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O ADOLESCENTE E O TEATRO

Bernardo Jablonski

Embora a tentação seja forte, prometo não me estender muito em considerações


sobre o ser-ou-não-ser dos adolescentes e partir logo para a análise do tema que me coube,
e que, conforme puderam ver pelo título, refere-se à prática do teatro por essa gente
estranha e mal-educada, conhecida pela alcunha de “adolescentes”.
Ao que consta, nem sempre foram entendidos como tal: seriam frutos de nossa
sociedade urbana e industrializada. Tanto assim que, em várias sociedades do mundo, não
existe claramente um período do desenvolvimento humano que tenha merecido
especificamente o rótulo de adolescência. Mas, como já prometi, vamos supor que o leitor,
através da leitura dos outros capítulos e por experiência própria, já saiba o que é e para que
serve um adolescente (e nem esteja mais tão revoltado com isso). E partindo dessa
premissa, passemos ao exame das contribuições que o teatro tem a oferecer.
Desde logo, gostaria de enfatizar que vou me ater à questão de fazer teatro, e não a
de assistir teatro. Não que sejam mutuamente exclusivos – não são, é claro. Mas o teatro
como agente de transformação eficaz é aquele vivido, sentido, cheirado e praticado. Seja
por atividades dramáticas espontâneas, jogos dramáticos, laboratórios e exercícios que
culminem – ou não – em apresentações públicas, é o teatro exercitado que se torna um
instrumento capaz de operar mudanças. É convicção nossa que as escolas oficiais, públicas
ou particulares deveriam incluir em seus currículos a “disciplina” jogos dramáticos, pelos
motivos que vamos expor em seguida. E não só para adolescentes, bem entendido. Tais
atividades poderiam iniciar-se bem antes. E quais as vantagens dessa inclusão curricular?
Antes de enumera-las, caberia explicar porque estamos deixando de lado a questão
de se assistir teatro. Em primeiro lugar, embora possa parecer contraditório, o adolescente
que passa a fazer teatro é o que começa sistematicamente a freqüentar teatro. E as idas não
sistemáticas do mero assistidor, per se, não são capazes de provocar – salvo raras exceções
– um impacto substancial, a ponto de causar mudanças. Como sabiamente escreveu John
O’Toole: “Vários anos de relacionamento com os pais em casa e com outras crianças nos
playsgrounds escolares têm uma influência insuperavelmente superior a uma exposição à
peça “A Tempestade”, de Shakespeare. ((Curiosamente, pudemos observar em 1982 uma
bela montagem dessa peça entre nós, dirigida por Paulo Reis e encenada no Parque Lage.
Na platéia, até que havia sempre um bom número de adolescentes, mas não em proporção
ao sucesso alcançado – de público e de crítica).
Aliás, mesmo que nossos adolescentes fossem tomados repentinamente por um
ataque furioso de amor pelo Teatro, não teriam muito o que ver. Não há peças destinadas
especificamente a esse tipo de público: velhos demais para assistirem peças infantis, pouco
encantados pelas peças adultas. Essa falta de opção indica bem o que é essa terra-de-
ninguém chamada de adolescência, afastada do ontem infantil, e desdenhosa e supicaz do
amanhã adulto. Nesse ponto, o teatro simplesmente imita tudo o mais (2).
Mas, uma peça, ainda em 1982, conseguiu fazer um grande sucesso entre os
adolescentes. Dirigida por Carlos Wilson Silveira, que além de ator, possui vasta
experiência no ensino do segundo grau, a obra “Capitães de Areia” lotou os teatros por
onde andou com essa platéia normalmente ausente dos palcos e platéias cariocas. O que
levou a isso? O Jornal do Brasil resumia a peça (adaptada do romance do mesmo nome de
Jorge Amado) na sua seção de teatro da seguinte forma:

“Um grupo de jovens abandonados sobrevive às custas de expedientes e


malandragens. Apesar das dificuldades eles encontravam prazer e alegria na solidariedade”.
O então crítico do referido jornal, Yan Michalsky, perguntava na época: “O que há
de comum entre a revolucionária denúncia de Jorge Amado e a classe média da zona sul?”
Ele mesmo propunha como resposta o fato da peça ser representada apenas por
adolescentes, o que resultava em uma espécie de comunhão de identidades entre palco e
platéia.
