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SINOPSE

Uma garota peculiar. Um homem enigmático. Um antigo castelo. O


que poderia dar errado?

Uma pária por toda sua vida, Corvina Clemm é deixada à deriva depois
de perder sua mãe.

Quando recebe a carta de admissão da misteriosa Universidade de


Verenmore, a aceita como um sinal do universo.

A última coisa que Corvina espera é um velho e isolado castelo no topo de


uma montanha repleta de segredos, mentiras e morte.

Um enigma durante toda sua vida, Vad Deverell gosta de ser um livro
fechado, mas sabe exatamente tudo o que acontece na universidade.

Professor em tempo parcial trabalhando em sua tese, está há tempo


suficiente para conhecer os perigos que o castelo possui.

E Vad sabe, assim que seu caminho se cruza com Corvina, que ela é
perigosa para tudo o que ele representa.

Eles não deveriam ter chamado a atenção um do outro.

Eles não poderiam acontecer.

Mas um mistério centenário arrepiante os obriga a colidir.

As pessoas têm desaparecido a cada cinco anos por mais de cem anos,
Corvina está recebendo pistas para descobrir tudo isso e Vad precisa
ficar de olho nela.

E assim começa um enredo místico, mórbido e macabro, e um amor


profundo que floresce nos lugares mais improváveis.
Para todos que sentiram que nunca se encaixaram, e
aprenderam da maneira mais difícil do que precisavam.

Ser diferente é sua espada de dois gumes.

Um dia, você encontrará seu escudo compatível.


Caro leitor,

Obrigada por adquirirem meu livro! Que ele lhe interessa


significa muito para mim!

Antes de você se aventurar em Verenmore e no mundo de


Gothikana, gostaria de lhe dar um aviso sobre certas coisas
mencionadas no livro. Se estas forem, de alguma forma,
prejudiciais à sua saúde mental, peço-lhe sinceramente que
faça uma pausa e reconsidere.

Este livro possui conteúdo sexual explícito recomendado


apenas para maiores de 18 anos, menciona e contém cenas de
suicídio, assassinato e morte, menciona doenças mentais e
negligência parental, menciona agressão sexual e sacrifício
humano. Há também um misterioso herói moralmente obscuro
que o frustrará totalmente, porque seu ponto de vista é
superficial, e minha intenção é que você sinta o mesmo que a
protagonista sente em relação a ele – confusão, frustração,
desconfiança e luxúria.

Gothikana é muito diferente de tudo o que escrevi até


agora, mas é também a história mais próxima ao meu coração.
Verenmore é incrivelmente especial para mim, com todos os
personagens, incidentes e locais inspirados por alguns eventos
verdadeiros de minha própria vida. Se você decidir ler e fazer
esta viagem comigo, espero que a aproveite.

Obrigada.
Neste ponto, abri bem a porta;

Escuridão aqui, e nada mais.

Edgar Allan Poe

Não vou deixá-lo entrar sozinho no desconhecido.

Bram Stoker
Onde tudo começou

Vad

Não há nada mais assustador do que uma velha senhora


cega, com olhos brancos no lugar de olhos normais, de repente,
agarrando seu braço sob uma noite de lua cheia.

A velha Zelda já foi a zeladora da casa em que o pequeno


Vad agora vivia com outros meninos, mas depois que ficou
cega, o pessoal da administração a deixou ficar, o que foi um
erro na opinião de Vad. Porque ela sabia coisas, coisas que ela
não deveria saber, coisas sobre garotos que ela não podia nem
mesmo ver. Por exemplo, ela sabia que Reed iria se afogar no
lago uma semana antes disso. Ela sabia sobre Tor e sua pele
queimando por dentro, algo que ele nunca havia contado a
ninguém. E disse que seu melhor amigo "comeria chamas" um
dia, o que quer que isso significasse, e que Fury tinha medo
das chamas.

A velha Zelda era assustadora pra caralho. E Vad a


evitava em todas as chances que podia.
Então, ser pego no pequeno jardim na noite de
aniversário de um menino na frente de outros não era algo que
ele sempre quis.

A mão frágil e enrugada agarrou seu braço magro com


uma força surpreendente.

— Para um castelo aonde ninguém vai. — Disse ela, com


a voz trêmula, o rosto fortemente enrugado e o branco dos
olhos encarando assustadoramente Vad. — Você irá, garoto.

Fury riu ao seu lado. — Por que ele iria para um castelo,
Zelda? Onde ele encontraria um castelo? — Eles eram muito
pobres, todos os meninos.

— Ele encontrará muitas coisas. — A velha Zelda falou


sobre o amigo. — Olhos roxos. Você encontrará olhos roxos.

Ajax, outro garoto da mesma idade de Vad, soltou uma


gargalhada. — Olhos roxos? Ninguém tem olhos roxos, Zelda.
Ou talvez uma aberração os tenha.

— Talvez ele também encontre um homem de três pernas.


— Gritou outro menino com uma risadinha feminina.

— Ou uma menina com dois chifres. — Disse outro.

Vad corou furiosamente, seu eu de sete anos ficando com


raiva da Velha Zelda por encurralá-lo daquele jeito e dizer
coisas estranhas sobre ele que seus amigos zombavam.
Em meio às risadas às custas dele, o aperto de Zelda em
seu braço aumentou. — Não se esqueça, garoto. É uma
questão de muitas mortes.
Alguns anos depois

Corvina

Preto.

É a ausência de cor, o guardião da escuridão, o abismo


do desconhecido.

Estava em seus cabelos, nas roupas de sua mãe, no vasto


céu ao seu redor.

Ela amava preto.

As crianças da cidade temiam isso, desde as sombras sob


suas camas até a noite sem fim que as cobria por horas. Seus
pais lhes ensinaram a ter um pouco de medo. Ensinaram-lhes
a ter medo de sua mãe também – a senhora estranha que tem
olhos estranhos e vive nos limites da cidade perto da floresta.
Alguns sussurravam que ela era uma bruxa que praticava
magia negra. Alguns diziam que ela era uma aberração.

A pequena Corvina ouvia tudo, mas ela sabia que eles não
eram verdadeiros. Sua mãe não era uma bruxa nem uma
aberração. Sua mãe era sua mãe. Ela simplesmente não
gostava de pessoas. Corvina também não gostava, mas a
maioria das pessoas na cidade não eram muito simpáticas.

No dia anterior, ela tinha visto uma garota da idade dela


jogar pedras no corvo que estava tentando encontrar alguns
galhos no chão para o seu ninho. Corvina sabia disso porque
conhecia o corvo, não havia muitos deles aqui na floresta, mas
aqueles que ficaram conheciam ela e sua mãe também. E não
foi por causa de qualquer bruxaria.

Desde que conseguia se lembrar, sua mãe a levava a uma


clareira a poucos minutos de sua casinha todas as manhãs
para alimentar os corvos. Sua mãe lhe dissera, em um de seus
bons dias em que ela falava, que eles eram criaturas
inteligentes e leais com os espíritos de seus ancestrais, e as
vigiavam dos céus durante o dia, assim como as estrelas
faziam à noite.

E elas precisavam de protetores, as duas.

Sua mãe não falava muito, mas ouvia vozes, vozes que lhe
dizem coisas. Disseram a ela para não falar com as pessoas,
para dar aulas em casa à Corvina depois daquele incidente na
escola, para mantê-la longe de todos. Sua mãe disse que ela
não podia vagar ou a levariam embora. Não podia deixar seu
lado na cidade ou a levariam embora. Não podia falar com
ninguém ou a levariam embora.

Corvina não queria ir embora.


Ela amava sua mãe. Sua mãe, que cheirava a sálvia,
grama fresca e incenso. Sua mãe, que plantava vegetais e
cozinhava comida saborosa para ela. Sua mãe, que a levava à
cidade uma vez por mês, embora detestasse, para pegar na
biblioteca os livros de que ela gostava. Quase todos os dias,
sua mãe não falava nada, a menos que estivesse ensinando
Corvina ou sussurrando para as vozes. Corvina também não
falava muito, mas sabia que era amada. Era assim que sua
mãe era.

Enquanto caminhava ao lado dela, com seus pequenos


pés, sob o céu enluarado até a clareira – uma lua de cor rara
que acontecia uma vez a cada cinco anos, uma lua colorida sob
a qual ela nasceu – Corvina sorria. Sua mãe ficou feliz depois
de muito tempo e isso a deixou feliz. Com velas e incensos que
sua mãe fazia, as cartas de tarô que sua mãe a ensinou a ler e
os cristais que iriam recarregar, Corvina, de dez anos, olhava
em volta para a escuridão e se sentia em casa.

Se sua mãe era uma aberração, então talvez ela também


fosse.

Afinal, às vezes ela também ouvia as vozes.


Corvina

Corvina nunca ouviu falar da Universidade de


Verenmore. Mas também não tinha ouvido falar da maioria das
coisas normais, não com a sua educação. No entanto, ninguém
mais tinha ouvido falar dela.

Segurando a carta que recebeu semanas atrás em suas


mãos – uma carta escrita à tinta, em papel grosso e amarelado,
que cheirava como seus livros velhos e amados – ela leu as
palavras novamente.

Cara Srta. Clemm,

A Universidade de Verenmore tem o prazer de estender


nossa oferta de admissão para você. Por mais de um século,
recrutamos alunos de origens especiais para frequentar nossa
estimada instituição. Seu nome nos foi indicado pelo Morning
Star Psychiatric Institute1.

1 Instituto Psiquiátrico Estrela da Manhã.


Gostaríamos de oferecê-la uma bolsa integral para o nosso
curso de graduação associado em Verenmore. Este título lhe
dará acesso a alguns círculos exclusivos no futuro e abrirá
muitas portas para você no mundo. Acreditamos que, com seu
histórico acadêmico e pessoal, você se encaixará bem em nossa
instituição.

Embora entendamos que este deve ser um momento difícil


para você, uma decisão deve ser tomada. Por favor, responda a
esta carta no endereço em anexo para mais informações. Se não
recebermos nenhuma resposta sua dentro de 60 dias,
rescindiremos a oferta com pesar.

Esperamos notícias suas.

Cumprimentos,

Kaylin Cross,

Especialista em Recrutamento,

Universidade de Verenmore.

Corvina nunca recebeu uma carta, muito menos uma tão


bizarra como esta.

E era muito bizarra.

Ela era uma garota de 21 anos que estudou em casa e se


isolou a vida inteira por sua mãe. Por que uma universidade
iria querer um estudante de graduação que tivesse
ultrapassado a idade normal, alguém que não tivesse nada
próximo à escolaridade convencional? E quem ainda enviava
cartas escritas à mão?

O estranho era que ninguém sabia sobre a universidade.


Corvina tentou encontrar algo sobre ela perguntando ao
médico-chefe da instalação e usando o computador da
biblioteca de sua cidade, mas ninguém sabia de nada.
Verenmore não existia em nenhum lugar exceto no mapa, um
pequeno ponto, uma pequena cidade com o mesmo nome no
vale do Monte Verenmore. Isso era tudo.

A universidade existia em algum lugar na montanha onde


os civis normalmente não eram permitidos. E ela sabia disso
porque seu taxista – um homem muito gentil chamado Larry –
tinha acabado de lhe dizer, enquanto os conduzia montanha
acima.

— Não há muita gente por aqui que vai até aquele castelo.
— Larry prosseguiu sua enxurrada de informações, dirigindo o
pequeno carro preto particular pela estrada ligeiramente
inclinada. Corvina o encontrou do lado de fora da estação de
trem quando saiu. Pegou dois trens, um de Ashburn e o outro
de Tenebrae, e levou mais de doze horas para chegar à
Verenmore. Larry ficou surpreso quando ela lhe deu seu
destino na montanha, a ponto de orar antes de ligar o carro.

— E por que isto? — Corvina perguntou, observando a


pequena cidade ficar menor à distância enquanto o verde
exuberante engolia sua visão. Ela não estava acostumada a
conversar, mas precisava saber o máximo que pudesse sobre
a universidade que concordou em frequentar. Não que tivesse
algo melhor para fazer.

Viver na pequena cabana em que cresceu, fabricar joias


e velas e fazer leituras para ganhar dinheiro se tornou
monótono, especialmente quando ninguém na cidade, exceto a
velha bibliotecária, jamais a tratou com qualquer coisa além
de desconfiança. A carta de aceitação veio como um sinal do
universo e sua mãe sempre lhe disse para nunca ignorar isso.
Corvina sempre quis frequentar uma escola pelas nuances
sociais, estudar com outros humanos ao seu redor e aprender
mais sobre as pessoas que nada sabiam sobre ela. Uma lousa
em branco para escrever o que quisesse, como quisesse. É
contraditório, já que ela era uma solitária, mas era também
uma observadora. Sempre que tinha a oportunidade, ela
gostava de observar as pessoas.

— Não sei. — O motorista encolheu os ombros magros


sob uma jaqueta bege fina. — Contos sobre o lugar, eu acho.
Digamos que o castelo seja assombrado.

Corvina bufou. Ela duvidava disso. Em sua experiência,


lugares e coisas antigas tendem a ser rotuladas como
assombradas com o tempo. Mas também queria manter sua
mente aberta.

— E é mesmo? Assombrado, quero dizer? — Perguntou,


ainda curiosa para saber mais sobre a misteriosa
universidade.
O motorista olhou para ela pelo espelho retrovisor antes
de se concentrar na estrada novamente. — Você vai ficar no
castelo ou visitar, senhorita?

— Ficar. — Respondeu, olhando para a carta na mão e


enfiando-a na bolsa de couro marrom que pertencia a sua avó.
Tinha sido a única coisa que ela havia herdado de alguém além
de sua mãe.

— Eu diria para ficar atenta. — O motorista se concentrou


conforme o declive ficava mais íngreme. — Não sei se o lugar é
assombrado, mas algo não está certo lá.

O silêncio reinou depois disso por alguns minutos.


Corvina abaixou levemente a janela, olhando para a beleza
natural incrível da montanha. A visão era diferente de tudo que
já tinha visto antes. De onde ela veio, o bosque era mais
amarelo e o ar mais úmido.

Enquanto o ar frio e seco chicoteava os fios escuros que


escaparam de sua trança em cauda de peixe, Corvina se
permitiu absorver a abundância de vegetação profunda e
escura que se expandia abaixo dela, a pequena cidade uma
pequena clareira no meio do matagal. O cheiro de flora
desconhecida se filtrava pela janela aberta, o céu uma imitação
pálida e nublada de si mesmo.

A música que estivera baixa durante a viagem crepita


conforme iam mais alto. Corvina olhou para o painel enquanto
o motorista suspirava. — Isso sempre acontece. — Disse ele.
— O sinal fica pior lá em cima.
Corvina franziu as sobrancelhas. — Então como a
universidade se comunica?

O motorista encolheu os ombros. — Eles têm um rapaz


que geralmente mandam para a cidade para enviar cartas,
usar a internet, essas coisas.

— E esta é a única estrada que sobe e desce a montanha?


— Ela era normalmente mais calada, embora não soubesse se
isso era uma tendência natural ou a falta de alguém com quem
conversar. Vivendo sozinha nos arredores de sua pequena
cidade, Skarsdale, como uma pária, muitas vezes tinha ficado
dias sem ouvir sequer o som de sua própria voz.

— Sim. — O motorista acenou com a cabeça, passando


por uma curva. Corvina agarrou a maçaneta na lateral para
não cair. A primeira vez que entrou em um carro, a
claustrofobia a atacou. Sua mãe e ela sempre iam para a
cidade a pé. Já tinha visto carros, mas nunca tinha estado
dentro de um, não até o dia em que vieram buscá-la e a
colocaram em um. Felizmente, ela tinha considerado a
claustrofobia controlável desde que mantivesse o ar circulando
dentro dela.

— Mais alguma coisa que eu deva saber sobre o castelo?


— Perguntou assim que estavam sobre a curva da montanha,
a névoa ficando mais espessa na frente do para-brisa, o ar mais
fresco, mais leve conforme subiam.

O motorista hesitou, seus olhos cintilando para os


estranhos e violetas – ela os herdou de sua mãe – no espelho
brevemente. — Há alguns rumores, senhorita. Não sei quanta
verdade eles carregam.

Outra curva.

Corvina olhou pela janela, respirando o ar puro e fresco,


percebendo que a vista que admirava momentos antes
desapareceu sob a espessa névoa branca. Poderia ter
assustado algumas pessoas, mas Corvina sempre tinha
encontrado conforto nas excentricidades.

Com um leve sorriso nos lábios, esperou até que o


motorista fizesse a curva com segurança antes de chamá-lo. —
Quais rumores?

— Coisas estranhas. — Ele forneceu, seu sotaque mais


pesado. — Pessoas se matando, desaparecendo, coisas assim.
Agora, não sabemos o quanto disso é verdade. Os moradores
da cidade só conseguem ir ao castelo para empregos
temporários, limpando ou entregando algo. Mas foi isso que
minha mãe me disse, e sua mãe antes dela. O pessoal do
castelo enlouquece.

Isso era estranhamente específico para um boato, embora


ela não sabia se havia algum grão de verdade nisso. As pessoas
na cidade poderiam simplesmente ter inventado tudo para se
divertir e dar a si mesmas um motivo para ficar longe do lugar
estranho. Poderia ser uma velha história da carochinha. Ou
talvez não fosse. Ela iria com a mente aberta. Sabia melhor do
que a maioria como os falsos rumores afetavam vidas. Antes
que Corvina pudesse percorrer a estrada da memória, eles
fizeram outra curva e, de repente, uma silhueta iminente de
um enorme portão de ferro rompeu a névoa.

Com o coração acelerado, Corvina se inclinou para frente


e apertou os olhos, tentando ver melhor o formato.

Alto.

Os portões eram altos, de um lado cercado pela montanha


e do outro mergulhando no vale abaixo. Não havia como
alguém violá-lo, não sem cair para a própria morte. A forte
segurança enviou um arrepio por sua espinha, ou talvez fosse
o frio no céu cinza.

O motorista parou e abaixou a janela quando um guarda


vestido com um uniforme marrom saia da guarita com uma
prancheta.

— Seu nome? — O guarda perguntou à Corvina, seu tom


muito prático.

— Corvina Clemm. — Disse ela calmamente, observando


o homem. Ele tinha cabelos claros, um bigode de aparência
perversa curvado nas pontas e olhos castanhos
surpreendentemente gentis para um homem com seu timbre.
Parecia durão, mas ela sentia que ele era uma pessoa
naturalmente boa. Corvina não entendia como sempre
pressentia sobre as pessoas que conhecia – instintos fortes,
como sua mãe sempre chamou -, mas constatar que seu
primeiro contato na universidade era um bom homem a fazia
sentir-se melhor.
Observou enquanto ele examinava a lista e parou. — E
com quem você vai se encontrar, Srta. Clemm?

— Kaylin Cross, no escritório administrativo. — Disse


Corvina. Depois de enviar sua carta de interesse, Kaylin Cross
deu-lhe as instruções sobre como chegar à universidade e tudo
o que precisava levar. Corvina sabia que dividiria seu quarto
com outra garota de sua classe, sabia que receberia todos os
seus livros entregues até o final da semana, e sabia que era
um novo começo, em um lugar onde ninguém a conhecia nem
ao seu passado. Era uma chance de fazer algo melhor de sua
vida, talvez até mesmo fazer um bom amigo, e talvez, se o
universo fosse gentil, até mesmo conhecer um rapaz como nos
romances.

O guarda bigodudo assentiu, tirando-a de seus devaneios


e ergueu a mão para alguém do outro lado da guarita. Os
gigantescos portões se abriram lentamente, o barulho
parecendo um gemido de um monstro despertando.

— Bem-vinda à Verenmore, Srta. Clemm. — Disse o


guarda antes de olhar para o motorista. — Cinco minutos,
Larry.

— Entendido, Oak. — O motorista acenou com a cabeça


antes de ligar o carro novamente.

Corvina ergueu os olhos para os altos portões de ferro


forjado quando passaram e entraram oficialmente nas
instalações da universidade. O tremor na barriga dela se
tornou um estremecimento ao colocar a cabeça fora da janela
para espreitar, e finalmente avistar o castelo no topo da
montanha. Quanto mais perto eles se aproximavam, maior se
tornava. Chamá-lo de castelo era um eufemismo. Era uma
monstruosidade, uma monstruosidade linda, construída de
forma impressionante.

O veículo parou diante de portas altas de madeira e Larry


saltou do carro para ajudar a pegar sua bagagem. Corvina
agarrou sua bolsa e se apressou também a sair, pegando
algum dinheiro para o homem bondoso, enquanto Larry
colocava sua mala e uma bagageira na porta de entrada.

— É até onde posso ir, senhorita. — Larry disse,


embolsando o dinheiro que ela lhe entregou.

— Obrigada. — Corvina acenou com a cabeça e ele deu


um pequeno sorriso, pulando de volta no carro rapidamente e
dando ré. Corvina observou o homem correr e desaparecer na
curva que o levaria aos portões principais.

— Eles acham que vamos comê-los ou algo assim. — Uma


voz feminina irônica atrás dela fez Corvina se virar. Uma linda
garota de olhos verdes e com uma mecha de cabelo branco
super curto está sorrindo, com uma mala rosa brilhante ao seu
lado.

— Droga garota, seus olhos são estranhos. — Ela falou,


atraindo o olhar de Corvina para um piercing de metal em sua
sobrancelha. — E não quis dizer isso ofensivamente. Desculpe.
Oi, sou Jade.
Corvina gostou dela imediatamente.

— Corvina. — Ela se apresentou, sua voz soando rouca


em contraste com a cadência feminina de Jade.

— Nome legal. Primeiro ano? — Jade perguntou,


sentando em sua mala, suas pernas curtas e claras expostas
em um short jeans. Corvina se perguntou se ela não sentia frio.

— Sim. Você? — Perguntou, brincando com sua pulseira,


a que nunca tirava. Ela sabia o que a outra garota estava
vendo: uma garota pequena e delicada, de origem
desconhecida, com olhos violeta oblíquos, pele beijada pelo sol,
embora raramente passasse muito tempo ao sol -, um piercing
no nariz, cabelos longos e pretos em uma trança rabo de peixe
que chegava à cintura, vestida com calças pretas largas e um
suéter fino roxo.

Jade deu uma risadinha. — Provavelmente. Quero dizer,


ano passado eu estava no primeiro ano e depois fugi, então tive
um pouco de bom senso, por isso voltei. Mas eu acho que terei
que repetir o ano certamente. Estes caras não têm muitas
regras, mas as que eles têm? Rigorosas nem sequer chegam
perto.

Corvina sorriu ligeiramente. A garota falou mais em um


minuto do que Corvina em um ano inteiro.

— Este castelo é tão louco. Acho que nunca vou me


acostumar a ele. Deveria ver por dentro, é ainda maior do que
parece por fora. Você não fala muito, não é mesmo? — Jade
perguntou, semicerrando os olhos para Corvina.

Corvina balançou a cabeça, gostando da conversa, Jade


era definitivamente mais jovem. Ela duvidava que conseguiria
dizer uma palavra, de qualquer maneira.

— Legal. — Jade falou. — Quer dividir o quarto comigo?


Sou um pouco intrometida, mas na maioria das vezes sou
bacana. E posso te dar todas as informações suculentas daqui.

Deus, essa garota era incrível. Corvina nunca conheceu


ninguém que a tratasse tão... normalmente. Ela sorriu. — Acho
que gostaria disso.

— Droga, você tem um sorriso matador, Corvina. — Jade


sorriu de volta. — Posso te chamar de Cor? Você não se
importa, certo?

Corvina encolheu os ombros. Não sabia como se sentia


sobre isso. Sempre foi Corvina para os outros, mas este era um
novo capítulo. Talvez pudesse ser outra pessoa também, uma
pessoa mais descontraída, uma pessoa mais durona. — Eu não
me importo.

Só então as portas se abriram e uma mulher, quase da


idade de sua mãe, com cabelo ruivo curto, saiu usando um
lindo vestido bege formal.

— Ah, Jade. — Cumprimentou a sua nova amiga. —


Ótimo, que esteja aqui. Corvina. — Ela se virou no mesmo tom.
— Eu sou Kaylin Cross, — aproximou-se, com a mão
estendida. Corvina apertou sua mão, sentindo uma espécie
desagradável de formigamento na palma da mão ao contato.

Kaylin retirou sua mão e continuou sem uma pausa. —


Por favor, me chame de Kaylin. Sou a especialista em
recrutamento aqui na Verenmore e também sou seu ponto de
contato daqui para frente. Se tiver algum problema, meu
escritório fica na Ala Administrativa. — Indicou o prédio
enorme que acabou de sair. — Pode me encontrar lá das 9h às
15h todos os dias. Jade. — Deu à outra garota um olhar severo.
— Não fuja desta vez. Vocês duas ficarão juntas, peguem suas
bagagens, vamos andando e conversando.

Kaylin era rápida. Suas palavras e passos rápidos


deixaram pouco tempo para Corvina fazer qualquer coisa,
exceto agarrar a alça de sua mala de rodinhas. Viu Jade fazer
o mesmo e elas seguiram a mulher mais velha para dentro do
campus. Jade estava certa. Era enorme.

Jardins bem cuidados estavam espalhados por pequenas


seções entre as diferentes alas do castelo, as pessoas
circulando em algumas delas. Buretas altas agraciavam
diferentes torres por onde Corvina passava. As paredes de
pedra eram espaçadas com janelas em arco e trepadeiras,
algumas florescendo com rosas na parte inferior. Gárgulas se
projetavam no alto das paredes, mascarando as calhas de água
em uma exibição grotesca. O topo de cada torre era coberto
com algum tipo de pedra de um azul profundo que contrastava
com o marrom claro do resto dos edifícios.
Era de tirar o fôlego.

Corvina nunca viu nada parecido em toda a sua vida. Os


livros que lera com castelos geralmente eram romances
históricos que nunca tinham fotos. Havia apenas imaginado e
esta realidade superava em muito sua imaginação.

— Somos uma universidade relativamente pequena. —


Começou Kaylin, guiando-as pela lateral para a direita
enquanto Jade e Corvina arrastavam a bagagem atrás delas no
trajeto de paralelepípedos, as rodinhas fazendo um barulho
alto contra as pedras.

Um grupo de rapazes sentados nos degraus do lado de


fora de uma torre à sua esquerda surgiu à vista,
interrompendo a conversa enquanto todos os olhos caíam
sobre as garotas.

Corvina sentiu seu rosto aquecer com os olhares


masculinos sobre si.

Uma timidez natural a dominou.

Ela nunca realmente interagiu com homens, a menos que


contasse os médicos, embora adorava ler sobre eles. Ela
começou a roubar livros de romance da biblioteca anos atrás
para lê-los à noite, depois que sua mãe ia para a cama. Sua
mãe, mesmo acordada, mal falava com Corvina se não fosse
para ensiná-la. Os livros se tornaram seu refúgio,
especialmente os livros com homens – humanos, metamorfos
ou alienígenas – que se apaixonavam fortemente e
reivindicavam suas mulheres de corpo e alma, eram seus
favoritos.

Corvina queria isso. Queria pertencer, ser amada, ser


absolutamente adorada, não importava o que acontecesse,
apesar de seu passado. Ela desejava tanto isso em seus ossos,
que alguns dias pensou que iria morrer de fome. Havia uma
dor roedora em sua alma, com um desejo profundo. Mas sabia
que os livros que lia eram fictícios, e as chances de ela, de todas
as pessoas, encontrar algo remotamente semelhante eram
escassas.

No entanto, estreitou os lábios, afastou os pensamentos


e deu um sorriso aos garotos que as examinavam.

Novos começos, uma nova Corvina.

— Verenmore tem cerca de dois mil alunos, mais ou


menos algumas centenas. — Kaylin as informava, trazendo
sua atenção de volta, em uma voz que informava à Corvina que
ela havia dado este exato discurso inúmeras vezes antes.

— Estamos aqui há mais de cento e cinquenta anos. A


universidade foi criada para educar e elevar estudantes
brilhantes que de outra forma não poderiam pagar uma
educação universitária convencional por diversas razões. Cada
estudante daqui provém de circunstâncias peculiares. Nós
financiamos o máximo possível. Felizmente, a diretoria tem
alguns dos membros mais influentes da sociedade, portanto,
felizmente, nosso financiamento sempre foi garantido. Parte
deles são os próprios ex-alunos. Alguns optam por retribuir,
tornando-se professores aqui. Nós não somos de elite, mas
somos muito exclusivos. Vocês agora fazem parte dessa
exclusividade

Enquanto Kaylin falava, Corvina tinha contado quatro


torres altas que elas haviam percorrido. Pararam na quinta
torre, na parte de trás, e Kaylin voltou-se para elas. — Como
Jade já conhece o quarto, vou deixá-la orientá-la. Há um
pacote de boas-vindas para você com um mapa, sua agenda e
os professores que terá neste semestre. Qualquer outra coisa,
por favor, procure-me. Bem-vinda a Verenmore.

Com isso, ela se virou e partiu pelo caminho que


tínhamos vindo.

— Você está bem, hein, Jade. — Gritou um belo rapaz


loiro de olhos azuis sentado com o grupo nos degraus da outra
torre. — Não pensei que voltaria a vê-la por aqui depois do jeito
como fugiu.

Corvina viu Jade apertar os dentes e mostrar ao rapaz um


dedo médio com esmalte rosa brilhante.

— Idiota. — Jade murmurou. — Vamos indo, ok?

Corvina acenou com a cabeça. Ela não sabia por que essa
garota fugiu, mas até então havia sido gentil e se tornou sua
primeira amiga. Corvina não gostou da ideia de Jade se sentir
desconfortável.
— Ei, Purple2. — O mesmo garoto gritou assim que
Corvina deu um passo à frente, obviamente se referindo a seus
olhos bastante distintos ou ao suéter. Ela hesitou na soleira,
perguntando-se se deveria virar, especialmente porque não
havia nada mais, nem mesmo remotamente perto do roxo ao
redor deles.

Provavelmente não é uma boa ideia ignorar as pessoas no


primeiro dia, Corvina.

Ela suspirou, virando o pescoço para ver o rapaz dando


um sorriso malicioso. — Cuidado com essa daí. — Apontou
para Jade.

Corvina ergueu as sobrancelhas, claramente perdendo


alguma história entre os dois. Ela se moveu para intervir
quando sua voz soou novamente, suas palavras cortando o ar
seco, fazendo com que ela fizesse uma pausa.

— Sua última colega de quarto se jogou do telhado da


torre. Portanto, tenha cuidado com ela.

2 Roxo, violeta. Referindo-se aos olhos de Corvina e sua roupa.


Corvina

Ao que parece, Corvina não era a única com segredos.

Enquanto desfaziam as malas e se acomodavam no


quarto, com o crepúsculo rapidamente caindo do lado de fora,
Corvina decidiu simplesmente enfrentar o problema que fizera
sua única amiga ficar quieta.

— É verdade? O que ele disse? — Perguntou à Jade e


observou enquanto a mão pálida da outra garota tremia
levemente enquanto desfazia as malas.

— Sim. — Jade suspirou, jogando-se na cama como uma


estrela do mar, olhando para o teto alto.

O quarto delas era surpreendentemente bonito.

Espaçoso, muito maior do que seu quarto na casa de


campo. Este quarto tinha duas camas de solteiro, uma de
frente para a outra, uma mesa de cabeceira ao lado de cada
uma e um enorme armário de madeira nos cantos. Bem em
frente à porta do quarto havia uma imensa e impressionante
janela arqueada que contemplava o muro do castelo no meio
da exuberante floresta verde, e mais abaixo ao fundo da
montanha. O teto era alto e tinha vigas de madeira que ela
sabia serem uma característica marcante da arquitetura
gótica, uma que não conseguia lembrar o nome nem por sua
vida. Grossas cortinas verde escuras penduradas nas laterais
das janelas, amarradas por uma corda polida. Era lindo e mais
luxuoso do que qualquer coisa que conheceu antes.

E ficaria muito frio com o vento, já que a torre não tinha


aquecimento. Pelo menos o tempo estava bom, por enquanto.

Corvina decidiu se sentar em sua cama bem em frente à


de Jade.

— O que aconteceu? — Perguntou timidamente, ainda


sem saber se queria saber o que aconteceu com a garota que a
precedeu neste local.

— Não sei. Alissa estava feliz aqui. — Jade começou,


ainda olhando para o teto. — Ela veio de um lar adotivo como
eu, e nós nos unimos muito rapidamente. Amava estudar aqui,
ela adorava este lugar. Era uma boa aluna, boa pessoa. A única
regra que ela quebrou foi se envolver com um professor.

— Isso não é permitido? — Perguntou Corvina, curiosa.

Jade balançou a cabeça. — Absolutamente não. É uma


das regras mais severas daqui. Estudantes e professores têm
vidas diferentes. Mas o Sr. Deverell... bem, ele é diferente.
Tecnicamente ainda é um estudante, ou pelo menos era desde
que estava trabalhando em seu doutorado.
— Espere. — Corvina franziu a testa, confusa. — Então,
como ele era professor?

— Aparentemente, o professor anterior conseguiu um


emprego melhor e a diretoria não conseguiu encontrar
ninguém para substituí-lo a tempo. Então, a Dra. Greene, que
é a chefe do departamento, permitiu que o Sr. Deverell
lecionasse nos primeiros anos enquanto trabalhava em sua
tese, e ela assumiu as aulas do último ano. Isso nunca
aconteceu antes, então era meio estranho.

Estranho, de fato.

Corvina se levantou e começou a pendurar o resto de suas


roupas enquanto Jade continuava. — Mas também não culpo
Alissa por ter ficado com ele de forma alguma. Ela não deveria
ter feito isso, mas o Sr. Deverell – há algo nele. Ele é gostoso,
mas muito frio. Ninguém sabe merda alguma sobre ele, de
onde vem, o que quer que seja. Diabo dos olhos prateados, era
assim que o chamávamos. E tem uma mecha prematura de
cabelo branco que funciona tão bem para ele, sabe?

Não, ela não sabia, mas acreditaria em sua palavra e


voltaria ao assunto. — Então, Alissa estava ficando com ele?

— Sim, mas eu era a única que sabia sobre isso. Não é


como se eles fossem óbvios ou algo assim. Na verdade, foram
bem discreto, então não sei o que aconteceu. Parte de mim
pensa que talvez ele seja o culpado. Por que diabos ela iria para
o telhado se não fosse isso? Mas não sei.
Jade apertou os olhos com as palmas das mãos e Corvina
sentiu o coração doer com a dor que emanava da amiga.
Começou a se levantar para confortá-la, mas se sentou
novamente, sem saber o que fazer. O suéter em suas mãos
torceu entre os dedos.

Os olhos verdes de Jade se voltaram para ela. — Eu


estava nos jardins com Troy, o idiota loiro do andar de baixo,
e seu grupo quando a vi no telhado. Espero que tenham
trancado agora. Continuamos tentando chamá-la, fazê-la
ouvir. Ela nem mesmo olhou para baixo. Sem hesitação. Sem
vacilar. Simplesmente saiu do telhado como se pudesse andar
no ar.

O pôr-do-sol lançou um brilho assustador no quarto


enquanto Jade falava. Um arrepio envolveu Corvina enquanto
ela escutava sua amiga falar.

Algo se deslocou em sua periferia. Seus olhos de repente


foram para um canto do quarto onde a luz tremulava.
Piscando, Corvina se concentrou, tentando ver se ela tinha
visto algo, mas não pareceu nada.

Com o coração palpitando, ela se levantou e caminhou


até seu armário para arrumar tudo, concentrando-se na
conversa.

— O corpo dela caiu bem na minha frente. Sua cabeça se


abriu com o impacto, — Jade disse a ela, sua voz trêmula. —
Simplesmente não aguentei. Então fugi.
Corvina assimilou suas palavras, os olhos indo para fora
da janela, apreciando a vista. Uma gárgula grotesca no canto
superior direito da parede externa empoleirava-se com a boca
aberta, sabia que era apenas um cano de esgoto, mas parecia
assustador. Não conseguia nem imaginar o quão assustador
ficaria à noite.

— Eles não investigaram? — Perguntou à sua nova colega


de quarto, puxando uma gaveta para suas roupas íntimas. Não
que gostasse de usá-las, sutiãs e Corvina não eram amigos.
Tendo crescido do jeito que cresceu, sozinha com apenas sua
mãe como companhia, sutiãs pareciam necessários apenas de
vez em quando. Calcinha ela usava todos os dias, exceto
quando simplesmente não queria.

— Ninguém chamou a polícia. — Jade respondeu,


retornando o assunto. — Eles disseram que o conselho escolar
cuidaria disso, já que era um caso claro de suicídio. Podem ter
denunciado à polícia. Não sei.

No entanto, era muito bizarro. Nem um pouco o que ela


esperava em seu primeiro dia neste novo lugar. Embora ela
estivesse um pouco nervosa sobre uma nova escola e novas
pessoas – ambos contextos nos quais ela nunca havia
realmente experimentado – não imaginava isto. Realmente não
sabia como responder ou reagir à situação, então optou por
ficar quieta e simplesmente desfazer sua mala.

— Pode me dar um abraço? — A voz atrás dela a fez se


virar para ver Jade parada ali. Elas eram quase da mesma
altura. — Minha família adotiva sempre me disse para pedir
abraços quando eu ficasse triste.

Corvina piscou, um pouco desconcertada. Seu último


contato humano foi há anos, segurando a mão de sua mãe
antes que se fosse. Engolindo em seco, Corvina se adiantou e
abraçou a garota, piscando para conter as lágrimas repentinas
em seus olhos. Jade era doce, cheirava a morango, felicidade e
algo um pouco sombrio ao abraçar Corvina, as duas soltaram
um suspiro como se o peso do mundo fosse tirado de seus
ombros.

— Posso sentir que você está triste também. — Jade disse


a ela. — Mas você é boa. E se a coisa com Alissa me ensinou
alguma coisa, foi a conversar sobre coisas de merda se isso nos
machucasse. Eu só quero que saiba que estou aqui por você.
Qualquer coisa sobre a qual queira falar. Sem julgamentos.

Os olhos de Corvina arderam, seu nariz se contraiu como


sempre acontecia quando estava perto das lágrimas, e
balançou a cabeça. — Obrigada. Estou aqui por você também.

Jade se afastou e foi até sua mala, vasculhando uma


parte e jogando roupas fora. — De qualquer forma, preciso
mudar de assunto. Rapazes. Sim, vamos conversar sobre
meninos. Você gosta de meninos, certo? Totalmente bem se
não gostar. Só quero saber para distribuir o tipo certo de
informação.
Corvina deu uma risadinha, continuando a guardar suas
roupas. — Eu gosto de meninos. Muito. Mas não tenho muita
experiência com eles. — Qualquer experiência.

Jade sorriu para ela. — Oh, Verenmore é um ótimo lugar


para obter experiência. Imagine só, onde mais você encontraria
um catálogo dos meninos mais malvados e taciturnos, mas
com cérebros de verdade? Bem aqui, é o lugar. A maioria dos
caras aqui são realmente legais, nem todos, veja bem, mas a
maioria. Se está procurando por experiência sexual, sugiro
evitar os primeiros anos. Eles estão mais concentrados em se
acomodar e em seu próprio prazer do que o de seu parceiro, se
entende o que quero dizer. Espere, quantos anos você tem?

Corvina ficou fascinada com a habilidade de Jade de falar


em um só fôlego. — Vinte e um. Você? — Respondeu sua
pergunta, dobrando a última de suas saias pretas de sua mala.
Ela amava saias, amava como a faziam se sentir feminina, a
sensação do ar em torno de suas pernas, tudo sobre elas. Saias
longas eram sua marca registrada.

— Droga, você ingressou tarde. Eu tenho dezenove.


Enfim, recomendo os sêniores. Eles geralmente têm vinte anos
ou mais e têm mais experiência. — Jade continuou, acendendo
as luzes do quarto. O brilho amarelo suave é bastante
reconfortante. — Só não Troy, o idiota. Eu estava saindo com
ele no ano passado e ele está chateado por eu ter fugido, mas
vamos resolver isso.
Corvina admirava sua confiança. Ela esperava que um
dia pudesse falar com um menino sem sentir que todo o seu
peito estava desabando.

Algo no canto piscou novamente e Corvina sentiu seus


olhos serem atraídos para o local.

'Limpe o seu espaço, Vivi.'

A voz masculina vagou em sua mente.

Não ficou surpresa ao ouvi-lo. Era uma voz que ouviu


durante toda a vida. Era uma voz confortável, algo que deixava
uma doce fragrância de sândalo em sua cabeça. A primeira vez
que o ouviu, o chamou de Mo. Mo sempre estivera com ela,
guiando-a, e sabia que não devia ignorar seus conselhos. A
única vez que o ignorou, ele pediu que verificasse sua mãe e
ela não o fez. Na manhã seguinte, encontrou sua mãe olhando
para o nada. Levou dias para trazê-la de volta.

Respirando fundo, fechou os olhos e empurrou a mala


para debaixo da cama, trazendo a bolsa menor, sacudindo seu
conteúdo para fora.

— Você se importa se eu acender um incenso no quarto?


— Corvina perguntou à colega de quarto.

Os olhos de Jade pousaram nas coisas em sua cama, um


brilho animado neles enquanto ela olhava suas cartas. — Cara,
você lê tarô?

Corvina hesitou, depois assentiu suavemente. — Sim.


— Isso é tão legal! — Jade exclamou. Essa geralmente não
era a reação quando ela contava às pessoas. — Fará uma
leitura para mim um dia?

Corvina sorriu timidamente. — Claro. Sou boa nisso.

— Eu não duvido. Você tem esse ar sobre você. — Jade


comentou, acenando com a mão ao redor do quarto. — Seja
você. Faça o que a deixar confortável. Sou tranquila.

O universo deu um presente a ela com essa garota.


Sorrindo, tirou os palitos de incenso que fizera antes de sua
jornada com flores esmagadas e folhas de sálvia e manjericão.
O cheiro a lembrava de casa, de belas e calorosas memórias de
amor e afeição antes de desaparecer. Respirando, acendeu dois
deles e os colocou no suporte de madeira. Colocando-o no
canto onde viu a luz tremeluzir duas vezes, tirou duas velas
caseiras sem cheiro. Acendendo-as, as colocou ao lado do
suporte de incenso e fechou os olhos.

Murmurou a oração rápida como fazia todas as noites


desde que conseguia se lembrar, cruzando as mãos e
abaixando a cabeça. Sentiu o amor encher seu coração como
sempre acontecia quando fazia seu pequeno ritual, uma
âncora em um lugar novo, uma maneira de se sentir mais perto
de sua mãe.

— Você acredita em espíritos? — Sua colega de quarto


perguntou a ela depois de alguns minutos, quando terminou.

Corvina encolheu os ombros. — Por quê?


— Só curiosidade.

— Acredito mais em energias. — Corvina disse a ela.

— Sim, posso entender isso. Meu pai adotivo...

Corvina deixou Jade falar sobre sua família adotiva


enquanto voltava para a cama para limpar os itens, mas de
repente parou. Uma única carta de seu baralho estava virada
em seus lençóis, uma carta que ela não se lembrava de puxar,
uma carta que ela nem se lembrava de tocar.

A carta da Morte.

O castelo gemia à noite. Foi assustador.

Apesar de estar completa e totalmente exausta depois de


voltar do jantar, Corvina não conseguia dormir e queria muito,
muito mesmo. Ela não sabia se era por estar em uma cama
nova, ou dividir o quarto com alguém, ou apenas o som do
vento assobiando do lado de fora de sua janela e a torre se
acomodando, mas o que fosse, simplesmente a manteve
acordada.
Jade havia caído na cama quase imediatamente após seu
retorno do jantar. Ela ressonava enquanto Corvina olhava para
as vigas de madeira no teto, as sombras dançando sobre elas
de uma forma mórbida e bela.

Ela viu as sombras brincarem, e de repente, algo mais se


juntou aos sons do vento e do castelo.

Uma melodia assustadora.

Corvina piscou os olhos, observando o quarto


desconhecido, levando um momento para perceber como era
diferente de sua antiga cabana, absorvendo a escuridão ao seu
redor. Acendeu a lâmpada de cabeceira, seus olhos vagando
para sua colega de quarto profundamente adormecida,
enrolada no cobertor que a universidade forneceu a elas. O
relógio ao seu lado mostrava que passava duas horas da meia-
noite.

A melodia continuou. Assombrando. Estranha. Etérea.

Corvina apagou as luzes, decidindo tentar dormir. Estava


cansada até os ossos quando terminaram o jantar no enorme
salão de jantar, tanto que mal vestiu a camisola antes de cair
na cama.

Mas algo a impedia de adormecer. Ela não sabia o que


era, mas puxou seu coração, arrastando-o em direção à
música, o puxão tão agudo que a deixou sem fôlego. Era isso
que os marinheiros sentiam antigamente quando as sereias os
chamavam?
Rangendo os dentes, se deitou antes de se levantar
imediatamente. Ela deveria ouvir essa música, havia uma
razão para isso. A última vez que sentiu esse puxão sem fôlego
foi logo antes de sua mãe ser levada, um desejo profundamente
enraizado em seu coração. Isso era, por algum motivo,
importante o suficiente e ela não podia ignorar.

A melodia continuou a flutuar para ela enquanto colocava


seus sapatos que estavam ao lado da cama. Sem uma lanterna
para guiá-la, foi até a cômoda que dividia com Jade e colocou
uma vela no candelabro que mantinha ali. Acendendo-a,
soprou o palito de fósforo e se dirigiu para a porta.

Jade tinha dito a ela que não havia nenhuma restrição à


noite, mas geralmente ninguém saía de seus quartos. Ela fizera
uma careta ao informá-la isso, mas Corvina estava exausta
demais para continuar conversando. E também não teria saído
do quarto, se não fosse por aquela melodia. Não porque estava
com medo do escuro ou de qualquer coisa que se escondesse
dentro dele; simplesmente porque estava esgotada.

Abrindo a porta, olhou para a escuridão do corredor. O


quarto dela ficava no segundo andar da torre, junto com outros
oito quartos, todos silenciosos. Uma luz solitária pendurada ao
lado perto da escada, deixando o resto do corredor no escuro.

Corvina abaixou os olhos para sua camisola branca de


manga curta e se perguntou se deveria se trocar. Sempre usava
camisolas à noite e saias e vestidos durante o dia. Suas calças
largas foram uma nova adição ao seu guarda-roupa apenas
para fins de viagem.

Para o inferno com isso.

Respirando fundo, saiu para o corredor e fechou a porta


atrás de si. Uma brisa fria levantou os fios de seu cabelo solto
e comprido, envolvendo-se a sua volta enquanto o volume da
música ficava mais alto. Seguindo a trilha do som, andou em
passos silenciosos à luz das velas até a escada, percebendo que
o som vinha de cima.

Pegando a camisola com a mão livre, subiu lentamente as


escadas, a música ficando cada vez mais alta a cada degrau
que subia, sua respiração ofegante da subida consistente.
Como ninguém mais estava acordando com essa música?
Estavam tão acostumados a isso? Ou não podiam ouvir nada?
Estava dentro de sua cabeça?

Um andar.

Dois andares.

Três andares.

Quatro.

Cinco.

A escadaria de pedra terminou, envolta em escuridão que


pairava dentro do castelo, e começou uma escadaria em espiral
metálica. Ela subiu.
Seis andares.

À medida que subia, ela contava cada vez mais alto até
chegar ao topo da torre. A pequena janela na parede da escada
lhe mostrou a pequena meia lua no céu e a escuridão sem fim
sob o castelo. A música vinha logo atrás da pesada porta de
madeira na sua frente. Era uma espécie de sótão no topo da
torre. A porta não estava totalmente fechada.

Subindo os últimos degraus, ela hesitou, não querendo


que quem estivesse do outro lado soubesse que estava lá e
parasse sua música. Mordendo o lábio, silenciosamente
inclinou-se para o lado onde a porta estava aberta e espiou o
interior.

Um menino, não, um homem, sentado em frente a um


grande piano de madeira escura, apenas o perfil lateral visível
para ela. Empurrando a vela atrás da porta para se esconder
nas sombras, o observou ao luar.

Ele estava sentado na semiescuridão, vestido todo de


preto, as mangas de seu suéter puxadas para cima em seus
antebraços, seus olhos fechados enquanto se curvava para
frente, a linha de sua mandíbula cinzelada e sombreada com
cabelos, uma mecha de seu cabelo escuro caindo para frente.

Ele era... magnífico.

Lindo no modo como a dor era linda, porque ela puxava o


peito e fazia algo visceral ganhar vida no estômago, fazendo
com que o sangue fervesse nas veias. Encantador no modo
como ela imaginava que a magia negra era, porque distorcia o
ar ao seu redor e pervertia a mente e dominava os sentidos.
Assombrado do modo como poucos seres vivos poderiam ser,
porque enviava um arrepio pela espinha e se camuflava na
escuridão para alimentar-se da energia ao seu redor.

Corvina observou, encantada, seus dedos voarem sobre


as teclas sem que seus olhos se abrissem uma única vez, uma
melodia assustadora de angústia flutuando entre eles,
conectando-os em seu lamento.

O lamento existia em algum lugar entre o preto e o branco


quando o homem tocava e Corvina queria existir naquele
subespaço com eles naquele momento, ver o que ele via, ouvir
o que ouvia, sentir o que sentia. Algo dentro dela se dobrou,
desdobrou e apertou novamente enquanto o observava, o
desejo de tocá-lo e ver se ele era real fazendo suas palmas
coçarem. Tinha que ser real. Não podia estar imaginando-o.
Poderia?

A música parou abruptamente quando seus olhos se


abriram.

Corvina deu um passo atrás da porta rapidamente, o


coração batendo forte no peito.

Merda. Droga. Merda.

O silêncio repentino pareceu mais pesado durante a noite


do que deveria. Ela podia sentir isso pressionando em seu
pescoço, bem onde seu pulso batia forte, no peito onde seu
coração batia em um ritmo acelerado, e sua mão que tremia
quando agarrou sua camisola.

O silêncio se prolongou e ela soube, simplesmente soube,


que ele estava vigiando a porta e a escada. Ela não sabia como
tinha certeza disso, mas sabia, e teve que ficar lá e se esconder
até que a pressão de seu olhar levantasse. Quem quer que
fosse, tinha uma intensidade diferente de tudo que já
encontrou antes.

— Quem quer que seja você, saia agora mesmo. — Uma


voz masculina gritou o comando.

A voz dele.

Barítonos profundos de cascalho. Havia algo doce, mas


rico nisso, inebriante, texturizado.

Corvina considerou suas palavras e percebeu que não


adiantava se esconder. Ele já sabia que ela estava lá. Era
melhor que simplesmente descesse.

Inalando profundamente, recolheu a camisola na mão


que a segurava e se dirigiu para as escadas, levantando a vela
para iluminar o caminho.

— Jesus. — Ouviu-o xingar, mas não se virou. Ela deve


ter parecido uma visão fantasmagórica com seu vestido
branco, longos cabelos negros e o castiçal na mão. Sem parar,
voltou pelo caminho por onde viera e desceu rapidamente, seu
coração batendo junto com seus passos, desta vez
ruidosamente na escada em espiral, sua camisola e cabelos
soltos esvoaçando atrás dela, provavelmente fazendo-a parecer
uma louca. Que primeiro dia estava se tornando.

Sentiu os olhos dele sobre ela do alto da escada e hesitou,


cedendo à tentação de olhar para o seu rosto apenas uma vez,
para nunca mais vê-lo novamente. Olhando-o de um andar
abaixo, observou seus olhos, olhos claros de uma cor que não
sabia dizer, conectando-se com os dela. O tecido de sua
camisola se torceu em seu punho enquanto seu pulso
acelerava, vendo-o observá-la.

Corvina engoliu em seco, querendo dizer-lhe que não


pretendia perturbá-lo, dizer que ele era possivelmente o
homem mais sombrio e bonito que já vira, que tocava como se
tivesse sido amaldiçoado a tocar por sua vida. Queria contar-
lhe todas essas coisas, mas não disse nada.

E então ela viu: uma ousada mecha de branco que corria


por seu cabelo da frente, desaparecendo por trás.

A compreensão surgiu sobre Corvina, ela se libertou de


seu olhar e desceu correndo as escadas, mantendo um ritmo
rápido por todo o caminho até seu quarto, determinada a tirar
o encontro de sua mente.

Porque os olhos claros e a mecha de cabelo branco


significavam apenas uma coisa: ela acabara de encontrar o
Diabo de olhos prateados de Verenmore.
Corvina

Um estrondo de trovão sacudiu as paredes do castelo.

Corvina ficou sob os toldos da Ala Administrativa, tendo


acabado de recolher seus livros e alguns itens de papelaria,
com as mãos cheias enquanto observava a vista deslumbrante
do topo da montanha.

Mesmo depois de uma semana em Verenmore, ela não


conseguia evitar de parar e admirar a vista sempre que podia.
Era diferente de tudo que poderia ter imaginado antes.
Enquanto crescia, não assistia muitos filmes ou acessava
muito a internet para ver pontos turísticos como o que estava
à sua frente. Esse era um dos motivos pelos quais não ter
telefone ou internet na universidade não a incomodava muito,
nunca os teve, havia uma linha telefônica para emergências e
para fazer pedidos de suprimentos. Todos as outras coisas ela
pesquisava na biblioteca da cidade uma vez por semana. Sua
mãe a ensinou autossuficiência.
Corvina abraçou os livros contra o peito com a pontada
que sentiu ao pensar em sua mãe, e então se livrou disso, não
era hora de ficar nostálgica.

Vestindo uma de suas blusas de mangas compridas


pretas, saia maxi marrom, uma gargantilha de fita preta em
volta do pescoço, batom marrom na boca, delineador preto
marcando seus estranhos olhos violetas, cabelo em uma
trança rabo de peixe, pingentes de prata pendurados nas
orelhas, piercing prata no nariz e a pulseira multicristal no
pulso esquerdo que nunca tirava, exceto para energizar,
Corvina se sentia mais como ela mesma. Claro, as pessoas a
olhavam enquanto passava, mas em Verenmore, seus olhares
eram mais curiosos do que antagônicos, como se tivessem a
visto durante toda a sua vida.

Durante a última semana, ela tinha aprendido através de


observações, interações limitadas e suas maiores fontes de
informação – Jade e Troy – que a maioria dos alunos em
Verenmore possuíam algum tipo de passado, mais trágico do
que não. Todos tinham seus segredos e era por isso que os
respeitavam, principalmente nos outros. Claro, havia alguns
alunos de merda, mas eram poucos e distantes entre eles. Em
geral, os estudantes se preocupavam com suas vidas e se
mantinham com seus amigos.

E ela amou isso.

Corvina amava a aceitação que sentia ali todos os dias,


seja no único aceno de cabeça que a senhora da sala de jantar
comum lhe dava, ou no sorriso cheio de dentes que Troy, o
Idiota, oferecia cada vez que a via, ou no carinho com que ele
ou seus amigos costumavam chamá-la de Purple, ou nos
abraços aleatórios que Jade lhe dava do nada todos os dias.

A vida estava melhorando e, pela primeira vez, Corvina


estava entusiasmada com as possibilidades de seu futuro.
Embora ainda não fosse tão receptiva com eles, duvidava que
algum dia seria ou confiaria em alguém o suficiente para
contar tudo, mas estava aprendendo a aceitar graciosamente
suas amizades. Mesmo que uma parte dela não quisesse nada
mais do que encontrar alguém que guardasse seus segredos
sem que ela tivesse que fazer constantes escolhas.

Era exaustivo ficar sozinha.

Isso a fazia pensar no homem tocando piano. Ela nunca


contou à sua colega de quarto sobre sua pequena aventura
naquela primeira noite no quarto da torre, como chamava em
sua cabeça. Não havia motivo. Não viu o diabo de olhos
prateados desde aquela noite, e embora as aulas fossem
começar em uma hora, e sabia que inevitavelmente cruzaria
com ele, não havia razão para Jade se preocupar com isso, não
depois do que tinha acontecido com sua colega de quarto
anterior.

— Foda-se, porra, foda-se. — A garota em questão veio


correndo em sua direção, seus próprios livros abraçados ao
peito, vestindo uma blusa amarela e shorts jeans (como
Corvina descobriu que era seu vestuário favorito), seus olhos
verdes arregalados.

— O quê? — Corvina perguntou, franzindo a testa com a


apreensão em seu rosto.

— Eu esqueci, porra!

— O quê? — Corvina perguntou, confusa. — O que você


esqueceu?

— É o ano do Baile Negro.

Corvina sentiu as sobrancelhas franzirem. — O quê?

— Deus, você não sabe. — Jade balançou a cabeça e


começou a caminhar em direção à Ala Acadêmica, cortando os
jardins no meio. Corvina não esteve naquela Ala em particular
durante a semana, embora a tivesse visto de longe enquanto ia
para o refeitório ou o salão principal, como o chamavam aqui.

A Ala Acadêmica era a maior parte de todo o castelo, bem


na parte de trás do terreno, aninhada no ponto mais alto da
montanha. Troy lhe havia dito durante o jantar uma noite –
depois de instalar-se em sua mesa e dizer que seriam grandes
amigos – que o fundo do castelo não era muito íngreme, mas
tinha penhascos letais, um que ela poderia ver pelas janelas.
Ela estava entusiasmada em se aventurar no território novo e
natural.

— Não sei os exatos detalhes. — A voz de Jade ao lado


dela interrompeu suas reflexões enquanto caminhavam para
as aulas em um passo firme. — Acontece a cada cinco anos. É
uma tradição de baile de máscaras que faz parte da história da
universidade desde sua fundação.

— Okayyyy. — Corvina falou lentamente, desejando que


ela continuasse. — E isso é ruim por quê?

— Porque em cada Baile Negro, alguém desaparece.

Corvina fez uma pausa, olhando com atenção para sua


amiga. — Que diabos? — Sussurrou, avaliando a seriedade da
declaração de Jade. Ela parecia sombria pra caralho.

A outra garota começou a caminhar em direção ao prédio


enquanto nuvens rugiam no céu, lançando um cinza nebuloso
sobre tudo.

— Pelo que eu sei, — continuou depois que Corvina se


juntou a ela. — O primeiro desaparecimento perceptível foi há
cerca de cem anos. Disseram que o cara foi para a floresta e se
perdeu. Até o próximo desaparecimento que aconteceu na
mesma noite, cinco anos depois. Já se passaram uns cem anos
e quase vinte pessoas desapareceram na mesma noite. É
realmente assustador, não é?

Era assustador e muito estranho.

— Espere. — Corvina balançou a cabeça. — A polícia não


investigou?

Jade deu uma risada sem humor. O que eles podem


investigar? Não há evidência de crime pelo que eu sei. Garotas,
garotos, professores, até mesmo pessoas da cidade
desaparecem. Nenhum corpo jamais foi encontrado. E como
isso se estendeu por tantos anos, as pessoas simplesmente
assumem que ou estão fugindo ou estão perdidas. Mas confie
em mim, sei por experiência própria que fugir daqui não é fácil,
especialmente à noite.

— Ei, olhos esquisitos. — Uma das garotas de sua torre,


Roy, gritou para Corvina. Sim, nem todas as pessoas eram
legais.

— Cai fora, Roy. — Gritou Jade, mostrando o dedo do


meio enquanto corriam para a aula. Deus, ela amava essa
garota.

Com a mente ainda na conversa, Corvina fez a pergunta


mais óbvia. — Por que ninguém impediu o Baile Negro?

— Vamos primeiro para a aula. — Disse Jade ao entrarem


na Ala Acadêmica. Corvina parou por um momento para
absorver a beleza pura, e a magnitude do castelo. O que a
impressionava era como algo tão extravagante, tão antigo
ainda poderia existir no mundo real.

A entrada era grandiosa, com esculturas em ambos os


lados de anjos chorando e olhando para o teto extremamente
alto, sustentado por numerosos pilares. Um enorme conjunto
de portas duplas de madeira simples, e dois conjuntos de
escadas largas e baixas de pedra que levavam aos andares
mais altos em ambos os lados. Jade virou-se para a da
esquerda e Corvina a seguiu, com seus olhos sobre os enormes
pilares que suportavam o peso desta parte do castelo. Um
grande candelabro de metal antigo com mais de cem encaixes
para lâmpadas dependuradas no centro do teto, parecendo tão
velho que Corvina apostaria ter sido pendurado ali por algum
senhor da guerra medieval.

Elas chegaram a um patamar com um corredor que


conduzia à esquerda e outro conjunto de escadas que dirigia
para cima. Jade entrou no corredor e andou até a quarta porta
à direita, com uma placa pendurada de bronze com bordas
curvas, com uma identificação no topo que dizia simplesmente
'Inglês – Ano 1'.

Empurraram a pesada porta, as primeiras da classe, e


entraram.

Um quadro ornamentava a parede frontal, e enormes


janelas agraciavam as paredes laterais e traseiras. Eles
estavam claramente em uma sala de canto do castelo. O piso
tinha três níveis – o mais baixo com uma grande mesa para o
professor, mesas compridas básicas e cadeiras no segundo e
terceiro níveis em filas bem organizadas.

Corvina estava apaixonada.

Indo para o fundo da classe, para uma cadeira no canto


com janelas à direita e atrás, deixou seus livros sobre a mesa
enquanto Jade saltava para sentar-se sobre ela, e olhava pela
janela.
Um penhasco lindo e profundo descia verticalmente da
parede do castelo para um mar de verde, a vista é
absolutamente deslumbrante.

— Uau. — Sentiu a palavra escapar de sua boca enquanto


seus olhos percorriam todo o panorama a seus pés.

— Eu sei, não é? — Jade disse de seu lugar na mesa. —


Tenho medo de altura, mas até eu amo a vista. Essa é a única
coisa que este lugar tem a seu favor.

A atenção de Corvina voltou para a conversa incompleta


antes que a vista a distraísse. — Então, por que não
encerraram o baile?

Jade suspirou. — Realmente fizeram. Por uma década, eu


acho. Pessoas desapareceram de qualquer maneira.

— Que diabos. — Corvina repetiu enquanto colocava os


livros na bolsa. Arrepios explodiram em seus braços enquanto
processava o que Jade estava lhe dizendo. Se o que disse fosse
verdade e o padrão se mantivesse, alguém desapareceria na
noite do baile deste ano.

— Este castelo tem tantos segredos. — Jade sussurrou,


olhando pela janela. — Amo este lugar, mas me assusta pra
caralho.

Corvina conseguia entender o porquê. Por mais bonito


que fosse, havia algo de errado com o castelo em si. Ela estava
sentindo isso mais e mais a cada noite. Era como formigas
rastejando sobre sua pele, aquela sensação de algo errado, de
algo macabro, mas não expressou isso. Não havia sentido em
assustar sua já apreensiva colega de quarto.

— Quando é o baile? — Ela perguntou, ao invés.

— 15 de Junho. — Jade disse. — Faltam apenas alguns


meses.

Ainda havia tempo.

Os alunos começaram a entrar na sala de aula,


interrompendo a conversa. Corvina sentou-se e tirou seu velho
caderno, pegou uma de suas velhas canetas e abriu em uma
nova página.

O fantasma de uma melodia flutuou em sua mente.

A mesma melodia que ele havia tocado naquela noite,


aquela melodia perturbadora e angustiante que, de alguma
forma, havia se infiltrado em seu ser. Ela fechou os olhos,
ouvindo em sua memória, as notas fluindo como sangue em
suas veias, seus olhos fechados, sua postura dolorida gravada
em sua mente. Qualquer que fosse a fascinação que Corvina
sentia pelo homem de olhos prateados, ela estava tentando
cortar pela raiz. Mas às vezes, a música, o homem, o momento,
vinha à sua mente espontaneamente.

Balançando a cabeça para dissipar a imagem, ela olhou


ao redor para a sala de aula inteira. Havia um total de quarenta
alunos em sua classe, vinte e oito meninos e doze meninas
enquanto contava mentalmente. Alguns estavam conversando
entre si, mas a maioria era muito quieta, como ela. Talvez fosse
a sensação de estar em um novo ambiente, conhecer novas
pessoas ou uma combinação de ambos que deixou a todos um
pouco desconfiados. Considerando que todos eles vieram de
algum tipo de passado degradado, ela não achou isso nem um
pouco surpreendente.

Sentada ao fundo com Jade, ela olhou para seu caderno


aberto e para os pequenos rabiscos que desenhou. Ela estava
entusiasmada para tomar notas. Nunca tinha ido a uma escola
– como sua mãe a havia educado em casa – a experiência,
embora aterrorizante, também era emocionante.

Pelo que compreendeu, Verenmore oferecia a todos os


estudantes dois anos de um curso superior universitário de
Estudos Gerais, após este período o estudante poderia optar
por ir para outra universidade a fim de obter um bacharelado
em sua área específica ou completar o curso na própria
Verenmore, ou simplesmente sair para o mundo com o grau
universitário. Era uma forma muito boa para a Universidade
não apenas cultivar um senso de lealdade entre os estudantes
com o intuito de retribuir, mas também para capacitar os
jovens de origens desfavoráveis a viverem uma vida melhor.

De repente, o pequeno barulho da classe diminuiu,


fazendo Corvina erguer os olhos.

O ar mudou.

O diabo de olhos prateados entrou com um caderno na


mão, andando com confiança, largos ombros para trás, peito
amplo e firme, as longas pernas devorando a distância,
ordenando que as moléculas ao seu redor se deslocassem. Ele
estava com outra roupa preta, calça preta e uma camisa de
botão preta enfiada para dentro, dois botões em seu colarinho
desabotoados, mangas dobradas sobre seus antebraços
musculosos. Não havia barba em sua mandíbula, as linhas
nítidas e claras contra o bronzeado de sua pele. À luz do dia,
Corvina percebeu que a mecha grisalha em seus cabelos não
era a única. Havia um leve cinza em suas têmporas e Jade
estava certa, funcionava muito, muito bem para ele.

Seus olhos de mercúrio vagueavam sobre os estudantes


sentados, passando sobre ela antes de repentinamente
retornar novamente para ela. Ela o viu atravessa-la sob a luz
do dia, filtrando-a através das janelas arqueadas, como havia
feito com ele. E sabia o que ele iria ver – suéter preto, lábios
marrons, trança de rabo de peixe, gargantilha de fita preta,
nariz perfurado, brincos prateados, e seus estranhos olhos
violeta.

Suas palmas começaram a suar enquanto seus olhos


permaneciam sobre ela, antes de seguir em frente.

— Sou Vad Deverell. — Falou, dirigindo-se à classe, sua


voz profunda e grave gotejando autoridade. — Vocês irão se
referir a mim como Sr. Deverell. Não professor. Não por meu
primeiro nome. Ensinarei Linguagem e Literatura neste
semestre, que é uma das disciplinas principais deste curso,
portanto obrigatória. Estaremos cobrindo os fundamentos da
literatura, os diferentes campos do pensamento crítico, e
estudaremos alguns clássicos com a perspectiva do porquê
eles são assim. Acompanhando até agora?

A maioria dos alunos assentiu.

— Ótimo. — Sr. Deverell encostou-se à mesa, colocando


seu caderno sobre ela, as mãos de cada lado, mãos que Corvina
vira trabalhar em um piano com tanta maestria. — Para os
clássicos, darei a todos uma escolha entre alguns. O que
decidirem, estudaremos. Para minha aula, precisarão escrever
dois artigos para o semestre inteiro, um criativo e um crítico.
E não quero respostas do livro. Pensem livremente. Deem-me
o contexto do motivo pelo qual escolheram um determinado
tópico e partiremos daí. Alguma pergunta?

Uma garota vestida de vermelho na frente levantou a mão.

Ele acenou com a cabeça para que ela continuasse.

— Você também não é um estudante, Sr. Deverell?

Seus olhos prateados brilharam na luz da janela. — Um


estudante de doutorado, sim. Estou completando minha tese
este ano.

— Qual é o seu projeto, se não se importa que pergunte,


senhor?

— Não me chame de senhor. — Ordenou, as mãos


agarrando sua mesa, os olhos fixos em Corvina. — Minha tese
é a correlação e a influência da música na literatura ao longo
dos tempos.
Droga.

Droga.

Vad era perturbador. Muito perturbador de uma forma


que a fez querer se contorcer em sua cadeira, especialmente
quando a olhava assim e falava com aquela inteligência.
Corvina podia admitir que ela nunca tinha se deparado com
isso. E não foi a única a sentir. Podia ver algumas garotas
nervosas pela classe e sabia que estavam sentindo o que quer
que estivesse exalando dele.

Corvina voltou a desviar o olhar e abaixou os olhos para


o caderno, com o peito arfando. Percebeu que era
possivelmente a primeira vez em sua vida que sentia a luxúria
induzida por um homem real e não por um personagem fictício.
Era assim que ela se sentia – empertigada, excitada, vibrante.
Isto era luxúria. E ela queria enrolar-se nela.

— Apresentem-se agora. — Ordenou à classe, cruzando


os braços sobre o peito, e Corvina olhou para cima para
encontrar aqueles olhos mercuriais fixos nos dela.

— Jax London. — O cara bonito na frente que andava com


Troy começou.

— Erica Blair.

— Mathias King.

Seguido pelo próximo, o próximo e o próximo.


E o tempo todo, o diabo de olhos prateados acenou para
eles enquanto mantinha os olhos nos dela, como se pudesse
esfolá-la e mergulhar nos recessos mais profundos de sua
mente. Ele queria o nome dela, queria ouvir a voz dela. Ela
sabia disso em seus ossos. E, por alguma razão, seu estômago
embrulhou com a ideia de se dirigir a ele diretamente, com a
ideia de lhe dar seu nome. Os nomes tinham poder, como sua
mãe havia lhe dito.

— Jade Prescott. — Sua colega de quarto falou ao seu


lado e Corvina sabia que era a próxima.

Engoliu em seco quando ele acenou com a cabeça para


Jade, antes de dar toda a ferocidade de seu foco para ela. Com
as palmas das mãos úmidas, as esfregou na saia e molhou os
lábios.

— Corvina Clemm. — Disse suavemente, grata por sua


voz não refletir sua agitação interna.

O menino da frente, Mathias, virou-se para olhar para


ela. — Esse é um nome legal, significa alguma coisa?

Corvina, que ainda estava presa por olhos prateados, viu


sua mandíbula apertar com a interrupção do menino. — Corvo.
— Ele falou, dirigindo-se a Mathias. — Significa pequeno corvo.

— Raven3. — Ela o corrigiu automaticamente.

3 Corvo.
Seus olhos brilharam. — Raven4 e Clemm5. Seus pais
gostavam de Poe?

— Minha mãe. — Disse Corvina, os olhos ardendo ao


lembrar o quanto a mãe amava o poeta. Seu nariz se contraiu
involuntariamente.

Ela viu os olhos dele permanecerem em seu nariz por um


segundo a mais antes de passar para o próximo aluno, e
respirou fundo de alívio.

— Tudo bem, vamos começar. — Ele bateu palmas, e o


resto da aula passou em um borrão, principalmente com ela
mantendo a cabeça baixa e se concentrando nas anotações.
Em pouco tempo, a campainha tocou.

— Discutiremos isso amanhã. — Disse ele, pegando seu


caderno encadernado em couro marrom e saindo da sala,
levando consigo aquela carga de eletricidade no ar. Corvina
caiu ligeiramente, um fôlego escapando dela assim que Jade
se virou e a encarou.

— Que raio foi aquilo? — Jade sibilou quando os outros


alunos começaram a sair da sala.

Corvina olhou para ela com o cenho franzido. — O quê?

4 The Raven – (O Corvo) é um poema narrativo do escritor norte-americano Edgar Allan Poe.
Publicado pela primeira vez em janeiro de 1845, é conhecido principalmente por sua musicalidade,
linguagem estilizada e atmosfera sobrenatural.
5 Virginia Eliza Clemm – Foi a esposa do escritor americano Edgar Allan Poe. Morreu aos 24 anos

de tuberculose. O impacto da morte de sua esposa afetou a poesia de Poe, onde jovens mulheres
moribundas foram um tema constante, como em Annabel Lee, The Raven e Ligeia.
Os olhos de Jade estavam preocupados. — O que quer
que foi isso entre vocês dois. O ar estava pulsando, Cor. Não
estou brincando.

Corvina fechou o caderno, rindo. — Isso era


provavelmente todos os ovários da sala derretendo por ele.

— Não. — Jade ficou com ela. — Eram vocês dois.


Parecia... quente. E isso não é bom, não neste lugar. Tome
cuidado, ok?

Corvina bufou enquanto chegavam à porta. — Ele é nosso


professor, Jade, sei disso.

— Droga, — elas se voltaram para ver uma garota negra


alta e linda que se apresentou como Erica, andando atrás
delas. — Aquilo foi um pico de tensão sexual. Engarrafe e você
seria a garota mais rica deste lado de Tenebrae.

— Veja. — Jade apontou para Erica. — Não foi só eu.

Corvina balançou a cabeça para elas. — Não sei do que


vocês estão falando.

— Garota, — disse Erica, ao cruzá-las para o corredor do


lado de fora, — de onde eu estava sentada, estava tão
iluminado que os alienígenas provavelmente poderiam ver. O
Sr. Deverell parecia que ele a comeria viva. Não, parecia que
ele iria se banquetear com você se lhe fosse dada a
oportunidade.
Corvina agarrou a alça da bolsa quando saíram para o
corredor e Erica foi cumprimentar outra pessoa.

Jade começou a caminhar em direção à escada quando o


homem em questão subia do outro lado.

A amiga se virou para olhar seriamente para Corvina. —


Você não entende, Cor. Ele é tão... estranho. É como se todos
nós tivéssemos nossos segredos, mas ele o leva ao extremo. É
o único que vai para aqueles bosques o tempo todo. Ninguém
sabe de onde ele veio. Ele não tem amigos, apenas seus
colegas. Então Alissa se encontra com ele contrariando as
regras e salta de uma torre? É que, é... muito estranho.

Corvina não podia negar isso enquanto observava seu


corpo vestido de preto desaparecer escada acima. Foi estranho.

— E quer saber algo ainda mais estranho? — Jade


perguntou, pegando a outra escada para a próxima aula.

— O quê? — Corvina perguntou, percebendo que


indagava muito àquela garota.

Jade olhou para ela, seus olhos verdes sombrios. — A


última garota que desapareceu no Baile Negro cinco anos
atrás? Ela estava com ele na época. Faz você se perguntar, não
é?
Corvina

Não se preocupe, Vivi.

O sussurro chegou ao seu ouvido tão levemente que


quase o ignorou. Quase. E então, de repente, parou no meio do
jardim. Era de manhã cedo, muito cedo para a maioria das
pessoas estarem acordadas.

