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Acheron Livros e afins

A MISSÃO AGORA
É AMAR

Acheron Livros e afins


Acheron Livros e afins

A MISSÃO AGORA
É AMAR
Livro 1

Acheron Livros e afins


Acheron Livros e afins

CRISTINA MELO

Acheron Livros e afins


Acheron Livros e afins

Copyright© 2016 por Cristina Melo


Copyright© 2016 por Editora Bezz

Revisão: Lucilene Viera

Todos os direitos reservados e protegidos pela


Lei 9.610 de 19/02/1998.
Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada
ou reproduzida sob quaisquer meios existentes
sem autorização por escrito dos editores.

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Acheron Livros e afins

Índice

Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10

Acheron Livros e afins


Acheron Livros e afins
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
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Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
CAPÍTULO 1

Acheron Livros e afins


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Prólogo

— Desce do carro, porra! Anda logo,


quero ver sua cara, seu desgraçado! ─
eu estava cego de ódio.
— Abre a porta devagar ou vai
morrer aí mesmo!
Aponto o fuzil bem próximo à janela,
só aí percebo que tem mais gente dentro
do carro, e era uma mulher que está em
pânico. Eu tinha estragado sua festinha,
que bom!
— Desce todo mundo da porra do
carro, estão surdos?! — Era sempre
assim com esses infelizes, todos
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valentões, mas quando chegavam na
nossa frente, viravam umas moças.
Faço gesto para o Michel que vai
para a porta do carona, onde estava a
moça. Ele aponta a arma para ela, que
desce do carro com as mãos para o alto,
em pânico. Ela fica parada na lateral do
carro com as mãos erguidas e está aos
cuidados de Michel. Agora esse infeliz
seria todo meu, se não saísse do carro
por bem, sairia por mal. Vou para a
lateral do carro enquanto Carlos assume
meu lugar e Fernando à frente dele.
Abro a porta do carona, e quando vou
puxar o desgraçado lá de dentro, vejo
mais uma mulher no banco de trás do
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automóvel. Ela está pálida e totalmente
parada.
Puxo o infeliz com tudo para fora e o
derrubo no chão; ele fica lá na mira de
Carlos. Ela arregala os olhos para mim
e me perco um pouco naqueles olhos.
— Está maluca?! Quer morrer?! Saia
da porra do carro! ─ continuo
apontando a arma em sua direção. Ela
parece acordar e começa a sair do
automóvel, pelo lado que o Michel
estava, pois, esse modelo de carro só
tinha três portas. Ela fica lá parada ao
lado da amiga e, por um segundo, me
perco em sua beleza. Nossos olhos se
encontram e é como se só existissem nós
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dois ali. Ela me olha bem séria, com
uma intensidade que nunca tinha sentido
antes com ninguém. Como podia uma
mulher tão linda andar com um verme
como esse? E quando penso isso, me
lembro do verdadeiro motivo para eu
estar aqui. Eu nunca tinha me distraído
assim em uma operação. Que porra é
essa?! Em seguida, me abaixo e puxo o
infeliz pela camisa e o jogo em cima do
capô do carro.
— Você vai se arrepender de ter
nascido, seu infeliz! — Digo, olhando
em seus olhos. Ele começa a falar.
— Eu não sei o que está acontecendo,
mas o senhor está enganado, eu não fiz
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nada, só viemos a uma festa aqui, só
isso.
— E eu sou o papai Noel! ─ digo com
toda a raiva.
— Ele está dizendo a verdade, nós
não fizemos nada, e não é assim que se
aborda um suspeito ─ eu não estava
ouvindo isso, agora aquele infeliz que
tirou a vida do meu amigo, era suspeito?
Viro-me em direção à voz que estava
querendo me ensinar a fazer meu
trabalho, e era ela, que me encarava,
muito irritada.

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Capítulo 1
Lívia

— Então... — disse para minha


amiga Bia, que me olhava com cara de
quem já sabia o que eu ia dizer, ela me
conhecia mais que eu mesma.
— Eu sei que sou injusta com ele
algumas vezes — Bia me olhava com a
sobrancelha um tanto erguida, já sei que
por aí vem coisa.
— Está bom, Lívia, não acho que ele
seja esse santo todo que você imagina,
sabe que eu tenho lá minhas dúvidas em
relação à fofurice dele, perfeito demais!
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Bia vivia desconfiada em relação ao
Otávio, meu noivo. Sempre dizia que
ele era perfeito demais, santo demais,
compreensivo demais e nunca se
manifestava com nada do que eu fizesse,
dissesse, ou com qualquer atitude que eu
tomasse. Ele sempre aceitava tudo, e
dizia que o amor dele superava todas
essas adversidades.
Estávamos juntos há quase um ano e
meio. Foi meu primeiro namorado sério,
com seis meses de namoro me pediu em
casamento; aceitei, pois, nosso
relacionamento era perfeito. Ele é o
noivo que qualquer mulher gostaria de
ter: adora fazer surpresas, sempre me
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elogia, vive me paparicando e diz tudo
que uma mulher gosta de ouvir. Apesar
de amá-lo, nunca tive aquela paixão
arrebatadora que se lia nos livros, mas
acho que na vida real é assim mesmo e,
para mim, funciona do jeito que é.
— E então, mocinha, o que você está
tramando para pedir desculpas ao seu
príncipe encantado? — Perguntou Bia.
Na verdade, Bia chamava-se Bianca.
Nós nos conhecemos no ensino
fundamental, e desde então, nunca nos
desgrudamos. Estudamos juntas todo o
ensino médio e fazemos até a mesma
faculdade. Estamos agora no último
período de Educação Física. A dupla
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imbatível, era assim que nos chamavam.
Mas, eu prefiro pensar que ela é a irmã
que nunca tive. Sei que era. Sabia que
podia contar com ela para tudo, até se
uma bomba nuclear caísse, ela iria me
socorrer e vice-versa.
— Estou pensando em fazer uma
surpresa em seu escritório hoje, pois
nunca vou lá e ele vive reclamando
disso.
Foi lá que conheci Otávio, pois tive
que procurar um advogado para
resolver as pendências do inventário do
meu pai. E apesar da fase difícil que eu
estava passando, fiquei totalmente
deslumbrada com sua beleza e
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educação, ele era simplesmente lindo!
Depois de uma semana indo ao seu
escritório, ele me convidou para jantar.
Depois de um mês insistindo muito,
resolvi aceitar e, desde então, estamos
juntos.
— E como você pretende fazer essa
surpresa? Com balões de corações,
plumas e paetês ou simplesmente vai
alugar um carro de som e fazer uma
declaração para que todos no centro da
cidade escutem? Você poderia dizer
assim na mensagem: Otávio, me perdoa,
eu te amo! Você é meu príncipe
encantado, então me deixa ser sua
princesa? Estou imaginando a cara dele
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de homem mais feliz do mundo — ela
começa a rir sem parar.
— Essa foi boa, não foi? Há! Já sei!
Tem uma boa: você pode se fantasiar de
onça e pedir para ele ser seu caçador
sem lei. Essa eu acho que ele iria gostar
mais.
— Para, Bia! Estou falando sério e
você fica de sacanagem! Estou
precisando de uma dica séria, tenho que
me redimir, pelo menos um pouco!
— Calma! Só estou tentando
descontrair um pouco, quem sabe assim
você pode pensar em uma coisa que
valerá a pena. Digo, muito a pena!
— Desculpa, estou nervosa porque
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estou sem ideias e também porque eu
nunca fiz isso antes, será a primeira vez
que irei fazer uma surpresa para ele.
A Bia fazia piada de tudo, não que
isso me irritasse, na maioria das vezes
ela era sempre muito engraçada, eu
adorava seu senso de humor e de como
ela fazia piada e via o lado bom de
tudo. Peguei um pouco isso dela. Mas
hoje, eu realmente estava nervosa e sem
saber como agir. Queria só o lado das
suas ideias mirabolantes, pois sempre
brincávamos que ela era o cérebro e eu
o coração. As grandes ideias sempre
vinham dela. Ela fica me olhando, acho
que está pensando no que dizer.
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— Estava esperando que você me
desse a “grande ideia”! Pois você é a
sabichona aqui! — Eu disse olhando
para ela.
— Eu hein! O príncipe é seu, você
decide. Tire-me dessa amiga — disse
ela, distraída, mexendo na unha.
— Poxa, Bia! — Usei minha voz de
drama e fiz aquela cara do gato do
Shrek, ela sempre caía.
— Agora é sério Lívia, o cara te
ama! Se você aparecer lá fantasiada de
Carmem Miranda, ele vaicomeçar a
dançar: o que é que a baiana tem?!
— Bianca! — Jogo uma almofada na
direção de sua cabeça, que ela desvia.
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— Que foi? Pediu uma ideia e eu
estou te dando — fala bem séria, me
olhando, batendo os longos cílios.
Caímos na gargalhada, como sempre
acontecia.
— Certo, sua maluca! Vou tomar um
banho, pois já são quinze e trinta, e ele
costuma sair às dezoito horas. Acho que
vou optar pelo modo tradicional mesmo,
tipo, chegar lá e convidá-lo para jantar.
— Vai, amiga, tomar aquele banho e
ficar tão linda! Que seu noivo vai ter um
ataque fulminante e cair mortinho, assim
que você passar pela porta — finge
falar sério.
— Bia, você não tem jeito! — Ela e
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suas gracinhas.
— Está bem, vou lá, divirta-se, vai
que hoje é o dia D! Qualquer coisa,
passa uma mensagem pelo WhatsApp, e
depois quero o relatório com todos os
detalhes. Bejunda... ou seja, beijos na
bunda!
De todas as amigas do mundo, eu
tinha que arrumar a mais louca? Mas eu
a amava desse jeito, sem tirar nem pôr.
Quer saber? Com toda a maluquice da
Bia, ela tinha acabado de dizer algo
muito importante. Eu tinha acabado de
me decidir; hoje realmente seria o
grande dia, não via motivos para
esperar mais, pois Otávio vivia dizendo
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que me amava e fazia coisas lindas por
mim. Essa minha insegurança não tinha
mais cabimento, afinal, eu era uma
mulher de 23 anos que morava sozinha,
me sustentava e tinha um noivo com
muita paciência em esperar um ano e
meio, pois hoje em dia, quem faz isso?
Nós tínhamos nossos momentos mais
íntimos, mas na hora H, eu travava.
Estava decidido! Depois do jantar, eu
me entregaria a ele de corpo, alma e
coração! Só espero não perder a
coragem na hora.
Corro para o banheiro, pois estou
com a hora apertada, na verdade,
gostaria mesmo de ter ido para o
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almoço, pois ninguém merece o centro
da cidade na hora do rush, mas, como
não podia faltar ao trabalho, vou ter que
encarar essa hora mesmo. O escritório
dele era na Avenida Chile, em um
prédio luxuoso. O prédio pertencia ao
pai dele, que era um dos melhores
advogados do país. Otávio também
estava seguindo os passos do pai e, em
minha opinião, muito bem, pois já
ganhou várias causas importantes e
segue bem-conceituado na sua área, que
é a área da família. Não posso esquecer
o crachá que Otávio havia me dado para
que eu tivesse livre acesso à empresa
sem precisar ser anunciada. Bom, acho
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que ele vai ter uma grande surpresa
mesmo, pois essa é a primeira vez que
vou usar meu crachá especial.
A água está uma delícia, mas se eu
quiser chegar a tempo, tenho que correr,
pois ainda vou levar um tempo para
escovar os cabelos e fazer minha
maquiagem, e para escolher uma roupa
então, nem se fala.
Ainda bem que uso uniforme na
clínica de estética que trabalho, senão,
eu não conseguiria sair de casa a tempo,
já que tenho que sair bem cedo, pois
meu horário é às oito horas, e a clínica
fica na Barra. Moro no Cachambi, e
graças ao meu bom Deus, a Linha
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Amarela existe, mas também, quando
engarrafava, só Jesus na causa! Por isso,
meu item principal na bolsa é um livro,
o meu ipad, e meu kindle contendo meus
e-books, pois não dispenso boas
músicas e bons livros.
Escolho um conjunto de lingerie
novo; calcinha de renda e sutiã tomara
que caia brancos. Vivia comprando
lingerie nova, era um vício, e Bia vivia
dizendo que eu tinha que estar sempre
preparada.
Visto um vestido tomara que caia
verde, colado até a cintura e soltinho
embaixo, fica um pouco acima dos
joelhos, pois o calor do Rio de Janeiro
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estava castigando esse ano.
Coloco uma sandália Anabela nude,
um max colar, pego minha bolsa que
transpassa pelo corpo e estou pronta.
Olho para o celular e já são dezesseis e
quarenta e cinco. Lembro-me de pegar
um blazer bem leve, para no caso de o
restaurante ser um pouco mais
requintado. Tomara que dê tempo!
Desço minha rua até o ponto para
pegar uma van até o metrô de Maria da
Graça.Chego ao metrô às dezessete e
dez. Fico aliviada, pois sei que vou
chegar um pouco adiantada, estou
ansiosa pela surpresa. Ligo meu ipad e
começo a viajar na música que está
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tocando, foi Otávio que a colocou no
meu ipad, disse que se lembrava de mim
quando escutava essa música... Tudo
que Você Quiser, do Luan Santana.

“(...)Tem gente que tem cheiro de


rosa, e de avelã
Tem o perfume doce de toda manhã
Você tem tudo
Você tem muito
Muito mais que um dia eu sonhei pra
mim
Tem a pureza de um anjo
querubim(...)”

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Fecho os olhos e me lembro do dia
anterior, da cara de decepção do
Otávio...

****
Eu estava no estúdio de dança, no
Méier, onde faço aulas de dança desde
criança, e agora dava aulas duas vezes
por semana para turmas iniciantes com
idades de 3 a 6 anos. Assim, eu
conseguia uma grana extra e praticava
um pouco da minha paixão, que é a
dança.
Eu dava aulas todas as terças e
quintas das dezesseis às dezessete
horas. Entrava às dezenove horas na
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faculdade, que era na UERJ, Tijuca. Ou
seja, terça e quinta só entrava em casa
meia-noite, pois também saía um pouco
mais tarde da faculdade nesses dias,
mas já estava acabando, era o último
período. Ainda estou de férias, já que
estamos em janeiro, mas no meio do ano
eu estaria formada e tentaria realizar
meu grande sonho, que era abrir uma
academia com um grande estúdio de
dança. A Bia ficaria responsável pela
academia e eu, pelo estúdio. Esse era
nosso plano desde que entramos na
faculdade.
— Lívia! — Estava saindo do
estúdio quando escuto uma voz que
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conhecia muito bem.
— Otávio!? O que você está fazendo
aqui a essa hora? Ainda são dezessete
horas, você não tinha que estar no
escritório?
Fiquei surpresa, apesar de ele viver
aparecendo assim em todos os lugares
possíveis para ele. Ainda não tinha me
acostumado com isso, afinal, ele era
muito ocupado no escritório, eu sabia
disso, mas sempre que ele podia, vinha
ao meu encontro aqui, no trabalho, ou na
faculdade.
— É tão ruim assim eu tirar um
tempinho para ver minha noiva? — Ele
disse, fingindo uma cara de magoado.
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— Claro que não, eu só fiquei
surpresa, só isso. Nós nos falamos mais
cedo e você não disse que viria.
— Normalmente, quando fazemos
uma surpresa, não avisamos antes,
Lívia.
Ai meu Deus, eu e essa mania de
falar demais! Não podia simplesmente
aproveitar o momento, agarrar meu
noivo e tudo certo? Não, eu tinha que
pegar todas as informações primeiro.
Corri até ele e dei-lhe um beijo e um
abraço bem apertado.
— Hum, agora sim, já valeu a pena
eu ter vindo até aqui, só por causa desse
beijo — disse Otávio todo satisfeito.
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— Nossa! Você é facinho, facinho...
— eu disse com a boca ainda em seu
pescoço.
Ele me deu mais um beijo.
— Sabe que sim, quem se faz de
difícil aqui é você, minha linda.
Escuto aquelas palavras e sei que ele
está jogando indiretas e eu odeio isso!
Rapidamente, o momento mágico se
transforma.
— Você sabe muito bem que não
estou me fazendo de difícil, eu só acho
que ainda não chegou o momento, e não
vou fazer nada que eu não queira só
para agradar a você ou quem quer que
seja.
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Que saco! Já tínhamos conversado
muito com a respeito disso. Não que me
importasse com esse lance de sexo só
depois do casamento, não é isso, era
algo que nem eu mesma sabia explicar.
Havia um bloqueio, meu cérebro
travava e meu corpo não correspondia
aos seus toques e carícias. Como se
algo na minha cabeça gritasse: você não
está pronta, não é o momento, não faça
isso. Otávio era muito carinhoso e
compreensível, dizia que não se
importava e que tudo teria seu tempo.
Eu me sentia feliz e realizada com isso.
No começo, tinha minhas inseguranças,
achava que acabaria perdendo-o pela
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falta de sexo. Mas ele sempre disse que
não tinha desejos com outras mulheres,
que ele me esperaria o tempo que fosse
preciso. Ele realmente era um príncipe,
e eu, uma sortuda filha da mãe por esse
homem ser meu.
Mas, vez ou outra, ele jogava algum
tipo de indireta, e eu ficava muito
irritada com isso. Sentia-me cobrada e o
peso da minha virgindade caindo sobre
minha cabeça. Era como se eu tivesse
algum prazo de validade.
— Vamos para o carro, vou te deixar
em casa.
Entro no carro com a cara emburrada.
— Que foi, Lívia, qual o seu
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problema? Por acaso é algum crime eu
querer ir para cama com a mulher que
amo? Caramba! Tenho sido
superpaciente em esperar seu tempo,
mas porra, eu te amo! E quero ter você
por inteira na minha vida. O que mais
preciso fazer para te provar o quanto te
amo? Eu tenho 27 anos, Lívia, e já estou
nessa espera há um ano e meio, e está
complicado para o meu lado, não
aguento mais tomar banho gelado!
Ele realmente era um bom advogado!
Estava tentando me convencer como se
eu fosse o júri. Até que sua
argumentação tinha sido boa, mas isso
só tinha me deixado com mais raiva. Eu
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sabia muito bem que ele era um homem
de 27 anos, que tinha uma vida sexual
ativa antes de mim. Mas poxa! Não o
tinha forçado em nada, sempre deixei
minha posição clara e ele sempre
aceitou.
— Fique à vontade, Otávio, não
quero atrapalhar sua vida e também não
vou cair no seu drama — eu estava com
muita raiva dele.
— Lívia, minha vida é você, só estou
conversando com você, mas eu vou
esperar o tempo necessário, eu juro!
— Faça o que for melhor para você,
Otávio, só não quero que você fique
jogando indiretas ou me cobrando isso o
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tempo todo — falo, muito irritada com
ele.
— Para com isso, que bicho te
mordeu hoje? Você está cansada de
saber que o melhor para mim é você —
ele me puxou para um beijo e eu
simplesmente me afastei.
— Hoje realmente não é um bom dia,
me leva para casa, por favor.
Ele não disse mais nada, só ligou o
carro e partiu em direção ao meu
apartamento. Nesses minutos que se
seguiram, nem ele nem eu dissemos
nada. Eu comecei a pensar se eu
realmente devia esperar mais, não que
eu não tivesse vontade, afinal, eu era
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humana, e por mais que bancasse a
durona e ficasse irritada com suas
investidas, eu entendia perfeitamente os
argumentos dele. Meu noivo era o sonho
de consumo de qualquer mulher, ele era
lindo! Tinha um metro e oitenta e cinco
de altura, era moreno claro, cabelos
escuros, olhos azuis, sorriso perfeito,
seu corpo era definido, nem magro nem
forte demais, ele era na medida, uma
tentação.
Mas enquanto eu tivesse essa dúvida
dentro de mim, acho que não teríamos
nosso momento perfeito e eu não me
entregaria para ele.
Ele para o carro na frente do meu
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prédio.
— Pronto, entregue — é só isso o
que ele diz. Olho para ele, confusa, pois
essa atitude era nova. Não comento
nada, simplesmente abro a porta do
carro, dou uma última olhada para o
lado e ele continua parado, nem tenta me
beijar, nada. Bato a porta, e ele arranca
com o carro.
Nunca vi o Otávio desse jeito. Entro
em casa, e depois de tomar um banho,
vou preparar algo para comer.
Quando termino meu jantar, olho meu
celular e vejo que já são vinte e duas
horas e nada de mensagem do Otávio. A
essa altura, em outro dia qualquer, já
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teriam pelo menos umas quatro
mensagens. Resolvo que também não
vou mandar nenhuma, preciso dar esse
tempo a ele; afinal, é a vida dele
também e não quero ser egoísta a esse
ponto. Resolvo que está na hora de
dormir, pois amanhã tenho que estar de
pé às seis horas para ir para o trabalho,
pois ainda é sexta. O final de semana
agora está mais perto, ainda bem.
Quando saí do trabalho, ainda não
tinha nenhuma mensagem do Otávio.
Nós precisávamos conversar, eu sabia
que dessa vez eu teria que tomar a
iniciativa.
Pego meu celular e ligo para Bia.
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— Fala, sua maluca, qual a missão
dessa vez? — Pergunta toda eufórica.
— Me espera no ponto Bia, devo
estar chegando aí mais ou menos em
quinze minutos, preciso muito conversar
com você, mas estou sem tempo, então
temos que ir adiantando o assunto —
Bia morava em uma das ruas transversal
a minha.
— Estou descendo, a encontro lá,
beijunda!
Quando desço do ônibus, ela já está lá
me esperando.
— Espero que seja muito sério o
assunto, só assim mesmo para eu te
desculpar por estar torrando nesse sol
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— a coitada estava toda suada.
— Desculpa, amiga, mas meu tempo
está apertado para o que estou
pretendendo fazer, e preciso da sua
ajuda.
— Quem eu tenho que matar?! —
Mas é muito palhaça, nem eu dizendo
que o assunto é sério, não adianta.
Continuamos andando até chegar ao
meu prédio.
— Acho que vacilei com o Otávio,
peguei pesado. Ele não falou mais
comigo desde ontem.
— Não acredito! O senhor perfeito e
bonzinho sente raiva! — Fala, irônica
— Para, Bia, o assunto é sério, eu
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acho que falei demais e o magoei.
— E onde que isso é sério? Você fala
demais o tempo todo, não estou
entendendo.
— Há, há, ha... Muito engraçada!
A Bia não conseguia mesmo levar
nada a sério. Explico para ela
rapidamente o que tinha acontecido e
finalmente chegamos ao meu
apartamento. Estava pegando fogo na
rua, por pouco meu cérebro não derrete.
Pego água gelada para nós duas e
começo a pedir para ela que me dê a
“grande ideia” para que o Otávio fique
de boa comigo.
Eu realmente queria muito que
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déssemos certo, eu sabia o quão
paciente Otávio havia sido até aqui, eu
não tinha mais motivos para adiar nada.
Acho que estou preparada, eu teria que
acertar as coisas entre nós.
Dessa vez, ou vai ou racha!

****
Acordo das minhas lembranças
quando aquela voz, conhecida por todos
nós que usamos o metrô, anuncia a
próxima estação: CARIOCA.
E é nela que desço. Apesar do frio na
barriga, estou muito segura do que vou
fazer; confesso que também um pouco
curiosa para ver a reação do Otávio.
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Estou torcendo para que ele tenha a
melhor reação do mundo, quando eu
chegar ao escritório.
Quanto à segunda surpresa então,
acho que não vai acreditar que, enfim,
vamos ter nossa noite perfeita.
E quanto a mim, estou mais calma do
que achei que ficaria, pois sei que tomei
a decisão certa, só quero que ele me
faça feliz e eu a ele.
Subo as escadas do metrô e agora
falta pouco para finalmente provar para
o Otávio que o amo também.
Ando pelas ruas em direção ao
prédio que ele trabalha. Acho que devo
estar com uma cara de boba, pois
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algumas pessoas me olham um tanto
quanto confusas. Quer saber? Não estou
nem aí, pois hoje, como disse a Bia,
seria o dia “D”.
Chego à portaria do prédio e tenho a
mesma reação que tive a primeira vez
que estive aqui.
A recepção é muito bem decorada,
apesar de ser um prédio de escritórios,
eles tiveram muito bom gosto na
decoração. Poderia ficar horas aqui só
admirando os detalhes: o balcão, o
tapete, as paredes, a mobília... tenho
certeza que muitas pessoas nem sequer
olhavam.
Pego o crachá em minha bolsa,
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apresento para a recepcionista e sigo
para os elevadores. Aperto cobertura e
as portas se fecham. Olho-me no
espelho para conferir o visual, e graças
ao meu bom Deus, está tudo no lugar,
mesmo com o calor insuportável que faz
hoje.
O elevador chega ao seu destino e as
portas se abrem. Sabe aquele
nervosinho que sentimos quando vamos
tomar uma grande decisão? Desculpa,
nervosinho não, na verdade um
nervosismo enorme!! Pois é, estou
sentindo isso agora.
Olho para a recepção onde costuma
ficar a secretária dele e vejo que ela
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não está mais lá. De repente, bate o
desespero e pego meu celular para
verificar as horas, mas vejo que ainda
faltam dez minutos para as dezoito
horas.
A porta do Otávio está fechada. Era
só o que me faltava, depois desse
trabalho todo, não encontrá-lo aqui seria
muito azar! Ando de um lado para o
outro, pensando no que fazer. Penso em
bater na porta do Otávio, mas me
contive, ele poderia estar em alguma
reunião importante.
Após cinco minutos de espera,
resolvo bater na porta, vai que todos já
foram embora e eu aqui pagando mico.
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Respiro fundo e dou uma batida tímida.
Como ninguém responde, resolvo dar
uma olhada para saber se realmente a
sala estava vazia, afinal, depois de tanto
sacrifício, tinha que ter certeza.
Abro a porta devagar e vejo uma
sandália feminina no canto da porta.
Meu coração começa a disparar. Sigo
com meu olhar e vejo também um
vestido jogado no chão.
Não podia ser verdade...
Vou andando até abrir toda a porta e
ter uma visão de onde ficava sua mesa.
A cena que vejo não podia ser real, não
o Otávio...
Fico parada, me falta o ar... Acho que
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até meu cérebro parou.

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Capítulo 2
Lívia

Eu estava paralisada em meu lugar,


simplesmente não podia acreditar no
que meus olhos viam.
Parecia que eu tinha sido colocada
dentro de uma cena de um filme no qual
Bia era a diretora e falava em meu
ouvido: ele é santo demais, perfeito
demais, compreensivo demais. As
palavras dela eram só o que vinha na
minha mente no momento.
Otávio estava por cima de uma
mulher, a qual eu não conseguia ver o
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rosto, pois ela estava de costas para ele,
de quatro, e ele segurava seus cabelos,
puxando-os e cavalgando-a como um
cão no cio.
Eu continuava ali, vendo aquela cena,
imóvel. Eles ainda não tinham notado
minha presença quando, de repente, um
grito agudo invade o ambiente.
Só aí me dou conta que o grito parte
de mim. Continuo ali parada, com as
mãos em minha boca, para abafar um
outro som que já estava escapando. Os
dois me olham atônitos, quer dizer,
Otávio estava em pânico. Já a cadela,
estava até tentando disfarçar um
sorrisinho.
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Vagabunda, ordinária!
Na minha cabeça, começam a passar
mil coisas ao mesmo tempo, fico até
sem saber o que dizer...
Ele, por sua vez, sai de cima da
mulher, que só agora vejo que é uma
loira falsa. Otávio fica parado como
uma estátua, paralisado em seu lugar, e a
vagabunda fica lá de plateia, admirando
a cena. Ele vem em minha direção e eu
o detenho com um movimento de mão. E
só agora, então, começam a se formar
palavras em minha boca.
— Como eu pude ser tão cega? Tão
idiota? E pensar que eu vim aqui para te
fazer uma surpresa e enfim termos a
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nossa primeira noite juntos!
Ele continuava parado me olhando,
seus olhos azuis já estavam cheios de
lágrimas.
— Como você teve coragem de fazer
isso comigo? Eu tenho nojo de você!
Você estava se fazendo de santo esse
tempo todo para quê? Para me levar
para a cama, é isso?
Ele não responde, continua lá parado,
e a loira falsa, vagabunda, solta o riso
que estava segurando.
— Guarda para a próxima trouxa que
você encontrar, vai te poupar tempo e
dinheiro — falo, tirando a aliança e
jogando na cara dele.
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Ele não responde, fica lá parado me
olhando, sem se preocupar em esconder
as lágrimas que corriam pelo seu rosto.
Uma ânsia de repente me domina, um
nojo daquele ambiente; eu precisava
sair dali o mais rápido possível, mas
minhas pernas não obedeciam a esse
comando, estavam como se tivessem
sido congeladas ao chão. Então, uso
toda a raiva que estou sentindo como
combustível e começo a caminhar para a
porta. Antes de sair, viro-me e falo:
— Só mais uma coisinha: vai se
foder!! — Bato a porta atrás de mim e
escuto Otávio gritando meu nome.
— Lívia!!!
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Corro em direção aos elevadores e
aperto o botão em total desespero,
minhas mãos e pernas estão trêmulas.
Escuto o sinal do elevador no mesmo
instante que vejo Otávio, que continua
nu, correndo atrás de mim pelo
corredor. Quando as portas do elevador
se abrem, entro apressada. Otávio
segura as portas, fazendo menção de
entrar atrás de mim, parando no
momento em que se dá conta de que está
nu. Dou a ele meu olhar de ódio quando
ele libera as portas e elas se fecham.
Encosto na parede gelada do
elevador, que nesse momento é um
refrigério, e começo a respirar
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pausadamente. Eu precisava me acalmar
um pouco, pois teria que chegar em
casa.
Quando saio do elevador, dou graças
pelo saguão do prédio vazio, a não ser
por um segurança que vem em minha
direção.
— Senhorita? — Continuo andando,
e ele para na minha frente.
— Senhorita, tenho ordens para não
permitir sua saída.
— Tente me impedir — lanço para ele
meu olhar feroz.
Quando ele segura meu braço, perco
o resto do controle que me restava e lhe
envio um golpe de defesa pessoal que
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meu pai havia me ensinando; giro meu
braço para me libertar de sua pegada,
que vai com uma cotovelada direto em
seu queixo. Ele tonteia e dou uma
joelhada bem no seu saco, fazendo-o
cair de joelhos, então aproveito para
fugir dali. Quando olho para trás, vejo
Otávio saindo do elevador só com as
calças, a camisa ainda aberta e os
sapatos na mão. A cara de surpresa
dele ao ver o segurança grandão no chão
é a melhor! Mexe comigo, seu idiota!
Aproveito a cena e saio correndo
antes que me veja, quero esse imbecil
bem longe de mim!
Ando pela multidão da cidade ainda
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sem acreditar no que tinha acontecido
comigo hoje, só podia ser uma
pegadinha, não posso acreditar que ele
tenha sido tão falso a esse ponto, que eu
tenha me enganado tanto com uma
pessoa. Eu confiava nele, como pôde
fazer isso comigo?
Como eu pude acreditar que ele era,
o meu príncipe encantado? O que me
choca mais, é o fato dele ter me feito
acreditar, esse tempo todo, de que me
esperar valeria a pena, que teríamos
juntos o nosso momento, que seria algo
tão especial para mim como para ele.
Por que ele não jogou de uma vez as
cartas na mesa, dizendo que dessa forma
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não dava mais? Teríamos arrumado um
jeito, talvez eu me esforçasse mais,
procuraria ajuda, não sei, ele só tinha
que ter sido sincero comigo.
Algo me diz que, mesmo que eu
houvesse me entregado para ele, Otávio
não me pouparia de uma traição dessas.
Ainda bem que Deus me livrou a tempo.
Ele que foda quantas loiras quiser e a
hora que quiser, por mim, poderia cair
uma bomba só na cabeça dele! Maldito
seja o dia que fui ao seu escritório pela
primeira vez!
Minha vizinha, que o havia me
indicado como um excelente advogado,
que realmente ele era. Todos diziam que
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todo bom advogado é um bom
mentiroso. Agora eu acredito, pois ele
realmente tinha ficado craque na
mentira, superou o personagem do filme
O Advogado do Diabo, daria o Oscar
para ele sem pensar duas vezes por sua
bela atuação. Ai que ódio de mim!!
Quando me dou conta, já estou na
estação do metrô e lembro-me de um
dito popular: Todo castigo para corno é
pouco, que agora me cai como uma
luva, pois a estação estava cheia,
lotada!
Sou empurrada pela multidão até que
me vejo dentro do vagão. Pelo menos
tinha conseguido entrar.
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Queria ligar para a Bia, mas seria uma
missão impossível, vou ter que esperar
chegar ao meu destino.
Fico em um estado absorto dentro do
metrô, meus pensamentos viajando com
lembranças de momentos que tive com
Otávio. Lembrando-me de cada jura de
amor, cada promessa feita, do seu
romantismo, da sua paciência. Que
idiota que eu fui acreditar em contos de
fadas, príncipes encantados não existem.
Agora já não sei o que é pior: pegar
meu noivo fodendo outra mulher ou
estar dentro desta lata de sardinhas com
um fedorento do meu lado.
Pelo amor! Já inventaram o
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desodorante vinte e quatro horas!!
Nem acredito quando chega à estação
Maria da Graça, pego meu celular assim
que saio do metrô.
Bia atende no segundo toque.
— Porra! Disse que queria o
relatório, mas eu poderia esperar até
amanhã sem problemas, mas já que
ligou, adianta aí alguma coisa, amiga, se
não nem durmo, como foi? Ele te
perdoou? Claro que sim, né, o cara tem
os quatros pneus arriados por você, diz
qual foi a cara que ele fez? O que disse?
Ele desmaiou? Espero que não...
Nossa, a Bia não parava de falar e eu
não conseguia a mandar parar, pois cada
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pergunta que ela fazia, as cenas
voltavam em minha mente.
— Bia... — foi a única palavra que
consegui dizer, foi o bastante para que
ela entrasse em desespero.
— O que foi Lívia? Você foi
assaltada, é isso, amiga? Você está
machucada? Onde você está? Diga-me,
Lívia, fala alguma coisa!
Sim, eu estava machucada, mas não
dessa maneira. Forcei-me a dizer algo
antes que ela pirasse.
— Posso ir para sua casa? Eu já
estou descendo da van.
— Claro que pode! Quer que eu vá te
encontrar?
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— Não precisa, já chego aí.
Encerro a chamada e peço forças a
Deus, pois a decepção foi muito grande
e eu só queria esquecer que esse dia
existiu, mas, antes, sei que teria que dar
“O relatório”, com todos os detalhes
para Bia. Sigo para sua rua, e quando
estou me aproximando, ela já está no
portão e vem correndo em minha
direção.
Ela me abraça tão forte que acho que
vou quebrar. Após o abraço, começa a
me examinar de cima a baixo, depois me
puxa pela mão em direção a sua casa.
Entramos, e ela me guia para o sofá;
segue para a cozinha retornando com um
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copo de água com açúcar para me dar.
— Agora fala, amiga, o que aquele
infeliz metido a príncipe fez com você?
Eu juro que vou capá-lo a sangue frio!
Eu sei que ela realmente faria isso se
eu pedisse, no entanto, ele não merece
nem que eu me importe com ele a esse
ponto. Só quero seguir com minha vida
e esquecer que um dia ele existiu.
— É, amiga, você não vai acreditar
na surpresa que foi — disse para minha
amiga com voz irônica — Só que, no
caso, a surpresa foi minha. Imagina a
cena: entro no escritório dele, vejo uma
sandália, depois um vestido jogado no
chão, e quando viro para esquerda...
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Boo! Vejo a grande cena armada e ele
no papel principal, fodendo uma loira
falsa em cima de sua mesa. Você
consegue acreditar nisso? Porque eu,
amiga, se não tivesse visto com meus
próprios olhos, jamais acreditaria —
digo para Bia, que está com a mesma
cara de pânico que Otávio. Acho que
ela vai ter um troço, nunca vi a Bia
assim sem ter nenhuma reação, mas isso
dura pouco, como era de se esperar, ela
logo começa a falar.
— Que filho de uma boa puta!! Fazer
isso com você, amiga, eu sempre
desconfiava da perfeição dele, mas
confesso que também não esperava isso!
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O que aquele miserável falou para
você?
— Ele não conseguiu dizer nada,
ficou lá parado me olhando e chorando,
acho que estava em choque.
— Mas ele vai ficar muito mais em
choque quando eu arrancar as bolas dele
e o fizer comê-las!
— Você não vai fazer nada, eu te
proíbo de sequer falar com ele — disse
firme, com o dedo em riste para ela.
— Mas amiga, ele tem que pagar
pelo que fez com você, isso não se faz.
— Ele não merece nem que eu me
importe com ele, Bia, deixe isso para lá,
vamos fingir que ele não existiu, ok?
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Como diz o Chico Pinheiro: Vida que
segue! Mas sabe o que é mais
engraçado? Foi a primeira vez que o vi
pelado, e ainda por cima, correndo atrás
de mim... Deu medo, amiga! — Não
podia acreditar que eu mesma estava
fazendo piada com a minha situação. De
repente, me senti leve, como se um
grande peso tivesse sido tirado das
minhas costas. Não era para eu sentir
isso, caramba, eu havia perdido um
príncipe encantado!
Bia começa a rir.
— Você não tem jeito, Lívia! Depois
eu que faço piada de tudo.
— É a convivência, aprendi com você.
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Eu já estava mais calma, aprendi com
uma professora minha de Artes, que
nessa vida comemos o que gostamos e o
que não gostamos, não tem jeito, é daí
que tiramos nossos aprendizados. E, por
incrível que pareça, eu realmente estava
me sentindo bem naquele momento.
— Amiga, uma pergunta que não quer
calar: como era o brinquedinho dele?
Era um fusca? Um carro popular, tipo
Palio, Logan, Voyage? Ou era um
importado tipo X1 da BMW?
— Não tenho muito conhecimento de
causa como você, mas acho que fica na
classe dos populares.
— Livramento de Deus, amiga! —
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Ela diz e caímos na gargalhada.
— Bia, você não presta! Deixa eu te
contar a melhor parte... Quando saí do
elevador, desesperada para ir embora,
ele simplesmente tinha mandado um
segurança grandão me segurar.
— E aí, o que você fez?
— Tive que usar uns golpes de
defesa pessoal que meu pai nos ensinou.
E o grandão ficou lá, segurando o saco.
Bia não parava de rir.
— Posso dormi aqui? Não queria ir
para casa — fiquei receosa de ficar
sozinha na minha casa e meus
sentimentos mudarem. Além do mais,
tinha receio de que Otávio fosse lá me
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procurar.
— E precisa perguntar? Claro que
pode, vou pegar um baby doll para você
— ela se levanta, me deixando sozinha
com meus pensamentos.
Vou para o banheiro e tomo um
banho, descarrego toda aquela energia
negativa. Amanhã será um novo dia,
tudo vai ser diferente, inclusive eu.
Visto o baby doll, tomo um copo de
leite, deito na cama e simplesmente
apago.
Quando acordo, olho o relógio e já
são nove da manhã. Caramba, que bom
que hoje era sábado!
Pego um short e uma camiseta na
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cômoda da Bia e vou para o banheiro
fazer minha higiene pessoal. Quando
chego à sala, Bia está de costas para
mim, berrando no celular.
— Eu já disse que não sei, o que eu
sei é que ela saiu daqui ontem para te
fazer uma grande surpresa, seu idiota!
O que você fez com ela? Você é a
pessoa mais burra do planeta! Deixou
escapar a melhor mulher do mundo! Eu
te ajudar?! Isso só pode ser uma piada!
Presta atenção, porque eu só vou dizer
uma vez, se depender de mim, ela não
olha nunca mais para sua cara, seu
idiota, vai para o inferno! — Ela
desliga o celular na cara dele, sei muito
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bem com quem ela estava falando, pois
tinha um milhão de chamadas dele no
meu telefone.
— Idiota! Canalha! Imbecil! Escroto!
— Nossa, seu repertório de
xingamentos anda fraco — falo com a
voz mais calma do mundo. Ela leva um
susto e se vira em minha direção. Estava
com a cara toda vermelha de raiva,
parecia até o Hulk, só que na versão
Chapolim Colorado.
— Posso saber com quem você
estava falando com esse amor todo? —
Pergunto para ela com a voz mais calma
ainda.
— Você sabe muito bem que com
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quem eu estava falando, Lívia, deixa de
ser cínica!
— Bom dia para você também, amiga
— falo com o meu melhor sorriso.
— Ficou doida ou o quê? — Ela
coloca as mãos na cintura e me olha
intrigada com minha atitude.
— Bia, eu não vou ficar sofrendo por
uma pessoa que não merece, o que está
feito, está feito. Cada um escolhe seu
destino, e ele escolheu o dele — ela me
olhava com cara de espanto.
— Essa é boa, eu estou quase indo
para cadeia por assassinato e você está
super de boa com esse bastardo — dou
um sorriso meio sem vontade para
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minha amiga.
— Em primeiro lugar, dona Bia, para
ir para cadeia, é preciso realmente ter
cometido assassinato. Em segundo lugar,
não estou super de boa com o que
aconteceu ontem, só não vejo razão para
ficar revivendo isso toda hora— ela
balançava a cabeça em negativa toda
hora, eu já estava ficando tonta só de
olhar para ela — E em terceiro lugar,
preciso muito tomar café, pois estou
morrendo de fome e me recuso a sofrer
por esse idiota.
— Então tudo bem, né? Se você está
dizendo... — ela me olha com
desconfiança — Vou preparar mistos
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para nós duas, e você, já que está tão
animada, pode colocar a mesa.
Ela vai para cozinha e sigo atrás
dela. Começo a abrir o armário para
pegar os copos e os pratos.
— Ele está te procurando, sabia? Eu
só queria ouvir a desculpa que ele vai te
dar — ela começa falando enquanto
coloca os pães na sanduicheira — O
cara é bom com palavras, amiga, você
precisa ter cuidado, se você não
estivesse aqui e eu não soubesse o que
ele aprontou, eu ficaria com pena dele
— começo a rir.
— Ele é advogado, Bia, tem a arte
das palavras, mas eu não caio mais
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nessa, pode ficar tranquila.
Termino meu café e resolvo ir para
casa, tenho muitas coisas para fazer;
lavar, passar e limpar a casa. Agradeço
minha amiga por tudo e vou embora.
Quando chego à portaria do meu
prédio, o Sr. João, o porteiro, vem logo
falar comigo:
— Bom dia, Srta. Lívia, tudo bem?
— Achava muito engraçado sua
formalidade.
— Bom dia, Sr. João, tudo bem sim,
e com o senhor? — Ele fica me olhando
com um jeito esquisito, meio sem graça.
— É que não quero ser intrometido
nem nada, é que o noivo da senhorita, o
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Sr. Otávio, está lá na sua porta desde as
vinte e duas horas de ontem, ele já bateu
tanto naquela porta, que não sei como
não derrubou — eu continuava olhando
para o Sr. João esperando ele terminar
de falar.
— Os vizinhos queriam até chamar a
polícia, mas eu os convenci a não
chamar, pois ele era seu noivo e devia
ter acontecido alguma coisa, pelo estado
deplorável que ele se encontra. Já subi
lá várias vezes e ele se recusa a sair de
lá.
É, não tem jeito, eu ia ter que encarar
essa situação de frente e dizer para o
Otávio tudo que eu tinha vontade. Sabia
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que ele viria, por isso fui dormir na
casa da Bia, pois precisava de uma boa
noite de sono para me acalmar. Agora
que eu estava mais calma, era a hora de
colocar os pingos nos i’s.
— Sr. João, pode deixar que eu vou
resolver essa situação, e outra coisa, o
Sr. Otávio está terminantemente
proibido de subir ao meu apartamento.
Obrigada por tudo, mesmo!
Apesar de tudo ter terminado dessa
maneira, eu estava me sentido com uma
força que nunca achei que sentiria,
desde aquele dia há dois anos, quando
meu mundo desabou de verdade, quando
jurei para mim mesma que nunca mais,
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na minha vida, sentiria uma dor
daquelas.

****
Dois anos atrás...
Estava sentada em meu quarto
olhando as notas do semestre quando de
repente escuto vários disparos. Parecia
que era dentro da minha casa, saio
correndo do quarto e chamo pela minha
mãe que estava terminando o almoço.
Olho para ela. Que também está
assustada.
— O que será que foi isso, mãe? —
Não sei por que todos os filhos do
mundo têm essa mania de achar que a
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mãe é vidente e sabe tudo. Ela fica me
olhando como se não estivesse
entendendo.
— Não tenho ideia, filha — noto que
seu semblante muda de repente.
Corremos até a varanda da casa e
quando chegamos lá, tudo se torna o
maior pesadelo da minha vida.
Escuto o grito de desespero da minha
mãe.
— Nãao!!— ela cai de joelhos na
mesma hora e começa a chorar
desesperadamente.
Saio correndo em direção ao portão
da garagem que está aberto, quando vejo
o braço do meu pai no chão com o
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relógio que eu tinha lhe dado de
presente no Dia dos Pais. Ele está de
bruços no chão e não se mexe, vejo
muito sangue escorrendo em volta do
seu corpo. Os vizinhos começam a se
aglomerar e eu simplesmente me ajoelho
ao seu lado e tento virá-lo, mas ele é
muito pesado.
— Pai!! Levanta daí, por favor! —
Lágrimas desciam sem controle — Pai,
por favor!
Ele continuava lá, imóvel, sem se
mexer. Eu começo a limpar o sangue que
está em seu rosto para que ele pudesse
me ver, no entanto, não tenho reposta.
— Paizinho, não faz isso comigo,
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abre os olhos, por favor! Você é meu
Homem de Ferro, esqueceu? — Eu
estava em desespero. Aquilo não podia
ser verdade, não com o meu pai, que era
o melhor policial do mundo!
Escuto uma freada brusca de carro e
de repente saem alguns amigos do meu
pai, que me viram crescer. Eles se
aproximam de mim, e o tio Nelson se
ajoelha ao meu lado e tenta me tirar
dali.
— Venha filha, nós vamos cuidar de
tudo — eu coloco a cabeça em seu peito
e me deixo levar pelas lágrimas e pelo
desespero que já me domina.
— Tio, ele vai ficar bem, não vai?—
Acheron Livros e afins
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ele se levanta, tentando me puxar com
ele, mas não quero ir, meu pai não pode
ficar sozinho, ele agora precisa de mim;
ele não morreu, heróis nunca morrem,
ele nunca iria fazer isso comigo, não,
não agora que tínhamos planejado tantas
coisas juntos — Papai, vai ficar tudo
bem... Tudo bem... Agora eu estou aqui,
papai... Quem vai te proteger agora sou
eu... Ninguém vai te tirar de mim, nunca,
nunca... — tio Nelson me abraça forte e
segura meu rosto, me olhando nos olhos.
Através de uma imagem embaçada, vejo
lágrimas nos olhos de meu tio, e já tinha
minha resposta: meu pai tinha nos
deixado, sua armadura tinha dado
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defeito.
Seus braços fortes ao meu redor me
levantam, e quando me viro e olho ao
redor, a rua está cheia de curiosos e
fofoqueiros. Onde estava esse povo
todo quando meu pai precisou de ajuda?
O tio Elton e o tio Bento estavam
conversando com algumas pessoas,
naturalmente buscando informações do
que tinha acontecido ali. Para mim, a
única coisa que importava é que eu tinha
perdido meu herói e meu porto seguro.
Entramos em casa e minha mãe está
desolada nos braços da tia Bethe, elas
eram amigas desde crianças. Tio Nelson
me colocou sentada no sofá e foi
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abraçar minha mãe.
— Nós vamos descobrir quem fez
isso, Cláudia, eu te prometo!
— Pode deixar que cuidaremos de
tudo — minha mãe só chora, ele deve
estar se referindo ao enterro. Ai meu
Deus, nos dê forças, pois sei que nossa
vida nunca mais será a mesma.
Ele sai da sala e vai lá para fora, vou
para perto da minha mãe que está do
outro lado da sala.
Nós nos abraçamos e era como um
pedaço do meu coração tivesse sido
arrancado do meu peito, se não, ele
inteiro. Eu tinha certeza e sei que essa
ferida demoraria muito tempo para
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cicatrizar.
A Bia vem correndo em minha
direção, já chorando muito, pois meu
pai tinha sido um pai para ela também,
já que o seu se separou de sua mãe e
nunca mais a procurou.
— Bia, ele se foi... Ele nos deixou...
Como vai ser agora? — Ela também
estava muito abalada e não conseguia
me responder, só ficou lá chorando
comigo.
Uma hora depois, o corpo do meu pai
já tinha sido levado ao I.M.L.
Como ele era policial civil, tinha
sido rápida a sua remoção, pois seus
amigos cuidaram de tudo.
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Às vinte horas, seu corpo já tinha
passado pela perícia e tinha sido levado
para a capela do cemitério Jardim da
Saudade, que fica na Sulacap, era lá que
a maioria dos policias eram enterrados.
Mesmo meu pai já tinha ido a inúmeros
enterros lá, pois toda hora a vida de um
policial era tirada. Ninguém dava muita
importância para isso, e se esqueciam
de que por trás daquele policial que os
defendem com sua própria vida nas
ruas, existia uma família que o amava e
também precisava dele.
Meu pai era policial civil há vinte
anos, vivia encarando as piores
operações possíveis, e agora é morto
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covardemente na porta de casa.
Coloco uma calça jeans e uma blusa
preta para ir para o cemitério, queria
ficar perto do meu pai até o final. Minha
mãe também já está pronta. Saímos no
carro com a tia Bethe e a Bia.
Quando entramos na capela, eu só
queria acordar daquele pesadelo. Era
como se a qualquer momento eu iria
abrir meus olhos e essa dor lancinante
que adormecia todo meu corpo
acabaria. Meu pai tinha sido arrancado
de mim e da minha mãe tão
prematuramente, pois ainda tinha
quarenta e cinco anos e uma vida toda
pela frente. Minha mãe se debruçou no
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caixão e chorou copiosamente. Nunca,
em lugar algum, nem em filmes, eu tinha
visto um amor como o dos dois. Nunca
tinha os vistos ficarem mais que dez
minutos brigados. Eles começaram a
namorar no ensino médio, tinham a
mesma idade, dezessete anos. E já
estavam casados há vinte e seis anos e
era como se fossem um casal de
namorados.
Fiquei ali, sentada, observando
aquela cena, e sabia que a metade dela
também seria enterrada ali naquele lugar
e isso era desesperador.
Sabia que nenhum de nós estava livre
de morrer assim prematuramente, mas
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um policial, ele tinha o triplo de
chances! E ali, naquele momento, diante
do corpo do meu pai e do desespero da
minha mãe fiz um juramento a mim
mesma: nunca me apaixonaria por um
policial, eu não suportaria repetir essa
cena de novo.
Ficamos ali a noite toda, pois o
enterro só seria pela manhã. Eu fiquei
ali naquela capela, tentando me
acostumar com essa dor, e não havia
nada com que eu pudesse compará-la,
tamanha era sua intensidade. Ela estaria
para sempre marcada em minha alma.
Na hora do enterro, tinha uma
verdadeira multidão, eu sabia que ele
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era muito considerado por todos, só não
sabia que era tanto. Isso indiretamente
me confortou um pouco.
O enterro foi feito com todas as
honras que se devem. Colocaram a
bandeira da Policia Civil em seu caixão
e a bandeira do seu time, que era o
Fluminense, uma de suas paixões.
Inicia-se o toque de silêncio e em
seguida a salva de tiros, antes de
descerem o caixão. Eu e minha mãe nos
aproximamos com rosas e ali me
despeço do meu herói, meu porto
seguro, meu pai, pela última vez.

****
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Subo pelas escadas para conseguir
pensar melhor no que eu iria dizer ao
Otávio. Quando chego ao meu andar e
vejo aquela cena, só me vem um
sentimento: pena.

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Capítulo 3
Lívia

Paro quando entro no meu andar.


Otávio estava sentado encostado em
minha porta, sua cabeça baixa entre os
joelhos. Estava com a mesma roupa de
ontem quando tinha saído do elevador.
Eu tive pena de vê-lo naquela
situação, eu sabia que ele mesmo tinha
procurado isso, mas eu era humana, o
que iria fazer? Mas também, quem o
mandou procurar sarna para se coçar?
Eu tinha que resolver essa situação de
uma vez por todas.
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— Otávio — chamo-o, e quando ele
levanta a cabeça para me olhar... Parte
meu coração. Seu rosto estava inchado e
vermelho, seus olhos estavam vazios e o
olhar que ele me dá me causa uma certa
tristeza, mesmo sabendo que eu não
tinha culpa, é de dar dó em qualquer ser
humano que tivesse um resquício de
emoção. Procuro a chave em minha
bolsa para abrir a porta no mesmo
instante que ele fica de joelhos e me
abraça pela cintura. Ele me abraça forte,
como se fosse mentira que eu estivesse
ali na sua frente, seu rosto colado à
minha barriga, suas mãos nas minhas
costas. Fico sem saber onde coloco
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minhas próprias mãos. Ficamos nessa
posição alguns segundos e então ele
ergue a cabeça e olha na direção do meu
rosto.
— Onde você estava, minha linda?
Eu fiquei tão preocupado. Eu juro que
estava quase indo para a delegacia —
fiquei totalmente comovida com seu
estado, mas o que ele tinha feito, não
tinha volta, e é aí que vem aquela
constatação, que toda ação tem uma
reação. Tiro suas mãos de minha cintura
e dou um passo para trás, abrindo a
porta.
— Vamos entrar, Otávio, pois não
vou ficar aqui fazendo cena para os
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vizinhos — digo sem nenhuma emoção
na voz. Ele fica de pé na mesma hora e
entra logo atrás de mim.
Ele fica lá parado me olhando,
encostado na porta, acho que está
buscando as melhores palavras para
falar comigo, mas nem o deixo começar,
simplesmente digo bem seca:
— Você — aponto para ele — Vai
tomar um banho, que vou fazer um café,
não temos condições de conversar com
você nesse estado – ele me olha
confuso, mas não diz nada; entra no
banheiro, que fica no corredor, e fecha a
porta. Logo escuto o barulho da água
caindo. Vou para meu quarto e pego na
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minha cômoda, onde guardava algumas
peças de roupas dele, uma camiseta,
uma bermuda e uma cueca. Vou ao
armário e pego seu chinelo. Bato na
porta do banheiro, abro a porta, como
sempre fazia sem olhar às minhas
costas, onde ficava o boxe. Coloco as
peças em cima da pia e saio sem dizer
nada.
Vou para a cozinha, coloco uma
cápsula de café na cafeteira, ligo e vou
para a sala.
Depois de alguns minutos, ele sai do
banheiro. Levanto-me para buscar seu
café sem açúcar, como ele gostava, e
entrego a xícara na mão dele.
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— Obrigado, sei que não mereço
nada disso— meu pensamento é: Não
merece mesmo. Mas eu não conseguiria
dizer o que eu tinha a dizer se estivesse
sentindo pena dele. Agora eu o olhava
de igual para igual, pois já tinha voltado
a ser o Otávio que eu “achava” que
conhecia.
Ele se senta no sofá e fica me
olhando enquanto toma seu café. Tenho
certeza que deve estar pensando numa
boa defesa.
— Lívia, eu não sei por onde
começar... Sei que fiz a maior merda do
mundo! Você não merecia ter visto
aquilo — agora a raiva me domina.
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— Não!? E o que eu merecia?
Continuar sendo enganada por você?
Acreditando que eu era a mulher mais
feliz do mundo por ter o noivo
“perfeito”? — Esse tempo todo calado,
achei que ele iria dizer algo mais
inteligente, afinal, ele não era o todo
sabichão em usar suas palavras
mentirosas? Achei que viria aqui com
um argumento melhor que esse. Começo
a disparar várias perguntas ao mesmo
tempo, vamos ver se o Sr. Advogado
seria bom nas respostas!
— Você ia me fazer de trouxa por
quanto tempo? Até conseguir me comer?
E quando você conseguisse, iria cair
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fora? Ou iria ficar me comendo, e
comendo as outras no intervalo? —
Responde aí, sabichão! Realmente
deveria estar escrito “idiota” na minha
testa! Ele é muito cara de pau!
— Claro que não! Isso nunca
aconteceu, eu juro! Foi a primeira vez!
Eu estava muito chateado e aquela
mulher entrou lá e ficou dando em cima
de mim, e aí eu não pensei direito —
nossa, um advogado conceituado como
ele, chegar ao ponto de não pensar
direito, desse jeito, sua carreira estava
com os dias contados!
Coitado dele, gente! Foi praticamente
violentado!
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— Me poupe das suas desculpas
esfarrapadas, Otávio! Eu não sou
imbecil a esse ponto!
— Não é desculpa! Eu estou te
contando a verdade... E poxa, quem
nunca errou? Mas é você quem eu
quero, Lívia — fico rindo em
pensamento do tamanho da sua cara de
pau! Será que ele achava que eu era
burra a esse ponto?
— Sério!? Não me pareceu isso
quando eu peguei você fodendo aquela
cadela na sua mesa! — Ele se levanta
do sofá, passa a mão pelo rosto e se
ajoelha à minha frente. Pronto, agora
vem a cena do arrependimento...
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— Eu faço o que você quiser, minha
linda, mas por tudo que é mais sagrado,
me perdoa, eu juro que isso nunca mais
vai se repetir! Você é tudo para mim!
Me perdoa, por favor! Não faz isso com
a gente, não joga fora todos os
momentos que tivemos por causa de uma
fraqueza — ele realmente acha que eu
sou idiota! Não é possível que ele ache
que eu, depois de tudo que vi, irei
perdoá-lo. É piada!
— Em primeiro lugar, Otávio, quem
jogou tudo fora foi você! Se não tivesse
feito essa merda, nós provavelmente
estaríamos ainda deitados na minha
cama ou na sua, depois de uma linda
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noite de amor! — Ele me olhava em
total desespero, me pedindo clemência
com os olhos — Em segundo lugar, eu
não vou te perdoar, pois acho que não
tem nada que faça ou diga que justifique
sua atitude – ele estava totalmente em
pânico com minhas palavras — E em
terceiro lugar, não existe mais nós,
acabou! Acho que deixei isso bem claro
em seu escritório, portanto, gostaria
muito que você desaparecesse da minha
vida.
Não iria ter volta mesmo, pois
traição, em minha opinião, não tinha
perdão, pois se você perdoa uma vez,
terá que perdoar sempre. Pois “quem faz
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um cesto faz um cento, assim que tenha
cipó e tempo”, assim dizia o ditado que
minha avó sempre falava. Até acredito
em regeneração, mas não quero pagar
para ver.
Ele balançava a cabeça em negativa
de um lado para o outro, acho que
estava esperando que eu gritasse,
batesse nele ou xingasse. Só não
esperava essa atitude, pois eu nunca
estive tão calma e certa do que estava
fazendo.
— Não, Lívia, eu te amo! Eu não vou
consegui viver sem você na minha vida!
Me perdoa, por favor! — Ele agora
tinha colocado a cabeça no meu colo e
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chorava feito uma criança.
— Não, você não me ama, pois quem
ama de verdade não trai, eu sou só
aquele brinquedo que você tem, mas que
fica guardado em cima do guarda-roupa
e você não pode brincar.
— Não! Eu sei o que eu sinto, meu
amor, e eu te amo sim e não vou deixá-
la assim tão fácil! Eu vou lutar pelo
nosso amor, e eu sei que você vai me
perdoar um dia, eu vou te esperar o
tempo que for preciso! — Ele se
encaixa entre as minhas pernas e
continuo sentada como estava. Ele beija
meu pescoço, meu rosto, o canto da
minha boca... não consigo sentir nada,
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apenas desprezo. Quando ele enfim ia
me beijar na boca, eu o encaro olhando
dentro dos seus olhos que ainda estão
cheios de lágrimas.
— Espere deitado dessa vez, caso
contrário, você pode se cansar. Agora,
por favor, vá embora, tenho muitas
coisas para fazer e você já tomou muito
meu tempo. Procure a loira, quem sabe
ela possa te consolar?! Saia! —
Empurro-o e me levanto do sofá para
abrir a porta. Ele continua lá, sentado
sobre as pernas. Vou para o meu quarto,
pego uma bolsa de viagem e coloco
todas suas peças de roupas que ainda
tinha na gaveta; vou para o banheiro,
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pego seus produtos de higiene que
ficavam lá, jogo também a roupa suja
que ele tinha tirado, o sapato, e jogo
tudo de qualquer maneira dentro da
bolsa. Volto para a sala e ele continua
na mesma posição. Jogo a bolsa em
cima dele, que a pega por reflexo.
— Entenda uma coisa, Otávio: toda
atitude que tomamos tem uma
consequência. Agora, vou te pedir
encarecidamente, esqueça que eu existo!
Sai!!— grito dessa vez, pois sei que só
assim ele vai sair desse estado de quase
transe em que se encontra.
Vou em direção à porta e fico
segurando-a aberta para ele sair. Ele se
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levanta e enfim passa pela porta; a fecho
em seguida e respiro aliviada. Mais uma
etapa concluída.
Sento no sofá e começo a perceber
uma coisa... Não é nessa hora que a
mocinha começa a chorar
desesperadamente agachada atrás da
porta que foi fechada? Por que isso não
está acontecendo comigo agora? Afinal,
ele era meu noivo, o mesmo cara que eu
iria me entregar ontem toda cheia de
certezas. É aí que me vem uma
constatação como um balde de água fria
sobre minha cabeça.
Na verdade, eu nunca amei Otávio de
verdade, ele foi só um remédio para a
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tristeza que eu estava sentido quando o
conheci, como se fosse uma
quimioterapia; ele só me distraiu de
toda aquela dor que senti com a morte
do meu pai. Por isso nunca me entreguei
a ele, pois vamos admitir que um ano e
meio é muito tempo para se esperar
quando amamos de verdade.
Minha avó sempre me dizia que Deus
escreve certo por linhas tortas, e agora
eu tinha acabado de comprovar isso. Já
pensou se tudo tivesse ocorrido da
forma que imaginei? Nós teríamos nossa
“noite perfeita”, e, se continuasse assim,
eu me casaria com ele sem saber que na
verdade eu estava à base de anestésicos,
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e quando o efeito passasse, seria
devastador tanto para mim quanto para
ele.
Vou até a varanda do meu
apartamento e me sento na cadeira que
era da minha avó. Fico lá olhando para
as plantinhas que ela cuidava com tanto
amor. Quando eu era criança, adorava
ficar regando essas plantas e flores com
ela, era nosso passatempo preferido,
além de ajudá-la na cozinha. Na
verdade, eu só fazia bagunça, e, no final,
parecia que tinha passado um Tsunami
ali. Avó tem isso de bom, deixa que
façamos tudo. Fico ali sentada quase
uma hora, embasbacada com o que eu
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tinha acabado de descobrir. Meus
sentimentos haviam mudado, não, na
verdade, eu apenas os descobri.
Esse apartamento era dos meus avós,
meu avô faleceu de um infarto quando
eu ainda era bem pequena, tinha uns sete
anos. Eu, que já era bem apegada a eles,
fiquei cada vez mais apegada com a
minha avó. Ficava sempre aqui com ela
ouvindo suas histórias, morria de rir
com seus ditados, até hoje levo alguns
comigo e acho que vou levar para a vida
toda.
Ela faleceu por motivo de um AVC,
quando eu tinha 17 anos. Foi um baque,
mas já superei, e hoje, guardo suas
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lembranças em minha memória. Esse
apartamento ficou para o meu pai, por
ser seu único filho.
Ele deu uma boa reformada, e quando
fiz 18 anos, me deu de presente, disse
que se um dia eu resolvesse sair de
casa, me queria perto dele e da minha
mãe. A casa que morávamos é bem
perto daqui apenas cinco ruas atrás da
minha.
Quando meu pai foi assassinado há
dois anos, meus tios descobriram que
foi uma tentativa de assalto mesmo.
Quando os bandidos descobriram que
meu pai era policial, atiram nele sem dó
e piedade. Dois tiros pegaram na cabeça
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e um foi no peito, que perfurou o
pulmão. Ele morreu na hora, levando
com ele todos os nossos sonhos e planos
para o futuro.
Ficávamos sentados na sala por
horas, conversando, vendo filmes,
contando piadas. Dias antes de morrer,
estávamos planejando viajar para a
Irlanda. Eu, ele, minha mãe e claro, a
mala da Bia.
Era um de nossos sonhos, e aqueles
miseráveis arrancaram de nós.
Em uma semana, os crápulas que
mataram meu pai estavam atrás das
grades, aguardando julgamento. Por
mim, eles mofariam lá dentro, mas sabia
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que aqui no Brasil não funcionava dessa
forma, e daqui uns anos, eles estariam
soltos e quem sabe destruindo outra
família. Mas sei que da justiça de Deus
eles não irão escapar!
Minha mãe resolveu que se mudaria
dali ela iria para a casa que tínhamos
em Angra dos Reis, que era herança dos
pais dela. Meus avós maternos
morreram em um acidente de carro
quando ela tinha 19 anos. Nem cheguei a
conhecê-los.
Ela agora estava bem lá, tinha aberto
uma lojinha de bijuterias no centro de
Angra e estava começando a se erguer
novamente.
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Eu tinha optado por ficar aqui, tinha
que terminar a faculdade, pois também
era um sonho de meu pai me ver
formada. Eu e minha mãe vivíamos
brincando com ele, dizendo que nesse
dia, e no dia do meu casamento, ele
teria que usar terno.
Ele odiava terno, mas disse que, por
mim, faria o sacrifício. Sei que minha
mãe ficaria bem lá sem mim, pois tinha
minha tia e meus primos que moravam
ao lado. Eu procurava ir para lá a cada
quinze dias para matar a saudade.
Então me mudei para o apartamento
que era da minha avó e colocamos nossa
casa para alugar até que o inventário
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ficasse pronto. Após o inventário, eu e
minha mãe decidimos vender a casa.
Nunca mais passei nem naquela rua, eu
não conseguiria, são muitas lembranças,
pois nasci e me criei lá. Agora era a
imobiliária que resolvia tudo
relacionado a casa.
Levanto-me e vou colocar roupa na
máquina. Lavo os banheiros e passo
uma vassoura e um pano só para tirar a
poeira da casa. Meu apartamento tinha
um bom tamanho: sala, cozinha,
varanda, quarto de empregada, banheiro
principal e dois quartos, sendo um suíte,
que era onde eu dormia. Tinha decorado
tudo do meu jeito, com os pitacos da
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Bia, claro. Minha cama era uma King
Size, minha mãe e a Bia ficaram
reclamando e dizendo que eu não
precisava de uma cama tão grande. Mas
fazer o quê se eu gostava de espaço para
dormir?
Na parede de fundo tinham várias
fotos minhas, da Bia e dos meus pais.
Na frente da minha cama ficava uma
cômoda com TV, na lateral uma
poltrona, a qual tinha um grande apreço,
ela já estava até um pouco desbotada, a
cor original dela era rosa. Na outra
lateral da cômoda, havia prateleiras que
vinham do teto até o chão, e nelas
estavam uma de minhas paixões: os
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livros. E do outro lado do quarto, meu
armário.
A sala era composta de um grande
sofá, um rack e um painel com Home.
Na porta da varanda tinha uma cortina
lilás com branco. Na entrada da sala
ficava uma mesa com quatro cadeiras.
Era uma sala bem feminina, com vários
quadros de fotos e enfeites espalhados
pelo espaço, coisas de menina.
Termino minha faxina e percebo que
não parei para pensar no Otávio. Já são
quatorze horas e eu me dou conta que
nem tinha almoçado ainda. Meu
estômago estava roncando, vou tomar
um banho antes de preparar alguma
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coisa para comer. Quando entro no
banheiro, escuto a porta da sala bater.
Só podia ser a Bia, pois era a única que
tinha a chave do meu apartamento e
passagem livre na portaria. Não demora
nem um minuto e ela bate na porta do
banheiro.
— Oi, trouxe o rango. Achei que
você hoje merecia um mimo! E adivinha
o cardápio? Estrogonofe de camarão! —
No mundo inteiro não existia amiga
melhor que essa!
— É por isso que eu te amo, Bia!
Você é a melhor! — Mas, de repente, me
vem algo à cabeça. Todas as vezes que
ela comprava estrogonofe de camarão,
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sempre me pedia alguma coisa. Ela
sabia que era meu prato predileto e
sempre tentava me comprar com isso e
conseguia.
Sei lá, mas dessa vez deve ser só por
conta dos acontecimentos mesmo.
Vamos esperar as cenas dos próximos
capítulos.
Saio do banheiro enrolada numa
toalha, pego um short larguinho e uma
camiseta. Visto, prendo os cabelos e
pronto, agora é só almoçar e ficar
assistindo meus seriados até a hora de
dormi. Pelo menos o dia terminaria
bem.
Vamos para a sala, coloco a mesa e
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pego suco na geladeira. Sentamos para
comer. Após uns cinco minutos
comendo, percebo que Bia não disse
uma só palavra. Muito estranho! Quando
olho em sua direção, ela está mexendo
no cabelo, e nada de comer, isso não é
um bom sinal, aí tem coisa! Continuo
comendo, pois detesto comida fria,
ainda mais a comida que eu amava.
Coloco os talheres no prato e olho para
ela que continua mexendo nos cabelos,
sinal que aí tem coisa.
— Desembucha, Dona Bia! O que
você quer falar comigo? Ou melhor, me
pedir? — Digo e ela leva um susto.
— Oi, amiga, não é nada de mais, só
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estava pensando e acho que você
deveria sair hoje à noite, já que é
sábado e você precisa espairecer um
pouco –hum, hum, eu que preciso
espairecer... Sabia que aí tinha.
— Não se preocupa comigo, Bia, eu
estou bem, e vou espairecer deitada na
minha cama, comendo porcarias e
assistindo meus seriados — eu
realmente amava fazer isso, e por falta
de tempo, já tinha muito tempo que não
o fazia.
— E aí vai engorda uns cinco quilos!
É bem melhor você fazer outra coisa
que ame e que te faça perder calorias e
não ganhá-las — ela agora está
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preocupada com minhas calorias, sei, é
a primeira a fazer uma panela de
brigadeiro e me obrigar a comer com
ela. Terei que pressioná-la para que me
diga o que está querendo.
— Não se preocupa, Bia, amanhã
acordo cedo e vou correr, acho que
recupero o estrago de hoje — dou uma
piscada para ela.
— Lívia, por favor! Você tem que vir
comigo! — Bingo! Eu sabia que aí tinha
coisa.
— E eu posso saber para onde eu
tenho quer ir com essa urgência toda e
deixar de ficar em casa e curtir meus
seriados?
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— Amiga, é que o Flavinho, da
faculdade, me chamou para uma festa
hoje e eu não queria ir sozinha com ele.
Você sabe que ele não desiste de dar em
cima de mim, e eu não vejo como nós
dois poderíamos funcionar. O adoro, de
verdade, mas só como amigo. Por
favor?! Prometo que não te peço nada
durante uns seis meses— só se eu não
conhecesse a peça, duvido!
— Bia, ele convidou você, e não a
mim, não acho que vá ficar muito feliz
em me ter de vela – tento convencê-la,
pois hoje não estou nem um pouco a fim
de sair de casa.
— E onde é essa festa? Deve
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precisar de convites, não? E tenho
certeza que ele não anda com um de
reserva na carteira— sei que ela
adorava o Flavinho como amigo, mas
sempre que ele via uma oportunidade, a
atacava.
— Por favor! É uma festa super
badalada, há muito tempo eu estava a
fim de ir nela. Até artista vai, sabia? —
Ela não respondeu o que eu havia
perguntado, estranho.
— Fiquei sabendo que vai até ter
show da Anitta e da Ludmilla. Você
adora as músicas delas — ai, ela está
jogando sujo...
— Eu não adoro as músicas delas,
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gosto de dançar as músicas, é diferente.
— Que seja, dá no mesmo, vamos?
— Vou tentar meu último argumento...
— E a tia Gisele? Ela não
desembarca hoje? Vai chegar em casa e
não vai te encontrar, vai ficar
preocupada, melhor deixar para outro
dia.
— Lívia, que papo é esse? Você está
parecendo uma velha! Minha mãe só
chega amanhã, e eu já vou fazer vinte e
quatro anos no próximo dia vinte e
nove, minha mãe não tem mais essa
neura comigo há muito tempo — a mãe
da Bia era enfermeira da Petrobrás e
ficava quinze dias embarcada nessas
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plataformas e quinze dias em casa.
— Hoje eu realmente não estou com
a mínima vontade de sair, Bia, deixa
para a próxima — ela começou a fazer
um bico de tristeza e uma cara de gato
do Shrek; pois é, ela também usava esse
truque. Ai meu Deus, tomara que eu
realmente não me arrependa disso.
— Está bem, Bia, que horas é a tal
festa, balada, seja lá o que for? — Ela
começa a gritar e dar pulos de alegrias.
Não aguento e começo a rir. Nossa, ela
estava com muita vontade de ir nessa
festa mesmo. Quem não iria ficar nada
feliz era o Flavinho.
— Então, ele vai nos pegar às vinte e
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duas horas, eu venho me arrumar aqui,
agora vou para casa acabar de arrumar
as coisas, senão amanhã minha mãe me
esfola. Mais tarde eu volto. Beijunda!
— Ela sai batendo a porta atrás de si.
Ai meu Deus, o que não fazemos pelas
amigas. Pelo menos vou poder dormir
um pouco... Só espero não me
arrepender de ir nessa tal festa!

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Capítulo 4
Otávio

Hoje eu acordei com um mau humor


do cão! Que foda mal dada! Puta que
pariu, que mulher ruim! Nem com todos
os meus conhecimentos consegui fazer
com que ela ficasse boa. Até era bonita,
com um corpo perfeito, mesmo porque,
eu não pegava qualquer coisa, mas essa
me enganou direitinho.
Ela tinha começado a estagiar ontem
em uma empresa no mesmo prédio em
que eu trabalhava. Como não sou bobo,
tinha que ser o primeiro a pegá-la, mas
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porra, se arrependimento matasse. Isso
só podia ser praga de outras que eu já
havia pegado e que queriam uma
segunda vez. Mas comigo só rolava uma
noite mesmo, odiava figurinha repetida.
Se a estatística mundial era de que havia
sete mulheres para cada homem, por que
eu ficaria com uma só?
Eu era advogado, estava formado há
quase quatro anos, trabalhava no centro
da cidade, no prédio do meu pai. Ele
que havia me incentivado a fazer
faculdade de Direito, da qual não me
arrependo, eu realmente gosto do que
faço. Já tinha conquistado algumas
causas bem importantes e até tinha
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alguns clientes famosos, tudo por mérito
próprio. Eu já estava fazendo meu nome
e logo, logo, iria para um lugar só meu.
Apesar de ter a cobertura só para mim,
eu precisava conquistar o meu espaço.
Tomo meu banho, visto um dos meus
ternos Armani, tomo meu café e saio
para o trabalho.
Quando estou a caminho do
escritório, fico pensando na noite de
ontem que havia sido péssima! Hoje eu
teria que pegar uma mulher
extraordinariamente gostosa, pois eu
estava muito puto! Meu dia ia ser
longo...
Quando chego ao estacionamento do
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prédio, a estagiária ruim de foda está
estacionando o carro também. Puta que
pariu, é muito azar! Coloco o carro em
minha vaga, desço do carro e ela vem
em minha direção com os dentes
arreganhados. Finjo que nem a vejo, se
as boas eu não repetia, quem dirá ela,
sai fora! Entro no elevador e aperto
logo o botão, antes que ela consiga me
alcançar.
Olho na sua direção antes que as
portas se fechem e ela está com uma
cara de que não estava entendendo nada.
Que bom que as portas se fecharam
antes que ela entrasse, quem manda usar
esses saltos altíssimos? Até achei
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interessante ontem, mas hoje não tinha a
menor graça.
Chego ao meu andar e quase caio
para trás. Caralho, que mulher gostosa!
Ela tinha tudo no lugar e no tamanho
certo. Nossa, devia ter quase um metro e
setenta de altura, pernas nem grossas,
nem finas demais, cintura fina, peitos
perfeitos e a bunda totalmente firme e
bem redondinha do jeito que eu gostava.
E, além disso tudo, ainda era linda de
rosto; os olhos eram verdes, o nariz
arrebitado, rosto fino e a boca era
perfeita. Os cabelos eram lisos e com
mechas douradas. A mulher era perfeita
e ela ia ser minha a qualquer custo.
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Ela estava em pé na frente da minha
sala e próxima à secretária. Aproximo-
me, colocando minha máscara de
profissional.
─ Bom dia, senhoras ─ ela levanta o
olhar.
─ Bom dia ─ ela responde, abrindo
um sorriso meio tímido. Nossa! Eu, que
estava tentando me controlar, não
consigo mais, meu pau logo ganha vida.
Minha secretária fala comigo e me
tira dos meus pensamentos libertinos em
relação àquela coisa linda que estava à
minha frente.
─ A Senhorita Lívia está aguardando
o Senhor ─ diz Maria, minha secretária,
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se referindo à bela mulher à minha
frente.
─ Ok, daqui a cinco minutos pode
mandá-la entrar, tenho que fazer uma
ligação rápida ─ olho para Lívia e dou
uma piscada. Ela desvia um pouco o
olhar e dá um sorriso sem graça. Entro
na minha sala pensando Liga não,
gracinha, logo, logo vai ser minha ou
não me chamo Otávio Câmara.
Pedi esse tempo de cinco minutos,
pois precisava me recompor, senão não
iria prestar a menor atenção em nada
que ela dissesse. Iria ficar ali só
imaginando as posições que eu iria
comê-la. Porra! Quando eu pegar essa
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mulher, acho que vou chupá-la em
várias posições diferentes. Estou
imaginando cada posição que faria com
ela, e como a deixaria louca de desejo e
implorando por mais. Todas
imploravam e ela não seria diferente.
Nossa! Chega, porra! Que merda de
profissional eu sou? Hora do trabalho é
trabalho. Mas que eu vou comer aquela
delícia eu vou, ah se vou.
Respiro mais um minuto, tentando
controlar meus pensamentos, e peço
para Maria mandá-la entrar.
Quando ela entra é mais um baque,
mas tento me controlar.
─ Bom dia, Senhorita Lívia? Em que
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posso ser útil? ─ claro que eu poderia
ser útil em várias maneiras, e logo ela
iria descobrir isso.
─ Bom dia, Dr. Otávio, fui indicada
pela minha vizinha que é uma de suas
clientes. E o que eu quero é
relativamente simples, só queria
resolver o inventário do meu pai, que
faleceu há dois meses ─ só isso,
delícia? Isso é mole para a gente!
─ Ok! A Senhorita trouxe toda a
documentação?
─ Creio que sim, gostaria que o
senhor desse uma olhada ─ ah! Mas eu
vou olhar tudinho, até os mínimos
detalhes. Pego o envelope de suas mãos
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e finjo dar uma olhada rápida.
─ Acho que, por hora, aqui tem tudo
que eu preciso ─ porra nenhuma! Eu
preciso é te foder, até gritar meu nome.
─ Tudo bem! Estarei no aguardo ─ ela
diz se levantando.
─ Ok! Qualquer novidade entro em
contato ─ nos despedimos com um
aperto de mão e ela sai, me dando mais
uma visão privilegiada da sua bunda.
Estava decidido, eu iria ter essa mulher
a qualquer preço.
Fiquei durante toda a semana
inventado desculpas para que ela fosse
ao escritório. Eu queria minha chance
de colocar em prática meus
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pensamentos. Mas puta que pariu! Ela
não me dava a abertura que eu
precisava. Todos os dias estou fodendo
uma mulher diferente, pensando naquela
escultura de mulher.
Convidei-a para jantar a semana
toda, o que ela recusou todas as vezes,
dando a desculpa da faculdade. Sábado
à noite ela não teria desculpas, não teria
como dizer não. Que nada! Tiro no
escuro de novo! Continuo convidando-a
insistentemente para sair, porra de
cisma com essa mulher! Mas eu tinha
colocado na minha cabeça que ela iria
ser minha e eu não desistiria fácil.
Depois de um mês bancando o bom
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moço educado, obtive meu prêmio, ela
finalmente aceitou meu convite. O
grande dia chegou, e eu iria pôr em
prática tudo que havia planejado com
essa mulher todo esse tempo. Durante
todo o jantar, me comportei como um
cavalheiro. Quando fui deixá-la para
casa, meu pau já estava doendo de tanto
desejo.
Arrisquei-me com um beijo e ela
correspondeu, até que enfim! Seria hoje
o grande dia! Tinha que tirá-la do meu
sistema, não aguentava mais comer
outras mulheres pensando nela! Começo
a aprofundar mais o beijo, e quando
começo a passar minhas mãos pelo seu
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corpo, com mais pegada, ela se afasta.
Que merda é essa? Será que eu tinha
feito algo errado? Fico intrigado e
pergunto:
─ Tudo bem, Lívia? Fiz algo errado?
─ Ela fica me olhando com certa dúvida
no que iria me dizer... Mas, acaba
falando.
E puta que pariu! O que ela me diz
me deixa espantado! Porra! Essa eu não
esperava, a mulher era virgem! Sério
isso? Hoje em dia quem é virgem aos
vinte e um, quase vinte e dois anos de
idade? Essa me pegou de surpresa.
Então, começo a pegar mais leve com
ela, ela deveria estar à espera de um
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cara perfeito, então, eu seria esse cara,
e quando enfim eu a comesse de todas
as maneiras possíveis, ela seria só mais
um nome em minha lista.
Mais um mês se passa, nós
continuamos saindo. Cara, eu nunca
tinha saído tanto tempo assim com uma
mulher para conseguir comê-la. Mas eu
tinha colocado isso na minha cabeça e
iria até as últimas consequências.
Continuo sendo o cara “perfeito” e nada
dela querer algo mais quente. Puta
merda, vou ter que apelar. Em uma
noite, apareço na faculdade dela com
um buquê de rosas na mão e a peço em
namoro. Ela fica eufórica e aceita. Eu
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penso: agora vai, mas nada acontece,
não é possível!
Começo a aparecer no trabalho dela,
no estúdio onde ela dava aulas de dança
e nada da mulher ceder. Claro que eu
não estava na seca, continuava com
minha rotina de foder qualquer uma
depois que me despedia dela.
Ela nunca escondeu suas opiniões e
desejos de mim, sempre deixou claro
que queria uma noite especial com
alguém que ela tivesse certeza que seria
a pessoa certa. Claro que me fingia de
santo e dizia que esperaria o tempo
necessário. Eu ia comê-la de qualquer
jeito, e o fato dela ser virgem só
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aumentou mais ainda meu desejo. Agora
era questão de honra, então, comecei a
ser o namorado mais perfeito e
carinhoso do mundo!
Não era isso que as mulheres
queriam? Pois bem, logo eu estaria
pegando meu prêmio acumulado. E ela
iria se arrepender de me fazer esperar
tanto tempo.
Porra, seis meses de namoro perfeito
e nada! Quer saber? Vou ter que tomar
uma atitude drástica.
Vou a uma joalheria que ficava
próxima ao meu trabalho e compro uma
aliança de noivado.
Ligo para ela e a convido para um
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jantar hoje na minha casa. Vou preparar
tudo conforme manda a lei dos caras
otários: jantar à luz de velas, pétalas
pela casa... agora ela iria parar na
minha cama!
Pego-a em casa às vinte horas, ainda
bem que a bendita faculdade estava em
greve. Quando chegamos ao meu
apartamento, ela fica encantada com a
decoração, com o jantar, com tudo!
Quando peço a mão dela de joelhos
então, ela fica super emocionada.
Agora acho que ela realmente tinha
acreditado no personagem que eu tinha
criado. Seria minha, e aí eu ficaria com
ela mais uma semana e a dispensaria
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alegando incompatibilidades.
E na hora que eu achei que iria rolar,
nada acontece, ela vem com aquele
lenga-lenga mais uma vez de esperar a
hora certa. Eu, por minha vez, faço
minha cara e meu sorriso de moço santo,
o que aceitava tudo e digo que não teria
problemas, pois eu esperaria o tempo
necessário, blá blá blá...
Levo-a para casa, e é claro que não
ficaria na mão naquele dia. Ligo logo
para duas mulheres maravilhosas e sem
lengalenga. Elas topariam tudo.
Tenho uma noite bem cansativa e
prazerosa, pelo menos isso, mas não
desistiria do jogo com a Lívia, pois sei
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que quando conseguisse, valeria muito a
pena. Um bom advogado não aceita
derrotas!
Mais uns meses se passam, e eu
continuo bancando o bom moço com ela.
Nossos momentos íntimos estavam
ficando cada dia mais intensos. Mas,
quando eu pensava que ia chegar até o
fim, ela vinha com aquele papo de ainda
não se sentir pronta. Eu tinha coisas
minhas em sua casa, para facilitar a
vida, afinal eu morava no Humaitá e ela
no Cachambi, e se já não bastasse a
“angústia” de esperar o dia em que ela
fosse realmente resolver me dar, eu não
iria ter que ficar indo em casa antes de
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passar na casa dela.
Tudo estava preste a mudar; eu tenho
a infeliz ideia de lhe fazer uma surpresa
onde ela dava aulas de dança. Não que
eu estivesse me sacrificando muito, eu
estava bem perto do fórum que ficava
três ruas depois do estúdio. Quando a
audiência acabou, olhei para o relógio e
vi que daria tempo de pegá-la lá, então,
por que não?
Chego lá e espero uns dez minutos até
vê-la sair. Porra, ela ficava muito
gostosa nessa roupa que colocava para
dar aula. Uau! Era só a ver que meu pau
dava sinal de vida! Cara, será que esse
tesão não passaria nunca? Claro que
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passaria, era só eu comê-la.
Ela se aproxima e, como sempre, me
interroga sobre minha presença ali. Eu,
como sempre, me faço de apaixonado,
respondendo calmamente suas perguntas
até que falo uma coisa sem pensar e ela
de repente se transforma, quebra o clima
que estava e fica fria comigo. Mas
porra, eu estava cheio de tesão por vê-
la com aquela roupa, não resisti a uma
piadinha. Ela fica um pouco chateada,
tento argumentar com ela e acabo
piorando as coisas. Ela pede para eu
levá-la para casa. Ok, tudo que seu
mestre mandar, já estava de saco cheio
dessa situação, então, resolvo que vou
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mudar de tática, quem sabe com um
pouquinho de desprezo ela veria o
homem “maravilhoso” que estava
perdendo e enfim cederia?
Quando paro o carro em frente ao seu
prédio, sou um pouco ríspido com ela.
Até fiquei com receio dessa tática não
funcionar, mas agora já era. Ela me dá
uma olhada de lado e tenho certeza que
está estranhando minha atitude. Arranco
com o carro para dar mais ênfase ao
momento. Ela fica lá na portaria,
parada, me olhando. Vamos ver que
merda isso vai dar.
Quando chego em casa, pego o
celular para mandar uma mensagem para
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ela, acho que até eu já estava
acreditando que esse relacionamento era
perfeito. Eu, hein, tira isso da cabeça,
Otávio, você não está apaixonado de
verdade, isso é só cena, esqueceu?
Então, por que eu estava tão preocupado
e querendo voltar na casa dela agora
para pedir desculpas?
Fodeu, só o que me faltava essa
mulher me amarrar! Ela devia ter feito
algum feitiço ou eu que entrei demais no
personagem. Porra, isso eu não iria
deixar acontecer, ela e nem mulher
nenhuma iria me dominar! Afinal, eu era
Otávio Câmara! Saio, vou para uma
boate no Leblon, pois tenho certeza de
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que se eu ficasse em casa, iria acabar
ligando ou indo na casa da Lívia. Chego
à boate que ainda está um pouco vazia,
vou para o bar e encho a cara, quem
sabe assim tiraria essa ideia idiota que
acabei me apaixonado pela Lívia. Que
maluquice!
Nesse dia não fico com ninguém,
chego em casa muito bêbado, deito na
cama e só acordo na hora de ir ao
trabalho.
Chego ao trabalho com uma baita
ressaca e encontro minha mesa cheia de
processos a serem analisados. Muita
coisa mesmo! Resolvo chamar a nova
estagiária para me ajudar em algumas
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análises, de vez em quando dou uma
olhada para ela, que não era de se jogar
fora, uma loira de elite.
Ela queria o que vindo trabalhar com
esse vestido? Começo a pensar na
Lívia, mas me distraio, pois justo nessa
hora, a loira, que se chamava Michele,
roça a bunda no meu braço quando vai
pegar mais um processo no arquivo.
Essa aí eu já sabia que estava no papo.
No final do dia, pego meu celular
mais uma vez para ver se havia alguma
mensagem da Lívia. Nossa! Ela era dura
na queda mesmo, e isso começa a me
dar nos nervos, e quando a Michele roça
a bunda em mim mais uma vez, não dava
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mais para negar o que ela estava
querendo, pegou o telefone em minha
mesa:
─ Maria, pode ir, não vou precisar
mais de você hoje, obrigada ─ a loira
me olha com uma cara de safada e dá
um sorrisinho. Pronto, é minha deixa.
Levanto-me e vou até ela com meu
olhar de predador. Ela está próxima à
porta, puxo seu corpo contra o meu,
começo devorando seu pescoço, desço
o zíper do vestido arrancando-o fora e o
jogo no chão. Ela tira as sandálias,
jogando-as ali também. Pego-a em meu
colo com as pernas transpassadas em
minha cintura e deito-a na mesa. Com
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toda vontade, tiro sua calcinha. Nossa!
Toda depilada do jeito que eu gostava.
Sem perder tempo, tiro toda a minha
roupa e fico completamente nu. Puxo a
cadeira e sento com a cara entre suas
pernas, fazendo-a se contorcer de tesão.
Levanto-me da cadeira e puxo-a para
que fique de joelhos diante de mim. Ela
começa a morder meu pau lateralmente,
ela sabe direitinho fazer as
preliminares, então, carinhosamente
começa a chupá-lo, bem devagarzinho.
Quando estou ao ponto de explodir de
tanto tesão, levanto-a e a viro em
direção a mesa. Ela fica toda empinada,
pego um preservativo em minha gaveta,
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coloco e começo a penetrá-la. Ela vira
o rosto de lado e morde os lábios; vejo
que ela está cheia de tesão, então enrolo
seus cabelos em minha mão e puxo com
força na minha direção. O tesão já me
domina, não conseguirei segurar por
mais tempo. Aumento a velocidade das
socadas. De repente, escuto um grito
vindo da direção oposta, fazendo-me
congelar. Eu e a Michele olhamos para
trás.
Puta que pariu mil vezes! Eu só podia
estar vendo coisas! Não era possível!
Saio de cima da Michele na mesma hora
e fico lá parado, sem conseguir mover
um músculo. Ela está totalmente
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congelada em seu lugar, com as mãos
sobre a boca e o rosto totalmente
horrorizado. Eu dou alguns passos em
sua direção e ela me trava com um gesto
de mão. Sinto como se tivesse sendo
atingido com várias facadas ao mesmo
tempo, me falta o ar para respirar, minha
boca seca. Pela primeira vez na minha
vida, eu fiquei sem palavras. A dor em
meu peito era insana, lágrimas surgiram
em meu rosto sem que eu pudesse
controlá-las. Eu estava muito ferrado.
Ela nunca iria me perdoar. E, naquele
momento, a realidade me bateu nua e
crua, sancionando o que eu já sabia: eu
a amava com todas as forças do meu
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coração e tinha jogado tudo fora com
meu machismo besta.
Ela começa a fazer várias perguntas
ao mesmo tempo, não consigo responder
a nenhuma, minha língua tinha travado.
Quando ela diz que foi ali para se
entregar finalmente para mim, uma
tonelada de culpa desaba sobre minha
cabeça, as lágrimas não param de
descer.
Ela joga a aliança na minha cara, eu
morro mil vezes! Ela sai batendo a
porta, e o barulho me tira do transe em
que me encontrava. Grito seu nome e
saio correndo atrás dela, eu não iria
perdê-la assim. Ela tinha que me ouvir,
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eu tinha que consertar a cagada que
tinha feito.
Quando me aproximo, ela já está
entrando no elevador. Seguro as portas
com minhas mãos, e ela me dá um olhar
que nunca tinha visto antes. Era ódio!
Quando ia entrar no elevador, cai minha
ficha, eu estava nu. Então, dou um passo
para trás e as portas se fecham. Corro
para o meu escritório, pego o telefone e
peço para o segurança segurá-la até eu
chegar. Coloco as calças sem cueca
mesmo, coloco a camisa, pego os
sapatos e a chave do carro.
Michele fica me olhando com cara
que não está entendendo nada, não estou
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nem aí para ela, que se dane! Preciso ir
atrás da única mulher que me interessa.
Pena ter descoberto isso agora, espero
que não seja tarde demais.
Mas vou conseguir reverter isso, ela
me ama, vai ser difícil, mas sei que vai
me perdoar. Entro no elevador, e quando
chego ao térreo acreditando que ela
estaria lá me esperando, mesmo contra a
sua vontade, encontro o segurança de
quase um metro e noventa jogado no
chão. Fico embasbacado, essa era nova
para mim, como ela tinha feito isso?
Limpo o rosto e vou para a rua, olho
de um lado para o outro e nada, ela tinha
desaparecido e a essa hora na cidade,
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seria quase impossível eu encontrá-la.
Volto para meu escritório, pois tinha
deixado meu celular e precisava ligar
para ela, Lívia teria que me ouvir. Ligo
várias vezes e ela não atende. Fico em
total desespero. Deus, como fui burro
em não querer admitir que eu a amava,
não me deixe perdê-la!
Precisava saber se ela estava bem.
Claro que ela não estava bem, seu
idiota! Vou para o elevador de novo,
mas agora, vou para a garagem, pego
meu carro e sigo para a sua casa. Nunca
tinha amado ninguém antes, e eu iria
lutar por essa mulher, custe o que custar,
demore o tempo que for, ela seria minha
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novamente.
Puta que pariu! Meto a mão na
buzina, o trânsito do Rio estava cada
vez pior, daqui a pouco todos teríamos
que andar de helicóptero. Estava tudo
parado, levo quase três horas da cidade
ao Cachambi.
Eu já tinha perdido as contas de
quantas vezes havia ligado para ela.
Chego ao seu prédio e entro direto, pois
como ela não tinha carro, quem usava
sua vaga era eu.
Entro e estaciono. Fico dentro do
carro quase meia hora, pensando no que
eu iria dizer a ela, como vou negar o
que ela viu? Só me resta uma solução,
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apelar pelo amor que sabia que sentia.
Sabia que antes de tudo ela iria me
xingar, me bater e eu aturaria calado,
pois é o que eu merecia! Se fosse
preciso eu iria implorar.
Tomo coragem e subo até o seu andar.
Chego lá, toco a campainha e nada!
Toco mais uma vez, outra e nada de ela
abrir a porta. Sabia que estava em casa,
então começo a bater na porta com total
desespero. Chamo pelo seu nome, os
vizinhos começam a sair de seus
apartamentos e ficam me olhando. Não
estou nem aí, eu tinha que ver a Lívia.
Bato tanto que só falta derrubar a porta.
Um cara estressadinho pediu para eu
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parar, pois eu o estava incomodando
com o barulho e iria chamar a polícia se
eu não fosse embora. Nesse momento,
chega o porteiro e tenta me convencer a
ir embora, alegando que Lívia ainda não
tinha chegado. Eu não iria embora sem
falar com ela. Então me rendo, me
abaixo e fico lá sentado. Ela teria que
voltar e eu só sairia daqui quando isso
acontecesse.
Tento ligar para ela várias e várias
vezes, mas agora só dava desligado.
Fico lá pensando em como fui um idiota
e tinha estragado tudo! Fico pensando
em como eu tinha sido um canalha com
ela e isso me deixa puto e com ódio de
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mim mesmo. Não consigo segurar as
lágrimas que teimam em cair de novo,
nunca havia chorado tanto em minha
vida.
Quando dou por mim, já está
amanhecendo. Estou muito preocupado
com ela, onde ela tinha se enfiado, será
que tinha acontecido algo? Só de pensar
nisso, já entro em desespero.
De repente, algo vem à minha mente:
claro, ela estava com a Bianca. Minha
cabeça estava tão confusa, que eu não
havia me lembrado dela. Puxo meu
celular e procuro seu número; ligo e ela
atende no quarto toque.
─ Alô ─ graças a Deus! Isso me dá
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um alívio, pelo menos eu teria notícias
da Lívia.
─ Bianca, sou eu, Otávio, a Lívia está
com você?
─ Não ─ sabia que era mentira.
─ Por favor, Bianca, preciso muito
falar com ela.
─ Eu já disse que não sei ─ claro que
ela sabia.
─ Eu só quero saber se ela está bem,
chame-a.
─ Eu já disse que não sei, o que eu
sei é que ela saiu daqui ontem para te
fazer uma grande surpresa, seu idiota!
─ Essa parte eu sei, Bianca, é
justamente por isso que preciso falar
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com ela.
─ O que você fez com ela?
─ Eu fiz a maior cagada da minha
vida, Bianca! Pisei feio na bola! E eu só
quero acertar as coisas com ela, pois eu
não sou completo sem ela do meu lado,
ela é tudo para mim. E eu não vou
desistir até ela me perdoar.
─ Você é a pessoa mais burra do
planeta! Deixou escapar a melhor
mulher do mundo!
─ Eu sei, Bianca! Fiz muita besteira,
mas pode ter certeza que amo sua amiga
de verdade, e eu vou lutar para
reconquistar sua confiança. Eu só peço
sua ajuda, por favor!
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─ Eu te ajudar?! Isso só pode ser uma
piada!
─ Por tudo que é mais sagrado,
Bianca, eu juro que estou falando a
verdade ─ ela está com muita raiva em
sua voz, eu tinha absoluta certeza que
ela sabia de tudo e estava tentando se
fazer de desentendida.
─ Presta atenção, porque eu só vou
dizer uma vez: se depender de mim, ela
não olha nunca mais para sua cara, seu
idiota, vai para o inferno!
Ela desliga o celular na minha cara,
puta que pariu! Se ela estava assim,
imagina a Lívia! Mas eu merecia, sabia
disso.
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Depois de quase uma hora, escuto a
voz que tanto queria. Levanto a cabeça e
parece mentira que ela está na minha
frente. Ela fica lá parada me olhando, e
meu coração então se enche de
esperança, e vendo aqueles olhos,
aquele corpo, sentindo seu perfume, eu
só tenho certeza de uma coisa: eu não
viveria mais sem ela. Fico de joelhos e
a abraço com tanta força, queria ter
certeza que não era uma alucinação.
Fico com o rosto em sua barriga,
embriagado com seu cheiro que era
único. Levanto o rosto e ela está
diferente, seu rosto está sereno; ela me
afasta e me chama para entrar. Entro e
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fico parado na porta, pensando por onde
começar. Ela começa a falar, toda
decidida:
─Vá tomar um banho, que vou fazer
um café, não temos condições de
conversar com você nesse estado ─
quem era essa Lívia? Não discuto, eu
realmente estava precisando de um
banho.
Entro no chuveiro e é um momento de
alívio para o que eu estava sentindo.
Escuto uma batida na porta e fico
parado. Ela entra como sempre fazia,
coloca minhas coisas em cima da pia e
sai sem dizer nada. Termino meu banho,
me sentindo um pouco melhor. Quando
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chego à sala, ela está sentada no sofá,
então se levanta e vai para a cozinha,
voltando com uma xícara de café em
suas mãos, que me entrega sem dizer
nada.
─ Obrigado, sei que não mereço nada
disso ─ confesso a ela, que se senta no
sofá e fica me olhando bem séria. Dou
mais dois goles em meu café, pensando
por onde começar. Resolvo ser sincero
pela primeira vez em minha vida.
— Lívia, eu não sei por onde
começar... Sei que fiz a maior merda do
mundo! Você não merecia ter visto
aquilo ─ ela começa a balançar a
cabeça em negativa.
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─ Não!? E o que eu merecia?
Continuar sendo enganada por você?
Acreditando que eu era a mulher mais
feliz do mundo por ter o noivo
“perfeito”? ─ e, mais uma vez, eu não
tinha palavras, eu estava muito ferrado,
nem a audiência mais difícil que
enfrentei até hoje tinha me dado o medo
que eu estava sentindo agora.
─Você ia me fazer de trouxa por
quanto tempo? Até conseguir me comer?
E quando você conseguisse, iria cair
fora? Ou iria ficar me comendo, e
comendo as outras no intervalo? ─ ela
não parava de me fazer perguntas e era
como se todas as palavras tivessem sido
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arrancadas de minha boca. Não
conseguia responder nada. Isso até
poderia ser normal se eu não fosse a
porra de um advogado.
─ Claro que não! Isso nunca
aconteceu, eu juro! Foi a primeira vez!
Eu estava muito chateado e aquela
mulher entrou lá e ficou dando em cima
de mim, e aí eu não pensei direito ─ tive
que mentir dessa vez, pois precisava do
seu perdão, e se eu dissesse a verdade,
ela nunca me perdoaria.
─ Me poupe das suas desculpas
esfarrapadas, Otávio! Eu não sou
imbecil a esse ponto! ─ eu sabia que ela
não era imbecil, eu a tinha enganado
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muito bem, nem eu mesmo acreditei que
consegui fazer isso esse tempo todo.
Agora, eu percebo que consegui porque
eu já a amava e a queria de verdade.
Vou fazer o impossível para tê-la de
volta.
─Não é desculpa! Eu estou te
contando a verdade... E poxa, quem
nunca errou? Mas é você quem eu
quero, Lívia ─ e isso era verdade, era
ela que eu queria com todas as minhas
forças.
─ Sério!? Não me pareceu isso
quando eu peguei você fodendo aquela
cadela na sua mesa! ─ ela fala com
ironia na voz e com certa mágoa. Sinto
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que estou perdendo essa luta, então, vou
usar tudo que tenho para reconquistá-la.
Levanto-me da cadeira em que estava
sentado, passo as mãos no rosto para
tentar me acalmar e me ajoelho na sua
frente. Eu me humilharia se fosse
preciso, mas a teria de volta, pois por
mais magoada que ela estivesse, eu
sabia do seu amor por mim, e quem ama
sempre perdoa.
─ Eu faço o que você quiser, minha
linda, mas por tudo que é mais sagrado,
me perdoa, eu juro que isso nunca mais
vai se repetir! Você é tudo para mim!
Me perdoa, por favor! Não faz isso com
a gente, não joga fora todos os
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momentos que tivemos por causa de uma
fraqueza ─ digo olhando dentro dos seus
olhos, que agora eu só enxergava um
vazio sem fim. E, naquele momento, foi
como se um raio tivesse me atingido, eu
tinha perdido minha Lívia.
─ Em primeiro lugar, Otávio, quem
jogou tudo fora foi você! Se não tivesse
feito essa merda, nós provavelmente
estaríamos ainda deitados na minha
cama ou na sua, depois de uma linda
noite de amor ─ ela começa a falar e
tenho certeza do que havia constatado.
Começo a me desesperar e olho bem
dentro dos seus olhos, para que ela
consiga ver o que estou sentindo.
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─Em segundo lugar, eu não vou te
perdoar, pois acho que não tem nada que
faça ou diga que justifique sua atitude ─
o que eu iria fazer sem ela? E agora?
Como fui burro!
─E em terceiro lugar, não existe mais
nós, acabou! Acho que deixei isso bem
claro em seu escritório, portanto,
gostaria muito que você desaparecesse
da minha vida ─ agora sim, o mundo
está desabando na minha cabeça, ela
estava muito segura do que estava
falando, eu realmente não esperava essa
reação.
─ Não, Lívia, eu te amo! Eu não vou
conseguir viver sem você na minha
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vida! Me perdoa, por favor! ─ tento
fazê-la acreditar em mim, mas pela sua
calma, sei que é em vão, mas eu ia
continuar lutando...
─ Não, você não me ama, pois quem
ama de verdade não trai, eu sou só
aquele brinquedo que você tem, mas que
fica guardado em cima do guarda-
roupas e você não pode brincar ─ não é
mais, meu amor, eu te amo de verdade.
─ Não! Eu sei o que eu sinto, meu
amor, e eu te amo sim e não vou deixar
você assim tão fácil, eu vou lutar pelo
nosso amor, e eu sei que você vai me
perdoar um dia, eu vou te esperar o
tempo que for preciso! ─ me encaixo
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entre suas pernas e coloco a cabeça no
seu colo. Eu precisava derreter seu
coração e mostrar para ela que eu
estava falando a verdade. As lágrimas
veem sem controle, eu perdi toda a
dignidade que tinha, quem diria que esse
dia chegaria. Tento mostrar a ela como
eu a amo, começo com beijos em seu
pescoço, subo para seu maxilar e
quando penso que vou beijá-la, ela
simplesmente me empurra e não vejo
emoção nenhuma em seu rosto, a não ser
raiva. Ela manda que eu procure a loira
que eu estava. Sei que merecia cada
palavra dela, mas eu não queria ninguém
senão ela. Eu tinha feito muita merda,
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não tirava a razão dela e agora pagaria
por isso. Iria lutar por ela com todas as
minhas forças, mas caso não
conseguisse um resultado positivo, isso
me serviria de lição por toda a vida e
nunca mais faria com ninguém o que eu
havia feito com a Lívia.
Acordo dos meus pensamentos com
algo sendo jogado contra mim, pego
totalmente no reflexo e aí vejo que é
uma bolsa de viagem, com certeza, com
minhas coisas dentro.
─Entenda uma coisa, Otávio: toda
atitude que tomamos tem uma
consequência. Agora vou te pedir
encarecidamente esqueça que eu existo!
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Sai!! ─ ela grita e eu sei que essa
batalha eu perdi, mas eu tentaria vencer
a guerra. Levanto-me e vou em direção
à porta sem dizer uma palavra. Olho em
sua direção na esperança de ver ainda
um brilho de dúvida em seu olhar, mas
ela não diz mais nada; saio e ela bate a
porta.
Ela estava certa: agora eu iria
encarar as consequências dos meus atos.

