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FERNANDA CRI LIL


CHARD NEUTRAEO BRASI
RI
CHARD
NEUTRA
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BRASI
L

RI
DISSERT
AÇÃO DEMESTRADO
FERNADACRITELLI
ORIENTADOR:ABILI
O GUERRA
FERNANDA CRITELLI DE CAMPOS

RICHARD NEUTRA E O BRASIL

Dissertação de Mestrado
Orientador: Abilio Guerra

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo


Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo
Universidade Presbiteriana Mackenzie

São Paulo, julho de 2015


C198r Campos, Fernanda Critelli de.
Richard Neutra e o Brasil / Fernanda Critelli de Campos - 2015.
300 f. : il. ; 30 cm

Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade


Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2015.
Bibliografia: f. 292 – 300.

1. Richard Neutra. 2. Brasil. 3. influências. I. Título.


CDD 720.973
AGRADECIMENTOS

O orientador Abilio Guerra, pela oportunidade, paciência e dedicação desde


os anos da faculdade, durante a Iniciação Científica, e, principalmente, no per-
curso do mestrado. Muito obrigada por todos os caminhos que abriu e por tudo
que me ensinou.
Os professores Renato Anelli e Ruth Verde Zein, pelos comentários e sugestões
feitos nas bancas de Qualificação e Final, que foram de grande importância
para a pesquisa.
Fernando Lara, por me receber na Universidade do Texas e me orientar numa
pesquisa que acabou sendo crucial para o desenvolvimento do trabalho.
A Fapesp pelas bolsas concedidas (Mestrado no País e Bolsa de Estágio de Pes-
quisa no Exterior) que me permitiram dedicação total à pesquisa. E o Mackenzie
pelo suporte e, principalmente, pelos prazos a mais que me foram concedidos.
Meus pais, irmão e família por todo o apoio, sem o qual este trabalho não seria
possível.
André Marques pela dedicação e companheirismo, além das belas fotografias,
tão essenciais durante este processo,
Rosa Artigas pelo simples comentário que abriu um importante caminho na pes-
quisa.
Raymond e Dion Neutra pelas informações, entrevistas e, principalmente, por
permitirem a cópia dos desenhos de viagem feitos por seu pai, Richard Neutra.
Thomas Hines, Christopher Long e Eric Munford pelas entrevistas e informações
essenciais para o trabalho.
Simon Elliott e toda a equipe da Biblioteca de Coleções Especiais da UCLA que
tão bem me receberam e me auxiliaram durante a pesquisa.
As várias pessoas que contribuiram para o trabalho. Agradeço em especial à
Adriana Irigoyen, Alyne Liboni, Ana Gabriela Godinho, Anne Pascale Krauer
Müller, Carlos Leite, Clarissa Matsumoto, Daiane Lee, Eduardo Luis Rodriguez,
Giovanna Paludetti, Haruyoshi Ono, Helena Enout, Isabela Ono, Jaqueline
Kawasue, Paulo Mauro de Aquino, Rafael Perrone, Rafaela Benigna, Renata Mit-
sue, Roberto Righ, Roger Kull, Silvia Raquel Chiarelli, Valéria Ruchti.
Os bibliotecários e bibliotecárias do Mackenzie, USP, FAAP, USJT, MASP, Bibliote-
ca Nacional e Biblioteca Mário de Andrade.

4
Este trabalho foi desenvolvido com o auxílio da Fapesp
RESUMO

Richard Joseph Neutra (1892-1970), arquiteto austríaco radicado nos Estados


Unidos, deixou, ao longo de sua vida profissional, importante legado que se
revela tanto pelas inúmeras obras construídas quanto pela contribuição aca-
dêmica. O interesse que demonstrava para melhor compreender as condições
climáticas e sociais dos locais onde atuava marcaram seus projetos, tendo sido
crucial, principalmente, para a vasta produção de obras como escolas, mora-
dias e hospitais desenvolvidos em Porto Rico – quando de sua nomeação como
consultor do Committee on Design od Public Works, a cargo do Departamento
de Estado norte-americano.
Seu trabalho como arquiteto e estudioso influenciou gerações de novos arquite-
tos, em especial brasileiros. Muito se sabe sobre a importância de suas obras,
mas pouco se fala sobre a estreita relação que Neutra manteve com o Brasil.
Fato este comprovado pela publicação, em São Paulo, do livro de sua autoria
Arquitetura Social em Países de Clima Quente, em edição bilíngue (português e
inglês), pela Editora Gerth Todtman (1948).
Sendo assim, o presente trabalho de Mestrado se apresenta como forma de ma-
peamento da presença do arquiteto Richard Neutra no Brasil. E foi a partir da
análise de fontes primárias que esse estreito relacionamento com os arquitetos e
intelectuais da área brasileiros fica comprovado.
Palavras-chave: Richard Neutra, Brasil, influências.

5
ABSTRACT

Richard Joseph Neutra (1892-1970), Austrian architect settled in the United


States, left, throughout his professional life, an important legacy that is revealed
both by the numerous works constructed and the academic contribution. The
interest he showed to better understand the climatic and social conditions of the
places marked his acting projects, and it has been crucial, especially for the vari-
ety producing projects such as schools, housing and hospitals developed in Puer-
to Rico - when he was appointment as consultant at the Committee on Design of
Public Works by the US State Department.
His work as an architect and studious has influenced new generations of archi-
tects, especially Brazilians. Much is known about the importance of his works,
but little is said about his close relationship with Brazil. A fact confirmed by the
publication, in Sao Paulo, of the book Architecture of Social Concern in Regions
of Mild Climate, bilingual edition (English and Portuguese), by Gerth Todtman
(1948).
Thus, this research presents itself as a way of mapping the presence of architect
Richard Neutra in Brazil. It was from the analysis of primary documents that the
close relationship with Brazilian architects and intellectuals was confirmed.
Key-words: Richard Neutra, Brazil, influences.

6
MÉTODOS DE PESQUISA

Por se tratar de uma pesquisa de levantamento teórico e de aproximações críti-


cas, este trabalho irá apresentar uma coletânea de documentos históricos que
comprovam a relação de Richard Neutra com o Brasil e com os brasileiros. E,
para isso, tiveram como foco principal os acervos institucionais e particulares,
onde se sabia ao certo ou se presumia haver informações documentais de inte-
resse.
No primeiro caso, dos acervos institucionais, mereceram especial atenção a bi-
blioteca do Masp (tem a guarda das correspondências e documentos trocados
entre o arquiteto e a instituição), o acervo do Instituto Bardi (possíveis documen-
tos complementares da relação Bardi-Neutra), a Biblioteca Mário de Andrade
(acervo de revistas e jornais da época), a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
(acervo de revistas e jornais da época), a biblioteca da Universidade Mackenzie
(periódicos publicados pela instituição), a biblioteca da Universidade de São
Paulo (principal acervo de periódicos e livros especializados), a biblioteca da
Faap (que possui a coleção completa da revista Acrópole), os acervo da Casa de
Lúcio Costa e da Fundação Oscar Niemeyer (eventuais registros do encontro de
Neutra com os arquitetos que dão nome às instituições), a Biblioteca da Universi-
ty of California de Los Angeles - UCLA (guarda documentos pessoais de Richard
Neutra, inclusive referentes a suas viagens à América Latina e ao Brasil) e a Bi-
blioteca Benson da University of Texas at Austin - UT (que possui a maior coleção
sobre a América Latina, em termo de cultura, sociedade, política, arte e arquite-
tura, do mundo). Parte da pesquisa pôde ser feita remotamente, via internet, em
especial junto a instituições que possuem política de digitalização de documen-
tos (caso da Casa de Lúcio Costa e da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro).
No segundo caso, dos acervos privados, foram consultados documentos dos
arquitetos que mantiveram contato com Neutra, que estão ou podem estar em
poder de familiares – casos de Gregori Warchavchik, Sergio Bernardes, Carlos
Millan, Henrique Mindlin e Jacob Ruchti – e empresas particulares – casos dos
escritórios Burle Marx & Cia Ltda, sob o comando do arquiteto-paisagista Ha-
ruyoshi Ono, e Henrique Mindlin Associados S/A Arquitetura e Planejamento,
ainda atuante na cidade do Rio de Janeiro.

7
Dos arquitetos que conheceram Richard Neutra e mencionados ao longo deste
projeto, estão ainda vivos Rodolpho Ortenblad Filho, Flávio Motta e Alberto Xa-
vier. Era de se supor também que durante a pesquisa surgissem outros persona-
gens ainda vivos que tiveram contato com Neutra, o que ampliaria o número de
entrevistas e, em conseqüência, a produção de fontes secundárias, que foram
muito úteis para preencher lacunas e revelar fatos desconhecidos até o momen-
to.
Foram também estabelecidos contatos com historiadores que, de alguma forma,
abordam o tema das relações profissionais de Richard Neutra, caso do profes-
sor Eric Munford (autor do livro The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960),
do professor Thomas Hines (autor dos livros Richard Neutra and the search for
modern architecture e The architecture of Richard Neutra) e do professor Chris-
topher Long (especialista em arquitetura européia na Faculdade de Arquitetura
da Universidade do Texas, UTSOA). Além dos filhos Dion e Raymond Neutra, a
pesquisadora conversou com o arquiteto brasileiro Jorge Wilheim (1928-2014).

8
05 RESUMO

06 ABSTRACT

07 MÉTODOS DE PESQUISA

11 APRESENTAÇÃO

47 CAPITULO 1 – MENSAGEIRO DA BOA VONTADE

49 1.1 Relação Estados Unidos – Brasil

71 1.2 Porto Rico

78 1.3. A viagem de reconhecimento pela América do Sul

105 1.4. Os artigos na revista Progressive Architecture

115 CAPITULO 2 – RICHARD NEUTRA E O BRASIL

117 2.1 A relação do arquiteto norte-americano com os brasileiros

132 2.2 A publicação do livro Arquitetura Social e a exposição do Masp

142 2.3 O caso da II Bienal Internacional do MAM-SP

155 2.4 Outras três visitas ao Brasil

173 CAPITULO 3 – RICHARD NEUTRA, BURLE MARX E A PAISAGEM DAS AMÉ-


RICAS

175 3.1 O legado na arquitetura brasileira e de Richard Neutra

215 3.2 A relação com o paisagista Roberto Burle Marx

230 3.3 A casa Schulthess em Havana, Cuba

273 CONSIDERAÇÕES FINAIS

292 BIBLIOGRAFIA
Imagem 1 - Richard Neutra, auto-retrato, 1917.
APRESENTAÇÃO
O arquiteto Richard Neutra

Richard Joseph Neutra nasceu em Viena, Áustria, em 1892, e viveu sua infância
e juventude imerso em uma riqueza cultural típica do país naquela época. Foi
influenciado por figuras como: Gustav Klimt (1862-1918), importante pintor
simbolista austríaco; Arnold Schönberg (1874-1951), compositor de música
erudita; e Sigmund Freud (1856-1939). Conforme afirma Manfred Sack, desde
a juventude, Neutra apresentava grande habilidade com desenho e pintura e já
ambicionava ser arquiteto.
“Já na idade de oito anos, Neutra não mostrava dúvidas sobre sua
profissão, como escreveu em sua eloquente, embora muito veemente,
biografia Life and shape (1962). Queria ser arquiteto.

Realmente manejava o lápis ou o carvão com a mesma destreza que


o nanquim. Desde jovem, já tinha essa habilidade, numa época em
que todo arquiteto que se colocava como requintado devia ser tam-
bém virtuoso nas artes pictóricas”.1

Em 1911, Neuta ingressou no curso de arquitetura da Technische Hochschule,


em Viena.2 No entanto, em 1914, em decorrência da Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), foi obrigado a deixar a universidade e servir no Exército Imperial
austríaco. Mas, devido a uma doença – Neutra e grande parte de seu batalhão
contraíram malária na fronteira da Albânia3 –retornou à Viena em 1917 e gra-
duou-se, com honra, em arquitetura pela Technische Hochschule no ano seguin-
te. Durante sua formação, Richard Neutra fora influenciado por Adolf Loos –
cujo ateliê frequentava após as aulas4 – e Otto Wagner – que fora seu professor
–, ambos grandes nomes da arquitetura moderna. Foi também nesta época que
tomou conhecimento do movimento De Stjil e das obras dos norte-americanos
Louis Sullivan e Frank Lloyd Wright.5

1. “Ya a la edad de ocho años, Neutra no albergaba dudas acerca de su profesión, como escribía en su elo-
cuente, aunque demasiado vehemente biografía, Life and shape (1962). Quería ser arquitecto. Realmente ma-
nejaba el lápiz o el carboncillo con la misma destreza que la tinta china. Desde joven ya tenía esa habilidad, en
una época en que todo arquitecto que se preciara como exquisito debía ser un virtuoso en las artes pictóricas”.
Tradução da autora. SACK, Manfred. Richard Neutra, p.16.
2. Idem, ibidem.
3. NEUTRA, Richard J. Life and shape, p.128.
4. HINES, Thomas. Richard Neutra and the search for Modern Architecture, p.35.
5. Idem, ibdem, p.13; SACK, Manfred. Op. cit, p.16.
Imagem 2 - Richard Joseph Neutra (1872-1970).
13
Imagem 3 - Travel Sketch, Bérgamo, 1913.
Imagem 4 - Fotografia de Lux e Ernest Freud tirada por Richard Neu-
tra.

Próxima página:
Imagem 5 - Travel Sketch, Trebinje, 1915.
14
15
Com o fim da Guerra, a Europa estava destruída e mergulhava numa profunda
depressão. Neutra, recém-formado, sentia os efeitos desta crise, pois enfrentava
a dificuldade de encontrar um emprego fixo em um escritório de arquitetura que
fosse capaz de alavancar sua carreira – além da crise, crescia nos europeus um
sentimento anti-semita que prejudicava ainda mais o arquiteto de descendência
judáica.6 Mudava constantemente de cidade e, até mesmo, de país em busca de
uma oportunidade: em 1919, trabalhou brevemente na Suíça com o arquiteto
paisagista Gustav Ammann7; e, no ano seguinte, mudou-se para a pequena
cidade alemã Luckenwalde, contratado como arquiteto na prefeitura.8 No en-
tanto, nenhuma oportunidade mais sólida surgia e, em meio a essa depressão,
crescia em Neutra o desejo de emigrar para a América.
Neste caso, a figura de Adolf Loos teve forte presença. Após ter se formado ar-
quiteto, em 1893, pela Dresden College of Technology, Loos realizou uma via-
gem de três anos pela Inglaterra e Estados Unidos.9 Dos ingleses, levou consigo
a admiração pelo Movimento Arts and Crafts e pelos trabalhos de Willian Mor-
ris, seu principal fundador.10 Já a experiência com os norte-americanos, apesar
de muito difícil – sua situação financeira estava ruim, por isso Adolf Loos foi
obrigado a trabalhar como pedreiro, extra de óperas, assentador de piso e, até
mesmo, lavando pratos em um restaurante11 –, deixou uma marca em seu de-
senvolvimento cultural.12 A magem próspera de um país moderno que migrava
da condição rural para a urbana (ou seja, que se tornava civilizado)13 foi passa-
da, ao retornar para a Europa, para seus jovens alunos – em especial, Rudolph
Schindler e Richard Neutra – como a promessa de um mundo novo e de oportu-
nidades.

6. HINES, Thomas. Op. cit, p.43.


7. Idem, ibdem, p.42.
8. Idem, ibdem, p.46; NEUTRA, Richard J. Op. cit, p.151.
9. HINES, Thomas. Op. cit., p. 32.
10. Idem, ibdem, p.34.
11. SAFRAN, Yehuda; WANG, Wilfried. The architecture of Adolf Loos, p.15.
12. GRAVAGNUOLO, Benedetto. Adolf Loos: theory and works, p.42.
13. Idem, ibdem, p.44.
Imagem 6 - Adolf Loos (1870-1933).
16
Richard Neutra, em sua posterior biografia (1962), comenta sobre esta influên-
cia:
“Antes de reconhecer Frank Lloyd Wright e Louis H. Sullivan na dis-
tante América, Otto Wagner era meu ídolo. (Loos estava enamorado
pela calorosa humanidade da América, bem como por seu pragma-
tismo, e havia se tornado meu amigo pessoal mais influente). Recen-
temente eu tinha mudado meus planos, e decidi fazer dos Estados
Unidos, o amor não correspondido de Loos, meu lar – talvez fosse
para a Califórnia, onde, como vagamente ouvi dizer, Frank Lloyd Wri-
ght estava na época”.14

Apesar de tomada a decisão, Neutra só conseguiria emigrar alguns anos de-


pois. Enquanto isso, em 1921, surgiu uma oportunidade no escritório do jovem
arquiteto vanguardista Erich Mendelsohn, em Berlim.15 Neutra rapidamente se
muda para a capital alemã e vê nos projetos de Mendelsohn uma nova resposta
para a arquitetura moderna: a junção entre a realidade do Funcionalismo e do
Racionalismo com as visões dinâmicas do Expressionismo.
“A nova arquitetura apropriada, a qual concordou-se em chamar de
moderna, iria expressar, definir e dar forma ao novo século. Embora
continuassem a insistir que não estavam seguindo nenhum estilo defi-
nido, os modernistas optaram por aquilo que em última análise, veio
a ser um conjunto de novos estilos – desde a intensa, da plasticidade
exótico do Expressionismo à elegante fria austeridade do Racionalis-
mo, die Neue Sachlichkeit. Em sua própria busca pela modernidade,
Neutra bebeu de ambas fontes, embora sua obra mais madura, em
sua melhor forma, inclinou-se para as imagens e cânones do Racio-
nalismo”.16

14. “Before I recognized Frank Lloyd Wright and Louis H. Sullivan in far-distant America, Otto Wagner had been
my idol. (Loos was enamored of America’s warm humanity crossed with matter-of-factness, and he had beco-
me my most influential personal friend) Recently I had changed my plans, and had decided to make the United
States, which had been the unrequited love of Loos, my home - perhaps going to California, where, as I vaguely
heard, Frank Lloyd Wright was at time”. Tradução da autora. NEUTRA, Richard J. Op. cit., p.102.
15. Idem, ibdem, p.152-153; HINES, Thomas. Op. cit., p.48.
16. “The proper new architecture, which they agreed to call modern, would express, define, and shape the new
century. Though they would continue to insist that they were following no set style, the modernists opted for what
ultimately came to be a cluster of new styles - from the hot, exotic plasticity of Expressionism to the elegancy cool
austerity of Rationalism, die Neue Sachlichkeit. In his own search for modernism, Neutra drank from both wells,
though ultimately, in his best, mature work, he inclined toward the images and canons of Rationalism”. Tradução
da autora. HINES, Thomas. Op. cit., p.49.
Imagem 7 - Eric Mendelsohn (1887-1953).
17
No entanto, apesar da admiração que tinha por essa arquitetura, os constantes
desentendimentos entre eles fazia apenas aumentar o desejo de seguir para os
Estados Unidos. Somado a isso, o recente casamento com Dione e a notícia de
sua gravidez foram os pontos chave para que a decisão fosse tomada.17 Assim,
ao final de 1923, após firmado o acordo de paz entre norte-americanos e aus-
tríacos, Richard Neutra embarcou rumo à Nova York – Dione iria encontrá-lo
após o nascimento de seu primeiro filho, Frank Lucian Neutra.18
Após poucos meses, Neutra parte para Chicago – na esperança de conhecer
pessoalmente o mestre Frank Lloyd Wright – e é logo contratado como projetista
na prestigiosa Holabird and Roche. Em abril de 1924, durante o enterro de Louis
Sullivan – de quem Neutra havia, pouco tempo antes, se tornado amigo pessoal
–, Neutra teve a oportunidade de conhecer Wright e foi surpreendido com um
convite para conhecer a famosa Taliesen East. Assim, em julho do mesmo ano,
após a chegada de Dione e do reencontro com Rudolph Schindler, Neutra viaja
para Taliesen e lá recebe uma proposta de trabalho.19 A colaboração no ateliê
de Frank Lloyd, no entanto, permanece apenas durante o outono e o inverno de
1924, pois Richard Neutra via-se ansioso por novas possibilidades de projetos.
“Eles ficaram lisonjeados que Wright tentou persuadí-los para não
partirem. Se e quando ele quiser voltar, Wright disse à Dione, Ri-
chard sempre encontraria trabalho com ele. Não entendo porque ele
precisa partir, ele comentou. Qualquer um pode partir, mas apenas
poucos podem ficar. Então porque... não aproveitar este lugar e esta
situação?”.20

17. Idem, ibdem, p.59.


18. “Frustration and contentment: the solitary journey of Frank Lucian Neutra, January 4, 1924 – July 5, 2006”.
09/07/2006. Folder 13. Box 139. Client Files, Writings. Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
19. HINES, Thomas. Op. cit., p.71.
20. “They were flettered tht Wright tried to persuade them not to leave. If and when he ever wanted to come
back, Wright told Dione, Richard could always find work with him. I don’t see why he has to leave, he remarked.
Anybody can leave here, but a few only are allowed to stay. So why…not to enjoy this place and this situation?”.
Imagem 8 - Richard e Dione Neutra, 1922.
Tradução da autora. Idem, ibdem, p.75.
Imagem 9 - Frank Lloyd Wright (1867-1959).
18
Imagem 10 - Richard e Dione Neutra na Taliesen junto à Frank Lloyd
Wright e seus aprendizes, 1924.
Imagem 11 - Frank Lloyd Wright e Richard Neutra, Taliesen, 1924.
19
Apesar da insistência, Neutra e sua família partiram para a Califórnia, onde
foram recebidos na casa de Schindler na King’s Road, em Hollywood. Durante
o tempo que permaneceu lá, Neutra desenvolveu trabalhos em escritórios como
os de Gordon Kaufman e Rudolph Meier, finalizou seu livro Wie baut Amerika?
(Como a América constrói?) – que vinha escrevendo desde o período da Hola-
bird and Roche, em Chicago – e desenvolvia, também, trabalhos em parceria
com Rudolph Schindler. Nestes, dois acontecimentos abalaram profundamente
suas relações profissionais e de amizade.
“Certa vez, quando eu estava caminhando pelo Bahnhofstrasse em
Zurique, vi pela janela de uma agência de turismo um prospécto com
uma palmeira impressa na capa e as palavras, CALIFÓRNIA CHAMA
VOCÊ. Eu sabia apenas um pouco de inglês na época e não estava
muito seguro sobre o que aquilo significava, mas somei dois mais
dois e concluí que deveria vir para a Califórnia. Após ter ficado em
Nova York, Chicago e Taliesin – mais ou menos como um hóspede do
sr. Wright, já que ele não tinha nem trabalho nem projetos –, comecei
a pensar inquietamente sobre a Califórnia. Eu sabia que aquele era
o único lugar onde ele teve projetos construídos desde que cheguei à
América”.21

Em 1926, Neutra e Schindler participaram do concurso para a League of Na-


tions Headquarters de Genova e, apesar de não terem sido ganhadores, viram
seu projeto, no ano seguinte, exposto no German Werkbund, ao lado de Le Cor-
busier e Hannes Meyer. No entanto, por um equívoco da família de Dione – que
ficou responsável pelo intermédio entre Neutra e a exposição, pois residiam na
Alemanha –, o nome de Schindler como co-autor do projeto não apareceu.

21. “Once when I was walking down the Bahnhofstrasse in Zurich, I saw in a travel-office window a folder with
a palm tree printed on it, and the words, CALIFORNIA CALLS YOU. I knew only a little English then, and I wasn’t
quite sure what this meant, but I put two and two together and concluded that I was supposed to come to Ca- Imagem 12 - California Calls You, 1921.
lifornia. After I had been in New York, Chicago, and Taliesin – more or less a guest of Mr. Wright’s, as he had
no work or projects – I began restlessly to think about California. I knew it was the only place where he had had Próxima página:
anything under construction during my American sojourn”. Tradução da autora. NEUTRA, Richard J. Life and
Imagem 13 - Rudolph Schindler junto à Richard, Dione e Dion Neutra,
shape, p.209.
Los Angeles, 1928.
20
21
Outro momento de tensão entre eles foi quando, em 1927, Philip Lovell – para
quem Schindler havia projetado e construído uma casa na praia no ano anterior
e cujo projeto paisagístico havia ficado à cargo de Neutra – solicitou à Richard
Neutra o projeto de sua nova casa. Os dois incidentes, que ocorreram pratica-
mente ao mesmo tempo, levaram ao fim da amizade e da parceria profissional
entre Neutra e Rudolph Schindler.
No entanto, deixando de lado o contexto do rompimento das relações pessoais,
o projeto desenvolvido por Neutra é descrito pelo historiador de arquitetura Tho-
mas Hines como o ponto chave de uma grande mudança em sua carreira:
“Schindler teria sem dúvida construído uma linda e significativa casa,
mas é difícil de acreditar que isto realmente teria sido significante
em sua carreira – ou na história da arquitetura moderna – como se
tornou o projeto de Neutra. (...) Depois dos apartamentos Jardinette,
esta foi o primeiro exemplo maduro do Estilo Internacional na Améri-
ca”.22

Neutra, assim como muitos de sua geração, acreditava que a arquitetura mo-
derna poderia expressar e definir o que seria o século XX. Mas, para ele, não in-
teressavam apenas as questões funcionais e racionalistas desta nova arquitetura,
como ocorreu em larga escala na Europa do primeiro pós-guerra. Propunha em
seus projetos um entendimento aprofundado das necessidades de cada cliente
e, a partir daí, experimentava a interferência da arquitetura, em termos psico e
fisiológicos, no cotidiano de seus moradores e como isto poderia melhorar sua
qualidade de vida.

Página anterior:
Imagem 14 - Casa Kings Road, Rudolph Schindler, 1921-22.
22. “Schindler would no doubt have built a beautiful and significant house, but it is hard to believe that it could
Nesta página: ever have been significant in his career – or in the history of modern architecture – as the Neutra design became.
Imagem 15 - Edifício para a Liga das Nações, proposta de Neutra e (…) After his Jardinette apartments, it was the first mature exemple of the International Style in America”. Tradu-
ção da autora. Idem, ibdem, p.99.
Schindler, 1926.
23
25
Durante sua atuação profissional, Richard Neutra desenvolveu significativos
projetos de escolas – como a Corona School, em 1935, e a Emerson Junior High
School, em 193723 – e de habitações sociais – como, por exemplo, o Avion
Village Housing, em 1941, Hacienda Village Housing, Pueblo del Rio Housing e o
Channel Heights Housing, em 194224 –, além das várias residências unifamilia-
res construídas, principalmente, na Califórnia e conhecidas internacionalmente.
Trabalhou também junto a agências governamentais como: a Federal Housing
Authority25, tendo sido o projeto para o Channel Heights um dos produtos desta
parceria; com o Departamento de Estado norte-americano, quando foi contra-
tado como consultor do Comitê de Obras Públicas de Porto Rico, em 1944, e
designado para a viagem de reconhecimento pela América Latina em 1945, as-
suntos que serão abordados mais a frente; e com o National Youth Administra-
tion, para o qual Neutra foi contratado como consultor, em 1935, por Eleonor
Roosevelt, esposa do então presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt.26

Páginas anteriores:
Imagens 16 e 17 - Casa Llovel, 1927.
23. LAMPRECHT, Barbara. Richard Neutra: complete works, p.112 e 140.
24. Idem, ibdem, p.160-172. Nesta página:
Imagem 18 - Escola Corona, 1935.
25. Carta. Arthur H. Gallion para Federal Housing Authority. 06/05/1944. Folder 7. Box 1985. Office Records,
Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
26. NEUTRA, Raymond R. Encontros porto-riquenhos.
Próxima página:
Imagem 19 - Escola Emerson, 1937-38.
26
27
29
30
31
32
Neutra e o Brasil: o estado da arte

A relação entre Richard Neutra e o Brasil tem sido referida em diversas pes-
quisas – tanto suas visitas ao país como o impacto da publicação do livro Ar-
quitetura social em países de clima quente27 – que servem como base para o
presente trabalho de duas maneiras: cruzamento de dados diversos referentes à
presença do arquiteto no país, que permitiram o primeiro esboço da cronologia
que tenta dar conta de suas visitas e dos temas e motivações que as motivavam;
verificação de lacunas diversas, presentes nos vários trabalhos acadêmicos –
mestrados, doutorados e artigos acadêmicos –, assinados por autores diversos.
É importante notar que parte deste levantamento foi realizado em pesquisa de
iniciação científica Richard Neutra no Brasil, desenvolvida da Faculdade de Ar-
quitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie entre agosto de 2011 e ju-
lho de 2012, orientada por Abilio Guerra e com bolsa Mackpesquisa. Naquele
momento, o objetivo foi realizar uma primeira varredura das vindas de Richard
Neutra ao Brasil e, para isso, foram pesquisados os acervos do Masp – em cujo
Biblioteca de Documentos Históricos foram encontradas cartas trocadas entre
Neutra e Pietro Bardi e pistas da exposição Neutra: Residências/Residences –, da
Biblioteca Mário de Andrade – nos acervos das revistas Cruzeiro e Manchete e
dos jornais da época, foi possível traçar um primeiro itinerário de viagens – e da
família Warchavchik – onte foram encontradas fotos da visita de Neutra a São
Paulo. Este trabalho foi ampliado em um mestrado na mesma instituição, com
o mesmo orientador e contando com bolsa da Fapesp entre os anos de 2013 e
2015.
São muitos os trabalhos que se referem ao cerne da presente pesquisa, caso do
realizado por Patrícia Pimenta, que em sua tese Teoria e prática: a obra do ar-
quiteto Richard Neutra defendida na FAU USP em 2007 e orientada por Adilson
da Costa Macedo, apresenta o tema da relação de Richard Neutra com o Brasil:
suas visitas em 1945 e 1959; a publicação do catálogo Neutra:Residências pelo
Masp, apesar de não apontar nenhuma comprovação efetiva da exposição; e
as interlocuções com os brasileiros, desde a aproximação com Gregori Warcha-
vchik e Vilanova Artigas até sua influência nas obras de Oswaldo Bratke e de
diversos outros escritórios de arquitetura no país:
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Imagem 20 - Escola Emerson, 1937-38 (situação atual).
Imagem 21 - Avion Village, 1941.
Imagem 22 - Hacienda Village, 1942.
Imagem 23 - Pueblo del Rio, 1942. 27. Sobre o livro, ver: CRITELLI, Fernanda. A questão social da arquitetura. O livro de Neutra: “Arquitetura so-
cial em países de clima quente”.
Imagem 24 - Channel Heights, 1941-42.
33
“A arquitetura moderna brasileira e a arquitetura de Richard Neutra
tiveram seus pontos de encontro na história. Através de algumas pu-
blicações, a obra de Neutra estava presente nos escritórios de arqui-
tetura no Brasil dos anos 1940/1950, e não somente nos escritórios
de arquitetos que estavam no eixo hegemônico, Rio-São Paulo, mas
também naqueles escritórios situados no interior, como é o caso do
arquiteto João Jorge Coury”.28

No entanto, tais conjecturas se concentram no início do trabalho e sua pesquisa


se envereda por outro rumo, tratando de forma extensiva e genérica a obra do
arquiteto austríaco; ou seja, a questão do intercâmbio entre Neutra e o Brasil
não é aprofundada. O mesmo acontece na tese de doutorado de Débora Hor-
main. Ao tratar do tema O relacionamento Brasil-EUA e a arquitetura moderna:
experiências compartilhadas, 1939-1959 – defendida na FAUUSP em 2012 e
orientada por Fernanda Fernandes da Silva –, a autora menciona as visitas de
1945 e 1959, o catálogo do Masp e a “intenção de uma exposição”29, mas, por
não se tratar de um trabalho específico sobre Richard Neutra, não apresenta da-
dos sobre as demais viagens, nem se aprofunda no tema de suas relações com
os arquitetos brasileiros.
Em seu recente trabalho sobre Gregori Warchavchik, José Lira assinala a in-
fluência de Neutra sobre os arquitetos brasileiros – principalmente com a publi-
cação, em São Paulo, do livro Arquitetura social em países de clima quente – e
sobre o arquiteto ucraniano, exemplificando esta última com a comparação en-
tre o projeto para a residência Ricardo Jafet (Guarujá, 1949) de Warchavchik e
o Protótipo para Escola Rural de Neutra (um dos muitos estudos realizados entre
1944-45, durante o período em que trabalhou em Porto Rico):
“A conjugação entre o terraço, em parte descoberto, e a sala de estar
franqueada à praia e à visão do mar era garntida pela linha contínua
de portões de madeira, com pivôs horizontais, semelhantes aos que
Richard Neutra vinha usando em seus projetos para Porto Rico”.30

28. RIBEIRO, Patrícia Pimenta Azevedo. Teoria e prática. A obra do arquiteto Richard Neutra, p. 13-14.
29. HORMAIN, Débora da Rosa Rodrigues Lima. O relacionamento Brasil-EUA e a arquitetura moderna: expe-
riências compartilhadas, 1939-1959, p. 120.
30. LIRA, Jose. Warchavchik: Fraturas da vanguarda, p. 439.

34
Já em seu artigo From mild climate’s architecture to ‘third world’ planning: Ri-
chard Neutra in Latin America, publicado na 14ª International Planning History
Society Conference (2010), José Lira trata dos projetos desenvolvidos por Neutra
em Porto Rico e sua subsequente viagem pela América Latina. O autor utiliza
como dados documentos encontrados no acervo Neutra Collection da UCLA e
dá dicas sobre a importância o envolvimento do arquiteto com o grupo do CIAM
e sobre sua participação na Conferência de São Francisco, em 1945, que deu
origem às Nações Unidas.
Outros relevantes trabalhos expõem a importância da relação de Richard Neutra
com o Brasil. Mônica Junqueira, em sua tese de doutorado orientada por Paulo
Bruna e defendida em 2000 na FAU USP, ao comentar a importância do contato
com a arquitetura norte-americana para a transformação da obra de Oswaldo
Bratke, assinala que
“as viagens que [Bratke] passou a fazer ao exterior a partir de 1942,
onde teve a oportunidade de visitar obras significativas, o contato
com profissionais americanos e europeus e a publicação de algumas
obras como Arquitetura social em países de clima quente, de Richard
Neutra, publicado aqui em São Paulo em 1948, tiveram papel pre-
ponderante no seu processo de transformação. Nesse livro, lançado
logo após sua estada no Brasil, quando teve a oportunidade de visitar
as obras de Bratke, Neutra defende veemente a idéia de uma arquite-
tura própria para cada local, segundo suas especificidades de clima,
topografia, cultura e sociedade”.31

31. CAMARGO, Mônica Junqueira. Princípios da arquitetura moderna na obra de Oswaldo Arthur Bratke, p.105.

35
Se Mônica Junqueira menciona a visita feita por Neutra às obras de Bratke,
Hugo Segawa e Guilherme Mazza Dourado salientam a visita anterior, feita pelo
arquiteto brasileiro, às obras do austríaco na América: “a primeira viagem de
Oswaldo Bratke aos Estados Unidos foi para a costa oeste, em 1948. Assinante,
visitou a redação de Arts & Architecture e decerto acertou a publicação da casa,
então recém-concluída. Nessa incursão por terras norte-americanas, o arquite-
to brasileiro visitou obras de Richard Neutra e Frank Lloyd Wright”.32 A casa do
arquiteto, na rua Avanhandava, foi publicada na revista comandada por John
Entenza na edição de outubro de 1948. Bratke, portanto, além de conhecer as
obras dos arquitetos “californianos”, conseguiu também difundir sua obra numa
das mais importantes revistas de arquitetura da época.
Adriana Irigoyen, em sua tese de doutorado orientada por Paulo Bruna e defen-
dida na FAU USP em 2005, chama Neutra de arquiteto peregrino e diz que ele
visitou as obras de Brasília acompanhado por Oscar Niemeyer, afirmação corro-
borada por fotografias da ocasião. Também acompanhada por documentação
fotográfica, Irigoyen comenta a visita do casal Richard e Dione Neutra à casa
de Carlota Macedo Soares em Petrópolis, ciceroneado pelo arquiteto Sergio Ber-
nardes, responsável pelo projeto.33 E conclui com uma afirmação categórica do
interesse causado pelo arquiteto austríaco no meio paulistano: “Sua conferência
na USP, ante uma plateia entusiasta, transbordando de estudantes e arquitetos,
confirmou o impacto de Richard Neutra entre os colegas paulistas. Alguns deles
seguiriam a essência de seus ensinamentos”.34
Já Paulo Fujioka, ao tratar da presença de arquitetos estrangeiros no cenário
cultural brasileiro, afirma que “Richard Neutra percorreu o Brasil como consultor
da Organização das Nações Unidas no início dos anos 1950”.35 Afirmação esta
um tanto intrigante, pois a pesquisa revelou, como será visto com mais detalhes
nos Capítulos 1 e 2, que Richard Neutra visitou o Brasil em 1945, 1957, 1958 e
1959 – vale destacar que o foco do mestrado que aqui se apresenta foi buscar
indícios da presença de Neutra no Brasil e, por isso, não foram pesquisadas a

32. SEGAWA, Hugo; DOURADO, Guilherme Mazza. Oswaldo Arthur Bratke, p.24.
33. A arquiteta Adriana Irigoyen deixou aos cuidados do professor Abilio Guerra parte o material utilizado no
desenvolvimento de sua tese de doutorado. Tal acervo foi catalogado, tornando possível uma maior aproxima-
ção com o tema.
34. IRIGOYEN TOUCEDA, Adriana Marta. Da Califórnia a São Paulo: referências norte-americanas na casa
moderna paulista 1945-1960, p. 135.
35. FUJIOKA, Paulo Yassuhide. Princípios da arquitetura organicista de Frank Lloyd Wright e suas influências na
arquitetura moderna paulistana, p.135.

36
fundo viagens para outros países da América Latina, como, por exemplo, a Ve-
nezuela, onde foi construído o projeto da casa Gonzales-Gorrondona (1962).36
Sendo assim, é possível chegar a duas conclusões sobre a afirmação de Fujioka.
A primeira é que a viagem referida no texto seja, na verdade, aquela de reco-
nhecimento pela América do Sul – momento em que, de fato, Neutra percorreu
o Brasil – em 1945 (e não no início da década de 1950, conforme consta no
texto), à cargo do governo dos Estados Unidos. Ou ainda, que Fujioka está se
referindo às viagens realizadas em 1957 e 1958 para atender às conferências
organizadas pelas Nações Unidas, e que também aconteceram no Brasil (assun-
to este que será tratado no Capítulo 3).
Marcos Acayaba, no livro sobre sua obra amplamente baseado em sua tese de
doutorado defendida na FAU USP em 2005 sob orientação de Paulo Bruna, ao
comentar um projeto de casa de praia em Peruíbe, afirma:
“Fiz um projeto muito simples, usando o que já sabia, o que tinha vis-
to e gostado. Me esmerei na proteção solar através de brises compos-
tos por grandes beirais conjugados a paredes transversais, aplicando
o que tinha aprendido em física na FAU. Decidi usar materiais novos,
que acabara de conhecer, visitando obras de arquitetura: blocos de
concreto e canaletas Eternit na cobertura. Evidentemente, o desenho
da casa tem a arquitetura de Richard Neutra como referência. Tinha
comprado pouco antes meu primeiro livro de arquitetura, Arquitetura
social, com seus projetos para Porto Rico”.37

36. LAMPRECHT, Barbara Mac. Op. cit, p.415.


37. ACAYABA, Marcos. Crônica de uma formação. In ACAYABA, Marcos. WISNIK, Guilherme; SEGAWA, Hugo;
KATINSKY, Julio Roberto. Marcos Acayaba, p. 33. O orientador desta pesquisa, Abilio Guerra, em conversa
ocorrida há poucos anos no escritório do arquiteto em sua casa no bairro do Morumbi, ouviu a seguinte afirma-
ção do arquiteto Marcos Acayaba: “o livro de Richard Neutra sobre arquitetura em regiões de clima quente foi
meu livro de cabeceira durante anos”, frase complementada com o gesto de esticar o braço para trás e pegar
na prateleira um volume antigo e muito manuseado, o livro Arquitetura social em países de clima quente, de
Richard Neutra.

