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Representações médicas e de gênero na promoção

TEMAS LIVRES FREE THEMES


da saúde no climatério/menopausa

Medicals and gender’s representations on health


promotion in climacteric/menopause

Eliana Azevedo Pereira de Mendonça 1

Abstract The aim of this article is to discuss the Resumo Sendo a atenção integral à saúde um
limits and the possibilities of educative health desafio às práticas multidisciplinares no âmbito
practices for the women’s health promotion. We dos serviços públicos de saúde, tomamos como ei-
should do a critic of the “unilateral communica- xo de discussão a crítica à transmissão vertical de
tion” and reflect on the need for women to become informações, o que implica refletir sobre o papel
active parts in this process. Having focusing on an ativo dos sujeitos na abordagem dos fenômenos
interdisciplinary activity in climacteric women’s saúde/doença. Através de práticas educativas na
attention in a health public organization in Rio assistência à mulher no climatério em um ambu-
de Janeiro between 1990-1995, we have observed latório no Rio de Janeiro, observamos que as cons-
that the gender’s construction had a significant truções de gênero operam de forma incisiva nas
influence in women’s daily lives and that most of vivências das usuárias. Através de imagens, sím-
them had a negative social representation of the bolos e representações expressaram o sentimento
menopause. They talked about their fears of the de perda em várias direções: insegurança face aos
menopause consequences. When we know social sintomas de natureza física e psicológica antes
representations about menopause, we can access não vivenciados, menos-valia pelo desprezo às
the effectiveness of the discourse about women’s suas queixas, medo do desconhecido diante das
physicals and psychological changes during this representações negativas da menopausa. Tornar
period life and establish more efficient and com- inteligíveis as representações sociais de um dado
municative exchanges between all the people con- grupo sobre o objeto menopausa implica analisar
cerned and the health workers to build new social a eficácia dos discursos em relação às mudanças
representations, and help women to express the fisiológicas da mulher nessa etapa da vida, e ini-
emotions resulting from the “battle of mind” ciar um processo de troca entre população e pro-
fought in all their relationships. This would firstly fissionais no sentido de (re)construí-las a partir
1 Departamento de enable them to take an active part in their health da crítica às representações dominantes que sus-
Política Social, Faculdade promotion, and, secondly improve the way health’s tentam relações de poder, favorecendo a expressão
de Serviço Social. workers approach the matter. dos sentimentos e emoções de maneira a possibili-
Universidade do Estado
do Rio de Janeiro. Key words Health promotion, Social represen- tar à mulher ser sujeito de sua saúde e ampliar o
Rua São Francisco Xavier, tations, Educative practices, Gender, Menopause olhar e a sensibilidade dos profissionais da saúde.
524, Bloco D, sala 8.027. Palavras-chave Promoção da saúde, Represen-
Maracanã, 20550-013,
Rio de Janeiro RJ. tações sociais, Práticas educativas, Gênero, Me-
elianap@uerj.br nopausa
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Mendonça, E. A. P.

