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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

CENTRO DE HUMANIDADES / DEPARTAMENTO DE


LITERATURA
Prof. Geraldo Augusto Fernandes, Literatura Portuguesa III

MODERNISMO EM PORTUGAL (1915-1940)

Capa da 1ª edição da revista ORPHEU


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CONTEXTO HISTÓRICO
O início do século XX poderia ser datado no ano de 1895; esta "licença
histórica" se explica pela importância que esta data teve na história das ideias artísticas
que vieram depois. Nesse ano, o austríaco Sigmund Freud lançou o livro Estudos sobre
a histeria, um marco importante na divulgação de suas descobertas científicas, que o
levaram a constituir um novo ramo médico: a Psicanálise. Dedicada ao estudo do
inconsciente humano, que guardaria a face obscura dos desejos do indivíduo, a ciência
psicanalítica forneceu vasto material à Arte. A revelação da existência de um verdadeiro
universo no interior da mente humana serviu de impulso decisivo para o surgimento de
teorias estéticas baseadas na tentativa de expressão desse universo.
Ainda em 1895, os irmãos Lumière lançaram, na França, um novo invento: o
cinematógrafo. Através dele, era possível registrar imagens em movimento, objetivo
perseguido durante muitos anos por técnicos de toda a Europa. Os primeiros filmes
lançados pelos Lumière não tinham nenhuma pretensão artística, ou mesmo narrativa,
visando apenas a explorar as então incipientes possibilidades da nova descoberta. Logo,
porém, o cinema impôs-se como um meio de comunicação artística que viera para
modificar fundamente as estruturas artísticas até então existentes. A rapidez da imagem,
a simultaneidade narrativa passaram a ser instrumentos utilizados em todos os ramos da
arte. A febre dos inventos varria a Europa, provocando o surgimento de muitos
concursos, que premiavam aqueles que conseguissem ultrapassar obstáculos até então
intransponíveis. Em 1906, em Paris, o brasileiro Santos Dumont realizou com seu 14-
bis o primeiro voo mecânico do mundo, feito proclamado no mundo inteiro.
O homem parecia vencer limites importantes: o conhecimento da própria
personalidade, o registro do movimento e o espaço. O otimismo do início do século
justificava a crença na capacidade criativa do ser humano. Contudo, o reverso da
medalha não tardou a aparecer. Em 1914, eclode a I Grande Guerra Mundial, como
resultado de lutas imperialistas (disputa de mercados e regiões de produção de matéria-
prima) que se davam em várias partes do mundo. O homem mostrava que, tanto criar,
era capaz de destruir.
No meio da guerra, uma nação se retira do conflito para resolver problemas
internos. Em 1917, a Revolução russa transformou profundamente as bases
socioeconômicas do país, com a introdução prática das ideias comunistas que Marx
divulgara a partir de meados do século anterior. A abolição da propriedade privada e o
fim dos privilégios da nobreza jogaram o país em uma crise de grandes proporções, mas
da qual emergiu uma nação vitoriosa e forte. Essa vitória contaminou o mundo, e a
propaganda comunista alcançou todos os países. Apenas cinco anos depois da
Revolução, por exemplo, era fundado o Partido Comunista Brasileiro.
Em 1919, a Grande Guerra chega ao fim, e nova onda otimista atingiu a Europa.
Acreditava-se, então, que uma catástrofe suicida daquelas proporções nunca mais
ocorreria. A década de 20 ficou conhecida como "anos loucos". Era o auge e o fim da
chamada "belle époque". A rebeldia, a ousadia e a alegria eram palavras de ordem: tudo
era discutido, todas as liberdades eram proclamadas.
Esse ambiente favorece o surgimento de novas ideias estéticas (surgidas,
ressalte-se, a partir de contribuições artísticas do século XIX). Tais ideias constituíram o
fundamento do que se convencionou chamar de Arte Moderna, a arte do século XX.
Como aspectos comuns, essas ideias possuíam:

a ruptura com o passado;


o desejo de chocar a opinião pública;
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a valorização da subjetividade artística no trabalho de tradução dos objetos ao
redor;
a busca de inovações formais cada vez mais radicalistas;
a intenção de reproduzir esteticamente um mundo que se transformava
rapidamente;
a tentativa de responder à desintegração social provocada pelo panorama da
guerra.

ALGUMAS PROPOSTAS DOS PRINCIPAIS MOVIMENTOS


ARTÍSTICOS DO INÍCIO DO SÉCULO XX NA EUROPA

DADAÍSMO – aparece durante a Primeira Guerra, em 1916. Grupo de refugiados –


escritores e artistas plásticos – pretendem fazer algo significativo para chocar a
burguesia da época. As consequências emocionais trazidas pela Primeira Guerra
Mundial provocam: sentimento de revolta, de agressividade, de indignação, de
instabilidade. É a mais radical das três vanguardas europeias (Futurismo,
Expressionismo, Cubismo). Os artistas desse período eram contra o capitalismo burguês
e a guerra promovida com motivação capitalista.

Objetivo do Dadaísmo: destruir os valores burgueses e a arte tradicional.

Literatura (características): agressividade verbalizada, desordem das palavras,


incoerência, banalização da rima, da lógica, do raciocínio. Faz uso do nonsense (falta de
sentido da linguagem, palavras dispostas conforme surgem no pensamento, para
ridicularizar o tradicionalismo). O nome “Dadaísmo” parece não ter significado nenhum
– talvez tenha o intuito de remeter à linguagem da criança que ainda não fala. Um dos
principais autores e também fundador do Dadaísmo é Tristan Tzara, cujo poema que
segue tem cunho de manifesto:

PARA FAZER UM POEMA DADAÍSTA

Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e
meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda
que incompreendido do público.

Linguagem dadaísta: pretende anular qualquer barreira quanto a significações – o


importante nas palavras não é seu significado, e sim sua sonoridade. O som é
intensificado com o grito, o urro contra o burguês e seu apego ao capital.

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FUTURISMO – vanguarda europeia com temática futurista: exaltação da tecnologia,
da máquina, da indústria em geral. São lançados mais de trinta manifestos – como a de
fevereiro de 1909, de Filippo Tommaso Marinetti. Neste manifesto, são apresentados
temas que enaltecem a vida moderna: o automóvel, a eletricidade, a velocidade, a
máquina, como nos seguintes trechos do “Manifesto do Futurismo” de Marinetti:

“Olhe-nos! Nós não estamos esfalfados... Nosso coração não tem a menor
fadiga. Porque ele está nutrido pelo fogo, pelo ódio e pela velocidade!... Isso o
espanta?”
“Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo -, o militarismo, o
patriotismo, o gesto destrutor dos anarquistas, as belas ideias que matam, e o
menosprezo à mulher.”

Técnicas: rompimento com a norma culta, com a gramática tradicional, versos livres,
linguagem sem apego a normas. No “Manifesto Técnico da Literatura Futurista”,
pregam-se a “destruição da sintaxe”, a depreciação do adjetivo, do advérbio e da
pontuação; os substantivos deveriam vir no texto ao acaso, conforme aflorassem no
pensamento.

Bons exemplos da estética Futurista são os poemas “Manucure” de


Mário de Sá-Carneiro e “Ode triunfal” de Fernando Pessoa, incluídos
neste material. Págs. 33 e 52-53
CUBISMO – precursor: pintor francês Paul Cézanne – introduz em suas obras a
distorção nas formas e os formatos bidimensionais.
1907: o Cubismo é retratado com maior ênfase nas pinturas do principal representante
deste movimento: Pablo Picasso (também nas de Georges Braque).

“Demoiselles d’Avignon” de Picasso (conf. figura abaixo): retrata e prenuncia


as características cubistas: formatos geométricos, sensação de pintura escultural,
superposição de partes de um objeto sob um mesmo plano.

Pintura cubista x formas geométricas como meio de expressão:


cones, cilindros, esferas, pirâmide, prismas. Os formatos embasados na matemática
geométrica possibilitam ao espectador a visualização espacial da imagem, ou seja, o
objeto pode ser visto por ângulos diferentes.

Objetivo da pintura cubista: ilustrar na arte a decomposição, fragmentação e


recomposição da realidade através das estruturas geométricas. Trazem uma ruptura
com a perspectiva de visualizar o mundo sob um só ângulo, uma só perspectiva.

Técnicas: colagens, montagens, superposição de figuras, simultaneidade.

Na literatura: retrato da fragmentação e da geometrização da realidade por meio da


linguagem: as palavras são soltas e são dispostas no papel a fim de conceber uma
imagem. Surgiu na literatura com o manifesto-síntese de Guillaume Apollinaire, em
1913: destruição da sintaxe, invenção de palavras (assim como no Futurismo), uso delas
sem preocupações com normas, artifício do verso livre e da abolição do lirismo (estrofe
e rimas).
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EXPRESSIONISMO – surge em 1910, na Alemanha. Objetivo: maneira de
contradizer a arte impressionista que, ao expressar a realidade, valorizava a pintura com
traços e efeitos da luz do sol sob a imagem e a valorização das cores obtidas através da
exposição solar. Já a pintura expressionista busca a manifestação do mundo interior
através das feições, é a materialização do sentimento do artista a respeito de algo
vivenciado, sem a preocupação em embelezar a imagem.

Precursores: Van Gogh, que expressava sua nítida visão de artista ao perceber uma
realidade. Essa exteriorização no uso das cores foi fonte de inspirações para os pintores
expressionistas alemães e austríacos, e até mesmo aos artistas do século XX, como
Jackson Pollock. Edvard Munch é outro precursor do Expressionismo. Em seu quadro

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“O grito” vê-se a expressão de medo, de dor, de angústia em relação ao conturbado final
do século XIX em junção com sua própria vida. (Observe a reprodução a seguir)

Declínio: ocorre a partir de 1933 com a ascensão de Hitler na Alemanha; a partir daí, a
arte passa a seguir a tendência da “arte pura” - analogia com o ideal da busca da “raça
pura” pregada por Hitler ao povo da “Germânia”.

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SALVADOR DALÍ – A persistência da memória

1 – Relógios derretidos
Um dia, sentado diante dos restos do jantar, Dalí reparou que seu queijo camembert
havia derretido e começava a se espalhar pelas bordas do prato. Foi a imagem daquele
queijo que deu ao pintor a ideia dos relógios derretidos. Algumas horas depois, a pintura
estava terminada.
2 – Criatura bizarra
No plano central da obra, coberta por um relógio derretido está a caricatura do próprio
Salvador Dalí. Os cílios sugerem um grande olho fechado em estado de contemplação,
do sono ou da morte. Dalí propõe que apenas a superação do tempo “terreno” pode
soltar as rédeas da consciência.
3 – Litoral vazio
A paisagem atrás da pintura é o litoral perto da casa de Dalí em Port Lligat, em
Barcelona. Percebe-se que o pintor ilumina os penhascos e o mar com uma luz
transparente e melancólica.
4 – Formigas Rastejantes
As únicas criaturas vivas no quadro são as formigas na parte de trás do relógio laranja e
uma mosca no relógio derretido à esquerda. Dalí odiava formigas e as inclui neste
quadro como um símbolo de putrefação.

SURREALISMO: surge em França, após a Primeira Guerra Mundial, 1924, quando


André Breton publica seu Manifesto do Surrealismo. Ex-integrante dos ideais do
Dadaísmo, no manifesto Breton traz concepções freudianas, ligadas à psicanálise e ao
subconsciente. Definição de Surrealismo, segundo Breton:

"SURREALISMO, s. m. Automatismo psíquico em estado puro, mediante o qual


se propõe exprimir, verbalmente, por escrito, ou por qualquer outro meio, o
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funcionamento do pensamento. Ditado do pensamento, suspenso qualquer
controle exercido pela razão, alheio a qualquer preocupação estética ou moral."

Pintores que aderiram ao Surrealismo: Salvador Dalí e René Magritte. Conforme


pregam os artistas surrealistas, a arte deve fluir a partir do inconsciente, sem qualquer
controle da razão, o pensamento deve acontecer e ser expresso livre de qualquer
influência exterior ou lógica. Estão presentes nas obras surrealistas: a fantasia, o
devaneio e a loucura.

Literatura: segue o mesmo procedimento da arte pictórica: as palavras devem ser


escritas conforme viessem ao pensamento, sem seguir nenhuma estrutura coerente.

Sugestão de site para apreciar a arte modernista (e de outros movimentos


estéticos): www.pinceladas-fms.com.br

CARACTERÍSTICAS DA ESTÉTICA MODERNISTA


Um primeiro elemento, comum a toda manifestações do Modernismo, é sua
sistemática oposição ao academicismo, isto é, à arte regrada, regulamentada, repleta de
truques convencionais. Essa postura de destruição dos símbolos artísticos, aceitos
generalizadamente, e de desprezo pela norma culta conduziu, quase sempre, os
modernistas a atitudes de antipatia à cultura estabelecida. Foram, por causa disso,
muitas vezes perseguidos e ridicularizados.
A demolição do edifício estético convencional tinha como contrapartida a
proposta de uma arte livre. Essa liberdade buscava se realizar tanto no plano formal
quanto no temático. No terreno da forma, os modernistas defendiam a abolição da rima
e da métrica, com a exploração do verso branco (ou solto - versos sem rima) e livre
(sem métrica regular, isto é, sem o mesmo número de sílabas). Essa inovação formal
não era propriamente modernista, já que, antes deles, os simbolistas já faziam uso dela.
Porém, o Modernismo vai transformá-la em bandeira de luta. Uma ressalva, contudo,
deve ser feita: defensores da liberdade formal absoluta, os próprios modernistas
praticarão, quando entenderem necessário, o verso rimado e regular; a partir desse
momento, porém, esse tipo de verso deixa de ser condição prioritária para a obtenção da
boa poesia.
Além da versificação mais livre, a linguagem coloquial será adotada pelo
Modernismo, que buscava aproximar a arte erudita das camadas populares. A
transposição da fala das ruas para o texto escrito confere a este um alto grau de
oralidade. Com isso, a linguagem artística absorve gírias, erros gramaticais, criações
espontâneas do povo, neologismos, estrangeirismos etc.
Coerente com essa postura de utilização de uma linguagem mais próxima do
falar rotineiro, o Modernismo tinha, como tema fundamental, o cotidiano. A partir de
então, acontecimentos banais e aparentemente sem importância podiam ganhar estatura
artística, tanto quanto os grandes amores e as emoções profundas, tratados pela arte
mais tradicional.
Distanciando-se da postura que defendia uma arte voltada para si mesma, as
vanguardas estéticas do período manifestaram a preocupação social própria de um
mundo sacudido por guerras e disputas internacionais de todos os tipos. Tratava-se,
assim, de uma arte voltada para o mundo e que fazia dele sua grande matéria..
Além disso, ao comportamento sisudo e aristocrático que a arte assumira até
então, os modernistas opõem uma valorização do humor. (No Brasil, por exemplo,
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ficaram famosos os poemas-piada de Oswald de Andrade, obras-primas de síntese e
sutileza crítica.)
Enfim, podemos resumir a proposta modernista, de uma maneira geral, em uma
única expressão fundamental: liberdade. Em todos os níveis, de todas as formas. Muitas
vezes, o desejo de fugir de qualquer convencionalismo preestabelecido provocou o
surgimento de uma arte excessivamente pessoal, quase sempre incompreensível. Essa
dificuldade de comunicação artística contrariava a tendência democrática da arte de
vanguarda, e representou, de fato, uma de suas contradições mais profundas.

PORTUGAL - CONTEXTO HISTÓRICO


Em 1890, o governo inglês lançou um ultimatum a Portugal: o país deveria
abandonar imediatamente as colônias que ainda mantinha. A obediência a essa
imposição encheu o povo português de vergonha e abalou profundamente a crença na
monarquia, já desacreditada por seu anacronismo. A partir de então, a luta republicana
ganhou espaço e importância; em 1910, foi proclamada a República.
As mudanças sociais esperadas não aconteceram de forma a contentar os
republicanos mais exacerbados. Na verdade, a República tinha como principal objetivo
integrar Portugal no quadro do imperialismo europeu, sinônimo de modernização. Esse
ambiente favoreceu a difusão das ideias modernistas.
Em 1915, um grupo de artistas de vanguarda, lideradas por Mário de Sá-
Carneiro e Fernando Pessoa, fundou a Revista Orpheu, marco inaugural do Modernismo
em Portugal. Através dela, as novas propostas artísticas foram divulgadas e discutidas.
A duração da revista foi efêmera, prejudicada pelo suicídio de Sá-Carneiro. Esses
primeiros modernistas ficaram conhecidos, exatamente em função da revista, por
"geração de Orpheu.”
A República, incapaz de resolver os problemas mais profundos do país, e sem
conseguir equacionar as diferenças existentes entre os próprios republicanos, acabou por
dar lugar à ditadura salazarista, que durou cerca de cinquenta anos, até a Revolução dos
Cravos, de caráter socialista, em 1974.

CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO MODERNISTA EM PORTUGAL


Os modernistas portugueses tiraram proveito da herança simbolista, sem renegá-
la totalmente. Assim, o saudosismo do poeta Antônio Nobre, que tinha fortes
conotações nacionalistas, ganhou força entre os membros da "geração de Orpheu". Ao
lado disso, a absorção das conquistas futuristas que tomavam conta da Europa inteira,
como a apologia da máquina e do progresso urbano, conduz o movimento à vanguarda.
Assim, o que se destaca, no panorama modernista português, nesse primeiro
momento, é a forma de elaboração entre tradição e modernismo. Com isso, eles
conseguem retomar e formar e temas arcaicos (veja-se o livro Mensagem de Fernando
Pessoa), enquadrando-os dentro de propostas modernistas.
Ressalte-se ainda o caráter algo místico do Modernismo lusitano, patente em
algumas posturas, pessoais e estéticas, de seu maior representante, Fernando Pessoa.
O modernismo português conheceu ainda mais duas gerações estéticas.

Orfismo - Primeiro Tempo Modernista – Geração Orpheu


A proclamação da República de Portugal (1910), associada à instabilidade
político-social e à emergência de forças cosmopolitas progressistas, marcou o Primeiro
Tempo Modernista português – o Orfismo.

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Os primeiros anos do século XX, em Portugal, foram marcados pelo entrechoque
de correntes literárias que vinham agitando os espíritos desde algum tempo:
Decadentismo, Simbolismo, Impressionismo etc. eram denominações da mesma
tendência geral que impunha o domínio da Metafísica e do Mistério no terreno em que
as ciências se julgavam exclusivas e todo-poderosas.
O ideal republicano, engrossado por sucessivas manifestações de instabilidade,
foi se concretizando em 1910, com a proclamação da República, depois dos sangrentos
acontecimentos de 1908, quando o rei D. Carlos perdeu a vida nas mãos de um homem
do povo, alucinadamente antimonárquico [...].
E foi nessa atmosfera de emaranhadas forças estéticas, a que se sobrepunha a
inquietação trazida pela I Grande Guerra, que um grupo de rapazes, em 1915, fundou a
revista Orpheu. Eram eles: Sá-Carneiro; Fernando Pessoa; Luis de Montalvor; Santa
Rita Pintor; Ronald de Carvalho; Raul Leal.
Seu propósito fundamental consistia em agitar consciências através de atitudes
desabusadas que, em concomitância com as derradeiras manifestações simbolistas,
iniciavam um estilo novo, ‘moderno’ ou ‘modernista’.

Fonte: Massaud Moisés. Presença da literatura portuguesa: O Modernismo. São Paulo,


Difusão Europeias do Livro, 1974 (adaptado)

Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro foram os mais influentes participantes


da revista Orpheu, que deu origem à primeira geração do Modernismo português: o
Orfismo ou geração Orpheu, cuja atuação, entre 1915 e 1927, coincidiu com a vigência
da chamada “República Jovem”, a Primeira República portuguesa.
Desde 1910, com a queda da Monarquia, o país passou por um dos momentos
mais fecundos e mais conturbados de sua história. Lisboa centralizou a captação das
ideias modernas, numa efervescência intelectual que procurava assimilar os movimentos
de vanguarda, provenientes do contexto mais amplo do Modernismo europeu.
O núcleo fundamental do Orfismo foi a revista Orpheu (1915), que teve dois
números. O primeiro foi um projeto luso-brasileiro, com a direção de dois brasileiros,
Luis Montalvor e Ronald de Carvalho; o segundo número, mais expressivo, teve a
direção de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. As demais revistas, que aglutinam
as novas tendências, tiveram também duração efêmera: Exílio e Centauro (1916),
Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922/23) e Athena (1924/25).
Os traços marcantes da Geração Orpheu são as tendências futuristas (exaltação
da velocidade, da eletricidade, do “homem multiplicado pelo motor”; antipassadismo,
antitradição, irreverência). Agitação intelectual, “escandalizar o burguês”, o moderno
como um valor em si mesmo. Cultiva-se o verso livre, além de que a unidade de medida
do ritmo deixa de ser a sílaba para basear-se na combinação das entonações e das
pausas. Ruptura com a métrica tradicional: versos de duas a doze sílabas, com acentos
regularmente distribuídos. O versolibrismo tem como precursores Rimbaud e Walt
Whitmann. Prega-se a abolição da distinção entre temas poéticos, antipoéticos e
apoéticos; antiacademicismo, antitradicionalismo. Dessacralização da obra de arte, com
predomínio da concepção lúdica sobre a concepção mágica. Presença do humor, através
do poema-piada e do poema-paródia.
Na prosa, a ação e o enredo perdem a importância, em favor das reações e
estados mentais das personagens, construídos por acumulação, em rápidos instantes
significativos, ou através da apresentação da própria consciência em operação.

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Fonte: Massaud Moisés. Presença da literatura portuguesa: O Modernismo. São Paulo,
Difusão Europeias do Livro, 1974 (adaptado)

Segundo Tempo Modernista: Presencismo – Geração Presença


Em 1927, um grupo de artistas fundou uma nova revista, Presença (cujo
primeiro número saiu a 10 de março, vindo a publicar-se, embora sem regularidade,
durante treze anos), que tentou retomar e aprofundar as propostas de Orpheu.
Contando com a colaboração de alguns participantes da geração anterior, os
“presencistas” defenderam uma arte de caráter mais psicologizante. Seus principais
representantes foram: José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca.
Na literatura portuguesa, a revista Presença (de José Régio e João Gaspar
Simões) é por uns entendida como “a contrarrevolução do modernismo” (Eduardo
Lourenço), e, por outros, como “um segundo modernismo”.
O Presencismo, organizado em torno desta revista, representou a consolidação
de algumas conquistas modernistas da Geração Orpheu e, ao mesmo tempo, um recuo
em relação às propostas mais radicais do Primeiro Tempo Modernista. Por isso, a
Geração Presença é caracterizada como conservadora no nível estético e no plano
ideológico.
Privilegiou o psicologismo, a introspectiva radical, a busca do “eu profundo”, o
individualismo, a evasão dos problemas sociais. Propôs uma literatura neutra, sem outro
compromisso que não tem com ela mesma; mais voltada para a temática
universalizante, intemporal, na busca da “verdade mais profunda”, da “essência”.
A reação contra o evasionismo e o psicologismo do Grupo Presença iniciou-se
com a revista Seara Nova, aglutinando, numa perspectiva mais sociológica, autores
como António Ribeiro, Jaime Cortesão e Aquilino Ribeiro.

Fonte: Massaud Moisés. Presença da literatura portuguesa: O Modernismo. São Paulo,


Difusão Europeias do Livro, 1974 (adaptado)

3º Tempo Modernista – Neorrealismo


Corrente literária de influência italiana que anexou alguns componentes da
literatura brasileira, nomeadamente a da denúncia das injustiças sociais do romance
nordestino. Quer na poesia, quer na prosa, o neorrealismo assume uma dimensão de
intervenção social, firmada pelo pós-guerra e pela sedução dos sistemas socialistas que
o clima português de ditadura mitifica.

POEMAS E TEXTOS MODERNISTAS PORTUGUESES


TEIXEIRA DE PASCOAES (INTERREGNO)

Envolvido no momento histórico cultural enfatizado acima, no qual vários


movimentos estéticos diferentes e antagônicos convivem, o grande poeta português
Teixeira de Pascoaes cria um movimento cultural chamado Saudosismo. Este
movimento, de acordo com seu idealizador, deveria lançar as bases seguras nas quais
poderia ser descoberta a verdadeira essência portuguesa. O sentimento de saudade seria
o ponto principal dessa teoria, que ligaria todo o passado glorioso com o espírito
português atual, capaz de restabelecer a grandeza e a altivez do povo lusitano. Tal
movimento discutia assuntos de todas as áreas, pontuando questões políticas, religiosas,
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filosóficas e se propunha como um projeto amplo de renovação do espírito português.
Nessas questões, Pascoaes defendia algumas peculiaridades do caráter lusitano,
composto de certa melancolia lírica, um pendor ao incerto, um modo próprio de se
expressar, que se aproxima mais do sentimento. Na poética defendida por esse
movimento, “o vago”, “o subtil”, “o complexo” eram valorizados e aplicados nas
composições literárias.

