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DIREITO PENAL II – AULAS PRÁTICAS

Dra. Ana Rita Alfaiate


27 de fevereiro de 2019
O tipo não tem função autónoma, pois está ligado ao ilícito. Não é um tipo de ilícito
puramente objetivo, mas sim pessoal. Já referimos a dimensão objetiva do tipo de ilícito e à
questão do tipo subjetivo de ilícito. O tipo incriminador é composto por um desvalor de ação e
por um desvalor de resultado – só assim está verificado o tipo ilícito de incriminador.
A causa de justificação serve para anular o tipo incriminador, ou seja, precisa de
justificar a dimensão objetiva – desvalor de resultado – e a dimensão subjetiva – desvalor da
ação – do tipo incriminador. A causa de justificação tem determinados elementos objetivos que
afastam os elementos objetivos do tipo incriminador; estes requisitos objetivos estão no próprio
artigo da causa de justificação. O desvalor da ação só se afasta com os requisitos subjetivos da
causa de justificação – art. 38º CP: o agente tem de saber que está a agir a coberto de uma causa
de justificação. Aplica-se o art. 38º/4 analogicamente a todas as causas de justificação; é uma
analogia permitida porque atua em favor do agente. Como o curso defende o ilícito pessoal, não
basta a verificação dos requisitos objetivos para afastar o tipo de ilícito.
Temos um ilícito pessoal – desvalor de resultado e desvalor da ação. O tipo justificador
tem de anular ambos os desvalores. O requisito objetivo anula o desvalor de resultado e o
requisito subjetivo anula o desvalor de ação. Aplica-se analogicamente para ser possível anular
o desvalor da ação; caso contrário, se não se aplicar analogicamente só anulamos o desvalor do
resultado e não está verificada a causa justificadora.
Não há um número definido de causas de justificação. Identificam-se a legitima defesa,
o estado de necessidade objetivo e o consentimento.

Legitima defesa
1. requisito subjetivo: o agente tem de saber que está a agir a coberto da causa de
justificação.
2. requisito objetivo quanto à agressão: tem de ser uma agressão (e não um perigo). A
agressão tem de ser atual (pode estar na iminência de ocorrer). A atualidade mantém-se para lá
do aparente fim da agressão nos crimes de património, mas ainda dentro de um nexo de
causalidade espácio-temporal. A agressão tem de ser ilícita – agressão humana (instrumento
para a agressão pode ser um objeto ou um animal). A agressão não deixa de ser ilícita mesmo
que praticada por menor ou pessoa com anomalia psíquica (neste caso exige-se a adaptação dos
meios de defesa). Tem de estar a ser agredido um interesse juridicamente protegido (não tem de
ser necessariamente um interesse jurídico-penal). Pode ser para o próprio ou para terceiro. O
primeiro meio necessário são as forças de autoridade.
3. requisito objetivo quanto à defesa: não se exige uma completa ponderação dos bens
jurídicos (em vez de meio adequado fala-se em meio necessário), mas é preciso uma ponderação
quanto aos meios utilizados. É meio necessário aquele menos gravoso para o agressor de entre
todos os meios adequados. Na hipótese de excesso dos meios, age-se em excesso de legitima
defesa (art. 33º); quanto muito consagra-se uma exclusão da culpa.

6 de março de 2019
Caso Prático
A passeava no parque verde, quando se cruzou com o seu antigo chefe, B. B passeava o
seu cão, que lhe faz sempre companhia nas suas caminhadas de fim de tarde. Por não gostar de
B, A começou a insultá-lo, chamando-lhe vigarista, ladrão e corrupto, procurando calar B. B
instigou o seu cão a morder-lhe e aproveitou o momento em que A caiu no chão para lhe dar
murros e pontapés, repetindo insistentemente: “sempre foste um infeliz, não serves para nada”.
A teve de receber tratamento hospitalar, ficando internado com múltiplas fraturas
durante 7 dias.

