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Resumo de Direito Constitucional

Autor: Francisco Miguel de Moura Júnior

CONSTITUIÇÃO

CONCEITO

A palavra constituição vem do verbo latino constituere, significando:


estabelecer definitivamente. Embora não apresente na sua origem a
idéia de lei fundamental.

A palavra constituição é empregada com vários significados, mas a


que nos interessa é a constituição como lei fundamental e
suprema de um Estado, que tem por fim estabelecer o conteúdo
referente à composição e ao funcionamento da ordem política
desse Estado (organização do poder, distribuição da competência,
exercício da autoridade, direitos fundamentais etc.).

Com o sentido de lei fundamental do Estado, o termo constituição


começou a ser empregado depois da independência das colônias
inglesas na América (1776) – que, em 1787 formaram os Estados
Unidos – e da Revolução Francesa de 1789.

Constituição é uma ordenação sistemática e racional da


comunidade política, plasmada num documento escrito, mediante o
qual se garantem os direitos fundamentais e se organiza, de acordo
com o princípio da divisão dos poderes, o poder político. (J. J.
Canotilho)

Constituição – é um sistema de normas jurídicas, escritas ou


costumeiras, que regula a forma do Estado, a forma de seu governo,
o modo de aquisição e o exercício do poder, o estabelecimento de
seus órgãos, os limites de sua ação, os direitos fundamentais do
homem e as respectivas garantias.

O crescimento do campo de atuação do Estado tem levado ao


considerável aumento da importância do Direito Constitucional nos
estudos jurídicos, bem assim a tendência de ampliação de seu
conteúdo material.

No seu conteúdo clássico, marcado pelas ideologias liberais, a


constituição tinha por fim determinar, estritamente, a forma de
Estado, a forma de Governo e o reconhecimento dos direitos
fundamentais do homem.

No Estado moderno, de cunho marcadamente social, a doutrina


constitucionalista aponta o fenômeno da expansão do objeto das
constituições, que têm passado a tratar de temas cada vez mais
amplos.

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Desta forma, a tendência contemporânea é de ampliação do


objeto das constituições, que passaram a estabelecer novas
finalidades para a atuação estatal (normas programáticas),
resultando em constituições de conteúdo extenso (analíticas
ou prolixas).

Constituição – é o conjunto de normas que organiza os elementos


constitutivos do Estado (território, população e governo). A
Constituição deve trazer em si os elementos integrantes
(componentes ou constitutivos) do Estado, quais sejam:

 Soberania;
 Finalidade;
 Povo;
 Território.

Desta forma, Dalmo Dallari conceitua o Estado como a ordem


jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo
situado em determinado território.

Concepções sobre as constituições

1 – Sentido material e formal: constituição também pode ser


definida tomando-se o sentido material e formal, critério este que se
aproxima da classificação proposta por Schimtt.

a) Conceito jurídico material de Constituição – constitucional


será aquela norma que defina e trate das regras estruturais da
sociedade, de seus alicerces fundamentais (a estrutura do
Estado, a forma de seu governo, o modo de aquisição e o
exercício do poder, a organização de seus órgãos, os limites de
sua atuação, os direitos fundamentais do homem e suas
respectivas garantias). Em síntese, a constituição é o conjunto
de normas que organiza os elementos constitutivos do Estado.
Essas normas podem estar dentro ou fora do texto
constitucional. Carl Schmitt chamou de Constitucional.

b) Conceito jurídico formal de Constituição – é o conjunto de


normas jurídicas formalmente constitucionais inseridas num
texto unitário, ou seja, não interessa o conteúdo da norma, mas
a forma como ela foi introduzida no ordenamento jurídico.
Assim, as normas constitucionais serão aquelas introduzidas
pelo poder soberano, por meio de um processo legislativo mais
dificultoso, diferenciado e mais solene do que o processo
legislativo de formação das demais normas do ordenamento.
Carl Schmitt chamou de lei constitucional.

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O Brasil adotou o conceito jurídico formal de Constituição, ou seja, é


constitucional o que estiver inserido na Carta Maior, seja em razão do
trabalho do poder constituinte originário, seja pela introdução de
novos elementos através de emendas.

Contudo, a EC nº 45/2004 estabeleceu em seu art. 5º, § 3º, que, os


tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos
que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois
turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão
equivalentes às emendas constitucionais.

Passamos com a EC nº 45/2004 a ter uma espécie de conceito


misto, já que a nova regra só confere a natureza de emenda
constitucional (norma formalmente constitucional) aos tratados e
convenções internacionais sobre direitos humanos (matéria),
desde que observadas as formalidades de aprovação (forma).

2 – Sentido sociológico: a constituição (real, efetiva, material ou


substancial) de um país é, em essência, a soma dos fatores reais
do poder que regem nesse país, não passando a constituição
escrita de uma “folha de papel” (Ferdinand Lassalle). Na visão
sociológica, a constituição é concebida como fato social, e não
propriamente como norma. O texto positivo da constituição seria
resultado da realidade social do País, das forças sociais que imperam
na sociedade, em determinada conjuntura histórica. Caberia à
Constituição escrita, tão-somente, reunir e sistematizar esses valores
sociais num documento formal, documento este que só teria valor se
correspondesse a tais valores presentes na sociedade.

Segundo Lassalle, convivem num País, particularmente duas


constituições:

a) constituição real (efetiva) – é a que corresponde a soma dos


fatores reais de poder que regem nesse país;

b) constituição escrita – por ele denominada “folha de papel”.


Esta só teria validade se correspondesse à constituição real, ou
seja, se tivesse suas raízes nos fatores reais do poder.

Assim, em caso de conflito entre as duas espécies de constituição,


prevalece a constituição real em detrimento da constituição escrita
que não possui força efetiva, não passando de uma folha de papel.

É também sociológica a concepção marxista de Constituição, para a


qual a constituição não passaria de um produto das relações de
produção e visaria a assegurar os interesses da classe dominante.
Para Marx, a constituição seria um mero instrumento nas mãos da
classe dominante, com o fim de assegurar os interesses desta, dentro
de um dado tipo de relações de produção.

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3 – Sentido político (material): a constituição é decisão política


fundamental, decisão concreta de conjunto sobre o modo e forma de
existência da unidade política (Carl Schmitt).