Mas ela acordou ao amanhecer. Dormiu inquieta, com o


castelo gemendo à noite, e acordou com uma onda de calor que
não tinha há muitos anos. Suando, correu para os chuveiros
comuns que estavam vazios, abriu a torneira fria e se lavou o
mais completamente possível. Então, pronta para o dia, pegou
um pacote de nozes secas e foi para o jardim tomar um pouco
de ar fresco. E o sussurro veio.

Mo. Mas por que ele estava tão baixinho em sua cabeça?

Ela não sabia de quem era a voz, ou se era mesmo real.


Com seu histórico, era inteiramente possível que estivesse
simplesmente em sua cabeça e ela imaginava isso. Mas esta
voz era de um homem. Gostava de imaginar, quando era mais
jovem, que era de seu pai. Ela não sabia muito sobre ele,
apenas que havia se matado, deixando a cabana e o pequeno
terreno para sua mãe.

Um corvo voou acima. O primeiro que viu em todas as


semanas em que esteve lá.

Siga o pássaro.

Ela deveria? Geralmente sempre fazia tudo o que Mo


mandava, sem questionar.

Corvina ergueu os olhos para o pássaro, acompanhando-


o com os olhos enquanto ele descia ao redor do castelo para
floresta adentro. Ela não se aventurou nelas aqui, mas
conhecia florestas, seu senso de direção era fantástico, então
não estava preocupada em se perder.

A determinação zunindo por ela, enrolou o xale cor de


Borgonha em torno de seu corpo e desceu o declive para o
mesmo local onde o pássaro voou. A névoa girava ao redor de
sua saia no início da manhã, sua respiração embaçando na
frente do rosto enquanto caminhava para a floresta, à espera
que os sons do pássaro a guiassem.

Quando era uma menina, sua mãe a ensinou a seguir o


grasnar dos corvos na floresta para alimentá-los em um
determinado local. Dessa forma, os pássaros sabiam
exatamente em que área esperar seu alimento.

Usando a neblina ao redor dela como um manto,


destemida de qualquer coisa que se escondesse em seu
interior, Corvina seguiu o som à medida que se aproximava. A
floresta se adensou com seus passos, o castelo desaparecendo
atrás dela em meio a folhagem. Árvores altas se erguiam como
sentinelas contra a batalha do tempo, suas cascas grossas,
suas folhas orvalhadas, o cheiro de vegetação fresca
permeando o ar.

Andando pela mata, ela conseguia ver como alguém podia


facilmente se aventurar na floresta e perder o caminho,
desaparecendo sem qualquer chance de receber ajuda.
Somente estas árvores sabiam a verdade de tudo o que havia
acontecido aqui, e às vezes, ela desejava que houvesse uma
maneira de ouvir suas histórias.

Depois de alguns minutos de caminhada, as árvores se


ramificaram. O som da água despertou sua curiosidade, havia
um rio atravessando a montanha? Rapidamente, ela emergiu
após alguns passos em uma clareira que levava a um lago
gigante, belo e escuro.

Um lago parado.

De onde vinha o som da água?

Corvina olhou em volta e encontrou o corvo parado em


uma rocha à beira do lago. Sem perder tempo, rapidamente
rasgou o pacote de nozes e sacudiu um pouco na palma da
mão, colocando a oferenda na pedra a alguns centímetros do
pássaro que a observava.

Ela rapidamente recuou e se virou para o lago.


— É lindo aqui, não é? — Falou para o corvo. Por muito
tempo depois que sua mãe se foi, Corvina passou a conversar
com os pássaros que alimentava para não esquecer o som de
sua voz. Embora falasse diariamente nesses dias, havia um
certo conforto em um hábito tão antigo.

— Mas este lago é uma surpresa, — continuou


observando a água completamente parada. Era turvo e algo
não tão puro. Ela não sabia o que era, mas havia algo de
estranho nisso.

O som de um bico acertando a rocha surgiu ao lado. Sua


oferta foi aceita. Corvina sorriu. — Você deve saber tantos
segredos sobre este lugar, gostaria que pudesse me contar.

— Cuidado com o que deseja. — A resposta masculina às


suas costas a fez ofegar e se virar. O pássaro grasnou e bateu
as asas antes de se acalmar, bicando sua guloseima.

Corvina olhou, com o coração acelerado, enquanto o


diabo de olhos prateados a observava da beira da clareira,
encostado em uma árvore, com as mãos nos bolsos. Ela
enrolou o xale com mais força, percebendo que estava sozinha
com este homem de histórico questionável, e ninguém sabia
onde ela estava. Ela engoliu em seco.

— Você está assustada? — O Sr. Deverell perguntou, sem


se mover de seu lugar.

— Deveria estar? — Perguntou, levantando as


sobrancelhas ligeiramente, mesmo que uma parte dela
quisesse interromper o contato visual e corar furiosamente
com a atenção masculina singular de um homem tão másculo.

— Sim. — Ele respondeu sucintamente. — A floresta é


perigosa, especialmente para alguém que não a conhece.

Corvina encolheu os ombros, a intensidade do olhar dele


fazendo seus nervos se agitarem. Voltando-se para encarar o
lago, lhe deu as costas e o sentiu dar um passo à frente.

— Pior, eu poderia ter sido qualquer um, — prosseguiu,


sua voz soando alguns metros atrás dela, rolando sobre ela. —
Poderia ter feito qualquer coisa para você e deixá-la aqui.
Ninguém saberia.

Ela quase sorriu com isso. — Se está tentando me


assustar, não está funcionando.

— E por que isto? — Mais próximo.

— Ele conhece você. — Corvina inclinou a cabeça para o


lado, indicando o pássaro que estava comendo a última das
nozes. — Ele o reconheceu, cumprimentou-o e continuou a
comer. Se você fosse uma ameaça, teria fugido com a comida
ou te atacado, e não fez nenhum dos dois, o que significa que
o reconhece o suficiente para comer na sua presença.

— Ou talvez isso signifique que é apenas um pássaro


idiota sem senso de autopreservação. — Ele falou ao lado dela,
seu próprio olhar no lago. Corvina olhou para o lado e
percebeu, pela primeira vez, como era imensamente alto em
contraste com ela. O topo de sua cabeça mal alcançava seu
ombro.

Sem saber porque isso fez algo quente dentro dela se


desenrolar, ficou em silêncio por um momento. O vento soprou
mechas de seu cabelo em seu rosto, seus olhos se fechando
quando o cheiro dele flutuou para ela pela primeira vez. Ele
cheirava a lenha queimada e conhaque, do tipo que a mãe dela
a tinha feito beber nos invernos frios. Cheirava a aventuras
perigosas e a voltar para casa, a mágoa e nostalgia.

Ela o viu tirar um maço de cigarros e um isqueiro dos


bolsos, viu seus dedos longos e surpreendentemente bonitos
tirarem um, colocá-lo nos lábios ligeiramente úmidos e acendê-
lo. Ele deu uma tragada profunda, o cheiro de nicotina
queimando se misturando com seu próprio cheiro,
adicionando uma camada nociva à mistura.

Ele exalou e ela viu a fumaça suspendendo-se no ar,


antes de se dispersar em moléculas invisíveis. Algumas dessas
moléculas devem ter tocado seus lábios porque ela sentiu o
formigamento de sua boca. Por um momento, ela se perguntou
como elas se sentiriam pressionadas na boca dele. Era luxúria,
mas era tão novo para ela.

— Seu pássaro se foi, — ele apontou sem sequer olhar


uma vez para a pedra.

Corvina virou-se para verificar e percebeu com surpresa


que ele estava certo.
— Espero que volte com alguns amigos da próxima vez,
— murmurou sem pensar e sentiu os olhos de mercúrio
ardentes se aproximarem dela. Quando olhou para cima, seus
olhares se fixaram, e desta vez ela não interrompeu, ao invés
disso, aproveitou a oportunidade para observá-lo de perto. A
mecha grisalha em seu cabelo parecia mais proeminente, em
total contraste com seu rosto inexpressivo, mas sério.

Algo no momento deve ter confundido sua cabeça, porque


as próximas palavras que saíram de sua boca foram: — Algum
dos rumores sobre você é verdade, Sr. Deverell?

Viu os olhos dele brilharem ligeiramente antes de olhar


de volta para o lago, dando outra tragada no cigarro. — Você é
muito peculiar, Srta. Clemm. Quase o suficiente para me
interessar. — Voltou os olhos para ela. — E vamos apenas dizer
que isso não é bom.

Jogou o cigarro fumado pela metade no chão,


esmagando-o sob o sapato antes de voltar para a floresta. —
Fique fora da floresta, little crow6. Seus amigos emplumados
não podem ajudá-la se estiver morta.

Bem, isso não foi nada enigmático.

Ela o viu desaparecer na mata e balançou a cabeça,


afastando-se inteiramente do lago em direção à floresta
quando, pela primeira vez em muito tempo, outra voz veio até
ela em um sussurro.

6 Apelido dado à Corvina, significa ‘pequeno corvo’.


Ajude-me.

Foi leve, quase suave, e definitivamente feminino.

— Que diabos, — sussurrou para si mesma enquanto um


arrepio descia por sua espinha. Algo feio deixou seus resíduos
em sua língua enquanto pensava na voz, algo úmido, viscoso e
terrível. Corvina se acalmou por um longo momento, deixando
seus olhos vagarem por toda a paisagem, um plácido lago
escuro, bosques do outro lado, céu cinza e uma fina névoa
cobrindo a água.

Ajude-me, por favor.

O resíduo engrossou.

Ela ouviu algumas vozes ao longo de sua vida, Mo sendo


a mais proeminente delas. E nunca deixaram aquela camada
em sua língua. Enquanto a voz de Mo deixava o cheiro de
sândalo, esta cheirava a decomposição e carne podre. Ela não
entendeu o porquê.

Mantendo a cabeça baixa, correu de volta para a floresta


e foi por entre as árvores, em direção ao castelo, com seus
sentidos abalados por causa da voz estranha. Era seu
subconsciente? Estava imaginando isso? E se sim, por quê?
Era por causa das histórias assustadoras do castelo?

As perguntas giravam em sua mente enquanto deixava a


mata para trás e subia a ladeira até a torre para se preparar
para as aulas.
O mesmo grupo de caras que viu sentados nas escadas
com Troy em seu primeiro dia estavam lá enquanto ela subia,
rindo de alguma coisa. Ela reconheceu um dos meninos de sua
classe entre eles, Jax.

— Uma brincadeirinha na floresta? — Troy perguntou


bem-humorado, balançando as sobrancelhas. Ainda um pouco
abalada com a voz, Corvina ergueu os lábios em um sorriso
para o menino que só foi gentil com ela.

— Como assim? — Perguntou, tentando se distrair e


ignorar todos os meninos olhando para ela ao mesmo tempo.
Sua timidez natural, diante de tantos olhares, a fez ter vontade
de fugir.

— Bem. — Troy sorriu. — O Sr. Deverell saiu da floresta,


o que não é nada anormal. Mas você saiu alguns minutos
depois, toda nervosa. Então, um mais um?

Corvina levou um segundo para entender o que ele queria


dizer. Seu rosto ficou quente, as pontas das orelhas queimando
com a ideia de que ela e o homem por quem ela definitivamente
estava desejando tivessem feito algo tão proibido no bosque.

Troy riu bem-humorado. — Relaxe, Purple. Só estou


brincando com você.

Jade estava certa. Ele era um idiota.

Revirando seus olhos para ele, ela simplesmente passou


pelo grupo em direção à torre ao som de suas gargalhadas. Ela
teria dito algo se ele estivesse sozinho, mas estava um pouco
abalada, e todos os rapazes juntos em um único lugar só a
deixavam mais nervosa.

A torre que abrigava seu quarto era linda como tudo mais
em Verenmore. Era uma das três torres altas que abrigavam
as meninas, sendo uma a menos do que as quatro onde os
meninos moravam. O interior de sua torre era todo escuro, em
diferentes tipos de madeiras – algumas polidas e tradicionais,
outras cruas e sem polimento. O foyer não tinha nada além de
uma área de recepção com uma pequena mesa, uma cadeira
que estava sempre vazia e uma enorme pintura do lago que ela
acabara de ver com uma ponte na muralha. Havia também
uma pequena caixa com alguns papéis dobrados. Jade disse a
ela que era onde qualquer problema com o alojamento era
deixado por escrito e alguém da Ala Administrativa o recolhia
todas as semanas. Havia um pequeno candelabro com
lâmpadas no teto alto, e a escadaria que levava para a direita.

Corvina dirigiu-se às escadas e subiu ao seu andar. O


corredor estava mais movimentado agora do que quando saiu,
as garotas se preparando para a manhã, algumas
conversando, outras mais silenciosas, indo e voltando dos
banheiros compartilhados na extremidade oposta ao corredor.

— Ei, olhos esquisitos? — Uma voz gritou da escada.

Corvina parou no corredor, sem se virar, sabendo


exatamente quem era. Roy Kingston, a linda sênior do terceiro
ano que exalava mais confiança em seu dedo mindinho do que
Corvina em todo o corpo. Pelo que Jade disse a ela, Roy veio de
um lar adotivo de merda, onde foi abusada sexualmente. Isso
a endureceu e a tornou uma vadia para qualquer um que não
se encaixasse com ela. Corvina estava nessa lista.

— Será que acabei de vê-la saindo da floresta com um


professor?

Algumas meninas pararam, olhando para Corvina com


olhares surpresos. Corvina respirou fundo e se virou para
encarar a bela loira.

— Não sei o que você viu, Roy. — Disse em voz alta,


sabendo que as garotas estavam ouvindo o menor indício de
algo errado.

— Você não saiu da floresta com o Sr. Deverell, então? —


Roy perguntou, cruzando as mãos sobre os seios fartos, ainda
de pijama.

Corvina piscou. — Não que seja da sua conta, mas não.

Roy inclinou a cabeça para o lado, avaliando Corvina com


olhos brilhantes. — Você provavelmente não percebeu porque
é nova, então farei a gentileza de lhe dizer. As relações entre
aluno e professor não são permitidas em Verenmore. Uma
insinuação, e você será expulsa. É assim que as coisas
funcionam neste campus.

Corvina ficou em silêncio, um pouco irritada com a outra


garota e seu tom, mas mantendo-se serena.
— Se eu fosse você, tomaria cuidado. — Disse Roy,
subindo as escadas.

— Ela não está errada, sabe? — Uma das garotas que


ainda estavam no corredor disse à Corvina, estremecendo
ligeiramente. Corvina deu um pequeno sorriso e foi para o
quarto, refletindo sobre a motivação de Roy em alertá-la. Ela
era uma violadora de regras cuidando dela ou havia algo mais
nefasto nisso?

Jade ainda estava dormindo, roncando ligeiramente, a


perna jogada para fora do cobertor. Deus, a menina dormia
como uma morta. Mas Corvina sabia que estaria de pé e
correndo quando o despertador tocasse, então a deixou em paz
e foi até a mesa. Com os dedos trêmulos pela interação com a
voz e com Roy, Corvina abriu seu diário e rapidamente
escreveu tudo o que sentiu ao ouvir a voz. Dr. Detta disse a ela
para anotar qualquer ocorrência não natural e ouvir uma nova
voz era definitivamente não natural.

Seus olhos ficaram presos em uma pedra cintilante


debaixo de sua cama, presa entre as tábuas do chão. Corvina
fechou o diário e guardou-o, inclinando-se sobre o objeto e
puxando-o para fora, mas instantaneamente sentiu que não
era dela. Um cristal de jade verde escuro brilhou na luz,
colocado em um anel de metal antigo. Era de Jade? Ela não
tinha mencionado a perda de um anel.

O súbito toque de um alarme a assustou ligeiramente.


Acalmando o batimento cardíaco acelerado, Corvina bufou
para si mesma e se levantou, guardando o anel na gaveta
compartilhada.

— Por que as manhãs chegam? — Jade gemeu de sua


cama, desligando o alarme.

— Prefere que seja noite o tempo todo? — Corvina


perguntou curiosa, cruzando uma perna sobre a outra.

— Ei. — Jade bocejou. — Dê-me um cara gostoso e potes


de dinheiro e eu seria uma garota noturna minha vida inteira.
As manhãs são obra do diabo.

Uma risada borbulhou de Corvina quando olhou para a


amiga. — Muitas culturas ao redor do mundo discordariam.

— Por favor, não faça sentido nesta hora ímpia. — Jade


gemeu, finalmente se empurrando para fora da cama e
juntando suas coisas para levar ao banheiro. — Espere, por
que já está vestida?

Corvina ergueu os olhos e viu a amiga olhando para sua


saia preta, sapatos e o xale em volta dos ombros. Ela encolheu
os ombros. — Eu fui dar uma volta.

Os olhos de Jade se arregalaram. — Na floresta?

— Sim.

— Por favor, me diga que você não estava sozinha.

Corvina hesitou. — Eu não estava sozinha. — Bem, ela


não esteve na metade do tempo, e era perfeitamente possível
que a notícia de que fora vista saindo com o Sr. Deverell
chegasse aos ouvidos de Jade na hora do almoço.

Sua colega de quarto exalou e saiu correndo do quarto,


murmurando baixinho.

Corvina se levantou e foi até a janela em arco, olhando de


cima para a floresta verde-escura. Observou os alunos
circulando, sem saber o que havia na floresta. Ela também não
estava totalmente ciente, mas sentiu algo.

Seus olhos foram para uma figura vestida de preto


caminhando pelo campus em um ritmo acelerado. O Diabo de
olhos prateados. Talvez ele soubesse mais sobre o que havia
naquela floresta, porque ela não podia ignorar o fato de que a
primeira vez que ouviu uma voz estranha foi imediatamente
após sua interação com ele.

Pode ser uma coincidência, mas ela não acreditava nelas.


A menos que a voz que ela tinha ouvido não fosse real. Sua
resposta à feiura que ela trazia consigo tinha sido muito, muito
real. E se não fosse real, isso significava que ela tinha
imaginado tudo.

Isso não era bom, especialmente para ela.

Ela tinha sido examinada. A voz de Mo que ela tinha


ouvido a vida inteira, os médicos tinham escrito como sendo a
forma "subconsciente" dela de suprir uma figura paterna
ausente. Mas a voz que ela ouviu naquela floresta não era o
seu subconsciente. Não podia ser. Ou poderia? Porque se
estava realmente em sua cabeça, Verenmore apresentava
problemas maiores do que florestas misteriosas e homens
misteriosos. Isso significava que sua queda na loucura havia
começado.

Dr. Kari era um de seus professores mais assustadores


neste semestre. Ele tinha olhos escuros e uma barba branca
intensa, e era rigoroso. Uma vez uma garota se atrasou para a
aula e ele a fez ficar lá fora, no corredor, à vista de todos, até
que ela ficou vermelha de humilhação. Os alunos tinham medo
de lhe fazer uma pergunta, mas isso não terminava aí. Ele
também parecia gostar muito de olhar as meninas jovens na
classe, todas com 18 anos de idade no primeiro ano, exceto por
uma Corvina mais velha.

Ele dava a aula eletiva de Psicologia, a única aula que ela


tinha sem Jade, que queria fazer porque tinha curiosidade em
entender a mente humana. Mas enquanto ela se sentava ao
fundo tentando se manter à distância, perguntando-se o Dr.
Kari merecia a preocupação.

— De acordo com Jung, a sexualidade pode expressar


níveis profundos dos elementos simbólicos, arquetípicos e
místicos da psique. — Ele caminhava com sua estrutura
atarracada, seus olhos passando pela classe, demorando-se
nas garotas por uma fração de segundo extra que dava arrepios
em Corvina enquanto fazia anotações.

— A perspectiva de Jung sobre a natureza da libido era


diferente da de Freud e não apenas sexual, — continuou Dr.
Kari. — Ele acreditava que a libido era desejo ou impulso não
controlado por qualquer tipo de autoridade. Citando-o, diz:
'apetite em seu estado natural'.

Um movimento na porta trouxe seus olhos para encontrar


o Sr. Deverell encostado na soleira, vestido de preto, as mãos
nos bolsos, observando-a com aqueles olhos. Apetite em seu
estado natural. Ah, sim, ela podia ver do que Jung estava
falando e queria ao máximo saciar aquele apetite, saciar o seu
próprio. Uma parte dela, que não se importava com as regras,
queria seguir essa luxúria recém-descoberta e ver onde isso
levava.

— Você poderia contar para a classe o que a fascinou


tanto, Srta. Clemm? — A voz dura de Dr. Kari chamou sua
atenção de volta para seus olhos lascivos, sua própria luxúria
se extinguindo.

Era um momento tão estranho para ela, dois homens a


observando com desejo nos olhos, um lhe dando arrepios e
outro lhe dando as borboletas.

— Temo que a distraí, Dr. Kari. — A voz profunda e rouca


da porta fez seu estômago revirar.
Dr. Kari olhou para o homem com metade de sua idade
com um olhar estranho de apreensão. Era um olhar que
Corvina não entendia.

— Sr. Deverell? — Dr. Kari engoliu em seco.

— Posso ter uma palavra rápida com você? — O Sr.


Deverell não esperou por sua resposta, simplesmente deu à
Corvina outro olhar intenso que fez seu estômago apertar e
saiu.

Dr. Kari o seguiu e os dois homens ficaram parados no


corredor, falando por um segundo rápido, apenas sua
linguagem corporal mostrando à Corvina quem tinha a
vantagem em qualquer conversa que estivessem tendo. Dr.
Kari estava agitado, na defensiva; Sr. Deverell estava relaxado,
autoritário.

Dr. Kari voltou para a sala, parecendo zangado.

Mas não olhou para Corvina durante toda a aula


novamente.

E se perguntava, num esconderijo sombrio de sua mente,


se isso tinha algo a ver com o diabo de olhos prateados.
Corvina

Havia algo de errado com o castelo.

Algo muito, muito errado.

Ou talvez fosse ela. Talvez fosse sua mente se


fragmentando lentamente.

Corvina olhou para o canto da sala de aula onde vira a


luz tremeluzir em plena luz do dia. Seu coração estava
disparado, galopando como um cavalo galopando de um
inimigo invisível que o perseguia. Pode ter sido um truque de
luz, algo em sua visão, qualquer coisa, menos o que ela
pensava que fosse.

— Você pode deixar a aula se estivermos lhe entediando,


Srta. Clemm. — Voz dura e rouca interrompeu sua leitura. Ela
desviou os olhos para o Sr. Deverell sentado em sua mesa,
batendo uma caneta ao lado, sua atenção prateada focada
nela.

Fazia uma semana desde que o encontrou na floresta


naquela manhã, uma semana desde que ele se dirigiu a ela
diretamente. Esbarrou nele no corredor um dia, e ele
simplesmente olhou em seus olhos e cumprimentou-a, ‘Little
Crow’, com aquela voz profunda que a deixava excitada. E ao
longo da semana, o Sr. Deverell a observou. Esteve perto de
suas aulas, subindo as escadas quando Corvina estava
descendo, passando pelos corredores quando ela parava para
admirar alguma escultura, simplesmente estava mais ao seu
redor. Sentiu seus olhos sobre ela, e os sentiu muito. Sentiu-
os na sala de jantar quando comia com seus novos amigos, nos
arredores do terreno quando caminhava sozinha, na aula
quando fazia anotações. E ela gostou, embora não devesse.

Pode não ter falado com ela verbalmente, mas seus olhos
diziam muito. Seus olhos estavam dando a Corvina palavras
que apenas atiçavam as chamas em seu sangue. Seus olhos
sussurravam coisas sujas que faziam sua pele enrubescer só
de imaginar. Os olhos dele eram o que imaginava quando se
tocava no chuveiro, apenas os olhos dele, observando-a
enquanto o fazia. Ela nunca sentiu isso por um homem que
não existia entre as páginas de um livro. Atração animal, crua,
isso é o que era.

Nesse momento, porém, seus olhos pareciam irritados. E


isso de alguma forma a fez querer abanar o rosto ainda mais.

— Eu... — Começou a falar antes que ele erguesse uma


sobrancelha escura, avançando lentamente em direção àquela
mecha grisalha em seu cabelo, e ela se calou.
— Pode se sentar comigo se estiver entediada, Purple. —
Jax, um dos meninos de Troy, chamou da frente com um
sorriso. — Vou manter as coisas interessantes.

Algumas risadinhas soaram em torno da turma, mas seus


olhos, que ainda estavam no Sr. Deverell, observaram quando
sua mandíbula apertou. Ele quebrou o olhar fixo e olhou para
o garoto que acabara de falar.

— E o que te faz pensar que esse tipo de besteira está


correta na minha aula, Brown? — O Sr. Deverell perguntou,
colocando a caneta sobre a mesa e voltando toda a sua atenção
para o garoto.

O garoto endireitou o corpo. — Meu nome não é Brown,


Sr. Deverell. É Jax.

— Oh, eu me enganei. — Disse o Sr. Deverell, com o que


Jade chamou de sua 'cara de cadela'. — Achei que estávamos
nos chamando pela cor dos nossos olhos e não pelos nossos
nomes.

Isso o calou.

Corvina sentiu algo quente se enraizar em seu estômago,


vibrando em sua barriga enquanto observava o diabo de olhos
prateados defendê-la casualmente. Seus olhos sempre foram
algo pelo qual foi provocada ou insultada. Ninguém jamais a
defendeu. Mesmo com sua mãe, era ela quem se defendia. Isto
parecia novo, desconhecido, mas animador.
— Não gosto dele, mas estou encantada. — Jade
sussurrou ao seu lado.

Encanta, de fato.

— Ele está defendendo você.

Sim, estava.

— Alguém mais tem problemas para se referir a pessoas


por seus nomes? — Sr. Deverell perguntou à classe.

Ninguém se moveu.

— E ainda estou a entediando, Srta. Clemm? —


Perguntou a ela, seus olhos de mercúrio diretamente nos dela
novamente.

Oh, ele estava fazendo algo por ela, mas tédio não era a
palavra que ela usaria. Ela balançou a cabeça, suas palavras
ficaram presas na garganta enquanto aqueles olhos
repousavam sobre ela por uma fração de segundo a mais.

— Então vamos continuar. — Olhou para a turma


novamente assim que o sinal tocou.

— Muito bem, vamos retomar na segunda-feira. Espero


que todos vocês tenham lido sobre as motivações que surgiram
durante a Idade Média durante o fim de semana. Permaneça
por um minuto, Srta. Clemm. — Ordenou, pegando o caderno
que mantinha na mesa, lendo algo enquanto a sala de aula se
esvaziava, os alunos dando a ela olhares estranhos antes de
sair.
Corvina ficou paralisada por um segundo. Sentiu um
cotovelo cutucá-la na lateral do corpo e olhou para ver a boca
de Jade 'boa sorte'.

Engolindo em seco, pegou sua bolsa marrom, jogando-a


sobre o ombro e abraçando o caderno contra o peito.
Respirando fundo, se virou para a frente da classe e desceu os
níveis em direção onde Sr. Deverell estava sentado na mesa,
ainda lendo algo em seu caderno.

Corvina o observou com sua calça jeans preta escura e


um suéter preto mais claro, o decote em V expondo a pele
grossa, mas graciosa de seu pescoço, o tecido abraçando a
larga extensão de seu peito, definindo seus músculos peitorais.
Calmamente o observou enquanto lia, batendo a caneta na
lateral, uma caneta que parecia minúscula em suas mãos
grandes com dedos longos e habilidosos. Perguntou-se como
seriam aqueles dedos passando por seu cabelo, acariciando
seu rosto, alisando sobre a pele de seu pescoço até os seios,
tocando-a como o piano que o vira na primeira noite.

Seus mamilos endureceram.

— Esse não é um olhar que você dá ao seu professor, little


crow.

Levou um segundo para perceber que ele parou de ler e


ela estava fantasiando enquanto a mão dele simplesmente
pousava no diário. Com o peito arfando ligeiramente, olhou
para cima para encontrar seu olhar intenso sobre ela. Sua mão
apertou a alça da bolsa. Gostava quando a chamava assim.
Não sabia porque, mas a maneira familiar como ele usava as
palavras, o fato de que parecia especial apenas para ela, oh,
sim. Isso fez com que o calor em seu estômago diminuísse.

— Esse não é um nome do qual chama seu aluno. —


Retrucou baixinho, querendo usar um nome especial para ele
também, mas sabendo que vocalizá-lo o tornaria muito mais
real. — Como estou olhando para você? — Inclinou a cabeça
com curiosidade.

Seus olhos a queimaram. — Como se você estivesse me


convidando para tocá-la.

Ela não era a única. Sua respiração engatou. — Você


também me olha assim, Sr. Deverell.

Ele bateu o dedo em seu diário, observando-a. Ela


agarrou seu caderno com mais força.

— Você quer alguma coisa? — Ela perguntou, após um


longo momento de silêncio, percebendo um segundo depois
que as palavras poderiam ser interpretadas de uma forma mais
profunda e erótica.

Antes que o Sr. Deverell pudesse responder, algo cintilou


em sua periferia. Corvina olhou para o canto da sala, o espaço
onde a parede encontrava a janela, vendo uma silhueta
tremeluzir por um momento à luz do sol antes de desaparecer.

Suas palmas começaram a suar.


— O quê? — A voz dele chegou até ela, mas Corvina não
conseguia desviar o olhar do canto, concentrando-se, tentando
entender o que viu. — O que você está olhando?

Ela não sabia. Deus, precisava que mamãe lhe dissesse o


que diabos estava acontecendo com ela.

Um aperto firme em seu queixo virou seu rosto, seus


olhos se fixando nos dele.

— Você estava olhando para aquele canto durante a aula


também. — Disse baixinho, sua voz cheia de autoridade. — O
que estava olhando agora?

— Eu não sei. — Respondeu a ele honestamente,


deixando a sensação de seu polegar quente em seu queixo
ancorá-la, saboreando o toque que ela nunca sentiu assim. —
Foi provavelmente um traço da luz.

Ele a considerou por alguns segundos antes de soltar seu


rosto, e ela mordeu a língua para não chamar o toque de volta.

— Você precisa ser menos óbvia quando divagar. Todos


nós o fazemos, mas não posso deixar isso passar sem
repreensão na minha classe e não quero chamar atenção para
você.

Corvina mordeu o interior da bochecha. — Por quê?

— Porque você é fascinante. — Ele murmurou, seus olhos


percorrendo todo o rosto dela. — E não quero que outros
fantasiem sobre você durante a minha aula.
— Outros? — Perguntou, com seu coração batendo forte.
Ele fantasiava sobre ela?

Ela viu as pupilas de seus olhos dilatarem, um buraco


negro consumindo o prata, mas ele não disse uma palavra.
Saltando da mesa, endireitando-se em toda a sua altura,
manteve o olhar fixo nela como fizera durante a semana.
Corvina inclinou sua cabeça para trás, seu coração palpitando
em seu peito enquanto seus corpos se comunicavam à maneira
milenar – respirações mais rápidas, pupilas dilatadas, pele
corada. Ela percebeu seu pomo de Adão enquanto ele engolia,
e seus lábios se apertaram com força.

— Fique longe de mim, little crow, — sussurrou, com seus


olhos penetrantes, esfolando-a. — Você pode ser uma sereia
sedutora, mas não sou um marinheiro ordinário. Eu sou um
pirata louco e estou tentando resistir ao seu chamado. Se eu
pousar em suas praias, saquearei e tirarei tudo de valor. Tenha
muito cuidado ao me dar esses olhares.

Com isso, ele girou e se dirigiu para a porta, parando na


soleira para selá-la com um olhar intenso, antes de sair em
silêncio.

Corvina soltou um suspiro, segurando o caderno contra


o peito ainda mais apertado. — Puta merda.

Deus, ela se sentia inebriada, intoxicada, excitada além


da crença com um simples olhar e aquelas palavras. Imaginou-
o falando naquele tom baixo à noite, suas palavras raspando
em sua pele, ao seu redor, e fechou os olhos, sacudindo-se. Ela
não deveria. Não poderia. Qualquer desejo que ele tivesse
acendido nela nunca poderia se concretizar. Mas isso
provavelmente não iria deter suas fantasias.

Ainda naquela manhã, ela havia fechado os olhos no


chuveiro e o imaginava lá com ela, apenas observando-a com
aqueles olhos e intensidade, e ela gozou com mais força do que
em qualquer outro momento, agarrando a parede para não
cair. Desconhecia o que se passava com ele. Havia ali um
magnetismo animal, certamente, mas havia algo mais, uma
energia subjacente que ela sentia pela primeira vez, mas que
não tinha nome. Talvez fosse uma faceta que os livros de
romance luxuriosos não a tivessem avisado.

Corvina precisava de uma distração.

Saindo depois de se recompor, ela percorreu os


corredores da Ala Acadêmica. Esta parte da Ala tinha a bureta
mais alta que ela já havia visto, algumas salas de aula e salas
de funcionários dos escalões superiores, uma biblioteca que
ela ainda não havia visitado no que já havia sido o calabouço,
e belas e altas janelas que deixavam entrar toda a luz natural.
Todas as suas aulas – Política Mundial, Língua e Literatura,
História, Justiça Global, Estudos Ambientais, Economia
Básica e sua Psicologia eletiva – estavam no primeiro e terceiro
andares. Exceto às segundas-feiras, o Sr. Deverell era
geralmente sua última aula do dia, no primeiro andar,
portanto não se demorava muito a sair para o sol.
Um lindo jardim estava alinhado entre a Ala Acadêmica e
o Salão Principal, um longo corredor aberto conectando os dois
do lado direito e um declive íngreme à esquerda levando para
a floresta.

Corvina cortou o jardim, sentindo os raios quentes do sol


no rosto. Sol, como percebeu nas últimas semanas, era um
convidado raro nesta época do ano. Outros disseram que
melhoraria no verão, quando o céu estaria limpo, embora
sempre fizesse frio no alto das montanhas. A luz do sol em sua
pele a lembrava de sua cidade natal, uma pequena cidade no
meio do nada, Skarsdale era de um clima ameno e ensolarado,
pelo menos em relação ao tempo.

Aproveitando o calor, ela atravessou o jardim onde alguns


alunos estavam vagando, indo em direção à esquerda do Salão
Principal, onde o trajeto de paralelepípedos começava na beira
do declive. Esse trajeto largo começava na lateral, indo para as
torres residenciais, para a frente da universidade e a garagem
onde o carro a deixara, curvando-se de lá em direção às
residências dos professores e funcionários e terminando na Ala
Acadêmica. Era um caminho semicircular, que não percorria
havia dias, já que o outro lado da universidade não tinha nada
para ela. Embora houvesse passagens internas para cruzar
entre o prédio, ela preferia o exterior com sua vista
deslumbrante.

Encontrou Jade e Erica sentadas nos jardins em frente a


uma das torres dos meninos, junto com Troy, Jax e outro de
seus amigos que ela nunca foi apresentada.
— Por favor, me diga que o Sr. Olhos Sexy teve um motivo
delicioso para mantê-la afastada. — Erica falou em forma de
saudação, fazendo todos olharem para ela. — Não contaremos
a ninguém.

Às vezes, Corvina notava como ela era muito mais velha


do que seus colegas de classe. Eles tinham apenas dezoito anos
de idade e vinham para a faculdade para a graduação, sendo
os mais velhos dezenove ou vinte, e ela tinha quase vinte e dois
anos no primeiro ano. Às vezes, ela se sentia um século mais
velha do que os novos amigos ao seu redor.

Troy, com sua beleza suave, sorriu para ela. — Sr.


Deverell geralmente não é tão durão.

— Oh, ele é algo duro, certo. — Jade murmurou do lado


dela e todos riram.

Corvina largou a bolsa ao lado de Jade e se sentou,


dobrando as pernas sob a saia longa. — Ele é um professor. —
Ela encolheu os ombros e se concentrou nos outros dois caras
que sempre via com Troy. — Olá, sou Corvina.

O garoto de cabelos castanhos acenou com a cabeça com


um belo sorriso. — Jax. Desculpe se te ofendi antes.

Corvina balançou a cabeça, voltando-se para o outro


garoto.

— Ethan. — Ele disse, loiro como Troy, mas usando


óculos sem armação. — Eu sou um veterano com Troy. Seu
colega de quarto.
— Ótimo, as apresentações acabaram. — Jade se virou
para ela. — Agora, o que ele queria?

Corvina encolheu os ombros, apoiando-se nas mãos e


erguendo o rosto para o sol. — Só me dizer para não perder o
foco na aula. — Entre outras coisas que nunca contaria.

— É só isso? — Jade perguntou, descrença em sua voz.


— Apenas... eu sei que continuo dizendo isso, mas tenha
cuidado com ele. Ele já ignorou as regras antes e isso não
acabou bem. Ele ainda é muito incógnito para que se possa
confiar nele. Simplesmente, não desperte sua atenção.

Exatamente o que ele disse a ela, o que a fez se perguntar


o motivo pelo qual faria isso se sua intenção era magoá-la.

— Droga, você é muito séria sobre o Sr. Deverell, garota


Jadie. — A voz de Troy disse à sua direita. — Relaxe.

Corvina observou o rosto de Jade se contrair e lembrou


que esses caras não sabiam sobre Alissa e seu namoro com o
professor. Eles provavelmente pensaram que Jade estava
sendo estranha. Corvina deu um sorriso suave, dizendo que
entendeu sua preocupação silenciosamente e a viu relaxar um
pouco.

— De qualquer forma, o que faremos no Baile Negro? —


Ethan saltou do lado.

O interesse de Corvina aumentou, mas inclinou a cabeça


para trás e ficou na mesma posição, mantendo os ouvidos
abertos.
— Ficarmos todos juntos, o que mais? — Erica expressou
do seu lado oposto. — Minha colega de quarto me contou o que
está acontecendo, não vejo como alguém pode desaparecer se
ficar com um grupo de pessoas.

— Sim, mas é fácil se perder com as máscaras. — Jax


apontou.

— Eu nem entendo qual é o objetivo do baile de máscaras.


— Ethan bufou. — Com certeza, é um baile, mas sabem que
houve incidentes toda vez. Por que não tornar menos fácil para
as pessoas desaparecerem?

Um leve silêncio se seguiu depois disso. Corvina olhou


para as nuvens, para todas as formas que faziam no céu azul
claro. Aquela que olhava parecia um esquilo com uma noz na
mão. Ela sorriu para a imagem.

— Algum de vocês já foi para a floresta? — Ethan


perguntou após a pausa.

— Corvina foi. — Erica forneceu. — Saiu logo depois do


Sr. Deverell. Só se falava disso nas torres femininas.

— Sr. Deverell vai para a floresta o tempo todo, não sei se


ele é corajoso ou estúpido. — Jax assobiou, virando-se para
Corvina. — Você viu algo estranho? Ouvi dizer que tem todo
tipo de coisa bizarra lá.

Corvina finalmente olhou de volta para o grupo para


encontrar todos olhando para ela. — Nada interessante, pelo
menos não me deparei com nada estranho. Apenas árvores? E
um lago. Mas era só isso.

— Lago? — Jade perguntou, surpresa. — Tem um lago


lá?

— E muito bonito também. — Acrescentou Corvina. —


Escuro e turvo, mas pacífico.

A memória da estranha voz feminina veio à tona e ela a


afastou.

— O que há no topo da nossa torre? — Expressou a


pergunta que vinha pensando há muito tempo. Ela sabia que
a sala tinha um piano, mas não tinha ideia do propósito que
servia.

— Topo da torre? — Jade olhou para ela, confusa.

— Refere-se aos depósitos, eu acho. — Ethan estreitou os


olhos por trás dos óculos. — Por que pergunta?

Sim, não ia contar a eles sobre o Sr. Deverell tocando


piano lá. Ela não era uma idiota.

— Só por curiosidade. — Corvina respondeu com


sinceridade. — É tudo tão novo para mim.

Troy deu a ela um sorriso suave, seu cabelo loiro e olhos


azuis brilhando à luz do sol. — É um depósito, cada torre tem
um no topo. Os administradores mantêm coisas antigas que
originalmente pertenceram ao castelo. Ninguém realmente vai
lá.
Assim como na floresta. E assim como na floresta, o Sr.
Deverell aventurou-se em lugares onde outras pessoas não
foram. Mas por que ir a uma das torres das garotas? Era por
causa do piano? A torre dela era a única que o tinha? E se
assim foi, por que vinha tocar à noite? E por que nenhuma das
outras garotas o ouviu? O quarto era à prova de som de alguma
forma ou todas as outras estavam acostumadas demais com
os estranhos sons noturnos do castelo? Isso parecia mais
provável, já que ela era a única garota nova em sua torre, todas
as outras estão por aqui há pelo menos um ano ou mais. Talvez
ela também não teria escutado a música se estivesse dormindo
naquela noite.

As perguntas ainda circulavam em sua mente. Quanto


mais o observava, mais tomada pela curiosidade ficava. Havia
algo nele, algo que não conseguia definir, que a fez perceber
que não era um homem comum. Havia algo... sombrio ao seu
redor, mas o que estava escondendo? Isso a fez querer dar uma
olhada mais de perto e tentar entender o que era e porque a
estimulava.

— O motorista que me trouxe disse que há rumores de


que o castelo é mal-assombrado. — Corvina perguntou,
mudando de assunto. — Isso é verdade?

— A cidade. — Ethan zombou. — Gosta de demonizar as


coisas aqui em cima. Eles acham que todos nós temos orgias e
veneramos o diabo ou algo assim. Não me surpreende que eles
também pensem que é assombrado.
— Eles têm uma boa razão para isso. — Troy apontou.

— É um monte de besteira. — Ethan argumentou de


volta. — Você é esperto o bastante, para crer em algum conto
da carochinha.

Que conto? Corvina olhou para os dois, confusa, vendo


Troy arrancar a grama a seus pés, e Ethan olhando para seu
colega de quarto com apreensão, como se fosse um argumento
que eles já tinham discutido antes. Por quê?

Antes que pudesse especular, Jade abruptamente


escovou sua mecha de cabelo branco para trás, olhando para
Ethan. — O que quer que acredite ou não, tem que admitir que
é estranho.

— Espere. — Interrompeu Corvina, levantando a mão


para silenciar o que quer que Ethan estivesse prestes a dizer.
— Alguém pode me dizer o que está acontecendo?

— Estou igualmente confusa, garota. — Interrompeu


Erica, olhando para eles.

— Eu também. — Jax concordou.

Houve um silêncio irrestrito por um longo momento antes


de Jade suspirar. — Esqueci que vocês não conhecem metade
das besteiras que circulam por aqui às vezes.

Sua colega de quarto olhou para suas unhas rosa,


franzindo os lábios antes de falar. — É uma daquelas histórias
malucas que as crianças contam em volta da fogueira, sabe?
Uma que deixa a maioria das pessoas aqui muito
desconfortáveis.

— Aqueles que acreditam nelas, você quer dizer. — Ethan


corrigiu.

Corvina acenou com a cabeça para Jade continuar,


intrigada o suficiente para descartar o comentário de Ethan.

Sua colega de quarto respirou fundo. — Dizem que havia


um grupo de alunos na universidade, cerca de cem anos atrás,
alguns anos depois de sua fundação.

— Ok. — Corvina encorajou quando Jade hesitou.

— É tudo boato, mas este grupo de alunos... eles desciam


a montanha até a vila – onde é a cidade agora – e levavam
alguém para a floresta com eles para 'diversão'. — Jade
enfatizou a palavra com aspas de dedos no ar.

— Sério? — Erica exclamou ao seu lado, a descrença


evidente em sua voz. — Por quê?

Troy encolheu os ombros, arrancando mais grama. —


Quem diabos sabe? É uma lenda.

— A lenda. — Jade retomou, dando-lhes um olhar


intenso. — Diz que eles faziam coisas terríveis com seu refém
por um tempo antes de terminar em algum tipo de orgia de
sacrifício. Eu não sei exatamente os detalhes ou qualquer
outra coisa. — Sua voz falhou.
— Ninguém sabe. — Troy forneceu, olhando para Corvina.
— Mas dizem que depois de algumas vezes, as pessoas na
universidade descobriram o que estava acontecendo e
decidiram que era o suficiente.

Corvina ouviu com atenção extasiada, a luz no gramado


mudando quando uma nuvem passou sobre o sol, a torre atrás
deles lançando sombras extensas e sinistras no chão.

Jade olhou para ela com seus olhos verdes solenes e


engoliu em seco. — Um grupo diferente e maior de alunos
Verenmore os seguiu para a floresta uma noite e os encontrou
cercados de sangue.

— O que aconteceu então? — Perguntou Corvina,


arremetida na história.

— Eles os lincharam.

Um calafrio a invadiu.

A sensação de formigas rastejando sobre sua pele voltou


dez vezes mais forte. Corvina agarrou seus braços quando um
estremecimento sacudiu seu corpo.

— Jesus. — Jax murmurou de seu lugar, trocando um


olhar com Corvina. — Isso é... impressionante.

— Sim. — Troy jogou a grama. — Dizem que eles


assombram estas terras, a floresta, o castelo, tudo, ainda à
procura de seus assassinos. Se diz que eles ainda exigem um
sacrifício na noite em que foram mortos.
— Não me diga. — Erica pronunciou seus pensamentos
enquanto Corvina sentia seu queixo afrouxar ao compreender.

Jade acenou com a cabeça, segurando seus próprios


braços. — Sim. Todos foram assassinados na floresta na noite
do Baile Negro.
Corvina

Após o final do relato sobre a pequena lenda, o silêncio


tinha sido um silêncio reflexivo. Ethan insistira que era apenas
uma lenda, apenas um conto, uma história que foi passada de
estudante para estudante, uma lenda para explicar os
misteriosos desaparecimentos de pessoas. Jade concordou,
mesmo enquanto engolia e se remexia, seu corpo incapaz de
obedecer às suas palavras.

Eles foram jantar e Corvina deixou o mito se instalar.

Nunca teve medo de fantasmas, nunca realmente


encontrou algum. Sua mãe havia lhe dito que eram reais, que
eram bons e maus, úteis e prejudiciais, e que ela precisava
estar ciente disso, se algum dia encontrasse algum. Corvina
nunca encontrou, e nem sabia se acreditava na mãe sobre isso.
Tudo o que tinha eram as vozes, e aqueles sussurros no escuro
não a assustavam; eram familiares. Pelo menos, haviam sido.

Mas algo sobre essa história a perturbou. Talvez fosse a


voz que ela ouvira em plena luz do dia na floresta, ou a luz
bruxuleante constante no canto da sala onde quer que
estivesse. Algo sobre essa lenda a enervou. Talvez fosse a
própria lenda, que claramente deixava todos desconfortáveis.

Horas depois, ela fez suas orações e apagou a luz, ainda


insegura. Jade saiu com Troy depois do jantar, então Corvina
terminou algumas de suas leituras para as aulas e decidiu se
deitar mais cedo.

A torre começou a se acomodar durante a noite com


alguns gemidos e estalos. Uma nuvem de morcegos voou para
fora de sua janela em seu trajeto para algum lugar, noturno e
assustador. As sombras teceram ao redor do quarto com a
pouca luz do lado de fora.

Algo fez o cabelo de sua nuca se arrepiar. Repentinamente


em alerta, ela se deitou na cama silenciosamente, mantendo
seu corpo pacífico enquanto sua mente tentava entender o que
estava acontecendo.

Um lampejo.

Observou em silêncio enquanto no canto de seu quarto,


aquele onde ela acendeu o incenso, a fumaça cintilou
suavemente, uma, duas vezes, antes que as sombras e a
fumaça começassem a balançar juntas.

Formigas imaginárias rastejaram sobre seus braços


expostos.

Apertando o cobertor contra o peito, observou enquanto


a fumaça tomava forma e se afastava em direção à porta. Ela
fechou os olhos, balançando a cabeça.
Não, era uma ilusão de luz, ou talvez até mesmo sua
mente pregando peças.

Encontre-me.

A voz suave e feminina ecoou em sua cabeça, seguida por


aquele gosto ruim em sua língua e aquele cheiro podre. Com o
coração batendo forte nos ouvidos, Corvina abriu os olhos.

O canto estava como antes, inalterado, iluminado pela


lua. As formigas fugiram de sua pele. O gosto saiu de sua
língua. O cheiro sumiu tão rápido quanto veio.

De quem diabos era essa voz?

Corvina deixou a cama quando a primeira luz do


amanhecer se filtrou pelas janelas. O sono a ofuscou durante
toda a noite, sua mente girando em torno de perguntas e
teorias de tudo de estranho que aconteceu nas poucas
semanas que ela esteve lá. Revirou-se a noite toda, incapaz de
relaxar o cérebro por tempo suficiente para dormir alguns
minutos.

Ela precisava de ar.


Tomando um banho rápido e vestindo um de seus
suéteres pretos finos e uma longa saia marrom escura, Corvina
deixou o cabelo molhado secar ao vento. Ajustando sua
pulseira de cristal que sua mãe havia feito para ela quando
tinha quatro anos – com diferentes pedras: obsidiana, olho de
tigre, ametista, labradorita, granada vermelha, malaquita,
turquesa e uma pedra da lua – ajeitou sobre seu pulso,
deixando o peso e o calor penetrarem em seu interior. Sempre
foi uma âncora para ela, algo que o Dr. Detta havia lhe dito
que ela podia treinar sua mente para se concentrar e se
acalmar em momentos de estresse. Sua mãe lhe dissera que
era para proteção e para amplificar sua sensibilidade
elementar. Ela não sabia disso, mas sabia que isso a fazia
sentir-se melhor.

Enganchando o pingente que ela mesma fez, uma estrela


de prata em uma longa corrente que se aninhava entre seus
seios, junto com sua gargantilha de fita, colocou os brincos de
penas brancas em suas orelhas e se sentiu pronta.

Alcançando os biscoitos que pegou durante o jantar,


passou um batom marrom profundo que combinava com sua
saia e pegou sua bolsa, saindo do quarto, deixando sua
companheira adormecida para trás.

Descendo as escadas do castelo, escapou para o ar fresco


e orvalhado da manhã. A floresta escura a chamava, o frio
picando sua pele. Ela não tinha entrado na floresta há mais de
uma semana, tanto por causa da voz como porquê da última
vez ela tinha sido vista saindo com o diabo de olhos prateados.
Mas ela precisava ir para a mata. Sem saber por que, não
conseguia explicar o raciocínio por trás disso em relação à sua
vida, especialmente sabendo que não deveria ir para lá.

Ela tinha que ir.

Começando a descer a ladeira, sentindo o vento soprar


em seus cabelos molhados, dirigiu-se para a esquerda de onde
entrou na floresta da última vez, não querendo acabar no lago
novamente.

A folhagem engrossou ao seu redor enquanto o castelo


desaparecia de suas costas. O ar parecia mais pesado, de
alguma forma mais sinistro com o conhecimento de tudo que
as lendas diziam que acontecera lá décadas atrás. Havia uma
ordem natural no mundo, um sistema que não podia ser
invertido. Tirar uma vida não era natural, algo contra o próprio
ciclo básico da vida e da morte. Um ato de tal gravidade
maculava a energia ao seu redor.

Continuando a caminhada, vendo as cascas grossas e


ásperas de árvores altas e exuberantes com crescimento
denso, cobrindo o céu como lascas de rachaduras em um vidro,
mal segurando as bordas irregulares, pronta para sangrar
qualquer coisa que tocasse.

Ela não sabia se era excessivamente sensível, se tinha


uma imaginação hiperativa ou ambos, mas depois de ouvir
sobre a lenda, podia sentir algo diferente no ar ao redor de sua
pele. Era perfeitamente possível que o imaginasse. Não sabia.
Sua própria mente não era confiável.
Minutos depois, a floresta clareou, abrindo uma trilha
natural em direção ao que parecia ser algumas ruínas antigas.
Corvina andou em sua direção. Uma parede de pedras
quebrada e solitária desmoronada no chão, raízes enrolando-
se em torno dela, prendendo-a ao seio da terra.

Corvina andou lentamente até os restos da parede,


outrora alta, observando a área aberta. Era enquadrado por
duas paredes de pedra, uma com uma janela alta em arco
ainda intacta. As outras duas paredes estavam completamente
ausentes. Em vez da terceira parede, o que parecia ser uma
gárgula quebrada tombou na extrema esquerda, uma fonte
seca e incrustada com algo parecido com cabeças de leão
gritando para o céu ao lado.

Uma árvore estava bem ao lado da gárgula, uma árvore


diferente de todas que já viu. No meio de um matagal, era a
única árvore sem folhas, seus galhos nus, desgastados e
trigueiros, projetando-se para o céu em uma forma tortuosa e
assustadora. Mas não foi isso o que deteve Corvina. Era o olho
esculpido no tronco da árvore, um único olho tão realista que
parecia que a árvore a olhava, o olho se movia enquanto ela se
movia. Isso lhe causou arrepios.

Virando-se, ela parou nas fileiras de pedras rústicas e não


marcadas em sua extrema direita.

Túmulos.

Um estremecimento finalmente a invadiu.


O grasnar de um corvo a tirou de seu transe. Observou o
corvo, não era aquele que esteve com ela no lago, este era
maior, empoleirar-se em uma das pedras.

Sacudindo-se, sorriu para o corvo. — Olá. — Falou


baixinho, esfarelando um dos biscoitos em sua mão e
espalhando-o na parede. — Você não está com medo?
Encontrei sua amiga no outro dia, perto do lago.
Surpreendentemente, não vejo vocês no campus em lugar
algum. Por que vocês não vêm para a área universitária? É por
causa das outras pessoas? Ou vocês têm um ninho na floresta
e gostam de ficar por perto?

Enquanto falava com o pássaro em tons suaves e


calmantes, o viu inclinar a cabeça para ela antes de voar para
a parede e bicar as migalhas que colocou ali. Ele ergueu os
olhos, grasnou novamente e começou a comer. Outro corvo
entrou voando, pulando na parede ao lado do primeiro, e
engoliu o biscoito.

Corvina esmigalhou outro em sua mão e colocou-o na


parede enquanto outro corvo, aquele que reconhecia do lago,
com o bico ligeiramente torto, batia as asas para ela e comia.

— Que lugar é esse? — Meditou em voz alta, esmagando


o último biscoito em suas mãos e dando aos pássaros, um dos
quais pegou um grande pedaço entre o bico e voou para longe,
provavelmente para seu ninho, para os filhotes.

Limpando as mãos, se virou para observar as ruínas.


Eram mais velhas do que simplesmente velhas, pareciam
antigas. Seus olhos varreram a área, indo para os túmulos à
direita e uma pilha de lixo que podia ver ao lado. Intrigada,
cruzou para lá, o céu cinza acima, o solo macio sob seus pés,
gavinhas de grama alta roçando seus tornozelos junto com
uma camada baixa de névoa. A grama ficava mais alta quanto
mais se aproximava dos túmulos.

Corvina olhou as pedras em volta, contando enquanto o


vento acariciava seus cabelos.

Um, dois, três, quatro... quinze.

Quinze túmulos não identificados.

A universidade sabia sobre eles? Foram eles que os


colocaram lá? E se sim, então por que não estavam
identificados? A menos que fossem os alunos da lenda.
Poderiam ser? Quinze deles?

Refletindo sobre as perguntas que assaltavam sua mente,


cruzou o pequeno cemitério para o outro lado, seus olhos na
pilha do que pareciam ser móveis quebrados e destroços,
intensamente danificado pelos elementos do tempo.

Um item singular ao lado da pilha prendeu sua atenção,


a única coisa encoberta pelo lixo. Corvina tocou a capa,
sentindo a massa sólida sob a palma da mão coberta por uma
lona escura que estava completamente fora do lugar com a
sensação antiga da área. A lona era nova, o que significava que
era recente.
Mordendo o lábio em um momento de hesitação, Corvina
se inclinou para frente e estendeu a mão para o lado,
segurando a lona e puxando-a para cima para descobrir o que
estava protegendo. Pouco a pouco, ela foi subindo, expondo as
pernas de madeira escuras no início, depois a base, e
finalmente o corpo do que parecia ser um piano velho e
deteriorado.

Era um piano.

E havia apenas uma pessoa que conhecia que se


importaria o suficiente para cobrir um piano. Isso significava
que ele esteve neste lugar, neste cemitério e nestas ruínas. Ele
sabia dessas sepulturas.

Corvina respirou fundo, tentando averiguar qual era seu


papel em tudo isso. Uma das garotas com quem ele estava
desapareceu, outra se matou e ele sabia dessas sepulturas. Sr.
Deverell poderia ser responsável por essas covas? Será que ele
podia realmente saber o que diabos estava acontecendo? O
pensamento lhe deu arrepios sobre a pele.

Engolindo em seco, Corvina jogou a lona sobre o piano


novamente e o ajustou exatamente do jeito que estava. Era
hora de voltar.

Dirigiu-se para o castelo, seguindo a mesma trilha que


fez, pensando em tudo que descobriu desde que chegou à
Verenmore. Estava na metade do declive quando sentiu uma
presença diferente da sua.
Parando, ela se virou, olhando ao redor, tentando
localizar onde os olhos estavam, mas não encontrou nada. Pela
primeira vez, sabia que não era sua imaginação. Os cabelos de
sua nuca estavam arrepiados conscientemente e, mesmo
quando começou a subir, não conseguia se livrar da sensação
de que alguém estava observando-a, não importava quantas
vezes se virasse para verificar, não encontrava ninguém.

Saindo da floresta, marchou direto para a Ala Acadêmica


com sua bolsa, com a intenção de devolver alguns livros para
a biblioteca.

Verenmore tinha uma gigante, e queria dizer realmente


gigante, biblioteca no calabouço. Finalmente Corvina foi para
lá alguns dias atrás, pegando emprestado dois livros para sua
tarefa de economia, e passou o dia inteiro presa lá.

Embora os estudos a interessassem o suficiente, às vezes


se perguntava o que exatamente estava fazendo na
universidade, em primeiro lugar. Ela sempre quis estar em um
ambiente escolar com outras pessoas, mas nunca foi muito
ambiciosa em obter um diploma ou um emprego. Era um novo
começo, um novo capítulo para ela, mas alguns dias, se
perguntava se não estava lá apenas escapando por um tempo
antes de ter que retornar à vida que conhecia, se perguntava
se isso não seria simplesmente uma ponte entre seu passado
e seu futuro.

Sua paixão, sua satisfação, sempre estiveram em coisas


simples como ler, fazer velas e incensos, encontrar cristais,
fazer leituras de tarô e estar com a natureza, mas havia se
tornado monótono em sua velha cidade. Ela se perguntou se a
sensação seria a mesma se começasse em outro lugar, em um
lugar novo. No entanto, foi por causa de sua mãe que ela ficou
lá, para começar.

Sua mãe, Celeste Clemm, estava na faculdade quando


conheceu seu pai e engravidou. Seus pais lhe deram uma
escolha – abortar o bebê e terminar seus estudos, ou ter o bebê
e não ter mais nada a ver com eles. Sua mãe a tinha escolhido,
tinha deixado tudo e todos para trás com seu pai, e tinha
criado uma vida com ele. E então, dentro de um ano, seu pai
se matou. Corvina não sabia como ele era. Sua mãe nunca
contou sobre ele quando falava. Nos dias em que decidia falar,
Corvina ficava feliz em conversar sobre o que quer que a
deixasse feliz. Sua mãe a amava, mas lentamente se tornou...
diferente. Corvina estava lá por ela, porque desejava algo
melhor para sua mãe.

Era uma lembrança triste, que endurecia sua espinha.


Ela entrou nos jardins em frente à Ala Acadêmica, ou o que
chamavam de gramados dos fundos, e viu alguns alunos já
circulando antes do início das aulas. Alguns rostos de suas
aulas que reconheceu lhe acenaram com a cabeça, e ela
retribuiu com o mesmo entusiasmo enquanto ia em direção à
biblioteca subterrânea.

— Ei, olhos esquisitos! — A voz alta de Roy gritou atrás


dela em meio às risadas.
Decidiu ignorá-la e seu grupo de garotas, mas Roy tinha
outros planos.

— Ouvi dizer que você está praticando magia negra agora.

Como é que é?

Corvina se virou, franzindo a testa para Roy, que estava


sentada em uma das bordas entre o gramado e o corredor,
vestindo jeans enfiados em botas pretas e um top claro,
brincando com uma mecha de seu cabelo, rodeada por outras
quatro garotas.

— Et tu, Roy?7 — Corvina estalou a língua. — Eu tinha


mais esperanças em você do que cair em estereótipos porque
seguindo por eles você não seria nada além de uma loira burra
e estúpida. — Ela não podia acreditar que realmente disse isso
na frente de um monte de gente.

Roy bufou, seus olhos claros observando Corvina da


cabeça aos pés. — Bem, só estou lhe dizendo quais são os
boatos que circulam por aí. Aparentemente, você tem feito
sacrifícios com animais e boquetes na floresta.

Corvina sentiu uma risada borbulhar dentro dela. —


Espere, então eu vou para a floresta fazer bruxaria ou putaria?
Estou confusa.

Ela viu os lábios de Roy se inclinarem para cima antes de


ela controlá-los. — Só avisando.

7 Até você, Roy?


Corvina analisou a garota por um longo momento,
compreendendo tudo o que ela queria dizer. Ela estava
cuidando dela à sua maneira insolente.

— Obrigada. — Disse à outra garota com sinceridade. —


Mas tudo o que eu faço ou deixo de fazer em particular é
estritamente da minha conta.

Com isso, ela se virou e desceu para a biblioteca. As


bibliotecas foram seu consolo ao longo de sua vida, seu lugar
favorito. Era o cheiro que a saudou em primeiro lugar, o cheiro
amado de papel velho, livros amarronzados e biblioteca
mofada. Um cheiro característico e reconfortante.

Tirando os livros de sua bolsa, ela os colocou sobre a


mesa, com a intenção de ir para a área de trás à procura de
mais. A bibliotecária, uma velha mulher de cabelos brancos,
rugas com olhos escuros e experientes, uma mulher cujo nome
ela não sabia, arrumou seus livros, observando Corvina.

— Precisa de mais? — Perguntou com sua voz fina, e


Corvina sorriu para ela.

— Sim, voltarei com mais alguns, espero.

Corvina já começou a trabalhar em seu artigo para a aula


do Dr. Kari e precisava de mais informações sobre as teorias
de Freud e os arquétipos Junguianos.

A seção de Psicologia ficava ao fundo do que uma vez foi


uma masmorra gigantesca do castelo. A universidade tinha
renovado completamente o espaço, tornando-o mais luxuoso
do que qualquer calabouço tinha o privilégio de ser. Prateleiras
de madeira escuras, quase pretas, ficavam altas em fileiras
organizadas, diferenciadas por departamentos. Uma grande
lareira adornava a parede oeste, acima exibindo uma série de
espadas antigas que devem ter pertencido ao castelo. Seis
poltronas ficavam em frente à lareira, parecendo confortáveis
com suas capas verdes e marrons. Longas mesas e cadeiras
ocupavam o espaço entre as poltronas e a mesa principal.
Surpreendentemente, uma máquina de café muito moderna
estava em um canto ao lado da mesa, a única coisa fora do
lugar em toda a masmorra antiga.

— Vá em frente, antes que suas aulas comecem. — A


velha bibliotecária a cutucou para frente.

Corvina acenou com a cabeça e se dirigiu para o fundo


quase vazio, ignorando as seções de História e Literatura, e
entrou na seção de Psicologia, os dedos percorrendo as velhas
lombadas dos livros. Parou em Psicologia do Inconsciente, Carl
Jung, e puxou-o para fora, gritando imediatamente para o par
de olhos que a espiava por entre a abertura na prateleira.

Com o coração disparado enquanto o livro escorregava de


seus dedos, batendo no chão com um baque, ela olhou para o
garoto desconhecido que a encarava com olhos desfocados.

— Eles estão aqui. — O menino disse baixinho, olhando


ao redor para ver que ninguém estava vindo.

— Desculpe? — Corvina sussurrou, combinando com seu


tom. — De quem você está falando?
— Os Slayers. — Ele se mexeu, falando em voz baixa.

— O quê?

Antes que qualquer um deles pudesse dizer alguma coisa,


o som de passos veio arrastando-se em direção a eles,
provavelmente depois de ouvir seu grito alto segundos atrás.

O menino correu na outra direção, deixando Corvina


parada ali, completamente perplexa. Quem diabos eram os
Slayers?

Ela respirou fundo, balançando a cabeça, e se agachou


para pegar o livro caído, assim que sapatos apareceram na
linha de sua visão, botas marrons masculinas, com jeans preto
dobrado sobre a parte superior. Corvina sabia antes mesmo de
levantar os olhos a quem pertenciam.

Fechou os olhos momentaneamente, pedindo forças para


enfrentá-lo sozinha neste canto da biblioteca e resistir ao calor
que a dominava após uma semana de olhares e fantasias.
Inclinou a cabeça para trás, seus olhos subindo pelas pernas
longas e coxas grossas, parando na protuberância que viu na
altura de seu rosto, continuando por seu torso até aqueles
olhos de mercúrio atraentes. Ele parecia mais alto, maior do
ponto de vista dela.

Ele não disse nada, apenas olhou para ela de cócoras, e


um filete de algo aveludado se enroscou em sua barriga.

As laterais de sua mandíbula quadrada cerraram.


Ele estendeu a palma de sua mão para ajudá-la a levantar
e Corvina examinou sua mão, grande e bonita. Sua palma era
calosa, os dedos levemente curvados, especialmente o médio e
o dedo mindinho. Corvina hesitou por um segundo, antes de
colocar a sua na dele.

A sensação dos dedos graciosos e da pele áspera enviou


pequenas ondas contrastantes sobre seus nervos. Sua
pequena mão parecia menor em comparação a dele, enviando
uma vibração através de seu corpo. Ela sentiu um pequeno
puxão e então ficou de pé, seu corpo colado ao dele, seus seios
livres pressionados em seu torso tenso, seu estômago
aninhando a protuberância que viu momentos atrás, sua mão
em seu aperto, seus olhos percorrendo o rosto dela.

Ele parou por um momento, como se lutasse consigo


mesmo, antes de dar um passo para o lado, levando-a com ele,
pressionando-a de volta nas prateleiras e protegendo seu corpo
menor da vista de qualquer um que passasse por ali. O
protecionismo no movimento fez algo amolecer em seu peito,
não acostumada com ninguém fazendo algo assim por ela.

E então, um pensamento feio se infiltrou em sua mente.


E se isso não fosse nada de especial? E se ele fizesse isso com
qualquer garota que chamasse sua atenção? E se ela estivesse
transformando algo simples em algo especial por causa de sua
inexperiência com o sexo oposto?

Seus olhos continuaram a se mover por todo seu rosto,


sua mão segurando a dela, sem soltá-la.
— Você também encurralou Alissa na biblioteca? — As
palavras deixaram seus lábios antes que pudesse puxá-las de
volta, pairando entre eles.

Viu suas sobrancelhas escuras franzirem ligeiramente,


seu olhar fixo no dela. — Alissa? A garota que morreu?

Corvina acenou com a cabeça, a garganta apertada.

— Por que eu a encurralaria na biblioteca? — Ele


perguntou, inclinando a cabeça para o lado, seus dedos
flexionando em torno dos dela, o outro braço indo para a
prateleira ao seu lado, envolvendo-os em uma bolha escura.

Corvina sentiu um rubor quente subir por seu rosto com


a proximidade dele. — Porque vocês estavam juntos?

Um leve risinho escapou dele enquanto se aproximava,


fazendo a pulsação dela tremer quando tocava seu nariz. — Eu
estive com ela uma vez, little crow. — Falou contra seu pescoço.
— Isso foi antes de saber que ela era uma estudante. Não
cheguei tão longe para arriscar tudo por um caso aleatório.

Mas Jade disse a ela que Alissa estava saindo com ele, ou
pelo menos foi o que Alissa disse à Jade. Ela mentiu para sua
colega de quarto? E se sim, por quê? Em que diabos esteve
envolvida para se matar depois? Ou Sr. Deverell estava
mentindo para Corvina?

O nariz cheirando a linha de seu pescoço a trouxe de


volta.
— Não deveríamos estar fazendo isso. — Ela sussurrou,
esperando que ele não parasse, esperando que seu nariz
continuasse a tatear em seu pescoço. Qual era o mal? A quem
doeria se ela seguisse esse traço de luxúria apenas motivado
por este homem?

— Não, não deveríamos. — Ele concordou, felizmente não


parando. — Eu preciso ficar longe de você, não sei que
feitiçaria é essa. — Sussurrou, suas palavras flutuando sobre
seu rosto enquanto ele se inclinava mais perto. — Mas eu
tenho que parar.

Corvina precisava ficar longe também, por tantas razões,


nenhuma das quais ela conseguia se lembrar naquele
momento. Sua mente estava confusa. Tudo o que ela
reconhecia era se cheiro, aquele cheiro de madeira queimada
e conhaque, e sua voz – aquela voz profunda, de cascalho, que
vibrava em seus mamilos – e aqueles olhos prateados, olhos
que a faziam prender a respiração e os lábios formigarem. Ela
não era nada além de pura sensação naquele momento, desde
as raízes de seus cabelos soltos e selvagens até as pontas dos
dedos enrolados, e só estava pressionada contra ele.

O rosto dele se aproximou, junto com sua demanda


sussurrada.

— Impeça-me.

Seus lábios se separaram.


— Foda-se. — Sr. Deverell amaldiçoou, sua boca a
centímetros da dela, pairando. Ela inalou, seu peito apertando
mais profundamente nele assim que ele exalou, trocando o
mesmo fôlego de ar carregado entre eles, a estática pulsando
entre suas pernas, latejando, deixando-a molhada, inchada e
necessitada.

Sua mão deixou a dela, indo para o lado para agarrar sua
saia, seu olhar prendendo o dela.

— Eu disse para você não me dar esse olhar. — Prata


encontrou violeta em um canto escuro da biblioteca. — Seus
olhos têm tanta fome. Sua alma está faminta e sua carne está
faminta. Diga-me, Srta. Clemm, você quer alívio?

Ela queria.

Seu ser inteiro parece estar sendo examinado, aberto


diante dele, as fissuras visíveis em seu território, esperando
que ele saciasse sua sede.

— Uma prova. É isso.

Sim, queria uma prova. Ele estava perto, tão perto, e ela
estava morrendo de vontade de deixar seu gosto penetrá-la.

Ele ficou exatamente onde estava, protegendo-a com um


braço na lateral da prateleira, mantendo seus olhares travados
enquanto lentamente começava a puxar sua saia para cima. O
tecido farfalhou sobre suas pernas, expondo-as ao ar de um
lado, aumentando a sobrecarga sensorial em seu corpo, e
Corvina sentiu sua respiração engasgar.
Sua mão – sua mão grande, nua e habilidosa – roçou seu
quadril, sua coxa, raspando os dedos sobre ela, no ponto
úmido e necessitado entre suas pernas, não descobrindo nada
além de carne.

Sua respiração tornou-se irregular quando seu dedo fez


contato com sua umidade. — Sem calcinha?

Corvina estremeceu. — Eu não... não gosto de roupa


íntima. Eu as ignoro às vezes.

— Você me arruinou com esse conhecimento. — Seu dedo


médio circulou sua abertura uma vez, e ela se recostou nos
livros atrás dela, empurrando o quadril para frente
involuntariamente, precisando de mais pressão, mais contato,
mas ele tirou a mão, tirando-a de baixo da saia, fazendo-a
voltar ao lugar.

Com os olhos nela, esfregou o dedo molhado sobre seu


lábio inferior lentamente, cobrindo-o com sua umidade, então
se inclinou para frente, lambendo o suco que espalhou ali.

Suas paredes se apertaram.

— Ambrosia. — Ele murmurou, dando ao seu lábio


inferior outra lambida suave, sua cabeça tonta com as
sensações. Seus narizes se roçaram, o peito arfando, suas
pupilas dilatadas, sua boca aberta como a dela.

— Bruxa. — Murmurou, ali, bem ali, tão perto que ela


quase podia sentir seus lábios.
— Diabo. — Ela murmurou de volta, vendo seus olhos
brilharem como fogo derretido, sentindo a protuberância
pesada dele pressionada contra seu estômago, bem onde o
coração se enrolava profundamente.

O som de algo caindo em outro corredor fez os dois


recuarem.

Ele examinou a área rapidamente, soltando um suspiro,


passando as mãos pelos cabelos. Por um longo momento,
apenas respirou, como se tentasse se controlar. E então deu
um passo para trás, uma máscara caindo sobre seu rosto
enquanto sua mandíbula se contraía.

— Não podemos deixar que isso aconteça de novo, Srta.


Clemm. Entendeu?

Corvina engoliu em seco. — Sim, Sr. Deverell.

Sem outra palavra, se virou e saiu, levando o ar elétrico


com ele.

Corvina desabou contra a prateleira, colocando a mão


que ele segurou em seu peito, tentando desacelerar, tentando
ignorar o formigamento em sua boca, tentando aliviar os
músculos entre as coxas. Ela não o conhecia, não sabia quem
era. Ele poderia ser mau, poderia ser o responsável ou estar
ligado aos desaparecimentos e era seu professor. Não podia
arriscar tudo por ele, como ele disse. Este era seu novo começo
e, com seu histórico, não podia arriscar nada. Agora não.
Verenmore era seu quadro em branco e Vad Deverell sua
escrita na parede.
Corvina

— Vamos falar sobre a morte, certo?

O Sr. Deverell contornou a sua mesa até o quadro na


frente da turma, com um marcador em sua mão esquerda
destampado. Ergueu a mão, continuando a falar e escrever ao
mesmo tempo. Corvina surpreendeu-se ao constatar que ele
era canhoto. Talvez, por causa da maneira como usou a mão
direita outro dia, na biblioteca com ela, que a fez
inconscientemente pensar que ele estava em sintonia com ela.

— D-A-N-S-E. M-A-C-A-B-R-E. — Sua voz profunda


enunciou as letras que escreveu em negrito, letras maiúsculas
no quadro, e se virou para a classe. — Danse Macabre. Alguém
pode me dizer o que é isto?

Uma das garotas da frente levantou a mão


hesitantemente e ele acenou com a cabeça para ela. — Sim,
Srta. Thorn?

— A Dança da Morte? — Disse em um tom que era mais


questionador do que resposta.
— Correto. — Ele varreu seu olhar sobre a sala iluminada
pelo sol e para os alunos. — A ideia surgiu no final da Idade
Média. A ideia de que existe universalidade na morte,
independentemente de quem você é em sua vida ou sua
posição ou o quanto possui, você terá que dançar com a morte
no final. Meio bonito, embora macabro, não é?

Era. Ao mesmo tempo, terrivelmente belo e terrivelmente


macabro, a morte viria para todos no final.

