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Compêndio de análise institucional e outras

correntes: teoria e prática


Gregorio F. Baremblitt

5ª.ed.
Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002 (Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Baremblitt, Gregorio F. (2002) Compêndio de análise institucional e outras


correntes: teoria e prática, 5ed., Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari
(Biblioteca Instituto Félix Guattari; 2)

Copyright 1992 by Gregorio Baremblitt 1 ª edição: Editora Record, 1992

SUMÁRIO 5

INTRODUÇÃO.............. 11
CAPÍTULO I: O movimento institucionalista, a auto-análise e a autogestão..............13
CAPÍTULO 11: Sociedades e instituições..............25
CAPÍTULO III: As histórias..............37
CAPÍTULO IV: O desejo e outros conceitos no institucionalismo..............53
CAPÍTULO V: As tendências mais conhecidas do institucionalismo..............71
CAPÍTULO VI: Roteiro para uma intervenção institucional padrão..............90
CAPÍTULO VII: O institucionalismo na atualidade..............108
GLOSSÁRIO..............133
APÊNDICE..............174
POST-SCRIPTUM..............195
BIBLIOGRAFIA BÁSICA..............205
BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA..............207
AGRADECIMENTOS

No referente à primeira edição deste livro, o autor dá


aqui testemunho de sua profunda gratidão: ao Dispositivo
Instituinte de Minas Gerais, Escola de Saúde Pública de
Minas Gerais, João Bosco Castro Teixeira, Cibele Ruas de
MeIo, Alfredo Martin e alunos do curso do qual o livro foi
uma versão.
Nesta quinta edição, o autor exprime seu
agradecimento à Margarete A. Amorim, que realizou
inúmeras tarefas que pos sibilitaram sua publicação e
distribuição, assim como à Luisella Ancis, que fez a tradução
de novos capítulos, Nina Rosa Magnani, que colaborou com a
revisão, e Luciana Tonelli, que fez a revisão final. O autor
também agradece aos membros e funcionários do Instituto
Félix Guattari de Belo Horizonte pelas diversas contri
buições. Todos eles aportaram sua ajuda generosamente.
O autor é grato a todos os amigos: professores universi tários,
pesquisadores, profissionais, estudantes e militantes da
autogestão que colaboraram na distribuição das diversas
edições deste escrito.

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INTRODUÇÃO

Este livro corresponde à versão escrita de um curso pro ferido em Belo Horizonte no
decorrer de 1990, organizado pelo Movimento Instituinte de Minas Gerais. Curso que, por sua vez,
foi requerido para atender ao crescente interesse pelo Movimento Institucionalista ou Instituinte no
Brasil e facilitar o acesso aos textos dos fundadores das diferentes correntes. Os seis primei ros
capítulos correspondem às seis aulas que compuseram o cur so, enquanto o último foi escrito como
artigo independente, ain da inédito.
O Movimento Institucionalista é um conjunto heterogê neo, heterológico e polimorfo de
orientações, entre as quais é possível se encontrar pelo menos uma característica comum: sua
aspiração a deflagrar, apoiar e aperfeiçoar os processos auto-ana líticos e autogestivos dos coletivos
sociais.
Essa vocação libertária, o estatuto epistemológico e jurí dico absolutamente singular e a
infinita variedade de tendências que compõem o Movimento tornam extremamente difícil a tare fa
de ensiná-lo. Se se deseja ser coerente com os valores do Mo vimento, sua Pedagogia exige uma
originalidade da qual já exis tem muitas tentativas, mas que, ao mesmo tempo, ainda está para ser
produzida.
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Este curso, proferido com uma metodologia tradicional, tem apenas o propósito de
aproximar os leitores das finalidades e recursos mais conhecidos e do panorama atual do
Institucionalismo. Mais informativo que formativo, foi inspira do pelo desejo de estender e facilitar
um saber e um fazer com plexo e arriscado, mas, no meu entender, importantíssimo para o povo
brasileiro.
Apesar da superficialidade e rapidez com que os densos temas são apresentados, acredito
que este livro seja estimulante, discretamente esclarecedor e ainda minimamente instrumental para
os futuros institucionalistas. Para quem decidir continuar, ou, sejamos realistas, começar
verdadeiramente sua formação nesta fascinante proposta, a bibliografia final, integrada predo
minantemente por textos em português e castelhano encontráveis no Brasil, proverá boa parte da
diretriz indispensável para tal fim.
Entre as escolas não-incluídas neste volume devido à sua proposta introdutória, devo
destacar as correntes latino-ameri canas de Pichón-Riéver, Bleger, Ulloa, Malfe, Bauleo, Kaminsky,
Pavlovsky, De Brasi, Matrajt, Scherzer e tantos outros aos quais me proponho a destinar, em algum
momento, um livro especial.
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Capítulo I
O MOVIMENTO INSTITUINTE, A AUTO-ANÁLISE E A AUTOGESTÃO

No início devemos esclarecer que esse livro não terá o nível que alguns esperariam, pois se
procura apresentar uma exposição de nível médio, para ser entendida pelo maior número possível
de pessoas.
Vamos tratar do chamado Movimento Institucionalista ou Instituinte que, como o nome
aproximativamente indica, é um conjunto de escolas, um leque de tendências. Não existe nenhuma
escola ou tendência que possa dizer que encarna plenamente o ideário do Movimento Instituinte.
Contudo, pode-se encontrar em diversas dessas escolas algumas características em comum. E é a
essas características em comum que eu gostaria de referir-me agora, da maneira mais simples e mais
didática possível. Em capítulos sucessivos, teremos ocasião de complicar as coisas... Agora, a
intenção é, predominantemente, simplificá-las.
Entre as características presentes em todas as tendências do Movimento Instituinte, há
algumas que são relativamente fáceis de se colocar. Eu diria que existe o que se chama de "ideais
máximos" do Movimento. Podemos chamar a isto também de
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propósitos mais importantes, os objetivos mais ambiciosos dessas escolas. Os mesmos podem ser
enunciados através de duas palavras aparentemente simples, mas que são, como veremos depois,
muito complexas.
As diferentes escolas do Movimento Instituinte se propõem a propiciar, apoiar e deflagrar
nas comunidades, nos coletivos e conjuntos de pessoas processos de auto-análise e de autogestão. O
que significam essas palavras?
Depois, compreenderemos com mais detalhes que os processos de interação humana, os
processos de funcionamento social, têm sido sempre muito complexos. Mas em nossa civilização
chamada industrial, capitalista ou tecnológica, a complexidade da vida social atingiu seu máximo
expoente em toda a história da humanidade. Se compararmos, por exemplo, uma organização social
dita "primitiva", ou uma organização imperial, despótica, ou uma medieval com a nossa sociedade
moderna, o grau de complexidade, de diversidade que as sociedades modernas atingem é
infinitamente superior ao daquelas civilizações, apesar delas não serem nada simples. Acontece,
então, que nossa época, nossa civilização, além de se caracterizar por uma grande diversidade, uma
grande complicação interna, caracteriza-se também por, de fato, ter produzido uma soma de saberes
que propiciou, nesses últimos duzentos anos, uma "evolução" maior do que a humanidade havia
conseguido em dois mil anos; ou seja, houve um processo de produção de conhecimento e de
aplicação do mesmo muito intenso.
Esse saber, como ninguém ignora, resultou em aplicações tecnológicas que aceleraram o
chamado "progresso" em igual proporção. E o progresso trouxe uma grande complexidade. Além
desses conhecimentos produzidos pelas ciências da natureza, ciências formais, aplicações
tecnológicas, existem disciplinas que versam sobre a organização social em si mesma. Ou seja,
nossa civilização tem produzido um saber acerca de seu próprio funcionamento como objeto de
estudo e tem gerado profissionais, intelectuais, experts que são os conhecedores dessa estrutura e do
processo dessa sociedade em si. Esses conhecedores têm-se colocado, em geral, a serviço das
entidades e das forças que são dominantes em nossa sociedade. Por exemplo, a serviço daquela
instituição que representa o máximo
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da concentração de poder, o extremo de concentração de controle e de hegemonia sobre a


sociedade, que é o Estado. Além disso, por outro lado, já dentro da sociedade civil, esses experts
têm-se colocado a serviço das grandes entidades proprietárias da riqueza, do poder, do saber e do
prestígio, que são as organizações corporativas, as empresas nacionais e multinacionais etc. Essa
situação, em que os "sábios", os conhecedores da estrutura e do processo da vida social estão
predominantemente a serviço do Estado e das empresas, tem tido como conseqüência que os povos
– em sentido amplo, a sociedade civil – têm-se visto despossuídos de um saber que tinham
acumulado através de muitos anos acerca de sua própria vida, de seu próprio funcionamento. Esse
saber, criado e acumulado pelas comunidades sociais durante tantos anos de experiência vital, a
partir do surgimento do saber científico e tecnológico, fica relegado, colocado em segundo plano,
como se fosse rudimentar e inadequado. Tanto é assim que temos técnicos que costumam chamá-lo
de ideologia, num sentido vago, geral, visando a qualificá-lo como um falso conhecimento, pobre,
infundado ou, no melhor dos casos, insuficiente. Então, as comunidades de cidadãos têm visto esse
saber subordinado ao saber dos experts. Junto com seu saber, elas têm perdido o controle sobre suas
próprias condições de vida, ficando alheias à espacidade de gerenciar sua própria existência. Elas
dependem, então, quase incondicionalmente, dos organismos do Estado, empresariais, do saber e de
serviços dos experts. E a quais experts refiro-me? Aos dos ramos produtivos, primários, secundários
e terciários, aos especialistas de produção de bens materiais, ou seja, comida, vestuário, moradia,
transporte: aqueles bens materiais indispensáveis à sobrevivência. Toda a produção desses bens está
dirigida, gerenciada por "especialistas". Mas noutro plano, refiro-me aos problemas de saúde, de
educação, aos assuntos familiares, aos psicológicos e subjetivos, em geral; às questões relativas ao
lazer, às que atingem a comunicação de massa, aos assuntos próprios da religião. Cada um desses
campos, cada um dos serviços que se prestam nessas áreas, os bens que se produzem e administram
nesses territórios, ou seja, sua quantidade, sua qualidade, sua necessidade, sua conveniência, tudo é
decidido pelos experts, é arbitrado por quem se supõe que saiba e conheça sobre o assunto. O
mesmo acontece no plano de administração da justiça, nos tribunais, com os

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advogados, despachantes, registros civis, leis: tudo isso feito por experts e administrado por eles. E
o que falar do exercício da força, no sentido literal, porque todas essas outras entidades também
usam da força, senão da força física, da força da persuasão, da força da sedução, mas o uso da força
física está reservado a organizações como a polícia, as forças armadas, que também têm seus
especialistas, oficiais, delegados, guardas etc. É claro que os experts conhecem e decidem
prevalentemente segundo os interesses das classes, níveis hierárquicos e grupos dominantes aos
quais pertencem parcialmente. Mas não se deve sempre supor uma intenção deliberada dos técnicos
nesse sentido. Acontece, como veremos, que seu saber em si mesmo já está produzido por
instrumentos e gera resultados que privilegiam os interesses e desejos citados.
Então, o que acontece?
Há um conceito básico que vamos ver depois, na Análise Institucional e em outras escolas
do Institucionalismo, que se chama demanda. É possível afirmar que as comunidades ou
coletividades têm necessidades básicas indiscutíveis e universais. Essas necessidades são colocadas
diariamente através de demandas espontâneas, através da exigência de produtos e de serviços
correspondentes. Essa idéia é uma das tantas que vai ser questionada pelo Institucionalismo, porque
ele vai tentar mostrar que em todas as épocas da história, mas particularmente na nossa, não existem
necessidades básicas "naturais"; não existem demandas "espontâneas", pois em todas e em cada
uma dessas organizações que acabamos de descrever, a noção das necessidades é produzida, assim
como a demanda é modulada; isto é, aquilo que os povos pensam que todos os membros de uma
população e todos os povos do mundo precisam como "mínimo" não existe. Esse "mínimo" é
gerado em cada sociedade e é diferente para cada segmento da mesma. Mas ainda dentro do
condicionamento histórico, as comunidades que têm alguma noção vivencial acerca de suas
necessidades a perdem, de modo que já não sabem mais do que precisam e não demandam o que
"realmente" aspiram, mas acham que necessitam daquilo que os experts dizem que elas necessitam
e acham que pedem o que querem e como querem, mas, na verdade, precisam, querem e pedem o
que lhes inculcam que devem necessitar, desejar e solicitar. É, então, muito evidente que nossos
coletivos estão,
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atualmente, nas mãos de um enorme exército de experts que acumulam o saber que lhes permite
fazer com o que as pessoas achem que precisam e solicitem aquilo que os experts dizem que
precisam e que os grupos e as classes dominantes lhes concedem. Então, os coletivos têm perdido,
têm alienado o saber acerca de sua própria vida, a noção de suas reais necessidades, de seus desejos,
de suas demandas, de suas limitações e das causas que determinam essas necessidades e essas
limitações. Eles têm perdido um certo grau de compreensão e o controle sobre que tipos de recursos
e formas de organização devem dispor para colocar e resolver seus problemas. Mal podem
organizar-se para resolver seus problemas se não conseguem saber, com precisão, quais são seus
verdadeiros problemas e o que se requer para resolvê-los.
Falei que poderíamos enunciar dois objetivos básicos do Institucionalismo, um deles seria a
auto-análise e o outro a autogestão. Agora já podemos explicar um pouco melhor em que consistiria
o primeiro deles. A auto-análise consiste em que as comunidades mesmas, como protagonistas de
seus problemas, necessidades, interesses, desejos e demandas, possam enunciar, compreender,
adquirir ou readquirir um pensamento e um vocabulário próprio que lhes permita saber acerca de
sua vida, ou seja: não se trata de que alguém venha de fora ou de cima para dizer-lhes quem são, o
que podem, o que sabem, o que devem pedir e o que podem ou não conseguir. Este processo de
auto-análise das comunidades é simultâneo ao processo de auto-organização, em que a comunidade
se articula, se institucionaliza, se organiza para construir os dispositivos necessários para produzir,
ela mesma, ou para conseguir os recursos de que precisa para a manutenção e o melhoramento de
sua vida sobre a terra. Na medida em que essa organização é conseqüência e, ao mesmo tempo, um
movimento paralelo com a compreensão dada pela auto-análise, ela também não é feita de cima
para baixo, nem de fora, mas elaborada no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. Essa
auto-análise e essa autogestão não significam necessariamente que os coletivos devam prescindir
por completo dos experts porque, sem dúvida, com sua disciplina e seus instrumentos, eles têm
acumulada uma quantidade de conhecimento importante e não inteiramente alienado, não
necessariamente distorcido, ou seja: produtivo. Mas os experts
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devem submeter seu saber, suas glórias, seus métodos, suas técnicas, suas inserções sociais como
profissionais a uma profunda crítica que os faça separar, dentro dessas teorias, métodos e técnicas,
dentro dos organismos aos quais pertencem, o que é produto de sua origem, de sua pertença ao
bloco dominante das forças sociais e o que pode ser útil a uma auto-análise, a uma auto gestão, da
qual os segmentos dominados e explorados sejam protagonistas. Para poderem efetuar essa
autocrítica, os experts não podem fazê-lo no seio de suas torres de marfim, não podem fazê-lo nas
academias ou exclusivamente nos laboratórios experimentais. Eles têm que entrar em contato direto
com esses coletivos que estão se auto-analisando e autogestionando para incorporar-se a essas
comunidades desde um estatuto diferente daquele que tinham. Esse estatuto deve resultar de uma
crítica das posições, postos, hierarquias que eles têm dentro dos aparelhos acadêmicos ou jurídico-
políticos do Estado, ou ainda das diretivas das grandes empresas nacionais e multinacionais. Eles
têm de reformular sua condição profissional, seu saber específico. E só conseguirão reformulá-los
numa gestão, num trabalho feito em conjunto com essas comunidades e na mesma relação de
horizontalidade com que qualquer membro dessa comunidade o faz. Isso permitirá que,
eventualmente, os experts, quando a comunidade conseguir organizar-se, tenham algum lugar
dentro das organizações específicas que a comunidade se deu a si mesma para esses fins. Então seu
saber, sua capacidade e sua potência produtiva estarão plenamente integrados ao movimento de
auto-análise e auto gestão dessa comunidade. Eles poderão assim reformular, aprendendo e
ensinando seu saber e sua eficiência nessa nova e inédita situação. À parte dessa reinvenção de sua
disciplina, os experts poderão aprender como eles serão capazes de propiciar outros movimentos
autogestivos e auto-analíticos quando forem chamados a participar.
Esta é uma explicação sucinta dos propósitos fundamentais do Movimento Institucionalista
que são sistematicamente compartilhados por todas as tendências que o integram. Ao mesmo tempo
em que são os objetivos principais das propostas instituintes, eles são também os próprios meios
para realizá-las. Por isso, é importante que esses dois objetivos e meios sejam não apenas
superficial, mas profundamente conhecidos pelos leitores.
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É óbvio que autogestão e auto-análise são dois processos simultâneos e articulados. Por quê?
Porque auto-análise, para as comunidades, significa a produção de um saber, do conhecimento
acerca de seus problemas, de suas condições de vida, suas necessidades, demandas etc., e também
de seus recursos. Mas até para que a auto-análise seja praticada pelas comunidades, elas têm que
construir um dispositivo no seio do qual essa produção seja realizável. Elas têm que organizar-se
em grupos de discussão, em assembléias; elas têm que chamar experts aliados para colaborarem;
elas têm que se dar condições para produzir esse saber e para desmistificar o saber dominante. Ao
mesmo tempo, tudo o que elas descobrirem neste processo de auto-conhecimento só terá uma
finalidade: a de auto-organizar-se para que possam operar as forças destinadas a transformar suas
condições de existência, a resolver seus problemas. Mas não pode haver uma organização sem um
saber; não pode haver um saber sem uma organização. São dois processos diferenciados, mas eles
são concomitantes, simultâneos, articulados.
Costuma-se crer que os processos autogestivos implicam uma falta completa de
denominações, hierarquias, quadros, especificidades etc. Na realidade, é difícil pensar qualquer
processo organizativo que não inclua uma certa divisão do trabalho e que não implique uma certa
hierarquia de decisão, de deliberação. Esses são funcionamentos inerentes a qualquer processo
produtivo. Deverão, então, existir hierarquias, gerências. Mas a existência de hierarquia não implica
diferença de poder; não equivale a privilégio ou arbitrariedade na capacidade de decidir. Implica
apenas uma certa especialização em algumas tarefas, porque estes dispositivos estão feitos de tal
maneira que as decisões de fundo são tomadas coletivamente. Em todo caso, os quadros
hierárquicos não são mais que expressão da vontade consensual. São executores. Mas não são
executores do mandato das elites mediatizado por organismos burocráticos, por correias de
transmissão. Na autogestão os coletivos mesmos deliberam e decidem. Eles têm maneiras diretas de
comunicar as decisões. Existem hierarquias moduladas pela potência, peculiaridades e capacidade
de produzir; mas não há hierarquias de poder, ou seja, a capacidade de impor a vontade de um sobre
o outro.
Contudo, é evidente que o Institucionalismo, tanto quanto os processos auto-analíticos, são
produtores de conhecimentos,
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e que todo saber envolve, necessariamente, um poder, e ambos não são homogeneamente
distribuídos. Mas este saber é um saber coletivo, produzido, distribuído e exercitado na vida
coletiva. Na topografia deste saber, existem alguns elementos essenciais que são compartilhados por
todo mundo. Então, quando esse saber compartilhado é delegado a alguns que se especializam nessa
questão, já não é um saber produzido fora dos interesses e desejos do coletivo, já não é um saber
que vai cair de cima para baixo, de fora para dentro. É já uma delegação, porque foi produzido
dentro, por alguns especialistas no assunto, em estreita colaboração com os diretamente interessados
nos benefícios que esse saber e suas aplicações terão, uma vez realizados.
Isso garante que esses especialistas são verdadeiramente "especiais": delega-se a eles um
saber que é a expressão dos interesses e das capacidades essenciais do coletivo. O coletivo conserva
um saber básico acerca de seu campo que lhe permite julgar quando o especialista está exercitando
o seu poder com sentido instituinte-organizante, e então a serviço do coletivo, ou, pelo contrário, de
ambições de segmentos individualistas etc. Vou dar um típico exemplo da medicina, embora haja
mil exemplos, muitos dos quais não poderemos mencionar aqui porque são muito complexos e
extensos para expor. Quem conhece a situação da saúde no Brasil sabe perfeitamente que nosso país
não precisa prioritariamente de, digamos, tomógrafos computadorizados, pelo menos a nível de sua
problemática prevalente atual. O que o Brasil precisa é de uma política de saúde que não começa
nem acaba no campo da medicina. Seus problemas, que têm efeitos médicos, têm suas causas
diretas nos problemas de habitação, alimentação, vestuário e saneamento básico. Disso todos os
experts sabem, o que não impede que a ênfase da política de saúde no Brasil esteja colocada na
assistência e não na prevenção, principalmente se por prevenção entende se algo que modifique
radicalmente as condições de vida da população. Entretanto, há muitos centros paulistas e cariocas
que se orgulham de ter os mais modernos aparelhos para resolver ou diagnosticar uma problemática
altamente específica, circunscrita, que afeta 0,5% da população. Acontece que o povo, as
organizações de base, não podem questionar de maneira eficiente as políticas médicas do Brasil
porque a primeira coisa
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que lhes seria respondida é que não sabem. Mas o que acontece quando o coletivo revitaliza seu
saber, revaloriza o saber espontâneo que ele tem acerca do que precisa? Os índios têm, as
comunidades negras têm, as comunidades das montanhas têm, as comunidades da planície têm, todo
mundo tem um saber espontâneo acerca de quais são os sofrimentos, quais são as enfermidades e
como devem ser tratadas, pelo menos, basicamente. Assim, também eles sabem quais problemas
devem ser abordados – mesmo que não se exprimam em sofrimento, ou quando o sofrimento ainda
não tenha se tornado doença, não devendo ser tratado como tal. Desde logo este saber também
desconhece muita coisa, mas isso não pode afirmar-se a priori. Só que esse saber é
permanentemente desqualificado pelo saber acadêmico, que atua predominantemente a serviço de
interesses estatais, nacionais e multinacionais dominantes – um saber consubstancial com esses
interesses.
A primeira operação que as comunidades devem fazer é recuperar, revalorizar o saber espontâneo
que elas têm sobre seus problemas; a segunda operação deve ser feita em conjunto com os experts,
ajudando-os a criticar essa orientação – essa medula dominante reacionária-que o saber médico
(nesse caso) e suas técnicas têm. Sobretudo em termos de hierarquização de prioridades: o que vem
primeiro e o que vem depois, o que é prioritário e o que é secundário. Uma vez que o expert,
integrado à comunidade, demonstra a capacidade de contribuir, em pé de igualdade, para este
trabalho de reformulação, pode-se delegar a ele algumas áreas do saber com menos perigo de que
ele o transforme em poder, e não numa potência de colaboração com o coletivo. Nesse caso, o
coletivo já não está desqualificado – ele sabe julgar o que se faz e o que se acha que se sabe. Isso
não descarta que possam acontecer novamente problemas de concentração de saber e de poder,
porque este processo de auto-conhecimento e autogestão é interminável. Provavelmente, haverá
necessidade de muitas gerações autogestivas e auto-analíticas para que o processo possa exercitar-se
em sua plenitude. Se bem que este caminhar está orientado por uma Utopia Ativa que não está
colocada num futuro longínquo, senão em cada ato do cotidiano. Como já dissemos, existiram e
existem numerosas tentativas auto-analíticas e autogestivas que não apresentam o caráter purista
que a gente pode imaginar em sentido abstrato. Por exemplo, as comunidades
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eclesiásticas de base: pode-se dizer que têm um espírito institucionalista complexamente integrado a
aspectos libertários do Cristianismo, embora limitados pelos processos burocráticos da Igreja
Católica. Isso abre um tema que eu teria gostado de tratar neste primeiro capítulo, mas acho que vai
complicar um pouco as coisas, porque eu queria enfatizar os conceitos essenciais básicos. Mas,
enfim, em que consiste o tema aqui levantado? O Movimento Institucionalista reconhece uma
gênese histórico -social e uma gênese conceitual. A primeira é a história de todas as tentativas que
houve na história da humanidade e as que hoje existem e exercitam um Institucionalismo
espontâneo. Um desses movimentos é o das comunidades eclesiásticas de base no Brasil e em
outros países. Mas muitas iniciativas autogestivas já existiram, existem e vão existir, e não precisam
do Institucionalismo para se desenvolverem. O Institucionalismo é alguma coisa assim como o
resultado do ensinamento dessas iniciativas históricas sobre os próprios experts. Nós, os experts –
médicos, engenheiros, advogados, comunicólogos, psicólogos etc –, temos aprendido que isso
existe e que poderíamos colaborar para seu desenvolvimento a partir das experiências históricas que
já existiram neste sentido e das que estão existindo e se desenvolvem perfeitamente ou dificilmente
sem a nossa participação. Por outro lado, a gênese conceitual refere-se ao campo das idéias,
conceitos e funções: todas aquelas teorias, conceitos, idéias, categorias que têm sido produzidas
pela humanidade no decorrer da história do conhecimento e podem contribuir para dar base, para
fundamentar a proposta institucionalista.
Agora, gostaria de referir-me à última questão, muito importante. Os leitores
compreenderão que esses processos auto -analíticos e autogestivos se dão em condições altamente
desfavoráveis, severamente contraproducentes. Por quê? Naturalmente porque os coletivos em
questão não são donos do saber, não são donos da riqueza, não são donos dos recursos que são
propriedade e servem ao poder dos organismos e entidades de classe alta e grupos dominantes.
Então, a consecução dos objetivos tem graves impedimentos que vão desde a privação de recursos
(que são propriedade a serviço do poder dos organismos e entidades de classe dominante) até a
morte física repressiva. Esses processos autogestivos e auto-analíticos são, para a
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organização do sistema, um câncer, uma peste. Não há nada que seja mais temido e mais odiado
pelo sistema social, porque os movimentos instituintes têm esse intuito: que os coletivos presidam a
definição de problemas, a invenção de soluções, a colocação dos limites do que é possível, do que é
impossível e do que é virtual, o que normalmente é feito pelas instituições, organizações e saberes
de grupos e outros segmentos dominantes. Por isso a autogestão não é tarefa fácil: a prova está em
que as iniciativas auto-analíticas e autogestivas não se caracterizam por seu sucesso. Elas têm
aparecido muitas vezes na história e muitas vezes têm sido destruídas ou sufocadas. E as que hoje
insistem em existir lutam duramente contra um conjunto de imensas forças históricas que tentam
destruí-las. E quando não conseguem eliminá-las, tentam recuperá-las, incorporá-las. Isso faz com
que os objetivos últimos do Institucionalismo – a auto-análise e a autogestão – não sejam atingidos
nunca de forma definitiva. Eles são atingidos sempre na base da tentativa, do ensaio, da procura.
Em geral têm maiores ou menores graus de fracasso. Mas isso não quer dizer que não sejam
possíveis ou inventáveis. Então, esta última afirmação que faço refere-se ao seguinte: as diferentes
escolas do Institucionalismo se distinguem entre si pelas teorias, pelos métodos, pelas técnicas com
que elas tentam introduzir estes objetivos últimos, e pelo grau de realização com o qual se
conformam. Quer dizer: há correntes, escolas" maximalistas", que buscam a instalação plena da
autogestão e da auto-análise. Há outras que se satisfazem com a introdução relativa de alguns
mecanismos, de alguns espaços, de alguns temas de auto-análise e autogestão. Ou seja, no
Institucionalismo, como na política, existem correntes reformistas e existem correntes ultra-
revolucionárias. De qualquer maneira, nada disso impede que as agrupemos em torno desses dois
objetivos e recursos. Eles as diferenciam claramente da enorme maioria das propostas políticas,
tanto das extremistas quanto das propostas social-democráticas. Provavelmente a tendência política
tradicional que mais se aproxima das propostas institucionalistas, e com a qual o Institucionalismo
está mais que em dívida, seja a de certas orientações do anarquismo.
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO I


1) Por que o Institucionalismo é um movimento e não uma ciência, uma disciplina ou uma
tecnologia?
2) O que aconteceu com o saber e o saber-fazer que as comunidades primitivas ou os povos e
grupos leigos em geral produziram e acumularam durante sua experiência de vida?
3) O que significa" divisão social e técnica do trabalho e do saber", e por que se diz que as ciências,
as disciplinas e seus experts estão em geral a serviço das classes e grupos dominantes?
4) Existem "necessidades mínimas naturais" cuja satisfação é demandada pelas populações, ou é a
oferta de bens e serviços que produz certas necessidades e desejos (e não outros) e modula as
demandas?
5) O que significa auto-análise e autogestão?
24 ▲
Capítulo II
SOCIEDADES E INSTITUIÇÕES

O Institucionalismo, à sua maneira, tem uma concepção própria do que é a Sociedade e do


que é a História, a Sociedade como forma organizada de associação humana e a História como o
devir da Sociedade no tempo. O Institucionalismo, sem considerar no momento as diferenças
doutrinárias de escola para escola, afirma que a sociedade é uma rede, um tecido de instituições. E
que são as instituições?
As instituições são lógicas, são árvores de composições lógicas que, segundo a forma e o
grau de formalização que adotem, podem ser leis, podem ser normas e, quando não estão
enunciadas de maneira manifesta, podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos. Alguns
autores sustentam que leis, normas e costumes são objetificações de valores. As leis, em geral, estão
escritas; as normas e os códigos também. Mas uma instituição não necessita de tal formalização por
escrito: as sociedades ágrafas também têm códigos, só que eles são transmitidos verbal ou
praticamente, não figurando em nenhum documento.
O que essas lógicas significam? Significam a regulação de uma atividade humana,
caracterizam uma atividade humana e se pronunciam valorativamente com respeito a ela,
esclarecendo
25 ▲
o que deve ser, o que está prescrito, e o que não deve ser, isto é, o que está proscrito, assim corno o
que é indiferente. Essas lógicas, esses corpos discriminativos, são vários, e é curioso que os
institucionalistas têm dificuldades para chegar a um acordo acerca de quais e quantos são.
Vamos examinar algumas ilustrações mais ou menos indiscutíveis. Um exemplo de urna instituição:
a instituição da' linguagem. Ela caberia nesta definição que formatamos quando a pensamos em
termos gramaticais. A gramática não é nada mais que um conjunto de leis, de normas que regem a
combinatória de elementos fônicos, de unidades de significação na linguagem. Com a combinação
desses elementos, conforme indicado por essas leis, pode construir-se um infinito número de
mensagens, de tal modo que estas mensagens são compreensíveis para qualquer falante ou ouvinte
dessa língua. Então, corno se pode ver, no final das contas, urna gramática é urna instituição que
explicita as opções de acordo com as quais se vão produzir mensagens, consideradas gramaticais ou
agramaticais, os prescritos ou os proscritos. É claro que, no caso da língua, não estarão estipulados
também os prêmios e os castigos para quem usa de forma correta ou incorreta a língua, que é o que
acontece em outros tipos de instituição. Mas o preço de seu desconhecimento ou transgressão é
óbvio: a incomunicabilidade dentro do universo humano, pelo menos dentro desse universo humano
em particular.
Outro exemplo são as instituições de regulamentação do parentesco, as que definem os lugares tais
corno: pai, mãe, filho, nora, genro etc. Elas são as que prescrevem entre quais membros dessa
classificação podem se dar uniões, entre quais membros não podem se dar uniões e que tipo, que
característica de vínculo. de descendência e aliança relaciona cada uma destas posições com a outra.
Isso também é um código que, formalizado ou não, regula a relação de parentesco e tem prescrições
– o que é indicado; e também proscrições – o que é proibido; assim como o que é indiferente ou não
abrangido por essa lógica. Outra instituição pouco discutível entre os institucionalistas é a da
divisão do trabalho humano. O trabalho humano está dividido segundo os momentos e as
especificidades de cada tipo de produção e tarefa (divisão técnica). Mas, por outro lado, essa divisão
vem acompanhada de urna hierarquia que institui diferenças de poder,
26 ▲

prestígio e lucro – não necessariamente justificadas pela importância produtiva daqueles que detêm
esses lugares (divisão social). Por exemplo: trabalho manual e intelectual, do campo e da cidade,
assalariados e autônomos, feminino e masculino etc.
Há também as instituições da educação, isto é, aquelas leis, normas e pautas que prescrevem
corno se deve socializar, instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa
integrar-se à mesma com suas características efetivas.
Ternos também a instituição da religião, que é a que regula as relações do homem com a
divindade, divindade sobrenatural para uns ou imanente à vida terrena para outros, mas com
respeito à qual existe toda urna série de comportamentos indicados e toda urna série de
comportamentos contra-indicados.
Ternos também as instituições de justiça, as instituições da administração da força, e assim
por diante. Em um plano formal, urna sociedade não é mais que isso: um tecido de instituições que
se interpenetram e se articulam entre si para regular a produção e a reprodução da vida humana
sobre a terra e a relação entre os homens. Agora, entendidas assim, as instituições são entidades
abstratas, por mais que possam estar registra das em escritos ou conservadas em tradições.
Para vigorar, para cumprir sua função de regulação da vida humana, as instituições têm de
realizar-se, têm de "materializar-se". E em que elas se materializam? Em dispositivos concretos que
são as organizações. As organizações, então, são formas materiais muito variadas que compreendem
desde um grande complexo organizacional tal como um ministério Ministério da Educação,
Ministério da Justiça, Ministério da Fazenda etc. – até um pequeno estabelecimento. Ou seja, as
organizações são grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que concretizam as opções
que as instituições distribuem e enunciam. Isto é, as instituições não teriam vida, não teriam
realidade social senão através das organizações. Mas as organizações não teriam sentido, não teriam
objetivo, não teriam direção se não estivessem informadas como estão, pelas instituições.
Por sua vez, urna organização (que, como insisti, costuma ser um complexo grande, vultoso)
está composta de unidades menores. Estas são de naturezas muito diversas e é difícil enunciá-las
todas. Mas, pelo menos, há algumas que são muito
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características, como, por exemplo, os estabelecimentos. Estabelecimentos seriam as escolas, um
convento, uma fábrica, uma loja, um banco, um quartel. Há diversos tipos de estabelecimentos, de
características muito diferentes. Mas é um conjunto de estabelecimentos o que integra uma
organização.
Os estabelecimentos, em geral, incluem dispositivos técnicos cujos exemplos mais básicos
são a maquinaria, as instalações, arquivos, aparelhos. Isso recebe o nome de equipamento. O
equipamento pode ter uma realidade material que coincide com o estabelecimento, ou seja, as
máquinas de um estabelecimento – ou pode ter uma realidade muito mais ampla, de maneira que
forme um grande sistema de máquinas, um grande equipamento. Isso é o que acontece,
suponhamos, com os equipamentos das organizações da comunicação de massa, que, por sua vez,
são organizações que realizam as prescrições de uma grande instituição que é a instituição da
Comunicação Social.
Instituição – Organização – Estabelecimento – Equipamento. Tudo isso, naturalmente, só adquire
dinamismo através dos agentes. Nada disso se mobiliza, nada disso pode operar senão através dos
agentes. Os agentes são "seres humanos", são os suportes e os protagonistas de toda essa
parafernália. E os agentes protagonizam práticas. Práticas que podem ser verbais, não-verbais,
discursivas ou não, práticas teóricas, práticas técnicas, práticas cotidianas ou inespecíficas. Mas é
nas ações que toda essa parafernália acaba por operar transformações na realidade. Então, estas
unidades (instituição – organização – estabelecimento – equipamento – agente – práticas) não
podem ser confundidas. Mas, infelizmente, com freqüência isso ocorre. E não são confundidas
apenas pelos leigos, mas também pelos institucionalistas. Então, quando se estuda uma escola
institucionalista, esta escola pode chamar de instituição às organizações; de organização a um
estabelecimento. Isso não é nada recomendável porque a primeira coisa a se fazer para se entender
este complexo panorama é criar uma nomenclatura mais ou menos universal e compartilhada. A que
proponho aqui é a que grande parte dos institucionalistas aceita.
Isso não é apenas o exercício de um desafio, mas algo importante. Se começamos a dizer,
por exemplo, que essa escola é uma instituição, o assunto se complica, pois essa escola não é
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uma instituição, e sim um estabelecimento que faz parte de urna grande organização –
provavelmente do Ministério da Educação, que, por sua vez, realiza uma grande instituição: a
instituição da Educação, que é uma lógica, uma série de prescrições ou leis.
Em uma instituição podem-se distinguir duas vertentes importantes. Uma é a vertente do
instituinte, e outra a do instituído. Apesar de as origens das instituições serem muito difíceis de se
determinar – ou seja, fazer a história de uma instituição, particularmente a de seu começo, é urna
tarefa às vezes impossível, corno se costuma dizer, "perde-se no começo dos tempos". Inclusive há
muitas instituições, como a instituição da língua, das relações de parentesco, da religião e da divisão
do trabalho, das quais não se pode dizer qual veio primeiro e qual veio depois. Mas podemos
afirmar que para uma sociedade humana existir é preciso haver no mínimo essas quatro instituições
humanas, ou seja, humanidade é sinônimo de coletivo regido por essas instituições, e essas
instituições são sinônimo de existência de um coletivo humano. Então, é difícil saber como eram os
coletivos antes que aparecessem essas instituições. É o mesmo que perguntar como era o homem
antes de ser homem, pelo menos como o entendemos. Então, situar a origem dessas instituições é
muito difícil. Só se pode dizer que uma instituição supõe outra, precisa da outra, e o seu conjunto é
o que constitui uma civilização ou uma sociedade humana. Agora, se freqüentemente não se pode
dizer como essas grandes instituições começaram, sem dúvida se pode distinguir nelas uma
potência, um movimento de transformação constante que tende a modificar, a operar mutações nas
suas características. Em poucas ocasiões privilegiadas pode-se assistir historicamente ao nascimento
de uma grande instituição. Mas, em geral, não é isso o que acontece. O que se pode presenciar são
grandes momentos históricos de revolução de uma instituição, de profundas transformações de urna
instituição. Então, a esses momentos de transformação institucional, a essas forças que tendem a
transformar as instituições ou também a estas forças que tendem a fundá-las (quando ainda não
existem), a isso se chama o instituinte, forças instituintes. São as forças produtivas de lógicas
institucionais.
Este grande momento inicial do processo constante de produção, de criação de instituições,
tem um produto, geram
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um resultado, e este é o instituído. O instituído é o efeito da atividade instituinte. Se vocês
prestarem atenção a esses nomes, eles mesmos já estão dizendo alguma coisa com relação à
diferença entre o instituinte e o instituído. O instituinte aparece como um processo, enquanto o
instituído aparece como um resultado. O instituinte transmite uma característica dinâmica; o
instituído transmite uma característica estática, estabilizada. Então, é evidente que o instituído
cumpre um papel histórico importante, porque as leis criadas, as normas constituídas ou os hábitos,
os padrões, vigoram para regular as atividades sociais, essenciais à vida da sociedade. Mas acontece
que essa vida é um processo essencialmente cambiante, mutante; então, para que os instituídos
sejam funcionais na vida social, eles têm de estar acompanhando a transformação da vida social
mesma para produzir cada vez mais novos instituídos que sejam apropriados aos novos estados
sociais. Tem-se que evitar uma leitura do tipo maniqueísta, que pensa que o instituinte é bom e o
instituído é ruim, embora seja verdade que o instituído apresente, por natureza, uma tendência à
resistência, uma disposição que se poderia chamar a persistir em seu ser, a não mudar, que quando
se exacerba, se exagera, se conhece politicamente pelo nome de conservadorismo, reacionarismo.
Pelo contrário, o instituinte aparece como atividade revolucionária, criativa, transformadora por
excelência. Na realidade, não é exatamente assim, porque o instituinte careceria completamente de
sentido se não se plasmasse, se não se materializasse nos instituídos. Por outro lado, os instituídos
não seriam efetivos, não seriam funcionais, se não estivessem permanentemente abertos à potência
instituinte.
Por sua vez, o mesmo acontece a nível organizacional. Existe o organizante e o organizado.
Há uma atividade permanentemente crítica e transformadora, otimizadora das organizações – o
organizante. E há o organizado, que se pode ilustrar com o famoso organograma ou fluxograma, que
é necessário, mas que tem uma tendência "natural" a cristalizar-se (entre aspas porque nada tem a
ver com o natural), uma tendência histórica a esclerosar-se e a adotar uma série de vícios, entre os
quais o mais conhecido é a burocracia, embora não seja o único. Então, é importante saber que a
vida social – entendida como o processo em permanente transformação que deve tender ao
aperfeiçoamento e visar a maior felicidade, maior realização,
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maior saúde e maior criatividade de todos os membros – só é possível quando ela é regulada por
instituições e organizações e quando nessas instituições e organizações a relação e a dialética
existentes entre o instituinte e o instituído, entre o organizante e o organizado (processo de
institucionalização-organização) se mantêm permanentemente permeáveis, fluidas, elásticas.
Outra maneira de referir-se a isso é dizer que nas instituições, organizações, estabelecimentos,
agentes, práticas, pode-se distinguir uma função e um funcionamento. Para poder entender essa
terminologia, tem-se que compreender que nas civilizações e nos conjuntos humanos, e na vida
humana tomada num sentido muito amplo, há a tendência a adquirir sempre características
históricas que comprometem este objetivo utópico ativo. Essas características históricas, muito
diferentes de uma sociedade para outra, de uma fase histórica para outra, podem ser resumidas em
três grandes situações viciosas conhecidas por todo mundo: são os processos de exploração, de
dominação e de mistificação (desinformação ou engano). Essas são as deformações do percurso da
vida social e de seus objetivos mais nobres, de suas finalidades mais altas, que cada sociedade
coloca à sua maneira, e que são chamadas de utopias sociais: como uma sociedade tenta, deseja,
deve chegar a ser. É claro que, à exceção de algumas sociedades em particular, desde que existem
sociedades, as utopias sociais incluem diferentes formas de liberdade, diferentes formas de
igualdade, diferentes formas de veracidade e fraternidade, apesar de eu estar usando, para referir
-me a isso, a utopia da Revolução Francesa, chamada de revolução burguesa, que não é nem a única
nem a melhor das utopias, mas é a mais conhecida por nós. Então, cada sociedade, em seus aspectos
instituintes e organizantes, sempre tem uma utopia, uma orientação histórica de seus objetivos, que
é desvirtuada ou comprometida por uma deformação que se resume em: exploração de alguns
homens pelos outros (expropriação da potência e do resultado produtivo de uns por parte de outros);
dominação, ou seja, imposição da vontade de uns sobre os outros e desrespeito à vontade coletiva,
compartilhada, de consenso; e mistificação, ou seja, uma administração arbitrária ou deformada do
que se considera saber e verdade histórica, que é substituída por diversas formas de mentira,
engano, ilusão, sonegação de informação etc. Assim, se se compreende esta oposição entre a
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utopia, o aperfeiçoamento da vida social e suas deformações exploração, dominação, mistificação-,


então se pode compreender mais facilmente uma divisão que se estabelece entre função e
funcionamento. O dito não significa que as utopias sejam sempre inocentes e acabem traídas, mas
em geral elas são mesmo traídas.
As instituições, organizações, estabelecimentos, agentes e práticas desempenham uma
função. Esta função está sempre a serviço das formas históricas de exploração, dominação e
mistificação que se apresentam nesta sociedade. Toda instituição, toda organização, todo
estabelecimento apresenta esta função a serviço dos exploradores, dos domina dores, dos
mistificadores. Só que esta função raramente se apresenta como ela é, justamente por causa da
questão da mistificação... A função apresenta-se deformada, disfarça da, mostra-se como o objetivo
natural, desejado e lógico das instituições e das organizações. Isto é, não se manifesta claramente ao
nível do instituído e do organizado. Ou seja, os instituídos e os organizados apresentam,
predominantemente, freqüentemente, funções a serviço da exploração, da dominação, da
mistificação. E as exprimem de tal maneira que as fazem parecer "naturais", desejáveis e eternas, ao
passo que o instituinte e o organizante são sempre inspirados pela utopia, estão sempre a serviço
dos objetivos que, provisoriamente, chamamos de Justiça, de Igualdade e Fraternidade. Podem ser
chamados de outra maneira. Essas forças, esses processos, recebem o nome de funcionamento.
Então, o funcionamento é sempre instituinte, é sempre transformador, é justiceiro e tende à utopia':
A função, ela é predominantemente reacionária, conservadora, a serviço da exploração, da
dominação e da mistificação, e se apresenta aos olhos não atentos como eterna, natural, desejável e
invariável.
Agora, pode-se definir outros termos que temos aqui presentes. O instituído, o organizado,
enquanto produtivo, enquanto expressão apropriada, enquanto recurso operante o instituinte, é claro
que é necessário. Acontece que, rapidamente, tendem a cair fora do seu sentido de funcionamento
para adotar a característica da função, coisa que se compreenderá melhor quando se entender que a
característica essencial do instituinte, do organizante e dos seus produtos operantes é serem
propícios à produção, produção que é a geração do novo, daquilo que
32 ▲

almeja a utopia; funcionamento e produção são a mesma coisa. Função é sinônimo de reprodução: é
a tentativa de reiterar o mesmo, de perpetuar o que já existe, aquilo que não é operativo para
propiciar as transformações sociais. Então: instituinte e instituído, organizante e organizado,
produção contra reprodução, funcionamento contra função.
Para concluir, exporemos definições que são um pouco áridas, abstratas, mas necessárias
para entender os passos seguintes que vamos dar: digamos em que consiste, como entender, como
analisar cada instituição, cada organização, e como intervir para favorecer a ação do instituinte e do
organizante. Não se pode fazer este trabalho sem ter claras estas definições. Para concluir, os
instituintes-instituídos, organizantes- organizados que constituem a malha, a rede social, não atuam
separadamente, mas sim em conjunto. E essa atividade em conjunto pode ser enunciada com uma
fórmula pedagógica: cada um deles atua no outro, pejo outro, para o outro, desde o outro. Essa é
uma tentativa de enunciar o entrelaçamento, a interpenetração que existe entre todos os instituintes
e instituídos, entre todos os organizantes e organizados. Esta interpenetração acontece ao nível da
função e ao nível do funcionamento; ao nível da produção e ao nível da reprodução; ao nível
daquilo que funcionará a favor da utopia e ao nível daquilo que está contra. Então, essa
interpenetração ao nível da função, do conservador, do reprodutivo, chama-se atravessamento. Essa
interpenetração ao nível do instituinte, do produtivo, do revolucionário, do criativo chama-se
transversalidade. Para dar apenas um exemplo, vou mostrar-lhes um caso de atravessamento de
funções a nível organizacional. Nós dizemos, por exemplo, que uma escola é um estabelecimento
das organizações do ensino, que por sua vez são uma realização da instituição da educação.
Acontece que uma escola não só alfabetiza, não só instrui, não só educa dentro dos objetivos
manifestos do organizado e do instituído, mas também prepara força de trabalho (alienado), ou seja,
uma escola também é uma fábrica. Por outro lado, uma escola, de acordo com a concepção de
ensino que ela tenha, também consegue manter os alunos presos durante seis a oito horas por dia, e
além de ensiná-los a ler e escrever, o que fundamentalmente lhes ensina é a obedecer, e o que
basicamente lhes transmite é um sistema de prêmios e punições, especialmente
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de punições. Neste sentido é que uma escola é também um cárcere. Mas, além disso, o que a escola
ensina é uma série de valores do que deve ser construído, do que deve ser destruído, ensina formas
de exercício da agressividade. Então, de alguma maneira, também se pode dizer que uma escola é
um quartel ou uma delegacia de polícia. Então, vocês vão vendo como uma escola, ao nível do
instituído, do organizado, ao nível da função, ao nível da reprodução, está atravessada pelas outras
organizações. Existe uma estreita colaboração na tarefa de reproduzir o que está, tal como está, e
dessa maneira colaborar para a perpetuação da exploração, da dominação e da mistificação. Mas
uma escola também é um âmbito onde se tem a ocasião de formar um agrupamento político-
escolar,um clube estudantil; uma escola também é um lugar onde se pode aprender a lutar pelos
direitos; uma escola também é um lugar onde se pode integrar um sistema de ajuda mútua entre os
alunos; uma escola também é um lugar onde se pode adquirir elementos para poder materializar as
correntes instituintes, produtivas; numa escola também se pode aprender a lutar contra a exploração,
a dominação, a mistificação. Então, uma escola tem um lado instituinte, um lado organizante. Neste
sentido, a escola pode ser também, por exemplo, uma frente de luta revolucionária, de luta sindical,
um lugar de doutrinamento para a revolução, um lugar de exercício da solidariedade. Neste sentido
é que uma escola tem também um funcionamento articulado, interpenetrado com muitas outras
organizações, instituições, com muitos outros instituintes e organizantes da sociedade que atuam
nela, através dela, para ela, por ela, e ela por outras, e ainda entre os diversos· quadros e segmentos
desse mesmo estabelecimento. Essa interpenetração chama-se transversalidade. A interpenetração
ao nível da função, da reprodução, como já vimos, chama-se atravessamento. A interpenetração a
nível instituinte, produtivo, chama-se transversalidade, e esta se define também como uma
dimensão da vida social e organizacional que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem
à ordem informal da horizontalidade. Os efeitos da transversalidade caracterizam-se por criar
dispositivos que não respeitam os limites das unidades organizacionais formalmente constituídas,
gerando assim movimentos e montagens alternativos, marginais e até clandestinos às estruturas
oficiais e consagradas.
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Com isso temos definida, até certo ponto, a concepção institucionalista da sociedade. A sociedade é
uma rede constituída pela interpenetração de forças e entidades reprodutivas e antiprodutivas cujas
funções estão a serviço da exploração, dominação e mistificação (atravessamento), assim como
também está constituída pela interpenetração das forças e entidades que estão a serviço da
cooperação, da liberdade, da plena informação, ou seja, da produção e da transformação afirmativa
e ativa da realidade (transversalidade).
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO II


1) O que são, para o Institucionalismo, as sociedades?
2) O que implica dizer que as instituições são lógicas e que podem estar formalizadas em leis ou
normas ou que se manifestam em hábitos?
3) Quais seriam exemplos de instituições? Que são as organizações, os estabelecimentos,
equipamentos, agentes e práticas?
4) O que é o instituinte e o instituído, o organizante e o organizado, a função e o funcionamento, a
produção, a reprodução e a antiprodução?
5) O que é o atravessamento e a transversalidade?
6) De que está composta a rede social?

