Você está na página 1de 411

A economia diante do

horror econômico
Editora da UFF

Nossos livros estão disponíveis em


http://www.editora.uff.br (impressos)
http://www.editoradauff.com.br (ebooks)

Livraria Icaraí
Rua Miguel de Frias, 9, anexo, sobreloja, Icaraí,
Niterói, RJ, 24220-900, Brasil
Tel.: +55 21 2629-5293 ou 2629-5294
livraria@editora.uff.br

Dúvidas e sugestões
Tel./fax.: +55 21 2629-5287
secretaria@editora.uff.br
João Leonardo Medeiros

A economia diante
do horror econômico
Uma crítica ontológica dos surtos de
altruísmo da ciência econômica

Niterói, 2013
Copyright © 2013 João Leonardo Medeiros
Direitos desta edição reservados à Editora da Universidade Federal Fluminense
Rua Miguel de Frias, 9, anexo, sobreloja, Icaraí, Niterói, RJ, 24220-900, Brasil
Tel.: +55 21 2629-5287 - Fax: +55 21 2629-5288 - http://www.editora.uff.br -
secretaria@editora.uff.br
É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da
Editora.
Normalização: Fátima Corrêa
Edição de texto e revisão: Rozely Campello Barrôco, Icléia Freixinho e
Maria das Graças C.L.L. Carvalho
Emendas: Armenio Zarro Jr.
Capa: Rômulo Lima
Ilustratação da capa: El Grito III (Óleo sobre tela, 130x90cm – Fundación Guayasamín,
1983 ©Herede)
Projeto gráfico e editoração eletrônica: José Luiz Staleiken Martins
Supervisão gráfica: Káthia M. P. Macedo

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP

M488 Medeiros, João Leonardo.


A economia diante do horror econômico: uma crítica ontológica dos surtos de
altruísmo da ciência econômica / João Leonardo Medeiros. – Niterói: Editora da UFF,
2013 – 416 p. ; 23 cm. – (Coleção Biblioteca, 52)
Inclui Bibliografia
ISBN 978-85-228-0714-7

1. Economia. 2. Filosofia da ciência. 3. Realismo crítico. I. Título. II. Série.

CDD 330

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE


Reitor: Roberto de Souza Salles
Vice-Reitor: Sidney Luiz de Matos Mello
Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação: Antonio Claudio Lucas da Nóbrega
Diretor da Editora da UFF: Mauro Romero Leal Passos
Seção de Editoração e Produção: Ricardo Borges
Seção de Distribuição: Luciene Pereira de Moraes
Comunicação e Eventos: Ana Paula Campos

Comissão Editorial

Presidente: Mauro Romero Leal Passos


Ana Maria Martensen Roland Kaleff
Eurídice Figueiredo
Gizlene Neder
Heraldo Silva da Costa Mattos
Humberto Fernandes Machado
Luiz Sérgio de Oliveira
Marco Antonio Sloboda Cortez
Maria Lais Pereira da Silva
Editora filiada à
Renato de Souza Bravo
Rita Leal Paixão
Simoni Lahud Guedes
Tania de Vasconcellos
“[…] Mas que sei da vida dos pobres
senão que vivem: sempre, sempre,
como a água, a pedra, o costume?
Se São Vicente manda ver
no rosto deles o do Cristo,
o que vejo é a comum pobreza
resignada, consentida,
tão natural como sinal
na pele.

Estendendo a mão com gravidade na hora de contribuir.


Não é meu dinheiro? É meu o gesto.
Não salvo o mundo. Mas me salvo”. Carlos Drumond de Andrade

“[A] riqueza e a pobreza, como categorias sociais, se aplicam apenas a


sociedades estratificadas de um certo modo e economias estruturadas de
uma certa maneira […]”. Eric Hobsbawm.
Sumário

Apresentação, 9
Prefácio, 15
Introdução, 23

Parte I
A crítica de pressupostos como pressuposto da crítica:
em defesa da “crítica ontológica”, 37

1. Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade:


contra o atomismo social, 41
1.1. Em defesa do caráter objetivo da realidade:
o mundo não é produto de nossa imaginação, 47
1.2. Estruturas sociais e agir humano: sustentando
o caráter estruturado da realidade social, 49
1.3. Contra o atomismo social e o individualismo metodológico, 56
2. Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade, 61
2.1. A emergência da ontologia científica e a sua relação
com as demais formas de acessar a realidade, 62
2.2. O conhecimento (científico) como prática essencialmente crítica, 69
3. Reafirmando o caráter histórico da sociedade:
contra a naturalização do capital, 83
3.1. A emergência e a especificidade das estruturas sociais, 85
3.2. A natureza histórica da totalidade social, 93
3.3. Contra a naturalização do capital: em defesa do papel emancipatório da ciência, 100
4. Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade, 107
4.1. A ciência social como espelhamento teórico da estrutura social, 109
4.2. Uma crítica às consequências metodológicas da visão de mundo
conservadora: o individualismo metodológico e o presentismo, 120

Parte II
Sobre a relação entre ética, moral e política:
contra a Economia do bem-estar social, 129

5. A tensão permanente entre a ontologia conservadora


e a ética “emancipatória” abstratamente concebida, 133

6. Os valores do mundo contra o mundo dos valores, 143


6.1. Os valores: objetividades subjetivas e subjetividades objetivas, 144
6.2. Os valores e as condições objetivas de sua realização:
as teorias econômicas do “bem-estar” diante de uma contradição insanável, 153
7. O Estado contra sua própria natureza: os limites da razão política, 159
Parte III
Do utilitarismo ao senianismo: uma recapitulação crítica
da versão conservadora da ocorrência de mazelas sociais, 167

8. Opulência e miséria na Revolução Industrial, 173


8.1. Será “dupla” a história da consolidação das relações capitalistas de produção?, 175
8.2. A lei geral de acumulação capitalista: a conexão inseparável
entre as mazelas sociais e a reprodução capitalista, 183
9. A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo, 197
9.1. O utilitarismo como questão de classe, 199
9.2. A ética utilitarista e a sua versão clássica, 207
10. A descoberta científica das mazelas sociais:
a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa, 215
10.1. Stuart Mill e as perversões do espírito humano:
o horror econômico entendido como um horror moral (e político), 218
10.2. Malthus e a teoria do crescimento populacional:
O horror econômico entendido como um horror natural (e político), 223
11. As tentativas de domar o indomável (1): a “revolução” marginalista, 235
11.1. A primeira tentativa de domar o indomável: a “revolução”
marginalista e a regulação científica do consumo, 236
11.2. A “revolução” marginalista e o refinamento das
concepções conservadoras das mazelas sociais, 249
12. As tentativas de domar o indomável (2):
o fugaz esvaziamento das “temáticas sociais”, 261
12.1. Crise e recomposição sistêmica na Belle Époque do capital:
raízes do período de exceção, 262
12.2. A segunda tentativa de domar o indomável:
o Estado-providência e a inabalável fé no crescimento econômico, 271
13. A teoria do “capital humano” e o “bem-estar” social:
o epílogo do desenvolvimento da tradição utilitarista, 283
13.1. A teoria do “capital humano” como teoria do “bem-estar” social, 285
13.2. A teoria do “capital humano” como expediente de acusação das vítimas, 293

Parte IV
A Economia diante do horror econômico, 301
14. As organizações internacionais e o mal-estar social:
o capital em escala global, 309
14.1. Da reforma ao reconhecimento do fracasso:
as organizações internacionais e o “mal-estar” social no limiar do século XXI, 310
14.2. Do fracasso à acanhada revisão: justificando e/ou racionalizando o horror econômico, 319
14.3. O “Pacto de Desenvolvimento do Milênio”: o desencanto da “Internacional do capital”, 330
15. A teoria da “justiça como equidade”: a nova ética e a
velha ontologia da “nova” Economia do “bem-estar” social, 335
15.1. Rawls contra o utilitarismo, 338
15.2. A ética rawlsiana como fundamento das “novas” teorias do “bem-estar” social, 346
16. A Economia diante do horror econômico, 361
16.1. O enfoque das capacidades como recomposição
do argumento da teoria ortodoxa do “bem-estar” social, 363
16.2. A Economia diante do horror econômico, 376
Conclusão, 389
Referências, 403
A total pobreza das teorias econômicas sobre a pobreza:
uma crítica a partir de Marx

O livro que se tem em mãos não deve ser lido, ironicamente, ape-
nas pela relevância e atualidade do assunto tratado, mas principal-
mente em função da forma inovadora e rigorosa como ele é escrito e
estruturado. O objetivo central do livro é realizar uma análise crítica
das teorias que procuram entender os problemas sociais no capita-
lismo – as chamadas teorias econômicas do bem-estar e, a partir dis-
so, conceber formas de intervenção nessa sociedade com o intuito
de corrigir/minimizar essas mazelas.
O caráter inovador deste livro aparece, em primeiro lugar, no fato
de que não se trata de uma crítica pela crítica; não se recorre ao
procedimento, infelizmente cada vez mais comum, de realizar o que
poderíamos chamar de criticismo acrítico. Não é objetivo do livro
demonstrar criticamente as inconsistências lógico-teóricas, os pres-
supostos nem sempre assumidos explicitamente – talvez por algum
resquício de pudor, as incongruências que possam existir entre as
conclusões teóricas e esses pressupostos, e/ou o caráter non sequitur
das proposições de intervenção prática para tentar solucionar as ma-
zelas sociais frente ao corpo teórico que pretensamente as justifica.
Ainda que esse nível de crítica também esteja presente em alguns
momentos, o objetivo do livro é aprofundar ainda mais o nível de
abstração da crítica, pelas razões tão bem argumentadas já desde a
introdução.
Em segundo lugar, obviamente, não se trata de desconhecer que
a sociedade capitalista produza/desenvolva essas mazelas sociais,
mas, em função dessa constatação, realizar uma crítica das teorias
que pretendem resolver esses “problemas” dentro da ordem esta-
belecida. Isto é feito demonstrando-se que esta última, em razão de
suas próprias leis gerais de funcionamento, produz estruturalmente
essas mazelas e, portanto, qualquer “solução” dentro da ordem irá,
10
Apresentação

no máximo, obter soluções momentâneas e paliativas, ou seja, falsas


soluções.
O terceiro componente do caráter inovador deste livro – e aqui
talvez esteja o aspecto mais inovador – é a defesa de uma crítica
ontológica das teorias econômicas do bem-estar, já que não se trata
apenas de criticar as teorias por suas incongruências teóricas e/ou
propositivas. Isso significa, entre outras coisas, que essas teorias são
decorrentes de determinados pressupostos (visões de mundo) sobre
como a sociedade capitalista se constitui e se comporta através de
distintas conjunturas históricas e, portanto, as limitações teóricas e
propositivas dessas concepções estão relacionadas com a perspecti-
va ontológica que pressupõem.
Assim, a crítica ontológica pressupõe a crítica dos pressupostos
filosófico-teóricos e, mais importante ainda, a crítica da realidade
social que permite e constrói (socialmente) “falsas” teorias sobre
si mesma, ou seja, pressupõe explicar e demonstrar que a sustenta-
ção e legitimidade social dessas concepções decorrem também do
funcionamento dessa realidade social. Com isso, empreender uma
análise crítica dessas concepções obriga o autor a subir o nível de
abstração e realizar uma crítica da realidade social (capitalista) que
está pressuposta por essas teorias. Uma das vantagens desta obriga-
ção imposta pela crítica ontológica é justamente fugir do criticismo
acrítico.
A hipótese do livro é a de que todas essas teorias econômicas do
bem-estar assumem, em maior ou menor grau, a perspectiva liberal-
-conservadora, o que significa assumir três princípios: o atomismo
social, a naturalização do capitalismo e o proferimento abstrato de
valores emancipatórios.
A naturalização da sociedade do capital implica o tratamento anis-
tórico deste modo de produção historicamente construído, como se
este tipo de sociabilidade fosse imutável e, portanto, qualquer forma
de intervenção possível estivesse restrita aos seus marcos históri-
cos. No melhor dos casos, a perspectiva conservadora que embasa
as teorias profundamente criticadas neste livro até aceita uma histo-
ricidade do capitalismo em sua constituição, como se existisse histó-
ria até o momento em que o ser humano passa a viver única e exclu-
sivamente sob o desiderato das relações sociais capitalistas e, a par-
tir dali, ele tivesse encontrado a sua natureza, a sua finalidade, que
poderia estar presente, pressuposta, desde a sua criação (divina?). O
11

Marcelo Dias Carcanholo


capitalismo naturalizado seria, assim, não apenas o “fim da história”,
mas o encontro do ser humano com sua natureza, a confirmação e
efetivação de todos os planos idílicos que se tinha para esta espécie.
A força dessa conclusão ajuda a entender por que estas teorias –
que tanto se preocupam com os problemas sociais – não questionam
em nenhum momento as razões últimas do porquê esta sociabilidade
produz as tais mazelas sociais. Estas últimas não podem fazer parte
dos planos idílicos do ser humano!
O terceiro princípio corresponde a considerar valores, princípios,
comportamentos éticos independentemente de seus condicionantes
históricos, como se eles todos não fossem também produtos das di-
ferentes épocas históricas. No limite, isso significa, no máximo, que
qualquer apreensão crítica da questão social só pode ser uma “críti-
ca” moralista e abstrata dos efeitos sociais, e nunca da sociedade his-
toricamente específica que os produz. Estes dois princípios são inter-
-relacionados; naturalização do capitalismo e consideração abstrata
de valores são dois sintomas de uma mesma enfermidade, o trata-
mento anistórico da realidade social em que vivemos, o capitalismo.
Deixamos o primeiro princípio (o atomismo social) por último de-
liberadamente. Por um lado, porque se no limite não se reconhece
nenhum problema estrutural no funcionamento da realidade social,
as mazelas sociais só podem provir do plano individual, ou seja, não
é o capitalismo que produz miséria, fome etc., mas determinados in-
divíduos que são miseráveis, famintos etc., em razão de suas atitudes
individuais. Por mais absurdo que pareça, porque de fato o é, grande
parte destas teorias termina por atribuir à própria vítima as razões
de sua lastimável condição social. Assim, por exemplo, as teorias
(sic) do capital humano defendem que o desempregado ou o baixo
salário são consequências de um baixo estoque de capital humano,
ou seja, que o indivíduo em questão não acumulou conhecimento/
educação suficiente para tirá-lo dessa condição. Por outro lado, e até
como consequência, a solução para os problemas sociais só poderia
estar também no plano do indivíduo, na medida em que a sua inade-
quação para se aproveitar dos planos idílicos criados para todos nós
for sanada. Daí, toda a verborragia para elevar a educação (enten-
dida como anos de escolaridade), a empregabilidade, a capacitação
técnica, e neologismos afins, individualmente!
Finalmente, e talvez esta seja a maior objeção que alguns façam ao
livro, por que realizar a crítica da realidade social que permite este
12
Apresentação

tipo de concepção “falsa” sobre si mesma a partir de Marx? Ele não é


o melhor autor para isso, podem dizer.
Marx é economicista! Nada mais absurdo. O subtítulo de sua obra
mais conhecida (O Capital) é “crítica da economia política”, e isto
tem um triplo significado: crítica da sociedade capitalista, na qual
as relações sociais são intermediadas por relações econômicas de
troca de mercadorias e, portanto, não são relações diretamente (sem
intermediação) pessoais; crítica da teoria econômica (economia po-
lítica clássica e as primeiras manifestações da economia neoclássica,
chamada por Marx de ciência vulgar); crítica do tratamento “econo-
micista” (como método) da economia (como objeto de estudo).
Mas Marx é um autor restrito ao século XIX! Também um absurdo,
embora tenha algo de verdade. De fato, é um autor que escreve no
século XIX e, por isso, está inserido nesse contexto histórico, com to-
das as suas limitações e possibilidades de entender a realidade social
em que vive. Por outro lado, este autor se propõe a estudar a socieda-
de capitalista que, ainda que com distintas manifestações históricas
e conjunturais, continua sendo a sociedade em que vivemos. Como
continuamos vivendo no capitalismo, sua teoria sobre este ainda é
atual, por mais que as formas de manifestação do conteúdo-capital
não sejam as mesmas. O que ele se propõe, em sua obra, é descobrir
essas leis gerais de funcionamento do capital.
Mas estas tais leis gerais de funcionamento são tratadas de for-
ma determinística/teleológica em Marx! Mais um desconhecimento
sobre este autor. As leis gerais de funcionamento do capital são leis
de tendência, o que significa que não são leis que emanem do empí-
rico (ou que sejam verificadas empiricamente a qualquer momento),
não são inexoráveis (com manifestação concreta que prescinde de
contratendências), não possuem um fim predeterminado na própria
lei, ou seja, não são determinísticas (teleológicas), o que invalida o
determinismo economicista, por exemplo, muito comum em algumas
interpretações reducionistas de Marx. As leis de tendência definem
um conjunto de possibilidades para o processo social, mas para
onde, de fato, esse processo irá se desenvolver constitui uma ques-
tão em aberto. A história é aberta, e o rumo efetivo depende das
atitudes sociais do ser humano.
Mas Marx trata essas questões todas de forma contraditória! Não
se deve confundir um discurso (teórico) contraditório com uma teo-
ria que procure interpretar uma realidade social que é contraditória.
13

Marcelo Dias Carcanholo


Marx não construiu uma teoria social que se contradiz, como podem
crer alguns detratores, mas foi obrigado a lidar com uma lógica que
parte das contradições (a dialética) porque seu objeto de estudo as-
sim o exigiu. É porque o capitalismo está constituído de contradições
sociais que Marx buscou entender suas leis gerais de funcionamento
com base na dialética. Nesse sentido, a dialética não é um método
que se pode eleger em prejuízo de outro; não é uma “escolha meto-
dológica” do autor. É uma obrigação ontológica.
É a crítica ontológica, em última instância, o que este livro tem de
mais rico. Em específico, dado o objeto do livro, trata-se de descobrir
a natureza contraditória da sociedade do capital para, em função dis-
so, concluir que as mazelas sociais que ele produz não são efêmeras,
fortuitas, ocasionais – ainda que se incrementem, ou não, por fato-
res conjunturais. Portanto, qualquer perspectiva que se proponha
a enfrentar as mazelas sociais, sustentando a manutenção da ordem
social estabelecida, está limitada em seus propósitos pela própria
natureza da sociedade que se assume como natural. Esta é a maior
(não a única!) limitação das teorias aqui criticadas.
Se alguém ainda não se convenceu da obrigatoriedade de ler
este livro, certamente isso decorre das insuficiências do autor deste
modesto introito. Mas este é mais um argumento para a sua leitura.
Garanto que seu autor tem ainda mais e melhores razões que a justi-
ficam. Convido-os a encontrá-las.
Marcelo Dias Carcanholo1

1 Professor-associado da Faculdade de Economia da UFF, membro do Núcleo Inter-


disciplinar de Estudos e Pesquisas em Marx e Marxismo (NIEP-UFF), e professor-
-colaborador da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF-MST).
Prefácio

Já se passaram mais de dez anos desde o momento em que se


iniciou a pesquisa que deu origem ao livro que, agora, é salvo do os-
tracismo completo pela Editora da Universidade Federal Fluminense.
De lá (primeiros anos do século XXI) para cá (o ano de 2013), a velo-
cidade vertiginosa da história conduzida por monsieur capital fez-se
sentir em sequências de acontecimentos que pareciam negar a lógi-
ca do período imediatamente anterior sem, no entanto, afirmar nada
ou quase nada de realmente novo. O neoliberalismo certamente já
perdeu a capacidade de mobilização e a aura de ideologia vitoriosa
que exibiu nas últimas décadas do século anterior, mas ainda nenhu-
ma ideologia alternativa conseguiu sobrepujá-lo. As crises, cada vez
mais intensas, abalaram e vêm abalando o coração do capitalismo,
mas ainda não foram capazes de fazer despontar sequer uma reor-
ganização sistêmica de relevo. A derrota do “inimigo vermelho” pôs
fim ao estado de beligerância permanente conhecido como “Guerra
Fria”, mas o “inimigo terrorista” logo ocupou a figura do Outro a ser
derrotado pelos “libertários” exércitos imperialistas sedentos por
petróleo e riquezas em geral. O crescimento acelerado da China tem
impedido uma catástrofe econômica de grandes proporções, mas
não é capaz de ocultar o aumento da pobreza e da desigualdade em
seu próprio território, no âmbito mundial e, principalmente, nos paí-
ses capitalistas mais prósperos.
Enfim, passou-se uma década, muito mudou, mas nem a mais re-
presentativa das mudanças demonstrou até agora o poder de marcar
a transição para outra época. Entre os candidatos a ocupar o pos-
to de motor da história, a crise que se pronunciou no coração do
capitalismo desde 2008 (pelo menos) parece ser o mais forte. Isso
significa que, possivelmente, a transição para uma nova época, seja
como for seu grau de novidade, será mais uma vez percebida como
o desdobrar de um estado de desarticulação social. Se isso ocorrer,
a transformação das condições sociais seria desencadeada não por
16
Prefácio

um gatilho amarrado em alguma grande conquista do gênero huma-


no, mas sim na tragédia, no drama, na perda. Como quase sempre
em nossa história pregressa, a alvorada de uma nova época cobraria
uma tenebrosa, assustadora, noite de véspera. Neste caso particular,
é bem provável que confirmemos o vaticínio de Marx, expresso na
seguinte sentença: “na sociedade capitalista […] o senso social só se
impõe depois do fato consumado” (MARX, 2000, p. 357-358).
Recuando algumas décadas a mais no século passado, encontra-
mos uma última transição representativa (ao menos no interior da
atual formação social) nas décadas de 1970 e 1980. Foi justamente
naquela conjuntura em que abandonamos o mundo no qual era pos-
sível vislumbrar um futuro próspero para a humanidade, no capita-
lismo ou no comunismo, para ingressar no mundo da ubiquidade
capitalista neoliberal. A cada ano, a cada dia, as promessas libertá-
rias difundidas pela ideologia neoliberal dominante evidenciaram-se
incapazes de realizar-se no capitalismo remodelado aos moldes do
laissez-faire após a decisiva conjuntura de crise da década de 1970.
A cada ano, a cada dia, os piores horrores do capitalismo reapare-
ciam em domínios dos quais haviam sido afastados ou minimizados:
o desemprego em larga escala reapareceu na Europa, doenças que
se supunha erradicadas ressurgiram em diversos países do mundo,
carências de infraestrutura evidenciaram-se mesmo em países prós-
peros, a desigualdade e a miséria difundiram-se rapidamente.
Em síntese, após algumas décadas nas quais se tornou possível
acalentar o sonho de finalmente conquistar a emancipação huma-
na, vimo-nos aprisionados no pesadelo de um presente em que não
conseguimos sequer vislumbrar o futuro. Pior ainda é que, neste
eterno presente, o potencial destrutivo, antissocial, do capitalismo
impôs-se de modo incontestável sobre sua capacidade emancipató-
ria, progressista. Se algum dia fez sentido imaginar – com uma boa
dose de otimismo conservador, é verdade – que o capitalismo seria
capaz de livrar a humanidade das piores agruras, as últimas décadas
rapidamente repuseram diante da consciência de todos o que se de-
nominará, neste trabalho, de “horror econômico”: o caráter progres-
sivamente dispensável da maioria dos seres humanos para a lógica
econômica dominante na sociedade capitalista.1

1 O termo “horror econômico” é surrupiado do título de um pequeno livro escrito


pela jornalista francesa Viviane Forrester (2005), que constitui uma das mais
extraordinárias críticas de nossa época.
17

Prefácio
Não foram só os críticos da esquerda (radical ou não) que perce-
beram o horror econômico. A dimensão do drama humano, corres-
pondente ao descarte de boa parte da humanidade pelo sistema eco-
nômico regido pelo capital, reclamou uma resposta da consciência
conservadora em diferentes níveis, desde a filosofia (por exemplo,
em John Rawls) até o senso comum (por exemplo, no reforço do ra-
cismo e/ou da xenofobia). Este conjunto amplo de ideias abrange as
concepções teóricas, científicas, que conformam o objeto de estudo
deste livro, a ser apresentado com rigor na Introdução a seguir. Este
Prefácio antecipa, no entanto, que este estudo refletiu sobre a forma
como a ciência econômica ocupou-se e tem ainda se ocupado das
assim chamadas mazelas sociais – “mazelas” que nada mais são do
que a manifestação concreta do potencial socialmente destrutivo do
capital.
Reconstituindo a gênese das formas de consciência com as quais
a ciência econômica interpreta e ajuíza as “mazelas” sociais hoje,
a análise confirmou a suspeita inicial, inspirada pelo contato com
obras conhecidas da literatura dessa ciência, de que há mais conti-
nuidade na história do pensamento econômico do que ruptura – e
não apenas no campo do “bem-estar social”. Em outras palavras, uma
determinada interpretação das “mazelas” sociais tem sido reafirma-
da em teorias formalmente bastante distintas, mas portadoras de
uma base de pressupostos comuns. Como se espera demonstrar, não
é exagero afirmar que uma mesma leitura das “mazelas sociais” vem
sendo apresentada e reapresentada em trajes distintos, de Jeremy
Bentham a Amartya Sen, pelo menos.
Não seria impossível que a conjuntura do início do século XXI fi-
nalmente revelasse um notável potencial transformador nos próxi-
mos anos, proporcionando condições favoráveis para a emergência
de uma nova leitura das “mazelas” sociais, que poderia romper com
a persistência da interpretação econômica convencional ou, o que é
mais provável, reafirmá-la (novamente) em novas bases. Poderíamos
até supor, considerando os termos da crise atual, que a economia do
“bem-estar” fosse relegada aos subterrâneos da teoria econômica,
como ocorreu durante o período em que o keynesianismo ocupou a
posição de mainstream da ciência. Afinal de contas, a crise hoje não
tem como epicentro o que alguns críticos chamaram de periferia do
sistema capitalista, mas sim o centro. Instituições que foram acome-
tidas de um verdadeiro surto de altruísmo durante algumas décadas,
18
Prefácio

como o FMI e o Banco Mundial, parecem agora preocupadas em evi-


tar a catástrofe em países mais afortunados, usualmente pelo patro-
cínio a políticas de “austeridade” com impacto funesto para a maior
parte da população.
Em síntese, para quem estuda a temática do “bem-estar” social, o
fato é que a primeira década do século XXI nada trouxe de verdadei-
ramente novo na teoria ou na prática. Justamente por essa razão, não
se julgou necessário atualizar o conteúdo do livro, seja em termos
das estatísticas oferecidas (colhidas publicações “oficiais” de paí-
ses e organizações internacionais lançadas até o ano de 2005), seja
em função de novos desenvolvimentos teóricos. Isso significa que,
embora não tenha sido originalmente pensado assim, quem tomar o
livro daqui por diante deve encará-lo como um trabalho que operou
sobre um recorte histórico muito bem definido: seu campo de visão
estende-se sobre as teorias econômicas do “bem-estar” social postas
em circulação desde o início da Revolução Industrial até a primeira
década do século XXI. Caso alguma mudança de vulto modifique o
rumo da história nos próximos anos, será preciso examinar em que
medida os desenvolvimentos e conclusões do trabalho preservam
sua validade e capacidade explanatória.
A capacidade de resistência dos argumentos do livro é, no entan-
to, variável. Sua Parte I, por exemplo, possivelmente transitará me-
lhor pelo tempo do que as outras, por operar num nível de abstração
mais elevado. Talvez um ou outro dos raciocínios ali apresentados
merecesse uma reconsideração, mas ainda defenderia seu conteú-
do por duas razões. Em primeiro lugar, a Parte I contém uma críti-
ca dos dois pressupostos filosóficos julgados como definidores do
pensamento conservador (uma crítica que poderia ser aproveitada
em outros trabalhos): o atomismo social e a naturalização do capi-
tal. Em segundo lugar, a crítica é calçada teoricamente por um longo
argumento elaborado com o propósito de fundamentar e justificar,
no campo da filosofia da ciência, o tipo de procedimento crítico ado-
tado no livro: a chamada crítica ontológica, que nada mais é do que
uma análise crítica dos pressupostos que definem a visão de mundo
subtendida nas diferentes construções teóricas examinadas, por um
lado, e da relevância social de uma construção sobre tais pressupos-
tos, por outro.
À medida que o livro avança pelas partes seguintes, o grau de abs-
tração da análise é reduzido, o que possivelmente também diminuirá
19

Prefácio
sua capacidade de resistência ao tempo. Por outro lado, o fato de
que muitas das teorias examinadas continuem a gozar de prestígio e
influên­cia, a despeito de terem recebido críticas devastadoras (como
é o caso, principalmente, do utilitarismo de Bentham e Mill), indica
que a base social sobre a qual operam vem se reproduzindo ao longo
do tempo e continua entre nós. Se, como parece ser o caso, o contex-
to social em que se reproduzem as ideias também tem espaço para
a sua crítica, então o terreno favorável à reprodução das ideias tam-
bém deve favorecer a reprodução da crítica. Isso, naturalmente, é um
espelhamento de uma prática social contraditória, na qual oposições
práticas (a luta de classes, por que não dizer?) se expressam como
confrontos de ideias.
Se o longo decurso de tempo entre a preparação do livro e a sua
publicação não tornou imperativa – a meu ver, claro – a atualização
de estatísticas e do próprio desenvolvimento teórico, ao menos a
leitura do material por colegas próximos evidenciou a necessidade
de fazer considerações antecipadas sobre duas “ausências” em seu
conteúdo, facilmente percebidas por qualquer leitor minimamente
versado no tema do livro. A primeira dessas “ausências” diz respeito
à Economia clássica, em particular a Smith e Ricardo. A segunda “au-
sência” é a influente versão da teoria do “bem-estar” social construí-
da a partir da obra de Pigou.
Quem, com alguma leitura no campo da Economia, seria capaz de
negar a importância da obra de Smith e Ricardo para a história do
pensamento econômico e para a formatação do modo como a ciên-
cia econômica convencionalmente lidou com o seu objeto? Agora, no
que se refere à temática específica do trabalho, a interpretação das
“mazelas” sociais pela ciência econômica, Smith e Ricardo, de fato,
não são seus melhores representantes no período anterior à metade
do século XIX por duas razões. Primeiro, porque, neste particular, a
teoria (da época) que viria a se demonstrar mais influente, tanto na
Economia quanto fora dela (e mesmo fora do âmbito científico), é –
por incrível que possa parecer – a teoria da população de Malthus, da
qual Ricardo era inclusive partidário. Por outro lado, considerando
a história do pensamento econômico de trás para frente, a genealo-
gia das teorias do “bem-estar” social dos séculos XX e XXI aponta
muito mais para o utilitarismo de Bentham e Mill do que para Smith,
Ricardo ou mesmo Malthus.
20
Prefácio

Quanto a Pigou, a razão para ter, literalmente, ignorado sua inter-


venção comparece no próprio trabalho, ainda que não como justifi-
cativa expressa desta “ausência”. O ponto, neste caso, é que Pigou
tornou-se influente no campo do “bem-estar” numa conjuntura em
que a própria teoria do “bem-estar” recuou ao posto secundário no
vasto campo da teoria econômica. Após a crise de 1929 e, princi-
palmente, após a “revolução” keynesiana, questões relacionadas ao
crescimento e ao controle do ciclo econômico foram privilegiadas
no debate da ciência, em detrimento das questões tradicionalmente
abordadas pela teoria do “bem-estar”. Quando, finalmente, a teoria
do “bem-estar” foi redimida e alçada a uma posição de destaque no
edifício da ciência, a crise da filosofia utilitarista tornou intervenções
como as de Pigou menos interessantes ou inovadoras do que inter-
venções como a de Amartya Sen.
Essa ressalva sobre “ausências” que foram sentidas pelos que já
acessaram o material preparatório do livro é a única deste Prefácio,
que já se alonga. Não seria, contudo, possível encerrá-lo sem render
as justas homenagens àqueles cujo apoio foi imprescindível para que
o estudo que deu origem a este livro ao menos resultasse num “obje-
to publicável” – com boa aceitação ou não, veremos. É provável que,
nos agradecimentos a seguir, alguma injustiça, principalmente por
omissão, venha a ocorrer. Que se debite essa injustiça à conhecida
falta de memória do autor e não ao descaso ou à ingratidão!
Os que são religiosos usualmente iniciam a lista de agradecimen-
tos por deus – o que não raramente irrita orientadores e PhDs em
geral! Por completa carência de fé, creio ser prudente ocupar a posi-
ção com algumas figuras do convívio mais próximo. A primeira delas
é Maria Carolina, que, na fase de estudos era namorada, já há algum
tempo é esposa, e que recentemente me presenteou com nosso pri-
meiro filho, o maravilhoso Nuno. Minha mãe, a socióloga Marlise
Medeiros, e minha família (pai, irmãos, meus sogros, cunhados, avôs
e avós etc.), destacando-se minha “sobrinha-filha” Yasmin, também
comparecem nessa categoria de destaque, pois são o pano de fundo
sobre o qual construí e construo minha vida. É dessas pessoas queri-
das que sempre extraí inspiração e exemplo para pensar no interior
de uma ciência que lida com o ser humano (naturalmente, não me
refiro à Economia!). A eles, portanto, o agradecimento reverencial,
mas não temente, que os religiosos dedicam a deus.
21

Prefácio
O livro que entrego ao público agora é o resultado final de uma
pesquisa que envolveu uma dissertação de mestrado e uma tese de
doutorado, ambas orientadas pelo professor Mario Duayer. Foi com
Mario Duayer que aprendi a pensar criticamente, ou seja, a pensar.
Para além da formação acadêmica formal, Mario ensinou-me a so-
breviver no ambiente acadêmico absolutamente anti-intelectual que
cerca os professores universitários atualmente, e tornar-me um pro-
fessor e pesquisador de fato, o que simplesmente quer dizer alguém
que estuda a sério antes de falar (ou escrever). Isso já bastaria para
um agradecimento destacado, não fosse o fato de Mario ainda ter en-
sinado a mim e a toda uma geração de pesquisadores o caminho que,
cada vez mais, considero correto para interpretar a obra de Marx e, a
partir dela, a sociedade em que vivemos e as diversas reflexões sobre
ela (por exemplo, as da Economia).
No campo dos professores, também se destaca a querida amiga
que, já há algum tempo, apresentou-me a obra de Marx nas aulas de
Economia Política da Faculdade de Economia da UFF, a professora
Lerida Povoleri. O que dizer de uma professora que tem quase 40
anos de exercício profissional na universidade pública brasileira e
dá aulas para calouros com o vigor de uma iniciante? Não bastasse
o exemplo como profissional, Lerida tem sido uma amiga fiel e com-
panheira de todas as horas (inclusive, da happy hour!) há mais de 20
anos de convívio. Se os alunos estivessem mais atentos, agradece-
riam a Lerida, ao final de cada semestre, por terem tido a oportuni-
dade de conviver e aprender com ela. Como eles nem sempre o têm
feito, faço eu aqui, como ex-aluno (ou aluno).
Assim como a Mario e Lerida, a maior parte dos agradecimentos
a seguir vai ser dedicada a pessoas com as quais tenho convivido na
Faculdade de Economia da UFF há bastante tempo: os professores
Marcelo Carcanholo (que gentilmente escreveu a Apresentação do
livro), Bianca Imbiriba Bonente, minha melhor orientanda e grande
amiga, André Guimarães Augusto, Paulo Henrique de Araújo, Alice
Werner (in memoriam), Paulo Moutinho (in memoriam), Hugo Corrêa,
Flávio Miranda, Rodrigo Delpupo, Eduardo Sá Barreto, Paula Nabuco,
além das queridas bibliotecárias Miriam Cruz e Cláudia Curi e dos
incríveis e abnegados funcionários que, lamentavelmente, repre-
sentam a figura da exploração absoluta no interior da universidade
pública: Edir, Edna, Edinha e Joanita. Quero que todos saibam (ou
soubessem) exatamente da minha estima e respeito por suas figuras
22
Prefácio

como seres humanos, como colegas de trabalho e como partidários


da mesma (ou quase!) perspectiva política e/ou humana. Mais do que
agradecer-lhes, coisa que também faço agora, aproveito para expres-
sar minha infinita satisfação com o convívio respeitoso, profissional,
sério, mas também divertido, no ambiente da universidade e, since-
ramente amigo, fora dele.
Agradeço ainda aos colegas do Núcleo Interdisciplinar de Estudos
e Pesquisas sobre Marx e o Marxismo da UFF, o já consagrado Niep-
Marx. Tenho muito orgulho de integrar o Niep-Marx por diversas ra-
zões, entre as quais destaco o convívio profissional com alguns dos
mais competentes pensadores marxistas do Brasil e o convívio ­pessoal
com alguns dos mais divertidos pensadores de botequim do Brasil.
Ao lado de alguns dos colegas já mencionados, gostaria de agradecer
nominalmente a Virgínia Fontes, Marcelo Badaró Mattos, Maurício
Vieira Martins, José Rodrigues, Juarez Duayer, Kênia Miranda, Mario
Jorge Bastos e a todos os colegas do Niep Pré-K, Ronaldo Rosas Reis,
Luciana Requião, Renake das Neves, Alexis Saludjian, Miguel Vedda e,
agora, recém-integrado, Ricardo Antunes.
A Ricardo Antunes também agradeço o incentivo e empenho para
a publicação do trabalho. Certamente, não fosse o apoio de Ricardo,
este livro teria sido recortado e publicado em artigos, como determi-
na a senhora Capes, seguindo o padrão internacional que tem con-
vertido a ciência numa atividade de produção de artigos sem muita
relevância ou consistência e, em grande porção, jamais lidos. O apoio
de Ricardo, no entanto, não resultou numa publicação direta e, como
disse, o livro teria sumido do mapa não tivesse ele sido resgatado
pela Editora da UFF, revigorada sob o comando de Mauro Romero.
A pequena, sacrificada e hipercompetente equipe da Editora da UFF
merece um agradecimento especial. Agradeço a Ricardo, Rozeli,
Icléia, Graça, Sônia, Cinthia, Fátima e José Luiz pelo competente tra-
balho de revisão e edição do livro.
Introdução

É crucial ressaltar a relevância da “alta teoria” [high theory] para


a maior parte da luta política atual, quando até mesmo um inte-
lectual engajado como Noam Chomsky faz questão de sublinhar o
quão desimportante o conhecimento teórico é para a luta política
progressista. [...] Se quisermos argumentar em contrário a essa
tentação antiteórica, não basta chamar a atenção para os inúme-
ros pressupostos teóricos sobre a liberdade, o poder e a socieda-
de, que são também abundantes nos textos políticos de Chomsky;
o mais importante é ressaltar como, hoje, talvez pela primeira vez
na história da humanidade, a experiência diária (biogenética, eco-
logia, ciberespaço e Realidade Virtual) compele todos nós a con-
frontar questões filosóficas básicas sobre a natureza da liberdade,
da identidade humana e assim por diante. (Slavoj Žižek)

Estima-se usualmente que 1/8 dos trabalhadores agrícolas da Irlanda


(um milhão de pessoas, em termos absolutos) tenha morrido durante a
Grande Fome da década de 1840. A esses primeiros sofrimentos adicio-
ne-se a migração compulsória de um número ainda maior de trabalha-
dores para os Estados Unidos (cerca de 1,25 milhão de pessoas) para
se representar, em termos humanos, o que talvez tenha sido uma das
maiores tragédias sociais da história. Tragédia social que, no entanto, é
predominantemente interpretada, desde a própria década de 1840 até
os dias atuais, como o resultado de uma infeliz combinação de descaso
político com fatalidade natural – já que a Grande Fome está associada à
destruição, por praga, das plantações de batatas, o principal alimento
da dieta dos trabalhadores daquele país ao tempo da catástrofe.1

1 O próprio estudo de onde os dados acima foram extraídos atribui a pobreza exa-
tamente aos dois fatores mencionados: à operação de uma lei natural e à falta de
vontade política (SEN, 2000, p. 199).
24
Introdução

Além da interpretação dominante, que, sinteticamente, compreen­


de a Grande Fome irlandesa como uma deficiência da política em rea-
gir a um infortúnio natural, há outras formas de significar o fenômeno,
relativamente bem difundidas, mas mais facilmente descaracterizá-
veis. Entre essas, destaca-se indubitavelmente a impagável descrição
de Malthus, que, no final das contas, atribui a culpa pela tragédia às
próprias batatas, por seus presumidos efeitos sobre a multiplicação
da população irlandesa e sobre a indolência dos trabalhadores.2 De
maneira que, no entendimento malthusiano, a solução para a miséria
dos trabalhadores estaria não no consumo das “perversas” batatas,
mas em sua abstenção, que provocaria a queda do contingente de
famintos (isto é, mortes por inanição) e um “saudável incentivo” à
“laboriosidade” dos sobreviventes.
Conformam um menor contingente os autores que procuraram ou
procuram explicitar o vínculo entre o processo de instalação da pro-
dução capitalista naquele período e a própria ocorrência da Grande
Fome, a despeito de tal vínculo manifestar-se, por exemplo, no fato
de que muitos dos trabalhadores mortos e migrados encontravam-se
desocupados antes de a catástrofe efetivar-se, ou, ainda, no simples
fato de a subsistência dos trabalhadores irlandeses ser tão intima-
mente dependente do consumo de batatas.3 Uma intervenção par-
ticularmente interessante, no interior deste último “bloco de inter-
pretações”, pode ser encontrada nos consagrados Panfletos Satíricos
do escritor irlandês Jonathan Swift (mais conhecido pelo clássico da
literatura Viagens de Gulliver).4 Os Panfletos de Swift, aliás, destacam-
-se exatamente por sua capacidade ímpar de associar a tragédia irlan-
desa ao caráter efetivamente antissocial do modo de produção que
se consolidava naquele período. Destacam-se ainda, evidentemente,
por tratar com ironia tipicamente britânica os diagnósticos e tera-
pias empregados pelas classes dominantes e por seus porta-vozes

2 “O cultivo da batata e a sua adoção como alimento habitual das classes inferiores da
Irlanda reduziu de maneira inusitada a terra e o trabalho necessários para manter
uma família, comparativamente à maioria dos países europeus. A consequência des-
sa facilidade de produção, não acompanhada por uma sequência de circunstâncias
felizes que proporcione o desdobramento de todos os seus efeitos no crescimento
da riqueza, é uma situação que lembra, em muitos aspectos, os países menos civili-
zados e menos desenvolvidos.” (MALTHUS, 1986, p. 209).
3 Pode-se mencionar, como instâncias dessa última perspectiva, os seguintes traba-
lhos, relativamente recentes: Eagleton (1999); Wood (2002, p. 151).
4 Agradeço a Virgínia Fontes pela indicação dos Panfletos de Swift.
25

João Leonardo Medeiros


(jornalistas, políticos, economistas etc.) na compreensão e enfrenta-
mento do problema.5
A sátira e a ironia são, na verdade, recursos literários empregados
pelo escritor para demonstrar que a patente falsidade dos diagnós-
ticos das classes dominantes sobre a miséria da população pode-
ria servir de aval a propostas absolutamente infames, como as que
constam em seus polêmicos manifestos. No panfleto intitulado Uma
Modesta Proposta, por exemplo, Swift sugere que a miséria e a fome
dos trabalhadores irlandeses sejam enfrentadas por uma campanha
pública de incentivo à seguinte mudança de hábitos alimentares das
classes dominantes:

Sugiro [...] humildemente à Consideração Pública que, das


Cento e Vinte Mil Crianças já computadas [como miseráveis],
Vinte mil sejam reservadas para a Procriação; sendo, dessas,
só uma Quarta Parte de Machos, o que é mais do que permiti-
mos a Carneiros, Touros, ou Porcos; e a minha Razão é que tais
crianças raramente são Frutos de Casamento, Circunstância
não muito apreciada pelos nossos Selvagens; por conseguinte,
um Macho será suficiente para atender a quatro Fêmeas. Para
que as Cem mil restantes, com um Ano de idade, possam ser
oferecidas à Venda a Pessoas de Qualidade e Fortuna, por todo
o Reino; sempre se aconselhando às Mães que as deixem ma-
mar à farta durante o último Mês, a fim de deixarem rechon-
chudas e gordas para uma boa Mesa. Uma Criança dará dois
Pratos numa Recepção para Amigos; e, quando a Família jantar
sozinha, um dos Quartos, traseiro ou dianteiro, será um Prato
razoável que, temperado com um pouco de Pimenta e Sal, dará
um ótimo Ensopado no quarto Dia, especialmente no Inverno.
(SWIFT, 1999a, p. 494 e 495, grifo do autor)

São muitas as ocasiões em que a ironia, largamente exercitada por


Swift, é o único expediente disponível para enfrentar no plano prático
5 No panfleto intitulado Um Breve Exame da Situação da Irlanda, Swift lista as inter-
pretações da classe dominante sobre a Grande Fome e, de quebra, indica a relação
entre o “novo” modo de produção e a miséria. Vale a pena reproduzir aqui uma
das passagens desse texto: “Não há um só Argumento usado para provar a Riqueza
da Irlanda que não seja uma Demonstração lógica da sua Pobreza. O Aumento das
nossas Rendas é espremido do Sangue, e das Partes Vitais, e das Roupas, e das Mo-
radias dos Rendeiros, que vivem pior do que os Mendigos Ingleses.” (SWIFT, 1999b,
p. 488).
26
Introdução

proposições oficiais, que se desdobram em medidas igualmente ofi-


ciais, dotadas do mais alto grau de absurdidade. No plano teórico,
entretanto, é preciso muito mais do que um recurso literário para
defender a insuficiência (explanatória e prática) de um conjunto de
crenças absurdas, quando não simplesmente obscenas e impuden-
tes, sobretudo nas situações em que estão em análise concepções
dotadas da chancela privilegiada do discurso científico. Neste últi-
mo caso, como se pretende defender adiante, a crítica teórica requer
como complemento indispensável a explicação da sustentação e
legitimidade social de concepções parciais ou simplesmente falsas
a respeito dos fenômenos em análise. A crítica científica, em suma,
envolve ou deveria envolver a explicação da própria aceitação, re-
produção, necessidade e relevância social das falsas teorias.
Essa observação preliminar a respeito do conteúdo da crítica
científica, embora insuficiente para demarcar com precisão os seus
limites metodológicos, serve-nos perfeitamente para ditar o tom da
intervenção crítica desenvolvida neste estudo. Afinal de contas, o seu
objeto são precisamente as teorias com as quais cientistas sociais –
os economistas – têm, desde a época de Swift, procurado explicar
as mazelas da sociedade e agir sobre elas. Mais especificamente, e
assim se apresenta o objetivo central deste trabalho, pretende-se
rea­lizar uma crítica dos pressupostos – isto é, uma crítica ontológica –
das principais teorias das correntes dominantes da Economia sobre
a ocorrência de fenômenos como a pobreza e a desigualdade: as teo-
rias da assim chamada Economia do bem-estar social.6 A relevância
da observação acima se justifica, portanto, por serem submetidas ao
escrutínio crítico concepções socialmente dominantes e reproduzi-
das há mais de século como formas cientificamente reconhecidas de
interpretação do mundo.
Dois esclarecimentos iniciais, um referente ao objeto de estudo e
outro ao procedimento crítico apontado, são de fundamental impor-
tância. É preciso observar, em primeiro lugar, que as teorias econô-
micas ortodoxas do “bem-estar” social não são tomadas como objeto
de estudo por escolha aleatória ou preferência pessoal. Ao contrário,
6 “Crítica ontológica” é uma expressão que tomamos de empréstimo ao filósofo mar-
xista G. Lukács (1979a, p. 28 e 29). Os elementos imprescindíveis a um tal proce-
dimento crítico são apresentados brevemente a seguir e detalhados no Capítulo
3. Neste capítulo, na verdade, lança-se mão da noção análoga de “crítica explana-
tória”, construída pela corrente filosófica Realismo Crítico. A “crítica explanatória”
de Lukács e a “crítica ontológica” do Realismo Crítico são consideradas, portanto,
procedimentos críticos compatíveis, para não dizer idênticos.
27

João Leonardo Medeiros


parece-nos que tais concepções impõem-se naturalmente como foco
de interesse crítico-teórico por serem as instâncias mais elaboradas
(a “versão científica”) da forma dominante de vislumbrar os pro-
blemas sociais: aquela construída a partir de uma visão de mundo
conservadora, que assume a estrutura social existente como limite
último do pensamento e do agir humano. Assume-se, desse modo, a
perspectiva genérica subentendida na jocosa Proposta de Swift, que
se dirige claramente não a concepções particulares, mas à visão de
mundo (ontologia, paradigma, malha de crenças etc.) a partir da qual
diferentes concepções (científicas ou não) são elaboradas.
Ainda a respeito do objeto de estudo, deve-se advertir de que não
se pretende aqui postular, mas sim demonstrar a conexão existente
entre a visão de mundo (ontologia) conservadora e as teorias econô-
micas da pobreza e da desigualdade. Em particular, pretende-se de-
monstrar que todas as teorias econômicas ortodoxas do “bem-estar”
elaboradas desde o período de emergência da Economia, a despeito
de suas inúmeras e importantes diferenças, pressupõem uma visão
de mundo comum (precisamente a visão liberal-conservadora) con-
formada por três princípios fundamentais:

1. o princípio do atomismo social, que caracteriza a sociedade


como um objeto constituído por uma simples agregação de
indivíduos;
2. o princípio da naturalização do capital, que se refere ao enten-
dimento de que as estruturas sociais existentes são efetiva-
mente imutáveis;
3. o princípio do proferimento abstrato de valores emancipatórios,
que caracteriza a descrição dos valores como entidades abso-
lutamente subjetivas, descoladas da realidade social.

O que se pretende revelar e explicar, portanto, é a existência


de uma linha de continuidade incrivelmente persistente, mas nem
sempre óbvia, entre as diversas teorias econômicas do “bem-estar”,
desde sua matriz originária no utilitarismo clássico inglês do final
do século XVIII até o “enfoque das capacidades” de Sen do final do
século XX. Ademais, procura-se defender que, subentendidos os três
princípios ontológicos acima indicados, todas as teorias envolvidas
em tal “linha de continuidade” tornam-se necessariamente incapazes
de descobrir as verdadeiras causas de fenômenos como a pobreza
28
Introdução

e a desigualdade e de propor práticas realmente eficazes para sua


solução. Isso ocorre porque, ao estabelecer os métodos de pesquisa,
os critérios de seleção de teorias, o conjunto de hipóteses plausí-
veis, os limites das práticas aceitáveis etc., a visão de mundo articu-
lada por aquelas teses ontológicas (liberal-conservadoras) delimita
a análise econômica dos “problemas sociais” de maneira a impedir
o acesso a qualquer diagnóstico que se desdobre nas práticas indis-
pensáveis para eliminá-los definitivamente.
Em suma, a hipótese a ser sustentada é a de que as teorias econômi-
cas do “bem-estar” social são estruturalmente falsas, incapazes de dar
conta de seu objeto de análise teórica, e que tal falsidade decorre, em
última instância, de sua fundamentação ontológica. Subentendida nes-
ta hipótese está, naturalmente, a noção filosófica geral de que a ciência
pressupõe uma imagem prévia da realidade social e natural, que pode
ser fornecida pela filosofia (ontologia) ou simplesmente construída a
partir da experiência cotidiana. Em outros termos, o argumento admite
que a imagem prévia de mundo, a partir da qual as proposições científi-
cas são construídas, estabelece o alcance da própria pesquisa científica
e de seus resultados. Por exemplo, se a ciência natural, ao se debruçar
sobre o mundo, parte de uma concepção de que a Terra seja inteiramen-
te plana, qualquer enunciado que sugira a curvatura de sua superfície
fica excluído por antecipação. Da mesma forma, se a sociedade é com-
preendida como uma simples agregação de indivíduos, como no atomis-
mo social, o estudo da sociedade traduz-se imediatamente no estudo do
comportamento individual.7
Se existe efetivamente essa conexão entre ontologia e ciência,
ou seja, se as proposições ontológicas moldam decisivamente a
consciên­cia dos cientistas (no caso, dos economistas) ou se, inver-
tendo os termos, nenhuma teoria pode existir em um vácuo onto-
lógico, então a crítica teórica não pode dispensar a crítica da visão
de mundo subentendida nas, e veiculada pelas formulações teóricas.
Ilustrando com o próprio objeto deste estudo, a sua crítica (ontológi-
ca) obriga-se a envolver os seguintes passos:
7 Obviamente, a própria pesquisa científica pode conduzir, e não são poucos os exem-
plos, a uma crítica dos pressupostos assumidos, e mesmo a uma “crítica ontológica”
nos moldes a serem definidos. No que diz respeito às teorias econômicas em análise
neste estudo, entretanto, pretende-se defender que este trânsito da crítica teórica
à crítica dos pressupostos teóricos não pode acontecer pelo simples fato de que a
existência social de tais teorias está intimamente relacionada à visão de mundo à
qual as teorias estão associadas. No decorrer do trabalho, esta questão será tratada
recorrentemente e, espera-se, devidamente esclarecida.
29

João Leonardo Medeiros


1. a inspeção crítica da “malha de crenças” na qual elas estão
enlaçadas;
2. a demonstração de que, desde a perspectiva ontológica assu-
mida, os economistas são incapazes de encontrar as causas
dos fenômenos associados ao pauperismo;
3. e a caracterização do estreitamento da práxis que impede o
enfrentamento efetivo das “mazelas” sociais e confere ao con-
junto de medidas concretas usualmente sugerido (as “políticas
sociais”) o seu papel decisivo para a reprodução social.

Expressando resumidamente as ideias acima, a posição que se


pretende sustentar é a de que somente uma crítica ontológica seria
capaz de dar conta da insuficiência das teorias econômicas da po-
breza e da desigualdade. Acontece que – e os que têm acompanha-
do a trajetória da filosofia da ciência certamente já se aperceberam
– a própria possibilidade de efetuar uma crítica ontológica tem de
ser defendida. Afinal de contas, é de longa data a predominância, no
plano filosófico geral, de tradições teóricas que procuram embargar
qualquer pretensão de tratar explicitamente das questões ontológi-
cas. Seja qual for a forma como a ontologia tenha sido recentemente
apresentada – algumas mais depreciativas do que outras –, o fato é
que ela tem sido submetida a uma espécie de banimento dos campos
filosófico e científico (além do cultural, político, ético etc). O sim-
ples questionamento de valores, objetivos e visões de mundo por-
tados pela filosofia da ciência e pela própria ciência foi, e ainda é,
imediatamente descartado, tratado como nonsense “metafísico” ou,
de maneira aparentemente mais respeitosa, como empreendimento
irrealizável.8
De forma geral, parece ser possível distinguir nesta atitude antir-
realista dois tipos diferentes de embargo à discussão ontológica: um
embargo positivo, característico das diversas formas de empirismo,
8 Utilizo-me de uma citação de Norris, que, a esse respeito, segue Derrida, para argu-
mentar “contra o uso da expressão ‘metafísica’ (ou ‘metafísico’) como uma rotina de
xingamento, contra a maneira como esse termo tem sido usualmente aplicado pelos
filósofos analíticos [empirismo] para significar o tipo de fala desprovida de significa-
do que eles creem ser típico da ‘outra’ tradição (continental pós-kantiana) [idealismo
e irracionalismo]. É precisamente por causa deste uso indiferenciado do termo – a
falha em distinguir metafísica ‘ingênua’ de ‘metafísica como tal’ – que caracterizou o
discurso do positivismo lógico e também (em muitos casos) o pensamento dos seus
herdeiros e sucessores lógico-empiricistas.” (NORRIS, 2000, p. 64). No lugar do termo
“metafísica”, utilizaremos simplesmente ontologia; uma proposição “antimetafísica”,
portanto, recebe a denominação antiontológica ou antirrealista.
30
Introdução

e um embargo negativo, típico do idealismo e do irracionalismo.9 A


tradição positivista, hegemônica até meados do século anterior, re-
presenta o caso paradigmático de negação positiva da ontologia. É,
entretanto, praticamente um consenso nos dias de hoje – evento ex-
tremamente raro em debates filosóficos – que, por detrás da rejeição
positivista da possibilidade de produzir considerações ontológicas
explícitas, encontra-se a disseminação sublinear de uma ontologia
velada. Isso porque, nos termos geralmente empregados no debate
filosófico, a desqualificação de toda e qualquer proposição transcen-
dente ou transfactual (referente aos objetos e conexões reais existen-
tes além do domínio empírico) pressupõe uma ontologia fundada
na categoria da experiência perceptiva, uma ontologia empírica. O
embargo positivo, portanto, refere-se ao procedimento de descartar
(nominalmente) a ontologia em geral e simultaneamente pressupor
e difundir uma ontologia particular e a sua correspondente visão de
mundo. Como assinalado em outro espaço:

O positivismo, em suas variadas acepções, propagou por dé-


cadas e mais décadas a necessidade de negligenciar as inquie-
tações ontológicas. Distraído – ou dissimulado –, continuou
prescrevendo com zelo quase obsessivo sua doutrinária faxina
axiológica, que subentendia, como toda doutrina, uma ontolo-
gia. Para a atitude positivista, em uma palavra, a ontologia é, pa-
rodiando Terry Eagleton, como mau hálito: só quem tem são os
outros. Por isso, continuou bafejando sua ontologia, ao mesmo
tempo em que a impugnava para os demais. [...] Contente, vul-
gar e, por que não?, ardiloso, o positivismo enrustiu a ontologia
do existente, sua ontologia (sobre o mundo, a sociedade, o sujei-
to, o indivíduo, a liberdade, e a fieira de noções ontológicas que
entretém seria infindável), sob a forma de uma atitude antionto-
lógica radical. (DUAYER; MEDEIROS; PAINCEIRA, 1999, p. 3)

O embargo negativo à ontologia, por sua vez, é flagrante nas di-


ferentes correntes filosóficas que emergem como nova hegemonia
após o colapso da tradição positivista no final da década de 1960:
o neopragmatismo (Rorty), o pós-modernismo (Lyotard) e o pós-es-
truturalismo (Foucault), para citar as correntes de maior circulação.

9 Essa distinção entre o embargo negativo e positivo à ontologia é devida a Duayer


(2003).
31

João Leonardo Medeiros


Este segundo embargo relaciona-se especificamente a um tipo de rea­
ção em face dos problemas insolúveis do positivismo lógico, por um
lado, e da assim chamada virada linguística, por outro: o relativismo
ontológico.10 Não parece ser difícil reconhecer a lógica central da re-
jeição indireta da ontologia implicada por esta espécie particular de
relativismo. Primeiro, depois de Kuhn, todos passaram a reconhecer
o caráter inescapável da ontologia. Generalizou-se, portanto, inclusi-
ve entre as correntes conservadoras da filosofia, a noção de que toda
tradição teórica pressupõe e põe necessariamente um paradigma,
programa de pesquisa científica, “malha de crenças” ou outra deno-
minação qualquer atribuída à ontologia. Em seguida, com a “virada
linguística”, o conhecimento textual e a realidade em si são nominal-
mente afastados e entre eles se coloca um verdadeiro abismo. Isto
significa, sem tergiversações, que as teorias passaram a ser encara-
das como meros discursos a respeito do mundo, como formas de
expressão desprovidas de qualquer estatuto ontológico privilegiado.
Numa única palavra, como construtos. Toda crença, científica ou não,
seria apenas uma descrição particular, culturalmente determinada,
de um mundo efetivamente insondável.
Os detalhes desse duradouro bloqueio à ontologia estão infeliz-
mente fora do alcance do presente estudo.11 Considerando, todavia,
o objetivo primordial de desenvolver uma crítica da visão de mundo
subjacente às teorias econômicas ortodoxas do “bem-estar” social,
por um lado, e a descaracterização desse procedimento crítico pe-
las correntes dominantes na filosofia, por outro, parece claro que
não seria possível desenvolver esse estudo sem defender a própria

10 A“virada linguística” refere-se exatamente à rápida difusão, no final da década de


1960, de uma série de críticas dirigidas ao positivismo lógico, que procuravam cha-
mar a atenção para o caráter socialmente determinado das concepções científicas.
Dessa “virada linguística”, que parte da premissa correta de que as teorias são
sempre textos, surgiu a hegemonia do antirrealismo, que se sustenta na conclusão
(equivocada, como se pretende demonstrar) de que os textos não são capazes de
representar o mundo.
11 Para mais detalhes, conferir: Bloor (1991), Davidson (1984), Feyerabend (1997),
Foucault (2000), Kuhn (1975), Latour (2000), Lyotard (1998), Putnan (1995), Quine
(1961), Rorty (1994, 1997). Para mencionar alguns autores que têm combatido, a par-
tir de diferentes perspectivas, contra o antirrealismo e o relativismo: Ahmad (1997),
Anderson (1998), Bhaskar (1979, 1991, 1997), Callinicos (1989), Collier (1994), Eagle-
ton (1998), Lawson (1997), Lukács (1984), Nanda (1997), Norris (2000, 1997a, 1997b),
Salmon (1984), Searle (1995, 1998), Wood e Foster (1999).
32
Introdução

viabilidade da análise ontológica.12 Isto envolve, por obrigação, tanto


a crítica geral das filosofias antiontológicas, como a demonstração
da possibilidade de sustentar uma filosofia da ciência realista que: (1)
permita avaliações críticas de ontologias diferentes; (2) estabeleça o
nexo entre a descoberta de verdades pela ciência e o alargamento da
práxis social, e; (3) demonstre o seu estatuto ontológico privilegiado
do discurso científico.
Parece ser prudente observar, ainda nesta Introdução, que os
dois últimos pontos mencionados guardam conexão direta com con-
sequências decisivas do relativismo ontológico, que são usualmente
empregadas para desarmar o conteúdo central da autêntica crítica
científica. A primeira consequência refere-se à proposição de que o
discurso científico possui paridade ontológica com outras formas
discursivas quaisquer (místicas, religiosas etc.). Em segundo lugar,
está a concepção de que, se a ciência, como a religião e a arte, não
possui a capacidade de descobrir as verdades do mundo, então o
projeto de emancipação humana pela razão, que caracteriza tanto o
Iluminismo quanto o pensamento socialista, perde a sua justificati-
va essencial. É principalmente por causa deste efeito do relativismo
ontológico sobre a práxis social que diversos autores realistas têm
sustentado que a hegemonia recente das filosofias antiontológicas
envolve muito mais do que um equívoco filosófico. Em particular,
pensadores como Aijaz Ahmad, Perry Anderson, Ellen Wood, Alex
Callinicos, Terry Eagleton, Paulo Eduardo Arantes, José Paulo Netto,
Mario Duayer, entre muitos outros, têm procurado destacar que a
“virada linguística” e a ressurgência do antirrealismo ocorreram e só
poderiam ocorrer durante o período frequentemente considerado
como a contrarrevolução capitalista – os anos que se seguiram à reti-
rada das barricadas de 1968.
Não seria, portanto, uma mera coincidência que o ataque antir-
realista dirigido às “grandes metanarrativas” tornou-se esmagador

12 Como se perceberá na primeira parte deste livro, duas perspectivas filosóficas,


a nosso ver congruentes, serão privilegiadas: por um lado, aquela defendida por
­Lukács em sua obra póstuma, A Ontologia do Ser Social (LUKÁCS, 1984), e, por outro,
a perspectiva filosófica do Realismo Crítico. Neste último caso, deve-se apontar a
surpreendente guinada mística do fundador do Realismo Crítico, o filósofo Bhaskar,
que se consolidou, para nossa infelicidade, no período exato de elaboração deste
estudo. O máximo que podemos fazer, diante desse fato de consequências imprevi-
síveis, é expressar a nossa inteira discordância em relação aos trabalhos mais recen-
tes do autor, que, em nosso juízo, não apagam a validade do que talvez possam ser
agora descritos como os seus trabalhos de juventude (BHASKAR, 1979, 1991, 1997).
33

João Leonardo Medeiros


quando as ambições revolucionárias do que hoje se denomina “es-
querda radical” foram postas em xeque a partir da derrocada do “so-
cialismo real” em 1989-1991.13 Não seria, da mesma forma, por acaso
que a paixão culturalista – que continua a encantar a “nova esquer-
da” – se fortaleceu durante a belle époque yuppie dos anos 1980. Ou
que as correntes relativistas tenham ocupado a condição hegemôni-
ca na filosofia em meio à atmosfera intelectual das últimas três dé-
cadas, nas quais se presenciou a hegemonia do neoliberalismo e da
economia neoclássica, o thatcherismo, o Reagonomics, a Perestroyka,
o “consenso” de Washington, a Terceira Via etc. Acima de tudo, não
seria contingente o fato de que o antirrealismo tenha se tornado a
filosofia par excellence no momento histórico em que as relações
capitalistas se estenderam irrestritamente à escala global; no exato
momento em que a divisão internacional do trabalho foi consolidada
e o sonho liberal de conectar o mundo inteiro em uma única rede de
trocas global foi finalmente realizado.
Esse nexo objetivo existente entre a descaracterização da crítica
ontológica e a conjuntura desfavorável ao pensamento crítico do úl-
timo quarto de século não poderiam ser, obviamente, aprofundados
nesta Introdução. Foi preciso, no entanto, indicar tais conexões como
uma espécie de advertência antecipada de que a Parte I a seguir trata
de questões que, embora abstratas, vinculam-se diretamente ao mo-
vimento concreto da dinâmica social. Nesta parte inicial, procura-se
cumprir basicamente duas tarefas: defender a possibilidade e a ne-
cessidade da crítica ontológica e, simultaneamente, demonstrar a in-
suficiência das duas primeiras premissas que caracterizam a visão de
mundo liberal-conservadora, o atomismo social e a naturalização do
capital. Quanto à terceira premissa ontológica definidora desta visão
de mundo, a reificação dos “valores emancipatórios”, optamos por
tratá-la em separado na Parte II do trabalho, porque a sua inspeção
crítica exige, como esperamos deixar claro, uma incursão no compli-
cado terreno da ética, além de uma crítica específica à pretensão de
eliminar os antagonismos sociais pela via política.

