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AS IDAS E VINDAS DA REFORMA AGRÁRIA, E DO PROGRAMA DE

ASSESSORIA TÉCNICA, SOCIAL E AMBIENTAL, SOB A ÓTICA DE UM


ADMINISTRADOR.

Fernando Henrique de Castro*


Waltuir Batista Machado**

RESUMO: Este artigo permite conhecer tanto algumas etapas da história da reforma agrária no Brasil, bem
como alguns pontos do Programa de Assessoria Técnica, Social e Ambiental – ATES prestado aos assentados
e busca verificar se os objetivos deste último programa estão sendo atingidos, principalmente aqueles que
buscam transformar os domicílios dos assentamentos rurais em unidades produtivas estruturadas e com acesso
ao mercado, já que uma identificação do objetivo da reforma agrária, embora similar ao do ATES, não foi
citado nem analisado neste artigo. Para verificação dos resultados, foram realizadas pesquisas bibliográficas e
documentais, com o aproveitamento da última pesquisa sobre a situação dos assentamentos consolidados no
Brasil, realizada em 2009 pelo IBOPE, a qual foi satisfatória para trazer respostas às indagações do presente
trabalho. Também foi realizada uma verificação das tendências futuras do Programa de ATES, objetivando
apresentar o Administrador, como possível agente de transformações dos assentamentos rurais em
organizações produtivas e rentáveis.

PALAVRAS-CHAVE: reforma agrária, assentamentos rurais, unidades produtivas, administrador.

INTRODUÇÃO

Nos últimos 15 anos (1995-2010), o processo de reforma agrária no Brasil obteve


um grande avanço em desapropriações e distribuição de terras aos ex-trabalhadores rurais,
criando milhares de assentamentos em quase todas as regiões do país.
Para garantir aos assentados o acesso a tecnologia e a produção para a
comercialização, e promover tanto seu desenvolvimento socioeconômico, como garantir a
emancipação do assentamento no menor tempo possível, o governo Fernando Henrique
Cardoso, criou em 1997, o Projeto Lumiar, que mais tarde em 2003, após dois anos de
*
Acadêmico do curso de Administração da Faculdade Alfredo Nasser.
**
Professor orientador - Especialista em Docência do Ensino Superior.
2

paralisação, foi melhorado e transformado no Programa de Assessoria Técnica, Social e


Ambiental - ATES, no governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Este trabalho tem dois objetivos, primeiro: verificar se o ATES está conseguindo
atingir seu objetivo de transformar os assentamentos em unidades produtivas estruturadas e
inseridas de forma competitiva no mercado. Segundo: conhecer os processos e as
tendências da prestação de assistência ou assessoria técnica aos assentados realizada pelo
ATES.
Como a dimensão territorial do Brasil é enorme, com existência de divergências
sociais e econômicas em várias regiões, buscar respostas em nível local, pesquisando dois
ou três assentamentos, proporcionaria apenas uma visão limitada, sem maiores resultados.
Assim para verificar o primeiro objetivo do artigo, aproveitou-se a mais recente
pesquisa realizada em 2009 pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística
(IBOPE), sobre a situação dos assentamentos consolidados da reforma agrária no Brasil, a
qual foi satisfatória para responder a questão, já que proporcionou uma visão nacional.
Por outro lado, para verificar o segundo objetivo foi realizada uma pesquisa
bibliográfica e documental em trabalhos publicados sobre o ATES, principalmente focado
no Referencial Metodológico para o ATES, a fim de verificar quais são suas tendências
futuras.
Daí decorreram abordagens históricas sobre as ‘idas e vindas da reforma agrária no
Brasil’, sobre ‘a reforma agrária e os governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio
Lula da Silva’, e, finalmente, sobre a necessidade atual (2010) em se estabelecer um
Referencial Metodológico para o ATES, utilizadas tanto na literatura como na análise dos
resultados e que foram suficientes para demonstrar a necessidade de inclusão do
profissional Administrador, como membro do ATES, não como assessor, mas, como
responsável pelo gerenciamento dos assentamentos rurais da reforma agrária no Brasil.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Objetivando buscar conhecimento sobre o processo de reforma agrária no Brasil e


sobre o serviço de assistência técnica que é prestado ao assentado, foram pesquisados
3

alguns autores que trataram do tema, tanto da reforma agrária, como dos assentamentos
rurais e pesquisados documentos encontrados no site do Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária - INCRA.

As idas e vindas da reforma agrária no Brasil

A origem da concentração de terras no Brasil não é de hoje, desde a divisão da


colônia brasileira em capitanias hereditárias, a monocultura e o grande latifúndio, fizeram
parte da estrutura fundiária brasileira. Com a independência do Brasil, ocorrida em 1822,
quando ainda não havia leis sobre a posse de terra, várias terras devolutas foram ocupadas
por posseiros e como estes não eram em grande número naão influiu em uma mudança na
estrutura fundiária brasileira. (CARVALHO, 1988)
Com o fim da escravatura cresce a necessidade por mão-de-obra no setor rural. De
acordo com Stédile (1997), o império brasileiro abriu as portas do país aos imigrantes
europeus. Segundo Cardoso (1997), camponeses pobres da Itália, Alemanha, Polônia e
Ucrânia resolveram os problemas de carência de mão de obra agrícola nos estados do
Espírito Santo e São Paulo e ainda povoaram os estados do sul.
Entre 1884 e 1945, o Brasil recebeu quase quatro milhões de imigrantes europeus,
solucionado ao mesmo tempo problemas de excedentes humanos da Europa e falta de mão-
de-obra e necessidade de colonização brasileira. Segundo Cardoso (1997) erradicou-se
assim tanto a pobreza na Europa como minimizou os problemas de ocupação do sul do país.
A partir de 1927, o governo federal realizou diversas distribuições de terra
pertencentes ao Estado, para projetos de colonização das regiões consideradas de fronteira
agrícola. (STÉDILE, 1997)
O governo Getúlio Vargas criou colônias agrícolas no Brasil, uma delas em Goiás,
a Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), que ocupou 106.000 hectares com 1.304
famílias. Esta colônia foi a que deu origem a cidade de Ceres. (LEAL, 2006).
4