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Capítulo III
AS HISTÓRIAS
o que é para o Institucionalismo o termo "história"? Nós temos, empiricamente, alguma noção
aproximada do que é história. Numa primeira instância, é importante diferenciar História de
Historiografia. A historiografia é o registro dos fatos históricos que a gente encontra nos arquivos e,
geralmente, é uma versão que foi conservada e foi publicada porque coincide com os interesses do
Estado, das classes dominantes, do instituído e do organizado, que têm recursos para resgatar e
promover estes documentos. Naturalmente, registram aquilo que lhes convém. Então, historiografia
é esta versão que, em geral, se apresenta como sendo objetiva, neutra, impessoal e que, a rigor, é
apenas uma versão tão interesseira, tão tendenciosa quanto qualquer outra, mas que aparece como
descritiva, como meramente narrativa. Agora, História, propriamente, não é isso.
Historiar é um processo de conhecimento que pretende reconstruir os acontecimentos nos
tempos, mas que o faz assumindo que qualquer reconstrução é feita desde uma perspectiva, que
qualquer registro inclui os desejos, os interesses, as tendências de quem faz História. Porque a
versão que se tem da História é sumamente importante, enquanto justifica as ações
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e paixões que se protagonizam no presente e, geralmente, justifica e propicia um projeto futuro para
a vida social, ou seja, todos os movimentos sociais que se deflagram, que se impulsionam para
chegar a este porvir. Algumas coisas que o Institucionalismo tem a dizer com respeito à História
podem ser resumidas em poucas palavras:
Primeiro: o Institucionalismo afirma que a História não é, apenas, a reconstrução do que já
aconteceu e que já está, de alguma maneira, morto, obsoleto, definido – "o que foi, já foi"-, mas
consiste em uma localização daquilo que, de alguma forma, começou, teve início em um passado.
Mas o interesse da História institucionalista é o de reconstruir o passado enquanto ele está vivo no
presente, enquanto ele está atuante e pode determinar ou já está determinando o futuro. Passado e
futuro se constroem e reconstroem incessantemente desde os valores que inspiram a um presente
crítico e revolucionário.
Segundo: o Institucionalismo afirma que não existe uma História, uma História que seja como uma
espécie de mangueira, de modo que totalize todo o devir da vida social em um espaço e em um
tempo só; mas diz que existem "histórias" – multiplicidades econômicas, culturais, ideológicas, do
desejo, da afetividade, da vontade, histórias raciais, histórias das gerações. Cada uma delas
transcorre num tempo próprio que não se pode uniformizar, que não se pode totalizar, globalizar em
um tempo único; de modo que não se pode estudar uma época como se essa época fosse um corte
transversal, que se faz num único fluxo da História, como se faria no fluxo de um rio. Trata-se de
tentar articular os diferentes tempos dos diferentes processos históricos em alguns momentos, eras
ou etapas, que são localizáveis como tais, cronológica ou conceitualmente, no século XVI, no
século XI, ou na Idade Antiga etc. Mas isso não significa que este seja o único tempo em que se
transcorreram todos os processos. Quer dizer, os processos que constituem a História são processos
policronológicos, cada um em sua duração, e é preciso ver como cada um se "adianta" ou se
"atrasa" em relação aos outros. Outro aspecto importante da leitura institucionalista do tempo é que
não é o passado que engendra o presente, mas o passado está composto de uma série de
potencialidades que o presente ativa, que o presente ilumina, que o presente deflagra. Não é o
passado que gera o presente, e sim o presente que explora, que aproveita
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ou atualiza as potencialidades do passado para construir um porvir. Por outro lado, a História não é
uma série de etapas fatais, ou mais ou menos determinadas, cada uma das quais origina a seguinte,
que começam do zero e vão acabar em dez, cem ou qualquer número final. Não existe uma
progressão predeterminada das etapas históricas e, por conseguinte, não existe um apogeu final dos
tempos. O Institucionalismo não aceita a idéia de uma escatologia histórica, isto é, um final que
pode ser entendido como final feliz – e que nesse caso confirme uma escatologia positiva, ou um
final catastrófico ou apocalíptico. Não existe finalidade da História. O que pode ocorrer no dia-a-dia
não está inteiramente predeterminado no passado e nem é certo que vá acontecer no futuro.
Segundo alguns institucionalistas, o tempo, sempre policronológico, se produz, devém desde um
presente em direção ao passado e ao futuro.
Finalmente, outra afirmação importante que o Institucionalismo pode aportar à teoria da
História é que nós, com uma explicação claramente mecânica, baseada em paradigmas de ordem
que se desenvolveram do século XVII em diante – que têm como modelo a mecânica celeste com
suas trajetórias, suas parábolas, suas órbitas, e como correlato à máquina do relógio –, com este
metamodelo mecanicista, tendemos a pensar a História em função de suas leis, sendo que os
enunciados legais supostamente dão conta dos processos repetitivos que transcorrem na realidade.
Somos levados a pensar que a História se desenvolve segundo uma ordem de características mais ou
menos maquinais, que tende a repetir-se e que, em todo caso, quando não se repete é porque tem
conseguido produzir alguma diferença em relação a uma provável repetição do idêntico ou do igual.
Então, esta concepção da História que faz da diferença uma variação análoga ou semelhante do
igual, ou do idêntico, não é compartilhada pelo Institucionalismo. O Institucionalismo diz que o
que, predominantemente, retoma na História, não é o igual, não é o idêntico, não é o regular, não é
aquilo que se pode captar por leis típicas da mecânica física ou da mecânica celeste, do relógio ou
do calendário, mas que o que se repete na História é a diferença, é o acaso, é o inesperado, o
acontecimento, o imprevisível, o aleatório. E que são estes grandes ou pequenos momentos de
repetição do diferente (por exemplo: do instituinte) que depois

39 ▲

vão tentar ser capturados pelo instituído, pelo organizado e repetidos como idênticos.
Bem, esta concepção da História que estou sintetizando ao máximo, com contribuições de
diferentes tendências institucionalistas, não é apenas um exercício acadêmico, mas está estritamente
relacionada com a concepção da práxis, da atividade político-social desejante que o
Institucionalismo tem, e com a utopia ativa, quer dizer, o propósito, o objetivo, a finalidade e os
recursos do Institucionalismo. Porque se bem o Institucionalismo interessa-se em estudar as leis do
que tende a repetir-se, ele está mais implicado em assumir uma práxis que propicie o advento do
inesperado, do acontecimento, da inovação absoluta. Então, trata-se de entender como a História é
não apenas uma atividade ilustrativa, uma investigação erudita, mas uma tentativa de reconstruir os
grandes momentos de imprevisto, os grandes momentos de acaso que transformaram o curso da
humanidade, para a partir desses ensinamentos, produzir estratégias que permitam propiciá-los
novamente. A História se estuda para aprender como militar a favor da transformação, não de uma
transformação previsível, não de uma transformação pré- figurada, mas da transformação em
direção ao radicalmente novo e, portanto, absolutamente desconhecido. Tentemos agora definir
outros conceitos importantes.
O termo molar, outro termo que tínhamos de comentar e que se entende em contraposição ao
termo molecular, é uma contribuição feita por algumas escolas institucionalistas e que vou tentar
explicar brevemente.
Para os institucionalistas não existe uma separação radical entre vida econômica, vida política, vida
do desejo inconsciente, vida biológica e natural. O que existe são imanências – isto é, a inerência, a
posição intrínseca de cada um destes campos em relação aos outros, que só se podem separar de
uma maneira artificial para a finalidade de seu estudo. A rigor funcionam sempre, por assim dizer,
um "dentro" do outro, incluindo-se no outro. Então, dentro desta concepção da vida social como
uma rede, em que os diversos processos são imanentes um ao outro, pode se distinguir o molar, que,
dito de uma maneira simples, é aquilo que é grande, que é evidente, que tem formas objetais ou
formas discursivas, visíveis e enunciáveis. Por outra parte temos o molecular, que é o que na física
se costuma chamar micro, por
40 ▲

oposição a macro, isto é, o mundo atômico e subatômico, o mundo das partículas, enquanto o
mundo macro por excelência seria, por oposição, o universo, o cosmos, que é composto de grandes
corpos. Então, tomando esses ensinamentos da microfísica, da microquímica, da microbiologia, da
biologia molecular, o Institucionalismo afirma que as grandes mudanças históricas, as
macromudanças, são sempre resultado de pequenas micromudanças, e que os grandes poderes em
vigor na sociedade são apenas forças resultantes de pequenas potências que se chocam e conectam
em espaços microscópicos de uma sociedade. Como até mesmo a física, a biologia e a química
descobriram que as leis que regem os processos e as entidades macro não são capazes de dar conta
da dinâmica que acontece nas micro. O macro é o lugar da ordem, é o lugar das entidades claras,
dos limites precisos, é o lugar da estabilidade, da regularidade, da conservação. O micro, dito tanto
no sentido físico, químico, biológico quanto no sentido social, político, econômico e desejante, é o
lugar das conexões anárquicas, insólitas, impensáveis. O macro é o lugar da reprodução, e o micro é
o lugar da produção; o macro é o lugar da conservação do antigo ou da propiciação do novo
previsível, e o micro é o lugar da eclosão constante do novo; o macro é o lugar da regularidade e
das leis, o micro é o lugar do aleatório e do imprevisível. Esta diferenciação também é importante
porque, em geral, o Institucionalismo confia em analisar e propiciar as mudanças locais, as
transformações microscópicas, as conexões circunstanciais, porque espera delas efeitos à distância
que, ao generalizarem-se, resultam nas grandes metamorfoses, do instituído e do organizado, o
detectável e consagrado. Dito com outras palavras, o Institucionalismo pensa que as pequenas
conexões locais são o lugar do instituinte, e entendê-lo assim está estritamente relacionado com as
estratégias de intervenção nos âmbitos, nos espaços de atuação que o Institucionalismo vai tentar
propiciar. Eles são os pequenos lugares intersticiais da vida natural-social-técnica e subjetiva, e não
os grandes blocos representativos dos territórios constituídos.
Finalmente, é importante definir o termo antiprodução. Se não me engano, já tentamos
reiteradamente definir e redefinir o termo produção. Produção é aquilo que processa tudo que
existe, natural, técnica, subjetiva e socialmente. É a permanente

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geração, enquanto não se cristaliza; é o devir, é a metamorfose, é o que, com uma terminologia
ainda religiosa, chamaríamos de criação. Mas no momento em que as forças produtivas entendidas
de maneira muito ampla, as forças instituintes -organizantes, são capturadas em grandes organismos
reprodutivos como o Estado ou o mercado capitalista, vigora a antiprodução. Por exemplo, elas são
voltadas contra si mesmas, de maneira que a produção, as energias não orientadas, as matérias
produtivas ainda não formadas são retidas pelos mecanismos, pelos equipamentos, pelos
organismos e forças de toda ordem que propiciam a reprodução do mesmo, o impedimento ou a
destruição do novo, elas tornam-se antiprodutivas, elas se destroem a si mesmas. É o que subjaz a
grandes processos sociais como as guerras; é o que subjaz a célebres atitudes sociais como a de
destruir os produtos porque o preço caiu no mercado; é o que subjaz à geração de enormes
contingentes sociais que estão destinados a morrer, e que morrem não apenas por deficiência da
provisão ou da organização, mas por atitudes ativas do poder destinadas a destruí-los, como é o caso
da marginalidade, da mortalidade infantil, dos preconceitos sexuais e raciais, do alcoolismo, da
tóxico-dependência, dos genocídios coloniais, neocoloniais e planetários contemporâneos etc. Essas
são potências, são forças singulares, produtivas, que a sociedade não está em condições de
incorporar porque não pode transformá-las em mercadoria, seres, bens, valores, serviços – não pode
assimilá-las à lógica do sistema. Então, ou as deixa morrer, ou as mata por meio de mecanismos
mais ou menos deliberados, mais ou menos premeditados. Esse processo de autodestruição das
forças produtivas naturais, sociais, subjetivas e tecno-industriais que a sociedade faz chama-se
antiprodução. Um desses processos característicos é o problema ecológico, que só agora se está"
descobrindo", enquanto já era evidente desde meados do século passado com o processo produtivo
industrial' mercantil baseado na geração de mercadorias, de bens de troca e não de bens de uso, que
vem destruindo o reservatório fundamental de matéria-prima e de vida que é a natureza. Agora, isso
se torna moda; mas foi sempre assim, e é uma das expressões mais radicais da capacidade
antiprodutiva do sistema dominante no mundo.
42 ▲

Para qualquer tendência sociológica, científica-política ou econômica clássica, já é


completamente evidente que não se pode pensar os processos característicos de cada área – não se
pode conceber o que acontece em economia, em política ou sociologia – com independência do
psiquismo dos homens, prescindindo do que antigamente se chamava as almas dos homens. Ou
seja, apesar de se poder acreditar que é o econômico que determina, em última instância, as
características da vida e da morte social, ou que se possa supor que é o político o tal determinante,
hoje se sabe, e ninguém pode negá-la, que por mais determinados, por mais submetidos às leis
econômicas e políticas que estejam os homens, eles só entram nesses processos de dominação, de
exploração, de mistificação ou, pelo contrário, em processos revolucionários, se estes, de algum
modo, coincidem com suas crenças, representações, convicções acerca da vida social. E também
não entram se suas expectativas, suas vontades, seus desejos não se encaminham nessa direção. Isso
é claríssimo. O Institucionalismo tende a não privilegiar a priori nenhuma determinação mais que
outra, isto é, são tão importantes as vontades, os desejos e as representações com que os homens
entram nos processos históricos quanto as estruturas "materiais", econômicas, políticas ou naturais
que os determinam. Mas a isso temos de acrescentar que a partir da contribuição psicanalítica, sabe-
se que as vontades, os desejos mais potentes que dirigem a conduta ou a vida dos homens, são
inconscientes, isto é, não fazem parte de seu saber, de seu querer deliberado. Em última instância,
os homens entram nos processos históricos e sociais determinados por forças desejantes, por
vontades que eles não controlam e não conhecem, mas que têm a ver com o prazer, que têm a ver
com o sofrimento e têm a ver com vivências e mecanismos subjetivos ainda mais profundos. Hoje,
por exemplo, está cada vez mais evidente para os economistas que o "melhor" plano econômico não
funciona se não se consegue mobilizar as forças desejantes dos integrantes de uma população, não
só seus interesses, para provocar o consenso dos agentes em torno deste plano; e ainda mais, que o
"pior" dos planos é capaz de funcionar quando se consegue essa mobilização. E não se trata apenas
de conseguir uma adesão consciente ou uma credibilidade voluntária, mas de mobilizar forças
inconscientes às quais se apela, ainda passando por cima das crenças e convicções dos agentes

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sociais. Isso também não é novidade. Já a partir de Reich, o grande psicanalista marxista, nós nos
interrogamos constantemente porque, em lugar de colocar-se o problema de que ocasionalmente os
operários estejam em greve ou que circunstancialmente os soldados se rebelem contra seus
superiores, não nos perguntamos porque os operários não estão sempre em greve, porque os
soldados não se unem para executar definitivamente seus superiores. Por que os povos atuam contra
seus reais interesses e vontades? Então, não se trata apenas de dizer que o fazem por medo, porque
os acontecimentos históricos demonstram que os povos quando se mobilizam, quando as forças
inconscientes se ativam, não têm medo de nada e têm como se fosse uma plena consciência de sua
potência. Eles correm perigos tremendos ou – combatem lutas desiguais, mas eles operam as
transformações sociais. Não se trata também de dizer apenas que os povos são ignorantes, porque se
é certo que o sistema se ocupa de manter os povos ignorantes ou erradamente informados, já se tem
visto processos históricos em que os povos são capazes de produzir um saber acerca de suas
condições de existência que não precisa, passar pelo saber transmitido pelos meios de divulgação,
nem necessita submeter-se ao saber acadêmico. Os povos checam seu próprio saber sobre suas
condições de vida na luta cotidiana pela transformação desses campos de existência e levam à frente
movimentos de imenso poderio, de incalculável potência social, sem apelar para os saberes
instituídos e estabelecidos. Então, o importante a ser reconhecido é a existência dessas forças
inconscientes que o Institucionalismo denomina desejo, por ressonância ou por uma re-elaboração
do conceito de desejo inconsciente da Psicanálise. A diferença consiste em que o desejo
inconsciente em Psicanálise está sempre relacionado com uma estrutura chamada Complexo de
Édipo: é um desejo que atua primeiro na vida familiar, nas relações ou nas fantasias incestuosas ou
parricidas do inconsciente infantil e que, depois, se translada para a vida social com as mesmas
características. O desejo segundo a Psicanálise é um impulso que tende a reconstituir estados
perdidos a se realizarem em fantasmas imaginários, é uma tendência reprodutiva, é um anseio que
tende a restaurar o narcisismo, que supostamente, em algum momento, foi o estado em que o proto-
sujeito esteve integralmente. O desejo no Institucionalismo não tem essas peculiaridades. O desejo
do
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Institucionalismo é imanente à produção, é (digamos provisoriamente) o aspecto subjetivo (mas não


apenas psíquico) da mesma força que no social é o instituinte. É uma força que tende a criar o novo,
entendido como o imprevisível, é uma força de conexões insólitas, é uma força de invenção e não é
uma força restauradora de estados antigos. Mas é inconsciente. Só que este inconsciente não se
entende exclusivamente como um inconsciente edipiano, familiarista, repetitivo, mas também como
um inconsciente pré-pessoal, pré-social e pré-cultural, objeto de um saber que toma elementos de
todos saberes existentes; trata -se de matérias não-formadas e energias não-vetorizadas que são
capazes de gerar transformação. A força desse inconsciente não está submetida apenas por um
recalque psíquico, mas por um recalque complexo que é simultaneamente político, libidinal,
semiótico etc. Então, para o Institucionalismo não existe o que seria um homem universal, não
existe uma estrutura, uma essência-homem. Também não existe uma estrutura, uma essência-
sujeito, um sujeito psíquico que seria o mesmo em todas as sociedades, em todos os momentos
históricos, em todas as classes sociais, em todas as raças etc. O que se passa é que esse sujeito
psíquico, mesmo que se aceite como sendo universal, teria representações ou teria recursos que
variariam segundo a sociedade, segundo a classe social ou o grupo a que pertencesse. Para o
Institucionalismo não existe esse sujeito eterno e universal, apenas preenchido com conteúdos
históricos sociais variáveis. Para o Institucionalismo, o que existe são processos de produção de
subjetivação ou de subjetividade. Mais adiante explicarei em que consistem essas duas
denominações, mas essa produção é absolutamente contingente, é absolutamente própria de cada
lugar, de cada momento, de cada conjuntura histórica etc. Ou seja, produzem-se sujeitos em cada
acontecimento-devir-sujeitos para esse acontecimento-devir, sujeitos variavelmente protagonistas
desse acontecimento, ou, se pode dizer, é o acontecimento-devir que os produz. E podem existir
analogias, podem existir semelhanças entre esses sujeitos. O que importa não é a produção das
semelhanças ou de analogias entre os sujeitos, mas a produção de diferenças, a singularidade de
cada sujeito produzido em cada lugar, a cada momento. Então, quando nessa produção predomina o
instituído, a reprodução de um sujeito do desejo assujeitado aos interesses dominantes, aos
45 ▲

interesses exploradores, aos interesses mistificantes, ele adota as características de um sujeito mais
ou menos universal e eterno. A isto se chama produção de subjetividade assujeitada, subjetividade
submetida. Quando o que predomina neste processo é a geração do novo absoluto, de subjetivação
absolutamente original, absolutamente singular, absolutamente instituinte, absolutamente
contingente, circunstancial e gerada pelos eventos revolucionários, a isto se chama produção de
subjetivação livre, não assujeitada, primigênia, produtiva, revolucionária, em que o desejo se realiza
em conexões locais, micro, e se efetua gerando o novo, não se concretiza restituindo o antigo,
processa-se não reproduzindo o instituído, o organizado, o estabelecido, mas se realiza gerando o
instituinte e o organizante.
Por que esta discriminação é importante? Porque na leitura que o Institucionalismo vai fazer
de cada organização, de cada estabelecimento, movimento ou proposta, ele vai privilegiar a
intelecção de dispositivos que são capazes de produzir subjetivações. E não vai privilegiar, a não ser
para denunciá-los, a leitura de aparelhos ou equipamentos que estão destinados a produzir a
reprodução de subjetividades submetidas. O mesmo vai acontecer nas montagens técnicas,
organizativas, políticas, com as formas de militância, com a "maquinaria de guerra" que o
Institucionalismo pretende propiciar em suas intervenções, porque as mesmas têm de estar
protagonizadas por novas produções de subjetivação, circunstanciais, transitórias, capazes de
encarar o sentido desejante e revolucionário e depois autodissolver-se para deixar seu lugar a outras.
Evidentemente, todas essas definições necessitariam de exemplos muito precisos que, pela natureza
elementar deste livro, não poderemos dar nesta exposição. Mas a discriminação que tem de ficar
claramente estabelecida é que o Institucionalismo, em geral, não .se propõe "pegar" um sujeito
reprodutivo que é sempre o mesmo, eterno e universal e invariável em todo tempo e lugar, e
trabalhá-lo para torná-lo produtivo. O objetivo institucionalista é criar campos de leitura, de
compreensão, de intervenção para que cada processo produtivo desejante, revolucionário, seja capaz
de gerar os "homens" (ou sujeitos) de que precisa. Não ajeitá-los a partir de uma suposição de que
já estão feitos, mas aceitar a idéia de que os novos homens se fazem a cada momento, em cada
circunstância.
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Essa exposição que se acaba de ler não segue ao pé da letra as teorias sistemáticas da
Psicanálise, o Marxismo ou as psico-sociologias de cunho fenomenológico, positivista, culturalista
ou estrutural-funcionalista. Em muitas passagens, pode ficar sincrética ou imprecisa demais. A
intenção não é dar uma série de definições acadêmicas fiéis a seus textos de origem. Este é o caso,
por exemplo, de quando falamos do inconsciente ou do desejo. O contexto em que falei dessa
questão ainda é um espaço teórico algo clássico, que habitualmente se aborda com o nome de
ideologia. É verdade que há uma certa definição de ideologia que a considera como uma série de
representações erradas, de crenças, de convicções acerca do mundo, que está animada pela ilusão,
pela esperança e pelo medo. Costuma-se reconhecer que existem ideologias dominantes que são as
ideologias da classe dominante, ou seja, que são ideologias conservadoras, reacionárias. Por outro
lado, existem ideologias revolucionárias, que são ideologias das classes, dos grupos que procuram
uma drástica transformação social. Em geral fala-se dessas ideologias como sinônimo de
consciência falsa ou distorcida. São crenças, convicções ou expectativas e desejos conscientes.
Ademais, afirma-se que a ideologia dominante na sociedade é a ideologia dos grupos dominantes, é
uma ideologia que se impõe pela ignorância ou a distorção, apesar de ser contrária aos interesses da
maioria. Então, costuma-se dizer que a maneira de reverter essa situação é instruir, é educar, é
modificar essas representações, é criar outro tipo de expectativa ou vontade, é conscientizar acerca
dos limites da potência que tem a classe dominante, conscientizar acerca do potencial de prazer, de
gozo, de eliminação do sofrimento que teria uma transformação social protagonizada pela classe
dominada. Mas é importante recordar que desde um bom tempo atrás já existem pesquisas e
produções teóricas que mostram que não é apenas por medo ou esperança, por ignorância,
informações erradas ou manipuladas que as classes, os grupos e sujeitos submetem- se aos
interesses das classes dominantes. Eu citava o célebre psicanalista Reich quando ele, estudando o
movimento nazista da Alemanha, afirmava que o povo alemão não estava desinformado; talvez
estivesse incorretamente informado, mas é difícil acreditar que o povo mais culto da Europa fosse
capaz de acreditar nas asneiras que estavam sendo ditas; e também
47 ▲

não tinha tanto medo, porque era um povo muito orgulhoso, muito seguro de suas forças, com um
proletariado muito politizado. E, sem dúvida, este povo acabou aderindo maciçamente ao projeto
nacional-socialista, um projeto de dominação do mundo, racista, machista, que reunira em si todos
os autoritarismos, todos os paternalismos, toda a capacidade antiprodutiva de uma sociedade
moderna. Por quê? O que W. Reich diz é que foi devido não apenas às circunstâncias históricas
econômicas, políticas e ideológicas que todo mundo conhece, mas também a determinantes,
digamos, histórico-eróticos, libidinais, que fizeram com que este líder fosse capaz de mobilizar
certos desejos inconscientes da massa e fazê-la participar de um projeto onipotente e sádico, uma
maneira de realizar inconscientemente esses desejos, desejos inconscientes de domínio, de exercício
da crueldade, desejos inconscientes que, segundo Reich, eram maneiras de restituir a cada um deles
o estado utópico narcísico perdido. Reich já sabia que não é apenas com a consciência que se
consegue dominar os povos, fazê-los operar contra seus potenciais e interesses, mas com outro tipo
de mobilização. O Institucionalismo vai recolher bastante de Reich, mas reformulando-o segundo
sua própria compreensão do desejo – que não é o desejo segundo a Psicanálise de Reich; não é o
desejo exclusivamente psíquico ou inconsciente (segundo o inconsciente edipiano da Psicanálise),
mas o desejo imanente a todas as forças materiais possíveis de potência produtiva. Não é um desejo
que, por natureza, pretenda restituir alguma coisa perdida, mas é um desejo que, por substância, é
revolucionário. Este tipo de desejo inconsciente, que tem de ser lido no campo da análise e
mobilizado pelas intervenções, pelos dispositivos instituintes, para que opere historicamente
segundo sua verdadeira essência e não seja encaminhado a animar máquinas reprodutivas e
antiprodutivas.
O emprego que aqui fizemos de uma verdadeira proliferação de termos é uma peculiaridade
do caráter intertextual e descartável da terminologia institucionalista. É possível que seja um tanto
confuso, particularmente com relação ao léxico sistemático da Psicanálise ou do Materialismo
Histórico.
Eu me surpreenderia se estivesse claro. Afinal, tudo o que teria de ser dito sobre Psicanálise,
o Édipo, a concepção psicanalítica do desejo e o Institucionalismo é muito mais amplo
48 ▲
do que a gente pode dizer aqui. Se alguém observa no meu relato restos da nomenclatura
psicanalítica, isso pode ser até uma espécie de interpretação ou intervenção institucionalista sobre
meu discurso, na medida em que, por mais que a gente se envergonhe, a gente também é
psicanalista. É evidente que chegamos ao Institucionalismo a partir de identidades diferentes. Há
institucionalistas psicanalistas. Cada um de nós tem de lutar contra constrições, restrições teóricas e
técnicas e "práxicas" que a sua identidade prévia lhe impõe. Porque ser institucionalista implica
uma tremenda transformação do aparelho teórico, metodológico, técnico da atitude profissional e da
atitude específica do especialista. Então, nesta função que estou cumprindo agora, não me
surpreende que eu tenha as minhas vacilações. Não sei se elas foram percebidas. Obviamente não
são registradas por mim, que sou interessado e, portanto suspeito. Tenho a impressão de que não é
tanto assim: "Apenas por egossintonia." Mas o que aparece na mudança do caminho é o seguinte: o
Institucionalismo é um saber intersticial, é um saber nômade, é um saber errático; então, ele pega
algum elemento de cada campo do saber e do fazer e tenta agregá-lo a novos contextos para criar
uma idéia nova. Em compensação, o Institucionalismo não é uma ciência, não é uma disciplina, não
tem objeto específico, não tem aparelho teórico conceitual restrito, não tem um objeto formal
abstrato. Então, o que eu estava tentando explicar com referência ao desejo e ao inconsciente é que
este é uma idéia repensada, porque o Institucionalismo não a toma emprestada, não a importa (como
se diz em epistemologia); o Institucionalismo "rouba" alguma coisa de cada corpo teórico e se sente
com direito de roubar, porque não respeita a propriedade intelectual privada nem específica. Por
exemplo: O roubo que o Institucionalismo fez da Psicanálise e do conceito clássico de essência do
desejo inconsciente como força capaz de gerar uma série de efeitos, como o valor do prazer e do
desprazer no campo libidinal, no plano das "escolhas objetais". Mas o Institucionalismo vai
transformar este conceito. O desejo inconsciente na Psicanálise é uma força que insiste em restituir
imaginariamente o narcisismo como estado inicial em que coincidem investimento e identificação;
então, como é que a Psicanálise atua? Ela o faz tentando impedir que o desejo reatualize a unidade
imaginária do ego do sujeito com o objeto narcísico por meio da castração
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simbólica, orientando e fluidificando o desejo através do sistema simbólico. O desejo se mobiliza
para restituir imaginariamente o narcisismo. A intervenção psicanalítica o obriga (mais que lhe
possibilita) a animar o sistema simbólico, a representar, a significar, a sublimar. Por sua vez, o
Institucionalismo não acredita que a essência do desejo seja restitutiva, nem que deve ser capturado
no sistema simbólico, nem obrigado a nada. Ele pensa que o desejo é espontaneamente produtivo,
revolucionário, inventivo. Apenas se deve criar condições para que ele possa animar dispositivos e
máquinas revolucionárias capazes de realizá-la em acontecimentos e devires. Para o inconsciente
psicanalítico o desejo nunca se realiza, é da característica do irrealizado, só pode imaginar-se e
simbolizar-se. Para o Institucionalismo, o desejo realiza-se sempre, apenas é preciso produzir
condições históricas em que ele possa realizar-se produtivamente. Isso inclui engendrar modos de
subjetivação que co-protagonizem este processo.
Para alguns institucionalistas, se é que eles aceitariam essa denominação genérica, o
inconsciente e o desejo são a substância mesma da realidade (como diria o filósofo Espinoza), da
qual se diz que se repete como diferença, ou seja, que é o Ser do Devir sempre infinitamente
diferente. Também se afirma que é a Vontade de Potência afirmativa e a ação das forças positivas
(como postularia Nietzsche) que gera o inter-jogo de forças e a origem de tudo. Kant talvez diria
que o desejo consiste em quantidades intensivas, que são prévias às quantidades e qualidades de
tudo que existe. Bergson falaria das virtualidades – que não existem, mas são reais, e só esperam
sua atualização. Para certos institucionalistas, o inconsciente é produzido em cada agenciamento,
em cada dispositivo que se autogera para originar um acontecimento e um sentido. Tais
inconscientes não são causados por sujeitos nem por objetos, pelo contrário, eles podem processar
modos de subjetivação e objetivação que são necessários para as novidades produtivas que os
geraram em sua montagem.
Não obstante, nos propomos voltar sobre o tema no capítulo seguinte. Apenas observemos
que, para certas correntes do Institucionalismo, o sujeito é uma organização por meio da qual se
realizam muitas instituições. Assim entendido, o sujeito é produto de processos instituintes,
organizantes, criadores, assim como de outros repetitivos ou antiprodutivos. É por isso
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que as diversas escolas institucionalistas tentam analisar e intervir sobre o sujeito-organização em


suas relações de atravessamento e de transversalidade com outras organizações: subjetivas ou não
(ou seja: no trabalho, na educação, na saúde etc.), outras correntes institucionalistas não dizem que
o sujeito é apenas uma peça do processo de produção de subjetividade alienada ou de subjetivação
revolucionária. Esses processos são imanentes a muitos outros e sua abrangência e produtos são
muito mais amplos e complexos do que aquilo que se entende por" sujeito".
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV


1. Que diferença existe entre História e Historiografia?
2) Existe uma História que totaliza todos os percursos dos processos sociais-econômicos-subjetivos
e naturais?
3) O que significa Molar e Molecular?
4) O que se entende por produção, reprodução e antiprodução?
5) Qual é o papel da repetição e da diferença, do acaso e das regularidades na História?
6) Qual é a diferença do modo de definir sujeito e desejo: na Psicanálise e no Institucionalismo?

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Capítulo IV
O DESEJO E OUTROS CONCEITOS NO INSTITUCIONALISMO

Eu dizia, em uma passagem do capítulo anterior, que não me estranharia que muitos dos
conceitos do Institucionalismo não fossem fáceis de entender, assim como a essência mesma do
Movimento.
O filósofo Gaston Bachelard escreveu um livro chamado "Psicanálise do Espírito
Científico". Na realidade, não se tratava propriamente de Psicanálise e, por outro lado, se
compreenderá que não se pode falar, em um sentido estrito, de "espírito científico" – só Sé pode
aceitá-lo como uma metáfora. O mencionado texto tratava de caracterizar os principais hábitos do
pensamento corrente que, por estarem muito arraigados, produzem um efeito de convicção na
"mente" de quem pretende formar-se como cientista. Esses "vícios" do senso comum operam como
obstáculos que dificultam ou impedem o estudioso de assumir as peculiaridades de funcionamento
dos diversos métodos científicos, cujas "verdades" freqüentemente contrariam as evidências da
opinião generalizada. Bachelard tentava um trabalho epistemológico que operasse uma espécie de
"cura" dessas crenças para conseguir, assim, a predisposição dos
53 ▲
"espíritos" para a adoção de uma atitude tipicamente científica.
Não ignoro que, devido às deficiências da formação geral e universitária da qual
padecemos, muitos ainda não podem estar certos de haver adquirido o mencionado" espírito", ou
um outro melhor ainda, por isso torna-se especialmente difícil exigir-lhes, neste momento, que
comecem a aprender a criticar-se enquanto "científicos", entendendo a singular proposta do
lnstitucionalismo. Cabe aqui lembrar que, a despeito do Institucionalismo nutrir-se em grande parte
das contibuições mais revolucionárias das ciências contemporâneas, tem com elas uma relação
contraditória, polimorfa e complexa.
Um típico problema que se apresenta quando se trata de ensinar alguma ciência em
particular passa-se devido ao fato de que, semanticamente falando, alguns termos teóricos que as
ciências empregam são idênticos aos utilizados na linguagem cotidiana. No entanto, sabemos que
essas palavras, quando importadas e processadas no seio de uma teoria científica, mudam
radicalmente de sentido, não conservando nenhuma das denotações e conotações (como diz certa
lingüística) que tinham nos discursos ou textos de origem. Contudo, ainda durante um longo
período de sua aprendizagem, os jovens estudantes de uma ciência continuam confundindo essas
diferentes significações.
As diversas correntes institucionalistas, por sua parte, podem empregar termos teóricos com
acepções idênticas às utilizadas pela ciência de onde um conceito foi tomado, ainda que
invariavelmente o façam isolando esse conceito do contexto sistemático no qual o mesmo foi
enunciado e do qual recebe seu valor de origem.
Em outros casos, o Institucionalismo procede adotando algum termo, mas o faz
acrescentando-lhe sentidos que se somam aos originais, sem descartá-las. Finalmente, o
Institucionalismo pode também transformar um conceito em uma categoria, ou em uma noção, ou
até em uma alusão vaga, se considera que, em determinada conjuntura, torna-o revelador.
Para concluir, cabe recordar que o Institucionalismo é a expressão, algo extremada, de um
questionamento da hegemonia do pensamento científico como tal e de suas diversas
especificidades, defendendo a fertilidade de todos os saberes, incluídos, por exemplo, os que
existem em "estado prático" nas
54 ▲

atividades leigas, artísticas, religiosas etc.


Por isso, às vezes é duro, para quem se aproxima deste estudo, aceitar e entender a
polissemia que adquirem semantemas provenientes, digamos, da Psicanálise (inconsciente, desejo
etc.), ou outros originários de algumas escolas do Materialismo Histórico (sobredeterminação e
mais-valia, por exemplo).
Agora, peço-lhes que se coloquem um pouco no lugar do docente. Estou tentando dar um
curso introdutório de um saber que não tem limites. Se os profissionais, especialistas de alguma
disciplina, queixam-se da incrível aceleração na produção de conhecimentos de cada saber, que faz
com que os experts não consigam acompanhar essa produção – em alguns ramos muito
desenvolvidos, como a Física, chega-se a afirmar que o expert só tem dez anos de vida útil, tendo se
tornado descartável como os jogadores de futebol, pois depois de uma década já não consegue
acompanhar o ritmo de produção teórica e tecnológica de sua disciplina e não chega a atualizar-se.
Imaginem vocês uma coisa como esta, que é um composto de todos os saberes de uma época,
inclusive os saberes não-científicos, os artísticos, os populares; então a formação de um
institucionalista realmente é interminável.
Estou tentando dar uma visão panorâmica geral, muito pouco aprofundada e ambiciosa, de
certos conceitos, de certas idéias básicas e de algumas das principais correntes. Não nego que
algumas ampliações sejam essenciais, mas justamente porque o são, desenvolver esses temas, no
caso de eu estar capacitado para fazê-lo, levaria a outros tantos cursos. Este é um pequeno
esclarecimento e uma desculpa pelo tratamento que tentarei dar a várias questões, que terá de ser
breve, para que eu possa desenvolver este capítulo coerentemente com o resto do texto.
Comecemos por lembrar que não existe uma escola institucionalista, mas sim muitas, e
existem diferenças teóricas, metodológicas,. técnicas, políticas entre elas. O que há como
característica comum é o interesse pela produção nas organizações e instituições, assim como por
um funcionamento auto-analítico e autogestivo das mesmas. É o mínimo denominador comum que
se consegue encontrar entre as várias tendências. Agora, entre as muitas diferenças existentes de
uma para a outra, está a definição dada a "desejo". Boa parte delas reconhece a existência do
psiquismo como um campo
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relativamente autônomo da realidade. A maioria delas aceita, dentro desse campo chamado
psiquismo, a existência de um espaço, de um sistema e de processos de caráter inconsciente que
considera do campo das causas, da área dos motores do funcionamento psíquico, sendo que o
comportamento, a conduta, as vivências, as representações e afetos são do campo dos efeitos deste
psiquismo. No entanto, a maioria deles atribui à Psicanálise o mérito de ter descoberto esta instância
determinante, que seria o inconsciente com seu processo primário e a força que anima essa
instância, que é o desejo. Boa parte deles concorda com a definição de desejo que seria
predominante à colocada em muitos textos freudianos. Em que consiste esta definição de desejo?
Seria uma força insistente, persistente, que procura restaurar, reeditar, em último termo, um certo
estado do "desenvolvimento" do psiquismo que se denomina narcisismo, em que o ego e o objeto
são um, em que não existe a separação sujeito-objeto – que a Psicanálise atribui ao Complexo de
Castração. Então, a partir da ruptura desse estado, surge uma força que seria o desejo, que tenta
reproduzi-lo. Quando a mesma é obrigada a passar por outras instâncias, outros dispositivos, outras
maquinarias do psiquismo, particularmente por certa ordem de representações, ela acaba gerando
todos os produtos chamados "normais" da vida psíquica, que são rendimentos, resultados dessa
trajetória que o desejo faz em lugar da sua realização meramente "alucinatória", ou seja, de sua
tentativa de restauração desse narcisismo inicial. Isso, como o leitor avaliará, inclui uma definição
restitutiva do desejo; o desejo tem uma natureza conservadora; ele parte de uma situação
narcisística e tende a voltar a ela; ele torna-se produtivo apenas quando nesse caminho, nessa
trajetória, é obrigado a elaborar, e a sublimar, devido à sua subordinação à ordem simbólica, a lei ou
a sua inscrição no processo secundário (como se queira chamá-lo). Muitos institucionalistas
compartilham plenamente essa definição de . desejo e a aplicam à compreensão dos aspectos
psíquicos da vida organizacional, usando-a no entendimento do funcionamento da subjetividade,
assim definida nas organizações, particularmente em seus aspectos inconscientes. Um exemplo
característico de um autor institucionalista que é absolutamente fiel a esta definição freudiana de
desejo, embora tente articulá-la com uma teoria materialista-histórica da sociedade, da economia,
56 ▲

da política e das organizações, é Gerard Mendel, criador de uma corrente institucionalista chamada
Sociopsicanálise, à qual vamos nos referir mais adiante porque está contemplada em nosso
programa. Já uma definição menos fiel à freudiana é a de René Lourau, que recolhe a definição de
desejo de uma forma menos ortodoxa. Mas se a gente estuda a obra freudiana com amplitude e
detalhe, percebe setores da mesma em que essa definição de desejo, que explicamos anteriormente,
mostra-se característica, por exemplo, do capítulo VII da "Interpretação dos Sonhos" e da chamada
primeira tópica. Entretanto, existe a possibilidade de outra definição baseada nas passagens
freudianas em que o Id é pensado como um "caldeirão fervente" cheio de estímulos, no qual a
pulsão de vida funciona segundo o processo primário. Nesse caldeirão estão incluídos os impulsos
libidinais e desejantes dessa "usina" – que têm por objetivo não a restituição de estados perdidos,
mas propiciar, de forma anárquica, estados permanentemente novos; associar, cada vez mais
amplamente, unidades vitais; processar o movimento como sendo a essência da pulsão de vida e do
desejo que dela emana. Justamente a partir dessa definição surgiu a plêiade de inúmeros autores que
impugna a existência de uma pulsão de morte no psiquismo, assim como a exclusividade de um
modo de ser do desejo em cujo extremo está a pulsão de morte que tenta restaurar um estado
imaginário perdido, e com ele a imobilidade. Estamos vivendo uma situação cultural em que se está
impondo a hegemonia de uma das leituras do desejo que Freud fez (a estruturalista). Estamos
assistindo, mundialmente, a uma certa fragilidade das proposições do marxismo ortodoxo, assim
como a de uma série de autores que partiam desse outro setor da obra freudiana para definir a
pulsão e o desejo, como por exemplo, os freudo- marxistas. Então, não é estranho que isto se
apresente como uma dificuldade para os interessados no assunto, porque este é um problema muito
atual e de muita disputa teórica. No entanto, outros setores do Institucionalismo, particularmente
Deleuze e Guattari – os criadores desta orientação chamada Esquizoanálise, muito pouco conhecida
e muito pouco implantada tanto em nosso meio como rio mundo inteiro –, levam as proposições
freudo-marxistas dessa outra definição do desejo até extremos pós-freudianos e pós-marxistas
baseados já em outras contribuições de disciplinas atuais, como a filosofia, a macrofísica,
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a microfísica, a biologia molecular e certos campos das ciências formais, por exemplo a matemática
de Rieman. Os "descobrimentos" desses saberes têm dado origem ao que se chama de uma mudança
de paradigma, uma transformação do modelo dominante no horizonte atual do conhecimento. Essa
mudança, em um de seus aspectos, consiste na promoção de certo poder criativo da desordem, na
reivindicação da neguentropia, ou tendência à autopoiese, na defesa da produção, da vitalidade,
inclusive na ma terialidade psíquica e seus determinantes em última instância, que seriam a pulsão e
o desejo. Então, Deleuze e Guattari, também apoiados na literatura, na arte, e ainda no discurso
delirante, constroem uma definição de desejo como sendo não apenas a força que anima o
psiquismo, mas uma força essencialmente produtiva e criativa buscadora de encontros que, além de
tudo, é imanente a outras forças animadoras do social, do histórico, do natural. O desejo não tem
caráter restitutivo – tem caráter essencialmente produtivo- revolucionário – e não é uma força
separada das que animam a vida social e natural. Por isso há uma fórmula na Esquizoanálise, que
afirma que a Esquizoanálise consiste em introduzir o desejo na produção e a produção no desejo.
Trata-se de aprender a pensar um desejo essencialmente produtivo e uma produção, dita no sentido
amplo, que não pode ser senão desejante – à medida que funciona como o processo primário
inventado por Freud e considera as subjetivações essencialmente envolvidas nesses processos
produtivos, tanto quanto na natureza e nas máquinas técnicas e semióticas.
Outra questão a ser abordada diz respeito à determinação em última instância. Bom, Marx
afirma que a vida social está estruturada como uma espécie de edifício, em que há os alicerces e há
as paredes superiores visíveis. O que Marx insiste em afirmar é que a vida social está finalmente
determinada pela atividade econômica, isto é, por processos de produção de bens materiais
indispensáveis para a produção e a reprodução da vida humana sobre a terra. Dessa maneira, a
chamada infra-estrutura determina a superestrutura, apesar de que Marx nunca negou que a
superestrutura retroaja sobre a infra-estrutura. Assim, as resultantes desse processo complexo não
são causadas, de forma alguma, exclusivamente pelo econômico, não podendo ser entendidas dessa
maneira. E também não seriam modificáveis
58 ▲

exclusivamente a partir do econômico. Um de seus seguidores, Louis Althusser, utilizando outro


modelo de formalização da estrutura social – modelo esse tomado da matemática dos conjuntos –
representa a vida social como uma composição de três subconjuntos que estão parcialmente
intersecionados, de maneira que algumas áreas desses subconjuntos têm autonomia relativa e outras
são superpostas ou imanentes entre si. Mas o conjunto total, o sistema, que Althusser chama "todo
complexo articulado, diversificado e sobredeterminado", funciona interpenetrado, de maneira tal
que haverá um determinante em última instância, que em todos os modos de produção é o
econômico, uma instância dominante e uma instância decisória ou decisiva. O determinante em
última instância é o que define o papel dos outros e da sua participação causal na determinação dos
efeitos econômico -sociais, mas não exclusivamente, e sim mediatizado por aqueles. A instância
chamada dominante é aquela fundamental para a reprodução do modo de produção, para que o
modo de produção se reproduza "idêntico" a si mesmo. A instância decisória é a fundamental no
processo de transformação de um modo para sua passagem a outro. Essa é a determinação complexa
pela qual todas as instâncias participam de todo e qualquer dos efeitos e resultados. Althusser a
denominou sobredeterminação, um modelo da causalidade que tomou da segunda tópica freudiana,
em que ld, Ego e Superego funcionam dessa mesma maneira para determinar qualquer efeito no
psiquismo: atos, formações do inconsciente etc. O lnstitucionalisrno, em alguns de seus ramos, tem
muito em comum com a proposta althusseriana, à medida que adota essa idéia de
sobredeterminação. Outros setores do Institucionalismo têm sua própria teoria da causalidade
social. Por exemplo, no caso de Deleuze e Guattari, não é uma teoria da sociedade formada por três
subconjuntos que, por sua vez, formam o conjunto total, mas uma sociedade reticular formada por
uma grade aberta, uma malha de funcionamentos interpenetrados que são simultaneamente
psíquicos, tecnológicos, econômicos, políticos, semióticos e naturais e estão ordenados em três
superfícies: de produção, de registro e de consumo. Existem outras teorias da causalidade social
próprias de outras tendências institucionalistas, mas todas elas têm em comum a insistência em não
separar as determinações psíquicas inconscientes das econômicas, políticas, técnicas, naturais etc.
59 ▲

Quanto aos principais recursos teóricos do Institucionalismo, o primeiro a ser abordado será
o conceito de campo de análise. As diversas tendências do Institucionalismo podem constituir o que
se chama – em uma terminologia discutível – um "recorte" da vida social que pode ser desde
pequeno até amplíssimo, desde um estabelecimento até, por exemplo, o que Deleuze e Guattari
chamam o "Capitalismo Planetário Integrado". Isso significa delimitar um objeto ou um campo e
aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo, para saber como funciona,
como estão colocadas e articuladas suas determinações, suas causas, como se geram seus efeitos
etc. Esse objeto pode estar constituído por materiais. muito heterogêneos – por exemplo, as
principais correntes do fluxo de capitais no mundo atual –, e isso dará um estudo como aquele no
qual participou recentemente Guattari, que se chama "Contratempo". Campos de grande porte
poderão produzir um livro como o que escreveu Lourau, que se chama "O Estado e o Inconsciente",
uma tentativa de analisar as diversas configurações que o Estado adquire nos diferentes modos de
produção no curso da história, nas diferentes civilizações e a forma como o Estado se implanta nos
sujeitos a nível inconsciente. Esses campos de análise são terrivelmente amplos. Mas podem ocorrer
campos de análise infinitamente menores, como uma análise do significado da festa no Brasil ou
uma análise dos efeitos da comunicação de massa em Caruaru, ou o funcionamento dos programas
de estudo no vestibular, ou da múltipla escolha para o processo de seleção. Isso ainda não implica
necessariamente uma intervenção concreta sobre esse campo assim delimitado; implica um
processo de compreensão, de inteligência dos determinantes desse campo. Por isso denomina-se
campo de análise.
Outra coisa é o campo de intervenção, que é o "recorte", o espaço delimitado para planejar
estratégias, logísticas, táticas, técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente,
concretamente. É claro que o campo de intervenção é, em geral, infinitamente menor que o campo
de análise, porque neste momento é demasiado utópico pensar o planejamento de uma intervenção a
nível nacional continental ou planetário, O máximo que se consegue delimitar são campos de
análise organizacionais. E óbvio, também, que em qualquer corrente de Institucionalismo,
60 ▲

a constituição de um campo de análise pode estar articulada com um campo de intervenção. Só que
um campo de análise é pensável sem intervenção, mas um campo de intervenção é impensável sem
um campo de análise. Pode-se compreender e não intervir, mas não se pode intervir sem alguma
forma de compreensão. Em geral quando os dois campos se constituem, eles estão articulados entre
si: à medida que se compreende, se intervém; e à medida que se intervém, se compreende.
O ponto seguinte é a análise da oferta e da demanda, que também temos de tratar
sinteticamente, particularmente dentro do enfoque da análise institucional ortodoxa, cujos autores
mais notórios são Lourau, Lapassade e o pessoal que os rodeia dentro de sua Sociedade Francesa de
Análise Institucional. Eles insistem em explicar que um passo importante para começar a
compreender institucionalmente a dinâmica de uma organização é decifrar, analisar, esmiuçar o
pedido que esta organização faz de uma análise e de uma intervenção. Para dizê-la provisoriamente:
quais são os aspectos conscientes, manifestos, deliberados, voluntários deste pedido, e quais são
seus aspectos inconscientes e/ou não-ditos. A isso chamam análise de demanda, que é um dos
primeiros passos para entender em que consiste a conflitiva, em que radica a problemática desta
organização solicitante. Mas acontece que, para fazê-lo, o Institucionalismo enfatiza a necessidade
de se ter presente a idéia de que a demanda não é espontânea, a demanda não é o primeiro passo de
um processo: ela é produzida, de tal modo que existe um passo anterior à demanda que é a oferta. A
demanda não existe por si. Quando alguns psicanalistas falam hoje em análise da demanda como a
expressão do desejo, eles não têm aparelho teórico para pensar que o processo não começa aí, que
essa demanda de análise foi produzida pela oferta prévia de análise, e está marcada , modulada,
determinada, desde o princípio, por esta oferta. De modo que para compreender a demanda de
análise institucional de uma organização é necessário, antes, incluir a auto-análise, a compreensão
de como a organização analítica gerou esta demanda; ou que relação existe entre a publicidade, a
divulgação científica ou não-científica, a proposição direta ou indireta dos serviços que a
organização analítica faz e que não pode não ser causante, geradora ou moduladora da demanda de
serviços que lhe é formulada.

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Um institucionalista muito respeitável e, no meu modo de ver, injustamente pouco


conhecido, o paulista que se chama Guilhòn de Albuquerque, tem uma fórmula que não explica
todas as situações, mas que é muito ilustrativa, e que gosto muito de usar com fins pedagógicos: ele
diz que toda organização de prestação de serviços transmite um recado de maneira mais ou menos
consciente ou inconsciente durante o processo de oferta de suas prestações, que consiste
aproximadamente em passar ao usuário uma mensagem que diz: "Eu tenho o que te falta e, além
disso, você não entende, não sabe em que consiste." Essa mensagem subjaz, está "por trás" de toda
oferta de prestação de serviços e, provavelmente, também de bens materiais. Então, quando essa
oferta gera uma demanda, ela não pode estar modulada senão pela própria oferta. Quem demanda,
demanda alguma coisa que já lhe fizeram acreditar que não tem e que o outro tem. Mas é tão
complexa, tão sutil, tão técnica, que ele não sabe o que é. Portanto, para poder dar o primeiro passo
em toda análise de intervenção institucional – que é analisar a demanda-, esta análise deve ser
articulada com a forma em que foi produzida, ou seja, com a oferta. Isso exige por parte do coletivo
analisante, o coletivo prestador de serviço, um severo processo de auto-análise de como produzir a
oferta de seus trabalhos. Entre a organização analisante, interveniente, e a organização analisada,
intervinda, vai-se produzir uma interseção que gera uma nova organização, que é o verdadeiro
objeto de análise. Não existe aqui, então, uma posição clássica de objetividade: não somos os
experts que sabem e a organização-cliente não é um objeto passivo e ignorante. Mas juntos é que
vamos tentar entender como é esta realidade nova que se deu na interseção de nosso encontro.
Outro termo fundamental dentro do Institucionalismo é analisador. A Psicanálise já
classicamente, concebeu o conceito de derivados do inconsciente, formações do inconsciente,
formações transicionais ou transacionais – todos esses termos são sinônimos e designam aqueles
fenômenos, sejam eles pontuais ou mais amplos, como sonhos, atos falhos, lapsus linguae, chistes,
sintomas, delírios, que são elementos privilegiados dentro do material que um paciente apresenta
para ser analisado. Esses produtos não são resultado linear de uma instância ou de um setor da
personalidade, não são efeitos exclusivamente
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conscientes, nem exclusivamente pré-conscientes, nem exclusivamente inconscientes. Não são


dados claramente efetuados pelo superego, nem pelo ego ou o id. São fenômenos resultantes de uma
combinação, de uma mistura, da articulação de uma transição ou de uma transação entre todas essas
instâncias. Por isso é que se chamam, segundo uma das denominações, efeitos transacionais ou
formações transacionais. Só que em Psicanálise estes efeitos têm por característica, pelo menos
fenomênica ou técnica, exprimir exclusivamente a problemática de um sujeito, manifestá-la,
denunciá-la. O analisador, em análise institucional, é um efeito ou fenômeno formalmente parecido
com esses efeitos privilegiados do material da Psicanálise. Mas as diferenças são as seguintes:
Primeira: na materialidade fenomênica, na aparência desses fenômenos, não se privilegiam,
absolutamente, os efeitos verbais. Qualquer materialidade pode ser suporte de um analisador, ou
seja, um analisador não é necessariamente um discurso, mas pode ser um monumento, a forma
como está elaborada a planta arquitetônica da organização, pode ser uma característica dos modos
de relação que não está formalizada nem anunciada em parte alguma, ou seja, pode ser um costume
e não uma norma, nem uma lei; pode ser um arquivo, isto é, a maneira como está organizada a
memória de uma organização; pode ser uma distribuição do tempo ou do espaço na organização. E é
claro que podem ser também formas escritas ou faladas do discurso organizacional. Por exemplo, os
estatutos, os regulamentos, a carta de princípios, o organograma, o fluxograma etc. E podem ser os
relatos ou as mensagens verbalmente proferidas pelos integrantes nas entrevistas, nos questionários
ou em qualquer forma de comunicação intersubjetiva. Os mitos, os rituais, o uso do dinheiro, do
lazer, da sexualidade, do domínio e o cuidado de si, etc. Então, a materialidade expressiva de um
analisador é totalmente heterogênea. Não é que em Psicanálise não o seja, porque sabemos que em
Psicanálise os comportamentos, as atitudes corporais, a couraça caracterológica também são
considerados formações do inconsciente; só que a Psicanálise tem uma persistente predisposição a
privilegiar os efeitos verbais como sendo os veículos predominantes das formações do inconsciente,
e a. subordinar os outros à compreensão verbal. Isso é claro. Um analisador não é assim. E essa é a
primeira diferença.
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Segunda: um analisador não é apenas um fenômeno cuja função específica é exprimir,


manifestar, declarar, evidenciar, denunciar. Ele mesmo contém os elementos para se auto entender,
ou seja, para começar o processo de seu próprio esclarecimento. Isto não é fácil de ser explicado.
Uma formação do inconsciente é um produto a ser analisado (com uma maior ou menor intervenção
do analista). Um analisador é um produto que pode se auto-analisar. Existem grandes analisa dores
e pequenos analisadores. Um grande analisador é a Revolução Francesa, por exemplo, revolução
burguesa, como todo mundo sabe, produto de determinados encontros e fluxos de forças da
decadência da monarquia e da ascensão da burguesia média, de certo grau de migração do
trabalhador do campo para a cidade, acumulação de capital mercantil e usurário etc. Mas esse
analisador também produziu a inteligência de seu próprio processo com os pensadores da
Revolução Francesa e ele foi capaz de autoconduzir-se dentro de certos limites à plenitude da
realização de seu destino histórico, que foi marcar o fim do feudalismo e o início ou as preliminares
do capitalismo incipiente e do socialismo real. Mas podem haver pequenos analisadores, e esses
podem ser um conflito dentro da organização, um determinado acidente numa usina atômica
(geograficamente pequeno, pelo menos) etc. Só que esse analisador, colocado em condições
propícias, tem a possibilidade de não apenas manifestar-se, mas também de se compreender; ele não
precisa ser analisado de fora, ele predsa que se lhe aportem condições para auto-analisar-se, sendo
assumido por seus protagonistas. E dessa maneira, não apenas é capaz de enunciar, como também
de resolver a situação da qual ele é emergente. Nesse sentido, existem os chamados analisadores
naturais – que é uma expressão inadequada, porque analisadores naturais são os terremotos, e,
realmente, a análise institucional nunca conseguiu compreender, pelo menos nos seus aspectos
geológicos, este tipo de fenômeno, não está preparada para isso. "Natural" quer dizer espontâneo,
que também é uma má expressão, porque espontâneos todos são. Então, a definição correta é dizer
que são analisadores históricos, ou seja, que a própria vida histórico-social-natural os produz por
conta própria como resultado de suas determinações. E existem analisadores artificiais ou
construídos, que são dispositivos que os analistas institucionais inventam, introduzem
64 ▲

nas organizações para propiciar o processo de explicitação dos conflitos e de resolução dos
mesmos. É importante enfatizar que os analistas institucionais na prática técnica, ao nível de
produção de analisa dores construídos, se valem de todo e qualquer recurso, seja de tipo artístico,
cenográfico, dramático, procedimentos de tipo ativista, político, montagens de tipo propriamente
científico, experimental, lógico, sociológico, antropológico e manobras do tipo" convivência
prolongada", em que o analisador institucional passa a fazer parte orgânica do conjunto que vai
estudar, produzindo assim um artefato próximo à vida cotidiana.
O passo seguinte será falar da análise da implicação.
Felizmente já antecipamos um pouco sobre ela através da análise da oferta. A implicação se define
como o processo que acontece na organização de analistas institucionais, na equipe de análise
institucional, a raiz de seu contato, de sua interseção com a organização analisada, intervinda.
Também é um conceito que tem certa dívida com a chamada contra transferência da Psicanálise. Só
que a contra transferência em Psicanálise é a reação – consciente ou inconsciente – que o material
do paciente produz no analista; e na análise institucional a implicação não é apenas um processo
nem psíquico nem inconsciente, mas um processo de materialidade múltipla, complexa e
sobredeterminada, um processo econômico, político, psíquico heterogêneo por natureza, que deve
ser analisado em todas as dimensões. E não é apenas reativo, ou seja, não é a resposta da equipe
interventora e analisadora ao contato com seu objeto, pois é prévia a este contato; não começa no
usuário: é recíproco, é simultâneo e é parte indissolúvel do processo de análise da organização, ou
seja, é o contrário de uma análise "objetiva". É, como está claro nas ciências físicas, a análise da
interação, da interpenetração destas duas organizações, uma análise variável da relação entre o
sujeito e o "objeto". Poder-se-ia dizer que não deixa de ser parecida com uma dás definições que
Freud dá de contratransferência como transferência recíproca. Em continuação, veremos
rapidamente alguns termos, sendo que, de alguma forma, os retomaremos na exposição
correspondente aos itens que compõem o roteiro de uma intervenção institucional típica, que
denominamos standard. Insistiremos uma vez mais em que estas definições, cuja finalidade é
basicamente transmitir noções introdutórias para os principiantes interessados no movimento,
65 ▲

seguramente não serão nem exaustivas nem precisas. As mesmas estão armadas com sentidos
diversos e heterogêneos tomados de diferentes obras e autores, artificialmente extraídas dos
contextos teóricos, mais ou menos sistemáticos, em articulação com os quais adquirem seus
significados prevalecentes. Sempre será possível voltar sobre estas noções nos textos da bibliografia
que lhes são mais específicos para multiplicar e precisar suas acepções.
No Institucionalismo denomina-se equipamentos a uma série de organizações,
estabelecimentos, aparatos, maquinarias e tecnologias muito diversificados e inclusivos, de grande,
médio ou pequeno porte, cuja finalidade fundamental (mas não única) está a serviço da repressão,
do registro ou do controle social. Uma das maneiras possíveis de classificá-los é referindo-se ao tipo
e grau de violência que empregam para cumprir sua função, enfatizando, além do mais, que sua
condição é mais propriamente determinada por essa função que por sua materialidade, estrutura,
forma etc. Alguns exemplos conspícuos de equipamentos são os que certa tradição marxista
chamava de "aparatos". Estes cumprem funções eliminatórias, segregacionistas ou punitivas (como
por exemplo, as Forças Armadas, a Polícia, a censura cultural ou a Psiquiatria supressiva). Outros
apontam para a doutrinação ou a informação tendenciosa (certa orientação da Religião, da
Educação, da Comunicação de massas ou a Família).
Mas um equipamento pode ser também uma determinada organização beneficente, ou certa
modalidade de uso de um meio de transporte ou de um eletrodoméstico, assim também como
técnicas de cuidado e gerenciamento da personalidade por parte das forças repressivas. O certo é
que os equipamentos são predominantemente funcionais ao poder (seja do Estado ou das entidades
civis e privadas hegemônicas) e a reprodução da ordem constituída entendida como a soma do
instituído-organizado.
De um dispositivo pode, de alguma maneira, dizer-se que é o contrário de um equipamento.
Trata-se de uma montagem (termo que freqüentemente se utiliza em cinematografia, teatro ou nas
artes plásticas) de elementos extraordinariamente heterogêneos que podem incluir "pedaços"
sociais, naturais, tecnológicos e até subjetivos. Um dispositivo caracteriza-se pelo seu
funcionamento, sempre simultâneo a sua formação e sempre
66 ▲

a serviço da produção, do desejo, da vida, do novo. Um dispositivo forma-se da mesma maneira e


ao mesmo tempo em que funciona, gerando acontecimentos insólitos, revolucionários e
transformadores. Embora seu tamanho e duração sejam tão variáveis quanto as materialidades que o
compõem, têm a peculiaridade de nascer, operar e extinguir-se enquanto seu objetivo de
metamorfose e subversão histórica se realizam. Um dispositivo em geral não respeita, para sua
montagem e funcionamento, os territórios estabelecidos e os meios consagrados; pelo contrário, os
faz explodirem e os atravessa, conectando singularidades cuja relação era insuspeitável e
imprevisível. Gera, assim, o que se denomina linhas de fuga do desejo, da produção e da liberdade,
acontecimentos inéditos e invenções nunca antes conhecidas. Nesse sentido é óbvio que os
dispositivos, também chamados agenciamentos, têm a ver com a transversalidade (conceito que já
antecipamos e que definiremos mais adiante) e, num sentido restrito, com o instituinte-organizante.
Um grupo político sujeito (quer dizer, que se dá seus próprios meios e leis inseparáveis de
seus fins e que não pretende persistir mais além de seu objetivo revolucionário), uma obra artística,
um descobrimento científico, um pensador original e libertário, um inovador dos costumes sexuais
ou das convicções éticas podem constituir-se num dispositivo, assim como podem sê-lo certa
arrumação de máquinas técnicas (como as rádios livres) ou de defesa da natureza (como os
movimentos ecológicos). Por último, digamos que um dispositivo não é a obra de indivíduos ou
sujeitos, ele os inclui, os constitui e os "maquina" para concretizar suas realizações.
Em diferentes momentos da constituição de um campo de análise e/ou intervenção, os
institucionalistas efetuam vários tipos de diagnósticos – sempre provisórios – da estrutura,
dinâmica, processos, contradições principais e secundárias, opositivas e antagônicas, conflitos,
defesas, mecanismos, magnitudes de produção, reprodução e antiprodução, analisa dores, potências,
poderes, territórios, linhas de fuga, equipamentos, dispositivos da área ou organização intervinda. O
diagnóstico é importante para justamente instituir, organizar, planejar, antecipar, decidir os passos
que comentaremos em seguida, tais como contrato, estratégia, logística, táticas, técnicas: Isso sem
esquecer que boa parte do percurso é imprevisível.

