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Rev. Eletr. Enf. 2008;10(4):1165-71.

Available from: http://www.fen.ufg.br/revista/v10/n4/v10n4a30.htm.


_____________________________________________________________________ARTIGO DE ATUALIZAÇÃO

Cultura, saúde e enfermagem: o saber, o direito e o fazer crítico-humano

Culture, health and nursing: knowledge, right and human critical making

Cultura, salud y enfermería: el saber, el derecho y el hacer crítico-humano

Rose Mary Costa Rosa Andrade SilvaI, Eliane Ramos PereiraII,


Fátima Helena do Espírito SantoIII, Marcos Andrade SilvaIV

RESUMO Key words: Culture; Health sciences;


Trata-se de um trabalho que apresenta uma Philosophy in nursing.
reflexão teórico-filosófica acerca da cultura,
saúde e enfermagem. Selecionamos autores RESUMEN
que entendem a filosofia como um saber que Se trata de un trabajo que plantea una reflexión
coloca os problemas do pensar e do agir como teórico-filosófica en lo que se refiere a la
questão ou processo. Focalizamos três cultura, salud y enfermería. Enfocaremos las
instâncias, a saber: a cultura, a saúde e a tres instancias como saber, derecho y hacer
enfermagem como saber, direito e fazer crítico. crítico humano, respectivamente. Elegimos,
A cultura é compreendida como resposta do para eso, autores que entienden la filosofía
homem ao desafio da existência onde o humano como un saber que pone los problemas del
se realiza. A enfermagem é um fazer crítico pensar y del actuar como cuestión o proceso. La
humano e ao fazer, o enfermeiro se faz. O cultura es comprendida como respuesta del
enfermeiro percebe-se como capaz de hombre al desafío de la existencia donde el
transformar a natureza e a si mesmo no humano se realiza. La enfermería es hacer
trabalho. A saúde é um direito a ser crítico-humano y al hacer, el enfermero se
conquistado e historicamente esta perspectiva hace. Al actuar el enfermero se realiza, se
passa a ganhar corpo, ainda que lentamente, na percibe capaz de transformar la naturaleza y a
cidade moderna. Conclui-se que a cultura si mismo a través de su trabajo. La salud es un
aparece como “seiva” que nutre a ação derecho a ser conquistado e históricamente,
humana, a forma através da qual a humanidade esta perspectiva pasa a ganar cuerpo, aunque
se configura no triângulo: cultura, lentamente, en la sociedad moderna. Se
trabalho/enfermagem e saúde. concluye que la cultura aparece como “savia”
que nutre la acción humana, la forma a través
Palavras chave: Cultura; Ciências da Saúde; de la cual la humanidad se configura en el
Filosofia em Enfermagem. triángulo cultura, salud y enfermería.

ABSTRACT Palabras clave: Cultura; Cience de la salud;


This paper presents a philosophical and Filosofia de la enfermeria.
theoretical reflection about culture, health and
nursing. Three instances will be highlighted,
such as: knowledge, right and human critical I
Enfermeira. Filósofa. Doutora em Enfermagem. Professora
making. For this reason, we selected three Adjunto do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica
da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da
authors that understand philosophy as
Universidade Federal Fluminense. Niterói/RJ. E-mail:
knowledge which puts the acting and knowledge rafamig@terra.com.br.
problems as question or process.The nurse II
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto
realizes that he is able to transform the nature do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da
and that he is also capable to modify himself
Universidade Federal Fluminense. Niterói/RJ. E-mail:
through his job. Health is a right to be eliaper@terra.com.br.
conquered and historically, this view achieves a III
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto
figure even if slowly in the modern society. We do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da
Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da
came to the conclusion that culture appears as
Universidade Federal Fluminense. Niterói/RJ. E-mail:
an energy which feeds the triangle culture, fatahelen@terra.com.br.
health and nursing. IV
Enfermeiro. Mestre em Enfermagem. Professor Assistente
da Faculdade de Enfermagem da Universidade Gama Filho.
Rio de Janeiro/RJ.

