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Mutações do trabalho, mutações do corpo (I)

Deyvison Rodrigues Lima (Doutor - UFRJ 2017)

Resumo. A precarização é a principal característica do mundo do trabalho hoje. Se as relações sociais


foram estabelecidas conforme a organização do trabalho, a investigação sobre suas formas e práticas se
torna fundamental para a análise da crise da sociabilidade contemporânea. Esta pesquisa pretende dar
conta da natureza das relações da condição salarial, sobretudo a partir das metamorfoses por que passou o
trabalho, da tutela para o contrato e do contrato para o estatuto, até tornar-se o principal responsável pelas
configurações culturais e simbólicas. Diante desta condição, investigam-se algumas questões: por que a
insistência na obrigação de trabalhar? Como os personagens do trabalhador e do vagabundo surgem nas
sociedades modernas? De que forma o trabalho dignifica o homem? O tratamento dessas questões,
proposto numa perspectiva genealógica, permite o resgate das dimensões antropológicas e históricas da
constituição da sociedade salarial e revela sua marca fundamental. A genealogia enquanto método de
análise histórica expõe a natureza e o desenvolvimento ambíguo do trabalho assalariado na modernidade.
Investigam-se as coordenadas da reviravolta no sentido do trabalho que da última posição tornou-se a
matriz da sociabilidade no século XX. A narrativa que se faz sobre as metamorfoses do trabalho justifica
uma tese de inspiração nietzscheana: iluminado o percurso, vê-se que o trabalho surge como punição e
castigo, marcado pela precarização. A pesquisa que a partir daí se produziu levanta a tese de que a
precarização não é característica exclusiva do atual mundo do trabalho, mas acompanhou os trabalhadores
ininterruptamente, porém de forma dissimulada. Dessa forma, a reflexão genealógica é capaz de recuperar
o sentido perverso e original do trabalho e caracterizá-lo desde o começo pelo signo da precarização,
inaugurando perspectivas sobre as origens do trabalho, a questão social, a precarização do trabalho e o
desemprego.

Desde a Antiguidade, o trabalho é marcado por uma concepção peculiar: é a


maldição divina pelo pecado original. Uma breve análise etimológica revela sua
negatividade originária na relação com o termo latim tripaliare, que vem de tripalium,
instrumento de tortura aplicado como forma de punição e sofrimento, o que lembra, em
todo caso, o instituto da escravidão (ANTUNES, 2005, p. 11). Ainda no século XVI, o
trabalho mantém seu valor em função da esfera religiosa, servindo mais por suas
capacidades moralizadoras e disciplinadoras do que por sua utilidade econômica. O
exemplo disso é uma medida ostensivamente utilizada em algumas regiões da Europa
central: mendigos, ociosos, vagabundos, criminosos e toda espécie de indesejáveis
sociais eram presos num porão inundado e obrigados a bombear a água para evitar o
próprio afogamento, demonstrando assim o caráter redentor do trabalho (cf. CASTEL,
1998). Entretanto, o trabalho – por óbvio, justificado e obrigatório para as classes
inferiores – era sinal de vergonha para as elites. Ainda no século XX, a aristocracia
europeia rejeitava ganhar dinheiro que não fosse por meio de privilégios, controle da
produção ou de rendas. Trabalhar era uma vergonha, atividade justificada por coerções
religiosas, morais e econômicas e destinadas ao povo que não possui nada além da força
de seus braços. A isenção de trabalhar era alcançada apenas quando se dispunha do
trabalho dos outros, posição desejada que estabeleceu a distinção entre trabalho e
patrimônio até a ascensão e a dignificação do assalariamento e da moderna sociedade de

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consumo. O trabalho assalariado e a consequente consolidação da sociedade salarial
formaram as massas dos tempos modernos e ressignificaram o símbolo do trabalho
como benção e do trabalhador como homem digno. Na verdade, já desde o século XVIII
e do Iluminismo, o trabalho se transformou pouco a pouco no fundamento do
desenvolvimento da civilização moderna e até mesmo na característica que constituiria
originalmente o homem. Entretanto, a questão do trabalho ressurge como problema e
seus fundamentos são postos novamente em evidência, agora sob outras luzes. Em
tempos de insegurança e mutação das condições da vida, a análise dos fenômenos
contemporâneos pode dar o suporte necessário para a formação da sociedade que vem.
Uma pesquisa sobre os novos paradigmas do trabalho encontra os paradigmas atuais em
crise: o fim da sociedade salarial, do (quase) pleno emprego, antigas e novas relações
salariais precarizadas, a incerteza dos estatutos jurídicos, a reestruturação produtiva, a
mundialização e financeirização da economia, a acumulação flexível, a uberização,
entre outros fenômenos que dão uma nova morfologia ao trabalho no século XXI que,
em parte, foi abordada nesta pesquisa.
Inicialmente, a investigação histórico-conceitual empreendida revelou a
dimensão do fenômeno do trabalho não apenas enquanto técnica de produção, mas
como suporte privilegiado da estrutura social. A partir dessa compreensão, percebe-se
que o que está em jogo não é apenas a produção de riquezas ou a administração dos
corpos, mas o eixo das relações sociais fundamentadas na centralidade do trabalho.
Existe uma evidente continuidade entre formas de salarização e formas de sociabilidade.
Diante disso, anuncia-se uma falência ruidosa ao constatar a ruptura desse modelo:
ocorreu uma reviravolta em torno do trabalho que se tornou a matriz das formas
modernas de sociabilidade e de racionalidade. Nessa metamorfose do trabalho nas
sociedades ocidentais, contempla-se a passagem de um paradigma social que
considerava o trabalho como forma de existência indigna e miserável para um modelo
de sociedade dita salarial, ou seja, onde a condição do trabalho seria a categoria central
para as configurações culturais, simbólicas e identitárias. Por que formas e motivos
ocorreu esta curiosa migração e para aonde vai é a tarefa inicial da genealogia proposta.
Com a substituição da tutela do antigo regime pelo contrato liberal, deu-se
um movimento ambíguo: a condição laborativa se liberou ao mesmo tempo da sua
fragilização, ou seja, foi instaurada uma vulnerabilidade de massa que condicionou o
livre acesso ao trabalho. Dissolveram-se as formas seculares de organização dos ofícios
que impediam a ascensão de uma condição salarial e, paralelamente, o regime liberal do