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Capítulo 5
Capitão Torres

Dou um pulo da cama com o som do


meu celular, que estava em minha
cabeceira.
— Torres falando — fico em estado
de alerta com a voz que ouço do outro
lado da linha.
— Gustavo, é o Guilherme, ele foi
baleado e está em estado grave, fizeram
uma emboscada para ele, estou
desesperada, por favor, me ajuda! —
Isadora estava aos prantos do outro lado
da linha.
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— Quem fez isso, Isa? ─ eu iria
pegar o desgraçado! Disso eu tinha
certeza, iria caçá-lo até o inferno, se
preciso.
— Eu não sei, eles metralharam o
carro dele, me ligaram agora, estou indo
para o hospital, estou com tanto medo
de perdê-lo! ─ ela chorava muito.
— Fica calma, eu te encontro lá.
Ligo para o Michel, que atende no
segundo toque.
— Porra, cara, são três da manhã,
você não dorme nunca? — Idiota! Ele
esquecia que era da polícia e que, para
nós, não tinha hora.
— Isa me ligou agora, fizeram uma
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emboscada para o Guilherme, ele está
no hospital em estado grave. Liga para o
Carlos e para o Fernando, encontro
vocês lá.
Preciso descobrir quem foi o infeliz
que fez isso com o Guilherme. Espero
muito que ele saia dessa ele tem que
sair, a Isa precisa dele, eles acabaram
de se casar, não seria justo!
Pego uma calça jeans, uma blusa de
malha branca, minha pistola que estava
ao lado da minha cama e saio o mais
rápido possível. Chego ao hospital em
vinte minutos após ter recebido a
ligação. Vou direto para a emergência e
vejo Isa. Ela está transtornada, vem
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correndo em minha direção e me abraça.
— Eles não me dizem nada, Gustavo,
ele já está lá dentro faz uma hora.
— Calma, Isa, ele vai ficar bem, o
Guilherme é forte, ele vai sair dessa ─
digo para ela tentando me convencer de
que isso é verdade.
— Ele não pode me deixar, eu não
sei como seria minha vida sem ele —
ela diz, está muito nervosa, não existe
uma parte de seu corpo que não esteja
tremendo.
— Ele vai conseguir, Isa — beijo sua
cabeça.
Eles haviam se casado há dois meses,
mal tinham saído da lua de mel. Fui um
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dos padrinhos, pois era amigo do
Guilherme desde moleque. Tínhamos
entrado juntos para a polícia e em
seguida para o Bope, e agora acontecia
isso. Olho para trás e vejo que Michel
chegou, logo atrás estavam Carlos e
Fernando. Deixo Isa na sala de espera e
faço um gesto de cabeça para que eles
me acompanhem. Chegamos à porta do
hospital e eu começo falando.
— Quero o desgraçado que fez isso
com o Tenente Aguiar, e tem que ser
para ontem, entendidos? — Assumo
minha postura de Capitão.
— Claro, Capitão, já tem uma viatura
no local, tentando descobrir o que houve
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─ Carlos diz.
— Não quero que tentem, Sargento,
quero que descubram! Eu quero os
responsáveis por isso. Estamos
entendidos? Essa é a prioridade a partir
de agora. Qualquer notícia, eu informo
aos senhores, agora vão fazer os seus
trabalhos, quero uma pista de quem fez
isso. Sargento Targueta?
— Sim, Capitão Torres.
— Você fica — precisava de alguém
que eu confiasse, para no caso de eu
precisar me ausentar. Não que eu não
confiasse no resto da equipe, pois na
minha equipe só tinha os melhores
policiais. Odiava corruptos e maus-
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caracteres, sabia que na minha equipe
só tinham aqueles que realmente
amavam a farda que vestiam e fariam
tudo por ela e para um companheiro que
precisasse.
Depois de umas duas horas ali sem
notícias, um médico vem em nossa
direção.
— Por favor, um familiar do Tenente
Guilherme Aguiar ─ Isa se levanta na
mesma hora e nós com ela.
— Eu sou a esposa, eu posso vê-lo,
doutor? — Ela pergunta, esperançosa.
— Eu sinto muito senhora, nós
fizemos o possível, mas ele não resistiu
aos ferimentos — ela entra em
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desespero.
─ Não é verdade! Deixe-me vê-lo,
por favor! — eu me aproximo mais dela
e a abraço.
— Não pode ser verdade, Gustavo!
Quem fez isso com ele? Ele estava
vindo do trabalho e eu nem cheguei a
vê-lo – ela não para de chorar e aquilo
me parte o coração. Eu sabia que
qualquer um de nós estava sujeito a
isso, mas ele era um dos melhores, eu
tinha certeza que quem fez isso o pegou
distraído, ou era alguém em quem
confiava, senão, não conseguiriam, pois,
a mira dele era certeira.
Isa está inconsolável, eu tinha
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perdido um grande amigo e ela um
grande amor. Justamente por isso não
me envolvia em um relacionamento
sério, pois não iria querer que o amor
da minha vida passasse por isso.
— Isa, eu vou pegar o desgraçado
que fez isso! Pode ter certeza — peço
para o Michel cuidar de todos os
detalhes do enterro, pois ela não teria
condições. Ela fica lá, sentada,
chorando horrores.
Um dia depois do enterro de
Guilherme, nós já sabíamos quem tinha
feito isso com ele. Foi um desgraçado,
irmão de um traficante, que o Guilherme
tinha prendido uns dias antes; ele tinha
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armado uma emboscada com seus
comparsas para o Guilherme na Linha
Amarela. Eles fuzilaram o carro dele,
mas Guilherme ainda conseguiu levar o
carro até uma cabine da polícia militar,
logo à frente, e lá foi socorrido. Será
que o desgraçado que fez isso era tão
burro ao ponto de achar que não
descobriríamos? Já tínhamos todas as
pistas necessárias. Faço uma reunião
para acertar detalhes da operação.
— A informação está correta,
Sargento Targueta? É nessa comunidade
mesmo que ele se encontra? — Pergunto
ao meu amigo e sócio, Michel, nós
tínhamos uma empresa de blindagem de
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veículos que ia muito bem.
— É sim, Capitão Torres, todos os
dados já foram confirmados e checados.
Temos até o modelo do carro ─ ele
responde com formalidade, pois
estamos em reunião com a equipe que
faria a operação hoje à noite.
— Só tem um fator que pode nos
atrapalhar, Capitão Torres — diz o
Tenente Fernando. Eu não esperaria nem
mais um dia, estava com gosto de
sangue na boca.
— Que fator seria esse, Tenente? ─
eu era do Bope, nada me parava, eu
tinha uma caveira tatuada no meu
coração.
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— Hoje vai acontecer uma festa na
comunidade, é uma festa bem badalada,
será frequentada por muita gente de fora
─ só o que me faltava, não estou nem aí
para festa nenhuma, vou entrar naquela
comunidade com o único objetivo:
caçar aquele desgraçado!
— E você quer dizer o quê com isso,
Tenente? Está sugerindo que abortemos
a operação? ─ ele me olha meio
desconfiado.
— Não, Capitão, é só que acredito
que podemos oferecer mais riscos aos
civis — me debruço sobre a mesa e o
encaro nos olhos.
— O Senhor desaprendeu como se
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trabalha ou só está querendo sair da
missão? Fique à vontade, Tenente. O
quê? O senhor estava pensando em
participar dessa festa? Eu estou
estragando a sua noite de sábado,
Tenente? ─ ele balança a cabeça em
negativa. O encaro com meu olhar feroz,
um membro de nossa equipe tinha sido
morto covardemente e ele estava de
frescurinha por causa de uma festa?!eu
quero é mais que a festa acabe!
— Desculpe, Capitão, é claro que
estou dentro! ─ aí dele se não estivesse,
quem manda nessa porra sou eu!
— E aí, alguém mais com algum
fator? — Pergunto muito puto, porque eu
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não iria deixar barato a morte do meu
amigo — Agora podemos começar a
definir como vamos entrar lá? Se
alguém quiser desistir, esse é o
momento, mas tenho certeza que o
Tenente Aguiar faria isso por qualquer
um aqui — digo só para deixar claro
que eu não admitia frouxo na minha
equipe.
Eu amava minha profissão, mesmo
sabendo que convivia com riscos vinte e
quatro horas por dia, estava ali com o
coração, eu era insubornável, odiava
corruptos!
Trabalhava muito para conquistar
minhas coisas, por isso eu tinha aberto
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essa empresa com o Michel. Não
aceitava dinheiro sujo, eu era caveira
por opção e por amor.
Passamos a manhã de sábado
definindo cada estratégia,
posicionamento e como iríamos pegar o
desgraçado. Sairíamos em cinco
viaturas, eu iria na frente com Michel,
Fernando e Carlos. Chegaríamos à
comunidade por volta de uma hora da
manhã, pois aí teríamos o fator surpresa
ao nosso lado.
Fui para casa, passei o resto da tarde
descansando, pois queria estar bem-
disposto para pegar esse infeliz! Saio de
casa às vinte e três horas e vou direto
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para o batalhão, sairíamos de lá. Eu
tinha dez anos de corporação e nunca
tinha estado com tanta sede de vingança,
e olha que já tinha passado por poucas e
boas, pois nossa vida era um filme de
ação todos os dias. E não era
brincadeira, aqui, o bicho pegava de
verdade. Eu estava com a adrenalina a
mil por hora. Definimos os últimos
detalhes e saímos do batalhão a uma da
manhã em direção à comunidade.
Levamos cerca de trinta minutos até
nosso destino. Começamos a subir a rua
que levava à comunidade; estava todo
mundo muito tenso, era assim que todos
ficavam antes de uma operação como
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essa. Michel está no volante, eu no
carona, Carlos e Fernando estão no
banco de trás. Temos mais quatro
viaturas atrás de nós.
De repente, vem descendo um carro
em nossa direção. Olho em estado de
alerta, quando me dou conta que o carro
tem as mesmas discrições do carro do
infeliz que tinha tirado a vida de
Guilherme. O resto acontece em fração
de segundos.
— É ele, porra! ─ grito para Michel,
que logo atravessa o carro no meio da
pista bloqueando a passagem e
descemos a toda para cima dele.
Vou à frente, já apontando meu fuzil.
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O carro dá uma freada brusca. Ele está
cercado, é aqui mesmo que vou mandar
esse infeliz bater um papo com o
capiroto. O carro rapidamente é
rodeado por meus homens. Vou em
direção à janela do motorista.
— Desce do carro, porra! Anda logo,
quero ver sua cara, seu desgraçado! ─
eu estava cego de ódio.
— Abre a porta devagar ou vai
morrer aí mesmo!
Aponto o fuzil bem próximo à janela,
só aí percebo que tem mais gente dentro
do carro, e era uma mulher que está em
pânico. Eu tinha estragado sua festinha,
que bom!
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— Desce todo mundo da porra do
carro, estão surdos?! — Era sempre
assim com esses infelizes, todos
valentões, mas quando chegavam na
nossa frente, viravam umas moças.
Faço gesto para o Michel que vai
para a porta do carona, onde estava a
moça. Ele aponta a arma para ela, que
desce do carro com as mãos para o alto,
em pânico. Ela fica parada na lateral do
carro com as mãos erguidas e está aos
cuidados de Michel. Agora esse infeliz
seria todo meu, se não saísse do carro
por bem, sairia por mal. Vou para a
lateral do carro enquanto Carlos assume
meu lugar e Fernando à frente dele.
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Abro a porta do carona, e quando vou
puxar o desgraçado lá de dentro, vejo
mais uma mulher no banco de trás do
automóvel. Ela está pálida e totalmente
parada.
Puxo o infeliz com tudo para fora e o
derrubo no chão; ele fica lá na mira de
Carlos. Ela arregala os olhos para mim
e me perco um pouco naqueles olhos.
— Está maluca?! Quer morrer?! Saia
da porra do carro! ─ continuo
apontando a arma em sua direção. Ela
parece acordar e começa a sair do
automóvel, pelo lado que o Michel
estava, pois, esse modelo de carro só
tinha três portas. Ela fica lá parada ao
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lado da amiga e, por um segundo, me
perco em sua beleza. Nossos olhos se
encontram e é como se só existissem nós
dois ali. Ela me olha bem séria, com
uma intensidade que nunca tinha sentido
antes com ninguém. Como podia uma
mulher tão linda andar com um verme
como esse? E quando penso isso, me
lembro do verdadeiro motivo para eu
estar aqui. Eu nunca tinha me distraído
assim em uma operação. Que porra é
essa?! Em seguida, me abaixo e puxo o
infeliz pela camisa e o jogo em cima do
capô do carro.
— Você vai se arrepender de ter
nascido, seu infeliz! — Digo, olhando
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em seus olhos. Ele começa a falar.
— Eu não sei o que está acontecendo,
mas o senhor está enganado, eu não fiz
nada, só viemos a uma festa aqui, só
isso.
— E eu sou o papai Noel! ─ digo com
toda a raiva.
— Ele está dizendo a verdade, nós
não fizemos nada, e não é assim que se
aborda um suspeito ─ eu não estava
ouvindo isso, agora aquele infeliz que
tirou a vida do meu amigo, era suspeito?
Viro-me em direção à voz que estava
querendo me ensinar a fazer meu
trabalho, e era ela, que me encarava,
muito irritada.
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— Você deveria escolher melhor suas


companhias, pois quem se mistura com
porcos, farelo come ─ digo para ela,
que fica mais irritada ainda.
— Fica quieta, Lívia! ─ diz a mulher
que estava no carona.
— Fica quieta nada, Bia, olha o que
ele está fazendo com o Flavinho! Nós
não fizemos nada. Eles nem nos pediram
documentos — Flavinho, que porra é
essa? Aproximo-me do Fernando.
— Cadê a foto do cara e a placa do
carro? ─ digo em um sussurro. Porra,
muita coincidência, o cara está com o
mesmo carro e no mesmo local. Mas
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nada é impossível. O Tenente Fernando
volta com o envelope contendo as
informações, quando vou abri-lo, escuto
mais uma vez a voz da mocinha
briguenta.
— Quem está no comando dessa
operação? Isso é um absurdo! — Olho
na direção dela com o maxilar cerrado.
— A Senhora tem alguma coisa
contra o modo que eu trabalho? —
pergunto com meu olhar de fúria e ela
continua me olhando com audácia,
parece que já perdeu aquele medo
inicial.
— Lógico que eu tenho! Por isso
quero falar com quem está no comando
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─ a amiga dela está olhando para ela em
desespero, no mesmo instante que
balança a cabeça em negativa. Eu não
falo nada, simplesmente abro o
envelope e puxo o papel com as
informações corretas e percebo que eu
realmente tinha cometido um erro, pois
o cara nem de longe se parecia com o
que estava à minha frente, e a placa
também não era a mesma.
— Tenente, você assume o comando,
sobe com as viaturas 3, 4 e 5. Eu vou
logo em seguida com as viaturas 1 e 2.
Quero o cara vivo, entendido? —
pergunto ao Tenente Fernando.
— Sim, senhor, Capitão! ─ ele se
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vira, reúne os outros e vai à frente pelo
o outro lado da rua.
— Todos a postos para qualquer
surpresa que apareça, vou resolver esse
mal-entendido e já subimos — dou a
ordem e me dirijo para o tal Flavinho.
— De pé. Documentos, por favor —
eu precisava ter certeza que o cara era
inocente antes de liberá-lo.
— Engraçado, depois de toda essa
palhaçada é que você pede os
documentos? — Agora ela realmente
estava me tirando do sério! Vou dar um
pequeno susto nela, só para aprender a
respeitar uma autoridade. Não iria me
desafiar, muito menos na frente da minha
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equipe.
— À frente do carro, Senhora! —
digo com a voz autoritária, eu estava
bem sério encarando-a. Ela vem
andando bem devagar, com o ar de
deboche, até que encosta na lateral do
carro e fica na minha frente. Olho para
ela, e caralho mulher, o que tinha de
abusada, tinha de linda, ela era perfeita!
Estava com um vestido preto que ficava
perfeito nela, para completar, uma
sandália altíssima, por isso estava quase
da minha altura, pois eu tinha um metro
e noventa de altura e ainda tinha uns
centímetros de diferença. Eu fiquei uns
bons segundos olhando bem sério para
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ela, decorando cada pedacinho do seu
corpo.
Isso nunca tinha acontecido, eu nunca
desviava meu foco de uma missão, mas
ela tinha conseguido me desviar. Espero
que ninguém tenha percebido como
fiquei abalado por ela, senão, seria
zoação na certa!
— Que foi? Já estou aqui, e agora,
vai fazer o que? ─ ela diz cheia de
autoridade na voz. Não vou deixar isso
barato.
— A Senhora sabia que posso
prendê-la por desacato à autoridade? —
ela bufa de raiva e revira os olhos.
— O Senhor sabia que eu posso
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denunciá-lo por abuso de autoridade?
— ela diz imitando meu tom com
deboche.
Aproximo-me mais dela e digo firme.
— Documentos! — Ela se vira para o
carro, para pegar sua bolsa no banco de
trás. Fico bem atrás dela, pois parecia
que tinha um imã que me atraía cada vez
mais. No momento em que se curva para
pegar a bolsa, a bunda dela encosta-se a
mim e então vou ao céu e volto. Ela
volta rapidamente e se vira já com a
identidade na mão. Fico mais próximo
ao seu rosto e digo para que só ela
escute:
— Desacato e, agora, tentativa de
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suborno — ela franze as sobrancelhas e
me olha intrigada.
— Está ficando louco! Eu não lhe
ofereci dinheiro algum, está querendo
mostrar trabalho em cima de inocentes?
— eu estava rindo por dentro, pois ela
realmente não entendeu que eu estava
falando de sua bunda deliciosa.
— Vamos combinar que de inocente
você não tem nada — falo tão baixo
quanto da primeira vez e dou uma
piscada para ela, que está com a
respiração bem ofegante e sei que está
sentindo a mesma tensão que eu estou.
Pego o documento de suas mãos e anoto
os dados no meu celular. Número de
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identidade e CPF. Ela fica me olhando,
balançando a cabeça de um lado para o
outro e eu continuo lá parado à sua
frente. Ela passa a língua entre os lábios
e puta que pariu! Se eu estivesse em
qualquer outro lugar, agarrava-a, mas,
no momento, isso seria impossível.
— Você é muito abusado! Queria ver
se não estivesse usando essa farda aí e
sem todas essas armas ao seu redor, se
faria a mesma coisa ─ encaro-a o mais
profundo que consigo.
— Pode ter certeza que sim – digo
olhando dentro dos seus olhos, para que
não tenha dúvidas de que eu dizia a
verdade.
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— E aí, vai me prender ou posso ir
embora? ─ ela diz, cruzando os braços.
É muito abusada mesmo! E eu gostei
dela exatamente assim.
— Liberada, tenho coisas mais
importantes para fazer ─ ela se vira
para entrar no carro, mas antes diz:
— Não pareceu ─ fico lá parado e
não digo mais nada. Viro-me para o tal
Flavinho.
— Liberado, rapaz ─ ele entra no
carro e logo a tal Bia, que só agora noto
que estava em um longo bate papo com
Michael, entra também para tristeza
dele, que era para estar trabalhando.
Mas eu que não iria julgá-lo, pois fiz a
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mesma coisa. Eu não estava me
reconhecendo e todos da equipe que
estavam ali me olhavam confusos. Quer
saber, foda-se.
Peço para a equipe liberar o caminho
para eles. Fico uns trinta segundos
olhando o carro se afastar. Eu seria alvo
fácil agora, pois estava muito distraído,
mas eu confiava em minha equipe.
— Missão original, vamos subir —
digo em voz alta.
Entro no carro com Michel e Carlos e
ninguém diz uma palavra sobre o
ocorrido. Chegamos ao nosso destino e
minha equipe já tinha pegado o verme,
dessa vez era o correto, não tinha erro.
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Chego em casa quase quatro horas da
manhã de domingo. Meu amigo tinha
sido vingado, eu estava mais aliviado e
amanhã ligaria para Isa, avisando que o
maldito já estava no colo do capiroto.
Tomo meu banho e não paro de
pensar na intensidade daquele olhar e
naquele corpo delicioso!
Tento dormi, mas a adrenalina ainda
está alta, por isso vejo o dia amanhecer.
Levanto-me às sete horas e vou para o
batalhão; precisava descobrir tudo da
vida dela e eu descobriria isso o mais
rápido possível.
Às oito da manhã eu já tinha tudo:
endereço, telefone, onde trabalha, a
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faculdade que ela faz e até um estúdio
de dança que dava aulas. Agora estou
entendendo o porquê do corpo perfeito!
Saio do batalhão e vou para casa.
Chego em casa, como algo e vou para
cama. Acordo às quatorze depois de um
sonho bem quente com a Lívia.Não é
possível! Essa mulher me hipnotizou!
Às vinte horas, eu ainda estava
inquieto, mesmo tendo passado a tarde
trabalhando em umas planilhas da minha
empresa. Eu ainda tinha que me dividir
em dois, mas esperava que fosse por
pouco tempo, pois logo eu iria me
dedicar somente a empresa, pois um dia
eu formaria uma família e não colocaria
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a vida deles em risco, então, me
aposentaria do Bope. Amava o Bope,
mas tomaria essa decisão em razão de
um amor maior: minha família.

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Capítulo 6
Lívia

Vou para meu quarto, ligo a TV e


começo a ver um episódio de The
Walking Dead que ainda não tinha
assistido. Sou totalmente viciada nesse
seriado. O cansaço começa a bater e
apago. Acordo com a Bia me chamando.
— Lívia, acorda, temos que nos
arrumar, poxa, já é tarde e o Flavinho
vai chegar daqui a pouco — ela fala
totalmente eufórica. Eu mereço, por que
tinha aceitado em sair com ela? Minha
cama nesse exato momento era o melhor
programa e a melhor festa que poderia
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existir.
— Que horas são, Bia? — Pergunto
com preguiça até de abrir os olhos.
— Levanta Lívia! Já são vinte e uma
horas, vamos nos atrasar, anda logo.
Você é a que mais demora a se arrumar
— já estava arrependida de aceitar ir
com ela, mas trato é trato.
Levanto-me e vou para o banheiro
tomar um banho e ver se desperto. Bia
já estava quase pronta. Saio do banheiro
mais desperta e pergunto:
— Posso saber pelo menos que tipo
de roupa devo usar? Já que até agora
não sei aonde vamos.
— Vamos a uma festa, eu te disse.
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Sua roupa já está separada — eu
realmente mereço!
Ela pega um vestido preto que ficava
um pouco justo ao meu corpo e me
entrega. Resolvo não discutir, coloco o
vestido que, por sinal me cai super bem,
pego uma sandália preta para combinar,
ajeito os cabelos, faço uma maquiagem
de noite rápida, pego uma carteira de
mão e estou pronta. O interfone toca
nesse momento.
— Vamos, Bia, o Flavinho já está lá
embaixo— ela estava com tanta pressa e
ainda está se arrumando — Vamos logo,
Bia! Você já está linda — ela vem e nós
saímos para a bendita festa.
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Quando chegamos à portaria do
prédio, Flavinho está encostado em seu
Veloster preto, ele simplesmente
venerava aquele carro! Aff, por que a
maioria dos homens eram assim? Ele
nos recebe com um sorriso encantador.
Entramos e ele dá partida no carro todo
satisfeito por Bia estar ao seu lado.
Levamos cerca de trinta minutos até
chegar ao local da tal festa. Só quando
ele começa a subir a tal rua, que me dou
conta que estamos em uma comunidade,
e fico um pouco receosa. Meu pai
sempre me pedia para não frequentar
esse tipo de lugar, pelo fato de ele ser
policial e naquela época não existir as
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pacificações. Essa aqui, que nós
estávamos, eu sabia que era pacificada,
mesmo assim, dei um puxão de orelhas
na Bia.
— Eu acho que eu tinha o direito de
saber onde era a tal festa né, Dona Bia?
— Ela me olha um tanto sem graça.
— Ai, amiga, se eu te falasse você
não viria e eu tenho certeza que você
vai amar.
— Pode ser, mas eu tinha o direito de
saber — ela dá um sorriso sem graça,
pois o Flavinho está nos olhando
intrigado.
Ele para o carro no local que parece
ser mais uma casa do que uma balada.
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Quando entramos e subimos as
escadas... Uau!!! A vista era espetacular,
mesmo à noite. Fico chocada com a
beleza e ao mesmo tempo a
simplicidade do local. A música era
bem alta e envolvente.
Acabei-me de dançar. Muito boa
mesmo a balada. Havia muito tempo que
não me divertia assim. Não tinha me
arrependido de ter vindo, bem que a Bia
disse que eu iria amar.
Saímos quando já eram uma e meia
da manhã, até estava cedo para ir
embora, mas eu e Bia estávamos
cansadas, então resolvemos acabar a
noite por aqui.
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Descemos a rua distraídos,
comentando como tinha sido divertida a
balada quando, de repente, olho para
frente e vejo vários policiais do Bope
apontando armas para nós. Flavinho dá
uma freada brusca com o carro e fica
com as mãos no volante em estado de
choque. Eu e a Bia estamos do mesmo
jeito. Um dos policiais vem em nossa
direção, gritando na janela para que
Flavinho desça. Ele vê a Bia e a manda
descer também. Quando ela desce, já
tem um policial fazendo sua escolta do
lado de fora. Fico em estado de alerta o
tempo todo.
Eles não poderiam agir dessa forma,
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esse não era o procedimento correto,
mas eu sabia que o Bope não jogava
leve e só entrava quando a cagada era
grande.
O porquê de pararem o nosso carro
desse jeito é que eu não estava
entendendo, eles só podiam estar
cometendo algum engano, pois eu tinha
certeza de que o Flavinho não se
envolvia com coisas ilícitas, caso
contrário, eu não estaria andando com
ele.
Levo um susto quando o policial que
estava gritando na porta a abre e puxa o
Flavinho pela camisa, jogando-o no
chão. Nesse momento, ele percebe
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minha presença e me encara uns longos
segundos dentro dos meus olhos.
Caramba! Perco-me em seu olhar, que
parece enxergar dentro de mim. O
mundo para por um segundo.
— Está maluca?! Quer morrer?! Sai
da porra do carro! — Saio dos meus
devaneios quando ele grita comigo.
Mas que merda! Esse homem é
maluco, por acaso? Não é assim que se
aborda um suspeito. Bem, na verdade,
eu nem era um suspeito, e nem sabia do
que se tratava, será que agora era contra
a lei se divertir? Vai saber, nesse mundo
tudo é possível.
Saio do carro e fico ao lado da Bia,
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de frente para o babaca que gritou
comigo. Nossos olhos se encontram e
ficamos por um tempo nos olhando,
alheios a tudo ao nosso redor. Ele era
lindo, parecia ser um pouco mais alto
que o Otávio, o cabelo era curto e claro,
seus olhos eram intensos, eu não
consegui ver a cor, mas pareciam claros
também. O corpo era bem definido,
mesmo embaixo de toda essa roupa, ele
parecia ser bem sarado; sua boca era
linda, seu rosto perfeito, nunca vi um
homem assim, ele era o ápice da
perfeição e eu estava presa em seu
olhar. Nunca havia sentido isso antes,
era como se uma força me puxasse para
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ele.
Minhas pernas estavam bambas, mas
não acho que fosse de nervoso. Não
consigo parar de olhá-lo. Até que ele
desvia o olhar, se abaixa, puxa Flavinho
pela camisa e o joga em cima do capô
do carro com toda força, coitado. A
raiva começa a me dominar enquanto o
valentão berra e ameaça Flavinho, que
tenta explicar que não sabia o que
estava acontecendo. O babaca ainda
debocha da cara dele, eu tenho que falar
alguma coisa, ele não pode tratar as
pessoas dessa maneira.
— Ele está dizendo a verdade, nós
não fizemos nada, e não é assim que se
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aborda um suspeito — digo em alto e
bom som, alguém precisa parar esse
idiota.
— Você deveria escolher melhor suas
companhias, pois quem se mistura com
porcos, farelo come — diz me
encarando de cara feia.
Cara feia para mim é fome. Era só o
que me faltava, quem é ele para me dar
lição de moral e dizer com quem devo
ou não andar? E, além do mais, eu não
ando com quem não presta. Meu pai me
ensinou muito bem essa lição.
— Fica quieta, Lívia! — Bia me
mandando ficar quieta? O cara que
beijava o chão para ela passar estava
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sendo esculachado, e além dela não
dizer nada, ainda queria que eu ficasse
quieta? Mas não iria mesmo, esse
policial estava errado e eu iria falar.
— Fica quieta nada, Bia, olha o que
ele está fazendo com o Flavinho! Nós
não fizemos nada. Eles nem nos pediram
documentos.
O policial, ao escutar o que digo,
muda a cara e chama seu colega.
Sussurra algo para ele. Sabia que ele
estava fazendo merda, agora ele deve
ter se dado conta do seu erro. Idiota,
não sabe nem trabalhar! Tenho que falar
com quem está no comando e mostrar a
idiotice desse cara.
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— Quem está no comando dessa
operação? Isso é um absurdo! —
Pergunto, fazendo uma cara de deboche
para ele, eu queria que soubesse que
não era uma leiga no assunto, sabia
muito bem como uma abordagem
funcionava.
— A Senhora tem alguma coisa
contra com o modo que eu trabalho? —
Pergunta de cara feia, achando que vai
me assustar. Claro que tenho, seu idiota.
— Lógico que eu tenho! Por isso
quero falar com quem está no comando
— ele se vira e chama outro policial.
— Tenente, você assume o comando,
sobe as viaturas 3, 4 e 5. Eu vou logo
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em seguida com as viaturas 1 e 2. Quero
o cara vivo, entendido? — Puta que
pariu! Ele quem estava no comando
dessa bagunça.
— Sim Senhor, Capitão! — Ele era
Capitão! Então porque ele estava agindo
dessa forma? Isso era coisa de
principiante, não? Eu me viro para olhar
para a Bia no instante que ele está com
um envelope nas mãos e balança a
cabeça em negativa o tempo todo para
mim. Hã! Como eu iria saber que o cara
era Capitão? Estava tão nervosa que
nem me atentei ao fato de olhar para sua
farda.
— Todos a postos para qualquer
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surpresa que apareça, vou resolver esse
mal-entendido e já subimos — ele dá
ordem, todo dono de si. Ele pede os
documentos do Flavinho, acho que
agora que percebeu o erro que estava
cometendo. E eu não poderia perder a
chance zoar ele um pouquinho.
— Engraçado, depois de toda essa
palhaçada é que você pede os
documentos? — Pergunto em tom de
deboche, me arrependendo logo em
seguida, pois o olhar que ele me dá é
mortal!
— À frente do carro, senhora! — Ele
me diz com muita raiva. Fico tensa. Vou
andando lentamente até a frente do
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carro, nem sei como consigo chegar lá.
Ele fica parado na minha frente, e puta
merda! Que homem é esse? Ele era
lindo mesmo! Cheiro maravilhoso! Cara
de macho, agora confirmo que seus
olhos eram quase verdes e que parecia
um espelho que me via por inteira. Ele
ficou lá, parado, bem próximo e me
olhava de cima abaixo. Eu estava com
aquele friozinho na barriga e minha
calcinha estava totalmente úmida.
Que merda é essa? Eu nunca tinha
ficado assim com ninguém, nem com o
Otávio que também é lindo, mas não
tinha como comparar com esse Capitão
à minha frente. Era só o que me faltava,
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sentir isso logo por um policial, e ainda
por cima, um grosso!
Saio dos meus pensamentos e resolvo
desafiá-lo um pouco, afinal, preciso me
distrair.
— Que foi? Já estou aqui, e agora,
vai fazer o quê? — Digo cheia de
autoridade e dona de mim.
— A Senhora sabia que posso
prendê-la por desacato à autoridade? —
Ele fala, querendo me ameaçar, se
aproveitando da sua autoridade. Solto o
ar com força, odiava gente desse tipo.
— O Senhor sabia que eu posso
denunciá-lo por abuso de autoridade?
— Revido, imitando seu tom. Toma
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essa!!
— Documentos! — Ele grita e eu
levo um susto. Achando melhor
obedecer, viro-me para pegar minha
carteira que estava no banco de trás, e
como a porta é do outro lado, coloco o
joelho no banco do motorista e fico com
a bunda um pouco inclinada para ele.
Faço isso de propósito mesmo, mas ele
pediu o documento e só tinha esse jeito
de pegá-lo. Quando estou voltando, já
com a identidade nas mãos, acabo
esbarrando nele, que já havia se
aproximado mais de mim. Sinto um
arrepio percorrer todo meu corpo.
Então, ele dá mais um passo na minha
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direção.
— Desacato e, agora, tentativa de
suborno — eu simplesmente não
acredito que ele disse isso... Sabia
muito bem que estava se referindo ao
fato da minha bunda ter encostado nele,
quem mandou ele ficar tão perto? E pelo
tom baixo e sexy que ele disse isso, eu
não tinha dúvidas que tinha feito de
propósito.
— Está ficando louco! Eu não lhe
ofereci dinheiro algum, está querendo
mostrar trabalho em cima de inocentes?
— Falo, me fingindo de desentendida.
Ele se aproxima mais ainda e diz:
— Vamos combinar que, de inocente,
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você não tem nada — diz bem próximo
ao meu ouvido, deixando-me totalmente
desconcertada. Se minha calcinha já
estava úmida, agora ela ensopou de vez.
— Você é muito abusado! Queria ver
se não estivesse usando essa farda aí e
sem todas essas armas ao seu redor, se
faria a mesma coisa — digo, fingindo-
me indignada com sua atitude.
— Pode ter certeza que sim — diz
todo dono de si e ainda pisca para mim,
irritando-me. Será que ele fazia isso
com todas? Eu estava gostando da
brincadeira de quem irrita quem, pois
estava me sentindo única. Mas depois
de sua resposta, vi que não era.
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— E aí, vai me prender ou posso ir
embora? — Estava louca para sair dali.
— Liberada, tenho coisas mais
importante para fazer — que imbecil!
Fica flertando comigo na cara dura e
agora me dispensa assim. Deve ter
enjoado da brincadeira. Não sei por que
isso me incomodou de alguma forma.
— Não pareceu — digo com raiva.
Ele não diz mais nada, então, me
viro, entro no carro e fico lá muito
chateada com que eu estava sentindo em
ralação a esse Capitão. O que você
queria, Lívia, que ele parasse tudo
para te levar para casa? Ele que se
dane! Amanhã nem vou me lembrar dele
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mesmo.
Bia entra no carro e vejo quando ela
devolve o celular do policial que estava
com ela, meio que escondido para que
ninguém veja. Eu não acredito que eles
trocaram números!
— Bia, você não tem jeito mesmo! —
Falo baixo e o Flavinho nem percebe,
acho que ele estava muito nervoso com
a situação, coitado. Ela me olha
desconfiada.
— Só eu, Lívia? — Ela fala, dando
uma piscada para mim. Fico sem graça,
ai meu Deus, será que ela percebeu?
— Em casa conversamos, Bia —
Flavinho dá partida, ele estava super
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nervoso mesmo, tadinho, com razão.
Não resisto e dou uma olhadinha para
trás, e ele está lá parado, de braços
cruzados, olhando para o carro em
movimento.
A viagem é feita em um silêncio
mortal, ninguém fala nada e o Flavinho
está muito nervoso ainda, ele tinha
passado a pior parte da história. Ele nos
deixa na porta do prédio, se despede e
vai embora. Estava em choque mesmo,
pois nem tinha tentado beijar Bia.
Entramos, Bia iria dormi na minha
casa; subimos em silêncio e assim que
abro a porta, Bia começa.
— O que foi aquela guerrinha entre
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você e o Capitão gostosão? — Olho
para ela e minha boca está aberta. Ela
tinha percebido, que droga!
— Não teve guerra nenhuma, Dona
Bia. Alguém tinha que tomar uma atitude
ou ele iria acabar levando o Flavinho
por engano, você não viu que o cara
estava confuso e nervoso? — Digo,
tentando convencê-la.
— Lívia, você é a pior mentirosa que
conheço. Ficou toda abalada com o
cara, eu nunca te vi assim com ninguém
— ela diz me olhado e ela sabia o que
estava dizendo.
— Sério, Bia? Não fui eu quem ficou
de paquera enquanto meu amigo estava
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no chão, sendo tratado como um animal
— ela fica séria na hora.
— Poxa, Lívia, sabe que não foi bem
assim, eu não consigo falar quando fico
nervosa e eu não tenho culpa se o
Michel foi um doce comigo, tentou me
acalmar o tempo todo, e também não
tenho culpa se ele era um gato e, ainda
por cima, disponível.
— Mas você é muito cara de pau,
Bia, já sabe até o estado civil do
policial — ela me olha como se isso
não fosse nada de mais.
— Claro, amiga, não vou perder
tempo com caras que não estão
disponíveis.
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— E o lance do telefone, pode isso,
pegar telefone de mulher quando se está
em serviço? — Ela revira os olhos.
— Claro que não, né Lívia, por isso
eu coloquei meu telefone no celular dele
escondido, para que ninguém visse,
você que é muito bisbilhoteira.
— E você acha que ele vai ligar? —
Ela se levanta para ir ao banheiro.
— Não tenho dúvidas, amiga — ela
entra no banheiro e fecha a porta. Pelo
menos ela tinha tirado algum proveito
dessa situação, já eu, ainda estava com
raiva daquele Capitão cheio de marra.
Vou para o meu quarto e também
tomo um banho, coloco uma camisola e
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vou dormir.
Acordo toda suada, depois de um
sonho com aquele Capitão. Não é
possível que esse homem vai me
perseguir até em sonho! Eu tinha que
tirar esse homem do meu sistema. Como
pode isso? Vejo o cara um dia só e
cismo com ele. Graças a Deus eu não o
veria de novo, nem pensar eu me
envolveria com um policial, ainda mais
do Bope. Eu entraria em parafuso cada
vez que ele saísse para uma operação e
seria como se eu fosse viver o que vivi
com meu pai a qualquer momento, por
isso eu manteria meu juramento. Pré-
requisito para envolvimento: não
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poderia ser policial.
Eu, hein, eu estou ficando maluca! Já
estou até questionando um envolvimento
que nunca existiu e nem vai. Eu tinha
acabado de sair de um relacionamento
falso. Deve ser por isso que eu tinha
cismado com esse homem, meus
sentimentos estavam conturbados, não
vou cometer o mesmo erro outra vez.
Ai, tira essas ideias da cabeça, Lívia!
Não existe nenhuma possibilidade de
voltar a vê-lo. Mundos diferentes,
esquece esse cara!
Levanto-me, faço minha higiene
pessoal, coloco um short jeans e uma
camiseta de malha, vou para a sala, e
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quando vejo a hora, me espanto, já são
onze horas. Olho para cima da mesa
onde tem um papel que não estava lá
ontem, era um bilhete da Bia:
Fui para casa, minha mãe mandou
te chamar para almoçar com a gente,
naquele restaurante na Barra, de
frutos do mar, que você gosta.
Vamos sair às 13h.
Beijunda, Bia.

Já que iria sair para almoçar com a


tia Gisele e com a Bia, eu tomaria só um
café e comeria uma torrada.
Acabo meu café, pego meu celular e
confiro as mensagens. Estranho não ter
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nenhuma do Otávio, acho que ele tinha
entendido o recado, que bom.
Fico lá assistindo TV e aquele rosto,
aquele cheiro, não me sai da cabeça...
Que droga, só o que me faltava, uma
obsessão sem cabimento.
Saio para a casa da Bia às treze, e
vamos ao restaurante que amo. Distraio-
me bastante, tia Gisele é bem legal,
super antenada. Ela teve a Bia com
dezessete anos, era muito jovem ainda,
só não entendia porque não havia se
casado de novo ou tinha um namorado.
Ela era muito bonita, acho que vou
combinar um encontro dela com o tio
Nelson, pois ele também é solteirão, vai
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que dá certo. Olha eu querendo bancar o
cupido.
Chego em casa às dezoito horas, pois
fiquei lá um pouquinho ouvindo as
histórias do trabalho da tia Gisele; toda
vez que ela chegava, era certo contar as
histórias mais engraçadas do mundo!
Meu domingo termina bem do jeito
que gosto, assistindo um bom filme até
dar sono.
Segunda-feira acordo disposta e vou
para o trabalho, mas já chego lá cansada
devido ao engarrafamento. Qualquer
hora essa cidade vai parar e todos terão
que voltar a caminhar, como se fazia
antes dos carros existirem. Saio do
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trabalho às quatorze horas, que calor
infernal. Estou pensando em combinar
com a Bia de aproveitarmos a praia um
dia desses da semana, se esse calor
continuar vai ser uma boa, e como
estamos em horário de verão, iremos
aproveitar bem. Trabalho bem próximo
à praia, mas sozinha não me animo em
ir.
Chego em casa e ligo para ela, para
dar a ideia...
— Oi, fala aí, qual a boa? — Ela
pergunta, toda eufórica.
— Tudo bem com você? Estava
pensando que, de repente, podíamos
combinar de você ir para o meu
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trabalho, e de lá aproveitarmos um
pouco a praia, o que acha?
— Acho ótimo, um tempão que não
fazemos isso, quando seria? — Ela
pergunta agoniada.
— Pode ser na quarta, está bem para
você? Você está estranha, o que houve?
— Pergunto preocupada.
— É que meu Sargento ligou — não
acredito!
— E aí, o que ele disse? — Pergunto,
muito curiosa. Ela ia me contar quando?
— Nós vamos sair hoje à noite —
estou boba!
— É, não sei o que dizer, só vai
devagar amiga, sabe como esses caras
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são galinhas — não quero ver minha
amiga sofrendo.
— Pode deixar, eu vou ficar esperta,
depois te conto como foi, agora eu
preciso desligar, ele está me ligando,
beijunda.
— Beijo, amiga, se cuida— desligo e
fico lá pensando em como as pessoas se
conhecem nas mais diferentes situações.
A única coisa que me preocupava era
com o fato de ele ser policial e eu ter
que ver minha amiga sofrer. Mas eu iria
torcer muito para que desse tudo certo.
Bom, vou tomar meu banho, depois dou
uma ajeitada na cozinha e vou tirar um
cochilo. Mais tarde terei que ir ao
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shopping pagar umas contas.
Chego do shopping, tomo meu banho
e vou para minha cama dormir, amanhã
meu dia seria longo por conta do
estúdio. Deito, fecho meus olhos e me
vêm lembranças daquele Capitão idiota.
Meus olhos vão pesando, e durmo
pensando naquele olhar.
Chego do estúdio cansada, pois tinha
feito aula de dança de salão depois que
terminei com as crianças. Amo dançar,
seja lá qual for o ritmo.
A Bia já tinha me ligado umas dez
vezes só hoje, para elogiar o seu
Sargento. Disse que ele era um
cavalheiro e um doce. Que diferente
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daquele chefe babaca dele.
Lívia, esquece esse cara, aff.
Chego em casa, termino de ler um
livro ótimo, Protegida por Mim, da
Elizabeth Bezerra, uma escritora
brasileira muito boa.
Acordo animada com a praia hoje,
então pego meu biquíni, minha saída de
praia e meu chinelo, coloco-os na bolsa,
sem esquecer do protetor.
Às treze e cinquenta, Bia chega no
meu trabalho; vou para o banheiro, me
troco e logo estou pronta.
Vamos curtir uma praia...

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Capítulo 7
Capitão Torres

Passo o domingo em casa pensando


em como ela era linda, não conseguia
tirá-la da minha mente.
Resolvo sair e dar uma caminhada na
orla da praia. Sempre que eu tinha um
tempo, gostava de caminhar para clarear
as ideias. Eu nunca havia me desviado
em uma missão, e ela fez com que eu
perdesse completamente meu foco. E
era por isso que não conseguia parar de
pensar naquela atrevida. Além do seu
endereço, local de trabalho e que o pai
dela tinha sido um policial civil
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assassinado na porta de casa, eu não
sabia mais nada dela, a não ser o fato de
que era bem abusada.
Eu tinha que admitir, pisei na bola,
estava com tanta sede de pegar o
assassino que havia matado meu amigo,
que não confirmei os dados do cara. E
ela não deixou barato, me desafiou a
todo o momento, não estava acostumado
com ninguém me dizendo o que eu tinha
que fazer. Eu tinha conquistado meu
respeito e ela quase o tirou na frente da
minha equipe. E eu simplesmente dei
corda para todo aquele abuso, agi como
um novato que não sabia o que estava
fazendo.
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Ela simplesmente me tirou do meu
centro, e quando olhei aqueles olhos,
fiquei totalmente perdido; ela parecia
um anjo com toda aquela beleza. Eu
tenho que esquecer, isso já passou. O
cara que matou meu amigo já está em
algum lugar do inferno. Esse era o
grande objetivo daquela missão, e não
ficar encantado com anjos que aparecem
no meu caminho.
Volto para o meu apartamento, que
ficava aqui bem próximo à praia.
Apesar de a noite estar linda para
caminhadas na orla, eu estava cansando,
pois não tinha dormido nada na noite
anterior e, amanhã, o dia seria longo.
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Teria uma reunião na empresa cedo,
ficaria lá até depois do almoço e depois
iria para o batalhão e só sairia de lá no
outro dia à tarde. Como eu era um dos
poucos que ainda não tinha família,
vivia quebrando o galho dos colegas.
Quando entro em casa, vejo o papel
contendo as informações dela. Eu tinha
que parar de agir por impulso, fui ao
batalhão só para pegar dados de uma
pessoa que vi apenas uma vez. Acho que
esse lance dela me desafiar e o fato de
ter sido muito grosseiro com ela
mexeram comigo. Sempre procurei
cumprir o regulamento em todas as
situações possíveis. Claro que com
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bandido já tinha que chegar
esculachando, mas ela não tinha cara de
bandida, muito tempo trabalhando com
isso, sei bem reconhecer um, pode ter
certeza.
Pego o papel em minhas mãos, o
amasso e o jogo na lixeira. Essa merda
de ficar remoendo as coisas não é para
mim. Vou para o meu quarto, tomo um
banho e vou direto para a cama.
Acordo com o despertado berrando
no meu ouvido, levanto e vou fazer
minha higiene pessoal. Coloco uma
calça jeans, uma blusa preta, meu tênis,
pego minha pistola e vou direto para a
empresa.
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Chego à empresa e encontro Michel,
falando com uns funcionários. Tínhamos
essa empresa há três anos e já estava
com uma rentabilidade muito boa. Se
continuássemos assim, logo poderíamos
ampliar o espaço e aumentar a
produção.
Trabalhávamos com todos os tipos de
blindagem e esse mercado vinha
crescendo cada vez mais, devido ao alto
índice de violência no Rio. Todos
queriam recorrer a mais um dispositivo
de segurança. Se meu amigo não tivesse
sido tão orgulhoso em aceitar que eu
blindasse seu carro, hoje ele poderia
estar vivo.
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Infelizmente, tem coisas que não
podemos mudar.
— Michel, e aí, tudo certo com a
produção? — Pergunto. Michel ficou
responsável pela produção, e eu, pelo
financeiro.
— Tudo certo, todos os prazos serão
cumpridos a tempo.
— Que bom, pois a credibilidade do
cliente é a nossa melhor propaganda —
tínhamos como prioridade a sinceridade
e profissionalismo com os clientes.
Estava dando muito certo.
— E aí, cara, recuperado do fim de
semana? — Fiquei sem entender sua
pergunta.
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— Passei o domingo todo em casa, por
que a pergunta? — Ele começa a rir, só
então minha ficha cai. Que babaca!
— Só queria saber qual a graça — que
pelo saco!
— Nenhuma, é que eu estava quase
confundindo quem era o Capitão na
última missão — filho da puta, eu sabia
que iria aturar isso.
— Vai se foder, Michel! Não fui eu
quem ficou tentando dar uma de bom
moço, consolando uma suspeita em
plena operação, você pensa que eu sou
cego? — Digo, e ele perde o riso na
hora. Era melhor ter me deixado quieto.
— A Bia estava muito assustada, eu
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só disse para ela ficar calma, que tudo
iria ficar bem, o que há de mal nisso?
— Ele ainda pergunta?
— Não vou precisar te lembrar do
protocolo não é, Michel? Sabe que não
podemos conversar com suspeitos —
ele fica puto quando falo isso.
— Ela não era suspeita e você sabe
disso. Porra, a menina estava assustada
e você queria que eu fizesse o quê?
Ficasse gritando com ela como você fez
com a amiga dela? — Que babão! Só
porque a mulher era bonita, ficou
encantadinho. Como se eu também não
estivesse ficado encantado com o anjo
que estava à minha frente. O sujo
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falando do mal lavado.
— Eu estava fazendo meu trabalho,
Michel! — Ele fica me olhando
indignado, sabia que eu não fazia esse
tipo de coisa com mulheres.
— Você pensa que ninguém percebeu
que você ficou abalado com a mulher?
Até passou o comando para o Fernando,
quando foi que você já fez isso? Eu
nunca vi — puta merda! Será que tinha
sido assim tão óbvio?
— Acho que temos uma reunião, não,
Michel? Esse papo já deu — digo bem
puto da vida.
— Para você pode ter dado, mas para
mim está apenas começando, vou criar
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coragem e ligar para aquela garota a
qualquer hora — não ouvi direito, porra
nenhuma que iria permiti-lo ligar para
ela.
— Vai ligar para quem? — Pergunto,
já armando o sermão.
— Para a Bia, cara, a coelhinha
assustada, quem mais? Ela me deu seu
número de telefone — solto o ar que eu
estava prendendo. Fico aliviado de não
estar falando da Lívia. Eu hein, que
merda de cisma com uma mulher.
— Não vou repetir o que você já
sabe, mas se eu pegar você pegando
telefone de mulher na minha operação,
não é porque é meu amigo que não terá
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punição. Fica avisado.
— Se tudo der certo, eu não vou
pegar telefone de ninguém por um bom
tempo, a menina é uma delícia, nem
acreditei quando me deu seu telefone —
Michel e seu coração mole.
— Vamos, já estamos atrasados —
chego à sala de reuniões e todos já estão
nos esperando.
A reunião é rápida, definimos metas e
falamos das gratificações que teriam
esse ano para quem as cumprissem,
pois, funcionário bom tinha que ser
reconhecido.
Passo a parte da manhã lá e depois
vou direto para o batalhão. Fico só com
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os serviços internos, não estava a fim de
encarar outra operação por enquanto. O
resto do dia e da noite foi tranquilo.
Saio do batalhão depois do almoço, dou
uma passada na empresa e fico lá até
fechar.
Vou direto para casa, estava exausto.
Peço alguma coisa por telefone, depois
ligo para minha irmã que estava
morando no Sul, por conta dos estudos.
Ela preferiu ir para lá a ficar aturando a
tirania do meu pai. Eu tinha saído de
casa cedo também, assim que entrei
para a polícia com vinte e um anos.
Aluguei um apartamento pequeno, que
dividia com mais dois amigos, queria
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conquistar minhas próprias coisas.
Cinco anos depois, comprei esse, que eu
moro, financiado, e graças a Deus e a
empresa, tinha conseguido quitar. Não
queria ficar refém do dinheiro do meu
pai e acho que a Clara pensava a mesma
coisa, por isso ela tinha escolhido outro
Estado para estudar.
— Fala aí, maninha, como andam as
coisas por aí? — Eu amava aquela
pestinha.
— Oi sumido, pensei que tinha se
esquecido de mim — fala com a voz
chorosa.
— Claro que não, sua boba, muito
trabalho, só isso.
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— A tia Regina me contou do
Guilherme, eu sinto muito mesmo, sei o
quanto vocês eram apegados — respiro
fundo.
— É, foi uma barra, Clara, eu ainda
não acredito que ele não esteja mais
aqui.
— Deus sabe o que faz, maninho, ele
era muito bom para esse mundo — ela
tinha razão, ele era mesmo, é
insubstituível.
Ficamos quase meia hora no telefone,
falando sobre tudo, até que escuto a
campainha.
— Tenho que desligar, maninha, meu
jantar chegou.
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Eu sabia cozinhar muito bem, mas hoje
eu estava cansado.
— Está bom, irmão, se cuida, beijos,
te amo.
— Também te amo, maninha, beijos.
Termino meu jantar, tomo meu banho
e vou deitar. Quando fecho os olhos,
penso naquele rosto lindo. Viro-me de
um lado para o outro na cama, mas que
droga! Como se já não bastasse essa
mulher atormentar meus pensamentos
durante todo o dia, agora espantava meu
sono durante a noite.
Ainda bem que amanhã eu não
precisaria ir ao batalhão, ficaria só na
empresa mesmo.
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Depois de muito rolar para cá e para
lá, finalmente apago.
Acordo cedo, vou dar uma corrida no
calçadão. Volto, tomo meu banho e saio
para a empresa.
Chego, dou bom dia a todos e vou
direto para o escritório. Passo a manhã
toda no escritório, o Michel hoje só
viria depois do almoço. Saio para
almoçar e, quando volto, Michel está ao
telefone.
— Claro, gata, pode deixar que vou
dar um jeito, eu já sei o que tenho que
fazer, fica tranquila. Muitas saudades
também, beijos e até logo — ele desliga
o celular e fica olhando para o aparelho
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com cara de bobo. Com quem será que
ele estava falando com essa doçura
toda?
Cara, todo homem apaixonado ficava
bobo e perdia a noção, esse também era
um dos motivos que eu evitava
relacionamentos mais sérios, para não
ter que pagar esse mico.
— Quando é o casório? Eu não me
lembro de ter sido convidado — ele
leva um susto e fica sem graça.
— Vai devagar aí, Gustavo, só tem
dois dias que eu estou com a menina,
nós ainda temos muito pela frente.
Estamos nos conhecendo — isso já
queria dizer que ela era diferente, pois
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ele estava fazendo planos para o futuro.
Desde quando ele fazia isso?
— Posso saber quem é essa gata que
deixou o Sargento Targueta com cara de
bobo? — Ele me olha desconfiado.
— É a Bia, nós saímos na segunda à
noite. Ela é tudo de bom, cara —
caramba, ele tinha saído com a amiga do
meu anjo, uau! Já estava eu achando que
o anjo era meu.
— Fico feliz por você, cara, tomara
que seja ela a te colocar na linha —
digo e ele está com um sorriso idiota na
cara.
— Tomara, porque essa eu não vou
liberar tão cedo.
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— Deixa eu me afastar, antes que
isso pegue em mim, já pensou ficar com
esse sorriso idiota na cara? Eca! —
Digo em tom de gozação.
— Liga não, Capitão, você já foi
contaminado, só não se deu conta ainda
— ele diz, rindo da minha cara. Que
idiota, iria me zoar agora pelo resto da
vida.
— Vou fingir que não entendi — ele
continua rindo, que babaca.
— Vamos trabalhar, Michel? —
Pergunto, já ficando irritado.
— Agendei uma visita particular com
um cliente às dezoito horas, ele quer
fazer três carros conosco.
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— E por que ele não vem ao
escritório? — Odiava visitas
particulares.
— O cara é muito ocupado, só podia
se fosse assim — que seja, não posso
dispensar clientes, então vamos lá.
— Está certo, qual o local? —
Pergunto para o Michel, pois ele que
tinha tratado tudo.
— Saímos por volta de dezessete e
trinta. Vamos no meu carro, é perto da
sua casa, de lá, vou embora.
— Tudo certo, por mim tudo bem —
digo, pois eu tinha vindo caminhando
mesmo, já que a empresa ficava a cinco
quarteirões da minha casa.
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Passo a tarde distraído, fazendo
pedidos de materiais e agendando as
entregas, até que sou surpreendido por
Michel.
— Gustavo, está na hora, vamos lá?
— Claro, vamos lá.
Saímos da empresa e percebo que ele
não desgruda do celular, já tinha
digitado umas três mensagens até chegar
ao carro. Está realmente muito
interessado nessa garota, nunca o vi
disperso assim na hora do trabalho.
— Espero que, na hora da reunião,
você largue esse celular. Vai ficar chato
se continuar enviando mensagem a cada
minuto — ele olha para mim e dá uma
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risada. Essa porra está ficando maluco!
— Só tem dois dias com essa garota e já
ficou doido? Tô fora!
Ele me olha e digita uma última
mensagem e não diz mais nada.
Seguimos com o carro pela orla e ele
encosta próximo ao Posto 2.
— Você marcou com o cara na praia?
Um calor infernal desses!
Ele começa a olhar pela janela do
meu lado e dá um sorriso. Eu fico sem
entender o que está acontecendo, fico
olhando para cara de idiota que ele está
fazendo.
— Que porra é essa, Michel? — Ele
parece um pouco nervoso,
Acheron Livros e afins
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imediatamente meu sensor de alerta
dispara. Pego minha pistola e a
destravo, fico com ela em punho.
— Para que isso, cara, está maluco?
— Ele pergunta.
— Eu que te pergunto o que está
acontecendo! Parou o carro aqui, está
olhando para os lados e está todo
nervoso.
— Não é nada disso, é só a minha
gata que está vindo bem ali — ele
aponta na direção dela, e puta que pariu!
Meu anjo estava ali bem na minha
frente, e parecia mais linda do que eu
me lembrava. Agora, quem estava com
cara de idiota era eu.
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— Porra Gustavo, guarda essa arma,
quer assustar as garotas de novo? Daqui
a pouco elas vão achar que você é o
Bicho Papão! — Ele fala e me tira do
meu devaneio. Guardo a arma no cós da
calça enquanto Michel já está saindo do
carro. Ele vai em direção a Bia e ela
vem correndo em sua direção. É,
parecia que ela também estava bem
interessada nele. Tomo coragem e
também começo a sair do carro. Meu
anjo ainda não tinha me notado, estava
olhando na direção da amiga e do
Michel, que já estavam se beijando.
Fico parado sem ação, olhando para
cada pedaço do seu corpo. Essa mulher
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realmente tinha o poder de me distrair.
Quando ela se vira, seu olhar vem na
minha direção, e simplesmente trava em
seu lugar, bem na hora que um surfista ia
passando por ela. Ele esbarra nela e a
derruba. Na mesma hora, vou correndo
em sua direção. Esse idiota devia ser
cego, porra, não viu que ela parou?
Chego perto dela, que ainda está
sentada na areia com a mão na testa. O
babaca está lá, todo solícito, oferecendo
ajuda. Filho de uma puta. Ele vai ver só.
— Está cego, seu idiota? —
Pergunto, já me abaixado e o tirando de
perto do meu anjo.
— Eu já pedi desculpa, cara, ela
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parou do nada e não a vi.
— Então você devia usar óculos —
falo ríspido com ele. Ela estava me
olhando, mas não dizia nada.
— Pode deixar que eu cuido dela,
mete o pé. Está surdo!? — Cara
retardado!
— Está tudo bem, você se machucou?
— Pergunto a ela, que não diz nada, só
fica me olhando — Ei, me deixa ver
isso — tiro sua mão que estava em cima
da testa e vejo um arranhão — Droga!
Aquele idiota te machucou! Vem, vou te
levar para o carro e vamos a um
hospital — ela começa a balançar a
cabeça em negação. Tento pegá-la no
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colo e ela tira minhas mãos. Sinto-me
impotente quando ela faz isso.
— Eu estou bem, foi só um arranhão
e foi na cabeça, não nos pés — diz, toda
dona de si.
— Por isso mesmo temos que ir a um
hospital, ferimentos na cabeça são
perigosos — ela começa a se levantar,
sem me dar a mínima atenção, e isso
mexe comigo de uma maneira que eu
não queria.
— Engraçado, você agora está
preocupado com minha integridade
física?
Nossa, que mulher difícil e
desafiadora.
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— E por que eu não estaria? — Digo,
olhando dentro dos seus olhos no
mesmo instante que sua amiga chega e
me afasta, quebrando nosso contato.
— Ai meu Deus, Lívia, está tudo
bem, amiga? — Ela se levanta e começa
a tirar a areia da saída de praia que
estava vestindo. Ela era o ápice da
perfeição. Realmente parecia um anjo,
agora eu não tinha mais dúvidas, essa
mulher definitivamente tinha mexido
comigo como nenhuma outra.
— Não foi nada de mais, Bia, é só
um arranhão — ela continua andando,
me deixando para trás com cara de
idiota.
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A Bia pega um lenço e um álcool em
gel da bolsa e começa a limpar o
ferimento. Ela reclama um pouco por
conta da ardência, mas Bia continua.
— Acho que não é certo passar esse
tipo de álcool em ferimentos — falo
para a amiga dela, e a Lívia me fuzila
com o olhar.
— Você é médico? — Pergunta-me
em tom de ironia enquanto a amiga
continua limpando seu ferimento.
— Não, mas fazemos cursos de
primeiros socorros no batalhão — ela
revira os olhos, como não estivesse nem
aí para minha resposta. Eu fico olhando
para ela, que desvia o olhar.
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— Bia, vamos embora, já deu por
hoje — ela diz e eu continuo lá parado
olhando para ela, como se todas as
palavras estivessem com ela. Minha
vontade era segurá-la em meus braços e
não a deixar se afastar de mim.
— Claro, Lívia, tem certeza de que
não precisa de um médico?
— Claro, amiga, foi só um arranhão,
nem está doendo.
Ela me dá uma última olhada e se
vira para ir embora. Eu não queria que
ela fosse e isso me assusta.
— Eu levo vocês — oferece-se
Michel, e eu não consigo dizer nada,
ainda estou tentando entender que merda
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estava acontecendo comigo.
E a reunião?, penso eu. Ele se vira,
como se lê-se meu pensamento, pisca
para mim e percebo que não havia
reunião nenhuma. Foi tudo uma armação
dele. Que safado, querendo bancar o
cupido! Pena que o tiro saiu pela
culatra. Eu realmente iria gostar que
tivesse dado certo, mas esse anjo é
muito rebelde, não sei se conseguirei
domá-lo um dia.
Elas aceitam e entram no carro. Ele
dá partida e vai embora, e a cena se
repete, mais uma vez; eu fico lá,
assistindo a partida dela feito um bobo.
Faço meu caminho para casa, já que
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estava perto. Como fui burro, poderia
ter ido junto. De repente, assim, ela me
daria mais abertura, mas não, fiquei lá
de novo sem ação! Será que ela tinha
algum poder mágico que tirava meu
poder de raciocinar? Que porra de
fixação é essa com uma mulher? Tudo
bem, não era uma mulher qualquer, era o
meu anjo. Agora percebo que estava
muito ferrado.
Chego em casa, tomo meu banho e
fico andando de um lado para o outro, a
imagem dela não saía da minha cabeça.
Sempre fui conhecido por toda a
corporação como um cara focado e
centralizador. Sim, gosto de tudo ao meu
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comando e nada e ninguém me tira do
meu objetivo. Sempre funcionei bem
com a cabeça, sentimentalismos não
eram para mim. E agora eu estava aqui,
confuso e totalmente perdido com essa
mulher na minha cabeça. Pela primeira
vez, não sabia o que fazer, como agir, eu
estava muito ferrado!
Olho em direção ao bar e vejo a
garrafa de uísque que eu deixava para as
visitas, pois eu mesmo, desde que entrei
para a corporação, não bebia mais. Mas
hoje, estranhamente, eu precisava de
uma dose, pelo menos assim dormiria
logo e a esqueceria de vez.
Uma dose não foi suficiente, eu
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continuava pensando nela e vendo-a na
minha frente cheia de autoridade, e
aquela frase não me saía da cabeça;
“Queria ver se não estivesse usando
essa farda aí e sem todas essas armas ao
seu redor, se faria a mesma coisa”.
Passo a mão pela cabeça, tomo mais
uma dose e, quando percebo, já foi meia
garrafa. Eu tinha que tirar isso a limpo.
Vou até a lixeira onde tinha jogado o
papel com seu endereço fora, o pego,
coloco uma camiseta branca, meu tênis,
e saio.
Deixo a pistola em casa, coisa que
nunca fiz antes, mas eu precisava
mostrar para ela que eu não era aquela
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pessoa horrível que estava imaginando.
E se ela me queria desarmado, pois
bem, assim que seria.
Chego à porta do seu prédio e fico
analisando como entrar, pois, sei que se
eu anunciar, ela não vai me receber.
Quando vejo o porteiro, percebi que
seria mais fácil que imaginava. É o Sr.
João, ele já trabalhou no meu prédio e
batíamos altos papos. Vai ser moleza.
Aproximo-me do prédio e faço sinal
de positivo para ele, tentando parecer
sóbrio para não estragar meu disfarce.
Caralho, já estou pensando igual a
bêbado, isso não foi boa ideia.
— Boa noite, Sr. João, tudo bem?
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Meu amigo está me esperando, já liguei
para ele, não precisa anunciar — minto
descaradamente.
— Oi, meu filho, tudo certo, e como
andam as coisas lá no seu prédio? —
Porra, estou tentando parecer normal e o
cara quer puxar conversa.
— Está tudo certo, o prédio continua
em pé — faço sinal de positivo com a
mão, e ele fica me olhando confuso.
Também, que porra de resposta é essa?
Sigo para o elevador, ele não diz mais
nada, fica lá me olhando. Fico parado
com a mão na parede, tentando não
balançar.
Entro no elevador e aperto o dois de
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segundo andar. Levo uns dez minutos
para achar sua porta, pois os números
estavam todos se mexendo.
Quando a encontro, começo a tocar a
campainha e bater na porta ao mesmo
tempo.

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Capítulo 8
Lívia

Acordo com a campainha e batidas


na porta da sala. Só podia ser a Bia que
tinha esquecido sua chave, pois outra
pessoa teria sido anunciada antes.
Agora eu tenho certeza que ela é
maluca, já são onze e meia da noite,
poxa, ela sabe que acordo cedo.
Coloco meu robe por cima da minha
camisola de cetim branca que estava
vestindo vou em direção à porta. As
batidas continuam, com certeza era ela,
pois não tinha paciência para esperar.
— Já vai, Bia, que saco! Você me
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acordou, sabia? — Abro a porta e quase
caio para trás. Eu só podia estar tendo
um pesadelo.
Não é possível! Que pesadelo que
nada, só podia ser um sonho mesmo.
Não tinha como ele estar na minha
porta. Ou tinha?
Se for uma visão, ela era muito boa e
real. Ele estava lá, em pé, me olhando
com os braços no batente da porta,
parecendo que estava olhando para
dentro de mim. Como ele conseguia
fazer isso? Minhas pernas estavam
bambas, meu coração parecia que iria
sair pela boca. Ele continua lá, parado,
me olhando, e eu ainda não consegui
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formar nenhuma palavra. Nós ficamos
ali nos olhando, como se precisássemos
disso para viver.
Ele tira as mãos do batente da porta e
tira a camisa de malha branca que
estava vestindo, joga-a no chão da
minha sala, me empurra para dentro e
fecha a porta atrás de si. E fico ali,
como uma marionete em suas mãos. Ele
está com as mãos em minha cintura e eu
estou ali paralisada, quase babando em
seu peitoral que era totalmente perfeito
e definido como eu tinha imaginado.
Eu fiquei do mesmo jeito que tinha
ficado mais cedo na praia. Quando o vi,
fiquei totalmente imóvel e sem fala, fui
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até atropelada por um surfista. Será que
eu ficaria assim todas as vezes que o
visse?
— E aí? Estou aqui, sem uniforme e,
como você pode ver, desarmado. Só
queria saber o que você irá fazer
comigo agora — ele diz com o nariz e a
boca próximos ao meu ouvido e sinto o
cheiro de álcool nele. Sabia que isso
não estava certo, ele estava bêbado.
Que idiota de policial ele era, para sair
de casa desarmado e ainda por cima
bêbado! Ele estava colocando sua vida
em risco por pura idiotice — sinto
raiva, mas não sei por que, já que isso
não era da minha conta.
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Eu saio do meu momento hipnótico e
tiro suas mãos de minha cintura. Ele se
desequilibra e quase cai em cima de
mim; eu o empurro e ele fica encostado
a porta.
— Posso saber como conseguiu meu
endereço? E como conseguiu subir sem
ser anunciado? E o que você está
fazendo aqui? — Disparo para ele.
— Tss, tss, tss... Uma pergunta por
vez, por favor — ele fala estalando a
língua — Eu sou caveira, não é difícil
descobrir as coisas com aquele sistema
que temos no batalhão, você digita um
número de documento e boo! Aparece
tudo. Eu entro onde eu quero, sou bom
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nisso! E você, já se esqueceu de mim? E
o seu machucado está melhor? Eu juro
que se ele tivesse te machucado mais
sério, eu iria acabar com ele e com a
prancha também.
Nossa, ele estava muito bêbado! Está
falando tudo enrolado, como conseguiu
chegar até aqui? Sinto uma angústia em
pensar que poderia ter acontecido algo
com ele, apesar de ser o cara mais
idiota do mundo!
— Não esqueci, lembro-me de cada
babaquice sua e o meu machucado está
bem, obrigada, foi só um arranhão, nada
de mais — ele passa o polegar em cima
do arranhão e eu sinto um arrepio da
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nuca até o pé — Faltou você responder
uma pergunta: o que você veio fazer na
minha casa a essa hora da noite? E
ainda por cima nesse estado! Espero
que o álcool não tenha queimado seus
neurônios e você tenha perdido a noção
do perigo que correu — ele dá um
sorriso para mim e meu coração para.
Ele ficava mais lindo ainda quando
sorria.
— Está preocupada comigo, meu
anjo? Eu bebi só um pouquinho — faz
um gesto com o indicador e o polegar,
inclinando a cabeça — É que eu tinha
que tirar você da minha cabeça, e como
eu não estava conseguindo, apelei para
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o uísque, mas tem muito tempo que eu
não bebo, acho que esse foi o problema.
E como não adiantou, você continuava
lá, linda, aparecendo na minha frente.
Aqui estou eu, ao seu dispor — eu estou
totalmente surpresa com sua revelação.
Quando termina de falar, já está
totalmente grudado em mim de novo.
Parecia que uma força invisível nos
unia. Ele começa a passar o dedo sobre
meu rosto para tirar uma mecha de
cabelo, descendo para os meus lábios,
desenhando-o com o seu polegar. Eu não
consigo me mexer... Ele está com uma
mão em minhas costas, me abraçando
firme, e a outra vai direto para minha
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nuca, me forçando a encarar seus olhos
que são de puro desejo. Sinto a sua
ereção em minha barriga no mesmo
instante em que nossos lábios encostam
um no outro. Sua língua invade minha
boca e eu correspondo; seu beijo é
avassalador, sua pegada é firme e sinto
como se estivesse sendo beijada pela
primeira vez na vida.
Que homem é esse? À essa altura,
minha camisola já está na altura da
bunda e eu não estou nem aí, parecia
que eu entraria em combustão a
qualquer momento, nunca me senti dessa
forma.
Deus, ele era policial, eu não deveria
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me envolver com ele, eu tinha que
preservar meus sentimentos. Esse
homem era totalmente disperso com a
própria vida! Eu tinha que ter forças
para afastá-lo, minha cabeça dizia que
sim, mas meu corpo já está implorando
por mais e mais. Então, continuo
andando em direção ao sofá e ele vem
junto, ainda comigo em seus braços.
Quando me aproximo do sofá, o pego
distraído com um dos golpes do meu pai
e ele cai deitado no sofá. Eu fico em pé
na sua frente e ele está com uma cara de
quem foi derrotado por uma formiga.
— Me admira o Senhor, Capitão,
deveria estar mais ligado — digo para
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ele que está me olhando com aquela
cara de quem acabou de perder um
round.
— Você me pegou desprevenido em
um momento de fraqueza, mas fico feliz
que seu pai tenha te ensinado a se
defender — ele diz ainda na mesma
posição, sem conseguir se levantar,
claro, o álcool realmente estava
mandando na situação. Como ele sabia
do meu pai? Claro que ele sabia do meu
pai, ele sabia meu endereço, saber do
meu pai para ele era bem mais simples.
— Policiais não deveriam ter
fraquezas! Não acha, Capitão? — Digo
olhando dentro dos seus olhos. Mas eu
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sabia por experiência própria que eles
tinham.
— Nós não somos de ferro, sabia? —
E mais uma vez me lembro do meu pai.
Esse envolvimento não teria futuro, com
certeza eu sairia machucada.
— Infelizmente, Capitão — digo. Por
que ele tinha que ser policial? Nunca
senti nada assim por ninguém, e quando
sinto, tem que ser por uma pessoa que
poderia sair da minha vida sem que ela
mesma quisesse, como foi com o meu
pai. Passo as mãos pelos cabelos para
tentar arrumar a bagunça que ele tinha
feito.
— Vá embora, por favor — ele ergue
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a mão em minha direção.
— Para com isso, meu anjo, deita
aqui comigo — ele estava muito bêbado
mesmo, como eu iria fazer para tirá-lo
daqui nesse estado? Se alguma coisa
acontecer com ele, vou me culpar pelo
resto da vida.
— Eu não sou seu Anjo! — Falo
ríspida com ele.
— Você é sim! Está vestida como um
anjo, claro que na versão anjinha muito
sexy! Você é perfeita para mim — fico
desconcertada sem saber o que dizer e
com uma vontade louca de deitar ao seu
lado, mas eu não podia me envolver, e
se tinha uma coisa que eu não era, era
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ser perfeita para ele.
— Você pode dormir aí no sofá, até
amanhã — digo, e ele tenta se levantar
para vir atrás de mim, mas não
consegue. Fica lá, com o braço sobre o
rosto.
Volto com um travesseiro, olho na sua
direção e ele já está dormindo todo
torto no sofá, do jeito que caiu. Com
certeza iria acordar todo dolorido.
Problema dele, quem manda encher a
cara e vir perturbar as pessoas a essa
hora da noite? Ando em sua direção,
fico lá um pouco, olhando-o dormindo.
Ele está sereno, tão diferente daquele
babaca e estúpido do sábado! Coloco o
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travesseiro por debaixo de sua cabeça,
me abaixo e tiro seu tênis, pego sua
camisa do chão e, por instinto, coloco-a
no meu rosto, sentindo seu cheiro. Um
cheiro maravilhoso, de uma colônia
masculina amadeirada. Fico ali por um
tempo, agarrada com sua camisa,
relembrando do momento que acabamos
de ter, do seu beijo... minha pele ainda
queimava com o calor de suas mãos.
Coloco sua camisa esticada em uma
cadeira, ligo o ventilador de teto e o
deixo lá.
Vou para o meu quarto e me xingo
mentalmente por ainda não ter
consertado a fechadura da porta. Mas do
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jeito que estava bêbado, eu não correria
riscos.
Deito-me em minha cama, rolando de
um lado para outro e não consigo
dormir. E essa agora, desse homem vir
aqui atrás de mim? Eu não poderia me
render a ele. Eu não suportaria conviver
com a incerteza e a insegurança que sua
profissão dava. Ficaria aflita com cada
atraso, com cada telefonema não dado.
Não, eu não quero isso para minha vida.
Isso não era para mim. Eu fiz uma
promessa e iria cumpri-la.
Meus sentimentos guerrilhavam
dentro de mim. Acredito que, de alguma
forma, eu também mexia com ele, se
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não, ele não estaria agora na minha sala,
dormindo no meu sofá. Que loucura!
Nunca na minha vida senti o que senti
hoje com seu beijo e seu toque. Havia
uma conexão entre nós que eu não sabia
explicar. E o cara era policial! Isso só
poderia ser alguma piada do destino. Eu
nem sei seu nome, tenho que ficar
chamando-o de Capitão, ele nem ao
menos me diz, deve gostar dessa coisa
de ser superior às pessoas.
Acordo com o barulho do
despertador. Quando abro os olhos, e
vejo um braço forte enrolado em minha
cintura, desperto rapidamente. Que
merda é essa? Ele estava aqui, na minha
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cama! Como não acordei? Ele está
totalmente colado às minhas costas, seu
nariz enfiado em meus cabelos. Mas é
muito abusado!
Tento alcançar meu celular para
desligar o alarme, que não parava de
tocar, e ele nem se mexeu. Estico-me um
pouco para frente e ele me puxa de
volta. Ah, eu vou matá-lo!
Que abuso! Consigo pegar o celular
com muito esforço e desligar. Dou uma
olhada para trás e vejo que ele estava só
com uma cueca boxer preta. E meu
Deus, que corpo é esse?!
Inacreditável como uma pessoa
poderia ser tão sem noção e tão gostosa
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ao mesmo tempo. Saio do seu abraço,
me levanto e vou para o outro lado da
cama, depois puxo o lençol para cima, o
fazendo cair direto no chão.
— Caramba, meu Anjo! Isso lá é
jeito de me acordar? — Ele fala ainda
no chão, se fingindo indignado. Quase
fico com pena... quase.
— Eu já disse que não sou seu Anjo!
E que merda é essa de vir para minha
cama? — Falo muito irritada, com os
braços cruzados, o encarando.
— Eu não podia continuar naquele
sofá, iria acordar todo quebrado hoje;
ele é muito pequeno, olha meu tamanho,
Anjo — era muito cara de pau.
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— Você é muito abusado! Era só
você ter continuado na sua casa e
dormiria confortável, melhor que
aparecer na casa de uma pessoa que
nem conhece e ainda reclamar do sofá
dela! — Digo para ele, tentando evitar
olhar na direção do seu corpo. Ele
continua com cara de paisagem.
— Não esquenta a cabeça com isso,
Anjo, eu dormi muito confortável, há
muito tempo que não dormia desse jeito.
Mas aquele sofá, temos que comprar um
maior, um que caiba nós dois nele.
O que? Ele é louco! Só pode ser isso.
Que história é essa de temos? Se
dependesse de mim, ele nem pisaria
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mais aqui, e ainda quer falar mal do meu
sofá, que eu adoro? Perdeu a noção do
perigo.
— Você é maluco!? Ou ainda está
bêbado? Quem você pensa que é para
chegar à minha casa querendo dar
ordens? Eu só deixei você ficar aqui
porque não tinha nem condições de ficar
em pé, mas pelas besteiras que está
falando, vejo que já está bem. Vá
embora da minha casa, e não apareça
mais aqui.
Ele fica me olhando, como se tivesse
ficado magoado com algo que eu disse,
e quer saber? Eu não estou nem aí, essa
situação seria muito cômica se não fosse
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triste e irritante.
— Eu queria que você soubesse que
eu não sou de beber. Eu não bebia desde
que entrei para a corporação, pois
policiais e bebidas não combinam —
bom, pelo menos ele tinha consciência
da burrice que tinha feito, o idiota!
— Eu não quero saber da sua vida,
isso não é problema meu, só quero que
vá embora e não apareça mais — eu
estava com muita raiva do abuso dele.
— Eu queria que você me
desculpasse por minha atitude — pelo
menos sabia pedir desculpas, mesmo
assim não justificava.
— Qual delas? A de ter sido um
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troglodita na sua tal missão, de vir até
minha casa sem ser convidado, me
agarrar à força ou o fato de ter deitado
em minha cama sem permissão? — Ele
dá um sorrisinho de lado, e eu quase
amoleço.
— Só de ter sido um troglodita, eu
juro que não queria gritar com você, é
que eu estava com a adrenalina lá em
cima devido a tal missão, e eu também
fiquei com raiva, pois não conseguia
entender como uma mulher tão linda
como você estava ao lado de um
bandido.
Ele estava muito calmo ao dizer
essas palavras e me olhava nos olhos o
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tempo todo. Eu não poderia ceder a ele,
eu tinha que resistir àquele olhar. Não
vou ser mulher de polícia, não quero
passar minha vida pensando em quanto
tempo minha felicidade duraria. Eu só
precisava expulsá-lo da minha casa, da
minha vida e ficaria tudo bem. Certo,
não seria tão difícil assim.
— Agora que você sabe que eu não
ando com bandidos, pode ir embora, por
favor, estou atrasada para o trabalho —
ele ergue as sobrancelhas.
— Eu ainda não acabei. Agora, sobre
o fato de ter vindo aqui sem autorização,
posso até ter errado, mas não me
arrependo, e apesar de bêbado, eu não
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me lembro de ter te agarrado à força, só
me lembro de você ter gostado e
correspondido — jogo o travesseiro na
cabeça dele, que o segura e começa a
rir.
— Você está se aproveitando de um
homem desarmado? — Ele começa a
andar na minha direção e eu
instintivamente recuo.
— Do jeito que você chegou ontem
aqui, você seria um alvo fácil para
qualquer um — digo para ele, para que
tome mais cuidado da próxima vez. E o
que você tem com isso, Lívia? Deixe-o
fazer a merda que quiser da vida dele,
não é da sua conta.
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— Pode deixar, Anjo, não fica
preocupada, isso não vai se repetir de
novo! Só para deixar claro, eu também
sou bom de porrada — não aguento e
começo a rir.
— Claro, do jeito que você estava
ontem, o Anderson Silva seria fichinha
para você. Outra coisa: apesar de eu
ainda não saber seu nome, você sabe o
meu nome muito bem, então, para de me
chamar de Anjo — ele se aproxima e
estende a mão em minha direção.
— Gustavo Albuquerque Torres,
muito prazer, ao seu dispor a hora que
quiser— ele fica lá com a mão
estendida e eu finjo que nem vejo.
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— Comeu Palhacitos? — Pergunto
bem séria, e ele começar a rir sem
parar. Nossa! Esse homem não tinha
jeito de ficar feio, ficava lindo de todos
os jeitos. Tento a todo custo me manter
séria, eu não iria dar esse mole de rir
com ele — Agora, por favor, vá
embora, eu realmente tenho que
trabalhar e já estou muito atrasada, não
precisa agradecer nem nada, só vai
embora — ele cruza os braços e fica me
olhando, sério. Ai, o que foi agora?
— Eu vou te levar, fica tranquila,
pode se arrumar que espero na sala—
claro que eu não permitiria isso, será
que ele não vê que quero me livrar dele
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e não me aproximar mais?
— Nem pensar! Eu sei muito bem o
caminho do trabalho, não precisa me
levar — ele balança a cabeça e sai do
quarto. Deve ter se mancado e vai
embora.
Vou para o banheiro e tomo um banho
rápido. Estava com a hora bem apertada
por causa desse troglodita. Visto minha
calça branca e a blusa do uniforme,
coloco os sapatos, pego minha bolsa e
vou para a sala.
Quando chego, levo um susto. O
abusado tinha feito café e ainda tinha
mexido na minha geladeira. Na mesa
tinha torradas feitas na hora, que eu
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amava, queijo, manteiga e suco. E ainda
duas xícaras de café. Paro de frente para
a mesa onde ele estava
confortavelmente sentado e cruzo os
braços.
— Além de maluco, você é surdo?
Eu pedi para ir embora, não fazer o
café.
— Senta aí, está esfriando. Você não
vai sair sem tomar café e, além do mais,
eu também estava com fome. Que coisa
feia, você não oferecer nem um café
para as visitas— eu estou piscando sem
parar, não consigo acreditar no seu
abuso. Sento à mesa, pois não vou
desperdiçar o meu café da manhã
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comprado com o meu dinheiro. Se ele
fez, problema dele.
— Só para deixar claro, você não é
visita — ele dá um sorriso de lado.
— Eu sei disso, por isso fiz o café —
Affffff... Ainda finge que não entendeu o
que eu disse.
— Não quis dizer nesse sentido,
disse que você não foi convidado para
estar aqui, e nem será. Agora, anda logo
porque eu estou mega atrasada— ele
levanta o olhar e fica me encarando
como se eu fosse maluca.
— Já disse que vou te levar — ele diz
bem sério.
— E eu já disse que não — encaro-o
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da mesma forma.
— É só uma carona, não vou arrancar
pedaço e, de qualquer forma, vou na
mesma direção que você, moro quase ao
lado do seu trabalho, então, para de
bobeira— ele diz como se o assunto
tivesse sido resolvido. Termino meu
café e vou para o banheiro escovar os
dentes. Quando volto, ele já havia
retirado a mesa, pelo mesmo se mancou
em ajeitar a bagunça que tinha feito.
Pego minha bolsa e minha chave, abro a
porta e ele já está ao meu lado. Desço
pelas escadas como sempre e ele vem
atrás de mim, acho que estava pensando
que era minha sombra.
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— Até nunca mais — digo e levanto
a mão para lhe dar um adeus debochado,
mas ele a pega na mesma hora e vai me
puxando pela rua.
— Você com certeza é maluco! Já
disse que não quero sua carona— ele
me olha com o maxilar cerrado.
— E você é muito birrenta! Não me
custa nada, se eu vou para o mesmo
local. E também não acho legal você
pegar ônibus com essa calça. Nem
deveria mais usá-la — ele fala cheio de
autoridade.
— E eu posso saber por quê? Essa
calça é uniforme, eu a uso todos os dias
— esse cara tem algum problema, além
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de ser muito gostoso. O que tem a ver
minha calça com o ônibus?
— Eu simplesmente estou
conseguindo ver toda sua calcinha e
tenho certeza que todos dentro do ônibus
não irão perder a oportunidade — sem
comentários, não vou ficar discutindo
com ele sobre minha calcinha. Puxo meu
braço de sua mão, me viro e vou em
direção ao ponto.
— Você vai me obrigar a fazer isso
mesmo? Eu vou ter que ir de ônibus com
você, e depois voltar aqui para buscar
meu carro? — Eu juro que estava
tentando me segurar, mas ele me tirou do
sério agora.
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— Me deixa em paz, você não tem
que fazer nada! Você nem era para estar
aqui. Segue teu rumo, eu não vou aceitar
ordens suas, entenda isso, que saco! —
Ele fica me olhando, chateado. Se eu
não me preservar, ninguém vai fazer
isso por mim.
— Desculpa, Lívia, só quis ser
gentil. Achei que, como eu tomei seu
tempo e como você está atrasada, e eu
de qualquer forma irei para a mesma
direção que você, não custava nada te
dar uma carona. Mas fica tranquila, vou
seguir meu rumo, até mais — fico
olhando para ele, estranhando sua
mudança repentina. Para quem estava
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tão decidido, mudou de ideia rápido.
Quer saber? Melhor assim. Viro-me e
começo a seguir meu caminho. Dou uns
três passos e ele me chama.
— Lívia, só um conselho: se você é
obrigada a usar uniforme, acho melhor
colocá-lo no trabalho — o que ele tem
com isso? Há um ano que vou de
uniforme para o trabalho, muito mais
prático. Quem ele pensa que é para dar
opinião na minha vida? Viro-me e
continuo descendo até o ponto, e ele vai
embora. Quando olho no relógio, fico
em pânico, já eram sete e vinte. Eu, com
certeza, iria chegar atrasada, e a D.
Julia iria comer meu fígado. Ela odiava
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atrasos, tudo por culpa daquele idiota!
Mas bem que ele tentou se redimir, e
se você não fosse tão orgulhosa,
evitaria a bronca. Agora aguenta.
Estou quase chegando ao ponto de
ônibus, quando escuto uma freada
brusca. Levo um susto e dou um pulo
para trás.
— Mudei de ideia, meu Anjo — ele
diz já vindo em minha direção. Estou
tão assustada que não consigo dizer
nada, ele me puxa pela mão e me coloca
no banco do carona, dá a volta, entra no
carro e sai.
Por alguns minutos, ninguém diz
nada. Levamos quinze minutos para
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cruzar a Linha Amarela até a entrada da
Barra, pelo menos eu não chegaria
atrasada. Quando estávamos na Avenida
das Américas, meu celular toca, quando
olho a tela, vejo que o número não é
identificado. Fico olhando, odiava
atender número desconhecido.
— Não vai atender? — Ele quebra o
silêncio da viagem, está me olhando
confuso. Resolvo atender, pela hora,
deveria ser algo importante.
— Alô...
— Lívia, sou eu — eu sabia muito
bem quem era, conhecia essa voz muito
bem.
— O que você quer, Otávio? —
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Percebo que ele está ofegante do outro
lado da linha.
— Eu só queria saber se você está
bem, eu me controlei muito para não te
ligar o final de semana inteiro, queria te
dar um tempo.
— Não posso falar agora, estou indo
para o trabalho — olhei na direção do
Gustavo, que estava me olhando como
se eu tivesse duas cabeças.
— Por favor, janta comigo, nós
precisamos conversar com melhor, eu
estou sentindo muito a sua falta, minha
linda — como eu iria sair dessa?
— Otávio, nós não temos mais nada
para conversar, eu já deixei claro minha
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posição para você.
— Me perdoa, por favor! Eu te amo!
— Eu fecho os olhos, pois realmente
estava sentindo dor em sua voz, porém
não tinha mais volta, não só pela
traição, mas também porque eu não o
amava.
Nesse momento, percebi que Gustavo
olhava mais para mim do que para a rua,
e parecia que iria quebrar o câmbio do
carro de tanta força que estava fazendo.
— Agora realmente não é um bom
momento, Otávio, eu estou descendo
aqui no trabalho — eu não ia ficar
falando nada na frente do Gustavo, ele
já tinha se intrometido muito na minha
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vida.
— Ok, mas tarde te ligo, beijos e te
amo — ai meu Deus, ele estava
acreditando em reconciliação. Como
minha vida tinha mudado tanto em um
fim de semana? Desligo o telefone sem
dizer nada e o guardo na bolsa.
— Quem era? — Agora essa, ele já
tinha passado do ponto de enxerido.
— Não interessa — ele me lança um
olhar de fúria. Eu não me importo, não
tinha vocação para psiquiatra.
— Se não me interessasse não estaria
perguntando, Lívia — nossa! Cadê o
Anjo agora? Tô fora!
— Você não é o Caveira? Descubra
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— falo com tom de ironia na voz.
— Seu namorado? — Ele pergunta e
está muito irritado. O quê? Ele achou
que iria chegar e eu estaria disponível?
— Noivo — omito o fato de que é
ex-noivo. Ele bate no volante com raiva.
— E quando você iria me dizer? — Ele
diz, muito irritado.
— Achei que você soubesse — ele
encosta o carro em frente ao meu
trabalho.
— E como eu iria saber disso? É
aquele cara que estava com você no
sábado? — Ele pergunta no momento
que saio do carro.
— Obrigada pela carona, valeu
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mesmo, cheguei bem na hora — ele fica
me olhando ainda muito irritado.
Interiormente, eu estou até me
divertindo com essa situação. Como
homem é desligado, por mais esperto
que pareça. Nem se deu conta que os
nomes eram diferentes.
Entro no trabalho e ele ainda está lá,
parado. Logo em seguida, liga o carro e
vai embora. E sinto uma pequena
sensação de abandono.
Que bom que cheguei na hora, D.
Julia estava com a macaca, atirando
para todos os lados. Não via a hora de
abrir meu negócio com a Bia, era só
vender a casa e nós começaríamos a ver
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um lugar para realizar nosso sonho. Até
lá, eu iria ter que aturar isso aqui
mesmo.
Saio do trabalho às quatorze e trinta,
pois a Sara tinha se atrasado, levou a
maior bronca, coitada. Sem
necessidade, mulher maluca! Quase que
eu peço demissão, fiquei com pena da
Sara, ela tinha um filho e precisava
muito do emprego. Quando eu tivesse
meu negócio, a chamaria para trabalhar
comigo.
Quando chego em casa, ligo logo
para Bia, precisava contar tudo o que
aconteceu.
— Sabia que o Capitão gostosão
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tinha gostado de você — é, um maluco
conhece o outro, penso eu.
— Nossa, Bia, toda essa situação me
deixou muito confusa. Esse cara é muito
louco, não sei o que pensar.
— Ontem ele até que ficou bem
preocupado com você lá na praia. Esse
é seu problema, amiga, você pensa
demais.
— Achei muito estranho o fato de
eles saberem exatamente o posto da
praia que estávamos.
— Eu tinha comentado com o Michel
que nós estaríamos lá — só aí minha
ficha cai, ela tinha armado o encontro.
— Não acredito que você teve
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coragem de armar um encontro com
aquele Capitão depois de tudo que ele
fez com a gente?
— Ele também não sabia — ela fala
em um tom de voz muito baixo.
— Você sabe muito bem por que eu
não posso me envolver com ele, Bia —
falo chateada.
— Desculpa, amiga, eu não fiz por
mal, é que eu nunca vi você assim com
outra pessoa, e pelas coisas que você
me disse, o cara está louco sim, mas é
por você, amiga. Só penso que, de
repente, você pode estar jogando o
homem da sua vida fora por medo —
pode ser verdade o que ela está
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dizendo, mas eu não posso arriscar, não
quero e não vou passar tudo aquilo de
novo.
— Tudo bem, Bia, só não faz isso de
novo, eu não quero mais vê-lo —
desligo o telefone e fico lá tentando me
convencer de que tinha dito a verdade
para minha amiga.
Tomo um banho, arrumo a cozinha e
vou tirar um cochilo. Acordo com meu
celular tocando, vejo o identificador e
era a D. Márcia, gestora da faculdade.
Espero que tenha boas notícias.
— Oi, D. Márcia, tudo bem?
— Tudo, minha filha, estou ligando
porque consegui aquela vaga para você
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— não posso acreditar, dou pulinhos de
alegria.
— Nossa, não sei nem como lhe
agradecer, muito obrigada mesmo —
estou muito feliz, seria uma grana boa e
me ajudaria a montar a academia.
— Que é isso, minha filha, você
merece, sei como é esforçada. Na quarta
à tarde, venha aqui na faculdade que
acertaremos todos os detalhes. É para
começar na próxima semana. Serão três
vezes na semana, uma hora por dia. Do
jeito que eu tinha te falado. Beijos,
minha filha, até quarta, então.
— Ok, passo aí na quarta quando eu
sair do trabalho, muito obrigada de
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novo. Beijos — enfim, uma notícia boa.
Nesses últimos dias, minha vida parecia
ser uma novela, acho que não tive tempo
ainda de digerir tudo o que aconteceu.
Eu iria dar aula de alongamento para
funcionários de uma empresa que
prestava serviço para a Petrobrás. Iria
ganhar quase a mesma coisa que ganho
onde trabalho. Meu celular começa a
tocar de novo, atendo logo em seguida,
pensando que D. Márcia havia
esquecido algum detalhe.
— Oi...
— Oi, minha linda, podemos jantar
hoje? — Não acredito que ele vai
insistir mesmo nisso.
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— Claro que não, Otávio, por favor,
siga com a sua vida que eu seguirei com
a minha. Não crie expectativas —
estava bom demais.
— Eu quero você de volta! — Acho
que todos os malucos do mundo
resolveram colar em mim.
— Querer nunca foi poder, Otávio.
Entenda de uma vez por todas que não
há nada que você diga ou faça que vá
fazer com que eu volte para você —
esse papinho dele já estava me
irritando.
— Me perdoa, minha linda, eu te amo
— acho que ele deve estar com
problemas na audição.
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— Vou dizer mais uma vez: não tem
volta, Otávio, acabou! — Ele fica em
silêncio por uns segundos, não diz nada.
Tomara que entenda dessa vez.
— Eu não vou desistir de você e nem
do nosso amor, eu vou ter você de volta,
custe o que custar — eu fico assustada
com seu tom de voz, ele realmente está
convencido do que está dizendo.
Resolvo não atiçar mais e cortar o mal
pela raiz.
— Adeus, Otávio, não me liga mais,
por favor! — Desligo o telefone na sua
cara. Meu celular toca de novo logo em
seguida. Isso já estava ficando muito
chato, eu estava muito irritada, como
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vou fazer para ele esquecer que eu
existo? Acho que vou comprar outro
chip para o celular. Ele agora iria me
escutar.
— Já disse para você não me ligar
mais! Esquece que eu existo, acabou!!
— Anjo? Está tudo bem? — Ouço
uma voz cheia de preocupação do outro
lado. Só de ouvi-la, meu coração
dispara. E agora, como eu iria sair
dessa?

