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TÉCNICAS DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO – Prof. Adelino J.

Mavinga

INTRODUÇÃO
A legitimidade do uso da língua portuguesa nas instituições de ensino da República
de Angola decorre de uma regra constitucional, nomeadamente, o artigo 19º que dispões:
1- A língua oficial da República de Angola é o português.

No ponto 2 deste mesmo artigo também deixa claro a legitimação do papel do


Estado no que diz respeito a política linguística e declara que o Estado “valoriza e
promove o estudo, o ensino e utilização das demais línguas de Angola e de comunicação
internacional”. Neste ponto podemos perceber que o português, sendo a língua oficial e
de ensino, as suas realizações funcionais decorrem numa coexistência com as línguas
nacionais.
Retomando o mesmo ponto, ainda na nova Lei de Bases do Sistema de Educação e
Ensino, no seu artigo 16º dispõe o seguinte:
1- O ensino deve ser ministrado em português.
2- O Estado promove e assegura as condições humanas, científico-técnicas,
materiais e financeiras para a expansão e generalização da utilização no ensino,
das demais línguas de Angola, bem como da linguagem gestual para os indivíduos
com deficiência auditiva.

Nesta medida, à luz dos objectivos propostos nos planos de estudos dos diversos
cursos, o ensino das disciplinas de Língua Portuguesa, Técnicas de Comunicação e
Expressão e Comunicação Escrita tem como finalidade proporcionar aos estudantes
oportunidades que permitam desenvolver de forma harmoniosa as competências
adquiridas à luz da estrutura curricular do 1º e 2º ciclo do ensino secundário, destacando-
se a importância da competência metalinguística e textual para a formulação do
raciocínio lógico, recorrendo ao discurso argumentativo na sua expressão oral e
escrita.
Deste modo, desdobrando-se em metodologias interdisciplinares o ensino da Língua
Portuguesa, Técnicas de Comunicação e Expressão e Comunicação Escrita consiste
em aprofundar os conteúdos cognitivos respeitantes ao texto argumentativo através dos
quais se pode cultivar o pensamento crítico e desenvolver competências no plano
linguístico e textual.
Com efeito, a interdisciplinaridade manifesta-se claramente no carácter transversal
das disciplinas acima citadas cujo peso formativo, tal como é reconhecido nos planos de
estudos dos cursos, permite reiterar a sua função instrumental no processo de aquisição
de conhecimentos e compreensão do mundo.

Em seguida apresentaremos as competências a alcançar:


1. Compreender enunciados orais e escritos:

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a) Interpretar diferentes tipos de enunciados escritos e orais;


b) Reflectir sobre a informação captada, relacionando-a com outras informações
da sua própria experiência;
c) Deduzir sentidos implícitos;
d) Avaliar a intencionalidade e a eficácia comunicativa.

2. Produzir enunciados orais:


a) Utilizar uma expressão oral fluente, correcta adequada a diversas situações de
comunicação;
b) Participar em distintas situações de comunicação oral, de acordo com as
normas e as técnicas específicas;
c) Mobilizar de forma activa os recursos expressivos, linguísticos e não
linguísticos.

3. Produzir enunciados escritos:


a) Utilizar as técnicas basilares da composição de diversos géneros textuais, com
vista a um progressivo aperfeiçoamento da expressão escrita;
b) Produzir textos de diferentes géneros – expressivos, informativos, utilitários e
argumentativos – demonstrando o domínio das capacidades linguísticas e
técnicas requeridas;
c) Elaborar textos argumentativos respeitando as regras e emitir opinião dentro
da razão, raciocínio de bom senso.
d) Realizar uma reflexão linguística, a partir de situações de uso, em actividades
de compreensão e de expressão;
e) Adquirir métodos e técnicas de pesquisa, registo e tratamento de informação.

4. Diversificar as suas experiências de leitura:


a) Ler de forma expressiva, respeitando os sinais gráficos;
b) Utilizar a leitura como fonte de informação para múltiplas finalidades;
c) Relacionar o que lê com as experiências, sentimentos e valores próprios e dos
outros;
d) Reconhecer afinidades e/ou contrastes entre vários espaços, épocas e tipos
textuais;
e) Apreciar criticamente diferentes tipos de texto, suportando critérios pessoas e
não pessoais;
f) Adquirir métodos e técnicas de pesquisa, registo e tratamento de informação;
g) Integrar as realizações linguísticas e as produções literárias na história e na
cultura nacional e universal;

O ensino superior em Angola no domínio não deve somente privilegiar o ensino


da língua por via metalinguística, isto é, o ensino do português preso na gramática, mas
também metadiscursiva: o Uso da Língua nos mais variados contextos situacionais, isto
é, produzir textos de diferentes géneros – expressivos, informativos, utilitários e
argumentativos – demonstrando o domínio das capacidades linguísticas e técnicas

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requeridas. Assim, o estudante possa sair da universidade munido de raciocínio crítico,


fazer inferências no desenrolar das implicaturas conversacionais, estar consciente do
bem-fazer o uso da língua obedecendo os seus princípios, argumentar e emitir opinião.

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1. O USO DA LÍNGUA

1.1. NOÇÃO DE PRAGMÁTICA LINGUÍSITCA

É comummente reconhecido que o uso de qualquer língua natural ocorre sempre


em determinado contexto, por força dos actos de fala praticados, das relações sociais e
interpessoais desenvolvidas na vida quotidiana. Neste sentido, a interpretação das
palavras e das frases dos sujeitos que intervêm nessas relações são interpretadas de acordo
com as regras da língua e os condicionalismos da situação em que se realiza a actividade
verbal e a comunicação ou as trocas linguísticas entre os falantes dessa língua. Isto
significa que o comportamento verbal das pessoas é determinado por factores de natureza
linguística e não linguística. Todos esses fenómenos de comunicação podem merecer uma
reflexão metalinguística, ou seja, o estudo por parte dos investigadores que se dedicam
especificamente ao conhecimento aprofundado da ciência Linguística. B

A área da Linguística que tem por objecto o estudo do uso da língua, dos actos e
dos contextos em que ocorrem os eventos linguísticos chama-se Pragmática. A
Pragmática é a interdisciplina linguística que visa captar a discrepância 1 entre o
significado de um enunciado e o significado visado por um falante numa dada enunciação.
Ela ocupa-se no estudo dos significados (sentidos) não exclusivamente determinados pela
semântica da frase, mas dedutíveis de condições determinadas pelo contexto
extralinguístico que pode ser: discursivo, situacional, entre outros. Do grego
«pragmatikê», acção, prática é a disciplina filosófica e linguística que estuda a linguagem
na sua função comunicativa, em situação contextualizada, através dos chamados ACTOS
DE FALA, expressão de J. Austin e J.R. Searle, que abrangem três tipos: os Actos
Locutórios, que têm uma função informativa; os Actos Ilocutórios, que têm uma função
orientadora (advertência, súplica, pergunta, conselho, ordem…); os Actos Perlocutórios,
que aludem aos efeitos provocados pelo enunciado (aceitação, recusa, dúvida,
perplexidade, inquietação, entre outros.

