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Letramento e alfabetização –

Marcas de oralidade no texto escrito de criança

PROFª. DRª. NUNES, Rosana Helena


ALUNAS:
FIGUEIROA, Marli do Espírito Santo Camillo
WITTMANN, Valkíria Francisca Martins
SILVEIRA, Isabel janoski S. Silveira
FERNADES, Helen Fernanda

O presente artigo tem como objeto de refletir a respeito dos processos de alfabetização e de
letramento desenvolvidos na sala de aula, investigando as práticas sociais de leitura que fazem parte
do contexto dos alunos e suas relações com as práticas desenvolvidas numa escola. Os textos
escritos apresentados serão analisados à luz de fundamentos teóricos de Koch (2006-2009) e
Marcuschi (2001). Esses textos correspondem a modelos de análise para os alunos do Curso de
Pedagogia de São Roque. Faz-se necessário um estudo dessa natureza, uma vez que esses alunos
aprendem com o trabalho de produção escrita. O estudo com textos escritos de crianças, no Curso de
Pedagogia, é de fundamental importância, tendo em vista tratar-se de acadêmicos que pretendem
trabalhar com a alfabetização e não apenas esta, mas sim o próprio trabalho com leitura e escrita em
séries subsequentes.

PALAVRAS-CHAVE: decifrar códigos, leitura, alfabetização e letramento.


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INTRODUÇÃO

Acreditamos que necessário se faz um estudo sobre o papel do educador e de seus


processos para compreender a transformação da escolarização, bem como as
contribuições e a qualidade da escola no processo de letramento, uma vez que o
contexto familiar está intrinsecamente relacionado ao desenvolvimento da criança,
fundamentar-se á nos postulados teóricos na teoria da aprendizagem, bem como
estudos relacionados à aquisição da linguagem considerando família e escola
responsáveis pela transmissão cultural e construção de saberes.

Alfabetização e Letramento

Segundo Marcuschi (2001), há uma distinção entre letramento, alfabetização e


escolarização. Letramento é um processo de aprendizagem social e histórica da
leitura e da escrita em contextos informais e para usos utilitários, uma vez que é um
conjunto de práticas. Já a alfabetização é sempre um aprendizado mediante ensino
e compreende o domínio ativo e sistemático das habilidades de ler e escrever. A
escolarização é uma prática formal e institucional de ensino que visa a uma
formação integral do indivíduo, sendo que a alfabetização é apenas uma das
atribuições/atividades na escola.
Considerando que o domínio das linguagens, em especial da modalidade escrita da
língua materna, é de fundamental importância, pois saber ler e escrever são as
condições que viabilizam o acesso ao conhecimento construído pela escrita e
impresso nos textos e em outros suportes, ao próprio saber que se constrói por
intermédio dos recursos oferecidos pelo sistema de escrita, estar letrado numa
sociedade diversificada significa estar à frente dos conhecimentos adquiridos
durante o percurso de aprendizagem.

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O indivíduo que aprende a ler e a escrever é alfabetizado, quando ele passa a fazer
uso da leitura e da escrita, envolver-se nas práticas sociais de leitura e de escrita se
torna letrado. O que é diferente de um indivíduo que não sabe ler e escrever é
analfabeto, ou, sabendo ler e escrever, não faz uso da leitura e da escrita, é
alfabetizada, mas não é letrada. Ser analfabeto ou iletrado no mundo moderno
significa estar fora dos padrões que a sociedade tanto exige para isso deve sempre
buscar formas de aprender e apreender a língua materna para não ser excluído do
meio social. De certa forma, o educando em seu percurso de aprendizado fará o
reconhecimento na modalidade da escrita e quanto mais amadurecido sua ideia
estiver, mais rápida reconhecerá as diferenças na modalidade da escrita e incluirá
em seu universo o novo sistema na língua materna acentuando o valor que a língua
materna possui para o seu engrandecimento no seu processo de alfabetização e
letramento.

É natural que na fase da aquisição da escrita os educandos e, até alguns adultos


tende a incluir para o texto escrito transcrevendo parte da oralidade ao que está
habituado na fala, porém ao decorrer deste percurso contínuo de texto escrito o
educando irá construir o/um modelo criando assim o seu próprio estilo. E, é através
da conscientização das normas e regras que serão apresentadas que o educando
formulará e imprimirá na escrita os recursos utilizados. A aquisição da linguagem
oral também é um importante fator de preparação para o desenvolvimento
ortográfico. Antes de aprender a ler as crianças desenvolvem um extenso léxico
mental que se relaciona com as representações fonológicas. Sendo assim, é
possível concluir que além das habilidades metalinguísticas, é essencial um
satisfatório domínio de vocabulário para um bom desempenho na escrita envolvendo
atividades dinâmicas e diferenciadas.