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Acheron Livros e afins
Capítulo 9
Lívia

Fico sem palavras, não sei o que


dizer, pensei que não iria me procurar
mais já que, para ele, eu era noiva. E
agora estava do outro lado da linha todo
preocupado.
O que eu falaria para ele?
Por que ele me deixava assim
totalmente desestabilizada?
— Anjo, você está aí? — Estou com
minhas mãos trêmulas, não sei o que
falar. Enfim, resolvo acabar logo com
isso.
— O que você quer comigo? — Digo
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ríspida, pois estava com raiva de como
ele estava mexendo com meus
sentimentos em tão pouco tempo.
— O que está acontecendo? Com
quem você pensou que estava falando?
Quem tem que te deixar em paz? — Ele
faz um monte de perguntas ao mesmo
tempo e não sei o que dizer.
— Ninguém que seja da sua conta —
falo para ver se ele se manca e para de
se meter na minha vida.
— Claro que é da minha conta, ligo
para você e atende toda nervosa! Que
merda é essa? Quero saber quem está te
ameaçando — ele está no modo
Capitão, está muito puto.
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— Achei que você tinha entendido
que não estou disponível e que eu não
sou da sua conta.
— Achou errado! Pode parecer, mas
não sou idiota.
Eu estava tão cansada disso tudo!
Desde que terminei com Otávio, minha
vida virou de cabeça para baixo. Eu
estava um turbilhão, sentimentos
duelavam dentro de mim, eu nunca
estive tão confusa em toda minha vida.
— Jura? — Digo em tom de ironia.
— Sabe, eu andei pensando depois
que te deixei no trabalho essa manhã,
lembrei que o nome do cara que estava
com você no sábado era Flavinho, e não
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Otávio. Então pensei mais um pouco e
percebi que não vi nenhuma aliança no
seu dedo — ai que merda, como vou
tirá-lo do meu pé se ele souber que
estou disponível? — Então, Anjo, quem
é esse Otávio?
— Eu não posso falar agora, tem
outra ligação aqui, tchau! — Digo e
desligo o telefone.
Eu não sabia o que responder, achei
melhor desligar e ganhar mais um tempo
para pensar no que falaria para ele. Sei
que, como era policial, não desistiria e
iria até o final. Preciso esquecer isso
um pouco, caso contrário, vou pirar.
Ligo a TV para me distrair; chega de
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discussão por hoje, vou ficar aqui
quietinha, assistindo TV.
Coloco em um canal de filmes e está
passando um filme que amo! Não
cansava de assistir, sabia todas as falas,
se chamava “Se ela dança eu danço”.
Fiquei lá assistindo e esqueço tudo por
um momento, até que aqueles olhos,
aquela boca, aquele beijo me veem a
cabeça...
Para com isso, Lívia, você não pode
ficar atraída por ele, é loucura,
sofrimento na certa.
Então, por que eu não consigo tirá-lo
da cabeça? Se todos os meus instintos
me mandam ficar bem longe dele?
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E ainda tinha o Otávio, que cismou
que me teria de volta. E, para completar,
minha amiga estava se envolvendo com
um cara da equipe do Gustavo. Tudo ao
mesmo tempo, eu tinha que me desligar
de tudo isso. Não via a hora de voltar às
aulas, chegaria cansada e não ficaria
pensando em nada disso.
Escuto uma batida na porta, e meu
coração dispara com a possibilidade.
Bia tinha a chave e estava em um
encontro; eu tinha proibido a entrada do
Otávio.Acho que já sabia quem estava
em minha porta: Gustavo.
Escuto mais uma batida, vou abrir
antes que a derrube. Abro e minhas
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suspeitas se confirmam.
— O que você está fazendo aqui? —
Falo sem quase conseguir formar minhas
palavras. Ele fica me olhando e... nossa,
ele está ofegante e tão lindo e tão
gostoso...
Para com isso, Lívia, se concentra!
— Te fiz uma pergunta e você não me
respondeu, não é educado desligar o
telefone na cara das pessoas, você ainda
não sabe disso? — como eu iria sair
dessa? Não consigo nem sair do meu
lugar. Tento manter o controle.
— Você não tem nada a ver com
minha vida, eu já te disse isso. Você tem
algum problema para assimilar as
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coisas? — Estou muito irritada, ele
simplesmente invade meu apartamento e
fecha a porta. Sai andando em direção
ao sofá e se senta lá. Fico lá, parada,
assistindo sem acreditar no que vejo.
— Você vai me dizer quem é esse tal
de Otávio? Ou eu vou ter que dar meu
jeito para descobrir? — Pergunta, me
olhando muito sério.
Cruzo os braços e fico encarando-o.
Mas é muito abusado mesmo, acha que
tem algum direito de perguntar alguma
coisa sobre minha vida?
— Eu não tenho que te dizer nada,
minha vida não lhe diz respeito— olho
para ele com raiva do seu atrevimento,
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quem ele pensa que é? Além de lindo,
claro, mas isso ele não precisa saber.
— Isso quem decide sou eu— diz
com a cara fechada e começa a olhar
para os lados, como se tivesse
procurando algo, até que acha meu
celular e começa a mexer nele.
Isso já estava indo longe demais.
— Ei, o que você pensa que está
fazendo? Larga meu telefone! — Vou
para cima dele e tento tirar de suas
mãos; ele levanta o aparelho e não me
deixa pegá-lo.
— Eu te perguntei, você não me
disse, então, eu descubro— ele começa
a procurar nas chamadas recebidas, até
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que percebo sua intenção, quando vejo o
nome do Otávio na tela. Eu não posso
deixar que faça isso!
Como não estava conseguindo tirar o
aparelho de suas mãos, devido a sua
altura, subo no sofá e pulo em suas
costas. Ele leva um susto e eu consigo
pegar o telefone, desligo o aparelho e
fico em pé no sofá. Ele, que estava de
costas para mim, se vira, me agarra e
diz:
— Minha vez — caímos juntos no
sofá. Ele fica por cima de mim, me
encarando; eu não consigo desgrudar
meus olhos dos dele. Olho para sua
boca e não resisto, subo a minha em sua
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direção e, sem que eu perceba, nós já
estamos nos beijando e é um beijo
maravilhoso.
Sinto como se meu corpo
reconhecesse o dele desde sempre,
como se pertencesse a ele, ao seu toque.
Eu não tinha mais controle de nada. Ele
continua me beijando com urgência,
como se não houvesse mais nada nesse
mundo, estávamos em nossa bolha.
Ele interrompe o beijo e fica me
olhando por uns segundos, parecia que
estava sugando minha alma e me prendia
só com o olhar. Ele dá pequenos beijos
em todos os lugares do meu rosto e vai
descendo até o pescoço... Ai meu Deus,
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eu não conseguia parar com isso, estava
totalmente excitada, parecia que eu iria
derreter. Minha calcinha já tinha
desmanchado e eu sentia sua ereção,
sabia que ele também estava afetado por
mim.
Ele continua a seção de beijos,
descendo pelo meu pescoço, e quando
começa descendo para meu colo, eu
sinto que se não o parar agora, não
conseguiria mais.
Então eu o empurro e ele cai no chão,
reclamando.
— Poxa, Anjo! Para com essa mania
de me jogar no chão na melhor parte —
fala, se apoiando nos cotovelos sem
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desviar o olhar de mim e perco-me mais
uma vez naquele olhar. Como ele era
perfeito, e como eu era burra de
dispensar um gato desses. Ele era lindo
em todos os lugares, não conseguia
achar nenhum defeito. Tudo nele era
perfeito, menos sua profissão.
— Quem manda você se enfiar onde
não deve— estou totalmente abalada,
minha voz sai trêmula e sem certeza
alguma. Ele me dá um sorriso safado.
— Acho que eu estava justamente
onde deveria, agora é que estou no lugar
errado, pois estou longe de você— ai
meu Deus, ele tinha que falar essas
coisas? Levanto-me e saio de perto dele
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para não correr o risco de pular em seu
colo.
— Você é muito abusado e
convencido! — Eu tinha que ficar longe
dele, ou não seria mais responsável
pelos meus atos. Por que a vida era
assim?
— Foi você quem começou, Anjo, se
tivesse respondido minha pergunta no
telefone, teria evitado isso. Estou muito
feliz que não tenha respondido, só para
deixar claro. Mas, agora, eu realmente
preciso saber quem é esse Otávio e por
que ele está te ameaçando. Eu juro que
vou caçá-lo até o inferno se preciso—
vejo que é hora de acabar logo com
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isso, sei que não lhe devo satisfação,
mas se ele for mesmo atrás do Otávio, o
que eu não duvido, a situação ficaria
pior do que já está. Esse homem é louco
de pedra.
— Ele é meu ex-noivo — falo com a
voz mais controlada.
— E por que ele está te ameaçando? —
Ele pergunta com a voz estranhamente
calma.
— Ele não está me ameaçando, é que
terminamos há pouco tempo e ele quer
voltar— ele fica me olhando intrigado.
— E você, quer voltar para ele? —
Pergunta, e sinto certo receio em sua
voz.
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— Nosso noivado terminou de uma
maneira um tanto brusca, não tem volta
— ele balança a cabeça de um lado para
o outro, seu corpo está rígido e sua
postura muda.
— Não foi isso que perguntei, eu
perguntei se você quer voltar para ele.
— diz impassível.
— Apesar de isso não ser da sua
conta, eu te respondo: não, não quero
voltar para ele— ele solta o ar com
força e vem em minha direção.
— Você ainda a ama? — Pergunta
bem próximo a mim. Mais uma vez,
perco toda minha capacidade de formar
palavras, então digo o que não deveria,
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pois ele não tinha que saber isso.
— Não.
Ele me puxa para um abraço apertado
e me beija como se o mundo fosse
acabar naquele momento, e eu retribuo.
Coloco minhas mãos em suas costas por
baixo da camiseta que ele estava usando
e arranho suas costas. Ele geme e eu
pareço que vou sair voando a qualquer
momento. Ele aprofunda mais o beijo e,
quando me dou conta, já estou em seu
colo com as pernas em volta de seu
corpo, minhas mãos estão em volta de
seu pescoço e não paramos de nos
beijar nem um segundo sequer. Ele anda
comigo em seus braços até o sofá e se
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senta comigo ainda em seu colo, sinto
sua ereção sob minha bunda.
Eu sabia que precisava parar o que
estávamos fazendo, mas meu corpo não
obedecia ao comando do meu cérebro,
parecia que tinha vida própria. Suas
mãos passeiam por todas as partes do
meu corpo, pareciam querer decorar
cada parte minha. Ele coloca as mãos
por baixo do meu cabelo e faz com que
eu o encare.
— O que você está fazendo comigo,
meu Anjo? Você destrói cada célula de
controle que existe no meu corpo, isso
nunca me aconteceu antes — diz com a
boca bem próxima a minha.
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Não digo nada, pois era exatamente
da mesma forma que eu estava me
sentindo.
Coloco as mãos em seu peito e sinto
a vibração do seu coração que parecia
que iria pular para fora a qualquer
momento. Ele volta a me beijar e sinto
como se o seu beijo fosse a cura para
todas as minhas dúvidas. Mas eu não
poderia deixar isso ir em frente, pois eu
sabia que, depois, o sofrimento seria
bem pior do que ter que parar de beijá-
lo agora, eu não podia sentir como
estava me sentindo agora, como se eu o
pertencesse. Tinha que tirá-lo da minha
vida enquanto ainda era possível.
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Então quebro nosso contato e mais
uma vez me afasto dele, levantando do
seu colo. Isso era insano, eu tenho que
entender que isso deve ser apenas uma
atração física, nada mais. Não posso me
arriscar por uma simples atração. Ele
fica me olhando como se não estivesse
entendo. Está ofegante e confuso por
conta da minha atitude.
— Por favor, Gustavo, você precisa
ir embora, isso não pode voltar a
acontecer de novo— ele fica
balançando a cabeça em negativa e vem
em minha direção. Eu dou um passo
para trás e ele fica parado sem entender
nada.
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— Por favor, para com isso, meu
Anjo, eu sei que você também me quer,
então, para que evitar o inevitável? —
Diz com a voz cheia de desejo. Por
muito pouco não recuo, mas, se o
fizesse, depois seria bem mais
complicado, sei disso, pois ele estava
entrando em uma parte de mim que nem
eu mesma conhecia.
— Você não sabe nada, eu não quero
você, Gustavo, é difícil para você
entender isso? — Ele me olha e vejo
mágoa em seu olhar. Era o único jeito,
eu não tinha escolha, tinha que tirá-lo da
minha vida definitivamente.
— Eu sei que está mentindo, pois,
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seu corpo está dizendo outra coisa.
Então, para de se fazer de durona e
deixa as coisas rolarem e vamos ver no
que vai dar.
Eu já sabia no que iria dar, por isso
não podia deixar isso ir mais longe, eu
estava muito mexida com ele e tinha que
parar, ou seria tarde demais para mim.
— Você não sabe de nada, um tesão
momentâneo não quer dizer nada, já
senti coisas bem mais fortes que isso, e
nem por isso não passou de um
momento. Agora vai, já deu, já enjoei.
Você até que beija bem, mas não é para
tanto! Agora, por favor, vai embora,
porque amanhã eu acordo cedo — ele
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não diz nada, fica me encarando,
tentando buscar nos meus olhos algo que
denuncie mentira em minhas palavras,
mas me mantenho firme. Então, ele
simplesmente se vira para ir embora.
Eu tinha que fazer isso, era a única
maneira de afastá-lo. Se era o certo a
fazer, por que então eu estava sentindo
meu coração tão apertado? Era uma
sensação de abandono, parecia que tinha
se formado um buraco no meu peito.
Meu corpo já reclamava sua falta.
Então, ele abre a porta e eu dou meu tiro
de misericórdia.
— Ah, e outra coisa — ele se vira e
me olha nos olhos — Para de se meter
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na minha vida e esquece que eu existo
— ele assente e sai batendo a porta.
Não acredito em mim quando digo essas
palavras, mas não tinha outra saída.
Eu fico lá, olhando para porta
fechada, e sem que eu espere, uma
lágrima cai dos meus olhos e depois
outra e outra... Assim fica um bom
tempo. Por que eu tinha que me sentir
assim logo com ele?
Vou para o meu quarto, entro no
banho e fico um bom tempo embaixo do
chuveiro. Como foi que tudo isso tinha
tomado essa proporção tão rápida? Eu
sempre fui centrada nos meus
sentimentos, e agora chega esse Capitão
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e vira tudo de cabeça para baixo. Eu
não conseguia parar de pensar nele
desde daquele sábado onde o vi pela
primeira vez. Mas eu sabia que essa
relação não teria futuro, por isso tinha
que fazê-lo se afastar de mim, seria
melhor para os dois.
Termino meu banho e vou me deitar,
pois amanhã teria que acordar cedo para
o trabalho e depois iria para a casa da
minha mãe. Preciso tirar esse homem da
cabeça.
Saio do trabalho e vou direto para a
rodoviária, já que não precisava levar
bagagem, pois tinha roupas na casa da
minha mãe. Quando entro no ônibus na
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rodoviária que me levaria a Angra fico
mais tranquila, pois daqui a algumas
horas estaria com a minha mãe, estava
morrendo de saudades dela. Enfim,
seria um final de semana tranquilo.
Chego à rodoviária de Angra dos
Reis e pego um táxi. Quando desço do
táxi, minha mãe está no portão de sua
casa me esperando, tinha saído da loja
mais cedo por conta da minha chegada.
Ela me abraça forte e entramos, vou
direto tomar banho.
Quando saio, o lanche já estava
pronto com tudo que eu gostava. Coisas
de mãe.
Conversamos sobre as novidades
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enquanto lanchamos, nem toco no nome
de Gustavo, pois realmente queria
esquecer que o conheci. Como minha
mãe já sabia o que tinha acontecido com
meu noivado, também não tocamos mais
nesse assunto. Falamos só da rotina, da
loja dela e conto a ela a novidade sobre
o novo emprego e ela fica muito feliz.
À noite, ficamos em casa matando
saudades uma da outra, deixaria para
sair amanhã com meus primos. Às vinte
e três horas vou dormir. Antes de deitar,
olho o telefone, mas não tem nenhuma
mensagem de Otávio, da Bia ou do
Gustavo. Você ainda espera que ele te
mande mensagem?
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Claro que não, depois do que eu
disse para ele, sabia que não me
procuraria mais, seria melhor assim.
Durmo pensando no seu beijo e seu
rosto em meus pensamentos.
Acordo com meu celular tocando.
Olho para a tela e vejo que é a Bia.
— Oi Bia, bom dia.
— Bom dia, amiga, e aí, como estão as
coisas?
— Está tudo bem, amiga, você não
quis vir comigo, perdeu, está um sol
maravilhoso! — Olho pela janela e
confirmo o que acabava de dizer.
— Poxa, Lívia, é que combinei de
sair mais tarde com o Michel — ela
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realmente estava gostando dele, nunca a
vi se prender assim em um
relacionamento.
— Agora eu vou ficar de lado, já vi
tudo — brinco com ela.
— Poxa, Lívia, me desculpa, é que eu
tinha combinado com ele e você só me
avisou depois que iria para Angra —
ela fala, com receio de que eu tenha
realmente ficado chateada.
— Eu estou brincando, sua boba, fica
sossegada aí com o seu Sargento,
domingo à noite eu estou de volta, daí
conversamos e você me conta as
novidades.
— Está bem, então, aproveita a praia,
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e dá um beijo na tia Cláudia por mim.
Na próxima, vou com você.
— Pode deixar que falo com ela,
beijos e divirta-se.
Ela desliga o telefone e eu vou para o
banheiro me arrumar. Coloco um biquíni
e uma saída de praia e vou para a sala.
Vejo um bilhete da minha mãe, dizendo
que estava na loja, mas voltaria na parte
da tarde.
Resolvo ir até a casa dos meus
primos ver se alguém toparia ir para a
ilha da Gipóia comigo, adorava aquela
ilha. Chamo no portão e o Léo vem
atender.
— E aí, primo, como vão as coisas?
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— Lívia, não sabia que você estava
por aqui — ele vem e me dá um beijo
— Entra, Miguel está lá dentro junto
com a Jéssica, sua nova namorada —
olho para ele, espantada. Essa era
novidade, Miguel namorando sério.
É, as coisas estão mudando mesmo,
agora fiquei curiosa para ver a guerreira
que levou o coração do meu primo, pois
ele era o cara mais galinha que eu
conhecia.
— Ah, essa eu quero ver! — Digo já
entrando.
Quando chego à sala, vejo um Miguel
com cara de bobo olhando para uma
menina linda, com os cabelos vermelhos
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que caíam por seus ombros, uma pele
clara e com um corpo bem moldado.
Agora eu não duvidava de mais nada,
tudo era possível.
— E aí, primo, não vai me
apresentar? — Digo em tom de
brincadeira, ele se levanta e vem me
abraçar. Nós três éramos muito unidos
desde criança. Eles são mais velhos e
sempre acharam que tinham o dever de
cuidar de mim.
— Claro que sim, quando chegou?
— Cheguei ontem à noite, mas fiquei
em casa matando saudades da minha
mãe.
— Essa é a Jéssica, a mulher que
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roubou meu coração — ele fala com um
sorriso bobo no rosto, ainda não
acredito que o Miguel se firmou com
alguém.
— Oi, muito prazer — ela diz me
estendo a mão. Era muito bonita mesmo,
eles faziam um belo casal.
— O prazer é todo meu! Depois você
vai me contar como domou essa fera aí
— ela começa a rir e eu gosto dela de
primeira.
— Pode deixar que conto tudo — ela
fala e meu primo fica sem graça.
— Conta nada, não vai na onda da
Lívia não, ela é muito enxerida — diz
colocando o dedo em meu nariz.
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— Sou nada, Jéssica, só estou
curiosa, isso deveria sair no Fantástico!
Miguel Gomes está com os quatros
pneus arriados por uma linda mulher
chamada Jéssica — todos riem.
— Vamos para a ilha da Gipóia? Já
estou arrumada.
— Ih, prima, hoje vamos ter que ficar
só na piscina aqui mesmo, fecharam o
cais por conta de um protesto e não
temos como fretar um barco nem
saveiros, e como ainda não temos uma
lancha, teremos que ficar por aqui
mesmo — ele diz, dando de ombros —
Mas já tínhamos programado um
churrasco na piscina, também é legal,
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né?
— Claro que sim, quem não pode ir à
ilha, fica na piscina, viu? Rimou! —
Caímos todos na gargalhada.
Nossa tarde foi bem divertida, revi
vários amigos que não via desde
criança. Rimos muito, contamos piadas,
dançamos, me senti muito bem. Quando
olhei a hora, já eram vinte e uma horas.
Nossa, a hora passou muito rápido, me
despeço de todos e vou para casa.
Chego à casa da minha mãe e ela está
na sala vendo a novela.
— Oi, filha, se divertiu muito? —
Pergunta-me animada.
— Tanto, mãe, que até perdi a hora!
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Desculpa, venho para cá, para ficar com
você, e fico o dia todo na casa da tia —
digo me aproximando dela no sofá e
deitando a cabeça em seu colo.
— Não esquenta, filha, ainda temos
tempo para colocar a conversa em dia
— ela diz, fazendo cafuné nos meus
cabelos. O mundo podia parar nesse
momento, carinho de mãe era tão bom.
Como o dia tinha sido legal, eu tinha me
distraído de todas as loucuras que me
cercaram ultimamente.
Fico ali com minha mãe até tarde,
falamos de vários assuntos, só não toco
no nome do Capitão. Não que eu não
conversasse com minha mãe sobre tudo,
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eu só não queria tocar no nome dele. Ele
ficaria só na lembrança mesmo, pois sei
que depois do que eu disse, nunca mais
me procuraria. Peguei um pouco pesado
nas palavras e vi a cara de decepção
que ele fez. Melhor assim.
Explico melhor como foi o término
do noivado com o Otávio e ela também
fica espantada de como ele tinha sido
fingido esse tempo todo. Disse que foi
melhor eu descobrir agora que depois
de casar.
Vamos dormir bem tarde, colocando
em dia todas as conversas pendentes.
Sentia-me muito bem em conversar com
minha mãe. Depois de esgotarmos os
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assuntos, fui tomar um banho e dormir.
Acordo tarde, já quase na hora do
almoço. Minha mãe o está preparando
junto com minha tia, hoje o almoço seria
aqui e os meus primos e a Jéssica
também viriam para cá. Que bom,
poderíamos bater mais um papo.
Almoçamos e depois ficamos todos
em uma conversa animada, quando me
dou conta, vejo que está na hora de ir
embora. Como o fim de semana passou
rápido, eu já tinha até passado da minha
hora, pois só conseguiria pegar o ônibus
das dezenove horas, chegaria um pouco
tarde no Rio, mas valeu a pena.
O Léo me leva até a rodoviária e
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entro no ônibus que está praticamente
vazio. Estranho, pois sempre o pegava
completo. Vou para o meio, que é onde
eu sempre gostava de sentar, achava
mais seguro; sento na janela e ligo meu
ipad. Tomara que o trânsito esteja bom,
não quero chegar muito tarde no Rio e
ter que pegar um táxi.
Quando chega em Mangaratiba, um
sujeito vem lá da frente. Penso que ele
vai ao banheiro, mas se senta ao meu
lado. Finjo que não o vejo.
Ele começa a puxar conversa.
— E aí, você estava passando o fim
de semana em Angra? — Olho para ele,
que está me encarando com uma cara
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muito estranha.
— Sim — digo, para ele ver que não
estava a fim de papo, e viro para olhar
para a janela de novo.
— Você sempre passa o fim de
semana em Angra? — Que saco, homem
chato.
— Às vezes — falo bem seca. Volta
para o seu lugar, babaca.
— Você é linda, sabia? — Isso era só
o que me faltava.
— O que acha de, quando descermos
do ônibus, tomarmos algo e nos
conhecermos melhor?
— Não, obrigada, eu tenho namorado
— digo olhando para ele, que está com
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uma cara de predador. Meus instintos de
defesa entram em alerta.
— Ele deve ser muito idiota em
deixar uma coisa linda como você assim
sozinha — fala, passando a mão em meu
braço. Recuo o braço e quando olho
para sua cintura, vejo que está armado e
ele não tinha cara de polícia. Finjo que
não notei a arma. Primeira regra nesses
casos: você tem que fingir que está
dando corda, assim retarda o ataque e
tem mais chances na defesa.
— Pode ser — dou um sorriso sem
vontade, e ele acha que sua cantada está
funcionado.
— Eu, no caso dele, não deixaria
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uma coisa assim tão linda andar sozinha,
não se sabe quem ela pode encontrar
pelo caminho — diz, passando a mão na
minha perna que estava desnuda, pois eu
estava de short jeans. Agora o pânico
começa a me bater, sinto ameaça em
suas palavras.
Afasto minha perna, pensando em me
levantar para falar com o motorista, mas
vi que estava armado e sabia que suas
intenções não eram boas. Meu pai
sempre me ensinou que tínhamos que
manter a calma e pensar na melhor
saída. Começo a fingir que não estou
entendendo suas investidas. Pego meu
celular e busco o número do tio Nelson.
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Ele fica me olhando como se isso não
fosse adiantar nada. Ligo, e a chamada
cai na caixa postal. Logo agora, o que
eu ia fazer?
— Não está atendendo, gata? — Me
pergunta cheio de ironia. Dou um
sorriso forçado para ele e continuo
tentando, eu não sei como seria quando
esse ônibus parasse, esse homem não
estava com cara de bom amigo. Só
consegui pensar numa maneira de me
livrar desse cara, sei que não era o
certo, mas estava temendo o que esse
sujeito ia fazer quando descermos desse
ônibus.
Então, vou em chamadas recebidas e
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acho o número do Gustavo. Seja o que
Deus quiser, não estava vendo outro
jeito, o cara ao meu lado continuava me
encarando e eu fingindo que estava tudo
bem. Inicio sua chamada rezando para
ele não ter ficado com tanta raiva a
ponto de nem atender minha ligação. O
telefone começa a chamar e ele atende
no segundo toque.
— Lívia?

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Capítulo 10
Lívia

— Oi amor, só para avisar que já


estou chegando... — ele fica mudo por
uns segundos. Ai meu Deus, tomara que
não desligue na minha cara, ele era a
minha única chance de me livrar desse
louco ao meu lado.
— Anjo, você sabe com quem está
falando? — Fala todo confuso, mas não
tirava sua razão, depois de tudo que
disse para ele, só esperava que ele me
entendesse e pudesse me ajudar.
— Claro, amor, vai dar tempo, fica
tranquilo — tomara que ele não pense
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que estou bêbada.
— O que está acontecendo? Está tudo
bem? Você está estranha — como eu iria
fazer para que ele me entendesse? O
cara do meu lado estava me encarando,
não poderia demonstrar que estava
nervosa.
— Amor, eu peguei o ônibus um
pouco atrasada, mas já estou quase
chegando em Santa Cruz.
— Porra, Anjo! Está acontecendo
alguma coisa dentro do ônibus que você
não pode me dizer, é isso? — Respiro,
aliviada. Pela primeira vez agradeço
por ele ser um policial, pois se não
fosse, acho que não me entenderia.
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— Sim, amor— digo aliviada.
Espero que ele seja rápido, ele fica
quieto por um segundo, acho que
pensando no que iria me dizer.
— Tem alguém te ameaçando? E não
tem como você me dizer, diz se estou
certo — ele fala e sinto o nervoso e o
medo em sua voz.
— Claro que sim. Vai dar tempo
amor, daqui a pouco estou chegando à
rodoviária e nós vamos para casa do
seu amigo — escuto o barulho de uma
porta batendo, graças a Deus ele tinha
entendido, tomara que ele chegue a
tempo.
— Você está em que altura, Anjo? —
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Sua voz está bem alterada.
— Eu já estou na altura de Santa Cruz.
— Já estou no carro, Anjo, fica
tranquila, chego lá antes de você, se ele
te encostar um dedo, tá morto! — Ai
meu Deus, tomara que eu tenha feito a
coisa certa.
— Claro, amor. Daqui a pouco nos
falamos, vou descer na plataforma 8.
— Eu te espero, Anjo, não vai
acontecer nada, fica calma — estou
tentando, mas eu estava um pouco mais
tranquila. Não queria, mas me sentia
segura com ele.
— Eu sei, também te amo — digo
essas palavras sem me dar conta do
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peso delas. Ouço sua respiração do
outro lado da linha. Encerro a chamada
e seja o que Deus quiser.
Olho para o lado e o cara está
totalmente virado na minha direção.
Meu coração congela.
— Você acha mesmo que vou
acreditar nessa sua encenação? — Ele
fala e eu arregalo os olhos. Será que ele
tinha escutado o Gustavo falando do
outro lado da linha? Começo a entrar em
pânico de verdade, agora eu tinha
certeza que sua intenção não era boa.
— Desculpa, do que você está
falando? — Me faço de desentendida,
mas sei que minha voz estava
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entregando meu nervosismo.
— Estou falando do seu fingimento
no telefone, fingindo falar com um
namorado que não existe. Acha mesmo
que acreditei? Sei que se tivesse
namorado ele não seria burro de te
deixar sozinha em pleno domingo à
noite — ele fala cheio de razão e com
um tom ameaçador que estava me
deixando em pânico.
— Isso não é da sua conta, me dá
licença — tento me levantar e ele segura
meu braço para que eu não consiga,
depois levanta sua blusa me mostrando
o que eu já tinha percebido: sua arma.
Congelo em meu lugar.
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— O que você quer comigo? Se
quiser meu celular e carteira, toma, pode
ficar, eu não vou dizer nada — ele
balança a cabeça em negativa e dá um
sorriso malicioso.
— Não esquenta, coisinha gostosa,
nós vamos nos divertir muito hoje —
olho para ele e agora sei que está vendo
o medo em mim.
— Meu namorado vai estar me
esperando na plataforma, então, acho
que seus planos não vão dar certo, é
melhor voltar para o seu lugar e me
deixar em paz — falo em um resquício
de coragem que me resta.
— Acho que, hoje, você vai ter que
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dar um bolo nele, pois vai ficar comigo,
já está resolvido — ele fala todo dono
de si, mal sabe ele que não estava
falando de qualquer um, ele estava
falando de um Caveira. Olha eu
agradecendo e até gostando que o
Gustavo fosse da polícia. O que não
fazemos e pensamos em momentos de
pânico?
— Ele vai estar na plataforma me
esperando e vai ver quando eu descer
do ônibus — falo tentando convencê-lo.
— Deixa eu te contar uma coisinha:
por causa de muitos roubos de bagagem
que estavam acontecendo, agora o
familiar, amigo, ou seja lá quem for, está
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proibido de esperar na plataforma. Eles
têm que esperar no andar de cima,
então, como vamos sair por outra
direção, não vai ter como ele te
encontrar. Uma pena, não?
Eu fico um tanto sem reação com essa
informação. Aí me lembro do que o
Gustavo me disse no dia que estava
bêbado: ele é Caveira, entra onde
quiser. Espero que dessa vez também
seja assim.
Fico calada, não digo mais nada, esse
idiota não sabia onde estava se
metendo. Assim espero, pois sei que
não estava de brincadeira.
Quando percebo, já estamos entrando
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na rodoviária e meu coração está
batendo descompassadamente, minhas
pernas estão bambas.
Quando o ônibus encosta, ele me puxa
pelo braço.
— Você vai ficar bem quietinha de
bico calado, aí não se machuca, caso
contrário, o negócio vai ficar feio,
entendeu?
Se o Gustavo tiver realmente aí, vai
ficar feio para você, seu idiota!
Caminho na sua frente pelo corredor
do ônibus, ele está segurando firme meu
braço, ninguém percebe nada,
parecíamos um casal. Não conseguiria
dar nenhum golpe de defesa agora, pois
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eu tinha que ter o momento perfeito, ou
não teria outra chance. Isso só
funcionava quando pegávamos o
oponente de surpresa.
Começo a descer as escadas e
procuro pelo Gustavo, olho em todas as
direções e nada dele. Ele não tinha
conseguido chegar, ou tinha e não tinha
conseguido descer. Agora eu estava nas
mãos desse cara e só Deus para me
ajudar.
— Não para de andar — diz atrás de
mim.
Já descemos do ônibus, agora eu não
sei como seria, já que o Gustavo não
estava aqui. Fico totalmente apavorada!
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Quando, de repente, sinto o homem
sendo tirado das minhas costas, fecho os
olhos com um alívio sem igual, eu já
sabia quem era.
Olho para trás e vejo o Gustavo em
cima do homem, dando vários socos em
sua cara, eu só via o sangue jorrando de
seu nariz. Ele ia matar o cara na
porrada, eu tinha que fazer alguma
coisa. Quando olho para o lado, vejo
alguns dos caras que estavam na
operação com ele e estavam todos com
armas na mão.
— Gustavo! — Eu o chamo e ele
para na hora. Tem muita gente olhando e
tenho medo que ele possa se prejudicar
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por conta disso.
Ele se levanta e vem praticamente
correndo em minha direção, seus amigos
já estão tirando o cara dali e o levando
para fora da rodoviária.
— Está tudo bem, meu Anjo? Ele fez
alguma coisa com você? Eu nunca senti
tanto medo em toda minha vida — ele
fala, colocando as mãos em meu rosto e
olhando dentro dos meus olhos. Eu só
balanço a cabeça em negativa e ele
parece não acreditar no que digo,
começa me inspecionar de cima a baixo.
Eu o abraço e ele me segura firme. Não
consigo mais segurar as lágrimas, choro
com o rosto encostado em seu peito.
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Sinto-me segura como há muito tempo
não me sentia.
— Está tudo bem agora, meu Anjo —
fala, beijando meu cabelo, e eu não digo
nada, por uns minutos fico ali tentando
me controlar e me embriagando do seu
cheiro amadeirado, que tinha se tornado
meu cheiro favorito.
— Vem, vou te levar para casa —
fala, secando minhas lágrimas. Começo
a andar com ele ao meu lado abraçado a
mim. Chegamos ao seu carro, ele abre a
porta do carona e me solta, e meu corpo
reage na hora. Uma sensação de
abandono me invade, não queria ficar
longe dele, mas tento me controlar para
Acheron Livros e afins
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não o agarrar de novo. Com todo
carinho, ele me coloca no banco, dá a
volta e liga o carro. Ficamos em
silêncio, até que crio coragem para
falar.
— Eu nem sei como te agradecer, eu
juro que não queria te incomodar...
— Coloca uma coisa na sua cabeça,
Anjo — ele me interrompe — Você não
me incomoda nunca! Entendeu? —
Segura minha mão.
Olho para ele e assinto com a cabeça
e eu não sei o que poderia ter
acontecido se ele não tivesse aparecido.
Deito minha cabeça no encosto do
banco e respiro aliviada. Nesse instante,
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o celular dele toca.
— Pode falar, Carlos — ele fica
ouvindo por alguns segundos e solta
uma respiração profunda.
— Desgraçado! Ainda bem que
chegamos a tempo — fico olhando na
sua direção, ele devia estar falando do
desgraçado que estava comigo no
ônibus.
— Obrigado, Carlos, agora ele vai
virar mocinha da cadeia— fico
agoniada para saber se realmente
estavam falando de quem eu achava que
estava. Ele desliga o celular e pega
minha mão de novo, mas dessa vez, a
leva aos seus lábios e eu sinto como se
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meu corpo estivesse crepitando.
— O desgraçado está preso, Anjo! —
Fecho os olhos, aliviada, mas não
consigo dizer nada.
— Ele estava sendo procurado, tem
dez estupros nas costas e sete de suas
vítimas foram abordadas como você foi,
dentro de ônibus que fazem o mesmo
trajeto que você estava fazendo.
Fico apavorada. Meu Deus! Se eu
não tivesse ligado para ele, nem sei o
que podia ter me acontecido; na
verdade, sei sim, eu seria estuprada e
quem sabe, morta.
— Eu, eu...— tento falar, mas minha
voz não sai.
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— Eu sei, Anjo, ainda bem que você
foi esperta e conseguiu me ligar, eu não
quero nem imaginar o que teria
acontecido com você se não tivesse me
ligado— diz, já parando em frente ao
meu prédio. Desliga o carro e vira na
minha direção e fica me olhado.
— Se não fosse você entender o que
eu queria dizer na verdade, eu não sei
como teria sido, só me resta te
agradecer. Muito obrigada mesmo, você
salvou a minha vida— falo com os
olhos marejados. Ele passa as mãos no
meu rosto e sinto como se no mundo só
existissem eu e ele. Fecho meus olhos,
esperando o beijo... Mas ele não chega,
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então abro os olhos e ele continua me
olhando com aquele olhar que me
desnuda.
— Você pode me agradecer, deixando
que eu faça o jantar para você— olho
para ele e dou um sorriso. Ele fica
esperando minha resposta.
— Isso não seria eu te agradecer,
seria eu explorar mais você— ele dá um
sorriso de lado e quase pulo em cima
dele. Nossa! Não me cansava de
admirar sua beleza.
— O agradecimento é meu, então eu
resolvo — diz-me e dá uma piscadinha.
Ai, ai, Lívia, esse homem será sua
perdição.
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— Tem certeza? Está tarde e eu já
ocupei muito seu tempo por hoje — ele
abre um enorme sorriso, como criança
quando ganha o brinquedo tão esperado.
— Faço um macarrão delicioso! E
fica pronto em, no máximo, trinta
minutos. Bem antes de chegar qualquer
coisa que pedisse por telefone.
— Está bem, vamos ver como são
seus dotes culinários — ele começa a
sair do carro e vem abrir a porta para
mim.
Por essa eu não esperava.
— Humm que cavalheiro — ele fica
me olhando e sorri.
— Tudo para você, Anjo— foi o
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suficiente para que meu corpo todo se
arrepiasse, mesmo ele tendo dito em
tom de brincadeira.
Entramos no prédio e o Sr. João fica
olhando, intrigado, já deve estar
pensando que eu não perdia tempo, pois
mal tinha terminado um noivado e já
estava trazendo outro homem para casa.
Hoje eu não iria esquentar com isso,
deixa o povo pensar o que quiser. Vejo
quando Gustavo dá um tchauzinho para
o Sr. João; pelo menos era educado,
diferente do Otávio, que nem o
cumprimentava.
Lá estou eu comparando os dois, isso
não tinha cabimento nenhum, pois meu
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relacionamento com o Gustavo não
poderia passar de gratidão por ele ter
salvado minha vida. Então, por que eu
estava querendo que ele me beijasse há
pouco lá no carro? E agora percebo que
ele nem tentou. Vai ver desencantou de
mim. Também, com todas aquelas coisas
que eu disse para ele. Ele até que está
sendo bem-educado comigo, porque o
que não deve faltar é mulher querendo
ser boazinha para ele. Só de pensar
nisso, sinto desespero, não consigo
imaginar que possa olhar para outra
mulher como olha para mim.
Desencana, Lívia! Você não tem
nada com ele e nem quer ter, então
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deixa o cara seguir a vida dele.
Querer eu quero, e muito, só não
podia.
Saio dos meus pensamentos com a
voz do Gustavo.
— Fica tranquila, minha comida não
é tão ruim assim – antes eu estivesse
pensando na comida.
— Espero que não, pois estou
morrendo de fome — falo sorrindo,
pegando minha chave na bolsa e abrindo
a porta. Fecho a porta e coloco a bolsa
em cima do sofá. Ele está me olhando
sem graça, parece que quer me dizer
alguma coisa, será que desistiu de
cozinhar?
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— O que foi, super chefe? Desistiu
de fazer o jantar? Pode falar, eu vou
entender — ele continua me olhando
com certa dúvida — Fala, Gustavo,
detesto suspense! — Sei que está sem
graça com alguma coisa.
— É que... se incomoda se eu deixar
minha arma aqui em cima? — Dou uma
risada e ele fica sem entender.
— Claro que não, meu pai era
policial, esqueceu? — Ele relaxa
visivelmente e solta o ar que parecia
estar prendendo, tira sua pistola e
coloca em cima do aparador que ficava
próximo à porta.
— Agora você pode ir tomar seu
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banho que eu cuido da cozinha —
pronto, já havia relaxado e voltado para
seu modo Capitão.
— Me dando ordens, Capitão? —
Pergunto com as mãos na cintura— Eu
posso te ajudar, afinal, a cozinha é
minha e você não vai saber onde ficam
as coisas.
— Eu me viro, sou bom em
investigações, pode deixar que vou
achar o que precisar — fala, já seguindo
para cozinha.
— Ok, Capitão! — Presto
continência para ele, que começa a rir
— O Sr. está no comando.
— Bem que eu queria, Anjo — ele
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me diz com um olhar tão profundo, que
sei que não está falando do jantar. Não
digo nada, ele entra na cozinha e eu sigo
para o meu quarto.
Tomo um banho bem demorado,
precisava me distrair do fato de o
Capitão gostosão estar agora na minha
cozinha, preparando meu jantar. Como
chegamos a isso? Quem sabe seria o
início de uma grande amizade? Ah, vá,
agora eu quem estava fazendo piada,
amizade com ele? Sentindo o que sinto
toda vez que chego perto dele? Não sei
como poderia levar essa amizade à
frente.
Mas, pelo menos, hoje eu iria
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esquecer essas questões de
relacionamentos, o cara tinha salvado
minha vida e eu não podia simplesmente
dizer tchau e muito obrigada. Na
verdade, poderia sim, seria o certo a
fazer. Escuto uma batida na porta e logo
em seguida ela é aberta. Ai meu Deus,
eu estava só de toalha!
— Gustavo! Você não sabe esperar
eu responder? — Ele está me olhando e
fica piscando sem parar.
— Desculpa, foi mal, é que o jantar
está pronto — fala e continua lá parado
feito uma estátua.
— Você pode me deixar colocar uma
roupa?
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— Por mim, você pode ficar assim,
sem problemas, sinta-se em casa— pego
o mesmo travesseiro da outra vez e atiro
na cabeça dele.
— Engraçadinho! — Ele segura o
travesseiro e começa a rir.
— Já que você faz tanta questão de
colocar uma roupa, então te espero na
sala — ele diz e sai do quarto. Eu já
estou tirando a toalha, quando ele abre a
porta de novo, assustando-me.
— Gustavo! — Grito, estendendo a
toalha só na frente do meu corpo. Ele
fica me olhando sério, com uma
expressão que ainda não conhecia.
— Esqueci-me de avisar para não
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demorar — ele fala e sai, fechando a
porta.
Pego um short bem soltinho, rosa,
uma camiseta branca e uma calcinha
também branca e vou me vestir no
banheiro, pois é mais seguro. Termino
de escovar o cabelo, que ainda está
seco, pois tinha lavado de manhã, e vou
para a sala. Fico surpresa em ver que
ele tinha arrumado a mesa; uma travessa
com macarrão no centro, dois jogos
americanos com os pratos em cima,
talheres e dois copos, tinha até pego
suco de uva. Ele já está sentado à mesa
e faz um gesto para que eu também me
sente. Sento à sua frente, pensando que
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nunca tinha me sentido tão nervosa
comendo com outra pessoa, então, tento
descontrair um pouco, pois ele estava
me olhado como se eu fosse a refeição,
e o fato de eu querer isso também estava
me assustando.
— O cheiro está bom, vamos ver o
gosto— digo, tentando parecer animada.
— Sim, o cheiro está maravilhoso, e
só de pensar no gosto, fico com minha
boca cheia de água — me olha e
balança a cabeça, e sei que não está
falando do macarrão.
Começo a me servir, ele continua lá
parado me olhando. Nossos olhos se
conectam por alguns segundos e me
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perco nos seus olhos.
— Você não vai comer? — Digo,
quebrando o olhar e tentando me
concentrar no jantar. Ele dá uma
risadinha safada e levanta as
sobrancelhas. Desisto, não vou falar
mais nada, tudo está saindo num
contexto errado.
— Espero que goste — ele começa a
se servir também.
Coloco a primeira garfada na boca e
realmente estava muito bom.
— Nossa, muito bom! Onde aprendeu
a cozinhar assim? Tenho que admitir que
minha comida não é lá essas coisas, mas
você realmente me surpreendeu.
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— Quando fui morar sozinho, tive
que aprender a me virar.
— Mora sozinho há muito tempo?
— Desde que entrei para a polícia, faz
dez anos.
— Tem esse tempo todo de polícia?
Quantos anos tem? — Só percebo que
tinha perguntado demais quando as
palavras saltam da minha boca.
— Tenho trinta e um, entrei cedo para
a polícia, queria minha independência,
por isso saí de casa — ele não
aparentava ter trinta e um anos.
— E você, mora sozinha há quanto
tempo?
— Desde a morte do meu pai. Minha
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mãe ficou comigo uns três meses, mas
depois optou por morar em Angra dos
Reis. Eu estava vindo de lá hoje, vou
para casa dela a cada quinze dias. Optei
por ficar aqui por conta da faculdade.
— E a faculdade, falta muito?
— Termino em julho — eu estava me
sentindo muito à vontade com ele.
— Planos para depois?
— Eu e a Bia pretendemos abrir uma
academia com um grande estúdio de
dança. Ela fica com a parte da academia
e eu com o estúdio, que é minha paixão.
Amo dançar.
Ele prestava atenção em cada palavra
que eu estava dizendo, parecia que
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estava decorando para fazer uma prova.
— E você, gosta de ser policial? —
Pergunto, já me arrependendo.
— Amo o que faço — sabia que eu
não iria gostar da resposta.
Termino meu suco, me levanto e
começo a retirar a mesa, sem nem
perguntar se ele tinha acabado.
— Desculpa, Gustavo, estava uma
delícia mesmo, mas é que amanhã
acordo muito cedo e já está muito tarde.
Obrigada pelo jantar, você manda muito
bem na cozinha — tento parecer
indiferente à sua expressão de que não
estava entendendo nada.
Ele se levanta sem dizer uma palavra,
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pega seu prato, o copo, e leva para a
cozinha. Vou atrás dele com meu próprio
prato e copo.
— Pode deixar que lavo a louça,
afinal, você já fez o jantar, nada mais
justo— ele me ignora completamente e
começa a lavar seu prato sem me
responder.
— Eu disse que eu lavo, Gustavo —
fico ao seu lado na pia e tento tirar o
prato de suas mãos. Ele congela em seu
lugar, fecha a torneira e fica à minha
frente com um braço de cada lado do
meu corpo.
Agora eu congelo, meu coração
parece que vai sair pela boca, sinto um
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arrepio na espinha e minha calcinha já
era. Ele abaixa a cabeça para ficar bem
próxima ao meu rosto, sua boca está fica
a centímetros da minha, e eu sinto todo
meu corpo trêmulo.
— O que eu disse de errado, Anjo?
Por que a mudança de repente? Só me
dizer. Será que não podemos nos
entender de uma vez? Eu sei que você
também sente o mesmo que eu —
convencido — Então, não sei por que
faz essas coisas e tenta me afastar de
você. Nunca senti por ninguém o que eu
sinto quando estou com você — roça
seus lábios nos meus, sei que ele é
capaz de sentir como minha respiração
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está acelerada, acho que ouve até as
batidas do meu coração. Eu também
nunca quis tanto alguém como o queria.
Ele me levanta e me coloca sentada
na pia e fica no meio das minhas pernas.
Eu esqueci até de como se respira. Ele
começa a passar o nariz e a boca em
meu pescoço, e eu sei que dessa vez não
teria forças para pará-lo, na verdade, eu
não queria parar.
Continua com a tortura em meu
pescoço e agora começa a fazer carinho
em meus braços, descendo por minhas
costas, barriga, e pula para os seios;
aperta meus mamilos sob o tecido da
minha blusa e eu gemo. Estava muito
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excitada, nunca tinha sentido isso antes.
Eu o prendo com minhas pernas e
sinto sua ereção. Coloco minhas mãos
na bainha de sua camisa e começo a
puxá-la por cima de sua cabeça. Ele
quebra o contato com meu pescoço para
me ajudar a retirá-la. Ele a tira
completamente e a joga no chão da
cozinha, volta e me olha nos olhos e
ataca minha boca. Agora tenho seu
peitoral totalmente encostado em mim,
minhas mãos estão em suas costas, então
o puxo mais e mais, com fome dele.
Todo o medo e insegurança que eu tinha
em relação a esse momento com o
Otávio, com ele não existem, parecia
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que eu estava esperando por ele esse
tempo todo e agora tudo parecia
perfeito!
Ele quebra o contato do nosso beijo.
— Só não venha me dizer que esse é
um tesão momentâneo, Anjo — seus
olhos estão tomados de desejo.
— Não vou — eu sinto como se meu
cérebro congelasse. Só meu cérebro,
porque meu corpo é puro fogo.
Ele me levanta, e continuo com
minhas pernas em sua cintura. Ele
caminha comigo em direção ao quarto,
senta na cama comigo ainda em seu
colo, coloca as mãos em minha nuca e
me beija com desespero. Continua o
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beijo e desce as mãos para tirar minha
camiseta. Levanto os braços, facilitando
o acesso a ele, que vai deslizando o
tecido bem devagar pelo meu corpo, até
retirá-la totalmente. Ele fica parado me
olhando por um tempo.
— Você é perfeita! Linda! — Ele me
vira e me deita na cama e já vem por
cima de mim. Beija minha boca,
pescoço, e começa a descer exatamente
como tinha feito da outra vez.
Eu não tenho mais resistência, eu o
quero, aqui e agora, não tenho mais
controle. Meus medos, meus receios e
neuras já não importam mais, eu preciso
desse homem como nunca precisei de
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nenhum outro em toda minha vida.
Quando, de repente, uma voz muito
conhecida invade meus ouvidos.
— Ai meu Deus, Lívia!

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Capítulo 11
Lívia

— Bia!!! O que você está fazendo aqui


a essa hora?
Gustavo já tinha virado e estava de
frente para mim e eu de frente para ele,
escondendo meus seios em sua parede
de músculos. Minha cabeça estava um
pouco acima da sua e ele estava com a
cabeça em meu pescoço, bufando.
Que situação, demorou tanto para eu
resolver sair da minha condição e
quando resolvo, aparece a empata da
Bia. Eu estava olhando na direção dela,
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que agora estava com as mãos nos olhos
e toda nervosa.
— Desculpa, amiga, é que como você
nunca dormiu com ninguém e a luz da
casa está toda acesa, fui entrando,
pensei que estivesse acordada, quer
dizer, você está acordada, né, digo, eu
pensei que estivesse sozinha, como
sempre – ela está nervosa, tinha levado
um baita de um susto mesmo — Eu
estou... já estou de saída, amiga,
esquece que eu estive aqui, eu só...
deixa para lá, amanhã nos falamos —
sai do quarto toda nervosa, coitada.
Gustavo está quieto no meu pescoço,
não disse nada.
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— Sério, isso? — Ele pergunta,
levantando a cabeça para me encarar.
— Desculpa, é que a Bia tem a chave
daqui e vive aparecendo a hora que
quer.
— Isso eu percebi. Eu perguntei se é
sério que você nunca dormiu com
ninguém — ele agora está com a mão na
cabeça, apoiado pelo cotovelo, me
olhando direto nos olhos.
— Sem contar com a mala da Bia e o
dia que você dormiu na minha cama sem
permissão, a resposta é não — ele
engole em seco e arregala os olhos.
— Você mentiu sobre o noivado? —
Pergunta com as sobrancelhas enrugadas
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fazendo um vinco no meio delas.
— Claro que não! Eu odeio mentiras!
Que isso fique claro. Eu fui noiva por
um ano e estava com o Otávio há quase
um ano e meio — ele parece mais
confuso ainda.
— Você nunca dormiu com ele na sua
casa, é isso? — Como o homem é lento
e fica rodeando para perguntar as
coisas, que raiva!
— Eu nunca dormi com ele, nem
aqui, nem em lugar nenhum — pela cara
dele, continua não entendendo. Cadê o
policial espertão?
— Como isso é possível? O cara não
fazer questão de dormir com você —
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que tonto! Eu não consigo segurar mais,
solto uma gargalhada e ele fica sem
entender nada.
— Que foi? Está rindo de quê? —
Tento segurar o riso.
— Pode ter certeza que ele fazia
muita questão de dormir comigo, eu que
não queria — ele balança a cabeça.
— Tudo bem que eu estava bêbado
quando dormi com você, mas não me
lembro de ter ouvido você roncar ou de
ser uma sonâmbula, então o quê?
— Eu ainda sou virgem Gustavo, é
isso. Entendeu agora? — Ele arregala
os olhos e fica meio que em choque.
— Como isso é possível? — Pergunta,
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todo confuso.
— Se você nunca fez sexo antes, acho
que é bem possível — ele me dá um
sorriso sem graça ao me ver ruborizar.
— Não foi isso que eu quis dizer,
Anjo, nós estávamos quase fazendo
amor... e você ia me contar quando? —
Pergunta, tirando uns fios de cabelo que
estavam no meu rosto, e fica lá me
olhando, esperando minha resposta, sua
respiração alterada — Porra, anjo, você
me enlouquece cada dia mais.
— Eu ia te dizer um pouco antes de
sermos interrompidos — digo e ele já
está no meu pescoço de novo e todas as
sensações voltam com força total.
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Eu coloco uma mão em sua nuca, uma
de suas mãos vai para meu seio e eu
gemo. Ele começa a acariciar todo meu
corpo, sua boca desce do meu pescoço
para um de meus seios, depois o outro.
Nossa, ele era bom nisso! Jogo a cabeça
para trás, cheia de desejo, e ele continua
a tortura, descendo por minha barriga,
dando beijos em todos os lugares...
parando, de repente, fazendo-me sentir
um grande abandono.
— Tem certeza disso, Anjo? Eu
posso esperar — fala, me olhando nos
olhos.
— Nunca tive tanta certeza — ele dá
um sorrisinho diabólico e continua seu
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caminho. Retira meu short junto com
minha calcinha e para por um tempo, me
contemplando.
— Você é linda, Anjo! Meu Anjo!
Linda, linda — começa beijando o
interior das minhas coxas e vai
descendo devagar, até chegar ao meu
centro. Ele começa a lamber bem
devagarzinho, depois começa com
movimentos circulares em volta do meu
clitóris. Nunca senti nada parecido, era
uma sensação maravilhosa. Com uma
mão acaricia meu seio e eu estou quase
me desmanchando... E em poucos
segundos, explodo em mil pedaços. Meu
Deus, como isso era bom! Por que
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esperei tanto tempo?
Ele começa a subir bem devagar,
dando pequenos beijos por todo meu
corpo, me embebedando de prazer, sem
pressa, como se estivesse memorizado
cada pedaço dele.
— Você é demais Anjo, perfeita para
mim, seu gosto é delicioso! Bem melhor
do que eu imaginava, nunca vou me
cansar de você — diz, já atacando
minha boca ávido por um beijo.
— Você está de calça — falo,
quebrando nosso beijo por um segundo
– Eu preciso de você dentro de mim,
Gustavo.
— Eu também preciso, Anjo, mas não
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hoje — olho para ele, confusa.
— O que? Que merda é essa de não
hoje?
— Você teve um estresse muito
grande hoje, meu Anjo, não vou deixar
que associe sua primeira vez a isso, nós
temos muito tempo e eu quero você com
toda calma do mundo. Amanhã você
acorda cedo, e como é a primeira vez,
você vai ficar dolorida e não quero que
fique desconfortável no trabalho.
Também não quero que sua primeira vez
seja traumática, quero que se lembre
com muito carinho e amor no futuro e
que esteja certa se é isso que quer de
verdade. Só Deus sabe o quanto isso
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está custando para mim, mas já disse
que posso esperar — olho para ele
confusa, que homem faria isso?
— Se não iria chegar até o final, por
que começou? — Ele dá um sorriso
safado.
— Eu não sabia que era virgem
quando comecei isso lá na cozinha, e
depois que eu soube, achei que você
precisava relaxar. Também admito que
não resisti. Você é muito linda! E não se
engane, eu quero você, quero muito!
Chega a doer de tanto que te quero, mas
acredite em mim, hoje não é um bom
dia. Então vamos devagar e, logo, logo,
você será toda minha, porque eu já sou
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seu. Pode acreditar, nunca quis tanto
uma mulher como quero você — fala
acariciando meu rosto e me dá mais um
beijo — Eu quero que sua primeira vez
seja uma lembrança só nossa, que não
venha misturada com tudo que aconteceu
hoje.
Eu fico sem saber o que dizer. Não
tinha pensado nisso, ele me distrai tanto
que, por um momento esqueci-me de
tudo, até do fato de que nosso
relacionamento não teria futuro, mas se
eu não me entregasse para ele, acho que
não faria isso com mais ninguém, pois
nunca senti por alguém o que sinto por
ele.
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— Agora acho que a Senhora deveria
dormir — fala, colocando o indicador
no meu nariz — Já está muito tarde,
pode deixar que apago tudo — ele se
levanta e sai do quarto, nem me do
tempo para responder.
Será que vai embora sem se
despedir? Que maluco! Levanto-me, vou
ao banheiro, tomo um banho rápido,
volto para o quarto e nada do Gustavo.
Coloco um baby doll e vou até a sala
confirmar se ele tinha batido bem a
porta quando saiu. As luzes estão
apagadas, ele foi embora mesmo, dessa
maneira, sem se despedir direito. Escuto
um barulho na cozinha e levo um susto,
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dando um grito em seguida.
— Ahhh!!
— Que foi, Anjo, tudo bem? — Ele
sai da cozinha desesperado. Ainda está
aqui, fazendo o que na cozinha a essa
hora?
— Que susto, Gustavo! O que você
está fazendo na cozinha a essa hora? —
Ele vem na minha direção e percebo que
estava só de cueca boxer e com o cheiro
do meu sabonete.
— Já terminei, estava terminando de
lavar a louça do jantar. Vem, vamos
dormir que amanhã você tem que
trabalhar e eu também.
— Como assim, você vai dormir
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aqui? — Ele balança a cabeça, como se
eu tivesse feito a pergunta mais idiota
do mundo.
— Você não vai me mandar embora
essa hora, vai? Está muito tarde e a rua
a essa hora é muito perigosa, Anjo. E,
além do mais, não será a primeira vez
que dormimos juntos — seguro um
sorriso.
— Você é muito cínico, sabia? Cadê
o Caveira agora? — Ele faz uma cara de
cachorro que caiu da mudança.
— Ele está de folga hoje — diz, me
abraçando pela cintura. Cara de pau
mais lindo e gostoso do mundo!
— Seu cara de pau! — Dou um tapa
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em seu ombro. Ele me pega nos braços e
me leva para o quarto, fecha a porta
atrás de si e se deita na cama junto
comigo. Fica na mesma posição de
quando acordei com ele ao meu lado,
com o nariz em meu cabelo e bem
abraçado a mim. Eu começo a fechar
meus olhos e já estava quase dormindo
quando o ouço dizer...
— Sabe, fiquei muito feliz em saber
que fui o único que dormiu com você
além da Bia, claro, eu morreria de
ciúmes em saber que outro cara ficou na
mesma posição que estou agora — não
digo nada, pois apesar de tudo, eu
estava sentindo que, nos seus braços,
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era o meu lugar. Pena que existia aquele
fato de que nessa vida passamos
também pelo que não gostamos e eu
sabia que essa sensação de segurança
não duraria muito tempo, não com a
profissão que ele tinha, pois eu nunca
saberia quais noites seriam assim e
quais seriam de angústia por ele não ter
voltado para casa ainda.
— Boa noite, Anjo — e é a última
coisa que ouço, antes de adormecer.
Acordo com meu despertador
berrando. Parece que acabei de dormir,
hoje o dia seria longo.
Estico-me e o desligo. Gustavo ainda
está dormindo, totalmente agarrado a
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mim, e a sensação era maravilhosa,
pena que não poderia se repetir.
Quer saber, vou dormir só mais dez
minutos, estou com muito sono e sem
nenhuma coragem de sair dos seus
braços.
Acordo com vários beijos pelo meu
pescoço, rosto, até que fica em cima de
mim e me dá um beijo preguiçoso e
delicioso. Essa maneira de acordar era
bem melhor do que acordar com o
barulho irritante do meu despertador.
— Acho que está na hora de se
levantar, mocinha, se não quiser chegar
atrasada. Ou quer que eu te prenda nessa
cama o resto do dia? — Que preguiça,
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mas o dever me chama. Sua proposta até
que era bem tentadora, mas com a
ditadora da D. Julia não se brincava,
precisava do meu emprego.
— Então é melhor eu levantar, antes
que você me prenda aqui — ele me olha
com um olhar de puro desejo.
— Não seria má ideia, Anjo, admita
— ele diz, esfregando seu nariz ao meu.
Dou um sorriso tímido para ele, pois
não sei o que dizer. Isso já tinha ido
longe demais, e não sei como nem de
onde eu tiraria forças para me afastar
dele. Eu já tinha até admitido que a
ideia de ficar presa na cama com ele era
boa. Estou lascada, estava entrando num
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beco sem saída, como iria sair dessa?
— Eu realmente preciso levantar.
Ele sai de cima de mim e eu consigo
me levantar. Vou direto para o banheiro
e fecho a porta. E tenho uns minutos
longe dele para pensar no que eu faria e
como faria para me afastar dele. Em
pensar que ontem eu estava decidida a
me entregar para ele, não que hoje eu
fosse me arrepender, tenho certeza que
não, mas se só com a intimidade que
tivemos já estava difícil me afastar,
imagina se eu tivesse sido dele de fato?
Aí que está a grande questão, Lívia,
você já é dele.
Mas eu não poderia viver com todo o
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ônus que traz sua profissão. Eu
simplesmente estava ferrada! Tinha
deixado a coisa ir longe demais, mas
não era fácil resistir a ele e eu bem que
tentei muito, mas ele parece que me
atrai mais e mais. Estou perdida, não sei
o que fazer agora.
Saio do banheiro, coloco meu
uniforme, a sapatilha, e saio do quarto.
Quando chego na sala, ele já estava
vestido, sentado em uma cadeira,
mexendo no celular, e o café estava na
mesa, como da outra vez. Quando
levanta a cabeça e me olha, não faz uma
cara muito boa. Agora essa, o que fiz de
errado?
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— Não acredito que você vai insistir
em usar essa calça? — Agora ele vai
querer mandar na minha roupa? Era só o
que me faltava.
— Já te disse que esse é meu
uniforme, se não gosta, deveria reclamar
com minha chefe, não comigo — falo,
me sentando para tomar meu café
tranquilamente.
— Eu só acho que você deveria
colocá-lo no trabalho, já que tem que
usá-lo — ele está todo irritadinho, e vai
querer me irritar também logo pela
manhã.
— Eu sempre fui trabalhar de
uniforme e não vou deixar de ir porque
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você está dizendo que não devo ir —
ele balança a cabeça totalmente
contrariado, quando ia dizer algo, meu
interfone começa a tocar. Levanto e vou
atendê-lo. Ele vira a cabeça e olha para
minha bunda quando passo por ele,
balançando ainda mais a cabeça.
— Bom dia, pois não?
— Bom dia, Senhorita Lívia, tem uma
entrega em seu nome, posso mandar
subir?
— Pode sim, Sr. João, obrigada —
desligo e volto para a mesa.
Ele está com as mãos cruzadas sob o
queixo, me olhando, mas não estou nem
aí, ele não vai me intimidar. Pego o pão
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que ele tinha esquentado no forno e
começo a passar manteiga. A campainha
toca, e quando ia me levantar, ele se
levanta na frente e fica me olhando
intrigado.
— Está esperando alguém? — O
abusado já estava se sentindo em casa.
— Não, o porteiro me disse que tinha
uma entrega — ele vai em direção à
porta.
— Um pouco cedo para entregas,
não? — Reviro os olhos, agora ia
querer controlar até minhas entregas.
— Entrega para a Dona Lívia, o
Senhor pode assinar aqui, por favor —
o entregador diz quando ele abre a
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porta. Ele cruza os braços e fica
encarando o menino de cara feia.
— Pode voltar com isso, ela não quer
nada, e fala para quem mandou que ela é
comprometida — escuto aquilo e fico
indignada. Como assim pode voltar com
uma entrega que é para mim? E como
assim, sou comprometida?
— Ei, pode voltar nada, a entrega é
para mim e eu vou recebê-la — levanto
e vou até a porta. Ele continua com os
braços cruzados, olhando para mim com
cara de que não gostou nem um pouco
da minha atitude. Que palhaçada é essa,
quem ele pensa que é?
Assino a guia de recebimento e pego
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o enorme buquê de rosas vermelhas,
quase não consigo segurá-lo. O
entregador me olha de cima a baixo e
me entrega um cartão.
Gustavo faz um olhar feroz para o
entregador, eu entro com o buquê e o
levo para a mesa da varanda, ele era
muito grande para minha sala.
Gustavo continua me olhando, sem
acreditar que eu tinha aceitado a
entrega. Ele não tinha noção nenhuma do
que era respeitar meu espaço. Pego o
cartão e começo a ler, eu já sabia de
quem era, mas estava gostando de irritá-
lo.
— Que porra é essa, Anjo, quem te
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mandou isso? — Pergunta todo
nervosinho.
— Está endereçado a mim, não é da
sua conta, não lhe dei o direito de se
intrometer nas minhas entregas — ele
está bufando, andando de um lado para
o outro na minha frente, como um leão
na jaula. Continuo lendo, mostrando
indiferença à sua atitude.
No cartão, com uma caligrafia
perfeita e elegante, Otávio escreveu:
Lívia, minha linda, estou sentindo
muito a sua falta, minha vida não é a
mesma sem você, volta para mim,
deixa eu te provar que você é a
mulher da minha vida.
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Eu te amo muito e sei que você
também me ama, por tudo que
vivemos juntos, me dê mais uma
chance e eu juro que vou te fazer a
mulher mais feliz do mundo. Te amo.
Seu,
Otávio.

Será que ele não desistiria nunca?


Dou um sorriso mesmo sem querer, é o
suficiente para Gustavo vir na minha
direção e tomar o cartão da minha mão.
Que abusado!
— Isso é particular, você pode me
devolver, por favor? — Falo com ele
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muito irritada. Eu não poderia tolerar
esse tipo de atitude.
— O que esse cara ainda quer com
você? Vocês não terminaram? Que porra
é essa de minha linda? Você pode dizer
para ele que agora está comprometida e
que não vou admitir esse tipo de coisa.
Se você não falar, falo eu, mas na base
da porrada, ele vai entender rapidinho
— ele está surtado, que história é essa
que eu estou comprometida? De onde
tirou isso?
— Você está maluco!? De onde tirou
que estamos comprometidos? — Ele
me, olha balançado a cabeça, parecia
chocado.
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— E não estamos? Achei que isso
tinha ficado claro ontem à noite. Você
quer ficar com esse cara, é isso?
Claro que eu não queria o Otávio,
mas não iria deixá-lo impor regras na
minha vida, aqui não é o batalhão dele.
— Isso não é da sua conta, e não me
lembro de te pedir em namoro e nem
nada do gênero.
Ele agora está andando de um lado
para o outro com as mãos na cabeça.
— Então me explica o que foi aquilo
ontem, Lívia? Você ia se entregar para
mim, isso não significou nada para
você? Eu não consigo te entender, eu
senti entrega em você ontem, por que
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esse empenho todo para me afastar de
você? — Eu não poderia dizer para ele
a verdadeira razão, pois sei que acharia
uma bobeira da minha parte e iria tentar
me dar uma segurança que não existia.
— Eu tenho vinte e três anos,
Gustavo, não vou negar que você me
atrai, sim, e muito, e é por isso que
queria me entregar ontem para você,
mas isso não quer dizer que estamos
namorando ou coisa assim. Admira-me
você, com trinta e um anos, nunca ter
ouvido falar em sexo casual — ele para
na hora e me encara consternado com o
que eu havia acabado de dizer. Fica me
olhando fixamente nos olhos, e dessa
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vez não vejo mágoa, e sim raiva.
— Já ouvi e já fiz muito sexo casual,
pode ter certeza, mas, com você, eu não
quero sexo casual, quero fazer amor, e
se não for dessa maneira, eu prefiro não
fazer — ele está sério, sem interromper
nosso contato. Eu não consigo dizer
mais nada, ele acabou comigo só com
essas palavras.
Eu fico ali presa no seu olhar, seria
uma missão quase impossível eu afastar
esse homem da minha vida e esquecer
que um dia ele passou por ela.
— Eu realmente preciso ir, Lívia, eu
te deixo no trabalho, vamos? — Fala já
se virando, pega sua pistola que estava
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no aparador, coloca no cós da calça,
abre a porta e fica me esperando. Eu
nem tinha terminado meu café, mas
também a fome nem existia mais.
Ele continua me olhando como se eu
fosse um ET. Mas ele já tinha decidido
o que seria, se não queria sexo casual
comigo, não teria mais nada, pois eu
também não teria um relacionamento
sério com ele, isso estava fora de
questão.
Resolvo não entrar em outra
discussão, pego minha bolsa e saio.
Ele bate a porta como se morasse
aqui e eu chamo o elevador, não estava
a fim de prolongar meu tempo com ele
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descendo pelas escadas.
Vou em direção ao seu carro e ele
libera as portas antes de chegarmos;
chego na frente, abro a porta e entro, ele
entra em seu lado.
— Coloca o cinto — fala sem nem
olhar para mim. Maluco pirado! Coloco
o cinto e ele arranca com o carro. Não
diz mais nada, o carro está em um
silêncio mortal, até que ele liga o som.
É, não estava a fim de conversa mesmo.
Ele seleciona uma música no pendrive,
e a música da Paula Fernandes, Pássaro
de Fogo, começa a preencher todo
aquele silêncio. Quem diria, o Capitão
do Bope ouvindo esse tipo de música...
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E quando começo a prestar atenção na
letra, soube que não havia escolhido
aquela aleatoriamente.

“(...)Vai se entregar pra mim


Como a primeira vez.
Vai delirar de amor
Sentir o meu calor
Vai me pertencer (...)”

****
A música continua e finjo que nem
era comigo, mas na verdade tinha me
afetado sim, se fosse isso realmente que
ele estava sentindo, eu estava entre a
cruz e a espada. Viajo com as
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lembranças da noite anterior, de quando
me salvou, de como me senti em seus
braços, do modo de como ele fez meu
corpo ir por lugares antes
desconhecidos.
A viagem segue só com as músicas e
ele nem olha na minha direção. Sinto
sua tensão, pois suas mãos estão
grudadas ao volante e os nós dos dedos
estão brancos. Tenho que dar um jeito
de terminar com isso logo, só não sei
como faria, pois, minha cabeça dizia
que era para eu ficar longe, mas meu
corpo e meu coração o queriam demais.
Vinte e cinco minutos depois, ele
para o carro na frente do meu trabalho.
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Olho em sua direção para agradecer e
ele está olhando para a frente do carro.
— Obrigada por tudo, Gustavo,
inclusive a carona— ele se vira em
minha direção, ainda muito sério.
— Não por isso, Lívia— fico
olhando para ele e sinto falta do Anjo.
Mas eu não tinha o que fazer, se era para
acabar, que acabasse de uma vez. Saio
do carro e ele continua me olhando até
eu entrar no trabalho. Assim que entro,
escuto-o arrancar com o carro.
Meu dia seria longo, agora eu tinha
certeza. Como queria chorar na minha
cama.
Começo a trabalhar e meu celular
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toca. Era a Bia
— Oi, Bia, estou no trabalho não
posso falar agora— se a D. Julia me
pega no celular, era bronca na certa.
— Eu sei, amiga, queria pedir
desculpas por ontem, foi mal, assim que
sair me liga, beijunda.
— Beijo, Bia— falo com a voz mais
desanimada do mundo. Eu tinha tomado
a decisão de me preservar, então teria
que arcar com as consequências, pois
sei que não seria fácil.
Saio do trabalho e vou direto para
casa. Quando chego, tomo um banho e
vou deitar. Por que eu não conseguia
parar de pensar nele? Eu tinha que tirá-
Acheron Livros e afins
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lo da minha cabeça, mas eu não
conseguia.
Acordo com a Bia me chamando.
— Acorda, preguiça, a noite foi boa,
hein? Conte-me tudo, como foi? Ele foi
carinhoso com você? — Que mania que
ela tinha de disparar um monte de
perguntas sem que eu tenha respondido
nenhuma.
— Não aconteceu nada, Bia. Não tem
nada para dizer.
— A culpa foi minha, né? Desculpa,
eu não poderia imaginar que você ia
estar aqui com o Capitão gostosão.
— Não, Bia, a culpa não foi sua, ele
que simplesmente resolveu que não
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seria um dia bom, por tudo que tinha
acontecido comigo— ela está me
olhando com as sobrancelhas arqueadas.
— O que aconteceu, Lívia?
Conto para ela todos os detalhes,
desde o ônibus até meu salvamento
heroico.
Ela está me olhando com os olhos
arregalados e com as mãos na boca.
— Amiga, eu não tinha ideia que
tinha passado por isso, ele subiu mais
ainda no meu conceito — só o que me
faltava, a Bia aliada do Gustavo.
— É, ele foi muito inteligente em
entender meus códigos.
— Amiga, ele salvou sua vida, sabe-
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se lá o que teria acontecido, não quero
nem imaginar — ela diz com a voz
chorosa.
— Eu sei, e vou ser grata a ele por
isso.
— Acho que você está muito mais do
que grata, Lívia, você está gostando
dele, amiga, porque não dá uma chance
para ele? Pois pelo que você me contou,
ele também está gostando de você. Que
homem cheio de tesão pararia para
esperar o momento certo se não
gostasse?
— Eu sei, Bia, e isso é que está
acabando comigo, acho que preferia que
ele fosse um canalha. Mas eu não posso,
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por que logo ele, Bia? — Ela me abraça
e ficamos assim por um bom tempo.
— Bom, eu já te disse o que penso,
mas como não posso abrir sua cabeça e
colocar isso lá dentro, você resolve.
Agora, vamos ao que me trouxe aqui,
sexta-feira é meu aniversário, espero
que não tenha esquecido.
— Claro que não esqueci— ela
começa a rir
— Que bom, como minha mãe vai
estar embarcada, eu queria comemorar
meu aniversário naquela boate nova que
abriu lá na Barra, que estávamos doidas
para ir, o que acha? — Ela fica ansiosa,
esperando minha resposta.
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— O aniversário é seu, você decide
— ela dá um grito, toda eufórica.
— Então, está decidido, nós vamos
— por mais que eu adorasse dançar, não
conseguia me animar.
— Quem vai, Bia?
— Eu ia chamar algumas pessoas da
faculdade, mas aí, lembrei que o
Flavinho ia ficar sabendo e também ia
querer ir, por mais que eu nunca tenha
tido nada com ele, ainda tem esperança
e não ia gostar de me ver com o Michel
— bom, pelo menos ela tinha essa
consciência.
— Está certa, então você e o
Sargento estão firmes, hein?
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— Ele é um sonho, Lívia. Nunca
achei que fosse gostar de alguém como
estou gostando dele.
— Fico feliz por você, amiga, você
merece, eu quero te ver feliz, sabe disso
— ela me abraça de novo.
— Eu sei, amiga, e eu realmente
estou, você acha que também não tenho
medo? Eu a entendo perfeitamente,
amiga, só que eu escolhi ser feliz. Sabe
aquela história que “seja eterno
enquanto dure”? Pois é, eu quero tentar.
— Não vou dizer que você é louca,
Bia, gostaria de ter sua coragem, mas
você me conhece bem e sabe que, para
mim, tudo é muito mais complicado. E,
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além do mais, se esse cara te magoar, eu
capo ele e arranco suas bolas— ela
começa a rir.
— Essa fala é minha. E seria um
desperdício à humanidade capá-lo.
Pode ter certeza.
— Bia! Não quero saber disso,
guarda para você! — Ela não para de
rir.
— Amiga, tenho que ir, pois o Michel
ficou de ligar, então está marcado, hein,
sexta-feira vai entrar para a história —
ela é demais.
— É, Bia, vai sim! Quando sair, bate a
porta amiga, vou voltar a dormir.
— Você está bem, né? — Ela podia me
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conhecer menos.
— Vou ficar, Bia, fica tranquila —
ela balança a cabeça, como se eu
tivesse falando uma grande mentira.
— Olha, amiga, vou deixar você aí
com seus sentimentos contraditórios, e
vê se pensa bem, pois se deixar passar
essa oportunidade de ser feliz, depois
pode ser tarde demais. Escolha ser feliz
também, amiga, do jeito que for e como
der, lembre-se disso, ninguém fica
disponível para sempre — ela sai do
quarto, me deixando pior que eu estava.
Que amiga é essa? Agora vai ficar do
outro lado. Sabia dos meus motivos,
poxa.
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Passo o restante da noite rolando de
um lado para o outro da cama. Senti
falta do seu abraço, seu cheiro ainda
estava em meus lençóis, não conseguia
esquecê-lo. Só me faltava essa, eu ter
me apaixonado por ele. Devia ser só
química mesmo, e o fato de ele ser
“proibido”, talvez fosse isso que estava
mexendo com minha cabeça. Então, por
que eu não parava de olhar o celular,
para ver se tinha alguma mensagem ou
ligação que eu tivesse perdido?
Acho que agora as coisas ficaram
bem claras para ele, parou até de me
chamar de Anjo. Eu já gostava desse
apelido que ele tinha me dado, Anjo. E
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adormeço agarrada ao travesseiro que
ele tinha dormido, sentindo seu cheiro.
Adormeço agarrada a ele.
Acordo com o despertador berrando
e me lembro de como ele me acordou
ontem com beijos, bem melhor que essa
porcaria de barulho irritante!
Levanto da cama com um mal humor
desgraçado! Já sabia que meu dia não
seria fácil.

*****
Saio do trabalho e vou direto para o
estúdio onde dava aula. Termino de dar
minha aula e fico lá até umas dezenove
horas, dançando alguns ritmos nas
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outras turmas. Precisava me distrair e
tirar meu estresse, era uma das coisas
que me acalmavam.
Chego em casa, tomo meu banho,
faço um lanche rápido, mesmo sem
vontade, já que hoje eu não tinha
almoçado e tinha gastado muita energia
com a dança.
Vou deitar, nada de mensagem ainda
do Gustavo. Nossa, para quem estava
tão afim, ele desistiu fácil.
Você também não sabe o que quer
né, Lívia?
Melhor sofrer pouco agora do que
muito depois.
Levanto na quarta sem vontade
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alguma, a única coisa que estava me
animando é que hoje eu iria falar com a
D. Márcia para acertarmos todos os
detalhes da empresa que eu iria
trabalhar. Seria mais uma distração para
eu esquecer esse homem de vez.

*****
Chego à faculdade por volta das
dezesseis horas, o trânsito estava
horrível hoje. Vou até a sala da D.
Márcia e ela já está me esperando.
— Oi, D. Márcia, tudo bem?
Desculpa a hora, é que peguei muito
trânsito — falo com um cumprimento de
mãos.
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— Tudo bem, filha, sem problemas.
Sente-se.
Eu me sento
— Então, filha, como tinha te falado,
essa é uma empresa muito conceituada
no mercado, eles fazem alguns trabalhos
para a Petrobrás. Agora, as empresas
andam muito preocupadas com o
desempenho e estresse dos seus
funcionários, por isso surgiu essa ideia
de uma aula de alongamento e
relaxamento. As empresas têm nos
procurado em busca de profissionais
que estão se formando para ocupar
esses cargos. E como você havia me
pedido, quando surgiu a oportunidade
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pensei em você.
— Nossa, eu nem sei como
agradecer, muito obrigada mesmo, veio
em boa hora.
Ela me entrega um envelope.
— Aí estão as informações sobre o
cargo, o endereço e os documentos que
você deve levar para se apresentar na
empresa. Deve ir lá na segunda-feira.
— Eu não sei mais o que dizer, muito
obrigada— nos despedimos e vou
embora.
Chego em casa cansada, esse trânsito
do Rio estava cada vez mais caótico,
enquanto não entrasse um governo com
vontade de trabalhar de verdade,
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tínhamos que continuar passando por
isso.
Acordo na quinta-feira mais animada,
estava feliz que tinha conseguido mais
um emprego, quer dizer, ainda teria que
passar por uma entrevista, mas eu estava
confiante que daria tudo certo.
Chego ao trabalho e eu realmente não
aguentava mais aquele lugar e o humor
bipolar da D. Julia, muito louca! Faço
meu trabalho como todos os dias, e
quando chega a hora de sair, já estou até
com minha bolsa na mão. Saio e vou
direto para o estúdio. Daqui a uma
semana e meia eu voltaria às aulas na
faculdade, graças a Deus.
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Chego em casa, tomo um banho,
preparo uma salada e como com peito
de frango grelhado.
Ainda está cedo, então, pego um livro
para ler, estou bem entretida na história
quando meu celular apita com um
WhatsApp da Bia. Leio a mensagem:
*Adivinha com quem tô jantando agr?
*
*Eu q sei... Michel?*
*Eu, Michel, Gustavo e uma amiga
lindíssima!*
Meu coração gela. Que filho de uma
puta! Todo cheio de amor para o meu
lado, e não tem nem uma semana e já
estava jantando com outra, em um
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programinha de casais com minha
melhor amiga. Cachorro! Agora mesmo
que eu não iria mais querer nem olhar na
cara dele. Que ódio! E eu aqui, sofrendo
por causa dele. Galinha! Estava muito
bom para ser verdade, aquela ceninha
toda de que comigo não queria sexo
casual, queria fazer amor... agrrrrr eu
vou matá-lo se aparecer na minha frente
de novo.
*Como assim, amiga?*
Pergunto, muito puta da vida.
*Uma amiga com muita intimidade
com ele, parece que se conhecem há
bastante tempo, ela é toda sorrisos pro
lado dele, mas eu gostei dela, muito
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simpática*
Não acredito nisso, minha melhor
amiga elogiando a peguete do galinha
ordinário.
*Bom pra ele, Bia, assim esquece
que eu existo, na verdade acho que já
esqueceu, melhor assim*
Eu estava sentindo uma raiva
descomunal, minha vontade era de ir lá
naquele restaurante e desmascará-lo,
mas eu não lhe daria esse gostinho.
*Ok, Bia, me deixa voltar para meu
livro q está bem mais interessante.*
Minhas mãos já estavam tremendo ao
digitar essa última mensagem.
Em pensar que eu estava quase
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caindo na lábia dele!
*Tá bom, amiga, só fiquei ansiosa
para t contar a fofoca, mas depois te
conto com mais detalhes.*
Qual parte ela não entendeu, de que
eu não quero saber de nada? Ele que se
pegue com quem quiser! Nem respondo
mais sua mensagem, tento voltar a me
concentrar na história, mas não consigo.
Levanto e vou até a cozinha pegar um
copo com água. Eu estava com muita
raiva dele! Começo a andar de um lado
para o outro no apartamento o, vou até a
varanda tentar me acalmar, nada. Eu não
conseguia parar de pensar em como ele
tinha sido duas caras, igualzinho ao
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Otávio. Isso não ia ficar assim!
Volto para o quarto que nem um
foguete, pego meu celular. Ele tinha que
saber que sua máscara caiu.
*Amiga???*

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Capítulo 12
Lívia

*Amiga???*
Envio a mensagem para ele muito
puta da vida. Muito cara de pau de sair
com a peguete dele junto com minha
melhor amiga, que vingançazinha idiota,
quem ele pensa que é? Achava que eu ia
me abalar com isso?
Conseguiu, estou com muita raiva!
Ele fez de propósito, com certeza, sabia
que a Bia iria me contar. Ou ele
realmente estava pouco se lixando.
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Eu estava muito abalada, nunca tinha
sentido o que estou sentindo agora, eu
estava com vontade de matá-lo,
arrancando cada pedacinho do seu
corpo.