Para Schmitt, a validade de uma constituição não se apóia na justiça


de suas normas, mas na decisão política que lhe dá existência. O
poder constituinte equivale, assim, à vontade política, cuja força ou
autoridade é capaz de adotar a concreta decisão de conjunto sobre
modo e forma da própria existência política, determinando assim a
existência da unidade política como um todo.

A constituição surge, portanto, a partir de um ato constituinte, fruto


de uma vontade de produzir uma decisão eficaz sobre modo e forma
de existência política de um Estado.

Distingui-se, assim, constituição de leis constitucionais.

• Constituição – a constituição disporia somente sobre as


matérias de grande relevância jurídica, ou seja, só se refere
à decisão política fundamental (organização do Estado,
princípios democráticos, direitos fundamentais entre outras);
• Leis constitucionais – são os demais dispositivos inscritos
no texto do documento constitucional, que não contenham
matéria de decisão política fundamental. Assim, para
Schmitt, tudo aquilo que não for correlato aos direitos
individuais à vida democrática, aos órgãos do Estado e à
organização do poder, é mera lei constitucional, e não uma
constituição.

4 – Sentido jurídico (formal): constituição é norma pura, puro


dever-ser, sem qualquer pretensão a fundamentação sociológica,
política ou filosófica (Hans Kelsen). Essa concepção toma a palavra
constituição em dois sentidos:

• Lógico-jurídico (normas supostas, hipotética) –


constituição significa norma fundamental hipotética, cuja
função é servir de fundamento lógico transcendental da
validade da constituição jurídico-positiva, ou seja, é o fato
imaterial instaurador do processo de criação das normas
positivas;
• Jurídico-positivo (normas postas, positivada) –
constituição equivale à norma positiva suprema, conjunto de
normas que regula a criação de outras normas, lei nacional no
seu mais alto grau.

Para Kelsen é impossível derivar a norma jurídica da realidade social,


política ou filosófica. Deve-se examinar a validade das normas a partir
da hierarquia existente entre elas. No direito percebe-se um

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verdadeiro escalonamento de normas, uma constituindo o


fundamento de validade de outra, numa verticalidade hierárquica.
Assim, uma norma inferior tem fundamento na norma superior, e esta
tem fundamento na Constituição, que é o fundamento de validade de
todo o sistema infraconstitucional. A Constituição, por sua vez, tem o
seu fundamento de validade na norma hipotética fundamental
(norma suposta), situada no plano lógico, e não no jurídico
(norma posta ou positivada), caracterizando-se como fundamento
de validade de todo o sistema, determinando-se a obediência a tudo
o que for posto pelo Poder Constituinte Originário.

5 – Sentido culturalista: Constituição é produto de um fato cultural,


produzido pela sociedade e que sobre ela pode influir. As
Constituições positivas são um conjunto de normas fundamentais,
condicionadas pela Cultura total, e ao mesmo tempo condicionantes
desta, emanadas da vontade existencial da unidade política, e
reguladoras da existência, estrutura e fins do Estado e do modo de
exercício e limites do poder político (Stein, Michele Ainis, Grimm).

J. H. Meirelles Teixeira entende que se trata de uma formação


objetiva de cultura que encerra, ao mesmo tempo, elementos
históricos, sociais e racionais, aí intervindo, portanto não apenas
fatores reais (natureza humana, necessidades individuais e sociais
concretas, raça, geografia, uso, costumes, tradições, economia,
técnicas), mas também espirituais (sentimentos, idéias morais,
políticas e religiosas, valores) ou ainda elementos puramente
racionais (técnica jurídicas, forma políticas, instituições, formas e
conceitos jurídicos a priori) e, finalmente, elementos voluntaristas,
pois não é possível negar-se o papel de vontade humana, da livre
adesão, da vontade política das comunidades sociais na adoção desta
ou daquela forma de convivência política e social, e de organização
do Direito e do Estado.

6 – Concepção estrutural: é a que resulta de uma unidade


estrutural, de um conjunto orgânico e sistemático de caráter
normativo sob inspiração de um pensamento diretor. Considera,
assim, no seu aspecto normativo, não como norma pura, mas como
norma em sua conexão com a realidade social, que lhe dá o conteúdo
fático e o sentido axiológico (Spagna Musso).

7 – Conceito histórico-universal: As constituições escritas são


criações da época moderna. No entanto todas as sociedades
politicamente organizadas, quaisquer que sejam as suas estruturas
sociais, possuem certas formas de ordenação susceptível de
serem designadas por constituição. Assim, todos os países
possuem, possuíram sempre, em todos os momentos da sua história,
uma constituição real e efetiva.

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8 – Constituição como fonte de direito: Vamos encontrar esse


sentido na história constitucional romana. Aí a expressão
constitutiones principum era utilizada para indicar os atos normativos
do imperador que passaram a ter valor de lei.

9 – Constituição como modo de ser da comunidade: Aristóteles


oferece-nos o conceito de constituição politeia que significa o próprio
modo de ser da polis, ou seja, a totalidade da estrutura social da
comunidade. No conceito aristotélico de constituição juntam-se dois
aspectos modernos:
• A constituição como ordenamento fundamental de uma
associação política;
• A constituição como o conjunto de regras organizatórias
destinadas a disciplinar as relações entre os vários órgãos de
soberania.

10 – Constituição como organização jurídica do povo: segundo


Cícero, a res publica é a associação de homens mediante um
consentimento jurídico e por causa de uma utilidade comum, ou seja,
a res publica é a organização política do povo.

11 – Constituição como lex fundamentali: a partir da Idade Média


desenvolve-se a noção de lei fundamental. Assim, determinadas leis
são consideradas fundamentais em razão da sua natureza contratual,
determinadoras dos direitos de participação no poder por parte do rei
e por parte dos estados do reino.

12 – Constituição como ordenação sistemática e racional da


comunidade política através de um documento escrito: a idéia
da organização constitucional do Estado começou a ganhar vulto no
século XVIII com o chamado movimento constitucional, impulsionados
pelas revoluções americana e francesa. Contudo, alguns autores
apontam como período pré-histórico constitucional o século XIII
(1215), data em que os barões do Reino de Inglaterra impuseram a
João Sem Terra a Magna Carta, muito embora, não se tratar ainda de
uma verdadeira declaração de direitos.

13 – Constituição jusnaturalista – é a que se origina do direito


natural, preexistindo ao próprio homem (Victor Cathrein).

14 – Constituição positivista – é o conjunto de normas emanadas


do poder do Estado (Laband e Jellinek).