13 Defato, como assinala Anderson (1998, p. 29), quando Lyotard formulou o conceito
de metanarrativa, seu alvo era o marxismo. “Apenas uma ‘narrativa mestra’ está
na origem do termo: o marxismo”. Paulo Netto (2002, p. 93) generaliza esta ideia:
“Embora a besta-fera dos cientistas sociais engajados na promoção da ‘ciência pós-
-moderna’ seja o ‘paradigma cientificista-naturalista’, a crítica dirige-se centralmen-
te contra Marx.”
34
Introdução

Uma vez realizada a defesa da crítica ontológica e a própria crí-


tica dos pressupostos que caracterizam, neste plano geral, a leitura
conservadora dos fenômenos sociais, pode-se finalmente examinar
o conjunto de teorias econômicas que exercita esta leitura no trata-
mento das “mazelas” sociais. Considerando o longo desenvolvimento
deste corpo teórico específico, optou-se por dividir esse exercício
em duas partes: a primeira, a Parte III do trabalho, é dedicada ao
escrutínio crítico do longo desenvolvimento teórico a partir do qual
se originaram as teorias econômicas do “bem-estar” social hoje do-
minantes; já a Parte IV se ocupa precisamente destas formas mais re-
centes das concepções conservadoras da pobreza, da desigualdade e
das demais “mazelas” sociais. Nos dois casos, procura-se não apenas
demonstrar que as teorias econômicas ortodoxas do “bem-estar” são
formas concretas de manifestação da visão de mundo conservadora,
mas também, e em grau idêntico de importância, revelar a inserção
histórico-social das concepções criticadas. Essa inserção histórico-
-social, deve-se ressaltar, explicaria a própria possibilidade de repro-
dução e aceitação das proposições da ciência econômica, a despeito
(ou por causa) de sua insuficiência explanatória.
A preocupação em compreender a relação entre as concepções
criticadas e as necessidades da reprodução social do capitalismo, em
suas diferentes configurações históricas, não tem o menor compro-
misso, como esperamos deixar claro, com as fracassadas tentativas,
típicas das vulgarizações do marxismo, de reduzir cada ideia singular
a um momento da realidade que supostamente o determinaria. No
lugar deste efetivo determinismo reducionista, admite-se simples-
mente que as ideias têm sempre por pressuposto coisas do mundo
– são ideias sobre estas coisas – e que são formadas em determina-
das condições sociais. Em outros termos, admite-se que as ideias são
parte da vida, de modo que a crítica das ideias não pode prescindir
da crítica das formas de vida. Se a reprodução de uma determinada
forma de vida exige a reprodução de fenômenos reconhecidamente
trágicos para os indivíduos que os experimentam direta ou indireta-
mente (as “mazelas” sociais), então esta mesma reprodução exigirá
também ideias que deem conta de sua ocorrência. É este o papel das
teorias do “bem-estar” social. É essa a razão de sua sustentação. É
isso que pretendemos demonstrar: que por serem formas de cons-
ciência compatíveis com as formas de vida do capital, por cumpri-
rem um requisito importante da reprodução capitalista, as teorias do
35

João Leonardo Medeiros


bem-estar são tão imprescindíveis para essa forma social quanto as
“mazelas” sociais que procuram diagnosticar e tratar.
Em suma, a ciência econômica tem-se ocupado há mais de um
século do verdadeiro horror econômico que marca o desenvolvimen-
to capitalista: a desigualdade, a pobreza, o desemprego, a incerte-
za sobre as condições de vida e trabalho, a “exclusão” social etc. O
que se pretende saber é até que ponto as próprias concepções desta
ciência, em lugar de simplesmente dar conta deste quadro trágico,
também não o compõem. Explicitada a questão, segue a resposta.
Parte I

A crítica de pressupostos como pressuposto da crítica:


em defesa da “crítica ontológica”

A ciência se desenvolve a partir da vida, e, na vida, quer sai-


bamos e queiramos ou não, somos obrigados a nos comportar
espontaneamente de modo ontológico. (György Lukács)

Referimo-nos na Introdução à recente predominância de corren-


tes antirrealistas na filosofia da ciência, em meio à qual foram criados
ou recuperados argumentos requintados para a desqualificação do
projeto de amparar cientificamente a construção social da realida-
de. Embora tal movimento ainda possua crédito e difusão notáveis,
talvez se possa afirmar que a análise das condições sociais necessá-
rias à ocorrência de uma virada pró-ontologia na filosofia da ciência
revela, neste início de século XXI, um cenário ligeiramente diferente
e muito mais favorável.1 Como prova da concretude dessa mudança
histórica – e refiro-me aqui exclusivamente aos aspectos teóricos en-
volvidos – um número respeitável de filósofos e cientistas tem, em
anos recentes, admitido explicitamente o rótulo “realista”, no senti-
do mais estrito da palavra: realista ontológico. Neste caso, argumen-
tos não menos sólidos têm sido formulados ou reapresentados para
opor a ideia de que considerações explicitamente ontológicas são
simplesmente impossíveis ou, no máximo, incompreensíveis. Tem-se
defendido, por exemplo, que toda e qualquer prática humana (inclu-
sive a ciência) pressupõe uma imagem de mundo (ontologia) e que
a negação da ontologia não apenas torna tais práticas incompreensí-
veis, como efetivamente bloqueia a crítica e favorece o conservado-
rismo político.

1 Isso não implica que uma tal virada ontológica possa ser concretizada nos dias
­atuais. Significa simplesmente que é possível manter a reputação intacta após desa-
fiar algumas das posições hegemônicas na filosofia da ciência. Até pouco tempo, a
audácia de questionar teses antirrealistas desencadeava quase que automaticamen-
te uma maré de acusações, recheada por diversos adjetivos, nem sempre criativos
e quase sempre injustos, como stalinista e démodé.
38
A crítica de pressupostos como pressuposto da crítica: em defesa da “crítica ontológica”

Esse recente recrudescimento das teorias realistas favorece indu-


bitavelmente o cumprimento de um dos principais objetivos desta
primeira parte do trabalho, que é o de defender uma ontologia que
confira inteligibilidade ao conhecimento científico, abrindo espaço
para a crítica teórica relevante (isto é, a exposição de uma ontologia
que sustente a crítica da ontologia dos outros). Apesar da aparente
distância em relação ao objetivo central do trabalho – submeter ao
escrutínio crítico as teorias econômicas ortodoxas do “bem-estar”
social –, o longo argumento que ocupa os próximos quatro capítulos
parece-nos indispensável por ao menos três motivos. Em primeiro
lugar, porque este estudo pretende questionar a base de pressupos-
tos (ético-filosóficos) que determina a forma insuficiente e inócua de
respectivamente conceber, mediante teorias econômicas do “bem-
-estar”, e enfrentar as mazelas sociais. Uma vez que as correntes
antirrealistas encaram princípios como questão de cunho privado
(individual ou, no máximo, “grupal”), a crítica de princípios externos
(dos “outros”) perde inteiramente o sentido. Reafirmar este sentido
torna-se, então, fundamental para alcançar o objetivo assumido.
Essa primeira justificativa adquire importância ainda maior ao se
reconhecer que os princípios aqui analisados delineiam uma inter-
pretação socialmente dominante da realidade social, de seus proble-
mas e das possibilidades concretas abertas ao agir humano: o que de-
nominamos ontologia ou visão de mundo conservadora. Reconhecer
como dominante o objeto de crítica reclama naturalmente uma expli-
cação para a própria viabilidade de tal dominância. É preciso descor-
tinar a racionalidade concreta, objetiva, para a ampla aceitação de
crenças parciais ou falsas que, no domínio da prática, desdobram-se
em ações insatisfatórias em seus próprios termos (isto é, políticas de
combate à pobreza que não combatem a pobreza, políticas de pro-
moção da igualdade incapazes de cumprir esse objetivo etc.).
No caso específico da hegemonia da visão de mundo conserva-
dora e das teorias econômicas nelas fundamentadas, é importante
compreender o porquê de sua contínua reprodução (há mais de um
século) a despeito de seus sucessivos e inevitáveis fracassos no pla-
no prático. Ou seja, é preciso dar conta não apenas da atual predo-
minância da versão científica do diagnóstico conservador da existên-
cia de mazelas sociais, mas também do fato de que esse diagnóstico
seja, em última análise, uma reformulação de uma interpretação que,
no confronto com a realidade, já se demonstrou por diversas vezes
39

João Leonardo Medeiros


equivocada. A pergunta pertinente, neste caso, é precisamente a se-
guinte: por que razão o fracasso das políticas conservadoras de com-
bate às mazelas sociais não conduz a um questionamento, mínimo
que seja, de seus princípios definidores, a naturalização do capital,
o atomismo social e o proferimento abstrato de valores emancipató-
rios? Ou, em sentido oposto, que características da realidade social
conferem àqueles pressupostos ontológicos a aura de legitimidade
inabalável que irradiam?
Por fim, a defesa da possibilidade da crítica ontológica é essencial
na medida em que a tradução de princípios em teorias econômicas
nem sempre é operada de forma consciente e, sendo consciente, nem
sempre se possui a clareza das consequências envolvidas. Tome-se,
por exemplo, o princípio do atomismo social, admitido de modo pra-
ticamente universal nos estudos econômicos (e não apenas entre os
ortodoxos). Esse princípio, como tentaremos demonstrar, está inti-
mamente associado à mais difundida das ontologias da sociedade,
a ontologia empírica, que, em suas versões mais consistentes e in-
ternamente coerentes, serve de suporte a uma desqualificação do
discurso científico dificilmente aceita pela maioria dos economistas.
Para explicitar e compreender contradições como essa, pretende-se
reforçar as alegações de absurdidade da ontologia empírica e ofere-
cer argumentos para contrapor as suas mais relevantes implicações:
o embargo à crítica científica e às práticas transformadoras.
Os capítulos que compõem essa Parte I do livro avançam progres-
sivamente na caracterização da visão de mundo conformada pelos
dois primeiros pressupostos acima indicados, o realismo empírico e
a naturalização do capital, e na sua crítica em todos os âmbitos pos-
síveis: ontológico, epistemológico, metodológico, além da indicação
de seus desdobramentos para a prática social. É preciso observar
que esses dois primeiros postulados já são suficientes para demarcar
a visão de mundo conservadora implícita nas teorias econômicas or-
todoxas em geral. O terceiro postulado é mais específico das teorias
econômicas do bem-estar social e, por essa razão, será submetido a
uma análise em separado na Parte II deste texto, até porque a sua
inspeção crítica exige um tratamento relativamente detalhado das
questões referentes à ética e à moral.
O Capítulo 2 a seguir concentra-se na defesa de uma concepção
ontológica que demonstra a total inadequação do pressuposto do
realismo empírico (cuja expressão no campo social é o atomismo)
40
A crítica de pressupostos como pressuposto da crítica: em defesa da “crítica ontológica”

enquanto representação da realidade social e natural. Essa concep-


ção ontológica procura particularmente defender duas teses: que
existe um domínio especificamente social do mundo, em parte inde-
pendente da percepção humana (ou seja, que a sociedade existe e é
estruturada); e que a sociedade não é o coletivo de atos humanos,
mas não existe em sua ausência. Parece claro que, tomadas em con-
junto, as duas teses significam que não é possível reduzir a realidade
social à soma de indivíduos e/ou de suas ações, como propõe a con-
cepção empirista do mundo social.
No Capítulo 4, um expediente crítico de mesma natureza que o
adotado para enfrentar o realismo empírico é empregado para atacar
o postulado da naturalização do capital. Isto é, são defendidas deter-
minadas teses ontológicas que conformam uma imagem da socieda-
de incompatível com a ideia de que o desenvolvimento social possa
ter na forma capitalista (ou em qualquer outra) um ponto final. As
teses defendidas, neste caso, podem ser apresentadas sucintamente
da seguinte forma: a proposição de que o mundo social é mais bem
representado pela noção de totalidade; e que a sociedade é marca-
da pela história. Admitindo essas teses, pode-se aceitar sem maiores
controvérsias a conclusão de que, se a realidade social articula-se or-
ganicamente como um objeto histórico, o postulado da naturalização
do capital é equivocado.
Os Capítulos 3 e 5 são breves digressões sobre o conhecimento
da realidade social; a primeira mais interessada no conhecimento em
geral e a segunda dedicada exclusivamente ao conhecimento cientí-
fico. Essas digressões têm por objetivo, em primeiro lugar, amparar
por argumento teórico o expediente crítico adotado, que depende
decisivamente da noção de que a sociedade pode e deve ser conheci-
da, inclusive cientificamente. Além disso, a análise do conhecimento
permite enfatizar a limitação da perspectiva conservadora pela críti-
ca aos desdobramentos epistemológicos dos postulados ontológicos
do atomismo social e da naturalização do capital. No primeiro caso,
o corolário epistemológico é o individualismo metodológico, que su-
põe que o ponto de partida correto da análise social é a compreensão
do agir humano. Já a naturalização do capital desdobra-se numa no-
ção epistemológica que denominamos presentismo: a ideia de que o
limite último da análise teórica é a forma social presente.
1. Reafirmando o caráter objetivo e estruturado
da sociedade: contra o atomismo social1

Por mais estranho que possa parecer, o primeiro passo da defe-


sa da crítica dos pressupostos de uma concepção científica – a crí-
tica ontológica –, cujas características gerais foram delineadas no
capítulo introdutório, é a demonstração da objetividade do mundo,
da existência em si mesma da realidade. Uma brevíssima remissão
a algumas proposições-chave do pensamento antirrealista, por um
lado, e à própria análise da pobreza, por outro, permite esclarecer
a necessidade deste passo preparatório. Imaginemos inicialmente,
seguindo a premissa básica da filosofia antiontológica, que não seja
possível um acesso cognitivo às estruturas do mundo. Ou seja, con-
sideremos que nossas representações ou crenças, por serem sempre
expressas mediante textos (linguagem), são identicamente precárias
e incapazes de representar a realidade tal como ela é (independente
da linguagem).
Admitamos, ainda, na mesma linha de raciocínio, que as represen-
tações do mundo são determinadas por nossa experiência sensorial,
por definição idiossincrática ou relativa a um contexto sociocultu-
ral compartilhado por um determinado grupo social. Sendo essas as
condições em que os seres humanos, mediante o pensamento, inte-
ragem com a realidade – sempre, portando uma sua imagem falsa (ou
verdadeira, tanto faz) –, então não há a priori metro ou denominador
comum que permita contrastar imagens de mundo efetivamente dife-
rentes. Afinal de contas, reconhecer imagens de mundo como distin-
tas, nesta perspectiva, significa precisamente considerar que foram
construídas a partir de experiências e contextos incomparáveis e
intraduzíveis.

1 Como sugerido pelo título, a principal preocupação deste trabalho é com a ontolo-
gia da sociedade, embora seja proveitoso, algumas vezes, trazer à discussão aspec-
tos relativos à ontologia em geral, de forma a dar a devida ênfase a uma ou outra
questão.
42
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

Se, no entanto, nossas concepções são todas necessariamente


falsas, pode-se questionar: qual, entre as imagens de mundo à dispo-
sição, poderia e deveria funcionar como recurso último na tomada
de ação, principalmente quando se trata de ações com forte reper-
cussão social (ações sobre outros)? Ou, ainda, que imagem de mun-
do poderia ser considerada científica ou superior do ponto de vista
explanatório? Por que não o nazifascismo ou as proposições racistas
e sexistas em geral? As concepções mitológicas ou religiosas? Para o
celebrado filósofo neopragmático Richard Rorty, a resposta a essas
questões passaria pela capacidade de uma crença de persuadir as
pessoas de sua adequação, motivando-as a agir com base nela. Em
suas palavras:

[os pragmatistas] encaram a verdade como, seguindo a má-


xima de William James, aquilo que é bom para nós acreditar.
Por esta razão, não precisam dar conta de uma relação entre
as crenças e os objetos denominada “correspondência”, nem
de uma concepção das habilidades cognitivas humanas que
asseguram que nossa espécie é capaz de entrar em tal relação.
Para os pragmatistas [...] o “conhecimento” é, como a “verda-
de”, simplesmente um elogio às crenças que nós acreditamos
ser tão bem justificadas que, por ora, não precisam de qual-
quer outra justificação. Uma investigação sobre a natureza do
conhecimento pode, desde esse ponto de vista, ser somente
uma análise sócio-histórica da forma como várias pessoas ten-
taram chegar a um acordo sobre o que acreditar. (RORTY, 1991,
p. 22, 24)

Considere-se agora a palavra do Banco Mundial (2005) a respei-


to das estratégias presumidamente necessárias para pôr em ação o
“ataque à pobreza” planejado pelo próprio Banco e por outras orga-
nizações internacionais no último quarto de século.2 O ponto crucial
dessa estratégia seria a constituição, via Estado, de um ambiente ins-
titucional que facilitasse e promovesse o investimento privado – que
2 No caso do Banco Mundial, a preocupação da pobreza tem sido indubitavelmen-
te o tema mais recorrente de seus trabalhos, como comprovam, por exemplo, os
relatórios anuais (denominados “Relatórios sobre o Desenvolvimento Mundial”)
produzidos pela instituição, desde 1979, com o propósito de orientar os países no
sentido da redução da pobreza e promoção do desenvolvimento. No Capítulo 15, uti-
lizaremos largamente o relatório 2001, no qual são revisados diagnósticos e terapias
sugeridos pelo Banco neste último quarto de século.
43

João Leonardo Medeiros


proporcionasse um “clima de investimento”, nos termos do Banco.
Seguindo o raciocínio, o investimento seria capaz de reduzir a po-
breza de duas maneiras: indiretamente, por seu impacto no cresci-
mento econômico e no nível de emprego, e diretamente, ao melhorar
a vida dos pobres em sua condição de empregados, “empreendedo-
res”, consumidores, usuários de serviços públicos e contribuintes
(BANCO MUNDIAL, 2005, p. 3). Os Estados deveriam, portanto, criar
um ambiente propício à ampliação do lucro, que pudesse induzir in-
vestidores a ampliar a capacidade produtiva e, supostamente, incre-
mentar não apenas a renda agregada, mas também o emprego e a
escassa renda dos pobres.
São inúmeros os pontos da agenda de políticas sugerida pelo
Banco Mundial para incentivar o lucro privado, criar o tal “clima de
investimentos” e, assim, “atacar a pobreza”. Medidas diversas, em
todos os campos da realidade socioeconômica, são delineadas: refor-
mas políticas, mudanças nos padrões de financiamento e gastos do
Estado, criação de “aparatos regulatórios”, entre outras. Não é difícil,
todavia, reconhecer nas medidas que compõem a longa agenda pro-
gramática sugerida pelo Banco a aberta inspiração na cadeia de ar-
gumentos típica da versão ortodoxa do funcionamento da economia
(que pretendemos caracterizar mais detalhadamente no decorrer do
trabalho). Essa conhecida versão assenta-se, basicamente, sobre o
postulado de que o sucesso do capital em sua busca incessante por
lucros produz por necessidade uma melhora nas condições de vida
da população em geral, inclusive daquelas “camadas mais baixas do
povo” de que falava Adam Smith.3 Com base nessa premissa, o Banco
sugere, por um lado, toda sorte de incentivos ao capital e, por outro,
sacrifícios à classe trabalhadora, que reconhece serem duros, mas
(acredita-se) temporários.4

3 Na passagem a seguir, por exemplo, Smith relata os presumidos benefícios univer-


sais da divisão do trabalho: “É a grande multiplicação das produções de todos os
diversos ofícios – multiplicação essa decorrente da divisão do trabalho – que gera,
em uma sociedade bem dirigida, aquela riqueza universal que se estende até as
camadas mais baixas do povo.” (SMITH, 1985, p. 45).
4 A preocupação com a questão da igualdade surge, neste contexto, tanto por seus
supostos efeitos sobre a lucratividade, quanto pelos riscos sociais e políticos en-
volvidos em situações de desigualdade intensa: “Maior desigualdade está associada
a menor coesão social, direitos de propriedade mais inseguros e maior risco de
significativa sublevação política. A desigualdade, portanto, pode ter implicações im-
portantes para o perfil e a natureza dos incrementos no clima de investimento, para
a credibilidade das mudanças políticas e, então, para o impacto nas decisões das
firmas.” (BANCO MUNDIAL, 2005, p. 32).
44
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

De um lado, então, liberdade e subvenção ao capital:

Pequenas barreiras à difusão de novas idéias, incluindo bar-


reiras à importação de equipamento moderno e ajustamentos
na maneira como o trabalho é organizado. E um ambiente que
incentiva o processo competitivo que Joseph Schumpeter de-
nominou “destruição criativa” – um ambiente no qual as firmas
têm oportunidades de testar suas idéias, lutar por sucesso e
prosperar ou falhar. (BANCO MUNDIAL, p. 2 e 3)
Os governos podem ir além do básico na produção de um bom
clima de investimento e conferir privilégios políticos especiais
a firmas ou atividades particulares ou empregar o conjunto
crescente de regras e padrões internacionais para lidar com
questões de clima de investimento. (Ibid., p. 157)

De outro lado, o seguinte tratamento é dispensado aos tra­balha­dores:

Muitos governos fixam pisos salariais numa tentativa de redu-


zir o número de trabalhadores pobres, mas estabelecer pisos
muito altos [sic] pode reduzir a disponibilidade de trabalhos
para trabalhadores pouco qualificados e as oportunidades de
as firmas low-tech emergirem ao setor formal. (Ibid., p. 142)
A regulação do mercado de trabalho visa usualmente ajudar
[sic] os trabalhadores. Mas abordagens mal concebidas po-
dem desencorajar firmas a criar mais empregos e contribuir
para a ampliação da força de trabalho informal, desprovida de
proteção estatutária. Quando este é o caso, alguns trabalhado-
res podem se beneficiar [sic], mas os desempregados, os pou-
co qualificados e aqueles da economia informal não estarão en-
tre eles. [...] Um bom clima de investimento facilita a alocação
do trabalho no uso mais produtivo e ajuda aos trabalhadores a
lidar com a mobilidade do trabalho. (Ibid., p. 141 e 142)
Seguindo este modelo [dos países desenvolvidos], a maio-
ria dos países em transição [sic] introduziram esquemas de
seguros-desemprego até o início dos anos 90. [...] Os nítidos
ganhos para os trabalhadores afetados pelas perdas de empre-
go precisam ser pesados contra os custos destes esquemas,
incluindo o seu impacto sobre a eficiência econômica [i.e., so-
bre a laboriosidade da população]. Tanto os custos quanto o
45

João Leonardo Medeiros


impacto [sobre a eficiência] dependem em grande medida da
habilidade de monitorar as exigências de elegibilidade para mi-
nimizar o moral harzard e assegurar que os trabalhadores te-
nham incentivos a procurar ativamente um novo emprego. [...]
Mesmo quando os países possuem capacidade administrativa
[i.e. recursos], os benefícios do seguro-desemprego devem
prover apenas uma fração do salário prévio – e devem ser de
curta duração – para prover incentivos para que os beneficiá-
rios procurem um novo emprego. (Ibid., p. 154)

Se as crenças são sempre falsas e, ademais, contextualizadas e


relativas, como opor um manifesto tão nitidamente pró-capital?
Dificilmente se poderia questionar o caráter socialmente dominante
das proposições do Banco Mundial, uma das instituições de maior
credibilidade e penetração no festejado mundo “globalizado”. Trata-
se indubitavelmente de concepções socialmente legítimas, para não
dizer hegemônicas. Como, então, denunciar a disparidade entre o
apoio ostensivo e virtualmente ilimitado às empresas, celebradas e
acalentadas por gerar empregos (cada vez mais escassos), e as acu-
sações e restrições relegadas à classe trabalhadora? Pisos salariais
são onerosos, subsídios ao capital não. Seguros-desemprego afetam
a “laboriosidade” dos pobres, os impedem de assumir os riscos que
se pretende poupar ao capital com a criação de um “clima” ideal para
os negócios. Trabalhadores do setor formal são retratados como
privilegiados diante de pobres e desempregados, no mesmo espa-
ço em que empresas são caracterizadas como receptoras naturais
de benefícios, incentivos, merecedoras de um “clima” saudável de
investimento.
Como, enfim, conceber e atacar uma leitura tão patentemente
parcial da realidade social? Mais do que isso, como fazê-lo sem re-
ceber em troca a acusação de não compreender, em seus próprios
termos, textos produzidos em contextos diferentes? Ou de ser inca-
paz de produzir uma retórica tão convincente? A única alternativa
para escapar da camisa de força relativista parece ser efetivamente
recusar os termos do debate mediante a reafirmação da objetividade
do conhecimento, de sua capacidade de representar o mundo. Ao se
restabelecer o mundo como metro de aferição da qualidade das pro-
posições e crenças, torna-se possível tanto demonstrar a falsidade
de concepções oficiais, revestidas da chancela do discurso científico,
46
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

como compreender por que tais concepções adquirem um estatuto


privilegiado, a despeito (ou em função) de sua inteira falsidade. Em
outras palavras, pode-se não apenas argumentar que proposições
são falsas, mas que concepções falsas são reproduzidas porque de-
terminadas características da realidade social lhes conferem sentido,
ao torná-las socialmente necessárias à própria reprodução social.
A crítica aos pressupostos admitidos pelas concepções científicas
requer, dessa maneira, dois passos subsequentes e indispensáveis: a
defesa da objetividade do mundo (isto é, de sua existência indepen-
dente de nossas concepções e representações) e a defesa da pos-
sibilidade de representar a realidade mais ou menos acuradamente
por textos. Com a definição dessas tarefas básicas, pode-se, enfim,
concluir as notas introdutórias, tornando mais nítida a relação entre
este argumento, em nível de abstração elevado, e as concepções aqui
analisadas. Em particular, é preciso chamar a atenção para o vínculo
entre a defesa da existência em si do mundo e a crítica ao pressu-
posto do atomismo social. Esse vínculo deve-se ao fato de que o ato-
mismo social, como se argumentará posteriormente, traz subjacente
uma noção (ontológica) de que a realidade é idêntica às impressões
colhidas pelos sentidos humanos (o que se denomina usualmente
“realismo empírico”).
Na ontologia do realismo empírico, em uma primeira aproxima-
ção, o mundo é descrito essencialmente como um espaço “plano” de
fatos percebidos pela experiência sensível. Isto significa que, para
essa concepção, o mundo é exaurido pelos eventos empíricos. Uma
vez que a defesa da natureza objetiva da realidade é sinônimo da
defesa de sua existência independente do sujeito cognoscente (e,
obviamente, de sua experiência), a conclusão de tal demonstração
é a de que o mundo compreende não apenas o domínio dos fatos
colhidos pela experiência (empírico), mas também um domínio que
independe dessa última categoria (“estrutural”). Em suma, a defesa
da objetividade do mundo envolve o delineamento de algumas de
suas características que, embora bastante gerais, são suficientes
para caracterizar a inadequação da concepção atomista enquanto
representação da realidade.
Para apresentar organizadamente cada passo dessa demonstra-
ção, o capítulo divide-se em três seções. A primeira trata especifi-
camente da defesa do caráter “em si” da realidade social. A seção
seguinte procura aprofundar a análise da natureza estruturada da
47

João Leonardo Medeiros


sociedade, caracterizando a relação entre as estruturas sociais e o
agir humano. A terceira e última seção contém uma crítica ao atomis-
mo social.

1.1. Em defesa do caráter objetivo da realidade:


o mundo não é produto de nossa imaginação

O imperativo de demonstrar a existência concreta dos chamados


objetos “transempíricos” – existentes em si mesmos independente-
mente do fato de que nós os percebamos ou não – envolve, por de-
finição, determinações e âmbitos distintos da prova da realidade de
objetos empíricos – percebidos pelos seres humanos. Quando se tra-
ta de defender a realidade objetiva dos fenômenos percebidos (empí-
ricos), o interesse recai naturalmente sobre a demonstração de sua
exterioridade e autonomia relativa com relação aos sujeitos porta-
dores das sensações. Isso poderia ser obtido mediante inspeção da
maneira pela qual os seres humanos capturam a realidade pelos sen-
tidos (análise da percepção).5 Quando, ao contrário, os objetos não
são de tipo factual ou empírico, mas de tipo estrutural (linguagem,
sistema bancário, sistema de classes sociais, mecanismo de merca-
do, religião etc.), a análise da percepção ou o recurso à categoria
da experiência pouco contribui. A prova da existência real de tais
estruturas pode ser alternativamente obtida mediante a aplicação do
critério causal, assim definido:

O critério causal volta-se para a capacidade da entidade cuja


existência está em causa de produzir mudanças em coisas ma-
teriais. Perceba que o campo gravitacional, ou o magnético,
satisfaz esse critério, mas não o critério da perceptibilidade.
No critério causal, ser não é ser percebido, mas (em última
instância) ser capaz de realizar. (BHASKAR, 1979, p. 15 e 16)

O critério causal funciona, portanto, como análogo da análise da


percepção ao estabelecer que entidades reais não fenomênicas po-
dem ser identificadas pelos fenômenos que causam ou influenciam.
Para demonstrar a existência de estruturas sociais, Bhaskar aplica
com sucesso este critério à atividade humana. Não parece ser difí-
cil compreender o porquê da escolha dessa categoria. A existência
5 Uma interessante análise da percepção encontra-se em Bhaskar (1997, p. 31 e 32).
48
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

de um domínio “transfactual” da sociedade pressupõe a indicação da


peculiaridade ontológica desta forma de ser (isto é, a distinção dos
“objetos” da sociedade com relação aos da natureza). Nesse particu-
lar, parece ser aceito sem grandes controvérsias que a peculiaridade
do que é dito social, em comparação com os domínios orgânico e
inorgânico da realidade, deve-se, no plano geral, a sua dependência
em relação à atividade humana.6
Para aplicar o critério causal à categoria do agir humano, Bhaskar
(1979) assume como ponto de partida a consideração (segundo o
autor, inspirada em Durkheim) de que toda ação humana singular
pressupõe determinadas condições. Por exemplo, todo ato de fala
pressupõe a existência da linguagem, todo cheque pressupõe a exis-
tência do sistema bancário, toda greve pressupõe a existência do sis-
tema de classes sociais, toda mercadoria pressupõe a existência do
mercado, todo pecado pressupõe a existência da religião. Ademais,
as condições da atividade humana são antecedentes à própria ativi-
dade, no sentido de que os seres humanos se deparam com as estru-
turas sociais como objetos imediatamente dados – como se diz no
jargão, as estruturas “já estão prontas ao nascer”. A anterioridade de
estruturas sociais em relação ao indivíduo, por seu turno, “implica a
sua existência fora dele mesmo” (BHASKAR, 1979, p. 42).
Em suma, a existência de estruturas além da percepção humana
pode ser prontamente demonstrada por intermédio de duas propo-
sições bastante simples e intuitivas: primeiro, a atividade humana
requer necessariamente condições e, segundo, essas condições –
como condições – são anteriores aos próprios atos.7 Considere um
dos exemplos oferecidos acima: seria impossível comunicar men-
sagens caso não preexistissem estruturas linguísticas. Se tais estru-
turas preexistem ao indivíduo falante, então elas devem ser neces-
sariamente externas e relativamente autônomas com referência ao
próprio indivíduo.
6 Por outro lado, o reconhecimento deste primeiríssimo aspecto distintivo da realida-
de social permite estabelecer a centralidade ontológica e epistemológica da catego-
ria do agir humano. No registro do economista inglês Tony Lawson: “[Se] ‘depender
do agir humano’ puder ser admitido como o critério para considerar fenômenos
como sociais, então a atividade humana intencional, junto à capacidade de realizar
escolhas, que lhe é analiticamente subjacente, provê uma premissa conveniente,
amplamente aceita, para iniciar nossa pesquisa a respeito da possibilidade da ciên-
cia social.” (LAWSON, 1997, p. 56).
7 “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem
sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam direta-
mente, legadas e transmitidas pelo passado.” (MARX, 1997, p. 21).
49

João Leonardo Medeiros


Esclarecendo o último ponto, as estruturas sociais são relativa-
mente autônomas em relação ao agir humano já que elas não podem
ser um resultado intencional, teleológico, um produto, enfim, dos
atos individuais: “se a sociedade sempre já está feita, então qualquer
práxis humana concreta [...] pode apenas modificá-la; e a totalida-
de de tais atos a mantém ou a modifica”. Mesmo considerando que
as estruturas sociais não sejam um produto dos atos individuais, é
preciso atenção ao fato de que elas não podem ser independentes
da atividade humana em geral – se algumas das condições dos atos
humanos são de fato sociais. Sinteticamente: “A sociedade está para
os indivíduos, então, como algo que eles nunca fazem, mas que existe
apenas em virtude de sua atividade” (BHASKAR, 1979).
O detalhamento da intrigante relação entre atividade humana e
sociedade será realizado na seção seguinte, que procura evidenciar
características decisivas da realidade social. Para reforçar os primei-
ros passos do argumento aqui desenvolvido, convém encerrar esta
primeira seção oferecendo a descrição de Lawson da prova da reali-
dade das estruturas sociais:

O objetivo [...] é demonstrar que, não fosse pela sociedade, ou


pelo menos por várias estruturas sociais, algumas condições fí-
sicas, incluindo ações, não poderiam ocorrer. Na medida em que
isso se mostre possível, estamos justificados a admitir tais estru-
turas como reais. E [...] isso é facilmente obtido. Atividades huma-
nas (intencionais) como falar, escrever, dirigir em rodovias públi-
cas, descontar cheques, jogar e dar aulas seriam impossíveis sem
regras de linguagem, códigos viários, sistemas bancários, regras
do jogo e relações professor-aluno. Os últimos são, todos, estrutu-
ras que pré-existem a, e fazem diferença na (restringem e facultam
a) ocorrência de todo tipo de atividades. A pré-existência estabe-
lece sua autonomia e o fazer a diferença estabelece sua realidade.
(LAWSON, 1997, p. 57 e 58)

1.2. Estruturas sociais e agir humano:


sustentando o caráter estruturado da realidade social

Como se argumentou há pouco, a realidade insofismável da ati-


vidade humana implica a existência de objetos sociais (de natureza
50
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

estrutural) antecedentes ao próprio agir dos indivíduos singulares


e, portanto, “externos” a eles. Indicou-se, ainda, en passant, a pecu-
liar relação existente entre agir humano e as estruturas sociais. Por
um lado, as estruturas não podem, como precondições da atividade
humana, ser criadas diretamente por ela. Por outro, as estruturas so-
ciais não podem, como objetos sociais, ser totalmente independentes
da atividade humana. O ponto a se defender nesta seção, e assim
estabelecer as bases ontológicas para cumprir o objetivo central do
capítulo, é o de que a aparente contradição entre as duas afirmativas
anteriores encerra, na realidade, os termos de uma relação dialética
entre o agir humano e as estruturas sociais.
Para desvendar a forma de relacionamento entre essas duas ca-
tegorias é preciso assumir como ponto de partida a análise da pri-
meira, o agir humano. Em particular, é fundamental reconhecer que
as mais distintas formas de prática humana (a política, a ciência, as
artes etc.) possuem o trabalho como protótipo. Tal reconhecimen-
to pressupõe, por seu turno, uma noção genérica de trabalho, que
funcione como forma universal das modalidades particulares de
trabalho historicamente observadas (o trabalho escravo, o assala-
riamento etc.). Entende-se por trabalho, nesta acepção, o processo
pelo qual os seres humanos colocam a natureza sob seu controle, de
maneira a criar as condições necessárias para a continuação de sua
própria existência. Tal acepção é caracterizada por Marx na seguinte
passagem:

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam


o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com
sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâm-
bio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como
uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de
seu corpo – braços e pernas, cabeça e mãos –, a fim de apro-
priar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil
à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e mo-
dificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza.
Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao
seu domínio o jogo das forças naturais. (MARX, 1998, p. 211)

Em função das longas (e usualmente infrutíferas) polêmicas em


torno da centralidade da categoria trabalho, é preciso esclarecer que
51

João Leonardo Medeiros


o reconhecimento do trabalho como protótipo da atividade humana
não resulta de nenhuma suposição a priori. Resulta, ao contrário, da
descoberta teórica de um fato ontológico decisivo, precisamente a
centralidade dessa categoria na emergência de um mundo especifica-
mente humano (o “ser social”). O trabalho é a atividade que cria a es-
pécie humana e que, como diz Marx na passagem acima, desenvolve
as “potencialidades nela adormecidas”. Em outros termos, o trabalho
adquire um caráter central no ser social por ser a categoria que o faz
emergir do ser biológico e tornar-se cada vez mais especificamente
social no curso da história.
Não é, de fato, preciso ser especialista em filogenética para per-
ceber que o trabalho “inverte” a lógica central do processo evolu-
tivo, conferindo ao desenvolvimento da espécie humana a sua pe-
culiaridade em relação ao desenvolvimento meramente biológico. A
evolução biológica, como se sabe, caracteriza-se pela adaptação das
espécies ao ambiente. Somente a espécie humana, por intermédio
do trabalho, molda contínua e intencionalmente o ambiente às suas
necessidades. Essa é a razão pela qual, no caso dos seres humanos,
a história substitui a evolução biológica como o registro objetivo da
adaptação da espécie à realidade circundante. Observe-se que o de-
senvolvimento do ser humano é narrado a partir das mudanças do
ambiente (história) e não do próprio ser, como na biologia (evolu-
ção). Fica patente, assim, que o trabalho é não apenas a primeira
relação social (a primeira prática exclusivamente humana), mas tam-
bém a base que sedimenta o terreno sobre o qual se desenvolvem as
outras formas de prática.
Enfim, o trabalho pode ser tomado como modelo na teoria porque
antes servira de forma originária das práticas humanas no processo
histórico de desenvolvimento social.8 Por ser o trabalho fundamento
e modelo geral do agir humano, faculta-nos sua inspeção o reconhe-
cimento de três aspectos característicos de toda prática.
Em primeiro lugar, a inspeção do trabalho revela que comporta-
mento especificamente humano é comportamento intencional: prá-
xis com propósito predeterminado. Mais detidamente, a capacidade
8 “As formas de objetividade do ser social se desenvolvem à medida que surge e se
explicita a práxis social a partir do ser natural, tornando-se cada vez mais claramen-
te sociais. Esse desenvolvimento, porém, é um processo dialético, que começa com
um salto, com o pôr teleológico do trabalho, não podendo ter qualquer analogia na
natureza. O fato de que esse processo, na realidade, seja bastante longo, com inú-
meras formas intermediárias, não anula a existência do salto ontológico. Com o ato
da posição teleológica do trabalho, temos em-si o ser social.” (LUKÁCS, 1979, p. 17).
52
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

de projetar o resultado de uma determinada prática e monitorar sua


execução distingue o agir humano do comportamento biológico,
guiado essencialmente pelos instintos.9 A transformação de um re-
sultado ideal (uma cadeira planejada) num resultado concreto (uma
cadeira real, exatamente como a planejada) é usualmente denomina-
da pôr teleológico do trabalho, processo de trabalho ou, simplesmente,
trabalho. O caráter teleológico desse processo, mediante o qual ocor-
re a objetivação de um produto ideal, é descrito por Marx em uma
passagem bastante conhecida de O Capital:

Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana.


Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a
abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia.
Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele
figura na mente sua construção antes de transformá-la em rea-
lidade. No final do processo de trabalho aparece um resultado
que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador.
Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele
imprime o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual
constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual
tem de subordinar sua vontade. (MARX, 1998, p. 211 e 212)

Em segundo lugar, o trabalho não pode se realizar a partir de nada,


com nada e sobre nada. Trabalhar significa trabalhar sobre e com de-
terminadas causas materiais (no sentido aristotélico da expressão),
transformando-as de modo a atingir uma finalidade preestabelecida.10
9 De acordo com Bhaskar: “A ação humana é caracterizada pelo notável fenômeno da
intencionalidade. Tal fenômeno parece depender da característica de que as pes­
soas são coisas materiais dotadas de um certo grau de complexidade neurofisioló-
gica que as possibilita, como os demais animais superiores, não apenas iniciar mu-
danças de maneira intencional, monitorar e controlar suas atuações, mas também
monitorar a monitoração de tais atuações e serem capazes de comentá-las. Esta
capacidade para monitoração de segunda ordem torna possível também um comen-
tário retrospectivo sobre as ações, o que confere um estatuto especial à explicação
da pessoa sobre seu próprio comportamento, fato que é reconhecido na melhor
prática de todas as ciências psicológicas.” (BHASKAR, 1979, p. 44).
10 “Longe de ser verdade que ‘do nada’ eu me torno, por exemplo, um ‘orador’, o nada
que forma a base aqui é algo constituído por múltiplos elementos, o indivíduo real,
seus órgãos de fala, um determinado estágio do desenvolvimento físico, uma lingua-
gem e um dialeto existentes, ouvidos capazes de ouvir e um ambiente humano do
qual provenha algo para ser ouvido etc. etc., de tal forma que, no desenvolvimento
da propriedade, algo é criado por algo a partir de algo e, de forma nenhuma, algo
aparece, como na lógica de Hegel, do nada, através de nada, para nada.” (MARX;
ENGELS, 1975, p. 150).
53

João Leonardo Medeiros


Exatamente neste ponto, o caráter ontologicamente prototípico do es-
tudo torna-se mais evidente. Na concepção do Realismo Crítico, para
utilizar uma formulação hoje relativamente difundida, a atividade hu-
mana é descrita em termos do “modelo transformacional”, no qual

[...] o paradigma é o escultor trabalhando, dando forma a um


produto a partir do material e com as ferramentas disponíveis.
[...] O modelo se aplica tanto a práticas discursivas como a
não-discursivas; à ciência e política, bem como à tecnologia
e economia. Assim, na ciência, as matérias-primas utilizadas
na construção de novas teorias incluem os resultados reco-
nhecidos e idéias semi-esquecidas, o estoque de paradigmas
e modelos disponíveis, métodos e técnicas de pesquisa, de tal
forma que, retrospectivamente considerado, o inovador cientí-
fico chega a parecer um tipo de bricoleur cognitivo. (BHASKAR,
1979, p. 43)

O terceiro aspecto distintivo da atividade humana pode ser obti-


do a partir da descrição do trabalho como um processo no qual seres
humanos se apropriam de determinados objetos para produzir um
resultado predeterminado mentalmente. Aceitando esta descrição,
não é difícil compreender que a escolha alternativa seja elemento
intrínseco do processo de trabalho, reconhecível em todos os seus
componentes.11 Por essa razão, ao lado das caracterizações previa-
mente apresentadas, a atividade humana pode ser agora descrita
como escolhas de múltiplas alternativas. Estão aí envolvidas: (1) uma
escolha entre várias finalidades possíveis (fazer isto em vez daqui-
lo); (2) uma escolha entre diferentes causas materiais adequadas a
tal finalidade (fazer com e sobre determinados objetos, em vez de
qualquer outra combinação factível); (3) uma escolha entre diferen-
tes possibilidades de produzir o resultado preestabelecido com as
causas materiais selecionadas (fazer de uma determinada forma e
não de outra).
Com essa exposição dos aspectos distintivos do agir humano,
pode-se partir para uma análise mais detalhada da relação existen-
te entre o agir humano, individualizado, e a sociedade. Foi afirma-
do na primeira seção que a sociedade não pode ser criada pelo agir

11 No
Capítulo 6, veremos que esse caráter alternativo tem importância decisiva na
demonstração do caráter objetivo da ética, dos valores humanos em geral.
54
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

humano individual. Acrescentou-se agora que o agir humano é um


processo no qual causas materiais são transformadas de maneira a
que resultados previamente projetados apareçam. Pode-se, finalmen-
te, apontar que, entre as causas materiais que facultam e restringem
o agir humano, estão incluídas as estruturas sociais, que nada mais
são do que objetos sociais que estabelecem as condições para a ativi-
dade intencional dos indivíduos. Cada agir alternativo produz efeitos
sobre essas estruturas, alguns dos quais inconscientes e não percebi-
dos, que podem retroagir sobre a prática subsequente precisamente
por serem as estruturas sociais condições do agir individual.
É, portanto, restringindo e facultando os atos humanos que a so-
ciedade atua sobre a consecução das posições teleológicas, condi-
cionando-as. Condicionamento não significa determinação e, dessa
forma, o correto é afirmar que as estruturas sociais impõem limites
e estabelecem as possibilidades abertas ao agir humano: “As regras
de gramática, como estruturas naturais, impõem limites aos atos
da fala que nós podemos realizar, mas não determinam nossas per-
formances.” (BHASKAR, 1979, p. 45). A maneira como as estruturas
sociais condicionam as práticas individuais é, portanto, compatível
com o seu caráter alternativo, com a realidade da escolha humana,
o que parece ser suficiente para deixar para trás qualquer forma de
determinismo.
Os efeitos do agir humano sobre as estruturas sociais, por sua
vez, ultrapassam o resultado esperado que motiva cada ato singular.
Isso se deve ao fato de que os indivíduos não existem jamais como
indivíduos singulares, mas como indivíduos em relação a outros indi-
víduos e às próprias relações. Assim sendo, os efeitos de cada ato hu-
mano, mesmo que motivado pelas mais profundas razões individuais,
adquirem um significado mais amplo quando analisados em termos
da rede de relações e estruturas sociais. Descrevendo a forma pela
qual as estruturas sociais resultam da atividade humana, Bhaskar es-
tabeleceu com propriedade a distinção entre causalidade intencional
consciente e os efeitos sociais inconscientes e/ou não planejados:

[...] as pessoas, em sua atividade consciente, na maior parte


das vezes reproduzem inconscientemente (e ocasionalmen-
te transformam) as estruturas que governam suas atividades
substantivas de produção. Portanto, as pessoas não se casam
para reproduzir a família nuclear ou trabalham para manter a
55

João Leonardo Medeiros


economia capitalista. Não obstante, esta é a conseqüência não-
-intencional (e resultado inexorável) de, bem como uma con-
dição necessária para, sua atividade. (BHASKAR, 1979, p. 44)

Há, enfim, uma diferença ontológica e categorial marcante entre “a


gênese das ações humanas”, que remonta à atividade intencional dos
sujeitos singulares, e as “estruturas que governam a reprodução e a
transformação das atividades sociais”.12 (BHASKAR, 1979, p. 44 e 45).
Além do mais, como já indicado, mudanças nas estruturas sociais po-
dem retroagir sobre os próprios indivíduos, influenciando, assim, es-
colhas futuras entre (novas) alternativas. Na formulação de Lukács:

[...] todo ato singular alternativo contém em si uma série de


determinações sociais gerais que, depois da ação que delas
decorre, têm efeitos ulteriores (independentes das intenções
conscientes), ou seja, produzem outras alternativas de es-
trutura análoga e fazem surgir séries causais cuja legalidade
termina por ir além das intenções contidas nas alternativas.
Portanto, as legalidades objetivas do ser social são indissolu-
velmente ligadas a atos individuais de caráter alternativo, mas
possuem ao mesmo tempo uma coercitividade social que é in-
dependente de tais atos. (LUKÁCS, 1979, p. 84)

Em suma, os atos intencionais dos indivíduos se entrelaçam no


processo dinâmico de produção e reprodução das estruturas sociais.
Neste sentido, não é incorreto afirmar que as estruturas sociais re-
sultam da atividade humana; ao contrário, isso é o que prova sua
natureza especificamente social. No entanto, uma vez que os agires
humanos singulares são incapazes de produzir causalmente as es-
truturas sociais (de fazê-las surgir intencionalmente a partir de atos
individuais isolados), é um erro considerar que as estruturas sociais
são produzidas pela atividade humana. E tais estruturas constituem,

12 Essadistinção, ainda de acordo com Bhaskar, está por detrás da diferenciação do


objeto das ciências sociais em relação às psicológicas. Vale a pena reproduzir aqui
o comentário de Lukács à famosa passagem de Marx citada na nota 7: “quando as
relações econômicas são compreendidas em sua totalidade dinâmica e concreta,
torna-se evidente, a cada passo, que os homens fazem certamente sua própria histó-
ria, mas os resultados do decurso histórico são diversos e frequentemente opostos
aos objetivos visados pelos inelimináveis atos de vontade dos homens individuais.”
(LUKÁCS, 1979, p. 64).
56
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

na verdade, um domínio da realidade social que está relacionado,


mas que é ontologicamente distinto do domínio do agir individual.
Afirmar a diferença substantiva entre os domínios do agir humano
e das estruturas sociais pouco esclarece, porém, a respeito da forma
como os indivíduos se relacionam com (isto é, transformam ou repro-
duzem) as estruturas que condicionam seus atos. Essa questão pode
ser apreendida mediante a introdução de “conceitos de mediação”,
sugeridos por Bhaskar. Os elementos mediadores adquirem impor-
tância para o presente argumento por oferecer ferramentas para lidar
com a ação individual, e com sua relação com as estruturas sociais,
sem recurso a qualquer forma de individualismo. Por essa razão, são
apresentados ao final da seção seguinte como reforço da crítica ao
atomismo social e ao seu corolário metodológico, o individualismo.

1.3. Contra o atomismo social e o individualismo metodológico

Embora sejam o atomismo social e o individualismo metodológico


proposições bastante difundidas, parece ser prudente iniciar sua ins-
peção crítica com uma delimitação mais rigorosa de seu conteúdo e
de suas implicações para a atividade científica e para a prática social.
Acerca do atomismo social deve-se recordar, por exemplo, que se tra-
ta de uma concepção análoga ao atomismo das ciências e filosofia da
natureza. Nessa analogia, a sociedade é compreendida e descrita, em
sua configuração geral, como um simples somatório de elementos
últimos e indivisíveis (do ponto de vista social, evidentemente): os
indivíduos. De acordo com o verbete elaborado por Fairchild:

[O atomismo refere-se a toda] teoria ou crença de que um gru-


po deve ser explicado ou compreendido em função de seus
membros ou unidades singulares e não como um todo coleti-
vo; negação de que a sociedade ou qualquer grupo tenha uma
existência ou significação distinta da de seus membros indivi-
duais.13 (FAIRCHILD, 1967, p. 36)

13 O
atomismo social é uma concepção hegemônica na Economia e nas ciências sociais
em geral. Essa concepção ontológica pode ser encontrada, por exemplo, nos escri-
tos do filósofo utilitarista e economista Jeremy Bentham, já em 1789: “A comunidade
constitui um corpo fictício, composto de pessoas individuais que se consideram como
constituindo os seus membros. Qual é, neste caso, o interesse da comunidade? A soma
dos interesses dos diversos membros que integram a referida comunidade.” (BEN-
THAM, 1979, p. 4).
57

João Leonardo Medeiros


Como fica claro nesta definição, não há qualquer exagero na
afirmação de que o atomismo social traduza-se diretamente no
individua­lismo metodológico, isto é, na “doutrina de que fatos sobre
sociedades, e de fenômenos sociais em geral, devem ser explicados
exclusivamente em termos de fatos sobre indivíduos”. (BHASKAR,
1979, p. 34). Afinal de contas, se a sociedade é uma mera agregação
de indivíduos, o foco de interesse de qualquer investigação a seu res-
peito deve deslocar-se diretamente para o plano individual.14 Esta
redução da análise social ao plano individual, por sua vez, traz como
óbvia implicação epistemológica o estabelecimento dos atributos
e do comportamento dos indivíduos (encarados atomisticamente)
como pedra fundamental da análise da sociedade. Em suma: “even-
tos sociais devem ser explicados deduzindo-os dos princípios que
governam o comportamento dos indivíduos ‘participantes’ e descri-
ções de sua situação” (BHASKAR, 1979).
Além dessa implicação epistemológica, é importante destacar
aqui que o atomismo social, ao desdobrar-se no individualismo me-
todológico, patenteia a sua conformidade com uma concepção do-
minante na filosofia geral: o realismo empírico. Na ontologia do rea-
lismo empírico, como indicado na introdução do capítulo, o mundo
(natural e social) é descrito a partir da categoria da experiência. Isso
significa que a realidade em si mesma seria composta exclusivamen-
te de eventos atomísticos percebidos pelos seres humanos e das
conjunções constantes entre esses eventos, também conhecidas por
leis de Hume. As conjunções constantes, cuja descoberta constitui,
para essa perspectiva, o papel da ciência, seriam regularidades entre
eventos do seguinte tipo: sempre que um evento A ocorrer, segue-se
um evento B.
Para compreender a paridade do atomismo social com as propo-
sições ontológicas admitidas no realismo empírico deve-se ter em
conta “simplesmente” o fato de que, na esfera social, a única coisa
14 Naconcepção atomista o estudo da sociedade seria justificado, no máximo, pelo
reconhecimento das assim chamadas consequências impremeditadas do agir indi-
vidual. É preciso ter em conta, nesse particular, que consequências impremeditadas
admitidas no seio da concepção atomista da sociedade nada têm a ver com os efei-
tos não intencionais do agir individual sobre as estruturas sociais, apontados na
seção anterior. No primeiro caso, o referente das consequências impremeditadas
são os outros indivíduos. Toda a análise situa-se, portanto, no plano individual ou
empírico. Na concepção defendida na seção anterior, o importante são os efeitos do
agir individual (intencionais ou não) sobre as relações e estruturas sociais. Esses
efeitos, que podem ou não repercutir sobre outros indivíduos, remetem a um domí-
nio ontológico inteiramente distinto do plano individual: o domínio estrutural.
58
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

efetivamente empírica são os próprios indivíduos e o seu comporta-


mento: eventos, na sociedade, são sempre resultado, intencional ou
não, do agir humano. De maneira que, mais uma vez por analogia, o
papel das ciências sociais seria, nessa concepção, descobrir padrões
estáveis de comportamento que pudessem conferir inteligibilidade
ao movimento social (isto é, ao agregado de indivíduos). Toda a aná-
lise, portanto, circunscreve-se ao plano individual, dispensando in-
teiramente a consideração de um domínio da realidade que lhe seja
ontologicamente distinto.
Somente na primeira seção do Capítulo 4, a crítica ao realismo em-
pírico poderá ser completada. Já dispomos, contudo, de argumentos
suficientes para apontar agora mesmo uma grave deficiência dessa
concepção filosófica explicitada pela inspeção da categoria do agir
humano, realizada na seção anterior. O exame do agir humano per-
mitiu demonstrar que a realidade social, em lugar de ser um “plano
achatado” de indivíduos e suas práticas, é estruturada em dois do-
mínios: o próprio domínio do agir individual, que agora descrevemos
como empírico, e o domínio estrutural, formado pelas condições so-
ciais sem as quais as práticas humanas não podem se desenvolver.
Ao deixar de lado esse âmbito estrutural, o realismo empírico não
apenas reduz o mundo a um único domínio, como deixa de lado a
esfera da realidade que compreende precisamente os elementos cau-
sais procurados pela ciência. O realismo empírico aplicado à socie-
dade (atomismo social), para enfatizar, exclui por antecipação de sua
concepção de mundo o objeto último das ciências sociais, a saber, a
busca de leis causais que não são objetos empíricos, mas transempíri-
cos: causam os eventos, mas não são elas mesmas eventos.
Indicou-se, na seção anterior, que os “conceitos mediadores” tor-
nam ainda mais flagrante a insuficiência explanatória do atomismo
social. Para esclarecer este ponto, pode-se iniciar com a descrição
de Bhaskar, para quem esses conceitos constituem “as ‘aberturas’,
por assim dizer, na estrutura social nas quais os sujeitos ativos de-
vem deslizar a fim de reproduzi-la”. Trata-se, portanto, de um sistema
de conceitos que determina “o ‘ponto de contato’ entre ação huma-
na e estruturas sociais” (BHASKAR, 1979, p. 50). Ao introduzir esses
conceitos, o propósito central do autor é enfatizar que só se pode
perceber a relevância social do agir individual no contexto de uma
concepção “relacional” da sociedade.
59

João Leonardo Medeiros


Em outras palavras, Bhaskar defende a noção de que a sociedade
não é constituída por indivíduos, mas pelas relações entre os indiví-
duos e pelas relações entre estas relações. Este enfoque “relacional”
é então conectado ao modelo (segundo o autor, aristotélico-marxia-
no) do agir humano/sociedade exatamente por meio do sistema de
conceitos mediadores que, “vinculando ação à estrutura, deve ser
tanto duradouro como imediatamente ocupado pelos indivíduos”. Na
descrição do autor:

É claro que o sistema de mediação que precisamos é o de po-


sições (lugares, funções, regras, tarefas, deveres, direitos etc.)
ocupadas (preenchidas, assumidas, exercidas etc.) pelos indi-
víduos e de práticas (atividades etc.) nas quais, em virtude de
sua ocupação destas posições (e vice-versa), os indivíduos se
engajam. Denominarei este sistema de mediação de sistema
de posição-prática. Tais posições e práticas, se devem ser de
algum modo individualizadas, somente podem sê-lo relacional-
mente. (BHASKAR, 1979)

O sistema de posição-prática ou práticas posicionadas é, como


dito, uma forma de compreender a ação individual em seu significa-
do social. Por exemplo, a ação de um general, como general, embora
seja individualizada, é ação do sujeito que ocupa aquela posição num
dado contexto histórico, possuindo, assim, uma série de determina-
ções sociais particulares. Isso não apaga evidentemente individua-
lidades – há generais grandiosos e/ou infames. Mas confere ao agir
humano um sentido que o individualismo não abrange e nem poderia
abranger, como o indicado por Marx no prefácio de O Capital: “Não
foi róseo o colorido que dei às figuras do capitalista e do proprietário
de terras. Mas, aqui, as pessoas só interessam na medida em que
representam categorias econômicas, em que simbolizam relações de
classe e interesses de classe.”15 (MARX, 1998, p. 18).
Em síntese, o atomismo social é equivocado porque: (1) supõe que
a sociedade é um somatório de indivíduos e não das relações entre
eles (e das relações entre as relações); (2) supõe que estudar a socie-
dade significa estudar os indivíduos e seu comportamento; (3) supõe
15 Complementa Marx: “Minha concepção do desenvolvimento da formação econômico-
-social como um processo histórico-natural exclui, mais do que qualquer outra, a res-
ponsabilidade do indivíduo por relações, das quais ele continua sendo, socialmente,
criatura, por mais que, subjetivamente, se julgue acima delas.” (MARX, 1998, p. 18).
60
Reafirmando o caráter objetivo e estruturado da sociedade: contra o atomismo social

que o agir individual cria a sociedade (pois, se a sociedade é soma


de indivíduos, ela é criada por seus atos). Como o argumento acima
desenvolvido oferece suporte a cada uma destas objeções dirigidas
ao atomismo social, considera-se cumprida a tarefa de demonstrar
teoricamente a insuficiência deste pressuposto ontológico admitido
de forma praticamente universal pela Economia ortodoxa. No capítu-
lo a seguir, trataremos especificamente da possibilidade de a ciência
social descobrir as estruturas causadoras dos fenômenos do mundo
e esclarecer a constituição imanente e o modo de funcionamento de
tais objetos. Poderemos, então, completar a crítica ao atomismo so-
cial e ao individualismo metodológico, indicando suas gravíssimas
implicações para a teoria e para a prática social. Arriscaremos, simul-
taneamente, uma explicação para a contínua aceitação e reprodução
do atomismo social a despeito de seu limitado poder explanatório,
que pretendemos sustentar na análise concreta das teorias do bem-
-estar social realizada a partir da terceira parte do livro.
2. Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade1

No capítulo anterior, partimos da reafirmação da existência objeti-


va do mundo para defender a estratificação e a consequente incapa-
cidade de o atomismo social representar corretamente a realidade.
Nos próximos capítulos, pretendemos percorrer caminhos não me-
nos sinuosos para demonstrar a insuficiência do segundo e do ter-
ceiro pressupostos (ontológicos) das teorias econômicas ortodoxas
do “bem-estar social”: o postulado da naturalização do capital e o
da reificação de valores emancipatórios. A naturalização do capital
refere-se à premissa, nem sempre explícita ou conscientemente assu-
mida, mas ubíqua no corpo da teoria econômica, de que a socieda-
de capitalista constitui o limite último das possibilidades teóricas e
práticas. A reificação dos valores emancipatórios, por seu turno, diz
respeito ao tratamento inteiramente abstrato, desprovido de concre-
ticidade e historicidade, conferido a valores que encarnariam o ideal
de emancipação humana: a liberdade, a igualdade etc.
Há, contudo, um ponto em suspenso no argumento desenvolvido
no capítulo anterior, que reclama um tratamento mais rigoroso não
apenas para cobrir uma eventual lacuna explanatória, mas porque
contém em si elementos de grande valia para as demonstrações sub-
sequentes. Até agora, defendeu-se uma concepção ontologicamente
realista de mundo, isto é, a noção de que a realidade existe em si
mesma como objeto, independentemente da experiência humana,
podendo constituir um metro para aferir a qualidade das crenças e
teorias. No entanto, em que pese as referências diretas e indiretas à
possibilidade de capturar essa realidade externa aos sujeitos pelo
pensamento e representá-la em textos, não se ofereceu ainda uma
demonstração rigorosa da possibilidade de transitar do mundo em si

1 Como sugerido pelo título, a principal preocupação deste estudo é com o conhe-
cimento da sociedade, embora seja proveitoso, algumas vezes, trazer à discussão
aspectos relativos ao conhecimento em geral, de forma a dar a devida ênfase a uma
ou outra questão.
62
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

à sua representação no pensamento – isto é, de descrever fidedigna-


mente a realidade mediante textos.
Embora se tenha argumentado que o mundo não é uma criação
dos sujeitos, como nos garante o solipsismo, ainda não foram intro-
duzidos os termos necessários para recusar a versão mais atraente
do antirrealismo: a que chega a admitir a existência em si do mundo,
mas que recusa a possibilidade de representar suas características
imanentes mediante textos. Para enfrentar essa versão menos radi-
cal do antirrealismo e defender a viabilidade do empreendimento
científico (que naturalmente depende da capacidade de conhecer,
descrever e explicar a realidade), este capítulo abre uma breve di-
gressão na linha central de argumento deste ensaio. As seções que
se seguem tratarão, respectivamente, da emergência da ciência a
partir do desenvolvimento das concepções adquiridas na prática; de
sua viabilidade como representação refinada de mundo; e do caráter
necessariamente crítico da atividade científica. Neste último passo,
pretende-se demonstrar que a descaracterização do autêntico em-
preendimento científico está visceralmente relacionada à visão de
mundo conservadora, de modo que a reafirmação da viabilidade de
tal empreendimento pode ser tomada de fato como o ponto de parti-
da da crítica que pretendemos desenvolver no restante do trabalho.