67 ▲

Os institucionalistas, para efetuar análises – seguidas ou não de intervenções, precisam fazer


acordos, pactos, convênios (ou como se queira chamá-los) com as organizações, estabelecimentos
ou, simplesmente, com os coletivos de usuários "clientes". A estes acordos costuma-se denominar
contrato. Eles versam sobre os compromissos mútuos em que se explicitam os respectivos deveres e
direitos das partes interessadas. Em muitos aspectos o contrato institucionalista é semelhante a
qualquer outro de prestação de serviços. Trata principalmente de tempo (duração total, freqüência
dos trabalhos), honorários ou outro tipo de retribuição, delimitação de objetivos e autorização de
acesso aos materiais de investigação, promessa de sigilo quanto à informação obtida durante a
investigação etc. Como veremos, é importante estar atento ao fato de que nem sempre o contrato
representa um acordo com a totalidade do coletivo intervindo, mas com certos segmentos do
mesmo. Por outro lado, tem especial significação qual é a relação jurídica (emprego, serviço
profissional independente, solidariedade militante etc.) que fundamenta o contrato. Mas o essencial
a recordar é que o contrato no Institucionalismo não é uma operação comercial externa ao processo
que a intervenção como serviço deflagra. Os diversos aspectos do contrato: tempo, dinheiro,
contratantes, objetivos, expectativas, são analisadores, emergentes da problemática a ser pesquisada.
Seu tratamento já é parte ativa da análise e da intervenção.
Designa-se por logística o balanço que os institucionalistas fazem de todas as forças,
habilidades, elementos, recursos etc. de que se dispõe ao começar uma intervenção; quer dizer, com
que se pode contar a favor e contra para poder levar o trabalho adiante com um mínimo de
possibilidades de realização.
A estratégia sistematiza os grandes objetivos a serem conseguidos (cuja máxima expressão é
a auto-análise e autogestão do coletivo intervindo), assim como a progressão das manobras, dos
espaços e territórios que se colocarão, a previsão de vicissitudes, opções, alternativas, avanços,
retrocessos etc.
As técnicas são pequenos segmentos nos quais se decompõe a estratégia. Para dar um
exemplo bélico, totalmente metafórico: a estratégia decide se será uma guerra de ocupação, de
fronteiras, punitiva ou de extermínio parcial; se essa guerra se dará por terra, mar ou ar, quais serão
os aliados, simpatizantes,
68 ▲

neutros e inimigos etc. As táticas referem-se a batalhas circunscritas, à área onde se desenvolvem, à
participação da infantaria, cavalaria, o horário, os movimentos de tropas etc. As técnicas,
prosseguindo com a metáfora, aludem aos armamentos propriamente ditos: fuzis, morteiros,
granadas etc.
No Institucionalismo é fácil fazer a transposição do que seja a logística, a estratégia e as técnicas do
campo bélico ao campo da intervenção, sem tomá-las ao pé da letra. É interessante enfatizar
drasticamente que no Institucionalismo, uma vez que se adquira uma base de entendimento do
panorama de uma organização e se concretizem os primeiros dispositivos para um contrato e
diagnóstico provisórios, enquanto já se têm, baseados nisso, esboços de uma logística, estratégia
geral e primeiras táticas, a eleição de técnicas é consideravelmente livre. Quer dizer; será ditada
pela inspiração e o treinamento, assim como pelas predisposições pessoais da equipe operadora,
objetivo geral e imediato perseguido e momento e peculiaridades do coletivo em pauta.
Procedimentos interpretativos, informativos, esclarecedores, de sensibilização,
de expressão, de discussão, agenciamentos artísticos, desportivos, convivenciais, lúdicos, praticados
em grupos e em assembléias podem ser adotados segundo as circunstâncias.
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PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO IV
1) Qual é o sentido dos termos sujeito, desejo e sobredeterminação em suas teorias de origem e no
lnstitucionalismo?
2) Que diferença existe entre os conceitos de campo de análise e campo de intervenção?
3) O que significa dizer que a análise da oferta deve preceder a da demanda?
4) O que é análise da implicação?
5) O que são: analisador, equipamento, dispositivo, logística, estratégia, táticas e técnicas?
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Capítulo V
AS TENDÊNCIAS MAIS CONHECIDAS DO INSTITUCIONALISMO

Tentarei resumir três modalidades de Institucionalismo que não são as únicas, nem
necessariamente as mais importantes, mas são as que mais notoriedade têm atingido. São também as
mais difundidas, particularmente aqui no Brasil. Terei de ser muito esquemático. Tentarei uma
espécie discutível de classificação, de graduação entre essas três tendências.
Em termos, digamos, políticos, eu diria que da primeira enunciada – a Sociopsicanálise de
Gérard Mendel – à útima – a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari –, existe uma graduação à
medida que Mendel articula uma concepção mais ou menos tradicional da Psicanálise com uma
igualmente ortodoxa do Materialismo Histórico. Produz, assim, uma forma de abordagem das
organizações e das instituições que, poderíamos dizer, é politicamente moderada, se é que tal termo
exprime alguma coisa. Já a Análise Institucional de Lourau e Lapassade e a Esquizoanálise de
Deleuze e Guattari, eu diria, são propostas políticas mais subversivas, mais enérgicas, mais ativas,
com certos matizes diferenciais entre elas, que podemos tratar de caracterizar nesta exposição.
Então, contar com certo conhecimento de
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Psicanálise e do Materialismo Histórico (entre outros saberes) é necessário para podermos explicar
isto de forma breve, introduzindo-os nesta teoria, metodologia e técnica sociopsicanalíticas.
A Psicanálise é uma disciplina que foi exigida pela prática clínica. Ela se ocupa da
psicopatologia com uma expectativa de cura, mas, no seu percurso e desenvolvimento, Freud criou
também uma teoria da estrutura e do funcionamento do psiquismo "normal". Nesta teoria
distinguem-se, na constituição do psiquismo, duas séries assim chamadas: a série disposicional e a
série desencadeante. Essas séries denominam-se complementares. Tudo que acontece na vida
psíquica, tudo que se pode considerar fenômenos ou efeitos da estrutura do psiquismo é
determinado pela articulação entre estas duas séries. A série disposicional é composta pelos
elementos heredogenéticos que um sujeito psíquico tem e que lhe são legados por seus progenitores,
ou seja, pelos sujeitos psíquicos que o geraram. Acrescente-se a isso as experiências da infância
precoce. Então, o hereditário mais as experiências tidas durante a gestação, mais as correspondentes
ao parto e primeira infância, tudo isso fica registrado e organiza o psiquismo segundo uma das
séries: a série disposicional. Mas com essa série disposicional e a partir de quando começa a
chamada latência, isto é, com o fim do complexo de Édipo (classicamente entre os cinco e seis anos
de idade), o sujeito se incorpora plenamente à vida social, adquire contato com os grupos chamados
secundários, grupos de jogos, de estudo, de educação, grupos sociáveis no sentido amplo. Seu
Superego está instalado e com ele o sistema de valores consciente e inconsciente que vai classificar
seu mundo de significações. As marcas que têm deixado nele as experiências libidinais e dolorosas
prévias adquirem retroativamente sentidos morais. Suas representações são secundariamente
recalcadas e estão prestes a retornar do recalcado. Em seguida, continuam sucessivas incursões nas
atividades e grupos sociais que fazem com que o sujeito atravesse uma situação diferente atrás da
outra, e que tenha de enfrentar essas circunstâncias com a bagagem disposicional que traz. Essas
eventualidades vão exigir de seu aparelho psíquico uma série de movimentos e de adaptações, de
criação e de transformação. Algumas dessas situações são altamente tensionantes, intensamente
pressionantes para o
72 ▲

psiquismo. Quando a série dessas experiências, constituída pelas situações da vida, atua sobre a
série disposicional que o sujeito traz, pode resultar numa falha do sujeito no processo de
simbolização e reação produtiva diante dessas exigências situacionais. E isso resultará na doença
psíquica, em sintomas. Então o adoecer psíquico – e também a "normalidade" – são produtos desta
articulação entre a série disposicional e a série desencadeante; pode efetuar-se em comportamentos
ativamente adaptativos, sublimatórios, ou pode ser causante de processos patológicos. Outra forma
de referir-se à série disposicional é qualificá-la de acordo com o grau em que o sujeito conseguiu,
durante sua primeira infância, resolver, elaborar – ou não – o chamado Complexo de Édipo, que
constitui o núcleo central de sua série disposicional. Se não resolver, então esse desenvolvimento
vai ficar afetado por "pontos de fixação". Então, quando a série desencadeante atua sobre a
disposicional, gera no psiquismo um processo de regressão a esses pontos de fixação. O psiquismo
vai funcionar de uma maneira primária, arcaica, e isto é que vai resultar no retorno do recalcado
como sintoma. Logicamente, cada sujeito é singular, único, irrepetível, e as configurações da série
desencadeante – que podem gerar patologia, atuando sobre a série disposicional – são totalmente
variáveis. É por isso que uma situação que desencadeia uma patologia para um sujeito (porque atua
sobre determinada série disposicional), não é patologizante para outro sujeito (que tem uma série
disposicional diferente). No entanto, a Psicanálise costuma dizer que existe uma maneira de
sistematizar, de universalizar quais são os traços das situações desencadeantes capazes de produzir
patologia em geral. Essas são experiências de frustração, experiências de privação, e experiências
daquilo que em Psicanálise se chama castração. Apesar de não podermos desenvolver agora, é
importante assinalar que entre frustração, privação e castração existem diferenças. Privação refere-
se à falta de subsídios para necessidades biológicas, concretas; castração refere-se a um tipo de falta
de caráter libidinal (a castração é castrâção do desejo), ao passo que a frustração é um desengano de
amor. Ou seja, são exigências diferentes, faltas diferentes cuja elaboração ou não gera efeitos
diferentes. Elas, em geral, atuam em conjunto. De um ponto de vista mais amplo,
sociopsicanaliticamente falando, poderíamos resumir esses três

73 ▲

tipos de carências, esses três tipos de falta, em uma experiência de impotência, em uma experiência
de incapacidade, porque se trata de um sujeito relativamente indefeso, em estado de menos valia,
exigido por situações que o tornam carente. A carência, por sua vez, é produto da regressão ao
estado de dependência e de impotência iniciais do sujeito. Então, o que lhe fazem sentir é sua
impotência para resolver essas situações. Isso é o que desencadeia o processo regressivo a um ponto
de fixação, atuando sobre a série disposicional, e assim gerando a patologia, os sintomas e os
quadros das doenças. O sujeito se refugia em soluções imaginárias e fantasmáticas que eram as
únicas de que dispunha no seu estado de criança indefesa.
Até agora ficamos restritos ao campo estritamente psicanalítico. Agora, acontece que as
formulações da Psicanálise são elaboradas para os sujeitos "individuais", para os sujeitos enquanto
"pessoas" isoladas. Apesar da Psicanálise nunca ter pretendido negar que os sujeitos psíquicos não
vivem isolados, porque se relacionam sempre com um'outro – e é do outro que vem a frustração, a
castração e a privação-, na verdade, nem o sujeito nem o outro são pensados como coletivo real, não
são concebidos como grandes conjuntos humanos, cuja existência depende de uma obrigada e
necessária associação. Por isso é que Mendel tenta acrescentar ou articular as postulações
psicanalíticas com as postulações clássicas do Materialismo Histórico. Uma das primeiras
afirmações do Materialismo Histórico é que para produzir e reproduzir, ou seja, manter a vida
humana sobre o planeta, os homens tiveram que associar- se, que estabelecer uma aliança entre si
para, fundamentalmente, dominar a natureza e colocá-la a seu serviço. Isso porque a natureza não é
espontaneamente benévola com o homem. Ela o agride e lhe nega muitos dos elementos de que ele
precisa para sobreviver. Então o homem desenvolveu, nessa associação coletiva, um processo de
trabalho que é um procedimento de transformação, de domínio da natureza para que ela se lhe
tornasse propícia. Todos sabemos que o homem, como animal biológico, é particularmente fraco:
ele não tem pêlo, não tem couro, não tem garras nem dentes fortes; é lento, frágil. Inclusive, no
momento do nascimento, o homem é dos animais mais particularmente indefesos e incapazes, tanto
que seu processo de gestação tem de completar-se depois de seu nascimento,
74 ▲

através de uma longa criação totalmente dependente, que leva pelo menos dois ou três anos. Então o
homem compensou, e em parte piorou, essa sua fraca defensividade, com seu processo histórico de
associação coletiva para trabalhar em conjunto com a finalidade de dominar a natureza. Digo que
em parte compensou porque isso foi o que o transformou naquilo que pitorescamente se chama "o
Rei da Criação". Também em parte piorou porque na dimensão em que o homem se transforma, por
sua associação, em uma espécie poderosíssima, cada um de seus membros nasce cada vez
biologicamente mais fraco. Na medida em que se desenvolvem as máquinas e os elementos
técnicos, nossa dotação biológica está cada vez pior. Talvez acabaremos tendo uma" grande cabeça"
e nada mais. Neste processo associativo, então, o homem tem de lutar não apenas contra os imensos
poderes da natureza (que ele tem chegado a controlar em alta proporção, mas que está longe de
controlar em sua plenitude), mas tem de aprimorar o desenvolvimento da palavra, da linguagem e
outras formas de comunicação inter -humana, o desenvolvimento da inteligência, do processo de
pensamento do cérebro humano, o desenvolvimento das máquinas – que em princípio podem ser
pensadas como enormes extensões ou ampliações dos membros e dos sentidos humanos. O gênero
humano adquiriu um grande poder, mas ele não controla totalmente as forças naturais. Elas o
ameaçam sempre. Não apenas as forças naturais externas a seu corpo, como também aquelas
internas a seu corpo, que forma parte da natureza. A natureza é brava, e o corpo é frágil. Mas o
homem tem outro inimigo perigoso, que são os problemas gerados pela própria organização que ele
tem de se dar para se converter numa entidade coletiva. Então, segundo a versão tradicional, o
homem, para poder associar-se e formar essas fortes civilizações, teve de aceitar muitas restrições,
teve de submeter-se e privar-se de muitas coisas para atingir esse poder coletivo. Ou seja, o homem
teve de dar-se leis, instituições, organizações, aparelhos, tais como descrevemos, para preservar esta
união, que é difícil, exige muito sacrifício de seus integrantes. Mas o pior de tudo é que nunca
funciona bem, geralmente é imperfeita. E isso traz como conseqüência o fato de que a associação
entre os homens não é eqüitativa, fraterna nem justa, e que a distribuição dos sacrifícios, dos
esforços e dos benefícios é desigual entre eles. Isso dá lugar
75 ▲

a fenômenos que podemos detectar como universais e onipresentes na história da humanidade, que
são a exploração de um setor da humanidade por outro, a dominação de um setor da humanidade
pelo outro, a mistificação e a manutenção da ignorância de um setor da humanidade por outro. Isso
faz com que as ameaças da natureza e do corpo se somem às ameaças da organização social, da
injustiça ou do fracasso da ordem civilizatória. Cada organização histórica, cada civilização, cada
modo de produção da vida humana sobre a terra tem suas modalidades de dominação, de exploração
e de mistificação. Mas o modo de produção capitalista é o modo de produção que atingiu o maior
grau de extensão e de universalidade sobre o planeta. É também o modo de produção em que esta
associação humana tem-se tornado mais poderosa e mais capaz de dominar a natureza, produzir
riqueza e elevar o padrão de vida dos seres humanos. O muito conhecido filósofo Marcuse diz que
chegamos à era da abundância, porque temos adquirido um poder produtivo inédito na história da
humanidade. Mas nem por isso, sabemos muito bem, temos conseguido superar os fenômenos da
exploração, dominação e mistificação que no capitalismo adquirem características muito próprias.
Então, o que acontece? Os homens associados, cuja principal potência é a capacidade de trabalho
coletivo, encontram-se diante do fato de que o fruto de seu trabalho não lhes retorna na medida em
que eles deveriam ser seus legítimos proprietários. O poder sobre a natureza, o poder sobre o
controle dos fenômenos da vida, também é injusta e desigualmente repartido. Com o saber acontece
a mesma coisa. A imensa maioria dos; homens que trabalham reunidos vivem uma situação de
impotência, e não é apenas a fragilidade perante a natureza, frente à condição mortal e frágil de seu
próprio corpo, mas a incapacidade devido à desigual distribuição da riqueza, do poder, do prestígio
e do conhecimento. Então, de uma forma ou de outra, poderíamos dizer que se tomamos a
formulação psicanalítica de uma impotência fundamental, que se converte no elemento central da
série desencadeante, e a articulamos com o Materialismo Histórico, podemos dizer que, no sentido
coletivo, a experiência universal de impotência, que gera os processos patológicos, é produto dessa
desigual distribuição da riqueza, do resultado do trabalho, do poder e do prestígio, que faz com que
quem gera esses valores, ou seja, a imensa maioria da 76 ▲

humanidade que trabalha, não desfrute dos resultados deste esforço. Então, o que Mendel vai
afirmar é que, se isso é verdade (e é difícil admitir que não o seja), o lugar onde deve ser estudada a
experiência essencial da impotência e o desencadeamento dos processos patológicos é o "lugar
natural" em que os homens se associam para exercer sua potência, ou seja, nos âmbitos de trabalho.
Para Mendel, as vicissitudes individuais dessa experiência de impotência não serão nunca
compreendidas se não forem analisadas num sentido coletivo e no lugar pertinente onde elas
acontecem, que é no lugar de produção. O que Mendel diz é que isso deve ser abordado nas
organizações de trabalho, entendendo o trabalho num sentido muito amplo, não apenas trabalho
industrial, mas também trabalho escolar, médico, comercial, ou seja, não apenas produção de bens
de consumo, mas também produção de serviços; e assim por diante. Mendel diz que quando se
abordam os coletivos que formam parte dessas organizações, é fácil ver que esses conjuntos
vivenciam, de mil maneiras diferentes, essa experiência de impotência devido às condições do
trabalho alienado no capitalismo. E essa experiência de impotência gera neles, incidindo sobre a
série disposicional de cada um deles, um processo regressivo. Só que esta regressão não deve ser
pensada como sendo da ordem individual, mas da ordem coletiva. Por isso, a regressão que se
produz é uma regressão de um funcionamento psíquico que Mendel chama psico-social ou psico-
institucional a um outro, chamado funcionamento psico-familiar. Isso consiste num processamento
psíquico em que o imaginário e o inconsciente já não estão em relação de retificação com o real, ou
seja, recai-se num funcionamento em que os sujeitos vivem uma vida fantasmática – e não uma vida
simbólica, adequada às circunstâncias concretas que os rodeiam, com um conhecimento
simbolizado do que está acontecendo na realidade. Esta experiência de impotência gera uma
regressão do psico-institucional ao psico-familiar, no sentido em que os sujeitos vão definir esse
campo real em que estão como se fosse uma situação familiar arcaica pela qual já passaram, quando
se estava construindo sua série disposicional. Ou seja, eles vão viver a situação de trabalho, a
situação organizacional como se essa fosse uma situação familiar arcaica. E as figuras
determinantes reais dessa situação atual vão transformar-se para eles nas figuras imaginárias de sua
situação familiar. Em

77 ▲

conseqüência, reagirão de uma maneira irreal e fantástica, como acontecia na sua infância, em que,
objetivamente, eles eram pequenos, sós e impotentes, e não tinham outra forma de solucionar essa
situação senão refugiando-se num mundo de fantasia. Devido a essa regressão que mencionamos, o
coletivo institucional como um todo faz uma regressão arcaica, familiar, e também se refugia no
mundo da fantasia. Tenta solucionar seus problemas de impotência mediante saídas mágicas,
imaginárias, como sintomas, atuações, inibições, delírios, somatizações, enfim, como tudo quanto
constitui a patologia biopsico-social. Então, se isso está mais ou menos entendido, a proposta de
Mendel é a de deflagrar dentro dessa classe institucional um processo de auto-análise, feito em
colaboração com uma equipe interveniente, que permita aos integrantes deste coletivo fazer a crítica
e obter a compreensão da regressão que os afeta, chegando à ressignificação simbólica de sua
regressão imaginária, para poder ter de novo um acesso ao real atual, que estão negando,
desconhecendo. Dessa maneira, recuperarão uma definição correta das circunstâncias que lhes
permitirão assumir seu verdadeiro poder como classe institucional, porque, afinal de contas, eles são
os produtores da riqueza, eles são os geradores do poder e eles são os que merecem prestígio.
Este processo opera teoricamente, como já dissemos, com pontos de vista e postulações
perfeitamente clássicas da Psicanálise e do Materialismo Histórico. A metodologia de intervenção
conserva muitas das características da intervenção psicanalítica, sobretudo o recurso interpretativo.
É preciso apenas sublinhar que o conceito de "cura" não é individual, mas coletivo, e não passa
exclusivamente pela tomada de consciência e pela supressão dos sintomas, mas exige um
movimento coletivo concreto de recuperação da margem de poder possível, que se tem perdido
devido à regressão do âmbito psico-institucional ao psicofamiliar.
Agora resumiremos a posição de Lourau, Lapassade e seus companheiros – que são, senão
os criadores exclusivos, pelo menos os que desenvolveram esta proposta que se chama Análise
Institucional. Tentando outra vez uma síntese, que por tratar de ser clara pode resultar
empobrecedora, digamos o seguinte:
Para a Análise Institucional, uma sociedade está ordenada por um conjunto aberto – quer
dizer, não totalizável – de
78 ▲

instituições. Uma instituição é um sistema lógico de definições de uma realidade social e de


comportamentos humanos aos quais classifica e divide, atribuindo-lhes valores e decisões, algumas
prescritas (indicadas), outras proscritas (proibidas), outras apenas permitidas e algumas, ainda,
indiferentes. Essas lógicas podem estar formalizadas em leis, em normas escritas ou
discursivamente transmitidas, ou podem ainda operar como costumes, quer dizer, como hábitos não-
explicitados. As citadas lóÓgicas se concretizam ou se realizam socialmente em formas materiais ou
"corporificadas" que, segundo sua amplitude, podem ser: organizações, estabelecimentos, agentes,
usuários e práticas. Cada instituição é universal, ou seja, indispensável para toda e qualquer
sociedadet mas para realizar-se em suas formas concretas passa por um momento de particularidade
e outro de singularidade única e irrepetível.
Se bem que cada momento da instituição seja positivo (digamos: é como ela sabe ser em si
mesma), também tem uma relação.de negatividade consigo mesmo, com referência aos outros e em
relação ao sistema global que as instituições integram e que, ainda que seja de maneira aberta, as
engloba. Essa característica faz com que quando se analisa uma instituição, como por exemplo, uma
norma universal (digamos as relações de parentesco), uma modalidade particular do matrimônio
poligâmico, ou um caso singular do casamento de um casal em uma colônia de mórmons norte-
americanos, a partir da organização positiva e visível em que essas relações se concretizam, tende-
se a atribuir-lhe funções inteiramente claras, eficientes e em geral consideradas necessárias,
indispensáveis, úteis etc. Assim consideradas, essas entidades, tanto para o saber espontâneo de seus
agentes sociais quanto para os experts que as descrevem, ocultam funcionamentos divergentes,
contraditórios e antagônicos que só se evidenciam quando se decifra ou se entende as maneiras em
que, como dizíamos, cada uma é negada pela outra ou pelo sistema integral. Em palavras diferentes,
é preciso considerar como cada uma destas instâncias está ausente no seio das demais, e essa
ausência é registrada como um não-saber, que é parte do saber espontâneo ou técnico que se tem de
cada uma delas.
A Análise Institucional não é, então, um super-saber ou um meta-saber absoluto que poderia
dar conta de todos estes
79 ▲

desconhecimentos, positivando de uma vez por todas o tecido social. Pelo contrário: trata-se de uma
investigação permanente, sempre lacunar e circunscrita de como o não-saber e a negatividade
operam em cada conjuntura.
Por exemplo, no caso das organizações do trabalho, a Análise Institucional parte da idéia de
que, devido ao processo que se chama "divisão técnica e social do trabalho", cada coletivo de uma
organização está alienado no não-saber, no não conhecer quais são as condições reais em que está
trabalhando. É vítima, digamos assim, de um desconhecimento que, em parte, é um
desconhecimento devido à desinformação e à estrutura e funções mesmas de instituições e
organizações; é a ausência de um conhecimento que nunca foi adquirido. Mas, em parte, é vítima de
um processo de doutrinamento ativo por parte das classes dominantes que lhe transmitem uma
definição do mundo, uma noção do processo de trabalho, dos objetivos da vida, dos valores, do
sentido da existência e uma definição da função das organizações que lhe é profundamente
desfavorável e que o faz compactuar com o poder, com as classes dominantes. É o que o Marxismo
chamava, classicamente, de Ideologia. Sobretudo é o aspecto alienado da Ideologia, entendida num
sentido menos amplo e mais restrito às organizações, que o mesmo Marxismo não sabe decifrar.
Isto é, esse mesmo processo de impotência, ao qual se referia Mendel, existe nas organizações,
porque quem é o proprietário dos meios de produção, dos meios de decisão, também é proprietário
de um saber. E cada saber envolve um poder: a propriedade de um saber possibilita o exercício do
poder tanto nas organizações capitalistas quanto nas socialistas. Esse poder é entendido como a
imposição da vontade das classes ou setores dominantes sobre as classes ou setores dominados, das
classes ou setores exploradores sobre as classes ou setores explorados. Isso gera, em todas as
organizações, o fato, como diria Mendel, da classe institucional trabalhadora, tanto nas suas bases
como nos estratos que lhe são próximos, desconhecer os principais vetores que ordenam a
organização na qual está inserida. Ela considera indiscutivelmente indispensável o papel do capital
como "criador de fontes de trabalho", ela considera absolutamente necessária a organização da
produção destinada a gerar mercadorias (e não a gerar bens de uso), ou destinada à produção de
armamentos exigidos pela belicracia de Estado. Ela

80 ▲

considera necessária a existência de hierarquia técnica e burocrática em que uma posição de maior
saber dá, "naturalmente", uma posição de maior poder. E não teria de ser assim, forçosamente. E
assim apenas porque a divisão técnica do trabalho se faz coincidir com uma divisão social. Mas a
divisão técnica não deveria implicar nenhum privilégio social. Então, trata-se de criar um
dispositivo no qual os coletivos possam analisar cada um dos fenômenos de mal-estar, de conflito,
de impotência, de disfunção que aparece devido a toda esta divisão injusta e perversa do trabalho.
Isso constitui parte do não-dito institucional. Em um sentido amplo, o não-dito compreende a
relação de não-saber que cada momento da instituição guarda com respeito ao outro e o não-saber
que cada saber contém pelo fato de ser específico.
Esses analisadores são muitos, como já dissemos anteriormente. Alguns deles são"
espontâneos", outros são construídos pelos interventores institucionais. Mas os que podem
delimitar-se com maior freqüência são, por exemplo, o analisa dor "dinheiro", o analisador "sexo", o
analisador "prestígio", o analisador "poder". São fenômenos conflitivos, são vivências sofridas, são
acontecimentos mais ou menos explosivos, são lugares de atrito que estouram nas organizações
devido ao fato de elas estarem destinadas a um trabalho que produza não apenas um produto cujo
resultado não seja planejado e reassumido por aqueles que o produzem, mas também uma série de
relações humanas distorcidas, monstruosas, que geram essa experiência de impotência. Então, essas
contradições vão estourar em fenômenos como o do absenteísmo, como o da diminuição da
produção, incidência do alcoolismo, da tóxico-dependência, de acidentes de trabalho, conflitos,
brigas, incomunicabilidade, rebeldia e revolta estéril, arbitrariedades que as classes dominantes da
organização costumavam, e ainda costumam, solucionar drasticamente, com medidas disciplinares;
tudo isso as classes institucionais dominadas podem também tentar solucionar com certo tipo de
respostas individualistas, desordenadas ou autodestrutivas. Então as classes e grupos dominantes, na
modernidade, descobriram uma disciplina que hoje se pode chamar de diversas maneiras – Recursos
Humanos, ou Psicologia Organizacional, ou Relações Públicas, ou Relações Humanas –, que se
destina a transformar toda essa problemática em uma

81 ▲

simples questão de negociação ou comunicação. Trata-se de colocar os quadros em contato para que
solucionem esse assunto conversando, negociando ou vivenciando, relaxando-se, mas sem sair da
lógica do sistema, sem que se tome consciência de como as determinantes básicas da alienação são
as causadoras dessa problemática. O que a Análise Institucional propõe é a criação de dispositivos
para que o coletivo se reúna e discuta, exaustivamente, esses fenômenos, e descubra a maneira
como esses efeitos antiprodutivos são a expressão, a conseqüência, tanto do não-saber das
contradições da estrutura e da função do sistema, como um desvio das forças críticas, das forças
revolucionárias, das forças subversivas. Trata-se de criar condições para que possam, dessa maneira,
correlacionar esses analisa dores com suas causas e dar conta delas – de forma a adquirir
consciência de que não vão poder solucionar esses fenômenos sem uma ampla reformulação da
estrutura e do processo produtivo em si mesmo, mas nas formas peculiares que este adquire em seu
caso singular.
O objetivo, pode-se ver, é parecido com o de Mendel. Em todos os dois há certa semelhança,
mas também diferenças. O objetivo último é propiciar a auto-análise e a autogestão, ou seja, a
recuperação do poder de organização e do autogerenciamento do processo produtivo, eliminando as
situações de burocracia, de imposição, de dissociação – não a diferenciação técnica, que é
necessária-, mas a dissociação e hierarquização social do trabalho. Mas a Análise Institucional é
mais crítica com a Psicanálise e o Materialismo Histórico que a Psico-Socioanálise.
Um dos aspectos importantes desta postura é a afirmação de que a equipe interventora
também é uma organização e que ela também pode sofrer os efeitos desta divisão técnica e social do
trabalho. E que também existe para ela um certo desconhecimento de como as características gerais
do sistema incidem no trabalho coletivo que ela está realizando; a isso se chama "implicação".
Então, a equipe interveniente também vai integrar-se com a organização intervinda numa
organização compartilhada, na qual vão poder analisar os fenômenos de alienação de uma e de
outra. De modo que esse processo autogestivo e auto-analítico, que vai tentar deflagrar na
organização intervinda, vai ser ocasião de poder analisar também os seus próprios conflitos da
mesma natureza. Finalmente, cabe
82 ▲

esclarecer que uma intervenção pode fazer-se "a frio", quando se pratica sobre uma organização
circunscrita, com uma conflitiva mais ou menos moderada, ou "a quente", quando se opera no seio
de processos ativíssimos que ocorrem dentro de uma tentativa de transformação autogestiva
generalizada de uma sociedade inteira.
Tentarei agora introduzir a Esquizoanálise de Deleuze e Guattari, tratando de caracterizar
algumas diferenças essenciais. Creio que elas poderiam passar pela questão de que a
Sociopsicanálise de Gérard Mendel e a Análise Institucional de Lapassade e Lourau, em última
instância – apesar de sua franca inspiração libertária, de sua enérgica vocação revolucionária – são
prestações de serviço mais ou menos tradicionais. Isto é, a demanda, o requerimento de uma análise
de uma intervenção institucional ou do tipo sócio-analítico, é feita por alguns setores ou pela
totalidade de um coletivo organizado a outro coletivo organizado, que oferece seus serviços de uma
maneira mais ou menos tradicional, como prestação de serviço profissional. Isto é, os
sociopsicanalistas e os analistas institucionais, apesar da rigorosa autocrítica que exercitam, apesar
de uma vocação militante que têm no seu trabalho, não deixam de ser experts, não deixam de ser
técnicos, científicos; não deixam de estar agrupados neste tipo de organização característica dos
experts profissionais. Por exemplo: o grupo de Mendel, que se chama Degenettes, trabalha em
muitos lugares do mundo, mas tem uma espécie de central em Paris. Pode-se, então, ir até lá e
solicitar seus serviços. Isso gera, entre a organização solicitante e a organização solicitada, todo um
processo de diagnóstico, prognóstico e indicação, e um contrato de trabalho. Então, apesar de todas
as ressalvas, auto críticas e análise da implicação, trata se de uma prestação profissional de serviço,
na qual se discutem honorários, tempo e demais coisas. Além disso, é geralmente um serviço
apresentado por um coletivo organizado a outro coletivo organizado, dentro de um marco mais ou
menos convencional, ou seja, a uma escola, a um sindicato, hospital, fábrica, convento, quartel etc.
Isso, como já dissemos, se denomina" autogestão a frio", enquanto a" autogestão a quente" é a
gerada numa situação revolucionária mais ou menos generalizada.
Deixando momentaneamente de lado as características teóricas da Esquizoanálise de
Deleuze e Guattari, que são muito
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sofisticadas e complicadas, digamos que a relação de Deleuze e Guattari com a Psicanálise e com o
Materialismo Histórico é muito mais complexa que a de Lourau e infinitamente mais distante que a
de Mendel. A posição de Deleuze e Guattari é muito mais crítica com respeito a todos os grandes
monumentos ocidentais do conhecimento que a dos outros autores das outras orientações. Eu diria
que de Mendel a Deleuze e Guattari existe, politicamente, todo um abandono paulatino do
Liberalismo e da Social Democracia e até do Marxismo, para se aproximar muito mais do
Anarquismo. Então, uma diferença técnica central é que para Deleuze e Guattari não existe,
necessariamente, essa prestação de serviços convencionais. A Esquizoanálise pode ser feita por
qualquer pessoa e em qualquer lugar. É considerada não como uma ciência ou como uma disciplina,
mas basicamente como uma nova forma de pensar, um modo de ser, ou uma maneira de viver.
Propõe algo assim como um processo de análise permanente, generalizado e ubíquo, presente por
toda parte, em qualquer momento, e protagonizado por qualquer pessoa que tenha, naturalmente,
interiorizados os princípios teóricos desta concepção – que não se reduz a nenhuma das que a
precederam. Não implica, necessariamente, uma relação de contratação. Não é, indispensavelmente,
desempenhada por experts nem por profissionais. Não implica um lugar nem tempo determinado.
Não é necessariamente uma atividade coletiva, senão que pode ser dual ou individual. Sequer
implica um trabalho de um agente sobre um usuário, mas que pode ser um trabalho feito por um
sujeito sobre si mesmo. Mas que tem também um aspecto analítico, ou seja, a compreensão de
como as determinações alienantes do sistema, responsáveis pela dominação, pela exploração e pela
mistificação, estão presentes em cada uma de nossas atividades vitais, as afetivas, as sentimentais,
as econômicas, as políticas, as artísticas, as relações com os outros e as relações conosco mesmos.
Eu diria que é uma posição maximalista ou extremista dentro do Institucionalismo. Além disso, que
não tem técnica nem metodologia própria – características das duas posições anteriores. Para ela,
são os princípios teóricos de compreensão que dão um entendimento que permite localizar a
alienação e propiciar, per se, a invenção de uma metodologia e de técnicas, táticas e estratégias
absolutamente singulares para cada caso, para cada situação, e que não podem ser sistematizadas
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nem transladadas para outra oportunidade.
Então, poderia-se perguntar: essa teoria da Esquizoanálise se aproximaria mais da filosofia,
é uma doutrina, uma ideologia, uma crença? A rigor, apesar de um de seus produtores ser
considerado o maior filósofo contemporâneo, na nossa opinião não se trata de filosofia. É alguma
coisa que está além da filosofia porque é um entendimento do mundo, da história, da vida, do
psiquismo, que pretende ser um novo gênero, não enquadrável, nem como uma ciência, nem como
ideologia, mas, na versão dos autores, como uma proposta radicalmente nova, que não é redutível a
nenhum dos gêneros de saber anteriores.
Novamente imagino que os que já ouviram falar de certas idéias de Deleuze e Guattari,
como, por exemplo, aquela das máquinas desejantes, se perguntaram qual é a definição de desejo
em cada uma dessas escolas do Institucionalismo. É uma pergunta justa que vai ter uma resposta
pobre: em Mendel, a concepção do desejo, eu poderia dizer, é rigorosamente freudiana: é a que
Freud dá nas formas que, segundo uma epistemologia clássica, são as mais amadurecidas de sua
obra. Em Lourau – apesar de ele considerar muitas propostas freudianas, ele não dá muita ênfase a
essa categoria e a esse conceito. Não lhe interessa, particularmente, a participação do desejo,
embora reconheça a existência de um inconsciente institucional e organizacional, mas não é um
inconsciente particularmente relacionado com o desejo e sim um inconsciente relacionado com o
não-dito e não-sabido, da vida organizacional, por referência não apenas à instituição familiar,
senão à do dinheiro e outras. Em Deleuze e Guattari, a coisa já muda radicalmente, porque eles
consideram a definição freudiana do desejo; mas para eles a questão se altera por completo. Para
Freud, o desejo é uma força inconsciente que anima o psiquismo, mas é uma força pertencente a
esse domínio, a esse campo completamente diferente das forças naturais e das forças sociais,
entendendo por sociais as forças políticas e as econômicas. Inclusive, se aceitamos que na
civilização moderna a esfera das máquinas mecânicas, elétricas, eletrônicas etc. já forma como que
uma terceira natureza, podemos dizer que existe a "natureza ecológica", a "natureza humana", a
"natureza social", a "natureza psíquica" e a "natureza maquínica" – a esfera maquínica; só que essa
esfera do mundo maquínico também tem suas forças animantes. Para Deleuze e Guattari, não se
trata de
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domínios nem de esferas separadas, isoladas entre si, mas entre suas formas molares; no nível
molecular, a produção e o desejo são uma e a mesma coisa. É a mesma natureza com uma diferença
de regime. A proposta deles é introduzir o desejo na produção e a produção no desejo. Equivale a
dizer que a substância ou a matéria última de todo o real – do real social, do real psíquico, do real
natural e do real maquínico – é a produção, é o produzir. Não a produtividade, que é a produção já
deformada pelo capitalismo, mas a produção como processo de geração constante do novo. Então,
eles dizem que se consideramos o conceito marxista de produção, tal conceito não consegue
englobar todas as formas de produção possíveis. Ao passo que, se tomamos o conceito freudiano de
desejo – ele, especificamente psíquico, como dizíamos, é restitutivo, e tenta esterilmente repetir um
estado anterior –, esses autores dizem que se se junta o conceito de produção com o conceito de
desejo, que são imanentes entre si, vai-se gerar uma nova categoria de produção, que abrange todas
as formas materiais corporais e incorporais de geração possíveis, e com essa característica de gerar
sempre o diferente e em todas as atividades possíveis, incluída a psíquica. Ou seja, para eles o
desejo não é restitutivo, o desejo é produtivo. A produção não é apenas produção mecânica social ou
natural, mas é também produção desejante, segundo as características do processo primário.
Mais ou menos essas são as diferenças. Baseando-nos nelas, para concluir, digamos que, por
exemplo, em Mendel, é claro que o desejo e seus produtos devem ser decifrados. Para quê? Para
que, uma vez interpretados, os sujeitos possam controlá-los, dominá-los e utilizá-los no sentido de
ganhar uma margem de poder possível. Para Deleuze e Guattari não há nada para decifrar, porque as
representações não interessam tanto quanto as forças; o que se tem de fazer é liberar, propiciar,
deflagrar a potência da produção, do desejo e da diferença. Tudo isso justamente por causa da
natureza última do desejo que eles supõem; no caso de Mendel, por exemplo, o desejo é, de uma
natureza conservadora que pode ser encaminhada para a revolução e para a produção, enquanto em
Deleuze e Guattari, ele tem uma natureza intrinsecamente revolucionária, que só precisa ser
veiculada, liberada de suas constrições.
Para Deleuze e Guattari, a realidade está composta por

86 ▲

três superfícies imanentes entre si: a da Produção, a do Registro Controle_e a do Consumo-


Consumação. Cada superfície (termo tomado dos filósofos estóicos) tem uma energia própria:
Superfície de produção = Libido; Superfície de Registro = Númen; Superfície de Consumo =
Voluptas. A Superfície de Produção está, por sua vez, integrada pelo Corpo sem Órgãos e pelas
Máquinas Desejantes. O Corpo sem Órgãos é o contrário de um organismo, ou seja, compõe-se de
matérias não-formadas e energias ainda não-vetorizadas como forças. Em si mesmo o Corpo sem
Órgãos é o grau zero de Intensidades, mas quando ele é ajeitado como um Plano de Consistência de
um Dispositivo ou Agenciamento revolucionário, desejante-produtivo, as Intensidades circulam por
ele configurando as Máquinas Desejantes e suas conexões criativas, geradoras de tudo quanto é
novo. Este conceito compreende o de Instituinte e o amplia. O Corpo sem Órgãos assim povoado se
transforma numa Nova Terra, enquanto que, em condições desfavoráveis, quando os experimentos
do Plano de Consistência fracassam, pode-se tornar um buraco negro ao acelerar-se ao infinito e
levar à morte ou à demência. O nível de funcionamento da Superfície de Produção é sub-
microscópico ou molecular.
Na Superfície de Registro, o Corpo sem Órgãos e suas intensidades e máquinas desejantes
são capturados como entidades molares (que correspondem aproximadamente aos instituídos-
órganizados: Estado, Igreja, empresas, bancos, dinheiro, organismos, representações e estruturas
edipianas). A este nível cristalizam-se em territórios. É o lugar das identidades e dos controles e da
repressão generalizada. Também a ele pertencem as pessoas, os indivíduos, os sujeitos, os códigos,
sobrecódigos e axiomáticas que quadriculam a vida biopsico-sociotécnica. O Corpo sem Órgãos
torna-se Corpo Cheio e adquire um órgão centralizador e hierarquizado que, segundo se trate das
formações primitivas, asiáticas ou capitalistas, será respectivamente o Corpo da Terra, do Déspota
ou do Capital-Dinheiro, ao qual "milagrosamente" se atribui ser a causa da produção.
Os dispositivos ou agenciamentos produtivo-desejante- revolucionários gerados por
encontros ao acaso das intensidades, ou máquinas desejantes, são capazes de desestruturar os
estratos e territórios da Superfície de Registro,

87 ▲

propiciando desterritorializações e linhas de fuga pelas quais o desejo e a produção se plasmam em


novidades radicais. Toda entidade tem uma textura molar e outra molecular, um pólo paranóide
(capturante a antiprodutivo) e outro esquizóide (produtivo-desejante-revolucionário).
Como se vê, apenas podemos enunciar estes conceitos porque sua proliferação nessa teoria
torna impossível defini-los em detalhe. Para tentar enriquecer um pouco essas definições, sugiro
consultar o glossário deste livro, assim como a bibliografia incluída ao final do mesmo.
88 ▲

PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO V


1) O que se entende pela Sociopsicanálise de Gêrard Mendel?
2) O que se entende pela Análise Institucional de Renê Lourau e Georges Lapassade?
3) O que se entende pela Esquizoanálise de Gilles Deleuze e Félix Guattari?
4) Qual ê a relação entre estas três tendências, a Psicanálise e o Materialismo Histórico?
5) Com que movimentos políticos poderia-se relacionar predominantemente cada uma das
tendências do Institucionalismo descritas neste capítulo?
89 ▲

Capítulo VI
ROTEIRO PARA UMA INTERVENÇÃO INSTITUCIONAL PADRÃO

Vamos tra tar de um roteiro para uma intervenção institucional do tipo standard, isto é, a
mais habitual, a mais corriqueira, a mais conspícua. Antes de começar, no entanto, eu gostaria de
fazer uma breve classificação – que, seguramente, será muito incompleta e esquemática – de
algumas formas diferentes de intervenção, pois me parece que, metodológica e tecnicamente, é uma
questão que não estou seguro de ter conseguido transmitir no percurso destes capítulos. É um
assunto importante, porque quando não fica claro, permanece nas pessoas uma dúvida enorme no
tocante à condição de contratação deste tipo de serviço. Então eu gostaria de, pelo menos,
mencionar algumas delas.
Tendo em vista a divisão já mencionada dentro do lnstitucionalismo entre a configuração de
um campo de análise e um campo de intervenção, é evidente que o campo de análise consiste
apenas num espaço conceitual ou nocional. Em outras palavras, é um tema do qual o
institucionalista quer se ocupar. Esse tema pode ser abstrato ou concreto; pode ser contemporâneo,
passado ou futuro. E pode ser muito vasto ou mais restrito. Mas
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é um processo de produção de conhecimento com respeito a esse campo e não implica


necessariamente uma intervenção técnica; envolve apenas o fato de que o institucionalista vai tentar
entendê-lo. Aliás, isso pode abranger até mesmo um tipo de material que não é propriamente
histórico-social, no sentido das formas institucionalizadas-organizadas: pode ser um texto literário
ou uma obra arquitetônica, por exemplo.
Agora, o campo de intervenção, como já foi dito, pressupõe um campo de análise, porque se
pode entender sem intervir, mas não se pode intervir sem entender, embora durante a intervenção
iremos entendendo cada vez mais. O campo de análise pode não coincidir, em termos empíricos,
com o campo de intervenção. Ou seja, pode-se escolher como campo concreto de intervenção uma
fábrica, uma indústria. Mas pode-se delimitar um campo de análise que não compreenda
unicamente o entendimento dessa fábrica, e resolver estudar o processo histórico de implantação
desse tipo de indústria no Brasil, para poder saber como funciona essa organização concreta, fabril,
escolhida como campo de intervenção.
Partindo, pois, dessa discriminação entre campos de análise e campo de intervenção,
digamos que as modalidades de intervenção podem ser variadas. Uma modalidade de intervenção –
aquela a que vamos nos referir de forma predominante quando repassarmos este roteiro standard,
tradicional – é um serviço oferecido desde posições mais ou menos clássicas, convencionais,
habituais, dentro do panorama social. É o que se dá como serviço oferecido na condição de
profissional liberal ou autônomo, na condição de sociedade cientifica – uma sociedade científica de
Análise Institucional que oferece trabalhos, por exemplo; é o exercício oferecido por um
estabelecimento de prestação de serviços privados, um instituto de Análise Institucional que pode
ser uma sociedade anônima de responsabilidade limitada ou uma microempresa; é o que pode ser
oferecido por um departamento especial de uma faculdade, um departamento de Análise
lnstitucional numa universidade.
Outra modalidade possível de prestação deste serviço pode ser feita por parte de uma equipe
que integra, que é interna à organização na qual se vai intervir. É o famoso caso, por exemplo, do
departamento de Recursos Humanos de uma empresa, que tem de fazer uma intervenção dentro de
sua empresa mesma,

91 ▲
ou um departamento de acompanhamento institucional de urna universidade.
Outra possibilidade é a de uma prestação de serviços feita de uma maneira parecida com
esta anterior, que acabamos de expor, mas menos caracterizada burocrática e profissionalmente. Por
exemplo, é o caso de um sindicato ou de um partido político que, nos seus quadros, tem
institucionalistas que são militantes formais. Então, esse sindicato ou esse partido político pede a
seus militantes institucionalistas urna intervenção em um setor, em um segmento, em urna frente,
em um espaço da vida e da atividade partidária, trabalho esse que pode ser ou não pago, contanto
que seja considerado corno parte da vida militante. Mas, em todo caso, é um acordo muito definido,
pois se trata de uma oferta e uma solicitação formais, em que se reconhece no militante
institucionalista um saber" específico", e ele é procurado nesta condição.
Urna outra possibilidade é aquela pela qual um institucionalista – que não se caracteriza
corno tal e não oferece seus serviços corno tal – infiltra-se em urna organização, à qual ele pode
pertencer organicamente ou não, e o faz sob um rótulo, na condição de qualquer outra coisa que
faça parte dos papéis formais existentes nessa organização, mas que não seja o de institucionalista.
É o caso, por exemplo, de um morador numa associação de bairro, em que ninguém sabe que seja
institucionalista, ninguém está informado de que ele oferece serviços institucionalistas, mas que,
dentro de seu papel de morador, opera corno institucionalista, sem explicitar essa condição.
Existe urna última possibilidade dentro desse espectro esquemático que ainda é pobre,
limitado, que consiste numa variação dessa última possibilidade. Urna variação que parece a menos
comprometida e, sem dúvida, é a mais difícil de todas: é a daquele que pratica o Institucionalismo
na convivência cotidiana. Ou seja: é aquele que nem oferece serviços corno institucionalista, nem é
solicitado corno tal, nem se infiltra sob outra condição não formal, mas simplesmente é um
"cristão", isto é, é um próximo que, tendo assimilado princípios teóricos, formas técnicas de operar,
vive dessa maneira, convive dessa forma e, então, pratica o Institucionalismo com sua mulher, com
os filhos, com os companheiros, com os adversários. Em outras
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palavras: é aquele que tem. do mundo urna concepção institucionalista e urna maneira de viver de
acordo com esses princípios. Isso inclui o seu âmbito de trabalho, mas é principalmente na
coexistência, na colaboração cotidiana com seus companheiros, que ele se comporta corno
institucionalista.
Essa esquemática sistematização requer um tratamento, uma explicitação e uma abordagem
muito detalhados e complexos das peculiaridades que adquire cada uma dessas inserções possíveis,
o que não faremos por várias razões; em primeiro lugar, porque ela não foi exaustivamente feita em
texto algum – e suspeito que jamais será feita, porque é demasiadamente ampla, heterogênea,
complexa, inclusive por causa da pretensão institucionalista de que cada intervenção tem de ser
singular, tem de ter uma característica de originalidade, de irrepetibilidade, o que torna a
sistematização dessas diferenças eventualidades muito difíceis e improváveis. Mas, em todo caso, o
importante é reter isso, a amplitude de possibilidades, amplitude essa que produz um efeito
contraditório nos jovens institucionalistas, porque esses novatos são formados dentro de uma
orientação disciplinar: querem ser essecialistas, querem ser profissionais e querem ter um corpo de
saber e de prescrições, de estratégias e de táticas, claro, simples, limitado e preciso. Querem saber
quem são, que direitos têm, que deveres têm, qual o seu estatuto científico, qual sua condição
profissional, e querem ter uma teoria simples, clara, assim corno opções técnicas não
demasiadamente numerosas para poderem saber, com toda facilidade, o que devem fazer em cada
conjuntura. E nisso consiste a formação disciplinar que tende a produzir – técnicos e, em muitas
ocasiões, embora não em todas, à condição de técnico se acrescenta a de funcionário ou de
burocrata.
Felizmente ou não, o lnstitucionalismo não é assim; não é isso o que ele propõe, apesar de
que, em algumas ocasiões infelizes, possa vir a cair nisso. Então, essa amplitude gera nos jovens
agentes uma angústia, um mal-estar que pode derivar numa recusa, que pode levá-los a adotar uma
atitude depreciativa que os conduz a dizer: "Isso é muito vago, muito complicado, muito impreciso;
não faço; deixe-me tranqüilo corno médico, corno advogado, algo tradicional e não
demasiadamente autocrítico." É o famoso problema de focalizar isso de maneira otimista ou
pessimista. A maneira pessimista é dizer que é muito
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complicado, muito impreciso, há demasiadas opções. A maneira otimista é dizer: "Graças a Deus,
há tantas possibilidades e tantas margens para a invenção... "
O que vamos desenvolver agora é apenas uma dessas formas de intervenção, que é a
intervenção institucional standard, a qual: 1) não é a única (o que espero, tenha ficado claro); 2)
nem sempre é a melhor – apesar de costumar ser a mais clara e a mais sistematizada; e 3) muito
freqüentemente não é possível, porque as características da demanda não a propiciam. Então, deve-
se ter cuidado, porque se a gente se prende a esse tipo de intervenção, se se apega a esse modo de
operar, corre o risco de pensar que quando ele não é possível, não existem outros que, pelo menos,
deixaremos esboçados.
Ora, a intervenção apresenta uma série de passos que têm de ficar bem explicitados. São
passos ideais, aos quais deveríamos prestar atenção, tratar em separado a cada um deles durante a
intervenção, se houvesse tempo, se houvesse calma, se houvesse dinheiro, se houvesse todas as
condições necessárias para fazer as coisas de maneira confortável. Em geral essas condições não
existem, então pulam-se e misturam-se passos, e age-se, mais ou menos, "como é possível". Se
vocês querem um exemplo corriqueiro, conhecer esses passos e executá-los é como em algumas
épocas gloriosas da etiqueta, quando nos ensinavam a caminhar de maneira elegante e, então, se nos
diziam: calcanhar planta-ponta, calcanhar-planta-ponta... Ora, ninguém caminha assim. Mas
acontece que caminhar assim resulta num andar elegante. Depois, a gente não vai mesmo pensar
nisso, e simplesmente caminha mais ou menos, tão elegantemente como pode. Ou como quando a
gente aprende a nadar, que consiste primeiro em levar o braço direito, depois o braço esquerdo, e
bater as pernas coordenadamente, e a cabeça se volta para esse ou aquele lado... Quando a gente
nada assim, só pensando nessas regras, se afoga, apesar de ser a maneira mais correta de fazê -lo...
O primeiro passo consiste em fazer a análise da produção da demanda. Isso, em um sentido
particular, consiste no cuidadoso exame que a organização ou a pessoa que está para fazer a
intervenção institucional faz da maneira como ela ofereceu os serviços; ou seja, o estudo da forma
como ela produziu a demanda que lhe é feita. Temos enfatizado muito que correntes
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atuais, tanto de Marketing quanto de Psicanálise, ou de Psicanálise e Marketing (que não estão nada
separados), têm insistido bastante na questão da demanda do usuário: o usuário demanda isso, mas
não sabe que, na verdade, demanda outra coisa. Sistematicamente se esquece, nessas leituras, nessas
investigações, que não existe demanda espontânea, que toda demanda é produzida, é gerada, e que
existe um cruzamento na natureza da demanda, de tal maneira que não é necessariamente a
organização que oferece um serviço a única responsável pela produção de demanda desse serviço.
Muitas vezes, a produção da demanda de um serviço, por exemplo, um serviço de saude, é.
"naturalmente", em princípio, produzida pelos estabelecimentos de saúde que oferecem seus
serviços. Mas ela é produzida, igualmente, pela falência, por exemplo, de outras ofer,tas de outras
organizações e dos serviços dessas organizações que são incompletos, que são distorcidos, que são
anacrônicos e que geram demanda de serviços de saúde porque não resolvem bem os problemas da
sua especificidade.Em outras palavras: como as organizações responsáveis pela demanda
urbanística, de moradia, realizam mal e resolvem mal sua oferta, elas produzem uma demanda à
qual não respondem. Isso traz conseqüências em saúde; os problemas sanitários, por exemplo.
Então, quem é que gerou a demanda do serviço de saúde? Não foram apenas os estabelecimentos de
saúde. Foram também os estabelecimentos de urbanização, não por geração de uma demanda de
saúde coerente, racional e consciente, articulada com a oferta, mas pela inconsciência e pela
falência de sua oferta. Mas esse exemplo que acabo de dar é insignificante, porque, devido às
questões de atravessamento e às questões de transversalidade, isso se torna um complexo
mecanismo no qual a gente só consegue averiguar algumas das determinantes cruzadas da produção
de demanda com a oferta... e em geral se perdem muitas. É importante que isso fique claro. Mas, em
todo caso, o mínimo que podemos saber sobre isso é que não existe demanda espontânea e natural,
nem universal, nem eterna, mas, pelo contrário, ela é produzida pela oferta. Portanto, a primeira
coisa a ser feita ao nível de um campo de análise é uma pesquisa, a mais ampla possível, de como
produzimos a demanda de serviços. Nesse caso, a demanda de Análise Institucional é, como o leitor
compreenderá, nem mais nem menos que o começo da
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análise da implicação. Porque se a análise da implicação é a análise do compromisso sócio-


econômico-político-libidinal que a equipe analítica interventora, consciente ou não, tem com sua
tarefa, ela começa pela análise da implicação existente na oferta, ou sefa, na produção da demanda.
Na oferta ou produção de demanda há muitas características que não podemos detalhar aqui
porque excede nossos propósitos. Mas há uma que temos de revelar, ter presente, e eu gostaria de
descrevê-la de maneira pitoresca, para que seja mais lembrada pelos leitores. Há uma piada famosa
que se passa num forte militar, numa dessas guarnições que ficam lá na fronteira. Um oficial pede a
um soldado que suba na torre de controle para ver se os índios estão vindo ou não. É um forte
americano, em território índio. Então, o vigia sobe, olha e diz:
"Sim, os índios estão vindo... São muitos; vêm correndo." O oficial pergunta: "Mas esses índios são
amigos ou inimigos?" Ao que o soldado responde: "Olhe, devem ser amigos, porque estão vindo
todos juntos... " Se a gente se lembra desta piada, fica mais fácil lembrar que a realidade com que
trabalhamos vem toda junta. A divisão em especialidades, profissões, só existe dentro da classe ou
da equipe, mas não nos usuários. A realidade "vem toda junta": as divisões que fazemos são
totalmente produzidas. Mas a realidade vem junta e nós não estamos juntos; o mais que
conseguimos, às vezes, é estar próximos, um ao lado do outro. E o que acontece é que cada
especialidade, cada profissão, acha que os problemas da realidade são problemas de seu campo. Isso
não é maldade dos agentes; pode ser uma desonestidade, e muitas vezes é, mas não freqüentemente.
Acontece que o aparelho científico disciplinar e a condição profissional estão estruturados para isso,
para encarar qualquer problema da realidade e estar, em princípio, convencido de que o problema é
nosso: de cada um, do especialista, do profissional. Então, um senhor ou uma organização vem
consultar-nos sobre um problema de saúde. Eu sou especialista em saúde. Além disso, sou
profissional. Vivo disso. Adquiri uma série de conhecimentos nos quais confio porque eles têm-se
demonstrado eficazes. Cabe lembrar que obtenho todo o meu dinheiro, todo o meu poder social e
todo o meu prestígio através disso que eu faço. Então não tenho culpa de nada. Se alguém me
consulta por um problema de saúde, certamente ele tem saúde ou não tem saúde e isso é da minha
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alçada. Então: "Venha que esse problema é comigo... " Quantos profissionais, quantos cientistas
vocês conhecem que, após ouvirem cuidadosamente alguma demanda, concluem que esse problema
não é para eles resolverem, e encaminham a alguma organização ou a outra especialidade? Não se
conhecem muitos profissionais assim... Existem poucos. Às vezes há quem diga: "Sim, o problema
é meu, mas seria conveniente fazer uma consulta a um especialista em tal ou qual área." Isso já é
muito, é difícil de se ouvir. O que é absolutamente improvável de se ouvir é uma resposta do tipo:
"Permita-me dizer-lhe que esse problema não é privativo de nenhuma especialidade. Esse problema
tem de ser resolvido com seus amigos, seus companheiros, seus colaboradores ou sozinho." Estou
tratando de ser simples. O problema fundamental é esse: quando a gente recebe uma demanda, a
primeira coisa que ocorre é que a gente tende a pensar que não tem nada a ver com a crítica dessa
demanda; se o sujeito está demandando em primeira instância, somos levados a aceitar que é porque
já sabe o que está demandando. E se me procura, estou a seu dispor. Procura-me porque algum lado
do problema tem a ver com o que faço, e então o atendo, esquecendo-me de que, se ele me procura,
é porque me ofereci. Não necessariamente me ofereci a essa pessoa que me procura; pode ser uma
oferta vasta, ampla, cruzada. Mas se eu não me oferecer, ninguém me procura. Se eu não me
constituo num lugar científico, profissional, se não vendo o que faço, ninguém" compra".
Então, o que tenho de fazer é analisar, com cuidado, como foi que vendi isso, para que foi
que "vendi", que coisas, realmente, posso solucionar, que coisas posso solucionar parcialmente e
que coisas não devo solucionar, devo encaminhar noutra direção ou devo devolver, dar de volta ao
usuário o que ele solicita de mim. Essa é a análise da implicação na produção da demanda, ou seja,
na oferta. Essa análise tem aspectos conscientes e pré-conscientes formuláveis assim:
"Companheiros de equipe, vamos ver como foi que convencemos este fulano a nos procurar." Mas
tem aspectos inconscientes, ou seja: que fiz eu, sem me dar conta, o que foi que fizemos nós sem
dar-nos conta, para" capturar este peixe"? Mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta
reflexiva e voluntária. A primeira coisa a ser feita para isso é despojar-se da convicção de que a
oferta de nossos serviços é lícita, válida, resolutiva etc., porque, pelo contrário, o que

