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MENTORIA ESPIRITUAL – James Houston

Abordagem
James Houston passei ao longo da história da humanidade
pelos campos da Antropologia, psicologia, ciência em geral,
sociologia e religião. Tenta ver como o homem ao longo do
tempo procurou responder às perguntas Quem sou eu? Qual
a importância do outro? Como, por que e para que me
relaciono?
Nos moldes gregos, o homem se via como uma figura
heróica, auto-glorificada. Daí queria conhecer-se a si mesmo
– era individualista. Nos moldes estóicos, a razão suplanta e
resolve tudo, anulando quase completamente os sentimentos
humanos – o homem pode mudar com disciplina pessoal.
No mundo contemporâneo, contudo, o individualismo se
acirrou com a abordagem psicológica, onde o homem paga
por serviços de auto-conhecimento e auto-avaliação. Alguém
o escuta, e o homem se torna mais individualista que em
qualquer momento da história.
James Houston analisa conclusivamente a re-definição do
homem: a partir de Deus, criado e talhado para a vida de
relacionamentos. Avança demonstrando que só o discipulado
cristão pode transformar um indivíduo em pessoa, onde suas
perguntas são respondidas em Deus, através da vida de
Cristo. Ninguém conseguirá explicar-se e viver plenamente a
menos que viva a vida conforme propõe o discipulado
cristão.

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Durante toda a história do pensamento ocidental, a


equiparação da pessoa com o indivíduo pensante e
consciente de si mesmo levou a uma cultura em que o
indivíduo pensante se tornou o conceito mais elevado na
Antropologia... Apenas o amor, o amor livre, não cerceado
por necessidades naturais, pode fazer surgir uma pessoa.
John D. Zizoulas

Em seu ensaio “Sobre a Amizade”, um Montaigne cético declara: “O amigo,


não há amigo!” Ele atribui esse pensamento a Aristóteles, embora também se
detenha bastante sobre as reflexões de Cícero a respeito da amizade. Jacques
Derrida, o moderno “pai da desconstrução”, faz dessa afirmação o tema de
seu recente trabalho intitulado, na tradução para o inglês, Politics of
Friendship (Política da Amizade, 1997). Segundo Cícero, a amizade só pode
existir entre homens bons. Mas, pergunta Derrida, quem é suficientemente
bom para os ideais da amizade? A amizade com Deus pode nos ajudar,
argumenta Aristóteles, mas o problema é que Ele é muito distante e
inacessível. A presença ou a proximidade são o requisito para a amizade.
Além disso, Deus não precisa de um amigo. Então, por que deveria o homem
ser levado a crer que precisa de um amigo, ou que a amizade é uma
característica essencial do ser humano? Para Derrida, tudo não passa de uma
fórmula racional humana:

Penso, portanto sou o outro; penso, portanto preciso do outro


(para poder pensar); penso, portanto a possibilidade de
amizade faz parte do movimento de meu pensamento, na
medida em que ele requer, pede e deseja o outro, a
necessidade do outro, a causa do outro no coração do cogit.

Ele faz uma paródia de Descartes. Não consegue, no entanto, fugir


inteiramente ao seu viés, pois ignora a afirmação cristã de que o amor, e não
a razão, é transcendente. Por isso, a importância da declaração de Zizoulas.
Só o amor pode produzir um ser que é pessoa.
A “desconstrução” é uma estratégia para se “desfazer”. A mente pode
ser um espelho, mas será que ela reflete sobre a realidade ou apenas sobre si
mesma? O abuso da autoridade e o uso do poder para reivindicar o
conhecimento da verdade é algo que assusta os desconstrucionistas. Por isso,
questionam e desafiam não apenas os sacerdotes que alegam ter Deus ao seu
lado, mas também os filósofos que dizem conhecer a verdade. Levam a
Psicanálise um passo adiante, ao questionamento racional tanto da motivação
quanto das intenções do terapeuta e mesmo de todos os profissionais. Derrida
é um iconoclasta de ídolos que, no entanto, não é capaz de perceber a
diferença entre o ídolo e o ícone. O resultado é que o desconstrucionismo,
por carecer de uma dimensão pessoal, nos deixa com uma indeterminação
sobre verdade e realidade.
Mas, ainda assim, tem o mérito de aprofundar e ampliar O papel
atribuído à hermenêutica, ou seja a comunicação humana; ela passa a ser
mais do que a mera interpretação de textos. A linguagem é uma parte
importante da vida do ser humano, repleta de motivações mistas e de
necessidades no âmbito social. A comunicação envolve muito mais do que o
aspecto racional, embora este seja importante. Para além do racional, todos
os grandes pensadores cristãos viram o amor de Deus. Em contraposição,
nem mesmo os desconstrucionistas conseguem enxergar, além da razão,
qualquer coisa que não seja a anarquia. De fato, sem o amor de Deus, somos
incapazes de ir além das categorias dos anti-modelos de mentoria que
descrevemos.

A BUSCA DO LADO PESSOAL NO OCIDENTE


Kierkegaard já nos ajudou a perceber que, como seres humanos, cada um de
nós tem um relacionamento de si mesmo, consigo mesmo e dentro de si
mesmo. Tornamo-nos dois, um sujeito e um objeto, necessitados de auto-
reconhecimento, auto-afirmação e também auto-conhecimento. Contudo,
nessa forma de auto-realização, aprendo a ver a mim mesmo como
dependente do outro, de realidades externas que não posso controlar.

A Visão Estética ou Heróica da “Pessoa”


Essa visão, representada nos modelos estético e heróico, está presente
quando a criança aprende a se expressar e diz “olhem para mim”! Para os
gregos, a “pessoa” é a dramatis personae do palco. Um ator põe uma
máscara, que permite a passagem do som de sua voz (literalmente per
sonare), e desempenha seus vários papéis. Seu lugar na narrativa decorre das
escolhas que o colocam num papel dramático diante dos outros. A palavra
grega prosopon provavelmente tem sua origem na palavra etrusca persu, que
pode estar relacionada com Perséfone, a deusa do mundo dos mortos. Então
essa noção de “pessoa” tem, inevitavelmente, uma conotação um tanto
obscura! No ordenamento grego do cosmos, caracterizado pela harmonia de
elementos universais, não pode haver espaço para elementos particulares,
como, por exemplo, um ser humano único e especial. Ao reivindicar a
liberdade no âmbito dessa esfera de elementos universais abstratos e
necessidade racional, o ser humano gera muitas tragédias, pois tudo terá de
permanecer impessoal.
Ulisses certamente tem uma “personalidade” tão vigorosa quanto a de
qualquer herói grego! Ele luta com os deuses e estes, por vezes, chegam a
respeitar sua forte determinação. O mundo de Homero é habitado por
“personalidades”. Penélope chora a ausência de seu marido:
Como sinto falta de meu marido - sempre vivo em minhas
lembranças, Aquele grande homem cuja fama ecoa por toda
Hélade, até as profundezas de Argos!