— A ideia mais tarde impactou a arte, a música e a


literatura. — Continuou Sr. Deverell, brincando com o
marcador preso entre o indicador e o dedo médio. — Na
literatura, em particular, isso se tornou um artifício alegórico
que inspirou o uso de muitos motivos para representar e até
prenunciar a morte nas histórias. Agora fechem os olhos e
pensem na morte. Qual é a primeira imagem que vem à sua
mente?

Corvina olhou ao redor para ver todos fechando os olhos,


assim que o olhar dele parou nela por uma fração de segundo,
um olhar aquecido, visceral e totalmente proibido, antes de
seguirem em frente. Felizmente, Jade foi ao banheiro, então
não percebeu isso.

— Sr. Morgan? — Ele perguntou à um garoto sentado


perto da janela.

— Crânios. — Respondeu o garoto.


O Sr. Deverell assentiu, virando-se para escrever a
palavra no quadro com um marcador. — Dê-me outro.

— Foice? — Alguém falou.

Sr. Deverell encolheu os ombros. — Dependendo do


contexto, sim. Como Grim Reaper8, sim. Próximo.

— Corvos. — Jax ofereceu, dando à Corvina um sorriso


malicioso.

A mão do Sr. Deverell fez uma pausa antes de escrever


também. — Sim. Os corvos são considerados símbolos de
morte em muitas culturas, considerados por trazerem consigo
maus presságios. Eles são principalmente um tema gótico na
literatura.

— Cemitérios.

— Sim. Próximo.

— Esqueletos?

— Se encaixa com o crânio. Próximo.

Nos minutos seguintes, ela fez anotações em seu velho


caderno marrom e deixou a turma falar.

Sr. Deverell finalmente se voltou para a classe quando o


quadro estava cheio. — A morte é fascinante. É a única
inevitabilidade da vida, mas a maioria das pessoas passa a vida
tentando fugir dela. A morte de um personagem pode ser a

8 A morte é frequentemente imaginada como um personagem conhecido como Grim Reaper


(Ceifador, Anjo da Morte), vindo buscar a alma da pessoa.
arma mais poderosa no arsenal de um escritor, mas deve ser
usada com extremo cuidado. Para o seu artigo criativo, quero
que todos escrevam sobre a morte. Façam com que seja
impactante. Façam com que seja surpreendente. Façam-me
não prever isso.

Ele deixou seus olhos vagarem por todos. — Deem-me


uma morte natural, um assassinato, um suicídio ou qualquer
outra coisa. Pensem. Quero ler isso e me emocionar. O prazo é
de quatro semanas.

Na hora, o sinal tocou e todos começaram a embalar as


coisas. Corvina observou uma menina na frente, cujo nome ela
não se lembrava, caminhar até o Sr. Deverell enquanto
abraçava os livros em seu peito. Ela observou a maneira rígida
como ele se mantinha, ligeiramente afastado dela, a linguagem
corporal ardente da garota, e ela sabia simplesmente de ver
que era mais uma de suas admiradoras. Deus, parecia que ele
tinha um buffet para experimentar e selecionar, apesar das
regras.

Balançando a cabeça para si mesma por cobiçar


silenciosamente um homem que metade da escola almejava,
ela empurrou o caderno em sua bolsa e andou pelo corredor,
mantendo seu olhar na porta.

Percebeu que ele estava olhando para ela, mas manteve a


cabeça baixa e saiu. Ele a observava, o tempo todo, e então
esperava que ela não fosse afetada ou que pensasse com
alguma célula cerebral racional quando colidissem. Isso não
era possível. Algo entre eles – químico, emocional, psicológico,
ela não sabia – surgiu como lava derretida e cinza quente,
causando uma erupção imprevisível para ambos.

Era outro lindo dia, mas sua mente estava confusa. Não
entendia porque a afetava tanto, porque a ideia dele parado tão
perto de outra garota fez algo se revirar em seu estômago. Não
o conhecia. Ele não a conhecia. Mas havia algo ali, quase
consciente na maneira como aquilo crescia e os aproximava.

Rangendo os dentes, saiu para ver Jax esperando por ela,


encostado em uma parede. Ele era bonito e brincalhão, algo
que aprendeu ao longo das semanas que saía com Troy e seus
amigos. Jax tinha uma tendência a dizer coisas com aquele
brilho perverso em seus olhos, mas de uma forma bem
intencionada.

— Ei, Purple. — Cumprimentou-a, afastando-se da


parede e se juntando a ela enquanto caminhava para os
jardins. Ela lhe deu um pequeno sorriso, não muito tímido,
mas sem realmente querer falar. Corvina era, principalmente,
uma introvertida, talvez por causa da maneira como cresceu
com o silêncio como seu companheiro. Os silêncios eram
confortáveis, mas a maioria das pessoas não se sentia assim.
Percebia que a maioria das pessoas tinham uma necessidade
desnecessária de preencher silêncios, uma necessidade que ela
não compartilhava. Isso deixava as pessoas desconfortáveis ao
seu redor, aumentando ainda mais suas estranhezas.
— Então, lição sombria, hein? — Jax preencheu o
silêncio.

Corvina encolheu os ombros. Era sombria, mas linda. A


morte como uma ideia era fascinante, e sua mente já estava
agitada com a forma como ela escreveria seu artigo. De todas
as suas aulas, estava percebendo que amava mais a de
literatura. Embora a disciplina eletiva de Psicologia a ajudasse
a entender um pouco mais a mente, era puramente para
entender e nada mais. Com a literatura, podia sentir-se tanto
analisando quanto imaginando, os lados racional e criativo de
sua mente totalmente engajados com o assunto.

— Então, nós estamos indo para a floresta. — Jax colocou


um sorriso em seu rosto. — Quer ir?

— Onde vamos? — A voz de Jade veio do seu lado quando


ela e Troy se juntaram a eles.

Jax balançou as sobrancelhas para ela. — A floresta.

Corvina viu os olhos de Jade se arregalarem ligeiramente.


— Você é louco? — Ela sibilou, batendo no braço de Jax com
a mão. — Não devemos ir lá. É perigoso.

— Bem, sua colega de quarto vai lá com bastante


frequência, então acho que ela é a louca. — Jax respondeu.

Corvina sentiu os dentes rangerem ao ouvir a palavra, a


pele se contraindo quando algo quente e ardente entrou em
seu corpo. Raiva. Quase não reconheceu a emoção por causa
de quão estranha era para ela. Corvina nunca foi uma pessoa
raivosa, mas essa palavra. Essa palavra, lançada tão
descuidadamente, era o seu gatilho.

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Troy deu um


tapa na cabeça de Jax com um: — Cuidado, idiota.

Jade apontou o dedo para os meninos. — Não fale sobre


ela assim. Se tem alguém louco aqui, são vocês, rapazes, por
pensarem em entrar naquela floresta.

— Nós estamos indo. — Afirmou Jax. — A questão é: você


vem ou não?

Corvina não queria ir, não depois do comentário louca ou


do quanto a atingiu. Mas também não queria que fossem para
as ruínas, se sentia protetora com elas, por alguma razão
bizarra. Não queria que ninguém as encontrasse, ninguém
tropeçasse nelas, nem nas ruínas, nos túmulos ou naquele
velho piano coberto por uma lona nova. Ela não percebeu, mas
já reivindicou o lugar em sua mente, disposta a compartilhá-
lo com apenas uma pessoa, uma que reivindicou a floresta
como seu consolo muito antes dela chegar lá.

Essa foi a única razão pela qual ela disse. — Claro.

Jax deu a ela um sorriso vencedor enquanto Jade


suspirou, beliscando o nariz. — Bem. Mas não vamos muito
fundo e voltaremos antes que o sol se ponha.

— Combinado. — Jax assegurou a ela. — Encontre-nos


em frente à sua torre. Vou pegar algumas coisas.
Troy deu um abraço lateral em Corvina. — Obrigado,
Purple.

Corvina revirou os olhos, o coração aquecido com o gesto


dele.

Os meninos saíram correndo e Jade lançou um olhar


curioso para Corvina. — Você vai muito para a floresta?

Corvina encolheu os ombros e encaminhou-se para a


torre. Ela ia para a floresta mais durante a semana, bem cedo
todas as manhãs. Mais especificamente, ia para as ruínas com
um pouco de comida e seu diário. Gostava de sentar em uma
das grandes pedras perto da parede em ruínas, cercada pela
natureza pegando de volta o que o homem fez. Gostava que
todas as manhãs haviam mais e mais corvos que vinham ser
alimentados por ela. Gostava de vê-los festejar enquanto
escrevia em seu diário observações sobre pessoas, inferências
sobre si mesma e pensamentos sobre um homem. Gostava de
colocar as palavras no papel, isso a fazia entender tudo o que
se passava dentro de sua cabeça. O registro no diário não era
algo que sempre fizera, na verdade, nem pensou em fazer isso
até que o Dr. Detta sugeriu.

O vento frio roçou seu rosto, chicoteando mechas de


cabelo que escaparam de sua trança rabo de peixe. O sol estava
forte, mas perto do horizonte. Eles provavelmente tinham mais
uma hora de luz do dia.
Puxou a alça de sua bolsa para cima do ombro enquanto
avistava Troy, Jax, Ethan e dois outros meninos que não
conhecia parados perto da torre. Cinco no total.

— Devemos pegar algumas garotas? — Jade perguntou


baixinho do seu lado. — Não que não confie neles, mas você
não os conhece e não quero que se sinta desconfortável.

Corvina sentiu seus lábios se erguerem em um sorriso


diante da consideração da amiga. — Estou bem, não se
preocupe. Obrigada. — Colocou a mão em seu pequeno ombro
e apertou.

Poucos minutos depois, os meninos armados de comida


e água olharam para Corvina.

— Então, para onde, Purple? — Troy perguntou indicando


a abertura na floresta. — Você conhece melhor.

Corvina não era especialista na região, mas conhecia


melhor do que esses caras. As ruínas à esquerda e o lago em
frente, ambos eram lugares que ela queria evitar, as ruínas
porque eram dela, e o lago por causa da voz.

Ela indicou a direita. — Eu não explorei esse lado, então


vamos lá. — Com sorte, não haveria nada além de árvores.

O grupo, todos os sete, entraram na floresta e seguiram


para a direita. Sob o matagal, a luz era consideravelmente
menos brilhante, as sombras mais longas, o vento mais frio.
— Nós não deveríamos estar fazendo isso. — Jade saltou
de seu lado, suas mãos agarrando as alças de sua mochila.

— Só vamos avançar um pouco e voltar, ok? — Troy


colocou a mão em volta dos ombros menores de Jade,
aconchegando-a em seu corpo. — Não teríamos tido coragem
se não fosse pela Purple aqui. — Acenou com a cabeça para
Corvina. — Ela tem ido para a floresta tão tranquilamente nas
últimas semanas, nós tínhamos que ver por nós mesmos,
sabe? Na verdade, tenho medo de bosques e montanhas por
um longo tempo.

— Por quê? — Alguém perguntou, e Corvina ouviu,


curiosa sobre o passado de Troy.

— É só uma coincidência. — Troy deu de ombros. — Mas


sempre quis explorar essa floresta. A maioria dos alunos no
campus têm medo disso.

— Ah, sim. — Um dos novos garotos se intrometeu. — Os


Slayers são apenas uma lenda esquisita contada aos alunos
para assustá-los de qualquer maneira.

— Slayers? — Perguntou Corvina, lembrando-se da


palavra que o menino lhe dissera na biblioteca, enquanto sua
mão passava sobre a dura e áspera casca de uma árvore.

— Sim. — Troy explicou. — É um nome estúpido, mas é


assim que todos chamam os estudantes, de anos atrás, que
sequestraram e assassinaram os aldeões.
Arrepios explodiram em seus braços. Que diabos? O que
o menino da biblioteca quis dizer com sua mensagem? Quem
diabos ele era? Claramente, estava apenas brincando com ela.

— Você quer saber algo ainda mais estranho? — Troy


continuou, sem perceber que algo estava errado em sua mente.

Corvina acenou com a cabeça, a torção inquietante em


seu intestino ficando mais apertada.

— Os alunos que acabaram com os Slayers? — Troy


sorriu. — A lenda diz que depois de acabar com eles,
desapareceram da face da Terra após deixar Verenmore. Cada
um deles.

Um calafrio destruiu seu corpo quando Jade deu um soco


na lateral de Troy. — Pare de nos assustar!

— A floresta é um lugar para histórias de terror, garota


Jadie. — Ele bagunçou seu cabelo.

O declive aumentava à medida que caminhavam, e Jax


lhe deu a mão para ajudá-la enquanto ela agarrava sua saia.
Foi a primeira vez na vida que Corvina percebeu que as mãos
transmitiam sensações diferentes. O Sr. Deverell segurando
sua mão foi uma experiência totalmente diferente de Jax.
Ambos os seus punhos eram firmes e grandes, mas onde o
aperto quente do Sr. Deverell penetrou sua pele e afundou para
acender algo profundo, bem dentro dela, Jax simplesmente
estava lá. Isso não a fez ter nem um pingo da mesma resposta
fisiológica ou psicológica.
— Como você sabe tanto? — Corvina perguntou à Troy
para se distrair do pensamento do homem de olhos de
mercúrio.

Troy olhou sério para ela. — Eu trabalho meio período


para a universidade, levando pacotes para a cidade duas vezes
por mês, enviando-os para fora. As pessoas da cidade, embora
se afoguem em boatos, também têm informações muito
interessantes sobre esse lugar. Principalmente a velha do
correio.

Corvina franziu as sobrancelhas, surpresa com esse fato


sobre Troy. — O que tem ela?

— Oh, isso vai ser bom. — Um dos meninos riu atrás.

Troy permaneceu quieto enquanto ajudava Jade a passar


por um tronco caído. — A irmã mais nova de seu pai era uma
das garotas que foram levadas. Ela nasceu alguns anos depois
de tudo supostamente ter acontecido, mas soube sobre tudo
isso por seus pais.

— Por que você está investigando tudo isso? — Jade


exigiu, balançando a cabeça.

— Você não está interessada em saber o que aconteceu


aqui? — Troy falou de volta. — Esta é a nossa casa e você não
quer saber por que mantêm toda essa porcaria escondida de
nós?
— Na verdade, não, eu não quero. — Jade respondeu. —
Estou feliz com a minha vida aqui e não quero remexer isso.
Simples.

— Nem mesmo depois do que aconteceu com Alissa?

— Especialmente depois do que aconteceu com Alissa.

Alissa, que estava escondendo algo de Jade.

Por favor, me ajude.

A voz veio do nada, ecoando em sua cabeça, trazendo com


ela aquele gosto ruim em sua língua. Corvina mordeu o lábio
para não reagir, agarrando-se ao tronco de uma árvore ao lado,
mantendo os olhos no chão, no solo rico e escuro e na grama
espessa em volta das dobras da saia.

— Que porra! — Ethan exclamou e todos se viraram para


vê-lo parado atrás, à esquerda, seus olhos em algo. Corvina
seguiu seu olhar para ver o que ele via e piscou.

Uma cabana. Tijolo e madeira. Não totalmente


inutilizada. Janelas intactas.

E uma longa silhueta se movendo lá dentro.

Seu coração parou.

— Porra, vamos. — Jade puxou o braço de Troy, seus


olhos freneticamente conectando-se com Corvina.

Um dos caras tropeçou para trás. — Cara, vamos sair


daqui.
Com o pulso acelerado, Corvina semicerrou os olhos, mas
a sombra não se moveu novamente. Ficou parada. Poderia ser
alguém que precisava de ajuda?

— Volte, Vivi. — A voz de Mo soou em sua cabeça, e essa


foi uma resposta boa o suficiente para ela. Fosse o que fosse,
uma voz ou seu subconsciente, Mo cuidava dela.

Sem dizer uma palavra, ela começou a subir a colina,


sabendo que os outros a seguiriam. A escalada de volta foi
quase em silêncio, seus passos apressados, a maioria deles
perdidos em seus próprios pensamentos.

— Que porra foi essa? — Jax perguntou depois de alguns


minutos, dando à Corvina uma mão sobre o mesmo tronco
novamente.

— Talvez um animal? — Um cara sugeriu.

— Um animal tão alto? — Troy disse baixinho do lado. —


Eu duvido. Vocês ao menos viram a porta?

Corvina olhou para Troy, franzindo a testa. O que tem a


porta?

— O que tem a porta? — Ethan ecoou a pergunta em sua


cabeça.

— Estava trancada por fora. — Troy afirmou, dando-lhes


uma olhada antes de continuar. — Se havia algo dentro, estava
trancado lá.
Jax hesitou, segurando a mão de Corvina como apoio
enquanto ela andava pelo terreno. — Devemos voltar e ver se é
alguém que precisa de ajuda?

As palavras deixaram a boca de Corvina antes que


pudesse detê-las. — Precisamos ficar longe desse lugar.

Ela sentiu os olhos de Troy se fixarem nela. — Por que diz


isso, Purple?

— Apenas uma sensação. — Disse simplesmente. Ela não


pensou que mencionar que uma voz, que pode ou não ser real
e que ouviu durante toda a sua vida, disse-lhe isso cairia bem
com eles.

— Sim, bem, confiarei no sentimento dela. — Jade


concordou. — Vamos voltar. — Eles subiram a colina em
silêncio enquanto a luz do dia lentamente desaparecia,
finalmente entrando nos terrenos do castelo assim que o sol se
punha no horizonte. Ficaram por um segundo na frente das
torres, processando o que quer que aconteceu na floresta.

Uma figura escura se moveu em direção ao Salão


Principal, seus olhos observando o grupo, demorando-se na
mão que Corvina não percebeu que ainda era segurada por
Jax. Ela viu seus olhos pausarem nas mãos por um longo
segundo antes de seguir em frente, e não entendeu porque
sentiu a necessidade de segui-lo.

— Você não... — Um dos meninos começou, antes de


franzir os lábios.
— O quê? — Troy exigiu.

— Você não acha que o Sr. Deverell tem algo a ver com
isso, certo? — O menino perguntou. Corvina sentiu sua
atenção se aguçar ao ouvir o nome dele, seus olhos observando
seu corpo em retirada, a ideia girando em sua mente. Poderia?
Ele poderia realmente ter algo a ver com o que quer que
estivesse lá atrás?

Troy passou a mão pelo cabelo, olhando para o céu. — Eu


não sei, cara. Ele é reservado e vai naquela maldita floresta o
tempo todo, e ninguém sabe porquê. Mas nunca senti uma
vibração ruim dele.

Jade estremeceu visivelmente. — Pode ser aquela coisa


de lugar errado na hora errada.

— Ele está aqui há mais tempo do que qualquer um de


nós. — Outro menino apontou. — Por anos, mais do que a
maioria de seus colegas. Primeiro como aluno, depois como
professor. Quem sabe tudo o que ele viu e fez? Ou mesmo
porque ele sempre vai para aquela floresta.

— Aquela floresta... — Ethan disse, olhando para o mar


verde escuro que escondia incontáveis segredos. — Não sei
sobre o Sr. Deverell, mas algo está muito errado naquele lugar.

Algo estava muito errado e Corvina não fazia a menor


ideia do que era.
Desconhecido

A garota jamais deveria ter voltado a Verenmore.

Eles viram enquanto ela vagava pelo castelo em seu


vestido e cabelos soltos, segurando uma vela no alto, como
uma aparição fantasmagórica assombrando os espaços entre
as paredes. Viram quando entrou na floresta sozinha pela
manhã. E a deixaram em paz.

Mas aqueles olhos roxos viram demais, muito mais do


que eles podiam revelar.

Ela era ousada demais, curiosa demais para o seu próprio


bem.

Os dois elementos juntos na uma garota estranha eram


uma combinação perigosa. Ela esteve longe de qualquer coisa
relacionada a eles até agora. Porém, ela poderia tropeçar em
algo, descobrir segredos profundamente enterrados, desvendar
tudo pelo o que eles trabalharam tanto.

Eles tinham que mantê-la longe.

Era hora da diversão.


Corvina

A garota com longos cabelos escuros estava deitada de


bruços na água, suas mechas flutuando etérea sobre a
superfície, sua pele fantasmagoricamente pálida ao luar.
Corvina olhou em volta, sem saber o lugar ou a hora, apenas
que precisava chegar até a garota. Ela deu um passo à frente,
seu tornozelo mergulhando na água gelada, desaparecendo sob
a escuridão.

Com o coração batendo forte, deu outro passo, quando algo


frio e viscoso agarrou seus tornozelos, prendendo-a no lugar.
Corvina lutou tentando chegar até a garota, mas os movimentos
causaram ondulações que a fizeram flutuar para mais longe. Ela
lutou com mais força, mas os dedos pegajosos ao redor de seus
pés não deram espaço.

A garota alcançou o meio de onde quer que estivessem e


lentamente começou a afundar na água turva, centímetro a
centímetro, até que apenas seu cabelo permanecesse flutuando
na superfície.
Corvina abriu a boca para chamá-la, mas nada saiu, sua
voz abafada, sua garganta travada no lugar como os tornozelos.

— Corvina. — Uma voz chamou atrás dela, uma voz que


ela conhecia e amava em sua alma. A voz de sua mãe.

Ela se virou e viu sua mãe parada a poucos metros de


distância na praia, vestida com seu vestido preto de algodão e
trança, sorrindo. Mas seus olhos estavam cobertos de preto
cobrindo tudo até que ela não conseguia ver os olhos violetas
cheios de amor. Ela estava baralhando um baralho de cartas,
observando Corvina com aqueles olhos completamente negros e
sinistros.

— Mamãe. — Gritou, sua voz trêmula neste momento.

Uma carta caiu do baralho e outra e outra. Sua mãe sorriu


para ela, jogando o baralho para o lado e pegando as cartas que
vieram durante seu embaralhamento, virando-as para mostrar
a ela.

O Diabo. Os Amantes. A Torre.

Todos os arcanos principais. Todos os presságios


poderosos.

— Você sabe o que está por vir, querida. — Disse a mãe,


ainda sorrindo. — Uma tempestade. O único lugar seguro é o
olho. Ele é a tempestade. Ele irá mantê-la segura.

— Quem, mamãe? — Corvina perguntou, tentando libertar


as pernas do que a estava segurando no lugar.
— O Diabo. — Respondeu sua mãe.

— Aquele na carta? — Ela estendeu as mãos, tentando


alcançá-la.

— Aquele em seu coração. — Sua mãe riu. — Uma vez que


prova o fruto proibido, você pertence ao Diabo.

Corvina gritou quando as mãos que seguravam seus


tornozelos começaram a puxá-la para a água, para longe da
mãe.

— Mamãe. — Proferiu horrorizada, assim que sua mãe


começou a desaparecer simultaneamente. Ela lutou mais para
chegar à costa, mas sem sucesso, seu corpo se movendo
freneticamente mais fundo nas profundezas.

— Mamãe! — Gritou, com as mãos estendidas, tentando


alcançar uma mãe que não estava lá.

Algo a sacudiu com força.

— Corvina!

Seus olhos se abriram para ver o rosto preocupado de


Jade pairando sobre ela, suas mãos segurando-a pelos
ombros. Corvina ofegava, com o peito arfando, o corpo todo
encharcado de suor, os olhos varrendo ao redor do quarto
freneticamente enquanto sua mente processava o que
aconteceu.
Um pesadelo. Ela teve um pesadelo.

Respirando pela boca, se sentou, com as mãos tremendo.

— Você estava gritando por sua mãe. — Jade disse a ela


suavemente, entregando-lhe um copo d'água. Corvina aceitou
com gratidão, engolindo tudo em segundos, deixando seu
coração disparado desacelerar.

Um pesadelo. Apenas um pesadelo.

— Obrigada. — Disse à sua preocupada companheira de


quarto, entregando-lhe o copo de volta.

— Você está bem? — Jade perguntou, sentando-se em


sua cama.

Corvina acenou com a cabeça. — Foi um pesadelo. — E


isso a preocupou. Ela nunca foi propensa a pesadelos, mas os
poucos que teve em sua vida não eram bons sinais. Sua mãe
havia lhe dito que eles eram ameaçadores, especialmente com
ela. O médico disse que eram prejudiciais. Ela precisava se
controlar.

Balançando as pernas para fora da cama, esfregou uma


mão cansada sobre o rosto. — Eu vou caminhar.

— Está no meio da noite. — Jade disse a ela, seus olhos


cautelosos. — Tem certeza?

Corvina acenou com a cabeça. — Preciso de um pouco de


ar. Preciso sair. Não se preocupe, estarei de volta em breve.
Calçando as botas, ainda vestida com a camisola azul,
Corvina puxou o cabelo para cima do ombro e tirou uma vela
da gaveta ao seu lado. Seus olhos pousaram no baralho de tarô
ao lado da vela, pegando-o também. Colocando a vela em um
castiçal, a acendeu e deu à Jade o que esperava ser um sorriso
tranquilizador. — Sério, vá para a cama. Eu só preciso sair.

Jade mordeu o lábio, olhou para a vela bruxuleante. —


Sugiro uma lanterna se for sair lá fora. O vento está forte esta
noite.

Corvina olhou pela janela. A grotesca gárgula pairava


como um monstro sinistro gritando para a lua. Uma lua quase
cheia. Ela ficaria bem. Mesmo assim, acenou com a cabeça
para a amiga, envolveu-se em um xale e saiu.

Os corredores estavam vazios a esta hora da noite, a vela


fornecendo luz suficiente para ela descer as escadas. Não havia
piano sendo tocado fazia alguns dias. Ela precisava ir para o
seu local, o lugar silencioso onde era apenas ela e mais
ninguém para interromper.

Emergindo no foyer, empurrou a porta de entrada da


torre com a mão segurando seu baralho, e olhou para fora,
para verificar se havia guardas patrulhando o terreno. Vendo
seu caminho livre, deslizou para a noite.

O vento atingiu seu rosto, frio, cortante e animador. A


chama de sua vela dançou com o vento por um segundo
selvagem como um amante, piscando e resistindo à sua
paixão, antes de se render e se extinguir sob sua demanda. O
cheiro da floresta acenou para ela, o cheiro de solo rico e
folhagem adormecida, o cheiro de árvores desconhecidas e
flores invisíveis.

Ainda mantendo o castiçal, fez seu percurso para a


floresta e virou à esquerda em direção às ruínas. Ela nunca
esteve na floresta à noite aqui, mas enquanto ia para o seu
destino, com os sons da floresta e suas criaturas para lhe fazer
companhia, sentiu-se relaxando. A floresta à noite era a
mesma de sua cidade natal. Insetos noturnos piavam,
lembrando-a de que não estava sozinha no escuro. Os
morcegos voavam sobrevoando lugares em sua hora. Um
pássaro arrefecia a cada três segundos.

Um. Dois. Coo.

Corvina acompanhou a contagem do arrulho, tocando as


cascas das árvores em seu caminho saudando, agradecendo
em silêncio por protegê-la enquanto caminhava sob a luz fraca
da lua.

Depois de alguns minutos, as ruínas apareceram, seu


lugar de paz, e ela se sentiu sorrir.

E então congelou.

Porque em seu espaço de solidão estava sentado um


homem grande em um dos bancos quebrados, com uma lona
jogada no chão ao lado dele. Ele olhou para cima quando um
galho foi esmagado sob sua bota, seus olhos prateados a
queimando, prendendo-a em seu lugar à poucos metros de
distância.

— Deve estar brincando comigo. — Murmurou, sua voz


ecoando no espaço aberto entre eles enquanto ele se virava
totalmente para ela. — Que porra você está fazendo aqui?

Corvina engoliu em seco, os dedos apertando o castiçal.


— Venho aqui o tempo todo.

— Digo... — Ele esclareceu, colocando algo metálico de


sua mão no banco ao lado dele. — O que está fazendo aqui à
esta hora da noite?

Ela não queria contar a ele sobre seu pesadelo. Não


processou por si mesma. Então, deu-lhe a verdade, tanto
quanto podia. — Eu não conseguia dormir.

— E pensou que um passeio na floresta no meio da noite


seria a solução mais lógica? — Exigiu, seu tom furioso. Por que
diabos ele estava com raiva, especialmente se estava fazendo
exatamente a mesma coisa que ela? Ugh, ela odiava confronto.
Bem, era uma pessoa livre e ele não era dono do lugar, então
não era como se pudesse impedi-la.

Corvina o ignorou, optando simplesmente por ir para o


seu lugar, uma pedra virada que outrora fizera parte da parede
ao lado do cemitério. A rocha se desintegrou de uma forma que
fez um assento grande o suficiente para ela se sentar e se
inclinar para trás, com a vista da fonte quebrada na frente,
felizmente longe da estranha árvore de um olho só, dos
túmulos nas suas costas e a pilha de móveis, incluindo o piano
à direita.

Podia sentir os olhos dele em si mesma enquanto se


sentava na pedra e colocava o baralho no colo, ignorando-o
completamente. Ela o ouviu começar a mexer em algo no
piano, o som de metal batendo em algo sólido permeando o
silêncio, e olhou para trás, curiosa demais para resistir. Ele
estava sentado no banco que provavelmente arrastou da pilha
de móveis, com algum tipo de alicate na mão, puxando algo de
dentro do piano que parecia antigo.

— É seu? — Perguntou, incapaz de conter a pergunta.

Sua mão fez uma pausa antes de puxar outro pedaço de


algo dentro do piano. — Não. — Respondeu sucintamente. —
Estava aqui com o resto do lixo.

Ela mordeu o lábio. — E você está consertando?

Prata trancado com ela.

— Sim.

— Não sei nada sobre pianos. — Disse ela, olhando para


as mãos dele com a ferramenta. Era por isso que ele tinha as
palmas das mãos calejadas.

Ele a encarou por um longo momento, antes de olhar para


o colo dela. — Isso são cartas de tarô?
Corvina sentiu seus lábios se erguerem em um sorriso,
acariciando as cartas. — Eram da minha mãe, ela me ensinou
como lê-las.

Pegou as cartas e começou a embaralhar.

— E você acredita no que elas dizem? — Ele perguntou


baixinho, sua voz profunda misturada com curiosidade. — No
destino?

Corvina deu de ombros, recostando-se na pedra,


relaxando com o peso familiar das cartas em suas mãos e o
movimento de embaralhá-las. — Acredito que sejam boas como
guias, não como manuais. — Uma carta caiu. Ela continuou.
— Elas podem orientar e dar um senso de direção sobre algo,
mas não os detalhes precisos sobre como, quando e o quê. Isso
depende de nossas escolhas. — Outra carta.

— Interessante. — Murmurou, a mecha branca em seu


cabelo contrastando com a escuridão do luar. Corvina o
analisou por um longo minuto enquanto continuava a
embaralhar, a maneira como suas sobrancelhas proeminentes
cortavam seu rosto em concentração, o contorno quadrado de
sua mandíbula com barba rala, a realeza de seu nariz reto, a
rigidez em seus lábios cheios.

— Você tem um rosto muito interessante, embora não


seja convencionalmente bonito. — Ela falou antes de, de
repente, perceber como as palavras soavam. Seus olhos
prateados se chocaram com os violetas, as sobrancelhas
subindo em silêncio.
— Eu quis dizer isso como um elogio. — Esclareceu,
sentindo seu rosto esquentar, grata pela escuridão que o
escondia, focando na ação de suas mãos. — Você tem um rosto
muito cativante. Bonito, mas não convencional. Foi isso que eu
quis dizer. Desculpe, eu provavelmente não deveria estar
falando com você assim.

Sr. Deverell a ignorou por alguns momentos, os lados de


sua mandíbula trabalhando enquanto voltava para seu reparo.
Corvina fechou os olhos de vergonha e soltou um suspiro. Esta
era provavelmente a razão pela qual deveria manter a boca
fechada, especialmente com homens que faziam seu estômago
revirar com apenas um olhar. Ela tinha certeza de que haveria
outro no campus. E era uma jovem mulher se descobrindo. A
luxúria forte era algo que estava experimentando pela primeira
vez, e ela deveria explorar isso. Deveria encontrar alguém.

— Quem você consideraria convencionalmente bonito? —


Suas palavras vieram para ela.

Ela não esperava que ele perguntasse isso. Corvina


refletiu sobre isso por um minuto, perguntando-se se deveria
dizer alguma coisa. Provavelmente não.

— Você acha que Jax é bonito? — Ele perguntou


suavemente, muito suavemente.

Corvina engoliu em seco. Ela tinha a sensação de que


qualquer resposta seria uma resposta errada. — Minha colega
de quarto acha que sim.
Ele não a olhou. — Eu perguntei o que você acha.

— Sim. — Admitiu Corvina, sentindo algo tenso entre os


dois. — Ele é convencionalmente bonito, eu diria. Eu não
queria que meu comentário fosse rude. Desculpe, não sou a
melhor conversadora.

Ele simplesmente se curvou sobre o piano, sua mão


puxando agressivamente um acorde, a ação acendendo algo
visceral dentro dela. Corvina calou-se, observando-o trabalhar,
e mordeu a língua. Provavelmente não deveria ter dito nada.

— Quão bem conhece Jax? — Perguntou, depois de um


longo segundo.

— Hum... — Ele queria que ela cavasse algum tipo de


buraco. Por que diabos ele estava perguntando sobre Jax?
Franziu a testa com a pergunta. — Somos amigos, eu acho.

— Amigos que dão as mãos? — Sua pergunta foi baixa,


mas alta no silêncio que se seguiu.

Corvina fez uma pausa no embaralhamento de cartas,


olhando para a mão dele, os batimentos cardíacos triplicando
em velocidade, sabendo que os viu saindo da floresta. Jax
ainda estava segurando sua mão, a mesma mão que este
homem segurou na biblioteca, um pouco antes de provar um
pouco dela.

Ela ficou em silêncio.


De repente, Sr. Deverell largou a ferramenta e se levantou
do banco, seu corpo longo e ágil fechando a distância até sua
pedra em três passos rápidos. Ele parou na frente dela e se
inclinou, seus braços indo para a rocha de cada lado dela,
prendendo-a no lugar enquanto Corvina olhava para seus
olhos trovejantes, o coração batendo forte nas costelas.

— Seja o que isso for, não pode acontecer. — Disse a ela


calmamente, claramente, sua voz baixa, mas firme. — Você é
minha aluna e sou seu professor, mas pior, sou perigoso. As
meninas com quem interajo dançam com a morte muito mais
cedo do que deveriam. Se você valoriza sua vida, não me olhe
com esses olhos assim. — Inclinou-se mais perto, seu hálito
quente e cheiro de queimação lavando sobre ela. — Isso me faz
querer coisas, little crow.

— Coisas como o quê? — Ela sussurrou, seu coração em


sua garganta, seu olhar travado com o dele.

— Coisas como meu punho em seu cabelo e minha língua


em sua boca. — Respondeu asperamente, as linhas de seu
rosto tensas. — Coisas como fodê-la na frente do garoto que
segurou sua mão, só para dizer a ele que você nunca será dele.
Coisas como dobrá-la sobre a minha mesa depois da aula e
dizer para você envolver seus lábios em volta do meu pau como
faz com seu lápis.

Seu corpo, seu coração e seu rosto estavam em chamas.


Ninguém nunca falou com ela assim. Ela leu palavras como as
dos livros, ditas com vigor e paixão, mas nunca imaginou como
se sentiriam focadas nela.

Sr. Deverell pairou sobre Corvina, seu rosto era a única


coisa em sua visão, seu peito arfando com a imagem que ele
pintou. Ela queria isso. Queria tudo. Queria pertencer a seu
homem, que a olhava com olhos tão mercuriais e ferozes, mas
ele era perigoso, desconhecido, misterioso.

— Isto é luxúria. — Sussurrou, tentando validar isto,


desculpá-lo.

— Não, Corvina. — O lado de seus lábios se contraiu. —


Eu conheci a luxúria. Isso é algo pior. Esta é uma necessidade
bárbara de possuir, eliminar, ter. Isso é loucura.

Loucura.

Parecia uma loucura, não é? Um tipo diferente de loucura


do que estava acostumada, mas loucura mesmo assim.

Corvina ergueu os olhos para ele, sua mão subindo


sozinha para tocar sua boca como ele tocou a dela na
biblioteca. Seus olhos brilharam, seus braços saltaram
enquanto se trancava no lugar. Seus lábios eram suaves,
cheios quando os traçou com os dedos, os olhos nunca se
afastando um do outro. Sua pulsação vibrou em seu pescoço,
seus mamilos endureceram contra o tecido de sua camisola.

A brisa suavizou ao seu redor, a lua se escondendo atrás


das nuvens como se dando a ela a privacidade, o sigilo, a
coragem de que precisava. Levantando-se um pouco da pedra
para elevar o corpo, esticando o pescoço, Corvina se ergueu e
pressionou os lábios contra a boca dele, seus narizes se
tocando enquanto inclinava a cabeça e retirava a mão,
deixando aquele último centímetro de espaço entre eles.

— Se isso é loucura. — Ela sussurrou quase contra seus


lábios. — Afogue-me nisso.

— Jesus, porra. — O palavrão deixou sua boca antes que


ele fechasse a distância, batendo seus lábios nos dela. O
formigamento se espalhou a partir do ponto de contato,
irradiando por seu corpo, tornando suas pernas muito fracas
para suportar seu peso. Ela agarrou seu suéter com as mãos,
agarrando-os para manter seu corpo no lugar enquanto seus
lábios permaneciam travados. Ele se afastou um pouco, ainda
inclinado sobre ela, os braços ainda apoiados na rocha de cada
lado.

— Se isso é loucura. — Disse a ela, ecoando suas palavras


contra seus lábios. — Eu já desci muito longe.

A boca dele veio sobre a dela novamente, desta vez com o


peso de sua grande palma na parte inferior das costas,
segurando os dois pesos com uma mão ancorada na rocha. Ele
abriu os lábios ligeiramente e ela imitou sob a deliciosa
pressão, suas mãos agarrando o tecido de seu suéter enquanto
suas línguas se conectavam, deslizavam, fundiam-se. Sr.
Deverell tinha gosto de fumaça, café e algo rico, proibido e
escuro. Isso fez algo quente e tenso vibrar em sua barriga,
abaixo, profundo e líquido.
As respirações deles ficaram irregulares quando ela o
puxou para baixo com mais força, esticando-se tanto quanto
podia na posição de chegar o mais perto dele possível. Seus
seios estavam pesados, seus mamilos doíam com uma dor que
apenas um toque poderia satisfazer. Queria que aquelas mãos
habilidosas e lindas os tocassem, os segurassem, brincassem
com eles e a incendiassem. Queria esta boca desviante que a
beijava como se ela fosse seu banquete depois de uma fome
implacável de beijá-la em lugares que ninguém o fez. Ela
queria, queria, até a medula de seus ossos, oh, como o queria,
sem realmente conhecê-lo, saber quem era ou de onde vinha.
Era uma loucura. As moléculas em seu corpo reconheceram as
moléculas do dele, a loucura em seu sangue reconheceu a
loucura no dele, a melancolia em sua alma reconheceu a
melancolia na dele.

Eles se beijaram, beijaram e beijaram, girando em um


caleidoscópio de sensações. Corvina beijou a intriga em seus
lábios, os mistérios em sua boca e os segredos em sua língua.
Beijou mais profundamente, indo para a escuridão em suas
medulas e o enigma em seu sangue enquanto ele a mantinha
no lugar, sondando e espreitando em sua alma, dissecando-a
e examinando tudo o que havia dentro dela. Não era o primeiro
beijo que esperava, mas agora não podia imaginar outro, sua
totalidade marcada sobre ela naquele momento.

Ela sentiu um ruído sair de sua garganta, um ruído que


o fez parar e recuar, os músculos quentes de seu peito sob seus
punhos arfando. Eles se entreolharam por um longo momento,
ambos conseguindo controlar seus corações antes que visse
seus olhos piscarem sobre os dela, uma expressão torcendo
seu rosto, seus olhos movendo-se para o lado.

Arrependimento.

Ele se arrependeu de beijá-la.

Algo quente, um tipo diferente de calor, percorreu seu


corpo, uma emoção que ela não sentiu o suficiente para
reconhecer. Só sabia que não queria ver o arrependimento em
seu rosto. Na verdade, quando ele se afastou, ela queria limpar
a forma devassa de como o beijou de sua mente e nunca mais
vê-lo novamente.

Com a garganta apertada, Corvina pôs um sorriso


deliberado no rosto, largou o suéter e sentou-se na pedra,
recolhendo as cartas que caíram nas dobras da camisola. —
Você não precisa se preocupar, não foi nada sério. Não tenho
expectativas de que isso aconteça novamente.

Sr. Deverell a estudou por um longo minuto, a linha de


sua mandíbula dura enquanto apertava os dentes, a boca
ainda molhada de seus lábios. — Você deveria voltar.

Corvina prendeu o cabelo atrás das orelhas, ainda


corada, o nariz se contraindo, e interrompeu seus olhares. —
Vejo você na aula, Sr. Deverell. — Se a terra não a engolisse
inteira, claro.

Com isso, ela se abaixou para reunir todas as cartas que


caíram, os lábios ainda formigando, mas determinada a
ignorar, ciente de que ele estava voltando para o piano. Não
sabia se ele ia passar a noite, mas tinha que ir embora, e
possivelmente nunca mais ficar sozinha com ele, não se
quisesse evitar o constrangimento de beijar um homem pela
primeira vez e fazer com que ele se arrependesse
imediatamente. Como eram os primeiros beijos, era...
extraordinário, até o fim. Seu segundo seria melhor, ela tinha
certeza. Com sorte, com alguém que não se arrependeria.

Quando foi recolher a última das cartas, sua mão


congelou.

Três cartas estavam viradas para cima no chão, as únicas


três cartas assim.

O Diabo, os Amantes e a Torre.

As mesmas cartas que sua mãe puxou em seu pesadelo.


Corvina

Conseguiu evitá-lo nas semanas seguintes.

Corvina tentou. Sr. Deverell absolutamente não o fez.

Ela parou de ir às ruínas e começou a fugir para a


biblioteca, enrolando-se com seus estudos, ou um bom livro,
ou seu diário, simplesmente passando o tempo escondida na
bela masmorra com café, livros e a Sra. Suki, a bibliotecária,
por companhia. E quase todas as vezes, ele estava lá em uma
das poltronas com cabeças de leão esculpidas nelas, usando
óculos e fazendo algum trabalho por conta própria. Ela
passava um tempo com seus amigos e, de alguma forma, ele
estava em algum lugar nas proximidades, atravessando,
caminhando ou apenas olhando de uma janela. Ela amava e
odiava sua atenção na mesma medida.

Jade e Erica, ambas embora muito diferentes dela,


tornaram-se suas amigas. Jade começou a ficar com Troy
novamente, então os meninos começaram a sair com elas cada
vez mais. Corvina não se importou, especialmente Troy. Ele era
o que imaginava que irmãos poderiam ser, ocasionalmente
irritante, extremamente protetor e principalmente legal. Era
mais contida em torno de Ethan e Jax, embora trouxessem
uma boa energia para todo o grupo. Ela ainda era a quieta,
mas começou a confiar neles o suficiente para relaxar um
pouco perto deles.

Jax se interessou especialmente por ela pelo que Erica


disse, mas ela gostava que ele nunca a pressionasse. Ele
respeitava que ela não estivesse interessada nele e não o
tornava embaraçoso, e ela gostava disso nele. E o diabo de
olhos prateados notou tudo isso. Era nele que ela estava muito,
muito interessada e ela não deveria estar, não depois das
semanas que passaram, não depois daquele olhar desastroso
de arrependimento em seu rosto depois do beijo. Felizmente,
ela era boa em fingir que tudo era normal.

Durante a aula, ela não olhou para ele, e ele não se referiu
a ela, mesmo que sentisse os olhos dele sobre ela. Então, ela o
viu na sala de jantar e ao redor do campus, e se afastou na
outra direção, abandonando suas tentativas de fingir que não
o estava evitando, mesmo que às vezes ela vislumbrou
secretamente sua forma sombria e linda.

Também ignorou a pontada que sentiu por nunca mais


ouvir o som da música vindo da torre novamente. Não sabia se
ele simplesmente parou de tocar aquele piano em particular e
passou a noite consertando o que estava nas ruínas, ou se
estava evitando sua torre, mas ela sentia falta da música.
Sacudindo-se para fora de seus pensamentos, entrou na
Ala Administrativa pela primeira vez desde que recebeu seus
livros na primeira semana, meses atrás. O tempo ficou
consideravelmente mais frio com o passar das semanas, o
suficiente para ela começar a usar suas botas até a coxa para
se aquecer sob a saia de lã. Troy disse a ela que ficaria frio por
algumas semanas antes de esquentar novamente.

Um jovem de óculos estava sentado atrás da mesa da


recepção, folheando um livro.

— Oi, — Corvina o cumprimentou com um leve sorriso.


— Tenho uma carta que preciso postar.

Era seu vigésimo segundo aniversário, um fato que


ninguém sabia, exceto o destinatário de sua carta.

O jovem franziu a testa. — Hoje é sábado.

— Sim. — Corvina manteve o sorriso. — Ouvi dizer que


alguém leva as cartas para a cidade no domingo. Eu só queria
deixar a minha.

O homem olhou para o envelope em sua mão e depois


para ela. — Isso foi no domingo passado, senhorita. Sinto
muito, mas a próxima entrega será em duas semanas.

O suor gotejou em sua testa. — Hum. Isso é um pouco


urgente, não posso esperar duas semanas.

O homem olhou para ela, dando-lhe uma encarada. —


Sinto muito, mas não sei como ajudá-la.
Porra.

Porra.

Ela não podia se atrasar, tinha até uma semana após seu
aniversário. O desespero agarrou sua garganta. — Você não
entende, isto é muito importante. Há alguma maneira de ir à
cidade postar, nesse caso?

— Eu sinto muito...

— Você pode ir comigo. — A voz profunda em suas costas


fez todos os nervos de seu corpo ficarem atentos de uma forma
que não acontecia há semanas, algo dentro dela se regozijou,
a sensação estranha de voltar para casa depois de um longo
tempo longe. Ela não entendeu.

Preparando-se para a destruição total que a presença dele


fazia em seu interior, Corvina se virou e o viu com um
sobretudo preto, uma sombra de barba no rosto e aquela
distinta mecha grisalha penteada para trás em seus cabelos
desgrenhados.

Ela esqueceu como as células em seu corpo se


realinhavam em seu campo quando ele se concentrava nela, o
choque elétrico passando por cada uma delas, fazendo seu
corpo inteiro aquecer.

Deus, ela o queria.

— Você está indo para a cidade? — Perguntou


esperançosa, ignorando o desejo cantando em seu sistema.
Sr. Deverell deu um aceno conciso, seus olhos a
observando. — Encontre-me na garagem em cinco minutos.

— Espere. — Ela o interrompeu, lançando um olhar


preocupado para o jovem na recepção. — Posso ir com você?

Ele encolheu os ombros, despreocupado. — Em


circunstâncias especiais, sim. Vou informar o Dr. Greene.

Uma emoção percorreu seu corpo. Mordendo o lábio, ela


concordou e saiu do prédio, correndo para encontrar Jade para
que soubesse que ela faria um passeio. Depois de alguns
minutos procurando, a encontrou em uma alcova nos
gramados dos fundos, beijando Troy.

Ela pigarreou.

— Ei, Purple. — Troy a cumprimentou, seus lábios


brilhando.

Corvina revirou os olhos e olhou para sua colega de


quarto ligeiramente atordoada. — Vou à cidade enviar uma
carta.

Jade franziu a testa, seus olhos clareando. — Espere,


você não pode ir sozinha, precisa de alguém... oh não. Ele não.

— Ficarei bem. — Assegurou Corvina. — É importante, e


ele é o único que vai até lá.

— Ele quem? — Perguntou Troy.


— Sr. Deverell. — Corvina respondeu, vendo as
sobrancelhas de Troy subirem. Ele assobiou.

— Sortuda. Ele tem um carrão.

Jade ainda parecia apreensiva. — Ele é professor e não


confio nele.

Corvina apenas tocou o ombro da amiga, iniciando o


contato, algo que não fazia de jeito nenhum. O diabo de olhos
prateados provavelmente nem percebeu o quão incomum foi
para ela iniciar o beijo. Afastou seus pensamentos e se dirigiu
à amiga. — Então confie em mim. Ficarei bem.

Tranquilizados o suficiente por isso, Jade e Troy


acenaram enquanto ela pegava sua saia de lã azul marinho e
corria para a garagem, suas botas marrons achatadas batendo
nos paralelepípedos a cada passo, o envelope agarrado em sua
mão.

Um SUV preto e elegante estava ronronando na garagem,


o motorista esperando por ela.

Dando a volta na frente, abriu a porta do passageiro e


entrou. — Desculpe deixá-lo esperando.

— Coloque o cinto. — Ordenou.

Corvina olhou para ele, surpresa com a camiseta cinza


claro que usava, com as mangas arregaçadas nos antebraços.
— Nunca te vi vestido sem ser de preto. — Comentou,
colocando o envelope no colo, a bolsa entre os pés e encaixando
o cinto no lugar.

— E eu nunca te vi de claro. — Ele murmurou


casualmente. Isso era verdade.

— Eu gosto de cores escuras. — Encolheu os ombros,


observando enquanto ele dirigia na estrada curva em direção
ao grande portão. — Este é o seu carro?

Ele olhou para ela por um segundo. — Sim. Comprei há


dois anos.

— Então, você tem permissão para sair do campus


quando quiser? — Perguntou, estabelecendo-se em seu
assento.

— Todo o corpo docente pode. — Ele a informou, parando


quando o portão principal apareceu. Nuvens rugiam longe, um
cobertor sob o sol, lançando toda a vista em um cinza enevoado
que parecia hipnotizante e ameaçador.

Um guarda verificou o cartão do Sr. Deverell e abriu o


portão, deixando-os passar. Depois de dois meses no campus,
Corvina percebeu como era livre estar de repente fora.

— Você se importa se eu abaixar as janelas? — Perguntou


a ele antes que sua claustrofobia chegasse.

Ele lhe deu um olhar um pouco confuso antes de apertar


um botão ao seu lado que abaixou completamente a janela
dela. O ar frio e gélido chicoteou seu cabelo trançado e Corvina
sorriu ao ver como enchia seus pulmões. A distância voou
enquanto habilmente contornava as curvas com o veículo, sua
velocidade definitivamente maior do que a do táxi na subida. E
desta vez, já que ela estava sentada na frente, podia ver o vale
mergulhando a cada curva acima do nariz do carro, quase
como se eles fossem voar antes de desviar no último minuto.

— Obrigada por me levar, Sr. Deverell. — Disse com


sinceridade. — Realmente aprecio isso.

Ele ficou em silêncio por um longo momento antes de


falar. — Vad. Quando estivermos sozinhos, pode me chamar
de Vad.

Quando. Essa foi a primeira coisa que notou antes de seu


nome.

Vad. O desejo de provar as sílabas em sua língua era


insuportável, mas resistiu no momento. — O que isto significa?

— Indomável.

Ela se virou de lado, dando uma olhada nele. — Huh.


Você não parece indomável.

O lado de seu lábio se contraiu quando seus olhos


brilharam para ela com um olhar acalorado. — Você não tem
ideia, little crow.

Apesar do vento frio em seu rosto, ela podia sentir sua


pele enrubescer. — Você me dá sinais confusos, sabe? — Disse
baixinho. — Quando diz coisas assim, é um. Então me
avisando para me afastar de você, é outro. Precisa se decidir
sobre o que quer de mim.

A resposta dele não foi a que ela esperava.

Ele riu, o som rico e quente com uma pitada de frieza.

— Para quem é a carta? — Perguntou, mudando de


assunto, levando-os para outra curva traiçoeira.

Corvina abaixou os olhos para o envelope, antes de olhar


pela janela para o céu que escurecia.

— Minha mãe.

Sentiu-o observá-la com um olhar que não conseguiu


decifrar. — Seu arquivo diz que seus pais não estão
disponíveis. Normalmente, isso significa mortos.

Corvina ergueu os olhos com surpresa. — Você leu meu


arquivo?

Ele encolheu os ombros. — Eu disse que te achei peculiar.


Então, como essa carta vai para sua mãe se ela não está
disponível?

Corvina sentiu a garganta apertar, os dedos se fechando


enquanto se perguntava se poderia dizer a ele, se deveria. Ela
sempre esteve sozinha em sua vida, nunca realmente confiou
em ninguém por escolha própria, estava acostumada com isso.
Mas, por alguma razão, queria confiar nele e queria que ele
mantivesse seus segredos a salvo. No fim das contas, não sabia
nada sobre este homem, exceto que tocava a música mais linda
que já ouviu, que era muito inteligente e a beijava como se
fosse algo para amar e violar.

— Se eu te contar. — Engoliu o nó na garganta. — Isso


fica entre nós?

Ele ficou quieto enquanto dirigiam em outra curva antes


de dar a ela um olhar. — Tudo o que falamos fica entre nós.

A mensagem subliminar sob o uso de palavras a fez parar.


Quando estivessem sozinhos, qualquer coisa que
conversassem, tudo indicando algo mais. Ela não entendeu se
estava realmente lá ou se estava lendo muito sobre ele, mas
era alguém cuidadoso com suas palavras, notou isso. Vad não
mentiu abertamente para ela e seus instintos estavam gritando
para ela desabar.

— Minha mãe está viva, mas indisponível. — Disse,


passando a ponta do dedo sobre o envelope. — Ela está em um
instituto psiquiátrico.

Sentiu-o roubar outro olhar para ela. — Por quê?

Corvina piscou, não querendo admitir tudo naquele


momento, mas também não queria mentir para ele. — Ela não
está apta a viver por conta própria. E precisa de supervisão
permanente. — Disse uma meia verdade.

Um segundo de silêncio passou antes que ele perguntasse


baixinho. — Ela alguma vez te machucou?
— Não! — Corvina ergueu os olhos, negando até mesmo
a ideia com veemência. — Oh, Deus, nunca. Mamãe teria se
matado antes mesmo de me machucar. Ela até tentou.

— Há quanto tempo ela está no instituto?

Corvina fechou os olhos. — Três anos e oito meses.

Deus, ela sentia falta de sua mãe. Sentia falta de seu


cheiro de solo, sálvia e todas as coisas de amor. Sentia falta da
comida que ela mesma cultivava. Sentia falta de derramar a
cera enquanto se sentava e trabalhava nos potes. Sua mãe
pode não ter falado com ela, mas Corvina nunca duvidou do
amor entre elas. E sentia falta disso.

— Sinto muito. — A voz profunda e grave acalmou as


arestas cruas dentro dela suavemente. Ela olhou pela janela,
piscando os olhos rapidamente, seu nariz se contraindo com a
necessidade de chorar.

— E quanto ao seu pai? Ele também está vivo?

Ela respirou o ar fresco. — Ele morreu quando eu tinha


um ano.

— Jesus.

Corvina balançou a cabeça diante de seu expletivo,


precisando de uma distração. — E você? Como veio parar aqui?

Outra curva em torno da montanha.


— Provavelmente como a maioria dos garotos que vêm
para Verenmore. — Disse ele, em um tom calmo. — Eu cresci
em um lar para meninos e fui adotado quando adolescente por
um velho que não tinha outra família. Foi ele quem me ensinou
a tocar piano. Eu vim aqui depois que ele faleceu no meu
aniversário de dezoito anos.

Isso foi o máximo que o ouviu falar sobre si mesmo e,


embora disse isso em um tom uniforme, podia sentir algo
espumante dentro dele. Ele disse muito, mas escondia algo.
Sem pensar, tocou seu ombro e apertou, sentindo a carne
quente e dura sob sua palma, pequenas faíscas de eletricidade
fazendo sua mão formigar.

— Sinto muito. — Disse ela com sinceridade.

Ele apertou o volante com mais força quando assentiu


com a cabeça e Corvina puxou a mão.

Querendo levantar o clima pesado que os envolvia, fez


uma pergunta que queria há muito tempo. — Quantos anos
você tem?

— Vinte e oito. Por quê?

— O cinza em seu cabelo. — Era quente.

— Eu sempre tive cabelos grisalhos. — Disse, dirigindo o


veículo habilmente em outra curva. — Nunca entendi porque
alguém esperava que eu escondesse isso.
— Ficam bem em você. — Disse ela com sinceridade. —
Especialmente com seus olhos.

Esses olhos viraram para ela sem palavras.

Eles ficaram sentados em um silêncio tranquilo depois


disso, Corvina olhando pela janela e aproveitando o vento ao
seu redor, Vad dirigindo pelas estradas e meditando sobre seus
próprios pensamentos. Depois de alguns momentos, ele mexeu
no painel de música e pesados acordes de guitarra sugiram.
Corvina ouvia a música e sorria, não sozinha pela primeira vez
em muito tempo, seu corpo e mente estavam em paz, com o
mais improvável dos homens.

As horas voaram com a música entre eles, interrompida


por uma conversa leve ocasional. Ele não fez outra pergunta
séria e ela também não, pensando na carta que tinha que
enviar para sua mãe em seu aniversário. Sua mãe pode não se
lembrar de muito, mas esse era o dia que nunca esqueceu. Ela
esperava todos os anos, na semana de seu aniversário, pelo
contato com Corvina, embora seus médicos dissessem que ela
não queria que sua filha fosse visitá-la.

O céu ficou cinza lá fora enquanto a cidade gradualmente


aparecia à distância depois de incontáveis canções, o terreno
foi se achatando aos poucos e Corvina avistou as casas
pontuando as laterais da estrada enquanto passavam,
crianças brincando do lado de fora, casais passando, pessoas
fazendo coisas normais do dia a dia que pareciam tão distantes
de sua realidade.
Sr. Deverell fez uma curva, diminuindo a velocidade ao
chegar à rua principal da cidade. Corvina a reconheceu. A
estação de trem em que ela parou ficava no final.

— Vou deixar você aqui. — Ele disse a ela, puxando


ordenadamente do lado de fora de um pequeno prédio azul de
um único andar com uma placa que dizia CORREIO. — Tenho
algumas coisas para fazer, então estarei de volta em uma hora
para buscá-la.

Corvina acenou com a cabeça. — Soa bem. Obrigada.

Indicou que saísse e ela obedeceu, pulando do assento


alto. Movendo-se para a calçada quando ele saiu, ficou lá até
que as lanternas traseiras do carro desapareceram na esquina
da rua principal.

Respirando fundo, Corvina se virou para a pequena porta


do prédio, que a lembrava de sua cidade natal, e a abriu.

Um sino tocou no alto e uma velha senhora com um rosto


sorridente e desgastado ergueu os olhos de um computador
antigo em sua mesa.

— Olá, minha querida. — Ela cumprimentou Corvina com


um grande sorriso que revestia seu rosto de felicidade. — Em
que posso ajudá-la hoje?

Corvina andou até o balcão, seus lábios refletindo os da


senhora simpática. Com o envelope em sua mão, o estendeu
em sua direção. — Só preciso enviar isso com prioridade.
A velha senhora ergueu seus grandes óculos redondos e
olhou para o envelope. — Um momento, minha querida. —
Disse, digitando lentamente os detalhes em seu teclado com as
mãos enrugadas. Corvina permaneceu pacientemente
enquanto demorava, não querendo ser rude.

— Normalmente mandam mais cartas da escola e quase


sempre mandam aquele menino adorável. — Comentou a
mulher enquanto digitava as informações em seu computador.

— Troy, você quer dizer. — Corvina sorriu.

— Sim. — A senhora sorriu. — Ele é bom. Sempre me


ajuda a levantar algumas das minhas caixas mais pesadas e
me pergunta se preciso de alguma coisa da loja. Um menino
tão bom.

Ele era. Troy era uma das pessoas mais legais que já
conheceu.

Corvina olhou para a mulher, apreciando o fato de não


ter perguntado sobre o endereço do Instituto em seu envelope.
Lembrou-se de que Troy disse que essa mulher era uma fonte
de informações e Corvina não sabia se deveria perguntar algo.
Ela tinha tempo de sobra, mas nenhuma habilidade social
necessária para iniciar uma conversa como aquela.

— Corvina. — A senhora olhou para o seu nome e depois


para ela. — Nome incomum. Minha irmã me disse que você é
uma estudiosa.

— Sua irmã? — Corvina perguntou, confusa.


— Ah, sim. — A mulher mais velha acenou com a cabeça,
olhando para a tela. — Ela trabalha na biblioteca, vem me
visitar a cada dois fins de semana e me conta o que está
acontecendo lá.

— Você é irmã da Sra. Suki?

— Sra. Remi. Sou a irmã mais velha, embora pareça mais


jovem, se me perguntar. — A mulher riu, dando a Corvina uma
piscadela atrevida, e Corvina sentiu seus lábios se curvarem.
A mulher mais velha deu os detalhes finais, pegou o envelope
e o dinheiro que Corvina entregou, cruzando as mãos.

— Como você vai voltar, minha querida?

— Hum... — Corvina olhou para o céu sombrio e depois


para o relógio na parede. — Meu professor vai me buscar em
cinquenta minutos.

— Ah, você tem tanto tempo. — A Sra. Remi deu a volta


lentamente no balcão, indo para uma pequena cozinha com
uma mesa de jantar e duas cadeiras ao lado. — Gostaria de
um pouco de chá? Infelizmente, só tenho de ervas na minha
idade. Ajuda com os músculos doloridos.

Corvina correu para puxar uma cadeira para ela. — Por


favor, sente-se, Sra. Remi. Eu ficaria feliz em fazer um pouco
de chá para você.

— Você é maravilhosa, minha querida. — Disse ela,


sentando-se na cadeira e guiando Corvina pela cozinha. —
Sabe que eu conheci uma Corvina uma vez.
— Você conheceu?

— Sim. Quando eu era menina, ela morava perto de mim


antes de sua família se mudar. Garota legal, mas tinha cabelos
ruivos, não negros como os seus. Nunca entendi porque a
chamavam assim com aquele cabelo. Não havia nada de corvo
sobre ela.

A Sra. Remi continuou conversando enquanto o chá


ferveu em minutos. Corvina serviu uma xícara para as duas e
sentou-se na outra cadeira.

— Você tem os olhos mais característicos que já vi,


Corvina. — Comentou a sra. Remi, soprando seu chá quente.
— E eu vi muitos em minha vida, querida.

— Eles são da minha mãe. — Corvina deu um pequeno


sorriso.

Sra. Remi acenou com a cabeça, tomando um gole e


gemendo de alegria. — Minha mãe também tinha os meus
olhos.

Corvina percebeu que era a abertura de que precisava.


Ela tomou um gole de sua própria bebida. — Você sempre
morou aqui?

— Oh, sim. — Sra. Remi assentiu. — Nascida, criada e


casada. Meus pais também.
— Eles estavam aqui quando a universidade foi fundada?
— Corvina perguntou, e sentiu os olhos da mulher mais velha
se fixarem nela.

— Não, isso foi antes de seu tempo.

Corvina assentiu e ficou em silêncio, deixando a mulher


mais velha decidir se queria compartilhar mais. Depois de
alguns segundos, a Sra. Remi suspirou. — A escola já estava
funcionando. Eu não sei se você sabe sobre os...

— Os desaparecimentos. — Concluiu Corvina ao ouvir


sua hesitação.

— Sim. — Sra. Remi balançou a cabeça, colocando a


xícara na mesa. — Que coisa terrível foi isso. Minha tia
desapareceu em uma noite de volta do supermercado, para
nunca mais ser vista. Destruiu papai, abençoe sua alma.

— Mas como? — Corvina se perguntou em voz alta, e a


sra. Remi olhou pela janela.

— Não sei, mas ela não foi a única. Todas as noites de lua
cheia, uma das pessoas da aldeia desaparecia. Eles
descobriram mais tarde que eram crianças na montanha
levando-as para a floresta, massacrando-as em algum tipo de
sacrifício e escondendo os corpos. Nunca obtivemos respostas.

A Sra. Remi estremeceu visivelmente, pegando a xícara


com a mão trêmula e tomando outro gole.
— Quando os desaparecimentos pararam? — Corvina
perguntou, depois de dar a ela um momento para se recompor.

— Logo depois que minha tia desapareceu. — Sra. Remi


fez uma pausa. — Meus pais disseram que as crianças da
escola cuidaram daqueles Slayers. É assim que os chamamos
aqui.

Corvina tomou um gole de chá, assentindo. — Foi o que


eu ouvi também.

— É triste o que aconteceu com aquelas outras crianças.


— Comentou a Sra. Remi. — Eles simplesmente
desapareceram um por um. Foi um grande escândalo naquela
época, pelo que as pessoas dizem.

— Eles disseram algo sobre o que poderia ter acontecido?


— Perguntou Corvina, cruzando as pernas e recostando-se na
cadeira.

Sra. Remi riu. — Eles disseram muitas coisas naquela


época, minha querida. De espíritos assassinos assombrando a
floresta a um monstro maligno, a magia negra e tudo o que
você pode pensar no meio. Mas qual é a verdade? Talvez, nunca
saberemos.

Corvina digeriu isso, refletindo sobre as palavras.

Sra. Remi terminou seu chá. — Uma coisa que eu sabia


quando era criança era isso: não vá para aquela floresta e não
fique fora na noite de lua cheia. Todos na cidade lhe dirão o
mesmo. Nada de bom acontece por aqui na lua cheia. Há algo
profano em torno daquele castelo, que é melhor não despertar.

Corvina esfregou as mãos nos arrepios que se espalharam


por sua pele com as palavras da velha senhora, algo quase
profético sobre isso mexeu pesado em seu estômago.

Uma lança de relâmpago dividiu o céu em dois. Um


estrondo de trovão se seguiu imediatamente, fazendo a Sra.
Remi olhar pela janela com preocupação.

— É melhor voltar para o castelo com seu professor antes


de escurecer, minha querida. — A mulher mais velha falou,
sua voz tensa.

Corvina se endireitou, alertada pelo peso em seu tom. —


Por causa da tempestade?

A Sra. Remi olhou para fora, uma expressão séria no


rosto. — Isso. — Virou-se para olhar para Corvina com a
sabedoria de seus anos neste lugar faiscando. — E porque é
lua cheia esta noite.
Corvina

— Precisamos voltar. — Foram as primeiras palavras que


saíram de sua boca assim que Corvina se sentou no carro e
colocou seu sinto.

— Por causa da lua cheia? — Ela perguntou, pondo sua


bolsa no chão, sua mente ainda se demorando na conversa que
teve com a Sra. Remi.

Sr. Deverell lhe lançou um olhar estranho, que ela não


conseguiu decifrar, e ligou a ignição. — Porque subir a
montanha depois de escurecer é perigoso. Subir a montanha
depois de escurecer durante uma tempestade é letal. —
Apontou para as nuvens carregadas e turbulentas no céu que
escurecia rapidamente, acelerando em direção à montanha.

Ela mordeu o lábio e mexeu na alça que cruzava o peito,


dividindo os seios mais pesados de uma forma que era
extremamente desconfortável, mas necessária.

— Enviou sua carta? — Perguntou baixinho enquanto se


aproximavam do final da cidade, as casas ficando mais
esparsas a cada quilômetro que passava.
— Sim. Suas coisas correram bem? — Ela perguntou, não
entendendo a maneira muito cortês como de repente eles
estavam conversando sobre algo corriqueiro. Parecia estranho,
novo, mas não totalmente ruim.

— Sim. — Desviou o carro na primeira curva quando o


declive começou. — Presumo que a Sra. Remi lhe contou sobre
as lendas locais?

Corvina, que olhava para a vista pela janela, uma janela


que ele abriu para ela sem que pedisse, e virou-se para ele. —
Você conhece a Sra. Remi?

— Sim. Já estive nos correios com bastante frequência.


— Forneceu, dirigindo com confiança sob o agravamento do
tempo.

— O que acha dos Slayers? — Perguntou, curiosa para


saber o que ele pensava sobre as lendas.

Um lado de sua boca se inclinou ligeiramente. — Aquelas


ruínas na floresta de que você gosta tanto? São chamadas de
Ruínas dos Slayers. Dizem que é para onde costumavam levar
as pessoas, onde elas eram encontradas. — Ele diminuiu
conforme a elevação aumentava. — E onde foram mortas.

O vento açoitou o carro. — Quantos eram?

— Sete, eu acho. — Respondeu.

— Mas há quinze sepulturas não identificadas. —


Ressaltou Corvina. — Eu contei.
Ele sorriu ligeiramente. — Interessante, não é? Se você
acredita na lenda local sobre esses túmulos serem deles, quem
mais está enterrado lá?

Corvina pôs o polegar na boca, pensando.

Ele riu sombriamente com o silêncio dela. — Os túmulos


estão vazios, little crow. Não pense muito nisso. Qualquer
pessoa que acompanhou a investigação sabe disso.

Corvina ignorou a vista do lado de fora por um momento,


observando-o, seus musculosos antebraços expostos sob as
mangas puxadas para trás, suas mãos habilidosas e
maravilhosas dominando o carro como dominava o
instrumento que tanto amava.

— Qual é o seu interesse na investigação? — Ela


perguntou baixinho, precisando ter uma noção de seu
envolvimento em tudo isso.

Ele sorriu, mas permaneceu em silêncio, deixando-a


ainda mais confusa.

A primeira gota gorda de água fria atingiu sua bochecha.


Corvina olhou pela janela. Eles subiram o suficiente na estrada
da montanha para que nada além de uma espessa nuvem
branca de névoa cobrisse tudo abaixo deles. Acima deles, o céu
ficou roxo e cinza furioso, escurecendo tudo o suficiente para
fazer os faróis parecerem a única luz.

Um forte estrondo de trovão retumbou ao redor deles, e


os céus se abriram, derramando sua fúria sobre a terra.
O Sr. Deverell praguejou, diminuindo a velocidade
consideravelmente enquanto ela levantava a janela
rapidamente.

— Não deveríamos parar? — Corvina perguntou com


cautela, virando para vê-lo totalmente focado em dirigir pela
estrada.

Ele balançou sua cabeça. — A tempestade está chegando


muito forte. Vamos rolar para baixo se pararmos agora.

Ela engoliu em seco uma vez, seu coração acelerando


enquanto seus joelhos começaram a tremer ligeiramente. —
Mas...

— Há um lugar à frente para fazer o retorno. — Informou-


a, mudando de marcha enquanto o carro gemia e o vento
uivava. — É relativamente plano, só precisamos chegar lá
antes que a tempestade piore.

Corvina assentiu e ficou em silêncio, permitindo que ele


se concentrasse em levá-los para um terreno mais seguro, sua
mente girando com a tempestade lá fora. Era isso que sua mãe
quisera dizer no pesadelo sobre uma tempestade e um diabo
mantendo-a segura – este demônio de olhos prateados e está
tempestade? Ou será que ela quis dizer algo mais? Mais
importante ainda, como sua mãe em seu sonho soube de
alguma coisa disso?

Depois do que pareceram horas subindo a montanha à


velocidade de um caracol, lutando contra a investida do vento
e da chuva, Corvina viu um pequeno espaço plano à esquerda,
quase o suficiente para um carro estacionar. Observou como o
Sr. Deverell manobrou habilmente o enorme veículo para o
espaço e desligou a ignição. Quando o veículo parou, ele caiu
de volta em seu assento, segurando as laterais do pescoço e
soltando um fôlego.

Ele abriu a janela alguns centímetros, o vento frio


soprando contra o interior do carro, mesmo vindo do pequeno
espaço, e abriu o painel, pegando um maço de cigarros.

— Você se importa? — Perguntou, e ela balançou a


cabeça. Deus sabia que o estresse foi suficiente para levar
qualquer um até o limite.

Ele tirou um e colocou-o entre os lábios. Sua mão


embaralhou os itens no painel, sua agitação crescendo porque
ele não conseguia encontrar o isqueiro. — Porra!

Corvina trouxe a bolsa que colocara entre os pés, abriu o


zíper e procurou a caixa de palitos de fósforo que sempre levava
consigo. Encontrando a pequena caixa de papelão, a pegou,
tirou um palito e bateu na lateral.

A madeira se acendeu com um crepitar e ela se virou para


ele, seu coração disparava enquanto via a intensidade
prateada dele sobre ela. Aqueles olhos turbulentos e
mercuriais a observavam com uma ferocidade inigualável, o
cigarro apagado pendurado em sua boca enquanto o fósforo
queimava, iluminando o espaço entre eles em um brilho
laranja. Sentindo uma súbita explosão de timidez, Corvina
quebrou o olhar e levou o fósforo queimado até o cigarro.

Vad tirou o cigarro da boca e soprou o palito de fósforo,


apagando a pouca luz que havia entre eles, encerrando-os no
silêncio escuro. O som da chuva batendo no carro era alto no
interior silencioso, o ar frio da abertura na janela evitando que
ela se sentisse sufocada. Tirando o cinto de segurança, Corvina
colocou a bolsa entre os pés, a caixa de fósforos caindo em seu
colo.

— Eu não posso me apegar. — Suas palavras naquela voz


profunda e rouca interromperam o silêncio.

Corvina olhou para as unhas bem aparadas e sem


pintura e teve vontade de roê-las por um segundo. Ela roía as
unhas anos atrás, um hábito do qual sua mãe se livrou
colocando algum tipo de óleo amargo em seus dedos que tinha
um gosto horrível.

Ela sabia exatamente o que ele estava dizendo.

Respondeu, passando a mão na unha do dedo indicador.


— Por que está me dizendo isso, Sr. Deverell?

— Vad. — Lembrou-a.

— Vad. — Disse o nome dele no silêncio do carro.

— Você sabe exatamente porque estou lhe dizendo isso.


— Sentiu-o se virar totalmente em sua direção no espaço
limitado. — Eu não posso me dar ao luxo de me apegar, minhas
emoções estão fora de questão. Tenho outras coisas em que me
concentrar no momento, mas essa coisa está ficando mais
esfomeada a cada dia.

Corvina se virou para ele, o coração batendo forte com


suas palavras.

— Não há ninguém aqui, Corvina. — Disse, usando seu


nome de batismo assim pela primeira vez, seu olhar aquecido,
mas severo sobre o dela. — Somente nós. O que quer que
aconteça ou não aconteça, aqui ficará.

— E depois que voltarmos, nada muda. — Terminou por


ele.

Sua mão avançou, pegando a ponta de sua trança entre


os dedos, mesmo enquanto seus olhares permaneciam
travados. Ele roçou um de seus mamilos endurecidos com a
ponta da trança, a sensação de penas enviando um longo
calafrio sobre seu corpo.

— Este é o momento em que podemos sucumbir à sua


feitiçaria. — Afirmou suavemente, suas pupilas dilatando, a
trança em seus dedos causando estragos no mamilo
sensibilizado. — A única vez que vou me permitir possuí-la.