1.2. SIGNIFICADO E CONTEXTO

No quadro dos estudos da interacção verbal, ou do estudo da actualização do


sistema linguístico em situações de uso, diversos são os factores que são considerados
pertinentes na produção e transmissão de significado, isto é, da comunicação. Tais
factores, alguns de índole linguística outros de índole não linguística, envolvem,
necessariamente, o que é dito, o modo como é dito e a intenção com que é dito; mas eles
envolvem também aspectos relacionados com o contexto e com os participantes da
interacção verbal, nomeadamente o seu posicionamento físicorelativo, os papéis sociais
que estão a desempenhar, as suas identidades, as suas atitudes, comportamentos e crenças,
assim como as relações que entre si estabelecem ou reproduzem. Por outras palavras, o

1
O sentido de discrepância aqui é o de diferença, disparidade em relação aos termos em causa.

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significado é uma propriedade das pessoas, coisas e eventos da situação discursiva


relevantes para, e respectivas a, essa situação. Enquanto factores constitutivos do
contexto situacional, todos estes aspectos são temporal e espacialmente localizados num
dado momento de produção linguística e constituem-se como princípios reguladores da
actividade verbal, assim ajudando a constranger e a configurar a produção dela resultante.

Da interacção desta multiplicidade de factores pode resultar, e muitas vezes


resulta, que o significado pragmático, isto é, aquilo que o falante quer dizer, não
coincida, sempre e exactamente, com o significado da frase. Daí que neste quadro de
estudos seja fundamental a distinção entre forma e função dos enunciados.
Efectivamente, a forma de frase interrogativa, por exemplo, pode nem sempre
corresponder à função de uma pergunta, como quando alguém diz “Não acham que está
muito calor aqui dentro?” querendo com isso dizer “Seria bom que alguém abrisse uma
janela”. Com efeito, da mesma forma que à pergunta “Tem horas?” ninguém espera uma
resposta como “Sim, tenho”, sem que haja qualquer tentativa de enunciação das horas,
também à pergunta “Não acham que está muito calor aqui dentro? “ninguém espera
apenas uma resposta de confirmação, sem qualquer tentativa consequente de contrariar o
calor que na sala se faz sentir.

Daquilo que até agora foi enunciado facilmente se depreende que a


intencionalidade e a convenção são dois aspectos relevantes na produção do significado:
em primeiro lugar, porque aquilo que “queremos dizer” (função ou significado
pragmático) nem sempre corresponde ao que “dizemos” (forma ou significado literal);
em segundo lugar, porque as trocas conversacionais e a interacção verbal em geral são
fortemente determinadas por condições sociais e culturais que nada têm de linguístico e
que convencionalmente se manifestam no significado expresso.

2. FRASE, ENUNCIADO, PROPOSIÇÃO E MORFOSSINTAXE ( expressão


matemática de uma frase).
O sintagma é um termo que foi introduzido por Ferdinand de Sasssure para designar
dois elementos consecutivos, um dos quais é determinado (principal) e o outro
determinante (subordinado). Assim, no sintagma o Vénus, o elemento determinado é
Vénus e o elemento determinante o artigo.

No sintagma básico, formado por sujeito e predicado, o elemento determinado é o verbo


e o determinante é o sujeito.

O sintagma é definido por Saussure como “a combinação de formas mínimas numa


unidade linguística superior que surge a partir da linearidade do signo, ou seja, ele exclui
a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo, pois um termo só passa a
ter valor a partir do momento em que ele contrasta com outro elemento.

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Partindo do facto de o sintagma constituir uma unidade significativa composta de


mais elementos que mantêm entre si relações de dependência /ou interdependência/ e de
ordem, e organizados em torno de um elemento fundamental denominado núcleo,
subdividimos os sintagmas em: nominal, verbal, adjectival, adverbial e preposicional.

Partindo do facto de o sintagma constituir uma unidade significativa composta de


mais elementos que mantêm entre si relações de dependência /ou interdependência/ e de
ordem, e organizados em torno de um elemento fundamental denominado núcleo,
subdividimos os sintagmas em: nominal, verbal, adjectival, adverbial e preposicional.

EXPRESSÃO MATEMÁTICA DE UMA FRASE

F= SN+SV
SN= D+N
SV= SN+V

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O conceito de enunciado está associado ao conceito de discurso, entretanto, o


enunciado é uma unidade do discurso e a frase é uma unidade sintáctica.

Quanto a proposição ela aqui é tida como o conjunto de frases (declarativa) que
veiculam uma ideia ou pensamento proposto para uma base argumentativa ou não.

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3. PRINCÍPIOS DO USO DA LÍNGUA

O uso da língua é regido por princípios, ao contrário do que acontece com o


conhecimento da língua que obedece a um conjunto de regras, entretanto o uso da língua
compreende dois princípios conhecidos por: Princípio da Cooperação e o Princípio da
Delicadeza ( delicadeza verbal).

3.1. PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO

Entre os princípios do uso da língua destaca-se o Princípio de Cooperação. É que,


segundo o filósofo norte-americano Paul Grice, "as nossas trocas conversacionais não
constituem uma sucessão de observações desconexas. Ao invés, elas representam
esforços de cooperação em quecada participante manifesta a sua vontade e intenção de
intervir numa relação intersubjectiva de comunicação", isto é, em uma troca
conversacional faça sua contribuição conversacional tal qual lhe foi solicitado, no estágio
em que ela ocorre, pela direcção ou propósito aceito da troca conversacional em que se
está inserido. O princípio de cooperação subdivide-se em outros princípios ou
subprincípios denominados Máximas Conversacionais que se apresentam em quatro
categorias:

1ª MÁXIMA DE QUALIDADE (DA VERDADE)


- Que a sua contribuição seja verídica.
- Não afirme o que você pensa que é falso.
- Não afirme coisa de que você não tem provas.
2ª– MÁXIMA DE QUANTIDADE
- Que a sua informação contenha o tanto de informação exigida.
- Que sua contribuição não contenha mais informação do que é exigido.
- Tente fazer com que sua contribuição seja verdadeira
- Não diga aquilo que não tem como provar adequadamente
3ª MÁXIMA DA RELAÇÃO

- Fale o que é concernente ao assunto tratado (seja pertinente).