37
Sabrina Bom Pereira, em sua dissertação de mestrado sobre a obra do arquite-
to Rodolpho Ortenblad Filho orientada por Abilio Guerra e defendida na FAU
Mackenzie em 2010, demonstra a enorme influência da obra de Neutra não
só sobre o arquiteto objeto de seu interesse, mas sobre outros arquitetos, como
aparece nos depoimentos de Pedro Paulo de Mello Saraiva e Jorge Wilheim.
Saraiva aponta para a enorme presença de Neutra na obra do Bratke maduro,
enquanto Wilheim narra sua participação na edição do livro sobre a obra de
Neutra produzida pelo Masp.38
É totalmente contextualizada, portanto, a publicação da residência Joseph
Staller, de Richard Neutra, na revista Acrópole (n. 230, dez. 1957), conforme
menciona Bom Pereira. Muito antes desta publicação, porém, Neutra já havia
sido publicado pela revista Pilotis, editada por um grupo de alunos da arquitetu-
ra da Universidade Mackenzie – Salvador Candia, Carlos Millan, Jorge Wilheim,
Paola Tagliacozzo, Roberto Carvalho Franco e Sidney da Fonseca –, conforme
mostra Eduardo Ferroni em sua dissertação de mestrado, orientada por Regina
Meyer e defendida na FAU USP em 2008.39 A empolgação que o contato dire-
to com Neutra provocou nos jovens mackenzistas transpira no texto publicado
como apresentação do projeto:
“pelo exemplar de Pilotis que lhe enviamos, Neutra prontamente res-
pondeu com uma gentilíssima carta acompanhada de vinte fotogra-
fias de Julius Schumann mostrando duas de suas últimas residências
– uma das quais inédita – pondo-as à disposição da revista. Pilotis
sente-se na obrigação de registrar aqui esse fato, para dizer da co-
moção causada pela significância do gesto”.40

As relações de Neutra com os estudantes e arquitetos vinculados à escola de ar-


quitetura brasileiras, em especial a da Universidade Mackenzie, são numerosas
e tudo leva a crer que muitas delas ainda estão por ser documentadas, como
leva a crer o artigo escrito pela autora dessa dissertação em parceria com seu
orientador Abilio Guerra e publicada na revista Arquitextos em 2013:

38. PEREIRA, Sabrina Bom. Rodolpho Ortenblad Filho: estudo sobre as residências, p. 221 e 225, respectiva-
mente.
39. FERRONI, Eduardo Rocha. Aproximações sobre a obra de Salvador Candia, p. 29.
40. Revista Pilotis, São Paulo, n. 4, fev. 1950. Apud: FERRONI, Eduardo Rocha. Op. cit., p. 36

38
“um pequeno texto inédito de autoria de Richard Neutra – encontrado
na Biblioteca da University of California de Los Angeles (UCLA) – é
prova cabal do seu interesse não só pelo país, mas também no esta-
belecimento de uma interlocução ampla com os arquitetos brasileiros,
a quem dedica palavras entusiasmadas. Na segunda parte do texto,
comenta um projeto específico do arquiteto Jacob Ruchti”.41

Outro trabalho de grande importância que trata de alguma forma sobre a in-
fluência de Richard Neutra entre os brasileiros é a dissertação de mestrado A
obra do arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé: projeto, técnica e racionalização, de
autoria do arquiteto André Marques, orientada por Abilio Guerra e defendida
na FAU Mackenzie em 2012. Aqui, ao estudar as técnicas e processos projetuais
desenvolvidos por Lelé, Marques traça a forte relação entre eles:
“Ao observarmos mais de perto as obras dos dois arquitetos, não é
difícil notar as lições deixadas por Neutra na formação de Lelé (...).
Importante notar a preocupação de Neutra com regiões ainda não
urbanizadas, muitas vezes esquecidas pelos poderes públicos. Essa
preocupação aproxima Neutra da realidade brasileira, que possui
boa parte do seu território em zonas rurais ou periferias não urba-
nizadas. E Lelé tem sua atuação nessas áreas periféricas ou rurais,
construído aí escolas, posto de saúde e hospitais”.42

André Marques salienta também os vários aspectos projetuais e estratégias cli-


máticas presentes da Escola Rural de Abadiânia, de autoria de João Filgueiras
Lima, são tributários dos ensinamentos de Richard Neutra presentes nas escolas
projetadas para Porto Rico. Estes mesmos aspectos são ponto de partida para
comparação equivalente feita por Claudia Loureiro e Luiz Amorim, em artigo
publicado na revista Arquitextos em 2002:

41. GUERRA, Abilio; CRITELLI, Fernanda. Richard Neutra e o Brasil.


42. MARQUES, André Felipe Rocha. A obra do arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé: projeto, técnica e racionali-
zação, p. 167 e 168.

39
“Um exemplo significativo da influência da arquitetura de Neutra na
arquitetura brasileira está no Instituto de Educação de Pernambuco,
localizado no centro do Recife, projeto dos arquitetos Marcos Domin-
gues da Silva e Carlos Falcão Correia Lima, ganhadores de concurso
público nacional, realizado em 1956”.43

Carlos Faggin, em sua tese de doutorado – orientada por Marlene Yurgel e


defendida na FAU USP em 1992 –, apresenta também as questões ambientais
como motivação para uma influência de Neutra na obra de Carlos Millan, seu
objeto de estudo:
“A ligação de Millan e seus companheiros da Pilotis e do escritório da
Sete de Abril com Neutra foi grande. Transcende o próprio relaciona-
mento profissional e pode ser lida nos projetos desse primeiro perío-
do de atividade profissional. As escolas e residência de Millán nesse
primeiro período contém uma profunda influência de Neutra e sua
arquitetura social, desde os partidos de projeto, passando pela preo-
cupação com a insolação e ventilação e terminando no detalhamen-
to, que considerava como dado fundamental à pouca especialização
da mão-de-obra do interior de São Paulo”.44

43. LOUREIRO, Claudia; AMORIM, Luiz. Por uma arquitetura social: a influência de Richard Neutra em prédios
escolares no Brasil. Arquitextos, São Paulo, n. 02.020, Vitruvius, jan. 2002.
44. FAGGIN, Carlos Augusto Mattei. Carlos Millan. Itinerário profissional de um arquiteto paulista, p. 28.

40
Neutra e o Brasil: a dissertação

No projeto de pesquisa encaminhado para a Fapesp em 2013 fica evidente o


objetivo original da presente dissertação:
“Neste contexto de interlocução entre arquitetos brasileiros e norte
-americanos, o presente trabalho tem como objetivo documentar os
passos do arquiteto Richard Neutra no Brasil, sua participação em
eventos e exposições, as publicações de seus trabalhos aqui realiza-
das e o contato feito com os grandes nomes da arquitetura moderna
e os intelectuais da área: em São Paulo, com Gregori Warchavchik,
Jorge Wilheim, Rodolpho Ortenblad Filho, Flávio Motta, Pietro Maria
Bardi, Carlos Millan, Jacob Ruchti. No Rio de Janeiro, com Henrique
Mindlin, Marcelo Fragelli, Roberto Burle Marx, Sergio Bernardes, Lú-
cio Costa e Oscar Niemeyer, dentre outros”.45

A intenção em “documentar os passos do arquiteto Richard Neutra no Brasil”


justifica o foco constante – desde o início do trabalho, do período da Iniciação
Científica, até sua conclusão – no levantamento de documentação primária e
secundária em diversos acervos brasileiros e estrangeiros: Museu de Arte de
São Paulo – Masp, Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, Biblioteca Mário de
Andrade em São Paulo, bibliotecas universitárias da USP, Mackenzie, Faap e São
Judas, além dos acervos pessoais da família Warchavchik – mantido por seu
neto, Carlos Warchavchik, e cujo responsável é o arquiteto Paulo Mauro Mayer
de Aquino –, de Jacob Ruchti – disponibilizado por sua filha, Valéria Ruchti –,
do escritório de Roberto Burle Marx – mantido pelo arquiteto Haruyoshi Ono e
cuja responsável é a arquiteta Isabela Ono – e da arquiteta Adriana Irigoyen –
cujo material recolhido para sua tese de doutorado Da Califórnia a São Paulo
(FAUUSP, 2005) nos foi disponibilizado. Além disso, com a ajuda da Embaixado-
ra da Suíça em Cuba, Anne Pascale Krauer Müller, e de seu Conselheiro, Roger
M. Kull, foi possível visitar a casa Schulthess em Havana. Projetada por Neutra
em 1956 e com paisagismo assinado por Roberto Burle Marx, é hoje a residên-
cia da Embaixadora. O contato preliminar feito com Simon Elliott, responsável
pelo acervo de Neutra depositada na Universidade da Califórnia em Los An-
geles, tornou possível um primeiro levantamento da documentação, ocorrido
remotamente a partir de comunicação digital. Elliott foi também o intermediário

45. CRITELLI, Fernanda. Projeto de Pesquisa de Mestrado Fapesp. Orientador Abilio Guerra. São Paulo, Progra-
ma de Pós em Arquitetura, FAU Mackenzie, jun. 2013.

41
do contato entre pesquisadora e orientador com Raymond Neutra, filho mais
novo do arquiteto austríaco. A relação possibilitou o acesso a alguns dados re-
ferentes a visitas do pai ao Brasil e América Latina, como também a publicação
na revista Arquitextos, em julho de 2013, de um artigo sobre a passagem de
Neutra sênior por Porto Rico.46
Dentre as lacunas presentes nos diversos trabalhos que tratam de Neutra e suas
relações com o Brasil, a mais recorrente é sobre o envolvimento de Neutra com
o governo dos Estados Unidos, questão em geral tratada de forma ligeira ou
simplesmente negligenciada. No estabelecimento do estado da arte presente em
trabalhos acadêmicos não foi possível estabelecer de forma mais clara e precisa
o significado da presença de Neutra dentre nós do ponto de vista oficial norte
-americano. Entendeu-se aqui que isso só seria possível a partir do estabeleci-
mento de um panorama histórico onde estivesse presente a política externa nor-
te-americana, em especial aquela implantada durante a presidência de Franklin
Roosevelt, voltada aos demais países do continente. Nesse sentido, houve uma
ampliação do foco original do trabalho – mais preocupado com a documenta-
ção dos passos do arquiteto Richard Neutra no Brasil –, que passou a considerar
com essencial documentar este vínculo oficial para entender a relação do arqui-
teto austríaco com o Brasil e com própria América Latina.
A solicitação de auxílio complementar feita à Fapesp – Bolsa de Estágio de Pes-
quisa no Exterior –, foi feita com intenção explícita de compreender a lógica do
ambiente cultural original que motivou e condicionou a vinda de Neutra ao Bra-
sil:
“O objetivo deste estágio de pesquisa no exterior é a complementa-
ção do trabalho de mestrado em desenvolvimento, Richard Neutra
e o Brasil (que conta com apoio da Fapesp), através do contato com
pesquisadores da arquitetura latino-americana como Fernando Lara
e Christopher Long, bem como a participação no grupo de pesquisa
Latin American Modern Architecture (LAMA). Além disso, durante esse
período, será realizada minuciosa pesquisa na Benson Latin American
Collection dentro da Universidade do Texas em Austin, selecionando
bibliografias sobre arquitetura, cultura, arte e sociedade que contri-
buirão para o desenvolvimento da pesquisa de mestrado.

46. NEUTRA, Raymond Richard. Encontros porto-riquenhos. Arquitextos, São Paulo, ano 14, n. 158.01, Vitru-
vius, jul. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.158/4833>.

42
O contato com o material documental e bibliográfico disponível pos-
sibilitará no avanço de uma questão que precisa ser aprofundada:
as circunstâncias institucionais – motivos, interesses, personagens,
diretrizes, decisões, encaminhamentos etc. – que envolvem a vinda de
Richard Neutra ao Brasil. Sabe-se de forma genérica participação do
governo americano nas missões culturais na América Latina, mas ain-
da não se tem documentada a vinda específica de Neutra”.47

A bolsa aprovada com duração inicial de 4 meses – depois encurtada pela pes-
quisadora para 3 meses, por problemas burocráticos – possibilitou a pesquisa
junto ao Teresa Lozano Long Institute of Latin American Studies (LLILAS Benson)
da University of Texas at Austin – com a supervisão e orientação do professor
Fernando Lara – com a intenção de delinear a relação entre os Estados Unidos
e a América Latina, não apenas em seus termos políticos, mas principalmente
no que diz respeito ao olhar estrangeiro sobre nossa cultura, arte, arquitetura e
sociedade. Ou seja, as propostas de aproximação cultural promovidas pela Polí-
tica da Boa Vizinhança.
Além desta pesquisa em Austin, com a ajuda de Dion e Raymond Neutra (filhos
de Richard Neutra) e Simon Elliott (responsável pelo acervo de Neutra, que já vi-
nha colaborando com a pesquisa), foi possível consultar o acervo Neutra Collec-
tion na Library of Special Collections da UCLA. Nele, foram coletados documen-
tos (correspondências, telegramas, artigos, recortes de jornais, etc.) e desenhos
que comprovam a relação de Richard Neutra com o governo dos Estados Uni-
dos, com os arquitetos e universidades latino-americanas, com os arquitetos e
personalidades brasileiros e, em especial, com o paisagista Roberto Burle Marx.
Nesta viagem, foi também possível conversar pessoalmente com Dion Neutra –
em sua casa projetada pelo pai, em Silverlake, em uma rua que hoje recebe o
nome Neutra Place – e com o historiador e professor da UCLA, Thomas Hines
– em sua casa, uma das três unidades do Kelton Apartments (1942) projetados
por Neutra em Westwood.

47. CRITELLI, Fernanda. Projeto para Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior Fapesp. Orientador Abilio Guerra.
São Paulo, Programa de Pós em Arquitetura, FAU Mackenzie, jun. 2014.

43
Após a reunião de todas estas informações – obtidas nas várias fases de pes-
quisa, desde a iniciação científica até a viagem aos Estados Unidos – optou-se
por estruturar o trabalho na seguinte ordem: partindo do âmbito mais geral da
América Latina, a dissertação passará a ter foco especial no Brasil, para termi-
nar com a apresentação do caso particular da relação de Neutra com o brasilei-
ro Roberto Burle Marx, único contato que resultou em obra construída.
Assim, o Capítulo 1 discutirá o contexto histórico em que esta relação se deu.
Num primeiro momento, o objetivo será compreender a relação Estados Uni-
dos-Brasil em seus termos políticos e seus efeitos no campo da arte e da arqui-
tetura. A partir daí, ficam estabelecidas as bases que levaram Neutra primeiro à
Porto Rico depois para a América do Sul, respectivamente em 1944 e 1945. Por
fim, este capítulo apresentará dois textos, publicados na revista norte-americana
Progressive Architecture, que mostram o interesse de Richard Neutra pela paisa-
gem, cultura e arquitetura latino americana.
O Capítulo 2 tratará da relação específica de Neutra com os brasileiros. Usando
como base as correspondências e documentos coletados em diversos acervos,
em especial os da Neutra Collection da UCLA, o objetivo deste capítulo é ma-
pear de forma abrangente os contatos pessoais estabelecidos no Brasil e o inte-
resse de nossos arquitetos em conhecer e estudar as obras do mestre austríaco/
norte-americano. Neste contexto, ganham relevância as outras três viagens con-
secutivas feitas ao Brasil: em 1957, quando visitou o Rio de Janeiro; em 1958,
período em que voltou ao Rio e visitou Brasília ainda em construção; e em
1959, quando participou do Congresso Internacional Extraordinário de Críticos
de Arte ocorrido em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Por fim, o Capítulo 3 tem por objetivo tratar das interlocuções entre Richard
Neutra e o Brasil, tanto daquilo que os arquitetos brasileiros apreenderam dos
projetos de Neutra quanto daquilo que ele levou daqui para suas obras. Neste
caso, surge com grande importância o caso específico da relação com o paisa-
gista Roberto Burle Marx e, para isso, serão estudados os diálogos entre eles e
uma obra realizada em parceria: a casa Schulthess em Havana, Cuba.

44
LISTA DE IMAGENS APRESENTAÇÃO

Imagem 1 - Richard Neutra, auto-retrato, 1917. Fonte: HINES. Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architecture, p.43.
Imagem 2 - Richard Joseph Neutra (1872-1970). Fonte: <www.docomomo-noca.org/architects/neutra-richatrd/>
Imagem 3 - Travel Sketch, Bérgamo, 1913. Fonte: Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architecture, p.24.
Imagem 4 - Fotografia de Lux e Ernest Freud tirada por Richard Neutra. Fonte: Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architecture, p.53.
Imagem 5 - Travel Sketch, Trebinje, 1915. Fonte: Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architecture, p.40.
Imagem 6 - Adolf Loos (1870-1933). Fonte: <http://www.jbdesign.it/idesignpro/Adolf%20Loos.html>
Imagem 7 - Eric Mendelsohn (1887-1953). Fonte: COBBERS, Arnt. Mendelsohn, contracapa.
Imagem 8 - Richard e Dione Neutra, 1922. Fonte: Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architecture, p.56.
Imagem 9 - Frank Lloyd Wright (1867-1959). Fonte: <www.franklloydwright.org/about/Timeline.html>
Imagem 10 - Richard e Dione Neutra na Taliesen junto à Frank Lloyd Wright e seus aprendizes, 1924. Fonte: HINES. Thomas S. Richard Neutra and the Search for Mo-
dern Architecture, p.74.
Imagem 11 - Frank Lloyd Wright e Richard Neutra, Taliesen, 1924. Fonte: HINES. Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architecture, p.72.
Imagem 12 - California Calls You, 1921. Fonte: Acervo The Dolph Briscoe Center for American History, Universidade do Texas em Austin.
Imagem 13 - Rudolph Schindler junto à Richard, Dione e Dion Neutra, Los Angeles, 1928. Fonte: HINES. Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architec-
ture, p.78.
Imagem 14 - Casa King’s Road, Rudolph Schindler, 1921-22. Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 15 - Edifício para a Liga das Nações, proposta de Neutra e Schindler, 1926. Fonte: HINES. Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architecture,
p.90.
Imagem 16 - Casa Llovel, 1927. Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 17 - Casa Llovel, 1927. Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 18 - Escola Corona, 1935. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.112.
Imagem 19 - Escola Emerson, 1937-38. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.141.
Imagem 20 - Escola Emerson, 1937-38. Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 21 - Avion Village, 1941. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.160.
Imagem 22 - Hacienda Village, 1942. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.163.
Imagem 23 - Pueblo del Rio, 1942. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.169.
Imagem 24 - Channel Heights, 1941-42. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.173.

45
CAPITULO 1 – MENSAGEIRO DA BOA VONTADE
RELAÇÃO ESTADOS UNIDOS – BRASIL

Durante e, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial, a arquitetura norte


-americana passou a receber forte estímulo e patrocínio governamental.1 Os es-
forços de reconstrução pós-guerra e de consolidação da hegemonia dos Estados
Unidos frente ao continente americano envolveram a participação de grupos
como o CIAM e o AIA (American Institute of Architects) e de arquitetos interna-
cionalmente conhecidos como, por exemplo, José Luis Sert, Paul Lester Wiener e
Richard Neutra, dentre outros. Estes três arquitetos em especial estiveram envol-
vidos com propostas do Departamento de Estado norte-americano para solucio-
nar problemas econômicos e sociais que pudessem ser portas de entrada para o
comunismo no hemisfério ocidental. Após a derrota do nazismo, a política norte
-americana se volta contra a expansão da influência dos ex-aliados soviéticos.
José Luis Sert e Paul Lester Wiener, sócios no escritório Town Planning Associates
entre 1942 e 1959,2 tiveram grande importância em consultoria e planejamento
de cidades na América Latina, como é o caso da Cidade dos Motores no Brasil.3
Projeto de 1942 para a Fábrica Nacional de Motores – e que seria implantado
na baixada fluminense, entre o Rio de Janeiro e Petrópolis4 –, fora fruto de uma
operação política norte-americana de aproximação com os países da América
do Sul dadas as vitórias nazistas e o medo de sua expansão na América. In-
dicado por seu sogro e Secretário do Tesouro no governo de Roosevelt, Henry
Morgenthau, Wiener seria nomeado Conselheiro no campo cultural de planeja-
mento arquitetônico para a América Latina do Departamento de Estado.5 Assim,
juntamente com Sert, viajaram pelos países ao sul do rio Grande e lá estabele-
ceram contatos e trabalharam em projetos de planejamento urbano.

1. HINES, Thomas S.; DREXLER, Arthur. The architecture of Richard Neutra: from International Style to California
modern, p. 20.
2. J.L. Sert: A nomadic dream. <http://www.jlsertfilm.com/about/>
3. COSTA, Alcilia Afonso de Albuquerque. As contribuições arquitetônicas habitacionais propostas na Cidade
dos Motores (1945-46). Town Plannings Associates. Xerém, RJ. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 124.01, Vitru-
vius, set. 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.124/3575>.
4. Idem, ibidem.
Imagem 1 - Josep Lluis Sert (1902-1983).
5. ROVIRA, Josep M. José Luis Sert: 1901-1983, p. 113.
Imagem 2 - Perspectiva Cidade dos Motores.
49
50
“Brasil era para ser o primeiro país de destino na América do Sul, e
Sert e Lester seriam seus visitantes, encarregados de espalhar a ‘boa
notícia’. (...) A viagem deve ter dado uma boa impressão em certos
círculos universitários brasileiros, como pode ser deduzida a partir
das cartas que Lester recebeu regularmente daquele país. A prática
continuou a ser incentivada pelo Departamento de Estado norte-ame-
ricano ao longo de 1943, o ano em que Lester escreveu um opúsculo
com o título inequívoco: Uma nova era cultural as Américas”.6

Já a relação de Richard Neutra com o governo norte-americano, que remonta


ao início da década de 1930, quando se dedica aos projetos de escolas e habi-
tações sociais comentados na Apresentação, se consolidou com a sua contrata-
ção como consultor do Committee on Design of Public Works de Porto Rico e sua
posterior viagem de reconhecimento pela América do Sul. Neste sentido, para
que o assunto da relação de Neutra com os latino-americanos – e, em especial,
com o Brasil – seja melhor compreendido, a discussão terá início no esclareci-
mento do que foi a política externa adotada por Franklin Roosevelt para as re-
públicas irmãs do continente americano.
Quando o assunto em questão procura discutir o relacionamento entre os Es-
tados Unidos e os demais países do continente americano, o polêmico termo
imperialismo estará inevitavelmente presente. Definido basicamente como “um
conceito multifacetado nas relações internacionais que se refere à extensão for-
çada do controle de uma nação sobre outras sociedades”,7 é, em geral, tido
como uma atitude predatória de um Estado economicamente mais consolidado
sobre outro ainda em desenvolvimento. No entanto, neste trabalho optou-se por
relativizar a briga “vilão versus vítima” em prol de uma análise que contemple
também os ganhos com o intercâmbio cultural que o jogo político inter-ameri-
cano proporcionou. Ou seja, o imperialismo aqui será tratado segundo a ótica
adotada pelo historiador Antonio Pedro Tota8 – em seu caráter sedutor, onde os

6. “Brazil was to be the first country of destination in South America, and Sert and Lester were to be its visitors,
charged with spreading the “good news”. (...) The trip must have made quite an impression in certain Brazilian
university circles, as can be deduced from the letters that Lester regularly received from that country. The practice
continued to be encouraged by the north American Department of State throughout 1943, the year in which
Página anterior: Lester wrote an opuscule with the unequivocal title: Uma nova era cultural para as Américas (A new cultural era
Imagem 3 - Perspectiva Centro Cívico, Cidade dos Motores. for the Americas)”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 114.
7. “a multifaceted concept in international relations that refers to a nation’s forcible extension of its control over
Nesta página: other societies”. Tradução da autora. DENT, David W. Historical dictionary of U.S.-Latin American relations, p.
237.
Imagem 4 - Carta de Santiago Iglesias Jr. (Puerto Rico Planning, Urba-
nizing and Zoning Board) para Richard Neutra, 1945. 8. TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda Guerra.

51
Imagem 5 - Carta de Jacob Crane (Coordenador Assistente. Division
of Defense Housing Coordination, Executive Office of the President)
para Richard Neutra, 1941.
52
interesses políticos, econômicos e diplomáticos do império do norte se faziam
valer com contrapartidas reais para os aliados mais pobres.
No início do século XIX, o presidente norte-americano James Monroe, em seu
discurso anual para o Congresso, anunciou a adoção de uma política protecio-
nista em relação ao hemisfério ocidental9 baseada em sua própria experiência
colonial de proteção das bordas contra forças europeias.10 Assim, a Doutrina
Monroe – como ficou posteriormente conhecida – colocava a América fora da
zona de influência política da Europa11:
“Em primeiro lugar, o princípio da não-colonização afirmou que o
hemisfério estava fechado para novas colonizações, em particular
os esforços dos movimentos britânicos e russos para construir novas
colônias na costa noroeste da América do Norte. Em segundo lugar,
a Doutrina Monroe estabelecia a doutrina da não-intervenção, com
base no receio de que as potências européias poderiam tentar recolo-
nizar a América Latina para a Espanha. Em terceiro lugar, a Doutrina
Monroe declarou uma versão do isolacionismo em que os Estados
Unidos se comprometeram a ficar fora de conflitos europeus se a Eu-
ropa fizesse o mesmo no hemisfério ocidental”.12

9. DENT, David W. Op. cit, p. 301.


10. LEONARD, Thomas M. United States-Latin American relations, 1850-1903, p. 1.
11. Idem, ibidem, p. 2.
12. “First, the principle of non-colonization stated that the hemisphere was closed to further colonization, particu-
larly efforts by British and Russian moves to build new colonies on the northwest coast of north-America. Second,
the Monroe Doctrine set forth the doctrine of non-intervention, based on the fear that European powers might try
to recolonize Latin America for Spain. Third, the Monroe Doctrine stated a version of isolationism in which the
United States pledged to stay out of European conflicts if Europe did the same in the western hemisphere”. Tradu-
ção da autora. DENT, David W. Op. cit, p. 301.
Imagem 6 - Doutrina Monroe.
53
Apesar desta política se basear em um discurso altruísta, a verdade é que o
mercado interno norte-americano estava saturado e o país precisava buscar ou-
tros consumidores e fornecedores. Se a Europa já representava uma grande par-
cela da sua exportação, por outro lado dominava os mercados da Ásia e Áfri-
ca13, restando ao Estados Unidos olhar para seus vizinhos ao sul do rio Grande.
Imbuído de uma leitura marxista-socialista14, o autor russo Anaioly Glinkin afir-
ma que o monopólio dos Estados Unidos frente aos latino-americanos
“transformou os Estados da região em fornecedores de matérias-pri-
mas e produtos agrícolas para os mercados mundiais. O Brasil, por
exemplo, tornou-se o país do café, a América Central era conhecida
como a República das Bananas e Cuba era referida como o açucarei-
ro do mundo. Ao mesmo tempo, as potências capitalistas desenvol-
vidas aumentaram significativamente o uso da força armada contra
os Estados da região, a fim de obter o controle deles e obrigá-los a
assinar tratados desiguais”.15

Ou seja, conforme afirma Fernando Atique, embora a política externa america-


na se colocasse apenas como protecionista em relação à expansão territorial e
de influência da Europa no continente americano, “em certas ocasiões, os Esta-
dos Unidos poderiam passar de defensores a exploradores do continente, dando
nova interpretação à Doutrina”.16
Aqui vale um parênteses para explicar a denominação dos territórios america-
nos. Os Estados Unidos, em sua demonstração de superioridade e, consequen-
temente, modelo a ser seguido pelo restante do continente, definia por América
“aquilo de mais bem acabado em termos de política, religião e cultura – seu
próprio país”.17 No entanto, não foram os yankees que inventaram o termo
América Latina. A ideia de América Latina surgiu de uma tentativa francesa em
exercer influência entre os povos de origem latina – ou seja, de descendência

13. Idem, ibidem, p. 5.


14. GLINKIN, Anaioly. Inter-American relations: from Bolívar to the present, p. 10-11.
15. “turned the states of the region into suppliers of raw materials and agricultural products for the world marke-
ts. Brazil, for example, became a coffee country, the Central American states were known as Banana Republics
and Cuba was referred to as the sugar bowl of the world. At the same time the developed capitalist powers
sharply increased the use of armed force against the states of the region in order to get control of them and force
them into signing unequal treaties”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 47.
16. ATIQUE, Fernando. Arquitetanto a “Boa Vizinhança”: Arquitetura, Cidade e Cultura nas relações Brasil-Esta-
dos Unidos 1876-1945, p. 36.
17. Idem, ibidem, p. 27.

54
francesa, italiana, espanhola e portuguesa – na América, como forma de se
opor ao avanço anglo-saxão.18 Tanto Simon Bolívar quanto José Marti defen-
diam uma união das ex-colônias ibéricas ainda no século XIX, mas foram os
intelectuais franceses que deram vida ao termo América Latina. Assim, a conso-
lidação do uso americanos para denominar os Estados Unidos e América Latina
para os demais territórios ao sul do Rio Grande marcava, de um lado, um dis-
tanciamento entre eles e, de outro, uma possivel identidade comum dos países
de língua latina.19
Ora, este distanciamento se tornara mais agravante quando, com o fim da
Primeira Guerra Mundial e a posterior crise gerada pela queda da Bolsa de Va-
lores de Nova York em 1929, os Estados Unidos enfrentavam duas novas amea-
ças: a depressão econômica e o avanço do nazismo pela Europa. Em ambos os
casos, na tentativa de proteger o continente, os norte-americanos precisariam
reverter a imagem de mau vizinho que tinham naquele momento, em uma ten-
tativa de diminuir o distanciamento entre eles e o restante da América. Neste
sentido, a figura de Franklin D. Roosevelt surgiu, em 1933, com a promessa de
uma política intervencionista do Estado na economia que iria reerguer a nação.
Mas, para que esta política do New Deal – como ficou conhecida – tivesse êxito
na geração de empregos, o país deveria mais uma vez olhar com atenção para
seus vizinhos do sul para ampliar o mercado consumidor.
“A recuperação dos Estados Unidos da depressão econômica na dé-
cada de 1930 exigiu a expansão dos mercados externos para pro-
dutos manufaturados, bem como crescentes suprimentos de matérias
-primas e novos caminhos para investimentos”.20

Página anterior:
Imagem 7 - Franklin Roosevelt (1882-1945). 18. Idem, ibidem, p. 25-26.
Imagem 8 - Eleição de Franklin Roosevelt para presidência dos Esta- 19. Idem, ibidem, p. 26-27.
dos Unidos, 1933. 20. “United States recovery from economic depression on the 1930s demanded expanding foreign markets for
manufactured goods, as well as growing supplies of raw materials and new avenues for investments”. Tradução
Nesta página: da autora. MOURA, Gerson. Brazilian foreign relations 1939-1950: the changing nature of Brazil-United States
relations during and after the Second World War, p. 53. Apud: GREEN, D. The containment of Latin America, p.
Imagens 9 e 10 - Cartaz do governo norte-americano. Works Progress 18-20.
Administration – WPA.
55
E, para garantir a integridade do continente americano frente à ameaça nazista
– ou seja, para garantir a soberania norte-americana em detrimento da euro-
péia –, o presidente Roosevelt apostou em uma política de aproximação cultural
e solidariedade econômica. Com a Política da Boa Vizinhança, os Estados Uni-
dos estariam, portanto, deixando de lado a agressividade característica do Big
Stick e anunciando um esforço de cooperação hemisférica e a promessa de não
-intervenção. No entanto, isto não significou que eles não iriam defender seus
interesses econômicos na América Latina.21 O tom parecia ter abrandado, mas
as bases continuavam apoiadas na Doutrina Monroe.
“Os métodos mudaram, mas os objetivos permaneceram os mesmos:
minimizar a influência européia na América Latina, manter a lideran-
ça norte-americana e encorajar a estabilidade política do continente.
[...] Impedido, por razões de política interna, de atuar no tabuleiro
europeu, o governo Roosevelt concentrou seus esforços na América
Latina, procurando aqui os recursos políticos e materiais que consti-
tuissem uma base sólida para os futuros movimentos no xadrez uni-
versal”.22

No entanto, ainda segundo afirma Gerson Moura, até o final da década de


1930, o governo dos Estados Unidos ainda não tinha uma ideia clara das for-
mas de agir desta Política da Boa Vizinhança. Sabia-se que uma atitude de soli-
dariedade continental demandava programas de assistência econômica, mas as
diversas agências governamentais – Departamento de Estado, Tesouro e Exim-
bank (Export-Import Bank of the United States) – adotavam medidas diferentes e,
por isso, frequentemente entravam em conflito.23 Por fim, em maio de 1938, o
secretário de Estado norte-americano Cordell Hull reorganizou a Divisão das Re-
públicas Americanas dentro do Departamento de Estado, absorvendo as antigas
Divisões da América Latina e do México.24

21. DENT, David W. Op. cit, p. 197-198.


22. MOURA, Gerson. Tio Sam chega ao Brasil: a penetração cultural americana, p. 18-19. Segundo afirma An-
tonio Pedro Tota, desde o final da Primeira Guerra Mundial os Estados Unidos optaram por não se envolverem
com a política europeia. TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da
Segunda Guerra, p. 42.
23. MOURA, Gerson. Brazilian foreign relations 1939-1950: the changing nature of Brazil-United States relations
during and after the Second World War, p. 53-54.
Imagem 11 - Las Américas unidas para la victoria y el progresso
24. McCANN JR, Frank D. The Brazilian-American alliance, 1937-1945, p. 106-107.
humano.
56
É importante ressaltar que dois países eram vistos com especial atenção pelo
governo norte-americano: México e Brasil. No primeiro caso, além da óbvia
questão de fazer fronteira com os Estados Unidos, havia o interesse na extração
de petróleo e borracha – produtos importantes para o período de guerra – e
na possibilidade de mão de obra barata.25 Já no caso brasileiro, o país desem-
penhava uma posição política influente frente à América do Sul e esta aliança
poderia garantir a hegemonia norte-americana na região.26 Além disso, a costa
brasileira – por sua dimensão e posicionamento no Oceano Atlântico – repre-
sentavam um ponto estratégico para defesa do continente contra uma possível
investida nazista vinda da África.27
Mas não era apenas com a expansão territorial alemã que os Estados Unidos se
preocupavam. Grande parte das repúblicas latino-americanas eram governadas
por líderes com tendências autoritárias, fato considerado um ponto frágil, uma
porta aberta para a influência do totalitarismo europeu, em especial do nazis-
mo.
“Para muitos observadores nos Estados Unidos, a América Latina
parecia sensível a uma penetração, ou até mesmo invasão, política,
cultural e econômica da Alemanha nazista. Poucos observadores nos
Estados Unidos confiavam na firmeza de governos latino-americanos
quando se tratava de resistir às seduções da Alemanha nazista e de
seus aliados fascistas. A democracia não havia se enraizado na maio-
ria dos países ao sul do Rio Grande e, mesmo que os sábios analistas
fizessem distinção entre o estilo latino autoritário e as marcas mais
recentes de totalitarismo europeu, eles ainda os tinham como bastan-
te compatíveis em termos de práticas políticas”.28

25. PAQUETTE, Catha. Soft power: the art of diplomacy in US-Mexican relations, 1940-1946, p. 145. In: CRA-
MER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs (1940-
46).
26. McCANN JR, Frank D. Op. cit, p. 7.
27. Idem, ibidem, p. 213.
28. “To many observers in the United States, Latin America seemed ripe for a political, cultural and economic
penetration, or even invasion, by Nazi Germany. Few observers in the United States trusted in the steadfastness of
Latin American governments when it came to resisting the lures of Nazi Germany and its fascist allies. Democracy
had not taken root in most of the countries South Rio Grande, and while knowledgeable analysts distinguished
between Latin-style authoritarianism and the newer brands of European totalitarianism, they still viewed them as
being rather compatible in practical policy terms”. Tradução da autora. CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Nel-
son A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs and the quest for Pan-American union: an introductory essay,
p. 15. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American
Affairs (1940-46).

57
No caso do Brasil não foi diferente. O governo de Getúlio Vargas (1930-1945)
caracterizou-se por uma dualidade entre as duas potências29: ao mesmo tempo
em que assinávamos o Tratado de Reciprocidade com os Estados Unidos (1935),
negociávamos o Acordo de Compensação com a Alemanha (1934 e 1936).30 E,
apesar deste fato retratar tudo aquilo pelo qual Roosevelt lutava contra, segun-
do afirma o historiador Antonio Pedro Tota, a crescente ameaça de um conflito
mundial guiava as decisões do governo norte-americano de forma a evitar reta-
liações.31 Mesmo após o Golpe de 1937, momento no qual Vargas instaurou a
ditadura, Roosevelt manteve seu apoio ao governo, afinal a “estabilidade brasi-
leira era essencial para os planos de defesa dos Estados Unidos bem como para
os acordos comerciais”.32
Em 1940, com a Segunda Guerra em curso na Europa, Franklin Roosevelt con-
cluiu que era necessário intensificar as relações interamericanas para garantir a
defesa do continente. E, para isso, acreditava-se que a aproximação cultural era
o método garantido para se obter, de forma indireta, influência nestes países.33
Assim, em agosto daquele ano, e sob muita resistência do Departamento de
Estado34, foi criada, em caráter emergencial, uma agência que coordenaria as
políticas voltadas à América Latina: Office of Inter-American Affairs (OIAA), que
mais tarde ficaria conhecido como Office of the Coordinator of Inter-American
Affairs (OCIAA).35

29. MOURA, Gerson. Brazilian foreign relations 1939-1950: the changing nature of Brazil-United States relations
during and after the Second World War, p. 68.
30. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil, p. 250-251.
31. TOTA, Antonio Pedro. O amigo americano: Nelson Rockefeller e o Brasil, p. 79.
32. “Brazilian stability was essential to the hemispheric defense plans of the United States and to American tra-
de”. Tradução daautora. McCANN JR, Frank D. Op. cit, p. 8.
33. LUBKEN, Uwe. Playing the cultural game: the United States and the Nazi threat to Latin America, p. 60. In:
CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs
(1940-46).
34. Em julho de 1938, também com o objetivo de obter apoio dos países vizinhos no inevitável envolvimento
com o conflito europeu, o Departamento de Estado norte-americano criou a Divisão de Relações Culturais. Esta
nova Divisão propôs levar intelectuais latino americanos aos Estados Unidos e ajudá-los a estabelecer conexões
pessoais e institucionais em solo norte-americano. Um exemplo deste intercâmbio foi o convite estendido ao
então jovem escritor Érico Veríssimo de viajar pelos Estados Unidos entre janeiro e abril de 1941, com o objetivo
de se encontrar com políticos e empresários e de ministrar palestras sobre a literatura e sociedade brasileiras. Imagem 12 - Getúlio Vargas (1882-1954).
Sobre o assunto, ver: SMITH, Richard Cândida. Érico Veríssimo, a Brazilian Cultural Ambassador in the United Imagem 13 - Eleanor Roosevelt autografando a pele de uma cobra
States. Revista Tempo, vol.17, n.34, jan-jun 2013, p.147-173. A menção a essa participação do literato foi feita em Natal, 1944.
por Ruth Verde Zein por ocasião da banca final de defesa do presente trabalho.
35. CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs and the quest for
Próxima página:
Pan-American union: an introductory essay, p. 15-16. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas!
Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs (1940-46). Imagem 14 - Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt no Rio de Janei-
ro, 1936.
58
59
Coordenado pelo jovem multimilionário Nelson A. Rockefeller até fins de
194436, o Office tinha por objetivo disseminar o Pan-Americanismo. Este termo
– que fora empregado, pela primeira vez, pelo jornal The New York Evening Post
em junho de 1882 – surge como forma de expressar um ideal de integração en-
tre as repúblicas americanas, seguindo o modelo “dos movimentos pan-eslavo
e pangermânico na Europa”.37 E foi com este conceito de unidade e coopera-
ção, muito incentivado por cidadãos norte-americanos que tinha interesse em
ampliar mercados consumidores e acordos comerciais,38 que o governo dos Es-
tados Unidos lançou bases para as conferências inter-americanas, alianças em
tempos de guerra e tratados de comércio.39
Este conceito de Pan-Americanismo, reavivado pela Política da Boa Vizinhança
de Roosevelt,40 foi amplamente utilizado pelo Office de Rockefeller
“quando se pretendia incutir o que foi chamado de compreensão
solidária entre não apenas os aliados, mas repúblicas irmãs, e um
senso de propósito e destino comum que os separasse não apenas
da Alemanha nazista e do Eixo, mas também da Europa e do resto
do mundo”.41

A escolha de Nelson Rockefeller para coordenar esta nova agência do governo


norte-americano não foi por acaso. Herdeiro da famosa companhia de petróleo
Standart Oil – fundada por John D. Rockefeller, seu avô, em janeiro de 187042
–, Nelson acreditava que a consolidação do continente americano contra as
ameaças externas somente seria possível se houvessem mudanças na forma dos
Estados Unidos se relacionarem com a América Latina.43 E, após uma viagem

36. Idem, ibidem.


37; SANTOS, Luís Cláudio Vilafañe Gomes dos. O Brasil entre a América e a Europa. Apud: ATIQUE, Fernando.
Op. cit, p. 22.
38. GONZÁLES, Robert. Designing Pan-America: U.S. architectural visions for the western hemisphere, p. 3.
39. DENT, David W. Op. cit, p. 334.
40. Idem, ibidem.
41. “when seeking to instill what was called sympathetic understanding between not just allies, but sister republi-
cs, and a sense of common purpose and destiny that set them apart not only from nazi Germany and the Axis,
but also from Europe and the rest of the world”. Tradução da autora. CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Nel-
son A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs and the quest for Pan-American union: an introductory essay,
p. 19-20. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-Ame- Imagem 15 - Nelson Rockefeller (1908-1979).
rican Affairs (1940-46).
42. TOTA, Antonio Pedro. Op. cit, p. 25. Próxima página:
Imagem 16 - Cartaz do filme That night in Rio, estrelado por Carmen
43. Idem, ibidem, p. 68.
Miranda, 1941.
60
de reconhecimento feita, por iniciativa própria, pelos países da América do Sul,
em 1937, “entendeu melhor as propostas do New Deal de Roosevelt e mudou
muitas das opiniões que tinha sobre as transformações que ocorriam na Améri-
ca Latina, em especial no Brasil”.44 Opinião esta que levou o presidente Franklin
Roosevelt a considerá-lo a melhor opção para dirigir as ações do Office.45
Representando, portanto uma ação combinada entre o poder público e a inicia-
tiva privada,46 o Office of the Coordinator of Inter-American Affairs investiu em
questões de aproximação cultural entre os Estados Unidos e a América Latina:
como em uma via de mão dupla, pretendia-se apresentar o bom vizinho norte
-americano às repúblicas latinas e, ao mesmo tempo, levar à população dos Es-
tados Unidos a cultura e os costumes latino-americanos. 47 E, para isso, usou da
propaganda, rádio, cinema e revistas para divulgar o American Way of Life – em
detrimento da propaganda de guerra nazita – e, no outro sentido, mensagens
controladas informavam o governo norte-americano sobre o que acontecia na
política internacional dos seus vizinhos latinos.48
A importância ocupada por figuras como a cantora Carmen Miranda, o maes-
tro Villa Lobos e a criação dos personagens Zé Carioca e Panchito – criados por
Walt Disney para representar, respectivamente, o Brasil no filme Alô, amigos
de 1942 e o México em Los tres caballeros de 1944 (conhecido no Brasil como
Você já foi à Bahia?) – faz parte das ações adotadas pelo Office como forma de
divulgar o South American Way of Life.

44. Idem, ibidem, p. 90.


45. Idem, ibidem.
46. LUBKEN, Uwe. Op. cit, p. 63. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Op. cit.
47. LIERNUR, Jorge Francisco. The south american way. O milagre brasileiro, os Estados Unidos e a Segunda
Guerra Mundial – 1939-1943. In: GUERRA, Abilio (org.). Textos Fundamentais: Sobre a história da arquitetura
moderna brasileira – Parte 2, p. 172.
48. CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs and the quest for
Pan-American union: an introductory essay, p. 20. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Op. cit.