TEXTOS/POEMAS SAUDOSISTAS DE PASCOAES


“Se o Universo é a infinita lembrança da esperança, ele é, por isso mesmo, a
expressão cósmica da Saudade. Também a consciência humana resulta de um
movimento reflexo do espírito criador sobre as suas formas já criadas, da esperança
espiritual sobre a lembrança espiritual, da imaginação revolucionária sobre a memória
conservadora. E, por isso, a alma, como síntese daquelas duas forças, é a expressão
transcendente da Saudade.” (in Os Poetas Lusíadas)

“Sem Poesia não há Humanidade. É ela a mais profunda e a mais etérea manifestação
da nossa alma. A intuição poética ou orfaica antecede, como fonte original, o
conhecimento euclidiano ou científico. E nos dá o sentido mais perfeito e harmónico da
vida. Aperfeiçoando o ser humano, afasta-o do antropoide e aproxima-o dos antropos.
Que a mocidade actual, obcecada pela bola e pelo cinema, reduzida quase a uma
fotografia peculiar e uma espécie de máquina de fazer pontapés, despreza o seu
aperfeiçoamento moral; e, com o seu fato de macaco, prefere regressar à Selva a
regressar ao Paraíso. E assim, igualando-se aos bichos, mente ao seu destino, que é ser
o coração e a consciência do Universo: o sagrado coração e o santo espírito. Eis o
destino do homem, desde que se tornou consciente. E tornou-se consciente, porque tal
acontecimento estava contido nas possibilidades da Natureza. Sim, a nossa consciência
é a própria Natureza numa autocontemplação maravilhosa. Ou é o próprio Criador
numa visão da sua obra, através do homem. E, vendo-a, desejou corrigi-la,
transfigurando-se em Redentor.” (in A Saudade e o Saudosismo)

À VENTURA
Obras Completas de Teixeira de Pascoaes. [1.edição, Coimbra, Tip. França Amado, 1901].

Aos MEUS COMPANHEIROS

Ó Saudade tantas vezes invocada,


Musa, que tantos infelizes inspiraste!
Tu, que nos deixas a nossa alma iluminada,
Que tantas Liras, com teus dedos, afinaste!
Ó saudade que és das dores a mais linda.
Que das tristezas és a mais menina e moça,
A mais eleita, a Desejada, a mais bem-vinda!
A que mais nos governa, a mais senhora nossa!
Enche o meu coração da tua claridade,
Desse raio de luz trémulo e moribundo
— Que é o fogo-fátuo de perdida mocidade —
Com que o sol, ao morrer, ensanguenta o mundo!

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E quando à tarde, em labaredas, o Poente
Parece, na distância, uma outra Roma a arder!
É uma saudade, é a dor que a natureza sente
Pelo sol que a fecunda e faz reverdecer!
Ó minha musa triste e d'olhos lacrimosos!
Ensina-me a pintar o que é ficarmos sós!
Que eu saiba ler nos corações desfortunosos.
Que eu aprenda a cantar com lágrimas na voz! (...) [seguem mais 18 estrofes]

TRISTEZA In Elegias

O sol do outono, as folhas a cair,


A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lágrimas, beijando
A terra, e o meu espírito a sorrir...

Eis como a minha vida vai passando


Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir
Silêncios da minh'alma e o ressurgir
De mortos que me foram sepultando...

E fico mudo, extático, parado


E quase sem sentidos, mergulhado
Na minha viva e funda intimidade...

Só a longínqua estrela em mim atua...


Sou rocha harmoniosa à luz da lua,
Petrificada esfinge de saudade...

FLORBELA ESPANCA (INTERREGNO)

Massaud Moisés (em A literatura portuguesa, 1980, p. 312) aponta que Florbela
de Alma da Conceição Espanca, nascida no ano de 1894, em Vila Viçosa, começou a
escrever os seus primeiros versos ainda na época em que cursava o curso secundário, na
cidade de Évora, versos que foram postumamente compilados na obra “Juvenília”, que
data de 1931. Foi infeliz em seus casamentos, tendo passado por três uniões
matrimoniais. Publicou, em 1919 o “Livro de Mágoas” e, em 1923, o “Livro de Sóror
Saudade”. Ambas as obras, ainda nas palavras de Moisés, não exerceram grande
impacto sobre a crítica da época. Faleceu aos 36 anos, casada com o terceiro marido,
como uma possível vítima de suicídio.
Embora não deva ser considerada uma autora do modernismo, Florbela Espanca
começou a publicar as suas poesias no período em que o movimento modernista,
inaugurado em Portugal com a publicação da revista Orpheu (1915), ainda era a
principal estética da época (ABDALA JUNIOR; PASCHOALIN, 1990, p. 135-136).
É curioso destacar que, de acordo com o que elucida José Régio (1995, p. 171),
durante o ano de 1927, em que era publicada a revista Presença, em Portugal, em uma
das suas edições falava-se da obra literária como o “fruto” da vivência e das
experiências reais pelas quais passara um determinado autor; falava-se da obra como a
expressão máxima da dor, do sofrimento ou das alegrias e bons momentos que se
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manifestariam, assim, na produção literária. Nesse contexto, como justificar, ainda
naquela época, a desatenção da crítica e do público para com a obra de Florbela
Espanca, tão pessoal e única? Pois Massaud Moisés (1980, p. 312) afirma que, embora a
obra de Florbela Espanca tenha passado despercebida por muito tempo, recentemente a
poetisa portuguesa:
[...] tem sido considerada muito justamente a figura feminina mais importante da
Literatura Portuguesa. Sua poesia, mais significativa que seus contos, e produto duma
sensibilidade exacerbada por fortes impulsos eróticos, corresponde a um verdadeiro
diário íntimo onde a autora extravasa as lutas que travam dentro de si tendências e
sentimentos opostos. Trata-se duma poesia-confissão, através da qual ganha relevo
eloquente, cálido e sincero, toda a angustiante experiência sentimental duma mulher
superior por seus dotes naturais, fadada a uma espécie de donjuanismo feminino [...].
Florbela era, assim, uma mulher intensa, a qual, durante toda a sua vida buscou o
amor arrebatador, um sentimento superior e único, que inundaria o seu ser com
sensações indescritíveis. Viveu em uma sociedade repressora e retrógrada em muitos
aspectos e, embora em um primeiro momento a obra de Florbela Espanca tenha sido
pouco notada em Portugal, com o tempo consolidou-se pela qualidade e pelo requinte
das produções da poetisa, mesmo que postumamente.

CARACTERÍSTICAS DA OBRA
Conforme reflete sobre a temática das poesias de Florbela Espanca, José Régio
postula que é recorrente a inquietação que permeia a obra da autora. Essa
insaciabilidade com relação à vida e ao amor se materializam em textos permeados,
também, por eroticidade, em sonetos intensos cujos versos retratam o interior da alma
de uma mulher viva, intensa, ardente e complexa, a qual, enquanto humana, também
não está livre de idealizações do amor e do homem amado, aos anseios da mulher
daquela época, bem como, de igual modo, não está livre de momentos de extremo
pessimismo e desilusão. Nas palavras de Régio, “[...] Também, lendo a sua poesia, se
nos vai impondo esta impressão de não caber ela em si: de transbordar, digamos, dos
limites de uma personalidade”.
É esse “transbordamento” do “eu interior” de Espanca, talvez, um dos elementos
fundamentais que constroem a qualidade e a unicidade de sua obra, a qual retrata a
sensibilidade e os anseios de uma mulher cujos sentimentos não encontram limites, o
que evidencia, da mesma forma, o quão torturada foi a sua alma, visto que os
casamentos fracassados e a sua morte trágica permitem inferir que em toda a sua vida,
Florbela Espanca buscou encontrar o amor, mesmo que não fosse amada, como retrata a
poetisa em poemas como “Sonho Vago” e “Amar!”.

14
TEXTOS E POEMAS DE FLORBELA ESPANCA

PENSAMENTOS

O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma
sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou
longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta,
atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de
quê!

Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo,


esmagando, reduzindo; e a inteligência cria em volta de nós um mar imenso de ondas,
de espumas, de destroços, no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que
se debate em vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer
coisa que anda longe: raio de sol em reflexo de estrelas. E todos os astros moram lá no
alto. (In Diário do último Ano.)

AMAR!

Eu quero amar, amar perdidamente!


Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

5 Recordar? Esquecer? Indiferente!...


Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:


10 É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada


Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Breve análise:
Forma: soneto, decassílabo, rimas ABAB, ABBA, CCD, EED; ricas

Título: a exclamação remete a uma ideia, a um insight, a um alarde para um sentimento


tão importante, que é o amor

Primeiro quarteto: versos 1/2 - desejo incontrolável que arrebata o espírito do eu


lírico, de modo que ele deseja, perdidamente, amar, mesmo que esse sentimento se
construa apenas pelo simples propósito de senti-lo, e mais nada
terceiro verso - afirma que o seu amor é livre, e busca amar qualquer pessoa (“Mais
Este e Aquele, o Outro e toda a gente...”) apenas pela sensação que é causada ao ser
tomada pelo amor.

15
quarto verso - torna a expor a inconstância e a instabilidade do amor, pois, por mais
que se ame, pode-se, no fundo, não se amar verdadeiramente alguém.
Essa concepção de liberdade amorosa rompe com o conservadorismo da
época e insere elementos de erotismo na poesia de Florbela.

Segundo quarteto, verso 5 - considera que pouco importa se o amor é recordar um


momento ou esquecê-lo.
sexto verso - complexidade do sentimento, que pode ser atrelar alguém a alguma pessoa
ou libertá-lo de algo; pode ser bom ou pode ser ruim, mas o amor é necessário.
versos 7/8 - reforça que o amor dedicado a uma única pessoa não é perene, e não
acredita que se possa amar apenas uma pessoa durante toda uma vida (expõe a
inconstância de sua alma, humana, que anseia por um turbilhão de sentimentos intensos
e que está propícia a novos arrebatamentos no decorrer da vida).

Primeiro terceto, versos 9, 10 e 11 - considera ser necessário aproveitar a vida ao


máximo pois, “se Deus nos deu voz/ foi pra cantar”, ou seja, se nós somos capazes de
amar intensamente, não apenas uma, mas várias pessoas durante a vida, devemos então
aproveitar essa capacidade e amar sem nos prendermos a qualquer obstáculo. Essa ideia
remete ao ideal clássico do “Carpe Diem”, que prega que o homem deve aproveitar o
dia, aproveitar a vida.

Último terceto, versos 12, 13 e 14 - afirma que, se um dia a morte lhe levar, que seja
essa noite um nascer do sol, uma alvorada, um novo começo, pois teria vivido, então,
intensamente, sem se prender a dogmas, apenas à liberdade de amar, à liberdade de sua
alma. Encerra o poema ao reafirmar o seu desprendimento a um sentimento tido como
perene, estando ela, pois, sempre aberta a novos amores, a novos arrebatamentos que
podem tomar conta de seu ser (“Que me saiba perder... pra me encontrar”, verso 14).

O soneto mostra uma poeta à frente do seu tempo, que expressava as vontades da
mulher, ainda reprimida na época em que viveu. Florbela foi, então, ousada em sua
poesia: enquanto humana, se entregava aos seus desejos e anseios, sem se importar com
o choque causado pela sua poesia, que é, sobretudo, sincera e real.
Observe-se a técnica barroca da disseminação e recolha no primeiro verso do último
terceto: é como se, decrescendo, a vida é disseminada e recolhida por pó, que se
transforma em cinza, que se transforma em nada.

Temática: busca incessante do amor

VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,


Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade


Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

16
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,


E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

ALMA PERDIDA

Toda esta noite o rouxinol chorou,


Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,


Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei


Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,


Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

NUNCA...

Nunca fui como todos


Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...

FANATISMO in Livro de Sóror Saudade

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.


Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

17
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist'rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”


Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:


"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

(Obs. Este poema foi musicado e cantado por Fagner)

EU in Livro de Mágoas

Eu sou a que no mundo anda perdida,


Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,


E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...


Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,


Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

SEI LÁ! SEI LÁ! EU SEI LÁ BEM

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem


Quem sou? um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo...um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!


Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...


Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...
18
Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...

COTEJE-SE O POEMA COM A TERCEIRA CARTA DE SOROR MARIANA


ALCOFORADO (1640-1723) / BARROCO PORTUGUÊS – TEMA DO EU
PERDIDO E DO AMOR
Cartas Portuguesas. traduzidas por Eugénio de Andrade (pseudón.). Edição bilíngue, RTP,
Março de 1980, 80 págs.

Não sei o que sou, nem o que faço, nem o que quero; estou despedaçada por mil
sentimentos contrários. Pode imaginar-se estado mais deplorável? Amo-te de tal
maneira que nem ouso sequer desejar que venhas a ser perturbado por igual
arrebatamento. Matar-me-ia ou, se o não fizesse, morreria desesperada, se viesse a ter a
certeza que nunca mais tinhas descanso, que tudo te era odioso, e a tua vida não era
mais que perturbação, desespero e pranto. Se não consigo já suportar o meu próprio
mal, como poderia ainda com o teu, a que sou mil vezes mais sensível? Contudo, não
me resolvo a desejar que não penses em mim; e confesso ter ciúmes terríveis de tudo o
que em França te dá gosto e alegria, e impressiona o teu coração.
(...)

SOROR SAUDADE
A Américo Durão

Irmã, Soror Saudade me chamaste…


E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste,


Toda a mágoa do Outono ele me trouxe,
Jamais me hão-de chamar outro mais doce.
Com ele bem mais triste me tornaste…

E baixinho, na lama da minh'alma,


Como bênção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo


Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: «Irmã, Soror Saudade…»
“Livro de Soror Saudade”, in Poesia Completa

À MORTE

Morte, minha Senhora Dona Morte,


Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
19
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,


Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,


Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!

Sonetos, Paisagem Editora, 1982 - Porto, Portugal

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa em 1890. Viveu a maior parte da sua vida em
Paris, onde estudou Direito e onde escreveu a maior parte da sua obra. Paris sempre foi
para Mário de Sá-Carneiro uma cidade de fascínio e foi nela que descobriu o cubismo e
o futurismo, tal como Fernando Pessoa, seu grande amigo.
Foi com Fernando Pessoa, Luís de Montalvor, Armando Côrtes Rodrigues, Alfredo
Guisado e outros, que fundou a revista Orpheu, vindo esta a ter um papel fundamental
na renovação da literatura portuguesa do século XX. Mário de Sá-Carneiro é um dos
poetas mais significativos do modernismo em Portugal. A sua obra reflecte um modo de
estar e de sentir repercutido numa insatisfação constante. A sua busca, a sua procura,
radica num desejo estético pela sublimação do eu.
Obras poéticas: Dispersão (1914), Indícios de Oiro (1937).
Obras de ficção: A Confissão de Lúcio (1914) e Céu em Fogo (1915).
Mário de Sá-Carneiro não soube adaptar-se à vida: inadaptado, acabou por destruí-la
matando-se. Foi a impossibilidade de equilíbrio emocional que o conduziu ao suicídio.
Perante o fracasso do homem, o artista floresceu em beleza e frutificou. A sua obra,
aquilo que realmente ele chegou a possuir, ficou e ainda vive. Suicidou-se num quarto
de hotel em Paris, em 1916.
Fonte: http://www.truca.pt/ouro/biografias1/mario_de_sa_carneiro.html

SUICÍDIO DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Uma vez que a vida que trazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se
concretizar, Sá-Carneiro entrou numa cada vez maior angústia, que viria a conduzi-lo ao
seu suicídio prematuro, perpetrado no Hôtel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris,
com o recurso a cinco frascos de arseniato de estricnina. Embora tivesse adiado por
alguns dias o dramático desfecho da sua vida, numa «carta de despedida» para Fernando
Pessoa, Mário de Sá-Carneiro revela as suas razões para se suicidar:

Meu querido Amigo.


A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o
seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá
deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo
20
ridículo que sempre encontrei nas «cartas de despedida»... Não vale a pena
lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto
sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha
a dar. Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei
pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade
– numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a
única maneira de fazer o que devo fazer. Vivo há quinze dias uma vida como
sempre sonhei: tive tudo durante eles: realizada a parte sexual, enfim, da minha
obra – vivido o histerismo do seu ópio, as luas zebradas, os mosqueiros roxos da
sua Ilusão. Podia ser feliz mais tempo, tudo me corre, psicologicamente, às mil
maravilhas, mas não tenho dinheiro. [...]
Mário de Sá-Carneiro, carta a Fernando Pessoa, 31 de Março de 1916.

RESSURREIÇÃO - CONTO
(De Céu em Fogo, 2.ª ed., pp. 286 a 291)
(Fonte: Antologia da Ficção Portuguesa Contemporânea. Org. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa:
Instituto de Cultura Portuguesa, 1979)

Tinha sido em Paris. Uma noite, casualmente, encontrara-se num pequeno teatro
vermelho para Montmartre, bocejando o seu tédio. Mas de súbito, entre as intérpretes da
revista idiota, os seus olhos fixaram-se numa dançarina meia nua – esplêndida, duma
beleza enclavinhada: corpo agreste, musculoso, seios oscilantes, pequenos e esguios –
lábios roxos, grandes olhos admirados, cabelos negros, - e a carne, a carne luminosa,
mordorada a trigueiro, para se cobrir de esmeraldas. Nocturnamente, seria bem aquele
talvez – excelsior! o corpo triunfal da Salomé...
E no enlevo granate da maravilha, contemplando-a suspenso, o seu cérebro
imaginoso logo se lembrou de construir um romance sobre ela – ai, agora, bem barato
romance...
Voltara-lhe de súbito a nostalgia da gentileza – desses brandos episódios loiros
que, em todo o caso, nos desenastram a alma e agitam véus cor-de-rosa em cerca à
nossa vida.
Sim, pelas mesas dos cafés, quantas vezes invejara aqueles que esperavam uma
companheira gentil que aparecia modesta, ligeira, afável – ao passo que ele se detinha
solitário sempre, endurecido... Todo de incoerências – embora as suas repugnâncias, não
lograra ainda renunciar definitivamente àquilo que os outros possuíam, e devia ser em
verdade de tão meigas cores...
A sua primeira amante não a buscara ele; ela própria viera ao seu encontro –
nem a possuíra ele; ela só o possuíra... As outras tinham sido tão raras, tão distantes...
Eis pelo que em face do corpo aureoral, recordando-lhe estas invejas, estes
desgostos – o romancista começara, em inferioridade, a arquitectar um enredo...
Hoje corava de si mesmo se lhe lembrava a pobre história – nem podia acreditar
que a tivesse vivido...
Ela fora assim:
No dia seguinte pegara num exemplar luxuoso da sua última obra e enviara-o
pelo correio à bailarina, acompanhado duma carta escrita premeditadamente, em
romantismo, do Pavilhão d’Armenonville – uma carta tola onde justificava o seu envio
desta maneira: a dançarina dera-lhe uma sensação tão grande de beleza – ah! de beleza
apenas, não o fosse julgar apaixonado – que, ele, o Artista, o divino que só procurava

21
por toda a parte as emoções gloriosas, não resistira, em primeiro lugar, a agradecer-lhe a
visão estética sublime que o seu corpo lhe proporcionara e, depois, a ansiar viver um
pouco em torno à maravilha – de qualquer forma referindo-se a ela.
Assim lhe mandava esse volume – que de resto a encantadora nem saberia ler,
escrito numa língua estrangeira – para que ao menos os seus dedos esguios,
maquilhados, perturbantes, uma vez tacteassem alguma coisa dele (o seu nome, as suas
palavras) – e essa carta, para que um dia, mais tarde, longos anos volvidos, as suas mãos
secas a achassem, quem sabe, entre velhos papéis... E então, longinquamente o
recordaria – isto é: fosse como fosse, ele volvera-se uma personagem da sua
existência...
Mas havia mais, pois – suave glória! – a partir da tarde em que lhe escrevera,
ele, o desconhecido, ao admirá-la nos teatros onde dançaria nua – saberia em verdade
alguma coisa do seu passado: que ela uma vez recebera uma carta sua, um livro seu,
estrangeiro...
Enfim, o certo era que, sem nunca se terem encontrado, milagrosamente iam
deixar de ser dois estranhos – uma pequenina coisa de ora avante os ligaria: existiriam
com efeito em relação um ao outro...
A rapariguinha – romanesca talvez, ou apenas interesseira – breve lhe
respondera numa pobre carta sem ortografia, acusando a recepção do livro, afirmando
que tinha gostado muito da carta, pedindo que lhe escrevesse mais.
E havia nas suas frases toscas um tal desejo de corresponder ao pensamento
delicado, de ser graciosa – que uma onda de ternura quebrantou Inácio...
Logo essa tarde, num entusiasmo, correu a um grande florista da rua Scribe e
enviou cinquenta francos de cravos à bailadeira – com um simples cartão de visita
prometendo nova carta.
Só lha escreveu no outro dia. Então, insidiosamente, ele dispunha o curso ido
enredo – cantando em audácia o esplendor da sua carne ébria, dando-lhe a entender que
não era rico, mas tinha vinte anos – para prevenir uma desilusão...
Terminava a lastimar-se, sempre em ardil, que era muito belo o seu papel
misterioso de «desconhecido» mas que ignorava se teria coragem para o desempenhar
até ao fim...
Na volta do correio, recebeu a resposta. E logo de novo se enterneceu,
ondeadamente. A caligrafia era melhor – mais cuidadosas a ortografia e a gramática...
Um desejo evidente de agradar... E, com uma simplicidade adorável, a rapariguinha
perguntava porque se não haviam de conhecer. Ela gostaria tanto...
Um júbilo infinito, esplêndido, lhe correu na alma. Beijou a carta repetidas
vezes...
– Enfim! um pouco de sol chegava à sua vida... Ah! que triunfo admirável
passear nas ruas de Paris com essa mulher dourada, e possuí-la – estiraçar-se
imperialmente sobre a sua carne de aurora, entregar-se-lhe todo em amor e anseio
fluido!... Havia de a morder, de a ferir – sim, de a ferir! – com os seus beijos,
arroxeadamente...
... E ela parecia-lhe tão humilde, tão pobrezinha, tão pouca coisa... Pois bem! ele
a levaria aos maiores restaurantes, às casas de chá mais luxuosas... Era-lhe impossível
vesti-la de joias, mas ensinar-lhe-ia que os grandes perfumistas são Delettrez,
Houbigant, Lanthéric – que os mais esquisitos bombons saem das lojas do Boissier, do
Marquis...
Como ia ser venturoso, como ia ser belo... Na manhã seguinte esperava três mil
francos de Lisboa!
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Saiu. Após o almoço entrou na Napolitano para lhe escrever uma carta em que
marcaria o primeiro rendez-vous para dali a dois dias. Pediu café, papel, sobrescritos...
E, de súbito, encontrou-se a pensar:
«– Afinal para quê... para quê... Aonde vou?... Sim, de que me vale prolongar
tudo isto?... Conhecê-la-ei... beijá-la-ei, pode ser... e depois?... Que haverá de comum
entre mim e ela?... Pobre criaturinha fútil, banalizada, insensível...
Possuí-la? – oh!... possuí-la... Demais sei o que me espera!... E seguir-se-ão mil
pequenas contrariedades... mil pequenos desenganos... encontros a certas horas... mil
complicações inúteis... Para que? para quê?... Não... Decididamente não vale a pena...
de modo algum…»
E, numa resolução momentânea, limitou-se a escrever-lhe um rápido bilhete
onde lhe dizia que era na realidade tão encantadora, tão cendrada, aquela aventura
longínqua – que o melhor seria pôr-lhe termo, ser subtil até ao fim: não prosseguir para
não quebrar o encanto... Saiu. Estampilhou o bilhete no bureau próximo do Boulevard
dos Italianos – deitou-o na caixa... sem uma saudade; sem mágoa nem arrependimento...

............................................................................................................................................