14 de março de 2019
Caso Prático
Por se encontrar em fase de carência económica extrema, A concorre num concurso
televisivo onde se testa a coragem dos participantes. Em direto, e depois de superar várias
provas, estando já nos três últimos finalistas, A aceita que lhe cortem uma orelha para provar
o quanto é destemido. A capacidade auditiva de A fica irremediavelmente afetada, mas, na
verdade, A acaba por vencer o concurso, ganhando o prémio final no valor de €50.000. Quid
iuris?
Existe uma manifestação de vontade que nos conduz para a questão do consentimento
como causa de justificação – art. 38º CP.
Temos de afastar o desvalor da ação (elemento subjetivo – art. 38º/4) e o desvalor do
resultado (requisitos objetivos da causa de justificação – art. 38º/1, 2, 3). Relativamente ao bem
jurídico da integridade física, o art. 149º estabelece os requisitos para o consentimento
(requisitos especiais) – nestes casos, o art. 38 estabelece apenas os requisitos gerais.
ART. 38º - requisitos objetivos gerais.
Têm de estar em causa um interesse jurídico livremente disponível: em princípio, todos
os bens jurídicos individuais são disponíveis, salvo o bem jurídico vida quanto às lesões de
terceiros. O bem jurídico vida só é livremente disponível pelo próprio. Não pode ser um bem
jurídico coletivo.
O consentimento não pode ofender os bons costumes. Os bons costumes variam na
mesma comunidade em momentos históricos diferentes e no mesmo momento histórico em
comunidades diferentes.
Vontade séria: não pode ser consentimento dado de forma leviana; livre: não obtido
através de coação ou por erro; e esclarecida. O consentimento pode ser livremente revogado a
qualquer momento até à execução do facto.
Duplo requisito para a eficácia do consentimento: dimensão objetivo (16 anos) e
dimensão subjetiva (necessário discernimento). O facto de uma pessoa não ter capacidade para
consentir antes dos 16 anos, não significa que antes desta idade não tenha capacidade para
outras manifestação de vontade, como dissentir.
ART. 149º: o legislador esclareceu que o bem jurídico da integridade física é livremente
disponível. O nº 2 indica os limites a esta disponibilidade com base no critério dos bons
costumes. Tem de se tratar de uma agressão séria, grave e irreversível: em princípio, ofende os
bons costumes, salvo quando esteja justificado pelos meios, fins e motivos.
O acordo não é uma causa de exclusão da ilicitude, mas sim uma causa de atipicidade.
O facto deixa de ter qualquer relevância jurídico-penal. No consentimento autorizamos uma
lesão do bem jurídico. No acordo não se autoriza, a manifestação de vontade serve como forma
de viver o bem jurídico.
Ex.: práticas desportivas de impacto físico (a forma de um jogador de futebol viver a
sua profissão implica por vezes impactos físicos – não estão autorizar a lesão de um bem
jurídico – não há uma descrição típica ); liberdade sexual (dimensão positiva – todos temos
direito de viver a nossa liberdade sexual; dimensão negativo – temos direito que não se
intrometam na nossa liberdade sexual; antes dos 14 anos é sempre crime porque não há
liberdade positiva; não há lesão do bem jurídico quando ambos acordam em manter uma relação
sexual).
Quanto ao caso prático, o consentimento é inválido nos termos do art. 149º, pois o
facto ofende os bons costumes. Ora, o consentimento não excluir a ilicitude do facto típico de
ofensa à integridade física. É punido quem lhe cortou a orelha.
O consentimento previsto no ART. 39º - presumido – é equiparado ao consentimento
efetivo.

Esquema-síntese do facto punível


Ação ou Omissão
Típica
Ilícita
- Tipo de ilícito
- Objetivo
- Tipos de tipicidade
- Imputação do resultado à conduta
- Subjetivo
- dolo do tipo (elemento intelectual e elemento volitivo) – art. 16º
- negligência do tipo
- Causas de justificação
Culposa
- Imputabilidade
- Dolo ou negligência
- Consciência de ilicitude (17º)
- Exigibilidade
Punível
Inimputabilidade em razão da idade – ART. 19º
Presume-se que a capacidade a partir dos 16 anos permite compreender a ilicitude do
facto.
Se o facto for cumprido por uma pessoa com menos de 12 anos é aplicada a Lei de
proteção de crianças e jovens em perigo – o agente deve ser tratado como uma vítima em razão
da sua imaturidade. Estas medidas são aplicadas pelas comissões de proteção de menores ou
pelo tribunal. Existe uma intervenção do estado mesmo que o facto seja praticado por um menor
de 12 anos, bastando que os pais não sejam capazes de afastar a criança destes factos.
A partir dos 12 anos aplica-se a lei tutelar educativa. Prevê várias sanções, como o
internamento em centros educativos. A partir dos 14 anos, quem comete um facto típico, pode
ser internada em regime fechado num centro educativo. Ideia de tentar a não reincidência ou a
ressocialização.
A partir dos 16 anos são imputáveis penalmente. O DL 401/82 – regime penal especial
dos jovens adultos aplica-se entre os 16 e os 21 anos. O que está lá previsto ainda não foi
regulamentado. Por vezes é aplicada a atenuação da pena. Em rigor, cumprem pena nas prisões
comuns, com a restante comunidade prisional, comprometendo-se a ressocialização.