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vivemos fazendo é lutar pela legitimação, pela autorização e pelo reconhecimento social de nosso
serviço.
O passo seguinte é a tentativa de análise do encaminhamento, isto é: quais foram os passos
intennediá;ios que conectaram o usuário-demandante conosco? Há muitos, mas para dar um
exemplo simples: qual foi o cliente que, definindo nossos serviços como eficientes, chegou à
conclusão de que seu próximo se beneficiaria também com esse serviço? Quais são as razões
válidas e as razões inconfessáveis, ou as razões recalcadas pelas quais ele fez esta recomendação? O
que acontece quando quem fez esta recomendação é um congênere, isto é, não é exatamente um
colega, mas outro profissional e outro especialista que resolveu fazer a concessão de nos
encaminhar alguém? São passos intermediários da conexão entre a oferta e a demanda. São as
famosas fórmulas: consulta a organização tal ou o fulano de tal porque "é o melhor"; consulta
porque "é caro"; consulta porque" é bara to"; consulta porque ele é "dos nossos". É preciso ver o
que significa cada um desses atributos: qual é o problema que agIu tina a quem solicita. Consulta
porque" é daqui", ou porque "vem de fora". Tudo isso modula a demanda, e o faz com elementos
conscientes e inconscientes no usuário, na mesma proporção neles e em nós, que ofertamos o
serviço.
O passo seguinte é a análise da gestão parcial. Isto é: qual foi o setor da organização que
assumiu o papel de vir consultar nos ou fazer o contato? É o setor de direção? É o setor
administrativo? É o setor financeiro? São os quadros intermediários? São as bases? É o
proprietário? Ou seja: a gestão parcial da demanda de serviços é protagonizada por diferentes.
segmentos da organização. E isto é muito importante, porque nos pode dar toda uma antecipação
dos motivos desta consulta, os interesses em jogo, os desejos em pauta e, sobretudo, o grau de
consenso, de unanimidade que motiva os protagonistas dessa solicitação. Não é a mesma coisa ser
solicitado pela direção ou pelos proprietários e ser solicitado pelas bases. Costuma ser, para os
institucionalistas, infinitamente melhor serem solicitados pelas bases do que pela direção ou pelos
proprietários. Isso, sem dúvida, não é nenhuma garantia, porque as bases não são homogeneamente
revolucionárias, nem homogeneamente progressistas, nem homogeneamente sinceras. Coisa que se
constata claramente naquela célebre frase que diz: “A ideologia
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dominante é a ideologia das classes dominantes." Então, as bases são, em geral, originais,
singulares, solidárias etc., mas estão infiltradas pelos interesses e desejos dos setores dominantes.
Então, ser solicitado por elas não é garantia de uma intenção transparente. Isso também tem de ser
analisado.
O grupo que protagoniza a gestão parcial em geral não contém todas as partes, mas apenas
uma delas. Estamos falando de uma situação ideal em que, geralmente, vem apenas um segmento
(apenas uma parte faz a demanda). Por outro lado, uma organização numerosa nunca virá toda para
fazer uma solicitação. Vem um setor, que dá uma visão absolutamente parcial da realidade. A
compreensão da determinação dessa parcialidade é importante, pois o fato de você considerar o
parcial é que vai lhe permitir imaginar a existência de uma totalidade complexa, contraditória,
desigual, conflitiva. Isso, claro, sabendo que uma organização nunca é integralmente totalizável.
Então, a análise da gestão diz respeito a isso: como foi que esse grupo resolveu consultar e
como foi que consultou. O passo' seguinte é a análise do encargo.
Na análise do encargo há um problema terminológico que seria interessante que ficasse claro
para os leitores. Há uma discriminação muito importante que se estabelece entre demanda e
encargo. Nessa terminologia, demanda é a solicitação formal, consciente, deliberada, que nunca
coincide com o encargo, que é um pedido que envolve os três níveis da discriminação que fizemos
entre má-fé, desconhecimento e recalque. A diferença entre demanda e encargo pode passar por
esses três tipos de determinações. A demanda nunca coincide com o encargo. Mas não coincide por
quê? Por má-fé? Pode ser. É claro que as pessoas estão solicitando uma coisa, mas o que elas
querem obter é outra. Pode-se dar um exemplo clássico, mas não único, nem exclusivo: à
solicitação de intervenção institucional, na medida em que a Análise lnstitucional está cada vez
mais em moda e que crescentemente ocupa lugares formais, é uma solicitação consciente que, em
geral, passa pela idéia confusa de que um serviço de Análise Institucional forma parte da
parafernália de serviços característicos do progresso, da tecnologia moderna em relações humanas.
Então, a demanda é geralmente uma demanda do tipo: "Bom, veja, viemos consultá-lo porque
sabemos da importância desta disciplina e queremos melhorar o ambiente
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dos operários, da direção, ou queremos melhorar o clima entre professores e alunos, a comunicação,
o entendimento, a negociação etc." Por quê? Porque já se sabe que existe uma tecnologia
modernista que conhece do assunto e vai se ocupar disso. Ora, acontece que o encargo pode não ter
nada a ver com isso. O encargo pode ter a ver, por exemplo, com algo que acontece quando, na
organização, está surgindo um grave conflito por problemas de condições de trabalho, por
problemas de nível de salário, por problemas de autoritarismo na liderança, todo tipo de atritos mais
ou menos explícitos. Então, há uma demanda, num plano manifesto, de uma intervenção profilática,
progressista, melhoradora. O encargo, no entanto, é: "Olhe, veja se acaba com esta revolta, localiza
os líderes, me aconselha como desmontar este movimento, como desmobilizar, como fragmentar,
como paralisar isto, ou como aumentar a produtividade sem tocar na questão do salário." Isso pode
ser feito com plena consciência e com má-fé. Muitas vezes o interventor solicitado tem uma
trajetória que permite que lhe seja solicitado isso com toda clareza, porque é um corrupto ou porque
é um reacionário. Há especialistas em fazer essas coisas. Agora, quem tem fama de institucionalista
dificilmente será solicitado abertamente para isso, porque já se tem uma vaga idéia de que se ele
não é revolucionário, pelo menos é democrata ou humanista. Então não se lhe pede isso
diretamente. Mas pode-se perceber, perfeitamente, que se diz uma coisa e se está pedindo outra.
Mas a diferença entre a demanda e o encargo pode não passar pela má-fé. Pode ser fruto do
desconhecimento, ou seja, você pode perfeitamente ter uma impotência sexual psíquica, e procurar
um urologista, que não sabe uma palavra sobre isso. O urologista irá receitar, então, cloridrato de
ioimbina ou viagra, e se isso não funcionar, vai acabar implantando uma prótese peniana para ver se
opera, quando, simplificando humoristicamente, trata se de algum conflito com a "mamãe"... Não é
comum isso? Trata- se, pois, de um problema de ignorância. O usuário não tem como saber qual é o
lugar e o expert adequado (?) para a consulta.
Mas pode ser, finalmente, um problema recalcado, inconsciente, de quem vem consultar
alguém que tenha reprimido (em um sentido amplo) qual seja a diferença entre sua demanda e o
encargo recalcado, entre o que ele pede e o que ele inconscientemente espera conseguir.
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Agora cabe aclarar uma coisa importante. Quando se simplificou isso, anteriormente, no
tocante à diferença entre a demanda e o encargo, em termos de má-fé, de desconhecimento ou de
recalque, falou-se no caso de quadros de proprietários ou de quadros diretivos que pedem um
serviço. Mas se os quadros são de base, pode acontecer exatamente o mesmo: o pedido pode ser
fruto de má-fé, de desconhecimento ou de recalque, porque os quadros de base podem fazer essa
solicitação, por exemplo, porque não querem trabalhar, descartado o fato de que todo trabalho é
alienado, que sempre existe uma extração de mais valia, e que sempre há dominação etc. Mas vocês
devem ter ouvido, com freqüência, estes grandes "protestos revolucionários", porque não se quer
estudar, não se quer trabalhar. Então solicita-se alguma reivindicação, mas tem-se outro pedido
como encargo: "Dê um jeito para que a gente não trabalhe." Já tenho recebido demandas
dramáticas, heróicas, pelo fato de ter sido colocado o cartão de ponto. É claro, numa sociedade onde
o trabalho é alienado, o cartão de ponto quer dizer muita coisa, e a maioria delas não é boa. Mas
também quer dizer que você tem um horário de trabalho que odeia cumprir, ou um estudo que não
tem vontade de 'encarar, ou uma autocrítica que não consegue suportar. Sem dúvida este desagrado
pelo trabalho ou o estudo não é produto de uma "natureza ruim", ou de uma essência "vadia". Os
determinantes do "desprazer ocupacional" na nossa sociedade são reais e espantosamente
complexos. Freqüentemente a "resistência" à tarefa é uma tática de luta que exprime o fato de que
trabalhamos por dever ou forçados pela sobrevivência. Mas, em todo caso, é bom que tais manobras
fiquem claras para o institucionalista e para o demandante.
Já dissemos do que se trata a análise de encargo parcial. Já sabemos o que é encargo, e
também análise da demanda parcial. Na realidade, não se podem separar esses dois pontos.
Entendendo a demanda parcial e sua diferença em relação ao encargo parcial – são dois pólos de
uma unidade, não se pode entender um sem o outro –, então temos de caracterizar os analisadores
"naturais". Vocês se lembram do que é analisador .natural: é um fenômeno (dito em termos
clássicos, incorretos e ilustrativos) mais ou menos similar ao que Pichon Rivière chama de
emergente, que é o que surge como resultante de toda uma

101 ▲
série de forças contraditórias que se articulam neste fenômeno. E são "naturais", porque não foram
fabricados por um interventor institucional. Então, suponhamos um analisador chamado natural
(criticamos a palavra natural porque nada é "natural"): um analisador natural seria um terremoto, e
nunca nos chamaram para analisar um terremoto porque temos pouco para dizer a respeito disso,
pelo menos enquanto acontecimento geológico. Então, não existem analisadores naturais
propriamente ditos. Na verdade os analisadores são espontâneos ou históricos. Qual seria um
analisador desse tipo? Grande, pequeno ou médio, poderia ser uma greve, a morte de um operário, o
aumento das doenças de trabalho, uma grande briga: esses são analisadores chamados naturais.
Então, temos de caracterizá-los, delimitar quais são. E quando tivermos feito tudo isso, poderemos
chegar ao que se chama diagnóstico provisório. Um primeiro entendimento sobre o que está
acontecendo lá na organização. Só que esse diagnóstico provisório é o que os médicos costumam
chamar de "presuntivo", que é uma hipótese ainda especulativa sobre o quadro. Mas então, temos de
fazer, a esta altura, um contrato de diagnóstico. Este contrato já implica a construção de dispositivos
para ouvir todas as partes. O contrato de diagnóstico é um acerto, é um convênio feito para poder
construir um dispositivo no qual possamos ouvir todas as partes. Porque só ouvimos uma, aquela
que fez a demanda parcial. Só que é bom fazer este novo acordo, porque ele implica que o
diagnóstico já é uma operação de intervenção Então já tem de ser autorizado, legitimado e, no caso
de existirem honorários, já devem ser pagos, Senão, o que acontece? Toda a intervenção pode
acabar aí, no entanto não é valorizada pelos usuários. Por isso, se entre outras coisas o
institucionalista vive disso, é interessante receber os honorários, e também porque um contrato de
diagnóstico lhe dá direito a credenciais para poder ter acesso aos lugares que têm de ser
diagnosticados. Senão, se vai lá, entra-se para diagnosticar e o segurança te manda embora. Depois
do contrato de diagnóstico, cria-se dispositivos para recolher todo o materiaI necessário. Então,
tenta-se analisar, fundamentalmente, as defesas, isto é, quais foram as resistências que se
levantaram nos outros setores que se foi ouvir. Com esse contrato, assegura-se o respeito geral
necessário, pelo fato de que, em primeira instância, o institucionalista foi solicitado por um setor,
por um segmento qualquer, e não por todo o coletivo.
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O passo seguinte consiste em, a partir desse diagnóstico provisório, poder planejar uma
política, uma estratégia, uma tônica e técnicas para começar sua intervenção. Mas não foi concluído
ainda o diagnóstico provisório. Ainda é um presuntivo já mais elaborado, mas não é sequer o
diagnóstico provisório. Então vai-se criar analisadores construídos, ou dispositivos para poder
recolher todos os dados do didgnóstico provisório. Por enquanto, só se ouviu os setores
distintamente. Ouviu-se passivamente, mas não se criou condições para cutucar o não dito que
queremos investigar,
Mas será que quando crio instrumentos de investigação, de indagação, não estou deixando
de ser institucionalista no sentido de que faço averiguações ativas sob a minha ótica? Posso correr
este risco? Sim e não. Evidentemente é um procedimento ativo e não é "natural"; é "artificial" – já
fizemos a diferença entre analisadores naturais e analisadores artificiais. Mas talvez isso se possa
entender um pouco melhor simplificando esses dispositivos e analisddores construídos. Eles não são
tão indutivos assim, porque se trata simplesmente de propor. Vamos dar um exemplo fácil. Depois
que se fez a investigação passiva, resolve-se que o analisador artificial que vai agitar o ambiente e
que vai dar-nos o material mais profundo, mais crítico, mais comprometido, é uma reunião de
cineclube. Cheguei à conclusão de que vou propor a projeção de um filme e uma discussão sobre o
mesmo, e importante, porque é indireto, desloca a problemática da situação espontaneamente
referida. Por outro lado, não é demasiadamente indutivo, porque o interventor não está baixando
regras, mas está propondo um dispositivo agitador, um agenciamento ativador. Os usuários podem
aceitar ou não. Se não aceitam, teremos que pensar em outras alternativas. Uma vez aceito, pode dar
certo ou não. Pode ter um resultado rico ou pode não dar em nada. Também se pode propor outra
coisa bem interessante: um laboratório prolongado de fim de semana em um espaço diferente do
habitual: vamos nos reunir todos em um lugar e vamos conviver durante estes dois dias e permitir-
nos observar o que acontece nessa convivência. É muito recomendável e não é nada autoritário,
nada impositivo.
Depois que se executam os dispositivos do diagnóstico provisório, reúne-se a equipe
interventora e parte-se para analisar toda a colheita, fazendo-se a análise da demanda e do encargo
103 ▲

definitivo. Da mesma maneira que ativamos esse coletivo ou mobilizamos e o colocamos em


condições de manifestar-se muito mais livremente, muito mais ricamente, também somo's
mobilizados, somos igualmente ativados, temos uma vivência de contato diferente. Então, temos de
voltar a fazer uma auto-análise da implicação: o que foi que isso acordou, despertou em nós, que
não tínhamos percebido em todos os passos anteriores? Particularmente o material inconsciente. Por
exemplo, depois de todo esse novo exame, temos adquirido solidariedade ou cumplicidade
inconscientes com segmentos organizacionais? Isso agitou em nós ambições e desejos que não
tínhamos e agora percebemos? Por exemplo, quando se mantém uma convivência prolongada,
pode-se chegar à conclusão que dessa intervenção podem ter origem dezenas de outras
intervenções, porque essa agência faz parte de uma cadeia nacional de agências e que se a equipe
fez uma boa intervenção aqui, vai conseguir outras intervenções noutros lados. É possível não se
dar conta de que essa ambição acordou-se nos interventores. Então, a análise da implicação
significa pesquisar, exaustivamente, no coletivo interventor, quais foram os inconfessáveis e
imperceptíveis ou recalcados que foram ativados. Nova análise da implicação. Por que é
importante? Porque o passo seguinte é o diagnóstico definitivo e o planejamento da intervenção
definitiva. Nova política, novas estratégias, táticas, técnicas definitivas, analisadores definitivos e
um passo seguinte fundamental: proposta de intervenção e novo contrato.
Esse contrato definitivo, que envolve maior compromisso e requer mais retribuição, exige
ter muito claro aquilo com que se está lidando e quais foram as ressonâncias inconscientes que isso.
despertou na equipe interventora. Também será preciso definir qual a orientação geral que vai ser
dada ao processo, será necessário precisar quais são as estratégias, os movimentos fundamentais
para conseguir os propósitos políticos; será necessário desenhar as táticas, os espaços onde se vai
dar essa "guerra", a ordem dos mesmos, a importância dos mesmos e as técnicas, os procedimentos:
psicodrama, técnicas expressivas, qualquer técnica, mas pensada anteriormente; uma festa, um
cineclube, uma guerra simulada, um quebra-cabeça coletivo, toda técnica é boa, sempre que a tática,
a estratégia e a política estejam bem claras e resultem do diagnóstico definitivo e do entendimento
da implicação.
104 ▲

Depois temos a autogestão do contrato de intervenção, isto é, vamos fazer uma proposta de
contrato definitivo, mas não vamos impor nenhum dos termos e deixaremos que o coletivo
proponha se quer pagar quanto quer pagar, por que quer pagar, que tempo pensa destinar ao
trabalho, que poderes quer nos dar e porque, o que será muito ilustrativo do significado que a
intervenção tem para cada segmento. O interventor institucional nunca faz uma declaração assim:
"Eu quero um contrato por tanto tempo, eu cobro tanto e quero que se me autorize produzir tais e
quais transformações na organização ou introduzir tais mudanças." Primeiro quero saber o que o
coletivo propõe nesse sentido, e porque. Isso é completamente diferente das prestações de serviço
profissionais habituais, em que o profissional diz: "Minha hora custa tanto, o tratamento vai durar
tanto tempo, e quero que você se deite e me deixe examinar seu ouvido esquerdo com este aparelho.
Se não for assim, não atendo." Não é esta a idéia. Os temas a investigar são: Como você concebe
este serviço? Quanto tempo você acha que vai durar? Quanto dinheiro você acha que deve ser pago?
E como está distribuído o pagamento? Quando cada um pensa que deve pagar e por quê? Quais são
os direitos que você nos vai dar para podermos intervir? Podemos estar aqui todos os dias?
Podemos acompanhar o trabalho hora após hora? Podemos estar nas reuniões reservadas? Podemos
ver os livros contábeis da organização? É claro que, depois de analisar a proposta, o institucionalista
pode fazer uma contráproposta e fundamentá-la, para chegar a um acordo consciente.
Depois vem a execução da intervenção, tal como foi planejada. Logo vêm as avaliações
periódicas, que são momentos de parada para qualificar os resultados e voltar a analisar a
implicação que se vai gerando na equipe durante o processo. Consideração dos índices de
transferência, resistência, produção, antiprodução, atravessamento, transversalidade, todos os
conceitos que explicamos durante o curso e que agora não poderemos tratar em detalhes.
Quando acaba a intervenção temos de fazer um prognóstico, que poderemos ou não
comunicar ao coletivo. Poderemos ou não propiciar a implantação de um dispositivo de auto-análise
coletiva permanente; ou seja, no momento em que saímos da organização, ficará uma disposição e
uma
105 ▲

instrumentação de dispositivos para que esse coletivo continue fazendo, de forma permanente, o
processo de auto-análise e o processo de autogestão que induzimos, que introduzimos como hetero.
Nós saímos, e o trabalho continua. Podemos fazer um acordo de acompanhamento, de intervenções
periódicas de atualização. E, finalmente, já por nossa conta, temos de discutir, profunda e
exaustivamente, como vamos elaborar todo o material, como vamos teorizá-lo e o que vamos fazer
com ele, se vamos publicá-lo ou se vamos obter algum tipo de benefício com ele: o coletivo no qual
intervimos está alheio, mas a implicação e os problemas éticos, políticos e econômicos continuam
sendo importantíssimos, sobretudo porque é um material que nos pertence muito relativamente: é
propriedade do coletivo considerado. Nossa decisão deverá ser submetida a ele.
A intervenção standard que tentei explicar tem milhares de variações, tanto que se pode
dizer que a regra são as exceções. Mas, em todo caso, é um esquema para se considerar e omitir os
passos que não sejam possíveis, que não sejam recomendáveis, condensar tantos outros etc. Em
todo caso, é importante que cada interventor possa inventar um procedimento sui generis para cada
situação.
106 ▲
PERGUNTAS REFERENTES AO CAPÍTULO VI
1) Que modalidades de intervenção institucional você conhece?

2) Qual é a vantagem do roteiro standard de intervenção institucional?

3) Repasse cada um dos itens do roteiro standard.


4) Que diferença existe entre um analisador "natural" e um construído?

5) Qual é a importância da autogestão do contrato?


107 ▲

Capítulo VII
o INSTITUCIONALISMO NA ATUALIDADE

f) O Institucionalismo e suas vicissitudes


Convencionamos denominar o Movimento Instituciona lista, ou Antiinstitucionalista, ou
Instituinte, ou simplesmente Institucionalismo, a um conjunto aberto e internamente diversificado
de correntes que mostram certos valores em comum, bem como marcadas diferenças.
Não é nossa intenção enumerá-las e caracterizá-las todas, não só porque este propósito
excede em muito os limites deste livro, mas também porque supomos que este universo seja não
totalizável. O mesmo se incrementa incessantemente com discursos e práticas originais que podem
diferir marcadamente dos que cada um considera os mais notáveis e respeitáveis desta agrupação.
Basta dizer que compreende numerosos saberes e fazeres que tomam por objeto os coletivos
sociais no que se refere às lógicas que os regem, às formas concretas em que essas se
"materializam", às finalidades que perseguem e à medida que as alcançam, assim como aos recursos
que empregam para obtê-las. Em outras palavras: ocupam-se das instituições, organizações,
estabelecimentos e equipamentos, assim como dos agentes e práticas que estes protagonizam.
Essa abordagem tem o que poderíamos chamar em geral, e não sem ressalvas, uma vocação
crítica, que tenta conceituar de diferentes maneiras. Podemos eleger uma, insistindo que não
108 ▲

será necessariamente compartilhada. Trata-se de diferenciar em cada uma destas entidades sua
função ou funcionalidade de seu funcionamento.
A função remete a fins e meios declaradamente universais e necessários para o suposto "bem
comum". O funcionamento remete à virtualidade que essas entidades detêm de um potencial
transformador, a serviço, principalmente, da produção de novas formas libertárias da vida. Essa
vaga descrição introdutória permite reconhecer que o espectro de propostas dos diversos
"institucionalismos" é classificável em uma escala que vai desde posições relativamente
conservadoras, seguindo por outras crescentemente reformistas, até chegar a concepções e ações
alternativas, marginais, clandestinas, revolucionárias e, até talvez caiba dizer, extremistas.
Muito sumariamente mencionada, a gênese social desse Movimento pode relacionar-se, em
seus aspectos conservadores ou reformistas, com uma longa série de tentativas históricas de regular
racionalmente a existência das coletividades. Arbitrária e muito simplificadamente, proporíamos as
grandes balizas da Revolução Francesa, o Iluminismo e o Enciclopedismo como acontecimentos
importantes pioneiros deste tipo. Pelo contrário, em suas versões mais drásticas, o Institucionalismo
tem parentesco com todos os ensaios libertários que as culturas e civilizações tenham pensado ou
experimentado, desde a tribalidade primitiva e nômade até as tentativas autogestivas modernas da
Iugoslávia, Argélia e, sobretudo, da República durante a Guerra Civil Espanhola.
Quanto à gênese conceitual, sabe-se que o Instituciona lismo nutre-se de linhas teóricas
contrastantes, na medida em que estas não são homogêneas. Por um lado, não pode deixar de se
inspirar na filosofia mais ou menos "oficial" do Ocidente: Sócrates, Platão, Aristóteles, os
Escolásticos, Descartes, Kant, Hegel e Heidegger. Por outro, adere com muito mais entusiasmo ao
espírito dos materialistas pré-socráticos, assim como aos sofistas, megáricos, epicuros, estóicos,
Espinosa, Nietzsche, Hume, Bergson, Kierkegaard e Sartre. Algo similar ocorre com os pensadores
políticos e jurídicos cuja nomeação resultaria demasiado extensa. Basta mencionar a preferência do
Institucionalismo pelos utopistas como Tomas Morus, Campanella, Rabelais, Fourier e, à sua
maneira, por Marx, Bakunin e outros.

109 ▲
Se é permitido falar-se de uma gênese operacional, é sabido que as origens do Movimento
podem fazer-se partir de três grandes campos da práxis, a saber: o da Educação, o da Saúde Pública
(especialmente a mental) e o da Indústria. Poder-se-ia acrescentar toda aquela atividade vinculada
aos Serviços Sociais, os problemas da Urbanização e Demografia, e assim por diante. Simultânea
ou consecutivamente, esses limites se ampliaram a quase todo tipo de organizações e
estabelecimentos (comerciais, financeiros, partidários, sindicais, eclesiásticos e até militares). Essa
difusão culminou com uma conflituosa incorporação (crítica ou não) dos recursos institucionalistas
ao "planismo" em grande escala, quer dizer, às grandes campanhas estatais para o gerenciamento e a
administração das sociedades civis e das populações em geral.
As bases teórico-técnicas mais específicas do Institucionalismo são surpreendentemente
numerosas e compreendem não só contribuições de ciências constituídas Sociologia, Psicologia,
História, Economia, Semiótica e Antropologia –, como também de disciplinas como a Pedagogia e a
Medicina, ou interdisciplinas formal-tecnológicas como a Teoria da Comunicação, dos Sistemas,
dos Jogos etc. Cada um desses setores do conhecimento, obviamente, não é homogêneo, e nem sua
herança institucionalista o é. Encontramos, assim, influências predominantes de várias correntes,
por exemplo: Comportamentalismo, Rogerianismo ou Psicanálise (em Psicologia), Funcionalismo,
Estruturalismo ou Materialismo Histórico (em Sociologia e Economia Política) e assim por diante.
Desde logo, todas essas influências estão moduladas segundo matrizes filosóficas,
ideológicas e políticas assumidas expressamente ou não pelos teóricos e praticantes
institucionalistas, entre os quais encontramos, como mínimo, liberais, marxistas e anarquistas. Sem
contar que boa parte entende que o Institucionalismo é uma visão política integral do mundo em si
mesmo e que não pode reduzir-se a nenhuma das posições políticas reconhecidas.
Quanto ao estatuto gnosiológico pretendido por cada orientação para a sua práxis, a gama
abarca desde as escolas que, aspiram a títulos de cientificidade (de acordo, está claro, com a
definição de ciência que sustentem as epistemologias às quais respectivamente subscrevam) até as
que se postulam como
110 ▲

afazeres artesanais militantes ou ainda não enquadráveis em qualquer categoria que não seja uma
nova concepção da convivência cotidiana.
Conseqüentemente, essa heterogeneidade não pode mais que desembocar em uma quase
Torre de Babel, no que tange a uma certa unificação de termos indispensável para a produção
teórica (coerência, consistência, precisão, convalidação, verificação etc.). Como veremos mais
adiante, o mesmo ocorre com as convicções requeridas para a articulação de uma Ética, Estratégia e
Tática do Movimento. Se o instrumental teórico, método e objeto de estudo são tão proteiformes e
problemáticos, o que esperar acerca do arsenal técnico, o qual se desdobra entre as ferramentas
clássicas da Sociologia (pesquisas de opinião e atitude, análise de conteúdo, entrevistas livres ou
dirigidas, assembléias, workshops etc.), passando pelos procedimentos informativos, dramáticos,
sugestivos ou interpretativos das psicoterapias até chegar à doutrinação ou à agitação política
segundo padrões mais ou menos tradicionais.
Em síntese: esta "evolução", "progressão" ou, mais neutramente dizendo, este "percurso" de
sua gênese social, conceitual e operativa, coloca ao Movimento agudos problemas pertinentes a seu
estatuto ético, jurídico-político, gnosiológico e profissional.
Esses temas costumam aparecer no Institucionalismo em torno de polêmicas sobre a
cientificidade e a profissionalidade. Com a cientificidade joga-se o reconhecimento e a autorização
das comunidades científicas e acadêmicas (diplomas, títulos, carreiras, publicações etc.). Com a
profissionalidade o que está em jogo é a legitimidade, legalidade, ou o que quer que se queira
chamá-lo, do Institucionalismo, com relação aos códigos jurídicos nos quais se enquadra e aos
normativos a que se atém... e suas óbvias conseqüências econômico-políticas (operações de oferta,
demanda e contratação de serviços, possibilidade de confissão dos objetivos reais da intervenção,
avaliação de eficácia, questões de neutralidade-abstinência ou imparcialidade-indução).
Essa conflitiva do Movimento nas dimensões da especificidade (cientificidade) e da
profissionalidade já é incômoda mesmo para as modalidades mais conservadoras e reformistas na
escala de correntes. Certas orientações como a denominada "Desenvolvimento Organizacional" ou a
"Cibernética Social" são

111 ▲
vistas pelos setores acadêmicos ou pelos mais politizados como "penetras", mercantilistas e
adaptativas; isso não impede que existam e às vezes alcancem um êxito mercadológico e efetivo
entre seus usuários. Mas a questão de fundo que se coloca é como o "devir" das posições no fazer e
saber institucionalista foi se pronunciando:
a. Quanto à especificidade, sobre uma crítica radical das cumplicidades das leituras e
intervenções científico- tecnológicas com os sistemas e setores dominantes;
b. Quanto à profissionalidade, sobre uma impugnação extremada do papel de certas prestações
de serviços, cujos privilégios corporativos e condições mercantis contratuais seriam
reprodutores flagrantes da divisão técnico-social do trabalho e da alienação-dependência do
saber-poder dos coletivos de usuários.
No extremo, e coerentemente, as formas mais marginais, alternativas ou revolucionárias do
Movimento costumam compartilhar uma utopia quase insurrecional de ampliação e generalização
da análise e da intervenção em grandes situações em escala regional, nacional e até planetária.
Os setores tradicionais do Movimento, de acordo com os países onde se desenvolvem,
conseguiram uma considerável aceitação e até uma consagração que os incorpora (mais de fato que
de direito) à tecnologia da human engineering (Psico-Sociologia das Relações Humanas,
Treinamento em Recursos Humanos etc.). Pelo contrário, a faixa mais subversiva do Movimento,
impulsionada por uma clara perseguição aos objetivos de coletivização e generalização da auto-
análise, da autogestão e da autodeterminação das comunidades, afasta-se cada vez mais dos
parâmetros epistemológicos e legais que regem as prestações convencionais das quais partiu no
início do Movimento.
Durante esse trajeto, as orientações mais radicais produziram "instrumentos" teórico-
técnicos valiosos sob todos os prismas, tais como: implicação, analisador, demanda, encargo,
efeitos: Mulhman, Lukács, Weber, frio-quente, centro-periferia etc. (ver glossário), que atendem à
autocrítica dos valores da equipe de prestadores de serviços e da reconquista, por parte dos
coletivos, das potencialidades acima apontadas. Contudo, as expectativas de mudanças substanciais
e duradouras nas comunidades de usuários não foram inteiramente satisfeitas, e
112 ▲

muito menos as de propagação da utopia transformadora a vastas unidades sociais. Como veremos
mais adiante, o complexo panorama do mundo atual nos mostra coletivos brutalmente submetidos,
ou persuadidos ao participacionismo, ou totalmente apáticos e dispersos. Isso tudo acontecendo em
um estado coisas objetivo de injustiça social que exigiria mais que nunca uma ação conjunta
decidida.
Parece que o Institucionalismo avançado, e mais ainda o "maximalista", que não simpatiza
com as formas políticas "progressistas" e/ou revolucionárias convencionais (tais como partidos ou
vanguardas elitistas), não foi capaz de deflagrar por si mesmo sólidos processos, pontuais ou
amplos, de mudança libertária. A rigor, não é seguro que seja isso o que o Institucionalismo
avançado pretende. Mais corretamente, a idéia consiste em encontrar canais de conexão, formais ou
não, com as iniciativas históricas circunscritas ou massivas que se encontram já em andamento, para
contribuir com as mesmas para a plena vigência das modalidades gestionárias singulares que
necessitem e decidam dar-se.
Mas é justamente este um dos pontos nos quais se coloca para o institucionalista avançado o
mais duro desafio, radicado na elaboração dos citados canais de cooperação. Se por um lado os
procedimentos habituais de produção de demanda de serviços lhe estão dificultados ou impedidos
pela peculiaridade de seus ideais, por outro as célebres categorias de inserção nos movimentos e
lutas, tais como as de integrante, colaborador, aliado ou simpatizante lhe são insuficientes.
Diante dessa perspectiva, o agente institucionalista com inquietações militantes encontra
dilemas excruciantes, nem sempre realistas, que se em um sentido podem constituir fatores de
propulsão ao aperfeiçoamento de seus recursos, em outro, ameaçam submergi-lo em uma certa
paralisia. René Lourau tratou lucidamente desses impasses em dois capítulos memoráveis seu livro
"El Estado y el Inconsciente" (Ed. Kairos, Barcelona, 1980). Na segunda parte do citado texto, os
capítulos V e VI intitulam-se: "El Estado en el Analisis Institucional" e "El Analisis Institucional en
el Estado". Resume-se aí o drama Institucionalismo: definindo o Estado, soma do instituído, uma
maneira vasta e diversificada como "o inimigo principal" (a expressão é nossa), o autor tenta
sistematizar os obstáculos,
113 ▲

possibilidades e impossibilidades que a onipresença do "Leviatã" impõe ao Movimento em todos os


campos de sua provável atuação. Mas não deixa de assinalar o peso das mortíferas determinações
estatais imanentes ao próprio seio do Movimento. Remetemos o leitor a essa leitura obrigatória
porque queremos partir dela para enfatizar alguns inconvenientes, não por acreditarmos que não
tenham sido abundantemente tratados neste e em outros escritos, senão no tangente à nossa
experiência particular. O primeiro refere-se ao fato de que o lnstitucionalismo avançado e até o
"maximalista" não são suficientemente conhecidos devido à sua pouca difusão, de modo que os
pequenos grupos e organizações não sabem de sua existência. Por outra parte, a maioria dos grandes
experimentos "revolucionários" massivos atuais não sustenta integralmente os ideais libertários
antes mencionados, sendo pouco provável que solicite a colaboração de um institucionalista, mesmo
supondo que conheça sua proposta.
Isso reduz as demandas de trabalho àquelas apresentadas por organizações de pequena e
média envergaduras, que na maioria das vezes confundem o serviço que procuram com qualquer
uma das variedades "normativizantes" anteriormente descritas.
Também devido à pouca divulgação do Movimento, o Institucionalismo se vê forçado a
recrutar quase exclusivamente seus adeptos praticantes nos estabelecimentos de formação
acadêmica de especialistas e profissionais.
As duas dificuldades, a de uma demanda errada e a de uma procedência logocêntrica e
corporativa dos agentes, contribuem para o aggiornamento da corrente no sentido das orientações
mais adaptacionistas ou reformistas. Contudo, segundo nossa experiência na América Latina,
algumas regiões da Europa e (por referências) nos Estados Unidos, proliferam cada vez mais
movimentos, espaços e correntes idiossincráticos (de singularidades etárias, sexuais, raciais,
religiosas e até trabalhistas) "naturalmente" predispostas a coletivizações autônomas, senão à
autogestão generalizada "a quente". Em cada um desses âmbitos ou nos interstícios de outros mais
"oficiais", abrem-se para o institucionalista outras tantas oportunidades para reinventar sua
"maestria". Trata-se, mediante a auto-análise da implicação despertada pelo encontro com a
singularidade do
114 ▲

coletivo intervindo, de expurgar os emergentes de profissionalismo e especialismo que se levantam


como impedimentos para a plena realização produtiva da intervenção como acontecimento. Fazem-
se imperiosos para o Institucionalismo estudos cuidadosos e particularizados da estrutura e
estratégias do Estado (entendido como ubíquo, inconsciente e "contínuo") em cada formação social.
Essa falência também foi indicada por Lourau e outros; enquanto essa não for remediada por um
extenso sistema de intercâmbio e acumulação de informações (chame-se, por exemplo,
"Praxiologia", como sugerem alguns), o Institucionalismo estará condenado a uma série de
apreensivas apostas, sobre algumas das quais voltaremos ulteriormente.
Sem pretender sequer introduzir o tema de uma "Estatologia Diferencial Institucionalista",
queremos apenas observar que as sociedades opulentas (em especial as sociais democracias
européias), por um lado, parecem propícias ao Institucionalismo devido à sua permissividade e
tecnologização dos sistemas de controle social, ao elevado nível de padrão de vida e de instrução
pública e à preocupação generalizada com a ameaça atômica e a deterioração ecológica. No entanto,
por outro lado, os Estados gerentes pseudo-exitosos, modernos e eficientes administradores de
enormes riquezas, persuadiram as populações com benefícios concretos ou imaginários, levando-as
a uma atitude de "conservadorismo crispado" (segundo F. Guattari) ou de indiferença complacente
(que alguns entendem como formas de resistência passiva).
Nos capitalismos tardios latino-americanos (por exemplo) ocorre algo diferente. As massas
extremamente depauperadas, as burguesias nacionais retrógradas (aquelas por total falta de opções
reais de sobrevivência, estas por quase absoluto desinteresse pelo cuidado com a força de trabalho e
o cultivo do mercado interno), não são propensas às propostas institucionalistas. Ao mesmo tempo,
o brutal contraste entre o discurso, estrutura e recursos estatais (essencialmente demagogos,
insuficientes, incompetentes e corruptos) e o trágico nível de carência dos coletivos fazem com que
o "planismo" seja um ostensivo fracasso. Como conseqüência, o Estado precisa urgentemente de
otimizar sua gestão e as comunidades, profundamente decepcionadas com suas expectativas acerca
do
115 ▲

providencialismo estatal, começam, penosamente, a dar-se soluções próprias. Esta superfície mostra
algumas brechas para o Institucionalismo, se tal coisa existe, para certo trabalho "no Estado" e "com
a sociedade civil". Nesses empreendimentos, contudo, a reformulação das características do agente
e de sua práxis se faz imperiosa: a precariedade de meios de remuneração e a violência repressiva –
como a cooptativa, sempre pronta a desencadear-se sobre o institucionalista e seu cliente – impõem
estratégias e táticas infinitamente sutis e cautelosas.
Essas questões não são, de maneira alguma, novas para o Movimento. Deu-se para elas
respostas já célebres que levam nomes tão aceitos como vituperados pelos diferentes segmentos do
Institucionalismo: empresarização, entrismo, maquiavelismo, infiltracionismo, distorção da
demanda, marginalismo, clandestinismo, ressingularização das práticas são alguns dos termos
usados para designar manobras de contato e entrada nos coletivos de usuários. Consagrados e
repudiados, esses modi operandi, como muitos outros referentes a uma diversidade de assuntos do
Movimento, expressam a permanente tensão e oscilação que ocorre entre a conveniência de associar
as diversas correntes do Institucionalismo e seu horror à totalização. Em geral, o estado incipiente
dos intercâmbios teóricos e casuísticos gera uma exacerbação da crítica fundamentalista operante
em uma espécie de "vazio".
Ao perigo de paralisia ao qual se aludiu anteriormente, causado basicamente pelo poderio, a
ubiqüidade e flexibilidade das forças reativas atuais, acrescentam-se certos agravantes que iremos
apenas esboçar aqui. Freqüentemente o institucionalista, calouro ou experiente, mais ou menos
acostumado a suportar as limitações de sua tarefa e a crítica exógena ao Movimento, sofre sérias
pressões resultantes da crítica endógena, ou seja, da crítica que nasce da luta entre as correntes
internas (conservadoras, reformistas, alternativas, revolucionárias e até "terroristas") da corrente.
Não é nada estranho que assim seja; em outras palavras: não há nada de inesperado no fato
de haver dissidências em um Movimento que possui a estranha virtude de ter produzido, em
pouquíssimo tempo e com mínima repercussão "pragmática", uma rica e profunda autocrítica. Ela
afeta tanto as disciplinas teórico-técnicas, das quais as tendências institucionalistas se
116 ▲
originaram, quanto elas mesmas, independente do grau de desenvolvimento que chegaram a
alcançar.
Essa crítica disseca, metaforicamente falando, cada uma das células, vísceras, tecidos,
sistemas, organismos e funções que as integram. Mas esse trabalho é feito habitualmente em
abstrato e não sobre o que alguns denominam uma "clínica ampla" do Movimento. Tanto é assim
que capítulos fundamentais, tais como o da logística (avaliação de disponibilidades ou resultados)
ou, seguindo com a metáfora, a genética (estrutura e dinâmica da reprodução e mutação), a biotipia
(taxonomia de perfis) e a eugenesia (replicação de perfis ótimos) ainda não foram escritos. Cabe
aqui acrescentar a ressalva de que, segundo certo conjunturalismo ou improvisacionismo extremado
de alguns institucionalistas, talvez não seja necessário escrevê-los senão como curiosidades
museológicas, na medida em que tais registros só seriam reconstrutivos de experiências
consumadas. Essas, triunfantes ou falidas, teriam uma singularidade tal que careceriam de qualquer
valor prescritivo ou prospectivo generalizável.
A problemática que esboçamos tem, como uma de suas áreas mais sensíveis, a da
sistematização de uma "Pedagogia Institucionalista". Se se admite que o Institucionalismo é, em
última instância, uma modalidade de viver coletivamente, adquire sentido a afirmação (um tanto
esnobe) de que "não se ensina". Dito de outra maneira, a proposta é que cada coletivo construa as
condições para se autoconhecer, autodeliberar e autodecidir a forma sui generis, única e irrepetível,
que deseje dar-se para existir. Este processo prioriza a crítica e a dissolução das formas alienadas
das quais padece, incluindo entre elas boa porção dos conceitos com os quais as lê e as avalia. Nesta
reelaboração, as figuras do profissional e do técnico "em fazer isso" são forçosamente demolidas e,
junto com elas, as dos "que ensinam a fazer isso", especialmente se o fazem para formar "experts
em fazer isso".
Mas se não se admite um "especialista em autogestão", deve-se necessariamente conceber
(pelo menos doutrinária e provisoriamente) procedimentos de inspiração autogestionária para
formar diversos especialistas, fazendo, no possível, uma clara discriminação entre especificidade e
especificismo. A redistribuição do saber e do fazer nas gestões autônomas cria
117 ▲

condições para surpreendentes descobertas e resultados protagonizados por participantes ou grupos


dos quais "menos se poderia esperar". Mas isso não implica que se tenha obrigatoriamente de
reinventar tudo e que não exista alguma divisão operacional e vocacional do trabalho, assim como
tampouco descarta que alguém que "passou por muitas gestões" possa participar de outras nas
diversas qualidades que acima confessamos não havermos conseguido classificar. Aludimos, é
claro, ao que há algumas décadas se denominava "acumulação social do saber".
O assunto torna-se mais nítido no caso de coletivos de estudantes de alguma disciplina que
desejam aprender sua matéria no marco de uma experiência institucionalista e, mais claro ainda,
quando se trata de disciplinas diretamente aparentadas com as origens do Institucionalismo, tais
como Sociologia, Psico-Sociologia, Ciências Políticas etc. A nota em comum, que configura estas
comunidades como tais, é a de associar-se com a finalidade de gestionar uma forma coletiva e
autônoma para adquirir o manejo de certas contribuições teóricas e operativas dos saberes
constitutivos da prática geral do Movimento. Que a organização e procedimentos adotados sejam
"não-diretivos", "permanentes", "co-gestivos", não é tão importante quanto parece. Tampouco o é o
tanto que a iniciativa seja parcialmente autogestiva (em âmbito ideológico, pedagógico e político)
ou integralmente autogestiva. O ponto crucial é que o projeto esteja decididamente encaminhado,
em cada um de seus dispositivos, a uma articulação e disseminação do Institucionalismo com e em
outros coletivos atuantes. Esse objetivo, quando é claramente assumido, exige ou não a
autodissolução do agenciamento pedagógico, mas pressupõe a firme disposição dos agentes
formadores à autodissolução e recolocação de sua "identidade" segundo os novos paradigmas nos
quais se insiram. Completando a idéia: impõe a não- reprodução do equipamento e do modelo
pedagógico que o gerou. É evidente que dispositivos desse tipo só se justificam, e dão modestos
frutos, enquanto a "frieza" do contexto social que os contém não permite senão uma discreta
transversalização do ensinamento com as forças instituintes "pesadas" do Trabalho ou da Grande
Política. Só alguns extraviados fanáticos ou duvidosamente intencionados "puristas" confundem o
que é
118 ▲

"deixar aprender" Análise Institucional ou Sócio-Análise em um estabelecimento ou curso isolado,


"a frio", com o que é tentá-lo numa autogestão social generalizada. No primeiro caso, o máximo
que se autodissolverá, e só até certo ponto, será a assimetria educacional entre professores e
aprendizes. No segundo, ambos deverão dissolver-se em uníssono, assim como sua organização
mesma, nas práxis dos coletivos que lhes ensinaram "em ato" como e para quê fazê-lo. Enfim: como
dissemos, resulta perfeitamente compreensível e ainda indispensável que os processos de auto
exame e transformação constante do Movimento se exerçam sem pausa nem concessão alguma.
Mas se essa implacabilidade tem efeitos inequívocos sobre as formas radicais antecedentes ou
pioneiras do Institucionalismo, eles não são tão límpidos quando se opera com indiscriminada
dureza sobre a infinita variedade de propostas institucionalistas contemporâneas.
Tensionado entre a necessidade de sobrevivência, a de "autorização" e o desejo produtivo, de
um lado, e os duros limites do Estado e das forças reativas do outro, o institucionalista deve ainda
enfrentar a crítica interna. Por isso, não é nada infreqüente encontrá-lo decepcionado, culpado,
onipotente ou, o que é mais comum, perplexo. Frente a esse difícil panorama, três deformações
tocaiam o agente institucionalista, como outras tantas soluções de compromisso do conflito que o
dilacera.
Um primeiro caminho é o regressivo. O agente retrocede às modalidades mercantis,
adaptacionistas, burocráticas e corporativas do Movimento. Entre elas destacam-se o empresarismo,
o funcionalato e o academicismo. Só que essas adoções se realizam" em nome do
Institucionalismo", e com um verniz mais ou menos progressista e declamatório. Os profissionais
mais propensos a esse destino são os psicólogos de empresa, administradores, comunicólogos e
psicanalistas, assim como professores universitários.
Uma segunda vicissitude é a que resulta de uma espécie de falsa aceleração pela qual o
agente se lança às formas clássicas da militância política, sejam as reformistas e eleitoreiras, os
ativismos messiânicos ou as vanguardas intelectuais contestatórias meramente discursivas. Sem que
pretendamos condenar a pertinência conjuntural dessas estratégias, urge se fazer constar que, em
sua assunção, todo e qualquer "espírito"
119 ▲

próprio do Institucionalismo se perde nas estratificações partidárias, sectárias ou facciosas.


Uma terceira escolha, tão engenhosa quanto discutível, é a que pedimos licença para
denominar com a pitoresca metáfora de "Tática do Tero". O tero é uma ave da planície Argentina
que, segundo a tradição gaúcha, "grita em um lugar e põe os ovos em outro", para assim protegê-las
da voracidade das espécies predadoras. Tentamos ilustrar assim a prática dissociada de alguns
institucionalistas, que obtêm subsídios e apoio em estabelecimentos e serviços ostensivos nos quais
ensinam, publicam ou intervêm, segundo versões híbridas, circunscritas e moderadas do
Movimento. Ao mesmo tempo, colaboram ou protagonizam, clandestinamente ou não, mas em real
condição de implicados nos eventos e empreendimentos mais puristas aos que têm ocasião de
incorporar-se. Não nos parece que esta composição seja das piores, mas sim que é uma saída
desgastante, inevitável, às vezes, devido às limitações no desenvolvimento da doutrina e do
Movimento antes apresentados.
Como quer que seja, e em referência a esse terceiro tipo de agente, muito nos importa
esclarecer que não deve ser confundido com outro, que cremos conhecer muito bem e que é urgente
desmascarar. Aludimos a certos "pseudo institucionalistas" que, sabendo das características
dispersivas, erráteis e libertárias que definem para alguns setores (provavelmente os mais criativos)
a essência do Movimento, as usam com os fins mais espúrios que se possa imaginar. Inteirados
nominalmente de um punhado de noções da corrente, as brandem como slogans para empreender
um agitacionismo fanático: do "antiautoritarismo" (que desvirtua toda autoridade fundada), da
"desordem produtiva" (que inviabiliza qualquer organização e eficácia), da "novidade radical" (que
impossibilita qualquer regularidade operacional) da provocação-auto- heterodissolvente (que
hipostasia a negatividade e carece de propostas construtivas), do saber ex-nihilo (que proscreve o
estudo e prescreve um intuicionismo inconseqüente) etc. Como notas secundárias caracterológicas,
estes "anarquistas de bar" costumam glorificar "a paixão" (que confundem com um sentimentalismo
raso), a "liberdade sexual" (que para eles é uma promiscuidade confusa e obscena), o "hedonismo"
(que consiste em um consumismo alcoólico, drogadito e parasitário) etc.
120 ▲
Variedades da marginalidade desocupada ou subempregada, originada da lumpenização das faixas
médias urbanas universitárias, tais "revoltosos", líderes, acólitos ou franco- atiradores, não só "não
passam" como também "nem chegam" a encarnar essas célebres figuras que a militância ortodoxa
qualificava de esquerdosos festivos. Em termos institucionalistas: desviantes organizacionais,
libidinais ou ideológicos incapazes de produção. Sua triste história consiste em que uma vez tenham
destruído e saqueado, brandindo "palavras" instituintes, qualquer iniciativa que os tirou do
anonimato, dedicam-se a dar rédeas soltas a sua "vontade de nada", ou melhor, a reproduzir
caricaturalmente os vícios (sem as virtudes) da "imperfeita" entidade de origem. Nem Eros, nem
Teros, nem Ananké; em resumo: ladrões de galinhas.

