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DOSSIÊ: CONSCIÊNCIAS DO MUNDO — CLAUDE LÉVI-STRAUSS 51

Claude Lévi-Strauss e
as anamorfoses do mito1

MARIZA WERNECK

Resumo Palavras-chave: mito; pensamento


mítico; transformações; anamorfoses; mi-
O artigo pretende demonstrar que, ao tológicas.
construir sua ciência, Claude Lévi-Strauss
afasta-se das categorias utilizadas pelos Abstract
estudos tradicionais do mito e cria singu-
lares ferramentas epistemológicas, sugeri- The article intends to demonstrate that,
das pela música, pelas ciências naturais, e when building her science, Claude Lévi-
pelas artes plásticas. Essas ferramentas, Strauss abandons the categories used by
que podemos denominar operadores estéti- the traditional studies of the myth and
cos, iluminam, de forma exemplar, o pro- creates singular epistemological tools,
cesso de dissolução que sofre a matéria suggested by the music, by the natural
mítica ao transformar-se no tempo e no es- science and by the plastic arts. These tools,
paço. Ao estabelecer essa nova forma de which we can denominate aesthetic
pensar o mito, que reconcilia a experiência operators, light up, in exemplary way, the
sensível com a inteligível, Lévi-Strauss pro- dissolution process that suffers the
põe a superação da permanente dicotomia mythical matter when transforming in the
entre saber arcaico e moderno, entre pen- time and in the space. When establishing
samento mágico e científico, entre magia e that new form of thinking, the myth, that
ciência. reconciles the sensitive experience with the
intelligible, Lévi-Strauss proposes to
overcome the permanent dichotomy
1. Este artigo faz parte, com algumas modifica-
ções, da tese de doutorado: Mito e experiência: ope- between knowing archaic and modern,
radores estéticos de Claude Lévi-Strauss, defendida between magical and scientific thought,
na PUC-SP em novembro de 2002. between magic and science.

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Key-words: myth; mythical thought; rece um interesse particular, na medi-


transformations; anamorphous; myth da em que inverte a perspectiva cons-
logics. truída pela ciência do mito — ou seja,
a de pensá-lo com as categorias do logos
— e põe-se a pensar como ele.
Aceitamos, pois, a qualificação de Com efeito, a ciência tradicional do
esteta, por acreditarmos que a última
mito costuma iniciar seus relatos a par-
finalidade das ciências humanas não é
constituir o homem, mas dissolvê-lo. tir da narração de um princípio organi-
zador, identificado no início dos tempos,
Essa declaração de Claude Lévi- ou seja, no próprio momento da eclosão
Strauss, inserida em uma famosa polê- do universo: ultrapassado o caos pri-
mica que travou com Jean-Paul Sartre, mordial, anterior a toda criação, inau-
põe em cena a controvertida concep- gura-se o cosmos. Esse princípio orga-
ção estruturalista do desaparecimento do nizador pode ser assimilado a um so-
sujeito e reafirma, mais uma vez, a vo- pro, a uma palavra, a um demiurgo.
cação profundamente anticartesiana de Harmonioso por excelência, o cos-
seu pensamento.2 mos, por tratar-se de obra divina, é
Tão retórica na aparência, essa fra- santificado em sua própria origem, e a
se vai ecoar de maneira profunda em partir daí — como assegura Mircea
sua obra e estender-se sobre todos os Eliade — tudo o que é perfeito, pleno,
campos para os quais dirigiu sua curio- harmonioso, ou seja, tudo o que é se-
sidade intelectual. Pode-se até mesmo melhante ao cosmos, passa a pertencer
dizer, sem medo de errar, que o que também à ordem do sagrado.
define a ciência de Lévi-Strauss como Identificada com a criação do mun-
um todo é essa imagem de dissolução, do, a cosmogonia passa a constituir-se
que impregna todos os seus objetos de num modelo exemplar — ou arquétipo
análise. Se a estrutura é permanente, — de todo tipo de criação.3 O apareci-
tudo o mais se desvanece e se trans- mento de um animal, de uma planta,
forma: homens, mitos, tempos, cidades, de uma instituição ou de qualquer si-
sistemas de parentescos. tuação nova, sempre se remetem, nos
Para examinar essa questão mais mitos, a esse modelo:
detidamente, a análise do mito que re-
Os mitos de origem prolongam e com-
alizou nos quatro volumes das Mitoló-
pletam o mito cosmogônico: eles con-
gicas, assim como em A via das máscaras,
tam como o mundo foi modificado,
A oleira ciumenta e História de Lince, ofe- enriquecido, ou empobrecido.4

2. Ver a respeito: LÉVI-STRAUSS, Claude. (1979),


“História e dialética”. In: O pensamento selvagem. 3. ELIADE, Mircea. (1972), Mito e realidade. Tra-
Tradução de Maria Celeste da Costa e Souza e dução de Pola Civelli. São Paulo, Perspectiva,
Almir de Oliveira Aguiar. São Paulo, Ed. Nacio- p. 25.
nal, pp. 280-306. 4. Ibid., p. 26.