61
Imagem 17 - Villa Lobos e Walt Disney, 1941.
Imagem 18 - Pato Donald e Zé Carioca no Rio de Janeiro.
Imagem 19 - Zé Carioca, Panchito e Pato Donald no México.
62
“O que, especificamente, foram as conquistas das políticas dos filmes
do OIAA? Nos Estados Unidos, eles foram feitos para convencer o
público a deixar sentimentos patrióticos de lado e abraçar os bons
vizinhos do sul, não apenas como consumidores, mas também como
estudantes, parceiros, aliados estratégicos e colegas americanos. Na
América Latina, eles tentaram persuadir diversos públicos para apoiar
não só o aumento da cooperação econômica, estratégica e militar
com os Estados Unidos como um expediente para ganhar a guerra,
mas para abraçar, se não adotar, os estilos de vida e costumes origi-
nários na mídia impressa e rádio americanos, muito insistentemente
aproveitados para esse fim”.49

Mas não era apenas com a aproximação cultural que o Office estava preocupa-
do. Dentre seus objetivos estava a análise e solução de problemas econômicos e
sociais da América Latina.50 De acordo com o autor Michael Blumenthal, em sua
tese de doutorado The economic Good Neighbor aspects of United States econo-
mic policy toward Latin America in the early 1940’s as revealed by the activities
of the Office of Inter-America Affairs, Nelson Rockefeller também estaria encar-
regado, através do OCIAA, de preservar e fortalecer os acordos comerciais inter
-americanos para benefício mútuo entre os Estados Unidos e os países latinos.51
Ou seja, pretendia-se, com isso, solucionar questões que poderia vir a se tornar
pontos de entrada do nazismo na América.
E, para que esta política obtivesse sucesso, foram estabelecidas sedes do Offi-
ce em todas as regiões do continente: México, América Central – Costa Rica, El
Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua – e Brasil.52 Sendo estes comitês
formados por cidadãos americanos bem-sucedidos que moravam e tinham ne-
gócios na região e, principalmente, que mantinham boas relações em tais co-
munidades.53

49. BENAMOU, Catherine L. Dual-engined diplomacy: Walt Disney, Orson Weller, and Pan-American film policy
during the World War II, p. 109. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Op. cit.
50. BLUMENTHAL, Michael D. The economic Good Neighbor aspects of United States economic policy toward
Latin America in the early 1940s as revealed by the activities of the Office of Inter-American Affairs, p. 3.
51. Idem, ibidem, p. 26.
52. CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Op. cit.
53. LEONARD, Thomas M. The OIAA in Central America: the Coordination Committees at Work, p. 285. In:
CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Op. cit.
Imagem 20 - Exposição de Cândido Portinari no MoMA, 1940.
63
No caso específico do Brasil, o Office financiou programas de intercâmbio para
artistas e intelectuais:
“Quando o muralista brasileiro Cândido Portinari foi contratado para
criar um ciclo de pintura de quatro partes para a Divisão Hispânica
da Biblioteca do Congresso, George Biddle, o irmão do advogado
norte-americano Francis Biddle, também um muralista, viajou para o
Rio de Janeiro como parte do intercâmbio. Lá, ele criou dois afrescos
sobre a guerra na Biblioteca Nacional, onde permanecem até ho-
je”.54

A segunda visita de Nelson ao Brasil – agora oficial, como representante do pre-


sidente Franklin Roosevelt –, em setembro de 1942, logo após o governo de Ge-
túlio Vargas ter declarado guerra à Alemanhã e à Itália,55 não foi apenas uma
formalidade. Segundo conta o historiador Antônio Pedro Tota em seu livro O
amigo americano: Nelson Rockefeller e o Brasil, Nelson trazia consigo sugestões
para o desenvolvimento econômico brasileiro. E foi também durante esta via-
gem que fora assinado um acordo, entre o Office e o Ministério da Agricultura,
para a produção de alimentos no nordeste e Amazônia.56 O ideal destes pro-
jetos econômicos elaborados por especialistas do OCIAA era garantir o acesso
a matérias-primas necessárias ao esforço de guerra ao mesmo tempo em que
buscavam planejar um Brasil bem estruturado para o pós-guerra.57
Além das intenções econômicas, o Office de Nelson usava a aproximação
cultural como forma de melhor definir o continente americano. E, através do
OCIAA’s Division of Cultural and Educational Activities – comandado pelo arqui-
teto norte-americano Wallace K. Harrison que, juntamente com Le Corbusier e
Oscar Niemeyer, integrou a equipe de projeto e construção da sede da ONU em
Nova York –, foram estabelecidos diversos projetos culturais com suporte institu-
cional. “O OCIAA definiu as bases de entendimento e colaboração inter-ameri-
cana, bem como a identificação e celebração de uma civilização latino-america-
na”.58

54. PRUTSCH, Ursula. Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs in Brazil, p. 266. In: CRAMER,
Gisela; PRUTSCH, Ursula. Op. cit.
55. Idem, ibidem, p. 249.
56. TOTA, Antonio Pedro. Op. cit, p. 104.
57; Idem, ibidem, p. 123.
58. DEL REAL, Patrício. Building a continent: The idea of Latin American architecture in the early postwar, p. 3-4.

64
Página anterior:
Imagem 21 - Pintura sobre a Segunda visita de Roosevelt ao Brasil
[óleo sobre tela], de Raymond Neilson, 1942.
Imagem 22 - Nelson Rockefeller recebe a coroa de guerreiro tupinam-
bá.

Nesta página:
Imagem 23 - Oscar Niemeyer (1907-2012) e Le Corbusier (1887-1965)
junto à equipe de arquitetos responsáveis pelo projeto da ONU,
Nova York.
Imagem 24 - Oscar Niemeyer trabalhando no projeto da nova sede da
ONU de Nova York, 1947.
65
Segundo afirma Patrício del Real, era preciso celebrar a América Latina como
uma região culturalmente reconhecida e capaz de contribuição única para a cul-
tura ocidental.59 Neste contexto, a arquitetura moderna brasileira foi vista como
a possibilidade de representação dos valores latino-americanos (regional) den-
tro do contexto de consolidação da cultura ocidental (internacional):
“A Segunda Guerra Mundial alimentou a necessidade dos Estados
Unidos em construir uma categoria regional, capaz de negociar di-
ferenças culturais dentro de uma Pan-América unificada geografica-
mente. (...) Este período manifestou o que eu chamo de uma unidade
metonímica, uma leitura hermenêutica de imagens que facilitou in-
terpretações duplas e ambíguas e, eventualmente, permitiu ao Brasil
representar a América Latina nas décadas de 1940 e 1950. Isso foi
possível porque o modernismo brasileiro tinha a capacidade de ser
ambíguo, de operar tanto como um marcador nacional quanto regio-
nal.60

Em 1939, o Pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Nova York – projeto


de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer em parceria com o arquiteto norte-america-
no Paul Lester Weiner – levou para os Estados Unidos o melhor da arte, cultura
e arquitetura brasileira: na parte interna, foram expostos painéis de Cândido
Portinari; no jardim, gigantescas vitórias-régias representavam a flora da Ama-
zônia; no restaurante, era servido o café brasileiro; a música era do maestro
Villa Lobos; e até mesmo Carmen Miranda – já muito conhecida pelo público
norte-americano – aparecia por lá. Alguns anos mais tarde, em 1943, o MoMA
organizou a exposição Brazil Builds: Architecture New and Old, 1652-194261
como forma de não apenas representar o estilo moderno latino-americano, mas
também como um possível modelo para o mundo pós-guerra.62 E esta promessa
apresentada ainda durante a guerra recebeu sua atualização quando, em 1955,

59. Idem, ibidem, p. 14-15.


60.“The Second World War fueled the need in the United States to construct a regional category capable of
negotiating cultural differences within a unified Pan American geography. (...) This period manifested what I call
a metonymic drive, a hermeneutical reading of images that facilitated dual and ambiguous interpretations and
eventually allowed Brazil to represent Latin America in the 1940s and 1950s. This was possible because Brazilian
modernism had the capacity to be ambiguous, to operate both as a national and regional marker”. Tradução da
autora. Idem, ibidem, p. 11-12.
61. Sobre a exposição, ver ROCHA, Ricardo. Resenhar Brazil Builds.
62. DEL REAL, Patrício. Op. cit., p. 141.

66
o museu organizou a exposição Latin American Architecture since 1945.63
“Com o MoMA, a arquitetura moderna foi levada para o âmbito das
relações culturais entre América Latina e Estados Unidos. A noção de
um modernismo latino-americano é fundamental para a compreen-
são de como a arquitetura moderna na região apareceu no cenário
internacional. Entre 1939 e 1955 os historiadores e críticos de arqui-
tetura fora da região notaram não apenas edifícios específicos, mas
também os contornos de uma forma moderna da América Latina,
não necessariamente como homogêneos, mas certamente como um
estilo identificável”.64

Nelson Rockefeller – que, além de coordenador do OCIAA entre 1940 e 1944,


foi também parte do conselho administrativo do Museu de Arte Moderna de
Nova York entre 1932 e 1979, tendo assumido cargo de presidência nos perío-
dos de 1939 à 1941 e 1946 à 1953 – conseguiu, através do MoMA, colocar em
prática muitas de suas ideias de aproximação cultural entre as Américas: estabe-
lecendo contatos pessoais e institucionais nas repúblicas irmãs65, a atuação do
museu lançou bases para uma rede de espionagem que marcou o período da
Guerra Fria.66 “MoMA serviu como um disfarce, ajudando a encobrir o que foi
efetivamente uma missão de inteligência”.67

63. Idem, ibidem, p. 24.


64. Idem, ibidem, p. 5-6. Curador assistente de arquitetura e design do MoMA, Patricio del Real é responsável,
ao lado de Barry Bergdoll, curador-chefe, pela exposição Latin American in Construction: Architecture 1955-
1980, curadorias regionais de Carlos Eduardo Comas (Brasil) e Jorge Francisco Liernur (países hispânicos).
Museu de Arte Moderna de Nova York – MoMA, de 29 de março a 19 de julho de 2015. Mais de setenta anos
após a mítica exposição Brazil Builds e exato meio século depois da exposição Latin American Architecture since
1945, ambas realizadas pelo MoMA, a instituição ainda se sente responsável pela aproximação entre os países
do continente e pela divulgação da arquitetura latino-americana qualificada para o cidadão norte-americano.
GNOATO, Luis Salvador. O Brasil novamente no MoMA de Nova York. Latin American in Construction: Architec-
ture 1955-1980.
65. DEL REAL, Patrício. Op. cit., p. 154-155.
Página anterior:
66. Idem, ibidem, p. 151.
Imagens 25 e 26 - Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York,
1939. 67. “MoMa served as a cover, helping conceal what effectively was an intelligence mission”. Tradução da auto-
ra. Idem, ibidem, p. 214. Apud: Letter, Nelson Rockefeller to René D’Harnoncourt. September 29, 1944. Folder
Imagem 27 - Jardim do Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova
1325, Series L, Box 135, Record Group 4, NAR Papers, RAC.
York, 1939.
67
Em meados de 1944, com a Segunda Guerra praticamente vencida pelos Alia-
dos, o Office de Rockefeller foi perdendo cada vez mais sua importância no go-
verno de Roosevelt68, até que, ao final daquele ano, a coordenadoria do OCIAA
passou para as mãos de Spuille Braden, ex-Embaixador dos Estados Unidos
na Argentina69, e Nelson fora nomeado Secretário Assistente para os Assuntos
das Repúblicas Americanas (1944-1945).70 O objetivo do presidente era agora
desmontar esta agência – criada em caráter emergencial –, ou seja, os assuntos
inter-americanos deixavam de ter papel principal na política dos Estados Unidos,
que agora se concentravam na reconstrução da Europa.71
Para Rockefeller e muitos de seus funcionários no Office, esta era uma situação
preocupante72:
“Em 1943, Rockefeller viu o desaparecimento e eventual fim do
OCIAA, pois o presidente Roosevelt tinha indicado seu desejo de que
o Departamento de Estado iria assumir a liderança e a responsabili-
dade principal pelo planejamento internacional do pós-guerra. A re-
localização da região dentro das considerações globais do Departa-
mento de Estado foi um sinal claro de que a preferência concedida à
América Latina por causa da guerra, iria acabar. Isto também redese-
nhou a esfera de influência e interesse de Rockefeller. Ele, no entanto,
não iria sair sem oferecer seu conselho”.73

68. TOTA, Antonio Pedro. Op. cit, p. 143.


69. Idem, ibidem, p. 172.
70. DENT, David W. Op. cit, p. 379.
71. TOTA, Antonio Pedro. Op. cit, p. 143-145.
72. Idem, ibidem, p. 166.
73. “In 1943, Rockefeller saw the demise and eventual end of the OCIAA, as President Roosevelt had ‘indicated
his desire that the Department of State assume the leadership and the major responsibility for international post
-war planning’. The relocation of the region within the global considerations of State Department was a clear sign
that the preference accorded to Latin America because of the war, would end. It also redrew Rockefeller’s sphere
of influence and interest. He, however, would not go without offering his advice”. Tradução da autora. DEL REAL,
Patrício. Op. cit, p. 203.

68
Nelson Rockefeller acreditava que a América Latina representaria papel impor-
tante na política externa norte-americana do pós-guerra e que, para isso, as
repúblicas irmãs precisavam continuar seu desenvolvimento econômico e indus-
trial para se consolidarem como Estados fortes na luta contra o comunismo.74
Assim, uma das primeiras iniciativas adotadas pelo jovem multimilionário foi ad-
quirir e doar um terreno no centro de Nova York para a construção da sede da
recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU).75 E, para este projeto, foi
organizada uma comissão de arquitetos que contou com a participação, dentre
outros, de Oscar Niemeyer, Wallace Harrison – ex-Diretor da Divisão de Ativida-
des Culturais e Educacionais do OCIAA – e Le Corbusier.
O gradual desmantelamento do Office of the Coordinator of Inter-American Af-
fairs, que culminou com seu definitivo fechamento em abril de 194676, coincidiu
com a adoção de uma política conservadora em relação à América Latina, es-
tabelecendo novos termos econômicos para a região e uma crescente opinião
pública negativa frente ao seu modernismo artístico.77 Rockefeller, no entanto,
continuava a defender a existência de uma América Latina consolidada para das
suporte aos Estados Unidos nesta nova fase mundial. Assim, colocou em prática
propostas de desenvolvimento econômico e industrial para a região: o Industrial
Research Institute of the Inter-American Development Commission – para o qual
assumiu a cadeira de presidente e Wallace Harrison a de coordenador78 –; e,
em 1947, criou o International Basic Economic Corporation (IBEC).79

74. Idem, ibidem, p. 205.


75. TOTA, Antonio Pedro. Op. cit, p. 172-173.
76. CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Nelson A. Rockefeller’s Office of Inter-American Affairs and the quest for
Pan-American Unity: an introductory essay, p. 16. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. Op. cit.
77. DEL REAL, Patrício. Op. cit, p. 17-18.
78. Idem, ibidem, p. 204.
Imagem 28 - Nelson no terraço do Rockefeller Center; ao fundo, o
79. Idem, ibidem, p. 17.
prédio da ONU.
69
“Embora Rockefeller tenha desempenhado um papel importante na
segurança e propaganda anti-nazista nos tempos de guerra, sua
maior contribuição foi a de criar o primeiro programa de ajuda eco-
nômica dos EUA para o México e para o restante da América Latina.
Presidente Harry S. Truman nomeou-o presidente do Conselho Con-
sultivo Internacional de Desenvolvimento, uma posição que ele usou
para influenciar Assuntos da América Latina através do financiamento
de projetos de desenvolvimento econômico e social. Enquanto Secre-
tário Adjunto de Assuntos das Repúblicas Americanas, assinou a Ata
de Chapultepec para os Estados Unidos em 1945. Durante os anos
1950 e 1960, trabalhou em estreita colaboração com a Agência
Central de Inteligência (CIA) e organizações religiosas ultra-conser-
vadoras para ajudar a espalhar os valores americanos e proteger os
interesses norte-americanos”. 80

Além destas propostas para o desenvolvimento econômico e industrial da Amé-


rica Latina, Nelson Rockefeller continuava a apostar na aproximação cultural
entre as Américas e no estabelecimento de relações pessoais e institucionais na
região. No caso específico do Brasil, esteve presente na inauguração do Museu
de Arte de São Paulo81 em 1948; e, através do MoMA, auxiliou a inauguração
dos Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro82 e de São Paulo.83
Tendo em vista essa política externa adotada pelos Estados Unidos para garantir
sua hegemonia frente às repúblicas ao sul do rio Grande é possível definir mais
claramente o envolvimento do arquiteto Richard Neutra: em primeiro lugar, com
o governo norte-americano; em segundo, com os arquitetos latino-americanos;
e, em terceiro, com o Brasil.

80. “Although Rockefeller played a major role in wartime security and anti-nazi propaganda, his major contribu-
tion was to create the first US economic assistance program for Mexico and the rest of Latin America. President
Harry S. Truman named him chairman of the International Development Advisory Board, a position he used to
influence Latin American Affairs by funding economic and social development projects. While Assistant Secretary
of American Republics Affairs he signed the Act of Chapultepec for the United States in 1945. During the 1950s
and 1960s he worked closely with the Central Intelligence Agency (CIA) and ultra conservative religious organi-
zations to help spread American values and protect American interests”. Tradução da autora. DENT, David W.
Op. cit, p. 380.
81. MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil, p. 501
82. TOTA, Antonio Pedro. Op. cit, p. 356.
Imagem 29 - Inauguração do Masp. Assis Chateaubriand, Nelson Ro-
83. Idem, ibidem, p. 348.
ckefeller, presidente Eurico Gaspar Dutra.
70
PORTO RICO

O envolvimento de Richard Neutra com o governo norte-americano se torna


relevante no estudo de suas relações com a América Latina a partir de dois
momentos: seu trabalho como consultor do Comitê de Obras Públicas de Porto
Rico, em 1944, e a viagem de reconhecimento feita pela América do Sul no ano
seguinte.
Começando pelo caso porto-riquenho, é importante fazer um paralelo para
melhor compreender a abrangência da política proposta por Roosevelt. A ilha
de Porto Rico, que se tornara território dos Estados Unidos ao final da Guerra
Hispano-Americana de 1898, sofria com problemas sócio-políticos e econô-
micos que se agravaram ainda mais durante o período da Grande Depressão
– em parte por ter uma economia baseada quase exclusivamente na produção
de açúcar, mas, principalmente, por sua dependência à economia norte-ame-
ricana.84 E esta situação de desigualdade na qual a ilha porto-riquenha se en-
contrava frente à metrópole não era exatamente o melhor exemplo de boa vizi-
nhança que os Estados Unidos divulgavam para os latino-americanos.85
Portanto, em 1934, o presidente Roosevelt convocou o economista norte-ameri-
cano – e futuro governador nomeado de Porto Rico (1941-1946) – Rexford Guy
Tugwell para desenvolver um plano de reconstrução para a ilha, como parte das
iniciativas do New Deal. Pretendia-se, ao mesmo tempo, mostrar para o mundo
as vantagens da aliança com os Estados Unidos86 e transformar Porto Rico em
local turístico para os cidadãos estado-unidenses:
“Assim, os planejadores e arquitetos de projetos de habitação pública
teveram a difícil tarefa de projetar layouts que não eram apenas sau-
dável e durável, mas que também fornecessem elementos para um
ambiente comunitário de influenciar positivamente o desenvolvimento
social e econômico antecipado das residências.

84. RODRÍGUEZ, Luz Marie. Suppressing the slum! Architecture and social change in San Juan’s public housing,
p. 89-90. In: VIVONI FARAGE, Enrique. San Juan siempre Nuevo: arquitectura y modernización en el siglo XX.
85. RABELL, Leonardo Santana. Planificación y política durante la administración de Luis Muñoz Marin: un análi-
sis crítico, p. 59-60.
86. RODRÍGUEZ LÓPEZ, Luz Marie. ¡Vuelo al porvenir! Henry Klumb y Toro-Ferrer: proyecto moderno y arquitec-
tura como vitrina de la democracia – Puerto Rico, 1944-1958, p. 206.

71
Imagem 30 - Carta de Luis Muñoz Marin (Senate of Puerto Rico) para
Richard Neutra, 1945.
72
Ao mesmo tempo, a erradicação das favelas e da renovação de habi-
tação de classe baixa não só brotam de um foco social. Eles também
responderam à iniciativa do governo para transformar a ilha e, espe-
cificamente, San Juan, em um centro turístico de americanos ricos”.87

Para tanto, foi criada a Junta de Planejamento (1942), órgão cujo intuito era
reduzir a desigualdade entre colonizador e colônia de forma a mostrar aos
demais países as vantagens de se associar aos Estados Unidos. Esta Junta de
Planejamento tomou forma, portanto, de uma política de investimentos para a
modernização da ilha. Para isso, foi criado, em 1943, o Committee on Design of
Public Works, que ficaria responsável pelo projeto e construção de escolas, hos-
pitais e habitações para a população rural e urbana. Também ficou determina-
do que este Comitê seria composto por um grupo de arquitetos porto-riquenhos
liderados sempre por um norte-americano escolhido pelo Departamento de Es-
tado.
Desta forma, Richard Neutra88, Henry Klumb, Isadore Rosenfield, Simon Brienes
e Joseph Blumenkranz89 foram contratados com o objetivo de desenvolver uma
nova linguagem arquitetônica para Porto Rico, aliando os preceitos da arquitetu-
ra moderna aos materiais, técnicas e clima local. Uma tentativa de impulsionar
a sociedade porto-riquenha e, através da arquitetura, modernizar suas institui-
ções.

87. “Thus the planners and architects of public-housing projects had the difficult task of designing layouts that
were not only healthy and durable, but that would also provide elements for a communitarian environment to
positively influence the anticipated social and economic development of the residences./At the same time, the
eradication of the slums and the renovation of lower class housing did not only spring from a social focus. They
also responded to the government initiative to turn the island, and specifically San Juan, into a tourist center of
wealthy americans”. Tradução da autora. RODRÍGUEZ, Luz Marie. Suppressing the slum! Architecture and social
change in San Juan’s public housing, p. 77-78. In: VIVONI FARAGE, Enrique. Op. cit.
88. Até o momento, a pesquisa não encontrou indícios claros do envolvimento do Office of the Coordinator
of Inter-American Affairs – OCIAA na criação do Comitê de Obras Públicas de Porto Rico e na contratação de
Richard Neutra como seu consultor ou se estes fatos ficaram inteiramente a cargo do Departamento de Estado
norte-americano. Uma possível pesquisa no acervo da Benson Latin American Collection, da Universidade do
Texas em Austin, pode contribuir no esclarecimento desta questão. No entanto, as leituras indicam que ambas
agências seguiam os ideias da Política da Boa Vizinhança e, em muitos momentos, como afirma Antonio Pedro
Tota, chegaram inclusive a entrar em conflito. TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização
do Brasil na época da Segunda Guerra, p. 83.
89. RODRÍGUEZ LÓPEZ, Luz Marie. ¡Vuelo al porvenir! Henry Klumb y Toro-Ferrer: proyecto moderno y arquitec-
tura como vitrina de la democracia – Puerto Rico, 1944-1958, p. 210. Apud: IGLESIAS FILHO, Santiago. Futura-
ma de Puerto Rico. Planificando alrededor del mundo, p.60.
Imagem 31 - Rexford Tugwell (1891-1979).
73
“A Lei número 122, aprovada em 12 de maio de 1943, estabelecia a
criação de um Comitê para Desenho de Obras Públicas que ‘serviria
o duplo propósito de aliviar o desemprego e criar as facilidades físi-
cas indispensáveis para a felicidade e maior produtividade de nosso
povo’90. O Propósito do Comitê, segundo foi esboçado na exposição
dos motivos da legislação que o fundava, partia da necessidade de
melhorar as condições sócio-econômicas resultantes do conflito mun-
dial, especificamente o desemprego. Por outro lado, pretendia ativar
um sistema econômico congelado, ao antecipar-se ao regresso dos
soldados porto-riquenhos”.91

Ficou decidida, em dezembro de 1943, a contratação de Neutra como consultor


deste Comitê, cargo que assumiu durante o ano de 1944.92 Lá desenvolveu inú-
meros projetos de escolas, hospitais e moradias que se adaptassem ao clima e
materiais locais e cuja arquitetura fosse capaz de se relacionar com a paisagem,
uma continuidade das ideias propostas para a Califórnia –por exemplo, o proje-
to da Corona School, em 1935.

90. RODRÍGUEZ LÓPEZ, Luz Marie. Suppressing the slum! Architecture and social change in San Juan’s public
housing, p. 77-78. In: VIVONI FARAGE, Enrique. Op. cit. Apud: Laws of Puerto Rico. San Juan, Bureau of Su-
pplies, Printing and Transportation, 1943.
91. “La Ley número 122, aprobada el 12 de mayo de 1943, establecía la creación de un Comité para Diseño
de Obras Públicas que ‘serviría el doble propósito de aliviar el desempleo y crear las facilidades físicas indis-
pensables para la felicidad y la meyor productividad de nuestro publo’. El propósito principal del Comité, según
se esbozó en la exposición de motivos de la legislación que lo fundaba, partía de la necesidad de mejorar las
condiciones socio-económicas resultantes del conflicto mundial, específicamente el desempleo. Por otra parte,
pretendía activar un sistema económico congelado, al anticiparse al regreso de los soldados puertorriqueños”.
Tradução da autora. RODRÍGUEZ LÓPEZ, Luz Marie. ¡Vuelo al porvenir! Henry Klumb y Toro-Ferrer: proyecto
moderno y arquitectura como vitrina de la democracia – Puerto Rico, 1944-1958, p. 206-7.
92. Existe, na literatura estudada, uma certa divergência em relação às datas que Richard Neutra realmente
atuou como consultor do Comitê em Porto Rico. Por exemplo, no livro Neutra: Complete works, a historiadora
Barbara Lamprecht afirma que Neutra assumiu o cargo no outono de 1943 e nele permaneceu até a primavera
de 1945. Em contrapartida, a arquiteta espanhola Luz Marie, em sua tese de doutorado ¡Vuelo al porvenir!, afir-
ma que a contratação de Neutra ocorreu efetivamente em dezembro de 1943 e seria válida apenas para o ano
de 1944. Por apresentar maior número de dados e documentos históricos que fazem tal comprovação, optou-se
Imagem 32 - Planta para uma Escola Rural em Porto Rico, projeto de
por adotar os fatos apontados por Luz Marie como corretos.
Richard Neutra, 1944.
74
Apesar do grande número de projetos desenvolvidos para Porto Rico, poucos
foram efetivamente construídos. Um deles foi a Escola Experimental Sabana
Llana93, onde, seguindo os conceitos da Corona School, Neutra propunha que a
educação poderia se extender para as áreas externas através de grandes portas
basculantes (em substituição da parede externa da sala de aula) que abriam
para um pequeno pátio – além desta integração, as portas, quando abertas,
serviam de barreiras para a incidência direta do sol. No entanto, segundo rela-
ta Raymond Neutra – filho mais novo de Richard Neutra –, é possível encontrar
obras posteriores à estada de Neutra na ilha, mas que apresentam claras in-
fluências de seu legado.
“Emails trocados com os contatos de Dion [Neutra] e com os da histo-
riadora Barbara Lamprecht sugerem que, escondidos em remotas ci-
dades montanhosas de Porto Rico, podem ser encontrados exemplos
vivos de escolas, centros de saúde rurais e, provavelmente, até um
hospital regional construídos em concreto armado que se assemelha-
riam aos projetos do meu pai”.94

Durante o período em que Neutra esteve em Porto Rico, os estudos lá desenvol-


vidos deram continuidade às preocupações trazidas desde sua formação, em
especial a adaptação dos preceitos da arquitetura moderna às especificidades
de cada região. Ao final de 1945, ainda encarregado pelo Departamento de
Estado norte-americano, Neutra realizou uma viagem de reconhecimento pela
América Latina, passando pelo Equador, Peru, Bolívia, Argentina, Uruguai e Bra-
sil.95
Desta viagem resulta a publicação dos artigos Observations on Latin America
e Sun Control Devices, na revista Progressive Architecture, e do livro Arquitetura
social em países de clima quente, em 1948. Este livro traz uma compilação dos
projetos desenvolvidos em Porto Rico, não como forma de simples divulgação
de seu trabalho e sim como uma espécie de manual que iria auxiliar e incentivar
uma abordagem social da arquitetura nos países de clima quente. Textos críticos
sobre a atuação do arquiteto nas zonas rurais e sobre questões de habitação,

93. “Escuéla modelo de Sabana Llana está operando”, 08/10/1944. Folder 29. Box 1419. Office Records,
Publicity. Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
94. NEUTRA, Raymond Richard. Encontros porto-riquenhos.
95. “Report on visit of South American Republics, by Richard Neutra, architect, and president U.S. Chapter of
Congrès Internationaux D’Architecture Moderne”. 1946. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence.
Imagem 33 - Perspectiva interna de sala de aula, Richard Neutra, 1944.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
Imagem 34 - Foto Escola Rural e Porto Rico, Richard Neutra, 1944.
75
Imagem 35 - Recortes do jornal porto riquenho El Mundo: Escuela
modelo de Sabana Llana está operando, 08/10/1944; Planeamiento de
largo alcance para edificar en la postguerra, 18/02/1945.
Imagem 36 - Foto interna Escola Rural em Porto Rico, Richard Neutra,
1944.
Imagem 37 - Projeto para uma Escola Urbana em Porto Rico.
76
saúde e educação foram acrescentados – e cuja tradução ficou à cargo de Min-
na Klabin-Warchavchik. Junto à eles aparecem os projetos de Porto Rico, com
plantas, cortes, perspectivas, detalhes construtivos e até mesmo desenho dos
mobiliários, onde se mostra clara a preocupação com os condicionantes climáti-
cos do local.

Imagem 38 - Projeto para um Centro de Saúde em Porto Rico.


Imagem 39 - Detalhes do projeto para um Centro de Saúde em Porto
Rico.
77
A VIAGEM DE RECONHECIMENTO PELA AMÉRICA
DO SUL

Contratado pela Divisão de Cooperação Cultural do Departamento de Estado


norte-americano, logo após completar os trabalhos como consultor do Comi-
tê de Obras Públicas de Porto Rico (ao longo de 1944), Richard Neutra partiu
para uma viagem de reconhecimento pela América do Sul durante os meses de
outubro e novembro de 1945 – de acordo com a análise do montante de docu-
mentos coletados acervo Neutra Collection, UCLA Library Special Collection. O
objetivo que lhe fora dado para estas visitas era o de cooperação com as auto-
ridades e arquitetos locais, auxiliando-os em questões de planejamento urbano
e de projetos de habitação social, hospitais e escolas.96 Consultoria esta muito
semelhante àquela dada ao governo porto-riquenho, mas agora, sem o cargo
oficial, de forma colaborativa.
Seguindo os preceitos de aproximação cultural propostos pela Política da Boa
Vizinhança de Roosevelt, Neutra levaria aos latino-americanos um melhor en-
tendimento da arquitetura praticada nos Estados Unidos97 – de seus sucessos e
possibilidades – e traria consigo a análise dos avanços e propostas arquitetôni-
cas destes países – material este que lhe rendeu dois artigos publicados na revis-
ta norte-americana Progressive Architecture em 1946, conforme será discutido
mais a frente. E, ao final da viagem, deveria entregar ao governo norte-ameri-
cano um relatório descrevendo suas impressões e atividades realizadas em cada
país.98
A narrativa deste experiência terá, portanto, como base principal as descrições
contidas no relatório – hoje parte do acervo Neutra Collection da Biblioteca de
Coleções Especiais da UCLA – e de notícias de jornal coletadas no acervo online
da Biblioteca Nacional e no acervo dos próprios jornais em questão.

96. NEUTRA, Richard J. Observations on Latin America. Progressive Architecture, Nova York, n. 5, Reinhold, may
1946, p. 67.
97. Carta. Charles W. Collier para Richard Neutra. 14/09/1945. Folder 8. Box 1429. Office Records, Corres-
pondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections, p. 1.
98. “Report on visit South American Republics, by Richard Neutra, architect and President, U.S. Chapter of Con-
gres Internationeaux d’Architecture Moderne”. 1946. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

78
Enquanto se preparava para a viagem, Richard Neutra esteve em contato com
representantes tanto do Departamento de Estado, quanto do Office of the Coor-
dinator of Inter-American Affairs (gerenciado por Nelson Rockefeller) e das Na-
ções Unidas. Estas interlocuções auxiliaram-no a organizar o roteiro das cidades
a serem visitadas e dos representantes de cada país com que iria conversar, bem
como a agendar as palestras e conferências que iria proferir.
Em setembro de 1945, Charles W. Collier, representante da Administração de
Assistência e Reabilitação das Nações Unidas, envia a Neutra um dossiê sobre a
situação dos arquitetos e da arquitetura boliviana. Respondendo a uma solicita-
ção anterior de Neutra, Collier diz acreditar que, naquele momento, não havia
nenhum bom arquiteto no país, tampouco um bom exemplo de arquitetura con-
temporânea. Sugere o contato com Emilio Villanueva, então diretor da Escola
de Arquitetura da Universidade de La Paz, e afirma que, “na minha opinião, a
arquitetura contemporânea na Bolívia tem muito mais a aprender com você do
que você tem a aprender com ela”.99
Além de dicas de cidades e locais para visitar, Collier sugere que, em suas pa-
lestras para os bolivianos, Neutra deveria tratar da diferença entre arquitetura
funcional e arquitetura “modernista”. Ou seja, que ele tentasse explicar que um
projeto funcional não significava, necessariamente, ter lajes planas e ser cons-
truído em concreto armado; e que não era necessário um país demolir todos
os seus edifícios antigos para se atualizar. Recomenda também que o mesmo
assunto seja abordado nas palestras no “Peru, Equador, nas Repúblicas da Amé-
rica Central e talvez no México, mas não no Brasil, Uruguai, Argentina e Chi-
le”.100

99. “In my opinion contemporary architecture has much more to learn from you than you have to learn from it”.
Tradução da autora. Carta. Charles W. Collier para Richard Neutra. 14/09/1945. Folder 8. Box 1429. Office
Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections, p. 2.
100. “Peru, Ecuador, the Central American Republics, and perhaps Mexico, but not to Brazil, Uruguay, Argentina
and Chile”. Tradução da autora. Idem, ibidem.

79
Imagem 40 - Carta de Charles W. Collier (United Nations, Relief and
Rehabilitation Administration) para Richard Neutra, p.1.
80
Imagem 41 - Carta de Charles W. Collier (United Nations, Relief and
Rehabilitation Administration) para Richard Neutra, p.4.
81
Além das informações coletadas com representantes do governo ligados, de al-
guma forma, à política externa norte-americana voltada para a América Latina,
Richard Neutra levou consigo uma lista de contatos de arquitetos e autoridades
latino-americanas.101 Dentre os brasileiros estão os arquitetos Oscar Niemeyer,
os irmãos Roberto, Henrique Mindlin e Rino Levi, e o intelectual modernista Sér-
gio Milliet, diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo. Apesar de não contem-
plar todos os nomes daqueles com quem Neutra efetivamente se encontrou, esta
lista mostra uma preocupação em conhecer e conversar com importantes – e
influentes – representantes culturais de cada país.
Com todos os preparativos prontos, Richard Neutra embarca, em outubro de
1945, no vôo que o levaria para as repúblicas ao sul do rio Grande. A primeira
cidade visitada na América do Sul foi Guayaquil, no Equador, onde foi obrigado
a dedicar muito pouco tempo dada as prioridades estabelecidas para a viagem.
Mesmo assim, pôde se encontrar com o sr. Reed102, oficial à serviço do Office of
the Coordinator of Inter-American Affairs, OCIAA, e, com ele, visitou obras do
Estádio, Assembléia do Povo e Museu. Em seguida, partiu para o Peru, onde foi
recepcionado no aeroporto pelo arquiteto Emilio Harth-Terré – que, na época,
atuava como chefe do Departamento de Estudos Urbanos, Ministério do Fomen-
to – e, juntos, visitaram a região metropolitana de Lima, Callao, San Miguel,
Madalena, San Isidro, Miraflores e Rimac. Segundo comentário que consta no
relatório, Richard Neutra acreditava que as medidas de planejamento adotadas
pelos urbanistas peruanos na época não pareciam adequadas ao rápido cres-
cimento metropolitano, em especial com relação à preservação do patrimônio
histórico.
Além de jantares e recepções sociais, Neutra proferiu duas palestras para os es-
tudantes da Universidad Nacional de Ingeniería e outra, mais formal, realizada
no Salão dos Artistas Amadores Afisionados e cujo tema foi “Futuro metropolita-
no de uma cidade com grande herança histórica” (“Metropolitan Future of a City
with Great Historical Heritage”). Sobre esta palestra, afirmou:

101. “Latin America”. 26/06/1945. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence. Neutra Collection.
UCLA Library Special Collections.
Imagem 42 - Travel Sketch: possívelmente, Catedral de Havana.
102. Não foram encontradas maiores referências sobre o sr. Reed.
Imagem 43 - Travel Sketch: papagaio, Pousada Belém.
82
“Propus a preservação dos verdadeiros monumentos do passado
através de todos os meios disponíveis, mas honrá-los mantendo-os
protegidos contra as má imitações e vizinhanças falsificadas, que só
trariam a sombra da dúvida sobre sua autenticidade e genuinida-
de”.103

No Peru, Richard Neutra também visitou as cidades Arequipa – onde se reuniu


com os arquitetos e engenheiros da companhia Southern Peruvian Railroads e
com os representantes do OCIAA – e Cuzco – onde se encontrou com os oficiais
do Consejo Nacional de Conservación de Monumentos Historicos y Archeolo-
gicos. Dali, viajou de trem até a Bolívia e, na fronteira entre os dois países, foi
recepcionado por uma comitiva liderada por Emilio Villanueva, diretor da Facul-
dade de Arquitetura da Universidade de La Paz, que com ele seguiram viagem
até a capital. Lá, proferiu duas palestras para os estudantes e professores de
arquitetura, com o tema “Relatório sobre as faculdades de arquitetura norte-a-
mericanas” (“Report on U.S. Colleges of Architecture”); e outra destinada ao
público em geral, que aconteceu na Biblioteca Municipal com o tema “Conflitos
entre tradição e desenvolvimento moderno” (“Conflicts of Tradition with Modern
Development”).
Segundo Neutra,
“La Paz, parte devido a suas características fisiográficas particulares
de um estreito mas muito pitoresco local, e parte pela especial habili-
dade de três ou quatro profissionais assessorados por outros também
competentes, pode tornar-se um dos mais interessantes casos de pla-
nejamento e projeto. Não menos importante, o Departamento de Par-
ques, cujos projetos ambiciosos tomaram um início visível, também
deve ser apreciado”.104

103. “I proposed to preserve the true monuments of the past by all available means, but honor them by keeping
them protected against badly imitative and falsifying neighbors, who only would cast a shadow of doubt over
their own authenticity and genuineness”. Tradução da autora. “Report on visit South American Republics, by Ri-
chard Neutra, architect and President, U.S. Chapter of Congres Internationeaux d’Architecture Moderne”. 1946.
Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections, p. 2.
104. “La Paz, partly due to its unique physiographic requirements of a narrow but most picturesque site, partly to
the special ability of at least three or four professionals supported by useful others, may develop into one of the
very interesting cases of planning and designing. Not least, the Park Department, whose ambitious projects have
taken a visible start, must be appreciated”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 3.
Imagem 44 - Travel Sketch: Porto Príncipe, Haiti, 1945.
83
Imagem 45 - Report on visit of South American Republics, 1946, p.1.
84
Da Bolívia, seguiu de avião para a Argentina e, em Buenos Aires, realizou qua-
tro palestras – segundo afirmou, com público significativo, apesar do caráter
não-oficial de sua visita, dada a não cooperação política com o governo argen-
tino e pelo fechamento da universidade. A primeira delas aconteceu no escritó-
rio da Editora Sur e teve como tema de discussão “Os possíveis valores de um
visitante desconhecido” (“The Possible Values of the Strange Visitor”), assunto que
causou polêmica em vários jornais. De acordo com o comentário de Richard
Neutra, estas críticas construtivas trazidas pelos arquitetos e urbanistas locais
muito o inspiraram.
A segunda palestra aconteceu na casa de Victoria Ocampo – escritora e inte-
lectual argentina – e, ancorado por slides coloridos, Neutra debateu sobre a
questão dos possíveis “Clientes dos arquitetos e urbanistas” (“The Clients of the
Planner and Architect”), incluindo agências governamentais e suas demandas de
habitação social. Uma terceira conferência ocorreu na sede da Sociedad Central
de los Arquitectos e teve como tema “Os materiais de hoje e de amanhã” (“The
Materials of Today and Tomorrow”). E, por fim, a quarta palestra, que se reali-
zou na Sala de Francia de los Amigos del Arte, discutiu sobre os “Determinantes
sócio-econômicos do projeto” (“Socio Economic Determinants of Design”). Além
destas quatro conferências e das reuniões sociais, Richard Neutra encontrou-se
com um grupo de aproximadamente quarenta estudantes com quem conversou
sobre a “Iniciativa popular nas questões do planejamento” (“Popular Initiative in
Planning Matters”); e com um grupo similar de jovens arquitetos interessados na
cooperação internacional dentro do planejamento profissional.

Imagem 46 - Travel Sketch: Argentina, 1945.