21 de março de 2019
ART. 20º/1 – inimputabilidade em razão de anomalia psíquica
Este é o único artigo em que se estabelece as regras para a inimputabilidade por
anomalia psíquica. Aplica-se nas situações em que não há dúvida de a pessoa é inimputável por
força da anomalia psíquica.
O facto de uma ser inimputável para um facto não significa que o seja para todos. Só é
inimputável para os crimes relacionados com a sua patologia. Também pode haver uma
anomalia psíquica que afeta a capacidade de compreensão de qualquer descrição típica apenas
durante certo período de tempo. As anomalias psíquicas podem ser definitivas ou temporárias.
Não tem de ser originária ou endémica, pode ser uma anomalia adquirida, por exemplo, em
consequência de um trauma.
Exige-se o elemento biopsicológico: é apreciado pelo médico, que verifica se existe ou
não uma anomalia psíquica. O jurista entra na análise do elemento normativo: aprecia se a
anomalia psíquica verificada condiciona ou não a possibilidade de a pessoa avaliar a ilicitude do
facto. Estes dois elementos são cumulativos. Estando reunidos temos a inimputabilidade por
anomalia psíquica nos termos do art. 20º/1. Neste sentido são aplicadas medidas de segurança e
não penas.
ART. 20º/2, 3 – imputabilidade diminuída
O agente tem capacidade, muita ou pouca. Logo é imputável. Já não se trata de
inimputabilidade ou inimputáveis. Trata-se de imputáveis que podem ser tratados como se
fossem inimputáveis. Têm a capacidade de compreensão da ilicitude diminuída. Fica na
discricionariedade do juiz a hipótese de determinar a capacidade em relação ao tipo de ilícito.
Por isso o artigo se refere à possibilidade de o agente poder ser declarado inimputável.
O nº3 é um critério ou exemplo do que se encaixa no nº2. É o caso do reincidente
múltiplo – pessoas que constantemente se colocam em situação de receber uma situação e não
são minimamente influenciados pela penal. Têm uma capacidade de avaliar o justo e o injusto
muito diminuída.
ART. 20º/4 – actio libere in causa
Quem está aqui é o imputável. Temos um imputável que no momento em que pratica o
facto está inimputável. Ele é imputável, mas naquele momento está inimputável. O momento da
ação é aquele em que o agente atuou (critério da ação) – art. 3º. Com a intenção de praticar o
facto, intencionalmente colocou-se em inimputabilidade – abuso de bebidas alcoólicas e uso de
substâncias estupefacientes.
O agente quer conscientemente cometer um crime, mas para se desinibir, opta por
cometer este crime num estado de inimputabilidade, abusando do álcool ou de estupefacientes
premeditando a prática do facto. No momento em que pratica o facto ele é inimputável.
Fazemos recuar o momento da prática do facto ao momento em que o agente decide praticar o
facto e inicia as diligencias para o praticar. O facto do agente se colocar naquela situação tem o
mesmo valor que qualquer decisão do agente.
Mas o agente tem de se colocar nesta situação com intenção, tendo em vista a prática do
facto – o elemento volitivo do dolo. O agente tem intenção no caso de dolo direito e também no
caso de dolo necessário. Quando o agente tem intenção vamos para p 20º/4. No art. 295º, inclui-
se o dolo e a negligência. Aqui não se exige intenção. O agente pratica um facto ilícito típico,
mas o CP entende que ele não deve ser tratado como inimputável, apesar de não ter intenção.
No 20º/4 o agente é punido pelo crime que comete. No 295º a prática do fato típico é
apenas uma condição; o agente que no estado de inimputabilidade não intencional comete um
facto, é punido não pelo facto que cometeu, mas pelo crime de se ter posto numa situação de
inimputabilidade e nesse estado ter cometido um facto típico.
Se ele é sempre punido por um crime, é tratado como imputável. No 20º/4 recuamos
quanto ao momento da prática do fato. No 295º aplica-se uma pena, logo é imputável, porque
não olhamos para o facto mas para a embriaguez e quanto a este facto é imputável; no momento
da prática do facto de embriagues o agente é imputável.