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Aos mitos de origem — que fazem acreditar nela, um ser que segrega o
parte do patrimônio simbólico de to- mito e a magia, um ser possuído pelos
dos os povos — sucedem-se os que espíritos e pelos deuses, um ser que se
narram a aquisição das técnicas, da co- alimenta de ilusões e de quimeras, um
ser subjetivo cujas relações com o mun-
mida, fabricação de artefatos, até de-
do objetivo são sempre incertas, um ser
sembocarem nos mitos escatológicos, submetido ao erro, ao devaneio, um ser
que narram o final dos tempos. híbrico, que produz a desordem.6
À instauração da ordem seguem-
se necessariamente períodos de desor- Embora se pudesse buscar, indefi-
dem, que lhe são inerentes. Depois nidamente, na história do pensamen-
desses, em eterno retorno, anuncia-se to, relatos que opusessem ou combinas-
o advento de uma nova era. sem ordem e desordem, o que interessa
Se os mitos encenam a alternância aqui é ressaltar a exigência fundamen-
desses dois estados em suas narrati- tal de ordem que está na base de todo
vas, esses mesmos princípios podem ser pensamento, seja ele mítico ou racio-
identificados em outros registros, que nal, proposição largamente enfatizada
remontam aos primórdios da história por Lévi-Strauss em “A ciência do con-
humana. creto”.
Segundo Edgar Morin, a presença Mas, se essa exigência de ordem é
do desordenamento, ou híbris, pode ser fundante, seu outro pólo, a desordem,
detectada a partir da descoberta do também está presente na própria trans-
homo sapiens: “o reinado do sapiens cor- crição e organização dos relatos míti-
responde a uma maciça introdução da cos, fazendo com que se identifique ne-
desordem no mundo.5 les, a partir dessa perspectiva, dois gê-
Fundada sob os auspícios da or- neros “literários” distintos.
dem, a sociedade humana gera, fun- No primeiro deles, guiadas pelo
damentalmente, erro e desordem. Isso mesmo princípio ordenador presente
porque o ser que a constitui, esse nas cosmogonias, as narrativas míticas
sapiens-demens, dotado de som e fúria, é, configuram-se como um corpus homo-
na bela descrição de Morin, gêneo, encadeado de forma ordenada
e coerente, cuja maior expressão pode
um ser de afetividade imensa e instá- ser encontrada na obra de Mircea
vel, que sorri, ri, chora, um ser ansioso
Eliade.
e angustiado, um ser gozador, embria-
Tudo se passa como se os mitos se
gado, extático, violento, furioso, aman-
te, um ser invadido pelo imaginário, apresentassem aos seus coletores de-
um ser que conhece a morte e não pode vidamente organizados, expressando
uma totalidade indivisa. Não há evi-
5. MORIN, Edgar.(1979), O enigma do homem: para
dências de qualquer elemento desor-
uma nova antropologia. Tradução de Fernando de
Castro Ferro. Rio de Janeiro, Zahar Editores, p.
115. 6. Ibid., p. 116.

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denado ou fragmentário, nem nos mi- mo com que se defrontaram os organi-