Essa natureza auto-realizadora, individualista, está muito presente nos textos


gregos. É retratada com todas as cores tanto por trágicos como Eurípedes ou
Sófocles quanto por filósofos como Platão ou Aristóteles. Que personalidade
poderia ser maior do que Sócrates! Mas, em última análise, a individualidade
de um ser humano não pode ser encaixada na “dependência do outro”, na
universalidade do cosmos, naquela harmonia última do “todo” em um 8
Quando Sócrates ensina “conhece-te a ti mesmo”, ele está simplesmente
lembrando seus discípulos de que devem situar-se e inserir-se com
humildade no esquema geral das coisas. É loucura pensar ou fazer algo
diferente disso! De lá para cá, nenhum sistema intelectual foi capaz de
reconhecer a mim e a você, em toda a nossa singularidade, dentro do
esquema geral das coisas “lá fora”? É por isso que toda essa corrente de auto-
análise individualista, agora tão intensificado pela “revolução terapêutica”,
seria inconcebível no contexto do entendimento grego da personalidade.

A Visão Estóica da “Pessoa”


O segundo estágio do “ser pessoa” ocorre quando a auto-expressão se toma
mais racional e mais receptiva às formas externas de vida moral, como
ocorre com uma criança “na escola”. Os estóicos, como habitavam um
universo racional, criaram uma teoria para o conceito de “ser pessoa”.
Argumentavam que somos dotados de razão para sermos morais, e que
podemos determinar o que é virtuoso e consistente com o ordenamento moral
universal de nossa existência. Essa é a teoria de Cícero sobre “pessoas”:
prevê sanções legais para obrigar os cidadãos do mundo romano a
obedecerem as “leis universais da natureza”. Suas idéias baseiam-se no
pensamento de Panécio, um estóico que o antecedeu. A “personalidade”
individual só é definível e admissível dentro da estrutura universal do direito
romano.’0 Portanto, no início, até mulheres e crianças, além dos escravos,
eram definidos como “não-pessoas” ou não-cidadãos. O preceito romano
Servus non habet personain (o escravo não é uma pessoa) excluía de um só
golpe um quinto da população da Roma imperial, considerado incapaz de um
relacionamento social com seus patrões. A persona romana era a unidade
privilegiada que concentrava as responsabilidades e os deveres, legais e
religiosos, para com o estado e os deuses.
O mundo ocidental tem, nos últimos tempos, convivido com a
incômoda tensão entre essas duas definições de “pessoa Quando o paradigma
de “pessoa” são os atores que optam por desconsiderar sua natureza sensorial
dentro de uma sociedade cognitiva, convencional e moral, eles são
condenados como mundanos, pois a “mundanidade” consiste em ser capaz de
representar, com desembaraço e graça, uma diversidade de papéis, alguns
deles pelo menos não convencionais. Mas quando o paradigma de “pessoa”
tem sua origem na lei canônica, e não mais no teatro, o sentimento de
responsabilidade torna-se inerente aos direitos e poderes de uma ação moral
racional. A mente se transforma no “ser” melhor e mais claro, como o foi
durante o Iluminismo, quando o ser racional autônomo – res cognitans – ou
“ser cartesiano” desenvolveu uma separação entre mente e corpo, e o mundo
exterior das outras pessoas tornou-se de fato muito distante. Por isso,
Descartes define o “pessoal” como uma expressão da auto-consciência,
consciência esta que se torna mais aguçada quando “pensamos” mais!
Emanuel Kant (1724-1804 d.C.) leva essa idéia um passo adiante e afirma
que somos mais pessoais quando somos mais racionais e também mais
morais. Isso significa necessariamente uma pessoa voltada para dentro de si
mesma, um ser reflexivo cujas relações externas têm importância secundária
ou até mesmo periférica.

A Atual Politização da Pessoa


Estamos hoje num mundo em que os direitos legais dos fetos (será o feto
pessoa ou não-pessoa?), das feministas, dos homossexuais e de muitos outros
foram politizados por uma nova definição de pessoa. Filósofos, historiadores,
antropólogos e psicólogos, todos neste século, continuam oferecendo suas
percepções/confusões em relação ao “significado de pessoa”. Mas, de todas
as teorias sobre a identidade humana, a do caráter estóico é a mais
persistente, simplesmente porque permite uma associação mais estreita de
traços psicológicos e fisiológicos, dentro de uma explicação racional, na
linha do trabalho pioneiro de Freud. Oferece uma moldura “natural” de
hábitos racionais que dão contorno, forma e continuidade ao ser habituado”
que parece reforçar o cognitivo. Dá pouco espaço, contudo, para a
contingência das emoções, a não ser a sexual, num mundo mais
personalizado de auto-transcendência.

“O PROBLEMA SEM NOME”: O ELEMENTO PESSOAL NUM MUNDO DE ABSTRAÇÕES


Se as “pessoas” precisam de “pessoas” para se tornarem “pessoas”, como diz
um provérbio Xhosa, então os processos de abstração no mundo ocidental
constituem forças negativas que ameaçam despersonalizar a humanidade.
C.S. Lewis nos alertou profeticamente para essa possibilidade meio século
atrás, em suas palestras intituladas The Abolition of Man (A Abolição do
Homem). Do mesmo modo como o Abstracionismo nazista lidou com a
“questão judaica” no holocausto, seria despropositado imaginar que “a
questão da pessoa”, ao ser tratada “de forma científica”, pode estar sendo
ameaçada?