20º/1 é inimputável
20º/2,3 é imputável mas pode ser tratada como inimputável
20º/4 e 295º o agente é imputável, mas no momento da prática do facto é inimputável.

Medidas de segurança
Podem ser aplicadas a imputáveis e a inimputáveis. Nem todas são privativas de
liberdade. O que nos interesse é o internamento de inimputável que pratica facto típico ilícito.
Art. 91º ss.
Não basta que o agente pratique um facto ilícito típico. Temos a perigosidade na mesma
proporção que tem a culpa nos imputáveis. Se o agente pratica o facto ilícito típico mas não é
perigoso, não pode ser internado.
Temos dois pressupostos: prática de facto ilícito típico e perigosidade (91º/1).
Art. 40º - finalidades das penas. Em Portugal temos finalidades preventivas – geral e
especial e positiva (interpretação do curso). O art. 40º/1 aplica-se às penas e às medidas de
segurança. Para as penas a finalidade principal é a prevenção geral e depois é que entra a
prevenção especial. A moldura penal é uma moldura de prevenção geral. A pena em concreto
encontra-se pela culpa e com a prevenção especial.
Para as medidas de segurança, a comunidade não se revê nos atos de um inimputável,
não vê frustrada a sua expectativa. Aplica-se uma sanção para que o agente possa apreender o
que é certo e errado ou a sua segregação. Art. 91º/2 – defesa da ordem jurídica e da paz social
remete para a prevenção geral. Embora, em regra a principal finalidade é especial, nestes crimes
mais graves, independentemente da necessidade de prevenção especial, o agente tem de estar 3
anos internado, salvo se a comunidade entender que já não à perigo para a paz social.
Art. 92º/1 – quando o agente deixa de ser perigoso, cessa a sanção. O internamento pode
ser uma privação da liberdade perpetua, se o agente se manter perigoso (92º/2, 3).

Pena relativamente indeterminada – art. 83º ss. CP


É um misto de pena e de medida de segurança. O agente é um reincidente. Art. 76º/2. O
agente cometeu um crime e foi sancionado, mas entretanto comete outro crime. O julgador
entende que não basta uma pena normal. É uma pena que é uma moldura penal – tem um
mínimo de tempo que tem de cumprir e um máximo de tempo que pode cumprir.
Tem de ser julgado como se fosse um imputável normal – ou seja, de acordo com uma
pena normal. A pena relativamente é 2/3 da pena concreta que cabia ao crime – é o mínimo – 8
anos; o máximo é os 12 acrescidos de 6 anos – 18 anos. O agente é condenado de pena de 8 a 18
anos. No mínimo está lá 8 anos e no máximo estará 18 anos. Só durante a execução da sanção é
que sabe o tempo que vai cumprir.
A partir dos 12 anos (pena concreta segundo a moldura penal do crime) o agente não
está privado da liberdade a titulo de pena, pois o limite de culpa está nos 12 anos. O agente está
privado da liberdade em razão da personalidade, quando a pena ultrapassa a media prevista pela
culpa. Não é uma pena e uma medida de segurança – caso contrário teríamos um sistema de
sanção dualista. Nós temos um sistema tendencialmente monista ou monista prático. Ao mesmo
agente, pelo mesmo facto, não se aplica uma pena e medida de segurança ambas privativas de
liberdade, mas pode ser aplicar uma sanção que não se finda na culpa – ao mesmo agente pelo
mesmo facto aplica-se uma sanção que combina características de pena e de medida de
segurança.
Art. 99º - pode aplicar-se ao mesmo agente uma pena e uma medida de segurança
ambas privativas da liberdade se não se referirem ao mesmo facto.
83º/1 – pressupostos gerais.
83º/2 – cálculo da pena relativamente indeterminada. Outras 84º/2 e 85º/2.

