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Mimesis
Coleção Estudos
Dirigida por J. Guinsburg

Conselho Editorial: Anatol Rosenfeld, Anita Novinsky,


Aracy Amaral, Boris Schnaiderman, Celso Lafer, Gittl
K. Ghinzberg, Haroldo de Campos, Maria de Lourdes
Santos Machado, Regina Schnaiderman, Rosa R.
Krausz, Sábato Magaldi e Zulmira Ribeiro Tavares.

Obra publicada
com a colaboração da

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

REITOR: Prof. Dr. Miguel Reale

EDITÔRA DA UN IVERSIDADE DE SÃO PAULO

Comissão Editorial:
Presidente - Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri
(Instituto de Biociências). Membros: Prof. Dr.
A. Brito da Cunha (1 nstituto de Biociências).
Prof. Dr. Carlos da Silva Lacaz (Instituto de
Ciências Biomédicas), Prof. Dr. lrineu Strenger
(Faculdade de Direito) e Prof. Dr. Pérsio de
Souza Santos (Escola Politécnié:a).

Equipe de realização: George Bernard Sperber, tradução;


Suzi Frank! Sperber, revisão; Moysés Baumstein, capa e
trabalhos técnicos.
Erich Auerbach

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MIMESIS
A representação da realidade
na literatura ocidental

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~ EDITORA DA UNIVERSIDADE DE S. PAULO

Editôra Perspectiva São Paulo


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Had we but world enough and time . ..

ANDREW MARVELL

Título do original:
Mimesis - Dargestellte Wirklichkeit in der abendlandischen Literatur

Copyright 1946 A. Francke AG Verlag Berna

Direitos reservados para a língua portuguêsa à


EDITORA PERSPECTIVA S. A.
Av. Brig. Luis Antonio, 3:025
São Paulo
]971
Introdução

Este livro chega às mãos do leitor de fala portuguêsa vinte


e cinco anos depois de ter sido publicado pela primeira vez, qua-
se três décadas depois de ter sido iniciada a sua criação. Entre-
mentes, um tempo não menos ~ngo transcorreu desde o fim
aparente da situação histórico-política à qual êste livro deve,
segundo as manifestações do próprio autor, o seu particular
feitio : foi o exílio, o forçado afastamento das vastas bibliotecas
germânicas, que tomaram possível a Erich Auerbach a confecção
dêste livro, uma obra que faria estremecer, pela amplidão do seu
raio de ação, os filólogos alemães tradicionais, entre os quais
Auerbach provàvelmente deveria ser contado, não existisse esta
sua obra principal.
Não deixa de ser invejãvel a posição da filologia, tal como
era entendida na Alemanha antes do apocalipse hitleriano. O
filólogo alemão devia, como dizia Francis Fergusson numa crítica
a Mimesis publicada por ocasião da aparição da edição norte-
-americana do livro ("Two Perspectives on European Literatu-
re", in The Human lmage in Dramatic Literature, New York,
1957), incluir no seu estudo não apenas as línguas principais
da tradição ocidental mas também "tôdas as artes das letras,
filosofia, história, antropologia e "cultura". Um filólogo desta
espécie devia ter aprendido o grego, o latim, e outras línguas
modernas da Europa nos seus estãgios primitivos ... " Uma
tal erudição estã dificilmente ao alcance de qualquer amante das
letras no nosso continente e é até mesmo improvãvel que seja
atingida por muitos estudiosos europeus de hoje. De certa for-
ma, todos vivemos hoje sob as condições que deram origem a
êste livro; todos estamos afastados das vastas bibliotecas e não
podemos no~ permitir o sonho de adquirirmos todos os conhe-
cimento! t)lll' oi filólogos germânicos achavam indispensáveis
como condiçllo nnkrior à publicnçiio de qualquer e~h1do.
A partir dêste ponto de vista, Mimesis apresenta-se como Há algo, ainda, nesta obra, que dificilmente pode ser mos-
coroamento de tôda uma tradição erudita, ao mesmo tempo em trado numa introdução : a humildade, a honestidade. a sensibi-
que rompe totalmente com os métodos dessa mesma tradição. lidade de seu autor. Graças a elas, esta não será apenas uma
Não parte, para o seu estudo da "representação da realidade na leitura interessante. Será também uma leitura emocionada, ca-
literatura ocidental", de definição alguma do que seja "repre- paz de objetivamente reviver cada um dos momentos que apre-
sentação", "realidade", "literatura" ou "Ocidente", mas entra, senta, momentos relevantes de uma cultura que, ainda, é a nossa.
de chôfre, na análise de um texto que, talvez pelo mero fato de
abrir a obra, preenche para o leitor as condições tôdas implica- ÜEOROE BERNARD SPERBER
das no subtítulo da obra. Mediante êste método de análise de Suzr FRANKL SPERBER
textos, Auerbach procura delimitar, em cada caso, a visão espe-
São Paulo, julho de 1971
cífica que cada autor tem da realidade, e os meios de que se
utiliza para representá-la. Portanto, exige muito mais do leitor,
mas também, dá-lhe muito mais, pois é só mediante a sua parti-
cipação ativa na compreensão das análises apresentadas que o
escôpo da obra se preenche. E esta participação requer do leitor
um uso intenso do seu bom senso e uma capacidade de conceber
a realidade historicamente.
Esta última capacidade tem sido negligenciada, talvez de-
masiado, em muitas das obras mais recentes que se dedicam ao
estudo do fato literário. Talvez houvesse, pois, quem dissesse
que a publicação, entre nós, hoje, da presente obra, seria ino-
_portuna ou irremediàvelmente tardia.
Contudo, a questão fundamental levantada pela obra -
as relações entre arte e realidade - não oblitera, nem invalida
os postulados estruturais. ~ uma outra dimensão da obra, dis-
posta em outro nível, mas que de forma alguma dispensa o re-
conhecimento da obra ·de arte literária como todo articulável.
Outrossim, Auerbach propõe, nas suas análises dos diversos tex-
tos, pontos de articulação entre a palavra, entre o verbo e a
realidade analisada. E parece-nos indiscutível que o conheci-
mento da tradição ocidental, como Auerbach a entende e propõe,
será importante para considerações acêrca da introdução, em
anos mais recentes, de elementos do irracionalismo oriental no
racionalismo ocidental.
Por outro lado, não é possível negligenciar o aspecto filo-
lógico propriamente dito da obra. Talvez os estudos lingüísticos,
florescentes em nosso século, já tenham atingido o grau de ma-
turidade suficiente para reconsiderar a filologia, de modo a esten•
der o seu alcance para além do conhecimento das estruturas lin-
güísticas. O lançamento, entre nós, da presente obra, proporá
isto, indiretamente. Neste sentido, o tempo transcorrido entre
sua publicação e esta primeira edição em português pode chegar
a ser benéfico. Bastaria, para tanto, que os seguidores das cor-
rentes que surgiram ou evoluíram no campo dos estudos literá-
rios nestas últimas três décadas vissem nesta obra um ponto de
articulação com a anterior tradição filológica.
Sumário

Introdução IX
1. A Cicatriz de Ulisses ............ . . . .......... . 1
2. Fortunata ....... . ............. . . . ........ . . . 21
3. A Prisão de Petrus Valvomeres ................ . 43
4. Sicário e Cramnesindo . . . . . . . . . . . . . . . . . ...... . 66
5. A Nomeação de Rolando como Chefe da Retaguarda
do Exército Franco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
6. A Saída do Cavaleiro Cortês . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 105
7. Adão e Eva ....... . ......... . ...... . ........ . 122
8. Farinata e Cavalcante ................... . .. . .. . 148
9. Frate Alberto ............. . ................. . 174
1O. Madame du Chastel 199
1 1. O Mundo na Bôca de Pantagruel ..... . ......... . 225
12. L'Humaine Condition .. . ..................... . 245
13 . O Príncipe Cansado .......... •· ........ .. ..... . 271
14. A Dulcinéia Encantada ................ . ..... . 292
15 . O Santarrã-0 . . . . . . . . . . . . . . ................. . . 315
16. A Ceia Interrompida ......................... . 345
17. O Músico Miller ............................ . 378
18 . Na Mansão de la Mole ................... . ... . 395
19 . Ocrminie Lacerteux . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 431
20. A Mc111 Marrom . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 459
Ppilogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 486
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A Cicatriz de Ulisses

Os leitores da Odisséia lembram da bem preparada e

1 emocionante cena do canto XIX, na qual a velha ama


Euricléia reconhece Ulisses, que regressa à sua casa, e
de quem tinha sido nutriz, por uma cicatriz na coxa. O
forasteiro tinha-se granjeado a benevolência de Penélope; segundo
o seu desejo, ela ordena à governanta que lhe lave os pés, segun-
do é usual nas velhas estórias, como primeiro dever de hospita-
lidade para com o viandante fatigado. Euricléia começa a pro-
curar água e a misturar a água quente com a fria, enquanto fala
tristemente do senhor ausente, que poderia ter a mesma idade do
hóspede, que também estaria agora, quiçá, vagueando, como êle,
num lugar qualquer, como um pobre forasteiro - nisto ela ob-
serva a assombrosa semelhança entre o hóspede e o ausente -
enquanto Ulisses lembra da sua cicatriz e se afasta para a escuri-
dão, para ocultar, pelo menos de Penélope, o reconhecimento, já
inevitável, mas ainda indesejável para êle. Logo que a anciã
apalpa a cicatriz, ela deixa cair o pé na bacia, com alegre sobres-
salto; a água transborda; ela quer prorromper em júbilo; com
silenciosas palavras de lisonja e de ameaça Ulisses a contém;
ela cobra ânimo e oprime o seu movimento. Penélope, cuja
atenção tinha sido desviada do acontecimento, aliás, pela previ-
dência de Atenéia, nada percebeu.
Tudo isto é modelado com exatidão e relatado com vagar.
Num discurso direto, pormenorizado e fluente, ambas as mulhe-
res dão a conhecer os seus sentimentos; não obstante tratar-se
de sentimentos, só um pouco misturados com considerações
muito gerais ncêrca do destino dos 1 homens, a ligação sintática
entre as partes é perfeitamente clara; nenhum contôrno se con-
funde. Ufl, l11n1bém, espaço e tempo abundantes para a descri-
çClo lwm ordrnadn, uniformemente iluminada, dos utensílios, das
11111ni1)11h1ç11C', e tlON RCSto~, mos1rnndo tlldn~ 11s arliculnçõcs Rin
2 Ml MESIS A CICATRIZ DE ULISSES 3