2.1. A emergência da ontologia científica e a sua relação


com as demais formas de acessar a realidade

“Existe um domínio social do mundo” é uma proposição compatível


mesmo com algumas das versões mais arraigadas do antirrealismo que,
nesse particular, diferencia-se do realismo em função de sua atitude a
respeito da verdade: realistas defendem a possibilidade do conhecimen-
to do mundo e antirrealistas rejeitam antecipadamente tal pretensão.
Isso significa, naturalmente, que apenas a posição realista concebe a ati-
vidade científica e os resultados obtidos pelo desenvolvimento científi-
co como espelhamentos mais ou menos acurados de objetos e relações
realmente existentes. Para antirrealistas, a ciência não passaria de um
“jogo linguístico” dotado de alta habilidade persuasiva e/ou pragmática.
Essa disputa filosófica a respeito da verdade e do estatuto ontológico
da ciência possui desdobramentos imediatos e decisivos no âmbito da
prática humana. Interessa-nos particularmente aqui as implicações de
tais questões no plano filosófico para a demonstração da viabilidade de
63

João Leonardo Medeiros


uma transformação cientificamente informada da realidade social. Para
deslindar esse vínculo entre a defesa da verdade e as suas implicações
para a prática social deve-se ter em conta, em primeiro lugar, que o co-
nhecimento verdadeiro dos objetos e relações do mundo é precondição
do agir humano. Considerando o que foi exposto no capítulo anterior, pa-
rece-nos relativamente simples compreender que, se a atividade humana
pode ser descrita com propriedade como trabalho com e sobre causas
materiais, então não há qualquer razão para encarar a busca pelas ver-
dades do mundo como algo irrealizável. Ao contrário, se o agir humano
existe, o conhecimento é possível.
A chave para compreender o porquê de o conhecimento ser precon-
dição para o agir humano encontra-se no caráter teleológico do agir: ati-
vidade humana é atividade intencional ou, expresso diversamente, modi-
ficação de objetos preexistentes com o propósito de atingir um resultado
preestabelecido. Para fazer uma mesa surgir da madeira conforme idea-
lizada, é preciso conhecer as propriedades da madeira, das ferramentas
empregadas, do ambiente no qual se trabalha e da capacidade humana
de trabalhar com aquelas ferramentas, sobre a madeira, naquele ambien-
te. Em termos mais gerais:

Toda práxis orienta-se imediatamente no sentido de alcançar um


objetivo concreto determinado. Para tanto, deve ser conhecida a
verdadeira constituição dos objetos que servem de meio para tal
posição de finalidade, pertencendo igualmente àquela constitui-
ção as relações, as prováveis conseqüências etc. Por isso a práxis
está inseparavelmente ligada ao conhecimento; por isso o traba-
lho [...] é a fonte originária, o modelo geral, também da atividade
teórica dos homens.2 (LUKÁCS, 1984, p. 355)

Enfatizando o que foi estabelecido acima, a realidade do agir humano


como escolha finalística entre alternativas implica o conhecimento das
relações causais necessárias à modificação da realidade de forma contro-
lada (intencional). Isto é suficiente para provar que o conhecimento de
relações reais externas ao nosso aparato sensorial é possível – o que não

2 Alternativamente: “[...] a possibilidade de escolher pressupõe não somente que os


eventos possam ter sido diferentes, mas também que os agentes possuam alguma
concepção do que eles estejam fazendo e procurando realizar em sua atividade. Ou
seja, se a escolha é real, então as ações humanas têm que ser intencionais sob algu-
ma descrição. E intencionalidade, por sua vez, está vinculada à cognoscibilidade.”
(LAWSON, 1997, p. 30).
64
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

opõe a afirmação de que essas relações só possam ser represen-


tadas textualmente.3 Não se segue imediatamente daí, contudo,
que as concepções necessárias para objetivar um resultado ideal
sejam verdadeiras num sentido geral, isto é, fora dos limites de
sua aplicabilidade prática. Seguindo os argumentos de Lukács:

Como todo trabalho é concretamente orientado, orienta-se


para uma conexão concreta, limitada, objetiva. Todo co-
nhecimento que seja um pressuposto imprescindível deste
trabalho pode, em muitos casos, ser inteiramente realiza-
do, mesmo quando se vale exclusivamente de observações,
relações etc. imediatas, o que pode ter como conseqüência
– em um nível mais elevado de generalização – o fato de se
revelar incompleto, ou até mesmo falso, não corresponden-
te à realidade, sem por isso impedir a efetiva consecução
da finalidade concretamente posta ou, pelo menos, sem
perturbá-la dentro de certos limites. (LUKÁCS, 1984, p. 355)

Na passagem acima, Lukács admite o que nos parece ser um


aspecto distintivo do pensamento de Marx: o reconhecimento de
que concepções parcialmente verdadeiras (falsas num sentido
geral) podem ser perfeitamente adequadas à manipulação ins-
trumental de objetos e estruturas da realidade, permitindo, por-
tanto, que os homens reajam aos requerimentos da vida cotidia-
na.4 Quando articuladas, essas falsas concepções, operativas em
situa­ções particulares, conformam o que se denomina ontologia

3 Nas palavras do físico Bricmont (2001, p. 107): “Nós somos, em certo sentido, ‘apartados’
da realidade (nós não possuímos acesso imediato a ela, o ceticismo radical não pode
ser refutado etc.). Não há fundações absolutamente seguras nas quais se possa basear
nosso conhecimento. No entanto, é óbvio que nós podemos obter algum conhecimento
da realidade (ao menos na vida quotidiana).”
4 Como afirma Lukács: “A história nos mostra uma infinidade de exemplos de como, num
contexto restrito, muitos resultados corretos e importantes foram obtidos na prática
imediata com falsas teorias. Para citar, apenas de passagem, o nexo entre o trabalho
primitivo e as ‘teorias’ mágicas, cujos efeitos se fizeram sentir profundamente na práxis
medieval, recorde-se apenas o sistema ptolomaico que, mesmo após ter-se mostrado
cientificamente falso, funcionou por longo tempo de maneira quase impecável para fina-
lidades práticas (navegação, calendário, etc.).” (LUKÁCS, 1984, p. 355). O reconhecimen-
to da instrumentalidade de falsas concepções no pensamento de Marx será retomado
logo a seguir. Talvez se possa recordar aqui simplesmente que a própria crítica do autor
à Economia Política, desenvolvida ao longo dos diversos volumes de O Capital, parte da
tentativa de restabelecer a coerência interna e a utilidade prática das falsas categorias e
representações da realidade difundidas pela ciência econômica.
65

João Leonardo Medeiros


da vida cotidiana, ou seja, uma visão de mundo adquirida da práti-
ca imediata e suficiente para informá-la. Na construção dessa on-
tologia diretamente formada na prática social, os seres humanos
aparecem fundamentalmente como sujeitos passivos, cujas ações
são, acima de tudo, respostas às necessidades imediatas.
O desenvolvimento das relações sociais produz dois efeitos
antagônicos na ontologia cotidiana. Por um lado, o desenvolvi-
mento da sociedade aprofunda a lacuna existente entre a prática
humana e as estruturas sociais, o que intensifica o caráter parcial
das categorias que conformam a ontologia cotidiana. Com a maior
complexidade das relações sociais, os efeitos dos atos indivi­duais
sobre as estruturas da sociedade tornam-se ainda mais mediados,
ainda mais distantes e incompreensíveis para os próprios indiví-
duos que os produziram. Precisamente por isso, o aumento da
complexidade social pode não apenas manter, como acalentar e
até mesmo ampliar a falsidade geral de concepções “úteis”.
Por outro lado, o desenvolvimento da sociedade alarga os li-
mites da prática humana, requerendo dos indivíduos concepções
mais refinadas para lidar com as questões concernentes a uma
vivência social estruturalmente mais complexa. É exatamente
esse segundo efeito do desenvolvimento social sobre a ontolo-
gia cotidiana que dá ensejo, sobretudo em determinados perío-
dos históricos, ao seu aprimoramento crítico e à emergência de
concepções de mundo mais elaboradas: as ontologias filosófica e
científica, que são desde o início refinamentos críticos das con-
cepções obtidas na prática.
A título de esclarecimento, é importante tecer alguns comentá-
rios a respeito da relação entre estas três formas de significação
do mundo (cotidiana, científica e filosófica). Deve-se observar,
em primeiro lugar, que a emergência da ontologia científica não
implica necessariamente, em casos específicos, a superioridade
dessa forma de conhecimento. Lukács descreve este aspecto do
relacionamento entre o conhecimento cotidiano e o científico
como se segue:

Pelo fato de mover-se no plano da realidade certa, ainda


que apenas imediata, ela [a ontologia da vida cotidiana]
pode ser superior ao conhecimento científico, pode às ve-
zes corrigi-lo em termos ontológicos; todavia, precisamente
66
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

porque é uma intenção de cotidianidade, é permeada fre-


qüentemente por preconceitos que surgem necessariamen-
te no terreno dessa cotidianidade, sendo portanto por eles
deformada. (LUKÁCS, 1979, p. 80)

Em segundo lugar, mas em conexão com a observação anterior, a pas-


sagem à cientificidade pode ou não resultar numa ruptura com o caráter
exclusivamente instrumental do conhecimento. Há inúmeros exemplos
de teorias e ciências inteiras que se mantêm enredadas no domínio da
manipulação prática da realidade, sendo incapazes de se libertar dos
mesmos “preconceitos cotidianos” que permeiam e distorcem a onto-
logia da imediaticidade. Como ilustração, considere a famosa distinção,
sugerida por Marx, entre economistas vulgares (predecessores dos eco-
nomistas neoclássicos) e economistas clássicos.
A economia vulgar, segundo Marx, “não passa de interpretação didáti-
ca, mais ou menos doutrinária das idéias correntes dos promotores reais
da produção, nelas introduzindo certa ordem inteligível.” (MARX, 1974,
p. 953). Em lugar de assumir a inspeção crítica das categorias emprega-
das na vida cotidiana (ou em teorias prévias) como ponto de partida do
processo de conhecimento, o pensamento vulgar afunda-se mais e mais
na tentativa de aplicar técnicas crescentemente sofisticadas para polir
e sistematizar as categorias dadas na prática imediata. Assim segue o
pensamento vulgar, com sua atitude indelevelmente passiva e acrítica, a
intensa dinâmica do dia a dia. Como consequência, não consegue evitar
a eterna ansiedade empirista diante da infinitude da experiência huma-
na, que, no final das contas, bloqueia a busca por estruturas causadoras
de fenômenos. Tampouco consegue se livrar de mistificações reais origi-
nadas pela sustentação de categorias falsas ou ilusórias em si mesmas.
Como assinalou Marx (1974, p. 953) em sua comparação da economia
vulgar com a economia clássica, o pensamento vulgar jamais se desven-
cilha das determinações do dia a dia: “O grande mérito da economia clás-
sica é ter dissolvido [...] essa religião do cotidiano”.5
Em terceiro lugar, o desenvolvimento da ontologia científica não subs-
titui o desenvolvimento da ontologia da vida cotidiana, da mesma forma
que o desenvolvimento da filosofia da ciência não implica a abolição da

5 “Contudo, mesmo os melhores corifeus dela, e não poderia ser de outro modo sob
o prisma burguês, permanecem mais ou menos prisioneiros do mundo falaz que
destruíram com sua crítica, incidindo mais ou menos em inconseqüências, em con-
clusões paliativas e contradições insolúveis.” (MARX, 1974, p. 953).
67

João Leonardo Medeiros


ciência.6 Em lugar da incorporação de uma ontologia à outra, o avanço do
conhecimento envolve uma espécie de cooperação entre as suas diferen-
tes formas. Filosofia e ciência partem da vida cotidiana, desenvolvem-se
como instâncias autônomas para, finalmente, retornar ao âmbito da prá-
tica e informá-la com novas ou melhores concepções. O aprofundamen-
to teórico possibilitado pelas formas mais sofisticadas de conhecimento
permite um alargamento do escopo da atividade humana, favorecendo
um aprofundamento da própria ontologia da vida cotidiana.7
No que diz respeito à atividade científica, o refinamento crítico da
ontologia da vida cotidiana possui como elemento central a desco-
berta e/ou esclarecimento do modus operandi das estruturas cons-
titutivas do mundo. Essa é exatamente a razão da insuficiência da
ontologia empírica subjacente às concepções antirrealistas enquan-
to suporte filosófico, justificativa e racionalização da ciência, já que
ela sequer admite as estruturas do mundo como existência efetiva
(como um “em-si”). Para qualificar mais precisamente o problema e
reforçar o argumento contra a ontologia empírica, pode-se enunciar
agora o seu corolário no plano epistemológico, que expressa a insufi-
ciência mencionada. Trata-se do equívoco filosófico ao qual Bhaskar
atribuiu a denominação “falácia epistêmica”: a tradução imediata de
proposições sobre o ser (ontologia) em proposições sobre o conhe-
cimento do ser (epistemologia).
O fato de a falácia epistêmica ser consequência da admissão da
ontologia empírica resulta simplesmente de que, por definição, os

6 A respeito da cooperação entre as ontologias filosófica e científica, basta afirmar que a


ontologia filosófica prepara o terreno para o desenvolvimento científico. A filosofia da
ciência esclarece “como tem que ser o mundo para que a ciência seja possível; suas pre-
missas são as reconhecidas atividades científicas.” (BHASKAR, 1997, p. 36). Com maior
detalhe: “A filosofia não pode, de fato, antecipar os resultados e nem garantir o sucesso
de uma ciência naturalística da sociedade; o que ela pode fazer é especificar as condi-
ções (ontológicas) que tornam este projeto possível e as condições (epistemológicas) a
serem satisfeitas para isto. A realização do projeto é, entretanto, a tarefa substantiva, e
resultado contingente, da própria prática da ciência.” (BHASKAR, 1979, p. 4).
7 “O comportamento cotidiano do homem é, ao mesmo tempo, o começo e o final de
toda atividade humana. Se representarmos a cotidianidade como um grande rio,
pode dizer-se que dele se desprendem, em formas superiores de recepção e repro-
dução da realidade, a ciência e a arte, diferenciam-se, constituem-se de acordo com
suas finalidades específicas, alcançam a sua forma pura nessa especificidade – que
brota das necessidades da vida social – para, em seguida, por consequência de seus
efeitos, de sua influência na vida dos homens, desaguar novamente na corrente da
vida cotidiana. Essa se enriquece, pois, constantemente com os supremos resulta-
dos do espírito humano, assimila-os a suas cotidianas necessidades práticas e assim
dá lugar, como questões e exigências, a novas ramificações das formas superiores
de objetivação.” Lukács (apud PAULO NETTO, 2002, p. 89).
68
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

objetos empíricos são objetos capturados pelos sentidos humanos.


Como esses objetos são os únicos admitidos pelo realismo empíri-
co, segue-se que o mundo passa a ser dependente da existência dos
sujeitos sencientes, o que constitui em si a falácia epistêmica. Em ou-
tros termos, a concepção de um mundo composto exclusivamente de
eventos empíricos e conjunções constantes entre eventos pressupõe
aquilo que Bhaskar denominou “antropocentrismo filosófico”: a ne-
gação da existência de um mundo não-humano, ou pré-humano (de
um mundo anterior, ou independente do conhecimento) (BHASKAR,
1997, p. 44 e 45).
No entanto, como procuramos demonstrar, as estruturas da rea-
lidade existem com autonomia (relativa, no caso da sociedade) com
referência ao agir humano, de forma que o mundo não se restringe ao
empírico. Ao contrário, o mundo em si mesmo (independente do agir
humano) e o conhecimento do mundo (dependente do agir humano)
são domínios distintos e relativamente autônomos que, na prática,
não podem ser fundidos. E isso se estende inclusive ao âmbito social,
no qual o conhecimento finda por se constituir numa das estruturas
do mundo. Neste caso, como afirma Bhaskar:

[...] uma vez que algum objeto 0t exista, se existe, como quer
que tenha sido produzido, ele constitui um possível objeto de
investigação científica. E sua existência (ou não) e suas pro-
priedades são inteiramente independentes do ato ou processo
de investigação do qual é o suposto objeto, ainda que tal in-
vestigação, uma vez iniciada, possa modificá-lo radicalmente.
Em resumo, o conceito de existência é unívoco: “ser” significa
o mesmo no mundo humano e no natural, ainda que os modos
de ser possam diferir radicalmente. (BHASKAR, 1979, p. 60)

O estabelecimento da possibilidade de conhecer estruturas não


empíricas do mundo ataca a lógica central da falácia epistêmica, re-
velando sua inconsistência imanente. Uma peculiaridade do domínio
social – o fato de que a sociedade se altera pela modificação do co-
nhecimento – é, entretanto, frequentemente utilizada para pôr em
questão a própria objetividade ontológica, o que nos conduziria de
volta ao início do problema. Para ir, sem grande esforço ou rodeios,
além desta questão, aplica-se o modelo do agir humano ao conhe-
cimento. O primeiro passo consiste em retomar o ponto de partida
69

João Leonardo Medeiros


desta seção e estabelecer a existência real, ontológica, do conheci-
mento pelo seu estatuto de precondição do agir humano: se o agir
humano é reconhecido como realmente existente e o conhecimento
é um seu pressuposto, a realidade do conhecimento está garantida.
Segundo, o processo de conhecimento pode ser representado
como trabalho sobre causas materiais, como trabalho sobre e com
“resultados reconhecidos e idéias semi-esquecidas, o estoque de pa-
radigmas e modelos disponíveis, métodos e técnicas de pesquisa”
(BHASKAR, 1979, p. 44). A existência de um estoque prévio de conhe-
cimento (estruturas sociais), seja ele científico ou não, é precondição
para o desenvolvimento de novas ideias, teorias etc., que, por sua
vez, podem modificar profundamente estas estruturas (agir humano).
Há, portanto, uma distinção ontológica entre o conhecimento já con-
solidado como estruturas sociais modificáveis e o processo de co-
nhecimento que age sobre estas estruturas. Distinção ontológica essa
que reforça a necessidade de compreender ontologia e epistemologia
como campos separados, embora evidentemente vinculados.
Na seção seguinte, o reconhecimento do caráter estruturado do
mundo e, mais especificamente, a distinção ontológica entre ser e co-
nhecimento do ser constituem o ponto de partida para a explicação
de um aspecto de fundamental importância para a crítica desenvolvi-
da na segunda parte deste livro: o fato de que formas mistificadas de
consciência possam se desenvolver, inclusive no interior da ciência,
e até adquirir grande relevância social. Por outro lado, procuramos
demonstrar que o reconhecimento de tais mistificações pode abrir
caminho para o progresso de uma atitude radicalmente crítica da
ciência, que encara o empreendimento científico não apenas como
uma possibilidade concreta e historicamente comprovada, mas
como uma prática desejável precisamente por alargar o escopo da
ação social consciente (restrito pelo falso conhecimento). Em suma,
o propósito é simultaneamente reconhecer e explicar a utilidade prá-
tica de falsas concepções e assegurar que a verdade não é um valor
eletivo ou dispensável.

2.2 O conhecimento (científico) como prática essencialmente crítica

Em diversos momentos, desde o capítulo anterior, indicou-se que


nenhuma prática pode ser levada a cabo em meio à total ignorância
das estruturas do mundo. Argumentou-se, por exemplo, que, para
70
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

fazer uma mesa surgir a partir da madeira, tal como projetado, é pre-
ciso conhecer as propriedades da madeira, do ambiente em que se
trabalha, das ferramentas e dos outros materiais empregados e a ha-
bilidade humana para trabalhar com as ferramentas e os materiais
sobre a madeira. Enfatizou-se, ainda, que o conhecimento necessário
para iluminar a práxis cotidiana não precisa ser científico, filosófico,
consciente e nem mesmo verdadeiro (no lato sensu), sobretudo em es-
tágios primitivos de desenvolvimento social. Quando os seres huma-
nos primitivos encontraram uma forma de controlar o fogo, não havia
possibilidade de compreender com exatidão todas as estruturas e
relações envolvidas na produção e reprodução daquele evento par-
ticular. O fogo apareceu-lhes, provavelmente, como resultado de um
“milagre”, relacionado às propriedades supostamente mágicas de ob-
jetos específicos ou, talvez, como algo simplesmente além do alcance
da razão humana. De toda forma, seja entendido como resultado da
influência divina ou como algo fora do âmbito das coisas compreen-
síveis, o fato é que o fogo jamais poderia ter sido controlado, naquele
estágio do desenvolvimento social, se os seres humanos pensassem
ser a água o material mais adequado para iniciar uma combustão.
Até certo ponto, a vida em sociedade pode desenvolver-se per-
feitamente sem a ciência – e foi assim até muito recentemente, em
termos históricos. Por que, então, seria a ciência de algum modo ne-
cessária para a vida humana? Por que deveriam os seres humanos
desenvolver esta forma particular de consciência? O que os teria le-
vado a desenvolvê-la? Na realidade, a resposta a estas questões foi
apresentada quando se indicou o nexo biunívoco entre conhecimen-
to e alargamento da práxis, o que põe ênfase nas primeiras palavras
deste parágrafo (“Até certo ponto [...]”). Indo direto ao assunto, o
conhecimento circunscrito à prática cotidiana, pelo caráter restrito
de seus objetivos, dificilmente consegue ou necessita, exceto de for-
ma arbitrária, ir além do conhecimento adquirido diretamente das
manifestações fenomênicas das estruturas sociais e desvencilhar-se
de todas as determinações sociais envolvidas neste âmbito (o que
Lukács denominou “preconceitos da vida cotidiana”). O problema,
neste caso, é que as formas fenomênicas – maneira indireta pela qual
as estruturas aparecem aos sentidos humanos – podem, por diferen-
tes motivos, obscurecer, em vez de revelar, a real constituição das
próprias estruturas e a forma pela qual os eventos são de fato pro-
duzidos. Nas famosas palavras de Marx: “toda ciência seria supérflua
71

João Leonardo Medeiros


se houvesse coincidência imediata entre a aparência e a essência das
coisas” (MARX, 1974, p. 939).
A superação do domínio da prática imediata relaciona-se, portan-
to, ao surgimento de formas refinadas de conhecimento, tais como a
ciência e a filosofia que lhe oferece sustentação, destinadas primor-
dialmente à descoberta, descrição e compreensão das estruturas do
mundo. O desenvolvimento destas formas de conhecimento retroa-
ge, por sua vez, sobre o agir humano, alargando seu escopo. Não é
por outro motivo que a sequência de revoluções científicas iniciadas
no século XVIII, período em que o capital se apropria da ciência como
mecanismo de aumento da produtividade, acelera como nunca a ve-
locidade do desenvolvimento social, abrindo aos seres humanos um
leque de possibilidades antes inimagináveis. Basta uma rápida inspe-
ção em qualquer ambiente em que se vive e trabalha em condições
minimamente civilizadas, nos padrões modernos, para se reconhecer
o efeito do desenvolvimento científico, para o bem e para o mal, em
todas as instâncias da vida cotidiana.8
Por outro lado, o mesmo desenvolvimento da prática humana,
que enseja formas refinadas de pensamento, pode requerer e favo-
recer, também por necessidade, formas de consciência equivocadas,
distorcidas, mistificadas, falsas crenças, enfim, inclusive no âmbito
da ciência e da filosofia. Em outros termos:

O agir social, o agir econômico dos homens abre curso para


forças, tendências, objetividades, estruturas etc., que nascem
decerto exclusivamente da práxis humana, mas cujo caráter
resta no todo ou em grande parte incompreensível para quem
a produz. Referindo-se ao fato tão elementar e cotidiano, como
o nascimento da troca simples entre produtos do trabalho se-
gundo a relação de valor, Marx diz: “não sabem o que fazem,
mas o fazem”. As coisas ocorrem assim não apenas no nível
da práxis imediata, mas também nos casos em que a teoria
se esforça para apreender a essência dessa práxis. (LUKÁCS,
1979, p. 52)

8 Como observa Bhaskar: “na medida em que as explicações teóricas e práticas [...]
sejam bem-sucedidas na identificação de condições e padrões de determinação
reais, mas até então desconhecidos, elas imediatamente aumentam nosso conhe-
cimento – das condições objetivas e subjetivas e dos efeitos e formas da práxis.
Assim, ceteris paribus, elas aumentam tanto a racionalidade de nossas ações quanto
o grau, ou possibilidade, de nossa liberdade [...].” (BHASKAR, 1998, p. 414).
72
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

Reapresentando mais formalmente os mesmos argumentos desde


o princípio, a falsidade das formas de consciência pode resultar de
simples equívoco, caso trivial e normalmente sem interesse, ou da
admissão de uma ontologia “ingênua”. Detalho agora esta segunda
possibilidade. Objetos transfactuais (mecanismos causais, tendên-
cias etc.) são sínteses de atos humanos singulares, que aparecem
aos próprios indivíduos não apenas como algo que lhes é externo e
independente de suas ações, mas também como algo transcendente,
não percebido pelos sentidos. Algumas estruturas, mecanismos, ten-
dências etc. podem até mesmo, em função da interação com outros
objetos de natureza semelhante, jamais se materializar em eventos,
ou materializar-se de forma inteiramente contraditória. Toda vez que,
como sugere o realismo empírico, o conhecimento for adquirido ex-
clusivamente por intermédio das impressões e sensações causadas
pelos fenômenos em nossos sentidos; toda vez que o conhecimento
for trancafiado no domínio dos eventos; toda vez que não for ques-
tionada a maneira pela qual os eventos são produzidos; toda vez que
essências e aparências forem colapsadas, as estruturas sociais serão
reproduzidas no pensamento de maneira reificada, fantasiosa, ou, na
pior das hipóteses, serão percebidas como um puro e simples misté-
rio. Nessas circunstâncias, somente por acaso a real constituição das
estruturas do mundo poderá ser desvendada.9
Sendo a prática social necessariamente contínua e não podendo
o agir ocorrer, de maneira alguma, na completa ignorância, ficando
vedado o acesso ao domínio das causas dos fenômenos, prolife-
ram formas mistificadas, deformadas ou fragmentadas de consciên-
cia: “os fenômenos da reificação, do fetichismo, da alienação”, que
são “cópias feitas pelo homem de uma realidade incompreendida”.
(LUKÁCS, 1979, p. 52 e 53). Mas, seria de se perguntar, o que de fato
veda o acesso da razão ao domínio das estruturas do mundo? Quais
são as origens da consciência mistificada?
Pode-se neste particular reconhecer, de maneira geral, uma dupla
fonte de mistificações e ilusões. Por um lado, algumas importantes
9 É bem verdade que, para os idealistas e irracionalistas, a descoberta das estruturas,
tendências e mecanismos geradores de eventos é uma não questão, já que eles con-
sideram impossível descrever textualmente a verdadeira constituição do mundo.
Esperamos ter demonstrado que os argumentos que sustentam posições antirrea-
listas não resistem a uma crítica mais criteriosa. Na realidade, como indicado, por
detrás do desanimador ceticismo antirrealista, encontra-se uma imagem de mundo
construída e fundamentada na categoria do empírico, veiculada de maneira inteira-
mente arbitrária.
73

João Leonardo Medeiros


categorias com as quais nos deparamos em nossa prática cotidiana
podem, por sua própria constituição, manifestar um determinado con-
teúdo de forma opaca, contraditória, ocultando, com isso, relações
essenciais, reais, do ser social.10 A título de brevíssima ilustração,
recorde-se da crítica clássica de Marx à forma salário (o “preço do
trabalho”), uma categoria que, falsa em si mesma, serve como ante-
paro à descoberta de uma relação real fundamental (o valor da força
de trabalho). Nas palavras do autor:

Na expressão “valor do trabalho”, a idéia de valor não só se


desvanece inteiramente, mas também se converte no oposto
dela. É uma expressão imaginária como, por exemplo, “valor
da terra”. Essas expressões imaginárias, entretanto, têm sua
origem nas próprias relações de produção. São categorias
que correspondem a formas aparentes de relações essenciais.
Todas as ciências, exceto a economia política, reconhecem que
as coisas apresentam freqüentemente uma aparência oposta à
sua essência. (MARX, 1998b, p. 617)

Por outro lado, formas falsas de consciência jamais poderiam


adquirir um tipo qualquer de objetividade social – isto é, jamais
poderiam realmente existir e se reproduzir como concepções cor-
rentes – caso fossem inúteis, caso não servissem a um propósito de-
terminado no interior do ser social. Sejam resultantes da opacidade
do próprio objeto, sejam resultantes da opacidade do pensamento, o
fato é que as mistificações têm de ser, e não faltam exemplos de que

10 Isso
afasta totalmente a ideia absurda de que as pessoas sustentam persistentemen-
te falsas concepções por puro e simples equívoco cognitivo, por uma espécie de
cegueira ou obtusidade coletiva e hereditária. Em outras palavras: “Crenças profun-
damente persistentes têm de ser apoiadas, até certo ponto, e ainda que de maneira
limitada, pelo mundo que nossa atividade prática nos revela; acreditar que um nú-
mero maciço de pessoas viveria e por vezes morreria em função de ideias absolu-
tamente vazias e disparatadas é assumir uma postura desagradavelmente aviltante
com relação aos homens e mulheres comuns. Ver os seres humanos como atolados
em preconceito irracional, incapazes de raciocinar de modo coerente, é uma opinião
tipicamente conservadora; e uma atitude ainda mais radical é afirmar que, embora
possamos de fato ser atingidos por todos os tipos de mistificações, algumas delas
inclusive endêmicas da própria mente, ainda assim temos a capacidade de explicar
nosso mundo de maneira relativamente convincente. Se os seres humanos fossem
mesmo crédulos e ignorantes a ponto de depositar sua fé em ideias totalmente sem
sentido, então seria razoável perguntar se valeria a pena apoiar politicamente essas
pessoas. Se elas fossem tão ingênuas, como poderiam, em algum momento, ter a
esperança de emancipar-se?” (EAGLETON, 1997, p. 24 e 25).
74
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

sejam, convenientes a determinados interesses práticos, individuais


ou coletivos. Para seguir com o mesmo exemplo, a relevância social
do salário consiste no fato de que ele oculta em si o trabalho exce-
dente (às necessidades do próprio trabalhador), não pago, realizado
pela classe trabalhadora para o capital. Presta com isso o salário um
papel fundamental à manutenção da ordem social capitalista, cuja
economia assenta-se precisamente na capacidade de o capital extrair
mais trabalho do que paga ao trabalhador.

Compreende-se, assim, a importância decisiva da metamorfo-


se do valor e do preço da força de trabalho em salário ou em
valor e preço do próprio trabalho. Nesta forma aparente, que
torna invisível a verdadeira relação e ostenta o oposto dela, re-
pousam todas as noções jurídicas do assalariado e do capita-
lista, todas as mistificações do modo capitalista de produção,
todas as suas ilusões de liberdade, todos os embustes apolo-
géticos da economia vulgar. Se a história universal precisou de
muito tempo para decifrar o segredo do salário, nada, entretanto,
é mais fácil de compreender do que a necessidade, as razões de
ser dessa forma fenomênica. (MARX, 1998b, p. 620, grifo nosso)

Em síntese, a influência do “agir interessado” pode dissolver ou em-


bargar a crítica de categorias ontologicamente falsas, mesmo quando a
falsidade conduz a uma série de irresoluções e contradições no pensa-
mento e na prática social. A crítica ontológica da relação salarial atinge
em cheio uma categoria decisiva da sociedade capitalista, não só pelo
próprio conteúdo da categoria e pelo poder explanatório da crítica, mas,
sobretudo, por demonstrar que a ilusão de ótica promovida pelo salário
mascara a relação de dominação da classe trabalhadora pelo capital.
Esse é o sentido da conclusão de Marx em seu julgamento da Economia
Política clássica, que foi capaz de iluminar a forma de funcionamento de
diversas estruturas da realidade social (ao contrário da Economia vul-
gar), sem, no entanto, desvendar o segredo da forma salário e o mistério
da produção de mais-valia:

À forma aparente, “valor e preço do trabalho” ou “salário”, em


contraste com a relação essencial que ela dissimula, o valor e
o preço da força de trabalho, podemos aplicar o que é válido
para todas as formas aparentes e seu fundo oculto. As primeiras
75

João Leonardo Medeiros


aparecem direta e espontaneamente como formas correntes de
pensamento; o segundo só é descoberto pela ciência. A econo-
mia política clássica avizinhou-se da essência do fenômeno, sem,
entretanto, formulá-la conscientemente. E isto não lhe é possível,
enquanto não se despojar de sua pele burguesa. (MARX, 1998b, p.
622, grifo nosso)

Atingem-se, assim, as decisivas questões da interferência incontor-


nável dos valores nos processos de formação do conhecimento e da
demarcação dos limites do discurso científico. Observando-se de fora,
talvez se possa arriscar que são estas as principais questões da filosofia
contemporânea, por diferentes motivos dos quais destacaria os seguin-
tes: o aprofundamento e a extensão das relações capitalistas (por sua
“afeição objetiva” às falsas formas de consciência); o desenvolvimento
simultâneo e aparentemente paradoxal da ciência, por um lado, e do
fetichismo místico-religioso, por outro; o radicalismo das posições he-
gemônicas da filosofia da ciência do século XX (todas fundadas no rea-
lismo empírico).
Sobre o último tópico, recorde-se que o positivismo procura distin-
guir o discurso científico afirmando que ele trata de fatos e não de valo-
res, como se os fatos chegassem à ciência livres das interpretações dos
homens (com todas as suas motivações). Pior do que o pior dos pesa-
delos positivistas, o idealismo que o sucede na ortodoxia da filosofia
não só admite valores no campo científico como conclui que a ciência,
por portar valores, não pode ser objetiva, não pode, de forma alguma,
representar com fidedignidade objetos e relações reais. Da correta ob-
jeção ao positivismo, no sentido de alertar para a influência do contex-
to social na produção das crenças científicas, impõe-se uma alternativa
entre a neutralidade e a objetividade do discurso científico. Alternativa
falsa que, como tal, pode ser descaracterizada.11 Para isso, é necessário
refazer brevemente, sob a ótica aqui defendida, a crítica à noção da neu-
tralidade da ciência.
A relação entre o discurso científico e os valores afirma-se nos dois
sentidos, sobretudo nas ciências sociais nas quais os últimos são internos
ao objeto do primeiro: por um lado, o discurso científico é i­nfluencia­do
pelos valores e, por outro, ele os influencia. Iniciando pela influência dos
11 “Parece-noster sido apresentada uma escolha entre duas alternativas, igualmente
inaceitáveis: de um lado, um empirismo que é incapaz de dar conta em grande parte
do fenômeno histórico da ciência; de outro lado, um relativismo que torna a crítica
radical impossível e, ao fazê-lo, parece se auto-refutar.” (EDGLEY, 1998, p. 396).
76
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

valores no discurso científico, há que se alertar, antes de tudo, que não é


suficiente reproduzir aqui a manjada alegação, repetida ad infinitum des-
de a intervenção de Kuhn, de que o acesso à realidade empírica (ponto
de partida da construção das crenças, científicas ou não) não ocorre
em abstrato, mas sim por intervenção ativa de sujeitos (cientistas ou
não) imersos na malha de crenças de sua época, de sua classe social,
nacionalidade etc. A chave para não se derivar desta afirmação inicial
um profundo relativismo ontológico, como o faz o pós-modernismo e
outras correntes antirrealistas, encontra-se na demonstração, realizada
na primeira seção deste capítulo, da possibilidade de espelhar no pen-
samento a realidade, ou ao menos parte dela, de maneira precisa. Não
se faz necessário acrescentar aqui uma linha ao que foi dito, muito em-
bora seja prudente recordar que o estabelecimento da possibilidade de
descrição da realidade implica, ou melhor, significa a existência de um
discurso verdadeiro, objetivo.
Cabe-nos agora tão somente observar que, se a ciência é precisa-
mente a atividade que tem como finalidade principal o emprego de mé-
todos particulares, cada vez mais refinados, para descobrir a real cons-
tituição do mundo e se essa descoberta sempre se dá em oposição a
concepções previamente estabelecidas, então a atividade científica é,
por definição, crítica. Crítica das concepções, das fontes das concep-
ções, das ações fundamentadas sobre as concepções e, finalmente, dos
valores e outras condições sociais subentendidos em sua reprodução
como concepções correntes.
Explicita-se, enfim, a dupla natureza da não neutralidade da ciência.
Por um lado, como no caso das próprias explicações, não há crítica efe-
tiva sem alternativa e, dessa forma, a ciência não teria como opor valo-
res sem explicitar ou defender outros valores, seus e de outras práticas
sociais. Repetindo o argumento de Bhaskar, o aspecto distintivo das ela-
borações científicas encontra-se no fato de que elas se fundamentam,
em última instância, sobre um sistema de valores ao qual certamente se
aplica a acusação de não neutralidade, mas não a de não objetividade.
Trata-se do sistema baseado no valor da verdade que, como condição da
inteligibilidade dos discursos, dispensa apresentações ou prefácios.12
Nas palavras do autor:

12 Averdade e os demais valores mencionados não são criados pela atividade científica
ou exclusivos desta. Acontece que a ciência surge como atividade social que traz em
seu objetivo principal um compromisso com esses valores. Por essa razão, a ciência
“apropria-se” dos valores da verdade, consistência, poder explanatório, clareza etc. e,
em condições sociais favoráveis, os nutre como se tivessem sido por ela criados.
77

Não poderia ser objetado [...] que a distinção fato/valor somente

João Leonardo Medeiros


se rompe dessa forma porque se está comprometido com a valo-
ração a priori de que a verdade é boa, de forma que não se está
derivando um julgamento de valor de premissas inteiramente
factuais (naturais)? Porém, a verdade ser um bem (ceteris paribus)
não é somente uma condição do discurso moral, é uma condição
de qualquer discurso. O comprometimento com a verdade e com a
consistência aplica-se ao discurso factual tanto quanto ao discurso
valorativo; e, então, não pode ser entendido como uma premissa
(valorativa) oculta para livrar a autonomia de valores do discurso
factual, sem destruir a distinção entre os dois, distinção esta que é o
ponto de objeção a sustentar.13 (BHASKAR, 1979, p. 81, grifo nosso)

No sentido inverso, a atividade científica produz efeitos sobre o siste-


ma de valores, tanto porque abala ou descaracteriza determinadas cren-
ças, quanto porque este abalo ou descaracterização geralmente implica
uma defesa indireta de crenças antagônicas e de outros valores (além, é
claro, dos valores da verdade, consistência, poder explanatório etc.). Há
que se enfatizar, neste ponto, que o impacto do desenvolvimento cientí-
fico sobre o sistema de crenças e valores da sociedade não fica jamais
restrito a esse mesmo domínio; atinge também, por vezes radicalmente,
a esfera da prática social. Recorde-se, para variar os exemplos, a forma
pela qual a revolução copernicana desafiou e, passado algum tempo, ri-
valizou e superou as explicações religiosas do universo e, por corolário,
da condição humana.
A noção de crítica explanatória, tal como formulada na ontologia do
Realismo Crítico, é capaz de capturar com exatidão os elementos cons-
titutivos da crítica científica e, ao mesmo tempo, representar sintetica-
mente a maneira pela qual esta forma de pensamento pode desdobrar-
-se, sem quaisquer mediações ulteriores, em resoluções práticas igual-
mente críticas.14 A crítica explanatória ou ontológica refere-se, na
verdade, a um tríplice procedimento crítico:
13 “Asugestão de que a própria ciência pressuponha ou incorpore o compromisso com
certos valores, tais como a objetividade, abertura, integridade, honestidade, veracidade,
responsabilidade, consistência, coerência, compreensibilidade, poder explanatório etc.
é sem dúvida bem-vinda [...].” (BHASKAR, 1998, p. 421).
14 Esteinevitável sentido prático da crítica explanatória é capturado com perfeição por
Edgley na seguinte passagem: “Ciência envolve necessariamente argumentação contra
teorias e visões das pessoas, isto é, opô-las criticamente: ou, como dizemos às vezes, ata-
cá-las. A representação da ciência simplesmente como uma tentativa de compreender
o mundo esquece que seu intuito ao fazê-lo envolve também a mudança daquela parte
do mundo que consiste de entendimento equivocado. ‘O real é parcialmente irracional:
mude-o’ – este é o imperativo da ciência” (EDGLEY, 1998, p. 406). Recorde-se, en passant,
que a “crítica explanatória” preenche os requisitos da crítica ontológica de que falava
Lukács. Por esse motivo, as duas expressões são empregadas como sinônimos.
78
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

1. a demonstração da falsidade das crenças ou teorias criticadas;


2. a simultânea apresentação de uma explicação alternativa e
mais abrangente da causalidade de fenômenos anteriormente
significados por meio das crenças ou teorias em questão;
3. a indicação dos motivos reais que levam à produção e susten-
tação das concepções equivocadas, mistificadas e/ou ilusórias
e, ainda, das condições sociais que facultam a própria crítica.

Há que se ressaltar que a passagem da crítica explanatória à prá-


tica transformadora (das estruturas da sociedade que dão ensejo às
formas falsas de consciência) dispensa valores outros além daqueles
que distinguem o próprio discurso científico (verdade, consistência,
poder explanatório etc.). Se determinadas estruturas, instituições,
tendência etc. do mundo são efetivamente a causa última da forma-
ção de crenças ou teorias falsas, deformadas ou mistificadas, então a
apreciação crítica das concepções, nos termos explicitados, se des-
dobrará, imediatamente, numa crítica das causas, isto é, numa crítica
das próprias estruturas sociais. Para isso, vale repetir, não se faz ne-
cessário recorrer a valores outros que não o da verdade (que, como
condição do discurso racional, dispensa defesa). Por esse motivo,
Bhaskar encerra a apresentação de sua teoria da crítica explanatória
com a demonstração do vínculo existente entre esta crítica e a práti-
ca emancipatória.

Se, então, se está de posse de uma teoria que explica por que
a falsa consciência é necessária, pode-se passar imediatamen-
te, sem a adição de quaisquer julgamentos exógenos de valor,
para uma valoração negativa do objeto (estrutura generativa,
sistema de relações sociais, ou seja lá o que for) que torna
aquela consciência necessária (e, ceteris paribus, para uma va-
loração positiva da ação racionalmente direcionada para a mu-
dança das fontes da falsa consciência). (BHASKAR, 1979, p. 81).

Retomando o exemplo utilizado acima, se a forma salário tem por


pressuposto a produção capitalista, então a crítica da mistificação
representada por esta categoria pode ser diretamente traduzida
numa crítica da produção correspondente. Fica claro, espera-se, que
o poder explanatório da ciência, por ser sempre referente às con-
cepções correntes e às suas raízes ontológicas, possui forte caráter
79

João Leonardo Medeiros


subversivo.15 E isso joga por terra a pretensão, tão difundida entre
economistas ortodoxos (e mesmo heterodoxos), de que a atividade
científica possa ser neutra, num sentido qualquer. Como disse Žižek
a respeito das ciências sociais, “a descrição neutra da sociedade é
formalmente ‘falsa’, uma vez que envolve a aceitação da ordem exis-
tente” (ŽIŽEK, 2000, p. 175). Explicações são críticas, porque explicar
é criticar crenças correntes, científicas ou não – no mínimo tachan-
do-as de incompletas; críticas são oposição prática, porque o pensa-
mento não existe desvinculado da prática e vice-versa.
De forma geral, o conteúdo subversivo da ciência está associa-
do às posições autenticamente científicas (aquelas que conseguem
apreender com exatidão aspectos determinados da realidade, des-
mistificando as formas falsas ou parciais de consciência). Vimos, en-
tretanto, que tradições teóricas e ciências inteiras podem enredar-se
nas determinações da vida cotidiana, legitimando-se socialmente em
razão da assistência prestada – de forma consciente ou não, pouco
importa – à reprodução social. Pode-se admitir que essas concep-
ções instrumentais de fato fazem por merecer a chancela científica
que lhes é usualmente atribuída, já que, para assistir a reprodução
social, principalmente numa sociedade tão complexa e contraditória
como a capitalista, a apreensão em algum nível de suas caracterís-
ticas é um momento imprescindível. Todavia, por desviar-se de seu
propósito central, a objetivação da verdade como valor, a ciência as-
sim produzida possui um caráter necessariamente limitado e parcial,
de forma que o atestado de sua cientificidade jamais pode dispensar
um qualificativo adicional: ciência burguesa, instrumental, vulgar etc.
Em síntese, essa ciência “deflacionada” é uma ciência formal e es-
sencialmente conservadora, já que se põe, de modo instrumental, a
serviço da forma social existente e dos sistemas de valores e prá-
ticas que lhe são correspondentes. Por outro lado, a sua crítica, a
crítica autenticamente científica, pode ser descrita como um conflito
15 DeBhaskar (1979, p. 89 e 90) sobre as elaborações científicas de Marx: “[...] a ciência
marxista é subversiva em virtude de seu poder cognitivo por si só”. Comparando
a filosofia marxista com as vulgarizações veiculadas pelo stalinismo, Žižek observa
que: “a principal crítica dirigida a Lukács e Korsch tem origem em Abram Deborin
e sua escola filosófica, predominante na União Soviética, naquele período [final da
década de 1920] [...], autor que foi o primeiro a desenvolver sistematicamente a
noção de que a filosofia marxista é um método universal dialético, elaborando leis
gerais que podem ser aplicadas tanto a fenômenos naturais quanto sociais – a dialé-
tica marxista foi então privada de sua atitude prática-revolucionária, engajada, e foi
transformada numa teoria epistemológica geral que se ocupa das leis universais do
conhecimento científico” (ŽIŽEK, 2000, p. 154).
80
Breve digressão sobre o conhecimento da sociedade

de valores e, em particular, como um conflito entre o valor da ver-


dade, subversivo como é, e o valor da reprodução da ordem, por
definição conservador. Com essa redefinição da questão, talvez se
possa reapresentar o propósito deste trabalho como uma tentativa
de exercitar esse conflito específico de valores mediante a aplicação
da crítica explanatória às teorias econômicas ortodoxas da pobreza
e da desigualdade. Tal exercício crítico consistiria da defesa sequen-
cial de cinco proposições-chave:

1. que as teorias criticadas equivocam-se por considerar causais


determinadas relações empíricas, cujas bases objetivas são fa-
cilmente contestáveis;
2. que a falsidade de tais teorias apoia-se em três pressupostos
ontológicos, a saber, a naturalização da atual configuração
social, a confusão entre o âmbito individual e o âmbito social
(visão atomista da sociedade) e o proferimento abstrato de va-
lores emancipatórios;
3. que a verdadeira causa dos fenômenos da pobreza e da desi-
gualdade, em sua forma contemporânea, encontra-se na pró-
pria estrutura da produção capitalista;
4. que estas mesmas relações de produção contêm em si aspec-
tos ilusórios, mistificadores, e explicam a formação de “ondas
de interesse” pelas assim chamadas “temáticas sociais”;
5. que as “soluções” fundamentadas sobre as teorias econômicas
ortodoxas da pobreza e da desigualdade resolvem-se numa ati-
tude necessariamente voluntarista.

Para encerrar o capítulo e ceder passagem à retomada da linha


central de argumentação, faz-se preciso salientar que a ciência instru-
mental sustenta e veicula uma concepção de fundo da realidade so-
cial: a visão de que a realidade em sua forma existente constitui algo
que é, ou se deve assumir como, imutável, isto é, como uma segun-
da natureza. Em outras palavras, a ciência que se dedica exclusiva-
mente à resolução dos problemas da prática imediata possui, como
um de seus principais pressupostos ontológicos, a naturalização do
capital. Segue-se daí que a crítica da ciência instrumental e de suas
proposições funciona como uma espécie de ilustração da crítica ao
postulado da naturalização do capital. Para que esta ilustração não
fique sem amparo no plano teórico-filosófico, é preciso sustentar que
81

João Leonardo Medeiros


a inspeção ontológica da sociedade é capaz de assegurar o caráter
necessariamente transitório das formas sociais. Em termos mais cla-
ros, que a análise ontológica da sociedade pode garantir que a socie-
dade é marcada pela história. Isto será realizado no capítulo a seguir.
No Capítulo 5, retornaremos à atividade científica para descrever a
estrutura, as peculiaridades e os limites que esse objeto histórico
impõe à atividade científica.
3. Reafirmando o caráter histórico da sociedade:
contra a naturalização do capital

Esperamos ter demonstrado de modo satisfatório no Capítulo 2


que a realidade social, como a natural, caracteriza-se por sua nature-
za estruturada, isto é, por ser um objeto constituído por níveis de ser
distintos e irredutíveis uns aos outros: os fenômenos e as estruturas
(causais). Pode-se agora observar que o reconhecimento do caráter
estruturado do mundo na verdade faculta uma descrição das diferen-
tes modalidades de ser como objetos complexos em mais de um sen-
tido. Num plano geral, o mundo compreende os domínios inorgânico,
orgânico e social. Cada um desses domínios distintos e conexos con-
forma um ser em si e pode assim ser entendido como um complexo
de diferentes objetos estruturados, precisamente como um comple-
xo de estruturas causais e eventos.
No caso da sociedade, trata-se de uma estrutura composta da eco-
nomia, da religião, da arte, do direito etc., e cada instância particular
conforma um complexo de diversas estruturas sociais e atos huma-
nos. Em função de seu caráter internamente estruturado, a socieda-
de, como a natureza, fica mais bem representada como totalidade: um
complexo de complexos, no qual “todo ‘elemento’ e toda parte é tam-
bém [...] um todo; o elemento é sempre um complexo com proprieda-
des concretas, qualitativamente específicas, um complexo de forças
e relações diversas que agem em conjunto.”1 (LUKÁCS, 1979, p. 40).

1 Há algum tempo a noção de totalidade tem sido perniciosamente baralhada com a noção
de totalitarismo, sendo essa confusão alimentada não só pelo pensamento conservador,
como por boa parte da intelectualidade da “nova esquerda”. A esse respeito, gostaria de
fazer minhas as palavras de Paulo Netto: “Numa operação em que a ingenuidade epis-
temológica dá as mãos à ignorância dos clássicos do pensamento dialético (e freqüen-
temente também à má-fé ideológica), na cultura de oposição dominante na academia a
perspectiva crítico-teórica da totalidade é identificada com o totalitarismo político – con-
ceito inteiramente nebuloso, mas que serve para enfiar no mesmíssimo saco o nazi-fas-
cismo e as colapsadas experiências do socialismo real. Assim ‘criticada’, a perspectiva
da totalidade cede o passo ao empirismo mais rasteiro; quando se restringem as con-
cessões a este, o apelo necessário é a uma ‘abordagem holística’ de óbvias conotações
místico-irracionalistas.” (PAULO NETTO, 2002, p. 92 e 93).
84
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

Essa representação da sociedade como “complexo de complexos”


traz consigo imediatamente questões a respeito da relação entre
os complexos. Por exemplo, há uma hierarquia entre os complexos
particulares (uns mais importantes que outros)? Ou, ainda, os com-
plexos que compõem a sociedade emergem em momentos distintos
(isto é, há domínios antecedentes a outros)? No sentido inverso, será
que se trata de um processo de emergência, no qual todos os comple-
xos são constituídos simultaneamente? No caso de resposta positiva
às duas primeiras questões, pode-se indagar como a sincronia entre
os complexos influencia a hierarquia existente entre eles.
Talvez se possa perceber pelas próprias questões que a carac-
terização da sociedade como elemento estruturado remete neces-
sariamente a uma discussão sobre sua temporalidade imanente.
Admitindo que história refere-se ao processo de evolução temporal
de uma determinada modalidade de ser, então o debate acerca da
relação entre os complexos que conformam a sociedade é sinônimo
da investigação sobre sua natureza (possivelmente) histórica. Se os
complexos emergem uns dos outros e passam a relacionar-se entre
si de uma maneira tal que a temporalidade possui influência, então
não apenas se pode falar em história, mas assegurar que a história
faz diferença. No extremo oposto está a caracterização da sociedade
como um objeto que emerge once and for all, de maneira que a su-
cessão histórica de acontecimentos pouco importa para sua forma
específica de ser e operar.
Este penúltimo capítulo da Primeira Parte do trabalho tem o pro-
pósito de defender que a sociedade é realmente não apenas um obje-
to estruturado, mas um objeto essencialmente histórico, no sentido
acima indicado: ou seja, que o seu modus operandi, num determinado
momento, é influenciado decisivamente pela emergência sucessiva
de complexos e pelo curso dos acontecimentos (passados e presen-
tes). Três seções desenvolvem este ponto. Na primeira, o caráter es-
truturado da sociedade é analisado com detalhe para esclarecer as-
pectos fundamentais tanto das estruturas que compõem a realidade
social, quanto da relação entre elas. Nesta mesma seção, algumas ca-
tegorias fundamentais para a análise subsequente são introduzidas,
como “emergência” e “momento predominante”. Na seção seguinte,
o objetivo é especificamente defender o caráter histórico da socieda-
de. A terceira e última seção vale-se do desenvolvimento teórico das
85

João Leonardo Medeiros


seções anteriores para oferecer uma crítica direta ao postulado da
naturalização do capital.
Para finalizar essas breves notas introdutórias, talvez valha a
pena ressaltar que o argumento destinado a demonstrar essa carac-
terística própria da realidade social, isto é, a sua historicidade, pre-
tende sustentar a conclusão de que, sendo a sociedade um objeto
histórico, não faz sentido supor que a sua historicidade tenha de ser
interrompida na forma atual. Isso significa admitir, obviamente, que
a própria ideia de fim da história, vez por outra trazida à baila em
ramos distintos do pensamento social, é formalmente equivocada.
Assinalou-se no capítulo anterior que a defesa de uma determinada
concepção sempre implica uma crítica correspondente. Teríamos
aqui, em síntese, exatamente o seguinte: a defesa da historicidade
como o argumento correspondente à oposição ao postulado da natu-
ralização do capital.

3.1. A emergência e a especificidade das estruturas sociais

Do ponto de vista estritamente teórico, pode-se afirmar que a


grande virtude da noção de totalidade está relacionada ao fato de
permitir que a consideração da diversidade entre os seus domínios
específicos (complexos) não perca de vista a unidade do ser (a pró-
pria totalidade). Cada complexo particular possui um ser em si, uma
existência autônoma, podendo, assim, ser tomado como objeto de
investigação específica. Por outro lado, e ao mesmo tempo, essa mes-
ma existência relativamente autônoma dos complexos particulares,
essa mesma diversidade, integra um conjunto de instâncias da reali-
dade que não pode ser separado na prática. É essa a razão pela qual a
inspeção autônoma de “elementos”, por exemplo, da economia, não
pode jamais perder de vista a totalidade. Não se pode, portanto, abs-
tratamente descartar ou esvaziar epistemologicamente o fato de que
este objeto particular, a economia, está ontologicamente conectado
a todas as outras dimensões (“extraeconômicas”) que conformam a
realidade natural e social.
De fato, toda vez que a noção de totalidade é perdida, o que ocorre
é a defesa, usualmente sutil e velada, de uma abstração idealista, cons-
truída de maneira totalmente arbitrária. Isso acontece, por exemplo, na
reificação da dimensão econômica da realidade, promovida pela maioria
dos economistas e pelo materialismo vulgar, em que tudo e todos são
86
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

diretamente traduzidos em termos de categorias econômicas. Exemplo


clássico desta atitude encontra-se na veiculação de uma descrição do
mundo social sob a forma de conjunto de proposições, realizada por
intermédio dos aclamados manuais de microeconomia (Varian, Kreps,
Mas-Colell etc.).2 Como dito em outro espaço:

Ficam aí definidas valorações e/ou concepções acerca do


mundo social: a estrutura social é reduzida ao mercado; o ser
humano é reduzido a indivíduo (consumidor); a racionalidade
é reduzida à razão instrumental maximizadora; o mundo eco-
nômico é uma estrutura de equilíbrio. Neste caso, a questão
essencial não é se a teoria tem ou não a intenção de descre-
ver corretamente a realidade, mas sim o fato de que ela traz
sempre consigo uma inteligibilidade do mundo que, autoriza-
da agora pelo discurso científico (econômico), sistematiza e
fomenta doutrinariamente atitudes, regras, condutas, institui-
ções etc. empiricamente observadas. (DUAYER; MEDEIROS;
PAINCEIRA, 2000, p. 11)

Retornando às diferentes maneiras pelas quais a realidade


pode ser compreendida como objeto estruturado, considere-se
primeiramente o relacionamento entre o ser social e o ser natural.
Na análise do agir humano, argumenta-se que a emergência do
trabalho, como momento específico da evolução biológica, recria
a si mesmo como objetividade que não possui análogo na natu-
reza e, com isso, faz surgir a própria sociedade. O surgimento do
trabalho é ipso facto o surgimento dos seres humanos e das rela-
ções entre eles. Temos aí, em termos comparativos, o “big-bang”
da sociedade. Neste processo, um aspecto essencial do relaciona-
mento entre os complexos torna-se evidente: a emergência de um
complexo a partir de outro. Seguindo Lawson neste ponto:

2 No manual de Kreps: “A teoria microeconômica estuda o comportamento dos agentes


econômicos individuais e a agregação de suas ações em diferentes estruturas institucio-
nais. Esta descrição resumida introduz quatro categorias: o agente individual, tradicio-
nalmente um consumidor ou uma firma; o comportamento do agente, tradicionalmente a
maximização da utilidade pelos consumidores e a maximização dos lucros pelas firmas;
uma estrutura institucional, que descreve quais opções os agentes individuais possuem
e que resultados recebem como função das ações dos outros, tradicionalmente o meca-
nismo de preço em um mercado impessoal; e o modo de análise para modelar a maneira
como os diversos comportamentos dos agentes serão agregados no interior de determi-
nada estrutura, tradicionalmente análise de equilíbrio.” (KREPS, 1990, p. 3).
87

João Leonardo Medeiros


Emergência pode ser definida como a relação entre característi-
cas, ou aspectos, tal que uma característica surge a partir da outra
e, embora seja capaz de retroagir sobre ela, permanece causal-
mente e taxonomicamente irredutível a ela. [...] Nosso intuito de
separar a ciência da esfera social, centrada na intencionalidade do
agir humano e envolvendo o reconhecimento de uma realidade e
a relativa autonomia da estrutura social condicionadora de ações,
remonta à consideração da irredutibilidade da sociedade à nature-
za. (LAWSON, 1997, p. 63)

O ser social, portanto, emerge do ser natural “e não pode jamais se


separar de modo completo – precisamente em sentido ontológico – des-
sa base” (LUKÁCS, 1979, p. 19). Essa conexão entre a sociedade e sua
base natural precisa ser enfatizada porque, como será analisado poste-
riormente, o desenvolvimento do ser social caracteriza-se pelo aumento
do caráter social de seus componentes, pelo constante distanciamento
da natureza. Em outras palavras, o ser social se desenvolve na direção
de uma crescente sociabilidade: “A tendência principal do processo [...]
é o constante crescimento, quantitativo e qualitativo, das componentes
pura ou predominantemente sociais, aquilo que Marx costumava cha-
mar de ‘recuo dos limites naturais’” (LUKÁCS, 1979, p. 19).
Outro exemplo de emergência pode ser encontrado na estrutura
interna da sociedade. Nesse caso, não parece ser difícil admitir que a
economia, como o complexo no qual são criadas desde sua origem as
condições para a reprodução material (biológica) da espécie humana,
constitui a base para o desenvolvimento relativamente autônomo de
todos os complexos (política, direito, arte etc.) que se articulam na to-
talidade do ser social. Para evitar entrar aqui no intenso debate a respei-
to do relacionamento entre a economia e os demais complexos sociais,
recorro às categorias criadas por Marx para descrever a relação entre
determinações reflexivas (ou relações internas): prioridade ontológica e
momento predominante.3

3 O debate a que me refiro gira em torno da alegação de que a forma como Marx concebe
a relação entre o econômico e o “extraeconômico” seria determinista. Acredita-se que a
própria exposição acima sirva para deixar patente que esse entendimento parece-nos
inteiramente equivocado. É bem verdade, entretanto, que o marxismo vulgar contribuiu
bastante para perpetuar uma confusão virtualmente infinita. Inspirado pelo stalinismo,
no campo político, e pelo positivismo, no campo filosófico, o materialismo vulgar nutriu
um forte economicismo, facilmente criticável, como diz Lukács, mesmo por adversários
tão fracos como os irracionalistas. Uma crítica desta e de outras ambiguidades do mar-
xismo vulgar encontra-se em Lukács (1979a).
88
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

O ponto de partida aqui é o reconhecimento do aspecto funda-


mental da dialética materialista: “nenhuma interação real (nenhuma
real determinação reflexiva) existe sem momento predominante”
(LUKÁCS, 1979a, p. 70). Numa determinação reflexiva – como aquela
entre as estruturas sociais e o agir humano, o ser social e o conheci-
mento, os complexos econômicos e extraeconômicos, a produção e
o consumo – um “lado” da relação adquire o estatuto ontológico de
momento predominante (isto é, determinante último) toda vez que ele
tiver prioridade ontológica sobre o outro “lado”. Esta última categoria
é definida da seguinte forma:

Quando atribuímos uma prioridade ontológica a determina-


da categoria com relação a outra, entendemos simplesmente
o seguinte: a primeira pode existir sem a segunda, enquanto
o inverso é ontologicamente impossível. É algo semelhante à
tese central de todo materialismo, segundo a qual o ser tem
prioridade ontológica com relação à consciência. Do ponto de
vista ontológico, isso significa simplesmente que pode existir
o ser sem a consciência, enquanto toda consciência deve ter
como pressuposto, como fundamento, algo que é. Mas disso
não deriva nenhuma hierarquia de valor entre ser e consciên-
cia. Ao contrário, toda investigação ontológica concreta sobre
a relação entre ambos mostra que a consciência só se torna
possível num grau relativamente elevado do desenvolvimen-
to da matéria [...]. O mesmo vale, no plano ontológico, para a
prioridade da produção e da reprodução do ser humano em
relação a outras funções. (LUKÁCS, 1979a, p. 70)

E o mesmo vale, no plano ontológico, para a prioridade das estru-


turas sociais sobre a atividade humana, que pode ser reconsiderada
a partir de um novo ponto de vista. No Capítulo 2, a conexão dialé-
tica entre esses complexos internamente relacionados foi descrita
de forma a esclarecer o estatuto ontológico das estruturas sociais e,
com isso, tornar flagrante a insuficiência da representação empirista
(atomista) de mundo. É preciso recordar agora que, numa perspecti-
va geral, a defesa da existência de estruturas além da percepção hu-
mana é simultaneamente a demonstração rigorosa da tese de que o
mundo, natural ou social, é estruturado em dois âmbitos: o domínio
dos mecanismos causadores de eventos (as próprias estruturas) e o
89

João Leonardo Medeiros


domínio dos eventos (as ocorrências condicionadas pelas estrutu-
ras, que podem ser percebidas ou não).
O primeiro e mais imediato domínio do mundo é aquele das ocor-
rências efêmeras e contingentes: a erupção de um vulcão, a queda
de neve, o nascimento de uma criança, a emissão de um cheque, a
demissão de trabalhadores etc. No caso do ser social, estas ocorrên-
cias efêmeras – ou, simplesmente, eventos – são em si atos humanos
(ou direta consequência deles), dotados de todas as suas proprieda-
des imanentes descritas nos capítulos anteriores (intencionalidade,
cognição etc.). A relação entre o agir humano e as estruturas sociais
foi anteriormente caracterizada da seguinte forma: as estruturas
preexis­tem ao agir humano e constrangem ou facultam (ao oferece-
rem condições para) as próprias posições teleológicas que caracte-
rizam o agir humano. Aplicando agora as categorias introduzidas al-
gumas linhas acima, podemos assegurar que as estruturas possuem
prioridade ontológica sobre os eventos singulares. Isso porque elas
podem existir mesmo que não materializadas em eventos, mas os
atos singulares não podem ocorrer na ausência das estruturas so-
ciais. Isso garante para as estruturas sociais a condição de momento
predominante: “causam” os atos humanos, mas não podem ser cau-
sadas por eles.4
As estruturas sociais são, então, poderes causais, ou mecanismos
geradores de eventos. Esses mecanismos geradores “causam” os
atos humanos ao estabelecer limites e condições necessárias para
sua realização, mas, como vimos, não podem ser causados por eles,
nem mesmo se consideramos a ação coletiva de grupos de indiví-
duos, porque as estruturas são antecedentes aos próprios atos. Os
mecanismos geradores são condições, matérias-primas, e não pro-
dutos. Não são objetos empíricos (não são capturados diretamente
pelos sentidos humanos), mas são tão reais quanto as práticas que
influenciam. Eles são objetos sociais não empíricos – transempíricos
– tais como classes sociais, sistema bancário, lei do valor, mercados,
o Estado etc., que determinam o leque de possibilidades imediatas
para a práxis humana. Por todas essas razões, os mecanismos sociais

4 A sociedade oferece as condições para o agir humano e, dessa forma, determina seu
leque de possibilidades. Neste sentido, pode-se afirmar que a sociedade “causa” os
atos individuais. É, entretanto, prudente ressalvar, ao menos neste rodapé, que a
determinação do leque de possibilidades não implica a determinação dos atos em
si. O agir humano é, de forma mais precisa, “uma intervenção prática irredutível às
suas ‘condições objetivas’.” (ŽIŽEK, 2000, p. 175).
90
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

geradores de eventos podem receber uma descrição geral idêntica


ao seu análogo natural. Na descrição de Lawson:

Um mecanismo é basicamente um modo de agir e funcionar de


uma coisa estruturada. Bicicletas e foguetes funcionam de cer-
tos modos. É claro que não podem funcionar ou agir do modo
como o fazem sem possuir o poder para tal. Mecanismos, en-
tão, existem como poderes casuais das coisas. Os poderes de
coisas estruturadas são usualmente exercidos apenas como
resultado de algum input: o acender de um fósforo, o levantar
e manusear de um martelo, o ligar um computador ou a intera-
ção com ele, a flexão de cordas vocais, a chegada de crianças
e professores na escola ou de empregados em seus locais de
trabalho. E os mecanismos, quando disparados (onde relevan-
tes) produzem efeitos. Coisas estruturadas, então, possuem
poderes casuais que, quando disparados ou liberados, atuam
como mecanismos generativos para determinar os fenômenos
efetivos do mundo real. (LAWSON, 1997, p. 21)

A sociedade é, enfim, composta de uma “multidão de coisas” estru-


turadas, dotadas com poderes intrínsecos que podem estar em cons-
tante operação, mesmo que não estejam materializadas em eventos.
Isso ocorre porque vários mecanismos (naturais e sociais), alguns
contrapostos, interagem na totalidade do ser social, influenciando di-
namicamente os eventos sociais. Em outros termos, os eventos “[...]
são conjuntamente determinados por várias, talvez contrapostas, in-
fluências, de modo que as causas que os governam, embora necessa-
riamente ‘aparecendo’ através, ou nos, eventos, raramente poderem
ser lidos diretamente.” (LAWSON, 1997, p. 22). A expressão de legali-
dades como tendências captura com precisão a maneira transfactual
de agir dos mecanismos causais. Uma tendência é

uma afirmação transfactual sobre a atividade tipicamente não


empírica de uma coisa ou agente estruturado; aqui os trans-
factuais não são contrafactuais, mas nos transportam ao nível
no qual as coisas estão acontecendo independente do resulta-
do efetivo. A afirmação de uma tendência, em outras palavras,
não é uma afirmação condicional sobre algo efetivo ou empí-
rico, mas uma afirmação incondicional sobre algo não-efetivo
91

João Leonardo Medeiros


e não-empírico. Não é uma afirmação de necessidade lógica
sujeita a restrições ceteris paribus, mas uma afirmação de ne-
cessidade natural sem qualificações. Não é sobre eventos que
ocorreriam se o mundo fosse diferente, mas sobre o poder que
está sendo exercido quaisquer que sejam os eventos que se suce-
dam. (LAWSON, 1997, p. 23, grifo do autor)

É fundamental assinalar, neste momento, que diversas caracterís-


ticas peculiares, das quais destacamos duas, tornam os mecanismos
sociais distintos de seus análogos da natureza. Em primeiro lugar e
acima de tudo, as estruturas sociais, ao contrário dos mecanismos
naturais, “existem apenas em virtude das atividades que governam
e não podem ser empiricamente identificadas de forma independen-
te destas atividades. Em razão disso, as próprias estruturas devem
ser produtos sociais” (BHASKAR, 1979, p. 47 e 48). Esse aspecto da
realidade social é decisivo, por um lado, para revelar que a autono-
mia das estruturas sociais em relação ao agir humano nunca pode
ser completa. Como dissemos no Capítulo 2, as estruturas sociais só
integram ativamente a totalidade social caso sejam reproduzidas ou
transformadas pelos atos humanos (embora continue sendo verdade
que tais atos não criam as estruturas).
Por outro lado, é a autonomia relativa das estruturas sociais em re-
lação ao agir humano que, em última instância, explica a forma como
as estruturas causais adquirem a natureza tendencial nesta modali-
dade específica de ser. O ponto a se destacar aqui é que as estruturas
sociais são um resultado não intencional das infinitas interações en-
tre os efeitos simultâneos de incontáveis atos humanos (como disse
Bhaskar, são “produtos sociais”). Em outras palavras, as estruturas
sociais são sínteses produzidas pela própria realidade, sínteses reais,
dos efeitos dos inúmeros atos humanos singulares. Pode-se ilustrar
o argumento com a descrição de Lukács das tendências econômicas:

[...] essas legalidades são decerto sínteses que a própria rea-


lidade elabora a partir dos atos práticos econômicos singula-
res, realizados de modo consciente enquanto tais, mas cujos
resultados últimos – que são fixados pela teoria – ultrapas-
sam de muito as capacidades de compreensão teórica e as
92
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

possibilidades de decisão prática dos indivíduos que realizam


efetivamente esses atos práticos.5 (LUKÁCS, 1979a, p. 51)

Para oferecer mais um exemplo, recordemos o valor “econômico”, o


dispêndio médio ou social de força de trabalho necessário para produzir
um determinado objeto. Como resultado médio ou social do dispêndio
da força de trabalho de diferentes produtores num determinado período
econômico, o valor configura-se como estrutura social. Se o mundo so-
cial se desenvolve na direção de uma crescente sociabilidade (“o recuo
dos limites naturais”), e se esta tendência geral se materializa no aumen-
to da produtividade, então o valor também constitui tendência. Com o
aumento da produtividade, a massa de valor cresce, enquanto o valor
unitário dos produtos decresce. Esta tendência pode não se materializar
em eventos ou, ao contrário, pode se manifestar diretamente por inter-
médio do movimento de sua forma fenomênica, os preços. De qualquer
maneira, como nos chama a atenção o exemplo de Lukács reproduzido
abaixo, essa tendência, essa abstração real, interage com outros objetos
transempíricos governando o curso da vida humana.