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CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES trabalho: ação deliberada, intencional e


Este artigo visa refletir acerca da cultura, consciente por meio da qual ele responde aos
da saúde e explicitar em que medida estas desafios da natureza. Assim, o homem cria o
concepções permeiam a enfermagem. Mister se mundo das coisas, condição necessária para
faz dizer que a reflexão que iremos nos pautar é garantir sua existência material(3).
a filosófica e esta reflexão possui três Neste trabalho procuramos focar a
características que a distingue das demais. A reflexão na cultura enquanto saber humano; a
reflexão é propriamente filosófica quando é enfermagem como fazer crítico-humano e a
radical, rigorosa e de conjunto(1). saúde como direito fundamental do cidadão e
A filosofia é radical porque vai até as como tal, ligada à política. Para isso,
raízes da questão. A palavra latina radix, radicis selecionamos autores que entendem a filosofia
significa literalmente “raiz” e, no sentido como um saber que coloca os problemas do
derivado, “fundamentos”, “base”. Portanto, a pensar e do agir como questão ou processo.
filosofia é radical enquanto explicita os Nesta perspectiva, este é um saber onde somos
fundamentos do pensar e do agir. desafiados a “aprender a pensar”(4), e aqui
A filosofia é rigorosa porque, enquanto a prima-se pelo desenvolvimento da capacidade
filosofia da vida não leva suas conclusões até as de questionar, de rejeitar como dado inequívoco
últimas conseqüências, a reflexão filosófica a evidência imediata.
dispõe de um método claramente explicitado É preciso dizer também que o importante
que permite proceder com rigor, garantindo a da trajetória deste pensamento não é conhecer
coerência e o exercício da crítica. Para justificar apenas as respostas que outros deram, mas
suas afirmações com argumentos, faz uso de tentar alcançar, através da questão posta por
uma linguagem rigorosa que permite definir eles, uma nova resposta, a qual por sua vez
claramente os conceitos, evitando a abrirá o caminho a novas questões.
ambigüidade típica das expressões cotidianas. Assim, a enfermagem é o fazer crítico-
Para conseguir essa linguagem, a reflexão humano por meio do qual o homem produz
filosófica inventa conceitos, cria expressões bens materiais e se auto produz; a cultura é o
novas ou altera e especifica o sentido das saber humano que resulta da intervenção do
palavras usuais. homem na natureza através do trabalho, da
A reflexão filosófica é aquela que técnica e das idéias, bem como os produtos que
desenvolve uma reflexão de conjunto porque é resultam dessa intervenção transformadora. A
global, examina os problemas sob a perspectiva saúde é o direito do cidadão, mas também uma
do todo, relacionando os diversos aspectos. dimensão que abarca a política enquanto poder
Neste sentido a filosofia visa o todo, a humano que emerge das relações entre os
totalidade. Daí sua função de homens e destes com a natureza.
interdisciplinaridade, que permite estabelecer o Cremos poder dizer que este artigo se
elo entre as diversas formas do saber e do agir justifica na medida em que a cultura, a saúde e
humano(2). a enfermagem são elementos fundamentais
Diante destes considerandos para se galgar um cuidado humanizado dentro
compreendemos a partir da reflexão filosófica, de um sistema que pretende promover saúde e
que devido à interferência do homem sobre a qualidade de vida e assim, é preciso que a
natureza, por meio do trabalho e das inter- enfermagem lance olhar atento para tal
relações entre os homens, surge o mundo dos conjuntura.
bens simbólicos, dos saberes sobre as coisas e
sobre os próprios homens, configurando assim o CULTURA: A RESPOSTA DO HOMEM AO
mundo da cultura. A enfermagem está dentro DESAFIO DA EXISTÊNCIA
do contexto saúde como profissão, prática A palavra cultura deriva do verbo latino
social, arte, fazer humano. Desta forma, o colere, que significa “cultivar”; “criar”; “honrar”;
homem, individualmente ou em associação com “tomar conta”; e “cuidar”. Foi empregada
outros homens, intervém na natureza para inicialmente no final do século XI, para indicar o
transformá-la em seu benefício mediante o cuidado dos homens com os deuses (culto),

