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FUNDAÇAO GETÚLIO VARGAS

CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇAO HISTÓRIA


CONTEMPORÂNEA DO BRASIL (CPDOC)
PÓS-GRADUAÇAO EM HISTÓRIA POLÍTICA E BENS CULTURAIS (PPHPBC)
MESTRADO EM BENS CULTURAIS E PROJETOS SOCIAIS
CURSO: CULTURA E SOCIEDADE

AVALIAÇÃO

Mestranda: Mariangela Pinheiro de Carvalho

Profª Drª Helena Maria Bomeny Garchet

Rio de Janeiro
Dez/2008
Questão 1 (6 pontos)
Nascemos fracos; precisamos de força. Nascemos desprovidos de tudo; temos
necessidade de assistência. Nascemos estúpidos; precisamos de juízo. Tudo o que
não temos ao nascer e de que precisamos adultos é-nos dado pela educação.

Esta citação é de autoria de Jean Jacques Rousseau. Retirada de seu livro clássico
Emílio ou da Educação. A aposta iluminista de Rousseau na capacidade de
aprender poder ter alguma correspondência com o tratamento teórico que Norbert
Elias dá em seu também clássico O processo civilizador? Aproveite a provocação
para desenvolver a argumentação de Elias e cruze-a com a formulação de Claude
Lévi-Strauss a respeito do etnocentrismo. Você veria sentido em completar esta
questão com as reflexões de Pierre Bourdieu sobre ganhos e restrições
provenientes da socialização educativa? O conceito de capital cultural é uma pista
interessante para lidar com esse conjunto de questões?