15 – Constituição marxista – é o produto da supra-estrutura


ideológica, condicionada pela infra-estrutura econômica (Karl Marx).

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16 – Constituição institucionalista – é a que delimita os fins


políticos do Estado com vistas ao cumprimento de programa sociais
(atendimento médico, emprego, moradia etc.).

17 – Constituição compromissória – é aquela que reflete a


pluralidade das forças políticas e sociais, originando-se da barganha,
do jogo de interesses e do tom persuasivo do discurso político (Paolo
Barile).

Conceito ideal de constituição e Estado constitucional

Conceito ideal de constituição: com o triunfo do movimento


constitucional, impôs-se também, nos primórdios do século XIX, o
chamado conceito ideal de constituição (C. SCHMITT). Este conceito
ideal identifica-se, fundamentalmente, com os postulados político-
liberais, considerando-se como elementos materiais
caracterizadores e distintivos os seguintes:

a) a constituição deve consagrar um sistema de garantias


de liberdade (esta essencialmente concebida no sentido do
reconhecimento de direitos individuais e da participação dos
cidadãos nos atos do poder legislativo através dos
parlamentos);

b) a constituição deve conter o princípio da divisão dos


poderes, no sentido de garantia orgânica contra os abusos dos
poderes estaduais;

c) a constituição deve ser escrita.

Estados constitucionais: são aqueles que dispõem de uma


ordenação estadual plasmada num documento escrito, garantidor das
liberdades e limitador do poder mediante o princípio da divisão dos
poderes. Não constitucionais são todos os outros.

A evolução histórica do Estado, pós-absolutismo, apresenta as


seguintes fases:

a) Estado de Direito ou Estado Liberal – fruto do


liberalismo clássico, que perdurou até o século XVIII,
enalteceu a idéia de liberdade meramente formal perante a
lei e de não-intervenção do Estado (absenteísmo estatal).
Surgem os direitos de primeira geração ou dimensão.

b) Estado Social de Direito (do final do século XIV e início


do século XX) – faz surgir a necessidade de se reconhecer, ao
lado da dicotomia (direito público – direito privado), a categoria
dos direitos sociais, cujas normas de direito do trabalho e de
direito previdenciário expressam a manifestação de um estado

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prestacionista, intervencionista e realizador da chamada


justiça distributiva. Surgem os direitos de segunda
geração.

c) Estado Democrático de Direito ou pós-social de direito


– acentua-se a idéia de escalonamento verticalizado e
hierárquico das normas, apresentando-se a Constituição como
norma de validade de todo o ordenamento jurídico. O Estado
é regido por normas democráticas, eleições livres, periódicas e
pelo povo, respeito aos direitos fundamentais. Surgem os
direitos de terceira, quarta e quinta geração.

A força normativa da Constituição (Konrad Hesse)

A visão sociológica de Ferdinand Lassalle negava força normativa


à constituição jurídica, pois, no seu entender, caberia a esta, tão-
somente, a representação dos fatores reais do poder que regem a
nação. Contrapondo-se à tese defendida por Ferdinand Lassalle, o
constitucionalista Konrad Hesse desenvolveu importante estudo no
intuito de realçar a denominada “força normativa” da constituição.
Hesse concorda com Lassalle no tocante ao fato de ser a
constituição jurídica condicionada pela realidade histórica,
não podendo ser separada da realidade concreta do seu tempo.
Concorda, também, que a pretensão de eficácia da constituição
somente pode ser realizada se se levar em conta essa
realidade. Entretanto, não concorda com Lassalle quando este
conceitua a constituição jurídica como “pedaço de papel”, pois, para
Hesse, é inconcebível reduzir a constituição jurídica à mísera função –
indigna de qualquer ciência – de justificar as relações de poder
dominantes.

Com efeito, segundo Hesse, a constituição jurídica não configura


apenas a expressão de uma realidade, dos fatores reais do poder. Ela
significa mais do que o simples reflexo das condições fáticas de sua
vigência, das forças sociais e políticas. Ainda que não de forma
absoluta, a constituição jurídica possui significado próprio, autônomo.
Graças ao elemento normativo, ela ordena e conforma a
realidade política e social. Ela logra conferir forma e modificação à
realidade, bem assim despertar “a força que reside na natureza das
coisas”, tornando-a ativa. Assim, ela própria, a constituição jurídica,
converte-se em força ativa que influi e determina a realidade política
e social.

Para Hesse, a constituição contém, ainda que de forma


limitada, uma força própria, motivadora e ordenadora da vida
do Estado (força normativa da constituição). Assim, a
constituição jurídica logra converter-se, ela mesma, em força ativa.
Embora não possa, por si só, realizar nada, ela pode impor tarefas. A
constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem

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efetivamente realizadas, se existir a disposição de orientar a própria


conduta segundo a ordem nela estabelecida, se, a despeito de todos
os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de
conveniência, se puder identificar a vontade de concretizar essa
ordem.

A constituição jurídica e a constituição real estão em relação de


coordenação, condicionando-se mutuamente. Assim, em caso de
eventual conflito, a constituição jurídica não deve ser considerada,
necessariamente, a parte mais fraca, pois existem pressupostos
realizáveis que, mesmo no caso de confronto, permitem assegurar a
força normativa da constituição jurídica.

Ferdinand Lassale Konrad Hesse


A Constituição consiste na soma dos A Constituição, embora influenciada
fatores reais de poder que regem pelos fatores reais do poder, possui
uma determinada nação. força normativa própria.
No caso de conflito entre a No caso de conflito entre a
Constituição real (“fatores reais de Constituição real e a Constituição
poder”) e a Constituição jurídica jurídica, não se pode afirmar que
(“folha de papel”), esta sempre esta necessariamente sucumbirá.
sucumbirá frente àquela.
Visão sociológica da Constituição. Visão sobre a força normativa da
Constituição.

A constituição não pode ser compreendida e interpretada sem que se


tenha em mente a seguinte estrutura:

Forma – complexo de normas (escritas ou costumeiras);


Conteúdo – a conduta humana motivada pelas relações sociais
(econômicas, políticas, religiosas etc.);
Fim – a realização dos valores que apontam para o existir da
comunidade;
Causa criadora e recriadora – o poder que emana do povo.

A legitimidade através do procedimento

Existem dois modelos, segundo J. J. Canotilho, de relação entre as


dimensões procedimentais e as dimensões materiais do poder
constituinte.