tos, nem em sua forma de exposição. zadores da vulgata bíblica, que traba-
Embora esse tipo de narrativa seja lharam sobre um material extremamen-
o mais freqüente, encontram-se ainda te heterogêneo e fragmentado.
conjuntos de mitos narrados sob a for- O que o interessa, evidentemente,
ma de fragmentos, que mais se asse- não é determinar a anterioridade ou
melham a retalhos, em que não predo- posteridade de determinada variante
minam nem a lógica, nem a coerência de mito sobre outra, pois já aprendera
narrativa. com Marcel Mauss a não buscar jamais
Ilustrando cada um desses mode- a versão original de um mito, posto que
los com recensões de mitos de origem ela não existe.8
canadense, Lévi-Strauss denomina, pa- Longe de ser original, esse proble-
ra efeito metodológico, o primeiro cor- ma é recolocado cada vez que se trata
pus (o unitário) de clássico, e o segundo de estabelecer as bases metodológicas
(o fragmentário) de barroco, e identifi- de apreensão de um texto pertencente
ca, nessas duas formas de narrativa, originalmente à tradição oral. A maior
uma questão particularmente relevan- intervenção de Lévi-Strauss nesse ter-
te para o mitólogo.7 reno foi, certamente, a polêmica que
Com efeito, indaga-se ele, seria travou com Vladimir Propp a respeito
oportuno considerar o conjunto deses- da composição do conto maravilhoso.
truturado como uma forma arcaica do Ao abordá-lo, inscreve-se numa ampla
mito, que tenha sido posteriormente linhagem de estudiosos que inclui, en-
organizada por sábios e filósofos nati- tre outros, folcloristas, lingüistas, hele-
vos daquela sociedade ou, ao contrá- nistas e medievalistas.9
rio, essa forma fragmentada já seria o Para citar apenas um exemplo, co-
resultado de um longo processo de de- lhido na fonte inexaurível da mitolo-
terioração e desorganização sofrido gia grega: Jean-Pierre Vernant identi-
pela matéria mítica, originalmente fica a mesma questão nos estudos so-
coerente e ordenada? bre a obra de Hesíodo.
Da mesma forma, as formas frag- Como se sabe, foram Homero e
mentárias da epopéia teriam sido seu Hesíodo que estabeleceram o repertó-
ponto de partida ou sua expressão de- rio canônico das narrativas míticas, o
gradada? Lévi-Strauss indaga-se ain- que equivale a dizer que, ainda que
da se esse problema não seria o mes-
8. Ver a respeito: MAUSS, Marcel. (1992), Manuel
7. LÉVI-STRAUSS, Claude. (1984), “Ordre et d’ethnographie. Paris, Payot, p. 252. Ver também:
desordre dans la tradition orale”. In: Paroles LÉVI-STRAUSS, Claude. (1958), “La structure
données. Paris, Plon, p. 150 e ss.; ed. bras., p. 149 e des mythes” In: Anthropologie structurale. Paris,
ss. Ver também: idem. (1981), “Quando o mito se Plon, p. 240; ed. bras., p. 250.
torna história”. In: Mito e significado. Tradução de 9. Ver a respeito: DETIENNE, Marcel (org.). (1994),
Antônio Marques Bessa. Lisboa, Edições 70, pp. Transcrire les mythologies: tradition, écriture, historicité.
55-64. Paris, Albin Michel.

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seus relatos prolonguem a tradição preciso, em primeiro lugar, que se saia


oral, eles já nos chegaram sob forma dele.
literária. São discerníveis, em suas Tentando superar esse impasse,
obras, a distinção de estilos, a utiliza- Lévi-Strauss, cujo interesse pela mito-
ção de determinados recursos formais logia grega foi apenas pontual, vai criar
e intenções estéticas diferenciadas em um método em tudo oposto às aborda-
cada um dos autores.10 gens canônicas que o antecederam.
No que diz respeito a Hesíodo, e Seu ponto de partida, tantas vezes
mais especificamente à Teogonia, predo- anunciado, é a certeza de que, “na ci-
minou, por muito tempo, uma leitura vilização mecânica não há mais lugar
de seus textos que ressaltava o caráter para o tempo mítico senão no próprio
compósito da obra, as incoerências e homem”, e que “todo mito é uma bus-
aderências inseridas em diferentes épo- ca do tempo perdido”.13
cas, às vezes incompatíveis entre si. Pensador selvagem em um mundo
Estudos posteriores revelaram, no desencantado, faz com que se realize,
entanto, a existência de uma arquite- em si mesmo, a grande aventura mítica:
tura interna do texto que em nada fica durante duas décadas, deixa-se pene-
a dever a um sistema filosófico perfei- trar pelos mitos, embriaga-se deles,
tamente construído. Essa perspectiva permitindo que pensem entre si, à sua
transforma Hesíodo no primeiro pen- revelia. Diz ele:
sador do logos, pois propõe, segundo
Vernant, “uma visão geral e ordenada Durante vinte anos, acordando ao
do universo divino e humano”.11 nascer do dia, embriagado de mitos,
Embora celebre a coerência e a su- realmente vivi em um outro mundo.
tileza do “sistema filosófico” de He- Os mitos impregnavam-me. É preciso
absorver muito mais deles do que se
síodo, Vernant acredita que nem por
utiliza!14
isso sua obra deixa de estar em perfei-
ta sintonia com a linguagem e a forma
E ainda:
de pensar do mito.12
Nessa última afirmação encontra- É preciso incubar o mito durante al-
se, ao meu ver, uma questão quase in- guns dias, semanas, às vezes meses,
transponível — porque contraditória até que, de repente, a centelha brote e
— dos estudos sobre mitos: para aden- que, em determinado detalhe inexpli-
trar plenamente o universo mítico é cável de um mito, se reconheça, modi-
ficado, determinado detalhe de um ou-

10. VERNANT, Jean-Pierre. (1992), “Razões do


mito” In: Mito e sociedade na Grécia antiga. Tradu- 13. LÉVI-STRAUSS, Claude. (1973), “L’efficacité
ção de Myriam Campello. Rio de Janeiro, José symbolique”, In: Anthropologie structurale deux.
Olympio. Paris, Plon, pp. 225-226; ed. bras., p. 236.
11. Ibid., pp. 182-183. 14. Idem. (1988), De près et de loin. Paris, Odile
12. Ibid., p. 184. Jacob, p. 185; ed. bras., p. 170.

