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O LOGUS DO PERSONAGEM

CRÁTILO NO DIÁLOGO
HOMÔNIMO
DE PLATÃO
Ivanaldo Santos

Resumo: não é intenção desse pequeno estudo realizar uma


exegese exaustiva do Crátilo, muito menos do personagem Crátilo que
aparece no referido diálogo. Apenas tenciona-se, de forma introdutória,
investigar o logos do personagem Crátilo. Para tanto, ele foi dividido em
quatro partes. Sendo elas: 1. A palavra logos, 2. O logos de Heráclito, 3.
O logos de Crátilo e 4. O logos do personagem Crátilo.

Palavras-chave: Platão, Crátilo e logos

O 
personagem Crátilo aparece na segunda grande partea do diálogo
homônimo de Platão (Crátilo, 428-440) defendendo a posição
naturalista da linguagem. Segundo essa posição os nomes ou são ver-
dadeiros, ou não são nomes de qualquer espécie. De acordo com o personagem
Crátilo ou uma palavra é a expressão perfeita de uma coisa, ou é apenas um som
articulado. Este personagem entrou para a tradição filosófica como o indivíduo
que no diálogo Crátilo “fala pouco” (CASSIN, 1990, p. 27; PAVIANI, 1993,
p. 39) e é “tonto e incapacitado” (RODRIGUES, 1998, p. 41).
Entretanto, é preciso questionar: realmente Platão no referido
diálogo apresenta a imagem real de Crátilo? As idéias e a imagem de um
pensador tonto e incapacitado correspondem ao Crátilo histórico? Esses
questionamentos são importantes, pois como afirma Gadamer (2005, p.
525): o Crátilo é o escrito básico sobre a linguagem, de “tal modo que a
discussão grega posterior, que conhecemos apenas fragmentariamente,
quase não acrescenta nada de essencial” e, por sua vez, Pereira (2008, p. 2,
grifo do autor) afirma que após o Crátilo “nada se avançou substancialmente no
esclarecimento da ontologia própria da linguagem” .

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Ora, se o Crátilo é o texto fundante da discussão sobre a linguagem
no Ocidente e após sua publicação quase nada se avançou do ponto de
vista teórico-filosófico, então esclarecer a verdade em torno desse texto
é fundamental para os estudos da linguagem no Ocidente. Saber se
realmente Platão apresenta a imagem real de Crátilo é algo importante
para os estudos da linguagem. Não se trata de uma mera abstração dos
filósofos, mas de uma questão que pode conduzir a uma compreensão
mais esclarecedora desse diálogo e, por conseguinte, da própria discussão
em torno da linguagem.
É preciso observar que o personagem Crátilo tem um papel de
relevância no referido diálogo. A tradição filosófica atribuiu o subtítulo
ao diálogo de Dos nomesb. Entretanto, oficialmente esse subtítulo não
existia no século V a.C., época em que o diálogo foi composto. Nesta
época havia apenas o título Crátilo, para o diálogo. Título este que se não
foi dado pelo próprio Platão, pelo menos foi designado por seus alunos
na Academia.
Além disso, o Crátilo histórico – e não o Crátilo que aparece no diálogo
homônimo – foi o primeiro mestre de Platão. Quem afirma tal proposição é
Aristóteles, o maior dos discípulos de Platão e uma fonte história confiável.
Segundo Aristóteles, Platão teria se “familiarizado desde jovem com Crátilo
e com as doutrinas heraclitéias (de que todas as coisas sensíveis se encontram
em perpétuo fluxo e não se pode ter conhecimento delas), manteve mais
tarde essas opiniões” (Metafísica, A 6, 987 a 32).
O Crátilo histórico foi um discípulo do filósofo Heráclito de Êfeso.
Um discípulo radical que nas palavras de Cassin (1990, p. 29) “representa
a opinião mais extrema, seria mais heraclitiano que Heráclito”. Esse extre-
mismo se deu ao ponto dele não falar nada e se contentar em apenas agitar
o dedo. Sobre essa questão, Aristóteles afirma:

Foi essa a opinião que floresceu na mais extrema das doutrinas, a dos que
se dizem discípulos de Heráclito, tal qual a defendida por Crátilo, que
acabou persuadindo-se de que não devia dizer nada e se contentava em
agitar o dedo, e criticou Heráclito por ter dito que é impossível entrar
duas vezes no mesmo rio; pois ele, Crátilo, opinava que isso não se pode
fazer sequer uma vez (Metafísica, IV, 5, 1010-13).