Creio que Elias não concordaria totalmente com a afirmação de Rousseau, que traduz o
indivíduo como uma tábula rasa, sem nenhuma referência, aguardando passivamente
para tornar-se evoluído a partir do recebimento de informações dadas por um processo de
educação bancária, onde alguém possui um saber maior e o introduz em quem nada
sabe, sendo este completamente fruto de sua sociedade. Tanto Elias quanto Bourdieu
fogem dessa dicotomia indivíduo versus sociedade (tão cara aos liberais e
comunitaristas), trabalhando com as duas idéias de forma complementar (no conceito de
configuração de Elias e de campo & habitus de Bourdieu). Mas, é possível dizer que, no
que tange especificamente à capacidade de aprendizado, certamente Elias dialoga com
Rousseau, pois mostra como o comportamento do homem ocidental foi adquirido
culturalmente e é datado historicamente. Especificamente no livro O processo civilizador,
Elias traça uma trajetória de como o comportamento do homem foi sendo transformado
para que ele pudesse se tornar “civilizado”.
A abordagem de Elias, no entanto, vai além da visão iluminista rousseuaniana, porque
mostra como, a partir do estudo do particular, dos pequenos detalhes sociais, é possivel
inferir sobre como uma sociedade se pensa, se organiza e se articula. Fica claro como o
costume é revelador para se entender uma socidade. Ele faz isso de diferentes formas
nos diversos livros que escreveu, mostrando as trajetórias pessoais se refletindo e sendo
refletida pela sociedade de seu tempo, como na história de Mozart, ou pesquisando como
as socidades se comportam frente às artes, à velhice e à morte. Em O processo
civilizador isso fica claro, principalmente, quando através de um livro de etiqueta nos
aproxima da cultura da sociedade da idade média. O processo civilizador descrito por
Elias demonstra como, através do controle dos impulsos, a civilização se realiza em
benefício de uma possibilidade de convivência, nivelando as diferenças por um lado, mas
explicitando e execrando os diferentes, por outro.
Para entender o processo educacional e colocar Levi-Strauss e Bourdieu para participar
dessa conversa, é importante ressaltar nesse contexto o embate apresentado por Elias,
que nasce junto com a modernidade, entre a Kultur da Alemanha e a Civilité francesa.
São duas percepções diferentes de conceitos semelhantes. O conceito de cultura, na
França, partiu do ideal iluminista que quer impôr regras para universalizar as boas
maneiras a fim de tornar a humanidade civilizada, e carrega fortemente a idéia
evolucionista de sociedade, baseada na teoria de Darwin, tendo na escola o lugar de
sistematização da passagem desses códigos “certos”, pressupondo essa cultura francesa
como a correta a ser aprendida, pois dispõe de mecanismos de melhor convivência entre
os homens. Já a Alemanha aprensenta uma idéia de contraponto ao ideário iluminista
francês, trabalhando a cultura como expressão genuína, tratando o que é singular,
próprio, o que distingue uma cultura de outra. Neste caso, a educação aparece não como
ferramenta para a universalização do conhecimento e normas, mas como espaço para o
desenvolvimento do capital cultural, que pode deslocar um indivíduo a ter um papel mais
importante, a fazer parte da côrte, por sua singular competência.
É interssante perceber como essa idéia de civilité, seguindo o modelo francês, toma conta
de todo o ocidente, muito mais do que o conceito de Kultur. Quando Elias traz à tona esse
conflito, se recusa a compactuar dele e apresenta o conceito de configuração, dizendo
que a sociedade não é a soma dos indivíduos, mas uma terceira coisa, que mantém as
características individuais e que escolhe e assimila o que a sociedade lhe oferece, mesmo
que nem sempre essa “escolha” se dê de forma clara e consciente e autêntica.
A idéia iluminista amplamente divulgada e incorporada à sociedade ocidental pressupõe a
ascensão de uma cultura (mais desenvolvida) em detrimento de outras culturas , que
