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Economia na Ponta do Lápis

Hora de reavaliar expectativas

Rodolfo Manfredini (rodolfo.manfredini@gsmd.com.br), economista-chefe da


GS&MD – Gouvêa de Souza

De acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) divulgada pelo IBGE


nesta semana, as vendas reais do varejo cresceram 8,2% em fevereiro de
2011 na comparação com o mesmo mês do ano anterior, com uma leve queda
de 0,4% em relação a janeiro. Já o varejo “ampliado” teve crescimento real de
14,5% nas vendas em relação a fevereiro de 2010 e ficou em linha com os
números de janeiro de 2011. Diante desse cenário de certa forma contraditório,
o que podemos esperar do desempenho do varejo em 2011?
Primeiramente, é importante relembrar os dados de alguns segmentos: móveis
e eletrodomésticos apresentaram alta de 20,5% em relação a fevereiro do ano
passado e queda de 2,8% em relação ao mês anterior. Já o setor de veículos,
motos e peças subiu 26% em fevereiro, porém com uma leve queda, de 1,1%,
em relação a janeiro. O segmento de material de construção apresentou em
fevereiro um crescimento de 16,2% em relação ao mesmo mês de 2010. O
setor de equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação,
por sua vez, cresceu 14,6% em fevereiro, quase o dobro do índice do mês
anterior, mas ainda abaixo do crescimento de 27% de dezembro passado.
Nos setores de bens semiduráveis, o destaque fica para artigos farmacêuticos,
médicos, ortopédicos e de perfumaria, com alta de 10,4% em fevereiro. Já
tecidos, vestuários e calçados fecharam fevereiro com expansão de 13,6% nas
vendas. Em contraste com os outros segmentos, o setor de supermercados,
hipermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, mais uma vez,
apresentou um desempenho abaixo da média, com uma expansão de apenas
2,3% na comparação anual.
Não podemos negar que o desempenho continua positivo, mesmo com a forte
base de comparação de 2010, e observa-se uma demanda ainda aquecida.
Vale ressaltar que os efeitos das medidas “macroprudenciais” e restritivas de
crédito adotadas pelo Banco Central nos últimos meses começaram a fazer
efeito no mercado de crédito. Para se ter uma idéia, no mês de fevereiro de
2011, a taxa de juros ao consumidor final teve média de 43,8% ao ano, a maior
taxa desde outubro de 2009. Portanto, não é segredo que esse comportamento
era previsto para as projeções do setor varejista.
Além disso, podemos citar diversos fatores que também impactaram
determinados segmentos. Um deles são os efeitos de sazonalidade do período,
tais como os feriados de Carnaval e Páscoa descolados (diferentemente do
ano passado), que inegavelmente afetaram o número de dias úteis e o
comportamento entre categorias. Outro fator importante a salientar se refere à
inflação dos alimentos, que anulou parcialmente o aumento da massa salarial
(cerca de 6% em fevereiro) dos consumidores nos últimos meses. Assim, o
setor de não-duráveis, que tradicionalmente oferece a maior contribuição ao
crescimento do varejo, foi impactado diretamente.
Vale lembrar que a taxa de inadimplência seguiu praticamente inalterada em
fevereiro em relação ao mês anterior (uma leve alta de 0,1%). Assim, a taxa de
5,8% registrada segue em patamares muito próximos à menor taxa desde
fevereiro de 2001. Assim como a taxa de desemprego em fevereiro (6,4% em
relação a janeiro) é a menor taxa para os meses de fevereiro desde 2003.
Portanto, fica evidente que as condições desta conjuntura seguem positivas e
refletem diretamente no consumo e nos efeitos multiplicadores na atividade
econômica: o maior volume de renda aumenta a propensão ao consumo das
famílias, o que impacta no comércio varejista.
Em síntese, apesar da perspectiva de alta das taxas de juros e desaceleração
nos próximos meses (por conta dos ajustes de política monetária), o consumo
deve continuar em alta, já que a melhoria dos fatores determinantes de
consumo (como renda e crédito) deve seguir em trajetória crescente, porém
num ritmo mais cadenciado do que o registrado no último ano. Assim, os
agentes econômicos devem se acostumar com taxas de crescimento
anualizadas um pouco mais comedidas do varejo e reavaliar super estimativas
anteriormente definidas no calor da euforia dos fatos.