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tro mito, e que se possa, por esse ângu- minha. Minha terra domina a antiga,
lo, reduzi-lo à unidade. Tomado por si que é sugada pela minha. Então a gen-
só, cada detalhe não é obrigado a sig- te vai estar sobre uma nova terra. Ago-
nificar algo, porque é no seu relacio- ra o planeta está feito; está sólido; pode-
namento diferencial que reside sua se andar nele.16
inteligibilidade.15
Sem temer a aproximação com a
Para deixar-se impregnar pela ma- loucura, inerente a tal experiência, Lévi-
téria mítica sem contaminá-la, deixar- Strauss vê nela a via de acesso mais
se atravessar por ela, transformando direta — e talvez a única possível — à
seu corpo e sua mente em simples re- terra do mito. Fundindo-se a ele, põe-
ceptáculo, é preciso colocar em prática se a pensar como ele.
o exercício da rêverie, aprendida com Ao permitir que os mitos o atraves-
Rousseau, e que consiste, fundamen- sem, tenta captá-los em seu movimen-
talmente, na dupla experiência da fu- to, não importando a forma sob a qual
são cósmica e da dissolução de si. eles se apresentam: estilhaçados, frag-
Estado próximo do êxtase místico e mentados ou versões mais acabadas,
do gozo estético, essa experiência é que jamais serão definitivas: o universo
também conhecida pelos loucos, por mítico está sempre em permanente
aqueles que, sofrendo de uma profun- mutação. A sua estrutura básica permane-
da alteração de consciência, são leva- ce, mas o conteúdo da célula já não é o mes-
dos a abolir sua história pessoal — a mo, e pode variar. Do mesmo modo,
fazer o exorcismo de si — e a repetir de quando um elemento se transforma, os
maneira delirante o ato cosmogônico, outros se adaptam à mudança sofrida
ou seja, a reestruturação do mundo. pelo primeiro e, por sua vez, também
Criando às vezes seres imaginários, se modificam.17
e se recriando por meio deles, o doen- Vale lembrar aqui, mais uma vez, a
te se converte no próprio criador do metáfora do caleidoscópio, da qual
universo. Como demonstra Claude Ka- Lévi-Strauss se serve para dar maior
ppler, na transcrição do relato de um visibilidade à sua concepção de pensa-
doente, essa reformulação do cosmos mento selvagem: basta um movimento
é, sem sombra de dúvida, de natureza sutil para que a rosácea formada pelos
mítica: pequenos cacos de vidro colorido se
desfaça e dê origem a uma nova confi-
Posso fazer a terra inteira passar em guração. Essa metáfora feliz sugere a
mim, o tempo todo, porque não há fim.
Limpo a matéria fazendo-a passar por
dentro do meu corpo. Essa matéria tem 16. Cf. KAPPLER, Claude. (1994), Monstros, de-
forma porque eu lhe dei uma forma. mônios e encantamentos do fim da Idade Média. Tra-
Pergunto-me se toda a matéria não é a dução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo,
Martins Fontes, p. 408.
17. LÉVI-STRAUSS, Claude; Mito e significado, op.
15. Ibid., p. 186; ed. bras., p. 171. cit., p. 60.

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mesma idéia presente em uma frase de da de uma transformação cujo estudo


