Você está na página 1de 4

1.

A temática da prodigalidade em ambos os Códigos - o de 1916 e o do


início do século XXI - constitui-se em uma daquelas figuras jurídicas cuja
previsão abstrata descompassa, por um lado de sua fundamentação
constitucional e, por outro, de sua aplicabilidade concreta. E, de maneira similar
ao filho pródigo da parábola bíblica, está habitando na sarjeta de uma realidade
que não é a sua, pendente de uma atualização que a reabilite ao âmbito
próprio que é a tutela da dignidade humana em suas múltiplas facetas.

2. Tratando das virtudes humanas, mais precisamente da liberalidade, o


filósofo estagirista procura, em apertada síntese, definir o que era comumente
entendido por prodigalidade, noção esta que sobreviveu aos séculos
patricamente intocada.
Assim, "usamos a palavra ''prodigalidade'' em um sentido complexo, pois
chamamos pródigos as pessoas incontimentes, que esbanjam dinheiro com
seus prazeres. Eis porque elas são consideradas as que têm caráter mais
fraco, pois combinam em si mais de uma forma de vício. Por isso, a aplicação
da palavra a tais pessoas não é apropriada, pois ''pródigo'' é o homem que
possui um só defeito, qual seja, o de dissipar os seus bens. Pródigo, portanto,
é aquele que se arruina por sua própria culpa, e esbanjar as posses é
considerada uma forma de arruinar a si mesmo, visto que é de opinião geral
que a vida de cada um depende de seus bens próprios. Eis, portanto, o sentido
que damos ao termo ''prodigalidade''." [1] Deste marco partem os civilistas em
geral [2], arrimando a previsão normativa ao conceito clássico de prodigalidade.

3. Os elementos do suporte fático destacam pouco ou nenhum peso à


proteção da pessoa do pródigo, porém desproporcional valor ao seu
patrimônio.
Primeiramente a norma não prevê como se configura a prodigalidade,
remetendo, por conseqüência, a delimitação do conceito à construção
doutrinária. Ora, se está diante de um caso em que a boa técnica jurídica
redunda em estrutura de permanência de concepções arcaicas e desprovidas
de qualquer impulso renovador advindo da distância temporal entre sua
concepção e os valores do tempo presente.
Pródigo, diz sucintamente Washington de Barros Monteiro, "...é aquele que
dissipa os seus bens imoderadamente" [3], sendo "aquele que
desordenadamente gasta e destrói a sua fazenda, reduzindo-se à miséria por
sua culpa." [4]
Sem atinar para as condições especiais das quais poderia advir o mencionado
comportamento, descreve-o tão-somente verificado de modo objetivo [5].
A prodigalidade esconde várias possibilidades. Pode se configurar
prodigalidade por algum distúrbio mental, mas "se fosse estado patológico,
deveria ser incluído no conceito de alienados" [6]. Poderia ainda se configurar
como aquele que, mesmo são, tem sua mente fortemente influenciada pela
pressão psicológica de uma crença ou confissão política, e em nome desse
ideal despir-se de todos os seus bens.
Tudo isto sem embargo do momento existencial do indivíduo que, de moto
próprio, pode ter escolhido desfazer-se dos seus bens e procurar outro sentido
para a sua vida, já que nem todas as pessoas cabem no padrão psicológico de
acumuladores de riqueza que o Código ainda teima em reafirmar nas
entrelinhas
Vale ressaltar aqui um ponto essencial na compreensão do espírito das
codificações civilistas nacionais: a maioria dos brasileiros tem quase nenhum
patrimônio acumulado, vivendo, não se sua fazenda, como se fosse um
próspero comerciante do final do século XIX, mas como assalariado que tem
que ganhar mês a mês o seu salário, e cuja remuneração é despendida antes
até do pagamento de todas as contas vencidas. Para que serve então uma
regra que pressupõe um padrão de vida relativo a inexpressiva minoria de
tutelados pela norma?
Em segundo lugar, o tratamento normativo pretende proteger mais o patrimônio
do que propriamente o seu titular, numa flagrante inversão de valores entre
pessoa e coisa, o ser e o ter, intolerável diante da novel ordem constitucional
que a isto contrapõe o princípio da dignidade humana como uma das colunas
estruturadoras de todo o conglomerado jurídico pátrio. Já se acentou "o
embaraço de colocar no mesmo plano os interesses patrimoniais e aqueles
existenciais, estritamente ligados à pessoa, e se adverte, também, a
diversidade das problemáticas relativas a estes interesses - até então não
suficientemente distintas -, com prejuízo das situações existenciais." [7]
Outra não pode ser a conclusão ao se analisar o artigo 460 do antigo Código,
que limitava a legitimidade a parcos titulares para a proposição da ação judicial
de interdição do pródigo. Curiosamente estes legitimados são aqueles que
correm o risco de ficar obrigados a prestar assistência material ao futuro
indigente.
Tal constatação faz eclodir a constatação que se segue: em caso de não haver
legitimados, pouco importa que o pródigo desça à vil miséria e passe a se
alimentar do farelo servido aos porcos da parábola bíblica. O pródigo não tem o
direito de trazer ônus aos outros mas tem o direito de lesar a si mesmo. Quanta
humanidade!
Convém lembrar que o mesmo vetusto estatuto do início do século XX limitava
a doação totaal dos bens sem reserva de parcela suficiente para a subsistência
do doador, num verdadeiro espírito de tutela da dignidade do indivíduo,
admirável para a época, levando-se em consideração o radical espírito liberal
expresso na codificação de então.
Contrariando a potencialidade dignificante do ser humano implícita na norma
que trata da doação universal de bens, repetiu o código, no âmbito da
prodigalidade, a opção pelo patrimonialismo e o descaso pela existência
humana típicos de uma construção normativa fundada no Estado Liberal.