De acordo com Aristóteles, Crátilo teria levado ao extremo a doutrina


do fluxo contínuo de Heráclito. Em Crátilo não seria possível sequer entrar
no rio uma única vez. É por causa dessa posição extrema que Crátilo defende

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que as palavras “manifestam efetivamente a essência do objeto” (Crátilo,
393 d). Se a realidade é um fluxo radical de mudança, apenas a linguagem
poderá indicar os objetos e, por conseguinte, construir alguma forma de
conhecimento sobre a própria realidade.
Sendo assim, vê-se que a figura do Crátilo histórico tem uma signi-
ficativa importância dentro da discussão travada por Platão. Se não fosse
dessa forma, o diálogo poderia, inclusive, ter outro nome e não Crátilo.
Além disso, é preciso observar que, de alguma forma, o título do diálogo
é uma homenagem que Platão realizou ao seu ex-mestre. Por motivos que
ele não expõe no diálogo o Crátilo histórico era uma pessoa admirada pelo
mestre da Academia.
Não é intenção desse pequeno estudo realizar uma exegese exaustiva do
Crátilo, muito menos do personagem Crátilo que aparece no referido diálogo.
Apenas tenciona-se, de forma introdutória, investigar o logos do personagem
Crátilo. Justifica-se a relevância desse objeto de estudo afirmando, juntamente
com Heideggerc (2002, p. 252), que tradicionalmente a palavra logos está
associada a “palavra”, “discurso” e “linguagem”. De certa forma, investigar
o logos do personagem Crátilo é tentar conhecer melhor a discussão sobre a
linguagem desenvolvida por Platão no diálogo homônimo. Para tanto, ele
foi dividido em quatro partes. Sendo elas: 1. A palavra logos, 2. O logos de
Heráclito, 3. O logos de Crátilo e 4. O logos do personagem Crátilo.

A PALAVRA LOGOS

Inicialmente, é preciso discutir um pouco em torno da palavra logos.


Como afirma Heidegger, ao comentar o pensamento de Heráclito, essa pa-
lavra é carregada de uma forte obscuridade. Ele mesmo chega a perguntar:
“Será que nós, [...], podemos pretender saber melhor do que os gregos, eles,
que pensando no elemento de sua língua, e somente eles, deviam saber o
que diz logos?” (HEIDEGGER, 2002, p. 251).
O próprio Heidegger demonstra o grande problema que há em torno
dessa palavra grega.

Todavia, devemos aprender que logos não significa ‘palavra’, ‘discurso’,


‘linguagem’, porque o significado fundamental da palavra grega logos
não pode absolutamente referir-se a ‘discurso’, ‘linguagem’. Não indica
nada de lingüístico ou de alguma função de linguagem. No entanto,
é igualmente certo que, desde os primórdios entre os gregos, logos [...],
significa o mesmo que ‘discurso’ e ‘dizer’ [...].

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Heidegger demonstra como a palavra logos é enigmática. Apesar do
seu sentido original não designar “palavra”, “discurso” e “linguagem”, desde
os primórdios da civilização grega que essa palavra é usada para designar
“palavra”, “discurso” e “linguagem”.
Já para Berge (1969, p. 73) a palavra logos tem por função “tornar visível o
invisível e revelar. Portanto, [...], em termos gerais: logos é o discurso que revela a
physis”. Ou seja, logos é a palavra que tem por finalidade relevar o discurso sobre
o mundo físico, incluindo o ser humano e todas as ações por ele praticadas.
Não é intenção realizar uma discussão profunda sobre a palavra logos,
mas apenas mostrar que ela, de um lado, não pode ser totalmente definida,
e, por outro lado, designa o discurso, a linguagem, que envolve o mundo
físico, incluindo o ser humano.