Franz Boas, utilizada como epígrafe em não compete às ciências sociais, mas à
“A estrutura dos mitos”: biologia e à psicologia, efetuou-se uma
passagem de um estágio em que nada
tinha, a um outro em que tudo tinha
Dir-se-ia que os universos mitológicos
sentido.19
são destinados a ser pulverizados mal
acabam de se formar, para que novos
universos nasçam de seus fragmen- No entanto, do fato de o universo
tos.18 ter-se tornado, de um só golpe, signifi-
cativo, não se depreende que o homem
Optando definitivamente por apre- tenha alcançado uma imediata inteligi-
ender o mito em sua cintilância efê- bilidade dele: “o universo significou
mera, fragmentária e cambiante, o que muito antes de que se começasse a sa-
também fica evidente na forma de ber o que ele significava”.
transcrevê-lo em sua análise, nem por Em seu esforço para compreender
isso Lévi-Strauss deixa de construir o mundo, a humanidade dispõe de um
uma obra de pretensão cosmogônica. excesso de significantes em relação aos
A cosmogonia levistraussiana não significados aos quais pode aplicá-los.
se inicia com a tradicional separação da Daí decorre que todo processo de co-
luz e das trevas, mas com um fenôme- nhecimento, seja de natureza mágica ou
no de outra ordem: a emergência da científica, consiste em tentar reparar
linguagem, expressão mais alta de ma- essa inadequação:
nifestação do espírito humano, que
permitiu ao universo ganhar significa- O que se chama de o progresso do es-
do como um todo. O que, de qualquer pírito humano e, de qualquer maneira,
forma, não deixa de reproduzir um o progresso do conhecimento científi-
co, só pode e só poderá sempre consis-
princípio inaugural por excelência: no
tir em retificar fendas, proceder a
início era o Verbo. reagrupamentos, definir pertinências
No texto que serve de introdução e descobrir recurso novos, no seio de
à obra de Marcel Mauss, define com uma totalidade fechada e complemen-
precisão os pressupostos desse momen- tar de si mesma.20
to fundante:
Embora tenha recorrido à lingua-
Quaisquer que tenham sido o momen- gem utilizada pela ciência contempo-
to e as circunstâncias de seu apareci- rânea, mais particularmente à lingüís-
mento na escala da vida animal, a lin- tica para elaborar a narração de seu
guagem só pode ter nascido de uma
vez. As coisas não puderam passar a
significar progressivamente. Em segui- 19. Idem. (1974), “Introdução à obra de Marcel
Mauss”. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e antropo-
logia. Tradução de Mauro de Almeida. São Paulo,
18. Idem, “La structure des mythes”, op. cit., p. EPU/Edusp, vol. II, pp. 32-33.
227; ed. bras., p. 237. 20. Ibid., p. 33

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Gênesis, a cosmovisão levistraussiana cador que está na base de toda criação


aproxima-se da antiga linguagem da de mundo.
doutrina das correspondências. O pro- A ordem do universo obedece à
cesso de conhecimento só se realiza mesma lógica do pensamento. Por isso
plenamente quando se decifram as “as- não deixa escapar nenhum ser ou obje-
sinaturas” escondidas na natureza por to e assegura-lhe um lugar próprio den-
um deus criador de enigmas. Nesse tro do sistema da criação, dispondo-o
momento epifânico, próximo de um em classes, espécies e gêneros. A cada
milagre, significante e significado se coisa encontrada dirige um encanta-
reúnem e revelam um mundo pleno de mento especial e, ao entrelaçar inven-
sentido. tários científicos, artísticos ou mágicos,
Para ordenar seu mundo mítico, o bricoleur extrai de tudo isso uma ex-
Lévi-Strauss vai buscar, no fundo de periência estética surpreendente, à qual
sua infância, um personagem mágico é levado pelo acaso de combinações
que, não por acaso, confunde-se com inusitadas.
a imagem paterna. O pensamento sel- Sensível à forma fragmentária do
vagem, diz ele, é semelhante a um mito, juntando cacos e ruínas de sua
bricoleur, demiurgo de um mundo onde matéria essencial, o bricoleur Lévi-
tudo são cacos e ruínas, exigindo que Strauss inicia sua narrativa a partir de
sejam reordenadas e classificadas. Não um ponto qualquer, um mito de referên-
se trata de um deus que cria o mundo cia, ao qual dá o nome de “o desani-
a partir do nada. Ele apenas o organi- nhador de pássaros”.21
za, trabalhando sobre uma matéria Ponto de partida, mas também pon-
preexistente. to de chegada, esse mito serve-lhe de
Diferentemente do demiurgo gre- fio condutor e, por meio de ampliações
go, que cria o mundo sensível a partir progressivas de seu campo de ação, que
da Idéia, o demiurgo levistraussiano denomina “contaminações semânticas”,
opera no sentido exatamente contrá- percorre o universo mítico como um
rio: reintegra, no mundo das idéias em todo. Identificado nas Mitológicas como
que se encastelaram as ciências huma- M1, foi inicialmente localizado por
nas, a experiência sensível. O mito, vi- Lévi-Strauss em um canto bororo co-
vido como experiência íntima, não tem nhecido por xogobeu, pertencente ao clã
necessariamente sentido, mas tem som, paiowe.
cheiro, cor, sabor. E pele. Conta a história de um incesto co-
Prosseguindo sua tarefa, o bricoleur metido por um jovem índio com sua
ordena o mundo sensível, elabora in- mãe. Ao descobrir a transgressão, o pai
ventários o mais completos possível, decide vingar-se e obriga o filho a rea-
interroga-os, e extrai desse exercício um lizar três missões impossíveis no “ni-
conhecimento desinteressado. Classi-
fica plantas e bichos, obedecendo ao 21. Ver: ibid. (1964), Le cru et le cuit. Paris, Plon,
mesmo princípio ordenador e classifi- pp. 43-45; ed. bras., pp. 41-43.

