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Laís Ferreira

A INCLUSÃO DO OUTRO
estudos de teoria política

Jünger Habermas
Uma visão genealógica do teor
cognitivo da moral
Frases ou manifestações morais Num primeiro nível, as
tem um teor cognitivo. Pra ter declarações morais servem para
clareza sobre esse teor, é coordenar atos de diversos atores
preciso entender o que significa de um modo obrigatório.
“fundamentar moralmente”
alguma coisa.
Obrigação pressupõe o conhecimento
intersubjetivo de normas morais ou práticas
habituais que fixam pra uma comunidade de
forma convicente as obrigações dos atores.
Toda vez que a coordenação dessas ações
fracasse, os membros dessa comunidade moral
invocam essas normas que são apresentadas
como motivos convincentes para justificar tais
reivindicações e críticas.
As manifestações morais carregam potencial de
motivos que pode ser atualizado a cada disputa moral.

As regras morais operam fazendo referência a si


mesmas. Sua capacidade de coordenar as ações se dá
em dois níveis de interação que se retroalimentam: no
primeiro, essas regras dirigem a ação de forma
imediata, comprometendo a vontade dos atores e a
orientando de modo determinado; no segundo, elas
regulam os posicionamentos críticos em caso de
conflito.
Uma moral não diz apenas como os membros da comunidade
devem se comportar; ela simultaneamente coloca motivos para
dirimir consensualmente os respectivos conflitos de ação. Fazem
parte do jogo da linguagem moral as discussões, as quais, do
ponto de vista dos participantes, podem ser resolvidas
convincentemente com ajuda de um potencial de
fundamentações igualmente acessível a todos. (p12)

(...) os deveres morais recomendam-se, do ponto de vista


sociológico, como alternativa a outras espécies de solução
de conflitos, não orientadas pelo acordo mútuo. Dito de
outra forma, se a moral carecesse de um teor cognitivo
crível, ela não seria superior às formas mais dispendiosas
de coordenação da ação (como o uso direto da violência ou
a influência sobre a amaça de sanções ou a promessa de
recompensas). (p. 12)

Posicionamentos críticos e
Discussões morais autocríticos diante das infrações
também incluem reações
da parte sentimental
Ponto de vista de terceiros;

Ponto do atingido diante do seu


O conceito central do dever próximo;
não se refere apenas aos
mandamentos morais, mas
ao caráter da validação do Ponto de vista da primeira
dever ser pessoa.
“O não-cognitivismo severo quer desmascarar o conteúdo
cognitivo da linguagem moral como sendo, em tudo, ilusão. Ele
tenta mostrar que, por trás das manifestações que para os
participantes parecem juízos e posicionamentos morais passíveis
de justificação, se escondem apenas sentimentos,
posicionamentos ou decisões de origem subjetiva.” (p.14)

Utilitarismo Cognitivismo severo

Substitui a autoconsciência moral irrefletida dos participantes


por um cálculo de benefícios, feito a partir da perspectiva do Faz reivindicação categórica a
observador; validade dos deveres morais,
tentando reconstruir o
Fundamentação que parte da teoria moral para o jogo moral conteúdo cognitivo do jogo
de linguagem; moral de linguagem em toda
sua amplitude. Trata-se da
fundamentação de um ponto de
O utilitarismo se aproxima de uma forma de não-cognitivismo vista moral, a partir do qual tais
atenuado, que leva em conta a autonsciência dos sujeitos que normas podem ser julgadas em
agem moralmente, seja tendo em vista sentimentos morais ou si de forma imparcial.
segundo normas vigentes.
1- Sociedades secularizadas com pensamento moral
baseado na religião
Ensinamentos proféticos transmitidos pela bíblia tinham à sua disposição interpretações
e motivos que conferiram às normas uma força de convencimento pública.

"(...) o ponto de referência de um deus que aparece in persona, que no dia do juízo final
julgará cada um dos destinos individuais, significa uma diferenciação importante entre
dois aspectos da moral. Cada pessoa tem uma relação comunicativa dupla com Deus,
tanto como membro da comunidade de fiéis, com a qual Deus fechou uma aliança,
quanto como indivíduo isolado na história de sua vida, que não pode se fazer representar
por outro diante de Deus. Essa estrutura comunicacional marca o relacionamento moral
– mediado por Deus – com o próximo, sob os pontos de vista da solidariedade e da justiça
(entendida apenas num sentido mais estreito)." (p.18-19)
2- Sociedades modernas com pluralismo ideológico

A religião e o ethos nela enraizado se decompõem enquanto fundamento público de


validação de uma moral partilhada por todos.

