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Governo Federal

Secretaria de Assuntos Estratégicos da


Presidência da República
Ministro Samuel Pinheiro Guimarães Neto

Fundação pública vinculada à Secretaria de Assuntos Socicom – Federação Brasileira das


Estratégicos da Presidência da República, o Ipea fornece Associações Científicas e Acadêmicas
suporte técnico e institucional às ações governamentais de Comunicação
– possibilitando a formulação de inúmeras políticas
públicas e programas de desenvolvimento brasileiro –
e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos
realizados por seus técnicos.

Presidente
Marcio Pochmann Presidente
José Marques de Melo
Diretor de Desenvolvimento Institucional
Fernando Ferreira Vice-Presidente
Diretor de Estudos e Relações Econômicas e Ana Silvia Lopes Davi Médola
Políticas Internacionais
Mário Lisboa Theodoro Diretora Administrativa
Anita Simis
Diretor de Estudos e Políticas do Estado, das
Instituições e da Democracia Diretora Relações Internacionais
José Celso Pereira Cardoso Júnior Margarida Maria Krohling Kunsch
Diretor de Estudos e Políticas
Diretor de Relações Nacionais
Macroeconômicas
Elias Gonçalves Machado
João Sicsú
Diretora de Estudos e Políticas Regionais,
Urbanas e Ambientais Site: www.socicom.org.br
Liana Maria da Frota Carleial
Socicom
Diretor de Estudos e Políticas Setoriais de
Federação Brasileira das Associações
Inovação, Regulação e Infraestrutura
Científicas e Acadêmicas de Comunicação
Marcio Wohlers de Almeida
Av. Brigadeiro Luis Antonio, 2050, 3º.
Diretor de Estudos e Políticas Sociais Andar – Bela Vista, SP
Jorge Abrahão de Castro CEP 01318-002
Chefe de Gabinete
E-mail: Socicom@hotmail.com
Pérsio Marco Antonio Davison
Assessor-chefe de Imprensa e Comunicação
Daniel Castro

URL: http://www.ipea.gov.br
Ouvidoria: http://www.ipea.gov.br/ouvidoria
© Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea 2010

Panorama da comunicação e das telecomunicações no Brasil / organizadores:


Daniel Castro, José Marques de Melo, Cosette Castro. - Brasília : Ipea,
2010. 3 v. : gráfs., tabs.

Inclui bibliografia.
Conteúdo: v.1. Colaborações para o debate sobre telecomunicações e
comunicação. – v. 2. Memória das associações científicas e acadêmicas da
comunicação no Brasil.– v. 3. Tendências na comunicação.
ISBN

1. Comunicação. 2. Telecomunicações. 3. Brasil. I. Castro, Daniel. II. Melo,


José Marques de. III. Castro, Cosette. IV. Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada. V. Título: Colaborações para o debate sobre telecomunicações e
comunicação. VI. Título: Memória das associações científicas e acadêmicas de
comunicações no Brasil. VII. Título: Tendências na comunicação.

CDD 384.0981
PANORAMA DA COMUNICAÇÃO E DAS
TELECOMUNICAÇÕES NO BRASIL

VOLUME 1

COLABORAÇÕES PARA O DEBATE SOBRE


TELECOMUNICAÇÕES E COMUNICAÇÃO

Organização
Daniel Castro
José Marques de Melo
Cosette Castro

Coordenação
José Marques de Melo
Anita Simis
Daniel Castro
Cosette Castro
João Cláudio Garcia
SUMÁRIO

VOLUME 1
COLABORAÇÕES PARA O DEBATE SOBRE TELECOMUNICAÇÕES E
COMUNICAÇÃO

Apresentação
Marcio Pochmann - Presidente do Ipea, José Marques de Melo - Presidente da Socicom
e Cezar Alvarez - Secretário-executivo do Ministério das Comunicações .......................11
Suco de Pitomba
Daniel Castro................................................................................................13
Indústrias criativas e de conteúdo: O dilema brasileiro para a
integração do massivo ao popular
José Marques de Melo..................................................................................16
Comunicação Digital - diálogos possíveis para a inclusão social
Cosette Castro..............................................................................................25

1ª. Parte - Tendências Econômicas


Capítulo 1
A hora e a vez dos países-baleias
Marcio Pochmann.........................................................................................43

2ª. Parte - Tendências nas Telecomunicações


Capítulo 1
Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?
Marcio Wohlers ...........................................................................................53
Capítulo 2
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento
dos serviços de informação e comunicação
Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa, João Maria de Oliveira e Luis Cláudio
Kubota.........................................................................................................61
Capítulo 3
Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações
Fernanda De Negri e Leonardo Costa Ribeiro ...............................................85
Capítulo 4
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações
Paulo Meyer Nascimento...............................................................................93
Capítulo 5
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações
Luis Claudio Kubota, Edson Domingues e Daniele Nogueira Milani...............107
Capítulo 6
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda pública por
equipamentos de telecomunicações
Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa e João Maria de Oliveira......................117
Capítulo 7
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações
Lucas Ferraz Vasconcelos.............................................................................129

3ª. Parte - Panorama da Comunicação


Capítulo 1
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como
um modelo internacional de inclusão
André Barbosa Filho ..................................................................................141
Capítulo 2
Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos
Anita Simis ................................................................................................153
Capítulo 3
Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e
concentração de capital (1870-2008)
Gilberto Maringoni ....................................................................................159
Capítulo 4
Comunicação institucional do poder público
Antonio Lassance ......................................................................................167
Capítulo 5
Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics
Marina Nery...............................................................................................183
Capítulo 6
Novos desafios ao direito autoral no jornalismo
João Cláudio Garcia ..................................................................................189
APRESENTAÇÃO

O texto de Apresentação da obra Panorama da Comunicação e das Telecomunicações


no Brasil foi escrito a seis mãos, uma consequência do mundo complexo que
estamos vivenciando, onde as análises não podem mais se restringir a apenas um
campo do saber. A obra é uma iniciativa inédita no Brasil, pois um mesmo projeto
apresenta diferentes dimensões que se complementam e ajudam a pensar futuras
políticas públicas para os campos da Comunicação e das Telecomunicações no
país e, particularmente, colaboram para subsidiar o governo federal, em suas
políticas para reduzir a inclusão social e digital.
O primeiro volume desta obra é dividido em duas partes: a primeira
apresenta o estudo das tendências nas telecomunicações, e reúne artigos escritos
exclusivamente para este livro, além de cinco textos publicados originalmente
no Boletim Radar – Tecnologia, Produção e Comércio Exterior nº 10, uma edição
especial de telecomunicações lançada pelo Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) em outubro de 2010. A segunda parte traz artigos que colaboram
para o pensamento na área de comunicação e oferecerem um panorama das
indústrias criativas e de conteúdos.
A escolha por unir os estudos sobre telecomunicações e comunicação e sua
relação com a economia se justifica. Além das fronteiras entre os dois campos
estarem se diluindo rapidamente, o setor de tecnologias da informação e da
comunicação (TICs) é um dos mais dinâmicos em termos de inovações em âmbito
mundial. E cada vez mais, os pesquisadores incluem a comunicação, a cultura e
a educação como partes do processo de inovação. No âmbito tecnológico, os
investimentos em P&D pelos grandes players são extremamente significativos:
sete das 20 maiores empresas inversoras em P&D no mundo pertencem ao setor.
No outro lado da cadeia produtiva, na área de conteúdos e serviços digitais,
não poderia ser diferente. Os estudos internacionais mostram que as indústrias
criativas e de conteúdos digitais rendem bilhões de dólares anualmente e tendem
a aumentar esses valores nos próximos anos. Essa é uma das razões pelas quais o
Programa Nacional de Banda Larga conta em seu plano de ação com a área de
conteúdos e serviços digitais, que passou a funcionar no segundo semestre de
2010.
O segundo volume desta obra é dedicado a resgatar, como o próprio título
diz, a Memória das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação no Brasil,
como resultado de parceria realizada entre o Ipea e a Federação Brasileira das
Sociedades Científicas de Comunicação (Socicom). A comunidade brasileira no
âmbito das ciências da comunicação avançou significativamente desde que Luiz
Beltrão, o fundador do campo de conhecimento da comunicação, criou há meio

11
século o primeiro instituto de pesquisa acadêmica sobre os fenômenos sociais
da informação coletiva. Todavia, a ausência de uma interlocução com o Estado
ensejou o desenvolvimento de estudos nem sempre afinados com as demandas da
sociedade. Padecendo do “complexo do colonizado”, a vanguarda da comunidade
de pesquisadores em comunicação comportou-se mimeticamente, reproduzindo
muitas vezes modelos teóricos forâneos, carentes de sintonia com o ethos brasileiro.
Uma das metas da constituição da Socicom foi justamente superar essa
dependência paradigmática, o que adquiriu consistência por meio do convênio
celebrado com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e que conta com o
apoio do Programa Nacional de Banda Larga. Com este projeto, o Ipea legitimou
a relação comunicação-desenvolvimento ensejando a criação de um Observatório
das Políticas Públicas nesse campo. Além disso, planeja realizar séries históricas
destinadas a pensar sistemas democráticos de difusão coletiva, além de propor
indicadores na área de comunicação.
A obra Panorama Brasileiro da Comunicação e das Telecomunicações representa
um passo decisivo nessa direção. E, em seu terceiro volume, apresenta o resultado
(parcial) de quatro pesquisas realizadas por pesquisadores brasileiros da área
da comunicação sobre o Estado da Arte nesse campo do conhecimento. Neste
volume é possível conhecer o número de faculdades e cursos de pós-graduação
em comunicação no país, analisando áreas de concentração e/crescimento. Um
segundo ponto da pesquisa sobre o Panorama da Comunicação analisa as profissões
existentes hoje e as novas habilidades necessárias para que o país possa investir em
uma indústria de conteúdos e serviços digitais. A terceira parte do estudo analisa
as indústrias criativas e de conteúdos e os movimentos das empresas em direção
ao modelo digital. Finalmente, a pesquisa realiza estudo comparativo na área de
comunicação com outros países, possibilitando a análise de nossas fragilidades e
potencialidades.

Brasília, dezembro de 2010.

Marcio Pochmann, presidente do Ipea


José Marques de Melo, presidente da Socicom
Cezar Alvarez, secretário-executivo do Ministério das Comunicações

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SUCO DE PITOMBA

Brasileiro, nordestino, maranhense e ludovicense que sou, tive uma criação


semelhante à de boa parte da população brasileira estudada pelo Ipea: os pobres –
financeiramente, óbvio. E, na minha infância, foi comum conviver com quintais
e plantas frutíferas, coisa que está praticamente extinta nas grandes cidades
brasileiras, mesmo nos condomínios das elites nacionais e estrangeiras que vivem
aqui.
E nessa convivência com quintais e plantas destaco uma delas que talvez
grande parte dos brasileiros não conheça: a pitomba. Esse fruto – em geral tem um
a dois caroços revestidos por uma camada fina e suculenta, adocicada e um pouco
ácida – é encontrado nativamente desde a região Amazônica até a Mata Atlântica.
Sua árvore chega a ter 12 metros de altura e é fácil ser usada por moleques, como
eu à época, para altos papos e centro de “reuniões” sobre a próxima brincadeira,
etc. Além de constar no cardápio dos seres humanos, a fruta é consumida por
muitos outros animais.
Mas o que tem a pitomba a ver com a comunicação/comunicações, ou com
o debate sobre comunicação/comunicações? Óbvio que nada! Aparentemente.
Ela pode ser usada como metáfora para entender que o debate atual sobre
comunicação (comunicações) assemelha-se a um suco de pitomba.
Apesar de ser possível se extrair dessa fruta – ou de qualquer outra – líquido
que possa se transformar em suco, no caso da pitomba não há registro de que
isso seja feito. Mas é o que se tenta há anos fazer no caso da comunicação/
comunicações: tentar vender a ideia de que é possível se extrair do meio (Estado,
governos, veículos, empresas, leis, etc.) algo que não se caracterize numa coisa
estranha, mesmo que seja possível. O “suco” do debate sobre comunicação/
comunicações seria algo não palatável e por isso tão cheio de medos e desafios. E,
nesse caso, é melhor não extrair nada e não beber esse “suco”. Será?
Não é preciso consultar a literatura ou pesquisar em bibliotecas para se
registrar que nunca na história deste país, como diz nosso presidente Lula, se
debateu tanto a comunicação/comunicações. E isso não é um fenômeno do
Brasil. A eleição de Obama (EUA) colocou na sala de estar – hipotecada, claro
– americana o debate sobre o poder do quarto poder e sua participação política,
empresarial e social. Aqui no Brasil, nos últimos anos, têm ocorrido seminários
quase que diários para se debater os rumos da comunicação de massa. Com um
agravante: os veículos dedicam quase nada de espaço para esse debate, a não ser
quando organizados pela própria empresa detentora do veículo organizador. Ufa!
Outra coisa que chega a ser desnecessária é o registro sobre a situação surreal
que vive o setor de comunicação/comunicações. Apesar das novas tecnologias,
13
como a internet, que em tese favoreceriam a expansão de grupos e empresas do
setor – o que de fato ocorreu –, o que se tem visto é uma troca de guarda. Grandes
conglomerados têm se transformado e pedido água. Tradução: quebrado ou se
hipotecado. Mas alguns ainda tentam esconder do público que a vaca já está no
brejo. Isso é visto nos veículos impressos, por exemplo. Não é preciso pesquisa
para saber que a garotada – os maduros de amanhã – não lê jornais impressos.
Então, quem os lerá?
Por outro lado – isso é o que explica a situação surreal –, os pequenos
veículos, na rede, claro, crescem a cada dia em visitação e procura. Não há essa
pesquisa, óbvio, mas deve-se estimar que boa parte da população mundial já
possua um registro na rede. E muitos, para desespero de alguns, não só têm esse
registro, como alimentam redes incríveis de comunicação/comunicações.
Agora, apesar de muitos debates, pouco ou nada se coloca no papel pelos
órgãos de Estado que deveriam fazê-lo. E esse era o caso do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea). Em 46 anos, sua produção deixou passar ao largo
essa temática, como se o setor não fosse estratégico. Não se sabe se não estudou
porque não quis estudar, ou se não estudou porque não era conveniente estudar.
Sei lá!
Não querendo transformar o debate em suco de pitomba, o Ipea se deu
conta de que, para ter essa produção de conhecimento – e que esta, sim, fosse
palatável –, era necessário reconhecer, primeiro, as redes de pesquisa já existentes.
No caso, procurar parcerias com a Federação Brasileira das Associações Científicas
e Acadêmicas de Comunicação (Socicom). Essa busca foi exitosa, pois encontrou
na diretoria da Socicom a demanda por parcerias com o Estado. Juntou a fome
com a vontade de comer.
Outro fator importante foi reconhecer que deveria haver um planejamento
estratégico para produção de conhecimento nessa área. Esse planejamento
passaria pela oferta de recursos em formação de quadros pelo próprio Ipea, o
que se solucionou pela Chamada Pública 63/2010, a qual selecionou doutores e
mestres, em todo o Brasil, para consolidar um primeiro painel de pesquisa – que
tem seus primeiros resultados nesta obra.
Por fim, também era necessário aglutinar o debate, colocando como meta
a aproximação entre os pesquisadores em comunicação – da Socicom – e os
técnicos de planejamento e pesquisa do Ipea. O que teve guarida na Diretoria
de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset)
do Ipea. Registro que essa aproximação ainda é embrionária, mas observo que
ela se dará em breve – acredito – por meio da formação de um núcleo dentro
dessa diretoria para estudar o assunto, até porque o Ipea já tem liderança na área
de estudos de telecomunicações. E digo isso como proposta. A distância entre

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comunicação e telecomunicação ainda existe só nos manuais, pois no dia-a-dia
não há debate sobre uma que não use temas da outra.
Mas esse debate, no Ipea, está apenas começando. Acredito que essa
associação já deu frutos e tem tudo para decolar. O que não tenho certeza é
se conseguirá fazê-lo na mesma rapidez das transformações que nossa geração
presencia. Temo que os grupos de pesquisa – tanto do Ipea como da Socicom –
devam se debruçar menos pelo histórico e mais pela antecipação de novas ondas,
pois esse setor precisa, sim, ser mapeado, e não podemos assistir passivos às suas
mudanças. E essa parceria deve continuar, em nome da sociedade brasileira.

Daniel Castro
Organizador
Assessor-chefe de Imprensa e Comunicação do Ipea

15
INDÚSTRIAS CRIATIVAS E DE CONTEÚDO:
O DILEMA BRASILEIRO PARA A INTEGRAÇÃO DO MASSIVO AO POPULAR

José Marques de Melo1

Introdução
A sociedade midiática caracteriza-se pela prevalência das indústrias criativas
e de conteúdo no conjunto das atividades de produção e circulação dos bens
simbólicos que configuram e dão sentido à sua identidade cultural. O principal
indicador do desenvolvimento da indústria midiática é sem dúvida o fluxo dos
investimentos em publicidade. Quanto maior for a capacidade dos anunciantes
para comprar espaço nos jornais, rádio, televisão ou internet, mais recursos terão
os empresários do ramo para manter seus veículos, gerar empregos para jornalistas
e outros profissionais e naturalmente melhorar os produtos que difundem.
Nesse âmbito, a América Latina demonstrou tendência regressiva na
primeira década do século XXI. Apesar das recentes aplicações feitas no setor,
perfilou como o continente que menos investia em publicidade. A crise do
sistema financeiro provocou a redução do bolo publicitário, retirando-nos da
retaguarda mundial em 2009. A liderança permanece com a América do Norte
(35.4%), seguida da Europa Ocidental (24.1%), da Ásia/Pacífico (23.4%) e da
América Latina (6.9%).Na retaguarda encontram-se a Europa do Leste (6.2%) e
África/Oriente Médio (4.1%).
Segundo o anuário Mídia Dados 2010, baseado no Advertising Expenditure
Forecast (Zenith Optimedia, 2009), como decorrência “da expansão da economia
na maioria dos países do continente e da valorização das moedas locais diante
do dólar”, no período 2007/2009 houve uma um crescimento de 15% nos
investimentos publicitários da região. O Brasil, o México e a Colômbia
demonstram sinais de vitalidade. São os únicos países desta região sociocultural
incluídos no seleto clube dos maiores anunciantes mundiais.
A situação brasileira é conjunturalmente confortável. Aplicando US$ 11.5
milhões/ano, figura em 7º. lugar no volume de investimentos publicitários
(depois dos Estados Unidos, Japão, Alemanha, China, Reino Unido e França)
e 0 3º. lugar no investimento publicitário em televisão, precedido apenas pelos
Estados Unidos e Japão.
Os grandes anunciantes são as corporações empresariais que atuam no
mercado financeiro, varejista, automobilístico ou telefônico, bem como as
poderosas empresas estatais. A top list dos investidores publicitários é composta
1Professor Emérito da Universidade de São Paulo, ocupando hoje o cargo de Diretor-Titular da Cátedra UN-
ESCO de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo. Fundador e atual Presidente do Comselho
Curador da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – INTERCOM

16
por 15 empresas que aplicam verba unitária superior a US$ 200 milhões/ano.
A distribuição do bolo publicitário é feita de modo paradoxal segundo
os diferentes meios existentes no território brasileiro. Enquanto a indústria
audiovisual (televisão, radio) concentra dois terços dos recursos, a mídia impressa
(jornal, revista) absorve um quinto, restando quantia inexpressiva para os veículos
emergentes (internet, outdoor) e migalhas para os bolsões marginais (folkmídia).

Polarização
O desafio da interação entre os dois sub-sistemas confere singularidade à geografia
comunicacional brasileira. A natureza continental e a topografia acidentada
do espaço brasileiro inibiram durante vários séculos a interiorização dos fluxos
comunicacionais. Foi inevitável a constituição de culturas regionais, unificadas
pelo mesmo código lingüístico, mas diferenciadas pelos usos e costumes locais.
O maior contingente da nossa sociedade era constituído por escravos negros,
miseráveis e analfabetos. Sua libertação somente ocorreu no final do século XIX.
Abandonados à própria sorte, os remanescentes da escravidão agravaram o êxodo
rural, engrossando as comunidades marginais que deram origem às favelas hoje
espalhadas pelos cinturões metropolitanos. Nesses guetos, eles se comunicam de
forma rudimentar. Valendo-se de expressões folkcomunicaconais, enraizadas nas
tradições étnicas, vão se adaptando às cidades. E defrontam-se empaticamente
com as expressões culturais geradas pelos fluxos massivos (cinema, disco, radio,
televisão).
Esses dois Brasis confrontam-se e interagem continuamente. As
manifestações folkcomunicacionais decodificam e reinterpretam as expressões
da indústria cultural e esta procura retroalimentar-se nas fontes inesgotáveis da
cultura popular. O fosso entre as duas correntes reduziu-se muito lentamente,
durante o século XX, traduzindo a vacilação das nossas elites no sentido de
eliminar as desigualdades sociais. A integração ou ao menos o diálogo entre esses
dois sistemas constitui o maior desafio das vanguardas nacionais.

Raízes históricas
Quando, a partir do século XVI, o território brasileiro começou a ser disputado
pelos colonizadores europeus (portugueses, franceses e holandeses), o instrumento
de comunicação vigente em todo o litoral era o tupi-guarani. Essa “língua franca”
predominou até o século XVIII, tendo sido codificada, para fins pedagógicos,
pelos missionários jesuítas.
Durante o ciclo do ouro, os governantes portugueses interiorizam o

17
povoamento, intensificando o fluxo populacional, através da importação de mão-
de-obra. Colonos brancos procedentes da Península Ibérica ou recrutados nas
colônias asiáticas, bem como escravos negros oriundos da África se misturam com
os mestiços resultantes do caldeamento entre lusos e nativos.
Para neutralizar os ruídos causados pelo confronto lingüístico entre os
nativos aculturados e os novos adventícios, os colonizadores lusitanos determinam
tardiamente a obrigatoriedade da língua portuguesa nas relações sociais.
Esse processo desencadeia tensões, acarretando a transformação do idioma
do império, que incorpora palavras ou expressões dos dialetos africanos ou das
línguas americanas. O resultado é a constituição de um código de comunicação
oral, empregado pelos contingentes subalternos, que se distancia do código
escrito, preservado pelas elites.
Assim sendo, o processo de comunicação das classes trabalhadoras preservou
laços estreitos com a oralidade, cultivada no interior da Colônia, enquanto as
classes ociosas permaneceram sintonizadas com o beletrismo típico da Corte
Imperial. Encontra-se nessa dissonância retórica a raiz da bipolarização dos
fluxos comunicacionais, configurando o sistema midiático vigente no Brasil
contemporâneo.

Arquipélago cultural
O diagnóstico exibe maior complexidade quando constatamos que o espaço
geográfico brasileiro, por sua natureza continental e sua geografia descontínua
e acidentada, inibiu durante vários séculos a interiorização dos fluxos
comunicacionais. Estes privilegiavam a via marítima, principalmente em direção
à Corte Portuguesa, mantendo incomunicadas as comunidades nacionais. Foi
inevitável a germinação de padrões culturais diferenciados, de região para região,
amalgamados tão somente pelo código lingüístico imposto pelo colonizador, mas
diferenciados pelos usos e costumes locais.
Esse “arquipélago cultural” permaneceu praticamente imutável até o século
XX, quando foram otimizadas as comunicações por via fluvial ou construídas as
rodovias e as ferrovias e desenvolvidas as aerovias, removendo as barreiras que
obstaculizavam a circulação de mercadorias ou de bens simbólicos.
Por outro lado, é indispensável mencionar o obscurantismo cultural
praticado pela Coroa Portuguesa durante todo o período colonial. Foi preservada
até as vésperas da independência nacional, no início do século XIX, a ausência de
escolas, universidade, imprensa, bibliotecas, correio e outros aparatos culturais, .

18
Políticas públicas
Durante dois séculos, o comportamento do Estado Brasileiro manteve-se opaco
em relação às políticas públicas de comunicação. Não obstante existissem
diretrizes para regular o sistema nacional de comunicação massiva, primeiro a
imprensa e depois a mídia eletrônica, elas nunca foram articuladas num corpo
doutrinário autônomo. Na verdade, estavam embutidas (ou escondidas) na
legislação ordinária.
Em termos constitucionais, a única política transparente durante o Império
ou a República foi a do controle da informação. A tendência dominante pautou-
se muito mais pelo espírito repressivo do que pelo incentivo à comunicação
democrática.
Longos períodos autoritários marcaram a nossa organização política,
deixando marcas profundas no ethos brasileiro. De tal forma que a nossa postura
diplomática foi de hesitação, dubiedade ou dissimulação, justamente quando a
comunicação se impôs como tema relevante da agenda internacional, na segunda
metade do século XX.
O Brasil oscilou entre a simpatia pela retórica libertária dos países do Terceiro
Mundo e a adesão ao rolo compressor capitaneado pela potência hegemônica,
cuja estratégia era simplesmente desqualificar as decisões terceiromundistas
chanceladas pela UNESCO.
A Constituição Cidadã de 1988 representa o fim dessa tradição de tapar
o sol com a peneira. Pela primeira vez, os nossos legisladores enfrentam com
determinação os desafios da sociedade midiática, dedicando-lhe um capítulo
exclusivo da nossa carta magna.
Sob o titulo genérico “Da Comunicação Social”, os artigos 220-224
assimilam em grande parte as aspirações democráticas da nossa sociedade civil.
Mas passados 20 anos, somos obrigados a constatar que poucos avanços
foram contabilizados. Se logramos garantias constitucionais para comunicar
democraticamente, faltam-nos ainda instrumentos legais capazes de implementar
os princípios que as fundamentam.
Temos evidentemente uma grande conquista que merece reconhecimento.
Trata-se do respeito à liberdade de expressão pública. Nunca vivemos, em toda
a nossa trajetória republicana, conjuntura mais rica em termos de liberdade de
imprensa.

Tradição do impasse
Neste momento em que o País demonstra pujança democrática e altivez
19
cultural, torna-se inadiável a formulação de políticas públicas de comunicação
consentâneas com as demandas do Século XXI.
Temos a expectativa de pavimentar a nossa passagem para a Sociedade do
Conhecimento, extirpando a exclusão comunicacional a que estão condenados
vastos contingentes da nossa população que passaram pela escola, mas não se
converteram em leitores de jornais, revistas ou livros.
Sedentos de leitura e famintos de cultura, esses bolsões marginais da
sociedade de consumo protagonizam papéis de segunda ou terceira classe, sem
exercer plenamente a cidadania.
O advento da sociedade digital recoloca na ordem do dia aquela observação
perspicaz feita, no apagar das luzes do século XIX, pelo intelectual paraense José
Veríssimo: o Brasil cultiva a “tradição do impasse”. A nação tem consciência
dos seus problemas fundamentais, vislumbrando os caminhos para solucioná-los,
porém as elites que controlam o poder hesitam em dar-lhes tratamento adequado,
optando por medidas paliativas que agravam a situação.
Nada melhor que o resgate dessa metáfora para entender o que ocorre na
complexa estrutura comunicacional brasileira, onde dois sistemas coexistem
paradoxalmente, neste início do século XI, interagindo no plano das trocas
simbólicas, sem integrar-se na esfera das providências estratégicas.
Esses dois Brasis se confrontam, interagem, complementam. As
manifestações folkcomunicanais do Brasil tradicional recodificam e reinterpretam
as expressões massivas do Brasil moderno. O fosso entre os dois fluxos se foi
reduzindo lentamente, no correr do século XX, traduzindo a pouca apetência
das elites brasileiras no sentido de eliminar as desigualdades sociais. A chegada
dos imigrantes estrangeiros no início do século passado acelerou, por exemplo,
a expansão da imprensa, cuja leitura era demandada pelas comunidades letradas
oriundas da Europa.
Mais recentemente, o incremento das oportunidades educacionais para
os trabalhadores urbanos acarretou o crescimento das tiragens dos jornais e das
revistas. A elevação do nível cultural das classes médias influiu na melhoria dos
conteúdos da televisão, como foi o caso das telenovelas.
Mas enquanto perdurar o impasse institucional, sem alterar-se o quadro da
exclusão social e da indigência educacional, os dois sistemas comunicacionaios
permanecerão ativos, correspondendo às demandas culturais de audiências
estanques ou segregadas

20
Fontes recentes para guiar novos itinerários

Brasil – Sociedade
Becker, Bertha & Egler, Cláudio
1993 – Brasil, uma nova potência regional, São Paulo, - Bertrand

Benjamin, Roberto
2003 – A África está em nós, 2 vols., Recife, Grafset

Bosi, Alfredo
2002 – Cultura Brasileira, temas e situações, São Paulo, Ática

Câmara Cascudo, Luis da


2004 – Civilização e Cultura, São Paulo, Global

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1991 – Modern Brazil, Univ. of Nebraska Press,

Fausto, Boris
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Regional, n. 10, São Bernardo do Campo, Editora Metodista

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Costa, Helouise & Silva, Renato Rodrigues da


2004 – A fotografia moderna no Brasil, São Paulo, Cosac Naif
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Fausto Neto, Antonio e outros
1994 – Brasil, Comunicação, Cultura e Política, Rio de Janeiro, Diadorim
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2006 – Mídia Dados 2006. São Paulo,. www.gm.org.br

Hallewell, Lawrence
2005 – O livro no Brasil, São Paulo, EDUSP

Hohlfeldt & Gobbi


2004 – Teoria da Comunicação – Antologia de Pesquisadores Brasileiros, Porto
Alegre, Sulina

Lopes, Maria Immacolata Vassalo e outros


2005 – Brazilian Communication Research, São Paulo, INTERCOM

Marques de Melo, José


1993 – Communication for a NewWorld, Brazilian Perspectives, São Paulo,
ECA-USP,
2006 – Pedagogia da Comunicação: matrizes brasileiras, São Paulo, Angellara

Marques de Melo & Queiroz


1998 – Identidade da Imprensa Brasileira no Final do Século, São Bernardo
do Campo, Editora Metodista

Marques de Melo, Gobbi & Santos


2001 – Contribuições Brasileiras ao Pensamento Comunicacional Latino-
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Mattos, Sergio
2002 – História da Televisão no Brasil, Petrópolis, Vozes
2005 – Mídia Censurada – A História da Censura no Brasil e no Mundo,
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Moreira, Sonia Virginia


1991 – O Rádio no Brasil, Rio de Janeiro, Rio Fundo Editora

23
Moreira & Bianco
2001 – Desafios do Rádio no Século XXI, Rio de Janeiro, Editora UERJ

Moreno, Antonio
1994 – Cinema Brasileiro, Niterói, EDUFF

Pinho, J.B.
2000 – Publicidade na internet, São Paulo, Summus
2002 – Relações Públicas na internet, São Paulo, Summus
2003 – Jornalismo na internet, São Paulo, Summus

Sá, Adisia
1999 – O Jornalista Brasileiro, Fortaleza, Fundação Demócrito Rocha

Werneck, Humberto
2000 – A Revista no Brasil, São Paulo, Editora Abril

24
COMUNICAÇÃO DIGITAL - DIÁLOGOS POSSÍVEIS PARA A INCLUSÃO SOCIAL1

Cosette Castro2

Introdução
Este artigo forma parte das reflexões apresentadas durante o XIV Colóquio
Internacional da Escola do Pensamento Latino-Americano em Comunicação
(CELACOM) realizado em 2010. Nele, procuramos estabelecer as conexões
necessárias para pensar (desde os estudos de Comunicação) o mundo de forma
transdisciplinar e complexa (no sentido dado por Edgar Morin), onde a produção
de conhecimento e a circulação das informações não estão mais restritas aos espaços
formais e oficiais, como a escola, o Estado ou os meios de comunicação. Elas se
multiplicam na vida cotidiana através das redes sociais, sendo distribuídas através
de diferentes plataformas tecnológicas e repercutem nas pesquisas realizadas
no meio acadêmico e no mundo do trabalho. Desde o ponto de vista dos países
periféricos, como a América Latina e Caribe, nos interessa estudar as plataformas
tecnológicas3 abertas e gratuitas, como a televisão digital terrestre4, a televisão
digital acessada gratuitamente através dos celulares, assim como a convergência
de mídias, como espaço de inclusão social e digital.
A presente reflexão sobre o uso de plataformas gratuitas para populações
de baixa renda está diretamente relacionada às mudanças que vêm ocorrendo
nas sociedades ocidentais e seus paradoxos. Elas envolvem as transformações
econômicas, sociais, culturais, comportamentais e educativas pelas quais estamos
1. Este artigo foi escrito a partir do texto New Formats to Digital Television – use of interactivity and inter-
operability, escrito em parceria com André Barbosa Filho e das reflexões apresentadas no XIV Colóquio da
Escola Latino-Americana de Comunicação (Celacom), em maio de 2010.
2 Doutora em Comunicação pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), Espanha. Atualmente realiza
estudos de pós-doutorado na Cátedra da Unesco em Comunicação para o Desenvolvimento /UMESP. É profes-
sora do PPGCOM da Universidade Católica de Brasília (UCB), professora associada do PPGTVD da UNESP
e do PPGCOM da UnB. Prêmio Luis Beltrão/Intercom de Pesquisa Inovadora-2008. Autora de três livros:
Mídias Digitais, com André Barbosa Filho e Takashi Tome, Ed. Paulinas (2005); Por Que os Reality Shows
Conquistam as Audiências?, Ed. Paulus (2006) e Comunicação Digital, Ed. Paulinas, (2008). Coordena o GP
de Conteúdos Digitais e Convergência Tecnológica da INTERCOM.
3 Existem plataformas tangíveis e plataformas intangíveis. As plataformas tangíveis são os equipamentos onde
se concretiza um conteúdo digital. Exemplos de plataformas são tangíveis: a TV digital, rádio e cinema digital,
videogames em rede, celulares ou computadores mediados por internet. A plataforma intangível – que é o
caso da internet, onde circulam e se multiplicam os conteúdos digitais sem os limites da matéria e da noção de
linearidade.
4 Não estudamos a TV digital por assinatura por se tratar de um modelo pago de televisão, o que restringe o
número de pessoas que vêem TV por essa modalidade. Nos países latino-americanos e caribenhos questões
geográficas e a falta de conteúdos nacionais possibilitaram que as televisões por assinatura se desenvolvesse em
países como Argentina (problemas geográficos) ou Equador (falta de conteúdos nacionais), para citar dois exem-
plos. Tampouco o uso de IPTV é uma alternativa – desde o ponto de vista da inclusão social – para os países da
Região por pelo menos três motivos: se trata de um modelo pago; não é broadcast e o índice de computadores
com internet ainda é muito baixo na região.

25
passando desde o final do século XX. No campo econômico, a globalização da
economia foi ampliada a partir do acesso e uso das Tecnologias da Informação
e da Comunicação (TICs). Um exemplo desses paradoxos é, de um lado, a
crescente concentração de empresas5 e, de outro lado, a ampliação do mercado
dos países emergentes6, que oferecem novas possibilidades de negócios para a o
uso da televisão digital terrestre aberta. Esse é o caso do modelo de televisão nipo-
brasileiro utilizado em oito países da Região – Argentina, Brasil, Chile, Costa
Rica, Paraguai, Peru, Equador e Venezuela - cujos middlewares e softwares são
disponibilizados em código aberto.
Quadro 1 – Mapa de América Latina e Caribe

As mudanças sociais também apresentam paradoxos. De um lado, há uma


crescente inclusão social em países como Argentina, Brasil, Colômbia e Chile
convivendo lado a lado com índices preocupantes de exclusão digital nesses países
ou mesmo em Estados vizinhos, como Bolívia, Paraguai, Nicarágua ou Honduras.
5 Em todos os setores, inclusive entre empresas de comunicação e entretenimento. Sobre o tema ver os estudos
realizados pelos teóricos da Economia Política da Comunicação.
6 Países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China - são um bom exemplo das novas relações que se estabelecem
entre os países centrais e periféricos.

26
As transformações digitais incluem também os comportamentos e os afetos, com
novas sociabilidades virtuais, com a ampliação de um lado das redes sociais e as
possibilidades de interatividade e participação. O lado negativo é a visibilidade
ampliada de perversidades, como a pedofilia e o narcotráfico.
No mundo trabalho, conviemos com tecnologias que nos permitem estar
virtualmente em vários locais ao mesmo tempo, mas por outro lado, países e
empresas ampliaram a flexibilização e fragilidade dos contratos de trabalhos.
Além disso, o uso das plataformas tecnológicas como novas mídias digitais7 – deu
espaço para o surgimento de novas funções, sem que tenham ido alteradas as
legislações aprovadas em tempos analógicos, que não subsidiam ou defendem os
cidadãos no mundo digital. Junto a isso, convivemos com as mudanças na área
da educação, agora pensadas para toda a vida. A educação é apresentada de forma
presencial, semi-presencial ou a distância, enquanto a mentalidade da maior parte
dos professores e pesquisadores da América Latina e Caribe ainda se encontra
profundamente enraizada no mundo analógico, com dificuldade de aceitar as
mudanças digitais interativas que estão acontecendo.
Levando em conta que estamos frente a um mundo complexo (nos termos
de Morin) e que apenas uma teoria não da conta de explicar as transformações
que estamos passando necessitamos de vários olhares8 para tentar compreender
as possibilidades interativas e de convergência9 de mídias que as plataformas
tecnológicas apresentam. No campo da cultura, vale a pena observar as
contribuições de Clifford Geertz10 e Ulf Hannerz11 , onde cultura é vista como
uma rede de significados interconectada por cada indivíduo e pelo coletivo que se
movimenta por fluxos. Ou seja, a cultura é observada como um elemento que não
é estático ou eterno, mas que precisa ser constantemente vivida e é modificada
pelas pessoas.
Arjun Appadurai12 aponta a relação entre globalização e cultura. Para ele, a
globalização não está promovendo uma homogeneização cultural, mas envolve o
uso de uma variedade de instrumentos que são absorvidos na economia e culturas
locais sem serem repatriados, pois são resignificados no âmbito local. Featherstone
destaca que a mundialização da cultura não se resume à generalização, porque ela
também é capaz de diversificar. Para o autor, é possível pensar em cultura global
7 Celulares, computadores com internet e mesmo os videojogos em rede, além da televisão, do rádio e do
cinema digital.
8 Como pode ser observado a seguir os pesquisadores citados também representam a mundialização da cultura
em seu aspecto mais positivo: a circulação de conceitos, culturas e informações que somam a possibilitam o
diálogo entre os pesquisadores de diferentes lugares, línguas e origens.
9 Possibilidade de desenvolver produtos, formatos, programas e conteúdos digitais para diferentes plataformas
tecnológicas ao mesmo tempo, mas respeitando as características de cada plataforma
10 Antropólogo estadunidense já falecido, cuja obra é reconhecida mundialmente.
11 Professor de Antropologia da Universidade de Oslo, Noruega.
12 Professor inglês de origem indiana.

27
tomando-se os processos de integração e desintegração cultural transsociais em
que se baseiam os “fluxos de mercadorias, pessoas, informações, conhecimento
e imagens que dão origem aos processos de comunicação e adquirem certa
autonomia em nível global”. O sociólogo brasileiro Renato Ortiz destacou no
final do século XX que a formação de uma cultura mundializada não implica
o aniquilamento de outras manifestações culturais. O autor fala da criação da
cultura glocal – termo japonês que surgiu nos anos 90 do século XX na área de
negócios – para tratar da mistura entre a cultura local e a global; aonde a cultura
local se apropria e dá novos sentidos a cultura global.
Hannerz (1997) acredita que hoje existe uma cultura global, mas trata-se
de uma cultura que está assinalada por um organismo de diversidade e não por
um repetição de uniformidade. São as culturas locais e suas relações, trocas e
contatos cada vez mais acentuados que ajudam a formar a cultura global. Para
o autor sueco, devemos pensar o mundo como globalizado , onde os sujeitos e
objetos encontram-se em constante fluxos, onde são constantemente elaborados
novos significados e estabelecidas constituições culturais híbridas13 à medida que
as fronteiras tornam-se cada vez mais permeáveis.
É bem verdade que existem discursos no campo da política, da economia e
mesmo da tecnologia que tentam homogeneizar as culturas através dos discursos
que seus representantes oferecem, pelos meios analógicos e também através das
diferentes plataformas tecnológicas, entre elas a televisão e os computadores
mediados por internet. Mas isso não significa que esses discursos convençam as
pessoas, tornando-se necessariamente hegemônicos. Tampouco significa que as
pessoas passam a esquecer da sua própria cultura; o que ocorrem são os processos
de mestiçagem de que nos fala desde os anos 80 do século XX o pesquisador
espanhol que adotou a Colômbia, Jesus Martín-Barbero.
É cada vez mais difícil é falar em culturas puras, pois elas são atravessadas
por outras culturas, pelas correntes migratórias, pelo fim das fronteiras, pelos
fluxos intensos e contínuos de informação e imagens que nos chegam através das
mídias, assim como pelo intercambio de conhecimento e idéias que transitam
na esfera pública e privada diariamente. São essas mestiçagens que vão caracterizar
os novos formatos, conteúdos14 e programas pensados para a televisão digital
interativa (TVDi) e para a convergência de mídias.
Como bem recordou o pesquisador Otavio Ianni (2002), independente da
perspectiva teórica, das opções ideológicas ou do fato que examinam aspectos,
problemas e situações, compreendendo o “local”, o “provincial”, o “tribal”, o
“regional” ou o “nacional”, todos contribuem para instituir a “sociedade global”
13 Sobre as culturas híbridas, vale a pena conhecer a obra do pesquisador argentino que vive no México, Néstor
García Canclini.
14 Conteúdos digitais – todo o áudio, a imagem, o texto ou dados oferecidos às audiências pelas diferentes
plataformas tecnológicas.

28
como novo emblema das ciências sociais, compreendendo-se a sociedade global
em suas implicações políticas, econômicas, culturais, demográficas, lingüísticas,
religiosas, étnicas, de gênero e outras esferas da realidade. Tanto os conceitos
como as categorias de pensamento são desafiados a olhar o mundo de forma mais
ampla e complexa, apoiados nas Tecnologias da Informação e da Comunicação
(TICs) e atravessados por elas e pelas conseqüências de sua utilização e impacto
na vida social.

Antes da Interatividade, a Criatividade


Uma das características mais marcantes dos seres humanos é a habilidade
criativa, onde é possível aprender e antever conseqüências de atos imaginados.
Isto nos permite fazer “modelos” de mundo. Conseguimos “rodar” um programa
simulador em nossa mente e imaginar histórias, estéticas, misturar culturas, assim
como desenvolver conteúdos e formatos (analógicos ou digitais). Criar, nesse
sentido, é ter habilidade de simular – simular situações e imaginar mundos15.
Há 50 anos, a criatividade estava restrita ao mundo da arte e da comunicação,
mas só gerava dinheiro na indústria do cinema16 dominada até então pelos Estados
Unidos. A chegada das tecnologias de informação e comunicação muda esse
panorama, (re) valorizando a criatividade, a inovação tecnológica, a prestação de
serviços e abrindo novos mercados, como é o caso do cinema indiano e do cinema
de animação produzido pelos chineses. Ou seja, enquanto a sociedade industrial
valorizava o trabalho manual, a sociedade da informação e do conhecimento
valoriza as habilidades mentais, a criatividade, a inovação e os serviços. No campo
da comunicação, esses serviços podem ser oferecidos a partir de conteúdos para
televisão, rádio e cinema digital, celulares, videojogos em rede e computadores
mediados por internet, assim como para a convergência de mídias17.
Pensando nisso, em 1998 o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair
investiu nas indústrias criativas e na inovação tecnológica – lançadas pouco depois
para os demais países da União Européia18, como fatores de desenvolvimento da
Grã-Bretanha e demais países da Região para o século XXI. Só que o modelo
15 Não existe apenas uma definição de criatividade e ela pode ser abordada desde diferentes aspectos, como o
ponto de vista cognitivo, neuro-científico, computacional ou humano.
16 Já que a indústria televisiva, mesmo gerando importantes recursos, nunca alcançou o status de produto “artís-
tico” no mesmo nível alcançado pela sétima arte. Além disso, durante muitos anos os conteúdos e programas
televisivos sofreram com a discriminação de pesquisadores e intelectuais das Ciências Sociais, da Filosofia, da
Economia Política, da Educação e mesmo da Comunicação em diferentes países que os consideravam produtos
de segunda categoria. Essa desvalorização da televisão e do gosto popular ainda encontra importantes redutos no
mundo acadêmico. Acreditamos que mais do que censurar ou criticar, é necessário ampliar a oferta de conteúdos
televisivos diversificados.
17 Uma mídia, segundo Eliseo Verón (2001), é a articulação de uma plataforma, de um suporte, mais uma
prática social.
18 Sobre o tema, ver o Plano Dott, de 2000.

29
europeu de indústrias criativas – onde as empresas de radiodifusão trabalham
em conjunto com as empresas de telefonia móvel e a maior parte dos serviços
são pagos – é diferente do modelo latino-americano e caribenho, onde a oferta é
gratuita.
Mesmo o exemplar serviço público da BBC com seus vários canais de
televisão é diferente da oferta de televisão pública dos países latino-americanos e
caribenhos. A diferença vai além da qualidade ou quantidade dos conteúdos – que
não será debatida neste texto - mas na própria noção de público, pois nos países
da Região a televisão pública sinônimo de televisão gratuita. As pessoas não
pagam (e em sua maioria nem teriam orçamento para isso) para assistir televisão
aberta. Ou seja, qualquer projeto de conteúdos digitais interativos para televisão
aberta e para o uso da TVD através de celulares deve contemplar a inclusão social
e digital. Além disso, existe uma diferença importante quanto ao tratamento
da propriedade intelectual, fortemente defendida nos países centrais. Como se
fosse pouco, as indústrias criativas pensadas pelos britânicos, vão muito além da
Comunicação e do Design: incluem artesanato e museus, entre outros temas.
Não é por acaso que defendemos a emergente indústria de conteúdos
digitais interativos na Região, com ênfase na televisão digital interativa terrestre e
na convergência de mídias, ressaltando a necessidade de que seja disponibilizada
de forma gratuita para a população. A indústria de conteúdos pensada a partir do
modelo de televisão japonês-brasileiro19 já foi adotado em oito países da Região
(além de Filipinas, e recentemente Moçambique, Angola e Botswana), tem como
características:
1. Vem sendo desenvolvida através de plataformas gratuitas;
2. Tem como meta a inclusão social e digital, assim como o desenvolvimento
sustentável;
3. Oferece middlewares e softwares em código aberto para ampliar a
circulação de informações e de conhecimento;
4. No caso da televisão, recebe incentivo estatal para o desenvolvimento de
conteúdos para televisão digital (TVD) aberta e gratuita, assim como para
conteúdos voltados para a convergência de mídias;
5. Muitos conteúdos são desenvolvidos de forma compartilhada e coletiva,
ampliado o conhecimento sobre novos formatos interativos e gratuitos;
6. As redes sociais têm participação importante na formação de novos atores
sociais que também produzam conteúdos.
19 Além dos países citados, Uruguai e Colômbia adotaram o modelo europeu e o México e República Domini-
cana adotaram o padrão ATSC, consórcio formado por EUA, Canadá e Coréia. Existem outros dois modelos
usados na Região: Colômbia e Uruguai adotaram o consórcio europeu, mas ainda não começaram as transmis-
sões digitais, e o México utiliza o consorcio ATSC, sem interatividade.

30
Antes da Interatividade, a Criatividade
A passagem da televisão analógica aberta para o modelo digital marca o surgimento
de uma televisão híbrida20, diferente do que já se viu até então. Essa diferença
- representada pela digitalização, pela não linearidade, pela possibilidade de usar
recursos interativos e pela gratuidade - é o que define o valor agregado da nova
televisão em relação aos demais modelos. Em seus primeiros anos, é possível
afirmar que a televisão digital é uma mistura da televisão analógica, de cinema e de
computadores com recursos de internet e tende a seguir assim - meio computador
na televisão e meio TV analógica - até encontrar sua própria identidade. Algo
similar ao que ocorreu quando as primeiras televisões analógicas chegaram ao
mercado21: eram caras, as pessoas desconfiavam da qualidade de seus programas
e a linguagem era uma mistura da estética radiofônica com a cinematográfica.
Demorou um bom tempo – pelo menos 20 anos - até as empresas de televisão,
públicas e privadas, encontrarem uma linguagem e estéticas própria.
No caso do computador mediado por internet, Murray (2007:236) recorda
que “a capacidade de armazenamento e organização complexa do computador
pode ser usada como apoio para um universo narrativo bastante denso e exigente”.
Desse modo, a integração da televisão com o computador – utilizando os recursos
do computador na TV que a maioria da população possui em casa com ajuda de
uma caixa de retorno (set top box) - possibilita que nos desloquemos pelo mundo
narrativo, mudando de uma perspectiva para outra por nossa própria iniciativa.
Considerado o maior país da América Latina, o Brasil é um bom
exemplo do uso da televisão analógica. O país possui o quarto maior canal de
televisão do mundo ( Rede Globo), um parque televisivo analógico com 80
milhões de aparelhos e outros 15 milhões digitais22 e seus conteúdos ficcionais,
particularmente as telenovelas, são exportadas para diferentes países. No Brasil
a televisão analógica chegou em 1950 e demorou pelo menos 10 anos para ser
oferecida a preços populares. Além disso, demorou pelo menos 20 anos para
apresentar o padrão de qualidade que a diferencia tanto na oferta de produtos
ficcionais quanto de realidade. A exemplo do que acontece no Brasil, que vive
em uma sociedade audiovisual, a televisão analógica na América Latina e Caribe
representa muitas vezes a única fonte de informação para seus habitantes e isso
deverá se repetir com a chegada da TV digital terrestre, com a diferença que a
utilização de recursos interativos gratuitos pode colaborar para a inclusão social.

20 O pesquisador Carlos Scolari, argentino que trabalha na Espanha, criou o conceito de hipertelevisão para
tratar das mudanças que a TV está passando, mas sua perspectiva é – pelo menos até o momento - a do modelo
europeu; não a proposta aberta, gratuita e oferecida em software livre do projeto nipo-brasileiro.
21 No caso latino-americano e caribenho, a TV chega nos anos 50 do século XX. Em 2010, a televisão
comemora 60 anos de existência na Região.
22 Atualmente a população brasileira é de 172 milhões de habitantes. Isso significa que 98% dos lares urbanos
e 96% dos lares rurais possuem pelo menos um aparelho de TV.

31
A televisão digital se apropria de algumas características do modelo
analógico, como as rotinas de captação, produção e edição e também copia
as linguagens, narrativas e estéticas utilizadas na TV analógica. Por outro lado,
se apropria do uso da 3ª. dimensão desenvolvida no cinema e da interatividade
usada nos computadores, através da oferta de recursos interativos via controle
remoto onde as audiências podem participar desde casa ou na rua dos programas,
formatos e conteúdos digitais ofertados pelos canais digitais abertos. Como se
fosse pouco, as audiências que utilizam o middleware Ginga e possuem canal de
retorno ainda podem acessar o correio eletrônico ou internet enquanto assistem a
programação desde o controle remoto.
Muitos pesquisadores, principalmente aqueles que residem nos países
centrais, não acreditam no desenvolvimento da TV digital broadcasting e
apostam na TV digital usada através dos computadores (IPTV). Embora o uso
dos computadores seja amplo nos países europeus, assim como nos Estados
Unidos e Canadá, um informe da União Internacional das Telecomunicações
publicado em maio de 2010, aponta que apenas 26% da população mundial tem
acesso a internet e antes de 2015 não há possibilidade desse número alcançar
50%. Ou seja, até o processo ser universalizado, é preciso buscar alternativas
mais baratas para a inclusão social e uma delas passa pela tecnologia desenvolvida
pelo Brasil para uso de recursos interativos a partir de TV digital terrestre com
caixa de retorno, assim como o uso de celulares com oferta de conteúdos digitais
e serviços gratuitos à população.
Se os dados da UIT não fossem suficientes, bastaria apontar as diferenças
fundamentais entre a TV broadcasting e o uso da TV no computador. A televisão
digital broadcasting é gratuita, a qualidade das imagens é excelente e os conteúdos
de áudio, vídeo, texto e dados circulam com facilidade. Diferente do computador,
que é pensado para o uso individual, a assistência da televisão é coletiva e
socializada. Além disso, existe uma diferença importante entre as distâncias dos
conteúdos que serão assistidos em um computador de mesa e na sala de televisão.
Tecnologicamente, as aplicações para televisão são baseadas em vídeo enquanto
as aplicações dos computadores são baseados em texto, o que torna mais difícil
desenvolver conteúdos de televisão no computador. Isso sem contar na facilidade
da TV de estar simultaneamente na cada de milhões de pessoas ao mesmo tempo,
sem risco de sobrecarga de rede.
No caso da televisão, existem ainda vários dispositivos de exibição de forma
gratuita. Os programas e formatos digitais podem ser assistidos através de um
aparelho de TV fixo, em geral com tela grande, disponível em (um ou mais
ambientes de uma casa) e locais públicos, ou a partir de plataformas móveis. Essas
plataformas estão disponíveis através de televisores digitais pequenos (portáteis) e
dos celulares com tecnologia para assistir televisão digital aberta e gratuita.

32
A TV, o cinema e o rádio digital, os celulares, os videojogos em rede, os
computadores mediados por internet ou a convergência entre as mídias são
novas mídias que exigem novos conteúdos e formatos de programação. No caso
específico da televisão, são necessários novos tipos de roteiros (storyboards)23
voltados para diferentes níveis interativos para os programas de ficção e realidade
que podem ser assistidas nos subcanais digitais das empresas de televisão digital
com multiprogramação.
No padrão japonês-brasileiro de TVD, a multiprogramação em alta
definição permite a existência de quatro subcanais digitais. Com isso, uma
empresa de comunicação que tem a concessão de um canal analógico passa a
ter direito a quadro subcanais digitais, como é o caso das empresas de televisão
privadas cujos países já adotaram o modelo digital. As empresas que se definiram
pelo uso da programação em definição standard24 podem usar até oito canais, com
é o caso da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)25, instituição pública federal
concessionária da TV Brasil, passará a utilizar em 2011 e terá de desenvolver
conteúdos e serviços digitais para alimentar o interesse das audiências desses
oito26 canais durante 24 horas. Isso significa um aumento importante no mercado
de produção de conteúdos e serviços televisivos, já que a EBC informou que não
pretende ser desenvolvedora de conteúdos digitais interativos. O mesmo se repete
em países como a Argentina, que pretende desenvolver canal com conteúdo
infantil, para além dos jornalísticos e de ficção.
A TV digital interativa requer uma nova noção de grade de horários, pois a
interatividade permite a ampliação do horário original de um conteúdo digital.
Isto é, se um documentário for desenvolvido com três níveis de interatividade,
as audiências que tiverem canal de retorno na TVD aberta poderão, a partir
do controle remoto, acessar esses três níveis interativos, que podem ser, por
exemplo: acessar a obra do diretor do documentário, acessar a trilha sonora e ter
acesso a outras informações sobre o tema, com sugestões de filmes e livros. Além
disso, as audiências poderão enviar sua opinião sobre o documentário ou sugerir
outras pautas para a produção do programa.
Como dissemos, a grade de programação precisa ser flexibilizada, pois muda
a duração de um programa com vários níveis de interatividade, assim como
modifica as possibilidades de oferta publicitária que no mundo analógico eram
23 Com três colunas: espaço para o vídeo, o áudio e o texto. Também poderá ser oferecido em quatro colunas:
dividido em espaço para o vídeo, áudio, texto e níveis interativos.
24 O uso de maior número de canais corresponde a redução da qualidade de imagem da TV digital e também
a redução do uso das possibilidades interativas com as audiências.
25 A EBC foi criada em final de 2008 e herdou os funcionários, canais e equipamentos da antiga televisão
pública federal conhecida como Radiobrás.
26 Os conteúdos e serviços digitais serão desenvolvidos para dois canais educativos, um canal de notícias 24
horas, um canal da cultura, um canal da TV Brasil com programação diversa, um canal da saúde, um canal da
ciência e tecnologia e um canal da comunidade.

33
exibidas no “momento do comercial”. Mais recentemente, essa oferta publicitária
aparece também dentro da programação e dos diferentes formatos digitais, onde
podem ser comercializadas roupas, bijuterias ou jóias, carros, alimentos ou móveis,
etc., utilizados pelos principais personagens de uma série ou novela ou pelos
famosos. Isso permite que as audiências busquem as ofertas publicitárias mais
próximas a sua residência ou comprem diretamente desde o correio eletrônico
via televisão. Ou seja, abre novos modelos de negócios para os radiodifusores,
sejam eles de canais públicos ou privados. Nesse sentido, temos usado o conceito
de módulos para tratar da TV digital interativa. Esses módulos ganharam nova
dimensão a partir das experiências realizadas no laboratório Telemídia, localizado
na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) sobre o uso dos
recursos de interatividade e de multiprogramação.
Em 2009 um grupo de investigadores em Informática e Comunicação27, sob
a responsabilidade do pesquisador brasileiro Luis Fernando Gomes28 desenvolveu
um projeto para produção de conteúdos digitais com uso de interatividade nos
quatro subcanais de alta definição onde uma empresa de televisão pode oferecer
distintos níveis interativos – em uma escala que vai da interatividade zero até a
interatividade total – de um mesmo conteúdo ou formato digital em cada um
dos quatro canais. De acordo com um dos autores do projeto, Alan Angelucci
(2009), o programa experimental sobre turismo no Rio de Janeiro (Brasil) de
15 minutos caracteriza-se por ter um formato não-linear interativo; explora as
principais características de interatividade e sincronismo intermídia possibilitada
pelo Ginga-NCL; utiliza contextos para estruturar a aplicação e nós de alternativa,
possibilitando que as audiências criem suas próprias linhas narrativas da história.
Nessa visita turística ao Rio de Janeiro as audiências que possuem a TV digital
com o middleware Ginga e por conseqüência canal de retorno, têm varias
possibilidades de escolha:
1. Subcanal 1 - Podem escolher assistir uma história sem interatividade;
2. Subcanal 2 - Podem assistir uma história com apenas um recurso
interativo (exemplo: conhecer a praia de Copacabana);
3. Subcanal 3 - Podem decidir “passear” pela praia de Copacabana e pelo
Jardim Botânico;
4. Subcanal 4 - Podem “passear” por vários locais da cidade, cujos roteiros
foram pré-estabelecidos pelo campo da produção e podem entrar em
27 Entre eles o jovem mestre Alan Angelucci, que traduziu este livro para o inglês.
28 Considerado um dos pais do middleware Ginga, tecnologia brasileira que permite o uso da interatividade, da
interoperabilidade, da portabilidade e da mobilidade na televisão digital. it Esse middleware utiliza a linguagem
declarativa (NCL), mais simples, e a linguagem procedural (Java), mais elaborada, para permitir o uso da
interatividade na televisão, a partir de um canal de retorno, que garante a velocidade das imagens – algo que os
computadores não permitem, e a qualidade dos conteúdos de áudio, vídeo, textos e dados.

34
internet para obter mais informações sobre esses locais turísticos.
Mas a televisão digital permite muito mais opções. Pode ser usada para
acessar mails, ver diferentes ângulos na tela, sugerir pautas, entrevistados, avaliar
programas, usar serviços públicos de saúde, educação a distância (EAD), agendar
consultas médicas, checar processos e imposto de renda, realizar tele-medicina,
ver saldos bancários, etc. Também é possível entrar em páginas web desde o
próprio aparelho de TV usando o controle remoto como teclado (similar ao que
fazemos quando mandamos mensagens de texto - SMS - nos celulares). Outro
recurso que vem sendo desenvolvido no modelo japonês-brasileiro de televisão
digital é a possibilidade de uso de alguns recursos interativos, como respostas
em determinados programas de perguntas, diretamente para o celular sem ônus
para as audiências. A proposta, segundo Luis Fernando Gomes, é permitir uma
assistência coletiva de televisão digital com opção de uso de canal de retorno
individualizado.
Em termos de narrativas existem diferenças fundamentais na passagem da
televisão analógica para a digital, como pode ser observado a seguir:

Quadro 2 – Diferenças entre a televisão analógica e a TVD

35
Em um mundo de hipertelas
Os franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (2007) dizem que na era
contemporânea vivemos uma inflação de telas - celulares, TV analógica ou
digital, rádio digital, cinema, telões de festas, videogames, computadores, tablets,
livros digitais, (como o Kindle ou o Ipad) - que tomam contam de nosso olhar
durante o dia e a noite. Observando este mundo do olhar e das visualidades,
é possível desenvolver conteúdos ficcionais ou jornalísticos para TV digital
interativa e usar nos aparelhos de celulares desde que o conteúdo seja pensado para
dispositivos móveis. Isso representa um tamanho similar de tela, a possibilidade
de ser usado em qualquer lugar (em um parque, ônibus, metrô ou escola) e um
nível similar de definição de imagem voltada para esse tipo específico de tela.
Além disso, a temporalidade, ou seja, o tempo de duração do programa precisa
seguir a característica da plataforma tecnológica: no caso de conteúdos específicos
pensados para pequenas telas, os formatos são mais curtos, entre com duração
entre 1 e 3 minutos, levando em consideração que essas pequenas plataformas
podem ser levadas e assistidas em qualquer lugar, através de narrativas breves.
Mas se a proposta de conteúdos é pensada para diferentes meios de
comunicação digitais, com diferentes características, como ser fixo ou móvel, ou
as diversas dimensões de telas (celulares, televisores portáteis ou televisores de 72
polegadas) é preciso levar em consideração que exigem diferentes espacialidades,
temporalidades e mobilidades. Esses aparatos requerem outros tipos de
linguagem, conteúdos e formatos audiovisuais, assim como uma outra relação
com seus públicos e uso de diferenciados níveis de interatividade. Em termos
de interatividade, é preciso levar em consideração que nem todas as pessoas
se interessam em participar da programação; preferem simplesmente apreciar o
programa e o formato selecionado.
No caso da TV digital (TVD), os novos formatos audiovisuais já estão
sendo desenvolvidos pensando as possibilidades interativas do público com a
TVD que, no modelo nipo-brasileiro, é uma vantagem extra gratuita para as
audiências. Pela primeira vez na história, as audiências – e não apenas o restrito
grupo29 que possui computadores com internet em casa - poderá se relacionar
de perto com o campo da produção, isto é, com aqueles que produzem e dirigem
diariamente os diferentes programas de televisão. Além disso, através da televisão
digital terrestre com interatividade têm a oportunidade de usar correio eletrônico,
de usar internet, de produzir conteúdos audiovisuais digitais e disponibilizar
no espaço virtual, algo que até então, estava restrito ao campo da produção.
Através do canal de retorno acoplado interna ou externamente ao aparelho de TV,
é possível utilizar diferentes níveis de interatividade, como já comentamos em
29 No Brasil, segundo dados do Conselho Gestor de internet (CGI) em 2009, apenas 27% da população tinha
acesso a internet com banda larga em casa.

36
artigos anteriores (Barbosa Filho e Castro, 2007, 2008, 2009, Castro e Fernandes,
2009).
Entre os recursos interativos está a possibilidade de avaliar um programa
enquanto está ocorrendo enviando mensagens à produção a partir do controle
remoto; sugerir pautas ou entrevistados; baixar informações extras sobre o
programa e seus participantes, etc. Além disso, é possível utilizar recursos
interativos pensando a multiprogramação, onde cada um dos sub canais de uma
mesma empresa de comunicação poderá apresentar diferentes (ou nenhum) níveis
de interatividade com os públicos30. Também é possível encontrar interações mais
simples, como as informações previamente disponíveis sobre jogadores e a situação
de uma equipe durante uma partida do campeonato brasileiro, que já há alguns
anos é disponibilizada aos assinantes dos canais de televisão por assinatura.

Considerações Finais
Talvez a diferença mais importante da passagem do sistema analógico para o
digital em termos de televisão é que é possível mudar a origem da produção dos
conteúdos audiovisuais, até então restrita a grandes grupos de comunicação, como
Organizações Globo, SBT, Grupo Abril, Record, entre outros, no caso brasileiro.
A produção de conteúdos audiovisuais digitais poderá ser feita por profissionais
de Comunicação, por produtores independentes ou mesmo por profissionais
de diferentes áreas, como Design, Educação ou Informática em conjunto, por
exemplo. Eu acredito que aí resida o caráter revolucionário e profundamente
democrático das mídias digitais, pois as audiências e movimentos sociais têm a
possibilidade de sair da produção de comunicação de caráter alternativo e contra-
hegemônico para oferecer – de maneira mais equilibrada - outros pontos de vista
sobre a realidade e o mundo em tempo real (ou gravado) através de diferentes
plataformas tecnológicas conectadas ao mundo virtual.
É neste sentido que pode se tornar realidade o diálogo entre as diferentes
ciências e a comunicação digital para construir a inclusão social no Brasil e
nos países da Região, estimulando a emergente indústria de conteúdos digitais
interativos. Trata-se de um processo em construção, que exige reflexão, abertura
para novas teorias, formação profissional, capacitação atualização dos currículos
universitários e dos professores, novos modelos de negocio, investimentos, assim
como fomento a estudos transdisciplinares em pesquisa, desenvolvimento e
inovação (P,D&I). Temas que exigem um longo debate, mas já começaram a ser
discutidos dentro do Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) e na academia
e também no mercado.

30 Projeto deste tipo vem sendo desenvolvido desde metade de 2009 no laboratório do professor Luis Fernando
Gomes, localizado na PUC/RJ.

37
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39
40
1ª. PARTE

TENDÊNCIAS ECONÔMICAS

41
42
CAPÍTULO 1

A hora e a vez dos países-baleias

Marcio Pochmann 1

Conjunturas prévias
O aparecimento de novos elementos reestruturadores do capitalismo na passagem
do século 20 para o 21 transforma profundamente a evolução do sistema econômico
mundial. As mais recentes alterações na Divisão Internacional do Trabalho geram
oportunidades inéditas às economias periféricas de superação da condição de
subdesenvolvimento, especialmente nos países que comportam grandes escalas de
produção e consumo em ampla dimensão geográfica e populacional, como Brasil,
Índia e China.
Em vez da anterior identificação a respeito da rápida expansão econômica
em países de menor dimensão territorial e populacional, denominados de
tigres asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan e Hong Kong), assiste-se à emergência
mundial dos países-baleias. Ainda que apresentem renda por habitante baixa ou
intermediária em posição mundial, os países-baleias rapidamente se reposicionam
no mundo frente à transição acelerada da antiga condição de sociedades agrárias
para crescentemente urbano-industrial. A elevação do nível de emprego urbano
da mão-de-obra e a retirada recente de parcelas significativas da população da
situação de pobreza e miséria indicam a importância da escala do mercado interno
de consumo relacionado ao forte ritmo de crescimento econômico.
Com isso, os países-baleias não somente passam a ocupar maior espaço na
composição do Produto Interno Bruto global e comércio internacional, como
respondem crescentemente pela maior sustentação da dinâmica econômica
mundial. Esse aspecto, em especial, segue tratado em duas partes distintas, porém
articuladas entre si. A primeira destaca a recente ascensão dos países-baleias na
Divisão Internacional do Trabalho, enquanto a segunda parte trata da atualidade
das trajetórias nacionais desiguais em termos da expansão econômica e da
repartição dos seus frutos para o conjunto de sua população.

Emergência dos países-baleias na Divisão Internacional do Trabalho


A passagem do século 20 para o 21 trouxe consigo dois grandes eixos reestruturadores
da Divisão Internacional do Trabalho. Por um lado, o movimento global de
1. Professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho
da Universidade Estadual de Campinas. Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

43
A hora e a vez dos países-baleias

reorganização do capital acompanhado de sinais crescentes da decadência relativa


dos Estados Unidos impôs o deslocamento do antigo centro dinâmico capitalista
unipolar para a multipolarização geoeconômica mundial (Estados Unidos, União
Europeia, Rússia, Índia, China e Brasil).
Como a crise internacional de 2008 segue ainda sem resolução definitiva
nos países ricos e intercalada por avanço concomitante da revolução tecnológica
e do segundo ciclo de industrialização tardia na Ásia, a dinâmica econômica
mundial prevalece extremamente desigual e, por que não dizer, combinada.
Economias desenvolvidas submetidas ao quadro de semiestagnação, enquanto
emerge ascensão das relações econômicas e comerciais Sul-Sul.
O comportamento econômico entre nações tende a se agravar ainda mais
quando se consideram as medidas adotadas mais recentemente nos países centrais,
fazendo crer que a crise internacional reproduz traços similares aos verificados
anteriormente na armadilha japonesa dos anos 1990, quando predominou o
baixo dinamismo no consumo das famílias e a postergação dos investimentos
produtivos. O resultado aponta para o risco permanente da deflação dos preços
e da desvalorização cambial competitiva em busca de maior ampliação dos
mercados externos por parte dos países ricos.
Por força disso, os países não desenvolvidos tendem a assumir crescente
responsabilidade pela dinâmica econômica mundial, indicando, pela primeira
vez desde a Depressão de 1929, que a recuperação da produção global segue
estimulada fundamentalmente pelas regiões periféricas, especialmente nos países
de grandes escalas produtivas, como China, Índia e Brasil. Ademais, percebe-se
também o predomínio na convergência de vantagens competitivas da expansão
industrial a se concentrar em alguns países considerados até então pobres, quando
não no setor da agroindústria.
Por outro lado, nota-se que a adoção de distintos modelos de ajustes nos
países a partir da crise global indica, em geral, evolução diferenciada na trajetória
futura dos países-baleias. Dependendo das ações nacionais em torno da aceitação
ou não da valorização de suas moedas e do aprofundamento da heterogeneidade
estrutural das economias periféricas, pode prevalecer decréscimo nas vantagens
comparativas construídas no setor de manufatura e serviços de maior valor
agregado do que nos segmentos primário-exportadores. Neste caso, observa-
se que mesmo persistindo a expansão econômica nacional, o diferencial de
produtividade doméstica em relação às nações ricas não diminui necessariamente,
o que pode gerar, por consequência, o risco crescente do aprisionamento das
estruturas de produção e de exportações primarizadas, com baixa intensidade
ocupacional e de remuneração mais elevada.
Nos países da União Europeia, percebe-se, por exemplo, que a reprodução
de tradicionais programas de ajuste fiscal produz maior pressão na elevação das
exportações frente ao desânimo do consumo doméstico. A redução no gasto

44
A hora e a vez dos países-baleias

público impõe, por consequência, prejuízos aos trabalhadores, ao mesmo tempo


em que favorece a redução de custos no setor privado voltado às exportações,
geralmente de bens e serviços de maior valor agregado. Nos Estados Unidos,
principalmente, não tem havido medidas substanciais de ajuste fiscal, embora a
pressão por elevação das exportações de bens e serviços de maior valor agregado
seja crescente. Como o consumo interno permanece contido, não obstante as
baixas taxas de juros e elevada liquidez em dólares, cabe ao governo a defesa das
medidas de desvalorização do dólar para tornar mais competitivos os produtos
estadunidenses.
Frente a isso, a reação dos países-baleias não tem sido convergente,
necessariamente. Pela perspectiva chinesa, por exemplo, percebe-se a crescente
correlação na expansão produtiva e das exportações de manufatura com a
elevação das importações de produtos primários, o que permitiu multiplicar por
quase 5 vezes sua presença no comércio externo entre 2000 e 2009. A redução
dos preços de bens industriais chineses tem permitindo ocupar novos espaços
comerciais adicionais, com forte ênfase na desvalorização de sua moeda e pressão
inflacionária doméstica.
No caso brasileiro, nota-se que a valorização de sua moeda nacional estanca
a alta dos preços internos, mas impõe o aprofundamento da heterogeneidade
de sua estrutura produtiva, com decréscimo relativo na vantagem comparativa
da manufatura e serviços de maior valor agregado em relação ao setor primário-
exportador. Como resultado, constata-se que em relação à China, o Brasil
conseguiu multiplicar as exportações por quase três vezes entre 2005 e 2009 com
base na expansão relativa da presença de produtos primários (minério de ferro,
soja, madeira, entre outros), que passou de 65% para 79,2% do total da pauta do
comércio externo.
A Índia, por sua vez, segue o esforço contínuo pelo caminho exportador –
especialmente nos serviços –, frente à persistência do déficit na balança comercial
de bens. Em 2009, por exemplo, a Índia respondeu por 2,8% das exportações
mundiais de serviços, contra 1,1% em 2000. No mesmo período de tempo,
a região latino-americana e caribenha reduziu sua participação relativa nas
exportações mundiais de serviços de 3,2% (2000) para 2,8% (2009).
Resumidamente, a emergência dos países-baleia altera a Divisão Internacional
do Trabalho neste início do século 21, com redução do peso relativo dos países do
centro do capitalismo mundial. Apesar disso, a trajetória dos países-baleia segue
desigual e combinada, com distintos impactos internos em termos de combinação
dos desempenhos econômicos e sociais, conforme tratado a seguir.

Distintas trajetórias socioeconômicas


Uma das principais novidades surgidas no contexto de evolução da crise global
de 2008 encontra-se justamente associada à recuperação econômica mundial
45
A hora e a vez dos países-baleias

atual, cada vez mais determinada pela dinâmica dos países não desenvolvidos.
O fato de nações como a China, Brasil e Índia responderem por mais da metade
do crescimento econômico após o quadro recessivo mundial de 2008 e 2009
acontece pela primeira vez desde a Grande Depressão de 1929.
Em contrapartida, o conjunto das nações desenvolvidas parece, cada vez
mais, prisioneiro do ciclo vicioso originado pela nova reprodução da armadilha
japonesa, constituída desde 1991 por força do tipo de crise que se abateu naquele
país. Ou seja, a combinação da anorexia do consumo familiar com a retenção
e adiamento dos investimentos das empresas, acrescido do desajuste fiscal e de
medidas ortodoxas de contenção do gasto social. O resultado disso reflete-se na
deterioração da confiança nacional potencializada pelo risco da deflação em meio
à onda das desvalorizações cambiais competitivas e, infelizmente, o ressurgimento
da marcha protecionista. Na sequência do desemprego em alta, ocorre a elevação
nas taxas de pobreza e de suicídios entre os países desenvolvidos.
Não parece haver dúvidas de que o abandono atual pelos países ricos da
convergência das políticas anticíclicas adotadas na crise de 2008 aponta para um
período relativamente longo de convivência com o baixo dinamismo econômico
e piora na distribuição de renda. Ademais, a prevalência de enormes assimetrias
de poder entre a força e os interesses das grandes corporações transnacionais e o
apequenamento das ações dos Estados nacionais, aliado ao contínuo esvaziamento
das instituições multilaterais, tende a tornar mais distante a coordenação urgente
e necessária da governança mundial.
Tal como na Grande Depressão de 1873 a 1896, que acompanhada pelo
circuito da industrialização retardatária ocorrido na Alemanha e nos Estados
Unidos permitiu surgir – meio século depois – o deslocamento do centro
dinâmico mundial assentado na hegemonia inglesa, percebe-se hoje, guardada
a devida proporção, o aparecimento de novas polaridades geoeconômicas no
desenvolvimento global. A China, Brasil e Índia são crescentemente apontados
como nações portadoras de futuro e de grande potencial necessário para assumir
maior centralidade na dinâmica do desenvolvimento mundial.
Por conta disso, torna-se interessante procurar compreender como o
comportamento do crescimento econômico e do padrão de distribuição de renda,
especialmente na China e Brasil, que rapidamente assumem referência de como
o novo mundo poderá se mover, com maior ou menor expansão e ampliada ou
contida desigualdade na repartição da renda. Ainda que se trate de países muito
diferentes, Brasil e China apresentam tendências recentes distintas em relação ao
crescimento econômico e à repartição da renda nacional entre seus habitantes.

46
A hora e a vez dos países-baleias

Gráfico 1: Evolução do Índice de Gini no Brasil e China (1995=100)


130

120

110

100

90

80
1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010

Brasil China

Fonte: China Statistical Yearbook e IBGE (elaboração própria); estimativa para 2010

No Brasil, por exemplo, observa-se que para cada 1 ponto percentual de


expansão da economia, a China consegue crescer 2,5 pontos percentuais a mais.
Entre 1995 e 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro foi multiplicado
por 1,6 vezes, enquanto o PIB chinês foi multiplicado por 3,9 vezes. O modelo
veloz de crescimento econômico da China praticamente não se alterou entre os
anos de 1995 a 2003 e de 2004 a 2010 (crescimento médio anual de 10%), ao
contrário do Brasil, que registrou expansão média anual de 2,1% de 1995 a 2003
e de 4,5% de 2004 a 2010.
Por outro lado, percebe-se divergência importante em relação ao padrão
de desigualdade na repartição de renda entre os brasileiros e chineses. Entre
1995 e 2010, o índice de Gini aumentou 21% na China, enquanto no Brasil
caiu 14%. Ou seja, para cada 1 ponto percentual de queda no índice de Gini
brasileiro, a China eleva em 1,4 ponto percentual o grau de desigualdade na
renda. Interessante notar ainda que de 1995 a 2001, o comportamento no índice
de Gini se manteve relativamente inalterado, apesar das oscilações anuais, de
2,6% para mais na China e de 0,83% para menos no Brasil. Todavia, constata-se
que a partir daí houve uma grande diferenciação na trajetória da repartição da
renda na China e no Brasil. Com o crescimento econômico maior no Brasil, o
comportamento do índice de Gini tornou-se mais decrescente (-12,2%), ao passo
que a China, que manteve inalterada a trajetória de alta expansão do PIB, passou
a registrar ampliado aumento no grau de desigualdade na repartição pessoal da
renda (+17,9%).
Em síntese, nota-se que desde 2004 o PIB brasileiro tem crescido, como
média anual, quase a metade do ritmo de aumento do Produto Interno Bruto
chinês, ao contrário do período anterior (1995 e 2003), quando a expansão

47
A hora e a vez dos países-baleias

econômica brasileira representava somente 25% do crescimento do PIB chinês.


Com a maior expansão das atividades da economia brasileira no período recente
houve concomitantemente o aprofundamento da queda no grau de desigualdade
da renda pessoal, diferentemente da situação chinesa, com forte piora na repartição
do conjunto dos rendimentos dos seus habitantes.
Essas diferenças tornam-se importantes e devem ser ressaltadas, especialmente
quando se avaliam as novas trajetórias mundiais possíveis a partir da sequência da
crise nos países desenvolvidos iniciada em 2008. Não obstante o menor ritmo de
crescimento econômico, o Brasil revela melhor trajetória de repartição da renda
em relação ao desempenho chinês recente.

Considerações finais
Para os próximos anos, a literatura especializada deverá dedicar-se cada vez
mais a tratar e entender a emergência da expansão econômica, política, social,
militar e cultural de países de grande dimensão territorial e populacional. A
hora dos países-baleias chegou, mesmo com as condições históricas herdadas
do subdesenvolvimento (enorme heterogeneidade estrutural e baixa renda por
habitante).
Tudo isso torna ainda mais relevante a situação de países como Brasil, China
e Índia, em especial por seus esforços nacionais de participarem dos novos pólos de
desenvolvimento mundial, o que altera profundamente a Divisão Internacional
do Trabalho. Dessa forma, a antiga hegemonia unipolar exercida pelos Estados
Unidos tende a conceder lugar à nova dinâmica mundial estimulada fortemente
pelas relações Sul-Sul, responsável atualmente por quase a metade de todo o
comercio mundial.
Não obstante o fortalecimento dos países-baleia, observa-se trajetória
distinta em relação à combinação do crescimento econômico e de sua repartição
no interior da população. O Brasil apesar de crescer bem menos que a China
consegue reduzir suas brutais desigualdades, ao contrário da realidade chinesa de
ampliação recente da concentração pessoal da renda

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A hora e a vez dos países-baleias

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países de América Latina y el Caribe. Caracas: SELA.

49
50
2ª. PARTE

TENDÊNCIAS NAS TELECOMUNICAÇÕES

51
52
CAPÍTULO 1

Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

Marcio Wohlers1

Diante do alto poder de mercado dos chamados “gigantes da internet”, como


o Google, Yahoo, e-Bay e outros, e em face do alto tamanho dos arquivos
transacionados pela rede, o consenso praticamente absoluto quanto à neutralidade
de redes (NN) passou a ser a questionado em vários países. O pressuposto de
que todos os pacotes de bytes (datagramas) não sofreriam qualquer espécie
de discriminação – de natureza pessoal, política, ideológica e econômica –
tornou-se objeto de amplo debate. O comércio eletrônico de serviços cujos
arquivos são de grande volume, como os de cinema 3D, encabeça a pauta de
discussões. Seguem-no os sites de jogos on-line, que mantêm centenas de usuários
permanentemente conectados, e as aplicações peer-to-peer (P2P), como o sistema
de compartilhamento BitTorrent – todos exigem grande quantidade de banda
passante. De fato, o protocolo BitTorrent continua sendo o mais utilizado no
mundo para tráfego P2P, sendo que na América do Norte 53,3% do tráfego de
entrada (upstream) ao longo de um dia médio são feitos por P2P.
Notórios defensores da internet livre e aberta, amplamente desregulamentada,
sem interferência de nenhuma entidade pública, passam agora a exigir que
o governo ou os órgãos reguladores imponham normas e regulamentem o
funcionamento da rede mundial, garantindo, particularmente, a neutralidade de
redes. É simples entender essa mudança de postura. Ora, diante da necessidade de
viabilizar o tráfego para qualquer tipo de usuário, incluindo todos os envolvidos
(provedores e usuários de informação) em transações eletrônicas e face à relativa
escassez de largura de banda, os operadores de rede e fornecedores de conectividade
à internet efetuam o gerenciamento do tráfego e acabam reduzindo a qualidade
do serviço QoS (Quality of Service – sigla em inglês).
Este fato acontece geralmente na última milha, ou seja, na conexão entre
o usuário final e o servidor de tráfego que distribui os dados para esse usuário.
Em outras palavras, as operadoras das plataformas de rede e de conectividade,
ao efetuarem o “gerenciamento de tráfego”, priorizam a transferência de
determinados arquivos em detrimento de uma conexão mais rápida em outros
1 Doutor em economia pela Universidade de Campinas (Unicamp), onde é professor licenciado com especiali-
zação na área da economia e inovação das telecomunicações. Foi assessor especial do Ministério das Comuni-
cações (2003-2005) e pesquisador da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal - Nações
Unidas), no Programa Sociedade da Informação (Santiago do Chile), entre 2005 e 2007, e desenvolveu pesqui-
sas na área do impacto regulatório da convergência tecnológica nas telecomunicações. Integra o Comitê Cientí-
fico da European Communications Policy Research (EuroCPR), rede europeia de pesquisadores e reguladores
de telecomunicações.

53
Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

pontos da rede e da qualidade de transmissões de dados mais complexas, como


a VoIP (voz sobre IP), que chegam ser encerradas abruptamente, ou por decisão
da operadora da plataforma, ou por alguma instabilidade da própria internet.
Definitivamente, falta transparência nos procedimentos adotados pelas operadoras
e nas responsabilidades sobre o desempenho da rede. Usuários e consumidores
interconectados à internet estão às escuras.
A questão da neutralidade de redes também conduz a um debate sobre
a evolução da concorrência e da inovação no âmbito da internet, que podem
ser vistos como os dois lados da mesma moeda. De um, a garantia (ou não) da
neutralidade de rede é uma interferência nas formas de concorrência e inovação
na rede. De outro, maiores níveis e incentivos à inovação e o reforço do ambiente
competitivo também influenciam a neutralidade de redes.

Aspectos da inovação na internet


A fusão das telecomunicações com internet, a partir da década de XX, produziu
mudanças radicais entre o mundo das “velhas telecomunicações” e o das TICs
(Tecnologias de Informação e Comunicação). Devido à ampliação da convergência
tecnológica e econômica no âmbito das TICs e à tendência da oferta generalizada
de conexões de banda larga, está ocorrendo uma movimentação das fronteiras das
empresas, dos mercados e de setores das próprias TICs. Uma das maneiras mais
apropriadas para representar essas alterações é por intermédio de um modelo de
camadas, proposto por Martim Fransman (2004 e 2007).
O modelo de Fransman é composto por quatro camadas, sendo que a
camada de cima está sempre apoiada funcionalmente na de baixo. Na camada
1, inferior, estão representados os produtores dos chamados elementos de rede,
ou seja, a produção de hardware e software que são utilizados para implementar
as redes de telecomunicações. Nesta camada situa-se a produção de roteadores,
computadores, chips, software básicos e aplicados etc. A camada dois, por sua
vez, apresenta as diferentes redes de telecomunicações formadas pelos diferentes
tipos de HW e SW sejam por fios, cabos e fibras óticas, ou por sistemas sem fio,
como a segunda, terceira e quarta gerações de transmissão de dados para telefonia
celular ou outras transmissões de dados. Nesta camada, enfim, estão presentes
os operadores das redes de telecomunicações e das redes de televisão aberta ou
fechada.
Em seguida, há um elemento de conectividade, entre as camadas 2 e 3,
onde operam os protocolos TCP-IP que propiciam a conexão ao mundo da
internet. Por sua vez, na camada 3 situam-se os denominados Internet Content
Applications Providers (ICAP), os quais providenciam middleware, navegadores,
aplicativos e milhares de ofertas dos mais variados tipos de conteúdo de ordem
54
Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

pessoal, comercial e governamental. Finalmente, na camada 4 está representado


o consumo das informações, sendo que, na era da web 2.0, o consumidor é,
também, um produtor de informações nas redes sociais, nos blogs, nos videoblogs
e em outros meios de operação do consumidor/produtor de informações.
O modelo de inovação visto pela estrutura de camadas de Fransman requer
que, na prática, cada uma dessas camadas seja lida de forma diferente. A ideia
é que dentro de cada camada existam produtores e usuários de inovações que
estejam em permanente contato para que a inovação seja customizada de acordo
com as exigências do usuário. Essa mesma ideia vale para as interações (contato
permanente) entre os agentes de cada uma das camadas, ou seja, agentes da
camada 1 interagem com os da camada 2, os da camada 2 com os da 3, e os da 3
com os da 4. E ainda há que se considerar os demais pares de interação produtor-
usuário de inovação: (1-3), (1-4), (2-4) e, finalmente, (3-1).
A neutralidade de rede (conectividade sem discriminação) nesse modelo
está situada entre as camadas 2 e 3, onde operam os protocolos TCP-IP. O
provedor da conectividade necessariamente deve estar apoiado em uma rede de
telecomunicações, a qual, como vimos acima, deveria ser igualmente neutra nos
aspectos tecnológicos, econômicos e também político-ideológicos de transmissão
de informações. Ou seja, neutralidade equivale à inexistência de qualquer filtro
em relação à fluidez da informação.