táticas· mesmo no dramático instante do reconhecimento não se cientes, num segundo plano. Só que Homero, e teremos de voltar
omite ~omunicar ao leítor que é com a mão direita que Ulisses sôbre isto, não conhéce segundos planos. O que êle nos narra, é
pega a velha pelo pescoço, para impedir-lhe que fale, enquanto sempre somente presente, e preenche completamente a cena e
a aproxima de si com a outra mão. Claramente circunscritos, a c~nsc_iênc~a. Tam~ém no_nosso caso é assim. Quando a jovem
brilhante e uniformemente iluminados, homens e coisas estão Eunclé1a poe o recem-nasc1do Ulisses no colo do avô Autólico
estáticos ou em movimento, dentro de um espaço perceptível; após o banquete ( v. 401 ss.), a velha Euricléia, que pouco;
com não menor clareza, expressos sem reservas, bem ordenados versos antes apalpara o pé do viandante, desaparece por completo
até nos momentos de emoção, aparecem sentimentos e idéias. da cena e da consciência.
Na minha reprodução do processo, omiti até agora o con- Goethe e Schiller, que em fins de abril de 1797 se corres-
teúdo de tôda uma série de versos, que o interrompem pelo pondiapt, não especificamente sôbre o episódio aqui em pauta,
meio. São mais de setenta - enquanto que o processo em si mas sobre o _"retardador" na poesia homérica em geral, opu-
compreende cêrca de quarenta versos antes e quarenta depois nham-no precisamente ao princípio da "tensão" - est a última
da interrupção. A interrupção, que ocorre justamente no mo- expressão não é usada, propriamente, mas é claramente aludida
mento em que a governanta reconhece a cicatriz, isto é, no qu_ando o p~ocesso retar~a_?or é p~sto, com processo épico pro-
momento da crise, descreve a origem da cicatriz, um acidente pname1:1te dito, em opos1çao ao tragico (cartas de 19, 2 1 e 22
de caça dos tempos da juventude de Ulisses, durante uma caça de abril) . O retardador, o "avançar e retroceder" mediante
ao javali, em ocasião de uma visita ao seu avô A1:1tólico. Isto interpolações,_ t~mbém a ~m parece estar, na poesia homérica,
dá, antes de mais nada, motivo para informar o leitor acêrca em contrapos1çao ao tenso impulso para uma meta e certamente
de Autólico. acêrca da sua moradia, do exato grau de paren- Schiller tem razão quando diz que Homero descre;e "meramente
tesco, do seu caráter, e, de maneira igualmente pormenorizada, a tranqüila existência e ação das coisas segundo a sua natureza"·
tanto quanto deliciosa, acêrca do seu comportamento após o a s~a fina!_idad: estaria "já em cada um dos pontos do sei{
nascimento do neto; depois segue-se a visita de Ulisses, já adoles- movimento . So que ambos, tanto Schiller quanto Goethe ele-
cente; a saudação, o banquete de boas-vindas, o sono e o des- vam o processo homérico à categoria de IP-i da poesia épic; em
pertar, a sáída matutina para a caça, o rastejo do animal, a geral, e as p~~vras de Schiller, acima citadas, devem vigorar ,
luta, o ferimento de Ulisses por uma prêsa, o curativo ~a ferída, para o poeta ep1co em geral, em contraste com o trágico. Con-
o restabelecimento, o regresso a 1taca, o preocupado mterroga- tudo há, tanto nos tempos antigos como nos modernos obras
tório dos pais; tudo é narrado, novamente, com uma perfeita épicas significativas, que não estão escritas, de maneira ~lguma,
conformação de tôdas as coisas, não deixando nada no escuro de forma retardadora, no sentido de Schmer, mas de maneira
e sem omitir nenhuma das articulações que as ligam entre si. claramente carregada de tensão, obras que, sem dúvida, "roubam
E só depois, o narrador retorna ao aposento de Penélope, e a nossa liberdade de ânimo", o que Schiller quer conceder exclu-
Euricléia, que tinha reconhecido a cicatriz antes da interrupção, sivame':te ao po~ta_trágico. Além do mais; parece-me imprová-
só agora, depois dela, deixa cair, assustada, o pé na bacia. vel e nao veross1mil que no processo citado da poesia homérica
O pensamento mais próximo para um leitor moderno, de tenham tido papel preponderante as considerações estéticas ou
que o que se pretende é aumentar a tensão, é, se não totalmente mesmo um sentimento estético d a espécie admitida por Goethe
falso, pelo menos não decisivo para a explicação do processo e Schiller . O eteito é, sem dúvida, exatameóte o que êles des-
homérico. Pois o elemento da tensão é muito débil nas poesias crevem, e daqui se deduz também, com efeito o conceito do
homéricas; elas não se destinam, em todo o seu estilo, a suspen- épico, que êles próprios possuem, assim como ~ possuem todos
der a respiração do leitor ou ouvinte. Para tanto seria necessá- os escritores decisivamente influenciados pela Antiguidade clás-
rio, antes de mais nada, que o leitor não fôsse "distendido" sica. Mas a causa da aparição do retardador p arece-me residir .
pelo meio que procura pô-lo em "tensão" - e é justamente isto em outra coisa, precisamente, na necessidade do estilo homérico
o que acontece muito freqüentemente; também no caso em aprê~ de não deixar nada do ·que é mencionado na penumbra ou inaca-
ço ocorre isto. A estória cinegética, narrada com amplid~o, bado. A digressão acêrca da origem da cicatriz não se diferencia 1
amorosa e sutilmente conformada, com todo seu elegante deleite, fundamentalmente dos muit~ trechos onde uma personagem
com a riqueza das suas imagens idílicas, tende a ganhar o leitor recém-introduzida, ou uma coisa ou um apetrecho que aparece
totalmente para si, enquanto a ouve - a fazê-lo esquecer o que pela p rimeira vez, são descritos pormenorizadamente quanto à
acontecera recentemente, durante o lava-pés. De uma interpo- sua espécie e origem, ainda que seja em meio ao mais premente
lação que aumenta a tensão mediante o retardamento, faz parte tumulto do combate; ou daqueles outros onde se informa acêrca
o não preenchimento total do presente; é necessário que ela não de um deus q ue aparece, onde estivera recentemente, o que fizera
aliene da consciência a crise por cuja ~oluçií.o se deve c~pcrnr po r lá e por qual caminho chegara; até os próprios epítetos
com tensão, para não destruir a su11pcnsf10 do estado dt: c&plnlo . pnnx:cn1-111t> Rc.H nt ribuíveis, cm última análi~e, à mesma neces-
u. crise e a tensão devem srr munti<l,15, devem per nrnncrc, i:11111 Nidudc dl· t:onfllrmuçiio sensível do~ fenômenos. Aqui, é a cica•
4 MIMESlS A CICATRIZ DE ULISSES 5