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nho das almas”. Com a ajuda de uma cas, Lévi-Strauss acompanha o desdo-
avó feiticeira, que coloca a serviço de bramento do tema e suas múltiplas va-
seu protegido os poderes do colibri, riações. O mito se alarga, distende-se,
do juriti e do gafanhoto, o jovem con- deforma-se, concentra-se, exaure-se.
segue realizar com sucesso as exigên- Por ele é possível depreender, en-
cias paternas. tre outras coisas, a toponímia da aldeia
Frustrado em sua vingança, o pai bororo, a origem da chuva, do frio, do
convida-o, então, a acompanhá-lo na vento e das plantas aquáticas. E ainda a
captura de filhotes de arara cujos ni- ligação, simbólica ou real, entre a imposi-
nhos se encontram nas encostas dos ção do uso do estojo peniano e a regu-
rochedos. Munido de um bastão mági- lamentação das relações entre os sexos.
co — presente da avó —, o desaninha- A partir desse mito referencial, mas
dor de pássaros consegue livrar-se de não fundador, é que surgem todos os
todos os perigos, metamorfoseando-se outros. Ao introduzi-lo, Lévi-Strauss
sucessivamente em lagartixa, em qua- denomina-o “ária do desaninhador de
tro tipos diferenciados de pássaros e mitos”. Peça musical composta para
em borboleta. uma única voz, essa ária vai, progres-
Depois de muitas aventuras, re- sivamente, ampliando-se e modifican-
gressa são e salvo à sua aldeia, onde é do-se. Cumprindo a função, na cena
recebido pelo pai com o canto de sau- mítica, de um leitmotif, ressurge, em
dação dos viajantes que retornam, como eterno retorno, a cada vez que sua pre-
se nada tivesse acontecido. sença é invocada, e se refaz, por mais
Disposto a não conceder o perdão que sua matéria mítica tenha sofrido
nem ao pai, nem aos companheiros que sucessivas transformações.
o maltrataram, o herói leva a avó para Essas possibilidades de exploração
um país longínquo e belo, e volta para do mito, em Lévi-Strauss, que tomam
realizar sua vingança. por vezes, configuração musical, podem
Em uma caçada, fazendo-se passar também ser identificadas tanto na his-
por um veado, utiliza-se de falsos chi- tória da pintura, quanto na obra botâ-
fres e investe contra o pai, perfuran- nica de Goethe ou na do zoólogo esco-
do-o e jogando-o em um lago, onde é cês D’Arcy Thompson sob o nome de
devorado por peixes canibais. Somen- anamorfoses.
te os pulmões da vítima são poupados, Tratam-se de distorções de pers-
e afloram à tona d’água, sob a forma pectiva que, embora tenham sua ori-
de plantas aquáticas. gem na Renascença, com Dürer e
Mata ainda todas as esposas do pai, Holbeim, foram reapropriadas pelos
inclusive a própria mãe, e, por fim, en- surrealistas, por Jacques Lacan na psi-
via para sua aldeia o vento, o frio e a canálise e por Jean Cocteau, entre ou-
chuva. tros artistas contemporâneos.
A história não termina aqui. Ao lon- Segundo Jurgis Baltrusaitis, histo-
go dos quatro volumes das Mitológi- riador da arte que dedicou um livro

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ao tema, o jogo de perspectiva conhe- tos, ao pesquisar seus sistemas de va-