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bem como o cuidado dos homens com a que perdurou através do tempo ; de algo que
natureza (agricultura). Além do culto religioso, herdamos e transmitimos a outros.
cultura designa o trabalho da terra para se Enfim, a cultura é duradoura embora os
produzir bens comestíveis (verduras, legumes, indivíduos que compõem um determinado grupo
frutas, grãos). Assim, o termo cultura é desapareçam. No entanto, a cultura também se
empregado até hoje quando se fala em cultura modifica conforme mudam as normas e os
do café, da soja, do trigo(3). (6)
entendimentos .
Na Grécia Antiga o termo cultura adquiriu
O homem é um ser que se distingue dos
uma significação especial, ligada à formação
demais por transformar a natureza, criando
individual do homem. Correspondia à chamada
para si uma “segunda natureza”, a cultura.
paidéia, processo pelo qual o homem realizava
Evidencia-se uma concepção
sua verdadeira natureza desenvolvendo a
fundamentalmente bipolar, em que um
filosofia (conhecimento de si mesmo e do
momento subjetivo (o homem) entra em
mundo) e a consciência da vida em
contato com um objetivo (o mundo, a natureza
comunidade. Em todas essas acepções de
e o ambiente), construindo fonte de significado
cultura podemos perceber uma idéia básica de
na relação do homem com ele mesmo, com os
desenvolvimento, formação e realização. (7)
Usada por antropólogos, historiadores e outros e com a natureza .
sociólogos, a palavra cultura designa o conjunto Se a intervenção do homem na natureza
dos modos de vida criados e transmitidos de trouxe, ao longo dos séculos, melhorias à vida
uma geração para outra, entre os membros de humana, não se pode negar que provocou
determinada sociedade. Nesse sentido, abrange também grandes problemas ambientais, em
conhecimentos, crenças, artes, normas, virtude da forma e da intensidade com que se
costumes e muitos outros elementos adquiridos deu essa intervenção, sobretudo no século XX.
socialmente pelos homens. Durante mais de 99% da história da
A cultura pode ser considerada, portanto, humanidade, vigorou a concepção de que o
um amplo conjunto de conceitos, símbolos, mundo era encantado e o homem se sentia
valores e atitudes que modelam uma sociedade como parte integrante dele. Nos últimos quatro
e abrange o que pensamos, fazemos e temos séculos, a total reversão dessa concepção
como membros de um grupo social. Desta destruiu, no plano psíquico e físico, o
forma, todas as sociedades humanas, da pré- sentimento de integração do homem em relação
história aos dias atuais, possuem, uma cultura. à natureza. Isso foi responsável pela quase-
E cada cultura tem seus próprios valores e sua destruição ecológica do planeta. Mister se faz
própria verdade. Podemos acrescentar, por fim que atentemos para uma postura ética e
e numa abordagem mais filosófica, que cultura estética que venha a corroborar para um mundo
é a resposta oferecida pelos grupos humanos ao mais solidário e amoroso. A enfermagem
desafio da existência. Uma resposta que se através do fazer crítico humanizado muito tem a
manifesta em termos de conhecimento (logos), contribuir nessa era e na vindoura.
paixão (pathos) e comportamento (ethos). Isto A cultura envolve aspectos que levam
é em termos de razão, sentimento e ação(5). gerações para serem constituídas, impregnando
Diante desta conjuntura o arqueólogo as formas de agir e compreender o mundo dos
norte americano Robert Braidwood procurou grupos sociais. No entanto, essa mesma
indicar os principais elementos que caracterizam construção demonstra que o desenvolvimento
a cultura: adquirida pela aprendizagem, e não de uma cultura é vivo, em permanente e
herdada pelos instintos; transmitida de geração constante transformação e significação, o que
a geração, através da linguagem, nas diferentes possibilita o avanço de práticas, sua validação
sociedades; criação exclusiva dos seres ou não, entre as diferentes gerações(8).
humanos, incluindo a produção material e não-
material; múltipla e variável, no tempo e no O HUMANO SE REALIZA PELA CULTURA
espaço, de sociedade para sociedade. Quando A ação humana não se esgota na sua
falamos de cultura, estamos pensando em algo dimensão prática. O homem também produz