Introdução Mulher (PAISM) orientações específicas à assis-


tência ao climatério, objetivando universalizar
Climatério/ menopausa é sem dúvida, aqui no os procedimentos em diversos níveis de atendi-
Brasil, uma temática que entra na agenda das mento, contemplando a melhoria dos indicadores
discussões na década de 1990. Se havia um rela- de saúde. Indica basicamente uma propedêutica
tivo silêncio a respeito, fosse pela escassa difu- médica, orientação dietética e orientação para
são de trabalhos científicos produzidos fora do programas de atividades físicas. Atividades edu-
Brasil, ou por ainda ser tema tabu entre as mu- cativas devem oferecer às clientes o maior nível
lheres, o fato é que não deixava de ser uma ques- de atendimento sobre as modificações biológicas
tão relevante para as mesmas. No trabalho com inerentes ao período do climatério, bem como
grupos nos anos 80, no PAM 13 de Maio/RJ, di- propiciar adequada vigilância epidemiológica às
mensionávamos a grande demanda das mulhe- situações de risco associadas. Os aspectos psicoló-
res na pré e pós-menopausa por uma atenção gicos e sexuais são, também, apontados como
particularizada e que não era satisfeita nos li- significativos nessa fase. Entendemos que cabe
mites da consulta ginecológica. Situando a me- explorar não só esses aspectos, mas ampliar os
nopausa em um processo global da vida da mu- debates sobre as práticas educativas e seus obje-
lher, o texto de Pedrin et al. (1988), do Grupo tos, considerando que as usuárias necessitam de
de Mulheres de São Francisco, fora referência informações que lhes permitam ter um papel
fundamental; a propósito, Gutiérrez (1992) cita ativo diante das situações desconhecidas que as
que na América Latina não se tinha notícia de deixam inseguras e vulneráveis à medicalização.
pesquisa semelhante sobre a menopausa. A ex-
periência iniciada em 1988 com grupos de mu-
lheres na meia-idade, descrita em “Mulher na Climatério/menopausa:
menopausa: declínio ou renovação” (Gutiérrez, a importância das informações
1992) antecedera o projeto de atenção integral
à saúde da mulher no climatério, implementa- Uma revisão na literatura que discute a meno-
do na referida unidade em meados de 1990, de pausa, destacando os primeiros cinco anos da
cuja experiência nos valemos neste artigo. década de 1990, permite sinalizar que o tema
No cenário internacional a realidade era ou- das mudanças por que passam as mulheres na
tra. O ano de 1976 marcara a realização do I Con- meia-idade aparece como central, assim como
gresso Internacional de Menopausa, definindo-se se atribui importância à veiculação de informa-
climatério – período de envelhecimento da mu- ções. Contudo, a maneira como se interpreta a
lher entre as fases produtiva e não produtiva; e problemática da mulher engendra caminhos di-
menopausa – a data final das menstruações que versos e proposições diferenciadas, seja no pró-
ocorrem durante o climatério (Portinho, 1994). prio universo médico seja a partir do olhar di-
Também nesse ano, a International Menopause ferenciado das feministas. Assim, situamos nos-
Society lança na França o periódico Maturitas, sas discussões na perspectiva das respostas pos-
com a finalidade precípua de publicar os resulta- síveis dos serviços públicos às demandas das
dos de estudos e experiências complementares mulheres que identificam problemas em rela-
sobre reposição de hormônios, mas segundo ção à menopausa.
Greer (1994) seu objetivo era e continua a ser con- Na literatura médica, o termo climatério de-
seguir subsídios do governo para divulgar o “evan- signa, basicamente, o ciclo da mulher caracteri-
gelho” da terapia de reposição hormonal. A crítica zado pelas mudanças hormonais (diminuição
incide sobre a ênfase na TRH em detrimento da de estrogênio e progesterona), alterações vagi-
valorização do processo natural da vida e de seu nais e cessação da menstruação (menopausa).
enfrentamento pelas próprias mulheres e/ou do Reserva-se a expressão síndrome do climatério
exame de fatores que extrapolam o biológico. ao conjunto de sinais e sintomas que provocam
Acompanhando os debates sobre essa temá- mal-estar físico e emocional, resultante da insufi-
tica, vemos que o aumento da esperança de vi- ciência estrogênica, destacando-se, a curto prazo,
da da humanidade se transforma no principal ondas de calor, insônia, irritabilidade e depres-
argumento que justifica a maior difusão das são; a médio prazo: atrofia dos epitélios, mucosas
pesquisas científicas, as matérias jornalísticas e e colágeno; a longo prazo: alterações cardiovascu-
programas de saúde. lares e perda de massa óssea (Luca, 1994). Há au-
Em 1993, o Ministério da Saúde incluiu no tores que classificam os sintomas em vasomo-
Programa de Assistência Integral à Saúde da tores (fogachos, suores, palpitações) psíquicos e
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somáticos. Como a menopausa ocorre dentro mento e da degradação física e mental. Admite,
de um amplo período – climatério –, Bronstein no entanto, que poucas mulheres estão isentas
(1994) considera que as modificações somáti- de sintomas e que para a maioria, menopausa
cas e psíquicas apresentadas pelas mulheres se- significa o “inferno” do início do envelhecimen-
rão muito diferentes, assim como as alterações to. O uso dessa metáfora sublinha a intensidade
endócrinas, que merecerão considerações em das sensações experimentadas por muitas, o que
separado conforme a fase em que se encontrem nos leva a indagar se para aquelas que vivenciam
– período da maturidade feminina, perimeno- negativamente esse período é suficiente a defi-
pausa ou início do envelhecimento. nição do climatério como um processo natural
Se o termo climatério era até então desco- e a afirmação de que não é uma doença. Como