É difícil explicar satisfatória e conclusivamente por que uma peça faz tanto sucesso.
As explanações ex pos facto não mascaram a evidência de que não sabemos a receita certa .
Se soubéssemos, jamais haveria fracassos.
Mas no caso em questão, não há como negar que – à parte as qualidades artísticas da
montagem – a colocação do crítico do Jornal do Brasil nos parece certeira. Os trinta e
poucos adolescentes no palco serviram de forte chamariz, eles mesmos encarnando uma
possibilidade real de saída, de materialização de sonhos esparsos e dificilmente canalizáveis
por outras vias, por sinal nem sempre natureza muito altruísta ou “nobre”, como por
exemplo, um sucesso fácil na televisão, o culto narcísico, etc. Já a leitura da sinopse que
expomos acima retrata com fidelidade a saga dos menores abandonados da Bahia, mas
também, ainda que em outro nível, a crise de identidade, a falta de perspectivas, a visão de
companheirismo e o sentimento de opressão que marcam a nossa adolescência urbana,
freqüentadora de outras areias.
Em conseqüência, ao longo do ano de 82, muitos adolescentes procuraram as
escolas de teatro, no rastro dos bem-sucedidos – ao menos no palco – capitães de areia.
Mas vamos examinar agora o que o ensino de teatro pode oferecer (para quem não
ia falar sobre assistir teatro, até que nos estendemos um bocado). E sabemos, também, que
deixamos de mencionar outras peças e “ciclos” – Teatro Ipanema, grupo Asdrúbal, A Dama
do Camarote – que levaram em seu bojo grandes contingentes de adolescentes, mas sempre
a reboque de um sucesso de público como um todo.
Duas perspectivas levantam-se a priori. Teatro como terapia e teatro como
prevenção, como educação. Comecemos pelo teatro-terapia, passando em seguida aos
aspectos educativos, que é o que se nos afigura como mais promissor e mais significativo,
na medida em que toda prevenção é desejável e superior à “remediação”.
Inúmeras abordagens psicoterápicas têm-se valido do teatro como instrumento de
cura. Às vezes um instrumento importante, outras vezes, secundário. O exemplo mais
famoso dessa utilização talvez seja o do psicodrama, ou o teatro da espontaneidade, criado
por J.L. Moreno no início do século, em Viena. Como o espaço aqui é precioso, não vamos
resumir ou explanar o que venha a ser o psicodrama. Vários livros já traduzidos para o
português podem faze-lo de forma mais adequada ou apurada. Basta dizer aqui que sua
base está na liberação de sentimentos recalcados ou inibidos, seguidos de uma tomada de
consciência dos mesmos, e ainda o uso de improvisações onde o paciente encena certas
situações em um espaço similar a um palco.
Mas nem só de psicodrama vive o casamento teatro & psicologia. Outras terapias,
como a dos construtos pessoais de G.A. Kelly, o treinamento assertivo de Salter e Wolpe, a
Expressão Cênica de E. Dars, o movimento do Teatro Terapêutico, e até, eventualmente, a
própria psicanálise, fazem o mesmo. Há também algumas técnicas behavioristas que
reconhecem na extinção das respostas condicionadas emocionais a importância da
ventilação emocional (como chamam a catarse). Esta teria um certo papel benéfico, embora
ainda não comprovado de todo.
Se por acaso nos esquecemos de citar algum outro enfoque psicoterápico que utilize
o teatro, pedimos perdão. Mas o número de modismos terapêuticos que assola o mundo psi
torna nossa tarefa um pouco complicada. De qualquer modo, todos os enfoques
supracitados atestam, a nosso ver, a importância do teatro como fator curativo, embora não
esteja muito claro como isso se dá. A questão da catarse (do grego, purificação ou
purgação) por exemplo, que sempre figurou como uma espécie de pilar dessas terapias,
encontra-se hoje sob certa suspeição. Qual o seu peso real: principal variável ou mero
epifenômeno? As melhorias sintomáticas obtidas nos tratamentos que a utilizam devem-se
apenas à lembrança de conteúdos reprimidos e à concomitante descarga somática de
emoções sob forma de lágrimas, risos e expressões de raiva, além de intensas manifestações
físicas e vocais? Ou elas se devem – como alguns autores modernos pretendem – não à
catarse em si (a ab-reação), mas à reintegração afetiva e intelectual dessas liberações
emocionais dentro de um quadro dito de mediação cognitiva?
