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UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA.

CENTRO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA

DEPARTAMENTO DE QUÍMICA

DISCENTE: MARIA CELLY DOS SANTOS SILVA

Resumo do Artigo

Experimentação investigativa no ensino de química em um enfoque CTS a


partir de um tema sociocientífico no ensino médio.

Observando as novas demandas para estratégias educacionais dos tempos atuais,


surgiram metodologias com a intenção de aumentar a participação e interatividade dos
estudantes durante as aulas, buscando aumentar também o seu interesse pelas disciplinas. A
Química, em particular, é vista pelos discentes como algo completamente desconexo da
realidade observável no dia a dia e sem qualquer uso prático no cotidiano. Nesta perspectiva,
torna-se essencial a seleção e o tratamento dos conteúdos de forma a colocar a
contextualização como um dos principais objetivos a serem atingidos. Ao tornar o ensino de
química contextualizado, o professor consegue não apenas transmitir a mensagem científica
para os estudantes como também demonstrar as relações que os conceitos apreendidos
possuem com a maioria dos objetos, locais e experiências que são contactados no decorrer de
um dia comum na vida de um brasileiro.

Dentro deste espectro, o enfoque CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) tem se


mostrado uma metodologia extremamente efetiva e a Experimentação Investigativa (EI) é um
de seus maiores recursos. Este processo se inicia a partir da problematização de uma situação
real que permitirá a participação direta do aluno, sendo ele o protagonista do processo de
ensino aprendizagem. Sendo assim, este método promove uma maior autonomia ao estudante
e estimula o desenvolvimento do pensamento crítico, da comunicação e da lógica.

Apesar de todo este potencial, a experimentação ainda é pouco utilizada por


professores de química da escola básica e, quando utilizada, não ocorre de maneira
contextualizada e investigativa. Ao invés disso, é colocada apenas como mera ilustração ou
demonstração prática daquilo que se estudou na teoria. Ao trabalhar com o enfoque CTS, o
professor tem a oportunidade de estudar e expor as influências e as implicações da ciência e
da tecnologia para a sociedade e o meio ambiente em que vive, deste modo coloca seus
alunos em uma posição de pensadores e não apenas espectadores como se tem feito no ensino
médio convencional.

O principal objetivo desta metodologia é levar os discentes a pensarem, debaterem,


investigarem, agirem e justificarem suas ideias utilizando conhecimentos científicos,
tecnológicos, culturais, éticos, históricos e até matemáticos. Ao final deste processo,
espera-se que o aluno desenvolva uma maior autonomia e tenha uma participação ativa na
construção do seu conhecimento.

A fim de alcançar tais resultados é necessário que o docente selecione e articule os


conteúdos do currículo escolar de sua disciplina de modo a permitir a utilização da
Experimentação Investigativa da forma mais efetiva. Alguns autores como Tamir (1991) e
Gondim e Mól (2006) definiram uma escala de diretividade para a EI, considerando o
problema, os procedimentos e as respostas. Esta escala contava com 4 níveis (de zero a três)
que crescem conforme a dificuldade criativa em torno da definição do problema e da
perseguição por suas soluções. Tais níveis servem para indicar o grau de investigação
necessário para cada situação, sendo zero o mais baixo (onde o caminho, o meio e a resposta
são dados) e três o mais alto (onde a resposta, o meio, o caminho e o próprio problema são
ocultos e devem ser desvendados pelos estudantes). É importante destacar que a
experimentação não resolve todos os problemas do processo de ensino aprendizagem em
Química, mas é sim uma estratégia válida e sua utilização requer organização, planejamento,
empenho e reflexão.

A metodologia utilizada na pesquisa do referido artigo possui abordagem qualitativa


de natureza aplicada com observação participante. Isso implica dizer que foi necessário
observar, anotar e analisar as múltiplas interações entre os envolvidos.

Os participantes foram 25 alunos com idades entre 14 a 17 anos, cursando as 1ª e 2ª


séries do ensino médio durante o ano letivo de 2013 de um colégio estadual na região sul do
Paraná. Todos os matriculados no projeto se envolveram no estudo.