Sem Fundamentos para a “Pessoa”


Esse processo já vem sendo evidenciado na redefinição política da família.
Quando o ano de 1994 foi declarado Ano da Família, o Dr. Jonathan Sacks,
principal rabino da Grã-Bretanha, deu a esse ano o título alternativo de “o
Ano em que a Família Morreu” e marcou sua abertura com o enterro
simbólico de um caixão com a inscrição “Ano Internacional da Família”.
Se o homem secular perder de vista os fundamentos metafísicos da
“pessoa” e deixar de fazer a distinção entre Deus e tudo mais, se ele escolher
viver como se fosse de fato um deus, então ele perderá o entendimento
prático da verdadeira realidade de todas as coisas e também de sua própria
identidade. Anthony Giddens descreveu com clareza a fragilidade do ser
diante dos impactos da modernidade tardia. Testes de personalidade, tais
como o Myers Briggs, podem elucidar muita coisa, mas sua má utilização
pode gerar alienação. Se sou rotulado simplesmente como um EFSP ou um
INTJ dentre as categorias de “personalidade”, estou em situação pior do que
se estivesse sendo submetido ao tratamento dado por Homero! A adoção de
uma postura clínica em relação à minha própria identidade, com o propósito
de auto-gerenciamento psicológico, não representa um avanço em relação
aos estóicos, sobretudo se eu algum dia puder ter um mentor culto e sábio
comparável a Cícero ou Sêneca.
Quando Betty Friedan escreveu The Femínine Mys tique (A Mística
Feminina, 1965), livro campeão de vendas, ela revelou sua própria
inquietação em relação ao “problema que não tem nome”.16 Além de
desempenhar suas funções de esposa e mãe — conforme definidos pela
sociedade — no seu íntimo ela desejava saber “quem, e não apenas o quê,
quero ser.” Essa pergunta se parece com uma outra levantada por um
neurocimrgião amigo meu: “Será que fui enganado pela sociedade”? E eu
respondo: “Será que não foi você mesmo que se enganou e agora seus netos
estão lhe mostrando isso”? É claro que o profissionalismo e a especialização
técnica são formas de abstração que contribuem para a retração do “pessoal”.
Até um terapeuta empático como Garl Rogers, em seu livro de ensaios
intitulado On Becomíng a Person (Como Tornar-se uma Pessoa), ao
descrever “como me tornei a pessoa que sou”, só pode falar do processo
mediante o qual se transformou num “indivíduo” auto-gerado. O título de sua
obra está, portanto, equivocado, pois ele fala sobre “transformar-se num
indivíduo”! Na realidade, ele nos diz que rejeitou a fé cristã de seus pais para
ornar-se “ele mesmo”. Até sua aceitação de Kierkegaard é equivocada, pois
ele não é capaz de perceber a polêmica cristã de Kierkegaard. Rogers,
portanto, não tem base para distinguir entre “pessoa” e “indivíduo” De fato,
o “ser terapêutico”, segundo Christopher Lasch, acaba SC transformando
num “ser minimalista numa cultura de sobrevivência.
Jean-François Lyotard, em seus ensaios sugestivamente intitulados
Inhuman (Inumano), explora a desumanidade das instituições próprias da
modernidade, bem como as maneiras como a alma é feita refém de si mesma
por causa do desejo exagerado de autocontrole. Esses dois tipos de “in-
humanidade” — o que a sociedade faz comigo para provocar
descontentamento e o que eu faço comigo mesmo - origem do que
Kierkegaard chamou de “desespero” — são ambos, no fundo, manifestações
de individualismo. É nesse sentido que o sofrimento de uma criança torna-se
o arquétipo da condição humana na qualidade de “indivíduo”
Privado da capacidade de fala, incapaz de ficar de pé sozinho, hesitante
em relação à escolha dos objetos a serem observados, impossibilitado de
alimentar-se sozinho, sem condições de fazer cálculos para tirar proveito
próprio, um bebê será muito vulnerável, se não tiver a proteção social e o
apoio dos pais. Jesus usa essa imagem para mostrar nossa necessidade de
Deus. “A não ser que você se torne como uma criança”, não há como entrar
num relacionamento correto com Deus e com “seu reino’120

O INDIVÍDUO E A PESSOA
Lyotard chamou de “in-humano” aquele que é o traço marcante do
“indivíduo”, ou seja, o fechar-se em si mesmo. Mas ele nada diz sobre seu
oposto, a “pessoa”, cuja postura extática de olhar para fora e encontrar no
Outro tanto sua identidade como seu bem-estar assemelha-se à de uma
criança que olha para o rosto da mãe e vê o milagre do reconhecimento
mútuo. A transformação que então ocorre é marcada pela alegria. O
fundamento da pessoalidade reside, portanto, naquilo que Ricoeur chama de
atestação, isto é, a credibilidade e a confiança que o outro nos dá. É por isso
que nunca devemos nos esquecer das crianças, pois suas necessidades
apontam para aquilo que é essencial na distinção entre a “in-humanidade” e a
“pessoa” genuinamente humana.

O quadro a seguir poderá nos ajudar a fazer esta distinção entre o


“indivíduo”, contido na in-humanidade, e a “pessoa” tida como realidade
social da verdadeira humanidade 23

O INDIVÍDUO A PESSOA
Entendimento antropológico secular
Revelação teológica (imago dei)
Seres humanos criados à sua própria
Seres humanos criados à imagem de
imagem Deus
Identidade baseada em ações “Tomado justo” graças à justificação
humanas por Deus
Liberdade definida no âmbito do ser
Liberdade definida como
autônomo autotranscendência, isto é,
fundamentada “em Cristo”
Pecado é auto-enclausuramento, Discipulado é “abertura para Deus”,
iniquidade e desobediencia com base no seu chamado