“Depois de o fundamento religioso da própria validação ter perdido o valor, o conteúdo


cognitivo do jogo moral de linguagem só pode ser reconstruído referindo-se à vontade e à
razão de seus participantes. “Vontade” e “razão” são, pois, os conceitos básicos dos
enfoques da teoria da moral que assumem essa tarefa. O empirismo concebe a razão
prática como a capacidade de determinar o arbítrio de acordo com as máximas da
inteligência, enquanto o aristotelismo e o kantismo não contam apenas com motivos
racionais, mas com uma autovinculação da vontade motivada pelo discernimento. (p. 22)”
Empirismo
Entende a razão prática como sendo a razão "O ator age racionalmente quando o faz
instrumental. Para alguém que age, é razoável a partir de razões, e quando sabe por
agir de certa forma se o resultado esperado de que está seguindo uma máxima. O
seu ato é de seu interesse. Numa determinada empirismo só leva em consideração
situação, tais razões valem para determinado razões pragmáticas, ou seja, o caso em
ator, que tem determinadas preferências e quer que um ator deixa vincular seu arbítrio,
atingir determinadas metas. Chamamos essas pela razão instrumental, às “regras de
razões de “pragmáticas” ou preferenciais porque destreza” ou aos “conselhos da
elas motivam para a ação. Elas constituem prudência (como diz Kant). Assim, ele
motivos racionais para os atos, não para as obedece ao princípio da racionalidade
convicções. dos fins (...)." (p. 22-23)
Contratualismo

Se refere a questão da A ideia do contrato, que vem do direito


fundamentação normativa de um privado, é apropriada para a construção de
sistema de justiça imediatamente uma ordem baseada no livre acordo. Tal
sobreposta aos interesses do ordem é justa, ou é boa no sentido moral,
indivíduo quando satisfaz uniformemente os interesses
de seus participantes.

“O contrato social surge da ideia de que qualquer aspirante precisa ter um motivo racional para se
tornar participante de livre e espontânea vontade e para submeter-se às normas e procedimentos
correspondentes. O conteúdo cognitivo daquilo que faz com que uma ordem seja moral ou justa
repousa, portanto, na aquiescência agregada de todos e de cada um dos participantes; ele se explica
mais acuradamente a partir da racionalidade da avaliação dos bens que cada um deles efetua a
partir da sua própria perspectiva de interesses." (p. 25)

Allan Gibbard Ernst Tugendhat


Linha expressivista da Linha contratualista da
explicação de uma reconstrução de uma
convivência solidária convivência justa

Toda moral, do ponto de vista funcional, resolve problemas da


coordenação dos atos entre seres que dependem da interação
social. A consciência moral é expressão das legítimas
reivindicações que os membros cooperativos de um grupo social
podem fazer reciprocamente.
“A língua funciona, aliás, como o mais importante meio de coordenação das
ações. Juízos e posicionamentos morais que se apoiam em normas internalizadas
se exprimem numa linguagem carregada de emoções. Contudo, quando o
consenso normativo de fundo desmorona e novas formas precisam ser elaboradas,
faz-se mister outra forma de comunicação. Nessas circunstâncias, os participantes
precisam confiar na força orientadora dos “discursos normativos”: “Chamarei esta
influência de governança normativa. É nesta governança da ação, da crença e da
emoção que podemos encontrar um lugar para os fenômenos que constituem a
aceitação de normas, em contraposição com a sua mera internalização” (Gibbard,
1992, p. 72). (p. 29)”

“Aquilo que os participantes têm de tomar como objeto de suas discussões


não pode servir simultaneamente comi escala de medida para a mesma
discussão. Gibbard não pode compreender o entendimento discursivo sobre
normas morais segundo o padrão da busca cooperativa da verdade, mas
como um processo de mútua influenciação retórica." (p. 30)

Um sujeito que procura conseguir


colaboração ou adesão das pessoas para o
consentimento de uma norma, não pode
fazer nada além de exprimir com
sinceridade as questões subjetivas que o
leva a sentir a norma como vinculatória. Se
ele conseguir fazer isso com autenticidade,
pode contagiar seus interlocutores.

Assim, os discursos normativos do


convencimento são substituídos por algo
como harmonização recíproca.
Ernst Tugendhat Comunidade moral = faz parte a autoconsciência daqueles
que se sentem vinculados a regras morais, os que “têm uma
consciência” manifestam sentimentos morais, discutem
fundamentadamente sentimentos morais etc.

