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Projeto Integrador

Uma jovem prestes a mudar de casa. Ela vai até o sótão ou o famoso quartinho da
bagunça para organizar as suas mudanças, o que vai ou não levar para a nova
morada.

Cenário: quatro caixas e muita bagunça em volta. Um refletor e ela entra com um
pires e uma vela acesa. Boneca com as pernas pra fora da caixa.

Estou cansada de chegar em casa e não ter ninguém pra me receber, não ter
ninguém me esperando pra brincar comigo, pra me abraçar e me fazer um convite
irresistível de uma dança a dois. Estou cansada de ver tudo nessa caixa, sem vida:
brinquedos quebrados, Rádio cheio de pane... Enfim, toda soma dos fatores se
dividem entre si mesmos: Uma só monologia! Estou cansada de deitar nessa caixa,
que a cada noite se torna mais fria e grande demais pro meu pequeno espaço de
dormir, sem ter ninguém pra me dar AMOR, ATENÇÃO E CARINHO, além da
cumplicidade de um beijo de “boa noite”! Estou cansada de não ter pequenas
mãozinhas agarrando-me pela cintura, me pedindo pra dançar, me chamando pra
brincar e entre seus passinhos mais ousados e destemidos, correndo pela casa toda
e se escondendo de mim, esperando que eu a encontre-a... Estou cansada de
dançar minhas canções favoritas e não ter alguém para aplaudir e dizer que eu sou
um sucesso na vida, que faço parte de uma linda família. Enfim, estou cansada! A
vida já me cansa! O peso que carrego é enorme, meu caminhar é lento e tortuoso
meus passos são desajeitados, como ela pôde se esquecer de mim???... À medida
que o tempo vai passando, mais diminuem as chances de ser feliz de verdade!
Nessa vida tão só, sem luz, sem som, sem calor, sem cor, sem emoção... O coração
parece estar de luto há muito tempo, pois bate devagarzinho, quase parando! Mas
não posso desistir! Deixe me pensar... E se eu me tornasse como ela?

Fulana (Voz no tom baixo e reclamando) - Eu nunca lembro aonde fica a tomada
pra acender a luz desse lugar (Continua procurando até encontrar). Finalmente
encontrei você! (Tenta acender, mas está queimada) Pra variar... está queimado.
Também quase ninguém vem nesse quarto cheio de tralha.

Enquanto está arrumando, encontra alguns objetos, como um rádio, roupas,


fantasias, acessórios de fantasia, caixinha de música, chapéu do vovô e até mesmo
a sua caixa de memórias da infância e começa a relembrar alguns momentos.

Fulana - Olha, o chapéu do vovô está aqui! A minha fantasia da apresentação de


ballet! A fantástica caixa de memórias (começa revirar o que tem dentro) Tem
alguns brinquedos... Não sei o que faço com eles... (Ela fica surpresa ao encontrar a
caixinha de música) Eu adorava isso! Deixa eu ver se ainda funciona.

No decorrer da música, Fulana resolve dividir as caixas, como: “vende-se”, “doação”


e o que levar para a nova casa.

Fulana – (Revirando a mesma caixa) Lembro que guardava canetinhas aqui...


Hmm... Cadê... Opa (encontra a canetinha) essa serve! (chacoalha a caneta para
fazer funcionar). Tá, uma caixa pra mudança e outra com as coisas que... Eu vou
vender (vai até a caixa, risca a palavra memória e escreve “vende-se”) Mas quem
vai querer comprar essas tralhas?

Enquanto Fulana está distraída, escutando uma música (base instrumental da


caixinha) a boneca começa a se mexer e fecha a tampa da caixinha sem que ela
perceba. Fulana estranha o que acaba de acontecer, olha para os lados, levanta os
ombros como se não se importasse e fala:

Fulana – (Um pouquinho desconfiada) Acho que não deixei aberta o suficiente,
também a tampa é pesada (Dá corda na caixinha e volta para o que estava fazendo,
dando as costas para a caixinha).

Não demora e a boneca torna repetir a mesma ação.

