclo é possível recolocar, em outra
qualidade, os desafios para superação do capitalismo no Brasil.
d) Os caminhos e descaminhos da história brasileira já demonstram que a
―democratização‖ não passa de uma idealização. Em tempos de avanço generalizado do
capital-imperialismo e fim do pacto fordista, o Brasil pode ser hoje considerado, como
diz Arantes (2004), o ―país do futuro‖. Dito isto, tornou-se, agora, uma espécie de
futuro possível em tempos de regressão social generalizada.
e) Neste contexto, apresenta-se, mais evidentemente do que nunca, a necessidade
de superar estratégias que apostaram na não atualidade da transformação socialista.
A lógica que subjaz a percepção da ordem capitalista enquanto processo
progressivo de liberdade arma um nó intelectual involuntário, de tal sorte seu desarme
torna-se complexo e delicado. Encarando os fios condutores da teoria social expressa no
mais alto ponto ao qual ela se propõe chegar, ou seja, numa teoria de subversão e
ruptura com a ordem, testemunhamos a teleologia contida neste reino virtuoso das
―liberdades‖ capitalistas, inclusive quando empregadas no parâmetro típico-ideal da
revolução burguesa. Neste sentido, a teleologia que impede as desruptivas revoluções
fora da ordem impôs-se no Brasil de forma prática e severa.
É compreensível, destarte, que a teoria social brasileira tenha se prendido às
grades do liberalismo, através de duas ordens de fatores: uma percepção particular do
capitalismo brasileiro e a interpretação sobre sua via de desenvolvimento Elementos
que, imbricados, terão relação direta com a natureza e as tarefas pertinentes ao
encadeamento da revolução. Neste sentido, a ausência de uma revolução burguesa típica
e as características específicas de nosso capitalismo deveriam ser suplantadas, pois a
falta de igualdade social, ao invés de percebida como resultado das próprias relações
capitalistas, passa a ser tratada como insuficiência: um capitalismo sem revolução
burguesa e portanto ―fora do lugar‖.
Do nosso ponto de vista, tal conclusão baseia-se, fundamentalmente, em uma
leitura pautada na perspectiva nacional, que, na contramão da compreensão sobre a
expansão do capital-imperialismo, entende o acirramento da desigualdade – fruto da

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socialização da economia capitalista – como incompletude. No seu bojo encontramos,
ainda, dois pilares que precisam ser apreendidos em sentido crítico: uma percepção
processual da democracia e uma adesão à igualdade formal do mercado, em especial do
mercado de consumo.
Ao realizar-se, a estratégia democrática e popular revelará sua semelhança com
toda tradição da esquerda anterior. Carente, no entanto, da ampliação do seu mercado
interno de consumo e da democratização das relações entre Estado e sociedade civil sob
hegemonia e protagonismo dos trabalhadores, seria sua tarefa efetivar, ainda, os
compromissos da revolução burguesa não realizada. Dessa forma, o capitalismo sem
revolução burguesa, essa forma ―estranha‖, encontraria, enfim, a hegemonia numa
democracia de cooptação.
Vejamos, a partir daqui, o processo histórico pelo qual a incompletude do
capitalismo marca o evolver da estratégia democrática e popular do PT.

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Capítulo 1
Criadores e criações: a questão das estratégias

1.1 Introdução: método e estratégia

Até o presente momento os homens sempre fizeram falsas representações


sobre si mesmos, sobre o que são ou deveriam ser. Organizaram suas
relações em função de representações que faziam de Deus, do homem normal
etc. Os produtos de sua cabeça acabaram por se impor à sua própria
cabeça. Eles, os criadores, renderam-se às suas próprias criações.
Libertemo-los, pois, das quimeras, sob o jugo dos quais definham.
Revoltemo-nos contra este predomínio dos pensamentos. Ensinemos os
homens a substituir estas fantasias por pensamentos que correspondam à
essência do homem, diz um, a comportar-se criticamente para com elas, diz
um outro; a expurgá-las do cérebro, diz um terceiro – e a realidade existente
cairá por terra (MARX; ENGELS, 1977, p. 17).

O trabalho que aqui se segue tem o materialismo histórico dialético como


método de análise, método que se afirma a partir de duas premissas fundamentais: o
pressuposto materialista e a lógica dialética. A primeira premissa, seu pressuposto, é o
determinante material orientado pelo conjunto das relações sociais construídas pelos
homens para produção de suas vidas. A segunda, a lógica dialética, é uma substancial
mudança na maneira de organizar o pensamento, como processo de totalização em
movimento, e não segundo sistemas teórico-filosóficos estáticos.
Sendo o primeiro pressuposto material da vida a própria produção da vida1, ou
seja, a produção dos meios que permitem satisfazer às necessidades da vida humana, o
trabalho enquanto transformação histórica pela ação humana é o primeiro ato de
produção dos meios de satisfação das necessidades e, portanto, fundante do ser social.
Ao pressuposto materialista no conjunto do método, decisivo para tornar o real a base
sobre a qual esse mesmo método se ergue, soma-se a lógica do movimento, a dialética.
Para uma aproximação com tal lógica de organização do pensamento, foquemo-nos nos
argumentos que apontam como a materialidade tomada isoladamente não chegaria a
permitir a apreensão da atividade humana enquanto práxis.
Em seu debate com Proudhon2, Marx observa que este socialista francês operaria
uma abstração frente a relações reais de produção, tendo como princípio o tratamento

1
O primeiro pressuposto da vida é a própria vida no seu sentido biológico. Esta própria vida é, entretanto,
condicionada por determinada relação social, que permite as condições de sua reprodução.
2
A polêmica de Marx com Proudhon a que nos referimos se encontra em A miséria da filosofia (1847). As
contradições de Proudhon apresentadas no seu ―Sistema das contradições econômicas ou filosofia da
miséria‖ permite que Marx discorde do filósofo em um triplo aspecto: no que diz respeito às categorias
econômicas por ele expostas; em relação às conclusões que delas deriva para luta revolucionária e ao

20
que dava às categorias econômicas. Proudhon acreditava ter descoberto a forma de
tratar as relações econômicas a partir de uma sucessão lógica de fases da própria
economia, abstraindo que os homens, calcados nestas mesmas relações sociais, é que
edificariam tais categorias. Marx, em contraposição, as percebia enquanto produtos
históricos transitórios e finitos pelo movimento de sua transformação, movimento de
relações sociais humanas e não do movimento da razão pura. Logo, questionando as
relações econômicas tomadas enquanto fases organizadamente engendradas, Marx
ressalta, em contraponto, a perspectiva da totalidade: todas as relações coexistem,
sustentando-se, simultaneamente, umas nas outras. As categorias econômicas e a razão
independente das relações sociais, em um sentido geral de etapas, resulta da supressão
do movimento histórico da economia, lógica positivada que age de forma subjacente à
edificação destas próprias categorias.
Pautado em uma antinomia do ―bom‖ (igualdade) contra o ―mau‖
(desigualdade), Proudhon procurava na liquidação do ―lado mau‖ a supressão das
contradições sociais do capitalismo. A conservação do que o capital supostamente teria
produzido de ―positivo‖, extinguindo seu lado ―negativo‖, pautava-se, por sua vez, na
expectativa utópico-reformista da conciliação entre economia política e socialismo,
numa arbitrária e hipostasiada ―lei orgânica‖, apartada do processo histórico. Para se
impor historicamente, afirma Marx, a burguesia não teria se perguntado sobre o lado
bom ou mau das relações econômicas. Em verdade, esta teria incorporado as forças
produtivas desenvolvidas no feudalismo, destruído todas as formas econômicas antigas
e a sociedade civil a elas correspondente, assim como o Estado político que oficialmente
as expressariam. O movimento da história não se findaria pela supressão das
contradições por um sistema econômico ou filosófico que pairasse acima das relações
sociais, ou, numa síntese composta de economia política burguesa, idealismo alemão e
utopia comunista, que veria no lado ―bom‖ a passagem ao ―interesse geral‖.
Para o marxismo, a produção capitalista é uma estrutura unitariamente articulada
sobre a perspectiva da totalidade em movimento, ou seja, mais um ―processo de
totalização do que a totalidade enquanto produto‖ (IASI, 2006, p. 75). O todo do

método utilizado para examiná-las. No último aspecto, Proudhon ainda permitirá que Marx continue seu
acerto de contas não com ele, mas com Hegel. Marx ironiza o método em Proudhon: “Se o inglês
transforma homens em chapéus, o alemão transforma o chapéu em ideias. O inglês é Ricardo, banqueiro
rico e distinto economista; o Alemão é Hegel, simples professor de filosofia na universidade de Berlim”
(MARX, 2009, p. 119). Numa crítica ácida e irônica à economia política de Proudhon e ao método que
ele emprega, considera-os como uma reprodução da teoria econômica clássica de Ricardo unida ao
método filosófico idealista alemão.

21
movimento da relação capitalista é vivo e só existe em relação: nas mediações das
atividades históricas expressas por seres sociais em interação. A dialética interna da
relação-capital3 – a emergência de classes sociais fundamentais, as lutas entre elas, o
mecanismo de expropriação do trabalho, expansão, internacionalização e incremento
das forças produtivas, a emergência das crises, dentre outros – pode até vir a se
expressar como momento estático no pensamento, através de categorias e conceitos,
mas trata-se, sobretudo, de uma totalidade viva e em movimento.
Revisando três fontes, o arcabouço teórico marxista se relacionou criticamente –
incorporando e superando – o pensamento filosófico alemão, o pensamento político
francês e o pensamento econômico inglês. Sobre esses três pilares o método teórico-
crítico de Marx se edifica, analisando, em sua obra mais acabada, o movimento d‘O
Capital: não só como meio de compreensão da realidade, mas como instrumento para
sua transformação. A ―lógica de O Capital‖, como chamou Lênin, é a própria lógica do
reconhecimento do movimento de suas contradições, fato que permite a compreensão de
causalidades materialmente determinadas e historicamente objetivadas no sentido de sua
superação. Em outras palavras: método e lógica da relação-capital, método e lógica de
uma estratégia de superação do capital, método e lógica da revolução.
Marx e Engels, ao depreenderem que ―não é a crítica, mas a revolução a força
motriz da história‖ (1984, p. 56), mostram como a transformação está sobre o solo da
práxis do sujeito revolucionário. Não à toa ideias revolucionárias como as deles
pressupunham a existência de uma práxis da classe que, mesmo incipiente, dava a base
real para essas representações. A ―forma enfim encontrada‖, ou seja, a conformação de
uma classe revolucionária que nasceria do solo histórico da luta entre classes e que se
colocaria enquanto força social para supressão da relação-capital, só poderia ser fruto da
ação revolucionária transformadora.
As representações em geral refletem, se levamos em conta a relação material de
uma sociedade burguesa, a dominação a elas correspondente. Esse mecanismo,
chamado por Marx de alienação4, não pode, na pressa de encurtarmos seu caminho

3
Acompanhando Fontes (2010, p. 46), utilizaremos a categoria ―relação-capital‖ para conceituar o
conjunto da sociabilidade que afiança o traço permanente e específico da relação capitalista: ―sua
necessidade imperativa de reprodução ampliada, sua expansão em todas as dimensões da vida social‖ (p.
146).
4
O conceito de alienação é retomado em Marx para descrever o processo pelo qual, em uma sociedade
capitalista de produção – onde as relações são baseadas na propriedade privada dos meios de produção e
no assalariamento da força de trabalho –, são geradas as condições para que a atividade humana
―trabalho‖ se desumanize.

22
explicativo, ser compreendido de forma idealista. Não se tratam de representações
falseadas que serão combatidas ou suprimidas por ideias boas, mas de um processo que
se reflete nas relações reais, e também na filosofia e na representação de mundo,
apresentando-se de maneira relativamente autônoma frente ao real.
Esta alienação – para usar um termo compreensível aos filósofos – pode ser
superada, naturalmente, apenas sob dois pressupostos práticos. Para que ela
se torne um poder ―insuportável‖, isto é, um poder contra o qual se faz uma
revolução, é necessário que tenha produzido a massa da humanidade como
massa totalmente ―destituída de propriedade‖ e que se encontre, ao mesmo
tempo, em contradição com um mundo de riquezas e de cultura existente de
fato – coisas que pressupõem, em ambos os casos, um grande incremento da
força produtiva, ou seja, um alto grau de seu desenvolvimento; por outro
lado, este desenvolvimento das forças produtivas (que contém
simultaneamente uma verdadeira existência humana empírica, dada num
plano histórico-mundial e não na vida puramente local dos homens) é um
pressuposto prático, absolutamente necessário, porque, sem ele, apenas
generalizar-se-ia a escassez e, portanto, com a carência, recomeçaria
novamente a luta pelo necessário e toda a imundície anterior seria
restabelecida; além disso, porque apenas com este desenvolvimento universal
das forças produtivas dá-se um intercambio universal dos homens, em
virtude do qual, de um lado, o fenômeno da massa ―destituída de
propriedade‖ se produz simultaneamente em todos os povos (concorrência
universal) (MARX; ENGELS, 1984, p. 50, grifos nossos).

O comunismo não é para nós um estado que deve ser estabelecido, um ideal
para o qual a realidade terá que se dirigir. Denominamos comunismo o
movimento real que supera o estado de coisas atual. As condições desse
movimento resultam de pressupostos atualmente existentes. Além disso, a
massa dos simples trabalhadores – força de trabalho excluída em massa do
capital ou de qualquer outra satisfação limitada – pressupõe o mercado
mundial; e, portanto, pressupõe também a perda, não mais temporária e
resultante da concorrência, deste próprio trabalho como uma fonte segura de
vida (MARX; ENGELS, 1984, p. 52, grifos nossos).

O objeto desta tese, a estratégia para revolução, encontra-se calcado na


materialidade sobre a qual se ergue a revolução. A representação das relações sociais
dos homens reflete as relações dominantes, e eis por que sua superação está imbricada e
embaralhada à práxis revolucionária e à teoria prático-crítica: para que, em movimento,
se coloquem as possibilidades da superação teórica e prática.
Introdutoriamente, portanto, o sentido geral deste capítulo teórico-metodológico
é o de frisar que as categorias não são eternas, tanto o quanto não são as relações que
elas expressam. São produtos de relações históricas e transitórias, cuja análise da
historicidade concreta não prescinde da captação de sua dialética interna, suas
contradições e lutas. Avizinhar as relações entre o objeto aqui em questão – a estratégia
– e o método, portanto, é fincar as balizas para observação, posterior, de sua prática em
movimento.

23
1.2 A estratégia em movimento

O conjunto de relações imbricadas ao desenvolvimento da relação social


burguesa, o desenvolvimento de novas relações de produção, divisão do trabalho,
classes sociais a elas correspondentes, representação de mundo e um novo Estado são
pontos de partida para a análise da formação social capitalista e sua manifestação
histórica singular. Ao mesmo tempo, como negação-superação, este exame é chave para
a formulação das estratégias socialistas, sua natureza e seu caráter.
Tomando os fenômenos enquanto marco inicial, e de chegada, no processo de
conhecimento do real, não podemos desconhecer sua dialética: ―o mais importante é a
lei de sua transformação, de seu desenvolvimento, as transições de uma forma para
outra‖ (IASI, 2007, p. 12). Neste sentido, se a revolução burguesa fosse lida sem seu
movimento, estancar-se-ia em comparativos paradigmas clássicos e não clássicos5. Sem
dúvida, esses parâmetros permitem vislumbrar o devir, sendo, portanto, importante
referência analítica. Porém, além deles, determinantes próprios e específicos das
situações histórico-sociais particulares são fundamentais para compreensão da forma
que a luta entre classes se manifesta em cada quadrante do mundo. Longe de uma
concepção mecânica, para Marx, o processo histórico é síntese de múltiplas
determinações e precisa ser analisado sob suas características singulares, que,
preenchidas pela particularidade, elevam o fenômeno à totalidade – e nos proporciona
entender o desenvolvimento como um processo em permanente complexificação.
Neste sentido, os modelos clássicos e não clássicos de revolução burguesa não
podem nem devem servir como ―tipos ideais‖ abstratos, camisas de força analítica ou
comparativa. Caso assim o fossem, impetrariam como efeito colateral ―medidores‖ de
suficiências ou completudes, procedimento característico de uma démarche da visão

5
A comparação do caso brasileiro é calcada nos modelos não clássicos de revolução. Os conceitos de via
prussiana ou revolução passiva fazem paralelo com as características apontadas por Lênin sobre o
processo de revolução na Alemanha e na Rússia, e por Gramsci sobre a revolução Italiana. A questão
aqui, no entanto, é como se aborda esse tema sob uma perspectiva estanque, representando a revolução
burguesa – e, consequentemente, o próprio capitalismo – como ―incompletos‖. Essa premissa
comparativa acaba tendo nas revoluções burguesas clássicas um parâmetro fundamental, fazendo com que
se reconheça o caráter não clássico de nossa revolução burguesa, mas recoloque-se, muitas vezes de
forma sub-reptícia, tarefas democrático-burguesas como premissas ao desenvolvimento da relação-
capital. Neste sentido, mesmo que o capitalismo seja altamente desenvolvimento histórico –
mundialmente e localmente – a revolução burguesa ainda aparece como condição sine qua non para uma
suposta emancipação política e econômica, igualdade formal que não passa de abstração supostamente
universal.

24
liberal das ciências políticas6, para a qual os modelos comparativos ganham autonomia
frente ao real. Essa maneira de abordar o problema, ademais, tenderia a confirmar ou
refutar o grau de desenvolvimento do capitalismo aqui e acolá – segundo um suposto
arremate de sua base econômica, das relações político-jurídicas e até mesmo de
consciência erguidos sob o alicerce supostamente ―adequado‖ à relação-capital.
Essa forma de proceder, que deveria ser, no mínimo, ponto inicial para um novo
e aprofundado détour metodológico, será um dos terrenos árduos subjacente ao caminho
que o debate sobre a estratégia socialista encontrou-se imbricado, em especial na
caracterização de realidades sociais como a brasileira, a partir de modelos teórico-
político de ―modernização‖, ―desenvolvimento‖ e ―ocidentalização‖. Ou mesmo na
forma específica de se tomar a particularidade e a mediação singular-universal.
A estratégia refere-se, como já assinalado, à práxis de uma classe social no
movimento de contrapor-se à lógica social do capital: ―os filósofos se limitaram a
interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo‖ (MARX;
ENGELS, 1977, p. 14). A estratégia socialista é um meio de apreensão de um processo
histórico, do movimento do que era, o que é, e o que tende a ser sintetizado na
construção de um projeto político que modifique o rumo do devir histórico alienado da
relação-capital. Para ultrapassar o movimento reprodutivo da imediaticidade da relação
social capitalista, a estratégia é necessariamente élan do processo da consciência7 da
classe social em processo de luta, e da edificação de um projeto de emancipação
humana.

6
Tal procedimento é utilizado pelas ciências políticas que procuram medir os sistemas democráticos e
compará-los em modelos (quase ―virtuosos‖), buscando a forma política mais adequada aos regimes
democráticos. Essa perspectiva, além de permeada por limites teóricos evidentes, convencionou um
padrão formalista de análise, buscando nas expressões institucionais sistemas mais ou menos adequados
para desempenho de governos. Talvez seja interessante notar, abstraindo a apologia de uma política
modernizante embutida nestes estudos, que, independente da natureza das regras e práticas das
―democracias‖, estas apresentam uma variedade amplíssima de instituições formais, traindo, portanto, o
próprio ―medidor‖ de democracia arrolado por suas próprias teorias. Esta conclusão parece indicar que a
forma de regime se encontra sempre referenciada no conteúdo do Estado, mas sobre ele garante relativa
autonomia. A própria forma de governo – muitas vezes analisada equivocadamente no pensamento social
brasileiro como ―forma de Estado‖ – é sempre resultado da correlação de forças entre classes em
determinado período histórico. A análise crítica, que embrionariamente ensaiamos, se refere ao estudo de
matriz liberal que se encontra na obra de Arend Lijphart (2003).
7
―Neste sentido procuraremos entender o fenômeno da consciência como um movimento e não como
algo dado. Sabemos que só é possível conhecer algo se o inserirmos na história de sua formação, ou seja,
no processo pelo qual ela se tornou o que é. Assim é também com a consciência, ela não ―é‖, ―se torna‖.
Amadurece por fases distintas que se superam, através de formas que se rompem gerando novas que já
indicam elementos de seus futuros impasses e superações. Longe de qualquer linearidade, a consciência
se movimenta trazendo consigo elementos de fases superadas, retomando aparentemente, as formas que
abandonou.‖ (IASI, 2007, p. 5).

25
A mediação da classe social é, nas sociedades capitalistas, a unidade
fundamental a qual se vinculam os indivíduos enquanto seres sociais. O ser social, por
sua vez, é fruto da materialidade das relações de produção que constituem sua
sociabilidade, relações humanas concretas, necessárias, porém independentes da
vontade dos indivíduos particulares. Assim, a possibilidade de transformação social e de
conformação de uma estratégia para revolução só é plausível se mediada pelo sujeito
coletivo – a classe social – e seus instrumentos de luta, como os movimentos, as
organizações e os partidos políticos. A conformação do instrumento da classe, em
especial o partido político, remete ao evolver do movimento da consciência da classe,
tendo na consolidação da organização e na configuração de uma estratégia
revolucionária, pontos altos de culminância de consciência.
Soma-se aos determinantes práticos de uma estratégia, ainda, o movimento de
configuração da classe trabalhadora enquanto classe revolucionária (movimento de
consciência) e a criação de instrumentos coletivos que universalizem a luta dessa classe
– ou seja, a constituição do sujeito revolucionário. Neste sentido é que formas
organizativas que a classe construirá para enfrentar sua luta se expressarão no
movimento de consciência da classe e na criação de instrumentos políticos, assim como
deles será expressão.
Todo esse processo eminentemente dialético se apresenta enquanto expressão do
movimento real: ―móvel, múltiplo, diverso e contraditório‖ (LEFEBVRE, 1975, p. 170).
Destarte, ele se insere num terreno imprevisível, fazendo com que os instrumentos da
classe, a cada passo, confrontem-se com desafios que indagam novas respostas,
respostas que dão origem às táticas. As táticas, por sua vez, se referem a ―cada
momento do processo de luta, ou seja, a cada um dos confrontos tomados em sua
singularidade‖ (SOUZA, 2013, p. 4).
A teoria que expressará o conjunto de elementos motivados por uma
configuração estratégica8 tem como meta o objetivo estratégico, e como meio as
tarefas necessárias à ação prática da classe, que se articulam coerentemente à natureza
da revolução. Estes aspectos, ademais, estão em relação com determinada leitura da

8
Uma configuração estratégica não pode ser entendida como resultado imediato de uma resolução
política ou de momentos específicos do debate pelo qual passa o instrumento político da classe
trabalhadora. Esta só pode ser apreendida, em seu âmago, se observada no devir de seu movimento,
enquanto síntese do conjunto das suas opções táticas, objetivos estratégicos, natureza da revolução,
programa de ação, via revolucionária, sujeito político (organização) e os determinantes históricos, sempre
influentes na configuração estratégica.

26
formação social particular, forma (e conteúdo) do Estado, das classes antagônicas e
aliadas e da correlação de forças entre elas. Estes três elementos, além de expressão
objetiva da materialidade na qual se insere a práxis histórica da classe, são unidade
indivisível entre as relações sociais de produção e o desenvolvimento da relação social
que expressam.
Tais aspectos interagem, mas, como é característico dos processos de
objetivação do ser social, não de maneira linear, o que possibilita que o objetivo
estratégico em uma determinada configuração seja o socialismo, mas que a natureza da
revolução e as tarefas necessárias à transição permaneçam restritas aos limites de um
conteúdo burguês. Essa será uma das controvérsias mais importantes no que diz respeito
ao tema da revolução socialista brasileira ao longo de todo século XX, um dos
principais aspectos de mediação da estratégia democrática e nacional e da estratégia
democrática e popular que abordaremos nesta tese. Natureza da estratégia, tarefas a ela
pertinentes e seu encadeamento com a teoria, o programa e o objetivo estratégico são
indissociáveis em uma configuração estratégica, ainda que permitam, nas suas diversas
interações, ampla flexibilidade tática.
Como último aporte, soma-se ao tema a questão da via revolucionária. Esta se
comporta como a ―forma‖ mais adequada para atingir os objetivos traçados pela
estratégia. Ela pode ser institucional-legal ou insurrecional, implicando sua articulação
em torno de métodos distintos de ação: rupturistas ou pacíficos, legais ou não, ou, até
mesmo, através de uma combinação. Pode, também, ser fundada na articulação entre
estes distintos elementos, como, por exemplo, a de duplo poder – poder legal-
institucional e poder popular paralelo. A via, ainda, se define em interação com os
demais fatores influentes na configuração estratégica, sendo que, nela, estes têm um
destaque determinante.
A consolidação da estratégia socialista, por sua vez, é tomada neste trabalho
como um movimento histórico que articula as múltiplas determinações em uma
configuração estratégica. O desfecho de uma configuração estratégica, ou seja, sua
realização (ainda que vitoriosa ou não)9, contém os elementos que revelam, em seu

9
Como vimos, um conjunto de variáveis influenciam e são influenciadas no processo de consolidação da
estratégia, fazendo com que, obviamente, não se possa atribuir seu ―sucesso‖ ou ―fracasso‖ a uma única
determinação. Supomos, entretanto, que há determinantes fundamentais para a forma como se configura
uma estratégia. Dentre elas, a que aqui destacaremos diz respeito à leitura sobre a relação-social
capitalista, ao seu grau de desenvolvimento e à materialidade destas relações, e, consequentemente, a
tarefas e natureza da estratégia em questão.

27
movimento, os limites e as possibilidades históricas nela inscritos. Seu sentido e sua
compreensão só podem ser apreendidos a partir de um novo détour a seu movimento
pregresso, agora analisado sob novo ponto de partida: seu ponto de chegada e, portanto,
seu momento mais desenvolvido.
A noção de estratégia aqui trabalhada se encontra também indissociavelmente
casada a de ciclo histórico, que nos remete ao ascenso e descenso do movimento da
estratégia mesma. Da maneira como empregamos aqui, uma estratégia não se define
pelo modo ideal que é formulada, mas como uma síntese do comportamento da classe
portadora do objetivo de emancipação em um determinado período. Ainda, o evolver de
sua consciência nada guarda de teleológico, linear ou progressivo, pois resguarda a
possibilidade de avanços e retrocessos, de negação da consciência restrita aos limites da
ordem até sua conformação e consentimento aos limites impostos por essa ordem
mesma. É por isso que esse ―comportamento‖ não se reduz aos aspectos meramente
objetivos e subjetivos10 nele refletidos, sendo ―uma síntese que expressa a maneira
como uma classe busca compreender sua formação social e agir sobre ela na perspectiva
de sua transformação‖ (IASI, 2013, p. 3). É, portanto, o seu projeto político de
transformação.
A categoria de ciclo histórico permite perceber a estratégia do instrumento
hegemônico da classe em determinado período histórico. Supomos que a assunção de
posição dirigente frente a um determinado ciclo se relacione com sua fidelidade à
materialidade das relações objetivas e com o caldo de cultura analítico-teórico que
expressa, permitindo que se conforme como forma de consciência de hegemônica.
Opera, neste sentido, como um espelho – em maior grau fidedigno – das necessidades,
possibilidades, experiências e sínteses teóricas da própria classe, alcançando um grau de
fusão e massificação no seio dela própria.
É fato que, quando toma lugar na massa, a teoria revolucionária passa a ter
caráter de força material, ou seja, se reencontra com a classe num processo consciente,
de qualidade distinta do anterior. Mas a classe só poderá alçar a emancipação humana
num processo de consciência que não é fruto imediatamente dos pressupostos teóricos a

10
―(...) Acreditamos que as coisas não são tão simples, trata-se de uma síntese de fatores subjetivos e
objetivos, mas é preciso refletir sobre a objetividade contida nos ditos fatores subjetivos, da mesma
forma que a maneira como a ação política da classe e suas direções incide concretamente no desenho
final da objetividade que determinou esta ação. Por isso, quando falamos de um determinado
comportamento da classe trabalhadora, devemos relacioná-lo à uma estratégia determinante em um certo
período histórico, não como uma escolha arbitrária de uma certa direção ou vanguarda (...)‖ (IASI, 2013,
p. 3, grifos nossos).

28
que se vincula, mas do movimento de sua luta como classe. A teoria capta e interpreta a
realidade dinâmica como um movimento contraditório e delineia as tendências do seu
evolver, informando e subsidiando a leitura prático-crítica subjacente à estratégia. O
ascenso e descenso da luta entre as classes é, por sua vez, o fermento sobre o qual
crescem as alternativas estratégias da classe.
No Brasil, dois grandes ciclos históricos se relacionam com as configurações
estratégicas e o movimento real experimentado pela classe trabalhadora: do início da
década de 1920 a meados da década de 1960, referente à estratégia democrática e
nacional do Partido Comunista (PCB); e, posteriormente, do final da década de 1970 até
o período atual, o da estratégia democrática e popular do Partido dos Trabalhadores
(PT). Tais experiências parecem apontar para coincidências importantes que, em pleno
fechamento deste segundo ciclo11 facultam novas conexões ao tema das estratégias no
Brasil.
Vale ressaltar que a análise do ciclo histórico, a partir de instrumentos e da
estratégia hegemônica, não visa desconsiderar as organizações políticas que não
galgaram hegemonia no seio da classe. Entretanto, busca compreender, a partir do
estudo destas últimas, as contradições que marcam o dramático e custoso processo de
superação do capitalismo.

1.3 Controvérsias sobre a estratégia

(...) uma forma política inteiramente expansiva, ao passo que todas as


formas anteriores de governo tem sido marcadamente repressivas. Era este o
seu verdadeiro segredo: ela era essencialmente um governo da classe
operária, o produto da luta da classe produtora contra a apropriadora, a
forma política finalmente descoberta, com a qual se realiza a emancipação
econômica do trabalho (MARX, 2013, p. 59, grifos nossos).

Cada passo do movimento real é mais importante do que uma dúzia de


programas (MARX, 2012, p. 19).

O objetivo desta parte é de sumariar a questão da estratégia em alguns clássicos


do marxismo. Sabemos que não será possível esgotar e nem abordar todos os autores
que contribuíram com o tema. Por outro lado, a abordagem exclusivamente teórica não
permite capturar o vivo contexto que proporcionou suas análises: o movimento próprio

11
Afirmamos que este é um ―fechamento‖ em consonância à análise fundada na estratégia enquanto
processo. Assim, o encerramento definitivo de um ciclo só é possível a partir da consolidação de uma
nova estratégia que ganhe hegemonia na classe trabalhadora, suplantando, assim, a estratégia do ciclo
histórico anterior.

29
do real. Assim, acreditamos que esse panorama serve como painel das controvérsias que
se expressam em torno do tema da estratégia, um ponto de partida para outras
discussões que serão, inevitavelmente, retomadas no bojo desta tese.
Ainda que a Revolução Russa de 1917 tenha significado novo fôlego para a
estratégia revolucionária na periferia do mundo capitalista, a questão da natureza ou do
caráter da revolução já fazia parte do élan das mediações decisivas das análises prático-
críticas dos fundadores do marxismo. A questão da natureza da revolução, mediação
fundamental entre teoria e prática, está decisivamente relacionada e intimamente ligada
à problemática das etapas da revolução, foco sobre o qual centraremos a análise deste
item. Isto porque elas medeiam uma leitura sobre a formação social, ao mesmo tempo
em que influenciam a consolidação das táticas, formas organizativas, tarefas, dentre
outros elementos que interagem na configuração estratégica.
A natureza da estratégia se relaciona, sobretudo, com processo pelo qual se
compreende a materialidade das relações sociais e a transição para o socialismo.
Oficialmente, a questão das etapas12 se universaliza via Internacional Comunista (IC) a
partir das diretrizes13 político-revolucionárias para os países coloniais, semicoloniais e
dependentes14, fruto do VI Congresso da Internacional Comunista, de 1928. Ao afirmar,
em seu 8º item, que ―a revolução mundial do proletariado é resultado de processos de
naturezas diversas que se efetuam em períodos distintos‖, o documento passa a
caracterizar três tipos fundamentais de revolução. O primeiro para ―países de
capitalismo de tipo superior‖, como EUA, Alemanha e Inglaterra; o segundo para
―países de nível médio de desenvolvimento do capitalismo‖, tal qual Espanha, Portugal,
Polônia e Hungria; e o terceiro mais diretamente relacionado ao Brasil e formações
sociais de seu mesmo ―tipo‖:
c) países coloniais e semicoloniais, como China e Índia e os países
dependentes como Argentina e Brasil, onde estão presentes germens de
indústrias ou existe desenvolvimento industrial considerável, mas insuficiente
para edificação independente do socialismo. Nesses países predominam

12
Trataremos como ―etapismo‖ uma sucessão preestabelecida de etapas econômico-sociais da revolução
burguesa como condição sine qua non para revolução proletária. Supondo uma tensão não resolvida entre
permanentismo e etapismo nas obras de Marx e Engels, Löwy (1978) analisou essa controvérsia no texto
―Revolução burguesa e revolução permanente em Marx e Engels‖.
13
Como desdobramento das discussões da Internacional ao longo dos anos 1920 – sobretudo do II e IV
Congressos, de 1920 e de 1922 –, em 1928, no VI Congresso, seriam estabelecidas tais diretrizes. Além
disso, as amplas alianças com as burguesias nacionais supostamente ―progressistas‖ formaram parte da
tática geral do movimento comunista internacional após 1935, quando do VII congresso do Comintern.
14
Essa análise é resultado de debate nos congressos anteriores da IC sobre a questão da revolução em
países orientais e com as revoltas em países coloniais e dependentes. O VI Congresso é
fundamentalmente impactado pela derrota dos comunistas na China.

30
relações de modo de produção asiático ou relações feudais-medievais, na
economia e na superestrutura política, nas quais a concentração dos meios
produtivos encontram-se nas mãos de grupos imperialistas: as empresas
industriais, o comercio, os bancos mais importantes, os meios de transportes, o
latifúndio etc. Nesses países a luta fundamental é contra o feudalismo e contra
as formas pré-capitalistas de produção, em que constituem objetivos
consequentes a luta pelo desenvolvimento agrário, a luta anti-imperialista e a
luta pela independência nacional. Sendo assim, a luta pelo socialismo somente
será viável mediante uma série de etapas preparatórias e como resultado de
um grande período de transformação da revolução democrático-burguesa em
revolução socialista (PROGRAMA DE LA INTERNACIONAL
COMUNISTA apud MAZZEO, 1999, p. 286, grifos nossos).

Partindo do pressuposto de que o processo revolucionário não poderia se realizar


imediatamente nestes países, a tese da natureza democrática e nacional da primeira
etapa da revolução se delineava. Nela, se anteporia à revolução propriamente socialista
uma etapa de conteúdo anti-imperialista e antifeudal, pois o imperialismo e seus
agentes, principais obstáculos ao desenvolvimento (interno), sustentavam relações
semifeudais no campo, base da dependência nacional ao imperialismo.
Em Marx e Engels o tema da revolução remete à consciência de classe, onde a
relação entre o florescimento de insurreições e movimentos dos trabalhadores 15 é o solo
da superação da concepção idealista da história.
Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta casual de tal ou
qual intelecto genial, mas como o produto necessário da luta entre as duas
classes formadas historicamente (...). Sua missão já não era elaborar um
sistema o mais perfeito possível da sociedade, mas investigar o processo
histórico econômico de que, forçosamente, tinham que brotar essas classes e
seu conflito (...). Mas o socialismo tradicional era incompatível com essa
nova concepção materialista da história, tanto quanto a concepção da
natureza do materialismo Francês não podia ajustar-se à dialética e às novas
ciências naturais. Com efeito, o socialismo anterior criticava o modo de
produção capitalista existente e suas consequências, mas não conseguia
explicá-lo nem podia, portanto, destruí-lo ideologicamente; nada mais lhes
restava senão repudiá-lo pura e simplesmente como mau (ENGELS, 1962, p.
45, grifos nossos).

A ausência de receituários é decorrência necessária de observações calcadas


fundamentalmente no movimento do real e nas classes em luta. Será no conjunto de
observações sobre a luta de classes que poderemos extrair de Marx e Engels uma ―teoria
política‖, ou melhor, uma teoria para desconstrução da política burguesa. A questão
enfrentada por ambos dizia respeito à base real sobre a qual poderia se erguer o
processo revolucionário, ou seja, o desenvolvimento de relações sociais de produção
que, dialeticamente, produziriam o conjunto de contradições necessárias à sua

15
A insurreição de Lyon, de 1831, e o movimento cartista inglês de, 1838 a 1842, seriam os primeiros de
um longo processo de insurreições e movimentos de trabalhadores analisados pelos dois autores.

31
superação, o que já enfatizamos nos itens anteriores deste capítulo. Longe da
apologética que o termo ―científico‖ veio a adquirir – sobretudo a partir de sua
apropriação pela tradição positivista, cujos enunciados evolucionistas causaram danos
inestimáveis ao marxismo –, a preocupação dos dois autores se mostrava distante da
atribuição de princípios que pudessem remeter a qualquer sorte de modelo apriorístico
para revolução.
Tomemos a discussão sobre a natureza da revolução pelo ―fim‖. Vera
Ivanovna16, preocupada com o porvir das comunas rurais no país, escreve a Marx:
(...) é grande o serviço que vós nos prestaríeis, expondo vossas ideias sobre o
possível destino de nossa comuna rural e sobre a teoria da necessidade
histórica de que todos os países do mundo passem por todas as fases da
produção capitalista (MARX; ENGELS, 2013, p. 80, grifos nossos).

Em resposta, Marx retoma os argumentos apresentados n‘O Capital sobre o


processo de expropriação17 – separação entre produtores e meios de produção – como
um fenômeno que teria ocorrido de modo radical, àquela altura, exclusivamente na
Inglaterra e em alguns países da Europa Ocidental. No que diria respeito à Rússia em
particular, tanto a resposta de Marx à sua carta quanto o posfácio de Engels em
Questões sociais da Rússia demarcam conclusões bem distintas daquelas presentes
numa possível lógica de etapas ou fases da produção capitalista. Para ambos, na
eminência de uma revolução socialista na Rússia, seria possível estabelecer o ―livre
crescimento da comuna rural‖, como um ―regenerador da sociedade russa e como
elemento de superioridade frente aos países submetidos ao regime capitalista‖ (MARX;
ENGELS, 2013, p. 102). Complementarmente, no prefácio ao Manifesto comunista (em
sua versão russa), de 1882, os dois autores afirmam que se a revolução russa viesse a

16
Revolucionária russa, uma das fundadoras do partido social-democrata russo. À época das
correspondências (1881 e 1882), integrava o grupo Partilha Negra, e era ex-integrante dos Narodniks. As
cartas entre ela e Marx se encontram em alguns de seus últimos escritos, especialmente nas
correspondências trocadas sobre a ―Luta de classes na Rússia‖.
17
Um dos principais processos imbricados ao desenvolvimento do capitalismo é a expropriação
constante. A expropriação é parte do processo de transformação do capital em capital e, portanto, da
construção da ―relação-capital‖. Ela supõe a separação entre trabalhadores e a propriedade das condições
da realização de seu trabalho, já que a disponibilização da força de trabalho como mercadoria não está
dada caso persistam outras possibilidades de morar, se alimentar e produzir – ou seja, produzirem e
reproduzirem as suas vidas. O processo de expropriação é, neste sentido, aquele que transforma os meios
sociais de subsistência e de produção em capital e que transforma, por outro lado, os produtores diretos
em trabalhadores ―livres‖ do assalariamento e do consumo do mercado. O processo de construção da
relação-capital é desigual em seus aspectos históricos e em sua relação com cada espaço em particular,
incluindo desde a alteração incessante das formas específicas do exercício do trabalho, até o confisco da
terra, dos territórios e dos bens comuns. Esse processo do ponto de vista histórico tem sido chamado de
―acumulação primitiva‖, mas preferimos destacar, para trazer à luz seu caráter permanente, o que aqui
chamamos de ―expropriação constante‖.

32
―(...) constituir-se no sinal para revolução proletária no Ocidente (...) a atual propriedade
comum de terra na Rússia poderá servir como ponto de partida para uma evolução
comunista‖ (MARX; ENGELS, 2013, p. 135). Neste sentido, além de não afirmarem a
comuna russa como uma forma utópica de sociedade ―acabada‖ ou já ―socialista‖,
buscavam ressaltar a articulação entre socialismo e a sobrevivência das comunas, que,
frente a um processo propriamente capitalista de expropriação teriam muita dificuldade
de sobrevivência.
Marx e Engels, portanto, superam as tendências isolacionistas, utópicas,
reformistas e positivistas que se desenvolviam no seio do movimento da classe
trabalhadora. No entanto, as controvérsias por eles combatidas insistiram em
reapresentar-se no movimento socialista e comunista internacional, recolocando,
insistentemente, a questão: seria possível uma estratégia imediatamente socialista?
Objetivamente, a questão da etapa democrático-burguesa, nacional-democrática
ou democrático-nacional foi apresentada por Marx e Engels no texto ―Mensagem do
Comitê Central à Liga dos Comunistas‖, em 1850. O texto é, paradoxalmente, o
primeiro no qual os autores apontam para uma articulação dialética entre as tarefas da
revolução democrática e proletária como um só corpo ininterrupto, numa revolução que
se tornaria permanente. Cabe notar, portanto, que Marx e Engels buscavam levar a cabo
um processo revolucionário, vislumbrando, ali, a marcha lado a lado da burguesia em
todas as suas reivindicações que beneficiassem o proletariado como um salto no
processo de luta da classe. Essa síntese, fruto das observações por eles produzidas frente
a cadeia sucessória de acontecimentos iniciados em 1848, não permite, entretanto, uma
―teoria‖ estanque da estratégia, pois afirma a autonomia e a independência da classe
trabalhadora, articulando formas legais e ilegais de luta, em um duplo poder que
fundamentava a correlação de forças e a posição dirigente da classe trabalhadora.
A questão remete também a Lênin e suas apreciações sobre as tarefas socialistas
da revolução na Rússia. Para ele, seriam duas as alternativas vislumbradas para o
desenvolvimento capitalista russo:
(...) uma primeira, e que de certa forma já estava em processo, de uma via
reacionária, de modernização conservadora conduzida pela autocracia
czarista e apoiada por uma burguesia débil e ―inconsequente‖ – via
extremamente desfavorável ao proletariado e aos camponeses, autoritária e
excludente; a segunda alternativa seria a realização de uma revolução de
caráter democrático-burguês, dirigida a exemplo dos sans cullotes franceses,
pelo povo ou pelo proletariado (protagonista principal) e pelo campesinato, já
que a burguesia russa seria incapaz de conduzi-la pelos seus compromissos
com a aristocracia. Esta segunda possibilidade, ao bloquear o caminho
asiático ou a via prussiana, não só permitiria o rápido desenvolvimento do

33
capitalismo e a formação de um proletariado robusto, mas criaria condições
bem mais favoráveis para suas lutas e organização e seria o caminho mais
seguro para o socialismo (SEGATTO, 1989, grifos nossos).

O protagonismo do proletariado, no que poderia vir a ser uma ―etapa‖


democrático-burguesa remete a uma qualidade distinta de reflexões meramente
etapistas. Isso significaria afirmar que a burguesia, nos países periféricos, entraria na
cena histórica em um momento em que sua atitude enquanto classe não seria
revolucionária, sendo ―incapaz‖ de conduzir a revolução democrático-burguesa. Se
aliando à restauração para implantar ―prussianamente‖ sua ordem social, essa burguesia
não se colocaria contra a ordem. Além disso, a independência da classe trabalhadora, e
seus aliados, já presente em Marx e em Engels, e retomada em Lênin, é que permitiria o
desenrolar da revolução socialista, num encadeamento de ritmos de tarefas que
passariam a ser parte da articulação dialética da transição. Em suma, uma revolução
permanente.
Lênin ainda retomará o tema em outros momentos, como na sua análise sobre as
―Duas táticas da social-democracia na revolução democrática‖ (2006 [1905]) e em
―Esquerdismo, doença infantil do comunismo‖ (1960 [1920]). A discussão sobre as
articulações táticas, as tarefas práticas e imediatas do proletariado, e sua forma de
organização, são imbricadas à avaliação das empreitadas da classe nos marcos da
ordem, articulando-as dialeticamente com tarefas necessárias à revolução contra a
ordem. Nos textos os alvos são os próprios revolucionários, o menchevismo, os
esquerdistas alemães (espartaquistas)18 e socialistas ingleses. Lênin finca bases para
crítica tanto de uma perspectiva esquerdista, quanto daquela revisionista, duas tentações
nas quais não deveria cair a classe revolucionária se objetivasse fazer e manter a
revolução. Destaca – fundamentalmente no segundo texto – a necessidade de os
socialistas participarem dos espaços institucionais-legais burgueses e de sindicatos
reacionários, andando no ―fio da navalha‖, entre a negação completa e a participação na

18
O debate com Rosa Luxemburgo é digno de nota. Ainda que essa polêmica não recaia sobre a discussão
estratégica em sua dimensão total, um dos importantes pressupostos para configuração estratégica é, para
ela, motivo de crítica a Lênin: a questão da organização. Rosa, em ―Questões de organização da social-
democracia russa‖, questiona o desenvolvimento da ―democracia‖ na ditadura do proletariado, afirmando
que ela precisaria se calcar em uma ―democracia de massas‖ e não em uma organização super
centralizada de vanguarda. Lênin, por sua vez, expõe a impossibilidade do partido negar a disciplina
partidária, o que equivaleria a ―desarmar completamente‖ o proletariado: ―Equivale precisamente à
dispersão, instabilidade, incapacidade de dominar-se para unir-se e atuar de modo organizado, defeitos
tipicamente pequeno-burgueses, que, se formos indulgentes com eles, causam inevitavelmente a ruína de
todo movimento revolucionário do proletariado‖ (LÊNIN, 1960, p. 17).

34
ordem. Esse fio precisaria ser encarado por aqueles que almejassem construir
possibilidades revolucionárias reais e concretas.
Separada por uma lacuna de tempo e por diferentes escritos sobre as revoluções
entre 1905 e 1917, é em A história da Revolução Russa que Trotsky formula a
importante teoria do desenvolvimento desigual e combinado. A leitura é uma profícua
contraposição à tese estanque das etapas sucessórias de desenvolvimento, elemento de
análise fundamental para dar um salto de qualidade rumo à sua superação. A partir da
compreensão da singularidade dos países tidos como ―atrasados‖, a ―natureza‖ da
revolução poderá ser vista em um novo patamar:
Fica, assim, excluída a possibilidade de uma repetição das formas de
desenvolvimento em diversas nações. Na contingência de ser rebocado pelos
países adiantados, um país atrasado não se conforma com a ordem de
sucessão: o privilégio de uma situação historicamente atrasada – e este
privilégio existe – autoriza um povo ou, mais exatamente, o força a assimilar
todo o realizado, antes do prazo previsto, passando por cima de uma série de
etapas intermediárias. [...]
As leis da História nada têm em comum com os sistemas pedantescos. A
desigualdade do ritmo, que a lei mais geral do processus histórico, evidencia-
se com mais vigor e complexidade nos destinos dos países atrasados. Sob o
chicote das necessidades externas, a via retardatária vê-se na contingência de
avançar aos saltos. Desta lei universal da desigualdade dos ritmos decorre
outra lei que, por falta de denominação apropriada, chamaremos de lei do
desenvolvimento combinado, que significa aproximação das diversas etapas,
combinações das fases diferenciadas, amálgama das formas arcaicas com as
modernas. Sem esta lei, tomada, bem entendido, em todo o seu conjunto
material, é impossível compreender a história da Rússia, como em geral a de
todos os países chamados à civilização em segunda, terceira ou décima linha
(TROTSKY, 1977, p. 24-25, grifos do autor).

Tomando emprestada a definição sintética de Löwy (1995), a teoria do


desenvolvimento desigual e combinado de Trotsky é uma tentativa de ―dar conta da
lógica das contradições econômicas e sociais dos países do capitalismo periférico ou
dominados pelo imperialismo‖, aonde os ―diferentes estágios de desenvolvimento da
civilização e da economia não estão simplesmente um ao lado do outro, numa espécie
de coexistência congelada (...)‖, mas são, antes, processos que ―se articulam, se
combinam, ―se amalgamam‖: o processo do desenvolvimento capitalista, criado pela
união das condições locais (atrasadas) com as condições gerais (avançadas)‖.
Tal compreensão tem impactos na formulação estratégica revolucionária, uma
vez que, em contraposição à realização da etapa ―democrático-nacional‖, servirá como
fundamento para natureza socialista da revolução. A teoria da revolução permanente
(TROTSKY, 2007), sobre a qual se edifica o argumento, apareceu, como discorremos
anteriormente, no texto de Marx e Engels de 1850, mas foi retomada por Trotsky em

35
1906. Sem negar a necessidade de cumprir as tarefas da revolução burguesa retardatária,
Trotsky afirma que a mesma só ocorreria se protagonizada pelo proletariado – com
apoio dos camponeses. Para ele, a revolução democrática não era anterior à revolução
socialista, mas, ao contrário, parte das tarefas que só uma estratégia socialista poderia
realizar.
(...) a ditadura do proletariado tornar-se-ia a arma com a qual seriam
alcançados os objetivos históricos da revolução burguesa retardatária. Mas
esta não poderia ser contida aí. No poder, o proletariado seria obrigado a
fazer incursões cada vez mais profundas no domínio da propriedade privada
em geral, ou, seja, empreender o rumo das medidas socialistas (TROTSKY,
2007, p. 60).

Seriam as ―vantagens do atraso‖ que poderiam fazer com que as formações


periféricas pudessem saltar etapas. É nesse sentido que essas duas teorias de Trotsky são
muito relevantes, pois, através delas, podemos delimitar alguns fatores interligados à
discussão da estratégia que ultrapassam a perspectiva etapista: 1) A possibilidade da
revolução imediatamente socialista em países de formação social ―pré-capitalista‖.
Nestes países as tarefas democráticas e nacional-libertadoras só seriam concebíveis por
meio da revolução dirigida pelo proletariado em aliança com os camponeses – o
desenrolar dialético permitiria a transição ininterrupta da revolução democrática em
socialista e a efetivação de tarefas democrático-burguesas19 seria obra da revolução
proletário-camponesa; 2) A revolução socialista precisaria conter em sua lógica interna
as tarefas da revolução agrária e da questão nacional – como parte da revolução
democrática. Dada a importância do campesinato nesses países, a revolução devia
necessariamente ser obra do proletariado e do campesinato, sempre a partir do
protagonismo do primeiro. Isto porque o ―camponês segue o operário ou o burguês‖ e a
revolução só é possível com a ―ditadura do proletariado arrastando atrás de si as massas
camponesas‖; 3) a revolução democrática será colocada muito rapidamente frente a
tarefas que a transformam, em seu curso, em revolução socialista; 4) A revolução não
pode ser resolvida em quadros nacionais. A revolução socialista começa em quadros
pátrios, desenvolve-se em arena internacional e transforma-se em mundial.
Trotsky (2007), ainda, em pleno combate à generalização stalinista das etapas,
da atribuição de protagonismo ao campesinato e da afirmação da teoria do socialismo
num só país, vai sintetizar, para a conferência de fundação da IV Internacional (1938),

19
Entre essas tarefas estariam a independência e unificação nacional, a reforma agrária e a democracia
política.

36
um ―Programa de Transição‖. Nele, se parte da avaliação de efetivas condições
objetivas para revolução, estando comprometidas, porém, pela ausência de condições
subjetivas das direções socialistas e pela imaturidade do proletariado.
O programa é importante por insistir na transição não como etapa, mas como
processo de ligação entre reivindicações ―mínimas‖, essencialmente transitórias. Do
ponto de vista dos países coloniais e semicoloniais, que já viveriam em condições de
subordinação a dominação do capitalismo mundial, e que, portanto, tinham
―desenvolvimento combinado‖, as tarefas agrárias e nacionais se inter-relacionariam
com o combate ao imperialismo. Nestes, o proletariado seria constrangido a ―combinar
a luta pelas tarefas mais elementares da independência nacional e da democracia
burguesa com a luta socialista contra o imperialismo mundial‖. E, nesta ―luta, as
reivindicações da democracia, as reivindicações transitórias e as tarefas da revolução
socialista não estão separadas em épocas históricas distintas, mas procedem
imediatamente uma das outras‖ (TROTSKY, 1978 [1938]).
A diferenciação entre formações sociais se reflete também na concepção
estratégica de Antonio Gramsci. Para ele, haveria uma diferença essencial entre
formações sociais de tipo ―Orientais‖ e de tipo ―Ocidentais‖20, o que implicaria
diferentes estratégias revolucionárias. O Oriente se caracterizaria por um Estado forte e
uma sociedade civil frágil, enquanto no Ocidente, distintamente, o Estado e a sociedade
civil estariam em equilíbrio. Essas configurações ensejavam estratégias díspares,
expressas por ele nas formulações de guerra de movimento e guerra de posições. A
guerra de movimento (ou revolução popular) seria a estratégia apontada para países
orientais, nos quais haveria predomínio do Estado-coerção; já nos países ocidentais a
guerra de posições, ou a construção de ―trincheiras avançadas‖ por parte dos
revolucionários, acumularia as bases para conquista de hegemonia.
(...) a supremacia de um grupo se manifesta de dois modos, como ―domínio‖
e como ―direção intelectual e moral‖. Um grupo social domina os grupos
adversários, que visa a ―liquidar‖ ou a submeter, inclusive com a força
armada, e dirige os grupos afins e aliados. Um grupo social pode e, aliás,
deve ser dirigente já antes de conquistar o poder governamental (essa é uma
das condições fundamentais inclusive para a própria conquista do poder); e
depois quando exerce o poder e mesmo se o mantém fortemente nas mãos,
torna-se dominante, mas deve continuar a ser também ―dirigente‖
(GRAMSCI, 2002, p. 62-63).

A hegemonia em Gramsci não trata exclusivamente do processo de manifestação

20
―Na verdade, a clivagem oriente-ocidente em Gramsci possui um caráter mais histórico-temporal do
que geográfico. Ao se modernizarem, as sociedades se ocidentalizam‖ (MONTENEGRO, 2009, p. 69).

37
da classe trabalhadora em uma estratégia, ainda que este fosse seu objetivo como
revolucionário. Trata de manifestações particulares de uma classe social em análise, o
que diz respeito, também, à hegemonia burguesa. Quando uma classe é capaz de
expressar demandas universalizantes tornando-se direção ―intelectual e moral‖, ela alça
sua concepção de mundo à unidade e coerência de valores e demandas ―universais‖. O
tema, portanto, se vincula à questão da consciência de classe, da formulação consciente
– que envolve teoria e prática – relacionada à materialidade imediata em que se insere,
podendo lançar-se a um meio de alcançar a revolução política e social, ou, ao inverso, à
possibilidade de dirigir politicamente e, dentro da ordem, ter um programa que expresse
uma vontade coletiva, ou uma determinada ―concepção de mundo‖.
Do ponto de vista dos instrumentos, Gramsci vai afirmar o partido político, o
―moderno príncipe‖ como catalisador dessas concepções de mundo, organizador dos
―homens-massa‖ (momento serializado dos indivíduos) em vontade coletiva. Logo, uma
das primeiras ―tarefas‖ para formulação do instrumento e da vontade coletiva seria
justamente aferir em que condições existiriam possibilidades de se desenvolver uma
―vontade coletiva nacional-popular‖, encarando tanto o surgimento dessa vontade como
os seus limites. Na Itália, por exemplo, teria sido a força econômico-corporativa da
igreja a impedir o irromper de uma força eficiente (―jacobina‖), aquela que, em outras
nações, teria sido responsável por organizar a vontade nacional-popular. O autor aponta
a condição histórico-prática dessa vontade:
(...) na existência de grupos sociais urbanos, adequadamente desenvolvidos
no campo da produção industrial e que tenham alcançado um determinado
nível de cultura histórico-política. Qualquer formação de uma vontade
coletiva nacional-popular é impossível se as grandes massas dos camponeses
cultivadores não irrompem simultaneamente na vida política (GRAMSCI,
2000, p. 18).

A contraposição à manutenção do poder ―econômico-corporativo‖ se daria por


uma hegemonia dirigida por uma força jacobina consequente, ou, no caso de outras
representações de classes, que alcançassem hegemonia sob uma vontade coletiva
nacional-popular.
Utilizando-se das reflexões de Gramsci, o Partido Comunista Italiano
protagonizou novas formulações ao debate estratégico. A experiência soviética e da
difusão global do relatório Kruschev sobre os crimes de Stalin (1956)21 levou à

21
Relatório Kruschev sobre os crimes de Stalin foi lançado em 1956 e teve forte impacto sobre todo o
movimento comunista internacional.

38
chamada via italiana para o socialismo. A querela teve como central a discussão acerca
da ―via‖ e deu forma ao fenômeno que se convencionou chamar eurocomunismo.
Buscando diferenciar-se das experiências do ―socialismo real‖, das experiências social-
democratas e perante a experimentação da luta contra o fascismo, fermenta-se à base da
elaboração de uma via democrática para o socialismo. O debate realizado pelos
eurocomunistas pavimentou-se sobre um balanço da via, a partir de uma ligação entre
experiências insurrecionais e os caminhos ―antidemocráticos‖ do socialismo real, o que
leva a certo hipostasiamento da relação entre ambos. Apesar disso, o que se apresenta
em jogo nessas formulações é a fusão da democracia como princípio, meio e meta, não
residindo nela uma expectativa pontual, mas a percepção da ―democracia como um
valor universal‖ (TOGLIATTI, 1980)22.
Algumas formulações de Kautsky (1979) podem nos servir como ponto de
partida para nova análise. Segundo o primeiro, o proletariado, a partir da ocupação de
espaços democráticos, poderia tornar-se numeroso a ponto de alçar-se enquanto maioria
em uma determinada correlação de forças, aplicando, a partir das liberdades existentes e
da ocupação institucional, medidas de cunho socialistas. Nesta configuração, a ―ditadura
capitalista‖ teria dificuldades de reprimir ou suprimir violentamente a democracia. Em
suas palavras:
É lutando por conquistar, manter e expandir a democracia, aproveitando cada
parcela de democracia para a organização, propaganda e conquista de
reformas sociais, que o proletariado ganha maturidade (...) e se transforma da
camada mais baixa das massas populares em camada predominante
(KAUTSKY, 1979, p. 16).

Tal sorte de argumento também se encontra em Bernstein, alvejado por Rosa


Luxemburgo em ―Reforma ou Revolução‖. Nele, a autora questiona os pressupostos que
levam Bernstein a afirmar as teses de instauração do socialismo por meio das reformas
sociais, do controle da produção pelos sindicatos e da maioria parlamentar socialista.
Fundamentado na observação da capacidade de adaptação do capitalismo, partindo da
diversificação da produção e da suposição do encerramento das crises periódicas pelo
advento do crédito, Bernstein é contestado por Rosa Luxemburgo (1999), que atesta a

22
A democracia progressiva, defendida por Palmiro Togliatti – importante dirigente do Partido
Comunista Italiano – é um dos fulcros da estratégia eurocomunista. Sob uma democracia pluralista de
ampla participação das massas a disputa efetiva do poder presumiria um conjunto de reformas
progressivas e um amplo compromisso histórico. A democracia era, enfim, o próprio processo de
transição.

39
―inversão‖ que ele opera como barreira para ―a própria existência do movimento
socialista‖ (LUXEMBURGO, 1999, p. 2).
Diferenciando-se das posições anarquistas e social-democratas, o marxismo
revolucionário manteve fundamentos precípuos ao objetivo estratégico socialista, tendo
na ocupação do Estado (dominação jurídico-política e militar) um momento necessário
para revolução das relações sociais de produção. Lênin explicita em Estado e a
Revolução que a política seria uma espécie de ―economia condensada‖, frisando
economia e política como esferas imbricadas, formando unidade em movimento. Para
Gramsci – diferente do que afirmam os eurocomunistas – o gradualismo seria possível
apenas se o poder passasse às mãos da classe trabalhadora, quando se criaria um novo
Estado no lugar do capitalista. O objetivo desta tomada do Estado seria a supressão do
domínio de classe, tendo na articulação das mudanças da forma jurídico-política e do
caráter da produção, a base real para nova sociedade. O Estado mudaria, então, não
apenas de forma, mas de conteúdo.
Como vimos, desde Marx e Engels, reforma e revolução seriam dois corolários
articulados, não necessariamente em oposição, mas em processo. O ponto nodal deste
debate nos parece residir nas relações sociais que serão enfrentadas pela estratégia na
articulação dos elementos que pavimentam o caminho para o socialismo. Ademais, essa
análise só pode ser feita à luz das situações concretas e das particularidades históricas,
procedimento que tomaremos em conta, ao longo desta tese, para analisar as estratégias,
em especial a estratégia democrática e popular do PT nos capítulos que seguem.

1.4 Algumas breves linhas sobre a estratégia democrática e popular e a questão da


incompletude

Já elucidamos, anteriormente, a maneira como o termo estratégia é empregado


neste trabalho: como a consolidação dos ―passos‖ ou do ―caminho‖ adotados no rumo
de alcançar-se o objetivo estratégico, no caso em estudo, o socialismo petista. A
estratégia se localiza do ponto de vista de um ciclo histórico, que corresponde a um
período de longo prazo e envolve modificações histórico-estruturais de grande porte. A
tática, por sua vez, obedece ao ritmo de menor prazo e se relaciona com aspectos de
caráter histórico-conjunturais que interagem numa configuração estratégica.
Na cena política brasileira, os anos finais da década de 1970 assistiriam à
retomada da agitação massiva e ao esgotamento da ditadura empresarial-militar.

40
Amplos movimentos sociais e populares ganharam expressão e notoriedade e a classe
trabalhadora se colocou em cena: passo a passo as peripécias dispersas e fragmentárias
se convergiriam em um todo, em um movimento de consciência de classe que formaria
uma estratégia com identidade e lideranças próprias. A pressão de baixo para cima
rompia, assim, os porões da ditadura e tomava ruas e bairros, confluindo em amplos
movimentos sociais específicos transversalmente atravessados pela luta da
redemocratização política.
A tarefa histórica do PT testemunhava os desafios interrompidos na derrocada da
estratégia pecebista e alçava novo patamar às tarefas dos socialistas no Brasil.
Muitíssimo resumidamente, pouco mais de duas décadas depois da fusão de uma
estratégia, o PT e o conjunto de forças e movimentos sociais da classe trabalhadora
organizados na metáfora da pinça – pressão pacífica de massas por um lado e ocupação
de espaços institucionais por outro – chegam à presidência da república em 2002,
desfecho do processo de acúmulo de forças progressivo afiançado por essa estratégia
durante essas duas décadas.
O Partido dos Trabalhadores, nesse processo, desde sua origem socialista até
transformar-se em um partido do governo (1980 a 2002), passará por inúmeros câmbios.
É relevante também destacar que, ainda que sua chegada ao palácio do planalto tenha
sido o desfecho estratégico de seu projeto, durante a primeira década do partido, a sua
efetivação previa choques que levariam à ruptura com a ordem burguesa e negava,
contundentemente, a adesão à teoria das etapas e à natureza nacional e democrática da
revolução.
É Iasi (2006) quem chama atenção de que haveria, na leitura petista sobre
desenvolvimento do capitalismo, ainda na década de 1980, uma versão ―incomodamente
próxima a estratégia de uma das forças com as quais o PT disputa sua identidade de ser
a expressão política da classe trabalhadora‖ (p. 429), qual seja, a estratégia da revolução
por etapas. Isto porque, mesmo partindo da constatação de que o capitalismo brasileiro
teria passado por uma acelerada expansão, tarefas em atraso, ou tarefas democráticas e
populares, deveriam ser cumpridas por um eventual governo petista: a estratégia
democrática e popular apresentar-se-ia como dirigente de tarefas não efetivadas pela
burguesia. À classe trabalhadora caberia a hegemonia política nunca conquistada pela
classe adversária, ou, a concretização prévia de um programa de emancipação política e
econômica dentro da ordem.

41
Ainda que o PT tenha se diferenciado da estratégia do PCB desde seus primeiros
passos, no desenrolar do processo histórico algumas das premissas fundamentais
parecem coincidir com as do projeto petista. Tal aproximação se deve
fundamentalmente à natureza e às tarefas da revolução, além de um tipo sui generis de
interpretação do capitalismo brasileiro, que, neste desenrolar, pautará a metamorfose da
estratégia do PT da década de 1980 – que apresentava uma síntese rupturista – para
aquela da década de 1990, baseada numa concepção de democratização progressiva,
gradualista e pacífica. Esta, por sua vez, já bastante próxima à versão eurocomunista da
estratégia gramsciana e da versão da estratégia democrática e nacional sintetizada na
―Declaração de Março de 1958‖ do PCB.
Sobre esse tema – com suas vicissitudes, rupturas e permanências – é que
buscaremos nos aprofundar ao longo desta tese. O assunto é vasto e apaixonante, digno
da emancipação e da revolução: uma necessidade urgente que não passa de uma
possibilidade latente, pois depende dos sujeitos e de sua mediação de classe no tempo e
na história. É por aqui que recortaremos o tempo, olhando no limiar do presente o
espelho do passado, para iluminar as questões do futuro. Buscar no script oculto, tenso,
contraditório e diverso o movimento pelo qual, no Brasil, a ―tradição de todas as
gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos‖ (MARX, 1969, p. 17)
será a tarefa dos nossos próximos capítulos.
Tal esforço será também adensado por um breve inventário sobre as
interpretações da revolução brasileira na teoria social brasileira, como forma de
perceber a estratégia e a interpretação teórica que é por ela subsidiada, assim como a
subsidia. Retomaremos, no último capítulo, à interpretação da questão da incompletude
na estratégia democrática e popular, posto que ela é o produto de uma relação:
expressão do movimento real da própria estratégia. Se não, vejamos.

42
Capítulo 2
A estratégia democrática e popular e o Partido dos Trabalhadores na década de
1980

2.1 Introdução

Mas sei, que uma dor


Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança

Dança na corda bamba


De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar
João Bosco e Aldir Blanc, ―O bêbado e o equilibrista‖.

A música que nos serve de epígrafe, também conhecida como ―Hino da Anistia‖,
foi reivindicada por Luiz Inácio Lula da Silva23 como aquela que melhor expressaria sua
vida política. Representado um momento da história brasileira em que a luta contra a
ditadura empresarial-militar se fusionaria com outras específicas, em um amplo
movimento de massas trabalhadoras, ―O bêbado e a equilibrista‖ dizia muito sobre a
esperança em um novo ciclo que se iniciava24.
Resultantes, por sua vez, de modificações na estrutura social, legadas pela
modernização conservadora do capitalismo pós-1964, tais massas trabalhadoras25
protagonizariam, no final da década de 1970, uma série de greves memoráveis.
Marcando o cenário político de forma contundente, o ascenso do sindicalismo do

23
No dia 20 de julho de 2017, em um ato na Avenida Paulista em apoio a Luiz Inácio Lula da Silva em
face de sua condenação pelo juiz Sérgio Moro, Lula solicitou que o ―Hino da Anistia‖ fosse cantado em
referência à sua trajetória e vida política. Igualmente, no dia 4 de abril de 2018, data em que o líder
popular foi preso, a música foi cantada e entoada como hino no ato em frente ao Sindicato dos
Metalúrgicos do ABC Paulista.
24
Ainda que saibamos que ―O bêbado e a equilibrista‖ tenha se tornado um senso comum das referências
ao período final da década de 1970, fazemos questão de citá-la pela importância mencionada na nota de
rodapé anterior, e, também, por se tratar de uma memória ―para um tempo sem memória‖, como disse o
poeta Gonzaguinha. Trata-se, assim, de um enaltecimento à batalha final contra os duradouros anos de
cerco. Nestes anos, como notório, a estratégia tomou, em virtude da repressão, o lugar das entrelinhas,
palavras e gestos. O mundo cultural subverteria o cerco encontrando pequenas brechas para a contestação.
O ―hino‖ da Anistia é, também, um forte símbolo do ciclo histórico que viria a se abrir.
25
O ABCD paulista – Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema – era o epicentro das
indústrias de bens de capital e de bens de consumo duráveis. As mesmas se alastraram durante o período
da ditadura empresarial-militar, em especial no período do chamado ―milagre econômico‖.

43
ABCD paulista, entre 1978 e 1979, passou rapidamente a um movimento que prometia
romper amarras corporativo-econômicas, tão próprias da atividade sindical
reivindicatória, jogando-se na construção de um instrumento político da classe
trabalhadora26. Pouco tempo depois27, um partido político com estratégia e lideranças
próprias seria fundado: o Partido dos Trabalhadores, PT.
A formação de um partido de classe e de massas era o resultado desta particular
ebulição. O Partido dos Trabalhadores (PT) – além da CUT, MST e, mais tarde, a
CMP28 – nasceu de escolhas políticas e organizativas realizadas para enfrentar as
condições de vida das massas trabalhadoras, a ditadura empresarial-militar e a chamada
―transição‖29 ou redemocratização. Como resultante imediata, a conjuntura pendeu, ao
menos durante toda década de 1980, na direção contrária à correlação de força
dominante e destoou do rumo exclusivamente conservador da democratização. Apesar
de lenta, gradual e segura, a descompressão e o desengajamento dos militares do Poder
Executivo sofreu tensões de baixo para cima. Fendas e brechas abertas a fórceps pela
classe trabalhadora se colocavam na contramão da transição controlada e à sua revelia.

26
Entendemos a classe enquanto sujeito a resultante de um processo de consciência tal qual discutido no
primeiro capítulo deste trabalho. A conformação do instrumento de classe remete, por sua vez, ao próprio
evolver do movimento desta consciência, tendo na consolidação da organização, e na configuração de
uma estratégia revolucionária, seus pontos de culminância. Portanto, a discussão sobre teoria
revolucionária soma-se à questão estratégica, ao movimento de configuração da classe trabalhadora
enquanto classe revolucionária e à criação de instrumentos coletivos que universalizem as lutas dessa
classe – ou seja, a constituição do sujeito revolucionário. E é neste sentido que o instrumento político (ou
instrumentos políticos) e as formas organizativas que a classe construirá para enfrentar os problemas reais
colocados à sua luta no enfrentamento à classe dominante, expressarão o movimento da consciência de
classe, assim como dele serão expressão. Como discutido do capítulo 1 deste trabalho, este é o
movimento que transita da classe em si para classe para si. Para maiores detalhes sobre a relação entre
consciência, partido e estratégia, ver Iasi (2006), em especial a primeira parte.
27
Como veremos nas páginas seguintes, o Partido dos Trabalhadores (PT) será fundado em 1980, mas se
organizaria desde 1979 um ―movimento‖ pela fundação de um partido de trabalhadores.
28
A CUT, Central Única dos Trabalhadores, foi fundada em 1983. O MST, Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra, fundado em 1985, foi o mais importante movimento agrário do fim do século
XX e se mantém o principal articulador dessa pauta até os dias atuais. Já a CMP, Central Única dos
Movimentos Populares, foi fundada em 1993, mas reivindica-se fruto das lutas sociais e dos movimentos
populares da década de 1980.
29
Vale destacar, aqui, dois episódios do ponto de vista histórico. A ―anticandidatura‖ nacional de Ulisses
Guimarães lançada pelo MDB havia mobilizado o ―sentimento democrático‖ em caravanas pela
democratização, desbravando caminho para a vitória do MDB nas eleições legislativas do ano de 1974,
um ano antes da ―brilhante‖ ideia da democratização pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto
Silva. Em 1975, a grande repercussão da morte de Vladimir Herzog nas dependências oficiais do DOI-
CODI (Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa Interna). Mais de
trinta mil estudantes paralisariam as aulas, oito mil pessoas participariam do culto religioso em
homenagem ao jornalista e uma frente de mobilização contra a ditadura começaria a se aglutinar,
reunindo a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil), a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), o MDB (Movimento Democrático Brasileiro),
sindicato dos jornalistas e movimento estudantil. Após o culto, Dom Helder Câmara expressaria
sinteticamente o que aconteceria dali para frente: ―Hoje o chão da ditadura começou a tremer.‖ Era o
princípio do ―novo‖.

44
Em 1977, o movimento estudantil já retomava as ruas. Amplificando a luta pela
defesa de um ―Estado de direito‖, manifestavam-se professores, congressos de
categorias e até mesmo o presidente da OAB – Raymundo Faoro à época30. A afamada
―Carta aos brasileiros‖ (1977)31 – manifesto de defesa jurídica do Estado de direito lida
por Goffredo da Silva Telles no aniversário da escola de direito da USP – marcou, no
plano das ideias jurídico-políticas, aquilo que, nas ruas, consolidava-se em torno da
reivindicação ―pelas liberdades democráticas‖. O fato é que, desde 1974, com a vitória
do MDB nas urnas, e desde 1975, com a reação organizada frente ao assassinato de
Vladimir Herzog, o fortalecimento da luta contra ditadura era incontornável. A
―abertura controlada‖, ou a democracia ―dentro de sua relatividade‖ – segundo Geisel –,
se insinuava. Seu destino não estava previsto ou prescrito, seria resultado das lutas que
seguiriam buscando combater todo o entulho legado pela ditadura empresarial-militar.
A volta ―de tanta gente que partiu‖ já se encontrava mais próxima em 1979.
Longe, entretanto, de uma perspectiva idealizada, o perfil contraditório que assumiria a
Anistia, com a equiparação abrangente de agentes do Estado e militantes antirregime
condensava o disparatado equilíbrio de forças em uma ―transição controlada‖, realizada
por cima e em etapas. A reciprocidade para concessão da Anistia continua, até hoje,
inviabilizando o peso desigual entre as responsabilizações pelos crimes do Estado e
garantindo, na prática, inimputabilidade ao calabouço. Saindo dos porões e tornando-se
agentes da repressão agora para ―fora‖, os setores militares e paramilitares imputariam o
terror em defesa da caserna: entre 1976 e 1981 explosões, sequestros, depedramentos,
espancamentos e perseguições seriam ―métodos‖ utilizados para exercer pressão
política.
Mas os indícios do campo movediço sobre o qual se ergueu a chamada
―redemocratização‖ não se findam, como ressaltamos, em uma repetição dramática e
mimetizada de pactos fatídicos. Contava-se, agora, com a força da ebulição de

30
Raymundo Faoro era presidente do Conselho Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil em 1977,
quando lançou a proposta de convocação de uma Assembleia Constituinte exclusiva. Na VII Conferência
Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, em 1978, os temas debatidos seriam o Estado de direito, a
restauração do habeas corpus, a garantia das magistraturas integrais, direito de greve, liberdade sindical,
dentre outros. Um pouco mais à frente, Faoro será o nome preferido por Lula para concorrer como seu
vice na primeira eleição presidencial em 1989.
31
É de se destacar a coincidência da ―Carta aos brasileiros‖ com a ―Carta ao povo brasileiro‖, lançada
pela campanha eleitoral de Lula em 2002. Nela, se proporá um pacto em torno da democracia e do
mercado de consumo de massas. Chegaremos a esse ponto, mas vale deixar sublinhada, ao menos por
enquanto, a semelhança simbólica do nome escolhido para a carta lançada às vésperas da chegada do PT
ao Palácio do Planalto.

45
movimentos sociais e com a pressão política organizada das massas. A reforma
partidária que restabeleceu o pluripartidarismo, em 1979, com objetivo de enfraquecer a
polarização entre governo e oposição, e fracionar essa última, tornou-se, por exemplo,
ponto de partida para o surgimento das novas agremiações políticas, reverberando
caminhos de pressão por fora e por dentro da institucionalidade.
O movimento de ―mudanças moleculares progressivas‖ (VIANNA, 2006, p. 24)
vindo das lutas sociais portava potencialmente, no ano de 1980, um destino mediado
pela intervenção de um sujeito social em processo de consciência: a classe trabalhadora.
A fundação de um partido político democrático e de massas, justo no período em que a
cisão dos interesses dominantes convivia com uma forte crise econômico-social, seria o
grande marco de ingresso em uma década que estaria por vir.
Logo, distante de um perfil restrito, o PT nasceu congregando a heterogeneidade
das lutas do seu período, elo entre experiências múltiplas que derivaria uma síntese
composta de gerações e tradições.
A literatura é praticamente unânime em apontar os grupos que confluíram
para a formação do PT: 32 militantes do chamado ―novo sindicalismo‖,
principalmente os grupos denominados ―autênticos‖ (dentre os quais os
diretores do Sindicato Metalúrgico de São Bernardo, do qual fazia parte Lula)
e algumas oposições sindicais; militantes de organizações clandestinas de
esquerda que questionavam a política de aliança de classes dos partidos
comunistas; 33 militantes dos movimentos populares, muitos dos quais,
sobretudo nos movimentos de bairro e rural, organizados a partir das
Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica; intelectuais de esquerda
(organizados em grupos, como o Autonomia em São Paulo, ou não);
parlamentares do MDB e depois do PMDB (COELHO, 2005, p. 51).

A maneira como o partido concebeu os pilares de sua estratégia não esteve e


nem poderia estar determinada a priori, nem prática nem teoricamente. Numa práxis
essencialmente ligada aos desafios da classe e do movimento de massas, e definindo
seus contornos a partir do contexto político e social, a estratégia do PT expressou uma
síntese entre múltiplas tradições políticas somadas à dinâmica própria do movimento de
massas. Esteve fundamentada, para tanto, em um tripé essencial: socialismo,
democracia e política de massas.
A trajetória desta estratégia, ao ser sistematizada em documentos e resoluções,
exprime-se de maneira multifacetada, em uma unidade que se constrói de diferenças, em
um equilíbrio de desequilíbrios. Fruto do movimento de ação e reflexão, tais
documentos constituem uma síntese dialética de processos reais, trazendo em si a
contradição que liga a situação objetiva à atividade política – esta, por sua vez, unidade

46
mediadora entre teoria e ação. A estratégia, como discutimos no primeiro capítulo dessa
tese, envolve o elemento subjetivo, ou seja, o instrumento político e a formulação
estratégica, mas é fundamentalmente o resultado da combinação dos elementos
subjetivos e objetivos, em uma interação que resulta em sua síntese.
Pomar (1998), ao sistematizar as resoluções políticas do PT nas duas primeiras
décadas, afirma que a evolução do pensamento estratégico petista teve lugar no curso da
tomada de posição em instâncias partidárias, mas sofreria forte influência conjuntural,
em especial dos períodos eleitorais. A dimensão articuladora entre tática e estratégia,
peculiarmente quando viria a envolver os destinos da ocupação institucional será um
destes determinantes – e supomos ser talvez o mais importante – no movimento do seu
devir. Afinal, se tratava de um partido democrático e de massas, peculiarmente ―novo‖,
e que forjaria, a partir do movimento real, sua identidade. Como veremos mais à frente,
os marcos que ensejam reexame crítico da postura petista são 1982 e 1989, anos de suas
primeiras participações eleitorais – respectivamente em pleito estadual e nacional,
quando, nesta última, se votaria, pela primeira vez após 25 anos, para Presidência da
República.
A recorrente – e nem por isso menos importante – afirmativa gramsciana de que
escrever a história de um partido significa ―nada mais do que escrever a história geral de
um país a partir de um ponto de vista monográfico‖ (GRAMSCI, 2001, p. 87) nos
mobiliza a olhar a trajetória da estratégia do PT enquanto parte determinada, e
determinante, dos rumos de seu período histórico, em um jogo de forças, lutas e
escolhas políticas em interação permanente. Portanto, esse será um dos desafios que
teremos em mente, ao abordarmos seus documentos e resoluções. Ao mesmo tempo,
porém, nos caberá esquadrinhar, passo a passo, questões motoras da interpretação sobre
o Brasil que moveram e influenciaram a estratégia do PT, em um movimento conjunto
de avaliação sobre as sínteses compostas pela práxis petista, que tomou força material
no ciclo histórico a ela referente.
Para tanto, será necessário focar, como já explicitamos no capítulo passado, na
natureza ou conteúdo da estratégia e nas tarefas que o partido se proporia a enfrentar
para a realização de seu objetivo estratégico: o socialismo. Será a sua análise que nos
permitirá entender os elos de ruptura e continuidade da estratégia do PT entre o limiar
da década de 1980 e 1990, e suas metamorfoses, solo do qual partimos para refletir e
interpretar as possibilidades e os limites contidos nesta configuração estratégica.

47
2.2 A classe trabalhadora “entra em cena”

Quando, em 1978, cerca de três mil operários bateram seus pontos, sentaram-se
em frente às máquinas e cruzaram seus braços, não era previsível que duas semanas
depois quase 80 mil trabalhadores estariam em greve na região do ABCD paulista.
Menos inexorável ainda seria que, poucos anos depois, a classe trabalhadora teria
construído seu partido e a sua própria Central de Trabalhadores: o PT e a CUT,
fundados, respectivamente, em 1980 e 1983. Os ―novos‖ operários apregoavam, em
oposição à gramática varguista, a independência sindical frente ao aparelho de Estado,
submetida historicamente ao desenho institucional corporativo e à relação entre direções
políticas, Ministério da Justiça e do Trabalho, fato indistintamente agravado pelo
período de repressão generalizado após o Golpe de 1964.
As assembleias em São Bernardo reuniam milhares no estádio Vila Euclides,
testemunhando o princípio da trajetória de projeção de Luiz Inácio Lula da Silva32,
então presidente do Sindicato de Metalúrgicos, à maior liderança sindical-popular do
país. O ano era o de 1979, e, assim que a greve dos Metalúrgicos se iniciara, o
Ministério do Trabalho, junto ao governador do estado de São Paulo – Paulo Maluf –,
mandariam tropas para reprimir o movimento, deixando como saldo a prisão de quase
toda a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas
e de Material Elétrico de São Bernardo e Diadema, além da intervenção oficial no
sindicato.
Era um sinal de que a repressão, mesmo em um dos pontos altos da inaugurada
distensão, recrudesceria. Assim, a abertura não se preocuparia em incluir os ―de baixo”,
se orientando justo em direção oposta: novas maneiras de lograr mantê-los sob formas
de controle. Tratar-se-ia, longe do mistificado processo de democratização33, de uma
autorreforma da autocracia burguesa, por meio da conciliação entre seus ditames e a
forma democrática. Mas a tensão, como supraexposta, constituía-se de dois polos: o da
autocracia e seu monolitismo versus o das fissuras advindas da pressão dos

32
A partir dessa citação, ao referirmo-nos a Luiz Inácio Lula da Silva, utilizaremos simplesmente o seu
apelido ―Lula‖, como viria a ficar conhecido nacionalmente.
33
Na ―Declaração de Março de 1958‖, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), como veremos no último
capítulo desta tese, apontou o processo de ―democratização‖ como uma tendência permanente (PCB,
1958). Antes do Golpe de 1964, essa compreensão caminhava junto à perspectiva ―desenvolvimentista‖,
em um movimento abstrato de considerar-se a história a partir de teleologias. Tendo a democracia como
um devir histórico inexorável, tal percepção se tornou um dos determinantes da perspectiva gradual e
pacífica da estratégia pecebista. Supomos que algo próximo, mesmo que em nova qualidade, ocorrerá no
PT entre o limiar da década de 1980 e 1990, o que conferiremos mais à frente.