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contrato organizou os trabalhadores, a partir de então destituídos de vínculos ou
suportes. A condição dos trabalhadores tornou-se ainda mais precária com a instituição
do contrato1 e o grau zero de direitos e garantias que se tornou, historicamente, o
primeiro modelo da sociedade salarial. Portanto, haveria no início do mundo do trabalho
moderno, uma insegurança social permanente que, posteriormente, cedeu às formas de
proteção do trabalhador: do contrato liberal para o estatuto social. Esta nova
conformação social decorreu do compromisso entre os interesses de mercado e as
reivindicações do trabalho traduzido na expressão do Estado social-democrata que
envolve, paradoxalmente – em um processo de exclusão social, de naturalização de
pessoas inempregáveis e de legalidades que legitimam processos de precarização –
políticas sociais, direitos e garantias constitucionais, formas de inserção e de integração
e zonas de assistência, buscando solucionar a delicada equação. De qualquer maneira,
novas formas de proteção e segurança social foram legisladas e efetivadas
principalmente após a 2ª guerra mundial até chegar novamente a um enfraquecimento
contemporâneo da condição salarial e fragmentação social, além do retorno da questão
social como vulnerabilidade de massa diferente de uma pobreza de massa. Em síntese:
os riscos da miséria e da dissociação social atingem agora não apenas os marginais, mas
toda a sociedade. A categoria do trabalho é posta a partir de então em questão.
Desde a industrialização e dos fatores de dissociação do corpo social até as
atuais práticas flexíveis de emprego, outro problema que se impõe à análise é a figura
do assalariado, uma vez que está nela o fundamento da organização do trabalho
moderno. Com efeito, a nova lógica gerencial e a reestruturação produtiva do capital
provocaram a desestruturação do trabalho e colocaram em risco a sociabilidade, já
precária, forjada nos moldes modernos. Nesse contexto de estruturas sociais
fragmentadas, parcela da população experimentam situações de vulnerabilidade,
desemprego, empregos flexíveis, desfiliação e, sobretudo, expulsão do corpo social.
Tais características das situações de precarização são signos antigos que a sociedade do
trabalho pós-industrial ainda traz consigo. Em todo caso, a condição do trabalho
degradado apresenta-se como destino marcado pela precarização decorrente da

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Sobre o surgimento do contrato como relação entre capital e trabalho na era moderna, o contrato de
aluguel do Código Napoleônico tornou-se o paradigma da relação de trabalho na guinada das corporações
ao contrato: “o contrato de trabalho estabelecido sem determinação de prazo pode cessar por iniciativa de
uma das partes contratantes” (art. 1780, Código Civil napoleônico). Nota-se, sem ingenuidades de
qualquer tipo, a farsa da igualdade jurídica: a fragilização do trabalho pela liberalização da condição
salarial. Cf. CASTEL, 1998. p. 500.

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reestruturação e mundialização da produção, das condições do trabalho através das
práticas atuais de contratação da força de trabalho e da questão social como a existência
de indivíduos supranumerários e inúteis para o mundo, além da vulnerabilidade e
instabilidade de massa.
Para nossa abordagem, torna-se paradigmático o desenvolvimento teórico da
categoria do vagabundo e suas relações. Trata-se, na verdade, de conceito pouco
reconhecido nos estudos sociológicos ou jurídicos em geral. O vagabundo,
diferentemente do trabalhador, é o desfiliado por excelência já que não possui vínculo
algum, em outros termos, um corpo inútil. Marginalizado, desvinculado, criminalizado,
o vagabundo vivenciou duas situações bastante específicas: a ausência de trabalho e o
fato de ser “sem fé nem lei”, ou seja, não possuir pertencimento comunitário e fugir de
toda inscrição social. A condição de vagabundo, se é que se pode falar nesse caso de
uma condição, é o extremo de um processo de desfiliação social provocado
originalmente pela precariedade da relação com o trabalho. De qualquer forma, eram
inimigos da ordem pública, tratados como criminosos e, quando capturados, forçados a
trabalharem para que através do trabalho, sob interpretação religiosa, mortifiquem as
inclinações naturais e alcancem a redenção. Entretanto, a rigor, o vagabundo representa
de certa forma a primeira configuração da condição do salariado, ou melhor, da sua não
condição. Ele é o assalariado puro, aquele que possui apenas a força de seus braços e
vivencia um grau zero de direitos e garantias até a desfiliação completa. O
desenvolvimento da tipologia apresentada revela, genealogicamente, a situação histórica
de fragilidade e precariedade originária dos trabalhadores atuais, porém como uma
experimentação de resistência: no corpo vagabundo surge a inoperosidade que,
simplesmente, rejeita a dominação, que torna sua figura algo próximo da inoperosidade
proposta por Jean-Luc Nancy (NANCY, 2016).
Na distinção realizada entre o vagabundo e o trabalhador, após as
transformações do século XVIII, são postos em evidência estes lugares sociais enquanto
zonas de fixação da população, ou numa linguagem foucaultiana, zonas onde técnicas
de disciplina e sujeição dos corpos exercem o poder disciplinar (FOUCAULT, 2005).
Nesse ponto, o mecanismo de poder nas sociedades modernas se revela: o poder
soberano que antes atuava sobre a terra, considerada a fonte das riquezas e que
vinculava o trabalhador mediatamente, passa, com as transformações da economia e da
política liberal do século XVIII, a ser exercido sobre o corpo do indivíduo, mais
especialmente daquele que faz parte da massa de trabalhadores, a partir de então