O LOGOS DE HERÁCLITO

Inicialmente, é preciso afirmar que pouco se sabe sobre a vida do


filósofo pré-socrático Heráclito, natural da cidade de Êfeso, que viveu
provavelmente no final do século VI a.C. e início do século V a.C. O que
se sabe a seu respeito está envolto em lendas e mitos, e, por isso, nada é
afirmado com segurança. Em grande medida, o que se relata sobre sua vida
foi difundido dentro das biografias de Sócrates e Pitágoras.
De acordo com Spinelli (1998, p. 207), o termo logos não foi inventado
por Heráclito, uma vez que este termo já estava incorporado à literatura da
época. Ele aparece, por exemplo, em Homero.
Sobre a importância do logos no pensamento de Heráclito, Mesquita
(2006, p. 29, grifo do autor) afirma:

[...] filosofar consiste, para Heráclito, na progressiva desocultação do ‘logos’


como natureza oculta das coisas, assim também o acompanhamento da
filosofia de Heráclito exige que se assista à determinação progressiva do
conceito de ‘logos’ dentro dessa mesma filosofia.

Ainda sobre o logos no pensamento de Heráclito, Berge (1969) afirma


que ele tem uma dupla finalidade. De um lado, conduz o ser humano à
experiência com a existência e, de outro lado, a existência é o caminho para
a realização da viabilidade do próprio logos. Em suas palavras:

[...] é o logos que existe sempre, segundo o qual tudo procede, a força
vital. A quem se lhe entrega, na reflexão, desde o despontar da consciência

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própria, [...], ele o conduz a plena existência. E esta, em que consiste?
Exatamente no reconhecimento do logos e na organização da vida que
lhe corresponde. Dando-lhe ordem interior, o logos preserva o homem da
inanidade comum (BERGE, 1969, p. 80).

Segundo Berge o logos, em Heráclito, tem a função de preservar o


ser humano da inanidade, ou seja, do processo de negação da humanidade
e da força vital que emana dela. Por isso, ele “ocupa tudo, cosmo, polis e
indivíduo” (BERGE, 1969, p. 81).
Neste sentido, o logos no pensamento de Heráclito é linguagem.
Entenda-se linguagem enquanto plano unificador dos contrários, ou seja,
unificação entre a unidade e a mudança presente num fluxo constante na
realidade. A linguagem surge como fundamento da efetivação de qualquer
coisa dentro do real. Entenda-se a palavra coisa como um amplo legue de
possibilidades que vão desde o cosmo, passando pelo ser humano até chegar
à vida social e cultural.
Entretanto, é bom lembrar que, segundo Cassin, há um problema
“entre o que Heráclito disse verdadeiramente e o que alguns pensam que
disse, [...], e depois entre o que Heráclito poderia ter dito, e o que verda-
deiramente assumiu pensar” (1990, p. 29). Além disso, por haver tanto
desconhecimento sobre a vida e a obra de Heráclito é que Grammatico
(1992/1993) defenda a tese de que não é possível conhecer plenamente
o logos de Heráclito, mas apenas se aproximar dele. E Mesquita (2006)
observa que não se pode conhecer plenamente o pensamento de Heráclito,
mas apenas empreender uma tentativa de reconstrução do mesmo. Sobre
o logos em Heráclito, ele ressalta que “não pode ser escutado ainda quando
está a ser ouvido” (MESQUITA, 2006, p. 29).

O LOGOS DE CRÁTILO

Não é possível falar muito sobre o logos de Crátilo. Se o logos de He-


ráclito, mestre de Crátilo, ainda é uma questão não resolvida pela filosofia,
pior é o logos de Crátilo. O motivo é que este nada deixou escrito e quase
nada se sabe sobre seu pensamento.
Além de Platão, a fonte de informação mais confiável é Aristóteles.
Como visto anteriormente, na Metafísica Aristóteles apresenta Crátilo como
sendo um discípulo radical de Heráclito que contrariamente ao pensamento
de seu mestre, afirmava que devido a radicalidade do fluxo constante da
realidade não é possível se quer entrar no rio uma única vez.