O Reducionismo da Ciência
A Encyclopaedia of the Social Sciences (Enciclopédia das Ciências Sociais),
britânica, um marco da Antropologia científica, traz vários artigos sobre “o
indivíduo”, mas nenhum sobre “pessoa”. Quando os filósofos definem
“pessoa” como uma questão ética, estão fazendo a distinção entre um ser
humano e um feto ou outro conceito material. A questão da pessoa humana
permanece em aberto, como um tema problemático, cientificamente
inacessível e indefinível. O humano só pode ser um ponto de interrogação. É
somente a partir da analogia teológica feita entre pessoas, humanas e divinas,
que a Antropologia teológica faz algum sentido, ao nos definir como
pessoas-em-relação-a-Deus. A Ciência e a Filosofia dispõem apenas de seus
próprios critérios e só podem definir a humanidade dentro de seus
entendimentos restritos, inevitavelmente reducionistas e alientantes. Não tem
como explorar o mistério da humanidade.
O locus classicus da Antropologia teológica encontra-se em Gênesis
1.26: “E Deus disse, façamos o homem à nossa imagem e semelhança”.
Essas palavras nos mostram, em primeiro lugar, que Deus é o tipo de Deus
que se identifica irrevogavelmente com a humanidade, numa aliança de
amor. Sem Deus, a humanidade é um mistério. Por outro lado, sem a
humanidade, Deus não pode ser conhecido. Essa verdade deixa maravilhado
o autor do Salmo 8, que fica a imaginar por que, dentre todas as suas
criaturas, Deus escolheu justamente os seres humanos para um
relacionamento de parceria numa aliança.
Em segundo lugar, o termo “imagem” implica relacionalidade, como na
expressão “macho e fêmea os criou”, em co-igualdade e
complementariedade. A humanidade também recebeu um mandato de
mordomia sobre a Criação, para melhor definir sua posição dada por Deus,
sua responsabilidade e seu relacionamento com a Criação. Esse
relacionamento vertical diante de Deus, como representante de Deus na
Terra, continua mesmo após a queda, embora agora a gravidade do pecado
seja intensificada pelo fato de que o homem traz a imagem de Deus, numa
“dessemelhança” pecaminosa. A encarnação, que recapitula em Cristo o
homem-intencionado-por-Deus, permite que “a imagem e semelhança de
Deus” seja revelada em sua expressão final, eterna. Ser uma verdadeira
pessoa agora significa estar “conforme o ícone e a semelhança de Cristo”,
“que é o ícone do Deus invisível’l

O Faber Homo, ou a Justificação por Deus?


O “indivíduo” hoje, autônomo como um tecnocrata moderno, torna-se a
medida de todas as coisas, sem qualquer referência à responsabilidade de
mordomia que lhe foi atribuída por Deus. O indivíduo, na condição de faber
homo, o artífice humano, decide, sem qualquer referência ao Criador, o que
acontecerá com o mundo. O homem ou a mulher presume que seu próprio
ser é constituído de suas próprias ações. Eberhard Jungel afirma que durante
a Reforma essa postura foi claramente contestada por Lutero, que disse: “O
trabalho que faço não me transforma na pessoa que sou; pelo contrário, é a
pessoa que sou que determina o trabalho que faço”. Ele rejeita a
Nicomachean Ethics (Ética Nicomaqueana) de Aristóteles, que diz: “nós nos
tornamos justos em virtude dos atos justos que praticamos”. Não, tudo que
sou como pessoa “tornada justa” e “justificada gratuitamente pela sua graça”
resulta da ação de Deus. A pessoa cristã é, acima de tudo, alguém que recebe,
mas não “alcança” o mérito. De fato, como Fénelon nos lembra, eu me
recebo a mim mesmo graças à bondade de Deus.
A liberdade é o desejo fundamental daquilo que a modernidade considera ser
humano. Mas se a liberdade é para o indivíduo, o que dizer da tríade
“liberdade, igualdade e fraternidade”? É evidente que quanto mais houver
para mim, menos sobrará para você! Na vigência da “livre iniciativa”, os
outros se tornam ainda mais pobres! Desse modo, o que é liberdade para
mim pode significar opressão para você! Além disso, cabe perguntar: quero
ser efetivamente liberto de quê? Qual meu propósito - para ser ainda mais
indivíduo? Se o objetivo da liberdade é o de alcançar maior
autodeterminação, será que não vou um dia parar para pensar em quando e
como poderei precisar de libertação de meu próprio instinto autodestrutivo e
de minhas inclinações? A liberdade, assim autoconstituída, começa a se
parecer mais com uma perda e uma escravidão do próprio ser. Há um grande
número de ambigüidades e autocontradições embutidos no conceito de
“liberdade para o indivíduo”.
O Evangelho cristão nos chama ao arrependimento, ao reconhecimento
da pecaminosidade e da autodestrutividade da liberdade autoconstituída. A
liberdade pessoal reside na “vida justificada”, onde Deus age a nosso favor,
na humanidade de Cristo, de tal maneira que “se o Filho vos libertar, sereis
verdadeiramente livres”. Christoph Schoebel o resumiu sucintamente:
A verdadeira medida da liberdade é o amor como
relacionamento que faz do florescimento do outro uma
condição para a auto-realização. A liberdade humana torna-
se o ícone da liberdade divina, onde a liberdade da graça
divina constitui a graça da liberdade humana.

É a liberdade da escravidão do pecado, libertação da autofundamentação, a


libertação dos filhos de Deus

O DISCIPULADO CRISTÃO É REQUISITO PARA QUE SEJAMOS PESSOAS


O chamado para o discipulado, como deixam claro os Evangelhos, é uma
iniciativa de Cristo e não nossa. Mas exige de nós uma atitude intransigente
de “deixar tudo para trás e segui-Lo”. Esse é um passo fundamental no
processo de nos tornarmos pessoalmente “como Cristo”. Transforma a
autonomia, para que estejamos “abertos” para o outro. Implica em renúncia a
si mesmo. Lealdade a Cristo significa “auto-abandono”, conforme
enfatizaram escritores franceses cristãos do século dezessete, como Fénelon.
A conformidade com Cristo leva, portanto, à reconstrução de toda a nossa
maneira de “ser” e “fazer”. Então, segundo a definição tão sagaz de Alistair
McFadyen, o discipulado cristão é, tanto intrínseca quanto extrinsecamente,
“abertura” para Deus, a aceitação de uma perspectiva de vida completamente
nova; verdadeiramente uma nova criação. Significa também uma renovada
transparência de vida, que alimenta a pessoa e a faz crescer em
relacionamentos.