Aspectos da concorrência na internet


O comércio na internet apresenta fatores que tornam a concorrência muito
acirrada, sobretudo no setor de eletrônicos. Dois fatores, a desintermediação e
a diminuição dos custos de transação, merecem destaque. A desintermediação
decorre da eliminação dos agentes intermediários que aumentam a margem global
de custos entre produtores e consumidores finais. À medida que a rede torna possível
a transação direta entre produtores e consumidores, o grau de concorrência entre
os produtores aumenta. Esse fenômeno atinge fortemente o segmento de varejo,
mas seu impacto depende do tipo de setor e de produtos e serviços envolvidos.
Produtos mais padronizados, como aparelhos eletroeletrônicos, livros, CDs,
computadores e periféricos, têm um potencial de desintermediação relativamente
alto. Outros produtos não tão padronizados, portanto, mais personalizados,
como vestuário fino, relógios, jóias etc., usualmente requerem um contato mais
direto e pessoal entre o vendedor e o consumidor. Nesses casos, o potencial de
desintermediação é menor.
Os custos de transação, por sua vez, englobam os custos de toda a efetivação
do negócio. Custo de uma seleção adequada das partes da transação (vendedor e
comprador), custo de elaboração do contrato e ainda custos diversos, incluindo

55
Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

ainda os riscos de não cumprimento dos termos acordados. Na internet, os custos


de transação tendem a cair devido à maior transparência e acesso às informações
sobre as partes, entre outros motivos.
Além desses fatores positivos, ainda existem outras características da internet
que se referem ao aumento da escala e escopo na produção e distribuição das
informações e o forte papel das externalidades de redes. Essas características fazem
ampliar intensamente o mercado virtual, abrindo espaço para novos usuários e
agentes provedores de informação. Ou seja, contribuem para a ampliação da
concorrência na internet. No entanto, é também necessário ressaltar os fatores
que podem dificultar a concorrência: o efeito lock-in, ou seja, o aprisionamento
e custos de mudança impostos ao consumidor diante de uma possível troca de
padrão (como o referente ao navegador da Microsoft, por exemplo) e ainda a falta
de aprendizagem, seja das empresas, seja dos consumidores, para o aproveitamento
das crescentes oportunidades do mundo digital.
No entanto, com o desenvolvimento da rede, começaram a emergir
usuários com grande poder de mercado, diminuindo a concorrência na rede.
Como veremos mais adiante, esses grandes usuários estão influindo fortemente
no problema da neutralidade de redes.

Experiências internacionais e brasileira


A maior parte das discussões sobre neutralidade de rede (NN) remete diretamente
ao papel central dos organismos reguladores das telecomunicações, os quais
devem ter capacidade técnica, normativa-legislativa, sancionadora (punição), de
modo a garantir o principio da NN. Em várias partes do mundo, a discussão
sobre essa nova função dos reguladores já está acontecendo.
Nos Estados Unidos, a discussão sobre a neutralidade tem ampla abrangência.
Envolve especialistas, imprensa geral e especializada e, particularmente, o órgão
regulador central norte-americano, o FCC (Federal Communications Commission).
Um dos primeiros e mais importante fato regulatório referente à NN refere-se à
empresa Comcast, que utiliza cabos coaxiais para distribuir TV por assinatura e
também para prover o acesso aos serviços por meio de banda larga. Em meados da
presente década, essa operadora passou a filtrar (impedir) aplicações que exigem
grande quantidade de dados, como o aplicativo P2P BitTorrent. O caso foi parar
nas mãos do órgão regulador FCC, que considerou ilegal o procedimento da
Comcast e determinou seu imediato cancelamento. A Comcast recorreu da
sentença e ganhou. Criou-se então um vácuo regulatório que permanece até hoje.
Recentemente, a grande empresa de telecomunicações Verizon, por meio
de sua unidade de telefonia celular, celebrou um acordo com o Google segundo

56
Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

o qual todo o conteúdo desse gigante da internet teria privilégios em termos de


quantidade de banda passante. Por sua vez, a Verizon teria acesso privilegiado ao
conteúdo veiculado pelo Google, no que se refere à velocidade de download de
filmes, videoblogs, como o YouTube e outros aplicativos. Somente os assinantes
da Verizon móvel desfrutariam dessa regalia. Na prática, é uma quebra da NN,
uma vez que não há mais isonomia para todos os usuários. Vale ressaltar que a
FCC lançou, em 2009, o NPRM (Notice of Proposed Rulemaking in the Matter of
Preserving the Open Internet), a fim de coletar opiniões de todos interessados, mas
por enquanto não há notícia de um novo marco legal.
Da mesma forma, a União Europeia recentemente também lançou uma
consulta pública contendo várias perguntas sobre o tema. Elaborada pela
Comissão Europeia (Information Society and Media Directorate-General) com o
propósito de ampliar o debate sobre a internet livre e a neutralidade de rede, a
lista de 14 macroperguntas, abrangeu vários temas: a internet aberta e o princípio
end-to-end; o gerenciamento e a discriminação do tráfego; estrutura de mercado;
qualidade de serviço (QoS) e os consumidores; e, ainda, dimensões políticas,
culturais e sociais. A consulta quer medir a extensão e a gravidade dos problemas,
saber como essas questões afetam os cidadãos, de que maneira poderia se dar
algum controle e quais seriam as possíveis soluções para alguns impasses diante
da evolução tecnológica recente.
No Chile, por meio da Lei 20.453, promulgada em 18 de agosto de 2010,
foi institucionalizado o princípio da neutralidade na rede para os consumidores e
usuários da internet. Um dos artigos da lei é claro e contundente: os operadores
de internet são obrigados a “não bloquearem, interferirem, discriminarem,
impedirem nem restringirem arbitrariamente o direito de qualquer usuário da
internet a utilizar, enviar, receber ou oferecer qualquer conteúdo, aplicação ou
serviço legal”. No entanto, as empresas operadoras de redes de telecomunicações
podem gerenciar seu tráfego e suas redes sempre que não afetem a livre concorrência
e haja transparência nessa medida.
No Brasil, existem discussões esparsas sobre o tema em fóruns empresarias
e em artigos na imprensa especializada. A Anatel, em seu Plano de Melhoria
Regulatória PGR, colocou a questão da NN como uma medida a ser discutida
no médio prazo.

Discussão dos resultados


O debate entre intelectuais especializados no tema, em particular os
norteamericanos, é muito intenso. O professor Timothy Wu2, especializado em
3. WU, Tim, entrevista ao documentário Net At Risk, disponível em: http://www.pbs.org/moyers/moyerson-
america/net/watch.html , acessado em 20/10/2010

57
Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

telecomunicações, é um dos intelectuais norte-americanos que lideram a defesa


da NN, abordando o tema de modo transversal. Para ele, as operadoras querem
cobrar duas vezes: uma para os grandes provedores de informação, como Google
e Yahoo, e outra para os consumidores que necessitam de mais velocidade.
Entretanto, estes já pagam a taxa usual para ter acesso à internet. Isso pode resultar
em discriminação. Na opinião de Wu , a internet tem que funcionar como as
estradas, os portos ou a rede de energia elétrica. Todos devem poder ingressar no
sistema nas mesmas condições (pagando, direta ou indiretamente, apenas uma
taxa de adesão), sem discriminação de tamanho, de tipo de negócio etc. Quem faz
um contraponto direto a Wu é Robert Frieden. Ele concorda que a internet nasceu
livre e assim deve permanecer. Não obstante, ressalva que o custo da internet não
era percebido. Somente agora, diante do problema da neutralidade de rede, a
sociedade se deu conta de que não apenas há um custo, mas que é muito alto. No
Brasil, os defensores da NN em geral se referem a questões de ordem política e
ideológica. Para Carlos Afonso, diretor de Planejamento da Rede de Informações
para o Terceiro Setor, por exemplo, “um elemento central para a neutralidade
da rede é não haver censura nem interferência no tráfego de conteúdo, seja este
qual for”. Afonso também atribui a NN a uma questão regulatória: “Não se pode
penalizar ninguém por ‘usar demais’ sua conexão. Se um fornecedor de conteúdo
tem grande sucesso e contratou uma banda de determinada capacidade com uma
operadora, é responsabilidade da operadora garantir essa banda, só isso. Não
interessa à operadora se a banda contratada vai ser efetivamente utilizada ou não.
Se for, a operadora que se prepare para isso e honre o contrato”. Generalizando,
o que está em questão é a democracia na internet, cuja governança, desde o
princípio, foi instituída para tratar todo “cidadão” conectado de forma isonômica
e igualitária. Essa democracia deveria ser garantida pelos reguladores devidamente
dotados de poderes para essa nova tarefa.
Ocorre que a quantidade de tráfego na rede é abissal e implica uma
necessidade urgente de modernização (instalação de fibras ópticas em várias
partes da rede) para atender igualmente aos usuários, ou seja, para manter o
princípio da neutralidade de rede (NN). Mas a quem cabe a responsabilidade
do financiamento desse custo (investimento)? Aos fornecedores de informação?
Aos proprietários de rede e conectividade? Aos usuários? Cada um deles tem sua
própria perspectiva e benefício, ou, no caso das empresas, seu modelo de negócio
voltado a ampliar as respectivas taxas de lucro. Mas quem financiaria a melhoria
da rede que traz benefício a todos? Ou seja, o problema não é de regulação, é
de economia. Uma vez solucionado o problema econômico, a democracia volta
a ser soberana. Ou seja, estamos diante de ambos os problemas, sendo que o
econômico precede o democrático.
Uma solução pertinente para o problema econômico foi proposta há

58
Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

alguns anos pelos autores franceses Jean-Charles Rochet e Jean Tirole Jean3 .
Economistas de renome internacional, os autores utilizam o enfoque denominado
two sided markets (mercado de dois lados). Alguns exemplos de mercados desse
tipo são clássicos, como as plataformas para o uso de cartões de crédito. As
plataformas interligam lojistas, de um lado, e consumidores, de outro. Outros
exemplos podem ser destacados, como o das redes telefônicas (plataformas),
que interconectam quem faz a ligação com quem recebe. O mesmo caso é
exemplificado por plataformas “físicas” de jornais, que interligam os dois lados
do mercado, o anunciante e o comprador. Enfim, no mercado de dois lados,
uma determinada plataforma tecnológica viabiliza o contato entre provedores e
usuários interessados em efetuar transações. Na internet, teríamos o usuário final
da web, eventualmente comprador de um serviço ou produto, e o provedor de
informação (conteúdo) que também é um usuário final da web, ambos interligados
pela plataforma que opera os protocolos TCP-IP. Ambos pagam um custo fixo
para aderirem à rede, como se pertencessem a um “clube” que cobra uma taxa
fixa de adesão e também uma taxa variável proporcional ao seu uso. Voltando ao
exemplo acima citado (rede telefônica convencional), o usuário paga para ter o
direito de acesso (taxa fixa para ser “membro” da comunidade telefônica, tendo
direito a um número telefônico), sendo que a operadora de telefonia também
tem um custo fixo, pois mantêm um cabo telefônico dedicado a esse usuário.
Ambos pagam a respectiva taxa variável, proporcional aos minutos efetivamente
utilizados durante uma ligação. No caso das operadoras, o custo de viabilizar a
conversação é o da manutenção de um canal de comunicação para a ligação.
Os autores afirmam que é suficiente mudar as taxas variáveis em cada
transação (mantendo constante a somatória dessas taxas variáveis) para que a
plataforma, em si, não apenas pague todos seus custos (os fixos e os variáveis, por
transação), mas também obtenha um lucro extraordinário.
A internet, igualmente ressaltada acima, também opera como um mercado
de dois lados. Os mesmos princípios do mercado de dois lados são aplicados,
mas sob premissas diferentes. Essas premissas incluem a informação assimétrica
entre ambos os lados do mercado e a não internalização de todos os benefícios
gerados pelas externalidades de redes – o princípio que valoriza as redes maiores
em detrimento das menores4 . Vale ressaltar que esses preços são de natureza
diferente daqueles cobrados atualmente pelos provedores de internet.
A demonstração dos professores conduz à conclusão de que, mesmo na
4. ROCHET, Jean-Charles e TIROLE, Jean. “Two-Sided Markets: An Overview”. IDEI Working Papers,
2004. Disponível em <https://noppa.tkk.fi/noppa/kurssi/s-38.4043/luennot/S-38_4043_pre-exam_article.
pdf>. Acesso em 1º de setembro de 2010.
5. Um exemplo simples refere-se a empresas aéreas. Mantidas as tarifas constantes, uma companhia maior que
oferece mais origens e destinos apresenta maior valor superior ao usuário do que uma operadora menor, que
oferece um número menor de origem e destinos..

59
Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia?

ausência de custos fixos e nenhuma soma monetária envolvida entre usuários


e provedores de informação, basta conservar constante a somatória dos custos
variáveis (a) para gerar resultados úteis às partes envolvidas (usuários, provedores
e proprietários de rede e de conectividade). Para tanto, basta mudar a composição
dos custos variáveis ap e au, sendo a = ap + au. Ao alterar simplesmente a
composição dos custos variáveis (ap e au), onde um menor custo variável de um
lado implica uma diminuição do outro e vice-versa, a formulação de Charles
Rochet e Jean Tirole Jean (pág. 22) conclui que é possível remunerar todos os
custos da plataforma e ainda gerar um lucro extraordinário a ser devidamente
aplicado para financiar a melhoria das redes (substituindo as redes antigas por
fibra óptica, por exemplo).
Em resumo, é possível visualizar dois cenários: um é o tendencial (CT), onde
é proposto tão somente o empowerment dos reguladores para garantir efetivamente
a manutenção da NN. No entanto, pode-se inferir que tal posição conduziria a
uma lenta, mas crescente fragmentação da NN. Outro cenário é o de renovação
(CR), mais otimista, onde haveria uma nova repactuação do comportamento
entre os principais atores, a partir de uma nova forma mais eficiente de operação
econômica da internet: mudança das respectivas taxas variáveis entre provedores
e usuários de informação, adequando-o ao modelo de mercado de dois lados,
como o apresentado por Rochet e Tirole. Uma vez encaminhado de forma
adequada um novo sistema de preços na rede, proposto no cenário de renovação
CR, o passo seguinte é apresentar e introduzir as novas formas de precificação
para a respectiva vigilância dos órgãos regulatórios. Vale ressaltar que adaptar ao
mundo real a conceituação teórica proposta por Tirole e Rochet envolve uma
nova concepção de funcionamento comercial da rede e, portanto, de mudança
de comportamento, como já observado, dos agentes envolvidos. A questão básica
é segregar da rentabilidade das operadoras de rede e de conectividade o lucro
extraordinário advindo da mudança de taxas variáveis e utilizá-lo exclusivamente
para financiar a modernização da rede. Feito isso, haverá banda para todos os
usuários e a rede seguirá seu curso, livre e aberta, como quando nasceu.

60
CAPÍTULO 2

Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para


fomento dos serviços de informação e comunicação

Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa1


João Maria de Oliveira2
Luis Cláudio Kubota3

Introdução
A infraestrutura de telecomunicações suporta todos os setores de uma economia.
Há estudos em que se comprova ser esta infraestrutura fundamental para o
desenvolvimento de novos bens e serviços para a “sociedade do conhecimento”.
As rápidas mudanças tecnológicas e a proliferação de uma gama de novos serviços
têm atuado como catalisadores principais das mudanças econômicas e das relações
globais. As transformações por que passam alguns países, a partir da adequada
regulação destas redes e de seus serviços, combinadas com a convergência
decorrente da inovação tecnológica, permitem encaminhar preocupações sociais,
em áreas como meio ambiente, saúde e educação.
No Brasil, que há 12 anos deixou o antigo sistema monopolista estatal das
telecomunicações para entrar num regime competitivo operado por empresas
privadas, os preços dos serviços de telecomunicações ainda continuam muito
elevados, especialmente quando comparados a outros países. A perspectiva
transformadora ainda parece distante. Os preços praticados constituem em
grande obstáculo à universalização do acesso à internet em banda larga e aos
consequentes benefícios das inovações tecnológicas extensivas a toda a sociedade
brasileira. De acordo com a União Internacional de Telecomunicações (UIT),
o preço relativo4 do serviço no Brasil chega a ser de cinco a dez vezes mais alto
que nas economias avançadas e está entre os mais altos do mundo. Em termos
de densidade, o desempenho do Brasil apresenta crescimento contínuo durante
os últimos anos, apesar de este indicador ser ainda de três a sete vezes mais baixo
que o observado em economias avançadas. Além disso, o acesso em banda larga
é notadamente concentrado no Brasil: enquanto as classes de maior renda e os
residentes em áreas mais densamente povoadas têm a internet em alta velocidade
como parte de sua vida quotidiana, tanto as famílias que moram afastadas dos
grandes centros urbanos, quanto as que estão na parte de baixo da pirâmide de
distribuição de renda continuam lutando para serem incluídos digitalmente.
1Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea
2 Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea
3 Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea
4 O preço relativo é definido pela UIT como a razão entre o valor de uma cesta de serviços de telecomunicações
e a renda per capita do país.

61
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

A evolução das estruturas de comunicação e o impulso que se espera ter do


atual processo de convergência de redes, serviços e terminais devem levar também
a nova definição de políticas publicas. Em particular, a convergência exigirá uma
revisão de certo número de elementos da atual estrutura de regulação econômica
dos mercados de comunicações, a fim de assegurar que os potenciais benefícios
dessas tecnologias sejam difundidos rapidamente na economia e na sociedade, de
forma geral. Recentemente, tem se intensificado o debate a respeito da necessidade
de alterações no modelo econômico vigente. Uma razão é o reconhecimento cada
vez maior da importância de promover políticas para a inclusão digital, pois
diversos estudos já comprovaram os seus efeitos positivos, tanto sociais, quanto
econômicos. Além disso, os impactos da inclusão digital podem se amplificar
em diversos outros setores. Não obstante ser necessário atacar também outras
importantes variáveis, tais como o analfabetismo digital e a baixa densidade de
computadores pessoais por domicílio, a disponibilidade de infraestrutura de
telecomunicações é um fator-chave para a promoção do acesso em banda larga.
Dois exemplos das mudanças propostas pelo governo são emblemáticos.
Primeiro, foi o lançamento do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), por meio
do Decreto nº 7175/2010, que, dentre outras medidas, determinou a reativação
da Telebrás para “prestar apoio e suporte a políticas públicas de conexão à internet
em banda larga para universidades, centros de pesquisa, escolas, hospitais,
postos de atendimento, telecentros comunitários e outros pontos de interesse
público”. Segundo, foi a edição da Medida Provisória (MP) nº 495/2010, que
incluiu a “promoção do desenvolvimento nacional” como um dos princípios das
licitações, oferecendo uma margem de preferência de até 25% para os produtos
com tecnologia desenvolvida no país. Assim, não só o governo federal pretende
envidar esforços e recursos públicos para estender o uso da banda larga no país,
como também tem a intenção de promover uma política industrial que favoreça
o setor.
O presente artigo tem o objetivo geral de trazer à discussão o fenômeno da
convergência ante a realidade do mercado brasileiro de serviços de informação
e comunicação. Especial ênfase é dada às questões relacionadas ao acesso à
internet em banda larga, por ser esta a plataforma que viabiliza todo o processo
de convergência já iniciado nas economias mais avançadas e que provocará
profundas mudanças nos segmentos envolvidos. Inicialmente o texto apresenta
uma breve avaliação dos diferentes tipos e níveis de convergência ora em curso no
mundo. Em seguida, expõe algumas razões para a necessidade e a conveniência
de se conceder incentivos governamentais para a implantação de redes de banda
larga: quais os impactos das tecnologias da informação e comunicação (TICs) na
produtividade e no crescimento econômico; e quais são as potenciais falhas de
mercado às quais o setor de telecomunicações está sujeito. O texto ainda aduz

62
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

uma avaliação do conjunto de instrumentos de política pública disponíveis para


uso específico para banda larga e discute os mecanismos regulatórios para superar
as dificuldades na implantação de infraestrutura de telecomunicações. Após uma
avaliação sucinta do mercado brasileiro de serviços de informação e comunicação,
também apresenta detalhamento da atividade de acesso à internet em banda
larga, considerando as variáveis de densidade, preço, mercado e regulação. Por
fim, o artigo traça algumas considerações a respeito da aplicação desses conceitos
e das avaliações, considerando a necessária inclusão digital e o fenômeno da
convergência sobre a realidade do país.

Convergência e mercado das comunicações


O processo de digitalização de meios e conteúdos permitiu uma serie de inovações
tecnológicas e converteu-se em fator importante na condução da mudança no
mercado das comunicações. Ao mesmo tempo em que reduziu custos permitindo
acesso a maiores faixas da sociedade, aumentou a capacidade das redes para suportar
novos serviços e aplicações. Neste cenário de evolução e inovação tecnológicas,
há que se ampliar a visão além da atividade de telecomunicações dentro. A partir
de desenvolvimentos históricos diferentes, o audiovisual, as telecomunicações e
a informática atualmente têm as suas delimitações tradicionais cada vez menos
nítidas. Inicialmente, a evolução das tecnologias de telecomunicações juntamente
com a informática tratou de aproximar essas duas atividades. O caminho para a
convergência foi inicialmente liderado pela crescente digitalização dos conteúdos,
a utilização de redes IP, difusão do acesso em banda larga de alta velocidade e a
disponibilidade de comunicação multimídia em dispositivos de computação. Mais
recentemente, com avanço da digitalização dos conteúdos, o setor audiovisual e
grande parte das indústrias criativas, segundo conceituação de Jaguaribe (2006),
foram arrastados para esse processo evolutivo denominado de convergência.
A convergência tecnológica compreende diferentes aspectos e níveis
fundamentais: i) a convergência de rede – impulsionada pela mudança para redes
de banda larga baseadas em IP, aí incluída a “convergência de três telas” (TV,
celular e computador); ii) a convergência de serviços – decorrente da convergência
de redes e do aparecimento de equipamentos inovadores que permitem o acesso
a aplicações e serviços novos e tradicionais que se integram gerando valor
agregado; iii) a convergência da indústria/mercado – que reúne no mesmo campo
indústrias como as de tecnologia da informação, telecomunicações e audiovisuais,
as quais anteriormente operavam em mercados distintos; iv) a convergência
regulatória, legislativa e institucional – que decorre na necessidade de regulação
e monitoramento da convergência ocorridas nos níveis já tratados e da necessária
regulamentação que trate conteúdos e/ou serviços de forma independente das
redes sobre as quais eles são fornecidos (regulação tecnologicamente neutra).
63
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

O advento da internet contribuiu fortemente para a evolução tecnológica do


armazenamento, do tratamento e da transmissão de conteúdo no formato digital,
possibilitando a rápida evolução de produtos e serviços. Neste cenário instante
em que geração e transmissão de informações puderam ser realizadas entre meios
de comunicação e equipamentos de uma e outra atividades, não é mais possível
tratá-los isolada ou mesmo separadamente. Não há mais critérios técnicos e
econômicos que impeçam uma operadora de telecomunicações, incluindo banda
larga, de gerar conteúdo e transmiti-lo em sua rede. Também não há obstáculos
técnicos e econômicos para que uma geradora de conteúdo televisivo, incluindo
conteúdo multimídia na internet, possa fornecer serviços de comunicações,
como por exemplo, telefone fixo. Esta é a realidade da convergência funcional
dos diferentes serviços existentes ou até mesmo da geração de novos serviços que
se utiliza da integração física e tecnológica dos meios e equipamentos.
É evidente que esses eventos geraram novas oportunidades e demandas
econômicas, que possibilitam sinergias entre organizações e a criação de novas
organizações concentradas nesse novo ambiente de negócios. Exemplos desses
movimentos são: a exploração de TV digital, o VOD – Video On Demand (vídeo
sob demanda), livros sob demanda, música on-line, serviços financeiros nas redes
telefônicas, etc. Essa convergência corporativa está se produzindo, em alguns
casos, de maneira evolutiva e, em outros, por meio de rupturas. Em alguns países,
isso ocorre à margem do espaço regulatório, enquanto em outros um novo marco
regulatório beneficia o cidadão e lhe confere o beneficio da inclusão digital,
controlando a avidez natural das organizações econômicas. Em todos os casos,
as atividades envolvidas no processo têm expressiva participação no contexto
econômico desses países.
Esses diversos níveis e aspectos, inerentes ao processo da convergência como
um todo, amplificam o grau de complexidade das atividades de regulação em
relação às atividades envolvidas. Isso ocorre em função de envolver pelo menos
três distintos regimes regulatórios, com bases conceituais e trajetórias históricas
diversas. As legislações de propriedade intelectual e direito autoral perpassam
os segmentos audiovisual e de tecnologias da informação, mas também estão
presentes nos serviços de telecomunicações. O regime da regulação direta,
normalmente associada às telecomunicações, também começa a valer para os
segmentos audiovisual e de tecnologias da informação, na medida em que eles
passem a operar em nichos de mercados antes ocupados somente por prestadoras
de telecomunicações. Finalmente, aplicam-se também a todo esse grupo de
atividades as normas de proteção à concorrência, previstas na lei antitruste.
Portanto, neste contexto de convergência, é necessária a articulação de políticas
regulatórias entre, no mínimo, três diferentes entidades: o Instituto Nacional de
Propriedade Industrial (Inpi), Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e

64
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

o Conselho Administrativo de Desenvolvimento Econômico (Cade).

Produtividade, crescimento econômico e falhas de mercado


Pelo aspecto social, a atual dinâmica de difusão da banda larga levou à existência
de uma segregação digital, gerada pela distância do conhecimento das ferramentas,
infraestrutura disponível ou capacidade econômica entre uma grande parcela da
população que não pode sequer experimentar o serviço e a outra parte que tem, de
fato, a opção de usufruir dele. Além dessas questões relativas à equidade, existem
pelo menos dois outros fatores que podem justificar os incentivos governamentais
para a expansão da banda larga. O primeiro trata da produtividade e o crescimento
econômico que surge a partir da banda larga. O segundo relaciona-se com as
falhas de mercado. Estes dois assuntos serão adiante explorados com maior grau
de detalhe.
O impacto da banda larga na produtividade e no crescimento econômico
Alguns autores afirmam que as TICs estão no centro das principais transformações
sociais e econômicas, pelas quais o mundo tem passado nos últimos 25 anos. A
globalização, por exemplo, considerada uma tendência fundamental da economia
do século XXI, tornou-se possível apenas por causa das TICs, que proporcionam
integração mais próxima e ampla para mercados de produtos, serviços, trabalho e
finanças. Além disso, essas tecnologias são responsáveis por remodelar processos
internos de organizações e reduzir custos de transação. Algumas razões suportam
essas capacidades: preços declinantes, desempenho crescente e melhoria na
usabilidade. Esses fatores permitem que as empresas rearranjem a sua demanda
por insumos, trabalhadores e capital.
Por seus extensos e profundos efeitos na economia, as TICs são classificadas
como tecnologias de uso geral. Esse tipo de tecnologia possui algumas características
em comum: seu uso é amplo e irrestrito; seu preço e desempenho melhoram ao
longo do tempo; e, mais importante, facilita a introdução de produtos, processos
e modelos de negócios inovadores. Uma vez que tais indústrias, baseadas no
desenvolvimento de novas tecnologias, aumentam o nível de produtividade e
inovação, elas devem ser apoiadas por políticas públicas, tais como aumento do
financiamento à pesquisa, adoção de aplicativos e serviços eletrônicos por parte
dos governos, estímulo à educação para gerar trabalhadores mais qualificados e
incentivos à implantação de infraestrutura para banda larga.
Outros benefícios das TICs podem ser observados nas Metas de
Desenvolvimento do Milênio, especialmente naquelas relacionadas a saúde,
educação e promoção da igualdade de gênero. Os efeitos econômicos causados
por TICs também incluem aumento de riqueza e a facilitação da mobilidade

65
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

social e progresso econômico, resultantes dos ganhos de produtividade ligados ao


desenvolvimento e implantação das TICs. Além disso, as TICs permitem diversos
outros desdobramentos: a criação de comércio por meio de menores custos,
melhor informação e leque expandido de produtos; aumento das oportunidades
de emprego, por meio de investimento direto e mudanças estruturais;
flexibilização das condições de trabalho, com alteração de horários, localização e
práticas laborais alternativas, contribuindo para reduzir o congestionamento de
tráfego de veículos e poluição urbana; e, finalmente, a criação de novos modelos
de negócios.
Apesar de os efeitos na produtividade serem difíceis de serem mensurados,
por causa de dificuldades metodológicas e da falta de dados estatísticos adequados,
existem evidências que indicam uma correlação positiva entre a adoção das TICs
e o crescimento econômico. Um estudo do Banco Mundial já amplamente
discutido, preparado por Qiang (2009), argumenta que os investimentos no setor
de telecomunicações têm efeitos positivos no curto e no longo prazos. A geração
de empregos e o aumento na demanda agregada são consequências imediatas dos
pacotes de estímulo econômico lançados por vários países desenvolvidos. Para
o longo prazo, o estudo aponta que diversas análises empíricas mostraram uma
conexão importante entre infraestrutura de telefonia e crescimento econômico. A
influência das redes de telecomunicações sobre o crescimento econômico é maior
em países em desenvolvimento e também é mais intensa na adoção da banda
larga do que no uso da telefonia ou internet. Finalmente, o estudo do Banco
Mundial sugere que os recursos públicos devem ser usados para proporcionar
investimentos tempestivos em infraestrutura para banda larga, que podem
trazer externalidades de rede e efeitos de transbordamentos, que melhoram a
produtividade de toda a econômica. Um estudo do Ipea conduzido por Macedo
e Carvalho (2010) revelou que os efeitos da penetração da banda larga sobre o
crescimento econômico pode ser até mais alto que os já mencionados. Numa
abordagem neoclássica, a produtividade total dos fatores em mercadorias com
o uso de TICs tende a ser mais intensa, embora a aplicação dessas tecnologias
reforce o uso de capital e eleve a produtividade do trabalho.
Falhas de mercado
A infraestrutura de telecomunicações é geralmente retratada como uma típica
indústria de rede, que tem basicamente três características: infraestrutura baseada
em rede, o que gera externalidades de rede; instalações essenciais, formada
por recursos que não podem ser duplicados; e economias de escala e escopo,
com elevados custos fixos e baixos custos marginais. Não obstante ter havido
o aparecimento de competição entre plataformas e tecnologias e, portanto, ter
enfraquecido a segunda característica, existem elementos que não podem ser
duplicados, como o espectro de radiofrequência, e outros que, embora passíveis

66
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

de replicação, a sua reprodução é impedida ou dificultada por diversos fatores


legais, técnicos e econômicos, como é o caso de construção de torres e dutos.
Por suas peculiaridades, a indústria de telecomunicações está sujeita a
diversas falhas de mercado. Entre as mais relevantes, pode-se citar a existência
de poder de mercado, a presença de externalidades, o dilema dos investimentos
interdependentes e a ocorrência de informação assimétrica. Com respeito ao
poder de mercado, as operadoras dominantes têm diversas vantagens quando
comparadas a novos competidores: controle da infraestrutura existente, integração
vertical, subsídios cruzados e inércia do consumidor. Consequentemente, elas
adotam comportamentos estratégicos para aumentar o seu lucro, por meio de
práticas como negação de acesso à infraestrutura de redes a seus competidores,
provimento de serviços aos competidores em bases discriminatórias, colocação de
preços predatórios em serviços onde existe competição usando subsídios cruzados
e administração de custos para fidelização de seus usuários.
Atinentes à segunda falha são as externalidades de produção, consumidor
e rede. As primeiras aparecem nas questões relacionadas à produtividade;
redistribuição da renda, riqueza e poder; segurança nacional; e ambiente. As
externalidades do consumidor resultam do menor congestionamento de tráfego
devido ao trabalho a distância, ou teletrabalho. Finalmente, as externalidades de
rede surgem quando a utilidade de um único consumidor da rede depende do
número total de seus membros. Em outras palavras, quanto maior o número
de consumidores na rede, maior a utilidade percebida por cada um deles. Logo,
encoraja-se uma intervenção governamental quando esses efeitos não podem ser
internalizados pelas próprias forças de mercado.
A terceira falha pode ser descrita como o dilema dos investimentos
interdependentes, uma situação relacionada à falta de coordenação entre o
lançamento da infraestrutura e a provisão dos serviços. Se a infraestrutura e os
serviços são prestados por diferentes entidades, cada uma tem uma forte e mútua
dependência com a decisão da outra. Por conseguinte, os investimentos nessa
situação podem ser paralisados ou retardados.
Por fim, a ocorrência de informações assimétricas, a quarta falha de mercado,
acontece durante a introdução de novos produtos e serviços de telecomunicações.
Até que o consumidor tenha experimentado o novo item, ele não saberá qual a
sua utilidade real. Esta atitude leva a uma situação em que a eficiência dinâmica
da economia fica abaixo da ótima possível.

67
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

Políticas públicas para implantação de infraestrutura de


telecomunicações
Proposto inicialmente por Navas-Sabater, Dymond and Juntunen (2002), o modelo
do Banco Mundial para análise das políticas aplicáveis às telecomunicações define
dois tipos de lacunas entre o nível ideal de acesso aos serviços de telecomunicações
e a situação observada. O primeiro é chamado de lacuna de eficiência de mercado
(market efficency gap) e corresponde à diferença entre o nível atual de densidade
do serviço e aquele que poderia ser alcançado em um mercado competitivo,
sob um regime regulatório estável e eficiente. A lacuna de acesso (access gap) é
representada por situações em que alguns grupos da população não conseguem
ter acesso aos serviços, devido aos altos preços ou baixo nível de renda. Portanto,
para tornar os serviços de telecomunicações disponíveis aos grupos situados
dentro da lacuna de acesso, deve ser considerado o uso de subsídios públicos. A
Figura 1 retrata esquematicamente as explicações anteriores.

Figura 1 – Modelo de lacunas de eficiência de mercado e acesso

"
Áreas de alto custo

Acesso universal

Fronteira de
acessibilidade
Gap de
acesso

Alcance e acesso Gap de


Áreas de baixo custo

atual da rede mercado

Acesso
universal

Domicílios de alta renda D omicílios de baixa renda

Fonte: Banco Mundial (adaptado)

Existe um amplo leque de alternativas para políticas públicas que os


governos devem considerar para melhorar a densidade do acesso em banda larga,
que podem ser classificadas em três grupos de instrumentos. O primeiro refere-
se diretamente ao domínio da regulação. O segundo conjunto inclui variadas
possibilidades para reduzir o custo do investimento privado, complementando-o
ou substituindo-o em áreas pouco atrativas, ou para ajudar na coordenação de

68
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

múltiplos investidores. O terceiro grupo envolve medidas direcionadas para o


crescimento no nível geral da procura por acesso em banda larga, seja estimulando
a demanda de consumidores e empresas, seja expandindo a demanda de natureza
pública.
Podem-se citar múltiplas iniciativas adotadas por governos locais e centrais
ao redor do mundo e que podem ser enquadradas na classificação acima.
Algumas delas são: estímulo à competição no mercado de telecomunicações, em
particular no nível do acesso local; agregação da demanda pública por serviços
de banda larga; redefinição das obrigações de universalização para incluir
serviços de banda larga; suporte financeiro aos municípios; suporte financeiro
aos usuários finais; propriedade da infraestrutura de banda larga pelo governo;
parcerias público-privadas; estímulos à demanda; coordenação das obras civis
necessárias à implantação de conexões em banda larga; adoção de obrigações
de compartilhamento em relação aos dutos de fibra ótica recém-construídos;
programas de mapeamento territorial; promoção de padrões tecnológicos
específicos; simplificação de processos administrativos; políticas de gerenciamento
e racionalização de uso do espectro de frequências; e políticas industriais.
Há algumas vantagens na adoção destas políticas. Por exemplo, em certas
áreas geográficas, existe pouco incentivo financeiro para as empresas investirem
no provimento de acesso em banda larga para consumidores residenciais, pois
os custos são altos em relação às receitas. Além disso, se o governo construir e
detiver a infraestrutura, ele poderá ceder a sua capacidade excedente da sua rede
para todos os novos entrantes em bases não discriminatórias. Outra vantagem é a
possibilidade de antecipar a implantação da infraestrutura de banda larga, o que
permitiria que empregos e outras oportunidades econômicas fossem alavancados
o mais cedo possível. Por fim, as políticas asseguram que o governo aja pelo
interesse público, tomando decisões sobre o potencial do serviço de banda larga,
mesmo que ainda não exista demanda efetiva.
Também as desvantagens devem ser mencionadas. Como o desenvolvimento
da infraestrutura da banda larga ainda está em estágio inicial, não fica claro em
quais áreas geográficas o serviço não seria viável comercialmente. Ademais, existe
uma falta de coordenação entre as atividades regulatórias e os formuladores de
políticas públicas, bem como entre diferentes níveis de governo. Outro problema
é que as redes governamentais podem resultar na recriação de monopólios locais,
com implicações negativas sobre a inovação na indústria e eficiência. Finalmente,
o investimento em infraestrutura de redes é mais difícil de ser justificado, exceto
em circunstâncias excepcionais.
A regulação é necessária para lidar com problemas relacionados à implantação
de infraestrutura de telecomunicações, mas é necessária uma abordagem
abrangente para tratar o tema. O modelo de Fiani (1999) para análise do contexto
69
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

regulatório é constituído por seis elementos fundamentais: 1) a firma regulada


(monopolista ou detentora de poder de mercado significativo); 2) a estrutura
institucional (representada por todas as entidades governamentais envolvidas na
regulação); 3) os fornecedores (englobando toda a indústria de equipamentos); 4)
os usuários (residenciais e comerciais); 5) os competidores (efetivos e potenciais);
e 6) o mercado estrangeiro (exportador de bens). Várias questões emergem a
partir do relacionamento entre os elementos desse complexo arranjo regulatório e
podem ser sintetizadas da seguinte forma: variações no ambiente político; possível
captura da agência regulatória; natureza pública ou privada da propriedade da
firma regulada; existência de grupos de pressão em disputa por poder político,
buscando influenciar a decisão do agente regulador; absorção de objetivos de
política industrial; redução de barreiras regulatórias para facilitar a entrada de
firmas especializadas, que provêm serviços inovadores ou com foco em nichos
de mercado; contrapartidas entre universalização, que requer preços mais altos,
e competitividade internacional das empresas baseadas em TICs; impacto das
políticas na balança comercial, uma vez que a modernização das redes geralmente
requer importação de equipamentos; e, finalmente, paradoxo entre preço justo,
obrigações de universalização e competição. Portanto, as atividades regulatórias
têm um escopo incrivelmente amplo e complexo no tocante às telecomunicações.
Um extenso trabalho conduzido por The Berkman Center for Internet &
Society (2010) analisou a experiência de vários países e concluiu que as políticas
de livre acesso contribuíram mais para o desenvolvimento do acesso em banda
larga do que a competição por infraestrutura. Além disso, outras lições relevantes a
partir de práticas exitosas também devem ser observadas. Primeiro, as políticas de
livre acesso e a desagregação de redes em particular tiveram um papel importante
para facilitar a entrada de novos competidores. Esse novo grau de competição
levou a mais investimentos, taxas de transmissão mais elevadas, progresso técnico,
menores preços e/ou inovação em serviços. Segundo, um regulador que, de
fato, implemente políticas de livre acesso é mais importante que a sua própria
adoção formal, uma vez que as operadoras dominantes sempre resistem a esse
tipo de política. Terceiro, os provedores de banda larga devem ter sua função de
provimento de infraestrutura regulada de forma separada à de acesso. Quarto,
as políticas de livre acesso devem ser aplicáveis também à próxima geração de
redes, particularmente à fibra ótica. Quinto, a tendência de acesso ubíquo levou
os reguladores a aceitar a integração vertical entre provedores de acessos fixos e
móveis de banda larga. Sexto, a separação funcional causou efeitos rápidos sobre
a competição, densidade, preços e velocidades, sendo crescentemente adotada
pelos países analisados para garantir o livre acesso na nova geração de redes.
Sétimo, as duas formas de competição, baseada em plataforma ou em acesso, são
complementares. Finalmente, os custos esperados para a transição para a próxima
geração de redes estão forçando empresas e países a buscar o compartilhamento
70
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

de custos, riscos e instalações, em vez de construir infraestrutura duplicada.


Duas abordagens podem ser consideradas a respeito da relação entre o
investimento em infraestrutura de telecomunicações e as atividades de regulação:
o impacto da regulação de preços sobre o investimento e os efeitos da regulação
de acesso sobre o investimento. Com relação à primeira abordagem, o arcabouço
teórico oferece algumas opções aos reguladores: taxa de retorno, preço-teto, divisão
dos lucros e participação nas receitas. O método da taxa de retorno estimula a
implantação de nova infraestrutura, uma vez que o risco é diluído, enquanto o
esquema de preço-teto promove incentivos à eficiência, entendida como redução
de custos. As outras duas formas são usadas menos frequentemente. Quanto à
regulação do acesso, o tema é controverso. A teoria da escada de investimentos
afirma que os elementos de rede devem ser obrigatoriamente compartilhados
com os entrantes. De acordo com ela, novos competidores poderão participar do
mercado utilizando a capacidade dos operadores dominantes, até que reúnam as
condições para construir suas próprias redes. No entanto, outras teorias alegam
que a desagregação de redes obrigatória pode desencorajar o investimento das
firmas, tanto das dominantes, quanto das entrantes.

Panorama dos serviços de informação e comunicação no Brasil


A fim de ilustrar o referencial teórico referido anteriormente, serão apresentados
alguns indicadores econômicos do grupo de atividades de informação e
comunicação. Em seguida, será exposto um estudo de caso a respeito da situação
da banda larga no Brasil, no qual serão abordados temas como: a posição do
país no cenário internacional; a distribuição do serviço de banda larga, segundo
classes sociais e regiões geográficas; a estrutura do mercado e as principais
empresas participantes; os preços cobrados pelos serviços, de acordo com as
regiões geográficas; e a evolução dos serviços de comunicação móvel no Brasil,
que podem se colocar como um substituto importante para algumas aplicações
dos serviços de acesso em banda larga.
Mercado de serviços de informação e comunicação
A participação do grupo de atividades denominado “serviços de informação
e comunicação”, definido pela composição das atividades inseridas no processo
da convergência, é bastante relevante em relação ao conjunto dos serviços não-
financeiros no Brasil. A parcela da receita líquida operacional oriunda desses
serviços situa-se em patamar superior a um terço do total. A Figura 2 apresenta
os dados da Pesquisa Anual de Serviços (PAS) 2008 do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) sobre a distribuição da receita operacional líquida,
por grupos de atividade.

71
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

Figura 2 – Participação da receita operacional líquida, por grupos de atividade – 2008

Serviços de informação e
14% comunicação

35% Transportes, serviços


auxiliares aos transportes e
21% correio
Serviços profissionais,
administrativos e
complementares
Serviços prestados às
30% famílias e outras atividades

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

Além de seu destaque em relação às demais atividades de serviços, as


atividades de informação e comunicação revelam suas grandes dimensões também
em valores absolutos. Conforme o Suplemento Especial da PAS 2007, o conjunto
dessas atividades teve receita operacional líquida que somou mais de R$ 150
bilhões em 2007. A Figura 3 mostra a separação da receita operacional líquida,
de acordo com os seus principais serviços.
Figura 3 – Receita operacional líquida (em bilhões de R$), por serviço prestado – 2007
Serviços de telefonia móvel 44,9

Serviços de telefonia fixa 36,4

Outros serviços de
telecomunicações por fio
7,9

Serviços ligados à internet 5,4

Outros serviços de
telecomunicações sem fio 1,7

Outros serviços
telecomunicações
3,2

Serviços de telecomunicações 99,5

Televisão aberta 10,7

Televisão por assinatura 7,0

Produção e pós-produção de
0,8
filmes, vídeos e programas

Rádio 1,2

Distribuição, comerc.,
1,1
licencenciamento e exibição

Outras atividades relacionadas


0,2
a serviços audiovisuais

Serviços audiovisuais 21,0

Software sob encomenda 8,4

Serviços de consultoria em TI 5,6

Serviços de processamento de
3,9
dados

Software não customizável 3,0

Software customizável 2,7

Gestão de serviços de TI 2,2

Outros serviços relacionados


à TI
4,1

Serviços de TI 30,0

Total TICs 150,4

Telecom Audiovisual TI Total

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

72
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

Dentre os serviços apresentados, os que mais tiveram incremento entre os


anos 2006 e 2007 foram o software customizável, a televisão por assinatura e os
serviços de telefonia móvel, com crescimento de 23%, 22% e 20%, respectivamente.
Destes, os dois últimos já estão diretamente envolvidos com os processos de
convergência já observáveis. Embora em escala mais limitada, o primeiro também
já apresenta alguns reflexos desses processos, pois produz elementos que suportam
os modelos de negócios das operadoras de telecomunicações e empresas de
audiovisual.
As telecomunicações ainda são o maior de todos os serviços, representando
cerca de 60% do total da receita líquida operacional. Comparando os dados da
PAS 2008 com os de anos anteriores, percebe-se que essa atividade vem mantendo
estável a sua participação ao longo tempo. A Figura 4 traz informações sobre a
participação de cada uma das atividades desse grupo.
Figura 4 – Participação da receita operacional líquida, por atividade – 2008

Telecomunicações
8%
10%
Tecnologia da
Informação

Serviços audiovisuais
22% 60%

Edição, agências de
notícias e outros
serviços

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

Um aspecto importante a ser considerado é o impacto que essa convergência


terá sobre a mão-de-obra nestes setores, bem como sobre suas respectivas
qualificações. Em termos de estoque de pessoal ocupado, o setor de tecnologia da
informação, que produz conteúdo e aplicações, é o mais expressivo. Trata-se de uma
atividade que deverá ser muito demandada nesse processo de convergência, uma
vez que haverá grande necessidade de aplicações novas por serem desenvolvidas e
também a adaptação de aplicações existentes ao novo ambiente. Por outro lado,
o setor de telecomunicações é o que tem a maior produtividade do trabalho5 ,
pois é o que também exige o maior investimento de capital. Ele deverá ser o mais
afetado, na medida em que sua atividade será a mais impactada pela convergência
tecnológica.

5 A produtividade do trabalho é definida como o valor adicionado dividido pelo pessoal ocupado.

73
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

A Figura 5 expõe os dados detalhados da análise anterior.


Figura 5 – Pessoal ocupado (em milhares) e produtividade do trabalho (em milhares de
R$), por atividade – 2008

367,7 374,5 Telecomunicações

Tecnologia da
Informação

136,8 Serviços
104,3 117,5 audiovisuais
94,8
68,6 70,2
Edição, agências
de notícias e outros
serviços
Pessoal ocupado Produtividade

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

Outra questão a ser impactada pela convergência de mercado é o numero


de empresas. A Figura 6 mostra que o número de empresas classificadas como
sendo de tecnologias de informação é muito maior que aquelas classificadas
nas demais atividades. Não se espera uma mudança significativa nesse grupo.
Já nas atividades de telecomunicações pode haver o aumento do número de
empresas, em função de mudanças no ambiente regulatório que estimulem a
competitividade e o acesso a essas tecnologias. Também há de se considerar que a
convergência poderá aumentar a indústria de serviços audiovisuais e de notícias,
nas dimensões de concepção, gestão e difusão de recursos e conteúdos.

Avaliação da situação da banda larga no Brasil


Posição internacional
Alguns dados internacionais podem ser úteis para ilustrar a fraca posição
do Brasil no tocante à difusão da banda larga, em relação à de outros países.
Usando a densidade6 do serviço de acesso fixo em banda larga como uma
primeira abordagem, percebe-se que o Brasil está muito distante da condição
vista nas economias avançadas. De acordo com dados da UIT, esse índice no
Brasil ficou em 7,5 acessos por 100 habitantes em 2009, enquanto países como
Coreia, França e Estados Unidos ostentam patamares de densidade de 33,8, 31,1
e 27,1, respectivamente, no mesmo ano. Em relação a nossos vizinhos da América
Latina, a situação parece bem menos discrepante. A Figura 7 compara a trajetória
de nove países selecionados da América Latina através dos anos. Percebe-se que,
em todos os países, os níveis de penetração do serviço ainda estão bastante aquém
dos verificados nas economias avançadas. Mesmo assim, o Brasil está apenas na

6 A densidade é normalmente representada pelo número total de terminais para cada grupo de 100 habitantes.

74
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

quarta posição na região, empatado com o Uruguai e atrás de Chile, México e


Argentina. Nessa amostra, o Brasil fica à frente apenas de Colômbia, Bolívia, Peru
e Paraguai. Embora o Brasil tenha apresentado crescimento constante do número
de usuários de banda larga desde 1999, esses dados relevam que o Brasil precisa
melhorar muito as suas políticas para o serviço se pretender alcançar pelo menos
a liderança regional.
Figura 7 – Densidade de acessos fixos em banda larga, para países selecionados da
América Latina
10

8
(terminais por 100 hab.)
Densidade

0
1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009
Ano

Chile México Argentina Brasil Uruguai Colômbia Bolívia Peru Paraguai

Fonte: União Internacional de Telecomunicações (UIT). Preparado pelos autores.

A Figura 8 apresenta uma análise com 12 países selecionados, confrontando


densidade, preço relativo e número de acessos fixos em banda larga para o ano
de 2009. Há uma clara diferença entre o grupo das economias avançadas e o
dos países em desenvolvimento. O primeiro é bastante homogêneo, tanto no
quesito de densidade, que varia entre 24 e 32, quanto na dimensão de preço
relativo, que oscila entre 0,5 e 1,4. A quantidade de acessos em banda larga varia,
mas todos os países desse grupo têm grandes mercados. Já o grupo dos países
em desenvolvimento tem densidades que se alternam entre 0,4 e 8,5, e preços
relativos que se situam num intervalo de 2 a 9. O tamanho do mercado flutua
ainda mais que no grupo dos países desenvolvidos. No entanto, o Brasil se destaca
com um número considerável de usuários: está atrás de China, Estados Unidos
e Japão, mas seu mercado atual em termos absolutos é equivalente ao da Coreia
e do Reino Unido. Em termos de densidade, os indicadores brasileiros são entre
três e sete vezes menores que os do grupo dos países desenvolvidos. Já em termos
de preços, o acesso da banda larga no Brasil custa entre cinco e dez vezes mais caro
que nas economias avançadas.

75
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

Figura 8 – Densidade, preço relativo e número de acessos fixos em banda larga, para
países selecionados – 2009
35 KOR
UK
30

(terminais por 100 hab.)


25
JAP
Densidade
20
US
15
CHN
10 MEX ARG CHL
URU BRA
COL
5
IND
0
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9
Preço relativo
(preço m ensal por renda per capita )

Fonte: União Internacional de Telecomunicações (UIT). Preparado pelos autores.

Densidade
O Brasil é um país com dimensões continentais e uma população de quase
190 milhões de pessoas, marcado por fortes desigualdades no âmbito social e
regional. Essas características também se refletem na distribuição dos serviços
de banda larga. A Tabela 1 apresenta o percentual de domicílios com acesso
fixo em banda larga, por nível de renda domiciliar mensal e região geográfica.
Alguns dados da tabela merecem ser destacados. Primeiro, a capacidade de
usufruir o serviço está positivamente correlacionada com a renda domiciliar,
sendo severamente afetada por ela. Segundo, as três regiões com maior PIB per
capita têm densidade similar, em torno de 25%. Finalmente, as regiões Norte e
Nordeste, que possuem densidades demográficas mais baixas e, portanto, custos
mais elevados para implantação de infraestrutura de telecomunicações, têm
índices de acesso à banda larga piores em todas as classes de renda.
Tabela 1 – Percentual de domicílios com acesso fixo em banda larga fixa, por nível de
renda domiciliar mensal e região geográfica – 2008

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

76
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

Conclusões similares podem ser extraídas da análise da Tabela 2, que expõe


a penetração do acesso em banda larga em áreas urbanas e rurais. Novamente, as
áreas mais lucrativas (centros urbanos nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste)
têm melhores índices de densidade do que as áreas rurais, de maneira geral, ou as
áreas urbanas em regiões mais pobres. Uma vez mais, as áreas rurais do Norte e
Nordeste estão em situação muito pior que as outras três regiões brasileiras.

Tabela 2 – Percentual de domicílios com acesso fixo em banda larga fixa, por áreas urbana
e rural – 2008

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Preparado pelos autores.

Outro exemplo de falha de mercado refere-se à difusão do próprio serviço e


pode ser observado na Figura 9. Em estudo anterior do Ipea (2010), verificou-se
que, ao final do terceiro trimestre de 2009, as operadoras ofereciam acesso em
banda larga em menos da metade dos municípios brasileiros.
Figura 9 – Número e percentual de domicílios, por disponibilidade de acesso em banda
larga – 2009

2593
2972 47%
53%

Disponível Não disponível

Fonte: Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Preparado pelos autores.

77
Estrutura de mercado
A Anatel contabiliza que existem mais de 1.600 provedores de internet
registrados regularmente no Brasil. Outras fontes indicam que existe uma
quantidade, no mínimo, equivalente a essa no mercado informal. Apesar desses
fatos, a Figura 10 retrata que apenas cinco operadoras controlam mais de 90%
do mercado total de acessos fixos de banda larga. Oi, Telefonica e CTBC são
também concessionárias de telefonia fixa, enquanto Net e GVT – a primeira
controlada pelo grupo Telmex e a segunda originalmente com capital israelense,
agora controlada pelo grupo francês Vivendi – são as principais competidoras. Oi,
Telefonica, GVT e CTBC baseiam-se na tecnologia de acesso DSL7 , transmitindo
dados por meio de cabos de par metálico. Por outro lado, Net utiliza a tecnologia
de cabo coaxial, já que é originalmente uma prestadora de TV a cabo. Quando se
considera a participação de mercado de cada empresa em relação a esse serviço,
parece haver certo grau de competição entre as três principais empresas.

7%
2%
6%
Oi
36% Net
Telefonica
24% GVT
CTBC
Outras

25%

Figura 10 – Participação de mercado dos provedores de banda larga fixa – março de 2010
Fonte: Teleco. Preparado pelos autores.

Apesar disso, Oi, Telefonica e CTBC operam em regiões distintas. Juntas,


eles dominam 61,8% do mercado. A competição baseada em serviços (livre acesso
ou desagregação de redes) ainda não foi implementada no Brasil, e a competição
por plataformas está restrita a algumas poucas cidades. De acordo com dados da
Anatel, em março de 2010 os operadores de TV por MMDS8 ofereciam serviços
em 207 cidades, e os prestadores de TV a cabo em apenas 149. A GVT informa que
está presente em 91 cidades em todo o território brasileiro. Quando comparado
ao total de 5.565 municípios em que está definida a organização política do país,
esses números apontam para um nível insuficiente de competição nesse mercado.
Em nível local, as estatísticas mostram uma intensa concentração, medida pela
participação de mercado do principal provedor da respectiva área, formalmente
7 Digital Subscriber Line
8 Multichannel Mutipoint Distribution System

78
descrita como a relação de concentração de uma firma (CR1). Em síntese, em
quase 80% dos municípios brasileiros, o principal provedor tem participação
de mercado acima de 90%. Em mais de 90% dos municípios, essa participação
supera 70%, e praticamente em todos os municípios a participação do principal
provedor fica acima de 50%. Esses dados, apresentados por região geográfica,
estão expostos na Tabela 3.
Tabela 3 – Percentual de municípios com CR1 acima do limiar indicado – setembro de
2009

Fonte: Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Preparado pelos autores.

Preços
A Tabela 4 traz os preços médios mensais para acesso fixo em banda larga nas
capitais de estado, por região geográfica. Os dados foram coletados dos portais de
internet dos três principais provedores de banda larga no Brasil. A tabela também
expõe ponderações dos preços quanto às taxas de transmissão oferecidas pelos
provedores e à renda per capita da região. O resultado confirma que os preços são
mais baixos nas regiões mais ricas e mais densamente povoadas. Uma razão para
isso é a existência de maior grau de competição nessas regiões.

79
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

Tabela 4 – Preço mensal médio nas capitais de estado, por região geográfica – junho de
2010

Fonte: Extraído dos portais de internet dos três principais provedores de banda larga. Preparado pelos
autores.

Comunicações móveis
O uso da telefonia móvel passou indubitavelmente por um acréscimo
significativo no Brasil durante os últimos anos. Na Tabela 5, dois indicadores
demonstram a magnitude desse crescimento. No período de uma década, os
acessos móveis foram multiplicados por 12, e a densidade subiu quase 10 vezes.
Ao final de 2008, a densidade da telefonia móvel já se aproximava do nível de
80 acessos por 100 habitantes. Apesar disso, o acesso ao serviço não se tornou
tão difundido quanto se poderia inferir dessas estatísticas. De fato, a Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2008 do IBGE destacou que,
naquele ano, apenas 86,4 milhões de pessoas tinham um telefone móvel pessoal.
Isso corresponde a uma densidade efetiva de 46,0, o que está bem distante
das avaliações feitas pela Anatel. Várias razões explicam essa enorme diferença.
Primeiro, os operadores tendem a superestimar o número efetivo de telefones pré-
pagos na sua rede e, portanto, um número desconhecido de linhas móveis não
está realmente em uso. Segundo, os acessos móveis são empregados em um grande
conjunto de aplicações: ramais corporativos, rastreamento de veículos, terminais
para cartões de crédito, etc. Essas linhas também são contadas como acessos, mas
não estão de fato expandindo a base de assinantes. Terceiro, executivos de alto
escalão e outros usuários de tráfego intenso também tendem a ter duas linhas:
uma para uso em serviço e outra para uso pessoal. Por fim, taxas elevadas para
terminação de chamadas levaram a uma situação em que os operadores tendem
a promover o tráfego interno à sua rede, geralmente oferecendo descontos
expressivos ou grandes pacotes de minutos grátis para chamadas internas. Em
80
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

contrapartida, o tráfego para outros operadores é tarifado pesadamente. Os


usuários, por sua vez, se adaptaram a esse cenário, fazendo assinatura de linhas de
mais de um provedor. Isso também explica por que os aparelhos móveis com dois
e até mesmo três chips tiveram uma aceitação tão grande em todo o país. Logo,
fica claro que uma grande parcela da população ainda não consegue usufruir dos
serviços de telefonia móvel no Brasil, pois os seus preços ainda estão entre os mais
altos do mundo.
Tabela 5 – Número de terminais móveis e densidade da telefonia móvel no Brasil

Fonte: Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Preparado pelos autores.

Com respeito à banda larga móvel, parece que o quadro anteriormente


mencionado não mudará no curto prazo. As bandas de frequências para a terceira
geração de serviços móveis (3G) foram leiloadas no fim de 2007. O processo de

81
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

licitação resultou num excelente negócio para o governo, que arrecadou cerca de
R$ 5 bilhões. No entanto, no nível do consumidor, esse tipo de investimento tende
a aumentar os custos do serviço e direcionar a banda larga móvel para as classes
de renda mais alta. Para reduzir esses efeitos, o modelo de licitação exigiu que os
provedores de 3G cumpram com obrigações de cobertura. Em resumo, a Anatel
impôs o seguinte: i) em 5 anos, todas as cidades com mais de 100.000 habitantes
e metade das cidades com mais de 30.000 habitantes precisam ter cobertura; ii)
em 8 anos, 60% das cidades com menos de 30.000 habitantes devem receber
o serviço. Em relação a essas exigências, uma cidade será considerada atendida
se os serviços de banda larga móvel estiverem disponíveis em mais de 80% da
respectiva área urbana. Seguindo essas condições, apenas dois terços da população
do país terão o serviço de banda larga móvel disponível no ano de 2016.
Durante o ano de 2008, começou a implantação dos serviços de 3G. No
fim de 2009, a Anatel informou que já havia mais de 8,7 milhões de linhas que
contemplavam tecnologias de transmissão de dados, com a maior parcela alocada
para o W-CDMA9 . Apesar de a difusão inicial do serviço ter sido mais rápida
que o imaginado por reguladores e operadoras, o crescimento futuro dependerá
não somente dos preços dos equipamentos 3G, que ainda estão muito altos,
mas também do preço e qualidade dos planos de serviços. A competição nesse
mercado ainda é limitada, devido a dois fatores: ainda resta uma licença de 3G
para ser licitada, e a tecnologia WiMax10 ainda não foi aprovada pela Anatel para
uso em terminais móveis.

Considerações finais
São dois os desafios trazidos pela convergência e que devem enfrentados pelas
ações do governo. A primeira questão refere-se ao hiato digital. Na sociedade
brasileira, marcada por fortes desníveis sociais, econômicos e culturais, a inclusão
digital deve ser colocada como estratégia para diminuir essas desigualdades. Assim,
a interferência do governo é fundamental para sinalizar aos agentes de mercado
que não restrinjam seu atendimento às classes de maior renda e aproveitem
as economias de escala para democratização das oportunidades geradas pela
convergência. Dessa forma, as políticas públicas têm a missão de asseverar a
justiça social e a possibilidade de utilização da tecnologia em todos os rincões do
país, sendo necessária a definição de objetivos claros de fomento ao setor, voltados
sobretudo à população de renda mais baixa.
Vale a pena comparar o caso brasileiro com as soluções encontradas em países
do Sudeste Asiático, onde os mercados de serviços de telecomunicações são muito
9 A tecnologia Wideband Code Division Multiple Access (W-CDMA) foi escolhida por todos os provedores
de 3G no Brasil.
10 Worldwide Interoperability for Microwave Access

82
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

competitivos e o processo de convergência já está em franco desenvolvimento.


Mesmo com preços baixos – variando entre US$ 2 e US$ 5 por mês – e margens
muito estreitas, o modelo de negócios se tornou viável. Entre outros fatores,
isso foi conseguido pela combinação de ausência de risco de crédito, qualidade
limitada dos serviços e alta taxa de utilização da rede. Devido ao sucesso desses
modelos, essa é opção dos asiáticos em relação às políticas de universalização do
serviço de acesso à internet em banda larga: encontrar novas formas de aumentar
a competição no setor.
O segundo desafio está relacionado à regulação de segmentos econômicos tão
distintos como a prestação de serviços de telecomunicações, a criação de conteúdos
audiovisuais e a produção de aplicativos de tecnologias da informação. Embora
esses segmentos estejam gradualmente convergindo e se transformando para
formar uma única indústria no futuro, as suas distintas origens geraram diferentes
arcabouços regulatórios. Portanto, neste novo ambiente, o papel do Estado deve
ir além da tradicional regulação econômica e tecnológica. É essencial articular as
variantes regulatórias hoje existentes para assegurar diversidade, concorrência e
atratividade ao novo arranjo mercadológico que se instalará. Assim, duas questões
se interpõem. Primeiro, como garantir diversidade e concorrência e, ao mesmo
tempo, garantir acesso aos serviços convergentes em todos os níveis da sociedade
e em todas as regiões do país? E, segundo, quais são os mecanismos para tratar
a possível transnacionalização de parte de nossa indústria geradora de conteúdo,
considerando que esse processo ocorreu nos setores de telecomunicações e de
informática?
Em uma sociedade multicultural como a nossa, e agora multimídia, a
defesa do pluralismo e da diversificação tanto de fontes de informação quanto de
conteúdo parece ser o caminho para evitar a homogeneidade cultural. As políticas
públicas de regulação econômica dos mercados de comunicações devem assegurar
que os potenciais benefícios dessas tecnologias convergentes possam se difundir
rapidamente na economia, bem como fomentar a heterogeneidade cultural típica
da diversidade deste país. Para tanto, a convergência, alterando os limites e as
características dos serviços, exigirá que os novos mercados sejam regulados de
forma diferente dos existentes.

Referências Bibliográficas
Fiani, R. (1999). ‘Uma abordagem abrangente da regulação de monopólios:
exercício preliminar aplicado a Telecomunicações’. Planejamento e políticas
públicas, 19, 189-218.
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2010). Análise e recomendações
para as políticas públicas de massificação de acesso à internet em banda larga.
83
Efeitos da convergência sobre a aplicação de políticas públicas para fomento dos serviços de
informação e comunicação

Comunicado do Ipea nº 46. Brasília: o mesmo.


Jaguaribe, A. (2010). Indústrias criativas. Disponível em http://portalliteral.
terra.com.br, acessado em 03/11/2010.
Macedo, H. & Carvalho, A. (2010). Serviço de acesso à internet em banda
larga e seu possível impacto econômico: análise através de sistema de equações
simultâneas de oferta e demanda. Texto para discussão nº 1495. Brasília: Ipea.
Navas-Sabater, J.; Dymond, A. & Juntunen, N. (2002). Telecommunications
and Information Services for the Poor. Washington, DC: World Bank.
Qiang, C. (2009). Broadband infrastructure investment in stimulus packages:
relevance for developing countries. Washington: World Bank.
The Berkman Center for internet & Society (2010). Next generation
connectivity: a review of broadband transitions and policy around the world.
Cambridge: Harvard University.

84
CAPÍTULO 3

Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações1

Fernanda De Negri2
Leonardo Costa Ribeiro 3
Introdução
O setor de tecnologia da informação e comunicação (TIC) é um dos setores mais
intensivos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e um dos maiores responsáveis
pelos investimentos mundiais em P&D. Na economia norte-americana, por
exemplo, cerca de 35% dos investimentos privados em P&D são feitos por
empresas dos setores de TICs (tabela 1).
Recentemente, um estudo realizado pela Comissão Europeia (Lindmark et
al., 2008) mostrou que grande parte da distância existente entre Estados Unidos
e Europa em termos de investimentos privados em P&D se deve ao setor de
TICs4. O setor privado norte-americano investe 1,88% do produto interno bruto
(PIB) em P&D, contra 1,19% do setor privado europeu. No setor de TICs, estes
investimentos são de 0,65% do PIB nos EUA e 0,31% na Europa (tabela 1).

Tabela 1 – Investimentos privados em P&D como proporção do PIB: Europa, Estados Unidos e Brasil (%)

Fonte: Lindmark et al. (2008) e, para o Brasil, Ministério da Ciência e Tecnologia (indicadores disponíveis
em: <http://www.mct.gov.br>) e Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica, do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (PINTEC/IBGE) de 2005.

Não por acaso, o sétimo programa marco de P&D europeu5, que é o


principal instrumento da Comunidade Europeia para o financiamento à pesquisa
na Europa, entre 2007 e 2013, deu ênfase significativa para o setor de TICs. Este
1 O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomuni-
cações.
2 Diretora-adjunta da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Produção e Infraestrutura (Diset)
do Ipea.
3 Analista do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro)
4 Incluindo-se equipamentos, componentes e serviços de informática; equipamentos e serviços de telecomuni-
cações; equipamentos de multimídia; e instrumentos de medição e controle
5. Ver: <http://cordis.europa.eu/fp7/home_es.html>.

85
Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações

programa alocou €9 bilhões dos pouco mais de €50 bilhões previstos no plano
para investimentos em pesquisas na área de TICs; é o maior montante previsto
para um único setor do programa6.
No caso brasileiro, as diferenças – em termos de recursos alocados em P&D
– em relação aos EUA e à Europa são ainda mais marcantes. O setor privado
brasileiro investe, segundo dados de 2008 do Ministério da Ciência e Tecnologia
(MCT), cerca de 0,5% do PIB em P&D, entre os quais apenas 20%, ou 0,1% do
PIB, são realizados pelos setores de TICs.
Entre os setores de TICs na Europa, os mais intensivos em P&D são o
de equipamentos de comunicação e o de software e serviços de informática.
Juntos, estes dois setores investiram quase €16 bilhões dos €31 bilhões investidos
pelos setores de TICs na Europa em 2004 (Lindmark et al., 2008). Serviços
de telecomunicações representam menos de 10% deste total, o que reflete a
tendência, observada nos últimos anos, de redução da pesquisa por parte das
operadoras de serviços e sua concentração nos fornecedores de equipamentos.
Por sua vez, as empresas brasileiras nos setores de TICs investiram, em 2005,
pouco mais de R$ 2 bilhões em P&D. Os setores que mais investiram foram os
de software e serviços de informática (pouco mais de R$ 650 milhões), e o setor
de serviços de telecomunicações (R$ 620 milhões). As empresas fabricantes de
equipamentos de comunicação ficaram na terceira posição, com investimentos de
pouco mais de R$ 550 milhões em P&D.

Patentes das líderes mundiais em equipamentos de telecomunicações:


tendências recentes7
Dado que o setor de equipamentos de telecomunicações é um dos destaques
nas TICs, em termos de investimentos em P&D, cabe perguntar quais tipos de
inovação vêm sendo desenvolvidos pelas principais empresas deste setor ao redor
do mundo. Outra questão importante tem relação com o tipo de competências
científicas que estão sendo demandadas para realizar estas inovações.
Para isso, analisam-se, neste trabalho, as patentes registradas no United
States Patent and Trademark Office (USPTO) pelas principais empresas
mundiais fabricantes de equipamentos de telecomunicações , nos anos de 1990,
1998 e 2006. Embora existam questionamentos sobre a qualidade das patentes
como indicador tecnológico, elas ainda constituem um dos poucos indicadores
comparáveis mundialmente, e o único indicador que possibilita a análise feita
neste artigo. As patentes foram, na tabela 2, agrupadas segundo a classificação de
6. Ainda assim, vale ressaltar os números apontados pelo terceiro artigo deste boletim, que mostram que os
investimentos em P&D das maiores empresas do setor de TICs superam em muito esses valores.
7. Resultados preliminares.

86
Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações

subdomínios tecnológicos proposta pelo Observatoire des Sciences et Techniques


(OST). A primeira análise que se pode fazer diz respeito às variações nos principais
domínios tecnológicos das patentes do setor nos últimos anos. O domínio
tecnológico de telecomunicações – que contém patentes de equipamentos de
rede, sistemas de comunicação e transmissão, antenas, radiodifusão etc. – é o
mais expressivo, representando cerca de 24% das patentes registradas pelas
empresas do setor. Entretanto, o mais interessante é verificar que outros domínios
tecnológicos são também importantes nestas patentes, e que alguns têm ganhado
espaço nos últimos anos. Componentes elétricos, ótica e semicondutores têm
perdido espaço nas patentes destas empresas nos últimos anos, sugerindo que
estes segmentos, ao contrário do que ocorria em outros períodos, não são os
que estão impulsionando a fronteira tecnológica do setor. Por sua vez, cresce a
importância da informática – que inclui computadores, memórias, periféricos
etc. – nas patentes destas empresas, especialmente entre 1990 e 1998, o que
evidencia a crescente convergência entre informática e telecomunicações e a
também crescente integração entre empresas de ambos os setores.
Tabela 2 – Participação percentual dos principais domínios tecnológicos nas patentes das empresas do
setor de fabricação de equipamentos de comunicação registradas no USPTO (1990, 1998, 2006)

Fonte: USPTO. Elaboração dos autores.

Além da análise de subdomínios tecnológicos, a partir da observação das


patentes depositadas no USPTO, é possível estudar as citações a artigos científicos
existentes em cada patente. Estes artigos foram classificados em áreas científicas, a
partir da classificação do Institute for Scientific Information (ISI). Identificando-se
a área científica do artigo citado e o subdomínio tecnológico da patente, foram
construídas matrizes de interação entre ciência e tecnologia para as empresas do
setor de telecomunicações8 . Este exercício foi feito tanto para operadores (quadro
8. A metodologia utilizada baseou-se no trabalho de Albuquerque et al. (2009) e Ribeiro et al. (2009).

87
Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações

1) quanto para fornecedores de equipamentos (quadro 2) e as matrizes podem


ser observadas a seguir. No eixo OST, estão os subdomínios tecnológicos das
patentes; no eixo ISI, as áreas científicas citadas9 e no eixo N, o número de vezes
em que uma determinada área científica é citada pelas patentes de determinados
domínios tecnológicos. Uma matriz mais completa significa maior interação
entre produção tecnológica e produção científica.
Quadro 1 – Matrizes de interação entre ciência e tecnologia para as empresas líderes mundiais em
serviços de telecomunicações: 1990 e 2006.

Fonte: USPTO. Elaboração dos autores.

Quadro 2 – Matrizes de interação entre ciência e tecnologia para as empresas líderes mundiais no
setor de fabricação de equipamentos de comunicação (1990 e 2006)

Fonte: USPTO. Elaboração dos autores.

O primeiro movimento importante que pode ser observado a partir dessas


9. A legenda para os domínios tecnológicos OST e áreas científicas ISI encontra-se no anexo

88
Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações

matrizes é a redução da interação entre ciência e tecnologia no caso das empresas


operadoras (quadro 1) em paralelo a uma maior diversificação desta interação no
caso dos fornecedores de equipamentos (quadro 2). Embora o número absoluto de
interações tenha crescido em ambos os casos, para as operadoras a diversidade de
domínios tecnológicos e de áreas científicas se reduz drasticamente, evidenciando
esta menor interação entre ciência e tecnologia.
Por um lado, isso reflete o fato, já conhecido, de que as inovações
tecnológicas no setor de telecomunicações passaram a ser realizadas muito mais
pelos fornecedores de equipamentos que pelas operadoras. Por outro lado, o que
também se pode observar a partir destes dados é que este movimento ocorre ao
mesmo tempo que a pesquisa científica vai se tornando cada vez mais importante
para as inovações dos fornecedores e cada vez menos relevante para as inovações
desenvolvidas pelas empresas operadoras. Vale ressaltar que, no conjunto da
economia, o movimento que pode ser observado é justamente o de ampliação da
interação entre ciência e tecnologia.
No caso dos fornecedores, paralelamente a um maior espalhamento das
interações entre domínios tecnológicos e áreas científicas, refletido em poucos
espaços vazios na matriz, também ocorre uma concentração dos picos de interação.
Em 1990, as principais interações observadas na matriz eram, em primeiro lugar,
entre o domínio tecnológico de telecomunicações e a área científica de engenharia
eletrônica. A seguir vinham os semicondutores com física, e semicondutores com
engenharia eletrônica; e, em quarto lugar, informática com engenharia eletrônica.
Em 2006, o principal pico de interação se deu entre informática e engenharia
eletrônica. A interação entre telecomunicações e engenharia eletrônica caiu para
o segundo lugar, enquanto informática com outras engenharias e informática com
ciência dos materiais passam a ser importantes picos de interação.
Esses números, além de reforçarem o crescimento do domínio tecnológico
de informática e a redução da importância dos semicondutores, mostram
a emergência de outras áreas científicas. A área de outras engenharias (na
qual está classificada a engenharia mecatrônica) e a ciência dos materiais, por
exemplo, passaram a ser mais relevantes na produção de inovações no setor de
telecomunicações.
A engenharia eletrônica continua a ser a área científica mais relevante para o
desenvolvimento tecnológico do setor, com praticamente 30% de todas as citações
nas patentes das empresas de telecomunicações. A área de química inorgânica
e engenharia química, assim como a área de outras engenharias (mecânica,
mecatrônica), mantém sua importância ao longo dos últimos anos (cada uma
destas duas áreas com cerca de 14% das citações feitas nas patentes). A física, por
sua vez, perde relevância, enquanto ganha importância a ciência dos materiais
como uma área emergente nas patentes das empresas de telecomunicações. Isto
89
Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações

sugere, provavelmente, uma ampliação das pesquisas para a utilização de materiais


diferenciados e/ou novos materiais (com maior condutividade, por exemplo) para
a fabricação de equipamentos eletrônicos e de comunicação10 .

Considerações finais
Mais que chegar a conclusões definitivas, este trabalho pretendeu levantar questões
que contribuam para que se possa avaliar as oportunidades e, especialmente, os
grandes desafios para o setor de telecomunicações no Brasil.
O setor de TICs é um dos mais dinâmicos em termos de inovações
tecnológicas em âmbito mundial. Os investimentos em P&D pelos grandes
players são extremamente significativos: sete das 20 maiores empresas inversoras
em P&D no mundo pertencem ao setor. No Brasil, apesar de ser um dos mais
inovadores em comparação com o conjunto da indústria brasileira, o setor de
TICs investiu, em 2005, o equivalente a 0,1% do PIB (seção 1). Isto é muito
pouco em comparação com países mais competitivos neste setor, embora seja
maior que Portugal (0,05% do PIB) e Espanha (0,08%)11 , países conhecidos do
Brasil no setor de telecomunicações.
Além disso, no Brasil, ao contrário do que se observa nos países desenvolvidos,
o segmento de serviços de telecomunicações continua sendo um dos que mais
investem em P&D no conjunto das TICs. Enquanto isso, a tendência mundial tem
sido, há vários anos, de ampliação dos investimentos em P&D dos fornecedores
de equipamentos de comunicação, além, é claro, de crescimento da importância
de setores de software e serviços de informática. Entretanto, o que explica esta
diferença de posicionamento brasileiro pode não ser, necessariamente, a pujança
tecnológica do país em serviços de telecomunicações, mas a baixa capacidade
inovativa dos demais segmentos de TICs, relativamente aos países desenvolvidos.
Se o Brasil pretende ser mais competitivo em telecomunicações e em TICs, de
modo geral, é crucial ampliar significativamente os esforços tecnológicos do país
nesta área.
Para isso, é preciso contar, também, com a produção científica e com uma
maior interação entre ciência e tecnologia. O que as matrizes de C&T mostram é
que a produção científica tem se tornado cada vez mais fundamental para ampliar
a inovação e o desenvolvimento tecnológico de um país ou setor de atividade.
Apesar disso, no caso brasileiro, ainda é muito pequeno o número de empresas que
utilizam os cientistas e a academia brasileira para dar suporte aos seus processos
inovativos. Da mesma forma, ainda é muito pequeno o número de pesquisadores
das universidades brasileiras envolvidos em parcerias com o setor privado.
10. A legenda para os domínios tecnológicos OST e áreas científicas ISI encontra-se no anexo
11. Lindmark et al., 2008.

90
Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações

Existem outros desafios tão importantes quanto a interação entre ciência e


tecnologia para que o Brasil possa construir e sustentar vantagens competitivas nas
tecnologias de informação e comunicação. O certo é que, assim como a ampliação
dos investimentos em inovação é condição necessária para o crescimento das
TICs no Brasil, o próprio desenvolvimento destas tecnologias também é condição
fundamental para a competitividade da economia brasileira como um todo.

Referências Bibliográficas
ALBUQUERQUE, E. et al. Atividades de patenteamento em São Paulo e
no Brasil. In: FAPESP. Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São
Paulo. cap. 5, 2009.
LINDMARK, S.; TURLEA, G.; ULBRICH, M. Mapping R&D
investment by the European ICT business sector. Joint Research Center (JRC),
Reference Report, 2008.
RIBEIRO, L. C. et al. Matrices of science and technology interactions
and patterns of structured growth: implications for development.
Scientometrics. 2009. Disponível em: <http://www.springerlink.com/
content/2174610530365460/fulltext.pdf>.

91
Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações

Anexo

Áreas científicas – ISI Domínios tecnológicos – OST


1 Mathematics 1 Electrical components
2 Materials Science 2 Audiovisual
3 Electronic Engineering 3 Telecommunications
4 Nuclear Sciences 4 Information technology
5 Mechanical, Civil and Other Engineering 5 Semiconductors
6 Inorganic Chemistry and Engineering 6 Optics
7 Analytical Chemistry 7 Analysis, measurement and control
8 Physical Chemistry 8 Medical engineering
9 Organic Chemistry 9 Organic fine chemicals
10 Applied Physics 10 Macromolecular chemistry
11 Solid State Physics 11 Pharmaceuticals and cosmetics
12 Geosciences 12 Biotechnology
13 Other Physics 13 Agricultural and food products
14 Ecology 14 Technical procedures
15 Food Science and Agriculture 15 Surface technology and coating
16 Biotechnology 16 Material processing
17 Microbiology 17 Materials and metallurgy
18 General Biology 18 Thermal techniques
19 Pharmacology and Pharmacy 19 Basic chemical processing
20 Public Health 20 Environment and pollution
21 Pathology 21 Machine tools
22 Neuroscience 22 Engines, pumps and turbines
23 Reproduction Medicine and Geriatrics 23 Mechanical components
24 General Medicine 24 Handling and printing
25 Internal Medicine 25 Agricultural and food machinery
26 Research Medicine 26 Transport
27 Immunology 27 Nuclear engineering
28 Space technology and weapons
29 Consumer goods and equipment
30 Civil engineering and building

92
CAPÍTULO 4

Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:


o que se pode depreender da evolução recente da produção
de artigos na área?1

Paulo A. Meyer M. Nascimento2


Introdução
Este trabalho é um ensaio inicial de um estudo em andamento sobre capacitações
científicas brasileiras. Espera-se que os dados apresentados e analisados, centrados
em telecomunicações, contribuam com o debate em voga sobre as perspectivas
brasileiras no setor, tema que permeia a discussão de todos os ensaios publicados
nesta edição do Radar.
As próximas seções buscarão indicar o caminho para se chegar a respostas
a cinco perguntas relacionadas às capacitações científicas nacionais no setor de
telecomunicações: a) Como estamos em relação a outros países? b) Com quem
mais interagimos? c) O mundo nos escuta quando falamos em telecomunicações?
d) O mundo nos escuta quando falamos do que mais quer ele ouvir sobre
telecomunicações? e) Como estão distribuídas nossas competências internamente?
Para perseguir esta finalidade, partiu-se da base de artigos indexados em
periódicos internacionais que se encontra disponível no portal ISI/Web of
Science, acessível às instituições que subscrevem o portal de periódicos da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), tendo
sido limitada a busca para o período que compreende os anos de 2000 a 20103
. Cada uma das cinco seções que seguem traz como título uma das indagações
elencadas no parágrafo anterior, e explora dados que ajudam a responder à sua
respectiva pergunta-problema. A seção final traz algumas conclusões e suas
possíveis implicações.

Como estamos em relação a outros países?


Para o período de 1º de janeiro de 2000 a 22 de setembro de 2010, o portal ISI/
Web of Science relata a existência de 383 artigos completos publicados sobre
1. O autor agradece o empenho de Leonardo Aguirre, Ligier Modesto Braga, Calebe Figueiredo, Gustavo
Alvarenga e Thiago Araújo, fundamentais na organização de alguns dados e, principalmente, na elaboração do
mapa 1. Agradecimentos também aos colegas do Ipea que contribuíram com sugestões e comentários. Erros e
omissões remanescentes são de inteira responsabilidade do autor. O presente artigo foi publicado inicialmente
no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomunicações.
2. Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e
Infraestrutura (Diset) do Ipea.
3. Contagem relativa a 2010 restrita aos artigos já indexados no portal ISI/Web of Science até 22/09/2010.

93
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

telecomunicações em que ao menos um dos seus autores informa o Brasil como o


país de sua atuação profissional. Este nível de produção revela uma contribuição
ainda incipiente do Brasil para a produção científica global na área, conforme se
pode depreender do gráfico 1.
No gráfico 1, o desempenho pátrio aparece como o menor em um
comparativo com outros 13 países. A produção brasileira entre 2000 e 2010 foi
comparada à de Rússia, Índia e China (países que, junto com o Brasil, formam
o acrônimo BRIC – gráfico 1a); à dos cinco países com maior investimento
privado em pesquisa e desenvolvimento no setor de tecnologias da informação
e da comunicação – TIC4 (Finlândia, Taiwan, Coreia do Sul, Suécia e Japão –
gráfico 1b); e à dos cinco países com maior número de coautorias, depois dos
Estados Unidos5, em artigos publicados com participação de brasileiros (França,
Inglaterra, Canadá, Alemanha e Itália – gráfico 1c).

Gráfico 1 – Número de artigos sobre telecomunicações publicados entre 2000 e 2010 –


Brasil e países ou blocos econômicos selecionados

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.v


Obs.: Para fins de comparação, a produção brasileira não foi computada nos blocos que o Brasil integra
(Mercosul e Aladi).

4. Segundo a Comissão Europeia, a partir de dados de 2004 e de 2007 relativos ao BERD (sigla em inglês
para dispêndios empresariais em pesquisa e desenvolvimento) de firmas atuantes na área de TIC – ver Lind-
mark et al. (2008) e Turlea et al. (2010).
5. Os Estados Unidos, grande player em qualquer setor, foram deixados de fora dessa comparação pela
dificuldade de se prospectar a sua produção total em telecomunicações valendo-se do portal ISI/Web of Sci-
ence. A busca disponível fornece respostas até o limite de 100 mil observações. Como o filtro para produção
específica em telecomunicações somente pode ser aplicado após a obtenção, para um dado ano, da produção
total do país pesquisado, as respostas que retornavam para os Estados Unidos eram sempre subdimensionadas.
Este mesmo problema sucedeu-se para a China, embora apenas para os anos de 2008 e de 2009. O leitor deve
atentar para o fato de que os chineses podem já ter ultrapassado os sul-coreanos na produção científica em
telecomunicações nos anos 2000, embora os números do gráfico 1 ainda não captem este movimento.