Entre o período de 1946 a 1964 houve um grande interesse por parte do governo
federal para promover a distribuição de terras, garantindo os direitos constitucionais, que
preconizava iguais oportunidades de propriedade para todos. (CARVALHO, 1988).
A mesma constituição que empolgava o governo a promulgar uma lei de reforma
agrária era a mesma que servia de obstáculo para sua concretização, pois determinava
indenização prévia aos proprietários de terras que tivessem seu imóvel rural desapropriado
e o Estado não dispunha de recursos para isto. (CARVALHO, 1988).
Segundo Graziano da Silva (1987), na década de 1950, inicia-se no país o
planejamento sistemático da economia através do Estado. Nessa época, duas missões norte-
americanas no Brasil e também a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL),
criada pelas Nações Unidas, apresentaram estratégias de desenvolvimento econômico para
o Brasil. Para que o plano desse certo a agricultura nacional teria que se expandir a fim de
gerar produtos primários para exportação e matérias-primas para a nascente indústria.
Arbage (2000) cita que as teses cepalinas preconizavam que havia uma
insuficiente oferta de produtos agrícolas devido à alta concentração fundiária no Brasil.
Em 1960 surgia novamente a necessidade de reforma agrária, com a finalidade de
ampliar o mercado interno a fim de garantir o consumo das produções das indústrias. De
acordo com Graziano da Silva (1987), o argumento que serviu para convencer a burguesia
industrial a apoiar esta reforma foi a explicação de que com a distribuição de terras aos
miseráveis, estes, ao produzirem, prosperariam e se tornariam os consumidores da indústria
nacional.
Em 1964 o presidente João Goulart, pressionado por ligas camponesas e por
movimentos de agricultores sem terra, decide desapropriar terras, situadas as margens das
principais rodovias para fins de reforma agrária. Contudo um golpe militar, apoiado pelos
grandes latifundiários, pois um ponto final nas desapropriações. (CARVALHO, 1988)
Ainda em 1964 o governo militar brasileiro autoriza o pagamento de
desapropriações de terras com títulos da dívida pública. Criam-se também o Estatuto da
Terra, o Instituto da Reforma Agrária (IBRA) e o Instituto Nacional de Desenvolvimento
Agrário (INDA), para programar a reforma agrária. Segundo Ranieri (2003), o IBRA
realizou diversos zoneamentos e cadastros, mas priorizando a colonização e expansão da
fronteira agrícola, deixando de lado as desapropriações. Em 1970, tanto o IBRA quanto o
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INDA foram extintos, criando-se para substituí-los, o Instituto Nacional de Colonização e


Reforma Agrária (INCRA). O governo lançou o Programa de Integração Nacional (PIN) e
o Programa de Redistribuição de Terras e de Estimulo à Agroindústria do Norte e Nordeste
(PROTERRA). Contudo, estes programas não conseguiram atingir as metas propostas,
foram onerosos para o Estado e o PROTERRA assentou poucas famílias.
Stédile (1997) confirma estes fatos, alegando que na década de 1970, ao invés da
reforma agrária, aconteceu o deslocamento de milhares de pessoas para as margens das
grandes rodovias que o governo estava construindo, permitindo a colonização nas margens
das rodovias Transamazônica, Cuiabá - Santarém e Cuiabá - Porto Velho.
Graziano da Silva (1987), analisando este período da ditadura nacional, conclui
que o sucesso das exportações agrícolas nacionais era oriundo do fracasso do mercado
consumidor interno, que não dispunha de recursos para adquirir o que aqui era produzido.
Daí surgiu novamente a necessidade de reforma agrária, a fim de estimular o consumo, que
estava comprometido com a deterioração da renda nacional.
O início da década de 1980 foi marcado por conflitos pela posse da terra no norte
do país, fatos que levaram o governo a criar o Ministério Extraordinário para Assuntos
Fundiários (MEAF), o Grupo Executivo de Terras do Araguaia/Tocantins (GETAT) e o
Grupo Executivo de Terras do Baixo Amazonas (GEBAM). De acordo com Cardoso
(1997), estes três órgãos, entre 1979 a 1984 assentaram 37.884 famílias, todas em projetos
de colonização.
A década de 1980 foi marcada por diversas ocupações de terra por camponeses
sem terra, lideradas por organizações de trabalhadores do campo. O intercâmbio entre essas
organizações possibilitou o nascimento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
(MST), que apresentava diversas propostas para a reforma agrária. (STÉDILE, 1997)
Além do MST, Ranieri (2003) destaca a força proativa da Confederação Nacional
dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), que com suas mobilizações conseguiu
influenciar as instituições políticas a incluir a reforma agrária como necessidade social.
Em 1985 é elaborado pelo Governo José Sarney o Plano Nacional de Reforma
Agrária (PNRA), com uma meta de assentar em cinco anos 1.400.000 famílias. Contudo as
pressões contra a reforma agrária eram muito fortes e acabaram influenciando tanto, que o
INCRA foi extinto em 1987 e só foi restabelecido no ano de 1989. (RANIERI, 2003)
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Segundo Stédile (1997) as forças contrárias ao PNRA, eram na época formada


pela Associação Nacional de Criadores de Zebu, Confederação Nacional da Agricultura,
Federação de Associações Comerciais do Estado e da Cidade de São Paulo, Organização
das Cooperativas do Brasil, Sindicato Nacional dos Pecuaristas, Sociedade Rural Brasileira
e pelo partido político União Democrática Ruralista.
No Governo José Sarney foi elaborada a Constituição de 1987, cujo trabalho foi
bastante tumultuado quando se discutiam as decisões que envolviam a propriedade da terra.
Segundo Carvalho (1988), Pouco foram os benefícios que a Constituição trouxe aos
camponeses, que ficaram apenas na legislação trabalhista, que se descumprida fariam com
o proprietário tivesse sua terra desapropriada para fins de reforma agrária.
No Governo Collor de Melo (1990–1992), não houve desapropriações e o
programa de assentamentos foi paralisado. Seu sucessor, Itamar Franco (1992–1994),
chegou a lançar um programa emergencial para assentar 80.000 famílias, mas só conseguiu
assentar 23.000 famílias (CARDOSO, 1997)
Até o final de 1994, o total de famílias beneficiadas pelo governo federal e
estadual em projetos de reforma agrária e de colonização foi de 350 mil, estimativa sujeita a
correções, dada a diversidade de critérios e a falta de recenseamento no período 1964-1994.
(CARDOSO, 1997)