4ª MÁXIMA DE MODO/MANEIRA

- Seja claro.
- Evite exprimir-se de maneira obscura.
- Evite ser ambíguo.
- Seja breve (evite a prolixidade inútil).
- Fale de maneira ordenada.

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É importante observar que essas máximas já são pressupostas pelos interlocutores2


e que não necessitam ser explicitadas e acordadas previamente por já fazerem parte de
um contrato comunicativo, ou seja, elas são presumidas em interacções normais. Os
interlocutores presumem que as pessoas, normalmente, fornecerão uma quantidade
apropriada de informações, que falarão a verdade, que serão relevantes e que procurarão
ser o mais claras possível.
Em outras palavras, se fornecemos mais ou menos informações do que é
necessário, se dizemos algo que sabemos ou acreditamos estar errado, se dizemos algo
que é irrelevante ao assunto da conversação, se falamos de modo obscuro, ambíguo ou
confuso, isso se constitui num comportamento não cooperativo.
Uma dessas regras é assumidamente violada quando o interlocutor tem uma razão
específica para tal violação e porque sabe que quem o escuta é capaz de identificar como
a causa de sua violação. Grice (1975) define este tipo de inferência como „implicações
conversacionais‟. Muitas críticas foram feitas acerca das concepções de Grice (1975),
como salienta Fiorin (2002, p. 178): alguns autores dizem que Grice tem uma concepção
idealista da comunicação humana e, por conseguinte, da sociedade, porque imagina a
troca verbal como algo harmonioso (...). Por outro lado, diz-se que Grice é normativo,
que ele pretende ditar regras para a comunicação humana. Nenhuma das duas críticas
procede. As máximas não são um corpo de princípios a ser seguido na comunicação, mas
uma teoria de interpretação dos enunciados.

A partir das afirmações acima, conclui-se que a violação de uma máxima é (e não
pode deixar de ser) dependente do contexto, podendo, inclusive, ser necessária, como
pretendemos demonstrar neste manual.

3.1.1.VIOLAÇÃO DAS MÁXIMAS CONVERSACIONAIS

No processo de interacção e cooperação, muitas vezes é preciso violar algumas


máximas conversacionais para que se possa produzir um determinado efeito de sentido
no interlocutor.

Na visão de Fiorin (2002) alguns discursos se constroem exactamente pela


violação das máximas, como veremos nos exemplos seleccionados:

1- Diante da péssima situação das estradas, uma pessoa afirma:

– Gastei 18 horas de Viana a Maianga.

A ironia é uma exploração da máxima da qualidade. Essa máxima diz que a


contribuição para a conversa tem que ser verídica. Nesse caso, viola-se essa máxima, pois
a pessoa está afirmando o que não pode provar. Entende-se que a pessoa gastou
exactamente dezoito horas no percurso.

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Interlocutores são os indivíduos que intervêm de forma cooperativa num acto comunicativo.

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– Amanhã é outro dia! Afirmou o Mavinga.

O enunciado acima, muito recorrente na língua, é tautológico, porque se limita a


traduzir o que já foi anunciado. Tautologias são uma exploração da máxima da
quantidade. A pessoa que diz essa frase quer dizer que as situações mudam com o passar
do tempo. Portanto, o uso é intencional e a violação é um recurso argumentativo.

– O coração de Maria é uma pedra!

No uso de metáforas, ocorre a violação da máxima da qualidade, pois não se está


dizendo que se acredita que o coração de Maria seja uma pedra, mas que é duro como
uma.

2 - Duas pessoas dialogando sobre uma amiga em comum:

A – Onde a Rita mora?


B – Em Angola!

Neste caso, viola-se a máxima da quantidade. A informação não contém a


quantidade de informação exigida. Quando (a) faz a pergunta, ele está em busca de uma
resposta mais específica, como a rua ou a casa em que a Rita mora. Provavelmente, o país
ele (ou ela) já sabia. E se entende também que o interlocutor não sabe exactamente onde
a Rita mora.

3 - Em uma entrevista de emprego, o entrevistador chega à conclusão de que o


candidato não lhe serve. O entrevistador diz então ao candidato:

- Acho que o senhor seria mais feliz em uma empresa maior... ou menor. No
exemplo [3], o entrevistador não segue a máxima da qualidade, já que ele não está
dizendo o que realmente pensa, ou mesmo a máxima de modo, já que está sendo ambíguo
e contraditório. No entanto, o entrevistador viola essas máximas não para enganar ou
mentir para o candidato, mas apenas para dar seu parecer negativo de maneira mais
branda. Ele implica sua resposta – o não-dito – através de sua suposta opinião – o dito. O
princípio cooperativo não é violado, apenas as máximas, uma vez que o candidato, por
reconhecer a função do entrevistador de seleccionar e descartar candidatos, infere a
implicatura de que fora descartado.

Quando o locutor parece não seguir as máximas conversacionais, mas ainda assim
espera que o interlocutor infira o sentido implícito, dizemos que ele está cometendo uma
Violação das Máximas Conversacionais. Ao violar uma máxima, o locutor presume que
o interlocutor compreende que suas palavras não devem ser consideradas literalmente e
que ele é capaz de inferir a intenção implícita.
Um falante pode violar a máxima da qualidade de diversas formas. Uma delas é,
como vimos no exemplo [3], dizendo algo que obviamente não é o que realmente pensa.
Outra forma é através de exageros como os encontrados em hipérboles e metáforas, de
eufemismos, ironias e de brincadeiras amistosas.

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4 - Eu poderia comer um boi!


5 - Alberto: Como foi a viagem?
Adelino: A suíte em que fiquei era um forno!
6 - Ela bateu as botas
7 - Se a senhora soubesse o quanto eu gosto de acordar com berros no meu quarto
às 4 da madrugada...
8 - Seu safado e sem-vergonha! Não me vais dar um beijinho?
O locutor viola a máxima da quantidade quando parece dar pouca informação ou
mais do que o necessário.
9 - Cláudio: Como estou?
Beatriz: Seus sapatos estão bonitos.
Ao violar a máxima da relação, o locutor espera que seu interlocutor seja capaz
de imaginar uma sentença não-proferida e que estabeleça a conexão entre as ditas
anteriormente.