Corvina engoliu os nervos. Ela queria isso. Uma única vez


para seguir seus desejos e expurgar essa loucura de sua carne.

— Você vai se arrepender depois? — Perguntou a ele,


lembrando-se do resultado de seu beijo.
A compreensão despontou em seu rosto. Inclinando-se,
dando um beijo suave em seu nariz, logo acima de seu piercing.
— Jamais me arrependi de tê-la beijado, little crow.

Corvina olhou para o rosto dele, tão perto do dela, o corpo


quente. — Então, do que se arrependeu?

— Ter que acabar com isso.

Seu coração palpitou ao ouvi-lo dizer isso. Ela não


percebeu o quanto precisava que ele dissesse até aquele
momento.

— Então, apenas um gosto, certo? — Ela perguntou,


repetindo suas palavras da biblioteca.

Ele sacudiu seu mamilo com a cauda de sua trança em


resposta. — Um gosto. Um sabor mais profundo.

Este era o universo dando a ela um presente de


aniversário, o homem que desejou durante meses, finalmente
dela para levar para uma noite presa em uma montanha longe
da civilização. Esta era sua única chance de entender como era
ser reivindicada.

— Possua-me, então. — Ela sussurrou contra seus lábios


e as palavras pairaram no ar entre eles, estalando, colidindo e
consumindo.

Ela estava, de repente, fora de seu assento e sobre ele,


sua saia agrupando-se ao redor, sua trança agarrada em torno
de sua mão, puxando sua cabeça para trás enquanto sua boca
se abria sobre seu pescoço. Vad lambeu seu pescoço, o rastro
úmido de sua língua fazendo um jorro de fogo líquido se formar
entre suas pernas, bem onde pressionava contra sua
protuberância, apenas o tecido frágil de sua calcinha entre
eles. Corvina agarrou seus ombros com as mãos, sentindo os
músculos quentes sob sua palma, sentindo o calor saindo de
sua pele.

— Pensei que você não gostava de usar calcinha. —


Rangeu contra o pescoço dela, a outra mão indo por baixo da
saia para traçar o algodão em sua calcinha.

— Não significa que eu não use. — Gemeu enquanto os


dentes dele trabalhavam sobre seu lóbulo. — Eu só gosto de
ficar sem alguns dias.

— Porra. — Puxou sua trança. — E eu aqui, pensando em


você nua com todos aqueles garotinhos salivando ao seu redor.

— Você não é tão mais velho. — Passou a mão por seu


ombro e pescoço, em seu cabelo, tocando aquela mecha branca
distinta que queria tocar há muito tempo.

— Velho o suficiente para fazer você gozar como um


foguete em volta do meu pau.

Suas paredes apertaram o ar vazio com suas palavras


rosnadas, implorando para serem preenchidas. Foi nesse
momento que ela agradeceu aos médicos que implantaram o
anticoncepcional durante os exames, não estava pronta para
as consequências do encontro depois que acabasse.
A mão esquerda dele corajosamente a segurou entre as
pernas, a palma da mão pressionando aquele ponto suave e
doce que fez pontos negros dançarem ao redor de seus olhos.
Ela nunca sentiu isso, nunca foi possuída, pertencida e
reivindicada assim com apenas um toque. Tudo dentro dela
derreteu, curvando-se, submetendo-se ao impulso de seu
poder, alinhando-se ao redor dele, como um riacho envolvendo
ferozmente a rocha que o cortava.

Vad envolveu o punho ao redor do tecido entre suas


pernas e o torceu, a pressão dele esmagando seu clitóris com
tanta força que ela sabia que ficaria inchado depois. Seus olhos
se fecharam por conta própria, a cabeça caindo para trás
enquanto os lábios dele percorriam seu pescoço, sobre seu
peito, sua respiração caindo direto sobre seu mamilo inchado.
Esforçou-se ainda mais para o calor, precisando dele,
querendo, querendo ser submersa nele.

Ele esfregou o algodão embolado de sua calcinha contra


ela, respirou e soprou sobre seu mamilo, repetidamente,
mantendo-a no lugar com a mão em torno de sua trança,
controlando seu corpo sem nem mesmo tocar sua carne, e a
sensação inebriante de estar tão completamente à mercê dele
disparou através de seus nervos, enrolando a serpente do
desejo mais, mais e mais apertada em sua barriga, até que ela
se sentiu dedilhada, pendurada no precipício de um penhasco
que não podia ver.

E então ele acariciou seu mamilo com a língua. Só uma


vez.
Ela caiu.

Descendo o penhasco, no esquecimento, salpicado com


sensações tão intensas que sua boca se abriu em um grito
silencioso, seu corpo tremendo, os dedos dos pés se curvando,
as costas arqueando tanto quanto podia no espaço limitado.

Durou segundos, minutos, horas, ela não sabia dizer,


mas percebeu que sua calcinha estava sendo rasgada em seu
aperto, a mordida do tecido em seu quadril, o frio do ar nu em
sua carne exposta.

— Olhe para mim. — Vad ordenou, e seus olhos se


abriram por sua própria vontade, encontrando os olhos de
prata dele derretidos na pequena luz que vinha da lua. Foi
também quando, de repente, percebeu o silêncio. Ela olhou
para fora, surpresa ao ver que a chuva torrencial diminuiu
para uma garoa, as nuvens abriram o suficiente para a lua
brilhar. O que significava que eles teriam que voltar logo e tudo
estaria acabado.

Seu couro cabeludo formigou quando ele puxou sua


trança. — Olhos.

Ela travou o olhar com ele.

— Estou limpo. E fiz uma vasectomia. Estou supondo que


você está limpa? — Perguntou a ela seriamente.

Corvina acenou com a cabeça. — Eu... eu nunca fiz isso


antes.
O calor em seus olhos chamejou quando ele afundou seu
dedo médio dentro dela, suas paredes internas úmidas
apertando ao redor dele em alívio.

— Você escolheu o cara errado para sua primeira vez,


little crow. — Murmurou para ela, empurrando outro dedo,
esticando-a enquanto ela respirava pela boca.

— O quê? — Ela perguntou suavemente, seus dedos


flexionando em seu cabelo espesso.

— Mas agora é tarde demais. — Enfiou os dedos dentro


dela, provocando um gemido. — Eu vou te foder tão cru que
você nunca me tirará de lá. Este tempo é meu. Essa boceta é
minha.

— Por enquanto... — Corvina o lembrou, com um gemido.

Sua resposta foi puxar os dedos e dar um tapa em sua


boceta, picando-a o suficiente para fazer jorrar a umidade,
como se a punisse por dizer isso.

— Liberte-me. — Disse a ela, que arrastou as mãos por


seu peito duro, descendo para o seu estômago, sentindo os
pacotes de músculos sob suas palmas e, finalmente, até o cinto
que segurava sua calça jeans. Ela o soltou, atrapalhando-se
ligeiramente com o cinto e finalmente abrindo, puxou o zíper
com cuidado sobre sua protuberância e colocou a mão dentro,
segurando um homem pela primeira vez. Ele parecia pesado,
pulsante, grande e muito maior do que ela esperava ou que
suas mãos poderiam envolver.
— Boa menina. — Gemeu quando o apertou
experimentalmente, enviando uma onda de prazer que a
percorreu. — Equilibre-se em meus ombros.

Corvina obedeceu, com o peito arfando quando ele


empurrou uma alavanca na lateral do assento, abaixando-a e
achatando as costas, o suficiente para dar espaço para o
movimento. Alinhou seu pau com ela, segurando seus quadris
com as duas mãos e fixou os olhos nos dela.

— Esta é a nossa loucura.

Corvina acenou com a cabeça, a luxúria no ar infundindo


cada centímetro de seu ser. Era sua loucura. Só desta vez, se
ela pudesse ver para onde ia, qual era o fim dessa luxúria,
poderia ficar satisfeita.

O aperto em seus quadris aumentou uma fração de


segundo antes de empurrar para cima, puxando-a para baixo
simultaneamente, estocando metade de seu comprimento
dentro dela em um golpe.

Corvina gritou com a intrusão, seus músculos gritaram


ao serem penetrados pelo que parecia ser um aríete tentando
abri-la. Com os olhos ardendo, ela respirou pela boca,
tentando se ajustar à espessura e ao comprimento dele, ambos
tão estranhos que pareciam irreais.

— Oh, Deus. — Choramingou quando ele a puxou um


pouco mais para baixo.
— Shh. — Ouviu-o sussurrar em seu pescoço, seu nariz
acariciando-a, suas mãos em seus quadris massageando-a,
suavemente acomodando-a. — Boa menina. — Beijou seu
piercing, suas bochechas molhadas e os cantos de seus olhos
erguidos. — Uma garota tão boa. Relaxe seus músculos. É isso.
Você sente sua boceta amolecer por mim?

Corvina o fez, seus músculos se abrindo para ele, dando-


lhe as boas-vindas enquanto ele afundava um centímetro mais
fundo.

— É isso. — Encorajou. — Olhe para mim.

Ela deu-lhe seus olhos.

— Olhos mágicos, boceta mágica. — Murmurou


novamente, olhando por todo o rosto dela. — Bruxinha.

— Diabo. Diabo de Verenmore. — Sussurrou para ele,


fechando aquela última polegada e afundando nele,
agarrando-se ao seu ombro enquanto o fogo entre suas pernas
fervia em algum lugar entre o prazer em sua plenitude e a dor
em sua invasão.

— Mais do que você imagina. — Ele disse, enfiando uma


mão em seu cabelo e inclinando sua cabeça para o lado, sua
boca se inclinando sobre ela enquanto sua outra mão guiava
seu quadril para cima. Suas línguas se encontraram,
separaram-se, deslizaram enquanto ele puxava seus quadris
tanto quanto o assento permitia e estalava, penetrando-a em
uma dança que seu corpo reconheceu instintivamente. Seus
quadris se moviam por vontade própria, girando sobre seu
pau, subindo e descendo, suas paredes internas se fundindo
ao redor dele como se fossem criadas para isso. Ele a deixou
ter seu tempo, ajustando e descobrindo as novas sensações,
escolhendo tocar seus seios enquanto isso, puxando seus
mamilos com aqueles dedos habilidosos e desviantes, tocando-
os como um maestro.

Os músculos de suas coxas começaram a queimar, seu


ritmo diminuindo.

Vad deu um pequeno tapa na sua bunda. — Levante-se.


— Disse a ela, puxando-se para fora, levantando-a
ligeiramente e abrindo a porta lateral. Corvina suspirou
quando o ar frio correu sobre sua boceta exposta e sensível,
observando-o com descrença enquanto ele permanecia na
garoa muito leve na escuridão, seu punho enrolado em seu
pau.

Ela engoliu em seco, olhando para cima para encontrar


seu olhar enquanto a empurrava de costas no assento,
segurando-a por trás de um joelho e abrindo-a ainda mais, a
outra mão segurando a abertura do carro em direção ao teto.
Ela estava presa no lugar, com espaço apenas para mover as
mãos.

Sua boca desceu sobre a dela assim que entrou nela


novamente, com um impulso tão forte que balançou o carro,
empurrando-a para cima do assento, o novo ângulo fazendo
lágrimas rolarem pelos lados de seu rosto.
Um ruído que ela não reconheceu a deixou, engolido por
sua boca, seus beijos frenéticos, sua foda ainda mais intensa.
E era foda, como animais, cru, visceral, ao ar livre com uma
montanha em suas costas e um penhasco em sua frente, sem
nada ao redor deles, mas a natureza em toda a sua glória
abundante.

Vad estava indomado, cada centímetro de seu corpo


controlando cada centímetro do dela enquanto ele soltava sua
própria coleira, seus quadris empurrando contra os dela,
esfregando-se em seu clitóris em cada empurro para baixo,
dividindo-a todas as vezes, cortando-a em pedaços antes de
costurar de volta ao lugar, renovada, viva e ainda mais
excitada.

Ele é importante, Vivi, este aqui.

A voz de Mo veio à sua mente do nada, fazendo-a congelar


por um momento, seus olhos voando abertos enquanto ela
puxava sua cabeça para trás, desorientada. — Mo?

Suas sobrancelhas se curvaram para baixo, seu cabelo


selvagem, indomado, despenteado pelos dedos dela. — Quem
diabos é Mo? — Vad perguntou.

Corvina não podia contar a ele, principalmente nessa


hora.

— Quem é Mo? — Sua voz ficou mais baixa quando ele


abriu mais o joelho dela, em um movimento tão dominante que
a fez se apertar ao redor dele com mais força.
— Ninguém. — Balançou a cabeça, puxando a dele para
baixo para um beijo novamente, movendo seus quadris
enquanto ele agressivamente socava seu pau dentro dela, o
som de seus corpos batendo e suas respirações ofegantes no
ar. Corvina se concentrou nos sons, nas respirações, nessa
experiência inteiramente nova, e guardou a voz para depois.

Vad moveu sua mão debaixo de seu joelho até onde eles
estavam unidos, pressionando contra seu clitóris exposto,
esfregando-o fortemente em círculos com o polegar enquanto
seu pau batia nela repetidamente; seus mamilos raspando
contra seu peito com cada movimento, repetidamente; sua
língua penetrando sua boca, tocando, deslizando, brincando
com a dela, repetidamente. O ataque aos seus sentidos de
todos os lados transformou o fogo em sua carne em um
inferno, queimando de todos os lugares em que eles estavam
conectados, espalhando-se como um incêndio sob sua pele,
levando-a para baixo.

Uma corrente de eletricidade percorreu sua espinha,


arqueando suas costas enquanto sua cabeça afundava no
assento, sua boca se abrindo em um grito silenciado por ele
quando ondas de prazer a viraram, levando-a para baixo. Seus
joelhos estremeceram quando ele os segurou para baixo, suas
paredes se abrindo e fechando ao redor dele rapidamente, tão
rapidamente que socou seu pau através deles uma última vez
antes de rosnar contra seus lábios, sua liberação a inundando
ao máximo.
Era tudo, um prazer tão puro, tão imaculado e tão
primitivo que era infinito.

Corvina ergueu os olhos para Vad, atordoada, o corpo


ainda zumbindo com pequenos tremores secundários.

Ofegante, ele recuou, com o peito arfando, e ficou de pé


do lado de fora do carro, as mãos segurando a capota para se
apoiar enquanto prendia a respiração.

Corvina ficou onde estava, mole, olhando-o enquanto ele


se arrumava, rodeado de escuridão, a garoa fina molhando-o,
fazendo sua pele brilhar. Podia sentir o cheiro dele em si
mesma, seu cheiro único, e ela gostou.

Vad se virou para ela, seu olhar prateado percorrendo sua


forma supina, a excitando novamente apesar do que acabaram
de fazer. Ela se perguntou como parecia para ele, saia em volta
da cintura, botas de cano alto, calcinha rasgada, trança
afrouxada.

Abaixando-se, ele rasgou a calcinha do outro lado,


jogando-a para trás junto com o casaco, e tirou alguns lenços
do painel. Ela ficou em silêncio, observando-o enquanto a
limpava, seu coração apertou com o ato, sua mente despertou
com o erotismo disso.

— Você vai ficar dolorida. — Ele disse, finalmente


puxando sua saia para baixo e gesticulando para o banco do
passageiro para ela se mover. Corvina foi para aquele lado,
gemendo com a forma como suas pernas e boceta protestaram.
— Estou dolorida. — Disse ela, acomodando-se em seu
assento, ciente de cada pulsação entre suas pernas.

Ela o sentiu limpar seu assento e entrar, antes de ligar a


ignição.

— Então, de volta ao normal. — Ela refletiu em voz alta.

Sua resposta foi um leve bufo.

Acabou mais cedo do que ela esperava e não sabia o que


esperava depois, mas não era exatamente isso.

Feliz aniversário para ela.

Lentamente, deu ré e começou a subir até o castelo, onde


seriam estranhos mais uma vez.
Vad

Quem diabos era Mo?

Claramente alguém importante o suficiente para Corvina


chamar seu nome enquanto ele estava até as bolas dentro dela.
Vad não gostou. Não gostou nada disso. Não esperava isso,
qualquer que fosse o feitiço do caralho que ela estava lançando
sobre ele com aqueles olhos. Não esperava ser pego de
surpresa com essa necessidade Neandertal de possuí-la. Não
era hora para isso. Ele tinha de se dedicar mais à Verenmore,
e nada jamais superaria isso.

Mas não gostou que ela guardasse seus próprios


segredos, nem um pouco.

Ele ouviria seus segredos, mas os dele não eram algo que
ela pudesse conhecer, nem agora, nem nunca.

Olhou para ela enquanto se aproximavam dos portões do


castelo. Com seu cabelo escuro, que usava principalmente em
uma de suas tranças extravagantes, saias que ele sempre se
questionava, aquele piercing no nariz, seus lábios se
formigavam para beijar, e aqueles malditos olhos violetas,
cujas tonalidades ele só havia visto uma vez antes, era demais.
Esta garota delicada e suave era excessivamente perigosa para
ele.

Vad não deveria se envolver mais. Transar com ela foi um


erro, embora não se arrependesse nem um pouco.

Seu aperto ao redor do volante aumentou. Seu tempo


juntos seria outro segredo que esta montanha manteria, um
que ninguém poderia saber, por mais razões do que ela sabia.

Não. Foi aqui que eles acabaram.

Mas quem diabos era Mo?


Corvina

E ela era a aluna novamente.

Corvina meio que odiava Vad, realmente o odiava, pela


facilidade com que ele assumiu seu papel depois que voltaram
para o castelo. Com um áspero 'boa noite, Srta. Clemm', como
se não tivesse passado a última hora enterrado dentro dela,
como se ela não tivesse sido molhada com seu sêmen. Ele a
deixou na garagem e seguiu feliz da vida.

Kaylin Cross, a mulher que não via há meses, esperava


por ela no saguão da torre. Kaylin perguntou à Corvina se sua
viagem à cidade foi boa e se o Sr. Deverell foi cordial com ela.
Corvina sorriu e garantiu à Kaylin que ele foi muito gentil,
enquanto ignorava o peso em sua boceta. Isso enviou uma
emoção secreta através dela, fingir que seus músculos não
estavam morrendo com o esforço sexual enquanto mantinha
uma conversa absolutamente contrária.

Isso acontecera duas semanas atrás.

Duas semanas e sua dor desapareceu.


Duas semanas e as coisas estavam normais a ponto de
ela se perguntar se imaginou tudo.

Corvina se dirigiu com seu sanduíche até o fundo do


refeitório, finalmente capaz de caminhar sem sentir sequer
uma pontada entre suas pernas. Jade e Erica sentaram-se
sobre as janelas iluminadas pela manhã em sua mesa habitual
com Troy, Ethan e Jax, conversando sobre algo. Ela teceu entre
as outras mesas, sua saia fluindo ao redor de suas pernas.

Quando os alcançou, Jax se moveu para o lado, abrindo


espaço entre ele e Erica como sempre fazia, oferecendo-lhe um
assento. Corvina deu-lhe um pequeno sorriso e sentou no
local, seu corpo imprensado entre os dois de cada lado.

— Não posso acreditar que eles estão fazendo isso! —


Jade murmurou, apunhalando seu prato de frutas com um
garfo.

— O quê? — Corvina perguntou, dando uma mordida em


seu sanduíche.

— O castelo está abrindo a Masmorra. — Troy disse de


seu assento ao lado de Jade.

— O quê?!

— É como chamavam aquele pequeno calabouço embaixo


deste edifício, mas eles o trancaram anos atrás. — Jade a
informou, tomando seu café.
Corvina ergueu as sobrancelhas, esperando que ela
explicasse. Não teve que esperar muito.

— Foi lá que os Slayers foram encontrados na primeira


vez fazendo alguma coisa obscura. — Jade disse a ela. — Foi
depois que a universidade fechou o local que eles se mudaram
para a floresta.

— Por que abrir agora? — Corvina perguntou,


mordiscando o sanduíche, seu apetite diminuindo por algum
motivo.

— O Sr. Deverell convenceu o conselho. — Troy explicou,


com a boca meio cheia. — Disse que daria uma excelente sala
de recreação, pelo que ouvi. E eu realmente não discordo dele,
não temos espaço para apenas relaxar, sabe?

Corvina ignorou a pequena palpitação em seu coração ao


ouvir o nome dele. — Isso não parece tão ruim.

— Com o Baile Negro em algumas semanas? — Jade


balançou a cabeça. — O momento parece... errado.

— Não é como se a universidade impedisse as pessoas de


ir a qualquer lugar, Jade. — Jax apontou. — Trancados ou
não, se alguém quisesse usar aquele espaço, o fariam. As
pessoas vagam por aqui o tempo todo. Ninguém se importa.

— Você aprenderá depois de um tempo quanto poder a


lenda realmente tem aqui, Jax. — Troy corrigiu. — Essa é a
principal razão pela qual a universidade não tem uma regra
para os alunos não perambularem à noite ou irem para a
floresta. Ninguém que já ouviu falar deles ousaria, de qualquer
maneira.

— Não, a menos que você seja o Sr. Deverell. — Erica deu


uma risadinha. — Eu o vi por aí à noite da minha janela, e
todos nós sabemos que ele vai para a floresta. Eu me pergunto
o motivo.

— Não pode ser para tomar ar fresco. — Ethan teorizou.


— Já temos muito disso. E também não é para se exercitar, já
que a maioria dos professores caminha pelo campus ou vai
para a sala de ginástica.

— Espere, há uma sala de ginástica? — Perguntou


Corvina, surpresa por não ter visto no mapa.

— É na Ala dos Funcionários. — Disse Jax do lado dela,


comendo seu sanduíche. — Você conhece o prédio atrás deste
corredor?

Corvina assentiu com a boca cheia.

— Eles têm uma sala de ginástica no topo da torre.

— Você o viu na floresta alguma vez, certo Corvina? —


Troy meditou. — O que ele estava fazendo lá?

Fumando um cigarro. Consertando um piano velho e


danificado. Beijando-a até perder o fôlego.

Ela balançou a cabeça, sua resposta meio honesta. — Eu


estava no lago quando o vi. Ele me disse para não ficar na
floresta sozinha e depois foi embora.
— Droga. — Erica mastigou sua comida. — Ele é tão
estranho. Fascinante. Mas não vou mentir, tenho com medo
dele.

Corvina conseguia entender o porquê. Vad tinha aquele


ar obscuro sobre ele. Mas ela aprendeu anos atrás a não ter
medo do que não entendia e, até que o entendesse, não havia
espaço para o medo. Ele teve múltiplas chances de machucá-
la e, por alguma razão, a fez se sentir segura em vez disso. E
Mo disse-lhe algo nesse sentido.

Como se ela o tivesse invocado, ela sentiu o peso do olhar


dele em sua frente.

Ela olhou de cima do sanduíche para fixar os olhos nele


por um momento, antes que ele desviasse o olhar. Ele tentou
não a observar com tanta atenção, não da maneira que ele
costumava fazer. Talvez tivesse acabado com o que quer que
tenha vibrado entre eles depois de um tempo.

Não Corvina.

Depois que a caixa foi aberta, Corvina só tinha que pensar


nele e sentir o desejo pulsar em seu sangue. Ela se sentava em
suas aulas, o assistia ensinar e sentia seus seios ficarem
pesados. Via-o bater com o marcador na mesa e se lembrava
da maneira como penetrou em sua boceta. Uma vez, foi para a
sala dos professores dar um artigo ao seu professor de história
e encontrou seu diabo de olhos prateados lendo no canto,
usando um par de óculos de armação preta quadrada que ela
amava, e quase pulou nele antes de se deter.
Sim, não o superou.

Ela estava presa, e não sabia o quanto isso a encorajava.

Ela viu seus olhos piscarem para Jax ao lado dela e


percebeu que ela estava sentada espremida ao lado dele, algo
em que nem sequer havia pensado. De repente, ficou muito
consciente disso. Então, observou seus olhos se moverem para
os lugares onde ela e Jax estavam juntos, antes que seus olhos
chegassem aos dela.

O prateado estava fervendo.

— Posso pegar um? — Ouviu a voz de Jax, seus olhos


arregalados, seu coração batendo forte em seu peito.

O Sr. Deverell virou-se e foi em direção à comida.

Corvina inalou, fechando os olhos por um segundo


tentando recuperar sua compostura, e estendeu seu prato
para Jax. — Claro.

Todos comeram e conversaram sobre as aulas. Troy e


Ethan eram sêniores do segundo ano, então tinham aulas e
horários diferentes, o que manteve a conversa sobre outros
membros do corpo docente interessante. Corvina gostava de
como ninguém nunca abordava o tópico do passado de
ninguém. Isso a fez relaxar e se abrir um pouco mais porque
todas as conversas se baseavam no presente ou nas
perspectivas de futuro. Ela gostou muito, muito disso.
Também gostou muito de como começou a se sentir
confortável com os garotos. Nunca realmente interagiu com a
espécie masculina em sua vida anterior e ficou agradavelmente
surpresa ao descobrir que eram muito legais. Eles adoravam
brincar às custas um do outro e fazer pegadinhas, mas eram
pessoas genuinamente legais.

Depois do café da manhã, todos voltaram para as torres


sob o sol forte. Troy parou para amarrar os cadarços, avisando
que os alcançaria, e Corvina ficou atrás dele, aproveitando
para espiar pelas janelas.

Seus olhos foram para o Sr. Deverell, pegando seus


sanduíches embrulhados. Ele nunca comia no refeitório com
todo mundo. Uma jovem professora vestindo um suéter azul
simples, calças jeans e seu cabelo loiro preso em um rabo de
cavalo, aproximou-se dele. Corvina observou enquanto ela ria
de algo que ele dizia, pousando a palma da mão em seu bíceps,
e algo quente e feio se apoderou de suas entranhas.

— O que você está olhando? — Troy perguntou de volta,


seguindo seu olhar.

— Só aquela professora. — Respondeu Corvina,


encolhendo os ombros como se não estivessem pegando fogo.
— Eu nunca a vi antes.

— Essa é a Dra. Harbor. — Ele respondeu


prestativamente, como a fonte infinita de informações que era.
— Está no departamento de história. Ela e o Sr. Deverell
tiveram um lance um tempo atrás.
Deus, com quantas mulheres neste campus ele ficou?

Ela engoliu em seco, olhando para suas botas. — Eles


ainda estão juntos?

Troy encolheu os ombros, despreocupado. —


Provavelmente. Quem se importa? — Disse, antes de, de
repente, seu olhar se fixar em Corvina. — Você se importa.

A negação voou de seus lábios. — Não. De jeito nenhum.

Troy, o menino jovial que gostava de provocá-la, olhou


para ela com uma seriedade muito além de sua idade. — Olhe,
Purple, o que você faz é problema seu. — Disse baixinho, com
a atenção voltada para ela. — E não que eu tenha problemas
com o Sr. Deverell, ele sempre foi legal comigo. Mas, só para
você saber, esse não é um cara com quem eu gostaria de ficar
sozinho em uma noite escura. Sem mencionar que é contra as
regras, então não conte a ninguém. Basta ter cuidado, ok?

Com a garganta apertada, Corvina assentiu, sem saber


realmente o que dizer.

— Não se preocupe, não vou contar a ninguém. — Ele a


tranquilizou, dando-lhe um de seus abraços laterais. — Mas,
droga Purple, você tinha que gostar do Diabo de Verenmore,
não é?

Troy calou a boca quando se juntaram aos outros, dando


a ela seu sorriso característico. — Vamos para a aula.

Corvina acenou para ele. — Eu preciso ir à biblioteca.


— Eu vou com você. — Disse Jax, ao seu lado. — Tenho
que devolver um livro.

Assentindo, Corvina começou a cortar o jardim até o lado


da Ala Acadêmica que levava à biblioteca das masmorras, o
vento extremamente frio em seu rosto. Era uma manhã de
nevoeiro, a névoa branca pesada ao redor do castelo e seus
ocupantes, humanos tremendo de frio enquanto passavam.
Ela se perguntou por um momento se deveria se preocupar
com o fato de Troy saber, e então descartou o pensamento.
Confiava nele e ele não foi nada além de bom para ela. Era seu
amigo.

— Então, você terminou o trabalho de Deverell? — Jax


começou a conversar, as bochechas coradas com o vento, as
mãos nos bolsos da jaqueta.

Corvina acenou com a cabeça, grata por sua saia justa de


lã preta e suéter roxo escuro que quebrava o vento, as pernas
envoltas em suas botas quentes de cano alto. — Terminei
ontem à noite. — Respondeu, agarrando a alça de sua bolsa.
— Você?

Ele sorriu para ela. — Quase.

— Precisamos entregar isso hoje, sabe? — Lembrou-lhe


quando dobraram a esquina do quarteirão acadêmico. As
pesadas portas duplas da masmorra com sua moldura de ferro
forjado estavam abertas, um conjunto de degraus de pedra
largos que desciam até a entrada.
— Farei isso antes da aula. — Assegurou, descendo
quatro degraus de cada vez.

Corvina revirou os olhos, um sorriso aparecendo em seus


lábios para ele, mostrando sua capacidade atlética sem motivo.

— Isso foi muito desnecessário. — Ela disse, descendo em


seu ritmo normal enquanto ele esperava.

— Isso te impressionou? — Jax perguntou com bom


humor. — Ou devo adicionar um salto mortal da próxima vez?

Uma risada borbulhou dela quando entraram na


biblioteca, alguns alunos já na fila para devolver os livros na
frente da mesa. Corvina não se surpreendeu. As manhãs de
segunda e as noites de sexta tinham o maior tráfego na
biblioteca, já que a Sra. Suki estava de folga nos fins de
semana.

Jax tirou um livro da bolsa, indo em direção à fila


enquanto Corvina virava à esquerda em direção às prateleiras.

— Você não vem? — Ele perguntou em voz alta, ganhando


um “silêncio, garoto” da Sra. Suki na mesa.

Corvina indicou as prateleiras no fundo, dizendo baixinho


que precisava pegar alguns, e ele acenou com a cabeça, indo
ficar atrás de alguns alunos.

Corvina dirigiu-se à seção de literatura, na esperança de


encontrar alguns romances para ler ao longo da semana.
Passou por uma garota que folheava um livro no corredor de
História e finalmente voltou para o seu destino. A Sra. Suki lhe
contou um dia sobre uma estante especial onde escondia todos
os seus romances, sem o conhecimento da universidade –
clássicos de sua época, eróticos, históricos, e até mesmo
alguns paranormais. Corvina era louca por eles.

Passando os dedos sobre os títulos, arrancou dois


pequenos romances de shifter, continuou a folhear, parou em
Jane Eyre e tirou-os também.

Armada com seus três livros para a semana, deixou a


seção e começou a caminhar pelo curto corredor que levava à
área principal da biblioteca.

De repente, um braço saiu da seção de Filosofia e a


puxou, jogando-a contra as prateleiras no canto escuro do
corredor.

O cheiro foi a primeira coisa que ela notou, em meio ao


cheiro de livros velhos e biblioteca mofada, aquele cheiro de
lenha queimada e conhaque. Com o coração batendo forte,
inclinou a cabeça para trás, tendo um vislumbre dos olhos
prateados antes que sua boca se chocasse com a dela.

O gosto dele sacudiu seus sentidos, seu corpo inteiro


eletrocutado pela pressão de sua boca na dela, ganhando vida
após semanas de sono. Ela abriu a boca sob a dele, dando
boas-vindas ao ataque de sua língua enquanto ele a
pressionava mais fundo nas prateleiras, suas mãos mal
segurando os livros, as dele segurando as laterais de seu rosto
para mantê-la quieta enquanto a devastava como um maníaco
dando rédea livre para a loucura em sua cabeça.

Seu coração palpitou quando suas línguas se


encontraram, seu gosto a consumindo, seus braços a
mantendo protegida de uma maneira que Corvina nunca
queria escapar. Ela queria suspender o tempo e viver os
sentimentos que ele despertou nela, uma profusão de cores
quentes e bonitas em seu coração escuro.

Depois de consumi-la, devorá-la, arrebatá-la por longos,


longos minutos, se afastou, deixando-a subir para respirar,
seus olhos de mercúrio brilhando quando agarrou seu rosto.

— Ele já te fodeu? — Murmurou a pergunta contra seus


lábios, sacudindo o canto com uma leve lambida no final.

Demorou um segundo para que as palavras penetrassem


em seu cérebro nebuloso e vigoroso.

E então penetraram.

Uma rápida onda de raiva tomou conta dela. Cerrou os


dentes, empurrando contra Vad, e ele deixou seu rosto em
suas mãos, prendendo-a entre ele e as prateleiras.

— Você tem coragem. — Ela acusou em voz baixa, a raiva


em seu corpo a fazendo tremer. — Diz-me para não esperar
nada, para não me apegar. Você me fode e me ignora por
semanas, e então me encurrala e exige saber se eu estive com
alguém como se tivesse algum tipo de direito? — Assobiou. —
O que diabos há de errado com você?
Seu peito estava ofegante ao final de seu discurso. Ela
nunca ficou tão furiosa como estava agora, seu corpo inteiro
quente, as palmas das mãos coçando para infligir um pouco
de dor nele com a intenção de aliviar a turbulência dentro dela.

Ele ignorou completamente suas palavras. — Alguém


mais esteve nessa boceta?

Corvina lançou um olhar duro para ele. — Tantos


quantos estiveram em seu pau. — Cuspiu, o empurrando. —
Agora me deixe ir antes que Jax venha me procurar.

Ele se inclinou para frente, o perigo ondulando de seu


corpo colidindo com o dela, fazendo-a cair de volta para a
prateleira. — Ele quer você.

Corvina ficou em silêncio, atirando punhais nele com os


olhos, o coração batendo forte no peito.

Vad se aproximou, dando um beijo suave em seu piercing


no nariz. — E não pode tê-la.

— Eu não sou sua. — Lembrou Corvina, um pouco sem


fôlego, muito chateada. — Você não pode decidir isso.

O canto de sua boca se contraiu antes que ele


pressionasse um beijo forte em sua boca, fazendo seu pulso
acelerar antes de abaixar os braços. — Mo, pode decidir, hein?

Ela estava a dez segundos de causar algum dano sério. —


Deixe-me sair.
Vad pressionou outro beijo forte em sua boca. — Seu
batom tem um gosto bom. Romãs? — Meditou, lambendo os
lábios úmidos. — Limpe isso de mim.

Corvina olhou para o pouco de seu batom roxo que foi


transferido para a boca dele, boca da qual recebia chicotadas
de suas constantes idas e vindas, e o empurrou, criando
espaço suficiente para se afastar. — Limpe você.

Tanto para cores de batom à prova de manchas.

Ele veio para a aula como Sr. Deverell novamente, não


Vad, o homem indomado e desinibido que ela sabia que existia
sob aquele verniz frio e controlado. Era como se fossem dois
lados diferentes de um homem, um eu social e um eu sombrio.

Sua boca estava com a cor normal, sem romã.

Ela o odiava ligeiramente por olhar para ela casualmente,


como se não a tivesse saboreado, exigido, possuído novamente,
enquanto suas entranhas se debatiam. Mas ela deve ter sido
boa em fingir também, porque Jade sentou-se ao seu lado,
tagarelando sobre sua eletiva, sem suspeitar de nada.
— Tudo bem. — Sr. Deverell bateu palmas para chamar
a atenção da classe enquanto se sentava em sua mesa. — Para
este semestre, vocês têm que estudar uma peça e um clássico.
Vou dar opções para ambos.

Ele desceu e destampou o marcador, dividindo o quadro


em dois com uma linha vertical, escrevendo em grandes letras
em negrito com a mão esquerda no topo de cada seção.

PEÇA

CLÁSSICO

Ele voltou para 'PEÇA' e escreveu com seus traços nítidos


e ousados:

MACBETH

DOUTOR FAUSTUS

Ele se voltou para a turma, tocando a primeira peça com


seu marcador. — Uma tragédia sobre a ambição política de
poder. — Bateu na segunda. — Uma tragédia sobre um homem
que vende sua alma ao diabo por conhecimento.
A garota da frente que sempre levantava a mão, Ria,
levantou novamente. — Por que duas tragédias, Sr. Deverell?

— Eu sou um tipo trágico de cara. — Brincou com uma


cara séria, e Corvina bufou, batendo na boca com a mão
quando seus olhos se voltaram para ela, junto com metade da
classe.

— Você acha isso particularmente divertido, Srta.


Clemm? — Ele perguntou, com seu rosto inexpressivo.

Corvina sentiu seu rosto queimar com todos os olhos


sobre ela e olhou para seu caderno, desejando que
desaparecesse e todos simplesmente retomassem a aula e a
ignorassem.

— Eu te fiz uma pergunta. — Sua voz profunda ecoou na


sala de aula e Corvina respirou fundo, ignorando o rubor que
sentiu no rosto. Ela igualmente amava e odiava quando ele
usava aquele tom com ela. Só não queria estar perto das
pessoas quando acontecia.

— Não, Sr. Deverell. — Disse baixinho, mantendo os olhos


no caderno antes de erguer os olhos. — É que prefiro finais
mais felizes. As tragédias são lindas, mas sempre levam mais
do que dão. Uma história pode ser trágica, mas não precisa
terminar como uma.

— Ah, uma romântica. — Seu olhar prateado brilhou


sobre ela quando um canto de sua boca se contraiu. — Eu vejo.
Corvina agarrou o lápis, querendo jogá-lo nele enquanto
ele se virava novamente para a classe.

— Aqueles que querem estudar Macbeth, levantem as


mãos. — Algumas mãos ergueram-se no ar.

— Aqueles para o Doutor Faustus. — Disse, e Corvina


levantou a dela, junto com a maioria da classe.

Sr. Deverell foi para o outro lado do quadro, escrevendo


em 'CLÁSSICO':

ORGULHO E PRECONCEITO

DRÁCULA

Ele olhou para a turma, apontando para os títulos. —


Ambos são clássicos extremamente bem escritos que
estabeleceram todo um subgênero da literatura. Tenho certeza
de que vocês devem ter ouvido falar dos dois.

Quase todos na classe concordaram.

— Então, qual?

Como antes, um show de mãos se seguiu. Drácula venceu


por maioria.
Corvina abaixou a mão assim que os olhos do Sr. Deverell
pousaram sobre ela, com seu tom de voz, disse: — Não tem um
final feliz, Srta. Clemm.

Corvina o olhou nos olhos, sabendo que ele entenderia o


subtexto de suas próximas palavras: — Tem um diabo em um
antigo castelo se apaixonando. O que pode ser mais
interessante do que isso?

Seus olhos brilharam. — De fato.

A campainha tocou logo depois e ele saiu, levando consigo


todo o ar que havia nos pulmões dela. Corvina afundou
ligeiramente em sua cadeira para encontrar Jade olhando para
ela com preocupação. Dando um sorriso tranquilizador,
Corvina pegou sua bolsa, pronta para passar o dia inteiro sem
pensar nele.

A torre, Vivi.

A voz de Mo fez sua mão pausar sobre o caderno, seus


músculos tensos. Ela olhou para cima e ao redor da classe do
Dr. Kari. Era sua última aula na segunda-feira e a maioria dos
alunos faziam anotações enquanto Dr. Kari dava sua palestra,
a luz do sol apagando conforme a noite se aproximava.

Algo estava errado, mais errado do que o normal.

Corvina não sabia como sentia qualquer uma dessas


coisas, apenas sabia.

Uma sombra cintilou no canto da sala perto da porta,


flutuando ao longo da parede em direção à saída e parou.
Corvina piscou, balançando a cabeça, tentando limpar o
truque da luz. Deve ser um truque da luz.

Você pode me ouvir? Ajude-o.

Duas vozes estranhas e alheias ressoaram dentro de sua


cabeça, trazendo o cheiro metálico de sangue com elas.
Formigas fantasmas rastejaram sobre sua pele e Corvina
estremeceu.

Que diabos?

As vozes estavam caladas. As sombras desapareceram


por semanas. Por que voltar agora?

— Você está bem, Srta. Clemm? — A voz do Dr. Kari a


tirou de sua cabeça, deixando-a ciente de outros alunos que se
viraram para olhar para ela. — Você está murmurando alguma
coisa.

Ela estava?

Deus, não, não, não. Aqui não.


Engolindo em seco, Corvina enfiou o caderno na bolsa
com pressa e se dirigiu para a porta. — Por favor, com licença,
Dr. Kari. Não estou me sentindo bem.

Sem esperar para ouvir sua resposta, começou a correr


assim que chegou ao corredor, precisando sair. Era uma longa
descida desde o quarto andar da torre, mas Corvina voou
escada abaixo, a trança chicoteando atrás dela, a saia
arrastando atrás, seus nervos à flor da pele enquanto a sombra
se movia alguns passos à frente na parede.

As lágrimas se apertaram em sua garganta, seus olhos


queimando enquanto corria.

Não.

Não poderia estar acontecendo.

Ela estava bem há semanas, pensou que estava


terminado e que tudo estava bem.

Não poderia estar acontecendo.

Assim que ela virou na escada do terceiro andar, bateu


em uma parede dura.

— Porra. — O palavrão naquela voz profunda que ela


reconheceu em suas medulas alcançou sua mente confusa um
segundo depois, fazendo-a piscar para ele enquanto ficava dois
degraus abaixo dela, equilibrando seu corpo para não cair com
o aperto em seus braços.
Corvina firmou-se nele antes de se agarrar ao corrimão,
os olhos se movendo para a sombra que pairava atrás dele, o
coração batendo forte.

— Senhorita Clemm? — Ela o sentiu sacudi-la. —


Corvina! Olhe para mim.

A autoridade áspera em sua voz fez com que seus olhos


fossem para a prata e respirou fundo para se concentrar.

— Por que está tão assustada? — Ele se aproximou,


colocando seus rostos no mesmo nível, seu olhar a queimando.

— Eu só preciso chegar à torre. — Sussurrou, seus olhos


voltando para a sombra persistente.

Vad se virou para olhar para trás, não vendo nada além
das paredes do castelo, as luzes já acesas em seus suportes
enferrujados e as escadas que desciam. Ele provavelmente não
conseguia ver aquela sombra tremeluzindo sob uma das velhas
lâmpadas, esperando, acenando.

— O que você vê atrás de mim?

A maneira como formulou a pergunta a fez parar. Ele


perguntou o que ela viu, seu tom sugerindo que sabia que ela
via algo.

A sombra começou a se mover e uma necessidade urgente


de seguir encheu Corvina.

Ela se desvencilhou das mãos que a seguravam e desceu


as escadas novamente, ciente de sua perseguição atrás dela.
Suas pernas mais longas o fizeram agarrá-la antes que
ela pudesse sair da Ala, puxando-a para uma das alcovas e
prendendo-a entre seus braços. Seus olhos, aqueles olhos
mercuriais, estavam mortalmente sérios enquanto a avaliava.

— O que você vê, Corvina? — Vad perguntou novamente,


enunciando cada palavra com uma paciência que ela não tinha
no momento. Deus, não podia contar a ele. Na melhor das
hipóteses, pensaria que ela era louca. Na pior das hipóteses,
diria que é louca. Ela não era. Não, não era. Ou talvez fosse.
Não sabia. Sua própria mente não era confiável.

Seu cheiro a engolfou enquanto seu estômago se retorceu


com medo e desejo olhando para ele. Ele queria uma resposta.

— Uma sombra. — Respondeu, sua voz quase um


sussurro, os olhos em seu pescoço. Ele tinha um bom pomo de
Adão. — Eu preciso ir para a torre agora. — Travou seus
olhares, suplicando. — Por favor.

Vad a analisou por um longo minuto, antes de remover


um braço, dando-lhe espaço para sair. Ela correu para fora
novamente, percebendo que os jardins estavam
completamente vazios. Por que estavam vazios? Sempre havia
alguém vadiando neles, especialmente a essa hora do dia.

Músculos e pulmões queimando com o exercício, Corvina


acertou o caminho de paralelepípedos ao lado da Ala que
levava às torres, sem saber o motivo pelo qual precisava chegar
lá, ela apenas sabia.
Com as pernas bombeando, finalmente conseguiu chegar
à clareira em frente à torre e viu uma multidão reunida mais
adiante. O medo se acumulou em seu estômago, Corvina
desacelerou um pouco, tentando entender o que estava
acontecendo.

— Oh, Deus! — Ouviu Jade gritar.

A adrenalina encheu suas veias e ela cortou a multidão,


tentando chegar até sua amiga.

— Jade, o que... — Suas palavras foram interrompidas


abruptamente enquanto a cena se desenrolava ao seu redor.

Cada pessoa na grande multidão estava olhando para


cima, Erica segurando Jade enquanto ela soluçava, seus olhos
em algum lugar acima delas também.

Corvina se virou, inclinando o pescoço para trás.

Seu coração parou.

Lá no telhado da torre, Troy estava sozinho, parecendo


tão pequeno, nem mesmo olhando para as pessoas gritando
para ele parar e descer. Troy nem mesmo vacilou, apenas
olhou vagamente para a frente, sem ouvir as chamadas para
ele.

Um suspiro deixou seus lábios.

O que ele estava fazendo lá?


— Troy! — Ouviu Jax chamar muito, muito alto, tão alto
que ela sabia que sua voz devia ter chegado ao topo. Mas Troy
não respondeu, nem mesmo se moveu de seu poleiro. Calafrios
a cobriram com a visão.

— Jesus. — A maldição atrás dela a fez perceber que Vad


a seguiu até a torre, é claro que sim, e então ele estava
correndo para o prédio.

— Ele trancou a porta do telhado, Sr. Deverell. — Ethan


gritou, correndo até Vad. — Tentamos subir e fazer com que
ele abrisse, mas não está respondendo. Não há como quebrar
a fechadura.

Corvina observou Vad apertar os dentes. — Há outro


acesso para o telhado. — Disse ele, e Corvina se perguntou,
por uma fração de segundo, como ele sabia disso. — Vou
precisar de vocês para acalmá-lo. Vamos.

Ethan e Jax o seguiram sem outra palavra, acelerando


atrás dele. Corvina envolveu-se com os braços enquanto a
multidão aumentava na área, suspiros e gritos ecoando
conforme mais e mais pessoas percebiam o que estava
acontecendo.

— Troy! — Erica gritou. — Desça, por favor!

Ele não olhou para baixo.

Os professores correram para a clareira, ouvindo


diferentes versões de ‘Sr. Deverell subiu’ e esperando com os
nervos à tona. Os alunos assistiam, fascinados e aterrorizados
por um menino de quem todos gostavam.

O céu escureceu rapidamente no alto, a jaqueta branca


de Troy se destacando em contraste com ele enquanto Corvina
prendia a respiração, sem entender o motivo pelo qual estava
fazendo isso. Ele falou com ela naquela mesma manhã e não
havia nada em seu comportamento feliz que pudesse indicar
isso.

Por que isso? Por que agora? O que aconteceu entre o café
da manhã e este momento para levá-lo àquele telhado? E por
que Mo contou a ela sobre isso?

Troy deu um passo mais perto da beirada e um suspiro


coletivo se ergueu da multidão.

— Oh, Deus, Troy. — Corvina gritou, com a mão cobrindo


a boca, incapaz de conter o medo pelo menino que se tornara
seu bom amigo, um menino cuja companhia ela amava, um
menino que a aceitou em sua família formada como um irmão
há muito perdido. Seu coração se apertou, os olhos queimando
enquanto desejava que ele descesse e falasse sobre o que quer
que o incomodasse. Ela deveria ter perguntado a ele naquela
manhã, quando conversaram? Poderia ter feito algo para
impedi-lo de subir lá?

Como se ouvisse sua voz, Troy olhou direto para baixo,


diretamente para ela, e deu-lhe um sorriso que a gelou até os
ossos.
Então, saiu do telhado.

Seu grito se afogou em um mar de outros enquanto seu


corpo sucumbia à gravidade.

Aconteceu em uma fração de segundo.

Em um segundo ele estava no telhado, no próximo


segundo estava no chão em frente à torre, o sangue se
espalhando sob sua cabeça, acumulando ao seu redor, o
garoto cheio de vida se foi.

Alguns alunos correram para frente.

Corvina ficou paralisada, tremendo, as lágrimas


silenciosas escorrendo por seu rosto ao ver o corpo do menino
feliz e jovial que foi seu amigo caído no chão duro.

Não.

Deus, não.

Era assim que seu pai também fez? Ele já foi um homem
tão cheio de vida quanto Troy e então partiu sem explicação?

Algo se moveu sobre seu corpo, a luz bruxuleando em


torno de uma sombra. Corvina prendeu a respiração,
arregalando os olhos ao ver a sombra pairar por um momento
antes de desaparecer, logo antes de ouvir a voz dele em sua
cabeça.

Purple.

Impossível.
Diga ao meu irmão.

Contar ao irmão dele? O quê? Troy tinha um irmão?

Corvina olhou para o seu corpo, choque enchendo seu


sistema enquanto processava sua voz em sua cabeça, apenas
chamando-a do que sempre a chamava. Ela estremeceu,
olhando em volta para ver se mais alguém viu a sombra ou
experimentou algo bizarro.

Choque, tristeza e lágrimas a cercaram. Ouviu Jade


chorando ao lado e seu coração se partiu novamente por sua
amiga, que teve que perder alguém próximo a ela de uma forma
tão medonha novamente. Enxugando o rosto com as mangas,
foi até Jade, puxando-a contra seu corpo. Jade se virou para
ela, agarrando-se nela enquanto seu corpo arfava com os
soluços quebrados, e Corvina sentiu as próprias lágrimas
caírem de novo com a dor coletiva ao seu redor.

Mais professores invadiram a área, processando seu


choque enquanto tentavam fazer com que os alunos voltassem
para suas torres. Duas pessoas da equipe chegaram à clareira
com um lençol e uma maca. Eles cobriram o corpo com o lençol
branco que ficou manchado de vermelho em segundos e o
colocaram na maca, levando-o embora.

Corvina se perguntou se Troy tinha alguma família que


precisava ser contatada, desconsiderando a voz em sua
cabeça, ou se era sozinho como a maioria das pessoas neste
castelo amaldiçoado.
Algo o levou, um menino com medo de altura, à um
telhado que geralmente ficava trancado. Algo entre a manhã e
à noite, algo que o deixou quase catatônico lá em cima. Mas
ele olhou para ela, quase como se esperasse que ela
testemunhasse a tragédia.

Uma das mulheres da sala médica foi até Jade.

— Vamos, querida. — A senhora idosa a levou embora. —


Venha descansar na sala médica esta noite.

Jade soluçou, olhando para Corvina com os olhos


inchados. — Não quero te deixar sozinha.

Corvina esfregou o ombro. — Eu prometo que ficarei bem.


Vá descansar durante a noite, você precisa disso. — Na
verdade, todos precisavam, e ela sabia que a Administração
queria ficar de olho em Jade durante a noite, pois já era um
risco de fuga. Jade assentiu e saiu com a senhora, deixando
Corvina parada ao lado de Erica.

— Estou com medo, garota. O que diabos está


acontecendo por aqui? — Erica falou em voz alta para si
mesma, processando como todo mundo.

Corvina também estava processando.

Troy se foi.

Era difícil para ela compreender isso, embora


testemunhasse com seus olhos. Seu coração continuava
dizendo que ele sairia da floresta sorrindo para todos que
enganou, a abraçaria de lado e diria 'Eu só estava brincando
com você, Purple'. Seu coração não podia aceitar que ele nunca
mais faria isso.

Por quê?

Por mais de uma hora, observou a atividade ao seu redor


até que as pessoas lentamente começaram a sair e voltar para
seus quartos, apenas algumas parando como ela, parecendo
um pouco perdidas.

O cabelo de sua nuca se arrepiou. Corvina se acalmou,


olhando em volta disfarçadamente, sem encontrar nada e nem
ninguém assustador fora do normal. Ela voltou seu olhar para
o telhado.

E de pé, contra o pano de fundo da noite escura, todo


vestido de preto, estava o diabo de olhos prateados de
Verenmore exatamente no mesmo lugar que Troy estivera,
olhando para ela.
Corvina

O candelabro foi iluminado com luz amarela fraca,


lançando a entrada em um brilho sombrio quando a Corvina
entrou em sua própria torre. Empurrando as mangas de seu
suéter, observando todas as outras meninas que ficaram na
torre, conversando sobre tudo o que havia acontecido.

Uma pulsação começou bem atrás de suas sobrancelhas


com o barulho, o estresse e as perguntas. Agarrando o
corrimão com uma das mãos, ela colocou a outra na testa e se
virou.

— Você está bem? — Roy olhou para a mão dela


pressionada contra a cabeça, uma leve preocupação em seus
olhos.

Corvina acenou com a cabeça e a outra garota foi embora


para as amigas, deixando-a sozinha.

Ela não queria estar aqui no meio de toda essa conversa.


Não queria subir para seu quarto sozinha, sabendo que sua
mente brincaria com ela de novo, com sombras ou vozes, que
ela não conhecia.
Pegando sua saia em uma das mãos e respirando fundo,
lentamente saiu pela porta por onde entrou e foi para o ar frio
e fresco. Alguns alunos ainda circulavam, embora a maioria já
tivesse ido embora, uma poça gigante de sangue escuro
manchando o chão à sua direita.

Corvina olhou o sangue, a dor atrás dos olhos piorando,


e se afastou das pessoas. Ela precisava ficar quieta, mas não
podia entrar na floresta, não depois do que acabara de
acontecer. Não teve nenhum problema em admitir para si
mesma que estava com medo. Algo estava acontecendo com ela
ou ao seu redor, nenhum dos cenários era um bom presságio
para o seu bem-estar.

Envolvendo os braços em volta de si mesma, sem pensar,


seguiu o caminho de paralelepípedos em direção contrária das
pessoas. Uma espessa camada de névoa rolou da floresta,
ficando perto do chão, envolvendo em torno de seus tornozelos
enquanto se movia. Os sons da noite chegavam até ela quanto
mais caminhava em direção à entrada, a escuridão
envolvendo-a, mesmo com as pequenas luzes que iluminavam
o caminho.

Alcançou a entrada e se virou para olhar o castelo, um


arrepio percorrendo seu corpo. A gigante e impressionante
maravilha arquitetônica que achou bonita à primeira vista na
luz do dia meses atrás, parecia um presságio à noite. As
buretas altas pareciam mortais, um ar sombrio agarrado às
paredes de pedra. Pequenas luzes acrescentavam mais ao
brilho sinistro do que o restringiam, a luz eclipsada pelas
sombras ao redor.

Enquanto o vento frio ajudava a clarear um pouco sua


cabeça, ela contemplou, contemplou seriamente, refletindo por
um momento. Desde que pisou neste chão, algo estava
acontecendo com ela. Depois de fazer o teste no Instituto,
passou meses em sua pequena cabana com apenas a voz de
Mo como companhia, e isso também era ocasional. Algo sobre
este lugar acionou não apenas a frequência da voz de Mo, mas
um monte de vozes estranhas que ela nunca ouviu antes e nem
reconheceu à mistura. Acrescente a isso, ela nunca, nenhuma
vez, viu o tipo de sombras que começou a ver no castelo. A
escuridão que sempre fora sua amiga tornara-se uma estranha
e Corvina não gostava disso. Essas coisas estavam em sua
mente e ela estava perdendo a cabeça, o que significava que
precisava sair e ir para o Instituto novamente. Ou não estavam
em sua cabeça, o que significava que algo terrível estava
acontecendo neste lugar há muito tempo e ela deveria ir
embora.

Corvina não sabia qual opção queria que fosse mais


verdadeira.

— Verenmore. — A voz profunda ao seu lado a fez virar


ligeiramente para olhar para cima quando Vad parou ao seu
lado. — Este castelo sempre foi diferente.

Corvina piscou surpresa, observando-o acender um


cigarro enquanto observava o castelo. — Então, por que ficar?
Ele não respondeu.

Eles ficaram em silêncio por longos minutos, ele fumando


silenciosamente e ela perdida em pensamentos antes de se
virar e começar a andar novamente.

— Nunca tive a intenção de ficar tanto tempo. — Disse a


ela, finalmente, juntando-se sem convite. Seu cheiro se
misturou com a nicotina em uma mistura reconfortante, e ela
inalou profundamente, deixando-o encher seus pulmões.

— Eu não sei se vou ficar. — Admitiu e sentiu o olhar


prateado dele se fixando nela.

— Por causa de Troy? — Perguntou enquanto eles


pegavam a curva no caminho de paralelepípedos para uma
parte do terreno que ela nunca viu, um que levava aos
aposentos dos professores e funcionários.

Corvina agarrou seus cotovelos. — Não entendo o que


aconteceu com ele. Troy não era suicida, pelo menos não pelo
que eu sabia. Ele estava bem esta manhã, feliz. É só... do nada.

Vad terminou o resto do cigarro, esmagando-o em uma


lixeira de metal alguns metros adiante, antes de se virar para
ela, o rosto sombrio, a luz ao lado destacando a mecha branca.

— Se eu te mostrar algo. — Perguntou seriamente. — Isso


vai ficar entre nós?

Corvina se endireitou ante a severidade de seu tom. —


Sim.
Ele assentiu. — Venha comigo. E fique quieta.

Eles seguiram mais adiante no caminho, os


paralelepípedos molhados e brilhantes estalando contra seus
pés quando os levou para o outro lado do castelo. As torres
aqui pareciam mais novas do que as dela e muito mais abaixo
no declive, o trajeto plano virando para escadas baixas
esculpidas na montanha para levá-los para baixo.

Ele a pegou pelo cotovelo para ajudá-la a descer, seu


aperto firme e quente envolvendo seu braço inteiramente
enquanto ela pegava a saia.

— Será que alguém não vai nos ver? — Perguntou


baixinho, olhando ao redor da área vazia e o prédio quase todo
escuro à frente. Parecia ter a mesma textura de pedra que o
resto dos edifícios no chão e as mesmas gárgulas de calha
grotescas projetando-se das paredes. No entanto, tinha apenas
três andares e um telhado íngreme de telhas azuis.

— Este caminho não é visível a partir de lugar nenhum.


— Ele a informou enquanto desciam. — Não do topo do
campus e não das torres do corpo docente.

— Ok. — Corvina cuidadosamente deu o último passo


antes que eles estivessem de volta ao solo plano novamente.
Vad os levou ao redor do que parecia ser uma pesada porta de
madeira com uma enorme aldrava de ferro com uma figura
demoníaca rindo.
Vad a abriu com uma das mãos espalmada sobre a
aldrava, cobrindo toda a coisa demoníaca sob a palma. A porta
era mais pesada do que parecia, rangendo nas dobradiças de
metal ao se abrir o suficiente para eles entrarem.

Estava completamente escuro, apenas o brilho da luz da


lua filtrando através da vasta extensão de uma série de janelas
em arco à esquerda. Na luz, ela viu que era uma sala enorme
e cavernosa, quase como um saguão. Havia outra porta bem
em frente a ela – do outro lado, foi o que presumia. Dois pilares
de madeira iam do chão até o teto alto arqueado, suportando
seu peso. Uma lareira ficava à direita com alguns móveis
pesados diante dela, um longo corredor se abrindo na lateral.

Vad os levou até um lance de escadas em frente ao


corredor e subiu, Corvina o seguiu. Eles passaram os dois
primeiros andares, tudo calmo e imóvel, e emergiram no
terceiro andar, o mais alto da torre, com apenas uma porta
escura bem no final do patamar.

Tirando uma velha chave de ferro com um padrão distinto


no topo, ela observou enquanto ele a enfiava na fenda sob a
barra e a girava uma vez. Um clique disparou alto através do
silêncio e o coração de Corvina começou a bater mais forte
quando percebeu que estava a momentos de entrar em seu
quarto, seu próprio covil.

O aperto em seu cotovelo aumentou quando ele abriu a


porta e entrou, deixando-a aberta para ela. Um interruptor
estalou, banhando a sala e abafando o calor quando as luzes
se acenderam. Corvina parou na soleira, aproveitando o
espaço.

Era um sótão. Um sótão enorme.

Era pintado de branco, com quatro grossos pilares de


madeira marrom indo do chão às vigas do teto. O telhado
estava inclinado de um lado até encontrar uma fileira de
janelas na parede vertical bem na frente dela. As janelas
continuavam na parede do seu lado direito. Uma cama, muito
maior do que qualquer outra que ela já vira, mas que ele
provavelmente precisava com seu tamanho, foi empurrada
contra a parede sem janelas, à sua esquerda. Bem ao lado dela,
ao lado da porta, estava uma pilha alta de estantes cheias de
livros. Uma grande poltrona estava encostada em uma janela,
bem ao lado de uma pequena mesa com um laptop elegante e
óculos dobrados sobre eles. A luz do quarto vinha de um abajur
na mesinha de cabeceira e outro pendurado em um lustre
quebrado.

O quarto era eclético, como se partes fossem coletadas de


diferentes lugares e colocadas juntas como um só.

Ela estava apaixonada.

Corvina nunca esperou algo assim, algo tão caótico e não


perfeitamente sincronizado dele. E observando o espaço,
juntando tudo que vislumbrou dele, percebeu que enquanto o
Sr. Deverell era a criatura de hábitos controlados, organizados
e inteligente, Vad era mais selvagem, mais caótico, assim como
seu nome, indomado.
— Feche a porta. — Instruiu, sentando-se na poltrona,
sentado da maneira que ela imaginava que os reis deviam se
sentar eras atrás, pernas ligeiramente abertas, inclinado para
trás, cotovelos apoiados nos braços e uma mão ao lado do
rosto, olhos nela.

Ela não sabia o quão inteligente era estar sozinha com


ele, mas nunca alegou ser inteligente. Era mais movida pela
emoção do que pela lógica, mais sintonizada com seus sentidos
do que com seu cérebro, mais hábil em entender os instintos
do que a razão. E foi exatamente por isso que ela fechou a porta
pesada, selando-os no espaço juntos, quebrando mais uma
das regras.

— Sente-se. — Ele indicou a cama, e ela hesitou, antes


de se sentar silenciosamente na beirada, observando-o.

— Fale-me sobre a sombra primeiro. — Instruiu,


sentando-se quieto, todo o seu foco nela. Na luz fraca da sala,
ele parecia intimidante.

— Não sei do que você está falando. — Corvina ficou


quieta, imitando sua severidade, e contou a mentira
descarada.

— Estou falando sobre... — Vad se inclinou para frente,


os cotovelos apoiados nos joelhos. — Você fugindo de sua aula
como se os cães do inferno estivessem em seus calcanhares.
Precisando chegar à torre onde um menino já estava no
telhado, prestes a cair para a morte. Quando eu te perguntei,
você me disse que era uma sombra. Então, me diga Corvina. O
que há com a sombra? E por que você tinha que ir para a torre?
Sabia sobre Troy?

Ela balançou a cabeça imediatamente. — Não. — A


negação voou de seus lábios. — Eu juro que não sabia sobre
ele.

— Mas você sabia de algo. — Vad percebeu sua omissão,


seu olhar era brutal na tentativa de dar sentido a tudo.

Corvina mordeu o lábio, as mãos agarrando a saia.

— Tudo o que me disser não sairá deste quarto. — Disse


a ela, depois de um segundo.

Ela deu uma risadinha. — Não é isso que me preocupa.


Eu...

— O quê?

Corvina interrompeu o olhar deles, olhando para suas


mãos. — Eu não quero enlouquecer. — Sussurrou
suavemente, admitindo o desejo mais profundo e feroz de seu
coração. — E falando sobre isso, vou soar como uma maluca.

— Olhe para mim. — Ele rangeu, seu tom a lembrava de


quando disse as mesmas palavras para ela semanas atrás.

Seus dedos torceram a saia antes que ela respirasse


fundo e erguesse os olhos para fixá-los nos dele.

— Este castelo é uma loucura, Corvina. — Disse ele. —


Diga-me o que se passa.
Deus, ela queria. Queria tanto acreditar nele, queria tanto
que a atmosfera no quarto absorvesse todos os seus segredos
enquanto os deixava sair de seus lábios, confiando em alguém
por escolha e não por necessidade. Mais do que isso, Corvina
queria que Vad acreditasse nela, que a visse, dissesse que
estava tudo bem, que ela ficaria bem e que não estava ficando
louca.

— Ok, vamos negociar. Segredo por segredo. — Ele


ofereceu. — Você me dá um dos seus e eu te darei um dos
meus.

— Você não pode lidar com meus segredos, Sr. Deverell.


— Disse, com uma risada inexpressiva.

— Você não tem ideia de com que eu posso lidar, Srta.


Clemm. E disse-lhe para me chamar de Vad quando
estivermos sozinhos.

— Você também disse que não ficaríamos sozinhos outra


vez. — Apontou, acomodando-se um pouco mais na cama.

Vad suspirou e colocou a mão dentro do bolso de sua


jaqueta, tirando um pedaço de papel. Ele pegou os óculos da
mesa ao seu lado, a armação preta quadrada, de alguma forma
adicionando mais seriedade à sua postura já impressionante.

— Você me disse que sua mãe está internada. —


Lembrou-a de sua conversa no carro. — No entanto, não me
disse que se internou no instituto por dois meses com ela.

Seu coração começou a bater forte.


— Como você sabe disso? Não está no meu arquivo.

— Eu sei muitas coisas, little crow. — Respondeu


suavemente, seus olhos brilhando por trás dos óculos,
guardando tantos segredos. — Agora me dê sua história e eu
mostrarei o que há nisso. Encontrei-o no telhado.

Corvina olhou para o papel que ele segurava entre os


dedos indicador e médio e para seus olhos, enquanto esperava
a história dela, e sentiu o latejar em sua cabeça aumentar.

Vad sabia.

Ele sabia.

Não sabia como, mas ele sabia sobre ela.

Corvina colocou a mão na testa para se acalmar, seu


coração galopando igual à um cavalo ferido galopando para
salvar sua vida. Uma gota de suor se formou em seu pescoço,
escorregando no decote de seu suéter em uma viagem que a
deixou gelada. Sua respiração ficou agitada, escuridão
rastejando em torno de sua visão.

Tudo desabou sobre ela: os anos passados com sua mãe,


que estava perdida em sua cabeça na maior parte do tempo;
vivendo sua vida sozinha, sem amigos ou parentes; vindo para
este novo lugar; as vozes; as sombras.

Cena após cena.


Crianças dizendo que ela era uma aberração; pessoas da
cidade se virando quando a viam; sua mãe olhando-a com
olhos vazios.

Momento após momento.

Troy, o garoto que a provocou pulando do telhado, a voz


dele em sua cabeça depois, para nunca mais ser ouvida.

Visão após visão.

Vendo o castelo pela primeira vez, sentindo a esperança


de que tudo seria melhor. Vê-lo tocar naquela noite. Um
primeiro beijo no escuro, uma primeira vez na chuva.

E ele sabia.

Vad pensaria que Corvina era uma aberração contusa e


ela seria deixada sozinha de novo por outra pessoa a quem se
apegou mesmo sem perceber, que a abandonou pelo jeito que
ela era.

Tudo se tornou muito.

O preto começou a consumir.

Um gemido a deixou.

De repente, estava deitada de costas, olhando para as


vigas no teto por uma fração de segundo antes que o rosto de
olhos prateados aparecesse em sua visão, olhando-a
ferozmente. Uma grande mão estava espalmada entre seus
seios, bem onde seu coração trovejava em seu peito. Ele a
segurou, a mão direita ao lado dela.

— Acalme-se, porra. — Vad ordenou com aquela voz


profunda, colocando pressão em seu peito. — Corvina, dê-me
esses olhos. Respire fundo.

Corvina obedeceu, inspirando abundantemente, sua


cabeça se partindo de dor.

A pressão da mão dele a deixou antes que ele se movesse,


pegando o corpo dela e movendo-o mais para cima na cama
para que sua cabeça descansasse em seu travesseiro. Sua mão
veio ao peito dela, forte e quente, e só então o peso em seu peito
diminuiu ligeiramente.

Sentando-se perto de seu quadril, ele empurrou o cabelo


para trás de seu rosto com a outra mão, traçando a curva de
sua mandíbula, seu polegar acariciando seu piercing no nariz.
Era bom, tão bom que ela queria desaparecer em sua cama e
nunca mais sair.

Uma garrafa da água apareceu em sua linha de visão


enquanto ele a fazia tomar pequenos goles, antes de deixá-la
cair no travesseiro novamente, retomando suas carícias
suaves, acariciando-a de uma forma que ela nunca foi cuidada
antes.

— Forçá-la a ter essa conversa agora foi um erro. — Ele


disse, seus dedos acariciando o lado de seu rosto levemente.
— Você não está pronta.
— Você já sabe. — Ela sussurrou, mantendo os olhos em
seu pescoço.

— Apenas os fatos. — Disse a ela. — Eu quero sua


história. Mas depois.

— Como você sabe? — Engoliu em seco. — São


informações confidenciais.

Seu polegar acariciou sua bochecha. — Eu tenho meus


jeitos.

Tão enigmático.

Com isso, Vad se levantou e pegou o papel que uma vez


esteve em suas mãos do chão, deve tê-lo jogado quando a
alcançou. Colocou o papel ao lado da luminária e deu um beijo
suave em seu piercing.

— Encontrei isso no telhado.

Sem outra palavra, tirou o paletó e o jogou sobre a


cadeira, abrindo um armário perto das estantes e tirando uma
pequena bolsa, jogando-a sobre o ombro.

— Vou malhar um pouco. — Informou a ela, indo para a


porta. — Descanse, não tente sair. Conversaremos depois que
eu voltar.

Corvina observou enquanto ele acionava um interruptor


na parede, deixando apenas a luminária acesa no quarto,
empurrou a pesada porta e saiu, fechando-a atrás de si,
deixando Corvina sozinha em seu espaço, rodeada de suas
coisas e de seu cheiro.

Afundando a cabeça no travesseiro, uma onda de cansaço


a invadiu. Ela se virou para a mesa ao lado antes que seus
olhos pudessem se fechar, pegando o papel dobrado na mão.
Hesitando, perguntando-se porque estaria no telhado, o
desdobrou e leu as duas palavras escritas em letras
maiúsculas e tinta azul.

DANSE MACABRE.

Que diabos?
Corvina

Foi a mão em volta da cintura que a acordou.

Corvina piscou os olhos turvos abertos em um travesseiro


desconhecido, desorientada. Havia vigas de madeira em seu
teto. Por que havia vigas de madeira em seu teto? E um lustre?
Desde quando elas têm um lustre no quarto? E por que a luz
da manhã vinha da esquerda do quarto em vez da direita?

Enquanto seu cérebro tentava processar os novos


detalhes, ela se deu conta do peso sólido e quente contra o seu
lado, um braço musculoso ao redor de seu estômago
mantendo-a presa à cama. Corvina olhou para o braço com fios
de músculos e um punhado de cabelos escuros. Era um
antebraço que reconheceu, tendo fantasiado sobre isso muitas
vezes durante a aula, quando ele se inclinava sobre a mesa
com as mangas arregaçadas.

Com o coração trovejando, ela virou o pescoço para o


lado, vendo o rosto atraente do homem que, de alguma forma,
se enterrou sob sua pele. Vad estava tenso, mesmo durante o
sono, vestindo calça de moletom preta e nada mais, o cabelo
despenteado pelo sono. Corvina traçou seu rosto com os olhos,
aqueles lábios carnudos e os olhos poderosos escondidos atrás
de suas pálpebras, e olhou pela janela para o céu cinza que
marcava o início da manhã.

Ela dormiu em sua cama a noite inteira.

Nem se lembrava de quando caiu no sono exausto, mas


ela não dormiu tão bem quanto essa noite durante todo o seu
tempo no castelo. Não fazia ideia de quando ele entrou e
decidiu dormir ao seu lado, sem entender porque dormiria ao
lado dela, principalmente se sabia sobre ela. Corvina sentiu
um nó na garganta.

O contato humano era uma coisa tão preciosa. Só as


pessoas que tinham fome de toque sabiam o valor disso,
sabiam nunca o tomar como garantido, especialmente algo tão
íntimo como dormir ao lado de alguém. Como alguém que
sempre dormia sozinha, mesmo quando morava com a mãe,
Corvina não percebeu o quanto estava faminta pelo contato
prolongado que a fazia se sentir tão pertencente. Ela sempre
quis pertencer, ser amada, ser querida por alguém, apesar de
todas as bagagens que trouxe. O grau de desejo absoluto fez
algo oco dentro de seu peito corroer e doer. Queria ficar bem
ali, deixando-o segurá-la a salvo.

Com as mãos trêmulas, os olhos ardendo, ela olhou para


ele, silenciosamente agradecendo-lhe por lhe dar esta outra
bela primeira vez, outra memória que manteria a salvo em um
canto de seu coração que permaneceria intocado por sua
mente.

Mas ela sabia que não poderia ficar e aproveitar o


momento o tanto quanto quisesse.

Por um lado, precisava ficar longe deste homem que, de


alguma forma, descobriu mais sobre ela do que ela esperava
revelar. Não entendia isso, como um homem que lecionava
meio período e ainda estudava poderia ter acessado registros
confidenciais sobre ela ou sua mãe. Quem diabos era ele?

Em segundo lugar, precisava voltar e ver o que estava


acontecendo na escola depois de Troy. Corvina fechou os olhos,
seu nariz se contraiu ao pensar em nunca mais ver Troy,
sentiu um aperto na garganta. Mas para Jade seria pior, e ela
precisava estar lá para sua amiga, precisava voltar e encarar.

Com esse pensamento em mente, tirando com cuidado o


braço de Vad ao redor dela, Corvina deslizou para fora da
cama, colocando o travesseiro em que estava dormindo
debaixo do braço dele. Em seu sono, sua mão agarrou o
travesseiro e puxou-o para perto, e Corvina hesitou, não
querendo mais do que voltar lá e sentir esse abraço, bem desse
jeito, e se envolver com seu cheiro e seu calor.

Deus, como o queria.

E isso era exatamente a razão pela qual ela precisava ir


embora. Luxúria era uma coisa, mas o apego emocional só
acabaria quebrando-a, especialmente para um homem que
disse claramente que não se apegaria. Ela já estava muito
envolvida, se seu pânico na noite anterior fosse alguma
indicação.

Endireitando as roupas e puxando a bolsa sobre o ombro,


Corvina cruzou o cômodo até a porta enquanto desfazia a
trança bagunçada, prendia o cabelo em um rabo de cavalo e
deu uma última olhada ao redor do quarto, guardando-o na
memória.

Então, tão silenciosamente quanto pôde, escapou do


quarto e do prédio felizmente silencioso, correndo para a
manhã fria e nublada. Ficou surpresa por não ter visto um
único professor no prédio, não quando entrou sorrateiramente
e não agora quando escapava. Pode ser que estivessem
ocupados no castelo depois da tragédia de Troy.