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símbolos, isto é, valores, idéias, leis, linguagem, mudar a natureza e ao mesmo tempo,
sonhos e fantasias. É assim que o homem se transformar a si próprio, ou seja, trabalhando
liberta da natureza, rompe as cadeias que o podemos modificar o mundo e a nós mesmos(5).
prendem à animalidade, subtrai-se de uma O enfermeiro ao cuidar do outro, cuida
região onde tudo se realiza imperativamente também de si mesmo. A mão que toca é
pela voz silenciosa do instinto e inaugura o também tocada. Em seu aspecto social, isto é,
mundo da liberdade, da indeterminação, da como esforço conjunto dos membros de uma
linguagem, da educação. comunidade, o trabalho teria como objetivos
Uma cultura nunca é estática, isso últimos à manutenção da vida e o
determinaria sua extinção; seus símbolos são desenvolvimento da sociedade.
reconstruídos com a participação de diferentes A intervenção de enfermagem é sinônima
atores. Cabe aos profissionais de saúde de interação humana na qual “é preciso que os
desenvolver conscientemente seu papel, como atos de cuidar sejam articulados com os
preservador de valores e comportamentos princípios de conservação de energia e
culturais(8). integridade pessoal, social, política e
A ação humana é consciente, guiada por estrutural”(9).
finalidade. Se a natureza não equipa o homem, Marx(10) afirmava que o trabalho é a
tal como os animais, para dar conta da tarefa “eterna necessidade natural da vida social”. O
de permanecer vivo, ele, associando-se aos trabalho é um fazer exclusivo do ser humano,
outros homens, toma consciência de que está por isso, determinado materialmente como
vivo e inventa algo novo que ultrapassa a corpo, como organismo, ele é dotado de vida. E
natureza. a vida humana suplanta a sua dimensão
Ele aprofunda essa consciência no biológica, corpórea, orgânica e deixa de ser
trabalho, que é ação para a sobrevivência somente um fato para ser também um valor.
material. Percebe-se como capaz de A dimensão valorativa evidencia-se no
transformar a natureza e a si mesmo no aparecimento da consciência, o homem não é
trabalho. E essa transformação ganha dotado pela natureza de uma capacidade de
consistência à medida que, pelo trabalho, ele se adaptação limitada às cercanias do ambiente.
apossa do mundo e o transforma. Ele é o mais frágil dos animais. Entretanto essa
Sua consciência também se aprofunda na fragilidade lhe abre o espaço da ação
linguagem, que lhe permite uma comunicação indefinidamente. O enfermeiro, especificamente
ampla, diversificada e aberta com outros cria, inventa os seus modos de vida, de fazer
homens(3). enfermagem, e pela interferência da
Na verdade, nenhum pensamento consciência, constrói, elabora, vislumbra os
individual cria idéias, sem referência a um alvos da sua ação enquanto ser enfermeiro,
alicerce mental formado social e culturalmente. desenhando o horizonte de sua própria vida,
Por mais individual que sejam as experiências, auto-criando-se.
outras pessoas as compartilharam de alguma O trabalho da enfermagem é, pois,
forma(7). realizado no campo do fazer humano. Quando o
enfermeiro age, cria, empreende, produz
TRABALHO / ENFERMAGEM: PRODUÇÃO DE objetos e saberes, bens materiais e bens
OBJETOS E SABERES simbólicos.
É interessante ressaltar que, Desta forma, a Enfermagem é
etimologicamente, o termo trabalho vem do compreendida como uma "ciência em
latim tripalium, um instrumento de tortura feito construção" ou seja, um conhecimento que se
de três paus. Quando pensamos sobre o papel justifica não por absoluta precisão, mas pela
do trabalho em seu aspecto individual, necessidade mesma de buscar respostas para a
percebemos que ele pode permitir ao homem questão de elevar o alcance epistemológico dos
expandir suas energias, desenvolver sua resultados das investigações na enfermagem -
criatividade e realizar suas potencialidades. Pelo seu saber e seu fazer(11).
trabalho o ser humano é capaz de moldar e