“Querer ou não querer pertencer a uma comunidade


moral... é, em última análise, um ato de nossa autonomia
e, para isso, só pode haver bons motivos, não razões”
(Tugendhat, 1993, p. 29).

(...) Já a partir da perspectiva ética é possível reconhecer


que não pode haver um bem viver fora de uma
comunidade moral. (p. 33)
(...) as únicas razões que se devem contar dentro do jogo moral de linguagem, num
relacionamento com o interesse auto-referido no jogo de linguagem como tal, perdem seu
sentido ilocutório, que é o de serem razões para reivindicações morais, ou seja,
reivindicações incondicionais. Se o ator que toma consciência das vantagens de um modo de
vida moral for o mesmo que, devido a tal preferência por esse modo de vida, admitir tais
circunstâncias, sua fundamentação ética, que condiciona o jogo de linguagem moral como um
todo, modifica simultaneamente o caráter dos traços nela possíveis. Porque um agir moral
“por respeito à lei” é incompatível com a objeção ética que exige o exame permanente da
práxis, se ela se justifica ou não, como um todo, a partir da perspectiva do projeto de vida de
cada um. Por motivos conceptuais, o sentido categórico das obrigações morais só pode
permanecer intacto na mesma medida em que é vedado ao destinatário retroceder, mesmo
virtualmente, aquele passo para trás da comunidade moral que é necessário para, a partir da
distância e da perspectiva da primeira pessoa, avaliar as vantagens e desvantagens de ser
membro dessa comunidade. (p. 34)
“Após a perda da base tradicional da validação de sua moral em comum, os participantes
têm de refletir juntos a respeito de exatamente quais normas morais eles deveriam se pôr
de acordo. Nessa questão ninguém pode reivindicar mais autoridade do que qualquer
outro; todos os pontos e vista para um acesso privilegiado à verdade moral estão
invalidados. O contrato social não tinha conseguido dar uma resposta satisfatória ao
desafio dessa situação, porque a partir de um acordo orientado pelos interesses entre
parceiros contratuais só pode surgir, no melhor dos casos, um controle de
comportamento social imposto de fora para dentro, mas não uma concepção vinculatória
a respeito de um bem comum, nem mito menos a concepção de um bem concebido
universalisticamente. Tugendhat descreve a situação de partida de modo semelhante à
minha proposta. Os membros de uma comunidade moral não demandam um controle de
comportamento social vantajoso para todos que possa ocupar o lugar da moral; eles não
querem substituir o jogo moral de linguagem como tal, mas apenas a base religiosa de
sua validação." (p. 34-35)

“Se o que é bom deixa de ser prescrito de forma transcendental, o respeito pelos
membros da comunidade, que passa a ser ilimitado, ou seja, o respeito por todos os outros
– por sua vontade e seus interesses – é que, segundo parece, passa a fornecer os
princípios da bondade”. Ou para dizê-lo de modo mais marcante: a intersubjetividade
assim entendida passa a ocupar o lugar da prescrição transcendente (...). Como são as
obrigações mútuas (...) o que perfaz a forma de qualquer moral, pode-se dizer também:
na medida em que o conteúdo, ao qual se referem as reivindicações, nada mais é do que o
respeito por aquilo que todos querem, agora o conteúdo corresponde a forma." (p. 35)

Generalização baseada no fato de que a situação de partida entre as pessoas dentro da


comunidade moral se dá de forma simétrica e as partes se confrontam sem todos os privilégios

"Um princípio de generalização, que não pode ser fundamentado a


partir da perspectiva dos interesses próprios (ou da própria
concepção do bem), serve como base para a validade da moral
racional." (p. 35-36)
"(...) Os discernimentos éticos devem-se à explicação daquele saber que os indivíduos
comunicativamente socializados adquiriram na medida em que cresceram para dentro de
sua cultura. No vocabulário avaliador e nas regras de aplicação das sentenças normativas
sedimentam-se as partes constitutivas mais gerais do saber prático de uma cultura. À luz
de seus jogos de linguagem, impregnados de elementos de avaliação, os atores
desenvolvem não apenas representações de si próprios e da vida que gostariam de levar
em geral; eles também descobrem em cada situação traços de atração e rejeição, os quais
não podem entender sem “ver” como devem reagir a eles. Como sabemos intuitivamente o
que é atraente ou repulsivo, certo ou errado, o que é relevante, afinal, pode-se separar
aqui o momento do “discernimento” do motivo racional para a ação. Trata-se de um saber
utilitário intersubjetivamente compartilhado, que se tornou corriqueiro no mundo vivido e
comprovou sua “praticidade”. Enquanto propriedade comum de uma forma de vida
cultural, ele goza de “objetividade”, graças à sua difusão e aceitação social. Por isso, a
reflexão prática que se apropria criticamente desse saber intuitivo precisa de uma
perspectiva social." (p. 37-38)