48
trabalhadores. Foi, portanto, perante – e em oposição – o caráter conciliatório da
distensão e da transição conservadora que o PT se fortaleceu, na década de 1980, como
principal partido oposicionista do Brasil, fato determinante no contorno das linhas
mestras de sua estratégia.
As fissuras conquistadas neste primeiro período estiveram indelevelmente
ligadas à sua afirmação enquanto um partido independente da classe trabalhadora, um
partido ―sem patrões‖. Assumido desde sua fundação como um partido de classe – nos
primeiros documentos até mesmo como ―operário‖ –, o PT propunha-se a consolidar
uma alternativa socialista de massas à perversa estrutura social brasileira.
Se é possível estabelecer um momento específico que corresponda às mudanças
acentuadas do PT, esta meta foge ao nosso esforço. Houve, a nosso ver, longo processo
de metamorfose, cujos fios foram rastreados por diversos autores, dentre eles Iasi (2006)
e Coelho (2005), que buscaram ler o movimento de transformação do projeto político
petista à luz de sua ligação com o processo de consciência da classe trabalhadora. Daí é
que nos afiliamos, para fins desse trabalho, aos acúmulos por eles alcançados. Também
tomamos como referência para o debate de conteúdo, ou natureza, sobre estratégia do
PT, os importantes trabalhos de Pomar (2005) e Montenegro (2009)34.
Não se trata apenas de ler o PT pela ótica da ―mudança‖ de seus rumos. O
acúmulo político do seu período fundador é indispensável para compreendermos os
aspectos basilares que, a despeito da fluidez dos seus primeiros documentos, exibem e
argamassam a natureza ou caráter e as tarefas da estratégia democrática e popular: a
questão democrática, a questão social, a questão nacional, a questão popular e o objetivo
estratégico socialista, em interação com táticas específicas que tanto influenciaram a
estratégia como foram por ela influenciadas.
No que tange à sistematização ora proposta, trabalhamos os primeiros
documentos do PT – pré-fundação, fundação e até o 3º ENPT – enquanto expressão de
uma estratégia em delineamento, convergindo tradições díspares em um instrumento
partidário, cuja base teórica unitária é precária e assistemática, muito mais resultante da
síntese de acúmulos alcançados pelos movimentos sociais do que por uma concepção
estratégica bem acabada. Conferimos, entretanto, relevância a tais documentos, pois,

34
Montenegro (2009), tomando ―como referência o conceito gramsciano do partido enquanto moderno
príncipe‖, conclui, em sua tese de doutoramento, que os fundadores do Partido dos Trabalhadores
―pautados por uma concepção particular de democracia, de organização e de relação entre o partido e as
bases‖ (MONTENEGRO, 2009, p. 7), optaram por construir um partido com bases programáticas e
organizativas organicamente fracas.

49
além de marcarem o perfil da organização, nos parecem intimamente relacionados à
síntese teórica que se expressará na estratégia democrática e popular, encontrada de
maneira mais bem acabada nos 4º, 5º e 6º Encontros Nacionais, em 1986, 1987, 1989,
respectivamente.
Vejamos, a seguir, como as lições históricas, conjunturais e a experiência
concreta das lutas tonificaram o instrumento partidário e, passo a passo, as relações
entre teoria e prática numa práxis sintetizada em uma nova estratégia.

2.3 O Movimento pelo Partido dos Trabalhadores (1979-1980)

A ―Tese de Santo André-Lins‖, aprovada em janeiro de 1979, no IX Congresso


dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico do Estado de São
Paulo, na cidade de Lins (SP)35, marca o rebento de uma novidade histórica: um
instrumento político dos e para os trabalhadores. Nela, o conteúdo de classes da
exploração capitalista colocaria na ordem do dia ―a necessidade da conquista do poder
político‖ ao menos enquanto a política fosse marcada por toda sorte de ―governo de
patrões‖, donde o melhor instrumento político para travar esta batalha, o partido
político, deveria ser obra da organização dos trabalhadores para ―efetiva libertação da
exploração‖. Um partido autônomo e de classe, um partido que não teria nada a ver com
a burguesia, com o patronato e nem com aqueles comprometidos com regimes
antidemocráticos: ―um partido sem patrões‖36.
Do geral ao específico, o documento afirma o imperativo de que o partido fosse
construído por ―todos os trabalhadores da cidade e do campo‖, ―regido por uma
democracia interna‖ com respeito à ―democracia operária‖. Opondo-se a um perfil
―eleitoreiro‖, que simplesmente buscaria eleger ―representantes na Assembleia, Câmara
e Senado‖, a função precípua do partido consistiria em organizar e mobilizar ―todos os
trabalhadores na luta por suas reivindicações e pela construção de uma sociedade justa,
sem explorados e exploradores‖. Destacava-se, também, a luta pela ―Anistia ampla,

35
Tese aprovada em 24 de janeiro de 1979, no IX Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos
e de Material Elétrico do Estado de São Paulo, na cidade de Lins (SP). Originalmente proposta por
sindicalistas de Santo André, viria a se chamar, quando aprovada na cidade de Lins, ―Tese de Santo
André-Lins‖. Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―A tese de Santo
André-Lins‖ (A TESE..., 1979, p. 47-48).
36
Outras organizações, através de seus jornais, propunham a criação de um partido operário. Era o caso,
por exemplo, da Convergência Socialista – na Luta por um Partido Operário Socialista e do periódico O
Trabalho. Ambos se tornariam, posteriormente, tendências internas do PT. Ver mais em Coelho (2005).

50
geral e irrestrita‖ e pela ―Assembleia Constituinte, democrática, livre e soberana, a
reforma agrária e a liberdade partidária‖, carros-chefe da pauta de transição para
democracia.
Escrita para ser disseminada no 1º de Maio de 1979, data simbólica para os
trabalhadores em nível internacional, a ―Carta de princípios‖37 afirmava não haver
―socialismo sem democracia e nem democracia sem socialismo‖, derivando, daí, o
compromisso com ―a democracia plena‖, indissociável da luta socialista. Segundo o
próprio documento, o divisor de águas para conformação de uma organização forte dos
trabalhadores teria sido a greve da Saab-Scania em 197838, um marco no processo de
amadurecimento da classe:
(...) Desde então, o operariado e os setores proletarizados de nossa população
vêm desenvolvendo uma verdadeira avalanche pela melhoria de suas
condições de vida e de trabalho. A experiência dessas lutas tem como
resultado um visível amadurecimento político da população trabalhadora e o
crescimento, em quantidade e qualidade, de suas lideranças.
Esse rápido amadurecimento político pode ser visto claramente no
aprimoramento das formas de luta de que os trabalhadores têm lançado mão.
O início das lutas é marcado por um período de greves brancas nas fábricas.
Já os embates mais recentes, dos quais a greve geral metalúrgica do ABCD é
o melhor exemplo, mostram a retomada, em toda a linha, das formas
clássicas de luta: grandiosidade das assembleias gerais, a ação decisiva dos
piquetes e dos fundos de greve.
Os trabalhadores entenderam ao longo desse ano de lutas que as suas
reivindicações mais sentidas esbarravam em obstáculos cada vez maiores e é
por isso, dialeticamente, que vão sendo obrigados a construir organizações
cada vez mais bem articuladas e eficazes (MOVIMENTO..., 1979a, p. 49).

A carta segue apontando que, em oposição e resposta à mobilização dos


trabalhadores, o patronato e o governo teriam desencadeado processos repressivos de
perseguições e intervenções, além de impedirem o fim do arrocho salarial. Neste
sentido, ainda que parecesse necessário superar limites do movimento sindical, seria ele
o único movimento capaz de viabilizar um partido de trabalhadores.

37
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Carta de princípios‖
(MOVIMENTO..., 1979a, p. 49-54).
38
No dia 12 de maio de 1978, três mil operários bateram os seus pontos e se paralisaram diante das
máquinas. Primeira do ciclo de greves que se iniciava, Saab-Scania é lembrada como o estopim de um
período e de uma forma inovadora de luta: os ―trabalhadores cruzaram seus braços‖. O ciclo grevista se
alastrou até o final da década de 1980, tendo repercussão na organização de movimentos coletivos entre
canavieiros, trabalhadores rurais ―boias-frias‖ (como eram conhecidos os cortadores de cana), operários
da construção civil, dentre outros. José Ibrahim, presidente do Sindicato dos Trabalhadores à época da
greve da Saab-Scania, foi parte da fundação e membro da primeira comissão nacional do Partido dos
Trabalhadores, dentre outros trabalhadores oriundos dos movimentos paredistas que também tomaram
parte na fundação do partido.

51
Logo, a ―emergência de um movimento de trabalhadores‖ que afirmava ―sua
autonomia organizativa e política em face do Estado e das elites políticas dominantes‖,
se oporia aos ―detentores do poder‖ sediosos por ―reformar o regime de cima para
baixo‖. O processo transitório, ameaçado por um pacto pelo alto, poderia vir a nascer
―débil e descomprometido com a resolução dos problemas que afligem o nosso povo‖,
e, por tal motivo, os fiadores da democracia efetiva seriam ―as massas exploradas do
campo e das cidades‖. A meta não era pequena. Um partido que tinha ―como objetivo
acabar com a relação de exploração do homem pelo homem‖, ainda que institucional,
não deveria se limitar à ação exclusivamente parlamentar, mas a ―uma verdadeira
atividade política‖ que abrangesse ―todos os aspectos da vida nacional‖.
Seguindo esse amplo horizonte e essa bússola, outros dois documentos
acompanharam o período ―pré-PT‖: a ―Declaração política‖ e a ―Plataforma política‖,
aprovados em 13 de outubro de 1979 em São Bernardo do Campo/SP e lançados
oficialmente junto ao Movimento pelo Partido dos Trabalhadores.
Na ―Declaração política‖39, o processo de afirmação do partido é caracterizado
como resultado da resistência democrática ao período ditatorial. O movimento pela sua
constituição seria fruto do crescimento da luta das massas trabalhadoras e parte da
construção de um ―canal de expressão‖ de ―todos os setores explorados pelo
capitalismo‖. A política partidária não devia excluir, entretanto, a amplitude dos espaços
de frentes em favor da democracia, ao que se segue a convocação de todos os setores
democráticos a construírem uma ―ampla frente de massa contra o regime ditatorial‖, na
qual devia ser assegurada a autonomia de cada organização, mas se congregariam atores
numa luta contra a ditadura e pelo ―aprofundamento da organização das forças
democráticas e populares‖.
O quarto documento, a ―Plataforma política‖40, expõe pontos sistemáticos,
incluindo entre seus eixos algumas áreas programáticas interligadas: ―liberdades
democráticas‖, ―melhores condições de vida e de trabalho‖ e ―questão nacional‖. O
primeiro item englobava as liberdades gerais, desde o ―fim do regime militar‖ às
eleições diretas, a anistia, o fim da tortura, da repressão, além de outras específicas
sobre a liberdade de organização dos trabalhadores. Em item sobre a questão sindical,

39
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Declaração política‖
(MOVIMENTO... 1979b, p. 55-57). Todos os grifos deste capítulo são nossos.
40
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Plataforma política‖
(MOVIMENTO..., 1979c, p. 58-62).

52
afirmava-se o ponto de partida para necessária construção de uma ―Central Única dos
Trabalhadores‖.
No que tange à ―questão nacional‖, a luta agrária, anti-imperialista e pela
estatização e nacionalização de setores estratégicos, uma política externa independente
e a superação das desigualdades regionais, se apresentariam expressando o conteúdo
nacional de tarefas anti-imperialistas, agrárias e antimonopolistas a serem cumpridas
pela classe trabalhadora.
No entremeio entre este e o próximo Encontro, a comissão provisória do
Movimento pelo Partido dos Trabalhadores41 se debruça em sistematizar um esboço de
―Pontos para a elaboração do Programa‖42. Dividido em seis itens, o documento debate
o método de sua própria construção – que não podia ser ―de cima para baixo‖ – e
rascunha algumas linhas programáticas. Interessante notar os argumentos:
O próprio método de elaboração do programa do PT já mostrará a diferença
em relação aos demais partidos. A discussão do programa é parte essencial
do processo de construção do PT. O programa do PT não pode ser apenas um
―programa para o TSE [Tribunal Superior Eleitoral]‖: isto é, fácil de fazer. O
programa do PT deverá surgir das bases sociais sobre as quais se apoiará o
partido, das bases sociais que construirão o partido. A iniciativa da
Coordenação Nacional Provisória eleita em 13 de outubro, de encomendar
um conjunto de pontos para discussão, não reflete nada parecido com
programas de “cima para baixo”. É necessário que fique claro o sentido
desse documento que essa Coordenação oferece como sugestão
MOVIMENTO PELO PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1979d, p. 1,
grifos nossos).

Justificada a iniciativa e inaugurando a discussão, o debate, segundo o próprio


texto, devia chegar a ―cada setor, a cada categoria, a cada movimento social‖ e não
podia se confundir com a discussão de um programa de governo, pois a ―proposta do
PT‖ não seria de ―administrar o capitalismo e suas crises supostamente em nome da
classe trabalhadora‖. Reconhecendo que a correlação de forças daquele momento não
permitia que o partido chegasse ao poder, a apresentação de um programa de governo
podia descaracterizar a própria proposta do partido. Naquela correlação de forças, ele
não devia ser tomado como ―portador da vontade de hegemonia da classe trabalhadora‖,
e, portanto, seu programa se limitaria à expressão da vontade comum das lutas
populares: ―as aspirações comuns de liberdade, o desejo comum de eliminar a

41
A Comissão Nacional Provisória foi indicada na reunião de lançamento do Movimento pelo Partido dos
Trabalhadores, em São Bernardo do Campo (SP), no dia em 13 de outubro de 1979. A Comissão dirigiu o
Movimento desta data até 1 de junho de 1980.
42
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Pontos para a elaboração do
programa‖ (MOVIMENTO PELO PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1979d, p. 83-106).

53
exploração, a vontade de construir uma nova sociedade‖. Igualmente, o programa não
poderia ser socialista, pois isso seria falsear a ―relação com as bases sociais das quais
emana‖, repetindo ―uma versão de ‗programa de cima para baixo‘‖, e colocando ―a
questão do socialismo como receita deduzida dos princípios e não como um
compromisso de luta dos trabalhadores‖.
Considerando compreendidos tais preâmbulos, o documento apresenta eixos
programáticos em quatro partes, tratando, rapidamente, de elucidar que tais partes não
significariam etapas, mas simplesmente distintos níveis: ―a) um programa para a
democracia; b) um programa para a sociedade; c) um programa para a conjuntura e os
interesses imediatos dos trabalhadores; d) um programa de ação para o partido‖.
Sobre a democracia, afirmava-se que sua conquista seria ―uma condição
fundamental para que as classes sociais exploradas e espoliadas não sejam jogadas no
gueto da não participação, do isolamento e da discriminação‖. Interessando
―fundamentalmente aos trabalhadores e às demais classes sociais exploradas e
espoliadas‖, o PT, antes, deveria congregar suas forças na construção de um projeto
para disputar a hegemonia.
No item sociedade, apresentam-se ―grandes questões nacionais‖. Em primeiro
lugar, o PT deveria ―radicalizar a denúncia do modelo vigente e mostrar a
complementaridade entre as formas ditatoriais do regime e a acumulação de capital
violentíssima‖, o ―arrocho salarial, a consequente concentração de renda, a dívida
externa, a internacionalização da economia (...)‖. O partido não apostaria, portanto, no
―quanto pior melhor‖: ―se não acreditarmos que não pode haver ‗capitalismo
civilizado‘, por vontade da grande burguesia e do Estado (...)‖, será ―a organização dos
trabalhadores, de outros setores sociais, e enfim das grandes maiorias de nossa
população que anulará as formas mais desenfreadas de superexploração (...)‖.
Já a questão nacional é compreendida a partir da centralidade dos trabalhadores
na atualização do ―conceito e a prática da Nação‖. Vejamos:
(...) Esta [a nação], que é utilizada pelas burguesias e pelo Estado apenas
como o espaço que diferencia e controla as forças de trabalho, propiciando,
por esta forma, o que parecia impossível – a reconciliação entre os
interesses imperialistas e os interesses da burguesia nacional – tem nos
trabalhadores sua única condição de viabilidade. Os trabalhadores não
renunciam à Nação, pois eles são a Nação. Dessa forma, redefinem o
conteúdo das relações com o imperialismo e as empresas multinacionais, por
considerarem que a questão nacional hoje se define socialmente: isto é, não
se trata de preservar um mercado para a burguesia nacional, por oposição
às empresas multinacionais, mas de opor aos interesses dessa
internacionalização que congrega capitais nacionais e capitais
estrangeiros, os interesses dos trabalhadores. Por essa via os trabalhadores

54
lutarão pelo efetivo controle e defesa das riquezas nacionais, mas não farão
dessa defesa um processo de subordinação dos interesses nacionais aos
pretensos interesses privados de qualquer fração burguesa. O Partido dos
Trabalhadores lutará por desfazer a internacionalização de nossa economia,
como via privilegiada para a construção de uma sociedade democrática e
igualitária (MOVIMENTO PELO PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1979d, p. 115, grifos nossos).

A unidade entre imperialismo e burguesia nacional se firmaria a partir de ampla


exploração dos trabalhadores. A questão nacional teria se tornado uma questão
popular, pois a internacionalização da economia congregaria capitais nacionais e
estrangeiros em oposição aos interesses dos trabalhadores. Diante desse quadro, a luta
assumia uma dupla natureza: pela ―nacionalização‖ da economia, mas contra os
―interesses privados‖.
Seria imperativo que a questão social se opusesse à expansão capitalista pela via
privada. Relacionada à questão do Estado, a “desprivatização do Estado” e dos
serviços públicos se firma como campo na luta da democratização. A questão social
incluiria a ―possibilidade da hegemonia popular‖, pois o capitalista, transformando
maiorias sociais em minorias políticas, manteria a maior parcela da população por fora
da possibilidade de participação. Neste sentido, os trabalhadores deveriam lutar ao lado
de outras forças sociais, combinando as ações específicas à busca pela ―recuperação,
agora para os fins populares, de uma instância como o Parlamento, que representará o
conjunto da Nação”, pela via do Estado. Esta visão propugnava ―a total democratização
da vida social‖, recusando-se, assim, as tendências ao corporativismo. A questão
agrária, por sua vez, também passaria pela democratização da organização política no
campo e pela identidade de classe, vistas como assento das lutas entre trabalhadores
rurais e urbanos.
A divisão internacional da produção seria responsável pela crise nacional, pois,
para ter lucros, o capitalismo se aproveitaria do conjunto das diferenças entre países.
Diante da crise do socialismo e do capitalismo, o PT se colocava, então, em uma
―posição de independência‖, pois não teria ―subordinação econômica em relação a um,
nem subordinação ideológica em relação ao outro‖, tendo como bússola ―os interesses
dos povos do mundo‖.
Já um programa para conjuntura interessaria ―ao povo em geral‖: combate à
inflação, ao desemprego, aumento dos salários até aspectos de distribuição da renda.
Reconhecendo que não haveria correlação de forças para se propor ao poder, o PT
deveria focar no ―que é sua razão de ser: articular os movimentos sociais, suprimir-lhe a

55
atomização, unificar as demandas aparentemente diversas entre salário e água
encanada‖. Articulando a organização popular com a luta por impor suas reivindicações,
reitera-se a necessidade de resguardar a autonomia e a liberdade, a politização das lutas
e a superação da dispersão, além da reflexão sobre as formas institucionalizadas de
participação popular pelos mecanismos do Estado. Por outro lado, propondo-se a
organizar espaços educativos em seus núcleos, o PT ―estaria preparando uma educação
para a hegemonia‖.
O período pré-PT é marcado pela afirmação da democracia, do questionamento
sobre a natureza imediatamente socialista da estratégia e por um programa de tarefas
nacionais, democráticas, agrárias e sociais, partindo de um caráter democrático e
popular. Sua caracterização do Estado relaciona ausência de democracia com seu
caráter ―privado‖, que devia ser superado a partir de um projeto de hegemonia popular
―de baixo para cima‖ que o desprivatizasse. O questionamento ao socialismo como
“fórmula” dogmática se repete enfaticamente.
Ao mesmo tempo, porém, o PT não deveria administrar o capitalismo, mas
acabar com o regime de exploração, a partir do enfrentamento de questões de interesse
de ―toda população‖: a ―Nação‖ e as riquezas nacionais se encontravam entre as
principais delas. A burguesia nacional, aliada ao imperialismo, em contrapartida,
impunha a oposição dos interesses de capitais nacionais e capitais estrangeiros aos
interesses dos trabalhadores. Acumulando forças em torno de um instrumento de
massas que devia lutar para conquistar hegemonia a partir da democracia, se firmariam
fundamentos gerais da configuração estratégica que se desenvolverá ao longo dos anos
seguintes. Nesta fase eles compareciam, ainda, em delineamento.

2.4 O Partido dos Trabalhadores: da fundação (1980) ao 2º Encontro Nacional


(1982)
(...) Diferentemente de todos os partidos por aí, com sua dança de letras e
siglas, o PT é simplesmente o Partido dos Trabalhadores. É único de
estruturas, é único de tendências, é único de finalidade. (...) Partido de
massa não tem vanguarda, não tem teorias, não tem livro sagrado. Ele é o
que é, guia-se por sua prática, acerta por seu instinto. Quando erra, não
tem dogmas e pela autocrítica refaz seu erro. Por isso, ao nos inscrevermos
no PT, deixamos à sua porta os preconceitos, os pendores, as tendências
extras que possivelmente nos moviam até lá. Para só deixar atuando em nós

56
uma integral solidariedade ao Partido dos Trabalhadores (DOSSIÊ
DOCUMENTOS, 2007, grifos nossos)43.

O início do ano de 1980 marca a fundação do partido. Cerca de 1.200 militantes


vindos de dezoito estados do país se reúnem no Colégio Sion e aprovam, por
aclamação, seu ―Manifesto de lançamento‖44.
Reafirmando a independência política e o compromisso com a construção da
―democracia plena exercida diretamente pelas massas‖45, por meio de uma força política
autônoma dos trabalhadores, o PT seria aspirante à ―real expressão política de todos os
explorados pelo sistema capitalista‖. Nascia das lutas e da mais importante lição do
trabalhador, a ―de que a democracia é uma conquista que, finalmente, ou se constrói
pelas suas mãos ou não virá‖. A vontade de ―emancipação das massas populares‖,
ademais, faria buscar a participação ampla da classe trabalhadora em suas fileiras,
firmando o compromisso em torno da construção de um partido de massas.
Oposição ao regime e ―ao seu modelo de desenvolvimento‖ o PT lutaria, ainda,
pela ―extinção de todos os mecanismos ditatoriais que reprimem e ameaçam a maioria
da sociedade‖ reafirmando, para tanto, seu compromisso com a democracia. A
participação eleitoral e suas atividades parlamentares se subordinariam, contudo, ―ao
objetivo de organizar as massas exploradas e suas lutas‖.
No que diz respeito à riqueza produzida pelos trabalhadores e os recursos
naturais, pretendia-se reverter sua destinação ―do interesse do grande capital nacional e
internacional‖ para que servissem ao ―bem-estar da coletividade‖. Os trabalhadores,
dizia-se, ―querem a independência nacional‖, pois ―entendem que a Nação é o povo‖ e
sabem que o país ―só será efetivamente independente quando o Estado for dirigido pelas
massas trabalhadoras‖. Logo, pretendia-se chegar à direção do Estado a fim de ―realizar
uma política democrática, do ponto de vista dos trabalhadores, tanto no plano
econômico quanto no plano social‖, de tal forma que Estado se tornasse a expressão da
sociedade.

43
Discurso de Mario Pedrosa, por ocasião da assinatura do Manifesto de Fundação do PT, no Colégio de
Sion em São Paulo, em 10 de fevereiro de 1980. Pedrosa viria a ser o signatário número 1 do Manifesto
de lançamento.
44
Aprovado em 10 de fevereiro de 1980 no Colégio Sion (SP), o manifesto foi publicado no Diário
Oficial da União de 21 de outubro de 1980.
45
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Manifesto de Fundação do Partido dos
Trabalhadores‖ (MOVIMENTO PELO PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1980a, p. 65-67).

57
Um partido que ―não nasce pronto e acabado‖ é a síntese apresentada pelo
documento intitulado ―Programa‖46, também de 1980. Restringindo-se a fazer algumas
considerações de porte conjuntural e apresentar um ―Plano de Ação do Partido dos
Trabalhadores‖, este interpreta o desenvolvimento do partido como expressão da luta
que, tendo como alvo o regime, permitiria ―transformar a infinidade de movimentos que
vêm se desenvolvendo nos últimos anos em uma força verdadeiramente expressiva em
nossa sociedade‖. A democracia para o PT confundia-se, em seu teor, com a própria
possibilidade de participação política e organização partidária e, como se pode notar na
passagem a seguir, é manifesta enquanto pressuposto e meio de alcançar uma sociedade
sem exploração.
O PT nasce numa conjuntura em que a democracia aparece como uma das
grandes questões da sociedade brasileira. Para o PT, a luta democrática
concreta de hoje é a de garantir o direito à livre organização dos
trabalhadores em todos os níveis. Portanto, a democracia que os
trabalhadores propõem tem valor permanente, é aquele que não admite a
exploração econômica e a marginalização de muitos milhões de brasileiros
que constroem a riqueza do País com o seu trabalho. A luta do PT contra o
regime opressivo deve construir uma alternativa de poder econômico e
político, desmantelando a máquina repressiva e garantindo as mais amplas
liberdades para os trabalhadores e oprimidos que se apoiem na mobilização e
organização do movimento popular e que seja a expressão de seu direito e
vontade de decidir os destinos do País. Um poder que avance nos rumos de
uma sociedade sem exploradores e explorados. Na construção dessa
sociedade, os trabalhadores brasileiros têm claro que essa luta se dá contra os
interesses do grande capital nacional e internacional (PROGRAMA, 1980c,
p. 1, grifos nossos).

Ao desdobrar e aprofundar os demais aspectos propriamente programáticos, o


documento se aproxima da ―Plataforma política‖, de 1979, agora transformada em plano
de ação. Ao contrário do documento ―Pontos para a elaboração do programa‖, da
Comissão Provisória pró-PT de 1979, reafirma-se certa fusão entre plano de ação47 e
programa, desembocando em uma espécie de ―programa de ação‖. O argumento que se
reitera para isso é o de que o programa não podia estar ―pronto e acabado‖ e devia ser
―aprofundado de modo permanente pelos membros do PT, além de detalhado pela
prática política dos trabalhadores‖. Para perseguir o objetivo maior do partido, o de
construção de uma sociedade sem explorados, ele devia ―estar preparado para propor

46
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Programa‖ (MOVIMENTO PELO
PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1980b).
47
Do ponto de vista do Plano de Ação, o documento divide-se em sete eixos distintos: 1) Liberdade de
organização partidária e sindical; 2) Desmantelamento dos órgãos de repressão política e fim da
legislação de exceção; 3) Combate à política salarial; 4) Por melhores condições de vida; 5) Sobre a
questão agrária; 6) Independência nacional; 7) Apoio aos movimentos de defesa dos direitos das
mulheres, negros e índios.

58
alterações profundas na estrutura econômica e política da Nação‖, alterações de
conteúdo democrático, nacional, agrário, ecológico e de combate às opressões.
Alguns elementos vão, assim, se firmando como basilares na compreensão
partidária. Entre eles: a concepção democrática como pressuposto, via e meta a se
alcançar; a independência de classe; e a persecução de um governo dos trabalhadores
com perfil democrático, nacional e popular. Para afirmá-lo, seria preciso um partido
independente, democrático e de massas, que concretizasse uma estratégia de acúmulo de
forças contando, por um lado, com a participação institucional e, por outro, com a
inserção nos movimentos sociais e populares. Pari passu à consolidação de uma
identidade petista se fincavam elementos de sua identidade estratégica.
É apresentada, também, a proposta de Estatuto do partido, cujo teor destacava a
necessidade de participação de instâncias de base nos processos decisórios.
O 1º Encontro Nacional do PT (ENPT) ocorrerá em 198148. Nele, o partido
tomará forma legalizada e elegerá seu primeiro Diretório Nacional, presidido por Luiz
Inácio Lula da Silva. Aprovam-se, neste, três documentos: uma moção frente ao tema da
crise da previdência, uma resolução em relação ao desemprego e um regimento interno.
Mas será ao final deste mesmo ano, em 27 de setembro, em Brasília, que o partido
realizará sua primeira Convenção Nacional. Por exigência legal, era nela que se deveria
referendar e homologar as decisões tomadas nos encontros. Além de aprovar
formalmente os documentos prévios, o espaço é marcado pelo discurso de Lula como
primeiro presidente do PT. Neste sentido, suas palavras acabam por se transformar em
anais e são acolhidas como texto constituinte do 1º Encontro49.
Neste discurso, Lula apresentava o partido como ―um partido que nasce das
greves e das lutas populares em todo o Brasil‖, reafirmando sua relação com o
movimento sindical e popular, mas resguardando-lhe a autonomia. Provando a
capacidade de organização da classe trabalhadora, o PT nascia ―dos operários de
macacão‖, se orgulharia ―de ter nascido de macacão‖ e, mesmo com a presença de
diversos intelectuais, não se converteria em um ―partido de intelectuais‖. Todos seriam
iguais, ―operários, camponeses, profissionais liberais, parlamentares, professores,

48
O 1º Encontro Nacional foi realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo/SP, nos dias 8 e 9 de
agosto de 1981. Em 27 de setembro, em Brasília, o partido, já legalizado em 16 estados, realiza sua
primeira Convenção oficial para homologar o Diretório Nacional e referendar seu manifesto, programa,
estatuto e o 1º Diretório Nacional.
49
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao ―Discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na 1ª
Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores‖ (SILVA, 1981, p. 105-114).

59
estudantes etc.‖, e neste sentido o PT consistiria, em suas palavras, uma novidade
histórica:
O Partido dos Trabalhadores é uma inovação histórica neste país. É uma
inovação na vida política e na história da esquerda brasileira também. É um
partido que nasce do impulso dos movimentos de massas, que nasce das
greves e das lutas populares em todo o Brasil. É um partido que nasce da
consciência que os trabalhadores conquistaram após muitas décadas de
servirem de massa de manobra dos políticos da burguesia e de terem ouvido
cantilenas de pretensos partidos de vanguarda da classe operária. Só os
trabalhadores podem conquistar aquilo a que têm direito. Ninguém nunca nos
deu, ninguém nunca nos dará nada de graça (SILVA, 1981, p. 107).

Destacando seu caráter de lutas, mas reafirmando o papel diferenciado em


relação ao sindicato, o partido político é que permitiria ao trabalhador ―atuar e
transformar o poder‖. Comprometido com as lutas do povo, o PT não seria ―um partido
de gabinetes, de salas atapetadas, de conchavos nos bastidores‖, mas da ―porta da
fábrica‖, do ―local de trabalho‖, da ―luta pela terra‖ e da ―periferia‖, aonde aprendia
―com o povo‖.
No que diz respeito às lutas em curso, o discurso endossa o compromisso com a
construção da Central Única dos Trabalhadores (CUT), com a reforma agrária, com a
luta das ―minorias‖, negros, mulheres e indígenas. Asseverando a necessidade de
desmantelamento do aparelho repressivo e da Lei de Segurança Nacional, Lula afirma
que o ―Estado de Direito só será restabelecido‖ quando ―o aparelho repressivo for
totalmente desmantelado, sem que o poder seja cúmplice do terror‖. A luta dos
trabalhadores e a conjuntura política internacional, por conseguinte, teriam
impulsionado a conquista da ―abertura‖ política, que ―foi apenas por cima, na tampa da
panela‖, pois ―por baixo, a panela continua vazia e nada se alterou na vida oprimida da
classe trabalhadora‖. O ―povo sofrido desta nação continua tão excluído da vida
política quanto antes – e quando assume a luta por seus direitos, é tratado como caso de
polícia‖, afirma o primeiro presidente do partido. Ao PT, por sua vez, caberia
―incentivar a nação à conquista de uma abertura real, na qual o poder tenha caráter
democrático e de natureza popular‖.
Já no que diz respeito à direção partidária, ele explicita, sob a metáfora ―duas
camisas‖, a suposição de uma deslealdade de militantes organizados em tendências. A

60
ideia de duas camisas caracterizaria como infiel a participação de organizações e viria a
ter forte impacto sobre o debate interno do PT50. Segundo as palavras do próprio Lula:
Interessa-nos que todos sejam fiéis ao programa e às normas do PT.
Interessa-nos que companheiros não queiram fazer de nosso partido massa de
manobra de suas propostas. Não aceitaremos, jamais, que os interesses dessas
tendências se sobreponham, dentro do PT, aos interesses do Partido.
Denunciaremos, quantas vezes for preciso, certos desvios a que todos nós
estamos sujeitos, como o economicismo, que pretende restringir a luta dos
trabalhadores às conquistas imediatas de sua sobrevivência; o politicismo,
que de cima para baixo quer impor seu dialeto ideológico aos nossos
militantes, como se discurso revolucionário fosse sinônimo de prática
revolucionária; o colonialismo daqueles que se autodenominam vanguarda do
proletariado sem que os trabalhadores sequer os conheçam; o esquerdismo,
que exige do Partido declarações ou posições que não se coadunam com seu
caráter legal e a sua natureza popular; o voluntarismo dos que querem
caminhar mais depressa que o movimento social; o eleitoralismo dos que
desejam reduzir o PT a um trampolim de cargos eletivos e de projeções
políticas; o burocratismo dos que nos criticam por ir às portas de fábrica e
querem um partido bem organizado, mas sem bases populares; o oportunismo
dos que só põem um pé dentro do PT e mantém o outro pronto a correr
quando sentem que suas intenções não são aceitas pelos trabalhadores
(SILVA, 1981, p. 112, grifos nossos).

Mais do que uma prática de ―entrismo‖ de fato, essa maneira de estabelecer uma
diferenciação demarcada vai ter influência na gênese do grupo dirigente do PT51 e na
narrativa que cria identificação em torno do ―petismo autêntico‖ e ―verdadeiro‖, cujo
perfil espontâneo e popular respeitaria os rumos escolhidos pelos trabalhadores, ao
contrário daqueles grupos de tradição anterior à formação do partido, especialmente
afeitos ao ―economicismo‖, ―politicismo‖, ―colonialismo‖, ―esquerdismo‖,
―voluntarismo‖, ―eleitoralismo‖ e ―burocratismo‖ – segundo as palavras de Lula.
Tal diferenciação é retomada por ele para explicitar ―qual socialismo‖ seria o
socialismo petista. As dúvidas sobre se o partido seria ―apenas um partido trabalhista a
mais‖ ou ―um partido social-democrata‖ eram ―compartilhadas por alguns militantes do
próprio partido, que construíram, para si, a teoria estranha de que o PT é uma frente ou

50
Um documento dos Cadernos Em Tempo – órgão divulgador da então Organização Revolucionária
Marxista – Democracia Socialista (ORM-DS), que viria a se tornar Democracia Socialista (DS), ―O PT e
o partido revolucionário no Brasil‖, de setembro de 1981, retoma o tema, expondo o ―questionamento à
dupla militância‖ que vinha sendo atribuído com um sentido próximo à prática de ―entrismo‖. Segundo
ele, ―(...) os marxistas estão no PT como militantes leias, não fazem ―entrismo‖, como o que se poderia
fazer em uma organização reformista, contrarrevolucionária, mas trabalham para construir o PT. Não
estão aparelhando ou parasitando o PT: lutam pela sua construção‖ (O PT E O PARTIDO..., 1981, p.
112). Esse resgate é apenas ilustrativo no sentido da reflexão sobre o como a exigência de ―fidelidade‖ ia
moldando as relações, a autorrepresentação e a diferenciação do grupo dirigente do PT, ainda nos
primórdios do partido.
51
Um dos pontos altos da consolidação interna se dará na composição da Articulação dos 113, fundada
em 1983, grupo político que posteriormente viria a se unificar com outros setores em um campo
majoritário, exercendo forte influência na direção e na concepção política do partido. Para compreensão
desta trajetória, indicamos o trabalho de Eurelino Coelho (2005), supracitado.

61
um partido apenas tático‖, o que não seria o caminho do ―socialismo petista‖. A
pergunta que caberia ser feita, entretanto, era outra: almejando uma ―sociedade sem
exploradores‖, que não é ―senão uma sociedade socialista‖, de ―qual socialismo‖ se
estaria falando? É importante lembrar que, ainda que pudesse manter relação com todos
os partidos que lutassem pela democracia e pelo socialismo, o PT não deveria estar
submetido às receitas ou modelos prontos. Logo, rejeitando ―a ideia do socialismo para
buscar medidas paliativas aos males sociais causados pelo capitalismo ou para gerenciar
a crise em que este sistema econômico se encontra‖, Lula diferencia o socialismo do PT
do ―socialismo burocrático, que atende mais às novas castas de tecnocratas e de
privilegiados que aos trabalhadores e ao povo‖. O socialismo do partido, portanto, ―se
definirá por todo o povo, como exigência concreta das lutas populares, como resposta
política e econômica global a todas as aspirações concretas que o PT seja capaz de
enfrentar‖.
Ressalte-se que, para além de uma figura popular de peso, presidente do
sindicato que vinha de fazer a mais importante greve dos metalúrgicos do ABCD e
presidente nacional do PT, Lula era símbolo do grupo sindicalista que se aglutinara em
torno da formação do partido52, o que lhe permitia interlocução privilegiada na disputa
de rumos internos. Ademais, o discurso de Luiz Inácio ―recoloca a questão central sobre
o objetivo estratégico socialista‖ (IASI, 2006, p. 386), caracterizando o PT como um
partido socialista e recusando os caminhos social-democrata, trabalhista ou burocrático.
Afirma, dessa forma, o ―socialismo petista‖ em contorno e originalidade próprios. No
que diz respeito ao aspecto espontâneo do seu discurso, Iasi o caracteriza como aquilo
que Lênin chamaria de ―(...) tática processo, ou seja, um procedimento segundo o qual
o partido só formula aquilo que o movimento real da classe já realizou‖ (2006, p. 388).
Em outras palavras, em lugar da definição estratégica, se afirmaria uma espontaneidade
produzida pela prática dos próprios movimentos, e não do partido, mesmo sendo
reconhecida, àquela altura, a importância do instrumento partidário.
Mas o conjunto de afirmações do primeiro presidente do partido não deixaria de
ser expressão sintética da visão que o partido afirmava até ali. Para ele, o socialismo
petista teria que ir ―se definindo nas lutas do dia a dia‖, e, do mesmo modo, deveria ser

52
―Aqui é preciso considerar o peso simbólico da figura de Lula. A legitimidade do líder das maiores
greves operárias em muitos anos, reforçada pela intensa visibilidade que ele obteve nos meios de
comunicação, era um poderoso fator de aglutinação do seu grupo no interior do PT. E ele não estava só:
Olívio Dutra, Jacó Bittar e outros ―heróis‖ do mito de fundação eram lideranças do mesmo campo‖
(COELHO, 2005, p. 61).

62
construído negando uma ―receita da sociedade futura‖, ou o ―prato feito, que os
trabalhadores deveriam comer‖. Sob tal argumento, diferencia, internamente, aqueles
que não teriam aprendido ―a conviver com o povo, muito menos a sentir o que o povo
sente‖. Assim, o socialismo petista seria o socialismo popular, da ―emancipação dos
trabalhadores‖ como ―obra dos próprios trabalhadores‖. Tal ―fluidez‖, ainda,
convergiria na identidade em torno de uma maneira de ver o partido, sua direção e sua
estratégia.
O 1º Encontro Nacional do PT e sua I Convenção marcam, para além da
fundação, a legalização definitiva do partido e sua possibilidade de atuação institucional
e eleitoral. A reforma partidária de 1979, que buscava fragmentar as oposições por meio
da ampliação das agremiações53, era um tiro que sairia pela culatra: permitia, agora, a
legalização do PT e de outros partidos de oposição. Pronto para fazer as disputas nas
eleições de 1982, o partido se preparava para lançar candidaturas em todas as regiões do
país na primeira eleição direta para governo do estado desde 1962, último pleito antes
do golpe empresarial-militar.
Se a fundação do PT é marcada por seu manifesto, por seu programa e por seu 1º
Encontro Nacional, os dois encontros seguintes, 2º e 3º, ―concentram-se na análise da
crise política da Ditadura, indicando que ela busca transformar-se, sob controle, e sem
perder as rédeas do poder‖ (POMAR, 1998, p. 19). Apontariam, ―corretamente, as
principais tendências da conjuntura, como se comprovou na conciliação entre a
oposição liberal e o regime militar para uma transição negociada‖ (POMAR, 1998, p.
19). O partido não captara, com a profundidade necessária, entretanto, o início de
descenso dos movimentos sociais, fato relevante na negociação dos setores burgueses
que inviabilizariam as eleições diretas para presidência, resultando no recrudescimento
da transição conciliadora. Iasi (2006, p. 390), por sua vez, aponta que o 2º Encontro
Nacional ―(...) visava preparar o partido para os embates eleitorais daquele ano‖. Na
verdade, tratava-se ―de uma tradução tática daqueles princípios que foram afirmados
nos documentos de fundação e no 1º Encontro‖ (IASI, 2006, p. 390).
Resultante do 2º Encontro Nacional (1982), a ―Plataforma Eleitoral Nacional‖54
é acompanhada de uma ―Carta eleitoral‖. Nela, afirma-se a eleição como ―primeiro

53
Cinco novos partidos concorrerão às eleições de 1982: O MDB transformado em PMDB, a ARENA
organizada no PDS, o PT, o PDT e o PTB.
54
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Plataforma eleitoral nacional‖ (PARTIDO
DOS TRABALHADORES, 1982a, p. 119-127).

63
passo para o socialismo‖ almejado pelo partido. Em nenhum dos documentos a natureza
socialista do projeto se via negada, mas tratava-se do ―socialismo petista‖.
O partido se comprometia, assim, a fazer uma campanha eleitoral muito
diferenciada daquelas que os trabalhadores teriam participado, e sob o lema ―Trabalho,
terra e liberdade‖, buscaria aprofundar a ―mobilização e organização dos trabalhadores‖,
partindo das ―principais reivindicações do movimento popular‖.
O documento versa, ainda, sobre a análise da ditadura militar e a abertura
política, compreendendo a permanência da violência na vida cotidiana de cada
trabalhador como consequência da defesa ―dos banqueiros, dos especuladores, dos
latifundiários e dos capitalistas‖. Para substituir o regime e ―garantir liberdades reais
para o povo brasileiro‖, seria preciso construir entidades representativas que
unificassem ―as lutas populares contra a Ditadura Militar‖ e extinguissem todas as leis
repressivas em relação aos trabalhadores e ao povo, garantindo liberdade política e
sindical, ―eleições livres e diretas em todos os níveis‖, ―direito de greve‖ e ―autonomia
dos estados, inclusive quanto ao controle sobre suas Polícias Militares‖.
Já no segundo item, são abordadas as dificuldades do trabalhador diante da crise
econômica, dando como exemplo o fato de que não seria ―para menos‖ se algum dia o
salário não comprasse mais um quilo de feijão: ―os salários não aumentam a cada dia,
como aumentam os preços‖. A inflação que se mantinha na média de 100% ao ano
endurecia as condições de vida já precarizadas pelas perdas salariais dos anos
anteriores. O trabalhador da cidade, o do campo e os desempregados sofriam com o
quadro recessivo, se tornando urgente um conjunto de propostas para ―acabar com a
fome‖ em um ―país tão rico‖.
Ademais, oposta à intolerável ―existência de grandes latifundiários e terras
devolutas que nada produzem‖, a reforma agrária ―controlada pelos próprios
trabalhadores do campo‖ que garantisse terra para produzir, seria indispensável. Assim,
o PT iria ―lutar pela distribuição das terras devolutas aos pequenos produtores‖ e pela
―intervenção nas grandes empresas agrícolas, de modo a orientar a política agrícola
conforme os interesses dos trabalhadores‖. Assegurando aos assalariados do campo
―condições dignas de remuneração, transporte e direitos trabalhistas e previdenciários‖,
seria mister, em resumo, alcançar um governo comprometido e ―ao lado dos que
trabalham a terra‖ e não comprometido com as ―multinacionais, os latifundiários, os
grileiros e atravessadores‖.

64
Do ponto de vista urbano, era ―urgente uma reforma radical na política e na
legislação imobiliária, para acabar com a vergonhosa especulação que se faz com a
compra e venda de casas e terrenos em nossas cidades‖, contrapondo-a ―um amplo
programa de construção de casas populares‖. Para tanto, os tributos deviam ser
utilizados para taxar progressivamente os terrenos ociosos e fruto de especulação, e os
lotes destinados à construção das moradias populares deviam se localizar em ―áreas de
fácil acesso‖. Seria, ainda, necessário intervir ―na produção e distribuição de materiais
de construção‖, para que estes fossem ―padronizados e adaptados a essas necessidades‖,
introduzir programas de urbanização, posse da terra para os moradores de favelas, além
de abordar a questão dos transportes. A mobilidade urbana, por sua vez, ao desperdiçar
tempo na vida dos trabalhadores, devia ser repensada a partir da utilização de
―transportes coletivos, ao invés dos carros particulares‖.
O documento dedica-se também ao tema da saúde, educação, cultura e do
combate às discriminações. A saúde, resultante das condições estruturais da vida social,
estava impedida de melhorar pela gana do lucro. Neste sentido, era necessária a
estatização de ―clínicas, hospitais, remédios e equipamentos hospitalares‖, das
indústrias ―química‖, ―farmacêutica‖ e ―empresas que atuam no setor‖. A única maneira
de garantir o atendimento adequado para qualquer cidadão seria ―oferecer atendimento
médico público e gratuito‖, próximo ao local de moradia dos trabalhadores. Já em
relação à educação, propunha uma mobilização nacional para erradicar o analfabetismo
em três anos, além de marcar posição pelo fim do ―grande negócio‖ em que havia se
tornado a educação. A educação, tal qual a saúde, não poderia ser objeto de lucro, mas
pública e gratuita em todos os níveis. Para tornar os cursos superiores acessíveis aos
filhos de trabalhadores, postulava o investimento de ao menos 12% do orçamento
nacional em educação.
Em relação ao tema da cultura, o enfrentamento à indústria cultural devia estar
articulado ao fortalecimento de movimentos que criassem centros de cultura, reforçando
a cultura popular. Combatendo a discriminação contra mulheres, negros e as ―minorias‖,
o PT exigia ―igualdade nas leis que regem a família, o trabalho e a sociedade; o direito
ao trabalho, à profissionalização e extensão dos direitos trabalhistas a todas as
trabalhadoras, a exemplo das empregadas domésticas‖ e o ―respeito ao direito de salário
igual para trabalho igual‖.
A ―Plataforma‖ defende, ainda, em seu oitavo item, ―uma política econômica
que dê prioridade à produção de bens de consumo popular‖ e ―não bens de luxo‖.

65
Vamos destacar esse item, pois é a primeira vez que aparece a proposição, em
documentos do PT, do que poderia vir a ser um ―consumo popular‖ – tão enfatizado em
período posterior. Neste sentido:
Colocar a economia a serviço do trabalhador só será possível se acabarmos
com o verdadeiro império de agiotas em que o País está se transformando. Os
bancos, corretoras de valores, seguradoras, parasitas que nunca plantaram um
único pé de couve, elevam o preço do dinheiro, traficam com títulos da
dívida pública, lucram com a mera circulação do dinheiro. O Estado tem de
assumir o monopólio de todas as operações financeiras e orientar os recursos
da poupança popular para onde interessa à maioria da população, e não para
que dê mais lucro a um agiota qualquer. Impõe-se, portanto, a estatização do
sistema financeiro sob o controle dos trabalhadores.
Também é necessário acabar com o controle que os grandes monopólios
exercem sobre a economia brasileira. Os interesses da maioria do povo
justificam um combate sem trégua à ação nociva dos grandes monopólios
sobre a nossa economia.
Finalmente, quem pegar este governo terá sobre si uma imensa dívida externa
acumulada, e que serviu para grandes negociantes.
O País não pode se matar para pagar uma dívida da qual quem mais lucrou
foram sempre os banqueiros internacionais. Propomos um completo
inquérito, para saber onde e como são aplicados os recursos provenientes da
dívida. É preciso suspender o seu pagamento e estudar, caso a caso, as
condições de reescalonamento dos prazos, renegociação, congelamento e até
o não pagamento.
Para melhor controle desta situação, impõe-se também a nacionalização do
comércio exterior (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1982a, p. 124,
grifos nossos).

O documento não volta ao tema do consumo, deixando sublinhado os interesses


do sistema financeiro, comercial e dos monopólios como avessos aos da maioria do
povo. Em busca de combater a ―desnacionalização do subsolo‖ brasileiro, ―da indústria
energética e mineral e do monopólio privado da produção de energia‖, abre-se novo
item, no qual se afirmam aspectos da questão nacional e ambiental.
―O poder para os trabalhadores e o povo‖ afiança que, diante da possibilidade
de burocratização a partir da simples estatização da economia, a ―mobilização dos
trabalhadores‖ deveria ser peça de combate. Escolas, postos de saúde, empresas,
economia nacional e até delegacias de polícia deviam ser alvo de controle popular.
Reafirmando o compromisso com ―a construção de um novo poder‖ – baseado na classe
operária e na mobilização de todos que ―vivem de seu próprio trabalho, para
construirmos uma sociedade sem explorados e sem exploradores‖ – a derrubada da
ditadura militar teria de colocar por ―terra não só suas leis e sua falsa justiça, mas
também a base econômica‖. E isso porque não haveria verdadeira mudança para
população ―enquanto os monopólios financeiros‖ continuassem ―mandando na

66
economia do País‖ e ―os monopólios comerciais‖ controlassem ―a circulação de
mercadorias e os monopólios industriais a produção nacional‖.
Depois de defender uma ―política externa independente‖, que estabelecesse
―relações diplomáticas com todos os países socialistas‖, o documento encerra seu 12º
item, afirmando que: ―Só o socialismo resolverá de vez o nosso problema‖. Nele, o PT
volta a afirmar o compromisso com uma sociedade sem explorados, ―isto é, o seu
compromisso com a construção de um Brasil socialista‖. Nascido da luta dos
trabalhadores, o PT,
(...) desde o início, percebeu que os meios de produção deveriam ser de
propriedade social, servindo não aos interesses individuais de um ou outro
proprietário. Queremos uma sociedade em que os homens sejam valorizados
e onde nenhum homem possa ter o direito de explorar o trabalho de outro.
Uma sociedade em que cada um e todos possam ter iguais oportunidades para
realizar suas potencialidades e aspirações.
(...)
Nosso socialismo será definido por todo o povo. Não nascerá de decretos,
nem nossos, nem de ninguém. Irá se definindo nas lutas do dia a dia e será
sinônimo de emancipação dos trabalhadores e de todos os oprimidos
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1982a, p. 126, grifos nossos).

O compromisso, portanto, era o de ―mudar o Brasil‖. Sendo assim, todos os


postos conquistados em eleições deveriam ser colocados ―a serviço da mobilização e
organização das classes trabalhadoras‖, procurando ―criar condições para a participação
popular organizada e autônoma, com poder de decisão na sua atuação política e
administrativa‖. Casada à resolução em que apresenta uma carta-compromisso para os
candidatos do partido, o PT finca, dessa maneira, o perfil partidário dos mandatos, que
seriam expressão de seu programa assim como dele estar a serviço. Esta era a primeira
eleição que o PT participaria. Tal experiência imprimirá forte influência em relação ao
lugar que o sufrágio teria para o partido dali em diante. Mesmo fluido ao definir o
socialismo, o programa eleitoral guardaria bastante radicalidade, em especial ao
apregoar a estatização do sistema financeiro e a propriedade social dos meios de
produção.

67
2.5 O 2º e o 3º Encontro Nacional do PT: A primeira experiência eleitoral (1982) e
seu balanço (1984)

Na ―Carta eleitoral do PT‖, fruto do 2º Encontro Nacional de 198255, é avaliado


como a eleição de 1982 evidenciaria distintos interesses em jogo. Tais interesses seriam
resultado do ―aumento das contradições dentro dos grupos dominantes, bem como [d]as
dificuldades de manobra que encontram no campo institucional‖. Logo, embora as
características conjunturais não apontassem necessariamente para o adiamento do pleito
eleitoral, presumia-se que essa alternativa não estaria ―completamente fora das
cogitações oficiais‖: com a perspectiva de possível derrota do partido governista, as
eleições passavam a ser um ―elemento de tensão‖, pois o regime não estaria disposto a
perder o controle do Congresso.
A luta pela realização das eleições seria importante ―para o PT, no sentido de
propiciar aos trabalhadores uma oportunidade de expressar maciçamente sua avaliação
política do regime‖ e para diferentes forças partidárias, aumentando a mobilização e a
consciência política. Já para ―o governo e a sua base social as eleições poderiam
representar mais um passo na tentativa de consolidar seu processo de reformas limitadas
sob o título inadequado de ‗abertura‘‖ e enfraquecer a ―oposição operária e popular‖,
recuperando, assim, o ―terreno que perdeu após a retomada das lutas de massa, que se
vêm desenvolvendo desde 1974 e explodiram em 1978 por meio de greves e
manifestações de massa‖. Tratava-se, para o regime, ―de prosseguir aplicando, agora
através do jogo parlamentar e concessões que incluem eleições, o mesmo modelo
econômico desnacionalizante e concentrador de renda imposto a partir de 1964‖ e, para
os trabalhadores, de ―ampliar o espaço de organização e mobilização política‖.
O pleito, portanto, não colocaria em disputa ―a estrutura do poder político
vigente‖ e deveria servir ―como alavanca na organização e mobilização dos
trabalhadores na perspectiva da construção do poder popular‖, uma ―etapa de
aprendizado, de acúmulo de forças, de propaganda em torno de um programa de
transformações, de conquista de espaço mais amplo para o fortalecimento da
organização política dos trabalhadores‖ e ―mais respaldo para as lutas sociais‖. Partindo
dessa compreensão, participar do pleito tinha como horizonte os seguintes objetivos:

55
O 2º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores ocorreu entre os dias 27 e 28 de março de 1982
no Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo/SP. Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento
―Carta eleitoral do Partido dos Trabalhadores‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1982b, p. 128-
135).

68
1. Levar o programa do PT aos trabalhadores, usando a campanha eleitoral
para dar continuidade às lutas sociais e para aumentar a organização e a
consciência política do povo, tarefas estas que servirão para ampliar a
consolidação do PT.
2. Constituir-se na expressão partidária que aglutine os trabalhadores numa
proposta que represente, na luta contra a ditadura, os interesses e as
reivindicações do movimento operário e popular. Além disso, visa a
fortalecer uma alternativa política diferenciada da oposição liberal
burguesa, colocando a questão do poder político do ponto de vista dos
trabalhadores.
3. Participar da campanha eleitoral lado a lado com as organizações operárias
e populares (sindicatos, UNE, associações de moradores, etc.) e para isso
assumir todas as reivindicações hoje postas pelas massas em luta.
4. Impor uma derrota eleitoral à ditadura e às forças que a apoiam direta ou
indiretamente. Denunciar durante a campanha as regras eleitorais da ditadura,
como, por exemplo, a série de pacotes do governo (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1982b, p. 130, grifos nossos).

Os mandatos, caso fossem conquistados, teriam como objetivo ―representar


tribuna de denúncia e caixa de ressonância das lutas travadas fora do parlamento‖ e, na
esfera executiva, dever-se-ia possibilitar a participação da ―comunidade na gestão do
poder público, num processo que trará fértil aprendizado sobre a índole burocrática e
cerceadora do Estado burguês‖. Seria interesse do PT, também, ―derrotar o partido
governista e denunciar durante a campanha o caráter da ―abertura‘‖. Do ponto de vista
da tática, a participação eleitoral corresponderia a um momento que não poderia ferir
seus objetivos programáticos, pois as eleições seriam ―apenas um episódio, um
momento definido de nossa atividade política permanente, em busca do objetivo final
que é construir uma sociedade socialista, sem explorados e exploradores.‖
Já o 3º Encontro Nacional do Partido, realizado em 198456, é marcado pelas
lições do processo eleitoral. Como a legislação previa o voto vinculado em um único
partido para todos os cargos em disputa, mantiveram-se as bases para que o número de
votos do PDS – ex-Arena (Aliança Renovadora Nacional), ou seja, partido ―da ditadura‖
– se aproximasse ao número de votos dos demais partidos de oposição somados, PMDB
(Partido do Movimento Democrático Brasileiro), PDT (Partido Democrático
Trabalhista), PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e PT.
Segundo avaliação prévia ao encontro, realizada pela Comissão Executiva
Nacional do PT, os resultados eleitorais teriam sido fracos, abaixo das ―expectativas

56
O 3º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores foi realizado entre os dias 6 e 8 de abril de 1984
no Pampas Palace Hotel, em São Bernardo do Campo (SP).

69
mais pessimistas‖57. Apesar disso, a polarização do resultado expressaria a tentativa de
se impor uma derrota imediata ao governo e havia ficado ―claro, na campanha, que o
povo – mais explicitamente o eleitorado oposicionista – queria promover uma mudança
imediata, ainda que não substancial‖. Do ponto de vista da autocrítica de sua
plataforma, o PT acenaria para mudanças de longo prazo, ―sem conseguir ligar nossa
proposta de mudanças estruturais na sociedade com as questões mais sentidas pelo
povo agora‖. Resultante da incapacidade de mediação entre a exposição do projeto do
partido no período eleitoral, a ligação entre conquistas imediatas para o povo e o projeto
de mais longo prazo era colocada em questão: ele devia se identificar menos com uma
visão doutrinária e mais com as ―questões imediatas‖ sentidas pela população.
Numa série de autocríticas, uma será bastante contundente58:
Um outro erro político grave foi uma incorreta compreensão da relação,
estabelecida na Carta Eleitoral, entre luta eleitoral e luta de massas. Hoje,
depois das eleições, podemos ver claramente que tivemos êxitos eleitorais
onde tínhamos, antes das eleições, luta de massas. É o caso de Estados como
São Paulo e o Acre ou de regiões como o ABCD, em São Paulo, ou certas
favelas no Rio de Janeiro. Podemos ver claramente que tivemos também
êxitos onde a campanha foi levada para as massas, tornando-se a luta eleitoral
um instrumento para a construção do PT. Temos inúmeros exemplos
individuais de companheiros que, ganhando ou perdendo, jogaram o Partido
para as ruas, construindo assim novas ligações de massas para o PT.
Não foi essa, porém, infelizmente, a compreensão da maioria dos nossos
companheiros. Não há como deixar de reconhecer que, em muitas partes, a
luta eleitoral foi, como tal, subestimada. Muitos não compreenderam que,
embora sendo um aspecto secundário da luta popular, a campanha eleitoral
deveria ter-se tornado para todos um instrumento de ligação do Partido com
as massas. Na incompreensão disso está a raiz de muitos erros, como um
doutrinarismo que não tem nada que ver com a consciência real das massas,
um eleitoralismo que se revelou frustrante para a maioria dos que o
praticaram, um aparelhismo que não leva a lugar nenhum, etc. E o que é mais
grave: na luta política real que se dava durante o processo eleitoral, houve
muitos, dentro do Partido, que, sem uma compreensão real do momento, não
tiveram firmeza para sustentar a posição do PT onde ela de fato estava.
Houve muitos que fugiram ―para frente‖ (do qual o doutrinarismo é exemplo
típico) e muitos que fugiram ―para trás‖, alguns cedendo mesmo às
campanhas de adversários nossos, como a campanha do ―voto útil‖, etc. (A
DIREÇÃO DO PT..., 1983, p. 8, grifos nossos).

Do ponto de vista organizativo, o saldo eleitoral, por sua vez, deixava a lição de
que o trabalho de base e a organização a partir dos núcleos deveriam ser reforçados.
A campanha eleitoral trouxe, como se pode ver, alguns ensinamentos. Não se
pode dizer que sejam ensinamentos novos, mas ninguém pode negar que
sejam válidos. Se os resultados das eleições deixam muito a desejar, não é

57
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―O PT e os resultados das eleições‖ (O
PT..., 1982).
58
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―A direção do PT faz a
autocrítica‖ (A DIREÇÃO DO PT..., 1983, p. 8).

70
porque nos tenha faltado uma proposta correta de luta de massas e de
organização política a partir das bases. Na verdade, isso é o cerne da proposta
do PT como partido político, um partido de tipo novo, de massas, aberto e
democrático.
Se os resultados eleitorais deixam a desejar foi porque na maioria dos casos
não tomamos a sério aquilo mesmo que propusemos: organizar a partir dos
núcleos e estar presente, lado a lado com os trabalhadores, nas suas lutas
concretas. Os poucos êxitos que tivemos durante a campanha se devem a um
trabalho de base feito antes ou durante a campanha. É esse o caminho que
devemos seguir daqui para frente (A DIREÇÃO DO PT..., 1983, p. 8).

As ―Teses para a atuação do PT‖, aprovadas no 3º Encontro Nacional, também


retomam o tema da participação no pleito. Nelas, se afirma, em conclusão, a
necessidade de reconhecer como ―traduzir o objetivo de organizar politicamente os
trabalhadores em propostas concretas, isto é, num projeto alternativo para a
sociedade‖59. A conjuntura guardara, por outro lado, uma surpresa. O processo massivo
de agitação pelas ―Eleições Diretas Já‖, iniciado em 1983 com forte protagonismo do
PT, teria sido um ponto de fortalecimento do partido. Mesmo com as dificuldades no
que disse respeito ao processo eleitoral, este teria se convertido ―num importante polo
de referência política da população brasileira, especialmente dos trabalhadores‖, uma
decorrência ―do firme posicionamento assumido por nosso partido nos vários momentos
de luta‖. Ao assumir ―papel decisivo‖ na luta pela conquista de eleições nacionais livres
e diretas o partido passava a ser uma das principais forças oposicionistas do país.
Ainda, eram notórias as dificuldades para consolidação do instrumento
partidário, dentre as quais se destacavam, resumidamente: 1) a necessidade de ―traduzir
o objetivo de organizar politicamente os trabalhadores em propostas concretas, isto é,
num projeto alternativo para a sociedade‖; 2) transformar a visibilidade do partido ―em
força orgânica, que se traduza em crescimento, em número e qualidade, de filiados,
núcleos e Diretórios‖; 3) superar a ―prática internista‖; 4) superar a ausência de uma
―política nacional de crescimento e construção partidária‖ e as dificuldades materiais e
humanas que a dificultavam; e 5) ampliar a ―presença organizada nos movimentos
sociais‖.
Indicando necessidade de ―formar os militantes para a luta de massas‖, a
formação passava a ser instrumento imprescindível na efetivação da política massiva.
Para evitar o ―erro do ativismo‖ tanto quanto o do ―teoricismo‖ dever-se-ia, ademais,

59
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Teses para a atuação do PT‖,
aprovadas no 3º Encontro Nacional do PT (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1984, p. 142-156).

71
implantar ―no PT um programa de formação política‖ que capacitasse ―cada filiado a
desempenhar seu compromisso de luta ao lado dos trabalhadores‖, estabelecendo
debates, seminários e cursos em cada instância e região partidária.
Acompanhando a avaliação sobre as eleições, o parlamento é entendido a partir
de um duplo aspecto, de maneira que se recuperassem ―suas prerrogativas políticas e
sua independência diante do Executivo‖, ao mesmo tempo em que se esclarecessem aos
―trabalhadores sobre as [suas] limitações‖. O espaço deveria, pois, ser usado: ―para
combater projetos e medidas antipopulares‖; ―para fiscalizar o uso de recursos públicos
e o andamento da administração pública‖; ―para denunciar todas as medidas contrárias
aos interesses da classe trabalhadora‖; ―para apresentar e fazer aprovar medidas
legislativas em benefício dos trabalhadores‖; e ―para divulgar as propostas, as diretrizes,
o programa e as ideias do PT‖. Logo, o partido teria a finalidade de combater, em suas
fileiras, a generalização da centralidade parlamentar, tanto quanto a postura
antiparlamentar.
Os dois itens seguintes, por sua vez, estabelecem a necessidade de uma política
de finanças para o partido e a de intensificação da luta popular, resguardando a
autonomia entre ambos. Primando por diferenciar os papéis de cada um desses
instrumentos, a organização da intervenção petista não poderia prescindir da
manutenção de autonomia e independência entre partido e movimentos sociais.
Outro aspecto tratado é acerca de uma política internacional, em favor ―dos
interesses dos povos que lutam por sua libertação‖, o que passaria por recusar a
―submissão do País à dominação imperialista‖. Uma ―política externa independente‖,
inseparável da construção de ―relações comerciais e diplomáticas‖ com ―países
socialistas e do Terceiro Mundo‖, de semelhantes ―condições econômicas, históricas e
culturais‖ do Brasil, com os outros ―povos latino-americanos‖, priorizando a relação
com ―os movimentos de libertação latino-americanos‖, principalmente com Nicarágua,
El Salvador e Cuba – à época. Caberia ressaltar, ainda naquele momento, ―a luta dos
trabalhadores da Polônia, que resistiam em torno do Movimento Solidariedade‖ 60. O
―mais amplo intercâmbio de ideias e experiências com partidos dos trabalhadores de
todo o mundo‖ devia ser um norte na busca por um ―caminho para a efetiva
emancipação dos trabalhadores‖, sem ―opressões de castas burocráticas‖.

60
O Sindicato Autônomo ―Solidariedade‖ foi uma federação sindical da Polônia criada em 1980, um
movimento antiburocrático e pacífico que buscava avançar, sob liderança de Lech Walesa, nas causas dos
direitos dos trabalhadores.

72
Estabelecendo uma conexão direta entre a luta econômica dos trabalhadores e a
luta de caráter político, o próximo tema elencado afiança que ―as saídas possíveis para a
situação econômica‖ passariam, necessariamente, ―pelo fim do regime‖ que agia em
benefício das ―classes dominantes, ou seja, o grande capital nacional e multinacional e o
sistema financeiro‖ e ―pela conquista da democracia‖, que poderia viabilizar a chegada
dos trabalhadores à direção do Estado. As escolhas do governo afetavam e
aprofundavam, portanto, a crise econômica, que era sentida principalmente pelos
trabalhadores e pelas classes médias. Como medida necessária e emergencial para
―fazer frente a esses problemas‖, o PT defenderia ―o rompimento imediato dos acordos
com o Fundo Monetário Internacional (FMI)‖ e a ―imediata suspensão do pagamento da
dívida externa‖, acompanhados de investigação e de decisão sobre os destinos de ―uma
dívida que o povo não contraiu‖.
As ―Teses‖ também retomam os documentos anteriores do PT: questão
nacional, questão agrária e questão democrática. Defendendo a ―posse e o uso da
terra‖ pelos trabalhadores do campo, o PT apoiaria a ―ampliação e o aprofundamento
das lutas por uma reforma agrária sob controle dos trabalhadores‖. Além de uma medida
de alcance econômico, a reforma agrária seria parte de um processo de mobilização,
organização e de unificação das lutas dos trabalhadores do campo e da cidade.
No que diz respeito às eleições, não seriam por ―razões meramente táticas‖ que o
PT defenderia eleições livres e diretas, mas porque estas respeitariam a soberania
popular. Não sendo restritas a uma pauta liberal, as eleições eram ―apenas o começo do
futuro democrático e socialista‖ que o partido desejava para o Brasil. A luta por eleições
diretas era, portanto, ―uma luta pelo direito de o povo exercer o controle do governo‖, o
que devia ocorrer ―na perspectiva de frustrar as tentativas de conciliação‖ via colégio
eleitoral. Assim, o partido conclamaria, caso fosse rejeitada a emenda de eleições
diretas no Congresso Nacional, um boicote dos demais partidos ao Colégio, articulando
suas táticas no sentido de intensificar ―o debate sobre a Assembleia Constituinte‖.
Transpondo a barreira ―exclusivamente institucional‖, seria necessário combinar e
desdobrar ―grandes jornadas de lutas de massas contra o Regime‖, sendo discutida,
fundamentalmente, a proposta de greve geral feita pela CUT. Novamente, afirmando a
ausência de condições para ―tomada do poder‖, o PT teria a tarefa de ―fortalecer a
capacidade de atuação política dos trabalhadores, buscando alterar a correlação de
forças em seu favor‖.

73
2.6 O Encontro Nacional Extraordinário (1985): contra o continuísmo e o pacto
social, por uma alternativa democrática e popular
Em 1985, já sob a égide da Nova República, com um franco descenso do
movimento operário, popular e democrático e passos ainda tímidos do novo
movimento camponês dos sem-terra, o PT realizou um Encontro
Extraordinário. Ele se restringe, porém, a fazer uma breve avaliação da
campanha das diretas e da incapacidade do movimento popular em reunir
forças suficientes para provocar uma ruptura democrática no Regime Militar
fracionado. Analisa a formação da Aliança Democrática, as dissenções nas
Forças Armadas e no partido governista, o PDS (Partido Democrático
Social), o malufismo e a situação econômica e social do País como pano de
fundo da proposta de pacto social de Tancredo Neves e faz um esforço para
propor medidas de resistência diante da ofensiva conservadora (POMAR,
1998, p. 20).
Seguindo o objetivo expresso no documento ―Contra o continuísmo e o pacto
61
social‖ resultante do Encontro Nacional Extraordinário (1985)62, o PT realiza a
avaliação da campanha pelas Diretas, da situação econômica do país e das forças
políticas atuantes no período, visando propor um ―plano de ação e uma plataforma de
lutas por uma alternativa democrática e popular, que se contraponha ao regime, à
transição conservadora e ao pacto social‖. O PT se afirmava, ainda, imediatamente em
oposição ao governo que, no Colégio Eleitoral, viesse a suceder o presidente
Figueiredo.
Segundo o partido, o principal saldo da campanha teria sido o retorno dos
trabalhadores à luta institucional, assim como o resgate de formas de ações políticas
diretas, como comícios e passeatas massivos. Apesar disso, o movimento sindical e
popular não teve condições de fazer frente aos setores liberais e conservadores
organizados no Comitê Nacional Pró-Diretas, que impuseram à campanha ―controles e
limites, que conduziriam à conciliação‖. Supunha-se, assim, que o acúmulo de forças
que o polo oposto tinha logrado alcançar se manteria mesmo após ―a derrota da Emenda
das Diretas no Congresso Nacional‖. O PT, levando em conta o caráter unitário da
campanha, não tinha se dado conta ―que o PMDB já se dirigia ao Colégio Eleitoral com
a tese da candidatura única das oposições‖, nem do deslocamento de possíveis aliados63
que ―(...) incorporaram-se à Aliança Democrática, deram seus votos para regulamentar o
Colégio Eleitoral e, hoje, ainda que isolados pelos setores mais conservadores, servem

61
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Contra o continuísmo e o pacto social‖
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1985, p. 179-193).
62
O Encontro Nacional Extraordinário ocorreu entre os dias 12 e 13 de janeiro de 1985, em Diadema
(SP).
63
São citados os seguintes partidos: PMDB, PCB, PCdoB e MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de
Outubro).

74
para legitimar a transição conservadora‖. A Aliança Democrática, portanto, era preciso
ter claro, teria utilizado ―a mobilização popular para impor ao regime a aceitação de seu
candidato‖.
O item ―Regime militar‖, por sua vez, avalia as bases que representariam
mecanismos de continuidade das restrições advindas do passado recente. Vale a pena
seguir os argumentos apresentados.
O desgaste progressivo, a perda de bases de sustentação social e o
fracionamento mais recente dos militares não foram suficientes para provocar
uma ruptura democrática e acabar com os mecanismos de exceção,
construídos durante os últimos 20 anos. Antes de tudo, porque o movimento
popular não foi capaz, até agora, de estabelecer as bases seguras de uma nova
e favorável correlação de forças sociais e políticas, através de novos e mais
altos níveis de organização, da abrangência e aprofundamento de suas lutas,
de sua ação comum organizada, da conquista de amplas liberdades judiciais e
políticas e de um programa mínimo de mudanças prioritárias e
mobilizadoras. E também porque a sucessão, com Tancredo, sob controle e
comprometida com os ideais de 1964, era uma das alternativas previstas no
projeto de abertura lenta, gradual e segura, esboçado no início do governo do
general Geisel, o principal sustentáculo militar da Aliança Democrática.
Ao abrir-se o atual processo sucessório, sob as regras do próprio regime e em
meio a uma profunda crise econômica, social e institucional, os militares
perderam o controle do PDS e, em certo sentido, ao se dividirem, permitiram
que a sucessão escapasse do seu controle. Isto não impediu, porém, que eles
impusessem, por meio da intimidação, medidas de emergência, ameaças,
prisões e negociações com a Aliança Democrática, uma solução de
compromisso que lhes garante um recuo organizado e a manutenção da tutela
militar sobre o País (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1985, p. 180).

A tentativa de manutenção de instrumentos de exceção seria notória, ainda que,


segundo avaliação do documento, a formação da Aliança Democrática tenha significado
uma derrota para o bloco de poder. O novo método de governo imporia mudanças, mas
a luta pela democracia era a pauta que se mantinha na ordem do dia.
Os compromissos de Tancredo com a manutenção do SNI (Serviço Nacional
de informação), da LSN (Lei de Segurança Nacional), do Conselho de
Segurança Nacional, do conjunto da legislação imposta pelo regime e do
aparelho repressivo significam a garantia de sua continuidade. A volta aos
quartéis, da forma que se dá, sem apuração da responsabilidade política pelos
20 anos de arbítrio e corrupção, sem desmontar a comunidade de
informações, o aparelho policial e o controle sobre o complexo industrial-
militar, significa que o poder militar continua submetendo o poder civil, e
não o contrário. Ou seja, é preciso lutar para conquistar a democracia. Não
se pode ignorar, contudo, que a formação da Aliança Democrática
representou uma derrota para o atual núcleo de poder. E que, a despeito da
tutela militar, Tancredo e o bloco de classes que ele articula vão governar
através de novos métodos e sob novas formas (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1985, p. 181, grifos nossos).

Dito isso, o documento passa a analisar a situação econômica e social do país. A


recessão – gravíssima no período, cuja explosão inflacionária chegaria a 211% ao ano –

75
é apresentada como fruto da orientação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, a
despeito de leve recuperação do quadro econômico, não seria possível reverter a onda
de ―desemprego, de miséria e de crise social provocada por uma política econômica
monetarista e a serviço do grande capital‖. Logo, era diante da deterioração econômica
e social que deveria ser analisada a proposta de ―pacto social‖ de Tancredo:
É neste contexto que deve ser analisada a proposta de pacto social
apresentada por Tancredo Neves. Ao que tudo indica, o pedido de trégua por
seis ou nove meses, feito por Tancredo, inspira-se na política de seu velho
benfeitor, Getúlio Vargas: o pacto social é nada mais nada menos que a
reedição da política de apertar os cintos. Em nome da consolidação de seu
governo e de sua política, a Aliança Democrática quer dos trabalhadores um
cheque em branco, um crédito de confiança, muito embora não se descarte de
imediato a possibilidade de alguma concessão, que, na essência, será mero
paliativo, não podendo constituir elemento de barganha para os trabalhadores
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1985, p. 182, grifos no original).

Liberalizando o regime sem de fato democratizá-lo, o processo de transição


buscaria ―reconstituir a autoridade do Estado com a participação de setores das classes
dominantes até então marginalizados: tratava-se de construir uma nova hegemonia‖.
Prevendo a exclusão das classes populares, eram criadas ―condições para manter
indiretas as eleições‖. O governo buscava assegurar sua continuidade ―através de um
pacto das elites‖ e o PT lutava ―contra a transição por cima‖, opondo a ela ―uma
alternativa por baixo, a partir da mobilização e em defesa dos interesses sociais e
políticos das grandes maiorias‖, tendo como início a luta pelas eleições livres e diretas.
Ao longo de todo o período da campanha os setores conservadores oscilavam ―entre a
luta pelas Diretas e a conciliação com o regime‖, e, quando passavam a temer a
mobilização popular, ―apressa[va]m as negociações com setores do regime e do PDS:
começa[va] a tomar forma a Aliança Democrática‖.
A derrota da ―Emenda Dante de Oliveira teria sido a senha para a
desmobilização e a retomada do controle pelos setores conservadores‖, e a vitória de
―Maluf na convenção do PDS‖ criaria ―condições definitivas para a união dos
dissidentes do PDS com o PMDB, formalizando a Aliança Democrática e o lançamento
oficial da candidatura Tancredo Neves‖. A Aliança Democrática, por sua vez,
reunificava ―num único bloco, latifundiários, banqueiros, industriais, grupos
estrangeiros e setores militares‖ e, seguindo a tentativa de ―ocultar este caráter de
classe, seus objetivos continuistas e sua legitimidade, a Aliança Democrática explorou o
sentimento popular de repúdio a Maluf‖, apoiando-se na palavra de ordem de mudanças.

76
Daí ser compreensível que a população ―tenha sido envolvida pelo falso dilema
Tancredo ou Maluf‖, sendo levada a preferir o ―mal menor‖.
Vitoriosa graças ao grande bloco de forças que aglutinou, a Aliança
democrática buscou arrastar para o Colégio Eleitoral o único partido que se
mantém independente: o PT. Não se tratou, para ela, de precisar dos votos do
PT, dada a sua evidente maioria entre os delegados, mas de conquistar nosso
apoio político, social e ideológico para o projeto de transição das classes
dominantes e para o pacto social que pretende legitimá-lo e consolidá-lo.
Embora a diversidade de setores que compõem a Aliança Democrática não
tenha permitido, até agora, a apresentação de um projeto político e
econômico mais acabado, os [setores] hegemônicos da Aliança já têm
definidos alguns compromissos e objetivos fundamentais. São eles: a eleição
de um Congresso de centro-direita em 1986, a quem se entregaria a reforma
da Constituição; a aceitação da tutela militar; o compromisso de honrar todos
os acordos com o FMI e com o capital financeiro do País e do exterior;
garantia de intocabilidade da propriedade fundiária, mantendo como padrão
de política agrária a mera aplicação do Estatuto da Terra; em resumo, um
conjunto de linhas que representam a disposição, já manifestada pelo próprio
candidato a presidente, de manter-se fiel aos ideais de 64 (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1985, p. 184).

No momento em que a Aliança Democrática buscava ―consolidar sua hegemonia


de classes através da adesão dos trabalhadores a um pacto social e através da
participação do PT na transição conservadora‖ seria necessário que o partido
preservasse a sua ―independência política‖. Isso tendo em vista que a vontade de
independência política dos trabalhadores e suas lutas por autonomia em relação ao
Estado, que expressava a recusa ―à dominação burguesa‖, seria a própria origem do
partido. A atuação no parlamento, lutando ―pela ampliação da margem de liberdade
política e pela conquista de reivindicações econômico-sociais, sempre postas em função
do acúmulo de forças dos trabalhadores‖, por sua vez, tinha como objetivo ―conquistar
o poder e o socialismo‖. Resgatando o manifesto de fundação do PT, é reafirmado ―que
a democracia é uma conquista que, finalmente, ou se constroi pelas mãos dos
trabalhadores ou não virá‖.
Logo, sendo coerente com a luta independente dever-se-ia estabelecer ―uma
linha política e um plano de ação‖ que conduzisse ―à construção de uma alternativa
democrática e popular capaz de se opor ao pacto das elites‖. E isso passaria por
fortalecer a plataforma política do PT, a organização do partido e, do ponto de vista da
ação de massas, por uma ―campanha de mobilização e propaganda pela Assembleia
Constituinte Livre, Soberana e Democrática e por eleições livres e diretas em todo os
níveis‖.
Frente à conjuntura que analisamos nos itens anteriores, o PT deve concentrar
sua atuação política no combate ao pacto social e à transição conservadora.
Isso significa que devemos privilegiar o movimento popular e sindical as

77
formas de luta de massas. Só com este acúmulo de forças no plano não
institucional será possível obter mudanças democráticas no País.
Neste sentido, o PT deve retomar sua política de apoiar e incentivar as lutas
sociais, principalmente aquelas que ganham caráter nacional e de massas,
como a luta dos mutuários, dos sem-terra, dos professores e, especialmente, a
luta sindical, com a CUT à frente, que hoje encaminha as campanhas de
reajuste trimestral, [jornada semanal de] 40 horas, salário-desemprego e
reforma agrária.
As formas de luta próprias do movimento popular e sindical devem ser
impulsionadas através de campanhas, protestos, invasões e ocupações. As
jornadas de luta e protesto, cuja organização começou a se esboçar durante a
campanha das Diretas, com a participação de entidades da sociedade civil e
do movimento popular, devem ser retomadas com base em objetivos
precisos. E a greve geral, que depende de um maior acúmulo de forças do
movimento sindical, é o instrumento mais consequente para quebrar o pacto
social. Por isso, é fundamental que todos os petistas, no movimento sindical e
na CUT, se empenhem na sua organização, preparação e definição de
objetivos. Papel importante jogará, neste sentido, o Encontro Sindical do PT.
No plano institucional, propomos a imediata convocação de eleições diretas,
inclusive para prefeitos das capitais e áreas ditas de segurança nacional, em
1985, e não como quer a Aliança Democrática, que defende o mandato de
Tancredo por quatro ou seis anos. Exigimos também a revogação da
legislação eleitoral e sobre os partidos políticos, bem como os critérios
vigentes de representação popular.
Exigimos a livre organização partidária, o voto para os analfabetos, cabos e
soldados e o igual acesso dos partidos aos meios de comunicação e ao fundo
partidário (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1985, p. 187-188, grifos
nossos).

Incorporando a reivindicação da ―Assembleia Constituinte livre, democrática e


soberana‖ em sua plataforma democrática, o PT priorizaria, então, a organização dos
movimentos sociais para buscar que ela fosse a mais democrática o possível.
Explicitando elementos táticos frente à conjuntura, fica claro que ―o PT continuará
lutando para transformar a ordem social, econômica e política vigente, já que nosso
objetivo é a construção do socialismo‖. As frentes parlamentares seriam, assim, apenas
táticas e transitórias, e a luta passaria, essencialmente, por reforçar a pressão das
massas.
Avaliando, por fim, posturas pró-parlamentares e antiparlamentares do partido,
aponta-se que ―muitos partidos de origem popular e mesmo operária, na medida em que
abdicaram da luta por transformações de fundo na sociedade capitalista‖ haviam se
tornado ―pouco mais do que simples apêndices de suas bancadas no Parlamento‖. Neste
sentido, tanto a postura de subestimar a relevância do parlamento quanto aquela que
―aponta no sentido de partido parlamentar‖ deveriam ser combatidas, sendo aplicadas as
resoluções aprovadas em encontros anteriores.