Com o cabelo chicoteando atrás dela, subiu as escadas


enevoadas da montanha que levava ao terreno do castelo
principal, emergindo no topo do caminho para encontrar
ninguém menos que Kaylin Cross.

A mulher mais velha, vestida com um traje de corrida


neon, bufou de surpresa ao vê-la, antes de franzir a testa de
repente. — O que está fazendo aqui, Srta. Clemm?

Corvina congelou por um segundo, sua mente ficando em


branco. — Hum, oi Kaylin.

Kaylin franziu a testa ainda mais. — Você estava na Ala


dos Professores?
Corvina negou veementemente. — Não, só fui dar um
passeio. Eu precisava limpar minha cabeça depois de ontem.

A mulher mais velha a estudou por um minuto, antes de


assentir. — Só para você saber, qualquer professor e aluno que
se relacione fora da sala de aula é desaprovado em Verenmore,
a menos que haja circunstâncias especiais. Você já teve uma
dessas. Como seu ponto de contato, recomendo fortemente não
ter outra.

Corvina agarrou sua saia. — Acabei de dar uma


caminhada.

Kaylin começou a seguir seu caminho. — Acho isso


improvável, Corvina. Especialmente considerando o estado
adormecida de suas roupas distintas, as mesmas que usava
ontem. Cuidado com seus passos. — Deu-lhe um olhar
significativo e saiu.

Porcaria.

Correndo de volta para sua torre após o encontro, Corvina


viu alguns alunos já do lado de fora. Felizmente, nenhum deles
prestou atenção nela quando entrou e subiu para o quarto.
Estava vazio, Jade provavelmente ainda na Ala Médica.

Corvina jogou a bolsa para o lado e desabou na cama,


olhando para o teto e imaginando o que faria. Se queria ficar
na universidade, não podia arriscar ficar com Vad novamente
fora das aulas, não importando o quão tentador fosse. Além
disso, não poderia estar com ele novamente, não depois de
saber o que ele descobriu por conta própria. Mas como fez isso?
O Instituto lhe garantiu que todos os registros dos pacientes
eram confidenciais, nem mesmo os compartilharam em sua
inscrição na universidade. Então, quem era esse homem, esse
professor de literatura de meio período de 28 anos que os
conseguiu? Ela não entendeu.

Mas precisava falar com o Dr. Detta. Em algum lugar


deste campus, deveria existir um telefone para emergências, e
precisava encontrá-lo. O fato de que Troy conhecia um detalhe
como aquele enviou uma pontada em seu coração.

Afastando-se da tristeza para não ficar na cama o dia


todo, Corvina pegou a toalha e os produtos de higiene pessoal,
pronta para tomar banho antes que o banheiro fosse ocupado.
Abrindo o zíper das botas e tirando a roupa, se despiu,
enrolou-se na grande toalha e saiu do quarto para os chuveiros
coletivos.

Havia oito deles e uma grande área comum com as pias


em azulejos branco e bege que combinavam com as paredes.
Ainda era muito cedo, então os chuveiros estavam todos
vazios, apenas uma luz noturna acesa no ambiente.

Corvina acendeu as luzes principais do quadro de


distribuição na lateral da porta e se mudou para o box de
chuveiro que ela sempre usava, um no final. A canalização
dentro dele era velha e os canos gemiam quando ela ligava a
torneira. Um fluxo constante em diagonal saía do jato de água,
alguns centímetros acima de sua cabeça.
Trancando a porta, pendurou a toalha e testou a água,
satisfeita. A razão pela qual gostava desta cabine era porque a
água nunca ficava muito quente ou muito fria, saía
automaticamente na temperatura certa. Em pé sob a ducha,
Corvina inclinou a cabeça para trás e deixou a água limpá-la,
acalmá-la, reabastecê-la, lavando todo o estresse pelo ralo.

Com o cabelo molhado chegando à cintura, pegou o


xampu de ervas da cesta na parede quando as luzes apagaram
de repente. O som de vidro quebrando ecoou no amplo espaço.

Corvina fez uma pausa, piscando algumas vezes para


deixar os olhos se acostumarem com a escuridão, e desligou o
chuveiro. Enrolando a toalha em volta de si novamente, abriu
a porta ligeiramente e olhou para a área. Apenas um pouco de
luz era filtrada pela única janela de ventilação em arco ao lado.

Ela cruzou o espaço comum até o quadro de distribuição,


surpresa ao ver que todos os interruptores estavam ligados.
Deve ser algum tipo de blecaute. Seus olhos foram para os
espelhos acima da pia, existiam quatro deles, cada um largo
acima de duas pias, em uma moldura metálica antiga
ornamentada que parecia extra sofisticada para estar em um
banheiro comunitário.

Um dos espelhos estava quebrado e os pedaços


estilhaçados ao redor da pia e no chão embaixo dela. Curiosa
para investigar a causa, parou na frente das pias e olhou para
seu reflexo no espelho lindamente emoldurado ao lado do
espelho quebrado.
Cabelo negro como breu cercava um rosto incomum, com
pele naturalmente beijada pelo sol, maçãs do rosto salientes,
boca larga, um anel de prata brilhando em um nariz reto e
curto, pescoço longo, ombros pequenos e clavículas
proeminentes acima de um par amplo de seios. E olhos
inclinados, um tom de roxo tão estranho para outras pessoas
que nunca o viram antes. Eram os olhos de sua mãe e os
cabelos de seu pai, pelo que sua mãe lhe dissera uma vez.

— O cabelo mais escuro do que o preto como penas de um


Corvo. — Sua mãe disse, esclarecendo porque lhe deu o nome
de Corvina.

Sacudindo a cabeça para si mesma, Corvina estremeceu


enquanto via algo no espelho. Seus olhos no reflexo lentamente
se tornaram pretos, os brancos se dissolvendo nos buracos
negros que dilatavam de suas pupilas e rastejavam até as
bordas. O coração latejava, ela observava, seu aperto na toalha
estreitando à medida que seu reflexo se aproximava do espelho
com aqueles olhos aterrorizantes, uma lágrima caindo pelo
rosto do reflexo.

— Eu sei que você pode me ouvir. — Falou a voz feminina


com o cheiro podre.

Corvina deu um passo para trás, tremendo, incapaz de


acreditar no que estava vendo. Não era real. Era seu cérebro.
Mas mesmo que fosse seu cérebro, a ilusão era aterrorizante.

O reflexo se aproximou do espelho e, de repente, a coisa


toda rachou como se algo tivesse se chocado com ele do outro
lado, o espelho se projetando na forma das mãos de alguém
tentando sair.

Um grito deixou sua garganta quando caiu para trás, se


arrastando para longe do espelho, suas mãos cortando em
alguns cacos de vidro caídos no chão.

— Corvina! — Um grito alto vindo da porta fez seus olhos


voarem para encontrar Roy e outra garota paradas ali, olhando
para ela com preocupação. Elas acenderam as luzes e Corvina
ergueu os olhos surpresa, o coração disparado à um milhão de
quilômetros por minuto, o suor encharcando seu corpo já
molhado.

— Que diabos? — Roy entrou no banheiro, os olhos dela


na pia. — O que está acontecendo? Você quebrou o espelho?

Corvina sacudiu a cabeça freneticamente, erguendo o


olhar para o espelho que se espatifou com seu reflexo.

Estava intacto.

Tremendo toda, de alguma forma conseguiu se levantar,


seus joelhos travando no lugar quando viu que o único espelho
quebrado era o primeiro. O que aconteceu com o segundo? Ela
imaginou todo o episódio? Ela tinha certeza de que os
interruptores de luz foram ligados sem eletricidade.

Precisava sair dali.

— Ei, ei. — Roy estalou os dedos na frente de seu rosto.


— O que aconteceu? Alguém fez isso?
Corvina engoliu em seco. — Não sei. Eu estava tomando
banho quando as luzes se apagaram.

— Talvez tenha sido Alissa. — Brincou a garota com Roy.

— Cale a boca. — Roy olhou para ela, voltando para uma


Corvina pálida. — Pegue suas coisas. Vamos esperar aqui.

Isso foi legal da parte dela, realmente legal.

Segurando a toalha mais apertada em torno de si, ela


voltou para pegar sua cesta da cabine e se juntou às garotas
novamente, saindo do banheiro com elas. Foi em direção ao
seu quarto, sua mente confusa com todo o incidente e sentiu
Roy acompanhá-la até as escadas.

— Roy. — Corvina começou, mordendo o lábio enquanto


a outra garota fazia uma pausa. — O que ela quis dizer sobre
Alissa?

Roy revirou os olhos. — Você conhece o boato. Dê a um


grupo de garotos, um castelo e uma morte e gostam de pensar
que tudo é assombrado.

— Cara. — A outra garota respondeu. — Esta torre é


totalmente assombrada. Juro que já senti alguém atrás de mim
tantas vezes que tenho uma cãibra permanente no pescoço só
de olhar por cima do ombro.

Roy balançou a cabeça. — Tanto faz. Você está se


sentindo bem agora? — Voltou-se para Corvina.
— Obrigada. — Corvina apreciou sua intervenção mais do
que poderia dizer.

Roy e sua amiga acenaram com a cabeça quando pararam


em sua porta.

— Há alguma notícia sobre Troy? — Perguntou às


meninas, girando a maçaneta.

— Nada ainda. — Informou Roy. — É realmente uma


tragédia. Ele era um cara legal.

Sim, ele era.

— Mas nunca pensei que fosse suicida. — Mencionou sua


amiga. — Sempre foi tão tranquilo.

Roy olhou para a escada. — Nós nunca podemos


realmente dizer, podemos? Cada um lida com sua dor de
maneiras diferentes. Ele poderia estar sofrendo e ninguém
saberiar.

— Pobre Jade, no entanto. — A outra garota murmurou.


— Deve ser tão duro para ela.

Roy olhou para Corvina. — Fique de olho nela, só por


segurança.

Corvina assentiu, já tendo planejado fazê-lo. Roy se virou


para sair e de repente um pensamento a atingiu.

— Ei, Roy. — Chamou Corvina quando as garotas


estavam quase na escada. — Existe algum lugar no campus
onde eu possa conseguir um telefone? Para uma chamada
urgente?

Roy trocou um olhar com a amiga antes de se virar para


ela. — Quero dizer, muitos estudantes têm telefones celulares
aqui, mas o sinal está morto de nove em cada dez. Há um
telefone fixo na Ala Administrativa que usam para fins oficiais,
mas os alunos não podem usá-lo sem a permissão do Conselho
ou do corpo docente.

Corvina agradeceu a informação.

— Basta ter cuidado por aqui, olhos esquisitos. — Disse


Roy baixinho. — Este castelo é... eu não acredito que seja
assombrado, mas é alguma coisa.

Corvina acenou com a cabeça e entrou em seu quarto


para encontrar Jade sentada no parapeito da janela, o cabelo
claro pendurado frouxamente na cabeça enquanto olhava para
fora, perdida em seus pensamentos.

— Ei. — Corvina a cumprimentou e Jade pulou, seus


olhos verdes voando para ela.

— Desculpe, não queria te assustar. — Corvina se


desculpou, indo até o armário para encontrar roupas. — Você
está bem?

— Eu não sei. — Jade respondeu, sua voz desanimada.


— Parece surreal.
Corvina entendeu isso. — Estou aqui se você precisar
conversar, ok?

— Agora não. — Jade falou para a janela, observando a


chuva no vidro, a gárgula na parede externa cuspindo a água.
Triste por ver sua amiga normalmente fervilhante, tão
entorpecida, Corvina permaneceu quieta enquanto se
arrastava por seu armário, com a intenção de se vestir depois
do incidente no banheiro.

Todas as suas saias de lã estavam na pilha suja, e


Corvina suspirou. O dia da lavanderia havia sido ontem, e com
tudo o que aconteceu, parecia tão banal. Exalando, mexeu e
remexeu no armário, percebendo que sua única opção era uma
saia xadrez vermelha e preta que comprou por capricho uma
vez. Era curta para o inverno. Droga. Começou a vasculhar o
interior em busca de meias para manter as pernas aquecidas.

Finalmente encontrando uma, se virou para o espelho em


seu quarto, estremecendo em seu reflexo.

— O que há de errado? — Jade perguntou, pegando seu


estremecimento.

— Nada. — Assegurou Corvina. — Apenas me assustei.


— Sim, de jeito nenhum contaria à Jade sobre o incidente.

— Este castelo inteiro é assustador pra caralho. — Jade


cuspiu. — É como se uma vez que chegamos aqui, isso nos
mudasse.
— O que está falando? — Corvina perguntou, observando
sua companheira de quarto no espelho enquanto se vestia
rapidamente.

— Eu nem sei. — Disse sua amiga, algo passando por seu


rosto. — Troy era um dos bons, você sabe. É tão injusto.

Com a mandíbula apertada, Corvina foi até a amiga,


dando-lhe um abraço apertado. — Sinto muito por ele, Jade.

— Eu também. — Jade se afastou, e Corvina entendeu


sua necessidade de espaço. Ela deu um passo para trás.

— Ele tinha família? — Perguntou, querendo saber sobre


o que a voz dele disse a ela.

Jade acenou com a cabeça. — Sim. Um irmão mais velho.


A médica me disse que ele viria para levar o corpo. Ainda bem.
Ele é um investigador. Descobrirá o que aconteceu.

‘Diga ao meu irmão.’ Foi o que disse a voz de Troy, um


irmão que era investigador? Ela nem sabia sobre seu irmão. E
o que deveria dizer a ele? Pelo o que descobriu, esses incidentes
suspeitos em Verenmore nunca foram realmente investigados
por qualquer motivo. Se alguém com os recursos e interesses
pessoais adquiridos pudesse descobrir até mesmo um pingo de
segredos escondidos nessas paredes, isso poderia dar tantas
respostas para muitas pessoas.

Corvina tirou um bálsamo curativo de uma das gavetas,


colocando-o sobre os pequenos cortes na palma da mão.
— Você está diferente. — Jade piscou para Corvina,
olhando de sua cabeça aos pés. — Menos bruxa boho9 e mais
vadia chique.

Corvina puxou as mangas, ligeiramente consciente. — Eu


preciso lavar roupa.

Jade deu a ela um leve sorriso. — É tão estranho como as


coisas cotidianas nunca param, mesmo quando parece que a
vida sim.

— Acho que vão cancelar as aulas hoje. — Refletiu


Corvina.

Jade bufou. — Sim, fizeram isso por Alissa também. O


dia todo. Apenas saia e faça o que quiser, quero ficar sozinha
hoje.

— Tem certeza? Eu não me importo em ficar com você.

— Não. — Jade acenou com a mão. — Eu realmente quero


ficar sozinha agora.

Corvina acenou com a cabeça, entendendo o que ela


queria dizer, e pegou a bolsa e os livros de que precisava,
parando na soleira da sala. — Você acha que a torre é
assombrada, Jade?

Jade virou o pescoço para olhar para ela, seus olhos se


aguçaram. — Por que pergunta?

9Boho é derivada da expressão “Bohemian Chic” e está intimamente relacionada à estética boêmia
contemporânea.
— Apenas algo que ouvi outro dia.

— Primeiro Alissa, agora Troy. — Sua amiga estremeceu.


— Estou com medo de que um dia Verenmore tenha mais
fantasmas do que pessoas. Só espero que não acabemos como
um deles.
Corvina

O ar ao redor de Verenmore estava mais sombrio naquele


dia. O tempo estava úmido, uma fina camada de chuva caindo
consistentemente do céu, as nuvens cinzentas por cima e
rugindo como bestas famintas farejando o odor da presa, o
vento cortando como facas sobre a pele. A energia das pessoas
estava abalada, o segundo suicídio semelhante ocorrido em
alguns meses derrubando os ânimos e levantando suspeitas.
A fábrica de rumores estava funcionando sem parar, desde
sussurros de fantasmas e monstros até teorias de magia negra
e colapsos mentais.

Corvina passou o dia se arrastando sem querer em tais


conversas, não sabendo mais no que acreditar, especialmente
com seu próprio incidente no banheiro. O cara de óculos da
Administração praticamente repetiu o que Roy falou, dizendo-
lhe que eles realmente tinham um telefone fixo, mas que ela
precisava de uma autorização especial de um dos membros da
Diretoria ou do corpo docente para fazer sua ligação.

Ela precisava ligar para o Dr. Detta urgentemente, mas


não sabia de quem se aproximar, exceto do Vad. E não queria
abordá-lo, não sabendo que ele tentaria ter a conversa que ela
tanto temia. Como as aulas haviam sido canceladas e a
biblioteca estava fechada, a maioria dos alunos estava ou em
seus quartos ou no Salão Principal.

E Corvina precisava de um pouco de silêncio.

A floresta estava fora de questão, tanto por causa do


tempo quanto pelo incidente do espelho. Ela não tinha
vergonha de admitir que estava muito assustada, que leves
sombras estavam fazendo seu coração triplicar, que o
pensamento de uma voz desconhecida invadindo sua
consciência novamente e trazendo odores terríveis com ela a
apavorava. Encolhia-se a cada reflexo espelhado nas janelas
que passava e não sabia aonde ir para ter um pouco de paz de
espírito.

Deixando Erica, Jax e Ethan sentados no refeitório,


Corvina pediu licença e decidiu procurar outro lugar.

Quando saiu do Salão Principal em direção à saída, uma


porta de madeira aberta com dobradiças de ferro à direita
chamou sua atenção.

A masmorra.

Eles já haviam aberto?

Curiosa e esperançosa, Corvina empurrou a alça de sua


bolsa e entrou pela porta, chegando a uma larga escadaria de
pedra que descia para uma espécie de masmorra igual à
biblioteca. Silenciosamente, ela desceu, a luz natural
escurecendo, substituída por um brilho amarelo apagado.

Uma masmorra – muito menor que a biblioteca, mas


ainda muito, muito espaçosa – surgiu.

A luz fraca vinha do pequeno lustre pendurado no teto


baixo, apoiado por dois pilares de pedra sólida. Havia pinturas
do castelo na parede à sua esquerda e uma pequena lareira no
meio da parede oposta a ela. Uma área de estar foi posicionada
em frente à lareira em sofás macios preto e vermelho e pufes
com as mesmas cabeças de leão das que tinham nos braços da
biblioteca, uma mesa de madeira preta bem no centro dela.

Mas foi para sua direita que seus olhos se desviaram.

Um piano solitário estava encostado na parede com um


banco de madeira na frente dele, o mesmo piano que ela vira
em sua torre. Ele foi movido. É por isso que não conseguia
mais ouvir a música.

Corvina foi em sua direção. Ela nunca viu um de verdade


antes, um que fosse funcional de qualquer maneira, e estava
curiosa para explorá-lo.

O piano era preto, mas velho. Imaginou que deveria ter


sido um belo preto polido uma vez, mas o tempo o desgastou
um pouco. A capa estava abaixada, fazendo com que parecesse
plana, já que não era tocado no momento e lembrou-se que foi
levantada em seu suporte quando Vad o tocou naquela
primeira noite. As teclas, porém, brilhavam à luz do lustre.
Preto e branco, tão silencioso.

Corvina estendeu o dedo, acariciando as teclas, sentindo


sua textura, estendendo a mão sobre o tampo de madeira,
sentindo as diferentes sensações que criava na palma.
Mordendo o lábio, a tentação vencendo-a, pressionou uma
tecla branca e o som melódico abrupto ecoou na masmorra,
deixando o silêncio depois disso ainda mais baixo. Puxando a
mão, sentindo como se invadisse algo pessoal, virou-se e se
dirigiu para a área de estar.

Corvina se perguntou quando ele mudou o piano para lá,


se fez isso para manter distância dela. Também se perguntou
como ele poderia ter feito a administração abrir a masmorra
quando foi mantida fechada por anos. Ela veio aqui para evitá-
lo, tinha a intenção de evitá-lo, mas ver o piano a fez se
perguntar se deveria. Era este o universo dizendo-lhe para não
fugir dele? Ela precisava de um sinal do universo, apenas mais
uma resposta mostrando-lhe alguma direção.

Com os pensamentos enlouquecidos em sua cabeça,


afundou-se no luxuoso assento estofado macio, tirando as
botas e enrolando as pernas ao lado do corpo. A masmorra
estava fria, mas ela estava grata por estar vazia.

Feliz o suficiente por estar sozinha, se acomodou em um


canto do sofá. Finalmente acomodada, trouxe seu antigo
exemplar do Drácula da biblioteca e começou a ler sobre um
diabo em um antigo castelo em uma colina enquanto estava
sentada em um.
A música a despertou.

Corvina sentou-se abruptamente, o livro em seu peito


caindo no chão com o movimento, uma cãibra no pescoço a fez
gemer.

Virando a cabeça para o lado de onde vinha a música e


sentiu a respiração presa na garganta.

A maneira como ela o viu na primeira vez no escuro a


cumprimentava na luz. Seus olhos estavam fechados, seu
rosto inclinado para frente, sua coluna vertebral curvada
enquanto tocava não apenas com os dedos, mas com todo o
seu ser.

Vad Deverell.

O diabo de olhos prateados de Verenmore.

O Deus das trevas que brincava como se fosse uma


maldição e uma bênção.

Seu amante multifacetado e enigmático que conhecia os


segredos de sua alma.

Ele a encontrou.
De alguma forma, depois que ela saiu de seu caminho
para evitá-lo, ele acabou exatamente no mesmo ambiente.
Seus caminhos continuaram se entrelaçando, aproximando-os
um do outro. Se Vad estar ali naquele momento não era um
sinal do universo logo depois que pediu um óbvio, Corvina não
sabia mais o que era.

Pegando seu livro do chão, marcou a página em que


estava quando adormeceu e colocou-o em sua bolsa, virando-
se totalmente para vê-lo tocar.

Era impressionante, uma experiência ver aquele homem


se perder na música que seus dedos criavam sem nem mesmo
olhar. Ele conhecia aqueles pretos e brancos como a palma da
sua mão e vivia entre eles enquanto tocava, a melodia menos
assustadora, menos aflita e mais emocionante, mais
misteriosa desta vez. A visão, o som e a sensação fizeram algo
com ela.

O fato de que tocou na presença dela, o fato de que a levou


para o seu espaço, dormiu com ela, arriscou algo quando disse
que não o faria, disse muito mais do que ele jamais poderia.

Vad estava apegado.

Exatamente como Corvina estava.

E Corvina não sabia para onde ir a partir daí.

— Você está pensando muito. — Sua voz profunda


carregou as palavras para ela, mesmo quando seus dedos
nunca pararam e ele não abriu os olhos.
— Você disse que não faríamos isso de novo. — Lembrou-
o com a mesma calma, apoiando o queixo no braço da cadeira.

— Isso foi muito antes de prová-la, muito antes de


acordar sozinho na minha cama, depois do melhor sono que
tive em anos.

Seu coração bateu forte com as palavras dele, as porções


ressecadas de sua alma absorvendo-as como uma chuva
abençoada depois de uma seca.

A melodia cresceu antes de cair lentamente, tornando-se


algo terno, suave, silencioso, antes de desaparecer
completamente com uma última nota. O silêncio depois foi
alto.

— Você toca tão lindamente. — Meditou em voz alta, em


um ligeiro atordoamento. — Até seus demônios devem cantar.

Seus olhos se abriram com isso. — E o que os seus


demônios fazem, little crow?

Ela desviou o olhar. — Gritam.

— Venha aqui. — Ordenou, e ela olhou para as escadas.

— E se alguém descer? Já ouvi muitas vezes que


professores e alunos não podem se relacionar fora da sala de
aula.

— Eu acho que estamos além do ponto de nos


relacionarmos agora, não acha? — Falou ironicamente,
pressionando o dedo em outra tecla. — Venha aqui.
Com as pernas ligeiramente trêmulas, ela se levantou e
andou até ele. No momento em que chegou ao seu lado, ele a
pegou e a colocou no piano, sua bunda na beirada e os pés no
banco de cada lado de suas coxas. Com o coração acelerado,
olhou para baixo, para seus olhos prateados, observando seu
rosto masculino e aquela mecha branca.

— Fale-me sobre o Instituto Morning Star. — Ele ordenou


casualmente, como se apenas falar o próprio nome não fizesse
seu estômago embrulhar.

— Eu... eu não sei por onde começar. — Gaguejou,


percebendo que estava novamente presa com ele, embora
estivesse em uma posição elevada.

— O começo. — Falou para ela. — Quero saber o seu lado


da história.

— E você... não vai usar isso contra mim? — Ela engoliu


em seco, expressando um de seus medos mais profundos.

Seus olhos brilharam. — Não.

Corvina respirou fundo, olhando para as unhas. — Pode


simplesmente... não olhar para mim enquanto falo? Isso me
deixa mais nervosa.

Vad assentiu, colocando as mãos em suas coxas e


espalhando-as ainda mais, seus dedos brincando em seus
joelhos. — Olharei para outra coisa. E, se você for boa, a farei
gozar.
Com uma respiração nervosa deixando seus lábios,
Corvina olhou para o teto. — Não é estranho para esse tipo de
conversa?

Seus dedos se moveram para a ponta de suas meias. —


Isso impedirá sua mente de hiperventilar. Agora, fale comigo.

Corvina mordeu o lábio enquanto os dedos dele traçavam


a ponta de suas meias, para frente e para trás, e para frente e
para trás, e cedeu à demanda dele. Ela queria contar a ele,
confiar nele, e este parecia ser o primeiro passo. Só esperava
que não a desapontasse.

— Minha mãe é esquizofrênica. — Disse as palavras em


voz alta enquanto os dedos dele acariciavam suavemente a pele
de suas coxas. Parecia bizarro falar sobre isso com ele
enquanto a tocava com tal intenção sexual, mas trabalhava
para acalmá-la e reorientar seu cérebro.

— Meu pai também. — Continuou, ligeiramente sem


fôlego enquanto seus dedos acariciavam sua pele onde as
meias terminavam. — Nunca foi diagnosticado, mas durante
uma das sessões da minha mãe, ela admitiu que meu pai se
matou porque as vozes lhe disseram que se ele não morresse,
nós morreríamos. De seu próprio modo complicado, estava nos
protegendo.

— E você acha que herdou isso deles? — Suas palavras


vieram contra a parte interna de sua coxa. Isso era tão, tão
estranho, mas Deus, fazia-a se sentir menos estressada com a
conversa.
— As chances com um dos pais são altas o suficiente,
com dois é astronômico. — Informou enquanto seus dentes
puxavam a meia para baixo. — Minha mãe ouve vozes e vê
coisas há anos. Aparentemente, piorou depois que nasci. Ela
nunca me machucou, mas nem sempre estava presente.
Temeu por muito tempo que se eu interagisse com qualquer
pessoa, exceto ela, eles me levariam embora.

— Então te manteve com ela, te ensinou em casa, nunca


te deixou sair. — Ele afirmou, e ela se deitou no piano,
mantendo seu olhar direto para cima.

— Como você sabe de tudo isso? Mas, sim. — Admitiu em


um sussurro. — Minha mãe me amava tanto, mas não sabia
como me amar direito. Não foi culpa dela. Ela nunca teve
qualquer ajuda.

— Você conseguiu a ajuda para ela?

— Já não sabe disso?

— Eu te disse, eu quero ouvir de você.

Corvina acenou com a cabeça, seus olhos lacrimejando


ao se lembrar do dia. — Já percebia que algo não estava certo
quando eu era adolescente. Ela me deixava ir ao correio da
cidade uma vez por semana para enviar pedidos e foi aí que
pesquisei mais e me deparei com o Instituto. Debati durante
meses se deveria ou não. Eu ficaria sozinha se a levassem
embora, sabe? — Sua voz falhou nas últimas palavras.
Vad deu um beijo suave em sua pele. — Mas você fez isso
de qualquer maneira, não foi, sua menina linda e corajosa?

Algo dentro dela floresceu sob suas palavras. Ela sentiu


uma lágrima solitária escorrendo pelo canto do olho. — Foi no
dia em que fiz dezoito anos. Liguei para eles e vieram no dia
seguinte para levá-la embora. Ela estava com tanta raiva. —
Sussurrou Corvina.

— Ela ainda está com raiva?

Corvina soltou uma risada sem humor. — Às vezes eu


gostaria que estivesse. Ela mal se lembra de mim na maioria
dos dias agora. Sua demência piorou. Os remédios que lhe
deram entorpeceram suas memórias. É um efeito colateral.

— E você, little crow? — Perguntou contra sua carne. —


E sobre você?

Ela engoliu em seco, sabendo que sua admissão poderia


mudar as coisas. — Eu também ouço vozes. Sempre ouvi, uma
voz em particular. Ironicamente, foi ele quem me contou que
minha mãe precisava de ajuda.

— Ele? — Seu tom era curioso.

— Mo. — Respondeu.

— Ah. — Ele riu. — Não sei se estou aliviado ou não


sabendo que era uma voz e não um homem na sua cabeça
enquanto eu transava com você.
Seus olhos foram para o lindo lustre de metal e vidro
assim que os dedos dele puxaram sua calcinha de lado. —
Então, você ouve vozes.

— Eu costumava ouvir apenas Mo. — Ela corrigiu. —


Talvez uma ou duas outras raramente. Internei-me no
Instituto quando levaram mamãe para fazer o teste. Só para
ficar ciente, sabe?

— E?

— E negativo. — Informou-o quando seu dedo começou a


circular seus lábios inferiores, fazendo-a apertar. — Os
médicos me disseram que eu não tinha nenhum sintoma e
basicamente descartaram Mo era como meu subconsciente
lidava com um pai ausente em uma casa solitária. Mas eu era
muito jovem para mostrar os sinais corretamente, então me
disseram para ficar atenta aos sinais.

— Houve outros sinais? — Ele perguntou, suas palavras


quentes contra seu núcleo.

Corvina levou um segundo inteiro para se concentrar em


suas palavras e conter um estremecimento de corpo inteiro. —
Desde que vim para Verenmore, as coisas pioraram. Comecei
a ouvir mais vozes, ver coisas. — Disse a ele, o medo de sua
memória com o espelho e o prazer de sua boca no presente
fodendo com sua mente. — Isso nunca aconteceu antes.

— Acha que é a sua mente ou este lugar? — Expressou a


única pergunta com a qual ela lutou por meses.
— Eu realmente não sei. — Murmurou, suas mãos
encontrando a borda do piano e segurando firme quando a
língua dele caiu sobre ela. — Há uma parte de mim que quer
acreditar que é Verenmore, que as coisas que tenho vivenciado
são algo externo, mas não sei como isso pode melhorar, porque
ainda sou eu que ouço vozes e vejo coisas. Seja interno ou
externo, significa que não estou bem.

— Poderia muito bem ser esse lugar. — Falou contra sua


carne. — Existem muitas coisas neste mundo sem qualquer
explicação racional, coisas que acontecem sem lógica. Eu não
descartaria isso ainda.

Seus seios arfaram quando Vad passou a língua sobre ela


novamente com a última palavra. Uma de suas mãos se
enredou em seu cabelo enquanto ele puxava seus quadris para
fora da beirada, inclinando-o no ar e angulando como queria,
seu corpo era dele para direcionar no momento em que
desejasse. Ele não fez mais perguntas, sua língua
mergulhando profundamente dentro dela antes de voltar,
encontrando seu clitóris, circulando-o com uma habilidade
que ela sabia ser talentosa e aperfeiçoada com o tempo.

Corvina se agarrou ao cabelo dele, torcendo-o em seus


dedos enquanto seus quadris se contorciam por conta própria,
um dos dedos dele a penetrando enquanto sua boca causava
estragos em sua protuberância. Seus mamilos endureceram
em pontas agudas em seus seios, irrestritos sob seu suéter,
sua boca se abriu em um suspiro quando enrolou o dedo
dentro dela, encontrando um ponto tão profundo que enviou
ondas de intenso prazer rolando por seu corpo, enegrecendo
sua mente, o coração trovejando contra suas costelas a cada
batida.

— Oh, Deus, oh, Deus, oh, Deus. — Ela cantarolou


enquanto seu corpo tremia, seus calcanhares cavando no ar,
tentando encontrar algum tipo de apoio, algum tipo de âncora
para não se perder. Ele a segurou firme, deixando-a cavalgar
onda após onda de prazer com uma devassidão que ela se
julgava incapaz até aquele momento, a boca diminuindo
lentamente a intensidade de seu ataque sensual, levando-a
para baixo no piano.

Corvina piscou para o teto sem pensar, as pernas moles


e os braços apoiados no piano, o peito arfando em grandes
goles de ar. Levou um momento para perceber que ele
arrumava sua calcinha de volta no lugar, puxando as meias
para cima e a saia para baixo. Ela se apoiou nos cotovelos,
observando-o enquanto lentamente se levantava e se inclinava
sobre ela, as mãos espalmadas no piano ao seu lado, o cabelo
bagunçado de seus dedos, os lábios brilhando com seu
orgasmo.

Sentiu-se arrepiada ao vê-lo tão desfeito por ela, ver a


fachada fria se abrir e revelar o homem indomado lá dentro.

Vad inclinou a boca sobre a dela, dando-lhe um beijo tão


profundo que fez seu interior apertar novamente, o sabor de si
mesma em seus lábios, algo tão proibido que enviou um
delicioso arrepio sobre sua pele. A mão direita segurou seu
seio, menos com intenção e mais com propriedade, enquanto
ele se afastava ligeiramente, seu olhar prateado fundido sobre
o dela.

— Isso está acontecendo, little crow. — Sussurrou


suavemente contra seus lábios, beliscando seu mamilo entre
os dedos. — Cansei de negar isso. Você me assombrou por
tempo suficiente e não me importo se está assombrada por
forças além da sua compreensão ou se está tudo na sua
cabeça, você é minha agora. Enquanto essa loucura continuar.

Sua mandíbula tremeu quando o olhou com olhos


ardentes. — Enquanto essa loucura continuar.

— Ótimo. — Ele a deu outro beijo. — Agora vá jantar


antes que seus amigos pensem que você está desaparecida.
Marcarei uma ligação para o seu médico amanhã.

Corvina se sentou, seus olhos indo para a protuberância


proeminente sob o zíper. Ele balançou sua cabeça. — Não
temos tempo. Vai.

Assentindo, uma súbita explosão de timidez a


dominando, ela olhou para o chão e saltou do piano, correndo
para sua bolsa e o livro, endireitando-se o máximo que pôde.
Sentiu a mão dele agarrar sua trança, envolvendo-a em torno
de seu punho enquanto virava sua cabeça, mergulhando para
um beijo forte.

— Não pense em mim com aquele garoto ao seu lado. —


Ordenou, seus olhos ferozes. — O apelo disso. — Torceu um
mamilo entre os dedos. — É só para mim. Odiaria machucá-
lo.

Corvina inclinou a cabeça para trás, surpresa com o


perigo que emanava dele. — Você não faria isso, certo?
Machucar alguém?

Vad se esquivou de sua pergunta, vestindo a máscara do


Sr. Deverell que usava em público. Ele agarrou seu queixo
entre os dedos com a outra mão e deu um beijo em seu piercing
no nariz.

— Você nunca saberá, little crow. — Sua voz a acariciou.


— Agora vá.

Ele a libertou e Corvina subiu as escadas com as pernas


trêmulas. Olhou para trás uma última vez, para o homem que
sabia tudo sobre ela, mesmo que ela não soubesse nada sobre
ele, o desequilíbrio de seu poder, de repente, a fez sentir como
se todo o episódio fosse menos um ato de afeto e mais um
acordo que acabou de fazer com o diabo.
Corvina

Na manhã seguinte, Verenmore estava entusiasmada


com a chegada do irmão de Troy.

Corvina olhou ao redor do Salão Principal durante o café


da manhã, surpresa com a rapidez com que a mente humana
podia mudar do luto pela morte de um conhecido para a
empolgação com a chegada de um estranho.

— Mas ele não é um estranho qualquer. — Disse Erica de


maneira conspiratória, segurando a xícara de café com as duas
mãos. — Ele é um dos ex-alunos de Verenmore, se formou e se
juntou ao Divisão Internacional de Investigação.

Ethan brincou com o macarrão em seu prato, sua


mandíbula tensa. — Troy me disse que queria vir para
Verenmore para ser como seu irmão. Deixá-lo orgulhoso. Ele o
idolatrava.

Porra.

Por alguma razão, isso doeu ainda mais. Corvina olhou


para Jade, que apenas olhava pela janela, mal tocando a
comida em seu prato. Ela estendeu a maçã que trouxe para
sua colega de quarto, dando-lhe um sorriso suave. — Passar
fome só vai piorar as coisas.

Jade suspirou e pegou a maçã. — Eu sei. Eu só... parece


tão vazio sem ele aqui. Como se um pedaço faltasse.

Faltava. Troy tinha uma energia única e brilhante que


iluminava todo o grupo. Corvina, que normalmente não
gostava de muita gente, gostava muito, muito dele. Sentia falta
dele e do jeito que era com ela.

Desviando os olhos, piscou surpresa quando o Sr.


Deverell andou em direção à sua mesa, um olhar sério e
intenso em seu rosto. Seus joelhos começaram a ficar agitados,
seu coração acelerou enquanto olhava ao redor para ver todos
se aquietando, olhando para ele com rostos curiosos e
surpresos.

Ele parou atrás da cadeira de Jade, seus olhos


magnéticos nela, e tirou um pedaço de papel dobrado do bolso.
— Seu pedido para fazer uma ligação foi aprovado, Srta.
Clemm. — Informou-a, estendendo o papel para ela. — Por
favor, dê isto à sua pessoa de contato no escritório de
administração. Ela irá guiá-la a partir disso.

Corvina enxugou a palma da mão na saia e pegou o papel.


— Obrigada, Sr. Deverell.

Deu a ela e à mesa um breve aceno de cabeça e partiu.


— O que é que foi isso? — Jade exigiu, seus olhos
arregalados.

— Preciso ligar para alguém e o escritório me disse que


preciso que alguém do corpo docente aprove.

— Mas, Sr. Deverell?

— Ele acabou me ouvindo no escritório. — A mentira saiu


de sua língua suavemente. Jade franziu a testa, mas recostou-
se na cadeira.

— Ele apenas me perturba. — Disse Jade à mesa. Sim, a


perturbava também.

Terminada a comida, Corvina se levantou e colocou a


bolsa no ombro, segurando o papel entre os dedos. — Farei a
ligação, vejo vocês mais tarde.

Todos acenaram em despedida enquanto ela corria para


fora do prédio na manhã nublada. A névoa se tornou tão
espessa que só conseguia distinguir a forma da Ala
Administrativa à sua frente, os braços esfumaçados
envolvendo-a, alienando-a de tudo, exceto deles.

Existia algo sobre aquele momento, aquele lugar, que a


atingiu como um déjà-vu. Parada no meio do jardim daquela
maneira, Corvina quase podia acreditar que já estivera lá
antes, quase podia acreditar que estava em outro tempo, com
as mesmas paredes do castelo aparecendo à frente,
absorvendo segredos para nunca contar a cada tique do
relógio.
O trovão retumbou no céu, uma rajada de vento soprando
em seu rosto, a névoa circulando ao seu redor. A sensação de
mau presságio veio com as formigas fantasmas espalhando-se
sobre seus braços.

Esfregando-os, Corvina afastou o ar sombrio, marchou


pelo jardim e contornou a lateral da Ala Administrativa.

Uma sebe de rosas vermelhas escuras em botão que não


notou antes chamou sua atenção, o vermelho tão profundo
quanto o sangue que se acumulou ao redor da cabeça de Troy
no chão. Em um ligeiro atordoamento, ela andou para as
flores, os dedos de sua mão livre subindo para acariciar as
pétalas aveludadas, sua textura tão macia quanto um pedaço
de seda criado pela morte de mil vermes.

O pensamento mórbido a colocou em movimento. Sua


mão agarrou uma das hastes, vários espinhos espetando seu
dedo.

— Ai... — Estremeceu, trazendo sua mão de volta, seus


olhos nas gotas de seu sangue nos grandes espinhos, prontas
para serem bebidas como um vampiro com gosto de sangue.
Claramente, estava lendo muito Drácula.

— Tenha cuidado com essas rosas. — Uma voz rouca


atrás dela a fez virar, fazendo-a dar de cara com um homem
grande e musculoso, com cabelo curto e olhos azuis escuros
parado na garagem ao lado de uma pick-up prata. Ele trancou
o veículo e enfiou as mãos nos bolsos do casaco grosso, com
um piercing em sua orelha brilhando.
Parou de repente quando olhou para ela, o choque
cobrindo seu rosto por um segundo.

— Olhos roxos.

Corvina ficou confusa. Ela não conhecia esse cara. —


Desculpe?

Ele piscou uma vez. — Nada. Apenas me lembrou de algo.

— Humm, ok. Essas rosas?

— Elas existem desde o início da universidade. — Olhou


para os arbustos atrás dela. — Eu caí nelas uma vez durante
uma luta, basta dizer que nunca mais cheguei perto.

Corvina olhou para o sangue em sua mão. — Mas como


isso é possível? Rosas não vivem tanto.

O homem encolheu os ombros largos. — Como tudo é


possível em Verenmore? Algumas coisas simplesmente nunca
tiveram explicação aqui.

Com isso, ele entrou no prédio e Corvina o seguiu,


enquanto o cara de óculos atrás da mesa erguia os olhos no
meio de um bocejo, arregalando-os ao ver o convidado.

— Ajax Hunter. — O homem se apresentou com uma voz


rouca. — Estou aqui pelo meu irmão, Troy Hunter.

O cara atrás da mesa acenou com a cabeça. — Eu sinto


muito por sua perda, Sr. Hunter. Por favor, espere aqui
enquanto chamo alguém para ajudá-lo.
Ajax deu um breve aceno de cabeça. Corvina ficou ao
lado. Seu telefonema poderia esperar enquanto Troy era
atendido primeiro. Este era seu irmão, o irmão há quem
deveria contar algo. Mas o quê?

— Também lamento sua perda, Sr. Hunter. — Corvina


deu suas condolências. — Troy se foi.

Seus olhos penetrantes a avaliaram. — Você conheceu


meu irmão?

— Sim. — Corvina brincou com a alça de sua bolsa. —


Ele era meu amigo. — E queria que ela lhe contasse algo. Como
ele morreu?

— Você tem alguma ideia do motivo pelo qual ele pulou


de um telhado? — Ajax perguntou, inclinando-se contra a
mesa, voltando toda a sua atenção para ela.

Corvina balançou a cabeça em silêncio.

Ajax olhou para o pouco sangue em suas mãos. — Ele era


suicida?

— Não, que eu saiba não. Há... — Ela mordeu o lábio,


perguntando-se se ele sabia sobre Alissa e a semelhança em
suas mortes. Era isso que precisava dizer à Ajax?

— O quê? — Ele pediu.

— Você é um investigador, certo? — Corvina precisava


confirmar isso.
— Sim. — Observou-a com aqueles olhos de águia,
estreitando-os ligeiramente. — Você acha que há algo que
precisa ser investigado sobre a morte do meu irmão?

— Absolutamente não. — A voz dura de Kaylin Cross


interrompeu a conversa quando ela entrou na sala. — A morte
dele foi uma tragédia. Minhas condolências, Sr. Hunter. Srta.
Clemm, você deveria ir para a aula.

Sim, ela duvidava que pudesse conseguir sua ligação


agora.

— Prazer em conhecê-lo. — Deu um pequeno sorriso para


Ajax e se moveu para a saída.

— Ei! Você deixou cair seu papel.

Corvina se virou para pegar o papel que ele estendia,


franzindo a testa porque ela estava com seu papel na mão. No
entanto, com Kaylin observando os dois com os olhos estreitos,
aceitou com um agradecimento e saiu.

Uma vez fora de vista, rapidamente desdobrou o papel,


olhando para a nota rápida que ele rabiscou, nem mesmo
sabendo como escreveu com Kaylin ali.

O lago. 22h. Por Troy.


O lago. O temido lago que ela nunca voltou depois da
última vez, a floresta escura que não ia há semanas. E tinha
que ir esta noite. Por Troy.

Dizer à Jade que estava indo dar um passeio foi fácil. Jade
estava acostumada com seus passeios noturnos e não pensou
duas vezes sobre isso.

Corvina se enrolou no xale de lã marrom, ainda vestida


como durante o dia. A lua estava cheia e, por um momento, ela
hesitou, perguntando-se se estava sendo estúpida. Estava.
Mas sabia que precisava fazer isso. No fundo do seu coração,
sabia que algo levou Troy ao telhado e seu irmão merecia saber
disso. Corvina contaria à Vad sobre suas suspeitas e seu
encontro, mas não teve tempo de pegá-lo sozinho, nem
vontade, não depois de perceber que não tinha ideia sobre
nada ao seu respeito. Ela não sabia se ele estava envolvido em
alguma coisa, não queria que estivesse, mas até que tivesse
certeza, ela estava sozinha.

O vento era uma brisa suave no escuro, as árvores


dançando suavemente, as folhas balançando, os galhos
sacudindo enquanto Corvina caminhava pelo bosque com a
lanterna que pegara do Salão Principal na mão. Ela não
precisava dela, já que a lua fazia um bom trabalho iluminando
seu caminho, mas a pegou para o caso de o tempo mudar e as
nuvens cobrirem a lua, ou para o caso de precisar de uma
arma pesada de ferro. Ela não queria ficar sozinha no escuro
nesta floresta, não depois do incidente do espelho.

Você pode me ouvir?

De novo não.

A mesma voz feminina com cheiro de decomposição,


gelando-a até os ossos.

Por Troy, murmurou para si mesma. Vá para o lago por


Troy.

Corvina empurrou com força a voz para fora de sua


mente.

Embora fosse uma noite linda, era uma pena que o


conforto de Corvina com a escuridão se transformou em um
leve pavor. A garota que sempre caminhou no escuro sozinha
sem pensar duas vezes, ficava assustada com sua própria
sombra, a mudança uma consequência de Verenmore.

Desceu a ladeira através da névoa baixa que se agarrava


ao solo enquanto caminhava para o lago. A abertura na floresta
apareceu alguns minutos depois, seu coração batendo
ritmicamente enquanto se aproximava da clareira, finalmente
emergindo na margem do lago.
— Aqui.

Corvina gritou, balançando a lanterna para ver o irmão


de Troy esperando por ela contra uma rocha, ainda com o
mesmo casaco que usava pela manhã.

— Desculpe, não quis te assustar. Obrigado por me


encontrar aqui. — Ele se endireitou e começou a andar para a
esquerda na beirada do lago. — Tem uma ponte logo à frente.
— Falou prontamente. — Consegui alguma cobertura lá para
o caso de o tempo piorar. Vamos caminhar e conversar.

Corvina o seguiu, mantendo uma certa distância entre


eles, não obtendo dele uma sensação de maldade, apenas raiva
e dor emanando de seus poros.

— Vou levá-lo comigo de manhã. — Ajax deu início à


conversa. — Mas eu preciso saber o que você ia dizer no
escritório. Você acha que há algo de errado com a morte de
Troy?

O contorno de uma pequena ponte de madeira apareceu


à frente, sobre uma parte do lago.

— Eu acho que é apenas estranho. Eu falei com ele


naquela manhã e tudo estava bem. — Relembrou. — E então,
quando ele estava no telhado, era como se não pudesse ouvir
nenhum de nós. O fato de que exatamente a mesma coisa
aconteceu ano passado com uma garota só faz com que seja
ainda mais estranho.
— O que você quer dizer com exatamente o que aconteceu
com uma garota? — Perguntou, suas palavras embaçando o ar
à sua frente.

Um pequeno gazebo de madeira ficava no início da ponte


de pedra. Eles subiram os degraus e foram para o centro da
travessia. Corvina pousou a lanterna na ampla grade de pedra
e olhou para a água escura e opaca que refletia o luar.

— Quero dizer que exatamente a mesma coisa. — Tocou


a pedra fria com a palma da mão. — Aconteceu antes de eu vir
para cá, porém não sei todos os detalhes. Mas Alissa, esse era
o nome dela, foi para o mesmo telhado da torre e não deu
ouvidos a ninguém quando a chamaram e pulou.

— Huh. — Ajax estreitou os olhos. — Isso é...

— Bizarro.

— O castelo sempre fez as pessoas se comportarem... de


maneira diferente do que fariam. — Ajax olhou para a água. —
Eu mal consegui sair daqui meio são e não queria que Troy
viesse para cá, mas ele simplesmente não quis ouvir.

— Você... — Corvina hesitou. — Acha que tem algo a ver


com a lenda dos Slayers?

Ajax riu sem humor. — Bons e velhos Slayers. Quem


diabos sabe? Esta montanha inteira está amaldiçoada, no que
me diz respeito. Eu não entendo ninguém que ficaria aqui mais
tempo do que o necessário.
Vad Deverell, o homem que estava aqui há anos, surgiu
em sua mente.

— Tenho um professor que está aqui há muito tempo. —


Disse ela.

— Mesmo? — Perguntou surpreso. — Quem?

— Vad Deverell.

Seus olhos voaram para ela, as sobrancelhas quase


batendo na linha do cabelo. — Maldito seja, — sussurrou
baixinho. — O filho da puta te encontrou.

Corvina se endireitou com suas palavras. — Desculpe?

Uma risada sem tom o deixou quando se virou para olhar


as montanhas negras à distância. — Estou um pouco chocado,
só isso.

— Desculpe-me, eu não entendo. O que está


acontecendo?

— Porra, preciso de uma bebida. — Passou a mão no


couro cabeludo. — Ele só... nem sei o que dizer.

Seu coração afundou. — Pode explicar, por favor? — Do


que diabos esse homem estava falando?

Seu olhar ficou distante. — Eu o conheci quando


tínhamos sete anos em uma casa para meninos
desamparados. Éramos todos um bando estranho forçados a
vivermos juntos. E era um... lugar sombrio, digamos assim.
Os dedos de Corvina se apertaram na grade de pedra
enquanto ouvia a história, as palpitações fazendo seu coração
bater nas costelas.

— Havia uma senhora idosa em casa conosco. — Seus


nós dos dedos ficaram brancos. — Ela era a zeladora, ficou
cega com a idade, mas sabia coisas sobre nós que nunca
contamos a ninguém. Coisas estranhas. Como alguém
morreria, e eles morreram. Como algo iria acontecer, e
aconteceu. Só coisas, sabe? Acontecia de acordo com que ela
dizia.

— Ok. — Corvina sinalizou que continuasse, confusa


sobre onde isso levaria.

— Ela disse a Vad para procurar por olhos roxos. — Ajax


olhou em seu olhar. — Éramos apenas crianças. Nós
zombamos dele por causa disso, ninguém tinha olhos roxos,
compreende? Mas isso é tudo o que ela disse a ele.

Corvina sentiu um arrepio percorrê-la. — Você está


brincando comigo?

— Quisera estar. — Ele soltou um suspiro, olhando para


o espaço novamente. — Nem me lembrava disso até que vi seus
olhos esta manhã.

— O quê... o que aconteceu depois?

— O avô dele veio e o tirou de casa. Ficamos lá até que


pegou fogo e levou consigo a maioria dos meninos. Os que
sobreviveram foram para outro lugar. — Esfregou a cabeça
com a mão grande. — Eu o vi novamente anos depois, aqui em
Verenmore. Estávamos na mesma turma, mas não éramos
realmente amigos.

— Espere. — Ergueu a mão, tentando envolver sua mente


em torno do ataque de informações. — Você disse o avô dele?
Quer dizer o verdadeiro avô? Não uma família adotiva?

— Sim.

Mas ele disse a ela que foi um avô adotivo. Não, não disse.
Corvina lembrou-se de suas palavras, de suas palavras
cuidadosamente escolhidas. Insinuou uma figura paterna,
nunca realmente dizendo nada sobre isso ser real. Mentiu por
omissão, logo depois que ela lhe contou sobre sua mãe. Por
quê?

— Tendo em vista seus olhos e suas perguntas, acho que


ele é mais do que apenas seu professor? — Ajax deduziu
corretamente. — Já que você parece uma garota legal, deixe-
me dizer uma coisa. Esta é uma informação a que apenas os
investigadores têm acesso, mas acho que você deveria saber
disso.

Com a garganta seca, Corvina esperou que ele


continuasse, o estômago pesado.

— Seu avô morreu de forma suspeita no dia em que Vad


se tornou legalmente adulto. — Ajax a informou, sua voz mais
baixa. — Caiu da escada e quebrou o pescoço. Exceto que as
escadas eram muito baixas e pequenas para causar um
ferimento tão grave. Vad tornou-se o único e legítimo herdeiro
de tudo, desde que já era adulto.

— Hunter. — A voz profunda e grave no gazebo fez os dois


se virarem. Pensar no diabo era um clichê muito apropriado
para nem passar pela cabeça dela. Vad Deverell estava com
uma jaqueta preta, gola levantada, sua mecha de cabelo cinza
brilhando ao luar, seu rosto cuidadosamente neutro enquanto
observava os dois.

— Deverell. — Ajax cumprimentou de volta no mesmo


tom. — Engraçado, estávamos falando sobre você.

Vad enfiou as mãos mais fundo nos bolsos. — Deve ter


sido uma conversa e tanto, já que você nem percebeu que eu
estava chegando.

— Você sempre foi bom em se esgueirar por esses


terrenos. — Disse Ajax, seu tom duro com uma história
compartilhada entre os dois. Ele inclinou a cabeça na direção
de Corvina. — Parece que a velha Zelda estava certa, afinal.
Você encontrou seus olhos roxos.

Os lados da mandíbula de Vad se mexeram, as maçãs do


rosto empurrando contra a pele. — Esperemos que para seu
bem ela não estivesse certa.

Ajax agarrou o corrimão em sua mão, dando a Vad um


sorriso frio. — Vou levar meu irmão e dar o fora da sua
montanha amaldiçoada amanhã.
Isso interrompeu Corvina. — Sua montanha
amaldiçoada? — Interveio, olhando entre os dois.

— Ah, você não sabe?

— Não. — Vad gritou.

Ajax deu um sorriso duro. — Verenmore sempre


pertenceu à linhagem da família Deverell. Não é de
conhecimento público, mas legalmente, o castelo e esta
montanha, ambos são dele.
Corvina

Corvina ficou enraizada em seu lugar, absolutamente


atordoada.

Vad Deverell era o verdadeiro herdeiro de Verenmore.

Que porra é essa?

Ela silenciosamente observou enquanto ele marchava até


Ajax, chegando bem em seu rosto, suas alturas colocando-os
no mesmo nível.

— Eu não dou dinheiro para a Divisão para você abrir a


boca, só para provar que seu pau é maior, idiota. — Rangeu.
— Vou ignorar isso uma vez, pelo bem de seu irmão, e fingir
que sua língua escorregou em sua dor, mas se isso acontecer
novamente, você precisará se cuidar. Fui claro?

Ajax deu um sorriso cortante. — Mas meu pau é maior,


Deverell.

Os lábios de Vad se contraíram. — Desapareça antes que


o jogue desta montanha maldita, Hunter.
Ajax deu-lhe uma saudação zombeteira. — A menos que
haja algo sombrio com a morte do meu irmão, irei embora ao
amanhecer. Mas não se esqueça de contar a ela sobre sua
história, cara. Não queremos uma repetição de Zoe.

— Zoe? — Corvina perguntou, sua mente tentando


acompanhar a sobrecarga de informações.

— A garota que desapareceu no último Baile Negro. —


Ajax disse a ela enquanto seus olhos permaneceram em Vad.
— Minha ex-namorada. Primeiro ela, e agora meu irmão.

Uma veia pulsou na lateral da testa de Vad.

Ajax acenou com a cabeça e se virou para ir para a


floresta, deixando-a ali com um homem que ela não conhecia.

— Quem é você? — Sussurrou, tentando encontrar algum


tipo de resposta em seus olhos.

Sua mandíbula cerrou. — Venha. — Estendeu a mão para


ela. — Está ficando tarde.

Corvina se encolheu, recuando. — Não me toque. Quem


diabos é você?

— Eu sou quem sempre fui para você.

— Um estranho.

Seus olhos prateados brilharam. — Um estranho?

Algo pulsava no ar entre eles, uma aura de ameaça que o


envolvia e que lhe enviava uma sensação cruel ao seu sensor
de perigo. Ela sabia, apenas sabia que se corresse, ele a
perseguiria. E desejava que ele corresse atrás dela. Desejava
que ele a pegasse, a conquistasse, a reivindicasse, e lhe
assegurasse de que tudo ficaria bem, que sua química, sua
conexão ainda era o sol enquanto seu mundo se inclinava
sobre seu eixo.

Com o coração batendo incessantemente, Corvina jogou


a lanterna no chão para distraí-lo e desceu correndo a ponte,
o xale voando para longe do corpo e caindo na grama. Ela olhou
para cima e viu uma bureta escura do castelo acima da
floresta, e moveu as pernas em direção a ela.

Uma mão na sua nuca, de repente, a jogou contra uma


árvore, sua frente pressionada contra a casca grossa e áspera,
e ela gritou quando seu corpo alto e quente a pressionou por
trás.

— Um estranho, little crow? — Seus lábios encontraram


seu ouvido, sussurrando as palavras direto neles. Uma mão
envolveu sua trança solta, puxando sua cabeça para trás. —
Um estranho saberia o sabor exato do seu gozo em sua língua?
— Murmurou ao lado de seu pescoço, inclinando sua cabeça
para seu lazer. — Será que um estranho saberia exatamente o
quão profundo seu pau pode ir nessa boceta apertada, hein?
— Suas palavras rolaram sobre ela enquanto uma mão
segurava sua nuca e outra seus pulsos atrás das costas. —
Será que um estranho saberia como seus seios saltam quando
seu mamilo é chupado?
— Se eu fizesse sexo com um estranho, sim, Sr. Deverell.
— Suas palavras saíram mais sem fôlego do que ela pretendia.

— Então um estranho conheceria os medos de sua


mente? — Exigiu, seus dentes raspando o lado de seu pescoço.
— Um estranho saberia que você gosta de quebrar as regras,
que gosta de fazer exatamente as coisas que as pessoas dizem
para não fazer, que fica tímida quando alguém lhe dá atenção
e ousada quando acha que ninguém está olhando? Um
estranho saberia a fome em sua alma? Ele a alimentaria como
eu?

Não, não, ele não faria.

— Você mentiu para mim. — Corvina fechou os olhos,


sabendo que não poderia se mover se ele não quisesse.

— Por omissão. — Admitiu.

— Não posso confiar em um mentiroso.

— E não posso dar a verdade a alguém em quem ainda


não confio e que não queira fugir. — Deu um beijo em sua
orelha. — Você ganha minha confiança e eu ganho a sua, e
obterá todas as respostas que deseja.

— E até lá? — Corvina realmente questionou sua


sanidade neste momento.

— Até lá, — mordeu a pele onde seu suéter caiu para


expor seu ombro. — Eu te ensino.
Suas palavras vieram com ele libertando suas mãos e
puxando sua saia para cima em seus quadris, expondo sua
bunda ao ar frio. Ele puxou sua calcinha para o lado e a
encontrou vergonhosamente molhada, uma risada escapando
dele com seu calor encharcado. — Um estranho, ela diz. Você
estaria encharcando suas coxas para um estranho?

Corvina sentiu um arrepio subir pelo peito. Descansando


a testa contra o tronco da árvore, ela segurou os lados da
mesma assim que ele a penetrou em um único golpe. Seu corpo
foi empurrado, o ângulo fazendo sua cabeça rolar para trás
sobre o ombro dele, um gemido alto deixando sua garganta na
plenitude.

— Você quer saber quem eu sou? — Socou os quadris


com força contra ela. — Eu, — golpe. — Sou, — golpe. — Sua,
— golpe. — Loucura. — Vad mordeu o lado de seu pescoço,
selvagem em sua paixão. — Estou em sua cabeça, em seu
sangue, em suas próprias veias. Eu reivindiquei você antes de
qualquer outra coisa. Seu corpo, seu coração, sua mente, sua
fodida alma, é tudo meu. Sua fome é minha para alimentar,
sua loucura é minha para domar. Você sente isso?

Corvina sentiu isso. Sentiu desde os dedos dos pés que


estavam enrolados agarrados ao chão até as coxas queimando
com o peso de sua boceta sendo empurrada repetidamente, de
seus mamilos raspando contra a parte de trás da árvore até
seu pescoço latejando da mordida de seus dentes e seus olhos
queimando com a sobrecarga de estímulos por todo o corpo.
Sentiu-o possuí-la, dominá-la, consumi-la até que ela não
passasse de uma sensação de tremor.

Ele puxou seu cabelo. — Você sente isso?

— Sim. — Ofegou, segurando a árvore enquanto ele batia


contra ela uma e outra vez com seus golpes brutais.

— Sim, o quê? — Sua voz profunda respirou em seu


ouvido.

— Vad.

— Porra, sim, baby. — Ele a penetrou freneticamente. —


Minha bruxinha com esses fodidos olhos roxos, feita para mim,
porra. E eu sou seu diabo, não sou?

Corvina balançou os quadris contra ele, choramingando.


— Meu diabo.

— Todo seu. — Ele beijou seu ombro, sua mão descendo


para estimular seu clitóris, enviando tentáculos de intenso
prazer se espalhando a partir do local. Inclinou os quadris
ligeiramente, mudando o ângulo da penetração tão
completamente que ela gritou, seus seios empurrando contra
a árvore enquanto tentava colocar ar em seus pulmões.

— Diga-me que você é minha. — Exigiu. — Diga-me que


finalmente eu te tenho Corvina Clemm.

O calor de seu corpo era tão sólido atrás dela. Não era
isso que sempre quis? Pertencer a alguém completamente,
totalmente e inteiramente. Alguém que conhecia seu passado
e as questões potenciais que poderiam surgir em seu futuro e
ainda a reivindicou completamente para si mesmo? Eles não
se conheciam como deveriam, mas o tempo poderia mudar
isso. O tempo poderia fazê-la entender suas razões para ser do
jeito que era e fazê-lo confiar nela o suficiente para
compartilhar.

E se ele for mau? Uma voz cautelosa dentro dela


sussurrou.

Só o tempo diria. Tempo. Uma coisa ela sabia com


certeza: estava cansada de negar o que quer que isso fosse.

A luxúria foi apenas o começo. Eles foram feitos para


mais. Corvina tinha que dar um tempo a isso.

— Eu sou sua. — Admitiu, tanto para ele quanto para si


mesma, e Vad respondeu com um impulso tão forte que fez
estrelas explodirem atrás de suas pálpebras, o fogo líquido se
espalhando de onde estavam unidos, correndo por seu núcleo
enquanto ela se espatifava em um milhões de peças na gaiola
de seus braços, ancorado por sua consumação dela.

Ele gozou dentro dela com um gemido, sua respiração


quente em seu pescoço, seu peito arfando contra suas costas
enquanto ambos prendiam a respiração. De repente, ela
percebeu o silêncio da floresta, o luar brilhando sobre eles
através dos galhos, o cheiro de seu corpo e da árvore invadindo
seus sentidos. Vad saiu de sua boceta, deixando um rastro de
umidade combinada em suas coxas, e colocou a calcinha no
lugar.
— Voltará para sua torre com meu gozo dentro de você.
— Recuou o suficiente para virá-la, suas mãos encontrando
seus seios e massageando-os, acalmando-os após o atrito com
a árvore áspera. — E amanhã, quando começar a duvidar disso
novamente, sinta sua boceta dolorida e lembre-se de quem a
possui.

Corvina ergueu os olhos para ele, suas mãos segurando


a lateral de sua cintura. — E Verenmore? Você... o possui
também?

Vad apertou seus seios. — Sim.

— Eu tenho muitas perguntas, nem sei o que perguntar


primeiro.

Ele a esperou pacientemente.

— Estou disposta a dar uma chance a isso, mas eu só...


eu preciso de uma coisa de você. — Disse a ele. — Uma coisa,
e então não vou duvidar do que quer que isso seja outra vez.

Ele esperou mais.

— Não minta para mim ou esconda as coisas de mim. —


Ela agarrou seus músculos. — Não me faça me sentir uma
idiota. Se não pode me dizer algo, diga que não pode, mas não
sobre algo que me afete, ou seja, o que isso for, faça isso e
nunca vou confiar em você.

Ele acariciou seus mamilos. — Ok.

— Tantas perguntas. — Corvina arqueou em suas mãos.


— Guarde-as para mais tarde. — Soltou-a e foi até onde
seu xale caiu. Sacudindo-o algumas vezes, voltou para ela,
colocando-o ao redor de seus ombros, envolvendo-a no calor.

— Fique depois da aula amanhã. — Pediu a ela, cobrindo


o lugar em seu ombro que a mordeu levemente. Uma vez feito
isso, ele colocou uma mecha de cabelo caído atrás da orelha e
a olhou. — Esperei muito tempo por você, Pequena Bruxa. —
Beijou seu piercing.

Sua boca tremeu. — Você vai me contar sua história?

— Amanhã.

Assentindo, ela começou a se dirigir ao castelo, sentindo


sua presença calorosa ao seu lado. — Por que fingir? — Fez a
pergunta na vanguarda de sua mente. — Para quê dizer coisas
como a regra aluno-professor e que poderiam prejudicá-lo? E
por que as pessoas não sabem que o castelo pertence à sua
família?

Vad tirou o maço de cigarros do casaco, acendendo-o. —


Tão curiosa, little crow. — Ele bufou. — Qual você quer que
seja respondida primeiro?

— Eu acho que a última.

Ele pressionou a mão nas costas dela, levando-a de volta


ao castelo. — A montanha e o castelo estão na minha família
há muitas gerações, mas ninguém viveu aqui durante séculos.
Um de meus bisavôs tornou-se membro do conselho da
universidade e ofereceu o terreno do castelo como local para a
escola. Quando os desaparecimentos começaram, meu avô
retirou o nome da família Deverell do conhecimento público e
colocou o Conselho na linha de frente.

Corvina segurou o xale com mais força enquanto subiam


a ladeira. — Então, isso significa que você é um dos membros
do Conselho?

Ele a guiou para cima. — Um oculto, sim. Tomei o lugar


do meu avô na noite em que ele morreu. É por isso que vim
para cá, eu queria ver este lugar.

Emergiram na clareira em frente à torre, ainda protegidos


pelo matagal acima, e Corvina se virou para ele sob a luz que
vinha da torre.

— Diga-me que você não é mau. — Agarrou a aba frontal


de seu casaco. — Isso é tudo que eu preciso saber, por
enquanto, o resto pode esperar até amanhã. Diga-me que você
não é responsável por todo o mal que toca este lugar.

Vad acariciou a lateral de seu rosto com as costas dos


dedos, inclinando a cabeça. — E se eu for? Isso a faz me
detestar? Vai manter sua boceta seca?

Corvina sentiu o coração disparar, a vergonha enchendo-


a ao perceber que isso não a fazia desejá-lo menos. Ela
realmente não estava bem da cabeça.

Ele pressionou seus lábios nos dela, macios e ternos, ao


contrário de seu aperto em seu queixo. — Descanse sua linda
cabeça, bruxinha. Eu sou o diabo que você conhece, não o
diabo que não conhece.

— O que isso significa?

— Isso significa que embora eu não seja um homem bom,


nem por nenhum esforço da imaginação, eu não sou o mal que
assombra este lugar. Sou o mal que está caçando isso. — Ele
deu outro beijinho nela. — Fique depois da aula amanhã.
Agora vá.

Corvina disparou para sua torre em uma corrida,


tentando envolver sua cabeça em torno de tudo o que lhe foi
revelado no curto espaço de algumas horas, tentando entender
quem exatamente era seu amante com os pequenos pedaços
que compartilhou. Ela correu sobre a montanha que agora
sabia ser dele, em direção a uma torre que era dele, uma
mulher que pertencia a ele também, mudada da garota que era
quando entrou nesses muros.

Alcançou a grossa porta de madeira de sua torre e se


virou para ver a entrada da floresta onde eles estavam.

O brilho laranja da ponta do cigarro foi tudo o que


conseguiu distinguir, todo o seu corpo escondido nas sombras,
o mestre do castelo disfarçado de plebeu.

Amanhã, ela saberia o porquê.


Corvina

No dia seguinte, Corvina esteve impaciente.

Ela mal dormiu durante a noite, sonhos estranhos


invadindo sua mente quando o fez, cenas de Drácula se
interpondo com cenas de Verenmore.

Foi um sonho bizarro, horrível, mas erótico, de alunos


mascarados tendo orgias e bebendo sangue no Salão Principal,
sendo controlados por um mestre sentado em um trono na
sala. Ela estava nua em seu colo, montando seu pau por trás
enquanto assistia à exibição, exposta para todos verem
enquanto ele permanecia invisível atrás dela. Vad a virou no
sonho, suas presas marcando a curva de seu seio até que uma
gota de sangue emergiu e deslizou direto sobre seu mamilo,
desaparecendo em sua boca. Seus olhos se abriram e em vez
da prata que amava, eles eram todos pretos, sem nenhum
branco. Suspirou e puxou seu seio para longe dele, apenas
para ele se transformar em uma besta e jogá-la no chão,
devastando-a enquanto os alunos bebiam um ao outro até a
morte, o chão do castelo ficando preto com seu sangue,
encharcando seu cabelo e pele.
— Este é o Baile Negro. — Rugiu a besta-Vad, dando uma
grande mordida em seu ombro.

Corvina acordou com um suspiro, o chupão em seu


ombro latejando de onde a mordeu na floresta, o suor
encharcando seu corpo inteiro enquanto tremia tanto com o
horror quanto com a excitação do sonho. Pressionando a
palma da mão na cabeça, correu para o banheiro e respingou
água fria no rosto, olhando-se no espelho.

Estava intacto e sem intercorrências.

Agora sentada em sua aula, a última aula do dia,


discutindo Drácula, entre todas as coisas, o sonho ficou em
primeiro plano em sua mente.

— Um dos principais temas do Drácula. — Disse Deverell,


batendo no marcador aberto no quadro. — É a sexualidade
feminina. — Seus olhos foram para ela brevemente antes de
continuar. — É escrito em uma época e se refere à uma
sociedade onde as mulheres eram totalmente castas, ou eram
totalmente casadas, ou prostitutas e, portanto, irrelevantes
para a sociedade aos olhos deles. Em uma época como essa, a
sexualidade aberta das três vampiras que seduzem Jonathan,
ou Lucy que é transformada pela besta, em suma, qualquer
expressão sexual feminina, era um tabu.

Ria, a garota que sempre levantava a mão, fez isso de


novo. — Será que o aspecto tabu vem da correlação da
expressão sexual feminina com o ato de consumir sangue?
Enquanto ele se dirigia a ela, Corvina se lembrou da
imagem vívida do sonho – Vad e sua presa marcando a curva
de seu seio, aquela gota de sangue que ia em linha reta até o
mamilo, e a maneira como ele bebia.

Estremecendo com a maldade da imagem, Corvina


cruzou as mãos sobre os seios, de alguma forma escondendo
os mamilos endurecidos atrás dos braços enquanto fazia
anotações.

A aula continuou pelo que pareceram séculos antes do


último sino do dia tocar.

— Senhorita Thorn, Sr. King e Senhorita Clemm. — Sua


voz soou. — Por favor, fiquem por alguns minutos, gostaria de
discutir suas peças com vocês individualmente.

O coração de Corvina disparou ao vê-lo sentar-se na


cadeira, tirando papéis de uma das gavetas.

As pessoas saíram da classe e ela também se levantou


com a bolsa.

— Sobre o que você escreveu? — Jade perguntou a ela,


enquanto Ria ia até Vad primeiro. Eles tiveram uma conversa
tranquila, com ele apontando algumas coisas em seu papel e
ela balançando a cabeça.

— Apenas morte, eu acho. — Corvina deu de ombros,


sabendo que ele não a segurava por conta do trabalho. Embora
seu trabalho fosse bom, ela sabia disso também. Escreveu
sobre mortes que não deixaram respostas para os vivos que
deixaram para trás, principalmente sobre seu pai e todas as
pessoas desaparecidas de Verenmore que, sem dúvida,
estavam mortas depois de tanto tempo.

— Acho que vou para a Ala Médica. Não me sinto bem.

Corvina se concentrou nela. — O que há de errado?

Jade se dirigiu para a porta. — Sim. Eu gosto de lá. É...


pacífico. Vejo você na torre mais tarde.

— Apenas me diga se eu puder fazer alguma coisa. —


Corvina gritou para ela, preocupada com sua amiga que
andava cada vez mais compreensivelmente retraída após a
morte de Troy.

Jade fez um sinal de positivo com o polegar e saiu,


deixando-a na sala com Mathias e Vad, que estavam
conversando profundamente. Corvina deixou-os sozinhos e foi
até as janelas laterais. O dia estava escuro, nuvens escuras
rolando do zênite até o horizonte, cobrindo toda a paisagem em
uma escuridão inevitável. O penhasco íngreme deste lado do
castelo descia direto para o manto de verde escuro, nada além
de montanhas infinitas à vista, letais e majestosas.

O som de uma porta se fechando fez Corvina girar no


local. Vad voltou para sua mesa depois de fechar a porta e se
recostou nela, cruzando os braços sobre o peito, os olhos
prateados escondidos atrás dos óculos de armação preta que
combinavam com sua roupa toda preta.
Seus olhos fizeram uma leitura lenta e preguiçosa dela da
cabeça aos pés. — Por que ficou excitada na aula hoje?

Corvina agarrou a lateral da bolsa, determinada a receber


dele as respostas. — Por que está fingindo ser um professor?

Suas sobrancelhas se ergueram. — Sou professor.

— Você também é o dono deste castelo. — Lembrou.

— Correto. — Acomodou-se na mesa atrás dele. — Você


quer dizer por que ninguém mais sabe disso?

— Sim.

— O que recebo em troca por responder às suas


perguntas? — Sua cabeça se inclinou em um movimento que
ela estava começando a reconhecer.

Ela engoliu em seco, sua gargantilha bem contra seu


pulso. — Eu. Como você me quiser.

— Posso tê-la do jeito que eu quiser de qualquer maneira,


little crow. — Ele a lembrou, e ela sabia que estava certo. —
Mas me agrada que ofereceu. Assim você obterá suas
respostas.

Deus, ele podia soar como um idiota às vezes, e ainda a


excitava.

— Então, por que ninguém sabe? — Encostou-se na


janela atrás dela, o conhecimento de nada além do vidro entre
ela e o penhasco soando secretamente emocionante.
— É uma longa história.

— Eu tenho tempo.

Vad acenou com a cabeça, sentando-se na mesa em um


movimento elegante. — Meu pai pagou à minha mãe para se
livrar de mim. Ela me largou em algum lugar e me mandaram
para a casa dos meninos, onde fiquei por muito tempo.

Seu coração doeu pelo garotinho que esse homem deve


ter sido, descartado com tanta frieza como lixo.