85
Imagem 47 - Report on visit of South American Republics, 1946, p.3.
86
Sobre Buenos Aires, constatou:
“Entre as características impressionantes da capital e interior que tive
a oportunidade de visitar, estão a quase ausência de favelas, a ordem
visível da administração técnica e óbvia cooperação da sociedade na
manutenção da cidade e das áreas ao longo das bem conservadas
rodovias em toda sua extensão pavimentada. Enumerei bons exem-
plos de projetos modernos: Hospital de la Policia, Hospital Municipal,
Hospital do Ministério da Guerra, Automóvel Clube no centro da
cidade e nas dependências da rodovia, projeto de habitação nos su-
búrbios do norte para 500 famílias, estrada periférica, General Paz,
Avenida Costanera Norte, ponte que conecta a zona industrial sul
AvellanedaI, projeto para o desenvolvimento da área de inundação
a sudoeste do Bajo de las Flores, do hipódromo e do estádio, escola
ao ar livre para crianças doentes, um mercado de layout moderno,
belíssimos exemplos de casas e apartamentos, um projeto para a re-
construção da cidade San Juan que fora destruída por um terremoto,
o desenvolvimento de recreio do ‘Tigre’, parques implantados a cada
hora de percurso ao longo do principal rodovia da província de Bue-
nos Aires”.105

Da capital argentina, Richard Neutra partiu para o Uruguai e, no aeroporto


de Montevideo, foi recebido por Mauricio Gravotto – autor do Plano Diretor de
Montevideo, em 1930, e de Mendoza, na Argentina, em 1941 –, grande nome
da arquitetura uruguaiana, e pela Sra. De Muller, chefe do Departamento de
Arte e Cultura do Ministério de Educação. Reuniu-se com a equipe do Instituto
de Urbanismo e com o Departamento de Planejamento Urbano para discutir os
problemas da cidade e, para os estudantes e professores da Universidade de
Montevideo, conferiu palestras com os temas “Necessidades contemporâneas

105. “Among the impressive features of the capital and provincial areas, I had the opportunity to visit, was the
near absence of slum sections, the visible orderliness of the technical administration and obvious cooperation in
maintenance by the populace in the city and along the well-kept highways as far as they are paved. I enumerate
well done modern projects: Hospital de la Policia, Municipal Hospital, Hospital of the War Ministry, Automobile
Club Downtown and highway dependencies of Auto Club, housing project in the northern suburbs for 500 fa-
milies, peripheral freeway, General Paz, Riverbank Parkway Costanera, bridge approach to Avellaneda Industrial
zone south, project for development of southwest inundation section Bajo de las Flores, the hippodrome and
the stadium, open air school for weak children, a retail market of modern layout, several very advanced motion
picture houses and apartment buildings, a project for the reconstruction of the earthquake-destroyed city of San
Juan, the recreational development of the “Tigre”, roadside parks every driving hour along the principal highway
of the province of Buenos Aires”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 4-5.

87
e as exigências da tradição” (“Contemporary Needs and Requirements of Tradi-
tion”) e “Arquitetura e arte para o povo” (“Architecture and Art for the People”).
Segundo afirmou em seu relatório, são
“Especialmente impressionantes as propostas e projetos muito bem
gerenciados e atribuídos de habitação social, praias dentro da cidade
e ao longo de toda a área a partir de Atlantida até Punta del Vallena
e Punta de l’Este, parques públicos, Hotel do Povo e áreas de lazer,
parques infantis, as novas estruturas para o Departamentos de Ar-
quitetos e Engenheiros da universidade, a inauguração do Salão da
Primavera pelo Presidente da República, o trabalho do Inter-American
Cooperative Health Service, e os enormes hospitais modernos”.106

De Montevideo, Richard Neutra partiu para São Paulo, fazendo uma escala em
Porto Alegre, onde visitou o hospital da cidade projetado por Jorge Machado
Moreira. No aeroporto paulistano foi recebido por um grupo grande – apro-
ximadamente 24 pessoas, segundo relato – de oficiais do governo, arquitetos
e urbanistas, conforme pode se verificar em fotos do acervo Warchavchik. A
primeira grande reunião com os brasileiros aconteceu na casa de Gregori War-
chavchik. Reuniu-se também com os arquitetos interessados na cooperação inter
-americana e proferiu duas palestras: uma proferida junto a Henrique Mindlin e
o chileno Enrique Gebhart; e outra na Faculdade de Direito, cujo tema discutido
foi “Requisitos públicos e sociais enfrentados pelo designer” (“Communal and
Social Requirements Confront the Designer”); além de três coletivas de imprensa.

106. “Especially impressive developments or projects were the very well managed and appointed housing pro-
jects, beaches inside the city and all along from Atlantida to Punta del Vallena and Punta de l’Este, public parks,
People’s Hotel and recreation areas, children’s playgrounds, the new structures for the University Departments of
Architects and Engineers, the inauguration of the Spring Salon by the President of the Republic, the work of the
Inter-American Cooperative Health Service, and the huge modern hospitals”. Tradução da autora. Idem, ibidem,
Imagens 48 e 49 - Richard Neutra recepcionado no aeroporto de São
p. 5.
Paulo, 1945.
88
Imagem 50 - Richard Neutra recepcionado no aeroporto de São Pau-
lo, 1945.
Imagem 51 - Richard Neutra em recepção dada na casa de Gregori
Warchavchik, Guarujá, 1945.
Imagem 52 e 53 - Richard Neutra em visita ao Guarujá, 1945.
89
Sobre São Paulo, comentou:
“Impressionantes projetos e planos: balneários de Guarujá e Santos,
com design de primeira linha de Warchavchik para o Resort Conde
Crespi; o desenvolvimento hidroelétrico de São Paulo; o arranha-céu
da Biblioteca Municipal; Hospital Universitário, escolas de enfermei-
ros e um projeto esplêndido de Rino Levi para o Hospital Maternida-
de; o bairro periférico de Interlagos; a cinematográfica casa Excelsior;
vários apartamentos, escritórios e edifícios residenciais projetados por
Artigas, Rino Levi, Warchavchik, Rudofsky, Calabi”.107

Da capital paulista partiu para o Rio de Janeiro, onde foi recebido por arquitetos
e estudantes e, após um passeio pela cidade acompanhado do chefe do Depar-
tamento de Engenharia – conheceu os parques da Gávea e Tijuca e as cidades
de Niterói e Petrópolis – participou de um jantar na casa do prefeito Filadelfo de
Azevedo. Reuniu-se com o Ministro das Relações Exteriores, Pedro Leão Veloso,
com o diretor da Fundação para o Desenvolvimento Interno Brasileiro, João
Alberto, e com o embaixador norte-americano. Além disso, conversou com os
arquitetos interessados no Congresso Internacional de Urbanistas e Arquitetos e
proferiu duas palestras: uma na sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil, com
o tema “Arquitetura para as pessoas em geral” (“Architecture for the People at
Large”); e outra para os professores e alunos da Escola Nacional de Belas Artes,
com o tema “A responsabilidade social do arquiteto” (“The Social Responsability
of the Architect”).
Do Rio, viajou para Minas Gerais, em uma visita de dois dias para conhecer
Belo Horizonte, Pampulha e Ouro Preto, locais onde Richard Neutra encontra
outros brilhantes exemplos da arquitetura moderna brasileira:

107. “Impressive developments and projects: seaside resorts Guaruja and Santos, with first rate design of War-
chavchik for resort home Conde Crespi; the Hydro-Electric development of Sao Paulo; the skyscraper Public
Library; the University Hospital, nurses school and a splendid project by Rino Levi for Maternity Hospital; the
Entre-Lagos suburban subdivision; the motion picture house Excelsior; various apartment, office and residential
Próxima página:
buildings by Artigas, Rino Levi, Warchavchik, Rudofsky, Calabi”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 6.
Imagem 54 - Travel Sketch: São Paulo, 1945.
90
Imagem 55 - Report on visit of South American Republics, 1946, p.6.

Próxima página:
Imagem 56 - Travel Sketch: vista elevada do Rio de Janeiro, 1945.
92
“Impressionantes projetos e planos: Hospital de [Jorge Machado] Mo-
reira para Porto Alegre, Ministério da Educação, Edifício Seguradoras,
aeroporto, teatro em Belo Horizonte, apartamentos Guinle, Jardim
Botânico, duas residências, terraços jardim e projetos paisagísticos de
Burle Marx”.108

Durante sua estada no Brasil, Neutra recebeu um convite de oficiais do governo


da Bahia para visitar o Estado – possivelmente sua capital Salvador – e conhecer
os projetos que lá estavam sendo desenvolvidos. No entanto, por não ter con-
seguido viabilizar um meio de transporte, foi obrigado a seguir com os planos
originais da viagem de volta aos Estados Unidos.
Richard Neutra finaliza seu relatório para o Departamento de Estado norte-a-
mericano dizendo considerar que sua experiência na América Latina, reuniões
sociais e palestras, teve êxito no objetivo de divulgar os esforços de cooperação
cultural:
“Resumindo minha experiência, acredito que, além das habituais
reuniões sociais, considerados úteis para divulgar a boa vontade,
meu procedimento de trazer os problemas específicos das cidades
visitadas para as discussões em palestras formais, mesas-redondas e
conferências, revelou-se muito satisfatório e foi muito bem recebido.
Naturalmente, foi necessário uma maneira rápida de reunir as infor-
mações necessárias, mas em muitos casos ela resultou, de acordo
com os meus amigos locais, em verdadeiramente construtiva publici-
dade e valorização dos esforços de cooperação cultural do Departa-
mento de Estado”.109

108. “Impressive developments and projects: Hospital by Moreira for Porto Alegre, Education Ministry, Resiguros
Buildings, airport, theatre in Belo Horizonte, apartments Guinle, Botanical Garden, two residences, roof gardens,
and garden projects by Burle Marx”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 7.
109. “In summing up my experience, I believe that apart from the customary social meetings, considered useful Páginas anteriores:
to make for good will, my procedure to make the problems of the visited city itself the subject of formal lectures, Imagem 57 - Travel Sketch: rua da Carioca, Rio de Janeiro, 1945.
round table discussions and broadcasts, proved very satisfactory and was very well received. It naturally required Imagem 58 - Travel Sketch: Copacabana, Rio de Janeiro, 1945.
a speedy way of gathering the necessary information, but in many cases it yielded, according to my local friends,
truly constructive publicity and appreciation of the State Department’s cultural cooperation effort”. Tradução da Próxima página:
autora. Idem, ibidem, p. 7.
Imagem 59 - Travel Sketch: Niterói, 1945.
96
A leitura do relatório e de correspondências encontradas no acervo da UCLA
comprovam a afirmação enfática feita pelo historiador Thomas S. Hines à auto-
ra – em entrevista dada em sua casa, uma das três unidades dos apartamentos
Kelton projetados por Neutra, no dia 21 de dezembro de 2014 –, de que Ri-
chard Neutra teria atuado como um mensageiro da Política da Boa Vizinhança
divulgando os esforços de cooperação, de boa vontade. Ou seja, é coerente
afirmar que, em sua viagem pela América do Sul em 1945, Neutra atuou como
o que ficou conhecido como embaixador da boa vontade, da mesma forma
que Walt Disney e Orson Welles o fizeram no início da década de 1940.110 Mas
não apenas durante esta viagem contribuiu para a política de aproximação e
consolidação da hegemonia norte-americana; em correspondência datada de
maio de 1969 para Richard K. Nobbe, delegado dos Estados Unidos na Unesco,
Dione Neutra confirmou a atuação do marido em toda sua carreira profissional
como voluntário nessa divulgação:
“Você tão devotadamente auxiliou nosso governo e a nós mesmos
que queremos agradecer-lhe cordialmente, enquanto continuamos a
oferecer nossos serviços como mensageiros da boa vontade”.111

Outro ponto interessante a ser destacado é que, a partir dos dados coletados
tanto no relatório enviado ao Departamento de Estado norte-americano quan-
to nos demais documentos encontrados no acervo Neutra Collection da UCLA
e nos artigos publicados na revista Progressive Architecture, é possível delinear
o trajeto feito por Neutra em sua viagem. Partindo do princípio de que a reu-
nião com Charles W. Collier em Washington realmente aconteceu – em carta
de 14/09/1945, o representante do Relief and Rehabilitation Administration das
Nações Unidas convidou Richard Neutra para um jantar antes de sua viagem
–, é coerente afirmar que, de lá, Neutra partiu para Miami, na Flórida, de onde
sairia o vôo para o Equador, fazendo escala em Cuba, Haiti e República Domi-
nicana.112 Da cidade equatoriana Guayaquil, viajou pelo Peru, Bolívia, Argentina
e Uruguai. Dalí, fez uma escala em Porto Alegre para chegar em São Paulo, Rio
de Janeiro e Belo Horizonte. Com a missão quase finalizada, Neutra sairia do
Brasil a partir da cidade de Belém, no Pará. Assim, de Belo Horizonte, retornou

110. BENAMOU, Catherine L. Dual-Engined diplomacy: Walt Disney, Orson Welles, and Pan-American film Páginas anteriores:
policy during World War II, p. 118. In: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rocke-
Imagem 60 - Travel Sketch: Niterói, 1945.
feller’s Office of Inter-American Affairs (1940-46).
Imagem 61 - Travel Sketch: Ouro Preto, Minas Gerais, 1945.
111. Carta. Dione Neutra para Richard K. Nobbe. 12/05/1969. Folder 19. Box 230. Office Records, Corres-
pondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
Próxima página:
112. NEUTRA, Richard J. Op. cit, p. 67.
Imagem 62 - Travel Sketch: Ouro Preto, Minas Gerais, 1945.
100
ao Rio de Janeiro113 e seguiu de avião até Barreiras, na Bahia, depois de trem
até Belém114, passando por Carolina, no Maranhão115 – mais uma vez seguindo
o conselho de Charles Collier sobre visitar a Floresta Amazônica.116
Quando ainda estava em Lima, Richard Neutra recebeu do governo norte-ame-
ricano a incumbência de consultoria em projetos para escolas rurais e urbanas
na Guatemala117, possibilidade que foi aceita com entusiasmo por Willian J. Gri-
ffith, representante especial da Fundação Educacional Inter-Americana, sob os
auspícios do Office of Inter-American Affairs:
“Estou muito interessado na possibilidade de sua vinda para a Gua-
temala para consultoria de projetos. Eu não estou inteiramente cien-
te sobre os preparativos administrativos que Washington tinha em
mente quando escreveu a você em Lima, mas, como vou viajar para
os Estados Unidos dentro de uma semana, terei a oportunidade de
explorar o assunto cuidadosamente com o Escritório Central. Quando
os caminhos e os meios forem discutidos volto a lhe escrever”.118

Além da Guatemala, Neutra fez uma segunda escala em San Juan, capital de
Porto Rico, onde se encontrou com o governador Tugwell e com ele discutiu
sobre os projetos dos hospitais que estavam praticamente conluídos e sobre as
diversas escolas construídas.119 A partir daí, a pesquisa não conseguiu definir
com exatidão o percurso e o ponto de entrada nos Estados Unidos. Frank Mc-
Cann Jr., em seu livro sobre a relação Brasil-Estados Unidos, onde afirma que

113. “Conferências”. Jornal Correio da Manhã, 28/11/1945. Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
114. Carta. Richard Neutra para Mario Leal Ferreira. 18/02/1946. Folder 8. Box 1429. Office Records, Corres-
pondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
115. “Carolina, Maranhão”. 11/1945. Folder 13. Box 1. Professional Papers, Travel Sketches. Neutra Collec-
tion. UCLA Library Special Collections.
116. Carta. Charles W. Collier para Richard Neutra. 14/09/1945. Folder 8. Box 1429. Office Records, Corres-
pondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections, p. 3.
117. Carta. Richard Neutra para Willian J. Griffith. 05/10/1945. Folder 8. Box 1429. Office Records, Corres-
pondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
118. “I am very much interested in the possibility of your coming to Guatemala to consult on building plans. I am
not entirely sure what administrative arrangements Washington may have had in mind when they wrote to you in
Lima, but as I shall be leaving for the States within a week I shall have the opportunity to explore the matter tho-
roughly with the Central Office. When ways and means have been discussed I shall write to you again”. Tradução
da autora. Carta. William J. Griffith para Richard Neutra. 02/11/1945. Folder 8. Box 1429. Office Records,
Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
119. Carta. Richard e Dione Neutra para Henrique e Helena Mindlin. 18/12/1945. Folder 8. Box 1985. Office
Próxima página:
Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
Imagem 63 - Travel Sketch: Carolina, Maranhão, 1945.
102
os vôos entre estes dois países, operados por empresas como a Pan-American
e a Panagra, tinham suas rotas saindo: “de Miami para Belém, perto da foz do
rio Amazonas, seguindo depois para o Rio de Janeiro via as cidades costeiras de
Natal, Recife e Salvador; do Rio o avião viaja para Porto Alegre, ao sul do Brasil,
e depois para Buenos Aires”.120 Em contrapartida, em seu artigo escrito sobre o
avanço da Pan American Arilines no Brasil, Gianfranco Beting afirma que, a par-
tir de 1945, a empresa havia criado uma rota que saía de Nova York para San
Juan, em Porto Rico, e Porto de Espanha, em Trinidad, até chegar em Belém, no
Pará, e dalí partia para o Rio de Janeiro.121
Por onde passou, Richard Neutra não apenas divulgou a boa vontade norte-a-
mericana, mas também estudou as características da paisagem e arquitetura
locais, tirou fotografias e fez belíssimos desenhos coloridos122 – material este
que resultou em duas publicações na revista Progressive Architecture –; escreveu
textos endereçados aos jovens arquitetos e estudantes123; e manteve contato pes-
soal com vários dos arquitetos que por aqui encontrou. Além das correspondên-
cias trocadas posteriormente, um forte exemplo desses laços de amizade foram
aqueles estabelecidos com Gregori Warchavchik, que auxiliou no processo de
publicação do livro Arquitetura social em países de clima quente – cuja introdu-
ção foi escrita pelo brasileiro e a tradução dos textos ficou à cargo de sua espo-
sa Mina Klabin, como será visto mais adiante –, e com Roberto Burle Marx, cujos
trabalhos em parceria com Richard Neutra serão debatidos no Capítulo 3.

120. “from Miami to Belém, near the mouth of the Amazon, thence to Rio de Janeiro via the coastal cities of
Natal, Recife, and Salvador; from Rio its clippers flew to Porto Alegre in southern Brazil and on Buenos Aires”.
Tradução da autora. McCANN Jr., Frank D. The Brazilian-American alliance, 1937-1945, p.214.
121. BETING, Gianfranco. Pan Am: a pioneira mundial no Brasil. Revista Flap, abril 2012 <http://www.revista-
flap.com.br/web/_FILES/upload/23042012-152948-materia_Pan_Am.pdf>
122. Estes desenhos foram publicados inúmeras vezes tanto por Richard Neutra quanto por seus historiadores
(por exemplo, Esther McCoy e Thomas Hines), mas apenas em sua versão monocromática. Os originais hoje
fazem parte do acervo Neutra Collection da UCLA.
123. “Carta a los jovenes arquitectos del Chile”. Folder 3. Box 1966. Office Records, Correspondence. Neutra
Collection. UCLA Library Special Collections; “Argentina”. Folder 45. Box 161. Professional Papers, Articles.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections; “To the students of Art and Architecture in Rio de Janeiro”.
Folder 42. Box 161. Professional Papers, Articles. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
Imagem 64 - Mapa cidades visitadas na América Latina.
104
OS ARTIGOS NA REVISTA PROGRESSIVE ARCHITEC-
TURE

Em sua viagem de reconhecimento pela América do Sul, Richard Neutra tinha


por objetivo divulgar os esforços de cooperação dos Estados Unidos frente às
suas repúblicas irmãs e também de atuar como consultor em projetos de plane-
jamento e construção de habitações sociais, hospitais e escolas rurais e urbanas.
Com este encargo, Neutra buscou compreender as características culturais e de
paisagem de cada local e suas respectivas arquiteturas. Tirou fotografias, fez de-
senhos e anotações daquilo que lhe interessava. E este material acabou por ser
usado em dois artigos publicados nas edições de maio e outubro de 1946 da
revista norte-americana Progressive Architecture.
Observations on Latin America e Sun Control Devices são relatos de sua expe-
riência entre os latino-americanos, com preocupações voltadas à paisagem
e clima locais, à herança histórica destes países, a seus problemas de plane-
jamento urbano e a seus acertos em termos de soluções arquitetônicas. No
primeiro artigo a narrativa acontece em dois eixos: um principal, onde Neutra
expõe comentários gerais sobre a América Latina; e outro, apoiado por seus
desenhos, em que descreve suas impressões de cada país – as versões originais
coloridas destes desenhos fazem parte do acervo Neutra Collection, na Bibliote-
ca de Coleções Especiais da UCLA, para os quais a autora recebeu autorização
de Dion Neutra (filho arquiteto de Richard Neutra) para fotografar aqueles refe-
rentes ao Brasil.
Partindo da ideia inicial de que, em certos períodos históricos, as arquiteturas
internacionais, quando importadas, ignoravam as diferenças locais124, Neutra
buscou compreender questões como a herança cultural indígena dos povos e a
sua ascenção ao poder político:

124. NEUTRA, Richard J. Observations on Latin America. Progressive Architecture, Nova York, n. 5, Reinhold,
may 1946, p. 68.

105
“Milhões de descendentes de americanos nativos [no Peru], repre-
sentantes das últimas grandes culturas, tornaram-se agora eleitores
e uma força política. Cada vez mais eles vão se tornar consumidores
de nossa civilização tecnológica. Eles precisam de escolas, centros
de saúde, hospitais, habitação; eles apresentam problemas urgentes
para planejadores, designers e arquitetos”.125

A questão da preservação do patrimônio arquitetônico no processo de moderni-


zação é abordado também:
“Muitos países latino-americanos, desde Santo Domingo até o Peru,
tem um rico patrimônio arquitetônico. Em alguns casos, os urbanistas
ficam em dúvida sobre como preservar estes monumentos sem pre-
judicar o crescimento desejável de suas comunidades. Havana Velha,
por exemplo, está implantada diretamente entre as mais importantes
instalações portuárias da República Cubana e uma rodovia de 800
milhas de extensão de um cada vez mais ativo interior subdesenvolvi-
do”.126

125. “Millions of the descendants of original native americans [in Peru], representatives of past great cultures,
have now become voters and a political force. Increasingly, they will become consumers of our technological
civilization. They need schools, health centers, hospitals, housing; they present urgent problems to planners, de-
signers, and architects”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 67.
126. “Many Latin American countries, from Santo Domingo to Peru, have a rich architectural heritage. In some
cases, city planners are puzzled how to preserve these monuments without impairing the desirable growth of their
communities. Old Havana, for example, lies directly between the Cuban Republic’s most important port facilities
and the main highway outlots to the 800-miles stretch of an increasingly active hinterland”. Tradução da autora.
Idem, ibidem, p. 70.

106
Sobre os desafios do planejamento urbano de São Paulo, enfrentados pelo po-
der público, arquitetos e engenheiros, Richard Neutra comentou:
“O prefeito do mandato anterior, Prestes Maia, era um engenheiro
com forte instinto de planejamento. Sua administração produziu um
anel de avenidas arteriais, regulamentações hídricas, pontes e túneis.
Mas São Paulo, a capital de um estado com imenso futuro, ainda
carece de um departamento de planejamento, ainda não tem leis de
zoneamento. Por seus esforços para corrigir essas limitações, é neces-
sário parabenizar organizações cívicas ainda incipientes, como a Co-
missão de Habitação e o Instituto dos Arquitetos do Brasil, que conta
com Eduardo Kneese de Mello como presidente e Gregori Warcha-
vchik, o pioneiro da arquitetura contemporânea no Brasil, Rino Levi,
e muitos outros profissionais e estudiosos capazes como membros
ativos”.127

E sobre a questão da industrialização, em específico sobre seu subdesenvolvi-


mento e como os arquitetos agiam para driblar este problema, constatou:
“À medida em que as populações e o poder de compra continuarão
a crescer nas próximas décadas, estes países se tornarão um grande
mercado para os itens produzidos em massa para a construção e
equipamento de edifícios. A atual falta de certos materiais e equipa-
mentos fez a manufatura mexicana, argentina e brasileira inventiva;
seus arquitetos de VANGUARDA, experimentais; seus engenheiros,
ousados; e seus construtores (em alguns casos), muito criativos. Muito
tem sido adquirido; sua indústria aumenta consideravelmente a diver-
sidade da produção mundial”.128

127. “The Mayor of the past regime, Prestes Maia, was an engineer with a strong planning instinct. His admi-
nistration produced ring and arterial avenues, river regulations, bridges, and tunnels. But Sao Paulo, the capital
city of a state with an immense future, still lacks a planning department, still has no zoning laws. For their efforts
toward rectifying these limitations, congratulations must go to such incipient civic organizations as the Citizens
Housing Committee and to the chapter of the Brazilian Institute of Architects of which Eduardo Kneese de Mello
is president and Gregori Warchavchik, the pioneer of contemporary architecture in Brazil, Rino Levi, and many
others studious and capable professionals are active members”. Tradução da autora. Indem, ibidem, p. 69.
128. “As the populations and purchaising power continue to grow during the coming decades, these countries
will become a vast market for mass-produced items for the construction and equipment of buildings. The current
lack of certain materials and equipment has made Maxicans, Argentinian, and Brazilian manufactures inventive;
their AVANT-GARDE architects, experimental; their engineers, daring; and their building ordinances (in some
cases), very openminded. Much has been gained; their industry adds considerably to the diversity of world pro-
duction”. Tradução da autora. Idem, ibidem, p. 72.

107
Já no caso do artigo Sun Control Devices, Richard Neutra se dedica ao estudo
das soluções adotadas pelos arquitetos latino-americanos para resolver a ques-
tão do controle da luz do sol e do calor típicos de uma região tropical. Ancorado
por fotografias tiradas em sua maioria durante a viagem pela América do Sul –
vale destacar que algumas das fotografias utilzadas neste artigo são de autoria
de Kidder Smith, originalmente tiradas para ilustrar a exposição e catálogo Bra-
zil Builds do MoMA, em 1943 –, Neutra apresenta ao público dos Estados Uni-
dos os beiriais com aberturas ventiladas, como aqueles desenvolvidos junto ao
Comitê de Obras Públicas de Porto Rico; as varandas servindo como circulação
periférica, como é o caso de uma escola na Bahia e do Hotel Excelsior projetado
por Rino Levi em São Paulo; os pergolados, com exemplos de projetos do nor-
te-americano Raphael Soriano e de Gregori Warchavchik; as venezianas usadas
por Álvaro Vital Brazil, para o Edifício Esther em São Paulo, e por Gregori War-
chavchik, para sua residência no Guarujá; os cobogós usados por Lúcio Costa
e Oscar Niemeyer no Pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Nova York,
em 1939; o brise-soleil do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro;
os brises móveis dos edifícios Leonidas Moreira de Eduardo Kneese de Mello,
Estação de Hidroaviões de Atílio Corrêa Lima e de um edifício de apartamentos
em Buenos Aires129; e as janelas e portas pivotantes na fachada de edifício não
identificado.
Segundo Neutra, “Nenhuma outra característica da arquitetura sul-americana
tem chamado tanta atenção quanto os meios visíveis de controlar a luz solar que
caracterizam os edifícios”.130 E diz também ter encontrado tamanha diversidade
e riqueza cultural e arquitetônica que se espantava de não ter sido publicado um
livro que mostrasse ao mundo a produção destes países.131

129. Em depoimento à pesquisadora, Raymond Neutra que os brises móveis estudados por Richard Neutra, nos
edifícios latino americanos, foram incorporados à sua arquitetura já em 1946 com a casa Kauffman e, também,
no projeto de reconstrução de sua própria casa, VDL II, em 1965.
130. “No other single feature of South American architecture has excited as much attention as the conspicuous
means of controling sunlight which characterize the buildings”. Tradução da autora. NEUTRA, Richard J. Sun
Control Devices. Progressive Architecture, Nova York, n. 10, Reinhold, oct. 1946, p. 88.
131. NEUTRA, Richard J. Observations on Latin America. Progressive Architecture, Nova York, n. 5, Reinhold,
may 1946, p. 71.

108
Imagem 65 - Pierced canopies, Fixed vertical louvers, Operable lou-
vers, Exterior blinds.
109
Imagem 66 - Vertical screens, Pivoted wall sections, Anti-sun glazing.
110
LISTA DE IMAGENS CAPÍTULO 1

RELAÇÃO ESTADOS UNIDOS – BRASIL


Imagem 1 - Josep Lluis Sert (1902-1983). Fonte: <http://www.spainisculture.com/en/artistas_creadores/josep_lluis_sert.html>.
Imagem 2 - Perspectiva Cidade dos Motores. Fonte: COSTA, Alcilia Afonso de Albuquerque. As contribuições arquitetônicas habitacionais propostas na Cidade dos Mo-
tores (1945-46). Town Plannings Associates. Xerém, RJ.
Imagem 3 - Perspectiva Centro Cívico, Cidade dos Motores. Fonte: MUNFORD, Eric. The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960, p.177.
Imagem 4 - Carta de Santiago Iglesias Jr. (Puerto Rico Planning, Urbanizing and Zoning Board) para Richard Neutra, 1945. Fonte: NEUTRA, Richard Joseph. Arquitetura
social em países de clima quente, p.119.
Imagem 5 - Carta de Jacob Crane (Coordenador Assistente. Division of Defense Housing Coordination, Executive Office of the President) para Richard Neutra, 1941.
Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 6 - Doutrina Monroe. Fonte: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=31307> .
Imagem 7 - Franklin Roosevelt (1882-1945). Fonte: <http://www.presidentprofiles.com/Grant-Eisenhower/Roosevelt-Franklin-D.html>.
Imagem 8 - Eleição de Franklin Roosevelt para presidência dos Estados Unidos, 1933. Fonte: <depts.washington.edu/depress/fdr-ellection-support-seattle.shtml>
Imagem 9 - Cartaz do governo norte-americano. Works Progress Administration – WPA. Fonte: <notionscapital.wordpress.com>
Imagem 10 - Cartaz do governo norte-americano. Works Progress Administration – WPA. Fonte: <livingnewdeal.berkeley.edu/tag/works-progress-administration-w-
pa/>
Imagem 11 - Las Américas unidas para la victoria y el progresso humano. Fonte: CRAMER, Gisela; PRUTSCH, Ursula. ¡Américas unidas! Nelson A. Rockefeller’s Office
of Inter-American Affairs (1940-46), capa.
Imagem 12 - Getúlio Vargas (1882-1954). Fonte: <http://www2.planalto.gov.br/acervo/galeria-de-presidentes/getulio-dornelles-vargas/view>.
Imagem 13 - Eleanor Roosevelt autografando a pele de uma cobra em Natal, 1944. Fonte: TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil
na época da Segunda Guerra.
Imagem 14 - Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt no Rio de Janeiro, 1936. Fonte: TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época
da Segunda Guerra.
Imagem 15 - Nelson Rockefeller (1908-1979). Fonte: <revistapesquisa.fapesp.br/2009/03/01/o-capitalista-missionario/> .
Imagem 16 - Cartaz do filme That night in Rio, estrelado por Carmen Miranda, 1941. Fonte: <carmen.miranda.nom.br/cm-biografia.html> .
Imagem 17 - Villa Lobos e Walt Disney, 1941. Fonte: TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda Guerra.
Imagem 18 - Pato Donald e Zé Carioca no Rio de Janeiro. Fonte: DISNEY, Walt. Alô Amigos. [Filme-vídeo] Estados Unidos, 1942. Cor. 42 min. Sonoro.
Imagem 19 - Zé Carioca, Panchito e Pato Donald no México. Fonte: DISNEY, Walt. Los Tres Caballeros. [Filme-vídeo] Estados Unidos, 1944. Cor. 72 min. Sonoro.
Imagem 20 - Exposição de Cândido Portinari no MoMA, 1940. Fonte: TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda
Guerra.
Imagem 21 - Pintura sobre a Segunda visita de Roosevelt ao Brasil [óleo sobre tela], de Raymond Neilson, 1942. Fonte: TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a
americanização do Brasil na época da Segunda Guerra, p. capa.
Imagem 22 - Nelson Rockefeller recebe a coroa de guerreiro tupinambá. Fonte: TOTA, Antonio Pedro. O amigo americano: Nelson Rockefeller e o Brasil, p.271.
Imagem 23 - Oscar Niemeyer (1907-2012) e Le Corbusier (1887-1965) junto à equipe de arquitetos responsáveis pelo projeto da ONU, Nova York. Fonte: <http://
catalogo.artium.org/book/export/html/7752>.
Imagem 24 - Oscar Niemeyer trabalhando no projeto da nova sede da ONU de Nova York, 1947. Fonte: <http://nacoesunidas.org/oscar-niemeyer-e-homenageado-
na-sede-da-onu-em-nova-york/>.
Imagem 25 - Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York, 1939. Fonte: <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.079/287>
111
Imagem 26 - Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York, 1939. Fonte: <www.archdaily.com.br/br/01-67026/classicos-da-arquitetura-pavilhao-brasileiro-de-
1939-em-nova-york-lucio-costa-e-oscar-niemeyer>
Imagem 27 - Jardim do Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York, 1939. Fonte: <www.archdaily.com.br/br/01-67026/classicos-da-arquitetura-pavilhao-brasi-
leiro-de-1939-em-nova-york-lucio-costa-e-oscar-niemeyer>
Imagem 28 - Nelson no terraço do Rockefeller Center; ao fundo, o prédio da ONU. Fonte: TOTA, Antonio Pedro. O amigo americano: Nelson Rockefeller e o Brasil,
p.173.
Imagem 29 - Inauguração do Masp. Assis Chateaubriand, Nelson Rockefeller, presidente Eurico Gaspar Dutra. Fonte: MORAIS, Fernando. Chatô: O rei do Brasil,
p.501.

PORTO RICO
Imagem 30 - Carta de Luis Muñoz Marin (Senate of Puerto Rico) para Richard Neutra, 1945. Fonte: NEUTRA, Richard Joseph. Arquitetura social em países de clima
quente, p.119.
Imagem 31 - Rexford Tugwell (1891-1979). Fonte: <http://content.time.com/time/covers/0,16641,19340625,00.html>.
Imagem 32 - Planta para uma Escola Rural em Porto Rico, projeto de Richard Neutra, 1944. Fonte: NEUTRA, Richard Joseph. Arquitetura social em países de clima
quente, p.49.
Imagem 33 - Perspectiva interna de sala de aula, Richard Neutra, 1944. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.84.
Imagem 34 - Foto Escola Rural e Porto Rico, Richard Neutra, 1944. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.177.
Imagem 35 - Recortes do jornal porto riquenho El Mundo: Escuela modelo de Sabana Llana está operando, 08/10/1944; Planeamiento de largo alcance para edificar
en la postguerra, 18/02/1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 36 - Foto interna Escola Rural em Porto Rico, Richard Neutra, 1944. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.177.
Imagem 37 - Projeto para uma Escola Urbana em Porto Rico. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.178.
Imagem 38 - Projeto para um Centro de Saúde em Porto Rico. Fonte: NEUTRA, Richard Joseph. Arquitetura social em países de clima quente, p.135.
Imagem 39 - Detalhes do projeto para um Centro de Saúde em Porto Rico. Fonte: NEUTRA, Richard Joseph. Arquitetura social em países de clima quente, p.126.

A VIAGEM DE RECONHECIMENTO PELA AMÉRICA LATINA


Imagem 40 - Carta de Charles W. Collier (United Nations, Relief and Rehabilitation Administration) para Richard Neutra, p.1. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library
Special Collections.
Imagem 41 - Carta de Charles W. Collier (United Nations, Relief and Rehabilitation Administration) para Richard Neutra, p.4. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library
Special Collections.
Imagem 42 - Travel Sketch: possívelmente, Catedral de Havana. Fonte: McCOY, Esther. Richard Neutra, p.114.
Imagem 43 - Travel Sketch: papagaio, Pousada Belém. Fonte: McCOY, Esther. Richard Neutra, p.114.
Imagem 44 - Travel Sketch: Porto Príncipe, Haiti, 1945. Fonte: NEUTRA, Richard J. Life and Shape, p.29.
Imagem 45 - Report on visit of South American Republics, 1946, p.1. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 46 - Travel Sketch: Argentina, 1945. Fonte: McCOY, Esther. Richard Neutra, p.116.
Imagem 47 - Report on visit of South American Republics, 1946, p.3. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 48 - Richard Neutra recepcionado no aeroporto de São Paulo, 1945. Fonte: AQUINO, Paulo Mauro Mayer de (org.). Gregori Warchavchik: Acervo Fotográfico.
Imagem 49 - Richard Neutra recepcionado no aeroporto de São Paulo, 1945. Fonte: AQUINO, Paulo Mauro Mayer de (org.). Gregori Warchavchik: Acervo Fotográfico.
Imagem 50 - Richard Neutra recepcionado no aeroporto de São Paulo, 1945. Fonte: AQUINO, Paulo Mauro Mayer de (org.). Gregori Warchavchik: Acervo Fotográfico.

112
Imagem 51 - Richard Neutra em recepção dada na casa de Gregori Warchavchik, Guarujá, 1945. Fonte: AQUINO, Paulo Mauro Mayer de (org.). Gregori Warchav-
chik: Acervo Fotográfico.
Imagem 52 - Richard Neutra em visita ao Guarujá, 1945. Fonte: AQUINO, Paulo Mauro Mayer de (org.). Gregori Warchavchik: Acervo Fotográfico.
Imagem 53 - Richard Neutra em visita ao Guarujá, 1945. Fonte: AQUINO, Paulo Mauro Mayer de (org.). Gregori Warchavchik: Acervo Fotográfico.
Imagem 54 - Travel Sketch: São Paulo, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 55 - Report on visit of South American Republics, 1946, p.6. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 56 - Travel Sketch: vista elevada do Rio de Janeiro, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 57 - Travel Sketch: rua da Carioca, Rio de Janeiro, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 58 - Travel Sketch: Copacabana, Rio de Janeiro, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 59 - Travel Sketch: Niterói, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 60 - Travel Sketch: Niterói, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 61 - Travel Sketch: Ouro Preto, Minas Gerais, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 62 - Travel Sketch: Ouro Preto, Minas Gerais, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 63 - Travel Sketch: Carolina, Maranhão, 1945. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 64 - Mapa cidades visitadas na América Latina. Fonte: Acervo da autora.

OS ARTIGOS NA REVISTA PROGRESSIVE ARCHITECTURE


Imagem 65 - Pierced canopies, Fixed vertical louvers, Operable louvers, Exterior blinds. Fonte: NEUTRA, Richard J. Sun Control Devices, p.90.
Imagem 66 - Vertical screens, Pivoted wall sections, Anti-sun glazing. Fonte: NEUTRA, Richard J. Sun Control Devices, p.91.

113
CAPITULO 2 – RICHARD NEUTRA E O BRASIL
A RELAÇÃO DO ARQUITETO NORTE-AMERICANO
COM OS BRASILEIROS

Conforme os documentos coletados no acervo da UCLA, Richard Neutra estabe-


leceu diversos contatos entre os arquitetos latino-americanos após sua viagem
de reconhecimento pela América do Sul entre outubro e novembro de 1945.
No caso do Brasil, não foi diferente. Logo após retornarem aos Estados Unidos,
Richard e Dione Neutra escreveram uma carta, datada de 18 de dezembro da-
quele ano, para Henrique e Helena Mindlin comentando a situação de depres-
são e apreensão dos norte-americanos frente ao futuro:
“A atmosfera aqui nos EUA é muito cinza, deprimida e apreensiva
com relação ao futuro (...) Eu me lembro com saudades a cor e o
vigor de vida na Argentina e no Brasil e envio aos dois [Henrique e
Helena Mindlin] os meus mais calorosos votos”.1

Logo no início de 1946, Neutra enviou ao Diretório Acadêmico da Escola Nacio-


nal de Belas Artes um artigo escrito especialmente para os estudantes de arte e
arquitetura, ilustrado com fotografias de obras do arquiteto, inclusive um retrato
tirado por Gregori Warchavchik.2 Na carta, Neutra lamenta não ter passado
mais tempo com os estudantes de arquitetura no Rio e diz ter se impressionado
com os trabalhos que viu:

1. “The atmosphere here in USA is very gray, depressed and apprehensive for the future (...). I remember with
nostalgia the colour and vigour of life in Argentina and Brazil and send you both [Henrique e Helena Mindlin] my
warmest wishes”. Tradução da autora. Carta. Richard e Dione Neutra para Henrique e Helena Mindlin. Folder 8.
Box 1985. Office Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
2.“Caption list of photographs sent to ENBA, Rio de Janeiro, Brazil”. Folder 8. Box 1429. Office Records, Cor-
respondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

117
Imagem 1 - Carta de Richard e Dione Neutra para Henrique Mindlin.
118
“Fiquei profundamente triste que não pude ter mais tempo no Rio
com os estudantes de arquitetura. Eles me impressionaram com a sua
iniciativa de participação em trabalhos práticos, mesmo enquanto
ainda estudam na escola. Para os alunos do Rio, meus votos mais
cordiais!”.3

Richard Neutra inicia seu artigo To the students of Art and Architecture in Rio de
Janeiro com a afirmação de que a vanguarda do projeto e planejamento con-
temporâneos está vinculada à concepção de um ambiente saudável e estimu-
lante, e que o olhar para o passado não deve significar a repetição ritualística
de “dados” rígidos.4 E diz também que o: “Rio de Janeiro, mais do que qualquer
outra cidade, tem manifestado arquiteturalmente a sua fé e crença na arte con-
temporânea. A arte do arquiteto não é menos necessária do que a do médico
para fazer a humanidade se sentir bem”.5 E comenta também que seus esforços
como um designer de estruturas o fizeram ficar conhecido como um engenheiro
e que acreditava no papel social e na responsabilidade do artista.6
Sobre este assunto, é interessante fazer um paralelo. O arquiteto brasileiro Rino
Levi publicou um artigo, em dezembro de 1949, na revista francesa L’Architec-
ture D’Aujourd’Hui – e cuja tradução foi posteriormente publicada pela revista
Óculum, em março de 1993 –, onde discutia a arquitetura como arte e ciência.
Segundo ele, o projeto deve surgir através do estudo relacionado entre a forma
e os condicionantes ambientais e climáticos, onde o interior e o exterior estão
intimamente ligados, visando assim “a criação harmoniosa de ritmos, ordenan-
do volumes, cheios e vazios, jogando com a cor e a luz”.7

3. “I was deeply sorry that I could not have more time in Rio with the students of Architecture. They had impres-
sed me by their initiative to partake in pratical work, even while they still study at school. My very cordial wishes
are with the students of Rio!”. Tradução da autora. Carta. Richard Neutra para Diretório Acadêmico da Escola
Nacional de Belas Artes. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library
Special Collections.
4. “To the students of Art and Architecture in Rio de Janeiro”. Folder 42. Box 161. Professional Papers, Articles.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections, p.1.
5. “Rio de Janeiro, more than any other city, has architecturally expressed its faith and believe in contemporary
art. The architect is not less needed there than the medical artist, to make mankind feel well”. Tradução da auto-
ra. Idem, ibidem.
6. Idem, ibidem, p. 2.
7. LEVI, Rino. A arquitetura é arte e ciência, p.41.