possuem outros padrões de comportamento e convivência (menos desenvolvidas) . Essa
maneira etnocêntrica de ver o mundo serviu de base para a “colonização” dos diversos
territórios “descobertos” pelos “desenvolvidos” países europeus, durante as grandes
viagens e serviu de argumentação para justificar as atividades e atitudes que
culminaram em diversas culturas do novo mundo sendo dizimadas e esquecidas.
Levi-Strauss explica o etcnocentrismo como a maneira de estudar uma outra cultura a
partir do olhar que se tem da própria cultura. O olhar estará sempre comprometido e o
resultado do estudo pode indicar caminhos muito distantes, incapazes de serem
reconhecidos por quem participa da cultura estudada. Ele afirma que essa idéia
evolucionista não deve ser considerada nos estudos das sociedades. Seu ponto
fundamental é que não há comprovação científica para se afirmar que exista uma raça
intelectualmente superior ou inferior a outra e desautoriza a biologia a formular conceitos
sobre as questões sociais. Demonstra como a vida da humanidade, em qualquer cultura,
não se desenvolve de forma uniforme. Há uma diversidade de sociedades e civilizações,
diversidade intectual, estética, sociológica, que não está ligada por qualquer relação de
causa e efeito com o que existe no plano biológico, em relação a aspectos dos
grupamentos humanos, sendo-lhes simplesmente paralelos em outros campos. Sem
contar a diversidade dentro das próprias culturas.
A idéia inicial rousseaniana geradora dessa argumentação, que já havia ganhado cores
distintas com o pensamento de Elias e Levi-Strauss, ganha contornos diferentes sob o
olhar de Bourdieu. Quando o assunto é socialização educativa, é possível dizer que o
autor tira a inocência do processo educacional. Pois ao entender essa multiplicidade de
sociedades dentro de uma mesma cultura, demonstra que a educação – e fala da
educação padrão qualidade total pública francesa – não contempla essas diferenças
essenciais do indivíduo e de fato representa uma violência simbólica ao colocar a criança
para participar de um processo educacional normativo, cujas regras não contemplam as
especificidades das referências que essa criança carrega. Essa situação ao invés de
promover uma equalização das diferenças, como acreditava a sociedade ocidental como
um todo e não só a francesa, para Bourdieu, as reforça e as expõe, pois ao tratar da
mesma maneira todas as crianças, sem levar em conta as diferenças, acaba privilegiando
os que possuem uma bagagem familiar alinhada às normas. A escola foi feita para estes e
de fato não para os que já nascem em condições desfavorecidas financeiramente. O que
Bourdieu traz de mais interessante para enriquecer essa questão, não são certezas, mas
muitas outras dúvidas, pois complementa o desnudar da sociedade ocidental que Elias
apresenta, mostrando que há muito mais do que se vê. Muito do que está dito, explicito,
explicado, normatizado e aceito pelo senso comum carrega barreiras que a própria
sociedade afirma já ter vencido e no entanto compactua sem se dar conta.
Assim como o capital financeiro aborda as relações econômicas, que se dão através das
trocas da força de trabalho, remuneração, mercado e consumo; o capital social, as
relações de ajuda e solidariedade entre indivíduos, em rede ou não; o capital cultural trata
das relações entre cultura e civilização apreendidas pelos processos educacionais e pode
promover um deslocamento social, que é um tema estremamente contemporâneo,
embora seja tratado desde os primórdios da modernidade, quando, o século XIX cobra a
fatura das grandes mudanças no pensamento, nas relações sociais e nas relações de
poder, implantados no século XVIII.
Para promover a redução do abismo social gerado historicamente não basta dar escola
para todos. É preciso saber que escola deve-se oferecer. De que educação queremos
falar? Da que perpetua o status quo ou a que, entendendo de que lugar está falando,
percebe as diversidades e as contempla?