94
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

A produção brasileira somente aparece com maior destaque quando com-


parada à proveniente de países integrantes de blocos econômicos formados por
países latino-americanos ou por países africanos. Para esta comparação, o gráfico
1d exibe o desempenho brasileiro frente ao de blocos econômicos regionais da
América Latina, África, Eurásia e do Sudeste Asiático – todos formados por
outros países em desenvolvimento6. Apesar de muito atrás dos líderes, o Brasil
é um dos que, no período, mais aumentaram a sua participação na produção
científica em telecomunicações. Entre os países comparados, apenas a China
teve crescimento mais ostensivo. O gráfico 2 mostra que a produção brasileira
no triênio 2007-2009 (ou seja, final da última década) foi 384% superior ao do
triênio 2001-2003 (início da década).

Gráfico 2 – Evolução da produção científica em telecomunicações nos anos 2000 – Brasil e


países selecionados.

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.

Essa evolução brasileira indica que o país encontra-se em um processo de


catching up em relação àqueles mais próximos da fronteira científica na área.
Ainda assim, como a produção brasileira em telecomunicações continua sendo
muito pequena em comparação com a dos países líderes, o país permanece longe
de efetivamente aproximar-se destes. Para se ter uma ideia, mesmo que as taxas
6. Foram considerados no gráfico 1d os artigos publicados por pesquisadores de instituições sediadas nos de-
mais países membros do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e da Associação Latinoamericana de Integração
(Aladi), ou associados a eles, bem como das instituições sediadas nos países membros das ou associados às
Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), Comunidade dos Estados Independentes
(CEI) e Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). Também se buscou incluir a produção dos países
membros da ou associados à Comunidade Caribenha (Caricom). No entanto, como o número de artigos
publicados por pesquisadores de instituições sediadas em seus 20 países membros efetivos ou associados foi de
apenas cinco no período de análise (2000-2010), este bloco econômico foi excluído da análise.

95
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

de crescimento mostradas no gráfico 2 fossem mantidas exatamente iguais para as


próximas décadas7, a produção total do Brasil desde 2000 somente ultrapassaria,
ao final de 2019, a de Rússia, Finlândia e Suécia. Índia, Alemanha e Japão apenas
ficariam para trás na década seguinte, quando o país se aproximaria de França,
Inglaterra e Itália, países a serem ultrapassados ao longo da década de 2030.
Taiwan, Canadá e Coreia do Sul chegariam a 2040 com produção científica
em telecomunicações ainda em patamares entre três e seis vezes superiores aos
do Brasil, enquanto a China já estaria a publicar cerca de 30 vezes mais artigos
científicos na área que o Brasil, no acumulado desde 2000. A figura 1 retrata esta
perspectiva.Inglaterra, Canadá, Alemanha e Itália – gráfico 1c).

Figura 1 – Posição do Brasil nas próximas décadas frente a países selecionados, mantidas
as taxas do gráfico 2.

Elaboração do autor. Obs.: Números entre parênteses indicam intervalo estimado da quantidade
acumulada de artigos publicados entre 2000 e 2040.

7. A manutenção nos próximos 30 anos da mesma tendência verificada nos últimos dez é improvável, uma vez
que a trajetória dos países é dinâmica e sensível a uma série de fatores intervenientes, previsíveis ou não. De
todo modo, o exercício ilustrado na figura 1 dá uma ideia das dificuldades de o Brasil alcançar uma posição
de liderança em termos de capacitações científicas no setor, dado o quadro institucional sob o qual os artigos
científicos sobre telecomunicações foram produzidos na última década.

96
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

Com quem mais interagimos?


Tendo em vista a condição do Brasil de país seguidor, identificar os países com os
quais os pesquisadores brasileiros mais interagem torna-se importante não apenas
por destacar por onde passam as conexões da parcela da academia que se debruça
sobre o tema, mas também porque esta informação fornece indícios acerca de
transferência de tecnologia envolvendo o Brasil no setor de telecomunicações.
Assim, cabe perguntar:
a) Os pesquisadores brasileiros interagem fortemente com os de outros
países?
b) Com que países mais interagem?
c) Os campeões de popularidade entre os autores brasileiros fazem pesquisa
em países líderes, seguidores ou colaboramos majoritariamente com quem
anda atrás de nós mesmos em termos de capacitações científico-tecnológicas
em telecomunicações?
A coautoria com pesquisadores vinculados a instituições estrangeiras em
37,4% dos 383 artigos publicados entre 2000 e 2010 sugere que a resposta à
primeira pergunta seja positiva. Afinal, este percentual assemelha-se ao de
pesquisadores chineses (37,2%) e ao de pesquisadores canadenses (39,3%) no
próprio setor de telecomunicações no mesmo período – junto com o Brasil,
China e Canadá são os países cuja produção científica em telecomunicações mais
tem crescido desde 2000 (gráfico 2). Ademais, a coautoria de brasileiros com
estrangeiros é mais frequente na área de telecomunicações que no universo total
de artigos publicados por brasileiros – destes, apenas 28,9% foram escritos em
coautoria com estrangeiros.
Por sua vez, a resposta ao segundo questionamento passa pela tabela 1,
a qual apresenta o número de coautorias de brasileiros com pesquisadores
vinculados a instituições sediadas em outros países. São, ao todo, 32 países com
cujos pesquisadores os brasileiros estabeleceram parcerias em publicações no
período analisado. No topo da lista, Estados Unidos e França. Em um segundo
patamar, Inglaterra e Canadá aparecem com menos da metade do número de
parcerias estabelecidas com pesquisadores da França, a segunda colocada. Bem
abaixo, situa-se a Alemanha, com sete coautorias, e a Itália, com quatro. Um
conjunto de seis países (China, Suécia, Espanha, Portugal, Suíça e Hungria) surge
com apenas três. Daí por diante, Finlândia, Cuba e Argélia, com duas coautorias
cada, antecedem uma lista de 17 países com os quais foram estabelecidas parcerias
científicas unicamente com um pesquisador e em um artigo isolado.

97
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

Tabela 1 – Países cujos pesquisadores publicaram artigos sobre telecomunicações em


coautoria com brasileiros entre 2000 e 2010.

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.


Obs.: 1. Foram, ao todo, 171 coautores estrangeiros com quem os brasileiros escreveram 143 artigos.
Obs.: 2. Os 17 países com os quais houve apenas uma vez coautoria de seus residentes com pesquisadores
de instituições brasileiras foram: Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Trindade e Tobago, México, Gana,
Líbia, Irlanda, Noruega, Dinamarca, Rússia, Polônia, Israel, Índia, Taiwan e Japão.

Examinar mais detidamente o desempenho dos países onde está a maioria


dos parceiros de pesquisa dos brasileiros pode indicar a resposta ao terceiro item
colocado no início desta seção. Os dados apresentados na figura 2 contribuem
para isto. Nela estão informados, para o Brasil e para cada um dos seus parceiros
em mais de três ocasiões, o contingente de artigos publicados e seus respectivos
impactos revelados na área de telecomunicações nos triênios 2001-2003, 2004-
2006 e 2007-2009.

Figura 2 – Brasil e seus principais parceiros acadêmicos no setor de telecomunicações –


artigos publicados nos triênios 2001-2003, 2004-2006 e 2007-2009 e seus respectivos
H-index.

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.


Obs.: O eixo vertical remete ao número de artigos publicados. O tamanho das circunferências é
proporcional ao H-index da produção, no respectivo triênio, dos países que representam.

98
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

A quantidade de artigos publicados por cada país é informado pelo eixo


vertical da figura 2, ao passo que o indicador de impacto utilizado, representado
pelo tamanho das circunferências da figura 2, é o H-index8 . Trata-se de um
fator calculado a partir da lista de publicações enumeradas pela ferramenta de
busca do portal ISI/Web of Science. Estas publicações são ranqueadas em ordem
decrescente de acordo com o número de citações recebidas por cada uma, e a
partir disto o índice é calculado. O valor de h é igual ao número de artigos (N)
presentes na lista que tenham sido citados N ou mais vezes no período observado.
Assim, por exemplo, o H-index de valor oito atribuído ao Brasil no triênio 2007-
2009 equivale a dizer que oito dos artigos sobre telecomunicações publicados
por brasileiros nestes três anos foram citados oito ou mais vezes por artigos
posteriores.
A redução do H-index de um triênio para outro é natural: como este índice
baseia-se no número de citações, artigos mais recentes tendem a ser menos citados
nos primeiros anos seguintes à sua publicação que os que já estão disponíveis há
mais tempo. Visto que os H-index informados na figura 2 referem-se aos artigos
publicados em cada um dos três períodos, seu valor para um dado país no triênio
t+1 é quase sempre menor que no triênio t. Dessa forma, comparações entre
países devem ser feitas com base em: i) eventuais mudanças de posição entre eles
ao longo do tempo; e ii) alargamento ou redução da distância entre seus H-index
de um triênio para outro, assim mesmo tendo em mente que a distância entre os
mais e os menos influentes tende a aumentar à medida que o tempo passa e os
artigos são mais citados.
Entre os parceiros preferenciais9 mostrados na figura 2, o Canadá foi o que
maior impacto apresentou em todos os três períodos – e, nos últimos dois, sua
produção foi líder também em quantidade de artigos. Em termos de H-index,
Alemanha, Itália e Inglaterra vinham invertendo posições entre si nos dois
primeiros triênios, mas, até a data de levantamento dos dados para este estudo10 ,
a Itália foi o único destes três países cujos artigos publicados no último triênio da
década aproximaram-se dos canadenses na medida de impacto apresentada. Por
seu turno, a Inglaterra destacou-se mais pela quantidade, sempre superior às de
Itália e Alemanha e, no triênio inicial, à do próprio Canadá. A Alemanha perdeu
terreno tanto em quantidade quanto em qualidade, encerrando o ciclo atrás da
França em ambos os aspectos. Esta publicava artigos de menor impacto no início
da década, mas no último triênio seu H-index, além de superar o da Alemanha, já
havia alcançado o da Inglaterra.
Os dados da figura 2 sugerem que parcerias com pesquisadores canadenses e
8. O H-index foi desenvolvido por J.E. Hirsch, que o divulgou pela primeira vez em Hirsch (2005).
9. O H-index não foi calculado para a produção estadunidense pelas razões expostas na terceira nota de
rodapé.
10. A saber, 22 de setembro de 2010

99
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

italianos deveriam ser mais incentivadas, aproveitando-se as conexões já existentes


com estes países para intensificar-se a produção com pesquisadores mais próximos
da fronteira científica do setor. De todo modo, França, Inglaterra e Alemanha
estão também mais próximas da fronteira de conhecimento na área que o Brasil.
Vale destacar, ademais, que, embora apenas três chineses tenham trabalhado
em coautoria com brasileiros em artigos sobre telecomunicações entre 2000 e
2010 (tabela 1), a intensificação de parcerias com pesquisadores de instituições
chinesas seria desejável nesta área. Pelo menos três dados apresentados neste
estudo justificam esta posição: i) a China está entre os países que mais produzem
artigos sobre telecomunicações (gráfico 1); ii) é o país cuja produção na área
mais cresce entre os países confrontados no gráfico 2; iii) seu H-index na área foi
de 18 no triênio 2007-2009, igualando-a à Itália e deixando-a atrás apenas do
Canadá, em termos de impacto das publicações, entre os países plotados na figura
2. Os números apresentados, portanto, sugerem que as respostas às indagações
que abrem esta seção sejam afirmativas: a base científica brasileira, além de dispor
de um bom número de conexões com o exterior, as estabelece com um conjunto
de países mais influentes que o Brasil na área. Apesar disso, ressalte-se que alguns
dos mais influentes deste conjunto têm ainda um grau de interlocução apenas
intermediário ou mesmo incipiente com os pesquisadores brasileiros.
E quanto à nossa própria produção? O que se pode destacar sobre seu grau
de influência no mundo científico?

O mundo nos escuta quando falamos de telecomunicações?


A figura 2 mostra que os artigos publicados por brasileiros na área de
telecomunicações na última década têm quantidade e qualidade menor que os
artigos publicados por residentes dos países de seus principais parceiros. A escala
da produção nacional chegou a ser, no primeiro triênio da década de 2000, de
11 a 16 vezes menor que a de seus parceiros preferenciais plotados na figura 2.
Nos dois triênios seguintes, graças ao maior crescimento relativo da produção
brasileira (gráfico 2), o contingente de artigos brasileiros publicados oscilou entre
patamares de quatro a dez vezes inferiores aos verificados para tais parceiros. O
H-index dos artigos brasileiros evoluiu de dez, no triênio 2001-2003, para 12, no
triênio seguinte, ficando em oito no triênio final da década.
Esse desempenho é, por um lado, substancialmente menor que o de Canadá,
Itália, Inglaterra, França e Alemanha. Por outro lado, os artigos brasileiros mais
recentes na área vêm se tornando relativamente mais influentes. O H-index
brasileiro para 2004-2006 foi maior que o observado para 2001-2003, embora
o esperado fosse o contrário, pelo fato de o H-index tender a ser menor quanto
mais recente o artigo. O H-index de valor oito verificado para o último triênio
100
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

deixou o Brasil qualitativamente menos distante dos demais países ilustrados na


figura 2 que os índices alcançados nos triênios anteriores.
A escala e a influência brasileira no meio científico têm, portanto, crescido,
no que tange a telecomunicações. Este crescimento, todavia, ainda é marginal.
Além disso, cabe investigar o impacto dos artigos brasileiros sobre os temas de
maior atração de investimentos e sobre as tecnologias de fronteira do setor de
telecomunicações.

O mundo nos escuta quando falamos do que mais quer ele ouvir sobre
telecomunicações?
Szapiro (2009) aponta três temas como os de maior atração de investimentos no
campo das telecomunicações: banda larga, mobilidade e redes de nova geração. A
produção brasileira tem sido de maior impacto nestes temas que no setor como
um todo?

Tabela 2 – Quantidade e H-index para artigos sobre telecomunicações publicados no


período 2000-2010 abordando os tópicos relacionados a banda larga, mobilidade e redes
de nova geração.

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.

A tabela 2 traz, inclusive, o desempenho estadunidense nesses tópicos. Isto


foi possível porque, ao se restringir a busca inicial aos tópicos de interesse, a
produção total dos Estados Unidos não superou o máximo suportado pelo sistema
de buscas do portal. O H-index dos Estados Unidos, no caso em tela, alcançou
56, bem acima dos 21 que a Inglaterra exibe na segunda posição.
O valor de quatro para o Brasil sinaliza que o país está ficando para trás
na produção de conhecimento nos temas de maior potencial de atração de
investimentos. Esta tendência mostra-se ainda mais acentuada quando são
buscados artigos sobre as tecnologias apontadas como mais promissoras no setor
no curto prazo. Silva Mello (2010), citando Gartner (2010), identifica as dez
tecnologias que deverão ter maior difusão no mercado de TIC até o final de 2011.
101
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

A tabela 3 mostra, por país, o número de artigos (e seus H-index) encontrados


sobre elas no Portal ISI/Web of Science para o período de 2000 a 2010. O
desempenho brasileiro mostra-se ainda mais frágil que o verificado na tabela 2
para os vetores de investimento apontados por Szapiro: somente cinco artigos
foram identificados sobre as tecnologias a que se referem Silva Mello e Gartner11.

Tabela 3 – Quantidade e H-index para artigos sobre telecomunicações publicados no


período 2000-2010 abordando os tópicos relacionados às dez tecnologias principais no
curto prazo (2010-2011)
Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração do autor.

Onde estão distribuídas nossas competências internamente?


Cumpre observar por onde está distribuída a massa crítica em telecomunicações
no território brasileiro. O mapa 1 ilustra isto.
Os estados líderes na produção científica em telecomunicações estão no
Sudeste: São Paulo (192 artigos), Rio de Janeiro (103) e Minas Gerais (64).
Receberam essa alcunha por apresentarem produção bem acima dos demais. Um
segundo grupo, denominado seguidores ou emergentes, abrange os três estados
da região Sul, mais Pernambuco, Ceará e Paraíba, com produções que variaram
de 13 (Santa Catarina) a 34 (Paraná) artigos. A produção em telecomunicações,
entre 2000 e 2010, mostrou-se ainda incipiente no Amazonas, Pará, Maranhão,
Espírito Santo, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Bahia e Goiás – estados
nos quais o número de artigos indexados não ultrapassou a marca de sete.
Pesquisadores de instituições do Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins,
Piauí e Mato Grosso do Sul não publicaram, no período analisado, artigos sobre
telecomunicações que tenham sido indexados nos periódicos internacionais
constantes da base ISI/Web of Science.
Os três estados líderes do mapa 1 são também os de maior produto
11. Os termos utilizados na busca no portal, definidos a partir de Silva Mello (2010), foram: bluetooth,
mobile web, low energy, mobile widget, platformindependent mobile AD tool, app store, enhanced location
awareness, mobile broadband, touchscreen, machine to machine, device-independent security, e suas variações
e siglas.

102
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

interno bruto (PIB). Em pesquisa sobre telecomunicações, a liderança dos três é


devida principalmente às capacitações já consolidadas em seis instituições neles
localizadas12 . É possível que a localização na região Sudeste do centro decisório das
maiores companhias do setor atuantes no mercado brasileiro também contribua
para este resultado. Some-se a isto o peso das fundações de amparo à pesquisa
destes estados na disponibilidade de recursos13 e decerto suas receitas de sucesso
estarão formuladas.

Mapa 1 – Estados brasileiros segundo seus níveis de produção científica em telecomunicações


entre 2000 e 2010

Fonte: Portal ISI/Web of Science. Elaboração de Ligier Modesto Braga.


Obs.: A classificação dos estados está de acordo com o número de artigos atribuídos a pesquisadores
vinculados a instituições sediadas em seus territórios.

Os estados da região Sul, no mapa 1 entre os emergentes em pesquisa


12. Pesquisadores vinculados à Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), Universidade de São Paulo (USP) ou ao Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Teleco-
municações (CPqD) participam de quase 65% dos artigos atribuídos aos três estados líderes.
13. Juntas, as fundações de amparo à pesquisa de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (FAPESP, FAPERJ
e FAPEMIG) apareceram em 20,2% das vezes em que houve informação sobre fontes de financiamento
nos artigos aqui considerados. Depois do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), estas três fundações somadas foram a principal fonte de financiamento dos artigos com participação
de brasileiros em que seus autores declararam ter acessado algum recurso externo para a sua elaboração. Juntas
superaram, inclusive, a Capes. De todo modo, vale destacar que em apenas 72 dos 383 artigos brasileiros
analisados houve declaração de alguma fonte de financiamento externa.

103
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

no setor, também são estados com PIB elevado para os padrões brasileiros 14.
Ademais, têm tradição em pesquisa15 . Ceará, Pernambuco e Paraíba, por sua vez,
são estados mais pobres, suas fundações de amparo à pesquisa não estão entre as de
maior orçamento e somente duas de suas instituições de pesquisa (a Universidade
Federal de Pernambuco e a Universidade Federal do Ceará) figuraram entre as 20
instituições brasileiras em número de artigos publicados em todas as áreas desde
2007. Um exame mais detalhado da trajetória em pesquisa destes três estados
nordestinos poderia lançar luz, no futuro, sobre as causas que concorreram para
seu sucesso na área de telecomunicações.
Apesar de não ser possível atribuir esse sucesso ao fator citado a seguir tão
somente com os dados aqui utilizados, vale destacar que, em muitos momentos da
década de 2000, as taxas de crescimento dos gastos em pesquisa e desenvolvimento
(P&D) dos estados seguidores foram maiores que a taxa nacional. No biênio
2003-2004, em relação ao biênio anterior, tais taxas foram de 30% a 60% maiores
na Paraíba, Santa Catarina, Paraná e Ceará que as taxas nacionais. Em 2007-
2008, em relação a 2005-2006, Paraíba, Santa Catarina e Ceará continuaram
com desempenho semelhante16 , aos quais se equiparou Pernambuco.
O mapa 1 mostra, ainda, a distribuição, por estado, dos 33 artigos
identificados em temas relacionados a banda larga, mobilidade e redes de nova
geração – os vetores de crescimento dos investimentos, segundo Szapiro (2009).
Os cinco artigos publicados sobre as dez tecnologias de destaque segundo previsão
de Gartner (2010) para 2010-2011 envolveram instituições de seis estados:
Amazonas, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná – indicados no
mapa com pontos de exclamação.

Considerações finais
Os dados apresentados sugerem que o Brasil encontra-se em processo de
catching up com os países de ponta na produção científica em temas diretamente
associados ao setor de telecomunicações. Os pesquisadores brasileiros da área
têm demonstrado capacidade de interlocução com seus pares de outros países
em proporção maior que a base científica nacional em geral, e têm estabelecido
parcerias com instituições localizadas em alguns dos países mais produtivos em
pesquisas relacionadas ao setor.
14. Em 2007, o PIB do Rio Grande do Sul foi o quarto do país, enquanto o do Paraná foi o quinto, e o de
Santa Catarina, o sétimo (fonte: IBGE).
15. Dos artigos com participação de pesquisadores brasileiros publicados em todas as áreas desde 2007, in-
dexados no Portal ISI/Web of Science até 22 de setembro de 2010, perto de um quarto deles tiveram entre os
autores ao menos um pesquisador vinculado a alguma instituição sediada na região Sul do Brasil. Cinco delas
despontaram entre as 20 mais produtivas do país no período.
16. Em um desses estados, o incremento nos gastos de P&D entre 2007 e 2008 chegou a ser quase 160%
maior que a taxa nacional. Todas essas taxas foram calculadas com dados disponíveis no site do Ministério da
Ciência e Tecnologia <www.mct.gov.br>, acessado em 24 de setembro de 2010.

104
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

Ainda assim, o país prossegue longe do nível de produção científica dos


líderes. Tanto que, mesmo com a tendência recente bastante favorável, um salto
ainda mais significativo seria necessário para o Brasil efetivamente se aproximar
do papel já desempenhado ou a ser assumido por países como EUA, China e
Coreia do Sul. Esta diferença é ainda maior quando é investigada a produção nos
temas mais próximos da fronteira tecnológica em telecomunicações.
Esse conjunto de resultados sugere à primeira vista que, para vir a exercer
um papel de liderança no setor de telecomunicações, o Brasil necessitaria de
avanços ainda mais significativos que os que já vem apresentando em termos
de capacitações científicas. É possível que a emergência de uma grande empresa
nacional competitiva internacionalmente viesse a gerar transbordamentos
positivos sobre a base científica – transbordamentos estes hoje limitados, tendo
em vista o atual ecossistema brasileiro de telecomunicações, no qual a indústria
nacional mostra-se pouco inovativa e essencialmente reativa às tendências
globais, como identifica o ensaio das próximas páginas17. De qualquer forma,
dado o cenário corrente, um eventual champion brasileiro teria que inicialmente
importar algumas competências científicas, sobretudo as mais próximas da
fronteira tecnológica do setor, sem o domínio das quais dificilmente geraria
inovações competitivas.
Não obstante essas restrições, cabe destacar três fatos positivos: i) a crescente
produtividade da base científica já instalada no país; ii) sua distribuição por
diferentes regiões, inclusive por aquelas menos tradicionais em P&D; e iii) sua
boa interlocução com a base de outros países. Isto indica que, com investimentos
corretos e bem canalizados às tecnologias de fronteira, aliados ao estreitamento
de parcerias estratégicas com países avançados no tema, o Brasil poderá, em
cerca de três décadas, desenvolver as competências necessárias para tornar-se um
respeitável player global em telecomunicações.

Referências Bibliográficas
GARTNER. 10 mobile technologies to watch in 2010 and 2011, Gartner
Inc., Apr. 2010. Disponível em: <http://www.gartner.com>.
HIRSCH, J. E. An index to quantify an individual’s scientific research
output. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States
of America (PNAS), vol. 102, n. 46, p. 16569-16572, Nov. 2005.
KUBOTA, L. C.; DOMINGUES, E.; MILANI, D. A importância da
escala no mercado de equipamentos de telecomunicações. Radar n. 10, Brasília:
Ipea, out. 2010.

17. Ver Kubota, Domingues e Milani (2010).

105
Capacitações científicas do Brasil em telecomunicações:
o que se pode depreender da evolução recente da produção de artigos na área?

LINDMARK, S.; TURLEA, G.; ULBRICH, M. Mapping R&D


Investment by the European ICT business sector. Joint Research Center (JRC),
Reference Report, Luxemburgo: Comissão Européia, 2008.
MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA (MCT). Indicadores
nacionais de ciência e tecnologia. Disponível em: <http://www.mct.gov.br>.
Acesso em: 24 de set. 2010.
PORTAL ISI/WEB OF SCIENCE. Disponível em: <http://
apps.isiknowledge.com/WOS_GeneralSearch_input.do?highlighted_
tab=WOS&product=WOS&last_prod=WOS&SID=1Aio587Hf4jj8jFc68d&se
arch_mode=GeneralSearch>. Acesso em: 22 de set. de 2010.
SILVA MELLO, L. Política industrial para o setor de equipamentos de
telecomunicações no Brasil. In: Desafios e oportunidades para o setor de
telecomunicações no Brasil, Ipea, Brasília, 15 set. 2010.
SZAPIRO, M. Sistema produtivo de eletrônica: subsistema de
equipamentos de telecomunicações. Rio de Janeiro: Projeto Perspectivas de
Investimento no Brasil, 2009.
TURLEA, G. et al. The 2010 report on R&D in ICT in the European
Union. Joint Research Center (JRC), Reference Report, Luxemburgo: Comissão
Europeia, 2010.

106
CAPÍTULO 5

Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações1

Luis Claudio Kubota2


Edson Domingues3
Daniele Nogueira Milani4

Introdução
O setor de tecnologias da informação e comunicação (TICs) é um dos mais
dinâmicos em termos de inovações tecnológicas em âmbito mundial. Em alguns de
seus segmentos, como o de aparelhos de telefonia, incluem-se ícones de consumo,
como o iPhone. Estima-se que o mercado de equipamentos de telecomunicações
cresça de 133 bilhões de euros em 2009 para 150 bilhões de euros em 2013,
segundo estimativas da firma de pesquisa de mercado Idate (COLCHESTER,
2010).
O investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) realizado pelos
grandes atores internacionais é extremamente significativo. Segundo dados da
União Europeia, o setor de TICs é aquele que apresenta os maiores gastos em P&D
no conjunto das economias estadunidense, japonesa e europeia, representando
25% dos gastos empresariais em P&D e empregando 32,4% dos pesquisadores,
apesar de responder por apenas 4,8% do produto interno bruto – PIB (TURLEA
et al., 2010). Oito das 20 maiores empresas inversoras em P&D no mundo atuam
no setor, conforme ranking da Booz & Co (JARUZELSKI e DEHOFF, 2009).
Os dados da tabela 1 permitem observar as 20 firmas do setor com maiores gastos
em P&D. Em destaque estão indicadas as firmas classificadas como fabricantes de
equipamentos de telecomunicações.

1. Versão condensada e atualizada do relatório setorial sobre indústria de tecnologia da informação e co-
municação Projeto: Determinantes da acumulação de conhecimento para inovação tecnológica nos setores
industriais no Brasil. Belo Horizonte: ABDI, 2009. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim
Radar no. 10, edição especial sobre Telecomunicações.
2. Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e
Infraestrutura (Diset) do Ipea.
3. Professor do Centro de Planejamento e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal de Minas
Gerais (Cedeplar/UFMG).
4. Pesquisadora do Programa de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) no Ipea.

107
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

Tabela 1 – Vinte firmas de TICs com maiores gastos em P&D (2007)

Fonte: Turlea et al. (2010).

A necessidade de escala norteou a fusão de grandes grupos econômicos,


como a Alcatel-Lucent e Nokia Siemens Motorola. Segundo analistas de mercado,
a escala é fundamental neste negócio5 . Não obstante o porte destas empresas, seu
desempenho financeiro não é muito animador, em parte devido à concorrência
baseada em preço dos concorrentes chineses. A Alcatel-Lucent, por exemplo,
só obteve lucro em dois dos últimos oito trimestres (COLCHESTER, 2010).
A Nokia-Siemens teve prejuízo operacional de € 1,6 bilhão em 2009 (DAS e
CHON, 2010).
No mercado brasileiro, a indústria de informática – protegida pela Lei
5. “Não podemos visualizar a Alcatel-Lucent dando lucro simplesmente porque ela ainda é formada por vários
negócios pequenos sem muita escala”, diz Richard Windsor, analista da Nomura (Colchester, 2010, p. B12).
Comentário sobre a aquisição de divisão da Motorola pela Nokia Siemens: “Isso também significa mais escala,
e a escala comanda tudo nesse negócio: quando mais escala você tem, mais lucro pode gerar”, escreveu o
analista Pierre Ferragu, da Sanford C. Bernstein (Das e Chon, 2010).

108
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

de Informática – e o setor de telefonia – cujas compras de equipamentos eram


realizadas pelo sistema Telebrás – sofreram profundas modificações decorrentes
da abertura de mercado e da privatização. A década de 1990 caracterizou-se por
um forte ingresso de empresas estrangeiras que, em alguns casos, passaram a ter
no Brasil plantas voltadas para exportação, especialmente no caso de aparelhos
celulares.
O setor apresenta características ambíguas no Brasil. Por um lado, tem
indicadores de inovação e de esforço tecnológico mais elevado que a média do
setor industrial, em função das características já citadas. Por outro lado, o setor
apresenta duas fraquezas estruturais, que têm relação entre si. Em primeiro lugar,
existe uma forte dependência da importação de componentes eletrônicos, que
têm importância crescente no valor agregado dos produtos. Em segundo lugar,
as firmas brasileiras em geral não participam da determinação dos novos padrões
tecnológicos (como o LTE), que é feita por meio de alianças entre grandes
corporações internacionais, em alguns casos com participação governamental.
Neste mercado, as economias de rede são cruciais para a competitividade.

Figura 1 – Comparação entre os ecossistemas de telecomunicações europeu e brasileiro

Fonte: Spadinger (2010).

Além dessa baixa participação em órgãos de padronização, a figura 1 capta


outras características do mercado brasileiro. Uma delas é a visão de curto prazo,
quando se compara com mercados maduros, como o europeu. Outra é a de que o
mercado brasileiro é – salvo exceções – “seguidor”, no qual se analisam e se filtram

109
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

desenvolvimentos tecnológicos realizados inicialmente no exterior.


A relação entre operadoras e fornecedores no mercado europeu é marcada
por uma mistura de cooperação e competição (“coopetition”, em inglês), na qual as
partes, ao mesmo tempo que colaboram, competem pelos resultados das inovações.
A Verizon, por exemplo, criou o LTE Innovation Center em Massachussets, um
laboratório de 2.450 m², no qual os fabricantes de eletrônicos podem testar
novos produtos em uma rede 4G totalmente funcional. Alcatel-Lucent e Ericsson
Wireless fizeram uma parceria com a Verizon e proporcionam apoio técnico para
os fabricantes de aparelhos (THOMSON, 2010).
Conforme pode ser observado em outro artigo publicação – Capacitações
científicas do Brasil em telecomunicações –, a produção científica brasileira no setor
fica muito aquém do que se verifica em outros países. Este estudo apresenta um
levantamento do esforço tecnológico do setor de equipamentos de telefonia e
transmissores de rádio e TV (anexo 1), procurando identificar sua cadeia produtiva
e seus indicadores de pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Cadeia produtiva
Uma matriz de insumo-produto revela as ligações entre os setores econômicos
nas compras e vendas de produtos entre os setores, no uso de fatores de produção
(capital e trabalho) e nas vendas dos setores para os componentes da demanda
final. Para o propósito deste estudo, uma matriz insumo-produto foi construída
a partir das informações disponibilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE, 2008) e dos dados obtidos pela equipe. Assim, procedeu-se à
abertura setorial da matriz para os setores em foco, quando necessário.
Os dados utilizados nesta etapa foram obtidos da Pesquisa Industrial Anual
(PIA), do IBGE, de 2005, e se referem à utilização de insumos intermediários
e valor bruto da produção. A identificação das cadeias produtivas seguiu a
metodologia tradicional (Haguenauer et al., 2001).
A delimitação das cadeias produtivas dos setores analisados considerou as
transações de maior valor, até o total de 70% do consumo e/ou fornecimento
intermediário. Foram desconsiderados, neste cálculo, para cada setor, o
autoconsumo (intrassetorial), os serviços e os insumos de uso difundido (tanto
compras quanto vendas).
A partir da matriz de insumo-produto, foi desenvolvido um modelo de
insumo-produto, que gerou os multiplicadores de produção e emprego dos setores
analisados, seguindo o padrão da literatura (por exemplo: Miller e Blair , 1985).

110
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

As vendas setoriais foram decompostas em quatro categorias para a


demanda final: exportações, consumo das famílias, formação bruta de capital fixo
(investimento) e outras demandas (consumo do governo e variação de estoques).
A demanda intermediária corresponde ao consumo de todos os setores produtivos
da economia.

Tabela 2 – Distribuição da demanda do setor de aparelhos de telefonia e transmissores de


TV, por categoria da demanda final e intermediária (2005)

Fonte: IBGE (2008). Elaboração dos autores.

Os dados da tabela 2 indicam que o investimento (R$ 14,7 bilhões) e o


consumo das famílias (R$ 8,1 bilhões) são os maiores componentes da demanda
final do setor. Os setores de serviços representam 70% das vendas intermediárias.
As exportações aparecem como um componente menos significativo da demanda
do setor, corroborando os resultados apresentados no artigo Balança comercial de
equipamentos de telecomunicações desta edição do Radar.
Na figura 2, é possível observar que o setor de material eletrônico básico
mostra-se como fornecedor importante de aparelhos de telefonia. Esta ligação é
exemplo de importantes elos entre as cadeias produtivas dos setores de TIC.

111
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

Figura 2 – Cadeia produtiva do setor aparelhos de telefonia e transmissores de TV, 2005 (em R$
milhões)

Fonte: IBGE (2008). Elaboração dos autores.

Indicadores de pesquisa, desenvolvimento e inovação


No âmbito do projeto Determinantes da acumulação de conhecimento para inovação
tecnológica nos setores industriais no Brasil, desenvolvido em parceria entre o Ipea
e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), as firmas foram
classificadas em líderes, seguidoras, frágeis e emergentes (anexo 2). A tabela 3
apresenta variáveis selecionadas para o setor de equipamentos de telefonia e
transmissores de rádio e TV, de acordo com esta classificação e a origem de capital.
Consideram-se apenas firmas com 30 ou mais pessoas ocupadas.
É possível constatar que as firmas estrangeiras operam em uma escala muito
superior à das congêneres nacionais, mesmo no mercado brasileiro. A remuneração
média por pessoa ocupada nas firmas líderes estrangeiras é de R$ 76 mil/ano,
contra R$ 28 mil/ano nas líderes nacionais. Mesmo a remuneração média das
seguidoras estrangeiras é superior à das líderes nacionais: R$ 36 mil/ano.
Com relação à receita média por empresa, as líderes estrangeiras faturam R$
2 bilhões por firma, contra R$ 20 milhões das líderes nacionais. O faturamento
médio das seguidoras estrangeiras é de R$ 518 milhões, contra R$ 21 milhões das
seguidoras nacionais.
A receita líquida de vendas (RLV) das firmas estrangeiras supera os R$ 23
bilhões, ao passo que a RLV das brasileiras é de R$ 1,1 bilhão. No que diz respeito
aos gastos com atividades inovativas, é possível observar que, em relação ao
112
Tabela 3 – Variáveis selecionadas das empresas do setor de equipamentos de telefonia e transmissores de TV, conforme origem do
capital e categoria – firmas com 30 ou mais pessoas ocupadas (2005)

Fonte: Dados da Pesquisa


Industrial Anual (PIA) e Pesquisa
Industrial de Inovação Tecnológica
(PINTEC), do IBGE; da Relação
Anual de Informações Sociais
(Rais), do Ministério do Trabalho
e Emprego (MTE); e da Secretaria
de Comércio Exterior (Secex) do
Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior
(MDIC). Elaboração dos autores.
Obs.: Valores monetários
atualizados pelo IPCA até 2009
(inclusive).
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

113
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

faturamento, os dispêndios das firmas líderes nacionais são até superiores aos das
líderes estrangeiras (6,5% contra 3,3% da RLV, respectivamente). Entretanto, em
termos absolutos são muito inferiores, e pouco expressivos quando comparados
ao que se observa na tabela 1. Os gastos em P&D de algumas firmas estrangeiras
são muito superiores ao faturamento das firmas nacionais.
Não se observou a ocorrência de firmas emergentes, e os valores das firmas
frágeis estrangeiras foram omitidos por motivo de confidencialidade. Esta situação
de mercado é fruto – em grande parte – da principal política industrial para o
setor: a Lei de Informática. Esta lei incentivou a instalação de firmas estrangeiras
no Brasil, prevendo incentivos fiscais em contrapartida a gastos em atividades de
P&D no país.
Maiores escalas de produção costumam estar associadas a maiores indicadores
de produtividade. Os dados indicam que as firmas estrangeiras apresentam maior
produtividade do trabalho. O VTI por pessoa ocupada das líderes estrangeiras
(R$ 385 mil) é mais de três vezes superior ao das líderes nacionais (R$ 120 mil).
O valor do mesmo indicador para as seguidoras estrangeiras (R$ 219 mil) é quase
duas vezes superior ao das líderes nacionais.

Considerações finais
Os resultados apresentados neste artigo são uma pequena parte de um extenso
relatório desenvolvido em parceria entre o Ipea e a ABDI. Este relatório
contemplou não apenas o setor de aparelhos de telefonia e transmissores de TV,
mas também o de máquinas para escritório e equipamentos de informática,
material eletrônico básico, rádio, TV, som e vídeo. As firmas estrangeiras atuam
com uma escala de operação de outra grandeza, quando comparadas às firmas
nacionais, no mercado brasileiro.
Embora os gastos das líderes brasileiras em atividades inovativas sejam –
em proporção ao faturamento – superiores aos das líderes estrangeiras, em
termos absolutos o total despendido pelas firmas brasileiras é muito inferior ao
gasto pelas multinacionais. Comparando-se com valores gastos pelas grandes
corporações internacionais que atuam no setor de computação e eletrônica, trata-
se de valores pouco expressivos. Visto que a maior parte das atividades de P&D
das multinacionais é concentrada nos países centrais, uma comparação entre
dispêndios em P&D não pode desconsiderar os valores gastos pelas corporações
estrangeiras no exterior.
É preciso ressaltar que os dados da tabela 3 não permitem separar com
segurança os equipamentos de rede de telecomunicações dos aparelhos telefônicos
e equipamentos transmissores de TV. Desse modo, é razoável supor que uma

114
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

parcela considerável dos valores apresentados refere-se a aparelhos telefônicos,


e é possível ter uma ordem de grandeza a partir dos valores apresentados na
tabela 2, que discrimina o consumo das famílias do consumo intermediário e do
investimento.
Por seu turno, os valores referentes a equipamentos de rede de
telecomunicações das empresas nacionais eram ainda menos expressivos que os
apresentados na tabela 3. É importante frisar também que os dados referem-se
unicamente a empresas de manufatura. Alguns dados indicam que se trata de
um mercado no qual é difícil se obterem bons resultados financeiros, em parte
devido à concorrência dos produtos de baixo custo fornecidos pelas concorrentes
chinesas. Esta análise de mercado está sendo aprofundada em outro estudo.

Referências Bibliográficas
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Valor Econômico, p. B12, 21 set. 2010.
DAS, A.; CHON, G. Dúvidas ainda cercam Nokia Siemens. Valor Online,
22 jul. 2010.
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década de 90. Brasília: Ipea, p. 61, 2001. (Texto para Discussão n. 786).
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE).
Matriz Insumo-Produto 2005. Rio de Janeiro: IBGE, 2008. Disponível em:
<ftp://ftp.ibge.gov.br/Matriz_insumo-produto/MIPN55/2005.zip>. Acesso em:
set. de 2008.
JARUZELSKI, B.; DEHOFF, K. Profits down, spending stedy: the global
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MILLER, R. E.; BLAIR P. D. Input-output analysis: foundations and
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THOMSON, A. De carros a cafeteiras, Verizon quer tudo conectado sem
fio. Valor Econômico, p. B3, 23 set. 2010.
SPADINGER, R. Uma breve comparação entre os modelos de inovação
europeia e brasileira no mercado de telecomunicações. Ipea, Brasília, fev.
2010.
TURLEA, G. et al. The 2010 report on R&D in ICT in the European
Union. Luxembourg: European Commission, 2010.

115
Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações

Anexo 1
Descrição do escopo deste artigo, conforme a Classificação Nacional de Atividades
Econômicas (CNAE) 1.0
32.2 Fabricação de aparelhos e equipamentos de telefonia e radiotelefonia e
de transmissores de televisão e rádio.
32.21-2 Fabricação de equipamentos transmissores de rádio e televisão e de
equipamentos para estações telefônicas, para radiotelefonia e radiotelegrafia,
inclusive de microondas e repetidoras.
32.22-0 Fabricação de aparelhos telefônicos, sistemas de intercomunicação
e semelhantes.

Anexo 2 – Categorização das firmas


Empresas líderes: i) inovadora de produto novo para o mercado e exportadora com
preço-prêmio; ou ii) inovadora de processo novo para o mercado, exportadora e
de menor relação entre custo e faturamento (quartil inferior).
Empresas seguidoras: i) demais exportadoras não líderes; ou ii) empresas
que têm produtividade do trabalho igual ou superior às exportadoras não líderes.
Empresas frágeis são as demais firmas, voltadas para o mercado interno. Em
geral, não inovam, e operam com maiores custos.
Emergentes são empresas não classificadas como líderes ou seguidoras, mas
que investem continuamente em P&D, ou inovam produto novo para o mercado
mundial, ou possuem laboratórios de P&D (departamentos de P&D com mestres
ou doutores ocupados em P&D).

116
CAPÍTULO 6

Compras governamentais: análise de aspectos da demanda


pública por equipamentos de telecomunicações1

Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa 2


João Maria de Oliveira 3

Introdução
Em diferentes situações, o poder das compras governamentais pode ser utilizado
para estimular segmentos econômicos estratégicos para a economia. Alguns
estudos sobre a sua utilização como instrumento de política industrial sugerem
que seus impactos podem ir além do fortalecimento da base empresarial existente.
Em certos casos, estes efeitos proporcionam o estímulo à adoção de novas
combinações, geração de empreendimentos e criação de cadeias produtivas.
No momento atual em que se lança uma política pública visando à
massificação do acesso à internet em banda larga, discute-se a oportunidade de
se utilizar o poder de compras para incentivar o segmento de equipamentos de
telecomunicações. No entanto, uma questão crucial é se esta ferramenta reúne as
condições necessárias para ser aplicada de forma eficiente na reestruturação do
setor. Em artigo presente nesta publicação, Kubota, Domingues e Milani (2010)
afirmam que um dos requisitos mais importantes do setor é a escala de produção.
O objetivo deste estudo é, portanto, investigar se o volume das compras
públicas realizadas nos últimos anos para o segmento teria sido suficiente para
oferecer um patamar de consumo que viabilizasse o desenvolvimento da indústria
nacional. Adicionalmente, o trabalho examina quais são as tendências de
modificação do cenário vigente, a partir das projeções de investimento da Telebrás,
à qual cabe cumprir os objetivos do Programa Nacional de Banda Larga (PNBL).
Por fim, o artigo verifica se é possível, e como, estimular a atividade empresarial,
interferindo de maneira proativa no ritmo e na direção do desenvolvimento da
indústria de telecomunicações no Brasil.

1. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomuni-
cações.
2. Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e
Infraestrutura (Diset) do Ipea.
3.Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e
Infraestrutura (Diset) do Ipea

117
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

Fomento às atividades econômicas por meio das compras governamentais


Diversos estudos mostram que as compras governamentais têm sido extensivamente
utilizadas por governos de vários países – com utilização mais intensa por parte
das nações desenvolvidas – para a implementação de políticas públicas. Estas
são direcionadas, em geral, a pelo menos um dos objetivos a seguir: incentivo
à indústria; aumento do investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D),
combinado com estímulo à inovação; e melhoria na prestação de serviços públicos.
A União Europeia, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Tratado
Norte-Americano de Livre Comércio (conhecido pela sigla inglesa Nafta), por
exemplo, têm legislação e procedimentos específicos para compras públicas. No
caso particular dos Estados Unidos, existe ainda uma clara conduta de preferência
para bens de produção doméstica nas compras do governo.
Embora as compras públicas sejam reconhecidas como um importante
instrumento para a execução de políticas, isto não significa que o seu uso seja
uniforme. Ocorrem variações, por exemplo, com relação ao nível de centralização
das compras, à forma de execução dos leilões, às condições de preferência por
pequenas e médias empresas, entre outras. Evidentemente, a origem destas
diferenças está vinculada às peculiaridades econômicas e legais de cada país.
Com relação à sua finalidade, o poder de compra governamental pode ser
usado de duas formas: para adquirir bens prontamente disponíveis no mercado
ou para desenvolver novos produtos. Esta segunda forma de contratação
tem especial relevância quando as metas da política incluem o aumento do
investimento em P&D e a promoção da inovação. Os benefícios podem ser
resumidos como a indução de uma demanda por produtos com tecnologias mais
avançadas e a redução do risco inerente às atividades de P&D no país. Com isso,
aparecem oportunidades para melhorar a qualidade dos serviços públicos e, como
consequência, a produtividade da economia.
No exterior, o uso das compras públicas para promover a inovação já se
tornou comum. O Research Investment Action Plan, da Comissão Europeia, por
exemplo, usa este instrumento para alcançar a meta de investimento de 3%
do produto interno bruto (PIB) em P&D. Para orientar o papel das compras
públicas, Moreira e Vargas (2009) entendem que o governo pode utilizar três
opções de trajetórias para induzir a inovação: i) como mercado potencial, gerando
requisitos inovadores; ii) como fonte de interação com as empresas, alterando
a concepção analítica dos novos produtos; e iii) como agente de mercado,
auxiliando a difusão das soluções inovadoras desenvolvidas. Os autores destacam
que “a efetiva indução de inovações com as compras governamentais requer não
apenas a intencionalidade política, mas também capacitação governamental
para a adoção de requisitos de fornecimento efetivos na indução de soluções
genuinamente inovadoras”.
118
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

Para o caso específico das políticas de compras públicas voltadas ao setor de


telecomunicações, tanto para equipamentos quanto para serviços, Blind e Gauch
(2008) recomendam que se dê especial atenção aos padrões tecnológicos. Novas
iniciativas de políticas de inovação induzida pela demanda preveem um uso ainda
mais intensivo do processo de normalização como forma de acelerar a difusão das
novas tecnologias.
Alguns exemplos bastante elucidativos do uso das compras para a inovação
no setor de telecomunicações e o seu relacionamento com o setor de defesa
são observados nos EUA. Primeiro, o papel das agências de pesquisa ligadas
à defesa (Defense Advanced Research Projects Agency – Darpa) e à academia
de ciências (National Sciences Foundation – NSF) foi fundamental para a
criação da rede mundial de computadores. Segundo, o plano de banda larga
norte-americano inclui como uma de suas recomendações o provimento de
conectividade em redes de acesso em banda larga de ultra-alta velocidade para
as instalações do Departamento de Defesa (Department of Defense – DoD),
o que atende simultaneamente aos objetivos de criar um mercado pioneiro,
aumentar a qualidade do serviço público e ampliar o investimento em P&D.
Terceiro, o desenvolvimento da própria indústria de semicondutores nos EUA –
historicamente ligada ao setor de telecomunicações – no final dos anos 1960 foi
impulsionada pelo setor de defesa do país, em que as compras governamentais
foram apontadas como fator essencial para absorção dos altos custos da curva de
aprendizado.
Relatório apresentado por Nyiri, Osimo, Ozcivelek, Centeno e Cabrera
(2007) ratifica a importância das compras governamentais para a inovação. No
Canadá, em pesquisa conduzida entre 1945 e 1978, constatou-se que cerca de
25% das inovações foram adquiridas primeiramente pelo setor público, e o setor
de telecomunicações aparece entre as áreas mais inovadoras.
Embora não haja dados precisos, estima-se que o volume das compras
governamentais relacionadas às tecnologias da informação e comunicação
(TICs) seja expressivo, tanto no Brasil quanto no exterior. Na União Europeia,
por exemplo, acredita-se que, pelo menos, 20% do mercado de tecnologias da
informação (TI) correspondam às compras governamentais. No Brasil, avalia-se
que esta participação fique entre 10% e 15%. Não obstante o governo federal
ser o principal comprador, uma grande parte dos gastos também está distribuída
pelas administrações estaduais e municipais.
Também no Brasil, o uso das compras públicas parece despontar como
um poderoso instrumento à disposição do governo. Isto decorre não somente
da publicação recente da Medida Provisória (MP) no 495/2010, que incluiu a
“promoção do desenvolvimento nacional” entre um dos princípios das licitações

119
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

– oferecendo uma margem de até 25% para os produtos com tecnologia nacional
–, mas também do aumento do investimento público em diversos setores. Para
o caso particular das telecomunicações, os investimentos públicos vinham sendo
direcionados a programas visando reduzir os índices de exclusão digital. Contudo,
para os próximos anos, o PNBL aparece como o principal veículo de investimento
público para o setor, por meio das aquisições de equipamentos para construção
da rede da Telebrás.
É importante ressaltar que as compras no setor de telecomunicações, sejam
públicas ou privadas, possuem uma dinâmica particular. Os fabricantes de
equipamentos e os operadores de rede de telecomunicações formam alianças, nas
quais a evolução tecnológica dos equipamentos é decidida de forma integrada
entre os participantes. Este tipo de relacionamento decorre da necessidade de
os fabricantes melhorarem a previsibilidade da trajetória futura de sua linha de
equipamentos, reduzindo o risco inerente ao desenvolvimento de novos produtos.
Por sua vez, os operadores também se beneficiam ao transferir a maior parte
do P&D para empresas com conhecimento especializado e que poderão obter
futuros ganhos de escala.
Embora as políticas brasileiras de incentivo à produção e ao desenvolvimento
tecnológico mencionem as compras públicas como elemento de estímulo à
inovação, existem evidências de que, na prática, acontece o contrário. Em geral,
empresas defasadas em termos mercadológicos, com pouco grau de diferenciação
e baixo potencial inovador, acabam sendo as maiores beneficiadas pelas compras
governamentais.

Compras públicas de equipamentos de telecomunicações no Brasil


Para avaliar o porte da demanda pública por equipamentos de telecomunicações
no Brasil, este estudo analisou três dimensões. A primeira está relacionada às
compras da administração pública; a segunda refere-se às aquisições da Petrobras,
que possui uma extensa rede para comunicação corporativa; e a terceira faz
previsões do mercado potencial, a partir de estimativas de investimento por parte
da Telebrás.
Para a dimensão das compras da administração pública, foi utilizada a base
de dados do sistema Comprasnet, disponibilizada pela Secretaria de Logística e
Tecnologia da Informação (SLTI) do Ministério do Planejamento, Orçamento
e Gestão (MPOG). Nesta base, encontram-se as compras governamentais
registradas entre os anos de 2002 e 2010. Também estão disponíveis informações
de alguns governos estaduais e municipais, que fazem suas aquisições utilizando o
mesmo sistema. Foram selecionados apenas os materiais relacionados com o setor

120
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

de equipamentos de telecomunicações, pertencentes às oito classes indicadas no


anexo.
O gráfico 1 traz os valores anuais das compras da administração pública,
classificadas por grupos de materiais. Apenas os últimos quatro anos foram
apresentados, pois, somente a partir de 2007, todos os órgãos e instituições da
administração pública federal passaram a utilizar o sistema para realizar as suas
aquisições. Pelo gráfico, verifica-se que a demanda pública por equipamentos
de telecomunicações é relativamente pequena, quando comparada aos valores
de receita líquida de vendas (RLV) do setor de telecomunicações, indicados por
Kubota et al. (2010). Tomando-se como referência o valor médio das aquisições
(R$ 29,1 milhões por ano), a ordem de grandeza do gasto realizado pelo governo
é pouco expressiva para ser utilizada como justificativa de indução setorial.

Gráfico 1 – Valor corrente das compras governamentais de equipamentos de


telecomunicações, entre 2007 e 2010, por grupo de material (em milhões de reais)

Fonte: Comprasnet (SLTI/MPOG).

Uma análise dos tipos de compras realizadas mostra que cerca de metade
das aquisições (47,8%) é formada por equipamentos de comunicação, detecção
e radiação coerente. Neste grupo estão os diversos tipos de rádios, antenas,
equipamentos óticos (transceptores, multiplexadores, acopladores etc.), modems,
telefones e outros equipamentos. Mesmo que os dados revelem certa oscilação das
compras deste grupo ao longo do tempo, confirma-se a necessidade sistemática
por este tipo de material. Outro grupo relevante é o de materiais, componentes,
conjuntos e acessórios de fibras óticas, correspondendo a 37,4% das aquisições.
Ele inclui os cabos de fibra ótica, conversores e terminadores.
121
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

A situação da década de 2000 não foi particularmente favorável ao uso


do poder de compras governamentais no país para fomentar a indústria de
telecomunicações. Primeiro, por causa da própria privatização do sistema
Telebrás, que transferiu o poder de decisão sobre compras de equipamentos
para os operadores privados. Segundo, por conta da falta de instrumentos legais
e regulatórios que estimulassem a competição por inovação, no âmbito das
licitações de equipamentos e serviços de telecomunicações para o poder público.
O gasto relativamente baixo é explicado não apenas pela operação privada
das redes de telecomunicações, mas também pela preferência dos gestores
públicos pela licitação de serviços de telecomunicações que incluam a colocação
e manutenção dos equipamentos necessários. Dessa forma, em razão de uma
solução mais eficiente, a administração pública deixa de comprar diretamente os
produtos de telecomunicações, o que não significa que não possa mais influenciar
a demanda por equipamentos de telecomunicações. Por meio da escolha de
requisitos técnicos adequados, ainda é possível direcionar a demanda intermediária
(os produtos que serão usados posteriormente nas soluções completas), conforme
o tipo e a qualidade dos serviços a serem prestados.
Vale destacar, no entanto, a participação dos comandos militares na
aquisição de equipamentos de telecomunicações. Dependendo do período e do
foco da análise, as Forças Armadas possuem uma participação que varia de 20%
a 30% deste orçamento. A razão para isto é que, por questões de segurança, as
Forças Armadas optaram por conservar as suas próprias redes de comunicação,
ou pelo menos parte delas. Consequentemente, precisam adquirir materiais e
equipamentos para manter e expandir as suas operações. Exemplos destas redes
militares são o Sistema Brasileiro de Comunicação Militar por Satélite (Siscomis) e
o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).
Outras redes ainda estão em fase de concepção, como o Sistema Integrado de
Monitoramento das Fronteiras (Sisfron) e o Satélite Geoestacionário Brasileiro
(SGB). Dessa forma, cabe observar em um maior grau de detalhamento a demanda
das Forças Armadas por materiais relacionados ao setor de telecomunicações.
Usando dados de 2009, o detalhamento das compras da Defesa revela que
elas estão concentradas em: equipamentos para comunicação móvel, sistemas de
radar, monitores de imagem e equipamentos para comunicação por satélite. Em
um período mais abrangente (2007 a 2010), ganham importância também as
compras de cabos de fibra ótica e de equipamentos para simulação.
A importância da Defesa para o desenvolvimento das telecomunicações
fica evidente não somente nas duas situações mencionadas na seção anterior
(criação da internet e investimento em banda larga para instalações do DoD),
mas também pode ser notada em outros dois casos. Primeiro, o impulso à
tecnologia de espalhamento espectral (spread spectrum) ocorreu durante os anos
122
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

1940, a partir da necessidade de segurança para as comunicações militares, no


tocante aos quesitos de confiabilidade (proteção contra interferências) e de sigilo
(inviolabilidade das informações). Hoje, esta tecnologia é usada na maior parte
dos aparelhos que necessitam compartilhar banda espectral de forma segura em
faixas de frequências não licenciadas (por exemplo: telefones sem fio, roteadores
wireless etc.), e também está presente na terceira e quarta gerações da telefonia
móvel (3G e LTE, respectivamente). Segundo, o desenvolvimento da tecnologia
de satélites e sua posterior aplicação comercial para comunicações somente foi
possível a partir de pesados investimento feitos na área de Defesa, no período
da Guerra Fria. Portanto, em uma abordagem inicial, talvez seja interessante a
aproximação das políticas de compras de equipamentos de telecomunicações do
governo, em sentido amplo, com as especificidades do setor de defesa brasileiro.
A segunda dimensão da análise utilizou uma base de dados da Petrobras4
, contendo informações sobre aquisições de bens e serviços contratados pela
empresa entre 2004 e 2008. Neste período, o volume de compras da Petrobras
relacionado a equipamentos de telecomunicações alcançou um total de R$
43,1 milhões. Em maior nível de detalhe, observa-se que 89,7% daquele valor
correspondem a compras que podem ser classificadas no grupo equipamentos
de comunicação, detecção e radiação coerente. Novamente, percebe-se que a
quantia gasta pela Petrobras em equipamentos de telecomunicações (pouco mais
de R$ 10 milhões por ano) é pouco significativa para ser utilizada como forma de
estímulo às empresas do setor.
A terceira e última dimensão da análise busca avaliar o impacto da futura
demanda da Telebrás, reativada recentemente para implementar a parte do PNBL
relacionada à infraestrutura de redes. A empresa prevê que, até o final de 2014,
estarão em serviço no Brasil 39,8 milhões de acessos domiciliares. De acordo com
estimativas efetuadas pelos autores, o investimento necessário para implantar a
rede da Telebrás em 26 estados é de cerca de R$ 560 milhões (somente backbone e
backhaul), sendo R$ 330 milhões em equipamentos de telecomunicações e outros
R$ 230 milhões na infraestrutura propriamente dita. Portanto, as aquisições dos
equipamentos de telecomunicações por parte da Telebrás ampliarão de forma
bastante significativa a demanda governamental: de uma média anual de R$ 29,1
milhões, conforme o gráfico 1, passará para um patamar quase quatro vezes maior
(R$ 112 milhões).
No entanto, o próprio perfil dos equipamentos será modificado. Enquanto
a demanda atual se caracteriza por equipamentos corporativos, os produtos a
serem usados na rede da Telebrás requererão maior índice de confiabilidade e
deverão ser de maior capacidade. Este fato altera de forma considerável o nível de
4. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomuni-
cações.

123
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

exigência em relação àqueles atualmente adquiridos. Também há a previsão de se


investir, até 2014, cerca de R$ 600 milhões em equipamentos para rede de acesso,
conforme estimativas realizadas pelos autores. Estes investimentos poderão ser
realizados pela Telebrás, por provedores privados ou mesmo por ambos. Portanto,
parte deste valor poderá se incorporar aos investimentos já arrolados, elevando
um pouco mais o volume das compras governamentais.
Em síntese, a análise dessas três dimensões revela a pequena escala das compras
governamentais em relação ao mercado de equipamentos de telecomunicações.
Apesar disso, a demanda pública, por meio das aquisições da Telebrás, pode vir
a ocupar nichos importantes deste mercado. Em relação a certas tecnologias,
ela poderá ser o principal ou até mesmo o único comprador no país. De forma
análoga ao setor de saúde, no qual se observa a existência de medicamentos em
que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem presença de quase 100%, o poder das
compras do governo pode ser exercido de forma efetiva nestas situações.
A partir da análise do arcabouço legal e dos resultados apresentados em
estudos anteriores, também se verifica a pouca coordenação e a falta de incentivo
à inovação das políticas brasileiras. Portanto, estas importantes questões, e não
somente o volume das compras públicas, devem ser levadas em consideração no
momento da reformulação das políticas para o setor de telecomunicações.

Considerações finais
Este estudo, por seu caráter exploratório, não tem a intenção de prescrever
políticas públicas para o setor de telecomunicações. Em vez disso, o seu objetivo
foi discutir estudos de caso e trazer informações para esclarecer alguns pontos-
chave do setor, a fim de auxiliar a decisão sobre as políticas que devem ser adotadas.
Algumas questões relevantes sequer foram mencionadas no trabalho, tais como:
a possibilidade de exigir a preferência pela aquisição de produtos nacionais por
parte dos operadores privados; a conveniência ou a necessidade de oferecer novos
estímulos para as empresas produtoras de equipamentos de telecomunicações;
e os impactos atuais e futuros na difusão da banda larga ao se decidir por uma
política de desenvolvimento tecnológico para o setor.
No entanto, a partir do referencial teórico analisado e dos dados apresentados,
já se podem propor algumas recomendações pertinentes à formulação de uma
política consistente e eficiente de compras públicas no Brasil:
1. O marco legal das compras governamentais, durante décadas, privilegiou
o preço em detrimento do aspecto inovador. Embora a MP no 495/2010,
recentemente editada, modifique este marco para propiciar, ao mesmo tempo,
o desenvolvimento de novos mercados e o apoio às firmas mais inovadoras, a

124
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

administração pública brasileira não tem experiência com este instrumento de


política pública. Em tese, a nova legislação pode tanto beneficiar um grupo de
empresas extremamente competitivas como ser utilizada para sustentar firmas
ineficientes, a depender de sua execução. Para usar as compras governamentais
de forma efetiva, é necessário que os gestores públicos busquem a adequada
capacitação técnica que possibilite a seleção de requisitos genuinamente
inovadores;
2. A política de desenvolvimento tecnológico deve prever a elaboração
de um mapa contendo a trajetória esperada de novos produtos e tecnologias,
definindo prioridades de financiamento, a exemplo do plano de banda larga
norte–americano. O governo deve demonstrar seu compromisso por meio de
aquisições aderentes ao mapa tecnológico, permitindo assim às empresas do setor
uma maior previsibilidade para seus investimentos em P&D;
3. As diferentes esferas (federal, estadual e municipal) e órgãos (administração
direta, empresas públicas e de economia mista, fundações, autarquias etc.) de
governo devem agir de forma coordenada para maximizar os benefícios da
política: incentivo à indústria, aumento do investimento em P&D e melhoria
da qualidade do serviço público. Em especial, é preciso avaliar a inclusão das
aquisições das Forças Armadas na política, pelo papel preponderante da Defesa no
desenvolvimento de novas tecnologias das telecomunicações. Mesmo no contexto
brasileiro, as Forças Armadas possuem participação considerável no orçamento da
administração pública direta, respondendo por cerca de um quarto das compras
públicas de equipamentos de telecomunicações feitas pelo governo federal no
último ano;
4. A participação mais ativa de instituições públicas e empresas privadas em
organismos internacionais de normalização tende a incrementar a taxa de difusão
de novas tecnologias para o mercado consumidor. Esta participação associada
à construção do mapa tecnológico, discutido no item 2 destas considerações,
permite influenciar e acompanhar as definições de tendências tecnológicas
do mercado. Esta estratégia de liderança é adotada por países desenvolvidos,
conforme apontado no referencial teórico.
Por fim, deve-se considerar que o essencial é utilizar o poder das compras
governamentais para o desenvolvimento de tecnologias no país, não sendo
determinante a origem do capital das empresas. Assim, para o caso brasileiro,
pode ser mais adequado trilhar um caminho alternativo, buscando unir as
competências das firmas estrangeiras e nacionais com as demandas produzidas
pelo Estado. Estas alianças podem ser interessantes tanto do ponto de vista de
custo, por reduzirem os investimentos necessários ao desenvolvimento integral
da tecnologia, quanto sob a ótica de tempo, por eliminarem as etapas iniciais
da curva de aprendizado, substituindo-as pela absorção do conhecimento já
125
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

produzido no exterior.
Futuros desdobramentos devem incluir a avaliação das aquisições de
equipamentos de telecomunicações por parte de outras empresas públicas e de
economia mista, tais como Eletrobrás, Serviço Federal de Processamento de
Dados (Serpro), Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, uma vez que estas
empresas apresentam grande potencial de compra de equipamentos de redes de
comunicação, com requisitos de grande dispersão geográfica, necessidade de
elevado grau de confiabilidade e exigência de operação contínua.

Referências Bibliográficas
BLIND, K.; GAUCH, S. Trends in ICT standards: the relationship between
European standardisation bodies and standards consortia. Telecommunications
Policy, vol. 32, n. 7, p. 503-513, 2008.
BRASIL. Programa Nacional de Banda Larga (PNBL). Brasília, 2010.
EUROPEAN COMMISSION. Public procurement for research and
innovation. Expert Group Report. Luxembourg: Office for Official Publications
of the European Communities, 2005.
FEDERAL COMMUNICATIONS COMMISION (FCC). Connecting
America: the National Broadband Plan. 2010.
KUBOTA, L.; DOMINGUES, E.; MILANI, D. A importância da escala
no mercado de equipamentos de telecomunicações. Radar n. 10, Brasília: Ipea,
2010.
MOREIRA, M.; VARGAS, E. O papel das compras governamentais na
indução de inovações. Contabilidade, Gestão e Governança, vol. 12, n. 2, p. 35-
43, 2009.
NYIRI, L. et al. Public procurement for the promotion of R&D and
innovation in ICT. Seville: Istitute for Prospective Technological Studies (IPTS),
2007.

126
Compras governamentais: análise de aspectos da demanda
pública por equipamentos de telecomunicações

Anexo

Tabela de códigos e descrição de classes de material

127
128
CAPÍTULO 7

Balança comercial de equipamentos de telecomunicações1

Lucas Ferraz Vasconcelos2

Introdução
Este trabalho propõe-se a estudar a balança comercial do segmento de
equipamentos de telecomunicações, a fim de reunir evidências a respeito do seu
potencial de demanda doméstica. Antes de se abordar, porém, especificamente
o segmento de equipamentos de telecomunicações, convém voltar a atenção,
na seção 2 deste artigo, ao complexo eletrônico, que é composto por mais três
segmentos: informática, eletrônica de consumo e componentes.
Na terceira seção, são detalhados os dados da balança comercial do segmento
de equipamentos de telecomunicações. A seção 4 é dedicada à análise dos dados
dos principais equipamentos de rede, mercado sobre o qual o Plano Nacional de
Banda Larga (PNBL) terá impacto direto. Procura-se definir os principais setores
envolvidos na importação e exportação de tais equipamentos. A quinta seção traz
as considerações finais.

O complexo eletrônico
O complexo eletrônico acelerou intensamente sua situação deficitária (tabela 1)
entre 2002 e 2008. A taxa de crescimento das importações foi bastante superior
à taxa de crescimento das exportações, gerando aumento do déficit. De fato,
enquanto a primeira registrou avanço de 137% entre 2004 e 2008, a segunda
elevou-se 60% no mesmo período, fazendo com que o déficit crescesse 169%.
Em termos comparativos, o déficit do complexo eletrônico, em módulo, equivale
a 65% do saldo comercial brasileiro.

1. O presente artigo foi publicado inicialmente no Boletim Radar no. 10, edição especial sobre Telecomuni-
cações.
2. Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e
Infraestrutura (Diset) do Ipea.

129
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações

Tabela 1 – Balança comercial do complexo eletrônico (em bilhões de dólares)

Fonte: Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior


(Secex/MDIC) – agregação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), IpeaData
e Banco Central do Brasil (BCB)3 .

Outra evidência de que o movimento descrito aponta para uma tendência de


agravação do déficit diz respeito à forte recuperação das importações no primeiro
semestre de 2010 frente ao mesmo período do ano anterior (59,7%). Ao mesmo
tempo, observa-se a estagnação das exportações no mesmo período de análise
(2,1%), do que se depreende que o pós-crise afetou de forma desigual empresas
nacionais e estrangeiras do complexo eletrônico: enquanto as primeiras sofreram
as consequências da queda de demanda em mercados estrangeiros combalidos
pela crise e/ou a competição mais agressiva em mercados recuperados, as últimas
beneficiaram-se do dinamismo do mercado interno no pós-crise e ampliaram
rapidamente as exportações para o mercado brasileiro.
Muito embora o maior déficit entre os segmentos que compõem o complexo
eletrônico seja referente a componentes (US$ 7,3 bilhões em 2008), a maior taxa
de crescimento do déficit comercial entre 2004 e 2008 foi devida ao segmento de
equipamentos de telecomunicações (364%), conforme constatado no gráfico 1.
Portanto, pode-se concluir que, embora todos os segmentos tenham aumentado
sua situação deficitária no período, a contribuição para a elevação do déficit
comercial do complexo eletrônico foi devida, em grande parte, ao segmento de
componentes, por sua grande representatividade na composição do déficit, e ao
segmento de equipamentos eletrônicos, pela expansão do déficit no período.

3. Refere-se ao primeiro semestre.

130
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações

Gráfico 1 – Déficit comercial dos segmentos do complexo eletrônico – 2008 (em bilhões
de dólares)

Fonte: Secex/MDIC – agregação do BNDES 4.

Equipamentos de telecomunicações
Embora a balança comercial do setor apresentasse valores relativamente pequenos
entre 2002 e 2006, não ultrapassando US$ 1 bilhão, o segmento de equipamentos
de telecomunicações passa a exibir expressivos déficits comerciais em 2007 e
2008, de US$ 2,2 bilhões e US$ 4,5 bilhões, respectivamente, diminuindo para
US$ 3 bilhões em 2009 e retomando fortemente sua tendência de crescimento
no período pós-crise, com uma elevação de 101% no primeiro semestre de 2010
em relação ao primeiro semestre de 2009 (gráfico 2).

Gráfico 2 – Déficit comercial dos segmentos do complexo eletrônico – 2008 (em bilhões
de dólares)
8
7
6
5
4
3
2
1
0
-1 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2009* 2010*

Importações Exportações

Fonte: Secex/MDIC – agregação do BNDES 5.

4. Refere-se ao primeiro semestre.


5. Refere-se ao primeiro semestre.

131
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações

A dinâmica das importações de equipamentos de telecomunicações está


bastante pautada pelos investimentos realizados pelas operadoras no país. Os
anos de 2002 e 2003 são marcados por baixos investimentos no segmento de
telecomunicações no Brasil. Há duas razões para isto: a intensa crise mundial
deflagrada no setor entre 2001 e 2003, bem como a concentração dos investimentos
de telecomunicações em 2001, resultado do cumprimento antecipado, por parte
das operadoras, das metas de universalização da Anatel, cujo prazo de vigência
estendia-se até 2003 (Szapiro , 2005).
Esses fatores de estagnação do investimento terminam por conter a
importação de equipamentos de telecomunicações. Contudo, a partir de 2004,
com a retomada dos investimentos no setor, o crescimento das importações é
intensificado, culminando em 2008. Com a crise financeira mundial, deflagrada
no último trimestre de 2008, reduzem-se significativamente as importações, por
conta do adiamento dos planos de investimento das operadoras.
O cenário econômico interno favorável em 2010, frente à demanda
estagnada dos países desenvolvidos, pode promover dois movimentos simultâneos:
a retomada dos planos de investimentos por parte das operadoras (que tinham
sido suspensos no ano anterior) e o acirramento da concorrência (por conta da
economia mundial desaquecida) com fabricantes estrangeiros, principalmente
chineses, que, de acordo com o Anuário Telecom (2009), têm disputado
agressivamente o mercado nacional nos últimos anos.
O desempenho exportador do segmento de equipamentos de
telecomunicações está muito associado à exportação de telefones celulares e
mostra-se bastante instável, de acordo com as estratégias mundiais das grandes
fabricantes de celulares instaladas no país.
As exportações mantiveram-se estagnadas, por volta de US$ 1,5 bilhão,
entre 2002 e 2003. Elevaram-se a um patamar significativo em 2005 e 2006
(US$ 3,2 bilhões e US$ 3,6 bilhões, respectivamente), para, em seguida, caírem,
em 2007, para US$ 2,7 bilhões, por conta de mudanças estratégicas de duas das
grandes empresas do setor (Motorola e Nokia) instaladas no país (Szapiro , 2009).
O advento da crise intensificou a queda das exportações e, diferentemente das
importações, as vendas ao mercado externo de equipamentos de telecomunicações
não apresentam evidências de recuperação. De fato, o primeiro semestre de 2010
apresentou leve queda das exportações em relação ao mesmo período de 2009.
Partes e peças, telefones celulares e fios e cabos compreendem grande parte
do valor das importações realizadas em 2008 (54%, 10% e 9%, respectivamente).
A grande parcela de insumos na pauta de importações do segmento (US$ 4,1
bilhões em 2008) sugere alto conteúdo estrangeiro nos equipamentos fabricados
no país. Por exemplo, segundo o Anuário Telecom (2004), os telefones celulares

132
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações

fabricados no Brasil possuem ao menos 80% de conteúdo importado. Por sua


vez, conforme mencionado, a exportação de equipamentos de telecomunicações é
bastante concentrada nas vendas externas de telefones celulares, sendo responsável
por 72% das exportações.

Gráfico 3 – Composição da balança comercial de equipamentos de telecomunicações (em


milhões de dólares)

Fonte: Secex/MDIC – agregação do BNDES

A forte presença de produtos ligados ao setor de fabricação de celulares


na corrente de comércio do segmento de equipamentos de telecomunicações
distorce a análise das importações e exportações de equipamentos de rede, que
serão diretamente afetados pelo PNBL.

Equipamentos de rede
A fim de se obterem dados mais específicos quanto aos equipamentos de rede,
foram excluídos da análise aparelhos telefônicos e partes e peças6 . Nota-se a
modesta quantia de importações destes equipamentos (US$ 798 milhões em
2007) em relação ao valor total importado pelo segmento de telecomunicações
(US$ 4,9 bilhões no mesmo período). Além disso, o valor das exportações é
ainda menor, US$ 124 milhões em 2007, relativamente às exportações totais do
segmento, de 2,74 bilhões no mesmo ano (tabela 2).
Outra característica marcante desse mercado é a grande concentração
da balança comercial em alguns produtos. Das importações realizadas em
2007, 63% delas foram referentes a roteadores digitais, aparelhos diversos para
transmissão e recepção de voz e dados em rede com fio (exceto hubs e modems) e
aparelhos emissores diversos com receptor incorporado, digitais. No que tange às
exportações, a concentração é mais acentuada: no mesmo ano de 2007, somente
6. Partes e peças foram excluídas, pois grande parcela destas é destinada à fabricação de aparelhos telefônicos.

133
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações

duas categorias de produto, estação rádio base (ERB) de telefonia celular e


comutadores, abrangem 69% de todo o montante.

Tabela 2 – Balança comercial de equipamentos de rede (em milhões de dólares)

Fonte: Secex/MDIC. Elaboração do autor.

Para determinar quais setores importam ou exportam equipamentos de


rede, utilizaram-se os dados fornecidos pela Secretaria de Comércio Exterior
(Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

134
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações

(MDIC), combinados aos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais),


do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), na qual é informado o código da
Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnae) associado à empresa.
Embora este método traga algum inconveniente, pois nem todas as empresas
existentes são cadastradas na Rais, a subestimação dos valores de importação
e exportação é bastante pequena, dada a magnitude dos valores envolvidos7 .
O método utilizado mostra-se bastante eficaz para a identificação dos setores
importadores e exportadores dos equipamentos em questão.
Por meio da combinação dessas bases de dados, pode-se determinar quais
são os setores importadores de equipamentos de rede com base em seu código
Cnae. A tabela 3 demonstra que parcela expressiva das importações é realizada
pelo comércio atacadista e por representações comerciais, provavelmente por
empresas que, por não possuírem fábrica em território nacional, importam os
equipamentos prontos, para venda às operadoras.
Quanto às importações realizadas por fabricantes de equipamentos
transmissores de comunicação e equipamentos de informática, estas
provavelmente devem-se: i) às estratégias de produção global de grandes empresas
multinacionais, que podem produzir determinado equipamento em somente uma
de suas filiais no mundo e exportá-lo aos outros países em que está presente; e ii)
à complementação do pacote de produtos das pequenas empresas nacionais, uma
vez que seus clientes (em grande parte as operadoras de telecomunicações) exigem
soluções que contemplem todos os equipamentos necessários para a instalação da
rede.
Tabela 3 – Setores importadores e exportadores de equipamentos de rede (em milhões de
dólares)

Fonte: Secex/MDIC e Rais/MTE. Elaboração do autor.

7. Outro inconveniente diz respeito ao período de análise, visto que, para fins deste trabalho, não foram
disponibilizados microdados para além de 2007.

135
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações

Pode-se constatar que as exportações são predominantemente realizadas


por setores constituintes do próprio segmento de telecomunicações. Há certa
dificuldade em distinguir empresas classificadas na Cnae 2631-1 (fabricação de
equipamentos transmissores de comunicação) e 2632-9 (fabricação de aparelhos
telefônicos e de outros equipamentos de comunicação), pois algumas das maiores
fabricantes de equipamentos de rede são também fabricantes de telefones celulares,
dadas as características de diversificação das atividades das empresas deste setor8.

Considerações finais
Observando-se os dados apresentados, identifica-se uma tendência de deterioração
acelerada da balança comercial do complexo eletrônico. Os principais segmentos
responsáveis por esta tendência foram os de componentes e equipamentos de
telecomunicações – este, principalmente devido ao intenso crescimento de suas
importações.
A fabricação de aparelhos telefônicos e de outros equipamentos de
comunicação constitui o principal setor do segmento de equipamentos de
telecomunicações. Partes e peças de celulares e outros equipamentos de
comunicação respondem pela maior cifra de importação do segmento. Telefones
celulares correspondem ao item de maior valor de exportação.
Excluindo-se os itens referentes à fabricação de telefones celulares, de partes
e peças e de outros bens intermediários, chega-se à demanda por importação
de equipamentos de rede e à oferta destes equipamentos para exportação. Tanto
a demanda por importações quanto a oferta de exportações destes bens são
relativamente pequenas, comparando-se aos demais itens do segmento. Além de
modesto, o comércio exterior dos equipamentos de rede selecionado mostra-se
crescentemente deficitário, assim como todo o complexo de eletrônica.
As características citadas levantam questões relevantes concernentes à
escala de produção de equipamentos de rede no Brasil. A implantação do PNBL
certamente aumentará a demanda das fabricantes nacionais, mas, segundo se
pode constatar pelos dados apresentados, uma estratégia eficaz de fortalecimento
da indústria de equipamentos de telecomunicações nacional tem de ter como
ponto fundamental de sua estratégia a conquista de mercados externos, a fim de
ganhar escala e poder competir em um mercado altamente oligopolizado.

Referências Bibliográficas
LINDMARK, S.; TURLEA, G.; ULBRICH, M. Mapping R&D
8. Lindmark et al. (2008, p. 51) expõem dificuldade parecida em seu estudo.

136
Balança comercial de equipamentos de telecomunicações

investment by the European ICT business sector.


JRC Reference Reports, Luxemburg, 2008.
PLANO EDITORIAL. Anuário TELECOM. 2004.
______. Anuário TELECOM. 2009.
SZAPIRO, M. H. S. Reestruturação do setor de telecomunicações na
década de noventa: um estudo comparativo dos impactos sobre o sistema de
inovação no Brasil e na Espanha. Tese (Doutorado), IE/UFRJ, 2005.
______. Projeto perspectivas do investimento no Brasil: equipamentos
de telecomunicações. Rio de Janeiro, 2009.

Anexo 1
Descrição do escopo deste artigo, conforme a Classificação Nacional de
Atividades Econômicas (CNAE) 1.0
32.2 Fabricação de aparelhos e equipamentos de telefonia e radiotelefonia e
de transmissores de televisão e rádio.
32.21-2 Fabricação de equipamentos transmissores de rádio e televisão e de
equipamentos para estações telefônicas, para radiotelefonia e radiotelegrafia,
inclusive de microondas e repetidoras.
32.22-0 Fabricação de aparelhos telefônicos, sistemas de intercomunicação
e semelhantes.

Anexo 2 – Categorização das firmas


Empresas líderes: i) inovadora de produto novo para o mercado e exportadora
com preço-prêmio; ou ii) inovadora de processo novo para o mercado,
exportadora e de menor relação entre custo e faturamento (quartil inferior).
Empresas seguidoras: i) demais exportadoras não líderes; ou ii) empresas
que têm produtividade do trabalho igual ou superior às exportadoras não
líderes.
Empresas frágeis são as demais firmas, voltadas para o mercado interno. Em
geral, não inovam, e operam com maiores custos.
Emergentes são empresas não classificadas como líderes ou seguidoras, mas
que investem continuamente em P&D, ou inovam produto novo para o
mercado mundial, ou possuem laboratórios de P&D (departamentos de
P&D com mestres ou doutores ocupados em P&D).

137
138
3ª. PARTE

PANORAMA DA COMUNICAÇÃO

139
140
CAPÍTULO 1

Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa


como um modelo internacional de inclusão

André Barbosa Filho1

Introdução
Quem pensa que o uso da internet no computador vai acabar com o hábito de ver
TV, levante a mão. Pois quem imagina que a resposta afirmativa é a correta, está
equivocado(a). Enganam-se os que acreditam que, conforme aumenta o uso da
internet em diferentes plataformas no Brasil, menos tempo as pessoas dedicariam
à TV. Pelo que menos é o que constata a pesquisa ‘Estilos de Vida e Bem-Estar
Individual’, feita pela empresa Market Analysis2. Realizado com 483 adultos com
mais de 18 anos residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre
durante o mês de julho de 2009, o estudo aponta que o percentual de brasileiros
que passou 11 horas ou mais por semana navegando na internet saltou de 11%
para 17%.
Em outros termos, isso significa que, numa semana sem feriados, um em cada
seis brasileiros fica metade do dia ou mais tempo acessando a internet, isto, claro,
dentro do grupo de pessoas que possuem internet. O aumento na quantidade
de horas na rede coincide com a expansão acelerada na venda de computadores
e da banda larga no Brasil. O percentual de internautas que dedicam o mesmo
tempo para assistir a TV, por sua vez, aumentou de 62% para 70,5% em um ano.
Segundo os responsáveis pela pesquisa, esses dados contradizem a ideia defendida
por alguns de que, com a expansão da rede, haveria uma profunda mudança
muito nos hábitos de consumo de mídia, a ponto de a TV perder espaço para a
rede mundial de computadores que, na oferta de conteúdos digitais, avança de
modo acentuado para os celulares e para as diversas plataformas de videojogos.
Este dado é significante para entender este novo cenário multiplataforma
que vivenciamos e nos reporta a outra importante questão: o que será o futuro da
televisão aberta e gratuita? Como sobreviverá num ambiente convergente, com
tantas ofertas de informação vindas de outros meios, a partir de outros modelos,
de outras estruturas de rede? Com entender o fascínio que a TV exerce mesmo
entre os ditos ‘nativos digitais’, aqueles que já nasceram em um mundo com
tecnologias digitais? A TV linear que temos e realizamos hoje, vai forçosamente
1Doutor em Comunicação pela USP. Atualmente é assessor especial da Casa Civil da Presidência da República.
2Disponível em http://www.marketanalysis.com.br/mab/conteudo.php?pg=biblioteca. Acesso em 23 de maio
de 2010.

141
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

mudar, diante da oferta de informações baseadas na hipertextualidade3 , da


superposição de dados, vídeos e sons presentes nas criações e produtos digitais.
Uma das propostas do ISDB-Tb, o padrão de TV Digital adotado pelo Brasil
e, até o momento, por mais oito paises da América do Sul e Central (Argentina,
Bolivia, Chile, Peru, Paraguai, Equador, Venezuela e Costa Rica), Filipinas,
na Asia, e mais recentemente, Moçambique, Angola, Butzania, na Africa, é o
de entender o fenômeno da TV analógica no Brasil e nestes países e buscar as
direções para realizar a migração para o digital. A ideia é construir um cenário
de implantação da TVD aproveitando o alto interesse do público em geral pela
programação da TV analógica e introduzir a oferta de produtos e conteúdos
interativos, no aguardo de um novo tempo onde as infra-estruturas e os serviços
de banda larga estejam também a disposição de todos. Mas como realizar este
salto qualitativo? Como preparar realizadores, produtores, o próprio público para
o mundo da interatividade pela TV? O que o ISDB-Tb oferece como ferramenta
para atingir estes nobres objetivos? Sem dúvida, algo que os demais padrões não
tem: o middleware4 Ginga!.
A palavra ginga em Português tem muitos significados5 No caso da televisão
digital terrestre, o Ginga é a camada de software intermediário – middleware- que
permite o desenvolvimento de aplicações interativas para a TV Digital de forma
independente da plataforma de hardware dos fabricantes de terminais de acesso
- STB6 Desenvolvido nos laboratórios da PUC/RJ e da Universidade Federal da
Paraíba, é um projeto voltado para a inclusão social/digital e ao conhecimento
aberto e livre. O Ginga é uma tecnologia que conecta as pessoas a todos os meios
para que ele obtenha acesso à informação, educação à distância e serviços sociais
apenas usando sua televisão e também os celulares.
3 Hipertexto é o termo que remete a um texto em formato digital, ao qual se agrega outros conjuntos de infor-
mação na forma de blocos de textos, palavras, imagens ou sons, cujo acesso se dá através de referências específicas
denominadas hiperlinks, ou simplesmente links. Esses links ocorrem na forma de termos destacados no corpo de
texto principal, ícones gráficos ou imagens e têm a função de interconectar os diversos conjuntos de informação,
oferecendo acesso sob demanda as informações que estendem ou complementam o texto principal.
4 Middleware é um termo geral, normalmente utilizado para um tipo de código de software que atua como um
aglutinador, ou mediador, entre dois programas existentes e independentes. Sua função é trazer independência
das aplicações com o sistema de transmissão. Permite que vários códigos de aplicações funcionem com diferentes
equipamentos de recepção. Através da criação de uma máquina virtual no receptor, os códigos das aplicações
são copilados no formato adequado para cada sistema operacional. Resumidamente, de terminais de recepção
ou vice-versa. O Middleware se faz necessário para resolver o novo paradigma que foi introduzido com a TV
Digital: a combinação da TV tradicional (broadcast) com a interatividade, textos e gráficos. Esta interatividade
necessitará de várias características e funcionalidades, encontradas no ambiente WEB: representação gráfica;
identificação do usuário; navegação e utilização amigável etc.
5 Ginga o movimento básico da capoeira. É a parte da “dança” da capoeira. É comum esconder na “ginga, nos
movimentos”, a malandragem do capoeirista para enganar o adversário. A ginga serve também para descanso,
mas não tirando a possibilidade de ataque e contra-ataque. É a dança que se usa antes de atacar o oponente, com
objetivo de distraí-lo, e também uma oportunidade para raciocinar a luta e pensar nos golpes.Disponível em
http://www.softwarepublico.gov.br/ver-comunidade?community_id=1101545 Acesso em 24 de maio de 2010
6 Set top box (STB) – Caixa de conversão do sinal de analógico-digital para as transmissões dos sistemas de
radiodifusão de sons e imagens, podendo ser externas ou internas ao aparelho de TV, munidas apenas de proces-
sadores de sinal e/ou de browsers para conexão à internet ou de placa Ginga Full para ações de interatividade.