Ainda alguns dias pensou, é claro, no triste episódio – mas sempre levemente,
embora com ternura. A rapariguinha não lhe tornou a escrever – e ele lembrava-se da
cruel desilusão que fora talvez para ela a sua última carta... Via-a também sonhando
amor, como ele, a certas horas – e a caminhar radiante para uma aventura literalizada
em pacotilha, mas quem sabe se ideal aos seus pobres olhos...
E chegava-lhe assim uma piedade esvaída pela bailadeira nua, perversamente: só
porque ela sofrera talvez dele, muito, um dia...
As suas cartas, guardara-as num grande sobrescrito – preciosas, pois iam-lhe
servir para fixar palpavelmente alguns instantes dessa época da sua vida, alguns
instantes do Paris dos seus vinte e três anos... Aliás notava hoje bem como tivera razão
em pôr um termo à aventura. Lançado nela, coisa alguma o deteria – e embalde, pois o
certo era que nem mesmo por mais que beijasse esse corpo esplêndido, alcançaria nele
aquilo por que uma noite o ambicionara. Com efeito o artista só poderia saciar os seus
desejos – não estrebuchando esse corpo nu, magnífico; mas sim se ao mesmo tempo
vencesse possuir os passos da bailarina sobre aquele pequeno tablado dum teatro
vermelho para Montmartre... e os seus gestos, os seus sorrisos, o carmim dos seus
lábios, os seus véus, as suas lantejoulas, as suas joias falsas, as luzes que a iluminavam
– todos os ritmos de cor e som que soçobravam rodopiando em volta da sua carne, a
subtilizarem-lhe, a aureolarem-lhe o corpo indistinto em vertigens e apoteoses!...

PENSAMENTOS

“Sou todo incoerências. Vivo desolado, abatido, parado de energia, e admiro a vida,
entanto como nunca ninguém a admirou!”

“Ouve esta música? É a expressão da minha vida: uma partitura admirável, estragada
por um horrível, por um infame executante.”

“Morte, que mistérios encerras?... Ninguém o sabe... Todos o podem saber...Basta ir ao


teu encontro, corajosa, resolutamente, que nenhum mistério existirá já!”

23
POEMAS DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

PARTIDA

Ao ver escoar-se a vida humanamente


Em suas águas certas, eu hesito,
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.

Afronta-me um desejo de fugir


Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz
Não há muitos que a saibam reflectir.

A minh'alma nostálgica de além,


Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobe um pranto
Que tenho a fôrça de sumir também.

Porque eu reajo. A vida, a natureza,


Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul á busca da beleza.

É subir, é subir àlem dos céus


Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados resar, em sonho, ao Deus
Que as nossas mãos de auréola lá douraram.

É partir sem temor contra a montanha


Cingidos de quimera e d'irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.

É suscitar côres endoidecidas,


Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-unção d'alma ampliada,
Viajar outros sentidos, outras vidas.

Ser coluna de fumo, astro perdido,


Forçar os turbilhões aladamente,
Ser ramo de palmeira, água nascente
E arco de ouro e chama distendido...

Asa longinqua a sacudir loucura,


Nuvem precoce de subtil vapor,
Ânsia revolta de mistério e olor,
Sombra, vertigem, ascensão - Altura!

24
E eu dou-me todo neste fim de tarde
À espira aérea que me eleva aos cumes.
Doido de esfinges o horizonte arde,
Mas fico ileso entre clarões e gumes!...

Miragem rôxa de nimbado encanto –


Sinto os meus olhos a volver-se em espaço!
Alastro, venço, chego e ultrapasso;
Sou labirinto, sou licorne e acanto.

Sei a distância, compreendo o Ar;


Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz;
Sou taça de cristal lançada ao mar,1
Diadema e timbre, elmo real e cruz...
...............
...............

O bando das quimeras longe assoma...


Que apoteose imensa pelos céus!
A côr já não é côr - é som e aroma!
Vem-me saudades de ter sido Deus...

* * *

Ao triunfo maior, avante pois!


O meu destino é outro - é alto e é raro.
Únicamente custa muito caro:
A tristeza de nunca sermos dois... In Dispersão

O AMOR

Mote
Amor é chama que mata,
Sorriso que desfalece,
Madeixa que desata,
Perfume que esvaece

1
Possível intertextualidade com a CANÇÃO DO REI DE THULE, Poema de Goethe em tradução de
Guilherme de Almeida:
Houve um rei de Thule, que era / mais fiel do que nenhum rei. / A amante, ao morrer, lhe dera / um copo
de oiro de lei.// Era o bem que mais prezava / e mais gostava de usar: / e quanto mais o esvaziava / mais
enchia de água o olhar. / Quando sentiu que morria, / o seu reino inventariou, /e tudo quanto possuía,
/menos o copo, doou. // Depois, sentando-se à mesa, / fez os vassalos chamar / à sala de mais nobreza / do
castelo, sobre o mar. / E ele ergue-se acabrunhado, / bebe o último gole então / e atira o copo sagrado / às
ondas que em baixo estão. // Viu-o flutuar e afundar-se, / que o mar o encheu de seus ais. / Sentiu a vista
enevoar-se: / E não bebeu nunca mais!
25
Glosas
Amor é chama que mata,
Dizem todos com razão,
É mal do coração
E com ele se endoidece.
O amor é um sorriso
Sorriso que desfalece.

Madeixa que se desata


Denominam-no também.
O amor não é um bem:
Quem ama sempre padece.
O amor é um perfume
Perfume que esvaece.

O PAJEM

Sozinho de brancura, eu vago --- Asa


De rendas que entre cardos só flutua...
--- Triste de Mim, que vim de Alma prà rua,
E nunca a poderei deixar em casa...

A QUEDA

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,


Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro,


Volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesouro,
Morro á mingua, de excesso.

Alteio-me na côr à fôrça de quebranto,


Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,


- Vencer ás vezes é o mesmo que tombar –
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais, ascendo até ao fim:
Olho do alto o gêlo, ao gêlo me arremesso...

...............

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!... In Dispersão

26
ESTÁTUA FALSA

Só de ouro falso os meus olhos se douram;


Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,


Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.

Já não estremeço em face do segredo;


Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de mêdo!

Sou estrêla ébria que perdeu os céus,


Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...
Iin 'Dispersão'

DISPERSÃO
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida


Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,


Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é familia,


É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).

27
O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada


Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,


Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro


Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro –
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,


Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,


Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo
A sua bôca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.
(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)
E sinto que a minha morte –
Minha dispersão total –
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
28
Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,


Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas


Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pêna de mim,


Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me nalma o crepusculo;


Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Alcool dum sono outonal


Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,


E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

...............
...............

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

...............
............... In Dispersão

FIM

Quando eu morrer batam em latas,


Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
29
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

EPÍGRAFE

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...


Aqui, tudo já foi... Em sombra estilizada,
A cor morreu --- e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina ---
Um som opaco me dilui em Rei...

QUASE In Dispersão

Um pouco mais de sol - eu era brasa,


Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído


Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,


Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...


- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...


Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...


Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,


Tudo encetei e nada possuí...
30
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

...............
...............

Um pouco mais de sol - e fora brasa,


Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

ALÉM-TÉDIO In Dispersão

Nada me expira já, nada me vive -


Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,


Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus


À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,


Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura


Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:


É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

VONTADE DE DORMIR In Dispersão

Fios d'ouro puxam por mim


A soerguer-me na poeira -
Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte...
...............
31
- Ai que saudade da morte...
...............
Quero dormir... ancorar...
...............
Arranquem-me esta grandeza!
- Pra que me sonha a beleza,
Se a não posso transmigrar?...

RELEITURAS MODERNISTAS E CONTEMPORÂNEAS

COMIGO ME DESAVIM
FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA, Cancioneiro Geral de Garcia
de Resende, 1516
Comigo me desavim,
vejo-m’em grande perigo,
nam posso viver comigo
nem posso fogir de mim.

Antes qu'este mal tevesse,


da outra gente fugia,
agora ja fugiria
de mim, se de mim podesse.
Que cabo espero ou que fim
deste cuidado que sigo,
pois trago a mim comigo
tamanho imigo de mim? (CGGR, II, p. 338)

POEMA 7 (Mário de Sá-Carneiro in: Indícios de Oiro, fev. 1914)

Eu não sou eu nem sou o outro,


Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

MINHA SENHORA DE MIM MARIA TERESA HORTA

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço


nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo


o amigo nos meus braços

32
Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito


no interior do meu peito

SÁ DE MIRANDA CARNEIRO
ALEXANDRE O’NEILL – Surrealismo português, 1979

Comigo me desavim
eu não sou eu nem sou o outro

sou posto em todo perigo


sou qualquer coisa de intermédio

não posso viver comigo


pilar da ponte de tédio

não posso viver sem mim


que vai de mim para o Outro.

MANUCURE” – excerto

Hurrah! Por vós, indústria tipográfica!


-Hurrah! Por vós, empresas jornalísticas!

33
COTEJO COM OS POEMAS DE MALLARMÉ E APOLLINAIRE

Assim como o poema de Sá-Carneiro, o poema “Calligrames” de Apollinaire (1918) e


de Mallarmé, “Un coup de dés", de 1897, pode ser considerado um precursor da
moderna poesia visual., ambos expoentes franceses do vanguardismo (Apollinaire) e do
Simbolismo (Mallarmé):

Calligrame de Apollinaire, 1918

34
Un coup de dés, de 1897 - Mallarmé

35
INTRODUÇÃO À POESIA DE FERNANDO PESSOA

Visitar: Casa de Fernando Pessoa http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt e


http://arquivopessoa.net

Para melhor interpretar a poética de Fernando Pessoa, é necessário ter um conhecimento


básico de pelo menos três movimentos filosóficos que o poeta aplica em seus poemas.
São o epicurismo, o estoicismo e o niilismo.

EPICURISMO

Epicurismo é um sistema filosófico, que prega a procura dos prazeres moderados


para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo, com a ausência de
sofrimento corporal pelo conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos
desejos.
No entanto, quando os desejos são exacerbados podem ser fonte de perturbações
constantes, dificultando o encontro da felicidade que é manter a saúde do corpo e a
serenidade do espírito.
Epicurismo é um sistema criado por um filósofo ateniense chamado Epicuro de
Samos no século IV a.C. Existem vários fundamentos básicos do Epicurismo, porém, se
distingue o desejo para encontrar a felicidade, buscar a saúde da alma, lembrando que o
sentido da vida é o prazer, objetivo imediato de cada ação humana considerando sem
sentido as angústias em relação à morte, e a preocupação com o destino.
Os seguidores do epicurismo são chamados de epicuristas e, de acordo com o sistema
filosófico, devem procurar evitar a dor e as perturbações, levar uma vida longe das
multidões (mas não solitário), dos luxos excessivos, se colocando em harmonia com a
natureza e desfrutando da paz.
Outro valor defendido pelo epicurismo e seus defensores é a amizade. A amizade traz
uma grande felicidade para as pessoas, já que a convivência pode ocasionar uma troca
saudável de pensamentos e opiniões enriquecedoras.
Segundo Epicuro, o criador do epicurismo, as pessoas não podem viver de forma
agradável se não forem prudentes, gentis com os outros e justas em suas atitudes e
pensamentos sem viver prazerosamente. As virtudes então devem ser praticadas como
garantia dos prazeres.
Fonte: https://www.significados.com.br/epicurismo/

Exemplo no livro Páginas íntimas... (bibliografia na sequência do texto), escrito pelo


heterônimo pessoano Frederico Reis

Resume-se num epicurismo triste toda a filosofia da obra de Ricardo Reis. Tentaremos
sintezá-la. (sic)
Cada qual de nós — opina o Poeta — deve viver a sua própria vida, isolando-se dos
outros e procurando apenas, dentro de uma sobriedade individualista, o que lhe agrada e lhe
apraz. Não deve procurar os prazeres violentos, e não deve fugir às sensações dolorosas que
não sejam extremas.
Buscando o mínimo de dor ou [...], o homem deve procurar sobretudo a calma, a
tranquilidade, abstendo-se do esforço e da actividade útil.
Esta doutrina, dá-a o poeta por temporária. É enquanto os bárbaros (os cristãos)
dominam que a atitude dos pagãos deve ser esta. Uma vez desaparecido (se desaparecer) o
império dos bárbaros, a atitude pode então ser outra. Por ora não pode ser senão esta.
36
Devemos buscar dar-nos a ilusão da calma, da liberdade e da felicidade, coisas
inatingíveis porque, quanto à liberdade, os próprios deuses — sobre que pesa o Fado — a
não têm; quanto à felicidade, não a pode ter quem está exilado da sua fé e do meio onde a
sua alma devia viver; e quanto à calma, quem vive na angústia complexa de hoje, quem
vive sempre à espera da morte, dificilmente pode fingir-se calmo. A obra de Ricardo Reis,
profundamente triste, é um esforço lúcido e disciplinado para obter uma calma qualquer.
Tudo isto se apoia num fenómeno psicológico interessante: numa crença real [?] e
verdadeira nos deuses da Grécia antiga, admitindo Cristo [...] como um deus a mais, mas
mais nada — ideia esta de acordo com o paganismo e talvez em parte inspirada pela ideia
(puramente pagã) de Alberto Caeiro de que o Menino Jesus era «o deus que faltava.»
1915?
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por
Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1996. - 386.

ESTOICISMO

Estoicismo é um movimento filosófico que surgiu na Grécia Antiga e que preza


a fidelidade ao conhecimento, desprezando todos os tipos de sentimentos externos,
como a paixão, a luxúria e demais emoções.
Este pensamento filosófico foi criado por Zenão de Cício, na cidade de Atenas, e
defendia que todo o universo seria governado por uma lei natural divina e racional.
Para o ser humano alcançar a verdadeira felicidade, deveria depender apenas de suas
“virtudes” (ou seja, o conhecimento, de acordo com os ensinamentos de Sócrates),
abdicando totalmente o “vício”, que é considerado para os estoicos um mal absoluto.
Para a filosofia estoica, a paixão é considerada sempre má, e as emoções um vício da
alma, seja o ódio, o amor ou a piedade. Os sentimentos externos tornariam o homem um
ser irracional e não imparcial.
Um verdadeiro sábio, segundo o estoicismo, não deveria sofrer de emoções externas,
pois estas influenciariam em suas decisões e raciocínios.
Etimologicamente, o termo estoicismo surgiu a partir da expressão grega stoà poikile,
que significa “Pórtico das Pinturas”, o local onde o fundador desta doutrina filosófica
ensinava os seus discípulos em Atenas.
O estoicismo é dividido em três principais períodos: ético (antigo), eclético (médio)
e religioso (recente).
O chamado estoicismo antigo ou ético foi o vivido pelo fundador da doutrina, Zenão de
Cício (333 a 262 a.C), e foi concluída por Crisipo de Solunte (280 a 206 a.C), que teria
desenvolvido a doutrina estoica e transformado no modelo que é conhecido na
atualidade.
Já no estoicismo médio ou eclético, o movimento começa a se disseminar entre os
romanos, sendo o principal motivador da introdução do estoicismo na sociedade romana
Panécio de Rodes (185 a 110 a.C).
A característica mais marcante deste período, no entanto, foi o ecletismo que a doutrina
sofreu a partir da absorção de pensamentos de Platão e Aristóteles. Posidônio de
Apaméia (135 a.C a 50 d.C) foi o responsável por esta mistura.
Por fim, a terceira fase do estoicismo é conhecida como religiosa ou recente. Os
membros deste período enxergavam a doutrina filosófica não como parte de uma
ciência, mas como uma prática religiosa e sacerdotal. O imperador romano Marco
Aurélio foi um dos principais representantes do estoicismo religioso.

Fonte: https://www.significados.com.br/estoicismo/

37
Exemplo no livro A educação do estoico, pp. 34-35, do Barão de Teive, heterônimo
(ou semi-heterônimo) de Fernando Pessoa:

Nunca pude convencer-me de que podia, ou de que alguém seguramente poderia, dar
alívio certo ou profundo, e muito menos cura, aos males humanos. Mas nunca, também,
pude tirar deles o pensamento; a mais pequena angústia humana - mais, a mais leve
imaginação dela - sempre me angustiou, me transtornou, me tirou do poder de me
concentrar e de me egoizar. O convencimento da futilidade de toda a terapêutica para a
alma deveria, por certo, erguer-me a um píncaro de indiferença, entre o qual e as
agitações da terra velassem tudo as nuvens daquele mesmo convencimento. O
pensamento, porém, poderoso como é, nada pode contra a rebeldia da emoção. Não
podemos não sentir, como podemos não andar. Assim assisto, e assisti sempre, desde
que me lembro de sentir com as emoções mais nobres, à dor, à injustiça e à miséria que
há no mundo do mesmo modo que assistiria um paralítico ao afogamento de um homem
que ninguém ainda que válido, poderia salvar. A dor alheia tornou-se em mim mais do
que uma só dor - a de a ver, a de a ver irreparável, e a de saber que o conhecê-la
irreparável me empobrece até da nobreza inútil de querer ter os gestos de a reparar. A
minha falta de impulso foi sempre, afinal, a fonte da origem destes males todos - o não
saber querer antes de pensar, o não saber entregar-me, o não saber decidir do único
modo como se decide - com a decisão, que não com o conhecimento -, burro de Buridan
morrendo na bissectriz matemática da água da emoção e da palha do esforço, podendo,
se não pensasse, morrer sim, porém não de fome nem de sede.

NIILISMO

Como negar a vida? Ou melhor, como fazer da negação uma forma de vida? O niilismo
é o caminho que leva o homem para o abismo, e hoje lentamente marchamos
entorpecidos para nosso destino final. O niilista é o acusador: dos outros, de si, da
existência. O sacerdote, o utópico, o sonhador, o crente, o fascista, o iludido, todos
criam ficções para justificar suas acusações a este mundo e assim tornar a vida mais
(in)suportável.
Pobres negadores, eles seguem o que Nietzsche tão bem explicou na Genealogia da
Moral: O homem ainda prefere querer o nada à nada querer. “Não é a vontade que se
nega nos valores superiores, são os valores superiores que se referem a uma vontade de
negar, de aniquilar a vida” (Deleuze, Nietzsche e a Filosofia). O niilista quer viver, mas
só pode fazê-lo de modo doente, estende uma grande cortina negra sobre a realidade
para não encará-la de frente.
Nietzsche afundou na doença europeia para entender o niilismo até sua medula.
Schopenhauer afundou-se nele também, mas o filósofo do martelo foi um dos poucos
que o superou. É preciso filosofar à sombra do niilismo, sem se afogar em suas águas
traiçoeiras.
Da ótica do doente ver conceitos e valores mais sãos, e, inversamente, da plenitude e
certeza da vida rica descer os olhos ao secreto labor do instinto de décadence. Este foi o
meu mais longo exercício, minha verdadeira experiência, se em algo vim a ser mestre,
foi nisso – Nietzsche, Ecce Homo, Por que sou tão sábio? §2
Deleuze, posteriormente, lendo sua obra, sistematizou suas proposições em quatro
formas de niilismo:
Niilismo Negativo: Aqui, nega-se o mundo em nome de outros valores. Mas o niilista
engana a si próprio, ele nunca diz negar o mundo, pelo contrário, ele se diz afirmando
38
Deus. Divisão de dois mundos, um debaixo: sensível, mutável, corporal, temporal; outro
supra-sensível: imutável, ordenado, atemporal. O niilista negativo cria outros mundos
para poder suportar este. Se esta ordem terrena o faz sofrer, ele diz: Deus é misterioso,
escreve por linhas tortas. Se o homem sofre aqui na terra ele diz: Deus, tenha piedade. A
vontade se torna doente, remete a mundos fora deste. “Não amem o mundo nem o que
nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” [1Jó 2:15]. Este mundo
é ruim, portanto, o niilista deve provavelmente ser o escolhido de Deus (um deus dos
fracos, oprimidos, que sofrem), esta é a figura do ressentimento.
Niilismo Reativo: o homem capitalista não nega o niilismo negativo ele dá um passo
adiante: morte de Deus. Somos todos ateus! Deus morreu porque nosso cotidiano não é
mais guiado pelos preceitos divinos. Sim, matamos Deus e ele mereceu, mas agora o
homem é sagrado. Viva os direitos do homem! O além agora é o futuro, “no dia da
revolução todos serão redimidos“. Trabalhe por um mundo melhor, sirva à sociedade. A
ciência dará todas as respostas. Enfim, ainda somos religiosos, o homem matou a
verdade fora deste mundo, mas ainda acredita numa verdade metafísica neste mundo,
um mundo melhor por vir.
Niilismo Passivo: aos poucos, a vontade de potência se esgota no niilismo, ela vaza,
escoa, procura afirmar-se em outros lugares. O homem cada vez mais doente tem cada
vez menos capacidade de afirmar-se. O niilismo passivo é o dos últimos dos homens
(Zaratustra, parte IV). “Onde está o mar para que eu possa me afogar?“, mas o mar
secou! As figuras anteriores tinham uma vontade de nada mas o niilista passivo passa
para o nada de vontade, estamos perto do fim… É aquele que prefere extinguir-se
passivamente. A chama se apaga, surge a escuridão sem fim. Mortos-vivos, não
encontram vida dentro de si (mesmo ela estando lá), mas ainda se movem.
Niilismo Ativo: “O homem é uma criação recente cujo fim talvez esteja próximo”
(Foucault). Quando as forças de negação atingem o seu limite, elas chegam do outro
lado. O niilismo nega a si mesmo, há um rompimento. Encontramos então alguém que
quer perecer, ser ultrapassado, morrer, sim!, e para isso ele faz da vontade de potência
uma negação das próprias forças reativas. Se destruir ativamente! Destruir o niilismo
dentro de si! Como podemos acelerar a roda do devir? Negando as forças de negação. O
que vem depois do homem moderno? O que está além do homem? Não foi Nietzsche
quem matou Deus, foi o homem moderno, Nietzsche é o filósofo da morte do homem!
Para quê? Para criar novos valores! Só é escapar destes valores humano, demasiado
humanos, criando novos; o maior perigo do homem, no fim das contas, sempre foi o
próprio homem, criar é sempre ir para além do homem.
Da mesma forma que a aposta de Pascal, existe uma aposta para o mundo. Essa aposta
serve para destruir com as três primeiras formas de niilismo. Isto porque acreditar no
mundo pode nos trazer ganhos infinitos! Mas não acreditar neste mundo nos traz perdas
terríveis! A realidade existe, isso não necessita de prova alguma, mas como se situar
nela? É preciso apostar na de pessoas com processos criativos e afirmativos. Fazer da
vida matéria prima, só assim se pode viver bem, mesmo com a dor, a morte, a pobreza e
principalmente a tolice!
Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo – não
há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto
significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo… Mas não existe nada fora do
todo! – “O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não
pode ser remontado a uma causa prima, de que o mundo não é uma unidade nem
como sensorium nem como ‘espírito’, apenas isto é a grande libertação – somente com

39
isso é novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser…” – Nietzsche, Crepúsculo dos
Ídolos, IV, §8.

Fonte: https://razaoinadequada.com/filosofos-essenciais/nietzsche/4-formas-de-niilismo/#primary

EXEMPLO EM ÁLVARO DE CAMPOS

Não ser nada, ser uma figura de romance,


Sem vida, sem morte material, uma ideia,
Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,
Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.
(Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 92).

Veja mais exemplos nos poemas de Álvaro de Campos, principalmente


“Tabacaria” e “Lisbon revisited, 1923”, neste material.

FERNANDO PESSOA - 1. “Quem me dirá quem sou?”, ou a biografia de um


“desconhecido de si mesmo”

Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia.


Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem
vacilar que se fosse diretamente aos seus poemas, esquecendo os
incidentes e acidentes da sua existência. Nada na sua vida é
surpreendente — nada, exceto os seus poemas.

Octavio Paz, em Fernando Pessoa, o desconhecido de si mesmo.