****
Já haviam se passado trinta minutos
após eu enviar a mensagem para ele e
nada. Sabia disso porque estava
verificando meu telefone a todo o
instante. Idiota! Devia estar mesmo
muito ocupado. Não me seguro mais e
passo outra mensagem para a Bia.
*Ainda jantando?*
Sabia que ela não deixaria de me
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responder.
*Não amiga, terminamos tem uns 15
minutos, estou no carro com o Michel
indo para casa, por quê?*
Se eles já tinham acabado de jantar,
como ele ainda não tinha visto a
mensagem?
*Nada amiga, só curiosa.*
*Sei...*
Ela que tinha começado isso, por que
me falou então?
*Sabe dizer se o Gustavo estava com
o celular?*
Que se dane, ela me conhecia bem e
já devia saber que eu estava muito
irritada com a situação.
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*Estava sim, amiga, vi em cima da
mesa, mas acho que estava desligado.
Ele foi levar a Carol em casa, deve ter
esquecido de ligar.*
Claro, devia estar bem ocupado
mesmo. Que merda essa agora, minha
amiga cheia de intimidade com a
mulher, Carol é uma pinoia, para não
dizer um palavrão gigantesco.
* Nossa, vejo que já está íntima da
tal Carol, que bom pra vc.* Digito
cheia de ironia.
*Ih, já vi que está com as macacas,
amanhã nos falamos. Beijunda*
Essa é boa, eu estava aqui, quieta no
meu canto, ela me passa mensagem para
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tirar meu juízo, e eu que ainda estou
com as macacas, deixa ela comigo.
O outro, a essa hora, devia estar
dando a sobremesa para a vagabunda.
Eu estava com tanta raiva dele, devia
estar lá na casa dela ou ela na dele, sei
lá, devia estar lá todo solícito com ela.
Qual seria o apelido que tinha dado a
ela? Do jeito que é, deve estar
chamando-a de Anjo também, não
duvido, deve fazer isso com todas.
Babaca!
Escuto o som de mensagem no meu
celular, deve ser a Bia.
*Sim, alguma coisa contra?*
Era dele. Ainda é debochado, era
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melhor ter fingido que não viu a
mensagem.
*Claro que não! Só curiosidade.*
Ele era muito irritante!
*Pensei que minha vida não te
interessasse.*
Ainda quer se fazer de vítima? Agora
que tinha arrumado outro passatempo,
eu não tinha mais importância para ele,
então ele que se dane, só quis mostrar
para ele que sua máscara de homem
certinho e apaixonado não colava mais
comigo.
*Pensou certo, quero que você e sua
amiga se explodam!*
Aperto enviar tão forte que quase
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quebro a tela do telefone.
*Não é o que está me parecendo.*
Ele está interpretando mal minha
reação, deve estar achando que estou
com ciúmes, quando, na verdade, quero
mostrar para ele que não sou tão idiota
como ele possa estar pensando. Ou era?
A quem eu estava querendo enganar?
*Não me interessa o que está te
parecendo, quero que você aproveite
sua noite como achar melhor, não
estou nem aí.* Ai que ódio!
*Jura que quer isso mesmo?* Que
vontade de matá-lo.
*Com a mais absoluta certeza que
sim*
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Eu nunca havia me sentido tão furiosa
em toda minha vida, nem quando peguei
o Otávio com outra fiquei com essa
raiva toda. Sim, eu estava assim só
porque imaginava que outra qualquer
estava em seus braços, sentindo seu
cheiro, tocando seu corpo, sentindo o
gosto de seus beijos. Se o visse com
outra, nem sei o que seria capaz de
fazer. Era insano, mas era o que eu
estava sentindo no momento.
*Então abre a porta para mim, meu
Anjo.*
Eu congelo no lugar, parei até de
respirar. Ele estava aqui na porta? Fico
parada na sala como uma estátua. Como
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isso era possível? Ele estava aqui esse
tempo todo?
Meu coração está a mil por hora,
minha boca está seca, não consigo me
mover. Só de pensar que ele estava a
poucos metros de mim, agora, me
faltava o ar.
*Abre, Anjo.*
Meu celular apita em minha mão e saio
do transe.
O que eu ia fazer agora? Eu sei que
não devia fazer isso, mas a vontade de
vê-lo, bater nele e até matá-lo, foi muito
mais forte que eu.
Vou em direção à porta, e quando
destranco e a abro, ele está lá em pé na
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minha frente, mais lindo que nunca. Ele
me olha e já entra me agarrando e me
beijando com muita vontade. Ele bate a
porta atrás de si, ainda comigo em seus
braços, sua mão direita em meus
cabelos, colando minha boca a dele, sua
mão esquerda em minhas costas, me
firmando totalmente a ele, minhas mãos
também estão em sua nuca. Ele me
suspende e fecho minhas pernas em
volta dele.
Ele caminha comigo em direção ao
quarto e, à essa altura, eu já tinha
esquecido tudo, eu só o queria, agora
que eu percebi como senti sua falta,
parecia que eu estava muito tempo sem
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voltar para casa. É como se ele fosse
minha casa, essa era a sensação que eu
tinha, esse homem já estava no meu
sistema nervoso central, não tinha mais
jeito.
Ele já tinha me deitado na cama e
estava por cima de mim, me dava beijos
em todos os lugares, suas mãos tateavam
todo o meu corpo, pareciam querer ter a
certeza de que eu realmente estava ali.
Eu coloco as mãos para tirar sua blusa,
começo a tatear suas costas e percebo
que ele se esqueceu de tirar a sua arma
do cós da calça.
— Capitão, a arma — falo, sem
fôlego. Ele me olha com um olhar cheio
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de culpa.
— Desculpa, Anjo — se levanta e eu
já sinto sua falta. Coloca a arma em
cima da cômoda, aproveita para tirar a
blusa, o tênis, a meia e sua calça. Fica
só com a cueca boxer. Ele era um
verdadeiro deus grego, não sei quando
eu iria me acostumar com sua beleza.
Volta para a cama como um leão em
busca da sua presa.
— Eu senti tanto sua falta, meu Anjo,
você não faz ideia — ele fala olhando
nos meus olhos ao dizer essas palavras
— Eu achei que nunca mais sentiria
você assim, eu quase pirei esses dias
longe de você. Me diz que também
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sentiu minha falta e que não vai mais
tentar me afastar — o olhar dele era tão
verdadeiro que me fez arrepiar com
suas palavras.
— Também senti sua falta — ele me
ataca com um beijo cheio de paixão. Eu
não saberia mais viver sem esse beijo,
eu me rendo, ele é o que eu preciso
agora, o resto resolvo depois. Ele
começa a beijar em todos os lugares e é
delicioso, estou totalmente perdida em
desejos desconhecidos, meu corpo
estava em chamas.
Ele começa a retirar a parte de cima
do meu baby doll e eu o ajudo; ele
continua me beijando até chegar aos
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meus seios, beijando cada um deles bem
devagar, e eu entro em um momento de
puro êxtase, solto gemidos que faz com
que ele murmure alguns palavrões. Ele
vai descendo por minha barriga com sua
boca entreaberta, chega ao elástico do
meu short doll e vai descendo bem
devagar, dando pequenos beijos na pele
que vai ficando exposta.
— Linda! Não vou me cansar nunca
de olhar para você, eu te quero com
todas as minhas forças, meu Anjo. Você
também me quer? — Ele ainda pergunta.
— Sim — digo em um fio de voz,
consumida de tanto desejo. Ele continua
com sua tortura até retirar todo o short e
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a calcinha junto. Vai para o centro de
minhas pernas e eu já não estava mais
aguentando, eu queria senti-lo dentro de
mim.
— Você tem um cheiro delicioso, eu
passaria horas aqui desse jeito... — ele
coloca a boca em meu centro e começa
com uma tortura maravilhosa, eu já
estava quase chegando lá. Eu me
desmancho em um milhão de pedaços.
Uau, ele realmente sabia usar aquela
boca.
— Eu preciso de você, por favor,
Gustavo, me faça sua— ele levanta, vai
até sua calça e pega um preservativo em
seu bolso. Que safado! Já veio
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preparado.
— Tem certeza disso, Anjo?
E, nesse momento, eu tive a certeza
de que estive esperando por ele todo
esse tempo.
— Absoluta, como nunca tive em toda
minha vida.
Ele me lança um sorriso safado, que
eu já amava. Tira a cueca e eu arregalo
os olhos, minha boca fica aberta. Isso,
com certeza, era mais para um
importado tipo X1 da BMW.
Ele olha para minha cara, com suas
sobrancelhas erguidas.
— Que foi, Anjo, desistiu? — Eu
fiquei insegura por alguns instantes.
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Aquele importado ali não iria caber na
minha garagem, com certeza não.
— Não vai caber — digo, apontando
para o seu X1.
— Claro que vai, já te disse que você
foi feita para mim — ele coloca o
preservativo e se deita em cima de mim.
Começa a me beijar de novo e minhas
dúvidas desaparecem. Ele beija cada
centímetro do meu pescoço e rosto.
— Fica calma, vamos bem devagar,
não quero que sinta dor — olho em seus
olhos e vejo carinho, cuidado, desejo,
paixão e amor. Ele se coloca entre
minhas pernas, se apoia nos cotovelos e
não tira seus olhos dos meus nem por
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um segundo.
— Se doer, é só falar que eu paro —
diz me dando um beijo bem suave,
minhas mãos estão agora em seu peito,
seu coração parecia que era a bateria de
uma escola de samba, de tão forte que
batia. Começo a acariciar suas costelas,
suas costas. Quando sinto sua primeira
investida, ele começa a me penetrar bem
devagar e isso estava acabando comigo,
eu o queria por inteiro. Ele aprofunda
mais um pouco e sinto um pouco de
desconforto. Enrugo as sobrancelhas e
ele para na hora.
— Tudo bem, Anjo?
— Mas que bem, continua... — ele
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me penetra mais um pouco e sinto como
se estivesse se rasgando algo dentro de
mim. Ele vai mais um pouco e, enfim,
sinto-o todo dentro de mim — Ahhh...
Sinto quando meu hímen é totalmente
rompido e meu grito sai sem que eu
mesma, controle. Ele para e fica me
olhando. Tento me acostumar com a dor
e com ele dentro de mim. Ele ainda está
parado.
— Está tudo bem? — Assinto com a
cabeça — Vou me mexer um pouco, se
doer me avisa.
Ele começa a se mexer bem devagar
e o desconforto vai dando espaço a uma
sensação maravilhosa. Ele vai
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aumentando o ritmo e vai ficando cada
vez mais gostoso. Esse homem era tudo
de bom!
Arranho suas costas e ele geme com a
boca grudada a minha e eu gemo junto
com ele, pois a sensação de tê-lo dentro
de mim era muito boa.
— Eu te disse que você foi feita para
mim, meu Anjo, você é minha e eu sou
seu.
— Sua... — foi a única palavra
coerente que consegui falar.
Ele aumenta suas investidas e eu
agora só sinto prazer, meu corpo
começa a enrijecer e ele sente.
— Vamos, meu anjo, goza para mim,
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não feche os olhos, olha para mim... —
é o suficiente! E meu corpo é levado a
uma dimensão jamais conhecida antes, a
sensação do mais puro deleite me
domina. Chego ao clímax, meu corpo se
desfaz em seus braços, ouço gemidos
que só depois percebo que são meus.
Ele dá mais duas investidas e goza
diante de mim, seu olhar dentro do meu,
e vejo, pela primeira vez, um olhar que
não conhecia que me fascinou, um olhar
de pura luxúria, desejo e paixão.
Ficamos lá deitados sem nos mexer,
como se qualquer movimento fosse nos
tirar da nossa bolha. Como se
precisássemos desse tempo, para fixar
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na memória cada segundo desse
momento.
— Eu sou o homem mais feliz do
mundo. Você é tudo que eu preciso,
nunca vou me cansar de te dizer isso,
Anjo — ele diz, dando beijos suaves
por todo meu rosto. Eu não consigo
dizer nada, fico olhando para ele. Tinha
sido o meu momento perfeito, tudo que
sempre sonhei, me lembraria desse dia
para sempre. Ele sai de dentro de mim e
sinto um abandono sem igual. Ele retira
o preservativo, dá um nó na ponta e vai
para o banheiro. Ele retorna ainda nu, e
não consigo deixar de admirá-lo mais
uma vez. Deita-se atrás de mim, beija
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meus cabelos e minha orelha... Como
isso é possível, eu já o queria de novo,
ele já tinha me viciado!
— Acho melhor irmos tomar banho,
antes que você durma.
— Quem disse que quero dormir? —
Olho para ele com cara de quem quer
muito mais.
— Anjo! É melhor irmos devagar,
amanhã ainda é sexta-feira e você vai
ficar dolorida e desconfortável no
trabalho.
— Quem decide isso sou eu — digo,
roubando sua fala do outro dia.
Ele está sentando, encostado na
cama. Puxa-me para cima dele, já o
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sinto duro de novo. Nosso beijo começa
em tom de brincadeira e logo fica muito
sério. Ele desce pelo meu pescoço, suga
um seio de cada vez e eu não consigo
segurar os sons que saem da minha
boca, e isso o deixa mais excitado
ainda.
— Eu criei um monstro! — Fala com
uma voz rouca.
— Quem manda ser lindo e gostoso?
— Ele está com a boca ainda no meu
seio, levanta os olhos e me olha com
uma cara de safado, dando aquele meio
sorrisinho. Não consigo segurar o riso.
— Então é isso? Sou só um corpinho
bonito para você? — Fala, se fingindo
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de ofendido.
— Claro que não! Boca também e os
olhos e... — ele me cala com um beijo
delicioso.
— Anjo, eu quero muito você! Agora
que eu finalmente consegui, não vou
deixar você assim tão fácil, nem adianta
vir com suas maluquices, que eu não
caio mais.
Eu realmente queria que fosse tão
simples assim, mas isso deixa para
outro capítulo, agora quero mais é
aproveitar meu Capitão gostosão.
Ele se levanta comigo agarrada em
sua cintura e pega outro preservativo em
sua calça. Ele estava preparado, safado!
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— Trouxe o estoque da farmácia? —
Pergunto com ele já entre minhas
pernas.
— Espero que te deixe satisfeita
agora, Anjo, pois é a última, já vi que
terei que deixar uma caixa fechada aqui.
Amanhã vou providenciar, pode deixar.
Ele termina de falar e eu já começo a
rebolar em cima dele. Posiciono-me, e
ele com as mãos em meus quadris, guia-
me lentamente para entrar dentro de
mim. Já não havia dor, apenas uma leve
ardência. Fui descendo devagar, até que
o sinto por inteiro e é uma sensação de
entrega indescritível. Eu era dele, sem
sombras de dúvidas.
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Eu cavalgava nele lentamente,
aproveitando cada movimento.
Olhávamos um para o outro. Sua boca
ora na minha boca, ora nos meus seios.
Ele passeava com suas mãos por todo
meu corpo, decorando com suas mãos
cada pedacinho dele.
— Você é linda, linda — sua voz era
apenas um sussurro, seu olhar era de
pura veneração.
À medida que nossos beijos foram
ficando mais urgentes, eu rebolava em
cima dele com mais intensidade,
agarrada aos seus cabelos. Joguei minha
cabeça para trás e me entreguei
completamente àquela cavalgada.
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Palavras desconexas eram misturadas
aos nossos gemidos. Nós éramos
apenas um naquele momento, foi quando
senti que mais um orgasmo se
aproximava. Gritei de puro prazer, e, em
seguida, vejo seu corpo enrijecer e ele
também se junta a mim, e eu só consigo
pensar em uma coisa: se o mundo
acabasse agora, eu morreria feliz.
Deito minha cabeça em seu ombro,
ainda com ele dentro de mim. Nossos
corpos estão suados, e nossa respiração
vai voltando ao normal aos poucos.
Com muito esforço, saio do seu colo e
deito na cama. Ele fica ao meu lado,
acariciando todo o meu corpo. Eu me
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sentia a pessoa mais importante da vida
dele naquele momento, tudo estava
perfeito demais e esse era meu medo,
perder isso de uma hora para outra.
— Anjo, agora temos que tomar
banho, senão acho que amanhã você não
vai conseguir trabalhar, já está muito
tarde — eu não queria que esse
momento acabasse nunca.
Eu me sentia exausta, ele se levantou
e me puxou para o seu colo. Levou-me
para o banheiro, entrando comigo dentro
do box.
— Sério que vai tomar banho junto
comigo? — Ele arqueia a sobrancelha e
me coloca no chão.
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— Claro que vou, não perderia isso
por nada — ele pega o sabonete líquido,
coloca na esponja e começa a me
ensaboar.
— Não me canso de olhar para você,
Anjo, você é linda e toda minha — pego
o sabonete de suas mãos e também
passo nele. Uau! Ele era a perfeição em
pessoa, estava aproveitando e
decorando cada músculo dele, meus
dedos subiam e desciam por seus
braços, pescoço, peitoral...
— Gostando do que vê? — Ele pisca
para mim.
— Muito! — Ele me puxa contra ele
e, quando me dou conta, já estou com as
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pernas em volta de sua cintura e com as
costas no azulejo frio do box, que era
um contraste enorme com o fogo que
estava dentro de mim. Ele ataca minha
boca com um desejo feroz. Eu o queria
de novo e sei que ele também, pelo
tamanho de sua ereção. Céus, que
homem é esse?
— Ah! Eu quero muito você, Anjo, eu
te juro que não tenho nada, faço meus
exames regularmente e nunca transei
sem preservativo. Sei que você também
não tem nada — senti súplica em sua
voz, e seu olhar era quase de desespero.
Eu não podia esperar até amanhã para
tê-lo dentro de mim de novo, e senti que
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tudo o que havia dito era verdade. Olho
para ele e faço que sim com a cabeça.
Ele dá um sorriso e começa a me
penetrar, duro, feroz. Isso só ficava
melhor a cada vez.
Ele gemia sem parar.
— Porra, Anjo, dessa vez eu não vou
aguentar muito tempo — ele disse ao
meu ouvido. Mordi seu ombro, e tinha
certeza de que também não aguentaria
muito tempo. Sentia-o todo dentro de
mim, suas estocadas eram fortes e
rápidas, eu não tinha mais palavras para
descrever como era bom.
— Oh, sim, Capitão, quero mais,
mais — eu pedia descontrolada.
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Ele aumentou seus movimentos e
gozei mais uma vez gritando por ele. Ele
não resiste e me segue. Ficamos nessa
posição por uns minutos. Ele coloca
uma de suas mãos em meu rosto e diz:
— Não foge mais de mim. Eu tenho
certeza que agora não vou conseguir
suportar ficar longe de você.
Eu não sei o que responder para ele.
Será que eu suportaria ficar longe dele?
Não depois de hoje, então seja o que
Deus quiser.
— Não me deixe fugir — digo com
os olhos marejados olhando dentro dos
dele.
— Eu não vou deixar, Anjo, eu não
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vou deixar — ele me dá um beijo e
selamos nosso acordo.
— Agora me ponha no chão que nós
dois temos que trabalhar amanhã e você
já me explorou demais por hoje — falo,
fazendo um biquinho.
— Realmente, eu criei uma
monstrinha — ele diz, dando uma
gargalhada.
Acabamos nosso banho, nos secamos
e vamos para o quarto. Quando vejo a
roupa de cama, vejo não teríamos
condições de dormir nela. Vou para meu
armário, pego outro lençol e outro
edredom e começo a arrumar a cama.
— Vou apagar tudo e trancar a porta
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— ele diz, saindo do quarto.
Volta pouco tempo depois e eu já
tinha colocado outro baby doll. Ele
apaga a luz e se deita ao meu lado; pego
meu celular para colocá-lo para
despertar e me assusto com a hora:
quase duas da manhã. Bem que ele disse
que estava tarde. Estou ferrada para
acordar, seria uma luta, mas tinha valido
a pena cada minuto que fiquei acordada.
Meus olhos começam a se fechar sem
que me dê conta.
— Boa noite, meu Anjo. Hoje eu vou
dormir bem com você aqui do meu lado,
tem três noites que não durmo, como eu
senti sua falta!
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— Eu também senti— digo e ele me
abraça muito forte. Agora eu sei que não
conseguiria viver sem esse abraço e
todo o resto dele.

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Capítulo 13
Lívia

Acordo de um jeito maravilhoso, com


vários beijos por todos os lugares.
— Está na hora, vai chegar atrasada
se não se levantar agora — eu abro
meus olhos e me deparo com aquele par
de olhos lindos. Como ele conseguia ser
tão lindo assim até na hora que
acordava?
— Não quero levantar... — digo com
voz manhosa. Ele me abraça e beija meu
pescoço.
— Vamos, Anjo, amanhã te deixo
dormir até mais tarde — diz com um
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carinho delicioso em minhas costas.
— Você fazendo essas coisas, fica
difícil eu querer sair dessa cama — me
aproximo mais dele.
— Para mim está mais difícil ainda,
Anjo, pode acreditar, mas o dever nos
chama, já são dez para as sete.
— Ai meu Deus Gustavo! Porque não
me disse que já estava tão tarde? —
Dou um pulo da cama e ele fica lá me
olhando e sorrindo.
— Estava tentando, você que não
entendeu. Vou preparar o café — ele diz
se virando para porta.
— Acho que não vai dar tempo,
Gustavo.
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— Claro que dá tempo, se arruma
rapidinho — ele me dá uma piscada e
sai do quarto.
Vou correndo para o banheiro, faço
minha higiene pessoal, coloco meu
uniforme e vou para a sala. Nunca me
arrumei tão rápido. Quando chego à
sala, ele está saindo da cozinha com as
xícaras de café na mão. Quando me vê,
fecha a cara. Lá vem ele falar da minha
calça de novo.
— Anjo! Sério isso? Você vai
continuar indo com essa calça? Isso já é
provocação — que cisma boba.
— Ah, Gustavo, não começa — me
sento à mesa e ele ainda está parado
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com o café na mão.
— Vai ficar parado aí ou vem tomar
café? — Ele se senta à minha frente e
fica me olhando.
— O que custa você ir de jeans e
colocar a calça do uniforme no
trabalho? — Fala sério, me encarando.
Ele acha mesmo que vai mandar nas
minhas roupas? Assim que começa:
você muda uma calça, depois um vestido
e, quando vê, já está se vestindo do jeito
que ele quer. Isso não iria rolar comigo.
— Mais prático, já discutimos isso e
não vou voltar atrás, então, é melhor
mudarmos de assunto — ele bufa e eu
finjo que não vejo.
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— Você é muito teimosa, Anjo. O que
vou fazer com você? — Pergunta mais
para si mesmo do que para mim, dando
um gole em seu café.
Lembro-me de um assunto inacabado.
Se ele pensa que eu ia esquecer, estava
enganado. Só porque ele me confundiu
ontem com toda sua beleza e gostosura,
acha que eu não iria querer saber mais
da tal Carol. Ele iria ter que me explicar
essa história direitinho. Eu sei que
estava atrasada, mas agora não me
importo mais, precisava esclarecer esse
assunto.
— Posso saber quem é a amiga que
você levou para jantar ontem? — Ele
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levanta a cabeça com minha pergunta e
fica me encarando com um sorriso de
lado.
— Ciúmes, Anjo? — Mas se acha
muito!
— Não é questão de ciúmes, quero
só saber onde estou me metendo — ele
balança a cabeça para frente, tentando
segurar o sorriso.
— Qual o problema? Vai falar ou
não? — Falo com a voz mais alterada.
Odeio deboche, ele estava rindo de
mim?
— Claro, falo tudo que quiser saber,
Anjo — apoio o cotovelo na mesa,
coloco a mão no queixo e fico
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encarando-o.
— Estou esperando — falo e ele
balança a cabeça como se esse assunto
não tivesse importância alguma.
— Curiosa demais, não? — Se ele
não parar de me enrolar, vou voar em
cima dele.
— Quer falar logo, que saco! Que
foi, está com medo de me dizer a
verdade? — Ele balança mais ainda a
cabeça e agora não controla o riso.
— Ela é só uma grande amiga, Anjo,
fica calma, nós nos conhecemos há
muitos anos.
— Deve ser bem íntima mesmo, para
você levá-la para jantar em um
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programa de casais logo com minha
melhor amiga. Você achou que a Bia não
ia me contar ou você fez de propósito?
Ele cai na gargalhada. Eu olho para
ele muito puta da vida, odeio isso!
— Não foi um encontro de casais,
Anjo, ela também conhece o Michel e
marcou com a gente para entregar o
convite do seu casamento, ela estava
com o noivo, portanto, quem estava
sobrando era eu — eu juro que vou
matar a Bia! Ela me fez fazer papel de
boba.
— E você armou essa palhaçada
toda com a Bia? — Falo bem ríspida
com ele e ele para de rir na mesma hora.
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— Claro que não, Anjo, nem estou
sabendo do que você está falando, eu
iria vir aqui de qualquer maneira, não
estava conseguindo mais ficar longe de
você. Quando vi sua mensagem, já
estava descendo do carro aqui na frente
do seu prédio. Fiquei parado na sua
porta durante uns dez minutos, antes de
responder a mensagem. Não entendi o
tom da mensagem e nem como você
sabia que eu tinha jantado com a Carol,
aí me lembrei da Bia. Fiquei feliz
quando percebi que você estava com
ciúmes — que convencido mesmo!
— Eu não fiquei com ciúmes, seu
convencido! — Ele arqueia as
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sobrancelhas, se levanta e ajoelha-se ao
lado da minha cadeira.
— Não? Então que foi aquilo de
mandar eu me explodir? — Me puxa
para ficar de frente para ele.
— Só achei abuso você ir a um jantar
de casal com minha amiga, só isso —
ele já está entre minhas pernas,
acariciando meu rosto.
— Hum hum, sei... — fala beijando
meu pescoço. Pronto, agora já esqueci
até o assunto que estávamos tratando.
— Gustavo, eu vou chegar atrasada
— ele me cala com um beijo. E que
beijo!
— Só um beijo de bom dia, Anjo — e
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me dá mais um beijo.
— Você disse que era só um, eu
realmente preciso ir, se chego atrasada é
bronca na certa — ele se levanta vai até
o quarto, deve ter ido pegar sua arma.
Quando volta, já estou com a minha
bolsa esperando por ele.
— Ok, o dever nos chama — saímos,
quando entramos no carro, ele me
manda colocar o cinto, liga o carro e
partimos — Só preciso que você dê uma
paradinha rápida em uma farmácia —
ele assente, mas não diz nada.
Encosta o carro na frente da farmácia
e eu desço. Preciso comprar a pílula do
dia seguinte, já que fui irresponsável,
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preciso garantir que não vou ficar
grávida agora. Uma gravidez a essa
altura do campeonato e com uma pessoa
na qual eu mal conheço e logo na minha
primeira vez, não seria bem-vinda. Não
que eu não quisesse ter um filho um dia,
mas tudo tinha sua hora certa para
acontecer. Compro a pílula junto com
uma garrafinha de água, abro e a tomo
logo para não correr o risco de
esquecer. Entro no carro e ele está com
um olhar curioso.
— Pílula do dia seguinte, ainda não é
dessa vez que você vai ser papai — falo
em tom de brincadeira. Ele me olha
meio sem jeito.
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— Desculpa, Anjo, eu devia ter me
comportado.
— Para com isso, Gustavo, a culpa
foi dos dois, problema resolvido — ele
dá um sorriso sem graça. Será que ele
acha que porque eu era virgem sou
desinformada? Eu, hein!
— A que horas você vai sair hoje?
Vou estar por perto e te pego — sem
cabimento, agora vai deixar de trabalhar
para ser meu motorista. Ou deve ainda
estar sem graça e está mudando de
assunto.
— Saio às quatorze horas, mas não
precisa se preocupar, eu sei pegar
ônibus.
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— Eu sei disso, mas eu vou estar
bem perto, e não me custa nada.
— Não precisa mesmo obrigada,
pois hoje é aniversário da Bia e eu
ainda vou passar no shopping para
comprar o presente dela — ele começa
a balançar a cabeça em negativa — Que
foi?
— Você não vai ao shopping com
essa calça, fora de questão e sem
necessidade — não acredito no que ele
está falando.
— Minhas necessidades quem decide
sou eu e não você, que isso fique bem
claro — falo bem séria, mas sem
levantar o tom de voz. Ele precisa
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entender que não vai chegar dando
ordens e nem ditando o que tenho que
fazer, ele que vá dar ordens lá no
batalhão dele, não para mim.
— Só acho que você morando perto
de um shopping, não precisa ir por aqui,
pode muito bem passar em casa, trocar
de roupa e depois ir — agora eu que
balanço minha cabeça em negativa.
— Só por que você quer? Acho
melhor encerrarmos o assunto por aqui
— ele fica mudo e não diz mais nada.
Um tempo depois, para o carro em
frente ao meu trabalho, e quando vou
descer, ele me puxa e me dá um beijo
que me faz querê-lo ali, naquele
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instante.
— Bom trabalho, Anjo — eu ainda
estou em estado de êxtase.
— Para você também, bom trabalho
— apesar de eu achar que ele não devia
trabalhar nisso. Mas se eu tinha
resolvido ficar com ele, tinha que
aceitar seu trabalho. Sei que não seria
fácil, essa era a única certeza que eu
tinha. Dou mais um beijo nele e saio do
carro; ele fica lá esperando até que eu
entre no trabalho.
Chego, faço meu trabalho como todos
os dias, atendo telefone, recebo os
clientes, encaminho eles até a sala onde
será feito o procedimento e assim é até
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a hora de sair. Passo a manhã inteira
pensando no que tinha acontecido essa
noite e como tinha sido maravilhoso. Eu
sempre esperei que esse dia fosse
especial, só não sabia que seria tão
bom. E agora vai ser praticamente
impossível me afastar dele. Talvez a Bia
tivesse razão, como diz a música de
Lulu Santos, “vamos nos permitir”. Ser
feliz é o que importa e rezar para que
essa felicidade não termine. Mas a dona
Bia iria se ver comigo, não hoje que é
seu aniversário, mas a pego na curva.
Eu sei que, como ela me conhece, sabia
que eu estava precisando de um
empurrão, mas isso foi muito mais.
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Onde já se viu, ficar me provocando
daquele jeito omitindo que a mulher
estava acompanhada. Já é a segunda que
ela me apronta. O que é dela está
guardado.
Quando chega as quatorze horas,
pego minha bolsa e saio. Passo pela
porta e vejo Gustavo encostado no carro
me esperando. Vou em sua direção, e
quando chego perto, ele já me puxa e me
dá um beijo de tirar o fôlego.
— Oi, meu Anjo, estava cheio de
saudades.
— Oi, eu também, mas te disse que
não precisava, não faz sentido você sair
do trabalho no meio do dia para me
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buscar — ele me abraça mais forte
ainda e beija meu pescoço.
— Faz todo o sentido do mundo, eu
já disse que estava com saudades? —
Aproveito o momento e não digo mais
nada. Entramos no carro e ele sai. Cinco
minutos depois entra na garagem de um
prédio, próximo à orla.
— Onde estamos indo? — Ele me olha
e dá uma piscada.
— Minha casa, já está mais do que na
hora de você conhecê-la.
Coincidência ele morar tão perto
assim do meu trabalho. Ele para o carro
em uma vaga e saímos do carro.
— Você pode tirar a tarde de folga?
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Posso conhecer sua casa outro dia, sem
problemas — ele pega na minha mão e
segue em direção aos elevadores.
— O Michel ficou lá, não se
preocupa — como assim o Michel ficou
lá? Ele não é Sargento? Eu não via
como isso era possível.
— Mas ele pode ficar no seu lugar,
sendo Sargento? — Ele me olha
confuso. Será que eu disse alguma
besteira?
— Não no batalhão, Anjo, ele ficou
na empresa — empresa, que empresa?
Agora estou boiando.
— Empresa?
Entramos no elevador, ele aperta o
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sexto andar e as portas se fecham. Ele
fica atrás de mim, me abraçando pela
cintura.
— Eu e o Michel temos uma empresa
de blindagem.
Ele tinha uma empresa, então por que
ficava se arriscando na polícia? Isso é
muita burrice! Mas quem sou eu para
dar algum tipo de opinião na sua vida?
Nosso relacionamento ainda está muito
novo, quer dizer, nem sequer tinha
começado ainda.
Fico em silêncio até que as portas do
elevador se abrem e ele me puxa para
fora do elevador e para fora dos meus
pensamentos.
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— Ei, eu ia te contar, não fica assim,
só não tive tempo e oportunidade até
agora. Não precisa ficar com essa cara
— se ele soubesse qual era minha
verdadeira preocupação...
— Está tudo bem, Gustavo, nada de
mais, existem muitas coisas que ainda
não sabemos da vida um do outro — ele
me olha confuso e preocupado, talvez
meu tom de voz não tenha saído do jeito
que eu queria, transmiti incerteza para
ele. Olho para ele e dou um sorriso
forçado.
— Tem certeza que está tudo bem?
— Ele me pergunta, angustiado. O que
eu iria dizer? Não, está tudo péssimo
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pelo fato de você ser policial. Ou,
então, sai da polícia e nossa vida vai
ser perfeita. Eu não tinha esse direito,
eu o conheci na polícia, e por mais que
eu não aceitasse isso, ou eu me adaptava
à situação ou me afastava dele. Ele me
disse que amava a profissão, então eu
tinha que tentar conviver com ela, pois
não iria carregar o peso dele ser infeliz
por minha causa.
— Está sim, tudo bem — ele me pega
no colo e me ataca com um beijo. Eu
fecho minhas pernas em volta de seu
quadril e ele vai me carregando pelo
apartamento.
— Você não liga se eu te mostrar o
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apartamento depois, né? É que estou
com muitas saudades e preciso ter você
agora na minha cama — ele está com
uma mão em minhas costas e outra na
minha nuca, não para de me beijar todo
o caminho. Coloca-me em sua cama,
para de frente para mim e com uma
urgência visível, tira sua camisa e sua
calça junto com o tênis.
Parecia que eu estava dias sem vê-lo,
será que nunca iria me acostumar com
sua beleza? Ele vem em minha direção e
puxa minha calça.
— Você fica perfeita em minha cama
— eu já estava pronta para ele. Ele tira
minha blusa e eu ajudo. Tínhamos
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pressa — Nunca vou me cansar de te
olhar, Anjo, perfeita! Você é minha, só
minha — ele pega um preservativo na
gaveta de sua cabeceira e ficamos ali a
tarde toda, nos amando como se não
existisse nada nem ninguém em todo
mundo. Eu me sentia a mulher mais
completa e feliz do mundo quando
estava com ele, todas as minhas dúvidas
desapareciam. Era somente eu e ele.

****
— Gustavo, eu realmente preciso ir,
ainda tenho que comprar o presente da
Bia, eu te disse que hoje é aniversário
dela — ele está todo enrolado em mim,
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era uma sensação maravilhosa, mas eu
tinha que comprar o presente da Bia e
ainda teria que me arrumar para a tal
boate, apesar de agora essa ideia me
parecer bem chata em relação à minha
posição atual, mas eu tinha prometido,
então teria que ir.
— Está tão bom, não quero sair daqui
— fala com o nariz em meu cabelo.
— Eu também não queria, mas eu
preciso, ela é minha melhor amiga e se
eu não comprar o presente dela e não
for a tal boate, ela vai me matar — ele
levanta a cabeça na hora para me
encarar.
— Que historia é essa de boate, Anjo?
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— Hoje é aniversário dela...
— Essa parte eu já sei — interrompe-
me.
— Posso terminar? — Pergunto com
ironia. Ele franze as sobrancelhas.
— Deve.
— Então, ela quer ir nessa tal boate
nova que abriu aqui na Barra, por isso
tenho que ir para casa, passar correndo
no shopping, comprar o presente dela e
depois me arrumar — ele está me
olhando com a cara amarrada e
desconfiada.
— Que boate seria essa? — Já está
com o tom de voz diferente ao fazer essa
pergunta. Cadê o homem doce e
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delicado de agora há pouco?
— É a Sirius.
— Nem fodendo que você vai nessa
boate! — Quem ele pensa que é para me
proibir alguma coisa?
— Não me lembro de ter te pedido
permissão, Gustavo — falo, o
encarando.
— Essa boate está cheia de
ocorrências de agressão, todo o final de
semana tem confusão. E eu muito
provavelmente estarei de serviço hoje à
noite.
— Eu não vou me meter em confusão,
pode ficar tranquilo, e, além do mais,
Michel vai com a gente — ele balança a
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cabeça em negativa o tempo todo.
— Você acha mesmo que na hora da
confusão ele vai deixar de proteger a
namorada dele para proteger a minha?
— Caraca, muito neurótico!
— Muito estranho você não confiar
em um membro de sua equipe e, ainda
por cima, seu sócio — começo a me
levantar da cama, não tenho paciência
para ataque de pitis desnecessários. Ele
fica me olhando enquanto pego minhas
roupas espalhadas pelo chão do quarto.
— A questão não é essa, eu confio
muito no Michel — então é só
implicância mesmo.
— Então está resolvido, não precisa
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dar piti — ele abre e fecha a boca, me
encarando com cara de quem foi pego
de surpresa por minhas palavras.
— Não estou dando piti, eu trabalho
com segurança, esqueceu? Só estou
querendo dizer que, se houver uma
confusão grande, ele pode não conseguir
defender as duas, e claro que vai optar
por defender a namorada dele primeiro.
Então, deixa para ir nessa boate quando
eu tiver certeza que vou estar junto,
muito mais seguro assim.
Ele só podia estar maluco se achava
que eu iria desmarcar um programa com
minha melhor amiga por ele achar que é
perigoso, conheço muito bem essa
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mania de perseguição de policial, para
eles todos são suspeitos.
— Só que o aniversário é dela, então,
eu não tenho o poder de decidir nada.
Sinto muito, Capitão, mas só a Bia pode
resolver isso, e se ela quer ir à boate
comemorar seu aniversário, é para lá
que eu vou o Senhor gostando ou não!
Agora deixa eu tomar meu banho, pois
já estou com a hora apertada — falo
mandando um beijo para ele e vou em
direção ao banheiro de seu quarto. Ele
fica lá com cara de bobo.
Tomo meu banho sossegada,
reparando em como seu banheiro era
bem maior que o meu. Na bancada da
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pia havia uma colônia pós-barba, um
pote de sabonete líquido, pasta de dente
e duas escovas de dentes. Percebi que
uma ainda estava na embalagem, não
pude deixar de sorrir feito uma boba,
ele a havia comprado para mim. A parte
de baixo, um nicho com toalhas.
Seu quarto também era bem
masculino, pintado em dois tons de
azuis diferentes, sua cama King Size
ficava no meio do quarto, duas mesinhas
de cabeceiras nas laterais; em uma
lateral havia uma poltrona, não vi
guarda-roupas no quarto, ele deve ter
um closet atrás da outra porta que fica
ao lado da do banheiro. Na outra lateral
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do quarto tinha uma porta de correr com
persianas que iam até o chão, aquela
porta devia dar para a varanda.
Termino meu banho, coloco minha
roupa e vou para o quarto. Ele não está,
onde será que deixei minha bolsa? Abro
a porta e refaço o caminho que ele fez
comigo no colo até chegar à sala.
Quando entro, vejo que ele está muito
alterado falando ao telefone.
— Não me interessa, Michel, eu
estou te falando que a Lívia não vai
nessa porra de boate! — Ele realmente
está acreditando que vai definir onde eu
posso ou não posso ir.
Continuo lá com os braços cruzados,
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o escutando discutir minha vida. Se ele
acha que vou deixar minha amiga
sozinha no aniversário dela, está muito
enganado. Quem ele pensa que é? Não
vou permitir isso, sem noção.
— Ah! E você acha que se der
alguma merda vai conseguir defender as
duas?! — Ele estava berrando no
telefone — Caralho! É só você
convencer sua namorada a ir a outro
lugar, porque a Lívia só está indo por
causa dela — estou ficando muito puta
com a reação dele. Ele tem que resolver
comigo e não ligar para o amigo para
tentar resolver o que já estava decidido
— Porra, se você não consegue fazer
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sua namorada mudar de ideia, para que
você serve, então? — Olha quem fala,
dá até vontade de rir, o sujo falando do
mal lavado, senão fosse trágico, seria
cômico — É claro que eu consigo, ela
só está insistindo em ir porque não quer
ficar mal com a amiga — Quer saber?
Isso já está indo longe demais, não vou
perder meu tempo aqui.
Vejo minha bolsa no sofá, pego e vou
em direção à porta; paro com ele
segurando meu braço.
— Resolve isso, Michel — fala puto
da vida e desliga o telefone — Aonde
você pensa que vai?
— Você está maluco ou o quê? Eu te
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disse que tenho que ir embora.
— Eu vou te levar, pode esperar dois
minutos? — Pergunta irritado. Cadê o
Gustavo carinhoso? Porque esse aí é um
saco.
— Não precisa, você disse que tinha
que trabalhar e eu já ocupei muito seu
tempo — ele passa a chave na porta e a
tira. Que merda é essa agora, ia me
manter presa aqui?
— Abre a merda da porta, Gustavo!
Não estou achando graça — ele se vira
sem falar nada e vai em direção ao
quarto. Vou atrás dele e puxo seu braço.
— Me dá a droga da chave! Eu quero
ir embora — digo bem alterada, o que
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ele estava pensando? Homem louco!
— Já disse que vou te levar, deixa só
eu tomar um banho rápido — fala com
toda a calma do mundo e ainda manda
um beijo na minha direção, como eu
tinha feito com ele há pouco. Que ódio
dele! A tarde foi tão perfeita, ele tinha
que estragar tudo?
— Eu não quero que me leve,
Gustavo, só que abra a porta — falo, já
gritando na direção do banheiro onde
ele havia entrado.
Agora virei prisioneira dele, só o que
me faltava. Fico lá sentada na cama,
bufando com as atitudes dele. Eu
mereço, onde fui me enfiar?
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Dez minutos depois, ele sai do
banheiro enrolado só com uma toalha. E
que corpo era aquele? Por um momento
esqueço tudo, não vou me cansar nunca
de admirar sua beleza, fico lá igual a
cachorro que fica olhando o frango girar
naquelas frangueiras de padaria, não me
movo um músculo sequer.
Ele tira a toalha na minha frente.
Filho da mãe! Se ele estava tentando me
distrair, conseguiu. Sinto minha calcinha
alagar na hora. Ele olha na minha
direção... Cacete, deve ter visto a baba
escorrendo, pois está com aquele
sorriso safado na cara.
— Tem certeza que quer mesmo ir
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embora?
Puta que pariu! Falando desse jeito,
parecia loucura mesmo. Não que eu
quisesse ir embora, eu tinha que ir. O
que eu iria falar para a Bia depois?
— Ab...Absoluta!— falo com uma
voz ridícula, esganiçada que nem eu
mesma reconhecia como minha.
— Se você está dizendo, eu acredito
— vem em minha direção totalmente nu.
Agora eu esqueci até de como se
respira. Ele se senta ao meu lado e
começa a me beijar em todos os lugares.
E como era bom, o safado sabia
direitinho como me convencer, eu estava
quase cedendo. Mas não era qualquer
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pessoa, era a Bia, e eu não ia fazer isso
com ela. Então, me levanto e vou para
bem longe dele. Preciso fugir da
tentação.
— Te espero na sala— levanto e ele
fica me olhando com uma cara de
cachorro que caiu do caminhão de
mudanças. Vou quase correndo em
direção à sala. Vejo que já são quase
dezenove horas, ainda bem que eu já
sabia o que iria comprar para ela,
senão, estava lascada.
Ele chega à sala todo arrumado e
com uma pequena bolsa de viagem na
mão, deve ser seu uniforme. O cheiro
dele invade o ambiente em questão de
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segundos. Que cheiro bom!
— Vamos? — Assinto e me levanto.
Ele pega sua arma, que estava numa
mesa perto da entrada, e saímos.
Entramos no elevador com um
silêncio ensurdecedor. Entramos no
carro e saímos. Ele encosta logo à
frente, entra num shopping pequeno bem
próximo à sua casa.
— Pode ser esse shopping aqui para
comprar o presente? Ele é mais vazio, e
a essa hora qualquer um deve estar
lotado.
— Pode sim — ele para o carro em uma
vaga e descemos. Pela primeira vez, me
arrependo de estar de uniforme, pois ele
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estava todo lindo e eu assim, mas eu
seria rápida.
Ele pega minha mão e entramos
no shopping. Paro logo na entrada e
pergunto ao segurança se tinha a loja
que eu procurava; ele afirma que sim,
agradeço e seguimos na direção
indicada.
Chego à loja e Gustavo fica o tempo
todo atrás de mim, não consigo nem me
mover direito. Olho para ele, intrigada.
— Pode me dar um espaço? — ele
está com a cara amarrada— Que foi
agora?
— Você ainda me pergunta? Todos os
homens desse shopping estão olhando
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para sua bunda — ele bufa. Não me
seguro e começo a rir.
— Você é uma comédia! Você acha
que só existe eu e minha bunda no
mundo? — Ele continua de cara
amarrada.
— Acho — se não fosse tão
possessivo da parte dele, seria fofo.
Compro o tênis que Bia estava
querendo, custou uma fortuna, mas ela
merecia, quer dizer, não ultimamente,
mas merecia. Ele paga o estacionamento
e saímos. Quando chegamos ao meu
prédio, falo para ele entrar com o carro
e colocar na minha vaga. Subimos, e
assim que entramos no meu apartamento,
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seu telefone toca.

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Capítulo 14
Lívia

Ele atende ao telefone e eu vou para


a cozinha beber um copo com água.
Quando volto, já está encerrando a
ligação.
— Ok, chego aí em no máximo trinta
minutos — ele fala e se despede
encerrando a ligação.
E eu fico ali, olhando para ele. Sério
isso? Nossa relação seria assim, ele
sendo chamado quando menos
esperamos e todo e qualquer plano tinha
que ser desfeito? Como era com meu
pai. Quando achávamos que enfim ele
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iria para aquela festinha de família, ou
até mesmo um shopping que fosse,
alguém ligava e ele tinha que ir.
Tínhamos que esperar pelas férias,
único período que tínhamos certeza de
sua presença. E tudo isso para, no final,
não ter nem como defender a si próprio
e ser assassinado na porta de casa, o
lugar que deveria ser o mais seguro no
mundo inteiro.
E era isso que seria minha vida de
novo se eu ficasse com ele. Quantas
vezes vi minha mãe triste por não ter a
presença do meu pai? O melhor seria
fazer o que a Bia me disse antes de
começar a puxar sardinha para o lado
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dele: tirá-lo do meu sistema e depois
seguir com minha vida, pois sei que
minha vida junto com ele não teria
futuro algum, e esse telefonema foi
prova disso.
Ele até tinha me alertado que
provavelmente teria que trabalhar, mas
eu até que estava com esperança que
não fosse. E eu não queria esse mundo
de ilusão, queria uma vida real como
todo mundo. Sair de manhã para
trabalhar e à noite poder contar com a
presença do marido, conversar sobre
seu dia, jantar juntos, dormir juntos
todas as noites... Coisas normais do dia
a dia. Sei que com ele eu não teria.
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Então, para que começar algo que não
teria futuro? Pura perda de tempo. Eu
sei que seria muito difícil me afastar
dele, mas eu tinha que tentar, e, de
alguma forma, teria que conseguir.
— Anjo! — Saio dos meus
pensamentos com sua voz me chamando
— Está tudo bem? Eu te chamei e você
não me ouviu, só fica parada aí me
olhando como se estivesse em outro
mundo — e eu estava, mas nesse mundo
ele não teria lugar, não com seu
trabalho.
— Está tudo bem, sim, eu só estava
aqui pensando na roupa que vou usar—
dou um sorriso forçado e tento disfarça
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minha angústia.
— Você vai mesmo?
— Já te disse que não tenho opção, a
Bia que escolheu, não vamos começar
tudo de novo, por favor. Você tem que
trabalhar e eu tenho que começar a me
arrumar — tento parecer a pessoa mais
calma do mundo ao dizer essas
palavras. Ele me olha tenso da cabeça
aos pés — É melhor você ir, para não se
atrasar, nos vemos outro dia — digo, me
aproximando e dando um selinho em
seus lábios, tentando parecer o mais
normal possível. Ele não se mexe.
— Que merda está acontecendo? Que
porra é essa de outro dia? — Segura
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meu braço e me encara nos olhos.
Tento acalmar meus batimentos que
estão acelerados. Eu preciso me manter
tranquila, porque ele me olhando desse
jeito parecia que ia desvendar minha
alma.
— É só uma maneira de falar,
Gustavo, sério, melhor você ir agora—
como eu iria convencê-lo que estava
tudo bem, senão conseguia nem
convencer a mim mesma?
Cada um sabe o que pode suportar.
Eu sabia que não conseguiria suportar
isso. Seu celular apita com o que parece
ser uma mensagem e eu dou graças a
Deus, pois me livrou daquele olhar de
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raio-X dele. Ele lê a mensagem e fecha
os olhos em sinal de derrota.
— Eu realmente preciso ir, vou estar
com o celular ligado o tempo todo,
qualquer coisa você me liga, passa
mensagem, e eu dou um jeito — está
com as duas mãos em meu rosto, me
olhando direto nos olhos. Assinto e ele
dá um suspiro — Eu ficaria muito mais
tranquilo se você convencesse a Bia a
irem a outro lugar.
Não digo nada, ele me abraça forte e
me beija desesperadamente como se não
houvesse amanhã, e só de pensar nisso
me dá vontade de pedir para ele ficar
comigo e não ir nessa operação. Mas sei
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que não posso fazer isso. Ele se vira
para sair e eu vou atrás dele para abrir a
porta. Ele me dá mais um beijo e eu fico
lá, como se estivesse tudo certo, mas
nada estava certo.
— Se cuida — é a única coisa que
consigo dizer.
— Eu sempre me cuido, Anjo, fica
tranquila — dá uma piscada, entra no
elevador e vai embora.
Eu juro que queria ficar tranquila.
Mas não conseguia. Fecho a porta e vou
para meu quarto, deito em minha cama e
fico pensando em como as coisas tinham
acontecido tão rápidas. Eu tinha que ter
me mantido afastada dele, porque agora
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que eu o tinha, seria impossível.
Vou para o banheiro e tomo um banho
bem demorado, fico pensando em como
meus sentimentos pelo Gustavo estavam
cada vez mais fortes. Eu não podia me
apaixonar por ele, eu sei que tínhamos
uma química muito forte, caso contrário,
não teria me entregado para ele, e o fato
de eu não conseguir me afastar dele só
mostrava que era bem forte mesmo! E se
eu continuasse com isso, a tendência era
só aumentar, até que quando menos
percebesse, estaria apaixonada. Eu não
podia mais continuar com ele, tinha que
me afastar e esquecê-lo, cada um de nós
define seu destino e eu tinha que definir
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o meu antes que fosse tarde demais.
Os sentimentos que outrora me
fizeram querer ficar com ele sem pensar
no amanhã, agora parecem que já não
são mais tão relevantes assim. Haviam
duas vozes que duelavam na minha
cabeça: uma me dizia para ir em frente e
curtir o momento sem pensar no amanhã;
a outra me fazia pensar em um futuro
próximo de incertezas e sofrimentos.
Saio do banho e seco meus cabelos.
Quando termino, olho a hora, e vejo que
já eram quase vinte e uma horas.
Caramba! Com essa confusão toda,
havia me esquecido de um detalhe muito
importante, então pego o celular e ligo
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para uma confeitaria que ficava próxima
à minha casa e faço o pedido, com certa
urgência, de uma mini torta de
chocolate, a preferida da Bia.
Ligo para a Bia:
— E aí, como vai a aniversariante do
dia?
— Oi, amiga, estou muito ansiosa,
daqui a pouco vamos sair, quero chegar
lá por volta das vinte e três horas, pois
a fila fica muito grande se deixarmos
para ir muito tarde — ela ia ter que
passar aqui para cantar parabéns
primeiro, era nosso ritual.
— Ok, só preciso que passe aqui
antes, estou com dúvida de qual vestido
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usar — ela fica quieta por uns segundos.
— Você tem cada vestido lindo,
coloca o vermelho, aquele novo que
compramos outro dia — como faria
para que ela subisse?
— Não sei, acho que não, o achei
muito curto, realmente estou precisando
de sua ajuda, amiga, sobe rapidinho,
pode trazer o Michel.
— Ai, Lívia, você e essa indecisão!
Tudo bem, passo aí em quarenta
minutos, vou subir com o Michel, vê se
fica composta — como se eu andasse
pelada pela casa que ainda por cima era
minha.
— Ok, não demora, senão iremos nos
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atrasar.
— Daqui a pouco chego aí, beijunda.
Vou correndo terminar de me arrumar,
coloco o tal vestido vermelho, uma
sandália preta, e começo a fazer minha
maquiagem. Quando ia finalizar com a
máscara de cílios, o interfone toca. A
torta havia chegando, e que bom que
chegou antes da Bia.
Coloco a torta no centro da mesa, já
com as velas, vou para a cozinha pego
um espumante e três taças e coloco junto
ao bolo. Peço para o Sr. João me avisar
quando a Bia chegar. Corro para o
quarto, pego uma clutch preta que caiba
meu celular, chaves e documento e vou
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para a sala esperar Bia. Dez minutos
depois, o interfone toca; era o Sr. João
avisando que ela tinha subido. Apago a
luz da sala e fico esperando ela abrir a
porta. Quando abre e acende a luz...
— Surpresa! — Ela fica paralisada
por um momento e depois vem me
abraçar. Michel fica com um sorriso
idiota no rosto.
— Ah! Amiga, pensei que esse ano
você tinha esquecido do meu bolo, e
como minha mãe também está no
trabalho, achei que seria só a boate
mesmo— fala toda chorosa.
— E você acha que eu iria esquecer a
melhor amiga do mundo? — Ela sorri e
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me abraça de novo.
— Você que é, eu te amo, sabia?
— Eu também te amo, sua maluca —
Michel fica lá de camarote, olhando
nossa cena.
— E agora, é hora dos parabéns!
Batemos os parabéns e fizemos um
brinde à aniversariante, que estava
muito animada. Comemos o bolo e
entrego o presente que havia comprado
para ela. Como eu já sabia, ela adorou.
Ficamos ali, jogando conversa fora por
uma hora mais ou menos, até chegar a
hora de sair para a boate. Gostei muito
do Michel, ele era muito divertido e
contava cada piada ótima, nos acabamos
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de rir com ele. Acho que Bia tinha
encontrado sua alma gêmea, os dois
combinavam e eu agora torcia mais
ainda para que dessem certo.
Saímos para a boate e eu não parava
de pensar no Gustavo. Tomara que
esteja bem.
Como eu queria que ele estivesse
aqui conosco... Eu não sei o que fazer,
como eu vou resolver isso dentro de
mim.
Uma hora queria não tê-lo conhecido, na
outra, queria-o perto de mim, e quando
ele estava perto, então, eu não conseguia
me afastar de jeito nenhum. Esse homem
tinha revirado todos os meus miolos,
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não sabia nem o que pensar mais e nem
como agir... Meu mundo tinha virado de
cabeça para baixo e girava em uma só
direção: Gustavo. Meu lado sensato me
dizia que era para me afastar dele o
mais rápido possível, mas meu lado
masoquista dizia que eu não poderia
ficar sem ele. O que eu iria fazer? Esse
homem iria me deixar louca, quer dizer,
já estava deixando. Saio dos meus
pensamentos com a Bia me chamando.
— O que você acha Lívia? — Nem
tinha escutado a pergunta.
— Oi, Bia, não escutei — estamos no
carro e ela está sentada na frente com o
Michel.
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— Você está em que mundo, Lívia?
Perguntei o que você acha de amanhã
pegarmos uma praia com os meninos. O
Michel topou.
— Não sei, Bia, depois conversamos
sobre isso — eu não ia ficar discutindo
com ela na frente do Michel, além do
mais, eu estava querendo me afastar do
Gustavo, fazer programas de casais não
iria ajudar em nada.
— Ai, Lívia, você é uma velha chata,
sabia? — Melhor nem responder, deixar
para lá, hoje é aniversário dela, não
quero discutir.
Chegamos à boate e a fila já estava
grande, nossa sorte foi que o Michel se
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
identificou na portaria como policial e
nós passamos na frente, senão, nem
iríamos conseguir um bom lugar.
Entramos e já estava quase lotada. A
música era animada e percebi que eles
variavam os ritmos, tocavam de
eletrônica até sertanejo universitário. Já
gostei!
— Hoje é dia de comemorar, então,
só vamos de espumante — falo e ela
concorda, menos o Michel, ele estava
dirigindo, e acho que tinha o fato de ser
policial e querer ficar ligado.
Já eu não era de beber, mas hoje eu
estava a fim de esquecer por umas horas
certo corpo gostoso.
Acheron Livros e afins
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Lembro-me de suas palavras. Eu sou
só um corpo gostoso para você? Claro
que não era, e justamente isso que
estava me assustando. Resolvo que hoje
eu iria esquecer e me divertir o quanto
desse. Chamo Bia para a pista de dança
e o Michel fica só observando, parecia
um cão de guarda nos olhando de braços
cruzados.
Já estou na quarta taça seguida de
espumante. Eu não era fraca para
bebidas, não bebia porque eu não
gostava, mas hoje era um dia especial.
Vejo quando a Bia retira o celular da
mão do Michel após ele digitar uma
mensagem, ela é muito louca mesmo.
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Ela coloca o celular dentro da bolsa e o
chama para dançar com ela. Eu fico
sentada um pouco, observando os dois,
eles faziam um belo casal mesmo!
Fico ali, os observando, quando de
repente vejo o Edu. Não acredito, se
tivéssemos combinado, não teria dado
certo. Vou em sua direção, pelo menos
eu não ficaria de vela.
— E aí, Edu, que coincidência você
aqui— falo, puxando seu braço. Ele me
olha e me dá um abraço apertado.
— Oi gata, está sozinha?
— Estou com a Bia e o namorado
dela, hoje é seu aniversário e ela quis
comemorar — ele sorri para mim.
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Nossa, esse homem era lindo, pena que
ele jogava em outro time.
— Eu estou esperando uns amigos,
mas eles só veem mais tarde.
— Poxa, então fica na mesa com a
gente até eles chegarem — ele concorda
e me segue. Adorava conversar com o
Edu, ele também dava aula lá no
estúdio, era um excelente professor de
dança de salão. Eu ficava admirando-o
dançar sempre que podia. Além de
ótimo dançarino, era uma pessoa com
um coração gigantesco e muito
solidário. Ele era uma pessoa nota mil.
Chegamos à mesa e a Bia e o Michel
já estavam lá. Apresento Edu para o
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Michel, a Bia já o conhecia. O papo
rola descontraído e a minha noite até
que estava bem divertida. O Edu era
boa praça, se dava bem com todo
mundo. Dançamos vários ritmos,
estávamos fazendo inveja às pessoas ao
nosso redor, eu e o Edu formávamos
uma dupla incrível.
Já tínhamos voltado à mesa para
descansar um pouco e bebermos mais,
quando toca uma música que
adorávamos dançar. Sempre
dançávamos essa música lá no estúdio.
— Vamos, Edu, temos que dançar
essa música — o puxo pela mão bem na
hora que ele ia cumprimentar dois caras
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que haviam chegado naquele momento.
Ele faz um gesto de derrota para eles,
que ficam rindo, e me segue mais uma
vez para a pista de dança. Coitado, eu
estava cansando-o, mas sabia que ele
também gostava de dançar tanto quanto
eu. Começamos a dançar ao ritmo de
uma música da Anitta, Na batida. Ele
tinha feito essa coreografia junto comigo
e amávamos dançá-la.
Estávamos arrasando na pista, e bem
na hora em que dançávamos colado,
sinto Edu sendo separado de mim
bruscamente. Fico em choque por um
momento e me lembro do que o Gustavo
tinha dito sobre essa boate. Ai meu
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Deus, e agora? Fico mais em choque
ainda com a cena que vejo: meu amigo
sendo arremessado ao chão depois de
uma agressão descabida. Quem faria
uma coisa dessas?
Quando percebo quem está agredindo
o Edu, sinto um ódio sem igual, não
acredito no que estava vendo, isso não
ficaria assim.

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Capítulo 15
Gustavo

Saio do apartamento da Lívia muito


puto da vida. No fundo, eu tinha
esperanças dessa operação não
acontecer hoje, e quando meu celular
tocou, foi como um balde de água fria.
Eu não tinha como dizer não, missão
dada, é missão cumprida, esse era
nosso lema. E quando vi meu Anjo
como estátua me olhando, eu sabia que
alguma coisa não estava certa, e pela
primeira vez em dez anos, eu desejei
não ter que fazer essa operação e não
ser do Bope. Ter que deixá-la sozinha
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logo hoje, e sabendo que ela iria para
um lugar como aquele, estava acabando
comigo.
Entro no carro, decidido. Eu não
queria isso para nós. Não poder fazer
planos com ela, ter que deixá-la no meio
da noite sozinha, eu não conseguiria. Eu
sabia que estava ferrado desde aquela
operação em que a conheci, mas hoje eu
tive a certeza. Eu não a deixaria passar
pelo mesmo que a Isa passou. Apesar de
saber que ela tinha crescido nesse meio
e que provavelmente seria a única
mulher que entenderia minha profissão.
Eu não queria isso para nosso futuro,
minha empresa já estava muito bem,
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graças a Deus, e eu sabia que esse dia
chegaria. Quando eu teria que abrir mão
da grande paixão da minha vida que era
o Bope, por um grande amor. É, eu
estava perdidamente apaixonado por
esse anjo chamado Lívia. E quando eu
vi aquele olhar de abandono no rosto do
meu Anjo, naquele momento, eu me
decidi. Eu largaria o Bope.
Vou esperar mais uns seis meses, no
máximo, e então eu saio. Fico só com a
empresa e à disposição do meu Anjo.
Chego ao batalhão e já estão à minha
espera, e todos me olhando com
curiosidade, pois eu sempre fui o
primeiro a chegar e o último a sair. Eu
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gostava do que fazia e era essa
adrenalina que me movia até aquele
sábado. Agora, o que me move é outra
coisa, quer dizer, outra pessoa, meu
Anjo, e por ela eu faria qualquer coisa,
iria do céu ao inferno sem pensar duas
vezes.
— Que foi, nunca me viram?! —
Falo, já louco para descontar minha
raiva em alguém. Ninguém fala nada.
Sigo para o vestiário, coloco minha
farda e vou para a sala do comandante
pegar todas as informações necessárias.
Entro na sala e presto continência.
— Senta aí, Capitão Torres — diz,
apontando para a cadeira que ficava em
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frente à sua mesa. Sento-me e fico
esperando o que iria me dizer.
— Só lembrando ao Senhor, que
dessa vez quero o cara vivo — puta que
pariu, ainda teria que ser babá de
bandido.
— Sim Senhor, Comandante — falo
pouco confiante, não sei se o cara
sobreviveria à viagem, sabe como é.
— Eu falo sério, Capitão, estou
fazendo um favor para um grande amigo
meu. Ele é major da PM e seu filho era
Sargento, que foi morto por esse
elemento. Ele quer olhar na cara do
infeliz — caralho, é cada uma.
— Entendido, Senhor Comandante,
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fique tranquilo, vamos trazer o cara
vivo.
Despeço-me, presto continência e
saio da sala muito puto da vida. Olho no
relógio e já são dez da noite, eu
precisava pegar esse merda em tempo
recorde. Claro, sem me arriscar e
arriscar minha equipe, segurança em
primeiro lugar, mas isso era fácil, era só
entrevistar com muita “educação” as
pessoas certas. E do jeito que eu estava
hoje, seria com toda a “educação” do
mundo.
Saio para o pátio e reúno minha
equipe para uma conversa rápida.
— É o seguinte, vamos entrar, pegar
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o cara e sair. Nada que não possamos
fazer bem rápido entrevistando as
pessoas certas. Um detalhe muito
importante: o Comandante quer o cara
vivo. Entendido? — Todos assentem.
Saímos em quatro carros dessa vez,
pois alguns de meus homens não iriam,
inclusive o Michel. Eu estava um pouco
mais tranquilo pelo fato de ele estar
com a Lívia. Mas bem pouco mesmo.
Confiava nele de olhos fechados, mas
da minha mulher cuidava eu e mais
ninguém.
Chegamos à entrada da comunidade
onde o desgraçado estava escondido.
Descemos do carro, e reúno todos de
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novo.
— Um dando cobertura ao outro,
atividade, e vamos pegar logo esse
idiota e sair daqui.
Começamos a andar pelas ruas e
becos, ligados, até que vejo um
grupinho distraído vendendo drogas.
Bom, vamos entrevistar os senhores,
eles podem ter informações preciosas.
Olho para trás e para o lado e minha
cobertura está aqui, então eu saio.
— Mãos ao alto, porra! Encosta na
parede agora! — Eles se assustam e
jogam as drogas que estavam segurando
para o alto e encostam-se à parede. São
três ao total, devem estar bolados por
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não ter escutado os fogos dos
fogueteiros. Ainda não aprenderam
como é o nosso trabalho, sabemos entrar
e sair e só entramos onde dar para sair.
— Boa noite, senhores!
— Booa noooite — engraçado como
ficavam todos educados com nossa
presença.
— Por gentileza, os senhores podem
me dizer onde eu encontro o Zé
Colmeia? — Puta que o pariu, bandido
era escroto até para escolher apelido.
— Não sabemos, não, Senhor —
passo as mãos pelo rosto, muito puto da
vida.
— Eu vou dar uma segunda chance
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para a memória de vocês, aproveitem a
chance, vai me poupar tempo — falo, já
me aproximando deles.
— E aí, lembraram? — Pergunto bem
tranquilo, mas a verdade é que eu nunca
estive tão puto em uma operação.
— Não Senhor, não sabemos de nada
não, Senhor — balanço a cabeça e olho
para o lado na direção de Carlos.
— Quando estamos com amnésia,
sabe o que pode nos curar? — Pergunto
num tom de voz bem baixo.
— Nãoo sennnhor — falam já
gaguejando.
— Umas pancadas na cabeça — já
dou o primeiro tapa na cara de um que
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começa a chorar. Como eles choram
rápido, viravam umas moças com nossa
presença.
— E vocês, se lembraram de alguma
coisa ou também vão ter que passar por
um tratamento? — Fico encarando os
dois que ainda estão de pé.
— Faz isso não, Senhor, não sabemos
de nada — pelo meu conhecimento de
causa e pela negação tão ávida deles, eu
já sabia que sabiam de alguma coisa, e
eu só sairia daqui quando me dessem o
que eu queria.
— Por que eu não acredito em
vocês? Você está acreditando neles,
Sargento? — Pergunto ao Carlos, que
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nega com a cabeça.
— Faz isso não Senhor, eu juro que
não sei de nada — que vontade de rir,
ele achava que iria me enganar?
— Deixa eu te falar o que aprendi
quando era criança: quem jura, mente —
falo e já dou um tapa na sua cara.
— Fala logo, porra! — Falo, dando
vários tapas nos dois que ainda estavam
de pé.
— Faz isso não, Senhor, se nóis falar,
nóis morre — falam chorando.
— E se não falarem vão morrer
também, vocês decidem.
Vê se vou ter peninha de lágrima de
bandido. Fico muito puto em ver jovens
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assim, se bandeando para o crime. Eles
têm opções, mas a vida do crime é mais
fácil para eles. Perder jovens para o
crime era algo comum. Esses daqui,
com certeza, seriam futuros marginais,
levariam muitas mortes de inocentes nas
costas. Nosso trabalho era como secar
gelo, culpa desse sistema de merda do
nosso País.
— E aí, vão falar? — Digo, já
destravando meu fuzil — Essa é a hora
— falo com o fuzil na sua cabeça—
Fala, porra!!! — Ele se assusta com meu
grito.
— Eu falo, ele mora naquela casa
verde na terceira rua a direita, agora
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libera nós, por favor.
— Claro, depois que eu pegar o cara
libero vocês, os senhores foram de
grande ajuda.
— Você, vem com a gente — puxo o
que tinha me entregado a casa do cara
— E vocês dois não se preocupem, vou
deixar vocês com seguranças — deixo
dois de meus homens com eles e vou
pegar o tal cara.
Seguimos no silêncio e sem sermos
vistos. Quando chegamos à porta do
cara, minha equipe se posiciona e eu
meto o pé na porta e abro de primeira.
— Perdeu, vagabundo!! Encosta na
parede e mãos na cabeça — tem uma
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mulher na casa, a mando pôr as mãos na
cabeça também, alguns de meus homens
já fazem a varredura na casa.
— Tudo limpo, Capitão — fala o
Cabo André. Faço sinal de positivo
para ele com a cabeça.
— É esse cara mesmo, Sargento? —
Carlos afirma com a cabeça.
— Então, vamos dar uma volta —
algemo o cara e o puxo pelo pescoço –
E a mulher, está limpa?
— Está sim, Capitão, não achamos
nada.
— Então, nossa missão está
concluída, libera os meninos lá fora e
vamos embora— dou a ordem ao Cabo
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André.
— Eu não fiz nada, Senhor, pegou o
cara errado — fala todo santinho.
— Eu peguei o cara certo, minha
missão era só te pegar, agora o que você
fez não me interessa — eu não errava,
quer dizer, sem contar aquele erro do
sábado em que conheci a Lívia. Na
verdade, aquele foi o maior acerto da
minha vida, pois eu conheci meu Anjo.
Descemos a rua e coloco o cara na
viatura comigo, eu iria levá-lo em
segurança até o batalhão. Depois não
seria mais da minha conta. Saímos da
viatura e eu pego meu celular. Nenhuma
chamada ou mensagem, olho a hora e
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são quase uma da manhã. Envio uma
mensagem para o Michel.
*Acabei aqui, e aí, como estão as
coisas?*
Após uns cinco minutos, recebo sua
mensagem.
* Tudo em ordem por enquanto,
só seu Anjo que está exagerando um
pouco*
Que porra é essa?
* Como assim, exagerando?*
Ele não me responde, que merda está
acontecendo?
*Michel, responde, porra!*
Caralho, eu sabia que ia dar merda,
para ele não está me respondendo,
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alguma coisa séria aconteceu.
— Vai ficar desfilando na pista?
Anda logo com essa porra! Desse jeito
vamos chegar ao batalhão só amanhã —
desconto minha raiva e preocupação no
Cabo que dirigia o veículo.
— Estou a cem quilômetros por hora,
Capitão.
— Não te perguntei a velocidade,
mandei andar mais rápido, porra! —
Falo e já estou fora de mim. Como ela
fazia isso comigo? Tira-me do eixo
dessa forma? Eu ia acabar pirando.
Envio uma mensagem para ela.
* Está tudo bem?*
Nada de resposta. Tento ligar, mas
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também não me atende. Aconteceu
alguma coisa, não é possível, e só de
pensar nisso eu já estava ficando louco.
* Vc pode me responder, pelo menos
com um oi tá td bem?*
Envio outra mensagem, e nada.
Caralho, que mulher difícil! Minhas
mãos já estavam suando com a
possibilidade de algo ruim ter
acontecido a ela.
Chegamos ao batalhão e eu saio
voado do carro, puxo o cara de trás com
toda a raiva do mundo e sigo para a sala
do Comandante. Presto continência e
entro na sala após ele autorizar.
— Com licença, Comandante, está
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entregue — digo, me referindo ao
bandido ao meu lado.
— Ok, capitão, dispensado — era só
o que eu queria ouvir. Presto
continência e saio da sala e vou quase
correndo para o vestiário. Tiro minha
farda, coloco minha calça jeans, minha
camisa de malha preta, pego minha
pistola e saio em direção ao
estacionamento. Nem me despeço de
ninguém, em minha cabeça só tinha uma
pessoa: meu Anjo.
E o fato de ela estar correndo
qualquer perigo agora, por menor que
fosse, estava me deixando totalmente
desesperado. Entro no carro e saio como
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um louco pelas ruas do Rio de Janeiro,
eu precisava chegar o quanto antes
naquela boate e ver se estava tudo bem,
só assim eu ficaria tranquilo.
Chego ao estacionamento da boate
em vinte minutos, nem eu sei como tinha
chego tão rápido. Saio do carro e vou
em direção à entrada. Quando os
seguranças me param na entrada para a
revista, mostro minha identificação e
eles me deixam entrar. Pego meu
telefone para passar uma mensagem
para ver onde eles estavam, essa merda
estava lotada, seria quase impossível
achá-los se eu não tivesse sua
localização exata.
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* Tô aqui nessa merda, onde vcs
estão, Michel?*
Fico procurando de um lado para o
outro e nada. Caralho, que sensação de
impotência. Pelo que eu estava vendo,
não havia sinal de ter tido alguma
confusão aqui, mas como essas casas
recompunham a ordem rápido, não dava
para ter certeza. Só iria sossegar quando
ela estivesse em meus braços, onde era
seu lugar, não aqui, nessa espelunca.
Meu celular vibra em meu bolso, até
que enfim.
* Estamos aqui na área vip, próximo
à pista, mesa 42.*
Pelo menos agora me respondeu.
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Mesmo assim, ainda iria se ver comigo.
Sigo para o local que ele falou com
muita dificuldade, e quando consigo
chegar ao local, a cena que vejo me
desconcerta totalmente. A Lívia
dançando de uma maneira bem sensual e
com seu corpo colado a um sujeito. Ela
estava com um vestido vermelho muito
curto e com os movimentos da dança,
ele subia mais e mais. Fico imóvel por
um momento, até que ele aproxima as
mãos de sua bunda quase desnuda por
esse vestido. Agora sim é meu copo
cheio. Eu vou matar esse cara! Vou para
cima deles com toda minha raiva.
— Que porra é essa!!— grito já
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puxando seu braço para separá-los —
Tira suas mãos da minha mulher —
parto para cima do cara com tudo. Dou
o primeiro soco, que atinge seu queixo e
ele cai. Ajoelho-me e o pego pelo
colarinho para levantá-lo para que
pudesse apanhar mais — Mexeu com a
mulher errada, seu filho da puta! Nunca
mais vai colocar suas mãos imundas na
minha mulher — falo, o segurando pelo
colarinho, quando sinto uma mão
puxando meu braço. Era ela.
— Para com isso Gustavo, está
maluco!?— ela fala tentando me
segurar. Eu estava com muita raiva,
minha vontade era de matar o cara na
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porrada! Como a Lívia foi capaz disso?
Agora ela ia defender o cara, é isso
mesmo?
— O que!?Estou atrapalhando sua
noite? — Falo com a voz cheia de ódio.
Ela me olha com um olhar mortal. Ainda
acha que estava com a razão se exibindo
desse jeito, que tipo de idiota ela acha
que sou?
— Ele é meu amigo, solte-o agora,
seu troglodita! — Fala muito irritada,
como se eu tivesse feito algo errado.
Um pequeno grupo de curiosos já se
acumula em nossa volta. Eu não quero
nem saber, meu negócio era com esse
infeliz que ousou colocar as mãos no
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meu Anjo. Dou outro soco na cara dele
com muita raiva! Principalmente por
conta de a Lívia sair em sua defesa. É
nessa hora que o Michel chega, me
segurando.
— Para com isso, cara! Larga ele —
não existe nada pior que estar em uma
briga e alguém te segurar. Ele me puxa
para longe do cara com a ajuda de mais
dois que se meteram onde não foram
chamados.
— Me solta, porra! — Eles
continuam me segurando e vejo quando
a Lívia vai para perto do cara toda
preocupada com ele, parece que está se
desculpando, não consigo ouvir por
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causa dessa música alta, e esses merdas
não me soltam.
— Porra, Michel, me solta, vai
sobrar para você também — ele não
solta.
— Eles só estavam dançando, cara,
ele não fez nada de mais, estamos aqui
um tempão de boa, está tudo bem. Vou te
soltar agora, vê se não faz besteira.
— De boa? Porque não é com a sua
mulher, e sim com a minha. Agora vou
falar a última vez, me solta.
— Tudo bem, mas não vai fazer
besteira para se arrepender depois —
ele me solta e vou em direção a Lívia e
do tal que estava com ela. Eles estão
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sentados à mesa, o Michel vem atrás de
mim igual a um cão guia. Ela está lá
toda carinhosa com o sujeito e a Bia
está junto com os dois.
— Você vai continuar com esse cara
na minha frente? — Digo com uma raiva
que nunca senti antes na vida. Essa
mulher seria minha perdição, cadê meu
autocontrole?
— Vou! Isso não é da sua conta, você
é um grosso mesmo! Bater em uma
pessoa só porque ela está dançando.
Isso é absurdo! — Ela ainda acha que
está certa?
— No caso, em questão, ele estava se
esfregando na minha mulher, e isso é
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motivo para porrada sim — ela me olha
embasbacada e furiosa com as minhas
palavras.
— Eu já te disse que ele é meu
amigo, você é surdo!?— amigo? Essa é
boa!
— E é dessa maneira que trata seus
amigos, se esfregando neles?
— Eu não estava me esfregando, eu
estava dançando, você é cego? — E que
dança, queria ver se eu dançasse assim
com minhas amigas se ela iria gostar.
— Não, não sou cego, sei muito bem
o que vi, por isso esse idiota aí teve o
que mereceu — ela balança a cabeça
muito irritada, deve estar com raiva
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porque eu estraguei sua festinha.
— Vai para o inferno! Some da minha
frente e esquece que eu existo! — Até
parece.
— Não, eu vou para o céu e você vai
junto comigo — puxo-a pelo braço e
saio arrastando-a junto comigo.
— Me solta! Está me machucando, eu
não vou a lugar nenhum com você—
coloco-a na minha frente, seguro em sua
cintura e colo meu corpo no seu. Ela
está de costas para mim e eu estou
totalmente colado nela. Como senti falta
do seu cheiro, nem parecia que a tinha
visto poucas horas atrás. Sua respiração
está acelerada, ainda deve estar com
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raiva, mas eu não a perderia assim tão
fácil. Vou empurrando-a na multidão,
para que continue andando.
— Me solta, eu não vou a lugar
algum com você, hoje é aniversário da
minha amiga e vou ficar com ela — eu
não sairia sem ela daqui nem a pau.
— Sinto muito informá-la, mas o
aniversário de sua amiga acabou há
duas horas, então, nós vamos para casa,
continue andando — ela tenta se
esquivar dos meus braços, mas seguro-a
firme e continuo empurrando-a para a
saída. Meu pau está batendo na parte de
cima da sua bunda, e eu já estava duro
como pedra. Precisava dela com
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urgência para esquecer toda essa merda.
Quando estamos quase perto da saída,
relaxo um pouco os braços e ela
consegue se virar de frente para mim.
Paro quase no final do meu percurso e
fico encarando aqueles lindos olhos
verdes que eram minha salvação e
minha perdição. Ela está com um olhar
de raiva, misturado com excitação.
— Me deixa, Gustavo, eu não quero
ir com você — fala sem certeza alguma
na voz.
Sinto o hálito dela com cheiro de
álcool. Ela andou bebendo? Agora
estava explicado, aquele idiota estava
se aproveitando dela. E que merda de
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amigo que eu tenho que não percebeu
que ela estava nesse estado e ainda veio
defender o cara?
Tiro-a daquele lugar, sem que ela
tivesse tempo para formular a segunda
frase. Vou puxando-a pela mão até que
chegamos ao carro.
— Você andou bebendo, Lívia? —
Ela só faz balançar a cabeça de um lado
para o outro.
— Eu já disse que não vou com você
e o que faço ou deixo de fazer não é da
sua conta — fala, tentando dar um passo
para trás e quase cai. Eu a seguro na
hora.
— Engano seu, você é muito da
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minha conta e você vai comigo, sim —
levanto-a do chão colada à frente do
meu corpo e vou em direção à porta do
carona.
— Meu vestido — eu o puxo com uma
mão para baixo.
— Agora que você está preocupada
com seu vestido? Na hora que você
estava lá dançando com aquele merda,
não se preocupou com o vestido —
coloco-a no banco do carona e ela fica
lá, contrariada. Não estou nem aí, ela
não ia ficar aqui sozinha, nem fodendo!
— Você só pode ser maluco, precisa
se tratar urgente! — Ela ia ver qual
seria meu tratamento.
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— Não se preocupe, que eu já sei
que remédio devo tomar — ela me olha
intrigada.
— Se você sabe, então devia tomar
antes de sair na rua desse jeito.
— Eu tomei, mas quando chegar em
casa, eu vou tomar de novo e dessa vez
uma doze bem maior — ela iria saber
já, já, a que remédio eu me referia.
— Então vê se toma com vidro e tudo
dessa vez — fala revirando os olhos.
Deixa comigo, vou acabar com essa
marra dela.
— Vou tentar — falo e pisco para
ela, que vira o rosto para a janela. Em
dez minutos, estou entrando no meu
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prédio. Buzino e o porteiro abre o
portão.
— Que merda você pensa que está
fazendo? Pode me levar para casa, eu
não vou ficar aqui.
— Aqui também é sua casa— ela fica
calada.
Paro o carro em minha vaga, desço, e
ela continua lá dentro. Vou em sua
direção e abro a porta para ela.
— Me leva para casa, por favor— eu
abaixo e a pego no colo; ela me olha o
tempo todo nos olhos.
— Já disse que está em casa, Anjo—
ela coloca a cabeça em meu ombro e
não diz mais nada. Tranco o carro com o
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alarme e vou em direção ao elevador.
Ele chega rápido, entro com ela ainda
aninhada ao meu colo e as portas se
fecham.
O elevador para em meu andar, e
caminho com ela até minha porta.
— Pega as chaves em meu bolso,
Anjo.
Ela coloca a mão em meu bolso para
pegar as chaves e abre a porta. Quando
entramos, caminho com ela nos braços
direto para o banheiro de meu quarto.
Sento-a na bancada, ela fica me
encarando bem séria. Fico entre suas
pernas e olho dentro de seus olhos
também. Começo a tirar alguns fios de
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cabelos que estão em sua testa e rosto e
ela não para de me olhar, e esse silêncio
está me matando.
— Fala alguma coisa, Anjo — ela
balança a cabeça de um lado para o
outro.
— Você é louco, Gustavo, e eu só
quero ir para casa, é difícil para você
entender isso? — Sua voz soa tão
tranquila e seu olhar não deixa o meu
nem por um segundo, o que me desarma
totalmente. Eu a queria muito, mas não
iria forçar a barra, se era isso que
queria, eu faria.
— Desculpa, Anjo, você tem razão,
eu sou louco, só que por você. Eu estava
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com medo que algo tivesse te
acontecido, passei mensagens para
você, liguei, e nada.
Tentei o Michel, falei com ele uma
vez e depois não consegui mais falar.
Eu estava pirando com a
possibilidade de ter acontecido alguma
coisa. Aí, quando chego lá e vejo você
dançando daquele jeito com aquele
cara, eu saí de mim, fiquei cego de
raiva. Desculpa, por favor, se eu não
posso imaginar alguém tocando em
você, ver então, foi a gota d’água. Me
perdoa, só te trouxe para cá porque
você é minha casa, não importa onde
possamos estar, sempre vou me sentir
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em casa com você. Gostaria que
sentisse o mesmo, mas sei esperar e...
— ela não deixa eu terminar, me enlaça
com as pernas e braços e me beija com
sede, como se estivesse encontrado um
oásis no meio do deserto. Eu também
me sentia assim, agora eu estava no céu
junto com meu Anjo.
— Anjo, eu... — tento falar, mas ela
não deixa, me calando com outro beijo.
Tiro minha arma que ainda estava no
cós da calça, e coloco na bancada.
Ela não para de me beijar e eu estou
adorando cada minuto. Tiro sua sandália
uma a uma e a jogo no canto do
banheiro, começo a descer o fecho de
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seu vestido e o levanto bem devagar, até
passar por sua cabeça.
Ela agora está só de calcinha preta na
minha frente, e não tinha no mundo
melhor visão que essa, nunca iria me
cansar de olhar para ela. Linda, perfeita
e toda minha. Eu sou um filho da puta de
muita sorte. Ela começa a retirar minha
blusa e eu a ajudo, jogando junto ao seu
vestido no canto do banheiro. Eu já
retirei meu tênis, suas mãos agora estão
no meu cinto e eu também a ajudo e
retiro a calça junto com a cueca.
— Eu já estou pronto, agora falta só
tirarmos essa calcinha linda, você fica
mais linda ainda sem ela— ela não diz
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nada, apenas levanta um pouco o quadril
para que eu possa retirá-la. Voltamos ao
nosso beijo, eu pego um preservativo
que tinha colocado hoje de manhã aqui,
não queria mais dar o fora que eu tinha
dado com ela na primeira vez,
arriscando-a a uma gravidez indesejada.
Se bem que, para mim, seria muito bem-
vinda, sempre fui louco para ser pai, e
apesar de tão pouco tempo juntos, eu
tinha certeza de que, senão fosse com
ela, não teria sentido com outra pessoa.
Mas ela ainda tinha coisas a realizar,
então eu esperaria seu tempo.
Caminho com ela em meus braços em
direção ao box, suas pernas em volta da
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minha cintura. Ligo a ducha e ficamos
uns segundos embaixo da água. A
coloco no chão, em pé de frente para
mim. Pego o mesmo sabonete que tinha
em seu banheiro, eu tinha comprado
hoje de manhã para ela junto com seu
shampoo e condicionador. Coloco a
camisinha em cima da prateleira e
começo a esfregar todo seu corpo que
eu venerava e já tinha decorado cada
pedacinho dele.
Ela geme e eu fico mais duro ainda.
Ela olha em meus olhos, e com uma das
mãos, segura em meu pau. Eu a seguro
pela nuca e dou-lhe um beijo
avassalador. Ela era tudo que eu queria,
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precisava estar dentro dela agora. Solto
a esponja que estava segurando, pego o
preservativo e entrego a ela, que o abre
no mesmo instante e o desenrola meio
sem jeito no meu pau. Viro-a de costas
para mim, que fica com a bunda
empinada e a penetro com força,
sedento por aquilo. Seguro seus cabelos
e começo a entrar e sair, alternando
entre o rápido e o devagar.
Ela começa a rebolar e eu fico mais
louco ainda, ela era perfeita para mim,
feita sob medida, nunca iria me cansar
de tê-la em meus braços. Com um
movimento rápido, a viro de frente para
mim. Eu precisava olhar em seus olhos
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quando ela gozasse, precisava ter a
certeza que ela era minha, só minha.
Continuo com meus movimentos de
entra e sai, só que agora, bem devagar,
não queria que isso terminasse tão cedo.
Ela agora está em meu colo e nossas
bocas não se desgrudam.
— Você foi feita para mim, meu
Anjo, nunca vou me cansar de você —
digo olhando dentro dos seus olhos e
sinto quando seu corpo começa a
enrijecer, ela estava quase lá...— Goza
para mim, meu Anjo — bastam só essas
palavras para ela chegar ao seu clímax e
eu não resisto e vou junto com ela.
Ficamos assim, grudados e
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acalmando nossos batimentos por um
minuto. Quando nos acalmamos, eu
volto com ela para baixo do chuveiro e
continuo seu banho. Terminamos e sei
que ela está muito cansada, como eu,
pois a nossa noite foi longa. Ela nem
consegue dizer nada, pego uma toalha
para mim e outra para ela, que somente
abre um sorriso e logo em seguida
boceja.
— Cansada, meu Anjo?
— Muito — vou para o closet, visto
uma cueca boxer preta e pego uma
camiseta branca para ela.
— Aqui, meu Anjo, é o que tenho,
amanhã temos que deixar algumas
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coisas suas aqui em casa — ela me olha
com olhar exausto e respira fundo.
— Amanhã conversamos, Gustavo,
agora eu só preciso dormir.
Agora fiquei bolado com esse
“amanhã conversamos”, mas deve ser
por conta do sono e do cansaço. Deito-a
na cama e dou um beijo em sua cabeça.
Ela solta um suspiro e logo apagamos.

***
Acordo e não sinto a presença dela.
Olho para o despertador e já são dez e
meia da manhã. Nunca dormi assim por
tanto tempo, não que me lembre.
Dou um salto da cama, preocupado
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com meu Anjo. Quando abro a porta do
quarto e vou caminhando em direção à
sala a sua procura, o alívio me domina
ao me deparar com ela olhando pela
sacada da varanda com os braços
cruzados e muito pensativa. Ela sente
minha presença e me olha com um
semblante que nunca vi antes.