142
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

Dividido em dois subsistemas principais, o middleware Ginga permite o


desenvolvimento de aplicações, dependendo das funcionalidades requeridas
no projeto de cada aplicação. O Ginga leva em consideração a importância da
televisão, presente em 98% dos lares brasileiros como um meio complementar para
inclusão social/digital. Trata-se de uma especificação aberta, de fácil aprendizagem
e livre de royalties, permitindo que as audiências, independente do país, produzam
conteúdo interativo, o que dará novo impulso às TVs comunitárias, as produtoras
independentes e à produção de conteúdo pelas grandes emissoras
Em breve ficará mais simples para as audiências entenderem exatamente o
que os televisores e os STB disponíveis no mercado serão capazes de fazer com
relação à interatividade, uma das principais características do sistema de TV Digital
aberta implantado no País. A validação dos dois perfis interativos pelo Fórum
SBTVD, durante reunião do Conselho Consultivo realizada em janeiro de 2010,
foi o sinal verde para que o Módulo Técnico finalizasse a reorganização das normas
já existentes para o Ginga, o middleware criado no Brasil, tornando-as mais claras
para a própria indústria. Estas já estão disponíveis desde 15.04.2010, na página
eletrônica da Associação Brasileira de Normas Técnicas, (ABNT). Estes dois
perfis são baseados no que o mercado convencionou chamar até aqui de ‘Ginga
Full’ ou completo, com os módulos Ginga-NCL e Ginga-Java. A diferença é que
o Perfil 2, mais avançado, será capaz de executar monomídias7 de videoclipes, ou
seja, permite a execução de vídeos. Pense na transmissão de um jogo de futebol.
Nos dois perfis será possível interagir com a programação consultando tabelas de
classificação, escalações, e outras informações em texto ou fotos. Mas só no Perfil
2, mais avançado, será possível assistir a qualquer momento ao replay do gol, sem
que esse vídeo se sobreponha totalmente ao vídeo principal8.
A aprovação e publicação das normas pela ABNT são pré-requisitos para
a que outras partes do Ginga, além do módulo NCL, sejam reconhecidas pela
União Internacional de Telecomunicações -UIT, e a arquitetura do middleware
brasileiro, harmonizada tecnicamente com a dos outros três padrões mundiais
(o americano ATSC, o europeu DVB e o japonês ISDB) passe a ser adotada
como estrutura modelo para “o padrão internacional” definido para UIT. Esta
recomendação será capaz de garantir que aplicações criadas para qualquer um
deles possam ser reconhecidas por todos os sistemas de TV digital.
Esta ação, também dá início também a uma nova etapa do esforço de
transformar a TV Digital em uma TV interativa: a de certificação de aparelhos
e aplicações em conformidade com o padrão técnico estabelecido. O Fórum
SBTVD, responsável por auxiliar a implantação do sistema de TV Digital no país,
7 Monomídias - conjunto de aplicativos que formam um padrão específico voltado ao reconhecimento de da-
dos, vídeos ou áudios por uma plataforma digital
8 Entrevista da Sra. Ana Elisa Faria e Silva, concedida ao site Convergência Digital. Disponível em www.con-
vergenciadigital.com.br Acesso em 24.de maio de 2010, às 12:35

143
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

já trabalha na definição de uma plataforma de testes de conformidade que possa


ser usada por todo o ecossistema do Ginga. Alguns produtos Ginga começaram
a abastecer as lojas de produtos eletroeletrônicos no primeiro semestre de 2010.
As primeiras TVs com interatividade foram anunciadas no mês de maio desse
ano, aliadas a disponibilidade de um aparelho celular interativos estando, esses
produtos, em conformidade com as normas publicadas. Sabe-se que outros
grandes fabricantes de televisores e pequenos fabricantes de conversores já têm
produtos praticamente prontos para serem lançados no primeiro semestre de
2010.
Acertados os termos da consulta pública sobre as normas dos perfis
de interatividade da TV Digital - o Fórum SBTVD ainda se debruça sobre
outra componente do sistema: o padrão para uso da internet. Na reunião do
Fórum SBTVD, realizada na em 08 de fevereiro de 2010, o governo insistiu na
incorporação do IPv6, o padrão de endereçamento na rede mundial, enquanto
a indústria mostrou-se preocupada com o legado existente de IPv4. O Ipv4 é o
padrão atual, mas já se sabe que ele está chegando perto do limite de capacidade.
O IPv4 usa endereços de 32 bits, enquanto o IPv6 de 128 bits.
Existe todo um parque de equipamentos acumulado com IPv4. Por outro
lado, a substituição do padrão é inevitável, em razão do crescimento exponencial
da internet. Assim, há a necessidade de se tomar uma decisão tecnológica de olho
no futuro. Mas não é possível deixar a interatividade sem definições na TV Digital
até que exista escala para o IPv6. Daí o encaminhamento das negociações para
uma solução mista, por sinal, a exemplo do que internacionalmente se discute,
de manter-se o IPv4 com espaço para crescimento do IPv6. Assim, a certificação
dos produtos é encarada pelos técnicos do Fórum SBTVD como uma das formas
de assegurar a produção de conversores e televisores DTV poderosos, do ponto
de vista da interatividade, e baratos. Discute-se atualmente no Módulo Técnico
o quanto a adoção do protocolo IPV6, em vez do IPV4, pode impactar no preço
final do hardware e gerar legado.
Outro tema decisivo para a implantação plena da TV digital interativa é o
canal de interatividade. A norma brasileira prevê o uso de diferentes tecnologias
para estas finalidades. Estas decisões são fundamentais para a consolidação de
um padrão que mantenha sua força diante do avanço irreversível dos modelos
digitais de acesso à informação, baseados em protocolos IP e que, na maioria
esmagadora dos casos, são remunerados. Nos sistemas de comunicação digital, a
interatividade plena oferece às audiências a possibilidade de troca de informações
entre os receptores e servidores presentes na internet. A comunicação de dados com
os receptores é realizada por meio de aplicações interativas que são transmitidas
em conjunto com os sinais de vídeo e áudio junto ao radiodifusor. No sentido
inverso, a comunicação é provida por meio de deste canal de interatividade, que

144
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

no caso do ISDB-Tb permite a comunicação bidirecional.


Vivemos a era da convergência das tecnologias digitais, aonde o recente
êxito da implantação do sistema brasileiro de televisão digital vai ao encontro
das tecnologias de comunicação sem fio na internet, pavimentando o caminho
da aguardada interatividade plena. Um importante desafio se apresenta com a
possibilidade do país assumir um papel de liderança na definição de um novo
perfil de operação do WiMAX9 abaixo de 1 GHz, denominado WiMAX-700.
Ao desempenhar um papel promissor como canal de interatividade do ISDB-Tb,
amplia as possibilidades de produção de conteúdos audiovisuais digitais10.
Este novo perfil cobre uma faixa ampla do espectro de 400 MHz a 1 GHz
como banda primária e, opcionalmente, de 54 MHz a 400 MHz como banda
secundária. As principais vantagens do WiMAX-700 são:
• Excelente propagação do sinal – até 70 km;
• Melhor penetração em edificações, muito melhor que os demais perfis do
WiMAX;
• Menor desvio Doppler11 gerador de reflexões nas ondas elétricas causando
interferência.
• Reflete em menor custo de implantação de torres e estruturas de suporte
para as áreas remotas ou rurais ou com baixa densidade populacional, isto
representa num menor investimento para a implantação do serviço, ou seja, por
exemplo, um menor número de estações rádio bases;
• Compartilham o espectro dentro do canal de 6 MHz pelo uso de segmentos
do sistema ISDB-T;
• Utilizam outros canais de TV como canais secundários;
• A alocação dos canais é dinâmica, pois uma vez que o serviço primário
tenha sido alocado, o sistema permite o uso de outros canais de forma flexível.
Em outros termos, o WI-MAX 700 pode ser utilizado a partir da mesma
estrutura de transmissão de sinais da TV Digital. Esta tecnologia utiliza parte
do espectro que compreende a banda de transmissão de UHF e oferece canal
de interatividade de modo distinto das outras tecnologias que permitem o canal
de interatividade como as redes de telefonia fixa, as redes de telefonia celular,
9 O WiMAX é um padrão de comunicações sem fio definido pelo IEEE – The Institute of Electrical and Elec-
tronics Engineers – que permite a cobertura abrangente para serviços de comunicações em banda larga sem fio.
10 BARBOSA FILHO, André e MELONI, Luis Geraldo P.A TV Digital interativa e na era das comunicações
sem fio Trabalho apresentado no GP ‘Conteúdos Digitais e Convergências Tecnológicas’, evento componente
do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de 2009
11 O Efeito Doppler é uma característica observada nas ondas quando emitidas ou refletidas por um objeto que
está em movimento com relação ao observador. Foi-lhe atribuído esse nome em homenagem a Johann Christian
Andreas Doppler, que o descreveu teoricamente pela primeira vez em 1842

145
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

os satélites, as redes de fibras óticas, ou seja, independente do uso das redes de


telecomunicações.
Todo este movimento pró-ativo, em nome do desenvolvimento de
tecnologias nos centros de pesquisa e universidades brasileiras, nos remete a
urgência das discussões sobre uma equação que tem como fatores, a inovação, o
desenvolvimento de uma robusta indústria de tecnologia e internacionalização
destes resultados. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea - já
detectou o salto qualitativo dado por muitas empresas brasileiras graças à
inovação industrial, o que nem sempre foi percebido com clareza pelos analistas
e economistas na atualidade.
Quantos analistas acostumados a reduzir o Brasil à macroeconomia
compreenderam a ascensão das exportações? Quantos perceberam as mudanças
que ocorreram no interior das empresas? Nos últimos anos, muitas empresas
brasileiras entraram em sintonia com o novo cenário mundial. Em 2007, as
economias emergentes responderam por cerca de metade do PIB mundial. Desde
que China, Índia, Brasil e Rússia começaram a abrir suas economias, a força de
trabalho global dobrou. Em dez anos, cerca de um bilhão de novos consumidores
entrarão nos mercados, graças ao crescimento dos países emergentes.
A participação dos países em desenvolvimento nas exportações mundiais
foi de mais de 40% em 2009, quando era de 20% nos anos 70. Esses países
já respondem por mais de metade da energia consumida no planeta e tendem
a mudar a qualidade de suas economias com fortes impactos sociais. Empresas
chinesas e indianas já são líderes mundiais em vários setores da economia. Em
algumas áreas tecnológicas, o Brasil também avançou, mas, no conjunto,
apesar do aperfeiçoamento de seus recursos humanos e do visível crescimento
de sua produtividade, as empresas brasileiras ainda precisam modernizar-se para
tornarem-se competitivas.
A integração crescente dos países emergentes à economia global desenha
cenários que apontam para um novo reposicionamento das nações não observado
desde a Revolução Industrial no século 19. Resta saber se eles conseguirão
melhorar efetivamente a vida de seus povos, já que detém mais de 70% das reservas
mundiais. O Produto Interno Bruto – PIB -, a soma das riquezas produzidas por
um país, dos emergentes representa mais de 43% do PIB mundial, enquanto
os PIBs dos EUA e da Europa somados não chegam a 36%. A economia dos
emergentes contribuiu em 2007 com cerca de 70% para o crescimento do PIB
mundial; os países europeus e os EUA contribuíram com menos de 20%.
Se a projeção se confirmar, o volume de capital privado circulando será o
terceiro maior dos últimos 30 anos, perdendo apenas para os recordes de 2006
e 2007. A retomada do fôlego da economia nestas regiões acontece quando a

146
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

economia mundial ainda atravessa recessão. O reaquecimento teria começado


em meados de 2009, quando a tendência de queda teria sido revertida, e deve
prosseguir em 2010, com fluxo de US$ 720 bilhões, e 2011, quando chegará a
US$ 798 bilhões. A retomada, afirma o relatório do Instituto of International
Finance - IIF12 , ocorre no momento em que “o cenário econômico global é
mais propício do que nunca para fluxos em direção a economias emergentes”, em
especial de recursos privados, que responderão por dois terços do total.
Nesta direção, como já mencionamos acima, a ação de internacionalização
do padrão de TV Digital interativa, ISDB-T, é efetivo. Os governos brasileiro e
japonês estão trabalhando em conjunto para mostrar os seus benefícios a todos os
países da América do Sul,Central e da África enfatizando os benefícios sociais da
inclusão digital através da TV digital e a qualidade de imagem, som e robustez do
sinal ISDB-T. Também apresentam outros importantes diferenciais deste sistema
como a recepção por TV móvel com qualidade e interatividade na TV. Oito
países já decidiram pelo mesmo padrão. Outras nações, como se pode observar
no quadro abaixo, estão em fase de decisão
A proposta brasileiro/japonesa gira em torno de ofertas consistentes de apoio
à implantação do padrão ISDB-T. São atividades de desenvolvimento conjunto,
transferências de tecnologia, cooperação em recursos humanos, financiamento
e investimentos industriais. Com relação ao equipamento e à tecnologia
relacionada à televisão digital, o Brasil tem claro o potencial significativo para
o desenvolvimento indústrial conjunto, incluindo a produção de receptores e
de conversores para o desenvolvimento de aplicações interativas. A respeito da
produção de equipamentos transmissores e receptores, o Governo brasileiro tem
se comprometido a envidar esforços para estimular a criação de investimentos
compartilhados entre companhias brasileiras e dos paises que adotem o ISDB-T.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil
(BNDES) dispõe dos seguintes instrumentos para apoiar a implantação do
sistema ISDB-T no estrangeiro:
1. Programa PROTVD13 – Provedor: apoio à exportação aos adotantes do
sistema ISDB-T de bens e serviços, por empresas brasileiras produtoras de
‘software’, de equipamentos de recepção e de produção de conteúdo, de
infra-estrutura para rede de transmissão e de componentes eletrônicos;
2. BNDES-exim Pós-embarque: financiamento à comercialização ao
exterior de bens e serviços produzidos por empresas brasileiras, seja como
“buyer credit” (financiamento contratado diretamente com o importador),
seja como “supplier credit” (refinanciamento ao exportador, mediante o
desconto de títulos de crédito ou a cessão dos direitos creditícios relativos à
12 Institute of international Finance (IFF)– com sede em Genebra, Suiça
13 Programa de Apoio à Implantação do Sistema Brasileiro de TV Digital .

147
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

exportação), com participação de até 100% (em qualquer Incoterm) e prazo


de até 12 anos (de acordo com o tipo de bem ou serviço comercializado).
O BNDES poderá oferecer financiamento na linha BNDES-Exim Pós-
embarque para as exportações de bens e serviços brasileiros para o paises
parceiros. As garantias do financiamento deverão ser oferecidas por bancos
localizados em Moçambique ou submetidas à aprovação pelo Comitê de
Financiamento e Garantia das Exportacções (COFIG) do governo brasileiro.
3. Investimento Direto Externo (IDE): beneficia empresas privadas com
sede no Brasil que tenham na sua estratégia de crescimento a implantação
de unidades no exterior, incluindo ‘joint-ventures’ com produtores locais,
para que desenvolvam atividades industriais ou serviços de engenharia.
O Brasil poderá oferecer apoio técnico aos paises parceiros no processo de
planejamento do espectro radioelétrico com vistas à migração para a televisão
digital. Nesse sentido, a Agência Nacional de Telecomunicações do Brasil
(ANATEL) poderá fornecer assistência técnica a sua contraparte, incluindo, se
for o caso, o acesso aos sistemas desenvolvidos pela Agência brasileira, de forma a
possibilitar a execução do referido planejamento.
O Brasil propõe aos adotantes, através da Agência Brasileira de Cooperação
(ABC), estudar a possibilidade de fornecer equipamentos, prestar assistência
técnica e promover o treinamento de recursos humanos moçambicanos, com
vistas à criação de um Centro de Desenvolvimento de Aplicações de Interatividade
baseadas no ‘middleware’ Ginga, assim como de um Centro de Produção de
Conteúdos Digitais Interativos e Interoperáveis. Os referidos Centros, que seriam
criados com inversões de aproximadamente US$ 300 mil, poderão ser objeto de
um acordo específico entre a Agência Brasileira de Cooperação e sua contraparte.
As áreas de interesse dos dois Centros poderão envolver o desenvolvimento de
aplicativos de ‘software’ para produção de conteúdos; a produção de conteúdos
audiovisuais digitais para diversas plataformas tecnológicas e para a convergência
de meios; e o desenvolvimento de conteúdos e serviços interativos e interoperáveis,
com usabilidade, acessibilidade, mobilidade e portabilidade.
A cooperação acadêmica com Brasil incluiria a colaboração com universidades
brasileiras envolvidas no projeto Ginga e no desenvolvimento de equipamentos
para televisão digital, bem como aquelas que participaram no processo de seleção
e implantação do sistema ISDB-T no Brasil, tais como Universidade de São
Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Universidade Federal da Paraíba,
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, entre outras.
Com respeito à capacitação de recursos humanos, o Brasil oferece aos
parceiros, negociações entre a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior – (CAPES), responsável pelo apoio e pela avaliação da pós-

148
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

graduação, e sua contraparte moçambicana, com o objetivo de conceder bolsas


de mestrado e doutorado para moçambicanos no Brasil, ademais do intercâmbio
de professores e pesquisadores, por intermédio de projetos de pesquisa, com a
participação da CAPES e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq). A CAPES, vinculada ao Ministério da Educação
brasileiro, cumpre um importante papel na expansão e na consolidação de
estudos de pós-graduação “stricto sensu” (cursos de mestrado e doutorado) em
todos os estados brasileiros. Entre os programas estratégicos financiados pela
CAPES, há o Programa de Treinamento de Recursos Humanos em Televisão
Digital (RH-TVD), lançado em novembro de 2007, com o objetivo de produzir
pesquisa científica e tecnológica e o treinamento em televisão digital de recursos
humanos em nível de pós-graduação. São áreas prioritárias cobertas pelo referido
programa:
• Engenharia de software direcionada para a pesquisa e desenvolvimento
de “software” básico, “middleware”, sistemas operacionais e “firmwares14”;
• Propagação eletromagnética, de microondas, de ondas e antenas;
• Informática, engenharia elétrica e eletrônica, nas suas aplicações na
plataforma de TVD, cobertura física e envolvida (transmissão e radiodifusão),
codificação (condensação e codificação de vídeo digital e processamento
de áudio e digital de imagens), cobertura de transporte e interatividade (o
processamento dos sinais digitais e os protocolos de transmissão de dados);
• Gestão, produção, geração, radiodifusão, interatividade e educação em
linha na televisão digital;
• Materiais semicondutores e componentes para o desenvolvimento de
componentes microeletrônicos – microprocessadores, circuitos digitais
de alta velocidade, equipamento para os processos microeletrônicos,
especificamente dirigidos para aplicações de TVD; e
• Telecomunicações.
O Brasil incentivará a cooperação e o intercâmbio de experiências entre
o Fórum Brasileiro de TV Digital (Fórum SBTVD) e instituições dos paises
adotantes do sistema ISDB-T, mediante a entrega da documentação disponível
sobre a implantação da televisão digital no Brasil, incluindo normas do ISDB-T
em inglês, espanhol e português. O Fórum Brasileiro de TV Digital poderá
fornecer assistência aos governos interessados, assim como aos radiodifusores e
demais de suas empresas, com vistas à criação de um fórum nacional similar ao
brasileiro.
14 Em eletrônica e computação, Firmware é o conjunto de instruções operacionais programadas diretamente
no hardware de um equipamento eletrônico. É armazenado permanentemente num circuito integrado (chip)
de memória de hardware

149
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

Ao adotar o ISDB-T como norma de televisão digital, o pais adotante


participará do Fórum Internacional do Sistema ISDB-T, criado em Lima em
21 de setembro de 2009, em igualdade de condições com os seus demais países
constituintes, no qual as Partes podem trabalhar conjuntamente os temas técnicos,
de capacitação de recursos humanos, de transferência tecnológica, de propriedade
intelectual e de harmonização das normas internacionais do sistema ISDB-T.

Considerações Finais
O Sistema Brasileiro de TV Digital, lançado no dia 02/12/2007, representa
a evolução do sistema de TV analógica para o digital. Esta evolução amplia
possibilidades de lazer dos brasileiros, através da melhora significativa da
qualidade de imagem e som; permite a ampliação do acesso gratuito, através da
oferta de multiprogramação, e também possibilita o uso interativo da televisão.
Além do tempo de implantação da infra-estrutura pelos radiodifusores para a
geração do sinal digital em todas as capitais, a qual ocorrerá, segundo previsões da
ANATEL, até o final de 2010, será necessário o uso de Set Top Box para permitir
a visualização do sinal digital em aparelhos de TV analógicos. Com a oferta no
mercado brasileiro de aparelhos receptores de TV digital, prontos para oferecer
aplicativos de interatividade através de plataformas de conexão ou canais de
retorno tem início um processo longo de substituição do parque instalado de
TVs analógicas pelas modernas TVs digitais.
O mercado brasileiro produtor de aparelhos de TV vem se mantendo num
patamar fantástico, com produção anual de 12 milhões de unidades. Outro dado
importante é que o Brasil já conta com cerca de 100 milhões de televisores em
funcionamento. Assim, o objetivo de provermos a maioria dos lares brasileiros,
independente da classe social, de acessibilidade às transmissões de TV digital
é um grande desafio. O acesso das camadas da população com menor poder
aquisitivo à TV digital, principalmente visando à oferta e a utilização de serviços
televisivos interativos de interesse público (consultas médicas do SUS, declaração
de IR, Educação à distância, Bolsa de empregos, T-Governo, etc.) a serem
disponibilizadas, através do projeto de integração de plataformas comuns das TVs
públicas Federais - EBC, TV Justiça, TV Câmara, TV Senado, TV MEC, TV
da Cidadania -, agora com a possibilidade de ser incorporado a um plano mais
abrangente de oferta de informação digital somando-se ao Plano Nacional de
Banda Larga, inclusive com o compartilhamento de sites e antenas..
Tendo em vista o cumprimento dos objetivos ao longo dos dois próximos
anos de exploração comercial nas principais cidades brasileiras, os níveis de
preços praticados na venda dos “set top box” deveriam baixar o quanto antes. Com
a dimensão do mercado brasileiro, tanto para set top boxes como para TVs digitais

150
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

built-in (que utilizarão os set-top-box embutidos na TV), é de esperar que os


preços dos componentes caiam drasticamente, a médio prazo, ainda mais com a
mencionada adesão de vários países ao ISDB-Tb.
O sistema de TV Digital, adotado em nosso País, impõe o uso de alguns
padrões tecnológicos ao ISDB-T japonês original como, por exemplo, o uso do
H264 (MPEG4) como ferramenta de compressão de vídeo, mais eficiente do que
o MPEG2 utilizado pelos outros sistemas internacionais e que possibilita o uso da
multiprogramação ou transmissão simultânea de quatro ou mais programações
pelo mesmo canal. As vantagens que a multiprogramação garantem a expansão
da produção de conteúdos audiovisuais são fáceis de perceber.
Com esta iniciativa de atingir um nível de oferta a preços acessíveis a todos
os brasileiros das caixas conversoras do sinal de TV digital, completaremos a
tríade composta pela infra-estrutura que está sendo construída com o projeto
das plataformas comuns de transmissão de sinal digital das emissoras públicas
federais e do projeto de disseminação de conteúdos interativos. Deste modo
estaremos a partir da América Latina, atingindo um novo patamar para o uso
indiscriminado da TV Digital interativa, de acordo com o nosso objetivo maior
qual seja, o de aproveitá-la, o mais breve possível, como ferramenta de inclusão
digital e passaporte para a cidadania plena.

Referências Bibliográficas
BARBOSA FILHO, André e MELONI, Luis Geraldo P.A TV Digital
interativa e na era das comunicações sem fio Trabalho apresentado no GP ‘Conteúdos
Digitais e Convergências Tecnológicas’, evento componente do XXXII Congresso
Brasileiro de Ciências da Comunicação. Curitiba, PR – 4 a 7 de setembro de
2009.
BARBOSA Fº, André, CASTRO, Cosette e TOME, Takashi. Mídias
Digitais, Convergência Tecnológica e Inclusão Social. São Paulo: Paulinas, 2005.
BARBOSA FILHO, André, CASTRO, Cosette (2008). Comunicação
Digital- educação, tecnologia e novos comportamentos. São Paulo: Ed. Paulinas,
2008.
Entrevista da Sra. Ana Elisa Faria e Silva, concedida ao site Convergência
Digital. Disponível em www.convergenciadigital.com.br Acesso em 24.de maio
de 2010.
Disponível em http://www.marketanalysis.com.br/mab/conteudo.
php?pg=biblioteca. Acesso em 23 de maio de 2010.
Disponível em www.wikipedia.org/wiki/Ginga Acesso em 24 de maio de

151
Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional
de inclusão

2010.
Disponível em HTTP://www.softwarepublico.gov.br/ver-
comunidade?community_id=1101545 Acesso em 24 de maio de 2010.
Disponível em www.ginga.org.br Acesso em 24 de maio de 2010 .

152
CAPÍTULO 2

Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos1

Anita Simis2

Em julho de 1990, portanto, há mais de 20 anos, publiquei no Jornal do Brasil um


artigo intitulado “De volta ao cinema dos anos 20?”. Vivíamos então o chamado
desmanche do Estado, quando o governo extinguiu ou dissolveu diversos órgãos
e criou a Secretaria da Cultura. Diversas instituições simplesmente deixavam de
existir: o Ministério da Cultura (1985), que significava apenas 0,5% do orçamento
da União, a Fundação do Cinema Brasileiro (1987), que além de realizar festivais
e conceder prêmios, desenvolvia a pesquisa, a conservação de filmes e a formação
profissional, o Concine (1976), que exercia a função de normatizar, controlar
e fiscalizar as atividades cinematográficas e de vídeo e produzia dados diversos
sobre o desenvolvimento da atividade, a Embrafilme (1969), agência criada
durante o regime militar e responsável por diversas atividades entre as quais o
financiamento, a distribuição e a exibição dos filmes nacionais.
Ironizando o fato, procurei mostrar que haviam escolhido mal o cenário
para o enredo de um filme nacional oficial, afinal, desmantelando as instituições
voltávamos à estaca dos anos 1920. E acrescentava: “Se o enredo voltasse aos
anos 10, certamente os defensores da ausência de uma política cultural teriam
argumentos mais sólidos. No entanto, os anos 10 parecem estar a léguas de
distância, enquanto os anos 20 em tudo se assemelham à nossa atual situação”.
A comparação se justificava ao demonstrar que a argumentação neoliberal
fazia sentido para um tempo em que o cinema brasileiro era produzido com base
na lei do livre mercado, num estado de nostálgica melancolia mofada. Na toada
liberal, alguns artigos enfatizavam inclusive que desenvolvimento da produção
cultural rimava com o uso das próprias forças da arte, que para superar a crise dos
anos 1980 era necessário valer-se de uma dose de inventividade, saúde e coragem!
Esse estado existia no período entre 1908 e 1913, quando o Brasil alcançou
uma produção de 963 títulos, quando não havia uma cisão entre produtores e
exibidores, funções que na verdade se traduziam na mesma pessoa, e isso sem
esquecermos que as distribuidoras norte-americanas só se estabeleceram no Brasil
após a Primeira Guerra, cabendo a importação dos filmes igualmente à mesma

1 Comunicação apresentada no Fórum Panorama Brasileiro da Comunicação: Perspectivas do Século XXI,


Ipea/Socicom. Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 10 de setembro de 2010.
2 Professora Livre-Docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras da Universidade Estadual Paulista – UNESP.

153
Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos

pessoa do produtor/exibidor. Assim, filmes como Os Estranguladores (1908) e Paz


e Amor (1910) não sofreram restrições, sendo o primeiro exibido mais de 800
vezes em dois meses, e o segundo mais de 900!
Já nos anos 1920, vários pontos de intersecção podiam ser identificados com
os 1990, pois a atuação do governo Collor no campo cultural pretendia voltar
aos tempos em que o Estado ainda não havia ensaiado qualquer intervenção
que favorecesse o florescimento de uma indústria cinematográfica, deixando os
produtores brasileiros livres para encontrar as vias de expressão, mas, sublinhe-se,
num mercado agora totalmente organizado em função dos interesses do cinema
estrangeiro.
Essa aversão ao Estado, como agente capaz de sinalizar uma política,
especialmente no âmbito da cultura, com o argumento de que o Estado que
empresa espetáculos patrocina artistas ou promove iniciativas na verdade favorece
uma “cultura oficial”, foi a tônica repisada na imprensa durante vários anos. Com
as devidas ressalvas, mesmo Fernando Henrique Cardoso somava suas teses ao
argumento, declarando em 1990: “O pensamento da esquerda, especialmente
na América Latina, se baseou muito na ideia de que o fundamental era o
desenvolvimento, de que o Estado era a agência central para esse desenvolvimento
e de que os instrumentos coletivos de ação primavam sobre os individuais. Hoje,
a tese de que o Estado é fundamental para o desenvolvimento não deve ser
mais um dogma de esquerda. Já há categorias sociais específicas que cuidam do
desenvolvimento, os empresários”. (Folha de S. Paulo, 11/3/1990).
Por outro lado, analisando vastos períodos da política cultural e do
desenvolvimento da indústria cultural, não podemos deixar de notar que a
intervenção do Estado nos períodos fechados foi intensa e muitas vezes tolheu a
liberdade e criatividade de expressão. Mas, se desde os primórdios da preocupação
do Estado com questão cultural, ainda no século XIX, quando, sob influência
europeia, sob a ideologia positivista, o Brasil precisava ser “civilizado”, quando
cultura significava civilização e estava imbricada na educação, foram criadas a
partir do Estado instituições como bibliotecas, escolas de belas artes, museus,
arquivos, hoje, a preocupação já não é com a nação, mas com a sociedade. Já
superamos o paradigma da nacionalidade, não se trata mais de construir uma
nação, mas de democratizar uma sociedade injusta e desigual, de construirmos
um diálogo aberto para o mundo.
Evidentemente, não podemos deixar de evidenciar o peso desse legado e
perceber o quanto somos ainda credores dos resquícios desse passado, mas já
podemos enxergar avanços significativos. Assim, já não se propõe um Estado
para intervir, centralizar decisões, principalmente para difundir o nacionalismo
e propor uma integração nacional pelo alto. Sem a contundência e eficácia do
caráter repressivo, controlador e centralizador dos regimes autoritários, felizmente
154
Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos

desmoronaram seus mecanismos e, caso se notem vestígios, são prontamente


denunciados. Tal como no pós 1945, podemos olhar no espelho retrovisor das
políticas que a partir do final do regime militar houve uma intensa atuação no
sentido de procurar uma via de organização dos produtores de cultura em busca
de sua sobrevivência, de medidas que se ajustassem no sentido de destravar
amarras que os ligassem ao Estado, sem, no entanto, prescindir de sua presença
justamente no sentido de garantir a competição no mercado, especialmente no
âmbito da indústria cultural, onde predomina o produto estrangeiro, produto
que, por sua vez, aproveitou para se desvencilhar de toda e qualquer obrigação
tributária ou restrição com base regulamentar.
Talvez a última crise de 2009 ainda não tenha colocado com a devida ênfase
que só o Estado pode favorecer normas consensuais para um regime de livre
iniciativa, de livre concorrência e da prevenção ao abuso do poder econômico.
Sem essas normas, o que se apresenta é um mercado onde a livre concorrência se
impõe entre leões e macacos no terreno deserto, sem qualquer árvore que possa
salvar ao menos uma família de macacos.
É nesse sentido que entendemos a atual disposição de efetuar o convênio
entre Ipea e Socicom. Particularmente em seu subprojeto 2, que trata das
Indústrias Criativas, propõem-se bases para uma política que sinalize as vias
de desenvolvimento das indústrias da comunicação e da cultura que estão
estruturadas a partir das tecnologias da informação e da comunicação (TICs).
A fundação, em conjunto com representantes de 14 entidades que compõem a
federação, se propõe a patrocinar e instrumentalizar governo e sociedade com
uma pesquisa inédita no âmbito das Indústrias Criativas.
Trata-se de iniciar uma análise acerca do desenvolvimento, na primeira
década do novo século, e as perspectivas para a próxima década, nos setores
de mídia impressa e virtual (jornal, revista e livro), mídia sonora (rádio, disco,
telefone e novos suportes), mídia audiovisual (cinema, televisão, videojogos e
vídeo), multimídia (internet, outdoor, aparatos móveis e convergência de mídias).
Estão previstos, assim, os seguintes indicadores a serem perseguidos nos próximos
anos:
1. Mídia impressa e virtual: jornal, revista e livro.
1.1. Jornal: assinantes por ano, número de jornais existentes por ano, volume
de vendagem de jornais por ano, investimento publicitário por jornal.
1.2. Revista: assinantes por ano, número de revistas publicadas por ano,
volume de vendagem de revistas por ano, investimento publicitário por revista.
1.3. Livro: vendas de livros por ano, número de livros publicados por ano,
volume de vendagem de livros por ano.

155
Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos

2. Mídia sonora: rádio, disco e novos suportes.


2.1. Rádio: número de empresas existentes por ano, número de empresas
de rádios digitais existentes por ano, número de emissoras de rádio por estado,
investimento publicitário.
2.2. Indústria fonográfica: formatos (disco, CD, VHS, DVD, digital),
número de discos/DVD vendidos por ano, número de músicas digitais vendidas
por ano, número de empresas gravadoras por ano, número de CDs e DVDs
piratas apreendidos por ano, consumo do repertório nacional, internacional e
clássico no mercado fonográfico brasileiro 2001-2009.
3. Mídia audiovisual: cinema, televisão, videojogos e vídeo.
3.1. Cinema: número de espectadores de filmes nacionais por ano, número de
espectadores de filmes estrangeiros por ano, número de produtoras existentes por
ano, longa metragem e curta metragem, número de filmes nacionais produzidos
por ano, número de filmes nacionais exibidos por ano, número de filmes
estrangeiros exibidos por ano, número de cineclubes por estado, número de salas
de cinema por estado, número de assentos nas salas de cinema por estado, total
de espectadores por ano, preço médio de ingressos vendidos por cinema, remessa
dos lucros dos filmes estrangeiros com dados sobre o remetente, o favorecido no
exterior e o valor por ano (Banco Central), número de distribuidoras nacionais e
internacionais, número de redes de exibição e exibidores independentes.
3.2. Televisão e TV por assinatura: número de redes de televisão por região,
número de aparelhos de televisão por região, número de assinantes por ano,
número de espectadores de TV aberta por ano, número de assinantes de TV por
assinatura por ano, número de filmes estrangeiros exibidos na TV aberta por ano,
número de filmes nacionais exibidos na TV aberta por ano, número de filmes
nacionais exibidos na TV por assinatura por ano, número de filmes estrangeiros
exibidos na TV por assinatura por ano, horas/semana por categorias/gênero
dos programas por região, horas de programação nacional exportadas por ano e
por emissora, investimento publicitário e número de redes de televisão, abertas,
fechadas e em UHF.
3.3. Vídeo: número de videolocadoras existentes por ano, número de vídeos
nacionais lançados por ano, número de vídeos estrangeiros lançados por ano.
3.4. Videojogos: produção de videojogos nacionais, investimentos
publicitários em videojogos, espaços midiáticos especializados em programas
de videojogos, número de empresas brasileiras que desenvolvem videojogos,
resultados econômicos do setor; exportação de videojogos.
4. Multimídia: internet, outdoor, telefonia, aparatos móveis, investimento
publicitário por cada um dos veículos.
156
Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos

4.1. Internet: número de operadoras por ano, número de casas de lan-house


por ano, número de computadores conectados (domicílios, escolas, empresas).
4.2. Outdoor: número de outdoors por ano.
4.3. Aparatos móveis, número de Iphones, número de Ipods, número de
podcasts, número de smartphones.
4.4. Telefonia: número de empresas produtoras de aparelhos móveis e fixos
de telefone, número de celulares móveis e fixos vendidos, produção de conteúdos
digitais para celulares, mercado publicitário para celulares e número de usuários
de telefone com acesso a banda larga.
A realização da pesquisa leva em conta a combinação de métodos qualitativos
(análise de dados primários em fontes estatísticas e congêneres, bem como a
consulta a fontes bibliográficas e hemerográficas) e quantitativos (elaboração de
índices comparativos e projetivos). Essa pesquisa compreenderá uma publicação
impressa e um site com a indicação de dados e fontes para a alimentação contínua
de um Observatório Nacional das Políticas Públicas de Comunicação. Esse
Observatório será um instrumento fundamental para produção de indicadores
sequenciais capazes de compreender as tendências na comunicação, e em
particular das Indústrias Criativas, e assim orientar a constituição de uma política
planejada. Para tanto, será imprescindível a interlocução entre organismos oficiais
(ministérios, agências, institutos, principalmente o IBGE, etc.) e privados (Itaú
Cultural, Sesc, Senac, Observatórios, etc.).
Esse trabalho poderá, assim, fortalecer mecanismos de planejamento
sistêmico na área, submetendo o improviso a um controle, mas sem inibir a
disposição para uma política original, ou, ao menos, quando já introduzida em
outros países, nunca posta em prática no Brasil. Quem sabe assim não voltemos
mais aos anos 1920, quando o cineasta ou outros produtores de cultura eram
vistos como aventureiros, vagabundos e até vigaristas, constituindo uma sólida
indústria criativa que afaste o pessimismo daqueles que pregavam bordões como:
“O Brasil não produz filmes, assim como não produz cerejas”.

157
158
CAPÍTULO 3

Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e


concentração de capital (1870-2008)

Gilberto Maringoni1

Um mundo em convulsão
A última década do século XX foi palco das mais profundas transformações no
terreno da mídia acontecidas após o advento da segunda Revolução Industrial, nos
anos 1870. As empresas e redes de comunicação, anteriormente compreendidas
em limites nacionais, têm se integrado a um verdadeiro sistema transnacional,
cujos polos irradiadores são os oligopólios midiáticos dos países centrais, em
especial os dos Estados Unidos.
As empresas que formam essas articulações, muitas vezes, não estão
apenas ligadas à área específica da informação. São corporações com interesses
no sistema financeiro e nas indústrias imobiliária, armamentista ou energética.
Por esse motivo, a lógica do setor aproxima-se à da que ocorre em outras esferas
do capitalismo internacional, com os mundos das finanças, do comércio e da
indústria, que se realizam cada vez mais em escala global.
Em tempo algum da história da humanidade tantas pessoas tiveram
tanto acesso à informação e a produtos comunicacionais. As redes de televisão,
de telefonia e de internet cobrem praticamente todos os pontos do planeta. A
redução das taxas de analfabetismo e a elevação dos padrões de vida em vários
países aumentaram de maneira inédita a circulação de meios impressos, cuja
sobrevivência é sempre colocada em questão. Nem mesmo a competição com
outros produtos tem reduzido suas tiragens em termos absolutos. A indústria de
informações jamais teve um alcance tão grande como nos dias que correm.
Ao mesmo tempo, nunca a propriedade dos emissores de informação esteve
tão concentrada nas mãos de poucos grupos. Os empreendimentos de porte do
setor exigem inversões de capital cada vez maiores, dificilmente realizadas por
empresas de âmbito local ou nacional.
1 Jornalista, doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo (2006) e graduado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo pela mesma universidade (1986).
Tem experiência na área de História, com ênfase em América Latina contemporânea, História da imprensa
e História do Brasil Império. Tem estudos focados nos temas: imprensa, escravidão, relações internacionais,
endividamento público e modelos de desenvolvimento. É autor de dez livros, entre eles Barão de Mauá, o
empreendedor (Aori, 2007), A Venezuela que se inventa - poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Edi-
tora Fundação Perseu Abramo, 2004) e A revolução venezuelana (Edunesp, 2009). É professor de jornalismo
na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, em São Paulo, e bolsista do Programa Nacional de Pesquisas
Econômicas (PNPE) no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

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Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-
2008)

Tal desenvolvimento se deu por meio da formação de grupos que enfeixam a


propriedade de várias empresas de ramos diversos, através de sólidos adensamentos
verticais. O fenômeno foi facilitado pela convergência de mídias, possibilitada
pelo avanço da tecnologia digital. Os interesses comuns vão da área editorial
impressa, passando pelas indústrias fonográfica, cinematográfica, de telefonia, de
internet, institutos de pesquisa, até a televisão e o rádio. À concentração vertical
se soma o domínio horizontal – isto é, por várias regiões – dos principais meios
por um mesmo empreendimento.
Essa conformação não é nova. Ela vem se desenhando há mais de um século
pelo continente.

A imprensa e os ciclos históricos continentais


O desenvolvimento da atividade de imprensa na América Latina e sua
constituição como grande empresa capitalista, nas duas últimas décadas do século
XIX, são produtos de pelo menos dois processos históricos simultâneos: uma
nova inserção do continente no mercado mundial e os avanços tecnológicos
possibilitados pela segunda Revolução Industrial (1870). Até então, a atividade
era predominantemente artesanal, caracterizada por prelos manuais, baixas
tiragens e ausência de profissionalismo.
A partir de 1870, um novo quadro de crescimento econômico, advindo
das atividades agroexportadoras, alargou os mercados internos em cada país,
possibilitou a ampliação das camadas médias da população, reduziu as taxas de
analfabetismo, incrementou o consumo de bens manufaturados e criou condições,
entre outras atividades, para o desenvolvimento de meios de comunicação
impressos.
O progresso técnico do período, para o setor, pode ser sintetizado pela
chegada da máquina rotativa, nos anos 1880-1890. Além desta, outras novidades
tecnológicas melhoraram a qualidade, facilitaram a reprodução e baratearam o
preço unitário final de produtos impressos. Um conjunto de inovações mais ou
menos concomitantes mudou a forma de se fazer jornal. Foram elas: o uso do
telégrafo para a transmissão rápida de informações, o linotipo a quente para a
composição de textos, a clicheria para a utilização de imagens, a zincografia como
meio de impressão e a máquina rotativa como forma de reprodução em larga
escala.
No Brasil, a marca dessa época foi o surgimento do Jornal do Brasil, em 9
de abril de 1891. Na Argentina, os grandes marcos do jornalismo dessa fase são
La Prensa (1869) e La Nación (1870). La Prensa tem uma tiragem inicial de 25

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Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-
2008)

mil exemplares2 e alcança 77 mil em 1900. Seu concorrente, La Nación, surgido


três meses depois, em janeiro de 1870, era resultado de uma sociedade de cotas,
liderada pelo ex-presidente da República Bartolomé Mitre. A tiragem inicial era
modesta, mil exemplares. Logo, o jornal passou a utilizar os serviços de agências
de notícias, como Havas (França), Reuters (Inglaterra) e Wolf (Alemanha). Seu
serviço de correspondentes internos, na primeira fase, era baseado em serviços de
pombos-correio3.
O espaço para a convivência entre iniciativas de pequenos grupos e vultosos
empreendimentos reduz-se. Os órgãos menores – editados a partir de pequenas
cotizações – que não desapareceram tiveram sua importância editorial e política
bastante limitada. Há uma tendência à redução do número de títulos disponíveis
ao público.

Desenvolvimentismo, nacionalismo e comunicações


O período histórico que se convencionou arbitrariamente chamar de era do rádio
coincide com os anos classificados como os do populismo na política continental.
Mais tarde, no segundo pós-Guerra, um neologismo seria criado para classificar
a matriz econômica desses tempos: o nacional desenvolvimentismo, ou período de
substituição de importações.
O desenvolvimento tecnológico e a ampliação do número de emissoras
fez com que os países começassem a esboçar dispositivos legais para regular algo
inteiramente novo, o ar como espaço público. A suposição básica era a de que o
espaço radioelétrico não é ilimitado e pertence à nação. A maioria dos Estados
entendeu que o funcionamento das emissoras deveria ser feito sob o regime de
concessão pública, renovável ou não, embora a maioria das emissoras tivesse
caráter privado. As emissões radiofônicas mostraram uma capacidade ímpar de
consolidar a ideia de nação.
O caso colombiano desse processo é exemplar. Vejamos as palavras do
historiador Reynaldo Pareja:
Antes da aparição e da difusão nacional do rádio, o país era um quebra-
cabeças de regiões altamente fechadas em si próprias. A Colômbia podia
ser denominada, antes de 1940, mais como um país de países do que como
uma nação. Com as ressalvas do caso, a radiodifusão permitiu vivenciar-
se na Colômbia uma unidade nacional invisível, uma ‘identidade cultural’
compartilhada simultaneamente pelos costeños, os paisas, os pastusos os

2 Ulanovsky, Carlos, Paren lãs rotativas, diários, revistas y periodistas (1920-1969), emecé, Buenos Aires, 2005, pág. 21.
3 Idem, pág. 26. É nesta fase que o investimento em imprensa muda de patamar e de escala. Sai de cena o im-
proviso e colocam-se no mercado empresas de comunicação de porte até então inédito.

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Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-
2008)

santandereanos e os cachaços4.
Gigantes da mídia
O traço fundamental da alteração do perfil dos negócios da mídia, delineado a partir
dos anos 1930-1940 e concretizado após a II Guerra, é a constituição de grupos
empresariais de comunicação. Estes se caracterizam pela propriedade cruzada
de vários meios, como revistas, jornais, emissoras de rádio e, posteriormente,
de televisão. O exemplo maior desses anos foram os Diários Associados. Suas
empresas se constituíram a partir do lançamento de O Jornal (1924), no Rio de
Janeiro, pelo empresário brasileiro Assis Chateaubriand (1892-1968).
O grupo consolidou-se com a publicação da revista semanal O Cruzeiro, em
1928, com tiragem inicial de 50 mil exemplares. Seu auge aconteceu nos anos
1950, quando alcançou 720 mil exemplares. Os Diários chegaram a compreender,
nos anos 1960, 36 estações de rádio, 34 jornais, 18 canais de televisão, uma revista
de circulação nacional, além de uma agência de notícias e outras publicações
periódicas.
A primeira grande cadeia de periódicos mexicanos começou a se formar a
partir dos anos 1930, com o lançamento do diário Novedades, das Publicações
Herrerías, empresa da família de mesmo nome. O jornal foi transferido, por
imposições políticas, a um grupo de empresários ligados a Miguel de Alemán,
presidente do país entre 1946 e 1952. As famílias O’Farrill e Alemán fizeram do
jornal a ponta de lança de um grande grupo empresarial de comunicações, que
incluía 36 publicações. A cadeia midiática mudou de mãos a partir de 1973,
passando a se denominar Organización Editorial Mexicana (OEM) e conta
com 70 periódicos, 24 emissoras de rádio, um canal de televisão e 43 sítios de
internet, chegando a ser, nos anos 1970, o maior grupo de comunicação em
língua espanhola em todo o mundo.

Televisão, a mão visível do Estado


A partir de 1950, tem início outra etapa da constituição dos sistemas de
comunicação de massa na América Latina. Trata-se do terceiro grande salto
tecnológico, marcado pela chegada da televisão. Privilégio de poucos, nos seus
primórdios, em menos de uma década ela já era um fenômeno popular.
O surgimento da televisão na América Latina se dá, nos maiores países,
preferencialmente pelas mãos do Estado. Isso acontece na Argentina (1951),
como parte da expansão dos meios de comunicação durante o governo de
Juán Domingo Perón (1946-1955), no Chile (1959), através de universidades

4 P areja, Reynaldo, Historia de la Radio en Colombia, Secom, Bogota, 1984, pág 177, citado por Barbeiro,
op. Cit., pág. 234.

162
Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-
2008)

católicas, Venezuela (1952), como parte do esforço de legitimação da ditadura do


general Marcos Pérez Jimenez (1948-1958), e na Colômbia (1954), como peça
do departamento de propaganda da ditadura do general Gustavo Rojas Pinilla
(1953-1962).
No México (1950), há uma particularidade. Seu desenvolvimento esteve
estritamente vinculado à trajetória do PRI (Partido Revolucionário Institucional),
que governou o país por mais de 70 anos, e, por conseguinte, do Estado. Tanto o
consórcio Televisa como seu predecessor, Telesistema Mexicano (1955), cresceram
à sombra do sistema unipartidário. Houve, durante décadas, uma clara aliança
entre governo e os empresários da Televisa.
A América Latina dos anos 1950 apresentava escassa industrialização, e seus
países seguiam sendo primário-exportadores. À exceção de Argentina e Chile,
todos tinham a maioria de suas populações vivendo no meio rural. A televisão
foi, em todos eles, uma espécie de passaporte para a modernidade. No entanto,
a maioria do empresariado duvidava das possibilidades daquela tela iluminada.
O próprio meio publicitário não acreditava em sua eficácia. Houve, além disso,
um entrave crônico ao pleno desenvolvimento do novo veículo: a carência de
capitais.
No início dos anos 1960, uma realidade começa a se impor e uma nova base,
além do Estado, aparece para sustentar o empreendimento: o capital externo, em
especial o estadunidense. Representantes das redes ABC (American Broadcasting
Company), NBC (National Broadcasting Company), CBS (Columbia
Broadcasting Company) e Time-Life Broadcast Station percorrem a região,
oferecendo parcerias. Os aportes de capital não são a única interferência externa.
Ao mesmo tempo, chega boa parte da programação para televisão, cinema e
publicidade, além de vasta gama de produtos industriais. Com tais investimentos,
as emissoras locais conseguiram se viabilizar, atingir públicos crescentes e se tornar
negócios atraentes.
Em muitos países, como subproduto da fase de substituição de importações
e do nacional-desenvolvimentismo, as legislações impunham restrições à entrada
de capital externo no ramo das comunicações. Legislações desse tipo foram
aprovadas na Argentina, no Brasil, na Colômbia, no Chile e no México.
Embora as legislações nacionais fossem claras ao impedir associações com
estrangeiros, a aplicação de tais normas sempre foi flexível. O investimento
estadunidense espalhou-se por vários países. Mas, nos últimos anos da década de
1960, a maioria dos capitais externos saiu das emissoras da Argentina, do Brasil,
do Peru e da Venezuela. Se de um lado isso reduziu os orçamentos das emissoras,
de outro o fato ocorreu quando os empreendimentos já tinham amadurecido e
andavam com as próprias pernas. Entre as causas dessa saída de capitais rumo às

163
Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-
2008)

matrizes estava a rentabilidade maior do mercado dos EUA, num tempo em que
se implantavam no país a TV a cabo e as transmissões por satélite.

Tecnologia digital, o caminho da internacionalização


O quarto marco do desenvolvimento das comunicações na América Latina se
deu no início dos anos 1990, com avanços no terreno da tecnologia digital e da
informática. Esse salto se concretiza em diversas modalidades, como a televisão
digital, as transmissões por cabo e via satélite, a telefonia móvel, a internet etc.,
materializando uma inédita convergência tecnológica. No terreno econômico-
empresarial, a mídia também se internacionaliza. Investimentos, desenvolvimento
tecnológico e estratégias de crescimento passam a ter escala planetária, formando
um mercado cada vez menos competitivo, tendendo à uniformidade de
conteúdos e marcado por intensa concentração de capitais, por meio de fusões e
aquisições por toda parte. Para conformar tal mudança de padrões, legislações são
modificadas em vários países.
Em quase todo o continente, o ponto definidor dessa fase se deu a partir das
políticas de privatização dos anos 1990. De acordo com o pesquisador Marcos
Dantas, as privatizações continentais do setor começaram com a venda da estatal
Compañía de Telecomunicaciones de Chile (CTC), em 1987. O especulador
australiano Alan Bond arrematou a empresa por US$ 270 milhões. Depois de
obter aumentos de preços de tarifas, o empresário elevou em 88% seus lucros em
1998. No ano seguinte, os lucros atingiram US$ 95 milhões. Em 1990, Bond
vendeu 47,7% de suas ações na empresa para a Telefónica de España por US$
390 milhões5.
Em novembro de 1991, a Telecom Argentina – atuante no centro-norte
– foi entregue a um consórcio formado pela France Télécom, STET (hoje Itália
Telecom) e pelo Banco Morgan Stanley. A Entel, que atuava no centro-sul do
país, foi adquirida pela Telefónica de España e pelo Citicorp.
Em dezembro do mesmo ano, a próspera Telmex mexicana foi privatizada
em favor do consórcio France Télécom, Bell South e Grupo Carso, de Carlos
Slim.
Quase nos mesmos dias, a Compañía Anónima Nacional de Teléfonos
de Venezuela (CANTV) foi vendida para o consórcio formado pelas empresas
Telefónica de España, AT&T e GTE. A Telefónica também comprou a Telefónica
Larga Distancia (TLD) porto-riquenha no mesmo ano, e a Entel peruana em
1994.
5 Ruelas, Ana Luz, México y Estados Unidos en laRevolución Mundia l de las Telecomunicaciones, Institute
of Latin American Studies, Austin, Texas, 1995, disponível em http://lanic.utexas.edu/la/mexico/telecom/Li-
bro_TELECOM.pdf

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Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-
2008)

Em 1998, o sistema controlado pelo sistema Telebrás, no Brasil, é fatiado


e vendido aos pedaços – pois não havia investidor capaz de adquiri-lo em sua
totalidade – para os conglomerados Telefónica de España, Grupo Jereissati,
Grupo Opportunity, alguns fundos de pensão e especuladores e aventureiros
internacionais6. A Telebrás era, à época, o maior sistema de comunicações da
periferia capitalista.

Legalização do capital externo


A internacionalização provocada pelas privatizações dos anos 1990, combinada
com o alto endividamento em dólar das empresas de comunicação – em uma
época de crises cambiais na periferia –, levou vários governos da região a
quebrar uma dos pilares das legislações sobre comunicação. Assim, a proibição
de investimentos estrangeiros foi suprimida em graus variados na Argentina, no
Brasil, no Chile, no México, entre outros.
Com crises cambiais sucessivas – especialmente no México (1994), no
Brasil (1999) e na Argentina (2001) –, as empresas locais pressionaram governos
a alterarem legislações, com o objetivo de receberem investimentos de fora.
Na América Latina, a história dos meios de comunicação é a história de
como se constituíram as oligarquias locais e regionais, de como se moldaram
os Estados nacionais e de como o capitalismo se desenvolveu neste pedaço do
mundo. É essencialmente uma história política, de favorecimentos a classes ou
setores de classes em detrimento de outras, em sociedades desiguais, nas quais a
propriedade e a renda são extremamente concentradas.
A sincronização detectada na evolução histórica dos diversos países evidencia
que a mídia continental sempre foi um braço do poder político, incentivando,
apoiando e disseminando medidas próprias de sua lógica.

O futuro, enfim
Que rumos podem ser vislumbrados para o desenvolvimento das comunicações
na América Latina, em meio a aceleradas mudanças nas composições societárias,
nos avanços tecnológicos e nas demandas diversificadas por informação?
A profunda reestruturação tecnológica assistida pelo mundo desde o final dos
anos 1970 e a própria alteração nos padrões de acumulação ensejaram a constituição
de novos tipos de conglomerados de alcance global. O desenvolvimento tecnológico
casou-se à perfeição com uma era de desregulamentação dos mercados em escala
internacional. A livre circulação de capitais, em velocidades inimagináveis há três
6 Informações de Dantas, Marcos, A lógica do capital-informação, Contraponto 2002, Rio de Janeiro, pág. 229.

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Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e concentração de capital (1870-
2008)

décadas, foi possibilitada não apenas por conta da queda de barreiras legais em
cada país. Ela acontece também por força dos avanços na área de automação
bancária, de transmissão de dados e de alocação de investimentos em tempo real
por empresas que operam em diversos pontos do planeta.
Os velhos grupos familiares no continente – Clarín, Edwards, Mesquita,
Frias, Marinho, Civita etc. – se defrontam com duas forças contraditórias. De
um lado, a ameaça real de serem engolidos por organizações gigantescas, em um
ambiente cuja dinâmica não é impulsionada pelos mercados locais, mas pela lógica
de investimentos planetários. De outro, a uma pressão política de baixo para
cima, que reivindica direito à informação e democratização das informações. Para
alguns, a saída tem sido a abertura de seu capital. Para outros, ronda o espectro de
uma concorrência assimétrica, caso não se reestruturem. Repetindo: essa situação
resulta de um liberalismo radical, sempre defendido por eles mesmos.
Os velhos grupos de comunicação continentais percebem agora que a
abertura indiscriminada dos mercados nacionais tem prós e contras para seus
interesses. Se, de um lado, isso possibilita associações e fusões, com consequente
incremento na entrada de capitais para investimentos, de outro coloca a velha
mídia literalmente em xeque. Antigos grupos familiares têm sido obrigados a se
reestruturar à força, para não sucumbirem diante de empreendimentos muito
mais poderosos.
Monopolista, antidemocrática e elitista, a velha mídia dificilmente conseguirá
galvanizar a opinião pública para sua defesa. Há apenas um único ente com porte
e capacidade para realizar um contraponto e buscar garantir que os interesses e os
direitos da cidadania possam prevalecer nesse quadro geral. Trata-se do Estado.
Demonizado e acusado de ineficiente por quase três décadas consecutivas, este
tem condições de impor limites legais à formação de monopólios, outorgar e
suspender concessões públicas e de produzir uma comunicação democrática e de
qualidade, sem se vincular a interesses comerciais imediatos.
A independência do Estado em relação aos agentes privados será tanto maior
quanto mais pública e democrática forem suas características.

166
CAPÍTULO 4

Comunicação institucional do poder público

Antonio Lassance1

Introdução
A comunicação é, ao mesmo tempo, uma das áreas mais importantes e sensíveis
para a gestão pública e uma das menos institucionalizadas. A regulamentação
é escassa, genérica, pouco associada aos objetivos da República e dominada,
em sua publicidade, por “maneirismos” mercadológicos. Possui uma ampla
margem de manobra, o bastante para que ela possa ser bem utilizada em prol
das políticas, programas e ações que precisam se tornar conhecidas, mas aberta
o suficiente para deixar brechas que podem ser distorcidas, ou cujo bom uso
depende não só das virtudes dos governantes, mas da virtude dos que comandam
a comunicação. Tal situação contraria um dos requisitos do funcionamento do
Estado, que é justamente o de ter mecanismos que induzam comportamentos
republicanos, diminuindo ao máximo o espaço para opções entre usar ou abusar
da comunicação.
A discussão aqui apresentada sugere um marco institucional para a
comunicação do Poder Executivo, seguindo o princípio essencial de que poder
público é poder do público sobre o Estado. Deriva daí o pressuposto de que a
comunicação deva ser prestada como uma modalidade a serviço do público.
Toma-se como pressuposto que a comunicação realizada por meio de
organismos estatais deve ser democrática, e pode sê-lo tanto ou mais que em
empresas privadas. Deve ser crítica – o que significa, muitas vezes, nadar contra
a corrente de opiniões largamente disseminadas. E deve ser afinada com os
direitos dos cidadãos, sem ter que simular uma independência do Estado. Não
existe independência em atividades financiadas exclusivamente pelo Estado, que
dependam de suas diretrizes e, principalmente, que tenham que obedecer ao
regramento legal estabelecido. O que pode e deve existir é autonomia, figura
conhecida em âmbito administrativo.
Um serviço público de comunicação é a forma concreta e sistemática de
institucionalização de um tipo próprio e peculiar de comunicação. Próprio porque,
em alguma medida, deve ser realizado diretamente pelo Estado, sem prejuízo
de eventualmente valer-se de serviços especializados contratados no mercado e,
1 Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, da Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e
da Democracia. Foi assessor da Secretaria de Comunicação da Presidência da República e presidente do Con-
selho de Administração da Radiobras.

167
Comunicação institucional do poder público

sobretudo, tendo que conectar-se a redes sociais que operam seus próprios canais
de transmissão de mensagens. Peculiar porque tem características diferenciadas
em relação à comunicação empresarial privada, à autocomunicação de massa ou
das organizações civis, e distinta mesmo da do Legislativo e Judiciário.

O lugar da comunicação do poder público


Pode-se tipificar a comunicação conforme critérios diversos. Tomando-se como
critério o emissor, há quatro tipos fundamentais:
• Comunicação pessoal: aquela estabelecida por cada pessoa, em espaços
públicos ou privados. Tem como meios as conversas pessoais, telefonemas,
e-mails, cartas etc;
• Comunicação do poder público: é a comunicação dos órgãos da
administração pública, sob as mais diferentes formas: desde os comunicados
internos, diários oficiais, notícias veiculadas em seus próprios meios de
comunicação, publicidade (mesmo que paga e veiculada em meios empresariais
privados) e até os pronunciamentos e discursos proferidos pelas autoridades. É
uma comunicação ao mesmo tempo do Estado, de seus órgãos e de seus agentes,
na medida em que estejam no exercício de funções estatais;
• Comunicação empresarial: é a comunicação tradicional dos veículos que
têm a informação e o entretenimento como negócio. É orientada a consumidores
dispostos a pagar, direta (por exemplo, quando compra jornais e revistas) ou
indiretamente (quando consome publicidade no rádio ou na TV aberta). No
mesmo campo se insere a comunicação realizada por empresas de outros ramos
(automóveis, bebidas, roupas, aparelhos eletrônicos), que buscam vender suas
mercadorias e, para tanto, propagandeiam seus atributos ao mercado consumidor.
As próprias empresas de comunicação, aliás, fazem uso intenso de publicidade
para oferecerem-se como mercadoria para o consumo;
• Comunicação das organizações civis: aquela veiculada por partidos,
sindicatos, igrejas, associações, ONGs etc.
Manuel Castells (2007 e 2009) cunha a expressão autocomunicação de
massa para analisar o atual momento de alastramento do uso dos computadores
pessoais conectados à internet, abrindo novas possibilidades comunicativas a
um número cada vez maior de pessoas. Blogs e redes sociais tornaram-se sua
forma preferencial. Mas mesmo essa novidade se enquadra entre os quatros tipos
descritos, sendo a web uma plataforma massiva utilizada principalmente para a
comunicação de caráter pessoal.
É preciso abrir um parêntesis para a crítica ao conceito de “comunicação

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Comunicação institucional do poder público

pública”. As visões que se afirmaram em torno deste conceito partem do


paradigma liberal, segundo o qual a comunicação, para atender aos requisitos da
sociedade, deve afastar-se do Estado, e não se aproximar dele para interferir em
suas diretrizes e ações. Tal falácia normalmente ampara a defesa de uma pretensa
independência da comunicação social financiada pelo poder público em relação
aos governos. Outro problema é a omissão quanto à figura do Estado, da qual o
governo é apenas uma de suas organizações.
Normalmente, se acaba recaindo em uma simulação que pode resultar em
algo mais grave, a dissimulação, ou a tentativa de maquiar a fonte da informação
e os interesses que estão por trás daquela mensagem.
Neste quadro, o conceito de comunicação pública apresenta-se como
deslocado, inconsistente e redundante.
Deslocado porque não identifica claramente seu emissor. Ao contrário,
esforça-se por escondê-lo, o que desrespeita um princípio essencial da comunicação
que é o de deixar clara a fonte dessa informação. Comunicação com credibilidade
depende de que o emissor esteja explícito, para que o público saiba quem é ele e
que interesses representa. Quem recebe uma mensagem tem o direito de conhecer
seu emissor, sem subterfúgios.
Para o Estado, esse reconhecimento é central à sua comunicação. Na medida
em que o público adquira confiança na mensagem recebida e possa livremente
modular sua relevância, pode mais facilmente credenciar sua disseminação. Com
uma revolução comunicativa em curso, as informações a serem disseminadas
dependem muito da credibilidade que gozam e da adesão que alcançam diante dos
filtros estabelecidos pelas pessoas. Se passarem por tais filtros, serão transportadas
para dentro de redes sociais por interlocutores que emprestarão sua própria
credibilidade à mensagem.
O conceito de comunicação pública é inconsistente por ser uma transposição
incorreta do conceito de esfera pública para dentro da organização do Estado, o
que contradiz a própria noção de esfera pública (HABERMAS, 1984). Habermas,
por sinal, enfatiza a importância da opinião formada pelos canais informais (não
estatais e não organizados burocrática e empresarialmente) de comunicação
política (HABERMAS, 1992).
A ideia que se tentou propagar como “modelo” de comunicação para o
setor público não tem lastro teórico algum. Está baseada em algo que se referia
mais apropriadamente à comunicação feita em público, em espaços públicos. A
discussão até ganharia algum sentido se partisse da teoria da participação, que
encontra alguma afinidade com a concepção habermasiana de esfera pública, ou
se estivesse associada à teoria da democracia deliberativa (THOMPSON, 2002).
Mas não foi assim que a ideia foi recepcionada no Brasil.
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Comunicação institucional do poder público

Finalmente, trata-se de um conceito redundante, posto que, a rigor,


toda comunicação tem alguma dimensão pública. Ainda pior é a expressão
“jornalismo público” (conforme alerta KUCINSKI, 2006). Todo emissor se
dirige a algum público. Mesmo a comunicação pessoal tem um destinatário, um
interlocutor, alguém que se constituiu em receptor daquela mensagem. Na era
da autocomunicação de massa, mais ainda, mesmo os sentimentos e os humores
mais íntimos tornam-se objeto de “comunicação pública”.
Em sua contraparte, a dissimulação sobre as responsabilidades quanto ao
que deixou de ser feito, do que foi desfeito ou mal feito – e dos prejuízos causados
a todos –, é uma das formas de favorecer a septicemia da credibilidade do poder
público, que generaliza convicções pessimistas sobre as virtudes do regime
democrático, seus agentes políticos e servidores. É muito comum ver expressões
como “governo analisa...”, “governo concede...”, “autoridades do governo...”,
o que não permite ao cidadão identificar corretamente o responsável pela ação
informada. A ideia de que todos são irresponsáveis anda junto com a percepção
equivocada de que ninguém é responsabilizado.
A comunicação do poder público, portanto, tem atribuições características e
papéis essenciais a serem cumpridos no regime republicano, quais sejam:
1) Comunicar a decisão tomada e esclarecer sua motivação, alcance e
possíveis consequências;
2) Zelar para que a mensagem transmitida seja fiel à decisão oficial. Este é o
requisito básico da qualidade da informação do poder público: fornecer ao
cidadão a fonte oficial da decisão e replicar seu exato teor;
3) Garantir o caráter universal da informação. Significa que ela deve ser
clara a todos os públicos e sua disseminação deve ser irrestrita, gratuita e
rápida, o mais imediata e diretamente possível, garantida a sua qualidade,
valendo-se, para tanto, de meios próprios ou do apoio de outros tipos de
comunicação que amplifiquem seu alcance;
4) Esmiuçar o caráter contraditório das decisões. A atenção para este aspecto
deve estar no fato de que contradição não significa patrocinar a ambivalência,
muito menos a ambiguidade, que são problemas para as políticas públicas
(ZAHARIADIS, 1999; SUBIRATS, 2006). Assumir o caráter polêmico
das decisões é preparar-se para o momento em que elas serão contraditadas.
A comunicação se insere como uma das responsáveis por esmiuçar as
dúvidas suscitadas, rebater as críticas levantadas, apresentar os dados que
fundamentaram a decisão tomada e oferecer exemplos e comparativos, a
partir de situações análogas.
A polêmica permite o exercício da pluralidade, mas não no sentido de

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Comunicação institucional do poder público

dissimular isenção ou imparcialidade, mas de enfrentar o debate, em vez de


escamoteá-lo. É sua obrigação esclarecer a posição do Poder Executivo e exercitá-
la diante do contraditório.
É possível verificar, entre os estudiosos da relação entre comunicação,
opinião pública e políticas públicas, a percepção de que o raquitismo do uso
da comunicação pelo Poder Executivo em alguns países acaba sendo prejudicial
ao desvendamento do que está verdadeiramente em jogo por trás das decisões,
principalmente em tentativas de alterar o status quo. A falta de comunicação ou
sua fragilidade acabam incentivando outro tipo comum de dissimulação: a de que
os assuntos públicos são para especialistas, difíceis de serem abertos a qualquer
um, ao mesmo tempo em que se apregoa uma desqualificação da informação
governamental, tratada normalmente de forma negativa (HOWLETT, 2000).
A comunicação do poder público tem um lugar especial e distinto das
demais. É exercida de modo próprio, autônomo, sem prescindir da colaboração
de outros emissores. Por isso mesmo, embora haja muito a aprender com os casos
de excelência das mais variadas mídias, não lhe cabe imitar o jornalismo privado
ou o marketing comercial, nem competir com modelos e padrões de comunicação
referenciados na concorrência, e não no interesse público.
Deve ser dada ênfase ao caráter imediato, gratuito e de qualidade da
informação prestada. A urgência, cada vez mais exigida, pode interferir na
qualidade da comunicação, ou seja, na fidelidade ao teor das decisões tomadas e
no sentido a elas conferido pelo poder público. O caráter gratuito é dificultado
pela situação de oligopólio da mídia no Brasil (FONSECA, 2010; LIMA, 2001),
haja vista que a disseminação das informações produzidas pelas fontes oficiais é
intermediada em larga escala pelos veículos privados.
Nessa intermediação, a linha que separa a decisão oficial tomada e as
interpretações feitas sobre a mesma é turvada. A cobertura jornalística tradicional
é francamente editorializada, o que é uma característica não só da liberdade de
imprensa, mas do poder imperial que as linhas editoriais exercem sobre a pauta
de cada veículo. Isso acarreta uma dificuldade para o cidadão em identificar
claramente o cerne das decisões (seu teor e alcance), as motivações do poder
público e os interesses da própria imprensa.
No entanto, parte relevante da responsabilidade pela difusão de informações
enviesadas pode ter como origem os próprios agentes políticos e servidores, quando
usam a imprensa na disputa por destaque pessoal ou na busca por interferir na
tomada de decisão.
É uma obrigação do poder público abastecer todas as mídias com notícias.
Mas é preciso abolir a tradição de se alimentar indevidamente alguns veículos
da mídia privada de informações privilegiadas, o que atenta contra os padrões
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Comunicação institucional do poder público

republicanos e o princípio da isonomia. Afinal, os que exercem cargos públicos


estão impedidos de dar qualquer preferência ou tratamento diferenciado a quem
quer que seja, o que inclui os veículos de imprensa privados. Práticas corriqueiras
e naturalizadas de se conceder a determinados veículos e jornalistas os troféus,
apelidados de “furos”, desrespeita o primado da impessoalidade, diante de uma
relação francamente pessoal e comercial (são informações postas à venda no
mercado).
A existência do “off”, por exemplo, é o reconhecimento cabal de que uma
informação dada de maneira particular pode ser injustificável publicamente. A
experiência das páginas pessoais de autoridades, como blogs e microblogs, que
são públicos, é uma boa forma de garantir um fluxo alternativo de informações e
opiniões não institucionais, mantendo a imprensa abastecida, sem a necessidade
de subterfúgios.
Igualmente no caso dos embargos noticiosos que se prestem à barganha de
espaço nos veículos, quando este instrumento deveria se prestar, ampla, e não
restritamente, a alimentar a comunidade de jornalistas especializados, para que
possam oferecer análises melhor trabalhadas e qualificadas.
Assim sendo, uma reformulação da comunicação do poder público deverá
implicar um aprendizado que envolva os profissionais da própria comunicação
e também os gestores governamentais. Estes últimos precisam ser educados a
descumprir uma das regras de ouro do jornalismo tradicional: a de que não se dá
a mesma informação para mais de um jornalista, a não ser para fornecer detalhes
sobre uma mesma decisão, o que poderia permitir nuances, ao gosto de cada
veículo.
A orientação básica deveria ser a de buscar, em primeiro lugar, os veículos de
comunicação do próprio poder público, para formatar a informação e prepará-la
exaustivamente, de forma a evitar justamente a ambivalência e a ambiguidade.
Mas nem sempre é possível ao gestor, principalmente aos que participam da alta
administração, dispor de tempo suficiente para tal. Nestes casos, as coletivas
funcionam como a melhor maneira de expor uma decisão a todos os veículos,
simultaneamente, e permitir que a astúcia de cada jornalista faça diferença,
publicamente.
Nada impede também a concessão de entrevistas ou artigos exclusivos,
quando servem à manifestação de opiniões, e não à antecipação de decisões ou a
um esclarecimento que ainda não tenha se tornado público. É no mínimo digno
de reflexão o costume das exclusivas concedidas por autoridades a veículos que
tornarão aquela informação disponível apenas para assinantes. É desfazer todas as
praxes que apagam a necessária distinção entre o público e o privado em matéria
de comunicação.

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Comunicação institucional do poder público

Princípios
Os princípios da comunicação do poder público devem derivar dos princípios
fundamentais consagrados pelo Art. 1º da Constituição, que define o Estado
brasileiro como uma república federativa, Estado democrático de direito e tendo
como fundamentos a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os
valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, e o pluralismo político.
Tais princípios se articulam com os objetivos fundamentais da República
(Art. 3º) que concernem a:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais
e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação.
São preceitos que devem fundamentar a atenção especial da comunicação
do Poder Executivo em torno de determinados temas da agenda pública. A
projeção internacional do Brasil, a integração latino-americana; a proteção aos
direitos humanos, no que tange à dignidade da pessoa, ao direito à vida, à saúde,
educação, segurança, trabalho, previdência, assistência social e a promoção da
igualdade; as oportunidades de desenvolvimento humano (econômico, social e
cultural), dentre outros, são focos que merecem figurar como pauta prioritária
nos esforços da comunicação institucional do poder público.
A lista de temas setoriais e ações é imensa. Seria importante que, a partir
desses princípios e objetivos propugnados pela Constituição, fossem extraídas
linhas de comunicação capazes de condensar blocos temáticos mais amplos. Em
termos práticos, evitaria que sua cobertura jornalística se embaraçasse num cipoal
de programas e ações e se perdesse no emaranhado de órgãos da administração
federal.
O ideal seria conformar campos de atenção orientados por macropolíticas,
como é o caso da política econômica, da política social e da política de
desenvolvimento. O esforço é grande pelo fato de os governos demonstrarem
dificuldade em estabelecer essas macropolíticas.
O princípio da soberania popular, previsto tanto na forma direta (plebiscito,
referendo e iniciativa popular) quanto na representativa, traz a diretriz que
é comum à maioria das empresas de comunicação financiadas pelo Estado,
em outros países: a de sempre aferir a sintonia entre as decisões tomadas e as
expectativas ou aflições dos cidadãos. Por isso, a importância da ação do poder

173
Comunicação institucional do poder público

público ser sempre testada diante da reação que provoca nas pessoas, seja para
demonstrar seu grau de conhecimento (e menos o desconhecimento, como é
comum nas reportagens que começam com a técnica de “o povo fala”), seja para
estampar suas dúvidas, ponderações ou críticas. A experiência das ouvidorias é
decisiva, mas essa sensibilidade seria expandida com a realização periódica de
pesquisas de opinião, quantitativas e qualitativas, de modo a ajustar seus padrões
de comunicação e mesmo sua programação.
O princípio da harmonia e independência entre os Poderes (Art. 2º da
Constituição) impõe a necessidade de contextualizar as decisões de acordo com
seu processo decisório, incluindo as ações de confirmação ou revisão que podem
ser realizadas pelos demais Poderes. Trata-se da explicitação do complexo sistema
de pesos (ou “freios”) e contrapesos, presentes em dispositivos como o da sanção
ou veto, da emenda e o da ação direta de inconstitucionalidade.
Por sua vez, deve-se entender a natureza do Poder Executivo, que seguindo a
trilha aberta pela teoria política moderna foi dotado de uma série de ingredientes
para que tivesse a devida capacidade para agir. A lista desses requisitos está
consubstanciada na formulação clássica das repúblicas federalistas (HAMILTON,
MADISON e JAY, 1787-1788), que sempre deixou claro que o Executivo é
feito para agir em nome do interesse público. Para tanto, precisa ter unidade
(coesão interna ao próprio Executivo), a necessária provisão de apoio (ou seja,
uma coalizão no Congresso capaz de garantir que as iniciativas do presidente
sejam aprovadas); e ser dotado de prerrogativas substantivas, ou seja, de um
conjunto de poderes suficientes e automáticos para agir (op. cit., p. 644). Tudo
isso contrabalançado por sua temporalidade (limitação do mandato).
Enquanto o parlamento é um poder por natureza plural, o Executivo,
conforme os federalistas clássicos, é um poder hierárquico. O Legislativo pode ser
lento, para que as decisões sejam tomadas consumindo o tempo requerido por
sua pluralidade. O Executivo tem a obrigação de ser rápido e ter uma orientação
unívoca (op. cit., p. 645-650). Sua unidade de comando é um requisito básico
inclusive para que suas falhas exponham eventuais responsáveis, individualmente.
A comunicação do poder público obedece a tais peculiaridades.
O princípio federalista se desdobra na importância de mostrar o longo
caminho que uma decisão tomada em Brasília percorre até tornar-se realidade em
um município, e o quanto esse caminho é afetado por problemas de implementação.
Deve-se esclarecer a lógica de muitos programas e o papel complementar que
se deve estabelecer na cooperação entre União, estados, municípios e Distrito
Federal. Os cuidados a serem tomados na comunicação, por conta da diversidade
do País, estão bem definidos no Art. 2º do Decreto nº 6.555 (de 8/09/2008), que
dispõe sobre as ações de comunicação do Poder Executivo Federal.

174
Comunicação institucional do poder público

A comunicação também tem referência explícita no Art. 37 (Da


Administração Pública), que manda que seja obedecido, pelos órgãos de todas
as esferas, o princípio da publicidade, intimamente associado ao da legalidade,
impessoalidade, moralidade e eficiência. Embora muitas vezes entendido de
forma restrita, o princípio da publicidade vai além da obrigação de proceder à
publicidade legal que torna lícitos os atos, desde as leis e decretos quanto as portarias
de nomeação e contratação de serviços e os editais de abertura de concursos. A
publicidade se refere à necessidade de dar transparência aos atos, estimular os
cidadãos à fiscalização e à participação. Obriga a que sejam fornecidas explicações
que fundamentem as motivações dos atos praticados pela administração, e que
se abra a todos a oportunidade de participar das realizações do poder público.
O parágrafo 1º do referido Art. 37 da Constituição diz ainda que “a
publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos
públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela
não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção
pessoal de autoridades ou servidores públicos”. Isso não exime o poder público de
cumprir informar quem são os gestores responsáveis pelas respectivas ações. Mas
cabe uma melhor especificação de como as autoridades e os servidores devem ser
apresentados ao conhecimento público.
Exige-se que os órgãos sejam devidamente dotados de profissionais
qualificados (o que não significa dizer exclusivamente jornalistas) para exercerem
as funções de porta-vozes, ou mais exatamente, o papel de explicadores das ações
em curso: seus desafios, benefícios e problemas enfrentados. O aperfeiçoamento
da comunicação do Estado requer a formação dos gestores para que sejam
permanentemente capacitados a enfrentar o público em geral e os jornalistas,
em particular. Neste sentido, o papel dos profissionais da área de comunicação
(jornalistas, publicitários, relações públicas e, cada vez mais, os profissionais de
internet) é o de preparar os gestores governamentais para agregarem uma nova
competência gerencial: a competência comunicativa.
Cabe à comunicação dos poderes públicos regulamentar com maior
exatidão o que está previsto para a comunicação social, conforme o Art. 221 da
Constituição, ou seja:
I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção
independente que objetive sua divulgação;
III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme
percentuais estabelecidos em lei;
IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

175
Comunicação institucional do poder público

Entre 2003 e 2010, a Secretaria de Comunicação da Presidência da


República promoveu uma mudança significativa em seus critérios de publicidade
e patrocínio para atender a tal preceito constitucional, além de ter adotado
critérios claros de remuneração dos veículos, que inexistiam anteriormente.
Um tema candente se refere aos conselhos de comunicação social.
O Congresso Nacional (Lei 8.389, de 1991) e, mais recentemente, várias
assembléias legislativas estaduais criaram conselhos para a realização de estudos,
pareceres, recomendações e outras solicitações, e para subsidiar a discussão
sobre a regulação do mercado da comunicação. A EBC (Empresa Brasil de
Comunicação, sucedânea da Radiobras) instituiu (Decreto/6689, de 2008) um
conselho curador, responsável por estabelecer diretrizes e zelar pelo cumprimento
das obrigações dadas pela lei que criou a empresa.
Ao contrário do Poder Legislativo, Executivo e Judiciário não dispõem
de conselhos de comunicação, que poderiam servir de mecanismos de
aconselhamento e definição de diretrizes para a sua própria comunicação, além
de servir de fórum de discussão e sugestão de propostas regulatórias no âmbito
da comunicação social.
O Conselho de Comunicação, no caso do Executivo, deveria ter como
tarefa a supervisão das atividades de comunicação deste poder, contribuindo
para o paulatino detalhamento de suas normas reguladoras. Progressivamente,
proporcionaria a institucionalização da comunicação social do Executivo.
Hoje, a comunicação encontra-se precariamente institucionalizada. Os
profissionais atuam com alto grau de discricionariedade, o que permite maior
flexibilidade, também riscos crescentes. A área da comunicação tem sido regulada
de forma enviesada, por meio de sucessivos acórdãos do TCU, destinados
sobretudo a orientar e direcionar as práticas operacionais de publicidade e
patrocínio.
Um eventual Conselho de Comunicação do Executivo Federal deveria
ser necessariamente formado pela combinação de profissionais de notório
saber e gestores diretamente encarregados da comunicação federal, pois estes
têm detalhes do processo de comunicação muitas vezes ausentes da discussão
acadêmica, da visão dos parlamentares e do ativismo dos órgãos de controle. A
contribuição, tanto do Legislativo quanto do Judiciário, poderia ser incorporada
mediante convites para que os mesmos sugerissem nomes a serem apreciados pelo
Executivo para sua composição.
Uma lista tríplice poderia ser oferecida também pelas conferências de
comunicação, que deveriam ter sua periodicidade estabelecida e sua importância
igualmente formalizada como uma das atribuições do Conselho (convocar,
presidir e sistematizar as sugestões das conferências). O Poder Executivo pode
176
Comunicação institucional do poder público

induzir o processo de institucionalização da comunicação do poder público


também nos estados, municípios e Distrito Federal, seja definindo normas gerais,
seja garantindo a participação nas conferências nacionais de comunicação de
representantes escolhidos nas conferências estaduais. O modelo das conferências
desenvolvido atualmente na maioria dos ministérios segue esse procedimento.
A necessidade de se fixar normas gerais para regular a comunicação dos órgãos
do poder público de todas as esferas é patente. Registre-se que a comunicação
em âmbito federal tem sido positivamente acompanhada com lupa, tanto pela
imprensa, quanto pelos órgãos de controle federais, enquanto pouco se percebe
que em nível estadual e municipal, não raro, ocorrem graves abusos. Sem contar
que o volume de recursos empregados pela comunicação federal está bem abaixo
do patamar despendido por muitos estados, municípios e pelo Distrito Federal.
O princípio da publicidade é requisito à transparência do poder público.
Expandir a regulação da atividade de comunicação federal não só aumentaria o
volume de informações disponíveis ao cidadão como forneceria mensagens mais
apropriadas a sua diversidade.