cido pelo nome de anamorfose consis- riações. Como explica em “Como mor-
te em deformar a imagem, até o seu rem os mitos”, estes podem sofrer de-
desaparecimento, mas de maneira tal formações até perder a nitidez, mas
que ela se redireciona, quando obser- conservam, de alguma forma, sua subs-
vada de um ponto de vista determina- tância mítica, já que as deformações so-
do. Não se trata de uma deformação fridas não são aleatórias, mas causa-
pura e simples, mas de uma aplicação das pela aplicação particular de suas leis
particular e rigorosa das leis da pers- próprias:
pectiva.22
Para Baltrusaitis, essa forma de co- Estas transformações, que se operam
nhecimento deriva de um mecanismo de uma variante à outra de um mesmo
do espírito tanto racional quanto poé- mito, de um mito a outro mito, de uma
tico. Se nasce de uma “ilusão das formas”, sociedade a uma outra sociedade com
referência aos mesmos mitos, ou a mi-
nem por isso deixa de ser uma das fa-
tos diferentes, afetam ora a armadura,
ces da realidade da história humana, e ora o código, ora a mensagem do mito,
as ciências exatas seriam incompletas mas sem que este deixe de existir como
se não a levasse em conta. tal; elas respeitam assim uma espécie
Ao mesmo tempo, afirma Baltru- de princípio de conservação da maté-
saitis, a experiência das anamorfoses ria mítica, em função da qual qualquer
atinge dimensões cosmogônicas, na mito sempre poderá sair de um outro
medida em que evoca uma fantasma- mito.23
goria universal e dramática. São “aber-
rações” nos dois sentidos do termo: Tudo se passa como se o mito ti-
sugerem um extravio, uma desordem vesse sido submetido ao reflexo de um
da razão, e, ao mesmo tempo, um fe- espelho deformante. Para ilustrar essa
nômeno ótico, que tem por efeito fa- idéia, Lévi-Strauss chega a “construir”
zer ver os corpos celestes em um lugar uma câmara de espelhos, uma espécie
e em uma direção onde eles não se en- de aparelho óptico, através do qual
contram verdadeiramente. Elas corres- observa o mito:
pondem ao mundo das aparências, e
possuem inegável faculdade de trans- As coisas se passam como em óptica.
Uma imagem é percebida exatamente
figuração.
através de uma abertura adequada.
Sem jamais usar o termo anamor-
Mas, se esta se estreita, a imagem tor-
fose — que, em grego, significa trans- na-se confusa e de difícil percepção.
formação —, Lévi-Strauss apropria-se Quando a abertura se reduz a um pon-
de seus princípios e aplica-os aos mi-

23. LÉVI-STRAUSS, Claude, “Comme meurent


22. BALTRUSAITIS, Jurgis. (1984), Anamorphoses les mythes”, Anthropologie structurae deux, op. cit.,
— les perspectives dépravées. Flammarion, Paris. p. 301; ed. bras., p. 261.

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to, entretanto, isto é, quando a comu- na música wagneriana, sob a forma do


nicação tende a desaparecer, a imagem cromatismo, e na fusão cósmica, de
se inverte e retoma sua nitidez.24 Jean-Jacques Rousseau. Ainda que se
utilize de operadores diversos, o au-
A experiência, prossegue Lévi- tor das Mitológicas persegue sempre o
Strauss, é utilizada em escolas para mesmo princípio que, segundo ele, rege
demonstrar que os raios luminosos não a estrutura do espírito humano.
se propagam de qualquer forma, mas Mais do que buscar exemplos ao
conforme os limites de um campo longo da tetralogia, que poderiam lo-
estruturado. Assim, calizar, de forma precisa, o uso do pro-
cedimento, pode-se sugerir que as Mi-
se esta experiência [a da análise de um tológicas constituem a imensa anamor-
mito] puder contribuir à demonstração
fose de um mito único, projetado por
de que o campo do pensamento mítico
é também fortemente estruturado, ela Lévi-Strauss em todo o continente ame-
terá alcançado seu objetivo.25 ricano; em cada variante do mito sua
imagem se amplia, esgarça-se, exaure-
Se Lévi-Strauss não utiliza o termo se, inverte-se, transforma-se.
anamorfose propriamente dito — pre- A aplicação metodológica desse re-
ferindo, em vez dele, falar em sistema curso demonstra, mais uma vez, a cu-
de transformações, ilustra-o de forma riosa aptidão de Lévi-Strauss de pen-
particularmente clara. Em L’homme nu sar por imagens, o que o torna herdei-
reproduz, como ilustração de seu mé- ro de uma longa tradição, presente não
todo, uma série de anamorfoses de só na teoria da narrativa, como na his-
peixes, retiradas do livro de D’Arcy tória do pensamento como um todo.
Thompson, Forme et croissance. Reafir- Uma das mais antigas referências
ma-o, ainda, por meio de uma das edi- francesas encontra-se no tratado do je-
ções francesas de De perto e de longe, cuja suíta Pierre Le Moyne, de 1640, intitu-
capa exibe a anamorfose cilíndrica lado Peintures morales, où les passions
“América”, de E. Beck, quadro que se sont represéntées par tableaux, par
encontra no Museu de Artes Decorati- caractères, et par questions nouvelles et
vas de Paris. curieuses. Essa obra, mais de oitocen-
Essa perspectiva anamorfótica é tas páginas dispostas em três volumes,
importante de ser detectada em seu vai reorientar de forma significativa os
pensamento porque, plasticamente, princípios epistemológicos até então vi-
coloca o mito em movimento, até sua gentes, na medida em que, ao introdu-
quase dissolução, idéia que, anterior- zir na reflexão a dimensão pictural, re-
mente, Lévi-Strauss já havia buscado duz a ênfase na linguagem e ressalta
seus aspectos figurais.26
24. Idem; “La geste d’ Asdiwal”, Anthropologie
structurae deux, op. cit., p. 223; ed. bras., p. 195. 26. Ver: REISS, Timothy J. (1993), De la littérature
25. Ibid.; ed. bras., p. 196. française. Paris, Bordas.