28 de março de 2019
O que é que pode afastar o dolo? O erro intelectual afasta o dolo do tipo. Agora estamos
a estudar o tipo de culpa doloso, logo o erro tem de se manifestar na culpa. Nos casos em que
falta os pressupostos de uma causa de justificação, também é afstado o dolo, mas é o dolo da
culpa, porque se o dolo da culpa é a atitude interior por parte do agente de contrairdade ou
indiferença perante o direito, quando o agente age porque está convencido da causa de
justificação, não está com uma atitude interior contrária ao direito. Se o agente só age porque
está convicto que a situação lhe permite agir, ele não tem atitude de contrariedade ao direito; já
não é um erro intelectual ou de conhecimento, mas um erro emocional.
Quando é que não há nem dolo nem negligência? Erro sobre a ilicitude – art. 17º: é
afastado o dolo da culpa e a negligência da culpa, ou seja, todos os tipos de culpa.
Erro sobre as proibições legais do art. 16º/1 – aquilo que tenho de conhecer para saber
que certo facto é proibido. Estas proibições ficam no 16º/1; as que são proibições essenciais, em
que não é preciso conhecer a norma, cabem no art. 17º - Erro sobre a proibição. O art. 17º tem
dois números.
Se no nº2 pode ser condenado pelo crime doloso, não há exclusão da culpa. Para haver
exclusão da culpa o erro não pode ser censurável. Sempre que o ilícito corresponder à violação
de um essencial da comunidade, é censurável. Mas o art. 17º já abarca o essencial! Não há
unanimidade mesmo nos tribunais.

Caso Prático
A mata B. Acusado de homicídio vem defender-se, alegando que não sabia que era
proibido matar.
É um erro sobre a proibição – art. 17º. É um erro censurável na comunidade (art. 17º/2).
É considerado culpado e punido por crime doloso e consumado, podendo no máximo a pena ser
atenuada.
A, timorense, insulta B. Acusado de injúria, vem defender-se, alegando e provando que
no seu pais isso não é crime e que, por isso, não considera a conduta desvaliosa.
É um erro sobre a proibição – art. 17º. É ou não censurável? ART. 17º/1 – é não
censurável, porque, atendendo às circunstâncias do agente e à essencialidade da conduta (não é
punida com uma pena muito gravosa, por exemplo). Exclui-se a culpa.
A, natural da Arábia Saudita, tem residência em Portugal desde o inicio do ano.
Espancou a mulher, B, quando soube que esta tinha conduzido o carro de uma amiga. Acusado
do crime de violência doméstica, A vem defender-se, alegando e provando desconhecer que cá
não se pode fazer isso. Uma vez que está habituado às leis do seu país, considera que os
maridos que agem como ele só fazem bem às mulheres. Quid iuris?
É um erro sobre a ilicitude censurável (art. 17º/2) – já está no país há um ano e trata-se
de um crime com grande impacto na comunidade. Seria punido por violência doméstica dolosa
consumada, podendo eventualmente a pena ser atenuada.

Erro sobre a existência de uma causa de justificação no OJ (diferente do erro sobre


os pressupostos de uma causa de justificação que existe). Ex.: direito de correção invocado
pelos professores e educadores. Não existe esta causa de justificação para quem não exerce
responsabilidades parentais. Nestes casos vamos para o art. 17º.
Exigibilidade
Tudo o que vimos até agora são circunstâncias endógenas ao agente. Aqui o que
importa é algo exterior ao agente. Ele está numa situação de inexigibilidade quando o
acontecimento o pressiona exteriormente e o obriga a ter certo comportamento. Não tem
liberdade ara escolher um comportamento diferente. Esta liberdade é essencial para a culpa.
Para o curso não há cláusula geral de exigibilidade.
O estado de necessidade desculpante é distinto do estado de necessidade justificante
pela teoria diferenciadora. Sempre que o bem jurídico protegido é de valor igual ou inferior ao
lesado vamos para o art. 35º. O art. 35º/1 é que exclui a culpa. Só se pode estar a proteger a
vida, a integridade física, a honra e a liberdade. Os autores entendem que devemos ver o que
cabe nestas palavras. Em vida entende.se que também cabe a vida intrauterina. Também cabe na
integridade fidíaca a integridade psíquica – ofensa à saúde. Na liberdade também se inclui, além
da privação da liberdade de ação (liberdade pessoal), a liberdade sexual.
No nº 2 o agente tem culpa, se não tivesse não podia ser-lhe aplicada uma pena. O
máximo que pode acontecer é uma atenuação ou dispensa de pena. Diminui a culpa mas não a
exclui. O que podemos ter aqui é uma causa de atenuação da culpa.
Para o comum cidadão o critério é o do homem médio – experiencia comum.