Longe de nós a idéia de tirar partido e tentar delimitar qual dessas abordagens
funciona melhor de um modo geral ou específico, para com os adolescentes. Daqui, de
cima do muro, podemos apenas constatar o relevante papel do teatro em todas elas. Em
uma das instituições onde leciono teatro, freqüentemente encontro alunos com problemas
psicológicos que lá estão por recomendação de psicólogos, psicanalistas ou psiquiatras, e
que parecem melhorar significativamente com as aulas de dramatização. Um bom lugar
para se verificar a eficiência do método em questão é o hospital psiquiátrico, onde se faça
arte-terapia. Nesse caso, tanto o teatro como a música, a dança e as artes plásticas parecem
exercer influências altamente benéficas no paciente internado (muito embora os mais
céticos costumem levantar a objeção de que qualquer coisa que o paciente internado faça, e
que o tire da inércia e da ociosidade em que vive, há de ter forçosamente um efeito
psicoterápico...).
Mas o que gostaríamos de enfatizar é o papel do teatro enquanto educação. Aqui
também, duas perspectivas se abrem. Uma é considerar a educação no sentido estrito, de
transmissão da informação, e que inclui uma proposta global de formação do indivíduo,
levando-se em conta, além dos fatores cognitivos, o aspecto moral e emocional. Na
verdade, a palavra “educação”, genuinamente, deveria estar referida tão-somente e esse
segundo sentido, mais amplo e mais digno do nome educação. Na prática, no entanto, nem
sempre é assim. Paciência.
No sentido mais limitado, o teatro pode ser utilizado para facilitar o aprendizado,
fazendo com que o aluno participe de forma mais engajada do processo de ensino. Por
exemplo, um professor de História pode solicitar aos alunos que façam dramatizações –
escrita pelo professor, pelos alunos ou por ambos – acerca de fatos históricos significativos.
Pode dar mais trabalho, mas o sucesso é garantido. Desperta-se mais interesse, intensifica-
se a motivação para o estudo, e a retenção do material assim trabalhado é
significativamente superior ao que se consegue com os métodos tradicionais. É claro que
nem todas as disciplinas prestam-se igualmente a tal tipo de abordagem. Não consigo
imaginar uma aula de geologia com diabásicos, pré-cambrianos e similares, de forma
teatralizada. Mas pensando bem... quem sabe não dá para fazer uma comédia de tipos? Pré-
adolescentes costumam lucrar bastante com tais atividades, deste ponto de vista da
transmissão de informações.
Mas é na educação em seu sentido amplo, geral e irrestrito, que o teatro pode
oferecer, em nosso ver, a sua mais importante colaboração. Educação significando o
desenvolvimento do homem em todas as suas potencialidades. Significando o
aprimoramento cognitivo, mas sem descuidar das esferas afetivas, emocionais, morais e
sociais.
Começando pela emoção: é difícil estabelecer com precisão o momento e as razÕes
pelas quais o desenvolvimento afetivo passou a ser um mero epifenômeno – algo meio
impuro e desprezível – no processo educacional. Nosso aprendizado, no lar e na escola,
acentua a tendência de sufocar a capacidade de expressão emocional. Ao invés de
condenarmos simplística e maniqueisticamente esse fato da vida, talvez fosse melhor
apurar as causas do fenômeno. Afinal, a sociedade deve auferir algum lucro imediato em
uma situação como essa. Talvez, e trata-se tão somente de uma especulação – como a
maioria das profissões de hoje exija um comportamento burocrático similar ao de uma
máquina bem azeitada, a emoção deva ser suprimida. Bancários, operários, guardas,
advogados, etc, não podem ser emocionar, sob pena de, comprometendo seu puro mundo
cognitivo, “funcionar mal”. “Fale ao motorista somente o indispensável... e friamente, por
favor”, parece ser nosso lema transcendente. Obviamente a sociedade não faz isso porque é
“má” ou porque busca – como idealizam alguns paranóicos que se sentem melhor com um
depositário bem à mostra – estabelecer desde já um asfixiante estado orwelliano. Talvez a
educação tenha caminhado nessa direção por acomodações históricas. O fato é que o
desenvolvimento emocional do infante sofre desde cedo um processo de embotamento que,
a longo prazo, terá feitos danosos. Do mesmo modo, a educação escolar pagou um preço
por sua massificação, obviamente democrática e necessária. O problema é que, se é preciso
ensinar a muitos em uma sala pequena, faz-se mister que os pequenos da sala idem, bem
alinhados e em perfeita ordem, comportem-se, ou melhor, não se comportem. Devem
permanecer como recipientes passivos, de boca aberta, para os conhecimentos buscados e
consentidos. Em um quadro destes, a criatividade e as emoções serão forçosamente
relegadas a um segundo plano. Por que não procurarmos mudar esse estado de coisas
abrindo espaço para a criação e a emoção no lar e na escola? E um dos instrumentos para
tal empreitada pode ser o teatro.