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Com este extremismo, a linguagem emerge como única forma de
construção, sustentação e efetivação de qualquer coisa dentro da realidade.
Como o fluxo é radicalmente constante, então apenas a linguagem poderá
dá alguma sustentação a realidade. Ela é o único veículo capaz de produzir
conhecimento e dá alguma garantia ao ser humano. Por essa perspectiva,
o logos de Crátilo é uma radical igualdade entre linguagem e objeto. Dessa
forma, a palavra representa de fato o objeto.
Entretanto, é preciso ressaltar que Crátilo não deixou para a filosofia
nenhum documento escrito. O que a tradição possui é a interpretação
realizada das idéias desse autor por pensadores ilustres como, por exemplo,
Platão e Aristóteles. Sendo assim, da mesma forma como a questão do
logos em Heráclito ainda é um problema em aberto, este mesmo problema
encontra-se também em aberto em Crátilo.

O LOGOS DO PERSONAGEM CRÁTILO

Como salienta Macedo (1998, p. 50) no diálogo homônimo de Platão


o personagem Crátilo – e não o Crátilo histórico – “pouco fala: um quinto
do diálogo. No resto do tempo fazem-no falar, falam por ele. Segundo toda
a aparência, Crátilo pensa, mas não diz nada”. O próprio Platão deixa essa
questão um tanto quando clara, quando afirma: “[Crátilo] finge abrigar no
seu interior um pensamento, mas nada diz” (Crátilo, 384a).
É preciso esclarecer que o Crátilo é um “diálogo mordazmente irônico
e zombeteiro” (SANTOS, 2002, p. 22). Uma peça teatral cômica que tem
por objetivo central a discussão sobre os fundamentos da linguagem e como
objetivo secundário realizar uma série de discussões paralelas com correntes
de pensamentos diferentes existentes na Grécia do século V a.C. Entre essas
correntes encontra-se o pensamento de Heráclito e a respectiva recepção
realizada por seus discípulos, representados por Crátilo.
Atualmente, os diálogos de Platão são lidos com grande seriedade dentro
das universidades, centros de pesquisas e demais estabelecimentos de discussão
filosófica. Esquece-se que os diálogos, e especialmente o Crátilo, eram – na sua
formulação original – encenações teatrais que, além do sentido filosófico-peda-
gógico, continham um forte senso de humor. Os diálogos eram uma forma de
Platão e dos membros da Academia criticar os sofistas, outros filósofos e setores
da sociedade e da cultura grega, mas também eram uma forma de criar uma
atmosfera de descontração e de sorriso, mesmo que esse sorriso fosse irônico.
Não é intenção desse pequeno artigo exaurir a questão da ironia pla-
tônica. Entretanto, é preciso colocar a encenação teatral e a ironia dentro

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do contexto do Crátilo e da discussão envolvendo o personagem que leva
o nome do referido diálogo. Sobre essa questão Medeiros (1994, p. 23)
chama a atenção de que sem levar em consideração o “estilo e sua textura
interna” não é possível compreender esse diálogo. Para tanto, essa seção será
subdividida em duas partes: 4.1. A encenação cômica presente no Crátilo,
4.2. Platão e a crítica ao logos de Crátilo.

A Encenação Cômica Presente no Crátilo

De acordo com Colli (1988, p. 96) em Platão o “instinto mais forte foi o
do literato, do dramaturgo”. Sobre essa mesma questão, Paviani (1993) afirma:

[...] os diálogos de Platão são obras “dramáticas” e não mero artifício


de exposição ou procedimento metodológico. São “dramáticas” no
aspecto de encenarem o sentido da questão, do problema ou da per-
gunta proposta. Exigem a participação do leitor à semelhança de uma
obra literária e não apenas uma vigilância de raciocínio (PAVIANI,
1993, p. 13).