Caso Prático
Durante uma viagem de avião, ocorre o rebentamento de um dos motores e algumas
peças acabam por se soltar e provocar uma abertura lateral no aparelho. Os dois passageiros
que se encontram mais próximos do local afetado pelo embate, A e B, tentam evitar ser
sugados, agarrando-se a um dos bancos. Verificando que a força exercida pelo exterior está a
arrancar aquele banco e que resta apenas a alternativa de agarrar o varão que se encontra ao
lado de A, B empurra A, que acaba por ser sugado. O avião aterrou de emergência. B sofreu
apenas ferimentos ligeiros. A acabou por falecer em consequência dos ferimentos graves que
sofreu. Quid iuris?
Estado de necessidade desculpante – vida contra vida. B’ age para salvar a sua própria
vida. Não lhe era exigida um comportamento diferente em virtude das circunstâncias em que se
encontra. O facto não foi provocado por si, mas resultou da circunstância que o envolveu.

2 de maio de 2019
Em princípio, os factos puníveis são dolosos. E consubstanciam-se numa ação.
A propósito das causas de exclusão ou de diminuição da culpa, já falamos do estado de
necessidade desculpante (que faz paralelo com o estado de necessidade justificante).
Excesso de legitima defesa intensivo asténico – art. 33º/2
Já sabemos que o facto é ilícito e, por isso, se o agente não é punido, é porque não tem
culpa. Precisamos de atender à razão pela qual o agente excedeu nos meios com que atuou. O
agente sabe que age a coberto de uma causa de justificação, mas quando se defende excede-se
nos meios de defesa; assim deixa de estar a coberto de uma causa de justificação e passa a estar
a coberto de uma causa de exclusão ou de diminuição da culpa.
Por oposição, temos um excesso de legitima defesa extensivo – erro sobre os
pressupostos da legitima defesa (art. 16º/2).
Os pressupostos objetivos e subjetivos estavam verificados, mas no exercício da
legitima defesa excedeu-se e o meio tem de ser necessário, ou seja, não cumpre objetivamente
os pressupostos quanto à defesa. Só se trata de causa de exclusão da culpa se o excesso resultar
de perturbação, medo ou susto não censurável.
Exemplos de situações censuráveis: atendendo à profissão do agente, é censurável que
um polícia dispare logo a matar contra um ladrão. O excesso pode resultar de outros
sentimentos cesuráveis, como a raiva, a vingança ou o ciúme. Aqui temos um excesso de
legitima defesa esténico.

Caso Prático
Maria sabe que todos os seus vizinhos têm sido assaltados nas últimas semanas, por
isso, quando ontem ia a passear na rua e sentiu uma pessoa a tocar-lhe no braço, não hesitou:
levou a mão à carteira, tirou o revólver e disparou contra a pessoa. Na realidade, tratava-se
efetivamente de um dos assaltantes, que estavam a atuar naquela zona e que se preparava para
lhe furtar a carteira. Qual a responsabilidade penal de Maria?
Existe uma agressão atual, porque é iminente. É ilícita. O agente age porque se queria
defender – consciência reta permite cumprir o requisito subjetivo da causa de justificação da
legitima defesa. Contudo, excede-se nos meios que emprega.
Trata-se de um furto e não de um roubo, ou seja, não envolve violência. Era uma ação
apenas contra o património. Isto ajuda a justificar o excesso. É um medo não censurável,
atendendo à circunstância de todos os vizinhos andarem a ser assaltados. Fala-se num excesso
de legitima defesa intensivo asténico.

O art. 37º tem outra causa de exclusão da culpa – obediência indevida desculpante. É
um exemplo de falta de consciência da ilicitude. O legislador torna requisito essencial para fazer
funcionar a exclusão da culpa que se trate de um caso em que o agente age porque não se
apercebe da ilicitude do seu comportamento. Ora, atua com falta de consciência de ilicitude. Em
ambos o agente vê excluída a sua culpa. A censurabilidade no caso de obediência indevida
desculpante não é evidente.
Aqui o agente pode ser um funcionário de uma empresa, mas normalmente aplica-se a
militares e polícias, porque facilmente a sua atuação é um crime, mas não é questionável a
legitimidade da ordem – não era evidente, por que não lhe era exigível, representar a ilicitude
daquele comportamento.