119
Imagem 2 - To the students of Art and Architecture in Rio de Janeiro.

Próxima página:
Imagem 3 - Dr. Richard J. Neutra, jornal Diário de Notícias, 25/11/1945.
Imagem 4 - Conferências, jornal Correio da Manhã, 28/11/1945.
Imagem 5 - Sociais, jornal Diário Carioca, 30/11/1945.
120
Rino Levi afirma que o papel do arquiteto é mesclar seus conhecimentos artísti-
cos e científicos, sem que um cause entrave ao outro, permitindo que o processo
de criação seja livre de qualquer imposição técnica, apesar desta estar presente
desde o início.8 E diz também que a arquitetura, por se preocupar com o bem
-estar individual e coletivo, desde o desenho de um mobiliário até o projeto de
uma cidade, pode ser caracterizada como uma arte social.
“A arquitetura é frequentemente classificada como arte social, pelo
fato de envolver problemas de interesse imediato para a coletividade.
Com efeito, do desenho do móvel ao da cidade, ela abrange todos
os problemas essenciais da vida do homem individual e socialmen-
te”.9

Sobre a reconstrução mundial no pós-guerra, Richard Neutra afirma ser esta


uma tarefa que deve ser planejada e preparada considerando o imprevisto, que
deveria ser respeitado e considerado.10 E finaliza dizendo que arquitetos e urba-
nistas intuitivos e comprometidos com a necessidade contemporânea de projetos
em larga escala podem trazer a arte de volta a seu patamar de fértil prestígio.
“Só quando os arquitetos e planejadores intuitivos estiverem realizan-
do ambientes em larga escala: projetos habitacionais, bairros, co-
munidades – quando eles criarem a base de exemplos de ambientes
humanos recriados – pode a arte mais uma vez ganhar o seu prestí-
gio fértil, broto e flor na consciência de um público verdadeiramente
amplo, e da própria sociedade”.11

Junto ao artigo e fotografias, Neutra enviou também um texto introdutório a res-


peito de seus projetos e consultoria em Porto Rico e sobre a viagem de reconhe-
cimento pela América Latina. Momento no qual, segundo ele, havia realizado
extensa pesquisa, consultoria e palestras sob os auspícios do Departamento de
Estado norte-americano.

8. Idem, ibidem, p.42.


9. Idem, ibidem.
10. Idem, ibidem.
11. Idem, ibidem, p. 3.

121
“O sr. Neutra completou recentemente uma extensa viagem de pes-
quisa, consultoria e palestras por praticamente todos os países da
América Latina, sob os auspícios do Departamento de Estado norte
-americano. Nela, recolheu valioso material sobre as instalações de
saúde latino-americanas. Antes dessa tarefa, o sr. Neutra serviu como
arquiteto e consultor para o governo de Porto Rico e – no campo das
instalações médicas – esteve encarregado dos projetos de quatro hos-
pitais distritais com 2000 leitos, clínicas, centros de saúde preventiva
e centros de saúde em áreas rurais e urbanas”. 12

Em carta para o arquiteto bahiano Mário Ferreira Leal, datada de fevereiro de


1946, Richard Neutra agradece o convite para visitar Salvador – segundo ele,
atrativa por seus clássicos tesouros de arquitetura e também pelos projetos ur-
banísticos que destacariam a região –, mas comenta não ter sido capaz, apesar
de seus esforços, de conseguir lugar no voo para a capital do estado da Bahia.
De acordo com o relato e com os dados coletados nos jornais Correio da Ma-
nhã e Diário Carioca (no acervo digital da Biblioteca Nacional), Neutra regressa
de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro, onde vai proferir uma última palestra na
Escola Nacional de Belas Artes13; depois, parte de avião para Barreiras, de onde
segue via trem para Belém14, passando por Carolina, no Maranhão. Localizada
no extremo oeste da Bahia, Barreiras fazia parte do trajeto aéreo dos voos ope-
rados pela empresa Pan American Airlines entre os Estados Unidos e a América
Latina.15

12. “Mr. Neutra has just completed an extensive research, consultation and lecture trip through practically all
Latin American countries, under the auspices of the U.S. Department of State. He has gathered most valuable
material on their health facilities. Previous to this assignment Mr. Neutra served as architect and consultant the
government of Puerto Rico and – in the field of medical facilities – was concerned with the design of four district
hospitals of 2000 beds, clinics, preventive health centers and substations in rural and urban areas”. Tradução da
autora. “Material for editorial introductory remarks”. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence. Neu-
tra Collection. UCLA Library Special Collections.
13. “Conferências”. Jornal Correio da Manhã, 28/11/1945. Acervo Digital, Biblioteca Nacional. “Sociais”.
Jornal Diário Carioca, 29/11/1945. Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
14. Carta. Richard Neutra para Mario Leal Ferreira. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence. Neu-
tra Collection. UCLA Library Special Collections.
15. BETING, Gianfranco. Pan Am: a pioneira mundial no Brasil. Revista Flap, abril 2012 <http://www.revista-
flap. com.br/web/_FILES/upload/23042012-152948-materia_Pan_Am.pdf>

122
Nesta sua primeira visita ao Brasil, em 1945, Neutra também manteve contato
com Lucjan Korngold, arquiteto polonês radicado em São Paulo, e com Eduardo
Kneese de Mello. Já para Kneese de Mello, em resposta às felicitações de final
de ano, Dione Neutra diz que a memória da visita a São Paulo continuava viva e
pergunta sobre Rino Levi e Korngold. Comenta seu contato constante com Gre-
gori Warchavchik, pois estavam tratando da organização e publicação de um
livro sobre a experiência de Richard Neutra em Porto Rico – que viria a ser publi-
cado como Arquitetura social em países de clima quente; e pergunta se Kneese
de Mello havia lido o artigo publicado na revista Progressive Architecture, onde
Neutra usara vários projetos brasileiros como exemplo. Sendo eles: a Materni-
dade Universitária da Faculdade de Medicina da USP e o Hotel Excelsior, proje-
tos de Rino Levi; uma escola na Bahia (não foram encontradas maiores referên-
cias deste projeto); o Edifício Esther, de Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho,
a casa no Guarujá de Gregori Warchavchik; o Edifício da Associação Brasileira
de Imprensa, projetado pelos irmãos Roberto; a Igreja da Pampulha, de Oscar
Niemeyer; o Edifício Leonidas Moreira, de Eduardo Kneese de Mello; o Pavilhão
do Brasil na Feira Internacional de Nova York (1939), projetado por Lúcio Costa
e Oscar Niemeyer; e o Edifício do Ministério de Educação e Saúde, no Rio de
Janeiro. Por fim, Dione fala da difícil situação da construção civil nos Estados
Unidos e lamenta não trazerem os jornais norte-americanos mais notícias sobre
o Brasil.
“Aqui, a situação da construção civil está ruim e apenas uma grande
residência está perto de ser concluída. Levou um ano inteiro para ser
construída e 1200 cartas escritas para o construtor, proprietário etc.
Nós lamentamos que nossos jornais escrevam tão pouco sobre a si-
tuação política no Brasil, que deve estar muito ruim. Esperamos que
você e sua mulher aproveitem a vida e que possamos encontrá-los
algum dia em Los Angeles”.16

Página anterior: 16. “Here the building situation has been very bad and only one big residence is nearing completion. It took a
Imagem 6 - Envelope endereçado à Eduardo Kneese de Mello. whole year to build it and 1200 letters were written to contractor, owner, subcontractors etc. We are sorry that
Imagem 7 - Carta de Eduardo Kneese de Mello para Richard Neutra. our papers write so little about the political situation in Brasil which must be very bad. We hope you and your
wife enjoy life and we hope to see you some day in Los Angeles”. Tradução da autora. Carta. Dione Neutra para
Eduardo Kneese de Mello. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Li-
Nesta página: brary Special Collections.
Imagem 8 - Carta de Dione Neutra para Eduardo Kneese de Mello.
123
Os contatos do casal Neutra com estes e outros arquitetos brasileiros ou radica-
dos no Brasil se deu pela facilidade dos idiomas em comum (inglês e alemão) e
por afinidades de interesses. Para Lucjan Korngold, a grande maioria das cartas
foi escrita em alemão; como até o momento não foi possível traduzi-las, não
foram incorporadas na argumentação presente neste trabalho. De qualquer
modo, é importante ressaltar a importância e inserção social do interlocutor.
Judeu de língua alemã nascido em 1897 na capital Varsóvia, Korngold fugiu
da Polônia em 1939, refugiando-se em São Paulo, onde faleceu em 1963. Foi
um dos cicerones de Walter Gropius em sua visita ao Brasil em 1953, quando
foi homenageado na 2ª Bienal.17 Korngold é arquiteto responsável pelo edifício
CBI Esplanada – localizado no Vale do Anhangabaú e um dos ícones urbanos
de São Paulo – e diversos prédios de excelente padrão em bairros residenciais
da capital. Eduardo Kneese de Mello, engenheiro-arquiteto formado em 1931
na Universidade Mackenzie, liderou a criação do departamento paulista do
Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB/SP e torna-se seu primeiro presidente na
gestão de 1943/1946. Ou seja, Kneese de Mello ocupava a presidência duran-
te a visita de Neutra em 1945, quando estabeleceram relação de amizade. O
arquiteto paulista nos anos seguintes será responsável por importantes obras de
habitação coletiva – Edifício Japurá para o Instituto de Aposentadoria e Pensões
dos Industriários-IAPI (1947), Conjunto Residencial Ana Rosa (1952) e Conjunto
Residencial da Universidade de São Paulo-Crusp (1961), os dois últimos poste-
riores ao curso de especialização em industrialização da construção que realizou
na Inglaterra, em 1951.18
Gregori Warchavchik19 e Rino Levi20 formam a dupla dos introdutores da arqui-
tetura moderna no Brasil, tanto na prática arquitetônica como na publicação de
textos manifestos. Autores dos dois primeiros artigos de divulgação da arqui-

17. Sobre o arquiteto, ver FALBEL, Anat. Lucjan Korngold: a trajetória de um arquiteto imigrante. Tese de douto-
rado. Orientador Paulo Júlio Valentino Bruna. São Paulo, FAU-USP, 2003.
18. Sobre Eduardo Kneese de Mello, ver: REGINO, Aline Nassarala. Arquitetura moderna paulista e a habitação
coletiva. Análise da contribuição do arquiteto Eduardo Kneese de Mello. Dissertação de mestrado. Orientador
Rafael Antonio Cunha Perrone. São Paulo, FAU Mackenzie, 2006; MONTENEGRO FILHO, Roberto Alves de
Lima. Pré-fabricação e a obra de Kneese de Mello. Dissertação de mestrado. Orientadora Maria Lucia Bressan
Pinheiro. São Paulo, FAU-USP, 2007.
19. Sobre Gregori Warchavchik, ver: LIRA, José Tavares Correia de. Warchavchik. Fraturas da vanguarda. São
Paulo, Cosac Naify, 2011.
20. Sobre Rino Levi, ver: ANELLI, Renato; GUERRA, Abílio; KON, Nelson. Rino Levi. Arquitetura e cidade. São
Paulo, Romano Guerra, 2001.

124
tetura moderna no Brasil – “Acerca da arquitetura moderna”21 e “Arquitetura e
Estética das Cidades”, ambos de 192522 –, Warchavchik e Levi mantêm algumas
semelhanças no início de suas trajetórias. Ambos se formaram arquitetos em
Roma, onde foram alunos de Marcelo Piacentini. Um pouco mais velho, o russo
de Odessa cursou a Academia de Belas-Artes de Roma entre 1918 e 1920, en-
quanto o brasileiro já frequentou a escola unificada no ano letivo de 1921/22
– Scuola Superiore di Architettura di Roma, formando-se em 1926 (Levi iniciara
seu curso na Academia de Brera, em Milão). Quando retorna ao Brasil logo
após sua formatura – o artigo havia sido escrito quando cursava o quarto ano
da escola –, Rino Levi se empregará na Companhia Construtora de Santos, de
Roberto Simonsen, no mesmo cargo até então ocupado por Gregori Warchav-
chik. Concunhado de Lasar Segall e muito próximo das vanguardas modernistas
da Semana de Arte de 1922, o russo será autor de obra de grande impacto
no meio cultural paulista nos anos 1930. Levi, por sua vez, fundará em 1927
a Rino Levi Arquitetos Associados e se associará nos anos 1940 a Roberto Cer-
queira César e, posteriormente, a Luiz Roberto Carvalho Franco. Seu escritório
atuará com grande sucesso nas décadas seguintes, inclusive após sem faleci-
mento em 1965. Tanto Warchavchik como Levi frequentavam os círculos de elite
intelectual e econômica da cidade.
Outro contato importante, mas desta vez muito pontual, foi com João Vilanova
Artigas. Em junho de 1946, o arquiteto brasileiro recebeu a resposta positiva
de uma bolsa de estudos para a qual tinha se inscrito em dezembro de 1945.23
Financiada pela John Simon Guggenheim Memorial Foundation – e que cedeu
US$3.000 –, esta bolsa concedida destinava-se ao estudo da arquitetura mo-
derna dos Estados Unidos, numa viagem que aconteceu entre outubro de 1946
e outubro de 1947. Segundo o próprio Artigas, no plano de estudos enviado à
Fundação, o objetivo da viagem era conhecer de perto as obras dos grandes
mestres norte-americanos, em especial aqueles do sul do país – dada a seme-
lhança climática com o Brasil –, para então aprimorar a arquitetura que se de-
senvolvia em São Paulo.

21. Publicado originalmente em italiano, com o título “Futurismo?”, no jornal Il Picollo, São Paulo, 14.junho.
1925. No mesmo ano com o título “Acerca da arquitetura moderna”, no Correio da Manhã, 1 nov. 1925, e
republicado in FERRAZ, Geraldo. Warchavchik e a introdução da nova arquitetura no Brasil: 1925 a 1940. São
Paulo, Museu de Arte de São Paulo, 1965; XAVIER, Alberto (org.). Depoimento de uma geração. São Paulo: Co-
sac Naif, 2003; MARTINS, Carlos A. Ferreira (org.). Arquitetura e outros escritos. São Paulo, Cosac Naif, 2006.
22. ANELLI, Renato. 1925. Warchavchik e Levi – dois manifestos pela arquitetura moderna no Brasil. RUA, vol.
5, n. 1, Salvador, UFBA, 1999, p. 6-11 <www.portalseer.ufba.br/index.php/rua/article/view/3129/2244>.
23. IRIGOYEN TOUCEDA, Adriana Marta. Wright e Artigas: duas viagens, p.147.

125
“Os Estados Unidos representam no momento uma grande fonte
para estudo e investigação em arquitetura, não só pelo que alguns
de seus arquitetos já fizeram, como também porque tem atualmente
quase que o monopólio dos grandes arquitetos do mundo. F.L. Wri-
ght, Walter Gropius, R. Neutra, somente para começar uma grande
lista. A influência que estes mestres podem ter no desenvolvimento
da arquitetura americana, nós, brasileiros podemos julgar bem, lem-
brando, como frequentemente fazemos, o efeito no Rio de Janeiro da
visita de Le Corbusier.

Já em São Paulo, a minha cidade, as coisas têm-se passado de ma-


neira bem diferente. Condições locais especiais têm dificultado maio-
res raízes para a arquitetura moderna. O que nos tem faltado, pre-
tendo trazer da América”.24

Desta bolsa de estudos, dois pontos são interessantes de serem destacados. Em


primeiro lugar, a Fundação solicitava uma lista de referências, de pessoas que
pudessem ser contatadas para comentar acerca do candidato. E um dos nomes
escolhidos por Artigas foi Paul Lester Wiener – juntamente a Oscar Niemeyer,
Carleton Spraghe Smith e Paulo Menezes Mendes da Rocha25 (engenheiro, dire-
tor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e pai do arquiteto Paulo
Archias Mendes da Rocha) –, arquiteto norte-americano muito engajado nos
esforços de cooperação Estados Unidos-América Latina. Conforme visto no Ca-
pítulo 1, Wiener, juntamente a José Lluis Sert, é responsável por diversos projetos
urbanos para a América Latina – como, por exemplo, a Cidade dos Motores, no
Rio de Janeiro – e foi também parceiro da dupla Lúcio Costa e Oscar Niemeyer
na construção do Pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Nova York, em
1939.
Já o segundo ponto tem relação à filiação de Artigas ao Partido Comunista Bra-
sileiro desde 1945. Segundo a arquiteta Adriana Irigoyen, este não parece ter
sido um impedimento para a concessão da bolsa.26 E, para entendermos esta
afirmação, será preciso relembrar o panorama das relações entre os Estados
Unidos e o Brasil, comentado no Capítulo 1. Segundo afirma Patrício Del Real,
uma das estratégias norte-americanas para converter os simpatizantes do comu-

24. Idem, ibidem, p.148.


25. Idem, ibidem, p.152-153.
26. Idem, ibidem, p.147.

126
nismo na América Latina foi levá-los aos Estados Unidos e mostrá-los as vanta-
gens e prosperidade da democracia.
“a única coisa que os Estados Unidos precisa fazer para converter
os simpatizantes ao comunismo na América Latinha, concluiu [René]
D’Harnoncourt, era simplesmente dar a eles prova suficiente de que
o estilo de vida democráticodará a eles segurança e prosperidade.27
Neste sentido, estão o programa de intercâmbio, destinado a uma
classe média influente, como exemplificado na Bolsa Guggenheim
concedida a Vilanova Artigas, e as propostas de aceitação da cultura
latino-americana nos Estados Unidos. Ou seja, acesso e status servi-
riam como uma efetiva contra-propaganda”.28

Ao que tudo indica, esta tentativa do governo dos Estados Unidos em seduzir
– e converter – Vilanova Artigas às vantagens do capitalismo norte-americano
foi fracassada. Ele não apenas não deixou de se vincular ao Partido Comunista
Brasileiro como também evitou, durante toda a sua vida profissional, fazer qual-
quer referência ao período que Adriana Irigoyen chama de pragmático.
“Como já foi assinalado, seu interesse pelas novas manifestações da
arquitetura americana era evidente. Tudo leva a crer que a indife-
rença com que foi tratado o perído 1937/1946 tem sua origem no
próprio Artigas. Ele evitava toda referência a esta fase pregmática de
busca e experimentação. Talvez o fizesse movido pelo temor de des-
virtuar sua imagem política. Ou talvez pensava que a divulgação de
certas referências tiraria parte do brilho e originalidade de sua obra.
Mas o trabalho de um gênio não é criar a partir do nada, mas atra-
vés de um sem número de elementos que, mesmo que estejam ao
alcance de todos, somente em suas mãos dão origem a uma propos-
ta revolucionária”.29

27. René D’Harnoncourt, “Observations on Propaganda Activities and their Effect on Public Opinion”. May 21,
1945. Folder 1325, Series L, Box 135, Record Group 4, NAR Papers, RAC, p.3.
28. “the only thing that the United States had to do to convert communist sympathizers in Latin America, [René]
D’Harnoncourt concluded, was simply to give them sufficient proof that a democratic way of life will gain them
security and prosperity. In this, the exchange program, aimed at an influential middle class, as exemplified in
Vilanova Artigas’ Guggenheim Fellowship, and overtures towards the acceptance of Latin American culture in
the U.S. That is, acess and status, would serve as effective counter propaganda”. Tradução da autora. DEL REAL,
Patrício. Building a continent: The idea of Latin American architecture in the early postwar, p.231-232.
29. IRIGOYEN TOUCEDA, Adriana Marta. Op. cit., p.147.

127
À parte de qualquer opção política, a questão principal que concerne este traba-
lho é o contato direto entre Artigas e Richard Neutra. Foi encontrada, no acervo
Neutra Collection, uma carta datada de 5 de março de 1947, na qual o brasi-
leiro comenta estar a caminho de Los Angeles e pergunta à Neutra se poderia
encontrá-lo. Não foi possível localizar uma carta de resposta nem no acervo da
UCLA nem com a historiadora Rosa Artigas, filha do arquiteto, para saber se
o encontro realmente aconteceu. No entanto, Adriana Irigoyen, ao comentar a
viagem de Artigas pelos Estados Unidos, afirma que Neutra “sem dúvida, segere
ao colega brasileiro os principais pontos de peregrinação da Costa Oeste”.30
“Eu espero estar em Los Angeles no dia 10 e gostaria de poder visi-
tá-lo; tenho uma lista de suas casas que suspeito estar incompleta e
desejo passar o máximo de tempo possível estudando de perto seus
trabalhos”.31

Ainda no acervo Neutra Collection da Biblioteca de Coleções Especiais da UCLA


foram encontradas correspondências trocadas com o editor Gerth Todtmann
(ao longo de 1948), sobre a publicação do livro Arquitetura social em países de
clima quente; e com o paisagista Roberto Burle Marx (entre 1954 e 1956), sobre
possíveis trabalhos em parceria nos Estados Unidos e em Cuba. E, no acervo
da Biblioteca de Documentos Históricos do Masp, estão guardadas uma série
de cartas trocadas entre Richard Neutra e Pietro Maria Bardi (desde 1948 até
1951), referentes ao catálogo Neutra: Residências/Residences e à exposição de
obras do arquiteto austríaco que ocorreria em São Paulo.
É importante destacar que o montante de documentos relativos ao intercâmbio
entre Richard Neutra e o Brasil – coletados nos acervos da UCLA, Masp, Biblio-
teca Nacional e do jornal O Estado de S. Paulo – explicitam não apenas o inte-
resse dos nossos arquitetos na produção e carreira profissional de Neutra, mas
também a reciprocidade do interesse. A arquitetura e o urbanismo modernos
brasileiros foram alvo de estudos e discussões propostas pelo austríaco radica-
do nos Estados Unidos desde sua primeira visita, em 1945, até a construção de
Brasília.

30. Idem, ibidem, p.156-157. Apud: Carta de Artigas a Wagley (24.3.47).


31. “I expect to be in Los Angeles at the 10th, and I hope I can visit you; I have a list of your houses which I sus-
pect is incomplete, and I would like to spend as much time as I have studying very closely your works”. Tradução
da autora. Carta. João Vilanova Artigas para Richard Neutra. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspon-
dence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

128
Imagem 9 - Carta de João Vilanova Artigas para Richard Neutra.
129
Um pequeno texto não datado de autoria de Richard Neutra – encontrado na
Biblioteca da University of California de Los Angeles (UCLA) e, provavelmente,
registro de sua passagem pelo Brasil em 1945 – comprova não só seu interesse
pelo Brasil, mas também sua disposição em travar diálogo com os arquitetos
brasileiros. Neste texto, além de comentar um projeto específico do arquiteto
paulista Jacob Ruchti que trataremos no Capítulo 3, deixa clara sua admiração e
familiaridade com o contexto brasileiro:
“O Brasil é grande e muito diversificado. A arquitetura pode encon-
trar estímulos regionais também fora das poucas áreas metropolita-
nas, as quais são conhecidas por suas criações altamente originais.
Há projetos do período pós-guerra de edifícios prontos continuar e
ultrapassar a boa impressão que tivemos nos últimos anos diante das
habilidades dos arquitetos brasileiros. O soberbo estudo, ganhador
de prêmios, de Henrique Mindlin para o Ministério das Relações Ex-
teriores no Rio é um dos preciosos trabalhos pelos quais esperamos
ansiosos.

O que é particularmente esperançoso é uma porção merecedora e


talentosa de jovens – vários deles – em São Paulo e no Rio – que, com
clareza, demarcaram para eles próprios uma carreira de projetos de
edifícios adequados a seu tempo. Estou feliz em relação à amizade
expressada por eles aos meus próprios esforços, e meus sentimentos
por eles não é menos afetuoso. Gostaria de ter sido incumbido da
tarefa de ajudar a compor uma hemisférica e mútua lista de visitan-
tes. O contato pessoal com esses jovens criativos poderá dar bons
frutos”.32

32. “ Brazil is huge and much diversified. Architecture can find of regional stimulation also outside of the few me-
tropolitan areas, which in themselves have been known for highly original creations. There are postwar buildings
projects ready to continue and to surpass what in the last years has caused us to appreciate highly the skill of Bra-
zilian architects. Henrique Mindlin’s superbly studied and prize winning plan for the Ministry of Foreign Affairs in
Rio, is one of the fine works we may look forward to./What is particularly hopeful, is a crop of earnest and gifted
young men – dozens of them – in Sao Paulo and Rio –, who with clarity have staked out for themselves a carrier
of building design, that fits its age. I am happy about the friendship they express for my own efforts, and my fee-
ling for theirs is indeed no less friendly. I wish I was given the task to help compose a hemispheric and mutual
visitors list! Personal acquaintance of creative young men should do great things”. Tradução da autora. “Young
Brazil”. Folder 10. Box 157. Professional Papers, Articles. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

130
Com exceção dos artigos publicados na Progressive Architecture (Observations
on Latin America e Sun Control Devices) e daqueles entregues aos estudantes
chilenos33 e da Escola Nacional de Belas Artes do Rio, muitos dos textos escritos
por Neutra e coletados no acervo Neutra Collection não tinham indicação de
datas ou locais de publicação. Por fim, o interesse de Richard Neutra pelo Brasil
parece ter sido muito forte no que diz respeito à integração da arquitetura com
a paisagem. E, neste caso, a figura de Roberto Burle Marx tem destaque espe-
cial, conforme será tratado no Capítulo 3.

33. “Carta a los jovenes arquitectos de Chile”. Folder 3. Box 1966. Ofice Records, Correspondence. Neutra
Collection. UCLA Library Special Collections.

131
A PUBLICAÇÃO DO LIVRO ARQUITETURA SOCIAL E
A EXPOSIÇÃO DO MASP

O livro Arquitetura social em países de clima quente foi publicado em São Pau-
lo, em 1948, graças a uma iniciativa conjunta dos arquitetos Richard Neutra e
Gregori Warchavchik, e do editor Gerth Todtmann. A pesquisa não foi capaz de
definir o momento exato em que esta conversa teve início, mas em carta para
Eduardo Kneese de Mello, datada de janeiro de 1947, Dione Neutra relata já
estarem em contato com Warchavchik sobre este assunto.34 A edição bilíngue,
em inglês e português, contou com a participação de Minna Klabin-Warchavchik
e Carmem de Almeida na tradução dos textos, enquanto o projeto gráfico ficou
à cargo de Maria Laura Osser, representante da revista francesa L’Architecture
d’Aujourd’Hui no Brasil.35
Uma composição com 16 fotografias, assinadas pelos fotógrafos Julius Shulman
e Arthur Luckhaus, de obras “pronunciadamente não-metropolitanas”36 de Ri-
chard Neutra abre a discussão do livro, que tem por objetivo tratar dos aspectos
sociais e dos métodos e processos de fabricação de uma arquitetura voltada,
em especial, às áreas não urbanizadas: “preferimos, nêste volume e na revista
condensada das atividades de Neutra durante três décadas, apontar sobretudo
o aspecto social de sua obra, fértil e altamente instrutiva para uma geração des-
tinada a agir no amplo cenário mundial”.37
Assim, usando como base os projetos desenvolvidos junto ao Comitê de Obras
Públicas de Porto Rico, Neutra discute a necessidade de atuação do arquiteto
nas áreas rurais e dá ao leitor diversas formas de lidar com o problema. O livro,
portanto, se apresenta quase como um manual de apoio aos jovens profissio-
nais – com plantas, cortes, perspectivas e detalhes de mobiliários possíveis para
o desenho de escolas, hospitais e centros de saúde, rurais e urbanos, com dife-
rentes capacidades. Tudo isso com uma arquitetura que respeitasse as condições
climáticas e as possibilidades tecnológicas de cada local:

34. Carta. Dione Neutra para Eduardo Kneese de Mello. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
35. CAPELLO, Maria Beatriz Camargo. Recepção e difusão da arquitetura moderna brasileira nos números espe-
ciais das revistas especializadas européias (1940-1960), p. 9.
36. NEUTRA, Richard J. Arquitetura Social em Países de Clima Quente, p. 8.
Imagem 10 - Capa do livro Arquitetura social em países de clima
37. TODTMANN, Gerth. Prefácio do Editor. In: Idem, ibidem, p. 6.
quente.
132
“Durante as minhas viagens e durante os meus períodos de trabalho
em países da América Latina, pude verificar as afinidades existentes
entre êstes e a Califórnia, o que não acontece com outras regiões dos
Estados Unidos. Urge modificar o conceito largamente difundido, e
a meu vêr errôneo, de que a fria Europa e a fria América do Norte
devem servir de exemplo para todos os empreendimentos em plane-
jamento. Eis uma mentalidade colonial, que não tem mais razão de
ser nos dias atuais”.38

A introdução do livro ficou à cargo de Gregori Warchavchik e, nela, o arquiteto


dá destaque ao empenho de Neutra na busca por materiais e métodos mais
eficientes e adequados às especificidades de cada local. Ou seja, sua busca por
uma arquitetura funcional destinada a suprir as necessidades humanas.39 War-
chavchik comenta o processo de formação de Richard Neutra como arquiteto
e sua carreira profissional após ter migrado para os Estados Unidos em 1923.
E finaliza dizendo que: “Em todos os seus trabalhos demonstra dedicação real-
mente escrupulosa, desde a elaboração do programa e dos preliminares até o
mobiliário e o estudo de conservação e do funcionamento do edifício”.40
As correspondências trocadas entre Richard Neutra e o editor Gerth Todtmann
– coletadas no acervo Neutra Collection da Biblioteca de Coleções Especiais da
UCLA – permitem concluir que a publicação aconteceu efetivamente no final de
1948. Isto porque, em carta datada de 14 de dezembro daquele ano, Neutra
solicita que seu pagamento de autor seja feito com o envio de 300 cópias do li-
vro Arquitetura Social assim que ele fosse publicado.41 E, em resposta datada de
fevereiro de 1949, Todtmann afirma ter enviado um exemplar via correio aéreo
no dia 24 de dezembro do ano anterior, mas este havia retornado por falta de
licensa de exportação.42

38. NEUTRA, Richard J. Op. cit, p. 40.


39. WARCHAVCHIK, Gregori. Introdução. In: Idem, ibidem, p. 10.
40. Idem, ibidem, p. 16.
41. Carta. Richard Neutra para Gerth Todtmann. Folder 5. Box 186. Professional Papers, Correspondence. Neu-
tra Collection. UCLA Library Special Collections.
42. Carta. Gerth Todtmann para Richard Neutra. Folder 5. Box 186. Professional Papers, Correspondence. Neu-
tra Collection. UCLA Library Special Collections.
Imagem 11 - Croqui de ambientação das salas de aula.
133
Imagem 12 - Carta de Richard Neutra para Gerth Todtmann.
134
Outro dado curioso sobre esta publicação é que, em novembro de 1948, Neu-
tra enviou ao editor um texto que deveria servir de base para as cartas enviadas
à Harry Truman e outros de similar importância para anunciar o livro:
“Os leitores brasileiros e os oficiais do governo estão contentes em
reconhecer a estimulação construtiva que chega a eles através dos Es-
tados Unidos. Para os países assim como para os homens. Estimular
e ser estimulado pode significar uma criatividade muito necessária e
uma colaboração pacífica.

Arquitetura, quando conota planejar o ambiente construído em geral,


é uma questão social de primeira ordem. É, no Brasil e na América
do Norte, uma questão de economia pública e também de políticas
internas e externas. A devidamente equilibrada e contemporânea
reconstrução da definição para a vida social nos vários países do
planeta aliviará tensões e estresses em todo lugar. Nossa nova pu-
blicação, a qual tomamos a liberdade de lhe enviar uma cópia, sr.
_______, é profundamente consciente de todas as implicações men-
cionadas e, através dos trabalhos de um arquiteto e planejador con-
siderado proeminente no Brasil e nos Estados Unidos, contribui com
abordagens que levam a soluções significativas na educação pública,
saúde e habitação social”.43

Aqui, vale lembrar o envolvimento de Richard Neutra com os esforços de coo-


peração do governo dos Estados Unidos frente à América Latina. Conforme
discutido no Capítulo 1, este relacionamento se deu, principalmente, em termos
de aceitação mútua das culturas (American Way of Life e South American Way
of Life) e através da busca por soluções de problemas sociais e econômicos na
América Latina que poderiam servir como porta de entrada primeiro para o

43. “ Brazilian readers and government officials are glad to acknowledge constructive stimulation which comer
to them from the United States. For countries as for men to stimulate and be stimulated may mean much nee-
ded creative and peaceful collaboration./ Architecture, when it connotes planning the constructed environment
at large, is a social issue of the first order. It is, in Brazil as in North America, an issue of public economics and
internal and foreign politics as well. The properly balanced, contemporary reconstruction of the setting for social
life in the various countries of the planet will ease strains and stresses everywhere. Our new publication, of which
we take the liberty to dedicate a copy to you, Mr. _____, is deeply aware of all these mentioned implications,
and through the work of an architect and planner considered prominent in Brazil as in the United States, gives an
account of the approaches which lead to significant solutions in public education, health maintenance, and hou-
sing”. Tradução da autora. Carta. Richard Neutra para Gerth Todtmann. Folder 5. Box 186. Professional Papers,
Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

135
Imagem 13 - Carta de Richard Neutra para Gerth Todtmann.
136
nazismo e, posteriormente, para o comunismo. Dessa forma, a viagem de re-
conhecimento feita por Neutra pela América do Sul, em 1945 – bem como as
outras duas seguintes, em 1957 e 1958 –, e a publicação do livro Arquitetura
Social são exemplos de medidas adotadas pela política externa dos Estados
Unidos: cooperação (ou estimulação construtiva, conforme o texto enviado à
Todtmann) dos norte-americanos feita a sua república irmã, Brasil. O papel de
Richard Neutra era, portanto, de mensageiro da boa vontade desta política de
colaboração.44
No entanto, não é interesse deste trabalho minimizar o interesse real do arqui-
teto pelas características físicas e arquitetônicas dos países de clima quente. Ou
seja, a política externa dos Estados Unidos levou Neutra para a América Latina,
mas foi seu interesse pela arquitetura clima locais que manteve vivo seu contato
com os latino-americanos. E, também, talvez seja possível afirmar que foi seu
interesse por uma arquitetura adaptada aos condicionantes e clima locais que
primeiro levaram Richard Neutra a ser contatado pelo governo norte-america-
no.
É do mesmo período também que data o início da conversa entre Richard Neu-
tra e Pietro Maria Bardi sobre uma possível exposição de obras do arquiteto no
Masp. A sugestão proposta por Bardi em carta datada de 07 de dezembro de
194845 foi bem aceita por Neutra, que a considerou uma oportunidade para
alavancar as vendas do livro no América do Sul.46 O catálogo Neutra: Residên-
cias/Residences foi publicado pelo museu em 1950 e a exposição, apesar de
anunciada nos jornais, em janeiro de 1949,47 e aos editores das revistas es-
trangeiras The Architectural Forum48, L’Architecture d’Aujourd’Hui49 e Progressive

44. . “Report on visit South American Republics, by Richard Neutra, architect and President, U.S. Chapter of
Congres Internationeaux d’Architecture Moderne”. Folder 8. Box 1429. Office Records, Correspondence. Neutra
Collection. UCLA Library Special Collections; Carta. Dione Neutra para Richard K. Nobbe. Folder 19. Box 230.
Office Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
45. Carta. Pietro Maria Bardi para Richard Neutra. Pasta “Richard Neutra”. Biblioteca de Documentos Históri-
cos, Masp.
46. Carta. Richard Neutra para Gerth Todtmann. Folder 5. Box 186. Professional Papers, Correspondence. Neu-
tra Collection. UCLA Library Special Collections.
47. “O Museu de Arte de São Paulo”. Jornal Correio da Manhã, 19/01/1949. Acervo Digital, Biblioteca Nacio-
nal.
48. Carta. Pietro Maria Bardi aos editores da revista “The Architectural Forum”. Pasta “Richard Neutra”. Bibliote-
ca de Documentos Históricos, Masp.
49. Carta. Pietro Maria Bardi aos editores da revista “L’Architecture d’aujourd’hui”. Pasta “Richard Neutra”. Bi-
blioteca de Documentos Históricos, Masp.

137
Imagem 14 - Anúncio da publicação do livro Arquitetura Social.
138
Imagem 15 - Revista Pilotis, anúncio do livro Arquitetura Social.
139
Imagem 16 - Revista Progressive Architecture, anúncio do livro Arqui-
tetura Social.
140
Architecture50 em julho do mesmo ano, foi adiada diversas vezes por falta de
espaço no Museu de Arte de São Paulo.
“O Museu não pôde realizar a exposição em suas próprias salas nes-
te ano. Isto aconteceu devido à reconstrução e ampliação para outro
andar. Nós queremos, portanto, realizá-la em colaboração com o
Instituto dos Arquitetos de São Paulo. O que, no entanto, causará al-
gum atraso. Em breve lhe informaremos as datas definitivas, que nos
serão passadas pelo Instituto de Arquitetos”.51

Finalmente, no dia 07 de maio de 1951, a exposição Neutra: Residência/Resi-


dence foi inaugurada na sede de São Paulo do Instituto dos Arquitetos do Brasil.
A definição exata do ano em que se sucedeu esta exposição gerou certas dúvi-
das, pois o convite – coletado na Biblioteca de Documentos Históricos do Masp52
– informava apenas o dia, mês e local da mostra. No entanto, a carta datada
de 26 de novembro de 1951, na qual Bardi solicita ao IAB-SP a devolução do
material exposto,53 comprova a certeza do ano em que esta exposição realmen-
te aconteceu.

50. Carta. Pietro Maria Bardi aos editores da revista “Progressive Architecture”. Pasta “Richard Neutra”. Bibliote-
ca de Documentos Históricos, Masp.
51. “The Museum could not realize the exhibition in its own rooms this year. This occurred because of the recons-
truction and its enlargement to another floor. We, therefore wanted to have this exhibition in collaboration with
the Institute of Architects of São Paulo. This, however, cause some delay. We will inform you soon about the defi-
Imagem 17 - O Museu de Arte de São Paulo, jornal Correio da Manhã,
nite dates, which we will got from the Institute of Architects”. Tradução da autora. Carta. Pietro Maria Bardi para
19/01/1949. Dione Neutra. Pasta “Richard Neutra”. Biblioteca de Documentos Históricos, Masp.
Imagem 18 - As edições do Museu de Arte, jornal Correio da Manhã, 52. “Convite”. Pasta “Richard Neutra”. Biblioteca de Documentos Históricos, Masp.
29/04/1950.
53. Carta. Pietro Maria Bardi para Instituto de Arquitetos de São Paulo. Pasta “Richard Neutra”. Biblioteca de
Imagem 19 - Convite para a exposição das obras de Richard Neutra Documentos Históricos, Masp.
no IAB-SP.
141
O CASO DA II BIENAL INTERNACIONAL DO MAM-SP

No dia 29 de novembro de 1952, chegou ao escritório de Richard Neutra uma


carta enviada por Francisco Matarazzo Sobrinho – datada do dia 10 daquele
mesmo mês – informando sobre a II Mostra Internacional de Arquitetura, pro-
gramação esta parte da II Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ma-
tarazzo comenta que a abertura da exposição marcaria o início das comemora-
ções do IV Centenário de São Paulo, em dezembro de 1953, e diz que Sigfried
Giedion – presidente do júri na I Mostra Internacional de Arquitetura – havia
sugerido convidarem Neutra para participar.
“Foi precisamente o professor Giedion que nos deu o ótimo conselho
de solicitar sua valorosa colaboração como forma de obtermos ime-
diata e lucrativa divulgação entre os Arquitetos, Estudantes e também
através de ampla publicação em jornais especializados com referên-
cia a materiais e normas relativas à nossa iniciativa, que pode ape-
nas ser realizada sucedidamente com sua indispensável ajuda”.54

Neutra parece ter ficado interessado no convite, pois, no dia 2 de janeiro de


1953, sua secretária Régula Thorston respondeu a carta solicitando mais infor-
mações sobre o Prêmio São Paulo, uma competição internacional de arquitetura
que pagaria CR$300.000,00 ao vencedor.55 Também, nas diversas cartas troca-
das com Lucian Korngold neste período – as quais ainda não foram inteiramen-
te traduzidas –, compreende-se que um dos assuntos discutidos é a II Bienal de
São Paulo.56

54. “It was exactly professor Giedion who gave us the good advice of requesting your valorous colaboration in
order to obtain immediate and profitable divulgation amongst the professional Architects, the Students and, as
well through the wide publication in specialized informative newspapers with reference to material and norms
concerning our initiative, which only can be sucessfuly realized with your indispensable help”. Tradução da auto-
ra. Carta, Francisco Matarazzo Sobrinho para Richard Neutra. Folder 7. Box 187. Personal Papers, Public Rela-
tion Material. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
55. Carta. Régula Thorston para Francisco Matarazzo Sobrinho. Folder 7. Box 187. Personal Papers, Public Rela-
tion Material. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
56. Carta. Dione Neutra para Lucian Konrgold. Folder 23. Box 1972. Office Records, Correspondence. Neutra
Collection. UCLA Library Special Collections.

142
Imagem 20 - Carta de Francisco Matarazzo Sobrinho para Richard
Neutra.

Próxima página:
Imagem 21- Ficha de inscrição, II Bienal Internacional de São Paulo.
143
144
No entanto, parece ter havido alguma confusão. Em carta não datada para
Pietro Maria Bardi – que, pelo seu conteúdo, supõe-se ser de julho de 1953 –,
Dione Neutra envia os formulários de inscrição de três projetos para a Exposição
Internacional. Segundo ela, estes formulários haviam chegado em suas mãos no
início daquele ano, mas Richard Neutra teria ficado repentinamente muito doen-
te e por isso não puderam enviar os dados antes. Naquela época, MAM e Masp
dividiam o mesmo endereço, na rua 7 de Abril, e Pietro Bardi, em resposta data-
da de 24 de julho de 1953, explica o mal entendido e assegura que o material,
quando recebido, seria encaminhado ao diretor da II Bienal.
“Acredito que você saiba, a II Bienal é organizada pelo Museu de Arte
Moderna de São Paulo, que é uma instituição totalmente diferente da
nossa: de qualquer forma, não fique ansiosa sobre o material, eu pe-
direi que seja tratado com o máximo de cuidado”.57

Poucos dias antes, Arturo Porfili, secretário da II Bienal, escreveu para Dione di-
zendo que Pietro Bardi o havia informado sobre a confusão com o endereço e
que recebera uma visita de Lucian Korngold para tratar do mesmo assunto. Ou-
tra preocupação do casal Neutra era de um possível atraso na chegada do ma-
terial a ser exposto em São Paulo, apesar do correio norte-americano ter dado
como prazo até o dia 15 de agosto de 1953.58 E, sobre esta questão, Porfili afir-
mou que os organizadores da mostra estariam dispostos a abrir uma exceção,
pois acreditavam que a participação de Richard Neutra seria de grande valia
para a II Bienal.