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Capítulo 16
Lívia

Acordo com um corpo todo enrolado


a mim. Fico um tempo ainda na cama,
pensando em como eu tinha chegado
aqui e como vim parar nessa posição.
Olho para o rosto de Gustavo. Ele
dormia tranquilamente com o nariz em
meu cabelo e pernas e braços por cima
de mim. Flashes da noite anterior
começam a vir na minha mente,
principalmente de mim na boate
dançando com o Edu e o Gustavo
chegando do nada e o agredindo. A
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coisa foi muito feia, esse homem era
louco de pedra. Onde eu tinha amarrado
meu bode?
Uma raiva começa a me invadir
quando começo a me lembrar da noite
com todos os detalhes. Eu não posso
mais continuar com isso.
Começo a tirar suas pernas e braços
bem devagar para não o acordar. Eu
precisava ficar longe dele para pensar
com clareza. Consigo tirar meu corpo de
perto do seu e me levanto da cama bem
devagar, e ele continua dormindo feito
uma pedra, graças a Deus! Eu precisava
esclarecer algumas coisas em minha
cabeça. Abro a porta do quarto bem
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devagar, não faço nenhum barulho. Eu
precisava muito usar o banheiro, mas
veria se tinha algum no corredor, com
certeza deve ter um banheiro de visitas.
Abro a porta quase ao lado da sua e
vejo que é outro quarto; a fecho e vou
para próxima. Também era outro quarto,
a essa altura eu estava quase fazendo
xixi de tão apertada. Vejo outra porta e
abro, suspirando de alívio. Agora sim!
Entro, faço minha higiene pessoal e
saio. Chego à sala e vejo a hora no
celular dele, pois a essa altura eu não
sabia nem onde estava minha cluth com
meu celular, chave e dinheiro. Será que
tinha ficado na boate? Só o que faltava,
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meu celular novinho! A chave eu dava
um jeito, pois tinha a da Bia. Pego o
celular dele e tento ligar para o meu.
Quando coloco meu número no telefone,
aparece uma foto minha dormindo na
minha cama com o nome Anjo. Uau!
Quando aperto para discar, vejo que ele
tinha me ligado mais de vinte vezes só
ontem à noite. Puta que pariu, o cara era
louco mesmo! Desisto de fazer a
chamada, vai que minha bolsa esta lá no
quarto e ele acorda.
Coloco o celular no mesmo lugar que
estava e vou para a varanda, a vista era
linda! Fiquei ali um bom tempo
pensando no que tinha acontecido
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ontem. Coitado do Edu, ficou bem
machucado, e esse louco nem me deixou
ajudar meu amigo, saiu me puxando para
fora da boate. Será que ele está
pensando que sou sua propriedade
agora? E, ainda por cima, ao invés de
me levar para minha casa, me traz para
a casa dele. Eu estava tão cansada e um
pouquinho bêbada também, confesso,
que estava sem forças para mais uma
discussão. Mas também, quando ele me
pegou no colo e senti seu cheiro, foi
jogo sujo, eu não conseguia pensar em
mais nada que não fosse ele. Quando me
colocou na bancada, minha cabeça
começou a clarear de novo, mas aí ele
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veio com aquela história que eu era a
casa dele, justamente como eu me
sentia, e pior, vi sinceridade em suas
palavras. Por um momento, achei que
ele fosse me dizer que estava
apaixonado, tive medo, não sabia o que
fazer, então o beijei.
Aí já viu, era como se ele fosse meu
primeiro gole, depois que bebe a
primeira dose, não consegue mais parar.
Isso estava ficando doentio, será que era
isso? Eu estava viciada nele. Será que
existia o V. A. G. (Viciada Anônima em
Gustavo)? Ih, eu já estou surtando.
Uma coisa é certa: eu teria uma
conversa bem séria com ele, o que
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aconteceu ontem não poderia se repetir,
onde já se viu sair agredindo as pessoas
de graça, sem nem conversar antes, ele
era o quê? Um homem das cavernas?
Sinto sua presença atrás de mim sem
nem mesmo precisar olhar. Quando me
viro, ele estava lá só de cueca, me
olhando todo preocupado, mas eu me
mantenho séria.
Isso mesmo, fica preocupado que
agora o bicho vai pegar!
Não é assim que eles falavam? Pois
ele vai ver que encarar bandido é
fichinha perto de mim quando mordo a
minha língua. Ele se aproxima e eu
continuo na mesma posição, o
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encarando.
— Bom dia, meu Anjo! — Fala com
um sorriso desconfiado e tenta me
abraçar. Eu me afasto.
— Não me chama de meu Anjo, não
sou sua propriedade — falo ríspida com
ele e vou em direção ao bar que tinha
em sua sala e fico encostada nele para
manter a distância. Ele me olha muito
intrigado com minha atitude, seu rosto
agora está mais para desespero.
— Que foi, por que você está agindo
assim? — Fala se aproximando de mim,
porém faço um gesto de mão e ele para,
me dando o espaço que preciso.
— Você ainda pergunta? Que merda
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foi aquela ontem na boate? — Ele
começa a piscar sem parar, acho que
está buscando as palavras.
— Eu já te pedi desculpas, Anjo, eu
me excedi.
— Se excedeu?! Você é muito cara
de pau mesmo! — Falo, já muito
exaltada.
— Calma, podemos conversar, não
precisa ficar assim — ele fala com
desespero em sua voz.
— Engraçado, agora você quer
conversar? Por que não fez isso ontem?
Ao invés de atacar meu amigo feito um
troglodita só porque estávamos
dançando. Você é louco!
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— Eu te expliquei ontem, eu fiquei
cego de raiva, não pensei direito, eu só
o queria longe de você — sinto medo
em seu tom de voz.
— Coloca uma coisa na sua cabeça
de uma vez por todas Gustavo: eu não
sou um objeto e você não é meu dono e
muito menos sou sua mulher.
— Não diz isso, Anjo, eu sei que
você não é um objeto, mas você é minha
e eu não vou deixar ninguém te tirar de
mim — fala como se tivesse em suas
mãos minha posse por escrito.
— Você com certeza tem problemas
para assimilar as coisas. Eu não tenho
dono! Entende isso— ele fica me
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olhando, paralisado.
— Eu acho que você deveria se
acalmar e tentar ver meu lado um pouco
— fala, se fazendo de pobre coitado e
vítima. Era só o que me faltava, ele
ainda acha que está certo pelo o absurdo
que fez.
— Você ainda pede para eu me
acalmar, Gustavo? Você agrediu uma
pessoa, que não teve nem chances de
defesa, pois foi pega de surpresa, isso
tudo porque ela estava dançando com “a
pessoa que você está ficando”— ele
agora cruza os braços e parece que se
irritou com o que eu disse. Quero mais é
que ele fique irritado mesmo. Eu hein,
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ele tinha que aprender a se colocar no
seu lugar, pois eu o conheço não tem
nem um mês e ele já quer achar que tem
algum direito sobre mim, está muito
enganado.
— Só para deixar claro, você não é
só “a pessoa que eu estou ficando”, eu
quero que você faça parte da minha
vida, e não acho legal ver o que vi. Sei
que exagerei um pouco, mas eu fiquei
cego, só queria você longe daquele
imbecil — isso não é desculpa para o
que ele fez.
— O imbecil que você está se
referindo, vou te dizer só mais uma vez,
ele é meu amigo há muito tempo e não
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vou admitir esse tipo de atitude com ele,
ou seja lá quem for — ele fica
concordando com a cabeça, mas sei que
na verdade ele não estava concordando
com nada.
— E ele sabe que você é só amiga
dele? — Fala com um tom de cinismo
na voz. Meu Deus, ele pensa mesmo que
o Edu estava dando em cima de mim, só
porque estávamos dançando? Além de
troglodita é um ignorante! — Ele não
estava dando em cima de mim, Gustavo,
se é o que está pensando. Você deve
desculpas a ele— ele revira os olhos.
— Mas não devo mesmo, posso até
ter exagerado nas porradas, mas ele
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mereceu pelo tempo que ficou abusando
de você — não sei mais o que fazer, o
cara é louco mesmo.
— Isso já foi longe demais, Gustavo
— ele começa a balançar a cabeça de
um lado para o outro, parecendo não
querer escutar o que eu iria dizer — Eu
não vou permitir que você faça isso
comigo, eu tenho minha vida, meus
amigos, e vou continuar sendo e fazendo
o que eu acho que tenho que fazer. Você
não tem o direito de interferir na minha
vida. Eu acho que nós dois não temos
como... — quando vou completar a
frase, ele já está à minha frente, me
enlaça pela nuca e me da um beijo tão
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forte que chega até a doer. Começo a
bater em seus braços e tento afastar seu
corpo do meu, mas ele é maior e mais
forte que eu. Mordo seus lábios e ele,
ao invés de se afastar, geme. É maluco e
masoquista!
Ele segura meu rosto com as duas
mãos e me olha dentro dos olhos,
contudo, eu estou com muita raiva dele e
de sua atitude de ontem.
— Eu não vou deixar você fazer isso
com a gente, eu sei que sente o mesmo
que eu, então para de querer me afastar
de você, já te disse que agora não vai
ser tão fácil.
— Você não sabe de nada, quer dizer,
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sabe sim, agredir pessoas inocentes —
ele me olha furioso. Não estou nem aí,
esse olhar de Capitão não me assusta
mais.
— Aquele imbecil teve o que
mereceu, ele estava se aproveitando de
você, do fato de ter bebido. Cheguei
bem na hora que ia passar a mão na sua
bunda — me seguro para não soltar uma
risada na cara dele. O Edu podia passar
a mão na minha bunda e não faria
diferença alguma, nem para ele e nem
para mim.
— Não me interessa seus achares, o
que me interessa é sua atitude, e eu
quero deixar claro que não vou tolerar
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esse tipo de coisa — ele coloca as mãos
na minha cintura e continua com seu
olhar no meu.
— E eu também não vou tolerar
ninguém passando a mão em você, que
fique claro — fala, começando a
levantar a blusa dele que eu estava
vestindo. Dou um tapa na sua mão
atrevida.
— Você não tem que tolerar nada e
eu já disse que ele é meu amigo e eu
tenho certeza que não ia passar a mão
em mim, estávamos só dançando — ele
ainda está bolado pelo tapa que dei em
sua mão.
— Eu sei o que vi, o cara estava
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quase te devorando na pista de dança —
não consigo segurar dessa vez e começo
a rir.
— Que foi? Está achando engraçado
do papel de idiota que eu fiz? — Eu
balanço a cabeça em negativa, ainda
rindo do fato de ele achar que o Edu
queria me devorar, é piada!
— Estou achando graça de você
achar que o Edu iria querer algo
comigo... Mas que fez papel de idiota,
isso você fez— ele levanta as
sobrancelhas, se afasta um pouco e
cruza os braços, me encarando.
— E você ainda confirma. Quer dizer
que só não ficou com ele porque ele não
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quis, mas pelo jeito que dançavam, acho
que ele queria, e muito, eu que
atrapalhei o climinha, é isso? — Fala
bufando. Deixo-o pensar o que quiser.
— Pode ser, quem sabe — ele não
consegue acreditar no que eu estou
dizendo, essa seria minha vingança, o
deixar pensar que isso era verdade —
Posso saber onde está minha bolsa? Eu
preciso ligar para o Edu e ver se
precisa de alguma coisa.
— O quê!? Você não está falando
sério — ele iria ter que aprender a se
comportar como gente civilizada, eu não
ia mais admitir esse tipo de
comportamento.
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— Sério, você pode me dizer? Eu
realmente estou muito preocupada com
ele — ele me olha com ira em seus
olhos. Continua muito puto, me olhando
sem dizer uma só palavra – E, além do
mais, acho que nós dois já demos o que
tínhamos que dar, hora de buscar novos
conhecimentos — falo para provocá-lo,
claro que eu não iria buscar nada.
— Você vai ver os novos
conhecimentos que vou te dar agora —
fala se agachando e me joga sobre os
ombros.
— Ahhh, seu louco, me coloca no
chão! — Minha cabeça fica na metade
de suas costas e ele dá um tapa bem
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forte em minha bunda desnuda e vai
caminhando em direção ao quarto —
Você é maluco, me solta! — Ele dá uma
mordida em minha coxa, e eu me
derreto.
— Você vai ver o quanto eu sou
louco, Anjo — como assim, o que ele
vai fazer comigo? Por que eu tinha que
provocá-lo?
— Me solta agora, ou eu vou
começar a gritar— falo quando já está
entrando no quarto comigo.
— Claro, meu Anjo, tudo que você
quiser— fala em tom de ironia. Ele me
solta em cima da cama e vem por cima
de mim, se encaixa entre minhas pernas
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e olha direto em meus olhos com aquele
olhar intenso, que parecia me desvendar
por inteira. Eu não consigo desviar,
parecia que tinha me hipnotizado.
— Diz agora, olhando dentro dos
meus olhos, que nós dois já demos o que
tínhamos que dar e que você quer ficar
com aquele cara; diz e prometo deixar
você ir— seria minha chance de afastá-
lo da minha vida, mas como eu
conseguiria dizer isso olhando em seus
olhos? E justo com ele nessa posição,
claro que eu não conseguiria!
Eu não digo nada e ele começa
beijando meu pescoço e sinto um
arrepio que só ele tinha o poder de
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provocar.
— Fala, Anjo, e deixo você ir —
safado! Fala dando aqueles beijos
deliciosos em meu pescoço. Com a
outra mão, ele começa a acariciar toda a
lateral do meu corpo. Que filho da mãe,
sabia como me torturar.
Minhas mãos já estão em suas costas
e, à essa altura, eu não queria outra
coisa a não ser ele dentro de mim — Me
diz o que você quer, Anjo — fala com a
boca quase colada a minha, eu não
conseguiria dizer nada além da verdade.
— Você — falo quase em um
sussurro, mas é o suficiente para ele
atacar minha boca com um beijo
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delicioso, com fome, sedento como se
eu fosse tudo que ele precisasse. Era
exatamente como eu me sentia, ele era
tudo o que eu precisava.
Todos os meus medos desaparecem
naquele momento, então... Seja o que
Deus quiser! Como dizia minha avó,
quem morre de véspera é o peru,
coitado. Eu iria me permitir ser feliz ao
lado dele, o amanhã a Deus pertence. Eu
não poderia levar esse medo comigo
para sempre, sei que não devemos
quebrar juramentos, mas eu tinha
quebrado o meu desde aquele sábado
quando o conheci. Sei que seria uma
barra, mas por momentos iguais ao que
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estou tendo agora, faria tudo valer a
pena.
Eu seguro sua nuca e o beijo com
desespero. Eu já era dele, ele estava
certo, não havia outro lugar no mundo
que eu queria estar, a não ser aqui, nessa
cama junto com ele.
Ele se vira junto comigo, deixando-
me por cima dele. Ele retira minha
camisa e agora estou nua e ele me olha
sedento.
— Linda e toda minha — eu apenas
concordo com a cabeça e digo:
— Sua, somente sua — ele se
levanta, pega um preservativo em cima
da mesinha de cabeceira e me abraça.
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Ficamos ali sentados, comigo por cima
dele com as pernas em volta de seu
corpo. Ele não para de me beijar e ali
fizemos amor em total entrega um para
com o outro. Chegamos ao clímax na
mesma hora, juntos. Ficamos ali,
abraçados, sem dizer nada, só ficamos
um ouvindo a respiração do outro, e era
tão bom! Saímos do nosso momento
perfeito com um barulho de campainha
tocando.
— Esperando alguém? — Pergunto
para ele, que me olha confuso.
— Não, ninguém, mas para subir sem
ser anunciado, deve ser conhecido— ele
se levanta, não antes de me dar mais um
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beijo, coloca a cueca, entra em seu
closet, pega um short e eu fico lá
admirando sua beleza extrema. Enrolo-
me no edredom com uma preguiça
absurda.
— Eu vou despachar seja lá quem for
e volto para tomarmos uma ducha
juntos, não saia daí — até parece, aonde
eu iria? Meu maluquinho gostoso!
Nossa, a campainha não para de tocar,
deve ser urgente mesmo.
Ele vai e encosta à porta do quarto.
Não demora nem cinco minutos ele
volta com uma sacola na mão e me
entrega.
— O que é isso? — Começo a abrir
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a sacola e vejo algumas de minhas
coisas. Um short jeans, duas camisetas,
calcinha, sutiã, saída de praia, biquíni,
chinelo, óculos de sol, entre outras
coisas inclusive meu celular. Só podia
ser coisa da Bia, essa maluca. O
Gustavo ainda está me olhando e eu
arqueio as sobrancelhas.
— Você que pediu para ela trazer
essas coisas? — Ele balança a cabeça
em negativa.
— Eu não, tudo sou eu agora? —
Cruza os braços ao fazer a pergunta,
está com aquela cara de pobre coitado
— Ela está lá na sala com o Michel e
disse que tinha combinado praia com
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você hoje.
Ai meu Deus, será que vou aguentar
dois malucos juntos? Eu disse que
depois conversaríamos sobre isso, e ela
chega aqui de mala e cuia, bem coisa da
Bia mesmo.
— Eu não disse nada disso, Gustavo,
disse que depois eu ia resolver.
— E aí? Quer que eu fale que você
não vai? Quer dizer, que nós não vamos
— dou um sorriso para ele, por conta do
nós.
— Não, ela não desiste fácil, deixa
pra lá. O dia está lindo, você se
incomoda se formos à praia? — Ele dá
um sorriso todo convencido.
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— Claro que não, tudo por você,
Anjo— Começo a me levantar.
— Então, me deixa tomar uma ducha
rápida e me arrumar que ela é muito
impaciente, não duvido que invada esse
quarto se demorarmos — ele começa a
sorrir.
— Então vou junto com você para
economizar tempo— agora quem sorri
sou eu.
— Sei...— ele me olha com aquela
cara de safado que eu amava e entramos
juntos no banheiro. Tomamos um banho
bem rápido mesmo, ele até que tenta
mais alguma coisa, mas lembro de que a
Bia e o Michel estavam esperando e
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ficaria chato se demorássemos muito e,
além do mais, já são mais de meio-dia,
e ainda nem tomamos café, então
teríamos que almoçar cedo.
Saio do banheiro, coloco meu biquíni
azul e uma saída branca que a Bia
trouxe. Gustavo saiu do closet já com
uma sunga de praia preta e com uma
bermuda estampada estilo surfista na
mão e uma camiseta branca. Ele segura
meu rosto.
— Do jeito que você está gostosa
com esse biquíni, vou ter que agredir
muita gente hoje — fala em tom de
brincadeira e eu dou um soco no seu
braço — Brincadeira, meu Anjo —
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alisa o braço onde eu havia batido.
— Vamos? — Pergunto e ele me
enlaça pela cintura e me dá um beijo
demorado. Eu me afasto um pouco, essa
ideia de praia já tinha ficado absurda,
por mim ficaria o dia todo aqui
aproveitando meu Capitão — Já está
tarde, vamos logo, eu estou com fome,
não tomei café e gastei muita energia —
me lança um sorriso safado.
— Desculpa por isso, meu Anjo.
Fica resolvido assim: vamos almoçar
primeiro, depois vamos à praia. Tem um
restaurante ótimo na outra rua — ele
pega minha mão e me conduz até a sala.
— E aí, demoraram, hein! — Bia
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fala, toda contente pelo fato de seu
plano ter funcionado.
— Já estamos aqui, vamos? Só uma
coisinha, nós vamos almoçar antes, se
vocês não estiverem com fome agora,
nos encontramos na praia em alguns
minutos— Gustavo fala.
— Nós também estamos morrendo de
fome, bem que você podia oferecer algo
para as visitas, né? — Bia fala e minha
cara vai ao chão. Ela é muito cara de
pau!
— Bia! Você não tem jeito — todos
começam a rir.
— Da próxima, juro que preparo
algo para vocês, hoje eu estava muito
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ocupado — Bia arqueia as sobrancelhas
e me olha. Eu morro de vergonha, agora
devo estar da cor de um tomate.
— Amiga, vai devagar com o
Capitão, ele está até abatido, coitado —
ela realmente resolveu exagerar nas
piadinhas hoje. Michel e o Gustavo se
olham e começam a rir. Eu queria um
buraco no chão para me enfiar, mas finjo
que sua brincadeira não me atingiu.
— Vamos ou vai fazer outra piada?
— Falo bem séria com ela e dou uma
encarada no Gustavo que para de rir na
hora, pega suas chaves e carteira e vai
em direção à porta e a abre, esperando
por nós.
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— Precisa relaxar mais, Lívia,
estava só brincando — Bia fala,
inocente.
Saímos e Gustavo fecha a porta e
logo em seguida fica na minha lateral e
envolve seu braço no meu ombro. Bia já
tinha apertado o botão do elevador, que
chegou, em seguida entramos e o
Gustavo fica o tempo todo atrás de mim,
com o nariz em meu cabelo, beijando-o
algumas vezes.
Saímos do elevador sem ninguém ter
dito nada.
— E aí, onde vamos almoçar? —
Pergunta Michel animado.
— Vamos naquele restaurante de
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frutos do mar da rua ao lado— ele
concorda, mas não antes de perguntar a
opinião da Bia. Seguimos a pé, pois
pelo que parece, era bem perto. Gustavo
está de mãos dadas comigo e a Bia com
o Michel. Michel começa a contar uma
de suas piadas e o clima logo fica
descontraído. Todos rimos juntos com o
fim da piada, que era hilária.
Chegamos ao restaurante e descubro
que era o mesmo que eu amava, sempre
vinha com Otávio, e quando dava, com a
Bia também. Nossa, não sei como não
esbarrei antes com o Gustavo, muita
coincidência trabalhar perto da casa
dele e ele também frequentar o mesmo
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restaurante que eu vinha sempre. Como
o mundo é pequeno.
— Acertou em cheio dessa vez,
Capitão! — Fala Bia e o Gustavo olha
curioso para ela sem entender nada.
Depois me olha com o mesmo olhar.
— Esse é meu restaurante favorito,
por isso ela disse isso— ele dá um
sorriso satisfeito.
— Bom saber, como não te achei
antes, meu Anjo? — Fala, me puxando
para um abraço junto com um beijo. A
recepcionista fica nos encarando, mais
para o Gustavo do que para mim, claro.
Que vaca! Na minha frente!
— Mesa para quantos, senhor? —
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Continua olhando-o de cima a baixo.
Muito abusada, não está vendo que ele
está comigo?
— Para quatro! — Me coloco na
frente dele e respondo. Ela percebe
minha atitude e fica sem graça, assente,
e nos leva até a nossa mesa. Bia e
Michel nem percebem, pois estavam em
um papo só deles, já Gustavo...
— Calma, sem agressão, lembra? —
Fala e pisca para mim, coloca as mãos
na minha cintura e continuamos andando
até a mesa, seguindo a recepcionista
periguete. Chegamos à mesa e ela vai
embora. Acomodamo-nos e ele fica
rindo de mim.
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— Que foi, tem alguma palhaça aqui?
— Ele está sentado ao meu lado e
estamos de frente para Bia e Michel, que
continuam entretidos sem prestar
atenção em nós. Ele aproxima a boca do
meu pescoço e ouvido e é o suficiente
para eu me arrepiar inteira.
— Não precisa ter ciúmes, Anjo, eu
sou todo seu! Cada pedacinho do meu
corpo te pertence — fala, sussurrando
em meu ouvido. Beija meu pescoço e eu
me derreto inteirinha.
— Não precisa ficar convencido! Só
achei abuso da parte dela, viu que você
estava acompanhado, deveria se pôr em
seu lugar, afinal, ela está trabalhando.
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Ele ri com a boca ainda em meu
pescoço e sei que não acreditou em
nada do que eu disse. Nem eu acredito.
Resolvemos pedir uma Paella para
quatro pessoas, todos pedem suco.
Nosso almoço segue bem agradável,
falamos sobre vários assuntos:
faculdade, família, as histórias
engraçadas deles juntos, minha e da Bia.
Acabo conhecendo um lado brincalhão
do Gustavo, contado por Michel, os
dois tinham muita história juntos para
contar, nos divertimos muito. Gustavo
pede a conta e eu falo que vou ao
banheiro. Como a Bia estava numa
conversa muito animada com o Michel,
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nem a chamo, pois não queria
atrapalhar. Ela estava tão entretida que
nem notou que levantei. Dou uma risada
em pensamento, vendo como ela estava
apaixonadinha pelo Michel, só o via à
sua frente.
Sigo na direção do banheiro e sinto o
olhar de Gustavo me acompanhando o
tempo todo. Entro no banheiro, faço o
que tenho que fazer e, quando saio,
esbarro em uma parede de músculos.
Quando levanto meu olhar para me
desculpar, não acredito ser possível
quem eu vejo.

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Capítulo 17
Lívia

Não é possível, muito azar encontrar


com o Otávio logo hoje.
Ele estava com uma mão apoiada na
lateral de minha cintura, acho que por
instinto mesmo, nossos corpos estavam
bem juntos devido à colisão. Ele não
parava de me olhar, seu olhar era
intenso, apaixonado e seu semblante
estava com uma felicidade absurda,
acho que pelo fato de ter me encontrado
e estarmos tão próximos.
Eu tentei me afastar um pouco e ele
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não permitiu, me manteve ali. Olhei
para seu rosto, para pedir que me
largasse, e notei como ele estava
abatido, com olheiras, bem diferente do
Otávio que me lembrava de um mês
atrás.
— Minha linda, como você está?
Senti tanta sua falta, parece mentira que
estou aqui agora com você — fala,
passando as mãos em meu rosto. Ai,
isso vai dar merda, com certeza, não
queria nem olhar na direção do Gustavo.
Ainda bem que a área do banheiro
ficava afastada do salão e, com sorte,
sairia dessa antes do Gustavo perceber.
— Eu estou bem, Otávio— falo e
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tento tirar suas mãos de meu rosto, mas
ele não alivia e me puxa para um abraço
apertado.
— Que saudades, minha linda, como
eu queria ter o poder de voltar no
tempo. Minha vida parou sem você, está
um caos completo — ai meu Deus,
como eu ia sair dessa?
— Otávio, por favor, você sabe que
não tem volta, eu fui sincera com você,
não dá mais — ele passa a mão pelo
meu cabelo, rosto...
— Eu faço o que você quiser, só me
dá uma chance, é só o que te peço, eu
sei que você ainda me ama — olho em
seus olhos e vejo desespero. Como eu ia
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dizer não? Que na verdade nunca o
amei, e pior, que eu estava com outra
pessoa. Isso seria como acabar de enfiar
a faca no seu peito. Eu sei que ele tinha
errado, e via seu arrependimento, mas
infelizmente, para nós dois, não tinha
mais um futuro e nem um presente. Tento
buscar as palavras corretas para dizer
isso a ele, que continua com as mãos em
meu rosto.
— Otávio, eu...
— Estou interrompendo alguma
coisa? — Puta que pariu mil vezes! Eu
conheço essa voz. Essas coisas só
acontecem comigo.
Eu e Otávio olhamos em direção à
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voz irritada que eu já conhecia muito
bem. Eu não sabia o que fazer, fiquei
imóvel e totalmente sem ação.
— Desculpa, amigo, estamos
atrapalhando a passagem — Otávio fala
todo educado, dando alguns passos para
liberar o caminho e me puxando
delicadamente junto com ele.
Gustavo o olha com um olhar
assassino. Eu continuo na mesma, sem
saber o que fazer.
— Você vai tirar as mãos da minha
mulher por bem ou vai ser por mal
mesmo? — Agora ferrou! Otávio olha
para mim e para Gustavo sem entender
nada, tira as mãos do meu rosto, mas só
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para colocá-las na minha cintura, me
puxando mais para junto dele. As
palavras não se formam em minha boca.
Gustavo vê a cena e me puxa para o
seu lado na mesma hora.
— Você é surdo?! Eu mandei tirar as
mãos dela — Otávio continua me
olhando sem entender nada, e minha
cara de apavorada não estava ajudando
muito.
— Olha, cara, eu não sei o que você
bebeu, mas ela é minha noiva — minha
reação foi só colocar uma mão na testa.
Fodeu!
Gustavo me encara, como quem pede
explicação. Isso tinha que acontecer
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logo aqui, logo hoje? Já estou até vendo,
amanhã, estampado em todos os jornais,
nossa foto com a manchete “ O pior
barraco da história da Barra”.
— Ex-Noivo, Otávio — Foi a única
coisa que conseguir dizer.
Otávio me olha com cara de que
continua sem entender. Gustavo tenta me
puxar para que eu fique atrás dele, mas
eu não me mexo e continuo no meu
lugar, tentando ser um escudo para ele
não agredir Otávio a qualquer momento,
pois via como seu maxilar estava tenso
e como as veias do seu pescoço
pulavam.
— Quem é esse cara, Lívia? —
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Otávio pergunta direto para mim.
Aquele rosto de quem estava confuso
minutos antes não existia mais, sua
expressão agora era de pura raiva.
— Sou o namorado e futuro noivo —
Gustavo responde antes mim, com
sangue nos olhos. Ele está com os
braços cruzados encarando o Otávio,
que não se abala e continua na mesma
posição com seu olhar direto para mim.
Ai, agora ia começar a guerra de
quem mijava mais longe, estou muito
ferrada.
— O que significa isso, Lívia? —
Fala direcionado a mim de novo, e eu
baixo minha cabeça por não saber o que
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dizer, passando as mãos pelos cabelos.
Eu estava em uma situação
constrangedora, eu tinha certeza de que
eu queria o Gustavo, mas estava com
muita pena do Otávio.
— Você é retardado? Eu já te disse o
que significa, agora dá o fora e não
chega perto dela de novo — Gustavo
fala todo dono de si, como se tivesse
ganhado a disputa de mijo. Otávio não
baixou a cabeça e agora estava
encarando o Gustavo.
— Não, retardado é você que não vê
que ela só está te usando para me
atingir. Deixa eu te falar uma coisa: eu e
a Lívia temos uma história de um ano e
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meio, nós éramos noivos e vamos voltar
a ser! Fiz uma merda muito grande com
ela, eu sei, mas sei que ela também me
ama, e que isso é só uma vingançazinha
besta. Quero deixar claro que não vou
desistir do nosso amor e sei que ela vai
pensar bem e vai me perdoar, porque o
amor supera tudo — ele fala olhando
dentro dos meus olhos, estava na
postura advogado e fazendo sua
autodefesa — Então, cedo ou tarde, é
comigo que ela vai ficar, pois o amor
sempre vence no final, e é a mim que ela
ama, não se engane. Nosso
relacionamento só acabou por uma
grande idiotice que cometi, mas quem
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nunca errou?
Gustavo o olhava e estava engolindo
em seco toda hora. Seu semblante
mudou, ele não parava de piscar.
— Eu sei que, no final, o amor dela
vai falar mais alto, e aí você não vai
aparecer nem nas lembranças dela, seu
idiota! — Otávio vocifera para ele.
— Você vai ver quem é o idiota — já
ia partir com tudo para cima do Otávio,
que está com um sorriso debochado e
balançando a cabeça de um lado para o
outro, como se o Gustavo fosse louco.
Eu seguro o Gustavo pela blusa.
— Para com isso, Gustavo! Ninguém
vai bater em ninguém aqui, estamos em
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um restaurante, pelo amor de Deus! —
Gustavo para na hora e o Otávio o olha
com desdém.
— Viu só, eu te disse, no final, sou
eu quem ela quer ver bem — agora já
me arrependo de segurar Gustavo, ele
estava merecendo um soco na cara,
provocando onça com vara curta — A
gente se fala, minha linda.
Vai embora e pisca para mim na
frente de Gustavo, que está uma fera,
aquelas que são provocadas e que não
podem sair da jaula para se defenderem
como devem. Ele se vira de frente para
mim, cruza os braços e fica me
encarando. Eu via raiva e muitas
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dúvidas em seu olhar. Não é possível
que ele tivesse acreditado no que o
Otávio disse. Poxa, eu fiquei um ano e
meio com o Otávio e foi para ele que
me entreguei, então eu não admitia que
ele tivesse dúvidas em relação a isso.
Otávio era um excelente advogado
mesmo, até o Capitão ele tinha
convencido com sua ladainha. Ele
continua me olhando bem sério e quando
eu ia começar a falar em minha defesa...
— Poxa, gente, vamos, estamos
iguais a dois bobos torrando lá fora no
sol esperando vocês, deixem para
namorar depois — Bia fala e começa a
andar. Ele puxa minha mão e vamos a
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seguindo em silêncio. Continuamos
andando, a Bia e o Michel estavam num
papo super animado e eu e o Gustavo
estávamos calados, ele estava com uma
cara muito fechada, nem olhava na
minha direção, parecia que estávamos
de mãos dadas só para fazer um papel.
Atravessamos a rua e chegamos à
praia. Michel e a Bia já estão bem à
frente, eles param em um quiosque para
alugar cadeiras e guarda-sol.
O silêncio dele estava acabando
comigo, mas eu não ia discutir com ele
aqui e estragar o passeio de nossos
amigos, que estavam tão animados. Vou
falar quando estivermos sozinhos, agora
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vou tentar levar numa boa e fingir que
nada aconteceu; de repente, assim, ele
vê que o que aconteceu no restaurante
não havia me afetado, minha
preocupação foi apenas evitar agressões
dentro de um restaurante.
Quando chegamos à areia, o menino
já traz as cadeiras e nós arrumamos ao
nosso modo. Ele tira a camiseta e se
senta, eu tiro minha saída de praia bem
na sua frente, tentando provocá-lo,
esperando que ele dissesse alguma
coisa. Mas ele não diz nada, só respira
fundo e olha para os lados. Pego meu
protetor solar e vou até ele, parando
entre suas pernas.
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— Gustavo, me deixa passar protetor
nas suas costas, o sol está muito forte —
Ele não diz nada, só se inclina um pouco
para frente e cola o rosto em minha
barriga. Sinto quando ele respira fundo.
Eu passo o protetor, deslizando minha
mão com lentidão pelas suas costas bem
definidas, seguindo para seu ombro
largo. Não consigo ficar imune ao que o
corpo dele faz comigo. Passo o protetor
sem pressa, massageando seus ombros
de um lado a outro, ele não se mexe. Eu
já estava começando a ficar excitada,
não me lembro de tê-lo tocado de uma
forma tão absorta.
— Agora na frente e no rosto — ele
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volta à posição que estava sem dizer
nada, passo protetor em seu peitoral da
mesma forma, meus pensamentos
viajando nos seus peitos largos, braços
musculosos, pescoço.
— Agora só falta o rosto — falo com
uma voz rouca, carregada de desejo.
Ele inclina a cabeça um pouco para
trás e eu começo a passar o protetor. Ele
fecha os olhos por um momento, e
quando os abre, estão diretos nos meus,
me queimando como brasas. Ficamos
assim por uns segundos e eu não resisto
e o beijo. Ele não reage e isso acaba
comigo. Ele acredita mesmo que eu o
estou usando para vingança? Não é
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possível. Levanto-me, e agora quem está
puta com sua atitude sou eu. Coloco
protetor em minhas mãos e começo a
passar no meu corpo, nem olho em sua
direção. Bia está na água com o
Sargento dela, fico de costas para ele e
me concentro no mar. Sinto um corpo
colado às minhas costas e sei que é ele.
— Me deixa retribuir sua gentileza
— fala com a voz sexy, mas ainda sinto
raiva em sua voz, por isso não falo
nada. Ele pega o frasco das minhas
mãos e começa a passar pelas minhas
costas. A raiva de segundos atrás se
transforma em desejo, e pelo toque de
sua mão em meu corpo, vejo que ele não
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tinha ficado indiferente, é como se ele
quisesse me torturar, seu toque
queimava minha pele. Sua mão passeia
lentamente por todo meu corpo,
demorando na minha bunda. Que safado!
Ele me vira de frente e continua com
aquela tortura maravilhosa, eu já estava
respirando com dificuldade. Ele passa
protetor na minha barriga e lentamente
sobe para meus seios, não tirando seus
olhos dos meus. Desce a mão pela
minha barriga novamente e vai para
minhas coxas, e eu não seria capaz de
aguentar isso por mais tempo. Olho para
baixo, e pelo volume em sua bermuda,
vejo que ele também não.
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— Prontinho, agora você está
protegida — fala, me entregando o
frasco, e pelo tom em sua voz, eu sabia
que não era só do protetor solar que ele
estava falando.
— Gustavo... — quando eu ia
começar a falar, sinto gotas de águas
sendo jogadas em mim — Ahhh, Bia!
Está gelada! — Dou um pulo para o
lado e fico colada em Gustavo, que me
segura com um braço em minha cintura,
minhas costas ficam coladas no peito
dele. Agora, sim, me sinto protegida e
em casa.
— Bia, você é muito sem graça! Essa
água está um gelo — ela começa a rir e
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agarra o Michel.
— Não está nada, está uma delícia,
vocês não sabem o que estão perdendo
— arqueia a sobrancelha — Agora que
voltamos, podem ir que ficamos aqui.
Gustavo começa a me puxar em
direção ao mar.
— Não, a água deve estar muito
gelada — ele finge que nem escuta o
que digo e continua me puxando assim
mesmo. Quando chegamos à beira da
água, sinto que está um gelo mesmo.
— Eu não vou entrar mesmo, está
muito gelada.
— Vai sim, eu te esquento — me dá
aquele sorriso safado que eu amo e
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pisca para mim, já me erguendo do chão
e entrando na água junto comigo em seus
braços.
As ondas começam a bater em
minhas pernas e eu nem ligo, estou tão
feliz que ele voltou a ser o Gustavo
atencioso e apaixonado que não vou
ligar se morrer congelada.
Paramos quando a água bate no meio
de minhas costas. Eu seguro em seu
pescoço e ele está me encarando, acho
que está procurando alguma resposta.
Eu o beijo e dessa vez ele corresponde
com paixão e desejo; esse era o Gustavo
por quem eu tinha me apaixonado.
Que?? Eu disse apaixonado?? Ai
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meu Deus, agora acabei de admitir o
que eu vinha tentando negar todo esse
tempo, eu tinha me apaixonado pelo
Gustavo. Agora sim eu estava ferrada.
Coloco minhas pernas em volta de sua
cintura e nosso beijo agora é mais
tranquilo e eu tenho certeza que ele é
meu, assim como eu sou dele.
Felicidade define esse momento.
— Jura que você é minha e que sou
eu quem você quer? — Será que ele
agora conseguia entrar também nos meus
pensamentos?
— Claro que é você, como você
pode ainda ter dúvidas? — Digo
olhando dentro de seus olhos. Ele
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respira fundo e me abraça mais forte
ainda.
— Eu sou todo seu, meu Anjo, agora
eu sei que me apaixonei por você desde
aquele sábado quando nos vimos pela
primeira vez. Eu te amo, meu Anjo, e
não vou conseguir ficar longe de você.
Nunca senti por ninguém o que sinto por
você. Só me diz que eu não sou um jogo
para você, porque eu não iria suportar
— fala com os olhos marejados.
— Não é, pode ter certeza — ele me
beija, feliz com minha resposta.
Eu queria dizer que também tinha me
apaixonado por ele e nunca senti por
ninguém o que sinto por ele, mas travei
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e não consegui falar nada.
Ele para o beijo e me olha
profundamente. Acredito que, no fundo,
ele ainda tenha alguma dúvida, mas a
segurança que ele queria só o tempo
daria.
— Vamos embora? Eu preciso muito
de você — dou um sorriso para ele,
pois era exatamente o que eu estava
pensando. Essa praia não fazia sentido
nenhum desde que saímos de casa. Se
não tivéssemos saído, nada disso tinha
acontecido.
— Claro, até agora não consegui
entender porque saímos daquela cama
— ele me beija com aquele sorriso
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safado que era só meu e fomos em
direção à areia.
Quando chegamos perto da Bia e do
Michel, que estavam sentados um ao
lado do outro, pego minha saída de
praia e começo a vestir.
— Não acredito que vocês já vão
embora — Bia fala toda chorosa.
— Pode acreditar, amiga, temos
coisa melhor para fazer — nem acredito
quando digo isso. Gustavo começa a rir,
pegando a camiseta. Eu pego minha
bolsa e meu chinelo e nem espero
acabar de me secar ou penteio os
cabelos como sempre fazia antes de ir
embora da praia.
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— Vou lá, pessoal, o dever me chama
— ele fala em tom de brincadeira e
começamos a ir embora.
— Você vai ver só se da próxima vez
se vou trazer roupas para você — fala a
Bia em tom de brincadeira.
— Ela não vai precisar delas, Bia,
fica tranquila — Gustavo fala, enquanto
Bia e o Michel não param de rir.
Continuo andando até o calçadão e
nem olho para trás. Chego ao calçadão,
tento remover um pouco de areia dos
meus pés antes de colocar os chinelos,
mas não resolve muita coisa.
— Vem, lavamos lá no condomínio
antes de subirmos — ele me dá a mão e
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seguimos para o seu prédio.
Lavamos os pés num lugar
apropriado para isso e subimos, eu pego
a chave dele que está em minha bolsa,
ele abre a porta e entramos com ele já
me atacando com um beijo maravilhoso.
Ele vai me levando em direção ao
quarto e vamos direto para o banheiro,
onde ele liga o chuveiro, tira sua
bermuda, retira minha saída de praia e
entramos no boxe com eu ainda de
biquíni e ele de sunga. Enquanto
ficamos embaixo da água retirando o
excesso de areia, ele retira meu biquíni
e eu retiro sua sunga, vendo que ele já
está totalmente duro.
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Pego a esponja com o sabonete
líquido e começo a esfregar seu
peitoral, braços, coxas, e seguro seu
membro em minhas mãos e começo a
lavá-lo bem devagar, fazendo-o gemer.
Suas mãos estão em meus cabelos e ele
observa cada movimento que eu faço.
Repetimos de novo a dança das mãos
há pouco ensaiada na praia.
— Hora de esfregar as costas,
Capitão — falo, ainda com as mãos em
seu membro.
— Hum... Na melhor parte, você
gosta mesmo de me torturar, Anjo —
dou um sorriso bem sem vergonha para
ele.
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— Virando, Capitão, isso é uma
ordem — ele se vira na hora e fica de
costas para mim, que começo a esfregar
suas costas.
— Só para lembrá-la que minha vez
também vai chegar e aí você vai estar
perdida — bobinho.
— E quem te disse que eu não quero
me perder? — É o suficiente para ele se
virar, despejar um pouco de sabonete
em suas mãos e começar a esfregar todo
meu corpo. Ele começa pelo pescoço,
descendo até os seios, barriga... Tudo
muito lentamente, até chegar ao meu
centro, e começa ali uma tortura
prazerosa, até que não me seguro mais e
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gozo em seus dedos. Eu o queria mais e
mais, queria sentir seu gosto, então me
ajoelho. Ele fica sério, me olhando,
pego o seu membro e o coloco em minha
boca. Tento colocar em prática algumas
teorias malucas que eu tinha ouvido da
Bia e de outras colegas de faculdade.
Ele está muito surpreso com minha
atitude, coloca uma das mãos em minha
nuca e geme.
— Porra, Anjo! Sua boca é uma
delícia — empolgo-me mais ainda com
suas palavras e o levo cada vez mais ao
fundo de minha garganta. Ele começa a
me conduzir no seu ritmo, num
movimento de entra e sai maravilhoso.
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— Se você não parar agora, eu não
vou me segurar mais — ao escutar essas
palavras, continuo com que estava
fazendo até que o sinto enrijecer e sinto
o gosto do seu gozo em minha boca. Ele
acaricia meus cabelos e me levanta,
deixando-me de frente para ele, que me
beija.
— Eu te amo, eu sou o homem mais
feliz do mundo — eu sorrio para ele ao
ouvir essas palavras.
Sei que ele deve estar esperando
ouvir o mesmo, mas eu simplesmente
ainda não consigo dizê-las. Quero que
saia naturalmente e não por obrigação
de dizer. Apesar de ter certeza dos meus
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sentimentos, fico assustada com a
rapidez que isso aconteceu e eu preciso
de tempo para digerir isso tudo.
Ele não diz nada, em relação a eu ter
ficado quieta com sua declaração.
Terminamos nosso banho e vamos para
o quarto. Vou em direção à bolsa que a
Bia tinha trazido, procurando uma
camisola de cetim vermelho que eu tinha
visto. Estava pensando em dormir um
pouco.
— Nem pensa nisso, ainda não
acabamos.
Ele me abraça por trás e deitamos em
sua cama, e ali nos amamos mais uma,
duas, três vezes, até que o cansaço nos
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vence e apagamos...
***
Acordo e estou sozinha na cama. O
quarto está todo escuro, procuro pelo
relógio que ficava na mesa de cabeceira
do Gustavo, e quando olho a hora, vejo
que já são nove da noite. Dormi muito,
estava com sono atrasado, agora me
sentia bem, mais disposta.
Procuro pelo short, calcinha e uma
camiseta, vou para o banheiro, coloco
as peças, escovo os cabelos e dentes e
vou para sala em busca do Gustavo. A
sala estava vazia, será que foi trabalhar
e não me avisou?

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— Gustavo...

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Capítulo 18
Lívia

— Gustavo — o chamo.
— Oi, Anjo, aqui, na cozinha — sigo
sua voz e entro em uma porta que ficava
do lado oposto da sala.
— Oi, o que você está fazendo? — O
cheiro é muito bom. Só agora percebi o
quanto estava com fome. Ele pisca para
mim enquanto pica brócolis.
— Estou preparando filé de linguado
com batata soutée e arroz com brócolis.
Espero que goste do cardápio, não quis
acordá-la para perguntar — nossa,
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
arrasou no cardápio.
— Está querendo me prender pelo
estômago, Capitão? Amo peixe! — Ele
sorri.
— Pelo estômago e principalmente
pelo coração — ele me olha sério. Eu
deveria dizer que pelo coração já tinha
me prendido, mas fico quieta.
— Você podia ter me acordado para
te ajudar, já está bem tarde, dormi
muito. O que posso fazer para te
adiantar aí?
Mudo de assunto, e ele me olha
percebendo minha mudança, mas não diz
nada, acho que não queria entrar em
discussão. Ele está muito gato só de
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
cueca boxer e avental.
— Não se preocupe, eu acordei há
meia hora, nunca dormi assim durante a
tarde, você está acabando comigo, meu
Anjo — fala e pisca para mim,
ordinário — Se quiser me ajudar, pode
pegar as batatas na geladeira, por favor,
estão na gaveta de baixo.
— Claro — vou em direção à
geladeira e me inclino para pegar as
batatas.
— Não dessa maneira, não vai ter
jantar se continuar me provocando, eu
não sou de ferro, sabia? — Levanto na
hora e o encaro.
— Você é muito tarado! — E eu
Acheron Livros e afins
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adorava isso. Agacho, pego quatro
batatas e fecho a geladeira.
— Quatro está bom, super chefe? —
Ele balança a cabeça e me olha de rabo
de olho.
— De quatro, de lado, em pé,
qualquer forma é bom com você — ele
começa a sorrir de sua própria piada.
— Nossa, que engraçado — falo,
tentando parecer zangada com sua
brincadeira. Ele vem em minha direção
e me abraça, me beijando em seguida.
— Não fica assim, eu não tenho
culpa se você é muito linda e gostosa.
— Hum, sei... Agora é melhor voltar
a cozinhar, que eu estou com muita
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
fome, gastei muita energia hoje, vou
descascar as batatas para você.
— Sim Senhora — presta
continência.
Termino de descascar as batatas e
corto da maneira que ele me orientou.
Ele já está terminando o arroz, começa a
grelhar o filé de Linguado, em seguida
começa a preparar as batatas. Fico com
a louça que ele ia sujando para manter a
ordem na cozinha.
— Vou colocar a mesa, onde ficam
os pratos? — Ele me aponta o armário e
eu pego dois pratos e levo à uma mesa
que ficava no canto da cozinha próximo
à porta, um cantinho bem aconchegante.
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— Talheres? — Ele me aponta a
gaveta e eu pego o necessário. Mostra-
me também onde ficam os copos e eu os
pego junto com um suco de pêssego que
tinha na geladeira.
Ele termina o jantar, nos servimos e
sentamos à mesa. Coloco uma garfada
na boca com ele me olhando na
expectativa do que eu iria dizer.
— Hummm, uma delícia! Você é bom
nisso! Devia abrir um restaurante, seria
sua cliente assídua — ele fica todo
satisfeito com o elogio.
— Para você, eu cozinho a hora que
quiser, meu Anjo, não preciso abrir um
restaurante — agora eu que fico toda
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satisfeita com sua resposta.
— Já vi que vou ter que voltar a
correr duas vezes por dia, senão vou
virar uma bolinha.
— Mas será uma bolinha muito
gostosa, de qualquer forma — até
parece, sorrio para ele.
Estamos jantando num clima bem
agradável, quem diria que aquele
troglodita e grosso que conheci aquele
sábado seria tão doce e educado.
Falando em educado, lembro-me que
não sei nada de sua família.
— Seus pais moram aqui no Rio? —
Ele me olha com aquele olhar que não
estava esperando esse tipo de pergunta.
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Ora essa, eu tenho que conhecer suas
origens, isso é natural em qualquer
relacionamento.
— Meu pai sim, mora no Leblon.
— Uau! Mora bem, hein! — Ele sorri
com meu comentário, que acaba saindo
sem querer.
— É, mora sim. Minha mãe, eu não
vejo há quase 21 anos.
— Como assim, ela faleceu? — Ele
balança a cabeça em negativa, com um
sorriso apagado ao rosto.
— Antes fosse isso.
— Não fala isso, Gustavo —
repreendo-o.
— Ela foi embora um mês depois
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que minha irmã nasceu, sem se despedir,
nada, simplesmente foi. Que tipo de mãe
abandona dois filhos, sendo um deles
recém-nascido?
Eu estou em choque, sua infância
deve ter sido bem difícil. Eu, graças a
Deus, tive pais maravilhosos que me
amavam, tive uma infância muito feliz.
— Eu não sei como te responder
isso, Gustavo, mas ela deve ter tido um
motivo bem forte, você devia procurá-la
— ele baixa o olhar e só nega com a
cabeça.
— Eu tive uma mãe até meus anos. Já
minha irmã nunca a conheceu, e sinto
muito por isso, ela colocou na cabeça
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que nossa mãe foi embora por causa
dela. Que o nascimento dela foi o
estopim para alguma coisa que já não ia
bem. Que um filho a mais foi demais
para ela.
Nossa, que triste isso, coitada dessa
menina. Imagino como deve ser sua
cabeça, eu não me imagino sem minha
mãe.
— E sua irmã, mora com seu pai?
— Não, ela foi fazer faculdade no
Sul para se livrar dele.
Como?? Que família é essa?
— Não entendi — digo, confusa.
— Meu pai é um tirano, só pensa em
trabalho e em engordar cada vez mais
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sua conta bancária, por isso saí de casa
assim que entrei para a polícia. Ele
ficou revoltado, pois queria que eu
seguisse seus passos e assumisse a
construtora quando se aposentasse. Mas
não era isso que queria para mim.
Sempre sonhei em ser policial, era
fascinado pelos seriados e filmes
policias quando era criança, por isso
entrei para a polícia. Ele não aceita até
hoje. Nos falamos, mas muito pouco, só
mesmo em datas festivas.
Meu coração está apertado em saber
dessa parte de sua vida, deve ter sido
muito difícil passar por isso tudo.
— Como seu pai lidou com o
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abandono de sua mãe?
— Ele se tornou pior do que já era.
Antes, ainda me dava atenção aos
domingos. Depois que ela foi embora,
nem aos domingos eu o via mais. Não
me lembro de tê-lo visto com minha
irmã uma vez sequer no colo. Fomos
criados por babás, e não o víamos
nunca, vivia viajando e chegava muito
tarde em casa, quando já estávamos
dormindo. Ele só sabia nos dar ordem,
através dos empregados, é claro. Eu,
por minha vez, tratei de ser o melhor
irmão que a Clara poderia ter, não
achava justo com ela, que nunca
conheceu nem o amor dos pais.
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Fico horrorizada. Como um pai podia
agir dessa maneira com os próprios
filhos, que ainda por cima foram
abandonados pela mãe?
— Sinto muito, Gustavo, eu nem sei
o que dizer — pego em sua mão. Ele me
dá um sorriso forçado, meu coração se
aperta.
Isso podia explicar um pouco de seu
comportamento possessivo. Olha eu
querendo analisar, eu mal o conheço,
mas queria conhecer mais dele e fazer
com que nosso relacionamento, que eu
ainda não sabia definir direito em que
ponto estava, fosse à frente.
— Não é nada, meu Anjo, eu já
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superei, não fica assim — ele nota meu
rosto angustiado – A Clara também,
acredito eu, ela é uma pessoa muito
especial, a melhor irmã do mundo— seu
semblante muda ao falar da irmã e eu já
estou com vontade de conhecê-la, deve
ser especial mesmo, vejo como ele fica
feliz só de falar nela.
— E você, mocinha, como foi sua
infância?
Eu já ficava feliz só de lembrar da
minha infância, só coisas boas.
— Foi a melhor que eu poderia ter,
minha mãe sempre fez tudo que eu
queria.
— Agora sei por que você é tão
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mimada — ele fala, me interrompendo.
— Não sou nada — dá uma
gargalhada com o tom da minha defesa.
No fundo, eu sabia que era um pouco
mimada sim.
— E seu pai, era muito carrasco por
ser da polícia?
Eu dou uma risada por imaginar meu
pai carrasco.
— Meu pai era o melhor pai do
mundo — ele arqueia as sobrancelhas e
dá um sorriso com minha resposta. Acho
que fica contente por eu ter tido uma
família normal e feliz.
— É que os policias têm fama de
bravos, sabe como é — eu sorrio. Ele
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também não era nada daquilo que eu
pensei. Era impulsivo, mas eu iria tentar
mostrar a ele que nem tudo funcionava
com porrada.
— Pois é, eu sei — falo em tom de
brincadeira e ele começa a rir, sabe que
estou me referindo a ele também — Mas
meu pai só era valente na rua mesmo,
em casa quem mandava era minha mãe,
e ai dele que discordasse da dona
Cláudia — ele sorri, acho que
imaginando a cena — Ele era um ótimo
marido, eles estavam juntos há mais de
26 anos, e o que minha mãe falava era
uma ordem para ele. Os amigos dele,
que considero como meus tios, viviam
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tirando sarro da cara dele; eles falavam
que ele descontava o que minha mãe
fazia com ele nos bandidos. Ele nem
ligava, pois a amava muito e ela também
o amava. A única coisa que nos deixava
tristes era a falta de tempo dele para a
família, por conta dessa profissão —
Gustavo engole em seco – Mas, nos
raros momentos livres, ele fazia valer a
pena. Sempre foi meu exemplo, eu
sempre o admirei, achava que ele era
meu herói e que ele era a pessoa mais
inteligente do mundo, e principalmente
imortal, até aquele dia em que meu
mundo desabou completamente — sinto
quando uma lágrima escorre do meu
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olho. Era muito difícil falar do meu pai,
eu evitava conversar até com minha mãe
sobre isso, mas agora tinha saído
naturalmente.
Gustavo se levanta e me coloca em
seu colo. Sinto-me protegida em seus
braços.
— Eu sinto muito mesmo, meu Anjo
— coloco a cabeça em seu ombro e as
lágrimas começam a cair
silenciosamente.
Ele acaricia minhas costas.
— Ele sempre foi o melhor policial
que conheci e foi morto covardemente
na porta de nossa casa, só porque era
policial. Ele nem sequer reagiu ao
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assalto, os caras atiraram nele quando
viram sua identificação e ele não teve
nem chances de defesa. Aqueles
infelizes destruíram nossa família por
nada — ele me abraça forte — Foi por
isso que eu tentei te afastar, eu não vou
conseguir passar por isso de novo,
aquela cena ainda se repete na minha
cabeça quase todos os dias — e, de
repente, tudo que eu estava tentando
esconder dele todo esse tempo, sai da
minha boca sem que eu perceba.
— Eu não fazia ideia, sabia de sua
morte, mas não sabia do trauma que ela
causou. Você não vai passar por isso de
novo, meu Anjo, eu te prometo, eu não
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vou deixar que passe — me abraça
forte. Eu queria muito que ele estivesse
certo e que eu não tivesse que passar
por tudo aquilo de novo, pois eu não
conseguiria mais me afastar dele, ainda
mais agora que eu tinha certeza que
estava apaixonada.
— Tudo que eu mais quero é que
você esteja certo — ele me abraça mais
forte ainda e beija minha cabeça.
— Eu vou dar um jeito, tudo vai se
resolver, pode deixar.
Que jeito ele daria? Blindaria o
próprio corpo? Só tinha uma saída, e
essa, depois do que ele me declarou
hoje sobre sua fixação em ser policial,
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eu não teria coragem de pedir.
Eu dou um sorriso forçado para ele,
e agora é só rezar para que tudo desse
certo. Eu limpo meu rosto, dou um beijo
em seu pescoço e me levanto de seu
colo. Ele continua me olhando, muito
pensativo.
— Hora de lavar a louça.
Começo a retirar os pratos da mesa e
ele ainda está sério, me olhando.
Coloco os pratos na pia, volto para
pegar os copos e começo a lavá-los. Ele
ainda está me olhando.
— Que foi? — Digo com a voz mais
calma e um pouco divertida. Ele dá um
sorriso.
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— Essa casa fica bem melhor com
você aqui— fico feliz que ele ache isso.
— E você já disse isso para quantas?
— Ele dá uma gargalhada com vontade
e vem em minha direção.
— Depois você fala que não é
ciumenta. Só para você que eu disse,
nunca trouxe outra mulher aqui, além da
minha irmã e da faxineira.
— Vou fingir que acredito — falo no
deboche.
— Não estou dizendo que sou santo,
só que respeito minha casa— eu não
conseguia imaginá-lo com outra mulher.
— Está bem, eu não quero saber de
mais nada — coloco as mãos em sua
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boca para calá-lo.
— Então eu não falo, o que importa
agora é você e mais ninguém.
— Que isso seja verdade, para o seu
próprio bem — ele me agarra e me
ergue do chão.
— Você ainda tem dúvidas, meu
Anjo? — Fala me olhando e sinto
verdade em seus olhos.
— Um pouco... o que vai fazer para
mudar isso? — Desafio-o.
— Você vai ser a sobremesa — diz,
me tirando da cozinha. Eu já sabia para
onde ele iria.
— A louça, ainda não terminei —
falo, tentando me fazer de difícil.
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— Amanhã cuidamos da louça, agora
temos coisas mais importantes.
Acabamos a noite da melhor maneira
possível, nos amando como se o mundo
fosse acabar em algumas horas e não
fôssemos ter outra chance. Dormimos
um nos braços do outro.
***
Acordo toda enrolada em uma
coberta chamada Gustavo. Levanto, vou
ao banheiro, faço minha higiene e volto.
Eu precisava ir para casa. Não tinha
feito nada o fim de semana inteiro,
minha casa estava uma bagunça só, sem
contar que tinha que separar a roupa

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Acheron Livros e afins
para a entrevista amanhã. Eu não iria
trabalhar, já tinha inventado uma
desculpa para D. Julia, a entrevista era
às dez horas da manhã na cidade.
— Capitão — estou sentada ao seu
lado na cama com a mão em suas costas.
— Hum...— ele geme, ainda de olhos
fechados.
— Eu preciso ir para casa — ele me
puxa com um braço e me coloca deitada
ao seu lado.
— Você está em casa — fala e me
aperta ao seu corpo — Vamos dormir
mais um pouquinho, ainda está muito
cedo, você abusou muito de mim ontem.
— É sério, já são quase dez horas e
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eu tenho muita coisa para fazer em casa.
Pode ficar aí descansando, que eu vou
embora — tento me levantar e ele
segura meu braço.
— Nem pensar! Se quiser mesmo ir,
eu te levo — passa a mão no rosto,
tentando espantar o sono. Agora eu
fiquei com pena de tê-lo acordado.
— Não precisa, eu posso ir sozinha,
você ainda está com sono, fica e
descansa — ele levanta e me dá um
beijo.
— Dois minutos e eu vou estar
pronto — fala sem deixar margem para
discussão e entra no banheiro. Termino
de arrumar minhas coisas, coloco meu
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short jeans, camiseta, meu chinelo,
prendo os cabelos e estou pronta.
Vou para a cozinha, termino de lavar
a louça, coloco a cápsula de café na
cafeteira, pego pão de forma, queijo
branco, manteiga, suco, e coloco na
mesa. Pego outra xícara para fazer o
café dele, coloco tudo na mesa bem na
hora que ele entra.
— Com direito a café da manhã e
tudo — dou um sorriso para ele, que já
está me abraçando.
— Só retribuindo sua gentileza —
pisco para ele, que me dá um beijo
delicioso de bom dia.
Tomamos café e, logo em seguida,
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saímos com ele segurando minha bolsa e
uma outra bolsa de viagem, a mesma do
outro dia.
Entramos no carro, ele coloca sua
pistola embaixo da coxa e sai com o
carro.
Me pego pensando em como esse fim
de semana tinha sido cheio de
acontecimentos, um atrás do outro.
Acabo nesse momento me lembrado do
Edu, coitado, foi agredido e não deve
nem saber o motivo. Eu teria que dar um
jeito nisso, e já sabia como.
Pego meu celular e envio um
WhatsApp para ele.
* Oi Edu, bom dia, tá tudo bem
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com você? Está em casa?* Ele
responde em seguida.
* Bom dia, estou sim, fica
tranquila, gata, a Bia me explicou o
porquê da agressão, esse seu bofe é
maluco!*
* Eu sei, não sei o que te dizer,
passo aí daqui a pouco, bjs*
* Te espero, gata, bjs*
Quando termino de enviar as
mensagens, Gustavo está olhando para
mim ao invés de olhar para a estrada —
É melhor se concentrar na pista. Ele está
sério.
— Posso saber quem era? —
Curioso!
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— Claro que pode, eu estava falando
com o Edu— ele me olha, incrédulo.
— Como assim, o que você estava
falando com ele? — Ele nem imagina,
depois de hoje, ele ia pensar mil vezes
antes de agredir alguém sem perguntar
antes. Se ele age por impulso sem medir
as consequências, eu iria mostrar para
ele que não é por aí que a banda toca.
— Estava perguntando se ele está em
casa, pois vamos passar lá— ele me
olha, surpreso.
— Como assim, vamos passar lá? —
Pergunta-me sem entender.
— Vamos lá, e você vai pedir
desculpas pela sua atitude grotesca com
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ele. Ele podia da queixa de você, sabia?
— Eu não vou pedir desculpas por
ter defendido minha namorada— diz
irritado.
— Primeiro, você não me defendeu
de nada, estava só dançando com um
amigo e colega de trabalho, fazemos
isso o tempo todo lá no estúdio— ele
agora está espantado e abismado com
minha declaração.
— Como assim, você dança com ele
daquele jeito o tempo todo? —
Pergunta, sem acreditar no que estava
ouvindo.
— Antes que você comece seus pitis,
vou te esclarecer as coisas.
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— Pitis? Eu não estou dando pitis, só
estou preservando o que é meu.
— Que seja— ele balança a cabeça
o tempo todo em negativa, estava muito
bolado.
— Edu é meu amigo...
— Isso você já disse mil vezes,
Lívia, já decorei essa parte — fala com
a voz um pouco alterada, e eu olho para
ele de rabo de olho.
— Posso terminar? — Ele assente —
Edu não me vê como você está
pensando.
— Não? Então ele só pode ser... —
Ele para antes de acabar e me olha.
— Pois é, Gustavo, ele é gay,
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demorou a cair a ficha, hein.
Ele fica todo sem graça, seu rosto
está em dez tons de vermelho.
— Porra, Anjo! Como eu ia saber,
dançando daquele jeito com você? Eu
fiquei cego de raiva.
— Isso que eu te falo, você tem que
perguntar antes de sair agredindo as
pessoas deliberadamente — ele fecha
os olhos por dois segundos, acho que
agora percebeu a merda que fez.
— Eu sinto muito — ele fala e agora
vejo que está arrependido de verdade
da sua cena de violência.
— Só que é para ele que você vai
dizer isso — ele concorda e não diz
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mais nada.
— Você vai sair na saída do Méier,
pois ele mora bem próximo ao estúdio.
— Sim, Senhora— fala com a voz
mais tranquila e arrependida.
Chegamos à rua do Edu.
— É naquele prédio ali na frente —
aponto para ele, que segue até lá,
parando numa vaga próxima a portaria.
Descemos do carro, ele coloca uma
das mãos na base das minhas costas e
entramos no prédio.
— Bom dia, apartamento 403, por
favor. É a Lívia, ele está me esperando.
O porteiro anuncia e nós subimos. As
mãos do Gustavo estão suadas, acho que
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ele deve estar muito envergonhado.
O Edu abre a porta, e quando vejo
seu rosto, até que esperava que
estivesse pior; ele estava com um pouco
de inchaço na boca e um corte no
supercílio.
— Oi, entrem aí— ele está muito
surpreso, acho que não esperava que o
agressor estivesse junto comigo.
— Oi, Edu — dou um abraço nele —
Esse é o Gustavo — apresento os dois e
o Gustavo estende a mão, sem graça,
para um cumprimento.
— Sentem, querem beber alguma
coisa? — Coitado, ele não conseguia
nem ser mal-educado.
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— Não vamos demorar, Edu, é que o
Gustavo insistiu muito para eu trazê-lo
aqui — Gustavo arregala os olhos na
hora na minha direção, e o Edu fica
esperando o motivo da visita.
— Poxa, cara, eu queria me
desculpar — começa falando sem jeito
— Eu sei que peguei muito pesado com
você, eu não estava num dia muito bom
e infelizmente não pensei direito e
exagerei.
Percebo que ele está desconfortável
com a situação. Problema dele, agora
assuma as consequências de seus atos.
— Que isso, cara, todos passamos
por momentos difíceis, mas já foi, deixa
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para lá — Edu fala, estendendo a mão
para Gustavo, que a aperta em um
cumprimento.
— Amigos? Porque se você for me
bater cada vez que eu dançar com a
Lívia, vou ter que começar a andar de
armadura e capacete — Gustavo
começa a rir.
— Não vou, cara, eu sinto muito
mesmo.
— Sem grilo, nem doeu tanto assim
— começam a rir juntos e eu fico muito
mais aliviada.
— Obrigada por nos receber, Edu,
nos vemos na terça? Agora, realmente,
precisamos ir.
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— Claro, gata — ele me abraça de
novo e aperta a mão do Gustavo mais
uma vez.
Nós saímos e o Gustavo está mudo,
acho que ainda está constrangido pela
situação que passou.
— Viu como não dói se desculpar?
— Comento quando já estamos dentro
do carro. Ele balança a cabeça.
— Você não tem jeito, Anjo, por essa
eu não estava esperando — eu sorrio,
ele ainda estava sem jeito.
— Nem ele estava esperando suas
pancadas.
— Um a zero para você, Anjo.
— Eu também sei fazer estratégias,
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Capitão — falo, tentando me fazer de
séria, e ele dá uma gargalhada.
— Muito bem, parabéns.
Eu não digo mais nada, e quase dez
minutos depois que saímos da casa do
Edu, ele está entrando na garagem do
meu condomínio.
— Você vai ficar? — Ele me olha
desconfiado, já estacionando o carro.
— Sou ótimo com faxinas — fala, já
saindo do carro.
— Quero só ver — digo para ele e
entramos no elevador.
— Sério, não quero atrapalhar, se
você quiser, eu posso ir embora. É que
eu estou de serviço hoje à noite e queria
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ficar mais um pouquinho com você —
fala todo manhoso.
— Tudo bem, Capitão, pode ficar —
eu também não queria ficar longe dele.
Entramos em casa e vou direto para o
quarto, para recolher umas roupas para
colocar na máquina.
Quando chego à sala, o Gustavo já
está sentado no meu sofá vendo um
programa de esportes na TV. Sei... bom
em faxina. Não falo nada, coloco a
roupa para bater. Passo uma vassoura e
pano na casa depois jogo uma água na
varanda para tirar a poeira. Ele continua
entretido na TV.
O que os homens viam nesses
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programas? Nossa, ele nem respira.
Passo na frente dele e vou para meu
quarto, pois só faltava o banheiro agora,
deixaria para separar a roupa de amanhã
mais tarde.
Quando termino de lavar o banheiro,
tomo logo um banho, estava toda suada.
Coloco um vestidinho leve e uma
rasteirinha e vou para a sala. Ele está
entretido no telefone, mas quando sente
minha presença levanta o olhar e seu
semblante se transforma em alegria.
— Vamos almoçar, Senhor bom de
faxinas? — Ele se levanta e vem na
minha direção.
— Claro, aonde você quer ir? —
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Pergunta, com a boca em meu pescoço.
— Tem um restaurante ótimo no
shopping, vamos? — Ele me abraça.
— Claro, vamos.
Saímos e vamos ao shopping.
Chegamos ao restaurante, pedimos uma
massa, e enquanto não vem, beliscamos
umas entradas que colocaram à mesa.
Ele está me olhando e sinto que tem algo
que o está incomodando.
— Está tudo bem, Gustavo? Você
está quieto — ele me olha, ainda
pensando, e só então começa a falar.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro que pode — ele hesita.
— Existe alguma possibilidade de
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você voltar para aquele cara?

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Capítulo 19
Lívia

Pergunta-me, muito ansioso, sinto


nervosismo em sua voz. De novo esse
assunto? Achei que tivesse entendido
que eu e o Otávio não tínhamos mais
nada.
— Eu já te disse que não, Gustavo,
não estou entendendo o porquê da
pergunta — falo com um pouco de
impaciência na voz. Ele me olha e vejo
muitas dúvidas ainda em seu olhar.
— Eu sei o que você me disse, eu só
preciso ter certeza — eu não sabia
como dar essa certeza a ele.
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— Então acho que esse assunto está
encerrado. O Otávio faz parte do meu
passado — ele morde os lábios e vejo
que ainda está preocupado.
— Qual foi a merda que ele fez que
te afastou dele? — Achei que não iria
precisar mais repetir essa história, mas
ele merece saber.
— No dia que eu finalmente resolvi
me entregar para ele, o peguei transando
em seu escritório com outra mulher, foi
isso — falo bem seca, sem querer
prolongar o assunto. Não que isso me
afetasse, só acho que não era necessário
mais falar disso.
Ele está piscando sem parar, com
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uma mão sobre a boca.
— Por isso terminaram? Por que o
pegou transando com uma mulher? —
Que? Ele está achando que isso foi
pouco?
— Por que, queria que fosse com
duas? — Pergunto irônica para ele.
— Claro que não, meu Anjo, o que
eu quis dizer é que você pode estar
magoada pela traição, no entanto, ainda
amá-lo, como ele disse — ele ainda está
bolado com as coisas que o Otávio
disse. Otávio era bom mesmo, tinha
conseguido plantar a semente da dúvida
na cabeça do Gustavo.
— Eu realmente fiquei muito
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chateada com a situação, pois ele me
mostrou ser uma coisa que na verdade
não era. Mas, todo lado ruim tem um
lado bom — ele está me olhava
intrigado.
— E qual seria o lado bom dessa
história? — Ele pergunta receoso.
Olho bem dentro dos seus olhos.
— Foi que eu descobrir que, na
verdade, eu nunca o amei, estava com
ele por costume, ou por achar que eu
estava apaixonada, sei lá, só sei que eu
não o amava, disso eu tenho certeza —
ele solta o ar que estava segurando e
aperta minha mão sobre a mesa.
— Eu só posso te dizer que ele é um
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imbecil de fazer uma coisa dessas com
você, mas eu também tenho que
agradecê-lo pelo mesmo motivo.
— Está vendo, foi o que te disse!
Deus escreve certo por linhas tortas —
a comida chega e sinto-o muito mais
leve e tranquilo depois da minha
declaração.
Almoçamos e conversamos sobre
vários assuntos, incluindo a entrevista
que eu iria amanhã. Ele fica super feliz
por mim. O clima está mais leve entre a
gente, eu não me sentia tão bem assim há
muito tempo.
Terminamos nosso almoço e
voltamos para casa. Já eram quase
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quatro da tarde quando entramos no
apartamento. Ele já entra me atacando
com beijos, que tiram todo meu
raciocínio. Seguimos para o quarto e ali
fazemos amor. Dormimos em seguida,
estávamos cansados.
Acordo com um celular tocando e
vejo que vem do bolso da calça de
Gustavo, que estava no chão. O retiro da
calça, e quando olho a tela, vejo que era
Michel. Ele ainda está dormindo,
devíamos estar dormindo há duas horas.
Coloco o celular sobre a mesinha de
cabeceira e vou em direção ao banheiro.
O celular começa a tocar de novo, então
me lembro de que ele havia dito que
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estaria de plantão hoje. Por mais que
não quisesse, tenho que acordá-lo, ele
deve estar atrasado. Vou em direção à
cama e ele ainda está apagado. Passo a
mão em suas costas bem devagar...
— Gustavo — ele não se mexe —
Gustavo, acorda, acho que você está
atrasado — ele começa a despertar e dá
um sorriso preguiçoso, lindo. Eu queria
amarrá-lo nessa cama — Você não tinha
que trabalhar hoje? O Michel já ligou
três vezes.
— Caralho! — Ele dá um pulo da
cama — Que horas são? — Pergunta,
desesperado.
— São dezenove e quarenta e cinco.
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— Estou muito ferrado! — Ele corre
para o banheiro e sai em menos de dois
minutos de lá — Esqueci de colocar o
despertador, não achei que fosse pegar
no sono — ele já vestiu a calça, pego
sua blusa e lhe entrego. Ele a veste
rápido, pega seu tênis e, sem calçá-lo,
vai com ele nas mãos em direção à sala.
Vejo sua bolsa em cima da poltrona e a
pego, indo para a sala atrás dele.
— A bolsa — ele a pega e me beija
bem rápido, já abrindo a porta.
— Eu te envio uma mensagem assim
que chegar lá — me dá mais um selinho
rápido e sai para o elevador.
— Se cuida, Capitão! — Falo
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quando o elevador chega.
— Eu sempre me cuido — manda um
beijo e entra no elevador. Ainda bem
que o carro dele estava na garagem,
porque ele parecia que tinha pulado o
muro da casa da amante, todo
bagunçado e descalço.
Volto para dentro e fecho a porta. Vou
para o quarto, para separar a roupa que
eu usaria amanhã para a entrevista.
Separo uma calça social cinza escuro
que tinha um belo corte, era apertada na
parte de cima e vinha abrindo nas
pernas; escolho uma blusa social branca
bem moderna, um sapato preto com
salto médio e uma bolsa preta. E pronto,
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agora estou mais tranquila. Separo os
documentos exigidos e coloco-os em um
envelope. Deixo tudo arrumado e vou
tomar um banho. Quando termino,
coloco um baby dool e vou para a sala
pegar meu celular. Verifico se há alguma
mensagem ou ligação do Gustavo. Do
jeito que é louco, daqui a pouco aparece
aqui para perguntar por que não atendi
ao telefone.
Olho meu telefone, e nada. Uns
quarenta minutos já se passaram, acho
que já deu tempo de chegar ao batalhão,
então, por que não me ligou ainda? Vou
esperar mais uns vinte minutos antes de
ligar para ele.
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Vou para cozinha preparar um lanche.
Preparo um sanduíche de queijo branco
com pão integral e pego um copo com
suco de laranja. Resolvo assistir TV e
me distraio com um filme enquanto
lancho. Mais uma hora se passa e
nenhuma mensagem. Estou começando a
ficar preocupada, não havia ligado para
ele ainda, com medo de atrapalhar. Ele
disse que passaria mensagem, e nada até
agora, já se passaram duas horas que
saiu daqui, será que aconteceu alguma
coisa?
Ai meu Deus, já estou eu aqui
desesperada por conta de uma
mensagem que não foi enviada. Se ele
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sabia que não podia enviar, porque
disse que enviaria? Deve ter acontecido
algo, não é possível.
Pego meu telefone e começo a ligar
para ele, só preciso ter certeza que ele
está bem, só isso. Estou preocupada
porque ele saiu correndo daqui... e se
sofreu um acidente?
Não, Lívia, fica calma, que notícia
ruim chega rápido.
O celular só chama e ele não atende.
Deve ter acontecido alguma coisa.
Envio uma mensagem...
*Gustavo, me liga ou só diz se está
bem, estou preocupada, pois disse que
enviaria uma mensagem, e nada até
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agora*
Ele não responde.
Já estou muito preocupada, andando
de um lado para o outro sem saber o que
fazer. Eu sabia que essa relação não iria
dar certo, eu já estou aqui desesperada
com o fato dele não atender a uma
ligação.
Começo a fazer uma oração
silenciosa. Que ele esteja bem, meu
Deus...
Mais uma hora se passa, e nada de
notícias. Olho o relógio e já são quase
onze da noite. Tenho uma ideia e ligo
para a Bia.
— Oi amiga, qual a boa?
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— Oi, Bia, tudo bem? — Pergunto,
mas quem não estava bem era eu.
— Comigo tudo, mas você está com
uma voz estranha, o que houve? — Ela
poderia me conhecer menos um
pouquinho.
— Nada de mais, amiga, só
preocupada, é que o Gustavo saiu daqui
correndo para trabalhar, disse que me
enviaria uma mensagem, e até agora
nada! O telefone dele só chama e ele
não atende— falo angustiada.
— Lívia, você sabe que o trabalho
deles não permite ficar de papo no
telefone, eles têm que ficar ligados —
Sério isso?
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Ela vai querer me ensinar como um
policial trabalha.
— Eu sei disso, Bia, só estou
preocupada porque ele disse que me
enviaria a mensagem e nada até agora,
estou com medo de ter acontecido
alguma coisa.
— Não aconteceu nada, Lívia, fica
tranquila, ele deve ter esquecido com a
correria— Bia sempre foi tranquila, não
esquenta a cabeça com nada.
— Torço para que seja isso mesmo,
Bia, mas ele não tem que dizer que vai
enviar mensagem nenhuma se não pode
cumprir — minha voz está um pouco
alterada.
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— Calma, amiga, vá descansar, tenho
certeza que logo que ele puder ele vai
entrar em contato com você.
— E eu consigo, Bia? Eu sabia que
esse negócio não iria dar certo comigo
— desabafo com ela.
— Calma, amiga, eu vou tentar ligar
para o Michel e já te ligo.
— Obrigada, amiga — falo,
agradecida e esperançosa.
Ela desliga e eu fico aguardando seu
retorno, ansiosa. Dois minutos depois
ela me retorna.
— Oi, amiga e aí? — Já estou
mordendo os lábios de tão nervosa.
— Amiga, não consegui, o telefone
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dele só dá desligado. Deixei uma
mensagem para ele me retornar, assim
que ele me ligar eu te ligo— que
angústia.
— Está bem, amiga, pode me ligar a
qualquer hora, valeu mesmo — muita
sacanagem do Gustavo fazer isso
comigo.
— Fica preocupada não, amiga, tente
relaxar, tenho certeza de que se algo
ruim tivesse acontecido, já saberíamos.
— Vou tentar, Bia, a entrevista é
amanhã, preciso tentar dormir — tento
me convencer que conseguiria dormir.
— Está bem, amiga, te envio uma
mensagem se tiver alguma notícia, para
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não te acordar se já estiver dormindo.
Boa noite e boa sorte amanhã, quando
sair de lá me liga. Beijunda.
— Boa noite, Bia, pode deixar que
ligo, beijos.
Apago tudo e vou para meu quarto
com o celular nas mãos. Ativo o
despertador para as sete e meia da
manhã e me deito para tentar dormir.
Fico rolando de um lado a outro sem
conseguir pregar o olho. Vejo o telefone
e já são duas da madrugada.
Acordo com o barulho do meu
despertador tocando, nem sei ao certo a
que horas peguei no sono, só me lembro
de que a última vez em que verifiquei o
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celular, já passava das três da
madrugada.
Ele não podia fazer isso comigo,
falta de consideração! Deixa ele
comigo. Levanto com um mal humor
infernal.
Faço minha higiene e minha
maquiagem carregando no corretivo,
logo me arrumo para a entrevista com a
roupa que eu tinha separado. Vou tentar
esquecer o Gustavo, por enquanto.
Tomo meu café e saio de casa. Como
chego lá adiantada, às nove e meia, fico
esperando ser chamada na sala de
espera. Às dez em ponto sou chamada
pela secretária, que me leva até a porta.
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— Não precisa bater, o Sr. Gonzáles
já está lhe aguardando.
Assinto e dou um sorriso para ela,
que me responde também com um
sorriso. Já gostei dela. Quando entro na
sala, tem um homem sentado atrás de
uma mesa, entretido em seu notebook.
— Bom dia— ele levanta o rosto
para me olhar, e meu Deus! O homem
era lindo! Ele me dá um sorriso todo
caloroso e eu continuo sem saber o que
dizer. O cara parecia um desses
modelos de capa de revistas.
— Bom dia. Lívia, não é? Estou
certo? — Sua voz era calma, muito
serena.
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— Sim, Senhor — falo um pouco
envergonhada, ainda não sei o porquê,
mas estou.
— Só Marcelo, por favor, sente-se
— fala, apontando a cadeira à sua frente
com um gesto de mão. Dou um sorriso
para ele em sinal de simpatia e me
sento.
— Então, Lívia, você foi muito bem
recomendada. Já sabe mais ou menos
como pode nos ajudar?
— A Sra. Márcia me passou algumas
coisas, mas disse que o Senhor... — ele
me olha e faz uma careta — Desculpa,
que você me passaria os detalhes — ele
sorri da minha tentativa em não chamá-
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lo de senhor.
— Nós estamos querendo implantar
um programa aqui, que já existe nas
outras sedes fora do país e faz muito
sucesso, temos grandes resultados.
Acreditamos que funcionário feliz e
bem-disposto produz muito mais. Por
isso precisamos de sua ajuda. Nossa
ideia é uma aula de alongamento três
vezes por semana, com duração de
cinquenta minutos, sempre no final do
expediente para quem se interessar.
Estamos preparando uma sala para isso
e gostaria da sua opinião profissional
sobre o que colocar nesta sala. E então,
o que me diz?
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— Acho ótimo, seria maravilhoso se
todas as empresas aderissem a esse
programa de vocês. E, com relação a
sala, não acredito que precise de muitos
aparatos, já que é uma aula de
alongamento. Vou precisar apenas de
colchonetes e um aparelho para
músicas.
— Ótimo, quanto antes começarmos,
melhor. E quais dias você prefere?
Oi? Ele está me perguntando quais os
dias que eu prefiro? É isso mesmo?
Será que é pegadinha, tipo aqueles
testes psicotécnicos malucos?
— Eu estou à disposição, o que for
melhor para empresa — falo e noto que
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ele está tentando disfarçar um sorriso.
— Fico muito feliz que você esteja à
disposição — não sei se devo estar
muito nervosa e imaginando coisas, mas
acho que ele falou isso em outro
contexto, que não era o profissional.
Espero que não.
— Podemos fechar então segunda,
quarta e sexta às dezessete horas?
— Por mim, está ótimo — digo em
um tom profissional. Ele dá um sorriso
de lado que é um charme só, mas não me
enche os olhos.
— Você trouxe os documentos? —
Pergunta-me com as mãos sobre o
queixo, me olhando profundo.
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— Sim, estão aqui — coloco uma
das mãos no envelope que estava sobre
a mesa.
— Ótimo, então é só levar ao RH e
tudo resolvido. Começamos na próxima
segunda, está bom para você? — Que
pergunta! Com o salário que eu iria
receber começava agora, se ele
quisesse.
— Está ótimo! — Falo um pouco
animada demais, e ele sorri da minha
empolgação. Ele tinha um sorriso
bonito, mas não chegava a ser lindo
como o do meu Capitão.
Levanto-me e ele se levanta junto
comigo.
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— Acompanho você até a sala do
RH — fala, já vindo em minha direção.
Ele era alto também, mas acho que um
pouco mais baixo que Gustavo.
— Não é necessário, não quero
incomodar, eu me informo com a sua
secretária — ele continua se
aproximando, fingindo que não ouviu o
que acabei de dizer.
— Eu faço questão, vai que desiste,
está muito difícil arranjar um bom
profissional hoje em dia — não falo
nada, esperando mesmo que seja só
educação da parte dele. Muito estranho
sua atitude, mas não disse nada de
comprometedor, então, não tenho o que
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questionar. Vai ver que ele é educado
assim mesmo.
Saímos da sala dele e ele diz para
secretária que vai me acompanhar até o
RH. Ela faz uma cara de quem não está
entendendo nada.
O cara deve ter um cargo alto aqui,
para ter o poder de contratar uma
pessoa. Que entrevista foi aquela? Ele
nem me perguntou se eu tinha
experiência e se sabia o que estava
fazendo, nada, simplesmente me
contratou. Acredito que seja pelas
referências passadas por dona Márcia.
Vamos em direção à sala do RH, que
ficava no segundo andar. Ele caminha ao
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meu lado em silêncio, mas sinto seu
olhar sobre mim. Finjo não notar, esse
homem já estava me deixando
constrangida. Dou graças a Deus quando
chegamos ao RH.
— Está entregue! Será um prazer ter
você trabalhando em minha empresa —
estende a mão em minha direção.
Como assim? O cara era dono da
empresa. Seguro meu queixo em
pensamento para que ele não caia. Estou
abismada, essa empresa, pelo que tinha
me informado com meu amigo Google,
era uma multinacional com sede em
vários países, e o cara faz questão de
me levar até o RH? Não entendi nada
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agora. Escuto um som saindo de sua
garganta, como uma tosse forçada.
— Você não vai me deixar com a
mão estendida muito tempo, vai? Isso é
algum exercício que eu ainda não
conheço?
— Claro que não, me desculpa pela
distração — digo totalmente sem jeito,
estendendo a mão para ele.
— Então até segunda — fala,
segurando minha mão com firmeza.
— Até segunda, obrigada pela
oportunidade e por ter me acompanhado
até aqui — falo, tentando ser educada.
Ele ainda segurava minha mão.
— Foi realmente um prazer, Lívia —
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fala olhando dentro dos meus olhos e
logo depois se vira e vai embora, me
deixando sem ter o que dizer.
Entro na sala, onde a menina do RH
está me olhando toda desconfiada. Finjo
que nem noto, preencho a ficha, entrego
os documentos e vou embora.
Que loucura foi essa, o dono da
empresa, um homem que deve ser muito
ocupado, fez questão de me levar ao RH
pessoalmente? Dona Márcia, com
certeza, deveria ter muito prestígio
mesmo, ou o homem estava realmente
muito preocupado com o bem-estar de
seus funcionários. Bom, deixa para lá,
do jeito que deve ser ocupado
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administrando uma empresa com esse
porte, provavelmente seria quase
impossível encontrá-lo de novo.
Chego em casa às treze e trinta da
tarde. Tomo um banho, coloco um
vestidinho bem fresquinho de alcinhas,
estampado, bem verão, que bate no meio
das coxas.
Preparo legumes cozidos e um bife
grelhado para o almoço, o que está
ótimo. Almoço e vou ligar para a Bia.
Agora que percebo que me esqueci
de ligar o telefone. Quando ligo,
aparecem várias mensagens simultâneas
do Gustavo. Agora que você lembrou,
Capitão? Nem dormi direito por causa
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do esquecimento dele. Vai ficar na
espera, não vou retornar, ele vai ver
como é bom. Ligo para a Bia.
— E aí, amiga, consegui o emprego,
nosso sonho está mais perto de se
realizar — falo toda contente.
— Que bom! Parabéns! Temos que
sair para comemorar— tudo para a Bia
era motivo de comemorar, mas tenho
que admitir que esse era um grande
motivo sim.
— Com certeza, Bia, estou muito
feliz! Você precisa saber do salário: vou
receber mais do que ganho lá na clínica,
e será somente cinquenta minutos, três
vezes por semana, aulas de
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alongamento.
— Que máximo! Se aparecer uma
vaguinha, lembre-se da sua amiga—
muito boba, vivia dizendo que só iria
trabalhar quando abríssemos nosso
próprio negócio.
— Pode deixar! Agora preciso de um
cochilo, estou exausta, não dormi nada
essa noite por culpa de certo Capitão
irresponsável— falo, já trazendo minha
raiva de volta.
— Por falar nisso, ele está atrás de
você. Já pediu para o Michel me ligar
três vezes para saber se você tinha dado
notícias — vou fazê-lo provar do
próprio veneno.
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— Se Michel te ligar de novo, você
diz que ainda não falou comigo.
— Lívia, sabe que não sei mentir, e
isso é uma criancice da sua parte — eu
que sei o que passei ontem, ele tem que
aprender a cumprir o que fala, se eu
deixar passar a primeira, só irá piorar
depois.
— Você é amiga de quem, Bia?
Nunca te peço nada, o que custa? —
Tive que lembrá-la de que eu vivia
ajudando-a quando me pedia.
— Está bem, Lívia, mas continuo
achando isso uma bobeira da sua parte,
ele estava trabalhando— falou a
defensora dos frascos e comprimidos.
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— Bobeira ou não, eu resolvo da
minha maneira— sei que fui um pouco
rude agora, mas ela tem que saber que
eu preciso resolver isso à minha
maneira.
— Ok, poço de gentileza, resolve do
seu jeito, você quem sabe, o Capitão é
seu, você está no comando— já estou
arrependida da maneira que falei. A Bia
sabe como fazer uma chantagem
emocional, acerta meu ponto fraco
direitinho.
— Desculpa, Bia, estou um pouco
nervosa, foi mal— ela começa a rir do
outro lado. Sabia!
— Você sempre cai, Lívia, eu
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deveria ser atriz— continua rindo do
outro lado.
— Você vai ver só, Bia, um dia ainda
te pego uma peça— ela não parava de
rir.
— Está bem, amiga, beijunda.
— Não esquece o que combinamos.
Beijos.
Mal desligo e meu celular começa a
tocar. É ele. Não vou atender mesmo!
Coloco no silencioso e vou dormir. Se
ele estiver pensando que eu sou idiota,
está muito enganado.
Quando eu acordar, se ele me ligar
de novo eu atendo, porque eu não iria
mais ligar para ele.
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Acordo e já está escuro. Vejo a hora
no celular que tinha um milhão de
chamadas e mensagens do Gustavo. Já
passavam das dezoito horas. Levanto,
vou ao banheiro e, quando volto, vejo o
telefone aceso. Sento na cama e atendo.
— Alô— falo como se não soubesse
que era ele.

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Capítulo 20
Lívia

— Meu Anjo, está tudo bem? — Que


pergunta idiota, claro que não está tudo
bem.
— Tudo ótimo!
— Eu estava preocupado, você não
estava atendendo ao telefone, e a Bia
disse que não sabia de você — bom
saber que minha técnica tinha
funcionado.
— Jura?! — Falo sarcástica ao
telefone. Ele fica mudo por um tempo.
— Está tudo bem mesmo? — depois
Do que fez, ele realmente achava que
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estava tudo bem? Não que eu esteja
fazendo tempestade em copo d’água,
mas achei muita sacanagem da parte
dele.
– Sabe, Gustavo, eu me esqueci de
perguntar, onde fica seu batalhão?
— Em Laranjeiras, por quê? — Ele
me pergunta, desconfiado. É agora que
te pego.
— Por nada. O Rio de Janeiro
realmente anda um caos, esse trânsito
está cada vez pior. Você levou quase
vinte e quatro horas para chegar em
Laranjeiras, isso é um absurdo.
— Não curto ironia, Lívia — fala e
sinto raiva em seu tom de voz.
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— Sério?! — Pergunto com deboche
— Então deixa eu te falar o que eu não
curto — falo bem irritada com ele, mas
com o tom de voz bem baixo — Não
curto que me falem uma coisa e façam
outra; não curto como fiquei preocupada
achando que tinha acontecido alguma
coisa com você e não curto ter ficado
sem dormir quase a noite toda, pensando
que, se acontecesse alguma coisa, eu
provavelmente nem seria avisada ou
seria a última a saber — falo sem
alterar a voz nem um minuto.
— Desculpa, meu Anjo, não
aconteceu nada, eu esqueci o telefone no
meu carro, e foi tanta correria lá no
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batalhão que simplesmente não me
lembrei — fala com arrependimento em
sua voz.
— Tão simples né, Gustavo? Eu
realmente espero que, da próxima vez,
se houver uma próxima vez, você não
prometa o que não poderá cumprir,
porque não estou a fim de passar por
isso de novo.
— Desculpa, isso não vai se repetir,
eu te garanto — ele estava sério — Eu
gostaria muito também que você
atendesse ao telefone quando eu ligasse
para você, Lívia, e não ficasse fugindo
de mim, isso não é muito maduro —
agora ele quer virar o jogo?
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— Eu não estava fugindo de você. Eu
tenho uma vida também e não posso
ficar à sua disposição, esperando a hora
que você resolver me ligar — falo e já
me arrependo. Escuto sua respiração do
outro lado da linha.
— Eu já te pedi desculpas, Lívia,
não vou ficar no mesmo assunto o tempo
todo — fala, ainda com o tom sério.
— Ok, Gustavo, desculpado. Agora
eu preciso desligar, pois tenho que
recuperar a noite de sono perdida, já
que amanhã trabalho.
Ele fica mudo por uns segundos. Está
pensando que vai me intimidar com esse
tom de eu sou o Sr. Maduro e você está
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sendo infantil por causa de um
telefonema. A questão não é só o fato de
ele ter esquecido o telefonema ou
mensagem, que seja, e sim de como eu
fiquei desesperada por isso. O medo
que me invadiu foi real e isso me
assustou bastante. Acho que ele deveria
ter mais um pouquinho de consideração.
Depois que me abri com ele sobre meus
medos, ele faz isso, e agora está me
tratando como se não fosse nada de
mais. Pois bem, se quer levar para esse
lado, também sei jogar esse jogo de
“não foi nada de mais”.
— E como foi a entrevista?
— Não poderia ser melhor, consegui
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o emprego — falo naturalmente.
— Que bom, meu Anjo, fico feliz!
Daqui a pouco estou chegando aí para
comemorarmos — o que? Ele não ouviu
o que acabei de dizer? Esse homem só
assimila o que ele quer.
— Obrigada, Gustavo, mas hoje não
é um bom dia, deixa para outro momento
— tento ser o mais natural possível.
— Ok, meu Anjo, daqui a meia hora,
no máximo, estou chegando — como
assim? Ele não ouviu o que eu disse?
— Você entendeu que não quero
comemorar nada hoje? — Pergunto
novamente para ver se ele se manca.
— Claro, sem comemorações,
Acheron Livros e afins
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entendi.
— Então não precisa vir hoje — falo
para ele, e sei que não é isso que eu
queria de verdade.
— Claro que precisa, estou
morrendo de saudades. Já chego aí, meu
Anjo, agora vou dirigir. Pode deixar que
eu preparo o jantar — ele é maluco de
verdade!
Claro que eu também estava
morrendo de saudades, por isso não o
convenci a não vir.
Vou para meu quarto, dou um jeito na
cama, tomo um banho, coloco um short
branco bem soltinho e uma blusa verde,
vou para a sala e ligo a TV para assistir
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ao jornal local. Começo a assistir e vejo
uma reportagem sobre uma operação em
uma comunidade, e pelo que estou
vendo, o negócio foi feio, acabou com
três policias mortos.
Ai meu Deus, meu coração chegou a
ficar apertado com essa notícia. Será
que o Gustavo estava lá? Pois vi vários
carros do Bope, pelo que parece, eles
foram resgatar alguns policias militares
que estavam presos no alto da
comunidade.
Eu iria ficar maluca com isso, sei
que não iria aguentar por muito tempo.
Só de pensar que um dos mortos poderia
ser meu Capitão, meu coração fica
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apertado. Ouço a campainha e sei que é
ele. Abro a porta e me jogo nos braços
dele, que me aperta bem forte. Só de
pensar que ele poderia não estar aqui,
agora, sinto uma angústia sem igual.
— Juro que não esperava essa
recepção — dou um tapa em seu braço.
— Cala a boca e me beija — não
preciso falar duas vezes. Ele me ataca
com um beijo delicioso e cheio de
vontade, e só agora percebo como senti
sua falta. Parecia que não nos víamos há
dias, talvez tenha sido pela angústia que
passei. Ele fecha a porta e caminha
comigo em seus braços até o sofá. Sento
em cima dele e começamos a tirar
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nossas roupas com desespero e saudade.
Ele beija cada pedacinho do meu
pescoço.
— Senti tanta sua falta, fico feliz em
perceber que também sentiu o mesmo —
fala com uma das mãos em meu cabelo
enquanto a outra passeia por todo meu
corpo. Estou só de calcinha e ele de
cueca. Começo a rebolar em cima de
sua ereção, já que meu corpo parecia
reclamar sua falta. Ele geme.
— Preciso de você dentro de mim —
falo com urgência e com a voz que
quase não reconhecia como minha. Seus
dedos já estão dentro de mim e não é
suficiente, preciso senti-lo por inteiro.
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— Seu desejo é uma ordem, meu
Anjo — fala com uma voz carregada de
desejo e começa a retirar minha
calcinha. Eu me levanto um pouco e a
retiro completamente, o olhar dele não
me deixando nem um segundo. Ajoelho-
me no chão, entre suas pernas, e retiro
sua cueca, libertando seu membro.
Começo a passar a mão sobre ele com
movimentos de sobe e desce, e ele joga
a cabeça para trás, completamente
surpreso com minha atitude. Quando
abaixo minha boca sobre seu membro,
ele geme extasiado e coloca as mãos
sob meu cabelo. Eu vou com minha boca
até sua base e repito esse processo
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
vária vezes.
Gustavo interrompe o momento e me
puxa para seu colo novamente; ele já
está com um preservativo e eu coloco
nele. Ele me encaixa em seu membro
rígido e eu vou à lua.
Como isso era bom!
Nossos corpos se encaixavam
perfeitamente, então começo a subir e
descer sobre ele, nossos gemidos se
misturando no ambiente, sua boca ora na
minha boca, ora nos meus seios. Eu
estava muito excitada e sentia que meu
gozo se aproximaria a qualquer
momento. Meu corpo começa a
enrijecer...
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
— Goza comigo, meu Anjo —
bastam essas palavras para que eu me
quebre em um milhão de pedaços.
Gozamos juntos, nos olhando e ele
gritando meu nome.
Ficamos assim por um tempo,
abraçados e sem dizer nada um ao outro.
Ele acaricia minhas costas e meu rosto
está em seu pescoço, aproveito e dou
vários beijos ali em seu maxilar.
— Eu te amo, meu Anjo, você é tudo
que eu preciso.
Fala e me abraça mais forte ainda, e
eu ainda não consigo dizer nada. As
palavras estão na minha língua, mas não
saem. Sinto seu peito subir com mais
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
força e sei que ele também esperava
ouvir o mesmo, mas não diz nada.
— Gustavo? — Falo com a voz bem
baixa, com a boca ainda em seu
pescoço, quase sem força alguma.
— Humm — responde de modo
preguiçoso.
— A operação de ontem foi aquela
que passou há pouco na TV? Você
estava naquela comunidade?
— Sim, foi essa mesmo — fecho
meus olhos com força e meu coração
fica apertado. Eu levanto minha cabeça
e o encaro.
— Eu vi como foi difícil lá, quer
dizer, vi um pouco pelo que a TV
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
mostrou, na verdade, eu não faço nem
ideia de como foi difícil. Eu não sei se
vou conseguir suportar, eu fiquei
desesperada ontem por falta de contato
seu, imagina se sei que você estava
naquela situação, eu....— ele cala meus
lábios com os dedos.
— Amanhã eu tenho uma reunião
com o Comandante, meu Anjo — estou
olhando para ele, sem entender. Ele
começa a acariciar meu rosto — Vou
sair.
O quê!? Eu ouvi direito, será que é
isso que eu estou pensando?
— Como assim, sair? — Tenho que
perguntar, mas confesso que estou com
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medo de sua resposta. Minhas mãos
estão trêmulas.
— Eu vou sair do Bope, meu Anjo
— fala olhando dentro dos meus olhos.
Meu Deus, era isso mesmo. Eu
estava em choque com essa notícia. Era
tudo que eu queria, mas e ele? Como
seria para ele largar o Bope? Ele amava
o que fazia e eu não tinha o direito de
tirar isso dele.
— Como assim? Você não pode
tomar uma decisão como essa tão
precipitadamente.
— Não é precipitado, meu Anjo, eu
sempre soube que esse dia chegaria. Eu
te amo e não quero que sofra e nem
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passe por mais nada do que você
passou. Estou fazendo isso por nós, pois
um dia quero formar uma família com
você e sei que, com essa profissão, não
será nada fácil vivermos em paz. Não
quero que nossos filhos passem pelo
que você passou, tanto com a ausência
do seu pai, quanto com o trauma que
você viveu.
Lágrimas começam a descer pelo
meu rosto sem que eu perceba. Ele as
limpa com o polegar delicadamente,
uma a uma.
— Eu entrei para o Bope por paixão.
Mas encontrei um motivo maior para
sair: amor. Tive certeza disso ontem,
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durante a operação. Pela primeira vez,
na vida tive medo. Tive medo de não
voltar para você, eu nunca quis tanto
voltar para alguém. Você que é meu
amor, minha paixão, e para quem quero
dedicar todos os meus dias. Não vejo
mais motivos em continuar lá. Sofro em
ter que deixá-la, e sei como fica
angustiada por conta do que aconteceu
com seu pai.
Eu o abraço forte. Ele não sabia o
quanto estava me fazendo feliz nesse
momento com essa declaração.
— Eu nem sei o que dizer, você não
sabe o quanto está me fazendo feliz, me
dizendo todas essas coisas — ele dá um
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sorriso e agora eu não tinha dúvidas que
seríamos muito felizes, pois todos os
meus medos e angústias
desapareceriam.
— Agora, é melhor corrermos para o
banheiro, pois já já a Bia deve estar
chegando por aí com o Michel — levo
um susto com sua declaração.
— Gustavo! A Bia tem a chave, e se
ela nos pega assim? — Falo apavorada.
Levanto-me de seu colo e começo a
recolher minhas roupas e as dele. Ele
fica lá sentado, rindo da minha atitude.
— Vai ficar aí parado, pelado e
rindo? Não estou achando a menor
graça, e o que a Bia vem fazer aqui com
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o Michel? Hoje é segunda, não é dia de
visitas — falo com a voz alterada,
nervosa e confusa ao mesmo tempo.
— Eu sei, ela disse que passaria aqui
e traria pizza para comemorar seu novo
emprego — e ele fala isso assim, sem
preocupação deles nos pegarem nessa
situação. Só de imaginar já estou
morrendo de vergonha.
— Não acredito que você não me
disse nada — ele sorri e continua
sentado, e eu estou em pé na sua frente
agarrada com um monte de roupas. Ele
balança a cabeça como se estivesse se
divertindo com a cena que via.
— Eu ia, mas você já foi me
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agarrando e eu não resisti, sabe como é,
né? Eu não resisto aos seus poderes de
sedução.
— Anda, Gustavo, levanta, vamos!
— Fica calma, meu Anjo, ela disse
que só vinha lá pelas vinte e trinta. E eu
pedi para ela tocar a campainha quando
chegasse, eu precisava de um tempo
para acalmar a fera.
— Sério isso? Você agora está de
complô com minha amiga?
Ele se levanta e vem me abraçar.
— Não vai ficar brava de novo, não
é? — Nem respondo, saio da sala e vou
para meu quarto. Entro no banheiro e ele
entra logo depois de mim.
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— Anjo, poxa, vamos ficar numa
boa, nossos amigos vão chegar e não é
legal ficarmos brigados — já estou
embaixo do chuveiro e ele abre o box e
entra atrás de mim, começando a beijar
meu pescoço.
Já era, esqueci-me de tudo.
Terminamos nosso banho da melhor
maneira possível. Me enrolo em uma
toalha e pego uma para ele, que a coloca
em sua cintura e sai do quarto por um
momento, voltando com sua bolsa.
— Você vai trabalhar hoje de novo?
— Falo, já chateada com essa
possibilidade. Ele balança a cabeça,
coloca a bolsa em cima da cama e a
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abre. Tira uma cueca boxer branca, uma
bermuda de sarja preta e uma camiseta
azul, separando as peças em um canto
da cama. Eu fico feliz que não seja o
uniforme do trabalho. Dou um sorriso
para ele, no mesmo instante que ele tira
mais duas bermudas, uma calça, umas
três camisetas, duas camisas e umas
cuecas. Pega também meias e separa em
outro ponto da cama e arruma em duas
pilhas, todo organizado. Pega também
chinelo e os coloca no canto da porta.
Cruzo os braços, segurando o riso.
Não sei se era por achar engraçado ou
de felicidade mesmo.
Ele coloca todas as peças em cima
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da cama e eu ainda o estou olhando. Ele
finge que nem é com ele, agora retira
shampoo, sabonete, desodorante, escova
de dente, seu perfume que eu amava, e
leva tudo para o banheiro, enquanto fico
só observando. Ele volta e eu ainda
estou lá, de pé, só com a toalha de
banho. Não queria perder nada dessa
cena, ele era muito organizado.
— Preciso de um lugar para guardar
essas roupas, meu Anjo — fala
tranquilamente, todo concentrado na sua
tarefa.
— Claro, Capitão, fica à vontade,
quem sou eu para atrapalhar? — Viro-
me e vou em direção a uma gaveta da
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cômoda que estava com poucas peças
minhas, as retiro e coloco-as em outra
gaveta — Prontinho, se for pouco o
espaço, me avisa que doo um pouco de
minhas roupas para colocar as suas —
falo em tom de brincadeira com ele, que
começa a sorrir.
— Por hora, acho que está bom, meu
Anjo, não fica preocupada — fala no
mesmo tom de brincadeira que eu. Eu
não me seguro mais e começo a rir.
— Você é muito abusado, sabia
disso, Capitão? — Ele arqueia as
sobrancelhas.
— Se você está dizendo, eu acredito.
Escutamos o barulho da campainha,
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deve ser a Bia. Ele veste a cueca
correndo, seguido da bermuda.
— Eu vou lá abrir— fala e sai em
direção à sala, colocando a camiseta.
Coloco minha roupa, penteio meus
cabelos e vou para a sala também.
Chego à sala e Bia está arrumando a
mesa enquanto o Michel e o Gustavo
estão sentados no sofá, conversando.
Vejo uma pizza gigante em cima da
mesa. Vamos de pizza, então.
Ficamos ali em um bate-papo bem
descontraído. Estava feliz com a
mudança em minha vida, estava feliz
com a decisão do Gustavo, e estava
feliz pela Bia também estar feliz.
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Um tempo depois, eles se despendem
e vão embora. Agora era só eu e o
Capitão, que parecia estar exausto.
Imagino que estivesse mesmo, pois tinha
trabalhado a noite toda. Segundo ele e o
Michel, a operação tinha sido tensa e
ainda tinha ficado o dia todo na
empresa. Eu não tinha palavras para
agradecer a Deus por sua decisão.
— Hora de dormir, Capitão, eu não
vou conseguir te carregar, e você vai
acabar dormindo no sofá — ele está
com a cabeça para trás e me dá um
sorriso preguiçoso. Eu já me levanto e o
puxo pelas mãos.
— Dormir nesse sofá não, meu Anjo,
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eu iria acordar mais cansado do que já
estou. Já te disse que temos que comprar
outro sofá — não falo nada, só sorrio
pelo seu comentário abusado.
Ele se levanta e me abraça. Seguimos
para o quarto, deixo-o sozinho e vou
para o banheiro, onde escovo os dentes
e coloco uma camisola de cetim rosa
bebê, antes de ir me deitar. Quando ele
entra no banheiro, pego meu telefone
para colocar para despertar e percebo
que tem uma mensagem de Otávio.
* Minha linda, tá muito difícil ficar
longe de você, por favor, me perdoa, eu
já sofri muito e me arrependo a cada
minuto do dia da besteira que eu fiz.
Acheron Livros e afins
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Eu te amo e sei que você também me
ama, já teve sua vingança, agora volta
para mim.*
Ele já está ficando obcecado com o
fato de que nós ainda tínhamos volta. Eu
tinha que dizer para ele que não existia
a mínima possibilidade disso, ele não
era nem de longe o que eu queria, a
questão é muito simples de se entender.
Eu amava o Gustavo e agora eu tinha
certeza disso, era ele quem eu queria e
isso eu não tinha como mudar. Então, ele
ia ter que seguir com sua vida, eu já
tinha até perdoado sua traição, pois sei
que, no fundo, ele me fez um grande
favor, pois eu encontrei o amor de
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verdade. Eu ainda estou envolta com
meus pensamentos e olhando a
mensagem quando sinto Gustavo deitar
ao meu lado. Aperto o botão
rapidamente para tirar a mensagem da
tela, pois não queria perturbar nosso fim
de noite e nem atiçar a raiva de
Gustavo.
— Está tudo bem? Você está com a
cara estranha — fica de lado, me
olhando, e com uma das mãos apoiada
na cabeça com um rosto confuso.
— Está sim, só estava programando o
alarme — ele continua me olhando e sei
que seu faro de policial tinha percebido
que algo estava errado, mas eu não
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queria acabar com nossa noite. Amanhã,
se ele comentar algo, eu falo com ele.
Ele me olha por mais um tempo, mas
como não falo nada, ele não insiste, me
abraça, e logo pegamos no sono.
Acordo com meu celular tocando e
logo o desligo. Que preguiça! Olho para
o lado e vejo que Gustavo ainda está
dormindo. Começo a acordá-lo com
beijos por seu peitoral, pescoço e, por
fim, ataco sua boca. Ele corresponde,
me abraça e começa a tatear todo meu
corpo com as mãos. Fizemos amor de
maneira preguiçosa e deliciosa, de todo
jeito era bom.
— Bom dia, meu Anjo! Você está
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ficando insaciável, e eu estou adorando,
mas temos que nos levantar.
— Hum... Não quero — falo em seu
pescoço. Por mim, eu ficaria o dia todo
assim com ele.
— Olha a dona Julia — fala em tom
de brincadeira e logo me bate a
realidade.
— Você tinha que falar nessa mulher
logo agora? — Digo desanimada e me
espreguiço.
— Vamos, meu Anjo, o dever nos
chama — levantamos e vamos tomar
banho. Nos arrumamos e eu coloco uma
calça jeans, não queria discutir com ele
hoje, pois a notícia que ele tinha me
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dado ontem tinha me feito muito feliz.
Agora sim, eu tinha certeza que teríamos
um futuro feliz.
Ele me olha de calça jeans e dá um
sorriso, mas não comenta nada, acho
que também não queria estragar nosso
momento perfeito. Pego a calça do
trabalho e coloco na bolsa extra que
estava levando, pois hoje é dia de aula
no estúdio. Ele está com uma calça
jeans e uma camisa verde, ficava lindo
de qualquer jeito. Vou direto para a
cozinha preparar um café rápido, que
tomamos e saímos. Entramos no carro e
ele dá partida.
— Hoje não vou conseguir te buscar,
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meu Anjo, pois minha reunião com o
Comandante é às onze horas. Depois
tenho umas pendências da empresa para
resolver, e à noite tem plantão — fala
com a voz carregada de tristeza. Fico
chateada, mas sabia que agora seria por
pouco tempo.
— Tudo bem, eu vou direto para o
estúdio de qualquer maneira. Não fica
preocupado, Capitão, eu sei me cuidar,
e quem seria maluco de mexer com a
namorada do Capitão Torres? — Ele dá
um sorriso todo satisfeito e beija minha
mão que repousava em seu colo.
— Espero que ninguém tenha
coragem mesmo. Senão o bicho vai
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pegar! — Caímos na gargalhada, mas eu
sabia que ele não estava falando isso de
brincadeira.
Ele para o carro na porta do meu
trabalho.
— Nos vemos amanhã, meu Anjo —
puxa-me e me dá um beijo bem
demorado. Nenhum de nós dois queria,
mas tínhamos que parar, então dou um
último beijo e saio do carro. Ele fica me
olhando até eu entrar e vai embora.
Sigo com mais um dia de trabalho,
saio, e vou direto para o estúdio. Dou
minha aula e, quando termino, dou um
pulinho na sala do Edu.
— E aí, como vai o melhor
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dançarino do mundo? — Pergunto um
tanto animada, eu estava me sentindo
muito feliz hoje.
— Tudo ótimo, gata. E, pelo visto,
com você também está, né?
— Como você sabe? — Pergunto
com um sorriso idiota no rosto.
— Nunca te vi assim tão empolgada
e feliz.
— Isso é porque eu realmente estou
muito feliz, Edu!
— Ganhou na Mega Sena!?
— Melhor que isso, Edu, eu ganhei o
amor da minha vida! — Ele arregala os
olhos.
— Uau! Agora fiquei com inveja, sua
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bruaca!
— Fica não, sua hora também vai
chegar.
— Tomara que chegue com um
gostoso daquele igual ao seu — ele não
prestava!
— Tira o olho do meu Capitão! Vi
primeiro! — Ele começa a rir.
— Nossa, toda possessiva!
— Vim só te dar um tchau, hoje estou
cansada, já estou indo— dou um adeus
com a mão e me viro para ir embora.
— Vai lá, fazedora de inveja! —
Sorrio e continuo andando, quando ouço
meu celular tocar. Vejo a foto dele
dormindo na tela. Sim, eu tinha ficado
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com inveja da minha foto dormindo no
celular dele e tirei uma dele também.
— Oi— digo toda melosa.
— Oi, meu Anjo, já estou com muitas
saudades.
— Eu também. E aí, como foi a
reunião? — Eu sou muito curiosa e
ansiosa, não iria conseguir esperar.
— Tudo certo, eu só preciso esperar
que alguém entre em meu lugar e estou
livre— eu quase dou um grito de
alegria.
— E quanto tempo isso demora? —
Cada dia que demorasse agora seria
uma tortura.
— Não acredito que demore muito,
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no máximo uns dois meses — agora não
resisto e dou um grito de felicidade. Ele
começa a rir do outro lado.
— Eu estou muito feliz, Gustavo,
você nem imagina.
— Eu imagino sim, porque eu
também estou e o seu grito não me
deixou dúvidas.
— Que bom que você também está
feliz, eu não quero que faça isso só por
mim — falo, para ter certeza que sua
decisão não era precipitada.
— Não é, meu Anjo, fica tranquila,
eu te amo, e isso é o que mais importa
para mim, o resto vem depois — eu
queria falar agora eu também te amo,
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mas travo mais uma vez e fico muda ao
telefone. Ele percebe e diz:
— Você já está em casa? — Acho
que pergunta isso para mudar de
assunto.
— Ainda não, estou saindo agora do
estúdio— falo, me sentindo um pouco
mal com a situação.
— Então desliga, não é bom ficar de
celular na rua, muito risco de assalto —
falou em seu modo Capitão agora.
— Ok, beijos, e estou com muitas
saudades.
— Eu também, meu Anjo, mais tarde
te ligo. Beijos nessa sua boca deliciosa!
— Desligo o celular e ainda estou
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sorrindo quando saio do estúdio. Olho
para cima e não, não, mil vezes não!