10 - Augusto: Você aceita um sorvete?


Bianca: Estou ficando gorda.

Numa violação da máxima do modo, o enunciador aparenta ser obscuro, o que


normalmente ocorre para excluir um terceiro da conversa. Ainda assim, o locutor parte
do princípio de que seu interlocutor intencionado será capaz de inferir a implicatura,
enquanto o terceiro que eles desejam excluir da conversa não possuirá a mesma
capacidade.

11 - Um homem conversa com sua esposa, enquanto a filha pequena brinca ao


lado.
- Estou a pensar em sair para comprar algo gelado e gostoso para alguém.

Verificamos que, no processo de interacção e cooperação, muitas vezes é preciso


violar algumas máximas conversacionais para que se possa produzir um determinado
efeito de sentido no interlocutor. Analisemos o seguinte cenário. A violação das máximas
conversacionais se torna também um importante veículo para a produção de humor. De
acordo com Oliveira (2007), "aspossibilidades mais simples de se inventar estórias
cómicas nascem do aproveitamento do erro" (p.02). Assim, quando se fazem perguntas
redundantes, que mostram a inutilidade da resposta, ou quando se afirmam banalidades
que todos já conhecem, a situação se torna engraçada.

3.2. PRINCÍPIO DA DELICADEZA VERBAL

O Princípio da Delicadeza verbal é um outro princípio que decorre do conhecimento


das regras de etiqueta, convivialidade e cortesia (delicadeza verbal) no âmbito do contexto
cultural de uma determinada comunidade. Por exemplo, o uso de eufemismos:

O Kizua está incomodado;

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A Kinavuidi não vem às aulas porque está no estado de mão.

O fenómeno da delicadeza verbal refere-se à escolha dos meios linguísticos e das


estratégias conversacionais adequadas a preservar uma boa relação entre os participantes
na comunicação, respeitando o grau de maior ou menor distância social entre eles A
delicadeza reflecte-se, por exemplo, na escolha adequada de pronomes pessoais e formas
de tratamento (tu, você, o Sr. , o Sr. Dr. ,…) bem como na preferência por actos
indirectos, no uso de implicaturas conversacionais, etc.

3.3. AS IMPLICATURAS

Em sua Teoria das Implicaturas, Grice (1975) afirma que o elemento central da
comunicação é o reconhecimento, por parte do ouvinte, da intenção que o falante possui
de induzir com seu proferimento. Esse é o ponto de partida para que se faça sentido do
que é dito. Os participantes da conversa, a princípio, cooperam um com o outro. Esse
senso de cooperação é o que leva o interlocutor a crer que o locutor não está tentando
enganá-lo em suas proposições. Quando o que é dito não é suficiente para que se extraia
sentido da fala do locutor, o interlocutor acredita que há algo mais implicado e tenta
chegar a essa informação por conta própria para compreender o que o locutor está
querendo transmitir. Esse algo a mais a ser entendido pelo interlocutor são as
implicaturas. Existem dois tipos de implicaturas.
São elas as Implicaturas Convencionais e as Implicaturas Conversacionais.
As Implicaturas Convencionais são aquelas que estão presas ao significado
convencional das palavras, ou seja, ao significado literal das palavras. Para este conceito
cabe o exemplo a seguir:

[1] O José é trabalhador, contudo é pobre.

No exemplo [1], implica-se convencionalmente que o José sendo trabalhador não


deveria ser pobre, mas o é. O uso literal dos termos nos dá ideia exacta do que está sendo
dito através da conjunção contudo. Podemos perceber, portanto, que as implicaturas
convencionais não dependem de contextos especiais para interpretação, e, com isso, não
precisam ocorrer necessariamente na conversação. Elas são associadas a palavras
específicas e resultam em significados adicionais vindos das informações que essas
palavras transmitem. Podemos verificar, portanto, que as implicaturas convencionais são
aquelas que são depreendidas através da decodificação.
No uso das Implicaturas Conversacionais, há uma ruptura entre os enunciados
que necessita de um preenchimento por parte dos envolvidos no acto comunicativo para
haver sentido, como veremos no exemplo a seguir.

[2] Alice: Espero que você tenha trazido o pão e o queijo.


Bruno: Eu trouxe o pão.

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Nessa conversa, Alice parte do princípio que Bruno está cooperando com o
diálogo e não desconhece a máxima da quantidade. Ainda assim, ele não mencionou o
queijo. Se ele tivesse trazido o queijo, ele o mencionaria também, não violando, assim, a
máxima da quantidade. Resulta daí que Bruno intenciona que Alice infira que o que não
foi mencionado, não foi trazido. Dessa forma, Bruno transmitiu mais do que o dito através
de uma implicatura conversacional.

As implicaturas conversacionais, diferentemente das convencionais, não


dependem da significação usual, sendo determinada por certos princípios básicos do acto
comunicativo. É importante destacar, portanto, que é o locutor que transmite significação
através das implicaturas e que a função do interlocutor é a de reconhecê-las através de
inferências. As inferências seleccionadas serão aquelas que preservem o pressuposto da
cooperação.

4. A TEORIA DOS ACTOS DE FALA

A teoria dos actos de fala surgiu no interior da Filosofia da Linguagem, sendo seus
pioneiros o inglês John Langshaw Austin (1911-1960), e John Searle, dentre outros. Esses
autores entendiam a linguagem como forma de acção, passando então a reflectir sobre os
vários tipos de acções humanas que se realizam através da fala. Segundo Silva (2007), os
linguístas e filósofos pensavam que as afirmações serviam apenas para descrever um
estado de coisas, mas Austin mostrou que além de serem definidas como verdadeiras ou
falsas, as afirmações servem para realizar acções. Pinto (2001, p. 57) salienta que a Teoria
dos Actos de Fala (...) concebe a linguagem como uma actividade construída pelos
interlocutores, ou seja, é impossível discutir linguagem sem considerar o acto de
linguagem, o acto de estar falando entre si – a linguagem não é assim descrição do mundo,
mas acção.

A “Teoria dos Actos de Fala” definida por Austin (1990) e por Searle (1981)
afirma que uma mensagem verbal é raramente uma mera transmissão literal e directa de
informação. Pinto (2001, p. 48) salienta que [...] fenómenos linguísticos não são
puramente convencionais, mas sim compostos também por elementos criativos,
inovadores, que se alteram e interagem durante o processo de uso da linguagem.