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reconhecidos como os sujeitos que produzem a riqueza social. A figura do vagabundo
deixa de ser tolerada. Socialmente rejeitado e juridicamente criminalizado, o vagabundo
não é apenas quem não tem vínculo de trabalho ou aquele que não possui bens, família
ou residência: é a pessoa que escapa da regra do disciplinamento e da sujeição. Por não
ser entrelaçado e fixado pelo trabalho em suas formas institucionalizadas, o vagabundo
é a testemunha principal das transformações que se anunciam desde já a Baixa Idade
Média e representa o sujeito fora da estrutura da normalização social baseada no
trabalho. Nesse contexto, propomos desenvolver uma “perspectiva do vagabundo” sobre
o trabalho, ou seja, como a forma de vida capaz de mobilidade, fuga e resistência de
modo singular.
A questão do trabalho dispõe de um tratamento paradigmático de
historiadores e sociólogos que partem, prioritariamente, da perspectiva moderna, tais
como, do juízo de que o trabalho constitui o homem como categoria central da
sociabilidade. Nossa proposta é a recuperação da narrativa da constituição da sociedade
salarial, porém sob uma perspectiva não antropocena: a sofisticação alcançada no século
XXI conseguiu neutralizar a marca fundamental do trabalho, qual seja, a precarização?
*
* *
As tutelas e coerções do Estado absolutista e a organização tradicional dos
ofícios conspiravam para manter o indivíduo dependente, porém, em compensação,
protegido. As situações de proteção lhes fixavam na terra, na localidade que habitava e,
por conseguinte, marcava a imobilidade social das sociedades tradicionais. Quem se
aventurava a desafiar a ordem imposta, submetia-se a uma dupla coerção: ter que
arranjar trabalho para sobreviver e não o poder fazer por estar longe de casa. Por isso,
acontece nessa organização social a necessidade crescente de se recorrer ao
assalariamento e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de regular uma condição salarial
devido à persistência das tutelas tradicionais que comprimiam o trabalho em redes
rígidas de obrigações sociais e não puramente econômicas. Na cidade, por exemplo:
as corporações de ofício organizam-se em comunidades autônomas que
dispõem do monopólio da produção. O artesanato não é o assalariamento,
mas constitui, historicamente, sua principal matriz. A unidade de base de
ofício é, de fato, constituída pelos mestres artesão, proprietário de suas
ferramentas, de um ou dois ‘empregados’ ou companheiros e de um ou dois
aprendizes. (CASTEL, 1998, p. 153).
Além do trabalho tradicional no campo, as cidades mantinham como padrão
de organização do trabalho o modelo das corporações de ofício. De todos os
personagens do trabalho citados acima, apenas os companheiros são assalariados, visto

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que os aprendizes não são remunerados por sua atividade e o mestre é o proprietário da
corporação de ofício. Porém, essa estrutura de organização do trabalho, em seu
funcionamento ideal, faz da condição de assalariado um estado transitório, efêmero e
indesejado, já que a sucessão natural das funções eleva o companheiro à posição de
mestre e o aprendiz à posição de companheiro do ofício, que logo aspira ser mestre e ter
seu próprio ofício. A condição de assalariado nas cidades tem sua primeira forma de
manifestação sob o rígido sistema de tutelas tradicionais do antigo regime que lhe
conferia uma condição relativamente sólida, porém transitória e extremamente
controlada. A situação salarial é cobiçada apenas como meio para tornar-se mestre,
momento que o companheiro abandona o assalariamento e passa a gozar de todas as
prerrogativas do ofício. Essa estrutura foi próspera nos séculos XII e XIII, participando
da organização do trabalho “industrial” na cidade medieval, mas sobrevive até pelo
menos o século XVIII com algum fôlego nas cidades da Europa continental.
Apoiado no poder régio, o sistema corporativo fortalece os ofícios
tradicionais e as manufaturas reais com rígida organização e controle. A participação
em um ofício de uma corporação marca o pertencimento a uma comunidade
distribuidora de prerrogativas e de privilégios que asseguram um estatuto social para o
trabalho, visto que:

[a] dignidade coletiva de que a profissão, e não o indivíduo é proprietária. O


trabalhador não é um assalariado que vende sua força de trabalho, como no
sistema posterior de produção, mas o membro de um corpo social cuja
posição é reconhecida num conjunto hierárquico [...] as regulamentações das
profissões não têm apenas o papel técnico de organizar a produção e garantir
a qualidade dos produtos: impedem a existência de um mercado em que as
mercadorias circulariam livremente: nem concorrência, nem liberdade de
aumentar a produção, muito menos um mercado de trabalho. (CASTEL,
1998, p. 155).
Dessa forma, a tensão entre sociedades de ordens e de estatutos e sistemas
de coerções caracterizava a organização do trabalho e da sociedade pré-industrial:
trabalho regulado, forçado e controlado. Assim, na vigência do sistema tradicional das
tutelas, característico da sociedade pré-industrial, aproximadamente da metade do
século XII até fim do século XVIII, o trabalho é colocado sob rígidas redes de
obrigações sociais e não, como mais tarde o liberalismo propõe, sob elementos
estritamente econômicos. A condição de assalariado não conseguia superar a
organização social tradicional e regularizar uma condição salarial, pois o sistema de
coerções sufocava a atividade laborativa. No entanto, ocorreram fatos importantes no
século XIV, na busca da mobilidade social e liberalização do trabalho. O choque que

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abalou a formação da sociedade tradicional põe a máquina real a serviço e proteção das
velhas prerrogativas e tutelas do mundo feudal. Em 1349, Eduardo III, rei da Inglaterra,
promulga o conhecido Estatuto dos Trabalhadores (Statum serventibus, Statute of
Labourers). Para compreender como esse estatuto representa um ponto de inflexão no
tratamento da questão do trabalho, abaixo estão alguns trechos:
Dado que uma parte importante da população, especialmente, entre os
trabalhadores e os serviçais, foi, recentemente, vítima da peste, muitos, vendo
a necessidade em que se encontram os senhores e a grande penúria de
serviçais, não querem mais servir, a não ser que ganhem salários excessivos,
e alguns preferem mendigar a ganhar sua vida trabalhando [...]. A partir
disso, ordenamos: Que cada súdito, homem ou mulher, de nosso reino na
Inglaterra, qualquer que seja sua condição, livre ou servil, que seja válido
como menos de sessenta anos de idade, que não viva do comércio ou que não
exerça ofício de artesão, que não possua bens dos quais se possa viver, nem
terras a cuja cultura possa dedicar-se, e que não esteja a serviço de ninguém,
se for requisitado para servir de um modo que corresponda a seu estado, será
obrigado a servir àquele que assim o tiver requisitado; e receberá, pelo lugar
que será obrigado a ocupar, somente o pagamento em gêneros, alimentos ou
salário que estava em uso durante o vigésimo anos de nosso reinado [...] e, se
um homem ou mulher, sendo assim requisitado para servir, não o fizer, este
fato sendo atestado por dois homens dignos de fé diante do xerife, do senhor
ou do chefe da cidade, ele ou ela será imediatamente levado por esses à
prisão mais próxima onde será mantido sob rigorosa vigilância até que se
tenha certeza que servirá sob uma das formas enunciadas acima. Ordenamos
ainda que, se um trabalhador ou serviçal deixar seu serviço antes do tempo
requerido, será preso. Que os antigos salários, sem nenhum acréscimo, serão
dados aos trabalhadores. Que, se o senhor de uma cidade ou de um domínio
infringir de algum modo esta disposição, pagará multa equivalente ao triplo
da soma dada. Que, se um artesão ou um operário receber um salário mais
alto que lhe é devido, será preso. (Apud CASTEL, 1998, p. 98, grifo nosso).
Essa longa citação nos mostra a vinculação dos principais elementos da
problemática do trabalho na incipiente modernidade. O trabalho é pregado como um
imperativo categórico – inclusive, em seus efeitos morais – para aqueles que não
possuem outro recurso para viver senão a força de seus braços. Além disso, o serviço
exercido deve se adaptar o mais estreitamente possível às formas de divisão das tarefas
fixadas pela tradição e pelo costume. É ordem real que aquele que já trabalha
permaneça em seu emprego e quem está em busca de trabalho, aceite a primeira
injunção que lhe for feita nos limites territoriais, marcando o sistema de dependências
de uma sociedade ainda dominada pelas estruturas feudais. Ademais, a impossibilidade
da retribuição pelo trabalho, que não pode ser objeto de negociações ou de ajustes, nem
mesmo de flutuações espontâneas, mas que se achava imperativamente fixada de uma
vez por todas bloqueia a ascensão de um mercado de trabalho. Essas disposições
formam um código geral do trabalho útil para nosso diagnóstico.
Mesmo cercado pela dinâmica incipiente do capitalismo nascente, o sistema
corporativista impede a promoção de um livre mercado da mão-de-obra e a formação de