Modelo procedimental ou formal: a justiça do resultado (= justiça


da constituição), ou seja, se o procedimento for justo, será justo
também o conteúdo da constituição. Em termos práticos, isto
significaria que bastaria ser correto o procedimento constituinte (por
exemplo: assembléia constituinte, que elaborou e aprovou, de acordo
com regras regimentais prévias, o texto constitucional) para termos
uma constituição materialmente justa.

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Modelo substantivo ou material: independentemente do


procedimento, existem medidas autônomas para se aferir do “justo”
constitucional, sendo o procedimento apenas um dos meios para se
alcançarem soluções substantivas justas. Levado até as últimas
conseqüências, este modelo legitimaria a inexistência de um
procedimento constituinte (ex.: bastaria a outorga da constituição por
um “presidente”, salvaguardada que fossem as dimensões de justiça
intrínseca da constituição).

As formas do procedimento constituinte

Procedimento constituinte direto: ocorre quando o projeto de lei


constitucional obtém validade jurídica através de uma aprovação
direta do povo (plebiscito ou referendo);

Procedimento constituinte indireto ou representativo: é a


técnica da elaboração de constituição na qual a participação do povo
se situa no momento da eleição de representantes para uma
assembléia constituinte, cabendo a estes representantes a
deliberação de aprovação da lei constitucional.

Procedimento misto ou técnica de assembléia constituinte


não soberana: combinam-se os elementos diretos com elementos
representativos, ou seja, o povo elege uma assembléia constituinte
para elaborar uma constituição (procedimento representativo); a
ratificação jurídica da constituição caberá ao povo que se pronunciará
através de plebiscito ou de referendo sobre o texto constitucional
(procedimento direto).

CLASSIFICAÇÃO DAS CONSTITUIÇÕES

A doutrina apresenta vários modos de classificar as constituições, não


havendo uniformidade de pontos de vista sobre o assunto. Desta
forma, assim classificamos:

1. Quanto ao conteúdo:

• Constituição material ou substancial – Do ponto de


vista material, o que vai importar para definirmos se uma
norma tem caráter constitucional ou não será o seu
conteúdo, pouco importando a forma através do qual foi
aquela norma introduzida no ordenamento jurídico.
Assim, constitucional será aquela norma que defina e
trate das regras estruturais da sociedade, de seus
alicerces fundamentais (organização do Estado, meios de
aquisição e exercício do poder e direitos fundamentais).
Trata-se do que Carl Schmitt chamou de Constituição. É

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concebida em sentido amplo e em sentido estrito. Ex.:


Constituição do Império do Brasil, de 1824.

• Constituição formal – é o peculiar modo de existir do


Estado, reduzido, sob forma escrita, a um documento
solenemente estabelecido pelo poder constituinte e
somente modificável por processos e formalidades
especiais nela própria estabelecida. Assim, constituição
formal é aquela que elege como critério o processo de
sua formação e não o conteúdo de suas normas, ou
seja, qualquer regra inserida no texto passaria a ter o
caráter constitucional. Trata-se do que Carl Schmitt
chamou de leis constitucionais. Ex.: CRFB/88.

Em outras palavras, a constituição, na sua concepção


formal, seria um conjunto de normas legislativas que se
distinguem das não constitucionais em razão de serem
produzidas por processo legislativo mais dificultoso, o
qual pode se materializar sob a forma da necessidade de
um órgão legislativo especial para elaborar a Constituição
– Assembléia Constituinte – ou sob a forma de um quorum
superior ao exigido para a aprovação, no Congresso
Nacional das leis ordinárias.

Essas duas visões acerca das normas constitucionais (formal e


material) fizeram surgir os conceitos de supremacia material
(ligada ao conteúdo das normas constitucionais) e supremacia
formal (ligada ao processo legislativo distinto para elaboração das
normas constitucionais).

Numa constituição escrita e rígida, todas as normas


constitucionais são dotadas de supremacia formal, visto que foram
elaboradas segundo um procedimento mais solene do que aquele de
elaboração das demais leis. Assim, num sistema de constituição
formal, podemos afirmar que todas as normas constitucionais são
hierarquicamente iguais, ou seja, possuem o mesmo valor, e,
também, que todas elas são dotadas de supremacia formal em
relação às demais leis do ordenamento. É o caso da nossa CF/88, cujo
artigo 5º, versa sobre os direitos e deveres individuais e coletivos
(dispositivo formal e materialmente constitucional) que tem o mesmo
valor e força hierárquica do artigo 242, § 2º, que estabelece que “o
Colégio Pedro II, localizado na cidade do Rio de Janeiro, será mantido
na órbita federal” (dispositivo apenas formalmente constitucional).

Ao contrário, se estamos diante de uma constituição não-escrita e


flexível, não podemos falar em supremacia formal, porque não há
distinção entre os processos legislativos de elaboração das normas
constitucionais e das leis ordinárias. Num sistema de constituição

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não-escrita, flexível, as normas constitucionais são dotadas, tão-


somente, de supremacia material, em razão do seu conteúdo.

Enfim, num sistema de constituição rígida, todo o processo de


fiscalização da validade das leis leva em conta a supremacia formal
da constituição, vale dizer, todo o controle de
constitucionalidade das leis é realizado sob o enfoque
estritamente formal. Se a norma integra o texto da constituição
rígida, seja qual for o seu conteúdo, será dotada de supremacia e,
portanto, não poderá ser desobedecida pelo legislador
infraconstitucional.

Obs.: As regras formalmente constitucionais, em nosso


ordenamento jurídico, possuem grau máximo de eficácia e
supremacia jurídica, bastando que estejam inseridas na
Constituição.

Manoel Gonçalves Filho cita a lei eleitoral como sendo norma


materialmente constitucional, contudo não gozam de supremacia
jurídica como as normas formalmente constitucionais.

Os tratados internacionais sobre direitos humanos, anteriores à


EC 45/04, por terem sido aprovados pelo quorum de maioria simples
(aspecto formal) não podem gozar do mesmo status das normas
constitucionais que são aprovadas por quorum qualificado de 3/5 em
dois turnos de votação.

Numa Constituição formal e rígida todas as normas que integram o


texto constitucional têm o mesmo valor (princípio da unidade da
Constituição).