Ele pegou um cigarro e o acendeu, dando uma longa


tragada. — Um dia, quando tinha treze anos, um homem velho
apareceu do nada e me adotou. Ele me levou para sua casa
realmente agradável e me disse que eu era seu neto. Seu filho
contou-lhe sobre mim em seu leito de morte, e disse que
passou anos depois disso tentando me rastrear.

— Isso foi bom da parte dele. — Corvina sentiu seu peito


se iluminar com a história cada vez melhor.

Ele deu uma risada sombria. — Você pensaria isso. Ele


não tinha outro herdeiro, você vê. Estava envelhecendo e o
Conselho assumia cada vez mais o controle do castelo, e ele
não queria isso.

Corvina o viu soprar um anel de fumaça para o teto, seu


corpo relaxou enquanto ele relatava sua história.

— Meu avô começou a me contar tudo sobre Verenmore.


— Disse Vad em meio à fumaça. — Colocou-me em uma escola
particular, me fez aprender tudo sobre as propriedades e como
controlá-las, sobre assumir a diretoria. Ele me ensinou muitas
coisas, a única boa delas foi o piano. E isso só foi feito como
uma forma de controlar meu lado selvagem, para me treinar
para ficar sossegado e pensar.

Corvina se virou para abrir a janela atrás dela, para


deixar a fumaça sair, e foi até a mesa mais próxima, pulando
nela enquanto ele continuava.

— Verenmore se tornou um tesouro enorme e


indescritível para mim. — Explicou ele, com os olhos na vista
fora da janela. — Tornou-se uma herança ancestral que por
direito pertencia a mim, um menino que nunca teve nada. Eu
o queria, tão perfeito quanto era nas histórias.

Um vento acariciou sua nuca, enviando um arrepio por


seu corpo enquanto ela permanecia em silêncio, deixando-o
falar.

— Na noite em que fiz dezoito anos. — Vad terminou o


cigarro. — Meu avô me contou sobre os Slayers.

— Ele te contou a lenda? — Corvina perguntou, e Vad deu


um sorriso sombrio.

— Disse-me algo pior. — Esmagou o cigarro com a bota,


seus olhos a deixando gelada. — A verdade.

Corvina ficou sem fôlego. — Diga-me.


Ele a avaliou por um longo minuto, apenas estudando-a,
analisando-a. Tirando os óculos, passou a mão pelo cabelo,
bagunçando-o. — Meu avô era estudante aqui quando
começaram os desaparecimentos. O castelo estava vazio há
anos antes de a escola começar aqui, e havia passagens
secretas, masmorras, bosques dos quais ninguém conhecia.
Ninguém, exceto meu avô, que tinha um mapa que foi passado
por nossa família.

Corvina o encorajou a continuar.

— Sua namorada, na época, havia sido supostamente


uma bruxa. — Disse a ela ironicamente. — Ou assim ela disse
a todos. Eu não acho que ninguém acreditou nela, exceto ele.
Sem ninguém saber, ele acreditava nisso.

O céu escureceu um pouco do lado de fora com a


aproximação da noite e com as nuvens.

— Meu avô e seus amigos levaram uma das criadas do


castelo para a floresta porque sua namorada lhes disse que ela
podia obrigá-la a fazer coisas. Eles queriam fazer um
experimento. Então, a levaram para brincar, e algo aconteceu.
A garota morreu, eles esconderam seu corpo e se
embebedaram com o poder da coisa.

Arrepios cobriram seus braços, sua mandíbula


afrouxando quando a compreensão a atingiu.
— Eles eram os Slayers. — As palavras escaparam dela
em um sussurro, sua mão indo para cobrir sua boca
imediatamente.

Seus olhos se voltaram para ela. — Sim. Há noventa anos


atrás.

Puta merda.

— Puta merda.

— Sim, aqueles eram tempos diferentes. — Vad bateu os


dedos ao seu lado, seu olhar distante. — As luas cheias eram
noites com as quais as pessoas desconfiavam. Era quando eles
desciam até a aldeia e traziam alguém de volta para a floresta.
Jogavam todos os jogos de poder que podiam e o matavam
depois. era uma diversão para eles, meu avô me disse.
Especialmente por ele saber que era o mestre de tudo.

Corvina esfregou os braços, tentando acalmar os


batimentos cardíacos quando algo lhe ocorreu. — Espere,
como isso é possível? Os Slayers foram todos mortos, não
foram? Como ele estava vivo?

Vad contraiu o maxilar, olhando novamente pela janela.


— Quando a escola descobriu o que estava acontecendo, um
grupo de alunos encontrou os Slayers na floresta e os linchou.

Corvina acenou com a cabeça, conhecendo essa parte da


lenda.

— Meu avô liderava o grupo.


O silêncio após sua declaração foi pesado. Corvina levou
um segundo para compreender o fato de que seu avô não
apenas assassinou pessoas com seus amigos, mas também se
voltou contra eles e os assassinou. Isso era... ela nem tinha as
palavras para o que era.

Depois de uma longa pausa para absorver isso, ele


continuou. — Ele me disse que sua namorada os amaldiçoou
ao morrer. — Sua voz permaneceu firme. — Disse a ele que os
Slayers caçariam todos os seus assassinos além do túmulo.

Porra, isso era assustador, especialmente no fim do dia.

— O que aconteceu então? — Corvina se abraçou


enquanto o horror da história lentamente começava a penetrar
em sua mente.

Vad encolheu os ombros. — Ele nunca soube. Dizem que


os caçadores também desapareceram, mas meu avô estava
com muito medo dessa maldição para voltar a este lugar,
mesmo que quisesse mantê-lo.

— E os desaparecimentos no Baile Negro? — Perguntou.

— Ele acreditava que era a maldição. — Vad olhou para


ela novamente. — Ele era um homem velho perto da morte
quando me contou essa história. Queria me preparar para
quando eu chegasse aqui.

— E como ele morreu? — Perguntou Corvina, lembrando-


se das palavras de Ajax sobre sua morte suspeita.
— Isso eu não posso te dizer, little crow. — Vad disse, seus
olhos brilhando. — Direi que não me arrependo disso.

Isso poderia ou não significar que o matou. Depois de


ouvir a história, depois de tudo que seu avô fizera, ela também
não podia dizer que sentia arrependimento. Seu avô deve ter
destruído tantas vidas por seu próprio jogo de poder.

Corvina processou tudo o que Vad colocou sobre ela,


levando um tempo para vasculhar toda a história, mastigando
a unha do polegar. — Alguém sabe o que ele fez? — Perguntou
depois de um longo tempo.

— Não que eu saiba. — Começou a dobrar as mangas da


camisa até os antebraços. — Ele me disse que eu era a primeira
pessoa para quem se confessava porque queria mantê-lo na
família. O Conselho nunca fez ideia de que ele era um deles.

— Então por que ninguém aqui sabe quem você é? — Ela


estava confusa. — Se não há vergonha com o sobrenome, então
por quê?

— Por que deveriam? — Ele se inclinou para frente, seus


olhos duros. — Se houver alguém fazendo algo suspeito aqui,
acha que abaixaria a guarda em torno de Vad Deverell, dono
da Verenmore e membro do Conselho se ele estivesse no
campus o tempo todo?

Certo, ele tinha razão. Como aluno e professor, ele tinha


melhores chances de simplesmente viver no campus e observar
tudo sem levantar suspeita.
Continuou falando.

— Quando vim para Verenmore, foi imediatamente depois


de ouvir tudo isso. Eu queria este lugar, mas essa mancha era
algo que eu não queria. Então acabei por ser admitido como
um estudante regular, querendo saber tudo sobre este lugar
desde o início, especialmente sobre os desaparecimentos.

— E funcionou. — Refletiu Corvina. — Foi por isso que


você continuou a fachada de ser só mais uma pessoa.

— Muito bem. — Sua voz carregava sua aprovação em


sua inferência. — O Baile Negro estava se aproximando quando
eu entrei com a ajuda de uma garota da minha turma.

— Zoe. — Lembrou Corvina. — Namorada de Ajax.

— Sim. — Acenou com a cabeça. — Ela cresceu na cidade


e conhecia a área local melhor do que eu na época. Zoe
encontrou um barraco na floresta um dia e me contou. Foi
investigar, para descobrir se alguém morava lá, mas saiu com
pressa.

A memória de uma longa silhueta na cabana que ela


encontrou com Troy e seus amigos surgiu em sua cabeça. —
Acho que conheço o lugar.

Ele fez uma pausa na dobra de sua outra manga, suas


sobrancelhas cortando para baixo. — Você vagou por aí
sozinha?
— Eu estava com Troy e alguns de seus amigos. — Disse
a ele, seus olhos indo para o chão com a menção do amigo que
não estava mais aqui. Ela precisava manter o foco. — O que
aconteceu então?

Ele a analisou por um momento. — Zoe desapareceu. Pedi


ao conselho que ordenasse uma busca em toda a montanha,
mas nunca foi vista novamente.

— Então acha que quem estava no barraco é o


responsável pelo desaparecimento dela?

Ele balançou sua cabeça. — Não sei. Mesmo que sejam,


isso não explica os desaparecimentos por menos de um século,
na mesma noite. E agora os suicídios encenados.

— Encenados? — Corvina sussurrou, piscando em


choque com a forma como a conversa mudou. — Você acha
que os suicídios foram o quê?

Vad tirou um pedaço de papel do bolso da camisa,


mostrando a ela. Era a mesma nota que lhe mostrou antes, a
'Danse Macabre' que encontrou no telhado depois de Troy.

— Troy morreu no dia exato em que seu trabalho sobre


isso foi entregue. — Explicou, com sua voz firme. — Foi feito
para eu encontrar e isso me faz pensar o que diabos está
acontecendo nesta escola. Como alguém poderia fazer duas
pessoas sãs e felizes pularem de um telhado.

Corvina observou o bilhete em sua mão, sua mente


correndo com fragmentos de pensamentos muito nebulosos e
sem substância para se agarrar. Ela esfregou a mão no rosto,
sua cabeça começando a doer com todas as informações e
todas as perguntas que isso representava.

— E os corpos? — Perguntou, tentando seguir uma linha


de raciocínio. — Os corpos das pessoas que seu avô... — Ela
parou.

— Assassinou? — Afirmou claramente. — Ele nunca me


disse o que fizeram com os corpos de suas vítimas. Os Slayers
foram enterrados em algum lugar na floresta.

— E aquelas sepulturas vazias nas ruínas?

— Quinze sepulturas vazias para quinze das vítimas dos


Slayers que morreram lá, mas nunca foram encontradas.

Isso era algo, pelo menos. — E aquele piano? Aquele que


estava consertando?

— Foi do meu avô. — Respondeu, seus dentes rangendo.


— Eles gostavam de ouvir música com os assassinatos.

Corvina estremeceu ao se lembrar do que fizeram naquele


lugar. — Não posso acreditar que nós nos beijamos ali. Isso é
tão... macabro.

Algo mudou em seus olhos, um lado de seus lábios se


curvando. — Eu teria beijado você banhada em sangue,
Corvina. Se eu tivesse a chance de beijá-la enquanto mil
fantasmas se levantavam de seus túmulos, teria feito. Não
duvide disso.
Sua respiração engatou. O visual de seu sonho voltou dez
vezes mais forte, Vad transando com ela enquanto o sangue
encharcava seu cabelo, pessoas mascaradas morrendo por
sangramento nas laterais.

Ele pulou da mesa e jogou o cigarro na lata perto da porta


antes de caminhar em sua direção. Corvina sentiu sua
respiração prender quando ele segurou suas coxas com as
mãos e as abriu, levantando sua longa saia, envolvendo suas
pernas em volta de sua cintura.

— Agora posso tê-la do jeito que eu quiser, não é? —


Murmurou, metade de seu rosto nas sombras, a outra na luz
do crepúsculo cinzento e nublado.

Corvina agarrou seus ombros enquanto ele a


desequilibrava. — A regra aluno-professor não se aplica
realmente a você, certo? Não pode perder seu emprego porque
você é... você.

Suas mãos foram sob sua saia para segurar sua bunda.
— Isso se aplica enquanto eu for um professor aqui e tenho
que ser um até descobrir o que está acontecendo. Este castelo
é meu. Mas você também é agora, Srta. Clemm. Eu tenho que
limpar qualquer bagunça que seja, mas não tenha dúvidas de
que estou quebrando uma regra por você.

Corvina se esfregou contra ele involuntariamente, seu


corpo quente desde o sonho da noite anterior. Mas ela ainda
precisava esclarecer as coisas.
— O que Ajax quis dizer sobre a velha? — Perguntou sem
fôlego. — Sobre os olhos roxos?

Sua mão puxou o lado de seu suéter para baixo, expondo


seu ombro e o hematoma que ela tinha de sua boca para o
quarto que escurecia lentamente.

— Na casa dos meninos, essa velha Zelda profetizava


porcarias sobre todo mundo. — Disse ele, esfregando o
hematoma com o polegar. — Ela me disse que um dia veria
olhos roxos e, quando os visse, teria que segui-los. Então o fiz.

Corvina franziu a testa ligeiramente, sem entender.

— A casa dos meninos em que estive. — Abaixou-se,


lambendo seu hematoma, fazendo-a apertar por dentro. —
Antes de pegar fogo, era chamado de Morning Star Lost Home
for Boys10.

— O quê? — Corvina o olhou surpresa. Isso era... uma


coincidência muito estranha.

— Sendo quem eu sou no Conselho, tenho certo acesso.


Há três anos. — Falou suavemente em sua pele. — Eu estava
em seu banco de dados tentando procurar detalhes do meu
velho melhor amigo da casa. Eu o perdi no incêndio.

— Sinto muito. — Ela esfregou seus bíceps.

10 Estrela da manhã, casa de acolhimento para garotos.


Ele acariciou seu pescoço. — Isso me levou aos dados do
Instituto. Foi quando vi a foto da sua mãe.

— Olhos roxos. — Sussurrou Corvina.

Ele assentiu. — E fui vê-la.

Espere, o quê?

Ela se afastou, segurando seus braços, seus olhos se


arregalando sobre ele enquanto a descrença corria por seu
sangue. — Você o quê?!

Ele a puxou de volta no lugar, perto de si mesmo. A sala


ao redor deles ficou muito mais escura do que antes, mas
Corvina não conseguia desviar o olhar dele, o coração
disparado com o que lhe contava.

— Eu fui vê-la. — Agarrou seu queixo, mantendo-a


imóvel. — Três anos atrás. Só para ver se a velha Zelda estava
certa.

— E?

— Conversei com ela. — Informou-a, como se não fosse a


informação mais importante que guardava. — Sua mãe não
falou muito, mas falou sobre você. Disse-me que sua garotinha
corvo ficaria sozinha sem ela. Perguntou-me se você tinha
estado indo mais à cidade para me ver. Acho que ela estava
sob uma concepção equivocada de que eu era seu amante.
Perguntou-me se eu cuidaria de você. Depois ela ficou quieta.
Corvina sentiu seu maxilar tremer, sua mente girando
para três anos atrás, quando sua mãe acabara de ser admitida
na clínica. — Então?

Ele afastou uma mecha de cabelo do seu rosto. — Onde


você estava três anos atrás, Corvina?

Seu coração parou.

Não poderia ser possível.

Sem chance.

Não.

— Onde você estava três anos atrás?

No Instituto.

Ela esteve no Instituto, fazendo o teste após a auto-


admissão.

Uma enorme cavidade oca em seu peito se encheu até o


limite, transbordando com algo tão abundante que ela não
tinha certeza se era saudável, mas não se importou, não
quando a epifania a atingiu.

— Você me viu. — Sussurrou, sua garganta apertada,


seus olhos ardendo.

— Eu vi você. — Vad sussurrou de volta, acariciando sua


bochecha com o polegar.
— Você me viu. — Seus lábios tremeram, a compreensão
de que este homem a via, via de verdade, e ainda a observava
com aquele olhar fazendo algo dentro dela mudar.

— Eu vejo você. — Seu olhar prateado a queimou. — Eu


sempre vi você.

Ela não sabia o que aconteceu depois, não se importou


em saber o que aconteceu depois, não naquele momento, não
quando este homem que viu seus demônios, conheceu seus
demônios e os aceitou, estava tão perto dela. Ela não precisava
de respostas, não com a mão dele em seu rosto e os olhos nos
seus. Ele viu, realmente viu, dentro de sua lua de alma, uma
com manchas e cicatrizes e um lado escuro invisível e
desconhecido até mesmo para si mesma.

Corvina apertou a boca contra a dele, derramando tudo o


que sentia mas não conseguiu verbalizar naquele momento no
beijo, a ferocidade de suas emoções pegando-a de surpresa, a
libertação em seu coração fazendo as lágrimas escaparem de
seus olhos.

Vad sabia.

Sempre soube.

E a queria de qualquer maneira.

Algo que ela nunca pensou que teria, não porque não
merecesse, mas porque quem iria querer uma garota com vozes
na cabeça e incerteza em seu futuro? Coisas assim só existiam
nos livros que gostava de ler, não em sua vida.
Mas ele existia.

Vad era real e caloroso e estava lá por anos sem ela saber.

Ele segurou o rosto dela, pegando tudo o que lhe deu e


exigindo mais, mais e mais até que ela não tinha mais nada
para dar, tudo saqueado, tudo entregue, tudo dele.

E Corvina sabia, beijando-o naquela sala de aula escura


de um castelo vazio, que sua posse dela era completa, e se eles
se separassem, ele a perseguiria por toda a eternidade.
Corvina

Ele a fodeu na sala de aula naquela noite, enviando-a ao


Salão Principal para jantar dolorida e cheia de seu sêmen,
assim como ele gostava.

Agora, um pouco depois da meia-noite, Corvina escapuliu


da torre e se dirigiu para a Ala dos Professores.

Jade nunca mais voltou para o quarto delas. Corvina foi


checá-la depois do jantar e a encontrou deitada na sala
médica, lendo o trabalho do curso. Ela estava com uma
aparência melhor do que nos últimos dias, então, quando
insistiu em passar a noite lá, Corvina concordou.

Sem ninguém para perguntar por ela, Corvina cortou os


jardins do castelo que corriam entre sua torre e a Ala da
Faculdade, o Salão Principal no meio dela. Estava garoando, e
ela sabia, pela forma como as nuvens estavam ribombando,
que não demoraria muito para um aguaceiro.

Cobriu a cabeça com o xale, o frio cortando-a enquanto


cruzava o terreno. Era estranho como o castelo parecia morto
à noite, completamente deserto, como deve ter sido por
décadas antes de a escola começar. Imaginar todos os
corredores vazios, masmorras vazias, corredores vazios, tudo
escuro, frio e silencioso, enviou um arrepio em sua espinha
que não tinha nada a ver com o frio.

Sem uma lanterna, já que não queria ser vista por uma
janela, ou ao luar, já que as nuvens eram muito densas para
guiá-la, Corvina caminhou pela noite mais escura em que
esteve desde que chegou em Verenmore. De alguma forma,
com a pouca luz das tochas elétricas do lado de fora das torres,
conseguiu chegar ao topo da escada que iniciava sua descida
em direção ao prédio dele.

E estava escuro como breu do topo do caminho até o fim,


onde a luz do prédio caía no patamar.

Realmente valia a pena arriscar o pescoço para passar


mais tempo sozinha com ele?

Sim. Sim, valia.

Respirando fundo, Corvina estendeu lentamente um pé e


sentiu o primeiro degrau, chegando a pisar nele. Seu medo
recente do escuro na floresta, de alguma forma, não existia
naquele momento. Era como sempre foi. A escuridão era
confortável e até excitante, especialmente quando levava até
Vad.

Corvina exalou e procurou o próximo degrau. Então


repetiu. Vinte e uma vezes. Ela contou. No momento em que
chegou ao final, estava suando e tremendo de frio, de
adrenalina e da emoção de ter conseguido no escuro sem cair
para a morte. Vad estava certo – ela gostava de quebrar as
regras.

Olhou para a pesada porta de madeira com a aldrava


demoníaca e sem fechadura e deu um suspiro de alívio.

Agora, apenas entrar em seu quarto.

Colocando as mãos na porta, ela a abriu apenas o


suficiente para deslizar para dentro, estremecendo quando
rangeu nas dobradiças de ferro, e rapidamente a fechou,
ficando no mesmo quarto que parecia o corredor de antes.

Com o coração batendo forte, foi para as escadas, rezando


para que ninguém a ouvisse ou a visse enquanto subia o mais
silenciosamente que podia. Felizmente, ambos os patamares
estavam vazios, a luz em um dos quartos acesa, mas apagada
nos outros.

Finalmente chegou na porta dele, viu a pequena luz vindo


da brecha abaixo e mordeu o lábio, de repente, questionando
toda a sua ideia.

Ela deveria estar lá? E se ele estivesse dormindo? E se


não a quisesse lá novamente?

Perguntas passaram por sua mente, fazendo a dúvida


surgir antes que ela se controlasse. Ele confiou nela,
reivindicou-a, arriscou algo importante por ela. Corvina
deveria estar lá.
Com isso, ergueu o punho e bateu os nós dos dedos na
madeira apenas uma vez.

Ouviu passos se aproximando da porta, seu coração


palpitando quando ele a abriu, vestindo nada além de calça de
moletom e óculos, seu cabelo despenteado, seu corpo sem
camisa todo dela para cobiçar.

A surpresa em seu rosto por si só já valeu a caminhada.

E então ficou puto.

— Entre. — Puxou-a pelo cotovelo, batendo a porta. Ele


foi até a janela e apontou para o declive escuro que ela acabara
de percorrer. — Diga-me que você não acabou de passar por
isso.

Corvina mordeu o lábio. — Eu queria ver você.

Vad passou a mão pelos cabelos e, pela primeira vez,


Corvina pôde apreciar o uso de seus músculos em um ato tão
simples. Seu bíceps flexionou, seu tórax definido de cabelos
claros se apertou, a massa sólida de músculos em seu
estômago se contraiu, uma linha de cabelo escuro descendo
até sua calça de moletom e a ligeira protuberância que ela
podia ver ali.

Ele exalou. — Isso é para uma rapidinha? — Ela detectou


alguma diversão em seu tom.

Corvina lambeu os lábios.


Tirou o xale e o deixou cair no chão, o cabelo ondulado
rebelde e crespo por causa da chuva fraca solto ao seu redor,
caindo na parte inferior de suas costas. Corvina caminhou até
ele, inclinando a cabeça para trás para fixar os olhos em sua
altura muito mais alta, e caiu de joelhos no tapete sobre o chão
de pedra dura.

— É para uma instrução, Sr. Deverell. — Pegou a ponta


de sua calça de moletom e puxou para baixo, revelando sua
ereção semidura aos olhos. — Ensine-me.

— Você vai ser a minha morte, sua bruxa. — Amaldiçoou,


seu pau endurecendo lentamente, expandindo-se bem diante
de seus olhos, crescendo todo seu tamanho dentro de um
minuto, um tamanho que estava admirada que cabia dentro
dela uma e outra vez.

Ele juntou todo o seu cabelo em uma mão, segurando sua


mandíbula com a outra. — É melhor eu fazer com que esta
instrução valha a pena todos os seus problemas, não é?

Ela assentiu com a cabeça, olhando-o por baixo dos cílios.


— Ensine-me.

Esse foi seu despertar sexual, e ela percebeu que Jung


estava certo – a pessoa descobria muito sobre si mesma por
meio da sexualidade.

— Porra. — Seu aperto aumentou em seu cabelo. —


Esfregue suas mãos. Aqueça-as. Então pegue.
Corvina esfregou as palmas das mãos, soprando para
aquecê-las. Lentamente envolveu as mãos suavemente em
torno de seu comprimento, incapaz de tocar os dedos.

— Segure-me com mais força. — Instruiu, segurando seu


cabelo e rosto. — E me lamba da base ao topo. Molhe-o para
que seja mais fácil para suas mãos.

Corvina obedeceu, provando-o pela primeira vez, seu


cheiro almiscarado liberando algum tipo de feromônio que a
deixava mais molhada, seus corpos sincronizados no nível
celular como estavam desde o início.

— Esta é a primeira vez que você inicia nosso encontro


sexual, little crow? — Notou quando ela o levou em sua boca.
— Isso significa que confia mais em mim? Ou veio aqui para
me testar? Para ver o que eu faria se você aparecesse no meu
território sem avisar?

Corvina percebeu que sim. Estava lá para testá-lo


subconscientemente, sua confiança ainda não era
inteiramente dele. Mas não queria dizer isso a ele.

Ela passou os próximos minutos lambendo e chupando-


o, alternando com movimentos de torção de sua mão enquanto
ele a dirigia ainda mais com as mãos em seu cabelo, fazendo
sua mandíbula doer e sua boca molhar quando sua cabeça
caiu para trás, as veias de seu pescoço proeminentes em seu
prazer. Era sujo, bagunçado e quente, e ela estava encharcada
quando puxou para fora de sua boca, ainda com força.
— Você quer meu gozo? — Perguntou rispidamente. —
Onde?

— Dentro de mim. — Respondeu, corando sob seu olhar


quente.

Ele a puxou e a jogou na cama. — Tire a roupa. —


Ordenou, tirando suas botas e saia enquanto ela puxava o
suéter, deixando-a com nada além de seu pingente de estrela
e pulseira, já que desistiu de sua calcinha antes de vir para
ele.

Vad veio por cima dela, abrindo suas pernas e


empurrando-as para trás, deixando-a aberta e completamente
exposta, e se alinhou contra ela.

Corvina respirou fundo. — Nós nunca fizemos isso em


uma cama. — Ela comentou, apreciando a sensação do colchão
macio e travesseiro sob ela enquanto ele metia dentro dela com
uma estocada, sua boca traçando um beijo quente e úmido no
chupão em seu ombro.

— Estou com raiva que você veio através da escuridão


sozinha à noite. — Falou em sua pele, seus quadris se
movendo profundamente contra ela. — Mas foda-se se não
estou feliz.

Corvina agarrou sua cintura, as unhas cravando-se em


seus lados enquanto ele cavava mais fundo com uma estocada
particularmente forte, a respiração ficando mais pesada, o
ritmo mais selvagem.
— Não pode gritar esta noite. — Murmurou contra seus
lábios. — Vou te foder mais forte. Fica quieta. Você faz um som.
— Ele inclinou os quadris brutalmente. — E eu paro.

Corvina sentiu suas paredes internas apertarem ao redor


dele com a ameaça, sua mente se transformando em mingau
quando um gemido a deixou e ele parou.

— Por favor. — Implorou a ele, tão cheia dele que


precisava daquele prazer que podia ver no horizonte, quase ao
seu alcance.

— Nenhum som. — Instruiu. Ela deu um aceno de


cabeça.

— Você veio aqui para me testar? — Perguntou em um


impulso para baixo.

Corvina concordou com a cabeça.

— Boa menina. — Elogiou-a suavemente por dizer a


verdade.

Vad pegou um travesseiro do outro lado, colocando-o sob


seus quadris, inclinando-o para cima enquanto estava dentro
dela, o movimento quase a fez gemer antes de morder a língua.
Uma vez acomodado, colocou as mãos espalmadas na parede
acima da cama para se apoiar e começou a se chocar contra
ela, forte, rápido e brutal, a agressão da ação fazendo sua
boceta pingar e seus músculos tremerem enquanto tentava se
agarrar a ele, mordendo seu lábio para conter qualquer ruído
que quisesse escapar de sua garganta.
Um miado escapou e ele parou.

Corvina clamou, as lágrimas quase escapando de


frustração. Vad abaixou a mão para acertar um mamilo em
advertência e esperou que ela se controlasse, mantendo-a na
beira do precipício com sua plenitude dentro dela.

Ela virou a cabeça em direção à janela, vendo a escuridão


absoluta lá fora, e inclinou os quadris, tentando fazê-lo se
mover.

Estocou-a com força e, desta vez, Corvina empurrou a


boca em seu pescoço e gemeu contra ele, o sexo abafado por
sua carne enquanto seus quadris se juntavam, acasalando-se
da maneira mais primitiva e básica que um homem e uma
mulher podiam acasalar. O ângulo de sua penetração
empurrava seu clitóris a cada golpe para baixo, enviando uma
corrente elétrica por todo seu corpo, o choque pulsando de sua
boceta para os seus membros.

— Vad. — Murmurou contra seu pescoço, implorando


para que a levasse além do limite.

Ele empurrou com mais força dentro dela no próximo


impulso, o som das nuvens, respirações pesadas e o tapa
úmido de suas peles eram os únicos ali na sala. Seus lábios se
separaram quando um fogo líquido familiar correu por suas
veias, fazendo sua coluna se curvar e seus membros tremerem,
seus calcanhares cavando em suas costas para algum tipo de
apoio, suas unhas marcando seus lados enquanto o êxtase
chiava por ela, fazendo sua boceta jorrar e a alma sangrar. Sua
boca se abriu e ela mordeu seu ombro para conter o grito, seu
corpo estremecendo quando gozou em um flash.

O próprio gemido de prazer dele desapareceu em seu


pescoço, sua semente inundando-a em empurrões enquanto
ele gozava dentro dela, movendo-se mesmo durante seu
orgasmo, prolongando os prazeres de ambos tanto quanto
podia. Desabou sobre ela depois, antes de se deslocar para o
lado, os dois ofegantes e olhando para o teto enquanto
tentavam recuperar o fôlego.

— Será sempre assim? — Corvina perguntou, inspirando


profundamente, sabendo que tinha que tirar o travesseiro de
debaixo dos quadris, mas muito desossada para sequer tentar
se mover.

— Ficará melhor. — Vad respondeu, em sua própria


inspiração.

Se melhorasse, ela morreria.

Depois de alguns segundos, ele se levantou e saiu da


cama, e Corvina reprimiu um suspiro de decepção com a
separação imediata. Sentia-se necessitada, desejando seu
toque, sua gentileza e suas garantias. Não era como aquela vez
no carro quando sua mentalidade era diferente. Ela se sentia
diferente agora, mais nova, sentindo seu destino ao redor de si
mesma. Gostava quando ele assumia o comando e cuidava
dela.
Ouviu canos rangendo e o som de água correndo antes
que Vad viesse até ela. Ele tirou o travesseiro de seu quadril e
o jogou no chão, pegando-a em seguida, balançando-a nos
braços, e se dirigiu para o lado oposto do sótão sob a pouca luz
da lâmpada, levando-a por uma porta que presumiu ser o
banheiro.

Era grande e escuro porque não acendeu nenhuma luz,


com paredes de pedra e canos visíveis, um espelho antigo
ornamentado e uma pia bem na frente da porta. Ele parou por
um momento e ela olhou para os seus reflexos na luz que vinha
da sala, impressionada pela imagem de sua forma alta, ampla
e bela, repleta de músculos segurando seu corpo curto e
pequeno com curvas, seus longos cabelos negros caindo
descontroladamente no braço dele, seu próprio cabelo escuro
e cinza despenteado pelos dedos dela. Seus olhos, prateados e
roxos, fixaram-se um no outro.

— Bruxa. — Vad murmurou para seu reflexo, o afeto


evidente em seu olhar e tom.

— Diabo. — Corvina respirou, esperando que ele achasse


o mesmo em seu olhar e voz.

Pelo olhar do sorriso em seus lábios, o fez. Ela percebeu


naquele momento como as duas palavras que foram cuspidas
neles como maldições se torceram para se tornarem seus
próprios termos de carinho, de uma forma que era comovente
agora.
Ele os virou de lado, para uma banheira branca com pés
em forma de garra cheia de água, o vapor subindo de sua
superfície. Mas não foi isso que prendeu sua atenção. Era a
enorme e antiga janela em arco bem na frente da banheira,
dando uma vista da montanha escura na frente e da Ala
Acadêmica iluminada pelas tochas elétricas no topo. Era tão
impressionante à noite que ela não conseguia nem imaginar
como seria durante o dia.

Ele a colocou no chão para desligar a água e Corvina


puxou seu cabelo para cima, torcendo-o em um grande nó para
mantê-lo longe quando Vad entrou na banheira. Indicando o
espaço à sua frente, a puxou e a fez sentar, inclinando os dois
até que estivessem submersos na água do pescoço para baixo.

O calor da água era incrível em seus músculos doloridos,


especialmente entre as pernas.

— Não foi possível acender a luz e arriscar que alguém


nos visse. — Disse ao lado do pescoço dela. — A janela é visível
do topo.

Corvina olhou para a vista e suspirou feliz. — É perfeito.

Sentaram-se em um silêncio sociável por um tempo,


apenas curtindo o momento no meio da noite com uma bela
vista, quando todos dormiam e eles estavam acordados,
tomando banho depois de gozarem juntos.

— Sinto-me segura com você. — Confessou Corvina no


escuro.
Seus braços apertaram ao redor dela, mas ele
permaneceu em silêncio.

Algo no momento – a languidez, a escuridão, a nudez –


ela não sabia o que era, a fez falar. — Estou perdida na maioria
dos dias. Às vezes na minha cabeça. Ainda tento me entender
diariamente. E parece que todos os dias o mundo continua
girando com algo novo e pior jogado na mistura. — Fez uma
pausa, mantendo os olhos na vista. — Estou construindo meu
castelo, tijolo por tijolo, no meio da tempestade, e me pergunto
se a montanha sob meus pés irá desmoronar. — Virou o
pescoço para encontrar seus olhos. — Você é minha
montanha, meu Vad. Não sei como e não entendo porque, mas
de alguma forma, estou construindo meu castelo sobre você.

Ele se inclinou para frente, seus olhos brilhando, e a


beijou por um longo minuto antes de se afastar. — Construa
seu castelo, Corvina. — Disse em voz baixa enquanto os dois
observavam a vista do lado de fora. — Não vou a lugar nenhum.
Construa seu castelo tão alto quanto quiser.

Corvina sentiu seus lábios tremerem, os olhos arderem


com a verdade que ouvira ecoar na voz dele. Deixou que tudo
se assentasse ao seu redor e se infiltrasse em seus poros,
lentamente, inconscientemente entregando outro pedaço dela
para ele guardar.

Ficaram em silêncio por um longo tempo, simplesmente


sendo, simplesmente existindo juntos, e foi a sensação mais
amada que Corvina sentia em muito, muito tempo.
— Por que ficou excitada na aula hoje? — Ele perguntou
a ela depois de alguns longos minutos. — Acabou não
respondendo.

Corvina se sentiu enrubescer, seu traseiro se contorcendo


antes que pudesse controlá-lo. — Não foi nada.

Ele deu um beijo suave na sua nuca. — Diga.

— Foi um sonho que tive na noite anterior. — Respondeu,


esperando que ele deixasse por isso mesmo. Ela deveria saber
melhor.

— Conte-me sobre isso.

Corvina suspirou. — Algumas coisas são particulares.

— Foi sexual. — Entendeu corretamente. — E sobre mim.

Corvina balançou a cabeça.

Ela sentiu os músculos dele enrijecerem ligeiramente. —


Era sobre outra pessoa? — O tom perigoso que usou fez seus
mamilos endurecerem, mesmo na água quente. A lâmina
possessiva de sua voz sempre a cortava da maneira mais
deliciosa, a fome dentro dela de pertencer a alguém sendo
alimentada com um banquete cada vez que saía. Ela adorava
quando ele ficava assim.

— Não. — Esclareceu. — Eu só quis dizer que não vou


contar.
— Por quê? — Ele exigiu, relaxando novamente agora que
sabia que era a estrela do sonho.

— É apenas... um pouco desconcertante. E erótico,


apesar disso.

Uma de suas mãos sob a água traçou o lado de seu seio


languidamente. — Eu sei que fica tímida, little crow, mas te
fodi e vou te foder de maneiras que você pode achar
desconcertantes e eróticas. — Ele beliscou seu mamilo,
rolando-o entre os dedos. — Seu corpo é meu para brincar.
Diga-me.

— Não pense que eu não percebo como você coloca seu


questionamento sempre sobre algo sexual. — Apontou para ele
enquanto arqueava as costas.

— Não pense que não sei o quanto você ama isso. —


Brincou de volta, um sorriso em sua voz. — Não tente mudar
de assunto.

Corvina suspirou e cedeu, contando-lhe detalhadamente


o sonho. Ele ficou quieto por um longo momento depois,
pensando.

— Você quer ser fodida na frente das pessoas? —


Perguntou eventualmente, ainda brincando com seu seio.

— Não. — Negou Corvina imediatamente, a ideia a


aterrorizando. Não havia nenhuma maneira que quisesse que
alguém a observasse quando ela se perdesse assim. Era muito
íntimo.
— Mas você gosta da ideia de ser descoberta. — Meditou
em voz alta. — A ideia de ser quase descoberta. Estou errado?

Ela mordeu o lábio, os olhos no castelo para cima, a ideia


de que alguém pudesse ver suas sombras na banheira a
emocionou. — Não, você não está errado. — Confirmou.

— Que surpresa você é. — Ele riu.

Depois de mais alguns minutos de silêncio relaxado e a


água ficando mais fria, eles se lavaram e secaram. Corvina
enrolou-se numa toalha, olhando para o chão com um rubor
subindo pelo peito, a nudez sem o encobrimento da atividade
sexual a deixando um pouco tímida. Ele não tinha esse tipo de
reclamação, já que saiu para o quarto em toda a sua glória
lindamente esculpida, trocou rapidamente os lençóis enquanto
ela o observava e foi para a cama.

— Venha aqui. — Chamou-a, abrindo um lado do


cobertor para ela.

Corvina mordeu o lábio e olhou para a escuridão lá fora.


— Precisarei voltar em breve.

— Deixe o amanhecer primeiro. — Pediu. — Agora venha


para a cama. E tire a toalha.

Seus dedos apertaram a toalha por um segundo antes de


ela respirar fundo e deixá-la cair no chão, correndo para ficar
debaixo dos cobertores com ele. Vad apagou a luz,
mergulhando o quarto na escuridão, e se acomodou atrás dela,
cobrindo os dois, seu corpo quente e sólido e tão grande que
parecia o mais aconchegante dos casulos. Seu corpo se
acomodou em seus cantos, curvando-se em torno de suas
costas, seu braço apertado em volta de sua cintura, suas
pernas enredadas nas dela e seu nariz em seu cabelo. Foi uma
aquisição de corpo inteiro.

— Fuja de mim novamente, igual à última vez. — Ele


murmurou em seu cabelo, sua voz pesada de sono. — E a terei
gozando em meus dedos na aula.

Um arrepio delicioso a fez estremecer com o pensamento


proibido.

— Estou feliz por ter vindo esta noite. — Ela falou no


escuro, suas pálpebras ficando mais pesadas com o sono.

— Eu também. — A mão dele em seu estômago deu-lhe


um aperto.

— Você está pegando todas as minhas primeiras vezes,


Sr. Deverell. — Sussurrou baixinho como uma confissão.

Seu braço se apertou. — Levarei todas as suas últimas


também, Srta. Clemm. Marque minhas palavras.

Um relógio tiquetaqueando em algum lugar no silêncio e


sons de gotas de chuva batendo nas janelas de vidro ao fundo.
E no escuro, com o diabo atrás de si, Corvina adormeceu,
sentindo-se segura, querida e não sozinha pela primeira vez na
vida.
Corvina

A garota com longos cabelos escuros estava deitada de


bruços na água, suas tranças flutuando etereamente sobre ela,
sua pele fantasmagoricamente pálida ao luar. Corvina olhou em
volta, reconhecendo o lugar, mas não sabendo a hora, apenas
que ela precisava chegar até a garota. Ela deu um passo à
frente, seu tornozelo mergulhando na água gelada,
desaparecendo sob a escuridão.

Com o coração acelerado, deu outro passo, quando algo


frio e viscoso agarrou seus tornozelos, prendendo-a no lugar.
Corvina lutou tentando chegar até a garota, mas os movimentos
causaram ondulações. O que quer que agarrou seus tornozelos
a arrastou sob a água escura, levando-a para baixo.

— Nós sabemos que você nos ouve. — A voz feminina veio


ao seu redor, trazendo aquele cheiro de podridão para a água.

Corvina olhou em volta freneticamente, tentando ver de


onde vinha a voz, tentando ver qualquer coisa na escuridão.
Lentamente, algo começou a aparecer na linha de sua
visão, algo que parecia vir em sua direção muito, muito
lentamente. Corvina semicerrou os olhos, tentando enxergar.

E então ela viu.

Corpos.

Suspensos na água.

Flutuando em sua direção.

— Socorro. — Disse a voz novamente. — Procure. Ele irá


prendê-la.

Corvina olhou para baixo e viu Vad agarrando seus


tornozelos, segurando-a sob a superfície. Ela lutou para se
libertar, mas ele não a soltou, o movimento causando ondas na
água parada.

A garota que antes flutuava no topo da superfície se


afogou, seus cabelos negros dançando nas ondulações, e parou
bem na frente de Corvina.

Era Corvina.

Corvina piscou, tentando entender o que estava vendo.

A versão flutuante dela, de repente, abriu seus olhos,


totalmente negros como o corvo que estava no espelho, assim
que os outros corpos a cercaram e começaram a gritar, seus
membros viscosos envolveram-na debaixo d'água.

— Junte-se a nós. Junte-se a nós. Não há outra maneira.


— Corvina!

Ela acordou com um suspiro, seus olhos voando por toda


parte ao seu redor, suas mãos tentando tirar a sensação das
coisas viscosas de sua pele.

Um corpo veio em cima dela, mãos segurando as suas,


prendendo-a horizontalmente na cama.

— Você está segura. Foi um pesadelo. Acalme-se.

A voz profunda e grave falando naquele tom pesado


chamou sua atenção. Corvina piscou, tentando se concentrar,
e viu o rosto levemente preocupado de Vad acima dela, os olhos
brilhando mesmo na escuridão do quarto.

Corvina engoliu em seco, tentando fazer seu coração se


acalmar enquanto as visões do sonho ainda assaltavam sua
mente.

— Eles estão no lago.

Ele franziu a testa ligeiramente. — Quem?

— Os corpos. — Sussurrou para ele. — Isso é o que me


mostraram. Como isso é possível? Estou ficando louca, Vad?

Ele se deitou de lado, puxando-a. — Diga-me o que você


viu.
Ela o fez. Contou-lhe sobre a voz feminina que ouvira pela
primeira vez no lago, sobre a voz que ouvia cada vez que se
aproximava do lago e sobre o sonho.

— Você realmente não acha que há algo nisso, certo? —


Ela engoliu em seco, precisando de reafirmação.

Ele acariciou suas costas com os dedos sem pensar, em


silêncio por um longo minuto.

— Acho que amanhã você precisa ligar para o Dr. Detta e


eu preciso ligar para o Conselho. — Finalmente declarou,
distraído. — Já vi coisas suficientes que não posso explicar na
minha vida para não descartar o que quer que seja. Pelo o que
sei, o lago nunca foi dragado antes.

— Por quê?

— Não sei. — Disse, mas sua voz tinha uma pontada de


algo que Corvina não conseguia decifrar.

Ela olhou para o relógio na parede. Já eram cinco da


manhã, o céu ainda estava escuro lá fora.

— Podemos ir para o lago? — Perguntou a ele, saindo da


cama e encontrando suas roupas no chão.

— De que adianta irmos agora? — Ele se apoiou nos


cotovelos, observando-a com aqueles olhos penetrantes. — Não
podemos dragar o lago sozinhos. O Conselho vai colocar uma
equipe aqui ao meio-dia.
Corvina se sentia nervosa, inquieta, o sonho ainda em
destaque. — Não sei. Eu só... eu preciso de um pouco de ar.

Rapidamente vestiu as roupas e prendeu o cabelo para


trás com a gargantilha, enrolando o xale em torno de si. Assim
que se dirigiu para a porta, o sentiu em suas costas.

— Você não vai lá sozinha. — Afirmou ele, abrindo a


porta.

Grata pela companhia, porque realmente não queria ir


sozinha, Corvina o seguiu em silêncio enquanto ele os levava,
fechando o zíper de uma jaqueta e puxando o capuz sobre a
cabeça.

Saíram para a manhã escura, fria e nebulosa, o vento um


ataque em sua pele. Vad pegou um lampião ao lado da porta e
o isqueiro, acendendo-o e conduzindo-os para a direita.
Felizmente, a chuva parou, deixando apenas um rastro de
névoa úmida que se agarrou a eles. Corvina olhou para a
escada que subiu na montanha, confusa.

— Há um atalho mais curto que corta por aqui. —


Informou, levando-a para a floresta escura ao lado.

Um calafrio desceu por sua espinha, um calafrio de medo


quando ele os levou para a boca negra de um túnel que ela
nem sabia que existia.

Vad puxou o lampião e se virou para ela, estendendo a


palma da mão para cima, o rosto meio brilhando à luz da
chama e meio escurecido pela noite ao redor deles. Corvina
olhou para a boca do túnel, o coração batendo forte, sabendo
que aquele era o momento da verdade.

— E se ele sempre foi mau, Corvina? — Uma voz insidiosa


sussurrou em sua cabeça, uma que ela só ouvira uma vez na
vida. — E se ele disse as coisas que você precisava ouvir para
trazê-la aqui? Você poderia desaparecer e nunca mais ser
encontrada.

Corvina fez uma pausa.

Ela tinha ido até ele por vontade própria, então ninguém
em sua torre sabia sequer que ela estava fora de seu quarto. O
sexo era uma coisa, as emoções eram uma coisa, mas a vida
era outra. Ela confiou-lhe o sexo e confiou a si mesma as
emoções, mas a vida... Será que ela confiava nele com sua
vida? O sonho dela era encontrar cadáveres, corpos que seu
avô havia torturado e assassinado, um avô cuja morte ela
ainda não conhecia. Teria ele matado o avô? Quando quis dizer
que queria limpar a bagunça em Verenmore, será que queria
enterrar os segredos profundamente ou revelá-los?

Corvina olhou para sua mão, para a mão que a tocou,


acariciou e reivindicou cada centímetro dela, com o coração
batendo forte. Era o mesmo sonho com a mão, Vad a puxou
para baixo na água, a mesma mão da besta-Vad que a puxou
para baixo, a mesma mão real com que Vad tocou seu corpo e
aquele piano com uma bela música.
Confiava nele o suficiente para entrar em um túnel
desconhecido com ele? Era um risco de desaparecer para
sempre sem deixar rastros ou estava pensando demais?

Olhou de sua mão para seus olhos, observando-os


encará-la, seu olhar aceso com o conhecimento de seus
pensamentos.

Este foi o seu teste.

Trouxe-a deliberadamente para este túnel, como um teste


para sua coragem.

O que ele disse a ela?

Não posso contar a verdade para alguém que não confio


que não vá fugir.

Isso era um teste para ver se ela fugiria ou ele queria que
parecesse um teste?

Não sabia porque a visão daquele túnel desencadeou


todas essas perguntas em seu cérebro. Ela confiava nele para
ir para o escuro sozinha com ele depois de saber tudo o que
sabia?

Corvina fechou os olhos, concentrando-se, imagens


piscando atrás de seus olhos em uma fração de segundo.

O Diabo, Os Amantes, A Torre.

A voz de Mo enquanto ele lhe disse para segui-lo.


Juntos no carro em um penhasco na chuva.

Pressionados na biblioteca.

Confessando segredos na Masmorra.

O Vad do sonho sentado em seu trono, sozinho,


arrebatando-a.

O Vad real a consumindo na floresta.

E apenas algumas horas atrás, juntos no banho.

— Você confia em mim? — Vad fez a pergunta pertinente,


sua voz firme, sem revelar nada.

Corvina abriu os olhos, olhando para a mão dele. Uma


sensação de déjà-vu tomou conta dela novamente, como se
tivesse estado neste lugar, neste momento, há muito tempo.

Pode ser estúpido. Pode ser destrutivo. Isso pode mudar


tudo. Mas ela confiava no que ele a fazia sentir, confiava em
seus instintos para não a ter desviado, confiou no universo
para não a ter guiado mal.

Corvina pegou a mão estendida, olhando para ele. — Sim.

Sua mão cobriu a dela, envolvendo-se em torno de sua


menor com poder e triunfo, a outra mão abaixando o lampião
e deixando seus rostos na escuridão. Algo crucial aconteceu
naquele momento, algo que mudou, transformou e realinhou
os dois, fundindo pedaços deles de uma forma que ninguém
poderia dizer onde Corvina terminava e Vad começava. Com
sua confiança, ela deu-lhe o que restava de si, todo o seu ser e
esta montanha de segredos que agora ele possuía.

— Você não tem ideia do que acabou de fazer, Bruxinha.


— Puxou-a para o seu corpo, sua mandíbula brilhando na
chama amarela baixa. — Não há como voltar agora, nunca a
deixarei escapar.

Corvina engoliu em seco, a mão livre sobre o peito dele,


sentindo a batida constante do seu coração sob a palma da
mão. — Apenas saiba que se você me matar, eu irei
pessoalmente te assombrar. Boa sorte em molhar seu pau
depois disso.

Uma silhueta de um sorriso no escuro. — Devidamente


anotado.

Com isso, a puxou com ele, levando-a para o abismo.

Corvina agarrou sua mão, seguindo seu exemplo


enquanto ele atravessava o túnel estreito e escuro escavado na
montanha. As paredes eram irregulares e rochosas, o caminho
coberto de grama sob seus pés.

Vad manteve o lampião baixo e Corvina ergueu os olhos


para ver o motivo.

Morcegos. Centenas deles pendurados de cabeça para


baixo no túnel em forma de caverna. Então é aqui que eles
ficavam.
A confiança em seu passo era a única coisa que impedia
Corvina de se sentir sufocada no túnel, sabendo que isso logo
acabaria. Ela respirou pela boca, sentindo um aperto
semelhante com um torno em sua mão, e tentou cruzar a faixa
de morcegos.

Depois de alguns minutos, olhou para cima, aliviada ao


ver os morcegos desaparecidos.

— O que é este lugar? — Sussurrou, sua voz ecoando


mesmo quando baixa.

— Um dos muitos túneis ao redor de Verenmore. — Ele


falou no mesmo tom baixo. — A maioria das pessoas não sabe
sobre eles, e aqueles que jamais os atravessam.

— Estava no mapa da sua família? — Perguntou, apenas


para se manter distraída.

— Sim. — Respondeu, apertando sua mão. — Há um que


leva direto para o vale. Eu selei aquele. Era o que os Slayers
usavam para subir e descer a montanha tão rapidamente sem
serem vistos.

Corvina estremeceu, a umidade no ar e o frio no túnel


fazendo-a agarrar-se ao xale. Alguns passos à frente, a carcaça
de um animal espalhava-se pela lateral.

— Como você consegue cruzar isso sozinho? —


Perguntou, olhando para os ossos espalhados enquanto eles
cruzavam o túnel.
Sua mão apertou a dela novamente. — Eu realmente
nunca tive muito medo. Escuridão, morte, sangue, ossos, são
todos parte da vida, de uma forma ou de outra.

— E fantasmas? — Ela perguntou, pegando velocidade


com ele. — Você acredita neles?

— Eu não sei. — Deu a ela um olhar sob seu capuz, o


lampião balançando em sua outra mão, iluminando seu
caminho. — Eu sou mais um crente sobrenatural. Acredito que
há muitas coisas além do nosso entendimento que ainda não
têm uma explicação. Talvez aconteça em alguns anos, afinal,
algumas centenas de anos atrás, também não havia explicação
para a esquizofrenia.

Não, não havia. Sua mãe, se tivesse nascido em uma


época diferente, seria queimada na fogueira. E Corvina
também.

Eles emergiram na boca do túnel do outro lado,


finalmente, e Corvina tragou uma golfada de ar fresco e
precioso. Ela olhou ao redor, o céu um pouco mais claro do
que antes, e percebeu que eles estavam perto da ponte.

Um bando de corvos voou por cima, grasnando para ela.

— Seus pássaros sentiram sua falta. — Sua voz irônica


falou enquanto ela olhava para os pássaros, um pequeno
sorriso em seu rosto.
— Não consigo vê-los há algumas semanas. — Ela
comentou, observando os pássaros pousarem no gazebo aberto
ao lado da ponte, alguns voando para longe.

— Eu sei. — Ele soltou a mão dela. — Tenho dado


guloseimas a eles quando vou consertar o piano.

Corvina olhou para ele surpresa. Isso foi inesperado.


Legal. E se sentiu uma idiota por ter um momento de pânico
antes de entrarem no túnel.

— Você queria vir para o lago. — Vad lembrou,


caminhando sobre a ponte e apoiando os cotovelos no corrimão
de pedra. — Aqui estamos.

Corvina inspirou e andou até a ponte ao seu lado,


inclinando-se para olhar a água negra.

Pela primeira vez desde que chegou à Verenmore, ela


fechou os olhos e abriu os sentidos. Não sabia se era algo que
pegou subconscientemente e que agora vinha para ela, ou algo
além do normal, além de sua compreensão. Simplesmente
sabia que tinha que seguir seus instintos.

O cheiro de podridão e decomposição chegou primeiro,


antes que a voz o fizesse.

Ache-nos.

Formigas imaginárias rastejavam sobre sua pele, os


cabelos na nuca subiam. Corvina respirou fundo, e olhou para
a água, vendo seu reflexo nas profundezas obscuras. Os corvos
que tinham estado no mirante decolaram, circulando sobre
sua cabeça uma vez antes de sobrevoar a montanha.

Ela engoliu em seco.

— Você estará aqui quando dragarem o lago? — Ela


perguntou ao homem ao seu lado, aquele que podia sentir
observando-a de perto.

— Sim.

— Mande-os olhar embaixo da ponte.

Ela não sabia como sabia disso. Talvez fosse a maneira


como seu reflexo a lembrava daquele incidente no espelho do
banheiro. Talvez fosse o instinto, algumas pistas que sua
mente profunda captou em suas caminhadas que sua
consciência não conseguia entender. Talvez fossem os
pássaros. Ela não sabia.

Mas tocou a pedra fria do corrimão, lembrando-se de ter


sido arrastada para a água, e se perguntou pela centésima vez
se estava enlouquecendo.

Depois de alguns minutos de silêncio, os dois voltaram


para o castelo pela floresta, indo até a Ala Administrativa para
fazerem seus telefonemas.

Kaylin saiu da Ala, parando surpresa ao ver Corvina e


Vad juntos.
— Sr. Deverell. — Kaylin deu ao homem ao lado dela um
aceno com a cabeça, realização despontando em seus olhos. —
Corvina.

— Confio em você para manter isso confidencial, Kaylin.


— Vad falou em seu tom profundo e autoritário para uma
mulher muito mais velha do que ele. — Precisamos fazer
algumas ligações esta manhã.

— Claro, Sr. Deverell. — Kaylin inclinou a cabeça e foi


embora.

Corvina a observou partir. — Ela sabe quem é você?

Eles entraram no prédio vazio e Vad a conduziu para um


escritório à esquerda, olhando para ela. — Não. Você é a única
aqui que sabe disso.

— Então por que foi tão... submissa? — Corvina se


perguntou quando entraram em um pequeno espaço com uma
escrivaninha, uma cadeira e um telefone. Um pensamento feio
penetrou em sua mente. — Por favor, me diga que não dormiu
com ela. — Ficaria nauseada se o tivesse.

Sua risada profunda veio antes de suas mãos caírem em


sua cintura, puxando-a para o espaço entre suas pernas
enquanto ele se recostava na mesa. Uma de suas mãos
segurou seu queixo em um movimento que seu corpo
reconheceu, seus olhos prateados fixos nos dela. — Eu gosto
de você ser possessiva comigo.
— Isso não é uma resposta. — Ela apontou, seu estômago
afundando.

— Não. — Tranquilizou-a, seu polegar esfregando seu


lábio inferior. — Ela é contida porque sabe que estou no
Conselho. E sabe que estou no Conselho porque pedi-lhe que
enviasse para você uma oferta de admissão. Kaylin não faria
isso sem saber que eu tinha autoridade.

O nó em seu peito afrouxou, seus olhos caindo para o


pescoço dele enquanto ele a olhava calorosamente. — Você não
gostaria de morar no campus com um dos meus antigos
amantes também. — Ela o lembrou, corando sob seu
escrutínio.

O aperto em seu queixo aumentou, puxando seu rosto


para cima, a outra mão segurando sua bunda em um gesto
possessivo. — Eu o jogaria para fora desta montanha antes de
tê-lo sobre ela, little crow. Mesmo minha forma malvada e
bestial em seu sonho não compartilhava. Sua mente sabe
muito bem que eu nunca o faria.

Deus, ela não entendia porque a excitava tanto quando a


reivindicava assim.

— Preciso ligar para o Dr. Detta. — Sussurrou, esperando


que ele lhe desse privacidade para fazê-lo.

Vad esfregou seu lábio inferior. — Então ligue para ele.


Eu não vou sair. Não há nada em seu arquivo que eu já não
saiba.
Ele trouxe o telefone para ela sem se mover ou deixá-la se
mover. Corvina suspirou e discou o número que memorizou
anos antes, para o qual ligava a cada poucos meses.

Levou o telefone ao ouvido, seu dedo mexendo no fio


enquanto as mãos dele seguravam sua parte inferior das
costas, esfregando círculos suaves ao redor delas.

A linha tocou na outra extremidade quatro vezes, cada


uma fazendo seu coração bater mais rápido, até que foi
direcionada a deixar uma mensagem.

Corvina respirou fundo, esperou o bipe e falou. — Oi, Dr.


Detta. Aqui é Corvina Clemm. Espero que você esteja bem.
Estou na Universidade de Verenmore agora. Nas últimas
semanas, tenho ouvido vozes, não apenas de Mo, mas de
outros. E tenho visto algumas coisas. O pior foi no banheiro
um dia. Acho que alucinei, mas não tenho certeza. É isso, não
tenho ideia se essas... coisas que estou vivenciando estão
realmente acontecendo ou se estão na minha cabeça. — Seus
músculos se contraíram quando respirou fundo. —
Considerando meu histórico, eu... eu só quero saber. Sei que
meus testes deram negativo da última vez, mas talvez algo
tenha mudado. Por favor, diga-me o que fazer. Eu...

A mensagem foi cortada.

Corvina exalou e entregou o telefone ao homem


pressionado contra ela, que a observava como um falcão de
olhos prateados.
— Você não me contou sobre o banheiro. — Afirmou ele,
estreitando os olhos.

— Eu não sabia que tinha que te contar. — Ela ficou


tensa. — Foi um tempo atrás, de qualquer maneira.

Vad passou um braço ao redor dela, puxando-a contra


seu corpo e empurrando seu queixo para cima, sua cabeça
inclinada para trás enquanto ele se inclinava. — Entenda isso,
Corvina. Não sei como essa coisa entre nós mudou e não me
importo. Você não está sozinha. Não mais. — Disse
pacientemente, seus olhos ferozes. — Se algo assim acontecer,
diga-me. Se precisar de ajuda, diga-me. Se precisar de
conforto, diga-me. O que for preciso. Eu serei a única loucura
dentro de você, entendeu?

Sua garganta se apertou.

Ela não estava sozinha. Mas isso duraria?

— Não sabemos quanto tempo isso vai durar. — Ela


repetiu seu pensamento, os olhos em seu pescoço.

— Olhe para mim. — Ordenou, e seu corpo obedeceu, seu


olhar travando com o dele. — Sou neto de um serial killer. Fui
criado por ele, ensinado por ele. Seu legado é meu, seu sangue
é meu. Nunca serei um bom homem. Mas você não precisa de
um bom homem, precisa? Você precisa de um diabo para lutar
contra seus demônios porque não quer lutar contra eles
sozinha. Você é autossuficiente, mas não quer ser. Quer aquela
besta no trono tomando conta de você, a besta que poderia te
foder em uma sala cheia de pessoas enlouquecidas e ainda
fazê-la se sentir segura. Estou errado?

Corvina se sentia nua, esfolada, destripada, suas vísceras


espalhadas no chão do escritório enquanto ele olhava
diretamente para ela.

— Não. — Sua voz era apenas um sussurro.

— Algumas coisas estão além da nossa compreensão. —


Puxou-a para mais perto. — Isso começou no dia em que a
velha Zelda me contou sobre olhos roxos. Isso. — Acariciou sua
bochecha com o polegar. — Começou no dia em que encontrei
sua mãe enquanto procurava por um amigo, o dia em que a vi
do lado de fora do consultório do Dr. Detta. Você estava
sentada em um canto da sala de espera, toda de preto,
amontoada em sua saia, com esses olhos fixos no espaço.

Um tremor subiu por sua mandíbula enquanto ele falava,


combinando com o tremor em seu coração.

— Foi quando a vi, então a reencontrei. Trazer você aqui


foi uma maneira de eu satisfazer minha curiosidade, nada
mais. Nunca tive a intenção de que você conhecesse meus
segredos. Mas aqui estamos, e isto, isto vai durar, Corvina. —
A ferocidade dele encheu todo o rosto dela enquanto ele se
inclinava mais perto, seus lábios um fôlego de distância. —
Isso vai durar até o dia em que as rosas do meu túmulo
deixarem de compartilhar raízes com as rosas do seu. —
Declarou. — Eu terei você mesmo na morte, Bruxinha. Eu sou
sua besta. Sou sua loucura. E você, você é minha vida após a
morte.

— E se um dia eu me tornar como minha mãe? — Ela


sussurrou, o medo mais profundo e sombrio em seu coração.

— Você não vai. — Ele murmurou. — Sua mãe não tinha


ninguém. O fato de tê-la criado como o fez é um milagre em si.
Mas você me tem. Eu não vou deixá-la ir a lugar nenhum. Você
entende?

Uma lágrima caiu por sua bochecha enquanto ele a


beijava, lábios brutais em seus lábios, mãos brutais em seu
rosto e palavras brutais em seu coração.

Corvina se rendeu como areia sob uma onda do mar,


deixando-o levá-la para onde quisesse, deixando rastros de seu
passado para trás neste momento. Beijando-o naquele
escritório, bebendo as palavras de um homem que ainda não
entendia completamente, mas sabia que passaria a vida inteira
tentando fazer isso. Corvina se rendeu, sentiu algo perdido
dentro dela finalmente voltar para casa.
Corvina

— Cara, você ouviu que estão dragando o lago? — Jade


sentou-se com sua bandeja no almoço, seus olhos verdes
arregalados.

Erica acenou com a cabeça do seu lado. — Eu sei. Vi uma


equipe subindo durante meu período livre.

Corvina deu uma mordida na salada, mastigando


lentamente enquanto ouvia a conversa, na esperança de
alguma atualização.

— Será que aconteceu algo para fazerem isso agora? —


Ethan se perguntou, mastigando um palito de cenoura. — Algo
deve ter acontecido. Não acho que ninguém foi para aquele lago
antes.

Jax se virou para ela, de repente. — Ei, você não achou o


lago na floresta no início do semestre?

Corvina assentiu com a boca cheia de comida. — Sim,


mas não fui mais lá.
— Estranho. — Jade murmurou. — Você acha que é por
causa do Baile Negro?

— O que quer dizer? — Erica perguntou. — O baile é no


mês que vem.

Jade olhou pela janela para o dia surpreendentemente


claro. — Quero dizer, talvez não queiram que ninguém
desapareça este ano e isso desencadeou algo? Quem sabe?

— Vocês querem ver o que está acontecendo lá? — Ethan


sugeriu. — Ouvi dizer que um bando de caras da minha torre
já foram.

— Sim, vamos. — Jax assentiu com entusiasmo.

Enquanto refletiam sobre diferentes teorias, Corvina


almoçou, querendo ir ao lago sozinha, só para ver o que estava
acontecendo. Assim que terminaram, Corvina pegou uma
banana e todos saíram em fila na direção da floresta, o coração
doendo por causa do buraco no grupo que era Troy,
lembrando-se da última vez em que entraram na floresta com
ele.

— Eu sinto falta de Troy, cara. — Ethan ecoou seus


pensamentos, agarrando sua nuca. — O idiota adoraria isso.

— Sim. — Jade concordou, movendo-se à frente do grupo


em direção à floresta.

— Você sabia que ele foi para a floresta sozinho uma vez?
— Ethan bufou uma risada. — Entrou alguns passos e saiu
correndo, depois fingiu que era porque estava atrasado para a
aula.

Corvina sorriu, surpreendentemente capaz de visualizar


isso no menino.

— Onde fica esse lago? — Erica perguntou diretamente à


Corvina enquanto desciam a ladeira. A luz do sol brincava de
esconde-esconde com as nuvens escuras, ainda tornando o dia
mais claro do que há semanas.

— Um pouco à frente, se bem me lembro. — Respondeu


Corvina, sabendo a localização exata, mas fingindo que não.
Eles se aproximaram da abertura na área, mas podia ouvir os
sons das pessoas ecoando na floresta. Surgindo alguns
minutos depois para a clareira, Corvina parou, observando a
cena.

A água do lago refletia a luz, suas profundidades escuras


ainda desconhecidas. Dois barcos estavam no meio com dois
mergulhadores cada. Algumas pessoas estavam na margem e
na ponte à distância, supervisionando ou observando a
atividade, ela não sabia dizer.

Corvina foi até sua pedra e deixou a banana lá para os


pássaros, virando-se para ver seu grupo caminhando em
direção à ponte. A ponte em si, agora que podia vê-la à luz do
dia, era linda. Era pequena, feita de pedra cinza e coberta de
musgo verde, cavando um túnel sobre uma parte estreita do
lago que conectava esta parte da montanha ao outro lado.
Juntou-se ao seu grupo enquanto iam lá, tropeçando no
primeiro degrau. Jax a segurou, estabilizou-a e Corvina
agradeceu, olhando para cima para ver os olhos prateados
brilharem por um momento antes que ele cerrasse a
mandíbula, olhando para o resto do grupo.

— O que vocês estão fazendo aqui? — Vad perguntou ao


grupo em geral, deliberadamente mantendo os olhos longe de
Corvina enquanto ela passava pelo parapeito para olhar para
baixo, avistando um rosto familiar.

— Só queríamos ver o que está acontecendo, Sr. Deverell.


— Disse Erica em um tom excessivamente doce que fez seus
dentes rangerem. Corvina os ignorou, parando ao lado de Ajax.

— É bom ver você, Sr. Hunter. — Cumprimentou-o


quando ele se virou para olhar, seu rosto se contraindo em um
sorriso genuíno.

— Ah, a garota de olhos roxos. Por favor, me chame de


Ajax, Corvina. — Olhou para frente novamente. Corvina
observou os mergulhadores no lago colocarem seus óculos de
proteção, fazendo um sinal de positivo com o polegar para Ajax,
e saltarem.

— Você os trouxe aqui? — Perguntou a ele, olhando para


todas as pessoas estranhas e sérias na área.

Ajax assentiu. — Seu namorado me ligou esta manhã.


Felizmente, eu ainda estava na cidade e consegui trazer a
equipe a tempo.
Seu coração acelerou com o 'namorado', mas o reprimiu.
— Por favor, não diga isso em voz alta.

Ele olhou para ela. — Claro. Presumo que ele te disse a


verdade?

— Algumas, sim. — Admitiu Corvina em voz baixa. —


Troy? — Perguntou, seu estômago dando um nó.

Ajax ficou sério. — Descansando em paz.

Ficaram em silêncio depois, apenas observando o lago


enquanto os mergulhadores faziam o seu trabalho. Ela sentiu
outras pessoas se juntarem a eles, Vad do outro lado de Ajax,
seus amigos ao dela.

— Eles já encontraram alguma coisa? — Vad perguntou,


tirando um maço de cigarros do bolso e silenciosamente
oferecendo um a Ajax, que o pegou.

— Não.

Eles os acenderam, fumando.

— Quanto tempo vocês vão procurar no lago? — Jade


perguntou do lado dela, espiando. — Nunca vi água tão escura
antes.

— Há uma velha lenda por trás da cor. — Vad a informou,


seu conhecimento dessas montanhas muito mais vasto do que
ela imaginou.
— Qual é a lenda, Sr. Deverell? — Ethan perguntou,
apoiando-se nos cotovelos.

— Também estou interessado. — Interrompeu Ajax.

Vad tragou o cigarro e soprou. — Era chamado de Lago


da Cobra há muito tempo. Segundo a lenda, esse buraco na
montanha era um poço de cobras monstruosas, elas comeriam
qualquer coisa que encontrassem na floresta. Um dia,
morderam um homem na floresta, arrastando-o para o poço
com elas. Sua amante. — Deu outra tragada, sua voz hipnótica
em sua narrativa. — Era uma feiticeira poderosa. Quando
descobriu que ele foi brutalmente morto, sua raiva não
conheceu limites.

Ele fez uma pausa para expirar e Corvina observou seu


perfil, fisgada nele e na história.

— Em sua dor. — Continuou em sua voz profunda e


rouca, de alguma forma tornando a história ainda mais
assustadora. — Ela foi para o poço e prendeu todas as cobras
com seu cabelo, abraçando o corpo em decomposição de seu
amante, e encheu o poço com água, afogando-os à força. Dizem
que o preto na água é seu cabelo, mantendo as cobras
venenosas presas por toda a eternidade enquanto ela fica com
seu amante.

Corvina estremeceu.

— Isso é macabro. — A voz de Ethan tremeu ligeiramente.

— Foda-se, estou arrepiada. — Erica esfregou os braços.


Vad riu, apagando o cigarro no parapeito de pedra. — É
uma lenda antiga. Encontrará um monte delas sobre essas
montanhas na biblioteca, se procurar. Lugares como este
tendem a inspirar a imaginação das formas mais perversas.

— Que bom que os mergulhadores não conhecem a


história, então. — Brincou Ajax, quebrando a escuridão.

— Todos vocês deveriam voltar para o castelo. — Disse


Vad ao grupo. — Vocês têm aula e isso não lhes diz respeito.

Corvina podia ver a relutância no rosto de todos, mas


assentiram, voltando para o castelo, a vida voltando ao normal.

Três aulas distraídas e dever de casa depois, Corvina


devolveu alguns livros à biblioteca, encontrando o grupo
novamente durante o crepúsculo, fazendo uma pequena
viagem ao lago.

A cena em que chegaram era ligeiramente diferente.

Havia uma lona no banco com algumas coisas em que os


forenses estavam trabalhando, algo que Corvina não
conseguiu ver. A tensão no ar era alta, todos os investigadores
exibindo expressões severas. Vad e dois outros professores, Dr.
Brown e Dr. Pol, ficaram de lado com Ajax, de braços cruzados.

— O que está acontecendo? — Jade perguntou,


imaginando a mesma coisa que Corvina quando ouviu um
grito.

Outra coisa foi encontrada.


Corvina agarrou a alça de sua bolsa com os nós dos dedos
brancos, mantendo os olhos no lago enquanto uma equipe
corria para o mergulhador em um barco, levando o que quer
que ele lhes desse, antes de descer novamente. A equipe correu
para o lago, colocando cuidadosamente o que estava em suas
mãos sobre a lona que haviam colocado. Seus amigos correram
para lá para ver o que era, mas Corvina ficou no local, de
repente sentindo o calor de sua presença nas suas costas
enquanto o frio invadia seus ossos.

— Parece que você estava certa, little crow. — Vad falou


baixinho, seu tom sombrio.

— Encontraram os corpos? — Virou-se para olhar para


ele, seu coração batendo forte.

— Ossos.

Corvina estremeceu, sentindo uma forte necessidade de


se aproximar do calor de seu corpo.

— Eles ainda estão os encontrando. — Disse a ela, seus


olhos no lago. — Os corpos estavam com pesos.

Corvina se lembrou do sonho, as mãos agarrando seus


tornozelos, puxando-a para baixo. — Pelos pés, não é? Algo
amarrado aos pés deles?

Vad lançou um olhar em sua direção. — Sim.


Ficaram em silêncio depois disso, testemunhando as
consequências do caos que seu avô criou. Isso não deve ter
sido fácil para Vad.

Corvina olhou em volta para ver que ninguém estava


olhando, então lentamente passou um dedo sobre sua mão em
solidariedade. — Você está bem?

Ele bufou uma risada. — Estou realmente feliz. Aliviado.

Corvina ergueu os olhos para ele, franzindo as


sobrancelhas. — Com corpos sendo encontrados?

— Sim. — Ele passou a mão pelo cabelo, sobre aquela


mecha branca. — Provavelmente nunca seremos capazes de
identificar todos eles, mas saber que foram encontrados é um
alívio. Tendo tantas mortes em um só lugar. — Sua voz ficou
baixa. — Isso pode realmente tirar um pouco da maldição deste
castelo.

— Você acha que isso finalmente acabará com os


desaparecimentos no Baile Negro?

— Saberemos em um mês, não é?

Nas horas seguintes, à medida que mais e mais alunos


da universidade vinham ao lago apenas para ficarem de lado e
observarem o procedimento, Corvina ficou com seus amigos,
atordoada, e viu como os mergulhadores retiraram o
equipamento e trouxeram algo, repetidamente, até que o
crepúsculo começou a cair e o mergulho teve que ser
interrompido.
Os mergulhadores levaram três dias para trazer tudo o
que encontraram no leito do lago. Ao final, mais investigadores
inundaram a área, mais estudantes vinham para ver o que foi
encontrado, mais especialistas forenses para organizar e
registrar tudo de forma organizada.

Na última noite, sob a lua cheia, uma linha organizada de


itens coletados estava sobre quatro lonas largas. De pertences
pessoais como sapatos, grampos de cabelo e relógios à restos
de esqueletos.

Ossos.

Quatorze crânios.

Um total de oitocentos e sessenta e oito ossos


fragmentados, humanos e animais, o restante deles
provavelmente enterrados sob o leito do lago.

A voz feminina não veio novamente.

E sua única pergunta permaneceu sem resposta.

Como diabos sabia sobre eles?


Corvina

As próximas semanas passaram como um borrão. Entre


estudar para as provas, escrever os trabalhos finais e se
esgueirar com Vad, Corvina mal teve tempo de respirar.

Ter um namorado que era professor, dono do castelo e


membro do Conselho era muito útil em alguns aspectos.

Ela obteve permissão especial da Sra. Suki para abrir a


biblioteca mais cedo para fazer alguns estudos, um fato que os
alunos não foram informados porque a Sra. Suki não confiava
neles com seus livros. Sua rotina era simples. Acordava cedo e
ia para a biblioteca trabalhar em um artigo por algumas horas,
depois Vad geralmente a encontrava em um dos corredores
após o treino, todo suado e quente, empurrava-a contra os
livros e a fodia na biblioteca vazia. Então voltaria para sua
torre, tomaria banho e se prepararia para as aulas, sairia com
seus amigos, especialmente Jade, e a ajudaria a se curar
lentamente.