Num livro de Maria Clara Machado e Marta Rossman sobre jogos dramáticos, há a
seguinte citação, extraída de uma outra obra sobre teatro (Improvisation, de Hodgsdon e
Richards):
“Do mesmo modo que o corpo, as emoções que sentimos necessitam ser ajustadas e
flexíveis. Elas devem ser exercitadas para não corrermos o risco de perder a capacidade de
nos exprimirmos sensitivamente. Nossas emoções e sentimentos são uma parte vital de
nossa capacidade de construir relações e se não exercitarmos o controle desse aspecto
iremos, provavelmente, estabelecendo maus relacionamentos ou rompendo aqueles que
poderiam ser valorizados”.
Considero esta citação excepcionalmente clara, retratando exatamente o que
costuma ocorrer conosco. Só mudaria uma palavra: ao invés de provavelmente, seria
melhor dizer certamente. Não sei se resolveríamos magicamente todos os problemas do
mundo com um tipo de educação mais sensível à criatividade e a expressão de sentimentos;
mas que ia melhorar um bocado, ia.
Gostaria de citar ainda um outro autor, dessa vez abordando especificamente a
questão da criatividade:
“Educação, para a maioria das pessoas, significa tentar fazer com que a criança
venha a se assemelhar a um típico adulto de nossa sociedade. Para mim, educação significa
fazer pessoas criativas, mesmo que não seja muito, mesmo que essa criatividade seja
limitada por comparações entre uns e outros. Mas é preciso educar para fazer inovadores,
inventores e não-conformistas... em diversos graus todo indivíduo pode ser criativo. Há
sempre um campo em que pode ser muito criativo”.
Essas frases, que são de Piaget, mais uma vez apontam as limitações do ensino de
hoje e a necessidade urgente de mudanças. Mas vamos abandonar um pouco essas questões
e abordar as contribuições que o teatro pode vir a oferecer. Os sociólogos que me
desculpem a ousadia das hipóteses ventiladas, e os leitores que não percam de todo a
paciência (Em compensação há mais de duas páginas que não escrevo a palavra
“adolescente”: é ou não é uma compensação?)
Lembro-me que, quando entrei para a escola de teatro do Tablado, com dezessete
anos e inquieto para poder através do teatro denunciar todas as mentiras e falsidades do
mundo, fui surpreendido pelo conselho da mestra Maria Clara Machado””Cale a boca e
sinta”. Mas como? Se eu ia calar a minha revolucionária boca, artífice vocal do mundo
melhor a ser construído? Não foi fácil passar as primeiras semanas e começar a entender as
verdades existentes por trás do estranho conselho. Nossa educação repressiva das emoções
nos torna a todos, como dizia Maria Clara, “violinos desafinados”. É impossível tocar bem
em um instrumento assim. Impossível servir de transmissão de emoções que conhecemos
mal ou imperfeitamente. Foram necessários meses de auto-descoberta, de entender que era
lícito sentir inveja, ciúme, despeito e rancor, e que o mundo não viria abaixo por causa
disso. E não nos referimos apenas às emoções ditas “ruins”: ai de nós, adolescentes, que
declarássemos abertamente nosso afeto por alguém! De jeito nenhum! Expressar afetos e
sentimentos similares era sinal de fraqueza, debilidade, dúvidas com relação à virilidade e
outras tragédias!
Amos mais tarde, lendo o psicanalista Ginnot, encontrei considerações bastante
próximas. Vejam, por exemplo, o seguinte trecho:
“As emoções fazem parte de nossa herança genética... às vezes somos felizes, às
vezes não; porém, em alguns momentos de nossa vida, estamos certos ao sentir raiva e
medo, tristeza e alegria, avareza e culpa, cobiça e desdém, prazer e aborrecimento (...)