nhecido da população usuária dos serviços de se explicam a existência de sintomas e a ênfase
saúde, menopausa representava um marco das no tratamento para reposição de hormônios?
mudanças por que passa a mulher, não só em Aldrighi (1994) situa a “medicina climatéri-
termos fisiológicos, mas aí acrescentando ou- ca” como uma importante parcela da medicina
tros atributos, como por exemplo, na associa- preventiva, o que permite às mulheres uma con-
ção entre menopausa e início do envelhecimen- dição de vida mais digna no seu processo biológi-
to e decadência, construções características de co natural de envelhecimento. Entre as muitas
nossas sociedades e culturas ocidentais. Não funções do médico inclui a de orientar as mu-
que o discurso médico esteja desprovido desses lheres na pós-menopausa sobre o real significado
atributos; na própria origem do termo, do gre- da redução de hormônios e a necessidade de repo-
go Klimáter, temos o significado de “período sição hormonal – sempre avaliando a relação ris-
crítico da vida”. Para Greer (1994) as pessoas só co/benefício –, com o intuito de diminuir a inci-
começaram a discutir o climatério depois de dência das afecções (...).
analisado e definido pelos médicos como uma Salientando a importância do estudo da me-
síndrome: a classe médica adquiriu o poder de dicina climatérica, os médicos também reconhe-
tratar a “fase crítica” (...) como um problema que cem que há uma carência de informações ade-
exigia intervenção médica, e não como um im- quadas à mulher.
portante processo inerente ao desenvolvimento fe- Para Fonseca (1999) uma abordagem realis-
minino, que as próprias mulheres deviam enfren- ta e tranqüilizadora e um bom relacionamento
tar. Admite que este é um período difícil, sem entre o médico e a paciente podem fazê-la aceitar
exceção; um período de mudança e que é im- a terapia de reposição com segurança. O argu-
portante não se negar o evento em si e enfren- mento daqueles que defendem com veemência o
tá-lo. As idéias de Greer desenvolvem-se tendo uso de estrogênios depois da menopausa é basea-
como diretriz um dos dogmas feministas – cabe do na intenção de se trabalhar na prevenção da
à mulher definir sua própria experiência – e en- osteoporose e das doenças cardiovasculares. Sabe-
fatiza: o trágico não é necessariamente esquecer- mos que o risco de o uso de estrogênios aumentar
se de si própria, mas a baixa auto-estima. os casos de câncer do corpo uterino é desprezível,
Enquanto a linguagem médica fala de sinto- desde que a paciente submetida à terapia de re-
mas e de processos fisiológicos, de reposição de posição seja mantida sob rigorosa atenção médica.
hormônios, a das feministas fala da vida, do A questão dos esclarecimentos risco/benefí-
maior conhecimento de si própria, da utiliza- cios na terapia de reposição hormonal (TRH),
ção de produtos e técnicas naturais. Para Wer- bem como a atitude do médico como fonte de in-
thein et al. (1999) transformar os signos da me- formação vêm enfatizadas por L. de Luca (1994):
nopausa em sintomas torna as mulheres mais no que se refere à terapêutica de reposição no cli-
vulneráveis à medicalização e habilita a pensar matério é preciso adotar postura franca e simpáti-
a menopausa como uma enfermidade e não co- ca. É dever profissional esclarecer a função dos
mo um fato vital. Pedrin et al. (1988) também hormônios, quais são eles, por que ministrá-los,
sinalizavam uma tendência crescente na medi- quando iniciar o tratamento e qual a sua duração.
cina para encarar a menopausa como uma fase Informar sobre os efeitos colaterais, desde os mais
de transição natural, mas que considerá-la uma simples aos mais graves. Discutir os esquemas de
doença de insuficiência era um aspecto ainda medicação e esclarecer as dúvidas pertinentes e ca-
ensinado na maioria das escolas médicas. bíveis, impertinentes e descabidas. Atitudes médi-
A identificação de menopausa como doença cas negativas, autoritárias, às vezes zombeteiras,
é um mito, afirma o médico L. de Luca (1994) são contraproducentes e respondem, não raro, pelo
assim como considerá-la marco do envelheci- nascimento de mitos ou de meias-verdades.
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Se é dever ético profissional prestar esclare- “sintomas” no climatério podem ser agrupadas
cimentos em relação à TRH, considerando-se em três grandes categorias – redução dos estró-
os direitos do paciente, há, no entanto, limites genos, fatores socioculturais e fatores de perso-
em termos da prática médica nos espaços dos nalidade –, para Stepke (1997), o “peso etiológi-
serviços públicos de saúde. Dentre outros, o pe- co” de cada causa difere, (...) só à primeira, em
queno tempo de que se dispõe para elaborar in- geral, se atribui a possibilidade de estabelecer pro-
formações com as usuárias, levando-se em con- cedimentos adequados para explicitá-lo e deduzir
ta que se faz necessário uma aproximação com dessa explicitação medidas cientificamente fun-
o universo sociocultural da população usuária. damentadas (...). No entanto, estudos epidemio-
Em nossa experiência encontramos usuárias, lógicos evidenciam que as mulheres que têm aces-
que vindas de outras unidades, haviam feito so às informações passam mais tranqüilamente o
TRH e/ ou interrompido o tratamento, desco- climatério e, há, ainda, evidências de diversos an-
nhecendo o teor do mesmo. Também já ouvi- tecedentes para essa sintomatologia: a saúde pré-
mos depoimento de médicos, que convencidos via, emocional e física; as expectativas em relação
da eficácia do TRH o prescrevem ainda que não à própria vida; a valorização da maternidade em
tenham possibilidade de tecer ampla informa- determinadas culturas; a ausência de menstrua-
ção à “paciente”; há ainda os que não admitem ção, valorada de forma positiva ou negativa. In-