78
2.7 O 4º Encontro Nacional do PT (1986): capitalismo dependente e desigual,
mercado incompleto e linhas de fundamentos da estratégia democrática e popular

Será no seu 4º Encontro Nacional, em 198664, que o PT esquadrinhará


caracterizações sobre a formação social brasileira, iniciando um processo de
aprofundamento programático que permitiria, como havia sido proposto, relacionar seus
objetivos estratégicos às necessidades imediatas do povo. Aprovando um ―Documento
eleitoral básico‖ e um ―Plano de ação política e organizativa do Partido dos
Trabalhadores para o período 1986/87/88‖65, os desafios políticos e organizativos do
partido se aprofundam e o delineamento da estratégia é sinalizado.
Logo, partindo ―de uma análise do estágio de desenvolvimento do capitalismo
no Brasil e da conjuntura política‖66 para ―estabelecer diretrizes capazes de orientar a
classe trabalhadora no enfrentamento de problemas imediatos – inclusive o processo
constituinte – e na luta por mudanças que consolidem e ampliem a democracia‖, o
documento avaliará a forma peculiar do capitalismo brasileiro e sua estrutura de classes.
O capitalismo brasileiro se encontraria em um ―alto nível de desenvolvimento‖,
sendo que este, todavia, teria se expandido ―de forma regionalmente muito desigual‖.
No centro-sul e no sul, o capitalismo alcançaria ―um razoável grau de centralização‖,
enquanto, no resto do Brasil, estaria ―disperso por pequenas empresas, com algumas
poucas exceções‖. Aproveitando-se ―em medida considerável, de formas atrasadas de
produção‖, em ―muitas regiões‖ predominaria, ainda, uma ―economia mercantil simples
e não a economia mercantil capitalista‖. Tendo se desenvolvido de ―forma subordinada
e dependente do capitalismo internacional, tanto com a penetração do capital
estrangeiro no País, quanto com a quase completa dependência científica e tecnológica‖,
a inserção estrangeira, quer fosse sob a forma direta ou de empréstimos, teria colocado
―os setores fundamentais da economia brasileira nas mãos das multinacionais‖,
transformando ―o País no maior devedor do mundo‖. Paralelamente, cresceria ―uma
diversificada camada de assalariados urbanos e rurais na indústria, no comércio, nos
serviços em geral e na agricultura‖, o que incluía a existência de uma considerável

64
O 4º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores foi realizado em São Paulo nos dias 30 e 31 de
maio e 1º de junho de 1986, no Hotel Danúbio, São Paulo (SP).
65
Tais documentos foram acompanhados de moções e outras resoluções – como de finanças e a linha
sindical.
66
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Plano de ação política e organizativa do
Partido dos Trabalhadores para o período 1986/87/88‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1986a, p.
246-294).

79
pequena burguesia e o crescimento, em termos absolutos, dos ―camponeses e os
pequenos e médios proprietários urbanos‖.
Do ponto de vista das classes sociais, consolidara-se a “estrutura de classes de
uma sociedade capitalista”, que sofreria ―alterações impostas por condições históricas e
culturais próprias‖ e pelas características econômico-regionais específicas. Uma
―poderosa classe burguesa, originária dos antigos senhores de terra da época imperial‖,
incorporaria gradativamente ―setores mercantis e comerciais, o setor industrial (1930), o
setor latifundiário e financeiro (1950), o setor de serviços e de comunicação‖, assim
como ―o setor de monopolização e internacionalização do capital (1964)‖. Apesar de
suas divergências e conflitos, os setores díspares da burguesia se uniriam
ideologicamente ―em momentos de crise, como o mostrava a Revolução de 30, a
Redemocratização de 1945, a implantação da Ditadura Militar em 1964‖ e, ―mais
recentemente, a superação do risco de uma ruptura democrática e a conquista de uma
relativa hegemonia por meio da transição conservadora (1984)‖.
Ao inverso da burguesia, as classes trabalhadoras brasileiras ainda não
integrariam de forma ―satisfatória os seus diversos setores, de origem e história
diferenciados, e que têm tido papéis sociais e políticos distintos, em grande parte‖
resultantes do ―desigual desenvolvimento do capitalismo‖. Constituir-se-ia de três
grandes setores: ―a classe média (rural e urbana), os assalariados urbanos (com uma
fração que se destaca dos demais – a classe operária) e os assalariados do campo‖. Já a
classe média, por seu lado, começara ―a se formar no período colonial e – ao longo de
surtos e saltos recentes (1920/1930, 1950/1960, 1964/1970)‖ sofreria ―grandes
transformações, tanto em termos étnicos como demográficos, econômicos, sociais
políticos e culturais‖. Constituída de forma heterogênea, a classe média teria em comum
sofrer, por parte da burguesia, ―exploração econômica e opressão política e ideológica‖,
insuficiente, ―contudo, para dar à classe média um projeto histórico e ideológico único‖.
Neste sentido, ―frequentemente seus diversos setores e seus milhões de integrantes são
cooptados pela burguesia‖, mais do que ―pelas posições e propostas dos demais
trabalhadores assalariados‖. A classe média se encontrava, portanto, marcada por
―diferenças regionais‖ e estaria mais ―presente e atuante no centro-sul, ou nas capitais‖
e ―mais rarefeita e desorganizada no interior, ou no norte e nordeste‖.
Os trabalhadores “assalariados urbanos”, fruto de ―descendência de imigrantes
estrangeiros‖, da ―proletarização da classe média rural e urbana‖, ou da ―incorporação
de parte dos trabalhadores rurais que migram para as cidades‖, haviam apresentado

80
―acentuado desenvolvimento na estrutura social brasileira desde o último quartel do
século XIX‖, avolumando-se em paralelo ao crescimento do próprio capitalismo. Já a
classe operária, a ―fração estratégica desse setor e de todo o conjunto das classes
trabalhadoras – pelo seu papel na produção e na reprodução para a acumulação de
mais-valia, sustentáculo de todo o sistema capitalista‖ também havia se expandido de tal
forma que estaria ―presente, embora em graus diferenciados, em praticamente todo o
território nacional‖.
Os ―assalariados do campo‖, em sua especificidade, diferenciar-se-iam ―dos
urbanos não apenas pelo volume consideravelmente menor que esse contingente ocupa
no processo de produção, mas também pelas condições de trabalho‖. Distinguir-se-iam
também ―de certas camadas da classe média rural‖, que dispunham de algum tipo de
meio de produção e que, em certas regiões, se transformavam sazonalmente em
―assalariado do produtor médio ou grande‖. Além das classes trabalhadoras e
assalariadas, vinham crescendo, principalmente no meio urbano, ―camadas
marginalizadas que não encontram lugar no mercado de trabalho ou dele são expulsas,
tanto pelo desemprego estrutural quanto pelo conjuntural‖, reforçando, assim, as fileiras
de trabalhadores excluídos.
O documento, ademais, compreende certa diferenciação entre classe e
consciência de classe. A burguesia teria ―as melhores condições para fortalecer a sua
consciência e a sua organização, bem como para desenvolver e aplicar seus projetos
históricos e para criar instrumentos de dominação econômica, militar, política e
ideológica‖, o que subsidiaria sua manutenção no poder. O ―Estado burguês‖
desenvolvido junto ao capitalismo, ―teria aparelhos‖ e ―conhecimento concreto da
realidade brasileira, bem como os mecanismos para interferir e alterar essa realidade em
seu benefício vale dizer, em benefício da classe burguesa‖. Dessa maneira, controlando
direta ou indiretamente diversos aparelhos públicos e da “sociedade civil”, o Estado
burguês capilarizaria a hegemonia da classe dominante. A consciência e a organização
da classe média, resultante de sua hibridez, por sua vez, obedeciam a ―graus variados‖.
Apesar do crescimento em capacidade organizativa e associativa, suas formas de
inserção se demonstrariam frágeis, em especial nos ―períodos conjunturais de caráter
autoritário‖. No que diria respeito aos ―trabalhadores urbanos e do campo‖, vale
acompanhar o histórico traçado pelo documento:
13. As tentativas de conscientização e organização dos trabalhadores urbanos
e do campo sempre foram duramente reprimidas pela burguesia, através do
Estado e de outras instituições políticas e sociais. Após um período inicial

81
(final do século XIX até o final das duas primeiras décadas deste século), em
que houve grande e intensa mobilização operária, com forte predominância
anarquista, proliferação de entidades sindicais livres de todo tipo, centenas de
manifestações e greves, expansão da imprensa proletária e revolucionária,
realização de congressos e conferências, criação embrionária de uma central
nacional e várias regionais, as lutas dos trabalhadores sofreram um descenso.
A unificação dos setores agrários e industrial da burguesia em 1930, com o
enquadramento do movimento operário nas malhas do Estado burguês,
aliado ao populismo e ao fascismo inerente ao Governo Vargas, à repressão
do Estado Novo, à legislação sindical atrelada [ao Estado] e às fragilidades
das correntes comunistas e socialistas da época acentuaram as dificuldades
de formação e organização da classe trabalhadora. Em 1945, com a queda
da Ditadura Vargas e o período chamado de Redemocratização, abriram-se
algumas perspectivas de avanço do movimento operário, apesar da
manutenção do controle do Estado sobre o sindicalismo, auxiliado pelo uso
seletivo da repressão, pelo populismo e pela política de aliança com a
burguesia, levada a efeito por correntes de esquerda, principalmente o PC.
Não obstante, no final da década de 1950 e começo da década de 1960, o
movimento operário e sindical urbano acumulava forças no sentido de um
salto de qualidade, organizativo e político; essas forças, contudo, não foram
suficientes para opor qualquer resistência séria à implantação da ditadura em
1964 e, até meados dos anos 70, os trabalhadores urbanos não conseguem se
reorganizar de maneira significativa. A partir de 1974, crises internas no
bloco dominante, o esgotamento do modelo econômico, a insatisfação
crescente da população, foram criando condições para o surgimento de
reivindicações, movimentos e entidades em setores da classe média e dos
trabalhadores urbanos (artistas, intelectuais, estudantes, jornalistas,
professores), bem como nos bairros das favelas e das periferias, com o
amparo de setores da Igreja Católica. Em 1978, irrompe a combatividade de
setores de ponta da classe operária, principalmente na região do ABC e, a
partir daí, foram se multiplicando as manifestações de conscientização, de
organização e de luta do proletariado: greves, passeatas, manifestações,
criação de entidades associativas e representativas, substituição de diretorias
sindicais pelegas por oposições combativas, congressos estaduais e nacionais
e criação de centrais sindicais (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1986a, p. 250, grifos nossos).

Do ponto de vista dos ―assalariados do campo‖, o documento baliza meados da


década de 1950 como o momento de surgimento de ―sinais de conscientização mais
agressiva‖, constituindo organização independente através da formação das Ligas
Camponesas, da CONTAG e, já no período então recente, dos trabalhadores sem terra.
Apresentam-se como óbices principais à organização e à consciência dos trabalhadores
do campo até a década de 1950, o pacto entre os setores dominantes (agrário e
industrial), a repressão do Estado burguês, o controle do Estado em relação ao
movimento sindical e operário, o populismo e o autoritarismo, as fragilidades das
correntes comunistas e a política de aliança com a burguesia por elas levadas a cabo.
O quadro histórico e estrutural apresentado, portanto, era resultado de ―inegável
situação de luta de classes‖, que oscilava entre ―períodos conjunturais autoritários‖ e
outros, de luta de classes aberta. O capitalismo brasileiro, que se desenvolvia ―de
maneira desigual e subordinada ao imperialismo, com uma burguesia e um Estado

82
burguês moderno(s)‖, malgrado ―seu grau de desenvolvimento e modernidade‖, não
conseguia ―resolver as contradições fundamentais do desenvolvimento do conjunto da
sociedade‖, apelando, então, para a força e a repressão.
Tendo isso em vista, as mudanças definitivas, que permitiriam cessar a opressão
e a exploração no Brasil, não seriam possíveis a partir de transformações pontuais, mas
apenas de uma ―ruptura radical contra a ordem burguesa e a construção de uma
sociedade sem classes‖, que, ―por meio da socialização dos principais meios de
produção, visasse a abundância material para atender às necessidades materiais, sociais
e culturais de todos e de cada um de seus membros‖, ou seja, uma sociedade socialista.
Muito embora ―a consciência dessa necessidade‖ continuasse ausente para a população,
seria possível afirmar ―que o estágio do desenvolvimento do capitalismo, da formação
das classes e do grau de luta entre as classes‖ apresentava ―condições necessárias para
as lutas que permitam um acúmulo de forças, ampliem o espaço democrático,
assegurem e intensifiquem os avanços e as conquistas populares‖, criando ―as brechas,
os caminhos e as pontes capazes de conduzir às transformações indispensáveis na
direção da construção de uma sociedade socialista‖.
Para o delineamento de uma transformação socialista nascida ―da realidade
brasileira‖, três vertentes de conhecimento precisariam estar ―adequadamente
combinadas e articuladas‖. A primeira: o ―estudo sistemático, objetivo e aprofundado da
realidade concreta do Brasil‖, em suas ―dimensões histórica, social, econômica, cultural,
política e institucional‖. A segunda: a ―teorização da prática social dos movimentos
sociais brasileiros, notadamente o popular, o sindical e o político-partidário‖, fonte da
ação concreta. E a terceira: a ―avaliação crítica das contribuições teóricas dos que
pensaram a construção do socialismo, pelo seu cotejamento com as experiências
concretas já tentadas em vários países de todo o mundo nestes últimos cem anos‖.
Tendo em vista o esforço de construção de uma sociedade socialista e as
avaliações realizadas pelo documento, a classe trabalhadora teria pela frente ―um longo
e dificultoso processo de acumulação de forças e fortalecimento de sua organização‖,
que deveriam estar combinadas, no plano imediato, com conquistas objetivas. Tal
acúmulo de forças passaria, por sua vez, necessariamente pela ―integração e unificação
de seus diversos setores e frações num projeto histórico e político comum‖ incluindo
―as grandes camadas da pequena burguesia rural e urbana‖, ―sem ameaças a seus
limitados meios de produção‖.

83
Afiançando a necessidade de ―abandonar de vez a ilusão de que seja possível
manter uma tática antagônica à estratégia‖, refutam-se alianças da classe trabalhadora
com a burguesia, pois as experiências históricas comprovariam que tais pactos só
favoreceriam a burguesia, atrasando e impedindo a organização dos trabalhadores e do
socialismo. Vetos às alianças com a burguesia não seriam impeditivos, porém, a
relações que pontualmente adensassem o rumo do processo de democratização.
No que diz respeito ao socialismo, é retomada a fundamentação apresentada na
primeira parte do documento para asseverar elementos dignos de observação. Vejamos.
22. A análise feita na 1ª Parte deste Plano de Ação também mostra que os
elementos do desenvolvimento capitalista brasileiro, mesmo estando muito
longe de serem completos, indicam que no processo de construção socialista
não se podem seguir mecanicamente os preceitos de substituição imediata,
por meios administrativos ou executivos, da propriedade privada dos meios
de produção e circulação pela propriedade social; nem substituir
prontamente a economia mercantil por formas sociais de distribuição,
circulação e consumo; nem implantar uma completa organização planificada
da economia. As leis econômicas em ação numa determinada sociedade não
podem ser extintas ou modificadas por decretos, mesmo quando esses
decretos tenham um considerável respaldo político de massas, como
demonstrou a experiência de construção dos países socialistas.
23. No Brasil, ainda não foram esgotadas, pelo desenvolvimento capitalista,
as formas econômicas pequeno-burguesas nem a economia mercantil
simples. A própria expansão diferenciada do capitalismo e seu grau médio
de desenvolvimento não permitiram que a economia mercantil capitalista
alcançasse um patamar elevado. Nessas condições, se no Brasil existem
numerosas empresas capitalistas que deverão ser transformadas em
propriedade social, por outro lado existem milhões de pequenos produtores e
pequenos proprietários cujos meios de produção não é possível estatizar ou
mesmo coletivizar imediatamente (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1986a, p. 253-254, grifos nossos).

Avaliando, ainda que sutilmente, certa incompletude do capitalismo brasileiro,


asseverava-se a ausência de possibilidades de transição da economia capitalista para
formas coletivas, sociais ou planificadas de produção, reforçando, assim, o vínculo entre
desenvolvimento do capitalismo e ampliação do mercado, bem como a manutenção
deste último. Seguindo a análise, aponta-se a ―estatização e a coletivização
administrativa da pequena produção e da propriedade dos meios de produção‖ urbana
ou rural como prejudicial, pois poderia inibir a potencialidade de desenvolvimento e
criar desequilíbrios, em médio prazo, ―entre a produção e o consumo e entre os diversos
ramos produtivos‖.
25. Assim, levando em conta as experiências e as condições do
desenvolvimento capitalista brasileiro, provavelmente será necessário e
possível, nos primeiros momentos de uma sociedade socialista no Brasil,
utilizar diversas e múltiplas formas de propriedade social dos meios de
produção – através da estatização e da coletivização por formas
cooperativas ou outras – de acordo com o tamanho da empresa, a sua

84
natureza e o setor de produção em que se encaixa e o papel estratégico que
desempenha no processo global de produção. Mas continuarão existindo o
pequeno produtor individual ou a pequena propriedade familiar, que deverão
receber estímulo e amparo, no sentido de evoluir para formas cooperativas de
produção.
26. Também, provavelmente, surgirão formas mistas e novas de propriedade
dos meios de produção necessárias ao processo de aperfeiçoamento no rumo
da completa socialização. Empresas do Estado poderão estabelecer formas
diversas de cooperação com empresas coletivas e individuais; empresas
individuais poderão cooperar-se para algumas operações produtivas ou de
circulação, e assim por diante. Mas só a prática real da economia poderá
colocar essas questões de modo claro (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1986a, p. 254, grifos nossos).

Essas formas mistas de propriedade seriam ―resultantes de uma expansão não


plenamente desenvolvida‖, que exigiriam formas de organização do trabalho e
planificação mercantil. Logo, seria preciso combater a ideia de que ―o mercado
desaparecerá no dia seguinte em que os trabalhadores estiverem no poder‖, pois,
enquanto a produção social fosse limitada, continuaria “vigorando o ganho segundo o
trabalho e não conforme as necessidades”. Os trabalhadores, por sua vez, trabalhariam
para sua sobrevivência, conservando a organização do mercado e consumo. O
socialismo, acompanhado da afirmação de ideias e valores baseados numa ―nova visão
de mundo‖, profundamente crítica e humanista, qualitativamente ―superior a tudo que o
capitalismo pode oferecer‖, deveria incorporar as lutas pela diversidade e pelas
liberdades.
Por fim, reafirma-se relação intrínseca entre democracia e socialismo:
31. Tais pontos, evidentemente, realçam ainda mais as questões da
democracia no socialismo, ou o problema da liberdade numa sociedade que
se pretende tornar igualitária. Há sempre o risco de um descompasso entre o
avanço da estrutura econômica e o ritmo da democratização da
superestrutura. Resistências maiores ou menores da burguesia podem
conduzir a processos de centralização que retardem ou conturbem a
consolidação da plena democracia. Mas, mesmo com tudo isso, deve ser
reafirmada a relação indissolúvel entre democracia e socialismo. Formas de
controle popular e operário, que precisam ser incentivadas desde logo, como
os conselhos populares e as comissões de fábrica, por exemplo, bem como as
variadas formas de poder de base, são fundamentais para o projeto futuro –
na medida em que evoluam como meios, efetivos e eficazes, para
determinação da correlação de forças pró-democracia na sociedade. Nesse
sentido, vale lembrar que o poder, para o socialismo, não apenas se toma,
mas se constroi na luta concreta do dia a dia, desde já.
32. A democracia, no socialismo, deve ser entendida como a socialização dos
meios de produção e também dos mecanismos de poder entre os
trabalhadores. Isto significa ser favorável à liberdade de associação e
organização, à livre expressão de ideias, à liberdade de culto, ao direito social
à comunicação e à liberdade política, partidária e sindical. Aos trabalhadores
caberá a tarefa de institucionalizar o Estado socialista através de um processo
constituinte livre e democrático, que garanta direitos e liberdade e que
também assegure, dentro da nova legalidade, instrumentos e meios de defesa
da sociedade. Em resumo: o Brasil terá de encontrar os seus próprios

85
caminhos para chegar ao socialismo e as suas próprias maneiras de construir
a sociedade socialista. Caminhos e maneiras que são determinados menos
por princípios gerais ou por nossos desejos e mais pelas condições reais e
concretas que as classes trabalhadoras irão encontrando e modificando, com
ação política organizada, na luta por sua libertação (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1986a, p. 256-257, grifos nossos).

Finda a análise mais estrutural do capitalismo brasileiro e da transição ao


socialismo, o documento volta a discutir uma avaliação conjuntural que inclui o balanço
do movimento pelas Diretas Já – já explicitada no documento do Encontro
Extraordinário – e do processo eleitoral municipal de 198567. O Encontro aprovará,
também, um documento sobre tática eleitoral e um sobre atuação sindical, além do
posicionamento explícito pela radicalização do processo Constituinte, então restrito e
limitado por sua forma antidemocrática. Voltemos, entretanto, à análise sobre o
capitalismo brasileiro feita pelo 4º ENPT, fato relevante no que diz respeito ao
aprofundamento da base teórica sobre a qual se ergue a natureza da revolução e as
tarefas a ela atribuídas.
Em primeiro lugar, destaque-se que, a despeito do seu alto o grau de
desenvolvimento, o capitalismo brasileiro seria intrinsecamente desigual, convivendo
com formas atrasadas de produção, cujo núcleo industrial, centralizado no sul e centro
sul, não se ampliava para os demais estados. Alguns estados se caracterizariam pela
―economia mercantil simples e não a economia mercantil capitalista‖. Tornando-se
refém do capital financeiro, a partir da concentração de setores fundamentais da
economia nas mãos de multinacionais, o capitalismo brasileiro assumia forma
subordinada e dependente do capitalismo internacional – o que legava ao país a maior
dívida do mundo.
Tal análise espelhava-se também na especificidade das classes sociais no país.
Como supraexposto, o documento apresenta a classe trabalhadora no Brasil como
composta por uma camada diversificada de assalariados. Resultante do desenvolvimento
desigual, assalariados urbanos, rurais, camadas médias e uma ampla pequena burguesia
proprietária comporiam suas fileiras. A consciência destes setores, bastante distinta,
nem sempre ia em direção de um projeto das classes trabalhadoras. Já a burguesia,

67
―37. As eleições de 1985 [para prefeitos nas capitais e antigas áreas de segurança nacional] mostraram
um profundo descontentamento popular com os rumos do governo e sua inoperância e imobilismo no
atendimento da maior parte das reivindicações econômicas, sociais e políticas. E deflagraram uma crise
relativamente séria na AD [Aliança Democrática], cada vez mais sob a hegemonia dos conservadores
(...)‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1985, p. 258-259).

86
controlando o Estado ―moderno‖, e relacionando-se com os demais setores dominantes,
dava início, pelo alto e em oposição à classe trabalhadora, a um processo de disputa nos
marcos da consolidação da hegemonia através do Estado.
Em terceiro lugar, destacamos a questão da transição ao socialismo. O
documento aponta linhas gerais que indicam um esforço de construção e elaboração do
socialismo ―nascido da realidade brasileira, pensado e construído a partir da vontade e
das ações das classes trabalhadoras‖. O socialismo, portanto, não poderia ser ―imposto‖,
mas sim resultante da mais ampla democratização, participação e radicalização do poder
popular. Conscientização, processo de organização e acúmulo de forças da classe
deviam ser caminho para os diversos setores da classe trabalhadora se unirem ―num
projeto histórico e político comum‖. Dessa maneira, o socialismo aparecia como um
objetivo estratégico e, na contramão, como uma parte do ―aqui e agora‖. Pouco se
aprofundavam as relações de mediação e encadeamento do momento imediato com o da
transição.
Curiosamente, por outro lado, ao apresentarem-se as bases econômicas para
construção do socialismo, ressalta-se a impossibilidade de modificar a estrutura da
pequena produção, pois a pequena propriedade não poderia “ser ameaçada”. Frente à
natureza desigual do capitalismo brasileiro, seu desenvolvimento não estaria completo e
não teriam sido esgotadas formas econômicas mercantis simples. A expansão desigual
e o pouco desenvolvimento do capitalismo impediriam, por isso, que a economia
capitalista fosse alçada a patamar elevado.
A democracia, em específico, é apresentada como parte intrínseca da
transformação socialista e caracterizada pela ―socialização dos meios de produção e
também dos mecanismos de poder entre os trabalhadores‖. O descompasso ―entre o
avanço da estrutura econômica e o ritmo da democratização da superestrutura‖ seria um
risco para o processo de transição, e oposições e resistências ―maiores ou menores, da
burguesia, pode[ria]m conduzir a processos de centralização‖, que teriam capacidade de
retardar e conturbar a ―consolidação da plena democracia‖. Reforçava-se, assim, a
necessidade de desenvolverem-se, desde então, as formas de controle popular, já ―que o
poder, para o socialismo, não apenas se toma, mas se constrói na luta concreta do dia a
dia, desde já‖. A tese de que ―o poder se constrói‖, afirmada no 3º ENPT, é revestida de
nova roupagem.
Já ―o processo constituinte, que, de bandeira e reivindicação de forças
democráticas desde meados da década de 60‖ havia se transformado ―nas mãos da Nova

87
República, num projeto de consolidação da hegemonia burguesa sobre e contra o
movimento popular‖ devia ser tomado pela luta dos trabalhadores. Se o socialismo
definitivamente não chegaria com a mudança constitucional, a mesma proporcionaria
um espaço de ―acúmulo de forças‖, de democratização e de proposição de medidas que
poderiam ajudar a ―realizar a socialização da política‖.
A ―Linha sindical do Partido dos Trabalhadores‖68, aprovada no encontro, vale
por uma mirada próxima. Em primeiro lugar, esta avalia historicamente o movimento
sindical brasileiro. Em segundo, procede a um balanço sobre a linha de atuação dos
militantes petistas nos sindicatos urbanos e nos sindicatos rurais. Em seguida, o
documento aponta para o déficit organizativo e participativo dos dirigentes sindicais
petistas nas instâncias partidárias, item que abordará, na verdade, um severo balanço
sobre a organização do partido e da participação das correntes políticas no seu interior.
Segundo a resolução em questão, os militantes do PT interviriam no movimento
sindical ―na perspectiva de desenvolver a luta da classe dos trabalhadores contra o
patronato, buscando a completa emancipação da classe trabalhadora frente ao capital,
em direção ao socialismo‖. Considerando o Estado como instrumento da burguesia, o
PT lutaria, portanto, pela completa autonomia sindical e pelo fim da interferência do
Estado sobre os sindicatos. Fruto da autonomia do movimento sindical, o PT devia ser
também ―o seu mais decidido defensor‖, avançando na luta pela independência, ―pela
construção do sindicalismo classista e democrático expresso pela CUT‖.
Ainda, três temas merecem destaque: o fortalecimento da CUT, a relação entre
partido e direção do movimento sindical, e a organização do PT. Para este, a
organicidade e o fortalecimento político da CUT seria uma tarefa fundamental, sempre
sobre os princípios de autonomia e liberdade sindical. Por outro lado, se fez necessário
criar ―comissões de empresa, organismos de unidade elementar dos trabalhadores e
canal de representação dos mesmos‖, que constituiriam, além do mais, um
fortalecimento da central contra a ―política cupulista‖. No que tange à relação
organizativa do PT, demonstra-se a preocupação de ―perda de direção dos trabalhadores
no PT‖, resultante da distância entre os dirigentes sindicais petistas dos debates
partidários. O tema, no entanto, tratava bem mais de sugerir uma disputa ideológica pela

68
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Linha sindical do Partido dos
Trabalhadores‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1986b, p. 197-226).

88
direção política, explicitando-se a diferença e interseção entre a atividade sindical e
partidária. Vejamos.
Quando falamos em direção, tratamos, acima de tudo, de hegemonia. E
hegemonia compreende, principalmente, os aspectos ideológicos e políticos,
sendo o aspecto organizativo uma decorrência deles. De nada adianta os
dirigentes sindicais petistas terem participação e cargos na organização do
Partido se eles não conseguirem imprimir ao PT um programa de luta e uma
ação que corresponda aos interesses de classe dos trabalhadores assalariados
modernos, se eles não conseguirem apresentar propostas políticas que sejam
flexíveis e, ao mesmo tempo, estejam impregnadas de conteúdo de classe, se
eles não conseguirem estabelecer as pontes entre a luta econômica de
melhoria de condições de vida e trabalho dos trabalhadores e a luta política
pela participação nos mecanismos de poder do próprio sistema capitalista e a
luta pela transformação social, pelo socialismo.
Evidentemente, a realização de tarefas desse porte exige muito mais do que
vontade. Os trabalhadores, em especial os dirigentes sindicais petistas, têm que
considerar seriamente a necessidade de se transformarem em intelectuais-
operários, na acepção correta do termo, em operários com capacidade de
elaborar teorias, que correspondam à realidade de sua luta de classe e sirvam
de orientação nessa mesma luta. E têm, ainda, que participar efetivamente nas
diversas instâncias e direções partidárias, nas discussões e decisões partidárias
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1986b, p. 215-216, grifos nossos).

Assim, o documento afirma a diferenciação entre a atividade sindical e a


partidária, explicitando que, ―ao fundarem o PT, os sindicalistas deram um passo
qualitativamente novo em sua atividade‖, compreendendo os limites do sindicalismo e
procurando ―criar um instrumento mais avançado para a luta pela conquista de uma
sociedade sem exploradores e explorados (...)‖.
É notório que se retome, justo ao final do item, a questão das disputas internas
do partido e a postura de correntes e tendências organizadas. Segundo o texto, haveria
―tendências dentro do PT constituem partidos dentro do Partido‖. Tal método de ação
prejudicaria ―a construção do PT como partido‖, pois mesmo que ele avançasse em
constituir-se como um ―verdadeiro partido de classe, embora mantendo seu caráter
aberto, de massa e democrático‖, a organização em ―tendências com política e
disciplina próprias transforma-se[-ia] numa aberração dentro do Partido, e tende[ria] a
criar obstáculos à sua construção‖. Uma ―postura de avestruz, de fechar os olhos à
existência dessas tendências e suas políticas‖ não poderia, assim, continuar. Por fim,
afirma-se que os ―militantes precisam tomar conhecimento dos documentos e textos
dessas correntes, estudá-los e compará-los conscienciosamente com os documentos e
textos do PT‖, discutindo o ―que existe de certo e de errado nas suas posições‖. Só
assim os militantes poderiam tomar uma posição no debate. Incorre-se, por conseguinte,
em uma maneira estranha de construir o debate organizativo: opunha-se ―o partido‖ às
―tendências organizadas‖.

89
2.8 O 5º Encontro Nacional do PT (1987): delineando a estratégia democrática e
popular

O 5º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores69, realizado no fim do ano


de 1987, pode ser considerado um marco no debate estratégico petista. Não só do ponto
de vista do aprofundamento dos fundamentos teóricos de seu programa, táticas, via e da
própria estratégia, mas também no que diz respeito ao ―acerto de contas‖ organizativo,
pautado na possibilidade de vitória do campo dos trabalhadores e derrota da transição
conservadora nas eleições do ano seguinte, que, em princípio, ocorreriam em 1988.
Se a abertura controlada lograria manter sobre influência o processo de
transição, as eleições diretas no ano seguinte70 poderiam significar, para a esquerda, a
―(...) grande chance, desde 1984, de uma ruptura do processo de transição conservadora
da burguesia e a abertura de espaços para conquistas democráticas e populares com
perspectivas de colocação, no cenário político, de propostas no rumo do socialismo‖
(ELEIÇÕES 88..., 1987). O acelerado desgaste político do governo Sarney, resultado da
crise política e também da grave crise econômica, se aprofundava ainda mais diante do
cenário de arrocho salarial, dívida externa e inflação galopante. Tornava-se, assim,
ainda mais concreto o horizonte de vitória eleitoral.
A centralidade das eleições para o partido vinha se delineando e já havia
demonstrado sua importância tanto como ―via‖ quanto como conteúdo da concepção de
socialismo democrático e de massas. Era necessário, isso posto, afirmar a distinção
entre ―abertura‖ e ―democratização‖ política, o que faria do PT um partido em busca da
democracia efetiva, diferenciando-se fortemente dos partidos da ordem. Mas, até então,
era possível notar como a democratização, apesar de parcial, entrava, do ponto de vista
estrutural, em choque com a política imediata da classe dominante, preocupada em
controlar as mudanças no sentido de sua autoconservação. A questão democrática vai,
portanto, tomando contornos e tornando-se, na prática, parte da natureza e das tarefas
democráticas e populares da estratégia.
Desde 1982, quando o partido participou de sua primeira disputa eleitoral, a
relação entre o objetivo socialista e o projeto político imediato contava com respostas
sempre consideradas insuficientes e pouco aprofundadas, o que começa a ser

69
O 5º ENPT ocorreu entre os dias 4 e 6 de dezembro de 1987 no Senado Federal, Brasília/DF.
70
Como sabido, o mandato do então presidente José Sarney foi prorrogado para cinco anos, o que fez
com que as eleições diretas ocorressem apenas no ano de 1989.

90
modificado a partir do 4º ENPT. O projeto democrático e popular, em sua versão mais
acabada, viria então a se consolidar como resposta a essa principal questão, buscando
relacionar a estratégia aos objetivos imediatos, táticas, programa e objetivo estratégico
socialista. Neste sentido e não à toa, o discurso de encerramento de Luiz Inácio Lula da
Silva no 5º Encontro Nacional do PT, retoma a avaliação sobre sua derrotada
participação eleitoral em 1982. Vamos antecipá-lo, pois nos parece uma interpretação
que passa a se repetir, dali em diante, de eleição em eleição.
Em 1982, quando fui lançado candidato a governador pelo Estado de São
Paulo, cometi a maior gafe da minha vida, pensando que era o mais esperto
de todos os candidatos. Discutíamos a apresentação dos candidatos e vocês se
lembram do desastre da propaganda do naquele ano, onde o menos perigoso
estava condenado a noventa anos de cadeia e eu achei que a classe
trabalhadora já estava preparada e fizemos uma fala aonde eu dizia: ―Lula
candidato a governador número 13, ex-ajudante de tintureiro, ex-torneiro-
mecânico, ex-sindicalista, ex-preso ex não sei o que lá, um brasileiro
igualzinho a você‖. Eu imaginava que o conjunto da classe trabalhadora iria
entender a mensagem no sentido de compreender: puxa-vida, esse cara é só
isso é nosso candidato, nós também podemos ser. Mas, ele entendeu
exatamente o contrário: que ninguém queria ser um brasileiro igual a eu.
Eles queriam ser um brasileiro com diploma universitário, queriam ser um
brasileiro com melhores condições de vida, com melhor formação
intelectual, com melhores condições ou qualidade de vida. E, foi exatamente
a partir desse erro, que eu comecei a compreender que às vezes a gente não
pode fazer um discurso como se todo mundo estivesse compreendendo o que
a gente está falando (SILVA, 1987, p. 2, grifos nossos).

Como anunciamos, esse ―aprendizado‖ vai ser a chave, durante muito tempo,
para a interpretação das mais diversas opções políticas tomadas pelo PT, se expressando
na preocupação de mediar o objetivo estratégico com objetivo imediato das disputas
eleitorais.
O 5º Encontro teve perfil de disputa acirrada. O relatório crítico da Comissão
Executiva Nacional e do Diretório Nacional, sobre a gestão da direção entre 1986 e
198771, afirma, em linhas gerais, que as instâncias de direção política tinham
conseguido fazer cumprir a maior parte dos objetivos, ―apesar de todas as dramáticas
dificuldades da conjuntura externa, e das não menos significativas debilidades da
organização interna do Partido‖. Também teriam logrado ―conduzir o conjunto de
petistas por um caminho seguro e coerente de oposição à transição conservadora da
burguesia e do governo Sarney‖, elevando ―o nível de consciência da classe

71
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Relatório crítico da Comissão
Executiva Nacional e do Diretório Nacional sobre a gestão 86 e 87‖ (RELATÓRIO CRÍTICO... 1987).

91
trabalhadora e constituindo um claro e definido ponto de referencia para grandes setores
da população brasileira‖.
Ainda que coerente do ponto de vista externo, e vindo de um encontro anterior
unificado, o 5º Encontro tem como pano de fundo a forte disputa sobre o caráter de
organização e democracia partidária. Agitando o clima de tensão, a pré-proposição de
uma ―Resolução sobre tendências‖ em reunião ocorrida na antevéspera do Encontro,
resultará em uma ―Carta aos companheiros delegados ao 5º Encontro Nacional do PT –
em defesa da democracia, pelo direito de tendência‖, assinada por parlamentares e
dirigentes de tendências partidárias, dentre eles Florestan Fernandes, José Genoíno e
Raul Pont. Nela, afirmam:
Nosso 5º Encontro realiza-se num momento excepcionalmente grave da
situação política do país. Nosso partido está chamado a oferecer uma
resposta, do ponto de vista do interesse popular, ao verdadeiro desastre ao
qual a nação está sendo empurrada pela “transição” pactuada entre as
elites. Um rico debate entre todos os componentes do PT deverá capacitá-lo a
oferecer tal resposta.
Entretanto, é com intensa preocupação que vemos surgir de setores
partidários certas propostas que, se aprovadas e aplicadas neste momento,
poderiam dificultar a capacidade do partido responder aos desafios da
situação política.
Companheiros Delegados,
Estamos nos referindo à proposta de Resolução sobre Tendências e sobre
proporcionalidade, aprovadas por maioria no Diretório Nacional reunido
anteontem, quer dizer às vésperas desse Encontro, contrariando Resolução do
IV Encontro Nacional que deliberou que o Diretório Nacional tirasse uma
comissão para encaminhar a regulamentação do direito de tendência (...)
(CARTA AOS COMPANHEIROS..., 1987, grifos nossos).

O cenário tumultuado era previsível se retomarmos aos espaços anteriores


observando-os a partir da ―fraternidade-terror‖ (IASI, 2006, p. 414) embutida na ideia
das duas camisas, utilizada para demarcar a posição diante da discussão organizativa. O
tema retornará, agora no 5º ENPT, entre as deliberações e as resoluções políticas. Até
então, apesar do Diretório Nacional ser construído com a representação de diversas
correntes, a Comissão Nacional Executiva era completamente composta por membros
da sua direção majoritária. No 5º Encontro, segundo Coelho (2005), o ―papel
hegemônico da Articulação começava a ser questionado de modo mais enfático do que
até então e isso começava a determinar uma mudança importante na forma como a
tendência exercia a direção política do partido‖ (COELHO, 2005, p. 89).

92
No que diz respeito à alternativa democrática e popular nele aprovada72, uma
leitura mais densa sobre a formação social e econômica é alcançada, o que também se
dá acerca da estrutura social brasileira. Diferenciando em itens o objetivo estratégico, a
conquista do socialismo, a construção do mesmo, as táticas, a estrutura de classes no
Brasil e a relação entre o socialismo e o projeto democrático e popular, o documento
afirma:
35. Nesse sentido, para definir uma estratégia de luta pelo socialismo, não
basta definir a via principal de luta, nem as táticas para a conquista do poder.
É preciso, em especial, ter clareza sobre o inimigo ou inimigos principais
contra quem nossa luta se dirige, as alianças de classes (estratégicas) para
derrotar tais inimigos e o programa de transformações a ser implantado (que
serve de base à mobilização popular e às alianças).
36. Esclarecer tais problemas, na realidade, não é algo que possa ser decidido
arbitrariamente. Depende do conhecimento da estrutura social brasileira, das
contradições que existem nessa estrutura e do grau que tais contradições
alcançaram como resultado de todo um processo histórico de lutas. Isso
inclui o conhecimento do papel e da força do Estado burguês e do grau de
desenvolvimento da cultura política dos trabalhadores e, em particular, o
conhecimento das tendências do movimento de cada um desses aspectos e de
sua resultante (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1987a, p. 313-314,
grifos nossos).

Se o objetivo estratégico volta a ser reafirmado como ―socialista‖, os caminhos


para tal incluiriam o acúmulo de forças, a vitória eleitoral, a transformação da classe
trabalhadora em ―classe hegemônica e dominante no poder do Estado‖. Da mesma
maneira, este deveria incorporar as formas de participação desenvolvidas no dia a dia da
classe.
Ainda que ―formas embrionárias de poder proletário‖ fossem ―escolas de auto-
organização e participação política dos trabalhadores, que apontavam no sentido da
construção de um socialismo efetivamente democrático‖, tais experiências por si só não
resolveriam a ―contradição do socialismo com o capitalismo‖. Assim, fazia-se
necessário distinguir ―as atividades que partem da situação existente em cada momento
e procuram fazer com que os trabalhadores tomem consciência‖ daquelas que se
―destinam à conquista imediata do próprio poder‖. Adotando mais uma vez a postura de
diferenciação interna no partido, o documento afirma que ―muitos companheiros não
faz[iam] essa distinção, não compreend[iam] o processo de mediação que deve existir
entre o momento atual‖, em que ―as grandes massas da população ainda não se
convenceram de que é preciso acabar com o domínio político da burguesia‖ e o

72
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Resoluções políticas‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1987a, p. 303-322).

93
momento em que ―se torna possível colocar na ordem do dia a conquista imediata do
poder‖. Neste sentido, esse discurso não seria compreendido pelos trabalhadores e se
reduziria a grupos de vanguarda, que mais desmobilizariam do que aglutinariam a classe
trabalhadora.
No que diz respeito ao tema da via, ―o PT‖ diferenciava-se de ―posições
internas‖. Assim, aqueles que consideravam ―inevitável a adoção de uma via
revolucionária para a conquista do poder‖ contrapunham ―essa escolha à tática dos
movimentos sociais que lutam por reformas‖, não tendo em conta que reformas e
revoluções não seriam dissociáveis e que a combinação de ambas dependeria de
demandas conjunturais concretas.
Do ponto de vista das classes sociais, a caracterização da burguesia como
inimiga principal merecia a ressalva de que ―muitos companheiros colocam no campo
da burguesia parcelas significativas de pequenos e microempresários urbanos e rurais e
mesmo as camadas assalariadas que não trabalham diretamente na produção fabril ou
agrícola‖. E, ―com isso, não levam em conta que tais camadas possuem profundas
contradições com o capital‖, o que poderia levá-los se incorporarem-se ―à luta por
transformações sociais no sentido socialista‖. Tais setores, ao colocarem-se contra todos
os tipos de aliança, se oporiam a contradições momentâneas e disputas entre os
―diversos setores da burguesia‖.
Na ―construção do socialismo‖ seria impossível extinguir todas as classes
sociais, por um lado, e, por outro, mudar de imediato o conjunto da propriedade sobre a
produção. Ainda que fossem necessárias estatizações de alguns setores chave, havia
permanecido na economia brasileira um amplo setor que, ―embora seja em ampla
medida subordinado ao grande capital, procura desenvolver-se com absorção de mão de
obra e com atendimento a uma série enorme de bens de serviços considerados
secundários e de baixa rentabilidade‖, o que justificaria que a ―pequena economia
mercantil‖ ainda carecesse de desenvolvimento.
Seguindo a necessidade de uma ―política de desenvolvimento da capacidade
produtiva da sociedade, utilizando todas as forças econômicas‖, afirma-se a ―aliança dos
trabalhadores assalariados com a pequena burguesia urbana e rural‖, enquanto ―questão
estratégica‖ para a ―destruição do capitalismo‖ e a ―construção do socialismo‖. A
análise exposta leva a outras conclusões importantes, como a da ―permanência de
diferentes classes e camadas sociais no processo de construção socialista‖, atingindo o
tema da pluralidade de posições interligada à avaliação sobre o socialismo

94
―burocrático‖. Como consequência desta análise, o documento fundamenta a busca do
socialismo democrático, em acordo com o desenvolvimento da sociedade civil
brasileira.
47. Além disso, é preciso levar em conta que a sociedade brasileira já foi
capaz de desenvolver razoavelmente algumas organizações da sociedade
civil, que jogam determinado peso na determinação das políticas do Estado.
E de que o Estado brasileiro, embora tenha se reforçado muito, contando com
modernos aparelhos coercitivos (Forças Armadas, Serviços de Informação
etc.) e de concessões e participação (Legislativos, assistência social, centros
comunitários etc.) não tem condições de se fechar completamente à
participação das classes subalternas em seu interior. Ao contrário, a própria
magnitude do Estado moderno brasileiro só é viável se a burguesia for
buscar, na massa das outras classes, os funcionários do Estado. E se, para
conseguir consenso e legitimidade para esse mesmo Estado, for obrigada a
abrir, pelo menos formalmente, o Estado à disputa das diversas classes.
48. Na sociedade civil ocorre algo idêntico. A burguesia construiu
organizações sólidas (Fiesp, CNA, CNI etc.), que atuam tanto para manter a
hegemonia de sua classe sobre as outras quanto para manter o domínio do
aparelho do Estado. Em contraposição a isso, tanto os assalariados quanto
as camadas médias da população também criaram organizações de
sociedade civil que participam daquela disputa pela hegemonia e pelo poder.
Em grande medida, o movimento contraditório dessas diversas organizações
da sociedade civil (e também dentro delas) em relação ao Estado e a disputa
no interior do próprio Estado causa os avanços e recuos da democracia, sua
ampliação e retração (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1987a, p. 316-
317, grifos nossos).

O tema tem como consequência a pressuposição do pluripartidarismo, que tanto


se encarregaria de combater o socialismo burocrático quanto seria o reconhecimento de
que a classe trabalhadora não se representa por um único partido. Nessas condições, o
Estado socialista teria que ―desenvolver esforços tanto para estabelecer uma legalidade
nova, democraticamente construída e válida para todos, como [para] manter e ou criar
mecanismos de participação e consulta popular‖. A construção do socialismo
democrático devia incorporar, ainda, as demandas de combate às opressões específicas,
dos movimentos ambientais e culturais.
A alternativa à ―Nova República e à dominação burguesa no País‖ seria,
portanto, democrática e popular. O ―governo e um programa democráticos e populares
– os dois componentes de nossa alternativa – são o reconhecimento de que só uma
aliança de classes, dos trabalhadores assalariados com as camadas médias e com o
campo‖ tem ―condições de se contrapor à dominação burguesa no Brasil‖. Assim, o
governo democrático e popular – e seu programa – se apresentaria como “capaz de
realizar as tarefas democráticas e populares, de caráter anti-imperialista,
antilatifundiário e antimonopólio – tarefas não efetivadas pela burguesia (...)”,
trazendo, em si, um duplo sentido:

95
(...) em primeiro lugar, é um governo de forças sociais em choque com o
capitalismo e a ordem burguesa, portanto, um governo hegemonizado pelo
proletariado, e que só poderá viabilizar-se com uma ruptura revolucionária;
em segundo lugar, a realização das tarefas a que se propõe exige a adoção
concomitante de medidas de caráter socialista em setores essenciais da
economia e com o enfrentamento da resistência capitalista. Por essas
condições, um governo dessa natureza não representa a formulação de uma
nova teoria das etapas, imaginando uma etapa democrático-popular, e, o que
é mais grave, criando ilusões, em amplos setores, na possibilidade de uma
nova fase do capitalismo, uma fase democrática e popular (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1987a, p. 322, grifos nossos).
Vale destacar, ainda, que se refuta, no texto, a estratégia democrática e nacional
do PCB e a teoria das etapas com argumento de que o termo ―nacional‖ nessa
alternativa dizia respeito à ―aliança com a burguesia‖73. O documento delineia uma
diferenciação clara entre momentos estratégicos: o da conquista do poder político e o da
transição socialista.
27. Na luta pelo socialismo, é preciso distinguir dois momentos estratégicos
que, apesar de sua estreita relação de continuidade, são de natureza diferente.
O primeiro diz respeito à tomada do poder político. O segundo refere-se à
construção da sociedade socialista sobre as condições materiais, políticas etc.
deixadas pelo capitalismo (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1987a, p.
312).

Logo, a caracterização das tarefas em atraso ou tarefas democráticas e


populares a serem cumpridas por um governo petista seria a resultante lógica de uma
avaliação sobre o capitalismo brasileiro.
Segundo a parte do documento relacionada às táticas das resoluções, apreende-se
que o capitalismo no Brasil teria passado por uma acelerada expansão, impulsionando o
crescimento do setor de serviços e de um parque industrial moderno, e criando
condições para que o capital financeiro e as relações mercantis penetrassem em áreas
rurais. Contudo, esse crescimento teria se dado através ―da ampliação da dependência
do país em relação ao capitalismo internacional, bem como da superexploração do
trabalho e da prevalência do capital monopolista‖. O conjunto da resolução afirmará
como características específicas do desenvolvimento do capitalismo no Brasil: a
manutenção do monopólio da propriedade privada da terra, de modo subordinado ao
imperialismo (e seu sistema financeiro); e a recorrência incessante à força repressiva
para mediar relações entre capital e trabalho. Ainda, a ―incapacidade do capitalismo

73
―É por isso que o PT rejeita a formulação de uma alternativa nacional e democrática, que o PCB
defendeu durante décadas, e coloca claramente a questão do socialismo. Porque o uso do termo nacional,
nessa formulação, indica a participação da burguesia nessa aliança de classes – burguesia que é uma
classe que não tem nada a oferecer ao nosso povo‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1987a, p.
322, grifos nossos).

96
incorporar (...) milhões de pessoas aos frutos do desenvolvimento limita a possibilidade
da burguesia exercer sua hegemonia política na sociedade‖, o que se encontraria ―na
raiz das frequentes intervenções militares na vida do país‖. Neste sentido, seria
necessário que uma direção política se apresentasse como ―capaz de realizar as tarefas
democráticas e populares, de caráter anti-imperialista, antilatinfundiário e
antimonopólio – tarefas não efetivadas pela burguesia‖.
A profunda expansão capitalista no Brasil teria consumado um Estado
democrático e relações de latifúndio integradas ―à ordem capitalista, seja como
agrobusiness ou mesmo como forma tradicional subordinada, assim como sua expressão
de classe se associa com a burguesia e o imperialismo sem maiores problemas‖.
Partindo do patamar de desenvolvimento do capitalismo no sentido apresentado, a tarefa
consequente para classe trabalhadora seria a de disputar a hegemonia do seu projeto
contra a burguesia para efetivar a hegemonia política nunca conquistada por ela, raiz
dos frequentes regimes autoritários na vida social brasileira: ―o maior problema da
burguesia brasileira (...) decorre da própria história da formação do capitalismo no
Brasil.‖ Aqui, ―ao contrário de outros países‖ o capitalismo teria se ―desenvolvido
respeitando o monopólio da propriedade da terra, recorrendo constantemente à força
repressiva do Estado para mediar as relações entre o trabalho e o capital‖. Integrando-se
―de modo subordinado ao mercado e ao sistema financeiro do imperialismo‖ o
capitalismo teria se desenvolvido sem hegemonia política, e, portanto, de forma
dependente e autoritária.
Assim, a natureza democrática e popular trataria de consolidar, sob hegemonia
popular, as tarefas não efetivadas pela burguesia. Essa disputa de hegemonia se
concretizaria a partir da aliança dos setores assalariados com a pequena burguesia,
acumulando forças em três eixos centrais: independência de classe, construção do
movimento sindical classista e ocupação de espaços institucionais a partir das eleições
sob a efetivação de um governo popular. Reafirmando que para parte dos trabalhadores
não estariam colocadas na ordem do dia ―nem a luta pela tomada do poder, nem a luta
direta pelo socialismo‖, o acúmulo de forças se mantinha como a peça chave no
processo de luta pela hegemonia e na possibilidade de assunção do poder político.
À sombra do ―sectarismo, o fracionismo e a divisão‖ da própria esquerda o
Estado burguês se centralizava e a burguesia se unia. O PT nasceria justamente no
sentido contrário, impulsionando a construção de movimentos massivos e de alianças
consolidadas em frentes políticas de lutas, como no episódio das Diretas Já.

97
76. O PT surgiu marcando um rompimento com as tradições reformistas e/ou
vanguardistas da esquerda brasileira. O princípio de identidade e
independência de classe é o que o distingue dos partidos reformistas ligados
a setores da classe trabalhadora. Ao vanguardismo, o PT contrapõe a
política de organização aberta, democrática e de massas ligada à luta social. É
esse espírito de independência de classe e de desilusão política com os
partidos populistas – assim como os erros históricos do reformismo – que
explica o receio do conjunto do PT em discutir uma política de alianças
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1987a, p. 323, grifos nossos).

Devendo considerar ―alianças táticas e estratégicas com setores interessados no


fim da dominação burguesa‖, é firmada a posição por uma ―frente única classista‖, ou
uma ―frente democrática e popular‖, que unisse ―todos os trabalhadores assalariados‖.
Tendo esses elementos em vista, foi definido, para a campanha eleitoral de 1988,
que Luiz Inácio Lula da Silva seria o candidato do PT. Candidaturas nacionais e
municipais, por sua vez, deveriam ―articular-se com a luta pela realização de Diretas,
centradas na oposição à Nova República, contra o governo e seus aliados locais e contra
o pagamento da dívida externa‖. O partido, possível beneficiário dos votos de protesto
contra o PMDB e Sarney, se via com possibilidade de canalizar boa parte do
descontentamento com o conservadorismo e a Nova República. Para apresentar-se nas
eleições ―como alternativa real de governo‖, seria, então, ―fundamental uma plataforma
de campanha com propostas concretas para enfrentamento dos principais problemas
locais‖ e que o partido se dirigisse à população em geral e ―não apenas à parcela
organizada da sociedade‖.
Ao retomar o debate organizativo o documento ―Resolução sobre tendências‖
explicita a diferenciação entre as tendências e o que chama de ―partidos internos‖ – com
finanças, imprensa, direção e tradições próprias.
2. Em nenhum momento de sua construção o PT assumiu a condição de
frente — de qualquer tipo — ou mesmo reduziu o alcance de sua intervenção
a tarefas meramente conjunturais. Pelo contrário, os seus documentos básicos
afirmam de maneira definitiva o seu caráter estratégico e sua feição de
partido de massas, democrático e socialista, consciente do seu papel
fundamental no processo de construção do socialismo no Brasil.
Pelas mesmas razões, o PT compromete-se a aperfeiçoar no seu interior, cada
vez mais, as condições democráticas que permitam a todos e a cada um de
seus filiados o debate amplo e livre, a efetiva participação no processo
decisório, o exercício da crítica e o legítimo direito de disputa de órgãos de
direção.
3. Ao afirmar seu caráter estratégico, o PT afirma-se, pois, como partido e
não como frente de partidos ou organizações. Contrapõe-se, portanto, à
prática da dupla militância e da dupla fidelidade. Da mesma maneira, a
filiação ao PT se dá em caráter individual, assumindo o filiado o
compromisso de acatar apenas e unicamente as decisões partidárias, tomadas
nas instâncias orgânicas do PT (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1987b, p. 356, grifos nossos).

98
Neste sentido, uma definição de caráter estratégico do partido é explicitada, pois
a aceitação de um perfil de frente seria a ―própria negação do projeto histórico do PT‖ e
―colocaria irremediavelmente em risco a perspectiva de consolidá-lo como um forte
partido da classe trabalhadora, alternativa real de poder popular para o País‖ (p. 2).
Além disso, o seu caráter estratégico estaria acompanhando de sua feição de partido de
massas, democrático e socialista.
Apresentando-se enquanto partido estratégico, e não como a confusa visão de
um braço institucional dos movimentos sociais, o PT firma neste 5º Encontro sua
estratégia: a estratégia democrática e popular. Dentre as definições principais que a
consolidam, podemos destacar as seguintes: o objetivo estratégico socialista; a
democracia como via, meio de travar a batalha para conquista de hegemonia e objetivo
a ser alcançado; a conquista da hegemonia política, vista como sinônimo de um
processo de acúmulo de forças por dentro e por fora da institucionalidade; a disputa por
um governo democrático e popular dirigido pela classe trabalhadora e setores populares
como primeiro passo para conquista do poder político; a afirmação da independência de
classe; a tática de aliança em torno de uma frente única popular com setores
democráticos e populares; e um programa democrático e popular, que efetivaria tarefas
anti-imperialistas, antimonopolistas e antilatifúndiárias, tarefas ―em atraso‖ não
efetivadas pela burguesia. Como instrumento organizativo, um partido de massas,
democrático e socialista sob a direção dos Trabalhadores.
O PT sai de seu 5º Encontro mais fortalecido em sua concepção estratégica, fato
que se somaria ao enorme crescimento do partido no período eleitoral posterior. Em seu
discurso de posse como presidente, ao final do 5º Encontro, antes mesmo de apresentar
Lula como candidato do partido à Presidência da República, Olívio Dutra destacará
duas preocupações que fundamentalmente lhe moviam: o aprofundamento da mediação
entre as ―necessidades imediatas do povo‖ e o objetivo estratégico socialista; e a
possibilidade concreta de se derrotar a Nova República:
Teremos que ter propostas concretas quando estaremos governando
prefeituras, quando nos propormos a governar o país, temos que ter propostas
concretas para solucionar os problemas do dia a dia do povo e das massas.
(...)
Enquanto o partido age e dá resposta a essas conjunturas, o Partido deve
aprofundar a sua perspectiva socialista. Mas companheiros, nós, nesse V
Encontro temos um momento dos mais culminantes e importantes e que nos
toca a cada um de nós: é a oportunidade de o povo trabalhador, respondendo
a conjuntura política que está aí, a crise da chamada Nova República, a crise
da chamada transição conservadora, mais do que nunca ou talvez por muito
tempo não tivemos a oportunidade que hoje temos de dar uma resposta para
essa conjuntura de crise. Resposta do ponto de vista do povo trabalhador e

99
resposta do povo não no plano populista enganador, nós hoje, com a
construção do nosso Partido, com a formação de seus quadros, com a clareza
de sua intervenção política, temos condições de dar uma resposta do interesse
das maiorias (DUTRA, 1987, p. 4, grifos nossos).

Assumindo a presidência, Olívio Dutra dirigiria um partido que, fruto final do 5º


ENPT, firmava sua estratégia. Por conseguinte, travar a batalha contra a burguesia para
consolidar sua própria hegemonia, através das tarefas em atraso por ela não realizadas,
se concretizaria como caminho para alcançar o objetivo estratégico socialista.
Retomando o discurso de encerramento de Lula, percebemos a radicalidade de
um concorrente futuro que, comprometido com a causa da classe trabalhadora,
precisava superar os óbices em torno de sua própria candidatura. Anti-imperialista,
taxaria os 5% mais ricos da nação, estatizaria os bancos e exerceria controle sobre o
capital financeiro. Além disso, propõe a distribuição de renda com os lucros taxados.
Agora, uma coisa eu peço que o partido faça: é que a gente não pode fazer
uma campanha com dúvida de qual o segmento social que a gente representa.
Nós não podemos querer ficar agradando a classe media alta, o grande
empresariado, o médio empresariado. Nós temos que fazer uma campanha
classista, falando dos interesses da classe trabalhadora. E, nós vamos
precisar marcar posição, precisamos acirrar as contradições porque se não for
assim a peãozada não vai entender a nossa campanha. E eu termino aqui,
companheira, dizendo para vocês de coração: vamos à luta (SILVA, 1987, p.
10-11, grifos nossos).

E, dali em diante, Lula se torna o candidato da classe trabalhadora a presidente


do país.

2.9 O 6º Encontro Nacional do PT (1989): às vésperas da primeira eleição nacional

O 6º Encontro Nacional do PT74, respaldado pelo conjunto da estratégia do


encontro anterior, enfrentar-se-á com uma nova mediação. Isto é, pelo surpreendente
desempenho eleitoral do partido nas eleições municipais de 198875, a campanha para
presidência prometia desfecho positivo. Logo, o PT precisava transformar sua estratégia
política em estratégia eleitoral, seu programa estratégico em programa de governo e
assim por diante.

74
O 6º ENPT foi realizado entre os dias 16 e 18 de junho de 1989, no Colégio Caetano de Campo, São
Paulo (SP).
75
Nas eleições de novembro de 1988, o PT elegeu 36 prefeitos, 3 deles em capitais: Porto Alegre no Rio
Grande do Sul (chapa: Olívio Dutra e Tarso Genro), São Paulo em São Paulo (chapa: Luisa Erundina e
Luiz Eduardo Greenhalgh) e Vitória no Espírito Santo (chapa: Vítor Buaiz e Rogério Medeiros).

100
Sendo o principal partido de oposição do país após o Congresso Constituinte
não exclusivo, a possibilidade – tão perseguida – de derrotar a ―transição
conservadora‖76 se avizinhava.
A correlação de forças criada a partir dos resultados eleitorais de 15 de
novembro de 1988, em que o PT aparece como o principal partido de
oposição no Brasil, deve-se à nossa capacidade de captar a insatisfação
popular e dirigi-la para um programa de transformações econômicas,
sociais e políticas.
O combate ao Governo Sarney e à Nova República, a campanha eleitoral
municipal – quando fizemos os temas nacionais predominarem sobre os
locais – e o caráter plebiscitário que imprimimos à disputa em sua fase final
carrearam votos para o Partido e nos asseguraram vitórias e resultados
importantes.
Isto foi possível devido às resoluções do V Encontro, cuja política de
alianças, definições estratégicas, opção pelo socialismo e tática eleitoral
armaram o PT para as vitórias de 15 de novembro.
As forças acumuladas pelo PT e pelo povo nessas eleições criam a
possibilidade de que ocorra, pela primeira vez na história do Brasil, uma
polarização entre esquerda e direita. O povo brasileiro se encontra diante de
uma oportunidade histórica: a de liquidar com pelo menos um quarto de
século de tutela militar a serviço do capital internacional, dos latifundiários e
do grande capital em geral. O fim do desastroso e ilegítimo Governo Sarney
o mais cedo possível, com a eleição de um candidato à Presidência da
República com profunda inserção no movimento operário, popular e
democrático, encerrará a farsa da transição conservadora.
A vitória eleitoral do PT e dos trabalhadores e a conjuntura que ela abre
inscreve-se no marco mais amplo do período aberto pelo ascenso operário e
popular de 1978. Este resultou na criação do PT, da CUT e do atual
movimento independente dos trabalhadores brasileiros, de um lado, e na
crise da Ditadura Militar enquanto forma de dominação burguesa e na sua
substituição, a partir da campanha das Diretas em 1984, pela Nova
República, de outro. Naturalmente, trata-se de um processo não linear de
desenvolvimento da luta de classes, sujeito a saltos, que conhece avanços e
retrocessos. Este período, que compreende toda a década de 80, caracteriza-se
também por uma profunda crise da economia brasileira, cuja raiz é a
dependência junto ao imperialismo e a crescente dívida externa que daí
advém. O País atravessa uma crise crônica: nos últimos dez anos, o PIB,
considerando o crescimento demográfico, permaneceu praticamente o
mesmo. Uma década sem expansão econômica é uma década sem
modernização do parque industrial, o que leva à perda da capacidade de
competição internacional e a um atraso extremamente difícil de ser
recuperado, mesmo em muitas décadas. Trata-se de uma crise estrutural, que
se manifesta ora numa recessão aberta, ora numa inflação descontrolada ou
no problema cambial, mas que reflete, no fundo, o esgotamento de um
determinado padrão de acumulação capitalista e incapacidade de encontrar
um novo caminho de crescimento econômico unicamente nos marcos da
economia brasileira. Ela é expressão, no Brasil, das dificuldades que vem
conhecendo a economia capitalista mundial e que atinge o conjunto dos
países latino-americanos (grifos nossos)77.

76
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―As eleições presidenciais e a candidatura
Lula‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1989a, p. 376-393).
77
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―O momento atual e as nossas tarefas‖
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1989c, 369-375).

101
Como podemos ver, a partir da análise, a crise econômica permaneceria casada à
crise de legitimidade de Sarney, quadro já esmiuçado pelas avaliações do 5º Encontro,
em 1987. Porém, tal convulsão social e econômica combinaria o ―início de uma crise de
regime com um impasse no padrão de acumulação capitalista e uma crise estrutural‖. A
burguesia, fragmentada, teria, então, perdido terreno para construção, pelos
trabalhadores, de um instrumento ―capaz de disputar a hegemonia com os partidos
burgueses em nível nacional‖.
Nos documentos, o programa para o governo democrático e popular e o próprio
governo democrático e popular são apresentados como ―instrumentos capazes de
viabilizar a alternativa dos trabalhadores à crise política atual‖, podendo ―abrir
condições para a disputa de uma alternativa de poder‖. O PT e a Frente Brasil Popular
eram, por conseguinte, os instrumentos principais dos trabalhadores para incidir no
quadro da conjuntura já que a disputa eleitoral nacional representaria o eixo central da
tática partidária. A crise de governo, segundo o partido, corria o risco de se
metamorfosear em uma crise de regime.
Em outras palavras, é preciso ter claro que não interessa aos trabalhadores a
estabilidade da atual forma de dominação burguesa, o que coloca a questão
da passagem desta crise de governo atual para uma crise aberta e declarada de
regime.
É evidente que este objetivo se combina com o da constituição de um campo
de forças antimonopolista, antilatifundiário e anti-imperialista na sociedade
brasileira, configurando o bloco histórico que fará a ponte entre as
reivindicações mais sentidas dos trabalhadores em seu estágio atual de
consciência e mobilização e a luta pelo socialismo.
São alvos principais da tática dos trabalhadores, na conjuntura, o Governo
Sarney e sua política econômica, os monopólios, a subordinação ao capital
internacional, ao FMI e à dívida externa e ao latifúndio. Considerando,
porém, o novo período da luta de classes que se abre com o possível
desenvolvimento da crise de regime, outros alvos, como a tutela militar, o
controle dos grandes meios de comunicação de massa, a burocracia estatal e
o arcabouço jurídico-político autoritário e conservador, adquirirão
principalidade. O eixo central da tática, neste momento, é a campanha
presidencial de 89, com a candidatura Lula (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1989c, p. 373, grifos nossos).

Já no documento ―Diretrizes para a elaboração do programa de governo‖78, a


crise econômica aparece como um agravamento da crise social, com raízes no
capitalismo ―excludente, concentrador e predatório‖ do Brasil. Tal crise se aprofunda
com o esgotamento do modelo de desenvolvimento adotado na ditadura, resultando na
transferência de boa parte da riqueza pela dívida externa, inflação descontrolada e atraso

78
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Diretrizes para a elaboração do
programa de governo‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1989d, p. 394-403).

102
tecnológico, mesmo quando a economia mundial era marcada por um período de
―modernização‖, segundo o documento. Portanto, os contrastes no Brasil eram
explícitos, com milhares de pessoas em situação de pobreza extrema convivendo com
uma ―burguesia próspera, concentradora de propriedades e riquezas, desfrutando de um
elevadíssimo padrão de vida‖.
A tentativa de pacto para salvaguardar o controle sobre a transição para o regime
civil encontrou, do ponto de vista da resistência popular, forte oposição. Neste sentido, a
possibilidade de conquista do governo se insinuava como possível corolário das lutas
sociais ocorridas no país nos anos anteriores, e poderia consistir, pela primeira vez, uma
derrota à Nova República e à transição conservadora.
Embora a burguesia brasileira fosse ―poderosa e dinâmica para implantar no País
um parque industrial altamente diversificado e para desenvolver uma economia que se
situa entre as maiores do mundo capitalista‖, ela não havia conseguido solucionar
―problemas de desenvolvimento do capitalismo‖. Apesar de afirmar que a crise era
consequência de um quadro de estagnação, o documento assevera, de outro lado, que as
forças produtivas no Brasil teriam passado por um extraordinário crescimento a
―despeito de sua dependência e integração aos países capitalistas mais ricos‖.
Tal quadro, por outro lado, não teria proporcionado uma ―consciência
anticapitalista‖. E, mesmo que as lutas políticas e sociais tenham logrado mudar a
correlação de forças, viabilizando uma organização política que representasse uma
alternativa de esquerda, a chegada à Presidência da República era vista como a
inauguração de um ―novo período no qual, com a posse do governo – portanto, de parte
importante do poder do Estado – a disputa pela hegemonia se dará em outro patamar‖.
Estava colocada para o PT, então, a possibilidade de ―iniciar um acelerado e radical
processo de reformas econômicas, de lutas políticas e sociais‖, criando ―condições para
a conquista da hegemonia política e de transformações socialistas‖.
Havia uma ressalva, entretanto. A implementação de reformas democráticas e
populares pelo governo colidiria com a dominação social, sofrendo, em consequência,
fortes resistências. Neste sentido, tais tarefas só chegariam a termo se fossem realizadas
pelos trabalhadores.
Sabemos que o programa democrático-popular se choca com interesses que
tudo farão para inviabilizar nosso governo, ou mesmo para desmoralizar o PT
e as forças democráticas e populares durante o mandato do Lula. A resposta
às tentativas de desestabilizar nosso governo e de romper com a
institucionalidade, recurso que setores das classes dominantes historicamente
têm utilizado, só pode ser a mais ampla mobilização e a luta social. O PT

103
acredita que a capacidade de luta e a mobilização dos trabalhadores é o
principal instrumento para o avanço político e programático de um governo
popular.
Um governo do PT e da Frente Brasil Popular deverá realizar as tarefas
democráticas e populares no País, de conteúdo anti-imperialista,
antilatifundiário e antimonopolista. A efetivação de medidas deste gênero,
mesmo que de cunho não explicitamente socialista, choca-se diretamente
com a estrutura do capitalismo aqui existente e somente poderão ser
adotadas por um governo de forças sociais e políticas em choque com a
ordem burguesa, um governo hegemonizado pelos trabalhadores (PARTIDO
DOS TRABALHADORES, 1989d, p. 401, grifos nossos).

A efetivação de medidas democráticas e populares entraria em colisão com a


burguesia, o que negaria a possibilidade de reatualização de uma teoria de etapas.
Delinear-se-ia, ao contrário, um acúmulo de forças por dentro e por fora da ordem
institucional que permitiria firmar o governo democrático e popular como elo de um
processo ininterrupto de transição ao socialismo.
O PT não acredita na possibilidade de uma etapa de capitalismo popular no
País. Ao contrário, por meio de um processo simultâneo de acúmulo de
forças, enfrentamentos e conquistas dos trabalhadores criaremos as condições
para dar início às transformações socialistas no Brasil.
Por estas condições, o governo democrático e popular e o início de transição
ao socialismo são elos do mesmo processo. A passagem de um ao outro, no
entanto, não é automática e nem resultado da “retirada de cena” das
minorias privilegiadas que, com base na força e negação da democracia,
subjugaram historicamente os trabalhadores e o povo deste país. A
implementação da globalidade de um programa democrático-popular só pode
ocorrer com a revolução socialista (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1989d, p. 401-402, grifos nossos).

Em ―As bases do PAG (Plano de Ação de Governo)‖79, fruto do mesmo


encontro, são delineadas as linhas para um programa alternativo de governo.
Entre os elementos que agregam na caracterização da estrutura social, a ser
subvertida, a construção de uma ―democracia efetiva da maioria‖ seria a resposta à
forma como o Estado estava estruturado – ou seja, garantindo a marginalização e a
exclusão da maior parte da população da vida política. Para modificá-la, o PT
defenderia, então, ―a democracia efetiva e não a democracia meramente formal e
truncada‖. A ―Nova Política Econômica‖ do governo democrático e popular, tendo
como orientação decisiva a desconcentração de renda e a elevação do padrão de vida.
Seus pressupostos eram os seguintes:
a- mudanças amplas e estruturais na ordem capitalista vigente, opondo-se ao
modelo econômico dependente do imperialismo, controlado pelos
monopólios e pelos latifúndios;

79
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―As bases do PAG (Plano de
Ação de Governo)‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1989b, p. 404-426).

104
b- subordinação da propriedade privada dos meios de produção e distribuição
aos objetivos sociais da atividade econômica;
c- rompimento dos laços de dependência financeira e tecnológica com o
sistema capitalista internacional;
d - mudança no papel do Estado, com a recuperação das suas funções de
planejamento e orientação da vida econômica, mantendo o controle sobre
setores produtivos e financeiros estratégicos da economia;
e - distribuição de renda com vistas à erradicação da miséria absoluta,
redução das desigualdades regionais a ampla difusão dos benefícios gerados
pelo desenvolvimento, com busca permanente do pleno emprego dos
trabalhadores;
f - desenvolvimento voltado para as necessidades do povo brasileiro;
g - nova qualidade do progresso, com valorização da vida, do bem-estar e do
meio ambiente (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1989b, p. 408-409,
grifos nossos).

Assumindo as diversidades regionais, o governo de Lula superaria as


dificuldades sociais em um processo que refletisse não só o planejamento e a
distribuição da renda, mas, também, o papel que cada uma das regiões desempenharia.
Do ponto de vista da política de renda, seria imprescindível enfrentar de forma direta e
indireta o processo de desvalorização do salário dos trabalhadores. Para tanto, políticas
de valorização, distribuição de renda e regulamentação do mercado de trabalho seriam
adotadas, assim como um conjunto de políticas sociais indiretas, visando a ampliação
das mesmas, com caráter universalizante. Ao propor um projeto que incidisse em tantas
alterações do rumo econômico, dever-se-ia mudar também o papel do Estado,
recuperando suas funções de planejamento e orientação da vida econômica. Isto é, até
então, o Estado estaria “paralisado por uma crise financeira, resultado das políticas de
favorecimento ao setor privado” e sua máquina administrativa era “deformada pelo
empreguismo e pelo clientelismo”. A política do governo democrático e popular
precisaria, por isso, passar pelo desmonte de tal enredamento, voltando-se para
retomada da orientação “pública” do Estado.
A política do governo democrático-popular para o setor público passa pela
desprivatização do aparelho estatal, com a desmontagem das máquinas de
corrupção e favorecimento. Esse é um pré-requisito para a reconstituição do
espaço da atividade pública, com a recuperação do planejamento do poder de
regulação e orientação da economia. O Estado deve ser capaz de articular o
conjunto da política econômica, para garantir o objetivo de distribuição de
renda e modernização. (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1989b, p.
410).

O Estado, além disso, deveria manter o setor produtivo estatal e rever as


privatizações realizadas até o momento. A presença do ―capital estrangeiro nas
atividades produtivas‖ se subordinaria às ―prioridades da política econômica‖, assim
como ao controle do aparelho estatal sobre as atividades das maiores empresas.

105
Posicionando-se contrariamente ao pagamento da dívida externa ―ilegítima e
impagável‖, principal ―fator de estrangulamento de nossa economia e em grande parte,
pela miséria dos povos do Brasil e do continente latino-americano‖, o partido reafirma a
dívida como carro-chefe da dependência.
No que tange à questão agrária, o documento apresenta dois eixos
fundamentais: ―o plano agrário, marcadamente antilatifundiário e comprometido com a
reforma agrária, e o plano de política agrícola, que defende um modelo de produção
agrícola ―democrático e popular‖, baseado no respeito à natureza, uso inteligente da
tecnologia e oposição ao modelo americano.
Os outros itens do documento, ainda que importantes, não serão profundamente
analisados, pois, em geral, reafirmam orientações já expostas em documentos anteriores.
Ao encerrar o 6º Encontro Nacional do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, demonstra a
radicalidade presente no projeto democrático e popular:
Todos sabem perfeitamente bem que uma vitória da Frente Brasil Popular
significa em primeiro lugar o rompimento do pagamento da dívida externa,
porque não vamos matar nosso povo de fome para encher a barriga dos
banqueiros norte-americanos ou dos banqueiros europeus. Precisamos ter
claro que a anistia está longe de acontecer no Brasil. É bem verdade que
alguns companheiros saíram da cadeia e que muitos recuperaram seus
direitos de cidadãos. Mas a verdade nua e crua é que a grande maioria do
nosso povo ainda não foi anistiada. A anistia só vai acontecer neste país
quando a gente acabar com 31 milhões de analfabetos, dando a eles
condições de estudar. E quando a gente acabar com o salário-mínimo
miserável, que hoje é de 84 cruzados e que não dá para suprir as
necessidades mínimas da classe trabalhadora. A anistia para a classe
trabalhadora brasileira só virá a acontecer quando cada cidadão tiver o
direito à educação, à saúde, ao salário, à sociedade justa e igualitária.
A burguesia não pode se enganar com a gente. Tampouco podemos permitir
que a burguesia acredite em falsas promessas como a ―mentira Collor‖. A
mentira Collor é a mesma mentira da revolução de 64. É a mesma mentira do
fundo de garantia em 66. É a mesma mentira do Funrural2 em 70. É a mesma
mentira da Nova República em 85, do Plano Cruzado em 86. É a mesma
mentira do Plano Verão, a mesma do Plano Bresser (SILVA, 1989, grifos
nossos).

Mas a burguesia, a bem da verdade, não se ―enganaria‖ com a ―mentirosa‖


alternativa Collor. Seriam seus próprios interesses, mesmo que cindidos em frações
diferentes, que se agregariam: bem menos pelo seu apoio ao ―caçador de marajás‖, e,
bem mais, pela oposição à estratégia democrática e popular da classe trabalhadora.

106
2.10 Eleições de 1989: a estratégia democrática e popular em ação

A campanha eleitoral de 1989, primeira eleição direta em 25 anos, desde o golpe


empresarial-militar de 1964, foi um marco importante na história do país e, em
particular, do desempenho do PT e do projeto político construído pela classe
trabalhadora. Tal marco não se restringe ao reconhecimento formal das eleições. Na
década anterior, o Partido dos Trabalhadores teria nascido, sido legalizado, se
fortalecido e alcançado triunfos eleitorais importantes. Tratava-se, portanto, de uma
força política (e eleitoral) de alcance relevante que acabava de consolidar sua estratégia:
a estratégia democrática e popular.
A candidatura da Frente Brasil Popular seria representada pelo candidato à
presidência, Lula, e seu vice, José Paulo Bisol, do PSB (Partido Socialista Brasileiro)80.
Além de mobilizar grande contingente da população em seu favor, a candidatura
polarizou em dois campos – em especial no 2º turno – os projetos políticos apresentados
para o país: de um lado, a candidatura de Fernando Collor de Mello, que se transformou
na ―aventura‖ de setores conservadores; e, de outro, a candidatura de Luiz Inácio Lula
da Silva, representando o projeto construído pelos trabalhadores, um projeto
democrático e popular.
Transformando seu programa em arma e esperança, o partido alçava, desde seu
5º Encontro Nacional, o lançamento de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da
República. Retomando a resolução política adotada pelo 6º ENPT, os cenários da
eleição são avaliados segundo as seguintes mudanças na correlação de forças:
As eleições presidenciais de 89 dar-se-ão dentro de um quadro político que
sofreu profundas alterações a partir de novembro de 1988, quando as
esquerdas, em geral, e o PT, em particular, obtiveram expressivas vitórias
nos pleitos municipais.
Os resultados de novembro de 88 têm um duplo significado. Em primeiro
lugar, expressaram uma nova relação de forças existentes na sociedade,
traduzindo eleitoralmente uma acumulação obtida em quase dez anos de
lutas sociais. Em segundo lugar, criaram uma nova correlação política, que
mudou radicalmente o quadro da disputa presidencial.
O PT venceu em 36 prefeituras, que agrupam mais de 20 milhões de
brasileiros e são responsáveis por um terço do Produto Interno Bruto (PIB).
Elegeu mais de mil vereadores e teve grandes performances eleitorais em
81
centros importantes do país, totalizando milhões de votos (grifos nossos) .

80
A definição do vice de Lula não foi tranquila. Em documento do diretório nacional retrata-se a
dificuldade para a escolha do vice. Lula havia escolhido Raymundo Faoro para a empreitada, mas a vaga
acaba sendo recusada pelo jurista.
81
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―As eleições presidenciais e a
candidatura Lula‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1989a, p. 376-393).

107
Logo, ao mesmo tempo em que avalia a força social do PT segundo o acúmulo
de forças por fora da institucionalidade, apresenta o surgimento de uma nova nuance no
cenário. A força institucional do partido e a preparação para disputar as eleições
nacionais precisava ser acompanhada da viabilidade do projeto democrático e popular
ser vencedor nas urnas – mediação necessária entre a estratégia, seu objetivo estratégico
(socialismo) e as necessidades imediatas da população brasileira. Apontando para um
programa de disputa eleitoral, não se deixaria de lado o objetivo socialista, mesmo que
ele se deslocasse cada vez mais para o interior da cena institucional. Neste sentido:
Ao mesmo tempo em que se ancora num PAG de mudanças, mesmo nos
limites do capitalismo, a candidatura Lula reafirma seu perfil socialista, seu
caráter moderno, crítico, de uma nova classe trabalhadora carregada de
esperança nas transformações socialistas. O PT deve enfrentar o debate em
torno do socialismo de forma ofensiva, evitando fugir da questão. O Partido
visa construir o socialismo, mas o caminho dessa construção passa pela luta
de consolidação da democracia, de realização de reformas que acumulem
forças no rumo do socialismo e de combate permanente ao capitalismo. Em
outras palavras, nosso PAG não contém qualquer medida de reforço do
capitalismo ou que seja incompatível com o socialismo, enquanto busca
afirmar e ampliar os caminhos democráticos, através da luta social, como
questão essencial para o socialismo (RESOLUÇÃO..., 1988, p. 25, grifos
nossos).

O cenário eleitoral visto até ali como um possível momento de choque e de


polarização da esquerda versus direita, devia ser alvo, segundo setores do partido, de
cuidados, como o de não espantar as camadas médias e os setores do empresariado. A
centralidade da vitória teria interlocução com uma avaliação de fundo estrutural frente à
transição, pois permitiria de uma só vez, um desfecho alternativo para o caráter
conservador da democratização pelo alto. Lavrado o necessário cuidado com a
densidade do programa de governo e, nele, com as camadas médias, a iminente vitória
eleitoral parecia ficar mais próxima. Avaliava Garcia, no ano anterior (1988):
Dentro deste quadro, coloca-se para o PT uma questão fundamental. A
candidatura de Lula, cujo peso no processo sucessório está desde agora
garantido, não pode, porém contentar-se com um papel meramente
propagandístico. O PT e seu candidato devem apresentar-se munidos de um
consistente programa de governo que abra com clareza para a sociedade
brasileira não somente a perspectiva de atacar seus problemas imediatos
como de iniciar um amplo projeto de reformas econômicas, sociais e políticas
de médio e longo prazo. Este projeto, que responderá centralmente aos
interesses dos trabalhadores das cidades e dos campos, deve conter claras
indicações para outros setores da sociedade sobre o modelo sociopolítico
buscado. No programa do PT devem estar assinalados explicitamente os
pontos que interessam às camadas médias e o tipo de tratamento que se
pretende dispensar aos distintos setores do empresariado. O fato de não se
buscar uma aliança com eles não significa tentar (ou deixar que se suponha
isso) uma estratégia de choque frontal (GARCIA, 1988, grifos nossos).

