Você está na página 1de 4

E-folio A Finanças Internacionais, Luz Gomes 802428

Conservas Ramirez: memórias de cinco gerações

A actual conjuntura económica internacional é caracterizada pela tendência para a interdependência
entre os países, a formação de blocos regionais, as emergentes economias asiáticas e latinoamericanas e os
avanços tecnológicos, ou seja, pelo dinamismo e pela globalização. Em consequência destes fenómenos as
empresas devem ampliar a sua visão nacional para uma internacional, repensando os conceitos e as
estratégias económicas. Num ambiente com estas características a internacionalização aparece como uma
necessidade vital. No entanto, deve-se ter em conta que este processo é difícil, complexo e caro, que
inclusive pode prejudicar a empresa que o inicie. A meta de uma empresa ao internacionalizar-se deve ser a
de obter vantagens comparativas que permitam superar a concorrência. A decisão sobre quais e quantos
mercados abordar, como entrar neles, que tipo de organização adoptar são decisões fundamentais que
requerem uma análise rigorosa de índole estratégica.

As formas de internacionalização podem dar-se através da exportação, do franchising, da joint
ventures, do investimento directo e da aquisição de empresas no estrangeiro. As exportações podem ser feitas
directamente (distribuidores, representantes comissionados, filiais...) ou indirectamente (trading companies,
brokers...). O franchising implica uma transferência somente de know-how e não de produtos. A joint
ventures refere-se à associação entre duas ou mais empresas com o objectivo de realizar um negócio comum.
E finalmente, o investimento directo implica a entrada em determinado mercado já quer seja por
deslocalização da produção, quer por investimento comercial ou ainda por expansão comercial. As opções
estratégicas para aceder aos mercados internacionais podem ser de liderança pelo preço (concorrer com base
em preços mais baixos graças a custos de produção mais baixos); de diferenciação (oferecendo um produto
diferenciado e com um valor único) e de focalização (centra a sua acção num pequeno número de segmentos
e a abordagem poder fazer-se através de diferenciação ou de custos).

Neste trabalho faço uma breve análise da empresa de Conservas Ramirez,1 recorrendo essencialmente
à informação disponibilizada pela empresa na sua página web e à entrevista dada por Manuel Guerreiro
Ramirez no livro Experiências de Internacionalização, A globalização das empresas portuguesas.

A Ramirez surgiu em 1853 e as primeiras fábricas localizaram-se em Vila Real de Santo António,
Olhão, Albufeira e Setúbal. Tornou-se na mais antiga produtora e exportadora de conservas em Portugal. A
sua internacionalização remonta aos finais do século XIX, tendo sido Itália o primeiro país a importar os seus
produtos, seguindo-se o Brasil. Nos 158 anos de experiência e história que a definem, a Ramirez foi capaz de
1
Foi distinguida como empresa de sucesso pela Associação Industrial Portuguesa (AIP) sendo uma empresa de referência em processo de internacionalização. A
Ramirez foi classificada como um dos 30 casos de empresas portuguesas de sucesso na internacionalização.

Pág. e pela criação de outras marcas para além da Ramirez. Reino Unido e França (sardinhas. exporta-se desde 1890. E-folio A Finanças Internacionais. na Bélgica. este facto permite-lhes “um posicionamento no mercado. EUA. uma aposta “numa forte política de marca própria4”. Canadá. Al Fares apresenta-se no mundo árabe. especialmente no Líbano (produtos com azeite). estas conservas foram distinguidas por cinco anos consecutivos pela “Monde Selection” com medalha de ouro. cavalinhas e atum). o polvo. e com laboratórios próprios de controlo de qualidade direccionados para a satisfação os mais exigentes clientes. especializadas e pratos pré-cozinhados. A Magalhães está nos mercados americanos e das comunidades portuguesas no mundo. Conta com modernas fábricas em Matosinhos e Peniche. as quais produzem e comercializam mais de 40 produtos. capazes de satisfazer os requisitos actuais do mercado. É reconhecida por várias entidades a nível mundial e por muitas e importantes cadeias de distribuição mundial.ramirez. tal como nos países com forte presença migratória filipina. A Derthona encontra-se em França. têm diferentes apresentações. A Kulla encontra-se em África há várias décadas (sardinhas). Reino Unido. A KID distribui-se em vários países europeus e está dirigida às camadas mais jovens. 93 4 Experiências de Internacionalização. refeições prontas e latas de abertura fácil). 94 .Empresa [Em linha].pt/?nav=empresa&s=2&ss=6> 3 Experiências de Internacionalização. The Queen Of The Coast exporta-se para os EUA. A Ramirez que surgiu em 1865 em Portugal (latas de atum em conversa). Suíça e Canadá (sardinhas. trabalho iniciado pelo seu avô Manuel Ramirez. ou seja. A Mistral exporta-se para os países Mediterrânicos e América do Sul. [consult. Segundo Manuel Guerreiro Ramirez. Os produtos desta empresa encontram-se distribuídos pelos cinco continentes através das várias marcas que a representam. atum. qualidade e inovação em conservas. o processo de internacionalização da Ramirez passou pela adopção duma “política própria de dispersão de mercados3”. A globalização das empresas portuguesas. está noutros países europeus. entre outros. A Tomé está no mercado Filipino desde 1925. distingue-se. Grécia e Alemanha (sardinha).Pág. 2 RAMIREZ . os quais permitiram que a empresa se sustentasse ao longo dos anos e fosse capaz de responder às exigências do mercado. o atum. 29/03/2011]. introduzida em 1906. as lulas. Canadá. sobretudo pela alta qualidade dos seus produtos. A Cocagne. A Renommée tem como destino o mundo francófono e está fortemente fidelizada em França. Luz Gomes 802428 2 “revolucionar os conceitos de conservação” inicialmente com processo de salgação e actualmente com o acesso às mais sofisticadas tecnologias. mas também. tradição. A Teddy está comercializa-se na Rússia. É pioneira mundial na introdução de novos métodos e materiais de embalagem e empacotamento (como a passagem da abertura fácil em folha de alumínio para folha de Flandres). Disponível na Internet <URL: http://www. destacando-se as sardinhas. mas. a cavala. A globalização das empresas portuguesas. A Gabriel encontra-se nos EUA e África do Sul. A Pescador presente nos países lusófonos (atum e sardinhas picantes). pela fidelização das marcas. é líder em qualidade e imagem. e foi uma das primeiras marcas a internacionalizar-se no século XIX. Caracteriza-se pelo compromisso.