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Capítulo 21
Lívia

Eu não acredito nisso, logo hoje que


meu dia estava tão perfeito!
Não é possível que o Otávio ainda
não tenha entendido que entre nós não
existe mais nada. Ele iria ouvir umas
verdades, minha paciência já se
esgotou, que mala! Ele que começou
isso tudo. Agora eu sei que nosso
relacionamento não duraria muito
tempo, pois eu estava vivendo uma
mentira, e logo eu descobriria isso; mas
ele deu uma ajudinha para isso
acontecer mais rápido, então, ele que
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saísse do meu pé e me deixasse em paz.
— Oi, minha linda, como você está?
— Fala próximo a mim. Me afasto um
pouco para trás.
— Tudo ótimo, eu não poderia estar
melhor. O que você quer, Otávio? —
Falo bem seca. Ele me olha, confuso.
Será que ele pensa que eu realmente o
amo?
— Você está estranha, está
acontecendo alguma coisa que eu não
sei? — Pergunta todo preocupado. Eu
mereço!
— Quando você vai entender que eu
não vou voltar para você, Otávio?
Acabou, para de ficar me ligando,
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passando mensagem e vindo atrás de
mim! Eu não quero e não vou voltar
para você, entende isso de uma vez por
todas — ele está bem sério, me olhando,
acho que não gostou de ouvir o que eu
disse. Que se dane, paciência tem
limite.
— Eu sei que você está mentindo só
para me magoar.
— Eu não estou mentindo, Otávio, eu
não te amo, estou namorando outra
pessoa e é ele quem eu quero, é ele que
eu amo, entende isso, por favor, e me
deixa em paz! — Falo com o tom de voz
bem alterado e ele só fica me olhando,
balançando a cabeça em negativa.
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— Impossível! Eu não vou abrir mão
de você assim tão fácil, sei que não o
ama de verdade, talvez você até esteja
encantada com a novidade, mas logo sua
ficha vai cair e vai perceber que sou eu
quem você quer, e eu vou estar te
esperando, meu amor!
— Você está obcecado com isso,
Otávio, eu já te perdoei, está tudo bem,
pode seguir com sua vida. Minha ficha
caiu no dia em que te mandei embora do
meu apartamento, Otávio. Eu nunca senti
por você nem um terço do que sinto pelo
Gustavo, eu o amo, e nada do que você
diga vai mudar esse fato, é com ele que
eu quero ficar.
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Seus olhos estão marejados e ele
balança a cabeça em afirmativa. Ufa!
Até que enfim ele entendeu.
— Eu te amo tanto, Lívia, minha vida
simplesmente não tem sentido sem você
ao meu lado. Eu sei o quanto te magoei
e sei que você está muito machucada
ainda. Eu vou te dar o tempo que você
precisa e, no final, eu sei que tudo vai
dar certo — fala com as mãos na
cabeça.
Oi? Como assim? Será que não ouviu
nada do que eu disse? Ele estava me
assustando.
— Eu realmente acho que, para seu
bem, você deveria me esquecer. Nunca
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tive tanta certeza em toda a minha vida.
Gustavo é quem eu amo e sempre vai
ser, entenda isso pelo amor de Deus! —
Ele passa as mãos pelo rosto, cabeça,
está transtornado. Juro que estava
evitando ter que dizer isso assim, mas
ele tem que me deixar em paz de uma
vez por todas; ele tinha que parar de me
procurar, tinha que me esquecer e seguir
com sua vida. O que tínhamos acabou, e
ele tinha que aceitar isso.
— Eu vou tentar, Lívia, se é isso que
você quer, eu vou tentar — o que vejo
no seu rosto me assusta, ele está com um
semblante igual daqueles psicopatas que
mudam a postura quando são acuados.
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Seu rosto agora vestiu uma máscara de
indiferença. Espero que ele realmente
tenha entendido e que eu esteja vendo
coisas de mais — Eu vim aqui também
para te dizer que o inventário saiu, você
está liberada para vender a casa
Respiro fundo para aliviar a tensão
que eu estava sentindo. Pelo menos uma
notícia boa. Parece que estava tudo
dando certo na minha vida, agora era
vender a casa e começar a ver um local
para realizar meu sonho.
— Obrigada, Otávio, de verdade —
apesar de tudo, eu não conseguia sentir
raiva dele, esperava mesmo que ele me
esquecesse e seguisse com sua vida.
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— Não por isso, eu espero que você
consiga realizar seu sonho, e se precisar
de um advogado, sabe onde me achar—
fala com sua máscara profissional.
— Pode deixar, eu agradeço e espero
que você seja feliz e encontre seu
caminho, Otávio— ele me olha bem
sério, como se não acreditasse nas
minhas palavras.
— Eu vou, Lívia, pode ter certeza
disso — vira-se e vai embora, me
deixando lá com suas palavras que
ainda estou tentando decifrá-las, pois
sei que não quis dizer o que disse. Que
loucura! Sei que o tempo cura tudo, ele
vai entender que nós dois não éramos
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para ser.
Sigo em direção ao ponto de ônibus,
um tanto assustada ainda com suas
palavras. Eu não sei o que quis dizer de
verdade, mas seja lá o que for, não faria
diferença para mim.
Chego em casa e ligo para minha
mãe, preciso dar a notícia a ela sobre o
inventário.
— Alô...— como era bom escutar sua
voz
— Oi, mãe, que saudades — falo
toda feliz só de ouvir sua voz.
— Oi, filha, como vão as coisas, está
tudo bem? — Mães e suas
preocupações.
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Conto a ela todas as novidades,
inclusive meu namoro com Gustavo e
meu novo emprego. Falo também do
inventário e ela fica feliz. Pede para que
eu ligue para a imobiliária e para que
anunciem a casa. Despeço-me dela e
digo que, assim que der, eu apareço e
levo o Gustavo para ela conhecê-lo.
Assim que desligo, meu celular
começa a tocar de novo. Era o Capitão
mais gostoso do mundo.
— Oi...
— Oi meu Anjo, e aí, como você está?
Já chegou em casa?
— Sim, tem uns dez minutos, estava
falando com minha mãe no celular.
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— Pegou trânsito? Demorou para
chegar? — E agora? Acho melhor dizer
a verdade e virar de vez essa página.
— É que... — quando eu ia dizer, me
lembro que ele iria trabalhar e não
queria deixá-lo nervoso — Depois
conversamos, Gustavo, não é nada de
mais. E você, tem novidades? — Digo,
tentando mudar de assunto. Ele fica
mudo no telefone por um segundo.
— Estou indo até sua casa, Anjo.
— Você não tem que trabalhar? —
Pergunto, estranhando sua atitude.
— Mais tarde, dá tempo ainda está
cedo, te vejo daqui a pouco. Eu te amo,
beijos— ele nem espera eu responder,
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desliga o telefone. Será que ficou
bolado porque não completei o que iria
dizer?
Ele não tem como saber o que eu iria
dizer, eu que estou muito chateada com
essa situação do Otávio, mas acho que
agora ele entendeu e não vai mais me
perturbar.
Vou para o quarto, recolho algumas
roupas do cesto do banheiro, inclusive
as dele, e vou colocá-las na máquina.
Dou uma ajeitada na sala e passo um
pano por causa da noite de ontem, com
toda aquela pizza. Quando termino, vou
tomar meu banho. Estou saindo do box
quando ouço a campainha que tocava
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sem parar. Só pode ser o Gustavo, com
esse desespero todo. Enrolo-me em uma
toalha e vou abrir a porta.
— Nossa, Anjo! Você precisa me dar
uma chave, já estou aqui na porta há um
tempão e nada — que exagero!
— Eu não escutei, estava no banho
— ele me abraça e começa a cheirar
meu pescoço. Me suspende e, quando
dou por mim, já estou em seu colo com
as pernas em volta do seu corpo. Minha
toalha agora estava quase caindo. Ele
vai comigo para o quarto e se senta na
cama comigo.
— Seu cheiro é maravilhoso, meu
Anjo — fala beijando meu pescoço e
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com as mãos em minha bunda. Estou
sentada em cima dele, de frente para
ele.
— O que você ia me dizer quando te
liguei? — Ele solta a pergunta quando
menos espero. Sério, agora? Ele está
me olhando bem sério.
— Não acredito que você veio até
aqui por causa disso! E também não
acredito que interrompeu esse momento
para fazer essa pergunta — ele continua
me encarando.
— Eu sou seu namorado, Lívia, eu
preciso saber o que se passa com você,
e se você se negar a me dizer, eu tenho o
direito de procurar saber. Sei que você
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ia me dizer algo no telefone e mudou de
assunto, não sou bobo, Lívia — não! Só
neurótico. Tento me levantar do seu
colo. Já que ele queria conversar, eu ia
colocar uma roupa. Mas ele não deixa.
— A senhora vai ficar justamente
onde está, não vai fugir de mim e nem
de responder o que te perguntei — não
acredito que ele vai fazer isso mesmo,
eu vou ter que ficar pelada falando com
ele, quando poderíamos estar fazendo
coisa melhor. Pego um travesseiro para
me esconder, já que a toalha deve ter
ficado em algum lugar da sala ou do
corredor.
— Anjo, não tem nada aí que eu já
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não tenha decorado, então não precisa
se esconder de mim, eu estou adorando
a visão — fala retirando o travesseiro
da minha mão e colocando-o ao seu
lado na cama.
— Não é nada de mais, Gustavo, eu
já resolvi — tento convencê-lo, eu não
queria falar do Otávio agora. Ele me
olha e ainda está sério.
— E eu posso saber o que não é nada
de mais, e o que você já resolveu? —
Não tem jeito, vou ter que dizer para ele
o que houve.
— É só o Otávio, que apareceu hoje
lá no estúdio quando eu estava saindo
— ele me olha abismado.
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— E você fala que é só? Que porra é
essa!? O que esse cara ainda quer com
você!?— ele está muito exaltado, ainda
bem que não falei nada por telefone.
— Ele colocou na cabeça que ainda
temos volta e...
— E o que você disse!?—
interrompe-me.
— Posso terminar? — Ele assente e
seu rosto só transmite raiva.
— Eu disse para ele parar de me
procurar, que eu estava com você e era
com você que eu queria estar. Ele, no
final, pareceu entender e foi embora.
— Eu juro por Deus, se esse cara
chegar perto de você de novo, eu vou
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encher a cara dele de porrada e ele vai
entender rapidinho.
— Não vai precisar, Gustavo, eu
deixei claro minha posição para ele,
acho que não vai mais aparecer — ele
solta o ar com força.
— Para o bem dele, espero que não
apareça mesmo — coloco as mãos em
seu pescoço.
— Agora, será que posso matar a
saudade do meu namorado estressadinho
que pensa que é um lutador de MMA?
— Ele sorri e me joga de costas na
cama.
— Eu não estou te impedindo, meu
Anjo— fala, já aprofundando o beijo.
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Retira sua arma do cós da calça, estica
a mão e a coloca sobre a mesa de
cabeceira.
Eu retiro sua blusa, ele pega um
preservativo na gaveta da mesa e
começamos a fazer amor totalmente
livres de dúvidas. Era só eu e ele.
Uma hora depois, ele me diz que
precisa ir e eu começo a ficar
angustiada só de saber que ele iria
arriscar sua vida mais uma vez. Ele
percebe minha mudança.
— Falta pouco, meu Anjo, e eu sei
me cuidar, não fica assim, vai dar tudo
certo, eu te prometo — sorrio para ele,
tentando acreditar no que estava me
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dizendo. Ele se levanta e vai para o
banheiro e eu continuo deitada. Ele sai
de banho tomado e começa a se vestir;
termina, pega sua pistola e se despede
com um beijo.

****
A semana voa e finalmente chega
segunda-feira. Hoje eu começaria na
empresa nova e voltaria para a
faculdade também, mas como eu só tinha
uma matéria pendente, mais o TCC, eu
só iria para a faculdade duas vezes por
semana, esse ano seria mais tranquilo
para mim.
Vou para o trabalho. Depois do
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expediente, eu iria ficar um pouco na
casa do Gustavo, para não chegar muito
cedo à empresa. Aceitei a sugestão dele,
já que se eu fosse para casa, o horário
ficaria muito apertado. Ele não estaria
lá, mas havia me dado uma cópia da sua
chave.
Chego ao seu apartamento e está
muito vazio sem ele aqui, era muito
estranho ficar aqui sem ele, seu cheiro
está em todos os lugares.
Tomo um banho e fico por lá mais
uma hora, depois, começo a me arrumar
para o trabalho novo. Coloco uma calça
jeans e uma blusa branca que eu tinha
levado na bolsa. Estou arrumando a
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bolsa com uma calça legging preta, um
top e uma camiseta bem soltinha, junto
com meu tênis. Ajeito tudo na bolsa.
— E aí, está pronta?
— Ahhhhh! Que susto, Gustavo! Quer
me matar do coração? — Falo com a
mão sobre o peito e ele fica rindo de
mim.
— Desculpa, eu pensei que tinha
escutado o barulho da porta — fala,
ainda sorrindo.
— Você não está em nenhuma
operação, portanto, não precisa chegar
de surpresa — ele me abraça e eu dou
um tapa em seu braço.
— Ai, anjo! Você está ficando com a
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mão muito pesada — reclama, até
parece.
— Você não tinha que estar na
empresa? — Ele pisca para mim e se
aproxima mais, me dando um abraço.
— Michel chegou, e aí eu consegui
sair. Vou te levar e fico te esperando.
— Não tem necessidade disso,
Gustavo, depois eu ainda vou para a
faculdade, tenho que resolver algumas
coisas lá e não sei a hora que vou sair.
— Sem problemas, hoje e amanhã
estou ao seu dispor para me usar e
abusar como você quiser. Aproveita,
Anjo! Além disso, eu estou com
saudades, não nos vemos desde sábado
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de manhã — mas é muito dramático.
— Pois é, você deve estar cansado,
fica descansando, não precisa ficar de
motorista particular — tento convencê-
lo.
— Claro que preciso, tenho que
cuidar do que é meu— fala beijando
meu pescoço. Pronto, já me convenceu.
Eu estava cada vez mais assustada com
meus sentimentos pelo Gustavo.
— Ok, Capitão, me convenceu. Então
vamos, não posso me atrasar no meu
primeiro dia— falo toda animada.
— Sim senhora, seu desejo é uma
ordem— pega a bolsa que eu tinha
separado e saímos.
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Quando chegamos à empresa, me
identifico e ele entra com o carro no
estacionamento para funcionários, que
era enorme, e estaciona em uma vaga.
— Espera aqui, Gustavo, a sala que
vou dar aula fica naquele prédio ali —
aponto com o dedo – Em no máximo
uma hora eu estou saindo— ele assente
e me beija, pego a bolsa no banco de
trás e saio do carro.
Chego ao prédio, me apresento na
entrada e vou para o banheiro me trocar.
Saio e avisto a sala que o rapaz da
portaria falou onde seria a aula e,
quando entro, acho que meu rosto agora
estava da cor de um tomate. A sala só
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tinha homens, e todos estavam de braços
cruzados me olhando como se eu fosse
alguma refeição e eles não comessem há
uma semana. Respiro fundo e tento me
concentrar no que eu vim fazer.
— Boa tarde, só um minuto, eu já
volto— viro-me em direção à porta e
escuto algumas piadas e assobios.
— Volta mesmo, gracinha, estamos
ansiosos te esperando — que merda é
essa? Que falta de respeito! Saio da sala
sem dizer nada e vou até a entrada do
prédio onde ficava o rapaz que, por
sinal, foi muito educado comigo.
— Oi — ele se vira para me olhar —
Desculpa te incomodar, é que estou com
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uma dúvida.
— Sim, se eu puder ajudá-la.
— Nenhuma mulher quis participar
da minha aula? — Ele me olha confuso.
— Bom, só temos duas mulheres na
empresa: a secretária do dono e a moça
do RH, claro, com você são três — ele
dá um sorriso para mim. Meu Deus,
como iria ser isso? Os caras eram
totalmente sem noção e não tinham um
pingo de respeito e profissionalismo,
pareciam um bando de vândalos sem
controle.
— Eu sabia que essa ideia do senhor
Gonzáles não iria dar certo — saio dos
meus pensamentos com a voz do rapaz
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que eu ainda nem sabia o nome — Os
caras são uns broncos, a maioria só está
lá para fugir mais cedo do trabalho e,
claro, agora que te viram, por sua causa,
lógico — estou sem saber o que fazer,
dou um sorriso sem graça para ele.
— É, eu vou ter que tentar ver no que
isso vai dar — ele sorri e balança a
cabeça para mim, deve estar achando
que eu era louca de voltar.
— Corajosa você! — Sorrio mais de
nervoso do que de outra coisa e me
afasto.
Quando chego à porta, respiro fundo e
entro.
— Boa tarde, senhores, meu nome é
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Lívia e sou a professora de
alongamento. Vamos começar? Por
favor, todos peguem um colchonete —
eles ficam me olhando sem dizer nada,
nem eu acreditei no tom sério e altivo
em minha voz. Eles se encaminham para
a pilha de colchonetes, cada um pega um
e eu ligo o aparelho de som, colocando
uma música bem tranquila, própria para
aula de alongamento e relaxamento.
— Vamos começar com os braços
acima da cabeça, esticando lá em cima e
contando até dez — estou bem séria e
centrada. Olho no relógio de parede, e
hoje, por conta da gracinha deles, só
teríamos trinta minutos de aula. Quinze
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minutos já se passaram e, quando penso
que estou no controle, as piadas
recomeçam.
— Oh, lá em casa! — Olho de cara
feia, mas não funciona, começam os
assobios de alguns. Vai ficar difícil!
Bem na hora que eu iria parar a aula,
para esclarecimentos de como eles
deveriam se comportar, a porta se abre.
— Mudança de professor! Eu vou dar
uma aula para vocês, agora! — Não
acredito no que estou vendo, quer dizer,
quem estou vendo. Era o Gustavo, todo
dono de si com os braços cruzados.
— Sai daí, deixa a professora
gostosa, que está bem melhor! — Escuto
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vaias ao mesmo tempo que o Gustavo
puxa meu braço e me tira de dentro da
sala. Quando chegamos ao corredor, eu
disparo contra ele.
— Você está maluco, Gustavo? Como
você faz uma coisa dessas? Eu estava no
meio de uma aula! — Ele me olha sério
— Cadê sua bolsa?
— Está lá na sala — ele se vira e
volta à sala, sai em menos de um minuto
com minha bolsa nas mãos, pega minha
mão e vai me arrastando pelo corredor.
— Tem mais alguma coisa sua nesse
lugar? — Faço que não com a cabeça.
— Ótimo! Pois é a última vez que
coloca os pés aqui! — Quem ele pensa
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que é para decidir as coisas por mim?
Tudo bem que do jeito que estava indo,
a aula eu não iria voltar mesmo, mas
não vou admitir que ele decida isso por
mim.
— Quem você pensa que é para agir
dessa forma comigo, Gustavo? Quem
decide isso sou eu — ele continua me
puxando até chegar ao carro. Quando
chegamos, ele para e me encara com os
braços cruzados.
— Você não precisa dessa porra,
Lívia! — Fala abrindo a porta do carro
e me colocando lá dentro. Entra em
seguida e arranca com o carro todo
nervoso — eu não vou admitir que você
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volte aqui. Aqueles imbecis estavam
quase te agarrando, e que merda iria dar
se eles resolvessem fazer isso?
— Claro que isso não iria acontecer,
Gustavo, estávamos dentro de uma
empresa, você viaja! — Ele está com
cara de que não estava acreditando no
que eu tinha dito.
— Eu que viajo!? E se eu não
estivesse vindo com você? Sabe-se lá
se eles não te seguiriam, eu não quero
nem pensar nisso, Lívia, o mundo não é
cor de rosa como você pensa— eu o
encaro muito puta da vida, ele está
extrapolando todos os limites. Falar que
logo eu penso que o mundo é cor de
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rosa. Encaro-o com um olhar fulminante.
— Para o carro, Gustavo! — Falo
exaltada e ele me olha como se não
tivesse entendendo o que eu disse —
Está surdo!? — ele nega com a cabeça.
— Não existe a menor possibilidade
de eu te deixar no meio do caminho,
quer ficar de bico, pode ficar, eu sei que
fiz o correto em te tirar daquele lugar —
falou o senhor sabe tudo.
Eu não falo mais nada com ele e nem
olho em sua direção. Estava muito puta
da vida. Acho que estava mais chateada
pelo fato de ter perdido o emprego, eu
não teria como trabalhar naquelas
condições, e sei que o Gustavo agiu por
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instinto para me defender, pois acho que
até eu no seu lugar faria a mesma coisa,
mas não vou dar esse gostinho para ele.
— Você vai direto para a faculdade?
— Pergunta-me com a voz num tom bem
sereno e baixo.
— Vou para casa — digo, seca. Eu só
iria resolver quais dias eu iria ter que
aparecer lá. Faria isso amanhã, hoje o
dia foi cheio e estou muito chateada, só
quero chegar em casa.
Ele não fala nada, mais um tempo, e
ele já está bem próximo do meu prédio.
— Vou poder subir com você ou vai me
deixar de castigo?

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Capítulo 22
Lívia

Continuo calada e olhando pela


janela.
Ele não pergunta mais nada,
simplesmente entra no prédio e para o
carro em minha garagem. Desço assim
que ele para, pego minha bolsa no banco
de trás e vou em direção ao elevador.
Ele trava o carro e vem atrás de mim,
para ao meu lado e pega a bolsa da
minha mão. Continuo em silêncio. Eu
nem estava com tanta raiva da atitude
dele, eu estava mais chateada com o fato
do emprego não ser aquilo que pensei.
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Poxa, eu criei várias expectativas, e
agora eu estava decepcionada, e esse
era meu modo de agir sempre que essas
coisas aconteciam; eu ficava em
silêncio, eu queria ficar na minha até a
poeira baixar.
— Vai me ignorar até quando? —
fala, me tirando dos meus pensamentos.
O elevador chega e entramos. Ele
também é muito impulsivo, precisa
aprender que eu não sou criança e
preciso tomar minhas próprias decisões
e resolver minhas coisas do meu jeito,
pois se ele não aprendesse a me dar meu
espaço, mesmo que eu o amasse, nossa
relação não teria futuro, pois ninguém
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tem que ficar à mercê do outro. A vida a
dois é feita de trocas, e ele teria que
aprender a respeitar meu espaço e
minhas decisões. Eu iria resolver o
problema de hoje do meu jeito, não
precisava ele ter sido tão visceral
daquela forma. Ele precisa aprender que
não exerce a função de Capitão comigo,
e por qualquer lugar onde anda.
Ele está me olhando e eu ainda não
respondi nada. Abro a porta do
apartamento e caminho para o quarto.
Entro no banheiro e tranco a porta.
Sento-me no chão e fico pensando em
um ditado que minha avó vivia me
dizendo: quando a esmola é demais, o
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santo desconfia. Como pode uma
empresa tão renomada ter funcionários
tão primatas e sem um pingo de
profissionalismo? Com certeza, iria
voltar lá e iria participar o ocorrido à
direção da empresa, esse
comportamento é inadmissível em
qualquer lugar, principalmente em uma
empresa como aquela, total falta de
respeito.
E com o Gustavo eu iria conversar,
ele não pode continuar agindo dessa
forma. Sei que nosso relacionamento
ainda é muito novo e não definimos
todos os limites, por isso eu iria
conversar com ele e dizer que eu não
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iria permitir esse tipo de intromissão,
principalmente profissionalmente. Ele
tem que aprender onde começam os
meus direitos e terminam os dele.
Tiro minha roupa e tomo um banho.
Agora eu estava mais calma e com a
cabeça mais tranquila. Enrolo-me na
toalha e saio do banheiro uma hora
depois. Ele não está no quarto. Coloco
um baby doll, deito na cama e ligo a TV.
Começo a assistir um episódio do
seriado que eu amava. O episódio já
está quase no fim quando o escuto entrar
no quarto. Continuo com minha atenção
no episódio sem olhá-lo. Ele se senta ao
meu lado na cama.
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— Você pretende ficar quanto tempo
sem falar comigo? — Fala com as mãos
em meu cabelo, fazendo um carinho tão
bom! Olho em sua direção, e ele está me
olhando.
— Eu estou muito chateada com sua
atitude, Gustavo, não é dessa maneira
que as coisas funcionam. Eu já te disse
isso, eu preciso ter o controle da minha
vida e não vou aceitar esse tipo de
atitude da sua parte — falo com o tom
de voz bem baixo. Estamos nos olhando
e ele não diz nada, apenas escuta — Eu
preciso lutar minhas próprias batalhas,
Gustavo, não é você agindo dessa forma
que as coisas vão se resolver. Já sou
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bem grandinha, e por mais que não
pareça, eu sei me cuidar. Ficar me
seguindo e agindo da maneira como
agiu, me arrancando daquela sala, não é
assim que se resolvem as coisas. Você
precisa ter mais limites e saber
respeitar minha opinião, caso contrário,
vai ficar cada vez mais difícil nos
entender e levar isso para frente.
— Primeiro de tudo, meu Anjo, eu
não estava te seguindo, eu fui te levar
naquele maldito lugar — reviro meus
olhos com suas palavras — Eu fui até o
prédio ver se tinha um banheiro, e
quando saio do que o porteiro me
indicou para voltar para o carro, passo
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pela sala que você estava dando aula e
escuto vários assobios.
Juro que ainda fiquei um tempo
ouvindo atrás da porta, tentando me
controlar, mas quando escutei alguém te
chamando de gostosa, meu sangue
esquentou. Eu não vou ficar escutando
alguém te chamando de gostosa e ficar
quieto, queira você ou não. E se eu sou
seu namorado, tenho o dever e a
obrigação de te proteger e cuidar de
você; se eu puder evitar que qualquer
coisa ou alguém te faça mal, eu vou
fazer isso.
As pessoas vivem dizendo que é
errando que se aprende, não é tão por aí
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assim. Se eu puder evitar que você
passe, eu vou fazer, porque eu te amo e
não quero te ver sofrer de forma alguma
— respiro fundo. Como eu iria dobrar
esse homem e tentar domar esse impulso
louco que ele tinha?
— Você precisa aprender a colocar
mais o pé no freio, Gustavo, todo esse
impulso e agressividade não vão
funcionar comigo — espero realmente
que ele se ajeite, pois me conheço e sei
que tem coisas que não tolero, por mais
que eu esteja apaixonada. Certos tipos
de coisas não funcionam comigo, e ele
precisa entender isso. Ele já está
deitado ao meu lado e eu estou fazendo
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seu braço de travesseiro, nem sei como
chegamos nessa posição, ele estava sem
camisa e só de cueca. Pelo cheiro do
sabonete diferente, ele tinha tomado
banho no outro banheiro.
— Eu juro que vou tentar, meu Anjo
— fala beijando minha cabeça. Eu
coloco minha cabeça em seu peito e dou
o play para voltar a assistir o seriado.
— E eu espero que você consiga,
pelo nosso bem, Capitão — ele não fala
nada e me dá mais um beijo na cabeça.
— Jura que você gosta de assistir
isso? — Dou um sorriso. Ele não tem
jeito mesmo, já estava se metendo no
que eu estava vendo.
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— Eu amo, e não fala mal do meu
seriado — o clima já está mais leve e
eu estava bem mais confortável em seus
braços.
— Nossa, Anjo, que coisa horrível
esses zumbis! — Não acredito que o
machão está com medo de uns zumbis.
— Já disse para não falar mal e não
acredito que logo você, “o Caveira”,
está com medo de uns zumbis — ele
coloca o nariz no meu cabelo.
— Claro que não estou com medo, só
achei que você assistisse outro tipo de
seriado. Isso é muito bizarro— eu
começo a rir em seu peito e a paz volta
a reinar.
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****
Um mês depois...

As coisas estavam indo bem, graças a


Deus. Tudo estava calmo e eu estava
cada dia mais feliz e ansiosa para
chegar logo o dia em que o Gustavo
sairia de vez do Bope. Cada vez que ele
saía para uma operação, meu coração
ficava apertado. Agora sei que estava
mais perto do que longe, nosso
relacionamento estava cada dia mais
firme, e ele vivia fazendo de tudo para
me agradar. Dormíamos juntos todas as
noites que ele não estava de plantão.
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Não conseguíamos ficar longe um do
outro. Quando ele conseguia sair cedo
da operação, vinha direto para cá, ou
nos dias que eu não tinha estúdio ou
faculdade eu ia para a casa dele. Ambos
tínhamos a chave da casa um do outro.
A casa que eu morava com os meus
pais já tinha sido colocada à venda e eu
e Bia já estávamos fazendo vários
planos, até estávamos vendo alguns
possíveis lugares para montar nossa
academia. Sei que é precipitado ver
algo sem ter o dinheiro, mas o corretor
da imobiliária disse que várias pessoas
estavam interessadas na casa e que era
questão de tempo vendê-la, pois a
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localização era excelente.
Era quinta-feira e eu estava saindo do
estúdio e indo para casa, eu tinha
acertado tudo na faculdade e, na
verdade, eu só precisava mesmo ir lá
uma vez por semana e estava fazendo a
orientação online mesmo. Meu telefone
toca.
— Oi, Bia — atendo, já entrando na
van.
— Oi amiga, achei um espaço
maravilhoso! A localização é ótima,
você precisa passar aqui para ver — ela
não perde essa mania de falar tudo ao
mesmo tempo.
— Eu ainda não cheguei em casa, onde
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você está?
— Eu estou aqui no local, o moço
está me mostrando. Desce aqui, amiga, é
naquela rua da lanchonete que gostamos,
número 45. Eu te espero aqui— mas é
muito afobada! — Ok, sim Senhora,
daqui a uns dez minutos estou aí. Beijos.
— Estou te esperando, não demora,
beijunda — maluca!
Desço no ponto da rua que ela me
informou por telefone, e quando estou
me aproximando do número que ela
falou, já a vejo no portão.
— Ela chegou! — Bia fala toda
empolgada. Nós já tínhamos visto
vários lugares e nenhum tinha nos
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agradado.
— Oi, boa tarde — falo apertando a
mão do senhor que estava com ela.
Entramos no local, e quando entro, já
imagino tudo direitinho. Tinha o espaço
perfeito para a academia e para o
estúdio. Eu tinha amado, Bia estava
certa, era perfeito! Tanto a localização
quanto o espaço. Eu agora não sabia o
que dizer e fazer, pois ainda não tinha
vendido a casa, então como pagaríamos
pelo espaço? A Bia tinha um terço do
valor guardado, eu tinha umas
economias, mas ainda iria faltar uns
sessenta por cento, fora toda a reforma,
mas se garantíssemos o espaço, pelo
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menos, podíamos esperar a venda ser
feita para começar a reforma.
Explicamos nossa situação para o
Senhor que era o dono e ele nos garantiu
que se aparecesse outra pessoa
querendo fechar, nos informaria, e se já
tivéssemos resolvido tudo, nos daria
preferência na venda, pois disse que
achava muito legal duas jovens
batalhando para ter seu próprio negócio.
Disse que ele também começou assim e
conquistou tudo que tem com muito
sacrifício.
Ficamos ali uma hora batendo papo
com ele, que parecia ser muito carente
de atenção. Passamos nossos números
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de telefone, cheias de esperanças que
tudo fosse dar certo.
— É perfeito, Bia! — Falo com muita
esperança.
— E eu não sei, por isso insisti para
você vir.
— É, amiga, agora é rezar para que
tudo dê certo — falo com ela enquanto
subimos a rua.
— Vai dar, amiga, eu tenho certeza —
Bia sempre foi muito positiva em
relação a tudo, amava isso nela.
— O seu Capitão trabalha hoje?
— Bom, disse que não. Por quê?
— Michel também não. Nós
podíamos ir naquele barzinho novo que
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abriu aqui perto, tem pista de dança e
tudo, o que acha?
— Eu acho uma ótima ideia, só
preciso ver com o Gustavo e te falo
daqui a pouco— ela fica empolgada,
adorava uma farra.
— Então aguardo você, me liga para
eu falar com o Michel.
Estamos em frente a sua rua, ela
atravessa e me dá tchau. Eu continuo
mais uns cinco minutos até meu prédio.
Já eram quase sete da noite, a hora
passou rápido. Entro em casa e vou
direto tomar banho, e quando já estou no
banho, escuto o Gustavo.
— Anjo, cheguei! — Ele entra no
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banheiro e já estava só de cueca, retira-
a e entra no boxe comigo.
— Chegou na hora certa, Capitão! —
Ele me dá um beijo e eu entrego a
esponja para ele esfregar minhas costas.
— Quer dizer que só sirvo para isso?
— Pergunta-me, se fingindo de zangado,
e eu sorrio.
— Claro que não! Serve para outras
coisas também, tipo, fazer o jantar,
trocar a lâmpada, me esquentar no frio...
— ele me vira e me cala com um beijo.
— Você é muito cara de pau,
senhorita — fala sorrindo totalmente
colado a mim –Vou te mostrar que outra
utilidade eu tenho.
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— Essa é a melhor de todas! — Ele
me suspende e eu já estou com as pernas
em volta dele e com ele me beijando
loucamente. Ele me coloca no chão um
pouco, sai do boxe e pega um
preservativo e já estamos na mesma
posição de novo. Fizemos amor em total
entrega, como era todas as vezes que
estávamos juntos.
Saímos do banho e nos enrolamos nas
toalhas.
— Capitão?
— Hum... — ele estava mexendo na
gaveta que lhe dei, para e me olha.
— A Bia perguntou se não
gostaríamos de ir a um barzinho aqui
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perto, com ela e o Michel — ele arqueia
as sobrancelhas.
— Você quer ir?
— Eu gostaria, se você não estiver
muito cansado — ele sorri para mim.
— Para você eu nunca estou cansado,
Anjo — eu sorrio e o abraço.
— Eu vou ligar para ela, então, para
avisar que vamos.
Saímos de casa uns quarenta minutos
depois. Chegamos ao bar e estava bem
movimentado. Pegamos uma mesa bem
próxima à pista de dança e nos
sentamos. Eu e Bia pedimos dois
chopes, eles pedem refrigerantes e
petiscos. O povo não deve entender
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nada.
As músicas eram bem variadas e a
banda que estava tocando era muito boa.
Começamos a bater um papo bem
animado, até que a linguaruda da Bia
começa a falar o que não deve.
— Vocês não vão acreditar em
meninos! — Eles se olham e nos olham
tentando entender o comentário.
— Nós conseguimos o espaço hoje, é
maravilhoso, perfeito para nosso
negócio— ela fala toda animada e eles
sorriem satisfeitos. Logo em seguida,
Gustavo me encara com aquele olhar
quando iria me contar?
— Não conseguimos nada ainda, Bia,
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nós só vimos o local hoje quando
cheguei do estúdio, e não temos como
fechar nada, você sabe disso — falo
para ver se ela muda de assunto, aqui
não era hora de falar disso e não tinha
nada certo ainda.
— Mas vamos, Lívia, o Sr. Cristovão
disse que esperava, você é muito
pessimista! — Reviro os olhos e faço
uma careta para ela.
— Pé no chão, é diferente, Bia —
Michel e Gustavo estão assistindo nossa
“discussão”.
— E vocês gostaram do local? —
Gustavo pergunta.
— Amamos! — Respondemos juntas.
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— E? — Ele pergunta.
— É que ainda não vendemos a casa
e não tenho uma previsão de quando
isso vai acontecer. O corretor disse que
não demora, mas não é nada certo.
— E de quanto vocês precisam? —
Ele pergunta com as mãos sob o queixo.
— É muito! Mais de 100 mil.
— Temos quarenta por cento do
dinheiro e faltam ainda 110 mil para a
compra do imóvel — Bia responde na
minha frente. Gustavo olha para Michel
e ele assente.
— Podemos emprestar a grana para
vocês, se é esse imóvel mesmo que
querem. Não seria legal perder o
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negócio — Bia me olha e sei que ela
está sem graça e arrependida do que
disse.
— Não precisa, Gustavo, nós
podemos esperar, obrigada— falo e a
Bia não sabe onde enfiar a cara.
— Nós podemos emprestar sem
problemas, meu amor — Michel fala
para a Bia.
— Nem pensar, esquece o que eu
disse.
— Lívia, temos dinheiro parado na
conta. Quando você vender a casa, nos
devolve, simples assim, e vocês não
perdem o negócio — Gustavo fala como
se estivesse me emprestando dez reais.
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— Vou conversar com a Bia e, se
precisar, eu te falo. Agora vamos dançar
— puxo-o para a pista de dança para
fugir do assunto.
— Anjo, eu não sei dançar, é sério —
fala enquanto eu o arrasto para a pista
de dança.
— Claro que sabe, é só se deixar
levar pelo ritmo, eu te ajudo —
chegamos à pista de dança. Está tocando
um pagode e eu começo a dançar colada
a ele. Ele era todo duro, não sabia nem
os passos básicos, dois pra lá e dois pra
cá.
— Aiiiii...— reclamo quando ele
pisa no meu pé pela segunda vez.
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— Desculpa, Anjo, eu te disse que
não sabia — fala todo sem graça e eu
desisto de dançar e o puxo de volta à
mesa.
— Você vai ter que entrar na aula do
Edu, urgente! — Ele me olha e faz uma
careta, como quem diz nem pensar.
— Eu não posso ter um namorado
que não saiba dançar, você vai sim —
digo como se já estivesse resolvido.
Ficamos mais uma hora e vamos
embora, pois tínhamos que trabalhar no
outro dia. Chegamos em casa, tomamos
banho e deitamos como sempre, bem
agarrados um ao outro...
Já estava super mal-acostumada com
Acheron Livros e afins
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esse modo de dormir, quando ele não
estava, eu dormia muito mal. Esse
Capitão já tinha me viciado. Ele me dá
um beijo no pescoço e logo apagamos.

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Capítulo 23
Lívia

Uma semana depois


Estou saindo do trabalho quando meu
celular começa a tocar. Olho e vejo que
é o número do corretor.
— Alô.
— Oi, aqui é Paulo, o corretor da
imobiliária.
— Sim, pode falar— tomara que seja
notícia boa.
— Estou ligando para falar que
fechamos negócio na casa — nem
acredito, que coisa boa!
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Ele me passa todos os detalhes e diz
que, no máximo em quinze dias, tudo vai
estar resolvido e o dinheiro vai estar na
minha conta. Agradeço e desligo. Ligo
para minha mãe e conto a novidade. Ela
fica muito feliz e fala para eu avisá-la
quando ela precisará vir para assinar os
documentos. Nossa, estou muito feliz,
ontem mesmo o Gustavo insistiu muito
para que eu aceitasse o dinheiro
emprestado e eu disse que esperaria
mais um pouco ou, pelo menos, até que
o Sr. Cristovão me ligasse. E hoje o
corretor liga e diz que a casa foi
vendida. Estou muito feliz, pois sei que
meu sonho e o da Bia se tornaria
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realidade. Tenho que ligar para ela.
— Bia.
— Oi, amiga, tudo bem? — Agora
vai ser uma oportunidade boa de pregar
uma peça nela.
— Mais ou menos, você pode ir lá
em casa daqui a meia hora? — Ela fica
séria no telefone.
— Amiga, o que houve, aconteceu
alguma coisa? — Fala toda preocupada.
— Aconteceu, mas só vou te falar
pessoalmente — seguro ao máximo a
vontade de sorrir, ela estava tensa do
outro lado.
— Lívia, estou preocupada, é alguma
coisa séria? — Sinto pelo seu tom de
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voz que está nervosa e agoniada.
— Muito sério, mas não posso falar
agora, beijos— desligo o telefone.
Nossa, ela deve estar muito curiosa e
intrigada, mas vou dar só uma
sacaneada nela, ela já me fez várias.
Entro na van e ligo para o Gustavo,
que atende no terceiro toque.
— Oi, meu Anjo, tudo bem? — Ele
atende preocupado, pois quase nunca o
ligava a essa hora, com medo de
atrapalhar seu trabalho.
— Mais do que bem! Tenho uma
novidade ótima.
— Que novidade? — Pergunta com
medo. Eu, hein, o que será que ele está
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pensando?
— A casa foi vendida! — Escuto uma
respiração forte do outro lado, será que
está tudo bem com ele?
— Então é isso? — Fala com a voz
desanimada. O que ele achava que
fosse?
— O que estava achando? —
Pergunto, curiosa com sua reação.
— Nada, meu Anjo, que novidade
boa! Parabéns! — Ele fala, tentando
mostrar entusiasmo, mas não consegue.
— Não liguei em boa hora, né? À
noite conversamos melhor.
— Não é isso, você pode me ligar a
hora que quiser — ele estava esquisito,
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mas depois falo com calma com ele.
— Ok, Capitão, agora vou desligar,
pois já vou descer no meu ponto e você
também precisa trabalhar. Até mais
tarde, beijos.
— Beijos— é só o que me fala e
desliga.
Chego em casa correndo, pego um
espumante e coloco no congelador. Peço
para o Sr. João me avisar quando a Bia
chegar.
Quando ela chega, já estou de banho
tomado.
— Lívia! — Ela já entra me
chamando.
Eu saio da cozinha estourando o
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espumante, fazendo-a levar um susto.
— Está maluca!?— eu mostro a
garrafa para ela, que está fazendo uma
careta de quem não está entendendo
nada.
— A casa foi vendida, Bia! Nosso
sonho agora é real! — Ela me abraça e
ficamos pulando feito duas loucas,
estamos numa felicidade só.
O Gustavo chega e eu e Bia ainda
estávamos fazendo planos de como seria
a academia. Qual seria nosso foco, que
materiais usaríamos, esses tipos de
coisas. Não conseguíamos parar de
sorrir, acho que por felicidade e culpa
também do espumante, a garrafa já
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estava vazia. Ele vem em minha direção
e eu pulo em seu pescoço toda alegre.
Ele me beija e me dá os parabéns de
novo. Bia vai embora e eu o pergunto
por que ele estava chateado ao telefone.
— Nada, Anjo, eu pensei que fosse
outro tipo de novidade, tipo, grávida —
ele é louco ou o quê? Não tinha como
isso acontecer agora, sempre nos
precavíamos. E eu nem pensava na
possibilidade de ter um filho agora.
Nem pensar mesmo!
— Eu sei que um filho agora não está
nos seus planos, Gustavo, nem nos
meus, fica tranquilo — ele me olha e
fecha a cara — Que foi, falei algo de
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errado? — Pergunto a ele, que nega com
a cabeça.
— Um filho, ainda por cima com
você, sempre vai estar nos meus planos,
meu Anjo — ele é maluco, agora tenho
certeza. Estamos juntos há, sei lá, três
meses, e ele vem me falando em filho.
Eu também quero ser mãe e gostaria
muito que ele fosse o pai, mas não nesse
momento.
— Fico feliz que você pense assim,
Gustavo, mas agora não é o momento —
ele assente e eu pulo em seu colo.
Terminamos a noite como se deve, nos
amando muito!

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****
Um mês depois

Nós já tínhamos fechado negócio no


espaço, pretendíamos abrir em, no
máximo, três meses. Minha vida estava
uma loucura, saía direto do trabalho e ia
pesquisar e comprar materiais para a
obra com a Bia, e ainda estava
concluindo o trabalho final da
faculdade, tudo ao mesmo tempo. No
entanto, sabia que no final valeria a
pena. Eu estava exausta, e o Gustavo,
coitado, eu quase não estava
conseguindo dar atenção direito para
ele, mas ele sabia os motivos e estava
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me apoiando em tudo.
Esse mês passou muito rápido, o
Gustavo me falou que essa seria a
última semana dele no Bope. Eu ainda
não conseguia acreditar, era possível
uma pessoa ser tão feliz como eu
estava? Isso estava me assustando
bastante, mas eu só tinha a agradecer a
Deus por tanta felicidade. A Bia também
estava super bem com o Michel, ele
parecia amá-la de verdade, e eu também
estava muito feliz com isso.
Eu estava morrendo de saudades da
minha mãe, pois desde a assinatura do
documento da casa não a via, e isso já
tinha uns vinte dias. Ela ficou encantada
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com o Gustavo, que fez questão de
puxar o saco da sogra. Ele também é só
elogios com ela. Fico feliz com o fato
de eles terem se dado bem, mas também,
quem não se der bem com minha mãe,
não se dá bem com ninguém, ela é a
melhor pessoa que conheço.
Daqui a uma semana, eu entraria de
férias no trabalho, já estava com férias
vencidas, e a D. Julia não se manca.
Tive que praticamente impor para ela
que eu tiraria férias. Eu não poderia
largar meu emprego até que as coisas lá
no nosso estúdio começassem a andar
com as próprias pernas. Eu precisava de
mais tempo livre para resolver as
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pendências da obra, tudo nas costas da
Bia era sacanagem.
Hoje era sábado e eu queria ficar à
disposição do meu Capitão o dia
inteiro. Estava sentindo tanto sua falta,
pois por mais que dormíssemos juntos
quase todas as noites que ele não estava
trabalhando, eu estava tão cansada que
não estava dando a atenção que ele
merecia.
— Eu vou ficar mal-acostumado
desse jeito — saio dos meus
pensamentos com sua voz ainda de sono.
Ele tinha chegado quase às cinco da
manhã do plantão e eu tinha me dado ao
luxo de sair ontem do trabalho e ficar
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aqui na casa dele. Resolvi que esse
sábado seria só nosso.
— Estava fazendo seu café e iria
levá-lo na cama, quem mandou você
estragar a surpresa, Capitão? — Faço
um biquinho de quem tinha ficado
chateada e ele sorri me abraçando e
beijando meu pescoço da forma que só
ele sabia.
— Não existe surpresa melhor do
que acordar e ver a mulher que amo ao
meu lado na cama ou na minha cozinha
preparando o café da manhã — sorrio
com sua declaração. Ele sabia como
fazer eu me sentir a mulher mais amada
e especial do mundo.
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— E, com certeza, não existe
namorado melhor que você, Capitão —
ele me olha com um sorriso bobo nos
lábios, me suspende e me coloca
sentada na bancada da pia.
— Eu fico feliz que você pense isso,
meu Anjo e amor da minha vida.
Ataca-me com um beijo delicioso e
já tira a parte de cima do meu baby doll.
Começa beijando meu pescoço e desce
para os meus seios como se eu fosse o
seu café da manhã. Minhas mãos estão
em seus cabelos e meus gemidos se
misturam com os dele. Ele passa os
dedos pelo elástico do meu short doll e
eu sabia o que ele queria; levanto um
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pouco o quadril para ele retirá-lo. Ele
retira de uma só vez e fica entre minhas
pernas com uma das mãos. Ele abre o
armário que ficava acima de onde eu
estava sentada, pega um pote de creme
de avelã e o abre e, com o dedo, pega
um pouco e passa em meus lábios e me
beija, logo em seguida, passa em meu
pescoço, seios, abdome. Quando já
estou toda lambuzada, ele volta para o
pescoço de novo e vai limpando com
beijos e sugando o creme delicadamente
com sua língua. Ele suga cada seio de
maneira deliciosa eu já estou muito
excitada e louca para tê-lo dentro de
mim. Ele continua com sua doce tortura
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bem devagar, meus gemidos saem sem
controle e entregam minha excitação.
Ele para por um instante e me olha nos
olhos e eu vejo paixão, desejo e amor.
— Não existe café da manhã melhor
do que esse, meu anjo, você é a melhor
coisa que me aconteceu, eu quero e
preciso ter você em minha vida desde
aquela noite em que nos conhecemos,
quando eu olhei em seus olhos... Parecia
que você desvendava minha alma só
com o olhar, e eu não conseguia
desgrudar o olhar do seu. Você me
prendeu naquele momento e ali eu soube
que você seria meu anjo, minha
salvação ou minha perdição. Você
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preencheu todo o vazio que existia em
minha vida, e eu não quero que esse
vazio volte. Não sofremos pelo que não
conhecemos, e agora que a tenho, eu não
saberia mais como seria viver sem
você. Só me diz que é assim que se
sente também, pois, por você, eu vou do
céu ao inferno sem pensar um milésimo
de segundo sequer — meus olhos
estavam cheios de lágrimas. Ele falava
cada palavra me olhando
profundamente, eu via amor e desespero
ao mesmo tempo. Eu também não
saberia como seria não tê-lo em minha
vida, e só de pensar nessa
possibilidade, eu ficava em pânico.
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— Claro que eu também não me
imagino sem você, Gustavo, eu sinto
pavor cada vez que sai para uma
operação, sinto total desespero só de
pensar em te perder ou ter que ficar
longe. Eu não sei como seria minha vida
sem você, e por mais que eu tenha
lutado contra esse sentimento, sei que
você também me prendeu naquela
operação quando nos olhamos, e sei que
minha pena é perpétua, eu... — ele me
ataca com um beijo maravilhoso bem na
hora que eu ia dizer que o amava, mas
acho que ele já sabe disso. Nos
beijamos com desespero, minhas pernas
estão em volta de sua cintura, ele me
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levanta da bancada e começa a caminhar
comigo em seus braços.
— Quero você na minha cama, meu
anjo, lá é seu lugar — ele volta a me
beijar enquanto caminha comigo em
seus braços. Deita-me na cama e já vem
por cima de mim, pegando um
preservativo. Me penetra e nos olhamos
o tempo todo. Fazemos amor bem
devagar, parece que queríamos que esse
momento durasse para sempre. Gozamos
juntos, eu falando o nome dele e ele
dizendo meu nome. Ficamos um tempo
ali, ainda abraçados. Eu não poderia
mais viver sem ele, meu corpo e
coração o pertenciam, e sei que não
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haveria outro por toda a minha vida.
— Capitão, eu preciso tomar café,
estou com fome, você sugou todas as
minhas energias — ele sorri com a boca
em meu pescoço.
— Pode deixar que vou trazer o
café para você, meu Anjo, preciso que
você fique bem alimentada para
aguentar nossa maratona — arqueio as
sobrancelhas e ele está com uma cara de
safado para mim.
— Como assim, maratona? — Eu
sabia do que ele estava falando, mas me
fiz de inocente.
— Você sabe muito bem, você está
detida para averiguações e não sai
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dessa cama tão cedo— sorrio do seu
comentário.
— E eu posso saber do que estou
sendo acusada, Capitão? — Pergunto
com uma voz sexy, entrando na
brincadeira. Ele sorri e se ajoelha no
colchão ao meu lado.
— Você está sendo acusada de ser
muito gostosa — fala, passando o
indicador pelo meu corpo – De
provocar uma autoridade com esse
corpo e essa bunda deliciosa — fala,
colocando uma das mãos sob minha
bunda e a apertando. Eu gemo e ele já
estava totalmente duro de novo.
— Acho que o senhor está fazendo
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acusações descabidas, e se isso
realmente aconteceu, deveria ter me
prendido no dia — ele dá um sorriso de
lado muito sexy. Eu me levanto e fico na
mesma posição que ele, encarando-o de
frente.
— Nunca é tarde para capturar um,
no caso em questão, uma foragida, e
vejo que a senhora não mudou nada,
continua abusada. Sinto muito, mas eu
tenho que revistá-la — olha-me e sei
que está adorando a brincadeira, assim
como eu. Seu membro está batendo em
minha barriga e está totalmente ereto.
— Acho que não tenho onde esconder
nada, Capitão — falo num tom de voz
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desafiador e sexy ao mesmo tempo. Ele
pisca para mim e cola sua boca em meu
ouvido.
— Nunca se sabe onde esses
criminosos podem esconder armas ou
qualquer tipo de coisas ilícitas, então,
eu tenho que revistá-la, é o correto a se
fazer — a voz dele estava firme e baixa
ao mesmo tempo e eu estava muito
excitada — Mãos ao alto, senhora—
fala firme e assume a postura de
Capitão.
Eu não penso duas vezes e ergo
minhas mãos acima da cabeça e ele
começa com as mãos nas minhas e vai
descendo bem devagar por meus
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braços...
Caramba, eu estou toda arrepiada.
Ele desce por meus seios,
circulando-os com as mãos e apertando
um a um, depois cola sua boca à minha
sem me beijar. Meus lábios se abrem
instintivamente, esperando os dele, que
não chega. Ele estava levando a
brincadeira a sério mesmo. Suas mãos
continuam em meus seios, e eu gemo.
— Preciso ter certeza que não existe
falsificação aqui, isso agravaria sua
pena — porra! O que ele queria?
Enlouquecer-me? Estava conseguindo.
Ele vê a excitação em meus olhos e
morde o lábio inferior. Suas mãos agora
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estão em meu abdome e vai descendo
bem devagar.
— Por favor, senhora, pode abrir as
pernas? Eu preciso revistá-la e não
gostaria de usar a força — eu abro na
hora. Isso estava muito bom, eu estava
queimando e minha excitação escorria
por minhas pernas. Ele desce as mãos
na lateral do meu corpo e vai até meu
joelho, evitando meu centro. Que
safado! Estava me provocando de
propósito, eu não via a hora de suas
mãos chegarem ao meu centro, mas ele
estava me provocando, e senti que tinha
que provocá-lo também.
— Como o senhor pode ver, não
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estou armada — ele me olha e sorri,
passando o nariz por meu pescoço.
— A senhora está com muita pressa,
eu ainda não terminei. Nunca se sabe
onde podem esconder certas coisas—
ele coloca uma das mãos em meu centro
com firmeza. Só fica com a mão
espalmada, parada ali, sem fazer
nenhum movimento, e me olha nos olhos
— Parece que está tudo certo— eu vou
matá-lo se continuar me provocando
assim, eu estou a ponto de entrar em
erupção.
— Acho que o senhor deveria
averiguar mais a fundo, nunca se sabe
— ele sorri, acho que está surpreso
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comigo.
— A senhora tem razão, acho melhor
tirarmos a dúvida — ele enfia um dos
dedos dentro de mim e eu gemo
deliciada com a sensação. Coloco as
mãos em seu pescoço para aproximar
mais nosso contato. Ele para na hora o
movimento que estava fazendo— Mãos
ao alto, senhora, ou vou ter que algemá-
la — fala bem sério e eu imediatamente
levanto as mãos de novo — Ainda não
defini bem se você está realmente sem
provas incriminatórias. Preciso
averiguar bem devagar e com muito
cuidado — ele enfia mais um dedo, e eu
gemo mais ainda.
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— A senhora está muito alterada —
fala bem próximo da minha boca e eu
tento beijá-lo, mas ele se afasta.
— Já deveria saber que tentativa de
suborno não funciona comigo — fala e
continua a tortura com seus dedos, até
que não consigo mais segurar e gozo em
seus dedos.
— Gustavo! — Grito seu nome ao
chegar ao clímax.
— Porra, anjo! Você me enlouquece e
a cada dia me surpreende mais — ele
pega um preservativo e me entrega. Eu
coloco nele e ele me vira, me colocando
de quatro sobre a cama e me penetra
com tudo. Uma de suas mãos está nos
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meus cabelos e a outra na base da minha
coluna. Penetra-me cada vez mais fundo,
estou adorando cada momento, e sinto
que meu gozo se aproxima novamente.
Gemo sem controle, meu corpo começa
a enrijecer e ele está cada vez mais
rápido e mais fundo.
— Goza para mim, meu Anjo! — É
minha perdição e eu me desmancho em
mil pedaços. Ele dá mais duas
estocadas e goza também.
Caímos juntos na cama e ficamos só
com nossas respirações, que ainda estão
aceleradas.
— Agora perdi o resto das forças que
ainda tinha, Capitão — ele sorri e me
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beija. Levanta-se, me puxando junto
com ele.
— Vamos tomar um banho, e depois
vou preparar um lanche para nós.
Entramos no banheiro e tomamos
banho. Visto outro baby doll, já que
aquele ainda estava na cozinha, e me
deito na cama. Eu estava cansada e com
muita preguiça. Ele me olha e sorri, vem
em minha direção e me beija.
— Eu já volto, meu Anjo — ele
estava apenas de cueca, se vira e sai do
quarto.
Passamos o dia inteiro assim, de
preguiça no quarto. Se eu achava bom
ficar em casa assistindo aos meus
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seriados e comendo porcarias, com ele
ao meu lado era muito melhor. Vimos
alguns filmes, fizemos mais amor,
comemos... estávamos praticamente
hibernando dentro daquele quarto, e eu
não queria outra vida e nem estar em
outro lugar que não fosse esse.
Tudo estava tão perfeito e maravilhoso
que me dava medo.
Passamos o domingo também de
forma maravilhosa. Fomos ao cinema,
ver um filme de guerra que tinha
estreado e que ele estava louco para
assistir. Eu reclamei, mas até que gostei
do filme. Passamos em meu apartamento
rapidinho, para eu pegar algumas
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coisas, e voltamos para o apartamento
dele, pois iria trabalhar no outro dia e lá
eu poderia acordar um pouco mais
tarde. Eu estava mal-acostumada com
todo esse mimo que o Gustavo estava
me dando. Quando chegamos à casa
dele, já estava bem tarde, tomamos um
banho e apagamos.

****

A semana passou voando, e quando dei


por mim, já tinha chegado sexta-feira.
Hoje, enfim, seria o último dia de
trabalho do Gustavo no Bope. Eu não
podia acreditar que esse dia chegou,
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estava super feliz, seria sua última
operação, minha última preocupação.
Tudo agora seria muito melhor do que já
era, se é que era possível ser melhor.
Nosso relacionamento não poderia estar
melhor, eu era a mulher mais feliz de
todo o mundo e agora que ele não seria
mais policial, tudo seria simplesmente
perfeito. Minha academia ficaria pronta
em, no máximo, um mês. A partir de
segunda-feira eu entraria de férias no
trabalho e teria mais tempo para acertar
todos os detalhes e meu Capitão agora
seria só meu mesmo.
Hoje nada no mundo iria conseguir
me tirar essa felicidade. Eu não
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conseguia parar de sorrir no trabalho, e
nem o fato de ter que ficar aqui hoje até
às dezessete horas tinha conseguido me
estressar. Eu havia combinado com o
Gustavo de ele ir lá para casa assim que
saísse da operação, queria preparar
algo bem romântico para
comemorarmos. Tinha também que
terminar de ver uns portfólios para
definir os últimos detalhes da decoração
da academia, queria que tudo ficasse
perfeito e precisava dar ok para a Bia
até segunda-feira.
Saio do trabalho e passo em uma
confeitaria, que eu amava, perto do
trabalho. Queria comprar uma torta que
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eu e o Gustavo amávamos, teria que
levá-la de ônibus, mas valia o
sacrifício. Entro e vou direto ao balcão,
a menina até já me conhecia.
— Oi, tudo bem? — Ela sorri e
assente com meu bom humor— Tem
aquela torta de nozes que eu e meu
namorado sempre compramos? — Ela
faz que sim com a cabeça.
— Eu queria uma pequena, se tiver, é
que estou de ônibus hoje e não posso
deixar de levar essa torta. Estou
planejando uma surpresa e ele ama essa
torta, não pode faltar— ela sorri com
meu entusiasmo, eu não paro de falar.
— Só um minutinho que acho que
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ainda tem lá dentro, se tiver eu já
embalo e a trago para você.
— Muito obrigada! — Falo toda
feliz. Ela se vira e sai e eu fico ali no
balcão com cara de boba.
— Lívia? — Escuto uma voz que
infelizmente sabia de quem era. Viro-me
para olhá-lo.
— Oi, Otávio, como vai? — Falo
somente por educação mesmo.
— Eu estou bem, e você? — Pergunta
com o tom de voz bem tranquilo.
— Nunca estive melhor— dou um
sorriso forçado para ele. Parece
macumba encontrar com ele logo hoje.
— Coincidência! Eu estava visitando
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um cliente aqui perto e entrei para tomar
um suco— coincidência para ele, azar
para mim. Continuo calada, não queria
prolongar a conversa.
— Me acompanha? — Fala todo
cheio de educação, jogando seu charme
fajuto para cima de mim. Era só o que
faltava.
— Não, obrigada, estou com um
pouco de pressa— falo bem seca, para
ver se ele se manca.
— Só um suco, pelos velhos tempos.
Eu já entendi que você não quer nada
comigo e que está bem com outra
pessoa, fica tranquila, vai ser um suco
entre amigos, bem rápido, não vou
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tomar seu tempo — ele está com aquela
cara de pobre coitado. Quer saber, vou
tomar esse suco o mais rápido possível
para me livrar logo dele, pois do jeito
que ele é, vai ficar insistindo até eu
aceitar.
— Ok, Otávio, só um suco— ele
sorri todo satisfeito e pede dois sucos
de laranja para a outra menina que
estava atendendo no balcão. Sabia que
era o meu preferido.
— E aí, já conseguiu vender a casa?
— Pergunta, querendo puxar assunto.
Eu passo a mão pela testa. Eu
prometi que hoje nada me tirava do
sério, nem mesmo ele vai conseguir.
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— Sim— respondo na mesma hora
que os sucos chegam, e nada da menina
com a minha torta, que demora!
A moça coloca os sucos em cima do
balcão e eu olho na direção da porta que
a outra menina tinha entrado. Se ela
demorasse muito, eu ia ter que ficar aqui
aturando-o.
— Lívia, seu suco— volto a me virar
em sua direção e ele está com os dois
copos em suas mãos e me entrega o meu.
— Amigos? — Ergue o copo para
fazer um brinde.
— Amigos — falo para me livrar
logo dele e viro o suco quase que de
uma vez só, e ele dá um sorriso para
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mim e balança a cabeça. A menina
chega com minha torta embrulhada,
graças a Deus!
— Aqui, desculpa a demora, é que o
confeiteiro estava terminando de fazê-
la.
— Sem problemas, obrigada pela
atenção— ela sorri e vai atender outro
cliente.
— Eu preciso ir, Otávio, até qualquer
hora— falo, mostrando educação. Ele
assente e continua sorrindo. Ele está
estranho, mas isso não é problema meu.
Vou até o caixa pagar, e quando vou
pegar minha carteira em minha bolsa,
sinto uma tonteira e quase caio se não
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fosse pelo Otávio me segurar.
— Está tudo bem, Lívia? —
Pergunta todo atencioso. Sua voz parece
distante. Eu passo as mãos nos olhos e
olho para ele, que agora parece mais um
borrão em minha frente.
Eu tento pegar meu celular para ligar
para o Gustavo, mas meu braço não está
mais obedecendo a esse comando. Que
merda estava acontecendo comigo?
Minha boca está seca, meus olhos estão
pesados e começo a ouvir as vozes bem
distantes, até que ficam cada vez mais
longe...

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Capítulo 24
Gustavo

Acordo da melhor maneira possível:


com meu Anjo ao meu lado. Ela era
linda até dormindo.
Fico uns dez minutos decorando o
que já estava decorado, mas eu não me
cansava de admirar cada pedacinho do
seu rosto, seu corpo que era todo meu.
Eu era um filho da puta de muita sorte!
Nunca ia me cansar de repetir isso, eu
agradeço aos céus todos os dias por tê-
la em minha vida. Nunca imaginei que
amaria tanto uma pessoa como a amo, e
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se alguém me dissesse isso há uns
meses, eu não acreditaria. Lembro-me
de uma música que eu gostava muito.
Começo a cantarolar bem baixinho
enquanto ela ainda dorme em meus
braços.
“(...)Eu te vi e já te quis
Me vi tão feliz
Um amor que pra mim era sonho
Surpreendente provar
Do que eu só ouvi falar
E você resolveu me mostrar
Logo eu que nem pensava
Eu não imaginava te merecer
E agora sou o dono desse amor
Eu nem quero saber por quê
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
Eu só preciso viver
O resto desta vida com você(...)”
(Logo eu. Jorge e Mateus)
Termino de cantar como se tivesse
fazendo uma oração, eu esperava muito
que ela se sentisse assim também. Ela
sempre demonstrava que era assim que
se sentia. Eu via amor em seus olhos,
apesar de nunca ter se declarado com as
palavras eu te amo. Eu sabia que ela me
amava, via a felicidade em seus olhos.
Todas as vezes que estávamos juntos,
ela era muito transparente, e aquela
dúvida e medo que eu tinha em relação
ao ex-noivo babaca, já tinha ido
embora. Eu só sei dizer que tirei a sorte
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grande, ela era tudo que eu queria e
precisava para ser feliz. Eu aperto um
pouco mais o meu abraço e começo a
acordá-la com beijos em seu pescoço,
sabia como ela gostava de acordar
assim.
— Hum...você está me acostumando
muito mal, Capitão — fala toda
manhosa. Eu adorava ouvir sua voz
rouca quando acordava. Eu começo a
acariciar todo o seu corpo e logo
estamos fazendo amor.
Após tomarmos banho, nos
arrumamos, tomamos café e saímos.
Essa noite eu tinha dormido em sua
casa. Nossa vida não poderia estar
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melhor, quer dizer, poderia sim, no dia
que ela se tornasse minha esposa, nossa
vida seria bem melhor. Eu já tinha
vontade de pedi-la em casamento, pois
tenho certeza que ela é a mulher da
minha vida, então, para que adiar o
inevitável? Mas tinha medo de assustá-
la, por isso estava me segurando ao
máximo. Ela também precisava realizar
seus projetos e eu tinha consciência que,
apesar da minha ansiedade, ainda não
era o momento para ela.
— Capitão? — Saio dos meus
pensamentos e olho um pouco na sua
direção. Estava dirigindo, amava
quando ela me chamava assim.
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— Sim, meu Anjo— coloco a mão
que estava no câmbio em cima da dela
que estava em minha coxa.
— Eu sei que hoje é sexta-feira e
seria para eu ir para sua casa, mas como
você está de plantão hoje... eu ainda não
acredito que é o último...
Fala toda feliz com o fato de hoje ser
meu último dia no Bope. Eu sei que era
isso que eu também queria, mas sei que
sentiria falta por um tempo, afinal, são
dez anos. Mas, ela valia qualquer coisa,
e eu não tinha dúvidas que estava
fazendo o correto. O medo e
insegurança que me invadiam
ultimamente só de pensar em vê-la
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sofrer, por qualquer motivo que seja, me
deixava maluco.
— Eu vou ter que ficar até um pouco
mais tarde no trabalho, pois a outra
recepcionista não vai, e como ainda
tenho algumas coisas da reforma para
decidir, preciso ir para casa. Então,
quando você sair da operação, podia ir
direto para lá, como você sempre faz,
pode ser? — Ela sorri para mim, e
como resistir a esse sorriso?
— Sem problemas, Anjo — falo
erguendo sua mão e dando um beijo.
Chego à frente do seu trabalho. Ela
sai do carro e eu fico lá, como sempre,
como um bobo, admirando a mulher
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mais linda do mundo e que era toda
minha. E eu que vivia dizendo que se
apaixonar era para os bobos... pois é, eu
era um bobo muito feliz. Ela entra e eu
sigo para a empresa.
Chego, comprimento alguns
funcionários e vou direto para o
escritório. Dou uns telefonemas, agendo
umas entregas de materiais e logo em
seguida o Michel entra na sala.
— Bom dia, Gustavo, e aí, animado
para sua última operação? Quem diria
que o Capitão Torres seria dominado um
dia— ele não perdia a oportunidade de
me sacanear sempre que podia. Eu não
estou nem aí, o importante é que estou
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muito feliz.
— Digo o mesmo para você, Michel,
quem diria que uma baixinha daquelas
mandaria em você? E sim, estou muito
feliz por ser meu último dia de
operação, pois agora eu terei tempo
para dar a atenção que meu Anjo
merece. Agora, você deveria ter
cuidado, sabe como é, mulher muito
sozinha fica carente e vai atrás de quem
lhe dê atenção— rapidinho o sorriso
bobo em seu rosto morre.
— Vai se foder, Gustavo! Eu dou
muita atenção a Bia, pode ter certeza
que ela está muito satisfeita— fala e
sinto raiva em suas palavras. Ele tem
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esse problema, gosta de zoar, mas não
gosta de ser zoado. Eu não aguento e
começo a rir. Ele cai na pilha fácil!
— A Bia disse alguma coisa para a
Lívia? — Ele ficou preocupado. Mané!
— Claro que não, Michel! Você fala
o quer, escuta o que não quer— ele
melhora o semblante.
— Eu estava só brincando, Gustavo,
não precisa pegar pesado— dou uma
gargalhada.
— Ok, Michel, nós dois fomos
fisgados, cara, não tem jeito. Elas quem
mandam, só nos resta obedecer e fazê-
las feliz— ele começa a sorrir também.
O dia passa rápido, e quando vejo, já
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estou indo para o batalhão. Meu dia foi
tão corrido que nem liguei para o meu
Anjo, ela deve estar enrolada tentando
decidir o que definiria para a decoração
da academia. Eu já até estou vendo a
cena: ela cheia de papéis nas mãos, sem
ter a mínima ideia do que escolher. Ela
era muito indecisa, toda hora mudava de
ideia, eu mesmo já tinha tentado ajudá-
la na sua escolha. Ela me dizia que era
isso mesmo que ela queria, aí chegava
no outro dia, mudava tudo de novo.
Espero que hoje ela decida a tal
decoração. Já estou até vendo quando
chegar o dia do nosso casamento, a
confusão que vai ser, cada dia vai
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querer um casamento de um jeito.
Chego ao batalhão e nem acredito
que hoje seria meu último dia. Tantos
anos fazendo a mesma coisa, mas eu não
estava nem um pouco arrependido,
nunca tive tanta certeza em minha vida.
Meu anjo valia cada sacrifício e eu
começaria uma nova etapa da minha
vida e, com toda certeza, seria bem mais
feliz.
Saímos para uma operação de rotina,
nada muito sério e perigoso. Fico feliz
por isso, pois não correria tantos riscos,
queria voltar sã e salvo para o meu
Anjo.
Chegamos à comunidade, fizemos
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nosso trabalho e saímos orgulhosos em
ter cumprido mais uma operação com
sucesso; a minha era a última. Eu só
tinha uma missão agora: amar o meu
Anjo, e eu era o homem mais feliz do
mundo por isso.
Chegamos ao batalhão, ainda eram
duas da madrugada, e eu vou para a sala
do Comandante.
— Comandante— presto continência,
seria a última também.
Ele assente e pede que eu me sente na
cadeira à sua frente.
— Capitão Torres, o Senhor será uma
grande perda para nosso batalhão, pois
é meu melhor Capitão e muito bom no
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que faz. Eu realmente sinto muito pela
sua decisão em nos deixar. Quero
informá-lo que vou segurar sua baixa
aqui por uma semana, e tenho
esperanças que mude de ideia— eu não
mudaria, tinha certeza do que estava
fazendo, mas achei consideração da
parte dele, nunca o vi tendo esse tipo de
atitude com ninguém.
— Eu agradeço, Comandante, mas
estou certo da minha decisão e não vou
mudar de ideia— ele assente e sinto que
realmente está sendo sincero quando diz
que sente muito por minha saída.
Saio de sua sala para seguir para o
vestiário, e quando chego ao pátio, a
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cena que vejo me comove; todos estão
em forma, e quando me aproximo, todos
prestam continência ao mesmo tempo e
eu respondo da mesma maneira.
— Operações especiais! — Grita o
coro para mim.
— Caveira! Sempre será! — Todos
gritam ao mesmo tempo e estão em
forma. Olho para trás, e vejo que
comandante também segue o coro e eu
só assinto com a cabeça e bato na
caveira que fica no meu peito. Presto
continência mais uma vez, me
despedindo.
Eu tinha ficado muito honrado e
emocionado com a homenagem, levaria
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cada um comigo, e eu sei que,
independente de tudo, eu sempre seria
um Caveira, pois estava tatuado em meu
coração.
Ficamos ali no batalhão ainda por
uma hora batendo papo e nos
despedindo.
— Você vai fazer falta, Capitão —
fala o Sargento Carlos, que além de
companheiro, tinha se tornado um
grande amigo.
— Nós vamos nos ver muito, Carlos,
você é um grande amigo — ele assente.
Fernando também vem falar comigo, ele
tinha se tornado Capitão agora, seria ele
meu substituto. Apesar de nossa relação
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não ser muito amigável, ele era um bom
companheiro de trabalho, e tenho
certeza que faria bem o seu papel.
Despeço-me de todos, troco de roupa
e vou embora. Estava louco para ver
meu Anjo. Eu agora era todo dela,
enfim, seria o fim de seus medos e dos
meus. Não teríamos mais essa
assombração em nossas vidas, seríamos
muito felizes, eu tinha certeza.
Chego em seu apartamento, que está
com todas as luzes apagadas. Vou até a
cozinha, bebo um copo de água e vou
para o quarto, louco para sentir seu
cheiro e dormir com seu corpo colado
ao meu. Ainda bem que amanhã era
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sábado e poderíamos acordar bem
tarde.
Quando abro a porta, meu sorriso
morre, meu coração para de bater. O
que estou vendo não é real, eu só podia
estar tendo o pior pesadelo de minha
vida! Minhas mãos estão em minha
cabeça, tamanho era meu desespero. Eu
preferia estar morto ao ver uma cena
dessa! Não o meu Anjo! Passo as mãos
pelo rosto e agora a raiva me domina.
Ela estava dormindo na nossa cama,
quer dizer, na cama dela, com aquele
idiota do ex-noivo! Eu não posso
acreditar que ela teve coragem de fazer
isso comigo. Ela não!
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Vou em direção à cama, e agora eu
era capaz de derrubar dez caras na
porrada, meu sangue está fervendo em
minhas veias, nunca senti tanto ódio em
toda minha vida, nunca!
— Que porra é essa! — Dou um
berro estrondeante, arrancando o
edredom de cima deles.
Estou em pé na frente da cama e
encaro aquela cena como se não fosse
real. O babaca acorda na hora. Ele está
só de cueca e com uma cara de deboche
para mim. Ela está de calcinha e sutiã e
ainda continua dormindo. Ele se ajeita
na cama e se senta.
— Na boa, cara, você pode ir
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embora e nos deixar dormir, amanhã ela
conversa com você— juro que minha
vontade era matar esse cara aqui e
agora, mas se ele estava aqui, ela tinha
permitido. Mas eu não iria embora sem
uma explicação dela nem a pau.
— Cala a boca, seu merda! Senão, não
vai sobrar um dente sequer nessa sua
boca para contar história— grito com o
dedo em riste para ele. Não é possível,
ela deve estar fingindo, como não
acordou ainda? Seu sono era leve. Com
certeza, era dela a arte do fingimento,
mas isso não vai ficar assim, quem ela
pensa que é para me fazer de trouxa?
— Acorda, porra! Não finja que está
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dormindo, você vai me explicar
direitinho toda essa história— grito,
puxando o seu braço. Ela abre os olhos
e pisca várias vezes.
— Capitão, você chegou? —
Pergunta confusa e com a voz bem
baixa. Ela está passando as mãos pelo
rosto e as coloca depois na cabeça,
alisando os cabelos. Meu olhar para ela
era de ódio.
— O reencontro de vocês foi tão bom
assim que você nem pensou em mim?
Você sabia que eu vinha para cá, não
conseguiu resistir? Ou era para ser
dessa forma mesmo? — Ela me olha
confusa. Muito cínica mesmo!
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— Quê? — Ela pergunta, se fazendo
de desentendida. Ela vai debochar de
mim na cara dura, o idiota está lá de
braços cruzados me olhando.
— Eu não merecia isso, porra, como
você foi capaz de fazer isso comigo?
— Do que você está...— ela olha
para o lado e finge se assustar, caindo
no chão. Uma atriz digna do Oscar.
— Otávio, o que você está fazendo
aqui?!— puxa o lençol para se cobrir
enquanto pergunta. Eu cruzo meus
braços e a encaro com muito ódio.
— Não precisa mais mentir, minha
linda, foi melhor assim, agora podemos
ficar juntos numa boa.
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Então era isso, ela estava voltando
para o babaca. E eu fui o quê esse
tempo todo? Uma vingança? Ela me
usou esse tempo todo para atingir esse
merda. Minha ficha cai, assim como
meu mundo. Se ela não conseguiu
resistir às investidas desse cara, então
ela realmente o amava.
— O quê? Do que você está
falando?! — Ela coloca as mãos na
cabeça, como se estivesse doendo, e me
encara.
Uma mão segura o lençol para cobrir
seu corpo e a outra está em sua boca,
seus olhos estão arregalados.
— Como você chegou aqui, Otávio?
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Eu só me lembro de estar na confeitaria
comprando a torta e depois não me
lembro de mais nada, e agora isso— ela
me olha em total desespero.
— Não precisa mais fingir, Lívia, eu
já entendi. Ele estava certo o tempo
todo, eu fui só um jogo para você,
sempre foi ele, não é? — Ela segura
meu braço.
— Não! Você não pode acreditar
nisso, eu não tenho nada com o Otávio,
você sabe disso! — Sorrio com
deboche e tiro sua mão de meu braço.
— Não toca em mim! Eu pude ver
como você não tem nada com ele —
olho para ela. Agora, além de raiva,
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meu olhar tem desprezo e nojo. Ela nota
e suas lágrimas começam a descer por
seu rosto.
Falsa do caralho! Viro-me para ir
embora, pois estava com nojo daquela
cena e ia acabar fazendo merda. Ela me
puxa pelo braço de novo.
— Você tem que acreditar em mim,
Gustavo! Eu não me lembro de nada, só
de ter encontrado Otávio na confeitaria.
Eu a olho nos olhos e vejo que ela
chora. Suas lágrimas não me causavam
nenhuma emoção, a não ser ódio e
desprezo.
— Pelo menos admite que marcou um
encontro com ele — ela está balançando
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a cabeça em negativa.
— Eu não marquei nada! Fui até a
confeitaria para comprar aquela torta
que gostamos...
— Cala a maldita dessa boca, porra!
— Grito e tiro sua mão de meu braço de
novo, indo em direção a porta.
— Fala a verdade, Otávio, pelo amor
de Deus! — Fala, muito alterada. Acho
que ela queria que o cara desmentisse,
para não ficar mal comigo.
— Só existe uma verdade, minha
linda: a que nos amamos. Deixa essa
trouxa ir embora.
É a gota d’água para mim. Avanço em
cima dele e disparo vários socos em sua
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cara, quebrando o seu nariz. Do jeito
que estou com raiva, eu ia matá-lo fácil.
— Para com isso, Gustavo! — Ela
me puxa pela camisa. Ele estava certo o
tempo todo. No final, era ele que ela
queria ver bem. O largo e a empurro.
— Me arrependo do dia que te
conheci. Você poderia ao menos ter me
poupado de ver essa cena. Como não
consegui enxergar antes, o quanto falsa e
dissimulada você é? Vocês se merecem,
faça bom proveito desse merda — falo
cada palavra com uma calma que não
sinto. Saio do quarto e ela vem atrás de
mim.
— Não faz isso, meu amor, não vá
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embora assim, me escuta, eu te amo! —
Paro na hora em que ela diz essas
palavras.
— Você só pode estar de brincadeira!
Não sabe o quanto eu quis ouvir essas
palavras de você— digo com um
sorriso forçado no rosto, olhando dentro
dos seus olhos. Eu estava lutando muito
para não derrubar as lágrimas que
estavam se acumulando em meus olhos.
Como eu pude me enganar assim? — E
agora eu percebo que tudo foi uma
grande mentira. O que foi? Quer
continuar comigo também? Ele não te
comeu como você esperava? Para seu
próprio bem, esquece que eu existo. Eu
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te odeio, garota! — Grito e saio batendo
a porta de seu apartamento.
Entro em meu carro e desabo,
chorando sem controle. Eu não queria
chorar por aquela falsa, mas não
consigo segurar as lágrimas. Eu estava
vivendo o pior pesadelo de minha vida!
Como não enxerguei e me deixei
levar dessa maneira? Se ela sabia que
não me amava, por que esse esforço
todo para ficar comigo? Ela se entregou
para mim por pura vingança, e agora
tinha tido uma recaída por aquele merda
e me destruído totalmente. Eu larguei o
Bope pelo amor que sentia por ela. Eu
nunca mais quero olhar na cara daquela
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falsa. Que ela seja bem infeliz com
aquele babaca, e ele que a traia
bastante, pois eu entreguei meu coração
para ela e ela jogou tudo fora.
Paro o carro no primeiro bar que
vejo. Eu precisava me anestesiar e
esquecer essa merda toda. Eu nem
sequer era mais um Caveira, então, qual
seria o problema em encher a cara? Meu
telefone não para de tocar. É ela; ainda
tinha coragem de me ligar. Coloco no
silencioso e deixo tocar.
Peço uma dose de uísque e, quando
dou por mim, vejo que já é quase manhã
e a garrafa estava vazia. O dono do bar
já não queria mais me vender nada, mas
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de tanto insistir, ele acabava cedendo.
Meu celular acende e agora vejo que era
o Michel. Resolvo atender.
— Aalôô — falo com a voz ainda
muito abalada. Eu já tinha chorado
horrores, nunca imaginei que a noite
acabaria assim.
— Graças a Deus! Onde você está,
cara?
— Em um bar... eu perdi tudo Michel...
— Em que bar?
Sinto sua preocupação, então fico
tentando lembrar onde era o bar que eu
estava e não respondo.
— Gustavo, porra! — Sinto quando o
Senhor do outro lado do balcão pega o
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telefone de minhas mãos. Eu abaixo a
cabeça, derrotado. Nem falar ao
telefone eu podia mais.
Fico ali, sem saber como seria minha
vida sem ela. Eu não ia conseguir, ela
tinha me tirado tudo, minha vida não
teria graça sem seu sorriso, seu corpo,
seus olhos... como eu iria conseguir
sequer dormir sem ela ao meu lado?

****
— Gustavo— escuto a voz do Michel e
levanto a cabeça.
— Ela me deixou, cara, ela voltou
para aquele merda, eu não tenho mais
nada, eu nem sou mais um Caveira— ele
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balança a cabeça e começa a me
levantar. Vejo quando ele paga a conta.
— Vamos, cara, vou te levar para
casa. Tenho certeza que tudo isso tem
uma explicação, a Lívia não faria isso
com você, ela te ama— olho para ele e
nego com a cabeça.
— Eu vi, Michel, ela também te
enganou, ela enganou todo mundo com
aquele olhar angelical.
— Quando você estiver mais calmo,
vocês conversam e sei que tudo vai se
resolver— não consigo dizer mais nada.
Quem dera fosse assim tão simples.
Ele me coloca no banco do carona,
no banco que era dela. Seu cheiro
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estava no encosto do banco e eu fico ali,
sentindo. Era só o que me restava,
agora, seu cheiro.
Ele entra com o carro em meu prédio
e me ajuda a descer do carro. Entramos
no elevador, ele abre a porta, e quando
entro na sala, meu sorriso se abre. Era
meu Anjo, ela tinha voltado para mim.