2. Quanto à forma:

• Constituição escrita, positiva ou instrumental – é a


constituição formada por um conjunto de regras
sistematizadas e organizadas em um único documento,
estabelecendo as normas fundamentais de um Estado.
Ex.: as Constituições brasileira, portuguesa, espanhola
etc.

• Constituição costumeira (não escrita ou


consuetudinária) – é aquela que, ao contrário da
escrita, não traz as regras em um único texto solene e
codificado. É formada por leis esparsas, costumes,
jurisprudência e conveções, reconhecidos pela
sociedade como fundamentais, como é o caso da
Constituição da Inglaterra, em que parte das normas
sobre organização do Estado são consuetudinárias.

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Constituições escritas Constituições não-escritas


Elaboradas num determinado Elaboração histórica;
momento;
Elaboradas por um único órgão Elaboradas por diversos órgãos
(Assembléia Constituinte) (poder judiciário, legislativo e
pelo povo – costumes)
Escrita em um único documento; Escrita em vários documentos
(leis esparsas, jurisprudência,
convenções etc.);
Quando dogmáticas ou prolixas, Quando históricas, geralmente,
geralmente, são mais instáveis, são mais estáveis, quanto à
quanto à reforma do texto reforma do texto constitucional.
constitucional.
São dotadas de supremacia São dotadas de supremacia
formal material

Obs.: É importante notar que, com o advento da EC nº 45, foi


introduzido o § 3º, no artigo 5º, possibilitando que tratado
internacional sobre direitos humanos possa ter força de
norma constitucional, ainda que não esteja inserido formalmente
na CF/88. Esse fato novo parece ter suavizado a condição de
constituição escrita da atual Carta brasileira.

Art. 5º (...)
§ 3º - Os tratados e convenções internacionais sobre direitos
humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso
Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos
respectivos membros, serão equivalentes às emendas
constitucionais.

3. Quanto à origem:

• Outorgadas – são aquelas impostas, de maneira


unilateral, pelo agente revolucionário (grupo ou
governante), que não recebeu do povo a legitimidade
para em nome dele atuar, ou seja, nascem sem qualquer
participação popular, por meio da imposição do poder, e
que por isso, são também conhecidas por Cartas
Constitucionais. Foram constituições outorgadas no
Brasil:

 A Constituição de 1824 – Constituição do


Império;
 A Constituição de 1937 – inspirada em modelo
fascista, extremamente autoritária (Getúlio
Vargas);

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 A Constituição de 1967 – época da ditadura


militar;
 A Constituição de 1969 – resultante de EC
1/69.

• Promulgadas (votada, democrática ou popular) – é


aquela constituição fruto do trabalho de uma Assembléia
Nacional Constituinte, eleita diretamente pelo povo, para,
em nome dele, atuar. Nasce, portanto, da deliberação da
representação legítima popular.

 A Constituição de 1891 – primeira constituição


da República;
 A Constituição de 1934 – inserindo a
democracia social inspirada na Constituição de
Weimar;
 A Constituição de 1946 – redemocratização do
Brasil.
 A Constituição de 1988 – redemocratização do
Brasil.

• Cesarista ou outorgada por interposta pessoa – é


aquela formada por plebiscito popular sobre um projeto
elaborado por um Imperador (plebiscitos napoleônicos) ou
um Ditador (plebiscito de Pinochet, no Chile). A
participação popular, nesses casos, não é democrática,
pois visa apenas ratificar a vontade do detentor do poder.
Também considerada como um modo de outorga por
interposta pessoa.

• Pactuadas – são aquelas em que o poder constituinte


originário se concentra nas mãos de mais de um titular.
Trata-se de uma modalidade anacrônica, dificilmente
ajustando-se à noção moderna de constituição. A
Constituição pactuada é aquela que exprime um
compromisso instável de duas forças políticas rivais: a
realeza absoluta debilitada, de uma parte, e a nobreza e a
burguesia, em franco progresso, de outra. Ex.: a Magna
Carta de 1215, que os barões ingleses obrigaram João
Sem Terra a jurar.

Obs.: Qual a diferença entre Constituição e Carta?

Constituição: é o nomen juris que se dá à Lei Fundamental


promulgada, democrática ou popular, que teve a sua origem
em uma Assembléia Nacional Constituinte.

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Carta: é o nome reservado para aquela Constituição outorgada,


imposta de maneira unilateral pelo agente revolucionário através
de ato arbitrário e ilegítimo.

4. Quanto à extensão:

• Sintética (concisa, breve, sumária ou sucinta) – é


aquela que possui conteúdo abreviado, e que versa, tão-
somente, sobre os elementos básicos de organização do
Estado, isto é, sobre matérias substancialmente
constitucionais. É o caso, por exemplo, da Constituição
dos Estados Unidos da América, em vigor a mais de 200
anos, composta de apenas sete artigos originais e vinte e
sete emendas.

Pinto Ferreira, analisando o constitucionalismo pátrio,


indica a Constituição de 1891 como exemplo de sintética.

• Analíticas (amplas, extensas, largas ou prolixas) – é


aquela de conteúdo extenso, que versa sobre matérias
outras que não a organização básica do Estado. Em regra,
contêm normas substancialmente constitucionais,
normas apenas formalmente constitucionais e
normas meramente programáticas, que estabelecem
fins, diretrizes e programas para a atuação futura dos
órgãos estatais. É aquela, portanto, que aborda todos os
assuntos que os representantes do povo entenderem
fundamentais. Ex.: a Constituição brasileira de 1988.

Obs.: Motivos que determinam os países adotarem uma


Constituição analítica, segundo Paulo Bonavides:

 A preocupação de dotar certos institutos de proteção eficaz;


 O sentimento de que a rigidez constitucional é anteparo ao
exercício discricionário da autoridade;
 O anseio de conferir estabilidade ao direito legislado sobre
determinadas matérias;
 A conveniência de atribuir ao Estado, através do mais alto
instrumento jurídico que é a Constituição, os encargos
indispensáveis à manutenção da paz social.

5. Quanto ao modo de elaboração:

• Dogmáticas (sistemáticas) – sempre escritas,


consubstanciam os dogmas estruturais e fundamentais do
Estado, ou seja, partem de teorias preconcebidas, de
planos e sistemas prévios, de ideologias bem declaradas,
de dogmas políticos dominante no momento. São

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elaboradas de um só jato, reflexivamente, racionalmente,


por uma assembléia Constituinte. Ex.: a Constituição
brasileira de 1988.