4. As figuras do direito civil - a reboque do contrato e da propriedade, cujos


avanços estão bastante adiantados na seara constitucional e privada - estão
sob o viés hermenêutico das normas e princípios insculpidos na Carta Magna,
ensejando até, por vezes, radical reconstrução do seu edifício conceitual, dos
pressupostos aos efeitos jurídicos delas advindos. Tem-se aí, em breves
linhas, o reconhecimento da assim chamada constitucionalização do direito
civil.
Tendo como pressuposto valorativo a dignidade da pessoa humana, elevada
ao estatuto de princípio constitucional, deve a figura da prodigalidade sofrer a
influência hermenêutico-aplicativa da nova sobreposição axiológica daí
advinda. Em conseqüência, seu conteúdo normativo, se não mudado, pode
muito bem ser redesenhado pelo aplicador do direito no momento de sua
aplicação. Pode até, em face do exame do caso concreto a justificar a medida,
ser ignorado nos seus limites, implícitos ou explícitos, de aplicação. Essa
proposta de relativização da aplicação das figuras jurídicas do direito civil não é
inovação leviana: traz no seu bojo o atendimento tanto das mudanças socio-
econômicas da sociedade moderna quanto os imperativos principio-axiológicos
da Constituição Federal. O que parece ser ponto pacífico em outros países de
tradição constitucional mais desenvolvida, ainda é visto com surpresa por
inúmeros aplicadores do direito em terras tupiniquins. O diálogo entre a norma
e o princípio apenas engatinha no direito brasileiro.
Para proteger o próprio pródigo - se é que essa figura tem ainda alguma
funcionalidade no ambiente a que se destina - bastaria permitir ao órgão
competente para a tutela de diversos interesses inerentes à sociedade [8], i.e.,
o Ministério Público, legitimidade para propor a interdição do incapaz por esta
causa específica. Afinal, nos tempos modernos do Estado Social, o custo da
indigência sempre recai sobre as costas do Estado-viúva que, pelas mais
variadas razões, nem de longe consegue atender a este largo universo de
desvalidos.
E isto, repita-se, somente após uma extensa reflexão sobre a importância - ou,
ao reverso, a ociosidade - da permanência da referida figura jurídica em nosso
universo normativo.
Oportuno aventar a hipótese de se erigirem novas figuras jurídicas destinadas
a proteção específica de certas categorias de pessoas cuja posição os coloca
em evidente necessidade de maior proteção. Um passo importante já foi dado
pelo legislador na instituição do bem de família, e da proteção ao único bem
imóvel da família previstos, respectivamente em lei.
O que era impensável ao tempo da feitura do vetusto Código - um bem que não
respondesse pelas dívidas contraídas pelo seu titular - hoje protege a
coletividade familiar para além dos interesses dos indivíduos participantes da
relação patrimonial de débito e crédito. Tudo isto sob a égide da tutela máxima
da pessoa humana em sua dignidade amplamente reconhecida pelo direito.
Seria o caso de se propor, por exemplo, uma espécie de instrumento análogo à
concordata da pessoa jurídica destinada a proteger a integridade patrimonial do
indivíduo e evitar que este desça a indigência por não conseguir pagar suas
dívidas acumuladas.
O próprio conceito de prodigalidade precisa de uma readaptação, adequando-
se aos tempos modernos. Não há como não reconhecer como pródigo aquele
que, ao invés de dissipar bens que não tem, acumula dívidas para muito além
do que a sua capacidade de honrá-las.
Os manuais, infelizmente, ainda repetem, com pouca variação, um conceito de
prodigalidade cuja aplicação é tão restrita que dá a impressão de que o Código
Civil fora elaborado para ser aplicado em algum paraíso liberal em que todos
ou a maioria possui bens suficientes para manter-se por eles, fato que, por
razões históricas, jamais existiu.
O acúmulo insuportável de dívidas, este sim é um fato mais do que corrente na
realidade do average man brasileiro, do bonus paterfamilias nacional, cuja
aplicabilidade imediata protegeria de imediato uma quantidade de pessoas
muito mais larga do que aquela atingida pela antiga noção de prodigalidade.