Somente os atos reais podem ser julgados “maus ou bons”. Apenas a conduta pode ser
condenada ou elogiada; os sentimentos, não... todos os sentimentos são legítimos: o
positivo, o negativo e o ambivalente.”
E ainda:
“Tentar ignorar sentimentos (nega-los, suprimi-los ou “embeleza-los”) é fazer um
convite a um futuro desastre.”
De fato, acredito que a única forma de tirar o “veneno” de uma emoção dita “má” é
aceita-la, e dessa forma diferi-la. Enguli-la sem mastigar é mesmo um convite ao
envenenamento. Envenenamento físico, como mostra a medicina psicossomática, e
envenenamento da “alma” e das relações afetivas, como evidencia o mundo à nossa volta.
Se eu reconheço que em algum momento senti inveja de você, será a consciência disso que
proporcionará o primeiro passo para uma mudança positiva, seja no sentido de tentar ser
como você, seja no de buscar as causas de tal sentimento. Negar tudo é o início de um
processo que certamente culminaria numa agressão à sua “invejável pessoa”.
E já que citamos Ginnot, vejamos um parágrafo de Freud sobre repressão das
emoções:
“Se uma reação é reprimida, a emoção permanece vinculada à lembrança. Uma
ofensa que tenha sido revidada, até mesmo por palavras, é recordada bem diferentemente
daquela que teve de ser aceita. A linguagem também reconhece essa distinção em suas
conseqüências mentais e físicas; de maneira bem característica ela descreve uma injúria que
foi sofrida em silêncio como uma mortificação (...) Se não houver uma reação, quer em
ações, quer em palavras, ou nos casos mais benignos por meio de lágrimas, qualquer
lembrança do fato retém sua tonalidade afetiva.”
Acho que deve ter ficado claro como nossa educação emocional é altamente
deseducativa e incapacitante. E foi na própria escola de teatro – embora, evidentemente,
sem a menor consciência teórica – que, através de um sem-número de exercícios básicos
relacionados à expressão emocional, pudemos rearranjar de forma mais saudável nossos
confusos mundos emotivos internos. É esse tipo de autoconhecimento a maior contribuição
que a atividade dramática na escola pode proporcionar.
Mas não é a única.
O desenvolvimento da imaginação e da criatividade são dois outros subprodutos
altamente desejáveis, resultantes da atividade dramática. Justo no caso de adolescentes,
quando os temas dominantes giram em torno da discussão e canalização de seus desejos,
problemas e interesses, é que se pode observar mais claramente as vantagens do exercício
da criatividade e da imaginação.
Como já dissemos anteriormente, a criatividade foi relegada a segundo plano em
nossa educação tradicional. Uma prova concreta da consciência disso foi a proliferação
anos atrás, na Zona Sul do Rio de Janeiro, de “escolas experimentais”. A coisa chegou a tal
ponto que praticamente toda escola passou a adotar o subtítulo de “experimental”, a fim de
atrair a futura freguesia. Esse exagero veio confirmar as suposições de que havia algo de
deficiente no reino educativo.
É claro, também, que temos consciência de que o próprio tópico criatividade, tão
badalado nos dias de hoje, é ainda fonte de grandes controvérsias no conflitado mundo psi.
À parte as polarizações que a definem como algo de inatingível e indecifrável – ou mesmo
indefinível – por um lado, e de um potencial especial que requer exercícios diários, por
outro, é possível chegar a algum consenso em termos de uma habilidade de se poder ver as
coisas de diferentes ângulos, o que levaria a diferentes modus faciendi.
Seja como for, a prática de exercícios dramáticos parece ser forte instigadora, no
sentido de fazer o aluno partir em busca de soluções novas, modos diferentes de se fazer
uma mesma coisa ou imaginar as situações as mais diversas, que por sua vez, requisitam
respostas diferentes entre si.É espantoso verificar o progresso dos alunos nesse campo: a
partir de um início meio atabalhoado e sem sentido, a prática constante conduz a
verdadeiras orgias de trabalho inovador e original. Conquanto não tenhamos efetuado
nenhuma pesquisa experimental nessa direção, há muitas razões para se supor que essa
nova capacidade de criar e imaginar seja generalizável para fora dos muros do teatro.