II) O Institucionalismo e seus valores


Se as aproximações até aqui esboçadas foram ilustrativas, cabe concluir, no mínimo, que
restam muitas questões sem esclarecimento no Institucionalismo. Essa óbvia constatação não é
proclamada aqui apenas por pruridos éticos, consciência epistemológica ou autocomiseração
sentimental. O motivo fundamental é estratégico e tende a propor e demonstrar a possibilidade e
conveniência de algumas medidas a serem adotadas pelo Movimento. Política, logística, estratégia,
táticas, técnicas, modalidades de divulgação, implantação, desenvolvimento, transmissão,
autorização, contratação, avaliação de resultados, alianças, morfologia organizacional devem ser
revistos no Institucionalismo. E isso não significa exclusivamente que esses conhecimentos devam
ser produzidos, mas que muitos deles precisam ser apenas comunicados, intercambiados e
elaborados coletivamente. Para tal, o Movimento deve dar-se dispositivos formais, amplos e fortes,
com respeito aos quais tem uma proverbial desconfiança. Será procedente diagnosticar nesta
encruzilhada algo assim como uma "enfermidade infantil do Institucionalismo"?
Alguns textos que conhecemos procuraram uma abordagem de conjunto de pelo menos
parte desta problemática. Muitos pontos incertos são tocados e soluções interessantes colocadas
com rigor e vigor. Experientes institucionalistas exortam
121 ▲
seus colegas a um certo ecumenismo bem-entendido, assim como à subscrição de convenções
normativizadas e inteligíveis para a socialização da experiência das inúmeras tendências do
Movimento. Dá-nos a impressão, contudo, de que (até onde sabemos) essas sugestões ainda não
reconhecem nem aproveitam devidamente os adiantamentos, em alguns casos admiráveis, que a
crítica produtiva de outros institucionalistas já gerou, justamente sobre os valores e recursos em
nome dos quais se põem em marcha tais entendimentos. Por outra parte, e até há pouquíssimo
tempo, não havíamos percebido colocação alguma para uma estruturação internacional do
Movimento, apesar da lucidez que os institucionalistas avançados e experientes demonstram acerca
da onda de integração planetária de todos os processos sociais.
Um tema exemplar para compreender essa curiosa combinação de falta de experiência
elaborada com uma espécie de puritanismo ético encontra-se no capítulo sobre as modalidades de
contrato e enquadre das prestações de serviços. É óbvio que para os institucionalistas mais
"profissionalistas" e "especificistas" este ponto não significa problema algum enquanto já está
regulado por leis ou normas ditadas por organismos acadêmicos, trabalhistas ou jurídicos externos
ao Movimento. Já para alguns, se bem que esses requisitos sejam indispensáveis, só se exige que
suas condições sejam rigorosamente autogestadas pelos coletivos de usuários, compartilhadas pelas
equipes intervenientes e tomadas por ambos como analisadores construídos a serem
cuidadosamente analisados. Entretanto, para as correntes puristas, todo setting seria um aparato ou
equipamento no qual se cristalizariam, como tecnologia falsamente "neutra", as forças mais
reativas do "especificismo" e "profissionalismo". Afirmam que se toda intervenção está
encaminhada a propiciar a inventiva e a auto-invenção dos coletivos, instituir um ponto de partida
contratual instauraria uma espécie de "repressão primária" inaugural cujos conteúdos
permaneceriam opacos para sempre aos "oficiantes" de tais "cerimoniais". Constituir-se-ia assim
um núcleo cego, e portanto repetitivo, que tenderia a reiterar-se como reprodução ou fabricação do
mesmo. Em outras palavras: da racionalidade, do poder, do lucro e do prestígio, do saber e fazer
disciplinar que dessa maneira ritual se funda. Essa limitação, extremada no
122 ▲
caso de abordagens assumidamente interiores às ciências "humanas" e "sociais" (Psicologia Social,
Sociologia das Organizações, Psicanálise Aplicada etc.), existiria ainda nos convênios de serviços
da Análise Institucional "Clássica" ou da Psico-Socioanálise.
Via esta questão restrita do contrato e do enquadre, nos introduzimos em uma contradição
aguda e geral do Institucionalismo. Por uma parte, recordemos a verdade de Perogrullo, de que a
autogestão não se decreta nem se concede, que não existe uma prescritiva para a invenção e que,
como dizia Bakunin, "só a liberdade engendra a liberdade". Por outra parte, tenhamos presente que
em quase todos os casos em que um institucionalista "é chamado" a intervir, isso ocorre porque os
coletivos não conseguem aproveitar as condições de liberdade de que dispõem para produzir
(inventar), com a autogestão como meio e como fim, aquela liberdade que desejam.
Consideremos um coletivo que decidiu dar-se uma forma autogestiva de funcionamento. Se
a mesma é integral, ou seja, se compreende os aspectos econômicos, políticos, "culturais" e
libidinais de sua práxis (e enquanto a tentativa estiver sendo exitosa), não se vê porque um
companheiro institucionalista iria ser convocado a participar. Pode acontecer que já pertença
"naturalmente" ao coletivo em questão, caso este que parece não criar problema algum, porquanto
seu saber e fazer serão entendidos como pertencentes ao tesouro do conjunto e espontaneamente
utilizados.
No limite, cabe perfeitamente colocar-se o modelo ideal de um coletivo autogerido de
analistas institucionais, o que tornaria difícil, ainda que não impossível, imaginá-lo solicitando os
serviços de colegas para catalisar uma intervenção sobre si mesmos.
Por outro lado, uma iniciativa autogerida sólida e assumida não teria por que privar-se do
emprego crítico de qualquer recurso tecnológico contemporâneo. E claro que ninguém ignora a
distância que separa as aplicações da física à computação, por exemplo, da human engeneering.
Mas se aceita-se que o paradoxal "expert" em autogestão tem muito que dizer sobre a implicação
institucional dessas duas disciplinas (além da própria), não se entende por que não apelar a ele em
caso de necessidade ou ainda de "luxo", e menos ainda porque seu trabalho não haveria

123 ▲
de ser pago.
O que está em jogo neste ponto, como em qualquer dos outros, é uma questão político-
epistemológica de fundo no Institucionalismo. Deve-se ter presente que o Movimento afirma, como
um de seus mais essenciais fundamentos, a convicção de que os coletivos das sociedades modernas
são muito mais vítimas que beneficiários da divisão técnico-social-libidinal do trabalho. O
vertiginoso avanço das ciências e técnicas nos últimos cem anos, produtor de seus detentores, a
casta privilegiada dos tecno burocratas, e reforçador ao infinito de seus "padrões" dominantes – o
Grande Capital e o Estado administrador-gerente – submergiu os povos em um grau de dependência
inédito na História Universal. As comunidades, cujas necessidades, demandas, hábitos de consumo
e soluções são integralmente produzidas pelas elites cientificistas e os equipamentos de poder,
ficaram substancialmente despossuídas de toda possibilidade de protagonismo no conhecimento das
determinações que as constringem, assim como de seu levantamento pelos recursos que poderiam
gerar por si mesmas. O único recurso que restaria às populações seria aceitar as requisições do
participacionismo, quando não do colaboracionismo, que os centros oraculares de poder se vêem
obrigados a lançar, quando a mesma entropia de sua arbitrária gestão os enfrenta com a ineficácia
dos "planos" e a resistência passiva dos usuários. Mas a certeza do Institucionalismo, acerca de que
toda desalienação deve passar atualmente pela recuperação do saber e fazer dos coletivos sobre seu
destino, não consegue especificar os modos e graus em que a riqueza científico-tecnológica já
produzida deve ser reapropriada pelos movimentos autogestivos.
Félix Guattari, a quem se atribui fundamentadamente o título de criador do termo "Análise
Institucional" e de cuja vocação autogestiva se torna difícil duvidar, escreveu: "A autogestão como
consigna pode servir para qualquer coisa. De Lapassade a De Gaulle, da CFDT aos anarquistas: Autogestão de quê?
Referir-se à autogestão em si, independentemente do contexto, é uma mistificação. Converte-se em algo assim como
um princípio moral, um solene compromisso de que será em si mesmo, por si mesmo, que se administrará o que é de si
mesmo, de tal ou qual grupo ou empresa. A eficácia de tal consigna depende, sem dúvida, de seu efeito de auto-
sedução. A

124 ▲
determinação, em cada situação, do objeto institucional correspondente é um critério que deveria permitir esclarecer
a questão. A autogestão não pode ser senão uma consigna de agitação transitória que, em definitivo, corre o risco de
criar bastante confusão se não estiver articulada numa perspectiva revolucionária coerente... Se 'impugna', no
imaginário, a hierarquia. A autogestão, tomada como consigna política, não é um fim em si mesmo. O problema
consiste em definir, em cada nível de organização, o tipo de relação, de formas que devem estimular-se, e o tipo de
poder a instituir. A consigna da autogestão pode converter-se em uma fachada se substitui massivamente as respostas
diferenciadas pelos níveis e setores diferentes em função de sua complexidade real... Não há uma 'filosofia geral' da
autogestão que a torne aplicável em todas as partes e em toda situação... " ("Psicanálise e Transversalidade",
Ed. Siglo XXI, México).
Poder-se-ia argumentar que essa citação foi tomada de um texto antigo e que a evolução
posterior deste autor o conduziu cada vez mais ao espontaneísmo radical e polimorfo que parece
caracterizar o que me permitirei chamar a modalidade mais extremista do Institucionalismo, quer
dizer, a "Esquizoanálise". De qualquer maneira, e considerando a complexidade do
desenvolvimento dessa concepção, assim como a infinita diversidade de suas estratégias, ela não
fez mais que contribuir para a pluralização da morfologia das iniciativas autogestionárias e o
questionamento da autogestão como valor unitário e abstrato. Além do mais, não descarta o apoio
de tecnologia alguma, pelo contrário. Guattari é um de seus mais ardentes defensores. O conceito de
autogestão que acabamos de comentar sucintamente não é mais que um caso de quantas categorias
o Institucionalismo maneja. Nenhuma corrente, mesmo as mais drásticas do Movimento, assume
que seus termos teóricos não sejam apenas instrumentos formais, mas também, no sentido mais
forte do vocábulo, valores.
Na tendência esquizoanalítica que antes mencionávamos, assim como em muitas outras, os
máximos valores promovidos predicam-se como: Produção (oposto à Reprodução), Invenção
(oposto à Fabricação), Afirmação da Singularidade, Diferença, Potência, Ser do Devir etc. (opostos
à Generalidade, Negatividade, Identidade-Repetição, Reatividade, Ser como

125 ▲
Permanência etc.) A essas categorias podem-se acrescentar as de: Agenciamento, Dispositivo,
Desejo, Máquina de Guerra, Acontecimento, Simulacro, que têm a ver com o Instituinte e os Bons
Encontros (opostos às Formações de Soberania, Objetivações das Idéias Puras ou Modelos, como
sinônimo do Instituído, dos Maus Encontros etc.). Toda a História Universal (a das Formações
Econômico-Sociais, Civilizações, Subjetividades e ainda a do Pensamento e a da Natureza) estaria
atravessada pela miscigenação entre modos sedentários (territorializados) e modos nômades
(desterritorializados) do Ser e do Existir, pensáveis com os critérios mencionados anteriormente.
Uma análise genealógico-epistemológica de tais conceitos- valores seria uma tarefa colossal
e apaixonante, que supera por completo as fronteiras de nossa capacidade e deste trabalho. Se os
repassamos aqui é apenas para referir-nos a certas confusões que sua polissemia propicia e que
levam a que sejam usados com fins e resultados totalmente alheios a seus propósitos e, não poucas
vezes, diametralmente contrários a eles.
Não estamos falando do arsenal nem das estratégias manifestas e "molares" (como se chama
na "Esquizoanálise") do Capital, do Estado, da Lei, da Igreja, da Família ou da Corporação. Já a
Teoria Crítica Clássica do Marxismo e do Funcionalismo conseguiu que os aparatos, equipamentos
e manobras capitalistas, fascistas ou "democráticas" nos resultem cada vez mais definidos e
visíveis. O Institucionalismo (particularmente com os estudos de Foucault, Deleuze, Guattari,
Lourau e outros) contribuiu para detectar as formas "micro" desta rede, tornando-a ostensiva.
Tampouco nos referimos aos célebres mecanismos de recaptura com os quais o Sistema
reincorpora à torrente da reprodução e do consumo, assim como ao tabuleiro do registro e da
dominação, as invenções dos movimentos produtivo- libertários. Nós os temos muito em conta,
pelo menos em tese, para precisar invocá-las novamente neste contexto... a não ser que se considere
recapturas os efeitos de entorpecimento e antiprodução que se geram no seio dos grupos,
organizações e práticas institucionalistas: é a estes que queremos nos referir.
No capítulo anterior esboçamos uma qualificação crítica das correntes adaptacionistas e
"pseudo-ultra" do espectro de posições dentro do Institucionalismo e descrevemos algumas de suas
características contraproducentes. Talvez tenhamos deixado
126 ▲

a impressão de que se trata de setores patentemente definidos que seriam simples de localizar e até
personalizar. Desde logo, existem casos em que isso é possível, mas aqui nos interessa destacar
estes perfis como tendências imanentes a todos e a cada um dos segmentos (incluída a subjetividade
dos agentes) de qualquer corrente institucionalista. Convém precisar com respeito a suas propostas
teóricas e sua atuação política e técnica, que da mesma forma que não cabe esperar nada de uma
"Filosofia Geral da Autogestão", tampouco corresponde fazer uma "Demonologia Geral Abstrata"
desses desvios. Naturalmente, não se trata de fomentá-las nem de privilegiá-las, mas sim de
permanecer abertos aos inesperados efeitos revulsivo-produtivos que uma intervenção assim
conduzida pode causar, como notável independência dos princípios que a guiam e que,
eventualmente, pode fazê-la preferível a outras mais tecno-burocráticas, ou mais dissolventes ainda.
Ninguém deve escandalizar-se frente à aparente contradição entre o postulado de um juízo preciso
classificatório de uma corrente e a recomendação de uma abertura expectante no tocante a tolerar
sua atuação e observar seus resultados. Basta compreender que as séries opositivas de valores que
antes enumeramos, cujos primeiros termos seriam essenciais a uma estimativa institucionalista, não
são nem axiomas, nem evidências. Não são axiomas justamente porque o Institucionalismo insistiu,
desde diversos ângulos, em dessacralizar o tradicional estatuto da Teoria em sua práxis, e mais
ainda da Teoria baseada em parti pris formalizados. Pelo contrário, insistiu em uma reivindicação
da singularidade das práticas, para as quais as Teorias funcionam apenas como uma frouxa
orientação, quando não se limitam a prover certa intelecção pos' facto.
Por outra parte, os valores mencionados não são evidências, pois apesar da predileção do
Institucionalismo pelos atos e transformações concretas que sejam percebíveis como tais para
técnicos e usuários, sem misteriosas avaliações de seita, a amplitude e ambição que caracterizam a
utopia ativa fazem com que o Movimento distingua-se bastante de todo positivismo, empirismo,
pragmatismo ou "intuicionismo".
Como quer que seja, compreende-se que em um Movimento, no qual não se pode apelar ao
veredicto de uma Teoria específica nem ao de uma evidência fulgurante, os conflitos
127 ▲
e discordâncias serão dirimidos em função de parâmetros marcadamente sutis, processuais e
conjunturais. Tudo isso se torna particularmente delicado, algo assim como um artesanato militante
cujos princípios são depuradamente contrários aos dominantes.
Como já expressamos mais acima, o Institucionalismo tem, hipoteticamente, inúmeros
aliados nos coletivos subjugados e explorados, mas quem impera atual e universalmente (embora
não sem contradições) são seus poderosos e ubíquos adversários e inimigos. Procede enfatizar que o
Institucionalismo não é somente opositivo ao Capitalismo e suas formas históricas econômico-
político-culturais (tais como os totalitarismos de Estado ou as democracias burguesas), mas também
à maioria das tendências e organizações críticas contrárias a esses sistemas. Por outro lado, ocupa
similar posição de antagonismo relativo em referência às sociedades "em transição" ao Socialismo.
Frente a um panorama tão desfavorável, o Institucionalismo exige que suas decisões de
condução sejam, no possível, exaustivamente deliberadas e exclusivamente consensuais, o que
torna sua gestão insuperavelmente coesa e homogeneamente revolucionária quanto às
transformações de fundo e a longo prazo. Não obstante, resulta notório que esse principismo sui
generis, que se nega a separar meios de fins, não facilita as resoluções e execuções táticas
imediatas, diante de contendedores tão ágeis, fortes e onipresentes. É no campo dessas dificuldades
(e de outras que antes mencionamos) que recrudescem os conflitos, inerentes a todo Movimento,
que os próprios institucionalistas contribuíram tanto para sistematizar. Em algumas de suas formas
típicas esses conflitos podem ser descritos assim:
1) As pressões que o mercado competitivo exerce sobre as organizações institucionalistas sobre-exigem
o tempo e os esforços destinados à implantação, sobrevivência e crescimento, digamos, vegetativo ou
infra-estrutural das iniciativas.
2) Os poderes oficiais, acadêmicos, corporativos ou simplesmente profissionalistas desencadeiam
campanhas repressivas, injuriosas ou recuperadoras sobre a ação ou imagem dos institucionalistas. Entre
essas manobras destaca-se o que ironicamente podemos chamar "desvanecimento e usurpação de
patente". Tudo é "Análise Institucional", logo, "nada o é".
128 ▲

3) Em conseqüência do dito nas alíneas 1 e 2, exacerba-se, no seio das organizações e dos sujeitos-agentes
institucionalistas, a designação de recursos de todo tipo, para a luta pela obtenção, apropriação e "inflação"
de "identidade", "legalização", "legitimação", "reconhecimento", "autorização", "prestígio", "solvência
financeira" etc., valores estes que insensivelmente fazem derivar até a luta pelo "poder", o "lucro", a
"primazia" etc. Ou mesmo, até um suposto contrário: o matiz "beneficente", "caritativo" ou "filantrópico"
das prestações de serviços.
4) Em função de tudo isso, começa um questionamento obsessivo quotidiano da "ética" da práxis, das
estratégias e táticas externas, assim como das relações internas, de modo que estas se enrijecem
estatutariamente, se "assembleízam" deliberativamente ou se "vertiginizam" ativisticamente. O
organograma e o fluxograma internos se "piramidalizam" e se dispersam. O regime das alianças tende a
uma regressão filiativa. Em resumo: "paranoidiza-se" a verticalidade, "perversifica-se" a horizontalidade e
"extravia-se" a transversalidade.
5) Fica preparado, então, o ambiente para que o Movimento degenere para as diversas direções do
vanguardismo segregacionista e do sectarismo hipercrítico, em suas modalidades de protopaternalismo,
fraternidade do terror e, finalmente, a serialidade. No plano da produção de subjetividades, isso se registra
como uma edipianização geral com suas reterritorializações neuróticas e "psicossomáticas", perversas ou
psicóticas. Na terminologia organizacional: amadurecem as condições para a eclosão de certas figuras
clássicas tais como a cisão de grupos dissidentes e a burocratização – que às vezes derivam para a
empresarização ou para uma morfologia política convencional que, não por ser "menos pior", é a mais
desejável: o centralismo democrático. No nível grupal dessas configurações surgem as tradicionais
lideranças "autocráticas" ou laíssez-faíre e os papéis de "bode expiatório", "sabotador" etc.
6) Em resumo: cedo ou tarde, tais deformações (que no espaço da subjetividade podem reduzir-se aos
efeitos do "narcisismo das pequenas diferenças") conduzem, pelo caminho do famoso "individualismo
pequeno burguês", à atomização do Movimento. Este foi caracterizado por perfis que talvez ainda não seja
hora de descartar como obsoletos: o ativismo, o
129 ▲
voluntarismo, o imediatismo, o oportunismo, o utilitarismo, ou a corrupção franca. Toda uma vasta
produção bibliográfica atual tratou com maior ou menor propriedade dessa problemática do
individualismo moderno (L. Rozitchner, D. Riesman, C. Lasch, R. Sennett, L. Dumont) e pós-moderno
(D. Bell, G. Lipovetsky, J. Baudrillard, P. Virilio e outros). Se os primeiros enfatizam a fragmentação
pulverizante e competitiva do Capitalismo Industrial, os últimos sublinham a subjetivação indiferente e
abúlica das sociedades pós-industriais. Coincidem, no entanto, em constatar a decadência da res publica
e de quase todas as formas de solidariedade orgânica "a la Weber, Durkheim ou Marx".
7) Em outro escrito resumimos esta tendência dos coletivos no conceito de "compulsão à
autodissolução" ("A Compulsão à Dissolução", publicações internas do Ibrapsi, Rio, 1988). Seguimos
acreditando que se trata de uma força reativa, como diria Nietzsche, a ter muito em conta nas
vicissitudes do Movimento Institucionalista. A rigor, trata-se de uma curiosa exacerbação do que a teoria
postula como um requisito dos grupos revolucionários, quer dizer, a capacidade deles de prever sua
própria morte e de decidir sua extinção quando deixam de ser estritamente necessários para o processo
transformador que lhes dá sentido.
8) Se se repassa o exposto, especialmente o referente à "compulsão à autodissolução", os "desviantes
ideológicos, organizacionais e libidinais" e os vícios provenientes do uso exacerbado da autogestão
como consigna abstrata e descontextuada com finalidade de oposicionismo demagógico, teremos uma
imagem ilustrativa das deformações que emboscam o Movimento Institucionalista.
9) Uma observação mais demorada que compare estas distorções com a breve enumeração que fizemos
dos valores promovidos pelo Institucionalismo permitirá constatar que as primeiras são com freqüência
(como diriam Deleuze e Guattari) "coartações" ou "acelerações ao infinito" dos processos que os
segundos infundem e orientam. Em outras palavras: freqüentemente os vícios do Movimento são uma
caricatura de suas virtudes.
10) Para fins de síntese e conclusão, digamos que se tivéssemos de escolher alguma dessas virtudes do
Movimento
130 ▲
Institucionalista na qual se apoiar para construir "o presente futuro de sua ilusão" (no sentido de êxito da
Utopia Ativa), seria a afirmação de sua positividade. Se se mostou indubitavelmente que tanto teórica quanto
estratégica, tática e tecnicamente o lnstitucionalismo é uma práxis transversal, heterogênea, diversificada,
intersticial e não – totalizável, qual pode ser sua condição ontológica, axiológica e epistemológica?
Ontologicamente, em que pode consistir sua "identida que não seja viver na nebulosa das "puras
diferenças", quer dizer no "simulacro" das entidades estabelecidas para forçá-las até seu limite, para cavalgá-
las, incrementando seu pólo progressivo, para mimetizá-las, parodizá-las, infiltrá-las, recortá-las por linhas
clivagem bizarras, dividi-las até o infinito, refluidificá-las, fazê-las proliferar, "alternativizar", diluir-se,
rachar, etc.?
Axiologicamente, que ética pode reger esta atividade não enquadrável, mais que tudo, um "modo de
viver" que atravessa qualquer "forma de vida" indiferente à "vida das formas", tentando exclusivamente
propiciar que "nova vida" se forme? Como enunciar os postulados dessa ética além de exortações como
"desejar o acontecimento" ou "intensificar a singularidade", segundo a vontade de potência produtiva, em
todo tempo e lugar? Uma ética que prescreve gerar as próprias leis para que cada vez mais do realvirtual se
torne atualizável.
Epistemologicamente, parece indiscutível que o Institucionalismo, longe de orientar-se por critérios
de Verdade, sejam estes revelados, especulativos ou experimentais, dedica-se a genealogizar suas formas
históricas de produção para expor manifestamente os poderes que as envolvem. Que outro recurso lhe
compete além da construção de "verossímeis", "simulações", "efeitos especiais", indecidíveis,
indemonstráveis, mas realizados? Como pensar o radicalmente novo senão com uma "nova maneira de
pensar", um pensamento "sem fundamento", ou melho, "não-fundamentalista"?
Quando sustentamos que a principal virtude do Institucionalismo deve ser a afirmação da sua
positividade, queremos indicar sua capacidade de apropriar-se de todo e qualquer fragmento de código,
discurso, organização, estatuto ou prática, incluídas aí as específicas e profissionais, e remetê -las a funcionar
segundo se produzam, e a produzi-las segundo funcionem. Por conseguinte, ao Institucionalismo não deve
131 ▲
interessar muito a negatividade crítica e a "superação" dos instituídos dentro do marco dos próprios
cânones dos mesmos. Melhor dedicar-se a pinçar neles cada elemento produtivo, tudo que "abra",
"possibilite" e "conecte", agenciá-la de acordo com a lógica de seus "princípios" e intensificá-la até
gerar um acontecimento.
Nada impede, pois, ao institucionalista, "devir" (que embora lúdica não deixa de ser
revolucionariamente) sociólogo, economista, psicanalista, engenheiro de sistemas, profissional
liberal ou funcionário, sempre que o faça (como diriam Deleuze e Guattari) "à moda" de um
bárbaro, um artista ou uma criança.
Se isso está correto, boa parte dos pruridos, assim como os purismos e desviacionismos
internos ao Movimento que mais acima descrevíamos, são passíveis de ser analisados, avaliados e
resgatados para um fortalecimento geral do Institucionalismo que precisa cada vez mais de
dispositivos fortes, amplos e numerosos.
132 ▲

GLOSSÁRIO

Elaborado por Gregorio F Baremblitt com a participação de Cibele Ruas de MeIo


Advertências para a leitura deste Glossário

Devido ao caráter introdutório deste livro, este glossário tem por objetivo apenas informar acerca da existência
de alguns dos termos mais empregados pelo Institucionalismo, bem como da diferente acepção que tomam outros,
advindos de áreas onde seu uso foi consagrado de forma diferente. Embora este propósito não baste para explicar as
limitações do texto, nós, os autores, fazemos questão de explicitá-las mais detalhadamente:

1) A autoria das definições e suas referências bibliográficas não estão citadas literalmente, pois esse requisito
excederia as aspirações e possibilidades deste livro.
2) Os autores crêem ter sido fiéis aos significados mais aceitos dos termos, mas se responsabilizam por toda e
qualquer omissão ou distorção que as definições impliquem.
3) De forma coerente com o exposto anteriormente, e como desculpa por qualquer injustiça cometida com a
paternidade ou a precisão dos conceitos, os autores renunciam a qualquer pretensão de originalidade, ou seja, de
propriedade intelectual dos mesmos.
4) E desnecessário dizer que este glossário, assim como o volume do qual forma parte, não pretende haver
dado conta nem da maioria dos autores nem dos termos que, segundo a definição ampla dada do Movimento, deveriam
estar nele incluídos.

133 ▲
5) Em alguns casos, como por exemplo no da Esquizoanálise, os autores estão cientes de haver incluído e definido
termos que não estão suficientemente esclarecidos. Êspera-se que o leitor compreenda o dilema que termos pertencentes
a teorias tão vastas apresentam para os glossaristas: ou se renuncia por completo a mencioná-las, o que empobreceria
demais esta leitura, que pretende ser panorâmica, ou se os inclui e define de uma forma sumária e provisória. Esta
última opção está destinada a motivar o leitor a procurar a bibliografia de origem para entendê-los e aprofundá-los.
ACASO: modo de devir que se caracteriza por ser aleatório, imprevisível e incontrolável. Freqüentemente se
equipara este termo ao que é casual, contingente, insólito etc., apesar de os sentidos destes vocábulos serem variados.
Nos paradigmas ou modelos que partem da ordem, o acaso é considerado como uma vicissitude probabilisticamente
possível, mas em geral indesejável. Com o auge contemporâneo dos paradigmas ou modelos da" desordem", este é
considerado o modo de ser do devir dos processos, e se procura maneiras de pensar e atuar que incluam a "desordem" e
sua potência produtiva. No lnstitucionalismo (ver Movimento Institucionalista *), de modo geral, a" desordem" e o
acaso que caracterizam os processos são considerados fontes de produção* e essência do desejo*, geradores da
transformação e da novidade nos sistemas. Em um sentido estrito do instituído*, o organizado*, o estabelecido tentam a
repetição do mesmo (ver Repetição*), são conservadores, enquanto o lnstitucionalismo se interessa por propiciar a ação
do instituinte*-organizante*, através da liberação do acaso-radical, deflagrador da diferença, do novo absoluto.
ACONTECIMENTO: ato, processo e resultado da atividade afirmativa do acaso*. É o momento de aparição do
novo absoluto, da diferença e da singularidade. Estes atos, processos e resultados, conseqüências de conexões insólitas
que escapam das constrições do instituído*-organizado*, estabelecido, são o substrato de transformações de pequeno ou
grande porte que revolucionam a História* em todos os seus níveis e âmbitos. O acontecimento atualiza as
virtualidades, cuja essência não coincide com as possibilidades. O virtual não existe, mas faz parte da realidade.
ADAPTAÇÃO: termo tomado da Biologia Evolucionista segundo o qual um órgão modifica-se, tornando-se mais
apto para sua função. Usa-se também para referir-se às mudanças que uma espécie animal adota para sobreviver, como
reação a diversos fatores que obstaculizam ou favorecem seu desenvolvimento. Nas chamadas Ciências Humanas, essa
noção foi empregada com freqüência, mas é muito criticada por evocar uma transformação dependente, apesar de que
freqüentem ente se lhe adicione o qualificativo "ativa". No lnstitucionalismo*, o vocábulo adaptação costuma ser
sinônimo de adequação ao instituido* – organizado* e implica acomodação.

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AGENCIAMENTO OU DISPOSITIVO: é uma montagem ou artifício produtor de inovações que gera
acontecimentos* e devires, atualiza virtualidades e inventa o novo radical. Em um dispositivo, a meta a alcançar e o
processo que a gera são imanentes (ver imanência*) entre si. Um dispositivo compõe-se de uma máquina semiótica e
uma pragmática e se integra coneetando elementos e forças (multiplicidades, singularidades, intensidades) heterogêneos
que ignoram os limites formalmente constituídos das entidades molares (estratos, territórios, instituídos* etc.). Os
dispositivos, geradores da diferença absoluta, produzem realidades alternativas e revolucionárias que transformam o
horizonte considerado do real, do possível e do impossível.
AGENTE: indivíduo-pessoa-sujeito protagonista das práticas* que se desenvolvem no complexo instituído* –
organizado* – estabelecido e seus equipamentos*. Entendido como produção de subjetivação*, o agente pode ser peça
especia lmen te gerada para formar parte de um dispositivo (ver agenciamento ou dispositivo*) transformador. De
todas as maneiras, o agente, no lnstitucionalismo, funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos, e não
como causa dos mesmos.
ALIENAÇÃO: no sentido filosófico, designa um processo pelo qual um ser perde sua identidade ou seus atributos
essenciais, "alienando-se" ou "transbordando-se" no outro, ou em um "fora de si". No lnstitucionalismo a significação
deste termo é próxima à da Sociologia: os homens, ::''TUPOS ou classes sociais alienam suas potencialidades,
atribuindo-as a entidades sobrenaturais (os Deuses), como disse Feuerbach, ou a uma classe social que, por ser a
proprietária dos meios de produção, se apropria do valor da força de trabalho não remunerada da classe produtora. Em
geral isso lhe permite também acumular poder político e prestígio.
ALTERNATIVA: designa-se assim as idéias, pessoas, organizações, movimentos e práticas que supõem uma opção
para seus simétricos oficiais, reconhecidos e consagrados. Se bem as propostas alternativas possam reunir a condição
de opositoras, dissidentes e marginais, não chegam a ser consideradas clandestinas, subversivas ou revolucionárias. As
forças e entidades dominantes desaprovam ou desqualificam as alternativas, mas em ge~al as toleram ou as ignoram.
Excepcionalmente, as recuperam.
ANALISADOR ARTIFICIAL OU CONSTRUÍDO: dispositivo* inventado e implantado pelos analistas institucionais
para propiciar a explicitação dos conflitos e sua resolução. Para tal fim, pode-se valer de qualquer recurso
(procedimentos artísticos, políticos, dramáticos, científicos etc.), qualquer montagem que torne manifesto o jogo de
forças, os desejos, interesses e fantasmas dos segmentos organizacionais.

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ANALISADOR "ESPONTÂNEO" OU "NATURAL': analisado r de fato, produzido" espontaneamente" pela própria
vida histórico-social-libidinal e natural, como resultado de suas determinações e da sua margem de liberdade.
ANÁLISE DA DEMANDA: é a análise e deciframento que se faz do pedido de intervenção por parte de uma
organização. É o primeiro e um importante passo para que se comece a compreender institucionalmente a dinâmica
dessa organização. É o material de acesso inicial que já contém valiosos aspectos conscientes, manifestos, deliberados,
assim como todo um filâo de aspectos inconscientes e não-ditos* que remetem a um esboço inicial da conflitiva e
problemática da organização solicitante. A demanda tem conotação especial para o lnstitucionalismo, particularmente a
de que é produzida pela oferta (ver Análise de Oferta") de bens e serviços.
ANÁLISE DA IMPLICAÇÃO: a implicação define-se como o processo que ocorre na organização analítica, em sua
equipe, como resultado de seu contato com a organização analisada. É um termo que tem certa semelhança com o
conceito psicanalítico de contratransferência (reaçâo – consciente e inconsciente – que o material do paciente produz
no analista), só que no lnstitucionalismo a implicação não é um processo apenas psíquico, nem inconsciente, mas de
uma materialidade múltipla e variada, complexa e sobredeterminada (ver Sobredeterminação"). É ao mesmo tempo, um
processo político, econômico, social, etnológico heterogêneo que deve ser examinado em todas as suas dimensões. Por
outra parte, não é apenas uma reação da equipe interventora ao contato com o objeto de análise. Ela pode até ser prévia
a qualquer contato. Não começa no "cliente" e é, isso sim, uma interinfluência recíproca, simultânea, que faz parte
integrante do processo de análise da organização. Análise de implicação é a compreensão da interação, da
interpenetração dessas duas organizações, enfatizando a parte que cabe à intervinda.
ANÁLISE DA OFERTA: é um exercício de auto-análise" ao qual a organização analítica tem de se submeter para
deslindar sua implicação no tocante à geração da demanda. A publicidade, a divulgação (científica ou não), a proposta
direta u indireta dos serviços da organização analítica têm necessariamente uma relação de causalidade (geração ou
modulação) no referente à formulação da demanda de seus serviços. A toda oferta de prestação de serviços subjaz a
duvidosa mensagem que consiste na suposição de se saber e se ter o que o ou tro precisa, que por sua vez não sabe que
não tem e não entende o que é porque é complexo, sutil, técnico. A análise da demanda* deve estar necessariamente
articulada com a análise da produção desta demanda – ou seja, a análise da oferta, que forma parte da implicação dos
interventores.

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ANÁLISE INSTlTUClONAL: seus fundadores e principais expoentes são G. Lapassade e R. Lourau, apesar de a
denominação ter sido criada por F. Guattari. Esta corrente institucionalista, uma das mais coerentes e empenhadas,
reconhece como seus antecessores a Psico-Sociologia, a Dinâmica de Grupos, a Psicoterapia e a Pedagogia
lnstitucionais, assim como a Socioanálise de Van Bockstaele. Contudo, a Análise lnstitucional superou amplamente
esses precursores no sentido de uma radicalização de suas teorias, modos de intervenção e objetivos últimos.
Impossível resumir aqui suas contribuições, bastará dizer que se propõe a propiciar os processos auto-analíticos (ver
Auto-Análise*) e autogestivos (ver Autogestão*) circunscritos (se for o caso), mas tendendo sempre a que se expandam
até conseguir um alcance generalizado e revolucionário.
O lnstitucionalismo deve a esta orientação conceitos tais como insti tuin te* instituído", institucionalização,
analisadores históricos e construídos", demanda-encargo*, efeitos" Mulhman, Lukács etc. A Análise lnstitucional
insistiu particularmente na análise da implicação*, ou seja, nas resistências econômico-político-ideológico-libidinais
dos agentes analistas aos processos autogestivos durante as intervenções (crítica da Sociologia abstrata e "neutra"). A
Análise Institucional considera a prática de seus agentes como uma militância, e propõe para eles o perfil de um
intelectual implicado, à diferença do intelectual orgânico (partidário) ou engajado (freqüentemente um tanto
especulativo). Como dispositivo* de intervenção, inclina-se pela Assembléia Geral Permanente, na qual os não-ditos*
institucionais são forçados a expressar-se a té suas últimas conseqüências transformadoras.
ANSIEDADES: correntes institucionalistas, tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana
(Elliot Jacques, Pichon Rivière, Bleger e outros), subscrevem, de diversas formas, a tese de que as organizações são"
sistemas de defesa contra a ansiedade". O conceito de ansiedade deve ser entendido, nessas teorias, como similar ao
cunhado por Melanie Klein para sua concepção da personalidade psíquica, particularmente para sua descrição do
"mundo interno" ou "self inconsciente" dos sujeitos. As posições esquizoparanóides e depressivas, que são as
configurações que adquirem os variados elementos que compõem o self (pulsões, objetivos, defesas, fantasias) no
curso do desenvolvimento, são acompanhadas de vivências características denom.inadas ansiedades. Assim se fala de
ansiedades paranóides, depressivas, confusionais etc., sendo que as defesas que se arbitram contra elas (dissociação,
projeção, idealização, negação etc.) podem tomar os elementos institucionais e organizacionais (contratos,
organograma, regulamentos) como suportes.
ANTlPEDAGOGIA: a partir das idéias questionadoras de Rousseau, diversos pedagogos procuraram reformar,
liberalizar ou revolucionar as instituições" e sistemas de ensino. Métodos como os de Montessori,
137 ▲
Pestalozzi, Freinet e outros deram origem a várias tentativas de desburocratizar (ver – cracias') e tornar a Pedagogia
menos autoritária, dando aos alunos um maior ou menor protagonismo e liberdade na gesti10 do processo pedagógico.
Tais tentativas replicam, ao nível da aprendizagem, os exemplos anarquistas, marxistas e liberais de democratizaçiío
(ver cracias *) ou franca libertação do trabalho. Segundo sua diferente inspiração e seu grau de radicalidade, surgiram
as experiências de Makarenko na União Soviética, o Plano Dalton e as propostas de Lewin e Rogers nos Estados
Unidos, assim como a Pedagogia Institucional de F Oury, A. Vasquez, M. Labat, e outros, na França. Generalizando,
pode-se dizer que são tentativas antipedagógicas que pretendem modificar ou destruir a instituição do ensino,
substituindo-a por opções participativas ou co-gestivas (ver Co- Gestão*). Entretanto, é possível que seja a proposta de
G. Lapassade e R. Lourau de uma autogestão* pedagógica (primeiro parcialmente, como contra-instituição, e depois
generalizada) a forma mais conspícua de antipedagogia que se possa conceber, na qual os alunos assumem
integralmente o curso da institucionalização da aprendizagem.
ANTIPRODUÇÃO: as potências produtivas de todo tipo – naturais, psíquicas e sociais (em especial as instituintes*) –,
são capturadas pelas grandes entidades de controle e reprodução* (por exemplo: o Estado, o Capital etc.) e suas forças
são voltadas contra si mesmas, levando-as à repetição estéril ou autodestruição. As potências singulares, que o sistema
dominante não está em condições de assimilar para transformar em bens, serviços ou valores alienados (mercadorias) e
incorporá-las à sua lógica, são alvos dos mecanismos repressivos que eliminam mais ou menos deliberadamente as que
não conseguem capturar.
ANTIPSIQU1ATRIA: nascido junto à grande corrente de crítica cultural e politica dos anos 60 nos Estados Unidos e
Europa, este Movimento, mais ou me nos radical, de impugnação do objeto (doença mental) assim como das teorias e
métodos da Psiquiatria e da Psicopatologia, impulsionou uma profunda revolução nesse campo. Seus máximos
representantes – Thomas Szasz e I. Goffman nos Estados Unidos, Michel Foucault, Félix Guattari e R. Castel na
França, Ronald Laing e D. Cooper na Inglaterra, F. Basaglia na Itália e E. Pichon Rivière na Argentina – insistiram na
idéia de que as qualificações" científicas" da loucura e da parafernália de recursos variavelmente violentos destinados a
tratá-la não seriam senão eufemismos da alienação política, econômica e cultural da sociedade moderna. A maioria
desses autores, que estiveram reunidos em um Congresso no Rio de Janeiro, em 1978, foram mentores ou participantes
do Movimento Institucionalista *.
ATRAVESSAMENTO: a rede social do instituído*-organizado* estabelecido, cuja função prevalente é a reprodução
do sistema, atua em
138 ▲

conjunto. Cada uma dessas entidades opera na outra, pela outra, para a outra, desde a outra. Esse entrelaçamento,
interpenetração e articulação de orientação conservadora, serve à exploração*, dominação* e mistificação*,
apresentando-as como necessárias e benéficas.
AUTO-ANÁLISE: processo de produção e re-apropriação, por parte dos coletivos autogestionários (ver Autogestão*),
de um saber acerca de si mesmos, suas necessidades, desejos, demandas, problemas, soluções e limites. Esse saber se
acha em geral apagado, desqualificado e subordinado pelos saberes científico-disciplinários, que não só estão em boa
medida a serviço das entidades dominantes (Estado, CapitaL Raça ete.), como também operam com critérios de
Verdade e Eficiência, que são imanentes aos valores de tais entidades. A auto-análise possibilita aos coletivos o
conhecimento e a enunciação das causas de sua alienação*.
AUTO DISSOLUÇÃO: O lnstitucionalismo* enfatiza que os grupos, organizações* e movimentos instituintes* (em
outra terminologia: revolucionário-produtivo-desejantes) devem constituir morfologias sociais estritamente funcionais,
subordinadas e coerentes com suas utopias ativas*. Um dispositivo* instituinte ou um grupo-sujeito*, protagonista de
um processo transformador, deve ter sempre presente sua natureza transitória e "finita". Tal consciência é precondição
para seu bom funcionamento, que implica conjurar os riscos de cristalização do instituído. Quando um conjunto
instituinte cumpriu todos os seus objetivos, ou quando constata que não está mais conseguindo isso com a "identidade"
que se deu, deve ser capaz de autodissolver-se para não se perpetuar como uma finalidade em si mesma.
AUTOGESTÃO: é, ao mesmo tempo, o processo e o resultado da organização independente que os coletivos se dão
pora gerenciar sua vida. As comunidades instituem-se, organizam-se e se estabelecem de maneiras livres e originais,
dando-se os dispositivos* necessários para gerenciar suos condições e lnodos de existência. Todo processo instituinte*-
organizante* implica uma certa divisão técnica do trabalho, assim como alguma especialização nas operações de
planejamento, decisão e execução. Essas diferenças podem implicar hierarquias, mas as mesmas não envolvem escalas
de poder. Os conhecimentos essenciais são compartilhados e as decisões importantes tomadas coletivamente. As
hierarquias correspondem a diferenças de potência, peculiaridades e capacidades produtivas que visam sempre ser
funcionais para a vontade comunitária.
CAMPO DE ANÁLISE: é o perímetro escolhido como objeto para aplicar o aparelho conceitual disponível destinado a
entender o campo de intervenção*: a inteligência acerca de como ele funciona, a articulação de

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suas determinações, a forma como são gerados seus efeitos etc. Este aparelho conceitual pode constituir-se de materiais
teóricos muito heterogêneos, dependendo da sua eficiência para fazer a "leitura" do campo de intervenção*. O campo
de análise não está delimitado segundo um perímetro que coincida com a definição empírica ou "oficial" (instituída e
organizada) de um segmento social. Quanto mais amplo o campo de análise, mais possibilidades existem de
entendimento do campo de intervenção, por mais aparentemente pequeno que este seja.
CAMPO DE INTERVENÇÃO: é o perímetro que delimitará o espaço dentro do qual se planejarão e executarão
estratégias *, logísticas *, táticas * e técnicas * que, por sua vez, deverão operar neste âmbito específico para
transformá-lo de acordo com as metas propostas. Está em estreita dependência do campo de análise*, desde o qual será
compreendido, pensado. Só se intervém quando se compreende, sendo que posteriormente se compreende à medida
que se intervém. O campo de intervenção pode ser muito amplo ou restrito a um estabelecimento ou organização
(escola, sindicato, empresa etc.).
CAPTURA E RECUPERAÇÃO: o instituído*-organizado*-estabelecido, em especial o Estado, o grande Capital, as
classes e grupos dominantes, procuram detectar, classificar e apropriar-se de toda e qualquer singularidade e força
produ tiva. Quando o conseguem, as incorporam à lógica acumulativa do Sistema, fundamentalmente transformando as
linhas de fuga revolucionário-desejantes e seus produtos (ver Desejo*) em mercadorias. Quando o aparato de captura e
recuperação falha, as mencionadas entidades operam de forma repressiva ou supressiva, inibindo ou destruindo as
forças produtivas, em especial as instituintes*.
CLANDESTINIDADE: remete a modos de existência social cuja característica principal é serem sigilosos, ocultos ou
secretos. As idéias, pessoas, organizações ou movimentos deste tipo podem somar a condição de opositores, dissidentes
ou marginais, mas sua característica essencial consiste em que sua relação delinqüencial, subversiva ou revolucionária
com a ordem dominante os torna indesejáveis, ameaçadores ou francamente perigosos para o instituído-organizado.
Reciprocamente, a clandestinidade costuma ser condição de possibilidade de existência para idéias ou segmentos
sociais frente às forças e recursos repressivos ou eliminatórios que o sistema no qual atuam pode mobilizar contra eles.
CLASSE INSTlTUCIONAL: a Sociopsicanálise de G. Mendel designa o estatuto do conjunto de agentes que são
igualmente responsáveis por uma etapa ou um nível dentro do processo de produção de um produto ou serviço. Tal
participação fica evidenciada quando a classe institucional se retira do trabalho, interrompendo o curso do processo
produtivo em um
140 ▲

ponto determinado. As classes institucionais de uma organização* são despossuídas da parte do poder* que lhes
corresponde pela classe suprajacente e despossuem, por sua vez, à classe subjacente. A classe institucional é o
segmento organizacional indicado como objeto de intervenção sociopsicanalítica e não se deve misturar seus
integrantes com os menlbros de outros segmentos.
CO-GESTAO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual diferentes segmentos – por exemplo, de um
estabelecimento – cuja posição formal no organograma implica hierarquias e poderes diversos e, portanto, relações de
subordinação em última instância, elaboram um pacto ou acordo de trabalho ou administração conjunto para realizar
uma tarefa, sem mnunciar às categorias antes mencionadas.
COLABORACIONISMO: costuma-se denominar assim as atitudes e comportamentos de setores oprimidos,
explorados e mistificados que prestam subserviência, apoio ou cumplicidade às forças ou t'ntidades que os subordinam
ou submetem.
COMUNIDADE: este temo é usado com uma grande variedade de sentidos nas ciências naturais e humanas. Em geral
refere-se a um conjunto de indivíduos (pequeno, médio ou grande) que está vinculado por algum traço, característica ou
atividade compartilhada. Esta peculiaridade pode ser de espécie, gênero, classe, categoria, sexo, idade, raça, lugar,
tempo, valores etc. O importante é que atribui uma singularidade e/ou identidade, assumida ou não pelos integrantes
que, de uma forma ou de outra, lhes confere uma certa coesão e solidariedade. Para a Sociologia Clássica, é
fundamental que essa solidariedade seja orgânica (organizada, diversifica da, hierarquizada e articulada), e não apenas
mecânica. J. P. Sartre distingue uma associação serial ou aglutinada da resultante de uma fraternidade do terror, e esta
de uma em processo de institucionalização que se vai fazendo a si mesmo. Para o lnstitucionalismo, é essencial que as
unificações e totalizações das comunidades sejam invenções provisórias e mutantes, subordinadas às forças
instituintes* e organizantes'" durante o curso da institucionalização.
CONFLITO: entendendo por conflito a oposição e luta dos contrários (dito em um sentido muito amplo), para algumas
tendências do Institucionalismo a contradição é a fonte de todos os transtomos e, ao mesmo tempo, o único motor da
mudança nos sujeitos, organizações*, movimentos, sociedades* e civilizações. Todas as forças, estruturas, instâncias e
mecanismos que compõem a realidade biossocial-libidinal funcionam de forma conflitiva, e da cristalização ou da
resolução de sua dialética * depende o destino produtivo, reprodutivo ou antiprodutivo (ver Produção*,

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Reprodução* e Antiprodução*) dos processos históricos.
Essa formulação recolhe, entre tantas outras origens teóricas, Os princípios e fundamentos da Psicanálise e do
Materialismo Histórico e Dialético, até incluir certas raízes nietzschianas e existencialistas do pensamento
institucionalista. Os conflitos entre instituinte* – instituído*, centro-periferia, exploradores-explorados, dominadores-
dominados são apenas alguns exemplos da série interminável que se pode imaginar. Contudo, para outras correntes, os
conflitos, sua paralisação dilemática ou sua resolução dialética não são do nível determinante do real, porque a
substância da realidade é a pura afirmação produtivo-desejante.
CÓPIAS: dentro do que interessa ao Institucionalismo, as cópias (segundo o pensamento platônico) são as almas que,
havendo tido, nos tempos míticos, uma proximidade, imagem e semelhança com as Idéias Puras* ou Modelos,
perderam a semelhança e só conservaram a imagem, esquecendo se dessa "queda". A maiêutica socrática consistiria em
um procedimento pelo qual, mediante o raciocínio, se conseguiria que as almas recuperassem a memória, e com ela o
acesso às Idéias Puras. O método platônico da clivisão em gêneros, espécies (etec.) seria uma forma de seleção para
cliferenciar as "boas" das "más" cópias, sendo que as primeiras estariam aptas para recuperar sua semelhança com as
Idéias Puras. As cópias são sinônimos de "representações". Para a interpretação institucionalista desse pensamento, ver
Idéias puras*.
-CRACIAS: ARISTOCRACIA, BUROCRACIA, LOGOCRAClA, SEXOCRACIA, TEOCRACIA, TECNOCRACIA:
optamos por agrupar e tratar em conjunto estes termos porque, com a finalidade de explicitar seu interesse para o
Institucionalismo, esta abordagem permitirá resumir a exposição. O sufixo cracia significa governo de ou poder de:
aristo (elite supostamente integrada pelos melhores membros de uma sociedade, cuja condição de superioridade está
dada por uma linhagem hereditária); buro (categoria ou classe que se ocupa da administração, com freqüência
supostamente "científica" das organizações); tecno (categoria ou classe que detém e exercita um saber habitualmente de
cunho científico); pluto (alude a classes ou grupos economicamente opulentos); logo (alude aos possuidores da razão
como saber discursivo); sexo (alude a uma definição sexual em detrimento das outras);e teo (alude aos supostos
representantes da clivindade ou à divindade mesma, "encarnada" em um indivíduo ou grupo). Aqui vale acrescentar a
palavra "nepotismo", em que nepo, em sentido restrito, alude aos filhos naturais dos Papas, eufemisticamente
denominados "sobrinhos". Em sua acepção ampla, refere-se à designação de parentes de um governante para cargos
oficiais.
Para o Institucionalismo, que postula o autogoverno dos coletivos (sistema que só admite lideranças provisórias
baseadas no afeto, prestígio e

142 ▲

exemplaridade), nenhuma dessas condições e seus respectivos governos são aceitáveis, configurando vícios de
condução que são, por sua vez, causa e efeito da impossibilidade ou incapacidade para uma democracia au togestiva.
CRISE: em sua origem grega e segundo os campos de atividade nos quais era empregada, a palavra krisis significava:
interpretação (por exemplo, dos sonhos), seleção (por exemplo, das vítimas de um sacrifício), juízo (por exemplo,
procedimento para chegar a um veredicto), momento crucial das vicissitudes ou do metabolé (por exemplo, cena de
apogeu numa tragédia), fase de definição, no sentido da melhoria ou da piora do curso de uma enfermidade.
Provavelmente por extensão da noção médica, o conceito de crise aplica-se a processos de qualquer natureza, nos quais,
dentro de um andamento relativamente regular, chega-se a um ponto de desequilíbrio (desorganização, desordem) mais
ou menos imprevisível na sua aparição e em seu desenlace. Esse estado de crise ocorre, segundo alguns, por caducidade
dos mecanismos e recursos vigentes, devido a seu desgaste e/ ou à incidência de forças e acontecimentos positivos ou
negativos acidentais, contingentes, circunstanciais, extraordinários ete. As crises são etapas de mudanças para o bem ou
para o mal, mas em geral aceleradas e radicais. Alguns atribuem as crises à exacerbação das contradições de um sistema
ou ao acúmulo de mudanças quantitativas que desembocam em uma transformação qualitativa. Outros sustentam que
são períodos ou espaços de transição entre tempos e lugares precisos e conhecidos, enquanto há os que pensam que se
trata dos prolegômenos do surgimento do absolutamente novo.
Para certos autores (por exemplo, Marx), o Capitalismo é um sistema histórico que existe em crise permanente, posto
que incorporou essa condição a seu modo normal de transcurso. Para o Institucionalismo, tanto enquanto campo de
análise* como de intervenção (ver campo de intervenção*), os estados de crise são considerados fecundos, na medida
em que envolvem a falência do instituído* – organizado* e a emergência do instituinte* – organizante* no seio da
"desordem criadora". Alguns institucionalistas, como Lapassade, tentam intervenções deflagradoras de crise grupal ou
organizacional (provocação institucional), e a maioria prefere intervir nos momentos críticos, melhor ainda se
generalizados a grandes segmentos ou à sociedade inteira.
DEFESAS: para as correntes institucionalistas tais como as psicologias institucionais de base psicanalítica kleiniana
(Elliot Jacques, Pichon Rivière, Bleger e outros), as posições esquizoparanóides e depressivas – as configurações
adquiridas pelos variados elementos que compõem o self (pulsões, objetos, fantasmas) no curso do desenvolvimento-,
vêm acompanhadas de vivências características denominadas ansiedades * . Assim

143 ▲
se fala de ansiedades paranóides, depressivas, confusionais etc. Os mecanismos que se erguem contra elas (dissociação,
projeção, idealização, negação etc.) denominam-se defesas e podem tomar como suportes os elementos institucionais e
organizacionais (contratos, organograma, regulamentos etc.). Por isso se diz que as instituições são "sistemas de defesa
contra a ansiedade*". Descritivamente falando, isso explica os quadros psicóticos que muitos agentes* desenvolvem
quando suas organizações entram em crise ou os expulsam.
DESEJO: a Psicanálise demonstrou que os sujeitos psíquicos estão determinados por uma força inconsciente sobre a
qual não têm conhecimento nem controle voluntário. Essa força se origina, por sua vez, das pulsões, e tende à busca do
prazer e à evitação do desprazer. A Psicanálise postula que o desejo é uma força do tipo conservador ou repetitivo, que
procura restituir um estado arcaico perdido, prévio à constituição do sujeito: o narcisismo. Durante esses incessantes
ensaios, o desejo, que carece do objeto real, se "satisfaz" ou "realiza" animando fantasmas (montagens de
representações imaginárias inconscientes que transcorrem em "outra cena"). Em última instância, o desejo persegue o
gozo absoluto, quer dizer, sua própria extinção definitiva, na qual se encontra com a pulsão de morte. O Complexo de
Castração, que instaura a lei no psiquismo, constitui o desejo, ao mesmo tempo em que lhe permite simbolizar-se e
servir aos objetivos de vida. O desejo, para a Psicanálise, gesta-se no seio do Complexo de Édipo; no início do
desenvolvimento, atua exclusivamente na dramática da vida familiar, e só posteriormente induz os sujeitos psíquicos a
entrarem nos processos sociais amplos.
Algumas correntes do Institucionalismo compartilham a definição psicanalítica de desejo (Sociopsicanálise). Para
outras (por exemplo, a Esquizoanálise), o desejo é essencial e imanentemente produtivo, gera e é gerado no processo
mesmo de invenção, metamorfose ou "criação" do novo. Sua essência não é exclusivamente psíquica, pois participa de
todo o real. Corresponde aproximadamente ao que Nietzsche denominou "Vontade de Potência", ao que Espinoza
chamava "Substância" e os estóicos "Acontecimento Incorporal", que resulta do encontro entre os corpos (devir).
Igualmente o desejo (assim entendido) tem afinidade com o "virtual" bergsoniano, com as "quantidades intensivas" em
Kant e com as "impressões intensivas" em Hume. Esse desejo atua em todo e qualquer âmbito do real, não carece do
objeto, ignora a lei e não precisa ser simbolizado porque se processa sempre de fomla inconsciente. Não tende à morte
porque constitui a essência da vida como "Eterno Retomo das Diferenças Absolutas". Assim entendido, o desejo
também está parcialmente submetido a entidades repressivas, mas estas não são exclusivamente psíquicas, e sim um
complexo conjunto ao mesmo tempo político, econômico, comunicacional etc. Na Esquizoanálise de Deleuze e
Guattari, o desejo é imanente à produção, daí o conceito de produção desejante.