As técnicas de coleta e construção de dados se deram pela aplicação de um


questionário com questões abertas e anotações em diário de campo. Além disso, também
foram avaliadas as produções escritas dos alunos como histórias em quadrinhos e mapas
conceituais. Ao todo foram 150 Horas/aula em 8 momentos pedagógicos.
A validação do instrumento de pesquisa foi realizada através de um teste piloto com
alguns alunos, de modo a verificar sua eficácia à luz dos objetivos do estudo.

De forma a manter a segurança e sigilo, foram garantidas confidencialidade e


privacidade de todas as informações coletadas neste estudo, deixando o acesso das
informações disponível apenas para os pesquisadores. Os alunos serão denominados pela
letra A e diferenciados por números, enquanto os pesquisadores pela letra P e também
diferenciados por números. A ética foi mantida e todos os alunos matriculados concordaram
em participar. Para isso assinaram um Termo de Assentimento e os responsáveis assinaram
um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Este estudo consistiu em investigar as contribuições e implicações da


experimentação investigativa no ensino de Química num enfoque CTS a partir de um tema
sócio científico sobre os conceitos de ácidos e de óxidos na temática ambiental, utilizando os
sete passos propostos por Prsybyciem.

Evidentemente, o primeiro passo é a problematização, a proposição de um problema


social em forma de questionamento. Este passo busca desenvolver nos alunos uma motivação
através da curiosidade. O questionamento utilizado foi: Por que uma flor, quando exposta a
determinados níveis de chuva ácida, muda sua coloração e seu aspecto?

Este questionamento, além de trazer diversas reflexões, também possui a intenção de


provocar questionamentos específicos relacionados ao conteúdo. Aliado ao questionamento é
feita uma abordagem teórica de modo a se tornar o ponto de partida da investigação.

Com a investigação iniciada, os alunos são levados a levantar hipóteses sobre a


solução do referido problema por meio de discussões. Tais discussões levam a outras
hipóteses.

Após isso, chega o momento de reunir os estudantes para a discussão sobre como
será realizado o experimento, também chamado de elaboração do plano de trabalho.

Seguindo isso há a montagem e separação dos equipamentos a serem utilizados no


experimento.

Com todos estes passos executados começa a experimentação propriamente dita.


Neste momento o aluno pode manipular os equipamentos e testar suas hipóteses.
O próximo passo é o pós laboratório, que consiste na retomada da análise dos dados
e dos resultados observados durante o experimento. Este momento possibilita refletir sobre as
prováveis soluções para a questão-problema.

Para analisar os dados coletados foi selecionada uma metodologia de análise


articulada em 3 fases.

1- Pré análise

2- Exploração do Material

3- Tratamento dos dados

Os dados coletados foram categorizados e separados por significado de modo a identificar


seus sentidos e observar as concordâncias e discordâncias das respostas. A partir de tal
análise surgiram 3 categorias de ideias principais:

● Concepções iniciais dos alunos: Chuva ácida x CTS

As respostas dos questionamentos: “O que você entende por chuva ácida” e “Para
você, quais são as causas e as consequências da chuva ácida para a sociedade?”, revelaram
algumas características e deficiências por parte dos alunos. Alguns deles demonstraram ter
assimilado incorretamente o conceito de potencial hidrogeniônico. Outros alunos
evidenciaram respostas vagas como “compostos químicos” mas sem realmente especificar
qualquer um deles ou suas fontes. Uma análise destas respostas demonstrou que o senso
comum é o principal guia dos alunos neste ponto do processo, dando respostas vagas, pouco
específicas, pouco embasadas e muito abrangentes. Até mesmo os próprios conceitos de
ciência apresentados pelos estudantes mostram concepções herdadas do senso comum e
pouco específicas, sem nenhuma definição criteriosa. O questionamento sobre tecnologia
possui respostas interessantes e até um pouco diversas, entretanto, a ciência se faz presente
como o moch principal por trás da tecnologia e de seus avanços, sendo sua origem ou aquilo
que se beneficiará dos avanços tecnológicos (na visão dos estudantes).

● A experimentação investigativa em uma abordagem CTS

Como já foi exposto, o questionamento inicial por trás da EI foi: Por que uma flor,
quando exposta a determinados níveis de chuva ácida, muda sua coloração e seu aspecto? Tal
questionamento foi realizado de forma a gerar uma reflexão ampla que esteja ligada a uma
temática envolvendo dinâmicas sociais e culturais dos estudantes. O estudo foi realizado no
nível dois de diretividade (onde o problema é dado e os caminhos, meios e respostas devem
ser propostos pelo aluno) com a mediação do professor.