É particularmente notável observar esse fenômeno em adolescentes. Como críticos
acerbos de nossa sociedade, e detentores em suas mentes de um contraditório e maravilhoso
mundo ideal, os jogos dramáticos lhes oferecem um espaço soberbo para a exteriorização (e
posterior reflexão) desse mundo ideal. Enquanto que para a criança o exercitar da fantasia é
um processo indispensável ao seu crescimento, tornando-a mais flexível e adaptada, além
de servir como resposta alternativa a comportamentos impulsivos e agressivos, para têm
evidenciado que as crianças com menos capacidade de imaginação parecem mais propensas
a aumentar o comportamento agressivo após verem um filme idem, do que crianças mais
bem-dotadas dessa capacidade – (Singer); Virginia Valli reporta também, em artigo
recente, que pessoas que melhoram em psicoterapia evidenciam igualmente um
crescimento na capacidade de imaginar.
A prática teatral estimula também a habilidade de expressão verbal, aliás num dos
grandes pontos de atrito entre os adolescentes e o resto do mundo. São freqüentes as
referências irônicas ao fato de o vocabulário “adolescental” não ir além de umas trinta
palavras e expressões, a maior parte delas, inclusive, ininteligível. Essa rejeição do
vocabulário “adulto” pode ser encarada simplesmente como “um sintoma a mais dentro da
síndrome”: simbolicamente eles estão expressando a não-aceitação dos valores adultos,
prontos, rígidos e “quadrados”. E não apenas o conteúdo é denunciante. A própria maneira
de falar, lenta e cadenciada, com um ritmo muito próprio – uma espécie de baianês-sem-
sotaque – é um outro sinal que serve para distinguir os grupos e mostrar que eles,
adolescente, rejeitam nossa rapidez artificial e mecanicista, e que eles “não estão nem aí”
para correr atrás do vil metal, do trabalho burocrático e da fala própria desse ritmo
acelerado.
E mesmo sem entrar no mérito da discussão, acreditamos que um bom domínio da
palavra, falada ou escrita, é melhor instrumento de persuasão e meio de apresentação de
idéias do que um laconismo “tipo do-contra”.
Assim, uma melhor expressão oral, e por conseqüência escrita, exercitada pelos
jogos dramáticos, aliada a uma imaginação criativa trabalhada, deve fornecer aos
adolescentes melhores meios de superar a fase em que se encontram.
Indo adiante em nossas digressões, examinemos agora os principais temas propostos
por eles em suas dramatizações: são verdadeiros testes projetivos, que indicam os
componentes do que vêem a se maiores fontes de preocupação.
Como a maioria de meus alunos pertence à Zona Sul, é difícil precisar até que ponto
essa análise temática é generalizável. Por outro lado, é fato que a televisão hoje é um forte
fator no sentido de normatizar necessidades e desejos, disseminando um determinado
padrão de comportamento como sendo o padrão certo. Isso faz as diferenças esmaecerem
até o ponto de tornar nossa análise não tão restrita a um pequeno segmento da sociedade.
E do que trata a maior parte dos temas criados por esses adolescentes? Confesso que
não consegui discriminar uma preocupação maior. De um modo geral há, sim, grandes
temas que se repetem. A saber: O trabalho (futuro), família, denúncia de valores do sistema,
moral sexual, sentimento de revolta difuso, denúncias sociais, a questão do casamento,
drogas. Apesar do casamento ser visto como uma instituição necessitando de reparos quase
que estruturais, é curioso observar que o amor, idealizado como a grande solução, é um
motivo bastante acalentado por eles. Embora condenem causticamente as atitudes dos pais
com relação ao casamento – diga-se de passagem, com muito amor – e nem façam alguma
crítica construtiva a respeito, há toda uma especial deferência ao supremo “magic feeling”.
Talvez isso explique os eventuais estrondosos sucessos de filmes como “Lagoa Azul” ou
“Romeu e Julieta” (Zefirelli). Embora extremamente poética, não deixa de ser uma visão
algo simplista do amor: não se fala em relações construídas, em dificuldades ou
crescimento mútuo. A promessa de um sentimento arrebatador e inebriante supera tudo e
encerra o assunto.
Para entrar um pouco no campo do anedótico, lembro-me de uma crítica das mais
pertinentes que já ouvi. Não me lembro mais em que aula surgiu, nem quem foi o pai da
criança. Mas a crítica ficou, e se refere à idéia de se trabalhar de terno no centro da cidade.