Deus é Nossa Meta


Como esse processo de “nos tornarmos pessoas” permanece sempre
incompleto, o que temos é uma orientação escatológica voltada para o futuro.
Deus se torna nossa meta ou telos: deixamos de ser nossa própria meta. Mas
a transformação continua incompleta. Nossa verdadeira humanidade ainda
está a caminho. Mas, deste momento em diante, a “pessoa” se vê orientada
para um destino futuro. “Não como se já o tivesse alcançado”, confessa o
apóstolo, “mas o almejo”. O eschaton de Deus inclui uma “novidade” que
ainda está por ser descortinada e revelada. E uma “novidade” por duas
razões: (1) não podemos dar ou alcançá-la por nós mesmos - só Deus pode; e
(2) é um “novo” que transforma o velho em “velho”, deixando-o para morrer.
“E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já
passaram; eis que se fizeram novas. Ora tudo provém de Deus”.
Em nossa incredulidade, precisamos constantemente ser relembrados
disso, pois Deus é um Deus que se revela: não é uma mônada estática e sim
um Iniciador contínuo do Amor. Essa linguagem transcende nossa própria
linguagem psicológica e nossa própria auto-análise. Pois essa “novidade” de
inspiração divina promove uma transformação redentora de nossos
relacionamentos, “além de tudo que podemos pedir ou pensar”. É por isso
que, como admite o apóstolo, ainda “não sabemos o que seremos”, apenas
que seremos “como ele”.
A “pessoa”, portanto, faz parte de uma categoria de ser aberta, auto-
abandonada, e ainda irrealizada. Tem, como já vimos, uma existência
icônica, pois se assemelha a uma janela que olha para o futuro da intenção
amorosa de Deus. É para isso que somos “chamados”. E é a esse chamado
que “respondemos”, assim como fizeram os discípulos, quando ouviram
Jesus dizer-lhes “sigam-me”. Ficamos um pouco desorientados quando
outras pessoas e outras coisas constantemente prendem nossa atenção, mas
esse é um risco inerente à nossa “abertura”. Para vivermos na luz do Eterno é
essencial que saibamos para onde vamos, isto é, conheçamos |o nosso
“chamado”.

Confusão na Igreja
Existe hoje muita confusão na vida da Igreja e no “Cristianismo” porque os
próprios cristãos não fazem a distinção entre essas duas categorias, o
“indivíduo” e a “pessoa”. O “discipulado” freqüentemente está mais
preocupado em transformar alguém num eficiente empresário religioso ou
até num mercador do “Evangelho”, e certamente num ativista. Essas são
categorias que a liderança das igrejas não questiona, pois este é o seu papel.
Não se examina o culto à “liderança” religiosa, para se detectar o quanto ela
pode estar sendo narcisista ao invés de magnânimo.

DISCIPULADO NO NOVO TESTAMENTO


Com o advento da pessoa de Jesus Cristo, o mundo ganhou uma nova
realidade humana. No Antigo Testamento, o fato de pertencer ao povo de
Deus significava que a pessoa estava ligada ao “Deus de Abraão, Isaque e
Jacó”, como corpo e como indivíduo. Agora uma fé individuada assume uma
nova dimensão, pois ela está “em Cristo”. Esse conceito está expresso na
palavra alemã individualitat, que pressupõe que a realização pessoal só é
possível em relação ao corpo social como um todo. É muito encontrado nos
salmos, onde o “eu” do salmista pode representar tanto sua própria pessoa
quanto a personalidade corporativa de Israel. A frase muitas vezes repetida
por Paulo, de que estamos “em Cristo”, implica todo um novo entendimento
do que seja discipulado.
Um dos temas mais presentes na educação clássica era a busca de se tornar
“como Deus”, pois se pressupunha que a busca do conhecimento era o tipo
de atividade na qual os deuses estavam engajados. A promessa era a de que o
conhecimento traria liberdade, felicidade, auto-suficiência e autocontrole.
Em contrapartida, os autores do Novo Testamento nos exortam a nos
tornarmos “como Cristo” ou a estarmos “em Cristo, para sermos santos e
buscarmos a santidade.

O Discipulado de Cristo
Podemos identificar cinco diferenças entre o discipulado de Cristo e o
discipulado nas escolas clássicas ou rabínicas. Em primeiro lugar, não são os
discípulos de Cristo que O escolhem; é d’Ele a iniciativa de escolhê-los. Em
segundo lugar, o chamado de Jesus se aplica a todos, pois todos são
pecadores, e ele não reconhece a categoria daqueles que se apresentam
cerimonialmente limpos. Em terceiro lugar, o discipulado passa a ser agora
uma reorientação radical da própria existência; significa abrir mão de tudo
para “seguir a Jesus”. Em quarto lugar, significa compartilhar do ministério
de Jesus, isto é, curar os enfermos, dar aos pobres e viver na luz do reino de
Deus. Por fim, é, acima de tudo, uma manifestação do amor de Cristo, que
sofre por nós e nos ama.
Dado o radicalismo e a abrangência do discipulado cristão, nos
Evangelhos, ele só poderia ser descrito pelas diversas testemunhas como
multifacetado. O Evangelho de Marcos nos traz uma apresentação negativa,
para nos alertar para o fato de que se o discipulado não levar em
consideração a paixão de Cristo, ele será totalmente mal compreendido.36
Em Mateus, o “fazer discípulos” sugere um relacionamento pessoal com
Cristo, o que vai muito além de simplesmente ser “ensinado’137 Já Lucas
ressalta o dia a dia do discipulado, uma vida de atenção aos pobres, enfermos
e aflitos. Mas o discipulado também implica o mistério de “carregar nossa
cruz”. “Seguir a Jesus” significa igualmente estar com ele em todo o mundo,
levando o Evangelho conforme foi registrado nos Atos dos Apóstolos. A
expansão dos horizontes é atribuída à presença e ao poder do Espírito
Santo.38 No Evangelho de João, há muitos candidatos a discípulos, mas a
intimidade do “discípulo amado” representa o arquétipo do verdadeiro
discipulado.
A proeminência do tema do discipulado nos quatro Evangelhos e em
Atos que repetem a palavra “discípulo” mais de 250 vezes parece estar
ausente no restante do Novo Testamento. Na realidade, contudo, o
discipulado apenas começou! Pois a mensagem é a de que, sem o batismo —
que é a expressão da morte do crente na morte de Cristo e seu ressurgimento
com o Cristo ressuscitado —, a vida de Cristo não pode ser compartilhada
sem que seu Espírito habite naquele que crê. Quando morreu na cruz, Jesus
entregou Seu Espírito a Deus; agora seus seguidores recebem seu Espírito em
Pentecostes, a morte batismal deles. As epístolas que se seguem ensinam a
Igreja primitiva a expressar, de diversas maneiras, o mesmo processo pelo
qual nos tornamos discípulos, o de morrermos e ressuscitarmos em Cristo.