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Esses objetos e saberes são produzidos, imposição de cumpri-lo. Afinal, diz Marx, o
distribuídos, apropriados socialmente, e a trabalho alienado é um trabalho de sacrifício, de
produção, a distribuição e a apropriação desses mortificação. É um trabalho que não pertence
objetos e saberes desenham não só o campo do ao trabalhador, mas sim à outra pessoa que
fazer, isto é, o âmbito da enfermagem, do dirige a produção.
trabalho, mas também o campo da cultura e da Enquanto atividade humana, o trabalho
política. Tais dimensões estão intrinsecamente não pode ser reduzido a um processo alienante
entrelaçadas. onde o trabalhador se limita a cumprir normas e
prescrições alerta Almeida (13). O trabalho
TRABALHO: OBJETIVAÇÃO X ALIENAÇÃO compreende a subjetividade de cada sujeito e
Em Marx(12), o trabalho é processo de pode ser fonte de sofrimento e de fadiga para
exteriorização da criatividade humana e possui uns e de prazer para outros.
dois momentos distintos. O primeiro seria da
objetivação, que se refere especificamente à SAÚDE COMO DIREITO E A QUESTÃO DA
capacidade de o homem se objetivar, se SAÚDE
exteriorizar nos objetos e nas coisas que cria, o Nem sempre se delegou à cidade a
que é algo próprio do saber – fazer humano. O responsabilidade de proteger a saúde como
segundo momento, para o qual Marx(12) reserva direito fundamental do cidadão. “Quem tem
o termo alienação, seria aquele em que o acesso, na cidade, às ações e serviços de
homem, principalmente no capitalismo, após saúde?” A resposta a essa pergunta deu-se de
transferir suas potencialidades para os seus formas diversas na história conforme o
produtos, não os identifica como obra sua. “interesse” da cidade. Como fenômeno coletivo,
Os produtos “não pertencem” a quem os entretanto, a saúde torna-se objeto de cuidado
produziu. Com isso são “estranhos” a quem os dependendo sempre do modo como atinge o
produziu, seja no plano econômico, psicológico cidadão e interfere na vida “harmoniosa” ou no
ou social. Marx(12) está se referindo ao processo “equilíbrio da cidade”.
de perda de si mesmo que o trabalhador Na polis grega era necessário cultivar a
experimenta em relação ao produto de seu saúde do cidadão como forma de manutenção
trabalho. Este momento pode também ocorrer da ordem política da cidade. Cultiva-se a saúde
com o enfermeiro. como quem cultiva uma planta, para que
Na sociedade atual, o processo de crescesse bonita e com todo viço.
alienação atinge múltiplos campos da vida A saúde era, portanto um dom natural.
humana, impregnando as relações das pessoas Hipócrates, médico grego, afirmava que a
com o trabalho, o consumo, o lazer, seus natureza condicionava a saúde do indivíduo.
semelhantes e consigo mesmas. O enfermeiro Portanto, sua medicina procurava não intervir
precisa estar atento, a fim de não abrir mão de na harmonia do corpo, deixava-o refazer-se
sua capacidade de crítica e auto-crítica, a fim de naturalmente, reequilibrar-se. Perder a saúde
não enveredar pelo trabalho alienado. significava perder um elemento integrante da
O trabalho ocupa um lugar de grande natureza, condição de reconhecimento do
relevo no processo de viver humano sendo cidadão e, portanto, isto implicava como
pertinente dar lugar à expressão da conseqüência na perda da cidadania. No caso de
subjetividade dos trabalhadores e permitir a doenças graves e contagiosas havia a prática do
participação destes no planejamento e isolamento: o ostracismo.
organização do trabalho. Essa participação pode Platão no seu livro “A República” justifica o
aproximar os trabalhadores do conhecimento afastamento de velhos senis e doentes.
global do processo de trabalho evitando a Importante é o cultivo do corpo belo,
alienação e o sofrimento e promovendo o prazer harmonioso e conseqüentemente saudável. Essa
e o bem-estar na atividade laboral(13). preocupação fazia parte do código ético –
Marx(12) diz que o caráter alienado desse político de Atenas. E toda a medicina grega
trabalho é facilmente atestado pelo fato de ser mantém uma série de prescrições (alimentação,
evitado como uma praga, desde que não haja sono, exercícios), sempre procurando conter os

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excessos, submetendo o cuidado com a saúde, intersubjetividade, posto que a sociabilidade