No século XIX, milhões de artesãos autônomos experimentaram


os efeitos dessa abstração, do trabalho socialmente necessário,
quando se arruinavam, isto é, quando experimentavam na prática
as suas conseqüências concretas, sem terem a mínima idéia de
encontrar-se diante de uma abstração realizada pelo processo so-
cial. Essa abstração tem a mesma dureza ontológica da faticidade,
digamos, de um automóvel que atropela uma pessoa. (LUKÁCS,
1979a, p. 48)

A segunda particularidade das estruturas, poderes, mecanismos e


tendências sociais é a de serem dependentes das concepções que os se-
res humanos desenvolvem a seu respeito. Isto se deve ao fato de que
as estruturas sociais são resultados (não teleológicos) das interações
entre as práticas humanas intencionais e, dessa forma, envolvem neces-
sariamente, ao menos de modo indireto, conhecimento. Abre-se aqui a
oportunidade para uma análise da importância decisiva da atividade

5 Numa apresentação mais simples: “Do ponto de vista ontológico, legalidade significa
simplesmente que, no interior de um complexo ou na relação recíproca de dois ou
mais complexos, a presença factual de determinadas condições implica necessaria-
mente, ainda que apenas como tendência, determinadas consequências.” (LUKÁCS,
1979a, p. 104).
93

João Leonardo Medeiros


científica para a reprodução social, que, em razão de sua relevância para
o conjunto do argumento, será realizada à parte (na última seção). O que
é, entretanto, efetivamente decisivo destacar neste momento é que as
estruturas sociais distinguem-se das estruturas naturais por serem tão
dependentes do conhecimento quanto o são da atividade humana. É pre-
ciso ainda assinalar que a consequência principal desses dois atributos
peculiares das estruturas sociais é o seu caráter relativamente duradouro.
As estruturas sociais não podem, por um lado, ser efêmeras como os
eventos, caso contrário a vida social seria não mais do que uma perpétua
e contínua sequência de revoluções. Por outro lado, essas estruturas são
relativamente menos duráveis do que o seu correspondente natural por-
que são sempre dependentes do agir humano e por ele transformáveis,
com sua mediação, pelo estoque de conhecimentos. Seria justo afirmar,
no entanto, que as estruturas naturais também se modificam, embora
a velocidade do processo de mudança possa ser considerada “eterna”
para a temporalidade humana. Seria igualmente justo afirmar que há es-
truturas sociais “eternas”, como o conhecimento e o valor “econômico”,
com a devida ressalva de que a explicitação do valor “econômico” como
um duplo de valor-de-uso e valor é episódio relativamente recente na
história da humanidade.6
A conclusão a que podemos chegar, em síntese, é que as totalida-
des são ontologicamente históricas e a história humana é mais ace-
lerada do que a história natural. Para que se possa compreender de
forma mais ampla e adequada este caráter histórico da totalidade
social, faz-se necessário empregar categorias adicionais, tais como
a própria noção de história. Até então, “somente” as concepções de
emergência e momento predominante puderam ser apresentadas.
História, desenvolvimento e progresso são algumas das categorias
introduzidas na seção seguinte para que se possa complementar este
primeiro enfoque “estático” com uma abordagem “dinâmica”.

3.2. A natureza histórica da totalidade social

Um determinado objeto é intrinsecamente histórico ou dinâmico


se sua constituição muda continuamente com o tempo. Faz-se neces-
sário chamar a atenção para o uso do termo “continuamente”, porque

6 Como precondições do trabalho (o processo de produção e reprodução da vida


social), o conhecimento e o valor “econômico” devem sempre existir, a não ser que
desapareçam os próprios seres humanos e, com isso, a vida em sociedade.
94
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

a primeira condição para estabelecer que um objeto se modificou é sua


permanência como mesmo objeto, ainda que sua constituição interna te-
nha se alterado substantivamente. Só se pode afirmar que a história do
capitalismo, por exemplo, continua em curso se o capitalismo persistir;
se os aspectos que realmente distinguem e caracterizam essa sociedade
continuam presentes, apesar das mudanças, possivelmente radicais, em
sua estrutura. A história do capitalismo refere-se exatamente à mudança
e permanência de estruturas nele compreendidas.
A mesma lógica aplica-se a qualquer objeto estruturado, incluindo a
sociedade, entendida agora de maneira genérica (independentemente da
forma particular em que se apresente), e seus complexos constitutivos: “a
continuidade na persistência, enquanto princípio de ser dos complexos
em movimento, é indício de tendências ontológicas à historicidade como
princípio do próprio ser” (LUKÁCS, 1979a, p. 79). No caso das estruturas
sociais, por exemplo, só se pode falar de seu caráter histórico porque
estas estruturas estão continuamente em mudança. Diferentemente dos
atos humanos singulares, as estruturas sociais não são once and for all.
Os complexos sociais são dinamicamente reproduzidos e modificados
pelo somatório dos efeitos dos atos individuais e, por essa razão, podem
ser compreendidos como processos, como entidades históricas, ao me-
nos enquanto seus aspectos efetivamente distintivos permanecerem. Na
definição de Lawson de processo:

A terminologia de processo é desse modo fundamental à ciência


social. Com isso não quero dizer meramente [...] uma seqüência
de eventos. Pelo contrário, processo denota aqui a gênese, re-
produção e declínio de algum mecanismo, estrutura ou coisa, a
formação, reforma e decadência de alguma entidade no tempo.
(LAWSON, 1997, p. 34 e 35)

Além do mais, se as estruturas sociais são dotadas de determinados


poderes causais, e se são caracterizadas por um modus operandi espe-
cífico, então a maneira pela qual elas irão evoluir dinamicamente não é
irracional. Colocando de forma mais ampla, “a historicidade implica não
o simples movimento, mas, também e sempre, uma determinada direção
na mudança, uma direção que se expressa em transformações qualitati-
vas de determinados complexos, tanto em-si quanto em relação a outros
complexos” (LUKÁCS, 1979a, p. 79). Uma diferença importante entre a
ontologia aqui defendida e a ontologia religiosa, ou mística, é que esta
95

João Leonardo Medeiros


última considera a direção da história um resultado da ação intencional
(ou do desejo) de uma entidade transcendente, e não uma consequência
necessária da dinâmica constituição interna do próprio objeto. Para evi-
tar tal equívoco, é importante salientar, ainda com Lukács, que “negamos
aqui toda forma generalizada de teleologia, não apenas na natureza inor-
gânica e orgânica, mas também na sociedade; e limitamos sua validade
aos atos singulares do agir humano-social, cuja forma mais explícita e
cujo modelo é o trabalho” (LUKÁCS, 1979a, p. 81).
Os conceitos de desenvolvimento e progresso são empregados para
descrever em si mesma a direção do movimento de objetos estrutura-
dos, ou seja, para descrever objetivamente a direção do movimento. A
ideia-chave envolvida neste procedimento é a complexidade. Uma dada
estrutura (totalidade) é objetivamente superior, ou mais desenvolvida,
do que outra estrutura da mesma espécie caso seja constituída por um
maior número de componentes específicos, ou pelo mesmo número de
componentes mais complexos. Dada esta concepção de desenvolvimen-
to, a noção de progresso serve para descrever a passagem de um nível
mais baixo de desenvolvimento para um nível mais alto – o aumento da
complexidade de objetos estruturados. Como ilustração, recorde-se que
o DNA estabelece as bases para a construção de um ranking ontológico
da complexidade de diferentes espécies, tornando possível afirmar que a
espécie humana é objetivamente mais complexa ou desenvolvida do que
as bactérias. O DNA permite, ainda, descrever a evolução das espécies,
da bactéria aos mamíferos, como progresso objetivo do ser orgânico.
No caso da sociedade, a ampliação da complexidade, ou desen-
volvimento, se caracteriza pelo aumento (extensivo) do número de
estruturas predominantemente sociais e/ou pelo aumento (intensivo)
do caráter especificamente social do número de estruturas. Esse é
o significado exato da afirmação de que o ser social se move na di-
reção de uma crescente sociabilidade; de que o desenvolvimento do
ser social é marcado pelo “recuo dos limites naturais”.7 Enfatizando
este ponto:

O ser social [...] tem um desenvolvimento no qual essas cate-


gorias naturais, mesmo sem jamais desaparecerem, recuam de

7 Pode-se defender que essa descrição do desenvolvimento das estruturas sociais é des-
vinculada de qualquer juízo de valor. “Nessa constatação ontológica do progresso, não
está contido nenhum juízo de valor subjetivo. Trata-se da constatação de um estado de
coisas ontológico, independentemente de como ele seja avaliado posteriormente. (Pode-
-se aprovar, deplorar etc., o ‘recuo das barreiras naturais’)” (LUKÁCS, 1979a, p. 54).
96
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

modo cada vez mais nítido, deixando o lugar de destaque para


categorias que não têm na natureza sequer um corresponden-
te analógico. É o que ocorre no caso do intercâmbio de mer-
cadorias, onde determinadas formas próximas à natureza (o
gado como meio geral de troca) são substituídas pelo dinheiro,
que é puramente social [...]. (LUKÁCS, 1979a, p. 53 e 54)

Dois aspectos interconectados deste movimento na direção da


crescente sociabilidade são de importância fundamental. Em primei-
ro lugar, o desenvolvimento do ser social é marcado por diversas
legalidades, incluindo a própria tendência geral do desenvolvimento:
o ser social tende a ser crescentemente social. Os diferentes comple-
xos do ser social são constituídos por legalidades particulares e a
interação entre essas legalidades é sintetizada numa tendência geral
de crescimento da sociabilidade. Isso significa que historicidade e
legalidade não são categorias opostas. Ao contrário, são formas de
expressão interconectadas “de uma realidade que, por sua essência,
é constituída de diversos complexos heterogêneos e heterogenea-
mente movidos, os quais são unificados por aquela realidade em leis
próprias do mesmo gênero” (LUKÁCS, 1979a, p. 100).
Em segundo lugar, como sugerido na citação acima, a tendência
geral de recuo dos limites naturais é perfeitamente compatível com
o movimento heterogêneo dos diferentes complexos que conformam
a totalidade do ser social. Isso nos conduz à categoria marxiana do
desenvolvimento desigual, que captura com exatidão essa heteroge-
neidade: por um lado, complexos diferentes de uma mesma totalida-
de podem estar em estágios distintos de desenvolvimento; por outro,
alguns complexos podem estar contingentemente regredindo em vez
de progredindo. No caso da sociedade:

Desigualdade do desenvolvimento significa, “simplesmente”,


que a grande linha da evolução do ser social – a crescente socia-
bilidade de todas as categorias, vínculos e relações – não pode
se explicitar em linha reta, segundo uma “lógica” racional qual-
quer, mas se move por vias transversas (deixando mesmo atrás
de si alguns becos sem saída) e, em parte, fazendo com que
os complexos singulares, cujos momentos reunidos formam o
97

João Leonardo Medeiros


desenvolvimento global, encontrem-se individualmente numa
relação de não-correspondência.8 (LUKÁCS, 1979a, p. 134)

O próprio Marx oferece alguns exemplos de desenvolvimento de-


sigual, dos quais dois são apresentados por Lukács (1979a, p. 123-
138): o desenvolvimento desigual entre direito e economia e o de-
senvolvimento desigual entre arte e sociedade. Tome-se, a título de
brevíssima ilustração, o caso do desenvolvimento desigual entre arte
e sociedade, que se destaca, em nosso juízo, por romper diretamente
com a concepção vulgarizada do materialismo histórico. Para os vul-
garizadores, as obras de arte, como componentes da superestrutu-
ra, deveriam corresponder de forma direta à estrutura da sociedade
– a sua base material. Marx se distancia desta posição mecanicista
indicando que, se as relações econômicas de fato possuem priori-
dade ontológica no ser social, não se segue daí que estas relações
se afirmem de forma direta, sem quaisquer mediações. O autor pro-
cura enfatizar particularmente, por um lado, a conexão da arte com
a totalidade das relações sociais (e não somente com as relações
materiais) e, por outro, a impossibilidade de se representar esta to-
talidade de forma extensiva: o artista sempre privilegia alguns com-
plexos ou aspectos particulares do ser social. Pode ocorrer, e ocorre
frequentemente, que os complexos ou elementos da sociedade aos
quais uma determinada arte esteja diretamente ligada encontrem-se
numa situação de assincronia momentânea com a tendência geral
de crescente sociabilidade das relações sociais, de tal forma que a
velocidade do desenvolvimento artístico e a velocidade do desen-
volvimento social sejam heterogêneas ou distintas. Como diz Marx
a respeito da arte clássica grega e das obras de Shakespeare: “sabe-
-se que certas épocas do florescimento artístico não estão de modo
algum em conformidade com o desenvolvimento geral da sociedade,

8 Compare essa apresentação da categoria marxiana do desenvolvimento desigual


com a formulação de Mandel apud (BOTTOMORE, 1983, p. 502): “No sentido mais
geral do termo, desenvolvimento desigual significa que sociedades, países, nações
desenvolvem-se em ritmo desigual, de tal forma que, em certos casos, aqueles que
iniciam à frente dos outros podem ampliar sua liderança, enquanto que, em outros
casos, devido às mesmas diferenças no ritmo do desenvolvimento, os que iniciam
em desvantagem podem alcançar e ultrapassar os que gozavam de vantagem inicial.
Para possuir significado, a noção de ‘desenvolvimento desigual’ deve incluir, em
cada caso específico, a(s) força(s) motoras determinante(s) das diferenças no ritmo
do desenvolvimento”. O mínimo que se pode dizer da definição de Mandel é que ela
está longe de expressar o “sentido mais geral do termo”.
98
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

nem, por conseguinte, com o da base material que é, de certo modo,


a ossatura da sua organização” (MARX, 1982, p. 20).
Resumindo os pontos centrais do argumento desta seção, pode-
-se dizer que a sociedade é intrinsecamente histórica, tanto no nível
da totalidade quanto no nível dos complexos particulares. O desen-
volvimento social é caracterizado pelo aumento da sociabilidade e
o progresso é a passagem do mais baixo para o mais alto estágio de
desenvolvimento (da mais baixa para a mais alta sociabilidade). O
processo de desenvolvimento constitui uma tendência geral do ser
social e, dessa forma, sintetiza tendências particulares. Este proces-
so não é suave e nem direto, mas, ao contrário, heterogêneo. A he-
terogeneidade é capturada pela noção de desenvolvimento desigual
e não é privada de legalidades. Por fim, todas as categorias intro-
duzidas nesta seção são compatíveis com a ideia de que a história
não é um processo irracional. Assim sendo, a razão pode procurar
compreen­der a racionalidade da história para iluminar a práxis so-
cial e oferecer aos seres humanos a chance de, em intervenções de
natureza específica, influir no curso de sua própria história.
Não se pode deixar de fazer uma importante ressalva a respeito
do caráter histórico da sociedade: afirmar que a história não é irra-
cional é completamente diferente de afirmar que a história é previsí-
vel. Afirmar que a sociedade é marcada por legalidades é comple-
tamente diferente de afirmar que é possível descrever como estas
legalidades irão se manifestar em fenômenos. Afirmar que a espécie
humana pode interferir na história é completamente diferente de
afirmar que os indivíduos podem determinar o curso da vida. Todas
essas diferenças são devidas ao fato de que os eventos sociais
são, em geral, imprevisíveis por natureza. Eventos sociais, exceto
em contextos restritos, não ocorrem de maneira previsível.9 Eles
não seguem padrões regulares como aqueles sugeridos por Hume
em sua concepção empirista de legalidade (sempre que o evento
x ocorrer, segue-se y). A concepção de mundo aberto do Realismo
Crítico esclarece esta questão.

9 É importante fazer a seguinte ressalva: “Naturalmente, isso não excluía previsibili-


dade em casos concretos individuais, num terreno delimitado, numa perspectiva
breve; todo trabalho, toda práxis social se baseia nessa possibilidade; e a teoria
neopositivista da manipulação pode imaginar, porque se limita a isso e refuta qual-
quer colocação ontológica, ter chegado assim a um racionalismo cientificamente
fundamentado” (LUKÁCS, 1979a, p. 106 e 107).
99

João Leonardo Medeiros


O ponto de partida aqui é, uma vez mais, a inspeção do agir hu-
mano. Recorde-se que o agir humano pode ser descrito, a partir de
seu protótipo, como trabalho com e sobre causas materiais a fim de
produzir um resultado predeterminado. Como ação necessariamente
intencional, o agir humano é escolha múltipla entre alternativas. Uma
vez reconhecido este caráter alternativo da práxis humana, torna-se
possível indicar as condições ontológicas para a existência da esco-
lha real. Uma dessas condições é exatamente a abertura do mundo
social, no seguinte sentido:

Se a escolha é real, então qualquer agente poderia sempre ter


feito outra escolha; cada agente sempre poderia ter agido efe-
tivamente de forma distinta. [...] E uma condição necessária
para isto é que o mundo, social e também natural, seja aberto
no sentido de que os eventos realmente poderiam ter sido di-
ferentes. Em outros termos, se sob condições x um agente fez
y, tem que ser possível que este mesmo agente pudesse real-
mente não ter feito y. A escolha, para repetir, pressupõe que o
mundo seja aberto e que os eventos efetivos pudessem não ter
ocorrido. (LAWSON, 1997, p. 30)

A inevitável abertura do mundo é, portanto, condição necessária


para a ocorrência da escolha alternativa. Por ser realmente possível
escolher algo diferente, a escolha alternativa é, de fato, uma esco-
lha entre alternativas. Isso significa que, se os seres humanos fazem
escolhas reais, não há padrão de eventos no mundo social que nos
permita predizer que “se o evento x ocorrer, o evento y se seguirá”.
O mundo social, para enfatizar, é aberto e esta abertura é compatível
com o caráter histórico da sociedade, até porque as duas proposi-
ções dizem respeito a domínios distintos do mundo. A afirmação da
historicidade é uma proposição transfactual, relativa ao domínio das
estruturas que condicionam, mas não determinam, os atos humanos
singulares (eventos sociais), enquanto o caráter aberto do mundo é
essencialmente uma proposição sobre o domínio dos eventos.
Em outros termos, o conteúdo da racionalidade da história está
em suas legalidades transformáveis e não em suas manifestações fac-
tuais, embora a história, uma vez ocorrida, apresente-se de fato como
uma sequência cronológica de eventos. Segue-se daí a conclusão de
que uma importante consequência epistemológica da abertura do
100
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

mundo é o caráter exclusivamente explanatório das ciências sociais:


a predição não é possível no mundo social. Não é difícil compreender,
considerando essa conclusão, o notório e persistente fracasso das
previsões contidas nos modelos econométricos, que vez por outra
põe os economistas sob a incômoda suspeita de praticar uma ciência
sem sentido prático diretamente discernível.10
O fato de que a sociedade não possa ser objeto de previsão não
significa que o sentido da história social não possa ser apreendido e
mesmo que algumas tendências possíveis de desenvolvimento futuro
sejam delineadas (por exemplo, que sejam construídos “cenários”).
O que é, entretanto, um equívoco, formalmente falando, é tratar a
sociedade, com seu marcado caráter histórico, como um objeto es-
tático, sem passado, presente ou futuro (aberto) que efetivamente
importe. Em outras palavras, toda concepção, teórica ou não, que
pressupõe ou propõe abertamente a irrelevância da história ou o seu
congelamento numa determinada forma entra em conflito com a na-
tureza mesma da realidade social. Com isso, conseguimos finalmente
acusar o problema central do postulado da naturalização do capital,
que lança mão precisamente desse expediente ao sustentar (manifes-
ta ou veladamente) que a realidade social possui como fechamento
último o capitalismo. Dedicamos a seção final do capítulo para acen-
tuar a crítica à naturalização do capital (cujo conteúdo teórico con-
sideramos ter sido esgotado pelo argumento acima) revelando o real
sentido prático da tentativa de amparar, pela via textual e abstrata,
um implausível fim da história.

3.3. Contra a naturalização do capital: em defesa


do papel emancipatório da ciência

Uma das teses definidoras da perspectiva crítica defendida neste


trabalho é a de que nenhuma concepção que adquira legitimidade
social pode sustentar-se sem desempenhar algum papel na repro-
dução social. No caso de uma concepção correta, verdadeira, que
capture num sentido amplo a maneira de funcionar de um momento

10 Lawson (2003) deu-se ao trabalho de coletar inúmeras passagens em que os pró-


prios economistas ortodoxos, fanáticos por modelos, admitem a desorientação da
ciência, provocada principalmente (mas não só) pelo fracasso das previsões. Numa
das passagens coletadas, Friedman admite que “a Economia tornou-se crescente-
mente uma divisão arcana da matemática, em lugar de lidar com problemas econô-
micos reais” (LAWSON, 2003, p. 10).
101

João Leonardo Medeiros


determinado da realidade social, as causas que amparam sua pró-
pria existência e reprodução como forma de consciência socialmente
aceita estão relacionadas diretamente ao seu conteúdo explanatório
e aos conhecidos efeitos práticos das concepções verdadeiras (tema
elaborado no capítulo anterior). No caso das falsas concepções, to-
davia, tão importante quanto explicar a razão de sua falsidade é es-
clarecer o mecanismo que lhes permite compor o estoque de ideias
empregado pelos seres humanos para lidar com as exigências da vida
social. É esse último o caso do postulado da naturalização do capital,
cuja falsidade foi caracterizada há pouco.
Um atalho para desvendar o sentido prático da naturalização do
capital é chamar a atenção para o papel emancipatório da ciência,
por um lado, e para o caráter conservador do empirismo necessaria-
mente associado à própria naturalização, por outro. Não é, em pri-
meiro lugar, difícil sustentar que a ciência possui a capacidade de es-
tender os limites das práticas humanas – de dar origem a uma práxis
mais ampla – toda vez que desvenda o modus operandi de uma forma
de ser. Basta, para isso, ter em conta que o conhecimento das estru-
turas (naturais e sociais) é precondição para o agir humano, seja no
caso das práticas singulares, incapazes de modificar finalisticamen-
te as estruturas sociais, seja nos casos excepcionais de “subversões
revolucionárias”, que, repetindo Lukács (1979a, p. 88), “partem da
totalidade e têm a totalidade como objetivo”. Se, de um lado, o agir
humano não pode dispensar o conhecimento correto das causas ma-
teriais sobre e com as quais ele opera e, de outro, a ciência tem por
objetivo prover esse conhecimento, então ela possui a capacidade
de facultar uma prática que efetivamente amplie o grau de liberdade
humana. Essa capacidade da ciência de conferir aos seres humanos
um domínio mais amplo sobre o mundo, natural e social, é em si o
seu conteúdo emancipatório.
Faz-se necessário alertar, contudo, que a defesa do papel eman-
cipatório da ciência não significa a subscrição da fé incondicional
iluminista na capacidade emancipatória da razão: a mesma razão uti-
lizada para curar o câncer ou combater o racismo é utilizada para
o desenvolvimento de concepções mistificadoras e mesmo para a
construção de armas atômicas. Não se pode, por outro lado, utilizar
as consequências negativas do desenvolvimento científico como sub-
terfúgio para a temerária defesa (pós-modernista, por exemplo) da
eliminação, redução ou desmerecimento da atividade científica em
102
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

si, como se a ciência fosse uma estrutura totalmente à parte da vida


social. Grosso modo, culpar a ciência pelo uso que a humanidade faz
das verdades por ela descobertas equivale a culpar o inventor do
automóvel pela ocorrência de engarrafamentos. Mais precisamente:

a emancipação cognitiva depende em geral de condições não-


-cognitivas; e essa emancipação cognitiva é necessária mas
insuficiente para a total emancipação humana (como demons-
trado pelo exemplo do escravo que tem plena consciência da
escravidão, mas continua sendo escravo). De fato: dissonância
e não liberação (ou a elaboração racional de uma estratégia
emancipatória) pode ser o resultado imediato do iluminismo.
E uma tal dissonância pode levar tanto à ação prática-crítica-
-transformativa-revolucionária ou, alternativamente, ao deses-
pero. (BHASKAR, 1998, p. 436, grifo do autor)

Em suma, a descoberta e correta descrição das estruturas do


mundo não é condição suficiente para a práxis transformadora; mas
não deixa de ser condição necessária. Considerando essa relação,
mediada pelo conhecimento, entre o agir humano e os condicionan-
tes sociais, pode-se finalmente relacionar a naturalização do capital,
abordada especificamente aqui, ao empirismo, enfatizado nos capí-
tulos anteriores. Para isso é suficiente ter em conta que, ao alegar a
inexistência de qualquer coisa que não possua proveniência empíri-
ca, ao negar a realidade das estruturas do mundo e achatar a reali-
dade no domínio dos eventos, o empirismo representa um cerrado
bloqueio filosófico-ideológico à simples cogitação da práxis emanci-
patória. Especialmente no domínio social, em que as estruturas são
factíveis de transformação, abrir mão da compreensão das estruturas
do mundo implica naturalizar e eternizar essas mesmas estruturas.
Como, entretanto, a sociedade é um objeto caracterizado pela di-
nâmica, pela processualidade, pela história, a naturalização de uma
determinada forma social exige ações e concepções destinadas a
“congelar” a dinâmica social, afastando elementos que possam mo-
dificar de forma substantiva este ordenamento particular da socie-
dade. Por essa razão, pode-se afirmar que a naturalização da forma
social corrente é não apenas uma tese ontológica de corte radical,
mas também o desdobramento prático da visão de mundo empirista.
Em outras palavras, o empirismo, com sua atitude negligente diante
103

João Leonardo Medeiros


da investigação das estruturas sociais, possui como correspondente
direto, como seu braço prático, uma perspectiva ontológica que assu-
me as instâncias da vida de um dado tempo (e lugar) como imutáveis:
no caso da atual sociedade, a naturalização do capital.
Torna-se claro, com isso, que não é necessário pressupor qual-
quer “teoria da conspiração” para estabelecer o vínculo entre as teo-
rias econômicas ortodoxas e as práticas conservadoras. A ortodoxia
da Economia, representada, sobretudo, pela tradição neoclássica,
pressupõe a ontologia empírica e, com isso, deixa de investigar as
estruturas causais dos fenômenos. Isto significa que a ortodoxia ad-
mite acriticamente as estruturas existentes ou, em outros termos,
abre mão de analisá-las ex ante. Ao fazê-lo, as estruturas existentes
são naturalizadas, eternizadas, privadas de qualquer sentido espaço-
-temporal e a possibilidade de transformá-las é embargada a priori.
Como afirmou em certa ocasião Duayer, comparando o desenvolvi-
mento da Economia com o da Física, “a Física, ao modificar sua con-
cepção do mundo, intervém para mudar o imutável; a Economia, ao
manter sua concepção de mundo, intervém para manter o mutável”11
(DUAYER, 1998, p. 149).
Defendeu-se, em diversos momentos deste texto, que nada na vida
se realiza intencionalmente em meio à total ignorância. Sem conhe-
cimento algum das estruturas do mundo não se pode sequer jogar
uma pedra para o alto. De fato, na maioria dos casos, o empirismo e a
naturalização da forma social nele subentendida não significam uma
defesa da ignorância, do irracional, mas, ao contrário, uma defesa de
uma espécie particular de conhecimento, o conhecimento imediato,
adquirido na práxis, e de uma espécie particular de racionalidade, a
racionalidade instrumental. Em outros termos, a ontologia articulada
por esses dois postulados propõe e pratica, como forma de conceber
o mundo, a redução da ciência ao conhecimento adquirido na prática
e, como critério de seleção de concepções, a troca da verdade pela
aplicabilidade instrumental.
Toda vez que uma concepção orgânica da realidade é requerida,
toda vez que a própria práxis exige que se raciocine ou se afirme
algo sobre as estruturas do mundo, a visão de mundo conservadora
conta somente com a pura e simples intuição e com uma irrestrita

11 Arespeito do caráter conservador da tradição neoclássica, é interessante consultar


o debate entre Lisboa (1997; 1998), que argumenta inexistir este vínculo, e Duayer,
Medeiros e Painceira (2001), que oferecem argumentos em contrário.
104
Reafirmando o caráter histórico da sociedade: contra a naturalização do capital

e, de certa forma, notável capacidade imaginativa. O resultado, para


enfatizar, é que se nega nominalmente ao pensamento o acesso às
estruturas do mundo, ao mesmo tempo que se veicula implicitamen-
te a sua própria descrição dessas mesmíssimas estruturas, constru-
ída inteiramente a priori e sobre a qual nenhum debate é permitido.
Reforçando com as palavras de Lukács sobre a ontologia empírica:

no empirismo está por vezes contido um ontologismo ingênuo,


isto é, uma valorização instintiva da realidade imediatamente
dada, das coisas singulares e das relações de fácil percepção.
Ora, dado que essa atitude diante da realidade, embora justa,
é apenas periférica, é fácil que o empirista – quando se aventura
a sair só um pouco do que lhe é familiar – termine por cair na
armadilha das “mais fantasiosas aventuras intelectuais” [– como
disse Engels]. (LUKÁCS, 1979a, p. 28, grifo nosso)

São conhecidas as “aventuras intelectuais” em que têm caído os


economistas desde o tempo de Smith e Bentham. Nas Partes III e IV
deste livro, algumas das fantasiosas descrições fundadas na visão de
mundo empirista implícita à ortodoxia econômica serão oferecidas
como ilustração do argumento. Por ora, basta-nos salientar o fato de
que a admissão dessa perspectiva específica de mundo pela ciência
econômica traz consigo uma interpretação determinada da realidade
social, do papel da ciência e do potencial emancipatório da espécie
humana. Sobre a realidade social, admitem-na como congelada no
que seria um fim da história. Sobre a ciência, circunscrevem-na ao
âmbito meramente instrumental, próprio da “técnica”. Já o potencial
emancipatório da espécie humana é negado e reduzido à mera adap-
tação aos condicionantes socioambientais.
Romper com essa perspectiva, conservadora e resignada, requer,
no plano teórico, uma reconstrução ontológica. Isso pretendemos ter
feito no segundo capítulo e neste quarto, em que delineamos uma
imagem do mundo social na qual o empirismo e a naturalização do
capital não são admitidos, sequer como hipóteses provisórias. Não
poderíamos, entretanto, encerrar esta primeira parte do livro sem
oferecer também uma descrição da maneira como a ciência se en-
quadra nesta perspectiva alternativa. O Capítulo 5, então, apresenta
as consequências epistemológicas da ontologia do ser social aqui
105

João Leonardo Medeiros


sustentada como base para a defesa de uma ciência não empirista e
potencialmente emancipatória.
Para concluir o capítulo, vale a pena expor resumidamente os
pontos mais importantes do argumento desenvolvido até então.
Recorde-se que, desde a perspectiva que procuramos sustentar, a
ontologia do ser social caracteriza-se pelo entendimento da socieda-
de como constituída de relações entre os seres humanos e não de in-
divíduos ou grupos de indivíduos. As estruturas sociais que surgem
como síntese objetiva dessas relações conformam uma totalidade, o
ser social, que é um complexo articulado dos complexos da econo-
mia, da arte, da política etc. Cada complexo particular e, por exten-
são, a própria totalidade, compreende, portanto, dois domínios, que
não podem ser reduzidos um ao outro: o das estruturas causadoras
de eventos e o dos próprios eventos.
Ademais, a sociedade é marcada pela história, ou seja, pela cons-
tante dinâmica de sua estrutura, sendo que os seres humanos são,
em última análise, o motor dessa dinâmica, embora a natureza, a di-
reção e o sentido das mudanças não sejam produzidos de maneira
intencional. As estruturas sociais, por sua vez, são reproduzidas ou
transformadas pelas interações entre os agires singulares. Este movi-
mento não torna a sociedade desprovida de legalidades. As legalida-
des sociais (como as naturais) possuem a forma de tendências e não
a forma de relações constantes entre eventos. As tendências, como
entidades transfactuais, podem não se manifestar diretamente em fe-
nômenos, embora estejam constantemente em operação. Tendências
gerais afirmam-se, heterogeneamente, abrindo espaço para o desen-
volvimento desigual dos complexos. Por fim, as estruturas sociais,
tendências etc. aparecem aos seres humanos como (e de fato são)
algo externo, transcendente, independente de seu próprio agir, e
essa própria forma de manifestação pode levar ao encobrimento de
sua essência.
Sendo essa a ontologia do ser social, cumpre descrever alguns
elementos distintivos da atividade científica a ela adequada.
4. Breve digressão sobre o
conhecimento científico da sociedade

O ordenamento desta Parte I do livro talvez tenha causado um


certo estranhamento mesmo em leitores acostumados com os de-
bates da filosofia da ciência. Afinal de contas, como recorda Collier:
“Desde Descartes, tem sido costume perguntar primeiro como pode-
mos conhecer para em seguida perguntar o que podemos conhecer.”
(COLLIER, 1994, p. 137). Duas são as explicações para a inversão des-
sa lógica cartesiana. Em primeiro lugar, defende-se aqui a tese mate-
rialista da prioridade ontológica do ser sobre o conhecimento. Isto
é, a noção de que o próprio objeto de estudo determina o método
apropriado para conhecê-lo, não só por limitar as possibilidades cog-
nitivas, mas também por fornecer pistas ao pensamento do caminho
correto para a compreensão da realidade.
Por outro lado, são reconhecidos dois níveis irredutíveis do co-
nhecimento: o da filosofia da ciência e o nível científico. O primeiro
nível tem como principal objetivo explicitar e informar as condições
gerais em que ocorre (que facultam) a atividade científica. Em ou-
tros termos, a filosofia procura oferecer resposta à seguinte questão
transcendental: “como tem que ser o mundo para que a ciência seja
possível?” (BHASKAR, 1997, p. 36). Fica claro, assim, que a filosofia
parte do reconhecimento da ciência como uma realidade insofis-
mável para tentar conferir-lhe maior consciência e clareza de suas
próprias práticas. Fica claro também que o modo pelo qual a filoso-
fia esquadrinha o mundo não concorre, nem desmerece, a análise
científica: a defesa filosófica do caráter estruturado da realidade, por
exemplo, não se estende até a descoberta das próprias estruturas
nela compreendidas e tampouco elucida seu modo de ser e agir.
Cabe exclusivamente à ciência, portanto, fazer o que dela se espe-
ra: aplicar métodos sofisticados para descobrir e explicar as leis cau-
sais que governam os acontecimentos do mundo. Em busca dessas
legalidades, a ciência descobriu, na prática, muito antes de a filosofia
108
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

vislumbrar nitidamente, a unidade dialética entre os dois domínios


distintos e irredutíveis da realidade: o domínio dos fenômenos (con-
sequências) e o domínio das estruturas, mecanismos e tendências
(causas). Colocando de forma diferente, a despeito da pressão de
conjunturas sociais, por vezes fortemente adversas, e das prescri-
ções positivistas, popperianas, idealistas, racionalistas, irracionalis-
tas e do marxismo vulgar, o desenvolvimento científico apresenta-se
como um longo processo de aperfeiçoamento dos métodos de iden-
tificação e descrição de entidades não empíricas, que efetivamente
causam, e por isso mesmo explicam, a ocorrência dos eventos: o áto-
mo, o vírus, a gravidade, o DNA, as classes sociais etc.
Até o presente momento o argumento concentrou-se basicamente
na defesa de uma ontologia que tornasse o conhecimento científico
uma prática possível. Essa orientação revelou-se mais claramente
nos Capítulos 2 e 4, mas esteve presente mesmo quando, no Capítulo
3, a linha central de exposição foi desviada para uma primeira digres-
são sobre o conhecimento. Naquele momento, a rigor, o propósito
era fechar uma brecha na ontologia da sociedade que estava sendo
desenvolvida como alternativa à visão de mundo conservadora, de-
monstrando que a realidade social é, como a natureza, dotada de pro-
priedades que tornam o empreendimento destinado a conhecê-la (de
forma científica ou não) não apenas viável, como necessário. Nesta
segunda digressão sobre o conhecimento, especialmente dedicada à
modalidade científica, o interesse é ligeiramente distinto e centrado
mesmo nas esferas epistemológica e metodológica: descrever (e não
prescrever) as características gerais do método que a ciência empre-
gou, e ainda emprega, em sua frutífera tentativa de espelhar o mundo
mediante o exercício da razão.
Com esse argumento, pretende-se basicamente cumprir dois ob-
jetivos: em primeiro lugar, sustentar uma concepção de ciência e
de método científico compatíveis com a visão de mundo defendida
nos capítulos anteriores; segundo, demonstrar a total insuficiência
da perspectiva epistemológica e metodológica baseada na visão de
mundo (conservadora) articulada pelos postulados do atomismo
social (empirismo) e da naturalização do capital. A primeira seção
a seguir ocupa-se do primeiro objetivo, oferecendo uma imagem do
empreendimento científico que julgamos compatível com a prática
mesma da ciência. Na seção seguinte, a atenção é deslocada para a
análise crítica dos corolários epistemológicos do atomismo social e
109

João Leonardo Medeiros


da naturalização do capital, e, portanto, para a concepção de conhe-
cimento científico determinada pela ontologia conservadora.

4.1. A ciência social como espelhamento teórico da estrutura social

O ponto de partida para oferecer uma descrição da estrutura e


dinâmica da atividade científica é considerar seu propósito central:
a descoberta e elucidação do modo de ser e agir das estruturas cau-
sais do mundo. Desde esse prisma, afirmar que a ciência busca a ver-
dade sobre os acontecimentos empiricamente observados significa
precisamente que ela procura revelar os processos causais do mun-
do, identificando os próprios objetos que possuem a propriedade
de causar eventos determinados e as condições em que essa pro-
priedade pode vir a ser exercida. Isso significa que a ciência precisa
transitar entre os dois domínios que compõem a realidade (social e
natural), partindo dos fenômenos já manifestados para a elucidação
do processo causal correspondente.
Numa apresentação mais detalhada, o ponto aqui defendido é o
de que, para reproduzir no pensamento a unidade dialética entre leis
e fenômenos, e assim dar conta do caráter estruturado do mundo, a
ciência desenvolveu, teoricamente, uma dialética abstrata (mas não
menos real). Dialética esta que pode ser descrita sucintamente da
seguinte forma:

1. parte-se de uma motivação empírica, da identificação de um


fenômeno ou grupo de fenômenos que se queira explicar;
2. elabora-se uma conjectura a respeito das possíveis causas
transfactuais da ocorrência dos fenômenos;
3. retorna-se ao domínio empírico para atestar a existência real e
o poder causal das entidades supostas.

Concluído o processo, e sendo ele bem-sucedido, retorna-se à primei-


ra fase com o objetivo de elucidar níveis mais profundos da realidade.
E segue, assim, a ciência, aprofundando o conhecimento, reproduzindo
dialeticamente a dialética da realidade, num mergulho sem fim no domí-
nio causal do mundo. Numa formulação relativamente recente:

Tipicamente, a construção de uma explicação para algum fenô-


meno identificado envolverá a construção de um modelo para
110
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

o mecanismo que, se existir e agir conforme postulado estará


causando o fenômeno em questão. Esse é momento ficcionista
da ciência. “Imaginemos / suponhamos / conjecturemos / cogi-
temos M.” Na ciência, é claro, ao contrário do discurso ficcio-
nal [...], a realidade do mecanismo ou qualquer outro objeto
postulado tem que se submeter ao escrutínio empírico. Uma
vez feito isso, a explicação precisa em princípio ser explicada.
(BHASKAR, 1991, p. 121 e 122)

Ilustrando com o caso da aids, a motivação empírica estava em


sua própria manifestação como doença. Em seguida, os cientistas
formularam diversas explicações teóricas para sua ocorrência, entre
as quais a possível infestação por vírus dos pacientes (até este pon-
to, tratava-se de uma conjectura, vale enfatizar, que rivalizava outras
conjecturas, científicas ou não: câncer, doença genética etc.). Dada
a plausibilidade desta explicação teórica, iniciou-se uma verdadeira
corrida entre os cientistas pela identificação e “isolamento” do vírus,
que nada mais era do que a tentativa de comprovação de sua existên-
cia real no organismo dos doentes. Isolado o vírus, restou introduzi-
-lo em cobaias para demonstrar que a relação causal entre HIV e aids
de fato existia. Concluído esse primeiro processo, seguiram-se ou-
tros: sendo o vírus HIV o causador da aids, tratava-se de esclarecer
os mecanismos de infestação, sua forma de reprodução, seus pontos
fracos, as formas possíveis de exterminá-lo etc. Formularam-se teo-
rias; teorias foram testadas contra a realidade, e assim por diante.
Duas observações a respeito da dialética da ciência são funda-
mentais, não só para esclarecê-la, mas também para demonstrar o
equívoco de proposições alternativas, sobretudo daquela contida no
empirismo clássico, que tem na Economia ortodoxa, provavelmen-
te, o seu último rincão. Em primeiro lugar, é prudente antecipar-se a
uma injusta acusação sempre dirigida àqueles que procuram chamar
a atenção para o caráter transempírico das entidades causais da rea-
lidade. Como fica patente na descrição acima, não se está aqui negan-
do, de forma alguma, a importância decisiva do domínio fenomênico
do mundo, em si ou em termos do conhecimento. Tanto na realidade,
quanto em seu espelhamento teórico, a relação reflexiva entre meca-
nismos causais e eventos, que tem nesses mecanismos o momento
predominante, possui fundamental importância: caracteriza o objeto
e, por decorrência, o método para apreendê-lo teoricamente. Não se
111

João Leonardo Medeiros


trata, portanto, de contestar o empirismo com uma descrição antiem-
pírica ou contraempírica da realidade e da atividade científica.

Trata-se, antes, de assimilar aqui também a concepção marxia-


na da realidade: o ponto de partida de todo pensamento são
as manifestações factuais do ser social. Isso não implica, po-
rém, nenhum empirismo, embora – como vimos – também o
empirismo possa conter uma intentio recta ontológica, ainda
que incompleta e fragmentária. Ao contrário, todo fato deve
ser visto como parte de um complexo dinâmico em interação
com outros complexos, como algo que é determinado – interna
e externamente – por múltiplas leis. (LUKÁCS, 1979a, p. 75)

Complementando a passagem acima, as manifestações factuais


do ser social são ponto de partida e também de chegada do pensa-
mento científico. Uma breve síntese da análise da atividade experi-
mental realizada por Bhaskar (1997, p. 33-36) serve ao propósito de
ilustrar a forma pela qual os cientistas recorrem ao domínio factual
para comprovar a existência de entidades não factuais, ponto-chave
da estrutura metodológica da ciência. Num experimento – prática
universalmente associada à atividade científica – são criadas condi-
ções especiais, as chamadas condições experimentais ou de labora-
tório. Nesse mundo fechado, os cientistas criam sequências regulares
de eventos (ou conjunções constantes de eventos) inexistentes no
mundo aberto, isto é, no mundo tal como se apresenta fora das condi-
ções experimentais. O objetivo desse procedimento (do próprio ex-
perimento) é comprovar a existência de uma determinada entidade
causal no mundo aberto, no qual ela interage com outros mecanis-
mos em constante operação, mediante seu isolamento ou exclusão
em condições laboratoriais.
Ao isolarem ou excluírem um mecanismo – entidade não empí-
rica  –, os cientistas criam condições para sua manifestação feno-
mênica direta, sem interferências. Isso significa, para seguir com o
argumento de Bhaskar (1997, p. 33), que, num experimento, “nós so-
mos os agentes causais da sequência de eventos, mas não das leis
causais que a sequência de eventos, por ter sido produzida em con-
dições experimentais, permite-nos identificar”. Por exemplo: cobre-
-se uma vela com um copo para demonstrar o poder combustível do
112
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

oxigênio, realiza-se o teste do placebo para confirmar o efeito de uma


determinada medicação.
O ponto a ser destacado é que toda a atividade experimental só
faz sentido precisamente porque as leis causais identificadas existem
de fato no mundo exterior às condições experimentais, tal como pre-
visto pela teoria submetida a teste. O oxigênio e o princípio ativo do
remédio, para seguir com os mesmos exemplos, não são criados ou
anulados pelos cientistas durante o experimento. Existem fora das
condições experimentais e, aliás, é essa mesma existência que garan-
te uma outra característica marcante da atividade experimental: a
sua capacidade de ser reproduzida. Os mecanismos causais são, por-
tanto, identificados nos experimentos pelos efeitos que produzem
porque seu poder de causar só aparece nitidamente aos sentidos
quando isolados do efeito dos outros mecanismos.
Percebe-se também, por outro lado, que, por considerar um mun-
do exclusivamente factual e adotar a noção humeneana de legalidade
(conjunções constantes de eventos), o realismo empírico fica inca-
pacitado de compreender adequadamente os experimentos e, por
extensão, de explicar a atividade científica. Que sentido haveria em
produzir situações de isolamento se as conjunções constantes de
evento ocorressem em mundo aberto e fossem, por definição, per-
cebidas pelos sentidos? A incapacidade de compreender e explicar
a atividade experimental, a mais difundida das práticas científicas é,
de fato, um resultado no mínimo incômodo para tradições filosóficas
que, como o empirismo clássico e o idealismo, achatam a realidade
em seu domínio empírico: valorizam este domínio, mas, na prática,
não lhe atribuem qualquer significado lógico ou epistemológico.
A segunda observação a respeito da dialética da ciência acima
descrita está relacionada exatamente ao estatuto epistemológico do
teste empírico. Antes de tudo, é preciso ressaltar que há outros re-
cursos, além da atividade experimental, para contrastar as teorias
com o mundo empírico: dados estatísticos e estudos histórico-con-
cretos, por exemplo. Deve-se ter em conta, ademais, que diferentes
tradições da filosofia da ciência atribuem ao contraste com o domí-
nio empírico da realidade, independentemente da forma que esse
contraste assuma, papéis diferenciados no processo da construção
das teorias científicas.
Na concepção do empirismo clássico, o teste empírico funciona
como critério de demarcação entre o discurso científico e as outras
113

João Leonardo Medeiros


formas discursivas. Os diferentes critérios utilizados em tal procedi-
mento comprobatório – a verificação, corroboração e falsificação –
seguem essa lógica. A verificação e a corroboração procuram atestar
a cientificidade pelo isomorfismo entre proposições teóricas e dados
empíricos. A falsificação, ao contrário, procura instâncias empíricas
que neguem o estatuto científico das proposições: ciência seria o que
provisoriamente resiste aos testes. Em todos os casos, considera-se
que os testes são empregados para comprovar o suposto caráter em-
pírico de legalidades pressupostas: toda a discussão se limita a esse
domínio da realidade e não poderia ser diferente nesta concepção de
mundo. Tudo isso fez água no momento em que se difundiu a corre-
tíssima advertência de que os cientistas produzem, simultaneamen-
te, tanto as teorias quanto os dados que atestam sua própria cienti-
ficidade. Os dados, afinal de contas, não são tão objetivos assim, o
que torna o exercício do teste empírico, nos moldes descritos pelo
positivismo e pelo popperianismo, um caso clássico de circularidade
lógica.1
O foco foi, então, radicalmente deslocado para o contexto social
em que são produzidas tanto as crenças quanto as inferências empí-
ricas. Esse deslocamento sustentou teoricamente o surgimento da
recente onda idealista, que, como em todo idealismo, descarta a últi-
ma fase da dialética da ciência (a própria comprovação empírica da
teoria sugerida). Construímos as concepções e os testes e, com isso,
formamos nossas igualmente falsas imagens de mundo com total li-
berdade poética, diz a máxima pós-moderna. O choque com os dados
não seria nada mais do que uma das armas retóricas dos cientistas.
A concepção aqui defendida, finalmente, aceita boa parte da crí-
tica do idealismo transcendental ao empirismo clássico, mas rompe
radicalmente com o idealismo porque mantém a necessidade do es-
crutínio empírico das proposições científicas. Este recurso aos testes
empíricos não é, entretanto, entendido da mesma maneira como no
empirismo clássico, isto é, como uma forma de atestar um suposto
caráter empírico das proposições. Ao contrário, os testes empíricos
são entendidos como uma sondagem da existência real e do modo

1 En passant, vale a observação de que a lei da gravidade e o campo gravitacional, para


ficar nesses dois exemplos, não resistiriam ao primeiro teste empírico positivista/
popperiano. Pode-se, também, recordar que o físico Mach, por sua fé incondicional
nos princípios positivistas, sempre se negou a admitir a existência dos elétrons.
114
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

de agir de mecanismos causais não empíricos.2 Sondagem esta que,


como veremos, não possui, nas ciências sociais, a última palavra na
certificação das concepções como científicas.
Antes de seguir adiante, deve-se advertir que, ao contrário do que
se poderia supor em face da longa digressão a respeito dos experi-
mentos, a dialética da ciência não se aplica exclusivamente ao do-
mínio natural do mundo. A unidade dialética entre lei e fato existe
igualmente na sociedade, o que impõe aos cientistas sociais as ca-
racterísticas gerais do método antes descrito. Essa identidade geral
entre o método empregado no estudo da natureza e o empregado
nas ciências sociais não elimina, no entanto, suas diferenças funda-
mentais. Diferenças essas que resultam, como sempre, de peculiari-
dades do próprio ser, que se convertem em limites à possibilidade de
conhecê-lo cientificamente.
No caso da realidade social, duas de suas particularidades, já
apontadas no capítulo anterior, implicam restrições ao esforço epis-
temológico da ciência: a inexistência de sistemas fechados e o cará-
ter não preditivo, exclusivamente explanatório, das ciências sociais.
O primeiro limite epistemológico das ciências sociais decorre da im-
possibilidade de produzir fechamentos na sociedade idênticos àque-
les empregados pelos cientistas naturais para contornar a inexistên-
cia de conjunções constantes de eventos: a atividade experimental
não possui qualquer valor cognitivo no estudo das relações sociais.3
Os experimentos, para recordar, são utilizados pelos cientistas para
produzir padrões empíricos regulares, que permitam isolar mecanis-
mos geradores de eventos e, dessa forma, comprovar a existência
real desses mecanismos no mundo aberto.
A condição sine qua non para a realização da atividade experimen-
tal é, portanto, a criação de um ambiente de isolamento, um mundo

2 Uma síntese crítica desses acontecimentos da filosofia da ciência contemporânea


encontra-se em Duayer, Medeiros e Painceira (2000). Para uma apresentação mais
sistemática e menos crítica: Suppe (1977); Caldwell (1982); Blaug (1993). Para uma
apresentação sistemática e crítica: Bhaskar (1997, cap. 1).
3 Os experimentos sociais não podem ser, no entanto, de todo inúteis, como compro-
vado pelo paradigmático artigo dos economistas brasileiros Bianchi e Silva (2001):
“Economistas de avental branco: uma defesa do método experimental na econo-
mia”. A utilidade de tais experimentos, cuja importância epistemológica é embar-
gada pelo próprio objeto, encontra-se possivelmente atrelada às mesmas razões
ontológicas que tornam úteis as teorias por eles assistidas. Como a revelação destas
razões demanda um esforço teórico específico, os experimentos, em lugar de escla-
recer, findam por colocar uma questão adicional: por que existem, a despeito de sua
inteira inadequação ao estudo da sociedade?
115

João Leonardo Medeiros


fechado, no qual determinado mecanismo causal se manifeste livre-
mente em eventos. Ao input do cientista, output do mecanismo; input
do cientista, output do mecanismo; input, output… Cria-se, então, um
padrão empírico regular antes inexistente. Na sociedade, as conjun-
ções constantes de eventos também não ocorrem em mundo aberto,
mas, ao contrário da natureza, não podem ser produzidas em am-
bientes fechados porque os eventos sociais são atos humanos e os
seres humanos, ao contrário dos átomos e dos ratos, agem de for-
ma consciente e planejada. Isto é, os sujeitos que participam de um
experimento são conscientes de que vivem numa situação distinta
daquela que viveriam em mundo aberto e, portanto, agem de forma
condizente com a nova situação.
Ademais, mesmo que pudessem ser produzidas, as conjunções
constantes de eventos não poderiam cumprir o papel de revelar ten-
dências, porque estas existem exclusivamente em ambiente aberto,
como sínteses reais das interações entre os efeitos de infinitos agires.
Em síntese: o mundo social não é dado a fechamentos.4 Nas palavras
de Collier:

ciências sociais são ciências sem fechamentos. Elas não po-


dem fazer nada semelhante a cancelar os efeitos de processos
que não estão sendo testados, de forma a isolar e testar um
único mecanismo. Elas não podem nem mesmo assegurar a
constância de outros processos. No máximo, elas podem pen-
sar na constância: se outros fatores estiverem constantes, a
taxa de lucro iria cair, ou outra coisa qualquer. É possível que
exista um esforço no sentido da neutralização estatística de
variáveis, do tipo que encanta os “psicologistas empíricos”,
mas as estatísticas trazem em si seus próprios problemas (e
eu diria que são muito piores do que usualmente se imagina).
(COLLIER, 1994, p. 161 e 162)

4 De acordo com Bhaskar: “praticamente todas as teorias da filosofia da ciência orto-


doxa, e as diretrizes metodológicas que secretam, pressupõem sistemas fechados.
Em razão disso, são totalmente inaplicáveis nas ciências sociais (o que não quer
dizer, é claro, que a tentativa de aplicá-las não possa ser feita – com efeitos desas-
trosos). Teorias humenianas de causalidade e lei, modelos de explanação nomoló-
gico-dedutivos e estatísticos, teorias indutivistas do desenvolvimento científico e
critérios de confirmação, teorias popperianas de racionalidade científica e critérios
de falsificação, juntamente com os contrastes hermenêuticos que os parasitam, to-
dos eles devem ser totalmente descartados. A ciência social precisa considerá-los
somente como objetos de explanação substantiva.” (BHASKAR, 1979, p. 57 e 58).
116
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

Como os dados estatísticos “trazem seus próprios problemas” e


são sempre suspeitos, a inexistência de experimentos decisivos sig-
nifica que a escolha entre teorias concorrentes de fato não poderia
ocorrer nas ciências sociais por recurso aos testes empíricos, como
insistem, por exemplo, os economistas neoclássicos. É bem verdade
que a seleção das teorias não envolve, exclusivamente, aspectos rela-
tivos à ciência, nem mesmo no caso das ciências naturais. Interferem
todas as determinações do contexto social em que as teorias concor-
rem entre si: interesses de classes, nacionalidades, gênero etc. É pa-
pel da filosofia da ciência, no entanto, informar o critério último que
sirva para demarcar o campo do discurso científico, em seu próprio
âmbito, em seus próprios termos. Como diria Bhaskar (1991, p. 34),
“Externamente à ciência, uma ciência ou ação pode ser justificada (ou
criticada) pela referência ao que a comunidade científica (relevante)
acredita. Mas, em geral, no interior da ciência, nós não podemos jus-
tificar uma afirmação explanatória desta forma”.
No caso das ciências sociais, o critério de seleção entre teorias
concorrentes é, ou deveria ser, o poder explanatório das concepções:
a sua capacidade de explicar, sem recurso a qualquer argumento ad
hoc, os fenômenos do mundo (e de explicar as próprias explicações)
pela descrição do modo de agir dos mecanismos causais transempíri-
cos. E, no que tange à identificação destes mecanismos e tendências,
a carência da atividade experimental é suprida por um procedimento
análogo (indicado por Collier anteriormente): os experimentos ide-
ais, abstratos. Numa apresentação mais precisa, relativa ao emprego
de abstrações (na ciência econômica):

Já que, no âmbito do ser social, é ontologicamente impossível


isolar realmente os processos singulares mediante experimen-
tos efetivos, tão-somente os experimentos ideais da abstração
permitem aqui a investigação teórica de como determinadas
relações, forças etc. de caráter econômico atuariam se todas
as circunstâncias que habitualmente obstaculizam, paralisam,
modificam etc. a presença delas na realidade econômica fos-
sem mentalmente eliminadas. (LUKÁCS, 1979a, p. 42)

O próprio Lukács tem o cuidado de observar que o exercício


da construção de abstrações não funciona em meio à total e abso-
luta liberdade criativa. Há que se respeitar, em todo momento, as
117

João Leonardo Medeiros


abstrações e conexões da realidade mesma que, quando violadas ou
deturpadas, findam por descaracterizar o próprio exercício abstrati-
vo: “o tipo e o sentido das abstrações, dos experimentos ideais, são
determinados não a partir de pontos de vista gnosiológicos ou meto-
dológicos (e menos ainda lógicos), mas a partir da própria coisa, ou
seja, da essência ontológica da matéria tratada” (LUKÁCS, 1979a, p.
57). Isso distingue, por exemplo, as abstrações realizadas por Marx,
ou mesmo pelos economistas políticos clássicos – todas elas dotadas
de um profundo sentido ontológico –, das abstrações produzidas, até
hoje, pela economia vulgar, das quais se destacam as “robisonadas”,
frequentemente criticadas e satirizadas pelo próprio Marx.5
Ao lado dos experimentos abstrativos, dois elementos da própria
realidade social prestam o serviço de explicitar mecanismos e ten-
dências, de forma que se torna mais fácil identificá-los e compreendê-
-los: a ocorrência de crises e a existência de casos clássicos. Iniciando
pelas crises, são elas períodos de exceção em que determinadas ten-
dências da realidade social, precisamente aquelas que conduzem às
crises, operam sem a oposição de contratendências na produção dos
acontecimentos do mundo. Como assinala Bhaskar:

em períodos de transição ou crises, as estruturas generativas,


anteriormente opacas, tornam-se mais visíveis aos agentes.
Este fato, embora jamais produza completamente as possibili-
dades epistêmicas de um fechamento (mesmo quando os agen-
tes estão autoconscientemente procurando transformar as
condições sociais de sua existência), fornece um análogo par-
cial ao papel da experimentação na ciência natural. (BHASKAR,
1979, p. 61)

Assim como nas crises, em determinados contextos sociais os


mecanismos e tendências causadores dos eventos, mesmo em sua
operação normal, manifestam-se com maior liberdade, tornando-se

5 A comparação de Lukács das abstrações produzidas por Ricardo com aquelas pro-
duzidas pelos seus vulgarizadores é particularmente interessante: “enquanto pen-
sadores como Ricardo foram sempre guiados, em tais casos, por um vivo senso
da realidade, por um sadio instinto ontológico, capaz de levá-los a captar sempre
conexões categoriais reais, mesmo quando, como ocorreu freqüentemente, chega-
vam a falsas antinomias [...], na economia política burguesa surgem em geral ex-
perimentos ideais [...], os quais, através de generalizações mecânicas, visando à
manipulação dos detalhes, afastam do conhecimento do processo global ao invés
de se aproximarem dele”. (LUKÁCS, 1979a, p. 42).
118
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

explícitos e mais facilmente identificáveis. São estes contextos os


casos clássicos, cujo classicismo decorre do desenvolvimento histó-
rico do próprio ser social, e não de uma seleção arbitrária por cri-
tério qualquer. Esse é, por exemplo, o sentido atribuído por Marx à
Inglaterra, no estudo da produção capitalista de sua época.6 Em suas
palavras:

O físico observa os processos da natureza, quando se manifes-


tam na forma mais característica e estão mais livres de influên­
cias perturbadoras, ou, quando possível, faz ele experimen-
tos que assegurem a ocorrência do processo, em sua pureza.
Nesta obra, o que tenho de pesquisar é o modo de produção
capitalista e as correspondentes relações de produção e de
circulação. Até agora, a Inglaterra é o campo clássico dessa
produção. (MARX, 1998, p. 16)

Retomando o fio da meada, os experimentos ideais, as crises e os


casos clássicos permitem contornar o primeiro limite epistemológi-
co das ciências sociais: a impossibilidade de realizar testes empíricos
decisivos como os experimentos. Já o segundo limite é absolutamen-
te incontornável, embora não constitua, de forma alguma, obstáculo
ao desenvolvimento científico no domínio social da realidade. Trata-
se da imprevisibilidade de fenômenos sociais, que embarga determi-
nados recursos cognitivos e, dessa forma, confere um molde especial
ao método científico aplicado no estudo da sociedade.
Para recordar um argumento já introduzido no Capítulo 4, a rea-
lidade inescapável das escolhas humanas entre alternativas pressu-
põe o caráter necessariamente aberto do mundo social: conjunções
constantes de eventos jamais se apresentam livremente. Ademais,
como dito acima, não há no mundo social qualquer possibilidade de
realizar fechamentos nos quais as conjunções constantes de eventos

6 “Ora, é da maior evidência que, no ser social, graças à sua essência, os experimen-
tos no sentido das ciências naturais são ontologicamente impossíveis por princípio,
dado o específico predomínio do elemento histórico enquanto base e forma de de-
senvolvimento do ser social. Portanto, se queremos investigar, na própria realidade,
o funcionamento o mais possível puro de leis econômicas gerais, é preciso des-
cobrir alguma etapa histórica de desenvolvimento, caracterizada pelo fato de cir-
cunstâncias particularmente favoráveis terem criado a configuração dos complexos
sociais e das suas relações, onde essas leis gerais puderam se explicitar ao máximo
grau, não perturbadas por componentes estranhos.” (LUKÁCS, 1979a, p. 118).
119

João Leonardo Medeiros


sejam produzidas de forma artificial. Resulta daí a impossibilidade
de prever eventos futuros a partir dos eventos presentes e passados.
Em decorrência das características imanentes de seu próprio
objeto de estudo, portanto, as ciências sociais são exclusivamente
explanatórias; possuem, para dizê-lo com Lukács, um caráter post
festum. Com isso se quer dizer que o objetivo das ciências sociais
está ontologicamente limitado a explicar a racionalidade da ocorrên-
cia de eventos passados, a partir dos mecanismos e tendências em
operação no mundo. Esse caráter post festum não implica, todavia, a
completa impossibilidade de se falar sobre o futuro:

a partir dessas análises e conclusões post festum, pode-se tam-


bém extrair conclusões concernentes a outros desenvolvimen-
tos análogos, assim como certas tendências gerais do futuro
podem ser indicadas a partir das tendências universalmente
conhecidas operantes até o momento atual. (LUKÁCS, 1979a,
p. 117)

Por outro lado, o caráter post festum do conhecimento da socieda-


de permite entender a ansiedade que marca a esotérica tentativa dos
economistas, sobretudo das linhas ortodoxas, de prever fenômenos
imprevisíveis por sua própria constituição: constroem modelos eco-
nométricos; realizam incontáveis baterias de testes e regressões; ob-
têm resultados, insatisfatórios do ponto de vista explanatório; apri-
moram as técnicas; constroem novos modelos; obtêm novos resul-
tados, igualmente insatisfatórios; aprimoram ainda mais as técnicas
etc. O resultado dessa escalada técnico-esquizofrênica é o emprego
das mais modernas e poderosas ferramentas estatísticas disponíveis
para a obtenção de resultados pífios e/ou intuitivos do ponto de vista
cognitivo.
Essa ansiosa procura por técnicas pretensamente capazes de
prever o que, a rigor, não pode ser previsto é, do ponto de vista es-
tritamente teórico, ocasionada pela admissão de uma ontologia in-
capaz de reconhecer a natureza essencialmente aberta da realidade
social. Por essa razão, neste caso, como em qualquer outro, a críti-
ca da perspectiva metodológica assumida tem que partir de, ou ao
menos envolver, um momento de escrutínio crítico dos postulados
ontológicos que lhe são subjacentes. Como, entretanto, julgamos ter
cumprido esse primeiro requisito nos capítulos anteriores, podemos
120
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

partir agora diretamente para a demonstração da total insuficiência


dos dois principais pressupostos metodológicos adotados pelas tra-
dições teóricas da ortodoxia econômica. Esses pressupostos são o
individualismo metodológico e o presentismo – expressão esta que to-
mamos de empréstimo a Paulo Netto (2002, p. 53) para caracterizar
a perda da perspectiva histórica na análise da realidade presente –,
que são consequência direta dos postulados do atomismo social e
da naturalização do capital, respectivamente.7 Passemos, então, ao
argumento, apresentado na seção seguinte.