Fulana – (Preocupada e com medo) Ai, não é possível! Que estranho, credo...
Caixinha você vai... Pra doação, isso! Doação! (Coloca a caixinha de música dentro
da caixa, risca a palavra “vende-se” e escreve “doação”) Agora é melhor ouvir o
rádio mesmo para mudar o clima, deve estar funcionando ainda (Fica tentando até
conseguir colocar uma música) Agora foi! (Volta para o que estava fazendo, dando
as costas para o objeto).

A boneca desliga o rádio e a Fulana fica atenta e mais preocupada.

Fulana – O que está acontecendo aqui?! Será que tem um rato? Não pode ser
problema na bateria... Será que é a própria rádio? Mas como vai ser a rádio? Ela
não tem poder sob isso, só se as caixinhas estivessem chiando...

Boneca (Escondida) – Shiiiii.

Fulana - É por isso, mãe, que eu não queria arrumar essas caixas sozinha aqui...
Ainda mais o que eu preciso arrumar... (Respiração profunda) Essas mudanças me
deixam confusa, atrapalhada e o rádio que não colabora... Acho que esse ruído só
pode ser coisa da minha cabeça. (Senta no chão e desliga o rádio de vez) Só pode
ser mesmo, está até doendo agora, latejando. Por que essas escolhas? Se é que
isso são escolhas... (começa imitar a voz da mãe) “Fulana, a mãe fala e faz isso
para o seu bem, o seu melhor!” Em algum momento ela perguntou o que EU DE
FATO queria? (levanta e a boneca vai atrás sem que ela perceba)

Fulana – Parando para pensar, não tem muito o que escolher... É nascer, crescer e
morrer... Não! Nascer, crescer, produzir (fazer) e morrer....

Boneca - Se é que você já não está morta.

(Pausa em silêncio)

Boneca chama alguém da plateia pra beliscar a Fulana, pois ela não tem força, mas
desiste e pede para pessoa voltar para o lugar antes de completar a ação.
Boneca - Quando você era criança, a bonita adorava me rabiscar, imitar a minha
voz, conversar comigo e agora eu não posso fazer o mesmo? Relaxa, boba, você só
está passando pelo inferno astral. (Joga pra plateia) Sabe como são esses
cancerianos, dramáticos e a coitada ainda tem lua em não sei o que.

Fulana - Por isso eu não queria vir aqui, por isso eu não deveria... Bom, eu deveria
ir embora dessa casa sim, depois disso.... ou eu estou ficando louca ou....

Boneca - Olha o medo engolindo você.

Fulana - OH, MÃE!

Boneca - Para de depender da sua mãe pra tudo, Josefina Maria!

Fulana - Você não me chama assim!

Boneca - Tá explicado por que você me deu esse belíssimo nome, para combinar
com o seu... Não, é sério, tanto nome maneiro para outros brinquedos e o meu é
esse?! Isso que eu era a sua favorita.

Fulana - Meu pai amado! (Se ajoelha) Deus, sou eu! Eu não aguento mais...

Boneca - Como reclama! Até parece que é você que está aqui nesse lugarzinho há
mais de seis anos.

Fulana – (Para de falar com Deus e olha para boneca) Quatro anos!

Boneca – Não importa! É que... Aqui a noção de tempo é outra. (Drama) A cada
noite se torna mais fria e grande demais para o meu pequeno espaço de dormir. Sem beijo
de “boa noite”, sem som, sem calor. A única forma de acompanhar a luz do dia é
através daquela simples janela redonda do lado esquerdo (apontando com o braço
para o lado direito).

Fulana – Direito!

Boneca – Esquerdo!

Fulana – Direito!

Boneca – Esquerdo!

Fulana - (Alterada) – Direito! Mão direita, lado direito e janela quadrada.

Boneca – Olha o tom de voz que você fala comigo! Sou até mais velha que você!

Fulana – Hãn?

Boneca – É! Pra fazer a boneca é preciso de uma almofada velha, cabelo feito com
não sei o que, arame (explica os materiais que foi utilizado pra fazer a boneca)
Fulana – Chega!

Boneca – Continua explicando...

Fulana – Chega!

Boneca – Você está me atrapalhado.

Fulana – Você já é atrapalhada! Uma simples boneca. Ai, não sei porque estou de
dando assunto...