Enquanto dramaturgo, Platão procura encenar o drama da questão


filosófica que está em debate (justiça, belo, verdade, linguagem, etc). É por
esse motivo que Szlezak (2005, p. 139) afirma que a “compreensão dos
diálogos de Platão [...], só é possível a partir das possibilidades do gênero
maior: o drama”. Platão faz uso do “literário de modo dialético para abrir
as possibilidades” (PAVIANI, 1993, p. 76) do debate filosófico. Poucos
autores na história das idéias no Ocidente foram capazes de retirar reflexões
e conseqüências tão extremas e radicais de um problema filosófico. Basta ver
que até hoje são discutidas questões como, por exemplo, o Estado ideal, a
Teorias das Idéias e a questão da linguagem.
No tocante ao Crátilo é preciso frisar que se trata do diálogo mais
irônico de Platão. Um bom exemplo do grau de ironia desse diálogo é o
fato de Platão (Crátilo, 427e-429b) afirmar com ares de riso que deseja ser
discípulo de Crátilo – uma referência indireta ao fato de na juventude Crátilo
ter seu mestre –, mas é Crátilo que é discípulo de Platão. Uma sofisticada
ironia que mostra a inversão que aconteceu dentro da intelectualidade grega
do século V a.C., ou seja, o fato do discípulo (Platão) ter se tornado, de
alguma forma, o mestre do seu ex-mestre (Crátilo).
De forma superficial e introdutória apresentam-se três técnicas de
dramaturgia cômica desenvolvida por Platão no Crátilo.

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A primeira técnica é a caricaturização. Platão apresenta, com um humor
sarcástico, suas críticas a concepção lingüística dos sofistas, de Heráclito e
de seus respectivos seguidores, especialmente Crátilo. No tocante a crítica a
Heráclito e a seus seguidores, ela é realizada por meio de uma caricaturização
de Crátilo. Ao invés dele ser apresentado como um pensador que faz uma
discussão inovadora no campo do debate filosófico sobre a linguagem, ele é
ridicularizado. Platão apresenta-o como uma pessoa que tem dificuldade de
raciocinar. É preciso frisar que Platão utiliza a técnica da caricaturização em
outros momentos de sua obra como, por exemplo, no Livro I da República
quando ele enfrenta e derrota o sofista Trasímaco.
A segunda técnica é o que Szlezak (2005, p. 30) classifica de ocultação
do saber, ou seja, é a suspeita que impregna o diálogo de que Sócrates – o
interlocutor que Platão utiliza para apresentar suas críticas e idéias pessoais
– não quer mostrar seu saber, não em sua totalidade, seja simplesmente a fim
de retê-lo para si ou porque o interlocutor não é capaz de compreendê-lo.
É uma brilhante técnica de dramaturgia cômica. Durante todo o diálogo
o leitor leigo, ou seja, o leitor que não é especialista na obra de Platão, não
consegue saber se Platão realmente está expondo totalmente o seu saber.
Fica-se constantemente com a dúvida de que há algo mais a ser pronunciado,
mas que Platão – por razões desconhecidas – não deseja fazê-lo. Essa dúvida
é presente até mesmo no momento decisivo onde ele expõe a aporia, ou seja,
quando ele afirma que “[...] é possível, Crátilo, que tudo [que foi discutido],
realmente, seja assim; é possível também que não” (Crátilo, 440d). Até
mesmo neste momento fica a dúvida sobre se realmente ele está dizendo a
verdade ou se está ocultando-a por razões que o leitor desconhece.
A terceira e última técnica é a ação contínua. O Crátilo é um diálogo
que possui começo, meio e fim. Ele possui uma seqüência cômica linear.
Platão procura mostra passo a passo os detalhes desse drama. O leitor sabe o
local onde começa a discussão, as grandes partes do diálogo, onde há algum
tipo de interrupção e o final do diálogo. Essa técnica é importante porque,
de um lado, facilita ao leitor acompanhar e compreender a discussão que
Platão deseja que o leitor tenha acesso e, de outro lado, o leitor familiarizado
com os debates filosóficos do século V a.C. poderá dá boas risadas com as
ironias contidas no diálogo.
Entretanto, como observa Benoit (2003), no tocante a discussão sobre
a linguagem é preciso ver que o Crátilo não é um drama isolado. Ele é um
diálogo que está inserido dentro de um círculo dramático compostos pelos
seguintes diálogos: Teeteto, Eutifron, Crátilo e Sofista. Não é intenção desse
artigo discutir o círculo dramático que envolve o Crátilo. Todavia, afirma-se