triz que aparece no decorrer da ação; e não é possível para o palavra "cicatriz" (v. 393) segue-se imediatamente uma oração
sentimento homérico deixá-la emergir simplesmente de uma escu- relativa ("que outrora um javali ... '') , a qual se expande num
ridão não esclarecida do passado; ela deve sair claramente à amplo parêntese sintático; neste introduz-se, inesperadamente,
luz, e com ela, um pouco da paisagem juvenil do herói - da uma oração principal (v. 396: "um deus deu-lhe ... "), a qual
mesma maneira que na Ilíada, quando o primeiro navio já arde vai se livrando silenciosamente da subordinação sintática, até
e os mirmidões finalmente se dispõem a ajudar, há ainda tempo que, com o verso 399, começa um nôvo presente, uma inserção
suficiente, não só para a magnífica comparação com os lôbos, também sintàticamente livre de novos conteúdos; êste nôvo pre-
não só para a ordem dos bandos mirmidônicos, mas também se::nte reina sozinho até que, com o verso 467 ("esta era agora
para a informação pormenorizada acêrca da origem de alguns apalpada pela anciã ... "), retoma-se aquilo que antes se inter-
subalternos (Ilíada, 16, 155 ss.). :É claro que o efeito estético rompera. :É claro que, em interpolações tão longas como a
assim obtido deve ter sido percebido logo, e logo também pro- presente, dificilmente seria. possível levar a cabo uma ordenação
curado; mas o mais primordial deve residir no próprio impulso sintática; tanto mais fácil seria uma ordenação em perspectiva,
fundamental do estilo homérico: representar os fenômenos acaba- dentro da ação principal, mediante uma disposição dos conteú-
damente, palpáveis e visíveis em tôdas as suas partes, claramente dos que tivesse isto em mira; se se apresentasse, por exemplo,
definidos em suas relações espaciais e temporais. Não é dife- a estória da cicatriz como lembrança de Ulisses, tal como ela
rente o que se dá com os processos internos: também dêles aparece neste momento na sua consciência, isto teria sido muito
nada deve ficar oculto ou inexprimido. Sem reservas, bem dis- fácil: teria sido necessário, meramente, começar com a narração
postos até nos momentos de paixão, os homens· de Homero dão da cicatriz dois versos antes, quando da primeira menção da
a conhecer o seu interior no seu discurso; o que êles não dizem palavra "cicatriz", onde já estão disponíveis os motivos "Ulisses"
aos outros, êles falam para si, de modo a que o leitor o saiba. e "lembrança". Mas um tal processo subjetivo-perspectivista, que
Acontecem muitas coisas espantosas nas poesias homéricas, mas cria um primeiro e um segundo planos, -de modo que o presente
nunca acontecem mudamente; Polifemo fala com Ulisses; êste se abra na direção das profundezas do passado, é totalmente estra-
fala com os pretendentes, quando começa a matá-los; prolixa- nho ao estilo homérico; êle só conhece o primeiro plano, só um
mente, Heitor e Aquiles falam, antes e após a luta; e nenhum presente uniformemente iluminado, uniformemente objetivo; e
discurso é tão carregado de mêdo ou de ira que nêle faltem ou assim, a digressão começa só dois versos mais tarde, quando Euri-
se desordenem os instrumentos da articulação lógica da língua. cléia já descobriu a cicatriz - quando a possibilidade da orde-
Isto é válido, naturalmente, não só para os discursos, mas para nação em perspectiva não mais existe, e a estória da cicatriz
tôda a apresentação. Os diversos membros dos fenômenos são torna-se independente e pleno presente.
postos sempre em· clara relação mútua; grande quantidade de A singularidade do estilo homérico fica ainda mais nítida,
conjunções, advérbios, partículas e outros instrumentos sintáti- quando se lhe contrapõe um outro texto, igualmente antigo, igual-
cos, todos êles claramente delimitados e finamente graduados na mente épico, surgido de um outro mundo de formas. Tentá-lo-ei,
sua significação, deslindam as personagens, as coisas e as partes com o sacrifício de Isaac, uma narração inteiramente redigida
dos acontecimentos entre si, e os põem, simultâneamente, em pelo assim chamado Eloísta. Os monges beneditinos traduziram
correlação mútua, ininterrupta e fàcilmente fluente; tal como os o princípio como segue: "Depois disto, Deus provou Abraão.
próprios fenômenos isolados, também as suas relações, os entre- E disse-lhe: Abraão! - Eis-me aqui, respondeu êle." Já êste prin-
laçamentos temporais, locais, causais, finais, consecutivos, com- cípio nos deixa perplexos, quando viemos de Homero. Onde estão
parativos, concessivos, antitéticos e condicionais, vêm à luz per- os dois interlocutores? Isto não é dito. Mas o leitor sabe muito
feitamente acabados; de modo que se dá um desfile ininterrupto, bem que êles não estão em todo o tempo no mesmo lugar
ritmicamente mo-vimentado, dos fenômenos, sem que se mostre, terreno, que um dêles, Deus, deve vir de algum lugar, deve
em parte alguma, uma forma que não passasse de fragmento irromper de alguma altura ou profundeza no terreno, para falar
ou que estivesse só parcialmente iluminada, uma lacuna, com Abraão. De onde vem êle, de onde se dirige êle a Abraão?
uma fenda, um vislumbre de profundezas inexploradas. Nada disto é dito. :Êle não vem, como Zeus ou Posseidon, das
E êste desfile dos fonômenos ocorre no primeiro plano, isto Etiópias, onde se regozijara com um holocausto. Nada se diz, }
é, sempre em pleno presente espacial e temporal. Poder-se-ia também, da causa que o movera a tentar Abraão tão terrivel-
acreditar que as muitas interpolações, o freqüente avançar e retro- mente. e.1e não a discutira, como Zeus, com outros deuses, numa
ceder, deveriam criar uma espécie de perspectiva temporal e assembléia, cm ordenado discurso; também não nos é comuni-
espacial; mas o estilo homérico nunca dá esta impressão. A ma• cado o que ponderara no seu próprio coração; inesperada e
neira pela qual é evitada esta impressão de perspectiva, pode cnigmàticamcnlc pcnelra na cena, chegado de altura ou profun-
ser observada claramente no processo da introdução das inter- dezas dosconhccidas e chama: Abraão! Dir-se-á imediatamente
polações, uma construção sintática que é familiar a todo leitor que 15to se explica li partir da singular noção divina dos judeus,
de Homero; êle é também utilizado no nosso trecho, mas é 11 qual era t110 difrrontc da dos gregos. Isto é correto, mas não
encontrável também cm internolnçõc~ muito mui~ curta!!, A 6 um,, ohjl'ÇIW Po1R, como se explica II noção judia de Deu~?
6 MlMESIS A CICATRIZ DE ULISSES 7

Já o seu pnm1t1vo Deus do deserto não contava com forma ou pensável descrever um apetrecho, que é utilizado, uma paisagem,
residência fixas, e era solitário; sua falta de forma, de sede e pela qual se passa, os servos ou o burro, que acompanham a
sua solidão não só se reafumaram, finalmente, na luta com os comitiva, e, menos ainda, a ocasião em que foram adquiridos,
deuses do Oriente próximo, relativamente bem mais inteligíveis, a sua origem, o material de que são feitos; o seu aspecto ou
mas também se desenvolveram de maneira mais intensa. A no- a sua utilidade nunca poderiam ser descritos com admiração;
ção que os judeus tinham de Deus não é somente causa, mas êles nem suportam um adjetivo; são servos, burro, lenha e faca, e
antes, sintoma do seu particular modo de ver e de representar. nada mais, sem epítetos; êles têm de cumprir a finalidade que
Isto fica ainda mais claro, quando nos voltamos para o outro in- Deus lhes indicara; o que mais êles são, foram ou serão perma-
terlocutor, para Abraão. Onde está êle? Não o sabemos. :Êle diz, nece no escuro. Percorre-se um caminho, pois Deus indicara
contudo: "Eis-me aqui" - mas a palavra hebraica significa algo o local onde se consumaria o sacrifício; ma~ nada é dito acêrca
assim como "vêde-me" ou, como traduz Gunkel, "ouço" e, em do caminho, afora que êle durara três dias, e mesmo isto é dito
qualquer caso, não quer indicar o lugar real no qual Abraão se de forma enigmática: Abraão e sua comitiva partiram "de manhã
encontra, mas o seu lugar moral em relação a Deus, que o chama- cedo" e se dirigiram ao lugar do qual Deus lhes tinha falado;
ra: estou aqui, à espera das tuas ordens. Não é comunicado, con- ao terceiro dia êle elevou os olhos e viu o lugar de longe.
tudo, onde êle se encontra pràticamente, se em Beer-Seba ou O levantar dos olhos é o único gesto, é propriamente a única coisa
em outro lugar, se em casá ou sob o céu aberto. Não interessa que nos é dita acêrca da viagem, e ainda que êle se justifique
ao narrador; o leitor não o fica sabendo, e também a ocupação pelo fato de o local se encontrar num lugar elevado, êle apro-
à qual se dedicava, quando Deus o chamou, fica às escuras.
funda, pela sua própria singeleza, a impressão de vazio da
Lembre-se, para bem perceber a diferença, que na visita de Her-
caminhada; é como se, durante a viagem, Abraão não tivesse
mes a Calipso, onde a incumbência, a viagem, a chegada e a re-
cepção do visitante, a situação e a ocupação da pessoa visitada, se olhado nem para a direita nem para a esquerda, como se tivesse
reprimido tôdas as suas manifestações vitais, assim como as dos
estendem ao longo de muitos versos; e mesmo nos momentos em
que os deuses aparecem repentinamente só por b·reves instantes, seus companheiros, exceto o andar dos seus pés. Desta forma,
seja para auxiliar os seus favoritos, seja para confundir ou perder a viagem é como um silencioso andar através do indeterminado
um dos seus odiados mortais, sempre é indicada claramente a e ,do provisório, uma contenção do fôlego, um acontecimento
sua figura e, o mais das vêzes, o meio da sua chegada e do que não tem presente e que está alojado entre o que passou
seu desaparecimento. Aqui, porém, Deus aparece carente de e o que vai acontecer, como uma duração não preenchida, que
forma (e, contudo, "aparece''), de algum lugar, só ouvimos. a é, todavia, medida: três dias! Tais três dias reclamam a inter-
sua voz, e esta não chama nada além do nome: sem adjetivo, pretação simbólica, que mais tarde obtiveram. Começaram "de
sem apalpar descritivamente a pessoa interpelada, como seria manhã cedo". Mas a que hora do terceiro dia levantou Abraão
o caso em qualquer apóstrofe homérica. E também de Abraão os olhos e viu a sua meta? Nada consta do texto acêrca disto.
nada é tomado sensível, afora as palavras com que êle replica Evidentemente não "tarde na noite", pois ficou-lhe, como pare-
a Deus: Hinne-ni, "Eis-me aqui" - com o que, evidentemente, ce, tempo suficiente para subir a montanha e preparar o sacri-
é sugerido um gesto extremamente impressionante, que exprime fício. Portanto, "de manhã cedo" não está empregado em fun-
obediência e prontidão - cujo acabamento é deixado, contudo, ção de uma demarcação temporal, mas em função de um signi-
ao leitor. Assim, nada dos interlocutores é manifesto, afora ficado moral; deve exprimir o imediato, o pontual e o exato da
as palavras, breves, abruptas, que se chocam duramente, sem obediência do mal-afortunado Abraão. Amarga é para êle a ma-
preparação alguma; quando muito, a representação de um gesto nhã em que sela o seu jumento, e chama os seus servos e o
de total entrega; tudo o mais fica no escuro. A isto ainda se seu filho Isaac e parte; mas êle obedece, êle caminha até o
junta o fato de os dois interlocutores não estarem num mesmo terceiro dia, quando levanta os olhos e vê o lugar. De onde
plano: se imaginarmos Abraão num primeiro plano, onde seria vêm, não o sabemos, mas a meta é indicada claramente: Jeruel,
possível vislumbrar a sua figura, prostrada ou ajoelhada, incli- na terra de Moriá. Não foi estabelecido que lugar é êste, pois
nando-se de braços abertos ou olhando para o alto, certamente é possível que "Moriá" tenha sido introduzido posteriormente
Deus não está ali: as palavras e os gestos de Abraão dirigem-se como correção a uma outra palavra - mas, em todo caso, o
para o interior da imagem ou para o alto, para um lugar inde- local estava indicado; tratava-se, sem dúvida, de um lugar de
finido, escuro, em nenhum caso para um lugar situado no pri- culto, ao qual deveria ser conferida uma especial consagração,
meiro plano, de onde a voz lhe chega. em conexão com a oferenda de Abraão. Do mesmo modo que
"de manhã cedo" não tem a função de fixar uma delimitação
Após êste comêço, Deus dá a sua ordem, e se inicia a nar- temporal, "Jeruel, na terra. de Moriá" não tíxa uma delimitação
ração propriamente dita. Todos a conhecem: sem interpolação cap11cl11l, poli que, em nenhum dos dois casos, conhecemos o
alguma, em poucas orações principais, cuja ligação sintática é limite opoMto - do mesmo modo que não sabemos a hora em
extremamente pobre, desenvolve-se a norrnçõo. Aqui seria im- quo Ahrlllo lov1ntou 01 01h01, nlo conhecemo, o lua11r de onde
MIMESIS A CICATRIZ DE ULISSES 9
8