A oralidade é altamente marcada lembrando a simplicidade do processo oral


especificando estratégia comum nas orações de coesões sequenciais do texto
falado. A oralidade é, portanto, uma dinâmica temporária, pois a continuidade da
escrita cooperará para que o educando tende a se adaptar às novas circunstâncias,
como fator de transmissão cultural e de valores. A oralidade é movimento e a escrita
é o fato. Esse movimento contínuo de escrita no texto mudará sua concepção de

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escrita retirando e subtraindo aos poucos as marcas da oralidade do texto escrito do


educando.

ANÁLISE TEXTUAL

Na contemporaneidade surgem muitas dúvidas entre os professores para diferenciar


o Letramento e a Alfabetização. Veremos um pouco sobre estes dois termos e
diferenciar a importância que cada um possui. No entanto, não basta ser
alfabetizado na concepção clássica do termo, que se resume simplesmente a
mecânica da leitura e da escrita. A pessoa pode "saber" ler e escrever e ser um
analfabeto funcional, ou seja, não saber fazer uso da leitura e da escrita. Pois,
sabemos que toda escrita tem uma intenção a ser desvendada, normalmente de
caráter informativa.

(1) “Ao professor cabe a tarefa de despertar no educando uma atitude crítica
diante da realidade em que se encontra inserido, preparando-o para o 'ler o
mundo': a princípio, o seu mundo, mas, daí em diante, e paulatinamente,
todos os mundos possíveis” (Koch, 1993, p.160).

Para a autora, aprender a ler e escrever não só numa manipulação mecânica de


palavras, mas numa relação dinâmica que une e vincula linguagem e realidade. O
conhecimento de mundo é essencial para o estabelecimento da coerência, pois
calculamos o sentido de um texto a partir do que sabemos de conhecimentos que
adquirimos em experiências diversas ao longo da nossa vida. Para compreender a
leitura de mundo, é preciso compreender o contexto no qual está inserido, mas,
vincula a linguagem numa relação dinâmica e realista:

(2) "O leitor/ouvinte, por sua vez, espera sempre um texto dotado de sentido e
procura a partir da informação contextualmente dada, construir uma
representação coerente, por meio da ativação do seu conhecimento de mundo
e/ ou deduções que o levam a estabelecer relações de casualidade’’, (Koch,
2006 p.31).

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E, assim, a criança, mesmo não estando alfabetizada, poderá ser inserida em um


processo de letramento, pois ela faz leitura prévia de rótulos, imagens, gestos,
emoções, o contato com o mundo do letrado é muito antes das letras e vai além
delas (Freire, 1984, p.92). No entanto, tem-se observado em muitas escolas as
necessidades referentes à leitura. Há inúmeras tentativas que possibilitam trazer
para a sala de aula uma maneira de trabalhar e aprender a vivenciá-la na leitura do
mundo que leva o sujeito à compreensão, a percepção, às diferenças, às
semelhanças, à alfabetização no sentido de proporcionar o interesse, estimular e
desenvolver o espírito crítico e a criatividade do educando:

(3) “Desta forma, deu-se ênfase ao que é dito e ao que está implícito. Registrou-
se que a coerência é entendida como algo que se estabelece na interação, na
interlocução, numa situação comunicativa entre dois usuários, dando sentido
ao texto para os usuários, devendo ser visto como princípios de
interpretabilidade” (KOCH & TRAVAGLIA, 1989, p. 11).

Durante muito tempo, pensava-se que ser alfabetizado era conhecer o código
linguístico, ou seja, conhecer as letras do alfabeto. Atualmente, sabe-se que,
embora seja necessário o conhecimento das letras, não é suficiente para ser
completo no uso da língua escrita:

(4) “Por sua vez, mencionam que coerência é o que faz o texto ter sentido para os
usuários, devendo ser entendida como um princípio de interpretabilidade,
ligado à inteligibilidade do texto em uma situação de comunicação à
capacidade que o receptor tem para compreender o sentido desse texto”.
(Koch e Travaglia 1999, p.10).

A língua não é mero código de comunicação. A linguagem é um fenômeno social


estruturado de forma dinâmica e coletiva, portanto, a escrita também deve ser vista
do ponto de vista cultural e social. Para formar cidadãos participativos é preciso
levar em consideração a noção de letramento e não de alfabetização:

(5) “O movimento do mundo a palavra e da palavra ao mundo está sempre


presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo através da leitura
que dela fazemos. Podemos dizer que a leitura da palavra não é apenas
precedida pela leitura de mundo, mas por certa forma de 'escreve-lo' ou de
'reescrevê-lo', quer dizer de transformá-lo através de nossa prática consciente”
(FREIRE, 1984, p.18).

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As letras são essencialmente significativas para a criança no mundo letrado,


trabalhando com os diferentes textos orais e escritos na sociedade, o sujeito mesmo
não estando alfabetizado, já pode ser inserido em um processo de letramento, pois
ele faz leitura prévia de rótulos, imagens, gestos, emoções e vai assimilando-as. O
contato com o mundo letrado é muito antes das letras e vai além delas:

(6) “À pluralidade de perguntas, colocam-se várias respostas que nos fazem


pensar que o modo pelo qual concebemos a escrita não se encontra
dissociado do modo pelo qual entendemos a linguagem, o texto e o sujeito
que escreve. Em outras palavras, sob jaz uma concepção de linguagem, de
texto e de sujeito escritor ao modo pelo qual entendemos, praticamos e
ensinamos à escrita, ainda que não tenhamos consciência disto.” (Koch e
Elias; 2009:32).