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uma condição salarial, que ainda levaria pelo menos três séculos para se mostrar sólida.
O movimento histórico que substitui as tutelas tradicionais pelo contrato esperaria o
momento da modernidade liberal para se impor. O trabalho para ser livre e criar uma
sociedade salarial teria que se estabelecer como relação de troca, compra e venda, em
função das necessidades de um mercado.
Depois da revolução industrial, a condição de assalariado e o próprio
trabalho, genericamente, são pensados a partir do modelo da liberdade e do contrato.
Passa a ser regularizado pelo empreendimento, pela liberdade de contratar e pelo
modelo do mercado que coordena as ações em sociedade. Na época da instauração da
sociedade liberal, o esforço de redefinir o conjunto das relações de trabalho num quadro
contratual representou uma ruptura tão profunda quanto a mudança de regime político.
A condição de assalariado livre se torna a forma juridicamente consagrada das relações
de trabalho, mas a situação salarial permanece ainda por muito tempo com a conotação
de precariedade e de infortúnio. Assim, relações salariais mais livres são também menos
garantidas e correm o risco de promover vulnerabilidade e desagregação do corpo
social. A liberdade era opressiva e selvagem demais para os que podiam apenas
suportar. Estes, sem vínculos ou apoios, pereciam desprotegidos sob a pressão e alijados
das redes de sociabilidade. A questão social surge mais outra vez, sob as vestes do
pauperismo e da vulnerabilidade. Se no sistema tradicional de organização social do
trabalho, a questão social nascia do excesso de proteções e obrigações coercitivas, que
impediam o acesso ao trabalho e à subsistência; agora retorna provocada pela liberdade
trazida da nova organização social. Dessa vez, o remédio proposto foi o Estado social,
criado para esconjurar os riscos da atividade do trabalho, construindo sistemas de
garantias e direitos na esperança de manter a coesão da sociedade. A questão do
trabalho passa a ser uma questão do Estado.
A substituição da tutela pelo contrato provocou a liberalização da condição
operária no início da sociedade industrial e do liberalismo político e econômico, porém
fez surgir também uma massa de indivíduos sem apoio ou vínculos, vulnerável e
miserável. Paradoxalmente, a condição operária se fragilizou com sua libertação do
sistema de tutelas do antigo regime de produção. Estavam entregues ao risco e à
vulnerabilidade de massa com um grau zero de direitos e garantias. A instituição do
livre acesso ao trabalho desconstituiu o modelo de organização dos ofícios e abriu
espaço para a instalação de uma condição salarial que até então era asfixiada na
vigência das tutelas. Mesmo representando um avanço político e jurídico, o estatuto

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liberal, como a primeira configuração da condição salarial, definiu o estado de
assalariamento como impossível de ser vivido, uma vez que fragilizava e desprotegia o
trabalhador, colocando-o sob a premência da necessidade e no limiar da sobrevivência.
*
* *
Em análise sobre o pauperismo do século XIX, Tocqueville investiga as
condições de vida em Portugal e na Inglaterra. No primeiro, identifica uma sociedade
pré-industrial, onde a pobreza em massa é apenas visível porque integrada e assistida
por redes primárias de sociabilidade camponesa ou ainda por formas simples de
assistência. Enquanto que na Inglaterra, potência mundial, líder no desenvolvimento
industrial e econômico do século XIX, a indigência é onipresente, maciça e aumenta
proporcionalmente com a produção industrial. A questão social é formulada a partir do
novo núcleo de instabilidade social. Com o pauperismo, manifesta-se o perigo de uma
desfiliação de massa inscrita no próprio processo de produção de riquezas.
Desse esboço geral, sedimentam-se algumas relações de trabalho da
sociedade industrial até o século XX. São modalidades de situações que moldaram a
sociedade salarial contemporânea: a condição proletária, a condição operária, a
condição salarial. Todas possuem aspectos similares, mas diferenciam-se na forma de
proteção social e extensão de direitos e, ainda, pelo reconhecimento como força social
determinante. Utilizam-se os termos condição proletária, condição operária e condição
salarial como as três formas históricas dominantes de cristalização das relações de
trabalho na sociedade industrial. A condição de assalariado, como a condição a partir da
qual os indivíduos estão distribuídos no espaço social e não apenas como modo de
retribuição de salário, suporta essas diferentes mutações. Enquanto a condição proletária
é uma situação de quase exclusão do corpo social, como vimos na origem da questão
social, a condição operária torna-se um pouco mais complexa. Constituiu uma nova
relação salarial: modifica a prática do assalariamento que não é mais apenas a
retribuição pontual de uma tarefa, mas assegura direitos, dá acesso a subvenções e
permite uma participação ampliada na vida social: consumo, habitação, instrução e até
mesmo lazer. Traduz uma integração da situação de vulnerabilidade. Por sua vez, a
ascensão de uma condição salarial representa a maior promoção da condição geral de
assalariado. Desenvolvem-se setores profissionais modernos que dependem de títulos e
diplomas, ganha-se status social, modos culturais próprios, prestígio, segurança, bens,
crédito e acesso à propriedade. De certa forma, a relação negativa entre trabalho e
patrimônio é rompida, visto que gera bons salários, posições de poder e prestígio. Nesse
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novo paradigma do trabalho, pessoas que dependem exclusivamente de seu emprego
podem alcançar patrimônio. Assim, surge uma incipiente sociedade de consumo,
comandando o sistema de relações entre as categorias sociais, segundo o qual os objetos
possuídos são os marcadores das posições, de uma classificação cuja origem é a
atividade laborativa.
O movimento histórico da ascensão repentina do trabalho – passando do
último lugar, da situação mais desprezada, ao lugar de honra e tornando-se a mais
considerada das atividades humanas – começa quando Locke descobriu no trabalho a
fonte de toda propriedade; prossegue quando Adam Smith afirma que o trabalho é a
fonte de toda riqueza; e atinge seu ponto culminante no ‘sistema de trabalho’ de Marx,
em que o trabalho se tornou a fonte de toda produtividade e a expressão da própria
humanidade do homem. A partir de então, a condição do homem moderno é
determinada pelo trabalho que executa e sua situação social.
Em análise sobre o pauperismo do século XIX, Tocqueville investiga as
condições de vida em Portugal e na Inglaterra. No primeiro, identifica uma sociedade
pré-industrial, onde a pobreza em massa é apenas visível porque integrada e assistida
por redes primárias de sociabilidade camponesa ou ainda por formas simples de
assistência. Enquanto que na Inglaterra, potência mundial, líder no desenvolvimento
industrial e econômico do século XIX, a indigência é onipresente, maciça e aumenta
proporcionalmente com a produção industrial. A questão social é formulada a partir do
novo núcleo de instabilidade social. Com o pauperismo, manifesta-se o perigo de uma
desfiliação de massa inscrita no próprio processo de produção de riquezas.
No entanto, a fratura central do mundo do trabalho na instauração de uma
condição proletária – e, posteriormente, numa condição salarial característica da
sociedade salarial contemporânea – é o reaparecimento da questão social do início da
industrialização. A oposição entre capital e trabalho, seguridade-propriedade e
vulnerabilidade de massas na dinâmica dos séculos XVIII e XIX provoca, como vimos,
o pauperismo e a dissociação da sociedade. A condição proletária expõe, a rigor, uma
situação de quase-exclusão social, na qual o proletário se mostra essencial no incipiente
processo de industrialização, mas permanece alienado do mundo dos homens que se
dissocia ao perceber sua contradição. Nos tempos difíceis do começo da
industrialização, as estruturas governamentais dos países ocidentais responderam a um
desafio comum: a industrialização e a fragmentação social decorrente do hiato entre
organização política e o sistema econômico. A lição dessa recomposição histórica é