Um Chamado Diferente para Cristo


Quando escreve aos coríntios, Paulo lhes pede que sejam “meus imitadores
como eu sou de Cristo”. Os filipenses também são chamados a serem
“imitadores de Cristo”. Tornar-se santo por meio de Cristo é a mensagem
dada aos romanos, caminhar com Deus é o tema da carta aos tessalonicenses,
e os colossenses são assegurados de que “Cristo em vós é a esperança da
glória”. Como já vimos, Kierkegaard ficou impressionado com a natureza
fortemente ética do discipulado descrito na epístola de Tiago. Já Pedro
encoraja os crentes a aceitarem o exílio e a jornada de fé que é sua
conseqüência. A perseverança é o tema da carta aos Hebreus, enquanto que o
Apocalipse une o tema do “Caminho do Senhor”, presente em todo o Antigo
Testamento (ou Halakah), com o “caminhar no caminho do Cordeiro”.40
Todos esses livros, em seu conjunto, expressam uma nova humanidade que,
em vez de se encenar e se fundamentar em si mesma, vive “em Cristo”.
O chamamento para viver a vida do Cristo ressurreto sempre assumiu
formas diversas. Mas, na história da Igreja, surgiu uma interpretação curiosa,
segundo a qual o chamado deveria ser principalmente uma convocação para
a vida monástica. A vida de Antônio (c. 251 -356 d.C.) serviu de protótipo
dessa visão: ainda jovem, ele respondeu ao chamado feito ao jovem rico, a
saber: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás
um tesouro no céu; depois vem, e segue-me”. Passou-se a presumir que a
vida dos “religiosos”, ou daqueles que fizeram votos religiosos, era a “forma
mais perfeita” de Cristianismo. Há, porém, muitas incertezas quanto ao
futuro da vida religiosa, inclusive se seus pressupostos textuais são bíblicos,
se suas tradições conseguirão fazer face às futuras transformações na
sociedade, e se poderá ser considerado válido esse dualismo entre expressões
mais ou menos perfeitas de Cristianismo. Por outro lado, a Igreja teria ficado
muito empobrecida se não fosse a profundidade e a estabilidade da devoção
trazida ao mundo pela vida monástica cristã.

ESTÁGIOS NO CRESCIMENTO PESSOAL DO CRISTÃO

Entretanto, não é por ser diferente que um cristão é cristão, e sim por
estar mais plenamente vivo, ser mais verdadeiramente humano, por causa do
amor de Cristo e a presença do Seu Espírito. Pois, da mesma forma como o
poder do amor divino se move diferentemente do poder da mente, é só
quando vivemos na presença de Cristo que podemos crescer e nos tomarmos
pessoas verdadeiramente. A “perfeição” cristã não corresponde ao ideal
grego de algo que não tem falhas; antes, é uma expressão de crescimento e
maturidade. A santidade nada mais é que o crescimento na graça batismal, e a
sequela Christi, ou seguir a Cristo, é para todos.

Porque Ele Amou Primeiro


É a partir do testemunho divino experimentado na conversão que
passamos a conhecer pessoalmente a realidade de que “Ele me amou e se deu
por mim”! Depois, em oração e outras manifestações de devoção, cultivamos
a presença de Cristo. Já vimos como é vital receber um reconhecimento
especial e único, para que possamos evitar o narcisismo; é esse
reconhecimento que nos é dado por Cristo, como foi dado àquela mulher que
o tocou no meio da multidão, ou a Zaqueu que se escondia na árvore, que
traz de fato transformação!
O crescimento continuará, acompanhando nossa maior
autocompreensào. A humildade é o ambiente propício para a inteligência
emocional; ao conhecermos a nós mesmos, poderemos ler também o coração
dos outros. Estaremos mais preparados para viver dentro de nossos próprios
limites e para nos aceitarmos a nós mesmos. Diremos como o apóstolo:
“pela graça de Deus sou o que sou”. Uma vez mais, é o amigo mentor que
pode me ajudar a desmascarar certos traços de auto-ilusão e a sondar meu
interior mais profundamente do que eu talvez estivesse disposto a fazer
voluntariamente.

Escutar Bem
Como todo bom mentor sabe, escutar é algo muito importante. Se a
linguagem é uma manifestação tão central de nossa humanidade, então
escutar constitui um corolário seu. E, no entanto, é difícil encontrar alguém
que saiba escutar, pois esse é um papel que exige humildade e entrega, algo
muito difícil para a maioria das pessoas. A capacidade de escutar requer dons
relacionais, pois é preciso saber distinguir entre diferentes níveis de
comunicação: queixas centradas em fatos, evidências de projeção,
transferência, obsessões, autopiedade e muito mais. Escutar implica dar ao
outro um contexto em que possa ser compreendido. Significa entrar no
mundo “do outro”, o que pode exigir muita paciência, empatia, congruência
e até mesmo coragem, além de autenticidade e sabedoria.
O propósito de se escutar é mais do que o de simplesmente promover a
cura; implica também desfrutar de um certo grau de auto-transcendência. O
exercício da bondade, quando damos espaço para que o outro possa ser” e
procuramos libertar seu coração, é sinal de que estamos avançando no
caminho da caridade, onde o amor é irradiado altruisticamente.
A conformidade com Cristo significa, portanto, a transformação
redentora de indivíduos em pessoas; implica disposição deI mudar. O
processo começa como uma resposta genuína à verdade da palavra de Deus,
em contrição e docilidade. Há um aprofundamento do auto-conhecimento -
não a esterilidade de um auto-exame clínico - como fruto de um confronto
com um Deus amoroso. Como resposta à verdade que está em Cristo Jesus, a
verdadeira consciência começa a nos transformar, mas não nos anti-modelos
que já examinamos. Surge uma simplicidade real, marcada por um sentido de
unidade interior, de devoção exclusiva a Deus, onde apenas Ele tem primazia
nos nossos pensamentos e aspirações. A humildade toma conta de nossa vida,
uma humildade que se delicia na excelência de Deus, já descrita por Jonathan
Edwards. Nossa resposta se aprofunda no amor, tanto em relação a Deus
quanto em relação ao próximo, o que significa que todos são o próximo que
alguém deve amar. Kierkegaard salienta que este é o amor que renuncia a si
mesmo e que é a essência da forma cristã. É um amor que não faz distinção
entre pessoas: todos são amados de Deus. Esta é a última oração que Cristo
faz por nós: “que eles sejam um, assim como nós somos um... que o amor
que tens por mim possa estar neles e que eu possa estar neles”.