Questão 2 (4 pontos)

A última parte do curso trouxe uma literatura contemporânea que se esforça para
lidar com a complexidade das questões postas pela conjuntura internacionalizada.
Uma literatura que ambiciona se aproximar de questões trazidas com a
globalização, com a quebra de fronteiras entre o tempo e o espaço, entre outras
mais. Escolha livremente entre os autores (Canclini, Ortiz, Stuart Hall) pontos que
considere importantes para reflexões sugeridas em um curso sobre cultura.
Identifique os pontos com os respectivos autores, ou autor, e desenvolva sua
questão.

Se continuarmos o raciocínio da questão anterior, podemos perceber que uma das


diversas formas de se representar a cultura é exatamente o capital cultural que é
simbolicamente entendido pela sociedade contemporânea como um valor agregado ao
indivíduo, e que foi exatamente por onde começamos a pensar cultura neste curso,
lembrando as considerações sobre o tema feitas por Roberto Damatta. E aí cultura
aparece como um conceito hierarquizante e descriminatório, que quando levado também
para as sociedades carregam o peso do etnocentrismo que já foi abordado.
Como, então, a cultura deve ser pensada para dar conta das complexas questões
contemporâneas? Como um conjunto de regras que nos diz como o mundo pode ser
classificado? Segundo Damatta, embora cada cultura possua um conjunto finito de
regras, suas possiblidades de atualização, expressão, modificação, interseção e reação
em situações concretas são infinitas. Essa abordagem de cultura mostra-se como um
bom instrumento para se tentar entender as diferenças entre os indivíduos e as
sociedades, evitando as ciladas do etnocentrismo, do relativismo e das elaborações
políticas.
O entendimento da diversidade cultural expõe as diferenças e nos permite entender e
trabalhar melhor nossa condição de seres humanos para então tentar oferecer, ainda
segundo Damatta, melhores caminhos para os pobre, marginais e oprimidos.
É certo que os tempos modernos, ou pós-modernos, como gostam alguns autores, como
Hall, principalmente em função da globalização, suscitam questões que estão além das
dicotomias históricas de bem e mal, certo e errado, pobreza e riqueza, liberdade e
opressão, local e global. O que autores como o próprio Hall, Canclini, Ortiz, e também,
embora não tão contemporâneo, Simmel, trouxeram de novidade para as reflexões
possíveis sobre cultura em meio ao turbilhão de questões contemporâneas que se
apresentam, é que não há resposta pronta, mas possibilidades distintas de observar um
mesmo objeto. Eles quebram com as certezas, as respostas fáceis e prontas, questionam
o estabelecido e o outsider, chacoalham a zona de conforto e expõem a zona de conflito,
não necessariamente para gerar dor, mas essencialmente para gerar dúvidas. Essa é a
parte da complexidade contemporânea que mais gosto. A possibilidade de duvidar
sempre, de rever o já dito, de desacreditar, nem que seja para voltar a crer. Esse é o
tempo de fazer perguntas. Hall demonstra isso, recheando seu texto com suas
inquietações sem se sentir obrigado a respondê-las, mas sim em compartilhá-las com o
leitor, expondo suas próprias contradições. Com isso demonstra, na prática, que é um
homem fruto desse tempo que descreve, que possui diferentes identidades, possíveis
“eus”, que oscilam de acordo com um leque de possibilidades que a sociedade
fragmentada e mutante apresenta, reforçada pela Globalização. É importante perceber
como esses autores apresentam e trabalham a questão da globalização. É praticamente
unânime a visão de que não se pode apenas ter uma idéia simplista e rasa sobre os
efeitos que a globalização podem provocar nas culturas. Isto porque, apesar dos novos
conceitos, novas regras e leis, que buscam dar conta de um mundo conectado, onde as
distâncias foram reduzidas pela tecnologia e o tempo passa a ser contado de outra
maneira, dada a velocidade que os tempos modernos exigem, não há necessariamente o
englobamento de culturas. Por isso Ortiz, quando se refere a cultura prefere usar o termo
mundialização, que contempla um posicionamento mais equilibrado, pois “corresponde à
noção de 'concepção de mundo', um universo simbólico específico, que se tece no
interior do processo, mas não se confunde com ele.” (2007: 11). Globalização dá conta
melhor, para Ortiz, para tratar das questões da técnica e da economia.
O indivíduo desse tempo é confrontado diariamente com essa estrutura mutante, que
demanda constantemente o repensar os conceitos e certezas. Pois a exposição
permanente ao Global tende a confrontá-lo com as dicotomias as quais já está
familiarizado. Por outro lado, esse confronto pode, ao invés de levar o indivíduo e a
cultura em que está inserido a uma homogeneização, promover um revival desta mesma
cultura (Hall, 2006:95). Isso pode acontecer não apenas nas culturas nacionais, mas nas
manifestações locais, como bairros em cidades grandes e no interior, que mantém suas
tradições e festas vivas, sem deixar de conviver com o global. Já as grandes cidades,
megacentros econômicos, megalópolis, oferecem terreno fértil para as manifestações
globalizantes (embora sejam também resultado da massificação global), onde o indivíduo
deslocado e fragmentado encontra o lugar ideal para exercitar “relações anônimas e
impessoais” (Ortiz, 2007:10). Esse tipo de relacionamento típico das grandes cidades é
denominado por Simmel como “espírito de reserva” (in Mana 2005:577). Há um
esfriamento das relações humanas, como se o homem estivesse se esquecendo dessa
sua habilidade de se emocionar e se comover no convívio com o outro, que ele não sabe
e não quer saber quem é, em troca de outras emoções oferecidas por um outro caminho
simbólico, mas tecnológico, high tech. Isso é percebido em Canclini, quando fala sobre os
espaços de convivência, cada vez mais hoje em dia restritos aos Shopping Centers
(malls), que migram de espaço exclusivo de consumo de bens materiais, para consumo e
exposição de bens simbólicos (2003:160,161).
Nenhum texto, no entando, expôs o congelamento das relações contemporâneas com
tanta maestria como Elias, grande estrela deste curso, quando no livro A solidão dos
moribundos, abre as cortinas e ilumina a forma como a civilização ocidental moderna
pensa, percebe e trata seus velhos e moribundos. Fica evidente o quanto coisas que hoje
fazemos como atos naturais são de fato frutos de uma construção historicamente datada,
e “só quando formos capazes de maior distanciamento de nós mesmos, de nosso estágio
de civilização, e nos tornarmos conscientes do caráter específico de nosso próprio limiar
de vergonha e repugnância, poderemos fazer justiça às ações e obras de pessoas em
outros estágios.”(2001:28).
No mundo pós-moderno temos ainda muito a aprender, sem vergonha, preconceito e
medo de dizer “ainda não sei.” Essa é a grande lição que levo comigo deste semestre.
Sou parte disso tudo, posso participar mais, entender mais e tentar fazer mais diferença.
Já que a morte é mesmo ainda inevitável, pois a tecnologia só deu conta de afastá-la da
sociedade, prorrogar sua chegada, mas não desvendou seus segredos, é importante
deixar algo que permaneça nas mentes e corações, porque a história continua a ser
construída e imaginada...