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paradoxal, pois apesar de profundas alterações na configuração do trabalho, o perigo da
questão social se renova. Dessa maneira, a sociedade salarial é implantada na
civilização ocidental. A salarização da sociedade encontra seu apogeu nas décadas de
1960 e 1970, quando a maior parte da população depende de um salário para viver.
Porém, uma sociedade salarial não é apenas um nexo de posições assalariadas dentro da
lógica da concorrência e da distinção. É também um modo de gestão política que
associou a sociedade privada, o desenvolvimento econômico, o mercado e o Estado,
direitos sociais e a propriedade social.
O tratamento encontrado, num primeiro momento, não passava pelo Estado,
uma vez que contradizia os princípios de governabilidade liberal. A recusa obstinada
dos liberais em fazer da assistência uma questão de direito tinha como contrapartida a
implantação de outro tipo de regulação dos problemas sociais: não como direitos de
assistência, mas como simples práticas de assistências. Esgotadas as possibilidades
destas práticas, a chegada do século XX propicia a introdução de uma nova
personagem: o Estado social. Ganha espaço sobre as concepções liberais, porém, como
a ação do poder público pode impor-se de direito se as intervenções sobre a propriedade
e a economia são excluídas por principio no sistema político e social do liberalismo?
Nessa época, o crescimento econômico e a ingerência do Estado conseguiram aumentar
a produtividade, elevar o consumo e a renda social e, através de políticas de assistências
amplas, amenizar as desigualdades. Essas ações favoreceram a consolidação da frágil
condição salarial e o advento do ideal social-democrático: a supressão progressiva das
desigualdades. A sociedade salarial, recém-formada, parece arrebatada nesse momento
de consolidação à acumulação de bens e de riquezas, à criação de novas posições
sociais, de oportunidades inéditas, à ampliação dos direitos e garantias, à multiplicação
das seguridades e das proteções: essa é a lógica da promoção da condição de
assalariado. No entanto, a sofisticação da nova condição do trabalho não disfarçava sua
fragilidade.
Diante do quadro da composição da sociedade salarial, observamos que o
trabalho deixou de ser um assunto privado para se tornar em matéria do Estado,
inclusive com órgãos específicos e inúmeras políticas públicas com o intuito de regular
a atividade produtiva. Portanto, a partir da necessidade de novas formas de segurança e
de proteção social, o Estado social representava um compromisso entre os interesses do
mercado e as reivindicações do trabalho. Entretanto, a questão fundamental era saber
como a ação do poder público pode se impor legitimamente quando são excluídas as