A Reforma Agrária e Governo Fernando Henrique Cardoso

O Governo Fernando Henrique Cardoso, inicia em 1995 uma série de políticas de


reforma agrária. Ao conjunto de políticas soma a revisão da legislação sobre
desapropriações de terras e do imposto sobre a propriedade, além de outras providencias.
(CARDOSO, 1997)
O Documento: REFORMA AGRÁRIA- compromisso de todos (1997), traz
importantes informações sobre compromissos, metas, dados e políticas que se encontram
resumidas abaixo:
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O principal compromisso assumido pelo governo com a sociedade, ainda durante a


campanha eleitoral de 1994, era assentar 280 mil famílias, em quatro anos de governo.
Conforme Cardoso (1997), a simples distribuição de terras poderia ter um efeito
contrário ao pretendido, assim o governo lançou uma série de políticas de créditos para
apoiar o recém- assentado, entre elas:
Reativou-se o Programa de Crédito Especial para a Reforma Agrária –
PROCERA, que fora criado em 1985. Este programa é composto por duas fontes:
O PROCERA - Investimento visa o desenvolvimento socioeconômico do
assentado e financia as atividades de agricultura perene e bovinocultura. Já o crédito
PROCERA - Custeio Agropecuário é destinado à produção de alimentos básicos,
pressupostos economicamente viáveis.
Com o objetivo de atender a agricultura familiar e mesmos os projetos de
assentamento emancipados o governo cria o Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar (PRONAF), vinculado ao Ministério da Agricultura e do
Abastecimento.
Criou-se também o Projeto Lumiar, objetivando proporcionar um serviço
descentralizado de apoio técnico às famílias de agricultores assentados, nos projetos de
reforma agrária.
O Projeto Lumiar prevê a formação de equipes de assistência técnica e capacitação
profissional, para orientar o desenvolvimento dos assentamentos, com a relação de 1:300 ou
seja uma equipe para cada 300 famílias. A equipe é composta de quatro profissionais - dois
de nível superior (um da área agropecuária e outro especializado em apoio à gestão e à
organização de comunidades) e dois técnicos de nível médio. O objetivo é tornar os
assentados e seus assentamentos auto-sustentáveis no menor prazo possível.
Devido a instabilidade institucional do Projeto Lumiar, a falta de experiência das
equipes locais e a falta de bons resultados, após denúncias de desvios de recursos públicos e
de desvio de função das equipes locais, o governo encerrou as atividades do Projeto, em
junho de 2000. Em muitos estados, a interrupção do Lumiar teve um impacto direto na
contratação dos recursos do PRONAF. Sem prestadores de assistência técnica, os projetos
técnicos não poderiam ser aprovados.
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O governo criou também o Projeto Emancipar, para assegurar ao assentado da


reforma agrária o direito à sua independência econômica. Os assentamentos serão
considerados em condições de emancipação, quando todos os lotes estiverem ocupados, sua
situação dominial definida, obras básicas executadas e a comunidade integrada, social e
economicamente às economias locais e regionais.

A reforma Agrária e o Governo Luiz Inácio Lula da Silva

Segundo o Manual Operacional do ATES (2003), o Governo Luiz Inácio Lula da


Silva, previa:
Atingir uma meta de assentar até o final de 2006, 400 mil novas famílias.
Proporcionar assistência técnica ao assentado, possibilitando-lhe o acesso a tecnologia,
além de propiciar uma estratégia de produção e comercialização visando melhorias
econômicas para os assentados e para a sua integração no desenvolvimento territorial.
Assim, o governo lançou então em 2003, o Programa de Assessoria Técnica,
Social e Ambiental – ATES, visando implantar uma ação descentralizada de apoio às
famílias dos agricultores assentados nos Projetos de Assentamentos, com o INCRA
coordenando e executando o projeto em parceria com instituições privadas.
No manual operacional de ATES, aprovado em 2003 (INCRA, 2003), encontra-se
os objetivos e o modelo de operacionalização do Programa, abaixo sintetizados:
O objetivo geral do Programa de ATES é: assessorar técnica, social e
ambientalmente as famílias assentadas, a fim de transformar o domicílio em unidades de
produção estruturada, com segurança alimentar garantida, inserida de forma competitiva no
mercado e integrada à dinâmica do desenvolvimento de forma ambientalmente sustentável.
Cabe, entre outros, ao INCRA: firmar parcerias, coordenar, planejar, monitorar,
avaliar e supervisionar as atividades de ATES.
Os parceiros, operadores de ATES, deverão manter equipes de assessorias
formadas por equipes de articulação e equipes de núcleos operacionais.
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As Equipes de Articulação são unidades constituídas por profissionais de nível