Abraão partiu - Jeruel importa não tanto como meta de uma mente iluminados, definidos temporal e espacialmente, ligados
viagem terrena, na sua relação geográfica com outros lugares, entre si, sem interstícios, num primeiro plano; pensamentos e
quanto como _na sua especial eleição, na sua relação com Deus, sentimentos exprimidos; acontecimentos que se desenvolvem com
que o determmara como cenário desta ação - por isso precisa muito vagar e com pouca tensão. Do outro lado, só é acabado
ser nomeado. formalmente aquilo que nas manifestações interessa à meta
da ação; o restante fica na escuridão. Os pontos culminantes
Na narração aparece urna terceira pessoa: Isaac. Enquanto e decisivos para a ação são os únicos a serem salientados; o
Deus e Abraão, servos, burros e utensílios são simplesmente que há entre êles é inconsistente; tempo e espaço são indefinidos
chamados p_e~o n~me, sem me?ção de qualidades ou de qualquer e precisam de interpretação;_os pensamentos e os sentimentos
outra espec1f1caçao, Isaac obtem, uma vez, uma aposição· Deus permanecem inexprimidos: só são sugeridos pelo silêncio e por
diz: "Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas Ísaac." discursos fragmentários. O todo, dirigido com máxima e inin-
Isto, contudo, não é uma caracterização de Isaac, co~o êle é terrupta tensão para um destino e, por isso mesmo, muito mais
de for~a absoluta, _tam,bém fora _da sua relação com o pai, e unitário, permanece enigmático e carregado de segundos planos.
fo~~ deste _rela!o; nao e um desv10, nem uma interrupção des- Acêrca desta última expressão, quero exprimir-me com maior
cntiva, pois nao se trata de uma caracterização que delimite clareza, para que ela não seja mal compreendida. Falei mais
Isaac, que re~eta_ à ~ua existência como um todo. ~le pode acima do estilo homérico como sendo de "primeiro plano", por-
ser belo ou feio, mtehgente ou tolo, alto ou baixo atraente ou que, apesar dos muitos saltos para trás ou para diante, deixa agir
repulsivo - nada disto é dito. Só aquilo que de~e ser conhe- o que é narrado, em cada instante, como presente único e puro,
~ido _acêrca dêle aqui ~ agora, dentro dos limites da ação, aparece sem perspectiva. A observação do texto eloísta mostra-nos que
ilum13-ado - _para salientar quão terrível é a tentação de Abraão, a expressão pode ser empregada mais ampla e mais profundamen-
e quao consciente Deus é disto. Observa-se com êste exemplo te. Evidencia-se que até a personagem individual pode ser apre-
antitético, qual é a significação dos adjetivos descritivos e as sentada como carregada de segundos plaóos: Deus sempre o
digressões da poesia homérica; com a sua alusão à existência é na Bíblia, pois não é, como Zeus, apreensível na sua presen-
restante da personagem descrita, àquilo que não é totalmente ça; só "algo" dêle aparece em cada caso, êle sempre se estende
apree1:did~ pela situação, à sua existência, por assim dizer, abso- para as profundidades. Mas os próprios sêres humanos dos rela-
luta, eles impedem a concentração unilateral do leitor na crise tos bíblicos são mais ricos em segundos plartos do que os homé-
presente; impedem, mesmo no mais espantoso dos acontecimen- ricos; êles têm mais profundidade quanto ao tempo, ao destino
tos, o surgimento de uma tensão opressiva. Mas no caso da e à consciência. Ainda que estejam quase sempre envolvidos num
ofer~nda de Abraão, a tensão opressiva existe. O que Schiller acontecimento que os ocupa por completo, não se entregam a tal
quena reservar para o poeta trágico - roubar-nos a nossa liber- acontecimento até o ponto de perderem a sua permanente cons-
dade de ânimo, dirigir numa só direção e concentrar as nossas ciência do que lhes acontecera em outro tempo e em outro lugar;
fôr~as interiores (S<;hi)ler diz "a nossa atividade") - isto é seus pensamentos e sentimentos têm mais camadas e são mais
obtido neste relato b1bhco que, certamente, deve ser considerado intrincados. O modo de agir de Abraão explica-se não somente
épico. a partir daquilo que lhe acontece momentâneamente, também não
~ncontral!1os o n:iesmo contraste quando comparamos o somente a partir do seu caráter ( como o de Aquiles pela sua
empreg~ do d1sc~rso dtreto. No relato bíblico também se fala; ousadia e pelo seu orgulho, o de Ulisses pela sua astúcia e pruden-
mas o discurso nao tem, como em Homero, a função de informar te previsão), mas a partir da sua história anterior. Lembra-se, tem
ac_a'?adamente. o que se significa no interior. Antes pelo con- permanente consciência do que Deus lhe prometera e do que já
~rano: _te,m a mtenção de aludir a algo implícito, que permanece cumprira --'- o seu interior está profundamente excitado, entre a
mexprumdo. Deus dá a sua ordem em discurso direto mas indignação desesperada e a esperança confiante; a sua silenciosa
cala o seu motivo e a sua intenção. Abraão, ao rec~ber a obediência é rica em camadas e em planos - é impossível para
ordem, emudece, e age da maneira que lhe fôra ordenada. A
as figuras homéricas, cujo destino está univocamente determinado,
conversa entre Abraão e Isaac no caminho ao local do sacrifício
não_ é senão um~ interrupção do pesado silêncio, e não serve e que acordam todo dia como se fôsse o primeiro, cair em situa-
senao para torn,a-lo mais opressivo. "Juntos os dois" Isaac ções internas tão problemáticas. As suas emo.ções são violentas,
carregando a lenha e Abraão o fogo e a faca, "caminhavam". convenhamos, mas são também simples e irrompem de imediato.
Is~ac atreve-se a perguntar, hesitante, acêrca da ovelha, e Abraão Quanta profundidade há, em contraste, nos caracteres de Saul ou
dá a resposta que conhecemos. Ali repete o texto: "E ambos de Davi, quão intrincadas, quão ricas em planos são as relações
juntos, continuaram o seu caminho." Tudo fica inexprimido. ' humunns, i.:omo as que há entre Davi e Absalão, entre Davi e
Não é fácil, portanto, imaginar contrastes de estilo mais Jouh! F111 l lomero seria inimaginável uma tal multiplicidade de
ma~cantes d_o que êstes, que pertencem II textos igualmente plnno~ 1111s sit1111çdés psicológicas, como aquela que é mais sugc-
antigos e épicos. De um lado, fcnCinwnos acnbndos, uniforme 11d11 do itllt' cx.p1cs~r1 m1 hi'ltórln dn morte de. Ab~aliio ti no ~eu
10 MIMESIS A CICATRIZ DE ULISSES 11