Eu mesmo nunca me preocupei em questionar esse hábito importado sabe-se lá de que parte
da Europa ou dos Estados Unidos. Consiste o dito cujo em andar no centro da cidade sob
um sol escaldante com um pano por cima (camisa), com um outro pano bm grosso cobrindo
o anterior (paletó) e com um outro paninho emoldurando o conjunto, partindo do pescoço
fechado até o umbigo (gravata). Eventualmente, a bem da elegância, um outro panote, que
se coloca entre a “camisa” e o “paletó”, denominado “colete”. Com efeito, a crítica não é
nova, mas não há como não lhe dar razão. É muita vontade de importar um costume
europeu (ou americano, sei lá), onde, é bom que se diga, tal traje é plenamente justificável.
Aqui, é simplesmente insano.
Podem acreditar que o exemplo de cima é apenas um entre dezenas e dezenas. Já
outras críticas são apesar de originais e engraçadas, um tanto quanto vagas, ou
simplesmente um desejo de “épater lês bourgeois”: “adolescência é uma idade em que o
adolescente se recusa a acreditar que ficará tão idiota quanto o pai”. Aliás, com relação ao
humor, parece que os adolescentes de outras plagas não compartilham, ao menos em
intensidade, o mesmo gosto que os nativos daqui. Um trabalho interessante de Martha R.
Willis (1981) descrevia o adolescente anormal como sabendo ler, contar, estar sóbrio (em
todos os sentidos), passando 75% do tempo com os pais, sendo altruísta e... possuindo
senso de humor! Talvez esteja aí uma boa linha de pesquisa para os estudiosos da área
relacionada a divergências culturais.
Mas o primordial, para nós, não é a análise dos conteúdos expressos, discutidos,
projetados, etc. O que nos cabe é apontar a existência desse espaço de participação, esse
foro natural, a oportunidade para a troca de opiniões (e como isso é importante!), a
possibilidade de se expressarem em alto e bom som (e se não o fizerem dessa forma, o
professor de teatro deles ia ficar um bocado zangado...), isso tudo sendo proporcionado
simplesmente pela atividade dramática.
Poderíamos enriquecer a lista das vantagens oferecidas aos adolescentes com outras
propriedades que também levam ao crescimento individual. Por exemplo, a questão da
desinibição me parece muito importante. Todos os tímidos sabem dos inconvenientes (e
sofrimentos) oriundos de tal condição. Na adolescência, início da afirmação sexual, o
problema assume proporções grandiosas. E o jogo dramático tem aí um indiscutível efeito
libertador. M.M.de S. Calvet e A. Gomes (1974) listam também, entre outros, os seguintes
efeitos benéficos gerados pela prática teatral: melhoria da capacidade de observação, apuro
da sensibilidade, incremento da noção de ritmo (para os adolescentes, que têm de lidar com
um corpo “novo”, não deixa de ser um item importante), sentido de grupo, adaptação
social, incentivo à iniciativa, desenvolvimento da capacidade de empatia, etc.
Acho importante frisar o aspecto “trabalho em equipe”. Para quem é de fora do
ramo teatral, pode parecer que o teatro funciona primordialmente na base do “um por um e
os outros que se danem”. Nada mais enganoso. Conquanto seja verdade que os eternos
narcisos sempre estarão lá, como em qualquer outro lugar, o fato é que o trabalho em teatro
envolve sempre uma poderosa comunhão entre todos os elementos. Comunhão essa
responsável pelo êxito de um espetáculo, mormente nos trabalhos amadores, cujos grupos
são formados em franca maioria por adolescentes. O trabalho em grupo, ou melhor, a
vivência do trabalho em grupo, com todas as suas implicações – o respeito pelo outro, a
necessidade do outro, o “brilhar” sem prejudicar o parceiro, o horário comum, a divisão
natural de tarefas, a obrigação do rodízio – é de um valor educativo ímpar. Seria preciso
todo um livro para ilustrar a contento esse processo e suas conseqüências.
Antes de passar ao resumo final – já devo estar abusando da nunca suficientemente
louvada paciência do amável leitor – é forçoso apontar, até por uma questão de consciência,
que no teatro nem tudo são flores. Isto é, há também pontos “contra”, menores, mas nem
por isso menos merecedores de serem citados.Com isso quero dizer também que há riscos.