ESCREVER CARTAS E A ARTE DE NUTRIR PESSOAS CRISTÃS

Apenas a conformidade com Cristo torna realmente possível uma vida


altruísta, uma “vida extática”. Uma de suas manifestações mais significativas
é a prática de escrever cartas cristãs, uma das mais antigas tradições de
mentoria na história do Cristianismo.

Nossas Cartas, Nós Mesmos

John Donne (1572-1631) a descreve como “uma forma de êxtase”, pois


a pessoa está saindo de si mesmo e entrando no mundo do outro. Ao mesmo
tempo, ele também sugere que “nossas cartas são nós mesmos”. Estamos
dando de nós mesmos quando nos entregamos ao outro em nossas cartas. Os
apóstolos, e especialmente Paulo, se preocupavam com o dia-a-dia dos fiéis
cristãos, conforme se depreende da leitura de uma boa parte do Novo
Testamento. Este é um modelo duradouro para todos nós: “atendei por vós e
por todo o rebanho de Deus”.
Contrastando com o ceticismo de Derrida em relação à amizade
duradoura, Adam de Perseigne (morto em 1221) escreve para William, bispo
de Ely: “Em meio à catástrofe (moral)... possuir um amigo é o mesmo que tê-
lo perdido” (i.e., se ele também perder seu caráter cristão, pois então não
poderá mais ser respeitado). Ele o encoraja a assumir uma posição moral
diante do caos que está à sua volta: “estamos orando sem cessar por vós”.
Adam de fato prezava muito a amizade espiritual, como vemos em uma carta
sua a um colega abade: “O amor é toda a razão de nossa relação, mas é o
amor em que a virtude é o fundamento, a verdade seu estudo, a pureza seu
desejo, a piedade seu trabalho, a instrução na disciplina seu caminho de
vida,” e ele acrescenta que enquanto o “amor” “soa mais como uma
faculdade natural, a palavra “caridade” expressa mais a influência da graça.
Agostinho deixa claro essa ênfase quando escreve para Januário:
Use o conhecimento como uma espécie de andaime para
construir o edifício do amor, que permanece para sempre,
mesmo quando esse andaime do conhecimento tiver sido
desmontado. O conhecimento enquanto um caminho para o
amor, é muito útil e, por si mesmo, não somente como um
meio para tal fim; neste caso, revela-se não apenas
desnecessário como até prejudicial. Sei, contudo, que sua
meditação santa o mantém seguro sob a sombra das asas do
Senhor Deus.53

E, no entanto, o amor cristão é “um amor difícil”, como disse Fénelon


ao rei Luís XIV:

Vossa Majestade só pode ser um verdadeiro seguidor de


Cristo se aceitar o caminho da humilhação. Se assim não for,
é porque vós não amais a Deus e vosso temor d’Ele é vil. Vós
temeis o inferno e não a Deus. Vossa religião não passa de
mera superstição e vãs trivialidades... Vós só amais vossa
própria glória e só buscais vossa própria conveniência. Vós só
pensais em vós mesmo, como se vós fôsseis Deus e tudo
tivesse sido criado para ser sacrificado ao vosso prazer. Mas
Deus só vos criou para o bem de vosso próprio povo.
Infelizmente, vós não enxergais essas verdades. Como é que
vós poderíeis vê-las se não conheceis a Deus, não O amais,
não orais a Ele do fundo do vosso coração e não vos
esforçais por conhecê-Lo melhor?

Fénelon encerra, dizendo: “O homem que escreve estas verdades,


Senhor, está longe de desejar-lhe infortúnios; pelo contrário, daria sua vida
para vê-lo no estado em que Deus gostaria de vê-lo. Ele nunca cessará de
orar em seu favor.”34 Um pouco mais enigmático, o poeta Gerard M.
Hopkins certa vez escreveu para um clérigo mundano: “Enquanto você não
preferir Deus ao mundo e a você mesmo, não terá tomado o primeiro
passo.”55
Contudo, mesmo que tenhamos aprendido com alguns dos pungentes
ensinamentos de Fénelon contra o mundanismo, descritos no capítulo
primeiro, ainda precisaremos mudar nossa atitude mental. Como tem sido
difícil para a Igreja não se deixar influenciar pelo Estoicismo! Jerônimo
(347-420 d.C.), ao escrever para Eustochium (c.384), confessa:

Quando deixei meu lar, meus pais, minha irmã e


conhecidos, por amor a Deus, também deixei para trás o
estilo de vida confortável a que me havia acostumado, para
tornar-me um soldado de Cristo. Mas eu simplesmente não
conseguia ficar sem a biblioteca que havia reunido em Roma
com tanto esforço... costumava jejuar e ler Cícero... depois
de muitas lágrimas por pecados passados, pegava um bom
volume de Plotino. No entanto, quando me voltava para o
estilo devocional e começava a ler um dos profetas, não
agüentava o estilo terrível!

(Agostinho fez uma confissão semelhante em sua juventude). Jerônimo


então ficou seriamente enfermo e sonhou que havia morrido e que estava
enfrentando o Juízo Final. Os anjos lhe perguntaram:
O que você é? Obviamente, respondi que era um cristão!
Aquele que estava sentado no trono do juízo porém retrucou:
‘Que besteira! Você não é cristão, você é um ciceroniano!
Onde está o teu tesouro ali também está o teu coração’. O
que podia eu dizer?
Mas Dietrich Bonhoeffer (morto em 1945), diante de sua própria morte
iminente num campo de concentração, foi capaz de enxergar com mais
clareza. Escrevendo a um jovem amigo pouco antes de sua morte, ele disse:
Durante esses anos, a Igreja vem lutando pela sua auto-
preservação, como se isso fosse um fim em si mesmo e,
conseqüentemente, perdeu a oportunidade de pronunciar
uma palavra de reconciliação para a humanidade e para o
mundo como um todo. Por isso, nossa linguagem tradicional
se tornará inevitavelmente impotente e condenada ao
silêncio; o Cristianismo ficará confinado às orações e à
prática de boas obras em relação a nossos irmãos e irmãs. O
pensamento cristão, sua palavra e sua organização, precisam
renascer a partir dessa oração e dessas obras... Será uma
nova linguagem..., a linguagem de uma nova justiça e
verdade, que proclama a paz de Deus com os homens e a
chegada de seu reino.