Caso Prático
A teve uma violenta discussão com um dos seus empregados. Durante essa discussão, A
agrediu fisicamente o empregado B, tendo este ficado ferido com gravidade. Em consequência,
corre contra A um processo por ofensa à integridade física de B. A foi julgado no passado mês
de abril. No julgamento, C, também empregado de A, testemunhou que A era um bom patrão,
muito amigo de todos e incapaz de agredir uma pessoa. Ocorre que, no dia dos factos, C não
esteve sequer na empresa. Todas as declarações proferidas por C eram, pois, falsas e C sabia.
Porém, cumpriu uma ordem de A e, por isso, pensou que, sendo seu empregado e estando a
cumprir uma ordem, o facto de estar a prestar falsas declarações, podendo ser incorreto, não
seria um crime. Quid iuris?
C cumpre a ordem, porque acredita que não está a agir contra o direito penal. Nas
circunstancias que ele representa a sua atuação não representa um comportamento ilícito. Pode
dizer-se que é uma falta de consciência da ilicitude. É difícil, contudo, justificar-se aqui uma
consciência reta. É uma falta de consciência da ilicitude censurável.
Se fosse uma empresa privada, resolver-se-ia apenas com base na falta de consciência
de ilicitude censurável (art. 17º/2) e não com base na obediência indevida desculpante.
O curso diz que esta situação pode ainda caber no erro sobre os limites ou existência de
uma causa de justificação. O agente pensa que existe uma causa de justificação, mas na verdade
não existe. O erro sobre os pressupostos recai sobre uma causa de justificação que existe; e o
erro sobre a existência é sobre uma causa de justificação que não existe efetivamente.

Caso Prático
Foi na noite de São João que, na sequência de um violento desacato numa discoteca, A
ameaçou B de morte. Este não tomou a ameaça do outro como séria e continuou, como de
costume, a sair à noite para se divertir, deslocando-se frequentemente sozinho.
Há dois meses, tendo-se encontrado novamente numa festa, A e B voltaram a discutir.
A, conhecido pela sua timidez, precisava de algo que o ajudasse a libertar a sua raiva e aceitou
ingerir uma dose de DSD, oferecida por um amigo. Sob efeito daquela droga, A aproximou-se
de B e, apertando-lhe o pescoço, imobilizou-o, fazendo-o depois cair no chão. Quando B já se
encontrava no chão, A desferiu-lhe vários murros e pontapés, que resultaram à ofensa à
integridade física de B, tendo ditado o internamento hospital deste por mais de 30 dias. Quid
iuis quanto à responsabilidade penal de A?
O agente colocou-se dolosamente numa situação de inimputabilidade para praticar um
facto típico. Art. 20º/4: o agente coloca-se intencionalmente na situação de inimputabilidade,
apesar de ser uma pessoa imputável. Nesta situação acaba por praticar um crime.
A actio libera in causa só se aplica ao dolo direto e necessário. Por oposição o art. 295º
aplica-se quando o agente se coloca numa situação de inimputabilidade por negligência ou dolo
eventual.
O agente vai ser julgado como imputável. No momento em que pratica o facto está
numa situação de inimputabilidade. O momento da prática do facto inicia-se quando o agente
decide ingerir propositadamente a substancia para se colocar num estado de inimputabilidade.
O agente quer praticar o facto e coloca-se em estado de inimputabilidade. Neste estado
pratica o facto. A análise do momento da prática do facto recua ao momento em que ele se
coloca num estado de inimputabilidade, sendo este um ato preparatório da prática do facto típico
(neste sentido, não contraria o art. 3º/3). O agente é punido pelo crime de ofensa à integridade
física, ou seja, pelo crime que efetivamente pratica.
O agente é imputável apesar de estar inimputável.

Caso Prático
Num repente, A percebe que a bomba que tem nas mãos, e que julgava desativada, vai
explodir. Para evitar a perda de um braço, ou até da própria vida, A atira a bomba sobre
outrem, causando-lhe a morte. Terá A responsabilidade penal? Fundamente legal e
doutrinalmente.
É um estado de necessidade desculpante, que se enquadra numa situação de
inexigibilidade. Estamos a proteger um bem jurídico igual ou inferior aquele que ameaçamos.
Se estivermos a proteger um bem jurídico de valor superior ao que se põe em causa, estaríamos
no âmbito do direito de necessidade justificante.
Não é exigível ao agente um comportamento diferente, tendo em conta as circunstâncias
em que ele atuou.

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