Tomando como mote as palavras de Octavio Paz, os leitores não devem estranhar
que se trate, aqui, neste capítulo, mais de uma biobibliografia que de uma biografia
propriamente dita.
Contudo, independentemente dessas oportunas considerações, a verdade é que o
cidadão Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa (como consta da sua
certidão de batismo), mais precisamente no largo de São Carlos, no. 4, bem próximo do
Teatro de São Carlos e da Igreja dos Mártires, cujo sino ressoará mais tarde, segundo
disse, no poema “Ó sino da minha aldeia”. Nasceu em dia de santo Antônio, 13 de
junho de 1888. Por ser dia do santo que antes de ser frade de nome Antônio se chamou
Fernando, os pais lhe deram, como nome de registro, o de Fernando António — antes
de, mais tarde, ele inventar para si próprio algo cerca de 72 nomes conhecidos, ou até
mais, pois continuam a surgir inéditos de uma célebre arca, onde Pessoa guardava tudo
— incluindo contas de alfaiate ou recados para a mulher da limpeza —, arca essa que
parece não ter fundo à vista. Ainda recentemente foram publicados argumentos para
cinema...
O pai do poeta, Joaquim de Seabra Pessoa, era crítico musical e morreu novo, aos
43 anos — tinha o pequeno Fernando cinco anos. Pouco depois morreu seu irmão Jorge.
Ficou sendo desde então e apenas o “menino da sua mãe”, Maria Madalena Pinheiro
Nogueira Pessoa, de ascendência açoriana. A perda do pai e do irmão magoou-o muito e
tornou-o para sempre um ser que, como se pode observar nas fotos, raramente se vê
sorrir, ainda que, por vezes, se revelasse bem disposto, nomeadamente fazendo
brincadeiras para os sobrinhos ou para a sua única namorada, Ofélia Queirós.

40
Em 1896, então com oito anos, viajou com a mãe — que nesse ínterim se casara
com o comandante João Miguel Rosa, cônsul honorário de Portugal em Durban — para
a África do Sul. Aí fez, com raro brilhantismo, os seus estudos primários e secundários
e tomou contato com autores ingleses e franceses. Começou também a tornar-se um
escritor bilíngue, escrevendo em inglês e português. Mais tarde, num escrito sobre a
língua, ele diria que no futuro o inglês seria a língua universal para os negócios e a
comunicação entre os povos, e o português o seria para a expressão de emoções.
Opinião dele, claro, talvez em parte premonitória.
Em 1901 visitou Portugal, em viagem de férias, e passou uma pequena temporada
com seus primos nos Açores, onde elaborou números de um jornal que ficou, é claro,
sob forma manuscrita... Para fazer crer que havia mais colaboradores, escolheu escrever
ele próprio sob vários pseudônimos, coisa diferente, como iremos ver mais adiante, dos
heterônimos. Regressou a Durban para prosseguir estudos comerciais, e ali obteve o
prêmio literário mais importante da época na Comunidade Britânica, o da rainha
Vitória, que lhe daria acesso a estudos na Inglaterra. Por motivos não inteiramente
esclarecidos, no entanto, em 1905 retornou, desta vez só e para sempre, a Lisboa.
Inscreveu-se no curso superior de letras, que logo abandonou para fundar uma
tipografia, a Íbis (herdada de uma tia-avó), que fecharia pouco tempo depois. Não tinha
grande jeito para negócios, de fato. No entanto ainda publicou na tipografia dois
importantes poemas em inglês, o Antinous e o Epithalamium.
Passou a viver com a avó Dionísia e duas tias, mais tarde evocadas com uma
enorme ternura na “Ode marítima”, do seu heterônimo Álvaro de Campos. E também
em “Aniversário”, outro belo poema de Campos. Descobriu, maravilhado, em 1908, a
prosa de Antônio Vieira e de outros clássicos portugueses. Leu então Baudelaire, os
simbolistas franceses e os portugueses Cesário Verde e Antero de Quental, que, mais
tarde, iria considerar, com Camilo Pessanha, os “mestres”. São dessa época seus
primeiros contatos com a poesia do americano Walt Whitman, que viria a influenciá-lo.
Foi sempre presente nele a admiração por Whitman e, ainda maior, por Shakespeare.
Também em 1908 surgiram as primeiras tentativas poéticas em português e os primeiros
fragmentos da obra nunca acabada O Fausto. (Na verdade, porém, aos cinco anos já
havia escrito uma pequena quadra dedicada à sua mãe.)
Em 1912, Pessoa fez a sua estreia literária, publicando nas páginas da revista A
Águia, ligada ao movimento A Renascença Portuguesa e à figura de Teixeira de
Pascoaes. Tal estreia foi constituída de uma série de artigos sobre a nova poesia
portuguesa, em que marcava a sua admiração pelos saudosistas (de que foi expoente
máximo o referido Teixeira de Pascoaes). Nesses artigos já anunciava o advento de um
“supra-Camões”, isto é, um poeta que fosse maior que Camões, considerado o maior
poeta português. Estaria pensando em si mesmo? (Tudo, posteriormente, leva a crer que
sim.)
Sua ligação à revista Águia ficou por esses artigos, além de uma primeira versão de
“Na floresta do alheamento” e “Impressões do crepúsculo” — mais tarde republicados
numa das muitas revistas em que ia colaborando, pois já em 1913 se distanciou em
definitivo da Águia.
Posteriormente, e a propósito de “Impressões do crepúsculo”, sobre o paulismo,
como veremos mais para adiante; criticou em revista uma exposição (que mais tarde
confessou não ter visto) de Almada Negreiros. Nasceu daí o seu contato e amizade com
Almada. Tornou-se igualmente amigo de Mário de Sá-Carneiro. Os dois, diria, tinham
criado o sensacionismo — “O sensacionismo nasceu da amizade entre Fernando Pessoa
e Mário de Sá-Carneiro”. Projetou e escreveu o primeiro poema, “Gládio”, destinado a
41
um livro, de nome Portugal, que viria a publicar mais tarde, em 1934, como Mensagem;
tendo então alterado o título para “Dom Fernando, Infante de Portugal”.
O ano de 1913 foi de grande criação, dado que nele surgiram também os primeiros
textos do que viria a ser o seu Livro do desassossego (publicado em fragmentos,
postumamente, em 1982). Assinou-o, primeiro, como Vicente Guedes e, mais tarde,
mudou para Bernardo Soares. Este viria a ser o mais celebrado de todos os seus livros,
estando traduzido em quase todas ou na maior parte das línguas. Com base nele, viria a
ser feito um filme intitulado O filme do desassossego (em 2010).
E chegamos assim ao ano de todos os anos: 1914, o ano que designou de “triunfal
da (sua) vida” — no qual surgiram nele vários poetas, que chamou de heterônimos
(“outros nomes”, isto é, poetas que escreviam uma poesia diferente daquela assinada
com o seu verdadeiro nome). Segundo contou mais tarde, em 8 de março, e
subitamente, numa espécie de êxtase, surgiram nele os poetas Alberto Caeiro, Ricardo
Reis e Álvaro de Campos. Rompera definitivamente, como já foi dito, com o
saudosismo de Teixeira de Pascoaes, e tentou uma nova estética, marcada pelo
movimento pictórico do cubismo, a que chamou de interseccionismo, com o poema
“Chuva oblíqua”. Os críticos viriam a denominar esse período “época dos -ismos”.
Pessoa vivia, como sempre viveria, de serviços ligados a escritórios comerciais,
onde se encarregava da correspondência em inglês. E sempre percorrendo a cidade
natal, mudando com frequência de quarto alugado. Nesse ínterim, ia se ocupando de
astrologia, contabilidade, cruzadismo, elaborando horóscopos para os seus outros eus e
para si mesmo, etc. Muitas vezes teve de recorrer a empréstimos dos amigos, com os
quais viria a fundar, em 1915, Orpheu, revista literária de vanguarda do modernismo.
Nos seus dois números publicou ou republicou alguns dos seus mais importantes
poemas: o drama estático “O marinheiro”, “Chuva oblíqua”, “Opiário”, “Ode
marítima”, “Requiem por um rei virgem” (estes três últimos de Álvaro de Campos). No
ano seguinte colaborou nas revistas Exílio e Centauro, e, em 1917, no número único do
Portugal Futurista, com um manifesto assinado por Álvaro de Campos. O futurismo
reclamava-se dos ensinamentos do italiano Marinetti.
Como se disse antes, tendo como ofício o de correspondente inglês de firmas
comerciais, conheceu numa delas Ofélia Queirós, a sua Ophelinha, por quem se
apaixonou e a quem escreveu cartas, publicadas, muitos anos depois da sua morte, com
o título de Cartas de amor de Fernando Pessoa. Delas Álvaro de Campos haveria de
dizer serem cartas de amor “ridículas”... O namoro durou pouco tempo, e seria
retomado em 1930, mas ainda mais brevemente.
Em 1925, ocorreu a maior das perdas do poeta: a de sua mãe. Com ela vivera em
um quarto alugado — o último em que morou — na rua Coelho da Rocha, na zona de
Campo de Ourique, em Lisboa, casa que foi adquirida pela Câmara Municipal da
cidade, e é agora chamada Casa Fernando Pessoa — Casa da Poesia. Nesse ano também
publicou alguns poemas de Alberto Caeiro, uma espécie de retomada de “O pastor
amoroso”, os quais só poderiam ser “póstumos”, uma vez que fizera o heterônimo
morrer de tuberculose, em 1915.
Dirigiu com um cunhado a Revista de Comércio e Contabilidade. E continuou
sempre a publicar em várias revistas, como a Athena, que também dirigiu, e a
Contemporânea.
O reconhecimento “oficial” da sua importância fez-se em 1927 pela voz dos jovens
poetas e críticos da revista Presença, que o declararam seu “mestre”. Nela viria a
colaborar, também, naturalmente. Aliás, a um dos jovens da Presença se deve a

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primeira grande, ainda que um pouco contestada, biografia de Fernando Pessoa — João
Gaspar Simões.
Em 1928 escreveu “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, um dos mais conhecidos e
belos poemas deste heterônimo... e, afinal de contas, para muitos, “do mundo”. No ano
seguinte publicou um excerto do Livro do desassossego, atribuído a Bernardo Soares,
livro que nunca terminaria e, como já foi dito, só seria publicado muito mais tarde, em
1982, ainda sob a forma de fragmentos. Este foi o livro que o consagrou, em definitivo,
como um dos maiores poetas do século XX.
Em 1932 fez os primeiros planos de publicação da sua obra. Em 1933, o crítico
francês Pierre Hourcade descobriu a poesia de Pessoa e escreveu sobre ela um artigo
nos Cahiers du Sud, revista de Marselha. Viria a ser, posteriormente, o seu primeiro
tradutor.
Em 1934, o único livro de poemas em português publicado por Pessoa em vida,
Mensagem, recebeu um prêmio do órgão de propaganda do governo salazarista.
Outro ano importante foi o de 1935. Em janeiro, Pessoa escreveu a célebre carta a
Casais Monteiro, sobre a origem dos heterônimos. Publicou nesse ano também, em
fevereiro, um artigo em defesa da maçonaria e ainda alguns poemas antissalazaristas.
Publicou, na revista Sudoeste, o poema “Conselho” (último que terá publicado em vida).
Em 30 de novembro daquele ano, e após dois dias de internamento, faleceu no
Hospital de São Luís dos Franceses. O diagnóstico foi de cólica (cirrose?) hepática.
Suas últimas palavras, para além de pedir os óculos, foram escritas em inglês: “I know
not what tomorrow will bring” (“Não sei o que o amanhã irá trazer”).
Foi sepultado no Cemitério dos Prazeres (nome um tanto irônico para tal local...).
Ficou em jazigo de família até 1988. Luís de Montalvor, que viria a ser o encarregado
da publicação das obras de Fernando Pessoa, fez o seu elogio público no funeral,
noticiado nos principais jornais. Assistiram a ele muitos dos seus admiradores. Já não
estava, porém, Mário de Sá-Carneiro, o seu maior amigo — que se suicidara em Paris,
aos 26 anos, em 1916. Nunca foram encontradas as cartas de Pessoa para o amigo —
existe apenas a última, que não chegou a ser enviada e de que guardara cópia. E uma
memória comovida, ainda presente em 1934, ao escrever sobre o amigo falecido tanto
tempo antes: “Sei que, falho de ti, estou um a sós”.
Como referido anteriormente, o primeiro estrangeiro a reconhecer os versos de
Fernando Pessoa e a traduzi-los para o francês foi Pierre Hourcade, em 1935. A ele se
seguiriam muitos outros, nas diferentes línguas. (Vi numa rua bem central de Sófia, na
Bulgária, uma placa em acrílico, na qual, além da efígie do poeta, estavam escritos os
quatro primeiros versos de “Tabacaria” em caracteres cirílicos e portugueses.)
Ficou célebre também a vontade da poetisa brasileira Cecília Meireles de conhecer
o poeta. Marcou, numa viagem a Lisboa, um encontro, no ainda existente Hotel Borges,
ao lado da Brasileira do Chiado. Porém, esperou em vão... Pessoa não apareceu... e vá lá
saber-se por quê...
Em 1985 promoveram-se comemorações nacionais e internacionais dos cinquenta
anos da morte do poeta, seguidas, em 1988, em Portugal e no mundo da cultura, das
comemorações do centenário do seu nascimento. Nesse mesmo ano, em novembro, seus
restos mortais foram trasladados para um túmulo situado no claustro do Mosteiro dos
Jerônimos — mosteiro onde repousam também Luís de Camões, Vasco da Gama e
Alexandre Herculano.

Para encerrar o capítulo, citemos mais uma vez Octavio Paz, que termina assim a
sua quase não biografia de Pessoa:
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Anglômano, míope, cortês, fugidio, vestido de escuro, reticente e
familiar, cosmopolita que predica o nacionalismo, investigador solene
de coisas fúteis, humorista que nunca sorri e nos gela o sangue,
inventor de outros poetas e destruidor de si mesmo, autor de
paradoxos claros como a água, vertiginosos: fingir é conhecer-se,
misterioso que não cultiva o mistério, misterioso como a Lua do meio-
dia, taciturno fantasma do meio-dia português, quem é Pessoa? Pierre
Hourcade, que o conheceu no final da sua vida, escreve: “Nunca, ao
despedir-me, me atrevi a voltar-me para trás; tinha medo de vê-lo
desvanecer-se, dissolvido no ar”. Esqueço-me de algo? Morreu em
1935, em Lisboa, de uma cólica hepática. Deixou duas plaquettes de
poemas em inglês e um baú cheio de manuscritos. Todavia continua
por publicar a sua obra completa.

Fonte: Amélia Pinto Pais. Para compreender Fernando Pessoa. Uma aproximação a Fernando Pessoa e a
seus heterônimos. São Paulo: Claro Enigma. 2012. pp. 11-17.
Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/35012.pdf

PAULISMO

A rotulação “paulismo” é derivada de um poema chamado “Pauis”, título que


tem como referência a obra Paludes do escritor francês André Gide, e nele se percebe
nítida influência do simbolismo-decadentismo da escola francesa. De acordo com as
explicações do poeta, pode-se perceber quais eram os seus desígnios:
“Pauis obedece fielmente ao tríplice propósito: a sua ideação é vaga, porque tem
o que é vago ou indefinido por constante objeto e assunto, a sua ideação é subtil, porque
substitui uma sensação simples por uma expressão que a torna vívida, minuciosa,
detalhada, e a sua ideação é complexa, porque traduz uma impressão que a complica,
acrescentando-lhe um elemento explicativo, que, extraído dela, lhe dá um novo
sentido.2”

IMPRESSÕES DO CREPÚSCULO

Pauis de roçarem ânsias pela minh' alma em ouro...


Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh' alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade
O meu abandonar-se a mim próprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, oco de ter-se.
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...
A sentinela é hirta - a lança que finca no chão
2
PAUL: pântano formado por uma zona úmida.
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É mais alta do que ela... Para que é tudo isto.... Dia chão...
Trepadeiras de despropósitos lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de ferro...
Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens...
Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro!

INTERSECCIONISMO

A fase do paulismo dura muito pouco e logo Pessoa desdobra essa poética na
ideia do interseccionismo. Afastando-se do movimento saudosista, atento aos
movimentos estéticos de vanguarda que aconteciam na Europa, como o dadaísmo,
surrealismo e cubismo, o autor português incorpora alguns desses elementos na sua
criação artística. No contexto desse universo poético vago, sutil e complexo, a
“ideação” (como Pessoa gostava de referir) sofre fragmentações, ritmos diversos,
perspectivas contraditórias, ideias dentro de ideias.

CHUVA OBLÍQUA

I
Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

II
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
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Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...

III
A Grande Esfinge do Egito sonha pôr este papel dentro...
Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...
Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...
Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...
Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim!...

IV
Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára...,
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...

V
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
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E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje..

VI
O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
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Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,

Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,


E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo... “

SENSACIONISMO

A partir do Paulismo e do Interseccionismo, Pessoa já é considerado um


precursor da entrada do modernismo em Portugal. Junta-se aos amigos Mário de Sá-
Carneiro e Almada de Negreiros e fundam a revista Orpheu (1915).
Contudo, não tarda o poeta a se sentir insatisfeito com sua poética e passa a se
debruçar noutra proposta. Passados os anos de euforia do lançamento de Orpheu,
Pessoa começa a reelaborar sua postura artística. Considera a devassa e a provocação
contidas na Orpheu uma espécie de vaidade afetada, um exibicionismo ingênuo, e
desconfia dos modismos passageiros. Modula sua experiência e seu acúmulo no
desenvolvimento do sensacionismo.
A elaboração dessa poética é visível, principalmente, no seu heterônimo Álvaro
de Campos. Sua principal característica é a aplicação da sensação na sua máxima
potência. Não basta sentir e transformar a sensação aos modos simbolistas, mas
expandi-la até as últimas consequências. Colecionar formas diferentes de sentir, sentir
tudo de todas as maneiras, ser todos e cada uma ao mesmo tempo. Deste objetivo,
pratica o verso livre, permite-se o tom escandaloso, liberta sua sensação permitindo que
esta domine a palavra. Nisso já tem outro referencial, Walt Whitmam. Álvaro de
Campos dedica-lhe uma saudação:

“Olha para mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro/ poeta
sensacionista/ Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor/ Tu
sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!”

SENTIR É CRIAR.

Sentir é criar.
Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não
tem ideias.
- Mas o que é sentir?
Ter opiniões é não sentir.
Todas as nossas opiniões são dos outros.
Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.
Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode
comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que
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se sente. Não que o leitor sinta a pena comum [?].
Basta que sinta da mesma maneira.
O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.
A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras é proibido ser
explícito.
Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar
dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande
utilidade metafísica. Deus é toda a gente.
Ver, ouvir, cheirar, gostar, palpar - são os únicos mandamentos da lei de Deus. Os
sentidos são divinos porque são a nossa relação com o Universo, e a nossa relação com
o Universo Deus.
(...) Agir é descrer. Pensar é errar. Só sentir é crença e verdade. Nada existe fora das
nossas sensações. Por isso agir é trair o nosso pensamento.
(...) Não há critério da verdade senão não concordar consigo próprio. O universo não
concorda consigo próprio, porque passa. A vida não concorda consigo própria, porque
morre. O paradoxo é a fórmula típica da Natureza. Por isso toda a verdade tem uma
forma [?] paradoxal.
(...) Afirmar é enganar-se na porta.
Pensar é limitar. Raciovinar é excluir. Há muito que é bom pensar, porque há muito que
é bom limitar e excluir.
(...) Substitui-te sempre a ti próprio. Tu não és bastante para ti. Sê sempre imprevenido
[?] por ti próprio. Acontece-te perante ti próprio. Que as tuas sensações sejam meros
acasos, aventuras que te acontecem. Deves ser um universo sem leis para poderes ser
superior.
São estes os princípios essenciais do sensacionismo. (...)
Faze de tua alma uma metafísica, uma ética e uma estética. Substitui-te a Deus
indecorosamente. É a única atitude realmente religiosa (Deus está em toda a parte
excepto em si próprio).
Faze do teu ser uma religião ateísta; das tuas sensações um rito e um culto. (...)
Fernando Pessoa, in Sobre “Orpheu”, Sensacionismo e Paulismo (Citador)

AUTOPSICOGRAFIA (reflexão sobre o fazer poético) – Fernando Pessoa


(ortônimo)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

49
HETERÔNIMOS

"A obra pseudónima é do autor em sua pessoa, salvo no nome que assina; a heterónima é do
autor fora da sua pessoa; é duma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os
dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu".
(Fernando Pessoa. Tábua Bibliográfica, Presença, nº 17 )

Álvaro de Campos
Fonte: http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=4291

Álvaro de Campos (1890 - 1935) é um dos mais conhecidos heterónimos de


Fernando Pessoa. Foi descrito biograficamente por Pessoa: "Nasceu em Tavira, teve
uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia,
primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde
resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inactividade."
Vanguardista e cosmopolita, refletindo nos poemas em que exalta, em tom
futurista, a civilização moderna e os valores do progresso. Um estilo torrencial, amplo,
delirante e até violento, a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto
do quotidiano citadino, adotando sempre o ponto de vista do homem da cidade.
Campos procura incessantemente sentir tudo de todas as maneiras, seja a força
explosiva dos mecanismos, a velocidade, seja o próprio desejo de partir.
Álvaro de Campos nasceu em Tavira no dia 15 de Outubro de 1890 à 1.30 da
tarde. (...) Ensinou-lhe Latim um tio beirão que era padre, conforme diz Pessoa. De tipo
vagamente judeu português, com a pele entre branca e morena, cabelo liso e
normalmente apartado ao lado, usa monóculo.
Na Carta a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935, que Fernando
Pessoa compõe sobre a génese da heteronímia e que serve de fonte a este texto, diz que
escreve em nome de Campos, “quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei
o quê”. Acrescenta o escritor que “de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis,
surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever,
sem interrupção nem emenda, surgiu a «Ode Triunfal» de Álvaro de Campos — a Ode
com esse nome e o homem com o homem que tem”.
Mais adiante esclarece: “Quando foi da publicação do Orpheu, foi preciso, à
última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Sugeri então
ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos — um poema
de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua
influência. E assim fiz o «Opiário», em que tentei dar todas as tendências latentes do
Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda
qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi dos poemas, que tenho escrito,
o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que
desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau, e que dá o Álvaro em botão…”

Álvaro de Campos: (o objetivo com os heterônimos era formar em si uma unidade)


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Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(Antologia Poética, 2001, p. 26)

Ou ainda
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo.
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
(Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 177).

Angústia de viver, retratada nos seus sentimentos, suas ideias e suas vontades de ser
(Álvaro de Campos):

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,


Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
(Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 187).

Três fases:
Fase do “Opiário”, poema dedicado a Mário de Sá-Carneiro, apresentando algumas
tendências de Campos. Fase ligada à poesia do final do século XIX, influenciada pelo
simbolismo. A composição apresenta-se ainda com métrica, com rima, com quadras,
estrofes de quatro versos, e já se mostrava insatisfeito e amargurado.

Ao toque adormecido da morfina


Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina.
(...)
Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.
(...)
Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.
(...)
Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
51
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co’os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!
(...)
E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas
E basta de comédias na minh’alma!.
(Poesias de Álvaro de Campos, 1983, pp. 20-24).

A segunda fase – influência do futurismo; influência de Walt Whitman, mais


mecanicista. A partir dessa fase, seus poemas não mais apresentavam resquícios do
simbolismo. Foram de versos livres e longos, marcados pela oralidade, próximos à
prosa. Vejam-se excertos de “Ode triunfal”:

À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica


Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!.
(...)

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar


Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!.
(...)

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!


Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

52
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!
(“Ode Triunfal”. Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 25).

Terceira fase – de maior descontentamento com a vida e com o mundo; fase do sono e
do cansaço, com algum tom surrealista, e que mais equilibrada se apresentou,
principalmente em poemas como “Lisbon Revisited” (1923, 1926), “Apontamento”,
“Poema em Linha Reta”, “Aniversário” e “Tabacaria”. Poemas que retratavam o
inconformismo, a fragilidade humana, a amargura e a desilusão pela existência.
Demonstravam momentos de total niilismo, de apego à ideia de morrer para se livrar do
que o atormentava.

TABACARIA

Não sou nada.


Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,


Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.


Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.


Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
53
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?


Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem
porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;


Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
54
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei


A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,


Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,


E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube


E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
55
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,


Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.


Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como
tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,


Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)


E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los


E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira


E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira


Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
56
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

LISBON REVISITED, 1923

NÃO: não quero nada.


Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!


A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!


Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!


Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.


Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?


Queriam-me o contrário disso, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!


Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –


Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
57
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
(Poesias de Álvaro de Campos, 1983, pp. 94-95).