De acordo com Fiorin (2002), a mensagem verbal exprime a intenção do


interlocutor e é determinada por vários aspectos. Os actos de fala podem ser directos,
quando dizem "feche a janela", por exemplo. Mas, no uso diário, são menos frequentes
do que os indirectos, quando a intenção do interlocutor não está explícita. Por exemplo,
se o interlocutor diz "está frio aqui!", não o faz para que quem o escuta diga "realmente
está frio aqui!" e, sim, para que feche a janela que está próxima.

Desse modo, a compreensão de um acto de fala não literal exige ao mesmo tempo
o processamento do que é explicitamente dito e a capacidade de ir além deste significado
literal para perceber a intenção do interlocutor no contexto dado. Em outras palavras,

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quem escuta deve ser capaz de, simultaneamente, compreender o significado literal e não
literal da mensagem, o que o interlocutor diz e o que pretende dizer.

4.1. ENUNCIADO CONSTATIVO E ENUNCIADO PERFORMATIVO

Os Enunciados Constativos são aqueles que descrevem ou relatam um estado de


coisas, e que, por isso, se submetem ao critério de verificabilidade, isto é, podem ser
rotulados de verdadeiros ou falsos. Na prática, são os enunciados comumente
denominados de afirmações, descrições ou relatos, como Eu jogo futebol; A Terra gira
em torno do sol; A mosca caiu na sopa, etc.

Os Enunciados Performativos são enunciados que não descrevem, não relatam,


nem constatam absolutamente nada, e, portanto, não se submetem ao critério de
verificabilidade (não são falsos nem verdadeiros). Mais precisamente, são enunciados
que, quando proferidos na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, na forma
afirmativa e na voz activa, realizam uma ação (daí o termo performativo: o verbo inglês
to perform significa realizar). Eis alguns exemplos: Eu te batizo em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo; Eu te condeno a dez meses de trabalho comunitário; Declaro aberta
a sessão; Ordeno que você saia; Eu te perdoo.

Tais enunciados, no exacto momento em que são proferidos, realizam a acção


denotada pelo verbo; não servem para descrever nada, mas sim para executar actos (acto
de batizar, condenar, perdoar, abrir uma sessão, etc.). Nesse sentido, dizer algo é fazer
algo. Com efeito, dizer, por exemplo, Declaro aberta a sessão não é informar sobre a
abertura da sessão, é abrir a sessão. São os enunciados performativos que constituem o
maior foco de interesse de Austin.

É preciso observar, no entanto, que o simples facto de proferir um enunciado


performativo não garante a sua realização. Para que um enunciado performativo seja bem-
sucedido, ou seja, para que a acção por ele designada seja de facto realizada, é preciso,
ainda, que as circunstâncias sejam adequadas. Um enunciado performativo pronunciado
em circunstâncias inadequadas não é falso, mas sim nulo, sem efeito: ele simplesmente
fracassa. Assim, por exemplo, se um faxineiro (e não o presidente da câmara) diz Declaro
aberta a sessão, o performativo não se realiza (isto é, a sessão não se abre), porque o
faxineiro não tem poder ou autoridade para abrir a sessão. O enunciado é, portanto, nulo,
sem efeito (ou, nas palavras de Austin, "infeliz").

Aos critérios que precisam ser satisfeitos para que um enunciado performativo
seja bem-sucedido, Austin denominou "condições de felicidade”. As principais são:

1. falante deve ter autoridade para executar o acto (como no exemplo do parágrafo
anterior);

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2. as circunstâncias em que as palavras são proferidas devem ser apropriadas (se o


presidente da câmara declara aberta a sessão, sozinho, em sua casa, o performativo
não se realiza, porque não está sendo enunciado nas circunstâncias apropriadas);

Posteriormente, ao tentar fixar um critério gramatical para os enunciados


performativos (inicialmente, o critério verbo na primeira pessoa do singular do presente
do indicativo etc.), Austin esbarra em muitos problemas, pois constata, entre outras
coisas, que:

1. Nem todo enunciado performativo tem verbo na primeira pessoa do singular do


presente do indicativo na forma afirmativa e na voz activa. Eis alguns exemplos:

Proibido fumar; Vocês estão autorizados a sair; Todos os funcionários estão


convidados para a reunião de hoje. Nesses exemplos, os actos de proibição, autorização
e convite realizam-se sem o emprego de proíbo, autorizo e convido;

2. Nem todo enunciado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo


na forma afirmativa e na voz activa é performativo. Eis alguns exemplos: Eu jogo futebol;
Eu corro; Eu estudo inglês. Nesses exemplos, os actos de jogar futebol, correr e estudar
inglês não se realizam ao se enunciar tais sentenças.

Apesar disso, Austin não abandona, logo de início, a idéia de encontrar um critério
gramatical para definir os enunciados performativos, mas parece que acaba encontrando
mais problemas do que soluções. Um deles é a constatação de que pode haver enunciados
performativos sem nenhuma palavra relacionada ao acto que executam. É o caso, por
exemplo, de enunciados como Curva perigosa e Virei amanhã, que podem equivaler,
respectivamente, a Eu te advirto que a curva é perigosa e Eu prometo que virei amanhã.
É o caso também dos imperativos, como Feche a porta, cuja performatividade pode ser
explicitada em Eu ordeno que você feche a porta.

Há, porém, uma diferença entre esses dois tipos de performativo: Eu ordeno que
você saia é uma frase que tem uma indicação muito precisa do ato que realiza: trata-se de
uma ordem e nada mais. Já Saia é vago ou ambíguo: pode ser uma ordem, um pedido, um
conselho etc.

Face a essa constatação, Austin passa a propor a distinção performativo explícito


(para enunciados com performatividade explícita, como em Eu ordeno que você saia),
em oposição a performativo implícito, ou primário (para enunciados sem
performatividade explícita, como em Saia). O performativo primário seria uma espécie
de forma reduzida do performativo explícito.

A partir dessa distinção, Austin constata que a denominação performativo


primário também se aplica aos enunciados constativos, e acaba admitindo que a distinção
constativo-performativo se desfaz, já que é possível transformar qualquer enunciado
constativo em performativo, bastando antecedê-lo de verbos como declarar, afirmar,

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dizer, etc. Por exemplo – [Eu afirmo que] A mosca caiu na sopa; [Eu digo que]vai chover;
[Eu afirmo que]A terra é redonda, etc.
Ao concluir que todos os enunciados são performativos (porque, no momento em
que são enunciados, realizam algum tipo de acção), Austin retoma o problema em novas
bases, e identifica três actos simultâneos que se realizam em cada enunciado: o
locucionário, o ilocucionário e o perlocucionário.