superior, com formações acadêmicas variadas (ciências agrárias, sociais, econômicas,
ambientais e outras), responsáveis pela integração e supervisão das atividades de ATES,
desenvolvidas pelos Núcleos Operacionais.
Cabe, resumidamente, às Equipes de Articulação: realizar o planejamento
estratégico e operacional das atividades dos Núcleos Operacionais de ATES.
Os Núcleos Operacionais são unidades constituídas de profissionais de nível
médio e superior, de caráter multidisciplinar, responsáveis pela execução de ATES junto às
famílias assentadas.
O corpo técnico do Núcleo observará em sua composição o mínimo de 1/3 de
profissionais com formação superior, na seguinte proporção: Profissionais da área de
ciências agrárias na proporção de 1:125 famílias assentadas e Profissionais da área de
ciências sociais, ambiental ou econômica na proporção de até 1:500 famílias assentadas.
Em 2008 o governo resolveu mudar alguns itens do manual de procedimentos a
relação de atendimento pelo ATES ao assentado diminuiu para um técnico para cada 85
(oitenta e cinco) famílias. (INCRA, 2008)
Segundo o documento Referencial Metodológico para o Ates (2010), desde a
implantação do programa em 2003, o ATES vem ampliando seu atendimento as famílias
assentadas. As 105.000 famílias atendidas em 2003 quase triplicaram até 2009, ano em que
se atenderam aproximadamente 300.000 famílias, envolvendo 4.000 técnicos.
Em 2007 realizarem-se diversas oficinas de avaliação do ATES, com a
participação do INCRA e de diversos atores envolvidos. Estas oficinas identificaram alguns
problemas a serem superados, entre eles: dificuldades do INCRA em acompanhar,
fiscalizar e monitorar as ações das assessorias rurais contratadas; dificuldades de controle
sobre os convênios entre INCRA e assessoria rural contratada; deficiências metodológicas e
reduzida experiência dos técnicos do ATES, sobre agroecologia, economia solidária, etc.
Assim, a instituição de uma metodologia para o trabalho de ATES para o
quadriênio 2008-2012 tornou-se necessária para garantir uma melhor prestação de serviços.
Este documento, contudo, só foi aprovado pela Portaria/INCRA/DD/01, de 30 de julho de
2010, publicada no BS Nº 31 de 02 de agosto de 2010.
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Segundo o documento, o objetivo do referencial é aprimorar o trabalho que o


ATES já está desenvolvendo.
Seus principais argumentos são:

Sobre a questão metodológica

A metodologia deverá utilizar uma “pedagogia prática” que deve partir do


conhecimento local do assentado e de sua realidade, no sentindo de promover a geração e
apropriação coletiva de conhecimentos, visando implantar nos assentamentos modelos de
agricultura sustentáveis.
Deverá mudar a ênfase de extensão rural para assessoria, caracterizada por uma
dimensão educadora, que visará estimular o resgate do potencial criativo do agricultor.
Deverá ainda atuar de modo a provocar confronto de idéias e debates entre equipe
e agricultores para que possa fluir um novo saber.
Em suma, o programa inverte a lógica antiga, ao invés de propor um projeto alheio
ao assessorado, o ATES trabalha no sentido de colocar a assessoria a serviço dos projetos
das famílias.
O método trata de orientar o trabalho, desde o momento em que a equipe do ATES
chega a um assentamento, que deverá seguir um itinerário composto de quatro passos:
realizar um diagnóstico participativo para identificar problemas e potencialidades do
assentamento; negociar as ações com os assentados, através de um planejamento
participativo; terceiro implementar as ações propostas e avaliar e (re)planejar outras ações.
O documento orienta a assessoria a trabalhar com o itinerário acima em nível de
assentamento e se possível em nível de entorno, devido ao processo individual ser bastante
trabalhoso.
A proposta do programa está em reforçar e aprimorar as capacidades das famílias
para que estas possam definir seu próprio projeto. Contudo, reconhece que ao oferecer
cursos aos assentados, muitos destes apresentam dificuldades em processar a informação
recebida e transformá-la em ação.
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Sobre as características básicas das ações de assessoria para os assentados

Dispor de uma equipe polivalente que trabalhe a realidade dos assentados, tratando
tanto dos sistemas produtivos, do acesso ao mercado, mantendo uma assessoria técnica
contínua e presente junto às famílias, de forma ininterrupta.
Buscar uma relação diferente entre assessores e assessorada, em que o profissional
tenha uma boa capacidade de escuta e de diálogo, sendo mais propositivo que impositivo.
Ser mais mediadora, facilitadora e educadora. Estimular e reforçar a iniciativa das
famílias, acreditando em sua capacidade em definir e buscar a realização de um projeto
para o próprio futuro.
Dispor de uma assessoria para todas as famílias atendidas. O contrato entre
INCRA e prestadoras de ATES estabelece um número obrigatório de visitas por ano a todos
os lotes.
Trabalhar metodologias participativas com enfoque pedagógico humanista e
construtivista, sempre considerando o saber prévio do assessorado, mantendo a postura de
assessor e facilitador.
Utilizar os enfoques sistêmicos, considerando elementos da unidade produtiva e
também do entorno.
Apoiar a transição do modo produtivo do assentado para uma produção mais
sustentável e agroecológica.

Sobre os diferentes campos de atuação das equipes de ATES

Atuar como assessoria técnica na esfera do campo produtivo, tendo como tarefa
central a geração de sistemas produtivos mais amplos e voltados a agroecólogia.
Buscar agregar valor ao produto primário ou beneficiar a produção, a fim de
aumentar a renda do assentado. A assessoria técnica e econômica, segundo o documento, é
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elemento importante para o sucesso desta iniciativa, mas tem falhado quando os
empreendimentos são de maior vulto.
Trabalhar no sentido de possibilitar ao assentado o acesso aos mercados locais.
Segundo o texto, a melhor hipótese para trabalhar a questão, é que, com organização, é
possível um melhor acesso ao mercado.
Apoiar a pluriatividade das famílias assentadas, através de micro-
empreendimentos de corte e costura, de artesanato, etc.

Com relação ao fortalecimento da organização local

O programa reconhece a fragilidade das organizações entre os assentados.