à Razão (logos)(14). não apaga a subjetividade, o caráter individual
Se analisarmos a saúde na Idade Média, das singularidades. A questão da saúde está
veremos que ela não se constituía num direito, ligada ao âmbito da política porque:
pois não era uma preocupação da época, nem x Não é possível ao homem, nem o setor
dos governantes, nem dos padres da igreja, já saúde, prescindir da política; e,
que o corpo é preterido com relação à alma. A x Não se pensa a saúde pública atual sem
saúde, portanto, dom natural na Antiguidade, se pensar a realidade política hodierna e
preterida aos cuidados do espírito da Idade considerar as influências de toda carga
Média, só passará a ser compreendida como um histórica e política legada à humanidade.
direito, na modernidade. Quanto à dimensão humana dos sujeitos,
É somente na cidade moderna que a não só os que oferecem sua atenção específica
saúde aparecerá lenta, mas definitivamente, como os que demandam e recebem os cuidados
como um direito a ser conquistado. A partir da de enfermagem têm o direito inalienável à
ascensão da burguesia até nossos dias, quando saúde. Um direito de todos, e por isso mesmo,
o corpo passa a ser encarado como força de tão universal quanto o direito à vida e à
trabalho, do momento em que perder a saúde felicidade(11).
significa debilitar esta mesma força de trabalho,
a questão da saúde passa a ser preocupação CONSIDERAÇÕES FINAIS
coletiva. Surgem então, os sistemas de A cultura aparece, então, como a “seiva”
prevenção da doença e recuperação da que nutre a ação humana. A forma através da
saúde(15). qual a humanidade se configura no triângulo:
O processo saúde/doença é resultante da cultura (saber humano), trabalho / enfermagem
relação do homem com a natureza que se dá de (fazer crítico-humano) e política (poder
modo satisfatório ou não, através da produção humano). Dentro desta conjuntura temos a
da vida material, do trabalho, da técnica, das saúde como direito, mas também dependente
relações com os outros homens(15). da esfera política.
Hoje, direito à saúde passa pela garantia Esse conceito dinâmico de cultura como
de vida digna para a população e de acesso resultado das interações constantes, possibilita
universal e igualitário às ações e serviços de ao enfermeiro uma compreensão de que o “ser
preservação e recuperação da saúde. Esse humano é um ser que percebe e age”. Nessa
direito é o que se passou a denominar de ótica, o cliente é um “ser ativo que traz suas
consciência sanitária(15). experiências provenientes dos demais
As nuanças da pós-modernidade têm subsistemas de cuidado à saúde”(18).
exercido influência, e o ser humano está mais O trabalho viabiliza a interferência
aberto para receber e solicitar que seja cuidado consciente do homem na natureza; a cultura
na sua condição de humano(16). O marco que resulta da capacidade de reter e classificar, sob
precisamos alcançar é a saúde promovida de a forma de idéias, os resultados dessa
forma coletiva abrangendo todas as classes interferência na natureza; e a política refere-se
sociais e faixas etárias englobando os mais ao ordenamento do mundo dos bens e dos
variados assuntos direta ou indiretamente o que saberes, estabelecendo a dinâmica da produção,
contribuirá para a melhoria da qualidade de vida da circulação e do usufruto desses bens e
dos indivíduos. Isto é o anseio de toda e desses saberes.
qualquer sociedade, e constitui a expressão Finalmente, cultura, saúde e enfermagem
maior da cidadania(17). são instâncias profundamente imbricadas. Não
A saúde está diretamente ligada à política, há como se falar em saúde sem se referenciar a
pois política é poder humano. O campo da enfermagem. Não há como se falar de
política se configura na existência do conflito enfermagem se não considerarmos a cultura e
entre a dimensão privada e a pública, na as políticas de saúde. Fazer enfermagem é
medida em que o homem é um ser social. Essa fazer-se dentro do contexto da saúde e da
configuração inclui a realidade da cultura.

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valores, novas maneiras de pensar e agir em Hühne LM. Fazer filosofia. Rio de Janeiro: UAPÊ;
saúde(19). Assim, a reflexão apresentada neste 1994. p. 213-78
estudo soma-se àqueles que desejam “dominar 16. Silva LC, Terra MG, Camponogara S,
conhecimentos capazes de apoiar a construção Erdmann AL. Pensamento complexo: um olhar
científica, seja como meta para atingir o status em Busca da solidariedade humana nos
das ciências seja para definir de vez o valor do Sistemas de saúde e educação. Rev. enferm.
corpus doutrinae da profissão”(20). UERJ. 2006;14(4):613-9.
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