Vivemos, pois, num mundo cada vez mais competitivo, por conta do crescimento
populacional, especialmente nas grandes cidades, quem não estiver bem preparado
está fadado ao insucesso. Os meios de comunicação que utilizamos e exige de nós
o conhecimento da língua para que consigamos transmitir, com precisão, o que
desejamos transmitir, com rescisão, o que desejamos por isto a fala e a escrita é de
fundamental importância:

(7) “Fala e escritas são, portanto, duas modalidades de língua, assim, embora se
utilizem do mesmo sistema linguístico cada uma delas possui mera transcrição
da fala, como muitas vezes se pensa (Koch, 2009, p. 14)”.

É, neste sentido, que concebemos o professor como mediador do


conhecimento: “No seu método de alfabetização de acertos, que é
extremamente significativo ao aluno o fato de se trabalhar com a palavra
geradora, esta é geradora do conhecimento do alfabetizado e faz parte do seu
mundo social (Freire, 1984, p.93)”.

A linguagem falada pode ser seguida de uma resposta, um pedido, de um


atendimento, de uma reação, uma declaração pode ser seguida de um acordo,
contradição ou informação. Quem fala não pode planejar o que falar, pois pode ser
interrompida com quem está dialogando. O escritor, no entanto, tem que ser claro e
ter objetivo no que escreve porque não conta com outros recursos que não o próprio

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texto escrito, tal qual foi construído na ausência do leitor. O leitor é um agente livre,
ele pode ler para si próprio, podendo selecionar o que lhe interessa ler.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A leitura da criança inicia-se quando associa as imagens e sons, quando vê um livro


e conta sua história. Uma vez que existe criatividade para produzir seu texto, a
criança sente-se atraída pelo formato o livro, pela possibilidade de abri-lo e decifrar
seus mistérios. No entanto, podemos contatar que toda essa admiração vai sendo
deixada de lado, quando a escola despreza essa leitura, passando ao formalismo,
onde é imposta à tarefa e decifrar códigos. E isto se agrava mais ainda quando as
cópias passam a ser cobradas para melhorar a letra e fixar à escrita. A alfabetização
é considerada, em geral, como a capacidade de ler e escrever com certo grau de
habilitação. Com maior precisão, pode ser definida como uma capacidade técnica de
decodificar signos ou impressos, símbolos ou letras, que formam palavras. Discorrer
sobre o letramento é uma tarefa que demanda uma análise cautelosa sobre em qual
contexto este letramento está inserido.

Diante desta breve análise tentamos evidenciar que as repetições em textos orais
são muito mais acentuadas principalmente no início da alfabetização, mas com a
inserção de trabalhos de retextualização, ou seja, textos permanentes e contínuos
executados pelos educandos que desenvolverão suas habilidades os alunos
poderão escrever melhores textos escritos nos anos seguintes. Portanto, essa
análise, ainda é primária em relação ao projeto em desenvolvimento, e que leva-nos
à observação de que as ‘marcas de oralidade’, são mais recorrentes no texto escrito,
são as repetições, principalmente no início da alfabetização, a ausência de
pontuação, uma escrita próxima da transcrição fonética e a utilização dessas
características que são próprios e típicos da fala.

Diante disso, pôde-se enfocar a possibilidade do educador realizar atividades em


que o educando perceba que existem textos que são tipicamente escritos, aqueles

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que são tipicamente falados e outros que se configuram por meio da utilização de
características de fala para a escrita, com diferenciais e possibilitando ao educando
que faça o reconhecimento geral de tudo que já aprendeu.

BIBLIOGRAFIA

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 13ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e
Terra, 1984.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo. 41ª ed. Cortez. 2001.

____________. MACEDO, Donaldo. Alfabetização: leitura de mundo, leitura da


palavra. São Paulo: Paz e Terra, 1990.

KOCH, Ingedore. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 2002.

KOCH, Ingedore V. & ELIAS, Vanda Maria. Ler e Compreender - os sentidos do


texto. São Paulo: Contexto, 2006.

____________. Ler e escrever – estratégias de produção textual. São Paulo:


Contexto, 2009.

MARCUSCHI, Luís Antônio (1991). Da fala para a escrita: atividades de


retextualização. São Paulo: Cortez, 2001.

SIMÕES, Vera Lucia Blanc. Histórias infantis e aquisição de escrita. São Paulo
Perspectiva. vol.14 n. 1 São Paulo Jan./Mar. 2000.

SOARES, Magda. Português: uma proposta para o letramento. São Paulo:


Moderna, 1999.

http://www.filologia.org.br/viiifelin/07.htm - acesso em 13.11.2009


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http://www.anped.org.br/reunioes/28/textos/gt18/gt18255int.rtf - acesso em:


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