Considera que a realização de cursos sobre associativismo não seja o melhor ponto de
partida para resolver a questão. Enfatiza que um simples ‘acompanhamento’ das
associações pode ter efeito positivo, ajudando-os a se encontrarem.
O programa reconhece ainda que existam associações que podem se evoluir,
transformando-se em cooperativas ou micro empresas.
Reconhece finalmente, que este tipo de iniciativa exige uma maior capacitação em
temas como contabilidade, gestão financeira, comercialização, etc. e que um simples
‘acompanhamento’, não será, portanto, eficiente, embora também não seja inútil.

METODOLOGIA

Para atingir os objetivos propostos foi utilizada uma pesquisa documental e


bibliográfica, buscando conhecer a história da reforma agrária no Brasil, o Programa de
ATES e como ele está acontecendo nos últimos sete anos (2003-2010).
Marconi e Lakatos (2005) explicam que a pesquisa documental origina da coleta de
dados, registrada em documentos escritos ou não, constituidos por fontes primárias. Gil
(2007) contribui mencionando que a pesquisa documental assemelha-se a pesquisa
13

bibliográfica. A diferença essencial entre ambas está na natureza das fontes. Enquanto a
pesquisa bibliográfica se utiliza, das contribuições dos diversos autores sobre determinado
assunto (fontes secundárias), a pesquisa documental vale-se de materiais que ainda não
receberam um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os
objetos da pesquisa (fontes primárias).
As pesquisas bibliográficas foram realizadas nas Bibliotecas da Faculdade Alfredo
Nasser, na Biblioteca Pública Municipal de Goiânia e na Biblioteca da Universidade
Católica de Goiás, além de acessos a sites diversos.
As pesquisas documentais foram obtidas através de coletas de dados por meio de
entrevista realizada, via email, endereçada ao Serviço de Apoio a Micro e Pequena
Empresa de Goiás - SEBRAE/GO.
A pesquisa documental utilizou ainda de dados nacionais e regionais sobre a
reforma agrária no Brasil e sobre a assistência ou assessoria técnica, encontrados em sites
do INCRA.
Neste trabalho utilizou-se também de pesquisa descritiva, com caráter prescritivo,
uma vez que as informações coletadas foram úteis para elaborar recomendações de algumas
ações e modificações.
Devido à dimensão territorial do Brasil e a existência de assentamentos
praticamente em quase todas as regiões do país e também devido às divergências sociais e
econômicas existentes entre estas várias regiões, decidiu-se pela não realização de uma
pesquisa a nível local. Decidiu se utilizar a mais recente pesquisa quantitativa sobre a
situação atual dos Assentamentos Rurais Consolidados, realizada pelo IBOPE.
A pesquisa do IBOPE foi realizada no período compreendido entre 12 a 18 de
setembro de 2009, objetivando levantar o perfil e condições de vida das famílias que
residem em assentamentos, que estejam com situação consolidada. O universo da pesquisa
abrangeu apenas os assentamentos considerados pelo INCRA como estágio 7 (consolidada)
localizados em nove estados brasileiros: Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas
Gerais, Pará, Pernambuco, São Paulo e Tocantins. Foram realizadas entrevistas em 1.000
domicílios. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos,
considerando um intervalo de confiança de 95%.
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O questionário da pesquisa teve 52 perguntas das quais aproveitamos apenas 6, que


estão relacionadas ao setor produtivo e rendimentos dos assentados, em razão das mesmas
se identificarem com as questões tratadas neste trabalho.

ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS

Para a discussão dos resultados estabeleceu-se realizá-la em duas etapas, ocupando-


se a primeira etapa da discussão dos resultados da pesquisa do IBOPE, confrontando os
resultados com os objetivos do ATES e a segunda etapa se ocupará em fundamentar as
recomendações considerando o Referencial Metodológico para o ATES.
Desta forma, transcrevem-se abaixo as perguntas selecionadas e suas respectivas
respostas, cujas quantificações estão expressas em números inteiros, em razão de se estar
interpretando gráficos publicados com percentuais expressos em números inteiros:
1. Qual o grau de instrução do chefe de domicílio?
Resposta (amostra: 1.000): 210 ou 21% são analfabetos; 470 ou 47% cursaram
até a 4ª. Série fundamental; 180 ou 18% cursaram entre a 5ª. e 8ª. Série
fundamental; 120 ou 12% cursaram ou estão cursando o ensino médio ou
superior.
2. Considerando a situação atual de trabalho, qual a atividade principal do chefe do
domicílio?
Resposta (amostra: 1.000): 540 ou 54% responderam que produzem na própria
propriedade; 190 ou 19% trabalham na agropecuária para outros; 100 ou 10%
são empregados em atividades não rurais; outros 100 ou 10% são autônomos; 40
ou 4% são aposentados; 10 ou 1% são donas de casa; outros 10 ou 1% estão
desempregados e, finalmente 10 ou 1% recusaram a responder.
3. Atualmente a família está produzindo nas suas terras?
Resposta: (amostra: 1.000): 626 ou 63% responderam que sim e 374 ou 37%
responderam que não estão produzindo nas suas terras.
4. Qual frase descreve a sua situação atual de produção?
15