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DESVIANTE: nas organizações e movimentos podem surgir sujeitos, grupos ou tendências que questionam o
instituído* – organizado, através de diversos discursos, atitudes e comportamentos. Protagonizam, assim, um desvio ou
afastamento da linha condutora hegemônica da organização. Sua dissidência* ou discordância pode ser mais ou menos
enérgica, mas em geral é predominantemente reativa, quer dizer, se bem impugna e denuncia os defeitos do instituído-
organizado, não consegue fazê-lo com consciência suficiente e estratégia adequada para gerar uma real alternativa ou
uma mudança profunda.O segmento desviante pode ser ideológico (quando propõe uma divergência ou oposição teórica
ou dou trinária), organizacional (quando altera a estrutura ou a dinâmica do organograma e fluxograma) ou libidinal
(quando apresenta opções na definição sexual ou outras vinculadas a eleições idiossincráticas em torno do prazer, da
moral etc.). A proposta e ação desviante podem, eventualmente, tornar-se o gérmen de um processo produtivo-
desejante-revolucionário.
DIALÉTICA: é um método para pensar e discutir as realidades materiais e metafísicas cujas diferentes versões estão
presentes em todo saber ocidental, desde a Antiguidade até a época contemporânea. É um pensamento que concebe a
realidade material e a espiritual em permanente movimento e transformação, devido a sua essência intrinsecamente
contraditória. Opõe se a todas as concepções que supõem o ser como estático e invariável, sendo as mudanças que se
apresentam apenas superficiais, ilusórias ou aparentes. A dialética atinge sua maior sistematização com Hegel, que a
postula como método para pensar o movimento do "Espírito Absoluto", essência de todo o real. Karl Marx, o fundador
do Materialismo Dialético e Histórico, de alguma forma conserva a concepção hegeliana do movimento dialético, mas
o atribui à matéria em suas várias qualidades, e não ao espírito.
A dialética sustenta que o movimento é regido por três leis: 1) Negação da negação; 2) Passagem da quantidade à
qualidade; e 3) Coexistência dos opostos em cada unidade. Isso implica uma total refutação das leis da Lógica Formal
Clássica, pois os princípios de identidade, contradição e terceiro excluído perdem vigência. Outro aspecto importante
da dialética refere-se aos denominados "momentos" de análise da realidade, que pode ser examinada como "universal",
"geral, particular" e "singular". Como nas leis do devir, cada momento nega o anterior, o supera e ao mesmo tempo o
conserva. O conhecimento da essência de toda e qualquer realidade circunscrita deve ter em conta esse "trabalho do
negativo" que não é diretamente apreendido pela consciência.
Algumas correntes do Institucionalismo incorporam recursos da concepção dialética (Análise Institucional*), outras
entendem que a dialética ainda é uma maneira conservadora de pensar e conceber o real (a negação da negação supera,
mas também conserva o superado), postulando, em troca, uma idéia do ser como puro devir no qual retornam
exclusivamente as
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diferenças (Esquizoanálise*).
DISPOSITIVO: ver Agenciamento.
DISSIDÊNCIA: costuma-se empregar este termo para referir-se à posição de setores discordantes ou divergentes de
uma organização ou movimento, sendo que tal divergência afeta principalmente a linha teólica ou ideológica. As
tendências dissidentes podem manter-se no interior da organização- movimento ou separar-se dele.
DISSOCIAÇÃO INSTRUMENTAL: denomina-se assim na Psicanálise, no Grupalismo e no Institucionalismo a
operação pela qual o analista, a equipe interveniente ou outros segmentos organizacionais conseguem simultaneamente
protagonizar os processos plenamente implicados neles e distanciar-se o suficiente para poder analisá-los e
compreendê-los (ver Análise da Implicação*).
DISTORÇÃO DA DEMANDA: alguns institucionalistas consideram que certas demandas de intervenção, que
expressam claramente uma falta de vontade instituinte*, ou mais ainda, um apreciável encargo repressivo ou
ligeiramente reformista, podem ser atendidas. O analista inicia a análise e a intervenção sobre essas bases, confiando
em que durante o curso do processo poderá reverter o equilíbrio de forças e encaminhar o andamento em direção à
autogestão* e à auto-análise * .
DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO: todo processo de produção, particularmente de bens materiais e serviços, exige
um trabalho, e este, por sua vez, consome força de trabalho. Os processos de trabalho complexos, em todas as
sociedades da História e especialmente na modernidade industrial, estão diversificados em diferentes tarefas
articuladas entre si. Essa composição conferiu à produção uma rapidez e eficácia jamais igualadas. Contudo, devido à
propriedade privada dos meios de produção e à compra e venda injusta de força de trabalho nos sistemas capÍtalistas
(extração de mais-valia), à divisão técnica do trabalho se superpõe uma divisão social. Determinadas tarefas são
consideradas privilegiadas e fundam hierarquias que outorgam riqueza, poder e prestígio. Coisa similar Ocorre em
outros sistemas de produção pela extração dos mesmos e dos outros tipos de mais-valia ("Socialismo Real"). Para o
Institucionalismo, a divisão técnica e social do trabalho é importante porque causa muitos dos conflitos a serem
analisados e intervindos. As divisões sociais do trabalho mais clássicas são as que separam e subordinam a produção
manual intelectual, do campo-cidade, masculina-feminina etc.
DOMINAÇÃO: imposição, por diversos meios (dentro de um espectro de
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violência que vai desde a sedução até a destruição física), da vontade de indivíduos, grupos ou classes sobre outros. Os
instituídos* – organizados* estabelecidos, em especial o Estado e o grande Capital, mantêm seus privilégios
dominando a vontade coletiva ou majoritária. A dominação é simultaneamente política, econômica, jurídica, semiótica,
Iibidinal ete., e freqüentemente consegue contar com a passividade e também com a colaboração dos dominados
(servidão voluntária).
ECRO: conceito da Psicologia Social de Pichon Rivière que é a sigla de "esquema conceitual referencial e operativo".
Refere-se, em primeira instância, às teorias, logísticas, estratégias, táticas e técnicas que um coordenador de grupo ou
um psicólogo social empregam para pensar e intervir sobre seus objetos' de trabalho. Contudo, o ECRO é muito mais
que o até aqui mencionado, porque inclui também tudo quanto seja acervo de vivências, experiências, afetos e outros
elementos que compõem a personalidade de todos os participantes. Por outra parte, a idéia do esquema denota o caráter
provisório e marcadamente conjuntural do dispositivo* teórico-técnico utilizado.
EFEITOS: várias correntes do Movimento Institucionalista* sustentam que a gênese teórica dos conceitos é inseparável
de sua gênese social. Em outras palavras: que a produção do conhecimento sobre as leis que dão conta dos fatos sociais
está sempre ligada aos acontecimentos concretos que possibilitaram e exigiram sua formulação. Se bem esta afirmação
não refute o caráter universal e omnivalente das grandes leis das ciências chamadas "humanas" (por exemplo, a Lei do
Valor, no Materialismo Histórico), o Institucionalismo enfatiza o momento "formal concreto" do conhecimento,
ressaltando suas características singulares devido à condição única, irrepetível e contingente do fato em questão. Por
isso prefere qualificar esses acontecimentos como "efeitos", seguindo uma orientação das ciências físicas, enquanto
esse termo designa processos e fenômenos com um alcance menos geral e mais local ou circunstancial. A lista de
efeitos que podem ser propostos é, por definição, interminável, mas mencionaremos aqui os mais conhecidos:
Efeito Weber: tem o nome do grande sociólogo Max Weber. Refere-se ao fato de que quanto mais" desenvolvida" e
complexa se torna uma sociedade* e quanto mais saberes especializados produz acerca de si mesma, mais ela se torna
opaca (incompreensível) em seu conjunto para os agentes* sociais que a integram.
Efeito Lukács: recebe o nome do filósofo Georg Lukács. Refere-se à constatação de que o não-saber de uma sociedade
acerca de si mesma é conseqüência do progresso da ciência. Quanto mais formalizada, rigorosa
147 ▲
e quantificada aparece uma ciência, e quanto mais perde de vista as condições sociais de seu nascimento e
desenvolvimento (ou seja, quanto mais profundamente realiza seu "corte epistemológico"), mais satisfaz as exigências
cientificistas e mais contribui para o não-saber de um conjunto social acerca de sua própria existência.
Efeito Heisemberg: o físico Werner Heisemberg sustentava que o que torna questionável a Teoria da Causalidade a
nível subatômico é a impossibilidade física de se medir objetivamente valores exatos, como, por exemplo, precisar
simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula. Nos experimentos da mecânica quântica, sujeito e objeto
constituiriam uma unidade inseparável no seio da qual se produziria o fenômeno. Essa constatação pode conduzir a um
irracionalismo (ou seja, a uma renúncia a um tratamento sistemático da determinação desses fenômenos), ou, pelo
contrário, à concepção de outras modalidades da causalidade. O lnstitucionalismo aproveitou essa idéia para abordar a
problemática da implicação, quer dizer, do intrincamento que se produz não só entre a equipe interventora e a
organização intervinda, mas também na construção que o analista institucional faz de seu objeto de estudo e intervenção
e a desconstrução analítica que faz do mesmo Em todos esses casos, cada um dos elementos mencionados é um
"resultante" do campo que assim se configura.
Efeito Frio-Quente: é óbvio que a história das sociedades mostra períodos de estabilidade e "congelamento" da ordem
constituída, assim como outros de agitação, mobilização e grandes transformações. Alguns antropólogos pretenderam,
erroneamente, que as sociedades chamadas primitivas, por oposição às modernas, seriam "estáticas", quer dizer, que
careceriam de história. O lnstitucionalismo sustenta que é nos períodos "frios" da história que se consolida a produção
do conhecimento social científico, e, portanto, o não-saber de uma sociedade acerca de suas capacidades instituintes e a
"naturalização" de seus instituídos*. Em ou tras palavras: a separação entre a "consciência ingênua" e o "saber
científico". Nessas fases, a análise e as intervenções institucionais só podem ser contratadas e circunscritas. Já nas
etapas "quentes", em que todo o saber social está em ebulição, ocorre o contrário: as experiências sociais se
multiplicam, as informações circulam por fora dos canais formais e criam-se condições para a apropriação crítica por
parte dos coletivos do saber acadêmico. Também se afirma a verdade dos saberes espontâneos e a vontade de aplicar de
imediato todo o apreendido na ação instituinte. Quer dizer: geram-se processos de auto análise* e autogestão*
espontâneos e generalizados.
Efeito Mülhman: este sociólogo das religiões descreveu um processo através do qual os movimentos messiânicos,
inspirados por uma profecia libertária,

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chegam a um ponto de seu desenvolvimento em que alguns dos segmentos que os integram considera-os "fracassados".
Essa "função de fracasso" é capaz de provocar a cisão do movimento e a saída ou a expulsão de facções dissidentes.
Isso permite aos setores remanescentes institucionalizar o movimento e capturar as forças vivas e o potencial de origem
em estruturas e normas organizacionais "oficiais" e burocráticas rígidas. O lnstitucionalismo constata que desfechos
similares acontecem em todos os movimentos, especialmente nos políticos.
Outros Efeitos: Lefevre, Einstein, Reich, Artaud, centro-contra-periferia etc.
EMERGENTE: na Psicologia Social de Pichon Rivière, denomina-se "Emergente" a todo e qualquer efeito (suportado
em materialidades diversas: "mentais"," corporais" e "sociais") resultante da composição de forças e elementos
presentes e atuantes que integram uma situação e um campo vital. Um emergente pode manifestar-se através de um
indivíduo, um grupo ou uma organização, sendo que o efetivador" escolhido" pelas forças em conflito expressa, por
sua vez, as tendências mais patológicas e as mais sadias do conjunto. Em nosso entender, a idéia de emergente tem
uma similaridade com a de analisador*, mas provém de uma tradição filosófica existencialista ("o Ser como presença"
ou "a Verdade que se revela") e não enfatiza a capacidade do analisador de analisar-se a si mesmo.
ENCARGO: no Institucionalismo*, a noção de encargo recebe definições e sinônimos diversos que tornam difícil
precisar seu significado. Em gerat pode-se dizer que este termo alude aos sentidos não explícitos, não-manifestos,
dissimulados, ignorados ou reprimidos, e que comporta uma demanda de bens ou serviços. Em uma acepção ampla,
refere-se a uma solicitude ou exigência de soluções imaginárias ou de ações destinadas a restaurar a ordem constituída
quando a mesma está ameaçada. O encargo nunca coincide com a demanda e deve ser decifrado a partir dela, sendo que
seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a formula. De acordo com o contexto discursivo de que se
trate, o encargo pode admitir como sinônimos: demanda latente, pedido, encomenda etc.
ESPECIFICIDADE: a modernidade tem como pré-requisito e como conseqüência o auge da racionalida de científica e
de suas aplicações tecnológicas, que possibilitaram o desenvolvimento da sociedade industrial. A modalidade do saber
dominante durante este processo é a do conhecimento científico, cujo procedimento é, por definição, analítico. Cada
ciência, que num sentido acadêmico denomina-se disciplina, tem seu próprio objeto, teoria, método e técnicas, sendo
que freqüentemente se subdivide, por sua vez, em um número crescente de especialidades. Essa

149 ▲
fragmentação do saber, articulada com a Divisão Técnica e Social do Trabalho*, consagrou a especificidade – a
delimitação taxativa da correspondência entre cada domínio teórico e um território da realidade que lhe é procedente –
como o valor cognoscitivo mais importante de nossa cultura.
O Institucionalismo estuda criticamente os efeitos distorsivos e alienantes (ver Alienação*) que essa cultura da
especificidade radical tem sobre a reconstrução gnosiológica de um mundo humano integrado. Sobretudo se interessa
sobre o efeito do não-saber ou do desconhecimento que instaura em cada disciplina a ausência das outras e, em todas
elas, a desvalorização dos saberes não-qualificados (saber artístico, popular, da loucura etc.).
ESPECIFIClDADE (OU ESPECIALIDADE, OU ESPECIALIZAÇÃO): num sentido muito amplo, é o que
corresponde a uma espécie de forma exclusiva ou prevalente. Em termos sociais e epistemológicos, tem a ver com a
divisão das condições e atividades humanas em geral e do trabalho em particular. Essas diferenciações, à medida que
reduzem o campo de atuação de cadél agente social, possibilitam o incremento de sua competência e eficiência,
resultando no aumento espetacular de sua produtividade. Por outra parte, redundam na fragmentação, dispersão e perda
da visão crítica e do sentido de conjunto das práticas que pode conduzir à "alienação", ou seja, à incapacidade de julgar
e conduzir seu andamento.
No caso das ciências e disciplinas, sua circunscrição teórica e sua aplicação tecnológica irrestrita tornaram-se valores de
nossa civilização, erigindo a "verdade" e a" eficiência" científicas como metas dominantes e indiscutíveis. Isso levou a
deformações tais como o operacionalismo, pragmatismo e utilitarismo irreflexivos que acabam sendo
incondicionalmente funcionais à lógica acumulativa e concentradora do Capitalismo Planetário Integrado. As diversas
modalidades do Movimento Inslitucionalista, além de insistirem na crítica global desses efeitos, pretendem resgatar os
valores instituintes* e organizantes*, em resumo, revolucionários, das contribuições científicas. Mas, por outra parte,
também visa produzir uma abordagem intersticial que dê conta do não-sabido de cada ciência (enquanto as outras estão
ausentes nela), assim como seu conjunto teórico-técnico carece do aporte de outras formas do saber e do fazer
(particularmente do saber e fazer dos coletivos populares de usuários e consumidores).
EQUIPAMENTO: conglomerados complexos, montagens de diversas materialidades (mais especialmente de recursos
técnicos), prevalentemente a serviço da exploração, dominação e mistificação. Os equipamentos podem pertencer ao
Estado* ou às entidades dominantes da sociedade civil (empresas, corporações). Podem ser de grande porte (por
exemplo, os instrumentos da comunicação de massas) ou de pequena dimensão (por exemplo, arquivos, impressoras,
relógios de ponto etc.).

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ESQUlZOANÁLISE: soma não totalizável de saberes e afazeres praticáveis por qualquer agente, em qualquer tempo
ou lugar. Inventada por Gilles Deleuze e Félix Guattari e exposta pela primeira vez de maneira singularmente
sistemática no livro "O Anti-Edipo" (1972), essa corrente não é enquadrável nos gêneros de pensamento e ação até
agora conhecidos. Qualquer tentativa de resumir essa amplíssima leitura da realidade natural-histórico-social-libidinal e
tecnológica seria estéril. Mencionaremos apenas que, para essa concepção, tais materialidades são imanentes (quer
dizer, consubstanciais ou inseparáveis uma da outra), e mais ainda, estão" precedidas" por um campo de materialidades
"puras", puras diferenças intensivas.
A essência do real é a "produção desejante", ou seja, a incessante metamorfose geradora de diferenças inovadoras que
se originam ao acaso*. Nesse sentido, o real é constante e integralmente produzido, podendo-se distinguir nele uma
produção de produção, uma de "registro-controle" e uma de "consumo-voluptuosidade". O processo produtivo de
produção pode ser pensado segundo a lógica que caracteriza o funcionamento da esquizofrenia (não como patologia,
mas como ser do devir), a microfísica e a biologia molecular. Trata-se de um funcionamento absolutamente livre,
infinito e imprevisível que consiste em conexões e cortes de fluxos energéticos entre unidades intensivas denominadas
"máquinas desejantes", cada uma das quais é uma pura e irrepetível singularidade*. As máquinas desejantes dispõem-se
e agenciam sobre uma matriz de gradientes energéticos denominada "corpo sem órgãos". Mas a produção de produção
de novidades é capturada pelos estratos, territórios e equipamentos da produção de controle-registro que tende à
repetição do mesmo, colocada a serviço de uma entidade centralizadora, totalizante, concentradora e acumulativa, que
varia segundo o modo de organização histórica da produção de que se trate ("Corpo Cheio da Terra", "do Déspota" ou
do "Capital-Dinheiro"). Na atividade de controle-registro predominam a reprodução e a anti-produção. Uma dessas
formas é o que a Psicanálise chama Pulsão de Morte.
Segundo a entendemos, a Esquizoanálise compreende toda e qualquer atividade intelectual ou prática que procura
liberar o processo produtivo -desejante-revolucionário, demolindo as constrições da parafernália de controle-registro.
Esse conjunto não-totalizável de práxis singulares configura a "Micropolítica", em cujo âmbito as inúmeras revoluções
são feitas não apenas por necessidade ou dever, mas pelo desejo. Entendida como procedimento para pensar e
compreender o real, a Esqllizoanálise compõe-se de tarefas negativas de crítica e desconexão de valores dominantes e
outras positivas, destinadas a propiciar o livre fluir da .produção e do desejo na vida biológica, psíquica,
comunicacional, política, ecológica etc. A Esquizoanálise também é definida com outras denominações, tais como
"Pragmática Universal", "Análise Nômade" etc.

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ESTADO: Conglomerado complexo de instituídos*-organizados*-estabelecidos, agente e instrumento de persuasão,


repressão, coerção e até eliminação social a serviço prevalentemente das classes, grupos e idiossincrasias dominantes.
Opera principalmente através da captura e recuperação* de singularidades e forças produtivas de toda natureza,
reinvestindo-as na lógica do sistema ou suprimindo-as. Seu principal instrumento é o Direito, corpo estabelecido de
leis* que regulam as relações sociais a favor dos setores privilegiados, apresentando-se aparentemente como expressão
da vontade majoritária. Existem muitos diferentes tipos de Estado, mas o Estado moderno precisa de reconhecimento e
legitimação, que obtém por meio de sua concordância com a Lei. O Estado não se compõe apenas de grandes
organismos, mas também de microagências instaladas no corpo biológico e no psiquismo (Estado contínuo;
micropoderes do Estado). Não é que o Institucionalismo negue a existência de forças e processos instituintes
organizantes dentro do Estado, mas privilegia a denúncia de seus aspectos de reprodução e antiprodução.
ESTRATÉGIA: trata-se da decisão quanto à forma da intervenção. É uma sistematização das metas a serem
alcançadas (cuja máxima expressão seriam a auto-análise* e autogestão*), e o planejamento da progressão das
manobras, a previsão de curso, as alternativas viáveis, os avanços esperados, os possíveis retrocessos ete.
EXPLORAÇÃO: processo de expropriação das forças, meios e resultados dos processos produtivos de toda índole,
efetuado pelos setores dominantes sobre os produtores. A exploração é possibilitada e reforçada pelos mecanismos de
dominação* e mistificação*.
FANTASMA: para a Psicanálise, o fantasma é uma cena latente cujo sentido ou script pode ser decifrado a partir do
discurso associativo de um sujeito e que apresenta o desejo inconsciente como imaginariamente "realizado". Os
psicanalistas grupalistas encontraram formações fantasmáticas "de grupo" que "realizam" um desejo inconsciente
grupal que já não se reduz ao de nenhum dos sujeitos que o integram. Os sociopsicanalistas decifram e interpretam
esses fantasmas na classe institucional (que é o grupo organizacional com o qual preferentemente trabalham) e
confrontam essa representação imaginária com as condições reais de trabalho, para que a classe recupere a margem
real de poder que sua posição objetiva lhe possibilita. A Esquizoanálise sustenta uma complexa teoria do fantasma
que o vincula com o sentido e o acontecimento e o distingue do sujeito, do estado de coisas às quais este se relaciona,
e ainda do significado do que diz. O fantasma (que sempre é grupal) é uma realidade sui generis em si mesma.

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FUNÇÃO: denominação que se dá aos propósitos, procedimentos e objetivos dos instituídos*-organizados*-
estabelecidos, seus agentes* e práticas*. A função está sempre, prevalentemente, a serviço das diversas formas
históricas da exploração*, dominação* e mistificação*. A função apresenta-se às representações e crenças das
sociedades "deformada" pela mistificação como sendo uma atividade "natural", eterna, invariável, universal, lógica e
necessária. A rigor, opera fundamentalmente como ação reprodutora (ver Reprodução*) dos sistemas.
FUNCIONAMENTO: designa o movimento dos processos produtivo-desejante-revolucionários de qualquer
materialidade e essência (entre eles o instituinte*-organizante*). É o gerador da diferença, da novidade, da invenção e
da metamorfose. Entre seus produtos estão os instituídos* -organizados*-estabelecidos que tendem rapidamente a
perder seu valor de funcionamento e adotar as características da função* (por exemplo, a burocracia, a tecnocracia, a
belicracia etc.).
GÊNESE SOCIAL E GÊNESE TEÓRICA: particularmente a Análise lnstitucional tem insistido em que as teorias e
doutriné1s, sejam elas científicas, ideológicas, filosóficas ou estéticas, têm apenas uma autonomia relativa com respeito
aos acontecimentos*, conjunturas, organizações e movimentos histórico-sócio-libidinais no seio dos quais surgiram.
Em conseqüência, não se pode analisar nem compreender as origens e o conteúdo de discursos e textos postulando sua
independência em relação às condições concretas de seu começo e existência atual. Do mesmo modo, não se entende
nem se avalia um movimento sem conhecer o pensamento que o inspira e justifica. Em todo caso, a afirmação de que a
gênese social e teórica são inseparáveis entre si, opõe-se a qualquer crença na neutralidade e universalidade das teorias,
assim como à crença de que os "fatos" sociais possam "falar por si mesmos", prescindindo de alguma leitura que os
torne inteligíveis.
GRUPO SUJEITO E GRUPO SUJEITADO: estes conceitos são de autoria do institucionalista Félix Guattari (ver
Esquizoanálise*). Se um grupo constitui-se com uma Utopia Ativa * capaz de gerar suas próprias leis para realizá-la e
de construir a si mesmo durante o processo, tendo sempre presente sua finitude e a perspectiva de sua própria morte,
então é um grupo sujeito (protagônico). Pelo contrário, um grupo alienado (ver Alienação*) em objetivos,
procedimentos, estruturas e leis* que se lhe impõem desde outros segmentos ou desde a totalidade social, que se
empenha em subsistir como um fim em si quando não cumpre com sua finalidade, é um grupo sujeitado. Para Guattari,
a formação grupal é tão importante que o leva a afirmar a existência somente de fantasmas "de grupo", e não
"individuais" ou "coletivos".

153 ▲
HISTÓRIA: para o Institucionalismo, é um saber que procura reconstruir os acontecimentos do passado, assumindo que
o fará a partir dos desejos, interesses e tendências de quem protagoniza esse estudo. Assim entendida, a História não é a
investigação acerca do que já está definido, obsoleto e morto, mas o conhecimento de processos vigentes no presente,
que começaram no passado e que determinam virtualidades e possibilidades futuras (Utopia Ativa*). Não existe um
processo em um tempo unitário que possa ser reconstruído em um relato único. Existem variados processos, cada um
transcorrendo em um tempo que lhe é próprio e que pode ser relatado em uma história da diversidade. Assim, existem
histórias econômicas, políticas, culturais, biológicas, geológicas, raciais, geracionais, sexuais. Pode-se tentar articular os
diferentes tempos dos variados processos históricos em uma leitura que caracterize eras, etapas, períodos ou épocas
localizáveis geográfica ou cronologicamente, mas sem perder de vista que os resultados nunca serão totalizáveis nem
determinados em "última instância" por nenhum dos processos assim agrupados. A História, para o Institucionalismo,
não é apenas um exercício erudito que estuda o que se repete e caracteriza o que não se repete. Trata-se da reconstrução
dos grandes momentos contingentes e imprevistos que se efetuaram em acontecimentos* de radical novidade. Por outra
parte, não investiga como o passado determina o presente e pode condicionar o futuro, mas como o presente ativa e
deflagra virtualidades do passado e como propicia os acontecimentos* no porvir.
HISTORIOGRAFIA: trata-se de um relato dos fatos históricos, aparentenlente claro e acessível. Em geral, é uma
versão "oficial" que foi conservada e divulgada por coincidir com os interesses do Estado*, das classes dominantes e
do instituído*-organizado*-estabelecido, que possuem mecanismos para arquivar e selecionar os dados que lhes
convêm. Esses textos historiográficos são apresentados como descrições "objetivas" neutras e preferenciais, quando
não exclusivas. A rigor, consistem apenas numa versão a mais, tão tendenciosa como qualquer outra, mais importante
pelo que omite ou disfarça do que pelo que afirma.
HORIZONTALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière, a horizontalidade designa a dimensão grupal atual, ou
seja, o conjunto de elementos que coexistem e operam, configurando-se no aqui e agora do campo grupal. Na Psico-
Sociologia* Organizacional e no Institucionalismo, a horizontalidade define a dimensão da vida organizacional que
corresponde às relações e aos processos informais, ou seja: rumores, intrigas de corredor, vínculos sexuais etc.
IDÉIAS PURAS: no que interessa ao Institucionalismo, as Idéias Puras, segundo Platão as concebeu, são seres
idênticos a si mesmos, eternos e invariáveis, modelos de tudo que existe. Delas só se pode predicar sua

154 ▲
própria essência (por exemplo: a brancura é branca). O desejo dos corpos humanos por outros corpos belos deve ser
encaminhado como amor ao saber, à procura da Verdade, que é a visão das Idéias Puras, e essa é também uma proposta
ética, enquanto implica a virtude e o bem supremo. Diversas correntes do Institucionalismo abordaram criticamente essa
concepção como sendo a base especulativa dos sistemas institucionais (incluídos os subjetivos) de subordinação a um
ideal ou modelo, e de hierarquização e seleção dos" candidatos" a funções de poder e prestígio. As Idéias Puras são
sinônimos de "ídolos" para alguns autores.
IDEOLOGIA: classicamente se entende por ideologia um conjunto mais ou menos sistemático de representações
(crenças, convicções, valores) que os sujeitos e grupos formam sobre a vida e o mundo. Essas representações estão
animadas por vontades e desejos. Quando configuram sistemas amplos, denominam-se cosmovisões ou visões do
mundo. Enquanto sistemas de representações, constituem as ideologias teóricas, mas podem ser também disposições
para a ação ou comportamentos concretos (ideologias práticas).
A ideologia, definida como oposta à ciência, é entendida como um sistema de reconhecimento-desconhecimento, ou
seja, apenas um saber aproximativo e viciado por erros. Esses erros seriam provocados pela posição que os sujeitos
ocupam nos sistemas que se representam erroneamente, ou por forças ativas (por exemplo, as das classes dominantes)
que produzem, distribuem e fazem adotar estas crenças equivocadas que favorecem seus interesses.
Em outra direção, a ideologia é considerada uma representação imaginária que os homens fazem de sua relação com
suas condições reais de existência. Segundo esse sentido, à ideologia manifesta subjazem fantasmas inconscientes que
são "realizações" de desejos inconscientes. Esse significado de ideologia a aproxima do anseio ou da ilusão.
Segundo seu matiz político ou ético, as ideologias classificam-se em progressivas (se sustentam valores evolutivos ou
revolucionários) ou regressivas (se são reacionárias ou conservadoras). Em geral, em uma sociedade"', a ideologia
dominante é aquela que os setores dominantes conseguem produzir e difundir. Para algumas correntes do
Institucionalismo, a ideologia é um conceito importante e operacional (Sociopsicanálise*, Análise Institucional *); para
outras, carece de interesse, por pertencer ao espaço da representação e não ao das forças (Esquizoanálise *).
IMANÊNCIA: para alguns filósofos, este termo designa a interioridade de um ser ao ser de outro. Opõe-se à
transcendência. Para o Institucionalismo, expressa a não-separação entre os processos econômicos, políticos, culturais
(sociais em sentido amplo), os naturais e os desejantes. Todos eles são

155▲
inerentes, intrínsecos e só separáveis com finalidades semânticas ou pedagógicas.
INCONSCIENTE: em um sentido amplo, refere-se a realidades e processos que não são conscientes. O significado
psicanalítico designa instâncias, processos, mecanismos, forças e representações, em especial o Complexo de Édipo e o
desejo, que são mantidos no espaço psíquico inconsciente pela força ativa do recalcamento, especialmente o
recalcamento primário. Algumas correntes institucionalistas compartilham a definição psicanalítica (por exemplo, a
Sociopsicanálise). Para outras, o inconsciente é a qualidade de pré-materialidades e processos das mais diversas
essências que se gera como espaço no ato mesmo da produção do novo. É um campo histórico que sofre uma repressão
político-econômica e libidinal dada pelo horizonte do possível de cada formação social.
INFRA-ESTRUTURA: no Materialismo Histórico, ciência da História, da Sociologia e da Economia Política marxistas,
denomina-se infra estrutura à instância do todo social na qual se desenvolve o processo de produção, distribuição,
apropriação, troca, consumo e desfrute de bens materiais. Esse processo é considerado a base material e condição de
existência de toda e qualquer sociedade, operando a reprodução* econômica restrita do modo de produção*. Na versão
clássica do Materialismo Histórico, a infra-estrutura determina a superestrutura*.
INSTÂNCIAS: no Materialismo Histórico, particularmente na versão de Althusser, denomina-se instância a cada região
que compõe o território ou domínio do modo de produção, dito em sentido amplo, de uma sociedade humana. Essa
terminologia resulta da importação do modelo da Segunda Tópica freudiana para a teoria do Modo de Produção, quer
dizer, a que apresenta a personalidade como integrada pelas instâncias do Ego, Superego e ld, e também das instâncias
do aparelho jurídico.
INSTITUIÇÃO: são árvores de decisões lógicas que regulam as atividades humanas, indicando o que é proibido, o que
é permitido e o que é indiferente. Segundo seu grau de objetivação e formalização, podem estar expressas em leis*
(princípios-fundamentos), normas ou hábitos. Toda instituição compreende um movimento que a gera: o instituinte*;
um resultado: o instituído*; e um processo: da institucionalização. Exemplos de instituições são:a linguagem, as
relações de parentesco, a divisão social do trabalho*, a religião, a justiça, o dinheiro, as forças armadas etc. Um
conglomerado importante de instituições é, por exemplo, o Estado*. Para realizar concretamente sua função
regulamentadora, as instituições materializam-se em organizações* e estabelecimentos. As

156 ▲ origens das instituições são difíceis de determinar. Pode-se falar de quatro instituições
"fundantes" das sociedades humanas (ver sociedade*).
INSTITUÍDO: ao resultado da ação instituinte* denomina-se instituído. Quando esse efeito foi produzido pela primeira
vez, diz-se que se fundou uma instituição. O instituído cumpre um papel histórico importante porque vigora para
ordenar as atividades sociais essenciais para a vida coletiva. Para que os instituídos sejam eficientes, devem permanecer
abertos às transformações com que o instituinte* acompanha o devir social. Contudo, o instituído tem uma tendência a
permanecer estático e imutável, conservando de juri estados já transformados de facto e tornando-se assim resistente e
conservador.
INSTITUlNTE: é o processo mobilizado por forças produtivo-desejante -revolucionárias que tende a fundar instituições
ou a transformá-las, como parte do devir das potências e materialidades sociais. No transcurso do funcionamento do
processo de institucionalização, o instituinte inventa instituídos* e logo os metamorfoseia ou cancela, de acordo com as
exigências do devir social. Para operar concretamente, o processo de institucionalização deve ser acompanhado de
outros organizantes* que se materializam em organizações*. Os dinamismos instituintes e organizantes* são orientados
pelas Utopias Ativas*.
INTERESSE: denomina-se assim às motivações, desejos, aspirações, expectativas e demandas pré-conscientes e
conscientes que impulsionam ou mobilizam os agentes, grupos ou classes na atividade social. Os interesses
caracterizam-se por serem conhecidos e assumidos pelos sujeitos e estarem dotados de uma certa racionalidade. Em
geral, os interesses divergem ou se opõem aos desejos e fantasmas inconscientes, e freqüentemente se descobre que sua
suposta racionalidade não é mais que uma racionalização.
INTERVENÇÃO lNSTITUClONAL: ação transformadora praticada segundo uma ética e uma política e formalizada
em uma teoria aplicada segundo certas regras metodológicas e uma série de recursos técnicos. Todo esse procedimento
parte de uma avaliação 1ogística de disponibilidades e é planificado segundo uma estratégia que se decompõe em
táticas. Seu objetivo central é propiciar nos coletivos intervindos a ação do instituinte* organizante* e, no seu limite, a
implantação de processos plenos e continuados de auto-análise* e autogestão*.
LEIS: consistem na formalização e explicitação, em textos e/ou discursos, das árvores de valores e decisões que
constituem as instituições*. Quando expressam rígida e exclusivamente a vontade do instituído-organizado* e se
apresentam como universais e mais ou menos invariáveis, sendo

157 ▲
referendadas, por exemplo, pelo Estado ou a Igreja, são apenas a justificativa da dominação* – exploração-mistificação.
Quando são provisórias e singulares e expressam realmente a vontade instituinte*-organizante* que "se dá suas próprias
leis", são instrumentos formais produtivo-desejante- revolucionários. O Institucionalismo conhece e aplica as leis
científicas que lhe são úteis, mas aceita e enfatiza o papel do acaso* nos processos de que se ocupa.
LÍDER: as lideranças são papéis específicos que adquirem importância especial por suas funções dirigentes ou de
condução. Os mais característicos são: o autoritário, o laíssez-faire e o democrático. Quando o líder é um autêntico
recurso para o funcionamento instituinte, denomina-se revolucionário-desejante-produtivo. Seu estatuto não é o de um
modelo, mas o de um exemplo singular.
LOGÍSTICA: balanço dos recursos e forças disponíveis no início de uma intervenção. Avalia-se o que está disponível
para contribuir ou para dificultar o trabalho, que se iniciará se houver um mínimo de possibilidade de realização. A
logística vai sendo reavaliada durante o percurso da intervenção.
MARGINALIDADE: por referência a teorias, doutrinas, ideologias, organizações, movimentos, espaços físicos,
geográficos ou abstratos, idiossincrasias (sexuais, raciais, etárias, nacionais, econômicas, jurídicas) etc., considera-se
marginal a todo e qualquer elemento afastado do que se entende por central, legítimo, consagrado ou autêntico nos
campos correspondentes. O marginal em geral adquire um matiz pejorativo que denota ou conota tanto aquilo que está
desvirtuado como até o que se avalia francamente como negativo ou perigoso. Obviamente, o termo marginalidade está
muito relacionado com a oposição centro-periferia.
MASSAS: noção de difícil definição, que foi empregada de muitas maneiras não coincidentes. Num sentido, designa
grandes segmentos da população que se opõem às minorias (particularmente às elites) e podem vir a ocupar seu lugar.
Em outra significação, refere-se a conjuntos humanos amorfos, cujos integrantes carecem de "identidade" própria.
Também se diz de seus componentes que são dirigidos por outros; e não intradirigidos. Freud utilizou o conceito de
massa como sinônimo de grande agrupação. As massas efêmeras dividem-se naquelas que se fomlam e dissolvem
espontânea ou fugazmente (multidão) e nas que se organizam ocasionalmente em torno de um líder. As massas
"estáveis" são, de modo plausível, sinônimo de organizações; Freud dá como exemplo a Igreja e o Exército. Chama-se
"Sociedade de Massas" aquela em que as diferenças (por exemplo, a de classes) se apagam em função de outros
parâmetros (por exemplo, o acesso

158▲

ao consumo de certos produtos).


MISTIFICAÇÃO: processo mais ou menos deliberado de produção, difusão e assimilação de representações, crenças,
convicções e valores que deformam, encobrem ou falsificam a realidade natural ou social com a finalidade de enganar
as forças e agentes* instituintes* e organizantes* Perpetuam-se assim os instituídos*-organizados*-estabelecidos, e com
eles, as formas históricas que adotam a exploração" e al dominação*. Pode-se considerar os processos de mistificação
como sinônimos de produção, difusão e assimilação de ideologias regressivas ou, segundo outra terminologia
institucionalista, de máquinas de semiotização de captura e recuperação* .
MODULAÇÃO (PRODUÇÃO) DA DEMANDA: O lnstitucionalismo questiona a crença de que existem necessidades
"naturais" (portanto universais e eternas) que se expressam em "demandas espontâneas". Uma sociedade* tem
necessidades que não conhece e não consegue definir como tais, assim como supõe ter necessidades cuja existência foi
produzida e cuja expressão em demandas foi gerada e modulada pela oferta. A produção de objetos suntuosos, bens de
luxo e desperdício dos setores dominantes, tem sido sempre prioritária. O que resta da produção é o que se oferece às
comunidades, categorizado como "objetos das necessidades básicas". Dessa maneira, definem-se tais necessidades e se
convoca e modula sua demanda. Nas sociedades industriais modernas, a construção de um "Estado beneficente,
previdenciário, administrador-gerente-cientista" e de um mercado de bens e serviços submete a produção de
necessidades e a modulação das demandas à ação dos saberes disciplinares e de seus agentes*, os experts. São eles os
que decidem o que, como, quanto, onde, porque e quando as pessoas "necessitam" e "demandam", no que se refere a
bens de consumo ou de "capital" e a serviços de saúde (física e mental), educação, transporte etc. Essas decisões e as
ações que elas orientam são, segundo dizem os experts, "cientificamente" fundadas, e de acordo com a "vontade
popular", sempre visando "o bem comum".
A partir da Psicanálise, costuma-se afirmar que o desejo* mediatiza a relação entre necessidade e demanda. Ou seja,
entre as exigências da necessidade e sua expressão significante atua o desejo, que a Psicanálise define como
essencialmente faltoso de objeto ou carente de resposta material possível. A necessidade não satisfeita origina uma
privação que pode ser resolvida com os objetos materiais correspondentes. Já a demanda, do ponto de vista
psicanalítico, não é um pedido do que manifestamente se solicita, mas de "amor" e "reconhecimento", sendo
compensável com as respostas que a complementem. O desejo, em troca, pede uma impossível restauração narcisística,
o gozo absoluto. A produção de um fantasma pode lhe dar uma satisfação imaginária e transitória, e a simbolização, um
destino
159 ▲
socializável, enquanto só a morte pode conferir-lhe uma definitiva. Algumas correntes institucionalistas questionam
radicalmente essa concepção do desejo*.
MOLAR: para a Esquizoanálise*, este termo designa uma ordem de organização do real que caracteriza a superfície de
registro e controle e a de consumo-consumação. Nessa ordem, as entidades características são os estratos e os grandes
blocos representativos dos territórios constituídos. É o lugar dos códigos, sobrecódigos e axiomáticas, das formas
sujeitos e objetos definidos, dos organismos biológicos e das grandes corporações e corpos cheios do Estado*, Igreja
etc. Compõe o que em outra terminologia se denomina instituídos*-organizados*-estabelecidos. Nesse espaço
constituem-se as matérias formadas e as forças vetorizadas (númen voluptas). É o campo da regularidade, da
estabilidade, da conservação e da reprodução*, onde operam os equipamentos sedentários de captura e recuperação*.
Aproxima-se ao que se chama "o mundo do macro".
MOLECULAR: para a Esquizoanálise, este termo caracteriza os elementos que compõem a superfície de produção
desejante. Essa superfície está integrada pelo "corpo sem órgãos" (uma rede de intensidades puras que se distribuem em
gradientes delimitados por limiares a partir de zero) e pelas "máquinas desejantes" (rede de singularidades acopladas de
maneira binária – máquina-fonte-m.áquina-órgão – que se conectam em todas as direções, segundo o acaso* ou uma
lógica aleatória). Essas conexões fazem circular fluxos (devires-esquizias) interrompidos por cortes que, em suas
ligações anárquicas locais ou à distância, resultam em uma eclosão do novo ou na metamorfose das entidades
molares,que assim se desestratificam e se desterritorializam por linhas de fuga. É o lugar das matérias não-formadas e
das energias não vetorizadas onde as máquinas moleculares se formam ao nlesmo tempo em que funcionam. Os
dispositivos* e máquinas de guerra nômades, agenciamentos* que se montam com especial permeabilidade para o
desejo* e a produção*, estão desenhados para funcionar com esta lógica que produz o Desejo* e o lnconsciente
libertários. Em outra terminologia, o molecular corresponde parcialmente ao instituinte* – organizante*.
MOVIMENTO INSTlTUCIONALISTA: conjunto não totalizável de escolas e correntes cujas diversas tendências
subscrevem alguns objetivos comuns, entre os quais os mais compartilhados consisten\ em propiciar nos coletivos
processos de auto-análise* e autogestão*. Essas orientações se diferenciam entre si por suas teorias, métodos, técnicas,
estratégias e táticas de leitura e de intervenção, assim C0l110 pelo alcance dos objetivos que se propõem. Assim
configuram uma escala que vai desde o refonnismo ao maximalismo.
160 ▲

MUDANÇA: as diferentes civilizações atribuíam ou atribuem à permanência (status quo) ou à transformação valores
diferentes. Para algumas comunidades primitivas, o funcionamento ideal de sua vida consistia em que tudo se
mantivesse exatamente idêntico em organização, costumes etc., para imitar o mundo e o tempo divinos, eternos e
invariáveis. No outro extremo da História, a modernidade caracteriza-se pela glorificação da mudança constante e
acelerada dentro de uma trajetória linear e evolutiva denominada progresso. Em todo caso, a oposição, em todos e cada
um dos aspectos da vida, entre posições "conservadoras" contra outras "progressistas", ou, em um sentido mais amplo,
"transformacionistas"; permeia todos os processos naturais-sociais-libidinais.
A Sociologia e a Psico-Sociologia de origem positivista e estrutural- funcionalista insistiram muito na problemática da
mudança e da "resistência à mudança", tal como ela se apresenta nos grupos, organizações e comunidades diante das
situações desconhecidas e novas. A Psicanálise, por sua parte, também tem, entre seus temas mais importantes, a
questão da mudança – entendida como a exigência colocada ao sujeito psíquico de dominar os efeitos do impulso e da
compulsão à repetição, que resulta da natureza conservadora das pulsões, da insistência do desejo e dos princípios de
constância e inércia. Para as diversas correntes do Institucionalismo, a problemática da mudança, ligada a categorias de
diferença-repetição, transferência-resistência, reação-reformismo-revolução etc., é tratada segundo as inspirações
teóricas e políticas às quais as escolas se afiliam. Em geral, pode-se dizer que, dentro de um espectro de radicalidade
crescente, que vai desde posições mais ou menos reformistas até outras francamente revolucionárias, ou até extremistas,
o Institucionalismo: a) confia em que pequenas mudanças locais podem repercutir à distância ou propagar-se como
reações em cadeia; b) sustenta que as mudanças, para seren1 sólidas, devem ser integrais, ou seja, simultaneamente bio
sociolibidinais, e não apenas econômicas ou convencionalmente políticas; c) afirma que a substância do real é a
diferença pura e a produção desejante, sendo que os arcaísmos e as estruturas-tenitórios conservadores e repelitivos são
produtos da captura que a parafernália de controle-registro dos sistemas faz da potência das singularidades pré-pessoais
e pré-sociais.
NÃO-DITO: no Institucionalismo, o termo "não-dito" parece recolher todas as significações que essa fórmula adquiriu
nas ciências humanas e na cultura ocidental. Basicamente, refere-se a todas aquelas informações que estão omitidas ou
distorcidas nos discursos, textos, atitudes, comportamentos ou qualquer outra forma de expressão ou manifestação. Essa
omissão ou distorção pode ser voluntária ou involuntária, consciente ou não, assumida ou não, mas é considerada
invariavelmente fonte de mal-entendidos e conflitos que afetam a convivência, ou então causas ou efeitos de um
desconhecimento cuja superação se supõe enriquecedora.
161 ▲
Contudo, no Institucionalismo, o não-dito remete predominantemente à ignorância, à má-fé ou à repressão no seio dos
discursos, textos, atitudes, comportamentos, estrutura e dinâmica dos agentes, grupos, organizações e movimentos. Esse
omitido ou distorcido concerne principalmente ao instituinte*, que foi "esquecido" e reprimido pelo instituído* durante
o processo de institucionalização. O não-dito refere-se tanto às vicissitudes da potência produtiva, ao desejo e à vida,
como aos manejos do poder, da antiprodução* e da morte. O não-dito se diz de maneiras diretas ou disfarçadas nos
analisadores históricos ou nos construídos (ver Analisadores Artificiais* e Analisadores Espontãneos*).
OBJETO DE ANÁLISE: na interseção da organização analisante com a organização analisada, vai-se produzir uma
nova organização que é o verdadeiro objeto de análise, pois para o Institucionalismo não é possível uma posição
clássica de "neutralidade" ou "objetividade". É na junção que se vai tentar entender essa nova realidade que se produz
no encontro.
OPOSIÇÃO: na vida das organizações e movimentos, chama-se oposição à ação de correntes que se contrapõem à linha
de pensamento e de gestão da fração social ocupante do governo (situação). A oposição pode ser mais ou menos
acirrada, mas em geral é reconhecida, autorizada, legitimada e ainda necessitada pela lógica institucional do sistema que
a integra.
ORGANIZAÇÕES: são as formas materiais nas quais as instituições* se realizam ou" encarnam". De acordo com sua
dimensão, vão desde um grau complexo organizacional, como um ministério, até um pequeno estabelecimento escolar.
Na terminologia da Esquizoanálise, correspondem às grandes formas molares da superfície de registro.
ORGANIZADO: é o produto dos processos organizantes*. Conjunto de ordenamento dos recursos humanos, técnicos,
espaciais, cronológicos (etc.) que configuram uma organização ou estabelecimento*. O organizado é ilustrado no
esquema do organograma e do fluxograma da organização. E necessário para orientar o funcionamento da entidade, mas
tem tendência a tornar-se rigido e esclerosar-se, perpetuando-se e tornando-se um objetivo em si mesmo. Assim,
exagera-se em torno de sua função, adquirindo uma série de vícios; o mais conhecido é a burocracia.
ORGANIZANTE: atividade permanentemente crítica, inventiva e transformadora que tende à otimização das
organizações entendidas como dispositivos ou agenciamentos*. Esse processo exige das organizações a abertura para
efetuar as mudanças necessárias com a finalidade de realizar a Utopia Ativa* que as inspira. Uma organização* só
cumpre com este objetivo se mantém fluida e constante a relação entre o organizante e o
162 ▲

organizado*, a ponto de admitir sua autodissolução* quando deixa de servir ao produtivo-desejante-instituinte (ver
Produção*, Desejo* Instituinte*).
PAPÉIS: conceito cunhado pela Psico-Sociologia e pelo Psicodrama que define os lugares e funções sociais em geral e
grupais em particular, come caracteres de personagens teatrais. Cada papel ganha precisão em sua relação com todos os
outros e carece de sentido fora desse vínculo, consciente ou não. Os papéis são emergentes de configurações estruturais
que organizam a interação social e mostram uma mobilidade que os faz serem desempenhados por diferentes
indivíduos-sujeitos-agentes* sociais, segundo as circunstâncias. Quando um agente social abandona o papel este se
expressa ou manifesta através de outro participante. Pichon-Riviere detectou nos grupos alguns papéis regularmente
emergentes, como o de "bode expiatório", "seguidor", "sabotador". Os papéis podem ser inerentes (pré-fixados, como
"masculino" e "feminino") ou atribuídos (como os acima mencionados).
PARTICIPAÇÃO: dá-se este nome a um tipo de gestão organizacional na qual os segmentos formal e efetivamente
dominantes de uma organização concedem aos quadros subordinados diversos graus de possibilidade de intervenção na
planificação, decisão, execução e benefícios da atividade. Isso não significa maiores modificações de fundo na
propriedade, na estrutura ou na estratificação hierárquica o organismo em pauta.
PARTICULARIDADE: ver Universalidade, Particularidade e Singularidade.
PODER: embora no Institucionalismo o termo "poder" não seja empregado com significações unívocas, em geral ele se
aplica a uma gama de recursos diversos com grau de violência crescente, destinados a impor a vontade de um segmento
social sobre os outros ou sobre a sociedade em seu conjunto. Michel Foucault insistiu na idéia de que o poder não se
possui ou se detém, mas que se exercita, e não apenas em um sentido restritivo (de coação ou proibição), mas também
em um sentido positivo de orientação: o poder incita, provoca, convoca, ativa etc.
POTÊNCIA: no Institucionalismo, emprega-se o termo "potência" para referir-se às capacidades virtuais ou atuais de
produzir, inventar, transformar etc. Em geral, a potência designa a magnitude das forças geradoras do radicalmente
novo, criador de vida.
POTENCIAL HUMANO: o movimento denominado "Potencial Humano" compreende um conjunto de correntes
teóricas e técnicas, algumas cujas
163 ▲

características comuns consistem na importância dada ao trabalho corporal, expressivo e dramático nos tratamentos
clínicos, coordenação de grupos e intervenções organizacionais. Entre as tendências que o integram, pode-se mencionar
a Bioenergética (baseada nas idéias de Wilhelm Reich), a Gestalt Terapia (que partiu das postulações da Psicologia da
Forma) e até algumas que incluem a Terapia de Rogers e diversas práticas orientalistas e africanas. No
Institucionalismo, a incorporação mais notável dos recursos do Movimento de Potencial Humano foi a realizada por
Georges Lapassade, com sua proposta de Transe-Análise.
PRÁTICAS: em um sentido epistemológico, designa todo processo pelo qual um agente, dotado de força de trabalho
qualificada, a aplica com os meios de produção adequados sobre uma matéria-prima, gerando um produto específico.
Em um sentido descritivo, diz-se das ações que os agentes* sociais realizam nas instituições*, organizações* e
estabelecimentos*, tanto a serviço do instituinte*-organizante* quanto do instituído"-organizado*. Em geral utiliza-se o
termo "prática" para as ações específicas e qualificadas, enquanto se usa a palavra "atividades" para referir-se às
inespecíficas e não-qualificadas. Para o Institucionalismo, com a finalidade de se fazer a crítica à profissionalidade* e à
especificidade*, é importante considerar a frase de Max Weber: "Uma prática social nunca é mais opaca em suas
determinações que para seus próprios agentes." As práticas dividem-se em discursivas ou teóricas e não-discursivas.
PRÁXIS: denomina-se assim certo tipo de prática* na qual estão indissoluvelmente unidos o pensamento crítico
esclarecedor e a ação transformadora do real.
PRODUÇÃO: geração do novo – daquilo que a Utopia Ativa persegue. É equivalente ao funcionamento*. É aquilo que
processa tudo que existe natural, técnica, subjetiva e socialmente. É a permanente geração de tudo que pode logo tender
a cristalizar-se. É o devir, a metamorfose.
PROFISSIONALIDADE: em um sentido tradicional, as profissões compreendiam o Sacerdócio, a Advocacia, a
Medicina e a Carreira Milita,:
Eram as primeiras ocupações com as quais se podia subsistir sem praticar propriamente o trabalho manual ou comércio.
A ética das profissões tinha um marcado caráter religioso ("professar": atuar em prol de uma fé) e exigiam vocação
"vocare": chamado de Deus). Tratava-se de um certo tipo de apostolado cujo exercício estava tingido de um matiz de
militância, e por todas essas conotações imbuía-se de uma condição elevada de desprendimento, assim como de
autonomia e independência relativa. Apesar do já dito, a agrupação dos profissionais nas corporações de grêmios e
academias universitárias teve, desde o início, uma dupla natureza – de
164 ▲

controle de qualidade dos serviços, mas também de exclusividade e sobrevalorização dos mesmos. Com a modernidade,
produziu-se uma série de mudanças no status de profissional. Esse título ampliou-se a outros ofícios, antes considerados
de segunda categoria. As práticas profissionais, por um lado, mercantilizaram-se, visando o lucro; por outro, ligaram-se
ao poder do Estado e ao das empresas, formando as cúpulas tecno-burocrático acadêmicas – mas também se
degradaram como conseqüência do vínculo assalariado e da hiperespecialização. O Institucionalismo insiste no estudo e
no desmascaranlento das formas sob as quais os interesses de lucro, poder e prestígio do corporativismo e do
academicismo se ocultam sob disfarces da "neutralidade" cientificista, da "modernidade" hiperespecialista e da suposta
independência e suposto apostolado do profissional autônomo ou do funcionário.
PSICOFAMILIAR: denomina-se modalidade de funcionamento psicofamiliar à definição fantasmática e imaginária que
as classes institucionais regredidas fazem, inconscientemente, de suas condições reais de trabalho e do verdadeiro poder
de que dispõem para mudá-as. (ver Psico-Socioanálise *.)
PSICOLOGIA SOCIAL: é uma disciplina delimitada pela superposição de áreas da Psicologia e da Sociologia que, de
uma maneira ou de outra, toma como objeto de estudo e de intervenção as mútuas determinações ou influências dos
sujeitos-agentes* entre si (enquanto sujeitos psíquicos e agentes sociais). Existem várias correntes de Psicologia Social,
distinguíveis segundo pertençam predominantemente à Psicologia (Psicanalítica, Comportamentalista, Gestaltista) ou à
Sociologia (por exemplo, Interacionismo Simbólico). De maneiras muito variadas (por exemplo, consciente ou
inconsciente), todas afirmam a constituição, gratificação, frustração de cada sujeito-agente pelo outro considerado
individual ou coletivamente. O Institucionalismo toma muitos recursos teórico-técnicos das psicologias sociais, mas se
diferencia delas, entre outras coisas, por não reivindicar o caráter científico (ou seja, "neutro", instrumental ou
operacional) que elas se atribuem.
RECURSOS HUMANOS: desde o início da década de 70, começou-se a empregar a expressão "Recursos Humanos"
para referir-se, no campo da Administração, à área de estudos e atividades que trabalha com questões relativas ao
elemento humano nas organizações, regiões, nações etc .. Fala se de Recursos Humanos como um dos componentes de
um espectro de recursos: físicos, tecnológicos, econômicos e outros.
REPETIÇÃO: em um sentido etimológico, significa voltar a pedir. No filosófico, refere-se à reiteração ou
reapresentação de idéias ou de realidades.
165 ▲

Toda a filosofia ocidental parece estar dividida por uma polêmica em torno de se o que se repete ou retoma é: 1) o
idêntico ou igual; 2) o diferente, entendido por relação de negação, analogia ou semelhança com o idêntico ou o mesmo;
3) o diferente absoluto, ou seja, o que cada vez é afirmativa e radicalmente novo. O Institucionalismo sustenta que o que
retoma na História não é o idêntico, o igualou o mesmo, mas o diferencial, ou ainda, a diferença absoluta, que é
radicalmente transformadora ou motor da História. Em conseqüência, não interessa tanto estudar as leis que dão conta
das repetições aparentemente regulares que regem a repetição do mesmo com o modelo do relógio ou dos sistemas
astronômicos do cosmos ordenado. Trata-se, melhor, de entender o retorno do diferente, produto do acaso, do aleatório e
imprevisível, tal como a História o mostra nos pequenos ou grandes acontecimentos* que alteraram seu curso. Se bem
seja certo que a superfície de registro, o instituído*-organizado*-estabelecido, tenda a capturar o retorno do diferente
para colocar seu funcionamento a serviço da reprodução* do sistema, capturando-o e recuperando-o (ver Captura e
Recuperação), nunca o consegue por completo.
REPRODUÇÃO: num sentido etimológico, significa cópia ou imitação. Na Filosofia, na Sociologia e para o
Institucionalismo (ver Movimento Institucionalista *), designa as tentativas de reiterar algo idêntico, igualou similar ao
que já existe, cumprindo sua função conservadora. Dessa maneira, procura-se deter os devires, acontecimentos e
transformações naturais, sociais, culturais e subjetivas.
ROMANCE INSTITUCIONAL: por analogia com o termo freudiano "romance familiar do neurótico", o romance
institucional refere-se às diferentes versões que podem ser reconstruídas da história de uma organização, grupo ou
movimento. Os elementos a partir dos quais tal reconstrução se efetua são muito variados. Trata-se de comportamentos,
atitudes, mitos, documentos, tradições, grafitos ete. Mesmo o Romance Institucional sendo composto de dimensões
simbólicas, realísticas, a tendência é vê-lo como um relato fortemente influenciado pelo desejo* e por ele tingido de
matizes imaginários e fantasmáticos.
SIMULACROS: em que interessa ao Institucionalismo, os simulacros (na filosofia platônica) são puras diferenças que
não conservam nem a imagem, nem a semelhança de sua relação com as Idéias Puras e, obviamente, carecem por
completo de identidade. Platão os considera falsos, demoníacos e inclassificáveis. Não são seres, mas puro devir, e
podem disfarçar-se de cópias ou de Idéias Puras para confundir os espíritos. Sua "encarnação" mais prototipica estaria
nos sofistas, pensadores que não se interessam pela Verdade ou a Virtude e que argumentam apenas para seduzir e
convencer Algumas correntes institucionalistas consideram os simulacros platônicos
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como a essência do real, que se compõe de diferenças puras, fluxos, singularidades* intensivas, que são o ser do devir
ou processo produtivo desejante-revolucionário.
SINGULARIDADE: ver Universalidade e Particularidade.
SOBREDETERMINAÇÃO: tipo de causalidade pela qual um efeito psíquico ou social é o produto resultante da
participação causal, desloca da e condensada de todas as forças, instâncias e representações que, sinérgica ou
contraditoriamente, compõem a tópica da personalidade ou o modo de produção* de uma sociedade*, respectivamente.
Em cada modo de produção (entendido em um sentido amplo, não apenas econômico) reconhece-se uma instância"
determinante última" (condição de existência), uma" don1inante" (condição de reprodução) e uma" decisiva" (condição
de transformação). A ação causal conjunta, complexa, articulada, hierarquizada e diversifica da das instâncias é o que se
denomina sobredetermi nação.
SOCIEDADE: o Institucionalismo tem sua concepção própria do que é uma sociedade. Define-a como uma rede, um
tecido de instituições*, organizações*, estabelecimentos*, agentes* e práticas*. Alguns institucionalistas afirmam que
as sociedades humanas estão constituídas no mínimo por quatro instituições: a língua, as relações de parentesco, a
religião e a divisão técnica e social do trabalho. As instituições interpenetram se e articulam-se para regular a produção
e a reprodução* da vida humana. Como se vê, essa definição está bastante centrada no instituído*, organizado*,
estabelecido. Corresponde ao que a Esquizoanálise denomina socius, que pertence às formas definidas da superfície de
registro. É possível, contudo, ampliar essa definição, incluindo o instituinte*, o organizante* e a superfície de produção.
SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES: esta disciplina começa com as contribuições de sociólogos clássicos como
Durkheim acerca da divisão técnica e social do trabalho*, assim como a passagem da solidariedade mecânica à
orgânica. Igualmente fundadores são os estudos de Max Weber sobre a burocracia (ver – Cracias *). No entanto, é a
partir da década de 20, Com o desenvolvimento do Capitalismo norte-americano e os estudos de Elton Mayo sobre a
indústria, que a Sociologia das Organizações começa a definir seu objeto – como a investigação e intervenção sobre a
empresa enquanto unidade social que recebe o nome de organização*. Os objetivos desse enfoque são a racionalização
e otimização da eficiência do funcionamento de tais associações, sem questionar em nada sua lógica ou suas finalidades.
Se é certo que posteriormente aparecem alguns enfoques menos pragmatistas, como o de T Parsons e outros,
francamente críticos,

167 ▲
como os de W Mills e W H. Whyte, a Sociologia das Organizações é considerada pelo lnstitucionalismo como um
enfoque contrário às utopias* auto-analíticas (ver Autoanálise*) e autogestivas (ver Autogestão*). Segundo a denúncia
institucionalista, a Sociologia das Organizações, particularmente uma de suas modalidades, denominada
Desenvolvimento Organizacional, visa facilitar os mecanismos culturais, comunicacionais e motivacionais (do conjunto
empresarial e dos grupos que o integram.) apenas com fins de melhorar o "clima" ou a "atmosfera", conseguindo, assim,
diminuir os insumos, aumentando e melhorando a produtividade e o lucro dos proprietários.
SOCIOINSTITUClONAL: na Psico-Socioanálise, denomina-se assim à percepção, avaliação e comportamentos
transformadores que as classes institucionais em processo de progressão (resultante da intervenção) produzem em
relação a suas condições reais de trabalho e à margem de poder que recuperam.
SOCIOPSICANÁLISE: é uma das correntes que integram o Movimento Institucionalista*. Foi fundada e desenvolvida
por Gérard Mendel. Articula uma concepção relativamente tradicional de Psicanálise com outra, bastante ortodoxa, do
Materialismo Histórico. O resultado é uma abordagem politicamente moderada, cuja viabilidade é considerável. Mendel
articula formulações psicanalíticas (elaboradas para os sujeitos enquanto indivíduos) que postulam uma impotência
fundamental inerente ao ser humano (devido ao estado indefeso no qual nasce, necessitando dos cuidados de um outro
para ter sua sobrevivência garantida). Essas formulações combinam-se com as afirmações do Materialismo Histólico de
que, num sentido coletivo, a experiência universal de impotência é produto da distribuição desigual da riqueza, do
resultado do trabalho, do poder e prestígio, que alienam (ver Alienação*) quem produz esses valores. Segundo Mendel,
o âmbito ideal em que se deve estudar a experiência essencial de impotência e o desencadeamento de processos
patológicos é o local de trabalho, onde as vicissitudes individuais da experiência de impotência serão melhor
compreendidas, sendo analisadas num sentido coletivo no lugar mesmo onde ocorrem – o lugar da produção. A
Sociopsicanálise sustenta que, quando se abordam os coletivos, pode-se ver que esses conjuntos vivenciam esta
experiência de impotência devido às condições do trabalho alienado (ver Alienação*) no Capitalismo. Essa experiência
de limitação gera neles, trabalhadores, devido à sua série disposicional pessoal, um processo regressivo de ordem
coletiva. Trata-se de uma regressão do funcionamento psico-social ou psico-institucional a um funcionamento
psicofamiliar, no qual os sujeitos viven. uma vida preferencialmente imaginária, em vez de principalmente simbólica
(correspondente às circunstâncias concretas com que se defrontam). A

168 ▲

situação de seu campo real vai definir-se com base numa situação arcaica pela qual já passaram, o que os levará a
vivenciar a situação de trabalho como se essa fosse uma reedição de uma situação familiar prima lia, povoada por
figuras fantasmáticas de sua vida familiar. Suas reações estarão tingidas pela situação de impotência infantil que os
levava a se refugiar num mundo de fantasias. Com isso, o coletivo institucional também passará a funcionar nesse
registro, buscando soluções mágicas, contraproducentes, que vão res ultar em sintomas (atuações, inibições, delírios,
somatizações, toxicodependências), enfim, em todo tipo de patologia biopsico-social. No plano da militância, esses
quadros podem expressar-se bastante bem no que podemos sintetizar, com Lênin, como "enfermidades infantis do
trabalho": voluntarismo, populismo, autoritarismo, messianismo, clie,ntelismo, fisiologismo ete. A metodologia de
intervenção sociopsicanalítica conserva muitas características de intervenção psicanalítica, principalmente a
interpretação. Mas a cura não é definida em termos individuais, e sim coletivos, e pressupõe um movimento de cada
classe institucional para a recuperação da margem de poder possível que foi tirada deles pelo sistema capitalista de
trabalho alienado.
STATUS: o status é considerado "a parte estável ou fixa" do papel. Trata-se da condição obtida por um papel dentro de
uma sistematização hierarquizada dos mesmos.
SUBJETIVAÇÃO (PRODUÇÃO DE): Como dizíamos a respeito da produção de subjetividade*, para algumas
orientações do lnstitucionalismo não existe uma essência ou estrutura invariável, ubíqua e universal do sujeito
filosófico, social ou psíquico. Do mesmo modo que não existe uma imagem do homem idêntica a si mesma em qualquer
sociedade, momento histórico, classe social, raça ete. Inclusive, o modelo científico que temos no Ocidente como
universal, invariável e ubíquo é produto de um processo de produção complexo e de longa duração que culmina no que
certos historiadores denominam ilustrativamente como" a formação do homem íntimo".
Há, sim, por contraposição ao processo de produção de subjetividade uniforme, sujeitada e submetida, infinitos e
heterogêneos processos de produção de subjetivação livre, produtiva, desejante, revolucionária. Esses são
absolutamente contingentes, próprios de cada momento, lugar e conjuntura, e geram sujeitos singulares nas margens de
cada acontecimento*. O lnstitucionalismo pretende propiciar, através da análise e da intervenção, a montagem de
dispositivos* capazes de gerar acontecimentos * e, junto com eles, os modos de subjetivação que os mesmos precisam.
SUBJETIVIDADE (PRODUÇÃO DE): muitas correntes filosóficas e

169 ▲
psicológicas (entre elas, a Psicanálise), sustentam que existe uma forma universal e invariável de constituição,
composição, transformação, reprodução e extinção do sujeito (tanto daquele da reflexão filosófica como o do
psiquismo). O que varia em cada sujeito seriam os conteúdos (representações e modalidades de configuração dos
fantasmas ou função dos mecanismos): nisso radicaria a singularidade de um sujeito. Algumas correntes
institucionalistas compartilham essa concepção (Sociopsicanálise, por exemplo). Para outros Institucionalistas, não
existe um sujeito com uma estrutura universal e com variações apenas de desenvolvimento, conteúdo ou estilo. O que
existem são processos de produção de subjetividade pelos quais as sociedades tendem a reproduzir sujeitos idênticos ou
similares, segundo os padrões dominantes do grupo ou' classe de que se trate e de acordo com os moldes do instituído*-
organizado*-estabelecido.
SUPERESTRUTURA: no Materialismo Histórico, ciência da História, da Sociologia e da Economia Política Marxistas,
denomina-se superestrutura a instância do todo social na qual se desenvolvem os processos ideológicos e jurídico-
políticos que têm a seu cargo a produção de sujeitos-agentes* ideológicos, assim como de produção, difusão e
assimilação de representações e valores ideológicos. Por ou tra parte, na instância jurídico política é onde se processam
os meios legais e o uso da força para a constituição e manutenção da ordem vigente. Os processos superestruturais
operam a reprodução ampliada do modo de produção. Na versão clássica do Materialismo Histórico, a superestrutura
reverte ou interaciona causalmente com a infra-estrutura.
TÁTICAS: são pequenos segmentos que compõem a estratégia*. É o momento de seleção de recursos a serem
empregados na etapa imediata, remetendo-sé sempre ao panorama maior delineado pela estratégia.
TÉCNICAS: são recursos eletivos que servirão para instrumentar as táticas*. Sua escolha é consideravelmente livre e
dependerá do treinamento e inspiração da equipe operadora, do objetivo geral e imediato a ser alcançado e do momento
e peculiaridades do coletivo em questão. Trata-se de procedimentos (interpretativos, informativos, sensibiliza dores,
expressivos, discursivos, artísticos, desportivos, lúdicos, interrelacionais, grupais, coletivos etc.) a serem adotados de
acordo com as circunstâncias, com propósitos diagnósticos e elaborativos.
TRANSE-ANÁLISE: modalidade de intervenção institucional e de coordenação de grupos criada por Georges
Lapassade baseada nas experiências dos cultos afro-brasileiros, tais como: Umbanda, Quimbanda e Candomblé.
Consiste basicamente na provocação de regressões rituais e formas arcaicas de comunidade através de estados de transe.
Posteriormente,
170 ▲

as mesmas são elaboradas e incorporadas a novas formas da sociabilidade grupal.