contra-argumentação. Nesse sentido cabe a ob- ferimos ser este um processo natural que é vivi-
servação, acima citada, de Luca, que não descar- do em condições diferenciadas, dependendo de
ta a existência do discurso autoritário. Cabe res- vários fatores, desde os genéticos e do meio-
saltar não se tratar de um exagero a referência a ambiente aos que estão ligados às condições de
atitudes zombeteiras, quando as flagramos atre- vida e de trabalho.
ladas às representações da mulher poliqueixosa, Embora não pretendamos discutir riscos e
da que não tem parceiro, da mulher velha, da benefícios da TRH, sinalizamos que, contra-
ignorante, e etc. pondo-se à já inquestionável adesão de muitos
O fato é que embora se reconheça que a médicos à referida terapia, a Rede Nacional Fe-
TRH não seja a única medida no climatério, minista de Saúde e Direitos Reprodutivos, pre-
sendo suas coadjuvantes uma alimentação cor- parou um dossiê (2001) em que a crítica à me-
reta, exercícios físicos adequados e orientação dicalização da menopausa é acompanhada de
psicológica, a discussão na medicina se centra dados que corroboram a idéia de que os estu-
na TRH: Muitas vezes a depressão, as ondas de dos sobre hormônios de reposição ainda são
calor, o nervosismo e a tristeza observadas podem contraditórios e também em Greer (1994) en-
ser de origem emocional, e mesmo na ausência de contramos referências a pesquisas que se con-
menstruação, não é fácil detectar muita coisa tradizem.
além das alterações dos níveis hormonais ou as Considerando que as informações necessá-
condições que possam justificar toda esta sinto- rias à população usuária dos serviços públicos
matologia. O arsenal terapêutico disponível atual- vão além das informações em termos da reposi-
mente pode aliviar com sucesso os distúrbios do ção de hormônios, esclarecimentos sobre os
climatério e facilitar muito o tratamento (Fonse- mecanismos fisiológicos e a própria anatomia,
ca, 1999). reconhecemos os limites da medicina para dar
Por outro lado, fora da especialidade clima- conta dos diversos fatores imbricados na pro-
tério, muitas vezes ignoram as queixas das mu- blemática da mulher no climatério. Deve-se ad-
lheres, entendendo que nada há a fazer: Come- mitir que não é apenas com uma conversa fran-
cei a sentir coisas diferentes, embora menstruan- ca que se soluciona as imensas dúvidas das mu-
do normalmente (...) O médico disse: “O melhor lheres ou se desconstrói a idéia que se faz da
é esquecer”; só que todas as vezes que estava pra mulher madura ainda diretamente ligada à ve-
menstruar, ficava naquela indisposição..., meu lhice que a exclui da vida ativa. Envelhecer tam-
rosto ficava inchado; pensava, “estou tendo perda bém depende do gênero, sendo distintas as cro-
de alguma coisa”. Não sei se tem uma reposição nologias femininas e masculinas. Por outro la-
hormonal; é só depois que a menstruação vai em- do a idéia de mudanças no estilo de vida vão ter
bora? (Fala numa reunião de sala-de-espera). de ser trabalhadas, levando-se em conta as con-
O acesso à saúde, nos lembra Rosenberg dições de vida e os valores em relação à alimen-
(1992), é estruturado em torno do que foi cons- tação, ao tempo disponível para os cuidados de
truído como legítimo na avaliação diagnóstica, si, as representações do corpo e do tempo so-
assim como as terapêuticas. Se as causas para os cialmente úteis, entre outros.
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Consideramos ainda que o evento biológico feminina”. Num dos subtítulos, “O eclipse da
que marca a menopausa vem acompanhado de lua”, a imagem que faz associar a mulher à na-
inúmeras imagens e metáforas que nos indicam tureza, obscurece o sentido que o próprio livro
um caminho para estudar as representações so- pretende que é dar visibilidade e voz às mulhe-
ciais às quais estão ligadas. Cabe desvendar as res no mundo da cultura. Por que, “Para sem-
construções em relação aos grupos de idade, de pre mulher”?, outro subtítulo escolhido, ou por
gênero, do tempo e do corpo a elas associadas e que, ainda, “Feminina para sempre”?, expressão
tomá-las como matéria-prima para trabalhar as não só utilizada em fôlderes de propagandas de
informações nas práticas educativas. laboratórios, mas reafirmada em fóruns médi-
cos. Não nos remetem eles à idéia da fusão en-
tre sangue menstrual, fertilidade e feminilida-
Representações de gênero de? Não estaria aí vinculada a idéia de ser mu-
lher com a aptidão de ser feminina, de ser se-
Como modo de conhecimento prático, com- xualmente desejável e atraente, arquétipos equi-
partilhado, orientado para a compreensão do valentes à juventude? O texto de Werthein et al.
mundo e para a comunicação, as representações (1999) nos sugere ainda a questão: Não se esta-
sociais (RS) – diante dos inúmeros objetos, pes- ria confirmando a associação entre sangramen-
soas, acontecimentos ou idéias – nos guiam no to menstrual e juventude, sangue e vitalidade,
modo de nomear e definir conjuntamente os dife- que marca os limites de entrada e saída do mer-
rentes aspectos da realidade diária, no modo de cado erótico/sexual?
interpretar esses aspectos, tomar decisões e, even- Destacamos a partir dos subtítulos acima
tualmente, posicionarmo-nos frente a eles de for- mencionados, algumas condições que afetam os
ma defensiva (Jodelet, 2001). aspectos cognitivos, ao nível da emergência das
Referenciamo-nos, também, em Bourdieu representações, a saber – o foco sobre certos as-
(1996) que ao enfocar a dominação masculina pectos do objeto, em função dos interesses e da
considera que ela está suficientemente assegu- implicação dos sujeitos, a pressão à inferência,
rada nas sociedades ocidentais, exprimindo-se no sentido de se obter a adesão do público femi-