Alberto Caeiro
Fonte: Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935,
in Correspondência 1923-1935, ed. Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999.
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=4289

Alberto Caeiro é considerado o mestre de todos os heterônimos de Fernando


Pessoa. Segundo o seu criador "Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no
campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária;
morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos
rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso."
Pessoa criou uma biografia para Caeiro que se encaixa com perfeição à sua
poesia. Caeiro escrevia com a linguagem simples e o vocabulário limitado de um poeta
camponês pouco ilustrado. Pratica o realismo sensorial, numa atitude de rejeição às
elucubrações da poesia simbolista.
Alberto Caeiro nasceu em Lisboa, em 1889 e morreu em 1915, mas viveu quase
toda a sua vida no campo, com uma tia-avó idosa, porque tinha ficado órfão de pais
cedo. Era louro, de olhos azuis. Como educação, apenas tinha tirado a instrução
primária e não tinha profissão.
Como surgiu este heterónimo? Conta o próprio Fernando Pessoa que “se
lembrou um dia de fazer uma partida a Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico,
de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie
de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que
finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta,
e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E
escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não
conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim.
Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de
alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o
absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que
tive.” Quando Fernando Pessoa escreve em nome de Caeiro, diz que o faz “por pura e
inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever.”

“Há metafísica bastante em não pensar em nada”


(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 38).

“A minha poesia é natural como o levantar-se vento...”


(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 53).

58
Considerado o pai dos heterônimos, o “mestre”. Sua poesia mais se aproximou da do
próprio Fernando Pessoa: objetivo é encontrar no sentir a base mais sólida de se viver.
O que importava era viver o mundo, nele estar presente, sem querer saber o porquê de
estar-se ali naquele momento, sem interrogar-se do que se vive. Entretanto – eis a
grande contradição do mestre – tendo consciência do que se está e do que se é. E esta
contradição foi manifestada:

Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:


Só me obriga a ser consciente.
(...)
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 109).

Objetivo da vida: aprender a desaprender, aprender a não pensar, a silenciar a mente, a


somente viver o contato direto com a realidade que se tinha à frente, palpável. A vida
para ele era o puro sentir. Veja no poema “XXIV”, de “O Guardador de Rebanhos”:

O essencial é saber ver,


Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),


Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender”.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 63).

Poesia pagã; poesia da antipoesia, que questionava palavras, conceitos, pensamentos,


ideologias, religiões, com as quais o homem vestia a realidade, trazendo à tona que ela –
a realidade – simplesmente era e valia por si mesma. A única experiência que valia à
pena para o mestre era a de silenciar, a de libertar-se do poder de signos e de
significados de tudo o que existia, o que, aí sim, possibilitaria ao homem o
conhecimento real de toda a verdade do mundo no qual vivia, e da sua própria verdade,
enquanto presença e existência.

O espelho reflete certo; não erra porque não pensa.


Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

O único mistério do universo é o mais e não o menos.


Percebemos demais as coisas – eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A realidade é apenas real e não pensada.

O único sentido íntimo das coisas


É elas não terem sentido íntimo nenhum.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 39).

59
Para Caeiro, o que importa é o hoje, o presente, o agora. É isto e não pensar sobre isto.
Eram os verbos “ver” e “ouvir”, e não o “pensar”. “Abolir o pensar para ver e ouvir”,
eis seu lema. Segundo Moisés (1991, p. 400), era “o poeta que pensa o seu propósito de
não pensar, ou antes, de limitar-se a ver e ouvir”.
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 34).

Caeiro era autodidata, antifilosófico e antimetafísico; solitário e neutro; contrário ao


misticismo; camponês, de linguagem simples e paradoxal, o “guardador de rebanhos”
que se importava somente em ver de forma objetiva e natural a realidade, que dava
importância ao ato de ver e de ouvir, e só. Sua maior obra foi “O Guardador de
Rebanhos”, que escreveu de uma vez só, sendo formada por 49 poemas, e dedicada à
memória de Cesário Verde.

Pensar incomoda como andar à chuva


Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos


Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 32).

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?


A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 38).

Sou um guardador de rebanhos.


O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la


E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor


Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
60
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 48).

Até mesmo Deus, Caeiro não afirmou existir, por nunca tê-lo visto:

Não acredito em Deus porque nunca o vi.


Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou! (Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 39).

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,


Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 41).

E ainda mostrou sua crença num deus superior, que para ele não recebia o nome de
“Deus”.

Mas se Deus é as árvores e as flores


E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvore e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,


(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, pp. 39-40).

No extenso poema “VIII” de “O Guardador de Rebanhos”, apresentou sua versão da


história do menino Jesus, inclusive afirmando que Jesus não gostava de Deus:

Diz-me muito mal de Deus.


Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
(...)
61
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
‘Se é que ele as criou, do que duvido’.

E nos últimos versos deste poema questionou a veracidade de sua versão perante as
apresentadas e já conhecidas das religiões, num ato de quem tinha consciência daquilo
em que acreditava:

Esta é a história do meu Menino Jesus.


Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?.
(Poemas completos de Alberto Caeiro, 2006, p. 44-47).

Ricardo Reis
Fonte: Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935,
in Correspondência 1923-1935, ed. Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999.
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=4290

Ricardo Reis foi criado quando Fernando Pessoa escreveu os "Poemas de Índole
Pagã". Em sua biografia consta que nasceu em Porto, Portugal, no dia 19 de setembro
de 1887. Estudou em colégio de jesuítas e estudou medicina. Era monarquista,
autoexilou-se no Brasil, em 1919, por discordar da Proclamação da República
Portuguesa. Foi profundo admirador da cultura clássica. Era autodidata na língua grega
e de formação sólida na língua latina e mitologia.
Ricardo Reis possui obras em seu nome. As primeiras obras foram publicadas na
revista Athena, fundada por Fernando Pessoa em 1924. Entre 1927 e 1930, publicou
várias Odes na revista Presença, de Coimbra. A ideia desenvolvida em sua obra faz
parte do pensamento greco-romano: clareza, equilíbrio, as boas formas de viver, o
prazer, a serenidade. O pensamento do filósofo Epicuro permeia a obra de Ricardo Reis,
que pregava que as pessoas deveriam viver o "aqui e agora", retomando o preceito
grego do "carpe diem", baseado no prazer. Mas, além do epicurismo, Ricardo Reis
possuía o estoicismo também como influência, que propõe a aceitação do acontecimento
das coisas e a rejeição às emoções e sentimentos exacerbados.
Ricardo Reis possui um estilo muito próximo dos escritos do poeta latino
Horácio, que foi seu grande inspirador, como o uso de gerúndios, imperativos e
inversões de sintaxe, como os hipérbatos.
“Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever
uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo
Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso.
Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que
estava a fazer aquilo (tinha nascido, sem que o soubesse, o Ricardo Reis).”
Diz Fernando Pessoa na carta, de 13 de Janeiro de 1935, a Adolfo Casais
Monteiro, que Ricardo Reis nasceu em 1887 (embora não se recorde do dia e mês), no
Porto. Descreve-o como sendo um pouco mais baixo, mais forte e seco que Caeiro e
usando a cara rapada. Fora educado num colégio de jesuítas, era médico e vivia no

62
Brasil, desde 1919, para onde se tinha expatriado voluntariamente por ser monárquico.
Tinha formação latinista e semi-helenista.
Fernando Pessoa atribui a este heterónimo um purismo que considera exagerado
e refere que escreve em nome de Ricardo Reis, “depois de uma deliberação abstracta,
que subitamente se concretiza numa ode”.

POEMAS

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa


Se é para nós que cessa. Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.
(Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 132).

Em seus poemas, Reis convidava as pastoras Lídia, Neera e Cloe, a acompanhá-lo nos
seus momentos de dor e de prazer, sempre sérios e regrados, de forma equilibrada e
serena:

Prazer, mas devagar,


Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das mãos arrancam.
Furtivos retiremos do horto mundo
Os depredandos pomos.
Não despertemos, onde dorme, a Erínis
Que cada gozo trava.
Como um regato, mudos passageiros,
Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos
(Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 122).

Lenta, descansa a onda que a maré deixa,


Pesada cede. Tudo é sonegado.
Só o que é de homem se ouve.
Cresce a vinda da lua.
Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloe,
Qualquer de vós me é estranha, que me inclino
Para o segredo dito
Pelo silêncio incerto.
63
Tomo nas mãos, como caveira, ou chave
De supérfluo sepulcro, o meu destino,
E ignaro o aborreço
Sem coração que o sinta.
(Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 129).

A natureza em Reis era mantida com o fascínio que também tinha Caeiro, só que em
Ricardo de maneira mais neoclássica, outra característica sua. Adepto do locus amoenus
(local ameno) e do carpe diem (aproveitar o dia), apresentou a busca pelo equilíbrio
contido nos clássicos. A simplicidade natural passou a ser cuidadosamente estudada
com ele:

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
(Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 77).

Para ser grande, sê inteiro: nada


Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
(Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 146).

Escreveu odes, poemas líricos, com métrica, estrofes regulares e variáveis,


diferentemente de Caeiro. Suas odes voltavam-se aos deuses da mitologia grega;
pensava bastante nos deuses, os quais, para ele, controlavam o destino dos homens e
estavam acima de tudo:

Só esta liberdade nos concedem


Os deuses: submetermo-nos
Ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.
(...)
Nós, imitando os deuses,
Tão pouco livres como eles no Olimpo,
Como quem pela areia
Ergue castelos para encher os olhos,
Ergamos nossa vida
E os deuses saberão agradecer-nos
O sermos tão como eles.
64
(Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 93).

Esta realidade os deuses deram


E para bem real a deram externa.
Que serão os meus sonhos
Mais que a obra dos deuses?

Deixai-me a Realidade do momento


E os meus deuses tranquilos e imediatos
Que não moram no Vago
Mas nos campos e rios.
(Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 96).

Entretanto, mesmo diferente de Caeiro no que se referia à ligação com algum Deus,
Reis apresentou alguns versos e odes próximos do que pregava Caeiro: o apego à
natureza, a solidão e o não pensar, ainda assim este devotado aos deuses.

Segue o teu destino,


Rega tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.


Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixar a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não pensam. (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 109)

Substituindo, nos dois últimos versos desta ode, “deuses” por “homens”, os versos
encaixam-se ao pensamento de Caeiro, para quem o homem devia não pensar para
viver. Somente sentir e ver. Reis assemelhava-se em determinados momentos de sua
produção a Álvaro de Campos, quanto ao niilismo pregado por este:
65
Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas –


Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada. (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 146).

(Fonte Complementar desses estudos: Ítalo Puccini, O modernismo português e Fernando Pessoa.
(adaptada) https://periodicos.ufsc.br/index.php/mafua/article/view/1451/1169)

ALGUNS ASPECTOS DO USO DA MITOLOGIA NAS ODES DE


RICARDO REIS
Prof. Dr. Jairo Nogueira Luna
Fonte: http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=51029&cat=Artigos

(...)
3. As Musas de Ricardo Reis.

Três são as musas do poeta nas Odes. O artifício das musas era recorrente na
poesia clássica e por conseguinte o foi na neoclássica. Normatizada, poetas construíram
obras tendo como pano de fundo a figura de uma musa a quem se dirigiam. Ricardo
Reis assim elege três musas: Lídia, Cloe e Neera. Lídia é a musa mais constante, a
preferida. Neera e Cloe são menos referidas nas Odes. As musas de Ricardo Reis
parecem receber o discurso do poeta com atitude de cumplicidade. Não lamenta o poeta
algum sentimento não correspondido, mas faz de suas musas ouvintes de seu
pensamento e de seus sentimentos acerca do mundo e da Natureza.

“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.


Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)” (p. 256)

Lídia, como as outras duas musas, é incorpórea, de nada sabemos pelas odes de Reis
acerca de seus aspectos físicos, nem mesmo sua voz ouvimos, ainda que num discurso
indireto.

“E assim, Lídia, à lareira, como estando,


Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos.” (p. 261)

O nome Lídia origina-se da mulher nascida na região da Ásia Menor do mesmo nome.
É também um nome bíblico referindo-se à jovem que foi batizada junto com a família
por São Paulo em Filipos. Passou por ser relacionada com jovem recatada, tímida,
66
virtuosa. Nesse aspecto podemos perceber a musa de Reis, assim como na estrofe acima
citada, junto à lareira, tecendo roupas.
Indiferente ao tempo que, no entanto, vai determinando um percurso cujo fim é o
término da experiência sensível com a Natureza. O poeta, nesse sentido, inquire Lídia
acerca de suas preocupações com o Destino, tendo ao que parece a musa comunhão com
os seus sentimentos:

“Dia após dia a mesma vida é a mesma.


O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
Igualmente decorre.” (p.275)

A única imagem certa do futuro para o poeta é a morte, e isso causa medo na
experiência de vida do poeta, que teme o cessar da experiência sensível:

“Sofro, Lídia, do medo do destino.


A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.” (p. 273)

Ao final, a certeza da morte é descrita de uma forma dura, crua, cujo objetivo
parece ser o de demonstrar o horror que o poeta sente diante da fatalidade da qual
apenas os deuses podem escapar:

“Bocas roxas de vinho,


estas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa;
Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.” (p.267)

Assim, diante da certeza do Destino que nem aos deuses é dado modificar, o poeta erige
o Carpe Diem como leitmotiv de sua jornada:

“Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos.” (p.277)

Neera é a musa que aparece no poema 363 (“Olho os campos, Neera”). No poema o
poeta apresenta à musa a sua percepção do que seja a morte, um estado em que o frio, a
impossibilidade de ver, o sentido de ausência causam no poeta uma sensação de tristeza,
de sofrimento que deságua no choro. O sentido da visão é destacado no poema como
uma forte perda. Primeiro o poeta olha os campos, observa o ritmo da vida, o ciclo de
morte e renascimento. O poeta lamenta, no futuro, após a morte, o de não mais poder
olhar o ciclo da Natureza, estando agora inserindo no contexto da própria Natureza, não
mais como observador, estado que aprecia, mas agora como personagem cuja trama
chega ao fim:

67
“Olho os campos, Neera,
Campos, campos, e sofro
Já o frio da sombra
Em que não terei olhos.
A caveira ante-sinto
Que serei não sentindo,
Ou só quanto o que ignoro
Me incógnito ministre.
E menos ao instante
Choro, que a mim futuro,
Súbdito ausente e nulo
Do universal destino.” (p.278)

O poeta diz que ante-sente a caveira de sua morte. Uma condição sensível, próximo da
precognição. O estado em que a mente antevê, mas tal antevisão é decorrente menos de
algum poder extrassensorial do que da certeza do ciclo da vida na Natureza. O “ser não
sentindo” é o estado que lastima, uma vez que a ausência do sensível determinaria o
afastamento do conhecimento da Natureza, passando de um estado de ação observadora,
para um estado de desconhecimento de si mesmo (“Súbdito ausente e nulo”).
Neera conquanto nome de origem, era uma ninfa amada pelo Sol (Hélios) com quem
teve dois filhos. Outra versão, Neera era uma nereida e se casara com Eetes, filho de
Hélio e da oceânida Perseida. Seu nome estava associado à ideia de juventude. Assim,
não é de se admirar que o poeta não queira ver escapar o sentimento de jovialidade, de
vigor da vida diante de uma antevisão da morte após a velhice.
Em outro poema, 327, o poeta leva Neera para longe da vida social, “longe / De
homens e de cidades”(p. 262) e nesse afastar-se sente-se aproximar-se da compreensão
sensível da Natureza, tornando-os assim “iguais aos deuses”.
Cloe é originalmente associada à folhagem viçosa, em razão do epíteto das festas
em honra de Deméter realizadas no mês de Posêidon (Dezembro) em Atenas e Elêusis.
O poeta romano Longo (séc. II d.c.) escreveu a obra Dáfnis e Cloe, em que dois jovens
amantes se amam intensamente e vivem no campo num cenário bucólico. Talvez, por
isso, Cloe seja a musa de Reis a quem o poeta mais se sensualiza, mais demonstra
desejos eróticos e amorosos:

“Como se cada beijo


ora de despedida
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.” (p.278)

Mas essa aproximação sensual do sentimento erótico causa um estranhamento no poeta.


O amor erótico é mútuo, exige de cada um doação de energias físicas para a realização
do pleno gozo. O poeta compreende tal relação como algo que delimita sua liberdade
sensível, que faz com que tenha que sentir algo na mesma medida em que faz o outro
também sentir, essa obrigação de cumplicidade incomoda o poeta que busca a liberdade
plena dos seus sentidos:

“Não quero Cloe, teu amor, que oprime


Porque me exige amor. Quero ser livre.” (p.285)

68
Também diante de Cloe, assim como de Neera e de Lídia, o poeta lamenta o
passar da juventude e com isso a certeza da inexorabilidade do tempo (“Quão breve
tempo é a mais longa vida / E a juventude nela! Ah!, Cloe, Cloe, / Se não amo, nem
bebo / Nem sequer querer não penso” – p. 277). Portanto o poeta aqui se encontra num
dilema: ou amar e este amor de Cloe o “oprime” ou então deixar a juventude passar sem
ter aproveitado a sensação que tal amor oferece.
A solução do impasse se faz pela imaginação. O gozo para o poeta não é físico
propriamente, mas é a sensação física causando uma sensação imaginada. Se se
consegue causar a sensação imaginada pela imaginação da sensação física não é
necessário o amor físico: “Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho. / Nós o que nos
supomos nos fazemos” (p. 280). Não seria propriamente um elogio do onanismo, mas a
solução para a delimitação da liberdade que o poeta sente na obrigatoriedade da
cumplicidade do amor físico.
Não creio que seja necessário discorrer sobre as questões da sexualidade em
Fernando Pessoa, que de certo modo muito estenderia esse trabalho e de outra parte
fugiria um pouco aos nossos propósitos, mas em Ricardo Reis, suas musas incorpóreas,
no sentido de que nada de seus aspectos físicos se mostra, apresentam uma atmosfera de
idealização da relação amorosa que se contrapõe num primeiro momento ao erotismo de
Pã, deus dos mais centrais no panteão das Odes. Seus deuses sendo personificações de
elementos da Natureza, por outro lado, permitem essa idealização, não enquanto ideia
desligada das sensações, mas como transformação da sensação física, por esforço da
imaginação em ideia sensível, o “Gozo sonhado”.
No poema 411 das odes, lemos:

“Ninguém a outro ama, senão que ama


O que de si há nele, ou é suposto” (p.288)

Como diz Yvette K. Centeno, a mulher em Ricardo Reis “não tem forma”, não temos
dela não apenas a ausência de seus traços físicos, mas também ela não tem voz, e apenas
sentimos a submissão delas ao discurso do poeta, numa interação de sujeição:

“Para Ricardo Reis a mulher também não tem forma, é apenas um nome, um
desdobramento de si que o acompanha na sua recusa da vida. É melhor passar ‘sem
dores, nem ódios, nem paixões que levantam a vida’, diz ele (O.P., p. 256). A relação
entre o homem e a mulher deve assemelhar-se à de crianças que ainda não se
aperceberam da diferença dos sexos”. (CENTENO: 1985, p. 40)

O amor é de per si, para Reis, uma idealização, assim o contato físico é uma experiência
falseadora, no sentido de que o que se sente é algo que já está em si mesmo, e o que o
corpo do outro lhe causa é só a motivação para disparar esse sentimento próprio.
Portanto, as três musas de Reis acabam por serem estranhas a ele, não são elas amadas
de fato por ele, nem elas o amam, mas apenas se motivam para desencadear em cada
consciência a idealização que um faz do outro:

“Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloe,


Qualquer de vós me é estranha, que me inclino
Para o segredo dito
Pelo silêncio incerto.” (p. 281)

69
O afastamento da possibilidade de comunhão dos sentidos, ou ainda, de troca de
sentidos entre os amantes, dá um tom de isolamento à alma do poeta, o preço que Reis
prefere pagar para obter o sentimento de liberdade que busca. (...)

Bernardo Soares

Semi-heterônimo de Fernando Pessoa, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa,


onde viveu toda a sua humilde vida de empregado. Não tem registro de nascimento e
morte. É considerado um semi-heterónimo porque, como seu próprio criador explica
"não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples
mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade."
Vivia sozinho, na Baixa, num quarto alugado perto do escritório onde trabalhava e dos
escritórios onde trabalhava Fernando Pessoa. Conheceram-se numa pequena casa de
pasto habitualmente frequentada por ambos. Foi aí que Bernardo Soares deu a ler a
Fernando Pessoa o seu Livro do desassossego.

Fonte: https://www.avozdapoesia.com.br/autores.php?poeta_id=377

(42)
Não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em
que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superfície de
nunca mudar.
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como
mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por
aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de
ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma
forma de a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um
apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele
mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há
porcos de destino, como eu que se não afastam da banalidade quotidiana por essa
mesma atracção da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente;
moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da
língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore
do usual. Assim, passeio o meu destino que anda pois eu não ando; o meu tempo que
segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes breves comentários
que faço a propósito dela. Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das
grades, e escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes,
assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.
Com a morte? Não, nem com a morte. Quem vive como eu não morre. acaba, murcha,
desvegeta-se. O lugar onde esteve fica sem ele ali estar, a rua por onde andava fica sem
ele lá ser visto, a casa onde morava é habitada por não-ele. É tudo, e chamamos-lhe o
nada; mas nem essa tragédia da negação podemos representar com aplauso, pois nem ao
certo sabemos se é nada, vegetais da verdade como da vida, pó que tanto está por dentro
como por fora das vidraças, netos do Destino e enteados de Deus, que casou com a
Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que nos procriou.

70
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol. I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos
de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.)
Lisboa: Ática, 1982.
- 146.
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares,
Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

(45)
Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e
pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do
tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das
emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos
pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores.
Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para
nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento
incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso,
indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem
triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais,
não ter mais, não querer mais... A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do
viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino...

s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos
textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado
Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
- 345.
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares,
Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

(71)
Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de
incongruência com os outros, e que a maioria pensa com a sensibilidade e eu sinto com
o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e
sentir não é mais que o alimento de pensar.
É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente
mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da
minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que
são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre
Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar.
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da
minha subjectividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma
humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la
porque detesto senti-la. A paisagem, tão admirável como quadro, é em geral incómoda
como leito.

13-4-1930
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol. I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos
de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.)
Lisboa: Ática, 1982.
- 237.
71
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares,
Vol. II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

(438)
Um azul esbranquiçado de verde nocturno punha em recorte castanho-negro, vagamente
aureolado de cinzento, amarelecido, a irregularidade fria dos edifícios que estavam de
encontro ao horizonte do estio.
Dominámos outrora o mar físico, criando a civilização universal, dominaremos agora o
mar psíquico, a emoção, a mãe temperamento, criando a civilização intelectual.
s.d.
Livro do Desassossego. Vol. I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral
Cunha.) Coimbra: Presença, 1990.
- 146.
"Fase decadentista", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares,
Vol. I. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

Alexander Search

Alexander Search foi a primeira criação importante do pulso de Pessoa e


representa praticamente toda a poesia da sua juventude, escrita entre 1903 e 1910, mas
sobretudo entre 1904 e 1908 (dos 16 aos 20 anos), pois aí se situa a maior e a melhor
parte da sua produção.
À semelhança do seu irmão Charles James Search, existe no espólio uma ficha
biográfica, também escrita em inglês: “Nascido a 13 de Junho de 1888, em Lisboa.
Tarefa: tudo o que não seja da competência dos outros três.” A descoberta desta
gemelaridade com o próprio Fernando Pessoa, nascido realmente na mesma data e no
mesmo local, veio conferir um interesse diferente a esta personagem e ao estudo da
poesia assinada com o seu nome. A partir daí e com base em alguns poemas que
entretanto foram dados a público nas últimas décadas do século XX, acompanhando
breves ensaios temáticos, os estudiosos consideraram-no pseudónimo, heterónimo, pré-
heterónimo, semi-heterónimo, sub-heterónimo ou personalidade literária, consoante o
modo como viam esta figura misteriosa e intrigante.
A posterior publicação de toda a sua obra veio provar que A. Search não teria
sido para Pessoa mais uma personalidade literária, mas uma peça importante do seu
“drama em gente”, em que ocupa o papel de precursor ou anunciador de toda a temática
futura e das diferentes mundivisões que enformariam os heterónimos, o que lhe confere,
quanto a nós, o estatuto de pré-heterónimo. Mas para além da data comum de
nascimento, no mesmo local, podemos assinalar a escrita de cartas e a recepção de
correspondência na morada de F. Pessoa; a assinatura aposta em 18 livros em inglês,
francês e português da biblioteca pessoana; a colaboração literária com escritores da
vida real, saindo da ficção para intervir publicamente; a passagem da produção atribuída
a outras personalidades literárias (David Merrick e Charles Robert Anon) para o seu
nome fixando apenas nele um tipo de poesia mais subjectiva e confessional; o grande
volume de produção poética (131 poemas e quatro conjuntos de fragmentos) realizada
em seu nome ao longo do tempo de juventude, substituindo Pessoa nos anos difíceis do
seu regresso a Portugal e da sua adaptação ao meio e registando em inglês as crises, os
medos, as aspirações. (...)