108
Tal ―cuidado‖ é parte, a nosso ver, de um debate travado tacitamente com as
avaliações expressas nos 4º e 5º Encontros Nacionais. Neles, a resistência frontal a um
eventual governo do PT poderia levar ao aceleramento de rupturas, aprofundando
mudanças estruturais. O ritmo e a intensidade do encadeamento das tarefas e das
rupturas, portanto, se sobreponham, podendo levar à possibilidade efetiva de choques.
31. Tais pontos, evidentemente, realçam ainda mais as questões da
democracia no socialismo, ou o problema da liberdade numa sociedade que
se pretende tornar igualitária. Há sempre o risco de um descompasso entre o
avanço da estrutura econômica e o ritmo da democratização da
superestrutura. Resistências maiores ou menores da burguesia podem
conduzir a processos de centralização que retardem ou conturbem a
consolidação da plena democracia. Mas, mesmo com tudo isso, deve ser
reafirmada a relação indissolúvel entre democracia e socialismo. Formas de
controle popular e operário, que precisam ser incentivadas desde logo, como
os conselhos populares e as comissões de fábrica, por exemplo, bem como as
variadas formas de poder de base, são fundamentais para o projeto futuro –
na medida em que evoluam como meios, efetivos e eficazes, para
determinação da correlação de forças pró-democracia na sociedade
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1986a, p. 256, grifos nossos).

A formulação aparece já no 6º ENPT como resultante prática do embate


eleitoral, com o caráter de enfrentamento e ruptura presentes também nos encontros
anteriores. Vejamos.
O Partido não pode semear ilusões sobre uma idílica situação que seria criada
com nossa vitória em novembro próximo. Haverá, evidentemente,
transformações importantes no quadro da luta de classes no País, que
proporão desafios enormes e inesperados para o Partido e o governo. Estes
desafios decorrerão não somente da ação legal e extralegal das classes
dominantes, que resistirão, de dentro e de fora do governo, ao seu
desalojamento do Executivo Federal. Haverá também a ação de muitos
segmentos das classes exploradas, que cobrarão mudanças a curto prazo e se
verão estimuladas – nas cidades e nos campos – a ações para apressar o
processo de transformação econômica, social e política.
Estando no governo, sem ter planejado o poder, o PT sofrerá resistências
dentro do próprio Executivo (da burocracia, das Forças Armadas), sem falar
dos Poderes Legislativos e do Judiciário, dos governos estaduais, dos
empresários e de suas organizações e de potências estrangeiras (PARTIDO
DOS TRABALHADORES, 1989a, p. 384, grifos nossos).

Apesar de prevista em documentos e de tomar parte da avaliação da maioria do


partido, a hipótese do ―choque‖ e da resistência a um governo democrático e popular
merecia cada vez maior atenção. A tensão frente a possíveis ―momentos de ruptura‖ se
expressava ainda, enquanto disputa de gradação nos rumos do projeto petista, mas não
como inflexão objetiva. Tal elemento nos parece um resultado da avaliação política do
projeto democrático e popular para o qual, a partir de uma determinada caracterização
das classes sociais no Brasil, a importância da aliança com os setores médios era não só

109
tática, mas parte da concepção estratégica do socialismo petista: depositava-se nestas
camadas médias a expectativa de pluralismo social para ampliação da democracia pela
sociedade civil, e a possibilidade de desenvolvimento econômico pelo mercado. Do
ponto de vista econômico corresponderia a uma dupla manutenção, ou seja, conservação
e ampliação do mercado, sem ameaça à pequena e média propriedade privada.
A eleição de 1989 foi um momento de unidade. Ampliando a capacidade de
diálogo e permitindo o trabalho organizativo e massivo externo para o conjunto das
posições políticas petistas, a eleição serviria como um ―magneto‖82 de diversos setores
sociais. Se convertendo em importante momento de disputa política de massas, a
primeira eleição direta presidencial afunilaria as marcas de uma forte polarização social
– não só pela esperança e expectativa que guardava, mas, também, pela novidade
política que representava o PT. O partido rasgara as brechas dos setores dominantes
anunciando que a luta de classes se daria sob nova qualidade, e, já nesta primeira
eleição, levaria seu candidato ao segundo turno.
Alcançando os mais distantes recantos do país, a campanha do PT e da Frente
Brasil Popular foi marcada pela formação de comitês de todos os temas, tipos e
localidades. Ânimo e militância eram retratados nos programas eleitorais pela ―Rede
Povo‖, paródia aos programas da ―Rede Globo‖, nos quais se buscava falar de forma
objetiva e direta sobre os maiores problemas que acometiam o povo brasileiro. Sob o
lema ―Sem medo de ser feliz‖, o PT chegaria ao segundo turno da eleição, o que não
seria um pequeno feito: a polarização entre projeto da esquerda construído sob
hegemonia de um instrumento da classe trabalhadora versus o representante do conjunto
de setores conservadores. Talvez por isso o jingle da campanha ―Lula lá‖ tenha
expressado tão categoricamente o momento histórico. Explorando83 os principais
elementos simbólicos em torno da campanha do PT, metaforizava na estrela partidária a
ascensão de Lula (―lá‖) à presidência, conseguindo captar, poeticamente, o impacto da

82
A expressão ―magneto‖ é constantemente usada por Eurelino Coelho (2005) em sua tese de doutorado
para caracterizar o efeito de atração que o PT exerceu. Lançamos mão da expressão, pois nos parece
permitir ilustrar imageticamente a campanha de 1989: um polo de aglutinação e de expectativas em torno
da campanha Petista.
83
―Passa o tempo e tanta gente a trabalhar/ De repente essa clareza pra votar/ Sempre foi sincero de se
confiar/ Sem medo de ser feliz/ Quero ver você chegar/ Lula lá, brilha uma estrela/ Lula lá, cresce a
esperança/ Lula lá, o Brasil criança/ Na alegria de se abraçar/ Lula lá, com sinceridade/ Lula lá, com toda
a certeza/ Pra você, um primeiro voto/ Pra fazer brilhar nossa estrela/ Lula lá, muita gente junta/ Lula lá,
valeu a espera/ Lula lá, meu primeiro voto/ Pra fazer brilhar nossa estrela‖. A canção foi apresentada por
vários artistas demonstrando a amplitude social da campanha. Busca-se, enfim, soterrar o ―medo‖ e a
caserna, em uma representação da esperança em torno do período ―democrático‖ que se abria.

110
entrada dos trabalhadores na cena política e eleitoral. A primeira eleição direta, a
independência dos trabalhadores, a oposição à imagem do ―medo‖ que o polo oposto
vinculava ao PT: todos estavam ali, presentes, na letra do marcante jingle.
Um ―caçador de marajás‖ e representante do ―novo‖ eram os símbolos de
Fernando Collor de Mello. O suposto ―aventureiro‖, não era, evidentemente, tão
aventureiro quanto parecia. Se, de fato, a figura de ―novo‖ e ―anticorrupção‖ teriam
influência no processo eleitoral, a polarização antissocialista, anti-Lula e anti-PT é que
permitiu estabilizar Collor no segundo turno. Ao contrário do que seu marketing
apregoava, Collor simboliza, nele próprio, o processo de transição pactuada entre a
ditadura e a Nova República. Nascido no Rio de Janeiro, exerceu sua carreira política, à
época, em Alagoas. Era herdeiro de um jornal de grande circulação no estado, cujo
dono, Arnon de Mello, era seu pai. Curiosamente, o dono da Gazeta de Alagoas havia
sido senador por esse estado antes e durante a ditadura empresarial-militar.
O ―jovem caçador de marajás‖ havia exercido cargo na prefeitura de Maceió
pela ARENA, em 1979, seguida de eleição para deputado federal, em 1982, pelo Partido
Democrático Social (PDS) – legatário da Arena, que havia mudado de nome em 1980,
após o retorno ao pluripartidarismo. Eleito governador do estado de Alagoas já em 1986
pelo PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro –, Collor mudará
novamente de partido para concorrer à primeira eleição federal em 1989. Foi, ele
mesmo, expressivo exemplo do processo de mutação e transição conservadora da
direita brasileira: da Arena ao PDS, do PDS ao PMDB para, em seguida, buscar na
―reconstrução nacional‖ (PRN) o símbolo para o ilustre desconhecido partido –
renomeado após a entrada de Collor, em fevereiro de 1989.
Unificando a direita em torno de sua candidatura no segundo turno, o então
candidato reiteraria os elementos que haviam conformado sua imagem: um Cristão pela
família, combatente contra a corrupção, em defesa da democracia, ―defensor‖ da
Constituição de 1988, opositor ao governo Sarney, opositor ao socialismo e pela
―Nação‖. As duas letras ―l‖ de Collor, barras paralelamente pintadas de verde e amarelo,
aludiam à bandeira e à ―reconstrução nacional‖. Tendo esses elementos em vista,
passemos, agora, à última semana eleitoral, para encurtar um pouco mais a trajetória da
disputa do segundo turno eleitoral.
Em meio a escândalos pessoais e situações dramáticas de tom apelativo, Lula
ressaltava, em cadeia nacional, os apoios que haviam conformado seu campo no
segundo turno: Leonel Brizola, do PDT; Mário Covas, do PSDB (Partido da Social

111
Democracia Brasileira); setores da ―esquerda do PMDB‖, representados por Miguel
Arraes – então governador de Pernambuco –; o Partido Comunista Brasileiro (PCB); e
aqueles partidos que já faziam parte da Frente Brasil Popular. Comícios com 300 mil
pessoas em São Paulo e 120 mil em Porto Alegre animaram a corrida da última semana
e selaram a participação dos aliados de Covas no palanque de Lula em São Paulo e de
Brizola no do Rio Grande do Sul.
O resultado de 17 de dezembro não foi, no entanto, o esperado pela Frente Brasil
Popular e pelos seus eleitores. Ao findar a apuração, Collor venceria as eleições em
todas as regiões do país, com exceção do Sul, onde houve empate técnico84. Um
desfecho contraditório para o processo de transição conservadora que estaria em curso,
no qual a alternativa à Nova República não expressava, como esperado, um revés do
conservadorismo e da ampliação da democracia pelo sufrágio.
Dois meses depois, como se ―tivesse acordado de uma grande ressaca‖ (UMA
ELEIÇÃO... 1990), Lula avaliará, em entrevista inédita, motivos influentes sobre sua
derrota. A despeito de muitos elementos que elenca entre falhas organizativas e falta de
habilidade temática, o central argumento político que figura em sua avaliação diz
respeito à incapacidade do PT em falar com os setores mais desfavorecidos da
sociedade.
Eu acho que, muitas vezes, nós pecamos por excesso de otimismo. Certas
coisas, nós discutíamos a partir da nossa cabeça, a partir da cabeça do pessoal
politizado. Quando disseram que a gente ia acabar com as religiões não
católicas, nós fizemos um único programa especial sobre o tema, quando
deveríamos ter realizado várias inserções. Precisávamos ter insistido nestas
questões, porque é exatamente na faixa menos politizada que essas coisas
pegam, neste setor não funciona a estória que, para bom entendedor, meia
palavra basta: para este segmento não se deixar levar por estes boatos, não
basta meia palavra, é preciso, quem sabe, um livro inteiro. Eu acho que a
gente não conseguiu ter uma linguagem para este setor mais vulnerável da
sociedade, a gente não conseguiu penetrar nesta camada do jeito que
deveríamos.
ANDRÉ – Você acha que este setor tem medo do Lula?
LULA – Esta camada é manipulada com mais facilidade pelos meios de
comunicação, que vendem uma imagem distorcida do Lula, do PT. Pois bem.
A minha briga é sempre esta: atingir o segmento da sociedade que ganha
salário-mínimo. Tem uma parcela da sociedade que é ideologicamente contra
nós, e não há por que perder tempo com ela: não adianta tentar convencer um
empresário que é contra o Lula a ficar do lado do trabalhador. Nós temos de
ir para a periferia, onde estão milhões de pessoas que se deixam seduzir pela
promessa fácil de casa e comida.

84
Os resultados detalhados da eleição podem ser conferidos em Singer (1990, p. 121). Resumidamente,
destacamos o resultado geral e o resultado por regiões do país. Norte: 20,29% Lula e 48,52% Collor;
Nordeste: 32,77% Lula e 41,21% Collor; Centro-Oeste: 28,37% Lula e 48,82% Collor; Sudeste: 42,08%
Lula e 42,86% Collor; Sul: 39,97% Lula e 39,09% Collor. Votos no exterior: 30,45% Lula e 24,56%
Collor. Votação total: 37,86% Lula e 42,75% Collor.

112
ANDRÉ – Você acha esta batalha prioritária?
LULA – Acho. Nós temos amplos setores da classe média com a gente – uma
parcela muito grande do funcionalismo público, dos intelectuais, dos
estudantes, do pessoal organizado em sindicatos, do chamado setor médio da
classe trabalhadora. O que nós precisamos agora é ir diretamente a esse
pessoal menos favorecido.
CÍCERO – Não foi a classe média que derrotou sua candidatura?
LULA – A verdade nua e crua é que quem nos derrotou, além dos meios de
comunicação, foram os setores menos esclarecidos e mais desfavorecidos da
sociedade85 (grifos nossos).

Se havia um setor social desconfiado de Lula, esse seria o ―povo mais pobre‖.
Preocupado com a classe média e o perfil ―assustador‖ que ele poderia representar para
o empresariado e pequenos proprietários, o PT teria deixado de lado uma ampla parcela
da população cujo perfil, contraditoriamente, carregaria seu principal eleitorado: o
―povo‖. Pomar (1998), importante dirigente do PT e coordenador nacional da campanha
eleitoral em 1989 afirma que o PT não avaliara bem essa ―vasta camada social‖.
O 6º Encontro reafirma, assim, a análise correta do 5º Encontro Nacional.
Entretanto, alardeia uma força que a realidade posterior mostrou ser menor
do que a exigida pela situação política, principalmente pela inserção
insuficiente do PT entre os marginalizados. Só nos meses seguintes iríamos
descobrir que os marginalizados, chamados por Collor de “descamisados”,
constituíam uma vasta camada social, com características tão próprias e
específicas, que deveriam ser encarados praticamente como uma classe
social. Embora até hoje isso não seja consensual no PT, uma nova análise em
profundidade das classes sociais no Brasil terá que dirimir esta controvérsia,
mas não seja, pelo simples fato de que quem, hoje, decide as eleições no País
é o voto desse setor social (POMAR, 1998, p. 22, grifos nossos).
Mas não só a base eleitoral constitui um grande problema. No percurso, uma
série de aspectos centrais do projeto estratégico petista, principalmente o próprio
objetivo estratégico do partido, o socialismo, seriam colocados na berlinda.
A queda do Muro de Berlim e do fim do polo socialista foi interpretada
mundialmente, partindo da perspectiva hegemônica, como a derrota do socialismo, do
comunismo e do marxismo, o declínio final da proposta de controle sobre os mercados
e sobre os meios de produção com vistas a socializá-los. Seis dias antes do primeiro
turno presidencial, precisamente em 9 de novembro de 1989, o mundo assistiria ao
início da restauração e da ofensiva capitalista.
Se de fato o socialismo era o objetivo estratégico do PT, a eleição enquanto um
momento para pavimentar o caminho no seu rumo apresentava-se, agora, como possível

85
O primeiro grande balanço público da campanha do PT em 1989 acabou sendo resultado da entrevista
que Lula concedeu no final de fevereiro de 1990. Além de Lula, Ricardo Kotscho e Aloizio Mercadante,
participaram da conversa com Cícero Araújo, Breno Altman e André Singer. A entrevista se encontra em
um dossiê da Fundação Perseu Abramo (UMA ELEIÇÃO..., 1990, p. 241-251).

113
embaraço em sua estratégia. O programa democrático e popular refletido no plano de
governo previa, como vimos, a possibilidade de ruptura com a ordem, uma mudança
severa no perfil da distribuição de renda, a estatização de uma série de setores
estratégicos da economia, além da ruptura com a dívida externa e com o capital
financeiro. Corroborando a relação intrínseca entre socialismo e democracia, afirmados
pelo PT desde seus documentos fundacionais, os regimes do Leste passam a ser
frontalmente questionados pela tônica ―burocrática‖ e de reprodução do ―autoritarismo‖.
Além disso, a burocratização foi tomada segundo dois pilares fundamentais: o da
ausência de democracia e o da ausência de mercado. A estatização da economia
sufocava a ―liberdade‖ de transações econômicas e a burocracia ausentaria a
democracia, a liberdade partidária, a autonomia e liberdade sindicais. A defesa do
socialismo com democracia, a despeito de ser vista como a melhor resposta possível
pelo PT, não arrefeceria a agressividade dos adversários.
No último debate eleitoral do segundo turno, realizado três dias antes do pleito
eleitoral86, por exemplo, a primeira pergunta da noite notabilizava a ofensiva contra o
socialismo. Transmitido em conjunto por quatro redes de televisão – TV Bandeirantes,
TV Globo, TV Manchete e SBT –, os temas da economia e democracia se destacavam
ao mesmo tempo em que ignorava-se de forma capciosa a crise brasileira, focando o
debate no regime socialista do Leste Europeu:
Os países comunistas atravessam grandes transformações sobre o aspecto
político e econômico. Estão optando pelo caminho da liberdade política e
pela eficiência do mercado na economia, inclusive no que diz respeito a
salários, o que mostra que o Estado empresário está falido naqueles países.
Eu pediria aos senhores que se posicionassem sobre as transformações do
mundo comunista sob o aspecto econômico e de que maneira essas
transformações podem ser aproveitadas no Brasil como lição (Bóris Casoy,
transcrição nossa).

Ao responder, Lula prima por reafirmar a relação entre socialismo e democracia


como fundamento principal da versão de socialismo petista.
Lula – Em primeiro lugar eu queria agradecer (...) por mais essa
oportunidade de provar que é possível, num debate como esse, elevar o nível
de consciência do nosso povo. Em segundo lugar, meu caro Boris, eu acho
muito difícil, muito complicado tentar comparar o que está acontecendo no
Leste Europeu com o que está acontecendo no Brasil, ou, com o que precisa
acontecer no Brasil. É preciso saber de antemão que desde 1980, portanto,
há dez anos atrás, e quando foi fundado o partido dos Trabalhadores, ele foi
fundado na base da liberdade política, na base da liberdade e autonomia
sindical, na base do pluralismo político... nós sempre entendemos que não

86
O debate foi realizado em 14 de dezembro de 1989. Comprovadamente editado e transmitido em cadeia
nacional no dia seguinte foi considerado por muitos o motivo principal da derrota de Lula no pleito.

114
haveria socialismo possível se não houvesse uma sociedade democrática, se
não houvesse vários partidos políticos. E eu acho que há uma razão de ser da
luta no Leste Europeu, acredito piamente que o conjunto da sociedade tem
razão porque o Estado não pode efetivamente estar tendo ingerência em toda
atividade da economia. O Estado precisa ter ingerência nos setores
considerados estratégicos da economia, nos setores considerados essenciais
à população, e permitir que a própria sociedade crie mecanismos para se
autofinanciar, se autodeterminar, a nível de conquistas, a nível de
investimentos, inovações tecnológicas, a nível de inovação em
investimentos. Eu acredito que o que está acontecendo no Leste Europeu, e
começou na década de 1980 com o sindicato Solidariedade, é um exemplo
para o mundo, para a América Latina, um exemplo para o terceiro mundo de
que é possível continuar lutando pelo socialismo, mas é preciso continuar
lutando por um socialismo democrático, um socialismo pluralista, por um
socialismo que não negue a necessidade da liberdade e da autonomia
sindical, a necessidade do direito de greve, a necessidade da classe
trabalhadora se organizar livremente no mercado de trabalho. Essa briga foi
que fez com que o PT nascesse, essa briga fez com que nós criássemos o
sindicalismo combativo no Brasil, essa briga serviu para surgir a CUT no
Brasil. Daí porque a minha tranquilidade e a minha solidariedade com o que
está acontecendo no Leste Europeu. Da mesma forma que os alemães
derrubaram o muro da vergonha que era o Muro de Berlim, nós vamos
eleger dia 17 quem vai derrubar o muro da vergonha no Brasil, que é a fome
que campeia na casa de cada brasileiro (Luiz Inácio Lula da Silva,
transcrição nossa).

Parecia a resposta possível para solucionar a questão, ao menos por ora. A


primeira intervenção de Collor, logo em seguida, recolocaria o tema em novos termos.
Relacionando a defesa do cristianismo, da família, da liberdade política e do mercado,
Collor taxaria seu adversário como ―marxista‖ e se identificaria como equilibrado
―centro democrático‖.
Inicialmente o meu boa noite e o meu agradecimento pela oportunidade de
participar mais uma vez de um debate às vésperas da eleição presidencial e
às vésperas também de um Natal. Daqui a dez dias estaremos comemorando
o nascimento de Cristo. O nascimento de Cristo é o dia que marca o
recolhimento cristão de toda família brasileira, de toda família que crê,
acredita e tem fé que Deus haverá de nos ajudar também e sobretudo a nós
sairmos dessa crise em que nos encontramos. Daqui a três dias nós
estaremos escolhendo também o novo presidente da República. E essa
pergunta vem bem a calhar, porque não há como se discutir com os
candidatos as suas propostas para saúde e para educação sem que antes nós
posicionemos de uma forma muito clara as grandes diferenças, as
fundamentais diferenças que existem entre um candidato e outro. De um
lado está a candidatura do centro democrático, por mim representada, do
outro lado está uma candidatura que esposa teses estranhas ao nosso meio,
teses marxistas, teses estatizantes, teses que não primam pelos princípios
democráticos consagrados na nova carta constitucional, até porque o
partido daquele que é meu adversário se negou a assinar, votou contra o
texto constitucional... O que nós estamos vendo no Leste Europeu é a
demonstração clara, é a demonstração nítida que os princípios democráticos
devem ser preservados, devem ser perseguidos. Durante trinta dias eles
levaram para erguer o muro de Berlim e nós precisamos de trinta anos para
derrubá-lo... Derrubamos essas teses atrasadas, arcaicas, porque não dizem
respeito ao nosso dia a dia. Essas teses que são contra a livre iniciativa, que
são contra a liberdade, que sufocam, que oprimem o povo. Lá no Leste
Europeu não há liberdade de imprensa, não há livre iniciativa, há, sim, a

115
presença do Estado enorme, maciço, corrupto e interventor. Lá não há
liberdade de comprar aquilo que se deseja, lá não há liberdade de salário,
não há competição, lá não há eficiência, lá não há felicidade. Este outro lado
é o que eu combato. Eu combato porque acredito firmemente que é possível
nós construirmos uma sociedade democrática, mas uma sociedade
democrática com absoluta liberdade, com meios perfeitamente compatíveis
com o que é a nossa constituição e sem utilizarmos da luta armada, da
intolerância, da baderna, da bagunça, do caos, do desrespeito mais absoluto
como querem aqueles que se contrapõem a nossa proposta. Eu acredito que
o senhor Gorbatchov, com a sua Perestroika, deu uma grande demonstração
de que o nosso caminho é o caminho correto (Fernando Collor de Mello,
transcrição nossa).

Se o discurso é evidentemente carregado por um tom conservador, fia-se, por


outro lado, na defesa da democracia e da liberdade, antagonizando-se ao senso comum
relacionado, à época, com a percepção sobre as sociedades socialistas. Assim, Collor
parte para ofensiva em relação à imagem do PT: um partido que teria votado ―contra‖ a
Constituição de 1988. Lula, em resposta, passa a uma defensiva do texto constitucional.
Para além de demonstrar o ataque contra o socialismo, a ofensiva feria a síntese teórica
sobre a transição conservadora que o PT vinha fazendo até então: a Nova República e a
Constituinte não exclusiva teriam sido um elo do mesmo processo de transição
conservadora.
A segunda pergunta do debate reincidiria no tema da ruptura e do socialismo. A
questão partia da afirmativa de que o projeto econômico, político e social do PT não era
somente o de ganhar o governo, pois esse seria apenas o primeiro passo. Um jornalista
afirma que o sentido histórico do projeto petista seria ―(...) o de fazer uma reforma
radical, uma revolução socialista‖, já que ―o próprio PT admite na página 9 [do seu
programa] que as reações podem ser brutais, que alguém tem que perder com essa
revolução (...)‖. Já no passo seguinte afirma que Lula prometia a felicidade para os seus
eleitores, mas que ―(...) essa felicidade pode ser comprometida‖, pois uma das partes
perderia: ―o senhor teria coragem de falar para os seus eleitores, aqui e agora, que se
essa reação brutal acontecer o senhor terá de reprimir, quem sabe até pelas armas, os
seus opositores como defendem alguns dos seus aliados‖, como o ―Partido Comunista
do Brasil?‖. Lula tira do bolso a Constituição de 1988 e afirma:
Eu vou mostrar um livrinho outra vez [mostra a Constituição da República],
um livrinho que eu ajudei a construir embora tenha tido a dignidade e a
decência de lhe dizer da tribuna da Câmara que assinaria, mas votaria contra
porque entendíamos que ainda não estavam contemplados os interesses
maiores do conjunto da classe trabalhadora brasileira, mas apenas em parte...
porque as grandes conquistas que os trabalhadores tiveram na Constituição
ficaram para ser regulamentadas e por isso nós vamos ter outro período de
convencimento para o parlamento regulamentar a Constituição. E é lógico
que nós temos clareza de que fizemos poucas promessas nessa campanha

116
eleitoral. O meu adversário fez promessas. O meu adversário tentou utilizar o
povo como massa de manobra, tentou colocar inverdades como agora no
início de sua fala dizendo que o PT é um partido marxista, quando não existe
nenhum documento do PT oficial que coloque o PT numa linha marxista.
Mas nós vamos brigar para que seja cumprida essa Constituição, e, para
defendê-la, nós usaremos todos os instrumentos que o Estado dispõe para que
a gente permita que a sociedade brasileira alcance o que foi aprovado aqui e
promulgado no dia 5 de outubro de 1988. Eu tenho consciência absoluta de
que é preciso, para que se faça uma política de distribuição de renda correta,
para que possamos recuperar o poder aquisitivo, que o salário mínimo tinha
em 1959, e faço questão de reiterar que em 1959 o salário mínimo permitia
comprar noventa e tantos quilos de carne, e que hoje o salário mínimo
permite comprar vinte e quatro quilos de carne. Que uma dona de casa que
saía para uma feira ou para um supermercado com um salário mínimo
naquela época, ela trazia para casa o alimento para o mês inteiro e que hoje
ela não traz para comer uma semana. E obviamente que nós temos clareza
que, para recuperar o poder aquisitivo da classe trabalhadora, é preciso que a
gente aumente o crescimento do PIB desse país; consequentemente, é preciso
que se aumente o investimento nesse país, mas, sobretudo, é preciso que se
mude a cabeça do nosso empresariado. Eu disse já aqui, você já ouviu, que o
empresariado brasileiro, uma parte dele, ainda não chegou na Revolução
Francesa, aquela que já completou 200 anos. É preciso que os empresários
compreendam que cada capital, cada cruzado aplicado não será recuperado
no mesmo dia e tem uma recuperação a médio e longo prazo, e que é preciso
de uma parte do lucro ser reinvestido em salário para que o trabalhador
possa comprar aquilo que ele próprio produz. É por isso que eu digo sempre:
é preciso que o rico ganhe menos para que o trabalhador possa ganhar mais
(Luiz Inácio Lula da Silva, transcrição nossa).

É preciso que nos detenhamos um pouco sobre os argumentos apresentados. Se


―livrando‖ do marxismo como inverdade de seu adversário, Lula tenta deslocar sua
resposta para incapacidade do empresariado em aceitar um projeto burguês que
incluísse a maior parte da população na economia. Não responde, no entanto, à questão
da ―ruptura‖, pois afirmá-la seria filiar-se, de alguma forma, ao rumo contrário das
―regras do jogo‖ da democracia, como eram ali apresentadas. Ainda que Lula tenha
deslocado a resposta, o comentário final era ―réplica‖ de Collor. Acrescendo a ―defesa
da luta armada‖, da ―invasão de terras‖, a ―intolerância do partido‖, a substituição do
hino brasileiro pela ―A Internacional‖, o adversário atribuirá a Lula íntima relação com
os ventos do Leste.
Retomando a primeira avaliação de Lula sobre sua derrota eleitoral, o problema
aparece sem máscaras. A conclusão final chama atenção. Vejamos:
ANDRÉ – A questão do socialismo atrapalhou? Durante a campanha caiu
o Muro de Berlim, foi um fato importante, até o Afif usou isso contra o PT
[...]
LULA – Atrapalhou. É engraçado, nós tínhamos um filé-mignon para
trabalhar a questão do socialismo: em 1980, quando nós discutíamos o
Manifesto do PT, a gente já questionava a burocracia, o partido único, a falta
de liberdade e autonomia sindical. E nós permitimos que os representantes
da burguesia trabalhassem contra o socialismo. A derrubada do Muro de
Berlim é algo muito simbólico para a humanidade, e foi um erro o PT deixar

117
que a burguesia tirasse proveito disso, quando nós é que tínhamos moral
para falar.
ANDRÉ – O PT nunca definiu exatamente o tipo de socialismo pelo qual
está lutando. Você não acha que isto é um problema para o partido?
LULA – O que nós deveríamos ter trabalhado corretamente é a ideia de
que o que se está questionando na Alemanha Oriental ou na Polônia não
é o socialismo, mas a forma burocrática e a falta de democracia, que se
opõem ao socialismo. Nós deveríamos ter feito este discurso. Você veja
uma coisa: todos os meios de comunicação passaram quatro meses cobrindo
o Leste europeu, todos favoráveis, sem exceção, à queda dos governos
dirigidos pelos partidos comunistas. Mas nenhum jornal, nenhuma televisão
conseguiu mostrar miséria lá. Não mostraram criança na rua passando fome,
velhinho deitado na calçada, gente pedindo esmola. Embora não se tenha
resolvido a questão da democracia, do pluripartidarismo, do
sindicalismo livre, acabou-se com a fome, as pessoas são tratadas mais
humanamente.
BRENO – Na Itália e na França, ninguém dorme de barriga vazia e há
liberdade. Isto não prova que, ao menos nos países desenvolvidos, o
capitalismo se mostra um regime superior ao socialismo?
LULA – Não é a evolução do capitalismo que garantiu estas conquistas,
mas a evolução da democracia. Para o pessoal, na Itália, chegar aonde
chegou, precisou lutar a Segunda Guerra Mundial, precisou ter um
movimento sindical dos mais organizados. Assim também na Alemanha, na
Suécia. Não é verdade que o padrão de vida dos europeus seja resultado do
avanço do capitalismo: o empresário de lá, quando vem para o Brasil, paga
uma décima parte ao trabalhador brasileiro do que paga ao da sua terra
(UMA ELEIÇÃO..., 1990, p. 247, grifos em negrito nossos).

Sistematizando uma leitura segundo a qual a melhora de vida não seria fruto do
avanço do socialismo, mas da democracia, Lula interpreta o conteúdo socializante da
experiência comunista através do seu compromisso humanitário e não pelas mudanças
efetivas nas relações sociais de produção.
No Brasil, a fome era uma das graves questões a ser enfrentada pelo governo que
se elegesse, enquanto no Leste Europeu a fome teria sido erradicada. Entretanto, a
realidade dependente do Brasil levaria os empresários estrangeiros a pagarem menos ao
trabalhador brasileiro, demonstrando que não teriam compromisso com qualquer tipo de
melhora de vida. O empresário brasileiro – aquele que não chegara ao ―nível‖ da
revolução francesa – não negaria relações com a ditadura. Ao permitir que a ―burguesia
tirasse proveito disso‖, quando seria o PT que teria ―moral para falar‖, Lula localiza o
problema não no socialismo, mas em sua forma antidemocrática. A arena democrática
seria, portanto, a possibilidade de superar o beco sem saída que a história apresentava.
Por último, quando indagado sobre a capacidade de negociação de um futuro
governo federal com movimentos grevistas, Lula responde afirmando que só ele próprio
tinha capacidade de criar um entendimento nacional, afinal, era ele que tinha, ao seu
lado, a sustentação de setores organizados. Seria preciso convencer aos empresários,
para tanto, que eles precisavam deixar de ganhar tanto o quanto ganhavam, pois a

118
prioridade, em um eventual governo seu, passaria por recuperar o poder de compra dos
trabalhadores. Parece que, no contexto de 1989, só o próprio Lula se identificaria
enquanto esse mediador. Os pilares de um pacto que incluísse o povo no mercado e na
política se fortalecem como resposta às novas perguntas.
Na sua próxima década, o PT acelerará o curso das respostas.

119
Capítulo 3
A estratégia democrática e popular e o Partido dos Trabalhadores na década de
1990

3.1 O 7º Encontro Nacional do PT (1991): antineoliberalismo e democracia, um


primeiro divisor de águas

O 7º Encontro Nacional do PT87 se dá após derrota da candidatura Lula em


1989, avaliada, pelo PT, como um ―desfecho contraditório da transição conservadora‖88.
Para o partido, o advento eleitoral teria significado o encerramento do processo de
transição. O resultado geral da década não teria sido o de isolar a força política dos
trabalhadores e daí adviria seu caráter paradoxal: eram ―os de baixo, liderados pelo PT,
que – apesar do muito que ainda têm para avançar – já ocupa[va]m o centro da
oposição‖.
Collor já havia emplacado um novo plano econômico, o Plano Collor, que tinha
como principal tarefa controlar a inflação. Promovendo confisco da conta poupança, da
reforma monetária e da reforma do Estado, um breve retrocesso inflacionário de
pequeno fôlego teria logrado causar pequeno alivio. Junto ao reatamento de relações
com a comunidade financeira internacional, de retórica explicitamente privatista, tudo
faria crer que o significado das mudanças econômicas em marcha seria mais profundo.
Em outras palavras, o ―pacote anti-inflacionário‖ era ―apenas um dos elos de uma
política de alcance mais longo, voltada para a reestruturação da economia e do Estado‖.
Agente de ―uma coalizão burguesa ainda não claramente definida‖, o governo Collor
retomaria, dessa maneira, o ―papel do Estado como gerente de interesses da classe
dominante‖ e ―moderador dos particularismos‖. Mas, ao passo que a natureza do Plano
ia se revelando, seus efeitos impopulares eram sentidos. A mobilização social e a
capacidade de resistência expressavam-se de maneira dispersa e pouco coesa, tornando
necessária ―uma ampla articulação sindical e popular, apoiada pelas entidades da
sociedade civil‖ comprometidas a lutar contra o Plano.
No sentido de atualizar sua tática para enfrentamento ao governo recém-eleito, o
PT deveria, então, refletir sobre o ―partido, sobre o caráter do Governo Collor e,

87
O 7º Encontro Nacional do PT foi realizado entre os dias 31 de maio e 3 de junho de 1990, no
Anhembi, São Paulo (SP).
88
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Conjuntura e tática‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1990b, p. 453-476).

120
particularmente, sobre o socialismo‖. Condenando uma relação ―tática‖ com a
democracia, primava-se por afirmar a democracia como ―um valor estratégico‖. A
―questão democrática‖ se desloca, dessa maneira, para a oposição entre o ―autoritarismo
de Collor‖ e a ―defesa intransigente do estado de direito‖. Ainda, contrapondo o projeto
neoliberal ao programa democrático e popular, o partido girava sua atenção institucional
para o papel do Estado ―e da internacionalização dependente da economia brasileira‖; a
articulação entre a luta econômica e democrática era ressaltada; e os ajustes de tipo
―neoliberal são feitos à custa da participação do trabalho na renda nacional, com a
eliminação dos direitos sociais dos trabalhadores e os cortes de investimentos na área
social‖. Logo, a defesa da democracia precisaria garantir a ―ampliação da mobilização
política e social‖ contra o governo.
Atualizado para aquele contexto, o plano alternativo de governo, de 1989, se
propunha a servir de ―polo de referência alternativo na sociedade‖, com objetivo de
disputar a Presidência da República em 1994. O lema ―Feliz 1994‖ já passava, pouco
depois da derrota de 1989, a ser motivo de mobilização da militância para as eleições
nacionais seguintes. Nas eleições de 1990 para governo dos estados, Câmara dos
Deputados e Senado Federal, o partido propõe concretizar uma política de alianças com
―forças políticas de esquerda e progressistas‖.
A consolidação do PT como partido, a ampliação de sua base social e
eleitoral, o aprofundamento da consciência democrático-popular do
eleitorado, particularmente dos trabalhadores, é nosso principal objetivo.
Nosso partido e, especialmente, a liderança do companheiro Lula são uma
alternativa real de governo e de projeto para milhões de brasileiros, e nós
temos responsabilidade de viabilizar nos estados uma política de alianças
que leve aos governos forças políticas de esquerda e progressistas.
Nossos adversários tudo farão para inviabilizar a consolidação do PT,
principalmente da liderança de Lula, e travarão, como fizeram na campanha
presidencial, uma luta sem tréguas contra nossos ideais socialistas. Mas é real
a possibilidade de o PT conquistar governos estaduais e eleger uma grande
bancada para o Congresso Nacional, mudando no campo institucional a
correlação de forças no País, criando, assim, uma nova realidade para a
luta social e para a disputa pela hegemonia no campo da esquerda
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1990b, p. 457-458, grifos nossos)89.

A correlação de forças, até ali tomada como um processo de acúmulo de forças


que disputaria a hegemonia, devia, agora, obedecer a disputa da ―pinça‖, ou seja, por
fora e por dentro das esferas institucionais. Do ponto de vista da mediação entre
institucionalidade e socialismo, o PT reafirmaria a necessidade de ―ligar a defesa das
reivindicações específicas de salário, emprego e direitos sociais, da terra, do modelo

89
Todos os grifos deste capítulo são nossos.

121
agrícola, com a questão democrática e do modelo de crescimento que se pretende impor
ao País‖. Por conseguinte, a caracterização passava a ter como fulcro a ―questão
democrática‖ e – note-se! – o ―modelo de crescimento‖.
A ―questão do socialismo‖ continuava no centro da disputa não por conta de seu
perfil alternativo, mas porque simbolizava a ―crise geral dos regimes de partido único e
de economia burocratizada‖90. O PT, fiel representante do ―pluralismo‖, deveria
adjetivar e qualificar o ―seu‖ socialismo e não mais o contrário – o socialismo ser seu
adjetivo. O tema será alvo de uma resolução específica que analisaremos mais abaixo,
cabendo por hora destacar que não seria possível ―sequer pretender dar continuidade à
disputa pela hegemonia na sociedade e à luta pelo poder‖ sem que se enfrentasse ―a
questão do socialismo e sem aprofundar seu programa democrático-popular, nas novas
condições do Governo Collor‖. Condições essas que compunham uma simbiose entre a
alternativa democrática e um modelo de crescimento antineoliberal. Portanto,
democracia e antineoliberalismo tornavam-se protagonistas, e a adequação não era mais
rumo ―ao‖ socialismo, mas ―do‖ socialismo petista.
Acertando contas com suas próprias formulações, o partido não poderia se fiar
―apenas‖ nas lutas sociais, econômicas e democráticas. Era preciso, ―com base na
liderança do companheiro Lula‖, apresentar-se ―como uma alternativa de governo a
Collor e disputar, com um plano de governo alternativo, a hegemonia na sociedade
civil‖. A disputa pela hegemonia a partir de um ―longo acúmulo de forças‖ se via, dessa
maneira, abreviada, e as prefeituras petistas se tornavam fundamentais ―para a disputa
pela hegemonia sobre a maioria da população, desde o ponto de vista dos
trabalhadores‖. O Estado brasileiro, consequência da particular formação social do país,
tornar-se-ia, por conseguinte, centro da política, pois seria necessário disputar e politizar
os espaços administrativos:
Não podemos perder a visão da centralidade do Estado na nossa formação
social, as funções históricas que por isso ele cumpre, de que modo as
cumpre. Estamos atrofiando as nossas possibilidades de gestão do poder e
despolitizando nossa oposição radical ao atual sistema. Trata-se de negar,
mesmo nos limites do Estado de classe, que a burguesia tenha a prioridade

90
A resolução chega ao ponto de afirmar, ao debater dificuldades na relação entre o partido e as
administrações que conquistara, que: ―A era dos partidos tiranos ou dos partidos domesticados, dóceis nas
mãos dos estados, porta-vozes oficiais dos governos, está chegando ao fim com o desabamento dos
regimes autoritários do Leste Europeu. O PT nasceu contra essas concepções e não tem nenhuma vocação
de reeditá-la em nosso País. Temos, pelo contrário, que encarar a crítica como um momento de
aprendizado e/ou de ensinamento, sempre de acordo com as regras da democracia‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1990b, p. 467).

122
desse Estado e a exclusividade da dominação. Devíamos assumir que só
radicalizando os mecanismos democráticos de expressão, participação e
representação é que evitaremos a prevalência da lógica estrita do mercado e
do capital (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1990b, p. 469, grifos
nossos).

Equivalendo ―Estado de classes‖ às esferas administrativas, a democracia


aparece aos olhos do PT como única intermediária possível para subversão da
dominação exclusivista da burguesia, da ―lógica‖ do mercado e do capital.
O documento aborda, por fim, uma nova caracterização sobre a ―questão
agrária‖ no Brasil, na qual a mudança de caracterização sobre o ingresso do capitalismo
no campo, repercutia na proposta de Reforma Agrária petista. Neste sentido, perceber-
se-ia que nos 25-30 anos anteriores teria havido uma ―verdadeira revolução na base
técnica e nas estruturas econômicas e sociais‖ pelo capitalismo. A ―classe latifundiária‖
seria agora um ―setor da classe burguesa‖ e os camponeses, por sua vez, teriam se
convertido em assalariados rurais e urbanos. Logo, com o avanço do capitalismo agrário
a questão da reforma agrária se espraiaria como bandeira de luta, pois, para ―setores
consideráveis das forças políticas e sociais está colocada na ordem do dia a
socialização da terra e dos demais meios de produção agrícolas, o que mudaria o
caráter da reforma agrária‖. O documento afirma, entretanto, que seria necessário, ao se
fazer o debate, levar em consideração alguns desafios.
a) o processo de proletarização dos trabalhadores rurais não assalariados
ainda não se completou na agricultura brasileira: ainda existem milhões de
pequenos proprietários, pequenos arrendatários e parceiros que, mesmo
estando em processo de proletarização, ainda têm como horizonte a
propriedade particular de seus meios de produção e trabalho, incluída aí a
terra;
b) no Brasil, existe um exército industrial de reserva muito vasto, base de
manutenção do baixíssimo preço da força de trabalho, que terá que encontrar
formas de trabalho e subsistência diversificados, para sair do patamar de
miséria em que vive atualmente. Nas condições existentes, mesmo que os
trabalhadores assumam o poder e iniciem o processo de construção socialista,
será fundamental abrir a possibilidade para que a pequena produção mercantil
(urbana e rural) se desenvolva como um dos principais instrumentos de
absorção da mão de obra, hoje marginalizada, e de ampliação da produção de
alimentos e artigos de consumo de massa. Em tal contexto, a pequena
propriedade agrícola continua como uma necessidade econômica, social e
política, não só para os trabalhadores rurais não assalariados, mas também
para o conjunto dos trabalhadores, em particular os urbanos (PARTIDO
DOS TRABALHADORES, 1990b, p. 475, grifos nossos).

Isto posto, o documento conclui que a reforma agrária, embora perdesse a


característica democrático-burguesa, se mantinha como necessidade – ou tarefa. Ela
passava, portanto, ―a ter um caráter eminentemente democrático e popular,
anticapitalista, tornando-se mais um instrumento de luta rumo ao socialismo‖, incluindo

123
a ―perspectiva de socialização das empresas agroindustriais e o desenvolvimento de
cooperativas de pequenos produtores, dirigidas por eles próprios‖.
A construção do socialismo, como já afirmado em outros documentos,
conviveria com a manutenção de pequenas propriedades e com o mercado. Ainda, era
preciso ter em conta, e chama particularmente atenção, que, ―dependendo do
desenvolvimento real da economia e da luta de classes‖, também seria relevante o
convívio ―com empresas agrícolas particulares‖ – que passavam a ser ―eixo do processo
de socialização‖, contemplando a ―participação efetiva e democrática dos trabalhadores,
com sua adesão voluntária às medidas de socialização‖. Destaquemos dois aspectos do
tema. O passado recente teria modificado as condições agrárias brasileiras. Se a
revolução burguesa estivesse ―por ser feita‖, o modelo de reforma agrária seria
democrático-burguês, mas o novo caráter ―democrático e popular‖ tampouco
caracterizaria uma mudança do conteúdo da reforma.
Por um lado, o processo de proletarização não teria se ―completado‖, e a
pequena produção mercantil passava a figurar como uma das possibilidades de absorção
da força de trabalho – então disponível enquanto superpopulação relativa. Assim, seria
através da pequena propriedade, da ampliação da produção de alimentos e de artigos de
consumo de massa que se atingiria o conjunto dos trabalhadores ativos e os
marginalizados, permitindo sua saída da miséria. A reforma agrária se basearia na
pequena propriedade particular, ao passo em que, somente a depender da correlação de
forças, as empresas agroindustriais viriam a ser socializadas.
Na concepção ―clássica‖ da revolução brasileira, o feudalismo subordinado ao
imperialismo impediria o desenvolvimento do capitalismo, sendo necessário liberar a
terra a partir de uma reforma agrária que ampliasse o mercado de consumo e de
trabalho. Agora, o problema não constituía um entrave, mas uma característica própria
do modo particular de desenvolvimento do capitalismo dependente do imperialismo.
Neste sentido, as características do capitalismo são tomadas como não realizadas e
transformam a tarefa antilatifundiária em anticapitalista, dando continuidade à
metamorfose da natureza e do caráter democrático burguês em democrático e popular.
Mudam-se os termos, mas, note-se, o raciocínio e o caráter da reforma permanecem
sendo bem próximos ao da estratégia democrática e nacional, agrária e anti-
imperialista.
O segundo documento que passamos a analisar, ―O socialismo petista‖,
propunha-se a reafirmar o juízo do partido sobre o sistema capitalista e consolidar o

124
acúmulo em torno de sua ―alternativa socialista‖. De início, ressaltamos como, nascido
já negando a opressão ditatorial e a opressão burguesa, o PT teria, desde os primórdios,
afirmado seu caráter democrático.
Na raiz do nosso projeto partidário está, justamente, a ambição de fazer do
Brasil uma democracia digna desse nome. Porque a democracia tem, para o
PT, um valor estratégico. Para nós, ela é, a um só tempo, meio e fim,
instrumento de transformação e meta a ser alcançada. Aprendemos na
própria carne que a burguesia não tem verdadeiro compromisso histórico
com a democracia. A relação das elites dominantes com a democracia é
puramente tática, elas se socorrem da via democrática quando,
pragmaticamente, lhes convém. Na verdade, a democracia interessa
sobretudo aos trabalhadores e às massas populares. Ela é imprescindível,
hoje, para aprofundar suas conquistas materiais e políticas. Será
fundamental para a superação da sociedade injusta e opressiva em que
vivemos. Assim como será decisiva, no futuro, a instituição de uma
democracia qualitativamente superior, para assegurar que as maiorias sociais
de fato governem a sociedade socialista pela qual lutamos (grifos nossos)91.

A democracia interna ao partido, sua relação com movimentos sociais e com a


sociedade civil seriam parte deste mesmo processo: o PT se recusaria a tratá-los como
correria de transmissão do partido. O compromisso ―de raiz com a democracia‖ seria
―igualmente anticapitalista‖, pois, ainda que pujante materialmente, o capitalismo
brasileiro era ―vocacionalmente injusto e excludente, avesso por natureza àquela
partilha fraterna da riqueza social que é o pressuposto de qualquer autêntica
democracia‖. O capitalismo, responsável pela miséria da maior parte da humanidade,
levava o partido a formular sua crítica superando os limites das experiências social-
democratas que acreditaram ―equivocadamente, que a partir dos governos e instituições
do Estado, sobretudo o Parlamento, sem a mobilização das massas pela base, seria
possível chegar ao socialismo‖, levando-os a abandonar, por fim, ―não a via
parlamentar, mas o próprio socialismo‖92. O ―compromisso estratégico‖ do PT com a
democracia o levaria a refutar, no mesmo diapasão, os ―supostos modelos do chamado
socialismo real‖ e identificar, nelas, práticas políticas incompatíveis com seu projeto
socialista.
(...) A sua profunda carência de democracia, tanto política quanto econômica
e social; o monopólio do poder por um único partido, mesmo onde
formalmente vigora o pluralismo partidário; a simbiose Partido/Estado; o
domínio da burocracia enquanto camada ou casta privilegiada; a inexistência
de uma democracia de base e de autênticas instituições representativas; a

91
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―O socialismo petista‖
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1990a, p. 429-435).
92
O tema é aqui retomado sem fazer menção, como em outros documentos, à crítica do partido ao
populismo. Parece-nos, sobretudo, uma diferenciação com o PSDB – Partido da Social Democracia
Brasileira – criado em 1988 e base de apoio da candidatura Lula no segundo turno da eleição de 1989, e,
fundamentalmente, uma centralidade de diferenciação em relação ao socialismo real.

125
repressão aberta ou velada ao pluralismo ideológico e cultural; a gestão da
vida produtiva por meio de um planejamento verticalista, autoritário e
ineficiente – tudo isso nega a essência mesma do socialismo petista.
(...) Os movimentos que conduziram às reformas no Leste Europeu voltaram-
se justamente contra o totalitarismo e a estagnação econômica, visando
institucionalizar regimes democráticos e subverter a gestão burocrática e
ultracentralizada da economia. O desfecho desse processo está em aberto e
será a própria disputa política e social a definir os seus contornos. (...)
(...) Com o sentido geral da nossa política – democrático e anticapitalista –
perfeitamente assegurado, optamos pela construção progressiva da nossa
utopia concreta, isto é, da sociedade socialista pela qual lutamos. Quisemos
evitar tanto o ideologismo abstrato, travo elitista da esquerda tradicional
brasileira, quanto o pragmatismo desfibrado, característico de tantos outros
partidos. De nada nos serviria um aprofundamento ideológico puramente de
cúpula, sem correspondência na cultura política real de nossas bases
partidárias e sociais (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1990a, p. 432).

Indagando-se sobre qual seria o socialismo defendido pelo PT, o documento


afirma que o ―5º Encontro Nacional já apontou o caminho: para extinguir o capitalismo
e iniciar a construção da sociedade socialista, será necessária uma mudança política
radical‖. Neste sentido, ―os trabalhadores precisam transformar-se em classe
hegemônica na sociedade civil e no poder de Estado‖. Do texto original, que se refere
ao 5º ENPT, seria suprimido, como Iasi (2006) chamou atenção, o termo ―dominante‖
em ―hegemônica e dominante no poder do Estado‖, discretamente acrescido de
―hegemônica na sociedade civil e no poder do Estado‖. Outros elementos do projeto
socialista deviam ser tidos como ―desafios em aberto‖, pois ―seria presunçoso e
equivocado supor que podemos dar respostas imediatas‖. As respostas dadas, no
entanto, modificavam a perspectiva da consciência classista e aproximavam o
socialismo do humanismo e da ―ética‖ da política.
10- O PT não concebe o socialismo como um futuro inevitável, a ser
produzido necessariamente pelas leis econômicas do capitalismo. Para nós, o
socialismo é um projeto humano cuja realização é impensável sem a luta
consciente dos explorados e oprimidos. Um projeto que, por essa razão, só
será de fato emancipador na medida em que o concebemos como tal: ou seja,
como necessidade e ideal das massas oprimidas, capaz de desenvolver uma
consciência e um movimento efetivamente libertários. Daí porque recuperar a
dimensão ética da política é condição essencial para o restabelecimento da
unidade entre socialismo e humanismo (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1990a, p. 434, grifos nossos).

Mais ainda, a nova sociedade deveria se fundar no ―princípio da solidariedade


humana‖ e buscar ―constituir-se como um sujeito democrático coletivo sem, com isso,
negar a fecunda e desejável singularidade individual. Asseverando a garantia da
―identidade e a independência nacionais, recusará qualquer pretensão imperial,
contribuindo para instaurar relações cooperativas entre todos os povos do mundo‖. O

126
socialismo petista, portanto, só existiria com efetiva democracia econômica e política e
dentro dos limites da institucionalidade democrática.
O socialismo que almejamos, por isso mesmo, só existirá com efetiva
democracia econômica. Deverá organizar-se, portanto, a partir da
propriedade social dos meios de produção. Propriedade social que não se
confunda com propriedade estatal, gerida pelas formas (individual,
cooperativa, estatal etc.) que a própria sociedade, democraticamente,
decidir. Democracia econômica que supere tanto a lógica perversa do
mercado capitalista quanto o intolerável planejamento autocrático estatal de
tantas economias ditas socialistas. Cujas prioridades e metas produtivas
correspondam à vontade social e não a supostos interesses estratégicos do
Estado. Que busque conjugar – desafio dos desafios – o incremento da
produtividade e a satisfação das necessidades materiais com uma nova
organização de trabalho, capaz de superar a sua alienação atual. Democracia
que vigore tanto para a gestão de cada unidade produtiva – os conselhos de
fábrica são referência obrigatória – quanto para o sistema no seu conjunto,
por meio de um planejamento estratégico sob controle social.
12- No plano político, lutamos por um socialismo que deverá não só
conservar as liberdades democráticas duramente conquistadas na sociedade
capitalista, mas ampliá-las. Liberdades válidas para todos os cidadãos e cujo
único limite seja a própria institucionalidade democrática. Liberdade de
opinião, de manifestação, de organização civil e político-partidária.
Instrumentos de democracia direta, garantida a participação das massas nos
vários níveis de direção do processo político e da gestão econômica, deverão
conjugar-se com os instrumentos da democracia representativa e com
mecanismos ágeis de consulta popular, libertos da coação do capital e
dotados de verdadeira capacidade de expressão dos interesses coletivos
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1990a, p. 434-435, grifos nossos).

Dessa maneira, a propriedade social dos meios de produção distanciava-se tanto


da ―lógica perversa do mercado capitalista‖ quanto do ―planejamento autocrático
estatal‖ de experiências econômicas ―supostamente‖ socialistas. A alienação do trabalho
seria superada pela democracia da gestão, que mudaria a consciência alienada
submissa ao planejamento estratégico, pela do ―controle social‖. Do ponto de vista
político, as liberdades teriam como limite único a ―própria institucionalidade
democrática‖, cujos mecanismos de efetivação deviam ampliar a esfera representativa
sob mecanismos de consultas, ao mesmo tempo em que se restringiriam aos limites
institucionais (!).
Assim, se as eleições de 1989 tinham elevado o PT ao papel de principal partido
de oposição do país, os primeiros passos do governo Collor e a maior inserção do
partido no plano institucional só faziam aumentar a pressa nas revisões partidárias. De
fato, para operar uma mudança drástica de táticas e adequar sua estratégia rumo a uma
célere vitória eleitoral seria necessário avaliar, pormenorizadamente, o próprio

127
instrumento político. E isto é exatamente o que o ocorre no documento ―Construção
partidária‖93.
A estrutura organizacional do partido, tal qual o seu ―caminho socialista‖, não
deveriam obedecer a modelos e nem ―a fórmulas partidárias que tiveram origem e
desenvolvimento em outros lugares e momentos históricos‖. Por esse motivo, o desafio
de construir o ―socialismo petista‖ estava ligado ao papel do partido e à reafirmação de
seu acúmulo programático. Desafiado pela experiência eleitoral de 1989, o PT precisava
encontrar ―caminhos e formas de relacionar-se de modo consistente com os grandes
contingentes despolitizados e inorganizados da sociedade‖, uma
(...) imensa massa da população, constituída das camadas de menor ou
praticamente nenhum rendimento permanente; inteiramente analfabeta ou
extremamente pouco alfabetizada; de parcos e mínimos recursos de
sobrevivência; massa de indivíduos sobrecarregados pela luta cotidiana pela
vida, avessos a quaisquer formas mais sistemáticas de organização,
propensos a acreditarem nos milagres dos salvadores providenciais, sensíveis
aos carismas pessoais, submissos e subservientes a qualquer forma ostensiva
de autoritarismo, do PM armado à Rede Globo, passando pelas elites
demagógicas e populistas.
Para relacionar-se com esses contingentes, o PT terá que utilizar formas e
métodos diferentes dos que tem usado tradicionalmente para relacionar-se
com os setores mais avançados dos trabalhadores urbanos e rurais e com as
classes médias intelectualizadas e politizadas. Será necessário combinar as
formas massivas de comunicação com as visitas domiciliares e com maneiras
especiais de abordagem individual e apresentação de propostas políticas. Os
núcleos e Diretórios, assim como os meios de comunicação externa do
Partido, terão que desenvolver toda a sua criatividade e espírito de iniciativa
para encontrar esses caminhos e superar esse desafio, que, hoje, é estratégico
para a construção do PT e para a luta política (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1990a, p. 440, grifos nossos).

O desafio de falar com uma ampla base social que não aderia ao projeto petista,
relacionar-se com movimentos populares e com a ―sociedade civil‖ se superpunham. A
sociedade civil, por sua vez, seria importante ―tanto pela influência crescente exercida
por ela quanto pelo fato de que a disputa da hegemonia e do poder político pelos
trabalhadores e demais camadas populares ocorre de forma muito intensa no campo da
sociedade civil‖, o que criava ―novas condições para a ampliação e consolidação da
democracia‖. Logo, essa disputa
(...) ocorre não só colocando a sociedade civil em contraposição ao Estado,
mas também as organizações econômicas e sociais dos trabalhadores em
concorrência com as entidades predominantemente burguesas, instituições e
associações patronais conservadoras ou reacionárias, que se destinam a
manter os setores populares sob a influência dos valores burgueses. Nessas
condições, o PT precisa deixar claras suas diferenças quanto a essas

93
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Construção partidária‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1990c, p. 436-452).

128
entidades, sem recusar-se a travar o embate ideológico com elas. Ao
contrário, é fundamental procurar esse embate para retirar os setores
populares da influência burguesa, libertando-os da mistificação
entorpecedora das classes dominantes (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1990c, p. 441-442).

Dessa maneira, o limite das ações externas do PT volta a esbarrar-se com a


discussão da regulamentação de tendências internas. Seria preciso, por conseguinte,
―clareza, unidade e determinação política do conjunto do PT para integrar todas as
tendências políticas às suas normas democráticas de funcionamento‖ ao mesmo tempo
em que afastasse de si "as organizações políticas autônomas, que são outros partidos
que não o PT‖.
Outro desafio seria a ―relação com a institucionalidade‖. Esse amplo desafio
deveria se reproduzir na eleição seguinte, impondo nova reflexão sobre as
administrações já conquistadas e aquelas que viriam a ser conquistadas.
No que diz respeito às prefeituras e governos de estado que venha a
conquistar, o Partido deve amadurecer a dimensão ambivalente de ser
sustentação política ante os ataques que a reação, de maneira implacável,
pratica contra nossas administrações e, ao mesmo tempo, ser consciência
crítica e estímulo ao continuado avanço das políticas que foram traçadas
conjuntamente. O Partido deve atuar para reforçar em nossas administrações
aquilo que deve ser sua marca: a democratização do Estado, a efetiva
participação popular, com a respectiva criação de canais os mais amplos, o
direcionamento claro das prioridades para os setores oprimidos. Esta
colaboração não pode ser realizada do ponto de vista de quem se coloca de
fora ou na mera expectativa, e sim no empenho coletivo, fraterno,
construtivamente crítico (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1990c, p.
450, grifos nossos).

Por fim, afiança-se que o ―PT da década de 90 é uma instituição política e, como
tal, deve ser tratado em seus aspectos positivos de consolidação de um projeto da classe
trabalhadora e nos limites que a institucionalidade coloca‖. Ainda que se registrasse,
por parte de ―muitos setores do Partido uma procedente preocupação com certo grau de
acomodação, de adaptação ―exagerada‖ aos trâmites, usos e costumes da vida
institucional‖ haveria, por parte do partido, ―clara consciência de que não se passa
impunemente pela instituição‖. Seria a ―capacidade coletiva de se buscar um equilíbrio
entre o crescimento de nossas três frentes de construção partidária‖ junto à reafirmação
da organização do partido que permitiriam ―vencer eventuais ameaças de deformação de
nosso caráter partidário‖.
Encerra-se o 7º encontro clamando pela convocação, por parte do Diretório
Nacional, do 1º Congresso ou 8º Encontro Nacional do Partido. No ano seguinte, se
realizaria, então, o 1º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores.

129
3.2 O 1º Congresso do PT (1991): colapso do Leste e revisões no rumo estratégico
O 1º Congresso do PT94 vai retomar a discussão sobre o socialismo,
caracterizando-o cada vez mais como um horizonte. Permeado por intensa disputa
antimarxista, figuras de peso como Aloísio Mercadante e José Dirceu apontavam na
direção de abandonar o marxismo e não ceder, em seu interior, ao leninismo.
Segundo as resoluções do Congresso, o compromisso do PT com a
democratização do poder tinha caminho progressivo, o da democracia e da liberdade.
Processualmente, e a partir da democratização da sociedade civil, poderia se chegar à
―ordem da cidadania plena‖. A paulatina substituição de formulações não vinha de
longo prazo: entre 1989, 1990 e 1991 o tom assumirá lugar de guinada. Se as
caracterizações do 7º ENPT reproduziam parte significativa da estratégia democrática e
popular sob novas nuances, o 1º Congresso intensificará o ritmo da ―virada‖ e
repercutirá nas opções táticas, programáticas e na própria estratégia partidária. Já era
explícito, no manifesto de lançamento do 1º Congresso, pela Comissão Executiva
Nacional do Partido dos Trabalhadores, que a direção do vento parecia mudar.
1) Onze anos após a sua fundação, na esteira de grandes lutas sociais e pela
democracia, o Partido dos Trabalhadores convoca o seu 1º Congresso, para
novembro próximo.
Este congresso se realizará em meio a importantes transformações na cena
nacional e mundial. Nos últimos meses aprofundou-se a crise brasileira. Não
só persiste a inflação que corroi os salários dos trabalhadores, como o país
mergulha na mais séria recessão dos últimos anos, que agrava uma situação
social já insuportável e ameaça destruir a economia nacional. Esta crise tem
um efeito desagregador sobre as classes trabalhadoras, mina a sua
combatividade, atomiza as vontades coletivas de resistência, lançando
homens e mulheres quase que exclusivamente na luta por sua sobrevivência
pessoal. Os movimentos sociais e o próprio PT sofrem igualmente o impacto
dessa crise.
Internacionalmente, os acontecimentos em curso na URSS, no Leste
Europeu e em outros países que passaram por processos revolucionários,
tiveram um considerável impacto sobre a imagem do socialismo. Não há
como negar que o pensamento de esquerda e as ideias radicais de
transformação da sociedade enfrentam uma grave crise de identidade.
Sofrem hoje o assédio de posições conservadoras e perderam em muito a
capacidade de atração que tiveram durante décadas sobre milhões de
homens e mulheres em todo o mundo.
Ainda que o PT tenha nascido combatendo essas concepções autoritárias de
socialismo que ora estão ruindo, não há como negar o impacto negativo que
tal crise tem sobre a cultura política de esquerda em geral e, por
consequência, sobre o nosso Partido (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1991a, grifos nossos).

94
O 1º Congresso Nacional do PT ocorreu entre 27 de novembro e 1º de dezembro de 1991, em São
Bernardo do Campo (SP).

130
O texto parte da avaliação sobre as consequências nefastas da crise econômica
que o fracassado Plano Collor teria legado no combate à inflação. Se para o presidente o
lema do plano era ―vencer ou vencer‖, a maioria da população sentia efeitos de derrota:
inviabilização do consumo e a imprevisibilidade de acesso às suas próprias economias.
Se por um lado a crise guardava dimensão nacional, por outro, a queda do Muro surgia
como símbolo do triunfo capitalista. Não havia como negar que o ―pensamento de
esquerda e as ideias radicais de transformação da sociedade‖ passavam por uma crise de
impacto sobre a esquerda em geral. E é também neste sentido que a questão democrática
voltava a ser central.
Avaliando a relação entre o partido e a democracia – interna e geral –, o
manifesto apresenta uma análise sobre a atuação do PT na década anterior,
preocupando-se em diferenciar o partido de toda tradição prévia, uma vez que ele seria
impulsionador e resultante do período democrático.

2) Neste onze anos de existência, o PT realizou sete encontros nacionais,


todos eles precedidos de milhares de reuniões em seus núcleos, diretórios
zonais, municipais e estaduais. As principais definições políticas do Partido
foram objeto de intensos debates internos que nunca se restringiram a suas
direções. Neles se expressaram pontos de vista dos mais diversos, que
repartiram as distintas sensibilidades sociais, político-ideológicas e regionais
que compõem o Partido. Mas foram igualmente debates que o PT travou com
a sociedade brasileira, discutindo os passos a serem dados nos momentos
decisivos de sua história recente. Assim foi quando da campanha das
“Diretas”, do episódio do Colégio Eleitoral, da Constituinte, para só citar
alguns dos movimentos mais significativos da última década. O Partido não
hesitou em afirmar com clareza as suas posições, ainda que isso lhe tenha
custado incompreensões e mesmo o isolamento temporário.
Em convenções, em acalorados debates ou seminários mais reflexivos, em
encontros ou prévias envolvendo o conjunto dos seus filiados, o PT construiu
seu perfil, definiu suas estratégias de intervenção na política brasileira,
escolheu seus dirigentes e candidatos num período marcado por intensas lutas
sociais e cruciais mudanças político-institucionais. Apesar de todas as
dificuldades que este processo de construção apresentou, o PT pode assim
oferecer um exemplo inédito de democracia interna particularmente
significativo em uma sociedade autoritária como a brasileira. Nela, a
tradição partidária sempre foi marcada, à direita, pela manipulação e o
clientelismo. À esquerda, a despeito dos testemunhos de dedicação e
combatividade, as práticas dominantes foram as de grupos minoritários, com
escassa implantação social e pautando muitas vezes sua atuação pela
intolerância e o dogmatismo.
Mas a contribuição maior que o Partido dos Trabalhadores deu à construção
da democracia foi a de haver-se constituído, dessa forma, em um espaço de
expressão para milhões de homens e mulheres, do campo e da cidade,
reduzidos pela exploração da economia e pela violência aberta à condição de
subcidadãos, excluídos de todas as possibilidades de participar das decisões
da vida do país (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1991ª, grifos
nossos).

131
A avaliação negativa sobre as posições que custaram ―incompreensões e mesmo
o isolamento temporário‖, como nos episódios das ―Diretas Já‖, do ―Colégio Eleitoral‖
e da ―Constituinte‖, ainda era tímida, mas se insinuava. Ademais, o ineditismo do PT
perante a ―sociedade autoritária‖ brasileira era ressaltado e, expressando a participação
de ―milhões de homens e mulheres‖, o partido ensejava inverter a ―exclusão política‖ e
inserir os ―de baixo‖ nas decisões. A perspectiva democrática, porém anticapitalista, por
sua vez, aparece no terceiro item do Manifesto.
3) O PT surgiu combatendo a ditadura militar implantada no Brasil em 1964,
responsável pelo crescimento perverso da economia e pela violação
sistemática das liberdades individuais e coletivas. Já na sua origem, ele
mostra uma clara perspectiva anticapitalista e democrática. Por esta razão,
nunca sucumbiu às ilusões dos liberais de ocasião, que buscavam fazer
esquecer o compromisso que sempre tiveram com as duras condições de
exploração das classes trabalhadoras em todas as violações da democracia e
do próprio estado de direito, do qual cinicamente se diziam defensores.
O Partido dos Trabalhadores é fruto das lutas desencadeadas em fins dos anos
70 e começo dos anos 80 contra a exploração patronal, pela reforma
agrária, por melhores condições de vida, pela democracia, especialmente o
respeito aos direitos humanos, à liberdade e autonomia sindicais e todas as
formas de organização social e política. Neste sentido, ele retoma os sonhos
libertários de gerações de combatentes das classes trabalhadoras e lhes dá
uma perspectiva concreta e de massas.
Combinando a luta social com a político-institucional, o PT reivindicou,
desde seu nascimento, a necessidade de articular o combate pela democracia
econômica e social com aquele pela democracia política. Mas, sobretudo, ele
representou, para a política brasileira, a participação dos trabalhadores na
esfera pública. As grandes massas começaram a se apropriar da política,
intervindo em seu próprio nome e não através daqueles que as haviam
transformado em sujeitos passivos.
Desde o início, o PT definiu-se como democrático e socialista, demarcando,
já em 1980, sua diferença em relação às experiências do socialismo
burocrático quanto da social-democracia (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1991a, grifos nossos).

Desde o princípio democrático, socialista, antiburocrático e demarcadamente


diferente da perspectiva social-democrata, o PT representaria a novidade da participação
dos trabalhadores na ―esfera pública‖. Continuando o item três da apresentação e
convocação do Congresso, o documento revela uma importante alteração de tom em
parte de suas formulações.
Para o PT, o socialismo será resultado das práticas das classes trabalhadoras
elaborado a partir do confronto com as experiências históricas deste século.
Mesmo sem ter dele um conteúdo suficientemente preciso – que deverá
adquirir justamente a partir do I Congresso – o PT propõe um caminho ao
socialismo que se assenta, desde já, em algumas poderosas convicções. Para
o PT, o socialismo é visto como o único meio de desencadear um gigantesco
processo de transformação da economia e da sociedade brasileira, capaz de
promover o desenvolvimento nos marcos de uma profunda renovação
tecnológica e da preservação ambiental.
A democracia socialista, para o PT, supõe a compatibilização da criatividade
econômica da sociedade civil com a intervenção democraticamente

132
planejada do Estado. Para isso, é fundamental desprivatizar o Estado,
combatendo em seu interior e a partir de lutas impulsionadas na sociedade
pelos movimentos organizados, a ação parasitária de grupos privados
nacionais e internacionais, bem como da burocracia e de interesses
puramente corporativos. Neste sentido, tal caminho ao socialismo tem uma
dimensão republicana, entendida como a prioridade da coisa pública sobre
os interesses privados que historicamente predominaram no Estado.
Por isso mesmo, o caminho brasileiro ao socialismo é impensável sem o
aperfeiçoamento estrutural dos atuais mecanismos democráticos e a criação
de novos mecanismos de controle, decisão e participação popular e de novos
canais de expressão da vontade individual e coletiva. Esta razão pela qual o
socialismo não pode ser pensado fora do respeito efetivo e da promoção
obstinada dos direitos humanos e sociais, do pluralismo e do estado de
direito (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1991a, grifos nossos).

Ainda que o socialismo petista seja apresentado como resultado do confronto


―com as experiências históricas deste século‖, seu conteúdo rigoroso deveria ser fruto
do 1º Congresso do Partido. O ―caminho ao socialismo‖ já se assentaria, porém, ―em
algumas poderosas convicções‖, e, assentado sobre a ―democracia socialista‖, seria ele o
―único meio de desencadear um gigantesco processo de transformação da economia e da
sociedade brasileira‖.
A ―desprivatização do Estado‖ estaria casada à ―criatividade econômica da
sociedade civil‖ e a ―intervenção democraticamente planejada do Estado‖. Então
dominado pela ―ação parasitária de grupos privados nacionais e internacionais‖, assim
como pela ―burocracia‖ e por ―interesses puramente corporativos‖, o Estado precisaria
ser atravessado pela ―dimensão republicana‖, que oporia ―coisa pública‖ aos interesses
privados então predominantes. Seria preciso, portanto, desprivatizar o Estado. Neste
sentido, e como consequência, o caminho brasileiro ao socialismo era pavimentado,
mesmo antes do Congresso, por nova coloração: ele seria impensável fora da junção
entre ―aperfeiçoamento estrutural dos atuais mecanismos democráticos‖ e da ―criação
de novos mecanismos de controle, decisão e participação popular‖. Parece estranho,
mas o raciocínio que começa afirmando a ausência de ―conteúdo suficientemente
preciso‖ para o socialismo, termina atestando os limites segundo os quais o socialismo
não mais poderia ser pensado: o ―respeito efetivo‖, a ―promoção obstinada dos direitos
humanos e sociais‖, o (já afirmado em outros documentos) ―pluralismo‖ e o ―Estado de
direito‖.
Se o pluralismo era parte da defesa do partido desde as eleições de 1989, a
incorporação do ―Estado de direito‖ passa a ser recorrente após o 7º Encontro de 1990.
As ressalvas até ali realizadas em torno da reação da burguesia ao avanço democrático,
ou seja, aquilo que geraria a ―ruptura‖, desaparece dos documentos, enquanto o tom

133
liberal-democrático ganha em contundência. O documento segue e ele mesmo justifica,
a respeito das metamorfoses, que ―depois de 89, o Brasil não mais seria o mesmo‖,
assim como ―depois das memoráveis jornadas das eleições presidenciais, o PT também
não pode continuar como antes‖.
4) Em seus 11 anos de existência, o PT participou intensamente das lutas
sindicais e populares, desenvolveu uma considerável experiência parlamentar
e enfrenta, nos últimos anos, o desafio de governar dezenas de cidades,
dentre as quais algumas das maiores do país. Em 1989, com a candidatura
Lula à Presidência, desencadeou-se uma das mais extraordinárias
mobilizações da história do país, provocando a esperança de milhões de que
o Brasil poderia mudar de cara. Se é certo que, depois de 89, o Brasil não
mais seria o mesmo, não é menos certo que depois das memoráveis jornadas
das eleições presidenciais, o PT também não pode continuar como antes.
Ontem essencialmente partido de resistência dos trabalhadores, o PT se vê
hoje confrontado com a necessidade de afirmar sua vocação hegemônica, de
mostrar a si próprio e a toda a sociedade, que é capaz de governar o país e
realizar o grande projeto de transformações sociais e políticas neste limiar
do ano 2000. Não é demais repetir que esta nova hegemonia, de conteúdo
democrático, libertário e socialista, que o PT pretende contribuir para
estabelecer no país, deverá estar baseada na organização dos trabalhadores e
de todos os setores explorados, oprimidos e dominados da sociedade.
Ademais, não se pode mais conceber um Estado socialista que não esteja
subordinado à organização autônoma da sociedade civil.
Somente esta organização independente e permanente será capaz de
estabelecer novos direitos, uma nova moralidade, uma nova relação de
respeito às diferenças no caminho da extinção das desigualdades
econômicas e sociais.
Um dos principais desafios colocado ao Partido dos Trabalhadores neste 1º
Congresso diz respeito a uma reorganização cabal de suas instâncias, capaz
de possibilitar um diálogo permanente com as organizações do movimento
social e com as entidades democráticas da sociedade civil.
Esta necessária e inadiável reorganização partidária deverá promover uma
maior participação, em suas estruturas e direções, de trabalhadores ligados às
lutas sociais bem como de mulheres cuja presença nas instâncias de decisão
não corresponde ao peso que têm na sociedade e na própria base partidária
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1991a, grifos nossos).

De ―partido de resistência‖, o PT teria se tornado um partido ―capaz de governar


o país‖ e realizar seu ―grande projeto de transformações sociais e políticas‖. Entre o
antigo ―acúmulo de forças‖ rumo à hegemonia e a assunção de sua ―vocação
hegemônica‖, haveria uma fronteira: o acúmulo eleitoral de 1988 e a quase vitória
presidencial em 1989.
Dito isso, o Congresso se realizaria entre 27 de novembro e 1º de dezembro de
1991, em São Bernardo do Campo, São Paulo. Já destacamos, mas não custa frisar: o
impacto da queda do Muro de Berlim e as eleições de 1989 significaram, para o PT, um
novo marco. Se é possível notar o ―início da inflexão moderada‖ (IASI, 2006, p. 452)
no 7º Encontro em 1990, no 1º Congresso de 1991 já estão dadas as bases para o
―arranque‖ que substituiria socialismo por democracia. Melhor seria dizer, na verdade,

134
que a democracia sofisticadamente incorpora o socialismo, numa fusão em que passam
a ser quase sinônimos.
Nas 14 teses inscritas e assinadas coletivamente para o 1º Congresso, os temas
abordados seriam: 1) socialismo, concepção e caminhos de sua construção; 2)
concepção, prática de construção e atuação partidária. Aprovada como tese-guia em
ambos os itens, a tese número 11, ―Por um Brasil democrático e popular‖, da
Articulação, teria um número de votos quase três vezes superior ao da segunda tese
mais votada. A resolução sobre ―Socialismo‖95 é marcada, em sua apresentação, por um
chamamento à luta e à retomada das mobilizações. Um ―projeto para reconstruir o
Brasil‖ com capacidade de se opor ao neoliberalismo do governo Collor precisaria
mobilizar as energias das lutas sociais, a reconstrução do partido e galgar um programa
e um ―bloco histórico‖ para ―promover um desenvolvimento alternativo no país‖ (p.
483).
Avaliando a situação internacional, é indicado que o colapso do regime do Leste
Europeu não seria um crepúsculo somente do ―stalinismo, da burocracia e do
totalitarismo travestido de socialista‖ (p. 483), mas de tudo que havia sido construído
pelo movimento socialista, desde a Revolução de 1917. Logo, era preciso reconhecer o
esgotamento do ciclo das revoluções e o ideais revolucionários passavam a figurar, para
o partido, como ―fonte de inspiração‖. Devido à incapacidade de resolver questões
como a ―liberdade individual, a democratização das relações Estado-indivíduo,
desenvolvimento com preservação da natureza‖, as revoluções, ainda que tivessem
expropriado o capital e proporcionado avanços ―políticos e sociais‖, não mais se
constituiriam como ―ponto de partida ou caminho para o desenvolvimento do
socialismo‖ (p. 483).
Incorporando uma dimensão ecológica e ética para a autodeterminação e a
soberania dos povos, o documento firma posição em relação aos resultados para os
países do ―Terceiro Mundo‖, de ―mais de uma década de estagnação‖ (p. 488).
Também seriam apontadas as consequências, para a América Latina, das políticas de
ajuste do FMI, do neoliberalismo e da intervenção norte-americana – quer fosse pela
pressão militar ou pela dolarização. O ―impasse histórico do capitalismo na região e a
incapacidade do neoliberalismo e das elites locais em formularem soluções‖ exigiam

95
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Socialismo‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1991b, p. 481-517).

135
―da esquerda a apresentação de um projeto emergencial de desenvolvimento‖ (p. 489)
que compatibilizasse modernização e demandas populares. Tonalizando a disputa em
torno de uma contraposição ao neoliberalismo e de desenvolvimento ―inspirado nos
ideais socialistas, democráticos e libertários‖, além de ser comprometido com a ―nova
ordem econômica, política, jurídica e ecológica‖. A ―democratização do poder‖ (p. 489)
devia buscar reverter ―o fluxo de capitais do Norte para o Sul‖ (p. 490) e solucionar
definitivamente a questão da dívida externa. O PT, em face de um novo socialismo,
deveria, portanto, estreitar o diálogo com ―partidos de esquerda, socialistas e
democráticos, especialmente com aqueles programaticamente mais próximos‖ (p. 492)
de sua concepção estratégica.
Mas o documento expressa, de fato, sua ―virada‖ ao avaliar ―O colapso do
socialismo real‖. Nestes países, ―verdadeiras revoluções democráticas, que estão
demolindo – de dentro para fora – um mundo organizado fundamentalmente em torno
da URSS‖ (p. 492) estariam em curso. Assim, se durante suas experiências, os regimes
socialistas ―privaram povos inteiros da participação política e da democracia‖, a crise do
socialismo real não só atingia todos os defensores de um modelo alternativo ao
capitalismo, como promovia uma confusão político-ideológica em seus países de
origem96.
Mas, ―o que desabou no Leste‖? O modelo político, social e econômico
referenciado teoricamente e praticamente na ―Revolução Russa de 1917 e com o modelo
soviético de construção do socialismo‖ (p. 493). Entendendo que, por uma série de
fatores, tais experiências teriam engendrado um poder crescente do Estado e uma
burocratização das suas direções políticas, os pilares da política soviética são criticados,
contrapondo a eles reiterados posicionamentos do PT.
68. Aí predominam concepções como a da edificação integral do socialismo
em um só País, fundado na estatização dos meios de produção, sob controle
burocrático; um Estado burocrático radicalmente separado da sociedade civil
e com um caráter contrário aos interesses dos trabalhadores; o partido único
imposto por lei; a substituição da democracia por um regime de opressão
burocrática; a vulgarização – em verdade a negação – do marxismo e sua
transformação em ideologia de Estado; uma ideia de transição ao socialismo
desumanizada, despolitizada e tecnocratizada, como simples batalha pela
produção. Esse modelo e a pressão material, política e ideológica que ele
exercia pesaram decisivamente no curso dos processos revolucionários
posteriores, como as Revoluções Chinesa, Iugoslava, Vietnamita ou mesmo,
ainda que em menor grau, a Cubana.

96
Interessante notar que o documento precisa referenciar-se novamente no caso polonês, porém agora
afirmando que o rompimento do Solidariedade com Lech Walesa significava a manutenção de uma linha
combativa, um sinal da resistência dos trabalhadores.

136
(...)
70. O PT sempre questionou tais dogmas. Nunca aceitou transformá-los em
sua doutrina oficial. A prática e a teoria do PT sempre rejeitaram como
modelo, para o Brasil, os sistemas políticos organizados sobre a base do
regime de partido único, dos sindicatos como engrenagens do Estado, da
estatização forçada e irrestrita da atividade econômica, do alijamento do povo
do exercício de poder, da eliminação dos opositores e do predomínio do
Estado/Partido sobre a sociedade e sobre os indivíduos, tudo aquilo, enfim,
que ficou conhecido com a ditadura do proletariado (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1991b, p. 494, grifos nossos).

O documento segue avaliando a queda bem como a ―essência antidemocrática‖


dos regimes socialistas. O PT, quando lutava contra a ditadura e contra a Nova
República, ―não entendia a democracia como uma formalidade que pudesse ser separada
do social‖, diferentemente dos partidos comunistas que não tinham compreendido o
vínculo entre democracia e progresso material. Logo, democracia, a ―forma concreta
através da qual a sociedade pode discutir e escolher abertamente, pelas maiorias, os
meios e as formas de progresso material, da produção, da repartição e da circulação e
produção de bens materiais e culturais por ela produzidos‖, era caminho, junto ao
―mercado democrático‖, para um ―novo‖ socialismo. Neste sentido, a afirmação da
necessidade do mercado é acompanhada de novas críticas à expropriação e ao controle
dos meios de produção e circulação de mercadorias.