epilogo (2 Sam. 18 e 19, do assim chamado javista). Aqui se da existência humana, porém não a necessidade de cismar sôbre
trata não somente de acontecimentos psíquicos carregados de o assunto, e menos ainda, um impulso apaixonado, seja de se
segundos planos, de profundezas, abissais talvez, mas também de levantar contra isto, seja de se submeter com abandono extático.
um segundo plano puramente espacial. Pois Davi está ausente Tudo isto é completamente diferente nos relatos bíblicos.
do campo de batalha; mas as irradiações da sua vontade e dos O encantamento sensorial não é a sua intenção, e se, não obstan-
seus sentimentos têm efeito constante, agem até sôbre Joab, que te, êles têm um efeito bastante vital também no campo sensorial,
resiste e age sem consideração; na grandiosa cena com os dois isto se deve ao fato de que os sucessos éticos, religiosos, inte-
emissários, tanto os segundos planos espaciais quanto os psíquicos riores, que são os únicos que lhes interessam, concretizam-se no
atingem uma expressão perfeita, sem que os últimos sejam expri- material sensível da vida. Porém, a intenção religiosa condiciona
midos. Confronte-se com isto a maneira como Aquiles, que envia uma exigência absoluta de verdade histórica. A história de Abraão
Patroclo primeiro à descoberta e depois à luta, perde quase tôda e de Isaac não está melhor testificada do que a de Ulisses,
presença, enquanto não aparece materialmente. O mais impor- Penélope e Euricléia; ambas são lenda. Só que o narrador bí-
tante, contudo, é a multiplicidade de camadas dentro de cada blico, o Eloísta, tinha de acreditar na verdade 9bjetiva da his-
homem; isto é dificilmente encontrável em Homero, quando mui- tória da oferenda de Abraão - a persistência das ordens sagra-
to na forma da dúvida consciente entre dois possíveis modos de das da vida descansava na verdade desta história e de outras
agir; em tud1., .., mais, a multiplicidade da vida psíquica mostra-se histórias semelhantes. Ele tinha de acreditar nela apaixonada-
nêle só na sucessão, no revezamento das paixões; enquanto que mente - ou então, êle deveria ser, como alguns exegetas ilu-
os autores judeus conseguem exprimir as camadas simultânea- ministas admitiram ou, talvez, ainda admitem, um mentiroso
mente sobrepostas da consciência e o conflito entre as mesmas. consciente, não um mentiroso inofensivo como Homero, que
Os poemas homéricos, cuja cultura sensorial, lingüística e, mentia para agradar, mas um mentiroso político consciente das
sobretudo, sintática, parece ser tanto mais elaborada, são, con- suas metas, que mentia no interêsse de uma pretensão ao domí-
tudo, na sua imagem do homem, relativamente simples; e tam- nio. Esta visão iluminista parece-me psicologicamente absurda,
bém o são, em geral, na sua relação com a realidade da vida que mas mesmo se a considerarmos, a relação entre o narrador
descrevem. A alegria pela existência sensível é tudo para êles, bíblico e a verdade do seu relato fica sendo muito mais apai-
e a sua mais alta intenção é apresentar-nos esta alegria. Entre xonada, muito mais univocamente definida, do que a de Ho-
lutas e paixões, aventuras e perigos, mostram-nos caçadas e ban- mero. Ele tinha de escrever exatamente aquilo que lhe fôsse
quetes, palácios e choupanas de pastôres, competições e lavatórios exigido pela sua fé na verdade da tradição, ou, do ponto de vis-
- para que observemos os heróis na sua maneira bem própria de ta iluminista, pelo seu interêsse na sua verossimilhança - em
viver e, com isto, nos alegremos ao vê-los gozando o seu presen- qualquer caso, a sua fantasia, inventiva ou descritiva estava
te, saboroso, bem inserido em costumes, paisagens e necessidades estreitamente delimitada. A sua atividade devia limitar-se a
quotidianas. E ê!es nos encantam e cativam de tal maneira que redigir de maneira efetiva a tradição devota. O que êle produ-
realmente compartilhamos o seu viver. Enquanto ouvimos ou zia, portanto, não visava, imediatamente, a "realidade" - quando
lemos a sua estória, nos é absolutamente indiferente que saiba- a atingia, isto era ainda um meio, nunca um fim - , mas a
mos que tudo é só lenda, que é tudo "mentira". A exprobração verdade. Ai de quem não acreditasse nela! Pode-se abrigar
freqüentemente levantada contra Homero, de que êle seria' um muito fàcilmente objeções histórico-críticas quanto à guerra de
mentiroso, nada tira da sua eficiência; êle não tem necessidade Tróia e quanto aos errores de Ulisses, e ainda assim sentir, na
de fazer alarde da verdade histórica do seu relato, a sua realidade leitura de Homero, o efeito que êle procurava; mas quem não
é bastante forte; emaranha-nos, embrulha-nos na sua rêde, e isto crê na oferenda de Abraão, não pode fazer do relato bíblico o
lhe basta. Neste mundo "real", existente por si mesmo, no qual uso para o qual' foi destinado. ~ necessário ir mais longe ainda.
somos introduzidos por encanto, não há também nenhum outro A pretensão de verdade da Bíblia não é somente muito mais
conteúdo, a não ser êle próprio; os poemas homéricos nada ocul- urgente que a de Homero, ela também é tirânica; exclui qual-
tam, nêles não há nenhum ensinamento e nenhum segundo senti- quer outra pretensão. O mundo dos relatos das Sagradas Escri•
do oculto. 8 possível analisar Homero, como o tentamos aqui, turas não se contenta com a pretensão de ser uma realidade his•
mas não é possível interpretá-lo. Tendências posteriores, orien- tôricamente verdadeira - ela pretende ser o único mundo ver-
tadas no sentido do alegórico, tentaram aplicar as suas artes dadeiro, destinado ao domínio exclusivo. Qualquer outro cená-
exegéticas também a Homero, mas isso a nada levou. ~le resiste rio, quaisquer outros desfechos ou· ordens não têm direito algum
a um tal tratamento. As interpretações são forçadas e estranhas, a 1e apresentar independentemente dêle, e está escrito que todos
e não se cristalizam numa teoria unitária. As considerações de êles, a história de tada a humanidade, se integrarão e se aubor•
caráter geral que se encontram ocasionalmente - em nosso epi- dinarlo 101 1eu1 quadros. Os relatos das Sagradas Escrituras
sódio, por exemplo, o verso 360: "pois na desgraça os homcna nlo procuram o noaao favor, como os de Homero, não nos
logo envelhecem" - revelam uma tranqüila aceltaçlo dos dado, lisonjeiam, para 001 agradar e nos encantar o que querem ~
MIMESIS A CICATRIZ DE ULISSES 13
12

dominar-nos, e se nos negamos a isto, então somos rebeldes. convertem-se em velhas lendas e a doutrina, desmembrada dos
Não se queira objetar que isto é ir demasiado longe, que não mesmos, torna-se uma forma incorpórea, que não mais penetra
é o relato, mas a doutrina religiosa o que apresenta estas pre- na realidade sensível ou que se volatiliza na exaltação pessoal.
tensões; pois os relatos justamente não são, como os de Home- Como conseqüência da pretensão de domínio, o método
ro, mera "realidade" narrada. . Nêles encarnam doutrina e pro- exegético estendeu-se também a outras . tradições, que não a
messa indissoluvelmente fundidas nestes relatos; precisamente judaica. Os poemas homéricos fornecem uma relação de acon-
por i;so êles têm um carãter recôndito e obscuro, êles contêm tecimentos precisa, espacial e temporalmente delimitada; antes,
um segundo sentido, oculto. Na história de Isaac não é somen- junto e após ela são pensáveis, sem conflito nem dificuldade,
te a intervenção de Deus no princípio e no fim, mas também, outras relações de acontecimentos, independentes da homérica.
no meio, tanto o fatual como o psicológico, o que fica obscuro, O Velho Testamento, porém, fornece história universal; começa
só tocado de leve, carregado de planos subseqüentes; e é justa- com o princípio dos tempos, com a criação do mundo, e quer
mente por isso que tudo necessita de aprofundamento cismativo acabar com o fim dos tempos, com o cumprimento da promessa,
e da interpretação exegética, e mesmo os reclama. Que Deus com a qual o mundo deverã encontrar o seu fim. Tudo o mais,
tente até o mais piedoso da maneira mais terrível, que a obe- que ainda acontece no mundo, só pode ser apresentado como
diência incondicional seja a única atitude possível perante Ble, membro desta estrutura; tudo o que disto fica sendo conhecido,
mas que também a sua promessa seja inamovível, por mais que ou até interfere com a história dos judeus, deve ser embutido na
as suas decisões pareçam destinar-se a produzir a dúvid_a e o estrutura, como parte. constitutiva do plano divino; e como isto
desespêro - êstes são os ensinamentos talvez mais importantes também só é possível pela interpretação do nôvo material afluen-
contidos na história de Isaac - mas, por sua causa, o texto fica te, a necessidade exegética se estende também além dos campos
tão pesado, tão 9crtegado de conteúdo, êle contém em si ainda primitivos da realidade judeo-israelita, por exemplo, à história
tantas alusões acêrca da ssênci,a de _Deus e da atitude do ho- assíria, babilônica, persa, romana; a interpetração, num sentido
mem piedoso, que o crente 7 se ve motivado a se aprofundar uma determinado, torna-se um método geral de apreensão da reali-
e outra vez no texto e a procurar em todos os seus pormenores dade; o mundo estranho, constantemente penetrando como nô-
a luz que possa estar oculta. E como, de fato, hã no texto tan- vo no horizonte e que, tal como se apresenta de forma imediata,
ta coisa obscura e inacabada, e como êle sabe que Deus é um é, em geral, totalmente impraticável para o seu uso no contex-
Deus oculto, o seu afã interpretativo encontra sempre nôvo ali- to religioso judeu, deve ser interpretado de tal maneira que se
mento. A doutrina e o zêlo na procura da iluminação estão indis- encaixe nêle. Mas quase sempre isto repercute sôbre o contexto,
soluvelmente ligados ão carãter do relato - êste é mais do que que carece de ampliação e de modificação. O trabalho inter-
mera "realidade" - e estão, naturalmente, em constante perigo pretativo mais impressionante desta espécie ocorreu nos pri-
de perder a sua própria realidade, como ocorreu logo que a meiros séculos do cristianismo, como conseqüência da missão
interpretação atingiu tal grau de hipertrofia, que chegou a decom- entre pagãos, e foi realizado por Paulo e pelos pais da igreja;
por o real. êles re-interpretaram tôda a tradição judaica numa série de fi-
guras preventórias da aparição de Cristo, e indicaram ao Impé-
Se desta forma o texto do relato bíblico, a partir do seu rio Romano o seu lugar dentro do plano divino da salvação.
própri; conteúdo, é, carente de interpretação, a. sua pret:ns~o Portanto, enquanto, por um lado. a realidade do Velho Testa-
de domínio leva-o ainda mais longe por êste caminho. Pois ele mento aparece como verdade plena, com pretensões à hegemo-
não quer fazer-nos esquecer a nossa própria real~dade du.rante algu- nia, estas mesmas pretensões obrigam-na a uma constante modi-
mas horas, como Homero, mas quer submete-la a s1; devemos ficação interpretativa do seu próprio conteúdo; êste vive durante
inserir a nossa própria vida no seu mundo, sentirmo-nos mem- milênios na vida dos homens europeus, em incessante e ativa
bros da sua estrutura histórico-universal. Isto se toma cada vez evolução.
mais difícil, à medida que o nosso mundo vital se afasta cada A pretensão de universalidade histórica e a relação - sempre
vez mais do mundo das Escrituras, e se êste mundo, apesar de aprofundada, que constantemente se analisa em conflitos - com
tudo, mantém em pé a sua pretensão de domínio, é imperio~o
um Deus único, oculto, porém aparente, que dirige a história
que êle próprio deva se adaptar, através de um transformaçao
interpretativa. Isto foi relativamente fãcil du rante longo tempo; universal, prometen(!o e exigindo, confere aos relatos do Velho
durante a Idade Média européia era possivel, ainda, representar Testamento uma perspectiva totalmente diferente daquela que
os acontecimentos bíblicos como sucessos quotidianos do pre- Homero poderia possuir. O Velho Testamento é incomparàvel-
sente de então, para o qual o método da interpretação fornecia !s mentc menos unitário na sua composição do que os poemas
bases. Quando isto se torna impraticável, pela transformnçt,o homéricos, é mnis evidentemente feito de retalhos - mas cada
demasiado profunda do mundo vital e pelo dcspertur de ,1m11 um dêlll8 pl'rll'ncc o um contexto histórico-universal e interpre-
consciência crítica, a pretensão de dorninio corre perigo: 11 mé tnlivo du h1Nh11 ia 11nivcrftnl. Aindn que tenhnm recebido alguns
todo exegético é desprezado e dc1xnd11 di: l.1do, os rdnto~ h1hhcn~ t•lc111,•11tuM, tlllk il111cnll' e11c111xfivcis, ainda ussím !!stes são 11.pre-
A CICATRIZ DE ULISSES 15
14 MIMESIS