• Históricas – (sempre não-escrita e flexível, porém menos


instável que as dogmáticas). Constituem-se através de
um lento e contínuo processo de formação, ao longo do
tempo, reunindo a história e as tradições de um povo.
Normalmente são juridicamente flexíveis, porém, social e
politicamente rígidas. Ex.: a Constituição inglesa.

6. Quanto à alterabilidade, mutabilidade, estabilidade ou


consistência:

• Rígidas – são aquelas constituições que exigem, para


a sua alteração, um processo legislativo mais árduo,
mais solene, mais dificultoso do que o processo de
alteração das normas não constitucionais. Todas as
constituições brasileiras, exceto a de 1824 que foi semi-
rígida.

Só há rigidez constitucional em Constituições escritas e só cabe


controle de constitucionalidade na parte rígida de uma Constituição.
Desta forma, é inadmissível controle de constitucionalidade nas
Constituições flexíveis ou costumeiras.

Constituição super-rígida – é subespécie de


Constituição rígida e caracteriza-se por possuir limitações
procedimentais e materiais (cláusulas pétreas) ao poder
de reforma. Essa classificação é adotada por Alexandre de
Moraes que em razão da existência de normas imutáveis
(cláusulas pétreas ou núcleo intangível) acredita que esta
tem algo a mais do que uma Constituição rígida. Contudo,
o STF entende que a existência de um nucleio intangível
diz respeito apenas à constatação de que existem
matérias que compõe a identidade da Constituição e caso
fossem retiradas, a essência da Constituição seria
abalada. Ex.: Constituição brasileira de 1988.

Desta forma, a rigidez constitucional não tem


relação jurídica com a existência ou não de
cláusulas pétreas, isto é, com a presença de um núcleo
insuscetível de abolição na constituição. A rigidez ou
flexibilidade da Constituição guarda relação,
apenas, com o processo de modificação do seu
texto. Assim, a constituição poderá ser rígida e não
possuir cláusulas pétreas (todos os seus dispositivos
podem ser abolidos, desde que haja obediência ao

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procedimento especial, mais dificultoso), ou, ao invés,


poderá ser flexível e possuir cláusulas pétreas (admite
alteração de seus dispositivos por processo simples, mas
estabelece um núcleo insuscetível de abolição).

Por fim, não há vedação à alteração das chamadas


cláusulas pétreas, que podem ser atualizadas,
acrescidas, alteradas e que, segundo alguns,
podem até mesmo sofrer alguns pequenos ajustes
desde que não retirem sua essência.

• Flexível ou plástica – é aquela constituição que não


possui um processo legislativo de alteração mais
dificultoso do que o processo legislativo de alteração das
normas infraconstitucionais.

Para Raul Machado Horta, Constituição plástica seria


aquela que permite o preenchimento das regras
constitucionais pelo legislador infraconstitucional. Desta
forma, a Constituição plástica estaria em condições de
acompanhar, através do legislador ordinário, as oscilações
da opinião pública e da vontade do corpo eleitoral, visto
que não existe hierarquia entre constituição e lei
infraconstitucional, podendo uma lei infraconstitucional
posterior alterar texto constitucional, se expressamente o
declarar. A Constituição normativa não conflitará com a
Constituição real. A coincidência entre a norma e a
realidade assegurará a duração da Constituição no tempo.

• Semiflexível ou semi-rígida – é aquela constituição


que é tanto rígida quanto flexível, ou seja, algumas
matérias exigem um processo de alteração mais
dificultoso do que o exigido para alteração das leis
infraconstitucionais, enquanto outras não requerem tal
formalidade. Ex.: a constituição brasileira de 1824.

• Imutáveis – seriam aquelas constituições inalteráveis,


verdadeiras relíquias históricas. Nos dias de hoje se toma
por absurdo um texto constitucional que se pretenda
perpétuo, pois se destina a regular uma sociedade em
contínua mutação.

7. Quanto à efetividade – é a classificação desenvolvida por


Karl Loewenstein, conhecida como ontológica, se baseia no
uso que os detentores do poder fazem da Constituição:

• Constituição normativa – é aquela em que o processo


de poder está de tal forma disciplinada que as relações
políticas e os agentes do poder subordinam-se às

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determinações do seu conteúdo e do seu controle


procedimental. Trata-se de uma Constituição efetiva, ou
seja, ela determina o exercício do poder, obrigando a
todos sua submissão. É aquela que consegue,
efetivamente, regular a vida política do Estado, e estando
em plena consonância com a realidade política, dirigir o
cotidiano do Estado.

• Constituição nominalista, nominativa ou nominal


– é aquela que contem disposições de limitação e controle
de dominação política, sem ressonância na sistemática de
processo real de poder, e com insuficiência concretização
constitucional, ou seja, ela é ignorada pela prática do
poder. São aquelas que, embora tenham sido elaboradas
com o intuito de regular a vida política do Estado, não
conseguem efetivamente cumprir esse papel; são
constituições em descompasso com a realidade do
Estado, que não guardam correspondência com o
cotidiano do Estado – embora tenham esse intuito;

• Constituição semântica – é aquela que, desde a sua


elaboração, não tem o objetivo de regular a vida política
do Estado, mas sim de formalizar e manter o poder
político atual, de dar legitimidade formal aos atuais
detentores do poder; não tem ela a pretensão de limitar o
poder real, mas sim de formalizar e manter o poder
existente, ou seja, serve para justificar a dominação
daqueles que exercem o poder político. As constituições
semânticas são simples reflexos da realidade política,
servindo como mero instrumento dos donos do poder e
das elites políticas, sem limitação do seu conteúdo.

8. Quanto à ideologia

• Ortodoxa – é aquela planejada sobre uma ideologia


e não possui abertura para outras concepções, debates,
contradições. Ex.: a Constituição Soviética.

• Eclética – é a Constituição fruto de uma sociedade


pluralista, que está fundamentada no pluralismo político,
permite a coexistência de posições antagônica e assegura
a liberdade de manifestação do pensamento, dentre
outros princípios democráticos. Ela é fruto de
contradições e contrastes de classes, possui normas
principiológicas abertas, sujeitas a interpretação diversa e
variável de acordo com os dogmas da classe dominante
em um dado momento.

9. Quanto ao objeto

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• Liberal – é a Constituição que não traz política de


desenvolvimento social, não se preocupa com o regime
de produção ou com a regulação dos mercados.