57. “I suppose you know, the II Bienale is organized by the Museu de Arte Moderna de São Paulo, which is en-
tirely independent from ours: at any rate do not be anxious about the material, I shall ask them to handle it with
the utmost care”. Tradução da autora. Carta. Pietro Maria Bardi para Dione Neutra. Folder 7. Box 187. Personal
Papers, Public Relation Material. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
58. Carta. Dione Neutra para Pietro Maria Bardi. Folder 7. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

145
Imagem 22- Carta de Pietro Maria Bardi para Dione Neutra.
146
“Nós gostaríamos de lhe informar que mesmo que os formulários e
material a ser exposto cheguem com um pequeno atraso – não mais
do que uma ou duas semanas conforme você mencionou – a partici-
pação do arquiteto Neutra significaria um elemento tão interessante
para a Mostra Internacional de Arquitetura que acreditamos ser justi-
ficada a exceção que estamos preparados a oferecer neste caso”.59

Dione enviou para o MAM-SP cinco ampliações de fotografias tiradas dos dois
mais importantes projetos de Richard Neutra: três da casa Warren Tremaine e
outras duas da casa Edgar Kaufman60, estas recebidas no dia 10 de agosto.61
O restante do material – aquele enviado erroneamente aos cuidados de Pietro
Bardi –, no entanto, parecia ainda não ter chegado aos seu destino final. Preo-
cupada com o excessivo atraso da remessa, Dione recorreu as Consulado Brasi-
leiro em Los Angeles para que eles a interceptassem e garantissem que seguiria
viagem ao destino final.62 E enviou também uma carta para Lucian Korngold,
datada de 13 de novembro, pedindo ajuda para solucionar este problema e co-
menta não ter contado nada do que estava acontecendo para Richard Neutra,
pois sua saúde estava muito debilitada e o assunto só o deixaria pior.63
A incessante busca pela remessa perdida continuou até que, no dia 10 de maio
de 1954, Wolfgang Pfeiffer, diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo,
informou que o material havia sido entregue por engano no Masp e, com Pietro
Bardi viajando, o encaminhamento para o destino correto demorou, chegando
apenas quando a exposição da II Bienal já tinha sido encerrada. Pfeiffer, no en-
tanto, sugeriu a organização de uma nova exposição com este material.

59. “We should like to let you know that even if the entry forms and the exhibition material should have to arrive
with a slight delay – in any case not more than the one or two weeks you mentioned – the participation of the
architect Neutra would mean such an interesting element for the International Exhibition of Architecture that we
feel the exception we are prepared to grant in his case, would be justified”. Tradução da autora. Carta. Arturo
Porfili para Dione Neutra. Folder 7. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material. Neutra Collection. UCLA
Library Special Collections.
60. Carta. Dione Neutra para Arturo Porfili. Folder 7. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material. Neutra
Collection. UCLA Library Special Collections.
61. Carta. Arturo Porfili para Dione Neutra. Folder 7. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material. Neutra
Collection. UCLA Library Special Collections.
62. Carta. Dione Neutra para Brazilian Consulate. Folder 7. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
63. Carta. Dione Neutra para Lucian Korngold. Folder 7. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

147
Imagem 23 - Carta de Arturo Profili (Secretário, II Bienal) para Dione
Neutra.
148
Imagem 24 - Carta de Dione Neutra para o Consulado do Brasil em
Los Angeles.
Imagem 25 - Museu de Arte Moderna, jornal O Estado de SP,
06/07/1954.
149
“Nós gostaríamos de usá-lo de qualquer forma e exibi-lo em nosso
museu num período que tivermos espaço disponível e alguma outra
exposição que combine com a sua arquitetura. Ficaríamos gratos de
receber uma notícia sua se concordar com nosso plano”.64

Muito insatisfeita com o ocorrido, Dione Neutra escreveu para Bardi, em 15 de


maio de 1954, dizendo não entender como o Masp manteve consigo um mate-
rial que não estavam esperando, mesmo sabendo que o museu ao lado estava
organizando uma exposição internacional: “Não teria um simples telefonema,
perguntando se eles estavam esperando algum material do sr. Neutra, resolvido
o problema?”65 E, para Wolfgang Pfeiffer, Dione pediu que, se a possível exposi-
ção sugerida não se concretizasse, o material fosse devolvido, pois se tratavam
de fotografias e desenhos dos três maiores projetos de Richard Neutra.66 No en-
tanto, em 7 de junho de 1954, Pfeiffer informou o casal Neutra que a exposição
de suas obras no MAM-SP realmente ocorreria em julho seguinte e que, portan-
to, o material seria devolvido logo após.67 Exposição esta que fora anunciada
pelo jornal O Estado de S. Paulo.68

64. “We would like to make some use of it anyway and to exhibit it in our museum at a time in which we have
some space available and some other objects in exhibition which combine with your architecture. We would be
glad to have a notice from you that you agree with this plan”. Tradução da autora. Carta. Wolfgang Pfeiffer para
Richard Neutra. Folder 8. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material. Neutra Collection. UCLA Library
Special Collections.
65. “Would not have a simple telephone call of inquiry whether they expected any material from mr. Neutra have
solved the problem?”. Tradução da autora. Carta. Dione Neutra para Pietro Maria Bardi. Folder 8. Box 187.
Personal Papers, Public Relation Material. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
66. Carta. Dione Neutra para Wolfgang Pfeiffer. Folder 8. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
67. Carta. Wolfgang Pfeiffer para Dione Neutra. Folder 8. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
68. “Museu de Arte Moderna”. Jornal O Estado de SP. 07/07/1954 e 22/07/1954. Acervo Digital. O Estado de
Imagem 26 - Museu de Arte Moderna, jornal O Estado de SP,
SP.
22/07/1954.
150
Imagem 27 - Carta de Dione Neutra para Pietro Maria Bardi.
151
Segundo Pfeiffer, em carta datada de 30 de agosto de 1954, os projetos de
Neutra foram alvo de grande atenção dentre os visitantes do museu.69 E Dante
Paglia, da editora EDIAM (Edições Americanas de Arte e Arquitetura), respon-
sável pela publicação do catálogo da Bienal, mostrou-se interessado em incluir
tais projetos em seu próximo livro sobre a mostra internacional. De acordo com
Paglia, este catálogo, que seria editado em português, inglês e francês e distri-
buído no mundo todo, seria uma compilação dos mais expressivos trabalhos
expostos na II Mostra Internacional de Arquitetura.
“Dentre os nomes que nos honraram com seus trabalhos, na II Bie-
nal, o seu goza de um lugar especial. Seu projeto Casa para War-
ren Tremaine, de 1949, tem sido objeto de extensiva divulgação em
publicações técnicas e, por isso, gostaríamos de lhe oferecer algo
especial, inserindo em nossa publicação alguns de seus projetos não
publicados”.70

69. Carta. Wolfgang Pfeiffer para Dione Neutra. Folder 8. Box 187. Personal Papers, Public Relation Material.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
70. “Among the names who honoured us with their work, at the 2nd Biennal, yours enjoys a particular place.
Your work House for Warren Tremaine, 1949, having been a subject of extensive divulgation in technical reviews,
we would very much like to offer you something special, by inserting in our publication, some of your unpublished
works”. Tradução da autora. Carta. Dante Paglia para Richard Neutra. Folder 8. Box 187. Personal Papers, Pu-
blic Relation Material. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

152
Imagem 28 - Carta de Wolfgang Pfeiffer (Diretor, MAM-SP) para Dione
Neutra.
153
Imagem 29 - Carta de Dante Paglia (Edições Americanas de Arte e
Arquitetura) para Richard Neutra, p.1.
154
OUTRAS TRÊS VISITAS AO BRASIL

Após 1945, Richard Neutra visita o Brasil outras três vezes: em 1957, 1958 e
1959. Neste último ano, veio para participar do Congresso Internacional de Crí-
ticos de Arte, organizado pela Seção Brasileira da Associação Internacional de
Críticos de Arte (ABCA-AICA)71 – assunto que será discutido mais adiante. Mas,
para compreendermos os motivos e circunstâncias das duas viagens anteriores,
será necessário um parênteses. Ou seja, será preciso primeiro estudar o envol-
vimento de Neutra com o grupo do CIAM (Congrès Internationaux d’Architecture
Moderne) e com a constituição das Nações Unidas.
Criado na Suíça, em 1928, o CIAM representava um grupo de arquitetos preo-
cupados em criar um senso unificado daquilo que acreditavam ser uma nova
possibilidade arquitetônica – e que hoje é conhecida como o Movimento Mo-
derno na arquitetura.72 Inicialmente, vincularam-se apenas às iniciativas habi-
tacionais da Europa e seus membros tinham, portanto, pouco envolvimento na
América do Norte.73 O primeiro esforço em promover uma discussão sobre o
urbanismo nos Estados Unidos foi através da publicação do livro Can our cities
survive? An abc of urban problems, their analyses, their solutions: based on the
proposals formulated by CIAM, escrito por José Luis Sert em 1942.
“uma vez que o livro finalmente apareceu, a Universidade de Harvard
informou Sert que as vendas estavam boas. Cópias foram distribuídas
para os membros do Conselho de Planejamento Nacional, da Admi-
nistração Federal de Habitação, da Agência Nacional de Habitação
e para alguns oficiais do governo, incluindo Wallace K. Harrison, que
então atuava como Vice-Coordenador para Assuntos Inter-America-
nos”.74

71. HUGHES, Henry Meyric. A crítica de arte amadurece: Brasília, AICA e o Congresso Extraordinário de 1959.
In: SEGRE, Roberto; LOBO, Maria da Silveira. Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte. Cida-
de nova: sítese das artes, p. 6.
72. MUNFORD, Eric. The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960, p. 1.
73. Idem, ibidem.
74. “once the book finally appeared the Harvard University Press reported to Sert that it was selling well. Copies
were distributed to members of the National Resources Planning Board, the Federal Housing Administration, the
National Housing Agency (successor to the United States Housing Authority), and selected government officials,
including Wallace K. Harrison, then serving as Deputy-Coordinator for Inter-American Affairs”. Tradução da au-
Imagem 30 - Capa do livro Can our cities survive?
tora. Idem, ibidem, p. 134.
Imagem 31 - Contracapa do livro Can our cities survive?
155
Após a publicação do livro de Sert, o CIAM focou suas atividades e interesses
nos esforços de reconstrução pós-guerra na Europa e, para isso, criou, em
1943, a Seção de Nova York para Assistência e Planejamento Pós-Guerra (New
York Chapter for Relief and Postwar Planning).75 Sendo seus membros escolhi-
dos: Richard Neutra como presidente; Longberg-Holm, José Luis Sert e Paul
Nelson como vice-presidentes; e Harwell Hamilton Harris como secretário-te-
soureiro.76 Neste momento, a real preocupação do grupo, segundo afirma Eric
Munford, parece ter sido a de conseguir comissões para seus membros. “Como
Gropius colocou, a intenção deles era talvez mais direcionada aos efeitos práti-
cos do que em criar um novo movimento filosófico”.77
A busca por um envolvimento mais efetivo do CIAM na reconstrução pós-guerra
levou o grupo a buscar participação, por exemplo, em órgãos como as Nações
Unidas. Assim, em 1945, o comitê executivo do CIAM decidiu que Richard Neu-
tra deveria participar, como representante do grupo, da Conferência de São
Francisco – que viria a determinar a consolidação das Nações Unidas. Coube
a Stamo Papadaki – arquiteto que também estabelecerá fortes vínculos com o
Brasil ao participar do júri do concurso de Brasília e ao escrever um livro sobre
Oscar Niemeyer – comunicar a Neutra a decisão:
“O Comitê Executivo nova-iorquino da Seção do CIAM para Assis-
tência e Planejamento Pós-Guerra confiou a mim a tarefa de lhe
informar o seguinte: que eles lhe transmitem a decisão de que você
irá representar a Seção na Conferência de São Francisco, e que ex-
pressam a você os agradecimentos por seus esforços em assumir tal
responsabilidade”.78

75. Idem, ibidem, p. 142.


76. Idem, ibidem, p. 147.
77. Idem, ibidem, p. 145. Apud: Gropius to Sert, February 21, 1944 (JLS).
78. “The New York Executive Committee of the CIAM Chapter for Relief and Post War Planning, has entrusted me
to inform you the following: that they convey to you their decision to have you represent the Chapter at the San
Francisco Conference, and that they express to you their thanks fou your effort in carrying out the above responsi-
bility”. Tradução da autora. Carta. Stamo Papadaki para Richard Neutra. Folder 2. Box 233. Professional Papers,
CIAM. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.

156
Imagem 32 - Carta de Stamo Papadaki (Secretário, CIAM) para Ri-
chard Neutra.
157
Imagem 33 - Carta de Francis H. Russel (Chefe, Division of Public
Liaison, Department of State) para Richard Neutra.
158
A relação de Neutra com o CIAM, no entanto, parece ter se distanciado ao lon-
go do tempo. E o historiador Eric Munford – em depoimento dado, por email,
à pesquisadora em dezembro de 2014 – aponta alguns possíveis motivos. Em
primeiro lugar, a relação aparentemente distante com Walter Gropius, influen-
te membro do grupo. Em segundo lugar, por seu escritório e prática projetual
estarem em Los Angeles em um período em que as viagens de negócios, nos
Estados Unidos, eram feitas quase inteiramente de trem. Ou seja, sua localiza-
ção era, para a época, remota. E, por fim, o passado socialista de CIAM podia
afetar negativamente a carreira dos arquitetos norte-americanos no pós-guer-
ra. Motivo este que também poderia justificar o não envolvimento de arquitetos
como George Howe, Wallace Harrison e Eero Saarinen, que, segundo Munford,
foram por várias vezes convidados a fazer parte do grupo, mas preferiram man-
ter-se distantes.
“Minha conclusão, a partir do estudo de diversos documentos rele-
vantes, é que Sigfried Giedion, então nos Estados Unidos, era o prin-
cipal organizador da Seção de Nova York, continuando o papel que
desempenhou no CIAM desde 1929. Até onde eu saiba, o objetivo
do grupo era influenciar as propostas de planejamento pós-guerra
na Europa e seu principal fruto parece ter sido a criação da Socie-
dade Americana de Arquitetos e Urbanistas (ASPA) – sobre o qual
escrevi no meu livro Defining Urban Design –, que então convidou
Le Corbusier para apresentar seu projeto Saint Die, de reconstrução
da França (e, por extensão, para a reconstrução mundial), em Nova
York logo após o término da guerra.Dada a localização remota de
Neutra (para a época) e pela necessidade de grandes projetos para
planejamento de áreas suburbanas, ele não era visto no CIAM como
uma figura tão importante, em questões de desenho urbano, quanto
Le Corbusier.

159
Imagem 34 - Relatório da United Nations Relief and Rehabilitation
Administration.
160
Tendo o CIAM americano permanecido viável, Neutra continuou
como o seu líder – foi também convidado pelo então presidente do
CIAM, Josep Lluis Sert, para uma palestra na Primeira Conferência de
Design Urbano de Harvard, em 1956. Mas os líderes do CIAM nos
Estados Unidos (Gropius, Sert, Giedion), no final da década de 1940,
concluiram que país não era uma ambiente muito receptivo para o
CIAM, talvez baseados em partes pelas experiências profissionais
de Gropius e também pelo receio de envolvimento com o grupo por
parte de arquitetos norte-americanos como George Howe, Wallace
Harrison e Eero Saarinen, que foram por várias vezes convidados a
fazer parte do CIAM mas preferiram manter alguma distância, assim
como Mies van der Rohe (no entanto, Mies continuou a pagar os tri-
butos do CIAM até por volta de 1956). Esta questão pode muito bem
ter ocorrido devido ao consenso de que o passado socialista do CIAM
poderia afetar negativamente a carreira destes arquitetos no cenário
pós-guerra dos Estados Unidos, o que de fato aconteceu com muitas
personalidades no campo das artes quando o McCarthismo iniciou,
no final da década de 1940, a tentativa de eliminar o comunismo do
Departamento de Estado, dos militares, de Hollywood, etc.”.79

79. “My sense from close study of many of the relevant documents is that Sigfried Giedion, then in the United States,  was the
key organizer of the NY Chapter, continuing the role that he had played in CIAM since 1929. As far as I can tell, the goal of the
group was to influence postwar reconstruction planning in Europe, and its main outcome seems to have been the creation of
the American Society of Architects and Planners (ASPA) — which I have written about in my Defining Urban Design —which then
invited Le Corbusier to present his St Die project for French reconstruction (and by extension, world reconstruction) in New York
immediately after the war. Given Neutra’s remote (at the time) location and by necessity largely suburban sort of work, he was
not seen as an important an urban design figure in CIAM as Le Corbusier./ Had American CIAM remained viable, he may have
continued to be the leader of it—he was invited by CIAM President Josep Lluis Sert to speak at the First Harvard Urban Design
Conference in 1956, for example. But the leaders of CIAM (Gropus, Sert, Giedion) in the US had decided by the late 1940s
that the US was not a very receptive environment for CIAM, perhaps based in part on Gropius’s professional experiences and
also on the unwillingness to be much involved with CIAM by American architects like George Howe, Wallace Harrison and Eero
Saarinen, who had all been approached to join CIAM but stayed at some distance from it, like Mies van der Rohe (though Mies
continued to pay CIAM dues down to 1956). This may well have been from a realistic sense that CIAM’s socialist past might
negatively affect their careers in the postwar US, as in fact happened to many figures in the arts  once McCarthyism got un-
derway in the late 1940s in trying to root Communists out of the State Dept. the military, Hollywood, etc.”. Tradução da autora.
Entrevista por email de Eric Munford para Fernanda Critelli, 08/12/2014.

161
Por outro lado, apesar deste aparente esfriamento das relações de Richard Neu-
tra com o CIAM, aquelas estabelecidas com o grupo das Nações Unidas parece
ter perdurado. Foram encontradas, no acervo Neutra Collection da UCLA, car-
tas que comprovam o contato com representantes deste grupo desde a Confe-
rência de São Francisco, em 1945, até poucos meses antes de seu falecimento.
E é a partir destes dados que se baseia a suposição – considerada plausível pelo
historiador Thomas Hines em entrevista dada à pesquisadora em dezembro de
2014 –, para a justificativa das viagens consecutivas nos anos de 1957 e 1958.
A leitura do livro publicado pelo Departamento de Informação das Nações Uni-
das em 1961 – The United Nations and Latin America: a collection of basic infor-
mation material about the work of the United Nations and the related agencies in
Latin America –, permite compreender o interesse do grupo das Nações Unidas
e das agências aliadas, como a Economic Commission for Latin America (ECLA)
– Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) –, em questões de desen-
volvimento e urbanização dos países latino-americanos.
“ECLA estudou os problemas de urbanização, particularmente aque-
les associados aos movimentos migratórios em larga escala de áreas
rurais para urbanas que está afetando gravemente a maioria das
grandes cidades da América Latina”.80

Neste contexto, foram organizadas diversas conferências e reuniões, que acon-


teceram em países da América Latina, para discutir questões como, por exem-
plo: a questão do financiamento para habitações sociais, ocorrida em 195781;
e sobre os problemas da arquitetura e do urbanismo nas novas cidades (New
towns: problems of urbanism and architecture), ocorrida em 1958 no Rio de Ja-
neiro e em Brasília.82 Assim, dado o interesse de Richard Neutra nestes assuntos,
acredito ser plausível afirmar que tais encontros foram os motivos que o trouxe-
ram de volta ao Brasil nestes anos consecutivos.

80. “ECLA has studied the problems of urbanization, particularly those associated with the large-scale migratory
movement from rural to urban areas which is greatly affecting the majority of the large cities of Latin America”.
Tradução da autora. UNITED NATIONS, The United Nations and Latin America: a collection of basic information
material about the work of the United Nations and the related agencies in Latin America, p. 19-20.
81. Idem, ibidem.
Imagem 35 - Notícias e comentários, jornal Diário de Notícias,
82. Idem, ibidem, p. 163.
22/06/1957.
162
Tais visitas foram divulgadas nos jornais cariocas Diário de Notícias e Correio
da Manhã. No primeiro caso, a notícia se referia a uma visita de, aproximada-
mente, seis dias no Rio de Janeiro – entre 15 e 21 de junho de 1957 –, quando
proferiu palestras na Escola Nacional de Belas Artes.83 Já no segundo caso, a re-
portagem dizia respeito a uma carta escrita por Neutra e enviada ao presidente
Juscelino Kubitschek – Neutra à JK: Brasília, maravilhosa obra de Niemeyer –, em
julho de 1958, e onde também comenta, além da visita à nova capital ainda em
construção, sua passagem pelo Rio de Janeiro.
O entusiasmo de Richard Neutra com as obras de Oscar Niemeyer e com a
construção de Brasília fica muito claramente expressado na carta enviada à Jus-
celino e, por isso, acredita-se ser de grande valia sua reprodução integral:
“Meu caro senhor presidente,

De volta a Washington, tenho sempre relembrado, em minhas con-


versas, a profunda impressão que tive da nova Capital do Brasil e
da maravilhosa obra planejada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.
Espero que o palácio presidencial esteja concluído, na sua beleza e
esplendor, a demonstrar a liderança do Brasil nos projetos arquite-
tônicos do mundo contemporâneo, ao qual devem os arquitetos de
muitos países que visitei, em todos os continentes.

Permita-me agradecer-lhe, novamente, o encontro que me proporcio-


nou, quando de meu regresso de Brasília. Estou muito interessado no
livro que vossa excelência mencionou, que contém estudo histórico de
uma dúzia de capitais fundadas e executadas pelo homem, através
dos tempos. Vossa excelência estava, como disse, lendo esse livro por
ocasião de nossa visita, e gostaria de saber o seu título.

Permita-me reiterar-lhe que tive imenso prazer em encontrar Nie-


meyer, cujo gênio admiro desde que visitei Belo Horizonte, há mais
de doze anos. Oscar Niemeyer produziu uma obra-prima, estimulado
por um cliente de fascinante visão como é vossa excelência. Desejo
que esse admirável trabalho de Brasília, sob a liderança cívica e artís-
tica de vossa excelência, continue vitorioso e atinja a um término feliz.

83. “Notas e comentários”. Jornal Diário de Notícias. 22/06/1957. Acervo Digital, Biblioteca Nacional.

163
Como estamos no momento construindo a embaixada americana em
Karachi, no Paquistão, tive ocasião de visitar, no nosso Departamento
de Estado, Mr. Hughes, chefe da Divisão de Construção, e pude veri-
ficar com satisfação que ele é igualmente entusiasta do Brasil.

Cordialmente,

Richard Neutra”.84

No ano seguinte, em setembro de 1959, Richard Neutra voltou ao Brasil, acom-


panhado de figuras importantes como Giulio Carlo Argan, Bruno Zevi, Eero
Saarinen e Jean Prouvé, dentre outros, para participarem do Congresso Interna-
cional Extraordinário de Críticos de Arte em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.
Estruturado pela Associação Internacional de Críticos de Arte, AICA – uma or-
ganização não-governamental criada entre 1949 e 1950 e com algumas seme-
lhanças, no que diz respeito a seu foco cultural, com a Unesco (United Nations
Educational, Scientific and Cultural Organization)85 –, o tema centra deste con-
gresso, A Cidade Nova-Síntese das Artes, baseou-se na discussão da construção
de Brasília86 e de seu lugar na arquitetura e urbanismo da época.87
Henry Meyric Hughes, presidente honorário da AICA e chefe da Divisão de
Construção do Departamento de Estado norte-americano (citado por Neutra em
sua carta para Juscelino), afirmou que Brasília representava os esforços progres-
sista em prol do desenvolvimento econômico do país.

84. “Neutra à JK: Brasília, maravilhosa obra de Niemeyer”. Jornal Correio da Manhã. 31/07/1958. Acervo
Digital, Biblioteca Nacional.
85. HUGHES, Henry Meyric. Op. cit., p. 7.
86. Idem, ibidem, p. 6.
87. SEGRE, Roberto. A espiral da história: 1959-2009. In: SEGRE, Roberto; LOBO, Maria da Silveira. Op. cit.,
Imagem 36 - Inaugura-se hoje em Brasília o Congresso de Críticos de
p. 12.
Arte, jornal O Estado de SP, 17/09/1959.
164
Imagens 37 e 38 - Richard Neutra em palestra na FAU-USP, 1959.
Imagem 39- Richard Neutra em visita à Brasília, 1959.
165
166
“Para muitos europeus cansados da guerra, os países subdesenvolvi-
dos da América Latina, como a Argentina e a Venezuela, assim como
o Brasil, ofereciam a esperança da regeneração econômica e novas
ideias, enquanto para os norte-americanos existia a atração adicional
de uma última fronteira, associada aos seus próprios mitos fundado-
res. Assim, a construção de Brasília numa escala ainda mais extensa
e ambiciosa do que em outras novas capitais, tais como Camberra
e Chandigard, foi vista por todos os envolvidos como um gesto de
grande força simbólica”.88

Não é o objetivo deste trabalho aprofundar o tema das críticas e defesas da


construção de Brasília geradas nos debates do congresso, mas sim evidenciar a
participação de Richard Neutra e seu entusiasmo com a nova capital brasileira.
As conferências aconteceram em Brasília, entre os dias 17 e 19 de setembro;
em São Paulo, nos dias 21 e 22, coincidindo com a abertura da V Bienal – ago-
ra em sua nova casa, o Palácio das Indústrias projetado por Oscar Niemeyer
–; e no Rio de Janeiro, entre 23 e 25. De acordo com as atas, publicadas pelo
Docomomo do Rio em 2009, Richard Neutra participou da Segunda Sessão de
Urbanismo ocorrida na tarde do dia 18 de setembro de 1959, no Palácio de
Justiça em Brasília. Acompanhado de Giulio Carlo Argan, Mário Pedrosa, Bruno
Zevi e Eero Saarinen, dentre outros, Neutra discutiu sobre o esforço de impulsio-
nar o desenvolvimento sem perder de vista as necessidades do indivíduo.
“Estamos vivendo numa era de realizações em massa, e o presidente
Kubitschek podia fazer isso. (...) No meio de todas essas realizações
de massa, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa não se perderam, e soube-
ram dar valor ao indivíduo. Talvez seja esta a impressão mais impor-
tante que se leva de Brasília. E tem sido assim durante todo este tem-
po de trabalho em três turnos, ininterrupto, em Brasília – cinquenta
mil pessoas trabalhando ao mesmo tempo”.89

Os jornais brasileiros da época acompanharam os preparativos e o congresso


em si, divulgando as atividades e opiniões dos congressistas em relação a Brasí-
Página anterior: lia.90 Na edição de 25 de setembro de 1959, o jornal carioca Correio da Manhã
Imagem 40- Richard Neutra em visita à FAU-USP, com Giulio Carlo
Argan, 1959. 88. HUGHES, Henry Meyric. Op. cit., p. 6.
89. SEGRE, Roberto; LOBO, Maria da Silveira. Op. cit., p. 40.
Nesta página:
90. “Opiniões sobre Brasília por membros da Associação de Críticos de Arte, no Congresso Internacional Ex-
Imagem 41 - Richard Neutra em visita ao Rio de Janeiro com Lota Ma-
traordinário de Críticos de Arte”. Jornal Correio da Manhã. 27/09/1959. Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
cedo Soares e Sérgio Bernardes.
167
publicou sobre o almoço organizado para os críticos e que aconteceu no dia
anterior, no restaurante Esquilos na Floresta da Tijuca. E, nas fotos, é possível
reconhecer Richard Neutra sentado ao lado de Niomar Moniz Sodré, Diretora
Executiva do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, com quem estava con-
versando no momento da foto.91 Ainda no mesmo jornal, a edição do dia 26
comentou sobre o jantar de encerramento do Congresso Internacional de Crí-
ticos de Arte, que aconteceu nos jardins do MAM-RJ – e cujos desenhos são de
Roberto Burle Marx – e no qual o presidente Juscelino Kubitschek também estava
presente.92
As duas visitas a Brasília, em 1958 e 1959, parecem ter realmente impressiona-
do Richard Neutra. Foram encontradas, no acervo Neutra Collection da UCLA,
diversas cópias, em inglês e português, de um artigo escrito por ele sobre a ca-
pital brasileira – e, aparentemente, sem indícios de que chegou a ser publicado.
Brasília: um ponto culminante de iniciativa novamente visitado. Em honra de
seus idealizadores mostra o entusiasmo do arquiteto em relação ao esforço e
concretização desta nova cidade.
“As cidades não são composições no plano e no papel. Elas são tri-
dimensionais e operam no espaço e NO TEMPO. Brasília especial-
mente é um fenômeno no tempo. Ela muda e completa sua forma
enquanto você observa. O solo vermelho de óxido de ferro mostra
onde o sulco do progresso foi arado pelas máquinas milagrosas de
nosso tempo.

Enormes e semelhantes a torres, as estruturas projetam suas sombras


sobre as estradas, construídas desde que admirei este gigantesco es-
forço no ano passado. Estou satisfeito de ter negligenciado todas as
minhas obrigações como um arquiteto, e que meus clientes nos vários
continentes tenham-me deixado em liberdade para rever Brasília, o
que significa muito mais, em nosso convulsionado e populoso globo,
do que os próprios brasileiros possam crer.

91. “Almoço”. Jornal Correio da Manhã. 25/09/1959. Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
92. “JK confraternizou com a crítica, estrelas, arquitetos e artistas internacionais”. Jornal Correio da Manhã.
26/09/1959. Acervo Digital, Biblioteca Nacional.

168
Imagem 42 - Almoço, jornal Correio da Manhã, 25/09/1959.
169
Naturalmente eles sabem o que ela significa para sua política e eco-
nomia correntes. É muito mais difícil para os que estão mais perto jul-
gar sua futura significação quando estradas e rotas aéreas, cheias de
caminhões e veículos em todas as direções, tiverem feito esta extraor-
dinária cidade, sobre seu lago artificial, um ponto de junção cosmo-
polita, com aviões-foguete alcançando-a em curtas horas, de muitas
partes da cena planetária”.93

A leitura de todas as correspondências, artigos e recortes de jornais que com-


põem a narrativa deste Capítulo 2 levam à conclusão de que as medidas ado-
tadas pela política de relações inter-americanas dos Estados Unidos foram
essenciais para a aproximação de Richard Neutra com a América Latina, mas
foi seu interesse pessoal por estes países e suas arquiteturas que levou a tantos
desdobramentos – contatos, palestras, artigos escritos e publicados tanto entre
os norte-americanos quanto entre os latino-americanos. No caso específico da
relação com os brasileiros, foco principal deste trabalho, a atenção dada aos
estudantes da Escola Nacional de Belas Artes e da Faculdade de Arquitetura da
Universidade Mackenzie, bem como o interessem em publicar um livro sobre
suas experiências de Porto Rico no Brasil – que contou com a colaboração dos
brasileiros para a organização e tradução – e em participar de exposições no
país – casos do Masp e Bienal de São Paulo – evidenciam uma mistura entre o
papel desempenhado como mensageiro à serviço do governo dos Estados Uni-
dos e o interesse real e pessoal por nossa arquitetura e pelo cenário moderno
brasileiro.

93. “Brasília: um ponto culminante de iniciativa novamente visitado. Em honra de seus idealizadores”. Folder
Imagem 43 - JK confraternizou com a crítica, estetas, arquitetos e
30. Box 161. Professional Papers, Articles. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
artistas internacionais, jornal Correio da Manhã, 26/09/1959.
170
LISTA DE IMAGENS CAPÍTULO 2

A RELAÇÃO DO ARQUITETO NORTE-AMERICANO COM OS BRASILEIROS


Imagem 1 - Carta de Richard e Dione Neutra para Henrique Mindlin. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 2 - To the students of Art and Architecture in Rio de Janeiro. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 3 - Dr. Richard J. Neutra, jornal Diário de Notícias, 25/11/1945. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
Imagem 4 - Conferências, jornal Correio da Manhã, 28/11/1945. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
Imagem 5 - Sociais, jornal Diário Carioca, 30/11/1945. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
Imagem 6 - Envelope endereçado à Eduardo Kneese de Mello. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 7 - Carta de Eduardo Kneese de Mello para Richard Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 8 - Carta de Dione Neutra para Eduardo Kneese de Mello. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 9 - Carta de João Vilanova Artigas para Richard Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.

A PUBLICAÇÃO DO LIVRO ARQUITETURA SOCIAL E A EXPOSIÇÃO DO MASP


Imagem 10 - Capa do livro Arquitetura social em países de clima quente. Fonte: Acervo da autora.
Imagem 11 - Croqui de ambientação das salas de aula. Fonte: NEUTRA, Richard J. Arquitetura social em países de clima quente, p.117.
Imagem 12 - Carta de Richard Neutra para Gerth Todtmann. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 13 - Carta de Richard Neutra para Gerth Todtmann. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 14 - Anúncio da publicação do livro Arquitetura Social. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 15 - Revista Pilotis, anúncio do livro Arquitetura Social. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 16 - Revista Progressive Architecture, anúncio do livro Arquitetura Social. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 17 - O Museu de Arte de São Paulo, jornal Correio da Manhã, 19/01/1949. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
Imagem 18 - As edições do Museu de Arte, jornal Correio da Manhã, 29/04/1950. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
Imagem 19 - Convite para a exposição das obras de Richard Neutra no IAB-SP. Fonte: Biblioteca de Documentos Históricos, Masp.

O CASO DA II BIENAL INTERNACIONAL DO MAM-SP


Imagem 20 - Carta de Francisco Matarazzo Sobrinho para Richard Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 21 - Ficha de inscrição, II Bienal Internacional de São Paulo. Fonte: Acervo arquiteta/pesquisadora Adriana Irigoyen.
Imagem 22 - Carta de Pietro Maria Bardi para Dione Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 23 - Carta de Arturo Profili (Secretário, II Bienal) para Dione Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 24 - Carta de Dione Neutra para o Consulado do Brasil em Los Angeles. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 25 - Museu de Arte Moderna, jornal O Estado de SP, 06/07/1954. Fonte: Acervo Digital, Estadão.
Imagem 26 - Museu de Arte Moderna, jornal O Estado de SP, 22/07/1954. Fonte: Acervo Digital, Estadão.
Imagem 27 - Carta de Dione Neutra para Pietro Maria Bardi. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 28 - Carta de Wolfgang Pfeiffer (Diretor, MAM-SP) para Dione Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 29 - Carta de Dante Paglia (Edições Americanas de Arte e Arquitetura) para Richard Neutra, p.1. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.

171
OUTRAS TRÊS VISITAS AO BRASIL
Imagem 30 - Capa do livro Can our cities survive? Fonte: <http://digitalcollections.nypl.org/items/510d47db-dd65-a3d9-e04o-e00a18064a00>.
Imagem 31 - Contracapa do livro Can our cities survive? Fonte: <http://digitalcollections.nypl.org/items/510d47db-dd65-a3d9-e04o-e00a18064a00>.
Imagem 32 - Carta de Stamo Papadaki (Secretário, CIAM) para Richard Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 33 - Carta de Francis H. Russel (Chefe, Division of Public Liaison, Department of State) para Richard Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special
Collections.
Imagem 34 - Relatório da United Nations Relief and Rehabilitation Administration. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 35 - Notícias e comentários, jornal Diário de Notícias, 22/06/1957. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
Imagem 36 - Inaugura-se hoje em Brasília o Congresso de Críticos de Arte, jornal O Estado de SP, 17/09/1959. Fonte: Acervo Digital, Estadão.
Imagem 37 - Richard Neutra em palestra na FAU-USP, 1959. Fonte: TOLEDO, Benedito Lima. Vila Penteado: Registros, p.63.
Imagem 38 - Richard Neutra em palestra na FAU-USP, 1959. Fonte: TOLEDO, Benedito Lima. Vila Penteado: Registros, p.64.
Imagem 39 - Richard Neutra em visita à Brasília, 1959. Fonte: Acervo arquiteta/pesquisadora Adriana Irigoyen.
Imagem 40 - Richard Neutra em visita à FAU-USP, com Giulio Carlo Argan, 1959. Fonte: TOLEDO, Benedito Lima. Vila Penteado: Registros, p.66.
Imagem 41 - Richard Neutra em visita ao Rio de Janeiro com Lota Macedo Soares e Sérgio Bernardes. Fonte: Acervo arquiteta/pesquisadora Adriana Irigoyen.
Imagem 42 - Almoço, jornal Correio da Manhã, 25/09/1959. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
Imagem 43 - JK confraternizou com a crítica, estetas, arquitetos e artistas internacionais, jornal Correio da Manhã, 26/09/1959. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacio-
nal.

172
CAPITULO 3 – RICHARD NEUTRA, BURLE MARX E A PAISAGEM DAS AMÉRICAS
O LEGADO NA ARQUITETURA BRASILEIRA E DE RI-
CHARD NEUTRA

As visitas e participações em eventos no Brasil permitiram a Richard Neutra es-


tabelecer contatos pessoais com arquitetos, críticos, pensadores e políticos brasi-
leiros, chegando a ter contato direto com o próprio presidente do país, Juscelino
Kubitschek. Algumas destas relações sobreviveram ao esfriamento natural dos
relacionamentos por interesses específicos e perduraram ao longo do tempo.
No entanto, é importante lembrar que não apenas estas interlocuções em si fo-
ram importantes, mas também seus frutos gerados. De forma direta ou indireta,
as conexões profissionais tiveram desdobramentos positivos, tanto naquilo que
os arquitetos brasileiros assimilaram dos projetos de Neutra, quanto naquilo
que ele levou do Brasil para suas obras. Se é certo que o arquiteto austríaco
começou a frequentar o país na condição de “embaixador da boa vontade”,
encarregado pelo Departamento de Estado norte-americano, também é certo
que ao longo do tempo e a cada visita vai desenvolvendo um especial encanto
pelo país e por sua arquitetura. O tratamento diferenciado dado à arquitetura
brasileira – visível em seus textos e em sua correspondência – se expressa nas
múltiplas conversas estabelecidas, de amplitude suficientemente grande para
englobar grandes nomes de nossa arquitetura, jovens profissionais e estudantes.
Foi esta situação que seguramente o motivou a ter uma relação mais profunda,
o que acabou culminando em um projeto construído em parceria com um dos
principais nomes de nossa arquitetura, graças a sua vontade e persistência.
Assim, este capítulo irá tratar da presença da arquitetura e do pensamento de
Richard Neutra no contexto arquitetônico brasileiro em dois registros. Em pri-
meiro lugar, como influência da arquitetura de sua obra em alguns dos projetos
brasileiros, com o intuito de dar uma ideia do quanto ela se tornou referencial
para um número significativo de arquitetos nacionais. Neste momento, é im-
portante destacar que a palavra influência não deve ser interpretada como um
agente contaminante que penetra no receptor, quer ele deseje ou não. Mas sim
como algo que, em alguma medida, o receptor escolhe tomar para si, dadas as
semelhanças e/ou gosto pessoal:

Imagem 1 - Escola rural, Richard Neutra, Porto Rico.


175
“Quando se fala de influência na área da cultura, não se pode per-
der de vista que o sujeito influenciado escolheu em alguma medida
seu objeto de desejo dentre um conjunto expressivo de ofertas cul-
turais. A influência cultural é, desde sua origem, um processamento
que implica em seleção e adaptação, mesmo considerando que em
parte ela possa ser contrabandeada por mecanismos sutis da subje-
tividade ou por imposições culturais (em termos psicanalíticos, pode-
ríamos chamar estes mecanismos de inconsciente e superego)”.1

E, em segundo lugar, como uma via de mão dupla, será discutido também aqui-
lo que Richard Neutra viu no Brasil e, de alguma forma, apreendeu e desenvol-
veu em seus projetos nos Estados Unidos.
Além das exposições no Masp e no MAM-SP, o conhecimento das obras de Ri-
chard Neutra chegava ao Brasil através de publicações estrangeiras, como as
revistas Arts & Architecture e Progressive Architecture – neste caso com um certo
atraso entre a publicação e a circulação efetiva no Brasil –; e da publicação em
revistas nacionais como a Pilotis2, Acrópole3 e Habitat.4 Conforme foi apontado
na Apresentação do trabalho, é possível identificar no discurso e na análise das
obras de importantes arquitetos brasileiros a referência clara à arquitetura de
Richard Neutra.
A publicação do livro Arquitetura social, em São Paulo em 1948, e a divulgação
dos Case Study Houses, organizado pela revista Arts & Architecture, foram tam-
bém importantes neste processo. João Vilanova Artigas, por exemplo, logo após
sua viagem de estudo pelos Estados Unidos, projetou a Cadeira Preguiça, clara-
mente guiado pelos desenhos da Cadeira Boomerang projetada por Neutra em
1942 como parte do mobiliário para as moradias do Channel Heights, em Los
Angeles, como podemos comprovar a partir da observação da grande especia-
lista no assunto, Maria Cecília Loschiavo dos Santos:

1. GUERRA, Abilio. O brutalismo paulista no contexto paranaense. A arquitetura do escritório Forte Gandolfi,
p.2.
2. Carta. Jorge Wilheim para Richard Neutra. Pasta “Richard Neutra”. Biblioteca de Documentos Históricos, Imagem 2 - Escola rural, João Filgueiras Lima, Lelé, Abadiânia.
Masp.
3. “Channel Heights, Los Angeles, California”. 01/02/1952. Revista Acrópole 166. Biblioteca Faap. Próxima página:
Imagem 3 - Cadeira Boomerang, Richard Neutra, 1942.
4. “Cidade nova – Síntese das artes”. 01/11/1959. Revista Habitat 57. Biblioteca Faap.
Imagem 4 - Cadeira Preguiça, João Vilanova Artigas, 1947.
176
177
“Na área do mobiliário, Artigas desenhou, em 1948, uma poltrona,
influenciado por Richard Neutra, executada em compensado revesti-
do de peroba, com assento e encosto em tecido”.5

Luciana Tombi Brasil, em seu livro sobre a obra de David Libeskind, afirma que
a presença de Richard Neutra nas reflexões e obra do arquiteto paranaense era
constante, como fica bem claro, por exemplo, na comparação entre as casas
Birmann e Taub (1969), de Libeskind, com a casa Schulthess (1956), de Neutra.
“É no uso dos planos verticais e horizontais, na busca do espaço
fluido, na diluição dos limites entre espaço interior e exterior, no uso
das aberturas generosas, na não compartimentação do programa
residencial através dos espaços e das atividades cotidianas, que o ra-
ciocínio projetual presente nas habitações unifamiliares de Libeskind
se aproxima da arquitetura do novo estilo de vida californiano, desta-
cando a obra de Richard Neutra como uma referência particular”.6

Outro arquiteto brasileiro interessado nos projetos californianos – em especial


dos Case Study Houses – e cujas obras apresentam materialidade e composição
dos planos muito semelhante à arquitetura de Richard Neutra é Oswaldo Bratke.
Sobre este aspecto, Hugo Segawa comenta:
“Bratke também foi um admirador da arquitetura que se desenvolveu
na Costa Oeste dos Estados Unidos, sobre tudo da obra de Richard
Neutra (1892-1970) e das manifestações em torno da revista Arts &
Architecture, cujo programa dos Case Study Houses (racionalização
da construção, industrialização e experimentação de materiais, aná-
lise dos novos modelos de vida pós-segunda guerra) marcou vários
arquitetos paulistas”.7

5. SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. Móvel moderno no Brasil, p. 69.


6. BRASIL, Luciana Tombi. David Libeskind, p. 58.
7. SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil 1900-1990, p.140.