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Jean-François Lyotard denomina ta enigmática esteve em grande voga


esse tipo de escritura texto-figural, ou na França, no final do século XIX e iní-
seja, um texto que se dá a ver, que é cio do XX — o almanaque Hachette che-
construído, antes de mais nada, para gou a publicar a versão de um folhe-
ser visível. Tomando o partido do ima- tim, Rouletabille, escrito inteiramente
gético, Lyotard demonstra que todo sob a forma de rebus. Para Lyotard, esse
discurso é habitado em seu subsolo por fascínio do grande público por um tipo
uma forma, uma imagem, que age so- de linguagem que encerra um conteú-
bre a superfície do texto e acrescenta à do cifrado é da mesma ordem do que
sua significação e racionalidade caracte- guiou Mallarmé, Freud e Cézanne em
rísticas próprias da expressão e do afe- suas pesquisas de vanguarda.31
to.27 A esses nomes se poderia acrescen-
A proximidade com a figura que tar, certamente, o de Lévi-Strauss, que
um texto imagé estabelece pode ser ob- sempre demonstrou interesse por todo
tida não só pela força plástica de uma discurso que reúne, ao mesmo tempo
palavra, mas também pela força rítmi- e no mesmo lugar, uma imagem e um
ca da sintaxe e da própria matriz da enigma. Não por acaso, na rica ico-
narrativa.28 nografia de seu pensamento, o rebus,
Mas é o rebus, forma alegórica de igualmente identificado com o mito,
adivinhação composta de uma seqüên- também ocupa espaço privilegiado.
cia de desenhos e letras — e que lite- Para ele,
ralmente significa com coisas —, que me-
lhor ilustra, segundo Lyotard, a arti- (...) a curiosidade em relação aos mitos
culação da figura com o discurso, pois nasce de um sentimento muito profun-
ele opera a partir de uma subversão do cuja natureza somos, atualmente,
dos espaços próprios da imagem e da incapazes de penetrar. O que é um ob-
jeto belo? Em que consiste a emoção
linguagem. Dito de outro modo, o rebus
estética? Quem sabe é isso que, em úl-
significaria uma intervenção plástica no tima instância, por meio dos mitos, con-
espaço lingüístico.29 fusamente, buscamos compreender.32
A tradição do rebus está ligada ao
hieróglifo egípcio, que opera analo- Pensar os mitos como objetos, como
gicamente, por meio de imagens de coisas e, como tal, internalizá-los. Nis-
coisas.30 so reside, em suma, a experiência plás-
De grande efeito lúdico, essa escri- tica de Lévi-Strauss. Sua escrita imagé-
tica, seu texto figural, que se projeta,
27. LYOTARD, Jean-François. (1985), Discours,
figure. Paris, Éditions Klincksieck, p. 15.
28. Ibid. p. 249. 31. LYOTARD, Jean-François. op. cit., p. 296.
29. Ibid. pp. 295-296. 32. BELLOUR, Raymond. (1976), “Entrevista a
30. Ver a respeito: HANSEN, João Adolfo. (1987), Claude Lévi-Strauss”. In: Elogio de la Antropolo-
Alegoria, construção e interpretação da metáfora. São gia. Tradução paro o espanhol de Carlos Rafael
Paulo, Atual Editora, p. 102. Giordano. Buenos Aires, Ediciones Calden, p. 107.

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seja em “quadros narrados” em Tristes


trópicos — retratos e paisagens — ou
nas colagens e anamorfoses das Mito-
lógicas, lembra, em alguma medida, a
escrita alegórica do barroco. Não em
sua forma, certamente, mas em seu es-
pírito, no sentido que lhe é atribuído
por Walter Benjamin: a alegoria pen-
sada como uma violação de fronteiras,
“uma intromissão das artes plásticas na
esfera de representação das artes da
palavra”.33

Recebido em 8/10/2002
Aprovado em 30/10/2002

33. BENJAMIN,Walter. (1984), Origem do drama


barroco alemão. Tradução de Sergio Paulo Rouanet.
São Paulo, Brasiliense, p. 199.

Mariza Werneck, professora do Departamento


de Antropologia da PUC-SP.
E-mail: mmfw@uol.com.br

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