Resposta (amostra: 626 – só os que produzem): 276 ou 44% responderam que


produzem o suficiente para a família e ainda vendem o que sobra; 244 ou 39%
responderam que só produzem o suficiente para a família e, 106 ou 17%
responderam que o que produzem não é suficiente para a família e que precisam
ter ajuda para sobreviver.
Segundo o IBOPE das 44% que responderam que produz excedentes na
propriedade, Goiás lidera o ranking com 72% deste percentual.
5. Qual o renda total do domicílio?
Resposta (amostra: 1.000): 370 ou 37% dos domicílios, segundo o IBOPE, têm
uma renda de até um salário mínimo; outros 350 ou 35% dos domicílios têm
renda entre 1 e 2 salários mínimos; 260 ou 26% têm renda acima de dois
salários mínimos e 20 ou 2% recusaram-se a responder
6. E o Sr(a) possui atualmente crédito rural do PRONAF? Se sim, está com os
pagamentos em dia?
Resposta (amostra: 1.000): 210 ou 21% responderam que possuem crédito rural
do PRONAF e que estão com o pagamento em dia; 40 ou 4% responderam que
possuem o crédito mais estão com pagamentos atrasados, e 750 ou 75%
responderam que não possuem o credito PRONAF.
Nota-se, através da resposta à questão de número 1, que a maioria dos chefes de
domicílios (68%) possui grau de escolaridade muito baixo. 21% ou 210 dos 1.000
entrevistados são analfabetos e outros 47% ou 470 têm escolaridade abaixo da 4ª. série do
ensino fundamental.
De acordo com o que foi notado através das respostas das questões 2, 3 e 4 e
considerando o serviço de ATES, verificou-se que os seus objetivos não estão sendo
alcançados, pois como foi visto, através da análise da pesquisa do IBOPE, os assentamentos
não estão se tornando unidades de produção estruturadas, nem tampouco inseridas de forma
competitiva no processo de produção, voltados para o mercado. Nota-se que apenas 626
famílias em cada 1000, ou seja, menos que 63% das 1.000 entrevistadas produzem na
propriedade e destas 626 que produzem na propriedade apenas 44% produzem o suficiente
para a família e ainda vendem o excedente, ou seja, 276 famílias em cada 1.000 ou ainda
27,5% das 1.000 conseguem produzir excedentes para a venda. Convém ressaltar a
16

participação do estado de Goiás, que entre os 44% dos produtores de excedentes, lideram o
ranking nacional com 72% deste último percentual. O operador do ATES em Goiás é o
SEBRAE/GO, referência nacional em apoio à micro e pequenas empresas.
Como foi citado, entre 2003 a 2008 a proporção de técnico para atender os
domicílios de forma individual era de 1:125.
Constata-se que se o técnico tivesse que passar 1 dia apenas em cada domicílio,
trabalhando de segunda a sexta feira, ou seja, 5 dias por semana, demoraria bem mais que
25 semanas ou mais de 6 meses para retornar ao primeiro domicílio visitado no inicio da
rota. Sem considerar, as percas de tempo com viagens entre um e outro assentamento, os
tempos necessários para se desenvolver uma boa análise e um bom planejamento, e,
também o tempo gasto por este profissional em visitar e reportar ao seu superior, ao
articulador responsável por 500 famílias ou ainda pelo corpo técnico de 4 núcleos
operacionais, os problemas e necessidades de cada domicílio anteriormente visitados.
A partir de 2008, visando minimizar esta morosidade, o governo resolveu diminuir
para 85 o número de famílias assistidas por cada técnico, ficando a proporção 1:85. Mesmo
assim, com a diminuição da morosidade em 32%, o primeiro domicílio da rota só voltará a
ser visitado após no mínimo quatro meses.
Foi observado que a distância entre a figura do articulador e o assentado era ainda
bem maior, uma vez que a proporção era de 1:500 famílias. Se este fosse ter que visitar
cada assentado demoraria mais que dois anos para retornar ao primeiro domicílio da rota.
Estas podem ter sido, entre outras, uma das razões da baixa produção e pouca
comercialização de excedentes.
O projeto Lumiar, como foi visto na literatura, acabou por ser extinto por falta de
bons resultados e também por desvios de funções das equipes locais.
Constata-se por sua vez que o ATES também corre este mesmo risco, em razão das
dificuldades que o INCRA está tendo em acompanhar, fiscalizar e monitorar as assessorias
contratadas e também pelas deficiências de atuação e experiência dos técnicos do ATES,
tanto em agroecologia como em economia solidária, como foi visto na literatura.
Com relação às respostas da questão de número 5 aproveitar-se-á de outra pesquisa
realizada pelo IBOPE em agosto de 2009, com amostra de 2.000 entrevistas, com o intuito
de detectar a renda nacional, para efetuar-se uma comparação visual, sem comentários,
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entre as duas. Renda de até um salário mínimo: nacional 17% e assentamento 37%; renda
entre 1 e 2 salários mínimo: nacional 33% e assentamento 35%; renda acima de 2 salários
mínimo: nacional 46% e assentamento 26%.
Segundo o SEBRAE/GO.(2009) para se montar uma lanchonete na capital é
necessário um investimento de R$ 21.000,00. A lanchonete proporciona um lucro mensal
de R$ 1.727,35 que pode aumentar para R$3.157,35 por mês se os 2 funcionários
necessários ( 1 atendente e 1 chapeiro) forem da família.
Finalmente, a resposta à questão de número 6 pode evidenciar outra falha de ATES,
que tem entre suas atribuições intermediar o acesso do produtor ao crédito rural, o que não
é utilizado por 75% dos assentados. Pode também esta falta de acesso ao crédito estar
vinculada ao problema do assentado se encontrar com pendências registradas no Cadastro
de Inadimplentes (CADIN).
Com relação a esta pesquisa do IBOPE, convém salientar que a mesma foi criticada
pelo INCRA, por não concordar com os resultados detectados pela pesquisa. O INCRA em
março deste ano instituiu outra pesquisa para rebater a do IBOPE, a qual foi realizada entre
março deste ano (2010), todavia até o fechamento deste trabalho os resultados não foram
divulgados pelo INCRA.
Quanto ao questionário endereçado ao SEBRAE/GO, precisamente ao Coordenador
Estadual de Ates em Goiás, JOEL RODRIGUES ROCHA, as perguntas e respostas se
encontram abaixo.
1) Em termos organizacionais como está estruturado o ATES em Goiás?
Resposta: O SEBRAE tem uma coordenação – depois temos os gestores que ficam
nas Regionais (são 3) e cada Regional tem 01 supervisor e cada supervisão é responsável
pelos Agentes de Desenvolvimento Rural os ADRs.
2) Quantos assentamentos e assentados existem em Goiás?
Resposta: O número total não sei precisar, mas o SEBRAE atende mais ou menos
125 Assentamentos com 5.581 famílias.
3) Qual é a formação acadêmica do pessoal pertencentes ao Ates/SEBRAE que atua
em cada núcleo operacional?
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Resposta: Em números nós temos 05 supervisores, com formação diversas, ligadas


as Ciências Agrárias e os ADRs são também ligados as Ciências Agrárias e profissionais de
formação em Assistência Social.