Durante as aulas, ela se concentraria e estudaria, até na


aula de Vad, onde fingia que não sabia como se sentia dentro
dela, o tempo todo olhando para ele. Depois da última aula do
dia, diria aos seus amigos que iria para a biblioteca, mas ficaria
na sala de aula para que ele a curvasse sobre a mesa ou a
empurrasse contra a janela para que ela não pudesse ver nada
além do penhasco enquanto a penetrava por trás, ou realmente
iria para a biblioteca para estudar.

Depois do jantar, diria aos amigos que iria dar um


passeio, mas o encontraria na Masmorra – que ainda não
estava aberta aos alunos devido a reparos – ou o encontraria
em seu quarto por algumas horas.

Eles fodiam.

Eles transavam muito, com uma necessidade insaciável


que parecia crescer mais selvagem e uma ternura intensa que
parecia florescer mais profundamente. Também falavam muito
depois de recuperar o fôlego na cama, ou na banheira olhando
para o castelo, ou no mato dando um passeio. Às vezes, não
falavam nada. Às vezes, ele tocava sua música, banindo seus
demônios e ela lia seus romances, reconhecendo seus anjos.

O que quer que fossem, simplesmente eram. Pararam de


lutar contra a corrente e se entregaram a ela, sem saber onde
os levaria.

O fato de os corpos terem sido encontrados no lago


tornara a floresta ainda mais assustadora no campus.
Ninguém mais entrava nela e os rumores de que todos os
mortos assombravam o castelo pareciam ter cada vez mais
validade na mente das pessoas. Todo mundo começou a ver
fantasmas. Histórias de fantasmas nas torres, nos corredores
e nos jardins se espalharam pelo campus. Chegou ao ponto em
que Corvina teve vontade de bater com a cabeça quando um
de seus colegas de classe jurou que viu um fantasma urinando
no banheiro.

Corvina não acreditou em todos os boatos,


principalmente porque as vozes em sua cabeça estavam
caladas. No entanto, uma sensação de alívio não foi o que
sentiu quando se aproximavam do Baile Negro. Era uma
sensação de condenação, uma sensação de que algo estava
terrivelmente, terrivelmente errado. Dr. Detta não ligou de
volta e isso era ainda mais frustrante.

— Eu não posso explicar. — Corvina disse a Vad,


enquanto se sentava nas poltronas da biblioteca depois de uma
intensa e feliz orgástica rodada de sexo no início da manhã. —
É como se... meus instintos estivessem gritando comigo. Algo
ruim vai acontecer e eu não sei o que é.

Vad cutucou a lenha na lareira, sentando-se de cócoras,


seu rosto atraente iluminado pela luz do fogo. O tempo
definitivamente melhorou durante o dia, mas as manhãs ainda
eram muito frias.

— Há alguma coisa em particular que acione isso? — Ele


perguntou, sentado na poltrona de pelúcia, vermelha e
marrom ao lado da dela, abotoando sua camisa que faltava um
botão em algum lugar no chão da biblioteca.
Corvina fez uma pausa para refletir sobre a pergunta,
tentando pensar nas vezes em que sentiu a sensação. Seu
coração afundou. — É sempre mais forte após nos
encontrarmos. Eu... eu acho que pode ter algo a ver com você,
ou talvez com sua família.

Ele pôs uma mão no joelho inquieto dela, acalmando-a.


— Pode ser totalmente hormonal. Não estou dizendo isso para
ser um idiota, mas seus hormônios ficam mais elevados
quando está comigo. Você sente mais intensamente. Esse pode
ser um motivo.

Às vezes ele fazia muito sentido. Corvina suspirou. —


Então, estamos de volta à estaca zero, sem nenhuma ideia
sobre nada.

Apertando o joelho dela, declara. — Ajax veio ontem.


Disse-me que identificaram dez das vítimas. Quatro
permanecem desconhecidas.

— Mas eram quinze, certo? — Corvina se lembrava das


sepulturas vazias.

— Sim. — Ele se levantou. — Poderiam ter sido


eliminados em outro lugar. Considerando o tamanho desta
floresta, talvez nunca saibamos.

— Você está saindo? — Corvina inclinou sua cabeça para


trás para olhar para ele, vendo seu físico alto e largo coberto
de preto, seus cabelos varridos para trás do rosto com aquela
mecha branca brilhando na luz do fogo, destacando suas belas
maçãs do rosto e aqueles olhos prateados e deslumbrantes que
não haviam perdido a intensidade nem um pouco. Deus, ele
era magnífico tanto quanto o havia encontrado naquela
primeira noite, meses atrás.

— Estou concluindo minha tese hoje. — Abaixou-se para


fechar seus lábios sobre os dela, dando-lhe um beijo forte,
antes de pressionar um beijo em seu piercing, com seus olhos
brilhando. — Seja boa.

Ela sorriu. — Quando não sou?

Seus lábios se torceram, antes que ele pegasse dois livros


da mesa em que a fodeu, e saísse.

Corvina exalou, voltando a estudar a teoria crítica, o nó


em seu estômago nunca se dissipou de verdade.

Foi nesse momento que, pela primeira vez na vida,


Corvina abriu o diário, destampou a caneta e começou a deixar
os pensamentos fluírem.

O vento nas paredes

Ecoando segredos e pecados

Sussurra para mim

Incitando-me

Para ouvir
E eu tento

Falho

Não escuto a morte

Isso está chegando

Ela olhou para o que diabos escreveu em seu fluxo de


consciência, fechou os olhos e rasgou a página, jogando-a no
fogo. Ele a devorou, a tinta derretendo na chama, consumida,
com as cinzas que permaneceriam no final.

Passando a mão pelo diário, silenciosamente começou a


escrever a história de uma garota que morreu em um castelo,
assombrando as paredes por um amante que nunca apareceu.

Jade a encontrou algumas horas depois, sentada na


poltrona e rabiscando furiosamente em seu caderno, como se
as comportas tivessem se aberto.

Jade largou a bolsa no chão, olhou para a mesa vazia da


Sra. Suki e caiu na poltrona em que Vad estava sentado horas
atrás.

— Não consigo mais estudar. — Queixou-se ela com voz


cansada. — Se eu tiver que ler mais uma data para História,
farei algo drástico.

Corvina sentiu os lábios estremecerem, mas ficou em


silêncio, terminando a última linha da página de seu caderno
antes de fechá-lo e colocá-lo na bolsa, a emoção nas veias com
a história era algo inédito.

— Você está animada para o baile? — Jade lhe perguntou


quando ela terminou.

Em um pequeno grau, estava animada. Nunca viu nada


em sua vida como o baile sobre o qual esses caras falaram. Boa
comida, boa música, boas roupas e máscaras, tudo parecia
uma noite perfeita. Contanto que ninguém desaparecesse
dessa vez, claro.

Corvina encolheu os ombros. — Sim, um pouco.

Jade olhou para as unhas, que finalmente pintou de rosa


novamente, pela primeira vez desde Troy. Só de pensar nele,
Corvina sentiu uma pontada no coração. Ela sentia falta de
sua presença e de seu sorriso característico todos os dias,
então não podia nem imaginar o quão mais difícil deve ser para
sua colega de quarto. Às vezes, imaginava como se sentiria se
perdesse Vad da mesma forma que Jade perdeu Troy, e só o
fato de que Jade pudesse se levantar da cama e retomar a vida
era uma maravilha para ela.

— Ethan me perguntou se eu iria com ele. — Jade disse


a ela, ainda olhando para suas unhas. — Não romanticamente
nem nada. Nós dois simplesmente amamos Troy, e ele achou
que seria uma boa ideia irmos juntos.

Corvina sentiu suas sobrancelhas subirem ligeiramente


antes de controlar sua expressão. Ela tinha certeza de que
Ethan gostava de Jade, mas como o bom amigo que era, nunca
a olhou dessa forma enquanto Troy estava lá. — Acho uma boa
ideia. — Concordou Corvina, na esperança de que isso
trouxesse alguma alegria para os amigos.

Jade pegou sua caneta descartada e começou a rabiscar.


— Com quem você vai?

O diabo de olhos prateados de Verenmore. Secretamente.


Mas, é claro, não podia dizer isso.

— Ninguém. — Encolheu os ombros. — Vou ficar bem


sozinha.

— Eu acho que Jax quer te convidar.

— Espero que não. — Corvina mordeu o lábio. Vad não


era fã de Jax tentando entrar por baixo das saias de Corvina,
como ele disse, e se os papéis estivessem invertidos, ela
provavelmente também não seria.

— Está um dia lindo lá fora. — Jade se levantou,


agarrando a mão de Corvina. — Vamos lá, vamos pegar um
pouco de sol. Você passa muito tempo nesta masmorra, de
qualquer maneira.

A maior parte transando com seu professor gostoso, mas,


novamente, Jade não precisava saber disso.

Elas subiram e saíram para o gramado dos fundos, o sol


brilhando lindamente sobre a montanha inteira, o coração
revigorante após semanas de frio. Os alunos estavam sentados
na grama em todos os lugares, tomando sol em grupos. Jade
as conduziu para o lado do Salão Principal, onde corria o
caminho de paralelepípedos para a Ala dos Professores, e
sentou-se em um local vazio.

Corvina colocou sua bolsa lá, espiando um arbusto de


rosas vermelhas próximo à janela do Salão Principal. Ela foi e
arrancou duas, tomando cuidado com os espinhos, e trouxe
uma para sua amiga, amando o sorriso que iluminou seu
rosto. — Este castelo é uma beleza durante o dia.

Corvina recostou-se nas mãos, erguendo o pescoço para


o céu azul pontilhado de nuvens, um sorriso no rosto.

— Que diabos é isso?

Imediatamente olhando para a angústia no tom da amiga,


Corvina viu seus olhos verdes pousados em seu ombro, onde
seu suéter caiu para o lado. O chupão perpétuo, era para isso
que Jade olhava. Vad adorava ter aquela marca nela em um
lugar geralmente coberto, apenas para os dois saberem, uma
marca de propriedade e ternura tão profunda que parecia sem
fundo.

Era confuso? Provavelmente.

Ela se importava? Nem tanto.

Adorou, emocionou-se, sabendo que era total e


completamente sua.

Mas não queria que ninguém mais visse.


Sem dar bola, esfregou a mancha e encolheu os ombros.
— Oh, isso? Eu simplesmente bati em uma prateleira outro
dia.

Jade deu-lhe um olhar que gritou 'sério?'

— Garota, reconheço um chupão quando vejo um, e isso,


Cor, é o chefe dos chupões. Se chupões pudessem ser esporte,
este se qualificaria para as Olimpíadas. Você está saindo com
alguém?

Corvina mordeu o lábio, não queria mentir para a amiga,


mas também não queria compartilhar.

— Olha. — Jade continuou. — Eu sei que não estou no


melhor estado de espírito ultimamente e você provavelmente
sentiu que não poderia me dizer, mas estou aqui para ajudá-
la, ok? E quero saber quando está vendo um cara sério o
suficiente para deixá-lo fazer esse tipo de marca em você.

Deus, ela se sentia uma péssima amiga quando Jade dizia


isso, mas sabia que não podia compartilhar sobre Vad, não
dada a complexidade da situação. Então se estabeleceu no
meio termo.

— É recente. — Confirmou Corvina. — Mas estamos


sendo discretos até termos certeza de que é sério.

O que era uma mentira porque ela já sabia o quanto eles


eram sérios.
— Oh, Deus, ele é um veterano, não é? — Jade sorriu,
com seus olhos brilhando. — Diga-me que o sexo é bom, pelo
menos. — Corvina apenas sorriu e Jade assobiou. — Ele deve
ser um Deus para colocar esse tipo de sorriso em seu rosto.
Droga, garota maldita. Estou feliz por você.

Corvina segurou a mão da amiga, apertando-a. —


Obrigada, Jade.

Jade olhou para sua bolsa. — Você tem suas cartas com
você?

Corvina olhou para ela perplexa. — Sim, por quê?

— Estou confusa se devo ir com Ethan. — Pegou um


pouco de grama. — Faça uma leitura para mim, por favor.

Corvina riu, abrindo a bolsa e retirando o baralho. Abriu


um espaço na grama entre elas, pegou um pouco de água de
sua garrafa e borrifou no baralho como sua mãe lhe ensinara.
Pegando as cartas, começou a embaralhá-las em suas mãos,
sentindo o peso familiar acalmar sua mente e pensamentos.

— Você deveria ir com Ethan ao baile? — Ela perguntou


quando uma carta caiu.

Corvina parou de embaralhar, virou a carta e sorriu. Ás


de Copas. — Isso é um claro sim.

— Cara, você lê tarô? — Erica veio do lado, caindo ao lado


de Jade, parecendo animada. — Você pode puxar uma carta
para mim, por favor?
Corvina riu. — Claro. Pergunte-me alguma coisa.

Erica pensou por um segundo, antes de sorrir. — O Sr.


Deverell dirá sim aos meus avanços?

O estômago de Corvina se contraiu, o desejo de socar o


sorriso de Erica agudo. Ela controlou o rosto, surpresa por sua
própria reação violenta a uma garota que se aproximava dele,
surpresa com a intensidade de sua possessividade.

Jade engasgou. — Ele é um professor! — Repreendeu.

— E? — Erica balançou as sobrancelhas. — Uma coisa


única, ninguém irá saber. Ele é gostoso, ok?

Corvina embaralhou as cartas com mais força, mordendo


o interior da bochecha, para não fazer algo de verdade. Uma
carta caiu. Três de Espadas. A satisfação zuniu por ela.

— Isso seria um não, infelizmente, Erica. — Alegre. Ela


estava alegre. O universo a protegeu.

Alguns outros alunos foram até elas, pedindo à Corvina


que puxasse uma carta, e Corvina ficou feliz com a distração,
especialmente com algo que amava e sentia falta de fazer.
Dentro de uma hora, uma pequena multidão se reuniu ao
redor dela enquanto as nuvens cobriam o céu, todos querendo
ter uma pergunta respondida ou vendo as leituras para os
outros, incluindo alguns professores.

Foi um momento tão estranho para ela – a estranha


garota da floresta com os olhos estranhos e a mãe estranha –
as pessoas a aceitarem em sua forma natural, assim como ela
era. Percebeu que, na verdade, parou de se importar tanto com
a aceitação social nos últimos tempos, sentindo-se menos
solitária e mais completa, e provavelmente tinha a ver com a
maneira como Vad a aceitava. Ele a fortalecia por meio de sua
conexão, fazendo-a perceber que era adorável como era, que
não era uma rejeitada, que pertencia a algum lugar precioso.
Ele foi o catalisador para sua aceitação de si mesma, de sua
compreensão de que era diferente e isso valia a pena tudo.

A Corvina de alguns meses atrás que se esquivara de


contar à colega de quarto sobre seu amor pelo tarô era tão
diferente da Corvina naquele momento, sentada em um jardim
cercada de pessoas e fazendo o que amava sem sentir um pingo
de desconforto.

Isso fez o calor em seu coração se expandir dez vezes e


colocar um sorriso em seus lábios.

E como se ela o tivesse invocado, a multidão se separou


e ele se esgueirou pelo círculo, seus olhos de prata sobre ela,
vendo-a fazer suas coisas. O orgulho nos seus olhos de vê-la
em seu ambiente fez com que algo dentro dela explodisse de
alegria, endireitando um pouco mais sua coluna vertebral,
inclinando seu queixo um pouco mais alto, fazendo-a sorrir um
pouco mais brilhante.

Corvina queria que ele tivesse orgulho dela como tinha


dele, queria que olhasse para ela e visse uma garota talentosa
e apaixonada e não a bagunça que era. Ela embaralhou com
um talento extra, reconhecidamente se exibindo um pouco
para ele e, pela pequena contração em seus lábios, ele soube.

Uma carta caiu e ela olhou para o Dr. Kari, que esperava
preocupado por sua resposta. Era quase cômico. Virou a carta
dele. Nove de Copas.

— Acho que definitivamente deveria fazer uma oferta pela


casa, Dr. Kari. — Disse e viu o alívio em seu rosto.

— Estou feliz. Minha esposa estava esperando por isso.


Obrigado, Srta. Clemm.

— O prazer é meu, professor.

Dr. Kari seguiu seu caminho e Corvina continuou


embaralhando enquanto o céu escurecia.

— Tenho uma pergunta, Srta. Clemm. — A voz rouca e


grave fez seu interior apertar quando ela olhou em seus olhos.
— Você faria a gentileza de puxar uma carta para mim?

— Claro, Sr. Deverell. — Deu a ele um sorriso deliberado,


um que ele conhecia, um que viu em seu rosto muitas vezes
na cama. — Sobre o que seria?

Ele enfiou as mãos nos bolsos, inclinando a cabeça para


o lado. — Uma mulher por quem estou apaixonado.

Seu coração parou.

Suas mãos também.


Ela ouviu os suspiros dos alunos ao seu redor, chocada
que ele, entre todas as pessoas, diria algo assim, sentiria algo
assim.

Corvina sentiu os olhos se virarem para ela e mal


controlou seu rosto, embaralhando as cartas novamente em
mãos que tremiam levemente, suas vísceras se partindo e se
fundindo enquanto ele a observava com toda a ferocidade no
rosto.

— Então, sobre ela? — Corvina engoliu em seco, sua voz


felizmente firme, embora suas entranhas estivessem um
tumulto.

— Gostaria de saber se ela sente o mesmo. — Declarou,


sem desviar o olhar. Se estivessem sozinhos, Corvina o jogaria
no chão e arrancaria suas roupas. A intensa mistura de
excitação, emoção e algo tão inexplicável pulsava em suas
veias, seus olhos querendo chorar e seus lábios querendo
sorrir, seu peito arfando com falta de ar e seu coração batendo
forte com super estímulo. Um silêncio caiu sobre a multidão
enquanto esperavam pela carta.

Corvina embaralhou, sabendo que carta seria sua


resposta, seria tudo o que sentia, mas não podia dizer na hora.
Ela precisava que ele soubesse disso, com o céu, o sol e o solo
como testemunhas.

Uma carta caiu.


Com as mãos tremendo, a pegou, seus lábios trêmulos, e
a virou na direção dele.

Dois de Copas.

A carta de amor compartilhado, conectado, aprofundado.

— Ela sente o mesmo, Sr. Deverell. — Corvina percebeu


seus olhos brilhantes. — Sente exatamente o mesmo.

Vad a teria beijado, agora.

Ela viu em seus olhos, aquele olhar feroz que usava antes
de inclinar seu queixo e saborear sua boca. Mas ele se
acalmou, permanecendo enraizado no lugar, as mãos abrindo
e fechando nos bolsos que ela podia ver.

Foi um dos momentos mais profundos e intensos de sua


vida, compartilhado apenas entre os dois no meio de uma
multidão.

— Isso é um alívio. — Ele comentou, antes de dar-lhe


outro olhar acalorado e sair.

Corvina ficou sentada na grama, seu mundo girando mais


uma vez em seu eixo com a declaração casual dele, um sorriso
no rosto, e o observou partir.
Corvina

Ele nunca mencionou a declaração dos dois, nem ela.

Saindo de Verenmore por dois dias em seguida para


algum trabalho enquanto Corvina estudava, mas deus ela
sentia falta dele.

No terceiro dia, ele deixou um bilhete pedindo que o


encontrasse no quarto da torre depois da meia-noite.

Corvina saiu furtivamente de seu quarto com sua


camisola de renda preta, uma das especiais que vestira só para
ele, e caminhou pelo corredor com suas velas iluminando o
caminho. Todo o andar estava adormecido enquanto subia
silenciosamente as escadas de pedra, chegando à escada em
espiral e subindo.

Chegou ao patamar mais alto e fez uma pausa,


lembrando-se da primeira vez que o vira meses atrás, bem do
mesmo lugar, lembrando-se de como ficou encantada, como
ainda estava encantada.
Com um pequeno sorriso nos lábios, empurrou a porta
pesada um pouco, estremecendo com o rangido alto das
dobradiças, e deslizou para dentro, indo direto para a grande
janela em arco com um padrão ornamentado na beirada. Ela
colocou o castiçal de lado e olhou para fora.

Era uma noite surpreendentemente clara. Do alto da


torre, podia ver as luzes cintilantes da cidade longe, no vale, a
montanha infinita cercada por uma floresta negra aveludada,
a meia-lua tão perto que podia estender a mão e tocá-la. Ela
se perguntou como o vento seria em seu rosto nesta altura. As
janelas eram fechadas com placas de vidro, possivelmente para
evitar que os elementos naturais entrassem na sala.

Perguntou-se, por uma fração de segundo, como Troy


deve ter se sentido tão alto no telhado, a tristeza fazendo-a
afastar o pensamento. Lá embaixo, observou o trajeto de
paralelepípedos vazio, perdida em seus pensamentos sobre as
mortes de Troy e Alissa e suas semelhanças misteriosas.

Demorou um minuto para sentir os olhos sobre ela.

Olhou no reflexo no vidro enquanto Vad se encostava na


porta, as mãos nos bolsos, seu olhar sobre ela. A porta por
onde entrou estava fechada, de alguma forma sem fazer
barulho. Será que ele conhecia algum truque?

— Você está encarando. — Disse a ele sem se virar,


apenas vendo seu reflexo, sua pulsação vibrando em seu
pescoço.
Ele inclinou a cabeça para o lado em um movimento que
era tão dele, avaliando-a. — Gosto de observá-la.

Ela se moveu para o lado e se perguntou como podia vê-


la sob o luar esparso. — É você quem está de olho em mim, Sr.
Deverell, e, no entanto, vejo-o melhor.

— Você vê? — Perguntou, dando um passo mais perto


dela. — E o que vê?

— Um enigma. — Disse ela, brincando com ele como ele


brincava com ela, sabendo que aquele jogo só terminaria de
uma forma e se deliciando com isso. — Meu enigma. Seus
olhos têm perigo neles.

— E seus olhos ainda têm fome. — Sua voz profunda e


rouca cortou o espaço entre eles duramente. — Diga-me,
precisa que eu te satisfaça mais?

Corvina sentiu o eco de suas palavras vibrar em algum


lugar dentro dela. Ele a viu, realmente a viu, seu ser voraz
exposto à sua frente. Com o peito arfando, ela pressionou a
mão na janela e olhou para a lua, a outra mão agarrando a
saia. Sentiu o corpo dele esquentar atrás dela, sentiu-o parar
em suas costas e sua respiração ficou alta.

Vad ficou atrás dela, não totalmente pressionando, mas


tão ali que suas costas estavam pegando fogo. Seus braços
foram para a janela de cada lado dela, prendendo-a, e seus
mamilos endureceram. Viu seus dedos, longos e lindos afilados
em unhas perfeitas, suas mãos grandes e capazes, uma leve
camada de cabelo escuro nas costas, sabendo como eram em
seus seios, o quanto pareciam pesadas, puxando seus
mamilos, torcendo-os, dando ela uma pontada de dor antes de
acalmá-los. Ela oscilou ligeiramente, a inebriante das imagens
e seu cheiro quente e almiscarado envolvendo-a em um casulo
onde apenas os dois existiam.

— Você gostou da multidão naquele dia? — Ele


perguntou, sua voz como fumaça que engrossou o ar entre
eles. — Foi emocionante saber que eles não sabiam?

Ele a conhecia muito bem.

— Responda-me. — Ordenou.

— Sim. — Respondeu honestamente, suas costelas


expandindo com cada respiração.

— E isso te excita saber que qualquer um pode olhar para


cima e ver você pressionada contra o vidro? — Escutou seu
sussurro em seu ouvido, seu hálito quente aquecendo sua
pele.

— Eu... — Começou a falar e sentiu o nariz dele tocar seu


lóbulo, suas palavras se transformando em um gemido.

— Pressionada contra o vidro, sendo fodida pelo diabo em


suas costas? — Ele respirou novamente. — Isso te emociona?

Ela acenou com a cabeça.

— Boa menina. — Elogiou. — Você usou isso para mim?


— Perguntou, brincando com a alça de sua camisola de renda.
— Gosto de usar isso para dormir. — Choramingou
enquanto a língua dele lambia seu chupão, descendo a alça
por seu ombro, expondo um seio ao vidro.

Corvina nunca esteve tão excitada em sua vida como


estava agora.

Vad pegou seu cabelo com uma mão, puxando-o, fazendo


aquele formigamento delicioso se espalhar pelo seu couro
cabeludo, pelo pescoço, direto para os mamilos, endurecendo-
os contra o vidro frio, a sensação a fazendo gemer.

— Quieta. — Ordenou. — Minha boca ou meu pau?

Sua cabeça caiu para trás. — Ambos.

— Garota gananciosa. — Ele parecia divertido, seus dedos


encontrando suas dobras encharcadas. — Tão molhada para
mim. Escolha um, boca ou pau?

Um rubor subiu por seu pescoço ao saber que tinha que


usar verbalmente um palavrão. Ela nunca os usou antes,
mesmo com ele, e parecia estranho, embora adorasse ouvi-lo
dizer isso. — Você.

— Eu o quê?

— Opção B.

Ele deu uma risadinha. — Você tem que dizer isso, little
crow.

Deus, ele era frustrante. Ela inalou. — Seu... pau.


— E onde você quer?

— Dentro de mim.

— Onde, Corvina? — Sussurrou, beijando o lado do


pescoço dela. — Sua boca, sua boceta, sua bunda? Onde você
quer isso?

O rubor em seu rosto era uma confusão.

— Minha boceta.

Vad enfiou um dedo dentro dela como recompensa e


Corvina o sugou, tão necessitada e molhada que pingava pelas
coxas.

Sentiu-o se alinhar atrás dela, tão familiar, mas tão novo


a cada vez, e suspirou quando o sentiu empurrar, a plenitude
em um ângulo entre o excruciante e o extático. A cabeça dela
caiu para trás em seu ombro, as palmas das mãos
pressionando no copo enquanto ele beijava seu ombro e
pescoço, as mãos prendendo-a entre o vidro e seu corpo.

— Minha linda e sexy bruxinha. — Empurrou dentro dela


lentamente, indo tão fundo que ela podia sentir a pulsação de
seu pau contra cada parede interna. — Dizendo-me que sente
o mesmo. Feita pra caralho para mim. Minha loucura.

Suas palavras, sopradas em seu ouvido, tão suaves, tão


ternas, contrastavam com a emoção de seu encontro, enviando
deliciosas explosões de fogo e alegria por sua corrente
sanguínea.
— Seu universo a fez para mim, não foi? — Ele perguntou
ternamente, uma de suas mãos caindo em seu seio. — E isso
me fez o homem que sou para você. Para que eu possa dar-lhe
o que precisa. Eu te dou o que você precisa?

Corvina virou o rosto de lado, os lábios alinhados. — Você


me dá mais.

— Porra. — Ele a beijou, empurrando profundamente,


engolindo o som de seu gemido. Os lábios dele percorreram seu
pescoço novamente e Corvina apoiou a cabeça em seu ombro,
abrindo mais as pernas para facilitar o movimento.

Uma sensação repentina de formigas imaginárias


rastejando sobre sua pele a fez congelar.

Corvina ergueu a cabeça para olhar ao redor, seus olhos


caindo para seu reflexo no vidro, e viu seus olhos escurecidos
completamente.

— O quê foi? — Ouviu a voz dele atrás de si quando outra


veio à sua cabeça, uma voz que não ouvia há semanas,
acompanhada por aquele cheiro de decomposição.

Você não me encontrou.

Calafrios percorreram seu corpo e ela, de repente, ficou


vazia e se virou.

— O que você viu? — Vad exigiu, seus olhos sérios


enquanto se acomodava e ia até ela.
Corvina abriu a boca para falar, mas a voz veio
novamente.

Eu precisava que você me encontrasse. Você é a próxima.

Ela começou a tremer, agarrando o cabelo, sem entender


o que estava acontecendo com sua mente. Isso havia parado.
Era para ter parado. Não ouvia uma voz ou via uma sombra há
semanas. Foi uma bênção. Isso não deveria acontecer. De
novo, não. Porque isso apenas significava que sua mente ainda
estava fragmentada.

— Não, não, não, não, não. — Começou a entoar,


balançando como costumava fazer quando algo a incomodava
quando criança, fechando os olhos, tentando escapar.

Uma forte dor em seu couro cabeludo a fez perder o


controle.

Vad estava diante dela, parecendo chateado e


preocupado, sua mão agarrando seu cabelo com força em seu
punho enquanto erguia seu rosto, exigindo toda sua
concentração.

— Fale comigo. — Ordenou, e ela cedeu, agarrando seus


pulsos, sua cabeça ligeiramente clareando. Ele suavizou seu
aperto, mas não o soltou, seus olhos prateados intensos nos
dela ao luar e à luz das velas.

— Eu ouvi a garota outra vez. — Começou detalhando


exatamente o que viu e experimentou e o que a voz disse. —
Não entendo como meu subconsciente pode estar fazendo isso.
— Disse, depois que terminou. — Não sei que sinais teria
captado para que isto acontecesse. E por que agora? Por que
quando estávamos no meio de... — Sua voz quebrou em um
soluço, toda a confusão, a frustração, o medo e a ansiedade
crescendo dentro dela, tentando arrastá-la profundamente
para o poço do desespero que nunca se recuperaria intacta,
não com sua história genética.

— Ei, ei, venha aqui. — Vad a puxou para mais perto,


envolvendo-a em seus braços. Corvina inalou uma golfada de
seu perfume, substituindo a feiura que a voz carregava pelo
calor da floresta em chamas e a embriaguez do conhaque, um
perfume que reconhecia na medula de seus ossos. Ele a
aconchegou com força, enraizando-a no lugar, ancorando-a,
protegendo-a de coisas que nenhum deles entendia ou sabia.

Corvina enterrou o nariz em seu peito, envolvendo-o com


os braços, absorvendo o conforto que ele proporcionava, um
conforto que desconhecia até ele, seus corpos se encaixando
perfeitamente.

Vad a segurou por longos momentos, pressionando beijos


suaves no topo de sua cabeça, balançando-a ligeiramente e
Corvina deixou seu coração se acalmar, sua mente clarear e
seus olhos abrirem.

Ela se afastou um pouco e olhou para ele. — Lamento que


tenha me distanciado do momento. Literalmente.

Seus lábios se curvaram levemente enquanto ele


segurava seu rosto, seus polegares enxugando as lágrimas que
ela nem percebeu que caíram por seu rosto. — Você está se
sentindo bem agora?

Ela acenou com a cabeça, ajeitando as alças da camisola,


percebendo que seus seios estavam descobertos o tempo todo.

Corvina sentou-se no parapeito da janela, observando-o


empoleirar-se no lado oposto, as velas acesas atrás dele,
projetando-o em suas roupas pretas com um brilho
assustador.

— Eu nem sei o que devo encontrar.

Ele olhou para ela pensativamente por um longo minuto,


inclinando a cabeça para o lado. — Você já tentou perguntar
ao Mo?

Corvina piscou com a sugestão dele.

— Considerando que essas vozes são internas, que são o


seu subconsciente. — Explicou em sua confusão óbvia. — Elas
vêm do mesmo lugar. Já que Mo é uma voz que você conhece
há toda a sua vida, uma voz em quem confia, por que não
tentar perguntar a ele? O que prejudicaria?

Deve ser a conversa mais bizarra que já imaginou ter com


ele. Também fazia um estranho sentido.

— Você quer que eu pergunte agora? — Ergueu as


sobrancelhas.
Ele encolheu os ombros. — Prefiro que você faça isso
comigo. Só por precaução. — Só por precaução de ela ter outro
colapso.

Corvina suspirou e fechou os olhos. Ela o sentiu colocar


os pés dela no colo, esfregando o arco em círculos que tinha
certeza de que ele queria mostrar como reconfortante, mas era
um pouco excitante, especialmente considerando a maneira
como ela os deixou pendurados.

Concentrou-se em seu toque, deixando-o ancorá-la, e


pensou consigo mesma.

Mo? Você está aí? Eu preciso de sua ajuda. Ajude-me.


Diga-me o que devo encontrar.

Ela esperou. E esperou. E esperou. E nada.

Caindo em derrota, abriu os olhos e balançou a cabeça.


— Não sei como falar com ele. Normalmente é o contrário.

Vad tocou nos pés dela com os dedos, tocando uma


melodia que ela não conseguia ouvir. — Confie em si mesma,
Bruxinha. Eu confio.

Corvina suspirou, olhando para a lua, e piscou, algo


rapidamente vindo para ela, algo de sua infância, um antigo
ritual que ela e sua mãe realizaram apenas algumas vezes em
sua vida.

— A lua. — Suspirou, virando-se para olhar para Vad. —


O Baile Negro. É sempre realizado na mesma data?
Vad franziu a testa. — Não. As datas mudam.

— Mas é sempre lua cheia? — Perguntou, seu coração


batendo forte.

Ela podia sentir sua confusão sobre onde queria chegar


com isso. — Sim. Pelo menos que eu saiba. Por quê?

Corvina puxou o cabelo para trás com as mãos. — Há


uma lua cheia especial a cada cinco anos, chama-se Lua de
Tinta. Muitas pessoas não sabem sobre isso. — Informou,
vendo seu olhar se aguçar. — Mamãe me disse que era a lua
cheia mais poderosa da Terra, que espiritualmente tinha o
poder de muitos eclipses. Eu nasci em uma lua de tinta.

— Ok. — Processou o que dizia a ele. — Então, o Baile


Negro sempre cai nesta Lua de Tinta. O que isso significa?

Ela apertou os dentes em frustração, gostaria de ter


alguma ideia.

— Não sei. Mas mamãe costumava dizer que a energia é


alta nessa noite. Se tantas pessoas foram assassinadas por
esses motivos em tal noite, e algumas delas alegaram serem
bruxas de verdade que amaldiçoaram os assassinos, a energia
daquela noite deve ser poderosa. — Corvina sentiu arrepios em
seus braços ao ouvir suas próprias palavras.

— Você acha que os desaparecimentos são realmente algo


sobrenatural? — Perguntou a ela, seus dedos congelados em
seus pés.
Corvina ponderou suas palavras.

— Honestamente, neste castelo, estou começando a


acreditar que tudo é possível.
Corvina

Faltava uma semana para o Baile Negro.

E Verenmore estava em um caos delicioso.

Enquanto uma grande parte dela estava morrendo de


medo, ansiosa com o que a voz tinha dito e a história se
repetindo, especialmente com alguém que ela conhecia, outra
parte dela estava animada por algo novo. Especialmente depois
que os exames terminaram e as tarefas foram enviadas, as
aulas ficariam em pausa por um mês antes de serem
retomadas novamente com um novo semestre. Durante o mês,
os alunos podiam visitar a família, se tivessem alguma, ou
optarem por ficar no castelo. Pelo o que descobriu, a maioria
ficava, o que era triste ou não.

A coisa maravilhosa do Baile, no entanto, eram todos os


novos rostos ao redor do campus. A diretoria organizou tudo
para o Baile. O primeiro andar da Torre do Salão Principal, que
havia ficado trancado, foi aberto para a ocasião. Foram
contratados mais funcionários e equipes para a semana, desde
chefes de cozinha até eletricistas e músicos. Instrumentos,
móveis e talheres do depósito foram trazidos e colocados no
local.

Residentes de cada torre foram chamados à Ala de


Administração em horários diferentes, para se encontrarem
com uma equipe de lojistas e alfaiates que tomaram medidas e
anotações e prepararam todos para seus trajes que estariam
prontos um dia antes do Baile.

A única desvantagem do caos era a falta de qualquer


tempo que ela pudesse passar com Vad. Com todas as pessoas
que perambulavam pelo campus e sem aulas, não havia como
e nenhum lugar que ela pudesse se esgueirar para encontrá-
lo, nem mesmo em seu próprio prédio, sem ser pega. E tão
perto do baile, eles realmente não queriam arriscar.

Os quatro dias de separação a fizeram perceber o quanto


sentia falta dele. Ela estava curtindo seu tempo com seus
amigos e seus livros e desfrutando de toda a atmosfera do
castelo, mas teria curtido mais com ele. Vad era importante
para sua mente, e se acomodou com vislumbres dele através
do terreno, sua forma alta e escura fazendo seu coração doer
com a necessidade de tocá-lo.

Igualmente odiava e amava o período.

De pé na Ala da Administração para sua prova do vestido


junto com as garotas de sua torre, sentindo-se tonta porque
nunca viu nada parecido antes, ficou surpresa quando o cara
de óculos a chamou para um dos escritórios nos fundos.
— O que ele quer? — Jade perguntou a ela, olhando
curiosamente para trás.

Corvina encolheu os ombros. Ela não tinha ideia. Fez seu


trajeto para o escritório e ergueu as sobrancelhas para o cara
que nunca foi útil para ela.

— Seu vestido está aí. — Disse ele e saiu.

Corvina franziu a testa e entrou no escritório, confusa


com o que ele queria dizer, e congelou.

É um vestido vermelho escuro, quase roxo escuro,


pendurado em um cabide em uma das vidraças abertas, uma
cor tão profunda que brilhava com roxo e preto, suas mangas
cheias e feitas de algum tipo de renda, seu decote um profundo
V que quase ia na linha da cintura e uma fenda na lateral da
saia que vai até a parte superior das coxas.

Nunca viu algo tão requintado.

Era ela em um vestido.

Só havia uma pessoa que poderia ter escolhido este


vestido absolutamente perfeito para ela.

Um bilhete preso ao punho do vestido chamou sua


atenção. Foi até ele com as pernas trêmulas, estendendo a mão
cuidadosa para a nota, meio com medo de tirá-la no caso de
estragar o vestido. Felizmente, não o fez. Desdobrou o papel e
encontrou sua grafia ousada, seu coração batendo forte como
as asas de um beija-flor até mesmo com o pequeno contato
com ele.

Minha bruxinha,

Fui a Tenebrae no fim de semana para uma reunião


jurídica e encontrei isto. A cor me fez lembrar seus olhos logo
após a sua chegada. Era um vestido feito para você usar e para
eu tirar a roupa.

Encontrará sua máscara na caixa ao lado dos sapatos.


(Sim, eu sei seu tamanho).

Não vou te dizer o que irei vestir. Em vez disso, quero que
me reconheça em um mar de pessoas mascaradas. Eu preciso
que você me encontre no mar.

Deixe tudo no escritório, por enquanto. Ficará seguro.


Apanhe no dia anterior ao baile para evitar perguntas.

Espero que você sinta minha falta. Sua boceta vai ficar
dolorida pra caralho quando eu puser minhas mãos em você
depois disto.

Tenha cuidado na noite do baile, pequeno corvo. Todas às


vezes, coisas más acontecem.

Seu Diabo
Corvina apertou o bilhete contra o peito, um grito de
felicidade explodiu de seus lábios antes que se controlasse,
relendo as palavras dele, uma e outra vez, até que fossem
memorizadas.

Olhou para a caixa abaixo do vestido, agachando-se para


ver os sapatos que ele escolheu para ela, esperando que tivesse
escolhido algo com salto. Ela tinha um par de saltos altos e os
amava, mas não era inteligente usá-los no castelo.

O calçado era de fato um par de saltos altos, salto em


prata com tiras que se prendiam ao redor de seu tornozelo até
a panturrilha. Muito sexy, mas também prático para os
caminhos de paralelepípedos.

Algo embrulhado na mesma sacola, coberto com lenço de


papel, deixou-a intrigada. Ela o pegou, tirando uma meia-
máscara prata deslumbrante, feita com purpurina prata e
cristais, brilhando na luz e enviando pequenos arco-íris em
reflexo, curvando-se na forma de um olho de gato nas pontas.
Cobriria seu rosto da testa ao nariz, deixando sua metade
inferior exposta.

Corvina colocou tudo de volta no lugar e voltou a absorver


a visão do vestido, gravando-o na memória. Era lindo, mas o
que realmente a comoveu além das palavras foi o fato de que
ele foi para uma reunião e pensou nela, que voltou com um
presente que faria sua primeira noite assim melhor, que
mesmo que não pudesse encontrá-la, encontrou uma maneira
de chegar até ela, deixando-lhe um bilhete que a deixou toda
quente e vibrante por dentro.

Eram as pequenas coisas por trás da grande coisa que a


tocavam.

Deus, ela o amava, tanto, tanto.

Não sabia quando se apaixonou, quando sua luxúria se


transformou nesta necessidade profunda, ou se ela
simplesmente se apaixonou em um instante ou gradualmente.
Isso não importava. No fim das contas, o resultado era que ela
amava.

Deixando tudo para trás assim como encontrou, Corvina


enfiou o bilhete dentro da blusa e saiu do escritório para ver
as meninas tirando suas medidas.

Ela devia estar com algum tipo de expressão no rosto,


porque Roy ergueu as sobrancelhas para ela. — Você, olhos
esquisitos, fumou alguma coisa no escritório ou o quê?

Corvina se sacudiu mentalmente, acalmando o rosto. —


Se houvesse algo que valesse a pena fumar aqui, tenho certeza
de que você seria a primeira a saber, Roy. — Corvina
respondeu, confortável o suficiente com a garota e seus modos
ousados, mas bem-intencionados agora.

Roy revirou os olhos e se aproximou para ser medida.

— Então, o que havia no escritório? — Jade perguntou a


ela enquanto esperavam ao lado.
— Uma carta. — Corvina contou a verdade. — De alguém
importante.

Chegou a vez de elas tirarem as medidas e Corvina


obedeceu, bem ciente de que as pessoas a questionariam se ela
não o fizesse. O alfaiate, entretanto, sabia que ela já tinha um
vestido, provavelmente Vad preparando as coisas, e
simplesmente fingiu tirar as medidas de Corvina.

Em poucos minutos, estavam prontas e saindo do prédio


sob o lindo dia ensolarado, quando o vento lhe levava o cheiro
de sândalo, e logo depois ela ouviu a voz de Mo.

Aquela casa, Vivi.

Corvina congelou.

Qual casa?

A cabana assustadora na floresta?

— O que há de errado? — Jade parou ao seu lado,


olhando para ela com olhos preocupados. — Você
simplesmente congelou, Cor.

Corvina piscou quando o cheiro desapareceu, abrindo a


boca para falar, mas algo a deteve, com todas as outras garotas
ao redor. Ela balançou a cabeça, seus olhos espiando uma
figura familiar conversando com um cara do outro lado da ala.

— Nada, acabei de lembrar que precisava conversar com


o irmão de Troy sobre algo. — Disse à Jade, apontando para
Ajax. — Você pode ir, te encontro em alguns minutos.
Jade olhou entre ela e Ajax, suas sobrancelhas subindo.
— Oh, Deus, ele é o cara do chupão!

Corvina quase negou, mas se calou. Melhor ela pensar


isso do que a verdade.

— Droga garota. — Jade sorriu. — Ele é bom. Vá vê-lo. Te


vejo mais tarde. — Com um aceno trêmulo de seus dedos, Jade
se foi.

Corvina respirou fundo e se dirigiu até Ajax.

Ele a viu chegando, com o olhar determinado em seu


rosto, pediu licença ao cara com quem falava.

— Você tem algum tempo? — Corvina começou sem


preâmbulos.

Seu rosto ficou sério. — Claro. Estamos terminando a


perícia no lago. O que está acontecendo?

Ela olhou em volta, verificando se ninguém estava perto


para ouvi-la. — Preciso que venha para a floresta comigo.

Seu grande corpo se endireitou. — O que está


acontecendo, Corvina?

— Há uma cabana na floresta. — Ela começou, sem saber


como dizer o que sabia sem dizer o que sabia. — Você conhece?

Ajax franziu a testa. — Acho que não. Por quê?

— Venha comigo. — Disse ela, ganhando tempo. — Eu te


conto no caminho.
Olhando em volta, ele pegou um de seus colegas e lhe
disse que ficaria um pouco indisponível, indicando para a
Corvina que o conduzisse.

Corvina queria informar Vad sobre o desdobramento, mas


não o tendo visto no campus desde ontem, ela não tinha ideia
de onde ele estaria. Mas ele conhecia Ajax e ela confiava nele,
então ela tinha que fazer com que funcionasse.

Eles entraram na floresta ensolarada e Corvina apontou


para a direita, em uma direção que não tomou desde aquele
dia. — Por ali.

A floresta parecia irreal banhada pelo brilho do sol. As


árvores pareciam paredes, uma infinidade de cores terrosas de
marrons a verdes e flores coloridas pontilhadas no meio, o céu
azul espreitando por entre os galhos. Sem o cinza constante e
a névoa, parecia algo saído de um conto de fadas. E ainda
assim, a escuridão se agarrava a ela.

Ajax a seguiu pela encosta ao seu lado. — O que há com


a cabana? — Perguntou, pulando sobre um tronco e ajudando-
a.

— Nós fomos lá uma vez. — Disse a ele a verdade. — Troy


e nosso grupo. Ele só queria explorar a floresta uma vez, e nós
rumamos aleatoriamente nesta direção.

Ela pegou a saia, contornando uma sebe de flores


estranhas, e desceu a ladeira.
— Aconteceu alguma coisa? — Ajax perguntou a alguns
passos de distância, virando-se para olhar para ela com os
mesmos olhos de Troy.

— Nós vimos algo. — Relembrou, lembrando a longa


silhueta que encontraram naquele dia. — Uma longa silhueta
escura atrás das janelas. Estava se movendo. Mas Troy
percebeu a fechadura da porta. Fosse o que fosse, estava
trancada.

Ajax soltou um suspiro. — Porra, este lugar daria arrepios


para o idiota mais corajoso.

Eles mantiveram um ritmo rápido, o castelo desapareceu


atrás deles acima do matagal.

— E por que quer dar uma olhada agora? — Perguntou a


ela quando eles quase se aproximaram do lugar.

— Apenas um palpite.

Ajax olhou para ela, mas não disse nada quando a cabana
apareceu à distância.

— O lago fica perto daqui? — Ela perguntou quando o


cheiro de decomposição que sempre associou com o lago se
infiltrou em seus sentidos novamente.

Ajax fez uma pausa e olhou para a esquerda. — Quase,


eu diria. Talvez uma caminhada de cinco minutos. Por quê?
Corvina sentiu o coração disparar ao perceber que a
podridão sempre vinha daquele lugar. Embora o lago
escondesse horrores, havia algo mais na cabana.

Eles finalmente pararam em frente à pequena cabana de


tijolos e madeira, e os olhos de Corvina pousaram na porta.
Estava destrancada.

— Tem certeza de que estava trancada da última vez? —


Ajax perguntou baixinho, puxando uma faca da bota que
Corvina nem tinha visto.

— Foi Troy quem notou a fechadura. — Corvina disse. —


Eu não olhei para a porta.

— Então estava trancada. — Disse Ajax enquanto se


aproximavam. — Troy sempre foi bom em detalhes, o que
significa que alguém esteve aqui recentemente. Fique atrás de
mim.

Corvina sentiu seu estômago apertar quando Ajax abriu


o espaço ao redor da cabana, voltando para abrir a porta
principal. O cheiro pungente de carne podre os atacou
imediatamente.

Corvina cobriu o nariz enquanto a náusea subia,


tentando bloqueá-la, Ajax estremecendo com o cheiro horrível,
empurrando a porta completamente aberta. Uma pequena sala
apareceu, com uma cozinha compacta e uma lareira, uma área
de estar e duas portas que davam para os fundos.
Corvina se aventurou um pouco, as formigas imaginárias
que sempre subiram por sua pele fazendo-o com uma
intensidade ampliada à vista.

Um corpo jazia no chão, carbonizado, com insetos


necrófagos se alimentando dele.

Corvina sentiu o vômito subir-lhe pela garganta e correu


para fora, derramando o desjejum nos arbustos, ofegando ao
ver aquela morte feia, horrível, que se imprimia em sua mente.
Limpando a boca, endureceu a espinha e voltou para ver Ajax
cobrindo o nariz com a mão, examinando o corpo,
completamente imperturbável, o que a fez se perguntar
quantos cadáveres ele deve ter visto.

— Pela decomposição, estimaria que ela morreu em


qualquer lugar entre os últimos cinco anos e alguns meses. —
Ele falou, seus olhos examinando o corpo.

— Ela? — Corvina resmungou, tentando fazer seus olhos


permanecerem no corpo queimado por tempo suficiente para
observar.

— Definitivamente mulher. — Ele acenou com a cabeça.


— E as queimaduras são post-mortem. Veja as pernas. —
Indicou a parte do corpo abaixo dos joelhos. Era um cinza claro
e inchado. — Quem quer que fosse, começou a queimar o corpo
e depois parou. Ou foram interrompidos ou queriam apenas
queimar a metade superior.
Ajax se virou para ela. — Tem certeza de que viu algo se
movendo aqui naquele dia?

Corvina acenou com a cabeça. — Sim. Uma longa


silhueta.

— O corpo já estaria aqui. — Apertou os dentes. — Vamos


voltar, preciso trazer a perícia aqui.

Corvina deixou a cabana com alegria, os braços


inteiramente arrepiados, incapaz de entender como ela sabia
disso. Será que seu subconsciente pegou algumas pistas no
dia em que estiveram lá? E quem diabos era a mulher?

— Corvina. — Disse Ajax, depois de trancar a porta


quando começaram a subir. — Quão bem você conhece Vad?

Corvina fez uma pausa na inclinação. — Acha que ele teve


algo a ver com isso?

Ajax levantou as mãos defensivamente. — Ouça-me. Eu


gosto dele, mas meus sentimentos pessoais não podem
atrapalhar a investigação. Aquele corpo. — Apontou para a
cabana. — Está lá há muito tempo, mais do que a maioria das
pessoas aqui. E esta é uma parte da floresta que até eu, um
ex-aluno que adorava perambular na floresta, nunca soube.
Vad conhece esta floresta como a palma da sua mão, aposto
qualquer coisa que ele sabe sobre a cabana e tenho certeza de
que teve algo a ver com uma morte suspeita antes. A questão
é, ele poderia ter feito isso?
Corvina balançou a cabeça enquanto fragmentos de
memórias passavam por seu cérebro.

Vad saindo da floresta imediatamente após seu grupo


naquele dia.

Vad ficando com raiva por ela ter ido para a cabana.

Vad não contando a ela o que aconteceu com seu avô.

Corvina ouviu a voz feminina pela primeira vez logo depois


de falar com ele.

Corvina se aproximou e considerou, verdadeiramente


considerou, se o homem que amava com todo o seu ser era
capaz de matar. Ela não tinha a menor dúvida de que sim.
Podia admitir que ele era perigoso, mas também sabia que
respeitava o círculo da vida e não mexeria com isso, a menos
que precisasse.

Mais importante, apesar dos flashes, ela sabia, apenas


sabia no fundo do coração, que ele não fez isso.

— Não. — Disse a Ajax com firmeza. — Vad conhece esses


bosques porque são dele, mas ele não fez isso. Porque, se
tivesse? — Corvina se voltou para o homem a seu lado. — Seria
outra morte suspeita. Não um... horror grotesco como aquele.

Ajax ponderou suas palavras cuidadosamente enquanto


emergiam na clareira, a vida continuando exatamente como
antes, como se um segredo horrível não estivesse se
escondendo a minutos deles.
— Você está certa. — Ajax finalmente falou, indo em
direção à Ala Administrativa. — Vou falar com ele, de qualquer
maneira. — Ele fez uma pausa, estudando-a por um minuto.
— Ele é um idiota sortudo, você sabe. A maioria das mulheres
teria fugido dele há muito tempo, especialmente depois do que
acabamos de encontrar.

Corvina soltou uma risada. — Você entendeu tudo


errado, Ajax. Eu sou aquela de quem as pessoas fugiriam, e
não ele. Ele é a montanha na qual construo meu castelo.

Ajax deu um pequeno sorriso para ela. — E realmente


acredita que ele não é o responsável?

— Não. — Negou Corvina com veemência. — Ele é


sombrio, misterioso e tem segredos que estou descobrindo
lentamente, mas não é o perverso que vimos naquela cabana.

Ajax acenou com a cabeça e a deixou para ir encontrar


sua equipe. Corvina se dirigiu para as torres, sua mente
envolvida em tudo o que testemunhou na cabana, confusão,
tristeza e horror se misturando em uma fusão que ela não
conseguia mais diferenciar. Subiu as escadas de pedra para
seu quarto, passando a mão sobre o corrimão de pedra fria,
olhando pela janela na escada para o lindo dia.

Perguntou-se quem era a mulher e como sua mente


poderia ter captado sua localização. Perguntou-se porque foi
tratada tão brutalmente na morte, e como ela poderia
realmente ter morrido.
E ela se perguntava acima de tudo quem havia sido a
silhueta na cabana trancada, e se ela estava agora solta no
terreno do castelo.
Corvina

— Caramba, seu vestido! — Jade gritou ao entrar no


quarto.

Corvina sorriu para ela no espelho, ajeitando seus longos


cabelos negros em um rabo de cavalo alto e chique, um estilo
que nunca experimentou antes, um que absolutamente
arrasou com seu look completo. Ela fez tudo para o baile:
esfoliação, depilação com cera caseira que usava e hidratação
profunda da pele com seus óleos leves. Depois do banho, voltou
para um quarto vazio, pegou o vestido de tirar o fôlego e o
vestiu. Então, começou a escovar o cabelo, repetidamente, até
que seus braços doeram e ele caiu em uma cortina elegante,
pronta para o penteado.

— Seu vestido é lindo. — Corvina elogiou o reflexo da


amiga. Uma cor de rosa claro que realçava o verde vibrante em
seus olhos e combinava com seus cabelos claros, o vestido
tomara que caia sem alças de Jade a fazia parecer uma
princesa fada, exatamente como merecia se sentir.

Jade girou, sua risada tilintou no ar. — Não é perfeito?


Corvina concordou, prendendo o pingente de estrela em
volta do pescoço, os pingentes estrelados das orelhas,
passando um batom resistente a manchas (ela havia testado
este) a mesma tonalidade de seu vestido nos lábios, ajustando
o delineador preto para fazer seus olhos inclinados estourarem
ainda mais. Deu um passo para trás e olhou para si mesma,
maravilhada. Ela parecia bem, muito bem, tão bem que
testaria a paciência de seu homem depois de uma semana
longe um do outro. Mal podia esperar.

Jade também se maquiou, as duas prontas, e colocaram


as máscaras, a dela uma meia máscara de penas brancas e
rosa, a de Corvina uma prata cintilante.

— Sua máscara vai cegar todo mundo. — Disse Jade com


ironia, enquanto Corvina a prendia com cuidado sob o rabo de
cavalo. — Parece tão cara.

Corvina não falou nada sobre isso. Ela não tinha ideia
sobre o custo de nada disso. Não queria pensar sobre, não
sabendo o que estava por trás de suas ações.

— Vamos? — Em vez disso, Corvina perguntou, olhando


pela janela para a noite clara e estrelada, uma enorme lua
cheia cinza-escura subindo continuamente para o céu. A Lua
de Tinta.

— Na verdade, estamos um pouco atrasadas. — Jade riu,


pegando sua mão enquanto saíam do quarto e trancavam a
porta. — Não se esqueça, todos nós ficaremos visíveis esta
noite.
Corvina acenou com a cabeça, concentrando-se em
descer as escadas nos saltos que a faziam se sentir alta. Com
sorte, ficaria mais perto do rosto dele com isso.

Elas saíram da torre para uma multidão de estudantes


mascarados no caminho de paralelepípedos, todos indo para o
Salão Principal, rindo e conversando animadamente. O ar do
castelo pulsava com celebração pela noite, e por isso Corvina
estava contente.

Os alunos não sabiam do corpo encontrado na cabana.


Como a equipe de investigação já estava lá, não pensaram na
equipe ficando mais um pouco, focando no Baile.

Corvina inclinou a cabeça para trás e olhou para a


construção do castelo, rasgando o céu com um contorno
iminente iluminado com luzes amareladas do chão que se
desvaneceram mais alto na escuridão em direção aos telhados,
a lua um grande orbe pendurada atrás dele. Era uma visão,
um momento de perceber como todos eram pequenos no
espaço do tempo, que essas paredes eram exatamente como
hoje há centenas de anos, que viram muitas danças da morte.

Foi uma constatação assustadora e preocupante.

Corvina se livrou dos pensamentos sombrios e se


concentrou em percorrer o trajeto de saltos, que era mais
complicado que os saltos nos gramados, a fenda em seu vestido
permitindo facilidade de movimento, expondo sua coxa em
cada passo. O vento estava frio em seu torso meio exposto,
seus mamilos ligeiramente duros, mas felizmente escondidos
pela cor e espessura do vestido.

O prédio do Salão Principal estava mais iluminado do que


já vira antes, verdadeiras tochas de fogo presas em fendas à
uma distância uniforme, iluminando toda a área ao redor do
prédio.

Quando se encontraram com seus amigos do lado de fora,


todos vestidos e mascarados, elogiando-se mutuamente, os
olhos de Jax demorando-se um pouco demais em seu decote,
Corvina girava os olhos ao redor, tentando encontrar o homem
que queria na multidão.

Poucas pessoas se sobressaíam sobre as outras, e


aquelas que o faziam não tinham aquela mecha muito distinta
de cinza em seus cabelos.

Contendo sua decepção, ela se virou para os amigos. —


Vocês querem entrar?

Eles se moveram para as portas. O Salão de Jantar foi


reformulado, todas as mesas e cadeiras forradas contra a
parede com um buffet em um lado e um local para sentar no
outro. A porta da Masmorra estava trancada por fora. Uma
escultura de bronze gigante de dois amantes se abraçando
estava ao lado da escada, suas mãos segurando várias
luminárias. Era glorioso de ver.
Corvina e seu grupo subiram as escadas, parando para
cumprimentar algumas pessoas no caminho, garotas de sua
torre, pessoas de suas aulas, entre outros.

E, finalmente, entraram no Salão Principal, que deu nome


ao prédio, mas que permaneceu trancado por anos.

— Porra. — Ethan olhou ao redor do corredor, seus olhos


arregalados por trás de sua máscara dourada. — Isso é uma
grande merda.

Sim.

Era um espaço aberto gigantesco, com uma fileira de


janelas em arco na parede oposta com uma visão direta da
floresta, do lago e das montanhas. O maior lustre que ela já
vira, um com pelo menos duzentas velas, pendia do teto alto,
lajes de madeira e colunas grossas suportando o peso do
telhado em uma maravilha arquitetônica. Tochas de fogo
saíam de todos os pilares, de suportes de ferro que pareciam
tão antigos que não ficaria surpresa se tivessem centenas de
anos.

Olhando em volta, Corvina percebeu mais uma vez que


esse era o legado de seu amante, que seus ancestrais foram os
responsáveis por tudo isso. Até algumas semanas atrás, isso a
faria se sentir pequena. Seu legado eram problemas mentais e
um futuro possivelmente difícil. Ela não tinha nada para dar a
ele.
Mas Corvina mudou. Sua perspectiva mudou. Não tinha
nada para dar à Vad além de si mesma, e ele parecia não
querer mais nada. Um homem com tudo material e nada
emocional a queria nada material e tudo emocional. Eles eram
um ajuste estranho, mas perfeito.

Um piano de cauda, o da Masmorra, aquele em que ela


tinha sido espalhada muitas vezes, tomou um canto da sala, e
o coroou.

Mas Vad não estava em lugar nenhum.

Alguns músicos além do piano tocavam violinos e casais


começaram a se reunir no salão, formando pares para dançar.

Corvina moveu os olhos por toda a sala e nas várias


pessoas mascaradas, demorando-se nos homens, tentando
encontrá-lo. Seus olhos percorreram a sala uma, duas vezes, e
em sua terceira rodada, parou em um homem parado em uma
alcova ao lado de uma janela, vestindo uma capa preta sobre
seu traje preto, copo na mão, observando-a.

Ele estava usando uma máscara de corvo, de todas as


coisas.

Uma com um bico preto comprido e torto, buracos para


os olhos e uma testa alta que cobria sua cabeça.

Corvina sorriu. — Vejo vocês daqui a pouco. — Disse aos


amigos, abrindo caminho através da multidão em direção ao
homem sozinho, sabendo que ninguém o reconheceria.
Parou na frente dele, um largo sorriso esticando seus
lábios. — Um pouco exagerado, não é? Literalmente. — Indicou
sua máscara.

Ele inclinou a cabeça em um movimento que era tão dele.


— Eu queria deixar migalhas de pão para você.

Corvina se aproximou um pouco mais, segurando sua


mão livre. — Senti a sua falta.

Ele se inclinou um pouco mais perto, tocando os lábios


dela com o bico de sua máscara deliberadamente. — E eu a
sua. Mas ouvi rumores de que está namorando secretamente
com Ajax. Deveria me preocupar?

Corvina deu uma risadinha. — Oh, sim. Na semana em


que estivemos separados, tive que me contentar.

Os dedos dele subiram pela mão dela. — Na verdade,


estaria se contentando de fato. Disse a ele que eu era sua
montanha?

Sua respiração ficou presa com o estrondo profundo de


suas palavras, seus olhos prateados quentes por trás da
máscara.

— Ele te contou?

— Ele me contou. — Vad se aproximou, inclinando a


cabeça para o lado para que o bico não a tocasse como seus
lábios faziam. — E esta montanha racharia antes de deixar
qualquer coisa acontecer ao seu castelo. Lembre-se disso.
Corvina cambaleou na direção dele, querendo seu gosto,
sentindo seus lábios tão próximos, mas tão distantes.

— As coisas vão esquentar muito rapidamente esta noite.


Não deixe ninguém tocar em você. — Ele respirou em seu
ouvido, suas palavras enviando um arrepio delicioso em
cascata por ela. — Agora vá para seus amigos. Eles devem
estar se perguntando o que está fazendo.

Odiando deixá-lo, mas tendo que fazê-lo, ela voltou para


seus amigos.

— Onde você foi? — Jade exigiu.

Vad se moveu pela sala.

Corvina encolheu os ombros, observando enquanto Vad


se dirigia ao piano no canto. Ele empurrou a capa para trás e
sentou no banco com mais graça do que seu grande corpo
deveria ser capaz. Os violinistas atrás dele ficaram em silêncio
e a sala parou quando a música parou, todos se virando para
ver o que estava acontecendo.

E ele começou a tocar.

Corvina encostou-se na parede para se apoiar, um copo


de bebida na mão, o coração se expandindo no peito enquanto
a melodia chegava até ela. Deve ter sido uma composição
conhecida, porque os violinistas entraram na música, tocando
uma sinfonia juntos. Seus olhos permaneceram no homem que
amava, observando seus dedos dançarem sobre as teclas de
uma forma tão familiar, seus olhos fechados, seu corpo
curvado, sua postura devotada à música.

Ele a abriu naquele piano e a comeu pela primeira vez.


Empurrou-a de costas nele a fodeu no silêncio da Masmorra
com as pessoas do lado de fora no corredor. Deixou-a se
ajoelhar entre suas pernas enquanto tocava, a corrida entre
seus dedos e sua boca, e ela venceu.

Aquele piano guardava tantas lembranças e segredos


compartilhados dos dois, e enquanto o tocava, Corvina sentiu
seu corpo inteiro reagir a ele. Vad sempre existiu entre o preto
e o branco quando tocava, e agora a trouxe naquele espaço
com ele, não mais sozinha em sua existência.

Uma música se transformou em outra, as melodias


mudando, mudando, aumentando em intensidade enquanto
as pessoas dançavam, assistiam, bebiam e a noite ficava um
pouco mais selvagem. Corvina ficou no canto com sua bebida
enquanto seus amigos dançavam, olhando para Vad com tanto
orgulho que crescia no peito, um orgulho de que aquele homem
fosse dela tanto quanto ela era dele.

Lentamente, à medida que a noite avançava, algo mudou.

Talvez causado pelas máscaras, talvez causado pelo


anonimato, mas uma mudança nítida aconteceu no grupo no
primeiro andar. A música ficou mais pesada, o salão se encheu
de mais e mais casais até que mal sobrou espaço na pista, os
músicos escondidos da vista.
A luz das velas diminuiu lentamente.

A tensão estalou no ar.

Corvina sentiu uma pontada na nuca ao ver como as


pessoas se balançavam, mais perto do que antes, com uma
sensualidade profunda que a fez perder o fôlego. Uma garota
no canto começou a beijar o homem ao lado dela. Outro
homem segurou seus seios, amassando-os sobre seu vestido.
Muitas pessoas simplesmente observavam, alguns outros
começaram a se reunir, dançando, beijando, acariciando uns
aos outros, provavelmente nem mesmo sabendo com quem
estavam fazendo isso.

As inibições diminuíram.

A música parou e, por um momento, tudo o que pôde


ouvir foi uma respiração alta. Algumas pessoas aplaudiram e
gritaram, curtindo a festa, outras nem se importaram,
perdidas no próprio espaço.

Outra música começou, e viu sua forma alta


encontrando-a, indicando que ela viesse para a pista de dança.

Corvina olhou em volta, cercada por corpos mascarados


desinibidos, e sentiu um arrepio subir pela espinha.

Ela se viu no meio da multidão e o sentiu vir por trás dela,


se virou, o topo de sua cabeça alcançando sua boca em seus
saltos. Vad a puxou pela cintura, balançando-os lentamente e
se movendo em direção a uma área mais sombreada atrás de
um pilar, ainda cercado por pessoas.
Ela olhou para o lado e se viu encarando uma garota com
uma máscara vermelha tendo seus seios chupados por um
cara com uma máscara dourada, bem à vista de todos.

Corvina manteve o corpo solto, deixando Vad guiá-la,


curiosa para ver o que ele faria quando seu corpo se excitasse
com o sexo correndo desenfreado no ar.

— Você quer brincar com o Diabo esta noite? — Ele


perguntou em seu ouvido e sua respiração engatou.

— Sim. — Ela suspirou.

Vad a fez ficar de pé contra a lateral do pilar, uma parte


claramente visível de qualquer lugar no corredor, e a virou para
ficar de frente para a sala, com a visão de todos os dançarinos
e espectadores e amantes, bem como em seu sonho.

Ele pressionou contra suas costas, beijando seu pescoço


de uma forma que o bico de sua máscara se encaixava no V de
seu vestido. À distância, provavelmente parecia que ela estava
sozinha, o homem atrás dela todo vestido de preto nas
sombras, a máscara dele fazia parte de sua fantasia.

Seus mamilos endureceram, sua respiração ficou mais


rápida.

— Gostou da música? — Perguntou a ela, sua mão caindo


em sua coxa, bem sobre a fenda de seu vestido.

— Sim. — Respondeu, com o coração batendo forte, os


olhos varrendo para ver que ninguém estava olhando. Mais
pessoas estavam ocupadas formando pares, alguns em
múltiplos, todos em vários estágios de nudez, indiferentes a
tudo, desde que suas identidades permanecessem ocultas.

— No último Baile Negro. — Ele sussurrou em seu ouvido.


— Ajax e eu compartilhamos Zoe bem embaixo daquele lustre.
— Sua mão acariciou sua fenda. — Nunca me importei se ela
tinha o pau dele em sua boceta quando eu fodia sua boca.

Corvina ficou excitada com o quadro que pintou, embora


odiasse que fosse ele nele.

— Mas você. — Disse a ela suavemente enquanto ela


observava uma garota cair de joelhos em um canto e chupar
um cara, levando-o profundamente em sua boca. — Eu nunca
compartilharia. Nem seu corpo, nem seus sons, nem suas
expressões. Você pode assistir a todos, mas eles não
conseguem vê-la. Entendeu?

A posse em sua voz aumentou o calor por todo o corpo


dela.

Sua mão se aventurou pela fenda, encontrando a linha de


sua boceta. Como a calcinha poderia marcar neste vestido, ela
escolheu não usar durante a noite, esperando que ele achasse
quente.

— Você se lembra quando eu comi essa boceta no piano


neste mesmo prédio? — Beijou seu ombro, seus dedos
sondando sua umidade. Depois de semanas sendo fodida duas
vezes por dia e depois ficando sem por uma semana, sua
boceta pingava com o toque familiar de sua mão, com o calor
amado de seu corpo e com a cena ao seu redor.

— Sim. — Ela respirou, mal conseguindo formar a


palavra.

Ele deu um tapa em sua boceta uma vez e ela mordeu o


grito de volta, seu coração pulsando em todo o corpo.

— Se fizer um som. — Disse a ela, sua voz profunda


misturada com sexo. — Alguém vai se virar. Eles vão olhar e
vê-la sendo fodida por um estranho nas sombras. Você quer
isso? Quer que saibam que eu tenho acesso a essa boceta em
qualquer lugar, a qualquer hora que eu quiser, como eu
quiser?

Ela estava respirando com dificuldade quando ele


terminou de falar as palavras, as pernas ligeiramente abertas
para acomodar sua grande mão enquanto empurrava dois
dedos dentro de suas paredes doloridas, seu corpo em chamas
com as palavras, com o visual que ele descrevia.

Ela não queria que ninguém se virasse e a visse. Ele


também não. Mas a ameaça de que podiam, de que fazia algo
tão proibido bem onde qualquer um poderia simplesmente
virar a cabeça e ver, enviou um calor líquido por suas veias.

Corvina estava excitada, mais excitada do que nunca em


sua vida, e Vad sabia disso, o Diabo. Ele sabia a profundidade
de seus desejos, como jogá-los, como entregá-los e deixá-la
saciada.
Ela mordeu o lábio quando ele pressionou a palma da
mão em seu clitóris, inserindo outro dedo dentro dela,
esticando-a totalmente.

— Olhe para você, tão devassa, parada no meio de um


corredor, encharcando minha mão sob seu vestido. — Lambeu
seu pescoço. — Fica tão molhada para mim, só para mim. Você
sentiu tanto a minha falta, não é?

— Muito. — Gemeu com a pressão, suas pernas


tremendo. Ela travou os joelhos, segurando a lateral do pilar
para se apoiar com uma mão, a outra segurando seu copo com
força, enquanto ele causava estragos com a mão.

Erica olhou para ela no meio de uma dança com um cara


e acenou, e Corvina apertou os dedos com força. De alguma
forma, conseguiu sorrir e erguer o copo para Erica, aliviada
quando a garota se virou.

— Minha. — Ele rosnou contra seu pescoço, marcando os


dentes sobre seu chupão desbotado sob o vestido.

— Por favor. — Ela implorou descaradamente quando


uma fina camada de suor brotou sobre sua pele, sabendo que
não poderia aguentar muito mais tempo com o silêncio. —
Faça-me gozar. Por favor, Vad.

Felizmente, ele teve misericórdia dela, aumentando a


pressão de sua palma em seu clitóris, girando-o enquanto
esmagava seus dedos dentro e fora em um ritmo que seu corpo
amava, suas paredes internas segurando-o com força
enquanto puxava e o aceitava profundamente quando
empurrava, seu outro braço envolvendo sua cintura para
apoio, para mantê-la de pé.

Subiu e subiu e subiu, e de repente, sua mente


despencou.

Em uma onda de calor que começou a sacudir seu corpo,


ela gozou, mordendo a língua com força para não gritar, de
alguma forma abafando o som até de um gemido, seu coração
batendo tão forte em seu peito que podia sentir batendo em
seus ouvidos, seus membros uma gelatina. O copo quebrou em
sua mão silenciosamente, cortando-a aberta enquanto seu
sangue pingava no chão, cacos caindo entre eles.

— Porra! — Vad a virou, dando uma olhada em sua mão.


A borda irregular de um pequeno pedaço de vidro estava
alojado no meio de sua palma, sangue vermelho escuro
cobrindo seus dedos e pingando.

Corvina estremeceu quando ele tirou o pedaço, liberando


um pequeno jorro de sangue novo.

Ele rasgou a ponta da capa e envolveu a mão dela com


força, estancando o fluxo.

— O vidro poderia ter cortado seu pulso. — Disse


rispidamente, sua mandíbula apertada.

Corvina deu um sorrisinho para ele, apesar da dor. —


Então morreria em seus braços enquanto gozava, e que bela
morte seria.
Vad deu-lhe um olhar furioso enquanto terminava de
envolver sua mão. — A noite vai ficar mais selvagem aqui. Quer
ficar e ver o show? Ou sair daqui um pouco?

Corvina olhou de volta para o corredor, seus amigos todos


ocupados dançando ou beijando alguém, mais e mais pessoas
ao redor do corredor encontrando cantos escuros para se
envolver.

— Leve-me para outro lugar.

— Encontre-me lá fora.

Corvina entrou na multidão para encontrar Jade parada


sozinha em um canto, observando sua aproximação. Informou
a amiga que ia dar um passeio com alguém, e um olhar fugaz
cruzou seu rosto antes de Jade sorrir.

— Volte logo.

Corvina saiu do corredor e desceu as escadas, abrindo


caminho lentamente no meio da multidão em direção à entrada
principal, esquivando-se de algumas mãos que tentaram
agarrá-la, finalmente emergindo na noite para seu homem de
olhos prateados e máscara de corvo.

Ele a ergueu em seus braços com um grito dela. — O que


está fazendo?

— Levando-a para o meu covil. — Deu a ela um sorriso


maroto, um homem misterioso em uma capa escura,
carregando-a para a floresta na noite do Baile Negro.
Ela reconheceu a trilha em que a levava imediatamente.

— Você consertou o piano? — Perguntou a ele,


envolvendo os braços em volta do seu pescoço enquanto a
levava vigorosamente para baixo em direção às ruínas.

— Ainda não. — Comentou ironicamente. — Estava mais


focado em terminar a tese a tempo.

— Alguma vez desejou sair, ensinar em outro lugar? —


Corvina meditou.

Ele deu a ela um olhar questionador ao luar. — Por que


eu deveria? Verenmore é meu. Quero consertá-lo lentamente e
torná-lo um refúgio seguro para pessoas como nós, aqueles
com um passado conturbado.

— E se alguém desaparecer esta noite? — Ela mordeu o


lábio.

— Vamos cruzar essa ponte quando chegarmos lá,


Corvina. — Suspirou, acomodando-a mais alto em seus
braços.

Logo, uma parede familiar em ruínas apareceu sob o lindo


luar, as misteriosas esculturas parecidas com uma gárgula e a
árvore de um olho só, seu público, enquanto ele se dirigia para
seu lugar.

— Isso é o que você chama de seu covil? — Corvina deu


uma risadinha, olhando as ruínas e as lápides vazias sob a lua.
Vad a depositou no piano, agora quase consertado, e ela
se recostou nas mãos, observando-o enquanto ele tirava a
máscara, revelando aquele rosto esculpido e a mecha de cabelo
que ela amava. Vad tirou a máscara dela e a colocou de lado,
ficando de joelhos na frente dela, as mãos prendendo-a no
piano. Puxando a perna dela por cima do ombro, beijou sua
coxa.

— Mostre-me a pulseira da sua mãe. — Pediu,


pressionando beijos leves na pele macia.

Intrigada, Corvina mostrou a mão esquerda, onde a


pulseira multicristal brilhava ao luar, quente contra sua pele.