sob forma de evidências, nos discursos (dita- nino. Nesse sentido, como vetor de transmissão
dos, provérbios, etc.), nos objetos técnicos, nas da linguagem, a comunicação contribui para
práticas. Existe nas coisas, sob forma de divisões forjar representações que são pertinentes para a
espaciais entre os espaços femininos e masculi- vida prática e afetiva dos grupos (Jodelet, 2001).
nos e sob a forma de instrumentos diferencia- A imagem do ser feminina, construída a
dos, masculinos ou femininos que são “as estru- partir de valores sedimentados na beleza, na ju-
turas inscritas na objetividade”, o que significa ventude, na fertilidade, atinge profundamente a
que estão inscritas, nos corpos sob a forma de identidade da mulher. Nesse sentido, a meno-
disposições corporais visíveis na maneira de pausa representada como momento crítico afe-
usar o corpo. Existe, também, nas mentes, sob ta negativamente a construção da sua auto-
forma de princípios de visão e de divisão, de ta- imagem. Para Werthein et al. (1999) antes mes-
xionomias, de princípios de classificação que mo que as mudanças corporais venham produzir
estão inscritas na subjetividade, sob forma de impactos psicológicos, são os discursos vigentes, o
princípios de percepção dos corpos dos outros. imaginário social, que denigrem e desvalorizam
Ao tomarmos as RS da menopausa temos nosso corpo, que segregam nossos desejos.
exemplos de como se entrelaçam o pensamento
popular, o ideológico e o científico. Alguns dos
subtítulos de livros de autores que citamos nos Práticas e representações sociais
remetem às funções cognitivas no processo de
RS. Ao pretenderem ser atraentes ao público fe- Situamo-nos no início dos anos 90 no contexto
minino e difundir a idéia de reposição hormo- de uma unidade médico-assistencial, referen-
nal, alguns vão buscar aqueles conteúdos mais ciada na introdução do artigo, onde atuamos
estáveis nas culturas e sociedades ocidentais, como assistente social na atenção à mulher no
dentre os quais estão as construções que natu- climatério (1990/1995) juntamente com médi-
ralizam as ações e comportamentos, calcados cos – ginecologista e clínico –, psicólogo, nutri-
em justificativas que se apóiam em explicações cionista, enfermeira e fisioterapeuta.
biologicistas, que no senso comum se traduzem Quebrando o silêncio em torno da meno-
em expressões do tipo: “faz parte da natureza pausa, estimulando a expressão de sentimentos
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e vivências, os debates de toda a equipe com a atendimentos realizados no período. Nesse uni-
população, em reuniões quinzenais, por vezes verso, 144 ainda não haviam passado por ne-
reuniam cerca de cem usuárias. Na rotina dos nhum atendimento na referida clínica (usuárias
atendimentos, os grupos de sala-de-espera, com iniciais) e as 145 restantes já estavam em aten-
duração média de sessenta a noventa minutos, dimento (subseqüentes). Duas perguntas aber-
eram em geral conduzidos por uma assistente tas – o que sabiam sobre climatério-menopau-
social, com a participação de outro membro da sa; e como se sentiam na atual fase da vida – nos
equipe, pretendendo ser um dispositivo para a levaram a novo exame dos dados dessa pesqui-
participação ativa das usuárias no processo saú- sa, por ocasião do nosso projeto de tese, em que
de/doença. Na condução dos grupos distingui- tomamos como objeto de estudo as representa-
mos dentre os eixos temáticos: romper o silên- ções sociais como matéria-prima das práticas
cio, questionando as representações em torno dos educativas. Ao indagarmos sobre a relação en-
saberes e das práticas de saúde; contextualizando tre representações e as vivências da menopausa,
os serviços de saúde e as políticas de saúde; socia- acrescentamos aos dados do perfil alguns signi-
lizar informações, tendo como conteúdo o corpo, ficados que emergiram com a análise temática.
as modificações biológicas, os fatores sociocultu- Consideramos que as visões compartilhadas das
rais e psicológicos; a prevenção de doenças e sua mudanças na menopausa vêm ancoradas não
relação com diferentes estilos de vida; a reposição apenas nas construções médicas via linguagem
hormonal (vantagens e desvantagens); – as dife- dos sintomas, mas que as construções ideológi-
rentes condutas terapêuticas cas de gênero “transversalizam” as representa-
Registramos das reuniões o que seria a in- ções e as práticas, o que se torna mais evidente
dagação central, a postura inicial das usuárias, quando os temas remetem ao envelhecimento,
diante da necessidade de entenderem as mudan- à sexualidade, às diferentes atitudes femininas e
ças por que estavam passando ou pelas quais masculinas diante desses processos.
poderiam passar: O que está de fato acontecen-
do comigo? Ou, o que poderá vir a acontecer
comigo? Características socioeconômicas
À medida que iam obtendo informações, te-
ciam críticas à ausência das mesmas no âmbito A população usuária majoritariamente encon-
dos serviços públicos de saúde e de não serem trava-se na faixa etária de 45 a 49 anos (31,5%)
ouvidas: “Os médicos cumprem suas obrigações, e 45 a 54 anos (28,1%), perfazendo um total de
mas não revelam a necessidade de uma orienta- 59,9%.
ção sobre o climatério”; “faltam informações, pois Considerando-se os anos da pré e pós-me-
os médicos não explicam, atribuem tudo à idade”, nopausa e as dificuldades para se arbitrar o mo-
ou “a pouca informação sobre a menopausa se re- mento de inclusão da mulher nos serviços do
flete na maneira como as pessoas reagem às quei- climatério, prevalecia no momento que realiza-
xas das mulheres”. Nessas falas estão dizendo mos a pesquisa o critério mais elástico dos 40
que ao não ser dada a devida atenção às suas aos 60 anos, conforme podemos observar na ta-