4.2. Uma crítica às consequências metodológicas da visão de mundo


conservadora: o individualismo metodológico e o presentismo

É interessante iniciar essa seção final do capítulo sintetizando


o argumento desenvolvido na seção anterior, de forma a enfatizar
os principais aspectos da descrição da atividade científica defendi-
da neste trabalho. Em primeiro lugar, observamos que as ciências
sociais desenvolvem-se como um espelhamento teórico da dialética
existente, na realidade social, entre legalidades e fenômenos por elas
causados. Para compreender os fenômenos sociais, os cientistas par-
tem do mundo empírico, elaboram na consciência teorias a respeito
da existência e do modo de operar dos mecanismos causais transem-
píricos e, por fim, retornam ao “concreto” para atestar a existência
real dos mecanismos e tendências pressupostos. Na ausência de tes-
tes empíricos decisivos, o poder explanatório das teorias funciona
como critério de seleção das explicações mais adequadas: ou seja, a
capacidade das teorias de explicar a causalidade dos fenômenos pela
operação de mecanismos causais, sem qualquer recurso a argumen-
to arbitrário ou forçado.
Afirmou-se, por fim, que as ciências sociais são, em comparação
às ciências da natureza, relativamente limitadas em dois sentidos.
Em primeiro lugar, a atividade experimental não possui qualquer
importância epistemológica. Para contornar este primeiro limite,
os cientistas elaboram “experimentos” abstratos (imaginam como
agiriam determinados mecanismos se operassem livremente) e se
valem de dois elementos da própria realidade social que facilitam
7 No caso particular das teorias econômicas ortodoxas da pobreza e da desigualdade,
um terceiro pilar ontológico, apresentado no próximo capítulo, adiciona-se aos dois
primeiros: o proferimento abstrato de valores, do qual decorre uma tensão perma-
nente entre ética e ontologia.
121

João Leonardo Medeiros


a identificação e compreensão dos mecanismos geradores de even-
tos: as crises e a existência de casos clássicos. O segundo limite diz
respeito ao caráter exclusivamente explanatório, não preditivo, das
teorias sociais. Estas teorias podem iluminar o futuro, ao descobrir
mecanismos e revelar tendências, mas são em geral absolutamente
incapazes de prever eventos.
O propósito desta seção é, como dito, submeter à análise crítica
os dois desdobramentos epistemológicos dos postulados definidores
da visão de mundo conservadora, a saber, o individualismo metodo-
lógico (que decorre do atomismo social) e o presentismo (que é con-
sequência da naturalização do capital). Para empreender essa tarefa
serão reunidos argumentos apresentados nos capítulos anteriores e
nas demais seções deste mesmo capítulo. O intuito é deixar claro que
aqueles dois pressupostos epistemológicos conformam uma concep-
ção de conhecimento científico inaplicável ao estudo da sociedade,
em função das características mesmas da realidade social. Teríamos
aqui, então, um caso típico de incompatibilidade entre o método e o
objeto de estudo. Sendo assim, como indicamos por diversas vezes,
torna-se preciso dar conta da legitimidade social dessa perspectiva
epistemológica e de seu correspondente ontológico. Esperamos ofe-
recer, também neste caso, um argumento bem amparado pelo desen-
volvimento anterior.
Iniciando pelo individualismo metodológico, que expõe uma
concepção ontológica atomista da realidade social, parece ser váli-
do indicar, antes de tudo, que essa concepção possui na tradição
neo­clássica da Economia a sua instância paradigmática – o seu caso
clássico. Desde os primeiros anos de estudo da ciência econômica
nas universidades mundo afora, os estudantes são ensinados, na ma-
croeconomia ou na microeconomia, a decompor as sociedades em
indivíduos e firmas para, então, estudar detidamente o seu compor-
tamento. Quando necessário, usualmente na análise macro ou nas
assim chamadas teorias do “bem-estar” social, o comportamento in-
dividual é agregado por meio de algum procedimento específico ou
tratado a partir do recurso a tipos ideais.
O esforço para compreender as técnicas empregadas em cada uma
dessas etapas metodológicas é tamanho que dificilmente os estudan-
tes têm tempo ou disposição para questionar a sua adequação ao ob-
jeto. No entanto, ao contrário do que imagina e ensina a maioria ab-
soluta dos professores de Economia, a sociedade não é composta de
122
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

indivíduos, mas sim, como dito anteriormente, das relações entre eles.
Para oferecer uma descrição plástica dessa concepção da sociedade:

A sociedade não consiste de indivíduos, mas expressa a soma


de vínculos, relações desses indivíduos uns com os outros.
Como se alguém quisesse dizer [e isso se aplica ao individua-
lismo]: do ponto de vista da sociedade não existe escravos e
citizens; ambos são seres humanos. Pelo contrário, são seres
humanos fora da sociedade. Ser um escravo, ser um cidadão
são características sociais, relações entre os seres humanos
A e B. O ser humano A, enquanto tal, não é um escravo. É um
escravo na e pela sociedade. (MARX, 1973, p. 265)

É realmente espantoso, como disse Bhaskar (1979, p. 34 e 35), que


se possa “dar uma explicação não social (isto é, estritamente individua­
lista) do comportamento individual, ao menos daquele caracteristica-
mente humano!”. Afinal de contas, como argumenta este mesmo autor,
“todos os predicados que designam propriedades especiais das pessoas
pressupõem um contexto social para seu emprego”. Em outros termos,
o reconhecimento e a interpretação dos indivíduos singulares e seus atos
sempre se dá mediante categorias particulares e universais. Um escravo
pressupõe uma sociedade escravista; um trabalhador assalariado, o
capital; um banqueiro, o sistema bancário; um ladrão, a propriedade
privada. Na prática, portanto, o individualismo só funciona por recurso
anterior a categorias sociais particulares e universais, que, se não forem
objeto de inspeção das próprias ciências, serão tomadas (acriticamente)
de empréstimo à ontologia cotidiana ou elaboradas na mais completa
liberdade criativa, vale dizer, arbitrariamente. Esta constatação desloca
o foco da discussão para as conexões entre o individualismo ontológico
e o realismo empírico e entre ambas as concepções e as necessidades da
reprodução social.
O atomismo social, para expressá-lo sinteticamente, nada mais
é do que a concepção de mundo do realismo empírico.8 Em outras
palavras, considerar que a realidade social seja exaurida pelos

8 O atomismo é a antiquíssima doutrina filosófica que compreende a matéria como cons-


tituída por uma partícula básica e indivisível, originalmente chamada de átomo. No caso
de sua versão social, os indivíduos (individualismo) ou, alternativamente, os grupos de
indivíduos (coletivismo) seriam os elementos irredutíveis formadores da sociedade. Nos
termos nos quais a crítica é aqui desenvolvida não faz a menor diferença considerar o
individualismo ou o coletivismo. O argumento permanece o mesmo em ambos os casos.
123

João Leonardo Medeiros


fenômenos empíricos é equivalente a admitir que esta realidade é
constituída exclusivamente por indivíduos e suas ações, já que estas
são as únicas coisas efetivamente empíricas existentes na sociedade.
O resultado epistemológico, lógico e óbvio destas colocações onto-
lógicas é o dogma do individualismo metodológico: “a doutrina de
que fatos sobre sociedades, e de fenômenos sociais em geral, devem
ser explicados exclusivamente em termos de fatos sobre indivíduos”
(BHASKAR, 1979, p. 34). Partindo do individualismo metodológico, as
estruturas da realidade social expressariam tão somente uma agre-
gação de indivíduos ou de suas conexões, sem qualquer conteúdo
próprio (empirismo clássico) ou um construto ideal, arbitrariamente
elaborado no pensamento (idealismo).
Aplicam-se ao individualismo metodológico, portanto, todas as
críticas dirigidas anteriormente ao realismo empírico, que procuram
chamar a atenção para:

1. o caráter estruturado do mundo;


2. os mecanismos, estruturas e tendências causais não empíri-
cos, resultantes das interações entre os efeitos de inúmeros
atos singulares;
3. a unidade dialética entre as estruturas causais e os atos hu-
manos – as primeiras antecedem e condicionam os últimos e
estes, por sua vez, reproduzem ou transformam as primeiras;
4. o nexo existente entre o realismo empírico e o conservadorismo.

A respeito dessa última questão, duas observações são relevan-


tes. Em primeiro lugar, o vínculo entre o realismo empírico (onto-
logia) e o conservadorismo implica uma conexão idêntica entre o
individualismo metodológico (epistemologia) e o conservadorismo.
Segundo, nenhuma dessas conexões pressupõe, necessariamente,
qualquer intencionalidade do tipo conspiratória (embora ela possa
de fato existir). Basta aqui enfatizar que, se as estruturas realmente
existentes no mundo não são objeto de análise teórica, a crítica efeti-
va a elas dirigida fica descaracterizada a priori. Afinal de contas, que
valor possui uma crítica que antecipadamente admite não conhecer,
mesmo de forma aproximada, o próprio objeto criticado?
Ademais, como nenhuma práxis pode ocorrer na mais completa
ignorância das estruturas do mundo, a descaracterização da análise
crítica implica a aceitação passiva da visão de mundo cotidiana e,
124
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

portanto, das categorias e das estruturas da imediaticidade. Resulta


daí a conexão com a perda de sentido histórico das estruturas forma-
doras da realidade, o presentismo de que trataremos em seguida. Isso
porque as estruturas, tais como se apresentam aos sujeitos em sua
práxis cotidiana, não são examinadas num sentido histórico-concre-
to, mas tratadas como se fossem eternas, como se formassem uma
espécie de segunda natureza. Por outro lado, o resultado do embargo
à análise crítica é a desqualificação de qualquer discurso transforma-
dor, emancipatório ou revolucionário.9 Colocando de forma sintéti-
ca, numa sociedade classista, a crítica teórica é sempre assimétrica
em relação aos interesses das diferentes classes sociais: ao revelar a
real constituição das relações sociais, ataca concepções anteriores
e opõe-se aos interesses constituídos, que delas se beneficiam cons-
cientemente ou não.
Não faltariam, de fato, exemplos para atestar que a sociedade ca-
pitalista harmoniza-se com (e favorece) as concepções teóricas que
contribuem para a dissipação das insatisfações e críticas, ou seja,
para sua reprodução. Também não faltariam exemplos para demons-
trar que essa mesma sociedade entra em atrito com as teorias que,
em razão de seu conteúdo explanatório, desmistificam as relações de
opressão, indispensáveis à própria organização social, ou simples-
mente demonstram a transitoriedade histórica das relações sociais
capitalistas. É precisamente este o sentido da objeção de Marx ao
discurso da ciência econômica que, mesmo quando manifestamente
crítico, tem seu alcance limitado ao âmbito da sociedade do capital:

Uma vez que se penetra na conexão interna das coisas, cai por
terra toda a fé teórica na necessidade constante da atual or-
dem vigente, antes mesmo que essa ordem vigente desmorone
9 Este tipo de relação entre teoria e prática está presente, por exemplo, na crítica de
Marx à Economia, ciência em que o individualismo metodológico é dominante. Em
suas palavras: “Os economistas raciocinam de maneira singular. Para eles não há
mais do que duas classes de instituições: umas artificiais, as outras naturais. [...]
Ao dizer que as atuais relações – as da produção burguesa – são naturais, os eco-
nomistas dão a entender que se trata, precisamente, de um tipo de relações sob as
quais se cria riqueza e se desenvolvem as forças produtivas de acordo com as leis
da natureza. Por conseguinte, essas relações são em si leis naturais independentes
da influência do tempo. São leis eternas as quais devem, sempre, reger a sociedade.
De modo que até agora houve história, agora, porém já não há. Houve história por-
que houve instituições feudais e porque nessas instituições feudais nos deparamos
com certas relações de produção totalmente diferentes das relações de produção
da sociedade burguesa, que os economistas querem fazer passar por naturais e,
portanto, eternas.” (MARX, 1965, p. 116 e 117).
125

João Leonardo Medeiros


na prática. As classes dominantes estão, portanto, absoluta-
mente interessadas em perpetuar essa confusão insensata. E
não é precisamente por isso que elas pagam tão bem os char-
latães cujo único trunfo científico consiste em afirmar que, no
domínio da economia política, é proibido raciocinar? (MARX,
1963, p. 262)

A relação entre o individualismo metodológico e o conservado-


rismo compõe, portanto, o conjunto de fatores que explica a ampla
difusão do individualismo, a despeito das contundentes objeções a
que tem sido submetido desde sempre. Dois outros fatores para a
persistente sustentação do individualismo metodológico merecem
uma breve consideração. Em primeiro lugar, o atomismo social e,
consequentemente, o individualismo metodológico fundamentam-
-se numa tese, em parte verdadeira: nada na sociedade ocorre sem
a intervenção dos indivíduos. A parcialidade desta afirmação ficou
clara já no Capítulo 2, quando se demonstrou, mediante a análise da
relação dialética entre o agir humano e as estruturas sociais, que as
últimas são antecedentes e relativamente independentes do primei-
ro. As estruturas sociais, que atuam sobre o agir humano singular,
não existem em sua ausência, mas, de forma alguma, são produto (re-
sultado teleológico) de qualquer agir, individual ou mesmo “grupal”.
São, ao contrário, resultado não intencional das simultâneas intera-
ções entre os efeitos dos inúmeros atos humanos singulares.
Em segundo lugar, sobretudo nas sociedades estranhadas, nas
quais a fratura entre o agir humano singular e o seu significado so-
cial opera com maior vigor, na prática e na consciência, o desenvol-
vimento social favorece o surgimento de uma espécie de ilusão de
isolamento: a falsa crença na possibilidade de viver de forma livre e
independente do conjunto da sociedade. Nos termos de Lukács:

para o homem primitivo a exclusão da sociedade significava


ainda ser condenado à morte. Mas a crescente sociabilidade
da vida humana suscita em alguns indivíduos a ilusão de se-
rem independentes da sociedade, de existirem de algum modo
como átomos isolados. (LUKÁCS, 1979a, p. 85)

Esta ilusão de isolamento é, à primeira vista, incompatível com a


própria essência do desenvolvimento social, que não significa outra
126
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

coisa senão o aumento da complexidade das relações sociais, a am-


pliação dos canais que conectam os seres humanos entre si. Este apa-
rente antagonismo fica prontamente esclarecido quando dois fatores
são levados em consideração. Por um lado, o “recuo das barreiras
naturais” – a tendência universal do ser social – confere aos indiví-
duos, de forma geral, um maior controle sobre as forças da natureza
(que se expressa, por exemplo, no aumento da produtividade). Por
outro lado, o próprio desenvolvimento social aumenta as mediações
entre os indivíduos e a sociedade, entre o agir humano singular e o
seu resultado social. Tem origem aí a impressão de que o agir huma-
no opera livre de condicionamentos sociais e, no sentido inverso, a
falsa sensação de que os atos singulares não influenciam, de forma
alguma, as estruturas, mecanismos e tendências que sintetizam seus
efeitos simultâneos.
Para finalizar o capítulo, tratemos enfim do presentismo, expres-
são aqui empregada para designar a perda da perspectiva histórica
na análise da realidade social.10 Na realidade, muito se disse, nesta
Parte I deste livro, a respeito desse fenômeno. Indicou-se, primeira-
mente, a ressurgência celebratória do presentismo no final da década
de 1960, por intermédio de diversos autores, até então identificados
com teorias e práticas emancipatórias. Enfatizou-se, em inúmeras
passagens do texto, a forma pela qual a admissão da ontologia do
realismo empírico implica uma subscrição imediata à naturalização
do capital e ao presentismo. Para contrapor, teoricamente, ambas as
concepções, demonstrou-se o apriorismo e a inteira inadequação de
perspectivas que abrem mão da temporalidade das relações sociais
na inspeção deste objeto histórico e dinâmico. Em todos esses mo-
mentos, as principais consequências do presentismo, para a ciência
e para a práxis social, foram ressaltadas: o embargo à crítica e à prá-
xis transformadora. Em face do que foi dito, analisado e criticado,
faz-se necessário explicitar e ressaltar uma única questão referente
ao presentismo, antes que ele seja revelado, nas Partes III e IV do li-
vro, como elemento fundamental das teorias econômicas ortodoxas
da pobreza e da desigualdade.
Em primeiro lugar, o presentismo fica mais bem representado
como resultado epistemológico da visão de mundo radicalmente
conservadora, definida a partir da aceitação da tese ontológica de

10 Paulo
Netto (2002, p. 93) utiliza a expressão presentismo para nominar a “destruição
do passado”, que caracteriza o novo irracionalismo.
127

João Leonardo Medeiros


que a história da sociedade encontrou, no capitalismo, a sua última
forma. Essa naturalização do capital, e isto é o que nos interessa de
fato, assume ares de crença hegemônica, absolutamente intransigen-
te do ponto de vista ideológico, toda vez que determinados eventos
históricos obscurecem, diminuem ou desqualificam, por um lado, a
possibilidade concreta de transformação das relações sociais (a su-
peração da forma social capitalista) e, por outro, o simples enuncia-
do teórico desta possibilidade.
Já foi mencionado, no capítulo introdutório, o fato de que os acon-
tecimentos históricos ocorridos entre as décadas de 1960 e 1990 (as
desilusões de 1968, a contrarrevolução do capital, o fim do “socialis-
mo real” etc.) produziram uma guinada conservadora nas mais di-
versas formas de consciência (filosofia, ciências, artes e pensamento
cotidiano). Até pouco tempo, qualquer concepção, teórica ou prosai-
ca, que ousasse questionar a realidade eterna das relações sociais ca-
pitalistas, não só seria banida do campo da inteligibilidade racional,
como seria submetida a uma bateria de acusações, entre as quais se
destaca, paradoxalmente, a acusação de ligações com o pensamento
antidemocrático (stalinista)!11
No caso da Economia, entretanto, a naturalização do capital pa-
rece ser independente de conjunturas, quaisquer que sejam, e isto
se explicaria, segundo Marx, pela identidade originária desta ciência
com a classe dominante e com os seus interesses práticos. Na apre-
sentação de Duayer deste argumento marxiano:

Quanto mais o capital se torna a relação social predominan-


te, menos crítica se torna a economia política. Quanto mais
a luta de classes muda de eixo, e a luta não é mais contra a
aristocracia, mas contra o proletariado, mais a economia po-
lítica assume a naturalização das relações capitalistas [...] e,
em conseqüência, menos crítica é e tem de ser. Assim, salienta
11 “Quem aceitaria entrar resolutamente no papel do retrógrado iluminado, do ingênuo

desinformado [...]? Quem aceitaria ter direito, não ao cenho franzido pelo furor, mas
erguido por uma estupefação incrédula, mesclada de doce compaixão? ‘Mas você
não quer dizer que... Você ainda não... O muro de Berlim caiu, sabia? Então a URSS,
você realmente apreciou? Stalin? Mas a liberdade, o mercado livre... não?’ E, diante
desse retardado, kitsch a ponto de comover, um sorriso desarmado”. “Só porque
uma operação totalitária monstruosa fazia uso deles e até os promovia, eles [os
termos] nos são proibidos, perderam o sentido? Estamos tão influenciados a ponto
de recusar de maneira autoritária, mecanicamente, o que outros absorviam de ma-
neira autoritária, também mecanicamente? A autoridade, a mecânica, só elas então
retornam?” (FORRESTER, 1997, p. 21 e 22).
128
Breve digressão sobre o conhecimento científico da sociedade

Marx, quando a classe trabalhadora passa a ser o adversário


exclusivo, não importa mais à economia política a questão da
verdade. Enquanto ciência, substitui a verdade de suas propo-
sições por sua utilidade, utilidade para o capital. Para colocá-
-lo em termos contemporâneos, a partir daquele instante o que
importa é a adequação empírica dos teoremas, das proposi-
ções, e não a sua verdade. Ou a sua performance retórica, sua
capacidade de persuasão.12 (DUAYER, 2001a, p. 19)

Tendo em vista essa conexão concreta entre a ciência econômica


e o discurso da classe dominante, não surpreende que o realismo
empírico (atomismo social) e a naturalização do capital sejam admi-
tidos pela maioria absoluta das teorias econômicas. Como, no entan-
to, pretendemos tratar de teorias econômicas particulares – teorias
do “bem-estar” social – será necessário introduzir e examinar criti-
camente um terceiro pressuposto ontológico (e, consequentemente,
metodológico) que caracteriza a própria especificidade dessas teo-
rias. Esse pressuposto refere-se, para recordar, à definição absoluta-
mente abstrata, reificada, dos valores que deveriam orientar o pro-
cesso de transição entre as sociedades mal-ordenadas e as socieda-
des justas. Passemos, então, sem tergiversações, à Parte II do ensaio,
que se ocupa da árida temática da relação entre ética e ontologia.

12 Mesmo correntes heterodoxas, como a pós-keynesiana, que ressaltam o tempo todo


a historicidade das relações sociais, não admitem em seu tratamento teórico a his-
tória “para frente”, para além do capital. História, neste caso, é história do capital,
isto é, história sem futuro, ou história sem história. Nas palavras de Duayer: “A
incongruência básica da ontologia social organicista do pós-keynesianismo, a afir-
mação da historicidade do mundo social incapaz de transcender a forma histórica
particular em que é flagrado pela teoria, impregna todos os aspectos da teoria eco-
nômica dela derivada.” (DUAYER, 1995, p. 213).
Parte II

Sobre a relação entre ética, moral e política:


contra a Economia do bem-estar social

Em nossa época pensante e raciocinante, não faz grande pro-


gresso quem não sabe apresentar uma boa razão para tudo,
por pior e por mais errado que seja. Tudo de mal que se fez
nesse mundo, foi feito por boas razões. (G. W. F. Hegel)

Não é possível omitir, ignorar ou deixar em suspenso, na convi-


vência cotidiana da vida social contemporânea, os questionamentos
relativos à ética.1 Na religião ou no esporte, na intimidade familiar ou
na política, na ciência ou nas artes, todos são chamados a discutir,
explicar e criticar a conduta, própria ou alheia, e os valores que são
prezados ou desprezados nas mais distintas práticas sociais. Padres
podem casar-se? Seria correto aproveitar as possibilidades abertas
pela clonagem humana ou seria mais prudente coibi-la, em função
dos riscos sociais envolvidos na duplicação de homens? Como se
portar no exercício profissional? Que valores ensinar aos filhos para
permitir-lhes sobreviver com decência no salve-se quem puder do
dia a dia? O artista deve abrir mão do sentido maior de sua arte em
função dos determinantes de mercado?
Além de todos esses e outros tantos questionamentos práticos, di-
gamos ordinários, um rol igualmente extenso de interrogações éticas
mais complexas, ou menos imediatas, apresenta-se tanto às formas
de consciência superiores (filosofia, ciência, religião e artes) quanto
às formas cotidianas. No plano mais elevado de considerações, que
nos interessa diretamente aqui, destacam-se as questões a respeito
da origem dos valores, de sua existência social autônoma (isto é, fora
da cabeça dos sujeitos) e da distinção entre os valores econômicos,
morais, estéticos etc.

1 A ética refere-se, numa acepção bastante genérica, ao estudo das finalidades (valo-
res) que condicionam e orientam a conduta humana.
130
Sobre a relação entre ética, moral e política: contra a Economia do bem-estar social

Há, evidentemente, diversas maneiras de conceber a ética e a pro-


cedência dos valores. Uns derivam a conclusão empirista equivocada
de que os valores sequer existiriam, a partir da premissa correta de
que os valores são transcendentes à experiência, justamente por não
serem captados de forma direta ou indireta pelos sentidos humanos.
Para outros, numa interpretação bastante em voga, os valores exis-
tiriam como subjetividades, como relações entre meios e fins indivi-
dualmente postas a partir das experiências particulares dos sujeitos.
As condutas e as finalidades às quais elas se dirigem seriam idiossin-
cráticas ou, no máximo, compartilhadas pela comunidade cultural
em que se vive. Valores seriam como as impressões digitais: cada um
tem as suas. Assim sendo, não haveria metro inteiramente isento que
permitisse comparar, criticar ou debater as condutas e os valores
envolvidos, por mais absurdos que parecessem. Ademais, os indiví-
duos poderiam trocar um sistema de valores por outro de forma in-
teiramente livre e pragmática, tendo como único limitante uma ética
social (seja qual for) definida por “consenso” e os próprios “valores
democráticos” subjacentes a esta definição.
Desde seu nascimento como ramo da filosofia moral, a ciência
econômica tem se ocupado explicita ou implicitamente das temáticas
referentes à ética e oferecido respostas relativamente homogêneas à
questão da procedência dos valores. No âmbito do comportamento
individual, sobressai a tentativa de resolução da complexa problemá-
tica dos valores em termos da afirmação do caráter autointeressado
do agir, sendo esta “solução” usualmente sintetizada na noção de uti-
lidade.2 Em termos do assim chamado bem-estar social, campo da
Economia que procura discutir precisamente as finalidades sociais
e as implicações de conduta daí derivadas, destacam-se duas posi-
ções, cada uma delas envolvendo um conjunto maior ou menor de
valores na direção dos quais a sociedade deveria ser orientada.
A primeira posição (utilitarista) considera a utilidade agregada (a
soma direta da utilidade dos indivíduos) como o valor social par exce-
llence. Mais recentemente, o “enfoque das capacidades”, desenvolvi-
do a partir do trabalho pioneiro de Amartya Sen, propôs a igualdade
2 Para o utilitarismo, a racionalidade individual é orientada para o objetivo de maximi-
zar a utilidade pessoal. Este último conceito pode ser definido de diversas maneiras.
Na versão clássica do utilitarismo, usualmente descrita como hedonista, a utilidade
é definida como o prazer derivado das ações: indivíduos racionais deveriam então
buscar o máximo de prazer sobre a dor (desutilidade). Outra versão famosa do uti-
litarismo compreende a utilidade em termos das preferências individuais. Para mais
detalhes, ver Callinicos (2001); Sen (1999; 2000; 2001).
131

João Leonardo Medeiros


das liberdades individuais como o principal objetivo do desenvol-
vimento social.3 Entre estas posições, há evidentemente diferenças,
mas também muitos pontos em comum. As diferenças estão na ori-
gem da distinção entre as diversas teorias econômicas ortodoxas da
pobreza e da desigualdade, que serão examinadas criticamente nas
Partes III e IV deste livro.4 Os pontos em comum se referem funda-
mentalmente aos pressupostos ontológicos e éticos compartilhados
por essas concepções do “bem-estar” social, que facultam a sua ca-
racterização como variações no interior de uma mesma tradição teó-
rica (ontologia, paradigma, visão de mundo etc.).
Nos capítulos anteriores, procurou-se apresentar e criticar minu-
ciosamente os princípios ontológicos compartilhados pela maioria
absoluta dos economistas. Trata-se, para recordar, da naturalização
do capital (a consideração ontológica de que a sociedade atual cons-
titui a última forma de sociabilidade – o fim da história) e do realismo
empírico (ontologia que “achata” o mundo no domínio da experiência
imediata). Esses dois princípios, se considerados conjuntamente, de-
terminam que os diagnósticos e terapias da ciência econômica sejam
restritos ao escopo do comportamento individual. Isso ocorre não
apenas porque as estruturas sociais são tidas como imutáveis (natu-
ralização do capital), mas também porque os únicos objetos efetiva-
mente empíricos no domínio social da realidade são os próprios in-
divíduos (realismo empírico ou, alternativamente, atomismo social).
Esta segunda parte do livro tem por objetivo defender que as teo­
rias ortodoxas do “bem-estar” social são incapazes de lidar com a
relação entre os valores sociais e as reais condições de realização
desses valores, precisamente porque sua fundamentação ontológi-
ca comum restringe a análise científica à esfera do comportamento
individual (num mundo de estruturas supostamente dadas). Isso sig-
nifica que os valores sociais – ou valores “emancipatórios”, já que
tais valores usualmente conferem uma forma concreta aos anseios
pela emancipação humana – são necessariamente tratados de ma-
neira abstrata, reificada. Também se pretende sustentar o argumento

3 A abordagem das capacidades, elaborada por Sen, é, como veremos no Capítulo 17,
baseada na concepção da “justiça como equidade” de John Rawls, mas não é idênti-
ca a ela.
4 Tomando como exemplo a noção de pobreza, parece ser fácil compreender que ela
pressupõe uma concepção de bem-estar individual e social. Essa noção também
requer a existência real de diferenças individuais no bem-estar, caso contrário a
pobreza, como atributo individual, não poderia sequer ser concebida.
132
Sobre a relação entre ética, moral e política: contra a Economia do bem-estar social

de que a definição abstrata de valores explica muito da óbvia insufi-


ciência prática das políticas sugeridas pelas teorias econômicas do
bem-estar. Neste caso, o objetivo é demonstrar a existência do que
vamos denominar “tensão permanente” entre a ética e a ontologia
subentendidas na análise ortodoxa das “temáticas sociais”. Tensão
que se manifesta exatamente como um problema de realização dos
valores proferidos pelos economistas.
A rigor, somente a inspeção das teorias econômicas poderia de-
monstrar que elas, de fato, pressupõem uma ética irrealizável na prá-
tica, ao menos se o mundo fosse realmente como os economistas o
descrevem. Assume-se, no entanto, a estratégia de desenvolver a crí-
tica num nível de abstração elevado para, em seguida (nas Partes III
e IV), descer ao “concreto”, mediante a inspeção das teorias e de sua
matriz ontológica. Seguindo esta orientação, esta segunda parte or-
ganiza-se em três capítulos: o primeiro procura caracterizar a tensão
permanente entre ética e ontologia; o segundo pretende apresentar
os problemas envolvidos nas considerações da ciência econômica
sobre os valores; o terceiro oferece uma crítica à tentativa de solução
da tensão entre ética e ontologia pela via política.
5. A tensão permanente entre a ontologia conservadora
e a ética “emancipatória” abstratamente concebida

Em conhecido artigo a respeito da metodologia da ciência econô-


mica, Friedman, laureado com o prêmio Nobel em 1976, ofereceu uma
das mais paradigmáticas descrições da maneira pela qual os econo-
mistas consideram os valores em torno dos quais supostamente de-
veria ser direcionada a organização social:

Eu arrisco o julgamento de que, atualmente no mundo ociden-


tal, e especialmente nos Estados Unidos, as diferenças sobre
as políticas econômicas entre os cidadãos desinteressados
derivam predominantemente das diferentes predições sobre
as conseqüências econômicas da tomada de ação – diferenças
que em princípio podem ser eliminadas pelo progresso da eco-
nomia positiva – e não das diferenças fundamentais nos valo-
res básicos, diferenças sobre as quais os homens podem, em
última análise, somente lutar. (FRIEDMAN, 1994, p. 182, grifo
nosso)

Diferenças nos valores básicos, ensina o renomado economista,


são resolvidas na luta e, para a felicidade do mundo ocidental e es-
pecialmente dos Estados Unidos, a luta já se havia encerrado e os
valores encontravam-se definidos. Restaria selecionar as políticas ca-
bíveis à consecução desses valores, e isto envolvia não uma pendên-
cia normativa, referente aos próprios valores, mas uma pendência
positiva, a respeito da teoria correta para informar ações concretas.
Escrevendo sob a influência do positivismo lógico (no ano de
1953), Friedman dificilmente poderia suspeitar que – como demons-
traram Kuhn e muitos outros, antes e depois – as teorias positivas
são profundamente impregnadas pelos aspectos normativos e que,
portanto, a distinção entre as concepções teóricas subentende uma
distinção prévia entre os “valores básicos”. Em outras palavras, se
134
A tensão permanente entre a ontologia conservadora e a ética “emancipatória” abstratamente concebida

vale a premissa hoje assumida de forma praticamente consensual na


filosofia da ciência de que as teorias sempre pressupõem uma on-
tologia no interior da qual ficam definidos a priori os valores, os li-
mites teóricos e metodológicos, os critérios de seleção das teorias
etc., então todo debate a respeito da ciência positiva desdobra-se, no
final das contas, num debate a respeito da ontologia assumida (e dos
valores, critérios, princípios etc. implicados). A ciência não tem, por
esse motivo, como se esquivar dos questionamentos a respeito das
finalidades que se propõe objetivar, sob a pena de tornar a própria
atividade científica sem conteúdo ou absolutamente ininteligível.1
Além do mais, como economista ortodoxo renomado, Friedman
não poderia imaginar que a dificuldade de objetivar os “valores bá-
sicos” vigentes na sociedade ocidental talvez fosse efetivamente de-
rivada de um problema ontológico-normativo: o fato de serem os va-
lores definidos na “luta” conflitantes entre si ou mesmo irrealizáveis
na sociedade capitalista. É precisamente a dificuldade de aludir às
relações dos valores, entre si e com o desenvolvimento social, que
confere unidade ao conjunto de proposições éticas produzidas pelos
economistas (ou simplesmente pressupostas) em suas análises do
“bem-estar”. Seja interpretada à luz do positivismo, que considera ex-
tracientífica a discussão dos valores (isto é, pertencente a domínios
tão insondáveis quanto a “luta” friedmaniana), seja entendida de for-
ma idealista ou subjetivista, o fato é que a Economia jamais inspecio-
na ou explicita a origem dos valores que se propõe a instrumentalizar
por intermédio de teorias cada vez mais complexas. Em poucas pala-
vras, os valores são proferidos em abstrato, como se pudessem ser de
fato definidos, sem que as condições sociais, subjetivas e objetivas,
para a sua postulação e realização, sejam sequer inspecionadas.
A negligência da Economia com a procedência dos valores,
que é apenas uma das instâncias de seu desleixo com as questões

1 Mesmo Sen, que flerta ora com o positivismo, ora com o relativismo, lamenta (intui-
tivamente?) o descaso da “economia positiva” com as questões normativas: “Pode-
-se dizer que a importância da abordagem ética diminuiu substancialmente com a
evolução da economia moderna. A metodologia da chamada ‘economia positiva’
não apenas se esquivou da análise econômica normativa como também teve o efeito
de deixar de lado uma variedade de considerações éticas complexas que afetam o
comportamento humano real e que, do ponto de vista dos economistas que estu-
dam esse comportamento, são primordialmente fatos e não juízos normativos. Exa-
minando as proporções das ênfases nas publicações da economia moderna, é difícil
não notar a aversão às análises normativas profundas e o descaso pela influência
das considerações éticas sobre a caracterização do comportamento humano real.”
(SEN, 1999, p. 123).
135

João Leonardo Medeiros


ontológicas, produz pelo menos dois problemas fundamentais, que
constituem os aspectos éticos de uma tensão permanente entre a
ética e a ontologia inerentes à análise econômica do “bem-estar”. Em
primeiro lugar, está o fato, já mencionado, de que a ciência econô-
mica usualmente desconsidera a possibilidade de que alguns dos
valores em vigência na sociedade sejam irrealizáveis em si ou por
causa da realização de valores conflitantes. Ao coletar seletivamente
(mediante critérios pouco claros) alguns dos valores em circulação
e oferecer apoio técnico (instrumental) para a sua objetivação, os
economistas, antes de tudo, assumem que todos os valores sejam
perfeitamente realizáveis no interior da atual configuração social.
Evitando por ora um aprofundamento neste ponto, basta recorrer
aqui a duas ilustrações para caracterizar o possível desacerto dessa
atitude da Economia. Pense, por um lado, na frequente contradição,
típica da produção capitalista, entre os valores econômicos e os valo-
res “humano-sociais” e, por outro, no valor religioso da ressurreição.
O primeiro caso representa uma situação em que a realização de de-
terminados valores (os valores “humano-sociais”) é posta em xeque
pela realização de outros valores (aqueles relacionados à produção
capitalista). O outro refere-se a um valor socialmente objetivo, que
influencia o comportamento de um contingente não desprezível de
seres humanos, mas que é irrealizável por princípio (a ressurreição).
O segundo problema causado pela negligência da Economia com
a procedência dos valores está intimamente relacionado à natu-
ralização do capital. Como a ciência econômica não leva a sério a
transitoriedade histórica do capitalismo, perde-se de vista o fato de
que o pressuposto para a realização de alguns valores (por exem-
plo, o da igualdade) seja precisamente a superação da atual confi-
guração social.2 Se as ações concretas destinadas a objetivar fina-
lidades (valores), possivelmente realizáveis por meio de práticas
2 A respeito da noção de igualdade, duas observações devem ser prontamente reali-
zadas. Deve-se advertir, antes de tudo, que a igualdade considerada em todo este
trabalho é a igualdade de classes – a não ser que o termo igualdade venha seguido
por um qualificativo (por exemplo, igualdade de renda ou de utilidades). No Capí-
tulo 7 a seguir e na Conclusão do presente estudo, a discussão acerca das diferen-
tes acepções de igualdade será retomada, mas vale por ora ressaltar uma vez mais
que a afirmação de que a igualdade é um valor irrealizável na sociedade capitalista
refere-se ao caráter classista deste modo de produção. A segunda observação diz
respeito ao caráter historicamente contingente do próprio valor da igualdade e faz-
-se necessária para advertir sobre o fato de que o pensamento conservador usual-
mente eleva valores condicionados pelo desenvolvimento social ao posto de valores
associados a uma presumida natureza humana.
136
A tensão permanente entre a ontologia conservadora e a ética “emancipatória” abstratamente concebida

transformadoras, são consideradas exclusivamente à base das possi-


bilidades imediatas, os fins (valores) tornam-se irrealizáveis a priori.
Com isso, o estreitamento da prática, envolvido no embargo onto-
lógico à superação das estruturas sociais capitalistas (a naturaliza-
ção do capital), desdobra-se num estreitamento da ética ao limite do
“possível”. Pode-se concluir, neste caso, que, paradoxalmente, a ética
do “possível” converte valores perfeitamente realizáveis em uma to-
tal impossibilidade.
Um exemplo bastante representativo desse estreitamento da éti-
ca encontra-se na obra de Amartya Sen, que é, sem dúvida, um dos
economistas mais preocupados em explicitar os fundamentos nor-
mativos da ciência econômica.3 O ponto de partida da análise de Sen
é o valor da igualdade, que, numa concepção genérica, poderia ser
definido em termos de variáveis distintas (de classe, renda, utilidade,
direitos, “oportunidades”, liberdades individuais etc.). Para cada ma-
neira de compreender a igualdade corresponderia uma teoria iguali-
tarista e, de acordo com o autor, o fundamento objetivo desta plura-
lidade (de definições e teorias) encontra-se na diversidade inerente
aos seres humanos: “É precisamente devido a tal diversidade que a
ênfase no igualitarismo em um campo exige a rejeição do igualitaris-
mo em outro.” (SEN, 2001, p. 23).
Ao referir-se às características distintivas dos seres humanos, Sen
fornece os primeiros indícios para revelar um aspecto marcante – e
raramente explicitado – tanto em sua abordagem, quanto nas teorias
do “bem-estar” que são alvo direto de suas críticas (o utilitarismo, o
rawlsianismo e o libertarismo): o seu caráter a-histórico, restrito ao
âmbito da ordem social vigente. Em suas palavras:

Os seres humanos são profundamente diversos. Somos dife-


rentes uns dos outros não somente em características exter-
nas (p. ex., nas riquezas herdadas, no ambiente social e natu-
ral em que vivemos), mas também em nossas características
pessoais (p. ex., idade, sexo, propensão à doença, aptidões
físicas e mentais). A avaliação das demandas de igualdade tem

3 Vale a pena ressalvar que a prolixa abordagem de Sen será o ponto culminante (final,
portanto) da apresentação das teorias econômicas ortodoxas da pobreza e da de-
sigualdade, que se inicia efetivamente a partir do Capítulo 9. Para a finalidade ime-
diata de ilustrar uma característica marcante do tratamento das questões relativas
à ética pelos economistas, basta oferecer uma visão panorâmica, assumidamente
superficial, das ideias do autor.
137

João Leonardo Medeiros


de ajustar-se à existência de uma diversidade humana genera-
lizada. (SEN, 2001, p. 29)

Salta aos olhos, na passagem acima, a naturalidade com que Sen


mistura num mesmo balaio – o das diversidades dos seres humanos –
características pessoais irredutíveis (genotípicas e fenotípicas) com
aspectos históricos (resultantes do desenvolvimento social), como
se a diversidade entre estas diversidades inexistisse ou fosse abso-
lutamente irrelevante. Se características sociais, como a divisão em
classes, são equiparadas a atributos individuais, próprios da consti-
tuição singular de cada ser humano, então a sua existência (das clas-
ses) é naturalizada e a crítica dirigida a qualquer distinção herdada
da história (entre escravos e libertos, por exemplo), passa a ter o
mesmo estatuto de ataques criminosos à diversidade humana (como
o nazismo e o racismo).
Essa naturalização das diferenças históricas nas condições de
vida dos seres humanos, que é simplesmente insinuada na passagem
acima, torna-se cristalina, quando o autor passa a defender positiva-
mente a sua concepção de ética igualitária – o assim chamado “enfo-
que das capacidades”. Neste enfoque, Sen privilegia a igualação das
liberdades individuais, expressas como a capacidade de cada sujeito
para realizar os valores privadamente escolhidos (aos quais ele atri-
bui a estranha denominação “funcionamentos”) em detrimento de
todos os outros espaços nos quais a igualdade poderia ser concebi-
da. Nos termos do autor: “A capacidade de uma pessoa para realizar
funcionamentos que ela tem razão para valorizar fornece uma abor-
dagem geral à avaliação de ordenamentos sociais, e isto produz uma
maneira singular de ver a avaliação da igualdade e da desigualdade.”
(SEN, 2001, p. 34). A sociedade “justa ou bem-ordenada”, para Sen,
é aquela na qual os indivíduos são igualmente capazes de escolher
livremente a vida que desejam levar. As ações individuais e coletivas
corretas, naturalmente, são aquelas que trazem à realidade essa “so-
ciedade justa e bem-ordenada”.
Todo o problema da defesa seniana das liberdades individuais re-
side no fato de que o autor jamais entrevê, e nem poderia (em função
da ontologia conservadora subentendida em sua concepção teórica),
a necessidade ou mesmo a possibilidade de transformar as estrutu-
ras sociais vigentes para que os anseios libertários possam ser efeti-
vamente objetivados. Ao contrário, para colocá-lo sem rodeios, Sen
138
A tensão permanente entre a ontologia conservadora e a ética “emancipatória” abstratamente concebida

procura a todo custo combinar uma ética libertária com uma ontolo-
gia profundamente conservadora. Dessa forma, em que pese a clara
distância existente entre sua elaborada concepção de “bem-estar” e
aquela assumida pela maioria dos economistas ortodoxos (Friedman
incluído), as duas abordagens da ética podem ser submetidas a uma
crítica comum. Nada muda pelo fato de que Sen, mas não Friedman
e muitos outros, atribua um conteúdo explícito a valores como a li-
berdade, a igualdade etc. Afinal de contas, em qualquer concepção
ética proposta por esses autores, os valores emancipatórios – sejam
explicitamente definidos ou não – são (1) sempre definidos, em lugar
de defendidos ou analisados e (2) combinados com os mesmos prin-
cípios ontológicos, identicamente assumidos.
Em suma, na análise de Sen, como na de Friedman, a tensão entre
a ética emancipatória e a ontologia conservadora traz consigo uma
consequência bastante nítida e relativamente previsível: a defesa, à
primeira vista intransigente, das liberdades individuais finda por ser
relegada ao segundo plano com relação à defesa do status quo, este,
sim, mantido de forma inteiramente incondicional. No caso de Sen,
a comprovação rigorosa deste privilégio da naturalização do capital
sobre a ética libertária será efetuada no momento apropriado, quan-
do sua obra for analisada no detalhe. É possível, entretanto, indicá-lo
brevemente através de seus manifestos radicais em prol do mercado
e da tragicômica “liberdade de procurar emprego”. Afinal de contas,
estes manifestos, expressos sinteticamente nas citações a seguir,
possuem o mérito de serem claros a ponto de dispensar comentários
adicionais:

O mecanismo de mercado, que desperta paixões favoráveis ou


contrárias, é um sistema básico pelo qual as pessoas podem
interagir e dedicar-se a atividades mutuamente vantajosas [?!].
Por essa perspectiva, é dificílimo pensar que um crítico razoá­
vel [?!?] poderia ser contra o mecanismo de mercado em si.
Os problemas que surgem se originam geralmente de outras
fontes [?!?!] – não da existência dos mercados em si – e incluem
considerações como o despreparo para usar as transações de
mercado, o ocultamento não coibido de informações ou o uso
não regulamentado de atividades que permitem aos podero-
sos tirar proveito de sua vantagem assimétrica [?!?!?]. Deve-se
lidar com esses problemas não suprimindo os mercados, mas
139

João Leonardo Medeiros


permitindo-lhes funcionar melhor, com maior eqüidade e suple-
mentação adequada [sic]. (SEN, 1999, p. 169, grifo nosso)
Mesmo se esses direitos [individuais de fazer transações e
trocas] não fossem aceitos como invioláveis […], pode-se
ainda argumentar que há uma perda social quando se nega às
­pessoas o direito de interagir economicamente umas com as
outras. Caso aconteça de os efeitos dessas transações serem tão
danosos para terceiros que essa presunção prima facie de per-
mitir às pessoas transacionar como bem entenderem possa ser
sensatamente restringida, ainda assim existe alguma perda dire-
ta quando se impõe essa restrição (mesmo se ela for mais do que
compensada pela perda alternativa dos efeitos indiretos dessas
transações sobre terceiros) [sic]. (SEN, 2000, p. 42, grifo nosso)
[…] várias formas de sujeição de trabalhadores podem ser
encontradas em muitos países da Ásia e da África, negando-
-se persistentemente a liberdade básica de procurar trabalho
assalariado longe dos patrões tradicionais [sic]. (SEN, 1999, p.
137, grifo nosso)

Retomando a linha central de argumentação, o ponto a se destacar


é que o proferimento dos valores em abstrato cancela a possibilidade
de investigar cientificamente as condições ontológicas, objetivas e
subjetivas, necessárias à sua realização. E isto vale tanto para o caso
em que os valores são enunciados de maneira inteiramente idealista,
arbitrária, quanto para o caso em que são recolhidos acriticamen-
te da experiência cotidiana. Em relação a esta última possibilidade,
deve-se argumentar que o fato de a organização social acalentar seus
próprios valores não implica, necessariamente, que estes valores se-
jam efetivamente objetiváveis. Ao contrário, há uma diversidade de
situações referentes à objetivação dos valores em vigência num de-
terminado estágio do desenvolvimento social:

1. os valores podem ser diretamente objetiváveis;


2. a realização de uns valores pode contrapor, ou mesmo obstar,
a realização de outros;
3. os valores podem ser simplesmente irrealizáveis, pela própria
natureza da práxis a que estejam vinculados (como no exem-
plo da ressurreição);
140
A tensão permanente entre a ontologia conservadora e a ética “emancipatória” abstratamente concebida

4. a realização de alguns valores pode ter como pressuposto a


superação das estruturas sociais existentes.

Focando particularmente a última situação, o ponto a salientar é


que a negligência da ciência econômica com a inspeção da gênese
dos valores no ser social e a subscrição a uma ontologia que natura-
liza as estruturas sociais existentes produz uma tensão insuperável
entre ética e ontologia toda vez que os valores proferidos forem irreali-
záveis no estágio corrente de desenvolvimento da sociedade. Em geral,
a tentativa de objetivar valores irrealizáveis num determinado está-
gio do desenvolvimento social mediante práticas reprodutivas resulta
em frustração. Não é, na realidade, outra a razão que explica o fato de
que todas as tentativas de universalização do “bem-estar” (igualação
das liberdades individuais, das oportunidades, dos padrões de renda
e consumo, das utilidades etc.) limitadas ao interior da sociedade
capitalista – a mais avançada sociedade classista (ou “não universal”)
– findam por traduzir-se numa contradição de ordem prática (isto é,
relativa à realização dos valores).
A inadequação das políticas econômicas elaboradas para “atacar”
a pobreza e a desigualdade pode ser encarada como uma instância
dessa contradição interna entre o desejo de eliminar as mazelas
sociais e o caráter conservador das práticas (políticas) projetadas
para essa finalidade. Não parece, entretanto, que os próprios econo-
mistas ortodoxos estejam conscientes do caráter irresolúvel dessa
contradição. Isso porque, apesar das demonstrações diárias do cará-
ter insanável da contradição entre os anseios de universalização do
“bem-estar” (igualdade) e a sociedade capitalista, a Economia con-
tinua julgando ser perfeitamente factível dissolver a referida tensão
entre a ética e a ontologia pela via política. Pode-se admitir que talvez
esta seja a única maneira possível de tratar a questão se a naturali-
zação do capital é o ponto de partida. O que significa que a ciência
econômica só poderia mesmo sugerir um recurso ao gerenciamento
político-administrativo do Estado e das “instituições democráticas
da sociedade civil” para dar conta da tensão entre os valores sociais
acalentados em suas teorias do “bem-estar” e a ontologia conserva-
dora subentendida em todas as suas concepções teóricas.
A contradição imanente à defesa seniana da igualação das liberda-
des individuais é um caso modelar desse expediente, uma vez que o
autor pretende superar os eventuais obstáculos à realização daquele
141

João Leonardo Medeiros


valor pela via política. Da maneira como o próprio Sen (2000, p. 169)
expressa essa relação: “As realizações globais do mercado depen-
dem inteiramente das disposições políticas e sociais”. Ao recorrer à
esfera da política para tentar impor à estrutura econômica da produ-
ção capitalista valores ligados à emancipação humana, Sen reproduz
fielmente um procedimento adotado pela maioria esmagadora dos
economistas que chegaram a se ocupar das chamadas “questões so-
ciais”. A política é alçada ao posto de esfera resolutiva da insuperável
tensão entre a admissão de uma visão de mundo profundamente con-
servadora, conformista e desiludida e o proferimento, in abstracto, de
uma ética da emancipação universal.
Trata-se, neste caso, de uma razão que opera de acordo com a
seguinte lógica:

1. supõe-se que a forma social presente estabelece o limite últi-


mo das possibilidades práticas e teóricas;
2. admite-se que esta mesma forma social submete uma maioria
crescente da população do globo a condições de vida e traba-
lho extremamente precárias;
3. diante da miséria alarmante, a consciência exaspera-se e rea-
ge de duas maneiras: pela denúncia catártica da “vergonhosa
tragédia social contemporânea”, em incontáveis estatísticas e
estudos, e pela proclamação universalista dos valores da soli-
dariedade, igualdade, liberdade etc.;
4. para objetivar tais valores, são evocadas as assim chamadas
instituições democráticas da sociedade civil.

E quanto mais arraigada a crença de que a atual configuração da


sociedade não pode (ou não deve) ser superada, maior a catarse dos
estudos da pobreza e da desigualdade e mais cega a fé de que, em
lugar do efetivo remédio da transformação social, deva ser adminis-
trado o placebo da política.
Nas Partes III e IV deste ensaio serão inspecionados dois contex-
tos em que o aprofundamento intensivo e extensivo da sociedade
capitalista e a correlata generalização da tese do “fim da história”
estimularam um notável esforço no sentido de compreender para ad-
ministrar as terríveis consequências da regência do capital sobre a
vida humana: o período de consolidação das relações de produção
capitalistas, no século XIX, e o período iniciado no último quarto do
142
A tensão permanente entre a ontologia conservadora e a ética “emancipatória” abstratamente concebida

século XX, a partir do qual as relações capitalistas passam a ocupar,


de forma absolutamente asfixiante, todos os lugares do globo e toda
as esferas da vida. Nestes contextos, em que a pobreza grassa sem
dó nem piedade, os economistas tornam-se particularmente prolixos
no tratamento teórico das “temáticas sociais”. Miséria, desigualdade,
pobreza, “exclusão” social etc. são fenômenos conduzidos ao centro
de preocupações da ciência econômica e as teorias, produzidas e di-
fundidas nestes repentinos surtos de altruísmo, configuram-se como
casos concretos de operação da lógica acima descrita.
Antes de inspecionar as teorias econômicas da pobreza e da desi-
gualdade, contudo, faz-se necessário demonstrar, num nível de abs-
tração elevado, a absurdidade de se pretender que a política seja
capaz de objetivar os valores sobre os quais tais teorias têm-se fun-
damentado. Como o absurdo deste conjunto de concepções deriva
originariamente da enunciação dos valores em abstrato – que abre
espaço para a tensão entre ética e ontologia – torna-se imperativo
realizar, na sequência, uma breve e cautelosa incursão no árido ter-
reno da ética. O capítulo seguinte ocupa-se dessa tarefa. O argumen-
to é completado, no Capítulo 8, pela crítica da superestimação da
capacidade de operar modificações na estrutura social mediante o
exercício da razão política.
6. Os valores do mundo contra o mundo dos valores

Antes de tudo, a prudência recomenda advertir com todo vigor


que não se tem aqui a pretensão de produzir nem mesmo uma sim-
ples introdução à ética sob a perspectiva realista, tendo em vista o
fato de que o debate neste campo se encontre, sem sombra de dúvi-
das, em seu estágio inicial.1 Tendo em vista os propósitos limitados
deste texto, é suficiente demonstrar o vínculo existente entre a on-
tologia do ser social e a ética, isto é, o fato de que os valores pos-
suem uma existência social objetiva, ontológica, e que, por isso, não
podem ser considerados de forma inteiramente abstrata, reificada,
nem tampouco de maneira subjetivista. Apenas quando os valores
são equivocadamente compreendidos de forma idealista, e não de-
rivados do ser social, é que pode ocorrer uma completa separação
entre ontologia e ética.
A tensão particular entre a “visão de mundo” e o sistema de va-
lores pressupostos pela ciência econômica configura tão somente
uma manifestação daquela separação forçada, que possui validade
circunscrita ao domínio do pensamento. É precisamente o fundamen-
to ético desta tensão particular, decisiva para a contínua frustração

1 Todo argumento relativo aos valores e à sua procedência ontológica baseia-se nas
indicações deixadas por Lukács em sua obra póstuma, Ontologia do Ser Social (1984;
1979). Infelizmente, o objetivo de construir uma ética realista, fundada sobre a on-
tologia do ser social, não pôde concretizar-se pela morte do autor, ocorrida antes
mesmo da revisão da Ontologia. Após a morte de Lukács, o avanço virtualmente
incontrolável das filosofias antirrealistas fez com que a Ética se tornasse cada vez
mais idealizada, distante das considerações acerca das características da realidade
social. Mesmo Bhaskar, autor que forneceu as bases para a revivescência do realis-
mo (no que poderia hoje ser considerada a primeira fase de sua obra), foi incapaz
de estabelecer o vínculo entre os valores e a estrutura da sociedade e procurou
fundar a ética na antropologia, isto é, em características gerais da natureza humana.
(BHASKAR, 1986). Este mergulho no interior do eu (self), como o próprio Bhaskar
descreve a recente reorientação de sua filosofia, conferiu a seu texto uma tonalidade
místico-religiosa-idealista, absolutamente frustrante para um conjunto representa-
tivo de intelectuais, inclusive (e sobretudo) marxistas, que viam no realismo crítico
do autor uma promissora saída para o fracasso do positivismo e da crítica idealista
(pós-moderna). (BHASKAR, 2000; 2002a; 2002b; 2002c).
144
Os valores do mundo contra o mundo dos valores

das práticas inspiradas nas teorias ortodoxas do bem-estar, que pre-


tendemos examinar neste capítulo, em duas seções. A seção a seguir
concentra-se na conexão entre a ética e a ontologia da sociedade,
estabelecida pela categoria do agir humano. Arriscamos, ainda nesta
primeira seção, um argumento elaborado para demonstrar o caráter
simultaneamente objetivo e subjetivo dos valores (e, portanto, da éti-
ca e da moral). A segunda seção, por sua vez, é dedicada ao proble-
ma das condições de realização dos valores. Nela, pretende-se tratar
com mais rigor o problema que finda por transformar em malogro as
terapias previstas pela Economia do bem-estar social.

6.1. Os valores: objetividades subjetivas e subjetividades objetivas

O vínculo entre ontologia do ser social e ética apresenta-se, de


imediato, na análise do agir humano, que foi anteriormente intro-
duzida a partir da inspeção de sua forma prototípica: o trabalho,
abstratamente concebido, que modifica a realidade com o intuito
de produzir objetos úteis à satisfação das necessidades. Recorde-se
que, mesmo nesta acepção bastante genérica e abstrata do trabalho,
fez-se possível reconhecer três características de todos os tipos de
agir genuinamente humanos. Em primeiro lugar, o agir humano é in-
tencional ou teleológico, isto é, destinado a objetivar uma finalidade
estabelecida. Segundo, qualquer agir pressupõe objetos e relações
previamente existentes com e sobre os quais se efetiva a posição de
finalidade: materiais, técnicas, ferramentas, teorias etc. Isso significa
que o agir humano sempre envolve uma intervenção concreta com e
sobre esses objetos e relações cujo objetivo é criar um resultado que
não ocorreria em sua ausência. Por fim, e mais importante neste mo-
mento, a práxis humana caracteriza-se como uma múltipla escolha
entre alternativas, que se patenteia na seleção dos objetivos, dos ma-
teriais utilizados e do método empregado para objetivar a finalidade
com os materiais selecionados.
Em relação ao caráter de alternativa da práxis, o ponto a ser enfa-
tizado é que toda e qualquer escolha, em qualquer domínio da vida
humana, envolve necessariamente julgamento entre o que tem ou não
tem valor e entre as formas corretas de objetivar os valores (entre o
agir certo ou errado). Nas palavras de Lukács, “toda práxis, mesmo a
mais imediata e a mais cotidiana, contém em si essa referência ao ato
de julgar, à consciência etc., visto que é sempre um ato teleológico,
145

João Leonardo Medeiros


no qual a posição da finalidade precede, objetiva e cronologicamen-
te, a realização”2 (LUKÁCS, 1979, p. 52).
Valores estão, portanto, intrinsecamente conectados à práxis hu-
mana. Pode-se demonstrar mais detidamente este vínculo median-
te a análise do tipo específico de valor que emerge no metabolismo
entre o homem e a natureza (isto é, no trabalho): o valor-de-uso. É
importante salientar, antes de tudo, que tanto essa primeira demons-
tração quanto a da identidade do valor-de-uso com valores que são
característicos de outras esferas da realidade social não envolve uma
postulação do valor em questão. Na verdade, a intenção aqui é ilu-
minar um aspecto da emergência de uma modalidade específica de
ser (a sociedade) na qual o valor aparece como uma categoria onto-
logicamente constitutiva, diferenciando-a de outras modalidades de
ser (inorgânico e orgânico) nas quais não há qualquer valor. Isto é,
tem-se o intuito de apresentar o valor-de-uso, que é a forma original
de valor, como o modelo dos valores em geral, exatamente como o
trabalho foi tomado como o modelo das práticas socioteleológicas
no Capítulo 2.
Levando em consideração esse caráter modelar dos valores-de-
-uso, deve-se assinalar que eles aparecem como elementos constitu-
tivos do processo de trabalho exatamente da maneira antes referida:
primeiro, como finalidade (objetivo) do trabalho e, em decorrência,
como critério de avaliação da práxis.3 A respeito do valor-de-uso
como finalidade do trabalho, não é preciso um estudo muito aprofun-
dado desta atividade para perceber que seu objetivo último é a ela-
boração de produtos destinados a satisfazer necessidades humanas.
A denominação valor-de-uso aplica-se aos produtos porque a escolha
da produção de um determinado objeto significa, fundamentalmente,
uma valoração entre formas objetivas capazes ou não de satisfazer
necessidades humanas, ou seja, a seleção entre o que é útil ou não
para saciar uma determinada necessidade.