Na Teoria dos Actos de Fala, Austin estabelece características entre três tipos de
actos: o locutório, ilocutório e perlocutório. O acto locutório ou locucionário, segundo
Austin (1990, p.85), consiste em proferir certos ruídos, certas palavras em determinada
construção com um sentido e uma referência determinados. Ou seja, o acto locutório
consiste basicamente em usar a língua, no nosso caso, a língua portuguesa. [...]
distinguimos um conjunto de coisas que fazemos ao dizer algo, que sintetizamos dizendo
que realizamos um acto locucionário, o que equivale, a grosso modo, a proferir
determinada sentença com determinado sentido e referência, o que, por sua vez, equivale,
a grosso modo, a significado no sentido tradicional do termo. (AUSTIN 1990, p. 95).

O acto ilocutório ou ilocucionário consiste na acção que o falante efectuou ao


proferir um determinado enunciado. Não podemos confundir esse acto com a frase
utilizada para a realização dessa acção. O acto ilocutório está directamente relacionado à
acção concretizada pelo falante e não à frase pronunciada por tal. Vejamos os exemplos
a seguir:

1. O senhor está demitido!

O exemplo acima é, claramente, de um acto ilocutório, pois se observa que o


falante está demitindo alguém. Como descrito acima o acto ilocutório consiste na acção
que o falante realizou ao proferir um determinado enunciado.

2. Eu vos declaro marido e mulher.

Neste exemplo observa-se que também se trata de um acto ilocutório. Constata-se


que o falante faz uma declaração e com isso compromete-se com o que foi dito,
caracterizando um acto ilocutório.

3. Aposto que o 1º de Agosto Futebol Clube vai ser bicampeão.

Este exemplo também é um acto ilocutório, porém um pouco diferente dos


anteriores. Neste caso a acção só será realizada se o (s) ouvinte (s) aceitar (em) a aposta
porque caso contrário, a acção não se realizará, pois uma aposta só é concretizada se duas
pessoas ou mais fizerem parte da acção.
O acto perlocutório ou perlocucionário resume-se na reacção do ouvinte.
Segundo Austin (1990, p.89), quando o falante diz algo produz certos efeitos ou
consequências sobre os sentimentos, pensamentos, ou acções dos ouvintes. A reacção que

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o ouvinte tem em relação ao que foi dito pelo falante consiste no acto perlocutório. Veja
os exemplos abaixo:

4. Situação: Um professor dando aula para sua turma em uma escola em que as
aulas começam às 8hr.

O professor, irritado, diz para o aluno que chegou às 10hr: - São 10 horas!
O aluno segue em direcção a sua carteira, senta e fica em silêncio.

Neste exemplo observa-se que o aluno, apesar de não dizer nada, reage ao que foi
dito pelo professor. Portanto trata-se de um acto perlocutório, é a reacção que o ouvinte
teve em relação ao que foi dito pelo falante.

A reacção do ouvinte pode ser verbal ou não, como vemos no exemplo abaixo:

5. Um rapaz diz para sua namorada:


- Queres casar comigo?
Ela dá um sorriso e responde:
- Claro que eu quero!

Neste exemplo vê-se que o falante faz uma pergunta e o ouvinte responde tanto
verbalmente, quando diz “Claro que quero!”, quanto não-verbalmente, quando apenas dá
um sorriso. Em ambas as reacções (verbal e não-verbal) o ouvinte aceita/concorda com o
pedido que foi feito pelo locutor.

A reacção do ouvinte também pode não ser a esperada pelo falante, mas de
qualquer forma, a acção é realizada. Observemos:

6. Em uma igreja, durante a celebração de um casamento, o padre pergunta para a


noiva:
- Maria aceitas o João como seu legítimo esposo?
A noiva responde:
- Não!
Esse exemplo mostra claramente que a resposta da noiva não era a esperada pelo
padre, pelos convidados e muito menos pelo noivo, mas de qualquer forma uma acção foi
completa, quer dizer, embora o casamento não se tenha realizado, um ato ilocutório (a
pergunta feita pelo padre) provocou um acto perlocutório (a resposta dada pela noiva).

Existem proferimentos falados e escritos, mas, sem dúvidas, é de comum acordo


que os proferimentos falados são mais ricos na expressão de emoções, afectos e estados
de espírito dos locutores do que os escritos, ou pelo menos o fazem de maneira mais
directa. Isso acontece porque nos proferimentos falados existe a influência da expressão

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facial, do tom de voz, do olhar, etc., do falante. No caso dos proferimentos escritos
podemos tentar enriquecer a expressão desses aspectos através de recursos gráficos como,
por exemplo, quando colocamos todas as letras do texto em maiúsculo ou várias
interrogações ao final da frase, mas nada é tão significativo quanto um tom de voz
alterado ou um olhar de desconfiança ou leve sorriso ao falar, assim como tantos outros
gestos que não podem ser transmitidos através da escrita.

Considere o exemplo:
7. John Grogan, Marley & Eu:
Marley se contorcia de emoção. O objecto estranho e brilhante em torno do seu
pescoço tinha tomado sua atenção.
- Um... Dois... Três!...
- Controle seu cachorro! – a srª. Dominatrix gritava.

Nesse exemplo percebe-se que as reticências indicam que o falante deu uma pausa
na fala, ou seja, através de um proferimento escrito constata-se a pausa entre uma fala e
outra, mas logo em seguida pode-se observar que para saber que a srª. Dominatrix dava a
ordem gritando é necessário que se leia “a srª. Dominatrix gritava”, o que, obviamente,
não seria necessário se fosse um proferimento falado.