178
Imagem 5 - Residência Aron Birmann, David Libeskind, Porto Alegre,
1969.
Imagem 6 - Pátio interno da residência Aron Birmann, David Li-
beskind, Porto Alegre, 1969.
179
Imagens 7 e 8 - Residência Carlos Taub, David Libeskind, São Paulo,
1970.

Próxima página:
Imagem 9 - Residência Alfred de Schulthess, Richard Neutra, Havana,
1956.
Página anterior:
Imagem 10 - Residência Alfred de Schulthess, Richard Neutra, Havana,
1956.

Nesta página:
Imagens 11 e 12 - Residência à beira-mar, Oswaldo Bratke, Ubatuba,
1959-1960.

Próximas páginas:
Imagem 13 - Residência Sokol, Richard Neutra, Los Angeles, 1948.
Imagem 14 - Residência Warren Tremaine, Richard Neutra, Montecito,
1948.
183
185
Assim como Bratke, outros arquitetos de formação mackenzista – Adriana Iri-
goyen lista quinze deles, dentre os quais Roberto Aflalo, Alberto Botti, Salvador
Candia, Galiano Ciampaglia, Plínio Croce, Miguel Forte, Carlos Millan, Marc
Rubin, Pedro Paulo de Melo Saraiva, Arnaldo Paoliello, Jacob Ruchti e Rodolpho
Ortenblad Filho8 – sofreram forte impacto da arquitetura norte-americana, em
especial de Wright e Neutra. Dentre eles, se destaca Ortenblad, que entre 1953
e 1955 (durante as edições 182 a 200) foi diretor da revista Acrópole. Além de
divulgar a arquitetura norte-americana na revista, sua própria obra acabou re-
fletindo esta admiração, conforme as palavras de Sabrina Bom Pereira:
“Algumas características das obras de Richad Neutra e Frank Lloyd
Wright, como o uso de grandes beirais, paredes em pedras ou tijolos
aparentes, amplas aberturas envidraçadas, madeiramento do telhado
aparente, integração do interior com o exterior da residência, setori-
zação e racionalização dos espaços e usos são bastante presentes e
recorrentes nos projetos residenciais de Ortenblad”.9

No pequeno texto Young Brazil – já comentado no capítulo anterior, quando tra-


çamos a intimidade de Richard Neutra com o contexto brasileiro – analisa um
projeto específico do arquiteto Jacob Ruchti, mackenzista e presente na lista de
Adriana Irigoyen:
“Uma pequena casa ilustrada nos mostra uma possível menos conhe-
cida face deste excelente trabalho feito no Brasil.

8. IRIGOYEN DE TOUCEDA, Adriana Marta. Da Califórnia a São Paulo, p. 99.


9. PEREIRA, Sabrina Souza Bom. Rodolpho Ortenblad Filho: estudo sobre as residências, p. 48. Além desta re-
ferência genérica, a autora faz uma relação mais direta, apontando para um detalhamento de projeto: “Uma
outra maneira de iluminar o ambiente pode ser encontrada nas residências Rodolpho Ortenblad Filho I (1950),
Olavo Quintela (1952) e Rodolpho Ortenblad Filho II (1956), onde o arquiteto usou um caixilho de ferro com
vidro fixo bastante estreito (com altura de aproximadamente 25cm) que acompanhava toda a largura da sala.
Neste ambiente foram feitas duas lajes em alturas diferentes, uma avançando sobre a outra. O espaço entre
essas lajes foi fechado com este longo caixilho permitindo que a luz externa natural entrasse pelo meio do am-
biente. Este mesmo recurso já tinha sido utilizado por Frank Lloyd Wright na residência Katherine Winkler (Oke-
mos, 1939) e por Richard Neutra na Casa Tremaine (1948). Neutra ainda acrescentou um vão para ventilação”
(p. 170).
Imagem 15 - Planta Casa de Férias Luthi, Jacob Ruchti, 1942.
186
Projetada em 1942 como um lugar de descanso – a “Casa de Férias”
para Sr. e Sra. Luthi, que cooperaram com o arquiteto Jacob Mau-
ricio Ruchti – a casa é face norte (o que corresponde ao nosso sul!)
no lago Eldorado, próximo a São Paulo, Brasil. Piso e parede foram
construídos com o mais econômico material local: tijolo comum nas
paredes externas e expostos em ambas faces. Para as portas, janelas,
treliças e a corajosamente projetada pérgula, o arquiteto Ruchti esco-
lheu madeira peroba com acabamento natural. As telhas, os forros e
os painéis das grandes aberturas frontais foram construídos com pla-
cas onduladas de Eternit (cimento amianto).

A paisagem subtropical do lago Eldorado é motivo, configuração e


maravilhoso auxílio para tornar o projeto um sucesso.

Casa túmulo da vida é um estranho, triste e velho provérbio brasileiro


que foi por muito tempo terrivelmente aplicado a muitas casas, den-
tro e fora do Brasil! As casas desses jovens arquitetos desmentem esse
provérbio”.10

Este texto e o projeto comentado já foram tratado em outra ocasião,11 mas é


interessante resumir aqui as principais questões envolvidas. O arquiteto Jacob
Ruchti – na ocasião, sócio da loja de Branco e Preto com Miguel Forte, Plínio
Croce, Roberto Aflalo, Carlos Millan e Che Y. Hawa –, era um dos arquitetos
“californianos” formados na escola de arquitetura da Universidade Macken-
zie.12 A casa mencionada por Neutra – cujo projeto foi possível acessar graças

10. “The illustrated small house shows a perhaps less known face of good work, done in Brazil./Designed in
1942 as rural resting place – a “Casa de Ferias” for Sr. and Sra. W.Luthi, who helped the architect Jacob Mau-
ricio Ruchti by their intelligent cooperation – the house faces north (that corresponds to our south!), on Eldorado
lake, unfar Sao Paulo, Brazil. Floors and walls were built of the most economic local material: common brick in
exterior walls is exposed both inside and out. As materials for floors, windows and trusses with the courageously
projecting pergola, architect Ruchti chose Peroba wood of natural finish. Roof coverings, ceilings and panels
over large front openings were done with corrugated and flat Eternit (Cement-Asbestos) beards. /The sub-tropical
Eldorado landscape is motive, setting and glorious assistant to make the undertaking a success./‘Casa tumulo
de vida’ – a house is life’s tomb – is a strange, sad and old Brazilian proverb, that has for long awfully applied to
many houses, in and outside Brazil! These young architect’s houses give it the lie”. Tradução da autora. “Young
Brazil”. Folder 10. Box 157. Professional Papers, Articles. Neutra Collection. UCLA Library Special Collections.
11. GUERRA, Abilio; CRITELLI, Fernanda. Richard Neutra e o Brasil. Arquitextos, São Paulo, ano 14, n. 159.00,
Vitruvius, ago. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.159/4837>.
12. IRIGOYEN TOUCEDA, Adriana Marta. Da Califórnia a São Paulo. Tese de doutorado. Orientador Paulo
Bruna. São Paulo, FAU USP, 2005.
Imagens 16 e 17 - Casa de Férias Luthi, Jacob Ruchti, 1942.
187
Imagem 18 - Young Brazil, p.1.
188
Imagem 19 - Young Brazil, p.2.
189
a Valéria Ruchti, filha do arquiteto – mantém vínculos evidentes com a chamada
arquitetura “wrightiana”, mas expressa igualmente as limitações das técnicas
construtivas do Brasil daquele período. Ao mesmo tempo em que é possível lis-
tar elementos alinhados com a arquitetura “californiana” – planta compacta ao
ao estilo cottage norte-americano, beirais, pérgulas, lareira e materiais brutos
– é flagrante como outro tema caro à arquitetura norte-americana do segundo
pós-guerra, a industrialização, aparece de forma distorsida:
“No caso da pequena casa de Ruchti temos um limite estreito no uso
de materiais industrializados – praticamente resumido à presença de
telhas de eternit – que é contrabalançado com um exímio esforço de
padronização e estandartização no uso de materiais manipulados ar-
tesanalmente. A geometria precisa da pérgula e tesouras em madeira
e do assentamento modular dos tijolos simula a perfeição construtiva
dos componentes industriais das casas norte-americanas”.13

Valeria Ruchti, em dissertação de mestrado que trata da obra do seu pai, apre-
senta um documento datado de 1953 e assinado por Richard Neutra que atesta
a presença do arquiteto paulista em seu estúdio alguns anos antes, em 1947,
ocasião quando pôde estudar a obra do austríaco e apresentar as próprias
obras.14 No mesmo trabalho, ao comentar dois projetos de autoria de Jacob Ru-
chti – casas operárias para duas fábricas, a da Eternit, Rio de Janeiro, 1948, e
da Nestlé, Araras, 1949, estas últimas em parceria com Miguel Forte e Galiano
Ciampaglia – Valeria Ruchti afirma que são “ambas com tendências racionalis-
tas à maneira americana, referenciadas em Breuer ou em Neutra”.15
Também é interessante citar o contato direto que um grupo de estudantes do
Mackenzie estabeleceu com Richard Neutra. No final da década de 1940, como
forma de contornar a atitude autoritária e conservadora do então diretor Cris-
tiano Stockler das Neves, surge a revista Pilotis, editada pelos jovens arquite-
tos estudantes Salvador Candia – este, recém-formado –, Carlos Millan, Jorge
Wilheim, Paola Tagliacozzo, Roberto Carvalho Franco e Sidney da Fonseca.16
Este grupo, que passou a buscar referências e informações em publicações es-

13. GUERRA, Abilio; CRITELLI, Fernanda. Richard Neutra e o Brasil. Arquitextos, São Paulo, ano 14, n. 159.00,
Vitruvius, ago. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.159/4837>.
14. RUCHTI, Valeria. Jacob Ruchti: a modernidade e a arquitetura paulista (1940-1970), p. 142.
15. Idem, ibidem, p. 155.
16. FERRONI, Eduardo Rocha. Aproximações sobre a obra de Salvador Candia, p.29.

190
trangeiras e nos escritórios dos arquitetos modernos atuantes em São Paulo17,
organizaram a revista Pilotis aos moldes da revista norte-americana Arts and
Architecture.18
Em meados de 1949, o grupo enviou uma carta para Richard Neutra apresen-
tando a revista e solicitando material sobre suas obras para ser publicado. Infe-
lizmente, não foi possível localizar por completo esta troca de correspondências
– apenas a carta de agradecimento pelo envio do material, assinada por Jorge
Wilheim, foi encontrada na Biblioteca de Documentos Históricos do Masp –, mas
o relato de Eduardo Ferroni, em sua dissertação de mestrado Aproximações so-
bre a obra de Salvador Candia, nos ajuda a reconstruir esta história. Segundo
ele, Richard Neutra respondeu enviando 20 fotografias de Julius Schulman de
dois recentes projetos residenciais. Uma das casas seria inédita ao público brasi-
leiro e, por isso, foi escolhida para ser publicada no número 4 da revista Pilotis,
em fevereiro de 1950.19
“Que Neutra nasceu em Viena e exerce suas atividades na Califórnia,
tendo realizado tais e tais obras é história por demais conhecida para
ser contada. O que se deve relatar é o seguinte: pelo exemplar de
pilotis que lhe enviamos, Neutra prontamente respondeu com uma
gentilíssima carta acompanhada de vinte fotografias de Julius Schul-
man mostrando duas de suas residências – uma das quais inédita
– pondo-as à disposição da revista. Pilotis sente-se na obrigação de
registrar aqui esse fato, para dizer da comoção causada pela signifi-
cância de seu gesto”.20

17. Idem, ibidem, p.28.


18. SEGAWA, Hugo; ATIQUE, Fernando. Latin America and Los Angeles, p.114. In: ALEXANDER, Christopher
James; DE WIT, Wim. Overdrive: L.A. constructs the future, 1940-1990.
19. FERRONI, Eduardo Rocha. Op. cit., p.36.
20. Idem, ibidem. Apud: PILOTIS, São Paulo, n.4, fevereiro 1950.

191
Em carta datada de 10 de novembro de 1949, Jorge Wilheim agradece a aten-
ção dada por Neutra aos estudantes e diz:
“Meus amigos e eu não temos palavras para lhe agradecer pelo
material enviado e especialmente pela compreensão que você de-
monstrou por nossos esforços. Devo confessar que você compreendeu
estes esforços muito melhor do que grande parte dos arquitetos e es-
tudantes de arquitetura aqui no Brasil”.21

Wilheim comenta também que um dos projetos enviados, a casa Tremaine, já


havia sido publicada inúmeras vezes e, inclusive, fazia parte da exposição e
catálogo organizados pelo Masp. Sendo assim, o grupo de estudantes decidiu
publicar apenas o outro projeto – não foram encontradas maiores referências
sobre tal obra –, pois este era totalmente inédito no Brasil. Wilheim aproveitou
o ensejo da carta para enviar à Neutra um exemplar do volume 3 da revista
Pilotis22 que continha sua resenha feita do livro Arquitetura Social em países de
clima quente.
“No número anterior enviado à Neutra, constava uma resenha de
Jorge Wilheim sobre a edição brasileira de seu livro Arquitetura Social
em países de clima quente. Esta publicação teria um impacto extre-
mamente inspirador para o grupo, principalmente no que diz respeito
ao emprego de novas técnicas e materiais e construção, e às ideias
difundidas pelo arquiteto sobre arquitetura escolar”.23

O interesse dos estudantes da Universidade Mackenzie pelas obras e temas dis-


cutidos por Richard Neutra, porém, remonta desde antes da primeira visita do
arquiteto ao Brasil. Segundo relatado por Fernanda Ciampaglia, em sua disser-
tação de mestrado Galiano Ciampaglia. Razões de uma arquitetura, em 1937 a
revista da Faculdade de Engenharia do Mackenzie publicou um texto escrito por
Neutra alguns anos antes sobre a arquitetura californiana.

21. “My friends and I haven’t words to thank you for the material you sent us, and especially for the comprehen-
sion you have for our efforts. I must confess that you understood these efforts much more than the greatest part
of architects and architecture students here in Brazil”. Tradução da autora. Carta. Jorge Wilheim para Richard
Neutra. Pasta “Richard Neutra”. Biblioteca de Documentos Históricos, Masp.
22. Idem, ibidem.
23. FERRONI, Eduardo Rocha. Op. cit., p.37.

192
“por iniciativa de Jacob Ruchti e Igor Sresnewsky, a Revista Enge-
nharia Mackenzie publica, sob o título ‘Architectura Funcional’, um
resumo do ensaio New Building art in California, escrito por Richard
Neutra, em 1935, para a revista Arts&Architecture. No texto, Neutra
propunha uma arquitetura voltada às necessidades psicológicas e
práticas do usuário”.24

Os aspectos evidentemente “wrightianos” de Richard Neutra e seu apreço pela


industrialização da construção causou especial interesse a João Filgueiras Lima,
Lelé, que baseou largamente suas escolas rurais em projeto com programa
equivalente realizado pelo austríaco em Porto Rico. Segundo André Marques,
“essa conversa entre Neutra e Lelé fica mais clara quando olhamos
a proposta das escolas rurais de Abadiânia. Neste caso, Lelé buscou
o entendimento das necessidades físicas, espirituais e econômicas
do local. As escolas previam uma transitoriedade em razão da in-
constância dos assentamentos; as salas de aulas eram divididas por
lousas-biombos, permitindo a flexibilidade das turmas. Muitas dessas
questões trabalhadas por Lelé estão presentes também nos projetos
escolares de Neutra.

As escolas de Neutra previam aberturas laterais com grandes portas


pivotantes, sem o uso de vidro, protegidas por enormes beirais. Es-
sas portas permitiam a integração das salas de aulas com os jardins
externos, tornando-as mais ventiladas. Esse mesmo recurso espacial
Lelé utilizou em suas escolas, mudando somente as portas pivotantes
horizontais por verticais”.25

Paulo Fujioka, em sua tese de doutorado Princípios da arquitetura organicista de


Frank Lloyd Wright e suas influências na arquitetura moderna paulistana, aponta
outros dois arquitetos brasileiros que tiveram Richard Neutra como referência.
Sobre o primeiro deles, Carlos Millan, Fujioka comenta que a entrevista com
Eduardo de Almeida revelou que “no início de sua carreira, Millan produziu pro-
jetos residenciais onde podemos notar a presença de Bratke, Breuer, Gropius,

24. CIAMPAGLIA, Fernanda. Galiano Ciampaglia. Razões de uma arquitetura, p.62.


25. MARQUES, André Felipe Rocha. A obra do arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé: projeto, técnica e racionali-
zação, p. 169.

193
Rino Levi, Neutra e Wright”.26 Além disso, sobre o arquiteto Marcos Acayaba,
Paulo Fujioka afirma que a influência das obras de Richard Neutra, Carlos
Millan, Frank Lloyd Wright e Oscar Niemeyer se deu no período em que cursou
a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.27
Fernanda Ciampaglia também comenta o interesse do então jovem arquite-
to Galiano Ciampaglia pelas obras de Richard Neutra. Conforme relatado à
Adriana Irigoyen – no período de pesquisa para sua tese de doutorado Da Cali-
fórnia a São Paulo –, Galiano Ciampaglia participou da palestra ministrada por
Neutra na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, em 1959.28
Outro trabalho que aponta a influência de Richard Neutra nas obras de arqui-
tetos brasileiros é o de Fernando de Magalhães Mendonça. Em sua dissertação
de mestrado sobre a obra de Pedro Paulo de Melo Saraiva, Fernando Mendonça
aponta a influência de Richard Neutra e Oswaldo Bratke em dois dos primeiros
projetos residenciais do arquiteto brasileiro, a casa Hercílio Luiz Filho, em Flo-
rianópolis, e a casa José Noschese, em São Paulo.29 No entanto, o autor não
discute com maior profundidade esta afirmação e, pelas imagens usadas para
ilustrar o texto, não foi possível analisar o projeto para compreender a relação
mencionada.
Por outro lado, após tantas visitas e estudos meticulosos de nossa arquitetura – o
artigo Sun Control Devices – e de nossa paisagem – o artigo Observations on La-
tin America –, Richard Neutra não voltaria ileso aos Estados Unidos. A sequência
de imagens de suas obras, listados a seguir em ordem cronológica, evidencia
uma transformação em seus projetos. Temas como o uso de grandes panos de
vidro, brises e beirais para o controle da luz solar e o uso de pedra e madeira,
além do metal, vão sendo aprimorados ao longo do tempo, mostrando uma
aclimatação da arquitetura à paisagem e ao clima locais. Mas, principalmente,
Neutra absorveu a figura de Roberto Burle Marx, suas pinturas e seus jardins
como forma de dar suporte à arquitetura moderna: a síntese das artes e a inte-
gração da arquitetura com a paisagem.

26. FUJIOKA, Paulo Yassuhide. Princípios da arquitetura organicista de Frank Lloyd Wright e suas influências na
arquitetura moderna paulistana, p.194.
27. Idem, ibidem, p.202.
28. CIAMPAGLIA, Fernanda. Op. cit., p.70.
Próxima página:
29. MENDONÇA, Fernando de Magalhães. Pedro Paulo de Melo Saraiva: 50 anos de arquitetura, p.17.
Imagem 20 - Residência Llovel, Richard Neutra, Los Angeles, 1927.
194
Imagem 21 - Estrutura da residência Llovel, Richard Neutra, Los Ange-
les, 1927.

Próxima página:
Imagem 22 - Residência VDL I, Richard Neutra, Los Angeles, 1932.
196
197
200
202
Páginas anteriores:
Imagem 23 - Residência Edward Kaufman, Richard Neutra, Los Ange-
les, 1937.
Imagens 24 e 25 - Apartamentos Strathmore, Richard Neutra, Los
Angeles, 1937.
Imagens 26, 27 e 28 - Emerson Junior High School, Richard Neutra,
Los Angeles, 1937.
Imagem 29 - Neutra Office, Richard Neutra, Los Angeles, 1950.

Nesta página:
Imagem 30 - Neutra Office, Richard Neutra, Los Angeles, 1950.
205
206
208
Páginas anteriores:
Imagens 31 e 32 - Residência Dion Neutra (Reunion House), Richard
Neutra, Los Angeles, 1950.
Imagem 33 - Residência James Moore, Richard Neutra, Ojai, 1950-1952.

Nesta página:
Imagem 34 - Residência James Moore, Richard Neutra, Ojai, 1950-1952.
209
Página anterior:
Imagem 35 - Residência Alfred de Schulthess, Richard Neutra, Hava-
na, 1956.

Nesta página:
Imagem 36 - Residência Donald Cole, Richard Neutra, La Habra, 1958.
211
A RELAÇÃO COM O PAISAGISTA ROBERTO BURLE
MARX

O primeiro documento referente à Roberto Burle Marx localizado no acervo


Neutra Collection da UCLA foi uma montagem do artigo Aspen Conference on
Design, publicado pela revista Fortune em setembro de 1952. Dentre os recortes
selecionados deste artigo estão um desenho feito por Neutra, durante uma reu-
nião, da tenda-anfiteatro projetada por Eero Saarinen; e duas fotografias: uma
de Richard Neutra junto à Buckminster Fuller e Herbert Bayer – arquiteto aus-
tríaco, formado na Bauhaus e também radicado nos Estados Unidos – e outra
com Neutra sentado, desenhando, junto a seu filho Raymond (na época, com
14 anos). Aparentemente, tal documento não tem qualquer relação com o pai-
sagista brasileiro. No entanto, em depoimento por email dado à pesquisadora,
Raymond Neutra afirma se recordar de um piquenique com Burle Marx durante
os encontros do congresso. E, no filme International Design Conference in As-
pen: The First Decade, lançado em 1960 e que hoje é parte do acervo online do
Chicago Film Archive30, confirma a participação do brasileiro.
Richard Neutra e Roberto Burle Marx se conheceram pessoalmente durante a
visita do austríaco ao Brasil, em novembro de 1945. Alguns anos depois, entre
1954 – logo após o jornal Correio da Manhã publicar sobre o êxito do paisagis-
ta entre os norte-americanos31 – e 1956, tem início uma extensa troca de corres-
pondências entre os dois. A leitura destes documentos mostrou não apenas os
laços de amizade entre os dois, mas pincipalmente um esforço por parte de Ri-
chard Neutra em estabelecer parcerias Burle Marx, conforme podemos perceber
na carta escrita pelo brasileiro:

Páginas anteriores:
Imagens 37, 38 e 39 - Residência VDL II, Richard Neutra, Los Angeles,
1965-1966.
30. International Design Conference in Aspen: The First Decade. <http://archive.org/details/InternationalDesign-
ConferenceInAspenTheFirstDecade#>.
Nesta página:
31. “Aspen Conference on Design”. Folder 55. Box 1399. Office Records, Publicity. Neutra Collection. UCLA
Imagem 40 - Richard Neutra desenhando junto à seu filho Raymond,
Library Special Collections.
Aspen Conference on Design, 1952.
215
216
“Foi uma ótima experiência estar com você, as conversas que tivemos
e os dias que passamos juntos serão ricos e férteis como lições para
mim, ouvindo suas maravilhosas e lúcidas ideias. Espero um dia ser
capaz de fazer juz à confiança que depositou em mim”.32

A pesquisa, no entanto, não foi capaz de definir com exatidão a que encontro
Roberto Burle Marx se refere na carta para Richard Neutra. Cronologicamente,
esta carta do dia 18 de agosto de 1954 é a primeira correspondência trocada
entre eles que foi identificada no acervo Neutra Collection. Mas seria plausível
afirmar que este encontro ocorrera durante a Conferência de Design em Aspen,
em 1952. Vale lembrar que, em 21 de março de 1963, a casa de Neutra, a
VDL Research House I, sofreu um incêndio, momento no qual vários documentos
foram perdidos. Trata-se apenas de uma possibilidade, mas, talvez, correspon-
dências anteriores – e até posteriores a 1956 – tenham se perdido no incidente.
Aparentemente, o primeiro projeto oferecido à Roberto Burle Marx foi o mural
para a sede do Amalgamated Clothing Workers of America, em Los Angeles. Na
carta do dia 18 de agosto de 1954, Burle Marx aceita com grande entusiasmo a
proposta.33 Neutra, além do painel, havia sugerido aos clientes que o paisagis-
mo também ficasse a cargo do brasileiro, mas, por falta de verba, esta possibli-
dade ficou incerta durante alguns meses.34 Até que, no dia 11 de maio de 1955,
Neutra escreveu ao amigo dizendo talvez haver uma possibilidade dos clientes
aceitarem os dois projetos.

32. “It was a great experience, to be with you, and the conversations we had and the days we passed together
will be rich and fertile in their lessons for me, listining to your wonderful and lucid ideas. I hope that I may be
Página anterior: able to live up the trust and confidence you’ve placed on me”. Tradução da autora. Carta. Roberto Burle Marx
para Richard Neutra. Folder 12. Box 132. Office Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library
Imagem 41 - Travel Sketch: anfiteatro de Eero Saarinen durante encon-
Special Collections.
tro da Aspen Conference on Design, Richard Neutra, 1952.
33. Idem, ibidem.
Nesta página: 34. Carta. Richard Neutra para Roberto Burle Marx. Folder 12. Box 132. Office Records, Correspondence. Neu-
tra Collection. UCLA Library Special Collections.
Imagem 42 - Montagem da revista Fortune, 1952.
217
218
Página anterior:
Imagem 43 - Carta de Roberto Burle Marx para Richard Neutra.
Imagem 44 - Burle Marx conquistou os meios artísticos americanos,
jornal Correio da Manhã, 05/08/1954.

Nesta página:
Imagem 45 - Amalgamated Clothing Workers of America, 1956.
219
221
Páginas anteriores:
Imagem 46 - Amalgamated Clothing Workers of America, 1956.
Imagem 47 - Painel, Amalgamated Clothing Workers of America, 1956.

Nesta página:
Imagem 48 - Desenho de Roberto Burle Marx para o painel, Amalga-
mated Clothing Workers of America, 1956.
222
“Quanto ao Templo do Trabalho [Amalgamated Clothing Workers of
America], iniciamos a construção, mas eles ainda estão num processo
desesperado de tentativa de corte de gastos. Várias listas de reduções
foram feitas e nós continuamos tentando reduzir as despesas, pois
esse pessoal não é agraciado com amplos fundos e começaram com
mais entusiasmo do que dinheiro. Irei, certamente, lhe informando
sobre o assunto. Você consideraria a quantida de US$250 pelo proje-
to do pequeno jardim e do mural? Não tenho ideia de como poderei
abordá-los para pedir mais dinheiro. No entanto, eles escutaram com
razoável interesse minhas muitas histórias sobre a importância de sua
contribuição”.35

Em fevereiro de 1955, Richard Neutra comentou estar trabalhando no projeto


de uma grande residência em Havana, Cuba, e diz ter recomendado veemente-
mente ao cliente que encomendasse a Roberto Burle Marx o projeto de paisagis-
mo.36 Poucos meses depois, surgem na conversa outros dois projetos nos quais
Neutra tentava viabilizar a parceria com Burle Marx: a casa Hammerman (1954)
e a casa Brown (1955). No primeiro caso se tratava de um painel com dimen-
sões 7,6m X 1,5m X 0,25m (25 feet X 5 feet X 10 inches); e, no segundo, de um
projeto paisagístico.37
Burle Marx deu início aos desenhos destes dois novos projetos, mas, na carta
enviada por Neutra em maio de 1955, o arquiteto pede que os trabalhos sejam
suspensos. No caso da residência Brown, a família ainda não havia se decidi-
do sobre a contratação do brasileiro e, por isso, sugere que Burle Marx envie o
projeto no estágio em que se encontrava, pois este material eria usado como
argumento por Neutra. Segundo ele, “este tem sido um trabalho muito prazero-

35. “As to the Labor Temple [Amalgamated Clothing Workers of America], we have started construction but are
still in the desperate process of trying to cut down costs. A number of reduction lists have been prepared and we
are continuing to try to reduce the expense because these labor people are not blessed with very ample funds,
but start with more enthusiasm than money. I shall certainly let you know about this. Would you perhaps consider
a fee of some $250 for making a sketch design for the small garden and the mural? I have no idea how I can at
present approach them for more funds. However, they have listened with more than ordinary interest to my many
tales about the significance of your contribution”. Tradução da autora. Carta. Richard Neutra para Roberto Burle
Marx. Folder 12. Box 132. Office Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA Library Special Collec-
tions, p.1.
36. Carta. Richard Neutra para Roberto Burle Marx. Folder 12. Box 132. Office Records, Correspondence. Neu-
tra Collection. UCLA Library Special Collections.
37. Carta. Roberto Burle Marx para Richard Neutra. Folder 12. Box 132. Office Records, Correspondence. Neu-
tra Collection. UCLA Library Special Collections, p.2.

223
Imagem 49 - Carta de Richard Neutra para Roberto Burle Marx.
224
so e os donos têm cooperado muito”.38 Já no caso da residência Hammerman,
a situação parecia estar um pouco mais complicada. Os recursos financeiros do
cliente haviam se esgotado e o projeto seguia muito devagar. Neutra sugere que
não sejam despendidos mais esforços para este trabalho, mas afirma que “eles
estão consideravelmente receptivos a ideias sobre o paisagismo ou qualquer ou-
tro conselho que possa dar, que será de grande valor para eles”.39
Em suas cartas, Richard Neutra mostrava-se muito entusiasmado com a possi-
bilidade de trabalhar em parceria com Burle Marx e empenhado em convencer
seus clientes da importância da contratação do paisagista brasileiro. No entan-
to, questões diversas – em geral, financeiras – atrapalhavam estas tentativas.
“Posso dizer que continuo muito entusiasmado em vê-lo envolvido
com um outro trabalho que estamos fazendo e considero isto uma
porta aberta para futuras possibilidades, conforme já discutimos. As
vezes fico triste de não poder apresentar ofertas melhores para come-
çarmos [a colaboração]”.40

Assim, os únicos projetos que efetivamente consolidaram a parceria entre Ri-


chard Neutra e Roberto Burle Marx foram a residência Schulthess e a sede do
Amalgamated Clothing Workers of America. No entanto, Barbara Lamprecht, em
seu livro sobre as obras de Neutra, afirma que Burle Marx fez sugestões para o
paisagismo da casa Brown, “incluindo um ritmo, mas com massas de diferentes
alturas e cores, escreveu ele para Neutra em 14 de julho de 1955”.41 Infelizmen-
te, a pesquisa não encontrou no acervo Neutra Collection esta carta citada pela
historiadora.

38. “It has really come out to be a very satisfying job and the owners have been very cooperative”. Tradução da
autora. Carta. Richard Neutra para Roberto Burle Marx. Folder 12. Box 132. Office Records, Correspondence.
Neutra Collection. UCLA Library Special Collections, p.1
39. “They are considerably receptive to the idea that landscaping advice or any other advice from you would be
very valuable for their lives”. Tradução da autora. Idem, ibidem.
40. “May I tell you that I remain most enthusiastic about seeing you involved in one or another of the things we
are doing and would consider it as an opening wedge for future possibilities, as we have discussed. Sometimes I
am downhearted that I cannot make you any better offers to start with”. Tradução da autora. Carta. Richard Neu-
tra para Roberto Burle Marx. Folder 12. Box 132. Office Records, Correspondence. Neutra Collection. UCLA
Library Special Collections, p.2.
41. “including one rythm but with many different heights and colors in massing he wrote to Neutra on 14 july
1955”. Tradução da autora. LAMPRECHT, Barbara. Neutra: Complete works, p.280.

225
Imagem 50 - Carta de Richard Neutra para Roberto Burle Marx, p.1.
226
Imagem 51 - Carta de Richard Neutra para Roberto Burle Marx, p.2.
227
Independente do número de trabalhos concretizados, Burle Marx parece real-
mente ter chamado a atenção do arquiteto austríaco. Em carta datada de 16 de
fevereiro de 1955, Neutra enviou ao brasileiro uma lista de fotografias e plantas
– não há especificação clara sobre qual projeto Richard Neutra se referia, pois
os desenhos e imagens não foram localizados, mas acredita-se que se trata do
edifício sede da Amalgamated Clothing Workers of America –, junto a um texto
sobre Roberto Burle Marx escrito por Neutra. Possivelmente, este material tenha
sido enviado para uma publicação no Brasil.
“Roberto Burle Marx, o brasileiro que o mundo conhece, tem um
grande admirador na Califórnia. Richard Neutra acredita profunda-
mente que os sentimentos de Roberto pela natureza viva e florescente
dos jardins precisa se tornar um exemplo visível na Califórnia, nos
Estados Unidos.

Neutra recentemente ganhou um prêmio nacional pelo projeto do


‘Templo do Trabalho’ em Los Angeles; Roberto Burle Marx foi convi-
dado a proporcionar a beleza viva – e os californianos se alegrarão
de vê-la”.42

42. “ Roberto Burle Marx, the Brazilian whom the world knows, has a great admirer in California. Richard Neutra
deeply feels that Roberto’s feeling for the living and blooming nature of the garden must become a visible exam-
ple in California, in the United States./ Neutra has just won a national honor award for the design of a ‘Labor
Temple’ in Los Angeles; Roberto Burle Marx is invited to give it living beauty – and Californians will rejoice to see
it”. Tradução da autora. “Roberto Burle Marx. Folder 12. Box 132. Office Records, Correspondence. Neutra
Collection. UCLA Library Special Collections.

228
Imagem 52 - Carta de Roberto Burle Marx para Richard Neutra.
229
A CASA SCHULTHESS EM HAVANA, CUBA

Como foi possível descrever – e perceber – anteriormente neste capítulo, a con-


solidação do relacionamento entre Richard Neutra e Roberto Burle Marx se deu
em dois projetos, realizados simultaneamente: o painel para a sede do Amal-
gamated Clothing Workers of America (1956), em Los Angeles, e o paisagismo
para a casa Alfred de Schulthess (1956), em Havana. Portanto, considerou-se de
grande valia visitar os projetos e trazê-los para a discussão como documentação
material de tal relação. Infelizmente, o projeto de Los Angeles encontra-se hoje
descaracterizado e não foi possível contactar seus novos donos para ter notícias
do painel ou para agendar uma visita. E, segundo Dion Neutra e Thomas Hines
– nas entrevistas concedidas à pesquisadora em dezembro de 2014 –, há uma
forte probabilidade desta obra de Burle Marx não mais existir.
A casa Schulthess, no entanto – e felizmente –, está em perfeito estado de con-
servação e hoje é a residência oficial dos embaixadores da Suíça em Cuba.
Graças à ajuda da Embaixadora Anne Pascale Krauer Müller e de seu Conse-
lheiro, sr. Roger M. Kull, foi possível visitar a casa, fotografá-la. Lá também foi
cedido à pesquisadora um exemplar do livro Modernidad tropical. Neutra, Burle
Marx y Cuba: La casa de Schulthess, de autoria do arquiteto cubano Eduardo
Luis Rodrígues e publicado pela própria Embaixada. Nele, foram acessados os
desenhos, tanto de arquitetura quanto de paisagismo, e a história da construção
da casa, que fazem parte da narrativa a seguir.
Os preparativos para a viagem a Cuba e visita da Casa Schulthess, que aconte-
ceu em outubro de 2013, tiveram início entre maio e junho daquele mesmo ano
com o contato por email com Eduardo Luis Rodríguez. Em entrevista, o arquiteto
comentou a pesquisa e exposição realizada sobre o projeto alguns anos antes e
se prontificou a ajudar a pesquisadora no contato com a Embaixada Suíça para
organizar a visita – contato este feito alguns meses depois.
“A casa De Schulthess é, sem dúvida, uma obra muito importante
para nosso patrimônio arquitetônico moderno. Em 2006 finalizei uma
pesquisa sobre ela e preparei uma exposição com fotografias, dese-
nhos e uma maquete, que foi exibida em diversas ocasiões e lugares. Imagem 53 - Capa do livro Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx
y Cuba: La casa de Schulthess.
(...)
Próxima página:
Imagem 54 - Residência Alfred de Schulthess, Richard Neutra, Hava-
na, 1956.
230
A casa De Schulthess é atualmente a residência do Embaixador da
Suíça em Cuba. Não está usualmente aberta ao público, mas as vi-
sitas de interesse profissional podem ser coordenadas. Se você está
programando vir à Havana para visitar a casa, com muito prazer
posso ajudá-la na coordenação para obter a permissão”.43

O arquiteto austríaco Richard Neutra, já em meados da década de 1940 e início


dos anos 1950, usufruía de forte destaque internacional, principalmente no que
diz respeito à integração da arquitetura com a natureza. E, neste contexto, em
1954, Alfred de Schulthess – um banqueiro suíço também radicado nos Estados
Unidos, que acabara de chegar em Havana, Cuba, com sua família para assu-
mir o cargo de vice-presidente do banco Garrigó – solicitou à Neutra um projeto
para sua nova residência. Vale lembrar que Cuba, naquele momento, havia
recentemente se libertado da colonização espanhola – Guerra Hispano-Ameri-
cana de 1898 – e passava por um período de domínio norte-americano, onde
pesados investimentos foram feitos em programas rodoviaristas e de turismo44.
Este domínio, no entanto, chegou ao fim com a Revolução Cubana de 1959,
liderada por Fidel Castro e Che Guevara.
Ao aceitar a proposta, Neutra solicitou aos integrantes da família Schulthess –
marido, esposa e três filhas – que desenvolvessem um programa de necessida-
des, o qual foi levado em consideração no desenvolvimento do estudo prelimi-
nar e, posteriormente, do projeto executivo.

43. “La casa De Schulthess es, sin dudas, una obra muy importante de nuestro patrimonio arquitectónico mo-
derno. En el año 2006 culminé una investigación sobre ella y preparé una exposición con fotografías, planos y
una maqueta, que ha sido mostrada en diversas ocasiones y lugares. (...)/La casa De Schulthess es actualmente
la residencia del Embajador de Suiza en Cuba. No está usualmente abierta al público, pero las visitas de inte-
rés profesional pueden ser coordinadas. Si usted programa venir a La Habana para visitar la casa, con mucho
gusto puedo ayudarla en la coordinación para obtener el permiso”. Tradução da autora. Entrevista por email de
Eduardo Luis Rodríguez para Fernanda Critelli, 16/05/2013.
44. AYERBE, Luis Fernando. A revolução cubana.

232
Imagem 55 - Carta de Brita Schulthess para Richard Neutra, p.1.
233
Pavimento Térreo

Pavimento Superior

Imagem 56 - Carta de Brita Schulthess para Richard Neutra, p.2.


Imagem 57 - Croqui, esquema de análise, pavimento térreo.
Imagem 58 - Croqui, esquema de análise, pavimento superior.
234
“Uma vez aceita a comissão por Neutra e feitos os arranjos legais e
financeiros entre as partes, passou-se imediatamente à cuidadosa
elaboração do programa de necessidades e desejos da família Schul-
thess, ao qual deveria corresponder o desenho, assim como o envio à
Neutra de toda a informação necessária para começar a elaborar um
anteprojeto. Isto incluía, obviamente, mapas da cidade, implantação
do Country Club45 e dos lotes adquiridos por De Schulthess, especifi-
cando dimensões, curvas de nível, orientação e outras características,
assim como fotografias do terreno em seu estado original e depois de
terem sido cortados os arbustos que impediam visualizar sua configu-
ração real”.46

A planta em dois pavimentos da residência Schulthess foi pensada com uma


clara setorização dos espaços: as áreas de serviço (cozinha, lavanderia e depen-
dências dos empregados) e social (salas de jantar e estar, escritório, lavabo e
quarto de hóspedes) estão dispostas no térreo, enquanto que a área íntima (dor-
mitórios, banheiros e sala de estar íntima) aparece no andar superior.
A partir de um eixo de entrada, marcado pelo pórtico e em cota mais elevada
do que o restante do piso térreo, Richard Neutra organiza os fluxos no projeto.
Deste nicho, os usos se desdobram: à esquerda – e descendo cerca de três de-
graus –, as salas de jantar e estar e as dependências de serviço; à direita, um
escritório, quarto de hóspedes e banheiro; e, por fim, a escada – engastada
na parede do escritório e atirantada na estutrura do andar superior, com uma
lógica estrutural muito similar àquela adotada por Rino Levi na residência Olí-
vio Gomes (1949-51), em São José dos Campos – que leva aos quartos e sala
íntima. Neste pavimento, Neutra opta por ocupar o centro da planta, deixando,

45. Segundo o arquiteto e historiador Roberto Segre (1934-2013), durante o período do governo de Fulgêncio
Batista (1952-59), os Estados Unidos investiram expressivamente na ilha de Cuba, com especial foco em ques-
tões de incentivo ao turismo: modernização de Havana e dos grandes centros no interior do país, promovendo
obras públicas vinculadas aos interesses dos grandes proprietários de terra. Neste processo, surgem, portanto,
bairros de residências luxuosas ao longo da costa cubana – caso, por exemplo, do Country Club de Havana,
onde está localizada a casa Schulthess. SEGRE, Roberto. Arquitetura e urbanismo da revolução cubana.
46. “Una vez aceptada la comisión por Neutra y realizados los arreglos legales y financieros entre las partes, se
pasó inmediatamente a la cuidadosa elaboración del programa de necesidades y deseos de la familia De Schul-
thess al que debería responder el deseño, así como al envío a Neutra de toda la información necesaria para
comenzar a elaborar un ateproyecto. Esta información incluía, por supuesto, planos de la ciudad, del reparto
Country Club y de los lotes adquiridos por De Schulthess, especificando dimensiones, pendientes (curvas de ni-
Imagem 59 - Croqui, esquema de análise, corte transversal, eixo de vel), orientación y otras características, así como fotografías del terreno en su estado original y después de haber
entrada. sido cortados los arbustos que impedían apreciar su configuración real”. Tradução da autora. RODRÍGUEZ,
Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess, p.15.
Imagem 60 - Croqui, esquema de análise, corte transversal.
235
de um lado, uma circulação e, de outro, uma varanda para contemplação da
paisagem. Na fachada frontal da casa que corresponde ao andar superior, o
fechamento em painéis de madeira se transforma em armários voltado para o
corredor.
Na sala de estar, a presença da lareira faz a divisão com o nicho de entrada
e estrutura a área de convívio social. Este elemento, que nasce de uma forte
presença das obras de Frank Lloyd Wright no repertório de Richard Neutra, é
totalmente revestido de pedra, destacando-se, portanto, do restante das áreas
internas da casa.
Com relação à estrutura, Alfred de Schulthess, que já conhecia previamente a
produção de Richard Neutra, discutiu com o arquiteto a possibilidade de ser uti-
lizada madeira tanto no interior quanto no exterior. No entanto, problemas liga-
dos principalmente à incidência de furacões na ilha de Cuba levaram ao uso de
estruturas de concreto armado.
“Mais uma vez Neutra instruiu-se à distância, escrevendo para vários
empreiteiros locais, pedindo-lhes informações sobre as madeiras tro-
picais, se elas vêm apenas em lotes únicos, como é a segurança da
fibra de vidro em relação aos trabalhadores da obra e quão drásticos
são os furacões (...). Neutra fez da casa o mais resistente a furacões
possível, usando estruturas de aço revestidas de concreto”.47

Mesmo trabalhando com outro material, Neutra mantém no projeto cubano a


linguagem padrão de suas obras, marcando a fachada com uma estrutura mo-
dulada e esbelta. Esta elegância formal, típica de Neutra, remete à uma verdade
construtiva que novamente vem da forte influência exercida por Frank Lloyd Wri-
ght. Ou seja, a beleza da arquitetura é conquistada pela própria característica
de um sistema estrutural claro e organizado que define os espaços.