Foi possível observar que, logo no início os alunos se sentiram motivados e


desafiados a refletir, buscando apresentar possíveis soluções para a resolução do problema.
Assim foi despertado um sentimento de busca pelo conhecimento científico e tecnológico por
meio da pesquisa, de forma a aumentar suas chances de encontrar uma resposta. Com o
decorrer da atividade, os estudantes passaram pelos momentos descritos anteriormente, de
forma a construírem um plano de trabalho que consistiu em duas experimentações:

1- Simulação da chuva ácida

2- Submeter uma flor a um ácido conhecido.

Nesta etapa, assim como em todas as anteriores, se observou um interesse competitivo entre
os alunos para participar mais ativamente na realização das tarefas. Durante este estágio mais
avançado do processo são feitos mais questionamentos pelo professor, inclusive alguns da
fase inicial. Adversamente ao que foi visto antes, eles demonstram maior domínio do
conteúdo e maior maturidade científica, identificando e correlacionando de forma mais clara
e objetiva os conceitos apreendidos e dando respostas mais bem elaboradas e embasadas.
Conforme o esperado pela literatura de Santos e Mól (2003), a aplicação desta metodologia
levou à comprovação ou à refutação de hipóteses iniciais e a elaboração de novas hipóteses a
serem testadas em outras situações, também surgindo novas dificuldades e organizações de
conceitos, evidenciando assim a fundamental importância que têm o diálogo e a escrita na
construção do conhecimento durante as aulas de ciências.

● Produção de história em quadrinhos

Com a utilização da experimentação investigativa foi possível observar a


compreensão dos conceitos químicos por parte dos alunos, possibilitando-os associar os
mesmos com a realidade e permitindo uma ACT dos indivíduos. Este estudo proporcionou a
abordagem de diversos conteúdos, tendo como foco ácidos e óxidos.
A partir disso, foi pedido que alguns alunos construíssem Histórias em Quadrinhos
de forma que pudessem compartilhar os conhecimentos obtidos, enquanto a outros foi
solicitado um mapa conceitual.

Com a construção de Histórias em Quadrinhos e mapas conceituais foi possível


observar a compreensão interdisciplinar sobre o tema chuva ácida e a evolução conceitual dos
alunos, que posteriormente apresentaram seus trabalhos em uma mostra científica,
possibilitando novamente uma discussão e disseminação do conhecimento.

A análise de ambos os materiais produzidos e de todo o processo assistido pelo


professor revelou que os estudantes progrediram bastante na aprendizagem dos conceitos
químicos e suas implicações nos mais variados contextos. Tais observações se evidenciaram
quando os alunos relacionaram a chuva ácida com os conceitos químicos, sua origem e
consequências. Este trabalho deu aos estudantes a oportunidade de participar ativamente na
construção de seu próprio conhecimento científico, estimulando a investigação, reflexão,
criatividade, comunicação e senso crítico durante todo o processo.

É correto afirmar que a aplicação deste trabalho mudou as opiniões dos alunos em
relação à ciência e à tecnologia, dando a eles uma nova visão onde puderam ressignificar
estes conceitos e trazê-los para mais perto de si. Ao final de tudo, percebendo que a ciência
está presente onde menos esperamos e não apenas como algo linear e definitivo.

O grande trunfo desta metodologia é justamente colocar os alunos na posição de


cientistas. Se deparam com um problema e precisam utilizar de todos os recursos
informativos a seus dispor para compreender um ou mais fenômenos, propor hipóteses,
compartilhá-las, testá-las, elaborar métodos e resoluções e também testá-los várias e várias
vezes até enfim conseguir (ou não) encontrar uma solução. O brilho da descoberta é igual
para todos, seja aluno, ou professor, todos são cientistas em formação.

REFERÊNCIA:

PRSYBYCIEM, Moisés Marques.; SILVEIRA, Rosimari Monteiro Castilho Foggiatto;


SAUER, Elenise. Experimentação investigativa no ensino de química em um enfoque CTS a
partir de um tema sociocientífico no ensino médio. Revista Electrónica de Enseñanza de
las Ciencias, v. 17, n. 3, 602-625, 2018.

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