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que para haver uma compreensão desse diálogo é preciso ter a consciência
que Platão idealiza uma peça teatral cômica. Faz parte dessa peça a “postura
silenciosa de Crátilo, tolerante o suficiente para aprovar aquilo que jamais
aceitaria” (RODRIGUES, 1988, p. 40).
Dentro do quadro que apresenta o Crátilo como uma encenação
cômica e que essa encenação encontra-se dentro de um círculo dramático
maior que envolve outros diálogos do mesmo autor, é preciso realizar três
questionamentos-problemas sobre o logos do personagem Crátilo que emerge
desse diálogo.
Primeiro questionamento-problema é o fato, salientado anteriormen-
te, que devido à escassez de fontes documentais originárias dos séculos VI
e V a.C. não é possível ter certeza se o que se afirma do logos de Heráclito
e do seu discípulo Crátilo corresponde a verdade. Sendo assim, pergunta-
se: é possível confiar totalmente na interpretação do logos de Crátilo feita
por Platão?
Segundo questionamento-problema é que apesar de haver quase uma
unanimidade que afirma que Crátilo foi um discípulo radical de Heráclito,
não há provas histórico-documentais que possam afirmar com certeza que
a interpretação que Platão apresenta no Crátilo corresponde a verdade.
Sendo assim, pergunta-se: há interpretação de Platão é a única verdadeira?
É possível construir alguma interpretação que – apesar do peso e da força da
tradição que Platão conferiu a tradição – possa ser diferente da interpretação
exposta no Crátilo?
Terceiro e último questionamento-problema é que no Crátilo tem-
se, de forma muito sofisticada, apenas a opinião de Platão. O discurso que
neste diálogo historicamente é atribuído a Crátilo é em grande medida
uma caricaturização das idéias do Crátilo histórico. Por isso, questiona-se:
se não há neste diálogo a interpretação que apresente as idéias do Crátilo
histórico, então é possível tê-lo como uma fonte autêntica do logos do
Crátilo histórico?
O objetivo desses questionamentos-problemas em hipótese alguma
é desacreditar Platão e a originária discussão sobre a linguagem que ele
realiza no Crátilo. Todavia, deseja-se apenas refletir sobre a existência ou
não do logos do Crátilo histórico neste diálogo. Como lembra Rodrigues
(1998, p. 40) “pairam dúvidas sobre a doutrina de Crátilo” apresentada no
referido diálogo.
É preciso notar que apenas pairam dúvidas. Em hipótese alguma houve
algum tipo de negação oficial e radical apresentada por algum comentador
ou especialista sobre as idéias de Crátilo apresentadas por Platão. Sobre

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essa questão Paviani enfatiza que “Crátilo, este, mesmo reconhecendo as
dificuldades, continua um heraclitiano’ (1993, p. 42). É por causa disso que
é preciso apresentar, mesmo que de forma introdutória, a crítica de Platão
ao logos de Crátilo.