77. Um dos dogmas que desabou no Leste Europeu foi a verdadeira ficção
histórica de que seria possível a um bloco de países construir uma
sociedade socialista, isolando-se, para isso, do mercado mundial. A
expropriação da burguesia e do grande capital abriu uma fissura no mercado
mundial. A URSS e os países do Leste Europeu tenderam a ser excluídos da
divisão internacional do trabalho que prevaleceu no sistema capitalista
internacional. Essa situação só pode ser suportável durante um certo
período. Mas o seu desenvolvimento acabou exigindo e pressionando a favor
da reintegração desses países no mercado mundial, sem o que essas
economias socializadas não conseguiriam – como acabaram não
conseguindo – superar as contradições entre o livre desenvolvimento da
produção, a necessidade de intercâmbio tecnológico, científico e as bases
atrasadas desses países (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1991b, p.
496, grifos nossos).

Se, naquele momento, uma parcela da população do Leste apoiava a restauração


dos mecanismos de mercado, mesmo que ele significasse o retorno do capitalismo, o PT
saudava o processo por se tratar de um ―renascimento histórico de vários povos contra
regimes que pretenderam (em nome do socialismo e da liberdade) apagar a vida social,
decidir pelo povo e controlar o seu destino‖ (p. 496).
Assim, o socialismo petista – ―obra dos próprios trabalhadores brasileiros, sem
modelos preconcebidos, nas condições de necessidade e de possibilidade que irão

137
modificando sua ação concreta‖ (p. 499) – seria sinônimo da ―radicalização da
democracia‖ (p. 499). Lutando por uma sociedade verdadeiramente plural, humanista e
democrática, o socialismo para o PT não se limitaria à ―democratização e à socialização
da política apenas a partir do Estado‖, mas a uma construção pública não restrita às
esferas estatais. Por conseguinte, não se tratava de serem confundidos com a
―democracia representativa liberal‖, mas de ―abolir a distinção entre governantes e
governados e encaminhar a extinção das desigualdades de classe e do Estado enquanto
aparelho de dominação‖ (p. 501). A negação do livre mercado era igualmente
proporcional à negação do ―estatismo‖, doutrina ―típica do socialismo real‖.
Combinava-se, portanto, planejamento estatal com ―mercado orientado socialmente‖.
Neste sentido:
O PT recusa a perspectiva voluntarista de pretender abolir o mercado, como
espaço social da troca, por decreto. O mercado, sob controle do
planejamento democrático e estratégico e orientado socialmente, é
compatível com nossa concepção de socialismo. No entanto, o
fortalecimento das formas socializadas e coletivas de produção e o
desenvolvimento tecnológico poderão permitir que, historicamente,
possamos superar definitivamente as relações mercantis de produção
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1991b, p. 502).

Afirmando lugar central da ―disputa de hegemonia‖, na estratégia de


transformação revolucionária do Brasil, o fortalecimento do poder popular poderia ―em
situações específicas e particulares, ganhar um novo caráter‖, expandir-se e generalizar-
se (p. 503). Tal disputa não seria feita sem momentos de embates e rupturas, e apenas
um poderoso ―movimento de reformas políticas e sociais baseadas em um programa
democrático e popular centrado no combate ao latifúndio, ao monopólio e ao
imperialismo‖ poderia ―levar a cabo a profunda revolução que este país necessita‖ (p.
504). Explicita-se, entretanto, a metamorfose do caráter da ―disputa de hegemonia‖ e do
―acúmulo de forças‖ para o PT.

Até 1987, a disputa por hegemonia era colocada basicamente como uma
política de acúmulo de forças, a partir da avaliação de que não estava na
ordem do dia a tomada do poder ou uma crise revolucionária. Depois de
1989, a disputa pela hegemonia passa necessariamente a incluir a disputa
pelo governo federal em 1994, a gestão das administrações municipais, a
luta pela democratização do Estado e por reformas sociais, assim como a
organização e o crescimento dos movimentos sociais (ARTICULAÇÃO,
1991, p. 14, grifos nossos).

Assim, articulando as lutas institucionais e sociais por reformas políticas e


econômicas, o partido fortaleceria sua atuação por dentro da ordem, enquanto, por fora,
fortaleceria o âmbito sindical e a atuação em diferentes setores sociais. Mas as reformas,

138
diferente de como eram compreendidas até 1989, não mais seriam motivo de ―choque‖.
Isto é, a disputa por hegemonia e o acúmulo de forças passaria, desde então, por dentro
do Estado, cuja caracterização, já insistimos, é a de que estaria ―privatizado‖ e iria se
tornar público por meio do republicanismo. A consolidação da hegemonia, por
conseguinte, dizia respeito não somente à ―conquista do poder‖, mas ao ―exercício
democrático do poder‖ (p. 516). Com isso, novos ―espaços e canais diferenciados de
exercício da democracia‖, ampliando a participação popular, poderiam criar ―condições
para a eliminação da dominação política da burguesia monopolista e a construção do
socialismo‖, transitando para uma democracia que articulasse formas diretas e indiretas
de exercício de poder.
A década de 1980 tinha deixado às vísceras as mazelas brasileiras, que
reforçariam a exclusão do mercado. Interligando a luta pela democracia política e pela
democracia econômica, o advento do mercado, enquanto impulsionador de um ciclo de
desenvolvimento, é afirmado.
O Brasil é um País de 150 milhões de habitantes, dos quais apenas uma parte
possui acesso ao tão enaltecido mercado. Esses milhões de “expulsos do
mercado”, seja pela concentração de renda ou pela estreiteza relativa de
nosso parque produtivo, constituem uma base excepcional, a partir da qual
se pode desenvolver um ciclo de desenvolvimento econômico no País (...).
160. Para o PT, muito diferentemente do projeto neoliberal, modernizar a
sociedade significa mudanças nas relações de trabalho, a melhoria das
condições de vida da população, a participação política crescente do povo nas
decisões do governo. Modernizar o País é distribuir renda e alargar o
espaço de cidadania para as grandes massas populares. Um projeto
democrático e popular de desenvolvimento, como o nosso, confere ao Estado
democrático o papel de atuar direta e indiretamente no processo de
produção e distribuição de renda e de riqueza. Nossa proposta é recuperar o
papel de planejamento econômico, estratégico e democrático do Estado,
criando novos mecanismos de regulamentação e orientação social do
mercado (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1991b, p. 514, grifos
nossos).

A participação popular e o controle social do Estado e das instituições


fortaleceriam a sociedade civil na perspectiva de ―apropriação do Estado pelo povo
organizado, através da democratização radical de suas instituições e da criação de canais
de controle e de participação popular em seu interior‖ (p. 514). Já a democratização
econômica, por sua vez, se daria a partir da ―socialização dos grandes meios de
produção, de uma reforma agrária antilatifundiária sob o controle dos trabalhadores e de
um planejamento econômico democrático‖. Seria necessário, entretanto, que
convivessem com o mercado por um longo período, mesmo quando ele não significasse
mais uma ―força hegemônica na regulação da econômica e a serviço da exploração‖ (p.
516).

139
São aprovadas duas outras resoluções no Congresso: uma sobre o partido e outra
sobre a conjuntura. Acerca da primeira, buscava-se ―repensar e alterar as estruturas
organizativas, o método de funcionamento e de direção, os mecanismos e a maneira
pela qual o PT se relaciona com a sociedade brasileira‖ (p. 517). Sobre a segunda,
afirma-se que a política de Collor e a crise econômica não podiam ser resolvidas por
―uma composição interna das elites‖, mas por um novo modelo de gerir a economia e a
sociedade. Logo, movimentos sociais e populares, partidos democráticos e entidades da
sociedade civil teriam de propor e debater uma ―saída democrática e popular‖ para a
crise. Visando ―transformar a crise do Governo Collor em um ponto de apoio para
mobilizar o movimento social e viabilizar uma nova alternativa de governo para o País‖
(p. 541), a resposta das ruas não excluiria, caso houvesse prova de improbidade, que o
PT recorresse ―ao impeachment, em defesa da democracia‖ (p. 541).
Por enquanto, o partido repudiava ―qualquer casuísmo ou iniciativa de
características golpistas para resolver a crise‖ e propunha ―uma nova representação
congressual, com eleições antecipadas, assegurando que o novo regime político de
governo fosse, de fato, representativo de uma nova conjuntura e de um real avanço na
situação social do País‖ (p. 541).

3.3 O 8º Encontro Nacional do PT (1993): uma breve tentativa de retomada

O 8º Encontro Nacional do PT (1993)97 acontece após o impeachment de Collor


e já sob governo de Itamar Franco. Nele, o acerto de contas com as resoluções passadas
se dá em clima de intensa divergência, cuja resultante seria, inclusive, a cisão da
Articulação Unidade na Luta e a formação da Articulação de Esquerda98. Unificando
setores de oposição, a então maioria do partido, a chapa ―Uma opção de esquerda‖
vence com 36,4% dos votos. São aprovadas três resoluções políticas: ―Carta de
Brasília‖, ―Por um governo democrático-popular‖ e ―O momento político‖.
Caracterizando o momento político, a ―Carta de Brasília‖99 chama atenção para
aspectos latentes daquela conjuntura. A forte desilusão com a ―impunidade dos

97
O 8º ENPT ocorre entre os dias 11 e 13 de junho de 1993 no Centro de Convenções de Brasília/DF.
98
No manifesto ―A hora da verdade‖, militantes da Articulação propunham a continuidade do projeto
democrático e popular socialista. A maior parte dos assinantes do manifesto comporá a nova corrente
Articulação de Esquerda.
99
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Carta de Brasília‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1993a, p. 545-546).

140
envolvidos no esquema PC-Collor‖, a ―inflação mensal superior a 30%‖, o ―desemprego
e a violentíssima concentração de renda‖, davam gravidade ao quadro. O governo
Itamar não reverteria processos de privatização de empresas públicas e o Plano Nacional
de Privatizações, contra o qual o PT se propunha a lutar, se encontrava em pleno vigor.
Ampliando o ajuste neoliberal, ―elites‖ conspiravam ―contra os direitos sociais da
Constituição‖ através da ―revisão constitucional‖. Para combater tal quadro, um
―processo de transformação estrutural que enfrente a crise e supere a miséria e a
desagregação social‖, combinado com o ato de revigorar as lutas sociais à mobilização
da sociedade civil, se fazia necessário. Perseguindo a manutenção da formulação
democrática e popular, vinculada à estratégia socialista, porém ampliando a denotação
da democracia enquanto elemento fundamental, o documento ―Por um governo
democrático e popular‖100, por sua vez, começa a orientar e preparar o partido para
novas eleições nacionais.
O PT luta para conquistar o governo central como elemento-chave da disputa
de hegemonia dos trabalhadores na sociedade brasileira. Não confundimos o
governo com o poder, que é muito mais amplo e enraíza-se no conjunto das
relações econômicas e sociais. Nem, tampouco, confundimos o programa do
Governo Lula com a realização global do projeto estratégico alternativo do
PT, que supõe uma alteração mais radical das relações políticas e sociais.
Mas a conquista do governo deve estar a serviço dessa perspectiva, mediante
a construção de um novo modelo econômico, político e social. É com esse
propósito que o PT disputará as eleições de 1994. (...)
O PT reafirma, assim, que a luta por um governo democrático e popular e a
possibilidade de conquistá-lo, a partir de uma base popular e de uma
maioria eleitoral, são um objetivo estratégico, entendido como expressão
atual de um governo com hegemonia dos trabalhadores, voltado para atender
às necessidades concretas do povo e na perspectiva do socialismo (PARTIDO
DOS TRABALHADORES, 1993b, p. 547-548, grifos nossos).

A campanha Lula, portanto, representaria, para além de uma disputa eleitoral, o


ponto de partida para ―um movimento democrático e popular‖ que reunisse ―amplos
setores da população na luta pelas reformas estruturais‖ (p. 548) de caráter
antimonopolista, anti-imperialista e antilatifundiário. Baseando-se em uma plataforma
programática que unificasse as ―maiorias nacionais‖ e fosse ―um instrumento de
afirmação da superioridade social e moral dos valores da democracia radical, do
humanismo, da solidariedade, da ética, do socialismo‖ (p. 550), tal qual ocorrera em
1989, o PT e o projeto democrático e popular deveriam ser capazes de ganhar o
imaginário da sociedade para a ideia das reformas estruturais.

100
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Por um governo democrático-
popular‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1993b, p. 547-564).

141
Porém, a luta por um governo democrático e popular, e a possibilidade de
conquistá-lo, torna-se, no texto, um algo a mais: um ―objetivo estratégico‖, entendido
―como expressão atual de um governo com hegemonia dos trabalhadores‖. Voltado para
atender necessidades do povo ―na perspectiva do socialismo‖, o governo passava a ser o
objetivo estratégico, e as demandas do povo, o pressuposto. O socialismo, de meta e
inspiração, passa agora, então, a uma ―perspectiva‖.
Mas o projeto de reformas do partido, destacamos, não poderia ser confundido
com o populismo, com o etapismo e nem com o reformismo. Assim, diferenciando-se
do projeto de ―reformas estruturais‖, que acreditava ―poder conciliar interesses
antagônicos‖ (nacional-populismo), e daquele que ―imaginou poder fazer as mudanças
sem o povo – ora contando com o apoio da burguesia para as reformas democráticas,
ora aderindo ao vanguardismo‖ (PCB), o projeto petista teria um plano estratégico
distante de um ―governo de união nacional‖ (p. 547). Alicerçado em um campo de luta
democrático e popular, o horizonte seria impor necessária derrota à burguesia: ―ou a
burguesia sofre uma derrota e se submete a um programa de redistribuição de renda,
ampliação do mercado interno e de eliminação da miséria‖, ou ela, ao vencer os setores
populares, ―realiza seu programa de apartheid social‖ (p. 548).
Logo, pendendo a reaproximar-se do democrático e popular de 1987/1989, mas
agora diretamente ―por dentro do Estado‖, pressupunham-se reformas estruturais
enquanto elo de transformações econômicas e políticas intensas, ―metas nacionais‖ que
deveriam incorporar a ―maioria da população à cidadania e ao consumo‖ (p. 559). Foi
previsto, ainda, que haveria forte resistência à implantação desse programa, o que
justificaria a consolidação de uma ampla aliança em sua defesa. Então, a resistência
viria de fora para dentro, mas também viria de dentro: a ampliação do mercado interno
de massas viabilizaria a ―inserção soberana no mercado mundial‖, se chocando, para
tanto, com as resistências monopolistas internacionais e nacionais.
Desenvolvendo um mercado interno de massas, que integre milhões à
produção e ao consumo; explorando o peso regional (com destaque para a
reorientação do Mercosul) e global de nossa economia, e as contradições
interimperialistas, o governo democrático e popular enfrentará as
resistências internacionais e viabilizará uma inserção soberana no mercado
mundial (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1993b, p. 559).

Já vimos que o processo eleitoral passa a ser apresentado como ―objetivo


estratégico‖. Entretanto, a reação ao ―programa democrático e popular‖ ainda
comportaria embates e possíveis rupturas, embates que se deslocariam para o resultado

142
da ampliação do mercado interno de consumo de massas. O governo democrático e
popular e seu programa de reforma devia atuar para alargar as condições de vida das
maiorias sociais.
Algumas centenas de grandes bancos, indústrias, atacadistas e agroindústrias
nacionais e estrangeiras respondem – ao lado de algumas empresas estatais –
por 70% da economia do País, e controlam diretamente o mercado interno e
as exportações.
É esse setor que deve oferecer as maiores resistências ao nosso programa de
reformas estruturais. Para enfrentá-las e vencê-las, visando a consolidação
do seu programa, o governo democrático-popular atuará no plano
institucional, mobilizando seus aliados e dirigindo-se também aos demais
segmentos democráticos, científicos e culturais da sociedade. No plano
popular e sindical, desenvolverá uma ampla campanha de informação e
conclamará os movimentos sociais a ampliarem sua organização nas
empresas, demais locais de trabalho e moradia, constituindo uma consciência
antimonopolista e em defesa do programa de reformas estruturais.
Vencê-las exigirá uma ação combinada do governo e de seus aliados,
especialmente o movimento sindical, através de medidas econômico-
administrativas, da auto-organização dos trabalhadores nas empresas,
estimulando a consciência antimonopolista no conjunto da sociedade
organizada e ganhando apoio dos pequenos proprietários.
Essa mobilização pressionará pela ampliação da base parlamentar do governo
e nos permitirá formar um arco de aliados, que respaldará também nossa ação
no Congresso Nacional (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1993b, p.
553, grifos nossos).

A tese do mercado interno de consumo de massas passava a lugar de


pressuposto, asseverando como a realização das mercadorias no mercado interno
representaria uma tarefa estrutural. Governo, democratização política, ocupação do
espaço institucional como expressão da hegemonia e a construção de um amplo
mercado interno de consumo de massas eram, ademais, partes de um mesmo processo, o
de um projeto democrático e popular que se oporia às ―elites‖ brasileiras.
Por fim, o documento ―O momento político‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1993c) caracteriza taxativamente o governo Itamar como
continuidade do governo Collor. Assinalando o quadro de possíveis alianças sociais
para composição do campo eleitoral para candidatura Lula, PSB, PPS (Partido Popular
Socialista), PCdoB (Partido Comunista do Brasil), PCB e PSTU (Partido Socialista dos
Trabalhadores Unificado) são apontados como aliados prioritários, enquanto o debate
sobre o PDT e o PSDB é deixado em destaque para momento separado. Se Maluf
voltava a ser líder da direita, o centro se encontrava em busca de um candidato,
enquanto Brizola, em seu ―populismo conservador‖, permanecia em postura ambígua
em relação ao PT. O PSDB, em princípio, ainda parecia um partido em disputa. O PT,

143
para enfrentar a conjuntura que se avizinhava, adotaria uma tática ofensiva, opondo-se
ao governo Itamar e fortalecendo a retomada da mobilização social.

3.4 O 9º Encontro Nacional do PT (1994): preparando novas eleições

O 9º Encontro Nacional (1994)101 não altera substantivamente as resoluções do


8º, reapresentando a luta pela conquista do governo como ação prioritária do partido. As
resoluções aprovadas são ―A conjuntura e a campanha‖, ―Resolução sobre fidelidade
partidária‖, ―Carta eleitoral‖ e as ―Bases do programa de governo – 1994: Lula
Presidente – uma revolução democrática no Brasil‖.
A ―vitória de Lula e seu governo de reformas democráticas e populares‖ poderia
impetrar uma ―derrota profunda do projeto neoliberal e do secular domínio das classes
dominantes sobre a política brasileira‖102. Assim, o ―principal móvel mobilizador‖ do
ano de 1994 deveria ―ser a luta pela conquista de um governo democrático e popular‖,
que pudesse ―colocar em prática as reformas estruturais e as mudanças exigidas pelo
povo brasileiro, especialmente nos últimos 20 anos‖. As classes dominantes, ao não
terem ―um Projeto Nacional para apresentar à sociedade‖, tinham legado o vácuo
político em que PT se construíra. Com dificuldades de criar consenso em torno de uma
candidatura que expressasse seu projeto em comum, derrotar a candidatura de Lula
tornava-se elo mobilizador dos setores dominantes.
19. As dificuldades em unificar os setores conservadores em torno de uma
única candidatura são um sinal de que as elites, apesar de uma derrota
iminente, ainda não conseguiram superar suas divergências internas.
(...)
21. No Brasil de 1994, o fiador da institucionalidade é a candidatura Lula. É
nela que o Partido deve lançar todos os seus esforços. E, para isso,
reafirmarmos nossos compromissos com o socialismo e com as reformas
democráticas e populares (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1994a, p.
580-581).

Fazendo ampla avaliação sobre as perspectivas eleitorais, a eleição de 1994


consistia numa ―oportunidade ímpar na história‖, pois, vencendo o projeto democrático
e popular, seria possível a realização de reformas populares que transformariam o
Brasil. Até então, afirmando sua independência de classe, o PT abria, naquele momento,
a possibilidade de ―‗ampliar pragmaticamente‘ o leque da frente eleitoral, incorporando

101
O 9º ENPT ocorreu entre os dias 29 de abril e 1º de maio de 1994 no Congresso Nacional, Brasília/DF.
102
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―A conjuntura e a campanha‖ (PARTIDO
DOS TRABALHADORES, 1994a, p. 577-607).

144
setores do PSDB, PDT e PMDB descontentes com as alianças formadas pelas cúpulas
de seus partidos‖. Uma ressalva. Tal movimento se realizaria desde que não alcançasse,
―em nenhuma hipótese, o patamar da desfiguração‖ (p. 591). Os escândalos de
corrupção no país, por sua vez, ofereciam uma vantagem ao PT: ser o ―partido de mãos
limpas‖ e da honestidade.
A possibilidade de desestabilização de um eventual governo Lula se faz presente
em um item textual, porém não mais como uma resistência da burguesia ao projeto
petista que ensejaria ruptura, e sim como ausência de um projeto nacional por parte das
elites dominantes, combatido com ―governabilidade‖ que devia tomar em conta a ―a
retomada do crescimento e a construção de um poderoso mercado consumidor de
alimentos e de bens populares‖, contrapondo-se à ―fuga generalizada de capitais‖. Já a
possível ―falta de sustentação no Congresso‖ pela eleição de um ―presidente
profundamente identificado com a vida do povo‖ e disposto a tocar ―em suas aspirações
mais profundas‖ teria de ser combatida pela organização e participação popular.
Logo, seria necessário que a candidatura se munisse contra as táticas de desgaste
dos adversários. Dentre as possibilidades de deslegitimação, a associação com a
violência era considerada a mais problemática.
Já a associação com violência é mais problemática. Ela exige não apenas uma
linha de intervenção em que fique bem clara nossa índole essencialmente
democrática, mas, principalmente, a necessidade de dar pronta resposta às
insinuações, que ocorrerão durante toda a disputa. Também tentarão nos
chamar de radicais. Devemos assumir a radicalidade de nossa luta contra as
atuais condições de vida e por reformas profundas, mas devemos repelir a
indevida associação, que a direita tenta fazer, entre combatividade ou
radicalidade com violência e baderna (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1994a, p. 599, grifos nossos).

Percebemos, portanto, que o desgaste da imagem do PT associando-o à


violência, tinha como escudo argumentos essencialmente democráticos resultantes do
caráter pacífico da estratégia partidária.
Sobre Fernando Henrique Cardoso, o principal adversário até ali, o PT dispensa
longa caracterização. Seria preciso combater sua imagem alternativa e revelar sua
identidade de ―candidato do continuísmo, de Itamar Franco, dos banqueiros e dos
grandes grupos econômicos‖ e ―a grande cartada das forças conservadoras, das redes de
TV e demais meios de comunicação de massa‖ (p. 602). Mas era ele quem poderia
consolidar, na campanha, um tipo de ―frente única das classes dominantes‖, por ter a
seu favor não só um alinhamento com o neoliberalismo, mas o prestigio intelectual e
militante do campo democrático e popular, ―onde reuniu alta respeitabilidade‖. Sua

145
candidatura não poderia ser subestimada e caberia, ao PT, dar intensa batalha para
desvelar as características conservadoras por ele representadas.
O documento ―Uma revolução democrática no Brasil – bases do programa de
governo do Partido dos Trabalhadores‖103 traz longa análise sobre uma série de temas
paradigmáticos para um futuro governo do PT. Dentre eles, destacaremos, a seguir, a
visão que se apresenta sobre democracia política e democracia econômica, com o fito
de compreender a leitura sobre ambos na fundamentação da estratégia eleitoral e na
estratégia partidária.
Logo na introdução do documento, afirma-se a radicalização da democracia
como sinônimo de ―universalização da cidadania‖. Entendida como um processo, a
democracia não era exclusivamente o vigor do Estado de direito, mas ―espaço para
construção de novos direitos‖ (p. 14). Neste sentido, o programa de governo apontaria
sua ampliação:
O programa é de um governo que se empenhará na radicalização da
democracia política através a expansão da democracia econômica e social do
país. Esta meta – em realidade um processo – será atingida por meio da
universalização da cidadania, do respeito aos direitos humanos, da
constituição de um espaço público em que se criem novos direitos, garantidos
a igualdade e respeito às diferenças de ideias, religiões, etnias, gênero, idade,
orientação sexual e opções de vida (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1994b, p. 5, grifos nossos).

Tratar-se-ia, enfim, de uma revolução democrática. Além disso, a socialização


da política e democratização da economia, combinados, aportariam a base para
alteração das relações de poder vigentes que, ampliando a força política do campo
democrático e popular, possibilitariam a aplicação do seu programa em oposição ao
agravamento de condições de vida provocado pelo neoliberalismo e pelo capitalismo
global. Na direção oposta ao receituário privatizante, o projeto democrático e popular
representaria esforço de ―construção nacional‖ pelos trabalhadores e pelo povo.
O programa democrático e popular consubstancia um projeto nacional
elaborado como resposta dos trabalhadores e do povo à crise do país, num
contexto em que as classes dominantes têm revelado seu absoluto
descompromisso e seu reiterado desprezo para com os interesses da Nação.
Esse projeto antilatifundiário, antimonopolista, anti-imperialista e
democrático-radical, materializa um compromisso de nosso governo em
responder de modo consequente às demandas nacionais e às exigências
populares.
Já na campanha, denunciaremos a exclusão social criada pelo capitalismo
nacional e internacional e agravada pelas políticas neoliberais, constituindo

103
Todas as aspas a partir dessa nota de rodapé se referem ao documento ―Uma revolução democrática no
Brasil – bases do programa de governo do Partido dos Trabalhadores‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1994b).

146
um movimento pelas reformas estruturais e criando as bases sociais e
políticas de aplicação de nosso programa. O programa democrático e
popular articula-se com objetivos estratégicos socialistas do Partido dos
Trabalhadores.
Representará uma verdadeira revolução democrática no país, no sentido de
aprofundar a democracia política, as liberdades individuais e coletivas,
democratizar a posse da terra e as riquezas, ampliar a participação popular,
combater a exclusão social, a segregação e as discriminações e universalizar
a cidadania; buscará alterar as bases sociais das relações de poder através da
democratização da propriedade, da riqueza e do poder.
O eixo de nosso governo será a participação popular.
A socialização da política do poder exigirá reformas institucionais,
mecanismos de controle social, democracia direta e a democratização dos
meios de comunicação. Desta forma, o bloco social interessado nas
reformas democráticas e populares ampliará sua força e estabelecerá sua
hegemonia na sociedade brasileira (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1994b, p. 16, grifos nossos).

As ―profundas marcas no processo de democratização política do país‖ tinham


sido consequência dos ―novos personagens‖ que entraram em cena nos finais da década
de 1970, período a partir do qual a ditadura, em sua crise da forma de dominação,
assistira à ―formação de um novo bloco histórico de forças sociais e políticas‖ (p.13). É
interessante notar a avaliação apresentada. Segundo ela, ainda que essas novas forças
não tenham ―sido capazes de oferecer um programa absolutamente coerente e
articulado, tiveram a capacidade de impedir que a dupla crise dos anos 1970/1980 se
resolvesse uma vez mais pela conciliação das elites‖. Impedindo a conciliação das
elites?! Em todos os documentos anteriores do PT, encontramos a análise da transição
como parte de um pacto pelo alto entre as classes dominantes, quer fosse a transição
para Nova República ou o processo Constituinte não exclusivo. A simples existência de
eleições gerais teria se tornado suficiente para mudar a avaliação sobre o desfecho
conservador da transição?
A mudança de avaliação, ainda que pareça sutil, não estava desconectada das
graduais mudanças anteriores, coadunando-se, por outro lado, com a democracia como
um ―fim‖. Somado a isso, o tom pacífico que nuança a estratégia se tonifica em torno de
dois argumentos fundamentais: democratização política e democratização do mercado
de consumo de massas que juntos desencadeariam, a partir de um governo, mudanças
necessárias e nunca antes ocorridas. Não abandonando a caracterização de que poderia
haver embate e enfrentamento ao programa, seria a sociedade organizada que se
contraporia, através de canais institucionais de consulta e às resistências da classe
dominante:
A Constituição de 1988 viabilizou a prática do plebiscito, do referendum e da
iniciativa popular na proposição de leis. A regulamentação destes

147
instrumentos pode permitir o estabelecimento das instituições de exercício de
formas de democracia participativa. Os partidos, o governo e a sociedade
organizada devem selecionar algumas questões que sintetizem as reformas
estruturais, especialmente aquelas que enfrentarão maior resistência por parte
das classes dominantes, para serem submetidas à deliberação da população
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1994b, p. 20).

Logo, a busca por um novo tipo de democracia devia se combinar a um projeto de


desenvolvimento pautado na distribuição de renda e na melhora dos índices de bem-
estar social. A igualdade teria alicerce na expansão da cidadania e dos direitos sociais.
A taxativa afirmação das tarefas como um conjunto de reformas estruturais que
levassem ao embate/ruptura passa, se não a sumir, ao menos a se modificar
completamente. O Estado, por sua vez, assumia protagonismo na promoção da
igualdade de oportunidades através da ampliação dos direitos e tornava-se lócus efetivo
para ampliação da democracia.
Nesta perspectiva, reafirmamos a função essencial do Estado de assegurar a
igualdade de oportunidade e de tratamento e uma justa distribuição da terra,
do poder político e da riqueza nacional. Cabe ao Estado não apenas
declarações solenes da igualdade perante a lei, mas também a promoção da
igualdade de direitos. Impõe-se a criação de condições que tornem iguais as
possibilidades dos indivíduos e que transformem a democracia formal em
democracia substantiva, a igualdade formal em igualdade autêntica
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1994b, p. 29).

Como um país que não passou por revoluções nacionais, mas apenas por
processos de unidade das elites, todas as ―transformações políticas e sociais‖ no Brasil
haviam se dado ―através de processos conservadores de conciliação das elites, que
uniram seus interesses para impedir a presença dos ―de baixo‖ na consecução das
transformações necessárias‖ (p. 9). Mesmo nos períodos republicanos, a alteração das
instituições era vista apenas como elemento formal, frustrando as necessárias reformas
sociais. Por conseguinte, as classes dominantes, quando em crise, dispunham de
alternativas autoritárias. Naquele momento, entretanto, as eleições preenchiam o
conteúdo outrora vazio da democracia.
A alternativa para mudança seria a efetiva vitória dos trabalhadores, pois os
interesses dos mesmos, até então postergados, seriam subvertidos pelo programa
democrático e popular. Tratar-se-ia, portanto, de:
(...) mudar o voto-protesto em um voto em favor de um programa de
transformações radicais da sociedade, que inverta as prioridades até hoje
fixadas pelas classes dominantes, e abra um período de reforma em que
estejam contemplados claramente o interesses das maiorias até agora
postergados.
Sem espírito de revanche, o programa deve deixar claro que acabou a era da
conciliação que só beneficia a uns poucos.

148
Ele não deve semear a ilusão de transformações rápidas, mas deve indicar
que um período de mudanças se iniciou.
O programa deixará claro que os sacrifícios serão redistribuídos e que no
jogo do ganha e perde haverá novos perdedores e novos ganhadores.
A clareza e transparência de nossos objetivos programáticos é a condição
necessária para que milhões de brasileiros sintam-se neles representados e
constituam-se na garantia maior de governabilidade da administração
democrática e popular que se iniciará em 1995 (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1994b, p. 15).

Por último, mas não menos importante, o documento dá destaque e centralidade


ao ―mercado interno de consumo de massas‖. A principal distinção do novo ―ciclo de
desenvolvimento‖ de um eventual governo democrático e popular seria que ―sua
dinâmica será dada por um circuito virtuoso de crescimento entre produtividade,
salários, consumo e investimentos‖, gerando ―progressiva desconcentração da renda
nacional‖ (p. 175).
Preocupando-se com a ameaça do neoliberalismo à estrutura econômica
construída nos cinquenta anos anteriores, o documento aponta que um novo ciclo
econômico devia começar o quanto antes, aproveitando que o Brasil dispunha de
abundância suficiente para impulsionar um novo ―ciclo longo da vida nacional‖.
Novo ciclo longo da vida nacional precisa iniciar-se, e o seu adiamento
aumenta o risco de desarticulação de parte substantiva de uma estrutura
econômica que levamos cinquenta anos para construir. Não faltam condições
estruturais para que o Brasil volte a ingressar numa trajetória sustentada de
crescimento acelerado. Somos um país continental, dispomos de abundantes
recursos minerais, extenso território agricultável, energia farta, sistemas de
transportes e de telecomunicações perfeitamente capazes de aperfeiçoamento
em tempo hábil. Montamos um parque industrial complexo e diversificado.
Temos uma força de trabalho deficiente e criativa, capaz de adequar-se com
rapidez aos requisitos do progresso técnico internacional (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1994b, p. 174).

O ―crescimento econômico de longo prazo pela via de um modelo de


desenvolvimento baseado no mercado interno de massas‖ reporia a ―economia na trilha‖
da nação. Iniciando um ―ciclo econômico distinto da modernização conservadora do
passado, quando se combinaram admirável capacidade de expansão com vergonhosa
incapacidade de estender os frutos do crescimento à maioria da população‖, dever-se-ia
aproveitar ―o mercado interno de significativas dimensões, que proporciona economias
de escala e fontes de dinamismo para um intenso e prolongado ciclo de investimentos‖.
Mercado, democratização econômica e democratização política se tornam, assim, uma
tríade inseparável.
A eleição de 1994, como sabido, não teve o resultado esperado pelo PT. Se Lula
era, à época do 9º ENPT, um forte candidato, o ―efeito‖ Fernando Henrique Cardoso

149
cresceu e fez com que o partido saísse derrotado ainda no primeiro turno do pleito. O
10º e o 11º ENPT, ocorridos durante o primeiro governo de FHC, afirmariam o projeto
popular em três eixos: reformas sociais (e não ―reformas estruturais‖), defesa da nação e
da democracia. Consolidariam, assim, a gradativa mudança da estratégia partidária.

3.5 O 10º e o 11º Encontro Nacional do PT (1995/1997) e o Encontro


Extraordinário (1998): governos FHC e o antineoliberalismo
O 10º Encontro Nacional do PT (1995)104 realiza uma avaliação sobre a derrota
de Lula para Fernando Henrique Cardoso e traça algumas linhas de caracterização sobre
o perfil neoliberal do novo governo. Nele, serão aprovadas as resoluções ―A conjuntura
nacional‖, ―Construção partidária‖, o ―PT e os movimentos sociais‖ e a ―Resolução
sobre os petistas e o comunidade solidária‖105.
Segundo a análise expressa no documento ―A conjuntura nacional‖, a ―vitória de
Fernando Henrique Cardoso, no primeiro turno das eleições de 1994‖ (p. 628) seria um
―duro golpe para o Partido dos Trabalhadores, para as esquerdas e para as forças
populares no Brasil‖. Isto é, ainda que o PT tivesse constituído a maior bancada da sua
recente história parlamentar, o resultado significava uma derrota do mesmo e uma
―acertada estratégia de unidade das classes dominantes, capaz de constituir, no Brasil, o
mais impressionante bloco de forças políticas e sociais da história republicana‖ (p. 629).
Essa mesma vitória, além disso, era fruto da autodefesa das classes dominantes
diante da candidatura de Lula e do projeto democrático e popular, que ameaçavam
―privilégios seculares‖ e forçavam a ―unidade da direita com o centro‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1998a, p. 629). E, ainda, o ―plano anti-inflação‖, mal avaliado
pelo PT, teria sido o principal motivo para o partido perder a ―batalha no campo das
ideias‖ (p. 629).
O primeiro semestre do governo não deixaria dúvidas sobre seu
conservadorismo e de sua agenda neoliberal. A formulação apresentada para
caracterizá-lo é digna de destaque. Indicando como sua ―principal motivação econômica
é pôr fim, em bases conservadoras, ao modelo nacional-desenvolvimentista instaurado a
partir dos anos 30‖ (1998a, p. 615), o governo implementava ―um novo padrão, tardio,

104
O 10º Encontro Nacional do PT foi realizado entre 18 e 20 de agosto de 1995 no SESC de Guarapari
(ES).
105
O conteúdo desses documentos encontram-se na coletânea Partido dos trabalhadores: resoluções de
encontros e congressos (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1998a, p. 615-648). Todas as aspas a
partir dessa nota se referem a esses documentos.

150
de acumulação de capital, de inspiração neoliberal‖ (p. 615). Tardio porque as
resistências, no Brasil, haviam freado a liberalização no período em que ela atingia seu
auge em outros países da América Latina – como Chile, Bolívia, Argentina e México.
Avalia-se também que a derrota do PT teria quebrado o empecilho à agenda
neoliberal e aberto caminho para ascensão do PSDB-PFL. Ensejava-se, assim, forte
reflexão sobre a estratégia partidária.
74- A derrota de 1994, entre outras lições, convida a uma reflexão mais crua
sobre nossa imagem na sociedade, sobre o efeito exterior de nossas lutas
internas, sobre as ambiguidades políticas e ideológicas que temos, sobre
nossas dificuldades em realizar um ajuste de contas mais severo com as duas
heranças socialistas deste século: o comunismo e a social-democracia
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1998a, p. 629, grifos nossos).

Questionar e subestimar a necessidade de governar se tornava ―carta fora do


baralho‖: ao ―repensar o governo da cidade e dos estados, e ao retomar a ideia do
planejamento e do controle social, o PT está negando tanto as formas tradicionais do
populismo e do clientelismo quanto as do neoliberalismo‖ (p. 630). E, ao se
credenciarem para ―contrapor uma alternativa ao modelo neoliberal, no social e no
estatal, no público e no privado; ao distribuir renda e abrir acessos à educação e à
cultura para os excluídos e marginalizados‖, os governos do PT criavam ―uma nova
base social‖ para seu projeto político (p. 630).
Restava preparar-se para as eleições seguintes, firmando ―a marca do Modo
Petista de Governar‖. Logo, a polarização em torno da eleição consistiria em um mote
fundamental, a principal ―arma‖, ―marca‖, ―carro-chefe‖ da propaganda do PT (p. 631).
A proposta democrática e popular deveria, por sua vez, articular ―uma agenda
alternativa para o País, a partir de três eixos centrais‖: ―política econômica com
reformas sociais‖, ―defesa da Nação‖ e defesa ―da democracia‖.
24- Do ponto de vista imediato, o PT deve exigir uma reorientação geral da
política econômica, que impeça a recessão, defenda o salário e o emprego,
reduza os juros e articule a estabilidade econômica à retomada do
crescimento em novas bases.
c) o desenvolvimento e a apresentação, para a sociedade, de uma política
econômica em novas bases.
25- Só será possível bloquear a implementação das reformas neoliberais, bem
como abrir espaços para o debate das reformas de caráter democrático-
popular, que interessam às maiorias nacionais, através de uma grande
mobilização de resistência de todos os setores que estão sendo atingidos pelas
políticas do governo. Para realizar esse objetivo, a greve geral dos
trabalhadores, em conjunto com um protesto nacional, é uma ferramenta de
luta importante.
26- Uma política salarial negociada deve assegurar a gradual e permanente
elevação dos rendimentos do trabalho, em especial do salário mínimo, como
elemento de indução de um modelo de desenvolvimento de bens de consumo

151
de massas (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1998a, p. 619, grifos
nossos).

Tal agenda comportaria uma reforma do sistema financeiro, uma reforma


tributária, uma política de emprego e uma política de renda nacional. Além disso, a
manutenção do ―controle do Estado sobre as empresas estatais estratégicas, com
reformas profundas que assegurem o caráter público destas empresas‖ (p. 637) deviam
ser parte do receituário antineoliberal.
Fortalecendo a necessidade de uma relação mais orgânica com os movimentos
sociais e do aprofundamento da organização do próprio partido – que não podia agir
como uma federação de correntes –, afirmar-se-ia, nos outros dois documentos
aprovados, a necessidade de capilarização a partir da nucleação, o papel das secretarias
de movimentos como formuladores e executores da política do partido e a ação política
de sua frente de massas. Os próprios núcleos e diretórios teriam se desafiado a se
abrirem para a sociedade, uma proposição que visava superar a ―crise de
governabilidade‖ e constituir uma direção que fosse ―expressão da base social e eleitoral
do Partido‖ (p. 634).
As frentes sociais e eleitorais tornavam-se dessa maneira, entrelaçadas, e, como
já vimos, caminham juntas em interação estratégica. A questão se reflete no ―Modo
petista de Governar‖, assumido pela resolução como arma principal para a disputa do
período posterior. O PT implementava uma forma original de ―abrir a gestão pública à
participação popular‖, ―modernizando e racionalizando as empresas estatais, sem adotar
nenhuma das bandeiras neoliberais‖. Ao contrário, afirmava ser possível ―existir uma
esfera pública, nem privada nem estatal, capaz de voltar-se prioritariamente às
necessidades da população‖ (p. 630). A consigna do público não estatal é, entretanto,
como sabido, notoriamente neoliberal. Seria apenas uma contradição?
O 11º Encontro Nacional do PT106 ocorre após a aprovação da emenda da
reeleição107. A ―força do compromisso histórico conservador que levou FHC à
Presidência, apoiado na mais ampla coalizão das classes dominantes de nossa história
republicana‖, era a ―solução das elites empresariais e políticas para retomar o projeto
neoliberal, impedir a eleição de Lula e a adoção de um programa democrático e popular

106
O 11º Encontro Nacional foi realizado entre os dias 28 e 30 de agosto de 1997 no Hotel Glória, Rio de
Janeiro (RJ). São aprovadas as seguintes resoluções: 1) Carta do Rio de Janeiro, 2) Resoluções políticas,
30 Campanha José Rainha é Inocente, 4) Sobre o Grito dos Excluídos.
107
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―Resoluções políticas‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1997, p. 652-663).

152
de enfrentamento da crise nacional‖ (p. 652). Se o 10º ENPT apresentava ―uma nova
política econômica com reformas sociais‖ como um dos tripés da agenda alternativa
democrática e popular, restariam agora apenas, o social, nacional e democrático, sem
que as reformas assumissem lugar de pressuposto para mudanças profundas. A
transformação devia passar, prioritariamente, pela ―democratização radical da sociedade
e do Estado‖:
8 - Somente uma revolução democrática será capaz de pôr fim à exclusão, às
desigualdades sociais e ao autoritarismo que marcam nossa história,
oferecendo uma alternativa concreta e progressista ao nacional-
desenvolvimentismo, superado historicamente, e ao conservadorismo
neoliberal.
9- A revolução democrática exige uma nova economia, capaz de assegurar a
superação do apartheid social no Brasil e desencadear um processo de
inclusão social, que elimine o dualismo resultante da concentração de
riqueza nas mãos de poucos.
10- Uma tal revolução implica uma poderosa mobilização social, capaz de
promover uma democratização radical da sociedade e do Estado,
multiplicando os mecanismos de controle social do Estado pela sociedade
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1997, p. 653, grifos nossos).

A partir da democratização radical da sociedade e do Estado, um projeto de


escopo nacional se afirmava, tendo como ―primeira questão democrática‖ a ser
enfrentada a ―construção do próprio estado de direito no País‖. Esta caminharia em
paralelo à efetivação de mecanismos de ―controle social‖ de uma ―esfera pública não
estatal‖.
12- A primeira questão democrática é a construção do próprio estado de
direito no País, com uma reforma profunda do Poder Judiciário e do Poder
Legislativo, além de enfrentar com coragem o fim dos monopólios dos meios
de comunicação e a defesa dos direitos do consumidor.
13- A implantação do estado de direito deve estar acompanhada de
mudanças ainda mais profundas, que assegurem mecanismos de
participação direta da população nas decisões, como plebiscitos e
referendos, e a constituição de novas esferas públicas não estatais, que
permitam os mais diversificados mecanismos de controle da sociedade sobre
o Estado (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1997, p. 653, grifos
nossos).

O que permitiria ―democratizar‖ o acesso e a participação da população, sempre


excluída, nas esferas institucionais públicas supostamente paraestatais, era a própria
participação no Estado, através do ―controle‖ ou da participação em suas decisões. O
raciocínio, bastante circular, previa: ampliação do Estado para sua efetiva
democratização, e efetiva democratização para sua ampliação. Firmando o processo de
―democratização‖ por dentro do aparelho Estatal, porém recheando-o de conteúdo
―social‖ ou alternativo, o PT, de articulador de amplos movimentos democráticos de

153
massa, passa a credor do Estado de direito, permeando-o de ampla participação política
e passando a reivindicar a autorreforma de seus aparelhos como sua suposta
modernização. A busca por ampliar e complementar o Estado de direito tiraria o
aparelho estatal das garras da vil privatização das classes dominantes, ampliando-o para
participação popular e garantindo não só a base fundamental para o exercício dos
governos, mas a preparação de quadros para gestão pública.
A efetivação de um projeto nacional passava, por outro lado, pela ―soberania‖ do
país e pela articulação de alianças estratégicas com aqueles que fizessem frente ao
projeto norte-americano, ―única‖ potência mundial.
15- Para enfrentar a questão nacional, é necessária uma reforma do Estado e
construir uma presença soberana do Brasil no mundo de hoje. Isso supõe
uma política externa que estabeleça novas alianças internacionais e contribua
para alterar as relações de força no mundo e para construir uma nova ordem
mundial, justa e democrática. Por essa razão, rejeitamos o projeto da ALCA
[Área de Livre Comércio das Américas], apresentado pelos EUA, e lutamos
pela redefinição e reestruturação do Mercosul, visando ampla integração e
parcerias.
16- Nossa presença soberana no mundo exige um projeto nacional de
desenvolvimento e disposição de contribuir ativamente para construir um
mundo diferente do atual, dominado por uma só potência e pelas
organizações internacionais controladas de fato pelos EUA. O Brasil pode
ser um polo importante de questionamento do projeto neoliberal e articulador
de alianças estratégicas com países como África do Sul, China, Índia e outras
nações, que recoloquem na pauta a democratização radical dos organismos
internacionais e a mudança nas relações econômicas, inaceitáveis, entre
países pobres do Sul e o poder econômico e político crescente dos países
ricos do Norte, em especial os EUA (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1997, p. 654, grifos nossos).

Vencer a neoliberalismo a partir de um projeto nacional seria, portanto, enfrentar


a ―crise de civilização promovida pelo capitalismo‖, baseando-se no ―desenvolvimento
sustentável e solidário‖ (p. 654). E, entre as tarefas do projeto nacional, a inclusão de
brasileiros que estariam ―à margem da produção e do consumo‖ era a principal:
18- A tarefa fundamental da economia é a inclusão de milhões de brasileiros,
hoje à margem da produção e do consumo. Queremos um modelo de
desenvolvimento orientado para a produção de bens de consumo de massa e
serviços públicos essenciais, que priorize as condições básicas da
subsistência e cidadania.
(...)
20- Temos também como horizonte a disputa do novo paradigma tecnológico
e construção de uma economia competitiva, em novas bases e decisivamente
orientada para a conformação de um amplo mercado de consumo de massas.
21- Este modelo exige um Estado forte e de ações estratégicas, com
capacidade efetiva de arrecadação tributária, financiamento, indução ao
investimento, fiscalização e regulação econômica, e que articule distribuição
da renda e riqueza com crescimento sustentado. Esta nova economia terá que
diversificar as formas de propriedade, valorizar a produção familiar, as
experiências de autogestão e o cooperativismo. A reforma agrária e a
pequena produção familiar no campo são dimensões estratégicas deste novo

154
caminho para o desenvolvimento (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
1997, p. 654-655, grifos nossos).

A ―globalização do capital financeiro‖ e dos ―grandes oligopólios


internacionais‖ vulnerabilizavam e comprometiam ―qualquer estratégia de
desenvolvimento nacional‖ (p. 655). A ampliação do mercado interno com base no
consumo de massas passava a ser o carro-chefe de mudanças materiais que, orientadas
por uma economia competitiva no plano internacional, pautavam-se em condições de
subsistência e subcidadania da população.
Seria necessário, para tanto, aglutinar um amplo arco de alianças de oposição ao
neoliberalismo para a disputa das eleições de 1998. Questionando a dependência
associada ao capital internacional e à liberalização, mas moderando ainda mais o tom
das alternativas possíveis, afirma-se um projeto eminentemente nacional, cuja expressão
passaria por um bloco de oposição ao neoliberalismo.
55. O PT tem de consolidar a articulação da Frente das Oposições e dar
continuidade à construção de proposta programática e candidatura única, que
expressem alternativa ao neoliberalismo e orientem a política de alianças.
56. A despeito da atual correlação de forças, que começa a mudar, vamos
disputar as eleições para vencer. Seja como for, devemos fazer das eleições
uma batalha cultural, que reverta a hegemonia conservadora, acumulando
forças em proveito de um novo projeto nacional de desenvolvimento e crie
condições de governabilidade para uma coalizão democrático-popular
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1997, p. 659, grifos nossos).

Assim, ao assumir um projeto nacional, a questão do socialismo parecia estar


superada. No caminho contrário, o último item da resolução apontará para a relação
entre o socialismo e a democracia, porém com a segunda aparecendo como pressuposto
para o primeiro. Os problemas historicamente combatidos pela alternativa socialista
estavam longe de ser resolvidos, pois a ―forma perversa de crescimento‖ impunha
precarização do trabalho, desemprego e exclusão. E, junto à desconstrução do projeto
nacional pelo neoliberalismo, ampliava-se e acelerava-se a concentração da riqueza. O
socialismo da atualidade devia, então, se erguer frente aos ―fracassos‖ do socialismo
real, apontando, para tanto, para uma economia solidária e sustentável, cujos valores e
princípios se calcassem no socialismo. O socialismo, entretanto, só seria possível
mediante a revolução democrática.
80. Um novo projeto socialista contemporâneo deve dar conta dos grandes
problemas onde o socialismo do século XX acabou fracassando: promover o
crescimento acelerado da economia, que os países periféricos exigem,
realizando um processo sustentado de distribuição de riqueza. É fundamental
mudar radicalmente a organização dos processos de trabalho em todas as
esferas da atividade econômica, fazendo com que as atividades produtivas

155
sejam cada vez mais momentos criativos de autoconstrução individual e
coletiva.
81- Mas o socialismo exige, sobretudo, a socialização da política. Por esta
razão, há uma ligação umbilical entre socialismo e democracia. A
democracia é uma conquista dos trabalhadores e não um presente das classes
dominantes. A estratégia de construção de um novo projeto nacional de
desenvolvimento, acompanhado da perspectiva de uma revolução
democrática e de uma nova economia sustentável e solidária recolocam os
valores e princípios de uma sociedade socialista como contraposição ao
neoliberalismo, responsável pela desconstituição nacional e social do País
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1997, p. 663, grifos nossos).

O socialismo exigiria a socialização da política para alcançar a democracia,


mas o resultado, ou seja, a própria democracia, já tratava de ser o socialismo. O
raciocínio era tautológico: a democracia era necessária para alcançar o socialismo, mas
o socialismo seria a própria efetivação da democracia. Este que fora, outrora, um
objetivo estratégico, depois um conjunto de ―valores e princípios‖, e, finalmente, um
projeto nacional em contraposição ao neoliberalismo. O socialismo seria, enfim, a
revolução burguesa não realizada ou, em síntese: a emancipação política não cumprida
ou ―em atraso‖.
A proposta de candidatura eleitoral em 1998, expressa na ―Carta do Rio de
Janeiro‖, afirma a disposição do PT em construir uma política de aliança antineoliberal
que fosse um marco na rearticulação da oposição, ou ―uma grande virada no País‖ (p.
651). Não definida nominalmente, a escolha do candidato se apresentava como
secundária à construção de uma ―candidatura única das Oposições‖ antineoliberais.
Ampliava-se, neste sentido, o espectro de alianças para além da Frente Brasil Popular.
Ainda em 1998, o PT realizaria um Encontro Nacional Extraordinário 108, com
foco na discussão eleitoral. Com a validade da reeleição109 para os cargos executivos e
FHC candidato à reeleição, a resolução do Encontro110 reafirma ―a força do
compromisso histórico conservador que levou FHC à Presidência, apoiado na mais
ampla coalizão das classes dominantes da história republicana.‖ Em 1994, Fernando
Henrique Cardoso já era ―a solução que as elites empresariais e políticas encontraram
para retomar o projeto neoliberal, impedir a eleição de Lula e a aplicação de um

108
O Encontro Extraordinário foi realizado entre os dias 23 e 24 de maio de 1998 na Quadra do Sindicato
dos Bancários, São Paulo (SP). Foi aprovada a resolução ―O fim de um ciclo‖.
109
A emenda constitucional para permissão de reeleição para presidente da República, governadores e
prefeitos foi aprovada na Câmara Federal por 369 votos a favor e 111 contra, em fevereiro de 1997. A
proposta recebeu 62 votos a favor, 14 contra e duas abstenções já em sua última votação do Senado
Federal, realizada no dia 6 de junho de 1997.
110
Todas as aspas a partir dessa nota se referem ao documento ―O fim de um ciclo‖ (PARTIDO DOS
TRABALHADORES, 1998b, p. 669-681).

156
programa democrático e popular de enfrentamento da crise nacional‖. Quatro anos
depois, devastado pelo projeto neoliberal, o país encontrava-se em dificuldades ainda
maiores. A interrupção de tal aprofundamento só dependeria, portanto, do resultado
eleitoral daquele ano.
A discussão primeira gira em torno da tática de alianças. Mantidas as ―alianças
mais amplas que o campo democrático-popular‖ em nível nacional e estadual, o critério
que devia definir alianças eleitorais seria ―a oposição a FHC, ao neoliberalismo e aos
partidos de direita‖ (p. 670). Assim, o PT devia manter a Frente que o unia ao PSB e
PCdoB e agregar o PDT, sem excluir o possível ingresso de parte do PMDB – aquele
que se opusesse ao governo e ao neoliberalismo. Consolidando o arco de aliança, o
PDT, aderindo a Frente Brasil Popular, teria Brizola como vice da chapa presidenciável.
Sob os eixos ―social‖, ―democrático‖ e ―nacional‖ e perseguindo um projeto
democrático e popular, não mais seria possível confundir programa de governo com o
socialismo, nem do PT e nem de outros partidos da Frente.
O Programa não se confunde com o programa socialista do PT ou com os dos
outros partidos da Frente. Suas reivindicações se inserem em uma
transformação de longo prazo e refletem o Brasil e o mundo que queremos,
ainda que esses objetivos não sejam alcançados no prazo de um governo. As
reformas que o Programa propõe, ainda que situadas no marco de uma
sociedade capitalista, se chocam com o capitalismo realmente existente no
Brasil. A implementação de um programa radical de reformas – por seus
efeitos econômicos, mas sobretudo por sua capacidade política de agregar
forças sociais – contribuirá para a refundação de uma perspectiva socialista
no País.
Nosso Programa faz parte de uma estratégia de transformação global do País.
Por isso não se pode escamotear dificuldades políticas, econômicas, jurídicas,
culturais que irá enfrentar. Deve ser ainda peça de mobilização social e
política.
Defendemos um programa de ruptura com o neoliberalismo. Somos a
candidatura que vai substituir a atual política econômica por outra que
compatibilize estabilidade com crescimento sustentado, assentada em três
eixos: distribuição de renda e riqueza, defesa da soberania nacional e
democratização radical da política e da sociedade brasileiras, numa
perspectiva socialista (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1998b, p. 675,
grifos nossos).

Parte de ―uma estratégia de transformação global do País‖ e de ―ruptura com o


neoliberalismo‖, o programa se propunha a garantir estabilidade e crescimento
sustentado, assentando-se em três eixos: ―distribuição de renda e riqueza, defesa da
soberania nacional e democratização radical da política e da sociedade‖. O viés social
articular-se-ia ao econômico, ambos impedindo a ―desindustrialização e
desnacionalização do País‖ e promovendo o ―desenvolvimento baseado na distribuição
de renda e expansão do mercado interno‖. Se outrora o conjunto de reformas era parte

157
da estratégia de ruptura com a ordem, agora as próprias reformas seriam a ruptura com o
―capitalismo realmente existente‖. E, se o socialismo passa a ser uma ―perspectiva‖, o
capitalismo, ao avesso, passa, no ―aqui e agora‖, a permitir reformas em suas desviantes
mudanças de rumo.
No que diz respeito à soberania nacional, explicita-se a estratégia de relação sul-
sul como principal sustentáculo da política externa brasileira. Neste sentido, o elemento
nacional, além de ter forte conotação antinorte-americana, guardava consigo a
perspectiva de alianças que pudessem fortalecer a inserção soberana dos países do sul
buscando modificar a correlação de forças no cenário internacional.
Acerca do eixo democrático, seria afirmada a necessidade de continuidade do
projeto de ―democratização do Estado‖, com a correção das iniquidades frente à
participação política, a disputa eleitoral, a máquina do Estado executivo, parlamentar e
judiciário. Impunha-se, para tanto, a ―reformulação global do sistema institucional e a
criação de novas instituições, tanto no Estado como na sociedade civil, tendo como eixo
a reversão do processo de barbarização e a promoção da cidadania‖, dotando o ―Estado
de capacidade para a promoção de políticas públicas‖, ou ―sozinho ou em parceria com
a iniciativa privada‖. Incorporando o tema da ―Reforma do Estado‖, elemento marcante
no projeto neoliberal de FHC, o conjunto de reformas sociais necessárias às
modificações estruturais do país metamorfoseiam-se em torno das políticas públicas,
sendo que as mesmas poderiam se dar em parceria com a iniciativa privada.
Por fim, ao perseguir seus três eixos de mudança estruturais, devia-se expressar,
do ponto de vista da campanha, uma virada no plano da cultura, pois ―cada vez que o
Brasil pensou um Projeto Nacional de Desenvolvimento, ocorreu um forte movimento
de ideias, no plano da cultura e das artes‖. Assim, mudanças de cultura política
enquanto expressão de um novo projeto político se consolidariam concomitantemente à
afirmação do projeto antineoliberal.

3.6 O 2º Congresso Nacional do PT (1999), 12º Encontro Nacional (2001) e eleições


de 2002: a estratégia em seu ponto de chegada
Após nova derrota no pleito eleitoral, o PT realiza seu 2º Congresso (1999)111. A
importância deste é seminal do ponto de vista do coroamento dos processos de
moderação estratégica que haviam se iniciado em 1990 e se aprofundado após 1994

111
A partir dessa citação todas as aspas se referem ao documento ―Resoluções do II Congresso Nacional
do Partido dos Trabalhadores‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1999).

158
junto ao cunho neoliberal dos governos de Fernando Henrique Cardoso. Em texto de
abertura, busca apresentar-se como síntese política geral do movimento da estratégia
petista. Remete-se, assim, ao 5º Encontro Nacional do PT, ao 1º Congresso, e, enfim, a
ele mesmo, o 2º Congresso. Ainda, objetiva criar, ou ao menos se apresenta como dessa
maneira, um elo de continuidade entre estratégia democrática e popular de 1987 e
aquela do 1º Congresso.
No que diz respeito à leitura sobre o Brasil que subsidia tais resoluções, o texto
afirma que os problemas fundamentais que afetam o ―povo brasileiro‖ têm raízes
históricas profundas. Uma ―elite poderosa, reacionária e predatória que se considera
dona do poder‖ desprezaria profundamente o povo e teria aversão às reformas,
infligindo exclusão política e econômica da população. Tal fardo só seria revertido pela
―grande transformação da sociedade brasileira‖ pelas maiorias conscientes de seus
objetivos.
7. A história do Brasil, diferentemente da de outros países, não está marcada
por rupturas. Sempre que a nação foi colocada ante a necessidade de
mudanças – Independência, Abolição, República e em vários momentos do
século XX – predominaram soluções “de cima”, impostas às classes
populares pelos grupos dominantes. A modernização do país foi
conservadora, carente de reformas, fortemente excludente.
8. O Brasil transformou-se em 50 anos na oitava economia industrial do
mundo. Este crescimento não foi acompanhado de reformas sociais e
políticas, mas de forte concentração de renda, poder e conhecimento. O país
ocupa o vergonhoso 79° lugar no Índice de Desenvolvimento Humano da
ONU. E a sociedade de pior distribuição de renda do mundo. Entre 1930 e
1980 o Brasil viveu mais de metade do tempo sob regime de exceção ou de
democracia restrita. Amplos setores da sociedade ficaram mergulhados no
analfabetismo e na ignorância (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1999,
p. 3, grifos nossos).

A ―subserviência das elites locais‖ explicaria a incapacidade das classes


dominantes de construírem uma alternativa nacional. Por outro lado, o aprofundamento
do neoliberalismo pelos governos Collor e FHC também seriam ―resultado da falta de
alternativa mais consistente das esquerdas‖, o que não se tratava de uma ―insuficiência
teórica‖, mas de uma dificuldade oriunda da desmobilização do movimento popular e da
falta de ―visão mais aprofundada das transformações em curso no mundo e no
capitalismo brasileiro‖.
É certo que não se deu ênfase necessária a temas relevantes como os do
financiamento do desenvolvimento e dos novos papéis do Estado, por
exemplo. Mas nossas formulações programáticas em 1989, 1994 e 1998,
ainda que incompletas, são importantes. Foram suficientemente claras e
ameaçadoras, para provocar a partir de 1994 o mais impressionante
reagrupamento de forças conservadoras da história do país. Setores
originários da oposição democrática à ditadura – como o PSDB e grande
parte do PMDB – ofereceram quadros e emblemas para a constituição do

159
megapartido da ordem que hoje governa o Brasil, incumbido de frustrar as
profundas aspirações de mudança que a sociedade brasileira revelou nas
últimas décadas (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1999, p. 4).

Tal moldura enseja a reafirmação do programa da revolução democrática e seus


eixos fundamentais, o social, o democrático e o nacional. Ou seja, sua aplicação se
daria a partir de um conjunto de reformas sociais apoiadas pelo povo, cujo efeito seria o
de desestabilizar o ―capitalismo realmente existente no Brasil‖.
Definindo-se como ―um partido pós-comunista e pós-social-democrata‖, o PT
não buscaria nem assaltar o poder de forma violenta e nem chegar ao poder para
diminuir os efeitos devastadores do capitalismo. O partido, desenvolvendo-se em meio à
crise dos paradigmas do século XX e da falência do modelo nacional-
desenvolvimentista brasileiro, defenderia, então, isto é, desde 1994, a revolução
democrática, um pressuposto para a construção do ―socialismo democrático‖ no Brasil.
A faceta social da revolução democrática colocava na ordem do dia um conjunto de
mudanças na economia. Estas enfrentariam severas dificuldades frente ao desmonte do
Estado e da soberania nacional no período anterior. Tais prioridades provocariam
―enfrentamentos com os interesses do capital financeiro nacional e internacional que
condicionam hoje as grandes decisões econômicas nacionais‖. Para driblar os graves
constrangimentos que uma política de distribuição de renda poderia trazer, seria
necessário um ambicioso projeto de desenvolvimento pautado na construção de um
―mercado de consumo‖, criando acesso econômico aos brasileiros até então excluídos
do mercado.
15. O PT reafirma a necessidade de um modelo econômico estruturado em
torno da ideia de construção de um amplo mercado interno de bens de
consumo de massas, capaz de alimentar, vestir, dar moradia e transporte, aos
milhões de brasileiro marginalizados ou empobrecidos. Um gigantesco
programa de educação – prioridade número um do país – erradicará o
analfabetismo, porá todas as crianças na escola e, mais do que preparar força
de trabalho qualificada, criará as bases da cidadania. Esse modelo prevê o
refinanciamento do Estado para que este possa impulsionar políticas sociais
consistentes.
(...)
A reforma agrária e uma política de rendas serão instrumentos de radical
distribuição de riqueza, viabilizando o novo modelo de desenvolvimento
nacional. As circunstâncias imporão outras formas de transferência de renda
dos grandes grupos econômicos para financiar as reformas necessárias
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 1999, p. 4, grifos nossos).

Logo, a ―nova economia‖, centrada na criação de um amplo mercado interno de


bens de consumo, galgaria melhor posicionamento do Brasil no mercado externo, pois
―somente uma economia de escala‖ poderia ―disputar posições no mercado mundial‖.

160
A principal questão que movia a resolução do congresso era adequar, em termos
táticos, o partido para criação de uma ―alternativa de governo‖. Seria preciso ―formar
uma aliança social e uma coalizão política para governar‖ e buscar ―de modo coerente e
consequente – este objetivo – o de derrotar pela via democrática o governo e substituí-lo
por outro radicalmente alternativo‖. Neste sentido, e mais uma vez, são as mudanças
táticas que interagem com a estratégia, de forma a moldá-la às ―possibilidades‖ do
momento. O próprio Congresso, em princípio um espaço de debate de fundo estratégico,
consolida a inversão: a construção de uma alternativa eleitoral, democrática e popular,
dentro das possibilidades permitidas pela ordem.
O 12º Encontro Nacional do PT (2001)112 antecederá, por sua vez, a eleição de
2002. A necessidade de ampliação das alianças que representasse uma ruptura com a
―herança de dependência externa, de exclusão social, de autoritarismo e de clientelismo
e, simultaneamente, com o neoliberalismo mais recente‖ se vê explicitada. Dentro deste
amplo leque, ―os empresários produtivos de qualquer porte estarão contemplados com a
ampliação do mercado de consumo de massas‖ e ―com a desarticulação da lógica
puramente financeira e especulativa que caracteriza o atual modelo econômico‖. Por
conseguinte, crescer ―a partir do mercado interno significa dar previsibilidade e
estímulo ao capital produtivo‖.
Já durante o processo eleitoral de 2002, comprometendo-se com a ―Soberania, o
emprego e a segurança do povo brasileiro‖, Lula explicita, em carta aberta à população,
a combinação entre ―três linhas de ação: um esforço exportador muito mais vigoroso do
que o atual, o alargamento do mercado interno e o investimento em infraestrutura e nos
setores de ponta‖ (SILVA, 2002a). No programa ―Um Brasil para todos‖, desdobra-se a
política na proposição de um ―novo contrato social‖, que ―favoreça o nascimento de
uma cultura política de defesa das liberdades civis, dos direitos humanos e da
construção de um País mais justo econômica e socialmente‖, combatendo ―o
autoritarismo, a desigualdade e o clientelismo‖ (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
2002a).
Por fim, mas não menos importante, a campanha lança a ―Carta ao povo
brasileiro‖113 – também batizada pela imprensa corporativa como ―Carta de Lula para

112
A partir dessa citação todas as aspas que se seguem referem-se ao documento ―Resoluções‖
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2001).
113
A partir dessa citação todas as aspas que se seguem referem-se à ―Carta ao povo brasileiro‖
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2002b).

161
acalmar o mercado financeiro‖. O documento afirma o tom de mudança: ―O Brasil quer
mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar.‖ Tal mudança, explicita, permitiria o
desenvolvimento econômico com justiça social e resultaria de uma ―poderosa vontade
popular de encerrar o atual ciclo econômico e político‖.
Além disso, depois de oitos anos de implementação do projeto neoliberal, era
chegada a hora do balanço. O povo já atestara que economia não tinha crescido e como
suas expectativas tinham sido frustradas – e, diziam, o ―sentimento predominante em
todas as classes e em todas as regiões é o de que o atual modelo esgotou-se‖. Mas o
―povo‖, por outro lado, mostrava-se disposto a apoiar um novo projeto, um projeto
alternativo para o Brasil.
A crescente adesão à nossa candidatura assume cada vez mais o caráter de
um movimento em defesa do Brasil e de nossos direitos e anseios
fundamentais enquanto nação independente. (...)
O povo brasileiro quer mudar para valer. Recusa qualquer forma de
continuísmo, seja ele assumido ou mascarado. Quer trilhar o caminho da
redução de nossa vulneralibilidade externa pelo esforço conjugado de
exportar mais e de criar um amplo mercado interno de consumo de massas.
Quer abrir o caminho de combinar o incremento da atividade econômica com
políticas sociais consistentes e criativas. O caminho das reformas estruturais
que de fato democratizem e modernizem o país, tornando-o mais justo,
eficiente e, ao mesmo tempo, mais competitivo no mercado internacional
(PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2002b).

Assim, o crescimento com sustentabilidade perseguido pelo novo modelo devia


ser fruto de uma ampla negociação nacional que conduzisse ao novo contrato social.
Mas, quais seriam as premissas dessa transição contratual? ―O respeito aos contratos e
as obrigações do país‖. Sobre o mercado financeiro, a carta analisada se posiciona,
realizando uma diferenciação entre a ―pura especulação‖ e as preocupações ―legítimas‖
do mercado.
À parte manobras puramente especulativas, que sem dúvida existem, o que
há é uma forte preocupação do mercado financeiro com o mau desempenho
da economia e com sua fragilidade atual, gerando temores relativos à
capacidade de o país administrar sua dívida interna e externa.
É o enorme endividamento público acumulado no governo Fernando
Henrique Cardoso que preocupa os investidores.
Trata-se de uma crise de confiança na situação econômica do país, cuja
responsabilidade primeira é do atual governo. Por mais que o governo insista,
o nervosismo dos mercados e a especulação dos últimos dias não nascem das
eleições (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2002b).

No sentido de superar tamanho quadro desastroso, seria necessário, então,


ampliar as exportações e requerer uma ―substituição de importações‖, ―competitiva‖, de
prazo curto, além de uma política apontada para valorização do agronegócio – e também
da agricultura familiar –, junto a investimentos, reformas e fontes de financiamento que

162
gerassem divisas. Comprometendo-se com a manutenção do ―equilíbrio fiscal‖, com o
―superávit primário‖ e com a ―honra‖ dos compromissos assumidos pelo país, o Brasil
apostaria no desenvolvimento e no ato de impulsionar o seu ―imenso mercado‖, o que
poderia revitalizar a economia. Assim, termina afirmando:
Há outro caminho possível. É o caminho do crescimento econômico com
estabilidade e responsabilidade social. As mudanças que forem necessárias
serão feitas democraticamente, dentro dos marcos institucionais.
Vamos ordenar as contas públicas e mantê-las sob controle. Mas, acima de
tudo, vamos fazer um compromisso pela produção, pelo emprego e por
justiça social.
O que nos move é a certeza de que o Brasil é bem maior que todas as crises.
O país não suporta mais conviver com a ideia de uma terceira década perdida.
O Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e
social. É com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do
Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e
responsáveis.
Luiz Inácio Lula da Silva,
São Paulo, 22 de junho de 2002. (PARTIDO DOS TRABALHADORES,
2002b).

Em aliança composta com o candidato a vice José Alencar, membro do Partido


Liberal (PL) e empresário do ramo têxtil, o resultado eleitoral seria, enfim, o esperado
pelo PT. Com 61,27% de votos, o partido derrota José Serra (PSDB) no segundo turno e
ganha as eleições de 2002.
Seria o início dos 14 anos em que, dali em diante, o PT governaria o país.

163
Capítulo 4
Breve inventário: interpretando a revolução brasileira

Neste capítulo, buscaremos inventariar interpretações sobre a revolução


brasileira. Referimo-nos, aqui, à concepção de inventário nos termos de Gramsci, ou
seja, como elaboração crítica de uma visão de mundo que adquirimos sem benefício de
inventário.
(...) o início da elaboração crítica é a consciência daquilo que somos
realmente, isto é, um ―conhece-te a ti mesmo‖ como produto do processo
histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços
recebidos sem beneficio no inventário. Deve-se fazer, inicialmente, este
inventário. (GRAMSCI, 1984, p. 12).

Neste breve ―conhece-te a ti mesmo‖, buscamos sumariar parte das


interpretações expressas na teoria social brasileira entre os ciclos históricos da
estratégia democrática e nacional (PCB) e da estratégia democrática e popular (PT).
Esquadrinhamos, basicamente, as análises sobre a formação social brasileira, a via de
seu desenvolvimento, as características particulares do capitalismo e a teoria da
revolução brasileira. Tais leituras informarão – de maneira direta ou indireta – a
estratégia democrática e popular do PT no ciclo histórico que se abre após o final da
década de 1970. Outrossim, analisaremos o lulismo como o ponto de culminância das
interpretações da teoria social brasileira que, desde a década de 1990 até a chegada do
PT à presidência, retoma uma perspectiva heteronômica na qual baseia a retomada do
nacional e popular – de forma teórica e prática.
O lulismo carrega uma série de questões conexas ao debate da estratégia da
revolução brasileira. Poderíamos citar, por exemplo, a questão da consciência
reivindicatória através da inserção econômica das massas, o tema do Estado, o da
hegemonia, além de temas táticos como alianças, os grandes gargalos pertinentes à
estrutura social brasileira, a questão da via de implementação da estratégia, o ritmo e
encadeamento das suas tarefas, a tônica processual, gradual ou rupturista, a expressão
de massas, a classe a que se dirige o cerne de seu programa, dentre vários outros. Neste
sentido, supomos, inversamente ao que se convencionou supor pela narrativa
intelectual, que os governos Lula são, na verdade, uma face da realização da estratégia
democrática e popular. Para tanto, basear-se-iam em determinada interpretação sobre a
relação social e econômica estruturante no Brasil, Estado e relações de classe, negando,
conservando e superando interpretações no bojo do movimento concreto da estratégia.

164
Representa, assim, uma configuração estratégica que se funde enquanto consciência de
classe, se afirmando e se realizando como experiência histórica da classe trabalhadora.
Como exposto no primeiro capítulo desta tese, a teoria e a própria elaboração
teórica permitem, como reflexo da realidade no plano do pensamento que informa e é
informado pela ação da classe, explicitar certas ―visões de mundo‖. De outro lado, a
práxis social da classe trabalhadora e configuração de sua estratégia permitem
aproximar-nos da seleção operada pelos instrumentos de ação política, que, no caso dos
partidos, diz respeito especialmente aos grandes eixos norteadores de suas teorias
revolucionárias. Assim, não analisaremos os autores no sentido de atribuir-lhes conexão
direta com a estratégia, mas no de perceber a interação das teses fundamentais que
guiam ambos, constituindo, por sua vez, a afirmação de certa ―visão de mundo‖ deste
momento histórico.
Nosso objetivo, portanto, é retomar as ideias aqui inventariadas no quinto e
último capítulo desta tese, no qual apresentamos nossa interpretação sobre a questão da
incompletude do capitalismo brasileiro.

4.1 Interpretações “clássicas” sobre a revolução brasileira: imperialismo,


latifúndio, pré-capitalismo, estrangulamento do mercado interno e ausência de
democracia

O sistema latifundiário mantém até nossos dias, com a máxima firmeza, o


controle de nossa economia agrária. E não seria exagero asseverar que em
suas mãos ainda está, de certo modo, o controle de nossa economia nacional
(...). Usando exclusivamente em seu benefício esse duplo monopólio, o da
propriedade e o da renda agrária, o sistema latifundiário transfere para o
povo a sobrecarga do processo espoliativo resultante da pressão baixista,
sobre os preços dos produtos primários, exercida pelos trustes estrangeiros.
E torna-se responsável, como intermediário e como fautor, pelo retardo e
insuficiente mercado interno, pelo irrisório poder aquisitivo das populações
rurais e até mesmo das populações urbanas (GUIMARÃES, 1968 [1963], p.
202, grifos nossos).

Chamamos de ―clássica‖ uma importante vertente de interpretação que informou


a estratégia democrática e nacional do PCB, cujo centro analítico é a relação entre
imperialismo, latifúndio e o modo de produção pré-capitalista. Ainda que existisse
fundamento material, ao menos até a década de 1950, para que se pensasse o Brasil
como um país não dominado por relações sociais capitalistas, a consequência desta
análise foi a tomada da revolução democrático-burguesa como eixo articulador da teoria
da revolução brasileira. Para apresentar essa perspectiva, nos remeteremos à

165
argumentação de Octávio Brandão e Nelson Werneck Sodré, dois importantes
intelectuais do PCB.
Podemos resumir, correndo o risco de perder a riqueza da argumentação, que a
principal tese dos ―clássicos‖ é aquela que contrapõe o latifúndio, aliado ao
imperialismo, a todo restante da ―sociedade nacional‖: trabalhadores urbanos e rurais,
camponeses, burguesia industrial, pequena burguesia e eventuais frações de classe. O
capitalismo brasileiro só se generalizaria, rompendo com o imperialismo, se, enfim,
ampliasse suas relações de produção – o trabalho ―livre‖ e assalariado que, ainda preso
à produção ―semifeudal‖ na terra, teria baixa produtividade e não constituiria mercado
interno de consumo (e nem de produção autônoma). A relação do imperialismo com o
latifúndio era tomada como grave obstáculo e empecilho ao capitalismo, pois impediria,
em um só turno, a produção e as generalizações do trabalho livre e do mercado.
Como consequência, o raciocínio implica em atribuírem-se tarefas necessárias
ao pleno desenvolvimento do capitalismo, ―tarefas peculiares à revolução burguesa‖ que
ensejam a inexorabilidade de etapas encadeadas ligadas ao desenvolvimento econômico
e social. O pensamento acarreta, ainda, em tomar a burguesia nacional como
protagonista histórica do desenvolvimento, mesmo que nem sempre como força motriz
da revolução e localizar, na democracia, a possibilidade de ampliação política da base
de massas que se oporia ao ―agrarismo‖.

4.1.1 Octavio Brandão, agrarismo versus industrialismo

Octavio Brandão, militante comunista oriundo das lutas anarquistas, foi dirigente
do PCB até a dissolução do primeiro grupo dirigente do partido e a intervenção da
Internacional Comunista, em 1929, do qual se desligou, retornando a seus quadros em
1945. Agrarismo e industrialismo no Brasil (1924) é um esforço pioneiro de
interpretação marxista-leninista sobre a realidade brasileira e serviu de aporte para as
análises do 2º e 3º Congressos do PCB, ainda na década de 1920. Segundo Augusto
Buonicore:
Os objetivos centrais de Agrarismo e Industrialismo eram expor a dinâmica
da revolução democrática em marcha no país e uma linha política adequada
para o jovem movimento comunista. Não havia, até então, nenhuma
formulação tática ou estratégica mais consistente que norteasse a ação da
esquerda marxista brasileira. Por isso as teses ali expostas tiveram um forte
impacto nas formulações do Partido Comunista e influenciaram as resoluções
dos seus 2º e 3º Congressos, realizados em 1925 e 1928 (BUONICORE,
2011, grifos nossos).

166
Brandão (2006) procurou apresentar as particularidades da revolução brasileira e
o papel de diferentes classes, supondo a rivalidade entre os representantes do latifúndio
(dominação agrária) e setores urbano-industriais. Antes da caracterização sobre a
predominância da relação feudal (ou semifeudal) pela Internacional Comunista (IC)
para países oriundos de relações coloniais, o autor já afirmava como ―feudal‖ a relação
de produção vivenciada no Brasil, destacando as implicações políticas, religiosas e
psicológicas para realidade nacional.
Dominado por esse agrarismo econômico, bem centralizado, o Brasil tinha de
ser dominado pelo agrarismo político, consequência direta daquele. O
agrarismo político é a dominação política do grande proprietário. O grande
no Brasil é o fazendeiro de café, São Paulo e Minas. O fazendeiro de café, no
sul, como o senhor de engenho, no Norte, é o senhor feudal. O senhor feudal
implica a existência do servo. O servo é o colono sulista das fazendas de café,
é o trabalhador de enxada dos engenhos nortistas. A organização social
proveniente daí é o feudalismo na cumeeira e a servidão no alicerce. Idade
Média. A consequência religiosa é o catolicismo (...) E a consequência
psicológica: no alto a mentalidade aristocrática, feudal; em baixo, a
humildade (BRANDÃO, 2006 [1924], p. 36).
Caracterizando o imperialismo como fase do capitalismo, Brandão aprofundaria
a avaliação sobre a decadência do imperialismo inglês e a ascensão do imperialismo
norte-americano, rivalidade que se liga ao dualismo114 presente em seu raciocínio.
Segundo ele, o imperialismo seria a época da concentração capitalista e, durante sua
hegemonia, ―desaparecem todos os rebotalhos da economia primitiva e da economia
medieval (...)‖, apenas, ―(...) nos campos de batalha mundial os trustes, os cartéis, os
consórcios – leviatãs emitindo tentáculos como polvos colossais‖ (BRANDÃO, 2006, p.
80). Bastante intenso, o texto de Brandão traz características peculiares de um
marxismo-leninismo precário e teleológico.
As conclusões de seu texto são, porém, dignas de nota. O autor assevera que a
classe trabalhadora e o PCB deveriam impelir a revolução burguesa fazendo pressão
para transformá-la em uma revolução permanente: ―empurremos a revolução da
burguesia industrial (...) aos seus últimos limites, a fim de, transposta a etapa da
revolução burguesa, abrir-se a porta da revolução proletária, a comunista.‖
(BRANDÃO, 2006, p. 133).
Álvaro Bianchi (2012), em artigo que ressalta a memória deste comunista,
apresenta as diferenças entre a interpretação de Brandão e a fórmula classicamente
conhecida como democrática e nacional. Além de ressaltar a perspectiva da revolução

114
Rural versus urbano, agrário versus industrial, Inglaterra versus EUA, dentre outros.

167
permanente, Bianchi chama atenção para oscilação do autor frente à definição sobre a
sociedade brasileira, que ora era definida como ―agrária‖ e ―feudal‖, e ora apresentaria
acepções mais nuançadas como ―país semicolonial, semifeudal e semiburguês
industrial‖. Por outro lado, destaca a pequena burguesia enquanto agente da revolução,
o que também destoaria do protagonismo dado à burguesia nacional na formulação
―clássica‖.
No bojo da concepção comunista, no entanto, Brandão pode ser – e é –
reconhecido como um autor que finca uma interpretação dualista: agrarismo e
industrialismo se enfrentariam em torno do protagonismo econômico. Afirmava,
também, àquela altura, a predominância de agraristas, latifundiários, cafeicultores,
clericais e monarquistas em alinhamento com os financistas ingleses. Do outro lado,
diferentes frações industriais (aliadas aos EUA e frações urbanas), pequeno-burgueses
das cidades, republicanos e militares deviam constituir o arco de aliança do proletariado
no combate ao agrarismo reacionário, sem depósito de confiança na capacidade destes
aliados (temporários) de levarem a luta até o final. Assim, ainda que por caminhos
distintos e nuançados, Brandão reforça, no arcabouço da estratégia revolucionária, os
laços fortes entre revolução socialista e a prévia superação de entraves agrários, ou seja,
a revolução democrática e nacional. Conduz, assim, à formulação da revolução
democrático-burguesa anteposta à revolução socialista.

4.1.2 Nelson Werneck Sodré: feudalismo, prussianismo, dependência e tarefas


peculiares à revolução burguesa

Outro importante autor desta linha de interpretação foi Nelson Werneck Sodré
(1990), historiador, militar, militante comunista e intelectual dos quadros do ISEB –
Instituto Superior de Estudos Brasileiros, do qual falaremos em breve. Entre as
controvérsias das quais participou ativamente, a análise sobre o modo de produção no
Brasil colônia e em sua transição para modernidade seria uma das principais. A questão
era pautada pelo ―feudalismo‖ brasileiro, tese que foi contraposta pela ideia de
―escravismo colonial‖, de Ciro Flamarion e Jacob Gorender 115.