De uma parte, é preciso esclarecer quais são, afinal,


os elementos das instituições originais que a ética
discursiva põe a salvo no universo desenganado das
A partir do momento em que a moral perder sua
tentativas de fundamentação pós-metafísicas, e em
autoridade a partir da posição divina, a ética
que sentido ainda se pode falar de uma validação
discursiva também paga um preço por isso: ela não
cognitiva de juízos e posicionamentos morais (VII).
pode nem conservar o teor moral íntegro das
De outra parte, é precípuo perguntar se uma moral
instituições religiosas (1), nem preservar o sentido
que parte da reconstrução racional de instituições
realista de validação próprio às normas morais (2).
tradicionais, inicialmente religiosas, não permanece
(p. 47))
conteudisticamente presa a seu contexto original,

não obstante seu caráter estimativo, ou seja, estar


em permanente processo de avaliação (VIII). (p. 47)

"A ética discursiva ordena diversas formas de argumentação a questões éticas e morais, a
saber, discursos de auto-entendimento de um lado, discursos de fundamentação normativa
(ou de aplicação), de outro. Com isso, no entanto, ela não reduz a moral a tratamento
indistinto, mas procura fazer jus a dois aspectos: à justiça e à solidariedade. Um comum
acordo almejado por via discursiva depende simultaneamente do “sim” ou do “não”
insubstituível de cada um dos indivíduos, bem como da superação da perspectiva
egocêntrica, indissociável de todos os envolvidos em uma práxis argumentativa pautada
pelo convencimento recíproco. Quando o discurso, em virtude de suas qualidades
pragmáticas, possibilita uma formação de vontade discernente e garantidora tanto do “sim”
quanto do “não”, então os posicionamentos racionalmente motivados, afirmativos ou
negativos, podem dar espaço aos interesses de cada indivíduo, sem que se rompa o tecido
social que já de antemão une os participantes voltados ao acordo mútuo em sua atitude
transobjetiva." (p. 48)
Pretensão de validade a partir da ideia de verdade

Se supomos que sentenças só podem ser válidas no sentido de serem


“verdadeiras” ou “falsas”, e que se deve entender a “verdade” no sentido de
uma correspondência entre sentenças e objetos ou fatos, torna-se
problemática toda reivindicação de validação feita em favor de uma asserção
não-descritiva. De fato, o ceticismo moral apoia-se principalmente na tese de
que asserções normativas não podem ser verdadeiras ou falsas, e de que
também não podem, portanto, ser fundamentadas, dada a inexistência de algo
como objetos ou fatos morais. Na verdade, somam-se aí uma compreensão de
mundo tradicional, como totalidade de objetos e fatos, uma compreensão de
verdade baseada na teoria das correspondências e uma compreensão de
fundamentação de cunho semântico. (p. 49-50)

Ideia de verdade
Conceito epistêmico de verdade que tem por tarefa oferecer uma saída à teoria das
correspondências. Com o predicado de verdade referimo-nos ao jogo de linguagem da
justificação, ou seja, da solvência pública das reivindicações de validação. Por outro
lado, não se deve igualar “verdade” com fundamentabilidade (...). A utilização
“cautelar” do predicado – ‘p’ pode estar muito bem fundamentado e mesmo assim não
ser verdadeiro – alerta-nos para a diferença semântica entre “verdade” como qualidade
inalienável das asserções e “aceitabilidade racional” como qualidade das declarações,
mas condicionada pelo contexto. Essa diferença pode ser entendida no horizonte das
justificações possíveis como a distinção entre “justificado em nosso contexto” e
“justificado em qualquer contexto”. De nossa parte, podemos fazer jus a essa diferença
por meio de uma idealização atenuada de nossos processos argumentativos – se
concebidos como passíveis de prosseguimento. À medida que afirmamos ‘p’ e que
reivindicamos verdade para ‘p’, assumimos – embora conscientes da falibilidade – a
obrigação de defender ‘p’ contra todas as objeções possíveis. (p. 51)