TRANSFERÊNCIA: diversas tendências dentro do lnstitucionalismo assimilaram o conceito de transferência tanto da
Psicanálise freudiana como dos continuadores de Freud (Melanie Klein, Lacan, Reich e outros). No Institucionalismo, a
idéia de transferência pode ter, segundo a corrente de que se trate, uma definição quase igual à da Psicanálise ou outras
bastante modificadas, tanto no plano teórico como nas aplicações técnicas.
Em geral, entende-se por transferência um conjunto de processos repetitivos conscientes, pré-conscientes e
inconscientes que se dão na subjetividade "individual" e" coletiva". O que se repete são pulsões, desejos, demandas,
fantasmas, papéis, hábitos comunicacionais, estereótipos gestionários, estruturas e até complexos destinos
organizacionais. No caso particular da corrente denominada Psicoterapia lnstitucional, que propõe a autogestão* ou a
gestão participativa dentro de cada estabelecimento, considera-se que a transferência se dá entre o coletivo de internos e
os variados aspectos da vida institucional como um todo.
Certas correntes do lnstitucionalismo, como por exemplo a Esquizoanálise, elaboraram uma profunda reflexão filosófica
sobre a transferência em relação ao conceito de transversalidade e com uma crítica da categoria de repetição. Para essa
orientação, o que se repete substancialmente é o diferente, e, em conseqüência, existiria uma transferência que não
funciona como resistência ou obstáculo, mas como motor das transformações.
TRANSVERSALIDADE: interpenetração, entrelaçamento, no rizoma (modelo de uma raiz vegetal que não tem
membranas celulares nem limites externos precisos), que é imanente à rede social das forças produtivo -desejantes-
instituintes-organizantes. A transversalidade veiculada pelas linhas de fuga do desejo e da produção* é uma dimensão
do devir que não se reduz nem à ordem hierárquica da verticalidade nem à ordem informal da horizontalidade nas
organizações*. A transversalidade é capaz de provocar sínteses insólitas entre elementos incompatíveis, gerando efeitos
à distância sem transmissores detectáveis, a partir de conexões locais. É uma travessia molecular dos estratos molares.
Como montagens, os dispositivos ou agenciamentos* heterogêneos inovadores que escapam aos limites de estratos,
territórios, códigos, sobrecódigos e axiomáticas (em outra terminologia: os IDE) formais e oficiais, deflagram efeitos
transversais inventivos e libertários.
UNIVERSALIDADE, GENERALIDADE, PARTICULARIDADE, SINGULARIDADE: no que interessa ao
Institucionalismo, o denominado momento de universalidade do conceito significa que este compreende todos os casos
particulares e singulares de seu objeto. Contudo, é importante
171 ▲

diferenciar um conceito universal abstrato de outro concreto. Um juízo ou um conceito universal abstrato é, em certa
medida, vazio, um puro produto do pensamento. O momento da generalidade compreende a caracterização de um
atributo abstrato da universalidade. O momento de particularidade do conceito compreende alguns casos abstratos da
generalidade. Pode-se entender que um conceito particular dá conta apenas de como alguns casos realizam o que já
estava compreendido no conceito universal, mas também é possível sustentar que os casos particulares negam o
conceito universal enquanto abstrato e lhe acrescentam determinações não previamente incluídas nele. O momento da
singularidade do conceito compreende cada caso da universalidade concreta. Pode-se sustentar que nega de uma só vez
a universalidade e a generalidade abstratas e a particularidade, na medida em que se refere a um objeto único, máximo
nível de determinação atingível. Quando o conceito universal abstrato é reformulado incorporando as negações gerais
do particular e do singular, é que se torna um universal concreto verdadeiro ou da Razão (segundo Hegel).
Aplicando o lnstitucionalismo a essas categorias da lógica, cabe sustentar que uma instituição é pensável nesses quatro
momentos: a universalidade abs trata (por exemplo, a linguagem: a generalidade dos atributos das línguas), a
particularidade (por exemplo, as línguas indo-européias), a singularidade (por exemplo, tal dialeto napolitano e seu uso
concreto, por um falante/ouvinte desse dialeto). Segundo entendemos a proposta de R. Lourau, a Análise Institucional
estudaria as insuficiências do conceito em seus respectivos momentos, enquanto cada um deles se define por sua
afirmação e não é capaz de incluir o que resulta de negar e ser negado pelos outros. Supõe-se que a intervenção no caso
singular daria oportunidade para evidenciar os efeitos de desconhecimento que a lógica do conceito gera no discurso e
no saber dos coletivos institucionais; dessa maneira possibilitaria sua desalienação, assim como contribuiria para a
reformulação incessante do conceito das instituições como universais concretos.
USUÁRIO: no lnstitucionalismo, entende-se por usuário quem demanda, adquire, se apropria, possui, consome, usufrui
de bens ou serviços "materiais" ou "ideais". Cabe acentuar que esse usuário-consumidor pode ser individual ou coletivo,
personalizado ou anônimo. No caso de uma intervenção institucional standard, freqüentemente designa-se o conjunto
dos usuários como "staff-cliente".
UTOPIA ATIVA: denomina-se assim as metas e objetivos mais altos e nobres (no sentido dado a esses termos por
Nietzsche) que orientam os processos produtivo-desejante-revolucionários dos movimentos e agenciamentos* sociais
em seus aspectos instituintes*-organizantes*. Essas metas não estão colocadas em um futuro remoto nem terminal, do
tipo dos que são
172 ▲

enunciados como escatologias ("Fim da História" ou "Fim dos Tempos"). Na Utopia Ativa há uma imanência entre fins
e meios; o processo produtivo desejante-revolucionário é seu próprio fim e meio em cada aqui e agora.
VERTICALIDADE: na Psicologia Social de Pichon Rivière, a verticalidade designa a dimensão histórico-pessoal que
cada integrante do grupo traz como disposição que passará a fomldr parte da determinação dos fenômenos do campo
grupal. Na Psico-Sociologia Organizacional e no Institucionalismo, a verticalidade define a dimensão da vida
organizacional que corresponde ao organograma formal, quer dizer: cargos, hierarquias, funções etc.
173 ▲

APÊNDICE
O INSTlTUClONALISMO NO FINAL DO MILÊNIO

O presente apêndice foi escrito para a terceira edição em português deste livro, em outubro de 1995. Optei por
reproduzi-lo quase sem alterações, para que possa ser comparado com um post scríptum redigido especialmente para a
quinta edição. Parece-me interessante que o leitor possa, desta forma, avaliar acertos e desacertos do primeiro texto,
relacionado-o com o segundo, obviamente a partir de suas próprias convicções.

Primeira Parte

O grande institucionalista e amigo Félix Guattari costumava repetir que os escritos tinham que ser datados.
Essa recomendação devia-se não somente ao fato de que situar um texto em um calendário permite relacioná -lo com a
biografia do autor, e isso costuma ser definido como "contexto ou conjuntura histórica", mas também à importância de
marcar essa data com um nome e um tempo que designam um encontro-acontecimento, ou seja, a individuação de um
real-absolutamente novo – do qual o mesmo texto pretende ser parte.
Obviamente, este apêndice não tem a pretensão de alcançar tal excelência, contudo me parece que tem o direito
de tentar. Neste final de milênio vivemos, sem dúvida alguma, umepos peculiar, composto dos seus próprios ethos,
cronos, pathos, topos, lagos e telos, expressando isso de uma forma clássica. Desde já, a existência de uma composição
sui generis não é exclusiva da nossa fase, sendo que cada período histórico tem, como se

174 ▲

sabe, a sua. Também cada" civilização", porém, detém sua imagem e sua maneira de efetivar aquilo que entende por
"passado", "presente", "cultura", "espaço", "movimento", "permanência", "troca", "todo", "partes", "valores",
"pensamento".
Guattari propunha denominar a nossa" etapa" de "Capitalismo Planetário Integrado", como aplicação teórica de
um termo matemático que qualifica um sistema hipercomplexo e heterogêneo em movimento, integrado por uma função
axiomática que equaciona todas as coordenadas gerais e modula permutas equivalências entre seus produtos. Nessa
designação há muita coincidência com aquilo que Karl Marx antecipou como a chegada de "A fase Superior do
Capitalismo", sendo que, tanto na denominação de Marx como naquela de Guattari, cabem – devidamente redefinidos –
termos mais ou menos "na moda", tais como "Globalização", "Transnacionalização", "Sociedades Pós-Industriais",
"Pós-Classes" e "Pós -Massas", ou "Hipermodernas", ou "Pós-Modernas", ou "lnformatizadas", ou 'A.utomatizadas",
"Multitudinárias" e assim por diante.
Uma análise detalhada dessas categorias seria, evidentemente, excessiva neste escrito. Conformarei-me apenas
em recordar algumas características que se tornou habitual atribuir a este panorama.
Costuma-se declarar, e porque não, constatar, de certa forma, que: – No lapso de tempo incluído entre o fim da Segunda
Guerra Mundial e a atualidade tem havido, em setores localizados do mundo, um crescimento enorme da "Riqueza" –
entendida como meios de produção, de distribuição, de comunicação, de circulação, de troca e de consumo.
– Esse incremento inclui bens materiais, incorporais, serviços, e que esse aumento qualitativo e quantitativo
resultou em uma melhora considerável de "qualidade de vida" dos setores por ele beneficiados.
– Nesse mesmo lapso, gerou-se uma tendência ao desmorona mento de regimes políticos totalitários,
ditatoriais, autoritários e outros, e sua crescente substituição por diversas modalidades de sistemas democráticos
indiretos, representativos e eleitorais, onde vige, pelo menos formalmente, o Estado de Direito, os Direitos Civis e os
Direitos Humanos, possibilitando, assim, tanto a existência como a expressão e a militância de todos os tipos de
idiossincrasias minoritárias, regionais, nacionais, raciais, sexuais, de culto, de idade, de situação econômica, política,
cultural, geográficas.
– Como causa e efeito dessas transformações, tem havido o aperfeiçoamento e a consolidação das instituições
democráticas, judiciais, legislativas e executivas, tanto na estrutura dos Estados como na da Sociedade Civil, o mesmo
tendo se realizado em todos os campos e níveis, desde o local até o mundial. Isso propiciou uma inclinação ao
predomínio da negociação universal como método para dirimir as diferenças e conflitos, no lugar da predisposição ao
uso dos recursos violentos e bélicos de quaisquer espécies. 175 ▲
– Todas essas manifestações de "progresso" desenvolveram-se sobre a base da implantação geral de diferentes
variedades do sistema econômico capitalista – preservação da propriedade privada dos meios de produção, economia de
mercado, empresas livres e outros-, incluindo nele as variedades político-culturais do Liberalismo, os Socialismos
Reformistas, as Sociais-Democracias e ou tros similares. A mencionada instauração geral acelerou-se após o estridente
fracasso de todos os ensaio de "Comunismo", "Socialismo Real", "Nacional-Socialismo Nazi-Fascista", diversos
"estatismos" e" coletivismos" cujas conseqÜências deletérias demoraram algumas décadas, e ainda hoje continuam
trazendo prejuízos à vigência plena da proposta histórica à qual nos referimos aqui.
– As metamorfoses do Capitalismo trouxeram como conseqüência uma tendência à racionalização –
diminuição, limitação, compactuação, eficientização, baratização, democratização, modernização das estruturas,
funções e atribuições – dos Estados Nacionais e da sua responsabilidade perante os cuidados com a saúde, educação,
justiça e ordem pública, assim como os aspectos essenciais da infra-estrutura e da soberania nacional. Isso significou a
vigilância e ingerência sobre tais poderes, exercícios e benefícios por parte da Sociedade Civil.
– Obviamente, toda essa" evolução" está em curso e coexiste com a permanência, em todos e em cada um dos
processos, estruturas, agentes, usuários, consumidores,lógicas e âmbitos, de formas arcaicas, todavia não superadas,"
em vias de desenvolvimento e de crítica".
– Desde já, esses processos não são universais nem suficien temente implantados, e nem aperfeiçoados. Por
isso, persistem graves dificuldades de toda espécie que afetam tanto algumas regiões do mundo, assim como
determinados países e também alguns segmentos das nações prósperas que, por diversas razões, resistem em adotar os
princípios e cumprir com os esforços necessários para propiciar sua incorporação à Ordem e Progresso generalizados.
Esses setores a dificultam devido a vocação, desejos, interesses e açôes contrários a esses desígnios.
Todos esses indicadores de "evolução", que tendem a realizar-se de forma gradual, crescente e incessante, não
somente em quantidade como também em amplitude, podem passar em alguns momentos e lugares por "conjunturas"
adversas, transitórias e circunstanciais. As mesmas se devem freqüentemente a fatores ainda incontroláveis, tais como
fenômenos naturais de grande porte ou erros de avaliação, planejamento e execução, que são oportunamente
subsanáveis.
No campo do social, cultural e subjetivo, essa orientação mundial dirige-se ao treinamento de indivíduos-
sujeitos-agentes-produtores consumidores-usuários conscientes, imbuídos de um espírito de sociabilidade variável e suí
generís, porém invariavelmente inspirados por valores de cidadania e respeito à lei, assim como pelo culto à liberdade, à
justiça e à competição sadia.
176 ▲

Esse andamento, apesar de não ser a culminância, é a sólida confirmação de que os modos de produção, os
regimes políticos e os sistemas de representação cultural que compôem este estágio do Capitalismo Mundial Integrado,
mesmo frágeis e freqüentemente precários, demonstram ser a "menos pior", senão a única alternativa possível para a
consolidação histórica dos ideais que animaram os grandes movimentos que deram origem à Modernidade.

Segunda Parte
O que acabamos de ler no ponto anterior é uma tentativa de expor, de forma esquemática e prototípica – e faço
votos para que não tenha sido irônica –, uma maneira de descrever, entender e avaliar o panorama munclial
contemporâneo. Está claro que existem inúmeras versões a respeito que, apesar de muito mais sofisticadas e matizadas,
não deixam de conduzir a conclusões parecidas.
Quem investiga o mundo atual e também vive e atua nele acostuma se a experimentar, frente ao quadro que
acabamos de delinear, uma série de impressões que, a meu ver, vale a pena repassar.
Em primeiro lugar, vem-lhe à mente a idéia de que deve haver certo erro ou mal-entendido em algum ponto,
pelo qual a realidade – por mais relativa que seja sua aparição – não parece coincidir de modo algum com o "retrato"
que se pinta dela.
Em segundo lugar, não se pode evitar a sensação de que, de acordo com esta leitura do panorama mundial,
uma imensa quantidade de conhecimentos produzidos nos últimos séculos por ilustres autores especialistas em
diversos conhecimentos e também no saber do sentido comum – parece ter perdido toda e qualquer validade, ou
é repetida, de forma parcial ou distorcida, como se fosse uma "novidade recém descoberta".
O saber tecno-burocrático-acadêmico dominante nestes tempos ou ignora os clássicos, ou os cita apenas nas
passagens em que supõe poder refutá-las, ou bem os despreza, comportando-se como se acreditasse que "na prática
todas essas teorias são outra coisa", isto é, não servem para nada, ou funcionam somente dependendo do uso peculiar
que se decide fazer delas.
Em terceiro lugar, isso que acabamos de dizer aplica-se também à memória dos acontecimentos históricos.
Estes, incluídos os considerados antecedentes propícios ou contrários ao horizonte imperante, são tratados como se
fossem inexistentes ou irrelevantes, à medida que "o que importa" é a caracterização empírica do que está acontecendo
agora, os chamados fatos – definidos como tais na proporção em que são protagonizados e interpretados por supostos
triunfadores.
O mais grave desta "realidade", da qual estas "impressões" são um
177 ▲
registro, é que a versão que relatamos anteriormente – que, por outro lado, os conhecedores dos processos de construção
e difusão "ideológica", de "opinião pública" ou de "produção de subjetividade" sabem de sobra – não é exclusiva dos
beneficiários ou dos favorecidos pelo estado atual das coisas. A colossal, heterogênea e onipresente maquinária que gera
esses efeitos consegue que essas concepções – entendidas no sentido mais amplo possível e os "estilos de vida" e "de
morte" que lhe são conseqüentes, sejam adaptados ou almejados pela imensa maioria da humanidade.
Os críticos mais implacáveis desse panorama – especialmente os denominados "de esquerda" –, mesmo se
empenhando em denunciar o que consideram flagrantes contradições, falsidades e flagelos dessa Ordem Mundial,
acabam por compartilhar, desavisadamente, muitas das suas categorias, conceitos, procedimentos e resultados. Boa
parte dessa conivência involuntária – ou dessa cumplicidade mais ou menos assumida resulta não só da estupidez e de
necessidades, desejos e interesses do pensamento crítico, mas também da difundida convicção de que, "a rigor", não
existem reais alternativas para a situação imperante, a não ser aquelas que consistem em um aperfeiçoamento do
conhecimento e na execução da mesma lógica que a infunde.
Em quarto lugar, é sabido e constatado que aqueles pensadores militantes, ou simplesmente cidadãos que
resolvem falar, escrever, agir e coerentemente viver de acordo com uma inteligência crítica e segundo alguma dessas
propostas questionadoras supostamente inexistentes,não apenas podem sofrer as mesmas ações repressivas de seus
antecessores de todas as épocas – que, dependendo do país onde atuam, vai desde a eliminação física e a tortura até a
reclusão ou o exílio – mas também tornar se passíveis de inúmeras modalidades de desqualificação, desprezo e exclusão
mais ou menos sutis.
Uma outra modalidade parecida que na atualidade adquiriu uma importância bastante considerável é a de ter
que suportar a atribuição do status e papel de "catastrófilos"," catastrólogos", "catastrofistas", rótulos esses que servem
para etiquetá-los como "amantes ou cultores" mórbidos, ou como" especialistas com falso prestígio", ou como"
delirantes adoradores "de um cataclismo imaginário e inexorável. A sentença mais draconiana é que "são inaptos para
oferecer algum projeto positivamente útil" e só sabem "criticar e vaticinar o caos".
Em verdade, tudo depende de como se define cada um dos termos: noções, funções, conceitos, categorias,
signos, indicadores, analisadores ou idéias com os quais se pensa, se avalia e se procede frente ao estado contemporâneo
das coisas. Em alguns campos do saber e da vida notoriamente na Economia, Sociologia, Psicologia e Política – as
declarações, planos e resultados dos experts chegaram a um grau de hermetismo, obscuridade, refinamento e desacordo
que, longe de serem sinônimo de inteligência e eficiência, conseguem apenas dissimular sua sistemática
178 ▲
inoperância. Porque, se por um lado – como veremos mais adiante – alguns aspectos do mencionado estado das coisas
são tragicamente ostensivos outros são confusos, ambíguos, delicados e contraditórios. Prestam-se, assim a valorizações
complexas nas quais a tônica "otimista" ou "pessimista" das estimativas é de difícil decisão.
Essa questão de "otimismo" versus "pessimismo" é, evidentemente, tão velha como o próprio mundo, mas
segundo o meu entendimento, tantc no passado como nas circunstâncias presentes, é abordada de fom,a errônea O
problema não consiste em puxar conclusões sobre se o mundo de hoje é melhor ou pior, quantitativa e qualitativamente,
em todos ou em algum dos aspectos da existência, que na Idade Média. Tampouco, por exemplo consiste em cotejar o
que o Capitalismo veio a ganhar com os desmandoó do Socialismo Real. Trata-se de comparar o desenvolvimento
potencial e efetivo de todos os tipos de forças produtivas de uma época com as realizações abstratas ou concretas
alcançadas durante a mesma. Dito de outra maneira, o assunto consiste no confronto entre o que poderíamos fazer e o
que realmente fazemos.
Muitos autores enfatizaram a velocidade do processo que o incremento das mais diversas potências adquiriu
nos últimos vinte anos: a mesma é tão vertiginosa que resulta muito maior que a conseguida nos recentemente passados
duzentos anos. Frente a essa formidável escalada, o problema corretamente posto reside em perguntar o que se
conseguiu exatamente com essas disponibilidades. É uma brevíssima avaliação dessa natureza que me proponho
intentar, a seguir.
Para examinar os aspectos mais relevantes dessa comparação, não citarei muitos dados estatísticos que, se bem
necessários e ilustrativos, tornariam estas linhas intoleravelmente difíceis de serem escritas e lidas. Por outro lado,
nossos tempos, com respeito às estatísticas, mostram uma peculiaridade surpreendente. Há hoje levantamentos
estatísticos acerca de "tudo", e "todo mundo" parece ter acesso aos mesmos. Contudo, são poucos os resultados que
podem ser considerados confiáveis; não costumam coincidir uns com os outros; e os números que verdadeiramente
interessam para tomar posição definitiva acerca das questões mais cruciais são considerados sigilosos e mantidos em
secreto. O que parece constatável são algumas conclusões que a seguir apenas menciono.
As últimas reuniões de cúpula e as informações dos organismos internacionais de grande porte insinuam que:
– Dos mais de seis bilhões de habitantes da Terra, pelo menos um bilhão vive em um estado que a
Organização Mundial da Saúde denomina Miséria Absoluta, e outro bilhão e meio vive em um nível de Miséria
Relativa ou Pobreza.
– Dois bilhões de pessoas do globo terrestre subsistem em um estado que contempla apenas racionalmente o
que – de maneira muito controvertida – denomina-se "satisfação de suas necessidades básicas".
179▲
– Dos quinhentos milhões restantes, 30% (trinta por cento) possuem 70% (setenta por cento) de qualquer tipo
de riqueza disponível no planeta.
– Até pouco tempo atrás, o número reduzido de nações mais poderosas havia acumulado um arsenal bélico
cuja capacidade era mil vezes superior àquela necessária para destruir qualquer indício de vida sobre a face da terra.
Devido às diferentes gestões internacionais, que resultaram no fim da Guerra Fria, o arsenal de armas atômicas foi
reduzido; continua-se discutindo, porém, se houve aumento ou não de armas pesadas e de curto e médio alcance. Neste
momento, estão em andamento quase cem guerras de tipo internacional, limítrofe, civil, religioso, racial e outros; a cada
ano duplicam-se os equipamentos militares e policiais destinados, supostamente, à manutenção da ordem constituída e à
segurança pública, cujo foco principal é a defesa da propriedade privada e da pessoa dos proprietários.
Surpreendentemente – como todos estão cansados de saber – a criminalidade, salvo exceções locais, só vem
aumentando.
– A distribuição da miséria absoluta e relativa, à qual me referia acima, prejudica inapelavelm.ente todo o
continente africano e, de forma menos espetacular, a Índia, Oriente Médio e América Latina. Ela se encontra –
desigualmente, mas estrondosamente – em 95% dos países, nos seus respectivos bolsões internos de pobreza.
– Os grandes blocos dos países ricos – EUA, Canadá, CEE e os chamados "Tigres Asiáticos" (Japão, Coréia
do Sul, Vietnã, Indonésia, Malásia, Taiwan e, de maneira muito peculiar, a China Comunista) –, apesar de serem os
principais assentos de opulência mundial, apresentam marcados desníveis e reconhecem que estão ameaçados pela
possibilidade de graves crises de diversos tipos, tanto na atualidade como no futuro próximo.
– Os indicadores mundiais de desemprego certificam constantemente que a desocupação é devido não apenas
ao acelerado processo de substituição da força humana de trabalho pela automação, mas também à tendência ao
esgotamento dos mercados externos e internos, assim como à hiperprodução desregulada e à acumulação de estoques.
– O aparente crescimento econômico das chamadas "economias emergentes" – apesar dos casos serem
diferentes e complexos – em geral é fraco e instável, e está baseado seja na venda da força de trabalho baratíssima e
informal, sem direito laborais e sociais, seja na extração irrecuperável de matérias-primas e energéticas, ou ainda nas
condições contratuais leoninas dos acordos de exploração, remessas de lucros, exceção de impostos... Além de tudo
isso, o incremento da riqueza nesses "capitalismos nacionais tardios" mostra uma distribuição desigual do benefício,
idêntica ou pior à que tinha vigência nas fases coloniais ou neo-coloniais clássicas dessas mesmas nações.
– Os Estados Nacionais – tanto os "democráticos" como os "autoritários", particularmente os dos países
chamados" periféricos", "em vias de desenvolvimento", "dependentes" – apresentam-se cada vez mais empobrecidos,
ineficientes e desprovidos dépoder internacional devido a
180 ▲

sua subordinação aos onipotentes organismos econômicos internacionais. A decadência mundial do Estado de Bem
Estar – causada fundamentalmente pela limitação orçamentária imposta à política tributária pelo Capital também
obedece à privatização crescente de sua funções. Isso pela necessidade do Capitalismo de incorporar à produção e ao
mercado ganancioso todas as atividades possíveis para compensar a tendência de queda da taxa de extração da mais-
valia resultante das causas acima apontadas. Esse problema, porém, torna-se gravíssimo nos países "periféricos" por
razões óbvias: as necessidades de serviços infra-estruturais como os de educação, saúde, seguro-desemprego, moradia,
saneamento básico e segurança pública, são infinitamente maiores que nos países centrais; a distribuição da renda é
muito mais desigual, o poder econômico dos lobbies locais sobre os governos é enorme, a política tributária é
ridiculamente favorável às grandes fortunas e a política fiscal é incompetente, corrupta, corporativo-burocrática,
eleitoreira demagógica. É de se supor o que ocorre quando esses países são afetados pelo declínio próprio da
transnacionalização-privatização.
– Certo incremento do acesso de setores mais an1plos da população a alguns produtos e serviços – devido à
hiperprodução e ao barateamento da produção massificada dos mesmos – deve ser entendido como um resultado muito
mais atribuível ao poderio tecnológico dos parques industriais que ao efeito da ascensão econômica de tais segmentos
populares. A lógica dessa melhora é parecida com aquela responsável por certa diminuição dos índices de morbi-
mortalidade: não se trata de um aperfeiçoamento amplo e consistente de saúde popular, resultante de uma sólida
elevação das condições de vida e de atenção médica integral, e sim do espetacular e barato progresso da técnica
imunológica.
– O aumento da criminalidade, particularmente da organizada -empresarial – está se tornando não geométrica,
mas exponencial. As chamadas genericamente "máfias", relacionadas ao narcotráfico e ao tráfico de armas, ao jogo
ilegal, à prostituição, ao contrabando, ao seqüestro, ao roubo, à falsificação e assassinato por encomenda, têm adquirido
tal poder financeiro que parecem estar integrando formalmente os processos econômicos e políticos, tal é seu grau de
interferência no comércio de influência, de proteção e outros.
Para não carregar demasiadamente este texto, que não é nada mais que um apêndice, terei que parar por aqui,
limitando-me a mencionar problemas tais como a nomadização forçada das populações miseráveis para os países ricos,
a sinistra questão dos fundamentalismos, do terrorismo sectário ou de Estado, o comércio de crianças e de órgãos
humanos, a total falência dos aparelhos judiciários, policiais, carcerários e assim por diante.
É esse o "Mundo Feliz" da Globalização do Capitalismo Planetário Integrado em sua "Fase Superior"?
181▲

Terceira Parte

Esse tema do "otimismo" versus "pessimismo" está intimamente relacionado com o outro, o do "velho" e do
"novo" que mencionei anteriormente e que poderíamos reformular e ampliar do seguinte modo apesar de que, devo
avisar, não poderei definir detalhadamente neste âmbito, como desejaria, todos os termos que utilizarei.
Quando se afirma que o Capitalismo Planetário Integrado – a "Globalização" e a internacionalização mundial
do Capitalismo em sua Fase Superior – é resultado do "desenvolvimento", do "progresso", da "evolução" do
Capitalismo, o mínimo que se pode fazer é analisar o significado exato dessas palavras. É preciso, porém, aclarar que
esta análise, em si mesma, é parte da questão do "velho" e do "novo", à medida que já foi antecipada quase
exaustivamente por vários dos colossais pensadores do século passado e que, devido a um laborioso esquecimento
de seus detalhes, nos vimos na obrigação de expor esta descrição como se fosse uma premissa. Esses grandes
trataram, cada um a seu modo, de periodizar as formações históricas, explicando como cada uma delas era e é – à
medida que as mesmas subsistem no panorama atual – um modo sui generis, digamos, de gestar, administrar e destruir
tudo o que compõe a realidade, seja como for que ela se defina.
Cada formação histórica compreende, no mínimo, quatro grandes "continentes" ou "territórios", distribuídos
em superfícies (vide Nota 1): da Natureza, da Sociedade, da Subjetividade e da Maquinária. Cada formação histórica
caracteriza-se pela modalidade com a qual, em cada um de seus territórios e em todos eles, dá andamento a quatro
processos: de Produção da Produção, de Produção de Reprodução, de Produção de Antiprodução e de Produção
de Demanda-Consumo e Consumação.
Em cada formação histórica, os territórios citados e os processos que os" animam" estão intimamente
interpenetrados entre si, e isso implica que são parcialmente diferenciados, e também imanentes. Nenhum deles é
prescindível, nenhum é causa última nem efeito exclusivo do outro, apesar de que, em cada formação histórica, algum
possa prevalecer e/ou aparecer como sendo assim.
A modalidade e a prevalência de cada um desses processos em cada um desses territórios-superfícies
determina as peculiaridades das funções, mais ligadas à reprodução e a antiprodução, e dos funcionamentos, mais
relacionados à produção e à consumação, de cada "parte" e do "todo" de cada complexo histórico.
Uma nova definição de maquinária como conjunto difuso, externamente aberto e internamente heterogêneo,
heterólogo, heteromórfico, auto-producente, em movimento transformador contínuo, semi-determinado, semi-aleatório
de "peças" variáveis, dispersas e "oni conectáveis" – ou seja, uma formação histórica que pode ser entendida como
182 ▲

uma Megamáquina, Maquínica. Isso é diferente de dizer "mecânica" ou "automática", seja nas modalidades das
máquinas elétricas ou eletrônicas, cibernéticas etc. Dadas as características das funções e do funcionam de cada
formação histórica – ou seja, de sua "Totalidade" ou Megamáquina – os efeitos deletérios do predomínio da Reprodução
e da Antiprodução podem manifestar-se através de inumeráveis índices ou indicadores. Limitarei-me, porém, a
mencionar três fenômenos: os graus e tipos qualitativos e quantitativos de exploração, dominação e mistificação lhes
são próprios. Nestes indicadores, mesmo prevalecendo os coletados no território da sociedade, também importam as
relações dos mesmos com os campos da natureza, da subjetividade e da maquinária.
Obviamente, cada formação histórica possui também os recursos próprios de pensamento, saber, conhecimento
e valores que, a seu modo, conseguem inventar, definir, detectar e criticar esses índices. Sendo assim, a decisão, o
procedimento e a interpretação dos resultados da comparação – de forma a fazer uma avaliação – de uma formação
histórica com outra são, por sua vez, outro indicador do tipo de formação histórica que assim o faz. Dito de outra
maneira, as avaliações dos dados são valores das sociedades que dominam as sociedades que avaliam.
Espero ser mais explícito agora sobre porque devemos comparar nossa formação histórica atual – a primeira
que está em vias de conseguir uma hegemonia mundial quase absoluta – não com as outras, mas com as potências
de produção que detêm, assim como com o grau de reprodução e anti-produção que as investem, isto é: com os
índices de exploração, dominação e mistificação que lhes são próprios.
Se não procedermos dessa forma, cairemos exatamente em um dos mecanismos de mistificação que são
especiais da nossa formação histórica, isto é, a falsa generalização de algumas melhoras localizadas – por exemplo, a
realização de blocos de nações ricas, a qualidade de vida dos países nórdicos e outros.
Repassando o panorama descrito na segunda parte deste apêndice, trata-se de julgar, não se nossos terríveis
índices de exploração, dominação e mistificação são melhores ou piores, por exemplo, que os do Feudalismo, mas
se dadas as incalculáveis forças que a humanidade dispõe, quanto deixa de fazer com elas, ou quanto e como as
investe na reprodução ou antiprodução que geram as atrocidades dos referidos índices. Isso precisa ser dito, sem
ignorar que, se comparamos alguns dos nossos indicadores com, por exemplo, os de algumas formações primitivas
tribais – cujas forças produtivas são ínfimas –, seus tipos de exploração, dominação e mistificação são, sem dúvida
alguma, bem "menos atrozes" que os nossos.
Considerando o que foi exposto, o que significam "Progresso", "Evolução" e "Desenvolvimento" enquanto
valores definidos pelo Capitalismo triunfante? Por um lado, dado que os indicadores medidos como resultado da
aplicação dos critérios da própria lógica do Capital são
183 ▲
deploráveis, isso significa que nosso " progresso", "evolução" e "desenvolvimento" estão longe de tornarem-se
efetivos. Por outro lado, julgados segundo a potencialidade produtiva intrínseca ao Capitalismo, tais índices mundiais
são, sem dúvida, cataclísmicos.
Por conseqüência, a afirmação de que o Capitalismo é o modo, sistema, regime que "melhor" está
protagonizando a realização gradual de uma certa maneira de gerar e relacionar Produção, Reprodução e Antiprodução
(assim como seus estilos" de vida" e" de morte") – tal como foi anunciado na famosa fórmula da Revolução Francesa e
do Iluminismo, "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" – não é apenas uma mentira, um erro, um equívoco, um
sofisma, uma racionalização ou um delírio megalomaníaco. Trata-se de uma auto-convalidação da Lógica do
Capital, imanente a "todos" e a cada um dos campos ou territórios antes citados que, apesar do cinismo peculiar
do sistema de representações dessa fórmula mundial, continua sendo um recurso necessário para sua
permanência. Ou seja, apesar da crítica, por exemplo, da Esquizoanálise à importância da ideologia ou das
ridículas afirmações acerca de seu " final", o Capitalismo ainda precisa mentir.
Cabe apenas mencionar agora, muito elementarmente, uma série desses conhecimentos do século XIX –
produzidos por autores de diferentes orientações – que parecem ter sido "esquecidos", ou que são citados como
"insuficientes" ou "já superados", ou que são enunciados – prévia deformação – como "novidades" funcionais para essa
leitura "otimista", "realista", "moderna".
O Capitalismo, estrictu sensu, é um modo de produção-reprodução- antiprodução-consumação da realidade –
dito no mais amplo sentido já definido – que se caracteriza por estar regido por uma integral axiomatizada,
supostamente geradora, "animadora" hierarquizadora, organizadora, limitante e destruidora do "todo" da realidade. Essa
integral é denominada Equivalente Geral Dinheiro.
O Equivalente Geral, a Axiomática do Capital – que pode se expressar através de quantidades abstratas, de
dinheiro-moeda ou "letras" de diferentes naturezas, como títulos de propriedade, ações, bônus, cédulas ou registros
informáticos – é uma medida arbitrária de valor. Esse Equivalente Geral, que se acumula como inumeráveis forças
produtivas não retribuídas, torna-se a medida para a qual deve ser traduzido o resultado da extração, apropriação,
acumulação e centralização de inumeráveis forças-formas de produção não pagas.
As modalidades clássicas do Capital são o Capital Latifundiário, o Industrial e o Financeiro; subalternamente,
porém, é possível falar também de Capital de Poder, de Saber, de Desejo – Consciente e Inconsciente –, de
Semiotização, e até de Beleza – Dominação e Mistificação.
Entre as principais forças-formas dessa produção está a força-forma do Trabalho "Humano" – entendendo
como tal aquele composto por energias
184 ▲

físico-químicas, biológicas, psíquicas, sociais, subjetivas – que deve ser "forçada", de maneira sumamente variada, a
submeter-se à citada equivalência e a sua valorização e remuneração parcialmente não paga – Dominação e
Mistificação – pela força física ou por modalidades de subjetividade, semiotização e outras.
As condições fundamentais que possibilitam a produção, distlibuição, possessão, apropriação, troca, consumo
e fruição dos produtos de toda espécie, é a conversão crescente de tais produtos em mercadorias bens de troca,
enquanto interessam por seu valor de compra-venda, e só secundariamente pelo seu valor de uso-satisfação – pois se o
processo de capitalização realiza-se em cada passo desse circuito, cada um deles está informado pelo circuito de
compra-venda, ou seja, operações de troca mediadas pelo dinheiro.
O Capitalismo como modo – dito no sentido amplo antes apontado – está constituído por contradições
famosas que lhe são essenciais. Por exemplo: as primárias, que se estabelecem entre o desenvolvimento das forças
produtivas de todo tipo e as relações de produção de toda espécie; e as secundárias, como as que ocorrem na competição
entre as diversas modalidades do Capital. Essas contradições são tanto produtoras do crescimento produtivo e
cumulativo e da reprodução das condições restritas e amplas da existência do Capital quanto demarcadoras de seus tetos
classicamente denominados limites internos e externos – e de sua subsistência. Os limites internos costumavam ser
reduzidos à existência da força de trabalho disponível, ou seja, comprável e vendável através do Capital chamado
variável, o qual habitualmente era tido como sinônimo da existência de trabalhadores vivos e produtivos. Era costume
atribuir aos limites externos a existência de mercados solventes, isto é, de compradores suficientes de mercadorias.
O Capital variável inclui também os insumos produtivos: gastos de crédito de dinheiro-mercadoria,
empreendimento, energéticos e territoriais, de matérias-primas e manutenção e aperfeiçoamento dos meios de produção
propriamente ditos – esses últimos constituindo o Capital fixo.
Porém, além dos gastos da reprodução ampliada – manutenção das condições jurídico-político-subjetivo-
libidinais do Capitalismo, cujo protagonista principal é o Estado –, dependendo do ramo de produção tratado, deve ser
acrescentado ao Capital fixo e ao variável o que podelíamos chamar de gastos com a produção de necessidade de
demandas de consumo e fruição propriamente ditos, isto é, produção de mercado. Entre as variadas situações nas quais
essas contradições transformam-se em aporias e conduzem à celebre crise do Capitalismo, as mais conhecidas são
aquelas que resultam das hiperproduções – excesso de mercadorias que se barateiam "excessivamente" e não
compensam as inversões – ou do esgotamento relativo dos mercados, que perdem assim seu poder aquisitivo.
Concomitantemente, podem haver crises provoca das, pois as lutas operárias
185 ▲

e camponesas questionam a propriedade das diversas formas de Capital fixo, incrementam o gasto do Capital variável
através de reivindicações salariais ou de melhores condições de trabalho ou chegam, em suas lutas políticas, a apropriar-
se parcial ou totalmente do aparelho de Estado. Sabe- se, porém, que o Capitalismo é um modo histórico que, desde
suas origens, não só aprendeu a prevenir e resolver as crises, mas também viver com elas, nelas e delas. As manobras
do Capitalismo a esse respeito são inumeráveis e, não podendo ampliar detalhadamente este ponto, mencionaremos
somente algumas essenciais.
Ao nível da produção, o Capitalismo suplantou a extração de mais-valia relativa – aumento das horas do
trabalho não remuneradas – pela absoluta – aumento da produtividade pela intensificação do trabalho em si mesmo ou
em menos tempo.
Nisso participa, se agrega e finalmente substitui a exploração típica a extração de mais-valia maquínica, isto é,
o aperfeiçoamento das máquinas e uma nova articulação entre a força de trabalho "humano" e "não-humano". Outra
celebre tática é a diminuição deliberada da produção, ou a destruição dos produ tos para aumentar seu preço. Na esfera
da distribuição, apropriação, troca e consumo, o Capitalismo obteve uma enorme agilidade e bara teamen to desses
processos mediante a informatização e a robotização dos mesmos. Já a crise gerada pelo esgotamento da expansão
extensivo geográfica dos mercados foi superada com a intensificação quantitativa e qualitativa da venda através do
consumo de massas. Esse, por sua vez, foi alcançado com o barateamento e multiplicação dos produtos, assim como
através da planificação de produtos perecíveis, facilmente descartados e "melhorados", mas, sobretudo, pelo
aperfeiçoamento tecnológico da produção de demanda – marketing.
Não é necessário explicar como a guerra sempre foi um recurso complexo para superar as crises, pois atua em
todos e em cada um dos níveis dos processos do "Todo Capitalístico". A inflação é mais um exemplo de fenômeno
provocado: se, por um lado, alguns setores do Capital são prejudicados, outros são notoriamente beneficiados. Por
último, o resultado de cada crise é uma redistribuição de riquezas, pela qual o Capital – em quaisquer de suas formas de
existência – acaba por concentrar-se, não necessariamente em menos "pessoas", senão em um número real, não
explicitamente formal, de entidades que são suas proprietárias, megaempresas, megabancos e, enfim, oligopólios e
monopólios.
De qualquer maneira, é importante destacar que o Capitalismo é um modo – dito no sentido amplo definido
acima – em que a inflexão exploradora, dominadora e mistificadora que lhe é característica tende a orientar toda a
produção, a reprodução, a antiprodução e o consumo para a extração de mais-valia econômica. Isso é válido para
o lucro, renda e ganhos, mas também para o saber, o poder e o prestígio. Longe de conseguir – através do tipo de
competição generalizada e" de cartas marcadas" que é
186 ▲
sua característica – uma otimização das forças produtivas de quaisquer naturezas (sejam as que
verdadeiramente o mesmo suscitou, e das que potencial e insolitamente disporia), esse sistema as paralisa,
desaproveita e destrói em uma proporção jamais igualada.
Tenho dado ênfase à afirmação de que o Capitalismo foi e é assim desde seus albores até os nossos dias,
apesar de que suas modalidades de produções de produção, reprodução e antiprodução variem muito com o
tempo e os lugares nos quais operam o diferente tipo de Capital. Perante uma assertiva deste porte, torna-se de
radical importância precisar quando e como este Modo começou e quais foram suas sucessivas ou simultâneas
transformações. Partindo do princípio de que o Capitalismo é uma singular relação e composição de substâncias,
energias, formas e maquinaria, podemos admitir, seguindo alguns autores, que é possível encontrar seus antecedentes
nas formações histólicas dos séculos XII e XIII, e dali em diante. Também é possível aceitar que sendo a economia
mercantil, o Estado, a vigência de uma sociedade institucionalizada, assim como de formas sui generis de subjetividade,
semiotização e parques maquínicos – condições essenciais e existenciais de muitas formações históricas antigas –, as
mesmas podem ser consideradas como precursoras do Capitalismo. Pessoalmente, tendo a considerá-las, à maneira de
Marx e Engels, como formações pré capitalistas.
O Capitalismo propriamente dito – cuja preparação se inicia com o fim do Feudalismo e prossegue no decurso
da Renascença, da Reforma e da Contra-Reforma e das revoluções européias e norte-americanas – culmina com a
instauração da indústria manufatureira na Inglaterra, que é, em minha opinião, a primeira expressão "verdadeira" do
Capitalismo na História.
Nestas linhas, o nosso interesse está centrado em mostrar que as suas peculiaridades essenciais estavam pré-
figuradas, que continuam incólumes e que as transformações acontecidas, responsáveis por nossa chegada a esta
"Fase Superior", embora sejam originalíssimas e necessitem cuidadoso estudo, incluem, contudo, as anteriores, e
não têm mudado em sua essência desde aquelas até as contemporâneas. Esse esclarecimento parece-me
imprescindível para poder discriminar de forma convincente que o "novo" do Capitalismo Mundial Integrado
não implica uma transformação substancial do "velho". Pelo contrário, o "novo" Capitalismo é, em sua essência,
muito pior que o anterior, razão pela qual não justifica nenhum "otimismo", nem nos exime de nenhum tipo de
luta pela sua extinção.
Então, em suma, com uma modéstia conceitual exigida por esta síntese: quais são as principais "novidades"
apresentadas pela atual "Fase Superior"? O processo da produção adquiriu, devido à revolução tecnológica e industrial,
uma velocidade e uma eficácia totalmente imprevisíveis para os teóricos do século passado. As conseqüências dessa
incrível aceleração consistem principalmente no seguinte:
187 ▲
– A maquinária da indústria extrativa, da agroindústria, da geradora de produtos e serviços está transformando
e diminuindo – gradual, porém firmemente – a participação da força de trabalho "humana" nos processos produtivos. A
força de trabalho maquinal e a exploração da mais-valia maquínica vão suplantando aquela humana, trazendo como
conseqüência desemprego, subemprego, emprego transitório e precário, processo esse cujo aspecto jurídico se
denomina "fIexibilização".
– Os grandes grupos empresariais, apesar de que seus ganhos, lucros e renda parecem estar crescendo,
empenham-se numa política de diminuição de custos produtivos, de Capital fixo e variável. Algumas dessas manobras
consistem em descentralizar a produção de grandes complexos infra-estruturais caros, transferindo a parte básica,
ecologicamente "suja" e altamente tributada nos países centrais, para os países periféricos, com" mão de-obra" e
impostos baratos.
– "Terceirização" contratual de segmentos da produção pouco rentáveis para empresas menores ou para
trabalhadores independentes, alguns dos quais operam na economia informal ou em seus próprios domicílios, havendo
indiscriminação da jornada de trabalho e do tempo livre.
– Hiperespecialização e/ou fIexibilização dos poucos trabalhadores que "permanecem" empregados com
incentivos de produtividade, através da participação nos lucros e na propriedade – via compra de ações minoritárias e
reciclagem contínua da capacitação técnica. Desse modo, formam-se elites ou aristocracias de trabalhadores que passam
a fazer parte do Capital fixo da empresa, assumindo a identidade e os in teresses desta, desfiliando-se de qualquer
organismo de classe ou luta coletiva de defesa de suas reivindicações trabalhistas. Multiplicação, mudança e anonimato
crescente das sedes e proprietários do Capital, que criam a ilusão participativa, ocultando sua concentração e o poder
decisório dos tecno burocratas que presidem e gerenciam as estratégias empresariais.
– Ênfase na geração de produtos e serviços baseados na tecnologia de ponta – informática, cibernética,
telemática, robótica –, formados segundo planos artificiosos e rapidamente "aperfeiçoáveis" que os tornam
imediatamente "perecíveis" e "descartáveis", obrigando a uma substituição incessante.
Essas e muitas outras estratégias conduzem a uma divisão mundial técnica, mas sobretudo econômico-social
do trabalho, em que – diferente do período imperialista fordista da produção – os ramos produtivos de bens e serviços
indispensáveis e "pesados", assim como aqueles que entram subsidiariamente nos produtos e prestações altamente
remuneráveis, localizam-se nos setores mundiais "em vias de desenvolvimento". Esses setores tornam-se, assim,
participantes de baixíssimos custos e, ao mesmo tempo, também mercados pobres – compradores de bens e prestações
relativamente obsoletos e encarecidos internacionalmente –, porém
188 ▲

complementares daqueles centrais já saturados. Um "fordismo periférico".