Fundamentação das recomendações com base na confrontação da metodologia futura


para o ATES com partes do conteúdo curricular do curso de ADMINISTRAÇÃO

Como foi visto na parte de literatura, que discorre sobre o Referencial Metodológico
para o ATES, o governo instituiu este referencial metodológico para garantir uma melhor
prestação de serviços pelo ATES ao assentado. Contudo, as garantias são fracas e
praticamente inexistentes na área de ADMINISTRAÇÃO.
Longenecker et. all. (1997) afirma que o gerenciamento é necessário em qualquer
negócio. Drucker (2003) completa, afirmando que qualquer negócio independente de sua
estrutura jurídica, precisa de administração para adquirir vida e funcionar.
É preciso entender que o lote ou domicílio recebido pelo assentado é uma unidade
de produção e assim sendo deve ser vista como uma pequena empresa familiar e que o
assentamento como um todo deve também ser entendido como uma organização acima da
informal, para atingir seus objetivos de lucro e crescer economicamente.
O Referencial Metodológico para o ATES recomenda trabalhar a partir do próximo
ano, no sentido de colocar uma assessoria a serviço dos projetos da família.
Isto significa que a família liderada por um chefe de domicílio, cujo grau de
escolaridade está aquém da 4ª série fundamental (680 ou 68% em cada 1.000 segundo a
pesquisa do IBOPE), será responsável por seus próprios projetos, independentes deles
serem econômicamente viáveis, tendo no ATES uma assessoria esporádica, haja vista a
morosidade detectada entre uma visita e outra.
Peter Drucker, um dos maiores gurus da Administração não encara com bons olhos
a função de assessoria. Para ele, em qualquer empreendimento existem várias funções
responsáveis pelos negócios, mas nenhuma é de aconselhar outra função ou agir no lugar
19

dela. Para ele, ser assessor é ter autoridade sem responsabilidade, o que é destrutivo.
(DRUCKER, 2003)
Por outro lado, Longenecker et. all. (1997) considera a possibilidade do
administrador de pequena empresa buscar suporte externo para melhorar suas áreas fracas.
O atendimento de ATES, antes direcionado mais a família individualmente, deverá
ser realizado de preferência em nível de assentamento.
Isto indica uma tendência à economia solidária. Notadamente uma das deficiências
de conhecimento identificadas pelo INCRA no corpo técnico de ATES.
Segundo Sparovek e Maule (2003), os assentados são dispersos e preferem
administrar seus domicílios individualmente, não priorizam ações coletivas. Oliveira (2006)
confirma, alegando que o assentado do assentamento Rio das Pedras em Uberlândia - MG
prefere trabalhar sozinho e rejeita trabalhos coletivos por falta de relacionamento e
desconhecimento com práticas associativas e cooperativas na produção do trabalho, pois as
já iniciadas fracassaram. Vilckas (2004) afirma que muitos assentados são radicais as
mudanças.
A falta de liderança competente e responsável é destacada por vários autores, nos
cursos de Administração. São úteis nos assentamentos, onde os assentados estão dispersos e
contrariados em tentar por si ou por associações com dirigentes incompetentes, sem ter um
porto seguro no qual possa se ancorar.
Chiavaneto(1999) destaca a necessidade da presença de líderes em qualquer tipo de
organização, afirmando que o bom administrador é aquele que sabe ser um bom líder.
Longenecker et. all. (1997) afirma que é a liderança que constrói o entusiasmo... Os líderes
carismáticos são agentes de mudança, são pregadores e estimulam o surgimento de
seguidores. (CONGER, 1991)
Faz parte da grade curricular do administrador conhecimento das diferenças entre
liderança autocrática, liberal e democrática; para que ele esteja apto a assumir a postura
certa de acôrdo com a conveniência do momento em que dela precisar lançar mão.
Acrescenta-se também a problemática que o Referencial Metodológico para o ATES
chama de necessidade de debate, conhecida entre os administradores como Administração
de Conflitos e Negociação.
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O administrador utiliza técnicas de resolução de conflitos, a fim de evitar


conseqüências disfuncionais que surgem a partir de estágios nos quais comportamentos
inadequados começarem a surgir; precisa também usar técnicas para estimular o conflito e
conquistar os dissidentes (ROBBINS, 2002)
O Referencial demonstra também preocupações em estimular a agregação de
valores na produção primária.
Segundo Batalha (2009), agregar valor significa incorporar, modificar ou eliminar
algum elemento, diferenciando o produto, com vistas a torná-lo mais competitivo,
objetivando um retorno adicional. Para que esta agregação de valor aconteça, deve-se
utilizar ou normas de padronização, embalagens de transporte e comercialização ou mesmo
industrialização total ou parcial da produção. Todavia, isto exige contato com ferramentas
gerenciais e convivência com agentes da cadeia produtiva.
Outra preocupação citada pelo Referencial é com relação à pluriatividade.
Oliveira (2006) cita que no assentamento rio das pedras em Uberlândia – MG, entre
os meses de fevereiro a agosto, período da entressafra, existe mão-de-obra ociosa.
Segundo Kageyama (2003), a diversificação da origem da renda nos domicílios
agrícolas no Brasil, provém mais da previdência e de outras fontes, e não da diversificação
das ocupações do agricultor.
A falta de pluriatividade não passa despercebida pelo Administrador.
O Administrador com sua visão holística, sistêmica e empreendedora enxerga nos
assentamentos dois fatores de trabalho ociosos ou mal aproveitados, a terra e a mão-de-
obra, e ainda visualiza um terceiro fator, disponível no banco, criado para o
desenvolvimento do assentado e do assentamento, que é o crédito PRONAF, em forma de
capital subsidiado para o cooperativismo, ou para micro-empresa rural entre os assentados,
ou ainda para agroindústrias, não utilizado por falta de um Administrador responsável e
também por falta de um planejamento sério e convincente.
Finalmente, o Referencial Metodológico para o ATES (2010) reconhece que os
assentamentos podem evoluir, transformando-se em cooperativas ou micro-empresas e
assim necessitar de uma gestão onde um simples acompanhamento não será mais eficiente,
embora seja aproveitável.
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Como se vê a presença do Administrador nos assentamentos da reforma agrária no


Brasil poderá ajudar a solucionar muitos dos problemas do momento, mas principalmente
do futuro, com relação a sua emancipação social e econômica.