Boneca - (Melancólica) Tá bom, não precisa falar mais nada. Aqui eu tenho vários
amigos, diferente de você (Dá as costas pra Fulana e começa a se relacionar com
algum objeto que seria o seu amigo).

Fulana – Não, boneca, você não precisa ficar desse jeito.

Boneca olha para trás e depois fica de costas novamente.

Fulana – E eu também não precisava ter falado aquilo. Ah, e outra, eu tenho
amigos, sim, senhora! Alguns.

Boneca – Não entendo. O que é que você veio fazer atrás de mim dessa vez?

Fulana – Atrás de você? É, realmente a noção de tempo aqui é diferente mesmo.

Boneca - Não vai negar que você compartilhava todos os seus momentos de
frustração, alegria, dúvidas comigo.

Fulana – Além de falar, você tem memória! Nossa, é muita informação para um
único momento... Despedida da casa, das pessoas, dos costumes...

Boneca - Sou eu que quase não tenho vista e é você que não olha pra fora. Ai,
você reclama muito, se me dessem uma oportunidade, uma oportunidade, eu nem
olhava o relógio, me entregaria a tudo isso.

Fulana – Não é reclamação, é afirmação.

Boneca - (Em um tom mais baixo) Você reclama sim e nem percebe.

Fulana – (Sem ouvir direito) Oi?

Boneca - Recebe! É bom receber coisas novas, renovar, reinventar, repaginar... Vai,
fala aí sobre a nova casa enquanto a gente organiza as caixas.

Fulana – Estou na parte do que levar e o que deixar.

Boneca - Fácil!

Fulana – Você que pensa.


Boneca - Por que esse apego? Ainda mais aqui.

Fulana – Você não entende, é um brinquedo!

Boneca - Me tratando igual a sua mãe te trata, Josefina Maria.

Fulana – Ah, as despedidas não são fáceis.

Boneca - E quantas você já passou por isso?

Fulana – Hm... essa é a primeira.

Boneca - (Imitando a Fulana) Você que pensa.

Fulana – (Tom cômico) Se eu soubesse que você falaria um dia, provavelmente


seria de outra forma e talvez até muda.

Boneca - (Tom cômico) Você está querendo me silenciar, Josefina Maria?

As duas estão rindo da situação.

Fulana – As outras eram diferentes, você não percebe. Quando vê, os legumes e
vegetais não são tão ruins assim, está em uma escola, com várias pessoas
desconhecidas, já aprendeu a ler, andar de bicicleta, que beijar não é estranho
como eu pensava que fosse...

Boneca - Agora o negócio apertou porque quem está no controle é você, né?

Fulana – Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

Boneca – Mas não devia.

A boneca pega um objeto pesado e pergunta:

Boneca – O que pretende fazer com isso?

Fulana – Vai ir comigo!

Boneca - Você não precisa carregar esse peso. (Joga pra dentro da caixa)

Fulana – O quê?

Boneca - Livro de receitas.

Fulana – Fiz ele para um trabalho na quarta série. Queria levar.

Boneca – Não agrega mais em nada (Joga na caixa de doação e depois pega de
volta) Se bem que é reciclável, que nem eu, dá pra fazer outras iguais a mim.

Fulana – (Pega da mão da boneca o livro de receita) Não! Quero dizer... É doação,
como você mesma disse.
Boneca - E esses brinquedinhos?

Fulana - Eu gosto deles.

Boneca – Pén! Errada de novo. Doação.

Fulana – Mas... Olha, não encosta nesse chapéu, ele vai comigo!

Boneca - Claro, era do seu avô e diferente de você, ele tinha um bom gosto
musical.

Fulana – Vou fingir que não te ouvi... Falando em música, achei esse CD que ele
adorava!

Boneca – Já coloca no rádio.

A música começa a tocar. As personagens continuam organizando as caixas, até


um esperado instante que a boneca volta ao seu tamanho real, sem que a Fulana
perceba.

Fulana – (Distraída cantando) Eu preciso aprender a só ser (Pausa) . Boneca, é


isso!

Somente a boneca vai estar jogada no chão.

FIM

O Tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal...

Quando se vê, já terminou o ano...

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado...

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.

Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mario Quintana

Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

Nada pode o olvido

contra o sem sentido

apelo do Não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

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