Em prol de um serviço público de comunicação


A comunicação do poder público tem avançado nos últimos anos, em termos da
modernização de seus padrões, da incorporação de novas plataformas tecnológicas
e da melhoria de sua relação com os cidadãos. Os desafios que se apresentam
dizem respeito à institucionalização de sua atividade, partindo de princípios
republicanos essenciais e detalhando seu modus operandi a partir de consultas
sucessivas, participação popular (conselhos e conferências) e estreita cooperação
com os outros poderes e os órgãos de controle.
O processo deve resultar na formulação de iniciativas legislativas a serem
encaminhadas ao Congresso, além da expedição de decretos e instruções
normativas que forneçam tal detalhamento. No que se refere às normas internas
ao Poder Executivo, a melhor estratégia é a de tornar alguns casos exemplares de
comunicação como passíveis de generalização, transformando-os em regra, e não
em exceção. Os exemplos positivos são muitas vezes exaltados, mas nem sempre
replicados.
Em paralelo, é fundamental organizar a comunicação como serviço público.
Isso demandaria, no Poder Executivo, um redesenho da estrutura da Secom,
criando uma área exclusivamente dedicada a essa tarefa. Atualmente, as áreas
existentes funcionam assoberbadas por funções de atendimento à imprensa,
produção de comunicados oficiais do Presidente e seus ministros, produção
publicitária, realização de eventos e orientação do cumprimento das normas

177
Comunicação institucional do poder público

legais por toda a comunicação do Governo. A inexistência de uma área específica


para conceber e implementar a institucionalização da comunicação faz com que
os esforços empreendidos até o momento ocorram de maneira eventual, e não
sistemática.
Da mesma forma, deve-se reconstituir a área encarregada diretamente pela
comunicação do Poder Executivo Federal. Hoje, tal tarefa se acha “terceirizada”,
sob a incumbência de uma diretoria da EBC denominada EBC serviços. Canais
como a NBR, muito importantes para o Poder Executivo e que já foram de
um padrão exemplar, graças à excelência dos profissionais da antiga Radiobras,
hoje encontram-se aquém da qualidade de imagem, som e conteúdo de seus
congêneres da Câmara, Senado e Justiça. Ao contrário também de seus similares,
o Executivo é o único que não tem um canal de TV aberta e de rádio (a TV e
as rádios Nacional não têm esse perfil). A TV internacional do Brasil (ou TV
Brasil Internacional) é essencial a um país que tem a perspectiva de se tornar a 7ª
economia mundial, entre 2011 e 2012, e a 5ª maior do mundo até 2022.
Um ponto central diz respeito à necessidade de estruturar a carreira dos
gestores da comunicação federal, no âmbito do Executivo. Os profissionais
atualmente trabalham diretamente ligados aos ministros, e não aos ministérios.
Num regime onde os dirigentes superiores são escolhidos em função do
imperativo da montagem de uma coalizão governante, capaz de garantir maioria
congressual, é natural que os órgãos tenham uma cota de cargos de livre nomeação
preenchidos pelo critério de confiança. Isso permite reforçar as diretrizes
políticas, que são fruto da decisão da alta administração, e não de procedimentos
meramente burocráticos.
No entanto, a comunicação precisa ter um corpo de servidores próprios,
de carreira, capazes de acumular competências que são decisivas para se evitar
perder tempo com a inexperiência ou cometer erros primários. A comunicação
também não pode ficar refém da situação, muito comum, da alta rotatividade
desses profissionais, que perambulam com base nas ofertas de remuneração, ora
mais vantajosas no serviço público, ora mais generosas no mercado.
O Brasil encontra-se em um momento crucial de sua história, tanto pelo que
conseguiu conquistar em sua trajetória recente – e de modo bastante acelerado,
quanto pelas oportunidades que se abrem para o futuro. Internamente, várias
de suas políticas alcançam seu ponto de maturidade. Começam a apresentar
resultados mais robustos e a fornecer histórias de vida cada vez mais exuberantes.
A comunicação deveria institucionalizar a responsabilidade de recolher e
sistematizar as histórias que dão rosto às transformações do País. Isso faz parte de
um processo de aprendizado do povo brasileiro, na medida em que evidencia que
a ação do poder público, se bem realizada, gera resultados coletivos que devem

178
Comunicação institucional do poder público

ser incorporados à sua noção de democracia. Muito do que se faz é traduzido em


números, e não em olhares e falas. Estão representadas em coberturas episódicas
e muito centradas em seus dirigentes, e não nas pessoas que são a razão de ser das
políticas públicas e que devem estar no primeiro plano de uma visão republicana
de Estado.
Neste sentido, a comunicação governamental, como a de muitos outros
tipos, acaba reproduzindo o profundo desconhecimento do povo brasileiro
pelos próprios brasileiros. Trazer a comunicação para o cotidiano faz sentido
para a afirmação de uma identidade brasileira e para combater preconceitos
que, infelizmente, se têm generalizado. Sem contar as formas mais tradicionais
e naturalizadas, que desmerecem a mulher, o negro, o deficiente físico, os
homossexuais e os migrantes.
Dada a sua projeção, o Brasil será cada vez mais demandado a se apresentar
ao mundo. Precisará urgentemente produzir conteúdo em várias línguas para
estar à altura do papel que já cumpre internacionalmente.
A busca por cooperação internacional do Brasil tem se intensificado
largamente, a pedido de países da América do Sul e Caribe e do continente
africano. Muito do que se faz em matéria de cooperação técnica poderia
contar com o suporte da produção audiovisual sobre suas políticas sociais e de
desenvolvimento.
A comunicação tem ainda sentido estratégico para que o Brasil tenha
mecanismos robustos de autodefesa baseada em informação, aptos a esclarecer e
defender sua visão de mundo. Inclusive contrapondo-se a possíveis (e previsíveis)
investidas contra sua imagem internacional. Isso já tem sido feito pelo trabalho
da Secom em âmbito internacional, mas o apoio a essa iniciativa também
demandará a produção, em larga escala, de “matéria-prima” sobre a atuação do
Poder Executivo.
As vantagens para esses desafios é que, como tem ocorrido com tantas
outras políticas públicas, os avanços alcançados pela comunicação até o momento
chegaram a um ponto de maturação suficiente para que possam ser devidamente
institucionalizados. Se o que se tem até o momento tornou-se possível graças
ao virtuosismo dos profissionais que estiveram encarregados da comunicação do
Poder Executivo, seu legado pode inscrever-se como traço característico do Estado
republicano. Seria uma garantia para a cidadania brasileira de que o caminho
percorrido, ao ser talhado em suas instituições, seguirá avançando e resistirá ao
tempo.

179
Comunicação institucional do poder público

Referências Bibliográficas
BRASIL, PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Decreto nº 4.563 , de
30.12.2002, que dispõe sobre a atividade de publicidade. <http://www.secom.
gov.br/sobre-a-secom/legislacao/normas-para-o-sicom/decretos/decreto-no-
4.563-de-30.12.2002/at_download/file
BRASIL, PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Decreto nº 6.555 , de
08.09.2008, que regulamenta a atividade de comunicação social do Poder
Executivo. <http://www.secom.gov.br/sobre-a-secom/legislacao/normas-para-o-
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BRASIL, PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Instrução Normativa
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181
182
CAPÍTULO 5

Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics

Marina Nery1

São quatro civilizações distintas que se agruparam em bloco, mas que ainda não
se conhecem o suficiente: Brasil, Rússia, Índia e China, que formam o acróstico
BRIC. “Não é uma questão de informação, mas de uma diferença enorme de
interpretação dessa informação”, afirma Vladimir Davydov, diretor do Instituto
da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, responsável por um dos
maiores núcleos de estudos acadêmicos sobre os BRICs no mundo.
A ideia dos BRICs foi formulada pelo economista-chefe da Goldman Sachs,
Jim O´Neil, em estudo de 2001, intitulado “Building Better Global Economic
BRICs”. Fixou-se como categoria da análise nos meios econômico-financeiros,
empresariais, acadêmicos e de comunicação. Em 2006, o conceito deu origem a
um agrupamento, propriamente dito, incorporado à política externa de Brasil,
Rússia, Índia e China.
Se esses países propuseram uma coalizão, mas precisam, digamos, se conhecer
melhor, é interessante notar que tipo de recursos de comunicação eles utilizam.
Em estudo do Boston Consulting Group (BCG) divulgado em setembro de
2009, a sigla foi ampliada para BRICI e incluiu a Indonésia para contabilizar
que, juntos, esses países terão 1,2 bilhão de internautas em 2015. Em 2009, já
alcançavam 610 milhões de internautas.
O estudo aponta que os hábitos nos BRICI são notadamente diferentes
daqueles de países desenvolvidos. “Mensagens instantâneas são muito mais
populares, assim como as músicas e os jogos online”, diz o relatório. Ele mostra
também que as redes sociais são muito mais utilizadas no Brasil e na Indonésia
que na China, Rússia e Índia. “E enquanto uma grande porcentagem de
consumidores digitais usa e-mail na Índia, na China mais mensagens instantâneas
são utilizadas.”
A quantidade de computadores ainda é relativamente pequena nesses países
– cerca de 400 milhões –, o que resulta na observação de que os usuários dos
BRICI devem se valer mais dos telefones móveis do que dos PCs. “A penetração
de computadores ainda é baixa, enquanto os telefones móveis são mais baratos
e ferramentas mais convenientes tanto para comunicação como para a busca de
entretenimento”, diz o relatório. “Nos BRICI já existem cerca de 1,8 bilhão de
assinantes de SIM Cards, mais de quatro vezes a soma dos EUA e do Japão”,
1 Assessora de Comunicação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

183
Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics

completa o estudo.
Também foi constatado que os internautas dos cinco países são geralmente
jovens – mais de 60% têm menos de 35 anos –, o que significa que os hábitos dos
consumidores ainda estão sendo formados e que os padrões de comportamento
terão grandes implicações no futuro das atividades online.
De acordo com o estudo, um aspecto crítico sobre o Brasil é o alto custo da
banda larga no país, em média de US$ 27 por mês (aproximadamente R$ 50), e
disponível principalmente nos bairros ricos ou de classe média. O relatório indica
que o Brasil conta com 12 milhões de conexões em banda larga, mas ainda possui
9 milhões de acessos discados. E apenas um terço daqueles que têm computador
contam com acesso à rede.
Líder mundial na medição do mundo digital, a ComScore publicou outro
dado interessante sobre os dois mercados emergentes de internet da Índia e do
Brasil: ambos são dominados pelo site de buscas Google. “É interessante que a
dinâmica do uso do Google seja tão similar no Brasil e na Índia, dado que os
dois mercados estão em lados opostos do mundo e são culturalmente bastante
diferentes um do outro”, diz Alex Banks, diretor-administrativo da ComScore na
América Latina. No Brasil, o Google Sites representa 89.5 por cento de todas as
buscas conduzidas, enquanto que o Google Orkut tem uma posição dominante
em redes sociais (96.0 por cento de tempo gasto), assim como o Google Maps na
categoria de mapas (70.9 por cento de tempo gasto) e o YouTube, propriedade do
Google, na categoria multimídia (91.6 por cento).
Na Índia, o Google Sites representa 88.4 por cento de todas as buscas
conduzidas e tem importante fatia do tempo gasto em redes sociais com Orkut
(68.2 por cento), mapas com Google Maps (63.9 por cento), multimídia com
YouTube (82.8 por cento). Também dominou um pouco menos da metade de
todo o tempo gasto na categoria blogs com Blogger (47.6 por cento) e e-mail com
Gmail (46.8 por cento).
Dos quase 2 bilhões de internautas no mundo, a China ocupa o primeiro
lugar em número de usuários. Segundo Li Xiaoyu, conselheiro de imprensa da
Embaixada da China no Brasil, nas estatísticas de abril de 2010 “os internautas
chineses totalizam 404 milhões; os sites são 3,23 milhões, o número de internautas
que usam banda larga chega a 346 milhões, e o número de internautas que usam
celular para acessar a internet é de 233 milhões. Mais de 95,6% das vilas e aldeias
do país têm bandas largas. A rede 3G cobre quase todo o país. O tempo total
diário dos internautas completa um bilhão de horas e vai chegar a 2 bilhões de
horas em 2015”.
Os números chineses surpreendem em tudo. São mais de 2 mil jornais e
9 mil revistas. O consumo diário de jornais é de 82 milhões. Pelos números do
184
Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics

chefe-correspondente do Diário do Povo da China no Brasil, descritos no livro


Reflexão sobre as políticas nacionais de Comunicação, organizado por Daniel Castro
e publicado pelo Ipea em 2010, a tiragem total dos diários chineses ocupa o
primeiro lugar no mundo há oito anos sucessivos. Estatísticas oficiais de 2008
apontam 257 rádios e 277 televisões.
E mais: o número de assinantes de telefonia móvel na China alcançou 796
milhões no fechamento de maio de 2010, segundo o governo chinês. No mesmo
mês, o número de assinantes 3G quase dobrou em relação a 2009. O país mais
populoso do mundo ganhou 48,5 milhões de assinantes de celulares entre janeiro
e maio de 2010. Para se ter uma ideia, em maio do mesmo ano o Brasil chegou
a 183,7 milhões de acessos de telefonia móvel. Mais de 9,4 milhões de novos
assinantes aderiram aos serviços de telefonia móvel em maio, o que contribuiu
para o total, no ano, de 48,5 milhões de novos usuários, revelou o Ministério da
Indústria de Informação da China.
Embora a China permaneça como o maior mercado global móvel em
termos de assinantes, o mercado da Índia tem crescido rapidamente. A Índia
ganhou 16,3 milhões de assinantes móveis em maio, de acordo com a Autoridade
Regulatória de Telecomunicações da Índia. O total de assinantes móveis no país
chegou a 617,5 milhões naquela data. E, atualmente, com o acesso da internet via
telefone, a comunicação mundial está diretamente ligada a esse tipo de conexão.
Segundo Natalya Krasnoboka, pesquisadora da Faculdade de Ciências
Políticas e Sociais da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, 78% dos russos
usam telefones celulares – em 2005, eram 32%. Na capital, Moscou, 90 por cento
da população utilizam celulares.
A internet é usada por 35% dos russos. No interior, esse número cai para
12%. A maior parte dos usuários da internet têm entre os 18 e 24 anos de idade
e está em Moscou (49%), mas cerca de 54% dos russos nunca usaram a rede. As
ligações nas principais cidades – Moscou e São Petersburgo – são mais rápidas e
mais baratas que no resto do país.
Com relação à função da internet em suas vidas, 41% dos russos a utilizam
para fins de informação, 38% para a comunicação, 23% para fins relacionados ao
trabalho, 14% para ver notícias e 12% para educação e aprendizado. Apenas 2%
utilizam a internet para fazer compras online.
Conexões de internet para e-mail são usadas por 79% dos russos, e 76% as
utilizam para as redes sociais. Fóruns online são acessados por 49% dos usuários
da Rússia. Os chats são utilizados por 43%, enquanto que os blogs são utilizados
por 23%.
Todos os jornais, rádios e TVs líderes da Rússia têm sites. Os recursos online

185
Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics

mais utilizados são as informações da agência Regnum, do jornal online Lenta.


Ru e da agência de notícias Interfax. Ao mesmo tempo, apenas 23% dos russos
consideram mídia online uma fonte confiável de informação. Compare isso com
os 70% dos russos que consideram a televisão a fonte mais confiável.
Odnoklassniki.ru é a rede social mais popular na Rússia, utilizada por 75%
dos russos entre 25 e 35 anos. A segunda rede social mais popular é VKontakte.
Seus usuários são mais jovens que os da Odnoklassniki.ru. Por um longo tempo,
o LiveJournal foi particularmente popular entre os blogueiros russos. No entanto,
o blog continua a ser popular entre os jornalistas russos e políticos, inclusive o
atual presidente, Medvedev, conhecido por seu uso intensivo da internet. O líder
da oposição russa Garry Kasparov tem uma presença online visível.
O canal de TV estatal para as crianças, Bibigon, criou uma rede social online
para as crianças. Ele oferece uma gama de jogos online, vídeos, livros, músicas,
etc. Crianças também pode criar agendas e álbuns de fotos. Outro recurso é a
famosa linha de internet do canal de TV Kanal Internet. Da mesma forma é
popular o jogo online do canal Igrovoj Kanal. Ao contrário dos brasileiros e
indianos, os usuários de internet da Rússia preferem o site de buscas russo Yandex
às ferramentas de pesquisa internacionais, como o Google.
Geograficamente, a Rússia está localizada na Europa e também na Ásia. É
o maior país do mundo em termos de território e o nono maior em termos de
população. O tamanho da população da Rússia continua a declinar, embora não
tão rapidamente como em anos anteriores. Um aumento contínuo da imigração
para a Rússia a partir de outras ex-repúblicas da União Soviética quase compensa
a dinâmica negativa do tamanho da população.
O espaço de mídia russa mudou drasticamente desde o período soviético.
A mídia impressa foi particularmente afetada, tornando-se muito volátil nos
primeiros 15 anos após a independência do país. Muitos veículos desapareceram
do dia para a noite e a maioria dos estabelecimentos mudou de dono várias vezes.
Segundo a Associação Nacional de Emissoras de Rádio e TV, existem 2.168
empresas de TV e rádio na Rússia. Dessas, 161 têm uma licença combinada (TV
e rádio), 799 são empresas de TV e 888 são estações de rádio. Existem cerca de
1.511 operadores de cabo.
Há 35.500 jornais registrados na Rússia. Segundo o Instituto de Estatística
da Unesco, havia 1,7 jornal diário por 1 milhão de habitantes na Rússia em 2004.
A circulação média total de jornais diários por mil habitantes foi de 91,8 em 2004.
A participação dos jornais não diários foi de 50,2 por 1 milhão de habitantes.
Vários jornais populares sobreviveram à transição pós-soviética e continuam
a ser populares hoje. Entre eles, Komsomolskaya Pravda, Izvestia, Trud, e
Moskovskiy Komsomolets. Outros estabelecimentos populares incluem o
186
Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics

semanário Argumenty eu Fakty e os jornais Kommersant e Nezavisimaya Gazeta.


Popularidade e números de circulação exatos são difíceis de obter. Supõe-se
que Komsomolskaya Pravda tenha a maior circulação da Rússia e da Comunidade
dos Estados Independentes. Rossijskaya Gazeta é o boletim diário do governo
russo. Sua circulação é de cerca de 432 mil exemplares. O Moscou Times é
um jornal diário em inglês publicado na Rússia desde 1992, com circulação de
aproximadamente 35 mil exemplares. Outros tipos de mídia em inglês incluem o
russo Newsweek e Notícias de Moscou. Novaya Gazeta é o jornal mais conhecido
nacionalmente, sendo abertamente crítico às autoridades russas, com circulação
de 535 mil exemplares.
A estatal de rádio Radio Rossii é o maior canal de rádio difundido no país
(1.100 transmissores). A emissora foi lançada em 1990 e transmite 174 programas
originais. Seu público potencial diário é superior a 120 milhões de pessoas. Mayak
é outra estação de rádio estatal, que transmite programas de informação e música.
A Voz da Rússia é uma estação de rádio estatal em inglês que funciona
desde 1929. Seu objetivo é informar o mundo sobre a Rússia e sua visão sobre os
acontecimentos mundiais. Além disso, a estação tenta criar uma imagem positiva
da Rússia no exterior e promover a cultura russa. Ela transmite em 160 países.
Existem três principais canais de TV federal na Rússia, que, em conjunto
cobrem mais de 90 por cento do território do país. Rossiya (abrange 98,5 por
cento do território do país) é um canal estatal. Foi criado em 1991. O canal
Pervyj Kanal (cobre 98,8 por cento do território da Rússia) é 51% estatal e 49%
de propriedade privada. O terceiro canal – NTV (cobre 84 por cento do território
nacional) – era de Vladimir Gusinsky Aleksandrovich, mas é agora propriedade
da gigante de energia Gazprom. É transmitido por 700 redes de cabo em toda a
Rússia.
Vesti é o canal de notícias. Foi criado em 2006 e é o único canal de
informação russo com um serviço de notícias 24 horas. Em 2005, a Rússia lançou
um canal via satélite em Inglês, Russia Today. O canal é transmitido em mais de
100 países.
Existem cerca de 400 agências de notícias da Rússia. As três maiores são
ITAR-TASS, RIA Novosti e Interfax. A ITAR-TASS é a agência de notícias
estatal, fundada em 1904, que emprega mais de 500 correspondentes na Rússia e
no exterior. É a maior agência de notícias russa e uma das quatro maiores agências
de notícias do mundo, juntamente com a Reuters, Associated Press e Agence
France-Presse. Em uma base diária, a ITAR-TASS oferece entre 350 e 650 itens
de notícias. A agência tem o maior arquivo de fotos na Rússia.
RIA Novosti é uma outra agência de notícias estatal, fundada em 1941.

187
Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics

Possui correspondentes em 40 países e transmite em 14 idiomas. Já a Interfax,


fundada em 1989, é uma agência de notícias privada.
A maior organização de mídia no país é a União de Jornalistas da Rússia. Ela
reúne 84 sindicatos regionais, bem como mais de 40 associações, corporações e
comunidades. Existem vários sites de projetos educativos para jovens jornalistas.
O cenário da mídia russa dos últimos anos caracteriza-se pela contínua
expansão do papel do Estado nas atividades de mídia. O Estado está diretamente
envolvido na posse de alguns meios de comunicação e indiretamente envolvido
em outros, por meio de seus estreitos laços com o mundo dos negócios. Além
disso, o Estado controla as atividades de mídia por meio dos órgãos reguladores e
da legislação relacionada à mídia.
O envolvimento direto do Estado russo no mercado de mídia impressa é
menos pronunciado. Mas a internet continua sendo o espaço para as vozes de
oposição e crítica. Blogar se tornou uma das principais atividades online para a
elite política, intelectual e jornalística. Ao mesmo tempo, a participação nas redes
sociais da Rússia é a atividade online mais popular do país.
Brasil, Rússia, Índia e China formam um grupo especial por causa do
tamanho de suas economias e pelo papel crescente devido ao seu alto potencial
tanto econômico como político. Embora tenham culturas bem diferentes, como
já vimos aqui, os BRICs possuem traços semelhantes. Eles são donos de um vasto
território, com abundância de recursos naturais, suas indústrias são razoalvelmente
desenvolvidas e sua população é enorme, o que significa muita mão-de-obra
e potencial mercado de consumo. E o melhor: embora tenham diferenciados
recursos de comunicação, alguns bem modernos, parecem prometer também
uma verdadeira revolução nesta área nos próximos anos.

188
CAPÍTULO 6

Novos desafios ao direito autoral no jornalismo

João Cláudio Garcia1

Informação é um ativo de importância crescente, mas valor ainda impreciso.


Esse valor, no sentido financeiro, patrimonial, tem sido há décadas ditado pela
“mão invisível” do mercado. Quanto mais informação disponível, maior a
probabilidade de encontrá-la por um custo menor. As tentativas de se precisar o
valor da informação tornaram-se ainda mais frustrantes com a disseminação da
internet e seu acesso por meio de equipamentos portáteis, como celulares 3G e
tablets.
Se o valor da informação pouco oscila e mantém-se baixo diante de sucessivas
inovações tecnológicas, se veículos de comunicação ainda obtêm da publicidade
parte relevante de seu sustento, a remuneração daqueles que produzem informação
também é, por consequência, reduzida. Nas duas últimas décadas, praticamente
todos os grandes e médios jornais impressos brasileiros adaptaram-se para oferecer
conteúdo na internet. Repórteres alteraram suas rotinas para assumir novas
tarefas. Em um dos casos de transição mais radicais no mundo, o britânico The
Daily Telegraph decidiu que o impresso não seria mais prioridade e treinou seus
funcionários para atuarem como “jornalistas totais”, capazes de escrever, editar
vídeos e áudios, operando em uma mesma mesa de trabalho ferramentas voltadas
para tais mídias.
No Brasil, a maioria dos veículos não optou por transição completa para
o mundo digital, apenas adaptou-se a ele. De qualquer forma, o trabalho do
jornalista tornou-se mais diversificado e acessível ao público pela internet. Versões
de textos para a web, podcasts, comentários em streaming, entrevistas em vídeo
e gráficos animados em flash ganharam espaço sítios dos jornais. A rapidez da
informação conquistou terreno diante da qualidade.
Em um exercício interessante de cálculo da velocidade da informação,
Gregory Clark2 lembra que, em 1805, notícias sobre a Batalha de Trafalgar
demoraram 17 dias para chegar a Londres, “viajando”, portanto, a uma velocidade
de 4,3 quilômetros por hora. As primeiras informações sobre o assassinato do
presidente norte-americano Lincoln, em 1865, cruzaram o oceano e aportaram
na capital inglesa após 13 dias, o que corresponde a 19,3 km/h. Em 2008,

1 Coordenador de Multimídia na Assessoria de Comunicação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada


(Ipea), ex-editor de Mundo no Correio Braziliense
2 A farewell to alms: a brief economic history of the world, Princeton University Press, 2007.

189
Novos desafios ao direito autoral no jornalismo

apenas sete minutos3 depois do devastador terremoto de Sichuan, na China, os


primeiros relatos – já em inglês – sobre os estragos despontavam no Twitter. A
informação viajou a impressionantes 61,5 mil km/h. A tecnologia que permite
essa comunicação veloz também possibilita que alertas sobre tsunamis sejam
disseminados mais rápido que as próprias ondas gigantes e poupem vidas.
Oferecer informação mais rapidamente implica que a notícia terá, também,
vida útil mais curta. Logo, as empresas de comunicação acostumam-se a oferecer
cada vez mais conteúdo, seja por texto, vídeo ou áudio, e o usuário escolhe o que
consumir. Na teoria, produção jornalística mais rápida e para mídias diferentes
deveria resultar em remuneração maior e direitos autorais fortalecidos. Na prática,
essa relação evoluiu de maneira desigual. Embora exista lei que regulamente a
questão do direito autoral sobre matérias jornalísticas no Brasil (Lei 9.610/98),
na verdade os grandes protagonistas quando se discute o assunto são os contratos
de trabalho.
Cada obra de “criação do espírito”4 – seja matéria jornalística, fotografia,
pintura, escultura, etc. – é formada por prerrogativas morais e pecuniárias5. As
morais dizem respeito a direitos como o de reivindicar a paternidade da obra,
de assegurar sua integridade, retirá-la de circulação ou de modificá-la. Essas
prerrogativas são, segundo a mesma lei, inegociáveis, irrevogáveis e inalienáveis.
Já as prerrogativas pecuniárias, que tratam dos direitos de exploração econômica
da obra, estas sim podem ser negociadas pelo autor.
Do ponto de vista das empresas, a Lei 9.610 dá ampla margem para que
os direitos patrimoniais sobre a obra sejam regulados via contrato de trabalho.
Diz o artigo 36: o direito de utilização econômica dos escritos publicados pela
imprensa, diária ou periódica, com exceção dos assinados ou que apresentem sinal de
reserva, pertence ao editor, salvo convenção em contrário. A Associação Brasileira da
Propriedade Intelectual dos Jornalistas Profissionais (Apijor), por sua vez, lembra
que o artigo 5º da Constituição Federal concede aos criadores, intérpretes e às
respectivas representações sindicais e associativas, em seu inciso 28, o direito
de fiscalização do aproveitamento econômico das obras que criarem ou de que
participarem.
O que a Apijor e as entidades de classe tentam evitar é a assinatura de
contratos abusivos e a prática de coação. No entanto, a realidade tem mostrado
que, em troca do salário pago em dia e de um bom começo de relação empregatícia,
3 How Fast Information Travels, From 1805 Until Today, Terrence O’Brien, 6 de setembro de 2009, revista
eletrônica Switched
4 Termo utilizado para descrever criações humanas, resultados da criatividade. Aparece no artigo 7º da Lei
9.610/98: “são obras intelectuais protegidas as criações do espírito expressas por qualquer meio ou fixadas em
qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro”.
5 A Comunicação e os Direitos Intelectuais, Ângela Kretschmann, in Estudos Jurídicos, revista da Unidade de
Ciências Jurídicas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), vol. 37, nº 101, 2004.

190
Novos desafios ao direito autoral no jornalismo

o empregado abre mão de pedir detalhes sobre a exploração econômica das obras.
Em geral, a explicação é de que o direito pecuniário já está contemplado na
remuneração. Assim, discutir direito patrimonial torna-se algo supérfluo para o
novo profissional, afligido pela concorrência. Em redações cada vez mais jovens,
o recém-egresso da universidade que consegue obter uma oportunidade sente-se
privilegiado diante de um mercado de trabalho competitivo: até 2008, havia no
Brasil 568 cursos de graduação presenciais de Jornalismo e Reportagem. Naquele
mesmo ano, 27.503 novos profissionais foram inseridos no mercado de trabalho6 ,
em um País onde os dez jornais diários de maior circulação não somam 2 milhões
de leitores a cada edição7.
Considerar o direito patrimonial sobre a matéria jornalística tacitamente
incluído na remuneração mensal percebida pelo funcionário apenas comprova
como tal direito tem sido negligenciado. O piso salarial médio do jornalista na
capital de São Paulo passou de R$ 1.130 em 2003/2004 para R$ 1.833 em 2010,
intervalo de rápida e dinâmica adaptação das empresas à era da internet. Em
Brasília, o piso evoluiu de R$ 1.293 em 2004/2005 para R$ 1.740. Durante esse
mesmo período, nota-se que os reajustes salariais dos jornalistas mal conseguiram
cobrir os índices de inflação. Amostras dos anos de 2005 e 2006 consolidadas pela
Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), por exemplo, revelam que somente
em seis unidades federativas do País os aumentos representaram ganho real de ao
menos 1% (cálculo com base no INPC)8.
Chega-se, portanto, ao debate sobre a adequação do atual sistema de
repartição dos direitos patrimoniais diante da nova realidade no mercado de
jornalismo. Há de se recordar, ainda, que certamente dentro dos próximos
quatro anos, até a Copa do Mundo de 2014 e, pouco mais tarde, por ocasião da
Olimpíada de 2016, as maiores empresas do setor de comunicação no Brasil vão
empreender novos esforços no sentido de dar início – ou ampliar – a cobertura
jornalística em outros idiomas. Durante a Copa do Mundo da África do Sul,
o portal de notícias G1 realizou essa experiência. Quanto mais se esforça para
derrubar as barreiras de idiomas na comunicação, mais êxito se obtém no respeito
ao artigo 5º da Constituição – o qual prevê a liberdade de informação – e mais
desafios se impõem ao cumprimento da legislação de direitos autorais.
A mesma Lei 9.610/98, alinhada com a Convenção Internacional de Berna
(1886), estabelece que não é ofensa aos direitos autorais a “reprodução, na imprensa
diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diáriosou
periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de
onde foram transcritos”. Tal reprodução, ainda de acordo com a Convenção
6 Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, www.inep.gov.br, Sinopses Estatísticas da Educação
Superior - Graduação
7 Associação Nacional dos Jornais, www.anj.org.br, Maiores Jornais do Brasil
8 Federação Nacional dos Jornalistas, www.fenaj.org.br, Reajustes e pisos anteriores

191
Novos desafios ao direito autoral no jornalismo

de Berna, não pode se dar na íntegra, mas apenas por trechos. Gerenciar essa
complexa trama de transcrições atualmente, com a velocidade de transmissão de
dados pela internet em franca ascensão, é muito mais complicado que nos séculos
passados, quando o jornalismo era dominado pelos impressos e as publicações
raramente ultrapassavam as fronteiras nacionais. Casos de contrafação – cópia
não autorizada de uma obra – ou de plágio multiplicam-se.
A busca de um equilíbrio entre o respeito ao direito autoral e a garantia da
liberdade de informação prevista em democracias como o Brasil intriga também
outras nações há tempos. O tema começou a ser discutido em fóruns internacionais
por volta da década de 18509. Mesmo depois de formalizada a Convenção de Berna,
o debate continuou acalorado. Nos Congressos Internacionais de Imprensa do
final do século 19, Gaston Berardi, jornalista belga, tentou sem sucesso convencer
seus colegas de que as legislações sobre direito autoral precisariam se dobrar aos
novos tempos do jornalismo, reconhecendo que cada vez mais leitores e empresas
se preocupavam não com o caráter literário ou ideológico das obras, e sim com seu
caráter factual, noticioso e descritivo. As discussões sobre quais textos deveriam
ser protegidos, e de que forma se daria essa proteção, se arrastaram por décadas,
sem grandes consensos internacionais. Hoje, Estados Unidos e Reino Unido têm
leis mais flexíveis no que tange a cessão dos direitos patrimoniais.
Nesse labirinto de informações do século 21, diversas nações, inclusive o
Brasil, analisam novas propostas de lei sobre o direito autoral, propostas estas que
tentam impor barreiras à reprodução ilegal de conteúdo jornalístico na internet.
Regras mais atuais são necessárias para que a comunidade internacional possa agir
de maneira concertada em relação a ferramentas recentes como os agregadores
de conteúdo – sítios que consolidam notícias sobre determinado assunto
reproduzindo na íntegra os textos de terceiros. O Google News, talvez o mais
famoso desses agregadores, causou indignação entre empresas norte-americanas,
que passaram a proibir a reprodução não autorizada de matérias. Em 2009, jornais
europeus organizaram um manifesto internacional, chamado de Declaração de
Hamburgo, para criticar o serviço prestado pelos agregadores de conteúdo sem
aval dos autores. Diante de marcos legais desatualizados, batalhas judiciais entre
jornais e jornalistas contra impérios da internet, como os grandes serviços de
busca, ou mesmo contra blogueiros que reproduzem conteúdo ilegalmente, se
estendem sem prazo de conclusão. A forma como o Brasil agirá para assegurar os
direitos dos autores e os interesses das empresas jornalísticas sem impor obstáculos
ao direito à informação ainda é uma incógnita.

9 The First International Journalism Organization Debates News Copyright, 1894-1898, Ulf Jonas Bjork, Journal-
ism History, Vol. 22, 1996

192
193
Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – 2010

Editorial

Coordenação
Cláudio Passos de Oliveira

Editoração
Shine Comunicação

Revisão
Assessoria de Comunicação do Ipea e Socicom

Capa
Shine Comunicação

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SBS – Quadra 1 – Bloco J – Ed. BNDES,
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Estratégicos da Presidência da República, o Ipea fornece Associações Científicas e Acadêmicas
suporte técnico e institucional às ações governamentais de Comunicação
– possibilitando a formulação de inúmeras políticas
públicas e programas de desenvolvimento brasileiro –
e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos
realizados por seus técnicos.

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© Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea 2010

Panorama da comunicação e das telecomunicações no Brasil / organizadores:


Daniel Castro, José Marques de Melo, Cosette Castro. - Brasília : Ipea,
2010. 3 v. : gráfs., tabs.

Inclui bibliografia.
Conteúdo: v.1. Colaborações para o debate sobre telecomunicações e
comunicação. – v. 2.Memória das associações científicas e acadêmicas da
comunicação no Brasil.– v. 3. Tendências na comunicação.
ISBN

1. Comunicação. 2. Telecomunicações. 3. Brasil. I. Castro, Daniel. II. Melo,


José Marques de. III. Castro, Cosette. IV. Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada. V. Título: Colaborações para o debate sobre telecomunicações e
comunicação. VI. Título: Memória das associações científicas e acadêmicas de
comunicações no Brasil. VII. Título: Tendências na comunicação.

CDD 384.0981
PANORAMA DA COMUNICAÇÃO E DAS
TELECOMUNICAÇÕES NO BRASIL

VOLUME 2

MEMÓRIA DAS ASSOCIAÇÕES CIENTÍFICAS E


ACADÊMICAS DE COMUNICAÇÃO NO BRASIL

Organização
Daniel Castro
José Marques de Melo
Cosette Castro

Coordenação
José Marques de Melo
Ana Silvia Médola
Margarida Kunsch
Daniel Castro
Cosette Castro
O papel central da comunidade científica advém-lhe de ser a instância de
mediação entre o conhecimento científico e a sociedade no seu todo e na
sua tripla identidade sócio-econômica, jurídico-política e
ideológico-cultural. É nesta perspectiva exteriorizante que deve ser
estudada a estrutura interna da comunidade científica.
(Boaventura de Souza Santos)
SUMÁRIO

VOLUME 2
MEMÓRIA DAS ASSOCIAÇÕES CIENTÍFICAS E ACADÊMICAS DE
COMUNICAÇÃO NO BRASIL

Apresentação
Ana Silvia Médola.........................................................................................15
Introdução
Margarida Kunsch.........................................................................................17
A Emergência do Campo da Comunicação no Brasil
Maria Cristina Gobbi ...................................................................................19
Capítulo 1
Socicom: associações científicas e acadêmicas em torno do papel estratégico
da Comunicação
Ana Silvia Médola........................................................................................29
Capítulo 2
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da
Comunicação
Antonio Hohlfeldt..........................................................................................35
Capítulo 3
Intercom: 33 anos de pluralismo, soberania e liberdade
José Marques de Melo..................................................................................47
Capítulo 4
A História da Compós – lógicas e desafios
José Luiz Braga.............................................................................................53
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação
Itania Maria Mota Gomes, Julio Pinto e Ana Carolina Escosteguy ..................63
Capítulo 5
Breve relato sobre a fundação da Socine, seus objetivos e primeiros anos
Fernão Pessoa Ramos....................................................................................81
Pensando a Socine
Depoimento de José Gatti.............................................................................90
A História da Forcine
Maria Dora Morão.........................................................................................92

11
Capítulo 6
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo
Carlos Eduardo Franciscato, Edson Spenthof, Mirna Tonus e Sérgio Luiz Gadini
....................................................................................................................99
SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo
Elias Machado ...........................................................................................117
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo- FNPJ
Gerson Luiz Martins e Carmen Pereira ........................................................124
Capítulo 7
As origens da Semiótica no Brasil
Ana Claudia Mei Alves de Oliveira...............................................................133
ABES, recriação e percurso de uma associação
Ana Claudia Mei Alves de Oliveira...............................................................143
Capítulo 8
Economia Política da Comunicação (EPC)
Anita Simis e Ruy Sardinha Lopes ...............................................................157
ULEPICC-Brasil: a institucionalização da EPC brasileira
Valerio Brittos e Cesar Bolaño......................................................................169
Capítulo 9
Evolução e perspectivas do campo acadêmico da Comunicação Organizacional
e das Relações Públicas
Ivone de Lourdes Oliveira ...........................................................................175
A História da Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação
Organizacional e de Relações Públicas (Abrapcorp)
Margarida Kunsch.......................................................................................187
Capítulo 10
ABCiber – Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura
Eugênio Trivinho..........................................................................................195
Capítulo 11
ALCAR: a história de um “pragmatismo utópico”
Marialva Barbosa........................................................................................203
História da mídia no Brasil, percurso de uma década
Marialva Barbosa..............................................................................207

12
Capítulo 12
Politicom: o marketing político entre a pesquisa acadêmica e o mercado
profissional
Adolpho Queiroz .......................................................................................225
Capítulo 13
Folkcom - Origens da entidade
Betania Maciel............................................................................................243
Folkcomunicação: memória institucional
Cristina Schmidt..........................................................................................256

13
14
APRESENTAÇÃO

A constituição da Comunicação como área de conhecimento no Brasil está presente


nos textos que compõem este segmento intitulado Estado do Conhecimento. No
âmbito do Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil revelou-se
fundamental descrever e diagnosticar a produção de conhecimento nos principais
segmentos da Comunicação nacionalmente institucionalizados ou publicamente
legitimados nesta primeira década do século XXI. A colaboração dos renomados
pesquisadores da área que assinam os textos nesta sessão constrói um painel onde
é possível perceber a trajetória da institucionalização dos saberes e das práticas
comunicativas a partir da inserção dos meios de comunicação na vida social
brasileira.
A força da Comunicação enquanto campo científico pode ser dimensionada
pelas entidades que integram a Federação Brasileira das Associações Científicas e
Acadêmicas de Comunicação (Socicom) e o registro do Estado do Conhecimento
realizado nesse volume, mediado pelo olhar de entidades como a Intercom,
Compós, ULEPICC-Brasil, Rede Alcar, Abrapcorp, SBPJor, FNPJ, Folkcom,
Socine, Forcine, Politicom, ABES, definem as especificidades e as demandas de
cada segmento.
Os antecedentes, desenvolvimento e os desafios acadêmicos da comunicação
são explanados por Antonio Hohlfeldt, Presidente da Sociedade Brasileira de
Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom, a mais antiga e mais
abrangente das associações científicas da área. O autor apresenta um recorte a
partir de uma periodização dos enfoques, entre os quais, estudos históricos e
jurídicos, pesquisa mercadológica, abordagens comparativas e difusionistas, até
a variabilidade dos estudos, passando pela politização e legitimação acadêmica.
Tal legitimação é evidenciada na estrutura de pós-graduação da área,
contemplada no texto assinado pelos membros da diretoria da Associação
Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS),
Itania Maria Mota Gomes, presidente, Julio Pinto, vice-presidente e Ana
Carolina Escosteguy, secretária. Ao sistematizarem os primórdios, as tendências
e as perspectivas da pós-graduação em Comunicação, os autores oferecem ao
leitor uma minuciosa descrição dos mecanismos e processos que estruturam a
produção de conhecimento em centros de pós-graduação, principais responsáveis
pelo desenvolvimento de pesquisa científica e tecnológica. Apresentando-se como
condição para o fortalecimento do sistema universitário, os autores demonstram
como a pós-graduação em Comunicação revela-se fundamental também para o
desenvolvimento dos projetos de inovação capazes de atender às demandas da
sociedade.

15
A descrição da comunidade acadêmica com seus indicadores de titulação e
dimensão quantitativa das instituições aqui representadas apresenta, por um lado,
os principais focos da pesquisa nas respectivas esferas de atuação das afiliadas da
SOCICOM, e, por outro, um panorama das tendências e perspectivas da área no
contexto nacional de ciência e tecnologia.
Em todos os textos o leitor vai identificar breves históricos de cada sub-área,
situando o processo de desenvolvimento cognitivo. Entretanto, em “História
da Mídia no Brasil, percurso de uma década”, Marialva Barbosa presidente da
Rede ALCAR, demonstra o crescimento expressivo das pesquisas envolvendo
especificamente a dimensão histórica dos meios de comunicação e os desafios
deste tipo de análise.
O trabalho de recuperação e registro dos dados constantes nessa publicação
caracteriza os diferentes momentos e trajetórias das investigações, bem como a
diversidade de objetos, temas e abordagens. A Economia Política da Comunicação
é um segmento de estudos abrigado pela União Latina de Economia Política
da Informação, da Comunicação e da Cultura (ULEPICC), descrito por Anita
Simis, presidente da ULEPICC, Capítulo – Brasil, e Ruy Sardinha Lopes, vice-
presidente; as questões relativas ao ensino e à pesquisa em cinema são abordadas
por Maria Dora Mourão, presidente da Socine e representante da Forcine.
Ivone Lourdes de Oliveira, presidente da Abrapcorp, discute as práticas
comunicativas das/nas organizações e o relacionamento com seus públicos; o
marketing político situado entre a pesquisa acadêmica e o mercado profissional é
apresentado pelo presidente da Politicom, Adolpho Queiroz; a Folkcom, por sua
vez, retoma a trajetória dos estudos relativos à interação entre cultura popular e
culturas midiática e erudita; a contribuição da semiótica como aporte teórico de
análise da significação em discursos e sua contribuição para a compreensão das
relações de comunicação estão presentes no texto de Ana Claudia Oliveria. Por
fim, pensar o jornalismo e a produção de conhecimento nessa área fundamental
na vida social do país, ficou sob a coordenação de Carlos Franciscato, presidente
da SBPjor e de representantes do FNPJ, Sérgio Luiz Gardini, presidente, Edson
Spenthof e Mirna Tônus, diretores.
Com essas contribuições, a presente publicação descreve a comunidade
acadêmica da Comunicação, possibilitando uma visão diacrônica do processo de
estruturação do conhecimento científico sobre a Comunicação Social no Brasil.

Ana Silvia Médola

16
INTRODUÇÃO

Memória das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação


no Brasil

Margarida M. Krohling Kunsch1

Esta parte da presente obra registra a memória das entidades da área de


comunicação no Brasil. Trata-se de um resgate bastante significativo já que
são essas associações científicas e acadêmicas as grandes impulsionadoras do
crescimento e consolidação do campo das ciências da comunicação no país.
A institucionalização desse campo no país se deu a partir do modelo
ou formato concebido pelo Ministério de Educação, por meio dos cursos nas
escolas ou faculdades de comunicação social, compreendendo as habilitações
de jornalismo, publicidade/propaganda, relações públicas, radialismo – rádio
e televisão, cinema/comunicação audiovisual e produção editorial/editoração
multimídia, entre outras novas que estão surgindo, a partir da implantação das
Novas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Comunicação Social em
julho de 2001.
A proposta atual do Ministério da Educação - MEC é acabar com as
“habilitações”, transformando-as em “cursos” e reduzir o número excessivo das
nomenclaturas vigentes para terminologias específicas dos cursos existentes.
Assim, por exemplo, a Comunicação Social é a grande área de conhecimento e as
respectivas habilitações ora vigentes se converteriam em cursos. Nessa direção, a
primeira iniciativa na área da Comunicação Social foi do curso superior do Cinema
que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação de
Cinema e Audiovisual, por meio da Resolução n. 10, de 27 de junho de 2006.
Mais recentemente as iniciativas em curso são das áreas de Jornalismo e
Relações Públicas. O MEC, por meio da Portaria nº 203/2009, de 12 de fevereiro
de 2009, instituiu a comissão de especialistas que elaborou as novas Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo, que se encontram em trâmite
no Conselho Nacional de Educação. Em 2010, foi criada também a comissão de
especialistas para elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso
de Relações Públicas, conforme Portaria no 595/2010, de 24 de maio de 2010,
cuja proposta foi entregue ao Ministério de Educação em em 21 de outubro de
2010.Neste contexto registra-se também o papel das entidades que promoveram
a regulamentação e a proposição dos códigos de ética e de auto-regulamentação
para o exercício profissional nas comunicações.

1. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Corporativa e Relações Públicas


(Abrapcorp) e Diretora de Relações Internacionais da Socicom. Professora titular da ECA-USP. Ex-presidente
da Alaic e da Intercom. Autora de vários livros sobre Comunicação Organziacional.

17
Ao longo dos últimos anos, o curso de Comunicação Social, em suas
diferentes habilitações, tem sido um dos mais procurados nos vestibulares das
universidades e de outras instituições brasileiras de ensino superior. Isto se
explica, em parte, pelo crescimento expressivo que a área tem experimentado,
tanto no campo acadêmico quanto no mercado das indústrias das comunicações
e da comunicação organizacional/corporativa e pelo acentuado crescimento da
oferta do ensino superior em todas as áreas nos últimos anos.
No campo acadêmico, sobretudo a partir dos anos 1990, houve um salto
quantitativo e qualitativo bastante relevante nos cursos de graduação e pós-
graduação. O número de universidades e instituições de ensino superior com
o curso de comunicação social cresceu assustadoramente. Os cursos de pós-
graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) somam hoje 39 reconhecidos
pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
Também os de especialização (pós-graduação lato sensu) têm aumentado
substancialmente a oferta em todas as regiões do país.
Todo esse crescimento alia-se também a um avanço da pesquisa, que vem
ocorrendo principalmente nas universidades públicas e confessionais, tanto
nos cursos de pós-graduação quanto nos de graduação (por meio de projetos
de iniciação científica), graças aos programas de apoio das agências nacionais e
estaduais de fomento à pesquisa.
O reflexo de tudo isso se dá na produção científica disponível, em forma
de livros, teses, dissertações, monografias de cursos de especialização, trabalhos
de conclusão de curso, projetos experimentais e, ainda, no reconhecimento
internacional, que pode ser comprovado por meio de publicações, participação
brasileira em congressos mundiais e convites para visitas científicas e estudos de
pós-graduação e pós-doutorado. Enfim, esse conjunto de fatores foi decisivo na
construção e consolidação da área das ciências da comunicação no país.
A criação da Federação Brasileira das Associações Acadêmicas e Científicas de
Comunicação (Socicom) em 2008 veio coroar todo esse crescimento vertiginoso
e contribuir para uma melhor sistematização das políticas e ações integradas do
campo comunicacional no meio acadêmico-científico do país.
Antes dos breves textos elaborados por autores que foram fundadores ou
que estiveram diretamente envolvidos na fundação da Socicom das entidades
de Comunicação a ela filiadas foi incluído um artigo da pesquisadora Maria
Cristina Gobbi, que oferece o contexto para compreender o percurso e as fases
dos estudos e reflexões sobre Comunicação no Brasil. Durante a edição do livro,
a ordem de apresentação respeitou os critérios de data de criação da entidade e
a proximidade por área de atividade, particularmente no caso do Cinema e do
Jornalismo2.
2 Até a data desta publicação a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), filiada à Socicom, não
havia entregue o seu texto institucional.
18
A Emergência do Campo da Comunicação no Brasil

Maria Cristina Gobbi1

O século XXI tem sido marcado pela convergência e pelo interesse de entendimento
do lugar ocupado pela Comunicação. Caminhando entre status de ciência ou
como um campo de interseção de vários saberes, o mote da comunicação social
tem dividido opiniões. Marialva Barbosa (2000, p. 1-4), por exemplo, afirma
que um campo se consolida a partir de dois aspectos “1. A trajetória histórica
da constituição do próprio campo e 2. as lutas e embates claros ou sub-reptícios
travados ao longo deste percurso”. Mas essa compreensão perpassa os múltiplos
saberes. Para alcançar a estabilização, é necessário trabalhar a idéia de ordem,
no sentido de cooperação e inter-relação entre os vários conhecimentos. É uma
espécie de diálogo, de abandono do ponto de vista particular de cada disciplina
“para produzir um saber autônomo que resulte em novos objetos e novos
métodos”, desenvolvendo a integração entre as várias produções e seus processos.
Barbosa (2000, p. 5), discutindo os dois aspectos descritos, assegura que,
no contexto latino-americano, têm-se produzido gerações de pesquisadores em
comunicação preocupados com problemas reais. Ou seja, a aparente neutralidade
acadêmico-científica fica muito distante da realidade de alguns países quando são
tratados temas em que o investigador é o sujeito social e histórico.
As pesquisas em nossa região têm passado por diversos períodos que, além
de singulares, revelaram particularidades históricas, inseridas quase sempre em
movimentos políticos, econômicos e sociais. Essa trajetória tem sido carregada de
vieses que assimila o passado e busca reconstruir a própria identidade, em uma
luta de possibilidades de recuperação da identidade nacional.
Lozano Redón (1996) assegura que uma das maiores dificuldades enfrentadas
por pesquisadores da comunicação é constatar se as abordagens de seus estudos
podem ser tratadas sob a perspectiva de ciência ou de um conjunto de diferentes
ciências.
A grande questão caminha no sentido de desvendar se a comunicação tem
um objeto próprio ou, como pergunta Redón, trata-se de um fenômeno das

1. Pós-Doutora pelo Programa de Integração da América Latina (PROLAM) da Universidade de São Paulo. Bol-
sista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Coordenadora da pesquisa sobre o Panorama da Co-
municação no Brasil, cuja meta era diagnosticar a produção de conhecimento nos principais segmentos da co-
municação nacionalmente institucionalizados. Vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Televisão
Digital e professora do Programa em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Professora
da Universidade de Sorocaba (UNISO). Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Pensamento Comunicacional
Latino-Americano” do CNPq. Diretora de documentação da INTERCOM. Coordenadora do GT Mídia, Cul-
turas e Tecnologias Digitais na América Latina da mesma Instituição. E-mail: mcgobbi@terra.com.br.

19
ciências sociais2.
Um campo científico pode ser definido como um conjunto de métodos,
estratégias e objetos legítimos de discussão (BOURDIEU, 1983, p. 84). Sendo
assim, em cada um desses elementos são diversos os procedimentos capazes de
contribuir para sua fragmentação ou sua consolidação.
Muitos são os estudos dedicados ao entendimento sobre as fronteiras do
campo e sua efetiva consolidação enquanto ciência. Também, nas especialidades
das Ciências Sociais que têm tornado possível descrever o desenvolvimento
real das pesquisas nesta área. A partir de 1950, as metodologias examinadas
apresentavam hipóteses sobre efeitos massivos e direitos da mídia em opiniões a
serem medidas. Posteriormente, houve a explosão da teoria cultural, dos estudos
quantitativos de recepção, das pesquisas sobre audiência e as investigações sobre
mídia e Comunicação, criando uma variedade de subespecialidades humanísticas
e científico-sociais. Todos esses trabalhos mostraram que a divisa do campo “são
suas fronteiras com outros campos e instituições, e que estão prontas para serem
movidas” (JENSEN, 2001, p. 69).
Por outro lado Newcomb (2001, p. 73) garante que, identificar trabalhos
inovadores e de peso que direcionem ou redirecionem a pesquisa e o conhecimento
nos estudos de comunicação, é muito mais difícil que em outras áreas. Para
ele, a comunicação não é uma disciplina. Se encarado como um “campo de
conhecimento”, é concebido sob dois aspectos. O primeiro, de uso mais comum,
“é o senso convencional de uma área de estudo”. O outro é usado para descrever
as “tentativas de fazer nosso caminho através de suas principais extensões” (2001,
p. 75).
Os caminhos são renovados constantemente. O Brasil atravessa um grande
momento de revitalização dos estudos comunicacionais. As tecnologias da
comunicação, mensagens, seus significados e discussões, bem como toda a busca
para delinear uma nova abertura renovaram vitalmente o “terreno intelectual
em que muitos de nós trabalhamos”, constituindo-se desta forma em uma nova
opção de estudos (NEWCOMB, 2001, p. 75-77).
Por outro lado, Miquel de Moragas SPA (1981, p. 12-28) afirma que os
estudos de comunicação não proporcionam uma reflexão sobre os problemas
epistemológicos da área. Para ele, a pesquisa em comunicação não pode ser
tratada de forma separada da evolução das ciências sociais em geral (Sociologia,
Psicologia, Economia Política, Antropologia Social etc). Mais que uma ciência,
2.“Podemos afirmar que existem duas correntes neste sentido. A primeira afirma que a comunicação é factível
e desejável. Esses pesquisadores estão ancorados em correntes positivistas, oriundas principalmente dos Estados
Unidos. Outros, com enfoques mais críticos, fruto de correntes européias, afirmam ser a comunicação um pro-
cesso tão amplo e complexo que requer uma abordagem interdisciplinar, tratando-se, portanto, de um processo
social”. (LOZANO REDÓN, 1996, p. 21). Tradução da autora.

20
a Comunicação é um processo que aparece “tanto nos níveis cognoscitivos
do indivíduo como em sua ação social”. Em suma, para Moragas, os estudos
comunicativos são uma reunião de distintas disciplinas já existentes, chamada
por ele de pluridisciplinariedade3. Neste sentido, as várias ciências se acercam
do campo comunicativo, cada uma delas dentro de sua própria perspectiva,
assegurando desta forma um objeto de estudos comum.
Para Moragas SPA (1981), a meta seria conseguir a interdisciplinaridade4
nos estudos da Comunicação. Somente assim seria possível intercambiar
métodos, pontos de vista e, como resultado, obter análises conjuntas nas várias
dimensões dos processos da comunicação. Porém, Lozano Redón (1996, p. 24-
25), argumenta que as pesquisas atuais buscam a compreensão da participação
dos mass media no contexto social, analisando o processo comunicativo e suas
relações com outras organizações e instituições sociais de forma integrada5
e visualizando os meios massivos como “organizações dedicadas à produção e
distribuição de significados sociais”.
Toda essa confluência de elementos presentes nos estudos dos fenômenos
da Comunicação de massa tem propiciado a proliferação de numerosos enfoques.
Esse olhar tem permitido a busca pela compreensão dos processos comunicativos,
confrontando postulados teóricos e práticos, em técnicas de pesquisa quanti
e qualitativas, buscando detectar em estudos quantificáveis tendências
comportamentais, atitudes pessoais e o aprofundamento, em casos específicos,
nos níveis conotativos e latentes das mensagens, nas investigações qualitativas.
Marques de Melo (2001) defende que qualquer campo do conhecimento
humano surge como conseqüência das demandas coletivas. Tem sua origem na
base da sociedade, desenvolvendo-se no “interior das organizações profissionais,
culminando com a sua legitimação cognitiva por parte da academia” (p. 93). Para
ele o estoque de saber acumulado provém de duas fontes. Da práxis, que tem
como meta o desenvolvimento de modelos produtivos e da teoria, que trata do
3. Cabe aqui trazer à tona a forma como Edgar Morin (s/d) define o conceito de disciplina. Para ele, trata-se
de uma categoria que agrupa um conjunto de saberes científicos, mas que organiza o conhecimento científico,
instituindo a divisão e a especialização do trabalho, englobando a diversidade dos saberes das ciências. Marialva
Barbosa (2000), citando alguns conceitos de Morin, afirma que, apesar de agrupar um conjunto científico,
uma disciplina tende naturalmente à autonomia pela delimitação de suas fronteiras, pela linguagem na qual
se constitui, pelas técnicas elaboradas no seu interior ou utilizadas por ela e pelas teorias que lhe são próprias.
4.O termo interdisciplinar de acordo com as definições do Dicionário Aurélio (1999) significa “comum a duas
ou mais disciplinas ou ramos de conhecimento”. Alguns pesquisadores empregam o termo no sentido de rep-
resentar o “concurso de várias disciplinas científicas que se debruçam sobre uma matéria comum e empírica;
e de outra parte, o termo refere à constituição de uma disciplina com objeto de estudo singular a partir das
contribuições de várias outras disciplinas” (MARTINHO, 2000, p. 4-5).
5. Na verdade, para Lozano Redón, o enfoque crítico busca: estudar a comunicação dentro de um amplo
contexto social; questionar o rol de comunicação na desigualdade econômica e no poder político; seus par-
ticipantes não são neutros, como acontecia no enfoque positivista, mas seus pesquisadores se comprometem
com o câmbio social e finalmente, essa corrente questiona a produção comunicativa no reforço da ideologia
dominante (1996, p. 24-25).

21
saber legitimado pela academia, resultado do ensino e da pesquisa universitária.
Assim, ao buscarmos conceituar e entender a emergência do campo acadêmico
da comunicação social no contexto dos estudos latino-americanos e brasileiros
faz-se necessário navegar por teorias consolidadas nas práticas comunicativas.
Desta forma, torna-se possível afirmar que os estudos de Comunicação passaram
a pertencer a um campo6 científico, legitimado e reconhecido pelas Ciências
Sociais, a partir da segunda metade do século XX.
Embora a legitimação do campo tenha se estabelecido a partir da ampliação
dos estudos em jornalismo, principalmente depois da década de 1970, sendo
o sendo a imprensa o primeiro objeto de estudos, no início do século XX, as
pesquisas posteriores passaram a focar o cinema, o rádio e a televisão. Ao se afirmar
que o jornalismo estimulou o desenvolvimento do campo, deve-se considerar a
contribuição das demais disciplinas. Os estudos sob a égide das relações públicas,
da publicidade, do radialismo, da teledifusão e da cinematografia conquistaram
seu espaço, ainda em meados dos anos de 1970 (MARQUES DE MELO, 1998,
p. 97).
Todas essas considerações demonstram que o campo da comunicação social
emerge das ciências aplicadas. Bourdieu (1972, p. 174) afirma que a prática é a
condição necessária, embora relativamente autônoma, para a constituição desses
espaços de reflexão e ação. Sendo produto da relação dialética entre a situação e
o hábito7 , entendido como um sistema de disposições duradouras e transferíveis,
integrados pelas experiências passadas e formando as novas matrizes das apreciações
e ação do novo saber. Assim, a teoria de formação dos campos pode ser encarada
como um processo sociocultural e ideológico, gerador de produtos simbólicos,
que tem o cerne nas relações sociais, formando desta forma uma rede de práticas
comunicativas. “A luta pela autoridade científica é necessariamente uma luta ao
mesmo tempo política e científica; sua única singularidade é que contrapõe entre
si produtores que tendem a não ter outros clientes que não sejam seus mesmos
competidores” (BOURDIEU, 1975, p. 177).
Para o pesquisador Jesús Martín-Barbero (1997, p. 3) vivemos, atualmente,
6. Pierre Bourdieu (1988, p. 22) postula que as sociedades modernas se organizam em campos sociais (econômi-
co, político, cultural, artístico etc) e que funcionam com uma forte interdependência. Podemos afirmar que,
buscando os elos que permitem consolidar o novo espaço, uma “luta” é travada por todos os agentes que o con-
stituem. Dessa forma, esses “lugares” são estruturados, definidos e consolidados através de regras e objetos que
norteiam os seus limites de ação. Cada campo tem seus interesses específicos que são irredutíveis aos objetos e
interesses próprios de outros campos. Essas características somente são percebidas por aqueles que estão dotados
do hábito correspondente ou mesmo da cultura interiorizada pelo indivíduo, quer seja esta de uma época, de
uma classe ou de um grupo, constituindo dessa forma o princípio de sua ação.
7. “El habitus es a la vez un sistema de esquemas de producción de prácticas y un sistema de esquemas de per-
cepción y de apreciación de las prácticas y, en los dos casos, sus operaciones expresan la posición social en la cual
se ha construido. En consecuencia, el habitus produce prácticas y representaciones que están disponibles para
la clasificación, que están objetivamente diferenciadas; pero que no son inmediatamente percibidas como tales
más que por los agentes que poseen el código, los esquemas clasificatorios necesarios para comprender su sentido
social” (BOURDIEU, 1988, p. 134).

22
a idade da Comunicação. Inserida em um terreno fronteiriço entre a organização
e a operação; entre a compreensão dos fenômenos e o domínio dos aparatos
comunicacionais, ela
(...) mas que como un nuevo campo de especialización, la comunicación
adquirí estatuto científico en cuanto espacio interdisciplinario, desde
el que se hacen pensables las relaciones entre fenómenos naturales y
artificiales, entre las máquinas, los animales y los hombres. Wiener ve en
la comunicación una “nueva lengua del universo”, similar a la mathesis
universales de Galileo, de ahí que más que una nueva ciencia lo que
propone es una nueva manera de hacer ciencia, más que un sustantivo un
adverbio: pensar comunicativamente los fenómenos.
Desde os anos 1980 do século XX há uma completa inversão do sentido das
técnicas que, de meros instrumentos, passaram a designar a substância, o motor da
sociedade de informação. “Confundida com inovações tecnológicas (informática,
satélites, fibra ótica, TICs) a comunicação se converteu em um espaço de ponta
da modernização industrial, gerencial, estatal, educativa e na única instância
dinâmica da sociedade”. Desta forma, as relações entre comunicação e sociedade,
poder e igualdade social passam a receber sua legitimação teórica e política através
do chamado discurso da racionalidade tecnológica, inspirando dessa forma o que
chamamos, na atualidade, de Sociedade de Informação. Para o pesquisador “não
somente a modernização é identificada como o desenvolvimento das tecnologias
da informação, também a reformulação da vigência da modernidade e o
pensamento da pós-modernidade na comunicação ocupam um lugar estratégico”
(MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 11-15).
A pesquisa comunicacional na América Latina se legitimou como espaço
científico somente nos últimos 50 anos. Para Marques de Melo (1998) esse saber
autêntico, estocado ao longo do tempo, além de permitir o desenvolvimento em
vários âmbitos, possibilitou também múltiplas alternativas metodológicas.
Para Fuentes Navarro (1998) a multiplicação das publicações acadêmicas; a
participação de pesquisadores nos cenários (eventos) internacionais; o crescente
contato com outros investigadores em ciências sociais; o desenvolvimento de
programas de pós-graduação preocupados com a pesquisa em comunicação;
a formação de investigadores mais jovens; assim como a forte presença de
professores-pesquisadores nesses programas, mostram indícios claros e precisos
de que a configuração do campo se descortina como uma possibilidade
real, estabelecendo-se em uma especialidade, cuja institucionalização e
profissionalização avançam em termos de legitimação acadêmica, tanto científica
como social. Nesta re-configuração do campo da Comunicação há uma
relevância cada vez mais reconhecida de seu objeto genérico de estudos, ou seja,
a Comunicação na constituição do mundo contemporâneo. Essas condições,
juntamente com a utopia das discussões da Comunicação como transformadora
23
da sociedade, fizeram com que existisse “internamente” no campo um “núcleo
básico”, compartilhado pelos pesquisadores que o constituem. Dessa forma, fez
de seu “exterior”, a chave de sua aspiração como diferença legitima no campo
intelectual. (FUENTES NAVARRO, 1998, p. 54-55)
A Comunicação, enquanto objeto de estudo, despertou o interesse de
inúmeras disciplinas científicas. Mas enquanto campo acadêmico, sua identidade
tem se caracterizado pelo delineamento de fronteiras estabelecidas em função dos
suportes tecnológicos (mídia) que asseguram a difusão dos bens simbólicos e do
universo populacional a que se destinam (comunidades / coletividades). Assim, o
campo é delimitado por duas variáveis. São elas: a indústria midiática, tratando-se
neste caso de organizações manufatureiras ou distribuidoras culturais e as empresas
terciárias, dedicadas ao planejamento, produção e avaliação de mensagens, dados
e informações a serem difundidos pela mídia ou a ela concernentes. Além disso,
é um campo interdisciplinar, uma vez que seus objetos específicos são produtos
cujo conteúdo está presente nas demais disciplinas que constituem o universo
científico. (MARQUES DE MELO, 1998, p. 40).
No Brasil, a constituição da comunidade brasileira no campo das Ciências
da Comunicação, relatado nos estudos de Marques de Melo, apareceu após a
criação dos pioneiros cursos superiores de Jornalismo e dos institutos de pesquisa
de audiência da mídia, em meados dos anos 50. Mas se consolidou somente
na década de 1960, com o surgimento de novos segmentos sociais (cinema,
editoração, relações públicas, rádio-teledifusão, lazer, divulgação científica,
extensão rural), ocasionando uma mudança nos espaços de geração desses novos
conhecimentos. Dessa maneira, os estudos partiram da prática para a teoria,
gerada nas emergentes escolas de comunicação, através das pesquisas.
Marques de Melo (1998) definiu quatro fases que organizam a história
das Ciências da Comunicação na América Latina. A primeira, chamada de
desbravamento, entre os anos de 1873 a 1940, compreendeu o período em
que a imprensa tornou-se objeto de pesquisa e encerrou-se quando o ensino de
Comunicação encontrou no Jornalismo seu foco de estudos. Em outras palavras,
as pesquisas partiram do reconhecimento dos objetos peculiares ao campo. A
segunda fase, dos pioneiros, entre os anos de 1940-1950, encontrou nos estudos
do jornalista Barbosa Lima Sobrinho, sobre a liberdade de imprensa, seu
referencial. Foi o início do empirismo. É possível observar nesta publicação a
mudança dos escritos como tratados jurídicos, ou textos históricos, e verifica-se a
clareza e a objetividade do trabalho, construindo “uma espécie de manual para o
fortalecimento da cidadania”. O fortalecimento, entre os 1947-1963, encontrou
na universidade o cenário ideal para seu desenvolvimento. Esse fortalecimento do
campo pode ser traduzido pela ampliação da rede institucional dedicada ao ensino
da comunicação. Os estudos empíricos baseavam-se nas demandas profissionais

24
geradas pela academia. Porém a consolidação ocorreu com o surgimento do
Centro Internacional de Estudos Superiores (Ciespal), em Quito, no Equador,
em 1960 e com o desenvolvimento da indústria cultural no Brasil, entre os anos
de 1964 a 1970. (MARQUES DE MELO, 1998, p. 98-143).
A década de 1970 foi marcada pela crítica ao conhecimento existente.
Abalizou este período o grupo dos inovadores, terceira fase, que definiu com maior
nitidez a natureza do campo comunicacional latino-americano. E finalmente, a
quarta fase, na década de 19808 foi constituída por reavaliações e contribuições de
um grupo chamado de renovadores e marcada pelos “avanços empíricos e reflexivos,
referenciados nas matrizes esboçadas pelos cientistas que os precederam”. Esse
período encerra-se com a realização do I Congresso Latino-Americano de
Ciências da Comunicação, em São Paulo, Brasil, no ano de 1992 (MARQUES
DE MELO, 2001, p. 99).
Com esse panorama, o interesse pelas pesquisas dos fenômenos da
comunicação ganhou espaço tanto nas universidades como nas empresas. Ambas
buscavam nas evidências empíricas, consolidadas pela cientificidade das escolas,
qualificarem profissionais, de forma a orientá-los nos novos caminhos das
“engrenagens midiáticas”. Desta forma, o desenvolvimento da pesquisa, marcado
até então pela atuação coletiva, deu lugar a uma comunidade científica, composta
por jovens pesquisadores, atuando “organicamente, porém de forma sintonizada
com as demandas locais e nacionais” (MARQUES DE MELO, 2001, p. 98-
100).
Um dos grandes dilemas da comunidade acadêmica, formada por
pesquisadores, analistas de discurso e estudiosos das mediações9 culturais, na
atualidade, é buscar as singularidades de sua identidade. Porém, o processo de
legitimação e de identidade acadêmica deste campo está diretamente relacionado
com a formação de profissionais competentes para a prática científica. Além,
é claro, da efetiva participação desses atores sociais nos cenários acadêmicos,
buscando equilíbrio entre a teoria e a prática profissional. Essa assimilação de
conteúdos tem permitido o aprendizado das metodologias indispensáveis à
8. Marques de Melo afirma que a consolidação de uma Escola de Pensamento Comunicacional na América Lati-
na foi o maior ganho desta época. Suas palavras são referendadas por Jesús Martín-Barbero que garante que “En
los años 80 empezamos no sólo a asumir el pensamiento propio en el campo de comunicación – que América
Latina tenía desde mucho antes -, sino que empezamos a valorarnos, a valorar nuevos puntos de partida desde
los cuales miramos sin despreciar para nada lo que se estaba haciendo en el resto del mundo, pero poniéndolo
en nuestra coordenadas históricas, culturales y políticas. El mayor logro de los 80 fue la configuración de lo que
ha denominado Marques de Melo la Escuela Latinoamericana de Pensamiento en Comunicación” (2001, p. 99).
9. Manuel Martín Serrano define las mediaciones como sistemas “institucionalizados para redução das dis-
sonâncias, que, cognitivamente, operam como modelos de ordem aplicados a qualquer conjunto de coisas
pertencentes a planos heterogêneos da realidade” (1977, p. 49). (Tradução da autora). Para completar, Martín
Serrano afirmou (1988, p. 1361) controlar a forma de mediar é aplicar ao conteúdo da realidade o modelo
de ordem e o tipo de significações que posteriormente serão utilizados pelo destinatário da informação para
compreender o presente, prever o futuro e, portanto, para atuar (Tradução da autora).

25
produção e à difusão científica.
A compreensão das teorias relativas aos efeitos sociais e culturais da mídia e
de seus sistemas de produção tem delineado o perfil profissionalizante dos cursos
de comunicação. Os resultados podem ser visualizados através dos estágios,
intercâmbios e financiamento das pesquisas. Essa interação entre a práxis e a
teoria tem permitido a difusão e a consolidação do campo da comunicação social,
não só no Brasil, como também no exterior.
Como desafio para as novas gerações está a busca e a consolidação de
modelos teórico-metodológicos universais, capazes de darem conta do campo e
de seus objetos de estudo, sem, contudo, abandonar a identidade cultural e a
autonomia científica. Essas novas matrizes não devem ter a pretensão de criar
uma ciência universal, mas de permitir o estudo de uma realidade comunicacional
multifacetada e complexa, sem o reducionismo à dimensão meramente
instrumental. Barbosa (2000, p. 9) garante que a partir do ano 2000 o mote é o
avanço no sentido de sedimentarmos teorias existentes, “através de uma atitude
reflexiva, propondo uma análise que visualiza não apenas novos saberes, mas,
sobretudo novos olhares. Só assim se constrói um campo de pesquisa maduro e
reconhecido como produtor de conhecimento válido”.

Quadro das Instituições que participam da Socicom, Federação criada em 2008

Audiovisual: cinema, FORCINE: Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual,


vídeo, televisão e rádio congrega mais de 20 instituições;
SOCINE: A Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual,
fundada em conta com 364 sócios, que representam cerca de 18
universidades brasileiras.
Cibercultura ABCiber: Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura:
fundada em 2006, congrega pesquisadores(as), Grupos de Pesquisa,
instituições e/ou entidades brasileiras que estudam cibercultura.
Comunicação ABRAPcorp: Associação Brasileira de Pesquisadores de
Organizacional e Comunicação Organizacional e Relações Públicas, fundada
Relações Públicas 2006, com o objetivo geral de estimular o fomento, a realização
e a divulgação de estudos avançados dessas áreas no campo das
Ciências da Comunicação.
Comunicação e Politicom: Sociedade Brasileira dos Pesquisadores e Profissionais
Marketing Político de Comunicação e Maketing Político, fundada 2008, congrega
estudiosos de propaganda política.
Divulgação Científica ABJC: Associação Brasileira de Jornalismo Científico, fundada em
1977, congrega pesquisadores em torno de temas ligados a CT&I.

26
Economia Política da Ulepicc: União Latina de Economia Política da Informação,
Comunicação da Comunicação e da Cultura, fundada em 2004, congrega
pesquisadores e profissionais atuantes na Economia Política da
Comunicação, da Informação e da Cultura
Folkcomunicação Rede Folkcom: Rede de Estudos e Pesquisas em Folkcomunicação,
fundada em 2003, congrega estudiosos em torno da temática da
comunicação popular.
História da Mídia Rede Alcar: Associação Brasileira de Pesquisadores de História da
Mídia, fundada em 2001, congrega estudiosos da história da mídia.
Jornalismo SBPJor: Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo,
fundada em 2003, congrega aproximadamente 300 associados.
FNPJ: Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, fundado em
2004, congrega professores dos cursos de jornalismo de todo o país.
Semiótica ABES: Associação Brasileira de Semiótica, fundada em 1972,
congrega estudiosos dessa temática.
Fonte: Maria Cristina Gobbi.

27
28
CAPÍTULO 1

Socicom: associações científicas e acadêmicas em torno do papel


estratégico da Comunicação

Ana Silvia Lopes Davi Médola1

A Socicom, sigla da Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas


de Comunicação, tem uma existência de apenas dois anos (começou a funcionar
em 2008), um período muito curto, mas com registro de ações relevantes
para a área da comunicação no Brasil. Entre os mais significativos destaca-se
o fato de congregar praticamente todas as associações científicas e acadêmicas
da comunicação em torno de objetivos comuns voltados ao crescimento e
fortalecimento da área.
A força decorrente da participação de suas 14 afiliadas levou a Federação
a firmar um convênio inédito com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(IPEA) para a elaboração do primeiro estudo quantitativo e qualitativo destinado
a traçar o Panorama Brasileiro da Comunicação. Um marco que tem o propósito
de identificar as tendências da Comunicação no país na primeira década do século
XXI a partir do inventário do estado atual do conhecimento, em comparação com
os indicadores nacionais e mundiais da economia, da educação, da sociedade e
cultura. Nesses dois anos de atividade da Socicom, o projeto que nesta publicação
se materializa pretende oferecer informações de qualidade para subsidiar o
desenvolvimento de políticas públicas para a comunicação no país.
Outra ação relevante e que deverá permanecer em uma visão diacrônica dos
primórdios de uma história ainda em construção da Socicom, é a organização
do I Congresso Mundial da Confibercom – Confederação Ibero-americana de
Comunicação, da qual a Socicom é instituição fundadora. Tais projetos são
os resultados mais evidentes de uma trajetória marcada por ações estratégicas
e articuladas que culminaram na constituição da federação, conforme será
detalhado mais adiante.

Conjunturas prévias
Em uma perspectiva mais ampliada, podemos considerar a fundação da
Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação
como o desdobramento de dois processos históricos simultâneos no campo
da comunicação, sendo um no circuito ibero-americano e o outro em âmbito
1 Membro da primeira diretoria da Socicom - Biênio 2008/2010, na função de vice-presidente.

29
Socicom: associações científicas e acadêmicas em torno do papel estratégico da Comunicação

nacional.
Internamente, o expressivo crescimento da área de Comunicação no país
nas últimas décadas, evidenciado pela contínua expansão dos cursos de graduação
e pós-graduação, contabilizando em 2008, ano de fundação da Socicom, cerca de
200 mil alunos, distribuídos em mais de 700 cursos de graduação e no caso da
pós-graduação strictu sensu, 35 programas de mestrado e doutorado credenciados
pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES).
Concomitantemente, o surgimento e a atuação das associações científicas e
acadêmicas desde o começo dos anos 70 do século passado contribuiu para a
consolidação das ciências da comunicação como área científica. Neste contexto
foram criadas as condições para a fundação de uma federação com o propósito
de organizar o debate sobre o desenvolvimento científico e tecnológico da
Comunicação, focalizando os problemas comuns, ampliando o conhecimento
mútuo e a cooperação entre as diversas entidades da área.
Já no contexto internacional, a fundação da Socicom se apresentou com
a perspectiva de integrar o Brasil ao movimento de criação da Confederação
Ibero-Americana das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação
(Confibercom), entidade fundada para desenvolver ações estratégicas capazes
de promover o reconhecimento e a valorização da produção científica ibero-
americana perante a comunidade mundial, conforme os termos do “Protocolo
de Guadalajara”. Firmado, em 23 de novembro de 2007, por 10 entidades
representativas do campo comunicacional ibero-americano, reunidas no México,
durante o X Ibercom – Encontro Ibero-americano de Comunicação - o “Protocolo
de Guadalajara” respaldou a criação de uma confederação ibero-americana que
reunisse as associações nacionais de Comunicação. A fundação da confederação
ibero-americana foi formalizada em abril de 2009 com a adesão de 12 entidades,
sendo oito nacionais Socicom (Brasil), AMIC (México), Fadecos (Argentina),
ABOIC (Bolívia), Invecom (Venezuela), APEIC (Peru), SOPCOM (Portugal),
AE-IC (Espanha)) e quatro mega-regionais (ALAIC, Felafacs, Assibercom e
Lusocom).
A articulação entre esses dois processos nas esferas nacional e internacional,
que culminaram com a fundação da Socicom, coube a José Marques de Melo,
agente aglutinador nos fóruns de debates e nas iniciativas voltadas a organizar as
representações institucionais. A Socicom foi criada, como se pode observar, para
fomentar iniciativas de estímulo à cooperação entre instituições congêneres e de
áreas conexas, no país e no exterior.

Fundação
O primeiro passo para a constituição da federação foi a realização do Fórum das
Sociedades Científicas de Comunicação (I Socicom), ocorrido entre 31 de agosto
30
Socicom: associações científicas e acadêmicas em torno do papel estratégico da Comunicação

e 1º de setembro de 2007, no campus da universidade Unisanta, em Santos,


durante o congresso anual da Intercom. Na ocasião, as entidades científicas e
acadêmicas de Comunicação formaram uma comissão para encaminhar os
trabalhos de criação de uma federação, o que ocorreu um ano depois, no dia 2 de
setembro de 2008, em Natal, no Rio Grande do Norte.
A assembléia de aprovação do estatuto de fundação da Socicom teve a
participação das seguintes instituições:
1. Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
(Intercom), representada pelo professor José Marques de Melo;
2. Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação
(Compós), representada pela professora Ana Silvia Médola;
3. Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Corporativa e
Relações Públicas (Abrapcorp), representada pela sua presidente, professora
Margarida Maria Krohling Kunsch;
4. Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ), representado pelo
professor Gerson Luiz Martins;
5. Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor),
representada pelo professor Elias Machado Gonçalves;
6. União Latina de Economia Política da Informação, Comunicação e
Cultura – Seção Brasileira - ULEPICC-Brasil, representada pelo professor
César Bolaño;
7. Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura – (ABCiber),
representada pelo presidente, professor Eugenio Rondini Trivinho;
8. Associação Brasileira de Pesquisa em História da Mídia (Rede Alcar),
representada pela professora Marialva Barbosa;
9. Associação Brasileira de Pesquisa em Comunicação - Rede de Estudo
e Pesquisa em Folkcomunicação (Folkcom) representada pela presidente,
professora Betania Maciel;
10. Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), representada
pelo professor Adolpho Queiroz.
11. Embora impossibilitados de enviar representantes naquele momento,
a Forcine e a Socine, também são consideradas entidades fundadoras da
Socicom.
A Socicom nasceu, portanto, com grande representatividade e com o
objetivo primeiro de criar as condições de diálogo entre as entidades da área,
constituindo-se em um espaço para o debate constante sobre o desenvolvimento
31
Socicom: associações científicas e acadêmicas em torno do papel estratégico da Comunicação

científico, artístico e tecnológico da Comunicação.


Em sua estrutura de funcionamento, a federação é constituída por um
Conselho Deliberativo e uma Diretoria Executiva. A primeira diretoria da
Socicom foi eleita já na assembléia de fundação com a incumbência de regularizar
o registro da federação, criando as condições legais para a instalação do Conselho
Deliberativo em 01 de dezembro de 2008, que na ocasião aprovou o plano de
gestão para o biênio 2009-2010.

A primeira diretoria da Socicom (2009-2010) foi composta pelos professores:


- José Marques de Melo, presidente;
- Ana Silvia Médola, vice-presidente,
- Margarida Kunsch, diretora de relações internacionais;
- Elias Machado Gonçalves, diretor de relações nacionais;
- Anita Simis, diretora administrativa.

Participaram da reunião de instalação do Conselho Deliberativo, sede da


federação em São Paulo, todos os membros da diretoria da Socicom, além dos
seguintes representantes das entidades filiadas: Adolpho Queiroz – Sociedade de
Estudos Interdisciplinares em Comunicação, Intercom, Vera Regina Veiga França,
da Associação Brasileira de Programas de Pós-Graduação em Comunicação,
Compós; Cesar Ricardo Bolaño, da União Latinoamericana de Economia Política
da Informação, da Comunicação e da Cultura, Capítulo Brasil, ULEPICC-Brasil;
Eugenio Trivinho, da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura,
ABCiber, Gizely Coelho Hime, representando Marialva Barbosa da Associação
Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia, Rede Alcar; e Betania Maciel da
Rede de Estudo e Pesquisa em Folkcomunicação, Folkcom.
Nesta primeira reunião ordinária Cesar Bolaño foi eleito presidente do
Conselho Deliberativo e também foi aprovado o plano de metas apresentado pela
diretoria da Socicom para o biênio 2009-2010. Em linhas gerais o plano previa
a estruturação da entidade, consolidação das vias de diálogo entre os dirigentes
das associações filiadas e segmentos da sociedade e divulgação das atividades da
federação e do pensamento comunicacional brasileiro.
Os primeiros resultados puderam ser observados na realização de dois
seminários anuais de integração nacional e na criação do site da federação no sítio
www.Socicom.org.br , concentrando todas as informações sobre a instituição. O
I Seminário de Integração Nacional ocorreu em março de 2009, na Universidade

32
Socicom: associações científicas e acadêmicas em torno do papel estratégico da Comunicação

Estadual Paulista – UNESP, em São Paulo, reunindo os dirigentes das associações


filiadas com o propósito de estreitar as relações entre as entidades. A intensificação
do conhecimento mútuo entre as associações favoreceu a identificação de
problemas comuns e a conseqüente busca por soluções.
No II Seminário, realizado em 2010, na Universidade de São Paulo – USP,
a ênfase dos debates esteve concentrada nas iniciativas para fortalecer e consolidar
as Ciências da Comunicação no sistema nacional de ciência e tecnologia. Nesse
sentido, um dos pontos de convergência referiu-se à necessidade de constituição
de uma base de dados com informações atualizadas sobre a área de Comunicação
no país capaz de centralizar os dados de diferentes fontes, de modo a subsidiar a
instalação de um Observatório de Políticas Públicas na área da Comunicação.
A idéia de produzir uma base de informações sobre o setor da comunicação
já estava incorporada. Por atuação do presidente da Socicom, José Marques de
Melo, juntamente com o Assessor-chefe de Imprensa e Comunicação do Ipea,
jornalista Daniel Castro, representantes das duas entidades estiveram reunidos
em 25 de fevereiro de 2010, na sede do instituto em Brasília para estabelecer um
protocolo de cooperação. A receptividade do presidente do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada, Marcio Pochmann, possibilitou a realização do convênio
entre IPEA e Socicom para o desenvolvimento do projeto sobre o Panorama da
Comunicação no Brasil, projeto materializado na presente publicação.
Para um futuro bem próximo, a perspectiva é fomentar a criação do
Observatório Nacional de Políticas Públicas de Comunicação e divulgar o
Pensamento Comunicacional Brasileiro. A realização do I Congresso Mundial
da Confibercom em agosto de 2011, com o tema “Sistemas de comunicação e
diversidade cultural” e sob a coordenação da diretora de relações internacionais
da Socicom será uma ocasião importante para referendar o papel da comunidade
brasileira no circuito ibero-americano de produção científica na área.
Reconhecendo a Comunicação um dos setores estratégicos para a inserção
do país de forma soberana na Nova Ordem Econômica Mundial, espera-se que as
ações da Socicom registradas neste breve período de sua história, possam subsidiar
principalmente políticas de comunicação que fortaleçam a democracia no Brasil.