Fonte: https://modernismo.pt/index.php/a/456-alexander-search

72
CONTO DE ALEXANDER SEARCH

Um jantar muito original

Diz-me o que comes, dir-te-ei o que és.


Alguém.

Foi durante a quingentésima sessão anual da Sociedade Gastronômica de Berlim


que o Presidente, Herr Prosit, fez aos seus membros o famoso convite. Claro que a
sessão era um banquete. À sobremesa gerara-se enorme discussão a respeito da
originalidade na arte culinária. A época ia má para todas as artes. Estava em decadência
a originalidade. Também na gastronomia havia decadência e fraqueza. Todos os
produtos da cuisine que se chamavam “novos” eram simples variantes de pratos já
conhecidos. Um molho diferente, um modo levemente diferente de condimentar ou
temperar – assim se distinguia o prato mais recente do que existia antes dele. Não havia
verdadeiras novidades. Havia apenas inovações. Todas estas coisas foram lamentadas
durante o banquete em clamor unânime, em variados tons e com diversos graus de
veemência.
Embora a discussão tivesse calor e convicção, havia entre nós um homem que,
embora não fosse o único homem que estava calado, era todavia o único homem cujo
silêncio se fazia notar, pois dele, mais que de todos, seria de esperar que interviesse.
Este homem era, evidentemente, Herr Prosit, que presidia à Sociedade e a esta reunião.
Herr Prosit foi o único homem que não mostrou interesse pela discussão – a sua atitude
não implicava desatenção, mas antes a vontade de manter o silêncio. Sentia-se [100] a
falta da autoridade da sua voz. Estava pensativo, – ele, Prosit; estava calado – ele,
Prosit; estava sério – ele, Wilhelm Prosit, presidente da Sociedade Gastronômica.
O silêncio de Herr Prosit foi, para a maioria dos homens, uma coisa estranha.
Parecia (passe a comparação) uma tempestade. O silêncio não se coadunava com ele.
Estar calado era contra a sua maneira de ser. E, tal como uma tempestade (para manter a
comparação), se alguma vez guardava silêncio, este era um descanso e um prelúdio para
uma explosão maior que todas. Era esta a opinião a seu respeito.
O Presidente era um homem notável sob muitos aspectos. Era um homem alegre
e sociável, mas tudo isto com uma vivacidade anormal, com um comportamento
barulhento que parecia revelar uma disposição permanentemente antinatural. A sua
sociabilidade parecia patológica; o seu espírito e as suas piadas, embora não tivessem de
modo algum um aspecto forçado, pareciam impelidos de dentro por uma faculdade de
espírito que não é a faculdade da graça. O seu amor parecia falso, a sua agitação
naturalmente postiça.
Na companhia dos amigos – e tinha muitos – mantinha uma corrente constante
de divertimento, todo ele era alegria a riso. Mas é de notar que este homem estranho não
revelasse nos traços habituais do rosto uma expressão de divertimento ou alegria.
Quando deixava de rir, quando se esquecia de sorrir, parecia, pelo contraste que o rosto
traía, cair numa seriedade que não era natural, algo irmanada com a dor.
Se isto era devido a uma infelicidade própria do seu caráter, ou a um desgosto da
sua vida de outrora, ou a qualquer outro mal do espírito – eu, que assim falo, não o
saberia dizer. Aliás, esta contradição do seu caráter, ou, pelo menos, das suas
manifestações, só era notada por um observador atento, os outros não a viam, nem havia
necessidade de que a vissem.

73
Tal como de uma noite de tempestades que se seguiram umas às outras com
intervalos uma testemunha diz que toda a noite foi uma noite de tempestade,
esquecendo as pausas entre os períodos de violência e classificando a noite pela
característica que mais a impressionou, do mesmo modo, seguindo uma tendência da
humanidade, se dizia que Prosit era um homem alegre, porque o que nele mais chamava
a atenção era o barulho que fazia ao manifestar a sua boa disposição, o estrépito da sua
alegria. Na tempestade, a testemunha esquece o profundo silêncio das pausas. Neste
homem esquecíamos facilmente, perante o seu riso selvagem, o silêncio triste, o peso
soturno dos intervalos da sua natureza social.
[101] O rosto do Presidente, repito possuía também e traía esta contradição.
Faltava animação àquele rosto que ria. O seu perpétuo sorriso parecia a careta grotesca
daqueles em cujo rosto bate o sol; nesses, a contração natural dos músculos perante uma
luz forte; neste, como expressão perpétua, extremamente antinatural e grotesca.
Dizia-se (entre quem sabia como ele era) que enveredara por uma vida animada
para fugir a uma espécie de doença de nervos ou, quando muito, morbidez de família,
pois era filho de um epiléptico e tivera como antepassados, para já não mencionar
muitos patifes ultra-extravagantes, vários neuróticos inconfundíveis. Talvez ele próprio
fosse doente dos nervos. Mas disto não falo com qualquer certeza.
O que posso apresentar como verdade indubitável é que Prosit fora trazido para a
sociedade de que estou a falar por um jovem oficial, também meu amigo e um tipo
divertido, que o descobrira algures, tendo achado imensa graça a algumas das suas
partidas.
Esta sociedade – aquela em que Prosit se movia – era, para dizer a verdade, uma
daquelas dúbias sociedades marginais, que não são invulgares, formadas por elementos
de classes elevadas e baixas numa síntese curiosa, comparável a uma transformação
química, pois têm muitas vezes um caráter novo, próprio, diferente do dos seus
elementos. Esta era uma sociedade cujas artes – têm que chamar-se artes – eram comer,
beber e amar. Era artística, sem dúvida. Era grosseira, ainda com menos dúvida. E reúne
estas coisas sem desarmonia.
Deste grupo de pessoas, socialmente inúteis, humanamente em deterioração, era
Prosit o chefe, porque era o mais grosseiro de todos. É óbvio que não posso entrar na
psicologia, simples mas intrincada, deste caso. Não posso explicar aqui a razão que
levara a escolher o chefe desta sociedade entre a sua camada inferior. Através de toda a
literatura, muita sutileza, muita intuição se dispenderam em casos deste gênero. São
manifestamente patológicos. Poe deu aos complexos sentimentos que os inspiram,
pensando que se reduzem a um só, o nome geral de perversidade. Mas estou a relatar
este caso e não mais. O elemento feminino da sociedade provinha, falando em termos
convencionais, de baixo, o elemento masculino de cima. O pilar desta combinação, o
hífen deste composto – ou melhor, o agente catalisador desta transformação química era
o meu amigo Prosit. Os centros, os lugares de reunião da sociedade eram dois: um
determinado restaurante ou o respeitável hotel X – conforme a festa era uma orgia vazia
de ideias, ou uma sessão casta, masculina, [102] artística da Sociedade Gastronômica de
Berlim. Quanto à primeira, é impossível tentar descrevê-la; não é sequer possível uma
sugestão que não toque as raias da indecência, pois Prosit não era normalmente
grosseiro, era-o anormalmente; a sua influência baixava o objetivo dos mais baixos
desejos dos seus amigos. Quanto à Sociedade Gastronômica, essa era melhor;
representava o lado espiritual das aspirações concretas daquele grupo.
Acabo de dizer que Prosit era grosseiro. É verdade: era grosseiro. A sua
exuberância era grosseira, o seu humor manifestava-se grosseiramente. Informo-vos de
74
tudo isto com cuidado. Não escrevo nem louvor nem calúnia. Estou a descrever uma
personagem o mais rigorosamente que posso. Tal como o permite a visão do meu
espírito, sigo os trilhos da verdade.
Mas Prosit era grosseiro, disso não há dúvida. Pois até mesmo na sociedade
onde, por estar em contacto com elementos socialmente elevados, era às vezes forçado a
viver, não perdia grande coisa da sua brutalidade inata. Entregava-se a ela
semiconscientemente. As suas piadas nem sempre eram inofensivas ou agradáveis; eram
quase todas grosseiras, embora, para os que eram capazes de apreciar o essencial de tais
exibições, fossem suficientemente divertidas, suficientemente espirituosas,
suficientemente bem imaginadas.
O melhor aspecto desta falta de educação era o seu caráter impulsivo, o seu
ardor. Pois o Presidente empenhava-se com ardor em todas as coisas em que se metia,
especialmente empreendimentos culinários e problemas amorosos; nos primeiros era um
poeta do sabor, com uma inspiração que aumentava de dia para dia; nos outros, a
baixeza de caráter revelava-se sempre no seu aspecto mais horrível. Contudo, não se
podia duvidar do seu ardor, tal como da impulsividade da sua alegria. Arrastava os
outros pela violência da sua energia, insuflava-lhes ardor, fortalecia-lhes os impulsos
sem dar por que o fazia. Mas o seu ardor era para ele próprio, era uma necessidade
orgânica; não tinha por objetivo uma relação com o mundo exterior. É verdade que este
ardor não se aguentava muito tempo; mas, enquanto durava, a sua influência era um
exemplo, embora inconsciente, era imensa.
Mas note-se que, se o Presidente era ardente, impulsivo, no fundo grosseiro e
rude, era todavia um homem que nunca se zangava. Nunca. Ninguém conseguia
enfurecê-lo. Além disso, estava sempre disposto a agradar, sempre pronto a evitar uma
discussão. Parecia estar sempre [103] desejoso de que as pessoas se dessem bem com
ele. Era curioso observar como reprimia a sua ira, como a dominava com uma firmeza
que ninguém julgaria existir nele, muito menos quem o conhecia como sendo impulsivo
e ardente, os seus amigos mais íntimos.
Creio que era sobretudo devido a isto que Prosit era tão apreciado. De facto,
talvez levando em consideração que ele era grosseiro, brutal, impulsivo, mas nunca se
portava com brutalidade por razões de fúria ou agressividade, nunca era impulsivo por
zanga – talvez que nós, tomando isto em conta inconscientemente, baseássemos nisto a
sua amizade. Além disso, havia o facto de ele estar sempre pronto a agradar e ser
amável. Quanto à sua grosseria, entre homens isso tinha pouca importância, pois o
Presidente era um bom compincha.
É óbvio, portanto, e agora, que o atrativo (por assim dizer) de Prosit residia
nisto: não era susceptível à fúria, desejava sinceramente agradar, havia uma fascinação
especial na sua exuberância grosseira, talvez até, em última análise, também na intuição
inconsciente do leve enigma que ele próprio era.
Basta! A minha análise da figura de Prosit, talvez excessiva em pormenores, é
todavia deficiente; porque, segundo creio, faltam-lhe ou ficaram sem relevo os
elementos que permitem uma síntese final. Aventurei-me em domínios que ultrapassam
a minha capacidade, que não iguala a clareza do que desejo. Por isso não direi mais.
Contudo, uma coisa emerge de tudo o que disse: o aspecto externo da
personagem do Presidente. Fica claro que, sejam quais forem os objetivos imagináveis,
Herr Prosit era um homem alegre, um tipo estranho, um homem habitualmente alegre,
que impressionava os outros homens com a sua alegria, um homem proeminente na sua
sociedade, um homem que tinha muitos amigos. Como davam o tom à sociedade de
homens em que ele vivia, quer dizer, como criavam ambiente, as suas tendências
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grosseiras desapareciam por serem excessivamente óbvias, passavam gradualmente para
o domínio do inconsciente, não eram notadas, acabavam por ser imperceptíveis.

O jantar estava no fim. A conversa aumentava, no número dos que falavam, no


barulho das suas vozes combinadas, discordantes, interpenetradas. Prosit continuava
calado. O principal orador, o Capitão Greiwe, [104] discursava liricamente. Insistia na
falta de imaginação (assim lhe chamava) que criasse iguarias modernas. Entusiasmou-
se. Na arte da gastronomia, observou, eram sempre precisos novos pratos. Era estreita a
sua maneira de ver, restringida à arte que conhecia. Argumentou de modo errado, deu a
entender que só na gastronomia tinha valor dominante a novidade. E isto pode ter sido
uma forma subtil de dizer que a gastronomia era a única ciência e a única arte.
“Abençoada arte”, gritou o Capitão, – “cujo conservantismo é uma revolução
permanente!”. “Dela poderia dizer”, continuou, “o que Schopenhauer diz do mundo,
que se mantém pela sua própria destruição.”
“E você, Prosit”, disse um membro que estava sentado na extremidade da mesa,
ao notar o silêncio de Prosit; “Você, Prosit, não deu ainda a sua opinião! Diga alguma
coisa, homem! Está distraído? Está melancólico? Está doente?”
Toda a gente olhou para o Presidente. O Presidente sorriu-lhes no seu modo
habitual, malicioso, misterioso, meio sem humor. Mas este sorriso tinha um significado:
prenunciou de algum modo a estranheza das palavras do Presidente.
O Presidente quebrou o silêncio que se fez para a resposta que se aguardava.
“Tenho uma proposta a fazer, um convite”, disse ele. “Estão a dar-me atenção?
Posso falar?”
Quando disse isto, o silêncio pareceu tornar-se mais profundo. Todos os olhos se
viraram para ele. Todas as ações e gestos pararam onde estavam, pois a atenção
estendeu-se a todos.
“Senhores”, começou Herr Prosit, “vou convidá-los para um jantar. Declaro que
nunca foram a nenhum como este. O meu convite é simultaneamente um desafio.
Depois explicarei.”
Houve uma ligeira pausa. Ninguém se mexeu, excepto Prosit, que acabou de
beber um copo de vinho.
“Senhores”, repetiu o Presidente, de uma forma eloquentemente direta, “o meu
desafio a qualquer homem está contido no facto de que de hoje a dez dias darei uma
nova espécie de jantar, um jantar muito original. Considerem-se convidados.”
Choveram de todos os lados murmúrios pedindo uma explicação, perguntas.
Porquê aquele gênero de convite? Que queria ele dizer? Que tinha proposto? Porquê
aquela obscuridade de expressão? Falando claramente, qual era o desafio que tinha
feito?
[105] “Em minha casa”, disse Prosit, “na praça.”
“Está bem.”
“Vai transferir para sua casa o lugar de reunião da sociedade?” perguntou um
membro.
“Não; é só para esta ocasião.”
“E vai ser uma coisa assim tão original, Prosit?” inquiriu obstinadamente um
membro, que era curioso.
“Muito original. Uma novidade absoluta.”
“Bravo!”
“A originalidade do jantar”, disse o Presidente, como alguém que falasse depois
de refletir, “não está no que ele tem ou parece, mas naquilo que significa, no que
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contém. Desafio qualquer homem que aqui está (e, para o caso, podia dizer qualquer
homem em qualquer parte) a dizer, depois de terminado, em que é que ele é original.
Garanto que ninguém adivinhará. É este o meu desafio. Talvez pensassem que seria que
nenhum homem poderia dar um banquete mais original. Mas não, não é isso; é como
disse. Como vêem, é muito mais original. É original para além do que possam esperar.”
“Podemos saber”, perguntou um membro, “o motivo do seu convite?”
“Sou levado a isso”, explicou Prosit, e havia uma expressão sarcástica no seu
olhar decidido, “por uma discussão que tive antes do jantar. Alguns dos meus amigos
aqui presentes terão ouvido a disputa. Podem informar os que queiram saber o que se
passou. O meu convite está feito. Aceitam?”
“Claro! Claro!” foi o grito que se ouviu de todos os pontos da mesa. O
Presidente abanou a cabeça, sorriu; embrenhado no divertimento que lhe provocava
qualquer visão interior, recaiu em silêncio.
Quando Herr Prosit terminou o seu espantoso desafio e convite, as conversas a
que se entregaram separadamente os membros, caíram sobre o seu verdadeiro motivo.
Alguns eram da opinião de que se tratava de mais uma graça do Presidente; outros que
Prosit desejava afirmar mais uma vez a sua habilidade culinária, o que era
racionalmente gratuito, visto que (diziam eles) ninguém a tinha contestado, mas
agradável à vaidade de qualquer homem na sua arte. Outros ainda estavam certos de que
o convite fora realmente feito por causa de certos rapazes da cidade de Frankfurt entre
os quais e o Presidente havia uma rivalidade em questões de gastronomia. Em breve se
verificou, como verão os que isto lerem, que o fim do desafio era de facto o terceiro –
isto é, o fim imediato, pois, como o [106] Presidente era um ser humano, e
especialmente um ser humano muito original, o seu convite tinha traços psicológicos
das três intenções que lhe foram imputadas.
A razão pela qual não se acreditou imediatamente que a verdadeira razão de
Prosit para o convite era a disputa (como ele próprio dissera) era o desafio ser
demasiado vago, demasiado misterioso para surgir como uma vingança e nada mais. Por
fim, contudo, teve que se acreditar.
A discussão que o Presidente mencionara (disseram os que sabiam) fora entre
ele e cinco rapazes, da cidade de Frankfurt. Estes não tinham qualquer particularidade a
não ser que eram gastrônomos; esse era, segundo creio, o seu único titulo que
justificasse a nossa atenção. Fora longa a discussão. Tanto quanto me lembro, eles
insistiam que um prato que um deles tinha inventado, ou um jantar que tinham dado, era
superior a um feito gastronômico do Presidente. Em torno disto se gerara a disputa; em
volta deste centro a aranha da discórdia tecera rapidamente a sua teia.
Fora acesa a discussão por parte dos rapazes; suave e moderada por parte de
Prosit. Era seu costume, como disse, nunca ceder à fúria. Contudo, nesta altura ficara
quase zangado com o calor das respostas dos seus antagonistas. Mas manteve-se calmo.
Pensou-se, agora que isto se sabia, que o Presidente ia pregar alguma partida gigantesca
aos cinco rapazes, vingar-se, segundo o seu costume, daquele violenta altercação. Por
isso, em breve era grande a expectativa; começaram a correr murmúrios de uma partida
excêntrica, histórias de uma vingança de notável originalidade. Perante o caso e o
homem, estes rumores tinham justificação; eram atabalhoadamente construídos sobre a
verdade. Todos eles foram, mais cedo ou mais tarde, contados a Prosit; mas ele, quando
os ouvia, abanava a cabeça, e, parecendo embora fazer justiça à intenção, lamentava o
seu tom grosseiro. Ninguém adivinhava, dizia ele. Era impossível, dizia, que alguém
acertasse. Era tudo uma surpresa. Conjectura, adivinha, hipótese eram ridículas e
inúteis.
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Claro que estes rumores surgiram mais tarde. Voltemos ao jantar onde o convite
fora feito. Terminara. Íamos para a sala de fumo quando passámos por cinco rapazes, de
aspecto bastante requintado, que saudaram Prosit com certa frieza.
“Ah, meus amigos”, explicou o Presidente voltando-se para nós, “são estes os
cinco jovens de Frankfurt que eu derrotei numa competição de assuntos
gastronômicos...”
[107] “Sabe bem que não acho que nos tenha derrotado”, retorquiu um dos
rapazes, com um sorriso.
“Bem, deixemos as coisas como estão, ou como estavam. Para dizer a verdade,
meus amigos, o desafio que agora fiz à Sociedade Gastronômica” (indicou-nos com um
largo gesto) “em um alcance muito maior e uma natureza muito mais artística.”
Explicou-o aos cinco. Escutaram-no o mais indelicadamente que conseguiram.
“Quando fiz este desafio, agora mesmo, senhores, estava a pensar em vós!”
“Oh, estava? E que temos nós a ver com isso?”
“Oh, vê-lo-eis em breve! O jantar é daqui a duas semanas, no dia dezassete.”
“Não queremos saber a data. Não precisamos.”
“Não, tendes razão!” gargalhou o Presidente. “Não precisais. Não será
necessário. No entanto”, acrescentou, “estareis presentes ao jantar.”
“O quê?” gritou um dos três rapazes. Dos outros dois, um fez uma careta e o
outro arregalou os olhos.
O Presidente respondeu com uma careta. “Sim, e contribuireis para ele da forma
mais material.”
Os cinco rapazes manifestaram fisionomicamente a sua dúvida quanto a isto e o
seu semidesinteresse do assunto.
“Sim, sim!” disse o Presidente, enquanto eles se afastavam. “Quando digo uma
coisa, faço-a, e digo que estareis presentes ao jantar, digo que contribuireis para que seja
apreciado.”
Isto foi dito num tom de desprezo tão óbvio e direto que os rapazes ficaram
irritados e desceram as escadas a correr.
O último voltou-se.
“Estaremos lá em espírito, talvez”, disse ele, “pensando no seu fracasso.”
“Não, não, estareis lá bem presentes. Estareis lá em corpo, garanto-vos. Não vos
preocupeis com isso. Deixai o caso comigo.”
[108] Um quarto de hora depois, tudo acabado, desci as escadas com Prosit.
“Pensa que consegue obrigá-los a comparecer, Prosit?” perguntei-lhe enquanto
ele vestia o sobretudo.
“Certamente”, disse ele, “tenho a certeza”.
Saímos juntos – eu e Prosit – e separamo-nos à porta do hotel.
[109] Em breve chegou o dia em que se ia cumprir o convite de Prosit. O jantar
teve lugar em casa de Prosit às seis e meia da tarde.
A casa – aquela que Prosit dissera ficar na praça – não era propriamente a sua
casa, mas sim a de um velho amigo seu que não vivia em Berlim e emprestava a casa a
Prosit sempre que este o desejava. Estava sempre à sua disposição. Contudo, este
raramente precisava dela. Alguns dos primeiros banquetes da Sociedade Gastronômica
tinham-se realizado aí, até que se tinha sobreposto a maior comodidade do hotel –
conforto, aspecto, localização. Prosit era muito conhecido no hotel; os pratos eram
feitos segundo as suas indicações. A sua capacidade inventiva tinha tanta liberdade aí
como na sua casa, com cozinheiros que ora eram seus ora dos membros, ora importados
de algum restaurante; e não só a sua habilidade tinha a mesma amplitude de ação como
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a execução das suas idéias era mais rápida, melhor; eram postas em prática com maior
eficiência e mais minuciosamente.
Quanto à casa onde Prosit vivia – ninguém a conhecia, nem estava interessado
nisso. Para alguns banquetes era utilizada a casa de que falei, para casos amorosos tinha
um pequeno apartamento; tinha um clube – ou antes, dois clubes –, e encontrava-se
muitas vezes no hotel.
A casa de Prosit, como disse, ninguém a conhecia; que ele a tinha, além do lugar
já mencionado, que ele lá vivia, era uma questão de certeza normal. Mas onde era a
casa, disso ninguém tinha uma suspeita que fosse. Também nos eram desconhecidas as
pessoas com quem lá vivia. Quem fossem os companheiros do seu retiro, a eles nunca
Prosit fizera qualquer alusão. Que [110] existiam, nem mesmo isso ele dissera. Era
apenas a conclusão do nosso raciocínio simples e natural sobre o assunto. Prosit
estivera, isso sabíamos – embora não me lembre por intermédio de quem – nas Colônias
– em África, ou na índia, ou noutro sitio - e ganhara aí uma fortuna da qual vivia.
Assim, sabendo-se muito coisa, o resto só o ócio poderia investigar.
O leitor conhece agora suficientemente o estado das coisas para dispensar outras
observações, quer sobre o Presidente quer sobre a própria casa. Portanto, passo à cena
do banquete.
A sala onde fora preparada a mesa do banquete era grande e comprida, embora
não imponente. Aos lados não havia janelas mas apenas portas, que davam para várias
salas. No topo, no lado que dava para a rua, havia uma janela alta e larga, esplêndida,
que parecia respirar ela própria o ar cuja entrada permitia. Ocupava à vontade o espaço
de três janelas grandes vulgares. Estava dividida em três partes pela própria estrutura do
caixilho. Embora a sala fosse grande, esta janela era suficiente; dava luz e ar a tudo;
nenhum canto estava privado das coisas mais naturais da Natureza.
No meio da sala de jantar fora posta uma mesa comprida para o banquete; no
topo desta estava sentado o Presidente, de costas para a janela. Eu, que escrevo, estava
sentado à sua direita, por ser o membro mais antigo. Não têm significado outros
detalhes. Éramos cinquenta e dois. A sala estava iluminada por candelabros colocados
sobre a mesa, três ao todo. Devido a uma hábil disposição dos seus ornamentos, as luzes
estavam irregularmente concentradas sobre a mesa, deixando bastante no escuro os
espaços entre ela e as paredes. Pelo efeito, parecia o arranjo de luzes sobre as mesas de
bilhar. Mas como aqui ele não resultava do mesmo modo, por um artifício cujo objetivo
era claro, o que existia no espirito era, no máximo, uma sensação de estranheza a
respeito das luzes da sala de jantar. Se houvesse outras mesas colateralmente, a
sensação da escuridão entre elas teria sido incômoda. Como havia apenas uma mesa,
isso não acontecia. Eu próprio só notei mais tarde, como verá o leitor que me
acompanhe. Embora eu, como todos os que lá estavam, tivesse procurado em toda a
parte aspectos estranhos, não dei por este.
O modo como a mesa estava posta, arranjada, ornamentada, em parte não me
lembro, em parte não precisa de ser lembrado. A diferença que pudesse haver
relativamente a outras mesas de jantar era uma diferença dentro da normalidade, não
uma diferença devida a originalidade. Neste caso a descrição seria estéril e inútil.
[111] Os membros da Sociedade Gastronômica – cinquenta e dois, como disse –
começaram a aparecer às seis menos um quarto. Uns três, recordo-me, chegaram apenas
um minuto antes da hora do jantar. Um – o último – apareceu quando íamos sentar-nos
à mesa. Nestas coisas, nesta parte da sessão, como convinha entre artistas, foi posto de
lado todo o cerimonial. Ninguém ficou ofendido com esta chegada atrasada.