Recomendações

Estas sugestões são apenas superficiais, o aprofundamento das mesmas será objeto
de outros estudos.
A análise do sistema de atendimento do ATES às famílias através das ADRs, antigo
núcleo operacional, segundo o SEBRAE/GO, mostra que a equipe mais próxima do
assentado é composta por um(a) assistente social e um profissional em ciências agrárias. O
cargo de supervisor, antigo articulador, é geralmente exercido por outro profissional em
ciências agrárias (veterinário, zootecnista ou agrônomo).
A presença de um profissional em ciências agrária não precisa ser constante nem
em grandes empresas rurais nem tampouco em assentamentos. Ela pode ser realizada de
maneira mais esporádica, ou seja, nas necessidades de informações técnicas sobre produção
mais viável e melhor tecnologia a empregar; nos diagnósticos e prescrições saneadoras
contra infestações de pragas ou doenças em culturas ou animais e, em outros eventos
esporádicos.
Recomenda-se, que este sistema seja alterado, com a inclusão do Administrador no
lugar do profissional de ciências agrárias fixo no assentamento. Este último atuará apenas
nos assentamentos como consultores vinculados ao Administrador que os requisitará ou
lhes acionará quando houver necessidade. Assim estes profissionais ao invés de atuarem
nas ADRs, atuarão junto à supervisão do ATES.
A integração do Administrador no assentamento poderá proporcionar o surgimento
de ferramentas gerenciais necessárias ao aumento da lucratividade do assentado e também a
emancipação do assentamento.
Poderá também melhorar a aplicação dos recursos do PRONAF e da utilização da
mão-de-obra; poderá melhorar os controles de custos, de produtividade; poderá estabelecer
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sistemas de comercialização; estabelecer sistema de compras conjuntas e controle de


estoques; levantar as necessidades de treinamento; melhorar sistemas de registros e
implantar sistemas de informações gerenciais, além de muitos outros que influíram na
participação, na aprendizagem e no crescimento do assentado.
O trabalho do Administrador no assentamento deverá ser de maneira constante,
presente e responsável, nunca em nível de assessoria. Assim estes profissionais devem ser
escolhidos pelo INCRA ou mesmo pelos operadores de ATES, valorizando aqueles cujo
perfil mostre capacidade de liderança, entusiasmo com o agronegócio, com a agricultura
familiar e que tenha, acima de tudo, facilidade de comunicação e relacionamento com
camponeses, além de outras competências e habilidades.
O Administrador deve residir no assentamento e sua presença deverá ser contínua e
presente no dia a dia dos assentados, objetivando criar um clima organizacional necessário
a todo e qualquer desenvolvimento. Com a conquista da confiança em sua responsabilidade
no trato com a coisa coletiva é que surgirá uma organização formal no assentamento, seja
ela em nível de associação, de cooperativa, de microempresa ou mesmo de agroindústria.
O Administrador deve priorizar, quando se estabelecer uma organização formal, de
acordo com as opções de mercado, a produção que ocupar mais mão-de-obra tanto no setor
produtivo como nas operações da organização formal, a fim de aumentar a participação do
assentado, objetivando aumentar a renda tanto do assentado quanto dos produtores
familiares do entorno, solucionando assim parte dos problemas de pluriatividade.
Em caso de assentamentos pequenos a organização formal envolverá assentamentos
que estejam próximo uns dos outros, aproveitando a participação do entorno, de acordo
com a necessidade de produção identificada.
O Administrador estará sujeito a auditorias e observação de normas a exemplo da
Lei de Responsabilidade Fiscal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A necessidade da reforma agrária no Brasil sempre surgiu nos momentos de


dificuldades econômicas ou política, que o país atravessava, mas nem sempre ia adiante,
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devido à oposição da burguesia dominante e concentradora dos meios de produção, nos


lobbies governamentais.
Muitos assentados hoje dispõem da terra, todavia como mostrou os resultados ainda
estão bem distante da produção para a comercialização. É como se ainda a burguesia
estivesse por trás do modelo de ATES brasileiro, fazendo com que o assentado produzisse
no máximo para sua subsistência, sem crescer economicamente e sem atrapalhar ou
ameaçar a lucratividade dos grandes produtores, com o aumento da oferta.
É preciso entender que são públicos os recursos destinados à reforma agrária e
quanto antes um assentamento se emancipar menos recursos serão gastos. Se não se
incorporar uma liderança na gestão administrativa de cada assentamento, com
responsabilidade, estes sempre dependerão do assistencialismo.
A presença do Administrador na gestão e gerenciamento das atividades do
assentado representa uma possibilidade de otimização no tempo para emancipação do
assentamento e um passo importante para o cooperativismo.
A adoção de um sistema de gerenciamento eficaz pode resultar num eficiente
aproveitamento dos recursos disponíveis, redução de custos, criação de meios para
existência de uma cadeia de fornecimento cíclica, com o estabelecimento de contratos,
garantidores da venda do que for produzido.
Assim justificam-se estas recomendações que acabarão proporcionando um porto
seguro ao assentado, capaz de conter ‘as idas e vindas da reforma agrária no Brasil’.
24

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