115
A relação de produção escravista colonial teria sido a forma sócio-histórica particular de entificação do
capitalismo no Brasil. Inserido no contexto de expansão do capitalismo dos países europeus, o escravismo
foi a forma de produção de mercadorias submetida à exportação para a colônia. Há intenso debate sobre o
caráter da produção durante o período colonial brasileiro, sendo o ―escravismo colonial‖ fruto da síntese
de Jacob Gorender e Ciro Flamarion.

168
Para ele, entre aspectos que informavam a particularidade social brasileira dever-
se-ia considerar, em primeiro lugar, o desenvolvimento desigual: o fato de que o Brasil
do período colonial conviveria com realidades históricas díspares, com áreas dominadas
pelo feudalismo e áreas dominadas pela comunidade ―primitiva‖. Tal ―heterocronia‖
ter-se-ia se mantido, ao longo do tempo, de diferentes formas. Um segundo aspecto,
derivado do primeiro, seria a convivência entre etapas históricas desiguais: ―...se trata da
contemporaneidade do não coetâneo, isto é, da existência, no mesmo tempo, de
realidades sociais diferentes, mas no mesmo país ou colônia‖ (SODRÉ, 1990, p. 10).
Como exemplo, o litoral exposto às influências externas e ao comércio contrastava com
o interior, aonde se primava por conservar costumes de outras épocas. Nossos alicerces
sociais, frutos de ―transplantação‖ estrangeira, e não do desenvolvimento em bases
próprias e autônomas, pautava-se na convivência entre ―os que viviam em comunidade
primitiva eram uns; os que viviam em escravismo eram outros; na maioria dos casos
não existe a passagem de um modo a outro, de uma formação a outra‖ (SODRÉ, 1990,
p. 12).
Sodré reconhece ser correta a afirmação de um tipo próprio de ―escravismo
colonial moderno‖, em contraposição ao escravismo clássico, cuja característica maior
seria um sistema fundado na grande propriedade e na produção voltada para o comércio
exterior. No caso brasileiro, esse sistema teria sido criado por transplantação. Por
conseguinte, faz críticas severas aos que teriam atribuído-lhe um caráter já capitalista,
que, segundo sua análise, ―não teria a mínima base real‖ 116. A atividade coletora,
destinada ao mercado interno e externo, a produção para consumo local ou próximo –
produção de subsistência ou para o mercado em proporções insignificantes –,
basicamente realizada pelos índios, configuraria uma produção escravista ou servil?
Neste ponto, o autor acredita que teria se instalado a controvérsia sobre seus argumentos
acerca do feudalismo no Brasil. Distingue, então, em meio à afirmação da convivência
do escravismo com outras formas de produção, relações feudais originárias de relações
que surgiriam da decomposição do escravismo.

116
Neste ponto o autor claramente discorda daqueles que classificaram como ―capitalista‖ o modo de
produção brasileiro já desde o período colonial. Tal polêmica é diretamente travada com Caio Prado
Júnior, por exemplo. Sodré se questiona: ―teríamos sido capitalistas antes do capitalismo? Isto pode ser
considerado simples ponto de vista quando alguém que defende tal tese esta descompromissado
teoricamente; da parte de um marxista ou pessoas que afirmam aplicar o método marxista, é
inadmissível‖ (SODRÉ, 1990, p. 19).

169
No que diz respeito à transição brasileira para o capitalismo, certos episódios
históricos são colocados em relevo: as reformas do final do século XIX, em especial as
de regime de trabalho e regime político; o período da Primeira Guerra Mundial e a Crise
de 1929 como oportunidades aproveitadas para o ―salto a frente‖; o movimento de 1930
e a derrocada das oligarquias – que traduziam a dominação feudal e semifeudal; além,
logicamente, do período pós-1930 e a Segunda Guerra. Neste quadro, a ―revolução
burguesa‖ brasileira teria sido uma:
Revolução burguesa difícil, pois o imperialismo, que preside a dependência,
coloca todos os obstáculos à união entre burguesia e proletariado-
campesinato para o avanço efetivo. (...) A burguesia, nos países de economia
dependente, teme a aliança com as classes dominadas, pois estas estão
suficientemente fortes para reivindicar a participação nas vantagens da
vitória.
(...) Os recuos a formas ditatoriais e a regimes de tipo fascista são recursos de
que se vale a burguesia, pressionada pelo imperialismo, para assegurar a via
prussiana e a exploração cômoda e pacifica da força de trabalho (...). Isso
não representa fatalidade, porém, mas resulta da correlação de forças
(SODRÉ, 1990, p. 31, grifos nossos).
Ao apontar o caráter dependente e fortemente subordinado das burguesias
brasileiras ao imperialismo, Sodré o faz reconhecendo o seu caráter prussiano117. O
nexo feudalismo-prussianismo chama atenção para os traços particulares e ―atípicos‖ de
nossa modernização, o que indica determinados caminhos para revolução. A burguesia,
temerária em aliar-se aos trabalhadores e camponeses, cederia à entrada do proletariado
em cena com o fito de cumprir as tarefas ―peculiares‖ à revolução burguesa.
Na medida em que o proletariado brasileiro consegue tomar consciência e
organizar-se e ajuda as massas camponesas a avançar, a burguesia sente a
necessidade de compor a sua força com eles, para enfrentar o imperialismo e
introduzir na estrutura do país as reformas indispensáveis ao progresso
harmonioso, não esse crescimento numérico de índices que sonega a
realidade cruel mas aquele que se define pelas vantagens que são extensivas
às mais amplas camadas da sociedade brasileira.
De qualquer forma, completar as tarefas peculiares à revolução burguesa,
ainda não alcançadas, no Brasil, pelas próprias características de que esta se
tem revestido, é indispensável (SODRÉ, 1990, p. 32, grifos nossos).

A aliança do latifúndio com o imperialismo, ao manter-se segundo parâmetros


de heteronomia econômica, porém agora sob a dependência, explicava-se pelos
investimentos imperialistas nos monopólios, mas, também, pelo controle comercial da
exportação. Neste sentido:
Os vínculos entre o latifúndio e o imperialismo, assim, são muito fortes, e a
burguesia, em sua contradição com o monopólio da terra e com o que ele

117
A ―via prussiana‖ ─ tal como formula Lênin ─ tem como fulcro o processo de revolução burguesa e a
transição agrária para o desenvolvimento capitalista. No aspecto particular da Rússia tal transição se
realizaria pela aliança da burguesia com a aristocracia e o Estado czarista, ou seja, a partir de um legado
autocrático ou ―caminho prussiano‖, impondo a necessidade de um programa de superação a essa aliança.

170
representa como estreitamento do mercado e obstáculo à generalização das
relações capitalistas, é obrigada a considerar que atrás do latifúndio está o
imperialismo e que, portanto, o latifúndio, débil quando encarado
isoladamente, tem poderes que a razão pode desconhecer (SODRÉ, 1990, p.
350, grifos nossos).

A título de curiosidade118, destacamos que Sodré, mais tarde, analisa o ―povo‖


enquanto força motriz da revolução. Para ele, ainda que a estrutura política brasileira
tenha paulatinamente incorporado o sufrágio como forma ―universal‖ de participação, a
representação de classes, muito desigual, não contemplava a inserção do campesinato e
do proletariado na política. Tarefas progressistas e democráticas precisariam ser
cumpridas por esse ―povo‖, a seus olhos composto pela parte da alta e média burguesia
fiel ao país, pequena burguesia com valores nacionais e democráticos, o campesinato, o
semiproletariado e, principalmente, o proletariado. Quer fosse por um processo
exclusivamente político ou violento, essas seriam as tarefas colocadas na ordem do dia.
O povo, Sodré estava convencido, preferiria o caminho pacífico.

4.2 Interpretações nacional-desenvolvimentistas: heteronomia econômica,


estrangulamento do mercado interno e desenvolvimento nacional

A questão do desenvolvimento do capitalismo brasileiro se tornaria central,


também, pela influência de correntes de pensamento econômico-político, como a
Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (CEPAL)119 e o Instituto Superior
de Estudos Brasileiros (ISEB)120.
Os principais intelectuais do ISEB foram os filósofos Álvaro Vieira Pinto,
Roland Corbisier e Michel Debrun, o sociólogo Alberto Guerreiro Ramos,
os economistas Ignácio Rangel, Rômulo de Almeida e Ewaldo Correia
Lima, o historiador Nelson Werneck Sodré, e os cientistas políticos Helio
Jaguaribe e Candido Mendes de Almeida. Suas ideias, de caráter antes
político do que econômico, complementavam-se, no plano econômico, com
o pensamento estruturalista da CEPAL. As ideias desse organismo das
Nações Unidas tiveram uma repercussão muito maior do que as do ISEB e
foram alvo de uma crítica muito mais suave do que aquela que enfrentou o

118
A avaliação que nos importa de Sodré é aquela que, no período referente ao ciclo histórico do PCB,
constituiria a análise ―clássica‖. Curiosamente, encontramos, anos depois, linhas gerais do que será a
transição entre a ―etapa‖ e a incorporação das tarefas não cumpridas pela revolução burguesa, que
desemboca na estratégia dirigida pelos setores populares.
119
A CEPAL foi criada em 1948 pelo Conselho Econômico e Social da ONU e exerceu papel de destaque
no pensamento desenvolvimentista latino-americano. Teve forte influência na criação do Plano de Metas
do governo Juscelino Kubitsheck (1956-1961).
120
O Instituto Superior de Estudos Brasileiros foi criado em 1955 e foi um órgão ligado ao MEC –
Ministério da Educação e da Cultura. Centralmente contribuiu com a teoria desenvolvimentista e do
Brasil e também colaborou com o Plano de Metas do governo Juscelino Kubitsheck (1956-1961). Os
militares que depuseram o presidente João Goulart em 31 de março de 1964 decretaram a extinção do
ISEB pouco depois, em 13 de abril do mesmo ano.

171
grupo de intelectuais brasileiros. A CEPAL contará com dois gigantes do
pensamento econômico do século XX: seu segundo diretor executivo e
principal dirigente será Raul Prebish, logo a ele se associando Celso
Furtado. Outros economistas significativos da CEPAL foram Aníbal Pinto,
Oswaldo Sunkel e Maria da Conceição Tavares. Esses autores partem de um
pressuposto semelhante ao do ISEB: o desenvolvimento devia ser o produto
de uma estratégia nacional de industrialização (BRESSER PEREIRA,
2005, p. 104-205, grifos nossos).

A partir da metade do século XX, de 1950 até o golpe militar de 1964, os


teóricos da CEPAL partilharam de uma perspectiva crítica ao desenvolvimento do
capitalismo na América Latina e contribuíram para defesa do ―desenvolvimento
nacional‖. Os intelectuais do ISEB, ainda que mais especificamente focados na teoria
social brasileira, partiam de diagnósticos aproximados aos formulados pela CEPAL,
fundamentalmente no que tange à economia.
Ainda que a CEPAL e ISEB não tenham compromisso com a teoria socialista ou
revolucionária, seus autores foram forte influência na defesa do desenvolvimento
nacional e na perspectiva crítica ao subdesenvolvimento, assim como acerca do modelo
exportador. Logo, parece-nos importante destacá-los no quadro teórico aqui desenhado,
no sentido de explicitar interfaces entre interpretações sobre a formação social
brasileira, o nacional-desenvolvimentismo e aspectos da estratégia democrática e
nacional, que mais à frente também convergirão, de forma subsidiária, à estratégia
democrática e popular. Longe de querer atribuir uma unidade que suplante a
diversidade entre os autores destes dois institutos, pretendemos expor resumidamente
aspectos do pensamento de Celso Furtado, Ignácio Rangel e Álvaro Vieira Pinto
baseando-nos fundamentalmente em escritos que se destacaram entre os anos 1950 e
1960. Após a apresentação dos três autores, realizaremos uma discussão sobre as
principais teses cepalinas entre os anos 1960 e 1970. Iniciaremos, para tanto, com um
breve panorama do debate desenvolvimentista.
A doutrina do desenvolvimentismo é basicamente ligada à expansão
estadunidense pós-1948. Foram, contudo, os acontecimentos da primeira metade do
século XX, principalmente as guerras, crises econômicas e experiências revolucionárias,
que tornaram o desenvolvimento econômico em países ―coloniais‖, ―semicoloniais‖,
―subdesenvolvidos‖, ―dependentes‖ e ―periféricos‖ objeto de destacada discussão.
Abrigando-se em um discurso nacionalista supostamente homogêneo, misturaram-se,
em uma mesma vertente, vários ―nacionalismos‖ de segmentos sociais singulares.
Aqui, faz-se fundamental perceber como a Guerra Fria terá efeitos sobre essa
controvérsia teórica. Diretamente influenciado pelas instituições multilaterais, o ideário

172
do desenvolvimento econômico como contraponto e meta ao subdesenvolvimento se
acercará cada vez mais das práticas políticas do segundo mandato de Harry Truman
(1949), presidente dos Estados Unidos da América (EUA)121. A partir de então, a
controvérsia alcançou novo patamar. Carregado de conteúdo expansionista
estadunidense, o ideário do desenvolvimento trazia consigo uma onda de valores das
democracias ocidentais supostamente ―universais‖, incluindo desde a forma de
organização econômica até o modo de organização política.
Uma vez incorporada ao debate de autores oriundos da periferia do mundo
capitalista, a questão sobre ―como e porque se desenvolver‖ toma novos rumos e
tenciona perspectivas oficiais. Questionando o caráter universal suposto pela lógica de
receituário, Celso Furtado e Raúl Prebish, mesmo inseridos em um organismo
multilateral – a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) –,
exerceram contrapontos à tese de que o processo de acumulação capitalista tenderia a
alcançar resultado econômico universal, fato que levaria outros países a eliminar o
atraso encorpando um receituário básico de medidas.
De fato, esta pode ser considerada a maior importância do pensamento
surgido na Cepal, e da crítica que fizeram Raúl Prebisch e Celso Furtado à
economia do desenvolvimento ortodoxa. Mesmo limitados pela defesa dos
interesses da burguesia industrial latino-americana em ascensão, os autores
cepalinos criticaram, à luz da periferia, a perspectiva do atraso que informa a
economia do desenvolvimento e abriram novo horizonte de reflexão para a
América Latina.
Isto fica mais explícito ao expor as propostas políticas dos autores da
economia do desenvolvimento, por exemplo: Rosenstein-Rodan, quando
propõe um big push nos países atrasados, com a coordenação internacional

121
―Quarto, devemos embarcar em um audacioso programa novo a fim de tornar os benefícios dos nossos
avanços científicos e progresso industrial disponíveis para o avanço e crescimento de áreas não
desenvolvidas. Mais da metade das pessoas no mundo vivem em condições à beira da miséria. A comida
deles é inadequada. Eles são vítimas de doenças. A situação econômica deles é primitiva e estagnada. A
pobreza em que eles vivem é uma desvantagem, é uma ameaça tanto para eles quanto para as áreas mais
prósperas. Pela primeira vez na história, a humanidade possui o conhecimento e a habilidade para
amenizar o sofrimento dessas pessoas. Os Estados Unidos estão à frente de outras nações no que tange ao
desenvolvimento de tecnologias industriais e científicas. Os recursos materiais dos quais dispomos para
dar assistência a essas pessoas são limitados. Contudo, nossos incontáveis recursos em conhecimento
tecnológico estão constantemente em crescimento e são inesgotáveis. Eu acredito que nós deveríamos
colocar à disposição dos amantes da paz os benefícios do nosso acúmulo de conhecimento tecnológico a
fim de ajudá-los a concretizar suas aspirações por uma vida melhor. E, junto com outras nações, nós
deveríamos encorajar o investimento de capital em áreas que necessitam de desenvolvimento‖ (Parte IV
do discurso de posse de Harry Truman em 1949, tradução nossa). Este discurso desemboca, na prática, na
assinatura do Act for International Development (AID – Programa para o Desenvolvimento
Internacional), um programa de cooperação técnica internacional entre os Estados Unidos e os países
latino-americanos, proposto em 1950. O ―Ponto IV‖, em alusão ao item 4 do discurso de Truman, foi
estabelecido no Brasil através da assinatura de dois acordos com o governo estadunidense: o Acordo
Básico de Cooperação Técnica, de 19 de dezembro de 1950, e o Acordo de Serviços Técnicos Especiais,
de 30 de maio de 1953. Ver mais sobre o acordo ―Ponto IV‖ em:
<http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/ponto-iv>. Acesso em: 10 jan. 2014.

173
dos investimentos externos; Nurkse, quando defende a intensificação do
comércio internacional para melhor aproveitamento das vantagens
comparativas, junto ao crescimento equilibrado da indústria para o mercado
interno; Lewis, quando argumenta por uma maior participação dos lucros na
renda nacional como forma de incentivar a expansão do setor capitalista,
fazendo uma análise do país atrasado com oferta ilimitada de mão de obra
enquanto uma "economia fechada", para depois analisar a economia mundial
"aberta" do ponto de vista dos países industriais adiantados; ou Rostow,
quando aponta de forma etapista o processo pelo qual as distintas sociedades
atingem a ―era do consumo de massas‖ e do bem-estar social. Todos
defendendo a superioridade do modelo capitalista de desenvolvimento sobre
a experiência alternativa da União Soviética, e a viabilidade de se replicar o
modelo de desenvolvimento estadunidense na periferia (BORJA, 2013, p.
177, grifos nossos).

A corrente cepalina teve, reconhecidamente, forte influência em todo o debate


sobre o desenvolvimento do capitalismo brasileiro e latino-americano. Do ponto de
vista nacional, os teóricos do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb)
adensariam o tema, a partir da perspectiva da particularidade. Tanto cepalinos como
isebianos convergiam ao apontar que o desenvolvimento em países periféricos e
subdesenvolvidos só seria possível quando fruto de uma estratégia planejada, levada ao
cabo pelo Estado. Desse modo, propunham modificações estruturais da economia
através da constituição de um mercado interno seguro, proteção da indústria nacional
contra as estrangeiras e criação de uma reserva de mercado. Tais medidas deveriam
figurar acompanhadas do combate de três tendências da industrialização periférica:
desemprego estrutural, deterioração dos termos de troca e desequilíbrio externo.
Para os intelectuais do Iseb, o Brasil se circunscreveria entre as nações
subdesenvolvidas, sendo a chave para o seu desenvolvimento a construção de uma
economia nacional. Num sentido geral, seus teóricos – resguardadas as diferenças entre
eles – supunham que a contradição básica a ser superada pela economia brasileira
poderia ser alcançada pela via nacional do desenvolvimento econômico.
O Iseb (...) foi um centro produtor de ideologias nacional-
desenvolvimentistas diferenciadas, que tinham em comum apontar como
contradição principal na sociedade brasileira o embate entre ―nação‖ e
―antinação‖. Elegia o ―povo brasileiro‖ como principal agente da História –
não qualquer classe em especial. Assim, um autor como Hélio Jaguaribe
apostava no capitalismo autóctone na periferia ocidental. Alberto Guerreiro
Ramos defendia que o pesquisador deve assumir o ponto de vista da nação,
propondo uma ideologia do desenvolvimento e uma ideologia da sociologia
nacional. Vieira Pinto apostava nas massas populares no comando do
processo de desenvolvimento e dizia-se marxista, assim como alguns de seus
jovens assessores. Por sua vez, o militar comunista Nelson Werneck Sodré
não pretendia constituir ideologias nacionais, mas fazer ciência (RIDENTI,
2009, p. 3).

174
No sentido da relação política interna, apregoavam o equilíbrio entre interesses
sociais distintos, encobrindo-os pelo ideário de nação. Obnubilavam que, por trás de um
discurso estatal universalizante se fortaleceriam ações centralizadoras de capitais,
relações associadas entre capitais brasileiros e imperialismo, assim como a inter-relação
entre burguesias internas e externas: ―as bases do modelo de internacionalização eram
assumidas pela burguesia que – ao contrário das visões produzidas por certos segmentos
da sociedade sobre ela – jamais defendeu a industrialização autônoma‖ (MENDONÇA,
1986, p. 66).
No debate teórico, suas teorias122 baseiam-se sobre uma lógica ―dualista‖, fruto
da oposição do polo ―arcaico‖ a um ―moderno‖, sem que esses se relacionem
dialeticamente com a totalidade, ou seja, com as condições que sustentariam o
desenvolvimento urbano-capitalista no Brasil. Isto porque a necessidade de superar o
antagonismo social entre estes dois setores seria chave em leituras cepalinas e isebianas,
o setor tradicional-agrário (arcaico) deveria ser suplantado pelo urbano-industrial
(moderno). O primeiro obstaculizava o processo de desenvolvimento autônomo e devia
ser sobrepujado, para possibilitar o desenvolvimento nacional, por envolver a
centralidade agrário-exportadora submetida a condições de heteronomia. Os
argumentos, como se vê, permanecem muito próximos ao dos ―clássicos‖, sendo agora
pautados por alternativas internas ao Estado.
Quando nos referimos à questão do desenvolvimento, há certa tendência em
confundir processo de desenvolvimento, projetos de desenvolvimento e o ideário
desenvolvimentista. Considerando a problemática analisada por Prado (2015)123,
acreditamos ser possível afirmar que a fusão entre a questão do desenvolvimento e o
ideário do desenvolvimentismo se tornou praticamente irreversível, pois esteve
historicamente amalgamada pela ―ideologia do desenvolvimento‖. De fato,
desenvolvimento enquanto um processo poderia se diferenciar de desenvolvimentismo

122
Referimo-nos ao clássico ―Crítica à razão dualista‖ que será analisado em breve. Faz-se mister notar
que, nas Ciências Sociais, o dualismo esteve assumidamente presente em importantes estudos. Vale
destaque, em especial, o clássico Os dois Brasis, de Jacques Lambert. Nele, o contraste da estrutura social
se daria entre o país ―novo‖ urbano e aquele ―velho‖, pois colonial. Tratando do processo de
―desenvolvimento‖ aponta que o Brasil seria ―mais um país desigualmente desenvolvido que
subdesenvolvido‖. Incorpora, do ponto de vista sociológico, a dualidade como característica estruturante
da perspectiva desigual interna, cuja solução não poderia se dar exclusivamente em marcos econômicos,
mas também cultural e social.
123
Tomamos como ideologia do desenvolvimento o projeto do desenvolvimentismo, uma estratégia que
implicou na coalizão de interesses de classes em torno de um ―pacto‖ estatal pelo desenvolvimento
nacional. Ver mais em Prado (2015).

175
segundo ideário de ―avanço‖, ou como expressão do projeto de industrialização
burguesa. A questão é que processo, projeto e ideologia se sistematizaram
historicamente em um só corpo, em uma concepção desenvolvimentista que tornava o
próprio capitalismo (―urbano e industrial‖) em uma meta.
O declínio do desenvolvimentismo é notório com o Golpe de 1964. Após a
vitória da onda repressiva na América Latina e no Brasil durante as décadas de 1960 e
1970, consolida-se a política dos EUA na região, alcançando forte êxito no sentido do
desenvolvimento conservador.

4.2.1 Ignácio Rangel: dualidade básica da economia brasileira

Ignácio Rangel, economista do ISEB, é o primeiro autor que, agora,


abordaremos. Rangel partirá da afirmativa do pressuposto materialista, segundo o qual a
materialidade das relações econômicas está fundada na produção social da vida pelos
homens (RANGEL, 1957).
A ciência econômica, a seu ver, variaria com o modo de produção – que, por sua
vez, se transformaria de maneira ininterrupta. Através do bom senso nacional seria
possível corrigir e completar a ciência de sua época: a novidade está na distinção
implícita entre bom senso geral e bom senso nacional, que seria admitir uma ―natureza
humana nacional‖ diversa da geral. Assim, a historicidade e particularidade das leis da
ciência figurariam como um pressuposto fundamental afirmado pelo autor que se recusa
―a admitir que a economia de uma tribo indígena seja regida pelas mesmas leis que
regem o funcionamento da bolsa de Nova York ou os Planos quinquenais soviéticos‖
(RANGEL, 1957, p. 20). Para ele, as duas correntes dominantes do pensamento
científico da economia política de seu tempo – marxismo e keynesianismo –
incorporavam a historicidade como fator fundamental de análise. Por outro lado, seria
Raúl Prebish que, ―indo mais além‖, reivindicaria o direito dos economistas latino-
americanos de pensarem por si próprios, recusando-se a admitir o ―sentido de
universalidade que frequentemente se pretende atribuir às teorias formuladas nos
grandes centros mundiais‖ (RANGEL, 1957, p. 20).
Dito isto, o autor afirmará uma observação particular em face da economia
brasileira, interpretação segundo a qual ela seria formada por uma economia capitalista
e outra pré-capitalista. Por conseguinte, caracterizando-se por um desenvolvimento
desigual, a economia brasileira apresentava todas as etapas de desenvolvimento em um

176
só corpo ininterrupto: ―temos o comunismo primitivo (...); certas formas mais ou menos
dissimuladas de escravidão (...); o feudalismo (...); o capitalismo em todas as suas
etapas: mercantil, industrial e financeiro. Além de tudo o capitalismo de Estado (...)‖
(RANGEL, 1957, p. 25).
A formação econômica do Brasil, além disso, teria origem escravista, mas em
um escravismo particularmente voltado para fora – uma empresa comercial, como em
Caio Prado Júnior. Isso significa dizer que o escravismo brasileiro já estaria submetido
a dois tipos de leis econômicas, a do escravismo (colonial) e a do capitalismo. Assim,
―(...) essas duas ordens de leis governam, respectivamente, as relações internas e
externas da economia.‖ Portanto, ―(...) não basta dizer que o latifúndio é uma economia
mista, feudal-capitalista, mas é necessário compreender que é internamente feudal e
externamente capitalista.‖ (RANGEL, 1957, p. 29). Desta afirmativa, conclui que as
relações internas devem ser estudadas em função de leis que regem uma economia
feudal, e, as externas, as de relações capitalistas. Esse exame das relações de dentro e
fora de cada unidade da economia brasileira vai ser nomeado, pelo autor, de ―dualidade
básica da economia brasileira‖:
A dualidade é a lei fundamental da economia brasileira. Podemos formulá-la
nos seguintes termos:
A economia brasileira se rege basicamente, em todos os níveis, por duas
ordens de leis tendenciais que imperam respectivamente no campo das
relações internas de produção e no das relações externas de produção
(RANGEL, 1957, p. 32).

Tendo em vista a distinção entre realidade nacional (autônoma) e a heteronomia


a que a mesma se submeteria, Rangel remonta ao passado colonial brasileiro para
historicizar a particular ―contemporaneidade do não coetâneo‖ no Brasil.
Não cabe aqui uma análise mais pormenorizada dos pressupostos econômicos
que serão utilizados por Rangel para formular suas conclusões. Interessa-nos,
diversamente, destacar sua afirmação de que a prerrogativa para consolidação da
indústria nacional ―autêntica‖, base do surgimento de um capitalismo nacional vigoroso,
teria passado a depender das importações. O desenvolvimento nacional, apresentando-se
sob disfarce de ―indústria substitutiva de importações‖ – apelidada por Rangel de
―indústria de aparafusamento‖ – impeliria inversões em novas substituições. Neste
processo, o custo das mercadorias importadas era determinado pelo Estado através das
subvenções, isenções, do crédito e cambio, único juiz possível para o comércio exterior.
Mas a relação Estatal com o comércio externo não atendia às mesmas regras para o

177
comércio interno: ―a estatização do comércio externo pode, pois, em princípio, ser o
ponto de partida para liberação do comércio interno‖ (RANGEL, 1957, p. 101).
Consequentemente, haveria uma dependência cada vez maior das importações para
consolidação da indústria autenticamente nacional.
Para equilibrar este encarecimento e completar a conversão da indústria em
nacional, seria necessário, por um lado, conquistar novos mercados externos, e, por
outro, ampliar a industrialização a partir da expansão da indústria de base. E, ainda,
seria ilusório, segundo Rangel, que os grupos agrícolas ou industriais pudessem
compreender a presteza da situação, pois, em consonância com a dualidade básica da
economia brasileira, nenhum setor seria atendido sem sacrifício do outro.
Diante disso, a alternativa proposta é uma reforma revolucionária, cuja essência
seria ―a emergência do Estado como comerciante, condição indispensável para que o
capitalismo se consolide e se reforce no interior, na indústria como na agricultura‖
(RANGEL, 1957, p. 109). A saída era, portanto, pelo Estado indutor, capaz de equilibrar
o conflito entre as classes.

4.2.2 Celso Furtado: desenvolvimentismo e expansão do mercado interno

Celso Furtado ingressa na CEPAL em 1949. Como parte do grupo CEPAL-


BNDE, participa do governo Vargas até 1954 e da formulação do programa econômico
para campanha de Juscelino Kubitscheck, que acabará subsidiando o Plano de Metas.
Após destacar-se como quadro do governo será responsável pela fundação e direção da
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Já em meio à disputa
sucessória de Jânio Quadros, Furtado será convocado por Goulart para preparar seu
plano de governo, assumindo, posteriormente, o Ministério (Extraordinário) do
Planejamento (1962). Retorna à SUDENE após o ―abandono‖ do plano trienal pelo
governo federal. Depois do Golpe de 1964, terá seus direitos cassados por dez anos pelo
primeiro ato institucional. Ele se exilará naquele mesmo ano.
A influência exercida por Raul Prebish sobre Celso Furtado é notória. Ao criticar
a falsa universalidade econômica, o autor aponta a inserção dos países periféricos na
divisão internacional do trabalho, a partir da condição de exportação que ocupam. O
sistema centro-periferia apresenta importantes diferenças em relação à ideia unilateral e
linearmente progressiva de desenvolvimento e pode ser considerada chave de leitura
para teoria do subdesenvolvimento destes autores.

178
Quanto a Furtado, é comum a afirmativa de que haveria uma inflexão no seu
pensamento ao final dos anos 1960, início dos 1970. Segundo Lessa:
A chave para interpretar a obra de juventude de Furtado é pensar a
industrialização voltada para dentro da economia como modo de superação
do atraso. A obra da maturidade é entender como a periferia do mundo não
foi capaz de reproduzir os padrões de vida social, política e cultural do
centro. [...] A cronicidade da má distribuição de renda e riqueza, a desigual
incorporação social, sua transposição para o interior urbano e metropolitano e
a recorrência autoritária, na sequela da industrialização, levaram Furtado a
buscar noutros domínios a explicação para o atraso (LESSA, 2005, p. 12).

Deter-nos-emos, em suas reflexões durante os anos 1950, nas quais avalia a


relação desenvolvimento-subdesenvolvimento enquanto par inseparável (FURTADO,
1961), em função da ―visão mundo‖ desta época.
Em Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, busca-se apresentar esta
controvérsia internacional em seus pontos mais relevantes, quais sejam: os
limites do comércio exterior e da especialização produtiva na divisão
internacional do trabalho como via de desenvolvimento; o desequilíbrio do
balanço de pagamentos e sua relação com a deterioração dos termos de troca;
a polarização crescente da economia mundial entre centro-periferia ou
desenvolvimento-subdesenvolvimento; a dependência tecnológica e a baixa
absorção de trabalhadores pelos processos produtivos adotados, gerando a
persistência de um excedente de mão de obra; e a necessidade da
industrialização periférica e de seu planejamento pelo Estado (BORJA, 2013,
p. 37, grifos nossos).

Ainda neste livro, o autor apontará que a ―industrialização subdesenvolvida‖


periférica se desenvolveria sem lograr difundir seus frutos através de salários e renda.
Em resumo, industrialização e desenvolvimento eram uma disjuntiva, pois não teriam
efetivado as expectativas do ―desenvolvimentismo‖. Tal fato obedecia a uma sorte de
fatores estruturantes dos países em subdesenvolvimento, relacionados, por sua vez, à
dinâmica do capitalismo mundial e de sua relação com a periferia. A dificuldade de
propagação do progresso técnico; a transferência do excedente sustentada por salários
em nível de subsistência – que garantiam alto lucro ao capital estrangeiro; e a oferta
ilimitada de trabalhadores seriam algumas de suas características ―típicas‖. Entre outras,
a tendência à concentração de renda, o arcaísmo tecnológico e a pouca expansão do
mercado interno também figurariam como consequências da dinâmica particular da
relação centro-periferia capitalista.
O desenvolvimento induzido de fora – caso dos países periféricos – forma, em
primeiro lugar, a demanda por manufaturas, para depois proceder-se à substituição de
importações. Diversamente ao tipo de desenvolvimento de países centrais o setor
dinâmico não proviria da oferta, mas, primordialmente, da demanda. E, ainda que essas

179
economias tenham crescido e formado um mercado interno, a substituição de
importações não permitiria que a indústria passasse a ser o setor preponderante em
função da dependência da indução externa de demanda. Heterogeneidade tecnológica se
impunha como consequência, impetrando, a seu turno, desequilíbrio no balanço de
pagamentos e ampliação de importações junto ao processo de industrialização.
[...] o modelo de desenvolvimento industrial do Brasil, que se assemelhou
inicialmente ao americano, veio a parecer-se mais e mais ao europeu da
primeira metade do século XIX, à medida que o próprio país se
industrializava e adquiria fluidez o seu mercado de trabalho. A consequência
prática de tal situação foi que os salários reais nas indústrias tenderam a
permanecer estacionários no decorrer de todo o desenvolvimento
subsequente. Tal tendência foi reforçada pelo tipo de tecnologia que
prevaleceu em toda a primeira metade do século XX, orientada no sentido de
poupar mão de obra. Encontramo-nos, assim, em face de uma situação em
que convergem uma oferta totalmente elástica de mão-de-obra e uma
tecnologia que poupa mão de obra. Ora, se os salários reais se mantiveram
de maneira geral estáveis, no decorrer dos últimos decênios, o mesmo tendo
ocorrido na agricultura conforme indicaremos mais adiante – é que os
benefícios da elevação da produtividade foram absorvidos pelos lucros
(FURTADO, 1961, p. 257, grifos nossos).

Furtado vai atribuir ao desenvolvimentismo um caráter eminentemente histórico-


social. Apesar da possibilidade de incorporação de capital e de novas tecnologias, a
modernização produtiva não garantiria necessariamente o desenvolvimento, que só
poderia ocorrer com o bem-estar da população. O subdesenvolvimento apresenta-se,
portanto, como uma realidade histórico-estrutural fruto da expansão do capitalismo
industrial, que acarretava, em consequência, desigualdade e disparidade da
produtividade entre campo e cidade, uma grande massa populacional vivendo
precariamente e altos níveis de desemprego.
No último capítulo do livro, o autor vai retomar um balanço do processo de
substituição de importações ressaltando que teria sido realizado sem planejamento do
Estado e dirigido pelos interesses dos setores agrário-exportadores, o que agravou o
desequilíbrio externo e a inflação. Avaliando a exaustão do processo substitutivo de
importações e completada a diversificação da estrutura produtiva, afirmará, ainda, que o
processo de industrialização, dali em diante, dependeria da expansão do mercado
interno, desde sempre dificultado pela concentração de renda. Assim, defenderá o
aumento de produtividade (oferta) casado a um processo de distribuição de renda a

180
favor dos assalariados do campo e da cidade, impulsionando, com isso, a expansão da
demanda124 por consumo.

4.2.3 Álvaro Vieira Pinto: desenvolvimento e consciência nacional

Álvaro Vieira Pinto, isebiano pertencente ao quadro de fundadores deste


instituto, parte de uma perspectiva mais filosófica para estabelecer sua visão acerca do
projeto de desenvolvimento nacional. Enquanto intelectual comprometido com o
fortalecimento da nação, Vieira se calcará na análise sobre a consciência em sua
perspectiva nacionalizante.
Em ―Consciência e realidade nacional‖ (PINTO, 1960), o autor vai estabelecer
os elementos materiais, físicos e sociais como adventos da consciência, que teria para
ele duas formas básicas: a consciência ingênua e a consciência crítica (PINTO, 1960, v.
1, p. 83). A primeira não teria clareza dos fatores que a determinariam, ao contrário da
segunda. A consciência ingênua se inscreveria em traços, atitudes e características
nocivas ao desenvolvimento nacional: o caráter sensitivo, o pedantismo, a incapacidade
de dialogar, culto ao heroi salvador, messianismo da revolução, ufanismo, saudosismo,
dentre outros. Já a consciência crítica apresentar-se-ia através das categorias
relacionadas à objetividade, historicidade, racionalidade, totalidade, atividade, liberdade
e nacionalidade. A questão da consciência, portanto, não terá como base a compreensão
do fenômeno psíquico-individual e nem mesmo o de consciência de classe. Ela, por sua
vez, estará calcada em refletir sobre a realidade histórico-social de uma ―nação em
desenvolvimento‖, o que seria um projeto de consciência de ―tipologia‖ nacional: um
conjunto de ideias, conceitos, valores característicos de uma realidade subdesenvolvida
a ser superada125.

124
Como exporemos mais adiante, Caio Prado Júnior, em seu programa para ―a revolução brasileira‖, vai
convergir com premissas nacional-desenvolvimentistas, mas discordará, em essencial, de um ponto: um
programa de desenvolvimento sustentável não deveria começar pela oferta, mas sim pela demanda. O
maior problema do desenvolvimento no Brasil seria a insuficiência do mercado interno que, em
consequência dos baixos salários, teria formado uma ―massa de trabalhadores destituída de tudo‖. Assim,
o Estado deveria intervir para permitir que tal massa de trabalhadores pudesse consumir. O ciclo vicioso
demanda-oferta não nos permitirá entender as mais importantes relações estruturais da realidade social
brasileira e será uma das interpretações influentes no que diz respeito à questão da incompletude do
capitalismo brasileiro.
125
Caio Navarro de Toledo (1977) vai atribuir às fundamentações isebianas um caráter ideológico, posto
que responsável por uma ―ideologia nacionalista‖. Para esse debate, ver mais em: ISEB, fábrica de
ideologias (TOLEDO, 1977). Interessante também é o inventário sobre o pensamento do isebiano
realizado por Vanilda Paiva através nacional-desenvolvimentismo na obra de Paulo Freire. Ver mais
em: Paulo Freire e o nacionalismo desenvolvimentista (PAIVA, 1986).

181
Uma concepção orgânica de futuro balizará a perspectiva histórica e científica
em Pinto, levando da ―consciência‖ à ―emancipação nacional‖.
Para o entendimento ingênuo, a história se ocupa exclusivamente do passado,
que é o seu material de estudo, a direção em que dirige o olhar. É o
conhecimento retrospectivo. O presente é interpretado como ponto de partida
de um movimento de retrocesso e portanto como posição destinada a ser
imediatamente abandonada pela marcha retrógrada da investigação histórica.
(...) Já a concepção crítica entende a historicidade em sentido ativo. A
história não é o conhecimento do passado enquanto passado, mas do presente
que foi. Cada forma da realidade passada foi o presente de certo instante.
Mais do que isso, foi também o futuro de um presente mais antigo. É à luz
destas noções que deveremos perguntar pela realidade do nosso presente de
hoje. Este não é o início de uma análise retrospectiva, mas a origem de um
avanço para frente (PINTO, 1960, v. 2, p. 32).

Outro aspecto relevante diz respeito à reinterpretação da categoria ―alienação‖ à


luz da questão nacional. O homem do país subdesenvolvido realizará seu ―ser‖ apenas
com o desenvolvimento pleno de seu mundo, retomando a essência alienada pela
apropriação do ―ser‖ histórico-social. Segundo ele, a alienação nos países
subdesenvolvidos obedecerá a uma dupla característica: a) como fenômeno próprio do
capitalismo; b) como fruto de uma realidade atrasada, dependente e submetida à
exploração externa.
Mas o subdesenvolvimento não assumirá, em Vieira, uma explicação baseada no
capitalismo dependente, mas em uma relação de nação dependente e, portanto, não
autônoma. O subdesenvolvimento seria, pois,
(...) por natureza um estado de alienação, no qual o homem fica distanciado
do seu ser, alheio a ele. Como, porém, o subdesenvolvimento é o modo de ser
da nação, esta só é subdesenvolvida porque não se encontra na posse de si
mesma, não desenrolou as suas possibilidades reais, não se apropriou ainda
da sua essência. A nação subdesenvolvida é, portanto, um ser social
igualmente alienado, um ser cuja essência está fora dele, é possuída por
outros, no caso as nações desenvolvidas que detêm o comando de sua
economia, e por esse meio, o do seu destino (PINTO, 1960, v. 2, p. 138-139).

O binômio desenvolvimento-subdesenvolvimento expressivo da relação entre


nações metropolitanas versus nações periféricas está no mesmo centro da contradição
social mais fundamental, analisada em Pinto. O desenvolvimento econômico e da nação
significariam, por si mesmos, uma libertação de todos os grupos sociais de todas as
formas de alienação, inclusive da política. Segundo presume, a consciência política
alienada pertence ―por natureza à classe dirigente do país pobre‖ (PINTO, 1960, v. 2, p.
400), pois as ―massas atrasadas‖ não chegariam ao nível mínimo de cultura que
permitisse entender os esquemas de dominação a que estariam submetidas.

182
O desenvolvimento econômico figura, aqui, como parte necessária à supressão
da alienação política, condição sine qua non para superação da consciência ―pobre‖.
Assim, ―as massas do país subdesenvolvido ingressariam na consciência nacionalista
logo que adquirissem condições para ter consciência enquanto tal (...)‖. Neste sentido,
―só o nacionalismo suprime[iria] a alienação política (...)‖ (PINTO, 1960, v. 2, p. 400).
Em Pinto, o projeto de desenvolvimento apresenta-se segundo um projeto ético-
político que pretenderia superar a alienação pela reapropriação da ―essência‖ nacional.
Dessa maneira, a necessidade de criar um ―capitalismo autóctone‖ é também lida como
um ―estágio‖ que prenuncia a possibilidade de mudanças mais profundas, mesmo dentro
do capitalismo: ―parece-nos que a visão dialética do processo nacional nos autoriza a
definir como revolucionária a mudança social consubstanciada na passagem do estado
de subdesenvolvimento ao pleno desenvolvimento embora dentro do mesmo regime
produtivo (...)‖ (PINTO, 1960, v. 2, p. 577). Esse primeiro estágio poderia constituir um
passo preliminar de mudanças que atingissem o próprio ―regime de produção‖.
A perspectiva revolucionária que propunha subverter esse regime não era
urgente, pois a única revolução possível seria a consolidação do desenvolvimento
nacional e do capitalismo nos países periféricos. Logo, a perspectiva etapista, aqui, salta
aos olhos.

4.2.4 As principais teses do nacional-desenvolvimentismo

Entre as principais teses desenvolvimentistas126, está a compreensão de que o


período de industrialização do país teria se dado por via da substituição de importações,
ou seja, da produção interna de mercadorias até determinado momento importadas. A
perda de dinâmica do setor exportador, em função da grande depressão de 1929 e em
consequências das guerras, teria reorientado a atividade econômica ampliando a
produção nacional. Afiançada pela reserva de mercado – a partir de proteção de tarifas e
de câmbio – o processo de substituição, ainda que fundamental para economia nacional
gerou, como consequência, ―desequilíbrio crônico‖ da balança de pagamentos.
A segunda tese que nos parece importante destacar é a de que o lugar da divisão
internacional do trabalho, desfavorecedor dos países primário-exportadores, levaria ao

126
Essa sessão está principalmente baseada em apontamentos realizados a partir de Maria da Conceição
Tavares, ―Auge e declínio do processo de substituição de importações no Brasil‖ (TAVARES, 1972).

183
desequilíbrio externo assim como à deterioração dos termos de troca entre produtos
exportados pelo Brasil em relação aos dos países centrais.
A terceira diz respeito à ―dualidade estrutural‖. Isto é, para que a
industrialização se desenvolvesse, seria necessário superar o ―atraso‖ ou o ―pré-
capitalismo‖, as dualidades regionais embutidas nas marcantes diferenças entre centro-
sul versus norte e nordeste do país e as iniquidades sociais. Ela tem como consequência
um raciocínio dualista envolvido na incorporação polar de ―urbano-industrial‖ versus
―agrário‖ ―atrasado‖.
Outra tese que deriva das permanências ―pré-capitalistas‖ é a de que o capital
industrial se veria em dificuldades de desenvolvimento por conta do estreitamento,
estrangulamento, ou atrofia do mercado interno. A tese parte da premissa de que seria
necessário ampliar o mercado de consumo, uma vez que ele, atrofiado, obstacularizaria
a expansão da própria industrialização. O fulcro da questão do mercado interno, como já
discorrido mais acima, se localizava na estrutura agrária que prendia o trabalhador à
terra e que, sem constituírem-se como ―assalariados‖ ou com salários muito baixos, não
formariam demanda para o mercado. Baseando-se provavelmente na tese da ―demanda
efetiva‖ e em teorias do ―subconsumo‖ não se perceberia a dinâmica própria da
apropriação da força de trabalho enquanto parte da ampliação das taxas de lucro,
atribuindo-a o cadafalso da ausência de distribuição de renda. A reforma agrária passa a
ser, então, a mais importante das reformas a serem realizadas, pois em sua decorrência
aumentar-se-ia a demanda e o escoamento da produção industrial a partir da absorção
da própria demanda. Logo, não se tratava de ruptura com o imperialismo, mas da
intervenção Estatal no interior da ordem com intuito de liberar os entraves ao
desenvolvimento.
A última tese aqui destacada é consequência totalizante das teses anteriores. A
de que, devido ao tipo de desenvolvimento no continente, a estagnação econômica seria
inevitável: ―a análise do processo histórico latino-americano leva à conclusão de que,
abandonadas ao laissez-faire, as economias da região tendem à estagnação‖
(FURTADO, 1966, p. 14). Tal estagnação só se reverteria com uma mudança de cunho
estrutural nas funções do Estado e a partir de um programa de planificação.
Uma síntese do programa desenvolvimentista é apresentada por Ricardo
Bielschowsky (2000) que o entende, resumidamente, como uma ―ideologia de
transformação da sociedade brasileira‖, a partir de um projeto econômico composto
centralmente pelos quatro pontos que se seguem:

184
a) a industrialização integral é a via de superação da pobreza e do
desenvolvimento brasileiro;
b) não há meios de alcançar uma industrialização eficiente e racional no
Brasil através das forças espontâneas do mercado, por isso é preciso que o
Estado a planeje;
c) o planejamento deve definir a expansão desejada dos setores
econômicos e os instrumentos de promoção dessa expansão;
d) o Estado deve ordenar também a execução da expansão, captando e
orientando recursos financeiros, e promovendo investimentos diretos
naqueles setores em que a iniciativa privada seja insuficiente
(BIELSCHOWSKY, 2007 [1988], p. 7).

4.3 Faoro: a tese patrimonialista e o “capitalismo político”

Obra de influência seminal nos estudos sobre a formação política do Brasil, Os


donos do poder (1958) de Raymundo Faoro127 convida-nos a uma ―viagem redonda‖.
Nesta obra, a história interliga-se ao passado em uma influência quase inquebrantável,
tonificando a política brasileira originada à sombra da herança patrimonialista: um
capitalismo apensado à política (FAORO, 2000).
Criador (patrimonialismo) e criatura (capitalismo político) teriam como
resultado um ciclo vicioso, segundo o qual a ordem competitiva não se desenvolveria,
podemos dizer, de forma ―virtuosa‖. Fundamentado em conceitos de Weber como, por
exemplo, o de estamento128, Faoro remonta genealogicamente o Estado patrimonial
português enquanto ―genoma‖ inscrito no DNA do Estado brasileiro.
Precocemente edificado por Portugal, o caráter de Estado teria inviabilizado o
desenvolvimento independente de classes, trazendo a direção da economia para seu
interior e desvinculando-o dos arbítrios de classes economicamente dominantes. Com
seu patrimônio sustentado na renda da terra (arrendamento) e produção voltada para
empresa colonial do poder central, o Estado patrimonial erguia-se tendo por trás de si
uma burocracia permanente.129

127
O autor foi importante jurista brasileiro, dirigente da OAB e militante opositor à ditadura militar e,
posteriormente, apoiador e militante do Partido dos Trabalhadores (PT).
128
Em Weber, a estratificação de estamentos relaciona-se com o monopólio de bens ideais ou materiais,
grupos de status determinados pela honra, ditame do estilo de vida levada a cabo pelos pertencentes a um
mesmo grupo estamental. O conceito diferencia-o do de classe, fundamentalmente homogeneizado por
relações econômicas e mediado pela práxis da luta de classes e do movimento da consciência social; e do
de castas, onde se encontra um sistema de direitos e deveres envolvidos, tendo na ação religiosa e na
determinação da posição hierárquica ―mística‖ um exemplo explícito.
129
Uma burocracia, entretanto, que, diferente de Weber, não seria racional. É relevante o seguinte
comentário de Demier (2012a): ―Desde praticamente o seu nascimento, o pensamento social brasileiro
produziu muitas reflexões marcadas por concepções teóricas que tomavam (tomam) Estado e sociedade
como entidades abstratas e estanques. Em conhecidos e importantes trabalhos informados pela

185
Outra consequência não menos importante do Estado patrimonial foi parte de
sua intenção racional: o capitalismo político. O capitalismo político, desvirtuado da
ordem competitiva liberal e vinculado à estrutura de Estado, apresentaria uma
racionalidade invertida, na qual ―o comércio e a indústria reduzem-se a alimentar as
necessidades do Estado‖ (FAORO, 2000, p. 12). A dependência da economia brasileira,
apesar de inegável, seria uma dependência por via do Estado e de sua camada
controladora apta a participar de vantagens do intercâmbio. A livre iniciativa econômica
se tornaria inviável quando não dirigida e submetida às diretrizes do poder central, já
que:
O patrimonialismo – com a sua criatura, o estamento burocrático – continha,
no próprio seio, o germe do suicídio econômico. Desenvolvera uma
concepção de vida avessa ao trabalho produtivo e à rotina, comprazendo-se,
exclusivamente, no amor aos postos e empregos públicos (FAORO, 2000, p.
41).

Herdado diretamente de Portugal, o Estado brasileiro não negaria a


ancestralidade que o circundava. Ao pensar o Estado patrimonialista e o capitalismo
orientado, Faoro projeta a formação da classe política dominante brasileira segundo
reflexo da relação do Estado ―independente‖ frente às classes: ―Em virtude desse
fenômeno (...) o Estado projeta-se, independente e autônomo, sobre as classes sociais e
sobre a própria nação.‖ Assim, Estado ―e nação, governo e povo são realidades diversas,
que se desconhecem, e, não raro, se antagonizam‖ (FAORO, 2000, p. 45). Além disso,
essa configuração de capitalismo politicamente orientado teria tornado inseparáveis os
interesses privados dos públicos, concretizando os interesses particulares a partir da
mediação do espaço público130.

perspectiva weberiana, o Estado brasileiro é apresentado, grosso modo, como uma gigantesca
deformidade burocrática, resultante, segundo alguns autores, do próprio processo de colonização
portuguesa, que teria deixado em nossa formação social e, consequentemente, em nossas instituições
públicas (quando não nas ‗mentalidades‘ do povo brasileiro), as marcas ‗patrimonialistas‘ do além-mar.
Produtor e produto de uma ‗cultura nacional autoritária‘, o Estado brasileiro, ao longo do século XX, teria
se mantido como uma instituição permeada por interesses particulares daqueles indivíduos que ocupavam
seus postos de comando, o que teria tornado a máquina pública do país distinta do modelo de um
aperfeiçoado Estado moderno, compatível com uma forma de dominação ‗racional-legal‘. Nessa linha de
raciocínio, ao invés de terem servido à ‗sociedade‘, os membros do corpo estatal, desprovidos de uma
conduta impessoal no trato da ‗coisa pública‘, teriam representado – e continuariam a fazê-lo, segundo
alguns analistas –, somente a si próprios (‗Estado cartorial‘). A nosso ver, esse tipo de perspectiva,
sobretudo em função dos limites impostos por suas próprias referências teóricas, não chegou a captar
mais do que a superfície do problema‖ (DEMIER, 2012a, p. 10).
130
Essa leitura levará, consequentemente, à ideia da ―privatização do espaço público‖.

186
Essa viagem ao subterrâneo secular patrimonialista serve, ao fim do livro, para
aventar a possível superação da ordem burocrática por parte de seus alijados, ou seja, a
classe média urbana e rural, o proletariado urbano (e uma nova classe social dele
emergente), a pequena burguesia, os proprietários e privilegiados por educação, além
dos intelectuais sem propriedades e dos técnicos assalariados. Visto que este conjunto
teria sempre sido apartado do sistema político, residiria neles a possibilidade de
transformação da história, subvertendo as marcas de sua fundação, segundo a qual: ―A
eleição, mesmo que formalmente livre, lhe reserva a escolha entre opções que ele não
formulou‖ (FAORO, 2000, p. 380). A cisão entre Estado e sociedade teria agora uma
nova componente, que, conforme deixa em aberto Faoro, poderia ser sujeito da
mudança através da participação, iluminando a sombra do passado e transformando essa
ordem social: os ―alijados‖, que haviam ficado de fora do capitalismo político, criador e
criatura das classes dominantes e da trajetória colonial brasileira.
Faoro se constituirá como intelectual-militante dos mais influentes nos rumos da
resistência democrática à ditadura. Presidente da OAB ao final de 1970, a autarquia terá
destacado papel na proposição de uma Assembleia Constituinte soberana. Acompanhará
a fundação do PT, será o quadro indicado por Lula a disputar, em sua chapa de 1989, a
vice-Presidência da República, convite por ele recusado. Continuará entusiasta e
apoiador de Lula e do PT até, ao menos, a eleição de 2002. As análises do autor
pertinentes à década de 1980 serão retomadas um pouco mais à frente.

4.4 Revolução brasileira e o golpe: economia e política entre 1964 e 1975

As burguesias nacionais dessas nações converteram-se, em consequência, em


autênticas „fronteiras internas‟ e em verdadeiras „vanguardas políticas‟ do
mundo capitalista (ou seja, da dominação imperialista sob o capitalismo
monopolista). (...) Elas querem: manter a ordem, salvar e fortalecer o
capitalismo, impedir que a dominação burguesa e o controle burguês sobre o
Estado nacional se deteriorem (FERNANDES, 1976, p. 294-295).
O caso brasileiro confere um bom exemplo aos termos principais em evidência
no debate das estratégias. A consolidação de nosso domínio burguês teria seguido uma
via não clássica (da via não clássica)131, forma própria e particular de expressão dos
caminhos passivos, encapuzados, pelo alto, prussianos ou conservadores da
consolidação do capitalismo. A forma como se efetivou e a possível estratégia para sua
superação, que caminham em paralelo, deu-se, sobretudo, de maneira traumática: a

131
Uma análise mais pormenorizada da ―via não clássica da via não clássica‖ se encontra no texto de Iasi
―O PT e a revolução Burguesa no Brasil‖ (IASI, [201-]).

187
revolução burguesa ―faltou ao encontro‖ e tanto as teorias clássicas como as nacional-
desenvolvimentistas132, parte da ―visão de mundo‖ daquela época, cairiam por terra. O
escopo do golpe militar desiludiu as principais interpretações de maneira prática e
severa e a singularização teórica sobre o desenvolvimento do capitalismo no Brasil –
indissociável das reflexões das organizações de esquerda e de intérpretes da classe
trabalhadora – ensejaria novas caracterizações.
(...) Sobretudo, aqui, qualificam-se como revolução movimentos políticos
que somente encontram a sua razão de ser na firme intenção de evitá-la, e
assim se fala em Revolução da Independência, Revolução de 1930,
Revolução de 1964, todos acostumados a uma linguagem de paradoxos em
que a conservação, para bem cumprir o seu papel, necessita reivindicar o que
deveria consistir no seu contrário – a revolução. Nessa dialética brasileira em
que a tese parece estar sempre se autonomeando como representação da
antítese, evitar a revolução tem constituído, de algum modo, na sua
realização (VIANNA, 1997b, p. 12).

Ruy Mauro Marini (2012, p. 73)133, ao refletir sobre o golpe, sublinha os limites
da análise que lhe conferia sentido ―surpreendente‖ por se calcar em insuficiente
compreensão da realidade brasileira. Para Marini, os diversos setores que nunca
souberam explicar o motivo pelo qual ―(...) quando pareciam chegar ao poder, este lhes
foi inesperadamente arrebatado sem que se disparasse um só tiro‖ (2012, p. 73),
acabariam adotando uma narrativa exógena aos acontecimentos, para a qual o golpe se
tratava de uma ―intervenção disfarçada dos Estados Unidos‖. Essa leitura, em seu ponto
de vista, seria resultado de uma incompreensão da face integrada e interdependente do
capitalismo dependente ao imperialismo.
Caio Prado também será um relevante crítico das interpretações políticas que
subsidiariam tal derrota. Em A revolução brasileira, criticará o paradigma clássico
feudal, substituindo-o pela via colonial – e heterônoma – de desenvolvimento
capitalista. A perpetuação colonial resultava em uma burguesia brasileira, e não
nacional, incapaz de cumprir a ―etapa‖ democrático-burguesa, a ser substituída por um
processo de mudanças estruturais, impulsionado pela pressão dos trabalhadores e
aliados.
Fernandes (1976) compreende que o ciclo do domínio burguês teria se
completado de forma particular. Seria equivocado, então, esperar que a revolução

132
Vale lembrar que tanto as teorias clássicas como as nacional-desenvolvimentistas informaram a
estratégia democrática e nacional (ora rupturista, ora gradual e pacífica) do PCB e de alguns de seus
―rachas‖, como o PCdoB, cujo cerne se vinculava à afirmação de uma etapa de desenvolvimento do
capitalismo.
133
Tal argumentação está presente no livro Subdesenvolvimento e revolução, publicado originalmente em
1969 no México.

188
burguesa no Brasil se desse segundo paradigmas típicos que alçavam o ―democrático-
burguês‖ a um parâmetro universal. A questão
(...) estaria mal colocada, de fato, se se pretendesse que a história do Brasil
teria de ser uma repetição deformada e anacrônica da história daqueles povos
(EUA e Europa). Mas não se trata disso. Trata-se, ao contrário, de determinar
como se processou a absorção de um padrão estrutural e dinâmico de
organização da economia, da sociedade e da cultura. (FERNANDES, 1976,
p. 20).
Para ele, por conseguinte, seria necessário repensar a realidade para fornecer
novo marco à luta revolucionária.
O marco de 1964 (completado pelo apogeu a que chegou o golpe em 1968-
1969) ilustra muito bem a natureza da batalha que as classes trabalhadoras
precisam travar no Brasil. Elas precisam libertar-se da tutela terminológica da
burguesia (isto é, de relações de dominação que se definem, na área da
cultura, como se fossem parte do ar que respiramos ou "simples palavras").
Ora, em uma sociedade de classes da periferia do mundo capitalista e de
nossa época, não existem "simples palavras". A revolução constitui uma
realidade histórica; a contrarrevolução é sempre o seu contrário (não apenas a
revolução pelo avesso: é aquilo que impede ou adultera a revolução)
(FERNANDES, 1981).

O golpe, autoapresentado como ―revolução‖ pelos militares e depois como


―contrarrevolução preventiva‖ também por um de seus porta-vozes, representou o limiar
histórico de cisão prática da interpretação sobre a revolução brasileira. Assim, a palavra
―revolução‖ não mais poderia se confundir e as prerrogativas práticas dos de baixo eram
diversas frente às das classes dominantes.
Por outro lado, o período da ditadura empresarial-militar subverteria teses da
atrofia e da inviabilidade do desenvolvimento capitalista brasileiro. Baseado
precisamente na exploração do trabalho, na associação dependente com o imperialismo
e na completa restrição democrática, o período empresarial-militar, se interpretado
segundo premissas da teoria da revolução brasileira, levaria o capitalismo à bancarrota
ou à estagnação. Ao inverso, as características outrora tomadas como cadafalso do
capitalismo proporcionariam amplas taxas de lucro justamente por se valerem do
aprofundamento da desigualdade e do alargamento das condições de dependência – via
superexploração do trabalho.
O resultado da crítica para a consolidação de uma nova estratégia hegemônica
demoraria alguns anos a mais para tomar forma. Começavam a germinar, entretanto, no
processo histórico, questões que seriam enfrentadas em um novo ciclo estratégico.
Sobre as dúvidas em relação à melancólica reflexão crítica num momento em que todos
estariam abatidos pelas forças da contrarrevolução, diria Florestan:

189
Enganam-se os que pensam que o momento seria errado. Batidas pela reação
e derrotadas sem luta eficiente pela contrarrevolução, as forças de esquerda
têm diante de si um árduo caminho a percorrer. O começo desse caminho está
na crítica severa dos erros cometidos e de suas causas, o único meio
apropriado para vencer o descrédito, conquistar um ressurgimento rápido e
adquirir vitalidade para enfrentar os futuros confrontos que nos esperam
(FERNANDES, 2011 [1968], p. 128).

Vejamos, então, parte das reflexões que, entre 1964 e 1975 floresceriam no
âmbito da teoria social brasileira.

4.5 Antidualismo e revolução socialista

Caio Prado (1966) avaliou criticamente as teses ―clássicas‖ que serviram de


substrato para estratégia democrática e nacional do PCB e da Internacional Comunista
(IC). Sua contribuição nos parece basilar para o pensamento revolucionário brasileiro e
para lançar luz ao ciclo histórico que, futuramente, se consolidaria na estratégia
democrática e popular do PT.
Ao discordar do PCB e da fórmula democrática e nacional da revolução, Caio
Prado Jr. o faz sob a recusa de uma leitura automática da revolução brasileira segundo
um receituário de fatos. Nega, assim, contundentemente, uma vinculação aos
pressupostos da fórmula ―democrático-burguesa‖ até ali hegemônica na formulação
subsidiária à estratégia revolucionária.
O autor observa como, no sentido originalmente empregado, o termo revolução
se referiria ao ―emprego da força e da violência para derrubada do governo e tomada do
poder por algum grupo‖ (1966, p. 1). Neste sentido, ―‗Revolução‘ teria o sentido que
mais apropriadamente caberia ao termo ‗insurreição‘‖ (p. 1). Opondo-se a essa acepção,
o autor afirma que ―‗Revolução‘ em seu sentido real e profundo, significa um processo
histórico assinalado por reformas e modificações econômicas, sociais e políticas
sucessivas‖ (p. 2), que, empregadas num período ―histórico relativamente curto, vão dar
em transformações estruturais da sociedade, e em especial das relações econômicas e do
equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais‖ (p. 2, grifos nossos). O
emprego do termo em A revolução brasileira, portanto, estaria atrelado a
transformações profundas que pudessem reestruturar a vida do país de forma que se
incorporassem ―as aspirações da grande massa de sua população que, no estado atual,
não são devidamente atendidas‖ (p. 3).

190
Diante do diagnóstico apresentado pelo PCB sobre a fase antifeudal da
revolução brasileira, Caio Prado Júnior (1966) afirma que, fruto das características
perenes herdadas da sociedade colonial brasileira, as relações econômicas observadas
muito mais se assemelhariam a relações capitalistas – assalariamento e trabalho livre –
do que a qualquer estatuto de relação feudal. Assim, segundo o autor, a contradição
principal da formação social brasileira não se encontrava na ―questão agrária‖ ou no
campo, já que esta teria sido, desde seus primórdios, moldada por fatores de natureza
mercantil. Isto é, a colonização e o desenvolvimento atrelado ao ―sentido da
colonização‖, ou seja, à heteronomia econômica, arrolariam o país em uma relação
―empresarial capitalista‖, cujo cerne seria o capitalismo comercial-mercantil. A
reivindicação da propriedade da terra não lhe parecia, em consequência, fundamental
para os camponeses, pois estes seriam assalariados e não proprietários – e não
formariam uma classe porque não tinham consciência revolucionária.
A dominação imperialista se engendraria por essa mesma origem: a colonização
do Brasil influenciara de tal maneira as instituições econômicas, políticas e sociais, que
elas teriam origem ―nessa mesma civilização e cultura ocidentais que seriam o berço do
capitalismo e do imperialismo‖ (PRADO JÚNIOR, 1966, p. 121). Sob herança dessa
trajetória, a economia brasileira evoluiu com raízes no capitalismo mercantil baseado no
fornecimento aos mercados externos, ―o que definiria a característica de relação com o
imperialismo‖ (p. 122) em uma ―situação de dependência e subordinação orgânica e
funcional‖ (p. 182).
Por isso, na visão de Caio Prado não existiria uma ―burguesia nacional‖
supostamente oposta ao interesse de latifundiários e inimiga do imperialismo, mas uma
burguesia brasileira. As frações internas e externas da burguesia se veriam ligadas a
ramos de produção distintos, muito mais em associação do que em combate. Tal
situação seria tributária do fato de que, de um ponto de vista histórico, a característica
heterogênea de origem desta burguesia134 não suplantava a homogeneidade de seus
interesses e a maneira de conduzi-los, fundida em interesses comuns e conferindo-lhe
alto grau de coesão. Ressalta, ainda, que várias das primeiras indústrias brasileiras
tinham sido construídas por fazendeiros de café, o que borra a suposta oposição entre
burguesia e ―aristocracia‖. Assim, ―os diferentes setores da burguesia evoluíram

134
Os primeiros representantes do que seria um rudimento da burguesia urbana brasileira teriam sido
comerciantes portugueses, aos quais se teriam somado, a partir da abertura dos portos, comerciantes de
outras nacionalidades.

191
paralelamente, ou antes, confundidos numa classe única formada e mantida na base de
um mesmo sistema produtivo e igual constelação de interesses‖ (PRADO JÚNIOR,
1966, p. 182).
Mas o capitalismo brasileiro não seria idêntico àqueles vigentes no centro do
sistema. A natureza de uma economia voltada para fora, e submetida às imposições do
imperialismo, produzia a insuficiência de sua capacidade produtiva que, devido à não
superação da heteronomia herdada dos tempos de colônia, continuava condicionada por
necessidades externas à nossa formação social e não às necessidades internas do ―povo
brasileiro‖. Por se expandir a partir de relações de trabalho da massa trabalhadora com
baixos níveis de vida, a impossibilidade de consumo qualificado era decorrente das
deficiências orgânicas da vida econômica e social do país. A superação dessa
contradição e o desenvolvimento de uma economia interna pressupunham libertação das
contingências coloniais.
Um desenvolvimento geral e sustentável que, a partir do Estado, levasse em
conta o aumento da demanda e sua articulação com as necessidades fundamentais de
consumo devia incorporar uma massa de trabalhadores destituída de tudo,
impossibilitada de criar demanda para um mercado interno. A condição principal para o
amadurecimento desta nova realidade seria a proposição, por parte da esquerda, de um
programa de reformas necessárias ao progresso e ao ―desenvolvimento do país e do
povo brasileiro‖ (PRADO JÚNIOR, 1966, p. 330).
Caio Prado, em busca de um Brasil-nação, vê no aumento da demanda do
mercado interno a possibilidade de suplantar insuficiências do capitalismo, que para tal
deveria ser ―autônomo‖. Para negar a condição colonial ininterrupta e criar bases para
revolução socialista, que não estariam dadas no país, uma ―vontade geral‖, o Estado,
deveria induzir o desenvolvimento capitalista brasileiro. Outrossim, uma aliança entre
trabalhadores e camponeses teria como finalidade pressionar o Estado para pautar a
reorientação do mercado, segundo a satisfação das necessidades da população em
oposição aos grandes grupos imperialistas. A ampliação do mercado interno não se
realizaria, portanto, a partir da livre iniciativa privada, pois esta se pautaria pelo
interesse ―egoísta‖ do lucro.
Nos termos em que apresenta, chama atenção para os nexos que articulam o
pensamento social brasileiro e as estratégias para revolução. Não apenas no Brasil em
particular, mas na periferia do mundo capitalista, a questão ―colonial‖, ―nacional‖,
―agrária‖ e a relação com o ―imperialismo‖ foram elementos marcantes na controvérsia

192
da teoria subsidiária à estratégia. É forçoso reconhecer que Prado recoloca, ainda que
sob nova qualidade, o problema da incompletude nacional – obstaculizada pela
perseverança do legado heterônomo –, que condicionaria a luta dos assalariados (do
campo e da cidade) às tarefas de completude da nação, fundamentalmente com o
fortalecimento de um mercado interno de consumo massivo realizado por meio de um
programa de desenvolvimento geral e sustentável que tivesse no incremento da
demanda a mola propulsora do desenvolvimento. Logo, ainda que as relações
econômicas fossem já alicerçadas sobre contradições da relação capital-trabalho, a
condição heterônoma estruturante recolocava incessantemente ―deficiências orgânicas‖
que demandariam autonomia nacional.
A argumentação do autor afirma a ideia de que o capitalismo seria
estruturalmente incompleto pela gênese particular de seu desenvolvimento: teria sempre
sido capitalista, porém determinado pelas decisões e interesses exógenos, ou seja, por
um tipo de perpetuação o modus operandi colonial. Assim, ao apresentar um programa
para revolução brasileira Prado não surpreendentemente acaba encerrando uma fórmula
muito próxima à estratégia democrática e nacional, porém através de um programa de
reconhecimento das ―pendências‖, ―insuficiências‖ ou ―incompletudes‖ do capitalismo.
Não haveria nação, pois não teríamos burguesia nacional capaz de cumpri-la, e os
trabalhadores, destituídos de tudo, compunham uma miríade que, incapaz de incorporar-
se economicamente se via inviabilizada de constituir consciência. O Estado – sem
avaliações sobre o seu caráter – é que aparece como agente político e econômico apto a
promover um projeto de supressão das ―pendências‖ ou ―incompletudes‖ da nação.
De que maneira dar-se-ia tal fato? 1) Os ―vícios estruturais‖ de nossa formação
permitiriam que a acumulação de capitais se desse com altas taxas de lucro, ainda que
mantendo a maioria da população à margem dos patamares de consumo. Sem
capacidade de constituir um mercado interno, seria necessário um processo de
desenvolvimento que superasse a falta de demanda e, daí, impulsionasse a produção; 2)
a revolução seria um programa, um longo processo de mudanças que dependeria da
prévia condição deste desenvolvimento – geral e sustentável; 3) não aponta para
expropriação da iniciativa privada, mas para o fim da ―livre iniciativa privada‖, que
deveria ser colocada sobre o controle do Estado – o ―sujeito‖ político e econômico do
processo de desenvolvimento sustentável, que, a partir de um arco de alianças entre
trabalhadores, camponeses e pequenos proprietários sofreria pressão para efetivação
deste programa; 4) a demanda seria o elemento primordial do desenvolvimento

193
econômico, como se a ampliação desta fosse ser a mola propulsora daquele. Em
nenhum momento Prado faz uma análise do caráter e dos compromissos de classe do
Estado no Brasil, o que permite a sua suposição neutral. Neste sentido, retrocede à
própria estratégia democrática e nacional, mesclando o projeto da revolução brasileira
com uma visão nacional-desenvolvimentista e na perpetuação da heteronomia
econômica.
Do ponto de vista crítico ao modelo nacional-desenvolvimentismo, abordemos,
agora, algumas linhas – despretensiosas, aliás – sobre o clássico ―Crítica à razão
dualista‖, de Oliveira (1972), texto no qual o autor empreende crítica ao método
estruturalista e seus diagnósticos. Como sabido, o sociólogo realiza uma profunda
crítica ao dualismo estrutural cepalino, recolocando as maneiras frente às quais o
moderno se alimentaria do atraso e acertando contas com a esfera política do
desenvolvimento capitalista brasileiro: durante o período varguista, a Consolidação das
Leis Trabalhistas (CLT) seria a principal forma de expansão do assalariamento e,
portanto, da base estruturante de relação social do capital.
No plano teórico, o conceito do subdesenvolvimento como uma formação
histórico-econômica singular, constituída polarmente em torno da oposição
formal de um setor ―atrasado‖ e um setor ―moderno‖, não se sustenta como
singularidade: esse tipo de dualidade é encontrável não apenas em quase
todos os sistemas, como em quase todos os períodos. Por outro lado, a
oposição na maioria dos casos é tão somente formal: de fato, o processo real
mostra uma simbiose e uma organicidade, uma unidade de contrários, em que
o chamado ―moderno‖ cresce e se alimenta da existência do ―atrasado‖, se se
quer manter a terminologia (OLIVEIRA, 1972, p. 12).

A interpretação do arranque industrial que se dá pós-anos 1930 é vista pelo autor


como exageradamente reduzida à chamada ―substituição de importações‖: a crise
cambial encarecia os bens até então importados e, no limite, a não disponibilidade de
divisas e a Segunda Guerra Mundial impediam, até do ponto de vista físico, o acesso
aos bens importados. Tal quadro teve como consequência uma demanda contida ou
insatisfeita, que seria um horizonte de mercado estável e seguro para os empresários
industriais. Sem ameaça de competição, poderiam produzir e vender produtos de
qualidade mais baixa que os importados a preços mais elevados. Posteriormente, a
adoção de uma política alfandegária protecionista ampliaria as margens de preferência
para os produtos de fabricação interna. Não haveria dúvida, com isso, de que a
descrição corresponderia, sinteticamente, à forma do processo.
Segundo o modelo dualista cepalino, nessa forma estaria a raiz da formação
dos dois polos, o ―atrasado‖ e o ―moderno‖, e a imposição de formas de
consumo sofisticadas que debilitariam a propensão para poupar de um lado, e

194
de outro, por serem demandas quantitativamente pouco volumosas,
obrigariam a indústria a superdimensionar suas Unidades, adotar técnicas
―capital-intensive‖ diminuindo o multiplicador do emprego, trabalhar com
capacidade ociosa e deprimir a relação produto/capital: a longo prazo isso
redundaria numa deterioração da taxa de lucro e da taxa de inversão e,
consequentemente, da taxa de crescimento (OLIVEIRA, 1972, p. 21-22).

A perspectiva dualista perceberia, portanto, o caráter desigual, porém não


combinado, calcado no nacional-desenvolvimentismo. Como sabido, o remédio para a
equação dual seria, segundo essa lógica, um processo de desenvolvimento nacional
controlado e impulsionado pelo Estado.
A proeminência da teoria do subdesenvolvimento impedira, do ponto de vista
teórico, a formação de uma interpretação sobre o capitalismo pautada na ―oposição
entre classes sociais internas‖, representando, assim, ―a ideologia própria do chamado
período populista‖. Se avaliado pela contradição capital-trabalho, era notório que o
populismo ter-se-ia pautado pelo aumento da taxa de exploração do trabalho pelo
capital. O conjunto de condições necessárias à criação e recriação do desenvolvimento
capitalista brasileiro teve na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), e na reprodução
do valor da força de trabalho, o cerne de sua expansão justo naquele período.
O artigo de Oliveira é referência obrigatória até hoje da perspectiva crítica ao
nacional-desenvolvimentismo e dualismo, pois demarca o caráter de classe da expansão
do capitalismo brasileiro – baseado na exploração do trabalho e no papel do Estado. O
populismo enquanto via de desenvolvimento do capitalismo brasileiro seria realizado a
partir de um ―Estado de compromisso‖ que envolvia classes e frações de classes,
pautado na incorporação das massas populares na vida política e econômica. Outrossim,
o populismo, enquanto ―etapa‖ econômica de modernização capitalista, deslocava para a
via política a percepção da forma que este processo ter-se-ia desenvolvido no Brasil.
Florestan Fernandes, principal sociólogo brasileiro, militante socialista
futuramente deputado e militante do Partido dos Trabalhadores (PT), vai se dedicar, em
diversos livros e ensaios, à compreensão do particular desenvolvimento de nossas
relações capitalistas segundo seu caráter modernizador-conservador.
Em artigo de 1968, em que analisa as teses de A revolução brasileira135, de Caio
Prado Júnior, Florestan critica o limite no qual Prado equaciona historicamente sua
proposta, pois tratar-se-ia ―literalmente uma revolução burguesa‖ (FERNANDES, 2011,

135
O artigo a que nos referimos foi publicado, pela primeira vez, em janeiro de 1968 no Jornal da
Senzala, sob o título (dado pela redação): ―Caio Prado não disse tudo‖.

195
p. 131). Lamentando que Caio Prado Júnior não tenha ultrapassado um programa
balizado por ―interesses nacionais, de origem capitalista e de significação burguesa,
como se no futuro voltasse a imperar o velho esquema da ‗união sagrada‘‖ (p. 132),
afirma, ao avesso, que a revolução brasileira precisaria se projetar segundo ―valores‖,
―ideais‖ e ―meios políticos‖ que pudessem conduzir a revolução brasileira no sentido do
socialismo.
Do ponto de vista da análise das linhas de desenvolvimento assumidas pelo
capitalismo brasileiro, Caio Prado não teria, para o autor, buscado explicar como ele foi
absorvido internamente, ou, a maneira pela qual o capitalismo – comercial e depois
industrial – teria se convertido em forma histórica de ―subcapitalismo ou de capitalismo
periférico e dependente‖ (FERNANDES, 2011, p. 129). Assim, Florestan enfrenta o
―sentido‖ de continuidade vinculado à heteronomia em Caio Prado, substituindo o
centro de sua análise pelo padrão interno de associação dependente e periférica ao
imperialismo. A ―burguesia brasileira‖, por sua vez, seria incapaz de promover qualquer
sorte de programa capitalista autônomo, nacionalista integrado, posto que se movia em
busca de ―vantagens relativas‖, associando-se com nações capitalistas centrais.
Da maneira pela qual os argumentos foram formulados, desembocamos em
soluções mais ou menos viáveis no cenário brasileiro e todas
indubitavelmente favoráveis aos trabalhadores, à expansão de uma economia
de mercado, à consolidação da ordem social competitiva etc. Agora, o
programa delineado, visto em termos dos requisitos políticos do socialismo,
deveria ater-se a esses aspectos da situação? Além disso, seria verdadeiro que
os compromissos nacionais são suficientes, numa fase de transição de uma
economia capitalista controlada de fora para uma economia capitalista
controlada de dentro, podendo satisfazer as exigências, as esperanças e os
ideais do socialismo? (FERNANDES, 2011 [1968], p. 130).

A solução para superar o estado de debilidade orgânica da esquerda seria a


formulação de um programa socialista. Só assim os socialistas ganhariam ―condições de
atuação autônoma e consciência dos marcos políticos‖ (FERNANDES, 2011 [1968], p.
132) delimitadores da fase da revolução brasileira.
Em 1970, ao debater os movimentos de guerrilha na América Latina, Fernandes
(2015) argumenta sobre a configuração do capitalismo monopolista em nações
periféricas, concluindo que, em países de capitalismo dependente, a burguesia não
poderia liderar uma revolução nos moldes nacionais e democráticos, pois só moveria
mudanças na ―ordem interna até certo ponto‖ (FERNANDES, 2015, p. 71): ―sob o
capitalismo dependente a revolução burguesa é um produto da articulação entre centro e
periferia, em nome de uma confluência de interesses conservadores, internos e

196
externos‖ (p. 71). Ultrapassar a ―revolução burguesa em atraso‖ equivaleria a
―desencadear uma mudança incontrolável‖, pois provocaria o povo e a nação; neste
sentido, a burguesia só desencadearia mudanças até determinado momento.
Já em 1971, o autor avalia as entranhas do capitalismo dependente
(FLORESTAN, 1973) a partir das relações de dominação do imperialismo. Para ele,
―caso‖ brasileiro não seria superado pelo embate entre laissez faire versus
planejamento, ou ―planejamento democrático‖ versus ―planejamento centralizado‖, pois
nosso capitalismo, para se preservar, seria tanto antiliberal como antidemocrático. A
hegemonia burguesa ―duplamente composta‖ fundiria interesses internos e externos de
forma ―interdependente e articulada‖ (p. 146), associação que originaria e preservaria de
forma continuada ―um padrão de mudança social que continuadamente reorganiza a
dependência, a espoliação, a miséria e as iniquidades sociais que tornam a revolução
nacional uma improbabilidade histórica‖ (p. 146). Seguindo:
Em segundo lugar, há uma mudança social que se prende aos dinamismos
específicos da expansão interna do capitalismo, um processo histórico
importante, pelo menos em alguns países. O aparecimento de um mercado e
principalmente de um sistema de produção capitalista em escala nacional
conduz a certas transições inevitáveis (do capitalismo comercial ao
capitalismo industrial e deste ao capitalismo financeiro). Essas transições
reproduzem, com maior ou menos intensidade, o que se poderia descrever
como o equivalente latino-americano da revolução burguesa na Europa. Pelo
que se sabe a seu respeito, os aspectos de mudança social que aí se originam
não são de entusiasmar. Parte do processo mais geral da modernização
dependente, eles revelam as mesmas inconsistências e as mesmas tendências
de privilegiar interesses particularistas associados economicamente e
articulados politicamente (FERNANDES, 1973, p. 146, grifos nossos).