2 “Já que os valores são sempre realizados através de ações, é evidente que sua exis-
tência não pode ser separada das alternativas referentes à sua realização. Portanto,
o contraste entre o que tem valor e o que é contrário ao valor é ineliminável nas
escolhas contidas em qualquer posição teleológica.” (LUKÁCS, 1979, p. 167).
3 No modo de produção capitalista, o valor-de-troca ou, mais precisamente, o valor
(“econômico”), torna-se o objetivo último do processo de trabalho, e o tempo de
trabalho socialmente necessário (valor) o critério de avaliação da correção dos atos
de produção. Mesmo nesta forma mais evoluída, o valor-de-uso não sai de cena,
uma vez que, como Marx demonstrou detidamente, o valor só possui existência real
quando corporificado em objetos úteis à vida humana.
146
Os valores do mundo contra o mundo dos valores

Ao selecionar um valor-de-uso e torná-lo objetivo mediante o pro-


cesso de trabalho, os seres humanos, por um lado, explicitam a sua
capacidade criativa e, por outro, conferem um corpo concreto e ob-
jetivo aos seus próprios anseios e necessidades. A objetividade dos
produtos guarda, em si, o conteúdo essencial dos valores-de-uso, que
é igualmente a essência de todo e qualquer valor: a explicitação e
objetivação da singularidade da espécie humana e do seu grau de de-
senvolvimento. Este aspecto transcendente e essencial dos valores
é enunciado por Marx em sua análise da riqueza, categoria com que
designa a universalidade dos valores. Nas palavras do autor:

Em todas as formas, ela [a riqueza] se apresenta sob forma obje-


tiva, quer se trate de uma coisa ou de uma relação mediatizada
por uma coisa, que se encontra fora do indivíduo e casualmente
a seu lado. […] Mas, in fact, uma vez superada a limitada forma
burguesa, o que é a riqueza se não a universalidade dos careci-
mentos, das capacidades, das fruições, das forças produtivas etc.
dos indivíduos, criada no intercâmbio universal? O que é a riqueza
se não o pleno desenvolvimento do domínio do homem sobre as
forças da natureza, tanto sobre as da chamada natureza quanto
sobre as da sua própria natureza? O que é riqueza se não a ex-
plicitação absoluta de suas faculdades criativas, sem outro pres-
suposto além do desenvolvimento histórico anterior, que torna
finalidade em si mesma essa totalidade do desenvolvimento, ou
seja, do desenvolvimento de todas as forças humanas enquanto
tais, não avaliadas segundo um metro já dado. Uma explicitação
na qual o homem não se reproduz numa dimensão determinada,
mas produz sua própria totalidade? Na qual não busca conservar-
-se como algo que deveio, mas se põe no movimento absoluto do
devir?4 (MARX, 1987, p. 447)

A explicitação, em objetos, dos carecimentos e das faculdades


criativas dos seres humanos constitui, portanto, o fundamento ob-
jetivo de todos os valores. (LUKÁCS, 1979a, p. 86). Esta objetividade
dos valores é da maior importância para os propósitos da argumen-
tação aqui desenvolvida porque sobre ela baseiam-se, objetivamente,
todas as avaliações subjetivas – usualmente denominadas juízos de

4 Nessa citação, seguimos a tradução de Carlos Nelson Coutinho, expressa em Lukács


(1979a).
147

João Leonardo Medeiros


valor – que surgem com o desenvolvimento da práxis humana.5 Tais
avaliações referem-se, de maneira mais ou menos imediata, às esco-
lhas alternativas que caracterizam o próprio agir. Por exemplo, as
escolhas realizadas durante a produção de um objeto destinado a
satisfazer uma necessidade são corretas, perfeitas, adequadas etc., se
de fato conduzem ao aparecimento daquele objeto (tal como previa-
mente concebido) no final do processo de trabalho.
Com efeito, para que os valores deixem de ser simples projeto e
adquiram realidade, é preciso que eles retroajam sobre o indivíduo
como critério de avaliação da utilidade do seu agir – como o “dever-
ser” da prática –, o que, de forma alguma, apaga o caráter de alternati-
va das escolhas envolvidas no trabalho, mas certamente as condicio-
na.6 A conclusão é que a práxis humana é dotada de um mecanismo
de condicionamento interno: a influência dos valores postos sobre o
sujeito que põe (o próprio “dever-ser”). Generalizando esta análise
por meio da apresentação esclarecedora de Lukács:

[O valor] é uma relação social entre fim, meio e indivíduo e


por isso possui um ser social. Na verdade, este ser contém ao
mesmo tempo um elemento de possibilidade, uma vez que, em
si mesmo, apenas determina o campo de resolução das alter-
nativas concretas, o seu conteúdo social e individual, as dire-
ções nas quais podem ser resolvidas as questões que estão
presentes nelas. É nos atos que o realizam que o valor experi-
menta o desdobramento deste ser em si, o seu crescimento até
um verdadeiro por-si. É, no entanto, característico da situação
ontológica com que nos defrontamos, que tal realização, inevi-
tável para que o valor adquira, afinal, realidade, permanece, na
práxis humana, indissociável do próprio valor. É o valor que dá
à sua realização as determinações que lhe são próprias, não o
contrário. (LUKÁCS, 1984, p. 91)
5 É preciso ressaltar que a objetividade dos valores é sempre uma objetividade social.
Mesmo no caso mais simples do valor-de-uso, a utilidade atribuída a um determina-
do objeto natural depende do estágio de desenvolvimento social. A utilidade de uma
pedra, por exemplo, está evidentemente relacionada a suas características naturais,
mas não há nada na natureza da pedra que garanta que ela vá se transformar em
faca ou machado. (LUKÁCS, 1984, p. 118).
6 “Deste modo, não se pode afirmar que as valorações, enquanto posições singulares,
constituam por si mesmas o valor. Ao contrário. O valor que aparece no processo e
que confere a este uma objetividade social é que fornece o critério para estabelecer
se as alternativas presentes na posição teleológica e na sua atuação eram adequa-
das a ele, isto é, se eram corretas, válidas.” (LUKÁCS, 1984, p. 78).
148
Os valores do mundo contra o mundo dos valores

É necessário, contudo, assinalar que a objetividade dos valores – que,


no caso dos valores-de-uso, exterioriza-se no corpo dos produtos – sur-
ge como finalidade (objetivo, propósito etc.) do processo de trabalho
de forma ideada (ex ante) e, como tal, estabelece o critério para o juízo
da correção das alternativas (e das concepções teóricas) envolvidas no
próprio processo. Duas observações sobre esse vínculo dialético entre a
natureza objetiva dos valores e a sua forma primária subjetiva devem ser
feitas imediatamente. É crucial enfatizar, em primeiro lugar, que o fato de
que os valores apareçam inicialmente numa forma idealizada (projetada,
subjetiva) apenas denota o caráter fundamentalmente social (isto é, não
individual) dos valores. Valores postos por indivíduos em determinado
estágio do desenvolvimento social são sempre condicionados por alter-
nativas passadas, por valores objetivados, por juízos de valor já realiza-
dos etc. que, como disse Lukács, determina o campo das alternativas
presentes. Em outras palavras, os valores são estruturas sociais objetivas
fundadas nas práticas alternativas do passado, e em seus resultados con-
cretos, que condicionam as possibilidades do presente e do futuro.
A segunda observação sobre a relação entre o caráter objetivo dos
valores e a sua forma primária idealizada procura antecipar uma possível
confusão a respeito deste vínculo dialético. Considerando o processo de
condicionamento interno da práxis, não surpreende que muitas avalia-
ções objetivamente fundadas adquiram a aparência espectral de pura
subjetividade, particularmente quando a conexão entre a posição de va-
lor e o processo de realização for complexamente mediado. Isso ocorre,
por exemplo, nos modos de produção em que se consolida uma divisão
social entre o trabalho intelectual e a sua execução. Nesses casos, o pro-
cesso de condicionamento interno, que se manifesta em um conjunto de
juízos de valor sobre o trabalho “operacional”, aparece ao trabalhador
(no caso, o que executa o trabalho) como a simples manifestação de uma
vontade externa (do trabalhador intelectual).
Em suma, os valores possuem um caráter simultaneamente ob-
jetivo e subjetivo: são, por um lado, objetividades subjetivas e, por
outro, subjetividades objetivas.7 Objetivamente, como quer que se
7 Sérgio Lessa assinala que esse caráter simultaneamente objetivo e subjetivo do
valor é reconhecido por Lukács: “Segundo Lukács, o valor nem é exclusivamente
produto da subjetividade, nem decorrência imediata da objetividade” (LESSA, 2002,
p. 129). Para citar uma passagem que corrobora essa interpretação: “[...] as alterna-
tivas são orientadas para valores que não constituem de modo nenhum resultados,
sínteses etc. dos valores subjetivos singulares, mas, ao contrário, é sua objetividade
no interior do ser social que estabelece se são certas ou erradas as posições alter-
nativas orientadas para o valor” (LUKÁCS, 1979a, p. 85).
149

João Leonardo Medeiros


exteriorizem (seja na forma de coisas ou de relações sociais), os valo-
res são, em essência, a explicitação dos carecimentos humanos e de
suas faculdades criativas. Subjetivamente, os valores são os critérios
que orientam, regulam e condicionam a práxis. Esta unidade indisso-
lúvel de objetividade e subjetividade, que configura o conteúdo dos
mais diversos valores que povoam a vida humana, dos mais simples
aos mais complexos, estabelece uma unidade igualmente indissolú-
vel entre os campos da ética e da ontologia do ser social.
O nexo entre ontologia do ser social e ética fica ainda mais nítido
quando se recorda que o agir individual não ocorre isolada e auto-
nomamente, mas, ao contrário, pressupõe e é condicionado pelas
estruturas sociais, que o antecedem lógica e cronologicamente. No
Capítulo 2, procurou-se demonstrar que o domínio do agir humano
é ontologicamente distinto do domínio das estruturas sociais e que
isso não elimina a mútua influência de um domínio sobre o outro. Por
um lado, a atividade dos indivíduos singulares é sempre facultada e
restringida pelas estruturas sociais. Por outro, estas mesmas estru-
turas são sínteses dos efeitos dos atos individuais e não existem em
sua ausência: o agir dos indivíduos singulares reproduzem ou trans-
formam as estruturas sociais, tenham os indivíduos consciência dis-
so ou não. Há, enfim, um “hiato ontológico” entre o agir individual e o
seu significado social, que fica claramente representado no exemplo
de Bhaskar: “não supomos que a razão da coleta de lixo seja neces-
sariamente a razão do lixeiro para coletá-lo (embora dependa desta
última)” (BHASKAR, 1979, p. 45).
Tendo em vista essa relação dialética entre agir humano e estru-
turas sociais, pode-se agora eliminar uma possível fonte de ambigui-
dades e mal-entendidos na análise dos valores. Ainda que os valores
sejam postos diretamente pela práxis individual, como na produção
simples ou na confecção de uma obra de arte, o seu inequívoco con-
teúdo social faz-se presente já (mas não só) na definição dos objeti-
vos. Isso porque os sujeitos, por mais independentes ou poderosos
que sejam, jamais definem de forma inteiramente autônoma e irres-
trita os seus objetivos, anseios e necessidades – isto é, os valores
que põem em sua práxis. Ao contrário, as necessidades, desejos e
ambições humanas, incluindo os mais mesquinhos e individualistas,
são socialmente determinados e transformam-se com o progresso da
sociabilidade. Como no desenvolvimento da totalidade do ser social,
o processo de transformação dos carecimentos humanos é marcado
150
Os valores do mundo contra o mundo dos valores

pela tendência ao “recuo das barreiras naturais”. Tendência esta que


se faz presente mesmo em determinações tão arraigadas no ser bio-
lógico como a alimentação, como nos recorda o famoso exemplo de
Marx (1982, p. 9): “A fome é fome, mas a fome que se satisfaz com car-
ne cozida, que se come com faca ou garfo, é uma fome muito distinta
da que devora carne crua, com unhas e dentes”.
Ademais, dado o objetivo (o valor) e, com ele, o “dever-ser” en-
volvido na prática destinada a realizá-lo, a avaliação subjetiva do agir
– se é certo ou errado, se é útil ou inútil, se é amparado por uma
teoria falsa ou verdadeira etc. – possui igualmente um conteúdo so-
cial conspícuo. Para percebê-lo, basta considerar, de um lado, que
as condições para a realização dos valores são sempre socialmente
determinadas e, de outro, que determinadas respostas a alternativas,
mesmo tendo sido produzidas individualmente, adquirem o estatuto
social de modelo, de práxis socialmente correta ou exemplar. Lukács
detalha, na passagem abaixo, este trânsito do individual ao social, ao
qual atribui a denominação exemplaridade:

As alternativas são fundamentos insuprimíveis da práxis hu-


mano-social e somente de modo abstrato, nunca realmente,
podem ser separadas da decisão do indivíduo. No entanto, o
significado que esta resolução das alternativas assume para o
ser social depende do valor, ou melhor, do complexo concreto
das possibilidades reais de reagir praticamente à problemati-
cidade de um hic et nunc histórico-social. Deste modo, aquelas
escolhas que realizam em sua forma mais pura estas possibi-
lidades reais – afirmando ou negando o valor – assumem, em
cada fase do desenvolvimento, uma exemplaridade positiva
ou negativa. Exemplaridade que, nos estágios primitivos, é
transmitida através da tradição direta, oral. Tornam-se heróis
do mito aqueles que responderam a estas alternativas – que
culminam em valores – próprias da vida da tribo, num nível
de exemplaridade humana tal que a resposta tenha se tornado
– como modelo positivo ou negativo – social e duravelmente
significativa para a reprodução daquela vida e por isso parte
constitutiva daquele processo de reprodução no seu processo
de mudança e conservação. (LUKÁCS, 1984, p. 91)
151

João Leonardo Medeiros


Em síntese, o esclarecimento do caráter social dos carecimentos
humanos e da avaliação subjetiva da práxis evidencia que os valores
consolidam-se como estruturas sociais. Como toda e qualquer estru-
tura social, os valores resultam dos atos humanos individuais, que
retroagem sobre os indivíduos, facultando e restringindo sua práxis.8
Como toda e qualquer estrutura social, os valores são anteceden-
tes aos atos singulares que condicionam: objetivos, necessidades,
critérios, juízos morais, avaliações subjetivas etc. aparecem diante
dos sujeitos como objetividades sociais, como algo imediatamente
pronto e acabado. Como toda e qualquer estrutura social, os valores
são reproduzidos e transformados pela práxis humana. Como toda e
qualquer estrutura social, os valores integram a totalidade do ser so-
cial e, assim sendo, relacionam-se não só com esta mesma totalidade,
mas também com os demais elementos que a constituem. Como toda
e qualquer estrutura social, os valores movem-se dinamicamente na
direção de uma sociabilidade cada vez mais explicitada, embora este
movimento não seja linear e homogêneo, mas sim caracterizado pelo
desenvolvimento desigual.
É importante enfatizar que os valores, como estruturas sociais,
resultam do desenvolvimento social. Pode-se, assim, afirmar que a
verdadeira fonte da gênese dos valores é “a contínua mudança es-
trutural no próprio ser social” (LUKÁCS, 1984, p. 90). Mas também
deve ser indicado que o complexo social dos valores desempenha
um papel central no desenvolvimento da sociedade, simplesmente
porque a gênese dos valores é intimamente relacionada à gênese de
tudo o que é novo nesta modalidade de ser. Um valor é basicamente
algo (uma necessidade, um desejo etc.) que os seres humanos ins-
crevem ou planejam inscrever no mundo (natural e social), sendo
o conjunto dos valores (a riqueza) constituído pelas realizações
8 Em diversas passagens de sua análise do valor (“econômico”), Marx destaca o efeito
desta objetividade social sobre os capitais individuais. Por exemplo: “Se o capital
social experimenta uma revolução no valor, pode um capital individual sucumbir e
desaparecer por não preencher as condições dessa revolução. Quanto mais agudas
e mais frequentes as revoluções no valor, tanto mais o movimento automático do
valor como ente autônomo, operando com a força de um fenômeno elementar da
natureza, se impõe em confronto com as previsões e os cálculos do capitalista indi-
vidual, tanto mais o curso da produção normal se subordina à especulação anormal,
tanto maior o perigo para a existência dos capitais individuais. Essas revoluções
periódicas confirmam, portanto, o que se quer que elas desmintam: a existência
independente que o valor como capital adquire e, com seu movimento, mantém e
exacerba.” (MARX, 2000, p. 119 e 120). Curioso é perceber que, mesmo diante de
evidências tão flagrantes como estas, é ainda hoje muito difundida a opinião de que
Marx jamais se preocupou em inspecionar aspectos relativos à ética.
152
Os valores do mundo contra o mundo dos valores

objetivas (necessidades, desejos etc.) e subjetivas (manifestações


dos sentimentos associados ao gênero humano) disponíveis ou sim-
plesmente projetadas pelos seres humanos. Toda vez que um valor
emerge, toda vez que é reconhecido como algo a ser objetivado, toda
vez que funciona como critério de julgamento do bom, do belo, do
correto etc., os seres humanos ou criam algo realmente novo ou (ao
menos) desenvolvem a ambição de criá-lo. Em todo caso, uma nova
objetividade – o próprio valor posto – emerge, influenciando o curso
da vida humana.9
Quando o valor posto emerge em condições que favorecem a sua
realização imediata, o que é simplesmente uma objetividade (realida-
de potencial) torna-se realidade. Mesmo quando as condições de ob-
jetivação estão ausentes, transformações importantes na realidade
social podem ocorrer, uma vez que as pessoas podem empenhar-se
para criá-las – isso é o que ocorre, por exemplo, no caso dos valores
“emancipatórios”. Combinando esse argumento com a demonstração
anterior de que os valores são estruturas sociais, pode-se concordar
com a conclusão de Lukács de que os valores são “partes moventes
e movidas da totalidade do desenvolvimento social” (LUKÁCS, 1984,
p. 93). Pode-se também concordar que o estudo da gênese, repro-
dução, transformação e aumento de complexidade dos valores não
pode ser desvinculado do estudo da totalidade social, dos comple-
xos e estruturas que a compõem, da historicidade de todos os seus
componentes, das modificações da práxis cotidiana etc. Estudar os
valores é estudar a sua gênese a partir do ser social e o seu processo
de desenvolvimento no ser social, incluindo todas as heterogeneida-
des e contradições que se apresentam.
Não seria o caso de inspecionar aqui a gênese e o desenvolvimen-
to do complexo sistema de valores vigentes na sociedade contem-
porânea e nem as conexões dos valores entre si e com os demais
complexos que conformam a totalidade social. O conjunto destes
9 “Essa unidade dialética entre ser socialmente objetivo e relação de valor objetiva-
mente fundada tem suas raízes no fato de que todas essas relações, processos etc.
objetivos, mesmo continuando a existir e a agir independentemente das intenções
dos atos humanos individuais que os realizam, só emergem à condição de ser en-
quanto realizações desses atos e só podem explicitar-se ulteriormente retroagindo
sobre novos atos humanos individuais” (LUKÁCS, 1979a, p. 83). “Da alternativa nas-
ce [...] uma bipartição do mundo objetivo, em função das reações provocadas pelas
inter-relações com ele, bipartição posta pelo sujeito sobre a base das propriedades
conhecidas do objeto. Partindo do contraste entre o útil e o inútil, o benéfico e o
nocivo etc., a série prossegue, passando por muitas mediações sociais, até chegar
aos ‘valores máximos’, como o bem e o mal” (LUKÁCS, 1979b, p. 50).
153

João Leonardo Medeiros


tópicos constitui, em nosso entendimento, precisamente a agenda
de pesquisa da construção de uma ética fundada sobre a ontologia
do ser social (que ultrapassa tanto o escopo do trabalho, como as
condições do autor). No entanto, uma vez que um aspecto importan-
te do desenvolvimento dos valores – identificável mesmo no nível de
generalidade destas considerações – torna flagrante as debilidades
envolvidas na ética idealista promovida pela Economia, a sua breve
indicação é indispensável para a crítica subsequente. A seção seguin-
te se ocupa precisamente deste ponto.

6.2. Os valores e as condições objetivas de sua realização: as teorias


econômicas do “bem-estar” diante de uma contradição insanável

Uma vez revelado, na seção anterior, o caráter simultaneamente ob-


jetivo e subjetivo do valor, podemos finalmente tratar teoricamente da
não correspondência necessária entre a existência social de valores e
a sua efetiva realização. Ou seja, do fato, já por diversas vezes aludido,
de que alguns valores podem ser irrealizáveis por natureza, enquanto
outros podem não se objetivar por causa da realização de finalidades an-
tagônicas. O interesse, no primeiro caso, reside em demonstrar as razões
sociais que levam os homens a pôr valores irrealizáveis por natureza –
investigação inteiramente fora dos limites deste trabalho. No que tange
à segunda situação, em que a ruptura entre a ideação da finalidade e a
sua objetivação ocorre por causa da realização de valores antagônicos,
deve-se ressaltar o caráter contingente ou historicamente determinado
da própria contradição entre os valores.
Finalidades antagônicas num dado ordenamento social podem
mostrar-se inteiramente compatíveis ou mesmo complementares
numa outra estrutura, em função das condições em meio às quais
ocorre a objetivação dos valores.10 Este é o caso, por exemplo, da
contradição entre a objetivação de valores econômicos e a realização
dos anseios igualitários, que se apresenta no capitalismo e em todas
as sociedades estruturadas em classes sociais. Foi mérito de Marx
ter demonstrado rigorosamente, em inúmeras obras, a forma como a
divisão da sociedade em classes, estamentos, castas etc. produz uma
desigualdade no âmbito das condições de produção e reprodução
10 Também o primeiro caso, das finalidades irrealizáveis, possui um caráter histori-
camente contingente e dependente das condições de realização. Como descobriu
tragicamente Ícaro, viajar por via aérea era uma finalidade inalcançável, até bem
pouco tempo, para o ser humano.
154
Os valores do mundo contra o mundo dos valores

da vida humana, que dá ensejo à pretensão igualitária e simultanea-


mente obstaculiza a sua concretização. A rigor, argumentam Marx e
Engels na Ideologia Alemã, a própria existência de classes sociais tem
sua origem diretamente ligada às limitações historicamente existen-
tes, nas condições materiais necessárias à emancipação de todos os
seres humanos. Em seus próprios termos:

os homens atingiram de cada vez um grau de emancipação que


lhes era prescrito e permitido, não pelo seu ideal de homem, mas
pelas forças produtivas existentes. No entanto, todas as emanci-
pações se realizaram até hoje na base de forças produtivas limi-
tadas, cuja extensão, incapaz de satisfazer toda a sociedade, só
permitia o progresso se uns satisfizessem as suas necessidades
a expensas dos outros, o que dava a uns – a minoria – o monopó-
lio do progresso, enquanto os outros – a maioria – devido à sua
luta contínua pela satisfação das necessidades mais elementares
eram, entretanto (ou seja, até a criação de novas forças produtivas
de caráter revolucionário), excluídos de todo o progresso. Assim,
a sociedade evoluiu sempre no quadro de um antagonismo, o dos
homens livres e dos escravos na Antigüidade, dos nobres e dos
servos na Idade Média, da bourgeoisie e do proletariado nos tem-
pos modernos. (MARX; ENGELS, 1980, p. 291 e 292)

Se o desenvolvimento capitalista cumpre, por um lado, o papel


histórico, revolucionário, de eliminar as amarras materiais que im-
pediam a emancipação de todos os seres humanos, por outro lado,
a organização de sua produção, sobre e a partir da divisão entre as
classes trabalhadora e capitalista, mantém e aprofunda a cunha que
separa e torna contraditória a objetivação dos valores econômicos e
dos anseios de igualdade social (emancipação universal). Fica claro,
assim, que, na visão de Marx (que assumimos aqui), o primeiríssi-
mo pressuposto objetivo da realização da igualdade está na elimina-
ção das estruturas sociais que são a fonte originária da contradição
existente entre esta mesma realização e a objetivação de finalidades
econômicas: a divisão da sociedade em classes sociais. Isso signifi-
ca que, neste enquadramento, a igualdade social possui um conteú-
do objetivo: significa “simplesmente” a abolição das classes sociais.
Somente pela eliminação das classes (ou, de modo alternativo, pela
superação do sistema de produção comandado pelo capital) poderia
155

João Leonardo Medeiros


a igualdade ser atingida num sentido real e não meramente formal. A
óbvia conclusão que se segue daí é que as práticas associadas à rea­
lização da igualdade devem ser radicalmente transformadoras, em
lugar de restrita ao limite das relações capitalistas de produção.11
Esse tratamento ontológico dos valores e de sua relação com as
estruturas sociais e com a atividade humana, facilmente identificável
nos trabalhos de Marx, contrasta com a forma como os valores apa-
recem nas teorias econômicas do “bem-estar” social. Ao retirar valo-
res da imensa cartola da vida cotidiana diretamente para as análises
de “bem-estar” social, a Economia confere aos valores (tanto os da
igualdade, quanto os ligados à práxis econômica) uma roupagem de
preceitos morais inquestionáveis, que apaga todo vínculo existente
entre os próprios valores e a realidade social. Abordando-se mais for-
malmente, se os valores destinados a nortear todas as instâncias da
práxis social e individual no sentido da consecução do “bem-estar”
coletivo são considerados de forma reificada (espectral ou subjeti-
vista), fica estabelecido um abismo intransponível entre os campos
da ética e da ontologia, que produz, ao menos, duas consequências.
Em primeiro lugar, como já mencionado diversas vezes, impõe-se
um embargo teórico à possibilidade de inspecionar a procedência
ontológica dos valores: o seu processo de gênese, desenvolvimento
e as condições sociais necessárias à sua realização. A segunda conse-
quência, mais diretamente ligada à práxis, é o estreitamento da ética
aos limites da pura moral (moralismo). Aplica-se, a este caso, a indi-
cação de Lukács sobre a absolutização da moral, em Kant:

o dever-ser [valor] se apresenta – subjetiva e objetivamente –


como algo separado das alternativas concretas dos homens;
à luz dessa absolutização da razão moral, essas alternativas
aparecem simplesmente como encarnações adequadas ou ina-
dequadas de preceitos absolutos e, portanto, transcendentes
ao homem. (LUKÁCS, 1984, p. 66)

11 Éesta a orientação da crítica de Callinicos ao igualitarismo libertário contemporâ-


neo, exposta, com toda clareza possível, na introdução de seu livro sobre igualda-
de: “Meu intuito é inspecionar o que há de melhor no trabalho filosófico contem-
porâneo acerca da igualdade, e demonstrar que levar a sério as suas implicações
políticas iria requerer uma dramática transformação na ordem econômica e social
presente. Se há algo distintivamente marxista neste livro, isto é a contradição entre
as declarações normativas do igualitarismo libertário, que não atacam diretamente
as instituições capitalistas, e a existência continuada destas instituições.” (CALLINI-
COS, 2001, p. 19).
156
Os valores do mundo contra o mundo dos valores

Não seria implausível conceber que o fundamento ontológico des-


ta transformação da ética em moral pura está na natureza estranhada
das relações sociais capitalistas: como sínteses sociais de finalidades
postas em âmbito individual, os valores aparecem diante dos sujeitos
como diretrizes externas e independentes de seu agir. De todo modo,
o que se pretende enfatizar é que, precisamente por postular valores
desta forma ­– como preceitos morais transcendentes à práxis huma-
na e ao desenvolvimento social –, a Economia esbarra no problema
das condições sociais de realização sempre que existir uma contra-
dição entre sistemas de valores distintos ou uma incompatibilidade
de valores socialmente legítimos com as estruturas sociais vigentes.
Neste último caso, o problema torna-se ainda mais agudo em razão
do fato de que os economistas combinam esta ética abstratamente
concebida com uma ontologia conservadora, que oblitera por prin-
cípio qualquer forma de prática efetivamente transformadora. Com
isso, valores concretamente realizáveis (como a igualdade) mediante
a superação de estruturas vigentes (no caso, a extinção das classes
sociais) são transformados em proposições utópicas – isto é, perma-
nentemente frustradas na prática.
Por essa razão, os economistas não têm como impedir que os valo-
res do mundo reajam à sua concepção idealizada do mundo dos valo-
res. Se o obstáculo para a realização de determinados valores encon-
tra-se associado a estruturas modificáveis do mundo, como no caso do
valor da igualdade (essencial para este estudo e por isso destacado),
ou as práticas sociais se dirigem à dissolução destas estruturas, ou
a defesa destes valores irá necessariamente oscilar entre o impoten-
te voluntarismo e a pura e simples impudência (consciente ou não).
(Recorde-se, por exemplo, como a defesa da igualação das liberdades
individuais realizada por Sen cede espaço a uma exortação da pereni-
dade do mercado e da anedótica “liberdade” de procurar emprego).
Não seria correto supor, entretanto, que uma razão, qualquer que
seja, pudesse se sustentar e reproduzir sem oferecer saída, ainda que
nominal e inteiramente falaciosa, às suas próprias contradições e às ir-
resoluções da práxis a ela associada: parodiando Hegel, em nossa épo-
ca pensante e raciocinante, não faz grande progresso quem não sabe
apresentar uma boa razão para as insuficiências da razão. Explica-se
assim, finalmente, a correlação indicada no final do capítulo anterior:
quanto mais flagrante for o fracasso das tentativas de objetivar valo-
res verdadeiramente libertários sem alterar substancialmente o status
157

João Leonardo Medeiros


quo, mais os economistas irão recorrer ao Estado e às assim chamadas
instituições democráticas da sociedade civil, não somente para racio-
nalizar os motivos do fracasso, mas, sobretudo, para operacionalizar
novíssimas “soluções”, cada vez mais elaboradas.
Atinge-se, com isso, mais uma vez, a temática do capítulo con-
clusiva desta Parte II, ou seja, a viabilidade concreta da solução
por via política da tensão permanente da ética emancipatória com
a ontologia conservadora, assumidas pela ciência econômica nas
análises do “bem-estar”.
7. O Estado contra sua própria natureza:
os limites da razão política

Talvez seja prudente iniciar este capítulo retomando, em poucas


linhas, os elementos centrais da argumentação desenvolvida nesta
segunda parte do livro. Seu intuito principal é demonstrar, num plano
de abstração elevado, as irresoluções da ontologia subentendida nas
teorias econômicas do bem-estar social. O ponto de partida destas
teorias, vale recordar, encontra-se na premissa de que o atual está-
gio de desenvolvimento social não pode ou não deve ser superado.
Apesar dessa naturalização do capitalismo, admite-se a proposição
factual de que, nesta forma social, uma parcela considerável da popu-
lação mundial vive e trabalha em condições extremamente precárias,
enquanto uma parcela minoritária desfruta irrestritamente as benes-
ses da imensa riqueza material produzida. Como reação a essa situa­
ção reconhecidamente injusta, a razão se apressa em patentear os
anseios de sua superação (ou, pelo menos, administração) por meio
do proferimento de valores emancipatórios e procura compreen­der
as relações causais e terapias necessárias para objetivá-los. Dado o
embargo conceitual (ontológico) à possibilidade de questionar as ba-
ses estruturais da organização social, culpa-se a passividade das ins-
tituições democráticas pela pobreza, desigualdade, miséria etc. Tudo
se resolve, então, numa conclamação do Estado e das organizações
da assim chamada sociedade civil para a ação solidária contra as
mazelas sociais.
A demonstração das incongruências e contradições envolvidas
na lógica acima descrita requer a descaracterização de seus três
momentos fundamentais: a naturalização do capital, o enunciado de
uma ética abstrata e o recurso à política como panaceia. O Capítulo
4 introduziu os argumentos, a nosso ver, suficientes à contraposição
da tese, hoje bastante em voga, de que o capitalismo é o ponto ter-
minal da história e, assim, o limite último das possibilidades teóricas
e práticas. Já a inspeção da procedência dos valores, realizada no
160
O Estado contra sua própria natureza: os limites da razão política

capítulo anterior, concentrou-se na demonstração de que os valores,


como estruturas sociais, estão ligados à práxis humana e ao conjun-
to da sociedade, de tal maneira que a ética e a ontologia não podem
ser apartadas, sob pena de a realização dos valores proferidos ser
rejeitada pela própria estrutura social. Em outras palavras, expressar
valores em abstrato pode conduzir à tentativa de objetivação de va-
lores irrealizáveis por natureza ou pode conectar a realização dos va-
lores a práticas incompatíveis (algo como tratar câncer com preces).
Resta, finalmente, analisar a possibilidade de o Estado fazer jus às
esperanças nele depositadas a fim de objetivar os valores emancipa-
tórios cuja realização é incompatível com a própria estrutura social.
O interesse reside, em síntese, em fundamentar a alegação de in-
consistência daquele argumento que se expressa no jargão econômi-
co da seguinte maneira: se a eficiência do mercado não garante a uni-
versalização do “bem-estar”, cabe ao Estado suprir esta deficiência
mediante a adoção de políticas compensatórias.
Sem tergiversações, o que se pretende demonstrar agora é que a
aposta na capacidade de o Estado compensar as mazelas derivadas
da própria estrutura econômica da sociedade não leva em conta a
natureza do Estado e os limites existentes às suas possibilidades de
intervenção. Para isso, pode-se recorrer a um atualíssimo artigo es-
crito por Marx em sua juventude, no qual o autor descaracteriza o
registro politicista em meio ao qual são usualmente consideradas as
questões relativas ao pauperismo.1 Por registro politicista entenda-
-se a tentativa de resolução do pauperismo, fome, desigualdade etc.
mediante o exercício do entendimento político (ou razão política),
concretizado em reformas na estrutura administrativa do Estado. O
entendimento político, assinala Marx (1994, p. 107), é “entendimento
político precisamente porque pensa sem sair dos limites da política”.
Nesta perspectiva, a pobreza e os fenômenos correlatos são sempre
interpretados como consequências da ineficiência das medidas ado-
tadas pela administração pública ou, em sua versão mais radical, da

1 O curto texto de 1844, Notas críticas ao artigo “O Rei da Prússia e a reforma social”, é
considerado por muitos um marco do pensamento marxiano, por estabelecer a tran-
sição de uma postura democrata radical para a admissão explícita do comunismo.
Marx oferece no artigo uma crítica ao social-democrata A. Ruge, que patenteia a sua
concepção da política, posteriormente descrita como negativa. Em Duayer e Medei-
ros (2003), procurou-se presentificar os elementos centrais do trabalho de Marx e
aplicá-los às concepções econômicas correntes da pobreza e da desigualdade.
161

João Leonardo Medeiros


forma particular de Estado, que deveria ser substituída por outra for-
ma, presumidamente mais eficiente.2 Nas palavras do autor:

Desde um ponto de vista político, o Estado e a organização da


sociedade não são duas coisas distintas. O Estado é a organiza-
ção da sociedade. Quando chega a reconhecer a existência de
abusos sociais, o Estado os atribui seja a leis naturais, fora do
alcance das forças humanas, seja à vida privada, que lhe é in-
dependente, seja a disfuncionalidades da administração, dele
dependentes. [...] Por fim, todos os Estados vêem nos defeitos
acidentais ou intencionais da administração a causa dos males
sociais, de forma que corrigir a administração seria a terapia
correspondente. Por quê? Justamente porque a administração
é a atividade organizadora do Estado. (MARX, 1994, p. 106)

Em sua análise crítica da perspectiva politicista, Marx privilegia


os limites da intervenção do Estado, que são devidos a sua natureza
contraditória. Em outras palavras, o autor argumenta que a razão po-
lítica, por seu caráter limitado, não considera, e nem poderia consi-
derar, a natural impotência do Estado, isto é, o fato de que o Estado,
qualquer que seja a sua forma particular, não é dotado da capacidade
de eliminar as “mazelas sociais”. O primeiro passo na demonstração
desta impotência estrutural do Estado é o reconhecimento de que,
em sociedades separadas em classe, os interesses privados contradi-
zem os interesses gerais ou coletivos. Esse fato relativamente óbvio
adquire importância para o argumento, à medida que ele explica a
própria existência do Estado. Afinal de contas, é porque a divisão em
classes impede uma coincidência direta entre os interesses privados
e coletivos que uma forma social de existência – o Estado – emerge
para abrigar e conferir uma forma concreta e objetiva aos interesses
coletivos.
A origem e contínua existência do Estado é, portanto, uma conse-
quência direta da natureza “antissocial” das sociedades classistas;
ele resulta do fato de que os indivíduos encaram uns aos outros como
meios para a realização de seus interesses privados. Admitindo essa
2 “Onde quer que existam partidos políticos, cada um sempre encontrará a causa de
todos os males no fato de que a oposição, e não ele, encontra-se no timão do Estado.
Mesmo políticos radicais e revolucionários buscam a causa do mal não na essência
do Estado, mas em uma certa forma de Estado, que eles procuram substituir por
outra forma de Estado” (MARX, 1994, p. 105).
162
O Estado contra sua própria natureza: os limites da razão política

explicação para a existência do Estado, não é difícil compreender a


razão da incapacidade da administração em face dos antagonismos
insuperáveis da vida privada (da desigualdade social, dos efeitos da
produção de riqueza nestas condições particulares etc.). Tal incapa-
cidade é, na verdade, a manifestação concreta do fato de que a pró-
pria existência do Estado depende da existência de antagonismos so-
ciais. Permitam-me reproduzir aqui, na íntegra, o mesmo argumento
tal como exposto por Marx, na extensa passagem a seguir:

O Estado se baseia na contradição entre a vida pública e priva-


da, entre os interesses gerais e os particulares. Por essa razão,
a administração tem que se limitar a uma atividade formal e
negativa toda vez que seu poder acaba onde começa a vida
civil e seu trabalho. Ademais, diante das conseqüências que
brotam da natureza anti-social desta vida civil, desta proprie-
dade privada, deste comércio, desta indústria, deste saque
mútuo dos diversos setores civis, a impotência é a lei natural
da administração. É que esta dilaceração, esta vileza, este es-
cravismo da sociedade civil é o fundamento natural no qual se
baseia o Estado moderno, do mesmo modo que a sociedade ci-
vil do escravismo foi o fundamento natural no qual se apoiava
o Estado antigo. [...] Se o Estado moderno quisesse terminar
com a impotência de sua administração, teria que abolir a a
­ tual
vida privada. No entanto, ao querer abolir a vida privada, te-
ria que abolir a si mesmo, já que só existe por oposição a ela.
Porém, não há um ser vivo que acredite que os defeitos de sua
existência estejam fundados em seu princípio vital, na essência
de sua vida, mas em circunstâncias que lhes são extrínsecas.
O suicídio é antinatural. Portanto, o Estado não pode crer na
impotência interna de sua administração, ou seja, de si mesmo.
Pode apenas reconhecer defeitos formais, acidentais e tratar
de remediá-los. (MARX, 1994, p. 106 e 107, grifo do autor)

É preciso ter na devida conta, neste ponto, que defender o argu-


mento de que a eliminação das “mazelas” sociais está muito além da
capacidade do Estado não significa admitir que nenhuma conquista
concreta, nenhuma emancipação, pode ser obtida pela via política.
Vale recordar que o próprio Marx apoiava reformas políticas da so-
ciedade capitalista, particularmente aquelas relacionadas à restrição
163

João Leonardo Medeiros


legal da jornada de trabalho. Marx negava explicitamente, no entan-
to, a redução injustificada do enunciado objetivo da emancipação
humana (comando social sobre forças naturais e sociais) à noção
histórica e ontologicamente restrita da emancipação política. Para
citar uma passagem na qual o autor explicita este ponto de vista:
“Não há dúvida de que a emancipação política representa um grande
progresso. Embora não seja a última etapa da emancipação humana
em geral, ela se caracteriza como a derradeira etapa da emancipação
humana dentro do contexto do mundo atual” (MARX, 1969, p. 28).
Desde um ponto de vista teórico, a recusa em reduzir a emancipa-
ção humana à emancipação política sustenta-se no rompimento de Marx
com a perspectiva da sociedade civil (no sentido hegeliano, isto é, a so-
ciedade burguesa) e na defesa correspondente da perspectiva mais am-
pla da sociedade humana. É nitidamente nessa perspectiva que subjaz,
por exemplo, o argumento empregado pelo autor para demonstrar que
a existência do Estado e sua ação baseiam-se nos antagonismos sociais
que, por sua vez, tornam a emancipação política restrita em sua essên-
cia. Nada muda, naturalmente, com o desenvolvimento do Estado (ocor-
rido após o período de vida de Marx) até a sua forma aparentemente
mais emancipada do ponto de vista político, o Estado de “bem-estar”,
uma vez que os antagonismos da vida privada (capitalista) não são abo-
lidos nesse processo.
O ataque marxiano ao “registro politicista” subentende, em síntese,
uma perspectiva ontológica na qual a emancipação política aparece
como um meio da emancipação humana e não como o seu fim. Nesta
perspectiva, a emancipação humana – ou a realização de valores eman-
cipatórios – é vista como dependente de uma transformação radical da
sociedade (da eliminação da divisão dos seres humanos em classes).
Em uma palavra, é vista como dependente da revolução. Agora, como
nos recorda o mesmo Marx, a revolução, que é um ato social, neces-
sariamente envolve um ato político – é também um ato político. Mas o
caráter político da revolução voltada a abolir todas as distinções de
classe deve desaparecer tão logo a sociedade emancipada emerja das
cinzas da velha sociedade de classes. Ele desaparece juntamente com
a mesma estrutura de classes que torna o Estado e a esfera política
uma necessidade social. Nos termos de Marx:

A revolução em geral – a destruição do poder existente e a dis-


solução das antigas relações – é um ato político. Sem revolução
164
O Estado contra sua própria natureza: os limites da razão política

o socialismo é irrealizável. Ele necessita deste ato político tanto


quanto necessita da destruição e da dissolução. Quando, no en-
tanto, tem início a sua atividade organizadora, quando se torna
aparente o seu ser em si, o seu espírito, o socialismo desfaz-se
de seu envoltório político. (MARX, 1994, p. 114, grifo do autor)

Com os últimos desenvolvimentos, podemos retomar a linha cen-


tral de argumentação enfatizando as contradições ontológicas envol-
vidas na tentativa de atacar as “mazelas sociais” por via política. É
preciso destacar, particularmente, que não há a menor surpresa no
fato de a Economia recorrer à racionalidade política como instância
de resolução dos conflitos decorrentes da irracionalidade da socie-
dade capitalista – a única considerada em suas análises. Ao contrá-
rio, esta é a maneira pela qual a ciência econômica procura ajustar,
na prática, as determinações de sua filiação original de classe (ao
capital) aos anseios, sinceros ou cínicos – pouco importa –, de aca-
bar com, ou pelo menos reduzir, as tragédias humanas com as quais
o sistema pode conviver, sem maiores problemas, dentro de limites
bastante elásticos.
De fato, nada é mais representativo deste ajuste de conservado-
rismo com “sentimento social” do que a eterna hesitação dos econo-
mistas, sobretudo os mais ortodoxos, a respeito das atribuições do
Estado. À Economia importa, fundamentalmente, analisar o compor-
tamento de indivíduos tomados isoladamente – isto é, compreen­der
como os sujeitos defendem seus interesses privados, como exercem
a sua liberdade privada etc. – para derivar daí as práticas mais efi-
cazes a fim de “maximizar” a realização individual de valores. Esta
instrumentalização acrítica dos interesses privados, a despeito de
seus possíveis efeitos sociais deletérios (efeitos sobre os outros), não
poderia senão trazer consigo, por um lado, o reconhecimento do
Estado como o foro no qual os interesses coletivos são aglutinados,
expressos e protegidos e, por outro, uma discrepante aversão às in-
terferências da esfera política sobre o âmbito privado. Como diria
Marx: “queixam-se quando o governo limita a liberdade e exigem dele
que impeça suas inevitáveis conseqüências” (MARX, 1994, p. 107).
Fica claro, também, que a visão da política como panaceia social
nada mais é do que uma entre as tantas formas de consciência simul-
taneamente ilusórias e necessárias: ilusórias, por representarem acri-
ticamente no pensamento relações que são falsas em si; necessárias,
165

João Leonardo Medeiros


por encontrarem nas exigências da reprodução social as raízes de
sua contínua sustentação. Sobre este último aspecto, destaca-se o
fato de que, ao recorrerem à ação solidária do Estado para superar
a tensão permanente da ética emancipatória com a ontologia con-
servadora, os economistas conferem uma roupagem científica a uma
dinâmica social inócua por natureza, mas de forma alguma inútil: de-
clara-se guerra à pobreza, à desigualdade, à exclusão etc.; elaboram-
-se planos mirabolantes para civilizar o capitalismo e eliminar todas
as mazelas sociais; os planos são postos em prática sem que nenhum
resultado efetivo seja alcançado; não tardam a surgir catárticas de-
clarações públicas do fracasso das políticas, sempre acompanhadas
do anúncio de novos planos, com novos diagnósticos e terapias; os
novos planos são postos em prática; nenhum resultado é mais uma
vez alcançado etc. etc. etc.3
Em cada giro dessa inebriante espiral, surgem e desaparecem ins-
tituições públicas, privadas e semipúblicas, ocupam-se (em bons em-
pregos) as consciências científicas e articula-se “uma espécie de soli-
dariedade social fundada no sentimento de compaixão pelos pobres”
(DUAYER; MEDEIROS, 2003, p. 258). E estes são os únicos resultados
efetivos das irrealizáveis “soluções” fundadas sobre concepções
que jamais fazem qualquer alusão, e nem poderiam, às verdadeiras
causas do pauperismo, da desigualdade, da “exclusão” etc. Como as
verdadeiras soluções (sem aspas) para quaisquer problemas, desde
produzir um picolé até erradicar a pobreza, dependem em primeirís-
sima instância da descoberta das relações causais envolvidas, ficam
adiados os sonhos de construir uma sociedade genuinamente huma-
na, realmente universal. Tudo o que resta é um cinismo cruel (ou um
conformismo impotente) que, seja ele consciente ou não, fornece o
3 Para citar um único exemplo deste processo recorrente, recordem-se os seguidos
planos norte-americanos para eliminar a pobreza. Desde que Lyndon Johnson apa-
receu, em cadeia nacional, em 8 de janeiro de 1964, para declarar Guerra à Pobreza,
todos os presidentes da República (incluindo-se os impagáveis republicanos Reagan
e Bush Jr.) seguiram à risca o ritual de culpar publicamente as políticas dos ante-
cessores e anunciar, com toda pompa possível, os novos programas destinados a
erradicar de uma vez por todas a persistente e inabalável pobreza. A despeito do
esforço e da vontade sincera, os Estados Unidos continuam a apresentar os piores
indicadores de pobreza e desigualdade do mundo desenvolvido. Mencionando aqui
uma única estatística: a participação dos 30% mais ricos na renda norte-americana
é de 77%, enquanto os 30% mais pobres absorvem 7% da renda, segundo o Banco
Mundial (2001). Isto se reflete no índice de Gini dos Estados Unidos, 40,8 – um núme-
ro usualmente encontrado em países de terceiríssimo mundo. Apenas para compa-
rar: Etiópia (40,0), Guiné (40,3), Equador (43,7), Uganda (39,2), França (32,7), Itália
(27,3), Alemanha (30,0) e Suécia (25,0).
166
O Estado contra sua própria natureza: os limites da razão política

combustível para mover a dinâmica descrita e perpetuar a lógica iló-


gica, conservadora até a raiz, subentendida nas teorias econômicas
ortodoxas da pobreza e da desigualdade. Aplica-se a esta lógica ilógi-
ca, e com isto se encerra a segunda parte deste livro, cada uma das
palavras contidas na passagem de Forrester, em que a autora sopra o
diapasão que inspira a crítica aqui desenvolvida:

Uma solução? Talvez não haja. Será que por isso não se deve
tentar esclarecer aquilo que escandaliza e compreender o que
se está vivendo? Adquirir pelo menos essa dignidade? Segundo
a opinião geral, infelizmente, não considerar certa a presença
de uma solução, mas insistir em colocar o problema, é tido
como uma blasfêmia, uma heresia, claramente imorais, insanas
e, sobretudo absurdas. Daí tantas “soluções” falsas, apressa-
das, tantos problemas camuflados, negados, escondidos, tan-
tas questões censuradas. Pode haver ausência de solução; em
geral significa que o problema está mal colocado, que ele não se
encontra no lugar em que foi colocado. (FORRESTER, 1997, p.
53, grifo nosso)

Todo esforço realizado nestas duas primeiras partes do livro, num


plano mais elevado de considerações, seria, no mínimo, parcial, caso
não fosse complementado pela inspeção das formas de manifesta-
ção fenomênicas da visão de mundo aqui delineada. Os capítulos
seguintes procuram, portanto, esquadrinhar não só as principais
teorias econômicas da pobreza e da desigualdade, mas também as
noções de “bem-estar” social que lhes fornecem amparo filosófico.
O intuito central, nesta incursão ao concreto, está em fundamentar a
crítica a estas concepções, revelando como se expressam, em cada
uma delas, os seus três pilares ontológicos (naturalização do capital,
atomismo social e proferimento in abstracto dos valores emancipató-
rios) e apontando os processos históricos que as tornam formas de
consciên­cia possíveis e socialmente necessárias.
Parte III

Do utilitarismo ao senianismo: uma recapitulação crítica da


versão conservadora da ocorrência de mazelas sociais

Esta conexão entre os prazeres dos indivíduos em cada época e as


relações de classes, elas próprias engendradas pelas condições de
produção e de trocas em que vivem esses indivíduos, a pobreza dos
prazeres reconhecidos até agora, estranhos ao conteúdo real da vida
dos indivíduos e em contradição com ele, a correlação existente en-
tre toda a filosofia do prazer e os gozos reais que constituem o seu
bastidor, e a hipocrisia de uma tal filosofia quando se dirige a todos
os indivíduos sem distinção, tudo isto não podia naturalmente vir à
luz do dia antes de poder ser empreendida a crítica das condições
de produção e de trocas que o mundo conheceu ao longo de sua his-
tória, isto é, antes de o antagonismo entre a bourgeoisie e o proleta-
riado ter engendrado as teorias comunistas e socialistas. Esta crítica
trazia em si a condenação de toda a moral, tanto a do asceticismo
como a do prazer. Karl Marx e Friedrich Engels

Um homem de raça inferior, um negro por exemplo, aprecia me-


nos as posses, e detesta mais o trabalho; seus esforços, portanto,
param logo. Um pobre selvagem se contentaria menos em reco-
lher os frutos quase gratuitos da Natureza, se fossem suficientes
para dar-lhe sustento; é apenas a necessidade física que o leva
ao esforço. O homem rico na sociedade moderna está aparen-
temente suprido com tudo que ele pode desejar e, no entanto,
freqüentemente trabalha por mais sem cessar. Stanley Jevons

Na seção introdutória de sua sensacional subversão literária do epi-


sódio histórico do cerco de Lisboa,1 o insigne escritor José Saramago

1 O cerco de Lisboa refere-se à batalha liderada por D. Afonso Henriques, entre 1 de


junho e 25 de outubro de 1147, por meio da qual os portugueses retomaram dos
mouros o controle da cidade.
168
Do utilitarismo ao senianismo: uma recapitulação crítica da versão conservadora da ocorrência de mazelas sociais

indica, com seu estilo inconfundível (surrealista, dizem alguns), a reali-


dade pretérita das narrativas da história: “Bem me queira a mim pare-
cer que a história não é a vida real, literatura sim, e nada mais, Mas a
história foi vida real no tempo em que ainda não poderia chamar-se-lhe
história”. Além do mais – estendo-me aqui sem autorização expressa do
prosador lusitano –, ainda que seja narrativa sobre o passado, a história
mantém-se como vida real enquanto for reconhecida seja como história,
seja como literatura. E o mesmo se pode dizer de todas as concepções,
inclusive as absolutamente tolas ou ingênuas. As ideias, sejam elas preci-
sas ou falsas, simples ou refinadas, são vida real não só por serem cridas
e transmitidas a outros, mas sobretudo por informar e sustentar ações.
São, portanto, realidade porque participam ativamente do curso prático
da vida social.
Justamente por possuírem um caráter de ser é que as concepções
podem tornar-se objeto de metaconcepções (concepções acerca de con-
cepções). O estudo das ideias, no entanto, é tarefa das mais espinhosas
tanto pela eventual complexidade das próprias concepções, quanto em
função da existência de relações recíprocas de determinação entre as
concepções e os demais elementos do mundo. Se as teorias, por um lado,
são elaborações da consciência desenvolvidas a partir dos estímulos re-
cebidos do mundo, elas, por outro lado, oferecem suporte cognitivo a
ações que produzem efeitos sobre as relações realmente existentes. O
aspecto a se destacar nesta interação dinâmica entre as concepções e
o seu objeto é a antecedência lógica e ontológica do segundo sobre as
primeiras: não seria possível, por exemplo, haver qualquer análise – nem
mesmo especulativa – dos fenômenos monetários antes de a divisão
social do trabalho e as relações mercantis atingirem um estágio mini-
mamente desenvolvido.2 A realidade dos objetos é, portanto, condição
sine qua non para a emergência de formas de consciência a seu respeito,
embora isso nada informe a respeito da qualidade das concepções sur-
gidas. Relações reais não raramente manifestam um conteúdo distinto, e
2 Em meio a uma criteriosa inspeção de um enunciado absurdo de Malthus, Marx deixa
patente a antecedência do objeto (no caso, as relações capitalistas de produção) sobre
as formas de consciência (a análise malthusiana). Em suas palavras: “do fato de que um
determinado quantum de trabalho = a um determinado quantum de trabalho, ou, igual-
mente, de que um determinado quantum = a si mesmo, da extraordinária descoberta de
que um determinado quantum é um determinado quantum, conclui o Sr. Malthus que o
salário é constante, o valor do trabalho é constante, a saber = ao mesmo quantum de tra-
balho objetivado. Isso seria correto se trabalho vivo e trabalho acumulado se trocassem
entre si como valores-de-troca. Neste caso, porém, não existiria nem valor do trabalho,
nem wages, nem capital, nem trabalho assalariado, nem análises malthusianas.” (MARX,
1987b, p. 76). Agradeço a Mário Duayer pela indicação e tradução desta passagem.
169

João Leonardo Medeiros


até mesmo inverso, do que efetivamente possuem, dando ensejo às mais
variadas formas de ilusão cognitiva.
Seria impertinente repetir aqui a extensa argumentação, desen-
volvida na Parte I deste livro, acerca do caráter dialético do relacio-
namento entre as formas de pensamento e os diferentes complexos
da realidade. Basta, destas colocações, enfatizar um de seus elemen-
tos centrais: a análise das concepções não pode prescindir da refe-
rência à malha de relações reais em meio à qual elas emergem como
formas de pensamento. E isso vale tanto para as teorias verdadeiras,
que capturam com acuidade as características da realidade, quanto
para as falsas concepções. No caso das teorias corretas, o interesse
recai sobre a especificidade dos diferentes períodos históricos, no
que se refere às condições sociais necessárias para a descoberta de
relações reais e para a aceitação e difusão das teorias como espelha-
mentos fidedignos da realidade. Enquadram-se nestes estudos, por
exemplo, as análises que indicam a conexão entre os avanços técni-
cos e tecnológicos (na produção de telescópios, astrolábios etc.) e as
descobertas da astronomia, e os inúmeros relatos sobre a repressão
religiosa de novas proposições científicas (da teoria heliocêntrica e
do evolucionismo, para mencionar dois casos bastante conhecidos).
No que tange ao estudo das falsas concepções – que, obviamente,
assume a forma de crítica –, o fundamental é entender como determi-
nadas relações reais são capazes de induzir continuamente os indi-
víduos, às vezes durante toda uma época histórica, ao erro cogniti-
vo. Isso significa que a crítica não pode, jamais, esgotar-se na pura e
simples demonstração da incapacidade de uma teoria em interpretar
e explicar adequadamente os fenômenos de que se ocupa, embora
este seja um seu componente indispensável. Como expressa sinte-
ticamente a noção de crítica explanatória (ver Capítulo 3), criticar
implica explicar as razões da ocorrência da falsa consciência. Sendo
assim, o processo de refutação de uma concepção tem de cumprir
obrigatoriamente, sob pena da incompletude, as seguintes tarefas
adicionais: revelar as relações reais interpretadas equivocadamente
pela teoria em análise; esclarecer o processo de formação da falsa
consciência (e também da própria teoria alternativa); e desvendar o
papel funcional que a teoria desempenha, precisamente por causa de
sua falsidade, na vida social (isto é, a sua utilidade).
Como anunciado na Introdução, o presente trabalho tem como
objetivo principal inspecionar criticamente, nos marcos acima
170
Do utilitarismo ao senianismo: uma recapitulação crítica da versão conservadora da ocorrência de mazelas sociais

definidos, as concepções correntes da tradição teórica dominante na


Economia a respeito dos fenômenos da pobreza e da desigualdade
(ou, mais extensamente, do “bem-estar” social). Uma vez que este
objeto de estudo resulta de um longo desenvolvimento histórico, não
seria possível compreendê-lo em sua inteira significação sem aludir
ao seu momento de gênese, às suas formas primitivas e aos princi-
pais momentos do seu longo desenvolvimento. É fundamental exa-
minar, portanto, a linha evolutiva das teorias econômicas ortodoxas
da pobreza e da desigualdade e de seu fundamento filosófico, tendo
sempre em vista o estreito relacionamento com as transformações
da realidade social. Este recurso às formas passadas e ao processo
de desenvolvimento das teorias em análise (e das relações sociais
subjacentes) tem o intuito de revelar quais são efetivamente os seus
princípios constitutivos e a forma pela qual estes princípios se man-
têm intactos, a despeito das transformações secundárias (ou mera-
mente formais) do corpo teórico-analítico. Em termos mais diretos, o
objetivo é compreender como e por que esta interpretação particu-
lar dos fenômenos da pobreza e da desigualdade, a despeito de sua
notória insuficiência e parcialidade, vem sendo redefinida e reapre-
sentada nos dois últimos séculos, sem qualquer alteração relevante
em seus elementos centrais.
A duas primeiras partes deste livro concentraram-se na preocupa-
ção de explicitar e contrapor teoricamente os pilares ontológicos das
concepções que fornecem sustentação filosófica às teorias ortodoxas
da pobreza e da desigualdade. Três foram os princípios ali destaca-
dos: a naturalização do capital, o atomismo social e a reificação dos
valores emancipatórios. Para completar o exercício de crítica nos
moldes indicados, faz-se necessário, em primeiro lugar, demonstrar
concretamente que aqueles pilares ontológicos estão presentes nas
diversas teorias ortodoxas da pobreza e da desigualdade, de tal for-
ma que são suficientes para caracterizar uma inteligibilidade comum
destes fenômenos. Em segundo lugar, há de se estabelecer, numa
análise histórico-concreta, os vínculos entre os componentes estru-
turais da sociedade e as manifestações teóricas particulares daquela
inteligibilidade, desde suas formas primárias. Como esses dois pas-
sos finais do estudo são absolutamente inseparáveis na prática, uma
apresentação cronológica das teorias parece ser mais conveniente.
Com o propósito de pôr em destaque as formas de expressão
mais recentes das concepções econômicas do “bem-estar” social,
171

João Leonardo Medeiros


optou-se por tratá-las em separado na Parte IV do livro. Nesta ter-
ceira parte, concentramo-nos no longo desenvolvimento teórico que
culminou naquelas versões atualizadas, partindo de seu momento
de gênese no final do século XVIII. Os três primeiros capítulos pro-
curam dar conta das formas originárias das teorias do “bem-estar”,
influenciadas diretamente pela versão clássica da concepção ética
mais influente da tradição iluminista: o utilitarismo. Já os três últimos
capítulos tratam da reelaboração do entendimento veiculado pelas
concepções conservadoras da ocorrência de “mazelas” sociais, que
se desenrola desde o final do século XIX até, no recorte que estabe-
lecemos aqui, o final da década de 1960. Nos dois conjuntos de três
capítulos, o primeiro de cada um deles concentra-se no contexto his-
tórico que influencia a emergência das ideias em questão; o segundo
aborda as questões mais diretamente ligadas ao âmbito filosófico, e o
terceiro trata das teorias do “bem-estar” propriamente ditas.
8. Opulência e miséria na Revolução Industrial

A compreensão do desenvolvimento das teorias econômicas or-


todoxas sobre as “temáticas sociais”, a partir de suas formas histo-
ricamente originárias, pressupõe um esforço análogo e simultâneo
a respeito da evolução de sua matriz ético-filosófica. Esse vínculo
analítico – válido igualmente para todas as formas científicas de
compreensão da realidade – fica reforçado no exame das teorias do
“bem-estar” social porque os fenômenos sobre os quais essas teorias
se debruçam são corretamente reconhecidos como problemas, ou
“mazelas”, da sociedade: pobreza, desigualdade, “exclusão social”,
entre outros. Erradicar, eliminar, superar etc. ou pelo menos mitigar,
reduzir a uma escala socialmente aceitável as “mazelas sociais” é a
linguagem comum das teorias econômicas do “bem-estar”, de forma
que elas findam por se resolver num determinado padrão de inter-
venção corretivo sobre a sociedade. Como a seleção das práticas
apropriadas a tal intervenção tem por pressupostos não somente
uma interpretação das relações de causalidade envolvidas, mas tam-
bém uma concepção orgânica, ao menos superficial, da sociedade
que se pretende edificar, o vínculo indicado se faz presente.
Não é difícil perceber que esse segundo pressuposto remete dire-
tamente a elaborações imanentes às teorias éticas e da “justiça so-
cial”, uma vez que estas teorias fornecem, entre outras coisas, uma
imagem de sociedade justa e/ou bem-ordenada. Também não é difícil
notar que, entre estas teorias, destaca-se a tradição utilitarista. Afinal
de contas, como reconheceu um crítico desta tradição, o “utilitaris-
mo tem sido a teoria ética dominante – e, inter alia, a teoria da justiça
mais influente – há bem mais de um século” (SEN, 2000, p. 77). O utili-
tarismo ajusta-se, portanto, ao papel de pivô do argumento a ser de-
senvolvido principalmente pela ascendência que continua a exercer
sobre as teorias econômicas do “bem-estar”, mas também porque
as concepções econômicas que rejeitam esta plataforma filosófica
174
Opulência e miséria na Revolução Industrial

(como a do próprio Sen) são construídas por contraste às proposi-


ções utilitaristas.
Apesar da centralidade do utilitarismo no debate corrente, o seu
conteúdo essencial apresenta-se de maneira mais pura e franca em
seu primeiro fôlego. Para ser mais específico, pode-se admitir que o
utilitarismo manifesta plenamente o seu vínculo com a reprodução
da sociedade contemporânea no século que se segue à publicação
da mais importante obra de Bentham (Uma Introdução aos Princípios
da Moral e da Legislação), não coincidentemente ocorrida no mes-
mo ano da Revolução Francesa. Afinal de contas, os termos da inter-
venção utilitarista e de seu desenvolvimento subsequente estão in-
timamente ligados às características mais proeminentes do principal
acontecimento histórico ocorrido naquele século: a emergência da
produção capitalista e, com ela, a consolidação da sociedade que lhe
é correspondente. Não é à toa, portanto, que o utilitarismo apresen-
ta-se já àquela altura dos acontecimentos como o entendimento filo-
sófico da burguesia acerca das possibilidades e problemas trazidos
pelas “novas” relações sociais.
Assumindo esse entendimento básico sobre o utilitarismo, que
pretendemos sustentar adiante por argumento, fica claro que o pon-
to de partida indispensável da inspeção crítica das teorias do “bem-
-estar” social assentadas na filosofia utilitarista é a recuperação dos
principais determinantes do momento de consolidação das relações
sociais capitalistas: sabidamente, a Revolução Industrial. Por essa
razão, a inspeção crítica das teorias do “bem-estar” social que se
baseiam na ética utilitarista inicia-se, neste capítulo, com um breve
exame da Revolução Industrial, com ênfase num dos seus aspectos
mais marcantes: a sua natureza aparentemente paradoxal, já que si-
multaneamente progressista (avanço material e tecnológico) e pro-
blemática (ocorrência de “mazelas” sociais e ecológicas). Pretende-
se defender, nesse particular, que a natureza aparentemente dúplice
da Revolução Industrial revela uma importante característica do pró-
prio modo de produção capitalista, desvendado teoricamente por
Marx: a conexão causal entre a produção de riqueza e a geração de
“mazelas” sociais, ambas em escala ampliada.
É preciso antecipar, aqui, que a importância conferida a este as-
pecto específico do capitalismo para a crítica à tradição utilitarista
deve-se ao fato de que é exatamente essa propriedade da acumulação
capitalista que torna aquela teoria ética (equivocada em si) uma forma
175

João Leonardo Medeiros


de consciência socialmente necessária. Afinal de contas, se as mazelas
sociais são estruturalmente associadas ao desenvolvimento capitalis-
ta, torna-se indispensável o surgimento de formas de consciên­cia que
racionalizem a sua existência. Para o conjunto do argumento, por ou-
tro lado, o mesmo aspecto é fundamental para sustentar a opinião de
que o capitalismo não pode conviver com uma intervenção concreta
que elimine de forma definitiva as “mazelas” sociais.
O capítulo organiza-se em duas seções. A primeira procura des-
crever sinteticamente os principais acontecimentos da Revolução
Industrial, que, como dito, é o processo de emergência histórica do
modo de produção capitalista. Nesta mesma seção, procura-se dar
conta do caráter aparentemente dúplice do processo em questão, in-
dicando que a efetiva causa dessa forma específica de manifestação
é a natureza contraditória da acumulação capitalista. A segunda se-
ção concentra esforços no sentido de revelar, mediante uma síntese
dos argumentos de Marx, a cadeia causal que conecta duas tendên-
cias da sociedade capitalista: a da produção de riqueza crescente e
a da produção de “mazelas” sociais em escala igualmente ampliada.
Esperamos, assim, preparar o terreno para defender, no Capítulo 10,
que o utilitarismo pode e deve ser descrito como uma justificação
ética dessa forma de sociedade em que o progresso só se apresenta
à custa do sofrimento humano.

8.1. Será “dupla” a história da consolidação


das relações capitalistas de produção?