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ações diretas sobre a propriedade e sobre a economia. Por isso, a primeira matriz do
Estado social exigia uma imposição de sistemas de garantias legais de forma que a
seguridade não dependa mais exclusivamente da propriedade. Nesse contexto, a
intervenção do Estado social se bifurcou em três direções principais que se
desenvolveram no quadro dessa nova formação: a garantia de uma proteção social
generalizada, a manutenção dos grandes equilíbrios e condução da economia e a busca
de um compromisso entre os diferentes parceiros implicados no processo de
crescimento.
A criação de um sistema eficaz de seguridade social constitui o principal
elemento da proteção da condição de assalariado no prolongamento da propriedade de
transferência (CASTEL, 1998, p. 481). Com o objetivo declarado dos seguros sociais
de pôr fim à vulnerabilidade das classes miseráveis, ou seja, de completar a passagem
de uma sociedade de classes para uma sociedade salarial, a condição operária, mais
complexa do que a condição proletária, porém não menos problemática, ainda
procurava sair da precariedade secular. O Estado social tentava incluir justamente essa
população de risco abandonada à própria sorte e infortúnio. Assim, a organização estatal
da seguridade social encarrega-se de garantir os trabalhadores e suas famílias contra os
riscos que possam reduzir ou suprimir seu sustento e, além disso, subsidiá-los no caso
de maternidade, desemprego e outros encargos que a família suporta. Daí em diante,
ideias inspiradas por uma justiça social ou ainda pela ideologia da social-democracia
ganharam mais força. Dessa forma, a institucionalização do seguro submete a sociedade
a um regime da propriedade de transferência, ou seja, a seguridade social disponibiliza
para grupos mais vulneráveis em situações de fragilização ou incapacidades, como
doenças, velhice ou acidentes, parte da riqueza produzida. Pouco a pouco, as relações
diretas entre empregadores e assalariados foram substituídas progressivamente por
relações triangulares entre empregadores, assalariados e instituições sociais do Estado2.
Além dessa proteção social generalizada, o poder público assume o papel de
ator econômico e se desenvolve largamente após a Segunda Guerra Mundial. A
intervenção do Estado como regulador da economia é uma inovação da época e
transforma a concepção do Estado Liberal vigente até então. Uma análise mais
minuciosa dos eventos pós-segunda guerra mundial nos mostra primeiro um quadro de

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A realidade social desde o fim da década de 1980 é ainda mais complexa com a implantação do
neoliberalismo, com o advento de uma sociedade pós-industrial, com as consequências sociais de uma
racionalidade pós-moderna e, no campo social, com a expansão do terceiro setor, especialmente as
Organizações Não Governamentais (ONGs).

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reconstrução e, em seguida, uma conjuntura de modernização comandada pelo Estado,
que assumia agora a responsabilidade pela promoção da sociedade. A definição de
equilíbrios econômicos, dos domínios privilegiados de investimentos e de políticas de
reconstrução da economia através do incentivo à atividade privada e, principalmente, às
empresas nacionalizadas e setor público. Intervenções na produção, nos créditos, nos
preços e nos salários mostravam o poder de regulamentação do Estado (poderia agora
fixar, por exemplo, um salário mínimo geral ou então a escala de remuneração na
função pública). Com princípios keynesianos, o Estado compreendia que a economia
não é mais concebida como uma esfera separada, e como o Estado dirigia a economia,
pelo menos por um curto período, houve uma correspondência entre objetivos
econômicos, objetivos políticos e objetivos sociais. O papel regulador e planejador do
Estado social também interfere nas relações com os “parceiros sociais”. É a busca de
um compromisso negociado entre empregadores e assalariados. A iniciativa ou a
arbitragem do Estado auxiliaria na negociação sobre uma base contratual os interesses
divergentes. Esta situação implicava uma gestão diferenciada dos conflitos e a aceitação
de reivindicações relativas que devem resultar em compromissos mais do que em
efetivas mudanças globais. A social-democracia apostava na supressão progressiva das
desigualdades com arbitragens e compromissos negociados: era essa a marca do modelo
de gestão pública.
Nessa época, por exemplo, aparecem as primeiras legislações instituindo um
salário mínimo interprofissional, bem como o crescimento desse salário a partir da
indexação sobre o aumento dos preços e sobre a progressão do crescimento econômico.
São marcos históricos que reforçam a condição de assalariado, definem e dão um
estatuto legal às condições mínimas de acesso à condição salarial. A partir de então, um
assalariado não é apenas um trabalhador qualquer que recebe uma remuneração por um
trabalho: o trabalhador entra definitivamente na condição salarial. De certa forma,
registra-se uma garantia de participação no desenvolvimento econômico e social. Eis o
primeiro grau de pertencimento a um status de assalariado, graças ao qual um salário
não é mais um modo de retribuição econômica. O Estado de caráter social desempenhou
nesse desenvolvimento histórico da condição de assalariado um importante papel nas
políticas contratuais. Como analisa Robert Castel (1998, p. 493):
Os dispositivos paritários de garantia, engajando a responsabilidade do
Estado, permitiam pensar ainda que existia um quase-direito ao emprego, no
momento mesmo em que a situação começava a se degradar [...] Então,
realmente existiu uma poderosa sinergia entre o crescimento econômico com
seu corolário, o quase-pleno-emprego, e o desenvolvimento dos direitos do