queixas os problemas deixam de ser discrimi- bela 1.
nados, negligenciando-se possíveis medidas na Nesse universo, 232 mulheres (80,3%) tive-
prevenção de doenças ou promoção da saúde, ram filhos e 216 (74,07%) declararam ter com-
bem como ao se atribuir tudo à idade se gene- panheiros. Em 65,8% dos casos a renda familiar
raliza, o que resulta na combinação mulher po- era inferior a cinco salários mínimos Na situa-
liqueixosa / mulher velha. ção de casais, em apenas 2% dos casos a contri-
buição principal era da mulher.
Quanto ao grau de escolaridade, a maioria
Perfil da população usuária das mulheres não concluíra o primeiro grau
(63,7%), enquanto que no universo masculino
Em 1994 com o objetivo de precisar o perfil da esse percentual era menor (44%).
população usuária e levantar os fatores socio- Em relação ao trabalho, na categoria “do-
culturais na problemática da mulher no clima- méstico” estavam 57,8%, sendo que 10,7% exer-
tério-menopausa, realizamos 289 entrevistas se- ciam algum trabalho remunerado e 9% estavam
mi-estruturadas no próprio setor do climatério aposentadas. Na categoria “extradoméstico” fo-
entre os meses de agosto a dezembro, corres- ram incluídas as que declararam o trabalho re-
pondendo aproximadamente a 35% do total de munerado como principal (40,5%), sendo o
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mesmo exercido no domicílio por 8,3% (1% es- Tabela 1
tando aposentadas) e no mercado formal ou in- Proporção das mulheres por faixa etária.
formal por 32,2% (1,4% estando aposentadas).
Faixa etária n %
Não responderam, 1,7%. Quanto ao grau de sa-
tisfação com o trabalho, 55% apontavam a na- menos de 40 anos 8 2,7
tureza do trabalho que exerciam como o princi- 40 a 44 anos 43 14,9
pal motivo para estarem apenas parcialmente 45 a 49 anos 91 31,5
satisfeitas ou insatisfeitas.Apenas 1/3 contribuía 50 a 54 anos 82 28,4
55 a 60 anos 48 16,6
para a previdência social. Entre as que exerciam
mais de 60 anos 17 5,9
trabalho remunerado, em 97,2% das situações
Total 289 100,0
as atividades estavam ligadas ao ramo de servi-
ços que se ajustam às qualidades femininas e Fonte: Relatório de pesquisa. Prodir II, Fundação Carlos Chagas,1996.
baixa remuneração.
Não encontramos correlação significativa
entre as variáveis trabalhar no lar ou fora do lar
e grau de satisfação, tendo naquela ocasião sub- Nas entrevistas duas perguntas abertas per-
metido as variáveis a testes estatísticos (Qui- mitiram inferir que há um elenco de sintomas
Quadrado, correlações derivadas e Kramer; tes- para representarem a menopausa. Responden-
te de hipóteses), assim como entre as variáveis – do o que sabiam sobre climatério-menopausa,
faixas de idade, composição do grupo de conví- apenas 8 entrevistadas não falaram dos sinais
vio, renda familiar, religião – e as vivências da da menopausa, correspondendo na linguagem
menopausa qualificadas como positivas ou ne- médica aos sintomas do climatério; sobre como
gativas; já entre nível de escolaridade e expecta- se sentiam na atual fase da vida, só 23 não re-
tivas na nomeação do que esperavam do aten- meteram à mesma linguagem dos sintomas.
dimento no climatério encontramos diferenças, As respostas foram ordenadas segundo a clas-
conteúdos que iremos explorar a seguir. sificação de Payer (1991 apud Portinho, 1994),
que subdivide os sintomas climatéricos em vaso-
motores (fogachos, suores, palpitações); psicoló-
O acesso aos serviços do climatério gicos (nervosismo, ansiedade, irritabilidade, cefa-
léia, depressão, insônia); somáticos (dispareunia,
A população usuária procedia de diversos bair- dor articular, esquecimento, fadiga, disúria, resse-
ros do Rio de Janeiro e de alguns municípios de camento da pele). Conforme a figura 1, “sobre o
sua região metropolitana. A fonte de informa- que sabiam” predominaram os sintomas vaso-
ção era diversificada, conforme o quadro 1. motores, considerados típicos da menopausa
Para os profissionais da saúde foram pro- (N158), seguindo-se os psicológicos, considera-
movidos dois simpósios sobre climatério (11/6/ dos atípicos, porque podem ocorrer em qualquer
1991 e 27/11/1992) por iniciativa do médico res- momento da vida (N117) e somáticos (N21). Já
ponsável pelo serviço do climatério, com a par- quanto às vivências os sintomas psicológicos
ticipação de toda equipe. (N145) vão predominar sobre os vasomotores
Nesse universo, apenas 100 mulheres foram (N67) e aumentam as queixas somáticas (N58).
encaminhadas por médicos; dentre elas 68 afir- Admitindo-se respostas múltiplas, disseram
maram não terem sido esclarecidas sobre o mo- ainda a respeito da menopausa: é o fim da mens-
tivo do encaminhamento; as demais, apenas truação (N60); falta de hormônios (N35); é ne-
parcialmente esclarecidas. Este fato corrobora o cessário tratamento (N22); não é doença (N9).
que afirmávamos sobre as barreiras na comuni- As expressões “nada sei ou sei muito pouco”
cação entre médico e usuárias dos serviços pú- (N53), significando que não tiveram acesso ou
blicos. Majoritariamente foram as próprias mu- as informações de que necessitavam não eram
lheres que identificaram problemas que asso- suficientes e “o que sei é o que sinto” (N19), cu-
ciavam à menopausa, dentre as 189 usuárias jo único parâmetro é o que seu próprio corpo
que procuraram por !iniciativa própria!, sendo revela, foram referenciadas em sua maioria pe-
a referência principal as informações do tipo las usuárias iniciais entrevistadas. Destacamos,
boca a boca (quadro 1). ainda, a idéia de que “a mulher que não se trata
Há relação entre a demanda por tratamento pode ficar louca”, “pode subir pra cabeça”, “há
e as representações dos sintomas por elas perce- risco de morte”. Em torno da menstruação a re-
bidos? presentação de “alívio”, “purificação”.
758
Mendonça, E. A. P.