Podemos dizer então, a respeito dos Actos de Fala, que ao proferirmos alguma
sentença (acto locutório), estamos realizando alguma acção e a acção produzida por essa
sentença (acto ilocutório) produz, na pessoa com quem se está conversando, um
determinado efeito, uma reacção, verbal ou não-verbal (acto perlocutório), mesmo que
essa não seja o que o falante estava querendo obter.
Outro aspecto que fez parte dos estudos de Austin, mas proposto por Searle foi o
facto de este classificar os actos de fala, distinguindo-os nas seguintes cinco classes:

1. Os assertivos (as afirmações),

2. Os directivos (as ordens),

3. Os promissivos (as promessas),

4 Os expressivos (as felicitações),

5. Os declarativos (declarar aberta ou encerrada a sessão)

Searle chama a atenção para o facto de que um mesmo conteúdo proposicional


pode exprimir diferentes valores ilocutórios. A proposição3 “João, estude bastante”, pode
ter força ilocutória de ordem, pedido, conselho, etc. esta situação levou ao

3
O sentido de proposição remete à Linguística e, é tido como o significado de uma frase declarativa.

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estabelecimento de uma outra distinção no interior da Teoria dos Actos de Linguagem: a


distinção entre actos de fala directos e actos de fala indirectos:

Acto de fala directo: quando é realizado por meio de formas linguísticas


especializadas, isto é, típicas daquele tipo de acto. Há, por exemplo, uma entoação típica
para perguntas; as formas imperativas são tipicamente usadas para dar ordens ou fazer
pedidos; expressões como “por favor”, “por gentileza”, são tipicamente usadas para
fazer pedidos ou solicitações. Eis alguns exemplos:

Que horas são? (acto de perguntar); Saia daqui (acto de ordenar); Por favor,
traga-me um copo de água (acto de pedir);

Acto de fala indirecto: quando é realizado indirectamente, isto é, por meio de


formas linguísticas típicas de outro tipo de acto.

Exemplos:

1. ” Tens um cigarro?” (pedido com aparência de pergunta) Quem enuncia esta


frase, não está perguntando se a outra pessoa tem ou não um cigarro, mas sim está a pedir
que lhe ceda um cigarro.

”Como está abafada esta sala!” (pedido com aparência de constatação).


Normalmente, quem enuncia essa frase não está simplesmente a se manifestar quanto
à temperatura no interior do recinto, mas sim a pedir que a outra pessoa faça algo para
amenizar o calor, como por exemplo abrir as janelas ou ligar o ar condicionado.

2. “Pode fechar a porta?” (pedido com aparência de pergunta) Quem enuncia esta
frase não está a perguntar sobre a incapacidade física de alguém fechar a porta, mas sim
a pedir que feche a porta.
Nestes casos, Searle (1982) denomina de "secundários" os actos de perguntar, constatar,
etc. e de "primário" o acto de pedir.

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5. CONVERSA E DIÁLOGO ARGUMENTATIVO

Como vimos na matéria de princípio de cooperação, uma conversa, conversação


ou um diálogo é sempre uma interacção verbal, algumas vezes acompanhadas de gestos
e mímicas, em que os sujeitos falantes cooperam, trocam mensagens, pontos de vistas,
perguntas e respostas. O diálogo ou conversa realiza-se normalmente em determinada
situação de discurso ou contexto.

A esta actividade, pela qual o participante passivo indica ao activo que está atento
e que o canal da comunicação está aberto, chama-se actividade fática e às expressões
usadas marcadores fáticos ou partículas fáticas.

Agora, vamos conhecer cinco tipos de diálogo argumentativo e respectivos


contextos:

Discussão com ataques pessoais;


Debate forense;
Diálogo persuasivo ou discussão crítica;
Diálogo de investigação;
Diálogo de negociação;
Diálogo educacional.

A discussão com ataques pessoais (ataque ad homimen – ataque contra a pessoa


e não contra o argumento) é caracterizada pela vontade de ofender agressivamente o
interlocutor sem medir os meios a que se recorrer. Atacar verbalmente o oponente a
quaisquer meios ou custos, sejam eles razoáveis e justos ou não representam o objectivo
principal. Aqui somos expostos a um diálogo atípico durante o qual os falantes proferem,
invocam, ejaculam ataques pessoais com forte carga emocional, recorrem a argumentos
falaciosos, palavras obscenas e partículas fáticas, interjeições, gestos e mímicas reforçam
este tipo de conversação verbal. Altercação não é amiga dalógica, pois as lições lógicas
que se podem extrair dela são patológicas. Ela representa o mau argumento, o argumento
exaltado, instrumento de falácias, ataques cruéis e críticas unilaterais que são
completamente evitados ou desestimulados pelo diálogo racional. Quando um argumento
desce ao nível da altercação, geralmente se encontra em grande dificuldade.

Exemplo:

“As chamadas teorias de Einstein não passam de delírios de uma mente poluída
por besteiras democráticas e liberais, coisa totalmente inaceitável para homens de ciência
alemães.”

O debate forense geralmente tem lugar nos tribunais de acordo as normas


processuais. É mais ordenado do que a altercação. Nele intervêm juízes, advogados,
procuradores e as partes interessadas. O debate trava-se entre as partes interessadas na
solução da questão jurídica, designadamante, o autor da causa, o queixoso ou lesado, de

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um lado, e o responsável pelo dano causado, o réu, de outro lado. Dependendo da natureza
da acção que sustenta o debate, ambas as partes podem ser representadas por um
procurador e por um advogado.

O objectivo principal do debate forense consiste em alcançar uma decisão


favorável do tribunal através da sentença proferida pelo juiz. Pode dizer-se que o debate
forense recorre a procedimentos que se aproximam do raciocínio lógico.

O diálogo persuasivo ou discussão crítica constitui o contexto em que se


desenvolve uma conversa entre os dois interlocutores, pretendendo cada um deles
convencer o outro, defender o seu ponto de vista com recurso a provas que são
susceptíveis de livre aceitação ou refutação por outro interlocutor. As provas podem ser
internas ou externas. As provas internas são obtidas a partir das inferências realizadas
com base numa proposição resultante da interacção verbal. As provas externas resultam
do recurso a outras fontes ou autoridades especializadas.

O diálogo de investigação caracteriza-se pelo facto de obedecer às necessidades


de alcançar novos conhecimentos em determinada disciplina ou ramo do saber. A
finalidade não é propriamente descobrir provas definitivas ou conclusivas numa lógica
competitiva. Por serem investigadores que pugnam pela neutralidade, as partes que
intervêm neste tipo de diálogo prosseguem uma verdade objectiva.

O diálogo de negociação visa a obtenção de uma vantagem pessoal através de


acordos alcançados a partir das posições de cada uma das partes.

Por isso, trata-se de um diálogo verdadeiramente competitivo. O seu respeito não se


pode falar de neutralidade, o que importa é chegar ao fim com a certeza de ter realizado
um bom negócio.
O diálogo educacional ocorre entre o professor e o aluno. Cabe ao professor
transmitir conhecimento para a outra parte (o aluno).

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6. TIPOLOGIA TEXTUAL

Começaremos por distinguir os textos designados por literários e os não literários


para classificarmos os tipos de textos que pretendemos estudar.

1. Texto Literário: expressa a opinião pessoal do autor que também é transmitida


através de figuras, impregnado de subjetivismo. Ex: um romance, um conto, uma poesia...