47. “Once again Neutra educated himself from afar by writing to several local contractors, asking them about
tropical hardwoods, whether they come only in solid stock, how is fiberglass safely attached to the soffits, how
drastic hurricanes are (…) Neutra made sure the house was as hurricane-proof as possible using concrete-clad
steel framing”. Tradução da autora. LAMPRECHT, Barbara. Richard Neutra: Complete works, p.308.

236
Imagem 61 - Planta pavimento térreo.
Imagem 62 - Planta pavimento superior.
237
Páginas anteriores:
Imagem 63 - Fachada sul, corredor dos quartos.
Imagem 64 - Fachada sul.

Nesta página:
Imagem 65 - Pórtico.

Próxima página:
Imagem 66 - Interior: porta de entrada e escada.
“Apesar do projeto final da casa ter sido concebido em estrutura de
concreto armado, a esbeltez e a espessura de alguns dos elementos
evocam as dimensões das estruturas de madeira habitualmente usa-
das por Neutra em seus projetos residenciais”.48

Outro ponto forte da obra de Neutra é o aspecto compositivo. Em seu desenho,


a relação entre linhas e planos é marcante e mostra uma herança formal trazi-
da da Europa, em especial do movimento holandês De Stijl. Também conhecido
como Neoplasticismo, esse movimento viu uma possibilidade de tratar a arqui-
tetura “como uma espécie de escultura abstrata, uma obra de arte total, um
organismo de cores, formas e planos que se interceptavam”.49 Neutra não utiliza
as cores vivas de Mondrian e Rietveld, mas sim as cores puras e texturas dos
materiais como a pedra e a madeira, muito presentes na casa Schulthess. Este
artifício é usado como forma compositiva, onde os planos se destacam.
Neutra organiza a estrutura da casa em oito módulos e desloca o volume do
térreo em relação ao do piso superior, criando, em cima, uma varanda e, na
parte inferior, um jardim que adentra a casa. No sentido transversal, a arquitetu-
ra é resolvida no esquema balanço-vão-balanço, deixando, a norte, a fachada
protegida por um beiral de aproximadamente 2,45 metros. Já na fachada sul, o
pavimento superior avança por sobre o balanço e deixa um beiral mais estreito
como proteção de espaços nos dois pavimentos: no térreo, as janelas das salas;
no superior, do corredor dos quartos.

48. “Si bien el proyecto final de la casa fue concebido con estructura de hormigón armado, la esbeltez y la
delgadez de algunos elementos evocan las dimensiones de las estructuras de madera habitualmente usadas por
Neutra en sus proyectos residenciales”. Tradução da autora. RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Op. Cit, p.16.
49. CURTIS, William J. R. Arquitetura moderna dese 1900, p.152.
Imagem 67 - Declaração de Habite-se.
242
Imagens 68 e 69 - Cortes e Elevações.
243
O desenho das fachadas recebeu, portanto, especial atenção de forma a ga-
rantir a privacidade dos moradores em relação às possíveis visões da rua e dos
vizinhos. Assim, apenas a fachada norte foi proposta com aberturas piso-teto,
abrindo-se para a piscina e jardins de Burle Marx. Já as fachadas leste e oeste
se apresentam como uma cortina de pedra solta do chão, dando ao espectador
a impressão de um plano com leveza plástica e estrutural. “A extremidade leste
do edifício de dois andares foi proposta com uma parede cega para dar privaci-
dade em relação à rua, enquanto as fachadas norte e sul são compostas, princi-
palmente, por anteparos de vidro. A piscina está implantada na porção noroeste
do terreno para espelhar as nuvens e a paisagem do vale”.50
Durante o processo de projeto e execução da obra, Neutra esteve em Havana
três vezes: a primeira para auxiliar o casal De Schulthess na escolha do terreno
e as demais para vistoriar a construção51, cuja responsabilidade ficou a cargo
do arquiteto cubano Raul Álvarez. Apesar de não ter estado presente no dia-a-
dia da obra, percebe-se uma preocupação do arquiteto com os mínimos deta-
lhes do projeto, aspecto que, mais adiante, veremos também nos desehos de
paisagismo.
A arquitetura proposta por Richard Neutra relaciona-se com a paisagem de for-
ma a quebrar as barreiras entre interior e exterior. Os jardins, desenhados pelo
paisagista brasileiro Roberto Burle Marx, penetram nos ambientes da casa e per-
mitem “uma espécie de transição entre a arquitetura e a natureza ou, como dis-
seram outros, promovem uma sorte de compensação sensual ao racionalismo
da arquitetura moderna”.52
Em abril de 1955, pouco tempo após o início da construção da casa, Neutra
enviou uma carta a Alfred de Schulthess solicitando a contratação de Burle Marx
para desenvolver o projeto paisagístico. No entanto, recebeu forte relutância da
parte do casal Schulthess, por acreditarem ser mais prudente contratar um pai-
sagista cubano que melhor conheceria a flora e clima locais.

50. “The east end of the two-storey building is closed by walls for privacy against the street while the north and
south sides are primarily glass. The pool was situated on the northwest for mirroring clouds and landscape of the
valley view”. Tradução da autora. LAMPRECHT, Barbara. Op. cit, p.308.
51. De acordo com a cronologia definida pelo arquiteto Eduardo Luis Rodríguez, as visitas aconteceram nas
seguintes datas: 01 e 02 de dezembro de 1954; 01 e 02 de outubro de 1955; e, por último, 29 de fevereiro de
1956. RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Op. Cit, p.88.
52. SIQUEIRA, Vera Beatriz. Burle Marx, p.9.
Imagem 70 - Richard Neutra e Raul Álvares.
244
Richard Neutra durante muito tempo – e com muitas cartas – procurou conven-
cer o incrédulo suíço sobre a importância e maestria de Burle Marx e de sua
competência para conduzir o projeto paisagístico em questão. No entanto, o Al-
fred de Schulthess só se convenceu sobre a tal contratação após o próprio Burle
Marx ter lhe enviado fotografias e publicações de suas obras, tanto os murais
como as paisagens desenhadas.
“Em relação à Burle Marx – insistia Neutra a De Schulthess em 9 de
junho – quero apenas dizer que é indiscutivelmente o mais famoso e
mais altamente qualificado desenhista de paisagens, no mais amplo
sentido do termo, e é assim considerado não apenas no Brasil, como
também na Europa e na América”.53

Assim, o desenho de implantação da residência desenvolvido por Neutra, du-


rante o processo de estudo preliminar e aprovado por De Schulthess, foi enviado
à Burle Marx e, a partir dele, chegou-se ao desenho definitivo dos jardins.
Roberto Burle Marx (1909-1994) desenvolveu importantes trabalhos junto à
arquitetura moderna brasileira. Dentre eles, por exemplo, estão os jardins do
Ministério de Educação e Saúde, em 1938 no Rio de Janeiro, e e do complexo
Pampulha, em 1942 em Belo Horizonte. Já na década de 1940 ganhou desta-
que internacional, principalmente com a exposição Brazil Builds – ocorrida em
1943, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) –, com sua participa-
ção na Bienal de Veneza, no início de 1950, e a publicação de suas obras em
revistas como a Domus e a Architecture d’Aujourd’Hui. Em 1956, além do pro-
jeto para os jardins da residência Schulthess, destaca-se uma segunda parceria
com Richard Neutra: um painel desenvolvido para o Amalgamated Clothing
Workers of America Union Building, em Los Angeles, Califórnia.
O paisagismo proposto para esta casa em Havana faz uso de plantas com di-
ferentes alturas, cores e texturas que se harmonizam com a arquitetura em três
momentos. No contormo mais extremo, árvores de grande porte criam uma
massa densa, quase como uma mata virgem onde não se percebem os limites
físicos do terreno. Já no entorno da casa, a matriz de ângulos retos da arqui-
tetura é rebatida para o desenho do jardim, neste momento proposto em uma

53. “En relación a Burle Marx – le insistía Neutra a De Schulthess el 9 de junio – quisiera solamente decirle que
es indudablemente el más famoso y más altamente calificado diseñador de paisajes, en el más amplio sentido
del término, y es así considerado no sólo en Brasil, sino en Europa tanto como en América”. Tradução da auto-
ra. RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Op. cit, p.25.

245
Imagem 71 - Implantação, Richard Neutra.
Imagem 72 - Planta de paisagismo, Roberto Burle Marx.

Próxima página:
Imagem 73 - Projeto paisagístico do MAM-RJ, Roberto Burle Marx.
246
247
grelha de concreto que abriga plantas mais baixas e com variadas cores e textu-
ras que fazem o contraponto com a massa verde externa (do limite do terreno).
Aqui se juntam o espelho d’água e a piscina, dando lugar ao convívio da sala
de estar que se estende para o exterior. E a relação entre este paisagismo geo-
métrico e a vegetação quase in natura criada se dá com um desenho mais solto
do passeio em linhas curvas e com movimentação da topografia que, além de
proporcionar vistas distintas e surpreendentes da casa, cria um novo limite para
o terreno. A sensação que se tem é que a casa Schulthess está implantada em
uma clareira de uma mata virgem e inexplorada.
Estas transições e criação de limites visuais no paisagismo se assemelham muito
ao que foi proposto para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro alguns
anos antes, em 1953. Segundo o próprio Roberto Burle Marx, as distintas textu-
ras, cores e portes da vigetação possibilitam uma composição harmoniosa com
a arquitetura.
“Levamos em conta a área disponível e ordenamos o jardim visando
criar limitações espaciais relacionadas com os volumes arquitetôni-
cos. (...)

A Palmeira Real é usada como elemento ordenador, definindo os


espaços, ao mesmo tempo que oferece um contraponto visual no
sentido vertical. Procurou-se relacionar as superfícies de cor com os
pequenos, médios e grandes volumes de plantas herbáceas, arbustos
e árvores, onde as texturas das plantas e dos materiais utilizados se
harmonizam. Ao mesmo tempo, as plantas contarão, em certos ca-
sos, com superfícies de cor uniforme, obtendo assim maior nitidez na
composição”.54

O projeto de Roberto Burle Marx foi muito bem aceito pelo casal Schulthess. No
entanto, devido às dificuldades de se encontrar em Cuba algumas das plantas
especificadas e, até mesmo, por causa do gosto da família, a execução do jar-
dim – que também ficou sob responsabilidade do arquiteto cubano Raul Alvaréz
– sofreu algumas alterações, mas não ao ponto de descaracterizar o projeto ori-
ginal. O balanço final de Eduardo Luis Rodríguez é muito positivo:

Próxima página:
54. BURLE MARX, Roberto. Apud: BONDUKI, Nabil (org.). Affonso Eduardo Reidy, p.180.
Imagem 74 - Fachada norte: espelho d’água e piscina.
248
“Sem os jardins de Burle Marx a casa De Schulthess não teria alcan-
çado a qualidade de imagem atingida ao combinar duas valiosas
obras de dois Mestres indiscutíveis. Ambos, casa e jardim, se comple-
mentam à perfeição e constituem uma unidade singular e única”.55

Conforme dito anteriormente, o paisagismo – principalmente aquele executa-


do pelas mãos do mestre brasileiro –, com suas linhas curvas e a exuberância
de texturas e cores, deu suporte por contraste às típicas formas racionais do
movimento moderno arquitetônico. Este artifício foi muito utilizado por Richard
Neutra em sua contínua busca da arquitetura integrada à paisagem e ao clima
locais.
“A criação paisagística permite-lhe lidar com a qualidade abstrata da
forma moderna, sem os limites objetivos de sua utilização pictórica.
Este parece ser o cerne da qualidade astística de seus jardins: no lu-
gar de lidar com circunstâncias formais no espaço, Burle Marx cria
um fato espacial concreto. Para tal, precisa recusar a poda, a busca
de uma formalização arbitrária, representativa da forma pictórica.
O seu ideal de formalização dos gestos da natureza imbrinca-se na
vontade de liberar a forma plástica de seus constrangimentos, de per-
cebê-la como um dado concreto da existência e, portanto, necessa-
riamente instável e cambiante”.56

Este projeto para a casa Schulthess – ganhador do prêmio Medalha de Ouro,


em 1958, do Colégio Nacional de Arquitetos de Cuba57, na categoria de melhor
residência construída no país entre 1956 e 1958 – exemplifica a forte e impor-
tante relação entre Richard Neutra e os arquitetos e intelectuais da área brasilei-
ros, através da parceria com o paisagista Roberto Burle Marx.

Páginas anteriores:
Imagem 75 - Fachada norte: vista do jardim.
Imagem 76 - Jardim.
Imagem 77 - Jardim: banco.
55. “Sin los jardines de Burle Marx la casa De Schulthess no habría alcanzado la calidad de imagen que se Imagem 78 - Lago.
logró al combinar dos obras valiosas de dos Mastros indiscutibles. Ambos, casa y jardín, se complementan a la
Imagem 79 - Jardim: banco.
perfección y constituyen una unidad singular y única”. Tradução da autora. RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Op. cit,
p.26. Imagem 80 - Jardim.
56. SIQUEIRA, Vera Beatriz. Op.cit, p.26.
Nesta página:
57. RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Op. Cit, p.50-51.
Imagem 81 - Detalhe muro de arrimo e banco, Roberto Burle Marx.
256
Imagem 82 - Fachada norte: detalhe da vegetação e dos materiais.
Esta relação não se deu apenas no contato pessoal e de amizade, mas também
– e talvez aqui seja o ponto mais importante – na troca de informações e nos
trabalhos realizados em conjunto. Desde sua primeira visita ao Brasil, em no-
vembro de 194558, Richard Neutra não só publicou um livro em São Paulo como
também artigos, em revistas norte-americanas, com estudos sobre a América
Latina e sua arquitetura – com especial destaque para a dos grandes nomes da
arquitetura brasileira, como Rino Levi, Gregori Warchavchik, Álvaro Vital Brazil,
Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, dentre outros.
Ao mesmo tempo, os principais jornais e revistas brasileiros da época, especiali-
zados ou não, publicaram com grande entusiasmo não apenas suas obras, mas
igualmente os temas que apresentou e debateu, além de outros fatos e curio-
sidade das várias visitas de Richard Neutra ao país. No entanto, esta relação
que fora outrora de grande importância e repercussão caiu no esquecimento.
O trabalho aqui presente, que se aproxima do final, busca fundamentalmente
restabelecer a relação entre Richard Neutra e o Brasil, retraçando suas viagens,
revivendo seu convívio com arquitetos, intelectuais e políticos, rememorando sua
correspondência com aqueles que travou uma relação fraterna, restabelecendo
o processo comum de trabalho com Roberto Burle Marx. A compilação das vá-
rias referências a Neutra e sua relação com o universo brasileiro, dispersas em
artigos, livros e trabalhos acadêmicos, seu confronto com a documentação pri-
mária presente em acervos brasileiros e norte-americanos, e o apoio de textos
mais panorâmicos sobre a vida do arquiteto austríaco, as relações Brasil – Esta-
dos Unidos e o desenvolvimento da arquitetura moderna possibilitou o estabele-
cimento de um desenho consistente não só da presença de Richard Neutra entre
nós, mas também das duas forças que o motivaram: a condição de “embaixa-
dor da boa vontade” e sua curiosidade e respeito por nossa arquitetura.

Páginas anteriores:
Imagem 83 - Fachada leste: detalhe da vegetação.
Imagem 84 - Fachada norte: varanda e detalhe da vegetação.
Imagem 85 - Fachada norte: detalhe do jardim em grelhas.
Imagem 86 - Detalhe do jardim em grelhas.
58. Os documentos históricos que comprovam as datas de suas visitas e a relação com os brasileiros foram
coletados pela autora durante a pesquisa de Iniciação Científica, também sob orientação do professor Dr. Abilio
Guerra, e estão sendo analisadas no processo do Mestrado.
Próxima página:
Imagem 87 - Fachada norte: pórtico de entrada.
262
Páginas anteriores:
Imagem 88 - Fachada norte.

Nesta página:
Imagem 89 - Fachada norte.
Imagem 90 - Interior: detalhe do mobiliário e caixilhos.

Próximas páginas:
Imagem 91 - Interior: vista para o jardim.
Imagem 92 - Interior: lareira e escada.
Imagem 93 - Fachada norte.
LISTA DE IMAGENS CAPÍTULO 3

A PERMANÊNCIA DO BRASIL NAS OBRAS DE RICHARD NEUTRA


Imagem 1 - Escola rural, Richard Neutra, Porto Rico. Fonte: MARQUES, André Felipe Rocha. João Filgueiras Lima, Lelé: Projeto, técnica e racionalização, p.166.
Imagem 2 - Escola rural, João Filgueiras Lima, Lelé, Abadiânia. Fonte: MARQUES, André Felipe Rocha. João Filgueiras Lima, Lelé: Projeto, técnica e racionalização,
p.167.
Imagem 3 - Cadeira Boomerang, Richard Neutra, 1942. Fonte: <http://www.architonic.com/ntsht/born-again-vs-reissue-richard-neutras-pioneering-design-classi-
cs/7000935>.
Imagem 4 - Cadeira Preguiça, João Vilanova Artigas, 1947. Fonte: FERRAZ, Marcelo Carvalho; PUNTONI, Álvaro; PIRONDI, Ciro; LATORRACA, Giancarlo; ARTIGAS,
Rosa (orgs.). Vilanova Artigas, p.48.
Imagem 5 - Residência Aron Birmann, David Libeskind, Porto Alegre, 1969. Fonte: BRASIL, Luciana Tombi. David Libeskind, p.108.
Imagem 6 - Pátio interno da residência Aron Birmann, David Libeskind, Porto Alegre, 1969. Fonte: BRASIL, Luciana Tombi. David Libeskind, p.108.
Imagem 7 - Residência Carlos Taub, David Libeskind, São Paulo, 1970. Fonte: BRASIL, Luciana Tombi. David Libeskind, p.112.
Imagem 8 - Residência Carlos Taub, David Libeskind, São Paulo, 1970. Fonte: BRASIL, Luciana Tombi. David Libeskind, p.112.
Imagem 9 - Residência Alfred de Schulthess, Richard Neutra, Havana, 1956. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 10 - Residência Alfred de Schulthess, Richard Neutra, Havana, 1956. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 11 - Residência à beira-mar, Oswaldo Bratke, Ubatuba, 1959-1960. Fonte: SEGAWA, Hugo; DOURADO, Guilherme Mazza. Oswaldo Arthur Bratke, p.163.
Imagem 12 - Residência à beira-mar, Oswaldo Bratke, Ubatuba, 1959-1960. Fonte: SEGAWA, Hugo; DOURADO, Guilherme Mazza. Oswaldo Arthur Bratke, p.161.
Imagem 13 - Residência Sokol, Richard Neutra, Los Angeles, 1948. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 14 - Residência Warren Tremaine, Richard Neutra, Montecito, 1948. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.202.
Imagem 15 - Planta Casa de Férias Luthi, Jacob Ruchti, 1942. Fonte: Acervo da família Jacob Ruchti.
Imagem 16 - Casa de Férias Luthi, Jacob Ruchti, 1942. Fonte: Acervo da família Jacob Ruchti.
Imagem 17 - Casa de Férias Luthi, Jacob Ruchti, 1942. Fonte: Acervo da família Jacob Ruchti.
Imagem 18 - Young Brazil, p.1. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 19 - Young Brazil, p.2. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 20 - Residência Llovel, Richard Neutra, Los Angeles, 1927. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 21 - Estrutura da residência Llovel, Richard Neutra, Los Angeles, 1927. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.93.
Imagem 22 - Residência VDL I, Richard Neutra, Los Angeles, 1932. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.98.
Imagem 23 - Residência Edward Kaufman, Richard Neutra, Los Angeles, 1937. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 24 - Apartamentos Strathmore, Richard Neutra, Los Angeles, 1937. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 25 - Apartamentos Strathmore, Richard Neutra, Los Angeles, 1937. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.135.
Imagem 26 - Emerson Junior High School, Richard Neutra, Los Angeles, 1937. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 27 - Emerson Junior High School, Richard Neutra, Los Angeles, 1937. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.140.
Imagem 28 - Emerson Junior High School, Richard Neutra, Los Angeles, 1937. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 29 - Neutra Office, Richard Neutra, Los Angeles, 1950. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 30 - Neutra Office, Richard Neutra, Los Angeles, 1950. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.221.
Imagem 31 - Residência Dion Neutra (Reunion House), Richard Neutra, Los Angeles, 1950. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.224.

270
Imagem 32 - Residência Dion Neutra (Reunion House), Richard Neutra, Los Angeles, 1950. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 33 - Residência James Moore, Richard Neutra, Ojai, 1950-1952. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.252.
Imagem 34 - Residência James Moore, Richard Neutra, Ojai, 1950-1952. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.252.
Imagem 35 - Residência Alfred de Schulthess, Richard Neutra, Havana, 1956. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 36 - Residência Donald Cole, Richard Neutra, La Habra, 1958. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.332.
Imagem 37 - Residência VDL II, Richard Neutra, Los Angeles, 1965-1966. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 38 - Residência VDL II, Richard Neutra, Los Angeles, 1965-1966. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 39 - Residência VDL II, Richard Neutra, Los Angeles, 1965-1966. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.

A RELAÇÃO COM O PAISAGISTA ROBERTO BURLE MARX


Imagem 40 - Richard Neutra desenhando junto à seu filho Raymond, Aspen Conference on Design, 1952. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 41 - Travel Sketch: anfiteatro de Eero Saarinen durante encontro da Aspen Conference on Design, Richard Neutra, 1952. Fonte: Neutra Collection, UCLA Li-
brary Special Collections.
Imagem 42 - Montagem da revista Fortune, 1952. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 43 - Carta de Roberto Burle Marx para Richard Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 44 - Burle Marx conquistou os meios artísticos americanos, jornal Correio da Manhã, 05/08/1954. Fonte: Acervo Digital, Biblioteca Nacional.
Imagem 45 - Amalgamated Clothing Workers of America, 1956. Fonte: LAMPRECHT, Barbara Mac. Richard Neutra: complete works, p.300.
Imagem 46 - Amalgamated Clothing Workers of America, 1956. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 47 - Painel, Amalgamated Clothing Workers of America, 1956. Fonte: HINES. Thomas S. Richard Neutra and the Search for Modern Architecture, p.266.
Imagem 48 - Desenho de Roberto Burle Marx para o painel, Amalgamated Clothing Workers of America, 1956. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collec-
tions.
Imagem 49 - Carta de Richard Neutra para Roberto Burle Marx. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 50 - Carta de Richard Neutra para Roberto Burle Marx, p.1. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 51 - Carta de Richard Neutra para Roberto Burle Marx, p.2. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.
Imagem 52 - Carta de Roberto Burle Marx para Richard Neutra. Fonte: Neutra Collection, UCLA Library Special Collections.

A CASA SCHULTHESS EM HAVANA, CUBA


Imagem 53 - Capa do livro Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess. Fonte: Acervo da autora.
Imagem 54 - Residência Alfred de Schulthess, Richard Neutra, Havana, 1956. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 55 - Carta de Brita Schulthess para Richard Neutra, p.1. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schul-
thess, p.38.
Imagem 56 - Carta de Brita Schulthess para Richard Neutra, p.2. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schul-
thess, p.39.
Imagem 57 - Croqui, esquema de análise, pavimento térreo. Fonte: desenho da autora.
Imagem 58 - Croqui, esquema de análise, pavimento superior. Fonte: desenho da autora.
Imagem 59 - Croqui, esquema de análise, corte transversal, eixo de entrada. Fonte: desenho da autora.
Imagem 60 - Croqui, esquema de análise, corte transversal. Fonte: desenho da autora.
Imagem 61 - Planta pavimento térreo. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess, p.58

271
Imagem 62 - Planta pavimento superior. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess, p.58.
Imagem 63 - Fachada sul, corredor dos quartos. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 64 - Fachada sul. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 65 - Pórtico. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 66 - Interior: porta de entrada e escada. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 67 - Declaração de Habite-se. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess, p.48.
Imagem 68 - Cortes e Elevações. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess, p.59.
Imagem 69 - Cortes e Elevações. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess, p.59.
Imagem 70 - Richard Neutra e Raul Álvares. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess, p.21.
Imagem 71 - Implantação, Richard Neutra. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess, p.56
Imagem 72 - Planta de paisagismo, Roberto Burle Marx. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de Schulthess,
contra-capa.
Imagem 73 - Projeto paisagístico do MAM-RJ, Roberto Burle Marx. Fonte: BONDUKI, Nabil (org.). Affonso Eduardo Reidy, p.180.
Imagem 74 - Fachada norte: espelho d’água e piscina. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 75 - Fachada norte: vista do jardim. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 76 - Jardim. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 77 - Jardim: banco. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 78 - Lago. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 79 - Jardim: banco. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 80 - Jardim. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 81 - Detalhe muro de arrimo e banco, Roberto Burle Marx. Fonte: RODRÍGUEZ, Eduardo Luis. Modernidad tropical. Neutra, Burle Marx y Cuba: La casa de
Schulthess, 75.
Imagem 82 - Fachada norte: detalhe da vegetação e dos materiais. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 83 - Fachada leste: detalhe da vegetação. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 84 - Fachada norte: varanda e detalhe da vegetação. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 85 - Fachada norte: detalhe do jardim em grelhas. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 86 - Detalhe do jardim em grelhas. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 87 - Fachada norte: pórtico de entrada. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 88 - Fachada norte. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 89 - Fachada norte. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 90 - Interior: detalhe do mobiliário e caixilhos. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 91 - Interior: vista para o jardim. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 92 - Interior: lareira e escada. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.
Imagem 93 - Fachada norte. Fonte: Fotografia de André Marques, out/2013.

272
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A situação política e econômica da Europa decorrentes das duas Guerras Mun-
diais fez com que muitos arquitetos fizessem parte das ondas de migração para
a América, em especial para os Estados Unidos. Alguns foram antes, caso de
Rudolph Schindler (1914) e Richard Neutra (1923), outros pouco antes do confli-
to ter início, caso, por exemplo, de Walter Gropius (1937), Marcel Breuer (1937)
e Mies van der Rohe (1938). Assim, o movimento moderno da arquitetura norte
-americana, que surgia pelas mãos de figuras como Louis Sullivan e Frank Lloyd
Wright, agregou importantes nomes europeus atraídos pelas possibilidades de
um novo mundo.
Já em 1932, o Museu de Arte Moderna de Nova York, MoMA, organizou uma
exposição cujo objetivo era chamar a atenção para a nova arquitetura que se
desenvolvia fora da Europa – e pelo trabalho, principalmente, de europeus. A
Modern Architecture: International Exhibition foi divulgada em diversos países
e foi através de seus idealizadores, Henry-Russel Hitchocock, Philip Johnson e
Alfred Barr – então diretor do museu – que o termo Estilo Internacional (Interna-
tional Style) ficou conhecido. Segundo Willian Curtis, tal arquitetura se caracteri-
zava por
“janelas em fita, coberturas planas, modulações estruturais, planos
horizontais em balanço, balaustradas metálicas e paredes internas
curvas; (...) volumes retangulares simples articulados por aberturas
bem definidas ou a ênfase em planos flutuantes e espaços interpene-
trantes”.1

A Europa, portanto, deixava de ser o foco principal da arquitetura moderna,


que, aos poucos, se deslocava para a América. No Brasil, a influência norte-a-
mericana se deu com maior contundência em São Paulo, principalmente, entre
os estudantes e arquitetos formados no Mackenzie. A revista Pilotis, editada
dentro do Diretório Acadêmico por Salvador Cândia, Miguel Forte, Jacob Ruchti,
Carlos Millan e Jorge Wilheim, foi organizada seguindo os moldes da Arts&Ar-
chitecture. E suas publicações constantemente incluíam obras de importantes
arquitetos norte-americanos como, por exemplo, Frank Lloyd Wright e Richard
Neutra.

1. CURTIS, Willian J. R. Arquitetura Moderna desde 1900, p. 257.


Imagem 1 - Rudolph Schindler (1887-1953).
275
Imagem 2 - Richard Neutra (1892-1970).
Imagem 3 - Mies van der Rohe (1886-1969).
Imagem 4 - Walter Gropius (1883-1969).
276
Hugo Segawa e Fernando Atique, no texto Latin America and Los Angeles: Ar-
chitectural exchanges (América Latina e Los Angeles: Intercâmbio arquitetônico),
afirmam que
“Entre 1948 e 1951, um grupo de estudantes de arquitetura da
Faculdade de Arquitetura Mackenzie, em São Paulo (que viria a se
tornar a elite da arquitetura na cidade ao longo das décadas seguin-
tes), produziu a revista Pilotis, para qual usaram a Arts & Architecture
como referência em seu protesto contra a abordagem tradicional
acadêmica da escola”.2

No mesmo texto, os autores dizem que, a partir de uma análise mais minucio-
sa, pode-se encontrar uma relação direta entre a arquitetura californiana e da
América Latina: “Um exame superficial dos edifícios projetados por arquitetos
sul californianos parece sugerir um compromisso arquitetônico entre Los Angeles
e a América Latina”.3 E esta relação se deu, principalmente, pela disseminação,
a partir das revistas e manuais norte-americanos, do mission style – denomina-
ção dada pelos Estados Unidos às arquiteturas encontradas no México e Cali-
fórnia – para os países de colonização espanhola, que buscavam referências na
produção arquitetônica neocolonial.4

2. “Between 1948 and 1951, a group of architecture students from the Faculdade de Arquitetura Mackenzie in
São Paulo (who would become the architecture elite in this city over the following decades) produced the magazi-
ne Pilotis, for which they used Arts&Architecture as a reference in their protest of the school’s traditional academic
approach”. Tradução da autora. ATIQUE, Fernando; SEGAWA, Hugo. Op. Cit, p.114. Apud: ACAYABA, Marle-
ne. Branco&Preto: uma história do design brasileiro nos anos 50, p. 48-49.
3. “A cursory examination of buildings designed by Southern California architects seems to suggest an architec-
tural engagement between Los Angeles and Latin America”. Tradução da autora. ATIQUE, Fernando. SEGAWA,
Hugo. Latin America and Los Angeles: Architectural exchanges, p.109. In: ALEXANDER, Christopher James. DE
WIT, Wim. Overdrive: L.A. constructs the future, 1940-1990.
4. ATIQUE, Fernando. Arquitetando a “Boa Vizinhança”: arquitetura, cidade e cultura nas relações Brasil-Estados
Imagem 5 - Marcel Breuer (1902-1981).
Unidos 1876-1945, p. 213 e 283.
Imagem 6 - Alfred H. Barr, Philip Johnson e Margaret Scolari Barr.
277
A revista californiana Arts&Architecture fez, portanto muito sucesso entre os bra-
sileiros que se interessaram pelo programa, criado em 1945 por seu editor John
Entenza, de estudo, projeto e construção de casas industrializadas e de baixo
custo. O Case Study Houses tinha por objetivo suprir a demanda habitacional,
que vinha desde os anos da Grande Depressão (1929) e se agravara com a
volta dos soldados que lutaram na Segunda Guerra Mundial; e a demanda das
indústrias norte-americanas que não mais trabalhavam para o arsenal de guer-
ra e se deslocavam para a produção de componentes pré-fabricados para a
construção civil.5
No entanto, não eram apenas os brasileiros que absorviam os modelos vindos
dos Estados Unidos. A própria revista Arts&Architecture – assim como outras re-
vistas européias e norte-americanas – se preocupou em publicar os projetos de
Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Oswaldo Bratke, sobre Brasília e a Bienal de São
Paulo.6 Da mesma forma, o Museu de Arte Moderna de Nova York organizou
um conjunto de exposições, seguindo a Política de Boa Vizinhança7 implanta-
da pelo presidente Roosevelt e executada por Nelson Rockefeller no campo da
cultura, que estudavam as arquiteturas brasileiras e latino-americanas: Brazil
Builds: Architecture new and old, 1652-1943, em 1943; e Latin American archi-
tecture since 1945, em 1955.

5. SMITH, Elizabeth A.T. Case Study Houses, p.6.


6. ATIQUE, Fernando. SEGAWA, Hugo. Op. cit., p. 112.
7. Conforme afirma Jorge Francisco Liernur, foi a partir de 1933, quando Franklin Roosevelt assumiu a presidên-
cia dos Estados Unidos, que o Museu de Arte Moderna de Nova York – MoMa passou a divulgar as expressões
artísticas dos países da América Latina. LIERNUR, Jorge Francisco. The south american way. O milagre brasileiro,
os Estados Unidos e a Segunda Guerra Mundial – 1939-1943, p.171. In: GUERRA, Abilio (org.). Textos funda-
mentais sobre história da arquitetura moderna brasileira – parte 2.
Imagem 7 - Revista Arts & Architecture.
278
Imagem 8 - John Entenza (1905-1984).
Imagem 9 - Anúncio do programa Case Study Houses, publicado na
revista Arts & Architecture.
279
Páginas anteriores:
Imagens 10 e 11 - CSH 8, Charles e Ray Eames, Los Angeles, 1945-1949.

Nesta página:
Imagem 12 - Foto interna CSH 8, Charles e Ray Eames, Los Angeles,
1945-1949.

Próxima página:
Imagem 13 - CSH 21, Pierre Koenig, Los Angeles, 1958-1960.
282
Imagem 14 - CSH 21, Pierre Koenig, Los Angeles, 1958-1960.

Próxima página:
Imagem 15 - CSH 21, Pierre Koenig, Los Angeles, 1958-1960.
Imagem 16 - CSH 20, Richard Neutra, Pacific Palisades, 1947-1948.

Próxima página:
Imagem 17 - Casa Strick, Oscar Niemeyer, Los Angeles, 1964.
286
Este cenário de intercâmbio cultural, muito influenciado pela política externa
adotada pelos Estados Unidos frente à América Latina, marca os bastidores da
presença de Richard Neutra no Brasil. Comissionado pelo Departamento de Es-
tado norte-americano, o arquiteto percorreu, durante dois meses – entre outubro
e novembro de 1945 –, diversos países da América do Sul e esteve em contato
com políticos, intelectuais, arquitetos e estudantes latino americanos. Proferiu
conferências públicas e palestras nas universidades e foi convidado para diver-
sos jantares e recepções em sua homenagem. Durante sua visita, empenhou-se
também em estudar a paisagem, a cultura e a arquitetura latina americana e
suas impressões sobre o que viu ficaram muito bem registradas nos diversos
desenhos feitos e no relatório entregue, em 1946, a Francis Colligan, chefe da
Divisão de Cooperação Cultural do Departamento de Estado norte-americano.
Os documentos coletados nos acervos, em especial o Neutra Collection da Bi-
blioteca de Coleções Especiais da UCLA, evidenciaram o contato com diversos
arquitetos brasileiros desde sua primeira visita, em novembro de 1945, até o
início da década de 1960, após sua quarta e última viagem ao Brasil – para
participar do Congresso Internacional de Críticos de Arte, em setembro de
1959. Nomes como Eduardo Kneese de Mello, Lucian Korngold, Henrique Min-
dlin, Gregori Warchavchik, Rino Levi, Jorge Wilheim e Jacob Ruchti, aparecem
nas correspondências encontradas e, até mesmo, citados em textos escritos por
Richard Neutra sobre a arquitetura na América Latina – caso, por exemplo, do
artigo Sun Control Devices (publicado na revista Progressive Architecture, em ou-
tubro de 1946) e Young Brazil. Mas foi com Roberto Burle Marx que estas rela-
ções de amizade se mostrou mais frutífera.
Entre 1954 e 1956, Richard Neutra e o paisagista brasileiro estiveram em con-
tato constante, na tentativa de realizarem trabalhos em parceria. Nas cartas,
Neutra mostrou-se empenhado em convencer seus clientes a contratarem Burle
Marx para desenvolver projetos paisagísticos e de murais. Das quatro tentativas,
apenas duas foram concretizadas: o jardim da casa Schulthess, em Havana, e
o mural e pequeno jardim para o edifício da Amalgamated Clothing Workers of
America, em Los Angeles, ambos em 1956. Este último, no entanto, encontra-se
totalmente descaracterizado e é possível – e bem provável – que o projeto de
Burle Marx não exista mais.

Página anterior:
Imagem 18 - Placa de Patrimônio da Cidade, Casa Strick, Oscar Nie-
meyer, Los Angeles, 1964.
289
Esta pesquisa, portanto, procurou evidenciar não apenas a influência exercida
por Neutra na arquitetura moderna brasileira, mas – e talvez principalmente – a
influência do Brasil em suas obras. Assim, ganham relevância na comprovação
do benefício mútuo desta interlocução os diversos elogios feitos pelo austríaco a
muitos de nossos arquitetos; o estudo minucioso das formas por nós adotadas
para controlar a incidência do sol; e, em especial, os projetos em parceria com
Roberto Burle Marx. O interesse de Richard Neutra pela relação da arquitetura
com a paisagem encontrou no seu trabalho comum com o brasileiro sua expres-
são máxima. E os relatos dos esforços e empenho em convencer os clientes, nos
Estados Unidos e em Cuba, da importância da participação de Burle Marx são
prova cabal do quanto Neutra prezava esta oportunidade.
O trabalho que aqui se encerra não se pretende um ponto final nas pesquisas
sobre a relação entre Richard Neutra e o Brasil. Ao contrário, ao fazer um am-
plo compêndio e balanço da fragmentária pesquisa existente até o presente
momento e ampliar as referências com base documental inédita, a presente
dissertação tem o objetivo complementar de abrir frentes para novas pesquisas,
principalmente com os inevitáveis fios deixados soltos ao longo dos três capítu-
los.

290
LISTA DE IMAGENS CONSIDERAÇÕES FINAIS

Imagem 1 - Rudolph Schindler (1887-1953). Fonte: STEELE, James. Schindler, contra-capa.


Imagem 2 - Richard Neutra (1892-1970). Fonte: SACK, Manfred. Richard Neutra, p.10.
Imagem 3 - Mies van der Rohe (1886-1969). Fonte: <http://www.archidaily.com.br/br/tag/mies-van-der-rohe/page/2>.
Imagem 4 - Walter Gropius (1883-1969). Fonte <http://theredlist.com/wiki-2-18-392-1335-1341-1343-view-german-bauhaus-1-profile-gropius-walter-2/html>.
Imagem 5 - Marcel Breuer (1902-1981). Fonte: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.064/428>.
Imagem 6 - Alfred H. Barr, Philip Johnson e Margaret Scolari Barr. Fonte: www.moma.org/explore/publications/modern-women/history#lexicon1
Imagem 7 - Revista Arts & Architecture. Fonte: <www.taschen.com/pages/en/catalogue/art/reading-room/162.the-complete-arts-architecture-19451954.1.htm>
Imagem 8 - John Entenza (1905-1984). Fonte: <www.michiganmodern.org/designers/john-entenza>
Imagem 9 - Anúncio do programa Case Study Houses, publicado na revista Arts & Architecture. Fonte: <www.artsandarchitecture.com/case.houses/pdf01csh-announce-
ment>
Imagem 10 - CSH 8, Charles e Ray Eames, Los Angeles, 1945-1949. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 11 - CSH 8, Charles e Ray Eames, Los Angeles, 1945-1949. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 12 - Foto interna CSH 8, Charles e Ray Eames, Los Angeles, 1945-1949. Fonte: SMITH, Elizabeth A. T. Case Study Houses, p. 25.
Imagem 13 - CSH 21, Pierre Koenig, Los Angeles, 1958-1960. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 14 - CSH 21, Pierre Koenig, Los Angeles, 1958-1960. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 15 - CSH 21, Pierre Koenig, Los Angeles, 1958-1960. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 16 - CSH 20, Richard Neutra, Pacific Palisades, 1947-1948. Fonte: SMITH, Elizabeth A. T. Case Study Houses, p. 43.
Imagem 17 - Casa Strick, Oscar Niemeyer, Los Angeles, 1964. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.
Imagem 18 - Placa de Patrimônio da Cidade, Casa Strick, Oscar Niemeyer, Los Angeles, 1964. Fonte: Fotografia de André Marques, dez/2014.

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