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Capítulo 25
Lívia

— Eu te odeio, garota! — É só o que


fica comigo quando ele bate a porta do
meu apartamento.
Como isso tinha acontecido? Eu
estava desesperada, ele tinha que
acreditar em mim! Eu não sabia como o
Otávio veio parar na minha cama.
Meu Capitão não podia me odiar, eu
não poderia viver sem ele na minha
vida. Eu sei que o que ele viu foi muito
ruim, mas tinha que haver uma
explicação para isso. Eu tremia da
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cabeça aos pés e minhas lágrimas não
paravam de cair. Vou até a lavanderia e
pego um robe que estava lá e o coloco.
Vejo minha bolsa em cima da mesa,
pego meu celular e ligo para Bia. Ela
tinha que me ajudar a tirar o Otávio
daqui.
Ela atende no quarto toque.
— Bia, pelo amor de Deus! Você
precisa vir para cá agora— minhas
lágrimas não param de cair e eu estava
muito abalada, nem sei como consegui
ligar para ela.
— Calma, amiga, me explica o que
aconteceu— fala muito nervosa.
— O... O... O... Gustavo, amiga, ele
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me pegou na cama com o Otávio e eu
não sei como isso aconteceu. Me ajuda,
Bia, ele disse que me odeia e saiu
desesperado daqui e não quis me ouvir
— falo entre um soluço e outro, eu
estava além do desespero.
— Michel está aqui em casa,
chegamos aí em cinco minutos, fica
calma, tudo vai se resolver.
— Ele não vai me perdoar, amiga, me
ajuda— falo chorando muito.
— Já estou saindo de casa, calma.
Desligo e vou em direção ao quarto
como uma louca. Esse desgraçado
acabou com a minha vida, eu só não
deixei o Gustavo matá-lo na porrada,
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porque sabia que ele iria se prejudicar,
e esse desgraçado do Otávio não valia
isso.
— Como você foi capaz disso, seu
desgraçado?! — Ele está sentado na
cama com uma toalha sobre o nariz e
levanta o olhar para me encarar.
— Eu só estou lutando pelo nosso
amor, com as armas que tenho. Agora
que está livre, podemos nos entender de
vez — eu balanço a cabeça em negativa
e tento limpar um pouco das lágrimas
que embaçavam meu olhar.
— Você está doente! — Falo aos
berros.
— Calma, amor — ele levanta e vem
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na minha direção. Faço um gesto com as
mãos para que não chegue perto de mim.
Eu precisava me controlar.
— Otávio, vou falar bem devagar
para que você entenda de uma vez por
todas — baixo meu tom de voz e tento
manter minha respiração controlada —
O único amor aqui é o que eu sinto pelo
Gustavo, esse que você tentou destruir
com essa armação barata. Como você
conseguiu fazer isso?
Minha cabeça, que até aquele
momento estava uma bagunça, começa a
pensar direito e a realidade me atinge
como um raio.
— Você me dopou, seu desgraçado?!
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Eu te odeio e tenho nojo de você! Você
vai dizer para ele que armou isso ou eu
te mato, ouviu bem? — Estou com o
dedo em riste para ele, que está me
olhando abismado. Meu controle já
havia evaporado.
— Eu não vou dizer nada, eu sei que
me ama— tenta se aproximar de mim
novamente. Eu vou matar esse idiota
maldito!
— Eu não te amo, eu nunca te amei
seu idiota! Some da minha vida! Sai da
minha casa agora! — Me afasto dele,
que me olha muito chateado, seus olhos
cheios de lágrimas. Que se dane ele, não
estou nem aí.
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— Me escuta, meu amor, eu fiz isso
por nós dois — eu não acredito que ele
vai insistir nisso, ele precisa de
tratamento, está louco!
— Saia daqui! — Aponto para a
porta do quarto ao mesmo tempo que
Bia chega com Michel. Eles entram no
quarto e a Bia vem em minha direção,
pálida.
O Michel está na porta de braços
cruzados, acho que tentando entender a
cena que está vendo.
— Vocês podem ir embora, é só uma
briga de casal — Otávio diz e não me
seguro, voo para cima dele.
— Não tem casal nenhum! Você está
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louco! — Começo a estapeá-lo com
toda força que tenho. Bia me puxa e o
Michel pega o braço do Otávio.
— Você vai sair daqui agora, seu
filho da puta! — Michel fala para ele, já
o puxando para a sala.
— Me solta seu imbecil! Eu não
vou a lugar algum! — Ele tenta se
esquivar, mas Michel é muito mais forte
que ele e o arrasta pelo corredor.
— Você vai sair por bem ou na base
da porrada. E isso... — dá um soco no
seu abdome e ele grita de dor – É pelo
imbecil.
Bia volta para o quarto e vem com as
roupas dele nas mãos. Michel abre a
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porta e o joga no corredor.
— Vá embora, seu infeliz, e não volta
mais aqui, senão eu vou ser seu pior
pesadelo, pode apostar — ele pega as
roupas da mão da Bia, joga em cima
dele e bate a porta.
Eu estou lá no sofá e não conseguia
parar de chorar. Como esse infeliz foi
capaz disso? Ele acabou com a minha
vida.
— Eu não tive culpa, Bia, acredita
em mim, eu nunca faria isso com o
Gustavo, eu o amo. Esse desgraçado
armou tudo, ele me dopou, eu só me
lembro de estar na confeitaria e depois
não me lembro de mais nada. Acordei
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com o Gustavo puxando meu braço. Ele
saiu como um louco daqui e disse que
me odeia — Michel está me olhando,
quieto. Será que ele também acha que eu
fui capaz disso?
— Coloca uma roupa, Lívia, temos
que te levar para um hospital — ele fala
com a voz mais calma do mundo. Bia o
encara, acho que também não estava
entendendo.
— Eu estou bem, Michel, não preciso
de um hospital, o que eu preciso é falar
com o Gustavo e saber se ele está bem
— falo com desespero na voz.
— Você precisa fazer um exame de
sangue para termos prova de que ele te
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dopou e ver se houve violência sexual.
Se aconteceu isso mesmo, temos como
colocá-lo na cadeia — ele fala sério e
eu concordo. Faria qualquer coisa para
ter Gustavo de volta e ver aquele verme
do Otávio se arrepender do que fez.
Bia vai comigo para o quarto, eu nem
sei por onde começar. Ela vai até meu
armário, pega uma calça larguinha e
uma camiseta, que me entrega. Tiro o
robe e começo a vestir a roupa. Eu
estava no automático, o rosto de
decepção do Gustavo não saía da minha
mente, e isso estava doendo muito; eu
ainda não tinha conseguido parar de
chorar.
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Em menos de dez minutos, já
estávamos saindo do meu prédio. Eu
estou no banco de trás, pego meu celular
e começo a ligar para o Gustavo. Queria
saber se ele estava em segurança,
porque bem, eu sabia que não estava.
Ligo sem parar, mas ele não me atende,
e isso estava me matando. Era para
estarmos comemorando e não passando
por isso. Aquele maldito acabou com a
minha vida, pois se o Gustavo não
acreditar em mim, eu não sei como vai
ser daqui para frente. Ele tem que
acreditar, eu vou contar-lhe toda a
história e ele vai acreditar. Nosso amor
é maior que tudo isso, ele tem que me
Acheron Livros e afins
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ouvir.
Chegamos ao hospital que ficava bem
próximo à minha casa. Michel vai até a
recepção e vejo-o conversando com a
recepcionista. Bia não saía de perto de
mim nem um minuto.
— Eles vão te atender agora,
expliquei a situação e vão colocá-la na
frente. Vai com ela, Bia, eu vou ficar na
sala de espera — ele lhe dá um beijo e
passa a mão no meu braço.
Quarenta minutos depois, eu já tinha
feito exame de sangue e tinha sido
examinada por uma ginecologista que
estava de plantão.
Ela deu um atestado que não tinha
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havido ato sexual, pelo menos isso,
aquele infeliz teve um pouco de
decência. Coloco o documento na minha
bolsa, agradeço à doutora e saio da
sala. O exame de sangue só ficaria
pronto em uma semana.
Eu e Bia vamos para a sala de
espera, chamar o Michel para ir
embora.
— Tudo resolvido, não houve ato
sexual e o exame de doping só sai em
uma semana— Bia fala para o Michel,
que respira aliviado.
— Me leva para a casa do Gustavo,
por favor, eu preciso falar com ele e ver
como ele está.
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— Acho melhor você esperar um
pouco, Lívia, ele está de cabeça quente,
deixa ele se acalmar um pouco, aí vocês
poderão conversar melhor.
Eu não vou esperar nada, eu preciso
vê-lo e ele precisa me ouvir.
— Eu vou com ou sem você, Michel,
preciso explicar o que aconteceu, e ele
tem que me ouvir.
— Eu te levo, mas vamos subir com
você— eu concordo com a cabeça e
seguimos para a casa do Gustavo. Tento
mais uma vez, sem sucesso, ligar para
ele.
Chego ao seu apartamento e está tudo
escuro. Vou direto para o quarto e nada,
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ele não está em casa. Meu Deus,
aconteceu alguma coisa, já era para ele
estar aqui.
— Liga para ele, Michel, vai ver ele
te atende— falo muito desesperada, e
ele assente, tirando o telefone do bolso.
Fico ansiosa vendo o Michel ao
celular, parece que ele atende e eu solto
o ar com força. Tento pegar o celular do
Michel, mas ele faz um sinal com a
cabeça para que eu espere.
— Graças a Deus! Onde você está,
cara? — Michel pergunta, ansioso, e faz
uma careta erguendo as sobrancelhas.
Ai meu Deus, o que estava
acontecendo?
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— Em que bar está?
Bar? Como assim ele estava em um
bar? Ele não bebia, sem contar aquela
vez que esteve bêbado em minha casa,
ele nunca mais bebeu.
O Michel fica mudo um tempo e acho
que está esperando ele responder. Eu
estava agoniada com isso.
— Gustavo, porra! — Sinto que
Michel está nervoso, e começo a ficar
louca só de imaginar que pode ter
acontecido algo a ele. Michel fica um
tempo sem resposta, até que começa a
falar de novo.
— Sim, eu sou amigo dele — como
assim, com quem ele estava falando, o
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que tinha acontecido? — O senhor pode
me passar o endereço e já chego aí—
ele faz um gesto pedindo uma caneta,
corro e pego o bloco e a caneta que
ficavam na mesinha que tinha na sala e o
entrego.
— Eu sei onde é, estou perto, daqui a
uns dez minutos chego aí, obrigado —
ele desliga e eu o olho, ansiosa — Ele
está em um bar aqui perto, parece que
bebeu muito e se recusa a vir embora.
Vou buscá-lo e já volto. Meu amor,
espera aqui com a Lívia, eu vou pegar
um táxi aqui na frente, sei que vou ter
que trazer o carro dele, ele não está em
condições de dirigir.
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— Qualquer coisa liga, Michel, pelo
amor de Deus! — Michel assente, dá um
beijo em Bia e sai. Eu fico olhando para
a porta fechada, rezando para que ele
esteja bem.
— Lívia, vá tomar um banho e esfriar
um pouco a cabeça, o pior já passou, e
daqui a pouco Michel chega com ele
aqui — ela estava certa, eu precisava
me acalmar um pouco.
— Você tem razão, mas é que eu não
consigo imaginar o que vai ser se ele
não me quiser mais, amiga. E eu não
posso culpá-lo, eu o mataria se o visse
na cama com outra mulher — digo, já
caindo no choro de novo.
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— Calma, Lívia, eu sei que é algo
bem difícil de acreditar, mas agora
temos provas. Ele te ama e tudo vai
ficar bem, você vai ver — ela vem na
minha direção e me abraça.
— Eu não vou aguentar até o
resultado desse maldito exame ficar
pronto — me afasto dela e tento sorrir
— Eu não demoro— ela confirma com a
cabeça e se senta no sofá.
Eu vou correndo para o banheiro e
tomo um banho rápido. Estava com
aquele cheiro de hospital, e não tomava
banho desde manhã. Deixo a roupa suja
no cesto do banheiro e vou para o
closet. Pego um short largo de ficar em
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casa e uma camiseta. Vou para a sala
correndo, com medo de que ele chegue e
eu não estar lá para recebê-lo.
Sento ao lado da Bia e fico
esperando, de mãos dadas com ela. Uns
vinte minutos se passam, até que ouço o
barulho da porta se abrindo. Levanto-me
e fico em pé, esperando ele entrar. Eu
estava com medo de sua reação, mas eu
era inocente, e ele tinha que acreditar
em mim e no meu amor.
Quando eles entram, ele me olha e
trava em seu lugar. Nossos olhos se
encontram e ele sorri. Será que o
Michel explicou tudo para ele? Só
podia ser isso.
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— Meu Anjo, você voltou para mim!
— Fala bem embolado. Vou em sua
direção e ele me abraça muito forte, e
logo em seguida me afasta um pouco e
coloca as duas mãos em meu rosto,
parecendo não acreditar que era eu
mesma ali. Eu sinto um alívio percorrer
todo meu corpo.
— Eu estou aqui meu amor, eu te amo
e sou só sua, é você quem eu quero e
sempre vai ser— ele volta a me abraçar.
— Eu te amo tanto, meu Anjo! —
Meu coração se enche de alegria ao
ouvir essas palavras.
Olho para a Bia e Michel, que estão
assistindo tudo calados como se fosse o
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último capítulo de uma novela ou um
final feliz de um filme.
— Vocês podem ir agora, eu fico com
ele.
— Tem certeza, amiga? Ele não
parece muito bem, não quer ajuda? —
Eu sorrio para ela. Como eu poderia ter
dúvidas?
— Tenho sim, muito obrigada, Bia, e
Michel, eu não tenho como te agradecer
— Michel joga um beijo para mim, puxa
a mão da Bia e eles saem no momento
em que Gustavo aprofunda seu abraço e
me beija em desespero. Eu correspondo
e ele começa a caminhar comigo na
direção do quarto. Ele quase cai várias
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vezes, mas eu consigo segurá-lo.
Chegamos ao quarto e ele tira a
minha roupa com pressa, como se a vida
dele dependesse daquilo. Eu abro sua
calça e retiro seu tênis e meias para
descer a calça em seguida; tiro também
sua cueca e vejo todo seu desejo
exposto.
— Eu te amo tanto, meu Anjo, você é
minha! Só minha— fala me jogando na
cama e vindo por cima de mim.
— Eu também te amo, Capitão, e sou
sua para sempre, enquanto eu viver—
falo olhando em seus olhos, que estão
cheios de água, como os meus. Ele me
beija e me penetra em seguida, e como
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era bom senti-lo dentro de mim. Nossos
gemidos se misturam e ele não para de
me beijar nem um minuto. Fazemos
amor com desespero e muito amor.
— Você é linda, meu Anjo, eu
sempre vou te amar— minhas lágrimas
desciam, mas agora eram de alegria. Ele
beijava cada uma delas com carinho e
cuidado. Ficamos mais um tempo assim,
até que chegamos ao clímax na mesma
hora.
O meu Capitão tinha voltado para
mim e eu era a mulher mais feliz do
mundo de novo. Ele sai de cima de mim
e se deita de lado e apaga na mesma
hora. Eu me levanto e fecho o blecaute
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da porta da varanda, pois já era de
manhã. Pego um edredom e me deito ao
seu lado e apago junto com ele, com a
sensação de estar em casa e segura.

****

Gustavo

Acordo com uma dor de cabeça


horrorosa. Abro os olhos e eu estava
todo enrolado no meu Anjo. Travo na
hora... será que foi um sonho? Fecho os
olhos mais uma vez, tentando clarear
meus pensamentos, até que aquela
imagem volta com força à minha mente;
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a Lívia estava na cama com aquele
merda, então, o que ela estava fazendo
aqui agora?
Eu estava muito confuso, meu braço
estava em volta do corpo que eu amava,
ela estava nua, assim como eu. Flashes
da noite de ontem começam a vir na
minha cabeça: ela me dizendo que me
amava, eu socando a cara daquele
infeliz e ela o defendendo e mandando-
me parar; eu saindo da casa dela como
um louco e enchendo a cara em um bar
muito arrasado e decepcionado com ela.
É a última coisa que me lembro. Então,
o que ela estava fazendo aqui, nua, na
minha cama e em meus braços?
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Sinto o cheiro dos seus cabelos e era
tão bom!
Isso não é real, Gustavo, digo para
mim mesmo.
Ela me enganou da pior maneira
possível, não sei como ela tinha
chegado até aqui, aliás, não sei nem
como eu cheguei até aqui. Ela só pode
ter se aproveitado da minha bebedeira
para tentar me seduzir, mas eu não iria
permitir que me enganasse de novo.
Levanto-me da cama bruscamente, me
afastando dela o mais rápido possível.
Eu não podia cair nos seus encantos de
novo, ela era boa nisso e eu era um
idiota por ter deixado ela me enganar,
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tinha ficado cego pelo amor que eu
sentia por ela.
Vejo nossas roupas jogadas pelo chão
do quarto. Eu devia estar muito bêbado
mesmo, pois não conseguia me lembrar
de nada depois do bar. Coloco as mãos
na cabeça e nada. Vou para o banheiro,
faço minha higiene pessoal, entro no
closet, pego um short e o coloco.
Quando eu saio, ela ainda está dormindo
de bruços, era a visão mais linda e falsa
ao mesmo tempo. Eu não iria entrar no
seu jogo novamente.
O que ela ainda queria comigo? Será
que está arrependida de ter cedido aos
encantos do babaca? Será que queria
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levar essa relação a dois? Ou será que o
babaca, depois de comê-la, deu um
chute na bunda dela e ela veio até a mim
para consolá-la? Tantos serás que minha
cabeça está fervilhando, mas uma coisa
era certa: ela não me faria mais de
bobo, nunca mais. Sento na poltrona e
fico olhando ela dormir. Eu estava
sendo um masoquista, mas precisava
guardar essa última visão dela.

****
Ela começa a se espreguiçar e não
tinha visão mais bonita que essa. Ela
abre os olhos e me olha, dando um
sorriso lindo.
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— Bom dia, Capitão, por que você
está aí tão longe de mim? — Pergunta
com aquela voz de sono e manhosa que
eu amava, mas não tinha mais sentido
para mim, pois seu amor não era meu,
então eu teria que encarar a realidade de
uma vez.
— O que você está fazendo aqui? —
Falo bem rude, encarando-a com uma
mão sob o queixo e um dedo sobre os
lábios. Ela enruga as sobrancelhas e me
olha, confusa.
— Meu amor, eu não estou te
entendendo, por que você está agindo
assim? — Não acredito que ela esteja
me fazendo essa pergunta. Que tipo de
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idiota ela acha que sou?
— Primeiro, não me chama de seu
amor, deixa de ser falsa, sua máscara
caiu ontem, e eu acho que não era para
você ter nenhuma dúvida em relação ao
meu comportamento depois do que eu vi.
— Eu achei que tínhamos no
entendido, o que você viu não era
exatamente o que está pensando — eu
dou um sorriso debochado para ela.
Cínica!
— Você cada vez me surpreende
mais... Acha que é só vir aqui, deitar
pelada na minha cama e está tudo
resolvido? Não tem desculpas para o
que eu vi, e eu gostaria que você fosse
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embora e esquecesse que eu existo. Não
quero saber os motivos que te levaram a
me fazer de otário, só saia da minha
casa, agora.
Ela balança a cabeça de um lado para
o outro e começa a chorar. Eu só a
encaro. Ela era boa nesse lance de
fingimento, estou impressionado.
Ela se levanta da cama e está
totalmente nua, e aquela visão me
desestabiliza um pouco, mas eu não iria
ceder. Ela coloca minha camisa, que
está jogada no chão, e esconde sua
nudez. Pelo menos eu não teria
distração, eu tinha que me impor, não ia
fazer papel de corno manso.
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— Gustavo, não fala isso, você
precisa me ouvir e acreditar em mim,
pelo amor de Deus! É você quem eu
amo — continuo olhando sua cena de
plateia. Ela pensa mesmo que sou algum
imbecil e que vou acreditar nela?
— Deixa de ser falsa! Eu vi você na
cama com aquele merda! Que foi, ele já
te dispensou? — Ela balança a cabeça,
vem em minha direção e se ajoelha na
minha frente.
— Por tudo que é mais sagrado,
Gustavo, acredita em mim! Eu sei que o
que você viu parece não ter explicação,
mas eu te garanto que tem! O Otávio
armou tudo, eu não sei como ele fez, se
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me seguiu, eu só me lembro de estar na
confeitaria comprando aquela torta que
você gosta para comemorarmos sua
saída do...
— Já disse que não me interessa!
Ouvir sua voz me enoja, para de se
comportar como uma vadia, se vista e
saia da minha casa, ou eu mesmo vou te
colocar pra fora do jeito que está.
Ela não parava de chorar enquanto
falava, mas eu não sou tão burro para
acreditar nisso. Lívia era uma mulher
muito inteligente, estava se esforçando
ao máximo em me convencer com uma
história que fosse plausível. O que essa
mulher quer de mim agora?
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Levanto-me e a afasto de mim. Sinto
quando ela me abraça pelas costas e
fico parado. Ela era minha kryptonita,
tinha que me afastar dela.
— Por favor, meu amor, não faz isso
com a gente! Acredita em mim! Eu
nunca faria isso com ninguém, ainda
mais com você, que é o amor da minha
vida. Pensa bem em tudo que vivemos,
não tem cabimento, Gustavo, eu te amo
— ela está chorando muito, deve estar
querendo me comover com suas
lágrimas, mas não vou cair nessa e fazer
papel de bobo.
— Não encosta em mim! — Falo, me
afastando dela de novo – Eu te dei
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várias chances, Lívia, de você me falar
o que você queria. Eu ficaria com você
mesmo que você tivesse me dito que
ainda amava aquele merda. Eu teria
feito qualquer coisa por você, eu te dei
a minha vida. Agora você diz que me
ama? Esperei por isso todos os dias, no
fundo eu sabia que você não falava
porque não sentia. Mas eu faria você me
amar, eu suportaria qualquer coisa por
você. Só não suporto essa sua traição.
Se você me queria para fazer parte de
um jogo, parabéns, você conseguiu, mas
agora eu estou fora. Agora, vai embora
da minha casa e esquece que eu existo,
some da minha vida! — Não consigo
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segurar, lágrimas queimam meu rosto.
Ela está paralisada me olhando, pois
nunca tinha gritado com ela, depois do
dia da operação. Ela começa a engolir
em seco e está totalmente sem reação.
Começa a se vestir lentamente. Ela
começa a piscar sem parar e limpa suas
lágrimas com as costas das mãos. Olha
para mim e agora vejo ódio em seu
olhar.
— Eu só vou te dizer uma coisa,
Gustavo: se eu sair por aquela porta,
você é que vai ter que sumir da minha
vida, pois eu não vou te perdoar, ouviu
bem? — Essa é boa, minha vontade é de
bater palmas para ela — Você tem que
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confiar em mim, eu sei que o que viu
não é muito confiável, mas eu estou aqui
com você e não com ele, e estou te
implorando para acreditar em mim! Se
você quiser que eu espere você apurar
os fatos, eu espero, só não me tira da
sua vida desse jeito, senão, quem não
vai querer mais você sou eu.
— Saia da minha casa, Lívia! Não
vou repetir, quem não quer mais você
sou eu, eu não vou cair nesse seu drama.
Agora, vai embora.
Ela engole em seco e sai pela porta
do quarto sem dizer mais nada. Sento na
cama com as mãos na cabeça, que doía
muito. Estava tudo tão confuso, não
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conseguia entender, não sabia o que
pensar. O que ela fazia aqui comigo?
Será que ela teve apenas uma recaída
com aquele merda? Que se foda, dei
para essa mulher algo que ninguém
jamais teve de mim: minha vida. Minha
cabeça parecia que ia explodir de tanta
dor, mas nada que se comparasse a dor
em meu peito. Eu estava destruído, a
imagem dela na cama com aquele
homem não saía da minha cabeça. Ela
jogou tudo fora. Eu sei que essa ferida
demoraria muito para cicatrizar, mas um
dia, ela iria sarar e eu não faria papel
de bobo nunca mais na minha vida.
Como eu queria ter escutado tudo que
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ela tinha a me falar. Fui um covarde, no
fundo fiquei com medo de acabar caindo
em sua teia de mentiras. Ela acusava o
tal ex-noivo. Eu havia investigado a
vida dele, o cara era ficha limpa, tinha
um nome a preservar, não ia se meter em
nenhuma merda e arriscar sua carreira.
Eu sei que tomei a atitude certa, o que
ela fez era imperdoável. Por mais que
eu a amasse, eu não iria conseguir
seguir em frente com nossa relação.
Minha vida nunca mais seria a mesma
depois dela...
Ouço a porta da sala bater e desabo,
chorando como uma criança. Ela tinha
levado meu coração, e eu sei que nunca
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mais o teria de volta.

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Capítulo 26
Lívia

Saio do quarto do Gustavo


totalmente arrasada. Ele não tinha
acreditado em mim e nem no meu amor,
eu implorei e nem assim ele quis me
ouvir, o ódio e o desprezo que vi em seu
olhar acabaram de vez comigo. Ele
estava muito bêbado mesmo, nem se
lembrava que tínhamos feito amor e nem
de todas as declarações que fizemos. A
dor que eu estava sentindo era
dilacerante, comprimia meu peito de
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uma forma que parecia que eu iria parar
de respirar a qualquer momento, nem sei
como chegaria em casa, eu estava muito
arrasada. Meu mundo desabou mais uma
vez em minha cabeça, talvez meu
destino fosse sofrer.
Pego minha bolsa, tiro o atestado
que a médica me deu e coloco junto com
a cópia das chaves que ele tinha me
dado em cima do balcão do bar. Eu não
sei se ele leria, mas queria deixar pelo
menos uma prova de minha inocência.
Sei que está cego pelo ódio, mas ele não
levou nada em consideração, e isso
tinha me deixado muito magoada.
Saio de sua casa e bato a porta da
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sala. Eu estava com muita raiva de sua
atitude, ele não foi nenhum pouco
humano, será que não viu o quanto estou
sofrendo? Só ficava lá me julgando e me
chamando de falsa. Saio do elevador e o
porteiro me encara, parece assustado
com meu estado.
— A senhora está bem? Posso
ajudar em alguma coisa? — Pergunta
aflito, minha aparência deveria estar
mesmo péssima.
— O Senhor pode me conseguir um
táxi? — Tento não chorar.
— Claro, tem um ponto aqui
pertinho, vou ligar, só um minuto — me
sento no sofá da portaria e baixo minha
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cabeça. Toda vez que escutava o
barulho do elevador, eu olhava na
esperança de ser Gustavo me pedindo
para não ir. Algum tempo depois, o táxi
chega, eu agradeço ao porteiro que
sempre foi muito gentil comigo, e entro
no táxi. Dou o endereço da minha casa e
vinte minutos depois eu estava entrando
no meu prédio.
Chego ao meu apartamento e
desabo, não conseguia parar de chorar.
O sábado vai embora e o domingo chega
e eu ainda estou na mesma.
Estou deitada em meu quarto e só
tinha me levantado para ir ao banheiro,
mais nada. O domingo também vai
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embora, eu estava sentindo uma dor fora
do comum, parecia que meu coração
tinha sido esmagado. Sabia que iria
sofrer no final, só não sabia que a dor
seria tão grande!
— Lívia! — Acordo com a Bia me
chamando, abro os olhos e ela faz uma
cara de pavor.
— Ai meu Deus! O que aconteceu,
amiga? Michel me ligou agora, disse
que o Gustavo chegou lá para trabalhar,
e quando ele perguntou por você, ele
disse que não sabia.
— Ele me expulsou da casa e da
vida dele, Bia, eu tentei de tudo, mas ele
não quis me ouvir... minha vida acabou,
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amiga— falo muito desanimada, sem
nem sequer me mexer, eu não tinha nem
mais lágrimas para chorar.
— Não acabou nada, para com
isso! Essa não é a Lívia que eu conheço.
Desde quando está aí nessa cama?
— Desde sábado, eu acho, que dia
é hoje? — Falo com a voz fraca.
— Aí meu Deus, Lívia! Por que não
me ligou? Você comeu alguma coisa?
Hoje já é segunda-feira — ela estava
apavorada. Eu só queria ficar quieta no
meu canto — Quando foi a última vez
que comeu, Lívia? — Eu não queria
comer, queria meu Capitão aqui comigo,
só isso — Lívia, responde, droga! —
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Bia está muito nervosa, mas não consigo
responder. Ela pega meu pulso,
enquanto sinto meus olhos mais
pesados... eu só queria dormir.

****
Acordo em um quarto que não é o
meu, parecia um quarto de hospital.
Olho para o lado e vejo um escalpe em
meu braço e um soro pendurado. Como
vim parar aqui?
— Acordou a Bela Adormecida! —
A voz da Bia e é um alívio para mim.
— O que eu estou fazendo aqui,
Bia? Que dia é hoje? — Pergunto
passando as mãos pelo rosto.
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— Ainda é segunda, e a Senhora
nunca mais me dê um susto desses,
senão, eu juro que te mato, ouviu bem?!
— Ela fala pegando minha mão e se
sentando ao meu lado.
— Por que você não me ligou,
amiga? Eu quase tive um treco quando te
vi naquele estado— fala chorando.
— Eu só queria sumir, Bia! Ele me
expulsou da sua vida e eu só via ódio
em seu olhar, dói tanto, Bia! Eu entendo
que não foi nada legal o que ele viu,
mas poxa, eu fui lá, implorei, nós
fizemos amor, Bia, e ele nem se lembrou
disso.
— O cara estava bêbado! Acho que
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você, tipo, abusou dele— ela diz
limpando o rosto. Não tem jeito, eu dou
um sorriso, não aguento.
— Você não vai mudar nunca, não
é, dona Bia? Me perdoa por ter feito
você passar por isso, não queria que
ficasse chateada comigo, Bia.
— Está tudo bem agora, só não
esqueça nunca que eu estarei sempre ao
seu lado, amiga — meus olhos ficam
marejados.
— Obrigada. Eu vou procurar
forças, amiga, ainda não sei onde, mas
vou.
— Eu sei, essa força está aí dentro
de você. É a pessoa mais forte que
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conheço, Lívia.
— Ele não confiou no nosso amor.
Eu me humilhei, e mesmo assim, não
teve nem um pingo de compaixão. Cadê
aquele amor todo que disse que sentia?
— Amiga, a cena que ele viu não
foi muito favorável para que ele fizesse
isso, você precisa dar um tempo para
ele, a cabeça do cara deve estar muito
confusa.
— Eu disse que daria esse tempo e
pedi por tudo que lhe era mais sagrado
para ele não me afastar. Poxa, Bia, eu
estava lá com ele, será que isso não
conta? Se eu quisesse o Otávio, não
estaria lá ao seu lado, ele não me deu
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nem o direito de explicar — ela arqueia
as sobrancelhas.
— Fica calma, amiga, sei que
vocês vão resolver isso. Vocês se amam
e, no final, vai dar tudo certo — eu a
olho e nesse momento eu tomo uma
decisão: eu não sofreria mais assim,
nem por ele e nem por ninguém. Se ele
não confiou em mim quando implorei,
então quem não o queria mais era eu.
Seria muito difícil tirá-lo de dentro de
mim, ele estava enraizado em cada
célula do meu corpo. Mas eu
conseguiria. Ele não me deu nem o
direito da defesa, o ciúme, o ódio e o
orgulho dele, foram maiores que o amor
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que ele disse que sentia por mim. Sei
que a cena que viu foi muito ruim, mas
ele só me viu dormindo, não foi como
quando eu vi o Otávio, ali não tinha o
que contestar; mesmo assim, eu sei que
se eu o amasse de verdade, eu o teria
perdoado. Estou muito magoada com
sua atitude, nem sei se ainda quero
esfregar na cara dele o exame que irá
provar que fui dopada.
— Ele já resolveu, Bia, quando me
expulsou do seu apartamento sem dó
nem piedade. Nem sei como cheguei em
casa, eu só queria morrer, mas agora o
que eu quero é viver e esquecer que um
dia o conheci, tanto ele quanto aquele
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desgraçado do Otávio.
— Só toma cuidado para não
cometer o mesmo erro que ele, Lívia,
jogar sua felicidade fora — que
felicidade? Minha felicidade tinha
ficado naquela confeitaria, e eu sei que
nunca mais a pegaria de volta.
— Eu só quero esquecer, Bia,
temos uma academia para abrir e um
diploma para pegar, e isso vai ser a
prioridade na minha vida— ela sorrir e
afirma com a cabeça.
— Eu vou estar sempre com você,
amiga, para o que decidir.
— Eu não tenho dúvidas disso, Bia.

Acheron Livros e afins


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****
Saio do hospital já é quase noite.
Bia fica comigo o tempo todo e o
Michel vem nos buscar. Ele estava
sendo um grande amigo também, sabia
que ele tinha acreditado em mim, assim
como a Bia. Eu estava muito abatida
ainda, e a dor que eu estava sentindo,
sei que médico nenhum poderia tirar de
mim; eu teria que me acostumar com ela,
não seria nada fácil, pois tudo me
lembrava ele, até mesmo o próprio
Michel.
Chegamos ao meu apartamento e a
Bia se despede do Michel e diz que vai
ficar comigo hoje. Digo a ela que não é
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
necessário, mas insiste e fala que de
jeito algum me deixaria sozinha.

****
Acordo depois de uma noite mal
dormida e cheia de pesadelos com o
Gustavo me rejeitando. Eu não sei como
teria forças para ficar sem ele, mas eu
acharia, focaria no meu sonho e viveria
da maneira que fosse possível. Sei que,
com o tempo, a dor ficaria mais fraca,
assim esperava.
Levanto-me, tomo um banho e vou
para a obra com a Bia. Precisava
esquecer minha dor nem que fosse por
umas horas. Conseguimos decidir os
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
últimos detalhes da reforma e o
responsável nos garantiu que em menos
de um mês nos entregaria tudo pronto,
pelo menos uma notícia boa. Tinha
decidido que esse fim de semana eu iria
para a casa da minha mãe, estava
precisando muito do seu colo.
A quarta-feira chega e estou mais
calma, a dor continuava lá, mas estava
aprendendo a conviver com ela. Me
divertia muito com os empreiteiros da
obra, eles eram muito engraçados! Meu
TCC estava quase finalizado, ainda
bem, pois não teria cabeça para
terminá-lo.
Bia estava me ajudando muito, ela
Acheron Livros e afins
Acheron Livros e afins
não tocava no nome do Gustavo e nem
deixava o Michel tocar também, era
como se ele não tivesse existido. Só na
teoria, porque de dentro de mim, ele não
queria sair, tudo que dizia respeito a ele
estava bem vivo dentro de mim.
A quinta-feira chega, sei que eu
deveria estar com uma cara horrível,
pois minhas noites estavam sendo bem
longas, demorava muito até eu pegar no
sono. Sentia uma falta dele absurda,
nunca imaginei ser tão dependente assim
de uma pessoa.
— Oi, amiga, e aí, como estão as
coisas por aqui? — Bia chega com uma
animação meio forçada, aí tinha coisa.
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— Por aqui tudo certo, e com você?
Que cara é essa, o que você está me
escondendo? — Ela era péssima em
mentir e esconder alguma coisa, eu
sempre descobria.
— Nada, amiga, eu, hein! — Eu a
encaro e ela desvia o olhar.
— Fala logo, Bia, nada vai fazer eu
me sentir pior do que já estou— ela
morde os lábios e sei que está em
dúvida se diz ou não.
— Ai, amiga, você vai acabar
sabendo mesmo, acho melhor te dizer
logo— estou séria e minha respiração
está acelerada.
— Fala logo, Bia! Já estou nervosa
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com essa enrolação toda.
— É o Gustavo... — eu não a deixo
terminar, faço um gesto de mão para ela.
— Eu não quero saber, Bia, já disse
que nada que diz respeito a ele me
interessa, então, por favor, me poupe—
ela assente e não diz mais nada.
— O que você acha dessa cor para
o estúdio de dança? — Pergunto para
mudar de assunto e mostrando a paleta
de cores para ela.
— Acho linda! Arrasou, Lívia! —
Eu sorrio, tento parecer feliz, mas só eu
sabia como estava sendo difícil.
Ficamos ali mais um tempo, até a
hora de eu ir para o estúdio. Hoje seria
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meu último dia lá, não daria mais para
conciliar por causa da academia, eu já
tinha avisado a dona do estúdio. Só
estava esperando uma substituta, e como
isso já tinha acontecido, hoje seria meu
último dia. Eu iria sentir falta das
crianças, mas sempre que desse, eu iria
visitá-las.
Chego ao estúdio e fico muito
emocionada, a sala estava toda
enfeitada e as crianças fizeram uma
linda homenagem para mim, teve até um
lindo bolo. Despeço-me de cada uma
com muito carinho e amor.
Saio do estúdio e vou direto para
casa. Era tão difícil quando chegava em
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casa, tudo me lembrava ele, estava
muito difícil. Pego um livro para me
distrair até que consigo me envolver na
história, e quando menos espero, o
cansaço me vence e eu durmo.
Acordo na sexta e me arrumo para
ir para a casa da minha mãe. Seria uma
tortura se eu ficasse o fim de semana
todo dentro desse apartamento.
Chego a Angra e o dia estava
chuvoso, combinando com meu estado
de espírito. Passo na loja da minha mãe
para dar um oi e vou para casa. Chego
no meu quarto e o único pensamento que
eu tinha era o Gustavo. Será possível
que eu não iria conseguir esquecê-lo
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nunca? Pego meu celular e nada, ele
nem sequer tinha me ligado uma única
vez desde sábado passado.
O que será que a Bia queria me
dizer? Será que ele estava com outra
pessoa? Era isso, ele já tinha esquecido
tudo que vivemos? Só de pensar nele
com outra pessoa me dava desespero.
Esquece isso, Lívia, ele não faz
mais parte da sua vida, então ele tem o
direito de ficar com quem quiser.
Meu celular apita em minhas mãos
e levo um susto, quase o jogo para o
alto.
*Chegou bem, amiga?*
Caramba, eu tinha me esquecido de
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retornar para ela.
*Cheguei sim, Bia, e como vão as
coisas por ai? *
Ela demora um pouco para me
responder
*Tudo certo*
*Ok, qualquer coisa me passa
msg ou me liga, o tempo está bem
chuvoso aqui, nem devo sair de
casa, bjs*
*Aqui tbm está bem fechado e
bota fechado nisso, bjs*
O que ela quis dizer com isso?
Espero que esteja falando do tempo
mesmo. Eu fico no quarto até que minha
mãe chega. Conversamos muito, ela me
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dá conselho para conversar com o
Gustavo e denunciar o Otávio na
polícia, pois o que ele fez era crime.
Mas eu não acho que isso vá adiantar,
pois o pior dano era ter perdido o amor
da minha vida por sua causa.
Resolvo ir embora sábado, depois
do almoço, pois tinha combinado com a
Bia que iríamos para a academia para
acertar algumas coisas. Ainda tinha
algumas coisas para fazer, e tudo tinha
que está perfeito daqui a uma semana
que seria o grande dia.
Chego em casa já eram dezoito
horas. Passo uma mensagem para a Bia,
dizendo que eu já estou em casa. Vou
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para o quarto e me deito, e sem que eu
queira, me lembro de Gustavo. Abraço
o travesseiro que era seu, seu cheiro
ainda estava lá. Por que tinha que
acontecer isso com a gente e ele tinha
que ser tão radical e insensível? Como
ele pôde agir assim, como se eu nunca
tivesse existido? Fico ali, pensando em
tudo que vivemos. E como foi intenso
desde o início, como sentíamos a falta
um do outro, e agora parece que eu
nunca existi em sua vida. Fico ali mais
umas horas, lembrando os nossos
momentos perfeitos, e quando me dou
conta, pego o celular e digito uma
mensagem. Juro que não iria enviar, mas
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quando menos espero, a dor da saudade
e a decepção são tão grandes que aperto
o botão de enviar.
* Como você pode agir assim,
como se eu nunca tivesse existido?*
Quando vejo, já enviei a mensagem
para ele. Merda! Uns dez minutos após
eu ter enviado a mensagem, meu celular
apita. Levo um susto, sem acreditar que
ele havia respondido. Droga, droga! E
agora, será que eu quero ler essa
mensagem? Meus olhos ardem pela
saudade, depois de tanto tempo, isso
seria o mais próximo que tive dele. Não
resisto e leio a mensagem.
* Não posso falar agora*
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Como assim ele não podia falar
agora? Era sábado à noite!
Eu sabia, ele já estava com outra
pessoa. Pensei que não conseguiria me
sentir pior, mas estava enganada. Mordo
meu lábio inferior com tanta força que
sinto o gosto de sangue.
* Desculpa, enviei para o número
errado, não vai acontecer de novo, já
estou retirando seu número da minha
agenda.*
Foi a única coisa que me veio na
cabeça. Quem me mandou mexer em
formigueiro?
Ele não responde mais nada e
termino a noite chorando muito, nunca
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imaginei que ele fosse capaz disso. Eu
ainda não tive coragem nem de abrir sua
gaveta para devolver as coisas dele que
estavam aqui, e ele já estava com outra.
Choro agarrada ao seu travesseiro que
ainda tinha seu cheiro, até pegar no
sono.
****
Acordo cedo para ir ao encontro da
Bia na academia, estávamos a todo
vapor com os últimos preparativos para
a inauguração que seria na próxima
semana. Ainda tinha muitos detalhes
para fazer e não queríamos atrasar, por
isso marcamos hoje. Estava tudo tão
lindo! A academia era dividida em
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vários espaços, teríamos a área de
musculação, treinamento funcional,
crossfit, pilates, tudo que tinha de mais
moderno na área fitness. O ambiente era
climatizado, tudo perfeito! Já tínhamos
quatro professores contratados, mais a
recepcionista que era a Sara, que nem
pensou duas vezes quando liguei para
ela, topou na hora.
O meu estúdio estava um sonho,
tudo do jeito que sempre quis. Ele foi
dividido em quatro salas enormes e uma
sala de espera bem confortável. A
inauguração estava marcada para as
vinte horas da próxima segunda-feira e
já tínhamos mais de cem pessoas
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confirmadas, eu e a Bia estávamos
muito felizes.
— Lívia, marquei com o buffet para
chegar aqui às dezessete horas, já está
confirmado — respiro aliviada, tudo
tinha que estar perfeito.
— Tia Gisele vem não é, Bia?—
ela sorri.
— Claro, ela não iria perder— que
bom, colocaria meu plano em prática.
Ligo para o tio Nelson e ele
confirma presença também. Vou tentar,
vai que dá certo. Eu querendo dar uma
de cupido, quando minha própria vida
amorosa estava péssima. Mas eu já tinha
aprendido a conviver com a dor, ela era
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minha companheira inseparável. Eu
precisava dela como uma dependente
química precisa da sua droga. Ela me
fazia sentir viva, era a prova de que
Gustavo existiu, não foi um sonho.
Ele até agora não havia me
procurado. Eu não largava meu celular,
ainda tinha esperança.
Não vou pensar nisso. Eu estava
realmente animada com nosso estúdio,
meu TCC já estava pronto e o da Bia
também, agora era só mais um mês e
meio de aulas e depois estaria formada.
Meus planos estavam se realizando.
Fico ali olhando como tudo estava
lindo. Eu queria tanto que meu pai
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estivesse aqui e na minha formatura,
mas sei que onde quer que ele esteja,
estava muito feliz por mim. Com esse
pensamento, não consigo evitar as
lágrimas. Eu estava ali sozinha no meu
estúdio, sonhei tanto tempo com isso, e
meu pai sempre disse que eu
conseguiria, e agora estou aqui com meu
sonho realizado e meu coração
destruído. Sento no chão e pego meu
ipad para ouvir umas músicas. Eu
precisava ficar ali sozinha, precisava
desse tempo comigo mesma. Começa a
tocar uma música, baixo minha cabeça
nos joelhos e as lágrimas não param de
cair. Eu não queria mais chorar por ele,
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mas eu não conseguia, ainda doía muito
ficar sem o Gustavo, e com essa música,
Simplesmente aconteceu, de Ana
Carolina, tocando em meus ouvidos,
todas as lembranças ficavam ainda mais
vivas, parecia que ela contava minha
história...

“(...)Simplesmente aconteceu
Não tem mais você e eu
No jardim dos sonhos
No primeiro raio de luar

Simplesmente amanheceu

Tudo volta a ser só eu(...)”


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Sinto uma presença e meu coração


começa a pular sem parar em meu peito.
Eu já sabia quem estava ali, e eu queria
muito que não fosse mais um sonho.
Quando levanto a cabeça e abro os
olhos...

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Capítulo 27
Gustavo

Chego à empresa muito


transtornado ainda. Eu tinha ficado
naquele quarto desde sábado, e só saí
para comer alguma coisa. Meu fim de
semana tinha sido todo assim, parecia
que era uma dor que não iria passar
nunca. Só vim para a empresa hoje
porque era a única coisa que me restava
e sei que precisava reagir a esse estado
de letargia que me encontrava. Ou eu
acabaria enlouquecendo com a falta
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dela.
— E aí, cara, como foi o fim de
semana? — Pergunta Michel, entrando
na sala. Eu só o encaro e ele nota que
não tinha sido bom.
— Cadê a Lívia, cara? — Ele só
pode estar de sacanagem com a minha
cara.
— Eu é que sei? Pergunta para o
ex-atual dela, ele deve saber, não tenho
vocação para corno, Michel! — Falo
com muito ódio ainda. Ele me olha
espantado.
— Eu pensei que vocês tinham se
acertado no sábado, quando cheguei
com você do bar — do que ele estava
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falando?
— Como assim, Michel? Não estou
entendendo— ele me olha intrigado. O
celular dele toca e ele faz um sinal para
que eu espere.
— Oi, amor, bom dia! — Eu ia ter
que aturar isso mesmo?
— Amor, ele me disse que não sabe
dela... não sei, vai até a casa dela e
qualquer coisa me liga. Beijos, eu te
amo — fecho os olhos ao ouvir essas
palavras, eu só me lembrava dela, eu
tinha que esquecê-la.
— Já vi que vou ter que começar
do início — ele volta a falar comigo
depois que desliga o telefone.
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— Não, Michel, você não tem que
começar nada do início, eu já sei o
suficiente e não me interessa mais nada
que diga a respeito da Lívia. Por favor,
se você respeita nossa amizade, só não
toca mais nisso, eu não quero saber, eu
sei o que vi.
— Mas cara, ela...
— Porra, Michel! Eu vou ter que
ser grosso com você ou sair da sala
para você respeitar minha decisão? —
Ele balança a cabeça em negativa.
— A vida é sua, Gustavo, espero
que não se arrependa da sua atitude,
você deveria escutar o que ela tem a
dizer.
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— Não enche, Michel! Falar é
fácil, no dia que você pegar a sua
mulher na cama com outro, aí você
conversa com ela. Agora deixa que eu
resolva as coisas do meu jeito — saio
da sala e bato a porta com toda força.
Vou para a área de produção,
precisava me envolver com alguma
coisa para tirá-la da minha cabeça. Eu
não conseguia parar de pensar em toda
nossa relação, como não enxerguei isso?
Eu tinha certeza que ela também sentia o
mesmo, não é possível que ela tenha
conseguido fingir tão bem. Eu sentia sua
entrega e até seu amor, então por que foi
para a cama com aquele merda?
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Nada mais fazia sentido, eu tinha
perdido a mulher da minha vida, e de
quebra, também tinha saído do Bope,
que era o que me movia até o dia que a
conheci e me enfeitiçou com aquele
olhar.
Lembro-me do que o Comandante
me falou sobre esperar para encaminhar
a baixa, achei que era absurda essa
ideia, mas agora que eu não a tinha e
nem a teria mais, eu iria pelo menos
tentar resgatar o que tinha jogado fora
por causa desse amor que achei ser
verdadeiro.
Volto para minha sala e o Michel
não está mais lá. Fico ali até as dezoito
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horas e vou para casa. Eu não tinha
dormido mais em meu quarto desde
sábado, era insuportável ficar lá, seu
cheiro e suas lembranças estavam por
todos os lados, eu agora só usava o
quarto de hóspedes, era o único cômodo
neutro da casa. Eu não conseguia nem
mais cozinhar na minha própria cozinha,
tudo me lembrava ela. Eu só queria
acordar desse pesadelo. Ainda não sei
se desejo nunca a ter conhecido, pois
esses quase cinco meses foram os mais
felizes e completos da minha vida, mas
a dor que eu estava sentindo agora
também era muito grande, não sei como
eu iria conseguir superar isso, mas eu
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iria lutar. Por isso tomei uma decisão:
iria voltar para o Bope, eu não poderia
perder ao mesmo tempo as duas paixões
da minha vida.
Mais uma noite que eu só durmo
quando o cansaço me bate quase de
manhã, parecia que estava faltando um
pedaço de mim, e a hora de dormir era a
pior, sentia falta do seu corpo grudado
ao meu, o cheiro dos seus cabelos, sua
pele, sua voz ao acordar. E só de pensar
que tudo isso agora era daquele merda
eu iria ficar louco! Além do meu
coração, ela também estava levando
meu juízo.
Acordo e vou para o batalhão. O
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Comandante fica surpreso em me ver,
pois uma coisa que eu tinha, era
palavra. Digo a ele que tinha aparecido
um imprevisto financeiro e eu teria que
esperar mais um pouco para sair. Eu que
não iria dizer que levei uma galhada,
pois sei que seria a chacota do batalhão,
já bastava a zoação que tive que aturar
por conta do atrevimento dela naquela
operação. Ele concorda e me deixa à
vontade para ficar anos ou sair a hora
que me fosse conveniente. Agradeço e
saio satisfeito. Eu era um Caveira
novamente, isso ela não tinha me tirado.
A quarta-feira chega e eu fico na
empresa o dia todo, todos estavam meio
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bolados comigo, acho que meu humor
não estava dos melhores. Saio às
dezoito horas e vou para casa, estava de
plantão hoje.
Chego na operação que nem um
louco, minha vontade era de resolver
todos os problemas dessa comunidade
em uma só ação, estava com sangue nos
olhos. Graças a Deus tudo correu bem,
e durante a operação, eu não havia
pensando nela. Sabia que tinha tomado a
decisão correta ao voltar, com o tempo,
eu a esqueceria e voltaria a ser o
Capitão Torres de antes de conhecer a
Lívia.
A sexta-feira chega e vou para a
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empresa. Fico lá, estou entretido quando
escuto uma batida na porta.
— Entra! — Quando a porta se
abre, vejo a Bia.
— Posso entrar? — Ela fala meio
sem graça. Eu não vou negar que estou
surpreso por ela ter demorado tanto
tempo para aparecer, e isso só
confirmava a culpa no cartório da Lívia.
— Claro, Bia, fique à vontade —
afinal, ela sempre foi muito gente boa
comigo e não tinha culpa da merda que a
amiga fez.
Ela sorri sem graça, entra, e se
senta na cadeira à minha frente.
— Eu fiquei de encontrar com o
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Michel aqui — concordo com a cabeça,
ainda sem entender o que ela queria na
minha sala — Gustavo, eu sei que não
tenho nada a ver com a vida de vocês,
mas dá para ver que você também está
sofrendo tanto quanto a Lívia, então, por
que você não a procura? — Ela
escolheu dormir com aquele cara, então,
ela que fosse bem infeliz com ele, só
não queria mais ficar tocando nesse
assunto, já doía o suficiente sem ter que
falar.
— Olha, Bia, não quero ser
indelicado com você, mas se veio aqui
para falar da sua amiga, perdeu a
viagem — ela me olha e nega com a
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cabeça.
— Gustavo, nunca vi minha amiga
nesse estado, eu estou muito preocupada
com ela. Você sabia que ela foi parar no
hospital depois que saiu da sua casa? —
Eu levo um baque, meu coração para
por um segundo, e tenho certeza que
meus olhos estão arregalados.
— O que houve, Bia?! — Sei que
não deveria querer saber mais dela, mas
minha preocupação é maior.
— Ela simplesmente não comeu e
nem bebeu nada desde que saiu da sua
casa. Eu a achei deitada em sua cama na
segunda-feira e ela desmaiou, tive que
chamar uma ambulância, foi sorte eu
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chegar a tempo. Eu juro que não fui
antes, porque achei que ela estava com
você, pois sábado, quando eu e o
Michel saímos do seu apartamento,
parecia que vocês tinham se entendido
— que porra é essa que ela e o Michel
estão falando que parecia que tínhamos
nos entendido? Eu não vejo como isso
seria possível, até agora estou
estranhando o fato de ela ter acordado
pelada na minha cama — Eu levei um
susto muito grande quando a vi naquele
estado — eu engolia em seco e não
conseguia falar nada, só de imaginá-la
assim eu tinha vontade de morrer.
— Cadê aquele merda agora que
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não viu isso? E porque não me disseram
nada no dia? — Pergunto para ela e só
tinha ódio em minha voz.
Ela revira os olhos para mim e
balança a cabeça em negativa.
— Jura que você acreditou mesmo
naquela armação barata daquele idiota,
Gustavo? E não falamos para você
porque você disse ao Michel que não
queria mais saber nada dela e eu falei
para ele não te dizer, você tinha o dever
de confiar nela! — Eu a encaro. Será
que todo mundo iria querer desmentir o
que eu vi com meus próprios olhos? E
como eu confiaria vendo o que vi?
— Bia, como eu já te falei, eu não
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quero falar de...
— Como você me explica o fato de
eles não estarem juntos? Ela ter ido na
mesma madrugada atrás de você? Ela
ter dado uma surra nele, claro, do jeito
dela, depois que você foi embora, e
ainda ter me chamado para ajudá-la a
tirar o traste de lá? E pior, ter quase
morrido por sua causa? — Ela me
interrompe. Cruza as duas mãos sob o
queixo e fica esperando minhas
respostas, que eu não tinha nenhuma,
mas a última pergunta mexeu muito
comigo. Não consigo nem imaginar isso,
meu coração se aperta de um jeito que
achei que não voltaria ao normal. Me
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seguro para não chorar na sua frente,
que merda de caveira seria se fizesse
isso?
— Ela está sofrendo muito,
Gustavo, ela me disse que a vida dela
tinha acabado. Se eu não estivesse
chegado a tempo naquela segunda-feira,
não sei se ela estaria aqui hoje, ela já
tinha se entregado — se ela se sente
dessa forma mesmo, por que então me
trair com aquele cara? E depois bater
nele e expulsá-lo de sua casa, claro, ela
deve ter se arrependido de ter ido para
a cama com ele. Vai ver que o cara era
uma merda na cama, também. Caralho,
eu ia ficar maluco!
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— Desculpa, Bia, eu não sei o que
ela pensou, não tenho como saber, eu só
sei que o que vi vai ser difícil de
esquecer — levanto-me e vou em
direção à porta. Eu cansei dessa
conversa e não quero ser um grosso com
a Bia. Na verdade, eu estava muito mal
por ela ter precisado de mim e eu não
estar lá. Apesar de querer, eu não
conseguia odiá-la, eu ainda a amo e não
consigo imaginá-la nessa situação por
minha causa, apesar de ela mesmo ter
provocado isso.
— Pensa, Gustavo! Que policial
você é? Liga os fatos, você está sendo
burro, e quando perceber seu erro, pode
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ser tarde demais. Eu conheço minha
amiga, ela é dura na queda, estou te
avisando porque gosto de você e sei que
a ama de verdade. Tenha certeza de uma
coisa: se eu não achasse isso, você a
essa altura já estaria sem suas preciosas
bolas! — como eu queria que a Bia
estivesse certa.
— Bia! — Escuto a voz do Michel
atrás de mim, e é minha deixa. Saio sem
nem dizer adeus. Ela realmente
acreditava na inocência da amiga.
Porra! Agora isso, ela tinha enchido
minha cabeça, eu estava até começando
a duvidar dos meus próprios olhos.
Minha cabeça era uma confusão só, eu
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não parava de pensar na traição da
Lívia e em como ela jogou fora tudo que
tínhamos, mas por outro lado, o
desespero dela, e agora esse fato de ela
ter ido parar no hospital por isso, nada
batia. Eu precisava respirar ou eu iria
enlouquecer.
Pego meu carro e saio sem rumo,
quando vejo, estou em frente ao seu
prédio, querendo vê-la. Eu era a porra
de um masoquista, mas saber que ela
poderia ter morrido mexeu demais
comigo. Eu iria conversar com ela mais
uma vez, ela tinha que me explicar de
novo o que houve, mesmo sabendo que
nada me convenceria do contrário. Eu já
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estava pensando na hipótese de tentar
perdoá-la, fingir que acreditava em sua
história, sei lá, eu só tinha que olhar nos
seus olhos.
Deixo o carro em frente ao seu
prédio, pois não sabia se ela tinha
proibido minha entrada.
Entro e era outro porteiro. Ele já
tinha me visto umas duas vezes com a
Lívia, sabia que eu era seu namorado,
no caso, agora ex. Passo por ele, dou
bom dia e ele responde normalmente,
parece que ela não tinha falado nada na
portaria. Estranho...
Chego em seu apartamento, e por
força do hábito, não toco a campainha,
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entro direto com a chave que eu ainda
tinha em meu chaveiro. Todo aquele
tormento do último sábado volta à
minha mente com força total.
O apartamento está muito
silencioso. Meu corpo está trêmulo. Vou
andando até seu quarto, com passos
lentos, pensando em voltar, não
aguentaria de novo ver aquela cena. Me
pego rezando baixinho quando abro a
porta lentamente. Ela não está lá, o
banheiro também está vazio.
Inesperadamente, sinto um imenso
alívio. Sento na sua cama e a cena dela
dormindo com aquele merda não me
abandona. Vejo toda a cena de novo na
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minha frente, meu sangue esquenta, o
ódio volta a me invadir com força total.
Eu estava me iludindo e sendo um idiota
mais uma vez. Levanto-me com muita
raiva e vou embora de seu apartamento.
Ainda bem que ela não estava aqui.
Bato a porta com força e vou embora.
Vou para casa e não saio mais.
Sábado, acordo tarde e resolvo dar
uma volta na praia. Precisava me
acalmar, e o mar tinha esse poder.
Eu seria capaz de tocá-la, de beijá-
la de novo sem pensar naquele cara
fazendo a mesma coisa? Eu conseguiria
confiar nela algum dia? Por que meu
coração me dizia que eu estava fazendo
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a coisa errada e minha razão me dizia o
contrário? Eu deveria seguir minha
razão e tirar essa mulher da minha vida
definitivamente. Mas meu corpo e meu
coração me diziam que eu jamais
conseguiria sem ela. Estou caminhando
perdido em meus pensamentos
conflituosos quando meu celular toca.
Era o Comandante do meu batalhão. A
tarde já se aproximava, eu nem vi o
tempo passar.
— Pois não, Comandante.
— Capitão, sei que hoje é sua
folga, mas houve um imprevisto com um
dos nossos homens de comando e
precisamos de você aqui. Será uma
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operação arriscada e não confio em
mais ninguém.
— Ok, Comandante, pode contar
comigo — até que esse chamado veio a
calhar.
— O aguardo às dezoito horas. Até
mais — desliga o telefone.
Percebo que estou com muita fome,
vou até a confeitaria fazer um lanche
antes de ir para o batalhão. Já estava
bem próximo a ela. Entro e vou direto
para o balcão.
— Por favor, gostaria de um
pedaço da torta de nozes e um suco de
abacaxi com hortelã.
— Claro, sua torta preferida, como
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está sua namorada? Ela está bem?
Quando ela esteve aqui na sexta
comprando sua torta, ela passou mal.
Sorte que estava com um amigo que a
socorreu. Fiquei com pena dela, ela
estava tão feliz dizendo que faria uma
surpresa para você — fico um pouco
confuso, e só então a ficha cai. Lívia
havia falado algo de que esteve aqui
sexta, comprando essa torta.
— Ah, sim, ela está bem, você
poderia me dizer exatamente o que você
viu? — Fico ansioso, meu coração se
enche de esperanças.
— Olha, me desculpe, não quis te
causar algum tipo de ciúmes. Fique
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tranquilo, eles não fizeram nada demais.
Só tomaram um suco, e na hora em que
ela levantou para pagar a torta, percebi
que não estava passando muito bem. Ela
desmaiou e o rapaz que estava com ela
disse que estava tudo bem, que ele era
amigo da família e que a levaria para
casa, que ela tinha esses desmaios
frequentemente — a realidade me bate
como um Tsunami, eu estava
malditamente aliviado. Meu Anjo foi
dopada, aquele filho da puta havia
mesmo feito isso com ela. Eu ia matar
aquele desgraçado!
Saio correndo para a rua sem saber
o que fazer, eu precisava falar com ela,
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eu precisava do seu perdão. Meu Deus,
que merda eu fiz? Aquele babaca armou
tudo, eu não sabia o que eu iria fazer
com ele. Eu não acreditei na sua
inocência, ela jurou que jamais me
perdoaria.
Corri para meu apartamento, eu
devia estar parecendo um louco, todos
me olhavam, e foi aí que percebi que
chorava. Chorava de alívio, de dor, de
raiva, de remorso. Chorava mais por ter
sido um babaca, ela poderia ter
morrido, eu não conseguia parar de
chorar. Entro no meu apartamento e me
encosto na porta, deixando meu corpo
deslizar até o chão. Choro mais, choro
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como se esse choro fosse lavar minha
alma, perdoar os meus erros. Quando
me acalmo, lembro que tenho que ir
para a missão. Vai ser bom ter esse
tempo, preciso pensar no que vou fazer.
Minha vontade é de ir agora atrás dela,
mas eu já tinha feito merda demais, teria
que agir com calma. Vou tomar um
banho e pegar meu uniforme.

****
Chego ao batalhão, me reúno com a
equipe e pego todos os detalhes da
operação. Às vinte horas saímos em
rumo à comunidade. A operação dessa
vez seria pegar um traficante que estava
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foragido. Sei que não seria fácil, pois o
desgraçado era como um rato, estava
muito difícil a sua captura. Chegamos à
comunidade, e assim que entramos, o
bicho começa a pegar. Tinha várias
barricadas impedindo nossas viaturas
de subir, nós tiramos as que foram
possíveis, até que tivemos que
abandonar as viaturas e armar o cerco a
pé mesmo. Já tínhamos a posição do
infeliz, graças a umas “entrevistas”
bem-sucedidas. Eu estava na frente,
minha adrenalina estava a mil por hora,
nosso grupo tinha um total de quinze,
estávamos avançando quando de repente
começamos a ser alvejados por vários
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tiros. Separamos a equipe e vamos
derrubando um a um, mesmo assim os
tiros não param. Meu telefone vibra em
meu bolso e eu estou encostado entre
uma parede e um carro que está na rua.
Pego meu celular e vejo que é uma
mensagem da Lívia. Meu coração
dispara, não resisto e abro a mensagem.
* Como você pode agir assim,
como se eu nunca estivesse existido? *
Despedaço-me naquele momento,
meus olhos seguram as lágrimas que
tentavam cair. Como ela podia pensar
que a esqueci? Se eu estava sofrendo
por justamente não conseguir esquecê-la
e nem dos nossos momentos. Minha
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vontade era de ligar para ela agora e
dizer que sou um cara fodido e que não
a merecia. Não merecia seu amor.
* Não posso falar agora*
Digito rápido, para ela não pensar
que não queria nem respondê-la, assim
que desse, eu retornaria, pois
precisávamos colocar as coisas em
pratos limpos.
* Desculpa, enviei para o número
errado, não vai acontecer de novo, já
estou retirando seu número da minha
agenda. *
Eu leio e não consigo acreditar.
Claro que a mensagem foi para mim, eu
não a perderia de novo, ela estava muito
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machucada. Eu faria qualquer coisa,
qualquer coisa para que ela me
perdoasse. Pagaria qualquer mico que
ela pedisse. Se ela me enviou essa
mensagem, é claro que não tinha
desistido de mim.
Meu coração se enche de
esperanças. Eu a teria de novo, nem que
para isso eu tivesse que viver
exclusivamente para ela. Eu merecia
qualquer coisa que ela me falasse ou
fizesse. Meu anjo, eu te amo tanto,
tanto...
— Quer morrer, capitão! ?—
lembro-me de onde estou quando escuto
o grito de Carlos, que está me dando
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cobertura e atirando à minha frente.
Caralho, essa mulher tinha destruído até
meu instinto de defesa, eu estava
ferrado!
— Obrigada, Sargento — digo já
voltando para a ativa com a corda toda,
até pegarmos o infeliz.
Terminamos a operação sem
nenhuma perda e com a missão
cumprida.
Saio do batalhão às cinco horas da
manhã e vou para casa. Chego em casa e
vou direto tomar um banho, estava ainda
com toda aquela adrenalina pelo meu
corpo. Saio do quarto e dou de cara com
D. Celina, a senhora que cuidava da
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minha casa. Esqueci que ela havia
falado que viria no domingo para fazer a
faxina e deixar comida pronta para mim.
Ela teria que viajar durante a semana e
estava muito preocupada comigo.
— Bom dia, Dona Celina — ela
sorri, era uma senhora muito simpática.
— Bom dia, tudo bem com o
Senhor?
— Ainda não, mas vai ficar, dona
Celina, vai ficar — falo piscando para
ela.
— Sr. Gustavo, eu reparei que o
senhor não mexeu nas correspondências
que separei semana passada, e queria
ter certeza se o Senhor as tinha visto. Eu
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as coloquei nessa gaveta — ela vai até a
gaveta e as retira.
Caralho! Eu tinha me esquecido até
das contas, coisa que eu nunca fazia,
sempre pagava tudo em dia, com certeza
já devia ter um monte delas vencidas.
— Eu realmente não vi, deixa eu
aproveitar e dar uma olhada agora.
Bom que eu faria uma hora para não
ter que acordar meu anjo. Acho que não
seria bom para mim. Ela me entrega e eu
começo a ver, tinha fatura de cartão, luz,
gás, extrato bancário... Vejo uma folha
dobrada, que parece uma receita
médica. Quando começo a ler, vejo que
é um laudo, com o nome da Lívia nele.
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Meu coração congela quando vejo o que
está escrito e a data. É daquele sábado,
ela tinha feito esse exame que dizia não
ter havido ato sexual em menos de 12h.
Aquilo agora só atestava minha burrice.
Começo a me lembrar da cena que vi,
agora com mais clareza. Ela estava com
a mesma calcinha e sutiã que tinha
colocado aquela manhã, ela nunca
dormia assim, sempre de baby doll ou
camisola.
Aquele infeliz conseguiu me
enganar, por isso ela demorou tanto para
acordar, e quando acordou, parecia
confusa. Minhas mãos estão tremendo.
Como eu fui burro, ainda fui embora e
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deixei-a lá nas mãos daquele infeliz, eu
vou matar esse cara! Desgraçado!
Eu fui um babaca com ela naquele
sábado, ela vai me odiar e com razão.
Porra, como eu fui idiota, ela me
implorou para acreditar nela, e mesmo
assim, eu a expulsei. Fecho os olhos e
estou com as mãos na cabeça. Que
merda de policial eu sou, como disse a
Bia, que não consegui ligar os fatos e
ver na hora que aquilo era uma armação
vagabunda daquele merda? Ele destruiu
minha vida, e só espero que ela me
perdoe.
Levanto-me e vou para o quarto me
arrumar. Eu precisava conversar com o
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Michel, eu precisava de uma luz. Não
sabia como ela ia me receber. Eu tinha
que saber a real situação, sei que a essa
altura do campeonato seria difícil ela
me perdoar, mas eu lutaria por ela até o
final, por isso precisava de todas as
informações que eu pudesse ter, e sei
que o Michel poderia me dar algumas.
Se eu tivesse sido menos orgulhoso e
tivesse falado com ele quando quis
conversar, as coisas já teriam se
resolvido. E como não vi esse laudo
antes? Ela deve ter deixado para provar
sua inocência e eu só tive acesso hoje,
todo esse sofrimento à toa.
Saio e vou até a casa do Michel.
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Antes, passo na confeitaria.
Vejo a moça que me passou a
informação e vou até ela.
— Oi, está tudo bem com você?
Senti-me muito culpada por ter te falado
aquilo ontem, você não fez nenhuma
besteira não, né? Você saiu daqui tão
louco.
— Ainda não fiz, mas pretendo.
Vocês têm as fitas dessas câmeras de
segurança? — Ela me olha desconfiada
— É que sou policial e minha namorada
levou um “boa noite cinderela”. Eu
queria ver a filmagem, para ver se me
ajuda a pegar o cara, pode ser?
— Meu Deus! Você precisa falar
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com o gerente, mas acho que ele não vai
negar.
Falo com o gerente e pego uma
cópia da filmagem, que ele grava em um
pendrive e me entrega. Saio da
confeitaria com muito ódio daquele
merda, ele mexeu com o cara errado, ele
iria se arrepender até do dia em que
nasceu. Para o bem dele, eu espero que
meu Anjo me perdoe, pois se eu perder
a mulher da minha vida, por causa dessa
armação, seria bem pior para ele.
Chego à frente do prédio do Michel
e ligo para ele. Espero que ele esteja
sozinho.
— Gustavo? Aconteceu alguma
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coisa? — Ele atende, preocupado.
— Você está sozinho?
— Sim.
— Então abre a porta, que estou
subindo.
Chego, e ele está parado na porta
me esperando com uma cara de
surpreso.
— Você poderia ter me algemado
na porra de uma barra de ferro para eu
te escutar.
Estávamos sentados no sofá de sua
sala, tomando um suco, e ele me conta
tudo desde o início. Diz que a levou a
um hospital, que ela tinha feito aquele
exame para confirmar se havia tido ato
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sexual ou não, pois pelo jeito e
desespero que ela estava, ele tinha
certeza que tinha sido uma armação. Até
o Michel enxergou isso e eu não, como
eu me deixei levar e não confiei nela?
Ele disse que ela fez também um exame
de doping, para ter certeza que foi
dopada, e que já tinha pegado o
resultado, que deu positivo. Ele falou
que a mandou processar o cara e que ela
não quis processá-lo, porque o que ele
tirou dela, ela não teria de volta. Meu
coração está esmigalhado com essas
declarações.
— Eu fui um babaca com ela
naquele sábado, Michel, ela vai me
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odiar, e com razão. Porra, como eu fui
burro, ela me implorou para acreditar
nela e mesmo assim eu a expulsei! —
Fecho os olhos e estou com as mãos na
cabeça, minhas lágrimas começando a
cair. Eu tinha sofrido muito, mas o que
mais me doía, era o fato de tê-la feito
sofrer por pura insegurança. Ela me
disse que me amava, e mesmo assim,
não acreditei nela. Eu via desespero em
seus olhos, e mesmo assim fiquei cego
pelo ódio que me consumia.
— Calma. Cara, vai dar tudo certo,
vocês se amam e sei que vão se acertar
— fala com a mão em meu ombro e eu
espero que ele esteja certo.
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— Eu espero muito que seja assim,
Michel, pois ficamos separados por
pura burrice da minha parte. Eu tinha
que ter enxergado o que você enxergou,
mas a raiva, a desconfiança e o orgulho
me cegaram — ele assente.
— Você sabe onde ela está agora?
Eu preciso vê-la, não posso esperar
mais.
— Ela está na academia, elas estão
resolvendo os últimos detalhes, pois a
inauguração é na semana que vem —
pego a chave do carro e saio correndo
do apartamento.
Entro no meu carro e saio como um
louco pela Linha Amarela. Chego ao
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Cacham bisem menos de quinze minutos.
Paro o carro em frente à sua academia e
entro. A Bia me vê e não acredita no que
está vendo, pelo menos é o que percebo
pela sua cara.
— Demorou para cair a ficha hein,
Capitão! — Fala em tom de deboche.
— Cadê ela, Bia?! — Falo e estou
tremendo da cabeça aos pés.
— Está lá em cima e.. — Nem a
deixo terminar, subo as escadas
correndo em total desespero. Assim que
chego ao segundo andar, meu coração se
quebra com a cena que vejo: ela está
sentada com a cabeça nos joelhos,
parece que não notou minha presença
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ainda. Aproximo-me devagar e me
ajoelho á sua frente. Seu cheiro me
invade por completo, e como senti falta
disso! Ela começa a levantar a cabeça e,
quando vejo, seu rosto está lavado em
lágrimas e ela está muito abatida. Eu me
sinto um filho da puta de um canalha.
Acho, que no fundo, sou pior que aquele
babaca, ele pelo menos estava lutando
com o que tinha para tê-la de volta, e eu
só a afastei de mim e a fiz sofrer. Sinto-
me um fraco, meu coração para de bater,
nossos olhos se encontram e não
consigo segurar mais minhas lágrimas...

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Capítulo 28
Lívia
Sinto sua presença e seu cheiro, só
não queria que fosse mais um sonho.
Quando levanto a cabeça e abro os
olhos, o vejo. Nossos olhos se
encontram e é como se o mundo parasse
e só existíssemos nós dois nele. Ele está
chorando, assim como eu, sentado sobre
os joelhos e me olhando profundamente
com aquele olhar que desvenda minha
alma. Estava muito abatido, e acho que
até emagreceu um pouco. Meu coração
está apertado, por que isso tinha que
acontecer com a gente? Ainda não
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falamos uma palavra, só estamos nos
olhando como se não nos víssemos há
anos. Eu limpo as lágrimas e retiro o
Piada dos ouvidos e o olho confusa. Por
que ele estava aqui? Será que resolveu
me escutar e acreditar no que eu disse?
Acredito até que já tenha uma pessoa em
sua vida.
— O que você quer aqui, Gustavo?
— Pergunto confusa, pois eu não iria
aceitar mais nenhuma acusação de sua
parte — Meu Anjo, eu senti tanta sua
falta, não consigo mais ficar sem você
— ele fala chorando muito e meu
coração se enche de alegria.
— Você acredita em mim? Eu nunca
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iria te trair, Gustavo — ele se aproxima
mais e pega meu rosto em suas mãos,
depois começa a beijar cada pedacinho
do meu rosto e eu limpo suas lágrimas
com muito carinho. Ele tinha voltado
para mim, a ficha dele caiu e ele viu que
eu não podia fazer isso com ele porque
eu o amava. Eu o abraço muito forte,
como era bom senti-lo assim perto de
mim.
— Agora eu sei, meu Anjo, eu
descobri tudo, aquele merda armou para
nós — eu o solto na mesma hora,
confusa, e me encosto de novo na
parede para encará-lo.
— Como assim, você descobriu
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tudo? Você viu o laudo que te deixei e
viu que só podia ser uma armação, é
isso? — Ele baixa o olhar.
— Eu estive na confeitaria e a
menina me explicou o que tinha
acontecido na sexta-feira, depois vi o
laudo e também a filmagem de como
aquele merda te enganou.
Eu estou engolindo em seco, é
como se um balde de água fria caísse
sobre minha cabeça. Então foi por isso
que veio aqui, porque ele tinha certeza
da minha inocência, não porque sentiu
minha falta e viu por si mesmo que eu só
podia ter falado a verdade por tudo que
vivemos.
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— Então você confia nas palavras
de uma pessoa que você nem conhece,
mas não confia na sua namorada, que
estava totalmente desesperada e
pedindo pelo amor de Deus para não
fazer aquilo, pois ela te amava?
— Não é isso, meu Anjo, eu sei que
fui um burro por não conseguir enxergar
toda aquela armação, e sei que deveria
ter confiado em você e no nosso amor,
mas o que vi foi muito forte e fiquei
cego de ódio, eu não conseguia
acreditar que você fosse capaz daquilo.
Fala e sinto desespero em sua voz,
mas eu agora também estava com raiva
da atitude dele, pois só veio até aqui me
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procurar quando teve certeza da minha
inocência. Fácil demais para ele, não
quis saber nem um minuto como eu
estava me sentindo. Até com outra ele já
saiu. Eu não posso ficar com ele assim,
pois quem ama de verdade confia, ele
tinha que pelo menos ter me ouvido. Eu
me humilhei, pedi por tudo que lhe era
mais sagrado, e mesmo assim, não teve
pena de mim. Só eu sei o que passei e
ainda estou passando esses últimos dias.
Esse relacionamento não teria futuro de
qualquer forma, ele provou que não
confia em mim. E se houvesse uma
próxima vez, ele teria que investigar
primeiro antes de me perdoar? Minha
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palavra seria sempre questionada?
— Vai embora daqui, Gustavo, eu
não aguentaria isso de novo na minha
vida — falo bem séria e meu olhar era
de muita mágoa e revolta.
— Não, meu Anjo, não deixa esse
merda vencer, eu te amo, essa semana
foi a pior que eu tive em toda minha
vida — tenho certeza de que sofreu, mas
seu orgulho idiota falou mais alto do
que o amor que sente por mim.
Eu que pensei que nosso amor
estava em primeiro plano na sua vida.
Mas, foi colocá-lo à prova para eu
perceber que não era bem assim.
— Não, Gustavo, você fez isso com
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a gente, eu fiz tudo para que acreditasse
em mim, eu até aceitei sua desconfiança
naquele momento, sua raiva, suas
palavras duras. Mas, no fundo, eu
acreditei que quando você estivesse
mais calmo, você viria me procurar e
me escutar. Eu merecia isso, Gustavo,
eu merecia me defender, mesmo que eu
fosse culpada, era isso que eu merecia.
Você não me deu nem o benefício da
dúvida, agora é tarde — ele está com as
mãos na cabeça em total desespero.
— Eu faço o que você quiser, meu
Anjo, eu sei que você me ama também,
então me perdoa pelo amor de Deus! —
Balanço a cabeça em negativa.
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Sim, eu ainda o amava, e muito.
Mas eu não poderia mais arriscar minha
felicidade desse jeito, viveria na corda
bamba com o Gustavo. E eu que achava
que todo o nosso problema era apenas
sua profissão.
— Agora é tarde para ter certeza do
meu amor. Eu te perdoo, mas não sei
como levaremos esse relacionamento
adiante. Essa sua desconfiança abriu um
abismo entre nós, estou confusa e não
sei como agir. Você não só duvidou de
mim, você duvidou do meu amor, do
nosso amor — falo bem seca e começo
a me levantar secando meu rosto com as
mãos.
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Eu precisava me afastar dele, pois
era muito ruim essa sensação de estar
perto e longe ao mesmo tempo. Consigo
me levantar, e quando tento me afastar
dele, ele me agarra pela cintura.
— Eu não vou deixar que faça isso,
sei que te magoei por não acreditar em
você, mas nós vamos superar isso,
porque nos amamos — ele levanta
minha blusa e começa a beijar minha
barriga, dando vários beijos, até chegar
ao cós do meu short. Meu corpo estava
me traindo e eu estava toda arrepiada.
As mãos dele agora estavam em minha
bunda e me apertava em direção a sua
boca. Como eu senti falta dele! Minhas
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mãos estavam quase chegando aos seus
cabelos, eu não podia deixá-lo me
dominar com sexo, sabia que se eu
cedesse, eu não conseguiria mais pará-
lo, pois meu amor, desejo e saudade
eram grandes demais, eu tinha que me
manter firme.
Então uso a única arma que tenho e
dou uma canelada em seu saco.
— Porra, Anjo! — Grita, caindo de
lado no chão e segurando o saco. Ele
estava todo vermelho.
— Da próxima vez, pense duas
vezes antes de me agarrar! Não tente me
seduzir, não sou tão imune a você como
pensa. Não mais. Agora vá embora, pois
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tenho muita coisa ainda para arrumar
aqui e você está tomando meu tempo —
falo, tentando acreditar no que acabei de
dizer, mas meu coração estava
despedaçado.
— Eu sei que pisei feio na bola
com você, mas não faz isso, tente me
entender. Eu sinto muito, mas eu preciso
de você como o ar que respiro.
— Eu te avisei, Gustavo, agora sai
daqui, vá procurar a mulher que estava
com você no sábado, de repente ela
pode te consolar mais uma vez — ele
me olha intrigado e preocupado, eu me
viro para ir embora, se ele não sair, saio
eu.
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Quando estou quase chegando às
escadas, sou puxada por ele. Ele está
me segurando pelo braço e me olha bem
sério.
— Do que você está falando?! —
Me pergunta, olhando dentro dos meus
olhos.
— Você sabe muito bem do que
estou falando, não se faça de santo! Mas
agora isso não me interessa, você faz da
sua vida o que bem quiser, não me diz
mais respeito, agora solta o meu braço
— falo olhando para sua mão sobre meu
braço.
— Eu não estava com ninguém, meu
Anjo, eu não respondi sua mensagem
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direito, pois estava em uma operação
muito complicada e não tinha como falar
— meu queixo vai ao chão, eu devo ter
entendido errado.
— Você estava onde?! — Pergunto
sem perceber, completamente chocada.
— Eu voltei para o Bope, meu
Anjo, eu precisava encontrar uma
maneira de conseguir viver sem você e
não vi outra saída, eu estava
desesperado e não estava pensando
direito — estou muito surpresa! Minha
boca está aberta e meus olhos
arregalados.
— Você mentiu para mim! Você
disse que não sairia só por minha causa,
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aí a gente se separa e você volta para o
Bope no dia seguinte — ele está
balançando a cabeça de um lado para o
outro em pânico.
— Não é nada disso, meu Anjo, eu
estava sem rumo sem você, não podia
perder tudo ao mesmo tempo, mas eu
vou sair de novo, amanhã mesmo eu
resolvo isso, fica tranquila— puxo meu
braço de sua mão, agora eu estava com
muita raiva dele.
— Você vai sair é daqui e da minha
vida! Eu não quero mais você, ouviu
bem? Esquece que eu existo! Para mim
não faz mais diferença onde você
trabalha e o que é, eu não vou voltar
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para você. Você escolheu, agora faz o
favor de aceitar — Viro-me e desço as
escadas e ele vem atrás de mim.
— Anjo! — Olho para ele
revoltada.
– E não me chama mais de Anjo! —
Bia está olhando tudo de braços
cruzados. Eu a olho.
— Bia, eu vou para o escritório
fechar os pagamentos, por favor, não
quero ser incomodada — ela assente e
eu entro no escritório. Bato a porta com
toda a força e a tranco para ele não
entrar e desabo. Ele só veio até aqui
porque descobriu que eu era inocente e
ainda por cima tinha voltado para o
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Bope. Agora eu que não sei mais o que
fazer.
Escuto uma batida na porta, espero
que não seja ele.
— Sou eu, amiga, abre aí — ouço a
voz da Bia e vou abrir a porta.
— Ele já foi. Está muito arrasado,
Lívia — olho para ela limpando minhas
lágrimas.
— Não acredito que você ainda
sinta pena dele, depois de tudo que
passei — falo ríspida com ela.
— Não desconta em mim não, eu só
estou comentando. Poxa, Lívia, o que
mais você quer? Ele veio aqui te pedir
desculpas, então por que não ficam logo
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de boa? Vocês se amam! Você vai jogar
tudo fora por causa daquele infeliz do
Otávio? A culpa é dele, que armou tudo.
— Não! A culpa é do idiota do
Gustavo que não acreditou no meu amor,
ele precisou ter certeza que não o traí
para me procurar. Eu ainda acreditava,
Bia, que ele viria de qualquer jeito, até
mesmo achando que fosse verdade, mas
que me olharia nos olhos e veria toda a
verdade neles. Eu o convenceria do meu
amor e ele não precisaria de provas
nenhuma para saber que eu não poderia
mais viver sem ele. Mas não, ele só
veio aqui porque descobriu que eu
realmente não fui para a cama com o
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Otávio — ela me olha e está balançando
a cabeça.
— Você está cometendo o mesmo
erro que ele cometeu, é só olhar para
ele para ver que também está sofrendo.
— Vamos trabalhar, dona Bia!
Esquece que o Gustavo existe, ele não
faz mais parte da minha vida— falo
tentando convencer a mim mesma. Ela
me olha e não diz mais nada.
Entretemo-nos com os afazeres até
que o Michel chega por volta das treze
horas.
— Meninas, eu trouxe o almoço —
fala erguendo as embalagens.
— Que bom, amor, eu estava
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faminta — ela fala o beijando. Meu
coração se aperta, eu queria muito que
meu Capitão não fosse tão idiota, quer
dizer, agora ele não era mais meu, mais
continuava sendo um idiota.
Eu forço algumas garfadas para
Michel não ficar chateado. Quando não
consigo empurrar mais nada, coloco o
prato de lado. Eles me olham, mas não
dizem nada.
— Bia, eu acho que vou indo, as
coisas já estão bem adiantadas e eu
estou com um pouco de dor de cabeça.
Michel, valeu mesmo pelo almoço.
Apesar de eu não estar com muita fome,
estava muito bom — me despeço dos
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dois e vou embora, preciso da minha
cama.
Chego em casa, tomo um banho,
coloco um baby doll e desabo na cama.
Apesar do cansaço, não consigo dormir,
faltava alguma coisa e eu sabia o que
era. Há uma semana que não dormia
mais de três horas por noite, eu estava
um caco. Será que fiz a coisa certa
dispensando o Gustavo? Eu estava
realmente muito magoada, será que
conseguiríamos levar essa relação como
se nada tivesse acontecido? Eu
precisava de um tempo, minha cabeça
estava a mil. Alguma coisa em mim
havia mudado. Viro-me de um lado para
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o outro e nada de conseguir dormir. Eu
tinha que voltar à minha vida normal,
mas como eu faria isso? Aquele Capitão
safado tinha me viciado com aquele
corpo lindo e maravilhoso.
Ahhh! Eu preciso esquecê-lo!
Olho o relógio e já são vinte e uma
horas. Eu já tinha feito de tudo para me
distrair: já tinha lido, entrado nas redes
sociais, assistido uns filmes, seriados e
nada me fazia dormir. Será que eu teria
que começar a tomar algum tipo de
medicamento? Não, isso só seria outro
vício. Isso iria passar, eu me acostumo.
Resolvo apagar a luz do quarto e forçar
o sono.
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Pelo menos, meu desespero já tinha
diminuído; a dor estava lá, mas estava
mais consciente da situação.
Estava quase dormindo quando
escuto a porta do quarto se abrir. Levo
um susto, quem seria? Foco minha visão
melhor na silhueta que eu via no escuro.
Não acredito! O que ele estava fazendo
aqui? Passo a mão pelo rosto para ter
certeza que eu não estava tendo uma
visão.
— O que você está fazendo aqui?!
— eu estava tão cansada disso tudo, que
hoje eu não tenho mais forças nem para
brigar com ele.
— Anjo, eu não durmo direito há
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uma semana, por favor, me deixa ficar
— fala, já tirando a camisa e eu engulo
em seco com essa visão. Ele retira sua
pistola do cós da calça e coloca em
cima da mesa de cabeceira. Eu não
consigo dizer nada, me sentia tão fraca...
Ele começa a retirar a calça, será que
ele estava bêbado de novo?
— Claro que não — falo sem
alguma emoção na voz – Você bebeu?!
— Ele só balança a cabeça em negativa
e se aproxima da cama, entrando
embaixo do edredom junto comigo. Eu
estou olhando-o abismada com sua
atitude, mas as palavras não se formam
na minha boca, eu estava muito cansada
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e surpresa, ele me pegou desprevenida.
Minha vontade era de chorar, e eu nem
sei pelo quê.
Ele me puxa de encontro a ele e eu
me debato; não vou aceitar isso, quem
ele pensa que é?
— Pode me soltar e sair da minha
cama e da minha casa — falo sem
certeza alguma na voz. A proximidade
do seu corpo acende o meu como
pólvora e fogo, ele era meu
combustível. Eu estava perdida.
— Shiuu...Meu Anjo, por favor, só
vamos dormir, até porque, ainda estou
dolorido do chute que você me deu.
Amanhã conversamos — fala e não
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consigo deixar de dar um sorriso, sinto
que ele realmente estava muito cansado.
Meus olhos estavam pesados, eu me
viro de costas para ele, que me puxa,
colocando o braço em volta da minha
cintura e o nariz em meus cabelos.
Estávamos colados um no outro. Deixo
algumas lágrimas rolarem pelo rosto.
Por que nossa vida tinha que ser
assim? Por que Otávio havia feito isso
com a gente? Juro que queria expulsá-
lo, falar um monte de coisas, mas a
sensação de tê-lo assim de novo era tão
boa, que não consegui fazer nada. Não
demora muito, sinto sua respiração mais
tranquila, indicando que ele já estava
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dormindo, e eu não demoro muito e
também apago.
Acordo com uma sensação muito
boa, não dormia bem assim desde a
semana passada, quando nos separamos.
Ele estava todo enrolado a mim e
dormia feito uma pedra. Fecho meus
olhos de novo e fico ali bem quietinha, a
sensação de tê-lo aqui comigo era muito
boa, mais eu sabia que logo teria que
tomar uma atitude, eu não poderia ceder
tão fácil assim, não sei nem se eu ainda
o queria realmente na minha vida.
Acabo pegando no sono de novo,
queria aproveitar ao máximo esse
momento.
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Acordo com beijos por meu
pescoço e rosto. Eu só podia estar
sonhando, então evito abrir os olhos
para não acordar desse sonho
maravilhoso, pois o Gustavo não seria
tão cara de pau de estar fazendo isso de
verdade. Claro que seria, ele invadiu
minha casa e dormiu aqui na minha
cama sem minha permissão, os beijos
eram o de menos.
— Para com isso, Gustavo — falo
antes mesmo de abrir os olhos, mas ele
continua.
— Eu quase fiquei louco sem você,
meu anjo, eu achei que nunca mais
ficaríamos assim, eu te amo tanto... —
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por mais que eu o quisesse, não podia
permitir que ele fizesse isso comigo.
— E não vamos, eu não vou voltar
atrás, Gustavo, você não faz mais parte
da minha vida. Você pensa que é só vir
aqui e dormir na minha cama, me beijar
do jeito que eu gostava e tudo se
resolve? — Falo com ironia, imitando o
que ele tinha me dito em sua casa aquele
sábado. Ele me deita de costas na cama
e fica em cima de mim, me olhando nos
olhos.
— Me perdoa, meu Anjo, eu te
amo. Eu sei que fui burro, idiota, um
completo canalha com você, mas eu
fiquei com muito ódio de ver o que eu vi
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e não consegui pensar direito.
— Eu não posso, Gustavo, eu e
você não teremos mais um
relacionamento sadio depois do que
aconteceu, você provou que não confia
em mim, e eu descobri que consigo
viver com a dor de não ter você — ele
balança a cabeça com desespero.
— Não! Eu sei que está magoada,
mas não me pede para ficar longe de
você, pois sei que essa promessa eu não
vou conseguir cumprir. É só dizer que
não me ama mais e eu não te procuro.
— Amor não tem nada a ver com o
fato de eu querer me preservar e ficar
longe de você. E eu vou conseguir, nada
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que um novo amor não resolva — ele
me olha indignado com o que acabei de
dizer.
— Novo amor porra nenhuma! —
Fala e me ataca com um beijo. Eu tento
resistir, mas minha saudade e meu corpo
me traem e eu correspondo. Beijamo-
nos com vontade, fome, amor, desespero
e muita saudade. Mas, além de tudo, era
um beijo de despedida. Eu precisava de
um tempo, mas não poderia dizer isso
para ele. Ele jamais aceitaria, então,
que fosse uma despedida, eu arriscaria
perdê-lo para sempre. Já não sabia mais
o que esperar dessa relação, eu estava
muito, muito cansada de tudo isso.
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Minhas mãos vão para as suas
costas e ele geme. Eu estava quase
cedendo, mas não posso, isso só
tornaria as coisas mais difíceis para
mim e para ele. Então o empurro,
aproveito sua distração e saio da cama,
minha respiração ofegante, minha
cabeça muito confusa. Eu não posso
deixar a fraqueza me derrubar.
— Saia da minha casa, Gustavo! Eu
não quero mais querer você. Acabou, vê
se entende isso de uma vez por todas!
— Falo descontrolada, eu precisava
convencê-lo de que falei a verdade,
caso contrário, ele não sairia mais
daqui. Precisava ficar distante dele para
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pôr meus sentimentos no lugar.
Entro no banheiro, bato a porta e a
tranco. E ele fica lá, sentado na cama,
com uma cara de espanto.
Sento no chão do banheiro, atrás da
porta, e fico tentando me acalmar. Eu
estava quase cedendo, eu precisava
parar de vê-lo, ele era muita tentação!
Minha cabeça sabia o que eu queria,
mas meu corpo e meu coração não
concordavam com minha decisão. Eu
teria que ser forte e evitá-lo a qualquer
custo.
Tomo um banho para me acalmar, e
quando saio do quarto, ele não está mais
lá, mas sua pistola e suas roupas sim.
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Então, significa que ele ainda não tinha
ido embora. Respiro fundo e me visto
com um short jeans e uma blusa preta,
penteio os cabelos e faço um rabo de
cavalo. Eu iria encontrar a Bia na
academia.
Eu estava me sentindo bem
fisicamente, parece que dormi uma
semana direto, tinha que admitir que,
pelo menos, ele tinha me ajudado a
descansar, me sentia novinha em folha e
cheia de energia. Claro que meu corpo
estava sentindo falta dele de outra
maneira também. Eu precisava acalmar
meus ânimos. De certa forma, saber que
agora ele sabia de toda a verdade me
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fazia sentir mais leve, como se um
enorme peso tivesse sido tirado das
minhas costas.
Vou para a sala e ele não está lá.
Pego meu celular em cima da mesa, e
quando vejo a hora, quase tenho um
treco: já era uma e meia da tarde, nós
dormimos mais de doze horas. Tinham
várias chamadas da Bia no meu celular,
não sei como não veio aqui atrás de
mim, quer dizer, vai ver que veio e
entendeu tudo errado.
Estou faminta, vou para a cozinha e
ele está lá só de bermuda, pelo menos
tinha colocado uma. Um homem desses
na sua cozinha só de bermuda, era
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realmente um atentado ao bom juízo de
qualquer mortal.
Eu realmente o queria fora da
minha vida? — Sim Lívia, você quer.
— Acho que te pedi para ir embora
— falo abrindo a geladeira para pegar
um suco. Ele fica me olhando.
— O que você está fazendo?
Ele estava fazendo alguma coisa no
fogão, não sei o que era, pois não queria
olhar muito em sua direção, só vi que
minha pia estava uma bagunça com
farinha de trigo e vários outros
ingredientes para uma salada.
— Acho que tenho o direito de
comer e beber na minha própria casa
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sem ter que pedir permissão para
ninguém — falo sem olhá-lo.
— Você não vai comer nada, eu
estou terminando o almoço e você vai
almoçar. Pelo jeito que emagreceu, deve
ter uma semana que não se alimenta
direito.
— Acho que nesse quesito estamos
empatados, não é? — Falo bem
atrevida. Ele me olha e tira o suco da
minha mão.
— O almoço fica pronto em dez
minutos— fala como se eu não tivesse
dito nada. Olho para ele piscando várias
vezes sem entender. Isso vai ser mais
difícil do que pensei. Saio da cozinha e
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vou para a sala ligar para a Bia.
— Amiga, desculpa, acabei de
acordar, daqui a pouco vou até aí — ela
sorri do outro lado da linha.
— Estou sabendo, mas pode ficar
tranquila que resolvi tudo por aqui, já
estou até indo embora — eu sabia! Ela
tinha vindo até aqui.
— Não é nada disso, Bia, o
Gustavo é louco, eu já disse mil vezes
que acabou, mas parece que ele não
entende, eu não sei mais o que fazer —
falo um pouco exaltada.
— Ok, Lívia, eu desisto, você quem
sabe. Eu te dei minha opinião, mas a
decisão é sua, agora deixa eu desligar,
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beijunda — ela desliga sem nem esperar
eu me despedir. Agora eu seria a vilã?
— Quando olho para o lado, o Gustavo
está em pé com os braços cruzados me
olhando muito sério. Minha vontade era
de abraçá-lo e dizer que tudo aquilo iria
passar, que tudo voltaria a ser como
antes. Mas eu não podia, nada estava
fazendo sentido naquele momento, eu só
queria ficar sozinha.
— O almoço está pronto — é só o
que fala e se vira para voltar para a
cozinha. Sinto que ficou magoado com
minhas palavras, mas isso não é mais da
minha conta.
Vou para a cozinha e me sirvo, pois
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estava com muita fome. Pego o prato e o
copo de suco e vou para a sala. Ele
tinha feito panquecas de carne com uma
salada e estava com um cheiro e uma
cara maravilhosos.
Sento-me na mesa e começo a
comer, parecia que meu apetite de uma
semana estava todo reunido na mesma
refeição. Estava uma delícia! Esse filho
da mãe, além de gostoso e lindo,
cozinha muito bem. Ele senta à minha
frente e também começa a comer sem
dizer uma palavra. Ele me olhava o
tempo todo, e isso estava me agoniado.
Então resolvo falar.
— Gustavo, quero que você me
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ouça e olhe bem para mim, para que
perceba que não estou irritada ou
magoada com você nesse momento —
falo pausadamente, com calma.
Ele não diz nada, para de comer e
me olha nos olhos.
— Não vejo como podemos voltar
a ser um casal novamente. Nós nos
magoamos muito e existem coisas que
não podem ser coladas. Desde o início,
nosso relacionamento foi intenso, não
tivemos muito tempo para nos
adaptarmos um ao outro, e acho que
acabamos pulando etapas. Não
amadurecemos nossa relação para
resistirmos aos desafios que
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poderíamos enfrentar. Fomos ingênuos
acreditando que nosso amor superaria
qualquer coisa. No entanto, não foi
assim. A única certeza de que tenho,
Gustavo, é que eu ainda te amo, mas não
sei se esse amor é suficiente, ele não foi
quando eu mais precisei. Eu realmente
gostaria que você fosse embora e que
não me procurasse mais — Gustavo me
olha com seu olhar inquisitivo. Como
um bom policial, ele estava procurando
algum indício de que eu estivesse sendo
dissimulada em minhas palavras. Mas
eu estava sendo sincera, não baixei meu
olhar um único momento — Posso me
arrepender um dia dessa decisão, mas é
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o que eu quero no momento.
— Você está realmente certa disso?
— Ele fala como se estivesse com
dificuldade em pronunciar cada palavra,
engolindo em seco o tempo todo.
— Sim, estou — tento passar o
máximo de certeza possível.
Ele nega com a cabeça, levanta-se
da mesa e vai em direção ao meu
quarto.
Fico sentada com as mãos na
cabeça, pensando no que ele irá fazer
agora. Não demora muito, ele retorna
vestindo sua camisa me dá um beijo na
cabeça e vai em direção à porta.
Ele tinha aceitado minha posição.
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Sinto um vazio enorme com essa
constatação. Ele sai e bate a porta atrás
de si.
Lágrimas começam a descer, vou
para o sofá e abraço meus joelhos. Não
seria nada fácil esquecê-lo, mas eu
conseguiria. Eu não poderia me
arrepender da minha decisão, poderia?