sempetu?o dos pa~is exemplares. Duramente envelhecidos pelo


endidos pela interpretação; e assim o leitor sente em cada instan- seu devu, envelhecidos às vêzes até a decomposição, elas apre-
te a perspectiva religiosa e histórico-universal, que confere a cada sentam um cunho individual que é totalmente estranho aos he-
um dos relatos o seu sentido global e a sua meta global. Quanto róis homéricos. A êstes, o tempo só pode afetar exteriormente
mais isolados, horizontalmente independentes se justapõem os e mesmo isto é evidenciado o menos possível· em contraste a~
relatos e os grupos de relatos, se comparados com os da Ilíada figuras do Velho Testamento estão constante~ente sob a dura
e da Odisséia, tanto mais forte é a sua ligação vertical comum, férula de Deus, que não só as criou e escolheu mas continua
que os mantém todos juntos sob um mesmo signo, o que falta
a modelá-las, a dobrá-las e amassá-las, extraindo 'delas sem des-
totalmente a Homero. Em cada uma das grandes figuras do tr~ir a sua essência, formas que a sua juventude d,ificilmente
Velho Testamento, desde Adão até os Profetas, encarna-se um deixava prever. A objeção de que o histórico-vital do Velho
momento da mencionada ligação vertical. Deus escolheu e mol- Testamento ,s~rgiu, _muitas v~zes, da sínfise de diversas perso-
dou estas personagens para o fim da encarnação da sua essência
e da sua vontade - mas a eleição e a modelagem não coinci- nage_ns lendanas, nao nos atmge; pois esta sínfise faz parte do
dem; esta última realiza-se paulatinamente, de maneira histó- s~rg1mento do texto.. E quanto mais ampla é a oscilação do
pendulo do seu destmo do que aquela dos heróis homéricos!
rica, durante a vida terrena dos escolhidos. Na história da ofe- Pois êles são os portadores da vontade divina e mesmo assim
renda de Abraão vimos como isto ocorre, que terríveis provas
envolve uma tal modelagem. Daí decorre o fato de as grandes são falíveis, sujeitos a desgraça e a humilhação - e em mei~
à desgraça e à humilhação manifesta-se, através das suas ações
figuras do Velho Testamento serem mais plenas de desenvolvi- e palavras, a sublimidade de Deus. Dificilmente um dêles não
mento, mais carregadas da sua própria história vitai e mais cu- sofre, como Adão, a mais profunda humilhação - e dificil-
nhadas na sua individualidade do que os heróis homéricos.
mente . um dêles não é agraciado pelo trato e pela inspiração
Aquiles e Ulisses são descritos magnlficamente, por meio de pesso3is -de Deus. Humilhação e exaltação são muito mais
muitas e bem formadas palavras, têm pregados uma série de profundas ou elevadas do que em Homero, e, fundamental-
epítetos, as suas emoções manifestam-se sem reservas nos seus
discursos e gestos - mas êles não têm desenvolvimento algum e me~te, anda_m sempre juntas. O pobre mendigo Ulisses não é
a história das suas vidas fica estabelecida univocamente. Os he- senao um disfarce, mas Adão é real e totalmente expulso Jacó
róis homéricos estão tão pouco apresentados no seu devir e no é realme?te um fugitivo e José é realmente lançado nu~ po-
seu ter-devindo que, na sua maioria - Nestor, Agamenão, Aqui- ço e, mais tarde, realmente vendido como escravo. Mas a sua
les - aparecem com uma idade pré-fixada. O próprio Ulisses, que g~andeza, que s~ eleva da própria humilhação, é próxima do
oferece tanta ocasião para um desenvolvimento histórico-vital, sobre-humano e e, também, um reflexo da grandeza divina. Per-
cebe-se claramente como a amplidão da oscilação pendular está
graças ao longo tempo narrado e aos muitos acontecimentos
em rela~ão c~m a intensidade da história pessoal - justamen-
que nêle ocorrem, quase nada mostra disso tudo. Ê claro que te as s1tuaçoes extremas, nas quais somos abandonados ou
Telêmaco cresceu enquanto isto, do mesmo modo que tôda crian-
f~camos d~sesperados além de tôda medida, nas quais, além de
ça chega à adolescência; durante a digressão acêrca da cicatriz,
conta-se também idilicamente da infância e adolescência de toda medida, somos felizes ou exaltados, conferem-nos, quan~
Ulisses. Mas Penélope pouco mudou nesses vinte anos; no do as superamos, um cunho pessoal que se reconhece como
caso do próprio Ulisses, o envelhecimento meramente físico resultado de ~ intenso devir, de uma rica evolução. E êste
é velado pelas repetidas intervenções de Atenéia, que o faz apa- caráter evolutivo confere freqüentemente, aliás, quase sempre
recer velho, ou jovem, segundo o requer cada situação. Para aos relatos do Velho Testamento um caráter histórico, mesmo
além do físico, nem sequer se faz alusão a · outra coisa, e, no nos casos em que se trata de tradições meramente lendárias.
fundo, Ulisses é, quando regressa, exatamente o mesmo que Homero permanece, com todo o seu assunto, no lendário,
abandonara ltaca duas décadas atrás. Mas, que caminho, que enquanto que o assunto do Velho Testamento, à medida que
destino se interpõe entre o Jacó que obteve ardilosamente a bên- o relato avança, aproxima-se cada vez mais do histórico; aa
ção do primogênito e o ancião cujo filho mais amado foi des- narração de Davi já predomina o relato histórico. Ali tam-
pedaçado por uma fera - entre Davi, o harpista, perseguido bem há ainda muito de lendário, como, por exemplo, os relatos
pelo ódio amoroso do seu senhor, e o velho rei, circundado de 'de Davi e Golias; só que muito, a bem dizer, o essencial, con-
intrigas apaixonadas, aquecido no seu leito por Abisai, a Suna- siste em coisas que os relatores conhecem por terem aconteci-
mita, sem que êle a reconheça! O velho, de quem sabemos co- do durante as suas próprias vidas ou através de testemunhos
mo chegou a ser o que é, grava-se mais fortemente na nossa imediatos. Ora, a diferença entre lenda e história é fácil de
consciência, é mais fortemente característico do que o jovem; descobrir para o leitor algo experiente, na maioria dos casos.
pois só no decorrer de uma vida rica em lances de fortuna os Se é difícil di~tinguir, dentro de um relato histórico, o verda-
homens se diferenciam até a plena caracterização; e o Velho deiro do ful!!o ou do parcialmente iluminado, pois requer uma
Testamento nos oferece @ste caráter de história daa peraonatlda• c11ídndo1111 fórrnuçi\o histórico-fil ológica, é fácil, em geral, se-
deft como modelaaem daquele• que Deu1 eacolheu para o dr•
16 MIMESIS A CICATRIZ DE ULISSES 17

parar a lenda da história. A sua estrutura é diferente. Mesmo É claro que uma boa parte dos livros de Samuel contém
quando a lenda não se delata imediatamente pela presença de história, e não lenda. Na rebelião de Absalão, ou nas cenas
elementos maravilhosos, pela repetição de motivos conhecidos, dos últimos dias da vida de Davi, o contraditório e o entre-
pelo desleixo na localização espacial ou temporal, ou, por cruzador dos motivos nos indivíduos e na trama total tornou-se
outras coisas semelhantes, pode ser reconhecida ràpidamente, tão concreto, que não se pode duvidar do caráter autêntica-
o mais das vêzes, pela sua estrutura. Desenvolve-se de maneira mente histórico do relato. Até que ponto possam ter sido des-
ex~essivamente lisa. Tudo o que correr transversalmente, todo figurados os acontecimentos por parcialidade, isto é uma outra
atnto, todo o restante, secundário, q_ue se insinua nos aconteci- questão, que não nos interessa agora; de qualquer forma, aqui
mentos principais, nos motivos principais, todo o indeciso, que- começa a passagem do lendário para o relato histórico, e co-
brado e vacilante, tudo o que confunde o claro curso da ação meça êste últim'o, que falta totalmente nas poesias homéricas.
e a simples direção das personagens, tudo isso está desbotado. Ora, as pessoas que redigiram as partes históricas dos livros
A história que presenciamos, ou que conhecemos através de de Samuel são, em grande parte, as mesmas que redigiram
testemunhos de contemporâneos, transcorre de maneira muito também as lendas mais antigas; outrossim, sua peculiar con-
menos uniforme, mais cheia de contradições e confusão; só cepção religiosa do homem na história, concepção esta que pre-
quando, numa zona determinada, ela já produziu resultados, tendemos descrever acima, não os levava, de maneira alguma,
podemos, com a sua ajuda, ordená-los de algum modo; e quan- à simplificação lendária do acontecido; assim, não deixa de ser
tas vêzes a ordem que assim achamos ter obtido, torna-se natural que, mesmo nas partes lendárias do Velho Testamento,
novamente duvidosa, quantas vêzes nos perguntamos, se aquê- seja freqüente a aparição de estruturas históricas; naturalmen-
les resultados não nos levaram a uma ordenação demasiado te não no sentido de que a tradição seja examinada quanto à
simplista do originalmente acontecido! A lenda ordena o assun- sua credibilidade de maneira científico-crítica; mas meramente
to de modo. unívoco e decidido, recorta-o da sua restante co- de tal forma que não predomina no mundo lendário do Velho
nexão com o mundo, de modo que êste não pode intervir de Testamento, a tendência para a harmonização aplainante do
maneira perturbadora; ela só conhece homens un'ivocamente fi- acontecido, para a simplificação dos motivos e para a fixação
xados, determinados por poucos e simples motivos, e que não estática dos caracteres, evitando conflitos, vacilações e desen-
podem ser prejudicados na inteireza do seu sentir e obrar. Na volvimento, tal como é peculiar à estrutura lendária. Abraão,
lenda dos mártires, por exemplo, vemos como se enfreptam Jacó ou até Moisés, têm um . efeito mais concreto, próximo e
obstinados e fanáticos perseguidos e um perseguidor não me- histórico do que as figuras do mundo homérico, não por esta-
nos teimoso e fanático; uma situação tão complicada, isto é, rem melhor descritos plàsticamente - o caso é o contrário -
tão verdadeiramente histórica, como aquela em que se encontra mas porque a variedade confusa, contraditória, rica em inibi-
o "perseguidor" Plínio, na famosa carta que escreve a Trajano ções dos acontecimentos internos e externos, que a história
acêrca dos cristãos, não pode ser usada em lenda alguma. E autêntica mostra, não está desbotada na sua representação, mas
êste caso ainda é relativamente simples. Pense-se na história está ainda n'itidamente conservada. Isto depende, em primeiro
que nós mesmos estamos vivendo: quem ponderar o proceder lugar, da concepção judaica do homem, mas também do fato
dos indivíduos e dos grupos humanos no nascimento do na- de os redatores não terem sido bardos, mas historiadores, cuja
cional-socialismo da Alemanha, ou o proceder dos diferentes idéia da estrutura da vida humana se formara no campo do
povos e estados antes e durante a atual guerra (1942), sentirá histórico. Com isto fica, também, muito claro de que forma,
como são dificilmente representáveis os objetos históricos em como conseqüência da unidade da estrutura religioso-vertical,
geral, e como são inutilizáveis para a lenda; o histórico contém não podia surgir uma divisão consciente dos gêneros literários.
em cada indivíduo uma pletora de motivos contraditórios, em Todos êles pertencem à mesma ordem geral; tudo o que não
cada grupo uma vacilação e um tatear ambíguo; só raramente pudesse ser encaixado nela, ainda que fôsse mediante a inter-
(como agor a, com a guerra) aparece uma situação fortuitamen- pretação, não tinha lugar algum. Aqui interessa-nos sobretudo
te unívoca, que pode· ser descrita de maneira relativamente sim- como se dá, nos relatos davídicos, a transição imperceptível, só
ples, mas mesmo esta é subterrâneamente graduada, e a sua uni- reconhecível pela crítica científica posterior, do lendário para
vocidade está quase constantemente em perigo, e os motivos o histórico; e como, já no lendário, se apreende apaixonada-
de todos os participantes têm tantas camadas, que os slogan.1· mente o proble ma da ordem e da interpretação do acontecer
propagandísticos chegam a existir só graças à mais grosseira humano, um problema que, mais tarde, explode os limites da
simplificação - o que tem corno conseqüência, que amigos e historiogra fi a. sufocando-a por inteiro na profecia. Assim
inimigos possam empregar freqüentemente os mesmos. fücrc- o Velho T cstnmcnto, enquanto se ocupa do acontecer huma-
ver história é tão difícil, que a maioria dos historiadorc~ vê •!!e no, du111int1 tudos os três âmbitos: lenda, relato histórico e teo-
obrigada a fazer concessões n técnicu do lendário. loiiln hii1t6rn·11 cxcltéticn.
18 MIMESIS A CICATRIZ DE U LISSES 19