Quadro 1
A fonte de informação.
Fonte Nº
Comunicações diversas (vizinhas, amigas, parentes, fila de marcação 118
de consulta, cartazes afixados no PAM)
Setor de ginecologia do PAM 85
Serviços diversos do PAM 38
Outras unidades de saúde 28
Mídia 20
Total 289
Fonte: Relatório de pesquisa. Prodir II, Fundação Carlos Chagas, 1996.

Figura 1
Representações da menopausa.

200
vasomotores

psicológicos
150
somáticos

100

50

0
o que sabe o que sente sintomas

Se era no corpo que ancoravam as mudan- uma solução para o problema da menopausa,
ças que estavam percebendo em si, é no sistema que não me deixe neurótica”; “que o médico me
médico que vão buscar o reconhecimento e a livre do problema da menopausa, me livre da
legitimidade da definição de sua situação. Para enfermidade; que fique bem, obedecendo às or-
a maioria a expectativa era de melhorar (N89), dens médicas”; “Sei que não é doença, porque
receber tratamento adequado (N58) ou fazer to- vi no jornal, mas mesmo assim estou vendo co-
dos os exames (N20). Prevenir problemas e/ou mo doença, porque sinto calor, dor de cabeça,
doenças, receber informação e orientação fo- pressão alta, nervosa, desanimada, sem coragem
ram as expectativas de 65 mulheres. Referiram- para fazer nada”.
se de forma mais ampla, a ter bom atendimento Por outro lado, encontramos várias falas em
(N31). Já a representação de cura que supõe o que as mulheres afirmam que estão bem, mes-
entendimento de menopausa como doença apa- mo com a presença de sintomas. Ao reexaminar
recia em 44 respostas, majoritariamente entre os dados dessa pesquisa, nos detivemos em 163
as de baixa escolaridade e que estavam tendo entrevistas, em que não só apontaram sinto-
um primeiro contato no serviço. Algumas delas mas, como qualificaram a sua fase da vida. ex-
assim se expressaram: “Espero que me traga pressando sentirem-se bem ou normal (N83);
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nada sentirem (N 23); sentirem-se mal (diferen- nha depressão; acho que isso faz parte do dia-a-
te, fora do normal, mal, muito mal ou péssi- dia. Já entre as que se sentem mal, vão predo-
ma)(N 57). minar os sintomas psicológicos. Identificamos
Ao lembrarmos que o pensamento médico dentre as 83 respostas, três elementos cujos
oscila entre duas representações, a ontológica e conteúdos permitem caracterizar a relação en-
a vitalista –, a representação de doença não pas- tre os termos – bem ou normal – e mudança:
sa apenas pela localização de um órgão doente. afirmação de si, aceitação, positividade/estar
Para Canguilhem (1978), o homem é são na me- ativa, elementos estes ligados à representação
dida em que é normativo em relação às flutuações que o sujeito faz de si, ou seja, de sua identida-
de seu meio e o médico geralmente tira a norma de. Nesses depoimentos há uma negação de
de seu conhecimento da fisiologia, dita ciência do problemas, uma vez que os transtornos físicos
homem normal, de sua experiência vivida das não afetaram as relações sociais e a identidade,
funções orgânicas e da representação comum da o que poderia ocorrer quanto aos transtornos
norma num meio social em dado momento. Se o psicológicos. Ilustramos com algumas falas:
conceito de doença conserva uma relação com “Apesar dos sintomas, não senti mudanças; con-
o conceito axiológico de doença, para Cangui- tinuo a mesma; tem que aceitar essa fase”; “não
lhem voltar a ser normal significa retornar a uma alterou nada; sou uma pessoa calma, tranqüila”
atividade interrompida ou pelo menos uma ati- ou “o relacionamento conjugal e familiar não
vidade considerada equivalente, segundo os gos- mudou nada”. Em todas as demais falas signifi-
tos individuais ou os valores sociais do meio; ci- caram que foram preparadas ou mesmo educa-
tando Japers, afirma: é a apreciação dos pacien- das para encararem os diferentes ciclos da vida
tes e das idéias dominantes do meio social que de- da mulher, enfatizando que se os sintomas que
termina o que chamar “doença”. Procuramos ex- sentem são próprios dessa fase; cabe encará-los
plorar os significados em torno das expressões e minimizar seus efeitos; também o auto-con-
utilizadas pelas usuárias. trole está aí valorizado e a aceitação do envelhe-
cimento. Distinguimos, também, aquelas que
enfatizam a temporalidade do fenômeno: Me
Vivências da menopausa sinto normal, mas tenho reações inesperadas
iguais à adolescência, depois passa. Encontramos
Dentre as que afirmaram sentir-se bem, 23 uti- a positividade (valorização, avaliação, estima):
lizam o termo normal, apesar de apontarem os a) por estarem informadas – “consciente da mu-
“calores” e problemas somáticos. Vamos obser- dança do corpo e da cabeça, tentando diminuir
var que as expressões “estar bem”, “estar nor- sintomas e ser mais feliz”, por estar “livre da
mal” ou “não sentir nada de anormal”, “levar a menstruação”, “sem perigo de gravidez” ou” pos-
vida normal” têm equivalência, quando se rela- so trabalhar sem preocupação da menstruação
cionam com as expectativas de mudanças com vir”; b) estar ativa: “apesar do calor, estou me
a chegada da menopausa, mudanças valoradas sentindo bem, trabalho, ando, passeio; disposi-
como negativas. Há sempre uma expectativa de ção eu tenho”.
mudança. Entre as que “nada sentem” (N23), o Na categoria das que se sentem mal predo-
fator idade é mencionado pela maioria como minam sintomas psicológicos, havendo uma
razão para o atendimento na prevenção de pro- qualificação negativa dessa fase da vida, asso-
blemas, sendo que estar normal ou viver nor- ciados em grande parte à depressão: Fase muito
malmente também aparece em quatro respos- ruim, a gente fica sem paciência, dá vontade de
tas. Podemos dizer que as alterações fisiológicas chorar, não dorme direito. Grande parte refere-
são minimizadas, encaradas como naturais no se a não ter vontade de fazer nada, significando
ciclo de vida da mulher e que seriam os sinto- perder o gosto pela vida ou viver por viver: Es-
mas psicológicos os responsáveis pelas mudan- tou me sentindo apática; sem vontade de fazer as
ças negativas esperadas. Os fatores psicológicos coisas ..., de me cuidar, de ter relação sexual; sem
interviriam no auto-controle, seriam responsá- interesse pela vida. Referem-se ainda à falta de
veis pela mudança de comportamento e afeta- paciência consigo próprias e com os outros:
riam as relações sociais. Entre as que se sentem “Tomo calmante pra me agüentar”, “não tenho
bem, encontramos somente duas respostas que nem paciência comigo; choro muito; tenho vonta-
apontam para os sintomas psicológicos: Conti- de de morrer”. Encontramos também respostas
nuo com a vida normal, apesar de angustiada, em que generalizavam, remetendo à idéia de
com insônia e estou me sentindo bem, embora te- envelhecimento e de morte: “É horrível, a idade
760
Mendonça, E. A. P.