Vad pegou a mão dela e colocou algo em sua palma.

Um anel.

O coração de Corvina parou. Leu muitos romances para


não reconhecer as semelhanças, e elas a assustaram pra
cacete.

— Você está... você está propondo? — Sussurrou, sua


ansiedade aumentando.

Vad deu uma risadinha. — Não, little crow. Ainda não.

O alívio dentro dela foi imediato. Ela ainda não estava


pronta, nem ele. Eles estavam apenas se descobrindo,
descobrindo a si mesmos e, embora esperasse que um dia
chegassem lá, ainda não era o dia.
— Mas eu vi este anel quando estava pegando seu vestido.
— Correu o polegar sobre ele. — E enquanto não estamos
prontos ainda, um dia estaremos. E, nesse dia, lhe darei outro
anel. Este é simplesmente meu para você, então sempre terá
algo de mim, como a pulseira da sua mãe. Quero que olhe para
ele em momentos de estresse e saiba que estou aqui.

— E não teria nada a ver com espantar outros homens?

Um lado de seus lábios se contraiu. — Você deveria saber


que meus motivos nunca poderiam ser completamente
altruístas. Eu sou egoísta e quero que todos que a olhem
saibam que você pertence a um homem muito egoísta.

Corvina piscou para conter as lágrimas, olhando para o


anel.

Era uma delicada ametista em forma de lágrima de alta


qualidade, sabia por causa da forma como refratava a luz da
lua, da mesma tonalidade de seus olhos, fixada em metal
prateado, a mesma tonalidade dos olhos dele. O anel era os
dois juntos em substância.

— Obrigada. — Ela sussurrou, olhando em seus olhos.

Vad deu um beijo em seu joelho. — Há uma inscrição.

Ela girou o anel.

Não vou deixá-la entrar no desconhecido sozinha.

— Drácula. — Ela respirou, reconhecendo a citação do


livro que estudaram.
Corvina virou a mão para Vad silenciosamente, e ele
colocou o anel em seu dedo, dando outro nó nos fios de seu
vínculo, tornando-o mais forte, mais resistente para os testes
do tempo.

Ele se endireitou e ela segurou seu rosto, olhando-o com


todo o amor que sentia em seu coração, agradecendo ao
universo com toda a fibra de seu ser por este homem.

— Você é a montanha na qual construo meu castelo, tijolo


por tijolo. — Sussurrou para ele, seus olhos ardendo. — Você
fica de pé, eu voo. Você racha, eu desmorono.

Ele esmagou seus lábios nos dela, beijando-a com a


ferocidade que ela nunca seria capaz de domar, que nunca
quis domar, e o beijou de volta, em meio às ruínas que
testemunharam horrores indizíveis, a garota com a alma do
luar – manchada, escurecida, efêmera – finalmente
encontrando um homem com a alma da noite para brilhar.
Corvina

Vad queria transar com Corvina nas ruínas, mas depois


de saber tudo o que aconteceu lá, ela não estava interessada.
Então a levou de volta para o castelo e para a Masmorra,
trancando-os, saciando aos dois, uma e outra vez, enquanto
um baile de máscaras sexy acontecia bem no andar de cima.

— Estaremos sempre nos esgueirando? — Corvina


perguntou a ele, suas roupas em uma das poltronas, aquela
com as cabeças de leão, enquanto estava deitada em cima dele
no sofá.

Vad brincava com seus dedos, esfregando


constantemente seu novo anel, obcecado em vê-lo nela.

— Se nada acontecer esta noite. — Ele retumbou após


alguns minutos. — Não haverá qualquer razão para isso. Sairei
como um membro do Conselho. É claro que, depois disso, não
darei nenhuma de suas aulas. Mas eu vou flexibilizar as regras
para nós.

— Espero que nada aconteça esta noite. — Ela


murmurou, observando a lareira escura, ouvindo as batidas
calmas de seu coração enquanto ele acariciava a linha nua de
sua coluna, descuidadamente parando para tocar alguma
melodia com os dedos.

Embora a sensação de algo errado não a tivesse


abandonado inteiramente, ela não ouviu ou viu nada desde
que encontrou o corpo na cabana.

— Ajax já encontrou alguma coisa? — Ela apoiou o queixo


no peito dele. — Qualquer atualização?

— Se o fez, não me disse. — Continuou brincando com as


costas dela. — Eu sou um suspeito em sua investigação.

A indignação a dominou. — Você não fez isso.

Um lado de sua boca se inclinou. — Não, eu não fiz. —


Ele olhou seriamente nos olhos dela. — Mas nunca duvide que
não sou capaz disso, Corvina. — Afastou uma mecha de cabelo
de seu rosto. — Se alguém tocasse um fio de cabelo da sua
cabeça, eu faria muito pior com eles sem qualquer remorso. E
sou inteligente e rico o suficiente para nunca ser pego.

Corvina ignorou a vibração de seu estômago e fez a


pergunta que a incomodava há muito tempo. — Exatamente o
quão rico você é?

Vad encolheu os ombros. — Rico o suficiente. Levei algum


tempo para me acostumar a ter dinheiro. — Olhou para a
lareira preta. — A casa em que eu estava não era um bom
lugar. Se tinham dinheiro, nunca chegou para nós. Eu tinha
três pares de roupas para lavar e vestir, e nenhum dinheiro.
Uma vez, meu amigo se machucou e não pude nem comprar
um curativo para ele.

O coração de Corvina doeu ao ouvi-lo falar sobre seu


passado, mas ficou quieta, ouvindo.

— É por isso que muitas crianças se voltaram para... uma


merda ruim. — Ele murmurou. — Eu estava me acostumando
com esse estilo de vida. E então, de repente, esse velho rico
apareceu do nada, me levou para o que parecia ser uma
mansão e me contou que tudo aquilo e mais era meu. Foi...
desconcertante.

Ele ficou em silêncio um pouco.

— Conte-me sobre o seu amigo. — Ela deitou a cabeça


sobre ele. — Aquele que procurava quando encontrou mamãe.
Você o encontrou?

— Não. — Exalou. — Morreu em um incêndio que


aconteceu na casa logo depois que eu saí. — De repente, ele
riu. — A velha Zelda também estava certa sobre ele. Ele acabou
comendo chamas.

Corvina não tinha ideia do que isso significava, mas não


perguntou.

O som de gritos vindos de cima, de repente, se infiltrou


em sua bolha aconchegante. Ambos se endireitaram, olhando
para a porta.
— O que está acontecendo? — Corvina se perguntou
enquanto se arrumavam às pressas.

Seu tom era severo. — Espero que não seja o que estou
pensando.

Alguém sumiu. Deus, ela esperava que não.

Eles subiram as escadas em minutos, emergindo em


algum tipo de comoção, completamente despercebidos. Ela foi
para o lado, separando-se dele, enquanto ele se dirigia a um
dos professores para perguntar o que estava acontecendo.

Erica apareceu do nada, seus olhos selvagens. — Onde


você estava?! Procuramos em todos os lugares!

Corvina piscou. — O que está acontecendo?

— Achávamos que você e Jade tinham desaparecido. —


Ethan disse a ela em uma voz grave, passando as mãos pelos
cabelos. — Ela não está com você?

Corvina balançou a cabeça, o coração batendo forte. —


Você não a viu?

Ethan e Erica balançaram a cabeça.

Jax estava ao lado deles, seus olhos se estreitaram em


Corvina. — Você se foi por horas. Onde estava?

Corvina sentiu uma onda quente de raiva inundá-la com


a exigência em seu tom. — Isso não é da sua conta, Jax. A
prioridade é encontrar Jade.
Corvina observou Kaylin caminhar até o meio da entrada,
batendo palmas para chamar atenção. Todos ficaram em
silêncio.

— É com o coração muito pesado que preciso informá-los.


— Ela começou, e Erica agarrou a mão de Corvina em busca
de apoio. — Houve dois desaparecimentos esta noite.

Um murmúrio percorreu a multidão e Corvina ficou


atordoada.

Dois?

Depois de um século de desaparecimentos únicos, do


nada houve dois? Que porra é essa?

— A estudante de graduação do primeiro ano, Jade


Prescott. — Kaylin parecia angustiada. — E a estudante de
mestrado, Roy Kingston, estão desaparecidas há mais de três
horas. As instalações do castelo foram revistadas e, dadas as
recentes descobertas, o Conselho ordenou uma busca imediata
na floresta e nos terrenos circundantes. Aconselho todos os
alunos a voltarem para suas torres. Aqueles que desejam se
juntar ao grupo de busca, encontrem-se na entrada do Salão
Principal em dez minutos em trajes mais adequados.

Os alunos correram para fora da área, alguns para trocar


de roupa e voltar, outros para ficar para trás.

Corvina trocou um olhar preocupado com Vad e ele


acenou com a cabeça.
Ela tirou os saltos e correu pela grama descalça até a
torre, subindo o mais rápido que pôde e chegando ao quarto.
Tirando a roupa rapidamente e colocando um par de calças e
tênis, saiu do quarto, parando em um corredor por um
segundo.

Era uma noite clara de lua cheia, o que significava que


toda a área estaria banhada de luz. Se houvesse algum
movimento acontecendo, seria visível do topo da torre. Valeria
a pena correr o risco de subir alguns minutos.

Decisão tomada, subiu correndo as escadas para o quarto


do sótão, empurrando a porta e correndo para a janela,
ofegando enquanto olhava para baixo, tentando localizar
qualquer coisa fora do lugar. Os alunos se reuniram no
caminho de paralelepípedos, a floresta aparecendo mais além,
o lago ainda mais longe.

Corvina semicerrou os olhos, tentando ver algo incomum


quando avistou a fumaça. Vindo da parte esquerda da floresta,
grandes nuvens de fumaça subiam em direção ao céu.

Ela sabia exatamente o que estava na direção.

Correndo para fora da sala, desceu a torre e correu para


as pessoas reunidas para a busca, parando sem fôlego
enquanto Kaylin falava sobre ir em grupos de três.

— As ruínas. — Corvina ofegou. — Há fumaça saindo das


ruínas. Eu vi da janela.

— Que ruínas? — Alguém perguntou.


— Slayers. — Vad falou, já correndo para a floresta. — O
resto de vocês, vasculhem os jardins. Volto em dez minutos.

Corvina correu atrás dele, ciente de Ajax em seu encalço.

Eles desceram a ladeira por alguns minutos, e logo a


familiar parede em ruínas apareceu, as ruínas em que ela
estivera apenas algumas horas atrás, vomitando fumaça no ar.

Viu Vad parar no início da parede, estendendo o braço


para detê-la. Ela colidiu com o braço dele com o impulso e
parou, observando a cena diante dela com horror.

O piano em que estava sentada poucas horas atrás, tendo


um dos momentos mais lindos de sua vida, o piano que Vad
passou dias consertando, estava em chamas, completamente
destruído quando o fogo o devorava vivo. Nada mais foi tocado
nas ruínas, exceto o piano.

— Isso é pessoal, Deverell. — Ajax olhou para a cena


sombria com seu olho aguçado. — E o fogo me faz pensar se
não está conectado à mulher queimada que encontramos.

Vad ficou parado, apenas observando o fogo pegar o


instrumento que ele amava. Corvina colocou a mão na dele em
um apoio silencioso, sem entender porque alguém iria queimar
isso nas ruínas, a menos que tivessem algo contra Vad ou seu
avô.

Um grito de algum lugar na floresta quebrou todos de sua


consideração silenciosa, estimulando-os a entrar em ação.
Tudo parecia estar acontecendo tão rápido, uma noite que foi
linda, de repente se transformando em um horror a cada
minuto que passava.

— De onde veio? — Corvina correu na direção do som, o


coração batendo forte tanto com o ritmo quanto com a
ansiedade.

Pararam em um ponto na floresta, olhando ao redor antes


de Ajax gemer de frustração. — Vamos nos separar.
Cobriremos mais terreno dessa forma.

— Não vou deixá-la. — Declarou Vad com firmeza, e


Corvina gostou disso. Ela não queria ficar sozinha, mas havia
uma das garotas, com sorte as duas garotas, em algum lugar
na floresta, e eles poderiam encontrá-las mais rápido se se
separassem. Ajax estava certo.

Corvina tocou o ombro de Vad.

— Ele tem razão. Vá verificar os túneis. — Sugeriu. —


Você é o único que os conhece. Posso dar uma olhada ao redor
do lago. Ajax pode ir ver a cabana.

Vad olhou em volta, frustrado, relutante.

Ajax acenou com a cabeça, já decolando com pressa. —


Apenas grite se algo der errado.

Vad se virou para ela, dando-lhe um beijo forte. — Não


me importo se um morcego te assusta. Você grita, porra,
entendeu?

— Eu grito. — Ela prometeu. — Tome cuidado.


Ele acenou com a cabeça, deu-lhe outro beijo e correu na
outra direção.

Corvina correu até o lago, a floresta voando no seu ritmo,


e emergiu na clareira perto da ponte. Sob o luar pálido, a água
brilhou, um reflexo da lua brilhando em sua superfície.

Corvina subiu correndo a ponte, respirando com


dificuldade, e girou em círculos, procurando ver algo
desagradável. Tudo o que viu foi um lago plácido e escuro, e
bosques misteriosos e silenciosos. Muito silencioso, mesmo as
criaturas noturnas não estavam fazendo sons no momento.

Corvina se sacudiu em um arrepio e se acalmou, tentando


ver alguma coisa.

Algo leve flutuou na superfície da água escura, brilhando


exatamente como em seu sonho. Corvina agarrou a beirada do
parapeito, identificando o cabelo de Roy na água.

— Vad! — Gritou o mais alto que pôde. — Ajax! Aqui


embaixo!

— Corvina? — Ouviu o grito de Ajax de longe,


possivelmente da cabana.

— Perto do lago! — Ela gritou de volta, seu coração


afundando quando viu Roy começar a afundar.

Corvina olhou para a água, a água escura e reflexiva. Ela


não era a melhor nadadora, mas apenas tinha que entrar
tempo suficiente para manter Roy à tona enquanto Ajax
chegava lá.

A lenda do lago veio até ela e ela estremeceu.

Porra.

Faça. Faça isso. Ela morrerá se você não fizer isso,


Corvina.

Corvina acenou com a cabeça para si mesma, respirou


fundo e pulou o parapeito.

A água fria a envolveu por completo, sua visão


completamente perdida sob ela, nenhuma luz infiltrando-se
por baixo. Balançando os braços, de alguma forma, conseguiu
quebrar a superfície, ofegando enquanto engolia o ar, deixando
seus olhos se acalmarem por um momento.

O cabelo claro flutuou para longe e Corvina começou a


nadar em sua direção, na esperança de alcançar Roy antes que
ela se afogasse, esperando que ainda estivesse viva.

Ouviu um barulho ao lado e viu Ajax pulando no lago,


nadando em braçadas fortes em direção a elas. Encorajada por
sua presença, Corvina finalmente alcançou a garota,
agarrando-a pela cintura na água turva, e puxou sua cabeça
para fora, segurando-a fora da água até que Ajax as
alcançasse, seus braços ficando dormentes com o peso que
segurava enquanto suas pernas começaram a ficar cansadas
tentando mantê-las flutuando.
Felizmente, Ajax chegou lá em alguns minutos, pegando
o peso de Roy e arrastando-a para fora e Corvina começou a
segui-lo.

Então algo se moveu na água.

Corvina se acalmou, em pânico, seu coração batendo um


milhão de batimentos enquanto respirava fundo, precisando
sair, seu sonho vindo à tona em sua mente.

Algo arrastou contra sua perna.

Apenas um peixe, murmurou para si mesma. É apenas


um peixe. Dê o fora.

Com a adrenalina subindo por suas veias, de alguma


maneira começou a nadar mais forte, tentando fugir do que
quer que estivesse no lago com ela, seu peito arfando com o
exercício, seu corpo exausto, mas ainda se segurando, mal.

Ela chegou à beira do lago quando algo escorregou em


seus pés novamente e saiu da água, com frio, tremendo,
tentando lutar com o fato de que acabou de pular no lago
escuro e conseguiu sair.

Ajax tentava aplicar boca a boca em Roy enquanto


alternava com as compressões torácicas incansavelmente. —
Vamos lá!

Ela não respondeu, não até que Corvina contou sua


vigésima terceira tentativa. Foi quando a água negra saiu de
seus pulmões, seu peito arfando com força, mesmo enquanto
permanecia inconsciente.

— Precisamos levá-la de volta. — Disse Ajax, pegando a


garota. — Corra para o castelo. — Disse à Corvina. — Pegue
algo quente, cobertores e roupas secas e leve o médico da sala
médica para o Salão Principal. Vai!

Estimulada a entrar em ação, correu o mais rápido que


seu corpo permitia para o castelo, emergindo na clareira onde
alguns alunos se amontoavam esperando por qualquer tipo de
notícia.

Corvina contou à Kaylin o que aconteceu, vestiu um par


de roupas emprestadas do corredor e começou a deixar tudo
pronto, esperando que saíssem da floresta.

Minutos se passaram.

Alguns grupos de busca voltaram à clareira sem nada a


relatar. Alguns alunos voltaram para seus quartos. Alguns
permaneceram onde estavam, preocupados com a
possibilidade de a lenda se tornar real no terreno do castelo.

Vad não voltou, mesmo depois do que pareceram horas,


e uma vibração de ansiedade começou a remexer em sua
barriga. Ele tinha que estar procurando nos túneis, os túneis
que só ele conhecia. Ela nem sabia quantos eram, muito
menos onde. Obviamente, isso levaria tempo. Não havia nada
com que se preocupar, ainda não.
Continuou tentando racionalizar, agarrando os braços e
balançando nos calcanhares, esperando que ele saísse da
floresta logo.

Algum movimento vindo da frente da floresta a fez dar um


passo à frente quando, finalmente, Ajax irrompeu do matagal
com Roy em seus braços, seu corpo tremendo.

— Rápido, pegue um cobertor para mim! — Ele gritou, e


Corvina percebeu que estava encharcado da cabeça aos pés,
seus dentes batendo levemente enquanto corria com a garota
em seus braços, levando-a direto para dentro do Salão
Principal.

Algumas pessoas correram para trazer cobertores, e


Corvina correu atrás de Ajax, finalmente capaz de ver Roy
ainda inconsciente em seu domínio. Kaylin ordenou que a
equipe no Salão Principal acendesse rapidamente uma
fogueira, que felizmente estava funcionando. Ajax colocou Roy
no chão e vestiu roupas quentes, enquanto alguém cortava o
vestido de Roy e a cobria com cobertores.

— O que aconteceu? — Kaylin perguntou, conduzindo as


pessoas para fora do corredor. Corvina segurou os pés gelados
de Roy e começou a esfregá-los para estimular a circulação,
esperando sua resposta.

— Não faço ideia. — Ajax disse rispidamente, seus dentes


batendo. — Procurei na cabana e não encontrei nada. E então
ouvi Corvina gritar. Ela estava iluminada como a porra de um
farol em toda aquela água escura. Não tenho ideia de como ela
entrou.

Corvina olhou para os cabelos dourados de Roy. — Eu


estava na ponte e ela já estava lá.

Ajax olhou para ela. — Eu vi você pulando.

Corvina estremeceu, lembrando-se da água escura, sem


entender nada disso.

O fogo estalou, finalmente aquecendo a sala. Ajax ficou


imóvel, olhando para as chamas. — Eu entrei na porra da água
para tirá-la de lá e não sei se é a fábula de Deverell ou a porra
do peixe, mas senti coisas... movendo-se ao meu redor naquela
água. Nada me tocou, mas algo se moveu. Por um momento,
pensei que não iríamos sair.

Exatamente como ela se sentiu, embora não expressasse


isso.

Corvina não sabia o que havia na água, mas havia algo.

Roy começou a resmungar, movendo a cabeça inquieta,


antes de abrir os olhos lentamente.

Corvina se soltou, sentando-se de joelhos no chão


enquanto Ajax olhava para ela. — Ei, ei, você está bem.

Roy piscou, atordoada. — Onde estou? Porra, minha


cabeça dói. — Gemeu, segurando sua testa.
— Sim, quase se afogar no lago faria isso com você. —
Ajax assentiu. — Por que você foi para a floresta?

Roy começou a se sentar, e Corvina a ajudou, ajeitando


os cobertores ao redor dela para manter sua privacidade. —
E... eu não me lembro.

— O que você lembra? — Ajax perguntou, seu tom era de


um investigador.

Roy olhou em volta, encostada em Corvina em seu estado


enfraquecido. — Eu me lembro de dançar. Sair para tomar um
pouco de ar. E então nada. Está tudo em branco.

— Não tem ideia de como entrou no lago?

Roy parecia em pânico. — Eu estava no lago? Não gosto


daquele lago. Droga, minha cabeça está doendo.

— Ela precisa descansar na sala médica. — Dr. Larkin, o


médico residente no campus, interrompeu da porta. — Temos
que mantê-la sob observação durante a noite.

Ajax deu um aceno cansado. — Descanse. Terei mais


perguntas para você amanhã.

Corvina seguiu Ajax quando ele deixou o Salão Principal,


seus olhos examinando o perímetro, finalmente parando um
momento no que parecia ser uma noite que se transformava
rapidamente, tudo acontecendo tão rápido que ela mal
conseguia processar.
— Vad não voltou ainda. — Ela mordeu os lábios, olhando
para a floresta.

Ajax franziu a testa. — Já se passaram mais de duas


horas, Corvina. Ele deveria ter voltado.

— Será que se perdeu nos túneis? — Ela sabia o quão


estúpido soou mesmo enquanto dizia isso.

— Ele conhece esta montanha melhor do que ninguém.


— Ajax balançou a cabeça, seu rosto sombrio. — Eu... você tem
certeza de que ele é o homem que você pensa que é, Corvina?
Não acha que tudo está muito ligado a ele? Não te deixa um
pouco desconfiada?

Suas perguntas a atingiram como pequenas pontadas,


não o suficiente para mutilar, mas o suficiente para sangrar.

Ela olhou para o anel em seu dedo, considerando por um


longo minuto se ele poderia tê-la manipulado tão bem. Corvina
não podia acreditar nisso. Vad era sua âncora nessa loucura.
Se duvidasse dele, ela se afogaria.

— Eu confio nele. — Respondeu à Ajax com firmeza, seus


olhos voltando para a floresta.

— Então vamos dar-lhe mais uma hora. Alguns desses


túneis são longos.

Corvina respirou fundo, tranquilizada por isso, quando


um som retumbante encheu o ar, um som que nunca ouviu
neste castelo.
Um telefone.

Corvina observou enquanto Ajax tirava um do bolso.

— Seu telefone funciona aqui? — Perguntou, surpresa.

— Satélite. — Respondeu, pressionando um botão. — Os


membros da Divisão têm esses telefones. — Colocou no ouvido.
— Hunter.

Ele ouviu o que quer que a pessoa do outro lado disse por
um minuto, seu corpo ficou tenso. — Tem certeza?

Devem ter dito sim.

Sua mandíbula se contraiu enquanto cortava a ligação,


voltando-se para Corvina em seu modo de investigador, que
pesava chumbo em seu estômago.

— Acabaram de identificar o corpo que encontramos na


cabana. — Ajax disse a ela, seus olhos sombrios. — Mulher de
um metro e setenta, morreu há dois anos de traumatismo
contuso na cabeça, queimou após a morte em algum momento
nos últimos dois meses para torná-la mais difícil de identificar.

— Tudo bem. — Corvina falou lentamente, sem entender


para onde isso estava indo.

— A mulher morta é Jade Prescott.


Corvina

Corvina parou, atordoada.

— Isso é impossível. — Ela se ouviu suspirar, suas mãos


indo para sua cabeça.

— Ela estava no sistema. — Ajax a informou enquanto


sua mente girava, tentando entender o que dizia.

De repente, um pensamento a gelou até os ossos. Ela não


foi a única a ver Jade, foi? A ideia passou brevemente por sua
mente antes que a afastasse. Não, outros a viram.
Conversaram com ela. Lembrava-se vividamente disso. Mas
suas memórias estavam erradas? Sua mente realmente se
distorceu a ponto de ter alucinado memórias para si mesma?
Estava tão faminta por uma amiga que imaginou a garota
borbulhante de cabelos claros?

Corvina sentiu o coração disparar, sem saber o que era


real e o que não era real naquele momento, sua própria
narrativa tão pouco confiável que não sabia o que pensar.
— Você viu Jade também, certo? Minha colega de quarto?
— Perguntou a Ajax desesperadamente. — A garota com cabelo
claro curto e olhos verdes?

Para seu grande, grande alívio, ele assentiu. — Sim. O


que levanta a questão, se a verdadeira Jade Prescott está
morta, morta há dois anos, quem diabos é essa garota?

Corvina não sabia.

Com quem ela viveu todos os dias durante meses? Com


quem fez amizade e de quem cuidou? Quem era a garota que a
abraçava todos os dias e iluminava sua vida com sua luz?

Como seus instintos podem ter dado tão errado? Ela


estava errada sobre Vad também?

— Vou descobrir isso. — Ele passou uma mão na outra.


— Venha me encontrar se seu namorado não estiver de volta
em uma hora.

Corvina acenou com a cabeça, observando-o ir para a Ala


Administrativa, e ficou sob o luar, confusa além da crença.
Quem era sua colega de quarto?

Um som vindo de sua esquerda a fez virar.

Foi o crocitar de um corvo vindo de cima de sua torre.

E era estranho porque os corvos não enxergavam bem no


escuro, então sempre voltavam para o ninho para dormir à
noite, procurando comida depois do amanhecer. Então, por
que diabos havia um voando ao redor da torre e grasnando?
Seus olhos foram para a janela e congelou quando uma
sombra se moveu para dentro de seu quarto trancado.

Era Jade?

Assim que o pensamento cruzou sua mente, algo bateu


em sua cabeça por trás, e tudo ficou escuro.

Acorde, Vivi. A voz de Mo e o cheiro de sândalo foram as


primeiras coisas em sua consciência.

A primeira coisa que viu depois de abrir os olhos foi a lua.

Enquanto Corvina lutava para manter os olhos abertos


através da névoa em seu cérebro, uma dor latejante irradiava
da parte de trás do seu crânio para a cabeça. Ela levou um
segundo para perceber que estava deitada em algo de concreto,
em algum lugar alto, porque o vento estava forte em sua pele.
Com a garganta seca, a boca como se estivesse cheia de
algodão, tentou se sentar.

E falhou.

O pânico cresceu dentro dela enquanto tentava mover os


braços novamente, sentindo seu peso de chumbo, e não
conseguia se mover um centímetro, embora não pudesse sentir
nada a amarrando.

O que diabos estava acontecendo?

Seus olhos vagaram ao redor freneticamente, seu peito


arfando enquanto ela tentava dar sentido a tudo.

Por que dar sentido a qualquer coisa? A voz que raramente


ouvia antes, murmurou insidiosamente.

— Lamento que tenha chegado a este ponto, Cor. — A voz


de Jade veio do seu lado.

Encontrando forças em algum lugar dentro de si, Corvina


virou o pescoço apenas o suficiente para poder ver sua colega
de quarto, ainda em seu vestido de princesa fada, sorrindo
para ela com benevolência.

— Quem é você? — Corvina mal conseguia sussurrar,


algum tipo de força a mantendo paralisada, mesmo enquanto
sua consciência trabalhava.

Jade franziu a testa. — Você não deveria ser capaz de


falar depois disso. Huh. A dose deve ter sido menor do que eu
pensava.

Qual dose? O que ela fez? Quem diabos era ela? Onde elas
estavam?

— Você se lembra daquela árvore perto das ruínas? —


Jade se sentou de pernas cruzadas no chão, ao lado de
Corvina, puxando o cabelo para trás com os dedos. — A árvore
com o olho?

Corvina se lembrava da árvore e de seu olho estranho.

— Minha avó esculpiu o olho no tronco para reconhecê-


la. — Jade disse, sorrindo para ela. — A árvore era especial. Só
crescia folhas uma vez em alguns anos, e ela percebeu que se
você pulverizasse as folhas, isso lhe dava poder.

Do que diabos ela estava falando?

— Você poderia soprar o pó no rosto de qualquer um e


controlá-los. — Jade disse a ela, peneirando seu cabelo. — Ela
o chamava de Hálito do Diabo. Isso é o que usava em seus
brinquedos.

A realização caiu sobre ela.

Os Slayers.

A avó dessa menina foi a chamada bruxa do grupo dos


assassinatos.

— Sua avó era... — Corvina engoliu em seco para molhar


a garganta.

— Uma Slayers. — Jade sorriu com orgulho. — Sim, era.


Foi ela quem trouxe a diversão para o grupo. Eles pensaram
que era uma bruxa que fazia magia negra com o pó. Naquela
época, não sabiam que era uma droga. Ela nunca contou a
ninguém.
Corvina sentiu algumas sensações voltarem para seus
braços. — Como?

— Como eu sei? — Jade perguntou, seus olhos verdes


brilhando. — Isso é porque minha avó nunca morreu. Ela
escapou naquela noite, a única a escapar, e estava grávida.
Minha avó criou minha mãe aqui, e então elas se mudaram
para a cidade, onde minha mãe conheceu meu pai. Ele não a
queria, então a vovó contou a ela sobre o Hálito do Diabo. Essa
foi a noite em que ela me concebeu.

Foi demais. A noite inteira até aquele ponto foi demais


para ela entender.

Corvina sentiu-se mal, não só com a noite, mas com a


história, pensando num homem na situação em que ela se
encontrava enquanto uma mulher o forçava. Era
absolutamente nojento.

Jade continuou, como se estivesse feliz por finalmente


tirar isso de seus ombros. Ela sempre amou conversar. —
Infelizmente, meu pai nunca se lembrou e minha mãe morreu
alguns anos depois. Foi quando minha avó me acolheu. Ela me
criou, me ensinou tudo, me contou tudo sobre o que ela e meu
avô faziam.

Mais forças retornaram à Corvina e ela conseguiu se virar


ligeiramente, olhando para a garota que fora sua primeira
amiga neste novo lugar, uma garota em quem confiava.
— Oh, não me olhe assim. — Jade zombou. — Foi tão bem
feito. Ninguém suspeitou da garotinha alegre que perdeu duas
pessoas próximas a ela. Que tragédia. — Sua voz zombou. —
Eu fui muito convincente.

— Por quê?

Jade apoiou-se nas mãos e olhou para as estrelas,


parecendo etéreas ao luar. — Por que o quê?

— Por que matar a verdadeira Jade Prescott? — Corvina


perguntou, felizmente sua voz mais estável.

Ela encolheu os ombros. — Para vir para Verenmore,


boba. Uma garota estúpida veio para a cidade tagarelando
sobre conseguir entrar. Eu dei uma carona para ela, peguei a
história de toda a sua vida e a levei para o velho barraco que
minha avó tinha na floresta. Eu queria ver o lugar que
pertencia à minha linhagem.

O coração de Corvina parou.

— Você é uma Deverell. — Ela sussurrou, as peças se


encaixando.

Jade sorriu beatificamente. — Sim, eu sou. Minha mãe


foi concebida em uma noite muito parecida com esta. Minha
avó me contou tudo sobre isso, sobre o sangue, o sexo, o
sacrifício. Eles jogaram tão bem. Deus, deve ter sido um
momento tão divertido.

A empolgação em sua voz deixou Corvina nauseada.


Ela se lembrou de Vad contando sua história, a repulsa
em seu rosto quando retransmitiu eventos semelhantes para
ela. Ele talvez tenha matado seu avô por causa disso. E essa
garota, era... louca. Não havia outra palavra para descrever.

Mas você também não está louca? A voz insidiosa


sussurrou.

Ignore ela, Vivi. Disse Mo.

De alguma forma, Corvina seguiu seu conselho enquanto


as coisas lentamente começavam a fazer sentido. — Você a
queimou depois que entramos na floresta e encontramos a
cabana, não foi? — Fazia sentido agora.

— Eu tive que fazer. — Jade balançou os dedos dos pés.


— Ninguém costumava entrar na floresta, então nunca foi um
risco. E então, graças a você, as pessoas ficaram curiosas.
Deus, eu tentei te avisar tantas vezes. Não podia arriscar que
ela fosse identificada.

Corvina olhou para a garota com um peso morto se


instalando em seu estômago. — Você teve algo a ver com a
morte de Troy?

Jade olhou para ela com os olhos brilhando. — Claro que


sim. Troy estava... desconfiado da morte de Alissa. Ele
começou a investigar o motivo pelo qual ela subiria no telhado.
Alguém lhe disse que nos viu indo juntas antes de eu descer
sozinha. Começou a se perguntar se eu teria fugido para
afastar as pessoas do meu rastro, e eu fugi. Gostava muito
dele, mas não tive escolha.

Uma raiva quente pulsava dentro de Corvina, seus olhos


ardiam ao se lembrar do garoto incrível e inteligente que
perdeu a vida por causa da maldade de uma mulher.

— Você deu a ele o Hálito do Diabo?

— Sim. — Jade concordou. — E o levei para o telhado.


Este bem aqui. Disse-lhe para pular dali. Ninguém suspeitou
de nada.

O vento assobiava sobre o telhado em que estavam,


ganhando velocidade e fazendo os cabelos de Corvina voarem.

— Sim. — Disse Corvina à garota, a raiva correndo em


suas veias. — Eu sabia que ele não se mataria, disse ao seu
irmão o mesmo.

Jade deu uma risadinha. — Mas ninguém pode provar


nada.

O que significava que Corvina nunca deveria sair dessa


conversa com vida.

— E os desaparecimentos ao longo do século passado? —


Perguntou Corvina. — Você ou sua avó têm algo a ver com
isso?

Jade balançou a cabeça. — Não, eu realmente não tenho


ideia do que acontece no Baile Negro. Minha avó também não.
Nós duas nos perguntamos muito sobre isso.
— Então você não teve nada a ver com Roy estar no lago
esta noite?

Jade parecia confusa sob o luar. — Roy? Por que eu faria


qualquer coisa com Roy? Gosto dela. Ela está bem?

Corvina levou uma chicotada pelo jeito como essa garota


confessou ter matado a sangue frio em um minuto e estar
preocupada com uma amiga no seguinte.

Essa garota ia matar Corvina. Ela sabia. Deitada naquele


telhado, conversando com ela, Corvina sentiu a verdade
afundar em seus ossos.

— Por que matar Alissa? — Perguntou à garota, ganhando


mais tempo enquanto tentava descobrir uma maneira de sair
dessa.

Seus membros nem se contraíram sob o efeito da droga.


Se não escapasse, ela se tornaria outra história em Verenmore,
outra morte desconhecida.

Os olhos de Jade brilharam, algo acontecendo atrás


deles. — Exatamente pelo motivo que vou matar você, Corvina.
Mesmo que realmente te amasse como uma irmã no começo.

Corvina olhou para a garota, tentando entender o que ela


e Alissa tinham em comum. A resposta veio a ela em uma
realização assustadora.

— Vad. — Respirou.

Jade sorriu. — Vad.


Corvina piscou. — Mas, por quê? Não entendo.

— A vagabunda foi e dormiu com ele. — Jade gritou,


inclinando-se para frente. — Ele era meu.

— Ele é... seu avô e o dele é o mesmo. Ele é sua família.


— Gaguejou Corvina.

— Ele é meu. — Gritou a garota de repente, fazendo


Corvina se encolher, seus olhos verdes ficando selvagens, o
vento forte em seus cabelos curtos. — Nós dois temos sangue
Deverell em nós. Isso nos torna fortes. Ele é o Diabo deste
castelo e eu sou o Hálito do Demônio. Juntos, seríamos uma
força a ser reconhecida. Poderíamos deixar um legado para
nossos filhos.

O vômito subiu para o fundo da boca e Corvina engoliu-


o. Essa garota, quem quer que fosse, estava realmente,
profundamente doente.

Você também está doente, Corvina. Disse a voz insidiosa.


Ou então por que eu estaria aqui?

Concentre-se na garota, Vivi. Mo adulou.

Foi mais difícil me concentrar dessa vez.

— É tão errado. — Murmurou Corvina, todo o seu ser


enojado. — Ele nunca aceitaria você.

Jade sorriu, um sorriso que a gelou até os ossos. — Ele


não teria que fazer isso, Cor. Ele não teria escolha. Vad vai me
aceitar depois que você se for.
O enjoo não podia mais ser contido. Corvina empurrou
para o lado, com o estômago vazio, mas a garganta queimando,
a ideia, a própria ideia de seu Vad se tornar uma vítima
indefesa do engano dessa garota, fez algo vermelho quente
ganhar vida dentro dela.

Não, não.

Mate-a. Disse a voz insidiosa.

Vivi, concentre-se. Mo falou mais alto.

Deus, os dois precisavam calar a boca. Sua cabeça


latejava.

Se ia morrer esta noite, Corvina levaria essa garota com


ela. Não existe um mundo em que a deixasse viver e fizesse de
seu amante um escravo. Não.

— Nós nunca teríamos chegado a isso, Corvina. — Jade


suspirou, finalmente se levantando, limpando sua bunda. —
Eu tentei te alertar para longe dele tantas vezes. Você. Apenas.
Não. Ouviu. Você foi em frente e abriu as pernas para ele como
uma prostituta por todo o castelo. Eu simplesmente não
aguentava mais.

Ela se levantou e limpou as mãos, fazendo um círculo ao


redor do corpo indefeso de Corvina. — Agora, você vai pular
desse telhado e Vad vai me encontrar. Compartilharemos a dor
de perder você e eu o ajudarei a se curar. — A seriedade em
seu rosto realmente fez Corvina querer matá-la.
A traição era tão profunda, dela, de Troy, de Alissa, de
todos que ela já tinha entrado em contato.

Corvina tentou fazer suas mãos se moverem, suas pernas


se moverem, qualquer coisa se mover, e nada aconteceu.

— Que droga é essa? — Ela perguntou à garota.

— Não sei a composição exata. — Jade caminhou até a


beira do telhado estreito, olhando para baixo, a garota que
claramente mentira sobre seu medo de altura. — Vovó disse
que é nativa da Amazônia. Alguém deve ter plantado aqui anos
atrás. Tem escopolamina, pelo que ela disse, e mais alguma
coisa. Dependendo da dosagem, sua vontade é minha. Por
exemplo, eu disse para você vir comigo até o telhado e você
veio. Lembra-se?

Corvina balançou a cabeça uma vez, seu coração batendo


forte antes de ela acordar.

— Isso é porque lhe disse para esquecer. Agora, vou dizer-


lhe para se levantar e caminhar até a beira do telhado.

Corvina não acreditaria que fosse possível se seus


músculos não relaxassem de repente, enviando sensações para
seus membros. Ela se encontrou de pé, mesmo enquanto
lutava com tudo dentro dela. Seu corpo ficou ereto, os
músculos de seus pés impelindo-a para frente enquanto seu
cérebro tentava substituir o que quer que estivesse
acontecendo com ela.
— Você está resistindo. — A voz surpresa de Jade veio de
trás. — Isso não é possível. Normalmente, a consciência não
está mais à frente quando a droga faz efeito.

Ela sentiu Jade parar na sua frente enquanto tremia com


o vento forte, com as mãos fechadas ao lado do corpo.

Olhos verdes fitaram os dela e, pela primeira vez na vida,


Corvina se sentiu verdadeiramente apavorada. Ela parecia um
verdadeiro mal em seu rosto. Os monstros eram reais e não
viviam em sua cabeça. O que existia no mundo era mais
assustador do que qualquer coisa que sua mente pudesse
conjurar. Corvina via alguém com um rosto lindo e inocente e
uma energia tão enganadora que bagunçou seus instintos. E
tinha que encontrar Vad e contar que ele não era mau, que o
verdadeiro mal não aparecia do lado de fora para o mundo ver.
O verdadeiro mal era insidioso.

Estava chegando a hora de dançar com a morte e Corvina


não queria. Precisava ver a mãe mais uma vez. Precisava
arranjar um cachorro, uma família. Tinha que encontrar seu
final feliz com Vad. Ela queria uma vida com ele, mesmo que
fosse uma vida de risco para sua mente. Queria beijá-lo
abertamente, sem medo que alguém visse. Queria viajar com
ele para lugares sobre os quais lia em seus livros. Queria seu
final como nos livros que ela amava. Queria, um dia, ter um
filho com ele. Corvina queria tudo.

Ela não estava pronta para morrer.


Mas a morte pode estar pronta para você. Sussurrou a voz
insidiosa.

Você vai viver, Vivi! Mo gritou.

Ajude-me, Mo, implorou à única voz que fora seu


companheiro constante ao longo dos anos, sem saber se era
real ou uma ilusão de sua mente, sem se importar, porque isso
lhe deu esperança por um segundo.

Estou bem aqui com você. Disse ele, dando-lhe a única


coisa que lhe dera, sua companhia.

— Ande até a beirada, Corvina. — Jade ordenou e Corvina


sentiu seus pés se moverem sem vontade, levando-a para a
beirada do telhado. E sabia exatamente como Alissa e Troy
devem ter se sentido sendo abraçados pelo vento, observando
as montanhas e os bosques infinitos prontos para recebê-los.

Seu cabelo voou por toda parte enquanto ela olhava para
todos os lugares em que se encontrara nesta montanha,
lugares que a fizeram sentir a amizade pela primeira vez,
luxúria pela primeira vez em sua vida, transformando-se em
um amor profundo que nunca imaginou para si mesma, mas
que sempre desejou. Se ela morresse, e era provável que
morreria, olhando para aqueles lugares, sentindo aquele amor
em seu coração, levando aquelas memórias dele para a vida
após a morte, era como queria ir – memórias de olhos
prateados, palavras sussurradas, beijos fortes e cabelos com
mechas brancas, memórias de sua possessão, sua paixão e seu
amor por ela.
Corvina andou por essas terras do mal e as marcou com
amor. E depois que ela se fosse, eles floresceriam novamente.

Lágrimas escorreram por seu rosto enquanto olhava para


as ruínas onde foi beijada pela primeira vez.

— Você queimou o piano? — Perguntou baixinho à garota,


seu corpo balançando quando uma forte rajada de vento o
sacudiu.

Jade olhou para sua mão, para o anel em seu dedo. — Eu


estava com raiva.

Ela estendeu a mão para tocá-la e Corvina agarrou seu


pulso com toda a força.

— Solte minha mão. — Gritou Jade, tentando se afastar,


e os dedos de Corvina apertaram. Não. Se a deixasse ir,
destruiria tudo. Ela destruiria Vad, faria dele uma casca de
homem. Não podia deixar isso acontecer.

— Não vou deixá-la arruinar outra vida. — Corvina disse,


apertando sua mão, a única parte de seu corpo que conseguia
controlar.

— Que porra você está fazendo, Corvina?! — Ouviu a voz


de Ethan chamar de baixo e queria perguntar a ele se Vad
voltou bem, se ela poderia vê-lo uma última vez antes de ir.

Jade gritou do lado dela. — Ela ficou louca! Eu a


encontrei no telhado e tentei puxá-la. Ela não está me
deixando ir!
A porra da vadia idiota.

Gritos subiam debaixo delas, gritos para Corvina soltar


Jade, gritos para não fazer uma loucura, gritos implorando
para ela não ficar louca.

Eles pensaram, realmente pensaram, que Corvina era a


louca.

Ela teria rido com a ironia, se pudesse.

Não é irônico. Disse a voz insidiosa.

Não dê ouvidos a ela. Rebateu Mo.

O caos dentro dela faria sua cabeça explodir.

Corvina sentiu outra pessoa pisar no telhado que estava


trancado.

— Você, linda garota. — A voz profunda e rouca veio de


algum lugar atrás delas, e o alívio absoluto percorrendo seu
corpo, a dor absoluta pelo que ele testemunharia, quase a
paralisou. Se seu corpo não estivesse paralisado, ela cairia de
joelhos de alívio. Queria se virar, correr para os braços dele e
nunca mais deixá-lo ir, mas seu corpo ficou congelado.

Corvina começou a soluçar.

— Não se aproxime, Vad. — Gritou em meio às lágrimas.


— Ela tem algum tipo de droga hipnótica. Não se aproxime.

Ele nem mesmo se dirigiu a ela.


— Oh, você quer se livrar dela? Por nós? — Ouviu a voz
dele se aproximar e seu coração começou a bater forte. Ela
precisava detê-lo.

Ele nem está falando com você. Disse a voz insidiosa. Ele
está olhando para ela. Ele não se importa.

Isso é uma mentira! Mo gritou, e sua cabeça começou a


doer como se alguém estivesse martelando seu crânio por
dentro.

Corvina sentiu o aperto de Jade em seu braço ao se virar


para o homem atrás dela. — Vad. Você sabe?

Sua voz era sedutora. Corvina conhecia bem o tom.

— Claro, eu sei, garota boba. — Ele riu, sua voz se


aproximando. — Eu sei tudo o que acontece em Verenmore,
não é? E estou tão orgulhoso de você. Você é uma verdadeira
Deverell. — O orgulho em sua voz fez seu estômago apertar.

Ele nunca amou você, Corvina. Gabou-se a voz insidiosa.


Está apenas mostrando suas verdadeiras cores agora.

Você sabe que isso não é verdade, Vivi. Mo a lembrou, o


vaivém constante fazendo-a gemer enquanto tentava se
concentrar nas vozes reais fora de sua cabeça.

Vad ainda estava falando com a fingida Jade, sua voz se


aproximando. — Conhece a emoção de matar, não é, baby? O
sangue, o sexo, o barato. É incomparável.
— Sim. — Jade respirou ao seu lado. — Eu sabia que você
me entenderia.

— Solte a mão dela, Corvina. — Ordenou ele, naquele tom


familiar que conhecia profundamente, dirigindo-se a ela pela
primeira vez.

Corvina sentiu sua respiração vacilar, seu corpo


precisando vê-lo, mas incapaz de se mover, a primeira semente
de dúvida entrando em sua mente.

Ele a quer. A voz insidiosa riu. Só a estava usando por um


tempo. Ela está certa, ele é doente como ela. Provavelmente só
quer que a deixe ir para que possa te empurrar.

Vivi, não dê ouvidos a essa besteira. Mo praguejou pela


primeira vez em sua memória, sua voz soando bem acima da
insidiosa, mais alta. Ele mataria por você, só você. Lembra o
que decidimos? Nós confiamos nele. Confie nele.

Ambas as vozes falavam uma sobre a outra, e Corvina


gritava para a dor atrás de seus olhos, seu corpo tremendo com
a necessidade de cair.

De alguma forma entendendo tudo, apesar de cada


palavra que saía da boca dele e das vozes gritando em sua
cabeça, Corvina depositou sua fé nele e largou a única
segurança que tinha.

Ela o sentiu em suas costas, sua mão em ao redor indo


para segurar o rosto de Jade com ternura. — Você fez tudo por
mim?
Jade acenou com a cabeça, sua respiração entrecortada.
— Pertencemos um ao outro. Você e eu, somos a combinação
perfeita.

Vad riu ao lado dela. — Sim, nós somos. Gostamos de


jogar as pessoas no chão, não é? — Seu aperto em seu rosto
aumentou. — Como desfaz o efeito da droga?

A compreensão caiu sobre a garota. Ela começou a rir


loucamente, tentando escapar de seu aperto em sua
mandíbula, mas não conseguiu. — Oh, Vad. Você quer me
enganar, não é? Não vai funcionar. Verenmore está no meu
sangue. Sempre estarei aqui, nestas paredes.

Ele se inclinou para mais perto dela, sua voz dura. —


Como desfaz os efeitos da droga, hein?

Corvina ouviu a gargalhada de Jade, seu corpo


completamente congelado.

— Você não faz. Ela será o seu pequeno brinquedo para


fazer o que quiser. Faça-a implorar, faça-a engatinhar. — Jade
estalou os lábios. — Eu assistirei.

Ele pode fazer qualquer coisa com você agora. Disse a voz
insidiosa enquanto Mo a repreendia para que calasse a boca.

— Assista do inferno. — Ouviu Vad dizer, antes de deixá-


la ir.

Corvina assistiu em choque, congelada, enquanto o


vestido rosa flutuava ao redor do corpo da garota enquanto ela
caía, sua risada ecoando no vento com os gritos de baixo, até
que bateu no chão, seus olhos olhando para ela, sua boca
presa em uma risada louca, o sangue acumulando-se ao redor
de sua cabeça como um halo demoníaco, encharcando seu
vestido rosa.

Uma sombra se moveu ao redor da multidão e, de


repente, várias vozes começaram a gritar em sua cabeça, todas
de uma vez.

Eu nunca partirei.

Estou feliz por ela ter morrido.

Diga ao meu irmão que não me matei.

Dê a notícia à minha família.

Você pode nos ouvir?

Pule, pule, pule.

Por que você está viva, porra?

Não dê ouvidos a eles!

Pule e acabe com isso, Corvina. Você sabe que quer. Não
há nada para você aí.

Corvina gritou com a pressão em seu crânio, seus olhos,


suas orelhas, seu nariz, seus dentes, tudo doendo quando seu
corpo começou a tremer, incapaz de suportar muitos estímulos
mentais, sua voz falhando enquanto a dor em sua cabeça
martelava em cada centímetro de seu corpo que simplesmente
não conseguia se mover. Lágrimas e suor escorreram por seu
rosto enquanto ela choramingava, balançando na beira do
telhado.

Ela sentiu que começava a inclinar-se para a frente e


fechou os olhos.

Um braço em volta de sua cintura, puxando-a para trás,


seu corpo rígido e dolorido.

Por que ele teve que vir?

Diga à minha mãe que eu não queria ir.

Afaste-se do telhado.

Morra, porra.

— Olhe para mim! — O comando profundo rompeu o


barulho. Ela o sentiu virá-la, suas mãos segurando seu rosto
e inclinando sua cabeça, sua voz cortando todas as que
estavam em sua cabeça. — Corvina, dê-me esses olhos. Vamos,
baby.

Deixe-o para trás.

Salte para baixo.

Esse é o único fim.

Seus olhos começaram a fechar.

— Não, não, olhe para mim. Fique comigo. — Sua voz


profunda e rouca ordenou, uma ponta de pânico diferente de
tudo que já ouviu. Corvina não queria que Vad entrasse em
pânico. Ela ia dormir e desligar tudo em seu corpo, sua pele
que estava suando muito, seu cérebro que simplesmente não
parava de falar, seu coração que estava batendo muito rápido,
muito alto e seu corpo que parecia estar tremendo fora de seu
controle.

Tudo doía.

— Corvina! — O terror em seu tom a alcançou em algum


lugar lá no fundo, onde ela ainda era capaz de um último
pensamento racional. De alguma forma, lutou contra tudo
dentro dela e abriu os olhos por uma fração de segundo para
olhar para ele, apenas para tomá-lo uma última vez, seus olhos
travando com aquelas belas pratas.

— As vozes não vão parar. — Corvina conseguiu


sussurrar, de algum jeito.

Percebeu que Vad a balançava em seus braços quando


ela começou a murmurar coisas que nem mesmo ela entendia,
seus olhos ficando em branco, as vozes em sua cabeça
finalmente assumindo o controle.

Era assim que Danse Macabre se parecia.


Vad

Uma vida sem sua bruxa de olhos violeta era a coisa mais
assustadora que Vad poderia imaginar, uma possibilidade que
se tornou muito real na fração de segundo que ela inclinou na
torre.

Ele havia amado sua melancolia até que ela o tivesse


encantado com sua magia – com seus olhares tímidos que se
tornaram mais ousados quando ela se abriu para ele, com a
maneira como ela aceitou suas partes sombrias e as encheu
com suas estrelas, com sua ternura interior que de alguma
forma sempre acalmou suas arestas ásperas.

E agora não conseguia se imaginar voltando para a


melancolia novamente, para ser uma noite sem fim sem as
estrelas, para ser uma montanha solitária sem um castelo no
topo.

Vad não acreditava em nada além do que podia ver, mas


havia algo em ação além de sua compreensão que o levou a ela.
Por que, quais eram as chances de que o dia que a Velha Zelda
cega agarrou seu braço, fosse o dia em que essa garota nasceu?
Não acreditava nas coisas, mas estava vivendo o efeito delas.
Foi a mesma coisa que o levou a procurar Fury e encontrar a
esquizofrênica paranoica de olhos violetas com demência no
Instituto. Foi a mesma coisa que o fez parar e olhar para a
esquerda do corredor, onde a vira pela primeira vez.

Vad estava sentado no mesmo corredor, os cotovelos


sobre os joelhos e os olhos na porta por onde a conduziram.

Ele estava no túnel quando aquela mesma coisa


indefinível o incitou a voltar para o castelo. Ele correu,
seguindo um instinto que nem mesmo entendia, para o telhado
onde dois jovens já haviam morrido.

Limpando o rosto com a mão, olhou para o relógio,


tentando se concentrar em algo diferente do terror profundo
que sentiu quando Corvina começou a balançar perto da
beirada, seus belos olhos vidrados, perdidos em um lugar onde
ele não podia ir, o corpo dela se apertando em seus braços.
Levou-a para a sala médica, onde o médico residente lhe deu
um sedativo seguro enquanto Ajax chamava o helicóptero da
Divisão de Emergência, permitindo que Vad trouxesse Corvina
para o Instituto, onde ela obteria a ajuda de que precisava. Ele
não mentiu quando lhe disse que moveria montanhas para se
certificar de que ela estivesse bem. Mas Deus, odiava dever ao
filho da puta.

— Sr. Deverell. — O homenzinho, que agora identificou


como o famoso Dr. Detta, veio em sua direção. Vad se levantou
imediatamente, com o peito apertado. Precisava que ela ficasse
bem. Realmente precisava que ficasse bem.

— Vamos conversar em meu consultório. — O outro


homem indicou uma porta ao lado, e Vad o seguiu em silêncio,
sentando-se enquanto o médico colocava alguns exames
cerebrais em um quadro branco com uma luz de fundo antes
de sentar-se.

— Eu preciso entender seu relacionamento com ela antes


de poder falar com você, Sr. Deverell. — O médico disse, seu
tom severo.

Vad não gostou do tom. — Um dia me casarei com ela. —


Falou. Colocaria um anel em seu dedo semanas atrás, porra,
se não soubesse que ela entraria em pânico. Corvina precisava
de espaço para crescer e encontrar seu próprio alicerce dentro
da relação e dentro de sua mente, ou ela se arrependeria.

— Isso é bom. — Dr. Detta relaxou ligeiramente. —


Corvina é um caso único, Sr. Deverell. Sua educação, por si
só, a torna um dos casos mais distintos que eu já vi em meus
quarenta anos de carreira.

— O que você quer dizer? — Vad estava feliz por


finalmente ter essa conversa com o médico, embora não as
circunstâncias em torno dela. Ler seu arquivo era uma coisa,
ouvir a análise do médico era algo de que precisava se eles
tivessem alguma chance de um futuro.
— Se você tivesse me perguntado há alguns anos se uma
esquizofrênica paranoica poderia criar um filho sozinha sem
prejudicar a psique da criança, eu teria dito não. — O médico
começou. — Mas Celeste Clemm não apenas criou Corvina
sozinha, ela era racional o suficiente para viver, educá-la em
casa, ensiná-la tudo o que precisava para ser autossuficiente,
enquanto lidava com sua própria condição não diagnosticada.
É uma das coisas mais extraordinárias que eu já ouvi. Mas
então, o instinto materno sempre foi algo subestimado. É um
caso muito complexo.

Vad assentiu, desejando que o médico continuasse,


desejando que fosse direto ao ponto e dissesse que ela estava
bem.

— Corvina está perfeitamente bem, por enquanto. —


Disse Dr. Detta, enviando o ar de volta aos pulmões de Vad. A
tensão em torno de seu peito afrouxou ligeiramente, sua
mandíbula se abriu.

— Ela está bem. — Ele respirou aliviado.

— Sim, mas pode não estar no futuro. — Disse o médico


a ele. — Com ambos os pais esquizofrênicos, ela tem uma
chance muito maior de seguir nisso. Minha preocupação é
principalmente entender como essa droga desconhecida a
afetou, se as alucinações auditivas no telhado foram induzidas
por ela e se poderiam desencadear sua psicose. Existem
muitas variáveis em torno dela, por enquanto.

Porra.
— Nós a colocamos em coma induzido. — Dr. Detta
continuou quando Vad ficou quieto. — Estamos liberando as
drogas de seu sistema agora. Quando se levantar, gostaria de
monitorá-la por um mês, apenas por cautela.

Um mês.

Olhou o médico nos olhos. — Ficarei com ela.

O homem mais velho sorriu. — Geralmente, não há


provisão para isso, mas acredito que sua presença seria uma
coisa positiva para a mente dela. Suas varreduras cerebrais
estão completamente boas e, fisiologicamente, ela é saudável.

— Então por que ouviu várias vozes em Verenmore? —


Vad inclinou a cabeça, precisando entender o que estava
acontecendo com Corvina. — E o incidente do espelho?

O Dr. Detta olhou para ele por trás dos óculos. — Não sei
o que dizer, Sr. Deverell. A mente humana é extremamente
complexa. Ela poderia simplesmente ter captado pistas
subconscientes que se manifestaram quando acionadas por
algo. Sua amiga poderia estar aplicando pequenas doses da
droga sem seu conhecimento. Ou talvez ela realmente ouviu
fantasmas. Quem sabe? Nós não temos respostas concretas, e
provavelmente nunca teremos. Eu consideraria seu sucesso, e
deixaria o passado em paz, por enquanto.

— Mas ela não pode voltar lá agora, pode?


Ele balançou sua cabeça. — Não agora. Sua mente
precisa se curar de quaisquer traumas que sofreu e ficar mais
forte primeiro.

Vad olhou para as imagens do cérebro no quadro,


olhando para a cabeça dela sem entender. — E quanto a Mo?

O médico acenou com a mão. — Eu acho que seu cérebro


o inventou quando criança para substituir um pai que estava
morto e outro que não estava mentalmente. Pelas contas dela,
Mo provavelmente ficará com ela pelo resto da vida, e não
acredito que isso seja prejudicial. E mais uma coisa, Sr.
Deverell.

Vad voltou-se para o médico novamente, dando-lhe


atenção.

— Se deseja ter um futuro saudável com Corvina, precisa


manter os olhos abertos para quaisquer sinais de abstinência
ou comportamento incomum dela. — Dr. Detta falou algo que
já disse a si mesmo. — Qualquer coisa estranha, a traga aqui
para que possamos colocá-la em tratamento mais o cedo
possível.

Vad se levantou e apertou a mão do médico. — Obrigado.

Dr. Detta sorriu. — Ela é uma garota muito especial, Sr.


Deverell. Você é um homem de sorte.

Ele sabia disso.


Vad saiu da sala e foi até o final do corredor, olhando para
o sol e a paisagem urbana.

Verenmore foi sua casa por tantos anos, seu sonho, sua
ambição e sua paixão por tanto tempo. Ele tinha que fazer uma
escolha entre retornar ao lugar que amava e perder a garota
que soprou magia em sua vida ou ficar com ela e perder o lugar
que o moveu por tanto tempo.

Ficou parado por um longo tempo, contemplando,


tentando imaginar seu futuro sem os dois.

Preferia sentir falta de Verenmore do que dela.

E foda-se se não sentiria falta de Verenmore.

Pegando seu telefone, que mantinha, mas não usava no


castelo, ligou para seu contador para acertar suas finanças e,
em seguida, ligou para o Conselho, avisando que não voltaria,
ordenando-lhes que queimassem aquela porra de árvore.

Então andou para a sala onde o amor de sua vida dormia,


observando-a lutar em sua cabeça batalhas que não podia
lutar por ela. Algumas, seu little crow suave teria que lutar por
si mesma enquanto ele apenas se sentasse ao seu lado,
deixando-a saber que nunca estaria sozinha novamente.
Como terminou...

Vad

Eles a mantiveram por seis meses.

Mas não a deixaram ver sua mãe no mesmo Instituto,


apenas para o caso de ter um efeito adverso em sua
recuperação.

Não até agora.

Vad sentou-se ao lado dela na sala esterilizada, em


silêncio, enquanto ela olhava para a mãe com esperança nos
olhos.

Celeste Clemm o olhou fixamente.

Vad se lembrava de tê-la conhecido anos atrás, em sua


busca por olhos roxos que nem sabia que poderiam existir. Ela
ficou atordoada então, perdida em sua mente, mas falou com
ele sobre sua filha, momentos fugazes em que o amor brilhou
tanto em seus olhos que fez algo frio dentro de Vad aquecer.
Ela estava pior agora.

— Mamãe. — Corvina deu um sorriso trêmulo, segurando


a mão dela sobre a mesa da sala de reuniões. — Você se lembra
de Vad, certo? Ele veio vê-la há um tempo.

Sua mãe não respondeu, sua esquizofrenia e demência


recente mantendo-a perdida dentro de sua própria cabeça. Vad
sabia que esse era um dos maiores medos de Corvina, que
acabasse como sua mãe e um dia não o reconhecesse mais.

Vad era realista o suficiente para admitir que isso poderia


acontecer. Também sabia que se ela apresentasse sintomas
suficientes para preocupar os médicos, ele moveria montanhas
para obter a ajuda e o apoio de que precisava, algo que sua
mãe nunca teve. E se algum dia realmente o esquecesse, ele
permaneceria como sua montanha e a manteria florescendo
com tudo o que sentia por ela. Corvina era dele, por agora e
por toda a vida e, se houvesse uma vida após a morte, então
talvez naquela também.

Por agora, pelo menos, seu médico não estava


preocupado. Ela ainda, ocasionalmente, ouvia Mo, mas era
raro. Seu tempo em Verenmore acionou seu subconsciente por
algum motivo. Ou talvez não fosse seu subconsciente. Talvez
ela fosse um pouco sobrenatural como a velha Zelda era. Ele
não sabia e, francamente, não se importava. Para um menino
que nunca teve nada sendo seu, Verenmore foi seu tudo por
décadas. O fato de ter deixado isso para trás por ela, disse a
ele mais sobre seus sentimentos do que qualquer outra coisa
poderia. Corvina era mais importante.

— Mamãe. — Corvina se levantou, caminhando para o


lado da mãe, agachando-se, duas gerações de belas mulheres
de cabelos negros e olhos violeta se olhando. — Vad e eu
estamos juntos agora. Viemos ver você no meu aniversário.

Sua mãe olhou para ele, algo talvez penetrante em sua


mente.

Vad a deixou olhar. O respeito que tinha por Celeste


Clemm era extraordinário. Como lutou com sua família para
dar à luz uma filha, perdeu seu amor da maneira mais terrível
e ainda criou a filha tão cheia de amor, coração e bondade
enquanto lutava com sua própria mente era uma façanha que
apenas a mais amorosa e corajosa mulher poderia ter
realizado. E Celeste pode ter cedido às vozes em sua cabeça,
mas seu amor pela filha ainda prendia seu coração em algum
lugar.

— Aniversário. — Celeste murmurou, e o sorriso que


dividiu o rosto de Corvina valeu toda a estadia na porra do
Instituto.

— Sim, mamãe. — Corvina agarrou suas mãos, seus


olhos violetas cheios de amor. — É meu aniversário.

Celeste continuou olhando para ele. — Garoto.


Encontrado.
— Sim, Celeste. — Vad finalmente falou, dirigindo-se à
mãe. — Eu sou o mesmo garoto que te perguntou sobre
Corvina anos atrás.

— Garoto. Seguro.

Vad se inclinou para frente, suas palavras uma promessa


que esperava que a alcançasse e lhe desse um pouco de paz.
— Sim, eu a manterei segura. Agora você pode descansar
tranquilamente.

A mãe olhou para Corvina, pegando uma mecha de seu


cabelo.

— Raven11.

Corvina começou a soluçar, e a emoção sufocou a


garganta de Vad, a riqueza da conexão e do amor entre as duas
era tão palpável na sala que ele podia sentir pulsando contra
sua pele. Apesar de tudo, Celeste Clemm amava a filha mais
do que jamais vira alguém amar seus filhos.

— Amo você, mamãe. — Disse Corvina, engasgada,


jogando os braços em volta do pescoço da mãe. — Eu te amo
muito.

Celeste timidamente envolveu os braços em volta da filha,


seus olhos violetas voltando-se para Vad. — Raven. — Disse
novamente, antes de seus olhos ficarem atordoados e ela
paralisar.

11 Corvo.
Corvina finalmente a soltou, enxugando as bochechas, e
deu a volta para ele. — Estamos saindo agora, mamãe. Eu irei
te ver em breve.

Celeste permaneceu sem ver.

Vad pegou Corvina nos braços e a conduziu para o


corredor, com o tempo tempestuoso lá fora.

— Acha que devemos esperar a tempestade passar antes


de partirmos? — Ela perguntou, seus olhos ligeiramente
vermelhos e inchados.

Vad a puxou para mais perto. — Algumas horas.

Ela assentiu com a cabeça, seus lábios tremendo, seus


olhos violetas brilhantes se aproximando dele. — Eu não quero
te esquecer. — Sussurrou, agarrando sua jaqueta. — Eu não
quero te deixar sozinho, não assim.

O amor por esta mulher, está pequena e frágil mulher,


que o tocou com os olhos e soprou magia em seu mundo
cresceu dentro dele, transbordando, extrapolando. Ele deu um
beijo em sua boca trêmula, depois beijou seu lindo piercing no
nariz, que era uma de suas coisas favoritas, uma peça de prata
nela.

— Bruxinha. — Beijou-a suavemente. — Você vai me


deixar quando as raízes das rosas em seu túmulo...
— Deixarem as raízes das rosas no seu. — Ela completou,
tendo ouvido isso várias vezes ao longo dos meses, respirando
fundo.

— Quem sou eu? — Cutucou, sabendo que isso sempre


acalmava sua mente quando ela ficava com medo.

— Meu Diabo. — Ela murmurou.

— E?

— Minha loucura.

— E?

— Minha montanha.

— Boa menina. — Deu-lhe o elogio que sabia que ela


amava, e viu suas bochechas corarem.

Ela ficou na ponta dos pés, beijando-o suavemente com


seu batom de ameixa, fazendo com que ele se divertisse. Vad
nunca entendeu seu fascínio em combinar seus lábios com
suas roupas todos os dias, mas adorava saboreá-lo, cada um
uma surpresa.

— O que vamos fazer agora? — Perguntou, seus olhos


violeta hipnóticos. Ela tinha feitiçaria naqueles olhos, e ele
estava enfeitiçado, apaixonado, perdido.

— Viver. — Vad respondeu a Corvina, levando-a para um


mundo que não era nada como aquele pelo qual eles se
apaixonaram.
... ou terminou?

Corvina

— Olhos em mim. — Vad ordenou e Corvina gemeu,


virando a cabeça para pegar seu olhar prateado enquanto
empurrava dentro dela por trás, suas costas pressionadas
contra ela na cama, balançando-se nela, lentamente, no início
da manhã, antes que ele precisasse levar Count, seu husky de
dois anos, para fora.

Eles estavam em sua casa de inverno nas montanhas


nevadas, uma grande mansão em uma propriedade que
pertencia à linhagem da família Deverell, não muito longe do
lugar pelo qual se apaixonaram, embora nunca tivessem ido lá
novamente.

Passaram-se cinco anos desde aquela noite fatídica, cinco


anos desde aquele Baile Negro. Teve outro Baile Negro na
semana anterior e ela soube que, pela primeira vez em um
século, que ninguém desapareceu. Talvez alguém o faça na
próxima vez. Talvez não. Ela não sabia.
Vad a tirou de lá e nunca olhou para trás, nunca a fez
sentir que ele perdia uma grande parte de si mesmo. Aquele
castelo era dele, aquela montanha era dele, e embora ainda
fosse ativo no Conselho da Universidade e se mantivesse
atualizado sobre o que acontecia lá, nunca tocou no assunto
de voltar para lá. Foi a coisa mais altruísta que alguém poderia
ter feito por ela, sacrificar algo tão precioso por tanto tempo.

Corvina abaixou os olhos para a mão no travesseiro, para


os anéis que agora enfeitavam seu dedo, aquela linda ametista
que ele lhe dera anos antes nas ruínas, sob uma simples faixa
de platina com “nunca mais” gravado no interior.

— Feliz aniversário, Sra. Clemm-Deverell. — Vad


murmurou para ela enquanto se apertava ao redor dele, seu
corpo seu instrumento, assim como foi todos esses anos.

— Amo quando você diz isso. — Ela sorriu, sentindo os


lábios dele em seu ombro.

— Sim?

Ela acenou com a cabeça.

— Tenho um presente para você. — Disse a ela,


empurrando dentro dela lenta e profundamente, seus corpos
lânguidos e sem pressa.

— Se é o presente dentro de mim, estou muito satisfeita.


— Sorriu descaradamente, ouvindo sua risada suave contra
seu ouvido.
— Tem a ver com isso. — Informou, virando-a de costas e
ficando por cima enquanto ela o envolvia com seus membros.
— Reverti a vasectomia.

Corvina sentiu seus olhos se arregalarem enquanto seu


corpo congelava.

Eles falaram sobre ter crianças algum dia, ambos com


medo dos tipos de genes que passariam, se valeria a pena.
Levou muito, muito tempo para eles e, adotando Count,
perceberam que queriam uma família, uma grande família,
algo que os dois nunca tiveram.

Corvina o puxou para mais perto, beijando-o suavemente.


— Obrigada.

O bebê de pelo deles latiu do lado de fora de sua porta,


implorando para que seu pai o levasse para sair.

Corvina riu. — É melhor terminar isso rápido ou ele


encontrará seu sapato como da última vez.

Isso o fez se mexer, sua risada morrendo enquanto as


sensações assumiam, seu marido de três anos dando-lhe
prazer, assim como o fez em uma noite chuvosa em uma
montanha escura.
Count estava cochilando, como cachorro preguiçoso que
era. Quando o adotaram, Corvina não fazia ideia de que sua
atividade favorita seria encontrar o pai mais próximo e
adormecer. Como era de se esperar, quando Corvina entrou em
seu escritório mais tarde naquela tarde, seu coração aqueceu
ao ver seu homem de óculos lendo um de seus trabalhos de
estudante para avaliar e seu cão deitado de barriga para baixo
aos pés do Vad.

A vida que vivia era uma que nunca pensaria ser possível
para si mesma. Era o seu sonho, um homem que a amasse,
um cachorro que a adorasse, uma paixão que ocupava seu
tempo e a possibilidade de ter filhos um dia. Corvina vivia seu
sonho e alguns dias, para a diversão de Vad, chorava até
dormir por causa de como era lindo e de como ficou com medo
de que eles o perdessem. Ele permaneceu sua montanha
durante aqueles momentos.

Após o incidente da torre, Corvina decidiu largar o


diploma e passar o tempo no Instituto recuperando-se, lendo
e estudando o que gostava, sem nenhum currículo acadêmico.
Depois de se mudar, abriu uma pequena empresa que
fabricava velas, joias exclusivas e fazia leituras de tarô online.
Vad foi extremamente favorável a isso, dizendo a ela para fazer
o que lhe trouxesse paz e prazer, já que ele ingressou como
professor associado na universidade local, sua paixão sempre
em ensinar.

Corvina foi feliz com tudo isso, nunca aspirando por mais,
até dois anos atrás. Tinha nevado naquele inverno e, pela
primeira vez em muito tempo, ela abriu os diários que
escrevera em Verenmore e leu todos, algo como o desejo de
encontrar seu coração.

Ela se via na cama enquanto ele dormia, pegando seu


laptop e abrindo um documento em branco, despejando-se nas
páginas, todas as suas emoções e todas as perguntas para as
quais nunca obtiveram resposta saíram voando de seus dedos.
Nunca descobriu o que aconteceu com Roy naquela noite,
nunca descobriu quem era o garoto da biblioteca, nunca
descobriu o que realmente aconteceu no Baile Negro. Tantas
coisas sem resposta.

Ela despejou tudo em um livro de cem mil palavras.

Corvina pegou a capa dura do livro na escrivaninha de


seu escritório, que Vad sempre guardava por causa do orgulho
que sentia dela, e abaixou os olhos para a capa.

Gothikana por C.V. Deverell

Uma história de romance gótico fictício, baseado em seu


tempo na universidade entre um professor carismático e sua
aluna assombrada, e um mistério que caminhava pelo castelo
em que foi ambientado.

— O cara do Tenebrae Times me ligou de novo hoje,


pedindo uma entrevista com você. — Disse Vad ironicamente,
lançando lhe um olhar que a deixou toda excitada e
incomodada. Ele só se tornou mais carismático nos últimos
cinco anos, seu cabelo coberto com um cinza, sua testa
enrugada com mais duas linhas, sua energia vibrando com
mais gravidade do que ela achou absolutamente emocionante.

Corvina largou o livro e foi até ele, caindo de lado em seu


colo, coçando a cabeça de Count enquanto ele a erguia por
amor.

— É por isso que dou a todos o seu contato. — Corvina


brincou, acenando com o envelope em sua mão para ele. —
Você tem um jeito de dizer não às pessoas.

Ele deu a ela um leve sorriso. — O que é isso? — Acenou


com a cabeça para o envelope.

— Este, querido marido. — Deixou cair na palma da mão


dele. — É o meu presente para você.

Vad tirou os óculos, dando a ela aqueles olhos prateados


nus que faziam tudo em seu corpo apertar com apenas um
olhar, e o abriu.

Levou um momento para ver o que era. Sua mandíbula


se apertou.

— Explique. — Ele ordenou e ela respirou fundo, a


excitação e o nervosismo fazendo-a se contorcer. Ele a acalmou
com uma grande palma nas suas costas.
— Falei com o Dr. Detta ontem. — Disse ela, enquanto ele
tirava os papéis.

— Corvina. — Suspirou, olhando para ela, e ela podia ver


o desejo em seus olhos, mesmo quando ele tentou resistir.

— Amo você, Sr. Deverell. E eu te amo por sacrificar o que


você fez por mim. — Sussurrou contra seus lábios. — Mas já
faz muito tempo. Eu estou bem. Você está bem. Temos estado
bem.

— Mas...

Ela pressionou um dedo nos lábios dele. — Esse é o


legado dos filhos que teremos. Quero criá-los lá e mostrar-lhes
a beleza disso.

— Também há escuridão, Corvina.

— É hora de irmos para casa, Vad. — Esfregou o polegar


sobre a mandíbula dele. — Por mais escuro que possa ser, é
onde nós dois nos encontramos. Podemos torná-lo melhor.

Vad deu a Corvina um olhar feroz, seu braço apertando


ao redor dela, os papeis caindo em seu colo enquanto a beijava
com força. Corvina sorriu contra sua boca.

O castelo na montanha os esperava.

Amanhã, eles voltariam para Verenmore mais uma vez.

Fim, por enquanto .

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