Com isto, que acabamos de analisar, relaciona-se também impressão de que o movimento, em profundidade, do povo em
o fato de o texto grego parecer também mais limitado e mais Israel-Judá deve ter sido de uma espécie muito diferente e
estático com referência ao círculo das personagens atuantes e muito mais elementar do que nas próprias democracias arcai-
da sua mobilidade política. No processo do reconhecimento, cas posteriores.
do qual partimos, aparece, além de Ulisses e de Penélope, a A mais profunda historicidade e a mais profunda mobi-
ama Euricléia, uma escrava comprada outrora pelo pai de lidade social dos textos do Velho Testamento relacionam-se,
Ulisses, Laerte. Tal como o pastor de porcos Euméio, ela finalmente, com mais uma última diferença significativa: delas
passou a sua vida a serviço da família dos Laertíades; tal co- surge um conceito de estilo elevado e de sublimidade diferente
mo Euméio, ela está estreitamente unida ao seu destino, ama- do que surge de Homero. &te certamente não receia inserir
-os e compartilha os seus interêsses e sentimentos. Mas ela não o quotidiano e realista no sublime e trágico; tal receio seria
possui vida própria nem sentimentos próprios; só tem os dos estranho o seu estilo e inconciliável com êle. Vê-se no nosso
seus senhores. Também Euméio, não obstante ainda lembre episódio da cicatriz, como a cena caseira do Java-pés, pintada
ter nascido livre, pertencer até a uma família nobre (fôra rou- aprazivelmente, é entretecida na grande, na significativa e su·
bado quando criança), já não tem, nem na prática, nem nos !>lime cena da volta ao lar. Isto está longe, ainda, daquela regra
seus sentimentos, uma vida própria, está atado inteiramente à da separação dos estilos, que mais tarde se imporia qua-
dos seus senhores. Estas duas personagens são, porém, as úni- se por completo, e que diria que a descrição realista do quoti-
cas que Homero anima para nós e que não pertencem à classe diano seria inconciliável com o sublime, e só teria lugar no
senhorial. Com isto chega-se à consciência de que a vida, nos cômico ou, em todo caso, cuidadosamente estilizado, no idíli- '
poemas homéricos, só se desenvolve na classe senhorial - tudo co. E contudo, Homero está mais perto dela do que o Velho
o que porventura viva além dela, só participa de modo servi- Testamento. Pois os acontecimentos grandes e sublimes ocor-
rem nos poemas homéricos muito mais exclusiva e inconfundi-
çal. A classe senhorial ainda é tão patriarcal, ainda, também,
velmente entre os membros de uma classe senhorial; êstes são
tão familiarizada com as ativid.ades quotidianas da vida econô-
muitos mais intatos na sua heróica sublimidade do que as fi-
mica, que às vêzes se chega a esquecer seu caráter de classe. guras do Velho Testamento, que podem cair muito mais pro-
Só que ainda é inconfundivelmente uma espécie de aristocracia fundamente na sua dignidade - pense-se, por exemplo, em
feudal, cujos homens dividem a sua vida entre a luta, a caça, Adão, Noé, Davi, Jó - ; e, finalmente, o realismo caseiro, a
as deliberações no mercado e os festins, enquanto as mulheres representação da vida quotidiana, permanecem sempre, em Ho-
vigiam as criadas em casa. Como estrutura social, êste mundo mero, no idílico-pacífico - enquanto que, já desde o princí-
é totalmente imóvel; as lutas só ocorrem entre diferentes gru- pio, nos relatos do Velho Testamento, o sublime, trágico e
pos das classes senhoriais; de baixo, nada surge. Mesmo quan- problemático se formam justamente no caseiro e quotidiano:
do se consideram os acontecimen.t os do segundo canto da Ilíada, acontecimentos como o que se dá entre Caim e Abel, entre
que terminam com o episódio de Tersites, como sendo um Noé e seus filhos, entre Abraão, Sara e Hagar, entre Rebeca,
movimento popular - e duvido que isto possa ser feito em sen- Jacó e Esaú, e assim por diante, não são concebíveis no estilo
tido sociológico, pois trata-se de guerreiros de categoria sena- homérico. Isto resulta já da maneira de se originarem os con-
torial, portanto, de pessoas que são também membros da classe flitos, tão fundamentalmente diferente. Nos relatos do Velho
senhorial, a,inda que membros de condição inferior - o que êstes Testamento, o sossêgo da atividade qucttidiana na casa, nos
guerreiros demonstram diante do povo reunido não é senão campos e junto aos rebanhos é constantemente socavado pelos
a sua própria falta de independência e a sua incapacidade de ciúmes ení tôrno à eleição e é promessa da bênção, e surgem
terem iniciativa própria. Nos relatos patrísticos do Velho complicações inconcebíveis para um herói homérico. Para êstes,
T estamento predomina, também, a constituição patriarcal, mas é necessário um motivo palpável, claramente exprimível, para
c~mo se trata de chefes de famílias isolados, nômades ou semi- que surjam conflito e inimiz.ade, que resultam em luta aberta;
aômades, o quadro social parece muito menos estável; não se enquanto que naqueles, o lento e constante fogo dos ciúmes e
sente a formação em classes. Logo que, finalmente, o povo a ligação do econômico com o espiritual, da bênção paterna
aparece, isto é, após a saída do Egito, êle se faz sentir sempre com a bênção divina, conduz.em a umá impregnação da vida
na sua mobilidade, amiúde borbulhando inquietamente, e inter- quotidiana com substância confütiva e, freqüentemente, ao seu
vém freqüentemente nos acontecimentos, seja como um todo, envenenamento. A sublime intervenção de Deus age tão pro-
seja como grupos isolados ou como personagens que se expõem fundamente sôbre o quotidiano, que os dois campos do subli-
individualmente. As origens da profecia parecem estar na in- me e do quotidiano não só estão, de fato, inseparados, mas são,
domável espontaneidade político-religiosa do povo. Tem-se a 1undnmcnt11l111cntc, inseparáveis.
20 MIMESIS
Fortunata
Comparamos os dois textos e, de maneira adjunta, os dois
'!stilos que êles encarnam, para obter um ponto de partida para
os nossos ensaios sôbre a representação literária da realidade
na cultura européia. Os dois estilos representam, na sua opo-
sição, tipos básicos: por um lado, descrição modeladora, ilumi-
nação uniforme, ligação sem interstícios, locução livre, predo-
minância do primeiro plano, unívocidade, limitação quanto ao
desenvolvimento histórico e quanto ao humanamente problemá-
tico; por outro lado, realçamento de certas partes e escureci-
mento de outras, falta de conexão, efeito sugestivo do tácito,
multiplicidade de planos, multivocidade e necessidade de inter-
pretação, pretensão à universalidade histórica, desenvolvimento
da apresentação do historicamente devinte e aprofundamento do
problemático.
O realismo homérico não pode ser equiparado, certamente,
ao clássico-antigo em geral; pois a separação de estilos, que se
desenvolveu só mais tarde, não permitia, nos limites do sublime,
uma descrição tão minuciosamente acabada dos acontecimentos
quotidianos; sobretudo na tragédia não havia lugar para isto;
outrossim, a cultura grega logo encontrou os fenômenos do Non potui amplius quicquam gustare, ser conversus
devir histórico e da multiplicidade de camadas da problemática
humana e os atacou à sua maneira; no realismo romano apa-
recem, finalmente, novas e peculiares maneiras de ver as coi-
sas. Quando a ocasião o exigir, trataremos das modificações
posteriores da antiga representação da realidade; em geral, e
apesar destas últimas, as tendências fundamentais do estilo ho-
2 ad eum, ut quam plurima exciperem, longe accersere
tabulas coepi sciscitarique, quae esset mulier ilia,
quae huc atque illuc discurreret. Uxor, i_nquit, _Tri-
malchíonis, Fortunata appellatur, quae num.mos mod10 metitur.
Et modo, modo quid fuit? lgnoscet rnihi genius tuus, noluisses de
manu illius panem accipere. Nunc, nec quid nec quare, in caelum
mérico, que tratamos de realçar vigoram até a mais tardia abiit et Trimalchionis topanta est. Ad summam, mero meridie si
Antigüidade. dixerit illi tenebras esse, credet. lpse nescit 4uid habeat, adeo
Pois que· tomamos os dois estilos, o de Homero e o do saplutus est; sed haec lupatria providet omnia et ubi non putes.
Velho Testamento, como pontos de partida, admitimo-los como Est sicca, sobria, bonorum consiliorum, est tamen malae linguae,
acaqados, tal como se nos oferecem ns textos; fizemos abstra- pica pulvinaris. Quem amat, amat; quem non amat, non amat.
ção de tudo o que se refira às suas origens e deixamos, por- Ipse Trimalchio fundos habet qua milvi volant, nummorum num-
tanto, de lado a questão acêrca de se as suas peculiaridades lhes mos. Argentum in ostiarii illius cella plus iacet quam quisquam
pertencem originalmente, ou se são atribuíveis, total ou parcial- in fortunis habet. Familia vero babae babae, non mehercules puto
mente, a influências estranhas e quais seriam elas. A conside- decumam partem esse quae dominum suum noverit. Ad summam,
ração desta questão não é necessária nos limites da nossa in-
quemvis ex istis babaecalis in rutae folium coniciet. Nec est
tenção; pois tal como êstes estilos se formaram, acabados, em quod putes illum quicquam e.mere. Om_nia do?3i_ na_scunt~r:
tempos primordiais, êles exerceram sua influência constitutiva lana, credrae, piper, lacte gallmaceum s1 quaes1ens, mvemes.
sôbre a representação européia da realidade. Ad surnmam, parum illi bona lana nascebatur; aríetes a Tarento
cmit, et eos culavit in gregem. . . Vides tot culcitras: nulla non
aut cochyliatum aut coccineum tomentum habet. Tanta est
animi beatitudo. Reliquos autem collibertos eius cave contero-
nas; valde succóssi sunt. Vides illum qui in imo imus recumbit;
hodic sua octirígenta possidet. De nibilo crevit. Modo sole~~t
1:ollo suo ligna portare: Sed quomodo dicunt - ego nihil
Ncio, scd audivi - quom Iocuboni pilleum rapuisset, thesaurum
,ovcnit. Ego nemini invideo, si quid deus dedit. Est ta_men
~uhulurio cl non vult sibi male. Itaque proxime casa hoc titulo
prw1cnp~11 ; C'. Pompcius Diogencs ex Calendis luliis cenaculum
lnrnl: 1p11c cn11n domum cmit. Quid me qui libertini loco iacet,
22 MIMESIS FúRTUNATA 23