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Capítulo 29
Gustavo

Saio do apartamento do meu Anjo


muito angustiado. Em nenhum momento
vi dúvida em suas palavras. Meu
coração estava apertado com o fato de
ela realmente estar falando a verdade.
Eu não poderia perdê-la! Como fui
burro! Eu devia tê-la escutado quando
me implorou, mas eu não consegui, meu
ódio e meu orgulho me dominaram,
sufocaram todo meu amor, fui egoísta e
só pensei no que sentia. Ela estava
magoada e ferida, e mais uma vez eu fui
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o culpado. Eu era sempre o culpado por
sua dor, logo eu, que sempre a quis
defender e poupá-la de qualquer
sofrimento.
Eu não vou desistir, ela disse que
achava que nosso amor não será o
suficiente, mas eu vou provar que sim,
senão, minha vida não teria mais
sentindo algum.
Iludi-me pelo fato dela me deixar
dormir na sua cama, na verdade, ela não
deixou, mas acabou aceitando. Pensei
que hoje as coisas estariam mais
tranquilas, talvez ela só tenha deixado
por estar tão exausta quanto eu. Para
mim, foi como se meu mundo tivesse
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voltado a girar. Só de dormir ao seu
lado, sentindo seu cheiro e ter seu corpo
em meus braços, senti como se tudo
estivesse em seu lugar novamente, mas
não estava, e eu não tinha mais a certeza
se um dia estaria. Quando nos beijamos,
senti sua entrega e sei que ainda era
minha, mas ela não queria aceitar isso e
eu estava com muito medo de perdê-la
para sempre.
Escutá-la dizendo para a Bia que
tinha acabado e que não queria mais
nada comigo, me deu muito medo. Eu
fiquei desesperado com a possibilidade
de isso ser verdade. E pior foi vê-la
expondo seus sentimentos na mesa com
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toda a calma do mundo. Entrei em
pânico, ela parecia ter certeza de sua
decisão de não ficarmos mais juntos. Eu
tinha destruído tudo, por isso resolvi ir
embora para pensar em como eu a
reconquistaria de novo. Não queria nem
pensar na possibilidade de ela não
voltar atrás, seria minha ruína.
Minha raiva está além do normal,
aquele merda tinha conseguido nos
separar e ele iria pagar, ou não me
chamo Gustavo Albuquerque Torres. Ele
tinha mexido com o cara errado, eu
estava com sangue nos olhos, isso não ia
ficar assim.
Estou parando o carro no
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estacionamento de um shopping que
ficava bem próximo à minha casa, tinha
que pagar algumas contas que até já
estavam vencidas. Antes de descer do
carro ligo para o Michel, eu precisava
desabafar.
— Fala aí, Gustavo, o que manda?
— Sua voz está um tanto alegre demais,
bem diferente do meu estado de espírito
no momento.
— Eu sou o cara mais burro do
mundo, Michel! Ela disse que não me
quer mais, cara, e não tenho ideia de
como vai ser minha vida sem ela —
desabafo com ele.
— Ela está magoada, cara, isso vai
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passar, você pegou muito pesado com
ela— isso estava me matando, eu sei
que fui muito filho da puta e merecia
tudo isso, mas não conseguia aceitar o
fato de perdê-la.
— Tudo culpa daquele merda,
Michel! Ele vai me pagar por isso,
quando eu pegá-lo, ele vai se
arrepender de ter nascido — falo com
muito ódio.
— Não vai fazer merda, Gustavo,
esfria a cabeça.
— Se a Lívia não me perdoar, ele
vai pagar o pato, pois se não fosse pela
armação dele, estaríamos juntos e
felizes.
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Disso eu tinha absoluta certeza.
— E se você não fosse tão cabeça
dura e escutasse, também. Agora vai
fazer outra merda para piorar tudo—
engulo calado, pois sei que ele está
certo, mas só na parte do cabeça dura,
pois aquele merda não ia ficar de boa
com o que fez, eu sou caveira e iria
correr atrás do prejuízo.
— Michel? — O chamo para ter
certeza que ouviria o que eu iria dizer
agora.
— Fala, cara! Eu estou te ouvindo...
— Aqui é caveira,
porra! Caveira! — Estou muito
exaltado e a raiva era palpável.
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— Porra, Gustavo! Cuidado, não
faça besteira, não vale a pena — claro
que valia a pena, aquele merda não ia
ficar de boa com o que fez, nem
fodendo.
— Tranquilo, Michel, pode deixar
que eu vou resolver isso da melhor
maneira, quebrando a cara dele até ele
se arrepender do que fez — ele fica
mudo por um instante, sei que no fundo
ele sabia que eu estava tomando a
atitude que ele também tomaria.
Sinto uma força crescendo dentro
de mim fora do normal, algo que só
Caveira pode sentir. Sinto um gosto de
sangue na boca neste exato momento,
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tenho que resolver esta situação o mais
rápido possível. Aquele Sacripanta iria
pagar o pato, por causar a dor que
causou em meu Anjo, em mim, e por ter
me feito acreditar que ele conseguiu ter
o que apenas eu tinha.
— Valeu, Michel! De resto, está
tudo bem na empresa?
— Está sim, Gustavo, se cuida
irmão.
— Valeu, parceiro.
Desligo o celular e vou em direção
às Casas Lotéricas para pagar as contas.
Como eu tinha perdido a cabeça por
conta desses episódios, esqueci até de
pagar minhas contas, quando sempre fui
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cuidadoso com isso. Eu estava
completamente abalado com tudo que
tinha acontecido.
Saio do shopping e vou para casa,
entro em meu apartamento e a primeira
coisa que me vem à mente são as
lembranças do meu Anjo. Eu estava
sentindo sua presença, eu a queria aqui,
junto de mim, queria tocar seu corpo,
fazer amor com ela. Vou lutar até minhas
últimas forças para tê-la novamente.
Estou angustiado e triste ao mesmo
tempo, preciso do meu amor aqui
comigo, preciso dela de qualquer
maneira, do jeito que for, preciso do
meu Anjo.
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Pego o telefone e envio uma
mensagem.
*Anjo! Por mais que pareça o fim,
não vou desistir de você, sabe por quê?
Eu acredito no poder do amor e sei que
nós fomos feitos para nos amarmos e
que você foi feita para mim. Você é
meu encaixe perfeito, minha dádiva de
Deus, não me delete de sua vida porque
eu te amo e não vou conseguir viver
sem você em minha vida.*
Acabo de escrever esta mensagem e
me deparo com lágrimas descendo pelo
meu rosto. Estou virando mesmo uma
mariquinha. Mas é que essa porra toda
doía muito.
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Tomo um banho, coloco minha
cueca boxer e vou fuçar a geladeira.
Preparo um sanduíche de queijo minas
com peito de peru, pego um copo de
leite gelado e empurro garganta adentro.
Estou sem apetite, mas tinha que me
alimentar, precisava me manter forte
pelo menos por fora, pois por dentro, eu
estava destruído. Termino meu lanche e
vou para o quarto de hóspedes que,
agora era meu quarto. Minha vontade
era de ir para a casa do meu Anjo, mas
eu tinha que dar um tempo para ela,
senão a perderia de vez.
Pego meu celular e observo que ela
visualizou a mensagem, mas não me
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respondeu. Eu estou com muito medo,
será que ela deixou de me amar?
Porra! Como pude não confiar
nela? Burro, burro, mil vezes burro!
Estou quase arrancando meus próprios
cabelos. Passo uma noite infernal
rolando de um lado para o outro, minha
vida tinha virado um inferno!
Vou para a empresa e chego lá antes
de todos. Entro na minha sala e fico lá,
tentando me distrair, mas não conseguia.
Minhas mãos estão em meu rosto,
tamanho era meu desespero, me sinto
totalmente impotente com essa situação,
o medo já me dominava. Eu precisava
dela.
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Quando Michel chega, não me
seguro mais, eu tinha um problema para
resolver e seria agora. Pego a chave do
carro em minha mesa e digo ao Michel
que vou resolver um problema e volto
logo. Ele assente e eu saio.
Entro no meu carro e saio. Agora, a
única coisa que me dominava era meu
ódio, aquele miserável iria me
conhecer.
Chego à portaria do seu prédio e
vou logo entrando, ai de quem me
parasse. A recepcionista até tenta me
chamar, mais acho que desiste quando
vê minha cara de poucos amigos. Pego o
elevador e aperto a cobertura, minhas
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mãos estão fechadas em punho, com
tanta força que os nós dos meus dedos
estão brancos.
Chego à cobertura e tem uma
senhora sentada atrás de uma mesa.
Olho para ela e ela me olha, acho que
consegue ver a raiva em meu rosto.
— Bom dia, Senhor, posso ajudá-
lo? — Nem respondo, vejo uma porta
fechada e o nome do desgraçado escrito
nela. Abro a porta de uma vez só, viro
para a esquerda e o vejo lá sentado com
um monte de documentos nas mãos. Seu
nariz estava com um curativo. Dou um
sorriso de lado, pois ele iria precisar de
outro.
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Ele levanta o olhar.
— O que está fazendo aqui?
— Seu filho de uma puta! Você vai
me conhecer — já o puxo pelo
colarinho por cima da mesa, derrubando
todos os papéis no chão junto com ele.
Eu dou um soco, que acerta sua boca.
Ele tenta reagir, mas eu não deixo,
dando outro soco em seu olho —
Desgraçado, você destruiu a minha vida
— outro soco.
Eu o puxo pela gravata e o jogo em
cima da mesa, a cara dele já estava toda
lavada em sangue. Quando eu ia
começar a socar sua barriga, sou puxado
para longe dele por quatro homens, que
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deviam ser os seguranças.
— Me larga, porra! — Falo cheio
de ódio, minha vontade era matá-lo.
A senhora que estava na mesa
quando cheguei vai para cima dele, toda
solícita, e os caras continuam me
segurando. Nesse momento, chegam
outros funcionários curiosos para dar
plateia.
— Eu vou te denunciar, seu louco
— ameaça-me ao se levantar. Estava
com um lenço tentado limpar a bagunça
que eu tinha feito em sua cara.
— Faz isso, seu merda! Eu é que
vou te colocar na cadeia, eu já tenho
todas as provas da sua armação barata
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— ele arregala os olhos.
— Não sei do que está falando —
fala se fingindo de desentendido. Filho
da puta! Não é capaz nem de assumir
seu erro.
— Eu tenho exame de sangue
acusando o doping, testemunha e uma
filmagem com toda sua ação. Você é
muito imbecil de achar que eu não
descobriria — ele engole em seco e
vejo medo em seus olhos. É isso
mesmo, eu quero pavor, seu desgraçado!
Todos na sala estão olhando para ele.
— Se você chegar perto dela de
novo eu te mato, ouviu bem? — Falo
com o dedo em riste para ele — E reza,
Acheron Livros e afins
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mas reza muito para ela me perdoar pela
merda que fiz por sua causa, porque se
ela não me perdoar, eu vou te caçar até
o inferno e vou ser seu maior pesadelo,
seu infeliz!
— Você está me ameaçando? —
Ele pergunta, tentando parecer tranquilo.
— Claro que não! Eu estou te
fazendo uma promessa, e eu não
costumo quebrar minhas promessas —
ele arregala os olhos com minha
resposta. Deveria estar todo cagado de
tanto medo. Filho de uma puta!
Desgraçado!
— Me solta, porra! Por hoje eu não
vou fazer mais nada com esse merda —
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os seguranças me soltam, viro e dou de
cara com uma grande plateia abismada.
Não perco a oportunidade.
— Fiquem sabendo — digo
encarando a plateia — Que o chefe de
vocês não consegue nem levar uma
mulher para cama sem dopá-la. Último
aviso — olho para ele de novo —
Nunca mais chegue perto da minha
mulher.
Saio do seu escritório sem nem
mesmo olhar para trás. Eu estava mais
aliviado, no entanto, ainda estava com
raiva, queria ter batido mais. Espero
que ele realmente entenda o recado,
porque se eu o pegar perto da Lívia de
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novo, aí meu irmão, não vai ter mais
chances para ele.
Quando chega à empresa, já estava
na hora do almoço. Michel não estava
lá, deve ter saído para almoçar, quanto a
mim, não estava com um pingo de fome.
Pego meu celular ligo para a Lívia,
precisava pelo menos ouvir sua voz.
Ligo umas três vezes, mas ela não me
atende, eu juro que vou pirar! Quer
dizer, já pirei!
Saio da empresa e vou para casa,
pego meu uniforme e vou para o
batalhão. Eu ficaria no Bope até que ela
me aceitasse de volta, senão, como seria
minha vida sem ela e com tanto tempo
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livre? Precisava me ocupar e colocar
minha raiva para fora, e onde melhor
para fazer isso senão no Bope? Agora
eu podia dizer que era o pior pesadelo
para quem cruzasse meu caminho.
Saio do batalhão por volta das
quatro da manhã, estou com tanta
saudade, parecia que eu não a via há um
ano, e essa dela nem atender meu
telefonema, estava acabando comigo.
Quando vejo, já estou entrando em
seu prédio, eu precisava pelo menos vê-
la. Entro no seu apartamento bem
devagar, essa merda de madrugada
silenciosa fazia qualquer barulho se
tornar um escândalo! Fecho a porta do
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apartamento com a maior cautela
possível, parecia que estava em uma
missão, na verdade, eu estava sim,
queria só ver o amor da minha vida,
meu Anjo. Sei que era errado invadir
sua casa sem permissão, mas quem
nunca fez uma loucura por amor? Então
podem me julgar, eu não estou nem aí.
Tiro meu tênis na porta para não
fazer barulho e ando num silêncio
mortal para o corredor. Cara, eu estava
sendo muito ridículo e um bobo, mas
não estava nem ligando, eu só queria vê-
la. Abro a porta do quarto bem
devagar... Estou segurando o lábio com
o dente, chego até estar fazendo uma
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careta com medo de acordá-la. Quem
diria, um Caveira como eu, com medo
de uma mulher. Mas ela não era uma
mulher qualquer, ela tinha em suas mãos
todas as minhas fraquezas, angústias,
medos e toda a minha felicidade. Tudo
dependia dela, eu era seu refém e queria
continuar sendo por toda a minha vida.
Dou graças a Deus pela TV estar
ligada, assim eu conseguiria ver melhor
meu Anjo. Ela era linda até dormindo.
Ela está deitada de lado, agarrada ao
meu travesseiro, uma de suas pernas
estava por cima do edredom. Estou com
uma vontade alucinante de me deitar ao
seu lado, abraçá-la, beijá-la e fazer
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amor com ela até que estivéssemos
exaustos, mas eu não podia, e isso me
machucava de uma maneira que me fazia
preferir a morte. Sento-me no chão
encostado ao seu armário e fico ali,
velando seu sono por uma hora mais ou
menos, não me cansava de olhar para
ela.
— Não, Gustavo! Não faz isso com
a gente, eu te amo, por favor, não destrói
tudo — ela está falando enquanto dorme
e meu coração dispara. Ela estava tendo
um pesadelo, pois estava se debatendo e
me doía muito saber que eu estou sendo
a causa de seu pesadelo. Eu sei que não
devia e que ela vai me escorraçar
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quando acordar, mas não consigo ficar
quieto, me deito ao seu lado na cama e a
abraço.
— Eu estou aqui, meu Anjo, vai
ficar tudo bem, é só um sonho ruim —
falo beijando sua cabeça e seu rosto.
Tiro o travesseiro do seu abraço para
que ela abrace o meu corpo e não o
travesseiro.
Caralho! Minha pistola! Lembro-me
e a tiro, a colocando sobre a mesinha do
meu lado. Ela continua de olhos
fechados e me abraça muito forte e seu
corpo se acalma na hora. Eu tenho a
melhor sensação do mundo, inalo seu
cheiro e a aproximo mais de mim. Ela
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continua dormindo e eu fico admirando
cada pedacinho dela. Pego o controle
que estava ao seu lado na cama e
desligo a TV. Eu estava em casa, ela era
minha casa, aqui era meu lugar. Ela
continua me abraçando e sem que eu
menos perceba, o cansaço me vence.
Acordo e já tinha amanhecido. Ela
continua dormindo na mesma posição,
eu fico ali totalmente rendido, mas eu
tinha que tentar sair daqui sem que ela
acordasse, pois não queria que ela se
irritasse com o fato de eu ter dormido
aqui, sou maluco em fazer o que fiz.
Que se dane, eu nunca escondi que
era louco por ela.
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Levanto-me bem devagar e ela se
mexe como se seu corpo reconhecesse a
falta do meu. Tenho certeza que seria
questão de pouco tempo para ela
acordar, então eu pego minha pistola e
saio praticamente correndo do quarto e
de seu apartamento.
Eu não estava me sentindo bem por
ter que sair assim da sua cama e da sua
vida, mas, por enquanto, essa era a
única opção que eu tinha. Só de ter
ficado essas horas com ela, mesmo sem
que ela soubesse, tinha renovado um
pouco minhas forças.
Vou direto para a empresa, ficaria
lá na parte da manhã e à tarde eu iria
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colocar uma ideia meio absurda em
prática, que me faria muito feliz se
tivesse meio por cento de chances de eu
reconquistar meu Anjo.
Almoço e vou em direção ao meu
destino. Caralho, isso não iria dar certo,
mas eu tinha que tentar, por ela eu faria
qualquer coisa.
Nem acredito quando estou parado
batendo em uma porta.
— Pode entrar — reponde a voz
que eu só tinha ouvido uma vez
— Oi, boa tarde, cara, tá lembrado
de mim? — Falo muito sem graça, nunca
passei uma situação tão embaraçosa.
— Claro! Você é o namorado da
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Lívia. Olha, vou logo avisando que já
tem um tempo que não danço com ela—
fala em tom de brincadeira e eu sorrio
um pouco.
— Não é isso, Edu, posso te
chamar assim? — Pergunto, o cara
parecia ser muito gente boa mesmo.
— Claro, todos me chamam assim,
em que posso te ajudar? — Eu hesito um
pouco antes de falar. O que ele iria
pensar de mim?
— É que a Lívia adora dançar,
você sabe, né? — Falo muito sem jeito
e ele cruza os braços e fica me
encarando.
— Sei, ela realmente ama.
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— Então, eu queria te perguntar se
você poderia me dar umas aulas? Em
particular, é claro — ele dá um sorriso
e fica quieto por uns instantes,
aumentando meu nervosismo.
— Olha, poder até posso, mas me
desculpe a indiscrição, por que não
pede para a Lívia te ensinar? Ela é uma
ótima professora — eu abaixo a cabeça
sem graça.
— É que não estamos juntos no
momento, e eu vou fazer de tudo para tê-
la de volta, inclusive aprender a dançar,
e você me ajudaria muito se ela não
ficasse sabendo, pois queria que fosse
uma surpresa. Ela me disse, uma vez,
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que o namorado dela tinha que saber
dançar, e eu sou uma negação completa,
nem sei se vou conseguir aprender algo,
mas preciso tentar, por ela— ele sorri e
concorda com a cabeça.
— Você vai ser um bom dançarino,
isso eu te garanto— fala empolgado e eu
não consigo ter essa confiança toda.
— Só de não pisar no pé dela a
cada passo que eu der, já vou ficar bem
satisfeito. Quando começamos?
— Agora mesmo! Minha próxima
aula é só daqui a uma hora, e eu estava
entediado mesmo, vamos ver o que
conseguimos.
Nunca achei que seria tão
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complicado aprender a dançar, vendo as
pessoas parece tão fácil. Sinto que o
Edu estava perdendo a paciência, eu
admito que era muito ruim, nem
conseguia sair dos passos básicos, isso
não ia dar certo.
Despedimo-nos e ele remarcou para
amanhã no mesmo horário. Eu tinha que
aprender, ele era muito paciente, mas se
eu continuasse assim tão desajeitado, ele
desistiria, aí eu estaria ferrado.
Volto quinta, sexta e sábado à tarde.
Agora, eu até que estava gostando e
começava a me sair bem. Edu era um
ótimo professor mesmo. Michel estava
estranhando o fato de eu estar saindo da
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empresa esses dias seguidos nos mesmo
horário, mas não poderia contar para
ele, pois poderia soltar sem querer para
a Bia e aí era a mesma coisa de falar
para a Lívia.
Não tinha visto a Lívia desde a
madrugada de quarta-feira, quando fui à
sua casa e saí sem que ela tivesse me
visto, estava tentando me segurar ao
máximo. Queria respeitar seu pedido,
mas estava cada dia mais difícil ficar
sem ela.
Eram vinte horas de sábado, estava
muito tenso, hoje era minha folga e eu
não sabia mais o que fazer com tanto
tempo livre. Resolvo dar uma corrida na
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praia, para gastar um pouco dessa
energia acumulada que eu só pensava
em gastá-la com a Lívia. Do jeito que eu
estava, teria que correr o Rio todo e,
mesmo assim, seria complicado para o
meu lado, eu só a queria.
Chego em casa já eram vinte e três
horas, encontrei uns amigos que não via
há muito tempo e ficamos batendo papo
em um quiosque. Até que me distraí um
pouco das minhas lembranças.
Vou para o banheiro e tomo um
banho. Já tinha comido um peixe com
eles, então vou checar meus e-mails.
Quando termino ligo, a TV e começo a
me interessar por um filme. Sabia que
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eu não dormiria tão cedo sentindo a
falta dela, era assim todas as noites.
O filme já estava quase terminando
quando ouço um som de mensagem no
meu celular. Só podia ser do batalhão.
Pego o celular e abro a mensagem,
quando vejo que é da Bia, meu coração
dispara. A essa hora, só podia ser
merda. Respiro fundo antes de ler a
mensagem...
*Gustavo, desculpa te incomodar,
mas não estou conseguindo falar com o
Michel, ele está de serviço. É que eu e
a Lívia resolvemos sair para
comemorar a abertura da academia na
segunda, e ela está exagerando muito
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na bebida, tem um cara que diz
conhecê-la, mas eu não o conheço e ele
está passando dos limites.*
Meu sangue ferve no mesmo
instante, meu coração está acelerado.
Quem é esse cara? É a primeira
pergunta que me faço, eu já não estava
mais conseguindo raciocinar.
* Onde vocês estão?*
Minha cabeça já está a mil, só
conseguia pensar merda.
Ela me passa o endereço e sua
localização exata. Era bem perto aqui
de casa, pelo menos isso.
Coloco a primeira roupa que vejo,
uma calça jeans preta e uma camisa
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também preta, coloco meu tênis, pego
minha pistola, a chave do carro e saio
igual a um maluco. Chego ao local em
oito minutos, e quando me aproximo,
vejo Lívia tentando se esquivar do cara.
Ela parecia uma boneca de pano, Bia
puxava de um lado e o cara de outro.
Minha raiva vai ao extremo ao ver
aquele cara com a mão em meu Anjo,
minha vontade é já chegar quebrando a
cara dele, mas sei que, se fizesse isso,
eu me afastaria mais ainda dela e
perderia a chance de reconquistá-la.
Respiro fundo e me aproximo mais,
meu maxilar estava cerrado tentando
controlar minha raiva e não estava nada
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fácil. Ela está de costas para mim, mas
Bia vê quando eu chego e relaxa
visivelmente. Eu paro atrás da Lívia e
passo um braço em sua cintura,
puxando-a contra meu corpo. Sentir seu
corpo junto ao meu alivia um pouco a
tensão, mas só um pouco. Ela sente
minha presença na hora e congela, o
sujeito também trava, me olhando.
— Posso saber o que está
acontecendo aqui? — Pergunto,
encarando o sujeito nos olhos com um
ódio mortal.

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Capítulo 30
Gustavo

Ele solta o braço dela na hora em


que pergunto e ela se vira de frente para
mim, me olha, sorri e abraça minha
cintura. Agora quem não está
entendendo nada sou eu.
— Não está acontecendo nada que
seja da sua conta, não precisamos de um
segurança aqui, pode ir— o sujeito me
responde. Como é que é? A Lívia
continua me abraçando com o rosto em
meu ombro.
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— Ele é o namorado dela, seu
idiota! Você que está sobrando aqui, dá
o fora enquanto ainda está em tempo—
Bia fala cheia de atitude e eu ainda
estou perdido, tentando entender o que
está acontecendo.
O cara me olha de cima a baixo,
parece não acreditar no que Bia acabou
de dizer.
— Está surdo? — Tiro Lívia com
cuidado dos meus braços e a coloco
sentada. Encaro o cara de frente.
— O que você quer com a minha
namorada?! Posso saber? — Ele cruza
os braços e faz cara de deboche para
mim.
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— Nada que você possa resolver—
filho da puta! Quando eu ia voar nele
com tudo, sinto a Lívia abraçando
minhas costas e travo.
— Deixa ele para lá, Capitão—
fala colada às minhas costas e sua voz
estava toda embolada. Bia está ao meu
lado com a mão em meu braço.
— Hoje é seu dia de sorte, seu
idiota, mas não cruza meu caminho de
novo para o seu bem. Agora some
daqui! — Eu estava muito preocupado
com meu Anjo para perder tempo com
esse infeliz. Ele arqueia as sobrancelhas
e vai para o meu lado. Eu o encaro.
— Nos vemos por aí, Lívia— ele
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se dirige a ela cheio de deboche com
minha cara. Esse cara estava me
testando. O puxo pelo colarinho pronto
para quebrar sua cara, quando Bia puxa
meu braço de novo.
— Não faz isso, Gustavo! Ele não
vale nem a sua porrada. Vamos embora,
Lívia não está muito bem— eu o
empurro para longe e me viro para ver
meu Anjo.
— Está tudo bem? — Pergunto para
ela com as mãos em seu rosto. Ela sorri
para mim.
— Não poderia estar melhor— fala
toda estranha, ela estava bêbada.
Bia pega a bolsa das duas e nós
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caminhamos para a saída. Pego a
comanda e a pago no caixa próximo à
saída. Lívia está me abraçando o tempo
todo e sorrindo muito. Na comanda que
paguei, tinham quinze caipivodkas, a
Bia parecia bem sóbria, então a Lívia
deve ter tomado a maioria, por isso esse
estado. Quando estamos caminhando em
direção ao meu carro, ela para e paro
junto. Ela vem para a minha frente e
coloca as mãos em meu pescoço e não
para de sorrir.
— Capitão, você está muito sério,
não liga para aquele idiota, é você quem
eu amo, e eu só quero você.
Meu coração se alegra com essa
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declaração. Mesmo sabendo que ela
estava bêbada, eu sabia que estava
dizendo a verdade. Ela fica na ponta dos
pés e me beija. Retribuo, a abraçando
muito forte. Que saudades!
— Eu vou ter que assistir isso
mesmo? — Bia pergunta em tom de
brincadeira. Por um momento, me
esqueci dela totalmente. Eu interrompo
o beijo.
— Vamos, meu Anjo, vamos para
casa— ela sorri e eu a abraço.
Caminhamos assim até o carro, a coloco
no banco da frente, a Bia entra atrás e
saímos.
— Viu, Bia? Meu Capitão veio me
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salvar... Aquele babaca deve ter ficado
com medo... Meu Capitão é caveira...
Eu disse isso para ele... Ele não me
ouviu— ela está falando tudo embolado,
sua mão está em minha coxa e sua
cabeça em meu ombro.
— Eu sei, amiga, agora senta
direito— Bia fala, preocupada.
— Eu não vou sair de perto do meu
Capitão! Ele é meu, só meu, não é, meu
amor? — Fala. Eu sorrio
— Sim, meu Anjo, sou seu, só seu
— dou um beijo rápido em sua cabeça.
Ela coloca um braço em minha barriga,
tentando me abraçar sem sucesso, pois
estava de cinto.
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— Viu, Bia, eu te disse.
Ela permanece nessa posição e eu,
apesar de saber que isso era efeito da
caipivodka, estava adorando sua
proximidade.
— Ok, amiga— Bia fala sem muita
paciência.
Paro o carro em frente à casa da
Bia bem na hora em que o Michel
também está estacionando. Ela desce do
carro e ele também.
— Tudo bem? — Ele pergunta,
olhando para ela e para mim ao mesmo
tempo, muito preocupado. Olha para
dentro do carro e estranha ao ver Lívia
agarrada a mim.
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— Eu te explico tudo, vamos entrar
— Bia fala e ele assente.
— Valeu, cara, até amanhã — ele
fala e eu me despeço. Ligo o carro e vou
para o prédio da Lívia. Quando paro o
automóvel, ela me olha.
— Chegamos — afasto-a um pouco
para descer do carro, pego sua bolsa no
banco de trás que, mais parecia uma
carteira grande — ela já tinha me dito o
nome desse tipo de bolsa, mas não me
lembro — , vou para a porta do carona
e a abro para que ela saia. Tiro seu
cinto e a ajudo a descer. Ainda bem que
não tinha ninguém aqui, pois seu vestido
estava na altura da bunda e eu estava
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vendo toda a sua calcinha branca de
renda. Ela estava com um vestido verde
colado ao corpo, eu o abaixo um pouco
e ela fica rindo.
— Você é muito possessivo,
Capitão! — Nem respondo, a retiro do
carro e ela quase cai. Mas eu a seguro e
caminho com ela até o elevador. Quando
entramos, ela fica à minha frente e me
abraça, passando as mãos sob minha
camisa e beijando meu pescoço. Puta
merda, eu estava muito excitado, mas
não poderia levar isso adiante, não com
ela nesse estado.
Chegamos ao seu andar e eu a puxo
para fora do elevador. Ela está agarrada
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à minha lateral, abro a porta de seu
apartamento, e quando a fecho, ela se
joga em cima de mim e vai me
empurrando até que eu me sente no sofá.
Ela se senta em cima de mim, retira
minha blusa eu a ajudo, claro, e dá
vários beijos em meu peito e pescoço,
até chegar à minha boca.
Eu estou muito ferrado! Seu vestido
já está na sua cintura, uma de minhas
mãos está em sua bunda e outra em suas
costas. Ela rebola em cima de mim o
tempo inteiro, meu desejo por ela estava
além do limite. Como eu senti falta
disso, mas eu tinha que parar, não posso
me aproveitar de seu estado.
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— Eu senti tanto a sua falta,
Capitão— sua voz é um sussurro, me
deixando mais excitado ainda. Caralho,
eu estava muito ferrado!
— Eu também, meu Anjo, você nem
pode imaginar como senti sua falta—
ela me ataca com um beijo de tirar o
fôlego e o juízo de qualquer um. Se eu
não a parasse agora, não conseguiria
mais, e amanhã ela poderia me culpar
por tudo isso, e com razão, pois eu sei
muito bem o que estou fazendo,
enquanto ela, não tenho certeza.
— Meu Anjo, vem, vamos tomar
um banho— falo quebrando nosso beijo
e a tirando do meu colo. Ela me olha
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chateada.
— Eu não quero tomar banho,
quero você, Capitão! — Porra! Isso
estava ficando cada vez mais difícil.
Como eu iria resistir? Levando-me e a
puxo junto para que venha comigo.
Caminho com ela até o banheiro do
quarto e começo a retirar seu vestido.
Ela sorri.
— Agora sim, é o Capitão que eu
conheço— eu sorrio para ela e ela
começa a me torturar de novo dando
beijos por todos os lugares do meu
peitoral e pescoço.
Eu retiro seu sutiã e ela agora está
só de calcinha, e era a visão mais linda
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do mundo. Como senti falta disso! Ela
começa a abrir minha calça, eu e a
ajudo, retiro minhas meias, pois meu
tênis tinha ficado na sala junto com sua
sandália. Ela tenta tirar a cueca, mas eu
não deixo, precisava ter algo nos
separando. Quando ela abaixa a cabeça
para tentar retirar minha cueca de novo,
não resiste mais e vomita bem ali, na
minha frente, no chão do banheiro.
Afasto-me um pouco para trás e seguro
seus cabelos. Ela tinha vomitado o chão
todo, eu a puxo um pouco em direção ao
vaso, abro a tampa e ela vomita mais e
mais lá dentro, parecia que não ia
acabar nunca. Fico ajoelhado atrás dela,
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segurando seus cabelos. Já dei descarga
umas duas vezes e ela não parava de
vomitar, como tinha tanta coisa dentro
dela assim, eu não sei. Depois de uns
vinte minutos nessa posição, ela para e
eu a levo para o boxe, abro o chuveiro e
a coloco embaixo da água. Lavo seus
cabelos com cuidado, retiro sua
calcinha e lavo todo o seu corpo com
sabonete líquido.
— Meu Anjo, consegue ficar em pé
sozinha, só um minuto? — Ela assente e
encosta na parede. Eu saio do boxe,
pego a sua escova de dente com pasta,
pego duas toalhas e jogo em cima do
vômito do chão, volto para o boxe e
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entrego a escova para que ela escove os
dentes lá mesmo. Enquanto isso, retiro
minha cueca, coloco pendurada junto a
sua calcinha e tomo meu próprio banho,
muito rápido. Desligo o chuveiro, pego
a toalha dela e a enrolo, pego outra para
mim e enrolo em minha cintura.
Saio do banheiro junto com ela, a
sento na cama, que se joga para trás.
Vou até a gaveta onde guardava suas
roupas de dormir, pego um baby doll
branco e coloco nela, em seguida, seco
seus cabelos o máximo que consigo. Vou
até a cozinha procurar algo na caixa de
remédios para porre e não encontro
nenhum. Pego um copo de água e volto
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para o quarto.
— Anjo, levanta um pouco, bebe
isso— ela se levanta e eu entrego o
copo de água; ela o toma quase todo e
volta a se deitar, um minuto depois, já
está dormindo.
Abro minha gaveta e pego uma
cueca. Vou para o banheiro, pego as
toalhas que eu tinha colocado no chão,
junto com minha calça e meias que
também estavam sujas e levo para a
lavanderia, colocando tudo na máquina
de lavar.
Pego alguns materiais de limpeza e
vou para o banheiro dar um jeito
naquela sujeira. Após deixar tudo
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limpo, vou para a cozinha, bebo um
copo de água e volto para o quarto para
dormir com ela. Enrosco-me nela, agora
mais relaxado. Não sei qual será sua
reação amanhã ao acordar, mas não
poderia deixá-la sozinha naquele
estado.

****

Lívia
Acordo e nem consigo abrir os
olhos, parecia que tinha caído um
ônibus em minha cabeça de tanto que
doía. Abro-os devagar. Eu estava no
meu quarto e nem me lembrava como
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tinha chegado até aqui, e quando olho
para o meu lado, vejo Gustavo
dormindo.
Que merda aconteceu? Como ele
estava aqui? Vejo que estou com meu
baby doll, eu tento me lembrar de
alguma coisa, mas não consigo. Fecho
os olhos de novo, minha cabeça estava
uma bagunça e doía muito. Coloco as
duas mãos na testa, tentando aliviar a
dor que estava sentindo. Maldita
caipivodka! Nunca mais vou beber isso
em toda minha vida.
Minha boca está seca, preciso de
água. Tento me levantar, mas o Gustavo
está com o braço em cima de mim,
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quando tento retirá-lo, ele abre os olhos
e me olha. Estou confusa, não sei como
chegamos a isso.
— O que aconteceu? — Pergunto
com uma das mãos na cabeça. Ele
arqueia as sobrancelhas.
— Acho que você bebeu demais—
é só o que me responde e se levanta da
cama. Sinto um abandono imenso.
— Aonde você vai? — Ele está
pegando uma bermuda e uma camiseta
na gaveta e a veste.
— Vou até a farmácia, não demoro
— fala colocando o chinelo. Antes de
sair, se abaixa e me dá um beijo na
cabeça.
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Eu fico ali com cara de boba e com
uma baita ressaca, tentando me lembrar
de algo, mas não consigo. Levanto-me e
vou até o banheiro e vejo minha
calcinha pendurada junto com sua cueca
no boxer. Puta merda! Eu tinha feito
amor com ele e nem me lembrava, eu
nunca fiquei assim tão bêbada a ponto
de não me lembrar de nada.
Faço minha higiene pessoal e volto
para o quarto. Cinco minutos depois, ele
entra e me entrega dois comprimidos
com um copo de suco de laranja. Nem
pergunto que remédio é, tomo logo. Eu
não conseguia nem olhar para ele,
estava com muita vergonha. Minha
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cabeça estava rodando, então me deito
de novo e fecho os olhos, eu precisava
melhorar um pouco para esclarecer
algumas coisas com ele.
Ele retira a camisa e a bermuda e
se deita novamente ao meu lado, me
abraçando. Eu estava ferrada! Não
conseguia entender como chegamos a
isso novamente.

****
Acordo bem melhor, a dor de
cabeça tinha passado. Gustavo não
estava mais deitado, será que já foi?
Saio do quarto e vou para a sala, vejo
minha bolsa, abro e pego meu celular.
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Caraca, eram quatorze horas! Vou até a
cozinha pegar um copo com água e ele
estava lá.
— Está melhor? — Pergunta-me
todo receoso e eu confirmo com a
cabeça.
— Estou fazendo uma canja, você
vai ficar melhor depois que comer um
pouco, já está quase pronta — eu não
me lembro de ter ficado tão sem graça
como estava naquele momento. Não
consigo dizer nada, nem pensar nada,
não sei que atitude tomar.
Saio da cozinha e vou para a sala,
sento no sofá e ligo a TV. Olho para o
lado vejo seu tênis junto com a minha
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sandália e uma blusa preta que eu sabia
muito bem que era dele. Eu não sei
como agir, depois de ter dito todas
aquelas coisas, me entrego assim tão
fácil para ele, e pior, nem me lembro.
Começo a refazer cada passo de
ontem à noite: eu e Bia fomos para
aquela boate, eu insisti muito para que
ela fosse comigo, eu precisava me
distrair um pouco, não conseguia mais
ficar em casa lembrando-me do
Gustavo, então, finalmente ela topou, e
me lembro que comecei a beber
caipivodka, e quando estava na pista de
dança, quem eu encontro? O Marcelo,
meu ex-chefe. Ele até que começou o
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papo bem, se desculpou e lamentou
muito o ocorrido na sua empresa. Ele
me disse que só ficou sabendo do
ocorrido um mês depois, pois estava
fora do país, e me disse que todos
tinham sido advertidos de seu
comportamento e que ele não iria tolerar
mais isso na empresa dele. Até me
ofereceu a vaga de novo, eu agradeci e
disse que agora era inviável para mim.
Dançamos mais duas músicas,
como Bia não queria dançar, estava só
sentada observando.
Voltei para a mesa já bastante tonta,
tomei mais um pouco de caipivodka,
mesmo com Bia me mandando parar
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várias vezes. Mas eu queria mais era
tomar um porre mesmo, queria esquecer
um certo Capitão, que não saía da minha
cabeça.
Voltei para a pista de dança e ele
começou com umas indiretas bem
diretas e eu falei que tinha namorado.
Eu só pensava no Gustavo. Voltei para a
mesa, tentando me afastar dele, que
insistia para que eu fosse com ele à área
Vip. Recusei o convite e não saí mais do
lado da Bia, e isso é tudo que me
lembro.
— Aqui— saio dos meus
pensamentos com o Gustavo me
entregando uma tigela com canja.
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— Obrigada. Você não vai comer?
— Ele assente e volta para a cozinha,
voltando com dois copos com suco, me
entrega um e coloca o outro na mesinha
que ficava ao lado do sofá; volta para a
cozinha e sai com uma tigela nas mãos e
se senta ao meu lado. Comemos
calados, nem consigo olhar na direção
dele. Quando termino, ele pega a tigela
das minhas mãos e a leva para a
cozinha, voltando em seguida e sentando
ao meu lado Ele está muito calado, e
estou agoniada com isso.
— Obrigada, estava uma delícia—
falo, tentando puxar conversa. Eu sei
que a última vez que esteve aqui e
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cozinhou, ele escutou o que não queria,
e eu ainda estava tentando entender
meus sentimentos. Depois que ele saiu
por aquela porta, naquele dia, minha
vida estava um completo vazio, e eu
ainda me perguntava se tinha feito a
coisa certa, pois sentia muito a sua falta.
Ele até tinha me ligado e enviado
mensagens, mas não tive coragem de
responder nenhuma delas, pois se fosse
responder, eu diria para ele correr para
mim. Eu tentando me afastar dele e ele
acorda na minha cama, e para piorar, eu
não me lembrava de nada do que eu
tinha feito ou falado, eu devia estar
muito bêbeda mesmo. Eu realmente era
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um fracasso com planos.
— Não precisa agradecer, já está
melhor? — Pergunta-me se virando, mas
não se encosta a mim, em nenhum
momento.
— Estou novinha em folha,
obrigada— ele sorri e assente.
— Se você quiser, eu posso ir
embora para você descansar melhor—
ele fala e sinto que também está sem
graça.
— Não, tudo bem— ele continua
quieto e encosta-se no sofá com as mãos
na cabeça. Eu estou mexendo nas unhas,
inquieta.
— Gustavo? — Meu coração está
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acelerado, mas eu preciso saber.
— Hum— ele continua na mesma
posição e eu me viro de frente para ele.
— O que houve ontem? Como você
veio parar aqui? Eu só me lembro de
estar na boate com a Bia, e depois não
me lembro de mais nada— ele respira
fundo e fecha os olhos.
— Bia me passou uma mensagem
pedindo ajuda, pois você tinha
exagerado um pouco na bebida. Eu fui
até lá e, quando cheguei, tinha um cara
fazendo cabo de guerra com você e a
Bia. Ele era muito abusado e, com
certeza, estava com as piores intenções
em relação a você— ai meu Deus, o que
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será que o Gustavo está pensando? Será
que ele pensa que eu fiquei com o
Marcelo? Por isso está assim?
— Gustavo, não aconteceu nada até
onde me lembro, ele é dono daquela
empresa que tive aquele problema no
meu primeiro dia de trabalho. Nós nos
encontramos por acaso e ele começou a
puxar conversa— ele sorriu.
— Eu sei, fica tranquila— é só o
que ele diz. Como assim, ele não estava
nem aí, é isso mesmo?
— Gustavo, nós...— fico meio sem
jeito, tentando encontrar as palavras.
— Não, não aconteceu nada, só te
ajudei com o banho, só isso, eu juro que
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te respeitei— sinto tristeza em sua voz.
— Desculpa por isso, eu não queria
tê-lo incomodado, e muito obrigada por
tudo— ele morde o lábio e assente.
— Não precisa se desculpar e nem
agradecer, quem nunca tomou um porre
na vida? — Eu sorrio sem graça,
enquanto ele se levanta.
— Já que está melhor, eu vou indo,
então, vou deixar você descansar— ele
se abaixa, pega o tênis e a camisa que
estava ao meu lado no sofá, pega
também sua pistola no aparador e sai.
Eu fico lá sentada, inerte, olhando. Eu
queria pedir para ele ficar, mas não
consegui. Levanto-me e vou arrumar a
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cozinha, preciso me distrair um pouco.
Acabo de lavar tudo e vou até a
lavanderia. Estranho quando vejo duas
toalhas e uma calça do Gustavo
pendurados no secador, por que ele
tinha lavado roupa? Ai me Deus, eu
havia vomitado nele, que vergonha!
Passo o resto do domingo em casa,
com Gustavo povoando meus
pensamentos. Eu sabia que me afastar
dele seria a coisa certa a fazer. Mas por
que me senti tão bem acordando com ele
na minha cama, com ele cuidando de
mim como sempre fez? Não me parecia
errado, parecia a coisa mais certa do
mundo. Senti-me muito mal em ver
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tristeza e decepção em seus olhos hoje.
Será que ele pensa que eu já o
esqueci, por isso o tratei daquela
maneira? Ou será que não acreditou em
mim quando eu disse que não estava
com o Marcelo? Não poderia reatar
com ele com esses pensamentos. Sei que
estava correndo um risco enorme de
perdê-lo, mas não podia voltar para ele
enquanto estivesse como estou, cheia de
dúvidas e ressentimentos.
A segunda-feira chega e hoje seria o
grande dia. Acordo cedo com meu
celular tocando, era minha mãe avisando
que estava saindo de Angra. Ela vinha
para a inauguração, junto com meus
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primos e a Jéssica, eu estava super feliz
por isso.
Vou para a academia acertar os
últimos detalhes, estava tudo
praticamente pronto. Bia chega trinta
minutos depois, não tinha falado com
ela ainda desde sábado.
— E aí, tudo certo? — Sempre
animada.
— Tudo certo, amiga, nem acredito
que o grande dia chegou— falo, também
muito animada e ansiosa.
— Entrega para dona Lívia— fala o
senhor que estava dando os últimos
retoques na fachada. Vou até a portaria
e, quando vejo, tem um rapaz com um
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grande arranjo de rosas vermelhas. Ele
me entrega, eu assino o papel e entro
com o arranjo que quase não consigo
segurar. Bia me olha e sorri.
— Até que enfim você fez as pazes
com o Capitão, não estava mais
aguentando seu humor, e vejo que foi
bem-feita, pelo arranjo que ele mandou
— do que ela estava falando?
— Não fizemos as pazes, ele só me
ajudou, porque você ficou mandando
mensagem para ele, né, dona Bia? —
Ela coloca as mãos na cintura e me olha.
— E você queria que eu fizesse o
quê? Aquele cara estava quase te
levando á força, onde conheceu aquele
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maluco?
— Ele era o dono daquela empresa
que só trabalhei um dia por conta
daquela confusão— explico a ela, que
está balançando a cabeça em negativa.
— E como assim você não fez as
pazes com o Gustavo? Você estava toda
melosa se declarando para ele o tempo
todo, e não desgrudou dele nem um
minuto.
Eu sabia que estava bêbada, mas
não ao ponto de não me lembrar de
nada. Ela me conta todos os detalhes até
o momento que ele a deixa em casa e
segue comigo no carro agarrada a ele.
Ai meu Deus, então é por isso que ele
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estava estranho, não deve ter entendido
nada, uma hora eu o dispenso, e na outra
viro uma bêbada chata e grudenta.
Caramba! Sabe-se lá o que fiz quando
chegamos em casa.

Desejo-te toda a felicidade do


mundo nessa nova caminhada
Parabéns e muito sucesso, você
merece!
Gustavo

Meu coração se aperta. Era só


isso? Nem um eu te amo, nem meu Anjo,
nem beijos, nada. Eu o estava perdendo,
e se isso me acontecesse teria, que
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aceitar, pois ainda não estava preparada
para retomar essa relação, se é que ele
ainda queria fazer isso, agora eu tinha
minhas dúvidas.
Minha mãe me liga avisando que
estava chegando, me despeço da Bia e
vou para casa recebê-los. Antes, arrumo
o buquê de rosas em um vaso e coloco
no balcão da recepção, tinha ficado
lindo lá.
Chego em casa, e após uns dez
minutos, minha mãe chega com meus
primos, era muito bom tê-los aqui.
Almoçamos e ficamos jogando
conversa fora. A tarde passa voando, e
quando vejo, já estava na hora de me
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arrumar. Teria que chegar um pouco
mais cedo para organizar tudo e receber
o buffet.
Minha mãe fica em casa com meus
primos e a Jéssica, eles iriam só na hora
mesmo. Quando entro na academia, me
emociono mais uma vez, estava tudo
muito lindo e moderno.
Vejo o buquê de flores, me lembro
que eu nem tinha agradecido ao
Gustavo, então resolvo enviar uma
mensagem para ele.
* Oi, queria agradecer as flores,
são lindas. Desculpa não ter
agradecido antes, é que minha mãe
chegou de Angra com meus primos e eu
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fiquei enrolada. E mais uma vez,
obrigada e desculpas por ontem*
Aperto enviar bem na hora em que
a Bia está chegando com o Michel. Ela
estava linda com um vestido longo
frente única grafite, Michel estava com
um blusão social branco e uma calça
jeans. Eles faziam um casal lindo.
Eu tinha optado por um preto de um
decote em V discreto, o comprimento
era um pouco acima dos joelhos e ele
era soltinho na parte de baixo. Coloquei
uma sandália alta também preta, meu
cabelo estava meio preso com várias
mechas soltas. Meu celular apita com
uma nova mensagem. Era dele, e quando
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leio, meu coração dispara.
* Não precisa agradecer, meu
Anjo, tudo para você e por você*
Quando termino de ler, meus olhos
estão marejados e devo estar com uma
cara meio que de boba, pois o Michel e
a Bia estão me olhando com uma cara
estranha.
Os convidados já começavam a
chegar, o local já estava quase lotado,
todos estavam muitos interessados e
empolgados. Alguns já até estavam
fechando sua matrícula com Sara. Uma
parte de mim estava muito feliz, porque
a outra, não parava de olhar o relógio e
procurar certo alguém que ainda não
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tinha aparecido e já eram quase vinte e
duas horas. Eu já tinha conversado com
várias pessoas, estava tentando dar
atenção para todas elas, minha mãe não
parava de sorrir orgulhosa. Já a tia
Gisele estava num papo empolgado com
o tio Nelson, acho que esse meu plano
estava funcionando.
A Bia também estava fazendo seu
papel de anfitriã muito bem, em todo
canto que ela ia, Michel ia junto. O Léo,
meu primo, estava, tipo, dando em cima
da Sara. Quem sabe sai mais um casal,
tomara, pois ela era muito guerreira,
além de linda, claro.
Começo a olhar o celular de cinco
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em cinco minutos e nada de mensagem
ou ligação dele, sem contar que eu não
parava de olhar para a porta de entrada.
— Acho que você esqueceu de
convidá-lo, por isso ele não veio— fala
Bia atrás de mim. Ela tinha razão, eu
não o tinha convidado, ele devia estar
muito chateado com minha atitude.
Saio andando e nem respondo a
Bia, não queria discutir isso agora. Eu
tinha escolhido isso, agora tinha que
encarar as consequências.
Vou andando de cabeça baixa para
o banheiro, tentando segurar as
lágrimas. Eu queria muito que ele
estivesse aqui, mas eu nem tinha o
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direito de ficar com raiva dele.
Quando estou quase chegando ao
banheiro, esbarro em uma parede de
músculos, e quando levanto a cabeça,
não podia acreditar no que meus olhos
viam.

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Capítulo 31
Lívia

— Rafa? Nossa, estou surpresa em


encontrá-lo aqui — estamos bem
próximos um do outro, e ele está com a
mão em meu braço.
— Pois é, sou eu em carne e osso. E
aí, como você está? Cheguei ontem de
Londres e minha mãe comentou comigo
que você estava abrindo uma academia
e que a inauguração seria hoje, eu não
poderia perder isso por nada, e também
confesso que estava morrendo de
saudades.
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Eu engulo em seco, surpresa com seu
comentário.
— Eu estou bem, e você? Nossa, já
tem muito tempo mesmo— falo sem
saber o que dizer.
Rafa tinha sido minha primeira
paixonite, e com ele eu dei meu
primeiro beijo. Ele era meu vizinho e
nossos pais eram amigos desde sempre.
Ele é um pouco mais velho, dois anos
de diferença, foi fazer um intercâmbio
em Londres quando eu tinha 18 anos e
ficou por lá, e só agora o reencontro
depois de tanto tempo. Todos achavam
que nós iríamos ficar juntos, até os meus
e os seus pais, mas ele foi embora e não
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tive mais notícias suas. Vez ou outra,
minha mãe me dava alguma notícia dele,
com isso, fui me desiludindo até que
aconteceu tudo aquilo com meu pai e
logo depois comecei a namorar o
Otávio.
— Eu estou melhor agora que te
encontrei, você conseguiu ficar mais
linda ainda do que era— fala com as
mãos em meu rosto, olhando dentro dos
meus olhos, e eu fico muito sem graça e
coloco as mãos em cima das suas para
retirá-las do meu rosto.
Eu não sentia mais nada, como pode?
Eu não podia vê-lo que ficava toda boba
e nervosa e agora, nada. Ele continuava
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lindo, mas não fazia diferença nenhuma
para mim e nem me abalava mais. Ele
era alto, deveria ter em torno de um
metro e oitenta e quatro ou oitenta e
cinco, por aí. Um corpo bem definido e
os olhos azuis que um dia foram minha
fraqueza, o cabelo bem loiro. Ele não
era de se jogar fora, era gatíssimo!
— Está tudo lindo, Liv, parabéns—
fala ainda com as mãos em meu rosto.
— Obrigada.
No momento em que vou retirar suas
mãos de meu rosto, olho para o lado e
meu coração para. Gustavo estava sério,
me olhando a certa distância. Ele se
aproxima de nós com passos lentos,
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sinto que meu coração vai sair pela
boca. Ele não poderia fazer um
escândalo aqui, não hoje, não agora.
Puta merda.
— Olá, Lívia, não poderia deixar de
vir aqui hoje. Parabéns, está tudo muito
bonito — ele me dá um beijo no rosto.
Eu balanço a cabeça, surpresa com seu
comportamento.
— Obrigada — só o que consigo
dizer — Este é um amigo de infância,
Rafael. Ele chegou de viagem e eu nem
tinha encontrado com...
— Prazer, Gustavo— ele me corta e
estende a mão, apertando a mão do
Rafa, ao se apresentar.
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Nem eu sei o porquê fazia tanta
questão de que ele soubesse tantos
detalhes. Mentira, eu sabia sim, queria
que ele tivesse certeza de que eu ainda o
amava e que ainda não tinha desistido
dele.
— Bom, já vou indo, só passei para
te dar os parabéns mesmo. Já falei com
a Bia e com Michel também. Até logo
— fala, se vira e vai embora.
E eu fico ali, tentando processar tudo
que acabou de acontecer, vendo o
homem da minha vida indo embora de
novo. Não sei quanto tempo fiquei
assim, até que resolvo ir atrás dele.
— Dá licença um minuto, Rafa— falo
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me afastando dele e indo em direção ao
Gustavo, que já tinha saído. Eu tento
andar o mais rápido que consigo, e
quando enfim chego à rua, só escuto a
arrancada brusca do seu carro indo
embora. Eu fico ali olhando para a
direção que ele saiu, sem saber o que
fazer. Eu estava escutando uma música
parecia vir de dentro da minha cabeça,
mas então olho para o lado e vejo que
está vindo de um bar do outro lado da
rua e aquela música se encaixava
perfeitamente com esse momento,
parecia que era nossa trilha sonora...

“(...) O destino deve estar nos olhando


Acheron Livros e afins
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Com aquela cara de quem
diz
Eu tentei juntar vocês dois
O destino deve estar nos olhando
Decepcionado
Que pena, que pena
Que a gente estragou tudo
Porque pensamos tanto em ser
perfeitos
E os perfeitos não sabem amar
A gente estragou tudo
Por apontarmos tanto os nossos erros
Os erros vão sempre estar aqui (...)”

(Destino, Lucas Lucco)


Eu queria tanto que ele viesse, e
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quando chega, ele vê uma cena dessas.
Eu sabia que ele tinha saído pensando
alguma coisa errada daquela situação.
Mas eu estava surpresa com sua reação.
Será que ele já não estava mais se
importando comigo? Pode parecer
loucura, mas, no fundo, acho que
gostaria que ele tivesse dado um soco
na cara do Rafa e ter dado aquele show
dele.
Meu Deus, o que estou pensando, eu
sempre briguei com ele por se
comportar como um troglodita, e agora
eu estava desejando que ele tivesse sido
exatamente isso. Mas com aquele
Gustavo eu saberia o que fazer, teria
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certeza de que nada mudou. Com esse,
estou completamente perdida, sem saber
o que pensar e como agir.
— Lívia? — Viro-me e vejo a Sara
me chamando da porta.
— Oi — vou andando em sua
direção. Respiro fundo, várias vezes.
Precisava me acalmar, não poderia
agora ficar abalada e destruir minha
noite.
Ela me chama, pois tinha uma família
que queria fazer matrícula e um
desconto especial, mas ela não estava
encontrando a Bia. Dou o desconto e a
família fecha com a gente, feliz da vida.
A noite foi um sucesso, mais de
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oitenta pessoas fizeram matrícula. Os
negócios estavam indo melhor do que eu
imaginava, a inauguração foi um
sucesso, mas meu coração estava de mal
a pior. Se eu não esquecesse o Gustavo
de uma vez por todas, não sei como
conseguiria seguir em frente.
***

A academia já estava em pleno


funcionamento, já tinha uma semana que
estava aberta, e todos os dias novos
alunos se matriculavam. Meu estúdio já
estava com duas turmas fechadas, e eu
não iria conseguir conciliar meu
trabalho na clínica como achei. Tinha
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ido lá semana passada mesmo e avisado
a Dona Julia que não poderia retornar
essa semana. Ela até que aceitou de boa
e disse que acertaria minhas contas; eu
estranhei, mas como ela era de lua, vai
saber o que pensou.

****
Hoje fazia exatamente quinze dias
que eu não via o Gustavo, desde a
inauguração. Ele não me procurou mais,
nem ligou e nem mandou mensagem. Ele
estava fazendo exatamente o que eu
pedi. E isso estava acabando comigo.
Eu até queria perguntar para o Michel
sobre ele, mas preferi deixar para lá,
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afinal, eu iria passar como louca. Pelo
seu comportamento na inauguração,
acho que ele já tinha resolvido seguir
sua vida, eu não tinha o direito de
interferir. Não quando ainda não tenho
certeza do que quero na realidade. Eu
não vou dizer que deixei de pensar nele,
pelo contrário, pesava nele vinte e três
horas por dia, pois até dormindo eu
sonhava com ele. O Rafa não parava de
me ligar, estava insistindo muito para
sairmos qualquer dia desses. Ele devia
estar achando que podia continuar de
onde parou e recuperar o tempo
perdido. Mas, na minha cabeça e no meu
coração, só tinha espaço para uma
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pessoa: Gustavo, e não sei quanto tempo
demoraria a tirá-lo de lá.
A quinta-feira chega e eu estava
levando minha vida no automático; saía
de casa às sete, ia para a academia e só
saía de lá às vinte ou vinte e uma horas.
Um dia na semana ainda tinha faculdade,
agora só faltavam mais dez dias de
aulas e estaria formada. Tínhamos
contratado mais uma recepcionista para
revezar com Sara, pois a academia
fechava às vinte e três horas.
Graças a Deus tudo corria bem, e
estávamos muito felizes com os
resultados. Para a Bia, estava sendo
mais difícil se acostumar com a nova
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rotina, pois ela nunca havia trabalhado
antes, e até que estava se saindo muito
bem, estava radiante. Eu tinha
contratado outra professora de ritmos
para me ajudar no estúdio, tudo estava
perfeito, menos o meu coração.
Eram dezesseis horas, eu tinha
acabado de dar uma aula e fui para o
escritório descansar uma pouco, quando
de repente a Bia entra feito uma bomba
na sala, chorando muito.
— Que foi, Bia, pelo amor de Deus?
— Ela estava chorando muito,
soluçando e não conseguia falar. Pego
um copo com água e levo para ela, que
o segura, e percebo que está tremendo
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muito— Fala, Bia, eu não sei como te
ajudar se você não me disser o que
houve— ela me olha e seu olhar era de
desespero.
— É o Michel, amiga... — ela não
consegue terminar, tomara que não seja
o que estou pensando. Eu começo a
entrar em desespero também, minha
amiga não merecia passar por isso.
— Oh meu Deus, fala, amiga! — Falo
já muito nervosa, eu precisava ficar
calma, para ajudá-la a se acalmar.
— Ele foi embora agora e disse que
acabou tudo— fecho os olhos e solto o
ar que estava prendendo, aliviada, não
por ele ter terminado com ela, mas por
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não ser o que imaginei. Graças a Deus
ele estava bem.
— O que houve, Bia? Vocês estavam
tão bem— ela assente, chorando muito.
— O Flavinho, amiga, ele estava aqui
comigo na área de musculação, veio
conhecer a academia, e quando eu
menos esperava, ele me agarrou e me
beijou, bem na hora que o Michel
chegou— ela estava falando entre
lágrimas e soluços — Ele não quis nem
me ouvir, amiga, falou um monte de
besteiras, perguntou se era esse
tratamento que eu dava aos meus alunos
e saiu daqui dizendo que tinha acabado,
para eu não o procurar mais. Eu não
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posso perdê-lo, amiga— eu vejo a cena
se repetir com ela, parecia que estava
me vendo nela, todo o seu desespero me
fazia lembrar tudo o que eu vivi com
Gustavo.
— Calma, Bia, nós vamos dar um
jeito, o Michel te ama, deixe-o esfriar
um pouco a cabeça, pois agora não tem
como você fazer nada.
— Amiga, ele me disse que acabou!
— Ele só está nervoso, claro que não
acabou, vocês se amam. Vamos lá para
casa, aí você esfria um pouco a cabeça
— ela limpa um pouco o rosto e saímos.
— Sara, você pode cuidar de tudo
aqui? Não voltamos mais hoje. Faça-me
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um favor, liga para a Mi e peça que ela
assuma o estúdio hoje. Qualquer coisa,
liga no meu celular. Obrigada — ela
concorda com a cabeça e eu vou embora
com a Bia.
Chegamos à minha casa e ela ainda
está muito abalada, não conseguia parar
de chorar. Eu pego um calmante e dou a
ela, pois precisava relaxar um pouco, ou
acabaria tendo um treco. Nunca vi
minha amiga desse jeito, ela sempre foi
daquelas que nunca esquentou com nada
e nunca se prendeu a ninguém. Mas eu
soube, desde início, que com o Michel
era diferente.
Ela apaga em poucos minutos, será
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que dei uma dosagem muito forte? Seria
bom para que ela dormisse um pouco.
Escrevo um bilhete para ela, dizendo
que eu não ia demorar, caso ela
acordasse. Pego minha bolsa e saio.
Não ia deixar minha amiga passar pelo
que eu passei, pois sei como essa dor
não passa nunca e a Bia nunca foi boa
com perdas. Uma vez, quando ainda
éramos crianças, ela cismou que queria
um peixe. Um dia, ela errou na dosagem
da comida e o peixe morreu. Ela chorou
por dias e nunca mais quis nenhum
animal de estimação, vivia falando do
peixe que tinha até nome, se chamava
Orfeu.
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Pego um táxi na porta do shopping,
pois eu tinha que chegar rápido e
convencer o Michel da inocência da
Bia, nem que eu tivesse que abrir a
cabeça dele para enfiar as coisas dentro
dela. Não ia deixar minha amiga sofrer
o que eu sofri e estou sofrendo por
causa da burrice desses homens.
Chego à portaria do seu prédio e
subo direto. O porteiro já me conhecia,
sempre vinha aqui com ele e a Bia.
Chego ao seu andar, e quando toco a
campainha, ninguém atende. Olho o
celular para ver a hora, e já eram quase
dezenove. Ele tinha que estar em casa,
tomara que não esteja tomando um porre
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também.
Quando vou tocar mais uma vez, a
porta se abre, e quando levanto a cabeça
para começar a falar, vejo que é o
Gustavo. Nós nos olhamos, e eu estou
completamente paralisada e sem ação.
Meu coração está pulando em meu
peito, parece que vai sair a qualquer
momento; minha respiração está
acelerada e minhas mãos estão
tremendo, assim como todo o meu
corpo. Como ele ainda podia provocar
esse efeito sobre mim?
Simples, Lívia, você ainda o ama
mais que tudo.
Ele continua parado também, não
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mexia nem um músculo sequer e engolia
em seco o tempo todo. Noto que ele
estava bem abatido e isso me machuca
muito, mais do que eu queria.
Lembro-me que estou aqui por causa
da Bia e não por minha causa, então
respiro fundo e passo por ele, que fecha
a porta em seguida. Vejo o Michel
sentado no sofá com as mãos na cabeça
em total desespero.
— Não acredito que você vai
cometer o mesmo erro que o idiota do
seu amigo! — Falo cheia de coragem,
sem me importar com Gustavo atrás de
mim.
Ele levanta a cabeça e me olha e seu
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rosto estava vermelho, parecia que tinha
chorado muito. Me dá pena, acho que
não existe nada pior do que ver um
homem chorando.
— Só que no meu caso, Lívia, deu
para ver visivelmente que não era uma
armação, pois ela estava bem consciente
do que estava fazendo— eu balanço a
cabeça em negativa. Homem é um bicho
burro, cara!
— Aquele que você viu, era o
Flavinho, ele sempre foi apaixonado por
ela, mas ela nunca teve nada com ele,
isso eu te garanto. Naquele dia, daquela
operação louca em que... — eu ia falar
em que conheci o Gustavo, mas travo,
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me lembro de que ele estava atrás de
mim, então mudo o que eu ia dizer – Em
que vocês se conheceram, ela
praticamente me obrigou a ir com ela,
pois não queria ficar sozinha com ele,
que sempre foi muito pegajoso e
insistente, mas ela só gosta dele como
amigo, isso eu te garanto— ele arqueia
as sobrancelhas e me olha.
— Aquele beijo não parecia de
amigos— passo a mão no rosto, muito
irritada com ele. Que cabeça dura!
Parece até alguém que eu conheço.
— Ele a agarrou à força, ela me disse
que você chegou bem na hora. Ela não
tinha porque fazer isso com você
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Michel, ainda mais com o Flavinho! Se
olha no espelho e deixa de ser cabeça
dura. Ela está desesperada, nunca vi Bia
assim, a não ser quando o peixe dela
morreu, quando éramos crianças. Nem
quando meu pai se foi, eu a vi tão
desesperada, sei que ela o amava muito,
mas na cabeça dela, ela tinha que ficar
forte para me dar forças. A Bia sempre
foi assim, protetora — ele não resiste e
dá um sorriso de lado.
— Eu agora estou sendo comparado
com um peixe, devo ser muito
importante mesmo— fala com muito
ressentimento em sua voz.
— Você não tem ideia de como ela
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amava aquele peixe, ela nem quis mais
nenhum animal de estimação por causa
dele, e nunca a vi chorando assim por
nenhum ex-namorado. Na verdade, ela
nunca chorou por nenhum, e hoje ela
ficou tão desesperada, que está lá em
casa, dormindo a base de calmante—
ele me olha e sinto que está tentando
considerar o que eu disse.
— Você tem que confiar no que sente,
cara, e a deixar falar, não seja burro
como eu fui. Não jogue sua felicidade
no lixo por orgulho e por causa de outra
pessoa— eu engulo em seco e fecho os
olhos ao ouvir Gustavo falar. Eu sentia
dor em sua voz e uma lágrima escapa no
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meu rosto sem que eu consiga segurar.
Eu continuo de costas para ele e toda a
dor e amor que eu estava tentando fingir
que não existiam voltam com força total.
— Eu preciso vê-la, você tem razão,
vou deixá-la me explicar, eu preciso
ouvir dela— fala se levantando,
pegando a chave do carro e o celular.
— Vamos? — Ele me encara e eu,
quando me viro para sair, me vejo frente
a frente com o Gustavo de novo e
paraliso mais uma vez, ficando sem
ação. Ele me olha e nota meu estado.
— Entrega sua chave para ele, eles
precisam conversar sozinhos e nós
também— meu coração está na boca e
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esqueço como é falar.
Ele pega minha bolsa, retira minha
chave e entrega para o amigo, depois
puxa minha mão para sairmos juntos
com o Michel. Eu ainda não consegui
dizer nada, parecia que estava fora do
meu corpo. De repente, me lembro
porque eu estava aqui; o problema era a
Bia e não eu, eu tinha que ser forte e
ficar ao lado da minha amiga.
— Eu não posso deixá-la sozinha
agora— falo quando entramos no
elevador.
— Pode deixar, Lívia, eu não vou
fazer nada, só conversar e, se por acaso
a conversa não sair do jeito que
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imagino, eu prometo que te ligo para ir
para casa ficar com ela, mas, no
momento, eu realmente gostaria de ficar
sozinho com ela— olho para ele e eu
tinha que o deixar ir, pois sei que a
felicidade da minha amiga agora
dependia dele, e não de mim.
— Só me promete que vai escutar e
não vai fazer nenhuma besteira. E não
deixa de me ligar, Michel, por tudo que
lhe é mais sagrado, a Bia é mais do que
uma amiga para mim, ela é minha irmã.
— Eu prometo— ele fala e sai em
direção ao seu carro. Eu fico ali
olhando até ele sair, querendo ter a
certeza que fiz a coisa certa.
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— Vamos? — Saio do meu transe
com a voz do Gustavo. Ele puxa minha
mão, abre a porta do seu carro e eu
entro. Eu não sabia como agir e nem o
que eu falaria para ele. Foi ele que
cavou isso tudo com suas desconfianças.
Estávamos esse tempo todo sem nos
vermos e nos falarmos, e agora eu
estava aqui, em seu carro, sentindo o
seu cheiro, que era minha perdição. Uns
minutos depois ele entra em seu prédio,
para o carro, sai e vem para o meu lado
para me ajudar a descer. Eu juro que
estava no piloto automático. Eu nunca
imaginei, ao sair de casa, que viria
parar aqui, onde vivi o segundo pior
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pesadelo da minha vida.
Entramos no elevador, tu ainda muda.
Não disse uma palavra sequer, e nem
ele, desde que saímos do prédio do
Michel.
Quando ele abre a porta do seu
apartamento, no segundo em que eu
entro, simplesmente travo. Todas as
lembranças voltam com força total. Eu
encosto-me à parede ao lado da porta e
fecho os olhos. Doía muito ainda, não
consigo segurar as lágrimas.
Meus olhos continuam fechados e
minhas mãos estão espalmadas na
parede atrás de mim, eu não tinha
coragem de abrir os olhos. Sinto as
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lágrimas descendo mais e mais, e
quando menos espero, escuto um soluço
e sei que não fui eu. Então tomo
coragem e abro os olhos, e a cena que
vejo me quebra em mil pedaços...

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Capítulo 32
Lívia

Gustavo estava ajoelhado à minha


frente, suas mãos estavam sobre a
cabeça e ele chorava com desespero. Eu
não me seguro e caio de joelhos à sua
frente. Vê-lo assim tinha acabado de me
destruir, doía muito vê-lo sofrendo, e,
mais ainda, sabendo que eu era a causa
do seu sofrimento tinha me desarmado
totalmente.
Eu começo a limpar suas lágrimas e
ele abre os olhos e me olha, piscando
várias vezes. Como estávamos bem
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próximos, ele tira as mãos da cabeça e
começa a passar as mãos em meu rosto,
limpando também minhas lágrimas, que
ainda caiam sem controle.
— Me perdoa, meu Anjo, eu não
consigo mais ficar sem você, está
doendo muito. Eu juro que tentei, mas
não consigo mais não ter você em minha
vida — ele fala entre um soluço e outro,
olhando dentro dos meus olhos,
totalmente desesperado.
Eu não consigo mais lutar contra esse
amor, nesse momento não tenho mais
dúvidas, só a certeza de que eu não
suportaria mais não o ter na minha vida.
Coloco as mãos atrás de seu pescoço e
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ataco sua boca com um beijo
desesperado. Eu precisava dele mais do
que o ar que eu respiro. Beijamo-nos
como se nossas vidas dependessem
desse beijo. Uma de suas mãos está em
minha nuca e a outra na base da minha
coluna. Me apertando contra ele. Eu
interrompo um pouco nosso beijo.
— Eu te amo, Gustavo, me perdoa, eu
precisava desse tempo, mas eu juro que
nunca deixei de te amar. É você quem eu
quero e sempre vai ser — falo olhando
dentro dos seus olhos. Ele sorri e é o
sorriso mais lindo do mundo. Ele
começa a se levantar, me puxando junto
com ele.
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— Vem, eu preciso de você na nossa
cama — fico feliz quando ele fala
“nossa cama”. Ele se abaixa e me pega
em seus braços. Eu agora estou com um
sorriso bobo no rosto, pois sei que nos
seus braços era o meu lugar.
Entramos no quarto e ele me coloca
na cama com todo o cuidado do mundo,
retira sua pistola e sua camisa e se deita
em cima de mim, me dando vários
beijos como sempre fazia.
— Você não pode imaginar como
senti sua falta, meu Anjo — fala me
olhando nos olhos e eu estou com um
sorriso bobo que não sai do meu rosto.
Eu levanto um pouco a cabeça, atacando
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seu pescoço com beijos até chegar à sua
orelha.
— Posso sim, pois também senti
muito a sua falta, Capitão — ele sorri,
retira minha camiseta e começa a beijar
minha barriga até chegar à altura da
legging preta que eu estava. Ele começa
a descê-la bem devagar e eu já estava
desesperada para tê-lo dentro de mim.
Meu corpo parecia que entraria em
combustão, era muito tempo longe dele,
um pouquinho mais que um mês, desde
aquele sábado, que ele nem sequer tinha
lembrado que fizemos amor.
Ele termina de retirar minha calça e
agora eu estava só com o top e a
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calcinha rosa.
— Sabe, acho que você não deveria
sair com essa roupa na rua, deve ter
causado muitos acidentes por aí. Eu
mesmo, quando te vi na porta do
Michel, faltou muito pouco para eu te
agarrar, e quando ficou na sala de costas
para mim, eu só conseguia me
concentrar na sua bunda, meu Anjo, que,
por sinal, parece maior e mais gostosa
— ele coloca as mãos sob minha bunda
e a aperta — Eu não disse? — Fala me
olhando com um olhar que ia me
devorar inteira e eu estava adorando.
— Eu estava dando aula e não
consegui trocar de roupa, e você está me
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chamando de gorda, Capitão? —
Pergunto, tentando parecer ofendida
com seu comentário em relação a minha
bunda. Ele sorri e aperta mais ainda.
Envolvo minhas pernas em volta do seu
corpo.
— Claro que não, só disse que você
conseguiu melhorar o que já era ótimo
— ele coloca as mãos para retirar meu
top e eu o ajudo. Ele fica lá, me olhando
por longos segundos, e logo em seguida
começa aquela tortura gostosa que eu
amava. Me dá vários beijos e suga meus
seios um a um. Eu arranho suas costas,
já no meu limite. Senti tantas saudades
disso, de tê-lo assim todo para mim.
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Meus gemidos estão saindo sem
controle, e ele começa a descer com
beijos e lambidas por minha barriga
bem devagar, o safado estava me
torturando.
— Ah, Gustavo! — Ele para na hora
e me olha, dando um sorriso safado que
eu amava, e volta sua atenção para o
que estava fazendo. Ele desce minha
calcinha bem devagar e dá vários beijos
no interior das minhas coxas, até chegar
ao meu centro. Minhas mãos estão em
sua cabeça e eu gemo mais e mais. Ele
continua até que não me seguro mais e
explodo num orgasmo libertador e
delicioso, gritando o seu nome. Ele se
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levanta e tira a calça junto com a cueca
e liberta todo o seu desejo. Levanto e
vou em sua direção, logo me ajoelho na
sua frente. Eu também precisava sentir o
seu gosto. Coloco minha mão em sua
ereção e o levo até minha boca; ele
geme e eu continuo, eu o queria mais e
mais. Uma de suas mãos está em minha
nuca, ele fazia movimentos de vai e vem
com os quadris e eu estava me sentindo
poderosa, era dona do seu amor e do
seu desejo.
— Anjo, eu preciso estar dentro de
você agora! — Ele me ergue pela nuca,
pega um preservativo e me puxa para o
seu colo, me encosta em uma das
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paredes do quarto e me penetra de uma
vez só. Minhas pernas se apertam em
volta do seu quadril e um dos meus
braços envolve seu pescoço e o outro,
as suas costas, enquanto as mãos deles,
em minha bunda, me puxam mais para
ele. Eu começo a arranhar suas costas e
ele geme e me penetra cada vez mais
fundo, estávamos no limite, nossos
gemidos se misturando.
— Gustavo! — Grito seu nome
quando meu orgasmo chega novamente.
Ele dá mais três estocadas e chega ao
seu clímax também.
— Anjo! — Ele grita ao chegar ao seu
gozo.
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Nossas respirações estão aceleradas.
Nos olhamos intensamente, como se
quiséssemos gravar esse momento para
sempre em nossa memória. Beijamo-
nos sem pressa, um beijo de amor, de
entrega.
— Eu te amo, meu Anjo, eu vou ser
seu até o dia da minha morte, melhor,
até depois disso — apesar da
declaração dele ter sido linda, uma
palavra mexe muito comigo: morte.
— Não diz isso! Eu também sou sua e
também te amo, mas você só vai morrer
quando estiver bem velhinho, promete
para mim — falo com certo desespero,
não podia nem imaginar perdê-lo.
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— Eu prometo, nós ainda temos
muito pela frente, meu Anjo, não vou te
deixar assim tão rápido para você
arrumar um novinho e pôr no meu lugar.
Vou te dar muito trabalho ainda — dou
um tapa em seu braço e começo a rir.
— Você é muito bobo, quem disse
que eu quero um novinho? Vou ficar
muito satisfeita com meu velhinho bobo
e babão — ele começa a rir e caminha
comigo até o banheiro. Coloca-me em
pé no boxe, olho para a prateleira e
todas as minhas coisas estavam lá, no
mesmo lugar. Pego meu sabonete líquido
e o levanto contra a luz, olhando bem o
vidro. Eu estava fazendo uma cara bem
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séria, ele percebe e me olha.
— Que foi, estragou? — Pergunta
confuso, me encarando.
— Não, estou só confirmando se está
do jeito que deixei ou se alguma
sirigaita usou — falo, tentando controlar
o riso enquanto ele arregala os olhos
para mim.
— Para com isso, Anjo. Nem eu
estava usando esse banheiro, se alguém
usou foi a faxineira, só pode — fala
nervoso. Eu não me seguro mais e
começo a sorrir, fazendo-o notar que eu
estava brincando.
— A senhora vai me pagar por isso
— puxa-me contra ele e me ataca com
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um beijo delicioso. De repente, começo
a pensar no que ele falou e me afasto,
curiosa.
— Por que não estava usando esse
banheiro? — Ele arqueia as
sobrancelhas e continua me abraçando.
— Porque tudo aqui me lembrava
muito de você, eu não ficava mais nesse
quarto nem por cinco minutos. Desde
aquele sábado que só entro aqui para
pegar roupa e saio, estava usando o
outro quarto. Seu cheiro e suas
lembranças estavam por toda parte, mas
nesse quarto e nesse banheiro é onde
elas estavam mais fortes — meu
coração se aperta com essa declaração.
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Sabia que ele estava sentindo minha
falta, mas não a esse ponto. Agora eu o
ataco com um beijo, meu coração estava
apertado.
— Eu te amo tanto, Gustavo! Me
perdoa, meu amor — falo ao mesmo
tempo em que duas lágrimas escorrem
por meu rosto. Ele beija cada uma
delas.
— Shiuuu, já passou, agora você não
vai mais se livrar de mim tão cedo, só
para deixar claro — eu sorrio e ele
continua a limpar minhas lágrimas.
— E quem disse que você vai
conseguir se livrar de mim, Capitão?
Ele me suspende e fazemos amor mais
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uma vez.
Saímos do banheiro enrolados em
toalhas. Ele entra no closet, sai vestido
só com uma cueca e me traz um baby
doll, que visto. Estou escovando meus
cabelos quando, de repente, o estalo me
bate.
— Gustavo! — Ele me olha, assustado
com meu grito.
Estou com as mãos na boca.
— Que foi, Anjo? — Pergunta e vem
em minha direção.
— A Bia! Eu me esqueci do celular
na sala, e se o Michel ligou? Ai meu
Deus! — Saio correndo em direção à
sala, eu era a pior amiga do mundo.
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Pego o telefone em minha bolsa, e
quando olho, respiro aliviada. Não tinha
nenhuma ligação perdida. Confirmo a
hora e já eram quase vinte e três. Nossa,
o tempo passou voando.
— Ele não vai ser tão burro como eu
fui, pode ficar tranquila que a essa hora
eles também devem estar felizes.
— Me desculpa por ter chamado
você de burro, meu amor, mas não tinha
outra palavra para eu dizer, a não ser
essa — ele vem em minha direção com
um olhar de predador, andando bem
devagar, e eu vou me afastando mais e
mais sempre que ele tenta se aproximar.
— A Senhora continua muito abusada
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— fala no seu modo Capitão. Ele está
andando como um leão buscando a
presa, olhando-me com aquela cara sexy
linda.
— E o que o senhor vai fazer, me
prender? — Pergunto, rodeando o sofá e
o desafiando. Ele pisca para mim.
— É uma boa solução, assim a
Senhora nunca mais vai me desafiar e
nem fugir de mim — dá passos mais
largos e eu vou para o lado oposto. Ele
agora está onde eu estava. Vai para trás
do bar e continua me acompanhando
com os olhos. De repente, ele levanta
um par de algemas e me mostra — Acho
melhor a Senhora se entregar, assim, sua
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pena pode ser menor — já estar saindo
de trás do bar e vindo em minha
direção.
Meu coração está a mil por hora e eu
estou muito excitada com a brincadeira.
Quando olho para sua cueca, vejo que
ele também está.
— Mas não vou mesmo — o desafio,
balançando a cabeça em negativa.
— Você quem escolheu — fala
piscando para mim com uma cara de
mau muito sexy
Com uma agilidade incrível e sem
que eu esperasse, ele pula por cima do
sofá.
— Ahhhh — grito quando ele quase
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me alcança. Eu corro na direção oposta,
mas ele me alcança em menos de dois
passos — Ahhh, assim não vale —
reclamo quando ele me agarra.
— Eu te dei a chance de se entregar,
foi você que não quis, agora vai encarar
as consequências — ele me suspende e
me coloca em seu ombro, dando um tapa
em minha bunda, e eu, por minha, vez
belisco a dele.
— Isso é abuso de autoridade, vou
reclamar com quem está no comando —
falo em tom de brincadeira, lembrando-
me de quando nos conhecemos. Ele
morde minha bunda e vejo quando
entramos no quarto; ele me coloca sobre
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a cama e fica me olhando. Minha
respiração está ofegante e eu já o queria
de novo, como pode isso? Ia recuperar
todo o tempo perdido.
— Ótimas notícias. Eu estou no
comando, e você é toda minha — fala,
já se deitando em cima de mim, entre
minhas pernas.
— Toda sua, para sempre, meu amor
— ele me ataca com um beijo
maravilhoso.
Ficamos ali nos amando por não sei
quanto tempo mais, só sei que eu
parecia o querer cada vez mais.
Ele está deitado de costas e eu estou
com a cabeça em seu peito e com uma
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mão acariciava seu abdome totalmente
definido. Estava traçando cada linha
dele e ele fazia um carinho em minhas
costas, tão bom.
— Capitão? — Falo, quebrando nosso
silêncio.
— Hum.
— Eu não queria interromper esse
momento, juro, mas estou morrendo de
fome.
— Eu vou fazer um sanduíche e já
volto, porque ainda não terminamos,
pode ter certeza — levanta-se, entra no
banheiro e depois sai do quarto.
Eu tomo outro banho rápido, volto
para a cama e ligo a TV. Vejo a hora e já
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era mais de meia-noite. Ele volta com
dois sanduíches de queijo branco,
alface, tomate e peito de peru, e com
dois copos de suco de uva.
Devoro o meu em segundos. Gustavo
ainda está comendo e fica me olhando,
achando estranho. Eu estava com fome,
fazer o quê? Mordo um pedaço do seu
sanduíche e ele fica me encarando.
— Está muito gostoso — falo, ainda
sem terminar de mastigar. Ele começa a
rir.
— Vou fazer outro para você — tenta
se levantar e eu o seguro, dando outra
mordida no seu sanduíche.
— Não precisa — falo, ainda de
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boca cheia, e ele dá uma gargalhada.
Meu apetite essa semana estava além
do normal mesmo, acho que estou
gastando muita energia dando aulas, e
por isso estou sentindo tanta fome
assim. Não o deixo levantar, mas
também acabo comendo todo o resto do
seu sanduíche. Termino meu suco e só
me levanto para escovar os dentes e
volto para cama de novo. Fazemos amor
mais uma vez e agora bem devagar,
sentindo um ao outro, e chegamos juntos
ao clímax. Quando terminamos, ele
retira o preservativo e apagamos
enrolados um no outro, do jeito que nós
amávamos. Agora sim, minha felicidade
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estava completa.

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Capítulo 33
Gustavo

Abro os olhos e me deparo com a


cama vazia ao meu lado. Me vem um
desespero imediato, será que foi um
sonho? Claro que não foi um sonho,
Gustavo, foi tudo muito maravilhoso e
real.
Eu ainda não consigo acreditar que
eu tinha recuperado meu Anjo. Então,
cadê ela? Será que se arrependeu? Não
é possível! Levanto da cama em um
pulo, indo verificar primeiro o
banheiro. A porta está fechada.
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— Anjo? — Tento abrir a porta do
banheiro, está trancada e ela não me
responde.
— Anjo, fala comigo, está tudo bem?
— Começo a ficar preocupado, bato na
porta mais uma vez.
— Espera um pouco, já vou sair! —
Ela responde e eu fico mais aliviado.
Sento na cama e fico esperando ela
sair. Uns cinco minutos depois ela sai,
muito estranha.
— Que foi, está tudo bem? — Ela me
olha e está um pouco pálida.
— Acho que aquele sanduíche me fez
mal, eu estou muito enjoada — ela fala
com a mão na cabeça e se senta na
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cama, se joga para trás e fecha os olhos.
— Meu Anjo, é melhor irmos ao
médico — falo olhando em sua direção
e passando as mãos em seus cabelos.
Ela balança a cabeça em negativa.
— Vai passar, eu já vomitei — é só o
que responde.
Fico pensando que não havia nada
naquele sanduíche que pudesse fazer
mal, deve ter sido porque ela comeu
muito rápido, e ainda comeu quase a
metade do meu, nunca a vi comendo
tanto assim. Dou um beijo em sua
cabeça e vou para a cozinha, acho que
tenho remédio para enjoo na gaveta.
Coloco umas gotas do remédio em um
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copo com um pouco de água e levo para
ela.
— Anjo, bebe isso, vai se sentir
melhor — ela se levanta e toma o
remédio.
— Que horas são? — Ela pergunta,
ainda com a mão na cabeça. Pego meu
celular.
— São sete e meia — ela tira as mãos
do rosto e se levanta.
— Eu preciso ir, tenho que dar aula
às nove — fala já entrando no closet.
— Você não está bem, devia
descansar — falo indo atrás dela.
— É só um enjoo e já estou melhor.
Preciso ir, ainda tenho que passar em
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casa para pegar uma roupa para dar aula
— ela sai já vestida com um vestido
florido e com uma sandália baixa.
— Cinco minutos então, e já te levo —
ela revira os olhos.
— Claro que não, né, Gustavo, não
tem cabimento, você ir me levar e
depois ter que voltar para trabalhar. Eu
pego um táxi, sem problemas — fala já
me beijando, toda decidida.
— Tem todo cabimento do mundo,
eu não vou deixar você pegar um táxi se
eu posso te levar. E você não está se
sentindo bem, eu te levo e não tem
conversa. Só vou tomar um banho
rápido e saímos em dez minutos — dou
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um beijo nela e sigo para o banheiro.
Chegamos ao seu prédio e eu entro
com o carro, paro e descemos. Quando
entramos no elevador, ela bate a mão na
testa e faz uma cara de quem esqueceu
algo.
— Minha chave, está com o Michel.
— Eu tenho a minha, fica tranquila
que depois pego com ele, mas é muito
provável que ele tenha deixado com a
Bia — ela sorri.
— Você é muito abusado, Capitão!
Eu devolvi a sua chave e você não
devolveu a minha — pisco para ela.
— Nunca se sabe quando vamos
precisar — falo e abro a porta, com ela
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dando um sorriso para mim.
Quando olho para dentro, levo um
susto e bloqueio a visão da Lívia no
mesmo instante colocando meu corpo à
sua frente. Fecho a porta de novo, acho
que ela não viu nada.
— Que foi? — Pergunta assustada.
— Acho melhor voltarmos depois —
ela balança a cabeça em negativa.
— Claro que não, Gustavo, eu te
disse que tenho que trabalhar — fala me
empurrando para tentar abrir a porta e
eu travo em sua frente.
— Eu não vou deixar você entrar aí,
Anjo — ela faz uma cara de que não
está entendendo nada.
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— Está maluco, Gustavo? Eu moro
aqui, esqueceu? O que está
acontecendo? Eu preciso entrar sim,
senhor.
— Ah não, Anjo, você não vai ver
isso — falo e ela fica em pânico.
— Merda, Gustavo! É a Bia?
Aconteceu alguma coisa? Sai da minha
frente, eu preciso vê-la — fala
desesperada, puxando minha camisa.
— Calma, meu Anjo, não é isso —
ela para e me olha, querendo entender o
que eu disse — É que Michel está
pelado no seu sofá — ela arregala os
olhos.
— Ah não! No meu sofá? Sacanagem!
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— Eu começo a rir do jeito que ela está
falando.
— É, meu Anjo, acho que foi uma
grande sacanagem mesmo — ela dá um
soco em meu braço.
— E eu que apanho? — Ela me olha
irritada.
— Claro que sim, você que veio com
essa de eu dar a chave para ele. Poxa,
no meu sofá! Espera aí. Você viu a Bia
pelada também? Ai meu Deus! — Ela
está com as mãos no rosto, em pânico.
— A Bia está com a camisa dele, e
eu não vi nada comprometedor, mesmo
porque, o Michel está roubando a cena
— ela respira aliviada.
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— A Bia vai ver só! — Ela começa a
tocar a campainha sem parar e eu não
consigo parar de rir. Ela realmente
estava preocupada com o sofá.
Depois de uns minutos, o Michel abre
a porta. Ele passava a mão no rosto,
acho que tentando espantar o sono,
agora estava de calça e a Bia não estava
mais na sala. A Lívia entra e dá bom dia
para o Michel, indo direto para o
quarto, acho que atrás da Bia.
— A noite foi boa, hein, cara? —
Pergunto, sacaneando o Michel. Ele
sorri.
— Você nem imagina, Gustavo —
fala todo bobo, me zoando, só que eu
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duvido que a noite dele tenha sido
melhor que a minha. Eu bato em seu
ombro e afirmo com a cabeça.
— Se imagino, Michel! Minha noite
não poderia ter sido melhor — ele faz
uma cara de desconfiado.
— Leva a mal não, cara, mas ela
não estava com uma cara muito boa.
— Vai se foder, Michel! Ela está puta
por vocês terem transado no sofá dela,
que vacilo!
— Foi mal cara, não deu para
segurar, sabe como é, né? — Eu balanço
a cabeça para ele em negativa.
— Não, não sei, você é a porra de
um adolescente por acaso? — Ele fica
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sério e eu não aguento, começo a rir.
— Estava todo murcho aí pelos
cantos, agora voltou a ser engraçadinho,
né? Vou ter uma conversa séria com a
Lívia.
— Poxa, Bia, no meu sofá? — Eu e o
Michel olhamos para o corredor quando
escutamos a voz da Lívia em alto e bom
som. Fizemos uma careta ao mesmo
momento. Deu ruim!
Ela vem caminhando no corredor que
nem um furacão e a Bia vem atrás,
morrendo de rir. Eu e o Michel abrimos
caminho para ela, que vai para a
cozinha. Ela já tinha trocado de roupa,
estava com uma calça dessas coladas
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rosa e uma camiseta comprida branca e
tênis. O Michel agarra a Bia, que não
está nem aí para a bronca da Lívia. Eu
entro na cozinha e ela está fazendo uma
mistura no prato: banana junto com
iogurte, geleia de morango, aveia e
achocolatado. Eu estou enjoado só de
ver. Ela começa a comer com uma
vontade absurda. Ela me olha e levanta
a colher cheia.
— Quer? — Eu balanço a cabeça,
ainda sem entender como ela consegue
comer isso.
— Anjo, você não devia comer isso,
não estava se sentindo bem, pode piorar
— ela continua comendo e nem
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responde. Eu fico lá em pé, abismado
com aquela cena.
— Me deixa na academia? —
Pergunta colocando o prato vazio na
pia, e eu só afirmo com a cabeça. Ela
sai correndo da cozinha e eu vou para a
sala esperá-la. Bia e Michel se
despendem e vão embora. Ela chega à
sala e nós saímos.
A deixo na porta da academia, ela me
beija e eu sigo para a empresa. Eu ainda
não conseguia acreditar que a tinha de
volta, minha boca está paralisada em um
sorriso e não consigo tirá-lo do meu
rosto. Eu tinha conseguido meu Anjo de
volta.
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Segunda-feira eu iria comunicar ao
comandante minha saída. Ela ainda não
tinha tocado no assunto, mas eu sei que
acabaria falando do fato de eu ainda
estar no Bope, e eu não queria que nada
atrapalhasse nossa felicidade.
Saio da empresa um pouco mais das
dezoito horas, passo no mercado de
peixe e compro camarões. Eu iria
preparar seu prato predileto hoje para o
jantar. Vou direto ver meu Anjo, que
ainda estava na academia, pois não
estava aguentando de tanta saudade.
Paro o carro em frente à academia, e
quando entro, a cena que vejo não me
agrada nenhum pouco: ela estava de
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costas para mim, e aquele cara que
estava no dia da inauguração está bem
próximo a ela, passando a mão em seu
braço. Meu sangue ferve na hora. Vejo
quando ela tenta se afastar, e mesmo
assim, o babaca insiste em se aproximar
mais.
Respiro fundo e entro em estado de
meditação; eu não ia perdê-la de novo
fazendo nenhuma burrice, então me
aproximo e a agarro por trás. Eu iria
marcar meu território, mas de outra
maneira.
— Gustavo! — Sinto que ela leva um
susto, deve estar achando que eu iria
partir para a porrada vontade não me
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falta, mas eu sabia que ela era minha e
só minha.
— Oi, Anjo, tudo bem? — Falo com
a maior calma do mundo, eu não vou dar
mole para esse urubu se aproveitar da
situação e ganhar algum tipo de
vantagem.
— Lembra-se do Rafael? — Ela fala
ainda se recompondo e estranhando
minha atitude. Tenho certeza que está
com medo de eu voar nesse infeliz a
qualquer momento.
— Claro. E aí, como vai, cara? —
Estendo a mão para ele, que está
olhando de mim para a Lívia, acho que
está surpreso por eu estar agarrando-a
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por trás.
— Tudo bem — estende-me a mão —
Vocês estão namorando? — Pergunta
meio irritado. Que idiota, o que ele
acha?
— Pois é, eu sou um cara de muita
sorte, não acha? — Falo encarando-o,
que fecha a cara e nem responde, só se
despede e vai embora. Já vai tarde! A
Lívia se vira e me encara.
— Quem é você? O que fez com o
meu Capitão? — Fala em tom de
brincadeira e eu fico aliviado, pensei
que ela iria ficar intrigada comigo.
— Ele agora é um homem
apaixonado e que vai fazer de tudo para
Acheron Livros e afins
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não perder a amada de novo, pois ele
quase ficou louco sem ela — ela sorri e
joga os braços em meu pescoço.
— Então pode falar para ele que a
amada dele também não vai deixá-lo. E
que ela também sentiu muito a sua falta
— eu a beijo, nunca imaginei que
amaria tanto uma pessoa como eu a amo.
— Liberada ou ainda demora? — Ela
sorri, e era o sorriso mais lindo do
mundo.
— Liberada, deixa só eu pegar minha
bolsa — ela vai andando e eu fico ali
admirando. Tudo aquilo era meu
mesmo?
Eu tenho muita sorte, que gata!
Acheron Livros e afins
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Chegamos em casa e eu vou para a
cozinha colocar o camarão na pia,
enquanto ela vai tomar banho. Vou para
o quarto, tiro minha pistola e deixo-a na
mesa de cabeceira. Tiro minha roupa e
entro no boxe com ela.
— Você disse que ia fazer o jantar —
eu a abraço e meu desejo por ela já está
no limite. Começo beijando seu pescoço
bem devagar.
— E vou, mas preciso de você
primeiro — ela sorri e eu a pego em
meu colo. Fazemos amor
deliciosamente, eu estava muito além de
feliz, estava tudo perfeito demais.
Saímos do banheiro meia hora
Acheron Livros e afins
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depois, renovados e felizes. Coloco uma
cueca e uma bermuda e vou para a
cozinha, e ela fica lá com uma camisola,
de preguiça na cama.

Lívia

Levanto e vou ver o que o Gustavo


estava preparando, estou com uma fome
absurda.
Entro na cozinha, e quando sinto o
cheiro, meu estômago embrulha na hora
e saio correndo para o banheiro com a
mão na boca para evitar que saísse ali
mesmo. Entro no banheiro do corredor
mesmo, coloco tudo para fora. Nunca
Acheron Livros e afins
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fiquei tão enjoada assim, eu não
conseguia parar de vomitar.
— Anjo — escuto o Gustavo me
chamando da porta do banheiro e faço
um gesto com a mão para ele sair. Que
situação, vomitar com alguém olhando.
Fico ali uns dez minutos, até me
sentir melhor. Levanto, lavo o rosto e
vou para o meu quarto escovar os
dentes. Eu odiava vomit