33
34
CAPÍTULO 2

Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da


Comunicação

Antonio Hohlfeldt1
Introdução
Pode-se pensar uma periodização da pesquisa brasileira em Comunicação a partir
de diferentes paradigmas. José Marques de Melo, por exemplo, propõe uma
periodização em torno das pesquisadas realizadas a cada momento. Assim, ele
identifica seis diferentes momentos 2 3:
a)Estudos históricos e jurídicos – se levarmos em conta que o início da
imprensa brasileira se dá a partir de 1808, com a transferência da Família
Real portuguesa para a então colônia brasileira, e que não temos nenhuma
outra atividade comunicacional, como a classificamos hoje em dia, antes deste
momento, podemos marcar, de fato, o século XIX como o início dos estudos
sobre Comunicação no país, caracterizado aquele primeiro período por pesquisas
com perspectiva histórica ou teor jurídico, o que se vai estender pelo menos até
os anos 1930 (com o movimento revolucionário daquele ano). Tivemos, assim,
estudos memorialísticos ou que enfocavam personalidades destacadas do nascente
jornalismo brasileiro, assim como estudos vinculados a discussões jurídicas, como
o exame das legislações que regravam a imprensa nacional. Tais estudos foram
desenvolvidos especialmente por instituições como os Institutos Históricos e
Geográficos, as Ordens de Advogados do Brasil e as Associações de Imprensa que
começaram a se constituir;
b) Pesquisa mercadológica – entre os anos 1930 e 1950, a chegada das
primeiras empresas multinacionais e, conseqüentemente, a constituição de seus
departamentos de publicidade, a que se seguiu o desenvolvimento do rádio,
sobretudo quando ele assume uma característica mais comercial, segundo o
modelo norte-americano, com programas a serem patrocinados e batizados por
produtos industrializados no país, permitiu as primeiras pesquisas de opinião
pública e estudos comportamentais, assim como as pioneiras campanhas
publicitárias, quer nos jornais e revistas então em circulação, como nas emissoras
1 Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom); pesquisador do
CNPq; Professor do PPG-COM da PUCRS; membro do Conselho Consultivo da – Sociedade Brasileira de
Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor). Autor, dentre outros, de “Teorias da Comunicação - Conceitos, escolas
e tendências” e “Última Hora – Populismo nacionalista nas páginas de um jornal”.
2 MELO, José Marques de – “A pesquisa da comunicação na transição política brasileira” in MELO, José
Marques (Org.) – Comunicação e transição democrática, Porto Alegre, Mercado Aberto. 1995, p. 264 e ss.
3 MELO, José Marques – “Panorama brasileiro da pesquisa em comunicação” in BARBOSA, Marialva (Org.)
– Vanguarda do pensamento comunicacional brasileiro: As contribuições da Intercom (1977-2007) , São Paulo,
INTERCOM. 2007, p. 25 e ss.

35
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

de rádio que começavam a se popularizar;


c) Comparativismo e difusionismo – na primeira metade dos anos 1960, sob
a influência do Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para
América Latina (CIESPAL) – graças aos professores franceses e norte-americanos
que desenvolvem seus cursos na Colômbia, surgem estudos comparativistas –
sobretudo em jornalismo e radialismo – e projetam-se as primeiras pesquisas
difusionistas, que valorizam a possibilidade de modernização das sociedades
latino-americanas, inclusive a brasileira, através das mensagens difundidas pelos
meios de comunicação de massa, em especial a televisão, que então começava
a se popularizar; é o momento em que um professor brasileiro, Luiz Beltrão,
tornar-se-á figura pioneira na pesquisa nacional, cujos resultados ampliar-se-ão
nas décadas seguintes;
d)Deslumbramento e apocalipse – o golpe militar de 1964 faz com
que o final da década mude bruscamente de tendência, o que se estenderá
até a primeira metade da década de 1970. Sem se perder as linhas de estudo
anteriormente mencionadas, a pesquisa crítica ganha notoriedade. Assim, passa-
se, repentinamente, de estudos entusiasmados sobre a comunicação de massa e
suas vantagens para, sob a influência dos pensadores da Escola de Frankfurt, que
começam a ser traduzidos no Brasil, para uma crítica ideológica radicalizada dessa
mesma indústria cultural, ainda que tal indústria alcance sua legitimação junto à
sociedade brasileira, sobretudo depois do surgimento da TV Globo (1962) e das
demais redes de televisão que serão então gradualmente implantadas no país;
e)Legitimação acadêmica – em que pese a continuidade da ditadura, a
reforma universitária de 1968 começa a produzir efeitos, com o surgimento dos
primeiros cursos de Mestrado e, logo adiante, de Doutorado, também no campo
da Comunicação. A distensão política, ao mesmo tempo, permite a retomada
de estudos mais amplos e variados, sobretudo a partir da Universidade de São
Paulo (USP); Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade
de Brasília (UnB). Os estudos aí desenvolvidos começam a ter um foco mais
específico dirigido à comunicação e a valer-se de bibliografia especializada;
f )Politização dos estudos – a partir da década de 1980, com a transição
democrática, os programas de Pós-Graduação se multiplicam e as linhas de
pesquisa igualmente alcançam enorme variedade. É neste âmbito que surgem
as entidades representativas do campo, como a Sociedade Brasileira de Estudos
Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), fundada em 12 de dezembro de
1977, em São Paulo4 e que existiria articulada e paralelamente à União Cristã
Brasileira de Comunicação (UCBC), entidade pioneira que, durante os mais duros

4 LOPES, Maria Immacolata Vassallo de – “Intercom e as ciências da comunicação no Brasil” in BARBOSA,


Marialva (Org.) – Vanguarda do pensamento comunicacional brasileiro: As contribuições da Intercom (1977—
2007), op. cit., p. 157.

36
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

anos da ditadura, recebeu e discutiu os principais temas da Comunicação, dando


ênfase à chamada Comunicação alternativa ou popular, também identificada
como comunicação das classes subalternas.
A UCBC, fundada em 19695 , hoje em dia, tem praticamente encerradas as
suas atividades, mas outras entidades foram se constituindo gradualmente, como
a COMPÓS – que reúne os Programas de Pós-Graduação de Comunicação; ou as
entidades mais específicas de cada segmento, desde a Abracorp (2006), de Relações
Públicas e Comunicação Organizacional; a Socine (1996), de pesquisadores de
cinema e a SBPJOr (2003), agregando os pesquisadores do jornalismo; a ABciber
(2006), que reúne os pesquisadores de cibercultura, até a mais recente, a Politicom
(2008), associando pesquisadores em torno da comunicação política, etc. Talvez
a denominação de politização não seja a melhor, pois que a institucionalização
traduziria melhor o processo então experimentado.
g)Variabilidade de estudos – a partir dos anos 1990, com a expansão dos
Programas de Pós-Graduação e a entrada das novas tecnologias de informação
e comunicação no país, multiplicam-se as linhas de pesquisa, as bibliografias
referidas e a produção dos pesquisadores, abrindo-se leques importantes inclusive
para a formação de equipes interdisciplinares, grupos interinstitucionais e também
pesquisas internacionais que se desenvolvem com a participação de pesquisadores
brasileiros.
Outra periodização proposta é a de Margarida M. Krohling Kunsch6,
que se preocupa principalmente com a tendência institucional dos estudos
comunicacionais. Assim, ela distingue apenas três períodos, ainda que se deva
levar em conta que, provavelmente, atualizada, esta mesma periodização incluiria
um novo momento, o que se pode deduzir até mesmo a partir do título de seu
artigo, que fala sobre o desafio dos anos 90:
a) Formação de pessoal – ao longo dos anos 1950 e 1960, tendo
em conta a criação da CAPES e no CNPq, no ano de 1951. Havia, naquele
primeiro momento em que os cursos de jornalismo começam a ser constituídos,
preocupação com a formação de professorado competente; estímulo à pesquisa
científica e treinamento adequado de técnicos profissionais;
b) Diversificação de cursos – nos anos 1970, multiplicam-se os cursos de
Graduação e começam a se estruturar os cursos de Pós-Graduação (legislação
de 1965), o que gera um circuito positivo em que um segmento incide sobre
o outro, qualificando-se mutuamente, na medida em que cresce o universo de
estudantes e profissionais envolvidos, do mesmo modo que aumenta a audiência
5 MELO, José Marques de – “Prefácio” in MELO, José Marques de (Org.). – Pedagogia da comunicação:Matrizes
brasileiras, São Paulo, Angellara. 2006, p. 36.
6 KUNSCH, Margarida M. Krohling – “Pesquisa brasileira de comunicação: Os desafios dos anos 90” in Revis-
ta Brasileira de Comunicação, São Paulo, INTERCOM, Vol. XVI, nº. 2, Julho-Dezembro de 1993, p. 44 e ss.

37
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

dos meios de comunicação de massa em todo o país, graças à industrialização e


à institucionalização das redes de comunicação que o regime militar patrocina,
como a implantação dos sistemas DDD e DDI e, mais adiante, os satélites de
comunicação. Ao mesmo tempo, desenvolve-se a indústria de bens eletrônicos,
como o rádio e a televisão, lado a lado com o automóvel e a casa própria, que
exige ainda a chamada linha branca de equipamentos; como ocorrera nas
décadas de 1930 em diante, mas com uma intensidade bem maior, o circuito
industrialização-publicidade permite um forte crescimento da indústria cultural
em todo o país;
c) Consolidação e destaque à pesquisa – a partir dos anos 1980, a chamada
redemocratização do país permite a emancipação cultural e universitária do
controle ideológico e censorial dos administradores políticos. O país se diversifica,
as eleições se sucedem e o campo da comunicação é importante espaço do embate
democrático. Os cursos de Mestrado surgem nos anos 1970 e os de Doutorado
na década de 1980. Crescem as produções e a necessidade de profissionais se
multiplica.
Os cursos de Pós-Graduação interferem na realidade cotidiana, na medida
em que seus pesquisadores voltam-se para o entorno imediato a respeito do qual
discutem.
No artigo de Kunsch, fala-se no desafio dos anos 1990, que a autora
assim resume: desenvolver estudos sobre as novas tecnologias de informação e
comunicação (TICs) que então emergem no país; capacitar para a análise de
fenômenos emergentes produzidos pelas mesmas TICs; diminuir o descompasso
entre a pesquisa, a realidade social e as necessidades do mercado profissional;
buscar reais melhorias para a sociedade brasileira a partir das novas tecnologias;
revisar de paradigmas existentes; construir de um campo teórico da Comunicação
autônomo; sair do isolamento dos cursos de Pós-Graduação, levando a que as
pesquisas neles desenvolvidas se aproximem cada vez mais dos interesses da
sociedade do entorno.
Pode-se dizer que o “campo profissional e acadêmico da comunicação social
no Brasil se encontra hoje num estágio altamente avançado se comparado com
países da América Latina e mesmo da Europa. Essa constatação deve servir de
estímulo para se buscar uma melhoria de qualidade e os níveis de excelência na
formação universitária e um aperfeiçoamento contínuo no mercado profissional”7
. Margarida Kunsch, neste outro texto, mais recente, salienta que “as perspectivas
são muitas, se considerarmos um conjunto de fatores, desde o poder e a
imprescindibilidade da Comunicação em todos os sentidos da vida humana e

7 KUNSCH, Margarida M., Krohling – “Perspectivas e desafios para as profissões de comunicação no terceiro
milênio” in KUNSCH, Margarida M. Krohling (Org.) – Ensino de comunicação: Qualidade na formação
acadêmico-profissional, São Paulo, INTERCOM-ECA/USP-ARCO. 2007, p. 88.

38
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

na sociedade até as novas possibilidades advindas com a revolução tecnológica


da informação e das comunicações. Outro aspecto relevante a considerar é o
crescimento e a pujança das indústrias das comunicações no Brasil, consideradas
das mais avançadas do mundo” (ps. 89 e 90).

Evolução histórica
É possível retornar um pouco ao passado e buscar sinalizar a evolução sofrida
tanto pelas tecnologias quanto pelo estudo e o surgimento das diferentes mídias
no país, até o momento presente. Foi com a imprensa que começou a experiência
brasileira no campo da comunicação, e com a imprensa permaneceria ao longo de
quase dois séculos nossa prática comunicacional.
Em sentido lato, pode-se considerar que o primeiro documento de caráter
jornalístico, produzido em terras brasileiras, foi o relato de Pero Vaz e Caminha ao
rei Dom Manuel, a respeito da descoberta de Pedro Álvares Cabral8. Em sentido
estrito, o jornalismo, segundo aquele conceito referido por José Marques de
Melo, enquanto atividade de comunicação coletiva9 ou, ainda, qualquer atividade
humana da qual resulte a transmissão de uma notícia ou informação de atualidade,
surgiria apenas após a chegada do rei Dom João VI ao Brasil, com a criação de
um arremedo de jornal10, a Gazeta do Rio de Janeiro, dirigido por Frei Tibúrcio
José da Rocha, a partir de 10 de setembro de 1808. Era nossa primeira aventura
com a imprensa, que coincidiria com outra iniciativa significativa, a de Hipólito
José da Costa e seu Correio Braziliense, editado a partir de junho de 1808, mas
que só chegaria à colônia brasileira, de fato, para ser lido pela Corte e por outros
interessados, provavelmente a partir de outubro daquele mesmo ano.
Os primeiros estudos formais sobre Comunicação se iniciaram em torno do
Jornalismo impresso, ainda no distante ano de 1859, com Fernandes Pinheiro11
, a que se seguiriam outras pesquisas, já em 188312. Anos mais tarde, outros
estudos de Vale Cabral (1881) e Pereira da Costa (1891) se seguiriam, até um dos
projetos pioneiros de pesquisa em torno da imprensa que se deveu ao historiador
Alfredo de Carvalho quem, em 29 de julho de 1907 propôs – e foi aceito – que o
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), a propósito do centenário da
criação da imprensa brasileira, que ocorreria no ano seguinte, desenvolvesse um
projeto coletivo de pesquisas em torno desse tema. O Secretário Geral Perpétuo
8 GUIRADO, Maria Cecília – Relatos do descobrimento do Brasil – As primeiras reportagens, Lisboa, Piaget.
2001
9 MELO, José Marques de – Teoria da comunicação: Paradigmas latino-americanos, Petrópolis, Vozes. 1998,
p. 72.
10 SODRÉ, Nelson Werneck – História da imprensa no Brasil, Rio de Janeiro, Graal. 1977, p. 23.
11 MELO, José Marques de – A esfinge midiática, São Paulo, Paulus.2004, p. 61.
12 MELO, José Marques de – Teoria da comunicação: Paradigmas latino-americanos, op. cit., p. 172, e MELO,
José Marques de - A esfinge midiática, São Paulo, Paulus.2004, p. 61, onde identifica José Higino Duarte Pereira
como o pesquisador referido.

39
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

do IHGB, Max Fleuiss, aceitou de imediato a proposta e assim a Revista do


Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em seu Tomo I, de 1908, dedicado
inteiramente ao Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil, reunia,
pela primeira vez, um conjunto de monografias sobre o assunto13.
Um pioneiro foi Rui Barbosa, com o seu famoso discurso, não pronunciado,
chamado “A imprensa e o dever da verdade”14 . Novos estudos surgiriam nas
décadas seguintes, com Barbosa Lima Sobrinho (1923), B. dos Santos Leitão
(1926), J. Canito Mendes de Almeida (1931), Ernani Macedo de Carvalho (1940),
Rubens Porto (1941), Vitorino Prata Castelo Branco (1943), Carlos Rizzini
(1946), etc. Uma série significativa de estudos teóricos, ainda hoje reeditados, é
integrada por Danton Jobim (1957), Luiz Beltrão (1960), Carlos Lacerda (1990)
e Barbosa Lima Sobrinho (1997)15. Deve-se lembrar, ainda, a obra de Afonso de
Arinos de Melo Franco, Pela liberdade de imprensa16. A partir dos anos 1960,
com cerca de meia centena de títulos, José Marques de Melo é, indiscutivelmente,
o pesquisador mais produtivo e qualificado de todo o país, discípulo de Luiz
Beltrão, seu seguidor e difusor, e também permanente incentivador de todas as
gerações que se sucederiam, não apenas no campo do jornalismo quanto no de
todas as demais práticas da comunicação social17.

Cursos de Comunicação
A história dos cursos de Comunicação sempre esteve marcada por uma crise
permanente, traduzida na reformulação constante dos currículos a serem
cumpridos pelas faculdades. Em uma perspectiva bastante crítica, Eduardo
Meditsch mostra que, desde a primeira proposta de criação de um curso de
Jornalismo no Brasil, até as atuais escolas de Comunicação, com suas habilitações,
a elaboração dos currículos enfrenta o dilema entre orientar os cursos no sentido
13 O material encontra-se guardado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e microfilmado, podendo ser
consultado a partir de BERTOLETTI, Esther – Periódicos brasileiros em microforma. Catálogo coletivo. 1981.
A INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação homenageia o pioneiro
com o nome de REDE ALCAR – relativo a Alfredo de Carvalho – o conjunto de pesquisas que se desenvolve
atualmente, em nível nacional, sobre a história da imprensa brasileira, preparando o seu segundo centenário,
que ocorre em 2008.
14 BARBOSA, Rui – A imprensa e o dever da verdade, São Paulo, EDUSP/COM-ARTE, 1990. A conferência
seria pronunciada no dia 15 de janeiro de 1920, quando de visita do autor ao Abrigo dos Filhos do Povo. Rui
Barbosa, doente,não pode comparecer à cerimônia, mas o texto foi lido por João Mangabeira. O autor entregou
os originais para que fossem editados em benefício da entidade. Hoje em dia, pode-se ler, ainda, sobre a imp-
rensa, os textos integrados aos volumes 25 (1898), 26 (1899) e 27 (1900), das Obras completas, publicadas pelo
Ministério de Educação e Cultura, através da Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro.
15 JOBIM, Danton – Espírito do jornalismo, São Paulo, EDUSP-COMARTE. 1992; LACERDA, Carlos – A
missão da imprensa, São Paulo, EDUDSP/COMARTE.1990; LIMA SOBRINHO, Barbosa – O problema da
imprensa, São Paulo, EDUSP/COMARTE. 1997.
16 MELO FRANCO, Afonso Arinos de – Pela liberdade de imprensa, Rio de Janeiro, José Olympio. 1957.
17 Ver, a propósito, MELO, José Marques – vestígios da travessia. Da imprensa á internet. 50 anos de jornal-
ismo, São Paulo, Paulus. 2009, em que o autor revisa criticamente sua trajetória de vida e acadêmica.

40
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

profissionalizante, para formar mão-de-obra especializada, ou no sentido teórico-


crítico, para formar agentes capazes de uma intervenção transformadora na
realidade social18.
Para ele, foi a preocupação em diplomar burocratas, e não em atender às
necessidades do Jornalismo brasileiro, que levou as autoridades brasileiras a criar
o primeiro curso de Jornalismo no país, na década de 1940. Daí a tendência
beletrista daqueles primeiros cursos, inclusive de uma frustrada tentativa de
Anísio Teixeira, na Universidade do Distrito Federal (na época, o Rio de Janeiro),
ainda nos anos 1930, o que só se encerraria, em tese, nos anos 1960.
A primeira proposta, realizada no I Congresso Brasileiro de Jornalistas, de
1918, resultou na criação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e defendeu
um curso eminentemente prático, montado a partir de um jornal-laboratório19.
A proposta repetia, de certo modo, a idéia de Gustavo de Lacerda, idealizador
de uma Casa do Jornalista, em 1908, que abrigaria um Clube de Repórteres
e também uma Escola de Jornalismo: Lacerda pretendia, com isso, resolver o
descompasso entre os jornalistas intelectuais, que vinham das classes médias, com
excelente formação cultural, e a dos candidatos populares a jornalista, que não só
desconheciam a própria profissão, sem ter oportunidade de nela formar-se nem
teórica nem praticamente, quanto evidenciavam baixo nível cultural. Lacerda
faleceu sem ver seu sonho concretizado, mas o Congresso dos Jornalistas de 1918
retomaria sua idéia20.
O mesmo modelo inspirou a pioneira escola de Cásper Líbero, a partir
de 194321, concretizada em 1947. A última tentativa de desenvolver um curso
semelhante, na Universidade de Brasília, foi interrompida em 1965, graças ao
golpe militar do ano anterior.
José Marques de Melo lembra que, depois da experiência da Universidade
do Distrito Federal, seguiu-se um decreto de 1943, que instituía formalmente
o Curso de Jornalismo, e um outro, de 1946, que estabelecia as normas de
funcionamento para esse curso22.
18 MEDISTCH, Eduardo – “A questão curricular: Do impasse à reinvenção” in MELO, José Marques (Org.) –
Ensino de comunicação no Brasil: Impasses e desafios, São Paulo, ECA/USP. 1987, mimeo, p.22.
19 MEDITSCH, Eduardo – “A qualidade do ensino na perspectiva do jornalismo: Dos anos 1980 ao inicio do
novo século” in KUNSCH, Margarida M. Krohling (Org.) – Ensino de comunicação – Qualidade na formação
acadêmico-profissional, São Paulo, INTERCOM/ECA-USP/Associação de Apoio à Arte e Comunicação. 2007,
p.127 e ss.
20 MELO, José Marques de – “O campo acadêmico da comunicação: História concisa” in MELO, José
Marques de (Org.) – Pedagogia da comunicação: Matrizes brasileiras, São Paulo, Angellara. 2006, ps. 19 e 20
21 Político, empresário e editor, proprietário, dentre outros, do jornal A Gazeta, Gazeta desportiva e Rádio
Gazeta, Cásper Líbero, pouco antes de falecer, em agosto de 1943, registrou em cartório um testamento em que
criava a primeira escola de jornalismo do país (in MELO, José Marques de – “Cásper Libero, pioneiro do ensino
de jornalismo no Brasil” in MELO, José Marques de (Org.) – Transformações do Jornalismo brasileiro – ética e
técnica, São Paulo, INTERCOM. 194, p.13.
22 MELO, José Marques de – “O ensino do jornalismo” in MELO, José Marques de (Org.) – O Ensino do

41
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

Após a criação da Faculdade Cásper Líbero, em 1947, segue-se o da


Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, em 1948; a Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) abriu seu Curso de
Jornalismo no dia 31 de julho de 1951, sob a égide da Faculdade de Filosofia23,
vindo a transformar-se em Faculdade de Comunicação Social em 1999, depois de
se independizar, enquanto Escola de Jornalismo, em 1964, e tornar-se Faculdade
dos Meios de Comunicação Social, em 1965. A Universidade Católica de
Pernambuco cria seu curso de Jornalismo em 1961, coordenado por Luiz Beltrão;
a Universidade de Brasília inicia sua Faculdade de Comunicação de Massa, em
1963, e, em 1966, a Universidade de São Paulo cria a Escola de Comunicações e
Artes (ECA).
Contrariando Luiz Beltrão e José Marques de Melo, contudo, Sérgio Mattos
escreve:
“O ensino de jornalismo no Nordeste não foi iniciado no ano de 1959;
tampouco os primeiros jornalistas profissionais nordestinos a portarem
título universitário colaram grau em 1961. Isto porque, historicamente,
a Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia aprovou o seu
Regimento Interno, em sessão do Conselho Universitário de 28 de abril de
1949 e nele foi inserido o curso de Jornalismo, instalado no ano de 1950
com grande afluência de candidatos. O Ministro da Educação, na época,
era o baiano Clemente Mariani que facilitou a instalação do curso durante
o reitorado de Edgard Santos. Os primeiros bacharéis em Jornalismo pela
Universidade Federal da Bahia colaram grau em 1952, quando 64 dos
quase 120 ingressos, concluíram o curso (...) No período de 1953 a 1961, o
curso de jornalismo da UFBA ficou sem funcionar, voltando a ser oferecido
em 1962. Nesse intervalo surgiu, em Salvador, o Instituto de Jornalismo
da Bahia – fundado por Germano Machado, Hermano Gouveia Neto e
Antonio Virgílio Sobrinho – que entre 1950 e 1964 ministrou vários cursos
práticos de jornalismo de curta duração”24.
É a partir de então que os cursos vão sendo organizados, podendo-se
distinguir três diferentes momentos quanto à sua evolução:
a) de 1946 a 1960 – surgimento das primeiras escolas de Jornalismo com
implantação de metodologias européias e norte-americanas;
b) de 1961 a 1969 – coincide com o funcionamento do CIESPAL na América
Latina, introduz novos parâmetros de ensino do Jornalismo e a mentalidade da
jornalismo – Documentos da IV Semana de Estudos de Jornalismo, São Paulo, ECA/USP. 1972, p. 9.
23 CLEMENTE, Elvo – “O curso de Jornalismo” in DORNELLES, Beatriz (Org.) – PUCRS – 50 anos for-
mando jornalistas, Porto Alegre, EDIPUCRS. 2002, p. 14.
24 MATTOS, Sérgio – “Ensino de jornalismo: Sem a integração teoria/prática não haverá solução” in MELO,
José Marques de (Org.) – Transformações do jornalismo brasileiro: Ética e técnica, op. cit., p. 29.

42
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

pesquisa científica;
c) de 1969 aos nossos dias, após a regulamentação da profissão de Jornalista,
que torna a profissão privativa de quem detenha o diploma. É nesta etapa que as
antigas escolas e cursos se transformam em Faculdades e quando o Jornalismo é
genericamente englobado na Comunicação Social, com raras exceções25.

Diferentes currículos
O beletrismo marcou o primeiro currículo mínimo oficial, através do parecer do
Conselho Federal de Educação, de n. 323/1962, e também o segundo, através
do parecer n. 984/1965, ainda que já se pudesse divisar o início da passagem
para uma visão técnico-científica, sob a influência norte-americana da reforma
universitária que começava a se implantar no país, através do Acordo MEC/
USAID. O terceiro currículo, instituído pelo parecer n. 631/1969, denominado
por Eduardo Meditsch como fase positivista, introduz o curso de Comunicação
Social e reduz o papel e o significado do Jornalismo, diluído em meio a outras
habilitações e sob uma proposta pseudo-abrangente de preparar um profissional
múltiplo, o que acabou desagradando a todos, empresários da área e profissionais
em geral. Seguiu-se o currículo de 1979, que ele denomina burocrático: elaborado
originalmente pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa de Comunicação
(ABEPEC), foi distorcido e mereceu severas críticas da União Cristã Brasileira de
Comunicação (UCBC). Esse currículo intensificou a tendência à especialização,
e só foi rediscutido em 1984.
Seguiu-se o currículo desenvolvido a partir do parecer nº. 1203/1977, que
propõe aliar a formação teórica ao aspecto prático do ensino e ao fornecimento ao aluno,
do instrumental teórico e técnico de intervenção26. Esse currículo teve modificação
parcial no ano seguinte e foi substituído por um quinto currículo, graças ao
parecer nº. 480/1983, resultado de trabalho de uma comissão de especialistas
criada pelo Ministério de Educação. O principal aspecto deste novo currículo é
a obrigatoriedade quanto a certos quesitos de infra-estrutura que as Faculdades
devem cumprir, visando a melhoria qualitativa da formação profissional.
Segundo esse currículo, a função do Jornalismo está caracterizada pela
produção de informações, notícias, matérias, escritas ou faladas, contendo ou
não comentários, com correção redacional e adequação de linguagem, contando
com serviços técnicos como arquivos, pesquisas de dados, distribuição gráfica de
textos, fotografias, ilustrações, desenhos, sendo elaboradas para quaisquer veículos
25 A exceção mais polêmica e conhecida é a da Universidade Federal de Santa Catarina, que possui um curso
de Graduação em Jornalismo e que, no ano de 2007, acaba de instalar um Mestrado em Jornalismo, em nível
de Pós-Graduação.
26 MOURA, Cláudia Peixoto de – O curso de Comunicação Social no Brasil: Do currículo mínimo às novas
diretrizes curriculares, Porto Alegre, EDIPUCRS. 2002, p. 88.

43
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

de comunicação, com fins de divulgação27.


Depois da sanção da chamada Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Brasileira, de 1996, haveria ainda a proposição de um novo currículo para os
cursos de Comunicação Social, aí incluído o Jornalismo, em 1998, através
da Portaria Ministerial nº. 54, parcialmente modificada no ano seguinte e,
finalmente, homologada em 2001, através do parecer nº. 492, do Conselho
Nacional de Educação.
Periodicamente, empresas jornalísticas e até mesmo autoridades, inclusive
do Judiciário, tentam desobrigar do diploma, conforme o Decreto-Lei nº. 972,
de 17 de outubro de 1969, aos profissionais de jornalismo. Comenta Meditsch:
“As empresas que reclamam o fim dos cursos de Comunicação e, com isso,
pretendem alcançar o monopólio não só do fazer, mas também do saber-fazer
geralmente investem muito pouco no aperfeiçoamento de seus profissionais,
quando não impedem que eles exerçam suas capacidades, negando-lhes as
mínimas condições de trabalho para tanto”28.
Desde 1990, o Brasil vem enfrentando a chamada guerra do canudo29,
quando o então Presidente Fernando Collor de Mello iniciou seu projeto
desregulamentador, retirando as legislações de 15 profissões. Mais tarde,
recuperado o status profissional, a juíza Carla Abrantkoski Rister, a partir de
uma demanda do Ministério Público de São Paulo, voltou a incidir sobre a
legislação profissional, desobrigando o diploma. Entre marchas e contramarchas,
formalmente, no país, no momento em que se escreve este artigo, a profissão,
regulamentada pela lei nº. 6612, que revogava o decreto-lei 972, de 17 de
outubro de 1969, e que sempre causava constrangimentos aos profissionais, por
ter sido editada durante o período da Junta Militar que governou logo após a
morte do General Costa e Silva, está desobrigada de ser cumprida pelos órgãos de
comunicação social do país. Derrubada recentemente a chamada lei de imprensa
e também decidida, pelo STF, a não-obrigatoriedade do diploma para o exercício
do jornalismo, aguarda-se, no momento, a tramitação de emenda constitucional,
a ser votada pelo Congresso Nacional, que reinsere tal obrigatoriedade na
própria Carta Magna da nação. A título de ilustração, é bom lembrar-se que, no
Brasil, a regulamentação da profissão antecedeu a criação dos próprios cursos de
Jornalismo 30
A primeira revista especializada, em nível acadêmico, sobre o fenômeno
27 MOURA, Cláudia Peixoto de – O curso de Comunicação Social..., op. cit., p.123. O livro apresenta ainda,
em seu Anexo 2, utilíssima “Cronologia do Ensino de Comunicação Social no Brasil”
28 MEDITSCH, Eduardo – “A questão curricular: Do impasse à reinvenção”, op. cit., p. 32.
29 SCHROEDER, Celso – “A guerra do canudo” in DORNELLES, Beatriz (Org.) – PUCRS – 50 anos for-
mando jornalistas, Porto Alegre, EDIPUCRS. 2002, p. 95 e ss.
30 AFONSO, Maria Rita Teixeira – “Ensino: Sonhos e pesadelos do curso pioneiro” in MELO, José Marques de
(Org.) – Pedagogia da comunicação: Matrizes brasileiras, São Paulo, Angellara. 2006, p. 37 e ss.

44
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

comunicacional, nasce no Curso de Jornalismo da Universidade Católica


de Pernambuco, graças a Luiz Beltrão, que alcançara oficializá-lo em 1960 e
conseguira sua autonomia no ano seguinte. Tratava-se de “Comunicações &
Problemas”, publicada pelo Instituto de Ciências da Informação (Icinform), que
também fora criado por aquele pesquisador. Instalado no dia 13 de dezembro de
1963, comemorou assim a formatura da primeira turma do curso de jornalismo
daquela universidade, que então tinha apenas três anos de currículo31. É a partir
deste conjunto de estudos pioneiros que, mais tarde, surgirá a inspiração de Luiz
Beltrão para a formulação da teoria da Folkcomunicação32 , que ele consubstanciará
mais tarde, em sua tese de doutoramento33.
Quanto às demais áreas de atividades da Comunicação social, podemos
começar com a Publicidade e a Propaganda.

Publicidade e propaganda
Para muitos, a história da Publicidade e da Propaganda também se inicia em
1808, com o jornal Gazeta do Rio de Janeiro34. Esse periódico teria publicado o
mais antigo anúncio de que se tem notícia no país, a respeito de aluguel e venda
de casas. Ao mesmo tempo, já em sua primeira edição, divulgava publicações que
a Imprensa Régia estava preparando para lançamentos imediatos. Por volta de
1860, com o desenvolvimento urbano, começam a surgir os primeiros painéis
e placas de rua, bulas de remédios e panfletos de propaganda. Em 1875, os
jornais “Mequetrefe” e “O Mosquito” inauguram os reclames ilustrados (p. 133).
O aparecimento das revistas ilustradas, a partir de 1900, facilita a expansão do
anúncio.
A profissionalização do campo da Publicidade se inicia nos anos 1930,
quando já havia meia dúzia de agências no Brasil, dentre elas a Eclética (fundada
em 1914), a Edanee, a Valentin Harris, a Pedro Didier/Antonio Vaudagnoti e a
Pettinatti, todas operando desde antes dos anos 192035. Neusa Demartini Gomes
31 NÓBREGA, Maria Luiza – “INCINFORM – Uma experiência pioneira” in MELO, José Marques de et
GOBBI, Maria Cristina (Org.) – Gênese do pensamento comunicacional latino-americano: O protagonismo
das instituções pioneras, São Bernardo do Campo, UMESP/UNESCO. 2000, p.157 e ss.
32 CARVALHO, Samantha Viana Castelo Branco Rocha – “Luiz Beltrão: Da criação do INCINFORM à
teoria da folkcomunicação” in MELO, José Marques de et GOBBI, Maria Cristina (Org.) – Gênese do pen-
samento comunicacional latino-americano: O protagonismo das instituções pioneiras, São Bernardo do Cam-
po, UMESP/UNESCO. 2000, p.193 e ss.
33 BELTRÃO, Luiz – Folkcomunicação. Um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos
e expressão de idéias, Porto Alegre, EDIPUCRS. 2001.
34 CARDOZO, Missila Loures; GOBBO, Sonia Maria et ARAÚJO, William Pereira de – “ESPM: A pioneira
escola de propaganda” in MELO, José Marques (Org.) – Pedagogia da comunicação: Matrizes brasileiras, op.
cit., p. 133.
35 GOMES, Neuse Demartini – “A comunicação publicitária no Brasil: Mercado, ensino e pesquisa” in LOPES,
Maria Immacolata Vassallo de; MELO, José Marques de; MOREIRA, Sônia Virgínia et BRAGANÇA, Aníbal
(Org.) – Pensamento organizacional brasileiro, São Paulo, INTERCOM.2005, p. 118 e ss.

45
Antecedentes, desenvolvimento e desafios do campo acadêmico da Comunicação

afirma que a primeira empresa anunciante regular foi a Bayer, com sua aspirina.
Em boa parte, contudo, esses primeiros anúncios vinham prontos dos Estados
Unidos. A chegada, em 1926, da General Motors, fabricante de automóveis,
trouxe consigo um conjunto de profissionais para o seu departamento de
Publicidade, que viriam a formar a Walter Thompson do Brasil, em 1929, à qual
a GM entregou sua conta (p. 118). Em 1930 foi a vez da N. W. Ayer & Son
instalar-se no país, tendo entre seus clientes a General Electric.
Pode-se afirmar que o aprendizado da Publicidade foi prático, do mesmo
modo que o de Jornalismo, porque primeiro aprendia-se a fazer e só muito mais
tarde começaram a surgir as escolas e os regramentos básicos da atividade36,
constituindo o que Neusa Demartini Gomes identifica como modelo americano
e modelo europeu, os quais embaralhamos na prática (p. 157).

36 GOMES, Neusa Demartini – “Pensando o ensino de publicidade e propaganda: Contribuições da academia


e do mercado para uma melhor sintonia” in KUNSCH< Margarida M. Krohling (Org.) - Ensino de comuni-
cação: Qualidade na formação acadêmico-profissional. São Paulo, INTERCOM-ECA/USP-ARCO. 2007, p.
155 e ss.

46
CAPÍTULO 3

Intercom: 33 anos de pluralismo, soberania e liberdade

José Marques de Melo1

Introdução
Mais antiga sociedade científica em atuação no país no campo da Comunicação,
a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom)
surge e progride no quadro de consolidação das ciências da comunicação como
área científica, decorrente também da atuação de outras associações científicas
e acadêmicas fundadas no apagar das luzes dos anos sessenta e limiar dos anos
setenta do século passado.
A primeira entidade aglutinadora de estudiosos da comunicação no Brasil
foi a Associação dos Amigos do Icinform, sigla do Instituto de Ciências da
Informação, criada por Luiz Beltrão, em Brasília, nos idos de 1966-67. Apesar
da existência de núcleos ativos em Brasília, Recife, São Paulo e Porto Alegre,
o agrupamento dissolveu-se na esteira dos acontecimentos que determinaram a
extinção do próprio Icinform2.
Logo em seguida, fundou-se em São Paulo (1969) uma associação voltada
para o estudo da comunicação eclesial. Trata-se da UCBC, sigla da União
Cristã Brasileira de Comunicação Social. Embora persista até os dias de hoje foi
perdendo, no correr do tempo, o caráter inicialmente analítico e reflexivo para se
tornar um núcleo militante de formação e produção.
Na seqüência, surgiu a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em
Comunicação (ABEPEC), criada em 1972, em São Paulo, cuja plataforma de
atuação foi pouco a pouco sendo implodida pela convivência pouco harmoniosa
entre professores e donos de escolas. Cinco anos depois de fundada, essa
associação perdeu a legitimidade, sendo substituída por duas entidades nacionais:
a Intercom (que subsiste até hoje), reunindo pesquisadores desde 1977, e a
ABECOM, associação de escolas e faculdades, fundada em 1984, mas desativada
paulatinamente. A seguir vieram: COMPÓS, 1992; Socine, 1996; Folkcom,
1998; Forcine, 2000, Rede Alcar, 2001 e SBPJor, 2003. As mais recentes são
a Ulepicc- Brasil 2004; FNPJ, 2005; Abrapcorp, 2006; ABciber, 2006; e
Compolítica, 2006.

1 Diretor-Titular da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação, integrou a equipe de docentes fundadores


da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos
Interdisciplinares da Comunicação – Intercom (2005-2008).
14. A última edição da revista Comunicações & Problemas (n. 11/12, 1969, 0. 232) noticia um encontro des-
sas “sessões regionais” do Icinform, com indicação de ações planejadas para o Rio de Janeiro, São Paulo e Belo
Horizonte.

47
Intercom: 33 anos de pluralismo, soberania e liberdade

Motivada pela fragilidade institucional da área de Comunicação, como


decorrência da fragmentação do campo de estudos, a Intercom promoveu,
durante o XXX Congresso de Ciências da Comunicação, em Santos, São Paulo
(agosto/2007), o I Fórum das Sociedades Científicas da Comunicação, com o
objetivo de abrir um diálogo entre as referidas entidades. Ao final, foi constituída
a Socicom, federação destinada a representar, de modo articulado, os interesses
da área frente aos órgãos públicos e privados, contribuindo para a formulação
consensual de uma política científica, tecnológica e de inovação.

Perfil
Constituída por mais de mil associados de todas as regiões do país ou residentes
no exterior, a Intercom é uma associação científica, interdisciplinar, sem fins
lucrativos, destinada a congregar professores, pesquisadores e profissionais, bem
como a prestar serviços à comunidade. A associação foi fundada em São Paulo,
a 12 de dezembro de 1977 e reconhecida como instituição de utilidade pública
pela Lei Municipal nº 28.135/89. Participa das redes nacionais de sociedades
científicas capitaneada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC) e pela Federação das Sociedades Científicas Nacionais de Comunicação
(Socicom). Está integrada às redes internacionais de Ciências da Comunicação
como entidade representativa da comunidade acadêmica brasileira:
1. Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación
(ALAIC),
2. International Association for Media and Communication Research
(IAMCR),
3. International Federation of Mass Communication Associations (IFCA)
4. Federação Lusófona de Ciências da Comunicação (LUSOCOM)
Cada sócio da Intercom está nucleado por afinidade temática, num dos
Grupos de Pesquisa (GPs) estruturados sob a forma de redes nacionais que
estudam fenômenos específicos – Gêneros Jornalísticos, Telenovelas, Culturas
urbanas, Conteúdos Digitais, Cibercultura, etc. – ou tratam de áreas do saber
comunicacional - Comunicação Audiovisual, Organizacional, Folkcomunicação,
Jornalismo, Propaganda , Semiótica, Fotografia, Tecnologias, Teorias da
comunicação, entre outras.
Suas atividades anuais mobilizam os associados de todo o país. A principal
é o Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom Brasil),
megaevento pluritemático, freqüentado por toda a comunidade científica da
área. Mas a associação promove também encontros intra-regionais de estudantes
e professores, denominados Congressos Regionais de Ciências da Comunicação,
48
Intercom: 33 anos de pluralismo, soberania e liberdade

conhecidos como Intercom Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.


Da mesma forma, existem outras atividades periódicas, como por exemplo
os Colóquios Bi-Nacionais de Ciências da Comunicação – reuniões de trabalho
das equipes: Brasil/França, Brasil/Espanha, Brasil/Portugal, Brasil/Itália, Brasil/
Dinamarca - ou americanos: Brasil/México, Brasil/Canadá, Brasil/Estados
Unidos, Brasil/Argentina e Brasil/Chile. Os Seminários Temáticos são eventos
realizados em parceria com universidades, empresas e organizações sociais para
debater temas da agenda pública.
A partir de 2007, ocupou papel de realce na agenda o Café INTERCOM,
que corresponde a eventos promovidos em parceria com a FNAC (São Paulo e
Curitiba), Biblioteca Nacional (Rio) e outras instituições para o lançamento de
livros ou para a realização de palestras.
A linha de publicações tem constituído fator-chave para a legitimação
acadêmica da entidade. A Intercom Edições vem lançando livros, anais, coletâneas,
bibliografias, monografias produzidos pelos associados, organizados em seis
coleções accessíveis na “Livraria Virtual”. É editada também a INTERCOM –
Revista Brasileira de Ciências da Comunicação – o mais antigo periódico da área,
detentor do conceito elevado no Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia.
Circulando há 30 anos, cada semestre, em formatos impresso e digital, essa revista
vem sendo financiada continuamente pelos Ministérios da Educação (MEC) e da
Ciência e Tecnologia (MCT).
Catalisando os interesses de públicos segmentados, a Intercom instituiu
várias redes acadêmicas: Portcom, Expocom, Intercom Junior e Intercom Jovem.
A Rede de Informação em Ciências da Comunicação nos Países de Língua Portuguesa
(Portcom) forma um banco de dados que registra as fontes do saber comunicacional
produzido no Brasil, em Portugal e nos países de língua portuguesa da África e
Oceania. A Rede de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom) possui
amplitude inter-regional, incentivando a melhoria de qualidade dos projetos
laboratoriais desenvolvidos pelos estudantes de graduação. Por sua vez, a
rede Intercom Junior destina-se a aglutinar estudantes dos cursos de graduação
engajados ou interessados em projetos de iniciação científica. Enquanto isso, a
rede Intercom Jovem pretende atualizar e complementar a formação acadêmica dos
egressos dos cursos de graduação, bem como dos jovens docentes que pretendem
desenvolver projetos no campo da Comunicação.
Cinco Prêmios, outorgados anualmente, despertam interesse coletivo. O
Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação é disputado por pesquisadores
e instituições. Enquanto o Prêmio Vera Giangrande é cobiçado por Estudantes de
Graduação e o Prêmio Ligia Averbuck por Estudantes de Especialização, foram
instituídos o Prêmio Francisco Morel, para Mestrandos e o Prêmio Freitas Nobre,

49
Intercom: 33 anos de pluralismo, soberania e liberdade

para Doutorandos.
Enquanto associação acadêmica comprometida com os destinos da sociedade
a que pertence e na qual atua responsavelmente, a Intercom tem vivido, nos
últimos anos, um período de transição institucional. Trata-se de processo balizado,
no plano externo, pela débâcle do mundo socialista e a conseqüente ascensão
dos Estados Unidos à condição de potência hegemônica. E, no plano interno,
pelo fortalecimento da democracia e pela alternância do poder republicano.
Esse quadro produziu as condições para a ascensão, pela primeira vez na nossa
História, de um partido político enraizado no mundo do trabalho, tendo que
pactuar com as elites até agora dominantes a posse do poder constitucional, que
lhe fora outorgado pelos cidadãos, através de eleições livres e soberanas.

Unidade na diversidade
O papel vanguardista da Intercom tem se caracterizado também pelas iniciativas
destinadas a romper as muralhas do gueto acadêmico, logrando maior interação
com a sociedade.
O balanço do último quinquênio indica que a associação rapidamente vem
alcançando resultados animadores. Nesse panorama, a dinamização dos Grupos
de Pesquisa, realizada pela atual diretoria, vem neutralizando a tendência inercial
que caracteriza muitos deles, convertidos em espaços receptores e seletores de
papers para exposição e debate durante o congresso anual. Pretende-se converter
os GPs em instâncias indutoras de estudos e pesquisas, criando redes integradas
que atuem coletivamente, no sentido de produzir conhecimento relevante para a
sociedade.
Para tanto, avaliou-se criteriosamente a estrutura do congresso anual,
criando oportunidades destinadas a atrair a participação dos jovens profissionais
que ingressam no mercado de trabalho e sentem necessidade permanente de
reciclar seu referencial cognitivo. Por sua vez, a seleção dos trabalhos inscritos
vem obedecendo a critérios de relevância social, inovação profissional e interesse
público. Boa parte da produção acumulada nas universidades vem sendo
direcionada para os Congressos Regionais, com periodicidade anual.
As parcerias estabelecidas com as Organizações Globo garantiram a presença
de profissionais jovens de todo o país nos seminários temáticos sobre Gestão de
indústrias midiáticas e sobre Indústrias do entretenimento, realizados anualmente,
no Rio de Janeiro.
Com a expectativa de neutralizar a babel terminológica, construindo bússola
taxionômica, a associação mobilizou a comunidade nacional para radiografar os
usos e costumes vigentes no Brasil, produzindo a “Enciclopédia Intercom de

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Intercom: 33 anos de pluralismo, soberania e liberdade

Ciências da Comunicação”. A idéia inicial pretendeu resgatar o projeto histórico


“Temas Básicos em Comunicação” (1983). Outras iniciativas nos segmentos da
epistemologia e lexicologia continuam a desafiar a imaginação da nossa vanguarda
acadêmica.
Instalada em sede própria, na cidade de São Paulo, a Intercom mantém dois
auditórios: o Intercom Brigadeiro e Intercom Pinheiros para a realização de cursos,
seminários, colóquios e debates, todos organizados com a finalidade de prestar
serviços aos seus associados e à sociedade brasileira. Além disso, mantém uma
página web (www.intercom.org.br) onde os interessados poderão acompanhar
com mais detalhes as informações disponibilizadas neste texto.

51
52
CAPÍTULO 4

A História da Compós – lógicas e desafios

José Luiz Braga1

Introdução
No dia 16 de junho de 2011, a Associação Nacional dos Pós-Graduações em
Comunicação (Compós) completa 20 anos.
Qual o sentido de escrever a história de uma instituição? A memória, a
informação, a compreensão do sucedido, a reafirmação dos movimentos
fundadores, a inscrição de um percurso nos contextos em que a ação se organizou,
o entendimento das energias e as motivações que convergiram para produzir algo
que não existia.
Certamente, por tudo isso se escreve a história. Mas também se escreve
porque a compreensão do presente é iluminada pela percepção do passado, e para
com ela produzir o futuro. Para assegurar que a história não acontece – se faz.
Lembrar a história é lembrar que a cada momento podemos continuar fazendo
história.
Dentre as várias perspectivas viáveis para apreender a história da Compós,
parece-nos que entendê-la como apreensão do presente e reflexão sobre o futuro
seria o movimento mais motivador. Nessa perspectiva de aproximação, buscamos
as lógicas básicas que deram motivação e substância para a fundação ou se
constituíram na processualidade de sua história. A explicitação das dinâmicas que
caracterizam a Compós deve dar sentido à memória da origem, apreender os
encaminhamentos do presente e explicitar os desafios para a continuação.

O contexto da criação
O contexto acadêmico da área, no início dos anos 90, era favorável a iniciativas de
aproximação e intercâmbio. Ocorria então em diversos estados, para além daqueles
em que se concentrava a área, o planejamento de novos programas, decorrente do
desejo de pesquisadores e universidades de participar do ambiente reflexivo então
restrito a poucos programas de Pós-Graduação (PPGs). O programa mais recente
dentre os sete existentes, o da UFBA, tinha chegado ao grupo com uma dinâmica
voltada para o intercâmbio e para o desenvolvimento e consolidação da área de
conhecimento. Os programas estabelecidos também buscavam, em sua maioria,
rever processos e construir novos contatos. A Compós foi resultante direta dessa
1. Professor da Unisinos. Foi Presidente da COMPÓS, gestão 1993-95.

53
A História da Compós – lógicas e desafios

movimentação – e se implantou no momento eficaz para representar e articular


os esforços, estimulando sua convergência e ampliação.
Nesse contexto, a iniciativa de reunir os representantes dos programas foi dos
professores Antonio Fausto Neto e Sérgio Dayrell Porto, na época representantes
da área de conhecimento, respectivamente, junto ao CNPq e à CAPES. O Estatuto
votado na fundação referenda a sintonia com o momento, na seguinte proposição:
“[oferecer] apoio pertinente a cursos de pós-graduação em implantação...” (Art.
4º, alínea “c”) – prefigurando assim os 20 anos subseqüentes.

Fundação: Intercâmbio
A Compós foi fundada em dois movimentos, o primeiro levando quase
naturalmente ao segundo. No dia 20 de março de 1991, em Goiânia, representantes
dos sete programas de pós-graduação em Comunicação então existentes decidiram
a criação de um Fórum dos Programas de Pesquisa e Pós-Graduação do Campo
da Comunicação “como instrumento de integração e interação contínua dos
programas de pós-graduação em Comunicação em existência no país” (da Ata de
criação do Fórum). Foi criado um grupo de trabalho para encaminhar propostas
sobre formas para consolidar o processo de integração. Definiu-se imediatamente
uma segunda reunião para os dias 14 a 16 de junho do mesmo ano, em Belo
Horizonte, a ser acolhida pela UFMG.
Embora a data oficial de fundação seja o dia 16 de junho de 1991, com
a criação da nova Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em
Comunicação (que depois recebeu a sigla Compós), a referência a essa preparação
é relevante, pois evidencia, na frase-chave da motivação acima citada, um aspecto
central da dinâmica que a entidade mantém até hoje e lhe garante o perfil de
pluralismo. Tratava-se de assegurar o intercâmbio entre ambientes de produção
de conhecimento da área, como um fórum dos Programas.
O objetivo básico da associação só se realiza como efetiva interação na medida
em que o poder decisório se distribui igualmente entre todos os associados, que
são os programas e não pessoas isoladas. Este fato não só demarca as motivações de
origem, como também as lógicas de seu desenvolvimento. As demais características
e qualidades da entidade decorrem, direta ou indiretamente, dessa dinâmica
inicial, que se mantém na duração, assegurando pluralismo, participação nacional
e presença junto às agências de fomento com representatividade institucional.
Um ano depois, em 1992, era realizado no Rio de Janeiro, na UFRJ, o
primeiro congresso anual da associação. Foi relevante para sua história, pois aí
se definiu o formato para os debates acadêmicos que passariam a caracterizar
os Encontros da Compós: um grupo de pares, pesquisadores, submetendo seus
trabalhos ao debate dos colegas, assegurando uma processualidade agonística
54
A História da Compós – lógicas e desafios

fundamental para o avanço do conhecimento. Foi expressa uma recusa de basear a


entidade em apresentações “de performance”, que concentrariam a disseminação
de conhecimentos na voz de poucos, os ouvintes se limitando a aprender e
aplaudir. O processo foi assegurado, desde o início, por uma distribuição de
tempo igual para todos os participantes de cada grupo; pela pré-definição de um
colega do mesmo grupo para fazer um relato crítico, e pela especificação de um
tempo generoso para o debate, maior que o da simples exposição. No primeiro
encontro foram também definidos os grupos de trabalho que fariam chamadas de
texto para o II Encontro.
O segundo congresso, em 1993, na UFBA, em Salvador, funcionou nesse
formato que desde então é uma característica central dos encontros. O formato
dos debates, fundante para a constituição do valor científico no ambiente
então constituído, mantém-se como eixo das lógicas de interação acadêmica da
entidade.

Os grupos de trabalho (GTs) e a reclivagem


Havia então poucos grupos, criados a partir de propostas que agregaram
proponentes nos primeiros encontros. O sistema de criação de um grupo, bastante
espontâneo, consistia apenas na proposta de tema e ementa, feita diretamente na
reunião do Conselho – aprovado, o grupo se reunia no ano seguinte. Embora não
se delimitasse o número de participantes, a dimensão do encontro era correlata
ao tamanho da área, com seus sete programas, e poucos outros mais nos anos
seguintes.
A boa produtividade do processo e o interesse despertado entre os
pesquisadores fez rapidamente crescer o número dos participantes. Na IV
Compós (UnB, Brasília) alguns grupos apresentavam um número de participantes
constatado como excessivo, por reduzir o tempo de debate. Alguns grupos
novos foram propostos e imediatamente aprovados para reunião desde o ano
subseqüente.
Em 1996, na V Compós (USP, São Paulo), com a dinâmica mesmo do
crescimento, foi proposta a criação, por diversos colegas, de sete novos GTs – o que
quase duplicaria a dimensão do evento anual. Decidiu-se, na própria reunião do
Conselho durante o evento, que não seria possível criar imediatamente mais que
dois dos GTs propostos. Nos debates intensos que decorreram, uma das críticas
apresentadas à restrição quantitativa foi que a clivagem da área entre poucos GTs
não permitiria abranger a riqueza de sub-áreas e de objetos de interesse do Campo
da Comunicação.
Foi votada, então, a criação de um grupo-tarefa para estudar uma
regulamentação adequada quanto à dimensão; e para propor um encaminhamento
55
A História da Compós – lógicas e desafios

de revisão da clivagem representada pelos GTs existentes.


Juntamente com uma regulamentação cuidadosa do funcionamento dos
GTs – até aí se desenvolvendo com base em práticas consuetudinárias – o grupo-
tarefa encaminhou à reunião do Conselho, em novembro do mesmo ano, uma
proposta que definia o número de GTs e o número máximo de participantes por
GT. Propôs, ainda, uma redefinição coletiva da clivagem então existente, uma
reclivagem experimental a ser feita em 1998 que, na medida de sua eficácia, passaria
a ser repetida a cada quatro anos. Na impossibilidade de ampliar indefinidamente
o Encontro, e para garantir dimensões sustentáveis em operacionalidade,
seletividade acadêmica, qualidade dos debates e viabilidade material, a área se
dotava de flexibilidade para abrir novas frentes e só manter ângulos estabelecidos
quando estes consigam demonstrar ao Conselho sua relevância.
No ano de uma reclivagem, todos os grupos cessam sua continuidade. Para
serem reconduzidos devem ser repropostos e passar pelo crivo de uma seleção,
juntamente com propostas novas. Obteve-se assim a garantia de uma dimensão
compatível com a operacionalidade do rigor, ao mesmo tempo evitando uma
cristalização que arriscaria estagnar a entidade. O fato de que desde então a
reclivagem tenha entrado nos costumes da Compós evidencia a pertinência do
processo.
Na mesma regulamentação foi especificada a importância de que cada grupo
deve interessar diretamente a vários programas de pós-graduação – assegurando
assim o valor de intercâmbio que é uma das metas principais da Compós. Por isso
mesmo os GTs, como ambiente de debate, ultrapassam as pesquisas individuais
ou por tendência, repercutindo em atividades e articulações entre os diferentes
PPGs de que participam os pesquisadores.
O episódio e os processos estabelecidos de reclivagem periódica ilustram bem
uma das dinâmicas da entidade. Algumas atividades desenvolvem procedimentos
ad-hoc, na busca coletiva da eficácia. Quando os gestos são adequados a seus
propósitos, a tendência é criar uma espécie de direito consuetudinário. Quando
surgem tensões ou dilemas, a deliberação conjunta do Conselho formaliza um
novo padrão normativo.

Pluralismo - o processo decisório


Essa mesma dinâmica agonística marca um processo decisório equilibrado entre
os dois órgãos permanentes que conduzem as atividades sistemáticas da Compós
– a Diretoria e o Conselho – assim constituídos desde a fundação. A palavra
final é equilibradamente distribuída entre os Programas, por seus representantes,
conforme a obtenção da maioria de votos. Uma característica que tem assegurado
a flexibilidade democrática do Conselho é o fato, constatado, de que as maiorias
56
A História da Compós – lógicas e desafios

se formam em torno das questões específicas em pauta – sem posições aprioristas.


Isso parece assegurar decisões ponderadas e com boa pertinência para as questões
encaminhadas e para as decisões em geral.
Na fundação, o Conselho era composto por dois representantes de cada
PPG. Com sete Programas (e, na década de 90, com um crescimento paulatino),
dois representantes por PPG ofereciam uma diversidade necessária de reflexões
e de posições, para obter boas deliberações. Com o crescimento exponencial do
número de Programas, essa estrutura estatutária arriscava gerar um Conselho
com dimensão excessiva, em que as deliberações se confundiriam no número de
vozes e no surgimento de micro-diferenças. Além disso, o custo para o número
crescente de participantes dificultava a operacionalidade do Conselho.
Por proposta da diretoria (em junho de 2005) o Conselho deliberou por
sua própria redução numérica, para um representante por PPG (modificação do
art. 5º do Estatuto), retomando assim uma dimensão de eficácia. Este episódio
mostra uma prática deliberativa freqüente: a manutenção de continuidade nos
processos essenciais; com flexibilidade, entretanto, para fazer ajustes requeridos
pela modificação das condições.

A Diretoria
A estrutura da Compós se organiza com base nos procedimentos articulados
entre a ação deliberativa do Conselho e a ação executiva da Diretoria. Embora
conduza as reuniões do Conselho, não tem direito a voto nas deliberações. Como
a Diretoria é escolhida pelo Conselho, resulta naturalmente da confiança deste.
A Diretoria é condensada e ágil – apenas três participantes (Presidente, Vice-
Presidente, Secretário Geral). Sua articulação tem sido fundamental – as diretorias
se evidenciam produtivas na medida mesmo de uma articulação mais que apenas
formal entre seus componentes. Este é, também, um indicador de pluralidade:
os diversos PPGs têm fornecido nomes para as diretorias. Nas ocasiões em que
a apresentação de duas chapas levou a uma distinção entre eleitos e não eleitos,
tanto a Diretoria como o Conselho absorveram a decisão sem formação de grupos
clivados de modo apriorístico por essa distinção.
Ao lado das funções político-operacionais, uma diversidade de ações se
realiza, por iniciativa própria da Diretoria, por deliberação do Conselho, ou ainda
por proposta de um ou mais PPGs. Para isso, são criados frequentemente grupos
com atribuições específicas, articulados pela direção. A produtividade da entidade
se amplia, com flexibilidade estrutural.
Com base em procedimentos deste tipo foram realizados diversos
Seminários Interprogramas, reunião de pequeno ou médio porte, assumida por

57
A História da Compós – lógicas e desafios

um dos programas associados, para debate de temas de interesse geral da área. Até
o momento foram realizados cinco Seminários Interprogramas.
Para a divulgação de estudos, a Compós publica desde a criação um livro
anual. Inicialmente, este resultava de uma seleção feita pelos próprios GTs, dentre
os artigos debatidos no ano. Desde 2008, um tema geral, acolhido em Conselho,
gera uma chamada de textos específicos para a publicação. O livro é organizado por
uma Comissão Editorial ad-hoc, escolhida anualmente pelo próprio Conselho.
No início dos anos 2000, no ambiente da Compós, debates sobre
procedimentos de avaliação dos periódicos dos PPGs estimularam o intercâmbio
e a busca de padrões de rigor editorial. Mais recentemente, a revista e-Compós,
definida desde sua implantação como publicação na rede informatizada,
tem se demarcado por sua qualidade, sua procura e sua relevância acadêmica,
imediatamente acessível aos pesquisadores.
Finalmente, e com particular relevância, a Diretoria representa a Compós
perante outras instituições. É o instrumento fundamental para o objetivo
estatutário de refletir e agir sobre políticas acadêmicas em que a Diretoria se
desempenha com a autoridade de falar em nome de todos os Programas de Pós-
Graduação da área, com a sustentação da base deliberativa que é o Conselho.

Políticas acadêmicas para a área


Dois ângulos se constituíram no ambiente de interação nucleado na entidade:
a busca de políticas internas, entre PPGs, gerando linhas de ação transversal; e
junto às agências de fomento. Em cada um dos dois ângulos, uma preocupação
dupla – defender a área, reivindicando e obtendo apoio e qualificar a área por
uma constante discussão de critérios de rigor, de auto-exigência, como consta,
aliás, do Estatuto, desde a fundação. Estas duas ações se apóiam mutuamente. O
diálogo com instituições afins estimula a participação da comunidade acadêmica
nas políticas da área, com repercussões sobre suas atividades de intercâmbio.
A Compós tem sido o ambiente natural para o debate das questões
operacionais, normativas e reflexivas de articulação da área de conhecimento com
as agências nacionais de fomento. No final dos anos 90, início dos anos 2000,
desenvolveu-se uma forte articulação entre a Compós e a representação da área
na CAPES. Sendo esta agência responsável pela avaliação dos programas de pós-
graduação e pesquisa, a lógica básica da avaliação é a de inscrever nos padrões
gerais da CAPES as perspectivas de cada área de conhecimento. O lugar de escolha
para as consultas na constituição dos critérios de área é justamente o Conselho
da Compós, que representa legítima e diretamente os programas. Mesmo quando
as reuniões dos coordenadores e seus representantes não se caracterizam na forma
de Reunião do Conselho, o fato de que sejam as mesmas pessoas, na mesma

58
A História da Compós – lógicas e desafios

função de representação, com suas preocupações em comum, faz repercutir no


ambiente deliberativo da entidade posturas e proposições decorrentes, assim
como, inversamente, posições debatidas pelo Conselho se desenvolvem em
iniciativas dos Programas junto às agências, estimulando sintonias transversais
entre os PPGs.
A presença articulada dos PPGs, na forma de deliberações democráticas e
caracterizadoras das melhores reflexões e dos projetos de qualificação, caracteriza
uma potencialidade de efetiva interlocução com as agências. Essa interlocução se
manifesta tanto nas reivindicações da área, como na convergência com as agências
na busca do aperfeiçoamento acadêmico e da pesquisa.

O Encontro Anual – abrangência e especificidade


No que se refere à produtividade acadêmica e a intensidade do intercâmbio,
o processo nuclear da Compós é, desde o início, o Encontro Anual, congresso
que tem reunido cerca de 120 artigos por ano, de pesquisadores da área, para
apresentação e debate – 12 GTs com 10 participantes cada. Há previsão de
passagem a 14 GTs, na reclivagem de 2010.
A inevitável e necessária seletividade em tal processo não apenas assegura
a presença dos textos com maior grau de prontidão, no momento da seleção,
mas sobretudo funciona como constituição de um padrão crescente de rigor na
produção dos estudos; e de aperfeiçoamento continuado das pesquisas, a partir
do esquadrinhamento feito pelos pares no momento dos debates. Além disso,
o funcionamento dos GTs tem demonstrado outras potencialidades. Embora
alguns GTs se caracterizem por um perfil de especialidade em seus estudos, o
que marca o processo de modo mais abrangente é a própria diversidade potencial
de inscrição de sub-temas e de problematizações variadas dentro do ângulo
principal de cada GT. O debate não se faz, assim, apenas entre especialistas que se
entendem por meias palavras e que falam em radical sintonia. Em coerência com
as características de uma área em construção continuada, a diversidade de ângulos
específicos nos debates de um GT propicia a inscrição de cada trabalho em um
âmbito no qual a pesquisa do autor individual encontra sempre a oferta de novas
perspectivas e desafios.
O encontro das variações não deixa espaço para a mera reafirmação de
proposições – o desafio do “outro ângulo” é um estímulo para o aprofundamento
e a revisão. Uma das grandes potencialidades do ambiente e da processualidade da
Compós nestes 20 anos é certamente o intercâmbio da diversidade, sem redução
apriorística de estímulos investigativos. O Encontro Anual põe em contato
diferentes perspectivas e experiências que vicejam nas linhas de pesquisa e áreas
de concentração dos programas.

59
A História da Compós – lógicas e desafios

Isso permitiu também o encontro das semelhanças, das preocupações em


comum, das perspectivas que podem entrar em sintonia. Melhor que isso, talvez:
tem viabilizado a construção de semelhanças e a busca de sintonias.
De alguns anos para cá, a partir do intercâmbio na Compós, nessa
construção da sintonia, e do ambiente ampliado de intercâmbio entre programas
de pesquisa no país, pesquisadores, estimulados para um aprofundamento da
investigação entre especialistas, sentiram a necessidade de outro ambiente, em que
desenvolveriam enfoques mais especializados. Surgem então variadas entidades
especificamente constituídas em torno de objetos, temas e investigações focadas,
em que as reuniões se fazem com tônica na proximidade maior de especializações.
Esse novo ambiente de circulação e estudos compõe, juntamente com a
Compós, um espaço relevante para a continuidade do desenvolvimento da
área de conhecimento. As entidades especializadas oferecem um ambiente de
aprofundamento, de elaboração de conceitos e métodos voltados para o rigor
no tratamento de seus objetos específicos. É o lugar da constituição de objetos e
tendências específicas.
A Compós, como entidade abrangente, assegura o âmbito do trabalho de
inscrição das especialidades na área de conhecimento, da realimentação mútua,
do teste de segunda instância para as proposições, quando estas devem sair de
seu ambiente de pares na mesma especialidade para entrar no tensionamento do
“próximo”, das perspectivas em que o atrito é que permite o desenvolvimento.
A vocação abrangente da Compós se manifesta, além da busca mesmo
de ângulos diversos que constituem o campo da Comunicação (em suas
possibilidades de diálogo interagente), também na abertura para perspectivas
não diretamente geradas em PPGs. Desde o início, e mantido como abertura
saudável, são aceitos textos de pesquisadores não pertencentes a um Programa
de Pós-Graduação. Essa flexibilidade mantém uma porosidade com outros
ambientes produtivos de conhecimento. No mesmo sentido, embora docentes de
PPGs sejam necessariamente doutores, acolhe-se também artigos de mestrandos e
doutorandos. Em qualquer dos casos, o critério claro de seleção é o da qualidade
do texto e de sua prontidão para o debate.
A participação nesse ambiente de abrangência e diversidade gera a percepção
de que a diversidade não é “domável” por uma teoria unificadora, por teorias
universalizantes excludentes. Daí decorre um estímulo para a diversidade da
pesquisa, como espaço de produtividade e de reflexão coletiva sobre o campo,
exigindo, entretanto, uma ampliação do diálogo entre posições diversas, para
evitar a mera dispersão. A meta da Compós, aqui, não é buscar a explicação
unificadora, mas investir em outras e outras perguntas, na manutenção produtiva
de um lugar de agonística.

60
A História da Compós – lógicas e desafios

Os desafios do futuro
Os desafios, em sua caracterização geral, continuam inscritos nos objetivos
assumidos desde a fundação da Compós. Entretanto, sua forma, sua processualidade
e as estratégias requeridas para seu enfrentamento são constantemente renovadas.
Tais mudanças decorrem de algumas dinâmicas que se manifestam em diferentes
pontos de incidência. O mais evidente é talvez o da avaliação CAPES, que se põe
crescentemente como um instrumento de política institucional nacional para o
desenvolvimento da pesquisa no país, gerando critérios de qualificação e metas
para ombreamento de nível internacional ascendente. O desafio é inicialmente
dos programas, em seu perfil singular, mas pelo conjunto, se torna um desafio
para a entidade representativa.
O CNPq, na ação correlata dos apoios e requisitos qualificadores da
pesquisa, faz complementar, em todos os objetivos da Compós, o requisito da
articulação de processos entre programas. Outro lugar de ação com incidência
direta sobre os processos da entidade é a dinâmica do próprio campo social da
comunicação, que se reformula não apenas na proliferação de novas tecnologias,
mas também e sobretudo nos processos de interação que acionam essas
tecnologias, na invenção social de usos (positivos ou negativos, democratizantes,
dispersivos ou concentradores) sempre a exigir novos olhares, outras teorizações,
investigação empírica mais sofisticada; e portanto novas problematizações e
melhor intercâmbio entre os pesquisadores e entre os programas.
Finalmente, a própria área de conhecimento e pesquisa, nos PPGs, pela
história mesmo de seus processos (da qual a história da Compós é um componente
intrínseco e dinâmico), redesenha de modo constante sua visada, a partir dos
atingimentos parciais, o que permite então antever outros ângulos antes não
suspeitados, novos desafios dentro dos mesmos objetivos abrangentes.
Um desafio, em especial, que se manifesta com clareza na metade da década
é o avanço decorrente das entidades especializadas conforme temas, problemas,
objetos de investigação e/ou bases teórico-metodológicas. Tal avanço demonstra a
maturidade da área, na busca de interlocuções específicas. Correlatamente, deve-
se buscar articulação e intercâmbios de natureza mais complexa que aqueles do
momento da fundação. A Compós comporta um ângulo de aprofundamento,
nos GTs, pelo encontro de uma diversidade relativa dentro do eixo que caracteriza
cada Grupo. No conjunto, pela circulação entre grupos, pela repercussão de
idéias e descobertas entre GTs, pela diversidade de ângulos e presença, a Compós
assegura o âmbito mais geral da área de conhecimento, na qual todos os PPGs
se reconhecem. É relevante, então, desenvolver articulações entre o campo de
abrangência e os campos especializados. Sem os âmbitos de especialização não é
mais possível constituir subáreas sólidas e bem fundamentadas. Sem o âmbito de
abrangência, os enfoques de especificação arriscariam o isolamento e a tautologia.
61
A História da Compós – lógicas e desafios

A Compós deve ser mais que o “lugar de encontro” da diversidade; deve buscar
interlocuções, transversalidades e fecundação mútua entre subáreas.
Esse desafio se duplica na necessidade, hoje fundamental, da busca de diálogo
entre posições teóricas, adoções metodológicas, objetos preferenciais. Não para
um embate excludente, em que cada posição, se pretendendo universalizante,
busque excluir outras posições; nem para a aceitação indiferente de um relativismo
fácil, mas para o tensionamento entre as vertentes, exigindo o desenvolvimento
rigoroso das mais promissoras de compreensão e conhecimento.
Em um primeiro momento, no contexto das origens da Compós, o
intercâmbio necessário, dada a então escassez de diálogo institucional e o
insuficiente ambiente comum a todos, era quase só o de se pôr em contato, o
de gerar aproximação, o de conhecer o que os demais propunham. Que hoje
a necessidade tenha se tornado mais complexa, menos previsível quanto aos
processos requeridos, parece ser, na verdade, uma demonstração da boa perspectiva
inicial, e do fato que esta fez caminho, produziu resultados e pede novos avanços.

62
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em
Comunicação

Itania Maria Mota Gomes,


Julio Pinto e
Ana Carolina Escosteguy1

Introdução
O sistema de Pós-Graduação organiza-se, no Brasil, nos anos 60. A Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 4.024/61, no art. 69, refere-se à Pós-
Graduação com dois níveis, o dos cursos de pós-graduação, “abertos a matrícula
de candidatos que hajam concluído o curso de graduação e obtido o respectivo
diploma”, e o dos cursos de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão. Mas a
regulamentação dos cursos de pós-graduação só viria com o Parecer nº 977/65,
do Conselho Federal de Educação, aprovado em dezembro de 1965, com a Lei nº
5.540/68, a Lei de Reforma Universitária, de 28/11/1968, do Regime Militar, e
com o Parecer nº 77/69, que estabelece as normas de funcionamento dos cursos
de pós-graduação.
Do ponto de vista normativo, o Parecer nº 977/65, do Conselho Federal de
Educação, estabelece as bases do que ainda hoje caracteriza o Sistema Nacional
de Pós-Graduação no Brasil. Ele ratifica a distinção entre a pós-graduação sensu
stricto e as especializações, aperfeiçoamentos e demais, define a natureza da
pós-graduação na sua estrita vinculação com a pesquisa científica e tecnológica
e constrói as diretrizes para a organização dos cursos pós-graduados. Tomando
o sistema estadunidense de estudos pós-graduados como referência, o Parecer
nº 977/65 estabelece a pós-graduação em dois níveis, mestrado e doutorado, e
justifica os motivos que requerem a sistematização da pós-graduação no Brasil:
“1) formar professorado competente que possa atender à expansão quantitativa
do nosso ensino superior garantindo, ao mesmo tempo, a elevação dos atuais
níveis de qualidade; 2) estimular o desenvolvimento da pesquisa científica por
meio da preparação adequada de pesquisadores; 3) assegurar o treinamento eficaz
de técnicos e trabalhadores intelectuais do mais alto padrão para fazer face às
necessidades do desenvolvimento nacional em todos os setores”2.
A visão que se destaca do Parecer nº 977/65 é de que a pós-graduação
stricto sensu realiza os fins essenciais da universidade, que abandona uma
1 Itania Maria Mota Gomes (http://lattes.cnpq.br/1249313747086140), Julio Pinto (http://lattes.cnpq.
br/6119752221984025) e Ana Carolina Escosteguy (http://lattes.cnpq.br/9828116606137239) são, respec-
tivamente, presidente, vice-presidente e secretária geral da COMPÓS, no biênio 2009/2011. Agradecemos o
apoio da secretária –executiva da COMPÓS, Valéria Vilas Bôas, na coleta e organização de dados históricos e
estatísticos que utilizamos aqui.
2 Ver Parecer CFE no 977/65, aprovado em 3 dez. 1965 in Revista Brasileira de Educação, nº30, Set /Out /
Nov /Dez 2005, p.165.

63
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

concepção essencialmente voltada ao ensino e à formação profissional para


dedicar-se também à pesquisa científica e tecnológica. A pós-graduação aparece
como condição mesma de consolidação do sistema universitário, visto que só ela
poderia transformar a universidade num centro de pesquisa, ciência e cultura.
A pós-graduação volta-se para estudos e pesquisas avançadas de modo regular
e permanente, para a elaboração de novos conhecimentos e para a atividade de
pesquisa científica e tecnológica inovadora. Mestrados e, em especial, doutorados
são um grau acadêmico de alta competência científica em determinado ramo
do conhecimento e visam objetivos essencialmente científicos. No sistema
universitário, a pós-graduação aparecia como “uma superestrutura destinada à
pesquisa, cuja meta seria o desenvolvimento da ciência e da cultura em geral, o
treinamento de pesquisadores, tecnólogos e profissionais de alto nível” 3.
A implantação sistemática dos cursos pós-graduados, a criação do ambiente
e dos recursos adequados para o desenvolvimento da pesquisa científica e
tecnológica passou a ser objetivo articulado ao espírito de modernização do
Regime Militar e visava criar capacidade para formação dos cientistas e tecnólogos
nas universidades brasileiras. Em que pesem as características da modernização
pretendida pelos militares e as ações de restrição ao livre pensamento e à pesquisa
durante a ditadura, o Sistema Nacional de Pós-Graduação consolidou-se: em
1965, quando da aprovação do Parecer nº 977/65, foram reconhecidos 11 cursos
de doutorado; dez anos depois, o numero dos doutorados chegava a 149; vinte e
três anos depois, em 1998, já existiam 782 programas de doutorado, um número
mais de cinco vezes maior do que o de 1975. No período entre 1998 e 2008
ocorreu um crescimento de 68,8 por cento no numero total de doutorados4.
Considerando dados de 2009, o Brasil tem 40 cursos de doutorado, 1.054
mestrados e 1.391 programas de pós-graduação (mestrado e doutorado), nas mais
diversas áreas do conhecimento.

3 Ver Parecer CFE no 977/65, aprovado em 3 dez. 1965 in Revista Brasileira de Educação, nº30, Set /Out /
Nov /Dez 2005, p.164
4 Doutores 2010: estudos da demografia da base técnico-científica brasileira, Brasília, DF: Centro de Gestão e
Estudos Estratégicos, 2010, p. 63.

64
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Gráfico 1: Proporção entre mestrados, doutorados e programas de pós-graduação no Brasil

2% 0%

42% Mestrado
Mestrado/doutorado
Doutorado
56%

Fonte: GEOCAPES, Programas de Pós-Graduação por Nível, 2009.

Na Sub-Área de Comunicação (Ciências Sociais Aplicadas I) a expansão


se deu com outras características. Os primeiros mestrados em Comunicação no
Brasil entraram em funcionamento no início da década de 70 e os doutorados
são da década de 80 do século XX. Os dados da Avaliação Trienal 2010/CAPES
mostram que a Comunicação tem hoje 39 Mestrados e Doutorados, sendo 24
Mestrados e 15 Programas de Mestrado e Doutorado, como mostra o quadro
abaixo.

65
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Quadro 1. Mestrados e Doutorados em Comunicação, por ano de criação e conceito na


Avaliação da Capes5

Fonte: os autores, a partir de dados da CAPES e da COMPÓS

5 Este artigo foi finalizado em setembro de 2010 e, para fins de atribuição dos conceitos dos cursos strito sensu,
toma como referência o Relatório de Divulgação dos Resultados da Avaliação Trienal 2010, publicado pela
Capes em 14 de setembro de 2010. Como o calendário de avaliação prevê um prazo de 30 dias para os pedidos
de reconsideração sobre a Avaliação Trienal, pode haver alguma alteração nos dados até o final de outubro. Para
dados atualizados, após esse período, consultar o site da Capes http://www.capes.gov.br. * O Programa de Pós-
Graduação em Comunicação da Universidade de Marília recebeu conceito 3 na Avaliação Trienal 2007, mas foi
descredenciado pela Capes na divulgação da Avaliação Trienal 2010. Como ainda cabem recursos, adotamos o
procedimento de manter o Mestrado da Unimar no quadro, com o conceito em aberto.

66
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

No final do século XX, existiam 15 Mestrados e Doutorados, sendo sete


Mestrados e oito Programas de Mestrado e Doutorado em Comunicação. Entre
2000 e 2010, 18 Mestrados e seis Programas de Mestrado e Doutorado foram
criados. Os dados mostram que, nesse período, a área cresceu 260 por cento em
termos de oferta de cursos de pós-graduação stricto sensu.
A área da Comunicação formou 4.991 mestres e 1.719 doutores nos últimos
14 anos6, num total de 6.710 pesquisadores. Se considerarmos que, em 1996, os
PPGs em Comunicação formaram 146 mestres e 54 doutores e que, em 2009,
esses números foram de 506 mestres e 122 doutores, temos uma evolução de
346,7 por cento na capacidade de formação de mestres e de 225,9 por cento na
capacidade de formação de doutores na área. Em média, hoje, 141 doutores e 439
mestres são formados por ano7.
Em relação ao corpo docente, em 2009, os PGGS em Comunicação
envolviam 537 professores, sendo 429 professores permanentes e 108 colaboradores
e visitantes. Na Avaliação Trienal 2007 (dados de 2004, 2005 e 2006), o número
total de docentes era de 384 – 304 permanentes e 80 colaboradores e visitantes.
Houve um crescimento de 39,8% em relação ao total de docentes. Por categoria,
a evolução foi de 70,8 para os permanentes e de 35% em relação aos colaboradores
e visitantes. A proporção de número de titulados versus número de docentes, em
termos globais8, em dados de 2009, é de 1,17 mestre ou doutor formado por
professor.
Apesar do crescimento na oferta de cursos de pós-graduação, na quantidade
de docentes envolvidos e na quantidade de mestres e doutores titulados, porém,
permanecem nossos problemas relativos à internacionalização e às assimetrias
regionais.
Do ponto de vista das assimetrias regionais, verifica-se um “desequilíbrio
dos programas por região do país. Com efeito, dos 39 Programas existentes
atualmente no Campo da Comunicação, 21 estão localizados na região Sudeste
(53,8%), sendo que, destes, 14 (35,8%) no Estado de São Paulo; oito (20,5%), na
região Sul; 5 (12, 8%), na região Nordeste; três (7,6%), na região Centro-Oeste e
dois (5, 12%), na região Norte”9. Dos doutorados, apenas dois estão localizados
no Nordeste. Não há doutorado em Comunicação na região Norte. Além dos
desequilíbrios regionais, intra-regionais e entre estados, há ainda o desequilíbrio
em relação à presença da pós-graduação nos municípios brasileiros: dos 39
6 CAPES, Relatório de Avaliação 2007/2009, sub-área Ciências Sociais Aplicada I, p. 47. O documento con-
sidera dados a partir de 1996.
7 Consideramos a média de titulação dos anos de 2007 (389 mestres; 165 doutores), 2008 ( 422 mestres; 136
doutores) e 2009 ( 506 mestres; 122 doutores).
8 Para o cálculo, consideramos a totalidade de mestres e doutores titulados, 628, versus todos os 537 docentes,
independentemente da categoria.
9 CAPES, Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas I, 2009, p. 2.

67
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Mestrados e Doutorados, 27, - quase 70% do total - estão nas capitais brasileiras.
Apenas quatro cidades não-capitais possuem doutorados em Comunicação. São
elas: São Bernardo do Campo e Campinas, no Estado de São Paulo, Niterói, no
Rio de Janeiro e São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

Gráfico 2: Distribuição de Mestrados e Doutorados em Comunicação, por Região geográfica

5,12%

7,60%

Sudeste
12,80% Sul
Nordeste
53,80% Centro-Oeste

20,50% Norte

Fonte: CAPES, Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas I, 2009.

Do ponto de vista da inserção internacional, é notável o fato de que, embora


seus primeiros mestrados e doutorados datem da década de 70 do século XX,
apenas um dos programas de pós-graduação em Comunicação conseguiu atingir
a nota 6 no sistema de avaliação da pós-graduação. Trata-se do Programa de Pós-
Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
o que ocorreu na Avaliação Trienal 2010. Ainda que as notas 6 e 7 não sejam
exclusivamente vinculadas à internacionalização – outros critérios são levados em
conta - o entendimento da área e da Capes parece ser esse: no Documento de Área
Ciências Sociais Aplicadas I, 2009, no item “V – Considerações e definições sobre
atribuição de notas 6 e 7 – inserção internacional”, p. 27, requer-se dos programas
que apresentem desempenho equivalente aos dos centros internacionais de
excelência na área, desempenho avaliado a partir de aspectos tais como publicação
docente internacional, acordos de cooperação, pós-doutoramentos, entre outros.
Nesse aspecto, a internacionalização está na agenda da maior parte dos cursos da
área.
É no interior do Sistema Nacional de Pós-Graduação que ocorre a atividade

68
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

da pesquisa científica e tecnológica brasileira de alto nível10. Se for tomado como


marco o Parecer nº 977/65, veremos que a estreita vinculação entre a pesquisa
científica e tecnológica e a pós-graduação caracterizam a pós-graduação stricto
sensu no Brasil desde seu começo, apresentando-se como diretriz fundamental
para a formulação de políticas públicas de ensino e pesquisa, para a legislação,
para o sistema de avaliação de cursos de pós-graduação e instituições de ensino
superior nos últimos 45 anos. Em Comunicação, os resultados alcançados
evidenciam que uma política deliberada e consistente de consolidação da pós-
graduação, por parte dos Ministérios da Educação e de Ciência e Tecnologia e
das agências de fomento, recebeu decidido engajamento da área, através dos seus
programas de pós-graduação.
A Comunicação participa e tem liderado os esforços da área de Ciências
Sociais Aplicadas I na consolidação do Sistema Nacional de Pós-Graduação. A
área tem considerável experiência na institucionalização dos critérios, parâmetros
e princípios empregados pelas suas subcomissões na avaliação dos cursos11.
Desde 1996, a área realiza reuniões sistemáticas, com periodicidade semestral
ou sempre que haja necessidade, entre os coordenadores de programas de pós-
graduação, liderados pela Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação
em Comunicação, a COMPÓS, fundada em 199112, e os coordenadores de área
na CAPES, para definir os princípios, diretrizes, critérios e procedimentos da
avaliação.
No mesmo sentido, as reuniões do Conselho Geral da COMPÓS, realizadas
em três períodos do ano, contam regularmente com a presença dos representantes
do Comitê Assessor - Artes, Ciência da Informação e Comunicação/CNPq
(CA). Em várias oportunidades, a COMPÓS realizou reuniões conjuntas entre
os coordenadores dos programas de pós-graduação, os representantes no CA e
diretores e pessoal técnico-administrativo do CNPq. A última dessas reuniões
foi realizada em abril de 2010. Nessas reuniões, CNPq e os programas de pós-
graduação da comunicação discutem as políticas, diretrizes, procedimentos e
critérios de julgamento do CNPq para a Ciência, Tecnologia e Inovação, no que
se refere à Comunicação.
Nesses seus quase 20 anos de existência, registra-se grande colaboração
entre a COMPÓS e órgãos do governo Federal na construção de parâmetros
de avaliação de programas, de produção, na colaboração com os representantes
10 CAPES, Plano Nacional de Pós-Graduação 2005-2010.
11 CAPES, Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas, 2009.
12 Em setembro de 2010, são 37 os programas de pós-graduação em Comunicação filiados à COMPÓS. Ap-
enas não estão filiados à COMPÓS, dado serem recentes, os dois últimos mestrados aprovados pela CAPES, o
de Comunicação da Universidade Federal do Paraná, aprovado no final de 2009, e o de Comunicação, Cultura
e Amazônia, da Universidade Federal do Pará, aprovado neste ano de 2010. Para uma relação dos PPGs filiados
à COMPÓS, com informações sobre seus endereços, sites, áreas de concentração e linhas de pesquisa, ver www.
compos.org.br

69
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

de área, na elaboração e aprovação de tabelas das Áreas de Conhecimento. Essa


colaboração está registrada nas atas de reuniões do Conselho Geral da COMPÓS,
através dos informes dos representantes de área e das discussões de temas propostas
pelo Conselho. As reuniões com o CNPq e a CAPES são fundamentais para a
construção coletiva do campo da Comunicação.
A vinculação entre a pesquisa científica e tecnológica e a pós-graduação se
evidencia através das áreas de concentração, das linhas e grupos de pesquisa dos
PPGs e dos Grupos de Trabalho da COMPÓS. Uma análise dos modelos de
organização e das áreas de concentração e linhas de pesquisa, tomando por base
as informações constantes nos sites dos PPGs em setembro de 2010, evidencia
algumas características da pós-graduação em Comunicação no país.
O Brasil tem adotado os grupos de pesquisa como um espaço privilegiado
para a formação de mestres e doutores, para a realização da pesquisa científica e
tecnológica de excelência e para a inovação. Os grupos de pesquisa, vinculados
aos projetos de pesquisa docente, às linhas de pesquisa e áreas de concentração
dos PPGs reúnem todos os docentes, doutorandos e mestrandos a eles vinculados,
além de bolsistas de Iniciação Científica e alunos da graduação em realização de
trabalho final de curso relacionado aos objetos de investigação dos grupos, um
aspecto que favorece a formação para a pesquisa e a integração entre graduação e
pós-graduação. A integração entre pós-graduação e graduação tem aparecido como
altamente benéfico para ambos os níveis de formação pós-graduada. Dos PPGs
em Comunicação atualmente existentes, apenas um não é vinculado a Cursos
de Graduação, o Programa de Pós-Graduação em Multimeios, da Universidade
de Campinas. O Documento de Área Ciências Sociais Aplicadas, 2009,
pactuado entre a CAPES e os coordenadores dos programas de pós-graduação
em Comunicação, explicitamente valoriza a integração entre a graduação e a
pós-graduação como meio de favorecer a formação de jovens pesquisadores e de
profissionais mais qualificados.
A COMPÓS, em documento enviado a CAPES como subsídio para a
elaboração do Plano Nacional de Pós-Graduação 2011/2020, reforçou o papel
da iniciação científica e dos trabalhos de conclusão de curso na formação de
pesquisador e recomendou a atribuição de créditos às atividades que resultem em
produção científica ou tecnológica e a manutenção da possibilidade de realização
dos Trabalhos de Conclusão de Cursos (TCCs) em modalidades de monografias
e trabalhos laboratoriais de pesquisa vinculados à pesquisa científica e tecnológica
e à inovação realizada no âmbito dos cursos de pós-graduação.
Um diagnóstico da sub-área de Comunicação, a partir da análise das áreas
de concentração e das linhas de pesquisa dos programas de pós-graduação permite
traçar algumas tendências. Como se pode observar no Quadro 2, abaixo, as áreas
de concentração configuram-se, inicialmente, em áreas bastante abrangentes e
70
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

enfatizam as relações entre Comunicação e Cultura, Comunicação e Sociedade,


Comunicação e Linguagens, Comunicação e Tecnologia. Por muitos anos,
apenas o Programa de Pós-Graduação em Multimeios, da Unicamp, tinha sua
área de concentração voltada para as especificidades do cinema e da fotografia.
Mais recentemente, começam a surgir PPGs com áreas de concentração mais
específicas, como o de Jornalismo, da Universidade Federal de Santa Catarina, o
de Comunicação Visual, da Universidade Estadual de Londrina, ou o de Imagem
e Som, da Universidade Federal de São Carlos, só para citar alguns.
Quanto às linhas de pesquisa, elas se organizam em torno das interfaces
da Comunicação com áreas mais definidas como Semiótica, com esferas mais
abrangentes como cultura e sociedade, em torno de processos, sobretudo, aqueles
vinculados aos meios de Comunicação/mídia, considerando aí a existência de
práticas específicas ou então em torno de meios e produtos.