• Social – é aquela que se preocupa com o valor do


trabalho, com valores sociais, como o direito à educação,
à saúde, lazer, moradia, meio ambiente e, principalmente,
com a regulação da ordem econômica.

10. Quanto aos sistemas

• Principiológica – alto grau de abstração, por isso se faz


necessária a mediação concretizadora do poder constituído
(legislador ordinário). Ex.: CF/88.

• Preceitual – é a constituição que possui maior número de


regras do que de princípios. Ex.: Constituição Mexicana.

11. Quanto à finalidade

• Constituição-garantia – visa a garantir a liberdade,


limitando o poder, ou seja, se preocupa em enumerar as
garantias individuais frente aos demais indivíduos e
especialmente ao Estado. São constituições tipicamente
negativas (liberdade-negativa ou liberdade-
impedimento) porque exigem um afastamento do
Estado e não impõem conduta positiva do Poder Público.
Ex.: a Constituição americana.

• Constituição-balanço – refletiria um degrau de


evolução socialista. Conforme a doutrina soviética que se
inspira em Lassalle, é a Constituição que descreve e
registra a organização política estabelecida e registraria
um estágio das relações de poder.

• Constituição-dirigente (programática) – é a que


traz um projeto de Estado, ou seja, estabelece um plano
para dirigir uma evolução política, anunciando um ideal a
ser concretizado. O conceito de constituição-dirigente
está diretamente relacionado à existência, no texto
constitucional, das denominadas normas
programáticas, que são aquelas que requerem dos
órgãos estatais uma determinada atuação, na consecução
de um objetivo traçado pelo legislador constituinte. Ex.: a
Constituição portuguesa e a brasileira.

12 – Quanto ao critério sistemático

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• Reduzida – é a Constituição escrita em um único código,


sistematizada.

• Variada – é a Constituição que se encontra em textos


esparsos.

13 – Constituição expansiva – segundo Raul Machado Horta, a


expansividade da CRFB/1988, em função dos temas novos e da
ampliação conferida a temas permanentes, como no caso dos direitos
e Garantias Fundamentais, pode ser aferida em três planos distintos:

• Conteúdo anatômico e estrutural da Constituição –


destaca a estruturação do texto e sua divisão em títulos,
capítulos, seções, subseções, artigos da parte permanente e do
ADCT;
• Comparação constitucional interna – relaciona-se a CF/88
com as Constituições brasileiras precedentes, considerando a
extensão de cada uma e as suas alterações;
• Comparação constitucional externa – relaciona a CRFB/88 e
as Constituições estrangeiras mais extensas.

Valendo-se de todos os critérios classificatórios acima expostos,


podemos dizer que a Constituição brasileira de 1988 singulariza-se
por ser:
• Formal;
• escrita, positiva, ou instrumental;
• promulgada, votada, democrática ou popular;
• analítica, ampla, extensa, larga ou prolixa;
• dogmática ou sistemática;
• rígida;
• normativa;
• eclética;
• social;
• principiológica;
• garantia e dirigente ou programática;
• reduzida;
• expansiva.

Elementos das Constituições

Segundo José Afonso da Silva

1 – orgânicos: são as normas que regulam a estrutura do Estado


e do Poder:
• Título III – Da organização do Estado;
• Título IV – Da organização dos poderes e do Sistema de
Governo;

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• Capítulos II e III do Título V – Das Forças Armadas e da


Segurança Pública;
• Título VI – Da Tributação e do Orçamento.

2 – limitativos: manifestam-se nas normas que compõem o elenco


dos direitos e garantias fundamentais (direitos individuais e suas
garantias, direitos de nacionalidade e direitos políticos e
democráticos):
• Título II – Dos Direitos e Garantias Fundamentais, excetuando o
Capítulo II do referido Título II (Dos Direitos Sociais).

3 – sócio-ideológicos: revelam o compromisso da Constituição


entre o Estado individualista e o Estado Social, intervencionista:
• Capítulo II, do Título II – Dos direitos sociais;
• Título VII – Da Ordem Econômica e Financeira;
• Título VIII – Da Ordem Social.

4 – estabilização constitucional: consubstanciados nas normas


constitucionais destinadas a assegurar a solução de conflitos
constitucionais, a defesa da constituição, do Estado e das
instituições democráticas. Constituem instrumentos de defesa do
Estado e buscam garantir a paz social.
• Art. 102, I, “a” – ação de inconstitucionalidade;
• Arts. 34-36 – Da intervenção nos Estados e Municípios;
• Arts. 59, I e 60 – Processos de emendas à Constituição;
• Arts. 102 e 103 – Jurisdição constitucional;
• Título V – Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas,
especialmente o Capítulo I que trata do Estado de Defesa e do
Estado de Sítio, já que os Capítulos II e III do Título V se
caracterizam como elementos orgânicos.

5 – formais de aplicabilidade: encontram-se nas normas que


estabelecem regras de aplicação das constituições.
• Preâmbulo;
• Disposições constitucionais transitórias;
• Art. 5º, § 1º, quando estabelece que as normas definidoras dos
direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata.

Segundo J. H. Meireles Teixeira

1 – Orgânicos
2 – Limitativos
3 – Programático-ideológicos
4 – Formais ou de aplicabilidade

Funções da Constituição

Para Canotilho, a função da Constituição é, em suma:

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• Normatizar a Constituição do Estado;


• Racionalizar e limitar os poderes públicos;
• Fundamentar a ordem jurídica da comunidade;
• Estabelecer um programa de ação.