Neste sentido, tratava o processo de modernização como prenhe de


possibilidades que seriam interrompidas sempre que pudessem sair do controle.
Outrossim, seu desenvolvimento se daria a partir das dinâmicas próprias do capitalismo
dependente, cujo caráter era estruturalmente conservador.
Em A revolução burguesa no Brasil, sua obra seminal, Florestan (1976) vai
aprofundar ainda mais os nexos entre capitalismo e seu padrão interno. O
desenvolvimento capitalista e a democracia no Brasil não seriam consequência do
evolver um do outro – fato que se constituiria como uma ―resultante política da forma
própria de acumulação de capital nos quadros do capitalismo periférico e dependente.‖
(FERNANDES, 1976, p. 269-270). Nossa burguesia, constituída a partir de um
processo híbrido, uma unidade de interesses comuns de ―várias burguesias (ou ilhas
burguesas) que mais se justapõem do que se fundem‖ (p. 204) levaria ao cabo a

197
revolução burguesa a partir de um processo de modernização conservadora ou
revolução encapuzada. Para ele, essa transição conservadora teria sido encabeçada em
um primeiro momento por elites nativas que não se contrapuseram propriamente à
sociedade colonial, mas às restrições advindas do estatuto colonial, pois este
―neutralizava sua capacidade de dominação em todos os níveis da ordem social‖ (p. 32).
É nesta ruptura, no processo de Independência, que o poder passará a se
organizar a partir de dentro. Apresentaram-se, aí, duas tendências, uma conservadora e
outra revolucionária: esta buscava a ruptura da condição heteronômica a que tinha sido
relegada a economia brasileira e aquela procuraria fortalecer a mesma ordem social tal
qual se encontrava, negando o aspecto revolucionário do episódio da Independência,
restringindo-o à superação jurídica e política do estatuto colonial. E, egressa do
colonialismo, a própria economia urbana nasceria com base econômica agrária,
escravista e dependente.
Um segundo marco importante no processo de dinamização da economia e
amadurecimento das condições internas para uma dominação burguesa teria sido o
período da abolição da escravidão e da consolidação do trabalho livre. Assim, o autor
destaca que, nos períodos antecedentes a uma dominação propriamente burguesa, as
elites nativas, em especial a oligarquia rural ou agrária, se modernizariam buscando
manter influência na dominação. Junto ao imigrante, essa oligarquia desenvolveria uma
concepção burguesa de mundo, assumindo, para si, o pioneirismo da modernização.
Seus interesses e sua unificação enquanto bloco de poder deu-se, portanto, em oposição
à pressão dos novos ―assalariados ou semiassalariados do campo e da cidade‖
(FERNANDES, 1976, p. 210).
Ainda, o terreno político teria sido sempre o campo de confluência de interesses
de classes: ―(...) visavam exercer pressão e influência sobre o Estado e, de modo mais
concreto, orientar e controlar a aplicação do poder político estatal, de acordo com seus
fins particulares‖ (FERNANDES, 1976, p. 204). Florestan, ademais, caracteriza a
irrupção da dominação burguesa no Brasil como fundada em um modelo autocrático
burguês que, se apropriando de elementos arcaicos, acorrentava a ―expansão do
capitalismo a um privatismo tosco, rigidamente particularista‖ (p. 167). Também a
forma autocrática amalgama um desenvolvimento em que os elementos mais atrasados
se repõem permanentemente ―como se o ‗burguês moderno‘ renascesse das cinzas do
‗senhor antigo‘‖ (p. 168). Uma das principais características dessa congière de

198
interesses burgueses seria sua impermeabilidade para a difusão de procedimentos
democráticos, posto que transpassada por um perfil particularista e autoritário.
O caráter da formação econômica do capitalismo no Brasil, em função de sua
não autonomia em relação à dominação externa, seria, portanto, estruturalmente
dependente, subdesenvolvido e periférico. Daí advém mais uma das suas características
particulares: sob a situação de dependência, os estratos dominantes não possuem
autonomia necessária para conduzir e completar uma revolução democrática e nacional.
Na verdade, a dominação burguesa teria que se adaptar a um tipo de transformação
capitalista em que a dupla articulação – desenvolvimento desigual interno e dominação
imperialista externa – constituíam regra. Dessa maneira, essa dupla articulação funda-se
tanto na relação entre o setor arcaico (rural) e moderno (urbano) como na associação
dupla destes interesses com o imperialismo.
Neste diapasão, momentos específicos em que a burguesia participara de
aventuras nacionalistas – as quais ele nomeia radicalismo burguês – deixaram claro que
ela, por mais que lutasse por causas justas, não teria coragem de romper com a
dominação imperialista e com os limites do subdesenvolvimento. Como resultado,
padronizava-se uma modalidade de ―demagogia populista‖, sob a qual não se abririam
espaços políticos para a participação democrática de amplos setores e se agitariam
interesses nacionais como se fossem interesses universais. Estas experiências ―radicais‖,
por sua vez, permitiram à jovem burguesia o despertar para ―sua verdadeira condição,
ensinando-a a não procurar vantagens relativas para estratos burgueses isolados, à custa
de sua própria segurança coletiva e da estabilidade da revolução burguesa‖
(FERNANDES, 1976, p. 365). Nesse sentido, a dominação autocrática teria se
fortalecido e criado sua dinâmica própria de relação. Sua ordem converteu-se em uma
permanente ditadura de classes preventiva, que tem seu aspecto abertamente autoritário
mascarado por demagogias populistas – argamassa para a conciliação burguesa e seus
interesses.
As conclusões apontadas por Florestan abriram caminho a uma reorientação no
que diz respeito aos postulados da revolução brasileira. Sua apreciação estava
fortemente fincada na impermeabilidade da autocracia burguesa à pressão dos de baixo,
o que levaria, em um processo de revolução dentro da ordem que encontraria
resistências, a uma revolução contra a ordem. Para o autor, o embate em torno do
aprofundamento das tarefas em atraso efetivadas por um programa de reformas
conflituosas aos interesses dominantes, poderia levar à revolução contra a ordem.

199
Ademais, em Florestan Fernandes, o sujeito revolucionário seriam os
trabalhadores, os de baixo, em seus termos. Tal fato se deveria à impermeabilidade e à
incapacidade da burguesia em cumprir as tarefas da revolução democrática e nacional.
Ao mesmo tempo, o autor afirma a importância da efetivação de tais tarefas que teriam
ficado ―em atraso‖: uma sociedade ―semidemocrática‖ seria melhor do que uma
sociedade sem democracia nenhuma. As tarefas ―peculiares à revolução burguesa‖ são,
aqui, imbricadas dialeticamente à revolução socialista, em um processo de revolução
permanente.
Articulando todos esses elementos em uma concepção estratégica longe de uma
apologética democrática, mas justamente chamando atenção para seus limites
―restritos‖, o embate entre os de baixo e a ordem burguesa levaria à ruptura. Supomos,
por motivos que mais à frente serão expostos, que a teoria da revolução socialista
brasileira a partir das ―tarefas em atraso‖, contidas em Florestan Fernandes, informa a
estratégia democrática e popular em sua expressão na década de 1980. Voltaremos ao
tema no momento oportuno.

4.6 Weffort, Ianni e o populismo como via de desenvolvimento do capitalismo

O populismo na política brasileira, de 1978, é um livro clássico das Ciências


Sociais. Nele, Francisco Weffort (2003) compila artigos e partes de sua tese, todos
escritos nas décadas de 1960 e 1970, buscando basicamente demarcar que, de seu ponto
de vista, a característica estruturante da vida política brasileira seria a ausência de
participação autônoma do povo ou das massas.
Assim, a história política de todo período pós-anos 1930, e até 1964, estaria
demarcada por uma ―(...) ansiosa busca de compromisso, até entre os grupos políticos
mais antagônicos, que evitasse a radicalização do processo político e seu
encaminhamento para soluções surpreendentes‖ (WEFFORT, 2003, p. 15). Resultante
da crise de hegemonia procedente da ruptura do padrão político oligárquico, que
vigorou até 1930, a forma própria de um ―Estado de compromisso‖ se sobreporia ao
conjunto da sociedade e funcionaria como uma espécie arbitral de ―interesses de todo o
povo‖ (p. 70). Responsável por equilibrar a correlação de força entre classes, frações de
classes e a inserção das massas na vida urbana e política através da personalização do
poder, da soberania do Estado e da incorporação econômica, ter-se-ia ―(…) um Estado
de massas, expressão da prolongada crise agrária, da dependência social dos grupos de

200
classe média, da dependência social e econômica da burguesia industrial e da crescente
pressão popular‖ (p. 70).
O fenômeno dizia respeito, como sublinhado, à entrada das ―classes populares‖,
ou ―setores sociais – urbanos ou rurais, assalariados, semiassalariados ou não
assalariados – cujos níveis de consumo estão próximos aos mínimos socialmente
necessários para a subsistência‖ (WEFFORT, 2003, p. 81), na vida política. Neste
sentido, o surgimento das massas representaria uma dupla pressão ―sobre as estruturas
vigentes‖: a ―ampliação das possibilidades de participação popular na política‖ através
do sufrágio e das conquistas de direitos sociais; e a ampliação de emprego e consumo
―sobre as estruturas de mercado‖ (p. 81). Ainda sobre essa dupla pressão – política e
econômica – o surgimento das massas se ligaria aos governos ou movimentos
constitutivos do populismo.
O problema, então, se vincula à via de ―modernização‖ das relações sociais,
políticas e econômicas no Brasil. Weffort percebe a relação entre populismo e massas
populares a partir da passagem de uma postura desorganizada ou difusa das massas à
sua integração na sociedade industrial e de consumo. A participação política, por
conseguinte, é percebida enquanto ―pressão para o acesso aos empregos urbanos que
exercem as massas migrantes‖; ―pressão no sentido da ampliação das possibilidades de
consumo‖; e pressão orientada para ―participação política dentro dos quadros
institucionais‖ (WEFFORT, 2003, p. 75).
Como fenômeno estruturante, o populismo tanto formaria as classes populares
como delas se nutria. Unindo mobilidade social, política e econômica, e justificando-se
no ―comportamento‖ fruto do acesso ao mercado pelos setores populares, a situação
―relativamente privilegiada‖ dos operários industriais orientaria sua conduta individual,
ao mesmo tempo em que a heterogeneidade das classes populares daria suporte à
expectativa de ascensão social destes setores. Neste sentido,
(...) no quadro da notável heterogeneidade da composição social das classes
populares de um país em processo de desenvolvimento, a mobilidade social,
em graus variáveis, se apresenta de modo quase necessário para todos os
setores populares e tende a intensificar-se à medida que o desenvolvimento se
intensifica. (...) Nestas circunstâncias a expectativa de ascensão social tem
muitas oportunidades de fazer-se efetiva e de se constituir em elemento
fundamental para a orientação da conduta individual. No quadro de uma
sociedade como a brasileira dos últimos decênios, os movimentos de
ascensão – na pior das hipóteses a expectativa da ascensão – afetam a todos
os setores populares (WEFFORT, 1978, p. 150).

201
A relação ambígua entre os trabalhadores e o Estado deita raiz em uma
interpretação própria sobre a configuração da classe trabalhadora, sua conduta e seu
comportamento. Sua relação com o Estado, por sua vez, seria mediada pelo instrumento
dos trabalhadores, em especial por aquele corporativo-sindical. Migrantes do campo
para cidade – no período entre 1930 a 1964 –, os trabalhadores incorporados aos
espaços de produção reproduziriam, nos novos ambientes urbanos, a cultura oriunda do
mundo agrário – caracterizada pela subordinação e lealdade pessoal. Tal relação com o
Estado se encontraria vinculada à ausência de uma burguesia urbana no processo de
desenvolvimento do capitalismo. Assim, ―atores sociais‖ heterogêneos, dentro da
estrutura de estratificação social, acabariam por adotar um comportamento em favor da
mobilidade, e não do conflito de interesses que possibilitaria padrões democrático-
burgueses. Por conseguinte, a aliança expressa no populismo teria conteúdo estratégico.
Ou seja, a relação entre ―as massas urbanas e os grupos representados no Estado é a de
uma aliança (tácita) entre setores de diferentes classes sociais. Aliança na qual a
hegemonia se encontra sempre com os interesses vinculados às classes dominantes (...)‖
(WEFFORT, 1978, p. 75).
Para Weffort, o problema se tratava, como vimos, de esquadrinhar as condições
para participação popular na política. Tal participação, vinculada às condições de
desenvolvimento do capitalismo no Brasil, aprisionava a consciência de classe ou às
posições objetivas nas relações de produção, ou a um ―comportamento‖ que
vislumbrava a mobilidade, dentro de um quadro de estratificação.
Do ponto de vista político, a ampliação da democracia aparece como
impossibilidade, pois o modelo de desenvolvimento para fora – submetido ao
imperialismo – impunha um comportamento econômico liberal que obedecia a regras
externas136, ao mesmo tempo em que, no plano interno, detinha caráter liberal-
oligárquico, cuja hegemonia dependia diretamente de intervenção Estatal. A
peculiaridade do populismo ―vem de que ele surge como forma de dominação nas
condições de ‗vazio político‘ em que nenhuma classe tem a hegemonia e exatamente
porque nenhuma classe se afigura capaz de assumi-la‖ (WEFFORT, 1978, p. 159).
Neste sentido, o populismo na política obinubilava a divisão da sociedade em classes,

136
Weffort chega a relacionar o tema com o caráter semifeudal e semicolonial atribuído ao Brasil na etapa
1930-1945.

202
alçando o termo ―povo‖ ou ―nação‖ a partir de uma ―comunidade de interesses
solidários‖ (p. 159).
Inseparáveis, pois, seriam populismo, ampliação do consumo e alargamento da
participação política (mesmo que corporativa). Requereriam, porém, um desafio:
(...) compatibilizar o desenvolvimento econômico e desenvolvimento
democrático. E isto significa em última instância romper radicalmente com
toda a passada formação das sociedades agrárias. Os movimentos populistas,
nascidos da crise dessa formação e portanto desde o nascimento
comprometido com ela, tiveram o mérito de propor a tarefa mas se
revelaram incapazes de realizá-la (WEFFORT, 1978, p. 164).

Alcançar e compatibilizar democracia e desenvolvimento econômico, rompendo


radicalmente com o padrão ―oligárquico‖ e agrário, seria o conteúdo mais profundo das
tarefas vislumbradas pelo populismo, ao passo que o caráter do ―Estado de
compromisso‖ impediria desatar o nó que poderia permitir maior participação na vida
político-institucional. O populismo, ele mesmo, anunciava, portanto, o que não poderia
cumprir.
O impacto da teoria do populismo na interpretação sobre os movimentos, em
especial o sindicalismo, é notório137. Em tais interpretações, é apontada a
impossibilidade do florescimento da consciência de classe, a origem rural dos
trabalhadores e sua ―cultura‖ arcaica, o corporativismo-sindical atrelado ao Estado e a
característica cupulista do mesmo. Via-se, nesse sentido, nas conexões entre Estado e
movimento, o pressuposto que inviabilizava (e que era inviabilizado pelo) o prosperar
de uma classe trabalhadora autônoma e combativa.
A despeito de reconhecer a existência de uma estrutural dual no movimento
sindical138 populista, Weffort localiza mudanças significativas no padrão de

137
―(...) o conceito [populismo] terminaria por encontrar seu lar brasileiro na tradição de estudos acerca
da classe operária construída na Universidade de São Paulo. Reunindo autores como Juarez Brandão
Lopes, Leôncio Martins Rodrigues, José Álvaro Moisés e o próprio Weffort, essa tradição mostrou-se
especialmente receptiva ao conceito, na medida em que partilhava, para além das importantes diferenças
de enfoque, a caracterização comum da fragilidade do movimento operário brasileiro diante de atores
políticos e sociais externos ao âmbito de seus interesses específicos‖ (MONTENEGRO, 2009, p. 144).
138
Weffort (1972) contesta a expressão ―organização paralela‖ e interpreta, segundo a expressão
―estrutura dual‖, a existência de organizações oficiais e não oficiais no sindicalismo populista. Neste
sentido: ―A expressão ‗organização paralela‘, de inspiração jurídica, não é talvez a melhor; é a que vem
sendo usada pelos estudiosos do sindicalismo brasileiro para designar as organizações intersindicais de
caráter horizontal (Pacto de Unidade e Ação, Pacto de Unidade Intersindical etc.), que complementavam e
dinamizavam a estrutura oficial (por isso, talvez, fosse melhor dizer ‗organizações complementares‘).
Embora proibidas pela legislação, foram toleradas pelos governos populistas desde Vargas até Goulart, os
quais evidentemente tiravam vantagens políticas de suas atividades. Submetidas em geral ao controle dos
comunistas, estas organizações começaram nos anos 50 ao nível dos sindicatos, passaram depois aos
níveis superiores das federações e confederações e culminaram na formação do Comando Geral dos

203
sindicalismo a partir das greves de Contagem e Osasco – em 1968, já em plena ditadura.
Entre 1964 e 1968, ―movimentos moleculares nas bases da classe operária‖ ocorreriam,
mas não chegariam a permitir um robustecimento frente ao ―quadro de profunda
depressão do movimento em geral‖ (WEFFORT, 1972, p. 8-9). As greves de 1968 em
Contagem e Osasco, ao contrário, seriam expressão ―notável desses movimentos
moleculares e, assim, não poderiam deixar de causar alguma surpresa‖ (p. 9). A ditadura
militar reprimira duramente essas duas greves, às quais se seguiriam, segundo Coelho
(2005), ―anos descritos por Leôncio Martins Rodrigues como de ‗calmaria‘‖. O termo,
―reconheçamos, não é o mais adequado para nomear um período em que as lideranças
sindicais ligadas ao PCB e ao PTB haviam sido perseguidas e cassadas e durante o qual
os operários não cessaram de desenvolver formas de luta e resistência no chão da
fábrica‖ (COELHO, 2005, p. 36).
Mas a base da relação entre movimento de trabalhadores e sindicalismo sempre
teve, obviamente, maior complexidade, fato demonstrado por estudos sobre
sindicalismo em período posterior139. Em Weffort, a estrutura dual do sindicalismo não
poderia ser reconhecida como original ou como o ―novo‖, que surgiria em Contagem e
Osasco (1968) e se aprofundaria no ABCD paulista em finais da década de 1970/1980,
o que subsidiaria, como vimos, a narrativa de grupos dirigentes das greves e do PT.
A teoria do populismo se apresenta em outros autores com significado similar.
Como não seria possível fazer ampla revisão bibliográfica sobre o tema140, recorremos a
mais um dos clássicos sociólogos que debatem o assunto. Ianni (1975), também no final
da década de 1960, vê a política de massas do getulismo através da lente do modelo de
desenvolvimento econômico, modelo que lograra a consolidação de condições culturais,
políticas e institucionais de implantação da industrialização urbano-industrial no país.
Neste sentido, o eixo sólido do período democrático getuliano – pós-1945 – seria a
―política de massas‖.
Esse é o quadro ao mesmo tempo histórico em que devemos inserir e estudar
a política de massas como componente fundamental do padrão getuliano de
desenvolvimento econômico. No progresso da industrialização – em especial

Trabalhadores em 1962. É a esta composição entre as organizações oficiais e as ‗organizações paralelas‘


que eu chamo de estrutura dual do sindicalismo populista. Para uma visão geral da expansão da
organização oficial e das ‗organizações paralelas‘ ver RODRIGUES, Albertino. Sindicato e
desenvolvimento no Brasil, São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1968‖ (WEFFORT, 1972, p. 7-8).
139
Tal complexidade é demonstrada pela escola thompsoniana de Campinas. Demier realiza a crítica da
crítica em seu artigo ―Populismo e historiografia na atualidade: lutas operárias, cidadania e nostalgia do
varguismo‖ (DEMIER, 2012b).
140
Mais sobre o tema, consultar o trabalho de João Marcelo E. Maia (MAIA, 2001).

204
no estágio de 1945-61 – a política de massas é um elemento crucial. Vejamos
agora como ela se caracteriza.
A combinação de interesses econômicos e políticos do proletariado, classe
média e burguesia industrial é um elemento importante do getuliano. Essa
combinação efetiva e tática de interesses destina-se a favorecer a criação e
expansão do setor industrial, tanto quanto do setor serviços. Em
concomitância, criam-se instituições democráticas, destinadas a garantir o
acesso dos assalariados a uma parcela do poder. Na verdade, criam-se as
condições de luta para uma participação maior no produto. Em plano mais
largo, trata-se de uma combinação de forças destinada a ampliar e acelerar
os rompimentos com a “sociedade tradicional” e os setores externos
predominantes. Em verdade, foi com base no nacionalismo
desenvolvimentista, como núcleo ideológico da política de massas – em que
se envolvem civis e militares, liberais, esquerdistas, assalariados e estudantes
universitários – que se verifica a interiorização de alguns centros de decisão
importantes para formulação e execução da política econômica. A crescente
participação do Estado na economia é, ao mesmo tempo, uma exigência e
uma consequência desse programa de nacionalização das decisões.
É nesse contexto que se situam as conquistas das classes assalariadas, em
especial do proletariado. Em 1940 cria-se o regime de salário mínimo. A
partir de 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho aparece como o
instrumento mais importante do intercambio de interesses entre assalariados e
empresários. Em 1963, transforma-se em lei o Estatuto do Trabalhador
Rural, como elemento novo no desenvolvimento da política de massas,
quando o populismo vai ao campo (IANNI, 1975, p. 55-56, grifos nossos).

Atrelados ao peleguismo e ao compromisso dos sindicatos com o Ministério do


Trabalho, dirigentes políticos se resumiriam a instrumentos de manobra. Ianni aponta o
fulcro da inexperiência política do povo brasileiro para o horizonte de valores e
comportamento da classe – em boa parte proveniente da migração rural. Neste sentido,
delineia um quadro segundo o qual a assunção de uma postura de classe não se
viabilizaria pela ausência de ―horizonte cultural‖, que só se modificaria de forma lenta e
gradual, partindo da inserção em relações urbano-industriais.
Outro elemento importante para a compreensão da estrutura política de
massas é a composição rural-urbana do proletariado industrial. Aí está um
dos fatores da inexperiência política dessa parte do povo brasileiro. Com as
migrações internas no sentido das cidades e dos centros industriais –
particularmente intensas a partir de 1945 – aumenta bastante e rapidamente o
contingente relativo dos trabalhadores sem qualquer tradição política. O seu
horizonte cultural está profundamente marcado pelos valores e padrões do
mundo rural. Neste, predominam formas patrimoniais e comunitárias de
organização do poder, de liderança e submissão, etc. Em particular, o
universo social e cultural do trabalhador agrícola (sitiante, parceiro, colono,
camarada, agregado, peão, volante, etc.) está delimitado pelo misticismo, a
violência e o conformismo, como soluções tradicionais. Esse horizonte
cultural modifica-se na cidade, na indústria, mas de modo lento, parcial e
contraditório (IANNI, 1975, p. 57, grifos nossos).

Era como se contradições existentes na forma de produção do mundo rural não


permitissem expressão política. Mesmo após o processo de migração, apesar de
mudadas as relações de trabalho, assalariadas e sob ―livre‖ contrato, restariam valores,

205
crenças e horizontes que obstacularizariam a assunção destas mesmas mudanças.
Consciência de classe que dá lugar, na lógica de manutenção do tradicionalismo, à
consciência de mobilidade e à consciência de massa.
Por todas essas razões predomina uma consciência singular, no proletariado
urbano e industrial. A composição heterogênea e a formação recente,
associadas às exigências da política de massas conduzida por outros grupos
sociais, favorecem a criação e a persistência de uma consciência de
mobilidade. Isto é, favorecem a formação de um comportamento individual
ou grupal voltado principalmente para a conquista e consolidação de posições
na escala social. Durante esse período e nessas condições, a atividade política
do proletariado – como coletividade – está muito organizada em termos de
consciência de massa. Os interesses de classe, em particular os antagonismos
com as outras classes e grupos sociais, não se estruturam a não ser
parcialmente. E não chegou a fundamentar posições e diretrizes políticas
autenticamente proletárias, isto é, de classe (IANNI, 1975, p. 59 e 61, grifos
nossos).

A política de massas aparece, assim, como parte da ruptura – e também da


permanência – com a sociedade tradicional, quer em termos sociais e culturais, quer
econômico e político. Através do ―nacionalismo desenvolvimentista‖ (IANNI, 1975, p.
66), o país se voltaria para um pacto político nacional, em defesa de vantagens
autóctones com certa independência externa. Dessa maneira, a ―política externa
independente é uma manifestação relacionada com o tipo de democracia populista (...)‖
(p. 66).
A forma política populista passaria por diversas modulações de denominações –
getulismo, queremismo, janguismo, juscelinismo, dentre outros. O fenômeno,
entretanto, expressaria o mesmo, ou seja, uma política de massas que cumpriria papel de
―etapa‖ nas transformações das relações políticas, econômicas e sociais no Brasil.
Transformações de grande porte processadas fundamentalmente no setor industrial, na
dinâmica de urbanização e no desenvolvimento econômico e social. Uma forma
específica de modernização que, distinta da dos países centrais, juntava ao invés de
conflitar interesses num Estado demiurgo da nação. Mais ―ainda, o populismo está
relacionado tanto com o consumo em massa como com o aparecimento da cultura de
massa. Em poucas palavras, ―o populismo brasileiro é a forma política assumida pela
sociedade de massas no país‖ (IANNI, 1975, p. 207).
Como ―via‖ e ―etapa‖ de desenvolvimento do capitalismo no Brasil, a ideia de
populismo imbricada em Weffort e Ianni projeta certa heteronomia, atrofia e ausência
de independência dos trabalhadores, falta de hegemonia nos projetos das classes e
inviabilidade da consciência de classe, e vai desembocar, mais à frente, em uma
incorporação particular do conceito gramsciniano de sociedade civil. Fundamenta-se,

206
assim, em um circuito fechado: a heteronomia inviabilizava a participação e a
autonomia popular, a participação popular, por sua vez, encontra limites
comportamentais e internos insuperáveis. A perspectiva do atrelamento que sufoca o
movimento se torna o núcleo central de uma interpretação lógica que, por si mesma,
impede a percepção de mais mediações no fenômeno.

4.7 Interpretando a década de 1980: Weffort, Faoro e uma breve menção a Carlos
Nelson Coutinho

Analisaremos, nas próximas páginas, contribuições de Francisco Weffort,


Raymundo Faoro e Florestan Fernandes sobre a década de 1980. Com elas, buscaremos
salientar algumas linhas críticas sobre o período em questão. Iniciemos estas linhas pela
exposição do pensamento de Francisco Weffort141.
Segundo ele, o perfil da transição brasileira se acharia definida: ―(...) se percebe
agora, em fins de 1984, que, uma vez mais em nossa história, a transição para a
democracia se faz „pelo alto‟‖ (WEFFORT, 1984, p. 17), enquanto expressão do
mecanismo sucessório implantado pelo colégio eleitoral indireto: “o povo, em geral”
continuaria “à margem” da política (p. 17). A frase de Sérgio Buarque de Holanda, por
ele escolhida para epígrafe de seu livro, é significativa: a democracia no Brasil era um
―lamentável mal-entendido‖. Tal fato estaria ligado, segundo Weffort, a não ter sido
realizada uma revolução burguesa no Brasil e, neste sentido, o debate entre democracia
e revolução se via embaraçado pela ausência de ambas: uma revolução ―verdadeira‖ e
uma democracia ―verdadeira‖142. Legatária de uma concepção ―autoritária‖, sinonímia
de ―golpe de Estado‖, a tradição política brasileira se via marcada pela ambígua
pretensão de muitos em serem ―democratas e autoritários‖ ao mesmo tempo.
Citando Touraine143, Weffort afirma que o sentido histórico do desenvolvimento
brasileiro é o da ―democratização por via autoritária‖, fato que transmitiria à democracia
o sentido de ser ―apenas um instrumento de poder‖ (WEFFORT, 1984, p. 34). Ressalta,

141
No ano de 1984, ano do 3º Encontro Nacional do PT, Weffort lança o livro ―Por que democracia?‖.
Naquele contexto, era o secretário-geral do PT e influente intelectual do grupo que havia se reunido e
fundado a Articulação dos 113. Para tanto, destacaremos os seguintes livros e textos, em ordem
cronológica: Por que democracia? (1984); Debate sobre estratégia na Revista Crítica Marxista entre
Weffort, Carlos Nelson Coutinho, Teotônio dos Santos e João Machado Borges Neto (1986); Consolidar
o partido, construir a democracia (1988) e um artigo do livro Qual Democracia (1992).
142
Interessante notar como os exemplos de revolução que ilustrariam a ―chegada à democracia‖, são
Inglaterra e França, enquanto, de outro lado, o exemplo de país que havia feito uma revolução sem chegar
à democracia seria a União Soviética.
143
TOURAINE, Alain. Qu‟est-ce que la démocracie? Paris: Fayard, 1994.

207
contudo, que uma exceção teórica, à época, mereceria atenção, qual seja: o ―brilhante
ensaio de Carlos Nelson Coutinho‖, ―A democracia como valor universal‖, de 1979, no
qual, pela primeira vez, um intelectual tratava com ―profundidade teórica o conceito da
democracia como valor universal‖ (p. 34).
Como consequência da fusão do conservadorismo com o autoritarismo, o sentido
da política brasileira comportaria mais ―violência do que o diálogo‖, pois, mais afeita à
―repressão‖ do que à ―libertação‖, impediria a constituição do poder como ―associação
livre de vontades‖ (WEFFORT, 1984, p. 35). Ao considerar o problema da democracia,
Weffort atribui sua conexão com a disputa de hegemonia.
Chamar as modernas democracias europeias atuais de burguesas só é possível
à custa de um enorme empobrecimento da análise e, por consequência, da
perspectiva política. Seria mais correto dizer que são democracias sob
hegemonia burguesa, aliás hegemonia em permanente disputa por parte dos
trabalhadores. O problema dos trabalhadores nas democracias modernas é o
de conquistar a hegemonia no campo de uma democracia que consideram
sua. E é assim, de fato. Não se pode falar de democracia no sentido moderno
da palavra se esquecermos as lutas dos trabalhadores para que ela viesse a ser
o que é (WEFFORT, 1984, p. 38, grifos nossos).

Neste sentido, o autor fortalece o argumento da democracia enquanto forma por


excelência de disputa do projeto dos trabalhadores, em especial em condições em que as
classes dominantes brasileiras utilizavam-se permanentemente do expediente de ―longos
períodos ditatoriais‖ (WEFFORT, 1984, p. 39). Salvo o período entre 1945 e 1964, que
havia se caracterizado por uma democracia frágil, sustentada pela entrada das massas
populares urbanas em cena, a ditadura teria sido, insistentemente, a forma de dominação
burguesa no Brasil. A democracia, em contraste, seria a forma ―por excelência, da
rebeldia popular‖ (p. 39).
Comparando o recurso ao ―golpe‖ da rebelião popular – a via insurrecional, por
exemplo – àqueles golpes do ―regime‖ burguês, Weffort atribui ao fenômeno o caráter
de hábito ou cultura, uma prática golpista que se espraiaria pela maior parte dos setores
da atividade política no Brasil, quer fossem eles de esquerda ou de direita. A
equiparação entre ―revolução‖ e ―golpe‖, por conseguinte, leva à afirmação de que
golpes pressuporiam o uso da violência, possibilitando outras formas de desvirtuamento
da atividade política, como, por exemplo, um ―aparelhismo‖ característico dos partidos
de esquerda. Como a revolução não tinha ocorrido no Brasil, revolução e golpe se
confundiam, se tornando um mal não exclusivo da direita.
A partir de 1983, com o advento da campanha pelas diretas já na cena política,
esquerda e direita teriam, segundo Weffort, timings distintos diante do momento em que

208
a transição democrática devia ocorrer, mas ambas convergiriam em reconhecê-la como
necessidade.
É evidente que, por trás da questão do timing, está a questão da continuidade
do regime, do controle da transição e, em última instância, do tipo de
democracia que se imagina possível para o país. Mas também é evidente que,
na questão das diretas como em muitas outras, as contradições entre o regime
e as oposições pressupõem um denominador comum.
Nenhum dos críticos do regime – nem mesmo os mais radicais – se recusaria
a reconhecer que, nos últimos dez anos, nós percorremos um pedaço da
caminhada no rumo de uma maior liberalização política. E não poderiam
deixar de reconhecê-lo, até porque a caminhada não teria sido possível sem
eles. Se é verdade que a iniciativa da transição vem de cima, também é
verdade que sua continuidade e seu avanço progressivo não teriam sido
possíveis sem as pressões nascidas da sociedade civil e dos partidos de
oposição, que, aos poucos, acabaram constituindo no país uma ampla e
difusa, porém muito eficaz, frente democrática (WEFFORT, 1984, p. 58-59,
grifos nossos).

Ainda que a contradição fosse evidente, a democracia moderna dependeria ―da


existência de grandes partidos de massa e de ampla e intensa participação dos
trabalhadores‖ (p. 54), pois a partir deles a disputa se dava no terreno da hegemonia. As
vicissitudes da transição teriam, além disso, alçado a democracia a um valor geral que
se comparava ao ocorrido com o tema do “desenvolvimento” a partir da década de
1950.
Para deixar as coisas mais claras, recorro a um exemplo. A ideia de
desenvolvimento econômico constituiu-se, a meu ver, como um valor geral
desde os anos 50. Isso significa que embora os políticos, os partidos e os
cidadãos em geral possam divergir quanto a saber quais os melhores
caminhos para o desenvolvimento, eles estão, em sua grande maioria, de
acordo com relação ao valor do desenvolvimento como tal.
E não se trata de que apenas concebam o desenvolvimento como uma
necessidade histórica, seja esta derivada das leis econômicas do capitalismo,
das leis sociológicas da modernização ou do que se queira. Se fosse só isso,
estaríamos diante de um consenso técnico ou científico, não diante de um
consenso político. À parte o fato de ser ou não imposto por alguma lei
histórica ou sociológica, o desenvolvimento é, no Brasil, concebido como
um objetivo que vale em si mesmo.
Mais investimentos, mais empregos, melhores salários, maiores
oportunidades de consumo – tudo isso vai muito além de qualquer
preferência por este ou aquele sistema econômico. Temos o direito de
preferir o socialismo ou o capitalismo como caminho para o
desenvolvimento. Mas, em qualquer hipótese, entendemos o
desenvolvimento como uma condição para a conquista de uma vida mais
digna.
Se os anos 50 são os anos da constituição do desenvolvimento como um
valor geral, penso que os 70 e os 80 são os da constituição da democracia
como valor geral. Porque a questão da democracia aparece – e não podia ser
de outro modo – ligada ao problema do poder, a polêmica em torno do seu
significado é uma decorrência necessária. Temos todo o direito de preferir
uma democracia liberal ou socialista. Temos todo o direito de buscar
assegurar a hegemonia burguesa ou lutar pela hegemonia dos trabalhadores.
Mas esta luta de partidos, grupos de interesse, classes sociais em torno do
sentido da democracia só pode existir quando se vai além do seu significado

209
meramente instrumental. Na própria luta dos divergentes e dos contrários em
torno do sentido da democracia, está a afirmação da democracia como um
valor geral. Um valor que é de todos, espaço irrenunciável de realização da
dignidade humana (WEFFORT, 1984, p. 60-61, grifos nossos).

Tal valor irrenunciável se desdobraria no Estado. A ampliação da informação a


qual o general Golbery havia tratado como ―liberalização‖ em contraste com
―democratização‖ – cujo caráter era o de aumento da participação em decisões políticas
– seria a prova cabal de que a transição conservadora mantinha perspectiva instrumental
da democracia. Atribuindo ao Estado caráter ―oriental‖ – o ―estado era tudo e a
sociedade, inarticulada e gelatinosa, era nada‖ (WEFFORT, 1984, p. 91) –, a rigidez
autoritária que o acometia mantinha traços fundamentais da relação entre o Estado e a
sociedade no Brasil. Mas seria a ―decepção, mais ou menos generalizada, com o
Estado‖ que abria caminho ―depois de 1964 e, sobretudo, depois de 1968, à descoberta
da sociedade civil. Mas nem por isso terá sido, em primeiro lugar, uma descoberta
intelectual‖ (p. 93). Como o impulso da democratização da sociedade e do Estado viria
desde baixo, a democracia passaria ―às mãos das classes populares, em particular da
classe operária e dos setores de classe média‖ que a acompanhavam na luta (p. 99). A
despeito do governo resultante do processo sucessório, seria a ―vez dos de baixo‖
erguerem suas vozes.
Nos últimos itens do livro, Weffort caminha para um balanço do debate entre
democracia e revolução e avança no sentido de afirmar sua posição por uma
democracia-revolucionária. Adjetivando a democracia como ―subversiva‖, junto a
Bobbio, ela subverteria o poder que se impunha de ―cima para baixo‖, a ―concepção
tradicional do poder‖. Uma democracia ―moderna‖ no Brasil – com pluralismo
partidário, institucional e dos movimentos populares na luta pela hegemonia
democrática –, portanto, já seria, a seu ver, uma verdadeira revolução. Ademais, a luta
pela democracia poderia, sim, ser a luta pelo socialismo, mas apenas se o socialismo
deixasse de ser abstrato e se convertesse em um programa para ―transformações que a
maioria preconiza para a sociedade brasileira‖ (WEFFORT, 1984, p. 32).
A segunda bibliografia em que nos referenciaremos diz respeito a um debate
realizado em 1986 na revista crítica marxista, no qual participaram Weffort, Carlos
Nelson Coutinho, Teotônio dos Santos e João Machado Borges Neto. Nele, Weffort
defenderá o mesmo ponto de vista apresentado por Carlos Nelson Coutinho. Baseando-
se na metáfora ―oriente‖ e ―ocidente‖ de Gramsci, o autor esquadrinhou as

210
características e a atualidade do capitalismo brasileiro, a saber: após os anos 1950 a
grande mudança de capitalismo agrário exportador para capitalismo industrial teria
sido realizada.
Relacionando o conceito de revolução com a realidade social ―ocidental‖
brasileira, ele reflete sobre seu novo perfil: uma revolução processual. Para tanto,
remete-se ao debate sobre a violência no processo revolucionário, acreditando que, ao se
afirmar a destruição do Estado, reproduzir-se-ia – contra as classes dominantes – o que
o Estado produzia contra o povo, ou seja, a violência. Ainda, a possibilidade de uma
luta violenta pelo Estado não existiria no Brasil, pois a luta pela democracia já seria, no
―aqui e agora‖, a luta em torno do socialismo.
Qual era, então, para nosso autor, o sentido deste socialismo? Segundo ele, o
socialismo era a possibilidade de reverter os grandes problemas sociais, desigualdade
típica do capitalismo brasileiro que crescia a partir da ampliação da pobreza. Além
disso, o desenvolvimento capitalista brasileiro casava o poder militar-burocrático
concentrado no Estado, com o capital monopolista e oligopólico, dando origem a uma
sociedade que fundia poder e capital de maneira que só a democracia poderia aferir
controle social e gestão econômica. A escala de poder econômico estatizado –
capitalismo monopolista – capacitaria, por seu turno, a possibilidade de dar origem a
uma ―socialização da produção‖ que combinaria, enfim, luta pelo socialismo e luta pela
democracia.
Respondendo às questões suscitadas, Weffort defenderá que a ―guerra de
posição‖ não conduz ao raciocínio de separação entre Estado e sociedade civil, mas, ao
contrário, se coloca de maneira transversal e atravessa todas as formas sociais em uma
sociedade moderna. Haveria, portanto, uma relação imbricada e ampliada entre Estado e
sociedade, pois o Estado se sustentaria em uma ampla rede de associações privadas.
Retoma-se a questão da revolução processual a partir de um questionamento
frente ao tema das rupturas. No que diz respeito ao tema, Weffort reconhece que seriam
necessários momentos de ―tranco‖ no processo de revolução, mas afirma que a
utilização da violência não poderia ser pré-planejada. Percebe, por outro lado, como
limitada a formulação em torno da proposição de um bloco operário e popular: na luta
pela democracia e pelo socialismo o campo de apoio e luta pela transformação deveria
ser democrático e popular e não operário e popular. Igualmente, teriam de ser
reconhecidos os lugares da ―classe média‖, dos ―pequenos proprietários‖, bem como
dos setores populacionais que não tivessem posição de classe. Neste sentido:

211
Isso significa que estamos longe do eixo clássico da relação de produção em
que o eixo da atividade política global de um grupo se definiria em função
dos seus interesses no processo de produção. Na medida em que incluímos
mais gente, mais as pessoas entram, em função da posição que ocupam no
eixo da dominação, no sistema de dominação social e no sistema de
dominação política. Ao passar do conceito de bloco operário e popular ao
conceito de bloco democrático e popular, incluímos tanto aquele tipo de luta
que diz respeito às relações de produção, quanto aquele tipo de luta que diz
respeito ao campo das relações de dominação, que são mais amplas e muito
mais complexas (WEFFORT, 1984, p. 150, grifos nossos).

O bloco democrático e popular deveria, além disso, manter independência de


classe, fato complexo que não se resolveria no quadro da definição da classe, mas no de
relações políticas heterogêneas. Neste sentido, a identidade de classe não estaria
―garantida‖ e teria que ser conquistada diariamente. Estranhamente, desloca-se o
problema da independência de classe para o da identidade de classe, sem mediação com
o fato de que a própria independência jogaria um papel relevante no sentido da
construção da identidade.
Um breve interregno. Não é à toa que Weffort cita, para suas reflexões, o
filósofo-político Carlos Nelson Coutinho. Militante socialista do Partido Comunista
Brasileiro (PCB) desde os 17 anos, Coutinho engajou-se, ao fim dos anos 1960, na
reflexão política à luz da vertente ―eurocomunista‖. No PCB, batalhou pela ―renovação
do comunismo brasileiro‖ – cuja expressão maior foi a ―Declaração de Março de 1958‖
– a partir da incorporação do processualismo democrático144. Foi autor da publicação
―A democracia como valor universal‖ (1979), título que exprime com fortes tintas a
influência do Partido Comunista Italiano (PCI) e de Enrico Belinguer em seu
pensamento. Carlos Nelson incorporou-se às fileiras do Partido dos Trabalhadores no
final da década de 1980, do qual se afastaria ainda no início do governo Lula, em 2003.
Vejamos, portanto, algumas sucintas linhas sobre suas ideias que marcam fortemente o
adentrar da década de 1980.
Podemos dizer, sem medo de errar, que A democracia como valor universal
(COUTINHO, 1980 [1979]) se tornou verdadeiro divisor de águas para o debate acerca
do socialismo no Brasil, consistindo em influência vigorosa até a atualidade. Neste
ensaio, Coutinho questiona a relação imediatamente feita por parte da esquerda entre
democracia e dominação burguesa, cuja conclusão fundamental seria a de considerar a
democracia como tática e não como estratégica:

144
Voltaremos a discutir a ―Declaração de Março de 1958‖ no quinto capítulo desta tese.

212
(...) há correntes e personalidades que revelam ter da democracia uma visão
estreita, instrumental, puramente tática; segundo tal visão, a democracia
política — embora útil à luta das massas populares por sua organização e em
defesa dos seus interesses econômico-corporativos — não seria mais, em
última instância e por sua própria natureza, do que uma nova forma de
dominação da burguesia, ou, mais concretamente, no caso brasileiro, dos
monopólios nacionais e internacionais.
Essa visão estreita se baseia, antes de mais nada, numa errada concepção da
teoria marxista do Estado, numa falsa e mecânica identificação entre
democracia política e dominação burguesa. Mas implica, em segundo lugar,
ainda que por vezes implicitamente, uma concepção equivocada das tarefas
que se colocam atualmente ao conjunto das forças populares brasileiras: essas
tarefas não podem ser identificadas com a luta imediata pelo socialismo, mas
sim com um combate árduo e provavelmente longo pela criação
dos pressupostos políticos, econômicos e ideológicos que tomarão possível o
estabelecimento e a consolidação do socialismo em nosso País
(COUTINHO, 1980 [1979], grifos nossos).

Neste sentido, o vínculo entre democracia e socialismo era muito maior do que
um objetivo tático ou imediato, sendo um elemento estratégico para revolução
brasileira. Além de não se limitar à tática ou à via, a democracia e o processo de
―democratização‖ seriam pressupostos fundamentais para a revolução socialista e
confundia-se com a própria natureza da revolução.
E, referindo-se a mecanismos de representação direta e de massas, como
partidos, sindicatos e associações, os mesmos se organizariam de ―baixo para cima‖
constituindo ―sujeitos políticos coletivos‖ – elemento chave para aprofundar a relação
entre a democracia direta e representativa. Invertendo a relação que via na eliminação
da apropriação privada a abolição da dominação política, Coutinho enxerga a
―superação da alienação política‖ como o fenecer do ―isolamento‖ do Estado, base para
a superação da apropriação privada.
A ampliação da demanda por participação, por sua vez, se daria como
consequência da ampliação de grupos de interesses específicos, resultantes da
socialização da produção – possível, segundo ele, através da ―socialização do trabalho
realizada sob o impulso da própria acumulação capitalista‖. No Brasil, as classes sociais
estariam prejudicadas pela reprodução privatista do Estado, uma consequência direta
da “via prussiana” característica dos processos políticos brasileiros. Logo, a
democracia teria nascido, aqui, a partir de uma relação expressamente débil entre
Estado e sociedade civil. Esta realidade imporia a permanência de uma hegemonia
liberal sobre a democracia, o que não excluiria, no entanto, o valor da democracia para
conquista das forças populares – que, por si só, poderia representar a superação da ―via
prussiana‖.

213
Em outras palavras: a conquista de um regime de democracia política não é
uma etapa no caminho do socialismo a ser posteriormente abandonada em
favor de tipos de dominação formalmente não democráticos. É, antes, a
criação de uma base, de um patamar mínimo que deve certamente ser
aprofundado (tanto em sentido econômico-social quanto em sentido político),
mas também conservado ao longo de todo o processo. Aquilo que antes
afirmamos em nível teórico vale também para o caso brasileiro: a democracia
de massas que os socialistas brasileiros se propõem
construir conserva e eleva a nível superior as conquistas puramente liberais
(COUTINHO, 1980 [1979], grifos nossos).

A natureza democrática se funde com tarefas permanentemente


“antiprussianas” e assume conteúdo estratégico na conservação e elevação da
democracia ―a nível superior‖. Por fim, o autor resumiria em duas as tarefas
fundamentais a estratégia para o socialismo democrático: em primeiro lugar, conquistar
liberdades fundamentais e, em segundo, aprofundar a democracia organizada de massas
para empreender medidas de ―caráter antimonopolista e anti-imperialista e, numa etapa
posterior‖, para construção ―de uma sociedade socialista fundada na democracia
política‖.
Remetemo-nos a Coutinho no sentido de demonstrar, resumidamente, a
semelhança do seu aporte teórico e aquele de Weffort. Sigamos, para tanto, nos
balanços realizados por esse último autor. Em artigo para revista Teoria & Debate em
1988, Weffort realiza uma breve avaliação do 5º Encontro Nacional (1987),
percebendo-o como um encontro que liga a concepção de massas do PT às tarefas
democráticas e populares que devia cumprir. Debruçando-se sobre algumas polêmicas
organizativas que teriam sido enfrentadas ao longo do Encontro, como a do partido de
massas versus partido de quadros, ou partido de massas versus partido de lutas, o
teórico posiciona-se pelo caráter de massas, aberto e democrático do partido, perfil que,
segundo ele, deveria ser reforçado. Por outro lado, retoma a polêmica com aqueles que
queriam definir o PT como um partido marxista-leninista, proposta que adjetivaria
como ―despropositada‖.
Temos necessidade de melhor definição do partido no sentido ideológico,
sim; mas isso não significa que tenhamos qualquer necessidade de definição
do partido no sentido teórico ou filosófico. (...) Felizmente, o PT conta em
suas fileiras com muitos marxistas verdadeiros, que sabem distinguir entre
teoria e ideologia e, portanto, sabem que é insensato pedir ao PT que se
defina no sentido teórico. Como bons marxistas, aprendem com a experiência
histórica e sabem que o mais difícil de tudo na política é que os partidos se
encaminhem, de modo correto, no sentido prático. Como bons marxistas,
sabem que o PT não nasceu de nenhuma definição teórica, mas de uma
intuição prática que se revelou teoricamente correta, a respeito da condição
dos trabalhadores na sociedade capitalista e a respeito da afirmação política
independente dos trabalhadores como classe (WEFFORT, 1988).

214
Dessa maneira, caberiam no PT os mais ―diversos matizes‖ de marxistas, desde
que ―dispostos a lutar por uma sociedade sem explorados e exploradores‖. Weffort
indica o período pós-eleições de 1982, quando as ―circunstâncias criadas pelo processo
político‖ haviam lançado o PT ―em uma sucessão de lutas eleitorais e de questões de
alcance estritamente institucional‖, um dos marcos para que esse debate viesse a ser
realizado. Outro motivo seria de ordem objetiva.
O segundo motivo é, digamos, objetivo: diz respeito a realidades que se
impõem a nós. A primeira e mais importante é o prolongamento da crise
econômica que, convém não esquecer, começa em 1974 junto com a política
de distensão de Geisel, isto é, junto com a chamada transição conservadora.
Isso significa que nascemos diretamente das lutas de resistência: resistência
econômica contra os efeitos da crise e resistência política contra os efeitos da
ditadura. Nascemos, portanto, de uma luta de caráter basicamente defensivo.
Dois comentários a respeito. Em primeiro lugar, é importante registrar uma
autocrítica que, penso, vale para todos nós: de algum momento para cá,
deixamos a bola correr solta quanto a nossa concepção de partido. Foi o mal
estar que veio depois das eleições de 1982? Foi o nosso modo de encarar a
campanha das diretas? Ou foi o nosso modo de encarar as eleições de 1985?
É uma questão a examinar. Por exemplo, quando foi que paramos as nossas
campanhas de filiação? Pode-se discutir a data, mas não vejo como se possa
negar o fato, aliás lamentável. Quando foi que deixamos as nossas políticas
de nucleação? (WEFFORT, 1988, grifos nossos).

Desenvolver uma estratégia política para uma época em que o quadro de crise
colocava os trabalhadores e seu projeto na defensiva não seria tarefa fácil. Quer fosse
por força de equívocos ou não, o PT tratava-se de um projeto em construção, e, neste
sentido, para o autor, carecia de melhores definições sobre sua estratégia política.
É esta perspectiva de construção partidária e de luta que oferece o ponto de
partida de que necessitamos para melhor definirmos nossa estratégia política.
Como dizíamos em 1980 e 1982, queremos um partido de massas não apenas
para as eleições, para o parlamento, para a administração do Executivo. Um
partido de massas deve ter existência permanente nas lutas sociais dos
trabalhadores, nos movimentos populares, nos debates culturais, na defesa
dos direitos das minorias etc. etc. Deve ter presença nas escolas, nas
universidades, nos sindicatos, nas sociedades de amigos de bairro, nos
movimentos culturais etc. Temos que voltar não apenas a dizer isso, mas a
tomar isso a sério. Temos que levar de novo estas ideias à prática
(WEFFORT, 1988).

Weffort acreditava que, no capitalismo moderno, os mecanismos de participação


iriam além da democracia representativa, exigindo a criação de outras formas de
organização e instituições políticas mais afeitas à democracia direta. Neste sentido, a
proposição de que o partido se organizasse ―de baixo para cima‖, pensando o ―poder
como algo que não apenas se toma (no Estado), mas também se cria (na sociedade)‖
seria ―ponto de partida de uma visão nova do Estado e da sociedade. Dessa forma, seria

215
correto afirmar um partido independente, e de organização autônoma dos trabalhadores
como o melhor modo de lutar pela democracia, por uma nova política, e por uma nova
economia que atendesse aos interesses do povo. Logo, a ―organização autônoma dos
trabalhadores é o caminho não apenas da construção da democracia política, mas
também o da transformação da sociedade‖.
E, fazendo balanço positivo sobre as indicações gerais do 5º Encontro, atribui ao
processo eleitoral de 1989 o papel de possível alternativa real para transformação social.
A pergunta ―A que veio o PT?‖ não deve nos assustar. Esta é a célebre
indagação que se coloca aos partidos com verdadeira vocação para o poder,
nos momentos de grandes viradas históricas. Temos uma grande
oportunidade de oferecer a nossa resposta na campanha do Lula para a
presidência, que de fato tem que começar agora, nas campanhas municipais
deste ano. As lutas de resistência contra a ditadura criaram uma frente
eleitoral e um partido político. A frente é o PMDB, que fracassou em suas
propostas de mudança da sociedade. O partido é o PT, que terá que ser capaz
de retomar o sentido radical da sua origem e de aprender com as experiências
do seu próprio processo de formação – não para a missão impossível e
inglória de confinar a luta dos trabalhadores em um gueto, mas para a tarefa
histórica grandiosa de buscar, junto com os trabalhadores e com a maioria
do povo, os caminhos da democracia e do socialismo no processo de
transformação da sociedade brasileira. Só assim fará justiça ao seu signo de
origem: PT nossa vez, nossa voz (WEFFORT, 1988, grifos nossos).

No último artigo do seu livro Qual democracia?, já em 1992, Weffort debate o


impacto da queda do Muro de Berlim diante da relação entre Estado, mercado e
sociedade civil, recolocando questões sobre os desafios dos socialistas para o presente e
o futuro. A seu ver, ―os acontecimentos de 1989 e de 1991 no Leste Europeu tiveram,
na ideologia da esquerda, o efeito de um terremoto, o mais sério de toda a sua história‖
(WEFFORT, 1992, p. 141). Não se trataria apenas da queda de um regime político, mas
de todo um Estado, que tinha, para ele, uma virtude: a de reviver a ideia de que a
―história é a história da liberdade‖, colocando a termo concepções deterministas e
teleológicas de todas as vertentes teóricas.
Restrito aos limites de um pequeno ensaio, Weffort indagará, e responderá,
sobre o sentido daquela época. Para ele, o mercado não seria o ―único vitorioso‖ e, se o
socialismo tinha alguma possibilidade de sobreviver àquele tempo histórico, esta seria a
partir da incorporação da democracia e da sociedade civil ao centro de suas reflexões.
Tais hipóteses estão relacionadas com uma distinção que se impõe em
qualquer comentário sobre, Capitalismo, socialismo e democracia. Embora
tenha errado ao prever a superação inevitável do capitalismo pelo socialismo,
Schumpeter acertou ao propor uma nova noção de democracia como método.
Em capítulos que se tornaram célebres entre os cientistas políticos, ele recusa
a noção clássica da democracia como instrumento para a realização do bem
comum e propõe o conceito da democracia como método para a formação do
governo da sociedade, por meio de competição pacífica entre as lideranças.

216
Assim, a democracia não seria, como na famosa sentença, ―o governo do
povo, pelo povo, e para o povo”, mas o governo dos líderes escolhidos pelo
povo, em competição eleitoral. E, segundo Shumpeter, só um conjunto feliz
de circunstâncias poderia torná-la, como quer a imagem clássica, um governo
para o povo (WEFFORT, 1992, grifos nossos).

A juízo de Weffort, Schumpeter teria aberto a possibilidade de um novo ponto


de partida que permitia, por ―diversos caminhos, construir a noção de democracia como
um valor em si‖. Outras reflexões se impunham a partir dessa premissa, sendo a
fundamental delas a de se observar a possibilidade (ou não) de liberdade política sem
liberdade econômica – ou, de democracia sem livre mercado. Concorda, então, com o
pensamento neoconservador no ponto central dessa controvérsia: não seria possível
liberdade política sem liberdade econômica, e nem democracia sem mercado. Para uma
perspectiva socialista democrática do futuro, por sua vez, se fazia imprescindível
assumir o mercado, a democracia política e o fortalecimento da sociedade civil,
incorporando o pluralismo como uma premissa social fundamental. E, ainda, isso
significava admitir que as formas de propriedade deste socialismo deveriam ser diversas
e que seu maior problema residia em um tipo de gestão que precisaria incorporar
―igualdade social e liberdade política‖.
Para os socialistas democráticos, porem, a lição maior é outra. Enquanto o
pensamento neoconservador tende ao determinismo e ao monismo do
mercado, o pensamento socialista democrático deve ser possibilista e
pluralista. Em sua concepção da sociedade, precisa sempre levar em conta
uma realidade plural, na qual o Estado, o mercado, a democracia política e a
sociedade civil entram como elementos básicos. Creio que a ―diferença
específica‖ dos socialistas em relação a outras forças políticas democráticas
estará sempre no plano dos movimentos e dos valores, os quais levam os
socialistas a impulsionar a sociedade por mais igualdade e liberdade. Em uma
época na qual a economia capitalista é, cada vez mais, um fenômeno
mundial, supranacional, os socialistas terão, por certo, que conviver com as
formas mais avançadas da economia capitalista, se quiserem manter os pés
fincados no chão e caminhar para a modernidade. Mas sem se identificar, nos
seus valores e nos seus movimentos, com a “alma” do capitalismo.
Alicerçados na sociedade civil, farão com a democracia um casamento por
amor, mas sua união com o mercado será, certamente, “por conveniência”
(WEFFORT, 1992, grifos nossos).

Ainda, se o socialismo conseguisse conquistar um novo sentido, é porque teria


sido capaz de incorporar o pluralismo como um componente do mercado e da política e
de reconhecer a legitimidade dos seus adversários. Caberia aos mesmos, ademais, a
tarefa de entender as lições essenciais para construção de sociedades mais livres,
modernas e – se a esquerda ―fizesse por merecer‖ – mais igualitárias.

217
O que diz respeito a Faoro, analisaremos aqui sua coletânea de entrevistas
(FAORO, 2008)145 reunidas em A democracia traída: entrevistas (2008), publicação na
qual Faoro opina sobre o processo de transição democrática. Para se compreender tal
transição, faz-se necessário, antes, compreender as bases do movimento militar de 1964.
Em primeiro lugar, esta que eu assinalei como pressuposto: o ―destino
manifesto‖, agora encarnado numa figura mística que é o desenvolvimento.
Daí surge a grande marca desse sistema que é, em primeiro lugar, um sistema
imposto. Imposto e comandando sempre do alto, de transformações
controladas. Segundo, o que este sistema pretende não é surpresa, e disso
vem, também, um filão ideológico que é, no fundo, uma contradição: a
ideologia da segurança nacional. Como eles tentam controlar o processo, é
necessário estabelecer os controles no nível de quem controla e no nível dos
instrumentos materiais e ideológicos. Então, a ideologia se transforma em
coerção, quer seja por seu aparelhamento, quer por seu conteúdo.
Desprezaram-se totalmente os aspectos autônomos dos formadores de
ideologia de consenso. Daí se explica, em parte, o estrangulamento cultural
acontecido nesse período todo. Tentou-se, por intermédio da coerção, fazer o
consenso (FAORO, 2008 [1979], p. 25, grifos nossos).

O processo de abertura teria, portanto, reativado o setor ideológico, gerador de


consenso, mas, agora, de forma controlada. Neste sentido, tratar-se-ia de um contexto de
―conciliação‖ que não envolvia nenhum ―compromisso‖ com forças dissidentes,
mantendo-se circunscrito a um grupo que se alargaria pouco. Seu não alastramento se
dava em consequência não só da coerção ideologicamente encoberta, mas do
instrumento de ―‗cooptação‘, igualmente autoritário‖ (FAORO, 2008 [1979], p. 26). No
que diz respeito à possibilidade de maior mobilidade sob Figueiredo, esta só seria
possível se fosse levado adiante um ―processo de conciliação‖. Perguntado sobre a
possível ampliação das reformas e a implantação efetiva de uma democracia, Faoro
responde com certo ceticismo, mas vê positivamente a possibilidade de ―choques‖,
ainda que os compreendesse como ―não violentos‖:
Meu descrédito não é total. Acho que precisamos ter é consciência do que a
abertura é. Ela não é o processo que nós desejaríamos que fosse. Um
processo contínuo, em ampliação permanente, em profundidade e
criatividade da sociedade civil.
Num determinado momento desse processo não poderá ocorrer um
choque...(?)
Pode ocorrer um choque. Eu acho que seria até desejável que isso ocorresse.
Este choque levaria à reformulação do pacto social. Choque não quer
dizer violência. Seria um confronto de forças e reconhecimento de um
dissídio que existe de forma latente, mas que estes mecanismos todos
procuram dissimular, abrandar, desnaturar (FAORO, 2008 [1979], p. 27,
grifos em negrito nossos).

145
FAORO, Raymundo. A democracia traída: entrevistas. Organização e nota Maurício Dias; prefácio
Mino Carta. São Paulo: Globo, 2008.

218
Faoro acredita que o choque seria desejável, ―uma vez que o pacto social e o
equilíbrio se fariam dentro da sociedade civil em lugar de serem feitos dentro do
esquema proposto‖ (2008 [1979], p. 28). O caminho lento e gradual era, portanto,
sinônimo de ―caminho controlado‖, como se algo pudesse mudar, mas o ―estado-maior‖
continuasse sempre ileso. Em sua avaliação, o ―pacto de abril‖ teria sido um ponto
nevrálgico da ―transição controlada‖, pois, se assim não o fosse, provavelmente teria
sido possível a convocação de uma Constituinte146 – que só poderia ter êxito mediante
certos passos prévios, em especial o não vigor do AI-5 e a conquista de liberdades
mínimas, como a Anistia, por exemplo147. Neste aspecto, salvaguardas legais eram
vistas como pressuposto necessário à consecução de uma transição ao Estado de direito,
e, diante dele, a convocação de uma Constituinte.
Em 1981, Faoro publica Assembleia Constituinte: a legitimidade recuperada.
Neste livro, o autor defende a convocação da realização de uma Constituinte para que o
Poder Legislativo se submetesse, através do poder popular, ao ―império do povo‖
(FAORO, 1981).
A elite não precisa de constituinte, senão que esta a ameaça no núcleo de seus
interesses, como dela não precisam os privilegiados que detêm o poder
exatamente porque seu mando não deriva da vontade popular. Quem dela tem
necessidade são os que não têm voz no estreito círculo da chamada classe
política: a classe média com oportunidades decrescentes no esgotamento do
regime cooptativo do favor e a classe operária, reduzida a peça auxiliar no
quadro do poder, com os sindicatos sitiados e seus direitos tutelados. Só por
meio dela os empresários deixarão de ser instrumento passivo do Estado,
amordaçados nas suas atividades e opiniões, cuja franqueza ou rebeldia lhes
custa a ruína, no corte de créditos e negócios que passam quase sempre,
numa economia governamental, pela rede bancaria oficial (FAORO, 1981, p.
87).

Ressaltando a diferença entre legalidade e legitimidade, Faoro afirma a


necessidade de se restaurar a autoridade e a legitimidade e não só uma legalidade ―dos
rótulos e do poder instrumentados pela força‖ (1981, p. 90). A autocracia, naquele
estágio, corresponderia, a seu ver, à tirania, pois assegurava a obediência em detrimento
do consentimento, suplantado pelo medo e pela força. Já a democracia, expressão
política da necessária ampliação das bases da sociedade, caminhava coordenadamente

146
―Raymundo Faoro era presidente do Conselho Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB),
em 1977, quando lançou a proposta de convocação de uma Assembleia Constituinte exclusiva que se
dissolveria após concluir seus trabalhos. Em 1987, o Congresso ganhou poderes constituintes e fez a nova
Carta Magna. Faoro criticava a decisão, entre outras coisas, pelo fato de os constituintes ficarem expostos
às transações do jogo político cotidiano no Congresso‖ (FAORO, 2008 [1979], p. 29).
147
Faoro faz menção à VII Conferência Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil de 1978. Nela, o
tema geral dos debates havia sido o Estado de direito, e posições enfáticas sobre o habeas corpus e
garantidas das magistraturas integrais, direito de greve, liberdade sindical, dentre outros, foram tomadas.

219
com o Poder Constituinte: não havia outro recurso para romper o ciclo vicioso do poder
obedecido em silêncio.
A conjuntura comportava, então, uma disputa. De um lado, o peso histórico da
tradição do patronato brasileiro buscava, ainda que em um processo de ―abertura‖,
controlar “pelo alto” a transição. De outro lado, os movimentos sociais,
fundamentalmente o movimento sindical surgido no ABCD paulista e responsável por
movimentos grevistas em 1978/1979, correspondiam a uma nova possibilidade para a
―corrente subterrânea‖ popular afrontar os ―donos do poder‖ e seu estamento
burocrático. Essa nova cultura política, se assim podemos chamar, quebrava com duas
fortes resultantes do Estado politicamente orientado: a malfadada contraposição à força
burocrática pela anarquia dos movimentos e o corporativismo sindical herdado do
Estado Novo. Resgatar a legitimidade das instituições e do Estado através de uma
Constituição com participação popular, seria, portanto, a possibilidade de
“desprivatizar” o Estado da ordem patrimonialista. Era ela, na prática, a
democratização do poder.
Em 1985, Faoro concede uma entrevista, na qual avalia basicamente a transição
―pelo alto‖ da Nova República148. Nela, demonstra preocupação com os primeiros
passos, até ali observados, uma vez que a absorção dos mecanismos de arbítrio dos anos
de chumbo junto a uma estratégia de ―governo duro, de governo oligarca‖ (p. 37) se
insinuava. Para ele, era previsível que o mandato de Sarney duraria seis anos, pois, caso
conseguisse angariar apoios vinculados a setores do regime militar, buscaria estabelecer
o controle, pelo alto, sobre as demandas populares. Perguntado se esse projeto
coincidiria com o de Tancredo, Faoro afirma haver uma diferença qualitativa entre
Sarney – apoiador do Golpe de 1964 – e Tancredo.
Já o parlamentarismo, manutenção de uma estrutura oligárquica de poder via
conservação do Congresso sem desmontes, seria um ―jogo de cartas marcadas‖ (p. 40).
Sarney jogava esse jogo por um projeto de longo prazo – segundo Faoro, um possível
―Estado Novo do PMDB‖. E, para o autor, o próprio cenário para essa política passava
pelo tipo de Constituinte:
O Ulysses talvez seja o mais enganado deles todos. Ao Ulysses o partido
prometeu a candidatura presidencial. É uma candidatura muito larga. Tem
muito tempo. E essas promessas...Ele foi conivente, no momento em que

148
FAORO, Raymundo. A democracia absorveu a ditadura: entrevista à Senhor (1985) (DIAS, 2008, p.
35-65).

220
transou a Constituinte. Nesse ponto eu devo ficar com a discordância de
vocês todos; eu acho que o centro da batalha estava no tipo de Constituinte. E
o PMDB foi absolutamente insensível à compreensão desse fato (FAORO,
2008 [1985], p. 46).

Neste processo de transição, o PMDB teria se descoberto enquanto partido do


poder: o partido e mesmo sua ―ala esquerda‖ almejá-lo-iam. Quando indagado sobre
esta ―ala esquerda do PMDB‖, responde:
Eu acho que a esquerda tem uma definição, tem uma característica. Mas ela
não está querendo abandonar o poder. Ela supõe que o seu projeto não é
realizável fora do poder. Ela não deu espaço nem na área dos economistas
nem na área dos políticos. Não quis ir para um partido diferente, para um
partido socialista. Fez um partido socialista ou diversos partidos de
circunstancia, mas para voltar a se aglutinar depois. Querem coligação,
querem a mesma sigla (FAORO, 2008 [1985], p. 51).

Ao responder o questionamento sobre ―mudanças concretas‖ que teriam sido


realizadas no período da transição, Faoro avalia a inconcretude das mesmas:
No concreto, nós não temos nada. Temos um sujeito que chegou e disse:
―Nós ganhamos‖. Que foi Tancredo e agora é o Sarney. Estão dizendo para
os operários, para os homens sem terra, para os boias-frias: ―Olha, vamos
acabar com isso, que nós ganhamos. Não há mais o que batalhar, deixe que
eu articulo as coisas‖. A direita é isso. Na América Latina eu não sei se existe
alguém, ou algum grupo, tão articulado, tão sagaz, com pensamento tão
consistente como a classe dominante, o grupo dirigente brasileiro. Acredito
que não haja outro capaz de fazer todas essas mágicas e dar sempre certo.
Mas será que agora dá certo?
Mérito das pessoas ou da ausência de adversários à altura?
Bom, eu suponho que seja pela falta de povo. Este é um povo que não
votava, que não participava eleitoralmente. A gente fica espantado quando
hoje, por exemplo, em termos de participação eleitoral, o percentual é de
50%. Então, todo mundo vota. Há duas pessoas e uma vota, todo mundo está
votando. Há um grande espanto quando a gente percebe que na Constituinte
de 1946, com os mesmos dados de hoje, com exceção do voto do analfabeto,
só votavam 11%. Só votou um terço do potencial. Podiam fazer três
Constituinte iguais, com três eleitorados diferentes. Que dizer, o elitismo dá
nisso. Agora, onde estava esse eleitorado que não aparecia, sendo que o voto
era obrigatório? Onde se escondeu esse eleitorado? Essa argúcia do grupo de
dirigentes brasileiros é fantástica. Agora, vai dar certo daqui para frente?
(FAORO, 2008 [1985], p. 53, grifos em negrito nossos).
Continuando sua análise, Faoro toma o PMDB como um partido que ―foi para o
governo para se comportar como governo‖, pois seu jogo se projetava para além
daquele período histórico, pois encontrava-se em elaboração uma ―estrutura de poder,
mais além do que um mandato‖. O jogo estava sendo ―projetado para o ano 2000‖ (p.
57): o projeto, o ―Estado Novo do PMDB‖ poderia ser mudado pela via eleitoral. Ainda,
o repórter indaga e Faoro responde sobre as perspectivas futuras dos outros partidos.
Vejamos.
E as perspectivas do PT e do PDT?

221
Eu acho que o PT é um projeto de partido. O PDT eu não acho que seja. O
PDT é um projeto pessoal de Brizola. O PDT seria o que o PMDB está
sendo. Se tivesse ganhado, o PDT estaria na mesma situação que o PMDB.
Talvez com menos flexibilidade, porque não tem quadros tão experientes e
gente tão hábil como tem o PMDB. Já o PT eu acho que seja uma
expectativa, uma esperança, de que possa constituir um partido. Ou o PT ou
um partido com essas características.
Um partido de esquerda.
Eu evito o termo. É um partido com base nessa realidade nova do
operariado, do homem do campo, de quem esteve por baixo esse tempo
todo.
Ele pode ter um salto de qualidade, mas se houver grande indecisão do
governo.
Será um trabalho também demorado. Se for súbito, ele encontra densas
resistências. Ou essas interrogações no caminho.
(...) O que sobra realmente seria a capacidade que teria a sociedade de se
organizar e invadir as regras do jogo partidário. O PT diz isso hoje de uma
forma insistente, que ele seria o futuro, alguma coisa nesse terreno, um
partido popular, um partido que conseguisse, de repente, empurrar certas
decisões, dar densidade de classe aos interesses.
Densidade de classe, infelizmente não tem. O que é até considerado uma
coisa criminosa, no Brasil, quando é um avanço. Sociedade de classes é um
avanço (FAORO, 2008 [1985], p. 59-60, grifos em negrito nossos).

Do ponto de vista da análise conjuntural, entra em pauta o ―pacote econômico‖.


Faoro acreditava que os principais problemas sociais não encontrariam respostas no
pacote, pois ele se omitia frente ao problema da ―inflação, o problema externo, o do
desenvolvimento‖ (FAORO, 2008 [1985], p. 60), colocando em evidência novo
impasse: combate à inflação ou desenvolvimento?!. Com a inflação sendo prevista para
500% no ano seguinte, a solução política passava por algum arcabouço de legitimidade,
sem a qual não haveria sustentação, mantendo-se, assim, a base da ampla repressão.
Ainda, ao ser indagado pelo repórter, o autor caracteriza o capitalismo brasileiro
como ―enfiado goela abaixo‖, pelo Estado, aos que viriam a ser capitalistas.
Não há capitalistas modernos no Brasil. Tem capitalistas ligados ao Estado.
É um partido para modernizar ou para ou representar o capitalismo, porque o
empresário não é capitalista. Ele é um homem que se serve, ou é beneficiado
pelo Estado para realizar projetos que podem ser até projetos de benefício
público, para o bem geral, mas são projetos ditados de cima para baixo.
Então essa observação é fundamental. Você está diante de expressões de
classe e você está sem classe-chave, que é a classe capitalista, o
empresariado. Hoje ninguém gosta que se fale em capitalismo. Burguês então
é um termo esconjurado. Mas o empresariado brasileiro, que é o
empresariado brasileiro? É o Mário Garnero, que diz ao Senhor: ―Bem, eu
não fiz tais coisas porque eu tinha um diálogo com o governo‖. Ora, o
capitalismo não é isso. O capitalismo é: “Eu utilizei o mercado e forcei o
governo a ser o governo que eu queria que fosse”. Isso vale também para um
partido operário. ―Eu fui ao mercado e forcei o empresário a negociar as
mínimas condições que eu queria.‖ Então, você volta ao problema histórico
do Brasil. Há uma explicação brasileira que é preciso procurar não no
Marx, mas em Pareto. Quer dizer, os instrumentos teóricos que você está
utilizando têm de ser reatualizados. O capitalismo tem que ser enfiado goela
abaixo dos caras. O capitalismo aqui me lembra as revoluções do Rio Grande
– o sujeito chegava e dizia: ―Olha, vai haver uma revolução lá e você é

222
capitão, e não esqueça o posto‖. Você não queria ser cabo nem soldado. Você
vai ser capitão. Então você é o capitão por determinação. Há um livro
importantíssimo, da década de 60, chamado A burocracia celeste. É um
debate do autor, um sinólogo, com o marxismo. Ele é um búlgaro, mudou-se
para Paris, e começou a discutir a sociedade chinesa. Então colocou esta tese:
como é que uma burocracia, os mandarins (bom, mandarim nem é um nome
chinês, foi português que botou esse nome lá) impediram uma burguesia.
Quer dizer, eles impediram que a burguesia aparecesse dentro da estrutura
do Estado, sempre frustraram a burguesia. Num período depois do
feudalismo, não surgiu o capitalismo. Então o Marx dizia: ―Bem essa é uma
fase que é transitória em que é possível uma ascendência do Estado sobre as
classes‖. Então o búlgaro pergunta: ―Bem, mas o regime que mantém isso
durante 2 mil anos é transitório?‖ (FAORO, 2008 [1985], p. 63- 64, grifos
nossos).

Coincidências de seu exemplo com o caso brasileiro, o ―burguês chinês‖


corrompia funcionários em troca de favores, ou ele mesmo seria um funcionário
atrelado a mandarins atuantes na área privada. Neste sentido, ainda que o mandarinato
pudesse acabar, a estrutura que dava origem a esse tipo de relação não acabaria,
permanecendo de forma arcaica, porém resistente. E, ao ser questionado
conclusivamente pelo entrevistador sobre os efeitos das mudanças pelas quais o país
havia passado, Faoro admite que governo, oposição e intelectuais não a teriam
compreendido. O país, contudo, seria outro.
No ano de 1986, marchava-se para a Constituinte. Seu formato, porém, era
distante daquele defendido por Faoro em seu livro de 1981, ou pela proposta da OAB
em 1977, quando ele ocupava seu cargo de presidente. A Constituinte exclusiva era
substituída por um Congresso Constituinte, fato analisado por Faoro na entrevista ―Uma
constituinte tutelada‖149, na qual afirma que, pelas características da Constituinte, se
estaria operando o ―Estado Novo do PMDB‖. Ainda que esse partido tivesse logrado
êxito nos setores populares na eleição de 1982, elegendo dez governadores, ele mesmo
se apoiaria imediatamente em medidas antipopulares, com iniciativas repressivas às
greves, por exemplo. Comporia, na opinião de Faoro, o amadurecimento de uma
tendência segundo a qual grupos civis teriam apoio militar para manutenção de projetos
tecnocráticos não populares. Vendo que a Constituinte seria construída por dentro deste
projeto, o autor responde:
O senhor não acha que a Constituinte pode desnudar ainda com mais clareza
esse projeto e até desafiar essa hegemonia?

Vejo que a Constituinte foi constituía dentro desse projeto. No momento em


que se fez a Constituinte ―dentro‖ do Congresso, já era o Estado Novo do

149
FAORO, Raymundo. Uma constituinte tutelada: entrevista a Senhor (1986) (DIAS, 2008, p. 67-94).

223
PMDB que estava operando, estava trabalhando. Para que a Constituinte saia
desse projeto é uma dificuldade imensa, em primeiro lugar porque o PMDB,
junto com o PFL, é hegemônico. E a Constituinte foi entregue não aos
deputados e senadores: o sentido do voto popular foi não votar nem em
senador nem em deputado, foi em governador. A Constituinte está entregue a
uma coligação de governadores que vai manter o presidente enquanto o
presidente for fiel a eles (FAORO, 2008 [1986]).

Tomando o mandato de Sarney como resultante do equilíbrio entre governos dos


estados, Faoro acredita que cada estado se autonomizaria e mediaria a relação com o
povo. Prevê, portanto, uma República na qual os governadores teriam forte poder e
influência.
Eu acho muito duvidoso que haja uma pressão sobre a Constituinte. Eu
perguntaria o inverso: qual seria a reação desses governadores ou do
presidente da República se houver uma pressão popular sobre a Constituinte?
Não será a mesma reação que ele teve há dias com relação à greve? Ele vai
buscar o apoio que está faltando onde? O apoio popular que está faltando, e
se faltar ainda o apoio dos governadores ele vai buscar onde? Nós sabemos
que ele vai buscar esse apoio. Mas também esse apoio não é absoluto, ele terá
de procurá-lo dentro da frente dos governadores. Eu acho que ele vai
desmobilizar a Constituinte dentro de um acordo com governadores e diante
também de um alerta a essas forças, que ele chama ―de tutela‖. No seu últio
discurso, Sarney disse que nenhum presidente da República até este momento
tinha se libertado das forças de tutela. Então, essas forças de tutela que estão
aí não saíram do cenário. Está à espera de uma oportunidade para dar força ao
presidente. Para que lhe deem força, é necessário também que ele não perca
completamente o contato com o meio político. Uma pressão popular levaria a
que ele se definisse de uma maneira mais clara, o que seria bom, mas também
que ele se definisse tomando um rumo que nós prevíamos há um ano.
Essas propostas do PT, com objetivo de que haja participação popular na
Constituinte, de fazer com que ela seja televisionada e de levar caravanas a
Brasília, tudo isso é inviável na sua opinião?
Acho muito difícil que tenha sucesso. Em primeiro lugar porque, para
uma mobilização dessas, eles deveriam contar com os meios de
comunicação de massa e esses meios não estão disponíveis para essas
forças. O governador é uma chave muito importante. Nós vimos, por
exemplo, nas Diretas, que o movimento só tomou um grande impulso
quando os governadores o apoiaram, o de São Paulo e o do Rio de
Janeiro. Esse espontaneísmo popular é que eu não acredito que ocorra
(FAORO, 2008 [1986], grifos nossos).
Logo, o processo de metamorfose do PMDB seria resultante de uma transação
de convivência para dentro, para poder ―fazer a transação fora das fileiras‖ (FAORO,
2008 [1986], p. 76). O papel de Ulysses Guimarães seria, àquela altura, o de manter a
coesão para dentro do seu partido, o PMDB. Sobre o projeto como um todo, é
interessante acompanhar as duas próximas respostas de Faoro à pergunta do
entrevistador.
No seu ceticismo discreto, o senhor nos leva a entender que mais ou menos
se está fazendo um acerto para vir aí um modelo democrático excludente,
sem lugar para a grande massa, as grandes reivindicações populares. Onde
é que está a luz? Como é que o país rompe com isso, ou nós temos uma
vocação inata para a democracia autoritária?

224
Eu acho que o país só rompe com isso pela base. Eu não acredito que rompa
por vanguardas, nem porque forças de fora dão consciência às forças que
estão lutando, mas rompa pela base. É um fenômeno de organização desses
setores excluídos que tende a se ampliar, e veja que eles já se ampliaram.
Nas eleições, esses setores que foram excluídos da combinação política
fizeram quarenta deputados. O chefe do SNI calculou que a última greve
atingiu 20% da força de trabalho. Se atingiu 20% da força de trabalho, isso
significa que 20% do eleitorado ativo, do eleitorado que deu um voto cheio
ou um voto não nulo. Se forem 20%, deveriam estar representados no
Congresso por noventa ou cem deputados, e não quarenta.
Nesses quarenta, o senhor inclui os deputados do PT, dos partidos
comunistas e do PDT?
Os partidos comunistas eu tenho uma relutância em colocar nesses quarenta,
como tenho alguma relutância em colocar também alguns do PDT. Os
partidos comunistas também fizeram um acordo e estão relutantes em
abandonar esse acordo que estrategicamente pode ser muito útil. Um acordo
em torno da legalidade. É uma coisa valida em política: um compromisso
(FAORO, 2008 [1986], p. 78-79, grifos em negrito nossos).

Retomando o possível papel do PT no processo Constituinte, Faoro via que,


ainda que minoritário, o partido podia constituir um núcleo que, desagregando o que
havia de PMDB, constituísse um setor disponível para um ―compromisso‖. Para ele,
mesmo que a ideia pudesse despertar, ―às vezes, uma certa repugnância‖ (FAORO, 2008
[1986], p. 80), o compromisso era inerente ao jogo político, em especial em uma
Assembleia ou Congresso. No que dizia respeito à Constituinte, era previsto um acordo
em relação a duração do mandato de Sarney, o que poderia vir a se basear em um pacto
social.
(...) O que significa um pacto social para essa gente, que detém o poder a
tanto tempo? É uma paz social, quer dizer, é uma combinação para que não
haja a tal anarquia, entre aspas, não é? Então, para que não haja a tal
anarquia, essa situação pode ser acertada previamente, e aí dentro de um
espectro de consulta bem mais amplo, não? E não de um grupo mais fechado,
como se está esboçando. Porque o que se está esboçando é decidir essa
matéria numa próxima reunião de governadores, provavelmente já com a
designação, se for curto o mandato, dos concorrentes à reeleição (FAORO,
2008 [1986], p. 82).

O destino de Sarney dependia de sua política econômica em relação à dívida


externa e à efetivação de uma política de desenvolvimento não inflacionária e recessiva.
Tais decisões exigiriam, entretanto, base popular, o que o tipo de acordo feito até ali
impediria.
Realizada em 21 de novembro de 1986, uma greve nacional em reação ao Plano
Cruzado II muda os rumos da economia do governo. Para Faoro, a greve não havia
enfraquecido os movimentos sindicais, pois ela tinha como objetivo fazer uma ―conexão
do fato econômico, salarial, com o fato político‖ (p. 85), vinculação incerta em toda

225
parte. A tática de luta gerava um fato político que significava, por isso, uma tentativa de
emancipação dos trabalhadores em relação ao poder público, mesmo que fraca e
incipiente. Ao ser perguntado sobre uma nova influência dos militares no poder em um
próximo período, Faoro apresenta uma caracterização sobre os golpes no Brasil,
apontando o de 1964 como uma exceção à regra:
(...) Quando pensamos em golpe, em poder militar, tendemos a achar que
1964 é o molde, é o modelo, quanto 1964 é a exceção. As intervenções
militares não foram assim: 1937 foi com um líder civil; em 1964, limitaram-
se a arredar um presidente da República; em 1955, também. Limitaram-se a
arredar um presidente da República e deixar que os civis organizassem a sua
convivência. Não há nenhum partido que venha da República, não há
nenhuma corporação, nenhuma organização no Brasil que tenham um know-
how tão longo (FAORO, 2008 [1986], p. 93).

Retomando em parte suas análises feitas nas entrevistas supraexpostas, em ―O


país é pré-capitalista‖, de janeiro de 1988, o autor demonstra amplo ceticismo com o
cenário político de ―acórdão‖ na Constituinte. Apontando que a eleição democrática e
aberta seria a menos provável entre as saídas para a crise política e econômica, avalia
que a expectativa do ―centrão‖ político era a de uma eleição que fosse substitutiva ao
golpe: ―uma eleição com o monopólio dos meios de comunicação, uma substituição da
deliberação popular pela máquina montada. Esse seria o sonho‖ (p. 108).
A possibilidade de ruptura política estaria, assim, colocada, ainda que de forma
amorfa. Ao ser perguntado se Lula seria um intérprete da tese da ruptura, responde:
Poderia ser um dos intérpretes. Agora, eu ainda não vejo uma boa definição,
ainda não percebo na rua, em lugar nenhum, uma identificação do Lula como
sendo a bandeira da ruptura. O perfil individual dele e o perfil coletivo ainda
não se encontraram. Vejo a mesma coisa com Brizola. Se pudéssemos dizer:
o homem é o Brizola, a ruptura estava feita. O homem é o Lula: a ruptura
estava feita (FAORO, 2008 [1988], p. 110).