Os processos de ordenamento, distribuição, apropriação, troca, consumo-consumação – que incluem os
de financiamento, comercialização, "fabricação" de necessidades e demandas (escassez, falta, carência) – foram
"hipertecnologizados" pelos grandes mass-media e pela propaganda. Essa parafernália adquiriu os níveis máximos
de eficiência, velocidade, artifício e inutilidade relativa para o consumidor – maiores ainda que os da produção de bens
duráveis e não duráveis propriamente ditos-, sendo o mais importante gerador de subjetividade conhecido na História.
Não por sua real eficiência, mas por sua necessidade expansiva, o Capitalismo atual provocou a privatização,
profissionalização e mercantilização de "quase todos" os territórios e atividades recentemente não-lucrativos ou
considerados "gratuitos" ou "públicos". Alguns exemplos ilustrativos são os que, até pouco tempo, eram próprios dos
mecanismos de "reprodução ampliada": tarefas familiares, aparatos e funções de Estado – energia, rede viária,
comunicações, moradias populares, transporte, saneamento básico, saúde, segurança, educação e diversão "públicos",
preservação e restauração do "meio ambiente", seguros, previdência, operações administrativas e contáveis,
estabelecimentos carcerários e outros.
No chamado "mercado de capitais", o Capital financeiro, devido, entre outras razões, ao caráter instantâneo da
comunicação e da informática e à sua subordinação a núcleos ubíquos, anônimos, às vezes dispersos e condensados do
Capital monetário, acionário, documentário, prolifera geometricamente – sobretudo como empréstimo para as contas
correntes dos países "em desenvolvimento" ou emergentes. Como se sabe, os mesmos costumam ser governados por
demagogos, corruptos e incompetentes cuja gestão acaba sempre em grande déficit – contraído em um montante de
dívidas com juros astronômicos, que compõem os investimentos da usura "flutuante", "andorinha", transitórios, móveis,
descomprometidos e quase sempre não tributados. O lucro financeiro puro possui seu mecanismo mais pelverso nos
citados interesses e no refinanciamento eterno das dívidas externas e internas dos Estados e empresas nacionais estatais,
que elevam à enésima potência a devolução da quantidade originariamente emprestada, sendo que, no caso das dívidas
externas do "Terceiro Mundo" por exemplo, esses empréstimos não são nada mais que a mesma riqueza explorada pela
força durante a conquista, o Colonialismo e o Neo-Colonialismo, assim como capitais dos financistas do próprio país
que depositam seu dinheiro nos paraísos fiscais e o reinvestem com o privilégio dado aos estrangeiros. Por outro lado,
essa proliferação torna-se infinita no chamado "Mercado de Futuros", onde se negociam matérias-primas, produtos,
divisas, títulos inexistentes.
A constituição de enormes e onipotentes monopólios nacionais ou internacionais – legalmente formalizados,
juridicamente dissimulados ou simplesmente clandestinos, supostamente resultantes e defensores do
189 ▲
"Livre Mercado" e da omissão reguladora do Estado e de organismos da sociedade civil – acaba por criar e regular à
vontade as convenções de custos e preços que regem esses mercados, assim como a qualidade e quantidade de
demanda e oferta, estritamente segundo seus interesses e nunca segundo os dos consumidores e usuários.
A mencionada, reiteradas vezes, hegemonia do poder econômico – o financeiro e o das grandes empresas –
modula arbitrariamente os resultados eleitorais ou porque tal poder é proprietário, ou porque é manipulador dos meios
de propaganda, ou ainda por causa do poder de seus lobbies sobre os políticos e funcionários do Estado. Por sua vez, o
Estado fomenta o surgimento de cartórios eleitorais, clientelismo, fisiologismo, nepotismo, burocracia, e domina a
condução política das nações. Por outro lado, o doutrinamento persuade, convence e corrompe o eleitorado em si
mesmo, criando os vícios conhecidos, entre outros, da compra de votos. Finalmente, o Capital, que como explicamos, já
dispõe de novos n,eios para reproduzir as condições de sua existência e proliferação – produção de subjetividade,
semióticas econômicas, políticas, jurídicas, institucionais, culturais e libidinais incorporadas à sua lógica-, está
empenhado no desmonte, na privatização e re-significação da estrutura e das funções do Estado. Esse processo se
enfatiza na dissolução do chamado Estado Beneficente ou Providencial – cujas atribuições são demasiado onerosas para
o Capital –, em crise no mundo inteiro. O enfraquecimento do Estado realiza-se em nome da modernização, da
racionalização, da eficiência – o que não deixa de ter o seu sentido, dados os vícios de "nascença" da máquina estatal.
Não obstante, esse processo, a rigor, objetiva a subordinação das soberanias nacionais e respectivas populações a
entidades supranacionais cujos paradigmas são o Fundo Monetário lnternacional, a Organização Mundial do Comércio
e o Banco Mundial.
Em última instância, não sem contradição, crises autofagicamente resolvidas e também acontecimentos
metamorfósicos irreversíveis e incapturáveis – toda essa grande transformação que aponta para a assunção
voluntária e pacífica por parte de todos os agentes, sujeitos, indivíduos, grupos, comunidades do Axioma que
rege a Lógica do Capital – vêm se impondo até o presente. Trata-se de implantar nas nações o regime político da
democracia indireta, representativa, competitiva e heterogestionária, que permita prescindir dos recursos
repressivos clássicos, demasiado caros e ostensivamente "inumanos".
Esses regimes e seus sistemas de "representação" – num sentido amplo de produção de subjetividade, o
que segundo os clássicos marxistas denominava-se "Democracia Burguesa" – são a garantia do "bom
comportamento" dos povos em questão. "Bom comportamento" que implica uma administração completamente
submetida ao Capital transnacional – sobretudo o financeiro –, ao pagamento" correto" das dívidas públicas
externas, à privatização a preços baixos das empresas e serviços
190 ▲
estatais, à "livre" radicação – ou seja, não tributada e salarialmente flexibilizada – das empresas transnacionais
e, finalmente, ao compromisso incondicional com as alianças, sobretudo as bélicas, dos países "guardiões" do
patrimônio do Capital.
Ocorre, porém, que a construção da megamáquina planetária do Capitalismo Global Integrado não pode
prescindir por completo dos velhos equipamentos, procedimentos, agentes e práticas que possibilitavam suas
modalidades clássicas de exploração, dominação e justificação. Tampouco lhe foi possível eliminar totalmente as
modalidades de resistência próprias dos neoarcaísmos, tais como os regimes integralistas, fundamentalistas e os
totalitários – que o Capital supranacional fomenta quando lhe são funcionais, e depois tenta substituí-los por
democracias formais ou nominais, sem dúvida mais "baratas" e mais favoráveis para a produção de mercadorias e
a apropriação de mercados. Por isso, o carro-chefe do Capitalismo Mundial, os EUA, invadiu Panamá e Granada e
tentou fazer o mesmo com Cuba – sem o menor respeito pela autonomia que proclama-, assim como subvencionou
as piores ditaduras latino-americanas e africanas, e também as do Oriente Médio, seja com dinheiro e armas, seja
com a famosa participação direta de seus "assessores" militares.
Por outro lado, o Capitalismo Planetário Integrado tem que lidar com os movimentos separatistas – de
inspiração socialista ou não –, revolucionários ou genuinamente reformistas, de liberação das singularidades
raciais, nacionais, culturais, sexuais, etárias, ou pacifistas, ambientalistas, de direitos humanos, religiosos e assim
por diante.
Sem considerar essas observações como um estudo profundo da contemporaneidade, no entanto suficientes para
entender que, como dizia anteriormente, se em alguns campos e setores parece que o balanço de todos esses andamentos
mostra alguns "progressos" estridentes, os indicadores de exploração, dominação e mistificação sui generis dessa
"Fase Superior" são inequívocos sinais de um tremendo predomínio da reprodução e da antiprodução sobre a
produção possível e virtual da qual o mundo seria potencialmente capaz hoje em dia.
A geração de um imenso contingente de excluídos da produção e do consumo, dos não-inseridos nas instituições
e organizações, despossuídos de direitos e também de qualquer identidade-miseráveis, enfermos, analfabetos, errantes,
sem-terra, sem-casa, marginalizados, clandestinos, delinqüentes – é mais que suficiente para diagnosticar e avaliar a
situação mundial contemporânea. A essa degradação e deterioramento, mais que expressivos da degradação e
destruição do "parque humano", temos que acrescentar a destruição massiva da natureza, a modulação supérflua
e luxuosa do parque industrial, a banalização ou obscenidade da cultura, o crescimento cancerigeno das
megalópolis, o esvaziamento rural, o mau aproveitamento
191 ▲
das fontes energéticas e muito mais. Acredito que tudo isso já é conhecido por demais e serve para caracterizar,
sem dúvida alguma, o panorama paradoxal e sinistro de decadência.

Quarta Parte
Se essa entidade que denominei Movimento Instituinte existe, apesar de que duvido que ela mesma se
reconheça como tal, acredito ser importante para o seu destino introduzir uma pequena modificação no excelente
conceito de Capitalismo Planetário Integrado, como foi chamado por Félix Guattari. Permito-me sugerir que seria
melhor, talvez, denominá -lo de "Capitalismo Planetário Integralizante". Pois "integrado" é um particípio passado e
designa um objetivo já conseguido, coisa que o Capitalismo contemporâneo ainda está longe de alcançar,e vai depender
de todos os institucionalistas para que não o alcance.
Quero aqui parafrasear unia sentença do "Anti-Édipo" – texto fundamental para o que denomino de
Institucionalismo – que qualifica o Capitalismo como sendo" a mescla bizarra de tudo aquilo no qual alguma vez se
acreditou com aquilo no qual nunca se acreditou verdadeiramente". Decididamente, se esse modo não é um non plus
ultra, tampouco se reduz, como dizia Mão, a um "tigre de papel".
Todas as forças crítico-reformistas-revolucionárias que o enfrentam atualmente estão num momento de trágico
desânimo. O sistemático "fracasso" – e escrevo fracasso entre aspas porque, como expressei em outra parte, "não existe
reparação possível para esse cataclismo, a não ser a convicção de uma vitória sem fim"; que é quase o contrário de uma
vitória futura final, complemento adequado de uma derrota sempre presente" dos experimentos socialistas às vezes
impressionam como uma extenuação do élan metamorfósico.
Dissemos anteriormente que o Capitalismo é a formação histórica que conseguiu não apenas "superar" as crises,
senão viver nelas e delas. É exa tamente essa capacidade de adaptação plástica e ativa que faz com que a lógica, a
máquina abstrata geral e as micro-máquinas concretas pseudo democráticas e cripto-fascistas do Capital sejam não tanto
"ossos duros de roer", mas uma espécie de protoplasma polimorfo e sobrevivente, presuntivamente perene. Para poder
pensá-lo – com a única finalidade de combatê-lo – são indispensáveis novas maneiras de pensar, sentir, atuar.
O estudo dos grandes impérios históricos – o Chinês, o Egípcio, o Grego de Alexandre Magno, o Romano, o de
Carlos V, o de Napoleão, o do "Socialismo Real" – mostra que sua decadência e sua queda não sobrevieram do seu"
exterior", mas" cresceram de dentro". O problema, porém, é que o Capitalismo Planetário Integralizante não tem mais,
rigorosamente falando, "exterior" e "interior", no sentido geopolítico que essas palavras adquiriram nesses enunciados.
Não é que as contradições "internas" e "externas",
192 ▲

primárias, secundárias do Capitalismo não estejam vigentes e atuantes, mas que, como também diziam Deleuze e
Guattari, "ninguém nunca morreu de contradição". Se há algo que ameaça a sobrevivência do Capitalismo, é a potência
do que Deleuze e Guattari chamam" Processo Produtivo Desejante", Foucault designa como "Forças do Fora",
Nietzsche denomina "Vontade de Potência" e Bergson como "Realidade Virtual", fontes da invenção do radicalmente
novo, impensável e imprevisível. O Capitalismo é demasiado ágil, hábil, elístico, ubíquo e versátil, e também sabe – e
pode ir se adequando às suas próprias contradições, declinação assintótica e indefinida que se apresenta como
"desenvolvimento", "progresso" e "evolução". Esse apresentar-se não se explica apenas pelos efeitos da "ideologia", isto
é, pela "redação", difusão e apropriação de sistemas de representações "imaginárias" que "falsificam" a realidade, e/ou
se oferecem como fantasmas a serem animados pelo desejo inconsciente ou pelos interesses pré-conscientes-conscientes
dos sujeitos-agentes, engendrando atitudes e ações conseqüentes. Não obstante a "ideologia" siga cumprindo uma
importante função nos circuitos pré-modernos e ainda nos modelos de reprodução ampliada do Capitalismo, está
ficando evidente o que se passou a chamar – muito discutivelmente – de "cinismo" da Pós-Modemidade Capitilista. Por
"cinismo" se entende que o "espírito" do Capitalismo Avançado – empregando literalmente a velha expressão de M.
Weber – já não se empenha demasiado em desconhecer nem ocultar os mecanismos e efeitos de suas modalidades
peculiares de exploração, dominação e mistificação. Sobretudo esses últimos, os da mistificação, estão sendo
essencialmente reformulados. Essa não é uma" descoberta insólita", tal como já a havia percebido W Reich quando,
referindo-se ao nazismo, afirmava que "o povo alemão não foi enganado". Sabia perfeitamente tudo aquilo que a
proposta do Terceiro Reich implicava.
As cúpulas proprietárias, as camarilhas tecno-burocráticas, as vanguardas programadoras, deliberativas e
executivas da megamáquina do Capital sabem, com maior ou menor lucidez, que são "peças" de uma lógica – ao
mesmo tempo exuberante e letal – que as constitui em suas funções e dela se vale. O extraordinário é que a assumem, a
encarnam, e até a desejam, sem iludir-se a respeito.
Os diversos estratos e segmentos da subjetividade e da sociabilidade, em proporções e clarezas variáveis,
também o sabem, assumem e desejam, e assim o Parque Humano se divide entre os que possuem grandes
probabilidades de sobreviver, os que têm poucas e o enorme contingente que não tem nenhuma. É notório, segundo o
que se entende por sobreviver, que cada um dos modos de subjetividade sente que contém cada uma dessas
divisões e contraposições dentro de si, afetando aspectos mais ou menos sutis do que se entende por vida.
Não obstante a Psicanálise queira explicar esses efeitos como expressão, por exemplo, da Pulsão de Morte ou
do Masoquismo Primário,
193 ▲
em nível de estrutura e dinâmica dos sujeitos edipianos especificamente considerados como objetos universais dessa
disciplina, tal explicação tem validade apenas para uma forma triunfante e dominante de subjetividade.
É preciso compreender que o que emerge enquanto subjetividades e sócio-institucionalidades não são efeitos
específicos e pontuais de mecanismos "educacionais", "psíquicos", "culturais", "lingüísticos" ou "mediáticos", mas
afeções – como dizia Espinoza – operadas em conjunto pelo tipo de maquinismo que modula prevalentemente o
atravessamento dos territórios da natureza, da sociedade, da subjetividade e das máquinéls dentro dessa megamáquina.
Indivíduos, agentes, sujeitos, sócius, instituições, desejos, interesses, práticas, éticas e estéticas são
produzidos, reproduzidos e antiproduzidos pela modalidade peculiar da imanência que se dá entre esses processos do
Capitalismo Planetário Integrado contemporâneo. Por isso, é importante entender, por exemplo, o Estado, a Igreja, o
Mercado, a Educação, o Trabalho, o Tempo Livre como subjetivados – de certo modo – e as subjetividades como
"infundidas" por um Estado, Igreja e Mercado "íntimos contínuos" – como diria Foucault.
Cabe ao Movimento lnstituinte – levando-se em conta sua suposta infinita heterogeneidade interna e sua
irrestrita abertura externa – inventar os recursos e as práticas que possam empurrar o Capitalismo Mundial
Integralizante além de seus próprios limites, tornando-o permeável à irrupção das forças do "fora" que são capazes,
realmente, de transmutá-lo.
Quando lemos o panorama mundial, como procurei fazê-lo nestas linhas, a rigor nos sentimos tentados, não
apenas a perguntarmo-nos – de acordo com a famosa fórmula – "Que Fazer" para transfomá-lo, senão antes interrogar:
"Como consegue manter-se hegemônico e aparentemente próspero sem nem sequer esforçar-se demasiado em
dissimular sua fragilidade e sua contraprodução?"
Apesar de que a perplexidade dos pensadores críticos e gestores da troca é ostensiva, devemos tomar
consciência de que aquela dos experts e condutores do Capitalismo não é menor. Ninguém é capaz de fazer predições a
médio e longo prazos acerca do futuro de cada "parte" e desse "todo" infernalmente deletério. Justamente por isso é que
nos resta apenas avaliar e lutar, incessantemente, em TODOS OS LUGARES E AGORA
NOTAS
1 – A definição rigorosa desses conceitos para torná-los acessíveis ao tipo de leitor ao qual este texto se destina
requereria um volumoso tratado à parte. Para aproximar-se do entendimento de alguns deles, pode ser consultado o
Glossário deste Compêndio. De qualquer maneira, devo advertir que muitos destes termos não são usados aqui no
sentido estrito de sua bibliografia de origem.
194 ▲

POST-SCRIPTUM
Janeiro de 1998

A releitura do apêndice anterior, escrito em 1995, suscitou em mim impressões contraditórias. Se me atrevo a
comentá-las com os leitores, não é apenas – como espero seja possível apreciar mais adiante – por motivos autocríticos
e justificantes, contudo que esses também possam existir. Penso que, como sempre acontece, os três últimos anos
possam ter trazido elementos para melhor avaliar a pertinência do que se poderia qualificar, com benevolência, de cem e
do que tentei dizer.
Essas páginas de 95 me parecem retorcidas, desgarradas e mutiladas entre as exigências pedagógicas e
sintéticas do texto, por um lado, e suas pretensões analíticas, e até vaticinantes, exorbitantemente amplas, por outro;
acredito ter sido desde o início, e involuntariamente, insuficiente, assistemático, às vezes pouco claro e, em geral, não
suficientemente fundamentado. Tão fortemente acredito nisso que decidi catalogar este escrito numa simpática categoria
inventada por um amigo, o filósofo brasileiro Peter Pal Pelbart, segundo o qual o que estamos lendo não é um "ensaio",
e sim um" globo de ensaios". Não obstante, quero conceder-me os benefícios de um certo paradoxal beneplácito.
Durante este tempo, à grave crise "civilizatória" mundial que muitos já identificavam foi-se agregando uma
crise econômica de incalculáveis proporções que, pelo que entendo, somente alguns poucos prenunciavam. Não sei se é
excesso de petulância incluir-me entre esses últimos, porém não pude deixar de constatar que o "pessimismo" de cada
página do "Apêndice" que antecede a este post-scriptum insistia sobre esta predição.
A crise atual está em desenvolvimento – como o fato precedente do
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ataque especulativo à lira italiana e à libra inglesa e o outro que afetou o México – e engloba diretamente todos os
"Tigres Asiáticos" – Malásia, Tailândia, lndonésia, Singapura, Hong Kong, Laos e, por último, Filipinas; menos
drasticamente, Japão, Coréia do Sul e, de outra forma, China e Taiwan; e numa dimensão mais ou menos ameaçadora,
todos os "capitalismos emergentes", sendo que em outra, ainda indefinida, tanlbém as grandes potências capitalistas.
Esta é uma realidade clamorosa.
Obviamente, não cabe aqui uma análise excessivamente detalhada. Permito-me fazer somente alguns
comentários globais que podem reafirmar, eventualmente, uma ou outra tese já postulada neste livro.
Em primeiro lugar, chama fortemente a atenção, sem ignorar diferenças nacionais, a cômica discrepância que
os economistas e outros especialistas mostram quando tentam explicar esse fenômeno colossal que se iniciou com uma
dimensão regional. Começamos pela admissão do FMI de que "se equivocou" na avaliação e condução desse assunto,
tanto que está chegando ao limite de sua disponibilidade financeira para" auxiliar" os falidos – isso significa socorrer os
investidores especulativos para que não percam seu dinheiro. Vamos continuar observando muitos experts atribuírem à
"falta de dados" – porque ocultados ou distorcidos por parte das economias em questão – a surpresa e a perplexidade
que a catástrofe ocasionou. E mais: porque, entre essesexperts, alguns atribuem o flagelo à cumulação de empréstimos
enviados aos países em crise, outros às suas falências bancárias ou à desenfreada especulação imobiliária que ocorreu
no seu território, ou ainda à sobrevalorização de sua moeda, e assim sucessivamente... Ou a "todas" essas causas juntas
e a muitas outras. Essas explicações, a meu ver, podem reduzir-se a três tipos:
– Ou esse é um erro regional de modelo, cálculo, planejamento que implica dos povos até os governos – desde
logo, com uma distribuição muito desigual de responsabilidades.
– Ou essa é uma fraude de magnitude hemisférica e configuração escalonada que vai desde os produtores-
consumidores, passando por todos os segmentos sociais, econômicos e políticos, até chegar aos organismos
internacionais – desde logo, com uma distribuição muito desigual de responsabilidades.
– Ou se trata de um efeito processual, substancial, essencial e inerente ao Capitalismo Planetário em via de
lntegração.
Com respeito à primeira hipótese, no caso dela ser correta, o mínimo que se pode considerar é que o destino do
mundo está em mãos de presunçosos incompetentes. Isso não implica "falha humana", senão principalmente um erro
radical sobre os meios de pensar a realidade. A idoneidade da "Ciência Econômica" e da "Economia Política" oficial
capitalista não só é, em muito, inferior à da Meteorologia, mas nem sequer tem a humildade de reconhecer o estatuto de
interfase do sistema caótico ordenado própria de seu "objeto".
196 ▲

O erudito "Científico-Presidente" do Brasil, FH. Cardoso, foi feliz e sincero quando, solicitado a opinar acerca das
conseqüências da crise para a economia do Brasil, respondeu: "Só Deus sabe."
Pelo que se refere à segunda hipótese, se acertada, temos que assumir que o destino da humanidade este) nas
mãos de delinqüentes. Fica aberto o tema da qualidade e gradualidade de imputabilidade de cada um dos envolvidos e
do acordo sobre o critério de legalidade segundo o qual devem ser julgados (veja-se mais adiante).
Se a terceira hipótese está correta – e isso tenho afirmado constantemente nesse modesto e elementar livro-,
resulta evidente que as duas primeiras podem ser perfeitamente incluídas na última, porém, assim como as três não são
excludentes, tampouco são exaustivas. E também, mas não somente, por estúpidos e ladrões que os agentes-sujeitos
individuais e coletivos do Capitalismo assumem os lugares, as funçôes e as práticas segundo os quais a lógica da
Máquina Abstrata do Capital os produz e aciona.
Está comprovado – e isso é o que tenho procurado, simplesmente, lembrar aos leitores, uma vez que não
precisa ser demonstrado porque já o foi durante um século – que a sábia ignorância dos experts, tanto quanto a
desonestidade dos agentes e das entidades, não esgotam o repertório de riscos que caracterizam as subjetividades
capitalistas. O que mais nos deixa pasmos e surpresos no espectro das mesmas é o cinismo, ao qual já nos referimos
reiteradamente; é preciso apenas definir, pelo menos parcialmente, em que consiste este risco. Não se trata, é claro, de
desconhecimento, nem somente de uma tendência delituosa de transgredir ou ignorar a Lei – qualquer que seja a Lei da
qual estamos falando, especialmente se nos referimos a uma abstração ou hipóstase que se costuma denominar "A Lei",
com a qual os psicanalistas e outros teóricos enchem a boca. Em um certo sentido, trata-se de cumprir ao pé da letra as
leis vigentes, ou de aproveitar os limites de seu império e de suas falhas intersticiais para pô-la à serviço – às vezes
condicional, às vezes incondicional – da Axiomática do Capital, da qual a ordem jurídica imperante é uma engrenagem
perfeitamente coerente (vide a plena vigência do Direito Positivo). A lógica dessa axiomática está, em última instância,
absolutamente em sintonia com a racionalidade ética e proposicional das leis nacionais e internacionais – as
propriamente jurídicas ou as "internas" aos enunciados específicos disciplinares, científicos ou não. Excepcional e/ou
aparentemente, as leis se contrapôem a essa Lógica, ou como leis maiores formais, "Direitos Humanos" que
concretamente podem ou não podem ser cumpridos dentro do que se chama hipocritamente" condições constitutivas,
direitos fundamentais ou reais" da formação da soberania em questão, ou como leis menores – decretos, especificações,
regulamentações, normas...
Os célebres conceitos e a análise foucaultianos acerca do atravessamento entre os enunciados – as
dizibilidades – e aquilo que o autor
197 ▲

chama visibilidades – os dispositivos do poder, imanentes ao jogo de forças de uma formação histórica (por um lado), e
o diagrama, complexo de forças informais (por outro) – dão conta admiravelmente de alsrumas das maneiras com as
quais as funções de reprodução e antiprodução se realizam em cada sistema.
Entre vários requisitos, essas montagens dão conta de conferir uma certa inteligibilidade e um certo
"moralismo" à Ordem Capitalista Constituída, visando produzir as condições mínimas nas quais essa última possa
subsistir – e encontrando viabilidade, crescer –, garantindo sua reprodução simples e ampliada tanto em seus aspectos
econômicos como em todos os outros que já mencionamos. Que o lado "progressista" dessas leis – tanto as "maiores",
puramente nominais, como as "menores", que resultam operantes somente para matizar, mitigar ou amenizar os efeitos
fundantes da Lógica do Capital – expresse, em sua maioria, o resultado de heróicas e cruentas lutas da humanidade, e
como tais são admiráveis, não deve enganar ninguém. Principalmente não deve tranqüilizar ninguém acerca da
perfeição do modo econômico e de seus rebrjmes – jurídico-político subjetivo e outros. Em sua essência, não são nada
mais que estratégias, especialmente aquelas que se consideram concessões – geralmente tão inevitáveis quanto
mínimas, bem distantes dos "ideais", sempre considerados irrealizáveis. Essas concessões são invariavelmente tardias e
de aplicação sujeita ao horizonte do "possível", supostamente apoiado por uma "realidade" que o panorama da
Axiomática do Capital delimita e modula. Ao menos numa vertente dominante de sua essência, estão destinadas a
desorganizar, desmobilizar, fragmentar e recapturar as forças críticas e metamórficas, ou ainda, o que é mais astuto, a
implicá-las em dispositivos nos quais a modalidade organizativa e os objetos a serem conquistados resultam
relativamente irrelevantes e/ou absorvíveis pelo Capital.
Um exemplo ilustrativo a esse respeito são as contendas entre os partidários neoliberais do "Livre Mercado" e
os defensores da "Regulação Estatal". Os primeiros fazem uma apologia do individualismo, da imprensa livre e da
competição liberal e neoliberal, aos quais atribuem todos os méritos da Modernidade – que, obviamente, sempre foi
consubstancial ao Capitalismo, pois não se conhece outra-, sem considerar os seus defeitos. Os segundos prescrevem"
uma quantidade maior" da mesma Lógica do Estado, que começou muito antes daquela do Capital, possibilitou o seu
começo e ainda lhe é imprescindível.
Outro caso ilustrativo é a luta da economia de mercado e democracias representativas contra as "massas
ausentes", os neo-arcaísmos e o terrorismo. O mérito relativo do pensamento de alguns autores, como Jean Baudrillard,
está na virtude de chamar a atenção – apesar de que unilateral e exagerada – sobre a estratégia de resistência não-
consumista e eleitoral (indiferença dos votantes) como "neutralização, omissa e passiva"
198 ▲
das massas, complementada pela irracionalidade monstruosa, "absurda" e intempestiva dos fundamentalismos e do
terrorismo. Essas estratégias, apesar de apresentarem uma triste originalidade, não deixam de ser uma resposta cega às
manobras orquestradas pela Máquina Abstrata do Capital, habilmente engenhada para propor e propiciar contendas, de
maneira que os explorados, dominados e mistificados" comprem a briga", como se diz pitorescamente falando, isto é,"
entrem numa provocação desviante".
Perante essa constelação, não é pleonástico repetir que o processo do Capital não constitui uma unidade
monolítica, e muito menos estática. Não somente ao nível das contradições antagônicas e agônicas do que Deleuze e
Guattari chamam de "Superfície de Registro e Controle" composta por territórios, segmentos, instituições,
organizações, agentes dotados de uma identidade mais ou menos precisa e circunscrita. Veja-se, senão, a ferocidade das
contraposições recentes e suas conseqÜências entre o Capital Financeiro "apátrida" volátil, o Industrial e o
Latifundiário – tanto nos domínios "globais" como nos regionais, nacionais, locais. Mas "ninguém morreu de
contradições". A imanência entre as potências e processos de desterritolialização e reterritorialização capitalistas
movimenta-se sem cessar, com uma velocidade que passa de geométrica para exponencial. Assim, apenas
descritivamente, o mundo atual é um poliverso vertiginoso, proteiforme, heterogêneo, heteromorfo, heteróclito e bizarro
de colisões, que vão desde o preciso até o indecidível, mas que têm aprendido a viver em crise e da crise.
É claro que espero e desejo fervorosamen te ser explícito dizendo isso, sem a menor intenção de desvalorizar
nenhuma forma de luta tradicional ou nova que as forças da Vida vão inventando, como infinitos agenciamentos e
acontecimentos no seu combate contra as equações variáveis de reprodução e antiprodução do Capital. "Todas" as
Máquinas de Guerra e as Linhas de Fuga simultaneamente econômicas, políticas, jurídicas, filosóficas, científicas,
artísticas, idiossincrásicas – na medida em que são individuações, expressões de singularidades intensivas –, e mais
enfaticamente,suas transversalidades, conexões disjuntivas inclusas, sinérgicas e potencializantes,
seu entusiasmo e sua alegria – como dizia Espinoza – foram, são e serão "o sal da terra". As
preocupações dos militantes acerca do grau de capacidade de recuperação que o Capital exerce sobre as mesmas
geralmente não são mais do que hesitações compreensíveis, porém acidentais, devido tanto às resistências que minam o
processo de suas façanhas quanto à dureza de suas vicissitudes. Diante de tudo isso, o pouco que proponho enfatizar
aqui pode se resumir, creio eu, da seguinte maneira:
Os militantes e pensadores instituintes contemporâneos passam por divergências e discussões dilemáticas – que
freqüentem ente os dissociam nas suas campanhas – acerca de se a luta deve dar-se a partir de dentro ou de fora das
organizações do Estado, do Capital ou da chamada Sociedade Civil (a esse respeito, vejam-se os memoráveis capítulos
da "Revolução
199 ▲
Molecular" de F. Guattari, os de "O Estado e o Inconsciente" de René Loureau e até alguns capítulos deste livro). Outro
desses dilemas é o já célebre que se trava entre os "reformistas" e os poucos "revolucionários" que ainda sobraram –
seja como for que se defina revolução. No espectro que vai do pólo dos" apocalípticos", por um lado, aos "integrados" –
bem intencionados – por outro, existem inumeráveis posições intermediárias que dão espaço a quantas vontades de
transformação seja possível imaginar assim como às melhores delas, que são as que escapam a toda imaginação. Cabe,
porém, reforçar que a reivindicação idiossincrásica nunca acaba de propagar-se como uma onda extensiva, entre outras
razões porque insiste em enfatizar-se como intensiva, confundindo singularidade com isolamento, linha de fuga com
evasão, ubiqüidade com fragmentação dispersiva. Em conseqüência disso, tanto os movimentos chamados
"Alternativos" quanto a Esquerda tradicional parecem perder de vista os macro-indicadores inequívocos da deterioração
do "todo" capitalista, que consegue manter-se porque a única classe verdadeiramente universal é a burguesia.
Contudo, se me permitem uma digressão, antes de concluir com uma nova tentativa de síntese, acrescentarei
quanto segue. Rememoro que em minha juventude, quando estudava a crítica marxista da Economia Política, tinha
sérias dificuldades para entender tanto o conceito da tendência à diminuição da taxa de extração da mais-valia quanto a
contestação que os economistas positivistas faziam a essa teoria. O argumento principal, se me lembro bem, baseava-se
na tese de que tal indicador era in1possível de ser medido empiricamente; e por ser uma hipótese de "alto nível",
inviável quanto à operacionalização, verificação e falseamento; por isso carecia de sentido epistemológico.
Em função do que foi exposto acerca da crise presente, reiterarei que no momento a mesma tem respeitado, de
forma aceitável, somente a nação que continua sendo o assento das maiores sedes centrais do Capital mundial, assim
como de seu principal aparato bélico-repressivo: os EUA. O crescimento de quase 4% de sua economia em 97 e o
decréscimo de seus índices de desemprego, déficit interno e externo, apesar de que isso não o exonere inteiramente das
conseqüências imediatas da crise, não faz senão demonstrar o uso extorsivo que sabe fazer de sua hegemonia política –
em grotesco contraste com suas declarações neoliberais de "livre-mercado" e de democracia. Também Alemanha,
Canadá, França e Reino Unido, Itália e Espanha mantêm-se relativamente estáveis, mesmo que todos os países
enumerados apresentem altíssimos índices de desemprego – com mais ou menos proteção estatal-, discretos indicndores
de crescimento econômico e variados sinais de decomposição social e subjetiva.
Lembrarei também que alguns adora dores do neoliberalismo, bastante afetados por essa debacle setorial
insuspeita, empenham-se em reivindicar que, apesar de tudo, o modo capitalista e seu Sistema
200 ▲

Democrático Nominal conseguiram, desde a Segunda Guerra Mundial até hoje, o milagre inédito de reduzir em quase
50% a pobreza asiática. Essa afirmação adquire relevância pelo contraste com a decadência dos países do ex-bloco do
Socialismo real, o qual, como é notório, está em pleno declínio. De outro lado, sustentam que apesar da instabilidade
persistente, a intervenção dos países prósperos e dos organismos internacionais já está dando conta de controlar a onda
de falências,moratórias e outros flagelos. As excelsas democracias capitalistas "se ajudam".
Diante dessas afirmações, torna-se importante esclarecer que, em primeiro lugar, Alemanha, Japão e Itália
começaram seu crescimento a partir da inversão massiva do Capital "aliado" – novas versões do Plano Marshall e da
'Aliança para o Progresso" – e nas condições políticas severamen te repressivas das nações derrotadas e "ocupadas".
Em segundo lugar,é apropriado pontuar que boa parte do desenvolvimento dos "Tigres Asiáticos" processou-se sob
governos ditatoriais e autoritários, como Coréia e Vietnã, e teve uma base de lançamento nada depreciável, pelo fato de
serem aliados dos países centrais nas guerras anticomunistas. Por último: como não requerer (apenas porque não sei se
isso já foi feito) um levantamento cuidadoso e verídico dos coeficientes de concentração de riquezas que têm sido
realizados e perpetrados nesses países, mesnlO que uma parte dessa riqueza tenha sido destinada "humanitariamente" à
geração de força de trabalho cnpacitada e eficiente e de condições de governabilidade? Que papel cumpre, nas falências
atuais, a fuga desse Capital acumulado, destinado a inversões especulativas em outros mercados mais lucrativos e/ou
estáveis?
Alguns famosos economistas acabam de declarar, por exemplo, que não precisamos nos preocupar demasiado
com as falências generalizadas. Afinal, "é bom que as coisas se precipitem, porque assim a economia mundial se corrige
e ajusta". Outros têm manifestado que, ao final, a parte do Produto Bruto Mundial correspondente aos países
estremecidos pelo "sismo" alcança somente 6 ou 7% do total mundial. Ironizam, assim, os mecanismos de "contágio"
sofrido por aqueles que atribuem maior importância às falências e desencadeiam" corridas" na Bolsa...
Ora: que Economia Mundial é essa que entra em pânico por um "acidente" que afeta apenas 7% de sua
produtividade anual? O verdadeiro pavor não consistirá de fato em que uma das suas derivações pode ser a estrepitosa
baixa de preços dos produtos asiáticos (dumping) e o perigo iminente de benefício dos consumidores e prejuízo dos
inversores? A quais maldades políticas terá que se apelar para evitar essa presuntiva "injusta" festa dos compradores?
Com certeza não será "democrática" nem "livre- empresista". A iminência da segunda Guerra do Golfo e da terceira
Mundial não é apenas hipótese de ficção científica.
Em síntese: os mais lúcidos afirmam que a presente crise é, como se
201 ▲

diz eufemisticamente, "estrutural", e se funda, "em última instância", no predomínio nebuloso do Capital Financeiro
mundial – completamente independente de sua base material – e sua desregulação total, que em vão se reclama limitar
jurídica e institucionalmente.
Como explicar esse império inquestionável a não ser pelas peculiaridades da globalização, que não é outra
coisa mais que o pleno reinado universal – ostensivo, estridente, descarado – da Máquina Abstrata do Capital e sua
Axiomática Suprema?
O que manda é o Equivalente Geral, suas formas monetárias e informáhcas, subordinando à sua força quase
tudo que existe como realizado no horizonte do existente.
Pelo fato que já mencionamos antes dessa interessante questão da correlação inequívoca entre ética,
"liberdade" mercadológica e "liberdades" políticas e humanas, não é apaixonante que a Suíça – país que deve uma parte
indefinida de sua prosperidade aos depósitos bancários de boa parte dos capitais "espúrios" do mundo: evasão tributária,
ditatoriais, narcotraficantes, mafiosos e delinquenciais em geral – tenha um sistema político dotado de Assembléias
Populares Comunitárias Cantonais?! A "plena" democracia suíça "perpetrou" um plebiscito, segundo o qual votou se a
favor de continuar mantendo o segredo sobre suas contas bancárias. A hegemonia da Axiomática do Capital consegue,
às vezes, incorporar tanto os Círculos de Qualidade japoneses como a Autogestão!
Segundo me parece, existem algumas outras perguntas-chave que precisamos nos fazer nessas circunstâncias,
sem descartá-las por serem ingênuas e menos procedentes. São as seguintes: por que tomar como referência
comparativa e justificante das excelências liberais o Socialismo real – cujas diferenças com um Capitalismo de Estado é
um tema ainda digno de muita polêmica? Por que confiar na "natural" afinidade entre Capitalismo e Democracia
Nominal, sendo que vários dos mencionados "desenvolvimentos" capitalistas realiza ram-se duran te regimes cripto ou
ostensivamente despóticos – veja-se em outro contexto geopolítico a trajetória do Chile e do Peru. Quanto custará ao
povo desses países "novos ricos" quebrados a hipoteca dos anos vindouros, que é o preço de sua futura "recuperação"?
Se os experts e seus organismos têm sido incapazes de conhecer as cifras necessárias ou de elaborar os modelos e as
simulações que lhes perm.itiriam predizer essa "quebradeira", por que devemos acreditar que são ou serão aptos a
quantificar, de forma convincente, tanto as vantagens do caminho capitalista "eleito" quanto o montante exigido para
sua recuperação? Pelo visto, não é somente a tendência para a queda da taxa de extração da mais-valia o que não se
pode mensurar!!!
Como já advertiram Deleuze e Guattari, tanto as empresas nacionais e transnacionais quanto os organismos
estatais e supra-estatais operacionalizaram seus "modelos" predominantemente com base em movimentos táticos de
"invenções" e "sangrias". Movimentos esses
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invariavelmente improvisados e incidentais, cuja previsibilidade e precisão brilham pela ausência e são decididamente
contrárias à imagem de onipotência e sapiência das quais essas entidades fazem propaganda.
Como último argumento, existe o hábito de invocar o sereno bem estar da Suécia, Noruega, Holanda,
Dinamarca, Finlândia e alguns ou tros países com fabulosos índices de saúde e educação, sem considerar com
profundidade que a tal prosperidade é fruto da participação dessas nações na espoliação colonial e neocolonial e da
inexistência de bloqueios sobre suas economias. Que Cuba, com o embargo que dura mais de três décadas e oprimida
por uma "Ditadura do Proletariado", obteve índices parecidos, ajuda a demonstrar que, por bem ou por mal, não tem
muita diferença entre as variedades de Capitalismo e de Socialismo real. O ceme do problema – por mais pobres e
óbvias em que essas observações resultem – reside no seguinte:
– Não se deve confundir a lógica dos processos que Deleuze e Guattari chamam" Produtivos, Desejantes,
Revolucionários" – que são o "motor" da Produção ou a Produção em si – com aquela dos reprodu ti vos e
antiprodutivos. Não se pode dizer que os dois segundos sejam absolutamente contraproducentes e elimináveis, mas
devem estar, porém, rigorosamente subordinados ao primeiro.
– Não se deve confundir a morfologia e a dinâmica das instituições, organizações, estabelecimentos,
equipamentos, semióticas, sujeitos, agentes e práticas, isto é, os componentes territorializados, estratificados,
hierarquizados, e assim por diante, que constituem os domínios do real, do possível e do impossível, com o âmbito do
virtual atualizável.
– Não se deve confundir a democracia indireta e representativa liberal, neoliberal, social-democrata ou
socialista "soft", ou ainda a "popular", nem o saber e o poder de seus políticos profissionais e tecno burocratas, nem
tampouco a "participação" na democracia direta, com a auto-análise e a auto-gestão, quaisquer que sejam as
modalidades históricas que os dois termos dessa diferenciação adotem.
– Não se deve confundir – mesmo levando-se em conta as singulari dades históricas das citadas modalidades –
a separação entre meios e fins que é própria da ética dos modos e sistemas capitalistas com a imanência entre
meios e fins que é consubstancial à ética das Utopias Ativas do Movimento Instituinte.
– Não se pode esquecer jamais, quaisquer que sejam as limitações, mimetizações e vacilações estratégicas,
logísticas, táticas ou técnicas históricas de cada iniciativa produtiva-desejante-revolucionária, que nunca o "espírito" das
mesmas esteve melhor resumido que na deslumbrante fórmula – " A cada um segundo suas capacidades e a todos
segundo suas necessidades" .
Folgo em dizer que o incremento das forças produtivas de todos os tipos – incluídas as forças teóricas e
expressivas – mostra que este enunciado
203▲
pode e poderá ser formulado de infinitas novas maneiras, e que isso exige aplicar às definições de capacidades e de
necessidades uma coerência com os valores supremos aqui repetidamente postulados.
Para terminar, uma variação que me ocorre para a palavra-de-ordem da citada consigna libertá ria é a seguinte:
''A cada qual segundo suas capacidades de lograr que – a todos segundo suas necessidades – seja uma
necessidade para todos e um desafio para cada um."
204 ▲

BIBLIOGRAFIA BÁSICA
Organizada em progressão crescente de possíveis dificuldades de leitura:
"Apresentação do Movimento Institucionalista", G. Baremblitt, in:
"Saude loucura" nOl, coord. A. Lancetti. Ed. Hucitec, São Paulo, 1989.
"O Inconsciente Institucional", coord. G. Baremblitt, apresentação e introdução. Ed. Vozes, Petrópolis, 1984.
''Análise Institucional: Teoria e Prática", vários autores, in: Revista Vozes n° 4. Ed. Vozes, Petrópolis, 1973.
''Análise Institucional no Brasil", V R. Kankhagi e O. Saidon (org.). Ed. Espaço e Tempo, Rio de Janeiro, 1987.
''Alguns elementos teoricos para pensar Ia cuestion de Ias derechos humanos y Ia violencia institucional", in: "Saber,
Poder, Quehacer y Deseo", G. Baremblitt. Ed. Nueva Vision, Buenos Aires, 1988.
"[Analyse Institu tionnelle", M. Autlúer e R. Hess. Ed. Presses Universitaires de France, Paris, 1981.
"Grupos, Organizações e Instituições", G. Lapassade. Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1977.
"EI Sociopsicoanalisis Institucional", G. Mendel, in: "La Intervencion Institucional", J. Ardoino (org). Ed. Falias,
México, 1979.
205▲
"Sociopsicoanalisis lnstitucional", tomos 1 e 2, G. Mendel. Ed. Amorrortu, BuenosAires, 1973.
'A Análise lnstitucional", R. Lourau. Ed Vozes, Petrópolis, 1975.
"EI Analisis lnstitucional". G. Lapassade, R. Lourau et aI. Ed. Campo Abierto, Madri, 1977.
"EI Analizador y el Analista", C. Lapassade. Ed. Cedisa, Barcelona, 1971.
'Analisis Institucional y Socioanalisis", R. Lourau et ill. Ed Nuevillmagen, México, 1973.
"LAnalyses InstitucionnelJe en Crise?", J. Cuigon (coord.), in: Rev. Pour, n° 62-63, Paris, 1978.
'Autogestão: Uma Mudança Radical", A. Cuillerm e Y. Bourdet. Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1976.
"Participacion y Autogestion", L. Tomasetta. Ed. Amorrortu, Buenos Aires, 1975.
"Psicoanalisis y TransversaJidad", F Cuattari. Ed. Sigla XXI, Buenos Aires, 1976.
'A Revolução Molecular", F Cuattilri. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1981.
"O Inconsciente Maquínico", F Cuattari. Ed. Papirus, Campinas, 1988.
"Micropolítica – Cartografias do Desejo", F Cuattari e S. Rolnik. Ed. Vozes, Petrópolis, 1986.
'As Três Ecologias", F Cua ttari. Ed. Papirus, Campinas, 1988.
"O Anti-Édipo", G. Deleuze e F Cuattari. Ed.lmago, Rio de Janeiro, 1976.
"Mil Platôs", G. Deleuze e F Cuattari. Ed. Pre-Textos, Valência, 1988.
206 ▲

BIBLIOGRAFIA DE CONSULTA
A bibliografia de consulta é vastíssima e pode ser classificada de acordo com a maior ou menor proximidade que
tenha com a linha teórico-prática adotada neste livro. Os textos aqui classificados são apenas os mais próximos, e
não pretendem, em absoluto, esgotar a lista dos possíveis. Por motivo de focalização, excluímos da literatura
concernente à antipsiquiatria, à psicologia organizacional e à psicologia grupal.
Obras de Georges Lapassade:
"Chaves da Sociologia", em colaboração com R. Lourau. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1972.
"La Entrada en Ia Vida". Ed. Fundamentos, Madri, 1973. 'Au togestion Pedagógica". Ed. Cranica, Barcelona, 1977. "La
Bio-Energia". Ed. Cedisa, Barcelona, 1978.
"Socioanalisis y Potencial Hun'1ano". Ed. Cedisa, Barcelona, 19~O.
Obras de Gérard Mendel:
"La Rebelion contra el Padre". Ed. Península, Barcelona, 1975, 2ª ed. "La Crisis e Ias Ceneraciones". Ed. Península,
Barcelona, 1972. "La Descolonizacion dei Niíi.o". Ed. Ariel, Barcelona, 1974.
"EI Manifesto de Ia Educación". Ed. Siglo XXI, Madri, 1975. 'Anthropologie Diffierentielle", Ed. Payot, Paris, 1972.
"l.:Angoise Atomique et les Centrales Nucléaires". Ed. Payot,1975. "Pour une autre Societé". Ed. Payot, Paris, 1975.
"La Classe lnstitu tionnelle". Ed. Payot, Paris, 1977.
"Quand plus rien ne va de soi". Ed. R. Lafont, Paris, 1981. "Enquete par un Psychanalyste sur Lui-Même". Ed. Stock,
Paris, 1981.
207 "54 Millions d'Inclivid us sans Appartenance" . Ed. R. Lafon t, Paris, 1983. "La Crise est Poli tique, Ia Poli tique est
en Crise". Ed Payot, Paris, 1985. "On est Toujours l'Enfant de son Siecle". Ed. R. Lafont, Paris, 1986.
Obras de Gilles Deleuze:
"Para Ler Kant". Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1976. "Empirismo y Subjetividad". Ed. Granica, Barcelona, 1977.
"Diferença e Repetição". Ed. Graal, Rio de Janeiro, 1988. 'Apresentação de Sacher Masoch". Livraria Taurus Editora,
Rio de Janeiro, 1983.
"Proust e os Signos". Ed. Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1987. "Nietzsche". Edições 70, Lisboa/1981.
"Nietzsche y Ia Filosofia". Ed. Anagrama, Barcelona, 1971. "Lót,rica do Sentido". Ed. Perspectiva, São Paulo, 1974.
"Kafka/ por uma Literatura Menor", em colaboração com F. Guattari. Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1977.
"Diálogos", em colaboração com C. Parnet. Ed. Pre-Textos, Valência,19bO.
"EI Bergsonismo". Ed. Catedra, Madri, 1987.
"Spinoza: Filosofia PréÍctica". Ed. Tusquets, Barcelona, 1984.
"La Imagen-Movim.iento", Estuclios 1 y 2. Ed. Pa.idos, Barcelona, 1984. "Foucault". Ed. Paidos, BuenosAires, 1987.
"Pericles y Verdi". Ed. Pre-Textos, Valência, 1989.
"EI Pliegue". Ed. Paidos, Buenos Aires, 1989.
"Espinosa e os Signos". Ed. Res, Porto, 1975.
"Spinoza y el Problema de Ia Expresión". Ed. Muchik, Barcelona, 1975. "Politique et Psychanalyse", com F. Gua ttari.
Ed. Des Mots Perdus, Alençon,1977.
"Los Equipamentos de Poder", F Fourquet e L. Murad. Ed. G. Gill, Barcelona, 1976.
"Deleuze e a Filosofia", R. Machado. Ed. Graal, Rio de Janeiro, 1990.
Obras de René Lourau:
"LInstituant Centre I..:Institué". Ed. Antrophos, Paris, 1969. "I..:Illusion Pédagogique". Ed. I..:epi, Paris, 1969.
'Analyse Institutionnelle ei Pédagogie". Ed. I..:epi, Paris, 1971. "Les Analyseurs de l'Église". Ed. Antrophos, Paris,
1972.
"Le Analyseur'Lip"'. Ed. UGE 10/18, 1974.
"Sociologue a Plein Temps". Ed. I..:épi, Paris, 1976.
"Le Gai Savoir des Sociologues". Ed. UGE 10/18,1977. "EI Estado y ei Inconciente". Ed. Kairos, Barcelona, 1979.
'Autodissolusion des Avant-Gardes". Ed. Galilée, 1980. "Les Lapsus des Intellectuels". Ed. Privat, Toulouse, 1981.
208

Obras de outros autores


"Psychiatrie et Psychothérapie Institutionnelle", J. Oury. Ed. Payot,
Paris, 1976.
"Hacia una .Pedagogia dei Siglo XX". F. Oury e A. Vasquez. Ed. Siglo XXI, México, 1974, 3ª ed.
"Introduccion a Ia Terapia Institucional", J. Chazaud. Ed. Paidos,
Barcelona, 1980.
"EI Psicoanalisis delas Organizaciones", R. de Board. Ed. Paidos,
Buenos Aires, 1980.
'A Reprodução", P. Bordieu e J. C. Passeron. Ed. F. Alves. Rio de
Janeiro, 1975.
"Organizações Modernas", A. Etzioni. Ed. Pioneira, São Paulo, 1976. "O Adoecer Psíquico do Subproletariado", W C.
Castilho Pereira. Ed. Segrac, Belo Horizonte, 1990.
"Nuevos Escritos", L. A1thusser. Ed. Laia, Barcelona, 1978. "Ideologia y Aparatos Ideologicos de Estado", L.
A1thusser. Ficha de Ia Nueva Vision, Buenos Aires, 1971.
"Instituição e Poder", J. A. Guilhon Albuquerque. Ed. Graal, Rio de Janeiro, 1980.
"Metáforas da Desordem", J. A. Guilhon Albuquerque. Ed. Paz e
Terra, Rio de Janeiro, 1978.
"Metáforas do Poder", J. A. Guilhon Albuquerque. Ed. Achiamé
Socii, Rio de Janeiro, 1980.
"Sexualidade na Instituição Asilar", J. Birman. Ed. Achiamé/Socii,
Rio de Janeiro, 1980.
"La Teoria de Ia Institucion y de Ia Fundación", M. Haurion. Ed. Abeledo-Perrot, BuenosAires, 1968.
"Perspectives de l' Analyse Institutionnelle", coord. A. Savoye e R. Hess. Ed. Meridiens Klinscksieck, Paris, 1988.
"Psicohigiene y Psicologia Institucional", J. Bleger. Ed. Paidos, Buenos Aires, 1966.
"Los Sistemas Sociales como Defensa contra Ia Ansiedad", L Menzies y E. Jaques. Ed. Horme, Buenos Aires, 1969.
"Contrainstitucion y Grupos", A. Bauleo. Ed. Fundamentos, Madri, 1977.
"Psicologia de Ias Instituciones", F. Ulloa, in: Revista de Psicoanalisis, tomo XXVI, nº 1, Buenos Aires, jan./mar. 1969.
"Emergentes de una Psicologia Social Sumergida", A. Scherzer. Ed. de Ia Banda Oriental, Montevidéu, 1987.
"Salud Mental y rrabajo", coord, M. Matrajt. UAM, Cuernavaca, 1986. "Replanteo", M. Matrajt. Ed. Nevomar, México,
1985. "Subjetividad. Grupalidad. Identificaciones", J. C. De Brasi. Ed Busqueda Grupo Cero, Buenos Aires, 1990.
209 ▲
"Infâncias Perdidas – O Cotidiano nos Internatos", S. Altoé. Ed. Xenon, Rio de
Janeiro, 1990.
"m Proceso Grupal – Dei Psicoanalisis a Ia Psicologia Social", tomos 1 e 2, E.
Pichon-Riviére. Ed. Nueva Vision, BuenosAires, 4ª ed.1978. ''A Pesquisa-Ação na
Instituição Educativa", R. Barhier. Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 1985."
Les Méres "Fol1es" de Ia Place de Mui", A. Martin. Ed. Renaudot, Paris, 1989.

Periódicos;

Bul1etin de Ia Societé D' Analyse Institutionnel1e. Ed. SAI, Paris, cerca de 20


números.
Revista Autogestions. Ed. Privat, Toulouse, cerca de 30 números. Revista
Connexions. Ed. Epi, Paris, cerca de 30 números.
Revista Sociopsychanalyse. Ed. Payot, Paris, cerca de 20 números. Revista Lo Grupal. Ed. Busqueda, Buenos Aires,
oito números. Revista Saudeloucura, coord. A. Lancetti, quatro números. Fd. Hucitec, São Paulo.
''As Instituições e os Discursos". Revista Tempo Brasileiro n° 35. Ed. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1974.
"Sociopsicoanalisis e Institucion", Ed. Hogar deI Libro, Barcelona, 1984.

210
O AUTOR

Da formação em Psiquiatria à militância junto ao Movimento Instituinte Internacional, Gregorio F. Baremblitt vem
traçando um longo e fecundo percurso como médico psiquiatra, psicoterapeuta, professor, pesquisador, analista e
interventor institucional, esquizoanalista, esquizodramatista e escritor em diversos países da América Latina e Europa.
Esse percurso teve início há 40 anos, na Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires, da qual é
livre-docente, e foi-se tornando mais rico e complexo a cada momento em que o médico buscou o cruzamento da
Medicina com outras áreas. Movido pela inquietação daqueles que não se contentam com o conforto garantido pelo
reconhecimento dado aos especialistas consagrados, Gregorio Baremblitt buscou sempre expandir sua atuação até as
fronteiras da Medicina com a Política, a Sociologia, a Filosofia, a Arte e também os saberes populares. Esse olhar
generoso e ao mesmo tempo rigoroso sobre os saberes e fazeres do mundo contemporâneo tem rendido não apenas uma
ampla produção intelectual, mas também diversas ações nos planos de coletivos diversos: em 1970, Gregorio foi
membro-fundador do grupo psicanalítico argentino denominado Plataforma, primeira organização no mundo separada
da Associação Psicanalítica Internacional por motivos políticos. Ao se estabelecer no Brasil em 1977, fundou, no Rio de
Janeiro e em São Paulo, o Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições (Ibrapsi), e o Instituto Félix Guattari
de Belo Horizonte, do qual é atualmente o coordenador-geral. Sua atuação no campo da saúde mental inspirou outros
profissionais a criarem a Fundação Gregorio Baremblitt, em Uberaba (MG), uma das primeiras entidades do país a
instituir formas de tratamento mental em sintonia com os ideais da Luta Antimanicomial. Gregorio é autor de
numerosos livros e artigos científicos e organizador de seis congressos internacionais em sua área de atuação. Este
Compêndio é fruto de um grande esforço para traduzir as temáticas, correntes e questões do Movimento Instituinte para
aqueles que estão iniciando seus estudos e ações nesse campo, sempre ancorados em duas palavras-chave: auto-análise
e autogestão.

211 OUTRAS OBRAS DO AUTOR


"Introdução à Esquizoanálise". Ed. Instituto Félix Guattari, Belo Horizonte, 1998.
"Lacantroças". Ed. Hucitec, São Paulo. Traduzido para o espanhol. "Cinco Lições sobre a Transferência". Ed. Hucitec,
São Paulo, 1991. "Saber, Poder, Quehacer yDeseo". Ed. Nueva Vision, Buenos Aires, 1988. ''Ato Psicanalítico, Ato
Político". Ed. Segrac, Belo Horizonte, 1987.
"O Inconsciente Institucional", em colaboração com outros autores. Ed. Vozes, Petrópolis, 1984. Traduzido para o
espanhol.
"Grupos, Teoria e Técnica", em colaboração com outros autores. Ed. Graal Ibrapsi, Rio de Janeiro, 1982.
"La Cura". Ed. Universidade Autônoma do México, Cidade do México, 1980. "Progressos e Retrocessos em Psiquiatria
e Psicanálise". Ed. Global Ground, Rio de Janeiro, 1978.
"La Interpretacion de los Suenos: Una Técnica Olvidada", em colaboração com outros autores. Ed. Helguero, Buenos
Aires, 1976.
"El Concepto de Realidad en Psicoanalisis", em colaboração com outros autores. Ed. Socioanalisis, BuenosAires, 1974.
"Psicoanalisis: Teoria y Practica", em colaboração comM. Matrajt. Ed. Centro Editor Latinoamericano, Buenos Aires,
1972.
"Cuestionamos", em colaboração com outros autores. Ed. Busqueda, Buenos Aires,1971.
Há também numerosos prólogos e artigos publicados em revistas científicas, culturais, livros e jornais da América
Latina e Europa.
212

INSTITUTO FÉLIX GUATTARI DE BELO HORIZONTE


O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (MG) é uma organização não-governamental fundada no ano de
1996. Seu nome é uma homenagem ao célebre intelectual e militante francês Félix Guattari, e suas atividades têm como
inspiração a Utopia Ativa que guia a obra de Gilles Deleuze e do homenageado: a Esquizoanálise, que é também a do
Movimento Instituinte Internacional.
O Instituto foi criado pelo autor deste Compêndio – o professor de Psiquiatria, terapeuta e institucionalista
Gregorio Baremblitt, um dos introdutores das idéias desses autores em vários países da América Latina e Europa – em
parceria com Margarete Amorim, psicóloga, analista institucional e esquizodramatista, e junto a um grupo de colegas
institucionalistas.
O Instituto é uma organização vinculada à Fundação Gregorio F.
Baremblitt de Uberaba (MG), estabelecimento este que já conta mais de uma década de existência ancorada em uma
orientação e atividades comuns com o Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte, mas com ênfase na prática clínica.
O Instituto desenvolve atividades de prestação de serviços em análise e intervenção de organizações,
movimentos e grupos públicos e privados, governamentais e não-governamentais que atuam nas áreas de educação,
saúde, trabalho, justiça, arte, ecologia, políticas públicas etc.
O Instituto Félix Guattari de Belo Horizonte (IFG-BH) também promove cursos e grupos de estudo, conduz
pesquisas, organiza eventos, supervisiona trabalhos técnicos e práticos, edita e distribui livros e gerencia programas
sociais, sendo todas as atividades pautadas em sua orientação.
O IFG-BH tem diversas parcerias com organizações nacionais e estrangeiras afins, e está aberto a todos aqueles
que compartilham de seus ideais. Os interessados em entrar em contato com o Instituto Félix Guattari podem fazê-lo
através dos telefones (31) 3284.1083 e 3221.7352 (Fax), e-mail guattari.bh@terra.com.br ou pelo site
www.ifgorg.hpg.com.br . Sua sede fica na Rua Herval, 267 – Serra, Belo Horizonte, MG. Cep 30240-010.
213 ▲

Você também pode gostar