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O PERIGO DA TESTEMUNHA ABONATÓRIA

Por Marion Bach

Eu, recém-formado. Ele, o meu primeiro cliente na advocacia criminal. Era, na ocasião,
também o único. Felizmente, já que ocupava quase a integralidade do meu tempo. É que o
sujeito era uma espécie de consórcio: todo mês, era contemplado – com nova denúncia.

Em setembro daquele ano não foi diferente. Já na primeira semana do mês, o cliente foi
denunciado. Chegou ao escritório desanimado. Segurava, na mão, a sua sétima denúncia. A
sétima acusação que ele insistia em negar. Encaminhei-o à sala de reunião e, já havendo
decorado o seu gosto, pedi à secretária que trouxesse um expresso com duas colheres de
açúcar. Para mim era claro. O multidenunciado cliente tentava compensar o amargo da vida
com o doce do café.

- Precisamos arrolar testemunhas. De preferência, testemunhas diversas dos demais


processos.- Nesse caso, Doutor, precisarei fazer novos amigos. Já arrolamos minha mãe, meu
pai, meus três irmãos, minhas cunhadas, meus vizinhos e meus dois amigos de infância. Quem
mais posso arrolar?- Você pretende simplesmente negar a acusação. Creio que, então, baste
uma testemunha abonatória. Pense alguém com credibilidade, que conviva com você e possa
falar algo bom ao seu respeito.

- O Doutor acha interessante arrolar alguém da igreja que eu frequento?

Foi assim que conheci a dona Clemência. O cliente parece haver escolhido a testemunha a
dedo. A começar pelo nome. Expliquei à simpática e rechonchuda senhora que ela precisaria
responder apenas a verdade. Ela respirou aliviada e disse que ele não permitiria que fosse
diferente.

- Ele quem? O cliente denunciado?

- Não, Doutor! Deus.

Chegado o dia da audiência, dona Clemência entra na sala. Sorriso no rosto e Bíblia na mão. O
juiz me autorizou a palavra e dirigi menos de uma dezena de perguntas à testemunha. De onde
e há quanto tempo a Senhora conhece o réu? Com qual frequência o réu aparece na igreja? O
réu é pessoa querida e respeitada naquela comunidade? A senhora conhece alguma atividade
da igreja com a qual o réu se envolve? Pode menciona-la?

Dona Clemência seguiu firme. Olhando nos olhos do juiz. Segura, como todos aqueles que não
têm nada a esconder. Cada resposta dela me fazia gostar mais do meu próprio cliente.
Caridoso, participativo, bondoso, atencioso.

O juiz então abre a palavra ao Ministério Público, que costuma renunciar ao direito de
perguntar quando a testemunha é meramente abonatória. Mas não naquele dia.
- Sim, Excelência. O Ministério Público tem algumas poucas perguntas. Boa tarde, dona
Clemência. A senhora mencionou que encontra o réu com frequência, na sua igreja. Nessas
situações, vocês costumam conversar?

- Ah sim, Doutor. Conversamos, sim. O réu é pessoa muito atenciosa e querida.

- E nessas conversas, que então são frequentes, o réu mencionou a existência dos diversos
processos criminais a que responde?

- Mencionou, sim.

- E o que ele diz para a senhora, sobre esses fatos pelos quais está sendo acusado?

- Sobre isso fala pouco, Doutor, mas chora muito. Chora. E só diz que está arrependido dos
crimes que cometeu.

Foi nesse dia que reconheci. Ao contrário do que dizem muitos advogados criminalistas, o
Ministério Público, quando precisa, sabe sim usar de Clemência.

Marion Bach

Advogada

Mestre em Teoria do Estado pela UFPR

Professora de Direito Penal da UNICURITIBA e UNIFAE