Quadro 2. Áreas de Concentração e Linhas de pesquisa dos Mestrados e Doutorados em


Comunicacão

IES CURSO Áreas de Linhas de Pesquisa


Concentração
PUC/SP COMUNICAÇÃO E Signo e Significação - Cultura e Ambientes Midiáticos
SEMIÓTICA nas Mídias - Processos de Criação nas Mídias
- Análise das Mídias
UFRJ COMUNICAÇÃO Comunicação e Cultura - Mídia e Mediações Socioculturais
- Tecnologias da Comunicação e Estéticas
USP CIÊNCIAS DA - Teoria e Pesquisa em - Comunicação e Cultura
COMUNICAÇÃO Comunicação - Comunicação Impressa e Audiovisual
- Estudo dos Meios e - Educomunicação
da Produção Mediática - Epistemologia, Teoria e Metodologia da
Comunicação
- Interfaces Sociais da - Estética e História da Comunicação
Comunicação - Linguagem e Produção de Sentido em
Comunicação
- Políticas e Estratégias de Comunicação
- Técnicas e Poéticas da Comunicação
- Tecnologias da Comunicação e Redes
Interativas

UNB COMUNICAÇÃO Comunicação e - Jornalismo e Sociedade


Sociedade - Políticas de Comunicação e de Cultura
- Teorias e Tecnologias da Comunicação
- Imagem e Som
UMESP C O M U N I C A Ç Ã O Comunicação e - Processos Comunicacionais Midiáticos
SOCIAL Sociedade - Processos de Comunicação
Institucional e Mercadológica
- Processos da Comunicação Científica e
Tecnológica

71
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

UNICAMP MULTIMEIOS --- - História, estética e domínios de


aplicação do cinema e da fotografia
UFBA COMUNICAÇÃO Comunicação - Análise de Produtos e Linguagens da
E CULTURA e Cultura Cultura Mediática
CONTEMPORÂNEA Contemporânea - Cibercultura
- Comunicação e Política
PUC/RS COMUNICAÇÃO Práticas e culturas - Práticas culturais nas mídias,
SOCIAL da comunicação comportamentos e imaginários da
sociedade da comunicação
- Práticas profissionais e processos
sociopolíticos nas mídias e na
comunicação das organizações
UNISINOS CIÊNCIAS DA Processos Midiáticos - Mídias e Processos Audiovisuais
COMUNICAÇÃO - Linguagem e Práticas Jornalísticas
- Cultura, Cidadania e Tecnologias da
Comunicação
- Midiatização e Processos Sociais

UFMG COMUNICAÇÃO Comunicação - Processos comunicativos e práticas


SOCIAL e sociabilidade sociais
contemporânea - Meios e produtos da comunicação
UFRGS COMUNICAÇÃO E Comunicação e - Informação, Redes Sociais e
INFORMAÇÃO Informação Tecnologias
- Jornalismo e Processos Editoriais
- Linguagem e Culturas da Imagem
- Mediações e Representações Culturais
e Políticas
UFF COMUNICAÇÃO Comunicação - Comunicação e Mediações
- Tecnologias da Comunicação e da
Informação
- Análise da Imagem e do Som
UNIMAR COMUNICAÇÃO Mídia e Cultura - Ficção na mídia
- Produção e Recepção da Mídia
UNIP COMUNICAÇÃO Comunicação e - Configuração de Linguagens e
Cultura Midiática Produtos Audiovisuais na Cultura
Midiática
- Contribuições da Mídia para a
Interação em Grupos Sociais

72
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

UTP COMUNICAÇÃO E Processos - Estratégias Midiáticas e Práticas


LINGUAGENS Comunicacionais Comunicacionais
- Estudos de Cinema
UFPE COMUNICAÇÃO Comunicação - Linguagem dos Meios
- Mídias e Processos Sociais
- Estética e Cultura Midiática
U N E S P / COMUNICAÇÃO Comunicação - Processos Midiáticos e Práticas
BAU Midiática Socioculturais
- Produção de Sentido na Comunicação
Midiática
- Gestão e Políticas da Informação e da
Comunicação Midiática
UERJ COMUNICAÇÃO Comunicação Social - Cultura de Massa, Cidade e
Representação Social
- Tecnologias de Comunicação e Cultura
PUC-RIO COMUNICAÇÃO Comunicação Social - Cultura de massa e representações
sociais
- Cultura de massa e práticas sociais
FACASPER COMUNICAÇÃO Comunicação na - Processos Midiáticos: Tecnologia e
Contemporaneidade Mercado
- Produtos Midiáticos: Jornalismo e
Entretenimento
UFSM COMUNICAÇÃO Comunicação - Mídia e Identidades Contemporâneas
Midiática - Mídia e Estratégias Comunicacionais
ESPM COMUNICAÇÃO Comunicação - Impactos socioculturais da
E PRÁTICAS DE comunicação orientada para o mercado
CONSUMO - Estratégias de comunicação e
produção de mensagens midiáticas
voltadas às práticas de consumo
UNISO COMUNICAÇÃO E Comunicação e - Teorias da comunicação e da cultura
CULTURA Cultura - Análise de processos e produtos
mediáticos
UAM COMUNICAÇÃO Comunicação - Análises em Imagem e Som
Contemporânea - Mediação, tecnologia e processos
sociais.
PUC/MG COMUNICAÇÃO Interações Midiáticas - Midiatização e processos de interação
SOCIAL - Linguagem e mediação sociotécnica
UFJF COMUNICAÇÃO Comunicação e - Tecnologias da Comunicação
Sociedade - Comunicação e Identidades
UFG COMUNICAÇÃO Comunicação, - Mídia e cidadania
cultura e cidadania - Mídia e cultura

73
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

UFSC JORNALISMO Jornalismo - Processos e produtos jornalísticos


- Fundamentos do Jornalismo
UEL COMUNICAÇÃO Comunicação Visual - Imagem e mídia
- Linguagens e poéticas fotográficas
UFSCAR IMAGEM E SOM Imagem e Som - Narrativa Audiovisual
- História e Políticas do Audiovisual
UCB COMUNICAÇÃO Processos - Processos Comunicacionais na Cultura
Comunicacionais Mediática
- Processos Comunicacionais nas
Organizações
UFPB COMUNICAÇÃO Comunicação e - Mídia e Cotidiano
E CULTURAS Culturas Midiáticas - Culturas Midiáticas Audiovisuais
MIDIÁTICAS
UFC COMUNICAÇÃO Comunicação e - Fotografia e Audiovisual;
Linguagens - Mídia e Práticas Sócio-Culturais.
UFAM CIÊNCIAS DA Ecossistemas - Ambientes comunicacionais midiáticos
COMUNICAÇÃO comunicacionais - Processos informacionais científicos
USCS COMUNICAÇÃO Comunicação, - Transformações Comunicacionais e
Inovação e Comunidades
Comunidades - Inovações na Linguagem e na Cultura
Midiática
UFRN ESTUDOS DA Comunicação - Estudos de Mídia e Práticas Sociais;
MÍDIA Midiática: Práticas - Estudos de Mídia e Produção de
Sociais e de Sentido Sentido.
USP MEIOS E Meios e Processos - História, teoria e crítica
PROCESSOS Audiovisuais - Poéticas e Técnicas
AUDIOVISUAIS
- Práticas de Cultura Audiovisual
UFPR COMUNICAÇÃO Comunicação e - Comunicação, educação e formações
Sociedade socioculturais
- Comunicação, política e atores
UFPA COMUNICAÇÃO,
CULTURA E
AMAZÔNIA
Fonte: sites dos PPGs em Comunicação, em setembro de 2010

Os Grupos de Trabalho (GTs) são o principal mecanismo para viabilizar o


trabalho científico da COMPÓS. Através dos GTs busca-se o intercâmbio entre
os pesquisadores e os programas de pós-graduação associados, criando-se redes de
interesse acadêmico comum que atravessam as diversas instituições participantes.
Desse modo, a COMPÓS estimula a ampliação das estruturas de pesquisa no país

74
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

e a superação do isolamento dos pesquisadores e grupos de pesquisa. O objetivo


dos Grupos de Trabalho da COMPÓS é oferecer um espaço de interlocução
científica no qual o debate sobre os resultados das pesquisas de seus participantes
resulte em estímulo para o desenvolvimento da reflexão. A instância principal
dos procedimentos do GT, em busca da realização qualitativa deste objetivo, é o
debate realizado anualmente entre os participantes.
Os critérios para criação, funcionamento e avaliação dos GTs partem de
premissas sugeridas pela história da Associação, pelas práticas de funcionamento
dos Grupos, pelas decisões do Conselho Geral da COMPÓS e pelo processo
de discussão permanentemente mantido pela entidade no sentido de assegurar
a manutenção de procedimentos que têm demonstrado serem produtivos para
o bom atendimento dos objetivos da COMPÓS e alcançar a flexibilidade
necessária para responder aos novos problemas teórico-práticos e a uma renovação
continuada de métodos de trabalho, de temas abordados e de clivagens de nosso
campo de estudo.
Podem participar dos GTs os estudiosos e pesquisadores interessados no
desenvolvimento da pesquisa em Comunicação, quer pertençam ou não ao quadro
docente de um dos programas associados, podendo enviar textos a quaisquer dos
GTs, buscando espaço para sua discussão no Encontro Anual da COMPÓS. Os
textos selecionados para discussão levam em conta o atendimento de, pelo menos,
três critérios: a) qualidade das reflexões apresentadas no texto; b) relevância de sua
contribuição para a área; c) pertinência à área temática definida pela ementa do
GT.
Os Grupos de Trabalho da COMPÓS abrangem uma área temática indicada
pela sua denominação e os encontros dos GTs se caracterizam, essencialmente,
como reuniões de trabalho científico em que se busca implementar uma reflexão
conjunta indispensável para o progresso da pesquisa na área. A dinâmica de
funcionamento dos GTs consiste na apresentação e discussão de um conjunto de
trabalhos científicos, selecionados pelo coordenador do GT e por ao menos dois
pareceristas que não apresentem trabalhos e distribuídos para leitura prévia entre
os participantes. Cada texto é relatado por um participante do grupo. Os relatos
constituem-se em peças de crítica e de estímulo ao debate. Eles não se caracterizam
como simples resenhas dos textos, mas devem assinalar as contribuições a serem
aprofundadas, apontar objeções que solicitem respostas, levantar os melhores
ângulos de leitura, sugerir desenvolvimentos, repensar aplicabilidades, evidenciar
premissas não explicitadas, indicar conseqüências da linha de reflexão adotada,
comentar estruturas, debater as construções metodológicas, e tudo o mais que se
veja pertinente enquanto trabalho acadêmico sobre o texto relatado.
A perspectiva de trabalho coletivo pretende superar, nesta estrutura específica
dos GTs, um modelo que enfatizaria a simples apresentação e divulgação de
75
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

resultados ou sessões didáticas de proposição/escuta. De modo a garantir o


tempo adequado para as discussões, cada GT seleciona um máximo de dez textos
para discussão, podendo aprovar um número menor de textos. Não deverão ser
agregados textos apenas para fazer número e que não atendam os critérios.
Os Grupos de Trabalho da COMPÓS passam por um processo de reclivagem
a cada quatro anos. A proposição de novo GT deve atender aos critérios de inovação
(um GT deve buscar a construção de espaços de interlocução não redundantes
com aqueles já oferecidos pelos grupos existentes no momento da proposta, bem
como refletir novos temas emergentes na área); de interlocução (deve ser capaz
de refletir e estimular as potencialidades de interlocução entre grupos de pesquisa,
linhas de pesquisa e programa de pós-graduação da área de comunicação); de
pertinência em relação à COMPÓS (deve apresentar coerência com os processos
de trabalhos e com a abrangência de objetivos da Associação); e adequação da
estrutura em relação aos objetivos da COMPÓS (deve explicitar a adequação
dos objetivos e atividades dos proponentes às condições de funcionamento dos
GTs, de maneira a assegurar que o perfil de funcionamento dos GTs de fato
ofereça ambiente adequado e estimulante para o desenvolvimento da interlocução
e da pesquisa científica. O Quadro 3 apresenta os 15 GTs atualmente em
funcionamento na COMPÓS, com seus títulos e ementas. Aprovados na reunião
do Conselho Geral da COMPÓS em 11 de junho de 2010, eles funcionarão até
o Encontro Anual de 2014, quando todos serão extintos e um novo processo de
reclivagem acontecerá.

Quadro 3: Títulos e Ementas dos Grupos de Trabalho da Compós, 2011/2014

Grupos de Trabalho Ementas


Comunicação e O GT Comunicação e Cibercultura tem por objetivo debater trabalhos na
Cibercultura intersecção da comunicação e da cibercultura. Por cibercultura compreendem-
se as relações emergentes entre as tecnologias de comunicação e informação
(TICs) e a cultura contemporânea. Busca-se, assim, entender o papel das TICs
em interface com os problemas da comunicação sob diversas perspectivas
(histórica, sociológica, filosófica, política, estética, imaginária, material, etc.).

Comunicação e Aspectos teóricos e metodológicos de experiências e práticas comunicacionais


Cidadania e mediáticas relacionados às esferas das cidadanias econômica, sociopolítica,
cultural, intercultural, transnacional, global e socioambiental e de uma
cidadania comunicativa. Estudo das articulações entre comunicação,
cidadania e cultura nos campos da comunicação mediada e não mediada.
Processos comunicacionais no âmbito das culturas populares, dos movimentos
sociais, comunitários, populares e sindicais no marco de uma pedagogia da
comunicação. Pesquisas sobre apropriações e os usos das tecnologias da
comunicação por redes de movimentos comunitários e sociais que envolvam
práticas cidadãs relacionadas a dimensões sócio-identitárias como classe
social, gênero, etnia, religiosidade.

76
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Comunicação e Cultura Comunicação, cultura e história: os meios de comunicação e as culturas em


diferentes configurações históricas. Ecologia da comunicação: cenários da
cultura da comunicação; ação integradora e efeitos culturais das práticas
midiáticas. As questões da imagem e seus desdobramentos: imaginário cultural
e cultura da imagem. Articulação entre corpo, texto e imagem, crises e tensões.
As representações culturais da visualidade, da oralidade, da audibilidade, da
gestualidade e dos territórios simbólicos em sua relação com as diferentes
mídias. Cultura, memória e registro. Paradigmas, teorias e autores para uma
reflexão acerca da relação entre comunicação e cultura. Teorias da comunicação,
da cultura e suas interfaces.
Comunicação e O GT busca apontar caminhos na interseção entre os fenômenos
Experiência Estética comunicacionais e as teorias estéticas, contribuindo para a reflexão e a crítica
das manifestações expressivas, tanto em trabalhos teóricos quanto analíticos.
Busca compreender questões vinculadas à dimensão estética dos processos
comunicacionais e dos produtos da cultura contemporânea (na medida em que
impliquem a dimensão ativa da sensibilidade) e ainda aos aspectos teórico-
metodológicos da apreensão da experiência estética nas práticas internacionais.

Comunicação e Política Abrange estudos sobre comunicação e política desenvolvidos a partir de


fenômenos, linguagens, discursos e instituições em perspectiva histórica.
Os eixos temáticos desse Grupo de Trabalho privilegiam a comunicação
política; mídia e democracia; teorias políticas e o campo da comunicação;
regimes políticos e relações com os meios de comunicação; opinião pública;
propaganda política; o espaço da política nos meios de comunicação; a política
contemporânea e as novas mídias.

Comunicação e Estudo relacional dos fenômenos comunicativos e dos processos sociais,


Sociabilidade buscando identificar uma problemática específica da comunicação em diversos
contextos socioculturais e políticos. No âmbito desta preocupação, destacamos
como alvo privilegiado de análise: a) os modos de subjetivação em jogo nas
práticas comunicativas; b) as sociabilidades e as configurações subjetivas
implicadas na produção midiática e os modos e efeitos de apropriação dessa
produção; c) a experiência urbana como lugar de emergência de práticas
comunicativas e de subjetivação.

Comunicação Os processos de mediação e significação em contextos organizacionais. Os


em Contextos sistemas, processos, estruturas e meios de comunicação das e nas organizações
Organizacionais públicas e privadas. A construção de sentidos no contexto organizacional. As
relações político-comunicacionais entre indivíduos, organizações e sociedades.
As dimensões da imagem, da cultura e da identidade. As organizações inseridas
como atores políticos nas redes sociais contemporâneas. As relações entre a
comunicação e as transformações nas relações de trabalho. Os movimentos
em torno da legitimação de novas idéias e valores. A comunicação estratégica.
Os estudos sobre opinião pública, opinião de públicos e formação da imagem
pública. Os processos comunicacionais no branding, nas marcas e nas dinâmicas
do consumo. Os conflitos e as disputas em torno de discursos e representações
organizacionais.

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Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Cultura das Mídias Estudo de produtos e de processos culturais em suas relações com as esferas
tecnológicas, sociais, econômicas e históricas. Representações e identidades
na cultura das mídias e seus múltiplos atravessamentos. A comunicação como
prática social; as figurações emergentes na cultura tradicionalmente chamada
"de massa". Mídia e questões de enunciação: narrativa e discurso. Gostos,
repertórios estéticos e cultura midiática: crítica e valor. Cosmopolitismos,
culturas nacionais, culturas locais. Traduções interculturais. Disputas e tensões
nos processos de construção de hegemonia e controle social. Cultura pública
e políticas culturais. Busca de novas metodologias, a partir de perspectivas
teórico-críticas transdicisplinares, em face a contextos comunicacionais
liminares.

Epistemologia da O GT se propõe a estudar a definição do objeto e características da


Comunicação Comunicação e de seu conhecimento científico. Para tanto, podem ser
debatidas propostas de correntes teóricas, seus principais idealizadores,
respectivas linguagens e metodologias, suas inter-relações com os campos do
saber, mantida a centralidade da comunicação, além de relatos e resultados de
experimentações empírico-analíticas. Propõe-se também a acolher avaliações
epistemológico-teórico-metodológicas de pesquisas empíricas relatadas pela
área de conhecimento; análises epistemológicas de pesquisas em andamento;
e observações críticas sobre os processos de investigação nos estudos da
Comunicação. O GT poderá contribuir, também, para a caracterização de
paradigmas em desenvolvimento, eventualmente confrontando-os com as
bases originais da comunicação como área científica.

Estudos de Jornalismo De uma perspectiva crítica e analítica, o GT busca aprofundar o estudo do


jornalismo como um campo do conhecimento, destacando abordagens
relativas à função social, à história, aos conceitos, aos modelos, às teorias e à
epistemologia do jornalismo. Da mesma forma, visando problematizar e discutir
o jornalismo em seus distintos modos de estruturação, apuração, produção,
circulação, recepção e consumo, este GT também se interessa por estudos que
abordam as teorias da linguagem, os métodos de pesquisa, as metodologias
de ensino, os impactos das tecnologias e as tendências que orientam a práxis
jornalística nas sociedades contemporâneas.

Estudos de Televisão O GT Estudos de televisão reunirá pesquisas que tenham por objeto a televisão
e seus produtos, considerados em sua complexidade e especificidade. Reúne
reflexões sobre aspectos econômicos, institucionais e tecnológicos; sobre
os contextos de produção, criação, fruição e recepção; sobre as dimensões
discursivas, informativas, pedagógicas, políticas, culturais e estéticas dos
programas, gêneros e formatos examinados. O GT apresenta-se como fórum
acadêmico de fomento, de convergência e de diálogo crítico de trabalhos de
diferentes vertentes que tratam de questões teóricas que buscam aprimorar os
aparatos metodológicos de análise dos fenômenos televisivos.

Estudos de cinema, Investigações e análises teóricas, históricas e estéticas acerca do cinema e da


fotografia e audiovisual fotografia, nas suas especificidades, expansões, hibridismos e desdobramentos,
considerados como traços fundamentais do audiovisual e para compreensão
da cultura e da sociedade contemporâneas. As dinâmicas postas em circulação
pelo cinema, pela fotografia e pelo audiovisual no campo da comunicação, bem
como sua contribuição às práticas sociais, culturais e artísticas.

78
Antecedentes, tendências e perspectivas da Pós-Graduação em Comunicação

Imagem e Imaginários Análises sobre teorias da imagem e/ou do imaginário. Reflexões sobre imagem
Midiáticos e/ou imaginário em seus diversos desdobramentos, seja em peças publicitárias,
em imagem empresarial e mercadológica, em fotografia, e em representações
no cinema, televisão e vídeo. Diálogos entre o imaginário midiático e outros
imaginários da cultura (mítico, tecnológico, artístico, religioso). Considerações
sobre imagens híbridas e/ou imaginários contemporâneos, em suas implicações
sociais, históricas e construturais.

Práticas interacionais O GT investiga os diversos fenômenos de comunicação como práticas interativas,


e linguagens na considerando a linguagem, a partir dos seus usos e determinações, bem como
comunicação de suas éticas e estéticas correspondentes, como instância privilegiada de
análise. Com esse escopo investigativo, pretende: 1) realizar um mapeamento
das várias contribuições teóricas e metodológicas que têm permitido ao
campo da comunicação avançar na descrição e análise de processos e
procedimentos de linguagens nas mídias, contribuindo para a descrição dos
modos de funcionamento dos textos nos meios impresso, eletrônico, digital;
2) analisar as transformações da linguagem e a emergência de novas formas
técnico-expressivas a partir da convergência dos meios; 3) inventariar os tipos
de processos interacionais postos em cena nas distintas produções e objetos
midiáticos, bem como seus modos de articulação de sentido; 4) desenvolver
uma reflexão sobre os modos de circulação, vinculação e compartilhamento do
conhecimento, das relações sociais e dos afetos nas práticas midiáticas.

Recepção, Usos e Análise dos processos e estratégias que envolvem a relação da sociedade
Consumo Midiáticos com os meios de comunicação, tendo como objeto de estudos a instância
da recepção e seu trabalho de interpretação, uso e consumo midiáticos. As
referências conceituais e empíricas do trabalho deste GT incluem e enfatizam
as novas “arquiteturas de processos comunicacionais” que reconfiguram a
existência da recepção e os modos de funcionamento de suas práticas. Elegendo
a pesquisa interdisciplinar em diferentes dimensões (teóricas, epistemológicas
e metodológicas), pretende-se estudar as dinâmicas e operações tecno-sócio-
simbólicas que organizam as formas de interação entre produtores e receptores
da comunicação midiática, do ponto de vista dos sujeitos. Ao priorizar tais
angulações, o GT em proposição enfatiza a importância da recepção como
instância produtiva, geradora de novos ‘produtos’, de práticas sócio-simbólicas
e de formas de saber derivadas das estratégias desenvolvidas pelos atores, em
situação de interação com as mídias.

A análise dos antecedentes históricos e das tendências da pós-graduação


em Comunicação evidencia que a área se consolida em consonância com o
Sistema Nacional de Pós-Graduação, mas estabelecendo seus próprios rumos.
Na sub-área, a pós-graduação se realiza na estrita vinculação com a pesquisa
científica e tecnológica e com a inovação, vinculação que constrói as diretrizes
para a organização dos cursos pós-graduados e que se apresenta como condição
fundamental de fortalecimento do sistema universitário.

79
80
CAPÍTULO 5

Breve relato sobre a fundação da SOCINE

Fernão Pessoa Ramos1

A ata de fundação da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema (SOCINE)


data de 14 de novembro de 1996. Sua primeira diretoria, eleita pelos presentes,
foi composta por Fernão Pessoa Ramos (presidente), Maria Dora Mourão (vice),
Afrânio Catani (secretário) e Luiz Felipe Miranda (tesoureiro). O documento
que detona a articulação da SOCINE intitula-se Carta de Salvador. Foi escrito
e distribuído dois meses antes de sua fundação, durante o tradicional festival
de cinema ‘Jornada de Salvador’. Seu primeiro parágrafo especifica: “Nós,
professores, pesquisadores, ensaístas e estudantes de cinema, reunidos em
Salvador, em 16 de setembro de 1996, constatamos a inexistência de um espaço
que possa aglutinar, sistematizar e divulgar nossas experiências relativas ao estudo
da imagem em movimento em suas diferentes formas. A partir da constatação
deste estado de insuficiência no intercâmbio de nossas atividades de pesquisa,
decidimos organizar uma Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema que terá
como objetivo primeiro o estudo e a pesquisa da história e da teoria do cinema”.
A Carta de Salvador foi articulada aproveitando-se da presença de
pesquisadores de todo país na capital baiana, tendo sido assinada por colegas que
mais tarde teriam importância, em diferentes momentos, na vida da SOCINE,
como (em ordem alfabética): Bernadette Lyra, Dácia Ibiapina da Silva, Fernão
Pessoa Ramos, Ivana Bentes, José Gatti, Júlio César Lobo, Linda Rubim, Lúcia
Nagib, Umbelino Brasil, entre outros.
Os dois documentos refletem uma ebulição concreta, que se delineia de
modo mais forte desde 1995, para a formação de uma sociedade de estudos de
cinema moderna e dinâmica. O grupo responsável pela criação da SOCINE
compõe-se de jovens pesquisadores, em sua maior parte de origem acadêmica. A
SOCINE foi, antes de tudo, uma questão de geração. Até sua criação, os estudos
de cinema no Brasil eram dominados por pesquisadores e jornalistas voltados
basicamente para levantamento de fontes primárias, num recorte metodológico
baseado na garimpagem de material de pioneiros, exclusivamente em cinema
brasileiro. Este foi o pólo contra o qual a instituição afirmou sua singularidade, se
distanciando do grupo que dominava a pesquisa de cinema no Brasil, reunido no
Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro.
A SOCINE responde à ascensão vertiginosa dos Estudos de Cinema na
academia durante os anos 90 e à geração que navega de modo afirmativo nesta
1. Professor do Departamento de Cinema do Instituto de Artes da Unicamp. Ex-presidente da SOCINE.

81
Breve relato sobre a fundação da SOCINE

ascensão. Sem que tenha havido conflitos (mas sim absorção), havia referência,
neste jogo de gerações, um pequeno grupo de pesquisadores de cinema que já
atuava na academia, ainda ligado ao Centro de Pesquisadores e à visão chamada
museológica da pesquisa. A SOCINE, portanto, nasceu apesar do establishment
acadêmico da época, com algumas exceções, como a de Maria Dora Mourão (que
inclusive emprestou a casa para a reunião fundadora).
Mas o que os membros da SOCINE queriam, o que buscavam exatamente?
No que as reuniões de pesquisadores de cinema (e houve diversas nos anos 80)
deixavam aos participantes com uma profunda sensação de insatisfação? Onde
sentia-se que a herança de Paulo Emílio Salles Gomes estava se perdendo,
arriscando a ser dominada por uma pesquisa engessada e burocrática? O ponto
essencial (que hoje pode parecer banal) foi o de não restringir ao cinema brasileiro,
mas incorporar a dimensão internacional da produção cinematográfica, vista
então com reservas. Criados dentro da pesquisa acadêmica e sua metodologia,
os membros da SOCINE queriam um espaço maior para a teoria e uma visão de
estudos de cinema que não estivesse ligada às demandas da crítica jornalística e às
necessidades de produção de cineastas.
Buscava-se abrir a janela para o mundo e poder explorar as camadas mais
profundas do pensamento sobre cinema, sem ter a sensação de ser “bichos” de
outro planeta. A questão do cinema experimental e do vídeo (suporte tecnológico
de vanguarda na época) também estava no horizonte e respondia às necessidades
de diversos colegas. O fato é que a metodologia de pesquisa e a demanda de
publicações não era mais a dos pesquisadores críticos de cinema da primeira
metade do século XX.
Ao abrir a porta para a demanda reprimida, imediatamente impressionou
o volume da produção. Desde o primeiro momento a SOCINE deslanchou,
firmando rapidamente seu crescimento. Apesar das disputas, naturais em toda
sociedade científica, a instituição conseguiu, através dos anos, manter sua
unidade, tornando-se legítima representante da pesquisa em cinema no Brasil.
Quem, do outro lado do espelho, vê o produto pronto, não pode imaginar as
dúvidas, os receios e dificuldades que envolveram sua criação.
O modelo inicial para montar a SOCINE foi o da a Society for Cinema
Studies, entidade norte-americana da qual alguns de seus integrantes já tinha
participado. O primeiro estatuto da SOCINE inspirou-se diretamente do
estatuto norte-americano, buscando incorporar seu espírito desburocratizado.
Com o passar dos anos foi difícil manter este espírito, mas o objetivo inicial era
claro: uma sociedade de pares, pesquisadores, reunindo-se periodicamente para
trocar informações e buscar inspiração no contato humano. Este foi o espírito
detonador da SOCINE que sua diretoria luta para manter até hoje.

82
Breve relato sobre a fundação da SOCINE

A SOCINE, é importante frisar, foi, em seu campo, uma entidade pioneira


na América Latina, demonstrando a forte estruturação acadêmica da área em
relação ao continente. Embora não tenha aberto asas em direção a um processo
mais profundo de internacionalização, sempre houve contatos fortes seja com
a América Latina (onde a SOCINE serviu de inspiração para a fundação de
entidades semelhantes na Argentina, no México e na Colômbia), seja com
os Estados Unidos (mantendo um diálogo sempre presente com os estudos
culturalistas), ou ainda com a França (em contato próximo com os herdeiros da
semiologia).
A estrutura de encontros anuais, que ainda não estava evidente nos primeiros
momentos da SOCINE, acabou revelando-se a base e o motor desta sociedade. Os
encontros deram personalidade ao projeto inicial e permitiram sua expansão de
modo homogêneo através do Brasil. Os 10 volumes já publicados dos Estudos de
Cinema SOCINE (incluindo o conjunto de textos do I Encontro, publicados nos
números 13 e 14 da Revista CINEMAIS)2, refletem a densa produção intelectual
dos Encontros, constituindo o resultado palpável do que significou a SOCINE
para a afirmação da área de estudos de cinema no Brasil.
O primeiro encontro da SOCINE, em 1997, deveria ser realizado na
UNICAMP, em São Paulo, pelo fato da presidência da entidade haver centralizado
a organização. A diretoria preferiu a ECA/USP, por achar que ainda não havia
massa crítica para fazer com que colegas se deslocassem até Campinas, correndo
risco de esvaziamento do evento. A participação da Universidade de São Paulo,
neste que foi o encontro fundador da SOCINE, reduziu-se a boa vontade, e ao
apoio, de seu diretor, Eduardo Peñuela, nos cedendo a melhor sala da Escola,
cafezinho e bolachas.
O II Encontro da entidade, consolidando definitivamente a SOCINE,
foi organizado na ECO/URFJ. Consuelo Lins centralizou a organização do
evento, promovendo as articulações e as condições necessárias para uma reunião
que nos trouxe crescimento qualitativo. O III Encontro, realizado na capital
do país, afirmou definitivamente a SOCINE como sociedade nacional, aberta
para pesquisadores de todo o Brasil. A SOCINE crescia então a olhos vistos. As
2. 1) CINEMAIS - nº 13, setembro/outubro 1998; CINEMAIS nº 14, novembro/dezembro 1998; 2) Estudos
de Cinema II e III (Annablume, 1999), com organização de Fernão Pessoa Ramos; 3) Estudos de Cinema 2000
(Sulina, 2002), com organização de Fernão Pessoa Ramos, Maria Dora Mourão, Afrânio Catani e José Gatti; 4)
Estudos Socine de Cinema Ano III (Sulina 2003), com organização de Maria Rosaria Fabris, João Guilherme
Barone e outros; 5) Estudos Socine de Cinema ano IV (Panorama, 2003), com organização de Afrânio Catani,
Wilton Garcia e outros; 6) Estudos Socine de Cinema ano V (Panorama, 2004) com organização de Maria Ro-
saria Fabris, Afrânio Catani e outros; 7) Estudos de Cinema Socine ano VI (Nojosa, 2005) com organização de
Maria Rosaria Fabris, Wilton Garcia e Afranio Catani; 8) Estudos de Cinema Socine (Annablume, 2006), com
organização de Rubens Machado, Rosana Lima Soares e Luciana Corrêa; 9) Estudos de Cinema Socine (Anna-
blume, 2007) com organização de Rubens Machado, Rosana de Lima Soares e Luciana Correa de Araújo; e 10)
Estudos de Cinema Socine ano IX, com organização de Esther Hamburgo, Gustavo Souza, Leandro Mendonça
e Tunico Amâncio (Annablume, 2008).

83
Breve relato sobre a fundação da SOCINE

apresentações de comunicações deixaram de ser em uma única sala, passando a


se distribuir por lugares diversos. O III Encontro significou o momento em que
a entidade abandonou definitivamente o berço de sua criação e passou a andar
com pernas próprias. A organização deste Encontro ficou a cargo de João Lanari,
“nosso homem no Itamaraty”, e Denilson Lopes.
Ao criar a SOCINE, pensou-se no cinema em suas diversas fronteiras, na
sua história e no diálogo com outros campos das humanidades, na análise das
diversas expressões estéticas que compõem sua forma narrativa, na densidade da
teoria que se articula em torno da cinematografia. O projeto da SOCINE ainda
está em aberto e o dinamismo de seu formato atual mostra que o grupo de jovens
que se reuniu há 15 anos, buscando espaços mais amplos para expor suas idéias e
sua paixão pelo cinema, estava correto em suas ambições.
Como foi pressentido no início, o cinema era maior e podia ocupar um
espaço social mais amplo. A SOCINE é a expressão deste ensejo. A dinâmica de
sua história demonstra que a forma artística que a sustenta respira com fôlego
mais amplo que geralmente supõe-se.

Pensando a Socine
A Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE), é uma
associação de interesse científico e cultural, sem fins lucrativos, que congrega
pesquisadores da área do cinema e audiovisual.
Em 16 de Setembro de1996 é lançada a Carta de Salvador na qual um
grupo de professores, pesquisadores, ensaístas e estudantes de cinema constatam
“a inexistência de um espaço que possa aglutinar, sistematizar e divulgar nossas
experiências relativas ao estudo da imagem em movimento em suas diferentes
formas”. Nesse momento decidem “organizar a Sociedade Brasileira de Estudos
de Cinema que terá como objetivo primeiro o estudo e a pesquisa da história e
da teoria do cinema”. Alguns anos depois acrescenta-se o conceito de Audiovisual
ao nome da sociedade com a finalidade de ampliar o campo de estudos em um
movimento em consonância com a convergência determinada pelo digital. Seu
surgimento veio refletir o crescimento dessa área de conhecimento no Brasil.
Com a instituição da graduação e da pós-graduação em cinema a partir
do fim dos anos 60, a pesquisa em cinema se expande e se institucionaliza nas
Universidades imprimindo-lhe uma regularidade antes inexistente.
A Universidade de Brasília (UNB), é uma das pioneiras na implantação
de Cursos de Cinema (1962), seguida pela USP - Universidade de São Paulo
(1967) e pela UFF – Universidade Federal Fluminense (1969). Se na época
o principal objetivo desses cursos era a formação de diretores de cinema, a

84
Breve relato sobre a fundação da SOCINE

sedimentação dos cursos de pós-graduação senta as bases para o crescimento dos


estudos na área, fazendo com que os cursos de graduação passassem a incluir em
suas estruturas curriculares disciplinas de reflexão teórica que, junto com as de
realização, imprimiam aos cursos um perfil universitário. A formação teórica não
se limitava apenas à capacidade metodológica de interpretação da realidade ou à
teoria científica, mas envolvia também o domínio dos saberes derivados da análise
dessas práticas contidos nas dimensões que unem teoria à arte, teoria à vida social
e cultural.
A partir dos anos 90, com o avanço tecnológico e a convergência digital,
caíram as barreiras que impediam uma aproximação entre os meios, principalmente
entre o cinema e a televisão. Se no passado foram profissões excludentes, hoje
constituem um campo vasto de especializações ligadas ao universo do que se
convencionou chamar de Audiovisual. A aproximação entre os meios é definitiva,
com saudável reflexo nas estruturas de ensino e pesquisa.
O final do século XX apontou decisivamente para uma indústria unificada
sob o nome abrangente do audiovisual. Os meios de produção já compartilham
equipamentos comuns, os mercados cada vez menos distinguem produtos segundo
sua origem – fotográfica ou eletrônica – até mesmo porque esses processos são
conversíveis, a televisão tende a cumprir o seu papel privilegiado de veículo de
uma produção audiovisual elaborada muitas vezes por empresas autônomas que
também produzem cinema.
Os objetivos da SOCINE são:
a) aglutinar, sistematizar e divulgar experiências relativas ao estudo da
imagem em movimento, em seus diferentes suportes, e áreas afins;
b) organizar encontros, seminários, simpósios e congressos;
c) promover o relacionamento de seus integrantes com entidades similares
do País e do exterior
A entidade já realizou 14 Encontros nas mais diversas regiões brasileiras,
sempre acolhidos por universidades notórias pelo ensino e pesquisa nessa área
de conhecimento. Como resultado dos Encontros, a SOCINE já promoveu a
publicação de dez livros incorporando trabalhos apresentados em suas reuniões
e é reconhecida, tanto no Brasil como no exterior, como a mais importante
instituição que promove a pesquisa em cinema e audiovisual em nosso país. A
partir de 2010 o livro Estudos de Cinema e Audiovisual passa a ser uma publicação
digital podendo ser encontrado na página web da associação.
Esse reconhecimento pode ser confirmado pelo crescimento exponencial de
associados que atinge hoje o numero de 1011 sócios entre os que estão ativos
e os inativos (, ainda, pelo fato de que a partir de 2005 os encontros passaram
85
Breve relato sobre a fundação da SOCINE

a receber pesquisadores de fora do Brasil como, por exemplo, do México, da


Inglaterra, de Portugal e da África do Sul. Alem disso, os órgãos financiadores como
CAPES, CNPq e FAPESP têm apoiado os Encontros da SOCINE contribuindo
financeiramente para a viabilização dos mesmos. O MinC, através da Secretaria
do Audiovisual (SAV), também colabora para a realização dos eventos.
De acordo com o portal do MEC há hoje, no Brasil, 54 instituições de
ensino superior com cursos de graduação (bacharelado, seqüenciais e cursos
superiores de tecnologia) de cinema, televisão, vídeo, produção audiovisual,
realização audiovisual – tanto em instituições públicas como em privadas.
Dos 37 programas de pós-graduação vinculados à área de Comunicação,
três deles estão voltados especificamente para a área do cinema e audiovisual:
- UFSCar – Universidade Federal de São Carlos – Programa em Imagem e
Som
- UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas – Programa em
Multimeios
- USP – Universidade de São Paulo – Programa em Meios e Processos
Audiovisuais
Em sete desses programas há linhas de pesquisa na área:
- UNISINOS- Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Mídias e Processos
Audiovisuais
- UFF- Universidade Federal Fluminense – Análise da Imagem e do Som
- UTP – Universidade Tuiuti do Paraná – Estudos de Cinema
- UNIP – Universidade Paulista – Configuração de Linguagens e Produtos
Audiovisuais na Cultura Midiática
- UAM- Universidade Anhembi Morumbi – Análises em Imagem e Som
- UFPB – Universidade Federal da Paraíba – Culturas Midiáticas
Audiovisuais
- UFC – Universidade Federal do Ceará – Fotografia e Audiovisual
É interessante notar que não é somente nos cursos específicos que
encontramos a pesquisa em cinema e audiovisual, pesquisa-se e são produzidas
dissertações e teses também nos cursos e programas de Comunicação, Ciências
Sociais, Filosofia, História, Letras. É fato de que o cinema e audiovisual tem
uma relação próxima com essas áreas do conhecimento, principalmente com a
Comunicação, por tratar-se de campo cuja especificidade dialoga de maneira
transdisciplinar com os outros.

86
Breve relato sobre a fundação da SOCINE

Nos 14 anos de existência da SOCINE chegou-se a um numero de 1011


associados, tendo hoje 50% deles em plena atividade participando de todos
os Encontros, e os outros 50% flutuantes. Desse total, 454 são doutores ou
doutorandos, sendo que a grande maioria são professores universitários.

Tendências
Os Encontros da SOCINE tem se estruturado nos últimos anos em torno de
Seminários temáticos, Mesas temáticas, Sessões de Comunicações individuais e
Painéis. Essa organização nos permite verificar quais são os focos de interesse de
pesquisa a cada ano. Os Seminários temáticos são os que podem nos assinalar os
temas do momento já que eles tem duração de quatro anos. Isso não significa que
toda a pesquisa na área se concentre nos temas dos seminários, mas nos dá alguns
parâmetros importantes dada a constância dos mesmos assuntos por um período
determinado.
Os temas são:
- Cinemas em português: aproximações/relações
- Os gêneros no cinema brasileiro e latino-americano: práticas,
transformações, remixagens e tendências
- Indústria e recepção cinematográfica e audiovisual
- Estudos de som
- Cinema, transculturalidade, globalização
- Cinema no Brasil: dos primeiros tempos à década de 1950
- Cinema como arte e vice-versa
- Ciências Sociais e cinema: metodologias e abordagens de uma pesquisa
interdisciplinar
- Cinema, estética e política: a resistência e os atos de criação
- Televisão – formas audiovisuais de ficção e documentário
Outro tema bastante recorrente nos últimos 10 anos é o gênero documental.
Essa preocupação vem de encontro à importância histórica que o documentário
vem retomando traduzida, principalmente, no surgimento de novas tendências
e da ampliação de espaços de exibição. Essa transformação tem sido objeto
de discussão e é vital ao se pensar o documentário como forma audiovisual
fundamental. Como pode ser verificado a gama de assuntos é abrangente e
denota a amplitude da área do cinema e audiovisual.

87
Breve relato sobre a fundação da SOCINE

Mercado de trabalho
A área do cinema e audiovisual tem uma relação muito próxima com o mercado
de trabalho em vários níveis. Encontramos profissionais no campo da produção
cinematográfica e audiovisual independente, seja para a tela grande do cinema,
seja para a tela pequena da televisão ou para a tela menor do celular. A televisão
propriamente dita também absorve um numero significativo de profissionais.
O poder público também tem sido um espaço de atuação, assim como as
Universidades têm recrutado um bom número de docentes, não somente para a
área específica, mas, também, para a área da comunicação.
As relações com a comunidade acadêmica internacional se dão através de
convênios de pesquisa, de realização de mestrados, doutorados e pós-doutorados,
alem de intercâmbio de docentes e de publicações de mão dupla.
A SOCINE tem mantido estreita colaboração com a Society for Cinema
and Media Studies, organização internacional sediada nos Estados Unidos, e
através desse contato tem promovido o intercâmbio de pesquisadores de diferentes
países.
É importante citar que a SOCINE foi exemplo para a criação de três novas
entidades:
- ASAECA – Asociación Argentina de Estudios de Cine y Audiovisual,
Argentina
- SEPANCINE – Seminário Permanente de Análisis Cinematográfico,
México
- AIM – Associação dos investigadores da Imagem em Movimento,
Portugal
Está claro que não podemos dissociar a pesquisa do ensino na área do
Cinema e Audiovisual uma vez que, no Brasil, a pesquisa se dá prioritariamente
na Universidade.
Nessa perspectiva é importante apontar para o fato de que o interesse pela
formação na área está em plena expansão, o que pode ser facilmente detectado
nas estatísticas dos exames vestibulares em todas as regiões do país. A demanda
por novos cursos é significativa e resultou na ampliação da oferta levando à
necessidade de contratar professores que, por sua vez, necessitam cursar a pós-
graduação desenvolvendo pesquisa para obter seus títulos que lhes permitirão
trilhar a carreira acadêmica.
Quanto às carências, nos ressentimos ainda de uma maior valorização da
área em virtude de sua importância histórica e estratégica. Já é chavão dizer que o
mundo hoje se move em torno do audiovisual, mas não deixa de ser uma verdade

88
Breve relato sobre a fundação da SOCINE

indiscutível. Nesse sentido há a necessidade de pensar em políticas públicas que


incentivem o avanço da pesquisa na área e organizem o ensino e a formação
profissional.
Outra questão fundamental é a necessidade de dar ao jovem do ensino
médio uma formação em linguagem audiovisual (leitura critica e produção), não
só para inseri-lo na contemporaneidade, mas, principalmente, para fomentar a
capacidade critica e reflexiva sobre as imagens e sons em movimento.

Estudos e pesquisas de Cinema e Audiovisual no sistema de pós-graduação


Os pesquisadores da área vêm debatendo o lugar dos estudos e pesquisas de
cinema e audiovisual no sistema nacional de pós-graduação. Historicamente, o
cinema viveu até 1990 uma situação esquizofrênica pois, no nível de graduação,
era considerado uma habilitação de Comunicação Social, e no nível de pós-
graduação sempre esteve na área de Artes. A partir daquela data os cursos de
graduação que assim o desejassem foram autorizados a implantar currículos
autônomos, ou seja, currículos específicos que independem do vínculo às Artes
ou às Comunicações.
Essa esquizofrenia histórica foi reconhecida recentemente pelos próprios
órgãos financiadores que, atendendo a um pedido das associações no sentido de
dar um melhor atendimento à área de cinema e audiovisual, concentraram na área
da Comunicação o encaminhamento para avaliação dos projetos de pesquisa.
É fundamental aplicar ao cinema uma flexibilização capaz de legitimar a
diversidade de enfoques que a nossa área não apenas abriga como exige, para
que se possa dar conta da reflexão sobre as experiências e práticas do cinema,
do vídeo, da televisão e de todas as manifestações da área conhecidas hoje como
audiovisual, incluindo os novos meios digitais.
Uma área que possa precisar a especificidade do olhar investigativo do
domínio do Audiovisual, tanto sobre seus “fenômenos” próprios, como sobre
os de outras áreas (como no caso do pesquisador de Audiovisual que estuda a
formação de platéias e se referencia por conhecimentos de história social -- e
ele continua sendo um “estudioso da área do Audiovisual”, ou daquele que se
debruça sobre o mercado a partir de noções de economia, etc). Cabe ressaltar que
o Cinema construiu, seja no seu exercício, seja na crítica e análise, uma matriz
teórica indiscutivelmente peculiar e irredutível (mas dialogante) com outras
matrizes, como as da lingüística, da semiótica, etc. E que por isso ela transcende,
em muito, as especificidades das chamadas Ciências Socialmente Aplicáveis, se
tangencia com as Linguagens e Artes, e está inevitavelmente conectada com a
psicologia, a economia, a filosofia, assim como com várias outras áreas.

89
Notas sobre a história da SOCINE
José Gatti3

A criação da SOCINE está ligada ao crescimento da área de estudos de cinema


nas últimas décadas no Brasil. Desde a criação, nos anos 1960, dos primeiros
cursos especializados criados por Paulo Emílio Salles Gomes na Universidade
de Brasília (UnB) e na Universidade de São Paulo (USP), surgiram diversos
programas de pós-graduação na área da Comunicação Social dedicados ao
cinema, assim como linhas de pesquisa especializadas em cursos de artes, letras,
história, ciências sociais e outros. A área se caracteriza, portanto, por uma intensa
interdisciplinaridade. Esse caráter interdisciplinar foi mantido, assim como foi
dado espaço para o entendimento do cinema como uma área que vai além dos
estudos fílmicos, abrangendo a televisão e as novas tecnologias relacionadas com
o campo discursivo do audiovisual.
Um nome importante nesse processo: o do saudoso prof. Arlindo Castro, da
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Quando estudávamos juntos na
New York University, nos anos 1980, conhecemos a Society for Cinema and Media
Studies (SCMS), a maior entidade do mundo nessa área, que realiza conferências
anuais dentro e fora dos Estados Unidos. A participação numa das conferências
da SCMS ajudou a pensar na criação de uma entidade congênere no Brasil.
Arlindo foi um entusiasta da criação da SOCINE, tendo redigido a primeira
versão de seus estatutos. Seu falecimento inesperado impediu que participasse de
nossos Encontros, mas é importante lembrar seu nome como um dos criadores
da SOCINE. A entidade seria imaginada de forma mais concreta num almoço na
UnB, em 1995, durante a realização de um dos encontros da Compós. Eduardo
Peñuela Canizal, Lúcia Nagib, Fernão Ramos, Mauro Baptista e eu conversamos
sobre a possibilidade de realização de um encontro de pesquisadores da área.
Durante a realização da Jornada de Curtas de Salvador, em setembro de
1996, Fernão Ramos e eu demos continuidade à discussão e Fernão tomou a
iniciativa de redigir a Carta de Salvador, o primeiro documento que marcou a
criação da SOCINE. A Carta subscrita por todos os participantes em ato solene, e
levou à convocação de nosso primeiro Encontro de pesquisadores, na ECA/USP,
no mês de novembro.
Desde então, temos realizado Encontros anuais, em diferentes regiões do
país, com o reconhecimento e o apoio de agências de de fomento à pesquisa,
como o CNPq, a Capes, a Fapesp e outras instituições dedicadas ao campo
do audiovisual no Brasil. Participamos ativamente da criação de entidades
irmãs no México (Sepancine) e na Argentina (Asaeca) e nossos pesquisadores
3. Professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Foi secretário, vice-presidente e presidente da SOCINE.

90
Notas sobre a história da SOCINE

têm comparecido a seus respectivos congressos. A SOCINE conta, hoje, com


reconhecimento internacional e, em número de sócios, já é a segunda maior
entidade especializada em estudos de cinema no mundo. Temos contado com
a presença de pesquisadores da França, dos Estados Unidos, Portugal, Canadá,
África do Sul, Nova Zelândia e outros países. Um de nossos próximos desafios
será o de consolidar essa inserção internacional.

91
A História do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual - Forcine
Maria Dora G. Mourão4

Introdução
O Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine) é uma
sociedade civil sem fins lucrativos que congrega e representa de forma permanente
as instituições e os profissionais brasileiros dedicados ao ensino de cinema e
audiovisual, visando o desenvolvimento e o fortalecimento desta atividade. O
processo de criação dessa entidade teve início no 3° Congresso Brasileiro de
Cinema (CBC), ocorrido em Porto Alegre, de 28 de junho a 1° de julho de
2000. Naquele momento, ainda não havia uma representação formal do setor
de ensino e formação do setor audiovisual no Brasil. Mas houve a formação de
um grupo de trabalho dedicado a questões de formação profissional, pesquisa
e preservação, do qual participaram representantes do Centro de Pesquisadores
do Cinema Brasileiro, da SOCINE. As escolas de cinema foram representadas
pela Professora Maria Dora Genis Mourão, da ECA-USP, à época integrante da
diretoria da Federação das Escolas Iberoamericanas de Imagem e Som (FEISAL).
No documento final do III CBC foram incluídos algumas deliberações
relativas ao ensino e à formação profissional, como é o caso dos itens 52 e 53:
52. Criar um fórum nacional permanente de escolas e centros de formação
profissional como instância institucional de interlocução
53. Implementar um projeto de mapeamento da demanda potencial e real
dos mercados de trabalho com o objetivo de reorientar o ensino das escolas de
cinema e audiovisual. (...)
Em dezembro do ano 2000, o Departamento de Cinema, Televisão e
Rádio (CTR) da ECA-USP organizou um seminário para discutir os rumos do
ensino de cinema no Brasil, tendo como coordenadora a Professora Maria Dora
Mourão. O evento foi denominado de Fórum de Ensino de Cinema e contou
com representantes de instituições de ensino públicas e privadas com atuação em
programas regulares de formação na área audiovisual em diferentes regiões do
Brasil. O encontro discutiu a situação do ensino dedicado ao cinema e ao vídeo,
sua relação com o ensino de televisão e as novas tecnologias e a necessidade de
constituição de uma entidade para representar o setor de ensino e formação junto
ao Congresso Brasileiro de Cinema (CBC).
Participaram deste encontro as seguintes instituições: Faculdade de
Tecnologia e Ciências (Salvador, BA); Fundação Armando Álvares Penteado (São
Paulo, SP); Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (RJ); Universidade
4. Professora titular do Departamento de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP.

92
A História do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual - Forcine

Gama Filho (Rio de Janeiro, RJ); Universidade Federal de São Carlos (S. Carlos,
SP), Universidade de São Paulo (São Paulo, SP); Instituto Dragão do Mar de Artes
e Indústria Audiovisual (Fortaleza, CE); Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (Porto Alegre, RS); Universidade de Brasília (DF); Universidade
Federal Fluminense (Niterói, RJ); Universidade Estadual de Campinas (Campinas,
SP); Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, MG); Universidade
Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, RJ) e Faculdades Integradas Hélio
Alonso (Rio de Janeiro, RJ. Todas figuram como as Inistituições de Ensino
Superior (IES) fundadoras do Forcine. Na condição de convidados estiveram
representados o Congresso Brasileiro de Cinema, o Sindicato dos Trabalhadores
da Indústria Cinematográfica do Estado de São Paulo, a Sociedade Brasileira de
Estudos de Cinema, a Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte e a
Universidade Metodista de São Paulo.
Ao final daquele seminário, os representantes decidiram pela criação do
Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine) e elegeram a
primeira diretoria: Maria Dora Genis Mourão, presidente (ECA-USP); Antonio
Amaral Serra, vice-presidente (UFF); João Guilherme Barone Reis e Silva,
secretário geral (PUCRS) e Evandro Lemos da Cunha, tesoureiro (UFMG). Para
o conselho de representantes foram eleitos: Silas de Paula (Instituto Dragão do
Mar); Marcos Mendes (UNB); Jackson Saboya (FACHA); Messias Guimarães
Bandeira (FTC) e Adílson Ruiz (UNICAMP). A primeira missão dessa diretoria
foi a de organizar juridicamente a entidade, elaborar uma proposta de estatuto e
fixar o valor da contribuição financeira de seus associados.
Durante os anos de 2001 e 2002 os estatutos da entidade foram discutidos
e aprovados entre seus membros e o Forcine tornou-se pessoa jurídica. A diretoria
reuniu-se em várias ocasiões, em Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo. Em
novembro de 2001 foi realizada a primeira Assembléia Geral, na Universidade
Federal Fluminense (UFF), em Niterói, RJ, tendo como principal item da pauta,
a filiação do Forcine ao CBC e sua participação no IV Congresso Brasileiro de
Cinema, realizado no Rio de Janeiro, dias depois da Assembléia. No IV CBC, a
presidente do Forcine, Maria Dora Mourão, foi eleita para participar da diretoria
do CBC entidade.

Os congressos do Forcine
O I Congresso do Forcine ocorreu na Escola de Belas Artes da UFMG, em Belo
Horizonte, MG, de 15 a 19 de outubro de 2003. Através de grupos de trabalho,
painéis e sessões plenárias, foi o início de um processo de discussão sistemática das
grandes questões relativas ao ensino e formação audiovisual no Brasil. Questões
pedagógicas foram trabalhadas a partir da exibição de filmes produzidos pelas

93
A História do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual - Forcine

escolas afiliadas. Na ocasião, a diretoria fundadora foi eleita para um primeiro


mandato após a aprovação dos Estatutos. O Documento Final deste I Congresso
declara como de fundamental importância inserir no panorama brasileiro, a
discussão sobre a formação profissional para o audiovisual, destacando que “no
momento em que se retoma a produção de maneira significativa, em que as novas
tecnologias oferecem instrumentos diferenciados para a realização e abrem-se
novos espaços de circulação para produtos audiovisuais, é importante refletir
sobre o significado e os parâmetros para a formação profissional na área”.
Segue o documento: “a maioria dos cursos existentes no Brasil está integrada
a Universidades o que, se por um lado é altamente positivo, ao tomarmos
como parâmetro um ensino no qual a reflexão e a experimentação têm papéis
importantes, por outro, há sérios problemas no que diz respeito ao saber mais
especializado, do ponto de vista tecnológico, pois as Universidades públicas, por
exemplo, não têm incentivos que lhes permitam acompanhar os rápidos avanços
na área”.
E vai mais além: “É chegada a hora de debater propostas de políticas de
formação que acompanhem as discussões sobre as políticas de incentivo à criação
de uma indústria do cinema e audiovisual no Brasil. A produção, assim como
a distribuição e exibição, não podem, em hipótese alguma, estar dissociadas
da pesquisa (tecnológica, estética, dramatúrgica, de linguagem, de preservação
e de mercado), e da formação em todos os níveis (técnico profissionalizante,
de alta capacitação profissional e universitário). Discute-se como incentivar o
aumento da produção, principalmente a cinematográfica. Tomamos consciência
do problema de que não adianta discutir produção, sem ter como distribuir e
exibir de maneira adequada, mas não se cuida da formação que é, sem dúvida,
uma das sustentações de uma indústria do cinema e do audiovisual. Convicto da
importância da definição e implantação de uma política pública, o I Congresso
Forcine apresenta os resultados do debate promovido, destacando o papel
do ensino e da formação profissional como estratégia para uma política de
desenvolvimento do audiovisual.”
Para levar a cabo estas resoluções, o Congresso deliberou por “atuar junto
ao Ministério da Cultura (MinC), Ministério da Educação (MEC), Ministério
das Comunicações (Minicom) e Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com
o objetivo de encaminhar o desenvolvimento de ações conjuntas de apoio às
instituições que se caracterizam pela integração entre ensino, produção e pesquisa
em cinema e audiovisual” (Documento final do I Congresso Forum Brasileiro do
Ensino do Cinema e do Audiovisual – Forcine)
No II Congresso Forcine, realizado em Salvador, BA, com apoio da FTC,
de 20 a 24 de outubro de 2004, o tema central foi “Pedagogia e Sistemas de
Produção e Difusão nas Instituições de Ensino de Cinema e Audiovisual”. Foram
94
A História do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual - Forcine

também iniciadas as propostas de novas diretrizes curriculares para os cursos


superiores de cinema e audiovisual, considerando as grandes transformações do
ambiente profissional por conta das novas tecnologias. Representantes do MEC/
SESU estiveram presentes ao evento, dando início a uma interlocução inédita
com as escolas de cinema.
No III Congresso, realizado na ECA-USP, em outubro de 2005, ao lado dos
avanços na proposta de novas diretrizes curriculares, houve espaço para debater
“o lugar dos estudos e pesquisas do cinema e audiovisual no sistema nacional de
pós-graduação”, com a participação de representantes da CAPES, SOCINE e
COMPÓS.
No IV Congresso, realizado em Fortaleza, CE, em dezembro de 2006, com
apoio da UFC, o tema central foi “por uma política nacional de ensino e formação
para o setor audiovisual”. O documento final foi encaminhado ao MEC e houve
também contribuições pontuais incorporadas no Programa Nacional de Cultura
a pedido do MinC, que enviou um representante ao encontro. Houve também
espaço para discutir as relações das escolas com o mercado. Neste Congresso,
o Forcine já havia conquistado a implantação de novas Diretrizes Curriculares
para os Cursos Superiores de Cinema e Audiovisual, publicadas pelo Conselho
Nacional de Educação (CNE) em abril.
No V Congresso, realizado em Tiradentes, com apoio da UFMG e da
Fundação Rodrigo de Melo Franco, o tema central foi “inovação das escolas
e relações com as televisões universitárias”. Houve também um painel sobre
Perspectivas das Escolas a partir da implantação das novas Diretrizes Curriculares.
No VI Congresso, realizado na UFF, em março de 2010, o tema central
foi “inserção profissional: novos desafios a formação audiovisual”, com debates
importantes sobre as questões relacionadas ao mundo do trabalho. Na Assembléia,
houve alterações dos Estatutos e eleições para a Diretoria Executiva, Conselho de
Representantes e Conselho Fiscal.

Conquistas da Forcine
Entre os eixos de ação prioritários do Forcine está o reconhecimento pelos agentes
da indústria audiovisual e pelo poder público do papel fundamental das escolas
de cinema e audiovisual como geradoras de inovação e qualificação capazes de
fortalecer o setor, mas também como produtoras de conteúdo.
No I Congresso Forcine, em outubro de 2003, o então titular da Secretaria
para o Desenvolvimento do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura,
Orlando Senna, reconheceu que a produção interna das escolas deveria contar
com o Ministério da Cultura, para, por exemplo, auxiliar a superar os problemas

95
A História do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual - Forcine

de recursos na realização dos trabalhos de conclusão dos alunos, como forma do


MinC valorizar o que as escolas produzem. Naquele momento iniciou-se um
processo conjunto para a criação de uma seleção pública para apoio aos filmes de
escolas, culminando no Programa SAV-MinC/ Forcine de Apoio a Trabalhos de
Conclusão de Curso (TCCs).
O Programa tinha como objetivo apoiar a produção dos TCCs das escolas,
através do repasse de recursos financeiros, visando à melhoria das condições
técnicas de produção, finalização e difusão de projetos audiovisuais de curta-
metragem desenvolvidos por alunos em final de curso. A realização da primeira
edição do Programa, em 2004, atendeu à recomendação do Documento Final do
I Congresso Forcine. A operação do Programa foi feita através de convênio entre o
Forcine e a Secretaria do Audiovisual do MinC, com recursos do Fundo Nacional
de Cultura, ficando o Forcine responsável pela execução. Na primeira edição do
Programa foram contemplados projetos de produção das seguintes escolas: EBA-
UFMG, Belo Horizonte; UnB, Brasília; UNISUL, Florianópolis; UFF, Niterói e
UFSCar, São Carlos. Cada projeto recebeu apoio no valor de 25 mil reais.
A segunda edição deste Convênio, iniciada em 2006, possibilitou a
finalização de mais seis filmes, destinando 30 mil reais a cada um. Foram
selecionados projetos da ECO-UFRJ, Rio de Janeiro; UFSCar, São Carlos; FAAP,
São Paulo; UFF, Niterói; UNISUL, Florianópolis e ECA- USP, São Paulo.
Atualmente, o Forcine trabalha junto à Secretaria do Audiovisual do MinC
para a publicação de um novo edital para os estudantes de ensino superior
de cinema e audiovisual. Nesse edital seriam contemplados 24 projetos de
documentários, de 24 minutos cada, a serem exibidos em canais universitários
e outros espaços. Para cumprir com os seus objetivos estatutários, o Forcine vem
trabalhando na organização do setor e na interlocução política com instâncias
públicas como MEC-SESU, Min C/SAV, ANCINE, CNPq e CAPES.
Junto ao Ministério da Educação a atuação do Forcine foi essencial e decisiva
para a proposição e elaboração das novas Diretrizes Curriculares para Cursos
Superiores de Cinema e Audiovisual. O Forcine trabalhou ao lado da Secretaria
de Ensino Superior (SESU) na formação de um Grupo Especial de Trabalho
com representantes de universidades públicas e privadas, realizando seminários
e debates que resultaram numa proposta encaminhada e aprovada pelo CNE,
através da RESOLUÇÃO Nº 10, de 27 de junho de 2006.
Em 2006 a diretoria da entidade repassou os itens constantes do Plano
Nacional de Ensino e Formação para o Setor Audiovisual no Brasil, documento
aprovado no IV Congresso, realizado em dezembro de 2006 em Fortaleza,
prontamente encaminhado ao MEC.
No V Congresso CBC, realizado em novembro de 2003 em Fortaleza, foi
96
A História do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual - Forcine

eleito João Guilherme Barone (PUCRS) como representante do Forcine na nova


Diretoria. A partir de 27 de novembro de 2003 o Fórum passou a ter assento junto
ao Conselho Consultivo da Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual do
Ministério da Cultura, criado por portaria assinada pelo Ministro da Cultura.
O organismo é composto por membros de outras entidades representativas
do setor audiovisual e liderado pelo Secretário, com a função de assessorar a
SAV. O relacionamento com a SAV tem sido altamente produtivo, não só pela
interlocução, mas também pelos convênios e o apoio essencial para a realização
dos Congressos.
A qualificação das IES associadas vem sendo constantemente reconhecida,
eis que há anos o Forcine é convidado a indicar representantes para todas as
comissões de seleção de editais de cinema e audiovisual do Ministério da Cultura
e para os da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
Até 2010 a estrutura administrativa foi composta por uma Diretoria e um
Conselho de Representantes, tendo como órgão deliberativo máximo a Assembléia
Geral, cujas reuniões ordinárias aconteciam anualmente, durante a realização
do Congresso Forcine. A diretoria eleita no V Congresso, em Tiradentes, MG,
em novembro de 2007 foi formada por Evandro Lemos da Cunha, presidente
(UFMG); Aída Marques, vice-presidente (UFF); João Guilherme Barone Reis e
Silva, secretário geral (PUCRS) e Luciana Rodrigues, tesoureira (FAAP)
Em 2009 o então presidente do Forum, Evandro Lemos da Cunha, pediu
afastamento da função e depois foi destituído em Assembléia Geral, assumindo
a presidência a representante da UFF, Aída Marques. Em março de 2010, em
Niterói, na Universidade Federal Fluminense, realizou-se o VI Congresso do
Forcine. Esse Congresso foi essencial para a retomada da mobilização nacional,
com ampla participação das escolas associadas e de novas escolas, em processo
de filiação. As propostas da plenária final seguem anexadas. A Assembléia Geral
decidiu pela realização do VII Congresso em 2011, na FAAP, SP e votou a
mudança estatutária.

Representações Internacionais
Atualmente, entre as associações internacionais que representam coletivamente
as escolas de cinema, a mais importante é o Centre International de Liaison des
Ecoles de Cinéma et de Télévision (CILECT), uma associação mundial de escolas
de cinema e televisão. Seu objetivo é fornecer meios para a troca das idéias entre as
escolas membro, auxiliando na compreensão do ensino de audiovisual. O Centro
dedica-se à criação, ao desenvolvimento e à manutenção da cooperação regional
e internacional entre as escolas e ao incentivo do ensino de cinema e televisão no
mundo. Além disso, ajuda na compreensão do audiovisual como uma chave para
97
A História do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual - Forcine

o desenvolvimento cultural e das comunicações, atuando como ferramenta de


instrução, informação, documentação e pesquisa na área.
A fundação do CILECT foi em Cannes, em 1955, com a intenção de
estimular um diálogo entre escolas de cinema no mundo, raro nestas épocas.
Sua sociedade foi iniciada com oito países: Grã Bretanha, Checoslováquia,
França, Itália, Polônia, Espanha, União Soviética e os Estados Unidos. Em 2000,
CILECT já contava com 108 instituições de 50 países, em cinco continentes,
tendo revisto suas atividades e se adaptado às necessidades contemporâneas,
explorando as potencialidades das novas tecnologias para instrução, informação
e entretenimento.
No Brasil são membros CILECT: a Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo; a Universidade Estadual de Campinas, Programa
de Pós-Graduação em Multimeios, a Universidade Federal Fluminense,
Departamento de Cinema e Vídeo e a Escola de Belas Artes da Universidade
Federal de Minas Gerais.
Em agosto de 2002 a maioria das escolas ibero-americanas filiadas ao CILECT
decidiu se organizar em um grupo denominado CILECT Ibero-América (CIBA)
com o intuito de representarem dentro da entidade internacional, CILECT, a
região ibero-americana. Até aquele momento a região era representada pela
Federação de Escolas Ibero-americanas de Imagem e Som (FEISAL), inicialmente
denominada Federação de Escolas de Imagem e Som da América Latina. A
FEISAL deixou de representar a região ibero-americana em CILECT dado seu
crescimento em função da incorporação de um número grande de escolas latino-
americanas que não são diretamente filiadas a CILECT. As escolas se organizaram
para serem suas próprias representantes a partir de CIBA. As escolas são: Brasil:
ECA-USP e UFF / Argentina: UBA, FUC, ENERC / Chile: UNIACC / México:
CCC e CUEC / Cuba: EICTV / Portugal: Escola de Cinema de Lisboa / Espanha:
ESCAC de Barcelona

98
CAPÍTULO 6

A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Carlos Eduardo Franciscato1


Edson Spenthof 2
Mirna Tonus3
Sérgio Luiz Gadini4

Introdução
Desde as experiências pioneiras de pesquisa histórica em Jornalismo de Alfredo
de Carvalho e Carlos Rizzini até as formulações teóricas de Danton Jobim e Luiz
Beltrão em meados do século passado, passando pela sedimentação acadêmica da
formação universitária em Jornalismo a partir da década de 1940, os estudos de
Jornalismo no Brasil têm alcançado um processo de crescimento científico que
demonstra vigor e maturidade das pesquisas nacionais. Como objeto complexo,
o Jornalismo tem sido passível de tratamento por diversas áreas de conhecimento,
de forma diversificada e complementar.
O Jornalismo antes de sua academização localiza suas raízes ainda no
século XIX. Propõe, então, uma periodização em três fases: 1) Emancipação
(século XIX); 2) Identificação (século XX); e 3) autonomização (século XXI). O
primeiro período, de emancipação, está ligado à dissociação gradual dos modelos
portugueses de compreender o Jornalismo, reminiscentes da Era Colonial, e a
busca de um modelo brasileiro de Jornalismo a partir da Independência do Brasil
e nas décadas seguintes do século XIX (MELO, 2009, p. 12-13).
O segundo período proposto pelo autor, o da identificação (MELO, 2009,
p. 13-19), expande-se por todo o século XX por meio de várias correntes de
pensadores. A primeira corrente é a dos fundadores, em que se encontram atores
políticos que identificam no Jornalismo uma função vital ao sistema político,
em um contexto de industrialização do país e seus efeitos sobre a informação
jornalística e a sociedade. Destaca-se o pensamento de Rui Barbosa, Barbosa
Lima Sobrinho e Carlos Lacerda. Uma segunda corrente deste período é a dos
sistematizadores, em que um olhar acadêmico tenta identificar fronteiras do

1 Presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). Professor adjunto da Universi-


dade Federal de Sergipe (UFS).
2 Diretor do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). Jornalista. Mestre em História e professor
da Universidade Federal de Goiás. (UFG).
3 Diretora do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). Doutorado em Multimeios pela Unicamp
e professora adjunta da Universidade Federal de Uberlândia (MG).
4 Presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ). Doutor em Comunicação pela Unisinos/
RS. Professor concursado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR).

99
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Jornalismo em relação a outras formas de pensamento, como a literatura, seja


numa abordagem histórica, sociológica, estética ou filosófica. Neste grupo estão
Alceu Amoroso Lima, Danton Jobim e Luiz Beltrão.
Uma terceira corrente de pensamento sobre o Jornalismo neste período
de Identificação é denominada por Marques de Melo como polemista, na qual
jornalistas como Alberto Dines e acadêmicos como Cremilda Medina e Adelmo
Genro Filho produzem uma visão crítica sobre a sociedade, o Jornalismo e o
governo militar autoritário da segunda metade do século XX. Por último, uma
corrente de consolidadores, que aprofundam uma abordagem acadêmica sobre o
Jornalismo.
A terceira fase na formação de um pensamento sobre o Jornalismo, classificada
por Marques de Melo como de autonomização (2009, p. 19-23), engloba uma
nova geração de pesquisadores dedicados a constituir uma comunidade acadêmica
de estudiosos do Jornalismo. Neste período, que engloba a primeira década do
século XIX, surge uma corrente de revigoramento de uma análise crítica do
Jornalismo (os problematizadores) e uma corrente mais preocupada em legitimar
o Jornalismo como um campo acadêmico capaz de produzir um conhecimento
científico (os institucionalizadores).
Embora este tipo de periodização indique aparentes divisões, não foi
proposta do autor considerar formas de pensar separadas, mas observá-las
em um movimento complementar, sem a criação de rupturas substantivas.
O último grupo de pesquisadores, por exemplo, têm buscado, por meio da
institucionalização, uma sedimentação de diferentes correntes de pesquisa sobre
o Jornalismo, seja junto aos programas de pós-graduação brasileiros, seja junto às
agências governamentais de fomento à pesquisa.
Com a institucionalização, a produção de conhecimento sobre o Jornalismo
exige uma constituição formal conforme os procedimentos de pesquisa científica.
Um dos desafios contemporâneos é, então, a construção disciplinar do campo,
que passa, além da especificidade do objeto, pela solidez e clareza de categorias
fundamentais para tratá-lo, por um conjunto teórico harmônico que gere
conhecimento articulado e coerente e pela própria definição de eixos metodológicos
específicos em relação a outras áreas do conhecimento. O amadurecimento do
campo do Jornalismo enfrenta o desafio de avançar encontrando um ponto de
equilíbrio entre, por um lado, os diálogos teórico-metodológicos entre disciplinas
que chegam ao objeto por meio de um tratamento multidisciplinar e, por
outro, o esforço de uma construção disciplinar específica, que lhe dê identidade
metodológica para desencadear um diálogo com disciplinas de outros campos
científicos.
Além desta perspectiva histórica, o percurso de caracterização da produção

100
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

de conhecimento em Jornalismo será apresentado em cinco outros aspectos:


1) Descrição da comunidade acadêmica do Jornalismo (surgimento e a
consolidação das escolas de jornalismo, da pesquisa e da pós-graduação em
jornalismo );
2) A identificação das principais áreas de pesquisa em Jornalismo;
3) A publicação de periódicos científicos especializados em Jornalismo;
4) A inserção internacional da pesquisa em Jornalismo;
5) A relação entre a academia, o setor produtivo e a profissão de jornalista.

A comunidade acadêmica da área de Jornalismo


Ao longo do século XX, representantes de entidades de classe (como
os sindicatos estaduais dos jornalistas, a Associação Brasileira de Imprensa e a
Federação Nacional dos Jornalistas), têm defendido a criação de cursos para
qualificar o acesso à profissão e propiciar aos jornalistas a consequente melhora
das condições de vida e trabalho de todos que atuavam na área. O marco desta
histórica luta pela formação universitária é o I Congresso Brasileiro de Jornalistas,
realizado no Rio de Janeiro em 1918.
Os primeiros cursos de graduação em Jornalismo, contudo, só foram de
fato criados e passam a funcionar na segunda metade da década de 1940. O
primeiro, em 1947, na Faculdade Casper Líbero, na ocasião, ligada à Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, e o segundo curso, junto à Faculdade
Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, em 19485. Oportuno considerar
que houve uma primeira tentativa de criar um curso universitário em Jornalismo
em 1935, na Universidade do Distrito Federal, que valorizava uma formação
humanista, por iniciativa de Anísio Teixeira. O Estado Novo, no entanto, acabou
com o projeto, fechando a referida universidade. Somente em 13 de maio de
1943, Getúlio Vargas fundou o Curso de Jornalismo na Universidade do Brasil,
que passou a funcionar em 1948.
Osni Dias (2004) situa a história dos cursos de Jornalismo no Brasil a partir
de um dos pioneiros na criação de curso livre profissionalizante na área. A iniciativa
coube ao paulista Vitorino Prata Castelo Branco, em 1943, “considerado um
precursor dentro da comunidade brasileira de Ciências da Comunicação, ao lado
de personagens como Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Rizzini e Danton Jobim,
entre outros”, afirma Dias.

5 O primeiro curso de Jornalismo (1947) passa a se denominar, mais tarde, Faculdade de Comunicação Social
Cásper Líbero, de São Paulo/SP, e o segundo curso de Jornalismo criado no Brasil (1948) se torna, a partir de
1967, a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MARQUES DE MELO, 1979).

101
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Com as transformações políticas, sociais e econômicas que ocorriam no


País, marcado pela crescente urbanização, os jornais impressos ganham fôlego
e modernizam-se pelo uso de imagens (fotográficas ou ilustrações), aumentam
tiragens e, assim, contratam mais profissionais para produção editorial. É neste
contexto que o I Congresso Brasileiro de Jornalistas discute e aprova a defesa de
criação de escola de Jornalismo, baseada nas experiências profissionais de outros
países, como a França (que mantinha curso desde 1889) e Estados Unidos, que
mantêm cursos desde 1912, na Universidade de Columbia, por iniciativa de
Joseph Pulitzer.
No início dos anos 1940, Castelo Branco, em São Paulo, fazia palestras
e conferências. Em 1942, em visita pela Argentina, participa de “um curso
na Sociedad Argentina de Periodismo y Redacción, onde recebe o certificado
de conclusão com o resultado sobresaliente”. Na Argentina, Castelo conhece o
Círculo de Periodistas de Buenos Aires e a Escola Argentina de Periodismo, da
Universidad Nacional de la Plata. “Ali, conhece a estrutura da Escola de Periodismo
e seus antecedentes, seu primeiro plano de estudos, o regulamento e a início de
seus cursos, em 1935”, como explica Dias (2004), obtendo as bases para criar, em
1943, aquele que é considerado o primeiro Curso Livre de Jornalismo no Brasil.
O desdobramento dessa demanda pela profissionalização com formação
universitária iria se consolidar, aos poucos, também pelo reconhecimento da
atividade jornalística. E um desses momentos acontece com a “edição, pelo
Presidente Getúlio Vargas, em 3 de novembro de 1938, do Decreto-lei nº 910,
que dispôs sobre a criação de escolas de preparação ao jornalismo. Vargas fora
jornalista no Rio Grande do Sul antes de ser alçado ao Ministério da Fazenda no
Governo Washington Luís e era sensível às questões de interesse da comunidade
profissional que integrara. Apesar da censura e de outras restrições que impôs à
imprensa sob o Estado Novo (1937-1945), Vargas instituiu uma série de medidas
e inovações que favoreceram os jornalistas e a imprensa”. Mais tarde, “o presidente
Jânio Quadros editou em 22 de agosto de 1961, três dias antes da sua renúncia,
o Decreto n.º 51.218, que regulamentou o Decreto-lei n.º 910 de 1938 que
instituía o curso de Jornalismo e estabeleceu a exigência da formação de nível
superior para o exercício da atividade profissional de jornalista, mas ressalvando
o direito dos jornalistas que exercessem há dois anos a profissão de continuar a
fazê-lo, como jornalistas profissionais provisionados”6.
No período entre o final da década de 1940, quando surgem os primeiros
cursos, até início dos anos 1960, a base das iniciativas profissionalizantes
pelo ensino que surgem em outras cidades do País é o curso de Jornalismo da
6 Informações constantes na manifestação do presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azedo,
na Comissão Especial que analisou a proposta de Emenda à Constituição Nº 386-A, que “altera dispositivos da
Constituição Federal para estabelecer a necessidade de curso superior em Jornalismo para o exercício da profis-
são de jornalista”, sob relatoria do deputado Hugo Leal (RJ).