QUESTÕES

01 – (FCC - 2009 - TJ-MS – Juiz) – Relativamente às espécies de


Constituições, é INCORRETO afirmar que
a) uma Constituição pode ter partes rígidas e partes flexíveis.
b) Constituições escritas excluem a possibilidade de costumes
constitucionais.
c) toda Constituição rígida é escrita.
d) toda Constituição costumeira é, ao menos conceitualmente,
flexível.
e) nem toda Constituição escrita é rígida.
R-b

02 – (FCC - 2005 - PGE-SE - Procurador de Estado) –


Consideradas as classificações das Constituições segundo os critérios
de estabilidade e modo de elaboração, tem-se, respectivamente, que
a Constituição brasileira de 1988 é
a) histórica e formal.
b) sintética e escrita.
c) analítica e flexível.
d) rígida e dogmática.
e) material e semi-flexível.
R-d

03 – (FCC - 2006 - DPE - SP - Defensor Público) – O termo


"Constituição" comporta uma série de significados e sentidos.
Assinale a alternativa que associa corretamente frase, autor e
sentido.
a) Todos os países possuem, possuíram sempre, em todos os
momentos da sua história uma constituição real e efetiva. Carl
Schmitt. Sentido político.
Errada. "A doutrina que defendia isso era o sentido sociológico de Lassale, já que
para ele, não importava qualquer documento escrito para que um país possuísse
Constituição. A Constituição real e efetiva seria marcada pelo somatório dos fatores
reais de poder, ou seja, as forças dominantes, as quais sempre existem e existiram
em qualquer sociedade."
b) Constituição significa, essencialmente, decisão política
fundamental, ou seja, concreta decisão de conjunto sobre o modo e a
forma de existência política. Ferdinand Lassale. Sentido político.
Errada. "Essa é a concepção política de Schimitt não de Lassale, que era a
sociológica."
c) Constituição é a norma fundamental hipotética e lei nacional no
seu mais alto grau na forma de documento solene e que somente
pode ser alterada observando-se certas prescrições especiais. Jean
Jacques Rousseau. Sentido lógico-jurídico.

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Errada. "Está correto dizer "sentido lógico-jurídico", mas quem disse isso foi Hans
Kelsen. Rousseau era quem previa que o Estado derivaria de um "contrato social",
nada tem haver com sentido jurídico de Constituição."
d) A verdadeira Constituição de um país somente tem por base os
fatores reais do poder que naquele país vigem e as constituições
escritas não têm valor nem são duráveis a não ser que exprimam
fielmente os fatores do poder que imperam na realidade. Ferdinand
Lassale. Sentido sociológico.
Correta. "É o que Lassale dizia. Se a Constituição não exprimisse o pensamento
das forças dominantes, ela seria uma mera 'Folha de Papel'."
e) Todas as constituições pretendem, implícita ou explicitamente,
conformar globalmente o político. Há uma intenção atuante e
conformadora do direito constitucional que vincula o legislador. Jorge
Miranda. Sentido dirigente.
Errada. "Jorge Miranda é um professor português cujas obras de direito
constitucional são de grande relevância. Porém o sentido dirigente é defendido por
Canotilho, segundo este autor a Constituição deve ser um plano que irá direcionar a
atuação do Estado, notadamente através das normas programáticas inseridas no seu texto."
R-d

04 – (FCC - 2009 - MPE-SE - Analista do Ministério Público) - A


Constituição brasileira de 1824 previa, em seus artigos 174 e 178:

"Art. 174. Se passados quatro anos, depois de jurada a Constituição


do Brasil, se conhecer, que algum dos seus artigos merece reforma,
se fará a proposição por escrito, a qual deve ter origem na Câmara
dos Deputados, e ser apoiada pela terça parte deles."
"Art. 178. É só Constitucional o que diz respeito aos limites e
atribuições respectivas dos Poderes Políticos e aos Direitos Políticos e
individuais dos Cidadãos. Tudo o que não é Constitucional pode ser
alterado sem as formalidades referidas, pelas Legislaturas
ordinárias."

Depreende-se dos dispositivos acima transcritos que a Constituição


brasileira do Império
a) era do tipo semirrígida, quanto à alterabilidade de suas normas,
diferentemente da Constituição vigente, que, sob esse aspecto, é
rígida.
b) previa hipótese especial de revisão constitucional, semelhante
àquela contemplada no Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias da Constituição vigente, quanto a prazo e quorum para
exercício do poder de revisão.
c) impunha limites temporais, materiais e circunstanciais ao exercício
regular do poder de reforma constitucional, a exemplo do que se tem
na Constituição vigente.
d) exigia quorum de maioria qualificada para propositura de emendas
à Constituição por membros do Legislativo, diferentemente da
Constituição vigente, que admite iniciativa isolada de parlamentares
para proposta de emenda.

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e) poderia ser classificada como sintética e histórica, em oposição à


Constituição vigente, que é analítica e dogmática.
R-a

05 – (FCC - 2007 - MPU - Analista Administrativo) - Conforme a


doutrina dominante, a Constituição da República Federativa do Brasil
de 1988 é classificada como
a) formal, escrita, outorgada e rígida.
b) formal, escrita, promulgada e rígida.
c) material, escrita, promulgada e imutável.
d) formal, escrita, promulgada e flexível.
e) material, escrita, outorgada e semi-rígida.
R-b

06 – (FCC - 2004 - TRF - 4ª REGIÃO - Analista Judiciário - Área


Judiciária - Execução de Mandados) - No que diz respeito à
classificação das constituições, considerando- se a origem, observa-se
que umas derivam do trabalho de uma Assembléia Nacional
Constituinte, composta de representantes do povo, eleitos com a
finalidade de sua elaboração, sendo que outras são elaboradas e
estabelecidas sem a participação popular, através de imposição do
poder na época. Nesses casos, tais constituições são denominadas,
respectivamente,

a) analíticas e sintéticas.
b) outorgadas e históricas.
c) históricas e dogmáticas.
d) promulgadas e outorgadas.
e) dogmáticas e promulgadas.
R-d

07 – (FCC - 2009 - TRT - 7ª Região/CE - Analista Judiciário -


Área Judiciária - Execução de Mandados) - A Constituição que
prevê somente os princípios e as normas gerais de regência do
Estado, organizando-o e limitando seu poder, por meio da estipulação
de direitos e garantias fundamentais é classificada como:

a) sintética.
b) pactuada.
c) analítica.
d) dirigente.
e) dualista.
R-a

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REFERÊNCIAS

BULOS, Uadi Lammêgo. Direito Constitucional ao alcance de todos. São Paulo:


Saraiva, 2009.
CARVALHO, Kildare Gonçalves. Direito Constitucional. 15ª Ed. ver. atual. e ampl.
Belo Horizonte: Del Rey, 2009.
HOLTHE, Leo Van. Direito Constitucional. 3ª Ed. ver. Ampl. e atual. Salvador:
Juspodivm, 2007.
LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado. 12ª Ed. ver. Atual. e ampl.
São Paulo: Saraiva, 2008.
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 15 ed. São Paulo: Atlas, 2004.
MOTTA FILHO, Sylvio Clemente da. Direito Constitucional: teoria e 900
questões. 7ed. ver. e atual. Rio de Janeiro: Impetus, 2000.

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