A possibilidade de uma variante populista, que atendesse aos setores


conservadores, por sua vez, prescindiria do PMDB, que, a seu ver, teria o provável
destino de rachar. Pouco tempo depois, na fundação do PSDB (1988), o racha se
configuraria. Mas o descarte da hipótese populista não era absoluto, pois, se fosse
possível, se configuraria uma candidatura carismática, um tipo ―exemplar‖ e ―heroico‖,
ou o ―o empresário que resolve tudo‖ (FAORO, 2008 [1988], p. 112) – como Antônio
Erminio de Moraes, por exemplo.
O jornalista retoma um dos pontos importantes do pensamento de Faoro ao
perguntar-lhe se a composição pelo alto, ou a ―conciliação‖, podiam ser utilizados como
expediente. Vale acompanhar.

226
Parece que o nosso único caminho continua sendo a composição em cima, a
conciliação?
No Brasil, o povo está sempre na defensiva. Ele reivindica, mas não realiza
a sua estratégia, quando realiza, realiza imaginariamente, como no caso
Tancredo. Eu acho que é com isso que a direita conta.
Um povo muito infeliz, não?
Um povo que ainda não surgiu como ator (FAORO, 2008 [1988], p. 116,
grifos em negrito nossos).

Portanto, por um lado, o povo não havia surgido como ator, e, por outro, o
empresariado seria ―pré-capitalista‖. Neste sentido, e diante da possibilidade de se
modernizar a legislação através da Constituinte, ter-se-ia formado um ―centrão‖ voltado
para a estabilidade do empresariado nacional.

4.8 Florestan Fernandes: Nova República, Constituinte e a estratégia democrática e


popular rupturista

Em termos do após-Segunda Guerra Mundial, em termos do que se criou em


escala universal sob a guerra fria e a defesa selvagem do capitalismo, nos
dias que correm não se pode mais manter nem a ilusão constitucional nem a
ideia de que a pressão de cima para baixo abre espaço político para as
classes subalternas. Especialmente se estas classes subalternas não podem
ser drenadas e esvaziadas de conteúdo revolucionário de uma maneira
segura. Se o dreno pudesse funcionar a contento da burguesia e do
imperialismo, não haveria perigo. O consumo de massa geraria condições
para diluir as pressões e, a médio prazo, todas as possíveis pressões de
baixo para cima seriam manipuladas e neutralizadas (FERNANDES, 1980,
p. 68, grifos nossos).

Poucas páginas atrás, abordamos a contribuição de Florestan Fernandes partindo


de seu célebre texto sobre A revolução brasileira, de Caio Prado Júnior. Nela,
Fernandes expunha linhas bastante críticas sobre as conclusões de Prado, e se
contrapunha aos limites da revolução brasileira conquanto uma revolução burguesa.
Projetava, ao avesso, a revolução brasileira a partir de ―meios políticos‖ que
conduzissem ao socialismo.
Florestan traz, para o centro de sua análise, o padrão de associação dependente e
periférico do capitalismo ao imperialismo. A ―burguesia brasileira‖, desenvolvendo-se
de forma dependente e associada, não seria capaz de promover qualquer sorte de
programa capitalista autônomo, nacionalista e integrado, pois se movia em torno de
―vantagens relativas‖, assumindo perfil particularista e excludente: tratar-se-ia de uma
autocracia burguesa. As tarefas da revolução burguesa, por sua vez, não poderiam e nem
seriam cumpridas por essa autocracia, mas pelas classes trabalhadoras em um projeto

227
democrático que, a partir de embates por reformas, em especial a reforma democrática,
iniciassem-se dentro da ordem e se voltassem contra a ordem. Tais ―‗transformações
estruturais‘ (designadas separadamente como ‗revoluções‘ pelos analistas: revolução
agrária, revolução urbana, revolução demográfica, revolução nacional, revolução
democrática)‖ (FERNANDES, 1981, p. 2) indicavam a possibilidade de aproximação
ou afastamento e negação à potencialidade de expansão da ordem capitalista burguesa
no país, pois como aqui não se teriam realizado tais revoluções, o capitalismo estaria em
débito ―com a revolução demográfica, com a revolução nacional e com a revolução
democrática‖ (p. 2).
O essencial, para que se alcançasse tal processo de rupturas, portanto, era
garantir que a luta pela democracia se ligasse a um instrumento próprio dos
trabalhadores150 e à luta de classes, e não a qualquer sorte de mistificação legal ou
pacífica sobre o processo democrático:
O essencial é que ela [democracia] não seja extinta ou paralisada, em nome
de mistificações, como a que a encerra no universo legal e pacifico de defesa
da forma burguesa de democracia. A via democrática compatível com a luta
de classes é a que se cria graças ao enfrentamento das classes subalternas e
oprimidas com as classes dirigentes e opressoras.
De fato, seria ilusório pensar ou supor que as classes subalternas e oprimidas
pudessem se organizar para levar a luta de classes a um patamar
revolucionário, seja seguindo à risca o modelo burguês de democracia, seja
prescindindo de uma forma concreta de democracia real interna em seu
movimento histórico. A democracia não é só um valor supremo ou um fim
maior. Ela também é um meio essencial; e, no caso das rebeliões dos
destituídos e oprimidos sob o capitalismo, um meio essencial sine qua non: a
ordem capitalista não é negada somente depois da conquista do poder. O
deslocamento da supremacia burguesa e a necessidade da conquista do
poder exigem uma democratização prévia extensa e profunda, de natureza
proletária, das organizações operárias de autodefesa e de ataque. O que
entra em jogo, portanto, não é ou democracia ou revolução proletária. Essa
alternativa é falsa e desde que o proletariado tenha condições para se lançar
ativamente à dinamização da luta de classes, ele põe em equação histórica
uma forma política de democracia que as classes burguesas não podem
endossar e realizar (e não poderiam mesmo que não estivessem vivendo uma
época de contrarrevolução prolongada) (FERNANDES, 1981, p. 12, grifos
nossos).

150
―(...) Então, se vocês pensam em termos de proletariado, a capacidade de comportamento coletivo e
organizado, de consciência de classe, de solidariedade de classe etc., vocês coligem os elementos
necessários para que nós possamos compreender como as classes trabalhadoras, como os setores
antagônicos à ordem imperante em uma sociedade capitalista, dinamizam e fazem eclodir as contradições
do regime de classes. Inclusive como nos setores intermediários e nos estamentos dominantes surgem
grupos divergentes, que às vezes aderem a comportamentos anticapitalistas. É preciso botar todos esses
elementos dentro do espectro. Tudo isso aí depende de dinamismos dos conflitos de classe. É preciso não
pensar na classe como um pé-de-chumbo, como se a classe afundasse o movimento socialista, afundasse o
partido. A classe não é um pé-de-chumbo; ela é o elemento central, que condiciona e regula o vigor do
movimento e do partido‖ (FERNANDES, 1980, p. 11).

228
As tarefas em atraso da revolução burguesa só poderiam acontecer, na
formulação florestaniana, a partir de iniciativas das classes despossuídas e trabalhadoras
na construção do socialismo, em uma dialética da revolução dentro da ordem e contra a
ordem. Esta, por sua vez, que nada mais seria do que a deflagração da guerra civil
oculta em guerra civil aberta, portanto, em uma revolução permanente.
Dando enfoque às décadas de 1980/1990, Florestan foi influente militante do
Partido dos Trabalhadores, deputado federal por dois mandatos 151, entre eles um
mandato na Constituinte, durante o qual lutou pelas diversas pautas de esquerda, em
especial a de universalização da educação pública. Vejamos comparativamente a
posição apresentada por Faoro, que analisamos, na busca por elucidar o contexto e as
reflexões estratégicas de Florestan diante da ―entrada‖ na legalidade.
Faoro acreditava, no limiar das décadas de 1970 e 1980, que a conjuntura
comportaria uma disputa. De um lado, o peso histórico da tradição do patronato
brasileiro que tentava, pelo alto, controlar a transição. De outro lado, movimentos
sociais, que corresponderiam à possibilidade na qual a ―corrente subterrânea‖ (povo)
poderia afrontar os ―donos do poder‖ e seu estamento burocrático. Segundo ele, resgatar
a legitimidade das instituições e do Estado, através de uma Constituição com
centralidade da participação popular, era a possibilidade de ―desprivatizar‖ o Estado da
ordem patrimonialista. A Assembleia Constituinte verdadeira equivaleria, na prática, à
―democratização do poder‖.
Mas a própria Constituinte não seria simples. Se seu perfil ―exclusivo‖ convertê-
la-ia em um instrumento de controle do poder, em certa medida o campo das
alternativas dentro da ordem – buscando substituir parcialmente a forma jurídico-
política – sofria com o controle da forma de transição. Dessa forma, como o Estado
controlado pela autocracia poderia conduzir uma transição democrática? Seu ponto de
partida não é de fato único. O processo encontrava-se em movimento e a democracia,
mesmo que formal, se colocava como arena para travarem-se as lutas:
De outro lado, de 1976 e 1977 em diante, os trabalhadores iniciaram a
passagem da luta meramente defensiva para a luta ofensiva, encetando um
movimento de autodefesa de classe que partia das fábricas e mobilizava os
sindicatos para um ativismo nascido das bases. Tanto os patrões quanto a
ditadura se viram presos numa espiral de lutas econômicas e políticas que não
se esgotavam mais em acordos e em arranjos de cúpula (...). O poder via-se,

151
Em novembro de 1986, Florestan Fernandes, sociólogo e militante, elegeu-se deputado federal pelo
PT. Durante o debate da Constituição, coordenou a área educacional e cultural das ações do partido.
Engajou-se posteriormente no debate da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Reeleito em
outubro de 1990, iniciou o novo mandato em fevereiro de 1991.

229
de novo, desafiado como durante a década de 50 e início da década de 60
(FERNANDES, 2007 [1984], p. 174-175).

Florestan Fernandes contribuirá com o tema a partir de ampla avaliação sobre o


significado da transição partindo da premissa de que a ausência de democracia seria um
centro nevrálgico da estrutura social brasileira. Ainda em 1979, início do processo de
distensão Florestan afirmava a intrínseca relação entre o caráter de classe do poder
burguês e o limite de suas pretensões democráticas. A crise do poder burguês, por sua
vez, não dissociava a burguesia nacional do imperialismo, mas, muito pelo contrário, os
soldava firmemente: o Brasil se via mais incorporado ao capitalismo monopolista do
que antes.
Esse aspecto é importante porque alguns analistas da esquerda alimentam a
esperança de rupturas burguesas pelo “controle democrático” do Estado,
por efeito das “pressões populares”. Ora, uma recomposição de classe do
poder burguês dificilmente sairia por cima e contra a articulação entre
burguesia nacional e imperialismo. Se essa evolução se concretizar, ela terá
de ser um produto da atividade contestadora das classes trabalhadoras e
despossuídas (a esse respeito vale a pena analisar francamente o que ocorreu
em Cuba e no Chile). Pode-se lutar taticamente pela democracia, mas não por
essa razão e com essa ilusão (FERNANDES, 2011 [1979], p. 44, grifos
nossos).

O processo Constituinte (FERNANDES, 2014), ao deixar de lado a Assembleia


exclusiva, estaria frontalmente abalado. Tal abalo, entretanto, não seria passageiro, mas
um traço permanente de uma democracia que, mesmo em seu nascituro, não permitiria
suprimir o caráter restrito da renitente tirania dos de cima.
A sociedade brasileira vive um momento histórico dramático a esse respeito.
De 1937 a 1964 foi preciso que as classes dominantes recorressem duas vezes
ao golpe de Estado e à ditadura para superar sua incapacidade de avançar até
uma Carta Constitucional efetivamente colada às exigências históricas que o
grau de desenvolvimento capitalista alcançado impunha às relações de
classes antagônicas. Em termos aproximados, tiveram que burlar a sociedade
e usurpar a Nação na metade de quase seis décadas que compreendem a
história do país de 1930 até hoje! Esse é um dado fundamental, que atesta
não só que “a Constituição não está acima das classes”. Ele demonstra que
vivemos em uma sociedade burguesa na qual a burguesia não aprendeu, no
seu todo, a conviver com a “normalidade constitucional”. Se esta não existe,
a democracia é uma ficção ou uma mistificação grosseira e qualquer
modalidade de regime republicano se corrompe em um fechar de olhos,
convertendo-se em tirania indisfarçável, em despotismo dos de cima
(FERNANDES, 2007, p. 18, grifos nossos).

O debate posto por Fernandes remete-nos ao ano de 1964, quando, antes do


golpe, a interpretação do PCB apontava para o gradualismo, o pacifismo e a coalizão de
trabalhadores, camponeses e burguesia nacional em torno das tarefas democráticas e
nacionais para a revolução brasileira. Acreditava-se, desde a ―Declaração de Março de

230
1958‖, que ―setores progressistas‖ nacionais tinham interesse na luta anti-imperialista,
ao avesso dos entreguistas – esses sim aliados ao imperialismo. Em direção oposta,
Florestan observará, já após o golpe, que, nos países dependentes, os estratos
dominantes não possuiriam autonomia necessária para conduzir e completar uma
revolução com caráter (sequer) de independência nacional. A sociedade tinha que ser
analisada de forma mediada pelas relações de classes, que indicavam uma burguesia
sem compromisso histórico com a democracia, com as classes trabalhadoras e, até
mesmo, com a legalidade institucional.
É neste sentido, e na percepção sobre o transformismo da autocracia burguesa no
período de transição democrática, que o autor é chave para compreender a estratégia
democrática e popular afirmada na década de 1980. O período de transição, calibrado
pelo ritmo ―gradual e seguro‖, transmutaria a autocracia. Os episódios de transição
pactuada para Nova República, como a consolidação da Constituinte não exclusiva e a
ausência de eleições diretas até 1989, expressavam, ademais, a resistência desta
autocracia à mudança e não seu contrário, ou seja, a suposta democratização.
A estratégia de acúmulos e reformas, ao lidar com uma autocracia burguesa,
levaria a rupturas irreversíveis. O movimento de afirmação da estratégia petista na
década de 1980, em especial no 5º Encontro Nacional do PT, em 1987, incorpora
notoriamente um processo de ruptura, previsto e considerado como parte dinâmica desta
mesma estratégia.
O pós-Constituinte e a transição para o sufrágio eleitoral universal acabam por
compor novos determinantes na avaliação estratégica petista. Mesmo que os
constituintes do PT não tenham assinado o texto pela correlação de forças ali expressas;
a partir das eleições de 1989, a narrativa petista sobre a Constituição tomará bem mais
afeitos à legalidade. O discurso apologético da Constituição e da Nova República vão
suplantar, conformar e acomodar toda a crítica anteriormente realizada pelo partido.
Ainda que este fato relacione-se com a conjuntura pós-1989 – queda do Muro de
Berlim, colapso do socialismo real e derrota de Lula para os setores conservadores –,
vale deixar sublinhado que Florestan, em 1991, mantém sua posição crítica perante a
particular legalidade institucional burguesa brasileira e confronta-se com a guinada
política realizada no 1º Congresso do PT.
Essa nossa burguesia odeia a democracia, mesmo dentro de parâmetros
capitalistas, porque teme que ele acabará acarretando, fatalmente, a ―anarquia
da ordem‖ e o ―comunismo‖! Até a Constituição de 1988, por suas
concessões ambíguas e por certos avanços alcançados a duras penas, é
indigitada como indesejável e prejudicial ao país (não aos interesses do bloco

231
no poder). Ora, o socialismo não pode ser avaliado por tais juízes e sob os
crivos obsoletos que eles aplicam! Pois os clássicos do socialismo sempre
foram defensores acérrimos da democracia, sob a forma de democracia da
maioria e não da democracia restrita ou da democracia eleitoral-
representativa ritual. Sabiam, no entanto, que as premissas da existência da
democracia, essenciais para a revolução socialista, teriam de ser polidas e
ampliadas pela experiência histórica concreta. A recusa da democracia
burguesa obrigava a se conceber a reforma e a revolução em interação
dialética e a se pensar a democracia como meio, fim e valor sociais
(FERNANDES, 1991, p. 44-45, grifos nossos).

4.9 Os governos Lula e o lulismo

Entre as diversas interpretações empreendidas sobre o período dos dois governos


Lula, o arcabouço teórico-conceitual que dá base ao conceito de lulismo é o que, aqui,
colocaremos em questão. Como parte da apreensão da estratégia pela teoria social
brasileira, o lulismo revela e oculta determinantes fundamentais desta controvérsia.
Mas não parece estranho apontar que o lulismo, resultante de uma arquitetura de
governo, se relacione com o tema da estratégia democrática e popular? À primeira
vista, o lulismo trata de uma manifestação específica que, ao chegar ao palácio do
planalto, assumiria forma própria e autônoma frente à estratégia da classe trabalhadora
construída ao longo das décadas de 1980 e 1990 – ou seja, a estratégia democrática e
popular. A forma que essa estratégia se realiza resulta, entretanto, de constrangimentos
próprios do desenvolvimento e do movimento da estratégia mesma, que, com sentido de
alcançar o meio para implementar seu projeto, ajusta-se ao caminho. É nesse sentido
que a acepção sintetizada no lulismo permite traçar um panorama inicial – e aparente –
do debate estratégico, porém sob a interpretação que privilegia a forma como ela se
manifestou.
O risco de generalização do conceito de lulismo deve ser relativizado, uma vez
que não será possível dar conta de forma profunda de diferenças que marcam as
interpretações dos autores que edificam o conceito. Isto posto, acreditamos ser possível
identificar preocupações entre os autores e, no seu bojo, a forma como se lê a realização
da estratégia. Para tanto, dividiremos em temas principais as seções, que podem
comportar um ou mais autores, a depender dos elementos centrais por eles avaliados.

232
4.9.1 Lulismo: pacto pelo mercado interno de consumo de massas e reformismo
fraco

No período após Luiz Inácio Lula da Silva152 exercer seus mandatos de


presidente da República, um interessante debate, alçado pelo conceito de lulismo, tomou
a cena teórica e política. Entre diversos estudos empreendidos sobre o período, apoiar-
nos-emos, destarte, no de André Singer (2012).
Para Singer, o lulismo é um fenômeno sociopolítico originado na adesão de
camadas mais pauperizadas da população ao projeto colocado em marcha no primeiro
governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda para o autor, este toma forma mais precisa
no ano de 2006153, ano em que um ―realinhamento eleitoral‖ garantiria a reeleição do
presidente. Em torno de um programa de ―redução da pobreza‖ (2012, p. 15), o lulismo
ampliaria seu apoio junto aos mais pobres, em especial àqueles da região Norte e
Nordeste do país.
Baseado em uma aliança entre classes antagônicas que permitiria de forma lenta
e gradual implantar um programa de redução da pobreza e ampliação do mercado
interno de consumo de massas, o lulismo teria logrado, através de um peculiar
reformismo fraco, a sua consolidação. Na visão do autor, o modelo lulista
―simultaneamente, reproduz[iria] e avança[ria] as contradições brasileiras‖ e seria ―lento
e desmobilizador‖ (SINGER, 2012, p. 28), mas seria reformista. Somando manutenção
da ortodoxia macroeconômica a uma política de promoção estável do mercado interno,
o lulismo declinaria da estratégia de ruptura com as estruturas econômicas – modelo
próprio da classe trabalhadora organizada – e, em contrapartida, afirmaria um programa
que não se confrontasse com o capital.
O roteiro da hipótese interpretativa de Singer é assim apresentado:
Teria havido, a partir de 2003, uma orientação que permitiu, contando com a
mudança da conjuntura econômica internacional, a adoção de políticas para
reduzir a pobreza – com destaque para o combate à miséria – e para ativação
do mercado interno, sem confronto com o capital. Isso teria produzido, em
associação com a crise do ―mensalão‖, um realinhamento eleitoral que se

152
Em 27 de outubro de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da República pelo Partido
dos Trabalhadores. Depois de concorrer a três eleições presidenciais – nos anos de 1989, 1994, 1998 –,
Lula e o PT lograriam chegar, na quarta tentativa consecutiva, ao governo federal. Reeleito em 2006,
seria sucedido na presidência por Dilma Roussef, também candidata do PT, nas eleições de 2010 e 2014.
O último mandato de sua sucessora acabaria destituído por um processo de impeachment, no ano de 2016,
capitaneado pelo PMDB, partido que havia aderido à chapa presidencial encabeçada pelo PT desde a
primeira reeleição de Lula.
153
Ainda que o lulismo se expresse mais visivelmente no ano de 2006, o programa de combate à pobreza
pelo incremento do mercado de consumo foi colocado em marcha entre os anos 2003 e 2005.

233
cristaliza em 2006, surgindo o lulismo. O aparecimento de uma base lulista,
por sua vez, proporcionou ao presidente maior margem de manobra no
segundo mandato, possibilitando acelerar a implantação do modelo
―diminuição da pobreza com manutenção da ordem‖ esboçado no primeiro
quadriênio (SINGER, 2012, p. 13, grifos do autor).

Reconhecendo o fenômeno como uma modificação do projeto originalmente


petista, o autor ressalta o disparate entre a concepção de origem classista e aquela do
lulismo, cujo câmbio de tom em relação ao capital seria notório.
Utiliza-se, para tanto, da metafórica imagem de ―duas almas‖154 para expor tal
câmbio: a alma de Sion e a alma do Anhmebi. Sion, a alma do radicalismo original
petista, se veria solapada pelo aceno feito na ―Carta ao povo brasileiro‖155, firmada no
Anhembi durante as eleições de 2002. Em contraste com o radicalismo da alma de
fundação do PT (Sion), Anhembi encarnava um pacto conservador entre o partido dos
trabalhadores e setores da burguesia. O lulismo expressa, então, a síntese contraditória
entre as duas almas petistas: ―redução da pobreza e manutenção da ordem‖ (SINGER,
2012, p. 119). Ao caminharem juntas, exigiriam a assunção de uma postura mais dócil
frente ao capital.
Em relação à base econômica que supõe dar materialidade ao lulismo, Singer a
consubstancia na questão da atrofia ou do estrangulamento do mercado interno de
consumo. Com o fito de demonstrar seu longo alcance na teoria social brasileira, o autor
recorre a dois clássicos deste ramo de interpretação: Caio Prado Júnior e Celso
Furtado156. Destacando o pensamento de ambos157, a corporatura da manutenção do
atraso no Brasil se via referenciada na existência de uma massa de miseráveis que,

154
Uma pequena observação se faz importante diante da caracterização das ―duas almas‖ petistas. Os
constantes turnovers nas táticas políticas do PCB induziriam sua estratégia à pendulação oscilante entre
posições antagônicas, levando Gildo Marçal Brandão a afirmar a existência de suas ―duas almas‖ na
esquerda brasileira (BRANDÃO, 1997). Dicotômicas, materializar-se-iam em distintas vias, táticas e
análises sobre classes entre os comunistas. Uma delas, marcada pelo caráter ―golpista‖ e ―militarista‖
seria afeita à via insurrecional, enquanto a outra extremaria legalidade e institucionalidade. Voltaremos ao
tema no último capítulo desta tese.
155
A ―Carta ao povo brasileiro‖ baseou-se na proposição de um novo contrato social em torno do
desenvolvimento e crescimento econômico e social, responsabilidade social e estabilidade. Prometia,
ainda, mudanças democráticas que não ultrapassassem marcos institucionais. A intenção da carta era a de
acenar para ―acalmar‖ o mercado financeiro diante da possível vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.
156
Não é o momento de analisar profundamente o tema, mas vale deixar indicado que, na interpretação
que fazemos sobre a questão da incompletude do capitalismo o fundamento da perspectiva gradualista da
estratégia – correlacionada ao reformismo fraco – se baseia, dentre outros, na necessidade de superação
do estrangulamento/atrofia do mercado interno de consumo de massas. A questão do mercado interno de
consumo de massas é um dos temas imbricados à perspectiva da heteronomia econômica, interpretação
que medeia, em nossa opinião, a questão da incompletude na estratégia e na teoria social brasileira.
157
Singer baseia sua análise nas teses expressas em ―O Longo Amanhecer‖ (1999) de Celso Furtado e ―A
Revolução Brasileira‖ (1966) de Caio Prado Júnior.

234
impedida de consumir, obstaculizaria o desenvolvimento, inclusive das atividades
produtivas que poderiam absorvê-la (a própria massa) como força de trabalho.
Para Celso Furtado e Caio Prado Jr. as virtualidades e empecilhos que tinha a
nação para romper o circulo vicioso do atraso estavam vinculados à
existência da massa de miseráveis no país. (...)
Aspecto interessante da contradição brasileira é que a ―grande massa‖
empobrecida abria e fechava simultaneamente as perspectivas de
desenvolvimento autônomo do país. Abria, pois se tratava de mercado interno
de que raros países dispunham; mas fechava, uma vez que o padrão de
consumo era tão baixo que impedia a realização daquele potencial. A miséria
anulava a possibilidade de surgir um setor industrial voltado para o
mercado interno. Sem ter emprego, a massa miserável tornava-se uma
espécie de ―sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanente‖
(SINGER, 2012, p. 17-18, grifos nossos).

Tratava-se, portanto, de um ―circuito fechado‖ que, para parar de se


retroalimentar, carecia de interferências que começassem ou pela oferta (segundo
Furtado) ou pela demanda (segundo Caio Prado Jr.). A base econômica que dá
materialidade ao lulismo, então, se funda nesta superação da miséria, o que implica não
só o programa, mas a estratégia. Do ponto de vista da estratégia tratar-se-ia, como
vimos, da alteração de um projeto de cunho classista rumo ao nacional-popular, que
guardava como principal característica não precisar colidir com interesses do capital –
ou pelos menos com todas as suas frações. Um programa assentado sob uma fração de
classe subproletária158, ―transitória‖ e que almejaria ―desaparecer‖159, justificava o
desencontro, ao menos momentâneo, com a direção política da classe trabalhadora. Ao
conferir expressão política própria ao subproletariado, Singer enxerga na estratégia
nacional-popular a possibilidade de desconstituição do pauperismo e, neste sentido,
assenta sobre a superação da demanda represada o processo de desenvolvimento do
mercado interno e a incorporação do subproletariado ao consumo. A consequência, em
um prazo mais ampliado, seria a diluição desta fração de classe.
Resgatando ―o popular‖ que havia ficado ―de fora‖ do período neoliberal e da
própria estratégia da esquerda classista, a representação de uma figura popular de peso,

158
Para caracterizar o subproletariado André Singer se remeterá ao conceito de Paul Singer da década de
1980. Segundo o autor, seria razoável considerar ―subproletários os que tinham renda de até um salário
mínimo per capita e metade dos que tinham renda de até dois salários mínimos per capita‖ (SINGER,
2012, p. 77).
159
Segundo Singer: ―Como o projeto do subproletariado é sumir, ele não possui um modelo próprio de
sociedade, desejando (inconscientemente) incorporar-se àquela que é moldada pelos interesses de outras
camadas. Isso o coloca em posição de neutralidade e, portanto, favorece a arbitragem com respeito a
questões como a diminuição da desigualdade (não confundir com redução da pobreza) por meio da
construção do Estado de bem-estar e a desindustrialização do país. Cumpre insistir que o seu projeto é o
da diminuição da pobreza, não necessariamente da desigualdade, que são coisas distintas, embora
relacionadas‖ (SINGER, 2012, p. 156).

235
Luiz Inácio Lula da Silva, daria ao nacional-popular um ponto de fuga para, a partir do
arbítrio ―desde cima‖, fortalecer o Estado no rumo de proteger os mais pobres. Neste
sentido, o conflito entre ―Estado popular‖ e ―elites antipovo‖ se veria reposto em novo
patamar pelo lulismo. Logo, com a adesão do subproletariado criavam-se soluções sem
mobilização social: ―propostas divergentes têm mais chance de serem resolvidas por
arbitragem, isto é, por um executivo que paira sobre as classes e funciona como juiz de
seus conflitos‖ (SINGER, 2012, p. 157). E, assim, a ―gramática varguista‖, que ―opunha
o ‗povo‘ ao ‗antipovo‘‖ (p. 16), retornaria a partir do plano ideológico.
O autor reconhece que a diminuição da pobreza no período lulista não teria sido
acompanhada da diminuição estrutural da desigualdade e nem da transformação da
maior parte da população em classe média. Nesse sentido, ao passo que a renda dos
mais pobres e dos mais ricos se adensava, ter-se-ia um provável achatamento na renda
da classe média. Nada disso, para Singer, contrariaria o fato de que a diminuição da
extrema pobreza tenha sido notória.
(...) isso não constitui a superação da pobreza nos termos de Veiga-Sen nem o
ingresso automático de toda população na classe media, como ficou em voga
dizer nos últimos anos. Pode representar que a quase metade da população
que não dispunha de renda mínima até meados da década de 1990 passará a
dispor de recursos suficientes para assegurar, ao menos, a alimentação. Não
será o fim da pobreza, mas talvez seja o fim da pobreza (monetária) absoluta,
aquela que impede a pessoa de sequer se alimentar. Poderá significar o ponto
de partida para a vida ―decente‖ do New Deal, porém certamente não a
chegada (SINGER, 2012, p. 133).

O autor divide em três fases a economia política do lulismo. A primeira delas, de


2003 a 2005, suporia a junção de duas agendas bem distintas: a do neoliberalismo e a da
redução da pobreza. A contenção de despesas, a elevação de juros, o congelamento do
salário mínimo, a redução de benefícios e a reforma previdenciária, dessa maneira,
conviveriam com os programas de transferência de renda como Bolsa Família160 e de
expansão do financiamento popular. Após 2005, a agenda de valorização do salário
mínimo161 também se incorporaria às demais.

160
O Bolsa Família é um programa de transferência de renda para famílias em situação de pobreza e
extrema pobreza através da transferência de renda direta, que objetiva dar acesso à alimentação, educação
e saúde às parcelas mais pauperizadas da população.
161
Resultado de uma campanha de valorização lançada de forma unificada pelas centrais sindicais em
2004, a valorização do salário mínimo foi paulatina até entrada definitiva em vigor, a partir de 2008, da
Política de Valorização do Salário Mínimo, que utilizava como critérios de reajuste a variação do Índice
Nacional de Preços ao Consumidor (INPC/IBGE) anual e a alteração do PIB dos dois anos precedentes.
Acordada em 2007, a política permanente de valorização do salário mínimo teria vigência prevista até, ao
menos, 2023 e constituiu-se enquanto uma política de ―recuperação do valor do piso nacional‖ (MELLO,

236
A segunda fase se iniciaria em 2006, quando Guido Mantega162 implementaria
uma agenda político-econômica que pressupunha ―menos neoliberalismo e mais
desenvolvimentismo‖ (SINGER, 2012, p. 146). Sem eliminar os componentes
conservadores de outrora, essa fase teria sido marcada pela redução dos juros, pela
geração de empregos e, principalmente, pela valorização do salário mínimo. O
lançamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)163 desbloquearia e
ampliaria, por seu turno, o investimento público no rol de ações desta segunda fase.
Destaquemos, aqui, a despeito de Singer, que tal investimento foi realizado à custa de
isenção para os capitais, e ampliação de infraestrutura pelo Estado.
A terceira fase da economia lulista compreenderia os anos de 2009 e de 2010 e
é simbolizada pelo lançamento do programa ―Minha Casa Minha Vida‖164. Coincidindo
com um novo ciclo de consumo aberto, após a recuperação da crise econômica de 2008,
seria franqueado acesso aos bens duráveis, especialmente moradia e automóveis.
Em função da transferência de votos de Lula à Dilma em 2010, materializado no
resultado expressivo da candidata nas regiões Norte e Nordeste, a grande base do
enraizamento social do lulismo se transferira para a presidenta, levando Singer a supor e
a afirmar que o lulismo teria longa duração. Mesmo reconhecendo que o boom das
commodities165 havia sido o sustentáculo sobre o qual se ergueram as fases econômicas
virtuosas do lulismo, o autor, ademais, acreditava que a ativação do mercado interno via
consumo dos mais pobres projetaria influência absoluta no sucesso deste projeto
político.
Apesar de fraco, o reformismo lulista aceleraria a acumulação no interior do
capitalismo, ampliando empregos sem reverter a característica precarização do mercado
de trabalho brasileiro. Mesmo que esse protagonismo popular se baseasse em soluções
―pelo alto‖ a partir de uma liderança, Singer arrisca apostar que o lulismo, se tivesse a
durabilidade por ele esperada, poderia converter as contradições da realidade social
brasileira a um degrau superior.

2015, p. 13). O aumento do salário mínimo foi vinculado aos critérios clássicos de ―crescimento da
economia‖.
162
Em 27 de março de 2006, Guido Mantega assumiu o Ministério da Fazenda, substituindo Antonio
Palocci.
163
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi promulgado em 2007 e tinha como meta
promover grandes obras de infraestrutura logística, energética e social.
164
O Programa ―Minha Casa Minha Vida‖ foi lançado em março de 2009 pelo governo federal. Este
subsidiava a aquisição de casa ou apartamento baseando-se, para tanto, em faixas de renda familiar.
165
O boom das commodities se configurou com o aumento da demanda por produtos primários – soja,
petróleo, gás e minérios – produzidos por países latino-americanos.

237
Podemos sublinhar, no que se refere ao fenômeno do lulismo em Singer, as
seguintes características: a) transição entre uma estratégia de classe (alma de Sion) para
o nacional-popular (alma do Anhembi); b) consolidação de um pacto conservador entre
o PT e setores da burguesia; c) um reformismo fraco e ―pelo alto‖, que abdicaria (ao
menos momentaneamente) de um reformismo de alto impacto; d) um programa de
crescimento econômico ortodoxo casado a um programa popular via ampliação do
mercado de consumo, ampliação do mercado de trabalho e da renda; e) realinhamento
eleitoral a partir da adesão de massas pauperizadas ao projeto do governo; f) apoio na
direção da fração de classe subproletária, que desejaria ―sumir‖; g) sustentação
ideológica na ―gramática varguista‖, ricos versus pobres ou Estado popular versus elites
antipovo; g) esvaziamento do anticapitalismo para a afirmação de um projeto de cunho
popular.
A semelhança entre a interpretação presente no lulismo e aquela implícita no
arcabouço teórico-conceitual sintetizado no conceito de populismo166 faz-se notória. A
afinidade entre elas comporta uma inversão da lógica crítica embutida na teoria do
populismo da década de 1970. A teoria do populismo como via política do
desenvolvimento do capitalismo urbano-industrial brasileiro baseia-se no imbricamento
entre Estado relativamente autônomo, compromisso entre classes sociais,
desenvolvimentismo, e política de massas como gramática da revolução à brasileira.
Nela, a política ativa de um Estado de contrários e de massas terá no populismo a forma
política peculiar de expansão do capitalismo urbano-industrial.
Por que, então, a interpretação corrente sobre as experiências de governo popular
do PT vai se fiar em um modelo que se fundamenta no conceito de populismo? A
caracterização do populismo, a despeito de ter tido forte influência crítica nas
formulações do PT ao longo da década de 1980, justamente pela carência de autonomia
da classe e hegemonia política, é retomada em seu sentido mais íntimo na caracterização

166
Não nos afinamos aos conceitos de populismo e nem de lulismo para explicação sociológica das
relações político-sociais no Brasil dos períodos históricos a que se referem. Buscamos, apenas, traçar um
painel sobre como o conceito é parte (aparente) da relação entre interpretações da teoria social brasileira e
teoria da revolução. Para melhor compreensão do período que se convencionou chamar populista, Demier
(2012a) procura demonstrar que entre o período histórico de 1930 e o Golpe de 1964, a autonomia
relativa do Estado frente às classes foi a forma histórico-politicamente determinada assumida pelo
aparelho Estatal no Brasil. O Estado, ―funcionando como uma espécie de árbitro do jogo político e
econômico e pacificando o cenário social litigioso, ganha a aparência de uma força descolada, acima e
independente da sociedade‖ (DEMIER, 2012a, p. 34). Essa autonomia seria apenas relativa e espelharia
períodos de determinada correlação de forças entre as classes ―solucionadas‖ pela unidade em torno ora
do bonapartismo, ora do semibonapartismo. Ver mais na obra citada de Felipe Demier (2012a).

238
dos governos do PT sob a égide do lulismo. Teriam, enfim, as massas se inserido na
economia e na política através de um projeto hegemônico dos trabalhadores? Teria,
enfim, sido possível romper as amarras de um compromisso resultante da pressuposta
ausência de hegemonia de classes? E mais, por qual motivo os ―governos populares‖ do
PT, partido oriundo de período histórico em que a classe construiu seu projeto de
disputa de poder, se afinaria à gramática nacional-popular e basearia seus governos em
um pacto de classes?
Supomos que há razões conexas à lógica interna do conceito de populismo que
justificam a sua incorporação tardia mais do que, propriamente, aderimos a essa
interpretação. Há, notoriamente, a afirmação de uma concepção estratégica que,
remissiva, recusa autocrítica e ignora mediações relevantes e caracterizações de fôlego.
Mas há, sobretudo, razões históricas inscritas no próprio movimento da consolidação da
estratégia petista na década de 1980 e 1990, em especial no que tange à natureza e ao
caráter das tarefas implicadas em sua estratégia. Com a entrada do movimento de
trabalhadores em cena, a suposta passividade dos setores sociais, que dava sentido ao
populismo, se romperia. Qual movimento fará do lulismo uma leitura que recoloca sob
nova qualidade antigos dilemas é o que continuaremos buscando entender.

4.9.2 Lulismo como “Estado de compromisso”


O paralelismo entre lulismo e populismo também se apresenta nas formulações
de Luiz Werneck Vianna (2011), consolidadas a partir da expressão o ―Estado Novo do
PT‖167. Através dela, o autor analisa a experiência do governo como resultante de
modificações de fôlego na estratégia que levaria o partido ao planalto central. Nesse
sentido, não encontramos em Vianna a tônica positiva que é dada por Singer ao lulismo,
e a chave de interpretação do populismo como sinonímia ao lulismo é mobilizada em
uma perspectiva crítica: o PT teria incorporado a tradição que pretendia negar.
Para o autor, o partido declinaria de seu projeto inicial e se aproximara de uma
reabilitação da tópica nacional-popular, evocada nas décadas de 1950 e 1960, cuja
imagem ―gasta‖ teria sido suplantada pelo Golpe de 1964. Vianna chama atenção,
entretanto, para como, entre os ciclos de modernização da economia brasileira – o
primeiro tendo sido a era Vargas, o segundo, o período Juscelino Kubitschek, o terceiro,

167
A escolha pelo ―Estado Novo‖ para proceder comparação – mesmo que simbólica – com o período
democrático governado pelo PT nos parece extremamente infeliz. Ainda que a expressão seja irônica, ou
seja, queria demonstrar que o ―novo‖ acabou reproduzindo o ―velho‖, ser fidedigno à análise significa ter
cuidado, também, com as comparações históricas selecionadas.

239
o período militar, em especial no governo Geisel, e o quarto, durante a era Lula –, o do
PT seria o único que poderia efetivar ―o moderno‖, em face de sua natureza democrática
e sua base social organizada autonomamente frente ao Estado. Capítulo não cumprido,
porém, o ciclo de modernização da era Lula se trataria, inversamente, de um processo
de modernização que não contaria com a implantação do moderno. O futuro havia sido
perseguido pela ―sombra do passado‖ e o governo Lula, ―ao invés de interpelar
criticamente a nossa experiência republicana, trouxe de volta, por ensaio e erro, alguns
dos seus aspectos mais recessivos‖ (VIANNA, 2011, p. 20).
Essa opção não fora feita a frio. O programa orientado no sentido de promover
reformas estruturais que contemplassem as necessidades da população e do
desenvolvimento nacional de forças produtivas sofreria com o rebuliço do mercado, e a
possibilidade de reversão da presença – nas condições adotadas pelo governo FHC – do
mercado na economia era interpretada como caminho que inseriria o país na ―lógica das
revoluções‖ (VIANNA, 2011, p. 30). Portanto, a opção teria sido consciente, uma vez
que abdicar do programa que levasse aos embates envolvia abrir mão de reformas de
grande porte.
Ao contrário do governo precedente, claro em função de sua relação com o
capital financeiro, o governo Lula faria do Estado um condomínio de contrários, no qual
todas as classes participariam com seus interesses diferenciados. Essa relação de
unidade de contrários é trazida à tona pelo autor através da insistente recordação sobre a
convivência do MST com setores do agronegócio no governo – esse último em posições
de administração. Assim, através do Estado, se afirmava um pacto, segundo o qual se
encontraria em jogo o interesse tido como nacional. Neste sentido, o PT – outrora força
da antítese – teria aderido ao programa da tese, o capitalismo, e restaurado a ―dialética
sem síntese brasileira‖ (p. 32). Nela, não havia contradições passíveis de superação, mas
interesses a serem administrados. Frisa Werneck:
Invertem-se, porém, os termos da revolução passiva clássica: é o elemento de
extração jacobina quem, no governo, aciona os freios a fim de deter o
movimento das forças da revolução, decapita o seu antagonista,
comprometendo-se a realizar, sob seu controle, o programa dele, e coopta
muitos dos seus quadros, aos quais destina a direção dos rumos sistêmicos
em matéria econômico-financeira. Mas será dele o controle da maquina
governamental e o comando sobre as transformações moleculares
constitutivas à fórmula do conservar-mudando, direcionadas,
fundamentalmente, para as áreas das políticas públicas aplicadas ao social
(VIANNA, 2011, p. 32).
Seria no ―Estado de compromisso‖ que os antagonismos sociais, trazidos para
dentro, se tornariam coesos. Esse foco de coalizão não deixa de ser, contudo, espaço de

240
permanente tensão, e a fragilidade de cada setor, em particular, amplia a intervenção
carismática e a disputa de forças no seio da sociedade civil. Para Werneck, o resumo era
evidente: era como se o partido assumisse, a partir da eleição, o populismo em sua
imagem e semelhança.
Retomando a expressão da ―viagem redonda‖ de Faoro168 como metáfora da
consumação da experiência do PT, sintomáticas expressões teriam sido a acomodação
do setor sindical às estruturas oficiais, bem como a valorização tardia do nacional-
desenvolvimentismo. Essa maturidade petista se dirigia à contramão de seu projeto de
origem, nascente como parte da sociedade civil e reclamante da autonomia diante do
Estado169. Este, na visão fundacional do projeto petista, seria o espaço onde interesses
privados dominantes se apresentariam como se fossem de interesse público, encobrindo
a luta entre classes em uma ―névoa Estamental‖. Para o autor, essa origem do PT,
síntese de diversos setores de composição heteróclita – esquerda católica, ex-
guerrilheiros, ex-militantes partidários, dentre outros – teria se transformado, após a
terceira tentativa frustrada de vencer a eleição presidencial, em uma opção pela
conquista do governo pela via eleitoral. Assim sendo:
A ida ao centro político, movimento bem sucedido com a vitoria eleitoral,
implicou uma inflexão de largo alcance. A conquista do governo não seria
compreendida como recurso tático para uma posterior conquista do Estado,
em uma trajetória de revolução permanente. O ator declinou do papel de
herói providencial e adaptou-se às circunstâncias, com uma forte
representação de empresários nos ministérios e a direção da vida econômica
entregue a operadores merecedores da confiança do mercado (VIANNA,
2011, p. 38).

168
A expressão ―viagem redonda‖ remete-nos aos elos de continuidade da tradição ibérica na esfera
política brasileira. Segundo Faoro, a característica patrimonialista do Estado Brasileiro – erguido sob um
capitalismo de Estado que atendia às demandas particularistas – seria o espaço de encontro dos interesses.
169
Tomamos emprestadas as palavras de Demier (2012): ―Numa leitura ‗à esquerda‘, típica do período de
redemocratização dos anos 1980, tal tese patrimonialista/weberiana foi traduzida como „privatização do
Estado‟, apresentando como anomalia o que é, de fato, a marca do Estado moderno, sua representação
de interesses particulares de classe e frações de classe. Agigantado, ultraburocratizado e guiado por
regras próprias, esse tipo de Estado estaria contraposto a – e, ao mesmo tempo, seria também fruto de –
uma sociedade débil, incapaz de construir formas associativas e representativas verdadeiramente
enraizadas no tecido social, e, por isso mesmo, não teria logrado construir uma formatação estatal
compatível com uma ‗ordem social competitiva‘ (urbano-industrial capitalista). Com forte influência até
os dias de hoje (sobretudo entre os adeptos da escola neoliberal), essa linhagem interpretativa da
formação social brasileira apresentava (apresenta), portanto, um Estado ‗forte‘ em contraposição a uma
sociedade ‗fraca‘. Tal dicotomia, segundo alguns estudiosos, teria sido preservada e até mesmo acentuada
sob o processo de modernização industrial retardatária do país, realizada, em grande parte, sob os anos da
chamada ‗Era Vargas‘. O ‗Estado varguista‘ e sua ‗herança burocrática e paternalista‘ seriam fiéis
expressões desse carma que atingiria secularmente a história nacional‖ (DEMIER, 2012a, p. 9, grifos
nossos).

241
Logo, o movimento de chegada ao governo não havia significado uma mudança
de orientação superficial, mas a absorção, pelo PT, de preceitos dos governos Vargas e
Kubitschek. Será pelo ―Estado de compromisso‖ que essas mudanças não tópicas terão
expressão, tirando da sociedade civil o campo por excelência aonde poderiam expressar-
se enquanto conflito e recolocando-os em convivência no ―Estado de condomínio‖.
Ressuscitando a modernização, muitas de suas instituições e estratégias – como o
nacional-desenvolvimento e a indução estatal –, o PT praticaria ―o antigo repertório da
tradição republicana brasileira‖ (VIANNA, 2011, p. 40).
Nesse sentido, ao retomar a trajetória dos partidos ―paulistas‖, como PSDB e PT
(VIANNA, 2011, p. 53), que poderiam representar certo ethos republicano, Werneck
afirma:
Precisamente nesse sentido é que podem ser compreendidos como partidos
paulistas, na medida em que localizam no Estado a raiz do nosso
autoritarismo político, das políticas de clientela e de um burocratismo
parasitário a impedir a livre movimentação da sociedade civil. No
diagnóstico da época, era preciso emancipar os mecanismos da representação
política dos da cooptação, traço do nosso DNA herdado da história ibérica.
No caso dos sindicatos, preconizava o PT, era preciso romper com a
Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e conduzir suas ações
reivindicativas para o sistema da livre negociação com os empresários, cuja
força dependeria da sua capacidade de organização e de mobilização dos
trabalhadores (VIANNA, 2011, p. 53, grifos nossos).
A relação entre moderno e modernização se promulgava de forma perturbadora
na periferia, posto que esta não se via acompanhada de uma agenda democrática,
relegando aos subalternos falta de autonomia e subsunção à normatividade institucional.
Ao contrário do preconizado na origem moderna do partido, o PT operaria a partir da
centralização, verticalização e submissão ao Estado, levando sua adesão à política
burguesa. O Estado pluriclassista, apenas supostamente ―intérprete de todos‖, portanto,
se sobreporia assimetricamente ao controle da sociedade. Vianna, apontando a vingança
histórica aos limites desse projeto, sugere: ―onde isso prevaleceu – a historia aí não é
irônica –, não se teve nem o moderno nem a modernização‖ (2011, p. 41).
Do ponto de vista do movimento sindical, elemento de força no projeto original
do PT, o ―velho sindicalismo, na carona do novo, encontrou sua sobrevida, moderando,
quando não interditando em muitos aspectos relevantes, a passagem do moderno‖
(VIANNA, 2011, p. 54). O mesmo destino tem os agentes patrimonialistas das
oligarquias de expressão regional que o partido abdicaria de transformar, simplesmente
associando-se a eles.

242
As organizações políticas e partidos que poderiam defender e aperfeiçoar a
democracia política brasileira – tida pelo autor como resultado de um bem-sucedido
processo de modernização materializado na Constituição de 1988 – estariam
suplantadas pelo poder do Estado. Fora do campo dos interesses institucionais, como
sindicatos, organizações políticas e partidos, se encontrava o ―povo, objeto passivo das
políticas públicas, mas presença determinante na hora das urnas‖ (VIANNA, 2011, p.
63).
Um salto de qualidade se daria a partir da crise de 2008, quando o capitalismo
brasileiro, fundamentalmente em sua relação com o setor agrário, transitaria para uma
nova direção: a de concentração e centralização dos capitais. Nela, Estado e grandes
empresas de ―capital nacional‖ tomariam como objetivo ―transbordar suas fronteiras
nacionais‖ na ―tentativa de exercer uma vocação conquistadora de tipo grão-burguês‖
(VIANNA, 2011, p. 47-48), mantendo a agenda exportadora como pauta econômica
fundamental. Além disso, acessando, pelo BNDES, voluptuosos recursos e incentivos,
diversas multinacionais brasileiras encontrariam um ambiente propício para expansão
internacional e realizariam aquisições de companhias estrangeiras. A ―Vale, a Camargo
Corrêa, a Votorantim, entre outras, comporiam o elenco dessas multinacionais
brasileiras (...)‖ (p. 72).
Ao debater a sucessão presidencial após o segundo mandato Lula, na qual ele
não seria candidato, Vianna vai frisar as dificuldades de manutenção associadas ao
pluriclassismo. Retomando seus termos:
Mas, se a política, enquanto atividade consciente dos homens para tentar criar
o seu destino, está em baixa e sob controle de alguns poucos, temos um
potente mundo dos interesses, grandes e pequenos, uns bem mais atendidos
que outros, prontos ao conflito, se muito contrariados. Certamente, no que se
avizinha, interesses serão afetados, não necessariamente entre os grandes, e
nem sempre passíveis de compensação por vias administrativas. Se até aqui o
decantado carisma de Lula e sua proverbial boa sorte permitiram que as
fortes contradições entre eles não ganhassem as ruas, sempre resolvidas por
acordos nos gabinetes ministeriais sob arbitragem presidencial, resta pouca
esperança de que, com esses pretendentes à sucessão, o mesmo remédio seja
eficaz. Seguramente, falta-lhes o carisma e é provável que também lhes falte
o mesmo banho de lua. A política de que estamos tão distantes, oculta nas
razões da gramática tecnocráticas, promete nos cobrar com juros a sua
próxima aparição (VIANNA, 2011, p. 57).
Seria o prenúncio, feito pelo autor, da dificuldade de manutenção dos moldes do
lulismo. O que estaria em jogo seria, a seu ver, fundamentalmente, a ausência de um
projeto verdadeiramente democrático, posto que suplantado pela submissão ao Estado
sem garantias de autonomia da sociedade civil.

243
4.9.3 Hegemonia lulista e fordismo periférico

É Ruy Braga (2012) quem propõe, em outra direção, interessante leitura sobre o
lulismo enquanto superação dialética do populismo, pois fruto de hegemonia pautada na
―política do precariado‖. Assim, se, em Singer, privilegia-se a percepção da fração de
classe em sua relação com o consumo e, em Vianna, se ressalta a arquitetura do
pluriclassismo submisso ao Estado, em Braga (2012), por sua vez, encontraremos uma
análise de características estruturantes do mercado de trabalho brasileiro como base
sobre a qual se ergue a hegemonia lulista. Neste sentido, Braga contribui para
materializar nas relações econômicas de assalariamento, o chão da reprodução do
capitalismo – pós-fordista – periférico brasileiro.
Incorporando, e ao mesmo tempo superando o conceito de ―precariado‖ em
Castel e Standing170, o autor prima por explicitar o caráter permanente desta forma de
assalariamento: uma parte constitutiva da relação salarial e não uma condição exterior a
ela. Em sentido distinto ao desses dois autores, o entendimento de Braga é de que, em
decorrência tanto ―da mercantilização do trabalho, do caráter capitalista da divisão do
trabalho e da anarquia da reprodução do capital, a precariedade é constitutiva da relação
salarial‖ (BRAGA, 2012, p. 17), e não uma consequência do neoliberalismo ou da crise
econômica, como se, ao suplantar estes últimos, fosse possível retomar um ciclo de
expansão de direitos institucionalizados.
Na verdade, se, para o centro do sistema, o problema da precarização se
colocaria como uma ameaça contemporânea às conquistas da classe trabalhadora, na
periferia, o precariado nunca teria deixado de ser regra. Formado pela fração proletária
da superpopulação relativa, excluindo-se o lumpemproletariado e a população
pauperizada, o precariado diferencia-se em Braga do conceito de subproletariado de
Singer. O precariado seria, por conseguinte, um proletariado ativo e precarizado
inserido no próprio modo de produção, nas relações salariais precárias encontradas no
sistema capitalista, mormente em suas periferias. Ainda, em países como o Brasil, não
seria equivocado afirmar que o precariado é grande maioria entre os trabalhadores, pois
mesmo o ―compromisso fordista‖ teria se restringido à parcela ―branca, masculina,
adulta, nacional e sindicalizada da classe trabalhadora, à custa da reprodução da fração

170
CASTELS, Robert. Et mantenant, le ―precariat‖. Le Monde, 29 abr. 2006; STANDING, Guy. The
precariat: the new dangerous class. Londres: Bloomsbury, 2011.

244
proletária não qualificada ou semiqualificada, feminina, negra jovem e migrante‖
(BRAGA, 2012, p. 17). Excluídos do precariado estariam também, logicamente, os
trabalhadores profissionais, os grupos mais qualificados e mais bem remunerados da
classe trabalhadora. O precariado seria, em suma, a fração mais explorada e mais mal
paga dos trabalhadores agrícolas e urbanos.
Braga foi a campo e pesquisou trabalhadores das operações de telemarketing,
tomando-os como expressão típica do regime de acumulação pós-fordista financeirizado
e periférico, mas também da pulsão da inquietação operária que atravessa a história do
precariado. Para chegar até aí, no entanto, o autor percorre um longo percurso sobre o
qual edifica uma arqueologia do lulismo como superação dialética do populismo sob os
signos da atualidade – e continuidade – da política do precariado.
Como caminho, o sociólogo fará, primeiramente, um debate eminente teórico-
sociológico171, no qual resgata a trajetória do precariado desde sua origem populista até
a reconstituição histórica do sindicalismo petista, buscando uma gênese para a dialética
do lulismo – uma nova qualidade de burocracia, primeiro sindical e posteriormente
Estatal que, via transformismo, combinou consentimento ativo das direções sindicais
com consentimento passivo das massas. Neste sentido, o fio condutor de Braga é
mesmo o nó cego do populismo, ou seja, a relação de submissão de classes subalternas
ao aparelho de Estado e sua mediação corporativo-sindical. Mais além, o lulismo
representaria uma ―revolução passiva à brasileira‖ (2012, p. 181), apoiada nestas duas
formas de consentimento.
A trajetória desse transformismo é remontada pelo autor a partir da emergência,
no ABCD paulista, da direção sindical do final dos anos 1970 em São Bernardo – cuja
figura de direção principal havia sido o próprio Luiz Inácio Lula da Silva172. Em um
primeiro momento, cedendo à força da rebelião do operariado, o sindicato teria levado a
cabo um ciclo grevista contra a estrutura sindical oficial e o próprio regime empresarial-
militar (―classismo prático‖). Tendo como pano de fundo a derrota da greve de 1980,
esse setor dirigente se harmonizaria com as estruturas oficiais, sem deixar de celebrar
negociações entre os operários e empresas. Seria essa ―origem‖ burocrática que

171
Braga se baseará nos trabalhos de Leôncio Martins Rodrigues e Juarez Rubens Brandão Lopes e na
revisita etnográfica feita por Luigi Negro e Paulo Fontes ao trabalho de ambos. Ainda, a fim de
arqueologizar as sociologias aplicada, pública, crítica do trabalho e profissional, Braga recorrerá aos
trabalhos de Jose Albertino Rodrigues, Francisco Weffort, Francisco de Oliveira e Luiz Pereira para
expressar analiticamente a inquietação operária sob o populismo.
172
No quarto capítulo abordaremos a emergência do sindicalismo do ABCD paulista no processo de
fundação do PT.

245
induziria, no cenário eleitoral de 2003, tais direções sindicais ao governo federal,
consolidando o lulismo.
Do ponto de vista do regime de acumulação, o fenômeno teria significado a
ampliação do protagonismo do precariado. Se, no modo de regulação neoliberal – que
remete à década de 1990 –, tal protagonismo já vinha de se afirmar, a despeito da
ampliação do trabalho formalizado (altamente rotativo), o período lulista não teria sido
capaz de reverter o ―atual regime de acumulação pós-fordista: a terceirização
empresarial, a privatização neoliberal e a financeirização do trabalho‖ (BRAGA, 2012,
p. 182). Tal dinâmica está baseada, do ponto de vista da empresa neoliberal brasileira,
no aprofundamento da exploração do trabalho como principal ferramenta de reversão do
ganho produtivo para valorização dos ativos financeiros. A nova perspectiva do capital
internacional se impunha no Brasil de forma férrea, tendo no trabalho o elemento
central de reprodução ampliada dos capitais, a graus de intensidade e precarização cada
vez mais acelerados.
Como exemplo da relação entre direções sindicais e mercado financeirizado que
concentra ativos de investimentos de empresas, Braga se referencia na relação entre
esses setores e os fundos de pensão – tese original de Oliveira (2013), segundo a qual se
edificaria uma ―nova classe‖ fruto do alargamento de relação entre essas direções e
àqueles fundos. Somando-se aos demais motores fundamentais da acumulação – banco,
petróleo, agronegócio, construção civil – os fundos transformar-se-iam em parte
fundamental do regime de acumulação pós-fordista financeirizado no Brasil. Sobre a
relação com os fundos, Braga ressalta:
Muitos têm argumentado que, além de gerarem emprego e renda para os
trabalhadores, os fundos teriam um papel importante na seleção de
investimentos ecologicamente sustentáveis. Ao contrário, os fundos de
pensão brasileiros têm atuado como linha estratégica do processo de fusões e
aquisições de empresas no país e, em consequência, estão financiando a
oligopolização econômica com efeitos sobre a intensificação dos ritmos de
trabalho, o enfraquecimento do poder de negociação dos trabalhadores e o
enxugamento dos setores administrativos das empresas. Isso sem mencionar
sua crescente participação em duvidosos projetos de infraestrutura, como a
usina de Belo Monte, uma das principais fontes de preocupação dos
ambientalistas brasileiros (BRAGA, 2012 p. 206, grifos nossos).
Ao ir a campo e explorar a relação dos sindicatos das indústrias de call center,
setor no qual o trabalho precarizado é pilar fundamental, Braga encontraria, ao
entrevistar as direções sindicais, um forte apoio ao governo Lula. Além da justificada
ampliação de números de empregos, acordos firmados entre os sindicatos e os
programas governamentais – como o Programa Universidade para Todos (Prouni),

246
Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e outros financiados pelo Fundo de Amparo
ao Trabalhador (FAT) – permitiriam que esses trabalhadores tivessem acesso à
formação continuada, trabalhando durante o dia e fazendo cursos ou faculdade no
período da noite. Ainda assim, as péssimas condições de trabalho se tornariam notórias,
e, após 2005, movimentos paredistas por diversos tipos de reivindicações e
insatisfações, desde assédio moral à precariedade, defasagens de auxílios
complementares ao salário (como auxílio alimentação), demanda por aumento salarial,
reajuste do vale-refeição, participação em lucros, e até o pagamento de salários
atrasados e horas extras não pagas, tomariam lugar. Outras questões como as de gênero
e raça também eram parte das relações vivenciadas no dia a dia do ―despotismo fabril‖
mobilizadas, segundo Braga, para ―criar um equilíbrio provisório entre trabalhadores e
gerências‖ (2012, p. 211).
Deste modo, a pulsão da inquietação operária reaparece e começa a formar
germes de consciência, o que dá início à ação coletiva e aos primeiros passos rumo à
auto-organização sindical. Contudo, o lulismo teria ainda incidido de maneira tutelar
nos movimentos sindicais através do aparelho do Estado. É bem verdade que não só a
via da tutela, mas também a incorporação de parte das reivindicações dos ―de baixo‖,
como demonstrou André Singer – tal qual a ampliação do sistema de ensino superior
com as cotas, a expansão do Bolsa Família, o reajuste do salário mínimo, o consumo de
massas e a redução expressiva do desemprego, dentre outros –, teriam de fato
influenciado nos laços de aproximação entre o precariado e o lulismo. Tal relação esteve
na base da hegemonia precária e de sua continuidade, perpassando os modelos de
desenvolvimento fordista periférico até o pós-fordista financeirizado e seus distintos
modos de regulação: populista, autoritário, neoliberal e lulista.
Da pulsão e da expansão da inquietação social do próprio precariado é que
Braga tira possibilidades futuras, o potencial de negação do regime de acumulação pós-
fordista, que, mesmo em estado latente, se demonstra como inquietação social
permanentemente renovada. Desafiando as linearidades históricas e trabalhando com o
precariado enquanto parte da luta de classes, o autor vê nesta inquietação e na dialética
da modernização periférica, as possibilidades de expressão de um inconformismo com o
modelo de desenvolvimento lulista. Podemos dizer, portanto, que, do ponto de vista do
fenômeno, Braga interpreta o pós-fordismo financeirizado e periférico como modo de
regulação que, ele sim, lograria hegemonia.

247
Outro sociólogo que nos brinda com importante interpretação do lulismo e
fordismo é Ricci (2013). Para tanto, traça em linhas gerais o fenômeno do lulismo como
uma espécie de engenharia política, que nasce a partir do gerenciamento do Estado e da
governabilidade institucional. Carregado de pragmatismo, o lulismo buscava fixação,
reprodução e manutenção do seu espaço conquanto força política no cenário político
brasileiro. Ademais, o lulismo não se expressaria enquanto projeto de desenvolvimento,
mas enquanto ―engenharia política‖.
Para o autor, já nas campanhas eleitorais de 1994 e 1998, um novo elemento
associara-se ao poder político da burocracia partidária: ―o saber técnico na construção
do programa‖ (RICCI, 2013, p. 44). A fusão do poder tecnocrático e burocrático gerava
uma estrutura de partido mais centralizada e profissionalizada, suplantando os esquemas
participativos de decisão de outrora e dando vazão a uma das vertentes que confluirão
na base do que será o fenômeno do lulismo em Ricci. Assim, o ―lulismo, em outros
termos, tornou-se mais personalista e centralizador e buscou sua legitimação pela
precisão técnica, pela negociação, pelo controle político e pela sedução do discurso
afetivo da liderança partidária.‖ (p. 45). No entanto, ele é ―mais complexo do que o
controle burocrático partidário‖, e
(...) forjou-se a partir de três matrizes discursivas que sustentam um
equilíbrio dinâmico, assumindo um movimento pendular que privilegia,
circunstancialmente, uma ou outra concepção. Foram elas: o pragmatismo
sindical, o vanguardismo e burocratismo partidário e o discurso técnico de
gerenciamento do mercado (RICCI, 2013, p. 46).

No que tange ao ―pragmatismo sindical‖, Ricci chama atenção para a existência,


já na formação do partido e de sua vertente sindicalista, da diferença de ―importância‖
entre os sindicalismos urbano e rural, comprovada pela cisão interna entre dirigentes do
―novo sindicalismo‖ quanto ao tema. A partir daí, elenca uma série de momentos em
que ocorreram ―adaptações‖ do setor sindical, entre eles: a) em 1991, quando a maioria
da CUT (também maioria política no PT) passa a defender um ―sindicalismo
propositivo dentro da ordem‖ (RICCI, 2013, p. 49) e adere à participação em Câmaras
Setoriais, um ―arranjo entre interesses privados e Estado‖ (p. 52); b) em 1995, quando a
central passa a abraçar a utilização dos recurso do FAT; e c) em 1997, ―quando a central
adota a linha de ‗resistência propositiva‘ ou de ‗disputa de hegemonia‘‖ (p. 52); além de
outras modificações não tênues que emplacavam a centralização da estrutura sindical
em relação a sua direção.

248
O segundo discurso, identificado por ele como a ―tendência ao vanguardismo‖,
estará ligado, por sua vez, à esfera das burocracias partidárias que passam a tomar
espaço e controlar politicamente a posição de suas correntes e disputar as do partido,
constituindo, assim, uma burocracia como elemento de controle.
Já o terceiro discurso é o da ―conquista do mercado‖. Como supraexposto, o
autor enxerga esse último como uma cultura de discussão técnica apartada dos quadros
intelectuais do partido, o que confere um grau de autonomia para a ―operacionalidade‖ e
―governança‖. O documento mais expressivo no sentido de declarar essa mudança teria
sido a ―Carta ao povo brasileiro‖ (2002) e a ―Agenda perdida‖ (2002) – documento de
um grupo de cariocas e paulistas que se propunham a ―analisar causas estruturais da
estagnação econômica e da desigualdade no Brasil e discutir reformas
microeconômicas‖ (RICCI, 2013, p. 56). Sob uma combinação de diversos argumentos
diluídos em proposições de políticas públicas, a ambiguidade do documento residiria no
fato de tratar as políticas sociais como submetidas à ―criação de um ambiente seguro
para os investimentos econômicos e oferta de crédito privado‖ e não mais
―necessariamente como justiça ou promoção social‖ (p. 60). Abdicando de uma agenda
de profunda ruptura econômica, o lulismo se fundaria nesse novo paradigma, para o
qual ―seria uma incongruência [a alteração profunda] porque estabeleceria o conflito de
interesses a partir da política econômica‖ (p. 62).
Para Ricci, o lulismo não possui elementos clássicos de messianismo, como a
―oposição aos limites impostos pela tradição ou legalidade‖ (p. 63), e nem de
dominação simplesmente emocional ou afetiva como se daria numa dominação
carismática clássica. O carisma de Lula comporia uma ―estratégia racional de gestão‖,
na qual o Estado protagoniza a ação pública. Neste sentido,
Lula possui traços carismáticos desenvolvidos desde sua época de líder
sindical. Nunca houve ingenuidade em relação à produção simbólica da
liderança de Lula. Contudo, o governo Lula (e, consequentemente, o lulismo)
não se resume a este estilo pessoal. A composição básica do governo Lula
atualiza alguns elementos centrais do ideário da esquerda latino-americana
(que, aliás, lança mão, de tempos em tempos, do discurso carismático). O
profissionalismo e o etapismo político constituem a pauta que orientou a
ação do PCB, em especial, ao longo de seus primeiros cinquenta anos de
existência. Também compõe este ideário o projeto nacional-
desenvolvimentista. No caso do lulismo, o projeto desenvolvimentista se
subordinou à lógica de alianças, embora mantenha a articulação
pluriclassista que geraria a governabilidade necessária para que o Estado
promova as reformas historicamente necessárias. O Estado, assim, permanece
no lulismo como protagonista da ação pública (RICCI, 2013, p. 62-63, grifos
nossos).

249
O autor vê a afirmação do Estado como ruptura com a inovação petista e
reaproximação da prática das esquerdas à prática das elites. Conservador, o lulismo se
forjaria em contradições e adversidades até que chegasse, no final do seu primeiro
mandato, em sua fase mais acabada. Dessa maneira, resultante de adversidades, ele
―optou por alterar sua política econômica limitada ao manejo dos instrumentos
monetários; optou por organizar e redefinir sua política social; optou por consolidar o
presidencialismo de coalizão‖ (RICCI, 2013, p. 84).
Para Ricci, um dos núcleos centrais do fenômeno, sociologicamente seu feito
mais importante, seria o ―mercado de consumo de classe média‖. Daí que as raízes
conceituais do lulismo estarem fincadas na prévia concepção de populismo ser
compreensível, pois, em Weffort, a importância da emergência de massas urbanas como
parte incorporada ao jogo de poder oficial, em especial quando o interesse da indústria
que se fortalecia em ampliar o mercado interno caminhava em paralelo à expansão das
massas urbanas. O Estado, protetor e assistencial, institucionalizaria as organizações
populares numa perspectiva corporativista. Assim, a liderança ―populista evita pensar as
massas urbanas emergentes a partir do conceito de classe social, porque admitiria um
interesse político próprio. Antes, seu interesse é concebê-las como comunidade sem
clivagens de classe‖ (WEFFORT apud RICCI, 1980, p. 38). Prosseguindo em sua linha
de raciocínio, o que teria sido chamado de ―nova classe média‖ no lulismo lhe
caracterizaria tanto quanto a emergência de massas urbanas consumidoras caracterizaria
o Varguismo. Logo, não seria uma ―volta do populismo clássico, mas um novo processo
de inclusão social a partir do Estado‖ (p. 95).
Questionando o caminho teórico feito por ―alguns fóruns e autores‖ (RICCI,
2013, p. 112), segundo os quais o lulismo e varguismo seriam o ―início e fim de um
mesmo projeto‖, no qual a modernização superaria os signos de uma sociedade arcaica,
Ricci afirma que essa explicação se basearia na ―falta de identidade com o
participacionismo‖, pois assumiria declaradamente o Estado no ―papel de demiurgo da
modernização‖ (p. 113). Nesse sentido, seria uma maneira de não reconhecer a
ideologia partidária anterior – síntese entre as teorias libertárias, o marxismo revisado e
a teologia da libertação.

250
Destacando mudanças significativas que se expressam nos discursos de Lula,
Ricci, em diálogo com Luciana Panke173 (2005), ressalta que seriam notórias três etapas
discursivas: extrema esquerda (entre 1970 e 1980), transição (meados de 1990) e ida à
centro-esquerda (após 2000). Atribui ao liberalismo econômico a mudança mais
significativa de sua matriz discursiva, e a ―Carta ao povo brasileiro‖ como a síntese do
―desenvolvimentismo economicista‖ com foco na ―ampliação do mercado interno e da
produção nacional‖ (2013, p. 111).
O autor apresenta, enfim, a hipótese de que o lulismo se tratou de uma
modalidade de regulação fordista. O sentido do ―fordismo, como organização social a
partir do Estado central como vértice do pacto de desenvolvimento, foi formulado
originalmente pela Escola da Regulação francesa‖ (2013, p. 189), enquanto o fordismo
tardio, que caracterizaria o lulismo, expressaria a reapresentação cíclica de formas de
tradição-modernização. Esse fordismo tardio, por sua vez, teria se forjado sob a
liderança da política emergente dos anos 1980 e, paulatinamente, se convergiria e se
submeteria ao ―estatal-desenvolvimentismo‖ (p. 190) fordista. Em suas palavras:
Por ser tardio, o fordismo brasileiro é incompleto e inacabado. Não se assenta
em bases sólidas de industrialização acelerada, como ocorreu nas vertentes
norte-americana e europeia (ou mesmo na vertente japonesa), o que, na
prática, resultou numa tutela estatal mais grave, assim como na formação de
consensos a partir da troca de benefícios políticos e manejo de recursos
públicos para agregar interesses de vários segmentos da elite econômica e
política do país. Constrói, assim, uma ponte entre o velho clientelismo e um
arranjo de elites que moderniza de maneira muito particular o Estado, agora
altamente centralizado, na contramão do desejado federalismo que inspirou
nossa última Constituição Federal (RICCI, 2013, p. 190).
A unidade entre essas duas práticas políticas se dá sob a matriz de uma
dualidade, na qual gerenciamento e sociedade se encontram em um arranjo estatal. A
tese do pacto fordista tem expressão na Escola de Regulação Francesa e atribui unidade
no pacto fordista entre Estado centralizador-indutor e consumo de massas.
Outra característica do desenvolvimento do mercado de consumo de massas pelo
alcance do fordismo tardio brasileiro seria a ascensão de um caldo de cultura
pragmático, despolitizado e individualista. Aparentemente progressista, porém, de fato,
profundamente conservador.
Por fim, Ricci baseia-se em outra hipótese de trabalho: a de que os movimentos
sociais brasileiros teriam se alterado profundamente da década de 1980 até então,
institucionalizando-se e modificando sua cultura, e substituindo a esfera reivindicativa e

173
PANKE, Luciana. As mudanças nos discursos de Lula, sob o prisma da temática do emprego. Tese
(Doutorado)–Escola de Comunicação e Artes, USP, São Paulo, 2005.

251
conflitiva pela de ―elaboração de políticas públicas no interior do Estado‖ (p. 226). Em
especial, as Organizações Não Governamentais (ONGs) teriam passado por esse
processo de profissionalização, disputando o ―mercado de financiamento‖ e o ―mercado
político‖, o que implicaria a fragmentação e a incapacidade de construção de uma
agenda política nacional.
O autor retoma, como explicação para essa transição, os elos de permanência do
agrarismo e do patrimonialismo na ordem institucional-estatal no Brasil. De maneira
quase envergonhada ou desapercebida, afirma: ―Por fim, o legado agrário persistirá nas
instituições públicas republicanas como relação política predominante, o que significa
afirmar que a urbanização nacional acabará por constituir-se num pastiche do
agrarismo‖ (RICCI, 2013, p. 251). A intenção é de revelar, sobretudo, que a mudança de
trajetória dos movimentos sociais desvenda que ―não houve mera cooptação por parte
do Estado, mas a adoção de uma consciente mudança de rumo e itinerário‖ (p. 311) e
que o anti-institucionalismo de outrora teria dado passagem ao lulismo.
Na síntese que podemos apresentar de Ricci, estão mais presentes argumentos já
tangenciados em outros autores do que propriamente a construção de novas hipóteses.
No que diz respeito às suas contribuições originais frentes às que já analisamos,
podemos ressaltar as seguintes: a) o lulismo nasce a partir do gerenciamento do Estado
e da governabilidade institucional; b) foi gestado antes mesmo da ascensão do partido
ao governo, mais precisamente a partir de 1994, alcançando então sua configuração
enquanto ―engenharia política‖ durante os governos Lula, mas atingindo sua forma mais
madura no fim do primeiro governo Lula; c) diferindo do curso inicial do projeto
petista, originalmente anticapitalista e anti-institucional, o lulismo assumiu, em resumo,
um discurso popular voltado para as massas ascendentes (ou ―nova classe média‖); d) o
programa lulista teria se reencontrado com o pacto pela via Estatal, entendido e
explicado, pelo autor, como expressão política do fordismo tardio brasileiro; e e) a
processualidade das modificações que viriam a se materializar no lulismo teria se
expressado não só no partido, mas também nos movimentos sociais que a partir da
década de 1990 sofreriam profundo processo de institucionalização e inserção na esfera
Estatal.

252
4.9.4 Lulismo como hegemonia às avessas

Francisco de Oliveira (2013) é um dos primeiros autores a arriscar hipóteses


analíticas críticas em relação ao governo Lula. Pouco maduras, entretanto, tais ideias
não chegam a conceituar sistematicamente o fenômeno, mas a aportar reflexões
incipientes – e muito controversas.
Seu ensaio sobre o primeiro ano do governo Lula, ―O ornitorrinco‖, é lançado no
bojo da reedição de Crítica à razão dualista. Como sabido, esse segundo texto, um
clássico das ciências sociais, datado de 1972, busca realizar profunda crítica ao
dualismo estrutural cepalino, recolocando as maneiras frente às quais o moderno se
alimentaria do atraso e acertaria contas com a esfera política do desenvolvimento
capitalista brasileiro: durante o período varguista a Consolidação das Leis Trabalhistas
(CLT) seria a principal forma de expansão do assalariamento e, portanto, das próprias
relações sociais capitalistas. O subdesenvolvimento, por conseguinte, seria a ―ideologia‖
do período populista. Esse paralelo entre lulismo e populismo pode parecer muito
extravagante para as pretensões daquele ensaio de primeiro ano de governo. O conceito
de lulismo, enquanto categoria explicativa, ainda careceria de mediações para se
afirmar.
Pouparemos o leitor da descrição exaustiva da primeira parte do ensaio de
Oliveira, visto que nosso foco atual é o de descrever os elementos que compõem a
miríade lulista, para a qual acrescentaremos dois outros textos publicados pelo autor no
livro Hegemonia às avessas (OLIVEIRA, 2010). Neles, amadurecem distintos
apontamentos até chegar, enfim, à utilização do conceito como síntese teórica.
Ainda no primeiro ano de governo Lula, Oliveira aporta o debate buscando
compreender o processo de financeirização da economia brasileira posterior à década de
1990, assim como o avanço do trabalho informal, do trabalho precário e da acumulação
―molecular-digital‖. A metáfora do Ornitorrinco, um gigante com pés de barro, indicava
a célere expansão capitalista com concentração de renda: sob os pés de barro, estaria a
massa de trabalhadores precarizados enquanto na cabeça se encontrava a financeirização
da economia.
No que diz respeito ao governo, o autor apresenta, após longa caracterização do
que seria o capitalismo brasileiro, uma hipótese fundamental de trabalho. Devido às
modificações produtivas, as forças do trabalho não teriam nem força política nem social
e a estrutura de classes sofreria mutação definitiva com a adesão do antigo proletariado

253
à administração das previdências complementares, também conhecidas como fundos de
pensão. Em sua pressuposição, os ―trabalhadores que ascendem a essas funções estão
preocupados com a rentabilidade de tais fundos, que ao mesmo tempo financiam a
reestruturação produtiva que produz desemprego‖ (OLIVEIRA, 2013, p. 146).
Formando uma ―nova classe‖ a partir do ―controle ao fundo público‖ (p. 149), esses
novos administradores controlariam o espaço em que se formaria parte do lucro privado.
O Ornitorrinco está condenado a submeter tudo à voragem da
financeirização, uma espécie de ―buraco negro‖: agora será a previdência
social, mas isso o privará exatamente de redistribuir a renda e criar um novo
mercado que sentaria as bases para a acumulação digital-molecular. O
Ornitorrinco capitalista é uma acumulação truncada e uma sociedade
desigualitária sem remissão (OLIVEIRA, 2013, p. 150).
Já em outro artigo174, publicado em primeira versão em 2007, o autor acrescenta
um rol de análises posteriores à primeira reeleição de Lula175. Três interpretações
correntes, à época, buscavam explicar a vitória de Lula e o naufrágio de Geraldo
Alckmin, o principal concorrente. A primeira acentuava a influência do Programa Bolsa
Família no resultado eleitoral; a segunda pregava que Alckmin seria o candidato ideal
para Lula, pois pouco conhecido fora de estado de São Paulo; a terceira, e última, se
fincava em enraizamentos mais profundos e aventava que o quadro eleitoral teria
dividido ―ricos e pobres, e os pobres venceram‖ (OLIVEIRA, 2010, p. 21).
Negando essas três explicações, Oliveira prima por chamar atenção para a
―salada de coligações e coalizões‖ que teriam se unido indiscriminadamente em torno
das chapas. O PMDB, aliado ao PT, teria ficado com a primeira maior bancada da
Câmara Federal, enquanto o PT, cabeça da coalizão, com a segunda maior. Por ter tido
desempenho mais fraco, as cobranças de apoios – como nomeações de cargo de
confiança – seriam maiores durante o segundo governo petista. Outra prospecção dizia
respeito à provável ampliação do Programa Bolsa Família, pois grandes mudanças não
seriam mais possíveis de se operar.
É neste sentido que o autor empreende a reflexão sobre a ―hegemonia às
avessas‖. Típica da era da globalização e observada pioneiramente no governo Mandela,

174
Os artigos que cotejamos e que se referem ao livro supracitado (OLIVEIRA, 2010) são: ―Hegemonia
às avessas: decifra-me ou te devoro‖ e ―O avesso do avesso‖.
175
O quadro da primeira reeleição apresentou dificuldades para candidatura Lula. No primeiro turno,
Geraldo Alckmin, o segundo colocado, chegaria a receber 40% dos votos. A esquerda socialista teve 7%
dos votos em uma aliança não mais reproduzida que envolveu PSOL (Partido Socialismo e Liberdade),
PSTU, PCB e Consulta Popular.

254
na África do Sul, a hegemonia às avessas se expressara no Brasil enquanto fenômeno
novo que ainda carecia de reflexões.
Estamos em face de uma nova dominação: os dominados realizam a
―revolução moral‖ – derrota do apartheid na áfrica do sul e eleição do Lula e
Bolsa Família no Brasil – que se transforma, e se deforma, em capitulação
ante a exploração desenfreada.
Nos termos de Marx e Engels, da equação ―força + consentimento‖ que
forma a hegemonia desaparece o elemento força. E o consentimento se
transforma em seu avesso: não são mais os dominados que consentem em sua
própria exploração; são os dominantes – os capitalistas e o capital, explicite-
se – que consentem em ser politicamente conduzidos pelos dominados, com a
condição de que a ―direção moral‖ não questione a forma de exploração
capitalista (OLIVEIRA, 2010, p. 27).

Outro texto que nos parece importante, ―O avesso do avesso‖, encerra a


publicação. Rascunhando um breve balanço dos sete anos do governo Lula, Oliveira
afirmá-los-ia sob égide da hegemonia invertida: ―regimes políticos que, avalizados por
uma intensa participação popular‖, praticavam, ao chegar ao poder, ―políticas que são o
avesso do mandato de classes recebido nas urnas‖ (2010, p. 369). Neste sentido, o ―que
se pode ver no avesso do avesso‖ (p. 373) incluiria: a) o retorno à ―vocação agrícola‖
impulsionada pela exportação de commodities para a China, responsável pela retomada
da centralidade de bens primários na pauta exportadora brasileira; b) o provável
aumento da desigualdade, pois, ainda que o Bolsa Família tivesse reduzido a pobreza
absoluta, a medição de renda não seria suficiente para chegar ao resultado do acúmulo
de riquezas – renda do capital, propriedades, ações e investimentos financeiros (por
exemplo); c) um processo de ―cooptação‖ dos movimentos sociais e a substituição da
esfera propriamente política pela administrativa; e d) no que diz respeito às
características do mercado de trabalho, o operariado formal diminuiria de tamanho e
importância, enquanto os trabalhadores informais cresceriam exponencialmente. A nova
dominação, funcional ao capitalismo globalizado, é impulsionada por duas
características principais, quais sejam, a financeirização e a informalização/precarização
do trabalho.
Como síntese geral, podemos destacar que autor antevê a continuidade da
implementação de políticas neoliberais a partir de uma forte dominação do capital
financeiro em uma economia subdesenvolvida e marcada pela ―exacerbação da
heterogeneidade estrutural‖ (OLIVEIRA, 2013, p. 150). Por seu turno, a formação de
uma ―nova classe social‖, a partir dos ex-sindicalistas administradores de fundo de
pensão, traz à tona a mudança de composição de classe da direção do governo, enquanto
o processo de ―hegemonia às avessas‖ dá coerência à sua contraparte. Os dominados

255
implementariam a revolução moral dos dominantes, desde que não se questionasse a
exploração capitalista. Tal interpretação acaba tomando a classe dominante como
―passiva‖ ou como reflexa dos partidos que haviam aderido à coalizão lulista.
Por fim, o ―Ornitorrinco‖, gigante de pé de barro, ao reforçar as principais
características do capitalismo brasileiro, mantê-lo-ia sob o signo de uma sociedade
―desigualitária sem remissão‖ (OLIVEIRA, 2013, p. 150), cuja má distribuição de
riqueza permaneceria sendo elemento