Blaise Pascal (1623-1662), escrevendo para urna senhora, fala mais


sobre o tema:
Uma nova linguagem geralmente traz consigo um novo
coração. Em seu Evangelho, Jesus nos deu um sinal que nos
permite reconhecer aqueles que têm fé. Eles irão usar uma
linguagem nova, O que acontece é que a renovação dos
pensamentos e dos desejos traz uma renovação da
linguagem. A renovação é uma necessidade constante... O
velho homem dentro de nós morre, diz Paulo, é renovado a
cada dia, e só na eternidade será perfeitamente novo... Não
há dúvida de que as graças que Deus nos dá nesta vida são
um sinal da glória que Ele está preparando para nós na
próxima.

A humildade, como vimos, constitui uma expressão vital da devoção


cristã. Bernard de Clairvaux escreveu um vigoroso tratado sobre “Os Passos
da Humildade e do Orgulho”. Também escreveu cartas sobre o tema. Para
um colega estudioso, escreveu:
Se você almeja a virtude da humildade, então não deve
evitar humilhações. Se você não aceita ser humilhado,
jamais alcançará a humildade... Somente o homem
verdadeiramente humilde é capaz de se conter, respeitando
sua própria alma, porque prefere ocultar aquilo que é, para
que ninguém creia que ele é aquilo que não é. É muito
perigoso para um homem ouvir outros se referirem a ele em
termos generosos que ele sabe não merecer.

Escrevendo para o Patriarca de Jerusalém, ele disse:


Somente o homem humilde pode subir a montanha com
segurança, pois só ele não terá o que lhe faça tropeçar. O
homem orgulhoso pode subir a montanha, mas não poderá
permanecer por muito tempo... para permanecer firme, é
preciso manter-se humilde. Para que nossos pés nunca
tropecem, precisamos nos apoiar, não no pé único do
orgulho, e sim nos dois pés da humildade. A humildade tem
dois pés: o reconhecimento do poder divino e a consciência
da fraqueza pessoal.

Poucos superaram o realismo com que Martinho Lutero retratou a vida


cristã, pois para ele Deus era real e a fé era a vida vivida sob o comando de
Deus. A enfermidade, o luto, o desânimo faziam parte de seu dia-a-dia, bem
como uma persistente depressão que o vitimava pessoalmente. Ao escrever
para a esposa de um mestre-escola que ele convidara para ficar em sua casa,
aconselhou:
Você não deve se sentir tão temerosa e desanimada.
Lembre-se de que Cristo está ao seu lado e sofre suas dores,
pois Ele não a abandonou, como seu sangue e carne
poderiam lhe fazer acreditar. Apenas invoque-O com
perseverança e sinceridade, e terá a certeza de que Ele a
escuta, pois você sabe que é da natureza d’Ele ajudar,
fortalecer e confortar todos os que o buscam. Lembre-se de
que Ele sofreu por você muito mais do que você jamais
poderá sofrer por Ele ou por sua própria causa.

Dentre os que escreveram em nossos dias, C.S.Lewis (1898-1963) tem


cartas que estão repletas de bom senso e de humor. Ele assim escreveu para
uma senhora:
Prefiro lutar contra aquela sensação de que ‘eu sou
especial’, não com o pensamento de que ‘não sou mais
especial do que os outros’, e sim com o sentimento de que
‘todos são tão especiais quanto eu’. Admito que, num certo
sentido, não faz realmente diferença, pois em ambos os
casos se elimina o elemento especial. Mas o segundo
pensamento nos conduz à verdade de que não existe
multidão alguma. Ninguém é como qualquer outro. Todos são
“membros” (órgãos) no Corpo de Cristo. Todos são diferentes
e todos são necessários para o conjunto e para os outros:
cada um é amado individualmente por Deus, como se fosse a
única criatura existente. Senão, você pode ficar com a
impressão de que Deus é como o governo, que só sabe lidar
com as pessoas como se elas fizessem parte de uma
massa.62

Para uma outra senhora ele responde: “Não se preocupe por não
se sentir corajosa. Nosso Senhor também não Se sentia
corajoso; basta ler o que aconteceu no Getsêmani. Como sou
grato pelo fato de que, quando Deus Se tornou homem, Ele
não és-colheu vir como um homem com nervos de aço: para
fracotes como eu e você, um Deus assim teria ajudado muito
menos.

As emoções da vida interior, que há muito são objeto de muito


aconselhamento, foram examinadas com ternura por Francisco de Saies, com
humildade por Jean Pierre de Caussade (1675-1752), e com honestidade por
Gerhard Teersteegen (1697-1769). Mas Abbe de Tourville (1842-1903) não
só confia na presença e na transcendência de Deus, como crê que a auto-
doação é a essência da vida espiritual. “O melhor a fazer não é imaginar que
Deus elimina todas as nossas dificuldades, e sim que Ele nos sustenta
enquanto as sofremos... Não fique aflito com a falta de fervor e de consolos.
Estes virão no tempo certo, da maneira certa.” Podemos deixar o bom Abbe
resumir as questões levantadas neste capítulo:
Nosso Senhor quer que você se torne maduro, e a
maturidade requer esses períodos de obscuridade, de
desilusão, de tédio. A maturidade vem quando enfim nos
conscientizamos de que devemos amar nosso Senhor de
maneira simples e livre, apesar de nosso profundo
desmerecimento e da desvalia de quase tudo que está à
nossa volta. É como se experimentássemos uma nova e
duradoura Encarnação do Senhor em nossas almas. Ele
começa a viver uma nova vida dentro de nós, em meio às
misérias deste mundo. É por isso que os grandes santos
sempre revelaram uma combinação perfeita de proximidade
com o Senhor, por um lado, e, por outro lado, um profundo
senso de sua própria indignidade e fraqueza.

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