Relação entre verdade e justificação

Nesse contexto, interessa-nos muito menos a complexa relação entre verdade e justificação
do que compreender o conceito de verdade – já depurado pelas conotações de
correspondência – como um caso especial de validade, enquanto se introduz esse conceito
geral de validade referenciado à solvência discursiva de reivindicações de validação. Com
isso, abre-se um espaço conceitual em que se pode abrigar o conceito de validade normativa,
e mais especialmente de validade moral. A correção das normas morais (ou de asserções
normativas gerais) e de mandamentos singulares pode ser entendida por analogia à verdade
de sentenças assertivas. O que vincula os dois conceitos de validação é o procedimento da
solvência discursiva das reivindicações de validação correspondentes. O que os separa é a
referência ao mundo do social ou ao mudo objetivo, respectivamente. (p. 51-52)
(...) o significado da solvência discursiva de reivindicações de verdade difere do
significado das reivindicações morais de validação: em um dos casos, o comum acordo
discursivamente alcançado declara terem sido cumpridas as condições de verdade de
uma sentença assertiva, interpretadas como condições de afirmabilidade; no outro
caso, o comum acordo discursivamente alcançado fundamenta a reconhecibilidade de
uma norma e colabora assim, ele mesmo, para o cumprimento de suas condições de
validade. (p. 52)

“(...) nos pressupostos programáticos de discursos ou de conselhos racionais, o teor


normativo de suposições empreendidas na ação comunicativa é generalizado, abstraído e
descingido, ou seja, é estendido a uma comunidade que insere e que, em princípio, não exclui
nenhum sujeito capaz de falar e agir, desde que seja em condições de dar contribuições
relevantes. Essa ideia mostra a saída daquela situação em que os envolvidos perderam o
suporte ontoteológico e precisam criar com base em si mesmos as próprias orientações
normativas. Tal como mencionado, os envolvidos só podem recorrer às coisas que têm em
comum e das quais dispõem naquele momento. Depois do último fracasso, essas coisas em
comum ficaram reduzidas à provisão de qualidades formais disponíveis na situação de
conselho, que podem ser partilhadas performativamente por seus integrantes. Todos, afinal,
já estão envolvidos no empreendimento cooperativo de um conselho reunido na prática. (p.
55)”

“)Se a práxis de reuniões em conselho é, ela mesma, o único expediente possível para
o ponto de vista moral do julgamento imparcial de questões morais, então a referência
a conteúdos morais precisa ser substituída pela referência auto-remissiva à forma
dessa práxis. Justamente essa compreensão da situação é que traz ´D´ (princípio do
discurso) ao ponto: só podem aspirar por validade as normas que puderem merecer a
concordância de todos os envolvidos em discursos práticos. Diante disso, a
“concordância” ensejada sob as condições discursivas assume o significado de um
comum acordo motivado por razões epistêmicas; não se pode entendê-la como um
acerto qualquer motivado racionalmente a partir de uma visão egocêntrica. Por outro
lado, o princípio discursivo deixa em aberto o tipo de argumentação, ou seja, o
caminho pelo qual se pode visar a um acordo discursivo. Com ‘D’ não se supõe de
saída que uma fundamentação de normas morais seja sequer possível fora do contexto
de um comum acordo substancial. (p. 56)”

Com a práxis argumentativa instaura-se uma concorrência cooperativa por argumentos


melhores, em que a orientação por um acordo mútuo vincula os participantes a limine. A
suposição de que a concorrência pode conduzir a resultados “racionalmente aceitáveis” e
“convincentes” funda-se sobre a força de convencimento dos próprios argumentos. E
também o que conta como argumento bom ou ruim pode perfeitamente ser posto em
discussão. Por isso, a aceitabilidade racional de uma asserção apoia-se, afinal, sobre razões
ligadas a determinadas qualidades do próprio processo argumentativo. Mencionarei apenas as
quatro mais importantes: (a) ninguém que possa dar uma contribuição relevante pode ser
excluído da participação; (b) a todos se dará a mesma chance de dar contribuições; (c) os
participantes devem pensar aquilo que dizem; (d) a comunicação deve ser isenta de coações
internas ou externas, de tal forma que os posicionamentos de “sim” e de “não” ante
reivindicações de validação criticáveis sejam motivados tão-somente pela força de
convencimento das melhores razões. (p. 58)

O cerne da fundamentação do ponto de vista da moral consiste, para a ética


discursiva, em que só através de uma regra argumentativa seja possível transferir o
teor normativo desse jogo de linguagem epistêmico para a seleção de normas
acionais, sugeridas em discursos práticos – junto com sua reivindicação de validação
moral. A obrigatoriedade moral não pode resultar, por si só, de algo como uma
imposição transcendental de pressupostos argumentativos inevitáveis; mais que isso,
ela se liga a objetos peculiares do discurso prático – a normas nele introduzidas, e às
quais remontam as razões arregimentadas nas reuniões em conselho. (p. 59)

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