vai chegando, às vezes pensa que já está no fim, que se transformam em signos do envelheci-
que a vida tá acabando; muita tensão”, “sinto mento e estes trazem a marca de gênero. Esta-
desgosto, acho que é depressão; só não tenho von- mos, portanto, nos referindo aos símbolos da
tade de morrer porque tenho medo”, “choro sem menopausa, dos sentidos produzidos fora do
motivo; não sei se isso é alguma doença ou se é ve- objeto e que, exercem uma eficácia prática, sen-
lhice”. Além da indisposição para atos de rotina do um referencial que pode ser evocado em di-
e da indisposição para o trabalho, referentes versas circunstâncias.
apontados, encontramos uma resposta que re- Para os homens não há uma representação
mete ao fim do período fértil: “Sinto-me sem vi- em torno da andropausa e, assim, para o ho-
gor, pois perdi a capacidade de procriar, mas te- mem de meia-idade, não há um rito de passa-
nho que ultrapassar essa fase, pois tenho marido gem. O envelhecimento sendo vivido como na-
e filhos para cuidar”. tural, prolonga-se o seu enquadramento na ca-
A associação entre menopausa e o fato de tegoria de velho. Enquanto a mulher na meno-
estarem frias sexualmente, desinteressadas, ou pausa pode ser taxada de velha, como expres-
sem desejo foi citada por nove das entrevistadas sam por vezes as usuárias, os homens na faixa
subseqüentes entre as que sentem-se mal, sendo etária correspondente são maduros, trazendo
que apenas duas fizeram referência à “ resseca- outros predicados que não interferem negativa-
mento vaginal”. mente, podendo até contribuir para sua maior
Considerando o universo da pesquisa (N289), auto-estima diante da experiência de vida.
encontramos em 50 entrevistas referências à se- Também nas reuniões falavam da necessidade
xualidade, sendo que 34 estavam entre as usuá- de espaço para exercerem sua subjetividade ou
rias subseqüentes. Cabe observar que eram so- consideravam a menopausa, como momento de
bretudo as discussões dos grupos de sala-de-es- reafirmação, como de defesa do espaço conquis-
pera que ensejavam a aproximação com a temá- tado, de tudo que se fez, não se admitindo cobran-
tica, a partir de algumas representações que ças. Falam dos homens virem às palestras, das
eram discutidas. Encontramos como referentes dificuldade em acompanharem suas mulheres
além dos elementos citados, dúvidas se o desin- nesse processo e, também de verem o corpo en-
teresse sexual era “do hormônio ou de cabeça” velhecer e procurarem ajuda, quando necessário.
ou por “problemas familiares”. A referência ao Assim, consideramos mais dois eixos temá-
aumento do prazer sexual foi feita por três en- ticos na condução dos grupos: a) particularizar
trevistadas iniciais e duas subseqüentes. a situação da mulher na sociedade brasileira, vi-
Se nas entrevistas nos falam das mudanças sando relativizar as vivências singulares no con-
esperadas e de suas vivências, dos cuidados com fronto de experiências, considerando condições de
a saúde, das relações sociais no âmbito da famí- vida, de trabalho e fatores opressores da mulher,
lia e do trabalho, da sexualidade, envelhecimen- avaliando os limites em relação aos seguintes as-
to e de sua identidade, é nos grupos de reflexão pectos – o público e privado, o usufruto dos bens e
que vão poder problematizar esses vários aspec- serviços, o acesso a informações, os valores de nos-
tos: Em casa e no trabalho as mulheres passam a sa sociedade ocidental; b) revalorizar a mulher,
serem vistas como velhas, com mania de doença e visando maior autoconhecimento e maior auto-
acaba sendo descartável; a mulher fica mais irri- estima, avaliando: perdas e ganhos, possibilidades
tadiça; mais difícil de conviver no trabalho; os ho- e limites da mulher nessa etapa da vida (Men-
mens não entendem o que acontece com as mu- donça, 1996).
lheres; os homens passam por dificuldades, mas
em geral ocultam e buscam outras saídas; mudam
de vida, mudam de mulher. Temos pois que, os Considerações finais
sinais da menopausa são visíveis e, como tais,
sejam eles fogachos, suores, irritabilidade, fadi- Quando o trabalho em equipe multidisciplinar
ga, indisposição para o trabalho, e mesmo a de- se faz necessário, tendo em vista uma maior efi-
pressão, entre outros, marcam um dos signifi- cácia na intervenção nos níveis das ações pre-
cados da menopausa, o da mulher poliqueixo- ventivas e de promoção da saúde é necessário
sa, representação que, também, não se faz au- construir o processo de trabalho coletivo. A
sente entre profissionais no setor saúde. Contu- não-inclusão do auto-conhecimento como ob-
do, associado à idéia da mulher poliqueixosa, jeto de preocupação da epistemologia objetivis-
encontramos um outro significado, em que as ta, certamente ajudou a manter uma fronteira
queixas somáticas e/ou psicológicas são sinais nítida entre a vida cotidiana e a ciência, e entre a
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ciência e a política, e a desqualificação da produ- seu capital cultural, as suas relações sociais, a
ção de conhecimento no cotidiano (Giffin et al., sua linguagem dos interditos, o que é para ela
2000). Também as emoções, na tradição filosó- normal. A linguagem das nossas usuárias está
fica ocidental, têm sido consideradas potencial em grande parte marcada pela significação do
ou realmente prejudiciais ao conhecimento (Jag- outro, em que muitas das idéias que circulam
gar, 1997) e, enquanto a razão vem associada ao sustentam relações de poder e dominação. Em-
mental, ao cultural, ao universal, ao público e ao bora as vivências não sejam as mesmas, há uma
masculino, a emoção é associada ao irracional, expectativa de declínio, renovação, entre outras.
ao físico, ao natural, ao particular, ao privado e, Se abrimos espaços para intersubjetividade no
obviamente ao feminino. processo de conhecimento, para a interação e a
Se o objetivo último da promoção da saúde troca, vamos nos guiar em termos de comparti-
é o fortalecimento da mulher como sujeito da lharmos conhecimentos com as usuárias dos
saúde, isto implica deixar de ser paciente, quan- serviços de saúde no desenvolvimento das prá-
do outros falam por nós para reivindicar infor- ticas educativas e despirmos a palavra da auto-
mações, direitos, destinar tempo para si, ao au- ridade institucional que inibe o interlocutor.
to-cuidado, ter prazer em suas atividades, entre Considerando a menopausa novo objeto na
outras possíveis descobertas. Do momento que saúde no início dos anos 90, e que silenciado,
encontram um espaço para falar, ouvir e trocar, gerava o discurso “tudo é por conta da meno-
há uma maior compreensão do processo que pausa”, indagamos, diante da complexidade da
estão vivendo, sendo necessário que se elabore abordagem da promoção da saúde, que conteú-
as informações a partir de sua realidade. Como dos persistem e por que e quais os passíveis de
interpretar – eu queria voltar a ser como antes!, transformações no processo de interação entre
ignorando-se o lugar de onde fala a mulher, o os sujeitos.
762
Mendonça, E. A. P.

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Versão final apresentada em 7/10/2003