2. texto não-literário: preocupa-se em transmitir uma mensagem da forma mais


clara e objetiva possível. Ex: uma notícia de jornal, uma bula de medicamento.

TIPOS DE COMPOSIÇÃO

1. Descrição: descrever é representar verbalmente um objeto, uma pessoal, um


lugar, mediante a indicação de aspectos característicos, de pormenores individualizantes.
Requer observação cuidadosa, para tornar aquilo que vai ser descrito um modelo
inconfundível. Não se trata de enumerar uma série de elementos, mas de captar os traços
capazes de transmitir uma impressão autêntica. Descrever é mais que apontar, é muito
mais que fotografar. É pintar, é criar. Por isso, impõe-se o uso de palavras específicas,
exatas.

2. Narração: é um relato organizado de acontecimentos reais ou imaginários. São


seus elementos constitutivos: personagens, circunstâncias, ação; o seu núcleo é o
incidente, o episódio, e o que a distingue da descrição é a presença de personagens
atuantes, que estão quase sempre em conflito.

A Narração envolve: I. Quem? Personagem; II. Quê? Factos, enredo; III.


Quando? A época em que ocorreram os acontecimentos; IV. Onde? O lugar da
ocorrência; V. Como? O modo como se desenvolveram os acontecimentos;
VI. Por quê? A causa dos acontecimentos;

3. Dissertação: dissertar é apresentar idéias, analisá-las, é estabelecer um ponto


de vista baseado em argumentos lógicos; é estabelecer relações de causa e efeito. Aqui
não basta expor, narrar ou descrever, é necessário explanar e explicar. O raciocínio é que
deve imperar neste tipo de composição, e quanto maior a fundamentação argumentativa,
mais brilhante será o desempenho.
Concluindo...

NARRAÇÃO constitui o relato de uma progressão de fatos, dispostos em


sequência temporal.
DESCRIÇÃO capta a simultaneidade dos fatos e aspectos que compõem a
realidade.
DISSERTAÇÃO é a análise do que existe e do que acontece.

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7. OS CONECTORES / ARTICULADORES DE DISCURSO

Designamos por conectores as palavras ou expressões que servem para conectar


(ligar, unir) vários segmentos linguísticos: as frases no período, os períodos no parágrafo
e os parágrafos no texto. Incluem-se neste grupo várias subclasses gramaticais de
palavras:

- Conjunções (e; pois...)


- Locuções conjuncionais (além disso; no entanto...)
- Advérbios (depois; finalmente...)
- Locuções adverbiais (em seguida; por último...)
- Algumas orações reduzidas – orações sem conjunção e com o verbo numa forma
nominal – gerúndio, infinitivo ou particípio – (concluindo; para terminar; feito isto).

FUNÇÃO / CONECTORES

Adicionar / Enumerar: e; além disso; não só...mas também; depois; finalmente;


seguidamente; em primeiro lugar; em seguida; por um lado...por outro; adicionalmente;
ainda; do mesmo modo; pela mesma razão; igualmente; também; de novo.

Sintetizar / Concluir: logo; pois; assim; por isso; por conseguinte; portanto;
enfim; em conclusão; concluindo; em suma.

Particularizar: especificamente; nomeadamente; por exemplo; em particular.

Explicar / Exemplificar: pois; porque; porquanto; por causa de; uma vez que;
especificamente; nomeadamente; isto é; ou seja; quer dizer; por exemplo; em particular;
como se pode ver; é o caso de; é o que se passa com.

Inferir: assim; consequentemente; daí; então; logo; pois; deste modo; portanto;
em consequência; por conseguinte; por esta razão; por isso.

Substituir / Reformular: mais correctamente; mais precisamente; ou melhor;


quer dizer; dito de outro modo; por outras palavras.
Contrariar / Opor / Restringir: porém; contrariamente; em vez de; pelo
contrário; por oposição; ainda assim; mesmo assim; apesar de; contudo; no entanto; por
outro lado.

Fim: para; para que; com o intuito de; a fim de; com o objectivo de.

Dúvida: talvez; é provável; é possível; provavelmente; porventura.

Certeza: é evidente que; certamente; decerto; com toda a certeza; naturalmente;


evidentemente.

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Hipótese / Condição: se; a menos que; supondo que; admitindo que; salvo se;
excepto.

Chamar a atenção: note-se que; atente-se em; repare-se; veja-se; constate-se.

Enfatizar: efectivamente; com efeito; na verdade; como vimos.

Opinar: a meu ver; estou em crer que; em nosso entender; parece-me que.

Reafirmar / Resumir: por outras palavras; ou melhor; ou seja; em resumo; em


suma.
Semelhança: do mesmo modo; tal como; assim como; pela mesma razão.

ORGANIZADORES DO DISCURSO

São assim designadas algumas expressões que, mais do que conectar ideias,
concorrem para a organização dos planos textuais.

Organizar no espaço: à direita; atrás; sobre; sob; de um lado; no meio; naquele


lugar.

Organizar no tempo: depois; então; após; de seguida; seguidamente; dias mais


tarde; agora; já; antes; até que; quando.

Organizar o plano textual:

- Abrir uma série: por um lado; de um lado; primeiramente; em primeiro lugar;


para começar; começando.
- Acentuar a continuidade: por outro lado; de outro lado; seguidamente; em
segundo lugar.

- Encerrar: por último; concluindo; para terminar; em conclusão; em último


lugar; em; finalizando; recapitulando.

Os conectores ou articuladores de discurso que seguidamente apresentamos (em


quadro) são um auxiliar excelente na construção do discurso, quer se trate de um resumo,
de uma síntese, de um comentário ou de outro tipo de técnica. Eles são um contributo
importante para uma escrita correcta.

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Quadro nº 1 – QUADRO DOS CONECTORES DE DISCURSO

Bianchi, Aida e Felgueiras, Anabela, O Essencial do 12º Ano, Português B, Ed. Asa,2004.

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BIBLIOGRAFIA

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BRETON, Philippe. (1998). A Argumentação na Comunicação, Lisboa,


Publicações Dom Quixote.

FERNANDES, João e NTONDO, Zavoni. (2000). ANGOLA: Povos e Língua,


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REIS, Carlos e ADRAGÃO, João Victor. (1992). Didáctica do Português, Lisboa,


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TOULMIN, João. (2006). Os Usos do Argumento, São Paulo, Martins Fontes.

ARMENGAUD, F. A Pragmática. Tradução: Marcos Marcionilo. São Paulo:


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CHARAUDEAU, P. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo:


Contexto, 2009.

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