Platão e a Crítica ao logos de Crátilo

A crítica de Platão ao logos de Crático é de suma importância. Como


afirma Macedo “se o mundo é heraclitiano (no sentido apresentado por Crá-
tilo), então nada se pode dizer de verdadeiro, e consequentemente o filósofo
[e qualquer outro pesquisador] deverá se calar” (1998, p. 50). Validando a
equivalência de Platão dos entes ao rio de Heráclito, afirma-se que se entrar
duas vezes no mesmo rio é simplesmente dizer que não se consegue perceber
duas vezes os mesmos entes como defende Heráclito ou então afirmar como
Crático, radicalizando a tese de Heráclito, que se deve apenas apontar os
objetos, é, pois, dá a entender que é impossível fixar os entes. Se é impossível
fixar os entes, sejam quais forem, então também será impossível construir
qualquer noção de linguagem. A linguagem, enquanto logos, só é possível
porque os entes podem ser fixados de alguma forma. Platão demonstra no
Crátilo os limites da tese de Heráclito e de seu discípulo.
É preciso compreender que a proposta de Crátilo de uma identidade
radical entre o objeto e o logos, ou seja, a linguagem, é inviável, pois como
Platão demonstra (Crátilo, 432d) se houver uma identidade radical entre
ambos, então nenhum dos dois poderiam ser distinguidos. A consequência
dessa identidade radical é que ou só existiria o objeto ou só existiria a lingua-
gem. Se o ser humano encontra na realidade os dois em planos diferentes,
então é porque a tese defendida por Crátilo é falsa.
Além disso, como ressalta Paviani (1993, p. 46), existe no natura-
lismo radical defendido por Crátilo, ou seja, a identificação entre objeto e
linguagem, dois sérios problemas internos.
Primeiro, a uma grave confusão entre identidade e semelhança. O que
Crátilo classifica de identidade não passa de semelhança. A linguagem pode,
em grande medida, ser semelhante ao objeto, mas não idêntica a ele. Pois,
se isso acontecer não será possível distinguir os dois.
Segundo, na perspectiva de Crátilo não há qualquer necessidade – nem
para o filósofo e nem para qualquer outro pesquisador – da existência dos
elementos fonéticos e gramaticais da linguagem. É como se o ser humano
tivesse acesso ao logos em si, ou seja, a linguagem tal qual ela se apresenta
a si mesma. O problema é que o ser humano não tem acesso a linguagem

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em si. Ele necessita dos elementos fonéticos e gramaticais para poder ter
acesso, de alguma forma, à realidade.
Por fim, é preciso frisar que apesar de não ser possível revelar comple-
tamente o logos de Crátilo é preciso reconhecer que este pensador contribuiu
para o aperfeiçoamento da discussão em torno da linguagem. Os erros e
limitações que Platão identificou na tese defendida pelo Crátilo histórico e
apresentou no diálogo homônimo são, em grande medida, frutos de pro-
fundas reflexões e erros de argumentação e de análise hermenêutica. Estes
erros são comuns e até mesmo necessários dentro da discussão filosófica,
pois é graças a eles que é possível a evolução da qualquer debate, incluindo
o logos.

Notas
1
Neste pequeno ensaio não será discutido se o Crátilo é um diálogo com duas
ou mais partes.
2
Em grande medida o subtítulo Dos nomes foi retirado da seguinte passagem do
diálogo: “[...] em que consiste a natural exatidão dos nomes” (Crátilo, 391a).
3
É preciso deixar claro que a investigação que Heidegger (2002, p. 253) realiza
em torno do logos é feita a partir parti de seu projeto de estudar e elucidar a
questão do “afastamento do significado originário”.

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Abstract: this paper has not intended to carry out a Cratylus’s thorough exegesis or much less of
the Cratylus’s character that appears in that dialogue. It has only intended in an introductory
way, investigating the logos of Cratylus character. Thus, it was divided into four parts, such as:
1. The word logos; 2. The Heraclitus’ logos; 3. The Cratylus’s logos and 4. The Cratylus’s character
logos.

Keywords: Plato, Cratylus and logos

IVANALDO SANTOS
Doutor em Estudos da Linguagem. Professor do Departamento de Filosofia e do Programa
de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da UERN. E-mail: ivanaldosantos@yahoo.com.br

746 Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 19, n. 9/10, p. 735-746, set./out. 2009.

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