Há que se advertir, logo de início, que não se tem aqui a menor


pretensão de produzir nem sequer uma brevíssima história do século
imediatamente posterior a 1789, simplesmente porque – não bastas-
sem as limitações teóricas e de espaço – trata-se de uma das mais
complexas etapas do desenvolvimento social de todos os tempos.
O intuito é tão somente iluminar aspectos absolutamente imprescin-
díveis do período em análise, sobretudo aqueles que se relacionem
diretamente com o tema de nossas considerações.
O mais evidente desses aspectos é o fato, universalmente admiti-
do, de que o período entre os últimos quartos do século XVIII e XIX
não pode ser minimamente descrito sem recurso ao termo “revolu-
ção”. Isto ocorre por duas razões muito simples. Antes de tudo, o
período inicia-se com a culminação de um episódio revolucionário
176
Opulência e miséria na Revolução Industrial

(a Revolução Francesa de 1789) e abrange a porção mais relevante


de um decisivo processo de transformação (a Revolução Industrial
inglesa).1 Em segundo lugar, parece ser bastante nítido que os pen-
sadores do período – não importa a área do conhecimento ou a pers-
pectiva política – compartilhavam o sentimento de ter assistido, ou
estarem a assistir, um processo revolucionário.2 Restavam poucas
dúvidas de que um novíssimo mundo havia emergido das cinzas do
mundo anterior. Por essa razão, todas as perspectivas colocavam-se,
direta ou indiretamente, como instrumentos de intervenção no “novo
mundo”, seja para conservá-lo e administrá-lo, seja para conduzi-lo
adiante de si, em direção a um futuro conscientemente construído
pelos seres humanos.
No que se relaciona aos efeitos das transformações revolucioná-
rias do período, salta aos olhos a sua natureza dúplice e contradi-
tória. Para cada fenômeno ou processo objetivado pode-se indicar,
sem maiores dificuldades, uma ocorrência de sentido dialeticamente
oposto, de maneira que não surpreende o fato de haver dois – e não
um – relatos históricos do período. A “primeira história”, de suces-
so inconteste e progresso fantástico, é celebrada muitíssimas vezes
como a única realmente existente. Seus temas são a revolução cien-
tífica, o aumento da produção e da produtividade, as novas tecno-
logias e ideias, a redução das distâncias do mundo, a consolidação
da democracia moderna, a abolição de privilégios nobiliários etc. A
“segunda história”, por sua vez, ocupa-se dos subterrâneos da “pri-
meira” e, embora seja intimamente relacionada ao progresso, talvez
1 Não há como estabelecer limites precisos para a Revolução Industrial inglesa. Como
afirma Hobsbawm, seria possível, por um lado, buscar antecedentes deste episódio
mil anos antes de sua ocorrência e, por outro, considerar que ele segue em curso
até hoje. Adoto aqui, para fins práticos, a proposta deste notável historiador inglês,
que estabelece como marcos da Revolução Industrial as décadas de 1780 e 1840. Em
1780, “todos os índices estatísticos relevantes deram uma guinada repentina, brusca
e quase vertical para a ‘partida’”. Em 1840, deu-se “a construção das ferrovias e da
indústria pesada na Grã-Bretanha” (HOBSBAWM, 1994, p. 45).
2 “As grandes e inesperadas descobertas que ocorreram nos últimos anos na filosofia
natural, a crescente difusão do conhecimento geral a partir do desenvolvimento
da arte da impressão, o espírito de pesquisa ativo e firme que predomina por todo
o mundo letrado e mesmo no iletrado, as novas e extraordinárias luzes que foram
lançadas sobre os assuntos políticos e que fascinam e chocam o intelecto, e espe-
cialmente o tremendo fenômeno de horizonte político – a Revolução Francesa, que,
como um cometa resplandecente, parece destinado a infundir nova vida e vigor ou a
arrasar e destruir os tímidos habitantes da terra – tudo isso concorreu para conver-
ter muitos homens talentosos à idéia de que nós estamos chegando a uma grande
época, com as mais importantes mudanças que, em certa medida, seriam decisivas
para a sorte futura da humanidade.” (MALTHUS, 1986, p. 279).
177

João Leonardo Medeiros


estivesse hoje sendo considerada literatura, não fossem os valorosos
esforços para registrá-la in actu oficialmente.
Se os registros são o bastante para impedir a conversão da “segun-
da história” em literatura, eles não conseguem, entretanto, evitar o seu
rebaixamento a um plano analítico secundário. Na maioria das interpre-
tações, a “segunda história” fica reduzida a um mero epifenômeno da
“primeira”, fato que talvez se relacione à natureza pouquíssimo gloriosa
dos fenômenos abordados: o aumento intensivo e extensivo da jornada
de trabalho, a incorporação de mulheres e crianças à força de trabalho
industrial, a expulsão dos trabalhadores das terras onde viviam e tra-
balhavam, a precarização das condições de trabalho, a degradação do
ambiente urbano e da vida doméstica etc.
A ênfase e importância atribuídas à “segunda história” podem servir
de parâmetro para classificar as diferentes leituras do período em foco.
Considere, a título de ilustração, o contraste paradigmático entre as in-
terpretações da Revolução Industrial oferecidas por dois renomados his-
toriadores contemporâneos: David Landes e Eric Hobsbawm. O primeiro
historiador confere pouca ou nenhuma relevância aos fenômenos que
compõem a “segunda história”, de maneira que sua narrativa e análise
podem representar as leituras mais róseas da Revolução Industrial – e
seria mesmo difícil encontrar uma versão contemporânea séria mais ró-
sea que a de Landes. Hobsbawm, por seu turno, embora reconheça o
caráter predominantemente progressista das transformações em curso,
não se furta a indicar o papel decisivo desempenhado pela degradação
das condições de vida da classe trabalhadora e da população em geral.
A diferença entre as duas abordagens pode ser facilmente percebida em
obras representativas dos autores sobre o tema, das quais são extraídas
as passagens a seguir.
A Revolução Industrial é caracterizada por Landes como um lon-
go processo de tripla substituição técnica, ocorrido de início na Grã-
Bretanha e disseminado rapidamente pela expansão do mecanismo de
mercado para as mais longínquas regiões do globo: a “substituição da
habilidade e do esforço humano por máquinas”; a “substituição de fontes
animadas por fontes inanimadas de força”, e o “uso de novas e muito mais
abundantes matérias-primas”. Os principais resultados desta revolução
técnica e tecnológica seriam, segundo o autor, “uma rápida elevação da
produtividade e, concomitantemente, da renda per capita”, eventos que
lhe permitem concluir que, “pela primeira vez na história, a economia e o
178
Opulência e miséria na Revolução Industrial

conhecimento estavam crescendo com rapidez bastante para gerar um


contínuo fluxo de melhorias”3 (LANDES, 1998, p. 206 e 207).
Até este ponto, a diferença para a descrição efetuada por Hobsbawm
seria muito mais de ênfase do que de conteúdo, excetuando-se possivel-
mente a relação direta estabelecida por Landes entre o aumento da pro-
dutividade e o incremento da renda per capita. As eventuais afinidades
entre as duas análises mantêm-se, contudo, somente até aquele exato
ponto, já que dificilmente a estrutura interpretativa de Landes compor-
taria a inclusão da pobreza, da precarização do trabalho, das insurgên-
cias revolucionárias etc. como aspectos intimamente ligados à revolução
ocorrida no plano tecnológico. Ao contrário, aqueles eventos parecem
funcionar, no estudo de Landes, como indicadores de estágios de baixo
desenvolvimento (ou simplesmente de crise).
Em determinadas sociedades, que Landes qualifica como “perdedo-
res”, as transformações técnicas não conseguiram penetrar com pro-
fundidade por razões culturais, políticas ou meramente geográficas, re-
sultando daí toda sorte de infortúnios. Nos países que compuseram o
epicentro da Revolução Industrial – os “vencedores” –, a transformação
da base técnica teria inaugurado uma era de pletora universal de riqueza,
interrompida somente por crises passageiras ocasionais. Desde que foi
concluída a mecanização da indústria algodoeira, informa-nos o autor,
as sociedades “vencedoras” seguiram “rumo a um admirável e não tão
admirável mundo novo de rendas mais elevadas e mercadorias mais ba-
ratas, aparelhos e materiais desconhecidos e apetites insaciáveis. Novo,
novo, novo. Dinheiro, dinheiro, dinheiro”4 (LANDES, 1998, p. 213).
3 Não há evidentemente estatísticas fidedignas para o período em análise. São bem-
-aceitos, entretanto, os dados produzidos por Bairoch (1982), que estimam o seguin-
te crescimento do PNB da Grã-Bretanha em bilhões de dólares norte-americanos de
1960: 8,2 (1830); 10,4 (1840); 12,5 (1850); 16,0 (1860); 19,6 (1870); 23,5 (1880); 29,4
(1890). Uma boa síntese dos principais processos e resultados do período encontra-
-se em Kennedy (1989, p. 146): “O que a Revolução Industrial na Inglaterra fez (em
termos macroeconômicos bastante grosseiros) foi aumentar a produtividade de ma-
neira constante e de tal modo que a constante expansão, tanto na riqueza nacional
como na capacidade aquisitiva da população, superou constantemente o aumento
dessa população. Enquanto o número de habitantes do país passou de 10,5 milhões
em 1801 para 41,8 milhões em 1911 – aumento anual de 1,26% – sua produção nacio-
nal aumentou muito mais depressa, talvez em 14 vezes durante o século XIX”.
4 A rigor, o rumo descrito por Landes refere-se ao mundo, e não só ao mundo dos “vence-
dores”, sendo este o motivo da inclusão da sutil ressalva “não tão admirável”. O sentido
da passagem acima citada mantém-se com a observação anterior de que Landes percebe
o “não tão admirável” como um problema do “subdesenvolvimento”. Em suas próprias
palavras: “a Revolução Industrial aproximou mais o mundo, tornou-o menor e mais ho-
mogêneo. Mas a mesma revolução fragmentou o globo ao separar os vencedores e os
perdedores.” (LANDES, 1998, p. 216).
179

João Leonardo Medeiros


A incompatibilidade entre a estrutura analítica de Landes e a atri-
buição de qualquer papel explicativo para os fenômenos da “segunda
história” pode ser comprovada não só pela escassez de referências a
estes fenômenos (quando se trata dos “vencedores”), mas, sobretu-
do, pela orientação das pouquíssimas referências existentes. O autor
esvazia de conteúdo alguns processos vinculados à ocorrência de
pobreza no mundo (indubitavelmente) afluente dos “vencedores” e,
por vezes, parece esforçar-se para negar a gravidade do estado de
miséria de boa parte da classe trabalhadora desses países, apesar do
registro oficial em inúmeros relatórios da época.5 No que tange aos
processos relacionados à pobreza, pode-se mencionar, por exemplo,
a forma como o autor descreve a longa transformação da agricultura
medieval inglesa em produção capitalista:

Na Inglaterra do século XVIII, foram os cerca[mento]s (enclo-


sures) que ocuparam o centro do palco – a mudança dos cons-
trangimentos coletivos dos campos abertos para a liberdade
das propriedades concentradas, cercadas por muro, grades ou
sebes.6 (LANDES, 1998, p. 238)

Seria necessário recordar aqui que os cercamentos criaram


mão de obra disponível para a indústria inglesa em ascensão pela
expropriação e empobrecimento dos camponeses, que, expul-
sos do campo, tornaram-se muitas vezes mendigos nas cidades.7
Sobre os camponeses incorporados à agricultura mercantil, é
real­mente uma profissão de fé irrestrita nas virtudes da produção

5 Por exemplo, no Relatório de Saúde Pública publicado pelo governo inglês e citado
a seguir no corpo do texto. Ver também nota 8.
6 Sobre o processo de colonização da produção agrícola pelo capital, conferir o en-
saio de Wood (2002).
7 Em seu famoso capítulo sobre a acumulação primitiva, Marx descreve com minúcia
os métodos violentos de formação do proletariado urbano e agrícola pela expro-
priação de terras e expulsão do campo (MARX, 1998, capítulo XXIV). O processo é
sinteticamente retratado como se segue: “A propriedade comunal (isto é, as terras
comuns), absolutamente diversa da propriedade da Coroa ou do Estado, [...] era
uma velha instituição germânica que continuou a existir sob cobertura feudal. [...]
[A] violência que se assenhoreia das terras comuns, seguida, em regra, pela trans-
formação das lavouras em pastagens, começa no fim do século XV e prossegue no
século XVI. Mas, então, o processo se efetivava por meio da violência individual,
contra a qual a legislação lutou em vão durante 150 anos. O progresso do século
XVIII consiste em ter tornado a própria lei o veículo do roubo das terras pertencen-
tes ao povo, embora os grandes arrendatários empregassem simultânea e indepen-
dentemente seus pequenos métodos particulares.” (MARX, 1998b, p. 838).
180
Opulência e miséria na Revolução Industrial

capitalista entender que os cercamentos aumentaram sua liberda-


de, quando parece ter ocorrido exatamente o contrário: crescente
submissão à relação assalariada, aumento intensivo e extensivo
da jornada de trabalho, manutenção de salários no nível de sub-
sistência (ou mesmo abaixo dele) e aumento da vulnerabilidade
em face da introdução de novas técnicas. Na direção oposta de
Landes, Hobsbawm reconhece o caráter trágico da transformação
da agricultura inglesa em capitalista, sem negar, todavia, o seu
conteúdo geral progressista. Nas suas palavras:

Em termos da produtividade econômica, esta transforma-


ção social foi um imenso sucesso; em termos de sofrimento
humano, uma tragédia, aprofundada pela depressão agrí-
cola depois de 1815, que reduziu os camponeses pobres a
uma massa destituída e desmoralizada. Depois de 1800, até
mesmo um campeão tão entusiasmado do progresso agrí-
cola e do “movimento das cercas” como Arthur Young ficou
abalado com seus efeitos sociais. Mas do ponto de vista
da industrialização, esses efeitos também eram desejáveis;
pois uma economia industrial necessita de mão-de-obra, e
de onde mais poderia vir esta mão-de-obra senão do antigo
setor não-industrial? (HOBSBAWM, 1994, p. 66)

Ainda mais representativa do que a interpretação de Landes


dos cercamentos é a sua descrição das condições de vida dos in-
gleses pobres . Baseando-se aparentemente em relatos de turistas
franceses, o autor oferece o que seria um retrato do pauperismo
inglês desde a perspectiva de um visitante do continente euro-
peu. Antes de introduzir a passagem de Landes, vale a pena citar,
a título de contraste, um pequeno trecho de um dos Relatórios
da Saúde Pública produzidos no século XIX na Inglaterra por mé-
dicos-inspetores. A passagem, do relatório de 1863, descreve o
estado de saúde dos trabalhadores da indústria inglesa de cerâ-
mica, mas há relatos semelhantes descrevendo o sofrimento de
trabalhadores, inclusive mulheres e crianças, de todos os setores
da indústria da Grã-Bretanha na época da Revolução Industrial:
“Como classe, os trabalhadores de cerâmica […] representam
uma população física e moralmente degradada. São em regra
181

João Leonardo Medeiros


franzinos, de má construção física, e freqüentemente têm o tórax
deformado.” (MARX, 1998, p. 287).8
Ao olhar dos viajantes franceses, de que Landes se vale para des-
crever os mesmos trabalhadores pobres, a imagem aparece inteira-
mente invertida:

Os visitantes maravilhavam-se com o alto padrão de vida do


inglês: chalés de tijolo, telhados de telha, roupa de lã, sapatos
de couro, pão branco […]. Viram mulheres trajando vestidos
de algodão estampado e usando chapéu; jovens criadas que se
pareciam tanto com suas patroas que a visita estrangeira fica-
va na dúvida sobre como dirigir-se à pessoa que vinha abrir-
-lhe a porta. Viram gente pobre, dizem-nos, mas não misérables;
nada de pedintes famintos, de faces encovadas; pedintes sim,
mas nenhum deles “sem camisa, meias e sapatos”. […] Ao poder
de compra das classes mais baixas, à sua capacidade para com-
prar além de suas necessidades, deve-se adicionar a riqueza –
notável para o seu tempo – da grande classe média britânica.
(LANDES, 1998, p. 246, grifo nosso)

Hobsbawm, por sua vez, descreve da seguinte maneira a Inglaterra


da Revolução Industrial e a experiência de um visitante estrangeiro:
a Inglaterra “era monumental, embora também chocasse bastante
[…]. A atmosfera envolta em neblina e saturada de fumaça, na qual
pálidas massas operárias se movimentavam, perturbava o visitante
estrangeiro”9 (HOBSBAWM, 1994, p. 69). A diferença de perspectiva,
que aqui vai muito além de uma mera questão de ênfase, está certa-
8 Segue a passagem: “Envelhecem prematuramente e vivem pouco, fleumáticos e
anêmicos. Patenteiam a fraqueza de sua constituição através de contínuos ataques
de dispepsia, perturbações hepáticas e renais e reumatismo. Estão especialmente
sujeitos a doenças do peito: pneumonia, tísica, bronquite e asma.” (Marx, 1998, p.
285). No capítulo VIII de O Capital, Marx (1998) cita diversos trechos dos relatórios
oficiais da saúde pública inglesa. São absolutamente chocantes as narrativas, que
tratam fundamentalmente dos efeitos do martírio de jornadas de trabalho de até
18 horas, inclusive para mulheres e crianças, de trabalho nos fins de semana, sem
férias nem nenhuma outra garantia etc.
9 “Entre 1815 e 1848, nenhum observador consciente podia negar que a situação dos
trabalhadores pobres era assustadora. E já em 1840 esses observadores eram mui-
tos e advertiam que tal situação piorava cada vez mais”. “[D]e fato, a miséria – a
miséria crescente, como pensavam muitos – que chamava tanto a atenção, tão pró-
xima da catástrofe total como a miséria irlandesa, era a das cidades e zonas indus-
triais onde os pobres morriam de fome de uma maneira menos passiva e oculta.”
(HOBSBAWM, 1994, p. 226 e 227).
182
Opulência e miséria na Revolução Industrial

mente ligada ao fato de que, para Hobsbawm, o sucesso da Revolução


Industrial inglesa não poderia ser atribuído simplesmente ao resulta-
do de um processo de inovação técnica e abertura (militar) de mer-
cados, mesmo admitindo que estes sejam os seus componentes prin-
cipais. Seria necessário reconhecer que acumulação de capital, por
um lado, só poderia significar – antes como hoje – empobrecimento
e perda de propriedade, por outro.10 Isso fica claro, por exemplo, na
forma como o próprio autor apresenta os objetivos de sua análise da
Revolução Industrial: “Traçar o ímpeto da industrialização é somente
uma parte da tarefa deste historiador. A outra é traçar a mobilização
e a transferência de recursos econômicos, a adaptação da economia
e da sociedade necessárias para manter o novo curso revolucioná-
rio.” (HOBSBAWM, 1994, p. 64).
Fica claro, portanto, que Hobsbawm não considera suspeito ou
exagerado o relato da existência de pobreza aguda no coração da
Revolução Industrial. Para o autor, ao contrário, a miséria faz todo
sentido, de forma que a “segunda história” não somente faz-se pre-
sente em sua análise, como desempenha um papel fundamental: sem
considerar o pauperismo, dificilmente se poderia compreender, en-
tre outras coisas, a eclosão de inúmeros movimentos revolucioná-
rios no século XIX.11 E não há nada menos surpreendente no fato
de um historiador marxista (mas não um historiador econômico
conservador, como Landes) ser capaz de articular, numa mesma es-
trutura analítica, fenômenos aparentemente tão paradoxais quanto o
aumento de produtividade e a expansão da pobreza. Afinal de contas,
como se sabe, Marx é o autor a estabelecer com maior plasticidade
o vínculo existente entre a intensificação da acumulação de capital e
a deterioração (ao menos) relativa das condições de vida da classe
trabalhadora.
Colocando de forma mais abrangente, um dos maiores méritos da
obra de Marx está em fornecer as bases teóricas para o entendimento

10 Umadescrição geral do estado de miséria da classe trabalhadora inglesa encontra-


-se na obra clássica de Engels (1985). Conferir também os dados e relatos constan-
tes no Capítulo XXII de Marx (1998b).
11 Segundo o autor, somente três opções estavam à disposição dos trabalhadores
pobres: “lutar para se tornarem burgueses”; “permitir que fossem oprimidos”, ou;
“rebelar[-se]”. (HOBSBAWM, 1994, p. 221). E, entre as três opções, ao menos a pri-
meira parecia muito pouco provável, porque “[s]omente esforços heróicos pode-
riam elevar um homem e uma mulher pobres, ou mesmo seus filhos, para fora da
desmoralização, colocando-os no lugar firme da respeitabilidade e, acima de tudo,
definir ali as suas posições.” (HOBSBAWM, 1982, p. 246).
183

João Leonardo Medeiros


da história, em toda sua complexidade, como única e dialética, e não
dupla e paradoxal. Por essa razão, a sua análise fornece subsídios
para compreender determinados momentos do processo da amplia-
ção extensiva e intensiva da produção capitalista (como aquele cor-
respondente à Revolução Industrial) nos quais o seu caráter contra-
ditório manifesta-se abertamente. Para os propósitos deste livro, a
forma como Marx revela, numa rigorosa análise teórica, o vínculo
objetivo existente entre a reprodução capitalista e a persistência das
mazelas sociais é crucial para cumprir duas tarefas, uma mais geral
e outra mais diretamente relacionada à crítica ao utilitarismo. A pri-
meira tarefa consiste em fundamentar a alegação de que somente
por recurso a práticas transformadoras as “mazelas” sociais podem
ser eliminadas, já que elas são um elemento imprescindível da re-
produção capitalista. A segunda tarefa refere-se à possibilidade de
compreen­der o papel indispensável de uma forma de consciência
que racionaliza a existência de “mazelas” sociais: precisamente o uti-
litarismo. Dedicamos a próxima seção exclusivamente à síntese do
argumento marxiano.

8.2. A lei geral de acumulação capitalista: a conexão inseparável


entre as mazelas sociais e a reprodução capitalista

Podemos resumir o argumento da seção anterior com a afirmação


de que a história (sem aspas ou qualificativos) do século posterior à
Revolução Francesa pode e deve ser caracterizada a partir do mais
fundamental processo então em curso: a consolidação das relações
de produção capitalista. O capital, que há muito circulava em suas
formas originárias (comercial e usurária), conclui a colonização da
esfera produtiva, necessária para romper as amarras herdadas de
modos de produção incompatíveis com a sua dinâmica imanente de
autoexpansão infinita. Com isso, são liberadas as tendências gerais
que, a despeito de suas formas particulares de manifestação, conti-
nuam a caracterizar o capitalismo até os dias de hoje.
Nas leis tendenciais reveladas por Marx, encontra-se a explicação
para a natureza contraditória de um modo de produção capaz de
produzir riqueza em volumes e velocidade inimagináveis e, simulta-
neamente, manter a classe de produtores diretos no nível da pura
e simples subsistência, sem que para isso seja necessária nenhuma
forma de coerção explícita. Para extrair do longo argumento de Marx
184
Opulência e miséria na Revolução Industrial

a relação entre a produção capitalista e as “mazelas sociais”, vale


a pena recorrer à competente síntese elaborada recentemente por
Paul Cammack (2002), que empregamos como roteiro da seção. Este
autor indica com precisão que a

visão de Marx da relação entre capitalismo e pobreza pode ser


expressa em seis proposições relacionadas: [1] um proletaria-
do em contínua expansão é componente inseparável da acu-
mulação de capital; [2] os próprios trabalhadores supostamen-
te “livres” produzem e reforçam os mecanismos pelos quais o
capitalismo exerce sua disciplina sobre si; [3] esse processo
atinge a maturidade quando a produtividade do trabalho cres-
cente torna-se a força motriz da acumulação de capital; [4] o
capitalismo maduro requer e gera uma “superpopulação relati-
va” sem a qual a sua disciplina [sobre o trabalho] não poderia
operar; [5] esta superpopulação relativa configura-se como um
“exército industrial de reserva”, que mantém os salários bai-
xos e tendendo ao nível de subsistência; [6] uma proporção
da superpopulação relativa encontra-se sempre no nível de po-
breza absoluta. (CAMMACK, 2002a, p. 194 e 195)

A ampliação contínua do proletariado surge, na análise marxia-


na, como uma condição logicamente indispensável da reprodução
capitalista. Para que o processo produtivo capitalista se repita por
um novo ciclo, faz-se necessário que os pressupostos essenciais
desse modo de produção estejam presentes na escala apropriada.
Entre estes pressupostos essenciais encontra-se aquele que se re-
laciona diretamente ao aspecto distintivo da produção comandada
pelo capital: a existência de uma força de trabalho disponível para
ser ocupada na produção de valor e mais-valia (e, também, no polo
oposto, de capitalis­tas dispostos a ocupá-la). Em outras palavras: “A
produção capitalista, encarada em seu conjunto, ou como processo
de reprodução, produz não só mercadoria, não só mais-valia; produz
e reproduz a relação capitalista: de um lado, o capitalista e do outro,
o assalariado.” (MARX, 1998b, p. 674).
Se a repetição do ciclo de produção deve ser compatível com a
dinâmica imanente de autoexpansão do capital (isto é, se a repro-
dução deve ocorrer normalmente em escala ampliada), então se tor-
na necessário que o próprio processo produtivo se encarregue de
185

João Leonardo Medeiros


disponibilizar uma massa crescente de proletários. E isso ocorre, de
forma geral, a despeito das transformações tecnológicas poupadoras
de trabalho, em virtude do fato de que a reprodução do capital pos-
sui também um caráter compulsivamente extensivo: produz sempre
mais, abrange sempre novos produtos e mercados, incorpora sem-
pre novas regiões do globo etc. Como sintetiza Marx, numa passagem
bastante conhecida:

As circunstâncias mais ou menos favoráveis em que se con-


servam e se reproduzem os assalariados em nada modificam
o caráter fundamental da produção capitalista. A reprodução
simples reproduz constantemente a mesma relação: capitalista
de um lado, assalariado do outro. Do mesmo modo, a reprodu-
ção ampliada ou a acumulação reproduzem a mesma relação
em escala ampliada: mais capitalistas ou capitalistas mais po-
derosos, num pólo, e mais assalariados, no outro. A força de
trabalho tem de incorporar-se continuamente ao capital como
meio de expandi-lo; não pode livrar-se dele. Sua escravização
ao capital se dissimula apenas com a mudança dos capitalis-
tas a que se vende, e sua reprodução constitui, na realidade,
um fator de reprodução do próprio capital. Acumular capital é,
portanto, aumentar o proletariado. (MARX, 1998b, p. 716 e 717)

Um aspecto particularmente interessante da acumulação de capi-


tal indicado na passagem acima requer destaque especial: a tendên-
cia à crescente proletarização basta para caracterizar a ampliação do
domínio do capital sobre a classe trabalhadora. Colocando de manei-
ra mais explícita, ainda que se reduzisse ocasionalmente o grau de
exploração da força de trabalho (ou, simplesmente, aumentassem os
salários reais), a ampliação dos limites da acumulação representaria
ipso facto um aumento da submissão dos trabalhadores.12 O caráter
12 “Essa submissão [do trabalho ao capital], em vez de mais intensa, torna-se mais extensa

ao crescer o capital, que amplia seu campo de exploração e de domínio com as próprias
dimensões e com o número de seus vassalos. Estes recebem, sob a forma de meios de
pagamento, uma porção importante do seu próprio produto excedente, que se expande
e se transforma em quantidade cada vez maior de capital adicional. Desse modo, podem
ampliar seus gastos, provendo-se melhor de roupas, móveis etc. e formar um pequeno
fundo de reserva em dinheiro. Roupa, alimentação e tratamento melhores e maior pe-
cúlio não eliminam a dependência e a exploração do escravo, nem as do assalariado.
Elevação do preço do trabalho, em virtude da acumulação, significa que a extensão e o
peso dos grilhões de ouro que o assalariado forjou para si mesmo apenas permitem que
fique menos rigidamente acorrentado.” (MARX, 1998b, p. 720 e 721).
186
Opulência e miséria na Revolução Industrial

tragicamente irônico desta tendência de sujeição crescente da classe


trabalhadora ao capital se deve ao fato de que são os próprios tra-
balhadores que efetivamente criam e reforçam as condições de sua
subordinação. Os trabalhadores, “livres” da propriedade dos meios
de produção, são obrigados pelas próprias necessidades a criar cada
vez mais valor, sempre sob a forma de capital. Na forma como Marx
expressa este traço marcante da produção capitalista:

Sendo o processo de produção, ao mesmo tempo, processo


de consumo da força de trabalho pelo capitalista, o produto
do trabalhador transforma-se continuamente não só em mer-
cadoria, mas em capital, em valor que suga a força criadora
de valor, em meios de subsistência que compram pessoas, em
meios de produção que utilizam os produtores. O próprio tra-
balhador produz, por isso, constantemente, riqueza objetiva,
mas, sob a forma de capital, uma força que lhe é estranha, o
domina e explora […]. (MARX, 1998b, p. 666)

Do ponto de vista da classe capitalista, o aumento da produção de


mais-valia implica a possibilidade de intensificação do ritmo de acu-
mulação e vice-versa. Percebe-se, assim, um padrão de (ir)racionali-
dade do processo produtivo sob o comando do capital, que se distin-
gue da racionalidade dos modos de produção até então conhecidos
por não possuir como objetivo central a satisfação das necessidades
humanas (nem mesmo as do capitalista).13 O propósito exclusivo da
produção capitalista é a valorização contínua e ininterrupta do valor.
Em poucas palavras: produção capitalista é, fundamentalmente, pro-
dução de mais mais-valia.
Entre os diversos métodos que o capital tem à disposição para am-
pliar os limites da extração de mais-valia, destaca-se indubitavelmente

13 Deve-seadvertir que a irracionalidade da lógica capitalista de busca incessante do


aumento do excedente não implica, de forma alguma, um regresso social com rela-
ção aos modos de produção previamente existentes, que fundavam sua racionalida-
de na satisfação das necessidades. Ao descrever o papel histórico desempenhado
pelo capitalista, Marx deixa explícito o caráter cruelmente progressivo do sistema:
“O capitalista só possui um valor perante a História e o direito histórico à existência
enquanto funciona personificando o capital. [...] Fanático da expansão do valor, com-
pele impiedosamente a humanidade a produzir por produzir, a desenvolver as forças
produtivas sociais e a criar as condições materiais de produção, que são os únicos
fatores capazes de constituir a base real de uma forma social superior, tendo por prin-
cípio fundamental o desenvolvimento livre e integral de cada indivíduo. O capitalista
é respeitável apenas quando personifica o capital.” (MARX, 1998b, p. 690).
187

João Leonardo Medeiros


o aumento da produtividade do trabalho, sobretudo quando decor-
rente de inovações tecnológicas. Por esse motivo, os capitais indivi-
duais, imersos em ambiente de concorrência, são compelidos a re-
novar constantemente a configuração tecnológica de sua estrutura
produtiva, conduzindo o sistema “adiante, numa maneira dinâmica
mas desigual, gerando ciclos de atividade pontuados por crises re-
gulares no padrão geral de acumulação” (CAMMACK, 2002, p. 195).
O aprofundamento da lógica da concorrência capitalista está na
origem da configuração de uma série de tendências que caracterizam
a própria dinâmica da acumulação de capital: o seu padrão cíclico, as
suas crises periódicas, os processos de concentração e centralização
de capitais e a tendência ao crescimento da “composição orgânica do
capital”. Considerando os objetivos deste texto, as atenções devem
ser focadas nesta última tendência, que nada mais significa do que
o crescimento da razão entre o capital empregado em meios de pro-
dução e o capital aplicado na força de trabalho correspondente. Se,
por um lado, o “enorme crescimento dos meios de produção facul-
ta uma expansão na dimensão absoluta do proletariado” (Ibid: 196),
por outro lado, o capital renova-se constantemente de forma a exigir
um volume cada vez menor de trabalhadores: “[o] capital adicional
formado no curso da acumulação atrai, relativamente à sua grande-
za, cada vez menos trabalhadores. E o velho capital periodicamente
reproduzido com a nova composição repele, cada vez mais, trabalha-
dores que antes empregava” (MARX, 1998b, p. 731).
Ao requerer um número de trabalhadores relativamente menor
em face do capital mobilizado (isto é, em termos relativos), a pró-
pria lógica da acumulação cria as condições para superar even­tuais
contingências advindas do caráter anárquico, não regulado, do pro-
cesso de produção capitalista. Em particular, a alternância das fases
expansivas e depressivas dos ciclos de atividade, a expansão de no-
vos setores, a recuperação ou renovação de setores consolidados
e a abertura de novos mercados, não raramente, impõem ao siste-
ma a necessidade de um provimento rápido e pontual de força de
trabalho. Para não frear o ritmo da acumulação, torna-se necessário
manter permanentemente um estoque de trabalhadores disponíveis
e “prontos para trabalhar”. Nos termos de Marx:

[A população excedente] proporciona o material humano a


serviço das necessidades variáveis de expansão do capital e
188
Opulência e miséria na Revolução Industrial

sempre pronto para ser explorado, independentemente dos


limites do verdadeiro incremento da população. Com a acumu-
lação e com o desenvolvimento da produtividade do trabalho
que a acompanha, cresce a força de expansão súbita do capi-
tal.14 (MARX, 1998b, p. 735)

A criação de uma superpopulação de trabalhadores em relação


aos requisitos imediatos da valorização do capital constitui, portan-
to, um pressuposto da acumulação de capital e conforma a “lei da
população peculiar ao modo de produção capitalista”, como indica
Marx em alusão crítica à teoria malthusiana15 (MARX, 1998b, p. 734).
Além de atender às necessidades de mobilização imediata de força
de trabalho, o contingente de trabalhadores excedentes – o “exército
industrial de reserva” – desempenha outro papel decisivo na amplia-
ção e intensificação do processo de extração de mais-valia: o papel
de “exemplo”, isto é, de elemento disciplinador da força de trabalho
empregada.
Mais detidamente, os trabalhadores empregados são pressiona-
dos pela concorrência com os trabalhadores do exército de reserva
a admitir condições de trabalho favoráveis aos interesses do capi-
tal. Isto significa que o exército industrial de reserva funciona como
regulador dos salários e das assim chamadas relações trabalhistas:
quanto maior o contingente de trabalhadores excedentes, ceteris pa-
ribus, piores as condições gerais vigentes no mercado de trabalho.
Reforçando este tópico com mais uma passagem de Marx:

14 “A
massa de riqueza social que se torna transbordante com o progresso da acumula-
ção e pode ser transformada em capital adicional lança-se freneticamente aos ramos
de produção antigos, cujo mercado se amplia subitamente, ou aos novos [...] cuja
necessidade decorre do desenvolvimento dos antigos. Nesses casos, grandes mas-
sas humanas têm de estar disponíveis para serem lançadas nos pontos decisivos,
sem prejudicar a escala de produção nos outros ramos. A superpopulação fornece-
-as.” (MARX, 1998b, p. 735 e 736).
15 “Coma magnitude do capital social já em funcionamento e seu grau de crescimento,
com a ampliação da escala de produção e da massa dos trabalhadores mobiliza-
dos, com o desenvolvimento da produtividade do trabalho, com o fluxo mais vasto
e mais completo dos mananciais da riqueza, amplia-se a escala em que a atração
maior dos trabalhadores pelo capital está ligada à maior repulsão deles. Além disso,
aumenta a velocidade das mudanças na composição orgânica do capital e na sua
forma técnica, e um número crescente de ramos da produção é atingido, simultânea
ou alternativamente, por essas mudanças. Por isso, a população trabalhadora, ao
produzir a acumulação do capital, produz, em proporções crescentes, os meios que
fazem dela, relativamente, uma população supérflua. Essa é uma lei da população
peculiar ao modo capitalista de produção.” (MARX, 1998b, p. 733 e 734).
189

João Leonardo Medeiros


O trabalho excessivo da parte empregada da classe trabalha-
dora engrossa as fileiras de seu exército de reserva, enquanto,
inversamente, a forte pressão que este exerce sobre aquela,
através da concorrência, compele-a ao trabalho excessivo e a
sujeitar-se às exigências do capital. A condenação de uma par-
te da classe trabalhadora à ociosidade forçada, em virtude do
trabalho excessivo da outra parte, torna-se fonte de enrique-
cimento individual dos capitalistas e acelera ao mesmo tem-
po a produção do exército industrial de reserva, numa escala
correspondente ao progresso da acumulação social. (MARX,
1998b, p. 739 e 740)

A dimensão absoluta do exército industrial de reserva (superpo-


pulação relativa) depende de diversos fatores que influenciam, por
um lado, a possibilidade e a necessidade de arregimentação imediata
de trabalhadores e, por outro, a rentabilidade dos diferentes seto-
res produtivos: o crédito, a volatilidade da produção, a capacidade
de inovação tecnológica, o grau de concentração e centralização do
capital, as condições de concorrência, a taxa de lucratividade etc.
Junto ao número de trabalhadores excedentes, estes mesmos fato-
res influenciam a proporção em que os trabalhadores do exército de
reserva são divididos entre os três segmentos apontados por Marx:
flutuante, latente e estagnado.
A “superpopulação flutuante”, usualmente encontrada nos grandes
centros produtivos urbanos, compreende os trabalhadores que são
ora atraídos, ora repelidos do mercado de trabalho. Já a “superpopu-
lação latente” descreve a condição dos trabalhadores do campo, so-
bre os quais impactam os efeitos da transformação da agricultura em
produção capitalista. À medida que se estende e aprofunda o domínio
do capital sobre a produção do campo, diminui “a procura absoluta da
população trabalhadora rural. Dá-se uma repulsão de trabalhadores,
que não é contrabalançada por maior atração, como ocorre na indús-
tria não-agrícola”. Decorre daí, em ritmo constante, o êxodo rural que
serve ao propósito de abastecer os centros urbanos com novos bra-
ços disponíveis. A constância do êxodo rural tem como pressuposto
a manutenção de uma superpopulação latente, que mantém o traba-
lhador rural “ao nível mínimo de salário e […] sempre com um pé no
pântano do pauperismo” (MARX, 1998b, p. 746). Os trabalhadores mi-
grados, por seu turno, passam usualmente a engrossar nas cidades as
190
Opulência e miséria na Revolução Industrial

fileiras do último segmento do exército de reserva, a superpopulação


estagnada, que é descrita da seguinte forma:

constitui parte do exército de trabalhadores em ação, mas


com ocupação totalmente irregular. Ela proporciona ao capital
reservatório inesgotável de força de trabalho disponível. Sua
condição de vida se situa abaixo do nível médio normal da clas-
se trabalhadora, e justamente com isso torna-a a base ampla
de ramos especiais de exploração do capital. Duração máxima
de trabalho e o mínimo de salário caracterizam sua existência.
(MARX, 1998b, p. 746, grifo nosso)

O interesse em distinguir os segmentos do exército industrial


de reserva está na relação diretamente proporcional entre o seu
contingente total e a parcela referente à superpopulação estagna-
da. Esta engloba os trabalhadores do exército industrial de reserva
permanentemente expulsos da produção capitalista pela ampliação
da produtividade do trabalho – aquilo que se denomina, no jargão
econômico, desemprego estrutural.16 Dois fatores explicam a sua
tendência de crescimento a taxas mais que proporcionais àquelas
que caracterizam o crescimento da totalidade da superpopulação
relativa.
Em primeiro lugar, o aumento extensivo dos domínios da acumu-
lação de capital significa precisamente uma extensão dos limites de
operação de todas as tendências que a caracterizam e, em conse-
quência, da racionalidade imanente ao sistema. Neste particular, a
relação entre o caráter anárquico da dinâmica progressiva da acu-
mulação e a tendência de aumento da redundância relativa dos tra-
balhadores deve, mais uma vez, ser enfatizada. Se a ocorrência, em
escala extensiva, de inesperadas expansões da acumulação requer
a manutenção de um volume relativamente maior de trabalhado-
res “em espera”, impõe-se uma condição para que a tendência de
expansão da acumulação de capital não se rompa definitivamente:
a repulsão de trabalhadores do processo produtivo causada pelo au-
mento da produtividade do trabalho tem de possuir efeito permanente

16 Mais
especificamente, sem contar o “lumpemproletariado” (vagabundos, crimino-
sos e prostitutas), Marx distingue três categorias no interior da superpopulação
estagnada: os “aptos para o trabalho”; os “órfãos e filhos de indigentes”; e os “de-
gradados, desmoralizados, incapazes de trabalhar”. (MARX, 1998b, p. 747 e 748).
191

João Leonardo Medeiros


e em magnitude suficiente para compensar a atração de trabalhado-
res advinda do próprio alargamento da acumulação.
Para colocá-lo de forma direta, o termo “relativo” da superpopu-
lação relativa refere-se à magnitude de meios de produção – quanto
maior esta magnitude, maior o contingente de trabalhadores defini-
tivamente expulsos dos processos de produção de riqueza (e ren-
da). Embora isto já baste para caracterizar a tendência ao aumento
da superpopulação estagnada, não se poderia desmerecer a impor-
tância do segundo fator, o seu dispositivo interno de crescimento
a taxas relativamente elevadas: o fato de que o “tamanho absoluto
das famílias está na proporção inversa do nível de salário” (MARX,
1998b, p. 746).
Estabelecida a relação entre o progresso da acumulação e o au-
mento da superpopulação estagnada, podem-se, enfim, recompor
os pontos centrais do longo argumento mediante o qual Marx expõe
o vínculo objetivo existente entre o desenvolvimento capitalista e o
pauperismo. Em primeiro lugar, o autor indica que a extensão dos
limites da acumulação de capital tende a promover uma ampliação
da conversão de trabalhadores em trabalhadores assalariados, de-
pendentes da venda da própria força de trabalho ao capital para
satisfazer as necessidades. O segundo passo do argumento fica por
conta da observação de que, “[q]uanto maiores a riqueza social, o
capital em função, a dimensão e energia de seu crescimento, e con-
seqüentemente, a magnitude absoluta do proletariado e da força
produtiva de seu trabalho, tanto maior o exército industrial de re-
serva” (MARX, 1998b, p. 746). Finalmente, fechando a cadeia de de-
terminações causais, Marx demonstra que a tendência de aumento
da produtividade do trabalho – orgulhosamente enfatizada pela his-
tória oficial do capital, como se percebe em Landes – contém em si,
ao lado de seu nítido conteúdo geral progressista, outra tendência
que pode ser descrita de duas formas alternativas e equivalentes:
a tendência ao aumento da razão entre o contingente do exército
industrial de reserva e o número de trabalhadores efetivamente in-
corporados ao processo produtivo, ou a tendência ao aumento da
superpopulação estagnada.
Não é difícil admitir que a manifestação empírica da última ten-
dência não tem qualquer outro significado que não seja a piora das
condições gerais vigentes no “mercado de trabalho” e a subjacente
192
Opulência e miséria na Revolução Industrial

ampliação do pauperismo.17 Com isso, podemos finalmente introdu-


zir a lei geral da acumulação capitalista, que é enunciada da seguinte
maneira pelo próprio Marx:

A força de trabalho disponível é ampliada pelas mesmas causas


que aumentam a força expansiva do capital. A magnitude relativa
do exército industrial de reserva cresce, portanto, com as potên-
cias da riqueza, mas, quanto maior esse exército de reserva em
relação ao exército ativo, tanto maior a massa da superpopulação
consolidada, cuja miséria está na razão inversa do suplício de
seu trabalho. E, ainda, quanto maiores essa camada de lázaros da
classe trabalhadora e o exército industrial de reserva, tanto maior,
usando-se a terminologia oficial, o pauperismo. Esta é a lei geral,
absoluta, da acumulação capitalista.
A lei que mantém a superpopulação relativa ou o exército indus-
trial de reserva no nível adequado ao incremento e à energia da
acumulação acorrenta o trabalhador ao capital mais firmemen-
te do que os grilhões de Vulcano acorrentavam Prometeu ao
Cáucaso. Determina uma acumulação de miséria correspondente
à acumulação de capital. Acumulação de riqueza num pólo é, ao
mesmo tempo, acumulação de miséria, de trabalho atormentante,
de escravatura, de ignorância, brutalização e degradação moral,
no pólo oposto, constituído pela classe cujo produto vira capital.
(MARX, 1998b, p. 748 e 749, grifo do autor)

A descoberta da lei geral da acumulação capitalista joga a luz sobre


os elos causais inseparáveis que unem os fenômenos da “primeira his-
tória” do século XIX (o crescimento do produto, o aumento da produti-
vidade, o desenvolvimento científico etc.) aos fenômenos da “segunda”
(o pauperismo, o aumento da desigualdade, a precarização do trabalho
etc.), sem recurso a nada mais do que uma inspeção aos pressupostos

17 “Graçasao progresso da produtividade do trabalho social, uma quantidade sempre


crescente de meios de produção pode ser mobilizada com um dispêndio [relativo]
progressivamente menor de força humana. Este enunciado é uma lei na sociedade
capitalista, onde o instrumental de trabalho emprega o trabalhador, e não este o
instrumental. Esta lei transmuta-se na seguinte: quanto maior a produtividade do
trabalho, quanto maior a pressão dos trabalhadores sobre os meios de emprego,
tanto mais precária, portanto, sua condição de existência, a saber, a venda da pró-
pria força para aumentar a riqueza alheia ou a expansão do capital.” (MARX, 1998b,
p. 748 e 749).
193

João Leonardo Medeiros


necessários à evolução dinâmica do modo de produção capitalista.18 Por
este motivo, não parece haver qualquer equívoco na conclusão a que
chegam Cammack, Hobsbawm e tantos outros que subscrevem a análise
de Marx, de que “abolir a pobreza seria abolir o próprio capitalismo”
(CAMMACK, 2002, p. 195). Para que desta conclusão não seja extraído,
contudo, um significado mais amplo ou mais estreito do que o que efeti-
vamente nela está contido, faz-se necessário lançar mão de duas impor-
tantes ressalvas a respeito da lei geral da acumulação capitalista.
A primeira ressalva, contra eventuais objeções empiristas, relacio-
na-se ao caráter tendencial das determinações causais, destacado no
Capítulo 4. A lei tendencial, como apontado àquela altura, é “uma afir-
mação transfactual sobre a atividade tipicamente não empírica de uma
coisa ou agente estruturado […]. Não é sobre eventos que ocorreriam
se o mundo fosse diferente, mas sobre o poder que está sendo exercido
quaisquer que sejam os eventos que se sucedam” (LAWSON, 1997, p. 23,
grifo do autor). As tendências em operação num determinado estágio
do desenvolvimento social interagem com inúmeras outras tendências,
naturais e sociais, na produção dos fenômenos do mundo.
Há, portanto, uma distinção qualitativa fundamental entre as ten-
dências e os fenômenos por elas influenciados: uma tendência pode in-
fluenciar o curso da vida social sem jamais se manifestar diretamente
em fenômenos, em razão da operação permanente de outras tendências
antagônicas. Como disse Marx a respeito da própria lei geral da acumu-
lação capitalista: “Como todas as outras leis, é modificada em seu fun-
cionamento por muitas circunstâncias que não nos cabe analisar aqui”
(MARX, 1998b, p. 748). Apesar de afirmar que não lhe caberia analisar as
circunstâncias que se opõem à lei geral, o próprio Marx relata minucio-
samente diversos casos em que a gritante degradação das condições de
vida da classe trabalhadora inglesa produz uma fortíssima reação social
no sentido de comedir os impulsos (antissociais) da acumulação.19 Estes
18 “Só
conhecendo as leis econômicas conseguimos descobrir a conexão íntima entre
os tormentos da fome das camadas trabalhadoras mais laboriosas e a dilapidação
dos ricos, grosseira ou refinada, baseada na acumulação capitalista.” (MARX, 1998b,
p. 763).
19 NoCapítulo VIII, Marx indica como o aumento da jornada de trabalho na Inglaterra
dá ensejo a um movimento de reação contra a “barbárie do capital”, que está na
origem do estabelecimento das primeiras formas de regulação social do trabalho
assalariado. No Capítulo XIII, o autor volta ao tema e afirma: “O prolongamento des-
medido da jornada de trabalho, produzido pela maquinaria nas mãos do capital,
ao fim de certo tempo provoca, conforme já vimos, uma reação da sociedade, que,
amea­çada em suas raízes vitais, estabelece uma jornada normal de trabalho, legal-
mente limitado.” (MARX, 1998, p. 467).
194
Opulência e miséria na Revolução Industrial

casos, como muitos outros, podem ser tomados como ilustração de que
a tendência à piora das condições de vida da classe trabalhadora não im-
plica necessariamente um aumento contínuo, uniforme, do pauperismo.
A segunda ressalva diz respeito à dimensão relativa da noção de pau-
perismo subentendida no enunciado da lei geral da acumulação capita-
lista. O estado de pobreza, como reconhecido hoje mesmo nas análises
conservadoras da Economia, não pode ser devidamente compreendi-
do sem referência ao volume de riqueza existente num dado período
histórico ou, o que dá no mesmo, sem aludir à questão da desigualda-
de.20 Segue-se daí que, mesmo quando compreendido em seus próprios
termos, o pauperismo (a própria “pobreza absoluta”, para empregar a
terminologia corrente) possui um caráter relativo indelével. O nível de
subsistência e, portanto, o pauperismo são dependentes das condições
sociais vigentes nas diferentes conjunturas histórico-geográficas, que
podem variar consideravelmente. Não é por outra razão, para exempli-
ficar, que o pobre cidadão dos Estados Unidos, no início do século XXI,
não deixa de ser pobre simplesmente por possuir um automóvel. Pode-
se reforçar o argumento com uma passagem na qual Marx, ao definir a
soma dos meios de subsistência, assinala o seu caráter histórico-social:

A soma dos meios de subsistência deve ser, portanto, suficiente


para mantê-lo no nível de vida normal do trabalhador. As pró-
prias necessidades naturais de alimentação, roupa, aquecimen-
to, habitação etc. variam de acordo com as condições climáti-
cas e de outra natureza de cada país. Demais, a extensão das
chamadas necessidades imprescindíveis e o modo de satisfazê-
-las são produtos históricos e dependem, por isso, de diversos
fatores, em grande parte do grau de civilização de um país e,
particularmente, das condições em que se formou a classe dos
trabalhadores livres, com seus hábitos e exigências peculiares.
Um elemento histórico e moral entra na determinação do valor
da força de trabalho, o que a distingue das outras mercadorias.
Mas, para um país determinado, num período determinado, é
dada a quantidade média dos meios de subsistência necessá-
rios. (MARX, 1998a, p. 201)

20 Arelação entre pobreza e desigualdade também é reconhecida por Marx: “Se a clas-
se trabalhadora continuou pobre, apenas menos pobre, ao produzir um aumento
embriagador de riqueza e poder para a classe possuidora, não se modificou sua
pobreza relativa. Se os extremos da pobreza não diminuíram, então aumentaram,
por terem aumentado os extremos da riqueza.” (MARX, 1998, p. 757).
195

João Leonardo Medeiros


Com as ressalvas acima, que concluem o argumento mediante o qual
pretendemos ter dado conta da conexão entre a acumulação capitalista
e a produção de mazelas sociais, resta-nos preparar o terreno para, no
capítulo seguinte, inspecionar a concepção utilitarista e as teorias do
“bem-estar” social nele baseadas, com referência ao processo histórico
que acabamos sucintamente de descrever e analisar. Para isso, basta ob-
servar que embora a conclusão, há pouco defendida, de que o capitalis-
mo é incompatível com a eliminação das mazelas sociais seja considera-
da inteiramente fundamentada tanto no plano teórico quanto no plano
fenomênico, não se poderia esperar que seu caráter radicalmente autên-
tico e autenticamente radical rebatesse de maneira uniforme sobre as
formas de consciência moldadas numa sociedade dividida em classes.
Como disse Eagleton em seu conhecido ensaio sobre a ideologia,

a maior parte das pessoas tem um olhar bastante agudo quando


se trata de seus próprios interesses e direitos, e a maioria sente-
-se desconfortável com a idéia de pertencer a uma forma de vida
gravemente injusta. Precisam então acreditar que essas injustiças
estão a caminho de serem corrigidas, ou que são contrabalança-
das por benefícios maiores, ou que são inevitáveis, ou que não
são realmente injustiças. Faz parte da função de uma ideologia
dominante inculcar tais crenças. E pode fazê-lo seja mediante a
falsificação da realidade social, eliminando e excluindo certos
aspectos dela que são indesejáveis, seja sugerindo que esses
aspectos não podem ser evitados.21 (EAGLETON, 1997, p. 37 e
38, grifo nosso)

Seria necessário, de fato, um exercício de fantástico desprendi-


mento crítico para que a burguesia – que se consolida efetivamente
como classe dominante no período aqui em análise, após um pro-
cesso revolucionário que literalmente destronou a poderosa aristo-
cracia latifundiária – associasse, de forma orgânica, a pobreza e a
desigualdade às estruturas resultantes da revolução que lhe alçou à
condição social privilegiada que até hoje possui. A alternativa mais

21 “Essaúltima estratégia é bem interessante, do ponto de vista do problema da verdade/


falsidade. Pois pode ser verdade, em termos do sistema atual, que, digamos, um grau de
desemprego seja inevitável, mas não em termos de alguma alternativa futura. Os enun-
ciados ideológicos podem ser verdadeiros em relação à sociedade tal como se encontra
constituída no presente, mas falsos na medida em que, desse modo, contribuem para
bloquear a possibilidade de transformar um estado de coisas.” (EAGLETON, 1997, p. 38).
196
Opulência e miséria na Revolução Industrial

atraente (e racional, desde sua perspectiva) era culpar o atraso da


sociedade, o despreparo dos trabalhadores, a perniciosa interferên-
cia da nobreza em decadência no Estado e a influência de fatores
naturais (inclusive genético-raciais).
A burguesia articula, em síntese, uma sua leitura da sociedade
capitalista, que (não surpreendentemente) vem a ser a leitura domi-
nante, no sentido sugerido por Eagleton. Associam-se a essa visão
burguesa de mundo dois subconjuntos de concepções: um acerca
da racionalidade e da operacionalidade das novas relações sociais e
outro que se apresenta como uma teoria da justificação dessas mes-
mas relações sociais, em face dos problemas percebidos. No interior
do primeiro subconjunto ideológico, destaca-se a Economia Política
clássica (incluindo-se a sua versão vulgarizada). No segundo, desta-
ca-se o utilitarismo. O capítulo seguinte concentra-se nesta segunda
vertente, ético-filosófica, do pensamento burguês.
9. A filosofia utilitarista como justificação
ético-moral do capitalismo

A evidente discrepância entre as interpretações de historiadores


contemporâneos, registrada no capítulo anterior, fornece indícios do
caráter profundamente contraditório das experiências vivenciadas
no século inaugurado pela Revolução Francesa e, ainda mais, da efer-
vescência das discussões da época. Se a história do período continua
a produzir uma tamanha dissensão entre pensadores esclarecidos,
como Hobsbawm e Landes, pode-se imaginar a extensão dos debates
ocorridos no calor dos acontecimentos. Em relação a mais este traço
marcante do período entre os últimos quartos do século XVIII e XIX,
talvez seja possível arriscar que nenhuma outra época da história
tenha exposto tão flagrantemente, por tanto tempo, os conflitos de
classe e os interesses e concepções subjacentes.
Os conjuntos de crenças associados aos processos internamen-
te correlacionados de queda da nobreza, consolidação da burgue-
sia como classe dominante e formação da consciência de classe dos
trabalhadores patenteiam, com toda clareza, que as lentes com que
se enxerga o mundo são lapidadas por uma série de determinações
sociais, entre as quais se destacam indubitavelmente as determina-
ções de classe. Se, por um lado, o embate entre a burguesia vitorio-
sa e a nobreza decadente pode ser perfeitamente representado pelo
contraste entre o renascimento do pensamento laico e o teologismo
medieval, por outro, o conflito entre os trabalhadores e a burguesia
expressa-se na rivalidade entre as versões clássicas dos pensamen-
tos comunista e liberal.
A filosofia utilitarista, que vem a ser a concepção moral mais ex-
pressiva do Iluminismo, insere-se de forma inteiramente diferenciada
no duplo confronto indicado no parágrafo anterior. Na disputa com o
teologismo medieval, o utilitarismo, como o Iluminismo em geral, ex-
põe sua face mais radical e progressista. Enfrenta o dogmatismo das
concepções teológico-tradicionalistas mediante as quais a nobreza
198
A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

obtinha chancela para os inúmeros privilégios mantidos durante sé-


culos a fio. Oferece-se como forma de consciência destinada a susten-
tar no plano ético-filosófico a construção de uma nova ordem social
sobre as bases do pensamento racional (científico). Desafia o status
quo medieval, em decadência mas ainda bastante presente no sécu-
lo XVIII, abrindo o caminho para a ruptura definitiva com o Ancien
Régime. No confronto com as propostas de radicalização da revolu-
ção burguesa (entre as quais se destaca o pensamento comunista),
por outro lado, o utilitarismo explicita um caráter “modernamente
reacionário”, que se torna a sua atitude característica tão logo o eixo
central da luta de classes desloca-se da contradição aristocracia-bur-
guesia para a contradição entre a burguesia e a classe trabalhadora.1
Desde então, a filosofia utilitarista abraça acriticamente a socie-
dade capitalista, como se fosse ela a própria encarnação do ideal ilu-
minista, e propõe-se a servir de instrumento para a sua justificação
moral. Observa, com o ceticismo irônico e desdenhoso dos vitorio-
sos, as acusações da incapacidade da ordem burguesa em promover
a emancipação universal prometida. Distorce o discurso dos adver-
sários, e muitas vezes apropria-se dele indevidamente, esvaziando-o
de conteúdo. Falsifica a história para, no final das contas, declará-la
extinta ou simplesmente inexistente.2
1 Nos termos com que Marx e Engels registram esta transição: “A filosofia do prazer [uti-
litarismo] fez a sua aparição na época moderna com o declínio do feudalismo e a trans-
formação da nobreza rural feudal em nobreza de corte, dissipadora e ávida de viver, sob
a monarquia absoluta. […] [Esta filosofia] foi adotada pelas duas classes, se bem que a
partir de pontos de vista totalmente diferentes. Se, para a nobreza, esta linguagem estava
reservada a uma casta e às condições de existência desta casta, ela foi generalizada pela
bourgeoisie e dirigida a todos os indivíduos sem distinção: abstraiu-se das condições de
existência destes indivíduos, de tal modo que a teoria do prazer transformou-se assim
numa doutrina moral insípida e hipócrita. Quando a evolução ulterior levou à queda da
nobreza e fez entrar a bourgeoisie em conflito com o seu antagonista, o proletariado, a
nobreza voltou à piedade devota e a bourgeoisie à solenidade moralizante.” (MARX; EN-
GELS, 1980, p. 271 e 272).
2 Ao introduzir a crítica ideológica iluminista como a primeira forma moderna de ideologia
secular, Eagleton expõe o seu caráter simultaneamente progressista e conservador: “Por
um lado, os primeiros ideólogos do século XVIII francês, em sua guerra contra metafí-
sica, recorriam em peso à filosofia empírica de John Locke, insistindo em que as idéias
humanas derivavam mais de sensações que de alguma fonte inata ou transcendental;
esse empirismo, com sua concepção dos indivíduos como seres passivos e distintos
está intimamente relacionado com as suposições ideológicas burguesas. Por outro lado,
o apelo a uma natureza desinteressada, à ciência e à razão, em oposição à religião, à
tradição e à autoridade política, simplesmente mascarava os interesses de poder a que
essas nobres noções secretamente serviam. Poderíamos então arriscar o paradoxo de
que a ideologia nasceu como uma crítica totalmente ideológica da ideologia. Ao iluminar
o obscurantismo da velha ordem, lançou sobre a sociedade uma luz ofuscante que cegou
homens e mulheres para as fontes sombrias dessa claridade.” (EAGLETON, 199, p. 66).
199

João Leonardo Medeiros


Em síntese, o utilitarismo é, até os dias atuais, a materialização
mais imediata e evidente, no plano filosófico, da visão de mundo da
classe dominante sobre a sociedade regida pelo capital. Este capítulo
é inteiramente dedicado ao exame crítico da concepção ético-filosó-
fica do utilitarismo, abrangendo todos os âmbitos que nos parecem
fundamentais para compreender a ascendência que teve e continua
a ter sobre o pensamento liberal-conservador.