102
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Universidade do Brasil, que serve de referência, mas vale ponderar que são poucos
os cursos mantidos e criados nesse período.
O currículo mínimo para a graduação em Comunicação Social surge em
1962, quando o Conselho Federal de Educação fixa uma grade básica aos cursos
superiores (Lei 5.540/68), deixando às universidades a tarefa de incluir outras
disciplinas, de acordo com a avaliação do que poderia contribuir na formação
profissional de cada área. Os cursos de Jornalismo passam a conviver, na área
de Comunicação Social, com as habilitações de Relações Públicas, Publicidade e
Propaganda e Editoração (GOBBI, 2004).
Até o final da década de 1980, o Brasil tinha o registro de aproximadamente
100 cursos de graduação em Comunicação Social entre as principais habilitações
mais procuradas pelos jovens interessados em ingressar na área, por meio da
Universidade: Jornalismo, Publicidade/Propaganda, Relações Públicas e, com
menor frequência, Cinema, Rádio e TV, ou Editoração. Pelas informações da
época, Bahia, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul tinham entre três e cinco
cursos, enquanto São Paulo e Rio de Janeiro concentravam um maior número
das escolas universitárias. As demais unidades da Federação possuíam um ou dois
cursos de Comunicação Social. E, claro, muitos estados não tinham sequer uma
escola de formação universitária na área até o início da década de 19907.
Regra geral, com algumas exceções, até a virada daquela década (1980/90),
o número relativamente baixo de faculdades de Jornalismo no Brasil pode ser
compreendido ao comparar-se a média e o crescimento populacional do País no
referido período8.
Com esse número, e considerando algumas dificuldades técnicas, é fácil
imaginar que, além das capitais estaduais, poucas cidades de porte médio do Brasil
tinham instituições de ensino superior com cursos de Comunicação Social.
A partir da entrada da década de 1990, contudo, o campo jornalístico
registra um aumento acelerado de procura por vagas universitárias. Na esteira
de uma suposta demanda reprimida – de vagas em cursos de Jornalismo – que as
universidades públicas (federais, em geral) não supriam, e aliadas a uma expectativa
(e promessa de governo) de liberalização da economia, em um anunciado processo
de “desmonte” do Estado do Direito, criam-se condições para que um número

7 Apenas para ilustrar, em 1947, quando o Brasil passou a contar com sua primeira escola de formação univer-
sitária em Comunicação Social, a população da época registrava aproximadamente 45 milhões de habitantes.
8 Dados do IBGE indicam que, em 1990, o Brasil tinha uma população estimada em 145 milhões de habit-
antes. O crescimento foi expressivo, considerando-se que, na virada da década anterior (1980), o País registrava
cerca de 120 milhões de habitantes (contribuintes, moradores, nativos ou migrantes, sendo estes provenientes
de deslocamentos internos ou externos). Considerando que, em uma década, o número de vagas ofertadas em
faculdades de Comunicação cresceu muito lentamente, a taxa média de crescimento populacional foi bem supe-
rior e, de forma mais acentuada ainda, no ritmo da urbanização. http://www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_pdf/
populacao.shtm

103
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

crescente de instituições de ensino superior (IES) particulares entre no mercado


de ensino superior privado. Elas passaram a ofertar grande quantidade de cursos
que, até então, registravam alta procura diante de um limitado número de vagas.
A redução das condições de exigência para abertura de cursos universitários criou,
assim, um mercado para que um expressivo número de IES passasse a ofertar
cursos, entre os quais estava o Jornalismo.
Aliado a essa variável – de “incentivo” e diante da promessa governista de uma
liberalização das relações econômicas, em um gradual processo de terceirização,
privatização ou redução da ação estatal em diversos setores da economia –,
considere-se que as universidades públicas registravam um “engessamento”
em suas estruturas de gestão, fosse pelo momento de transição política porque
passava o País – a partir do final do regime militar, 1964-85 –, fosse pelas opções
de governo por rediscutir o papel das universidades federais.
A motivação por parte dos emergentes empresários do ensino superior
privado brasileiro não se reduziu, entretanto, às facilitações administrativas,
observadas a partir do (não) controle dos órgãos responsáveis em nível federal.
Existiu, aí, também um incentivo tecnológico, que sinalizava para uma real baixa
nos custos de instalação e manutenção de cursos em Jornalismo.
Até início dos anos 1990, fazer televisão, por exemplo, era coisa para quem
tinha condições financeiras e uma respeitada estrutura de produção. Em tempos
de equipamento analógico, tudo era mais caro, também pelo fato de que a
maioria de tais equipamentos envolvia importação de peças e mesmo de alguns
suprimentos, que hoje seriam básicos.
Por consequência, equipar e manter em funcionamento um laboratório de
telejornalismo para operar com funções didáticas em uma faculdade de Jornalismo
era, de certo modo, um “luxo” de investimento em uma carreira profissional.
Guardadas as proporções, as dificuldades também estavam na manutenção de um
periódico escolar (laboratorial) impresso, em um estúdio de radiodifusão, entre
outros materiais básicos para pensar em produção editorial de mídia em tempos
de estrutura analógica.
A situação, portanto, criava um universo em que, se por um lado as
universidades públicas não conseguiam a liberação de recursos para atualizar
seus laboratórios, as poucas faculdades particulares que conseguiam manter
esses espaços mais atualizados (não necessariamente “de ponta”) sentiam-se,
praticamente, no “direito” de cobrar taxas ou mensalidades a valores bem acima
das reais condições que boa parte da população conseguiria bancar.
Nesse contexto, não apenas no campo da Comunicação (e do Jornalismo),
entrar e manter-se na universidade ainda era, até meados dos anos 1990, uma
conquista distante para a grande maioria dos brasileiros que entravam na escola.
104
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

E se, por um lado, a população aumentava a uma taxa acelerada, desde a década
de 1940, quando o Brasil contava com 41 milhões de habitantes, por outro, o
aumento do número de vagas em universidades públicas não ocorria, deixando as
poucas IES particulares em reais condições de ofertar vagas em inúmeros cursos
com demanda de mercado a um custo economicamente alto para grande parte
da classe média.
Se a década de 1990, portanto, marcou a chamada fase de mercantilização
do ensino superior, com uma explosiva oferta de vagas, por parte de emergentes
IES privadas, a facilitação das condições técnicas, com o barateamento de
equipamentos que precisavam ampliar as condições de circulação e consumo,
também contribuiu para “deselitizar” o fazer mídia.
Era o mesmo início da década de 1990 que registrava a entrada da mídia
digital de música, com o CD (compact disk) que logo iria baratear a produção
musical e retirar do mercado uma incontável quantidade de discos (“bolachão”)
e fitas K7, analógicos. É de conhecimento público que, no Brasil, o lançamento
de novidades tecnológicas (produtos), em média, demora mais tempo que
o registrado em países de maior poder aquisitivo e distribuição de renda mais
equitativa.
Cerca de duas décadas depois, em 2010, o Brasil possui números bem
diferentes. Com 190 milhões de habitantes, cerca de 85% residindo na área
urbana, o País tem hoje cerca de 1.300 escolas superiores em Comunicação
Social, com mais de 400 cursos na habilitação Jornalismo.
Ao longo das duas décadas, que indicam a explosão quantitativa no número
de cursos de graduação em Jornalismo, o mercado de atuação profissional,
mesmo diante do crescimento urbano centrado em médias e grandes cidades,
registrou uma redução no número de postos de trabalho nos tradicionais
meios de informação. A mesma variável que facilitou a abertura – e, em certos
casos, certa proliferação descontrolada – de escolas universitárias de Jornalismo
contribuiu, simultaneamente, para a redução direta de espaços e funções de
trabalho. A informatização das redações de jornais, tanto quanto facilitou, retirou
inúmeros postos de atividade profissional de jornais e, de certo modo, também
de emissoras televisivas, à medida que, ao integrar em redes, dispensou equipes
outrora imprescindíveis para manter um programa ou periódico sem levar furo.
A rápida abertura de cursos de Jornalismo também gerou outra demanda:
a contratação de professores. Assim, de uma estimativa de 1.500 docentes que,
em 1990, atuavam nos então cursos de Jornalismo existentes no País, passa-se,
em 2010, para um número estimado em 6.000 professores que trabalham nas
escolas nesta área de formação universitária (em um número estimado de 400
cursos de graduação em Jornalismo, onde estão matriculados aproximadamente

105
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

60 mil estudantes, de acordo com projeções do Fórum Nacional de Professores


de Jornalismo (FNPJ).
E, aqui, vale considerar que as variadas formas e relações de trabalho em IES
de diferentes regiões e estados do Brasil dificultam inclusive o mapeamento das
condições de ensino e trabalho, por parte dos professores. Tais variações vão desde
a condição de professor horista (que tem contrato de remuneração apenas pela
hora do tempo físico, direta, em que ministra aula) à de docentes que se dedicam,
em tempo integral, às referidas IES, atuando em variadas ações que envolvem
o ensino superior (da graduação à pós-graduação). No intervalo entre as duas
condições, há professores em tempo parcial apenas para aula, em tempo parcial
com dedicação para aula e atividades de pesquisa ou extensão. Além daqueles
com tempo de 30 ou 40 horas, dividido entre atividades de ensino, pesquisa ou
extensão.

A institucionalização da pesquisa em Jornalismo no sistema de pós-


graduação em Comunicação
A primeira tese de doutorado em jornalismo no Brasil foi defendida pelo professor
José Marques de Melo em 1972 junto à Universidade de São Paulo (USP). Era
um tempo de uma intensa presença de estudos de Comunicação de Massa, seja
em uma perspectiva funcionalista norte-americana ou crítica européia, que, como
vimos, influenciou a organização acadêmica dos cursos na forma de Comunicação
Social. Na década de 1970, a comunidade acadêmica de Comunicação estava
recém experimentando os primeiros cursos de Mestrado na área (o primeiro
surgiu em 1970 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Em 1978, a
PUC-SP inaugurou o primeiro doutorado em Comunicação.
Hoje, a área possui 39 programas de pós-graduação em Comunicação
aprovados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES). Importa, neste artigo, considerar qual a posição relativa das pesquisas
em Jornalismo na construção deste campo acadêmico. Ao analisarmos cada
um dos programas brasileiros de mestrado e doutorado em Comunicação em
atividade, por meio de suas linhas de pesquisa, é possível obter uma percepção
mais precisa do conhecimento científico sobre o Jornalismo.
O Quadro 1 apresenta uma descrição das áreas de pesquisa dos programas
de pós-graduação conforme dados mais recentes disponíveis (ano de 2007) no
site da CAPES sobre as áreas de concentração, linhas de pesquisa e projetos
de pesquisa registrados em cada curso. Em alguns casos, foram colhidos dados
publicados pelos programas em seus sites institucionais.

106
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Quadro 1 – Jornalismo como um objeto central nos programas de pós-graduação em


Comunicação

Linha de pesquisa Curso / Instituição Ementa


Jornalismo e Mestrado e Doutorado Esta Linha de Pesquisa tem como objeto o
Sociedade em Comunicação (UnB) jornalismo enquanto campo teórico e prático e
seus desdobramentos em torno de uma Teoria
da Notícia. Aborda a compreensão do jornalismo
como categoria cognitiva de representação da
realidade, a partir de uma leitura crítica dos
processos de produção da notícia (da seleção dos
acontecimentos à edição dos fatos hierarquizados)
e de uma análise da narrativa jornalística, tendo
em vista a correlação estrutural entre realidade e
ficção consistente nos valores-notícia. O principal
objetivo desta Linha é a realização de estudos e
pesquisas sobre gêneros e práticas jornalísticas,
de modo a encontrar respostas conciliadoras
para as tensões existentes entre as utopias do
jornalismo como função pública e social e as reais
possibilidades do jornalismo enquanto práxis
(ação transformadora da realidade social).
Linguagem Mestrado e Doutorado Pesquisa os processos midiáticos e seus
e práticas em Ciências da desdobramentos em produtos jornalísticos.
jornalísticas Comunicação (Unisinos) Considera as rotinas produtivas, os contextos,
as mensagens e a configuração de memórias na
sociedade midiatizada. Contempla as formulações
teóricas específicas do jornalismo articuladas em
perspectiva multidisciplinar.
Fundamentos do Mestrado em Estudo dos pressupostos teóricos, princípios
Jornalismo Jornalismo (UFSC) filosóficos, condicionantes e desdobramentos
do jornalismo desde a modernidade. Privilegia-
se nesta linha a observação do jornalismo como
fenômeno específico dentro das sociedades
complexas, com o objetivo de investigar sua
fundamentação epistemológica e suas múltiplas
dimensões conceituais. Considerando diferentes
contextos espaciotemporais, a linha localiza o
jornalismo em suas configurações como processo
histórico e político, prática social, exercício
ético e estético, mediação cultural, estratégia
comunicativa, gênero de discurso e produção de
conhecimento.

107
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Processos Mestrado em Estudos sobre o funcionamento do jornalismo


e Produtos Jornalismo (UFSC) a partir da análise de seus produtos e de seus
Jornalísticos processos de produção, com ênfase para as
profundas mudanças porque passa a prática do
jornalismo em decorrência da disseminação das
Tecnologias da Informação e da Comunicação nas
sociedades contemporâneas. Esta linha comporta
pesquisas sobre os gêneros, formatos, conteúdos,
linguagens, técnicas e tecnologias jornalísticas,
assim como das organizações, políticas editoriais,
rotinas, estratégias e mediações relacionadas aos
seus processos de produção.
Produtos Mestrado em Dimensão informativa, dimensão lúdica,
Midiáticos: Comunicação (FCL) transformações nos conceitos de recepção e
Jornalismo e interação, cultura da imagem: na sociedade
Entretenimento contemporânea, os produtos da mídia (re)elaboram
fatos e conteúdos tanto da realidade quanto da
ficção, gerando aproximações entre jornalismo e
entretenimento. Por vezes, esse contexto tende ao
esvaziamento da função pública da informação.
Nesta Linha de Pesquisa, pretende-se investigar as
narrativas da contemporaneidade e as produções
que exploram o universo do imaginário, as
relações entre jornalismo e espetáculo. Jornalismo
impresso, jornalismo televisivo, jornalismo on-
line e demais produções que transitam como
multimídia ou hipermídia e as decorrentes
mudanças no receptor/usuário interagente são
objetos de reflexão.

Fontes: CAPES (www.capes.gov.br); sites institucionais dos Programas

Algumas observações podem ser obtidas do Quadro 1 e análises conseqüentes:


a) No sistema brasileiro de pós-graduação em Comunicação, o Jornalismo
é um objeto tradicionalmente presente como tema de dissertações e
teses. Entretanto, apenas em quatro programas há um reconhecimento
que o fenômeno jornalístico exige um conjunto de conhecimentos que
se especializam e geram identidade de pesquisa, tendo consistência para
constituir linhas de pesquisa autônomas;
b) O crescimento das linhas de pesquisa específicas em jornalismo é um
processo recente característico desta primeira década do século XXI no sistema
de pós-graduação. Duas experiências são exceções a esta “recenticidade”:
o curso de pós-graduação da Universidade de Brasília, que pode ser
considerado o mais tradicional curso em atividade que institucionalizou a
pesquisa em jornalismo; e o programa da Escola de Comunicações e Artes
108
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

da Universidade de São Paulo, uma referência na pesquisa em jornalismo


nas décadas de 1970 e 1980. Este, no entanto, executou um processo
de reformulação a partir de 2001, extinguindo as linhas de pesquisa
específicas, como a voltada para o jornalismo, e privilegiando abordagens
transdisciplinares da comunicação;
c) No Quadro 1, os três demais programas (UFSC, Unisinos e FCL)
institucionalizaram o foco específico em jornalismo em anos recentes
desta década. O Mestrado em Jornalismo da UFSC foi criado em 2007,
sendo inovador no sistema de pós-graduação em Comunicação por ser
exclusivamente direcionado para estudos de Jornalismo.
d) Nas cinco linhas de pesquisa em Jornalismo apresentadas no Quadro
1, ao menos três vertentes de estudo se destacam: uma preocupação em
explorar e desenvolver perspectivas teóricas específicas à investigação em
Jornalismo, seja em uma perspectiva interna/conceitual ou na relação entre
Jornalismo e sociedade; consideração das linguagens, gêneros e narrativas
peculiares ao Jornalismo; análise dos processos de produção jornalística,
seus específicos aspectos organizacionais, operacionais e tecnológicos e seu
respectivo produto;
e) A pesquisa em jornalismo, mesmo não estando institucionalmente
demarcada em linhas de pesquisa, está presente como fator articulador de
docentes e projetos de pesquisa em diversos programas de pós-graduação,
como por exemplo, a presença de um reconhecido grupo de pesquisa em
Jornalismo online dentro da linha de pesquisa em Cibercultura no programa
da Universidade Federal da Bahia;

A institucionalização da pesquisa em Jornalismo nas associações científicas


A produção científica tendo o Jornalismo como objeto central de pesquisa vem
crescendo significativamente nos últimos 10 anos no Brasil, a se considerar
também a atuação das associações científicas e os eventos por elas produzidos.
Indicadores deste incremento podem ser percebidos ao considerarmos o número
de trabalhos científicos apresentados anualmente nos dois principais congressos
brasileiros de pesquisa em Comunicação da Sociedade Brasileira de Estudos
Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e da Associação Nacional dos
Programas de Pós-Graduação em Comunicação (COMPÓS) -, nos congressos
realizados pelo Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ) desde 1995
e na criação, em 2003, da Sociedade Brasileira dos Pesquisadores em Jornalismo
(SBPJor).
Estes movimentos revelam uma intenção dos pesquisadores em produzir um
avanço teórico do campo, melhor definição de metodologias adequadas ao estudo
109
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

do Jornalismo e aprofundamento no conhecimento das especificidades do objeto


em relação com conhecimentos sobre a comunicação e a sociedade.
A expansão da pesquisa em jornalismo levou a Intecom a diversificar, em seu
congresso anual, os grupos de trabalhos dedicados ao jornalismo. Em seu XXXIII
Congresso em 2010, foram cinco grupos de trabalho em Jornalismo: Gêneros
Jornalísticos, História do Jornalismo, Jornalismo Impresso, Telejornalismo e Teoria
do Jornalismo. No 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo (ENPJ),
em 2010, foram seis grupos com relatos de experiências de ensino e pesquisa:
Atividades de Extensão; Ensino de Ética e Teorias do Jornalismo; Pesquisa na
Graduação; Produção Laboratorial Eletrônicos; Produção Laboratorial Impressos;
e Projetos Pedagógicos e Metodologias de Ensino.
Em 2003, pesquisadores em jornalismo reuniram-se na Universidade de
Brasília (UnB) e fundaram a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
(SBPJor). A entidade busca agregar pesquisadores que têm o Jornalismo como
objeto de pesquisa e desenvolvem, a partir de seu estudo, a consolidação da área
de conhecimento do Jornalismo, atuando em conjunto com as demais associações
científicas ou profissionais já existentes no campo da Comunicação.
A SBPJor realiza, desde seu primeiro ano de funcionamento, um encontro
nacional de pesquisadores em Jornalismo. A Tabela 1 a seguir mostra, de forma
sintética, a evolução dos congressos nacionais da SBPJor. Ressalte-se que este é o
número de trabalhos efetivamente aprovados para apresentação, após a etapa de
seleção conduzida pela Diretoria Científica da entidade.

Tabela 1 – Encontros anuais da SBPJor

Encontro Ano Cidade Universidade Realizadora Trabalhos apresentados


1º 2003 Brasília UnB (Universidade de Brasília) 60
2º 2004 Salvador UFBA (Universidade Federal 95
da Bahia)
3º 2005 Florianópolis UFSC (Universidade Federal de 129
Santa Catarina)
4º 2006 Porto Alegre UFRGS (Universidade Federal 113
do Rio Grande do Sul)
5º 2007 Aracaju UFS (Universidade Federal de 114
Sergipe)
6º 2008 São Bernardo UMESP (Universidade 152
Metodista de São Paulo)
7º 2009 São Paulo USP (Universidade de São 158
Paulo)
Fonte: SBPJor (www.sbpjor.org.br)

110
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Prêmio Adelmo Genro Filho de pesquisa em Jornalismo


Como a pesquisa em Jornalismo tem uma longa tradição nas universidades e
programas de pós-graduação, a SBPJor decidiu criar, em 2004, uma premiação
anual para eleger os melhores trabalhos desenvolvidos em monografias de final de
curso de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado que tenham
o Jornalismo como objeto central. Sua finalidade é identificar anualmente quais
os pesquisadores que apresentaram contribuições relevantes para o campo da
pesquisa em Jornalismo, de modo a construir/consolidar a identidade do nosso
campo científico.
Esta premiação anual foi denominada “Prêmio Adelmo Genro Filho de
Pesquisa em Jornalismo”. Além destas três categorias de premiação (monografias,
dissertações e teses), anualmente a SBPJor elege um pesquisador sênior, a fim de
identificar, na comunidade científica, pessoas cuja obra de pesquisa em jornalismo
seja vasta, tenha repercussões e influências no desenvolvimento teórico em
Jornalismo e esteja contribuindo para consolidação científica do campo.

A inserção internacional da pesquisa em Jornalismo


Além do crescimento dos estudos sobre Jornalismo no País, os pesquisadores da
área têm traçado estratégias de inserção destes trabalhos em fóruns internacionais
de pesquisa em Jornalismo. Duas estratégias têm sido mais utilizadas: a publicação
de estudos brasileiros em revistas disponíveis à comunidade internacional; e a
realização de eventos e intercâmbios internacionais.
Conforme Marques de Melo e Moreira (2009, p. 5), a primeira vez em
que os estudos brasileiros em Jornalismo ganharam alcance internacional foi com
a publicação de um trabalho de Danton Jobim em 1954 na revista Journalism
Quarterly. Nas décadas seguintes, poucos pesquisadores brasileiros em Jornalismo
conseguiram disseminar internacionalmente suas investigações.
Nos últimos anos, porém, novos esforços têm sido empreendidos para dar
conhecimento em outros países das investigações feitas no Brasil. Talvez um dos
indicativos de que estes esforços vêm obtendo algum êxito foi a edição especial da
conceituada revista científica Journalism: Theory, Practice and Criticism em 2009
com cinco artigos de autores brasileiros dando um panorama da pesquisa em
jornalismo no País. Um segundo esforço bem sucedido ocorreu com uma missão
exploratória de pesquisadores em jornalismo brasileiros na África do Sul em
2009 para participar de seminários com investigadores sul-africanos. Este evento
resultou na publicação dos papers apresentados neste encontro em uma edição
especial da revista Communicatio em 2010, com o tema Journalism in the global
South: South Africa and Brazil.

111
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Além da busca pela aprovação de artigos em periódicos internacionais, outra


estratégia de internacionalização tem sido a revista Brazilian Journalism Research,
editada pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). A
proposta desta revista tem sido obter reconhecimento como um periódico científico
de referência internacional para o campo de estudos em jornalismo. Esta linha de
trabalho se definiu desde o lançamento da primeira edição da BJR, em 2005,
ao optar pela publicação de artigos em língua inglesa para estimular a inserção
internacional da pesquisa brasileira em Jornalismo. A partir de 2008, tornou-se
bilíngue, com versões também em português para facilitar o aproveitamento dos
textos junto aos cursos de graduação em Jornalismo no Brasil.
Nas suas dez edições nestes cinco anos de existência, foram publicados
104 artigos científicos apresentando as principais correntes e tendências
contemporâneas da pesquisa em jornalismo, com a participação de 148 autores
vinculados a instituições caracterizadas por sua diversidade regional. Ressalte-se
que, destes autores, 31 são oriundos de universidades estrangeiras.
Outra forma de busca por inserção internacional da pesquisa em Jornalismo
tem sido a realização de eventos internacionais. Em 2004, a SBPJor participou
da organização do “V Congreso Iberoaricano de periodismo em Internet”, realizado
em Salvador, Bahia, promovido pela Sociedad Iberoamericana de Acadêmicos,
Investigadores y Profesionales del Periodismo en Internet. Em 2006, a SBPJor
promoveu a primeira edição da Journalism Brazil Conference em Porto Alegre, em
parceria com o Grupo de Estudos em Jornalismo da International Communication
Association (ICA), com a Seção de Educação Profissional da International
Association for Media and Communication Research (IAMCR) e com a Seção
de Estudos de Jornalismo da European Communication Research and Education
Association (ECREA). O congresso reuniu pesquisadores de 18 países: África do
Sul, Alemanha, Austrália, Brasil, Estados Unidos, Finlândia, França, Gambia,
Ghana, Grécia, Inglaterra, México, Nigéria, Porto Rico, Portugal, Suíça, Turquia
e Zimbabwe. Ao todo, houve 210 inscritos – 180 brasileiros e 30 estrangeiros.

Descrição das principais áreas de pesquisa em jornalismo


A expansão da pesquisa em Jornalismo tem se dado aliada a uma diversificação
de tópicos, enfoques e problemas. As tabelas a seguir descrevem os temas mais
recorrentes em três cenários diferentes:
a) os papers apresentados no grupo de trabalho Estudos de Jornalismo, dos
encontros anuais da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação
em Comunicação (COMPÓS) nos anos de 2000 a 2003 (Tabela 2);
b) um total de 263 papers apresentados em 2003 e 2004 no congresso
da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
112
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

(Intercom), no congresso da COMPÓS e no congresso da SBPJor (Tabela


3);
c) 67 grupos de pesquisa cadastrados no Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico em 2004 que foram localizados
por meio da palavra-chave “jornalismo”. Em seu resumo de identificação,
estes 67 grupos de pesquisa citaram 101 campos de pesquisa em Jornalismo,
descritos sumariamente na Tabela 4.

Tabela 2 – Trabalhos apresentados no Grupo de Trabalho Estudos de Jornalismo, da


COMPÓS (2000-2003)

Categoria Distribuição %
Teorias do Jornalismo 35,5
Jornalismo Digital 20,8
Ética e Jornalismo 14,5
Estudos de linguagem 12,5
Produção de notícias e processos jornalísticos 8,3
História do jornalismo 8,3
Fonte: Machado (2005, p. 36)

Tabela 3 – Temas de trabalhos apresentados em seis congressos brasileiros (COMPÓS,


Intercom e SBPJor) em 2003 e 2004

Tema Distribuição (263 trabalhos)%


Enquadramento / Temas e cobertura 24,3
Linguagem / Narrativa / Formato 23,6
Produção Jornalística / Newsmaking 13,7
Teorias do Jornalismo 9,9
História do Jornalismo 9,1
Recepção e efeitos 4,2
Estudos da profissão 2,4
Novas tecnologias 1,9
Fonte: Meditsch e Segala (2005, p. 53)

113
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Tabela 4 – Estudos em jornalismo nos Grupos de Pesquisa do CNPq

Categoria Distribuição (67 grupos) %


Produção de notícias e processos 26,73
jornalísticos
Estudos de linguagem 22,77
Jornalismo especializado 12,87
Jornalismo digital 9,90
Teoria do jornalismo 9,90
História do jornalismo 7,92
Estudos de recepção 5,94
Ética e jornalismo 2,97
Jornalismo e educação 1,00
Fonte: Machado (2005, p. 33)

Ao observar as três tabelas, é possível perceber a presença de algumas áreas


cuja pesquisa em Jornalismo é mais intensa:
a) há um grupo de pesquisadores que se dedica a analisar os modos como
os jornalistas produzem seu material noticioso, suas rotinas de trabalho, as
regras, valores e procedimentos organizacionais. Isto reflete a absorção, pelos
pesquisadores brasileiros, de uma literatura sociológica de língua inglesa
sobre a produção noticiosa, cuja pesquisa teve vigor nos anos de 1970 e
1980;
b) Deve-se considerar um esforço em buscar a consolidação teórica do
campo do jornalismo ao tentar constituir e consolidar uma teoria do
jornalismo como quadro conceitual de análise do fenômeno jornalístico.
Conforme apresentado anteriormente, a teorização sobre o Jornalismo não
é recente nos estudos brasileiros, mas esta afirmação de uma terminologia
que destaca uma especificidade teórica para se investigar este objeto mostra
uma preocupação em delimitar e institucionalizar campos de competência e
de fundamentação epistemológica;
c) Os estudos em jornalismo articulam-se a quadros teórico-metodológicos
consolidados nas ciências humanas, como os estudos de linguagem, estudos
de recepção, aspectos éticos da atividade ou abordagens históricas;
d) Há a emergência de um novo campo de pesquisa, a produção jornalística
nos ambientes digitais em rede. Estes trabalhos já ganharam força na
primeira metade da década e tenderam a se diversificar e complexificar com
a expansão desta tecnologia.

114
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

A publicação de periódicos científicos especializados em Jornalismo


Ao realizar um estudo sobre os periódicos científicos brasileiros na área de
comunicação, Elias Machado (2010) constatou que, em quase 40 anos de
existência destas publicações, oito podem ser considerados especializados em
jornalismo:
1. Cadernos de Jornalismo e Editoração – lançado em 1970 pela Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo;
2. Pauta Geral – Revista Brasileira de Jornalismo – publicado desde 1993
pelos pesquisadores Elias Machado e Sergio Gadini;
3. Anuário de Jornalismo – 1991, ECA-USP;
4. Anuário de Jornalismo – Cásper Líbero, 1999-2004;
5. Estudos em Jornalismo e Mídia, editada desde 2004 pelo programa de
pós-graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina;
6. Pensamento Jornalístico Brasileiro – PJ:Br, vinculada ao Departamento de
Jornalismo da ECA-USP;
6. Brazilian Journalism Research, editada a partir de 2005 pela Associação
Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor);
7. Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo – REBEJ, publicada pelo Fórum
Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ) desde 2007.
A maioria destas revistas (Brazilian Journalism Research, Pauta Geral,
Jornalismo e Mídia, PJ:Br e REBEJ) continua sendo publicada regularmente e
disponível em formato online e com livre acesso.

115
A produção de conhecimento no campo do Jornalismo

Referências Bibliográficas e Sites


DIAS, Osni T. “Vitorino Prata Castelo Branco e o primeiro Curso Livre de
Jornalismo do Brasil”. Trabalho apresentado no II Encontro Nacional da Rede
Alfredo de Carvalho. Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004. Disponível em
http://www.almanaquedacomunicacao.com.br/artigos/1257.html
GOBBI, M.C. (coord). “Projetos Experimentais: entre a teoria e a prática
do fazer jornalismo”. Revista PJ:BR Revista de Jornalismo Brasileiro. Nº 4, 2º
semestre de 2004. São Paulo: ECA/USP, 2004.
MACHADO, Elias. Challenges for the consolidation of Brazilian scientific
journals in the journalism and communication areas. Routledge/UNISA Press:
Communicatio: South African Journal for Communication Theory and
Research, Volume 36 Issue 2 2010.
MACHADO, Marcia Benetti. Data and Reflections on Three Journalism
Research Environments. Brazilian Journalism Research. Vol 1, Number 1,
Semester 1, 2005.
MARQUES DE MELO, José. Journalistic thinking: Brazil’s modern
tradition. Sage: Journalism, 2009. Vol. 10(1).
MARQUES DE MELO, José; LINS DA SILVA, Carlos Eduardo e FADUL,
Anamaria (org.). Ideologia e poder no ensino de comunicação. São Paulo,
Cortez & Moraes, 1979.
MARQUES DE MELO, José; MOREIRA, SONIA VIRGINIA. Brazilian
journalism – the state of research, education and media. Sage: Journalism, 2009.
Vol. 10(1).
MEDITSCH, Eduardo; SEGALA, Mariana. Trends in Three 2003/4
Journalism Academic Meetings. Brazilian Journalism Research. Vol 1, Number
1, Semester 1, 2005.

116
SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo

Elias Machado9

O trabalho para a constituição de uma comunidade de pesquisadores brasileiros


em Jornalismo conta com antecedentes de muitos nomes ilustres, com destaque
para os pioneiros no estudo deste objeto no país como Alfredo de Carvalho, Alceu
de Amoroso Lima, Antonio Olinto, Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Rizzini, Luiz
Beltrão, José Marques de Melo, Nilson Lage, Cremilda Medina, Muniz Sodré,
Luiz Gonzaga Motta, Juarez Bahia, Ciro Marcondes Filho e Adelmo Genro Filho,
entre outros. Sem as ações destes desbravadores para a legitimação do Jornalismo
como objeto digno de atenção acadêmica, dificilmente se conseguiria, anos
depois, a fundação de uma sociedade científica especializada.
No período que vai do final do século XIX até o começo dos anos 70
do século XX, a pesquisa em Jornalismo dependia de ações individuais dos
interessados no tema devido à inexistência de centros de pós-graduação, com
grupos de especialistas na temática. Após a abertura dos primeiros programas
de pós-graduação em Comunicação no Rio de Janeiro e São Paulo e a criação
de grupos de trabalho na Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da
Comunicação (Intercom), o Jornalismo voltou a ganhar relevância como objeto
de estudo.
Ao menos desde o começo dos anos 90, quando do lançamento do GT de
Jornalismo da Intercom, liderado pelo professor José Marques de Melo, existia
a preocupação de articular um espaço permanente para institucionalização do
Jornalismo como área científica com status próprio, o intercâmbio de discussões
acadêmicas, desenvolvimento de metodologias de pesquisa e defesa dos interesses
da comunidade dentro do campo multifacetado das Ciências da Comunicação.
No lançamento do GT da Intercom, em 1993, na cidade de Vitória, no Espírito
Santo, tivemos as presenças de alguns nomes históricos, como José Marques de
Melo, Nilson Lage e Sérgio Mattos e de jovens pesquisadores, então estudantes
de Mestrado ou Doutorado como Paulo Roberto Botão, Sergio Gadini, Elias
Machado, Victor Gentilli e Gerson Martins. O grande obstáculo para uma maior
institucionalização era a falta de pesquisadores doutores.
Desde o começo dos anos 2000 o quadro tinha mudado muito. A maioria
dos principais pesquisadores, de diferentes gerações, das mais experientes às mais
jovens, havia concluído o doutorado e trabalhava em algum dos mais de 20
programas de pós-graduação em Comunicação existentes. O cenário possibilitava
a concretização do sonho de uma entidade própria, antes deixado em segundo

9 Professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Diretor de Relações Nacionais da Federação
Brasileira de Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (Socicom).

117
SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo

plano por absoluta falta de especialistas em número suficiente para viabilizar o


projeto. Durante as Jornadas de Jornalismo, na Universidade Fernando Pessoa,
em abril de 2003, em Portugal, o tema passou das conversas até então isoladas
para uma articulação mais concreta da proposta. Depois de consultas aos colegas
presentes a discussão foi ampliada.
Dois meses depois, aproveitando a reunião dos pesquisadores no GT
de Jornalismo da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em
Comunicação (COMPÓS), em Recife, no mês de junho, foi marcada uma
reunião para aprovar um Comitê Nacional para formalizar a convocação do I
Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, em Brasília, nos dias 28 e
29 de novembro, que tinha como um de seus objetivos a fundação da Sociedade
Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR). A Comissão Organizadora
estava formada por pesquisadores da Bahia, Brasília, Espírito Santo, Pernambuco,
Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. Com mais
de 100 participantes e 66 trabalhos apresentados, o congresso terminou com a
aprovação dos estatutos e a eleição da primeira diretoria da SBPJOR.
A constituição da SBPJOR era uma demonstração de que a comunidade
de pesquisadores que havia cumprido um a um com a quase totalidade dos pré-
requisitos considerados indispensáveis para a legitimação do Jornalismo como
disciplina científica:
1) definição do objeto; 2) adaptação de metodologias; 3) incorporação como
disciplina acadêmica; 4) titulação em nível de doutorado dos pesquisadores; 5)
criação de fóruns para discussão das pesquisas; 6) grupos de pesquisa e 7) edição
de periódicos científicos, estava madura o suficiente para garantir a sua autonomia
dentro do multifacetado campo das Ciências da Comunicação.

Primeiros passos
Vencido o desafio da criação da entidade, o esforço passou a ser a viabilização
de um arrojado plano de trabalho elaborado pela diretoria e que incluía, entre
outros aspectos, a estruturação legal e financeira da associação, a organização
de congressos anuais, a filiação dos pesquisadores, a representação nas agências
de fomento, o apoio para projetos de abertura de programas de pós-graduação
específicos em Jornalismo, o lançamento de lista de discussão e de um jornal
eletrônico mensal, o SBPJor Notícias, a definição de uma política para as redes
de pesquisa, o lançamento de uma revista científica em inglês para divulgação
internacional da produção brasileira e a atuação em conjunto com as demais
entidades do campo do Jornalismo (FENAJ10 e FNPJ11 ).

10 Federação Nacional dos Jornalistas.


11 Fórum Nacional de Professores de Jornalismo
118
SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo

Passado menos de um ano, quando da realização do II Encontro Nacional


de Pesquisadores em Jornalismo, na UFBA, em Salvador, em novembro de 2004,
a SBPJOR estava legalizada, em plena atividade e com mais de 200 associados,
47 doutores. Neste congresso decidimos adotar uma estrutura diferenciada
para apresentação de trabalhos, fugindo dos tradicionais GTs, com dois tipos
de comunicações: 1) as comunicações coordenadas, com até seis trabalhos
articulados em torno de um tema comum e 2) as comunicações individuais, para
os pesquisadores com trabalhos isolados. Com as mesas coordenadas a SBPJOR
queria estimular a formação de redes de pesquisa, em consonância com as novas
políticas científicas determinadas pelas agências de fomento como CNPq e
CAPES.
Neste mesmo ano foi criado o Prêmio Adelmo Genro Filho para reconhecer
os melhores trabalhos produzidos pelos pesquisadores em Jornalismo, o
regulamento com as pré-condições para a montagem dos encontros nacionais
e as normas para as redes de pesquisa, uma das apostas estratégicas da SBPJOR.
Enquanto o regulamento entrou em vigor de imediato, o Prêmio Adelmo Genro
Filho teve que esperar até 2006 pela primeira edição e as redes de pesquisa até
2007, com a oficialização das primeiras propostas encaminhadas para a diretoria
nas áreas de telejornalismo e de observatórios de imprensa.
Em 2005 vivemos um dos momentos políticos mais importantes para a
legitimação institucional da SBPJOR. Se desde 2004 contávamos com o apoio
da CAPES e do CNPq para os nossos congressos anuais, neste ano passamos
pela prova de fogo de ter que reverter a proposta apresentada pelo CNPq que
simplesmente transformava o Jornalismo de subárea em especialidade. A posição
de vanguarda na defesa da pluralidade das Ciências da Comunicação contribuiu
que fosse consensuada nova versão da Tabela de Área de Conhecimento que
acatava as sugestões feitas pelos pesquisadores em Jornalismo.

A consolidação institucional
A política de institucionalização da SBPJOR pressupunha uma atuação em três
frentes:
1) uma para aumentar o número de filiados e profissionalizar mais as
atividades dos pesquisadores;
2) uma de relação com as demais associações científicas da área, com as
entidades do campo do Jornalismo e com as agências de fomento e
3) uma de contatos de caráter estratégico com os pesquisadores e com as
associações relacionadas com o Jornalismo no plano internacional.

119
SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo

No plano interno, a direção desenvolveu um mapeamento dos pesquisadores


e lançou uma campanha de filiações, através de contatos diretos com cada um dos
filiados em potencial. Ato contínuo definiu critérios padronizados para a escolha
dos trabalhos submetidos aos encontros anuais, revisados por dois consultores
escolhidos entre os associados seniores. Ao mesmo tempo passou a publicar,
em 2005, a Brazilian Journalism Research, (BJR), com um conselho editorial
internacional e a primeira da área com textos em inglês, o que obrigava nossos
pesquisadores a melhorar o nível dos seus trabalhos.
Desde a criação da SBPJOR, em 2003, tivemos o cuidado de estreitar
relações com as agências de fomento, com as demais associações científicas,
acadêmicas e sindicais, convidando para os congressos anuais os representantes
de área no CNPq e na CAPES e os presidentes FENAJ e do FNPJ. Na fundação
da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, além destas entidades
contamos com as presenças de diretores da Intercom e da Sociedade Brasileira
Para Ciência (SBPC).
Depois a instituição passou a fazer contatos com colegas pesquisadores de
renome nos cinco continentes para que integrassem o conselho editorial da BJR e
com a FENAJ e o FNPJ para fortalecer o campo do Jornalismo. Também houve
reuniões com representantes de algumas das principais associações internacionais
como International Association for Media Communication Research e a International
Communication Association para desenvolver parcerias como a Journalism Brazil
Conference, um congresso bi-anual projetado para reunir no país pesquisadores de
primeira linha no mundo.

Defesa do campo do Jornalismo


Na defesa do campo do Jornalismo a direção da SBPJOR, resguardando as
particularidades de cada uma das entidades, (acadêmicas, científicas e sindicais),
sempre esteve em sintonia com a FENAJ e FNPJ na luta por projetos comuns.
A ação conjunta das entidades contribuiu para manifestar a posição unificada
do campo do Jornalismo, antes fragmentado em distintas frentes e sem uma voz
articulada no plano nacional.
Em 2005 foi articulado o apoio da FENAJ e do FNPJ quando das
negociações com o CNPq para manter o Jornalismo como subárea na Tabela
de Áreas de Conhecimento (TAC). Entre 2006 e 2007 a SBPJOR participou
na discussão das Diretrizes para os Cursos de Graduação então propostas pelo
Ministério da Educação e que recomendava a redução do tempo de formação
para três anos e a volta dos dois anos de básico.
Nos anos de 2008 e 2009 a SBPJOR manteve participação unificada

120
SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo

com a FENAJ e o FNPJ durante as ações em defesa da exigência da formação


superior específica para o exercício da profissão, na elaboração da proposta de
Novas Diretrizes para o Ensino de Jornalismo e durante as audiências públicas
convocadas pelo Congresso Nacional para discussão da Proposta de Emenda
Constitucional que restitui a obrigatoriedade do diploma em Jornalismo.

Legitimação como área científica


A SBPJOR representa um marco, possibilitando identificar um antes e um depois,
na legitimação do Jornalismo como área científica com status próprio. Ao longo
destes últimos setes anos houve crescimento contínuo em diversos indicadores
de produção neste campo de conhecimento como número de pesquisadores com
doutorado, de grupos de pesquisa registrados no CNPq, de linhas e projetos
de pesquisa em programas de pós-graduação, de trabalhos apresentados nos
congressos anuais e de pesquisadores PQ do CNPq.
Em menos de 20 anos, desde o primeiro levantamento do CNPq em 1993,
o total de grupos de pesquisa relacionados com o jornalismo havia saltado de zero
em 1993, para 15 em 2002 e, como resultado das articulações existentes entre
os especialistas da área, 47, em 2003. Em 2005, o total de grupos de pesquisa
passou para 68; dois anos depois, em 2007, a cifra atingiu 106 e uma consulta
ao diretório do CNPq em outubro de 2010 revela que o total de grupos chegou
a 155.
O número de filiados passou de 94 no ato de fundação para 319 em 2007
e está em 380 em 2010. O total de associados doutores que era 47 em 2004
saltou para mais de 150 em 2010. O número de programas de pós-graduação
com linhas de pesquisa em Jornalismo passou de um em 2003 para quatro em
2010 e, mais importante que todos estes fatos, em 2007, a CAPES aprovou o
primeiro Programa de Pós-Graduação com Área de concentração em Jornalismo,
na Universidade Federal de Santa Catarina. Na avaliação trienal da CAPES em
2010 o Programa da UFSC subiu de nota 3 para 4, que indica uma consolidação
do projeto.
Em 2010, ao comemorar os cinco anos de existência regular, a Brazilian
Journalism Research divulgou um levantamento que ao longo de suas 10 primeiras
edições publicou 104 artigos científicos apresentando as principais correntes
e tendências contemporâneas da pesquisa, com a participação de 148 autores
vinculados a instituições caracterizadas por sua diversidade regional. Destes
autores, 31 são oriundos de universidades estrangeiras, fator que reforça a
proposta inicial da BJR de ser um periódico científico de referência internacional
para os estudos em Jornalismo.

121
SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo

Para o VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, organizado


em novembro de 2010 em São Luiz, na Universidade Federal do Maranhão, foram
selecionados 150 trabalhos. Nas comunicações livres 100 foram aprovados por
uma comissão de pareceristas formada por mais de 80 sócios plenos (doutores).
A Região Nordeste teve o maior número de trabalhos inscritos (43), seguida pela
Região Sudeste (40) e Região Sul (32). Nas comunicações coordenadas foram
selecionados 50 trabalhos nas 10 mesas coordenadas. No total participaram
97 doutores. Dividido por regiões, os trabalhos ficam classificados em: Região
Sudeste (19), Região Sul (13), Região Nordeste (11), Região Centro-Oeste (7).
Ainda que em ritmo lento, vem crescendo o número de pesquisadores
relacionados ao Jornalismo contemplados com bolsas de produtividade pelo
CNPq, chegando a 24 no total dentre os 106 bolsistas ativos: Ada Machado,
Antonio Fausto Neto, Alfredo Vizeu, Afonso Albuquerque, Antonio Hohlfeldt,
Ciro Marcondes Filho, Christa Berger, Eduardo Meditsch, Elias Machado,
Jacques Wainberg, José Luiz Aidar Prado, Juremir Machado, Luiz Martins, Marcia
Benetti, Marialva Barbosa, Mayra Rodrigues, Muniz Sodré, Paulo Bernardo
Vaz, Raquel Paiva, Rosana Lima Soares, Rogerio Christofoletti, Sonia Virginia
Moreira, Tattiana Teixeira e Zelia Adghirni.

Atuação na Área de Comunicação


A SBPJOR defende o pressuposto de que a legitimação plena do Jornalismo
passa pela consolidação das Ciências da Comunicação como Grande Área do
Conhecimento. Para concretizar este propósito a SBPJOR estabeleceu relações com
as outras associações e estimulou a criação de novas entidades como a Associação
Brasileira de Pesquisadores de Relações Públicas e Comunicação Organizacional
e integrou o movimento a favor da Federação Brasileira de Associações Científicas
e Acadêmicas da Comunicação (Socicom) e da Confederação Ibero-americana de
Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (Confibercom).
A SBPJOR esteve na linha de frente com a Intercom nas articulações
para a fundação da Socicom, tendo participado na comissão de redação dos
estatutos e indicado o ex-presidente Elias Machado para compor a primeira
diretoria, eleita em 2008 e Carlos Franciscato e Claudia Lago para integrar o
Conselho Deliberativo. A SBPJOR apoiou as propostas aprovadas pela Socicom
e compareceu aos seminários anuais de integração. No plano internacional, a
SBPJOR esteve no congresso de fundação da Confederação Ibero-americana de
Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (Confibercom), em abril
de 2009, na cidade de Funchal, na Ilha da Madeira, em Portugal. Como no
caso da Socicom, o ex-presidente da SBPJOR, Elias Machado, que representou a
delegação brasileira nas negociações com os diretores das associações dos outros

122
SBPJOR: Uma conquista dos pesquisadores em Jornalismo

países, assumiu o cargo de Diretor Administrativo da Confibercom.


Entre as ações institucionais mais relevantes lideradas pela SBPJOR está a
atuação para indicar os representantes nas agências de fomento como CAPES e
CNPq a partir de acordos entre as entidades com direito a voto. Desde 2007,
antes mesmo da existência da Socicom, a SBPJOR tem feito contatos para a
indicação consensual dos representantes no CNPq. Naquele ano, a SBPJOR
fechou uma lista tríplice com a Intercom. Três anos depois, em 2010, a SBPJOR
voltou a participar de uma articulação desta vez com a ABJC. Do ponto de
vista institucional a SBPJOR defende que nestes casos que envolvem interesses
estratégicos a decisão seja consensual, apoiando nomes comprometidos com o
conjunto da Área de Comunicação.

123
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo- FNPJ

Gerson Luiz Martins12


Carmen Pereira13

Introdução
A proposta de reunir professores dos cursos de Jornalismo surgiu do grupo que
participou do Seminário de Atualização para Professores de Jornalismo (Labjor/
Unicamp - 1994). Em seguida, foi levada para o Congresso da Sociedade Brasileira
de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - Intercom 94 (Piracicaba/SP), na
busca de um espaço regular para que os professores de jornalismo pudessem se
reunir anualmente. Nesse momento, o Congresso da Intercom tinha organizado
um Encontro de Professores de Comunicação Comparada. O número de
professores de Jornalismo ampliou-se ano a ano, congresso a congresso. Assim,
foi marcado o I Encontro Nacional de Professores de Jornalismo, num esforço
para debater questões inerentes ao Ensino de Jornalismo num momento e espaço
próprio. Em ambas as ocasiões foram feitas avaliações gerais sobre a realidade dos
cursos de Jornalismo e a necessidade de realizar discussões sistemáticas visando
à busca de novos caminhos a partir da experiência que vem sendo desenvolvida
pelos próprios docentes.
O Fórum Nacional de Professores de Jornalismo tem como objetivo reunir
professores e profissionais da área de jornalismo para debater e encaminhar
propostas sobre questões inerentes à formação do jornalista profissional.
Qualidade da formação, diretrizes curriculares, laboratórios, teoria e técnica
do jornalismo, pesquisa, desenvolvimento de novas habilidades e tecnologias,
ética e legislação, mercado de trabalho são as principais questões que envolvem
a formação jornalística e para as quais os participantes do Fórum buscam o
desenvolvimento e melhorias.
O I Encontro Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu no Congresso
da Intercom 95 (Aracaju/SE). Na oportunidade, vários temas foram levantados.
Entre eles o Projeto Pedagógico para o curso de Jornalismo, o perfil dos professores
de Jornalismo, o estágio e a inserção dos professores nos projetos de Pesquisa
e Extensão. Foi reafirmada, ainda, a oficialização do Núcleo de Professores de
Jornalismo junto à direção da Intercom, a fim de que as atividades desenvolvidas
passassem a fazer parte das ações da entidade. Como desdobramento foi realizado
o Simpósio Didático-Pedagógico de Professores de Jornalismo, em abril de 1996,

12 Diretor de Relações Institucionais do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ).


13 Diretora Sudeste do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ).

124
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - FNPJ

na PUC/Minas, quando o debate sobre o processo pedagógico foi aprofundado.


Foi decidida a realização de uma pesquisa sobre o Perfil do Professor de Jornalismo,
sob a responsabilidade da PUC/Campinas e do Labjor, e a publicação de uma
revista reunindo experiências do ensino de Jornalismo.
O II Encontro Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu no Intercom
96 (Londrina/PR). Dentre as deliberações, ficou aprovada a denominação
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo como identificadora do grupo. Foi
reafirmado o compromisso do Departamento de Comunicação Social da PUC/
Minas de editar uma revista anual sobre o ensino de Jornalismo e apresentado o
projeto para a realização da pesquisa Perfil do Professor de Jornalismo visando
a obter, entre outras informações, o número de professores, grade curricular,
recursos pedagógicos disponíveis e perfil dos dirigentes destas unidades.
O Currículo nas Escolas de Comunicação foi o tema central das discussões a
partir da exposição dos professores Erasmo Nuzzi sobre “Atualização das Normas
do Ensino de Comunicação Social”, e de Celso Luiz Falaschi sobre “O Jornalismo
Brasileiro em crise: a dicotomia entre a formação e o mercado de trabalho”.
Foi decidido que o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo retomaria a
discussão no Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, promovido pela
FENAJ, em maio de 1997, em Vila Velha/ES. Nesse evento alguns professores
participaram como delegados indicados pelos sindicatos, pois o tema central foi a
qualidade do ensino de Jornalismo.
A revista criada pelo Fórum Nacional de Professores de Jornalismo recebeu
o nome de Cadernos do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo e foi publicada
em agosto de 1997, editada pela professora Sandra Freitas, com o apoio da PUC-
Minas. A revista apresenta textos dos professores Celso Falaschi, intitulado “Jornal-
Laboratório estimula primeiranistas”; Carlos Alexandre, “Projeto Sinopse”;
Teresinha Maria de Carvalho Cruz Pires, “Teóricos e metodólogos”; Maurício
Lara Camargos, “Um ovo de Colombo?”; Maria Isabel Tim, “A produção de
hipertextos e a formação de jornalistas”; Dirceu Fernandes Lopes – “Reflexões
sobre o ensino de jornalismo”; Victor Gentilli – “Nova prática no ensino de
jornalismo: uma experiência no Espírito Santo”; Celso Falaschi – “O jornalismo
brasileiro em crise: a dicotomia entre a formação e o mercado de trabalho” e
Sandra Maria de Freitas – “Olhos que querem ver”.
O III Encontro Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu no Intercom
97 (Santos/SP). Na oportunidade, foi lançada a revista sob o título Cadernos do
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo reunindo experiências de professores
do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo e apresentados os
resultados da pesquisa Perfil do Professor de Jornalismo. Também foi apresentado
um relato das propostas do Núcleo de Professores de Jornal-Laboratório.

125
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - FNPJ

O IV Encontro Nacional de Professores de Jornalismo foi em Recife (PE)


durante o Intercom 98. No primeiro semestre de 1999, o Fórum Nacional de
Professores de Jornalismo promoveu junto com a FENAJ e a PUC/Campinas o
Seminário Nacional de Diretrizes Curriculares do Ensino de Jornalismo visando
a discutir a proposta para as Diretrizes Curriculares do Ensino de Comunicação
formulada pela Comissão de Especialistas SESu/MEC.
O V Encontro Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu no Rio de
Janeiro no Intercom 99. O tema central foi As Diretrizes Curriculares do Ensino
de Comunicação a partir da mesa-redonda que contou com a participação dos
professores Sebastião Faro, André Parente, Eduardo Meditsch, Victor Gentilli,
sob a coordenação da professora Sandra Freitas. O VI Encontro Nacional de
Professores de Jornalismo ocorreu em Manaus, no Intercom 2000.
O 4º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em Campo
Grande, entre os dias 26 e 29 de abril de 2001. A reclassificação da numeração dos
Encontros ocorreu porque os três últimos Encontros, de Recife, Rio de Janeiro e
Manaus não tiveram uma participação efetiva dos professores e nenhum registro
foi realizado desses Encontros. O evento em Campo Grande foi uma iniciativa
do professor Gerson Luiz Martins em contato com os professores Victor Gentilli,
Eduardo Meditsch e Carmen Pereira, naquele momento os interlocutores do
FNPJ.
O Encontro de 2001 se caracterizou como um Seminário no qual foram
convidados alguns pesquisadores em jornalismo para apresentar reflexões de
interesse dos professores. Foram convidados os professores Nilson Lage, que
falou sobre O ensino do jornalismo no século XXI; Eduardo Meditsch, sobre
Problemas a superar na pesquisa em jornalismo; Luiz Martins da Silva, sobre Um
projeto pioneiro; Francisco Karam, sobre Formação e ética jornalística; e Valci
Zucoloto, sobre A qualidade do ensino de jornalismo.
O Encontro de Campo Grande também foi marcado pelo retorno dos
Encontros Nacionais autônomos, ou seja, fora dos Congressos da Intercom.
Este Encontro teve uma grande participação de professores e coordenadores de
curso de jornalismo, pois foi realizado concomitantemente com o Seminário de
Avaliação do Exame Nacional de Cursos – ENC (Provão) de Jornalismo. Esse fato
facilitou a presença de inúmeros coordenadores de curso, tendo em vista que as
universidades e faculdades subsidiavam a presença de seus representantes. Também
neste Encontro foi realizada uma reunião dos professores e coordenadores de curso
de Jornalismo das universidades federais, que, naquele momento, enfrentavam
graves dificuldades de infraestrutura nos cursos. Nessa reunião, com a participação
do Diretor de Avaliação do Ensino Superior do INEP, professor Tancredo Maia
Filho, se definiu por agendar uma reunião com o ministro da Educação, Paulo
Renato com objetivo de equacionar o problema de infraestrutura dos cursos.
126
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - FNPJ

Da reunião com o ministro da Educação resultou o Fungrandão que proveu


os cursos de jornalismo das universidades federais de inúmeros equipamentos
para compor os laboratórios de comunicação deficitários. Ainda neste 4º
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ficou definido a realização anual
dos Encontros e a alteração de formato para um evento que possibilitasse aos
professores e pesquisadores em jornalismo apresentar experiências, pesquisas,
projetos sobre ensino de jornalismo. Neste encontro também ficaram na
coordenação nacional do FNPJ os professores Carmen Pereira, Gerson Luiz
Martins e Sandra de Deus. O Encontro de 2002 ficou programado para Porto
Alegre, organizado pela UFRGS.
O 5º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em Porto Alegre,
na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, coordenado pelas professoras Sandra de Deus
e Márcia Benetti Machado, entre os dias 28 e 30 de abril de 2002. Para este
evento foram criados Grupos de Trabalho, espaços para a apresentação de
trabalhos dos professores, pesquisadores de jornalismo, divididos nos seguintes
temas: Pesquisa na Graduação, coordenado pelo professor Gerson Luiz Martins;
Projetos Pedagógicos, coordenado pela professora Carmen Pereira; Atividades de
Extensão, coordenado pela professora Sandra de Deus e Produção Laboratorial,
coordenado pelo professor Juliano Carvalho.
Neste encontro a conferência de abertura foi realizada pelo professor da
Escola de Comunicações da USP, Bernardo Kucinski com o tema “Uma nova ética
para uma nova modernidade”. Também foi publicada a Carta de Porto Alegre que,
entre outros temas, definia a “defesa da exigência do diploma de jornalismo”, a
parceria do FNPJ com a FENAJ, a institucionalização do FNPJ, a regulamentação
dos encontros nacionais e uma nova estrutura para os Grupos de Trabalho que
ficaram assim definidos: Projetos Pedagógicos, coordenado pela professora Sandra
Freitas; Pesquisa na Graduação, coordenado pelo professor Gerson Luiz Martins;
Atividades de Extensão, coordenado pela professora Sandra de Deus; Produção
Laboratorial nos Meios Eletrônicos, coordenador pelo professor Juliano Carvalho
e Produção Laboratorial no Meio Impresso, coordenado pela professora Carmen
Pereira.
O 6º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu em Natal
(RN), em 2003, na Universidade Potiguar (UnP) entre os dias 1 e 3 de maio. A
conferência de abertura do Encontro foi realizada pela professora da UFRJ Ana
Arruda Calado sobre o tema O desafio do ensino diante da vocação pública do
jornalismo. Os Grupos de Trabalho tiveram trabalhos inscritos por professores
e pesquisadores em jornalismo. Foram sete trabalhos para o GT de Pesquisa na
Graduação; 20 trabalhos para o GT Projetos Pedagógicos; oito trabalhos para o
GT Atividades de Extensão; sete trabalhos para o GT Projetos Laboratoriais –

127
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - FNPJ

Eletrônicos e 14 trabalhos para o GT Projetos Laboratoriais – Impressos.


O 7º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em Florianópolis,
em 2004, entre os dias 18 e 20 de abril, com o tema “Os desafios do ensino
de jornalismo na transição tecnológica” e conferência realizada pelo professor e
pesquisador em jornalismo da Universidade Nova de Lisboa, Nelson Traquina.
O Encontro de Florianópolis marcou uma nova etapa do FNPJ, após 10 anos de
sua criação. Os professores, pesquisadores, profissionais de jornalismo presentes
no evento realizaram a institucionalização da entidade e elegeram a primeira
diretoria. Além disso, foi realizado o terceiro Pré-Fórum da Fenaj, sessão realizada
na pré-programação do Encontro Nacional de Professores de Jornalismo.
Os Grupos de Trabalhos foram coordenados pelos professores Cristóvão
Pereira – Projetos Pedagógicos; Sandra de Deus – Atividades de Extensão; Gerson
Luiz Martins, Pesquisa na Graduação; Carmen Pereira – Produção Laboratorial
– Impressos; e Sandra Freitas – Produção Laboratorial – Eletrônicos. A primeira
diretoria eleita do FNPJ foi composta pelos professores Presidente: Gerson
Martins – UFRN; Vice-presidente: Carmen Pereira - UCB – RJ; Diretora
Administrativa: Sandra de Deus – UFRGS; Diretor Científico: Luis Martins da
Silva - UnB – DF; Diretora Editorial e de Comunicação: Sandra Freitas - PUC
– MG; Diretor Regional Norte: Narciso Lobo - UNAM – AM; Diretor Regional
Nordeste: Boanerges Lopes – UFAL; Diretor Regional Centro-Oeste: Edson
Spenthof – UFG; Diretor Regional Sudeste: Juliano Carvalho – PUC- Campinas
– SP; Diretora Regional Sul: Valci Zuculoto – UFSC; Conselho Consultivo: José
Marques de Melo - UMESP/USP – SP; Ana Arruda Callado - PUC-RJ/UFRJ;
Victor Gentilli - UFES – ES; Maria Luiza Nóbrega – UFPE; Celso Schröder
- PUC-RS; Joaquim Lannes - UPCB – MG; Cristóvão Pereira - UNP – RN e
Conselho Fiscal: Carmem Vieira – UFMG; Moacir Barbosa de Sousa – UFPB;
Marcel Cheida – PUC- Campinas – SP.
O 8º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo ocorreu em 2005,
entre os dias 21 e 23 de abril, em Maceió, organizado pela Universidade Federal
de Alagoas e coordenado pelo professor Boanerges Lopes, teve como tema
Formação e Responsabilidade no Jornalismo e a conferencia do jornalista Zuenir
Ventura. Com base na institucionalização da entidade ocorrida no ano anterior, o
Encontro de Maceió consolidou os Grupos de Trabalho e o formato como evento
híbrido, científico e acadêmico, com apresentação de trabalhos de pesquisa e
experiências pedagógicas no âmbito dos cursos de jornalismo. Em Maceió, foi
realizada a primeira Assembleia Geral de associados após a eleição da diretoria. O
8º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo também confirmou a parceria
com a FENAJ na realização do 4º Pré-Fórum e a nova parceria com a Agência de
Notícias dos Direitos da Infância - ANDI para realização de uma mesa de debates
sobre o Ensino de Jornalismo e a Agenda Social Brasileira.

128
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - FNPJ

O 9º Fórum Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu na cidade de


Campos dos Goytacazes, estado do Rio de Janeiro, em 2006, entre os dias 28 e
30 de abril, na Faculdade de Filosofia de Campos e teve como tema geral “Novas
tendências no ensino de jornalismo”, com conferência de abertura do professor
Eduardo Meditsch. Na programação também ocorreu a participação do professor
da Universidade de Brasília, Dr. Venício Lima que falou sobre o “Método Paulo
Freire e o Ensino de Jornalismo”. O Encontro de Campos foi coordenado pelo
professor Andral Tavares. A Carta de Campos, documento final do 9º Encontro
Nacional do FNPJ, se destacou pela proposta de suspensão do SINAES, fato que
gerou polêmica nos órgãos públicos da educação superior.
O 10º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo foi realizado em
Goiânia, entre os dias 27 e 30 de abril de 2007, organizado pela Universidade
Federal de Goiás e, coordenado pelo professor Joãomar Carvalho, marcou outra
etapa dos eventos do FNPJ. A partir de 2007, os Encontros Nacionais adotaram
nova nomenclatura, não mais Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, que
identifica a entidade da associação de professores, pesquisadores de jornalismo e
jornalista sobre ensino de jornalismo; mas sim a denominação Encontro Nacional
de Professores de Jornalismo (ENPJ). Também no Encontro de Goiânia, o FNPJ
iniciou o processo eletrônico de submissão e avaliação dos trabalhos inscritos com
a plataforma “Open Acess Research” disponibilizada pelo Instituto Brasileiro de
Informação, Ciência e Tecnologia.
Essa plataforma possibilitou que os Anais dos Encontros Nacionais
recebessem o registro ISSN. O tema geral do 10º ENPJ foi “Os 60 anos de ensino
de jornalismo no Brasil e suas implicações sociais, profissionais e institucionais”.
A conferência de abertura foi realizada pelo professor Dr. José Marques de Melo,
além de se realizarem homenagens aos pioneiros do ensino de jornalismo no
Brasil, para a Fundação Cásper Líbero, Escola de Comunicação da UFRJ e para o
professor Nilson Lage. Neste Encontro também foram realizados os lançamentos
da Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo (REBEJ) e do Prêmio Daniel
Herz para Projetos Pedagógicos, TCCs e Reportagens sobre Democratização da
Comunicação. E se realizou, pela primeira vez, um Encontro de Coordenadores
de Cursos de Jornalismo.
Os Grupos de Trabalho tiveram uma reformulação com o incremento de
mais um GT, que ficaram organizados da seguinte forma: Atividades de Extensão,
coordenado pela professora Sandra de Deus; Ensino de Ética e de Teorias do
Jornalismo, coordenado pelo professor Edson Spenthof; Pesquisa na Graduação,
coordenado pelo professor Luiz Martins; Produção Laboratorial – Eletrônicos,
coordenado pelo professor Juliano Carvalho; Produção Laboratorial – Impressos,
coordenado pela professora Carmen Pereira e Projetos Pedagógicos e Metodologias
de Ensino, coordenado pela professora Valci Zuculoto.

129
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - FNPJ

O 11º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo foi realizado


na Universidade Mackenzie, em São Paulo, entre os dias 18 e 21 de abril de
2008, e teve como tema geral “Perfil e condições para o exercício da docência
em Jornalismo”, com conferência ministrada pela professora da ECA/USP,
Cremilda Medina. Em São Paulo, foi realizado o 2º Encontro de Coordenadores
de Jornalismo, coordenado pela professora Carmen Pereira. Neste Encontro foi
realizado o 1º Colóquio Ibero-americano de Ensino de Jornalismo que teve a
participação dos professores Ramón Salaverría, da Universidade de Navarra,
Espanha, e de Nilson Lage, da Universidade Federal de Santa Catarina. Ainda
estava previsto a participação do professor João Canavilhas da Universidade
da Beira Interior, Portugal, mas, devido a problemas de saúde, não pode estar
presente. Após dois mandatos consecutivos do professor Gerson Luiz Martins,
o 11º ENPJ marcou a eleição para presidente do FNPJ do professor da UFG,
Edson Spenthof.
O 12º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu em Belo
Horizonte (MG), coordenado pela professora Sandra Freitas e organizado por três
instituições de ensino superior: Centro Universitário Una, Centro Universitário
de Belo Horizonte (Uni-BH) e Faculdade Pitágoras. O tema central do Encontro
foi “O ensino de jornalismo nas universidades: impactos na prática profissional
e conquistas para a sociedade”, com conferência do professor Dr. Alfredo Viseu
da Universidade Federal de Pernambuco; no Encontro foram realizados o 3º
Encontro Nacional de Coordenadores de Cursos de Jornalismo, o 5º Colóquio
ANDI, o 8º Pré-Fórum da Fenaj e o 2º Colóquio Ibero-americano de Ensino de
Jornalismo com a participação dos professores João Canavilhas, de Portugal, do
jornalista Miguel Wiñaski, da Argentina; do professor Carlos Gerardo Agudelo
Castro, da Colômbia, e do professor Sérgio Luiz Gadini, representante brasileiro.
Neste Encontro, o FNPJ promoveu um avanço nos Grupos de Pesquisa. O
encontro dos GTs se transforma em Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de
Jornalismo, o que configura essa seção do Encontro Nacional de Professores de
Jornalismo como espaço de intercâmbio e desenvolvimento do conhecimento
científico. Tendo em vista que o Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de
Jornalismo se configurou num novo formato dos antigos Grupos de Trabalho, a
direção e associados do FNPJ decidiu caracterizar o Ciclo conforme o número de
Encontros dos GTs realizados até então. Em Belo Horizonte, foi realizado o VIII
Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de Jornalismo.
O 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo aconteceu na
Universidade Católica de Pernambuco, coordenado pelo professor Ricardo
Mello, teve como tema “Ensino de Jornalismo: Novas Diretrizes e Novos
Cenários Jurídicos, Profissionais, Tecnológicos e Econômicos”. Neste Encontro
foram realizados o 6º Colóquio da ANDI; o 9º Pré-Fórum da Fenaj; o 4º

130
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - FNPJ

Encontro Nacional de Coordenadores de Curso de Jornalismo e o 3º Colóquio


Ibero-americano de Ensino de Jornalismo, que teve as participações do jornalista
e professor Miguel Paz da Escola de Jornalismo Diego Portales; do jornalista e
professor Celso Augusto Schröder, da PUC do Rio Grande do Sul e presidente
da Federação de Jornalistas da América Latina e Caribe; e ainda do jornalista e
professor Gerardo Albarrán, coordenador do Instituto Sala de Prensa do México,
ausente por razões profissionais, devido a um incidente ocorrido com colegas
jornalistas.
Foi realizado o 9º Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de Jornalismo com
seis Grupos de Trabalho: Atividades de Extensão, coordenado pela professora
Sandra de Deus (UFRGS); Ensino de Ética e de Teorias do Jornalismo, coordenado
pelo professor Sérgio Gadini (UEPG); Pesquisa na Graduação, coordenado pelo
professor Gerson Luiz Martins (UFMS); Produção Laboratorial – Eletrônicos,
coordenado pelo professor Juliano Carvalho (UNESP); Produção Laboratorial
– Impressos, coordenado pelo professor Josenildo Guerra (UFS); e Projetos
Pedagógicos e Metodologias do Ensino, coordenado pelo professor Leonel Aguiar
(PUC-Rio).
O 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo marca a eleição da
nova diretoria do FNPJ, composta por: Presidente: Sérgio Luiz Gadini (UEPG/
PR); Vice-presidente: Mirna Tonus (UFU/MG); Secretaria-Geral: Ricardo Mello
(UNICAP/PE); Segundo Secretário: Edson Spenthof (UFG/GO)Tesoureira:
Sílvio Melatti (IELUSC/SC); Segunda-Tesouraria: Sandra Freitas (PUC/MG);
Diretoria Científica: Socorro Veloso (UFRN/RN); Vice-diretoria Científica:
Marcelo Bronosky (UEPG/PR); Diretor Editorial e de Comunicação: Paulo
Roberto Botão (UNIMEP/SP); Vice- diretor Editorial e de Comunicação:
Demétrio Soster (UNICS/RS); Diretor de Relações Institucionais: Gerson
Martins (UFMS/MS); Vice-diretor de Relações Institucionais: Juliano Carvalho
(UNESP/SP). Diretoria Regionais:; Norte I: Cynthia Mara (TO); Norte II: Lucas
Milhomens (UFAM/AM); Nordeste I: Mônica Celestino (FSBA/BA); Nordeste
II: Fernando Firmino da Silva (UEPB/PB); Sudeste I: Erivam de Oliveira (UFV/
MG); Sudeste II: Wanderley Garcia (PUC-CAMPINAS/UNIMEP/SP); Sul I:
Tomás Barreiros (FACINTER/PR); Sul II: Jorge Arlan Pereira (UnoChapecó/
SC); Centro-Oeste I: Samuel Lima (UnB/DF); Centro-Oeste II: Álvaro Fernando
Ferreira Marinho (FIAVEC/MT); Conselho Consultivo: Antonio Francisco
Magnoni (Unesp/SP); Boanerges Lopes (UFJF/MG); Franklin Valverde
(UniRadial/SP); Joaquim Lannes (UFV/MG); Josenildo Guerra (UFS/SE);
Leonel Azevedo de Aguiar (PUC/RJ); Valci Zuculoto (UFSC/SC)e Conselho
Fiscal composto por Marcel Cheida (Puc/Camp/SP); Sandra de Deus (UFRGS/
RS) e Victor Gentilli (UFES/ES).
Também neste Encontro o FNPJ decide pela realização dos Encontros

131
Fórum Nacional de Professores de Jornalismo - FNPJ

Nacionais no período de dois em dois anos e Encontros Regionais ou Estaduais nos


anos de intervalo dos Encontros Nacionais. Evento que merece destaque realizado
no 13º Encontro Nacional de Professores de Jornalismo foi a homenagem da
Unicap ao professor Dr. José Marques de Melo, egresso da Unicap, por ocasião
da comemoração dos 50 anos de lançamento do livro do professor Luiz Beltrão,
“Iniciação à Filosofia do Jornalismo”, também marcado por um debate com os
professores José Marques de Melo e Alfredo Vizeu. Neste Encontro, durante
Assembleia Geral dos associados do FNPJ, o professor Gerson Luiz Martins
propôs a transformação do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo em
Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo. O tema gerou uma ampla discussão
e se iniciou um estudo para encaminhar a proposta.

132
CAPÍTULO 7

As Origens da Semiótica no Brasil

Ana Claudia Mei Alves de Oliveira1

Introdução
Ao retratar a história de uma teoria, a da semiótica, no Brasil, é que mais se
ilumina como se é levado a referir-se a uma série de contribuições de teóricos
que delinearam as várias correntes semióticas com os fundamentos de abordagens
dos sistemas e dos processos de linguagens. Como teoria dos signos, tem-se as
contribuições da Semiologia, de Roland Barthes e as da Semiótica, de Charles
Sanders Peirce; como teoria da significação os fundamentos são de Algirdas Julian
Greimas; como teoria do discurso, as referências são da vertente eslava com
destaque para Romam Jackobson, Mikahil Backhtin e Iuri Lotman. Enumerar
os marcos desses desenvolvimentos que garantiram a posição dessas teorias na
fundamentação de uma complexidade de objetos de estudo é pôr-se na trajetória
das idéias desses teóricos, mas também de personalidades acadêmicas brasileiras
que a difundiram no país. Essa abordagem é, pois, uma situação contextual inicial
que se coloca aberta a uma série de acréscimos a fim de contribuir para os retoques
desse retrato multifacetário.
Do muito que aqui está sendo exposto no relato de mais de cinco décadas de
estudos semióticos no Brasil tem havido ampla participação em uma comunidade
científica nacional atuante, por realizações que marcaram as correntes na
institucionalização que os brasileiros envolvidos foram lhe dando configurações.
A partir dessas, a proposta é de constituir um relato das contribuições das teorias
semióticas ao campo da comunicação que se organiza em três grandes partes para
oferecer detalhamento sem objetivar uma análise completa, uma vez que estamos
no ponto de partida da construção de um quadro histórico.

A Semiótica da qual a Lingüística é uma das partes


No final da década de 60, no interior do Estado de São Paulo, dois jovens professores
Edward Lopes e Ignácio Assis Silva trabalhavam juntos na implementação das
novas correntes da lingüística na área de estudos lingüísticos e literários que era
marcado por uma forte ação dos estudos da língua latina no país. As novas idéias
desencadeadas a partir da publicação do Curso de lingüística geral, de Ferdinand de
Saussure compilado por três de seus alunos revolucionou as pesquisas brasileiras.
As atividades se davam na Faculdade de Letras e Estudos Literários da Unesp
sediada em Araraquara. Nos raios dessa cidade, na São José do Rio Preto onde
1 Professora da PUCSP.

133
As origens da Semiótica no Brasil

os dois também trabalhavam, havia um outro colega, Eduardo Peñuela Cañizal,


espanhol radicado no Brasil bastante ligado aos estudos de literatura hispânica,
latino-americana, e um apaixonado por pintura e cinema. E, na cidade de Ribeirão
Preto, na Universidade Barão do Mauá, Edward Lopes animava essa ebulição da
Lingüística no Brasil.
Os conceitos saussurianos de “estrutura”, “relação”, “diferença” e as
dicotomias: “língua vs fala”, “diacronia vs sincronia”, “paradigma vs sintagma”,
“sistema vs processo”, foram conceitos-chave do desenvolvimento do pensamento
lingüístico, mas também dos estudos das ciências sociais, a partir da década de 40.
Essa difusão de uma perspectiva de estudo se constituiu nas tendências conhecidas
pela nomeação de Estruturalismo, cujas obras capitais são: A fenomenologia da
percepção de Maurice Mearleu-Ponty (1945), Antropologia estrutural (1958), de
Claude Lévi-Strauss, Elementos de semiologia (1965) de Roland Barthes, Semântica
estrutural (1966) de Algirdas Julien Greimas, Escritos (1966) de Jacques Lacan.
Disseminadoras da perspectiva nova em formação, essas obras foram centrais
para a vertente francesa de estudos das práticas culturais e das sociais que, no
Brasil, e, em especial, em São Paulo, se alicerçou anos antes da tradução dessas
obras para o português. A própria presença de Lévi-Strauss no Brasil no início de
seus trabalhos antropológicos, quando esteve ligado à criação da Universidade de
São Paulo em 1936, proporcionou o grande estado de animo que contaminou as
investigações exploratórias das recém criadas disciplinas nas ciências humanas.
Os trabalhos de Merleau-Ponty e de Lévi-Strauss merecem ainda destaque por
estarem nas bases do escrito de Greimas L’Actualité du saussurisme (1956), no qual
postula que a partir de Saussure um mundo estruturado é apreensível nas suas
significações. Ligados por um modo de pensar, esses autores se articulam pelo
objetivo comum de elaboração de uma metodologia unificada para as ciências
sociais. Com o exame das relações e das funções dos elementos que constituem
os inúmeros sistemas das línguas humanas, das suas práticas culturais de contos
folclóricos aos textos literários, por exemplo, a semiótica e a semiologia deixaram
rastros definidores das investigações das ciências das linguagens, das artes e da
Comunicação.
Greimas e Barthes estiveram bem próximos no início das duas disciplinas
distintas que conceberam. Encontraram-se quando lecionaram juntos em
Alexandria. No grupo de jovens professores aí sediados, eles leram além de
Saussure, também Louis Hjelmeslev. Leituras que debateram e ruminaram, mas
que na fatura teórica de ambos frutificou em conceituações teóricas diferentes.
Referindo-se a esse período de germinação Greimas afirma que as leituras dos
dois podem ser tomadas como sendo uma o avesso da outra, observação que se
depreende de um estudo comparativo entre elas.
O primeiro estudo de impacto de Barthes Mitologias, datado de 1957, é um
134
As origens da Semiótica no Brasil

estudo da cultura francesa com os impactos da cultura de massa. Escritos sobre o


cotidiano que mostram da publicidade, notícias de jornal, revistas, cinema, a um
prato do dia a dia: o bife com batata frita, e outro grande ícone do século XX,
o automóvel, entre tantos outros mais, que destacam como o semiólogo estava
interessado em estudar a representação sígnica e a circulação dos valores no social.
Todavia, a partir desses estudos dos mitos Barthes foi levado em sua semiologia a
se conduzir rumo ao entendimento dos sistemas de signos, usados na formação
cultural que a sociedade empreende ao se construir.
Por via diversa, Greimas foi abordar o outro pólo da dicotomia saussurreana
montada com “sistema”, exatamente o “processo”, do qual se ocupa a fim de
dar conta do exame dos usos das linguagens dos distintos sistemas. É o arranjo
hierárquico do sentido com seus procedimentos em níveis que permitem ao
analista reconstuir a significação por seu percurso gerativo do sentido, a edificação
de uma gramática da narrativa, definida a narratividade como um dos universais,
tratamento do discurso pela sintaxe da enunciação e a semântica dos temas e
de suas figuratividades enquanto operações intersemióticas que as linguagens
operam no seu edificar mundos tradutores do mundo e das línguas naturais.
As suas teses de doutoramento, a de Barthes, O sistema da moda e a de
Greimas La mode em 1830, defendidas na França, são exemplares dos caminhos
que distanciaram as duas vertentes do saussureanismo de uma teoria da produção
de sentido social. Enquanto a semiologia foi assumida por Barthes como uma
ciência dos signos, que o sistema da moda é um exemplar do potencial signo e de
suas regras de combinação, a semiótica de Greimas postulava-se enquanto uma
disciplina com rigor científico para o estudo da significação de usos da linguagem
cuja unidade de análise é o texto, uma totalidade de sentido. Nas rotas distintas
de sistematização de conceitos e métodos, as duas teorias se edificaram voltadas
para a produção do sentido no seio da vida social realizando diferentemente a
projetada teoria antevista por Saussure da qual a lingüística era somente uma das
partes da semiologia.
A obra de Barthes foi traduzida para o português por uma crítica literária
Leyla Perrone-Moyses que contribuiu para a sua difusão no Brasil, em especial, no
âmbito da crítica literária e musical, mas também de cinema, televisão.
Lopes e Assis Silva trouxeram Greimas para seu primeiro e único curso
no Brasil: “Semiótica da narrativa” em julho de 1973, sob os auspícios da
Universidade Barão de Mauá. A primeira pedra de edificação da semiótica de
Greimas no Brasil estava lançada com um grupo de não mais de vinte pessoas que
seguiram esses encontros e criaram o Centro de Estudos Semióticos A.J. Greimas
(CESAJG).
Em um trabalho intenso de grupo de pesquisa, a equipe de Araraquara

135
As origens da Semiótica no Brasil

(SP) levou adiante os estudos das concepções semióticas de Greimas no Brasil.


O lançamento de Maupassant : la sémiotique du texte, exercices pratiques (1975)
deu uma impulsão à toda gama de análises semióticas. Mas essa obra demorou
a ser traduzida no Brasil quase uma década, apesar de ter sido central para os
desdobramentos semióticos dos estudos enquanto gramática narrativa. Por sua
vez, a sistemática tradução conjunta de uma outra obra, publicada na França do
ano de 1979, o Dictionnaire raisonné de la théorie du langage, sob a direção de
Greimas e Joseph Courtès, efetivou a compilação dos conceitos e procedimentos
metodológicos da teoria da significação. Se Greimas havia deixado a lexicologia
em prol da semântica, seus preceitos se efetivaram neste trabalho de dicionário
estabelecido coletivamente na França pelo grupo de colaboradores formado
entorno de Greimas, o Groupe de recherche sémio-linguistique. O mapeamento
dos fundamentos conceituais da teoria semiótica orienta-se por um eixo diacrônico
dos estudos e outro sincrônico do estágio atual das concepções sendo possível
demarcar os plurais aprofundamentos da disciplina. A tradução do dicionário
pelo grupo de estudiosos brasileiros em 1983, deu continuidade na semiótica
brasileira das mesmas bases de compartilhamento e debate rigoroso dos conceitos
centrais da teoria, ao mesmo tempo em que os seus translados epistemológicos
para os campos de interesse dos nossos estudiosos que se caracterizavam por
estudos das línguas e seu ensino, estudos literários de prosa e poesia, estudos da
visualidade, em particular, pintura e escultura, estudos audiovisuais de cinema e
televisão, estudos da canção que pautaram muitas discussões dos seminários de
discussão em Araraquara.
Para escoar essas primeiras produções bibliográficas em Semiótica, eles
criaram a revista BACAB- Estudos Semiológicos, em 1970, metamorfoseada, em
1973, em Significação – Revista Brasileira de Semiótica, que ainda é bastante
atuante no país. No inverno de 2009, com 30 números publicados, Significação
assume-se “Revista de cultura audiovisual” mantendo o mesmo ISSN 1516-
4330, sediada no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e, publicada pela Editora
Annablume, a revista conseguiu verba do CNPq.
Em grande parte esse modus operantis fez com que a teoria fosse muito
disseminada em análises de textos e objetos da cultura brasileira dando nascimento
a vários distintos sub-grupos de desenvolvimento dos estudos semióticos. Como
eixo teórico ocupa vários Programas de estudos pós-graduados do país. A saber,
tem se mantido presente nos Estudos Literários e Lingüisticos da Pós-Graduação
de Letras de Araraquara. Merece destaque todo o trabalho que a Pós graduação
em Semiótica e Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da USP que contou no início com as contribuições de Cidmar Teodoro Paes, a
seguir com as de José Luiz Fiorin, Diana Luz Pessoa de Barros, Beth Brait, Luiz
Tatit, entre outros. Esse corpo docente tem formado profissionais e pesquisadores
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As origens da Semiótica no Brasil

de grande renome que levaram o ensino da teoria semiótica pelos quatro cantos
do país.
A equipe atual integrada por Waldir Beividas, Norma Discini, Luiz Tatit,
Ivã Lopes, entre outros, tem conseguido manter a avaliação máxima, nota 7, do
Sistema de avaliação da CAPES. Advém dessa pós-graduação a formação doutoral
da maioria dos professores que atuam no campo, destacando a UFRGS, a UFMG
e outras pós-graduações como a de Letras da UFF que tem uma linha em Teoria
semiótica do discurso. A Pós-Graduação em Comunicação da PUCSP, desde 1990,
implementou no seu eixo teórico a teoria semiótica francesa, denominando esses
estudos de semiótica discursiva ou sociossemiótica por ter sido implementada
pela ação de Eric Landowski, que atua ainda como professor visitante permanente
desta pós graduação e aí criou o Centro de Pesquisas Sociossemióticas (CPS),
como centro interinstitucional de pesquisa com Ana Claudia Mei Alves de
Oliveira e os amigos semioticistas da USP e da UNESP em 1994.
Outros grupos de pesquisa atuantes são: o Grupo Casa, fundado em
Araraquara por Ignácio Assis Silva em 2001. Hoje é dirigido por Maria de Lourdes
Baldan e congrega pesquisadores em semiótica das cidades vizinhas, Ribeirão
Preto, Franca, Bauru, São José do Rio Preto, por exemplo. NA USP, a criação
do Grupo de Estudos Semióticos (GES), hoje dirigido por Ivan e Marcos Lopes,
Waldir Beividas e Elizabeth Arcot, mantém uma programação mensal e eventos.
Na Universidade Federal Fluminense (UFF) funciona, em Niterói, o SEDI criado
por Lucia Teixeira e um grupo de jovens docentes. Em Bauru, organizou-se o
Grupo de Estudos de Semiótica da Comunicação, com a iniciativa de Maria
Lúcia Vissoto e a participação de Ana Silvia Médola Davi, Jean Christus Portella
e Matheus Nogueira Schwartzmann.
Em termos de publicação há as revistas sem continuidade hoje como Semiótica,
Acta Semiotica e Linguistica, Linguagens. Os Cadernos de Textos do CPS com nove
edições impressas e as demais digitais, duas coleções a de “Documentos de estudo
em semiótica” com cinco números publicados e a “Coleção Sociossemiótica” junto
a Editora Estação das Letras com dois livros lançados. Entre as revistas eletrônicas
tem-se a do grupo CASA dirigida por Arnaldo Cortina e Renata Marquezan;
a do GEL que foi dirigida várias vezes por semioticistas e a da Abralin, a outra
associação de lingüística que manteve um grupo de trabalhos em semiótica.
A Revista de Estudos Lingüísticos (GEL) teve início em 1978 e encontra-
se vinculada ao Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo, que foi
criado em 1968 tendo tido presidido por semioticistas José Luiz Fiorin e Arnaldo
Cortina. A criação da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN) em São
Paulo, de 1969, foi presidida por Diana Luz Pessoa de Barros. Desde 1972 a
Sociedade Brasileira de Professores de Linguística (SBPL) organizou a Revista
Brasileira de Lingüística com o apoio do Programa de Semiótica e Linguística da
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USP e o de Tecnologia da informação e Educação da Universidade Brás Cuba. Foi


dirigida por Cidmar Teodoro Pais. A Revista Gragoatá é vinculada ao Instituto
de Letras – UFF, a Revista: SIGNUM - Estudos da Linguagem é sediada em
Londrina no Paraná, no Curso de Mestrado em Letras da Universidade Estadual
de Londrina.

A semiótica dos signos e das traduções intersemióticas


Em outro contexto, o da prática poética e da prática da tradução, Décio Pignatari
e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos que atuaram juntos formando, em
1952, o grupo Noigandres com Eugen Gomringer, e tinham uma ativa produção
poética que veio a ser denominada movimento concretista de repercursão
internacional, atuavam juntos no Programa de Pós-graduação em Teoria Literária
da PUCSP. Idealizado a partir de 1968, no Departamento de Artes da PUCSP, foi
criado em 1970 e coordenado por Lucrecia D’Aléssio Ferrara. Transformou-se em
Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica em 1972, como um lugar de ensino
e contato com a teoria filosófica do norte americano Charles Sanders Peirce e, em
especial, com a sua teoria semiótica, um dos ramos de sua arquitetura filosófica
que passou a ser estudada como campo de intersemioses entre as artes poéticas do
verbal, mas também as da visualidade e das várias artes, assim como as do design
e da comunicação com a explosão, após o rádio e cinema, da televisão brasileira, e
dos experimentos em vídeo, holografia e, mais recentemente nas mídias móveis.
A ênfase era a dos estudos das operações de trânsito entre as linguagens, dos
estudos intersemióticos. O pensamento do semiólogo francês Roland Barthes foi
aí ministrado pela especialista em literatura brasileira e portuguesa Leila Perrone-
Moysés que se destacou além da tradução de suas obras para o português, por sua
atividade de crítica literária. Também aí atuou o maestro e compositor Gilberto
Mendes, com a tradução do verbal e da visualidade para sistemas musicais.
Boris Schnaiderman foi outro semioticista bastante presente nesse circuito de
práticas semiótica tanto por seu ofício de tradutor de obras primas do russo para
o português, tanto por seus conhecimentos de poetas russos como Maiakóvski
que interessava muito os poetas concretas. Eles tinham juntos uma prática de
confronto das traduções que faziam do francês e do inglês com as direta do russo
de Schnaiderman.
Ainda esse engenheiro agrônomo de formação foi docente na USP, onde
criou o ensino da língua russa e tornou conhecida no Brasil a vasta corrente teórica
de semiótica que se desenvolveu em vários países da extinta URSS, obra que foi
publicada pela editora Perspectiva e foi decisiva na formação de pesquisadores que
atuam na PUCSP como Arlindo Machado e Irene Machado.
Uma das características da semiótica praticada na PUCSP nesses tempos
dominados pela semiótica de Peirce caracterizou-se pelo estudo dos signos nas
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suas relações de contigüidade que é montada a partir de seleções dos signos nos
sistemas e das regras combinatórias, ou seja, das linguagens que passou por uma
explosão em novas linguagens, em especial, no campo midiático.
Com a atuação de Lúcia Santaella na sua coordenação expandiram-se nessa
Pós os estudos das várias midias que foram acompanhados da implementação
de outras teorias semióticas que são estudadas como eixos de fundamentação
do Programa. As várias linhas de pesquisa dão conta de uma vasta gama de
estudos intersemióticos que seu corpo docent