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trabalho e da proteção social. A sociedade salarial parecia seguir uma
trajetória ascendente que, num mesmo movimento, assegurava o
enriquecimento coletivo e promovia uma melhor repartição das
oportunidades e das garantias.
Parecia, realmente, que a sociedade salarial, juntamente com seu benfeitor, o
Estado social, conseguiriam extinguir de uma vez por todas a exclusão e a
vulnerabilidade social que haviam marcado o início da sociedade moderna. A marcha
do progresso foi tomada e, aparentemente, não teria outro rumo que não a integração
social. Havia consumo de vários bens e, por conseguinte, crescimento do nível de vida,
acesso à propriedade, possibilidade de moradia decente (popular, mas decente),
participação na cultura e no lazer, oportunidades sociais, consolidação do direito do
trabalho, extensão das proteções sociais... mas o que deu errado, tendo em vista a
experiência do início do século XXI? Por que as regulações em torno do trabalho se
desvaneceram? Por que o desemprego em massa, a instabilidade e a fragmentação
social? O otimismo dos adeptos do Estado social – ou, mais precisamente, após a
década de 1980-1990, do neoliberalismo – dá lugar ao semblante preocupado dos
economistas à beira de um ataque inflacionário. O perigo da revolução passou, a
dignidade do trabalho foi garantida, ocupa um lugar central como base da sociedade,
protege contra a insegurança e o infortúnio. Pode ser que existam trabalhos penosos e a
que dependência, preconceitos e subordinação social não estivessem completamente
abolidos, mas ao menos havia retribuições, compensações para o trabalhador, aliás, era
um cidadão, possuía direitos sociais, consumia, recebia benefícios das subvenções
distribuídas pelo Estado. Em torno desse mundo centrado no trabalho, foram
construídas formas modernas de sociabilidade sob a garantia do Estado, porém como
fica esse arranjo se o Estado perde seu poder de integração e o trabalho sua centralidade
ao sabê-lo marcado pela precarização?
*
* *
A tarefa que se impõe a pensar é acerca da figura do vagabundo como
dispositivo de dessubjetivação e de desativação dos liames da forma de vida à lógica do
mercado e do capital. Para tratar conceitualmente do tema, podemos lançar mão do
conceito de biopolítica forjado por Foucault para designar uma das modalidades do
exercício do poder sobre a vida, vigentes desde o século 18. Segundo Foucault, o
capitalismo provocou uma socialização do corpo. Centrada nos mecanismos do ser vivo
e nos processos biológicos, a biopolítica tem por objeto a população e determina a
entrada do corpo e da vida nos cálculos explícitos do poder. Em outras palavras,

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juntamente com a economia política liberal e neoliberal, há uma economia dos afetos
que modelam a subjetividade. Para Foucault, aqui reside o entrelaçamento entre
subjetividade e capital: o design das relações sociais é instaurado no modo de produção
e circulação não apenas das mercadorias, mas também dos desejos. Assim, nossa
questão é como elaborar uma subjetividade anti-edipiana, não capturável, desvinculada
do princípio de ordem e unidade, enfim, como escapar do vínculo entre subjetividade e
capital.
Afinal, a questão não é se o trabalho deve acabar como se fosse possível
decretar seu fim. Ter um fim ou não parece ser mais uma questão de gosto. A questão
de fundo é se devemos deixar a categoria do trabalho enquanto principal elemento
constitutivo da sociabilidade contemporânea? Em vista do modelo esgotado e de uma
concepção decadente de trabalho, além da crise da sociabilidade que já arrasta consigo
não apenas as populações, mas também a própria viabilidade do planeta, a eliminação
da sua influência é fundamental. Entretanto, esta pesquisa revela outro fator essencial: o
trabalho possui uma marca permanente e onde se instala contamina as relações com sua
principal característica, qual seja, a precarização. Em vez de algum elemento da nova
dinâmica do mundo do trabalho, a precarização não é senão uma atualização desse
elemento desestabilizador persistente. Todavia, justamente sobre o trabalho-
precarização a sociedade moderna construiu seu edifício que já começa a desmoronar.
Como já analisado, os governos, para assumir o controle da riqueza nova,
não mais a terra senão o trabalho, buscaram tecnologias de controle, disciplinamento e
sujeição. Posteriormente, para assegurar a circulação e a segurança dos produtos – entre
os quais estão as próprias pessoas – o biopoder surge como horizonte último da vida
nua, desprovida de estatutos ou valores que não somente seu próprio corpo. A ascensão
dessas tecnologias de dominação articuladas com a produção do capitalismo só foi
possível com o descobrimento do trabalho, que fundou uma nova e precária
sociabilidade, aliás, como sua própria natureza. As condições do trabalho
contemporâneo evocam situações de desemprego em massa, de precarização do
emprego, de vulnerabilidade de massa, de subemprego, de beneficiários de renda
mínima, de invalidação e abandono social, além da inexorabilidade dos processos de
exclusão, da naturalização da categoria de inempregáveis e legitimação da precarização.
De todo modo, essa questão ganha nos dias atuais o status de tema político e econômico
por excelência, dominado por técnicos privados ou públicos que analisam processos de
produtividade, lucro de capital financeiro e especulativo dissociando-a do dinamismo

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social e histórico. A questão não é se a precarização algum dia vai afetar os
trabalhadores, mas quando, inevitavelmente, estes experimentarão a principal
característica do trabalho.

Referências
ANTUNES, Ricardo. O caracol e sua concha. São Paulo: Boitempo, 2005.
CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social. Petrópolis: Vozes,1998.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
NANCY, Jean-Luc. A comunidade inoperada. Rio de Janeiro: Editora 7 letras, 2016.

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