O excesso provocado por um intenso e prolongado emocionar-se pode, por exemplo, vir a
se constituir num problema. Emocionar-se cansa, e muito. É gostoso, mas cansa. A longo
prazo tende a provocar hipertensões, somatizações específicas (dependendo da pessoa) e
outras mazelas. Mas, frize-se, somente a longo prazo. De qualquer modo, requer-se
moderação. Assim também alguns indivíduos muito narcísicos podem ver esse seu lado da
personalidade “definitivamente”deflagrado. Quanto ao famoso tema de que há alta
correlação entre teatro e homossexualismo, o que se sabe é que deve estar ligado à questão
do narcisismo e que não é, evidentemente, contagioso... Jacobson, por sua vez (1959)
levantou o aspecto da despersonalização, um outro possível risco a ser enfrentado, ao cabo
de um certo tempo de prática. Mas como deve estar claro, são comprometimentos já
existentes, que o teatro apenas desencadeia. E dentro de uma perspectiva mais abrangente,
devemos lembrar que as relações entre a sociedade e o teatro sempre foram, no mínimo,
ambivalentes. O artista não participa diretamente das relações de produção, e é nesse
sentido, uma espécie de parasita improdutivo. A fábula da cigarra e a formiga ilustra bem
esse tipo de ligação. Assim, essa ambivalência tanto pode transformar artistas em ídolos,
embaixadores (antiga Grécia), deputados e até presidentes (hum...), como também pode
lhes conferir uma auréola de marginalidade e associação com tudo de podre e ruim que uma
sociedade pode vir a ter. O artista amado de hoje pode ser o odiado de amanhã. É essa
ligação teatro/marginalidade acaba involuntariamente por atrair “marginais” autênticos:
inadaptados, insatisfeitos, revoltados crônicos, etc., que em outras condições jamais
procurariam o teatro. Não se pode negar também que é um pouco essa associação que
torna o teatro muito atraente para o adolescente: o discreto charme das atividades
proibidas... Enfim, podemos ir à praia por várias razões, mas em lá chegando, nos
bronzeamos ou nos queimamos demais... Não é novidade para ninguém que mesmo o
melhor remédio do mundo, tomado em doses excessivas, vai prejudicar a saúde. Para
aqueles que quiserem se aprofundar mais nos meandros das relações entre arte e neurose,
vários psicanalistas já se pronunciaram a respeito: Freud, M. Klein, O. Rank, H. Sachs,
Jung, etc. É só ir a livraria ou biblioteca mais próxima.
Bem, gostaria de encerrar este pequeno capítulo com uma sumária revisão. Antes
de mais nada desculpem as excessivas considerações sobre teatro e gente, de um modo
geral. Sei que só dediquei uma atenção específica ao adolescente nas últimas páginas. Mas
é que me pareceu fundamental uma exposição mais abrangente dos impactos da atividade
teatral como um todo, antes de encararmos a questão do adolescente, propriamente dita.
Espero que tenha ficado claro para os leitores as razões pelas quais advogamos o
incentivo à prática da atividade dramática, por parte de crianças, pré-adolescentes ou
adolescentes, e que culminem ou não em um espetáculo aberto ao público. Um maior
autoconhecimento de seu mundo emocional, o desafio à imaginação e à criatividade, e a
existência de um espaço aberto à discussão de seus problemas nos parecem motivos
suficientes para que haja tal incentivo, isso para citar apenas as razões de maior peso.
O espaço, curto, nos obrigou também a ventilar muito rapidamente, e,
conseqüentemente de maneira algo superficial, uma série de assuntos que mereciam
tratamento mais aprofundado. Quase não falei das contribuições que os adolescentes têm
feito ao teatro, com sua vivacidade e ardor inigualáveis. Fica para outra ocasião.
É que no fundo não é muito fácil falar de modo abrangente e suficiente dessa
estranha população, espremida entre um ontem perdido e um amanhã incerto. Estranhos
numa terra estranha: romeus, pequenos príncipes, super-heróis (resquícios da infância
recente), guevaras, apanhadores nos campos de centeio, capitães de areia, belas
adormecidas, asdrúbals sem trombone, (hoje é dia de rock?) e E.T.s procurando o caminho.
Às vezes no asfalto que construímos, às vezes por picadas que nunca sonharíamos poder
dar passagem a alguém.
REFERÊNCIAS

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(Capítulo de livro organizado por Moyses Grossman, 1987, não publicado)