5. O direito civil, como instrumento implementador da construção da pólis


brasileira estribada na constelação valorativa expressa pelos princípios
constitucionais - notadamente a dignidade da pessoa humana - não deve ficar
de fora da reconstrução da realidade social por mero apego ao castelo civilista
descompassado da realidade social e axiológica.
Cada um de seus instrumentos de regulação de conduta das pessoas -
prodigalidade inclusa - não pode prescindir de uma harmonização com as
diretrizes que vem de cima, da fonte de legitimidade de toda a ordem jurídica,
cumprindo, no universo micro, o que tenciona efetivar no macro cada um dos
referidos princípios.
Ressuscitada, a figura do pródigo tem um potencial papel protetivo do indivíduo
e seus circundantes, notadamente daqueles que dele dependem para subsistir
dignamente. Reabilitada da fossilização jurídica, graças à constitucionalização
do direito civil, estaria apta a continuar a caminhada dos tempos em favor da
busca do justo no indivíduo e na sociedade.
As propostas de alargamento da legitimidade para requerer a sua interdição e a
reformulação da noção de prodigalidade para alcançar o devedor compulsivo
são claras evidências do potencial que o instituto tem para remir, no presente e
no futuro, a sua quase absoluta inoperância constatada no passado e no
presente.

Notas

01. ARISTÓTETES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001, p. 81.

02. cf. PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de Direito Privado.


Tomo I. 1. ed. São Paulo: Bookseller, 2000, p. 136.

03. BARROS MONTEIRO, Washington de. Curso de Direito Civil. Parte Geral. 28.
ed. São Paulo: Saraiva, 1989, p. 63.

04. CLÓVIS BEVILÁQUA, apud GAGLIANO, Pablo Stolze. Novo curso de direito
civil: parte geral. São Paulo: Saraiva, 2002, v. 1, p. 103

05. Embora essa pretensa objetividade do legislador esteja a elipsar a evidente dose de
discricionariedade do aplicador do direito ao estabelecer as pontes entre os elementos do
conceito, o fato concreto e a decisão judicial. Assim,

06. VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil - Parte Geral. 2.ed. São Paulo: Atlas,
2003, p.164.

07. PERLINGIERI, Pietro. Perfis do Direito Civil. Introdução ao Direito Civil


Constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, 2. ed. p. 32.

08. Sem nenhuma alusão específica a termos tecnicamente precisos e, portanto, bastante
limitados, tais como interesses transindividuais, difusos, coletivos, etc., para poderiam
podar a máxima extensão do termo.