9.1 O utilitarismo como questão de classe

Já se afirmou por diversas vezes que compreender o utilitarismo


é sinônimo de compreender a leitura das relações sociais capitalistas
pela ótica da classe que ascende ao posto de classe dominante na
sociedade que lhes corresponde: a burguesia. Se essa afirmação tem
efetivamente sentido, como esperamos ser possível demonstrar que
tem, não surpreende que o caráter progressista de sua fase inicial
tenha se esvaído precisamente na migração do locus por excelência
do Iluminismo da matriz francesa para a Grã-Bretanha (mais precisa-
mente, para a Escócia). Esse deslocamento, ocorrido num momento
em que o ideário iluminista já enfrentava o desencanto pós-napoleô-
nico, deve-se a diversas razões, entre as quais duas possuem impor-
tância capital.
Em primeiro lugar, como recorda Callinicos (2000, p. 15), “os phi-
losophes franceses lidavam com a maior de todas as monarquias ab-
solutas continentais [da Europa]”, enquanto o “Iluminismo escocês,
por contraste, desenvolveu-se num país que, desde 1701, fazia parte
da primeira monarquia constitucional da história”. Embora se conso-
lide somente com a instituição da monarquia constitucional, a vitória
da burguesia inglesa sobre a aristocracia rural na disputa direta pelo
controle do poder político anuncia-se mais de um século antes de a
burguesia francesa comandar a tomada da Bastilha (em 1649, para
ser exato, quando Cromwell executa Carlos I). Na Grã-Bretanha, por-
tanto, a queda de braço entre a aristocracia e a burguesia anuncia-se
e define-se precocemente, deixando o caminho livre para a explicita-
ção do antagonismo entre a burguesia e o proletariado.
Além de sua própria importância, esta antecedência da revo-
lução política fornece um indício do segundo e mais fundamental
motivo para que o utilitarismo inglês tenha exposto seu caráter rea­
cionário com mais brilho do que o correspondente continental: o
200
A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

desenvolvimento das relações capitalistas de produção concretiza-


-se na Grã-Bretanha antes do que em qualquer outra nação ou re-
gião do mundo. Para compreender com exatidão o vínculo entre o
desenvolvimento da produção capitalista e a configuração do utili-
tarismo, faz-se necessário oferecer ao menos uma primeira imagem
desta concepção moral. Iniciamos daí, portanto, o exame crítico da
perspectiva utilitarista.
Numa apresentação provisória, genérica o suficiente para abran-
ger os diferentes enunciados particulares de sua formulação clás-
sica, a filosofia utilitarista pode ser sinteticamente descrita como
a proposição ontológico-moral de que todas as ações racionais são
efetivamente tomadas, e devem ser avaliadas, segundo um critério
único (ou seja, tendo em vista um único valor): o princípio da utilida-
de, concebido inicialmente em termos do saldo líquido do aumento
do prazer sobre a redução da dor.3 Expressando a mesma ideia de
forma ligeiramente diferente, para torná-la compatível com todas as
concepções utilitaristas – sejam elas simples ou matizadas, antigas
ou contemporâneas –, o utilitarismo significa antes de tudo que os
homens guardam entre si e com a natureza um tipo único de relação:
a relação de utilização, de apropriação em benefício próprio para ob-
jetivação de um valor fundamental qualquer (no caso do utilitarismo
clássico, o aumento do prazer líquido).4
De acordo com o utilitarismo, portanto, todas as possíveis e ima-
gináveis relações que os homens mantêm entre si – tais como con-
versar, amar, trocar, praticar esportes, orar etc. – têm, na melhor das
hipóteses, seu conteúdo próprio subordinado à relação de mútua uti-
lização. (Em geral, para ser menos concessivo, considera-se que to-
das as ações não possuem de fato qualquer outro significado que não
a recíproca utilização.) Tão ou mais importante do que indicar a ab-
surdidade do visível reducionismo envolvido na proposição que fun-
damenta toda a filosofia utilitarista é compreender os pressupostos

3 Na maioria das concepções utilitaristas mais recentes, que serão inspecionadas no


Capítulo 12, a utilidade deixa de ser definida em termos do cálculo hedonista de
maximização do prazer líquido para ser definida em termos das preferências. O im-
portante a salientar, por ora, é que o utilitarismo considera um único critério como
definidor das relações sociais, em todas as suas versões.
4 Deve-se salientar que nada muda com a emenda de Stuart Mill, considerada a seguir,
que procura incorporar o altruísmo à análise (numa versão burguesa deste senti-
mento, evidentemente): as ações racionais levariam em conta o impacto sobre o
prazer líquido social e seriam avaliadas em função deste critério. Neste caso, a única
relação social possível seria a de utilização dos homens em prol do prazer agregado.
201

João Leonardo Medeiros


reais de sua formulação. Afinal de contas, seguindo a argumentação
de Marx e Engels na Ideologia Alemã, o utilitarismo não teria ascen-
dido ao posto de teoria moral dominante no final do século XVIII (e,
muito menos, se mantido como tal desde então) caso não capturas-
se, em algum nível, aspectos essenciais do estágio correspondente
de desenvolvimento social. Nas palavras dos autores:

[Para o utilitarismo, falar, amar etc. só possuem conteúdo]


como uma relação de utilidade e de utilização. As relações reais
pressupostas aqui são a palavra, o amor, manifestações deter-
minadas de faculdades determinadas dos indivíduos. Mas, nesta
perspectiva, estas relações não são consideradas como deven-
do ter o seu significado próprio. São tidas como a expressão e a
manifestação de uma terceira relação apresentada como subja-
cente, a relação de utilidade ou de utilização. Esta transposição,
absurda e arbitrária, só deixa de o ser no momento em que as
primeiras relações deixem de ter importância por si mesmas
para os indivíduos, em que já não representam uma atividade
espontânea, passando a constituir uma máscara que esconde,
não a categoria abstrata de utilização, mas sim um objetivo real,
precisamente aquela que é designada por relação de utilidade.
Este disfarce no plano da linguagem só tem sentido quando
constitui a expressão consciente ou inconsciente de um disfarce
real. (MARX; ENGELS, 1980, p. 259, grifo do autor)

Para os que são familiarizados com os capítulos iniciais da princi-


pal obra de Marx (O Capital), em que o autor descreve o capitalismo
a partir de sua constituição mercantil, não seria difícil descobrir o
disfarce real a que ele e Engels se referem na passagem acima. Trata-
se “simplesmente” da relação de troca de mercadorias que, na so-
ciedade capitalista, estabelece o vínculo social entre os indivíduos,
primeiramente na esfera produtiva e, a partir daí – com a mercanti-
lização das demais esferas da vida –, em todos os domínios do ser
social: “na sociedade burguesa moderna todas as relações […] [são]
praticamente subordinadas e reduzidas à simples relação monetária
abstrata, à relação de troca” (MARX; ENGELS, 1980, p. 258 e 259).
Segue-se daí a conclusão de que a operação mental que reduz, com a
maior arbitrariedade possível, todos os sentimentos, emoções, pen-
samentos, afetos, ódios etc. ao exercício único de cálculo racional de
202
A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

maximização da utilidade pressupõe a operação real de conversão de


todas as relações sociais em relações mercantis, e a sua consequente
uniformização no corpo escamoteador do dinheiro.
Em síntese: a representação ideal das relações sociais mediante
um padrão único, a utilidade, corresponde à efetiva intermediação
de praticamente todas as relações sociais pelo dinheiro. Para com-
preender integralmente o conteúdo desta assertiva, todavia, faz-se
necessário recordar que o dinheiro (ou seja, “o representante do
valor de todas as coisas, pessoas e relações sociais”) constitui tão
somente a expressão material das relações sociais erigidas sobre o
modo de produção especificamente capitalista. Rigorosamente fa-
lando, portanto, a filosofia utilitarista conforma o veículo da tomada
de consciência da burguesia da exploração mútua como a forma uni-
versal de relacionamento entre os indivíduos singulares.5 E é precisa-
mente por essa razão que se torna possível descrever o utilitarismo
ou, mais precisamente, a filosofia da exploração recíproca, como o
registro burguês da sociedade construída a partir das relações de pro-
dução comandadas pela própria classe burguesa. Em outros termos:

Para ele [o bourgeois], existe uma única relação com interesse


em si mesma, a relação de exploração; todas as outras relações
só lhe suscitam interesse na medida em que as pode reduzir
àquela; e mesmo quando se encontra em presença de relações
que não se deixam catalogar diretamente na relação de explo-
ração, ele classifica-as aí, quanto mais não seja no plano da
ilusão. A expressão material deste proveito tirado das coisas
é o dinheiro, o representante do valor de todas as coisas, pes-
soas e relações sociais. Vê-se aliás imediatamente que só das
relações de trocas reais que mantenho com outros homens é
possível deduzir, por abstração, a categoria “utilização” […].
(MARX; ENGELS, 1980, p. 259)
5 Como disseram Marx e Engels no texto que vínhamos citando acima: a relação de
utilidade “significa que eu tiro um proveito do mal que faço a um outro (exploitation
de l’homme par l’homme)” (MARX; ENGELS, 1980, p. 259, grifo do autor). É funda-
mental advertir que o termo exploração, neste caso, não possui uma conotação
meramente econômica (exploração do trabalho pelo capital). Aqui, como em todas
as passagens a seguir, exploração refere-se tão somente à relação instrumental dos
sujeitos com as formas estranhadas de sociabilidade. Se as relações sociais são real­
mente estranhadas, se se apresentam como objetos externos aos indivíduos, então
estes podem, e de fato irão, estabelecer entre si uma relação de apropriação em
benefício privado. Trata-se, em síntese, da exploração do homem pelo homem, sem
qualquer outro qualificativo particular.
203

Quando o utilitarismo francês se desenvolveu no século XVIII, a for-

João Leonardo Medeiros


ma capitalista de exploração ainda não havia adquirido, naquele país, a
mesma dimensão social que já se fazia presente na vizinha Grã-Bretanha.
Deriva fundamentalmente daí, do atraso do capitalismo francês, a prin-
cipal razão de o utilitarismo ter adquirido um acento progressista em
sua fase inicial (basicamente francesa), que é deixado de lado quando a
configuração utilitarista clássica se define de uma vez por todas na Grã-
Bretanha. Sem tergiversações, o utilitarismo é a mais bem-definida teo-
ria apologética da sociedade capitalista e isto não muda essencialmente
pelo fato de a aristocracia decadente ter dele se apropriado durante a
sua fase de maturação e, muito menos, por ser hoje o utilitarismo adota-
do por inúmeros pensadores que imaginam falar em nome dos segmen-
tos mais desfavorecidos da classe trabalhadora.
Segue-se daí que, enquanto a sociedade capitalista consegue em si
mesma representar simplesmente um progresso revolucionário em re-
lação às formas sociais por ela superadas, resplandece no utilitarismo
um caráter igualmente progressista e revolucionário. Quando a ordem
burguesa se instaura e as novas relações sociais começam a demonstrar
que a felicidade de uns poucos corresponde à infelicidade de muitos,
o utilitarismo torna-se apenas uma forma elaborada e mais ou menos
sutil de justificação e racionalização do status quo.6 Vale a pena recordar,
neste ponto, a comparação do utilitarismo francês com a sua forma mais
desenvolvida, inglesa, elaborada por Marx e Engels:

A teoria d’Holbach [filósofo utilitarista francês] é a ilusão filosófi-


ca, historicamente justificada, do papel da bourgeoisie cujo apa-
recimento se verifica precisamente em França, e cuja vontade de
exploração podia ainda ser interpretada como uma vontade de
ver os indivíduos desenvolverem-se completamente nas trocas
livres dos velhos entraves feudais. Esta libertação, tal como a via
a bourgeoisie, ou seja, a concorrência, era decerto a única forma
possível no século XVIII de abrir aos indivíduos a via de um desen-
volvimento mais livre. (MARX; ENGELS, 1980, p. 260 e 261)
A primeira [teoria utilitarista, de Helvetius e d’Holbach] corres-
ponde à bourgeoisie em luta, em vias de desenvolvimento, a se-
gunda [de Bentham e Mill], à burguesia triunfante, que termina
seu crescimento.
É em Bentham apenas que todas as relações existentes são subor-
dinadas à relação de utilidade; só nele se encontra a promoção
incondicional desta relação de utilidade, tida como representando
6 “Existe uma interdependência exata entre os progressos da teoria da utilidade e
da exploração, as suas diferentes etapas, e os diferentes períodos da evolução da
bourgeoisie.” (MARX; ENGELS, 1980, p. 262).
204

por si só o conteúdo de todas as outras numa época em que, de-


A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

pois da Revolução Francesa e do desenvolvimento da grande in-


dústria, a bourgeoisie já não surgia como uma classe entre outras,
mas sim como a classe cujas condições de existência são as de
toda a sociedade. (MARX; ENGELS, 1980, p. 263 e 264)

O caráter apologético da filosofia utilitarista transparece com nitidez


no argumento de sua formulação clássica, como veremos na próxima se-
ção com alguma minúcia, mas pode ser constatado agora mesmo pelo
congraçamento do utilitarismo com a ciência econômica – “A ciência
propriamente dita da teoria da utilidade é a economia” (MARX; ENGELS,
1980, p. 259).7 Para perceber o modo como se estabelece originariamente
o nexo entre a filosofia utilitarista e a ciência econômica, partamos de
Smith, que não é propriamente um utilitarista, mas é certamente um ilu-
minista. Treze anos antes de Bentham publicar sua obra seminal, Smith
havia argumentado, na Riqueza das Nações, que as “sociedades comer-
ciais” desenvolvem-se a partir de interesses individuais antagônicos de
forma organicamente equilibrada e progressiva.8

O idílico equilíbrio de mercado, no qual oferta e demanda se equali-


zam e os preços aproximam-se do nível que remunera adequadamente
todas as classes sociais (no nível “natural”), é apresentado pelo autor
como o resultado inexorável das interações entre os efeitos dos inúme-
ros atos individuais de produção e troca. Com a identificação desse me-
canismo de transformação do interesse individual em bem-estar coletivo,
7 Marx e Engels veem a Economia como o mecanismo teórico que transforma o utilita-
rismo num discurso meramente apologético: “O conteúdo econômico transformou
pouco a pouco o utilitarismo em simples apologia da ordem existente, tendendo a
demonstrar que, nas condições atuais, as relações dos homens entre si, sob a sua
forma presente, são as mais vantajosas e úteis para todos. É esse caráter que o uti-
litarismo apresenta em todos os economistas modernos.” (MARX; ENGELS, 1980, p.
265).
8 Vale a pena citar aqui as famosas passagens nas quais Smith anuncia a ação da mão
invisível do mercado: “Todo indivíduo empenha-se continuamente em descobrir a apli-
cação mais vantajosa de todo capital que possui. Com efeito, o que o indivíduo tem em
vista é sua própria vantagem individual e não a da sociedade”. “Todo indivíduo procura
empregar seu capital tão próximo de sua residência quanto possível e, conseqüente-
mente, na medida do possível, no apoio e fomento à atividade nacional, desde que tal
aplicação sempre lhe permita auferir o lucro normal do capital”. “Ao preferir fomentar a
atividade do país e não de outros países, ele tem em vista apenas sua própria segurança;
e orientando sua atividade de tal maneira que sua produção possa ser de maior valor,
visa apenas a seu próprio ganho e, neste, como em muitos outros casos, é levado como
que por mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas intenções”.
“Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse
da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo”.
(SMITH, 1985, p. 378 e 379). A apresentação sucinta dos argumentos de Smith realizada
acima baseia-se na estrutura sugerida por Callinicos (2000, p. 16-20).
205

João Leonardo Medeiros


que operaria “além dos limites do controle [estatal, por exemplo] e, em
grande medida, da compreensão dos atores individuais relacionados”,
Smith oferece resposta à questão que inquietava os filósofos iluministas
escoceses. Na síntese de Callinicos:

Smith reflete [na mão invisível] uma das preocupações centrais do


Iluminismo escocês. Será que o desenvolvimento das “sociedades
comerciais” modernas como a Grã-Bretanha e a França setecen-
tistas, com sua distribuição de propriedade altamente desigual,
representava um progresso com relação às sociedades mais po-
bres e igualitárias por elas suplantadas? A sua resposta afirmativa
envolve o desenvolvimento do que mais tarde ficou conhecido
como o princípio de que as estruturas sociais são conseqüências
não-intencionais das ações individuais. Os ricos, através de suas
ações auto-interessadas, “sem desejá-lo, sem sabê-lo, desenvolve-
riam o interesse da sociedade”. (CALLINICOS, 2000, p. 17)

Embora o desenvolvimento de uma filosofia moral autônoma, que


concede espaço amplo às presumidas relações de simpatia entre os
indivíduos, e (sobretudo) as incursões científicas na teoria do valor-
trabalho afastem Smith das proposições clássicas da filosofia utilita-
rista, parece evidente que a sua leitura estrutural do funcionamento
da “sociedade comercial” estabelece o limite teórico das formulações
utilitaristas: o plano individual. Afinal de contas, o próprio Smith já
havia dado conta do domínio social ao combinar a importante des-
coberta filosófica da diferença qualitativa entre a práxis individual e
o seu significado estrutural com a crença inteiramente arbitrária de
que os interesses privados, quando cerceados tão somente pela sim-
patia mútua entre os seres humanos, sempre conduzem ao bem-estar
coletivo.
Sem jamais questionar esta descrição da sociedade capitalista, e
partindo da mesma perspectiva de classe de Smith e dos demais eco-
nomistas políticos, o utilitarismo clássico cumpre a tarefa de formu-
lar os princípios condutores da moralidade individual necessários
para racionalizar o aprofundamento da injustiça social trazido pela
“nova ordem”. Isso porque aceitar a ideia de que o livre funcionamen-
to do mercado leva à ordem e ao progresso, remunerando as classes
sociais adequadamente, implica afirmar que a desigualdade, a pobre-
za etc. ou são inevitáveis, ou decorrem de interferências indevidas na
206
A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

economia ou de vícios na formação moral dos indivíduos.9 De uma


maneira geral,

a economia política já tinha enunciado a idéia de que as rela-


ções fundamentais de exploração eram, em geral, determina-
das pela produção, independentemente da vontade dos indi-
víduos isolados, e que os indivíduos as encontravam perfeita-
mente constituídas. Só restava então ao utilitarismo um único
campo para as suas especulações: a situação dos indivíduos
em face destas relações à escala da sociedade, a exploração
privada dos indivíduos de um mundo que eles já encontravam
constituído. Nesta questão, Bentham e a sua escola entrega-
ram-se em longas discussões moralizantes. Toda a crítica que
o utilitarismo fez do mundo existente vê simultaneamente a
sua perspectiva restringida. Prisioneiro das leis da bourgeoisie,
resta-lhe criticar apenas os elementos que, herdados de uma
época anterior, entravavam o desenvolvimento da bourgeoisie.
(MARX; ENGELS, 1980, p. 264)

O utilitarismo, em suma, é a concepção socialmente adequada


à conjuntura histórica de consolidação das relações sociais capita-
listas, pois é capaz de apreender, ainda que acriticamente, o caráter
instrumental do relacionamento entre as classes sociais e entre os
indivíduos numa sociedade em que todos devem necessariamente
se integrar à estrutura mercantil. Como tal, constitui a base da racio-
nalidade do agir em tal estrutura, preparando o terreno no campo
subjetivo para a compatibilização entre as ações individuais e a re-
produção social. É, aliás, não somente a ética adequada à emergência
da sociedade burguesa, mas a ética adequada à sua reprodução e,
por isso mesmo, à reprodução da burguesia como classe dominante.
O fato de que essa ética burguesa e a moral que lhe é correspondente
tenham sido expressas como a ética e a moral humanas enquanto
tais só revela a condição de classe dominante da burguesia.
Na seção seguinte, procuramos reforçar o entendimento acima
pelo exame das características e teses gerais do utilitarismo e das
particulares que identificam a sua versão clássica ou hedonista.

9 “O utilitarismo sempre foi discutido [...] de duas formas distintas: de um lado, como
teoria da moralidade pessoal e, de outro, como uma teoria da escolha pública, ou
dos critérios aplicáveis à política pública” (SEN; WILLIAMS, 1991, p. 1 e 2).
207

João Leonardo Medeiros


9.2. A ética utilitarista e a sua versão clássica

Parece ser bastante conveniente assumir a metódica e competente


descrição do utilitarismo elaborada por Sen como ponto de partida da
exposição de seus caracteres gerais e daqueles que distinguem a ver-
são considerada clássica. De acordo com a estrutura oferecida por esse
autor, o utilitarismo “como princípio moral pode ser considerado uma
combinação de três requisitos mais elementares”: o “welfarismo”, o “con-
sequencialismo” e o “ranking pela soma” (SEN, 1999, p. 55). O welfarismo
refere-se tão somente à redução, anteriormente mencionada, de todos
os valores ao critério único da utilidade, ou seja, à “concepção de que as
únicas coisas de valor intrínseco para o cálculo ético e a avaliação dos
estados são as utilidades individuais” (SEN, 1999, p. 56).
Afirmar que a utilidade constitui o único valor digno de consideração
implica imediatamente um questionamento acerca do conteúdo deste
conceito, de tal forma que as correntes da filosofia utilitarista podem ser
distinguidas por esse parâmetro. O que caracteriza a versão clássica do
utilitarismo é o fato de a utilidade ser definida em termos das categorias
neuropsicológicas do prazer ou felicidade, de um lado, e da dor ou infeli-
cidade, de outro. Embora essa acepção da utilidade remonte à fase (fran-
cesa) de maturação da filosofia utilitarista, a sua formulação admitida
como fundadora encontra-se nas primeiras páginas da obra principal de
Bentham. Em suas palavras:

O termo utilidade designa aquela propriedade existente em qual-


quer coisa, propriedade em virtude da qual o objeto tende a pro-
duzir ou proporcionar benefício, vantagem, prazer, bem ou felici-
dade (tudo isto, no caso presente, se reduz à mesma coisa), ou (o
que novamente equivale à mesma coisa) a impedir que aconteça
o dano, a dor, o mal, ou a infelicidade para a parte cujo interesse
está em pauta. (BENTHAM, 1979, p. 4)

Seguindo com a apresentação de Sen, o segundo requisito da moral


utilitarista diz respeito a um critério de julgamento ético que não lhe é
exclusivo, de acordo com “o qual todas as escolhas (de ações, regras,
instituições etc.) devem ser julgadas por suas conseqüências, ou seja,
pelos resultados que geram” (SEN, 2000, p. 78). Este critério, que Sen de-
nomina consequencialismo, ganha conotação explicitamente utilitarista
quando conjugado como o welfarismo há pouco introduzido: “Quando o
208
A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

welfarismo é combinado ao consequencialismo, temos o requisito de que


toda escolha deve ser julgada em conformidade com as respectivas uti-
lidades que gera” (SEN, 2000, p. 78). As ações, pelo consequencialismo,
são avaliadas de acordo com as consequências que produzem e estas
consequências, por sua vez, são julgadas tendo em vista o único valor
admitido pelo welfarismo, isto é, a utilidade. Resulta dessa combinação
o princípio fundamental da ética utilitarista, que recebe de Bentham o
famoso rótulo “princípio da utilidade ou maior felicidade”. A exposição
de Stuart Mill sintetiza a versão clássica deste princípio:

O credo que aceita a utilidade ou o princípio da maior felicidade


como a fundação da moral sustenta que as ações são corretas na
medida em que tendem a promover a felicidade e erradas confor-
me tendam a produzir o contrário da felicidade. Por felicidade se
entende prazer e a ausência de dor; por infelicidade, dor e a priva-
ção de prazer. (MILL, 2000, p. 187)10

O terceiro e último componente do utilitarismo, o ranking pela soma,


embora muito simples, encerra em si um significado muito mais impor-
tante do que se poderia supor numa primeira aproximação. Em termos
formais, o ranking pela soma estabelece meramente “que as utilidades
de diferentes pessoas sejam simplesmente somadas conjuntamente para
se obter seu mérito agregado, sem atentar para a distribuição desse to-
tal pelos indivíduos” (SEN, 2000, p. 78). Além dessa insensibilidade aos
problemas distributivos, que é, como veremos adiante, devidamente en-
fatizada por Sen e por todos os críticos liberais do utilitarismo, ao menos
duas outras premissas, de importância decisiva, estão implícitas na con-
sideração da utilidade social pela soma das utilidades individuais. São,
de fato, essas premissas que revelam de modo mais plástico a associa-
ção entre a ética utilitarista e a visão de mundo burguês-conservadora.
A primeira premissa, subentendida nessa noção da utilidade so-
cial – que, pela extensão do welfarismo, constitui o único valor pre-
zado pela sociedade –, é a atribuição de “pesos iguais” a todos os in-
divíduos que compõem uma determinada comunidade. Citando mais
uma vez Stuart Mill,

10 “Por
princípio de utilidade entende-se aquele princípio que aprova ou desaprova
qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar ou a diminuir a felicidade
da pessoa cujo interesse está em jogo, ou, o que é a mesma coisa em outros termos,
segundo a tendência a promover ou a comprometer a referida felicidade.” (BEN-
THAM, 1979, p. 4).
209

João Leonardo Medeiros


[o princípio da utilidade] será um mero conjunto de pala-
vras desprovido de significação racional, a menos que a feli-
cidade de uma pessoa, que se supõe de grau idêntico à das
outras […], se tome exatamente tanto em conta como essa.
Preenchidas essas condições, a máxima de Bentham “cada um
deve contar por um e ninguém por mais do que um” poderia
figurar abaixo do princípio da utilidade como um comentário
explicativo. Todos os homens, tendo igual direito a reclamar
a felicidade, têm igualmente direito, na opinião do moralista e
do legislador, a reclamar todos os meios para alcançá-la, salvo
quando as inevitáveis condições da vida humana e o interesse
geral, que compreende o de cada indivíduo, imponham limites
à regra, limites esses que devem ser rigorosamente determina-
dos. (MILL, 2000, p. 273-275)

Se a afirmação “cada um deve contar por um e ninguém por mais


de um” possui um significado verdadeiramente revolucionário quan-
do dirigido à aristocracia feudal, o oposto se pode dizer da mesma
afirmação quando se trata de aplicá-la à relação entre a burguesia e a
classe trabalhadora. No primeiro caso, a máxima benthamiana parece
possuir um sentido histórico único e bastante claro: a sociedade não
pode e nem deve conceder privilégio formal algum aos indivíduos, se-
jam eles nobres ou plebeus, com base em critérios religiosos ou de
natureza semelhante. No embate com os trabalhadores, no entanto,
a declaração da igualdade formal entre os indivíduos serve de funda-
mento à institucionalização jurídica da desigualdade real contida nas
relações sociais capitalistas, que determinam a priori a existência de
condições sociais diferenciadas para os indivíduos procedentes das
classes capitalista e trabalhadora.11 Em suma, se a igualdade jurídica,
11 Aesfera da circulação de mercadorias, à qual se circunscreve a visão de mundo bur-
guesa, “é realmente um verdadeiro paraíso dos direitos inatos do homem. Só reinam
aí liberdade, igualdade, propriedade e Bentham. Liberdade, pois o comprador e o
vendedor de uma mercadoria – a força de trabalho, por exemplo – são determinados
apenas pela sua vontade livre. Contratam como pessoas livres, juridicamente iguais.
O contrato é o resultado final, a expressão jurídica comum de vontades. Igualdade,
pois estabelecem relações mútuas apenas como possuidores de mercadorias e tro-
cam equivalente por equivalente. Propriedade, pois cada um só dispõe do que é seu.
Bentham, pois cada um dos dois só cuida de si mesmo. A única força que os junta e
os relaciona é a do proveito próprio, da vantagem individual, dos interesses priva-
dos. E justamente por cada um só cuidar de si mesmo, não cuidando ninguém dos
outros, realizam todos, em virtude de uma harmonia preestabelecida das coisas,
ou sob os auspícios de uma providência onisciente, apenas as obras de proveito
recíproco, de utilidade comum, de proveito geral.” (MARX, 1998, p. 206).
210
A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

expressa em todas as cartas de princípios e constituições das socieda-


des democráticas contemporâneas, representa um progresso no senti-
do da abolição de diferenças (políticas, por exemplo) defendidas pelo
puro e simples tradicionalismo ou preconceito, a mesma igualação de
direitos contribui para mascarar e acentuar diferenças sociais decor-
rentes da forma classista de organização da produção.
A segunda, mas não menos importante, premissa subjacente
ao princípio que estabelece a utilidade social como a soma direta
das utilidades individuais, é a concepção de sociedade usualmen-
te descrita como atomismo social. Nos termos de Bentham: “A
comunidade constitui um corpo fictício, composto de pessoas in-
dividuais que se consideram como constituindo os seus membros.
Qual é, neste caso, o interesse da comunidade? A soma dos inte-
resses dos diversos membros que integram a referida comunida-
de”. Decorre dessa fundamental proposição ontológica acerca do
ser social, como o seu corolário metodológico, o individualismo,
que se apresenta aqui da seguinte forma: “É inútil falar do interes-
se da comunidade quando não se compreende qual o interesse do
indivíduo” (BENTHAM, 1979, p. 4).
Seria absolutamente redundante e desnecessário repetir neste
exato ponto a extensa crítica dirigida ao atomismo social e ao
individualismo metodológico no Capítulo 2. Tendo sido a crítica
apresentada com minúcia antecipadamente, resta simplesmente
aplicá-la ao caso particular da filosofia utilitarista. Para isso, as
atenções devem ser concentradas em seu momento central: a ad-
missão das concepções inseparáveis do atomismo social e do in-
dividualismo metodológico é suficiente para caracterizar a teoria
em questão como uma teoria conservadora diante das estruturas
do mundo.
O conservadorismo inerente ao individualismo metodológico
manifesta-se concretamente na filosofia utilitarista no significado
normativo que esta filosofia atribui às relações sociais existentes.
Para destrinçar essa colocação, deve-se partir da observação do
acento ligeiramente diferenciado adquirido pela ética utilitarista,
quando observada desde a perspectiva social. No plano individu-
al, o utilitarismo prescreve uma moralidade centrada exclusiva-
mente na busca da utilização dos outros indivíduos e do mundo
211

João Leonardo Medeiros


natural como meios para a consecução da própria felicidade.12
Do ponto de vista da sociedade, no entanto, o comportamento
moralmente adequado seria aquele capaz de produzir um impac-
to positivo sobre a felicidade líquida agregada ou coletiva: o mo-
delo utilitarista “não é a maior felicidade do próprio agente, mas
a maior soma de felicidade conjunta” (MILL, 2000, p. 193 e 194).
Ao lado da nítida separação entre a moralidade individual e a éti-
ca, a consideração do princípio da utilidade no âmbito social enseja
o entendimento de que a sociedade “está ordenada de forma correta
e, portanto, justa, quando suas instituições mais importantes estão
planejadas de modo a conseguir o maior saldo líquido de satisfação
obtido a partir da soma das participações individuais de todos os
seus membros” (RAWLS, 1997, p. 25). Se, como entendem os econo-
mistas clássicos e os seus seguidores, o mercado constitui um meca-
nismo eficiente de transformação do conteúdo egoísta e autocentra-
do das ações humanas em bem-estar coletivo, então a sociedade que
se constrói a partir dele pode ser considerada correta e justa.13
Reforçando o último ponto, o mercado, que já havia sido descri-
to pela Economia Política como manifestação de uma suposta pro-
pensão a trocar inerente à natureza humana,14 passa a ser conside-
rado também intrinsecamente bom ou correto. Essa celebração do
mercado contribui, obviamente, para a naturalização da sociedade

12 Narealidade, o utilitarismo não exclui o comportamento “solidário”. Simplesmente


recusa-se a aceitá-lo como a conduta moral mais importante ou mesmo frequente.
Como coloca Stuart Mill: “a moralidade utilitarista efetivamente reconhece nos se-
res humanos o poder de sacrificar seus maiores bens pessoais pelo bem dos outros.
Apenas se recusa a admitir que o sacrifício em si mesmo seja um bem. Um sacrifício
que não aumenta nem tende a aumentar a soma total de felicidade é considerado
como um desperdício. A única autorrenúncia que essa moralidade aplaude é a devo-
ção à felicidade de outros ou a algumas das condições para tanto, quer se trate da
humanidade tomada coletivamente, quer dos indivíduos nos limites impostos pelos
interesses coletivos da humanidade.” (MILL, 2000, p. 202).
13 Veremos no Capítulo 12 que, na realidade, Bentham e Stuart Mill não admitem uma
conciliação imediata dos interesses individuais e coletivos pela ação do mecanismo
de mercado. Esses autores vão depositar suas fichas na superação do estranhamen-
to pela via legal e pela educação.
14 “Essadivisão do trabalho, da qual derivam tantas vantagens, não é, em sua origem,
o efeito de uma sabedoria humana qualquer, que preveria e visaria esta riqueza ge-
ral à qual dá origem. Ela é conseqüência necessária, embora muito lenta e gradual,
de uma certa tendência ou propensão existente na natureza humana que não tem
em vista essa utilidade extensa; ou seja: a propensão a intercambiar, permutar ou
trocar uma coisa pela outra”. “[E]ssa propensão encontra-se em todos os homens,
não se encontrando em nenhuma outra raça de animais, que não parecem conhecer
nem essa nem qualquer outra espécie de contatos.” (SMITH, 1985, p. 49).
212
A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

capitalista que, no utilitarismo, manifesta-se de modo peculiar: pelo


reconhecimento, mais uma vez acrítico, do caráter estranhado do ca-
pitalismo, que decorre precisamente de sua constituição mercantil.
Embora seja impossível aprofundar aqui a complexa questão do
estranhamento ou alienação, que tem ocupado inúmeros pensadores
desde seu enunciado nas primeiras obras de Marx, a indicação de
um de seus elementos centrais parece ser suficiente para esclarecer
a sua forma de expressão no utilitarismo.15 Trata-se do fato de que,
no modo de produção capitalista, que tem por pressupostos o alto
grau de desenvolvimento da divisão do trabalho e a predominância
da troca de mercadorias como mecanismo de circulação, os indiví-
duos relacionam-se entre si fundamentalmente como detentores de
mercadorias. Assim sendo, a sociabilidade aparece-lhes sob a forma
intangível – e estranhada – do mercado, isto é, como uma abstração
socialmente produzida.
A sociedade, portanto, aparece e efetivamente constitui-se como
um algo externo, estranhado, que atua sobre os indivíduos limitando o
escopo das práticas factíveis. Assim como ocorre com todo e qualquer
objeto externo e independente dos sujeitos, a única relação possível
destes com a sociedade é a apropriação em benefício próprio. Ou, em
poucas palavras: a exploração do homem pelo homem.16 Parece não
ser difícil perceber que essa separação entre o âmbito individual e a
sociabilidade, resultante de um longo desenvolvimento histórico que
finda por estabelecer uma configuração bastante peculiar das relações
sociais concretas, aparece no utilitarismo sob a forma esvaziada, intei-
ramente abstrata e atemporal de um critério único de relacionamen-
to social: a utilidade. Para colocá-lo de forma direta, a prescrição da
exploração das relações sociais existentes em benefício próprio, que
configura um moralismo acrítico (mas ontologicamente fundado) no
plano individual, possui como pressuposto lógico e ontológico uma
nítida naturalização da ordem social capitalista, que se assenta preci-
samente na ruptura entre o interesse individual e coletivo.
Para encerrar com uma ilustração representativa da naturalização
do capital envolvida no utilitarismo, vale a pena recorrer a Stuart Mill,

15 Sobrea complexa temática da alienação, conferir Mészáros (1986); Marx (2002);


Lukács (1984, Parte II Capítulo IV). Uma questão fundamental, mas inteiramente fora
do âmbito deste texto, refere-se à diferenciação, que alguns autores estabelecem,
entre as categorias da alienação e do estranhamento. Um boa referência para este
fecundo debate encontra-se no ensaio de Ranieri (2001).
16 Ver nota 5.
213

João Leonardo Medeiros


famoso economista e filósofo utilitarista que se julgou um dia adepto
do socialismo.17 Sem jamais questionar o porquê da existência de con-
flitos entre o interesse do indivíduo e da coletividade, o autor subverte
a história e apresenta a perda do sentido social da vida humana não
como um resultado contraditório do próprio progresso da sociedade,
mas, ao contrário, como uma característica distintiva de estágios so-
ciais primitivos… que seria superada pelo progresso político!

Todo o fortalecimento dos laços sociais e todo o crescimento


saudável da sociedade não somente dão a cada indivíduo um
intenso interesse pessoal em consultar, na prática, o bem-estar
dos outros, como também o leva a identificar seu sentimento
mais e mais com o bem deles, ou pelo menos com um grau
maior de consideração prática a respeito desse bem. O indi-
víduo toma, como que instintivamente, consciência de si mes-
mo como um ser que obviamente presta atenção nos outros.
[…] Esse modo de conceber a nós mesmos e à vida humana
apresenta-se cada vez mais a nossa percepção como algo na-
tural à medida que a civilização progride. Cada passo que se
dá em direção ao progresso político contribui para isso, remo-
vendo as fontes de oposição de interesses e pelo nivelamento
das desigualdades de privilégios legais entre os indivíduos ou
classes, em razão das quais há grandes setores da humanida-
de cuja felicidade ainda é possível negligenciar. (MILL, 2000, p.
226, grifo do autor)

17 Narealidade, Mill nutria uma simpatia pela indignação dos chamados socialistas
utópicos com as injustiças da sociedade capitalista e, no máximo, admitia o socia-
lismo como um ideal possivelmente realizável a longo prazo: “As considerações pre-
cedentes parecem suficientes para mostrar que uma renovação completa do tecido
social, tal como contempla o socialismo, que estabeleça a constituição econômica
da sociedade sobre uma base inteiramente nova, no lugar da propriedade privada e
da concorrência, por mais valiosa como ideal e mesmo como profecia das possibi-
lidades últimas, ainda não está disponível como recurso presente, já que exige dos
que deverão acionar a nova ordem de coisas qualidades tanto morais como intelec-
tuais que precisam ser testadas em todos e criadas na maioria; e isto não pode ser
feito por lei do Parlamento, porém, há de ser, na suposição mais favorável, traba-
lho para muito tempo” (MILL, 2001, p. 111). A questão da viabilidade do socialismo
como alternativa será objeto da Conclusão deste trabalho, de forma que as críticas
às proposições “socialistas” de Mill ficam adiadas para aquele momento. Por ora,
vale a pena destacar que, embora fosse contemporâneo de Marx e Engels, Mill apa-
rentemente fazia um esforço para ignorá-los, como indica a sua incrível façanha de
escrever sobre o socialismo em 1869 sem citá-los uma única vez.
214
A filosofia utilitarista como justificação ético-moral do capitalismo

Desde sua perspectiva burguesa, não poderia Stuart Mill, eviden-


temente, perceber que cada indivíduo tem em sua prática o interesse
em consultar o “bem-estar dos outros” porque os outros são o meio
da realização do seu bem-estar. Ou que o indivíduo concebe a si mes-
mo como alguém que “presta a atenção nos outros” porque os outros
estão necessariamente entre eles e a satisfação de suas necessida-
des. O que efetivamente é o retrato de uma sociedade conflituosa e
contraditória, na qual os sujeitos encaram-se reciprocamente como
instrumentos de realização pessoal, pareceu-lhe a emergência de um
congraçamento geral, politicamente determinado, entre os indiví­
duos. Um congraçamento que, a julgar pelo conteúdo das teorias do
bem-estar social que analisaremos no capítulo seguinte, só admite
membros da classe dominante.
10. A descoberta científica das mazelas sociais:
a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa

Antes de começar a expor o conteúdo específico das concepções


acerca do “bem-estar” social que se lançaram à esfera pública ainda
na primeira metade do século XIX, faz-se necessário esclarecer algu-
mas consequências teóricas e práticas, para este campo de pesquisa
particular, da consolidação do processo de articulação da filosofia
utilitarista com a ciência econômica, à qual aludimos no capítulo an-
terior.1 Há que se observar, de início, que a “fusão completa” do utili-
tarismo com a Economia implica que a separação entre o tratamento
das questões éticas e a análise científica da pobreza, desigualdade
e fenômenos afins funcione como uma mera divisão de tarefas rela-
cionada à edificação de uma doutrina conservadora. De um lado, o
utilitarismo define no plano ético-filosófico os valores destinados não
apenas a orientar a modelagem/administração da sociedade capita-
lista, mas também a servir de base para a sua avaliação. De outro, as
teorias econômicas do “bem-estar” social constituem-se como um re-
finamento científico das respostas da consciência burguesa aos pro-
blemas concretos, recorrentes e variados, de realização dos valores
emancipatórios no interior do capitalismo.
O destaque do termo “emancipatório” acima pretende chamar a
atenção para uma sutileza de máxima importância: rigorosamente fa-
lando, a filosofia utilitarista não contém em si qualquer significado
emancipatório, ao menos universal. Ocorre exatamente o contrário,
como tem sido recentemente admitido por renomados críticos libe-
rais. Numa época em que as condições de vida extremamente precá-
rias de segmentos bastante representativos da classe trabalhadora
contrastam com a riqueza suntuosamente infindável da classe capi-
talista, o utilitarismo apresenta-se como uma concepção que defende
uma administração racional da sociedade na direção da maximização

1 Segundo Marx e Engels (1980, p. 263), “encontra-se em [James] Mill a fusão completa
da teoria da utilidade e da economia política”.
216
A descoberta científica das mazelas sociais: a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa

do prazer agregado, sem necessariamente considerar as discrepân-


cias do prazer obtido por indivíduos provenientes das diferentes
classes sociais. Essa ausência de conteúdo emancipatório universal
do utilitarismo causa surpresa ao filósofo Rawls, que, como todo
filósofo liberal-conservador, não se interessa pelas conexões entre
as formas de consciência e os interesses de classe: “A característica
surpreendente da visão utilitarista da justiça reside no fato de que
não importa, exceto indiretamente, o modo como essa soma de sa-
tisfações se distribui entre os indivíduos […]” (RAWLS, 1997, p. 27).
Ao se compreender o utilitarismo como a interpretação burgue-
sa da sociedade capitalista, deixa de ser surpreendente que o seu
princípio básico (o princípio da maior felicidade) seja absolutamen-
te insensível diante da desigualdade entre as classes sociais. Como
indicado no capítulo anterior, o princípio da maior felicidade confi-
gura-se precisamente como instrumento eficiente de racionalização
e justificação das desigualdades inerentes ao capitalismo pelo cres-
cimento do intangível prazer líquido agregado. Vale ressaltar que o
único sentido em que o utilitarismo expressa um conteúdo emanci-
patório tem por referência as sociedades aristocratas e torna-se dé-
modé assim que o modo de produção capitalista predomina sobre as
formações econômicas precedentes: trata-se do igualitarismo formal
decorrente da atribuição de pesos idênticos a todos os indivíduos no
exercício de agregação destinado a gerar a utilidade social (ranking
pela soma). Nos termos de Sen (2001, p. 44):

a igualdade que o utilitarismo busca assume a forma do trata-


mento igual dos seres humanos no espaço de ganhos e perdas
de utilidades. Dá-se ênfase aos pesos iguais dos ganhos de utili-
dade de todas as pessoas na função objetivo utilitarista.

A eliminação dos privilégios aristocráticos e a dissolução das re-


lações servis e escravocratas fornecem à classe capitalista, durante
mais de um século, motivos bastante razoáveis para acreditar fiel-
mente que o valor da igualdade pudesse, enfim, se realizar com o
advento da ordem burguesa nos termos definidos pelo princípio da
utilidade. E, ainda mais, que a igualdade formal dos seres humanos
representaria a sua emancipação efetiva. No entanto, a gravidade
do quadro social encontrado nos países-eixo do capitalismo no sé-
culo XIX – quadro que compõe a “segunda história” da Revolução
217

João Leonardo Medeiros


Industrial – torna a suposta realização dessa igualdade específica
absolutamente irrelevante, a ponto de sua aberta celebração assu-
mir ares de um impassível cinismo facilmente desqualificável pela
própria consciência burguesa. Afinal de contas, em todo os lugares
do mundo “civilizado”, a burguesia experimentava na prática – seja
como capataz, cristão praticante ou vítima exasperada da crimina-
lidade – as consequências sociais da submissão de todas as esferas
da vida humana à ampliação irrestrita da mais-valia: a precarização
das condições gerais de trabalho, a queda dos salários, a miséria da
classe trabalhadora, a exploração de mulheres e crianças, a mendi-
cância, as greves, a violência urbana, a poluição das cidades, a degra-
dação das habitações e do ambiente familiar etc.
Diante de uma tal experiência – trágica para os trabalhadores,
mas no mínimo incômoda para a burguesia – como julgar emancipa-
tória uma simples proclamação nominal da igualdade? Mais especifi-
camente, diante das desigualdades reais (de classe) absolutamente
incontestáveis, como considerar suficiente uma igualação formal dos
indivíduos? Como negar a autenticidade dos efeitos sociais decor-
rentes do horror econômico, que pode ser definido como o caráter
progressivamente dispensável da maioria dos seres humanos para a
lógica econômica dominante na sociedade capitalista?
De fato, a burguesia não se quedou insensível com a tragédia so-
cial ao seu redor, não deixou de reconhecê-la e concebê-la ao seu
jeito. Está amplamente registrado na história da Revolução Industrial
inglesa, por exemplo, o fato de que as questões sobre a miséria da
classe trabalhadora, sobre as condições de trabalho, sobre a perti-
nência de um aparato público de filantropia etc. ocuparam todos os
âmbitos de discussão pública (livros, revistas, jornais, o Parlamento
etc.) e todas as classes sociais, incluindo-se a burguesia. É em meio a
esse debate público sobre as mazelas sociais que emergem as primei-
ras teorias econômicas sistemáticas sobre as mazelas sociais, como
a interpretação da ciência burguesa sobre tais questões. Dedicamos
este capítulo à análise dessas teorias que são nitidamente a forma
antecedente das concepções científicas do “bem-estar” que até hoje
estão em circulação. Na primeira seção, são apresentadas as bases
teóricas do argumento que atribui as mazelas sociais a problemas de
ordem moral. Na segunda, apresentamos as teorias que consideram
as deficiências de “bem-estar” social como consequências diretas e
intransponíveis da natureza humana.
218
A descoberta científica das mazelas sociais: a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa

10.1. Stuart Mill e as perversões do espírito humano: o horror


econômico entendido como um horror moral (e político)

Na escala em que se apresentavam os fenômenos que compuse-


ram a “segunda história” da Revolução Industrial, não havia realmen-
te a menor possibilidade de refutar o seu caráter objetivo e declarar
a emancipação dos seres humanos, objetivada pelo aumento da feli-
cidade geral e pela suposta realização do igualitarismo formal. Como
disse Hobsbawm (1994, p. 226), “[e]ntre 1815 e 1848, nenhum obser-
vador consciente podia negar que a situação dos trabalhadores po-
bres era assustadora. E já em 1840 esses observadores eram muitos
e advertiam que tal situação piorava cada vez mais”.
Não seria de se esperar, no entanto, que as raciocinações científi-
cas da classe capitalista a respeito dos efeitos do horror econômico
(a “segunda história” do capitalismo) partissem de outro ponto de
vista que não a própria interpretação burguesa de mundo, sobretu-
do em questões tão ameaçadoras para a legitimidade do status quo
quanto a deterioração das condições de vida das pessoas. Não sur-
preende, então, que a atmosfera de desconfiança em relação à capa-
cidade de universalizar os benefícios advindos da maximização da
felicidade geral não chegue a ameaçar, ao menos naquele primeiro
momento crítico, a posição central que a doutrina utilitarista havia
tão recentemente adquirido na visão de mundo burguesa.
Assim sendo, apesar de o utilitarismo não ser uma concepção éti-
ca emancipatória no sentido amplo do termo, a construção das teo-
rias econômicas destinadas a compreender, justificar e administrar
o fracasso da realização de valores emancipatórios circunscreve-se,
explícita ou veladamente, em seus marcos, como questões relativas
ao aumento da utilidade individual dos pobres. Mais especificamen-
te, todo problema da emancipação real (a eliminação das classes)
finda por dissolver-se e se concentrar na resposta a duas questões
análogas, relativamente simples: como compatibilizar o aumento do
prazer líquido geral com o aumento do prazer líquido dos menos pri-
vilegiados? Como aumentar a felicidade dos mais infelizes sem redu-
zir a felicidade dos mais felizes?2

2 No final do século XIX, como se indicará adiante, essas questões seriam sistema-
tizadas a partir do critério de julgamento da “eficiência” da sociedade capitalista,
conhecido como “critério de Pareto”.
219

João Leonardo Medeiros


O utilitarismo constitui, portanto, o elo teórico que estabelece
e sedimenta o contato entre as concepções econômicas do “bem-
-estar” social e a ontologia conservadora caracterizada pelo atomis-
mo social, pela naturalização do capital e pela reificação dos valores
emancipatórios (no caso, da igualdade). Todo esforço em revelar an-
tecipadamente essa conexão íntima do utilitarismo – a visão de mun-
do da classe capitalista – com as teorias econômicas do “bem-estar”
social possui um único intuito: indicar que, admitida a ontologia con-
servadora, ficam estabelecidos, a priori, não somente o conjunto de
questões pertinentes (basicamente as duas questões apontadas no
parágrafo anterior), mas, sobretudo, o limite teórico das respostas
aceitáveis.
Isso significa, para colocar sem rodeios, que o método empregado
e o escopo teórico das relações causais aduzidas são definidos antes
mesmo do início da investigação. Por exemplo, nenhuma formulação
teórica que, como a concepção marxiana, parta da análise das es-
truturas da sociedade capitalista e finde por indicar uma relação de
determinação da pobreza e da desigualdade pelo aprofundamento
da acumulação de capital pode ser admitida por princípio. Para per-
ceber o porquê, basta recordar as duas restrições decorrentes da in-
teligibilidade burguesa do mundo, o presentismo e o individualismo
metodológico, em sua forma particular de manifestação na filosofia
utilitarista.
A respeito do presentismo, deve-se ressaltar que o utilitarismo
reforça a naturalização do capital ao conferir um sentido normativo
bastante claro à sociedade estruturada sobre as relações mercantis:
sendo o mercado entendido como o mecanismo social capaz de trans-
formar os antagonismos privados em felicidade coletiva, a socieda-
de mercantil seria a ordenação social correta e justa. Se a sociedade
mercantil constitui a ordenação social correta e justa, então as causas
dos flagrantes problemas de “bem-estar” – o pouco prazer líquido de
(muitos) indivíduos – não podem possuir natureza estrutural, princi-
palmente relacionada à própria economia mercantil. Ao contrário, só
podem situar-se em instâncias externas ao mercado. Ademais, em con-
sequência do individualismo metodológico subjacente ao atomismo
social, as causas da pobreza (pouca felicidade) e da desigualdade (in-
felicidade relativa) teriam de ser reveladas, em última instância, no
plano individual. E isso não se altera mesmo quando o poder causal
é atribuído a instâncias naturais, como o crescimento populacional,
220
A descoberta científica das mazelas sociais: a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa

ou coletivas, como as debilidades administrativas do Estado – neste


último caso, tudo se resumiria à vontade política do governo, dos par-
tidos ou dos governantes.
Em síntese, impostas as duas restrições metodológicas acima, a
agenda de pesquisa das teorias econômicas do “bem-estar” social do
século XIX define-se como uma tentativa de explicar no plano indivi-
dual a “segunda história” da Revolução Industrial como o resultado
de um horror de natureza moral (pública ou privada) ou mesmo na-
tural, mas nunca efetivamente econômica. Talvez por esse motivo as
teorias econômicas da pobreza e da desigualdade não tenham cons-
tituído um corpo teórico bem definido no próprio século XIX, a des-
peito do número elevado de concepções em circulação e da impor-
tância histórica de algumas proposições particulares (como a teoria
malthusiana). De toda forma, é possível identificar, nas “explicações”
mais importantes e difundidas, os antecedentes de diagnósticos e
terapias adotados até os dias atuais, apesar de seu formato bastante
diferenciado e mais próximo da linguagem utilitarista.
Com essas últimas ressalvas, pode-se passar finalmente ao con-
teúdo específico das concepções econômicas do “bem-estar” social
relativas ao período de consolidação do modo de produção capitalis-
ta. Essas concepções podem ser reunidas em dois grandes grupos: as
análises que imputam as mazelas sociais a problemas de ordem moral
e as análises que consideram tais mazelas o resultado da operação
de legalidades naturais. Iniciando pelo caso em que os fenômenos da
pobreza e da desigualdade são apresentados como o resultado de
perversões da moral privada – caso que oferece uma ótima ilustra-
ção da genealogia das teorias atuais –, três são as causas usualmen-
te aduzidas: a baixíssima inclinação de indivíduos pouco afeitos aos
prazeres mais elevados da vida a buscar um maior prazer líquido; os
efeitos do excesso de egoísmo de determinados indivíduos sobre os
outros; a falta de espírito público, vontade política ou simplesmente
sensibilidade fraterna dos governantes.
De imediato, parece ser possível indicar, sem maiores conside-
rações, que, se os problemas de “bem-estar” de um conjunto não
desprezível de indivíduos (na realidade, a maioria) decorrem de ví-
cios morais, as soluções para estes problemas só poderiam estar na
constituição de um aparato institucional destinado, por um lado, à
repressão da moral pervertida e, por outro, à exortação da solidarie-
dade, da caridade etc. Três seriam, então, as terapias adequadas ao
221

João Leonardo Medeiros


diagnóstico da pobreza e da desigualdade como problema de nature-
za moral: a legislação, a filantropia e, sobretudo, a educação, que se
destacaria por servir a diferentes propósitos.
Para os indivíduos pouco afeitos aos prazeres mais elevados da
vida, o processo educacional seria um instrumento de sublimação
dos desejos (pelo aprimoramento de gostos e condutas) e de ade-
quação da moral individual à realidade econômico-social do capita-
lismo.3 Para as situações de egoísmo exacerbado ou puro e simples
desinteresse pela condição dos outros, a educação funcionaria como
um sucedâneo laico da formação religiosa, introjetando os valores
da solidariedade, da caridade e do amor ao próximo.4 Neste caso, a
educação reforçaria os efeitos da legislação – que deveria arbitrar os
conflitos de interesse, tomando por base o intuito de obter a maior
felicidade agregada – e da institucionalização da filantropia. Na expo-
sição sintética de Stuart Mill:

No preceito de ouro de Jesus de Nazaré [sic] encontramos


todo o espírito da ética da utilidade. Fazer aos outros o que
gostaria que lhe fizessem e amar ao próximo como a si mesmo
constituem a perfeição ideal da moralidade utilitarista. Para
nos aproximarmos o mais possível desse ideal, a utilidade re-
comendaria os meios que se seguem. Em primeiro lugar, que
as leis e os dispositivos sociais deveriam pôr o mais possível a
felicidade ou (como se poderia na prática chamá-lo) o interesse
de cada indivíduo em harmonia com os interesses do todo; e,
em segundo lugar, a educação e a opinião, as quais possuem um
poder tão avassalador sobre o caráter humano, deveriam usar
esse poder para estabelecer no espírito de cada indivíduo uma

3 Stuart Mill pode ser considerado o formulador paradigmático desse primeiro grupo
de concepções do “bem-estar”, razão pela qual o tomamos aqui como ilustração da
análise. Segundo este autor, o refinamento moral – necessário para transformar o
ser humano “inferior” num ser “superior” – se justificaria pela seguinte máxima: “É
melhor ser uma criatura humana insatisfeita do que um porco satisfeito; é melhor
ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E se o tolo ou o porco têm opinião
diversa, é porque conhecem apenas um lado da questão: o seu. A outra parte, em
compensação, conhece os dois lados.” (MILL, 2000, p. 191).
4 “Ora, se imaginarmos que esse sentimento de união possa ser ensinado como uma
religião, e que toda força da educação, das instituições e da opinião sejam orienta-
das para fazer que cada pessoa cresça, desde sua infância, como já ocorreu com a
religião, envolvida completamente pela profissão e prática desse sentimento, creio
que ninguém que possa se dar conta dessa concepção sinta apreensão pela suficiên-
cia da sanção última da moral da felicidade.” (MILL, 2000, p. 227).
222
A descoberta científica das mazelas sociais: a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa

associação indissolúvel entre sua própria felicidade e o bem


do todo, principalmente entre sua felicidade pessoal e a práti-
ca desses modos de conduta, negativos e positivos, conforme
prescritos pela felicidade universal. (MILL, 2000, p. 202 e 203)

No entendimento da pobreza e da desigualdade como problema


moral, torna-se patente um aspecto da inteligibilidade de mundo bur-
guesa, já destacado anteriormente: o reconhecimento inteiramente
acrítico dos antagonismos sociais realmente existentes. Como se
percebe na passagem acima, mesmo um filósofo e economista como
Stuart Mill – que, a despeito do tom pitoresco de suas colocações,
se distingue entre os pensadores burgueses de sua época pelo senso
crítico relativamente agudo – jamais se questiona a respeito do cará-
ter contingente das relações sociais que tornam os interesses indivi-
duais tão distantes e contraditórios a ponto de os próprios sujeitos
não se reconhecerem como membros de uma mesma comunidade.
Ao contrário, a divisão da humanidade em classes e as relações de
produção concernentes a esta divisão são abstraídas de qualquer
sentido histórico e apresentadas de maneira inteiramente naturali-
zada. Se, por um lado, os próprios antagonismos sociais oferecem o
fundamento ontológico das tentativas de resolvê-los mediante a me-
lhoria ou repressão da moral individual, por outro, a sua reificação
contribui para perpetuá-los… e as suas terríveis consequências: a
miséria, a desigualdade, a exploração do homem pelo homem e a
apropriação irrefreada da natureza.
Naturalizadas as relações de produção capitalistas e, portanto, as
diferenças entre as classes sociais, não resta à consciência burguesa
outra saída senão recorrer ao Estado – instância social supostamente
criada com o intuito de solucionar os conflitos de interesse entre as
classes – para tentar administrar os problemas da objetivação dos
valores emancipatórios (no presente caso, pela legislação, educação
ou organização da caridade pública). Ocorre, assim, na prática, uma
espécie de transferência de causalidade operada pela lógica a seguir.
A rigor, a pobreza e a desigualdade decorreriam de problemas morais
(ou naturais, tratados na sequência). Como a intervenção do Estado
poderia ao menos minimizar a ocorrência daqueles eventos, a sua per-
sistência ou ampliação só poderia dever-se à ineficiência, insuficiên­
cia ou incompetência da administração pública. Unindo as premissas,
deduz-se a “conclusão” de que a pobreza e a desigualdade seriam
223

João Leonardo Medeiros


“causadas” concretamente pelas falhas administrativas do Estado em
corrigir ou refrear as perversões da vida privada. Falhas essas que,
supõe-se, só poderiam decorrer da fraqueza moral dos governantes!

10.2. Malthus e a teoria do crescimento populacional:


o horror econômico entendido como um horror natural (e político)

Também as interpretações da pobreza e da desigualdade como re-


sultado de um horror natural findam por desdobrarem-se numa pro-
posta de remodelagem do aparato estatal, embora muito mais radical.
De fato, a reforma da administração pública era o propósito declara-
do da intervenção de Malthus, da qual decorre a mais bem-acabada e
difundida concepção científica da pobreza do século XIX: a teoria do
crescimento populacional. A respeito desta teoria, é preciso antes de
tudo apontar a imprecisão de seu enquadramento como uma tentati-
va de explicar a pobreza em termos exclusivamente naturais, isto é,
como consequência da operação de leis da natureza. Na realidade, a
teoria malthusiana mescla em seu corpo analítico componentes natu-
rais, proposições puramente morais (ligeiramente distintas daquelas
tratadas há pouco) e concepções de cunho socioeconômico.
A imprecisão, no entanto, não chega a configurar um equívoco
porque o caráter distintivo da teoria malthusiana encontra-se pre-
cisamente nas ilações produzidas a partir de supostas legalidades
naturais inexoráveis – algumas das quais relativas à natureza huma-
na. Isso fica claro, por exemplo, na apresentação dos postulados da
teoria realizada pelo próprio Malthus:

Penso que posso elaborar adequadamente dois postulados.


Primeiro: Que o alimento é necessário para a existência do ho-
mem. Segundo: Que a paixão entre os sexos é necessária e que
permanecerá aproximadamente em seu atual estágio. Essas
duas leis [sic], desde que nós tivemos qualquer conhecimento
da humanidade, evidenciam ter sido leis fixas de nossa nature-
za e, como nós nunca vimos até aqui nenhuma alteração nela,
não temos o direito de concluir que elas nunca deixarão de
existir como existem agora, sem um pronto ato de poder daque-
le Ser que primeiro ordenou o sistema do universo e que para
proveito de suas criaturas ainda faz, de acordo com leis fixas,
todas estas variadas operações [sic]. (MALTHUS, 1986, p. 281)
224
A descoberta científica das mazelas sociais: a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa

O referente teórico imediato da teoria malthusiana são reconhe-


cidamente as avaliações otimistas do crescimento populacional de
Condorcet, Paley e, sobretudo, Godwin, extraídas da aplicação direta
e rasteira do princípio da utilidade: “O mais incômodo para Malthus
é que Godwin e o arquidiácono Willian Paley argumentavam que uma
população que crescia era um bom sinal, pois significava mais feli-
cidade total.” (BUCHHOLZ, 2000, p. 63). Enquanto Godwin apressa-
-se em antever soluções para uma futura extinção da paixão sexual,
que adviria da melhora da condição humana, a preocupação central
de Malthus está em romper a vinculação direta do aumento da po-
pulação com a ampliação da felicidade agregada. Para isso, o autor
procura demonstrar que o crescimento populacional não possuiria
quaisquer outros efeitos concretos que não o inevitável aprofunda-
mento da miséria e do sofrimento das classes pobres e a redução do
padrão de vida das classes médias e abastadas. Como disse o próprio
Malthus (apud BUCHHOLZ, 2000, p. 65), dois anos antes da publica-
ção de seu tratado sobre o crescimento da população:

Eu não posso concordar com o arquidiácono Paley, que diz que


o nível de felicidade em qualquer país é mais bem medido pelo
número de pessoas […]. [A] população efetiva pode ser ape-
nas um sinal da felicidade que pertence ao passado.

É bastante conhecida a principal tese da teoria malthusiana da po-


breza: “A população, quando não controlada, cresce numa progressão
geométrica. Os meios de subsistência crescem apenas numa progres-
são aritmética.” (MALTHUS, 1986, p. 282).5 Segundo Malthus, a ten-
dência ao aumento uniforme da razão entre as taxas de crescimento
populacional e dos meios de subsistência resultaria, por um lado, do
irreprimível desejo sexual dos seres humanos e, por outro, do ritmo

5 Malthus procura amparar empiricamente suas colocações com os dados a respei-


to da economia norte-americana, que lhe haviam sido fornecidos por Benjamin
Franklin. Segundo Malthus, os Estados Unidos seriam um caso propício para com-
provar a principal tese porque as condições agrícolas eram bastante favoráveis e o
crescimento da população relativamente contido. Extrapolando suas conclusões da
economia norte-americana para o mundo: “Tomando a população do mundo como
qualquer número, 1 bilhão, por exemplo, a espécie humana cresceria na progressão
de 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512 etc. e os meios de subsistência na progressão de
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 etc. Em dois séculos e um quarto a população estaria, para os
meios de subsistência, na proporção de 512 para 10; em três séculos, de 4.096 para
13; em 2 mil anos a diferença seria quase incalculável, embora a produção nesse
período tivesse crescido em larga escala.” (MALTHUS, 1986, p. 284).
225

João Leonardo Medeiros


lento, gradualmente cíclico, da produtividade agrícola. O ritmo relati-
vamente lento da elevação da produtividade agrícola produziria uma
pressão constante sobre os preços dos meios de subsistência, que não
seria compensada proporcionalmente por um aumento dos salários,
tanto pela dificuldade de associação dos pobres, quanto pela facilida-
de de associação dos ricos. O resultado evidente seria uma redução
dos salários reais, que empurraria grande parte da classe trabalhadora
para a condição de miséria. Em síntese, a humanidade enfrentaria fre-
quentemente racionamentos e aumentos de preços ocasionados por
situações de escassez de alimentos, das quais decorreria a ampliação
da miséria, da fome etc.
Para compreender a teoria malthusiana em toda a sua extensão,
faz-se preciso estar atento para o detalhe de que a tendência ao au-
mento da razão entre a taxa de crescimento populacional e a produ-
tividade da terra afirmar-se-ia sob a forma de um ciclo ascendente.
Nas fases de prosperidade (marcadas pela alta produtividade e lucra-
tividade da agricultura e pela abundância relativa de alimentos), os
salários relativamente altos e as facilidades ocasionadas pela própria
produtividade elevada provocariam uma incitação da libido, sobretu-
do naqueles indivíduos pouco acostumados a prazeres de ordem su-
perior (isto é, os pobres). A incitação da libido, por sua vez, provoca-
ria um boom da taxa de crescimento da população. Parece lógico que,
admitidas as relações anteriores, não tardaria muito a surgir a cadeia
de determinações indicada no último parágrafo: escassez de alimen-
tos, aumento dos preços, queda dos salários reais, miséria e fome.
Finalmente, a passagem da fase de prosperidade à fase depressiva do
ciclo ocorreria porque os baixos salários e a consequente necessida-
de de trabalhar mais arduamente para sobreviver conteriam a libido
e fariam recuar a taxa de crescimento populacional até o ponto em
que os preços dos produtos agrícolas finalmente cedessem, estabele-
cendo as condições para uma nova fase de prosperidade.
A classe trabalhadora estaria, portanto, fadada a enfrentar um
estado de pobreza permanente, que oscilaria ciclicamente entre fa-
ses de maior e menor miséria, sofrimento, fome etc. Excluindo “os
costumes corruptos com relação às mulheres [sic], as grandes ci-
dades, as manufaturas insalubres, a intemperança, a peste e a guer-
ra” (MALTHUS, 1986, p. 302), a amplitude dos “ciclos da pobreza” –
isto é, a duração das fases de “prosperidade” (menos miséria) e de
226
A descoberta científica das mazelas sociais: a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa

depressão (mais miséria) – dependeria fundamentalmente de fatores


preventivos e positivos, assim descritos:

uma previsão das dificuldades em atender ao sustento de uma


família atua como um obstáculo preventivo; e a miséria efetiva
de algumas das classes mais pobres, em razão da qual estas
são incapazes de dar o alimento e os cuidados adequados para
seus filhos, atua como obstáculo positivo, impedindo o cresci-
mento da população (MALTHUS, 1986, p. 295).

Considerando que Malthus aparentemente não nutria a menor


esperança de convencer todo o populacho iletrado e ignorante da
impertinência de seu comportamento sexual compulsivo, a principal
forma de acelerar a passagem da fase depressiva do “ciclo da pobre-
za” à fase expansiva seria a ação do fator positivo. Este nada mais
significa senão a morte por inanição dos filhos dos trabalhadores po-
bres. Em seus termos:

Impedir o retorno da miséria está – infelizmente – além do po-


der do homem. No vão esforço de realizar o que na natureza
das coisas é impossível, sacrificamos hoje, não apenas os be-
nefícios possíveis, mas os benefícios mais seguros (MALTHUS,
1986, p. 303).

Sendo a miséria uma tragédia decorrente da superioridade das


leis da natureza humana sobre as leis da natureza propriamente dita,
qualquer tentativa de atenuá-la mediante a caridade (pública ou pri-
vada) acabaria por produzir um efeito oposto ao desejado. A carida-
de não só aumentaria o ócio e a imprevidência sexual dos pobres,
como pressionaria os salários à baixa, de tal forma que a fase depres-
siva do “ciclo da pobreza” seria mais duradoura e severa. Em outros
termos: quanto maior a caridade, maior o número de casamentos im-
prudentes e menores os salários reais; em consequência, maiores o
crescimento populacional e a miséria.
Tendo em vista essa conclusão, não parece ser difícil imaginar
a diretriz única da reforma da administração pública subjacente à
teoria malthusiana: a supressão de toda e qualquer forma de assis-
tência aos pobres ou de qualquer outro mecanismo semelhante que
impedisse a ação dos fatores preventivos e positivos de contenção
227

João Leonardo Medeiros


do crescimento da população (respectivamente, o medo de passar
fome e a mortalidade dos pobres). Para reforçar esse ponto com mais
uma passagem do autor:

O grau de prosperidade do povo não pode senão diminuir, quan-


do um dos mais fortes obstáculos ao ócio e ao desperdício é
então removido e quando os homens são levados a casar com
pouca ou nenhuma perspectiva de poder sustentar uma família
com independência. Todo obstáculo no caminho do casamento
deve ser considerado, sem dúvida, uma espécie de infelicidade.
Mas como pelas leis de nossa natureza deve haver algum obs-
táculo ao crescimento da população, é melhor que a população
seja controlada por uma previsão das dificuldades em se cuidar
de uma família e pelo medo da pobreza dependente, do que ser
estimulada apenas para ser contida, posteriormente, pela priva-
ção e pela doença. (MALTHUS, 1986, p. 301)

Assim como no caso em que a pobreza e a desigualdade são atribu-


ídas à perversão da moral privada, o seu diagnóstico a partir da ope-
ração de supostas legalidades naturais resolve-se, na prática, numa
espécie de transferência de causalidade ao Estado, sendo este exata-
mente o ponto de contato entre essas duas vertentes das concepções
burguesas das mazelas sociais articuladas já no início do século XIX.
Adaptando a lógica aplicada anteriormente ao argumento centrado
na moral, a transferência de causalidade funcionaria aqui da seguinte
forma. A miséria seria, a rigor, um resultado recorrente e inevitável
da operação de leis naturais. As tentativas do Estado de minorar esse
problema simplesmente findariam por agravá-lo. Como o problema se
apresenta em escala cada vez mais ampla, isso só poderia dever-se à
incompetência, à falta de visão de longo prazo ou, para usar um ana-
cronismo, ao impulso “populista” da administração pública.
Juntando todas as premissas, chega-se à conclusão de que as “cau-
sas” do aumento da pobreza e da desigualdade para além do nível
tolerável só poderiam estar na deficiência administrativa do Estado.
Aceitas as premissas e a dedução, conclui-se que a abolição de to-
das as assim chamadas políticas sociais do Estado (assistenciais ou
não) seria a única terapia adequada para minorar ou abreviar o so-
frimento do segmento mais desfavorecido da classe trabalhadora.
228
A descoberta científica das mazelas sociais: a burguesia diante dos horrores da sociedade burguesa

E, obviamente, para impedir que ele se generalizasse, atingindo as


classes abastadas.
Seria impertinente e redundante repetir aqui a minuciosa crítica
explanatória, realizada no Capítulo 8, da politicização dos problemas
decorrentes da natureza fraturada e antissocial dos sistemas sociais
fundados na divisão de classes e no monopólio dos meios de produ-
ção por uma classe específica. Em lugar de reapresentar o longo argu-
mento desenvolvido naquele capítulo, talvez seja mais interessante
e produtivo indicar brevemente algumas manifestações concretas da
incapacidade do Estado em objetivar os valores emancipatórios pela
aplicação de políticas baseadas nos diagnósticos acima.
Neste particular, não há nada mais representativo do que as inú-
meras tentativas de reforma do aparato administrativo por meio do
qual a Inglaterra (o caso clássico do capitalismo em todo o século
XIX) procurava enfrentar o problema da miséria crescente da classe
trabalhadora. Trata-se, para ser mais específico, das tentativas de re-
formulação das antiquíssimas Leis dos Pobres, que haviam sido ins-
tituídas no final do século XVI (em 1597-1598) com a finalidade inicial
de articular uma rede oficial de filantropia, centrada nas paróquias.
As Leis dos Pobres, numa apresentação ultrassintética, estabele-
ciam um programa de redistribuição configurado, de um lado, pelo
recolhimento de recursos advindos da taxa dos pobres e, de outro,
pelo seu provimento pelas paróquias aos idosos, doentes, crianças
pobres (órfãos ou não) e incapacitados ao trabalho, “quer através
de internação em asilos, quer através de um sistema de donativos,
combinados com programas locais de empregos públicos” (BURNS
et al., 1995, p. 561).6