98 . confiança e a sorte de ter tido à frente várias gerações de gente preparada. esta empresa frisa “a falta de dinamismo. A Ramirez conta também com algumas experiências menos positivas em pelo menos dois mercados em África (Nigéria e Angola). A própria Ramirez caracteriza-se por ter um processo de internacionalização diferente daquele que hoje em dia estudamos (“pré-fabricado”). isto devido à sua longa experiência no mercado. Experiências de Internacionalização. com o seu poder. Pág. que nos permitiam ter taxas de direitos muito baixas. Aliada a esta falta de apoio temos também a desvalorização do produto nacional face ao importado.. com os seus lobbies feitos. aquando da nossa entrada na União Europeia. A globalização das empresas portuguesas. realismo e empenhamento da administração portuguesa (diplomacia e do ICEP)7” e os entraves arancelários após a entra na União Europeia8. muitas vezes exacerbado9”. subiram e nunca mais foram revistas”. como os EUA. Essas taxas. Como forma de divulgar a sua marca e reduzir custos nas apresentações. [. A globalização das empresas portuguesas. muitas vezes por iniciativa própria (sem contar com a presença do AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal ). Mencionando a falta de apoio. devido a duas fraudes com empresas e bancos fictícios. estes são apenas alguns dos problemas normalmente associados à internacionalização. com os bancos. por parte dos países que fazem conservas pelo mundo fora5”. criatividade e melhor qualidade!”. A globalização das empresas portuguesas. apesar de não contarem com nenhum tipo de apoio e do díficil que era entrar nesse mercado. Antes de 1989 era a empresa líder no mercado soviético. mas também contar com a“seriedade. E-folio A Finanças Internacionais. Pág.].. sensibilidade. muitas 5 Idem 6 Idem 7 Experiências de Internacionalização. E chega mesmo a fazer uma comparação com Espanha: “Eles estão respaldados com a sua Administração.97 9 Experiências de Internacionalização. com o seu nacionalismo. 97 8 “Portugal tinha acordos bilaterais com certos países. Luz Gomes 802428 dependente do cliente com marca própria” apesar das “mutações e dos ataques exteriores. Pág. Para a Ramirez a chave do sucesso é “fazer produtos com boa relação qualidade-preço. com Bruxelas. e que tenham efectivamente diferenciação face aos estrangeiros. a empresa participa em feiras internacionais – as quais são actualmente um excelente meio de negócios. Definem a sua aposta internacional como sendo “baseada na qualidade e sobretudo num controlo da qualidade eficientíssimo”6. hoje em dia trata-se de um mercado com muito potencial.

A globalização das empresas portuguesas. A globalização das empresas portuguesas. 29/03/2011]. José Augusto e SILVA. Vila Nova de Famalicão: Centro Atlântico. José António Ferreira – Finanças Internacionais. como na forma como foi acompanhando a evolução do comércio e das exigências. Luz Gomes 802428 delas à frente do seu tempo. ALVES. Nov. Disponível na Internet <URL: http://www. 29/03/2011]. que eficientemente envergaram a camisola da empresa.pt/?nav=empresa&s=2&ss=6> RAMIREZ – História [Em linha]. [consult.) . Disponível na Internet <URL:http://www. Empresa [Em linha]. ISBN: 972-674-292-7 RAMIREZ . ISBN: 972-8426-59-3 PORFÍRIO.pt/?s=1&ss=9 10 Experiências de Internacionalização.Experiências de Internacionalização. 2002. 1ª ed. 29/03/2011]. [consult. Abril 2001. [consult.10” A Ramirez é um verdadeiro caso de sucesso tanto no que é o seu processo de internacionalização. Libório Manuel (Coord. E apesar da Ramirez achar o contrário considero que este é o exemplo típico de uma estratégia por diversificação. Lisboa: Universidade Aberta. E é claro. Pág. [consult. Disponível na Internet <URL: http://www.ramirez. Disponível na Internet <URL: http://www.ramirez. Pedro. 29/03/2011]. A Ramirez é e será sem lugar a dúvidas as “memórias de” mais do que “cinco gerações”.pt/?nav=historia&s=2&ss=7> RAMIREZ – Estratégia [Em linha]. colaboradores dedicados. que é a casa de trabalho de todos nós.ramirez.ramirez. E-folio A Finanças Internacionais. 99 . Bibliografia QUELHAS BRITO.pt/?nav=estrategia&s=2&ss=8> RAMIREZ – Marcas [Em linha]. 1ª ed.