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Sentamo-nos à mesa numa febre reprimida de expectativa, de interrogação, de
suspeita intelectual. Ia ser, todos se lembravam, um jantar muito original. Cada um tinha
sido desafiado – desafiado a descobrir em que residia a originalidade do jantar. Era este
o ponto difícil. A originalidade estava em algo não aparente, ou numa coisa óbvia?
Estava em algum prato, em algum molho, em alguma disposição? Estava em algum
detalhe trivial do jantar? Ou estava, no fim de contas, no caráter geral do banquete?
Como é natural, visto que estávamos todos neste estado de espirito, todas as
coisas possíveis, tudo o que era vagamente provável, tudo o que era sensatamente
improvável, impossível, era motivo de suspeita, de autointerrogação, de desorientação.
Estaria nisso a originalidade? Era isso que continha a partida?
Assim todos nós, os convidados, mal nos sentamos para o jantar, começamos a
investigar minuciosamente, curiosamente, os ornamentos e flores que estavam sobre a
mesa, e não só esses, mas também os desenhos dos pratos, a disposição das facas e
garfos, os copos, as garrafas de vinho. Vários tinham já examinado as cadeiras. Não
poucos tinham, com o ar de distração, dado a volta à mesa, à sala. Um espreitara para
debaixo da mesa. Outro tateara rápida e cuidadosamente a parte inferior da mesma. Um
membro deixou cair o guardanapo e baixou-se muito para o apanhar, o que fez com
dificuldade quase ridícula; tinha querido ver, disse-mo depois, se não haveria um
alçapão que, em determinado momento do banquete, engolisse, ou só à mesa, ou a nós e
à mesa em conjunto.
Agora não consigo recordar com precisão quais foram as minhas suposições ou
conjecturas. Todavia, lembro-me distintamente que eram bastante ridículas, da mesma
espécie das que referi a respeito dos outros. Sucederam-se umas às outras no meu
espirito, por uma associação, ideias fantásticas e extraordinárias. Tudo era, ao mesmo
tempo, sugestivo e insatisfatório. Bem considerado, tudo continha uma singularidade
(tal como qualquer coisa em qualquer sítio). Mas nada apresentava claramente,
nitidamente, indubitavelmente, o sinal de ser a chave do problema, a palavra escondida
do enigma.
[112] O Presidente tinha desafiado qualquer de nós a descobrir a originalidade
do jantar. Perante este desafio, perante a capacidade de pregar partidas pela qual Prosit
era famoso, ninguém poderia dizer até onde ia a mistificação, se a originalidade era
ridiculamente insignificante, de propósito, ou estava escondida numa acumulação
excessiva, ou, porque era possível uma coisa dessas, consistia em não ser qualquer
originalidade. Tal era o estado de espirito em que os convidados na sua totalidade –
digo-o sem exagero – se sentaram para comer um jantar muito original.
Estava-se atento a todas as coisas.
A primeira coisa que se notou foi que o serviço era feito por cinco criados
pretos. Os seus rostos não se viam bem, não só por causa do traje algo extravagante que
vestiam (que incluía um turbante esquisito), mas também pela singularidade da
disposição da luz, pela qual, como nas salas de bilhar, embora não pelo mesmo artificio,
a luz incidia sobre a mesa e deixava tudo em volta na escuridão.
Os cinco criados negros estavam bem treinados; não excelentemente, talvez, mas
bem. Traíam-no em muitas coisas, perceptíveis sobretudo a homens como nós, que
tínhamos contacto com gente dessa diariamente e de forma importante, devido à nossa
arte. Pareciam ter sido muito bem treinados, exteriormente, para um jantar que era o
primeiro que serviam. Foi esta a impressão que o serviço deixou no meu cérebro
experiente; mas, de momento, afastei-a, não vendo nela nada de extraordinário. Não se
encontravam criados em qualquer lado. Talvez, pensei na altura, Prosit os tivesse
trazido consigo do lugar onde tinha estado, no estrangeiro. O facto de eu não os
80
conhecer não era razão para duvidar disso, porque, como disse, a vida mais íntima de
Prosit, bem como o lugar onde morava, não eram do nosso conhecimento, ele
conservava-os secretos, por razões que provavelmente tinha e que nos não competia
investigar ou apreciar. Os meus pensamentos a respeito dos cinco criados pretos,
quando os vi, foram estes.
O jantar tinha começado. Intrigou-nos ainda mais. As particularidades que
apresentava, vistas racionalmente, eram tão destituídas de significado que era em vão
que se tentava interpretálas de que maneira fosse. As observações que um dos
convidados fez com humor, já para o fim do jantar, exprimiam adequadamente tudo
isto.
“A única coisa que a minha atenção e espírito alerta conseguem ver aqui de
original”, disse, com ar propositadamente pomposo, um membro titular, “é, primo [sic]
que os que nos servem são escuros e estão mais ou [113] menos no escuro, embora
sejamos nós que sem dúvida assim estamos; secundo [sic], que isto, se significa alguma
coisa, não significa coisa alguma. Não vejo em sítio algum qualquer coisa duvidosa, a
não ser, num sentido decente, o peixe.”
Estas observações, feitas de ânimo leve, foram recebidas com aprovação,
embora a sua graça fosse mais que pobre. Todavia, toda a gente notara as mesmas
coisas. Mas ninguém acreditava – embora muitos não tivessem ideias precisas – que a
partida de Prosit fosse isto e nada mais. Olharam para o Presidente para ver se o seu
rosto sorridente traía algum sentimento, alguma indicação de um sentimento, qualquer
coisa – mas o sorriso mantinha-se, habitual e inexpressivo. Talvez se tornasse
ligeiramente mais largo, talvez implicasse um piscar de olhos, quando o titular fizera
aquelas observações, talvez se tornasse mais manhoso; mas não há a certeza disto.
“Nas suas palavras”, disse Prosit finalmente ao membro que falara, “agrada-me
ver um reconhecimento inconsciente da minha habilidade em esconder, em fazer uma
coisa parecer diferente do que é. Pois vejo que foi iludido pelas aparências. Vejo que
está ainda longe de conhecer a verdade, a partida. Está longe de adivinhar a
originalidade do jantar. E posso acrescentar que, se há alguma coisa duvidosa, o que não
nego – por certo não é o peixe. Todavia agradeço o seu louvor!” E o Presidente fez uma
vênia trocista.
“O meu louvor?”
“O seu louvor, porque não adivinhou. E, não adivinhando, proclama a minha
habilidade. Agradeço-lhe!”
O riso pôs fim a este episódio.
Entretanto eu, que estivera a refletir durante todo o tempo, cheguei subitamente
a uma estranha conclusão. Pois, enquanto meditava nas razões do jantar, recordando as
palavras do convite e o dia em que fora feito, lembrei-me de súbito que o jantar era
considerado por todos como resultado de uma discussão do Presidente com os cinco
gastrônomos de Frankfurt. Recordei as expressões de Prosit nessa altura. Ele dissera aos
cinco rapazes que estariam presentes ao seu jantar, que contribuiriam para ele
“materialmente”. Fora esta a palavra exata que empregara.
[114] Ora estes cinco rapazes não estavam entre os convidados... Neste
momento a visão dos cinco criados negros fez-me naturalmente lembrar deles e logo a
seguir do facto de serem cinco. A descoberta sobressaltou-me. Olhei para os lugares
onde estavam, para ver se os seus rostos traíam alguma coisa. Mas os rostos, eles
próprios escuros, estavam na escuridão. Foi neste momento que notei a extrema perícia
com que a disposição das luzes lançava todo o clarão destas sobre a mesa, deixando a
sala em redor em noite, por comparação, especialmente na altura, a partir do chão, em
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que estavam as cabeças dos cinco criados que faziam o serviço. Por estranho, por
desconcertante que o caso fosse, deixei de ter dúvidas. Tinha a certeza absoluta de que
os cinco rapazes de Frankfurt se tinham transformado, para a ocasião, nos cinco criados
negros que serviam o jantar. A completa incredibilidade de toda a história fez-me
hesitar por algum tempo, mas as minhas conclusões eram demasiado bem tiradas,
demasiado óbvias. Não podia ser senão o que eu tinha descoberto.
Lembrei-me imediatamente que, uns cinco minutos antes, no mesmo banquete,
tendo os criados negros chamado naturalmente a atenção, um dos membros, Herr Kleist,
antropólogo, perguntara a Prosit que raça era a deles (por não conseguir de forma
alguma ver-lhes os rostos), e de onde os tinha trazido. A contrariedade que o Presidente
demonstrara pode não ter sido absolutamente manifesta; contudo, vi-a claramente,
perfeitamente, embora a minha atenção não tivesse ainda o estímulo da descoberta que
depois fiz. Mas vira a confusão de Prosit e ficara intrigado. Pouco depois – como notara
subconscientemente – quando um dos criados apresentava a travessa a Prosit, este
dissera alguma coisa em voz baixa; o resultado disto fora que os cinco “pretos”
recuaram mais para a sombra, exagerando talvez a distância, na opinião de quem
prestasse atenção ao estratagema.
O receio do Presidente era, claro, absolutamente natural. Um antropólogo como
Herr Kleist, alguém familiarizado com as raças humanas, com os seus tipos, com as
suas características faciais, revelaria logo forçosamente a impostura, se lhes visse os
rostos. A extrema inquietação de Prosit perante a pergunta; daí a ordem que deu aos
criados para se [115] manterem no escuro. O modo como fugiu à pergunta já não sei;
tenho suspeitas, contudo, de que o fez declarando que os criados não eram seus e
protestando a sua ignorância da raça a que pertenciam e da forma como tinham vindo
para a Europa. Ao dar esta resposta, contudo, estava, como já notei, muito pouco à
vontade; isto com receio de que Herr Kleist pudesse, de súbito, precisamente para ver
qual era a raça, desejar examinar os pretos. Mas é óbvio que, se não tivesse negado que
lhe pertenciam, não poderia ter dito “esta raça” ou “aquela raça”, pois, sendo ignorante
de raças, e sabendo que o era, podia aventar um tipo uma de cujas características mais
elementares, por exemplo a estatura, estivesse em franca contradição com a dos cinco
criados negros. Lembro-me vagamente que, depois desta resposta, Prosit a disfarçara
com qualquer incidente material, desviando a atenção para o jantar, ou para a
gastronomia – para uma coisa, não me lembro qual, que não era os criados.
O tempero requintado dos pratos, a novidade superficial da sua apresentação – se
tais coisas não fossem legítimas no Presidente como artista culinário, à parte o objetivo
do jantar – isso considerava eu coisas insignificantes feitas de propósito para desviar a
atenção, tão manifesto era, na minha opinião, o seu caráter de mesquinho absurdo, de
flagrante tacanhez, de voluntário inconvencionalismo. Posso acrescentar que ninguém,
depois de as ter examinado, as considerou importantes.
O facto em si era, é verdade, excessivamente, inexprimivelmente estranho; tanto
maior razão, disse de mim para mim, para conter a originalidade de Prosit. Era de facto
intrigante, refleti, que se tivesse realizado. Como? Como poderiam cinco rapazes
absolutamente hostis ao Presidente ser convencidos, treinados, obrigados a
desempenhar o papel de criados num jantar, coisa repugnante a todos os homens de
certa condição social? Era coisa que causava um sobressalto grotesco, como um corpo
de mulher com rabo de peixe. Provocava no espírito a sensação de que o mundo estava
de pernas para o ar.
Quanto a serem pretos, explicava-se facilmente. Prosit não podia obviamente
apresentar os cinco rapazes aos membros da Sociedade com os seus próprios rostos. Era
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natural que se servisse do vago conhecimento que sabia que tínhamos do facto de ele ter
estado nas Colônias para encobrir a partida da sua pretidão. A pergunta torturante era
como tinha isto sido feito; e isso só Prosit podia revelar. Eu podia compreender – e
contudo não muito bem – que um homem fizesse papel de criado, para um grande
amigo e por piada, e como um enorme favor. Mas neste caso!
[116] Quanto mais refletia, mais extraordinário parecia o caso, mas, ao mesmo
tempo, com todas as provas que tinha, com o caráter do Presidente, mais provável, mais
certo era que a partida de Prosit residisse neles. Bem podia desafiar-nos a descobrir a
originalidade do banquete! A originalidade que eu descobrira não residia, é verdade,
propriamente no jantar; mas estava nos criados, em algo ligado ao jantar. Neste ponto
do meu raciocínio admirei-me de não ter visto isso antes: que, sendo o banquete dado
por causa dos cinco rapazes (como agora se sabia), não podia deixar de incidir neles,
como vingança, e incidindo neles não podia obviamente recair em coisa mais
diretamente ligada ao jantar que os criados.
Estes argumentos, raciocínios, que aqui apresentei em alguns parágrafos,
passaram-me pelo espírito em poucos minutos. Estava convencido, confuso, satisfeito.
A clareza racional do caso afastou do meu espírito a sua natureza extraordinária.
Examinei o caso lucidamente, minuciosamente.
O jantar estava quase no fim, só faltava a sobremesa.
Decidi, para que a minha capacidade fosse reconhecida, contar a Prosit a minha
descoberta. Reconsiderei que não podia enganar-me, não podia estar a cometer um erro;
a estranheza do caso, tal como o concebia, transformava-o em certeza. Por fim, inclinei-
me para Prosit e disse em voz baixa;
“Prosit, meu amigo, descobri o segredo. Estes cinco pretos e os cinco rapazes de
Frankfurt...”
“Ah! adivinhou que há uma ligação entre eles.” Disse isto meio trocista meio
duvidoso, mas percebi que estava incomodado e irritado pela sagacidade do meu
raciocínio, que não esperava. Ficou pouco à vontade e olhou-me com atenção. E pensei
“Tenho razão”.
“Claro, repliquei; são os cinco. Disso não tenho dúvida. Mas como diabo o
conseguiu?”
“Força bruta, meu caro. Mas não diga nada aos outros.”
“Claro que não. Mas força bruta, como, meu caro Prosit?”
“Bem, é segredo. Não posso dizer. É um segredo tão grande como a morte.”
“Mas como consegue tê-los tão calmos? Estou assombrado. Não fogem nem se
revoltam?”
O Presidente teve como que uma convulsão de riso interior. “Não há que recear
tal coisa”, disse piscando o olho, de modo mais que significativo. [117] “Não podem
fugir – não podem. É absolutamente impossível.” E olhou para mim calmamente,
astutamente, misteriosamente.
Até que se chegou ao fim do jantar – não, não ao fim do jantar – outra
singularidade, aparentemente com esse mesmo objetivo – quando Prosit propôs uma
saúde. Toda a gente ficou espantada com este brinde, logo após o último prato e antes
da sobremesa. Todos se admiraram, excepto eu, que via nisto outra excentricidade, sem
sentido, para desviar as atenções. Todavia, encheram-se todos os copos. Enquanto se
enchiam, alteraram-se imenso os modos do Presidente. Mexia-se na cadeira em grande
excitação, com o ardor de um homem que quer falar, de alguém que tem que revelar um
grande segredo, que tem que fazer uma grande revelação.

83
Este comportamento foi logo notado. “Prosit tem alguma partida a reveler – a
partida. É Prosit sem tirar nem pôr! Vamos a isso, Prosit!”
À medida que se aproximava o momento da saúde, o Presidente parecia
enlouquecer de excitação; mexia-se na cadeira, estrebuchava, franzia a cara, sorria, fazia
caretas, ria sem nexo e sem parar.
Todos os copos estavam cheios. Toda a gente estava preparada. Fez-se um
profundo silêncio. Na tensão do momento, lembro-me de ouvir os passos de duas
pessoas na rua e ficar irritado por duas vozes – uma de homem, outra de mulher – que
conversavam na praça lá em baixo.
Deixei de as ouvir, de tal modo me concentrei. Prosit levantou-se; ou antes, deu
um salto, quase derrubando a cadeira.
“Senhores”, disse ele, “vou revelar o meu segredo, a partida, o desafio. É muito
divertido. Sabem que disse aos cinco rapazes de Frankfurt que estariam presentes ao
banquete, que colaborariam da forma mais material? É ai que está o segredo, nisso
mesmo.”
O Presidente falava apressadamente, incoerentemente, na pressa de chegar ao
ponto fundamental.
“Senhores, é tudo o que tenho a dizer. E agora a primeira saúde, a grande saúde.
Refere-se aos meus cinco pobres rivais... Porque ninguém adivinhou a verdade, nem
mesmo o Meyer [que sou eu]; nem mesmo ele.”
O Presidente fez uma pausa; depois, levantando a voz com um grito:
“Bebo”, disse ele, “à memória dos cinco rapazes de Frankfurt, que estiveram
presentes em corpo a este jantar e contribuíram para ele da forma mais material.”
[118] E mal-encarado, selvagem, completamente louco, apontou com um dedo
excitado para os restos de carne que estavam na travessa que tinha mandado deixar
sobre a mesa.
Mal estas palavras tinham sido ditas, um horror sem expressão possível caiu
sobre todos nós com um frio espantoso. De momento ficaram todos esmagados pela
impensável revelação. Na intensidade do horror, no seu silêncio, parecia que ninguém
ouvira, ninguém compreendera. A loucura acima de todos os sonhos era horrível no
domínio da realidade. Abateu-se sobre todos um silêncio que durou um momento, mas
que pelo sentimento, pelo significado, pelo horror, pareceu durar séculos, um silêncio
como nunca se sonhou nem pensou. Não imagino a expressão de cada um, de todos nós.
Mas aqueles rostos devem ter tido um aspecto que nunca existiu em qualquer visão.
Isto aconteceu durante um momento – curto, desgastante, profundo.
O meu próprio horror, a minha própria comoção não podem descrever-se. Todas
as expressões divertidas e implicações mal-intencionadas que naturalmente,
inocentemente ligara à minha hipótese dos cinco criados pretos revelavam agora o seu
significado mais profundo, mais horrível. Todo o segredo malicioso, toda a
sugestividade da voz de Prosit – tudo isto que agora me surgia na sua verdadeira luz, me
arrepiava e me abalava com um temor indizivel. A própria intensidade do meu terror
parecia impedir-me de desmaiar. Durante um momento eu, como os outros, mas com
um receio maior e com mais razão, encostei-me na cadeira e olhei para Prosit com um
horror que não há palavras que exprimam.
Foi assim durante um momento, durante um momento e não mais. Depois,
exceptuando os mais fracos, que tinham perdido os sentidos, todos os convidados, fora
de si com uma fúria justa e descontrolada, precipitaram-se encarniçadamente para o
canibal, para o louco autor desta façanha mais que horrível. Devia ter sido, para um
simples espectador, uma cena horrivel ver estes homens bem-educados, bem-vestidos,
84
requintados, meio-artistas, animados por uma fúria pior que de animais. Prosit era
louco, mas naquele momento também nós estávamos loucos. Ele não tinha hipótese
contra nós - absolutamente nenhuma. De facto, neste instante, estávamos mais loucos
que ele. Mesmo um único de nós, com a fúria com que estávamos, teria bastado para
castigar horrivelmente o Presidente.
[119] Eu próprio, antes de todos, dei um murro no criminoso. Com uma fúria tão
horrível que parecia vir de outra pessoa, e ainda agora parece, pois a recordação que
tenho é a de uma cena vista imprecisamente, de algo que não pode ter sido verdade.
Peguei no jarro de vinho que estava perto de mim e atirei-o, com uma horrível exultação
de ira, à cabeça de Prosit. Apanhou-o em cheio na cara, misturando sobre ela sangue e
vinho. Sou brando, sensível, detesto sangue. Ao pensar nisso agora, não consigo
compreender como foi possível praticar um ato que, para a minha maneira de ser
habitual, era de uma tão terrível crueldade, embora justo, pois, sobretudo pela paixão
que o inspirou, foi um ato cruel, crudelíssimo. Que grandes devem ter sido então a
minha fúria e a minha loucura! E que grandes as dos outros!
“Pela janela fora!” gritou uma voz terrível. “Pela janela fora!” guinchou um coro
formidável. E é característico da brutalidade do momento que a forma de abrir a janela
foi parti-la completamente. Alguém lhe meteu um ombro com força e despedaçou a
parte central (pois a janela era dividida em três) na praça lá em baixo.
Mais de uma dúzia de mãos animais caíram ansiosamente, disputando, sobre
Prosit, cuja loucura estava excitada por um medo inexprimível. Com um movimento
nervoso, foi arremessado para a janela, mas não a atravessou, porque conseguiu agarrar-
se a uma das divisórias do caixilho.
Novamente o agarraram aquelas mãos, mais nervosamente, mais brutalmente,
mais selvaticamente ainda. E com uma conjunção hercúlea de forças, com uma ordem,
com uma combinação perfeitamente diabólica num tal momento, balançaram o
Presidente no ar e largaramno com incalculável violência. Com uma pancada seca, que
teria transtornado os mais fortes mas que levou a calma aos nossos corações ansiosos e
expectantes, o Presidente caiu na praça, cerca de um metro e meio para lá do passeio.
Depois não se trocou uma palavra, um sinal; cada homem fechado no horror de
si próprio, cada um de nós saiu daquela casa. Uma vez lá fora, passada a fúria e o horror
que faziam tudo aquilo parecer um sonho, experimentamos o horror inenarrável de
deparar novamente com a normalidade. Todos sem exceção se sentiram mal, e muitos
desmaiaram. Eu desmaiei mesmo à porta.
Os cinco criados negros de Prosit – eram realmente negros, piratas asiáticos de
uma tribo assassina e abominável – estes, que, compreendendo o que se passava, tinham
fugido durante a luta, foram apanhados – todos excepto um. Parece que, para a
consumação da sua grande partida, [120] Prosit tinha despertado a pouco e pouco neles,
com uma habilidade perfeitamente diabólica, o brutal instinto que dormitava na
civilização. Tinham recebido ordem de ficar o mais longe possível da mesa em lugares
escuros, por causa do medo ignorante e criminoso que Prosit tinha de Herr Kleist, o
antropólogo que, pelo que Prosit sabia da sua ciência, poderia ter conseguido ver nos
rostos pretos os estigmas maldosos da sua criminalidade. Os quatro que foram
apanhados foram bem e justamente castigados.
Junho 1907

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OUTROS TEXTOS, OUTROS POEMAS - ATIVIDADE

O MENINO DA SUA MÃE


Fernando Pessoa. Disponível em: http://arquivopessoa.net

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
s. d.
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática,
1942 (15ª ed. 1995).
- 217.
1ª publ. in Contemporânea , 3ª série, nº 1. Lisboa: 1926.

(46)
Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento,
aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno
tamanho da sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do
que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade...
«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»
Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me
de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à
86
minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com
um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.
«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos
meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo.
«Sou do tamanho do que vejo!» Que grande posse mental vai desde o poço das emoções
profundas até às altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos
com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que
vejo!» E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro
do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer
palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes
espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica-me sendo a
alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como
sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o
anoitecer.
24-3-1930
Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol. I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos
de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.)
Lisboa: Ática, 1982.
- 140.
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares,
Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

MEU PENSAMENTO É UM RIO SUBTERRÂNEO

Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de
António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. (5.11.1914). Disponível em:
http://arquivopessoa.net

Meu pensamento é um rio subterrâneo.


Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo

De origens no Mistério extraviadas


De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...

De vez em quando luze em minha mágoa


Como um farol num mar desconhecido
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...

E eu relembro de tempos mais antigos


Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,
87
E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói-me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.

Escuto-o... Ao longe, no meu vago tacto


Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...

E p'ra onde é que ele vai, que se extravia


Do meu ouvi-lo ? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?

Não sei... Eu perco-o... E outra vez regressa


A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...

FÁBULA
(1915)
Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins:
Europa-América, 1986 - 69. Disponível em: http://arquivopessoa.net

Num fabulário ainda por encontrar será um dia lida esta fábula:
A uma bordadora dum país longínquo foi encomendado pela sua rainha que
bordasse, sobre seda ou cetim, entre folhas, uma rosa branca. A bordadora, como era
muito jovem, foi procurar por toda a parte aquela rosa branca perfeitíssima, em cuja
semelhança bordasse a sua. Mas sucedia que umas rosas eram menos belas do que lhe
convinha, e que outras não eram brancas como deviam ser. Gastou dias sobre dias,
chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com seda, e, como nos países longínquos
nunca deixa de haver pena de morte, ela sabia bem que, pelas leis dos contos como este,
não podiam deixar de a matar se ela não bordasse a rosa branca.
Por fim, não tendo melhor remédio, bordou de memória a rosa que lhe haviam
exigido. Depois de a bordar foi compará-la com as rosas brancas que existem realmente
nas roseiras. Sucedeu que todas as rosas brancas se pareciam exactamente com a rosa
que ela bordara, que cada uma delas era exactamente aquela.
Ela levou o trabalho ao palácio e é de supor que casasse com o príncipe.
No fabulário, onde vem, esta fábula não traz moralidade. Mesmo porque, na idade
de ouro, as fábulas não tinham moralidade nenhuma.

(116)
Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A
música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar)
entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas,
contudo, não se afastam da vida — umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto
vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.

88
Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que
nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de
ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala
em verso.
s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos
textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado
Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
- 505.
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares,
Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

O SEGREDO DE ROMA
(s.d.)
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa:
Livros Horizonte, 1993. - 266. «Fábulas para as Nações Jovens». Disponível em: http://arquivopessoa.net

Quando César chegou tarde ao fim do campo de (…) ergueram rápidos perante ele
a cabeça de Pompeu. César abriu em lágrimas, e os que estavam pasmaram. O que
erguera a cabeça, baixou-a um pouco; estava atónito, e além d'isso ela pesava, porque
ele a erguera a braço largo.
— Assim, que vale uma vitória? perguntou César.
— É certo, respondeu o que o seguia, pois não sabia que dizer.
E César continuou. «Foi meu amigo, meu companheiro, era romano e soldado...»
E depois disse, «Cheguei tarde...»
O companheiro esboçou um gesto sem nada, e César voltou as costas curvas de
dor.
«Cheguei tarde» repetiu. «Queria tê-lo eu matado com minhas mãos.»
Moralidade:
Cuidado com as lágrimas, quando são estadistas os que as choram.

1. TODO O CONHECIMENTO VEM DOS OU PELOS SENTIDOS;


(s.d.)
Textos Filosóficos. Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.)
Lisboa: Ática, 1968. – 223. Disponível em: http://arquivopessoa.net

1. Todo o conhecimento vem dos ou pelos sentidos; porém não sabemos quantos
são os sentidos (quantos sentidos há). Sentidos chamamos nós àqueles dispositivos da
mente pelos quais toma conhecimento (recebe uma impressão de que qualquer coisa
existe, e de que essa coisa apresenta determinado aspecto).
2. A razão, ou intelecto, nem percebe, nem cria; tão somente compara, e, por
comparação, rectifica e elabora, os dados que os sentidos ministram. A razão, é,
portanto, incompetente para determinar uma verdade, por isso que não pode determinar
um facto, mas só compará-lo com outros.
3. Os dados de um sentido não podem ser ministrados a quem não possua esse
sentido senão por analogia de dados. A essa exposição analógica chama-se um símbolo;
e quando o símbolo é de sentido tido por superior para outro tido por inferior, chama-se
revelação.
O facto de haver um problema não envolve que haja uma solução para ele. O facto
de haver um mal não quer dizer que ele possa desaparecer. Não há solução satisfatória
para nenhum problema social.
89
NO JARDIM DE EPÍCTETO
(s.d.)
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa:
Livros Horizonte, 1993.- 272. Disponível em: http://arquivopessoa.net

O aprazível de ver estes frutos, e a frescura que sai d'estas árvores frondosas, são
— disse o Mestre, — outras tantas solicitações da natureza para que nos entreguemos às
melhores delícias de um pensamento sereno. Não há melhor hora para a meditação da
vida, ainda que seja inútil, do que esta em que, sem que o sol esteja no ocaso, já a tarde
perde o calor do dia e parece que sobe vento do arrefecimento dos campos.
São muitas as questões em que nos ocupamos, e grande é o tempo que perdemos
em descobrir que nada podemos nelas. Pô-las de parte, como quem passa sem querer
ver, fora muito para homem e pouco para deus; entregarmo-nos a elas, como a um
senhor, fora vender o que não temos.
Sossegai comigo à sombra das árvores verdes, em que não pesa mais pensamento
que o secarem-lhes as folhas quando vem o outono, ou esticarem múltiplos dedos hirtos
para o céu frio do inverno passageiro. Sossegai comigo e meditai quanto o esforço é
inútil, a vontade estranha; e a própria meditação, que fazemos, nem mais útil que o
esforço, nem mais nossa que a vontade. Meditai também que uma vida que não quer
nada não pode pesar no decurso das coisas, mas uma vida que quer tudo também não
pode pesar no decurso das coisas, porque não pode obter tudo. E o obter menos que
tudo não é digno das almas que solicitam a verdade.
Mais vale, filhos, a sombra de uma árvore do que o conhecimento da verdade,
porque a sombra da árvore é verdadeira enquanto dura, e o conhecimento da verdade é
falso no próprio conhecimento. Mais vale, para um justo entendimento, o verdor das
folhas que um grande pensamento, pois o verdor das folhas, podeis mostrá-lo aos
outros, e nunca podereis mostrar aos outros um grande pensamento. Nascemos sem
saber falar e morremos sem ter sabido dizer. Passa-se nossa vida entre o silêncio de
quem está calado e o silêncio de quem não foi entendido, e em torno d'isto, como uma
abelha em torno de onde não há flores, paira incógnito um inútil destino.

O DESCONHECIDO
(s.d.)
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa:
Livros Horizonte, 1993.- 271. Disponível em: http://arquivopessoa.net

«Os esotéricos têm relações com os anjos, pela magia profunda dominam os
espíritos, sabem a significação íntima e vital dos símbolos, conhecem a matemática
profunda em que assentam as almas, «falaram» com os demiurgos, lidaram com os
princípios magicamente causais que estão entre Deus e o Mundo, conheceram Cristo, na
sua Figura Eterna e na sua Vera Fisiognomia não-simbólica.
«Sim, observei, lívido, eles foram aqueles que sem dúvida viram Isis sem véu.»
«Não só a Isis viram sem véu, mas com sentidos espiritualizados do seu corpo ao
Maior Princípio viram frente a frente. Colheram o auxílio de Asmodeus, de Beelzebuth,
de outros.
Agora escutai, disse o Desconhecido, baixando a voz que tomou de repente uma
entoação de sombra, distante e ao mesmo tempo pavorosamente nítida. Escutai:
Pausou um momento. Depois, não sei se lentamente, mas tenho a impressão que
sim, disse-me estas palavras assombrosas:
90
«Mas nada d'isso nunca existiu. Os espíritos, os deuses, as Vidas Supremas de que
os símbolos falam, os demiurgos, os demónios, os espíritos todos — nunca existiram.
São criações dos HERMÉTICOS para uso ilusório dos Esotéricos. Assim como estes só
por símbolos não sempre certos dão notícia da sua fé e dos seus poderes aos Esotéricos,
aqueles o fazem a eles. Deus mesmo não existe; Deus é uma criação ilusória dos
HERMÉTICOS. Existe realmente e verdadeiramente para os Esotéricos, mas
verdadeiramente não existe. O mistério é mais profundo do que julgais e de que os
Esotéricos julgam. O Mistério É MAIS UNO E INDIVISÍVEL DE QUE DEUS E OS
ANJOS.
Um grande horror físico descera sobre mim. Eu não sabia para onde pudesse olhar
que um terror pessoal não saísse d'esse objecto.
Quando ergui os olhos não havia ninguém no quarto, além de mim. O grande
Espelho fitava-me ocamente. Com mão trémula acendi o candeeiro. A alegria humilde
da luz derramou-se de repente pela sala. Não estava lá ninguém. Eu tinha sonhado
então? Não podia determinar se sim, se não. Olhei em volta, cheio de um pavor que
morava, rígido, nas minhas mínimas, sentidas, veias.
Mas nada de estranho no quarto. Nada?
N'uma estante um livro saía para fora, parecia ir cair. Eu tive uma
certeza inexplicável de que aquilo era anormal e estranho, de que (se bem que não
tivesse reparado para a estante antes) aquele livro não estivera assim há talvez
momentos. Quis ir em direcção a ele mexer-lhe, mas um pavor tolheu-me. Por fim pude
avançar.
Cheguei ao pé da estante, diante do livro, tirei-o para fora. Olhei-lhe para a capa.
Era a Bíblia.
N'um gesto rápido, como que decididor da minha sorte peguei na Bíblia e abria-a.
Não sei porquê um versículo foi a única coisa que imediatamente vi, como se o
resto da página estivesse inteiramente branca. Foi esta rigorosamente, a sensação que
tive.
Abri e li:

PSICOLOGIA FEMININA DO AMOR


(s.d.)
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa:
Livros Horizonte, 1993.- 20. Disponível em: http://arquivopessoa.net

O que, subconscientemente, na rapariga honesta torna agradável o namoro, é


nitidamente distrinçável. — Um acto agradável é agradável não só no acto mas na
antecipação d'ele; e, ausentes certos elementos psicológicos não orientadores (?) d'esse
acto, em geral, na antecipação ainda não imediata, porque na antecipação para d'aí a
pouco a ânsia de [...], de chegar a ele, amorna (ou, perturba) um tanto o [...] da
esperança. — Ora o flirt, o namoro, não é senão, analisada sem escrúpulo a sua essência
íntima, uma antecipação da possibilidade de uma cópula. Repare-se que não é a
antecipação de uma cópula, o que, por mais directo, é mais perturbante. — O que se
chama o prazer puro do amor (no que é namoro ou flirt) não é senão um prazer muito
grande porque isento (e n'esse sentido puro) do elemento perturbante do directo desejo,
ou imediata esperança, do coito.

91
DIÁLOGO NA SOMBRA
(1914?)
Textos Filosóficos. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.)
Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 237. Diálogo entre a Alma e o Eu? Disponível em:
http://arquivopessoa.net

A . — Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que
coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes.
E . — Tão feminina nisso ... E és da matéria das coisas irreais!
A . — Quando levantas um braço eu queria saber porque coisas do além, tu levantas
esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres
levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és... Reparo às vezes nos pequenos gestos
que fazes e vejo quão pouco sei de ti ...
E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando
reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim
próprio. Sou tão exterior a conhecer-me como o mundo externo ... Entre o meu querer
erguer um braço e ele erguer-se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar,
um abismo sem fundo humano.
A . — Eu sou simples como uma pedra no caminho ou uma rosa numa roseira.
E . — És simples porque não te espelhas em ti. Uma pedra no caminho é (atónita) um
mistério igual a Deus ... Uma rosa numa roseira é tão compreensível como a Vida ...
A . — Olho-te e amo-te e não te possuo nunca. Floriram em (...) as rosas do meu
jardim ... Acompanho-te e perco-te sempre que olho para ti.
E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar-me? Vejo meus
pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na
minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha
moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada.
A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas-me dos teus
amores e dos teus desejos mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma joia
qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só?
E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos
juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo-o a mim quando estou mais só
e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir.
A . — Sou a tua Alma e a mim-próprio não me contas tudo! Passou ontem uma brisa
leve pelo jardim. Trouxe perfumes de outros jardins [...]

AUTO DAS BACANTES - Escrito para solenizar a entrada do Sol em Áries


(1917)
Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990. - 70.
Disponível em: http://arquivopessoa.net

Escrito para solenizar a entrada do Sol em Áries, em Março de 1917

Começa por uma série de canções de alegria e de saudação à entrada ou da


primavera, ou do dia, ou de ambos, ou, em todo o caso, de Baco. - Segue a lamentação
de todos aqueles espíritos que se separaram da vida, e quiseram melhor, mais completo,
ou mais puro. - No fim do canto deles surge ruidosamente a passagem das bacantes.

Este é o dia, este é o dia


Em que de Baco vai explender
Toda a alegria.
Vinde colher, vinde colher
92
As flores para a vossa orgia.
Vinde colher para as perder.
Vinde colher pra desfolhar
(Este é o dia, este é o dia)
As novas flores
Que o prado ornam à porfia,
Vinde colher por vossas dores

XXXIX - O MISTÉRIO DAS COISAS, ONDE ESTÁ ELE?


Alberto Caeiro. Disponível em: http://arquivopessoa.net

O mistério das coisas, onde está ele?


Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das coisas


É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —


As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
s.d.
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas
de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
- 63.
“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.

93
FERNANDO PESSOA NOS QUADRINHOS

94
JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS
(Fonte: Antologia da Ficção Portuguesa Contemporânea. Org. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa:
Instituto de Cultura Portuguesa, 1979)

Na multiplicidade e originalidade do seu poder criador excepcional, como artista


plástico e escritor, José de Almada Negreiros marcou também um lugar de relevo na
literatura de ficção, sobretudo com o romance Nome de Guerra (1938, 3.ª ed. 1971), que
ficou a assinalar, embora de certo modo tardiamente, a novelística do Primeiro
Modernismo – na linha em que o representa em Portugal o grupo da revista Orpheu
desde 1915. Publicou ainda, no género, a novela A Engomadeira (1917) e outros textos
em prosa mais ou menos narrativa, nos quais ele mesmo se afirma «mais espontânea do
que premeditadamente impressionista», frequentes vezes contraditório, confessando
numa dedicatória a José Pacheco: «Sabe bem quanto eu contradigo a minha obra
anterior, mas também sabe que, se a contradigo, não a renego nunca». O romance Nome
de Guerra é a «narrativa duma experiência citadina de que resulta a conquista da
autenticidade pessoal, obra escrita num estilo inconfundível, ao mesmo tempo ingénuo e
de geométrica simplicidade» (Armando Vieira Santos). O voluntarismo «naïf» desse
estilo, manifestamente «premeditado», que Vitorino Nemésio qualificou de «linearidade
prodigiosa, dando a impressão de um Rousseau aduaneiro da prosa», pode ter
influenciado certos sectores da novelística portuguesa mais recente ou, pelo menos,
coincide com algumas das suas tendências mais evidenciadas – sem esquecer o que nele
se reflecte de experimentalismo de linguagem literária. De qualquer modo, o que se
mostra mais original e significativo na novelística de Almada, como em toda a sua obra,
é a «tensão entre os dois extremos da intuição e da análise, da vocação poética e do
propósito ensaístico» (David Mourão-Ferreira), ou seja: o contraste sempre presente
entre o espontâneo e o intencionalizado.

POEMAS DE ALMADA NEGREIROS

RONDEL DO ALENTEJO
Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

Meia-noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitada
com preparos
de luar.

95
Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas,
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são as fitas
desafogo
de luar.

Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos
girassóis
e os bonés,
e os braços
destes dois
giram laços
ao luar.

O colete
desta Virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem
de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
96
verde neve
minuete
de luar.

Transcrito de Almada Negreiros, Obras Completas, Vol.I-Poesia, 2ªEdição, INCM, Lisboa, 1990.
O poema foi publicado em 1922 no nº2 da revista Contemporanea, acompanhado do desenho de Almada
que abre o artigo.

A VARINA

Lá na Ribeira Nova
onde nasce Lisboa inteira
na manhã de cada dia
há uma varina
e se não fosse ela
ai não sei
não sei que seria de mim!
Por ela
fiz dois versos a todas as varinas:
E vós varinas que sabeis a sal
e trazeis o mar no vosso avental!
Acho parecidos estes versos
com as varinas de Portugal.

Uma vez falei-lhe


para ouvi-la
e vê-la
ao pé.
A voz saborosa
os olhos de variar
castanhos de variar
castanhos-escuros de variar
com reflexos de variar
desde a rosa
até ao verde
desde o verde
até ao mar.

Num reflexo reflecti:


não dar aquele destino
ao meu destino aqui. Escrito em 1926, Inédito, poesia, estampa, 1971

LUIS, O POETA, SALVA A NADO O POEMA

Era uma vez


um português
de Portugal.

O nome Luís
há-de bastar
97
toda a nação
ouviu falar

Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.

Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.

Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.

Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.

Ficou um livro
ao terminar.
muito importante
para estudar:

Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d'estalar.

Mais do que a vida


há-de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.

Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há-de salvar.

Nada que nada


sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.

_ Mar ignorante
que queres roubar?
A minha vida
ou este cantar?

98
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há-de ficar.

Estas palavras
hão-de durar
por minha vida
quero jurar.

Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.

Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.

Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.

Meu corpo é Terra


de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.

Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão-de achar.

A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há-de molhar.

Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.

À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há-de gostar.

99
Só uma coisa
vão olvidar
o seu autor
aqui a nadar.

É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.

Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.

A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão-de gravar.

O livro é este
é este o canto
assim se pensa
em Portugal.

Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.

Almada Negreiros, 1893-1970

CANÇÃO DA SAUDADE
(In “Frisos”, Revista Orpheu, 1.)

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã
gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se
vives ou se já nasceste.

Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em


busca de outras galés perdidas em mares longissimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes
apressadas.

100
Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e
nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo


deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são
como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a
lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

RECONHECIMENTO À LOUCURA
Poemas Assírio & Alvim

Já alguém sentiu a loucura


vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
Atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar


o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
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Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

SONETO
Ângelo de Lima
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.
Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria
Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

ACONTECEU-ME
Publicado em Almada: O Escritor – O Ilustrador, 1993

Eu vinha de comprar fósforos


e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim

102
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço

CONTO - O CÁGADO
(De Obras Completas – I. Contos e Novelas, pp. 111 a 116),
(Fonte: Antologia da Ficção Portuguesa Contemporânea. Org. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa:
Instituto de Cultura Portuguesa, 1979)

Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho
pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que
parecia não vir a propósito – um cágado.
O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo,
agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na
verdade, o tal cágado da zoologia.
O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades
para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família
era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente.
Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que
aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. Quando chegou perto do tal sítio, o
cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não
quer a coisa.
O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e
depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos
buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir
até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as
cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e
nada.
Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas
haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito
mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exactamente como uma
vara perdida.
Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de facto submetida a nova
orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava
um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não,
despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não
bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para
cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua
vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.
– E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? – pensava para si o
homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim
menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.
O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do
cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as
horas de almoçar.
– Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora
trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova,
esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!

103
Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na
pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma
maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença
do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que
enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se
perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente
impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era
indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador
rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali
por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões
diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante,
uma questão de vida ou de morte – a vontade.
Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da
inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um
cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.
A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade
foi surpreendido por dolorosa dúvida – já não tinha nem a certeza se era a quinquagésima
milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.
Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo
fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua
vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De facto, se
aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar
superlativamente dura e preciosa.
Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem
constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no
esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao
que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais,
não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.
Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas
de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a
altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem
estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão
com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador
rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria
descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas
entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito
senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efectivamente interminável. Por mais que se
avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença
de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos
aposentos propriamente ditos.
Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua
vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto
carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.
Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de
facto, mais continuação daquele buraco, parava exactamente ali, sem apoteose, sem
comemoração, sem vitória, exactamente como um simples buraco de estrada onde se vê o
fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.
Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões,
novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava
despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo,
muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe!

104
Maldita pá! O cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe
das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava
uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito – a luz do sol. A primeira sensação foi
de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade
furado a Terra de lado a lado?
Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país
estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes
das que ele tinha na memória. O sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de
cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda
estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do
chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de
poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...
Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão
e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver
que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se
com o nariz.
Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir.
Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de
ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou;
subiu, subiu, subiu...
Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia
antigamente – o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de
terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.
Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a
estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama.
O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.
O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito
duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era
necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua
família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o
monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a
tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados
das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra,
por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.
O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para
descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas,
algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim.
Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a
primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem
ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era – era o cágado.

ATIVIDADE

Leia o fragmento 170 do Livro do desassossego, do heterônimo de Fernando Pessoa,


Bernardo Soares, e responda às questões 1 e 2:

170. Depois que as últimas chuvas passaram para o sul, e só ficou o vento que as varreu,
regressou aos montões da cidade a alegria do sol certo e apareceu muita roupa branca
pendurada a saltar nas cordas esticadas por paus médios nas janelas altas dos prédios de
todas as cores.

105
Também fiquei contente, porque existo. Saí de casa para um grande fim, que era, afinal,
chegar a horas ao escritório. Mas, neste dia, a própria compulsão da vida participava
daquela outra boa compulsão que faz o sol vir nas horas do almanaque, conforme a
latitude e a longitude dos lugares da terra. Senti-me feliz por não poder sentir-me
infeliz. Desci a rua descansadamente, cheio de certeza, porque, enfim, o escritório
conhecido, a gente conhecida nele, eram certezas. Não admira que me sentisse livre,
sem saber de quê. Nos cestos poisados à beira dos passeios da Rua da Prata as bananas
de vender, sob o sol, eram de um amarelo grande.
Contento-me, afinal, com muito pouco: o ter cessado a chuva, o haver um sol bom
neste Sul feliz, bananas mais amarelas por terem nódoas negras, a gente que as vende
porque fala, os passeios da Rua da Prata, o Tejo ao fundo, azul-esverdeado a ouro, todo
este recanto doméstico do sistema do Universo.
Virá o dia em que não veja isto mais, em que me sobreviverão as bananas da orla do
passeio, e as vozes das vendedeiras solertes, e os jornais do dia que o pequeno estendeu
lado a lado na esquina do outro passeio da rua. Bem sei que as bananas serão outras, e
que as vendedeiras serão outras, e que os jornais terão, a quem se baixar para vê-los,
uma data que não é a de hoje. Mas eles, porque não vivem, duram ainda que outros; eu,
porque vivo, passo ainda que o mesmo.
Esta hora poderia eu bem solenizá-la comprando bananas, pois me parece que nestas se
projectou todo o sol do dia como um holofote sem máquina. Mas tenho vergonha dos
rituais, dos símbolos, de comprar coisas na rua. Podiam não me embrulhar bem as
bananas, não mas vender como devem ser vendidas por eu as não saber comprar como
devem ser compradas. Podiam estranhar a minha voz ao perguntar o preço. Mais vale
escrever do que ousar viver, ainda que viver não seja mais que comprar bananas
ao sol, enquanto o sol dura e há bananas que vender.
Mais tarde, talvez... Sim, mais tarde... Um outro, talvez... Não sei...

Questão 1: procure definir os recursos poéticos nos trechos em negrito (metáfora,


antítese, paronomásia, enumeração assindética, enumeração sindética, catáfora,
comparação).

[Paronomásia: figura de som, formada por palavras parônimas (docente / discente) ou


distinguidas na raiz de uma palavra e seus radicais, como amor / amado].
[Assindético: sem conectivos; sindética: com conectivos]
[Catáfora: termo usado para fazer resumir outro/s termo/s anterior/es: uma enumeração
finalizada com um pronome indefinido por exemplo]

Questão 2: encontre passagens em que o narrador se expressa usando uma das três
correntes filosóficas apreciadas por Fernando Pessoa (Niilismo, Estoicismo,
Epicurismo)

Questão 3: Leia a biografia do heterônimo inglês de Fernando Pessoa, Alexandre


Search na página 72, acima. Leia o conto “Um jantar muito original” nas páginas 73 a
85 acima e responda, num texto dissertativo (Introdução, Desenvolvimento, Conclusão):
QUAL A MENSAGEM CONTIDA NO CONTO LIDO?

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