quam bene se habuit! Non impropero illi. Sestertium suum mihi genius tuus, noluisses de manu illius panem. accipere, _in
vidit decies, sed male vacillavit. Non puto illum capillos !i- caelum abiit, topanta est, ad summam - ter-se-ia de copiar
beros habere ... quase tudo) - e é apresentada com aquêle acento sangüíne-0,
que exprime emoções vivas, mas triviais: assombro, admira-
~ste trecho pertence ao romance de Petrônio, do qual só ção, protesto, encolhimento de ombros, presunção - em resu-
se conservou um episódio completo, o banquete de Trimalcião mo, na sua forma verbal, as tam dulces fabulae, como são
o rico liberto. O trecho aqui transcrito é o capítulo 37 e chamadas logo mais, delatam inconfundlvelmente o que são, isto
parte do 38. O. narrador, Encólpio, pergunta ao seu vizinho é, bisbilhotice ordinária, ainda que boa parte do seu conteúdo
de mesa durante o banquete, quem seria a mulher que vai possa ser verdade; delatam também quem. é o homem que as
e vem pela sala, e recebe uma resposta que procuraremos tra- profere, isto é, alguém que encaixa perfeitamente no meio que
duzir, mantendo, dentro do possível, o seu estilo: descreve. Isto é também atestado pelas suas escalas de valores.
Pois, sem lugar à menor dúvida, tôdas as suas palavras estão
Esta é Fortunata, a mulher de Trimalcião, que conta o dinheiro baseadas na certeza de que a riqueza é o supremo bem, quanto
às arrobas. E antes, o que pensas que tenha sido? Não o leves a mais, melhor (tanta est animi beatitudo); de que não há outro
mal, mas não terias aceito de suas mãos nem um pedaço de pão. bem nesta vida afora a fartura de mercadorias da melhor qua-
Mas agora ela entrou no céu, sem mais nem menos, e é tudo para lidade e o seu gôzo mais ordinário e que, evidentemente, todo
Trimalcião. Enfim, se ela lhe disser em pleno meio-dia que é de
noite, êle acredita. :Ê.Sse aí nem sabe quanto tem, de tão rico que homem age neste sentido, à procura do seu proveito material.
é; mas ela, a tratante, cuida de tudo, e até onde menos se espera. E com tudo isto, êle mesmo não é senão um homem de baixa
Ela não bebe, é parca, de bom conselho, mas também tem má ou média posição, que admira sinceramente os ricaços. Assim,
língua, uma verdadeira pêga. De quem gosta, gosta, e de quem o bom homem não descreve somente Fortunata, Trimalcião e
não gosta, não gosta mesmo. :Ê.SSe Trimalcião tem terras até onde os seus comensais, mas ao mesmo tempo, e sem sabê-lo, a si
voam os falcões, incontáveis milhões. No porão do seu zelador próprio. ~le tem, sem dúvida, como vemos, um ponto de
há mais dinheiro do que outra gente tem como fortuna. E os vista um tanto unilateral, fala também mais segundo os seus
escravos! Eu acredito que nem a décima parte dêles chega a ver sentimentos, e em associações, do que logicamente, mas fala
o seu senhor. Enfim, ao lado dêsse aí, todos êstes basbaques podem circunstanciadamente e, por assim dizer, plàsticamente - não
fechar o bico. E não penses que êle precisa comprar alguma coisa: faz das tripas coração e fala tudo o que vem ao caso. Não
é tudo produção própria: lã, cêra, pimenta - e se quisesses leite deixa na.da no escuro, chocalha tudo o que tem a chocalhar;
de galinha, encontrarias. Enfim, pareceu-lhe que não tinha bastante como no caso de Homero, uma luz clara e uniforme derrama
produção própria de boa lã; comprou, então, carneiros de Tarento, ~ôbrc homens e objetos; êle tem, como Homero, vagar suficiente
e os rabeou no seu rebanho . . . I á vês quantas almofadas há por
aqui; não há nenhuma que não esteja recheada com lã purpúrea ou para a modelagem; o que diz é unívoco, e nada de recôndito
escarlate: tanta é a felicidade dêste homem. E também os seus uu escondido permanece tácito.
colibertos não devem ser desprezados. :eles já têm com que viver ... Evidentemente, também existem diferenças importantes
Estás vendo aquêle ali atrás? Hoje êle tem os seus oitocentos mil. wm a maneira de Homero. Em primeiro lugar, a modelagem
E começou com nada. Não faz tempo que carregava lenha. Mas é completamente subjetiva; pois o que nos é apresentado não
segundo dizem - eu nada sei, só me contaram - êle pegou um é porventura o círculo de Trimalcião como realidade objetiva,
incubo dormindo e achou um tesouro. Bem, eu não sou invejoso, 111us como imagem subjetiva, tal como se apresenta na cabeça
quando um deus dá . . . Aliás, êle acaba de ser liberto e está cheio duquelc comensal que, entretanto, também _faz parte do círculo.
de .ares (?). Faz pouco, êle ofereceu sua casa em aluguel com um
anúncio que dizia assim: "C. Pompéio Diógenes aluga sua casa l'ctr6nio não diz isto é assim, - mas deixa que um eu, que
11ií(1 é idêntico a êle, nem ao fingido narrador Encólpio, lance
desde o dia 19 de julho; êle acaba de comprar um palacete". E
êsse outro, que está no lugar do liberto, como estava bem! Não o holofote de seu olhar sôbre os comensais - um processo
quero falar mal dêle, já teve um milhão, mas as coisas foram mal, l xtrcmarncnte artístico, perspectivo, uma espécie de dupla re-
e hoje não creio que lhe pertençam nem os seus cabelos ... 1lcxuo, que, naquilo que se conserva da literatura antiga, não
me atrevo a dizer que seja única, mas é, sem dúvida, muito ~ara.
A resposta, que continua assim por um bom tempo, acaba A tor ma exterior dêstc cmprêgo da perspectiva não é, de forma
sendo bastante minuciosa. Não só a mulher pela qual Encólpio nl1111m11. nova, pois é claro que em tôda a literatura antiga as
perguntara, é descrita, mas também o anfitrião e vários comen- p..-110,rnl(cns fulurn das suas experiências e impressões. Mas
sais, e além do mais, quem fala se retrata também a si próprio 1~10 11.111 é \cnuo umu forma de exposição, tratada por demais
- a sua linguagem e a escala de valores que utiliza dão uma 11hJcllvamt•11ll·. ron111 no caso dos relatos de Ulisses ante os
clara idéia de sua personalidade. A linguagem é o jargão ordi- h'lll'Í1111 011 1k l· 11c.is unte Dido, ou se trata da tomada de
nário, algo pastoso de um comerciante urbano carente de ins• p1111i;llo tlc 11l1111én1 perante homens ou acontecimentos que o
trução, cheio de frases feitas (nummos nwdio 111~1/wr, ig,wsn·t n11n11em iJ11c,to111cn10, 110s limik~ d1· umu oçllo. onde, portanto,
24 MIMESIS
FORTUNATA 25

o subjetivo é inevitável e, também, naturalmente carente de posse é aquilo que lhe interessa na vida, e o que lhe ensinou,
artifício. Aqui, porém, trata-se do mais aguçado subjetivismo, a êle e aos seus semelhantes, a desconfiar de tôda estabilidade.
que é ainda salientado pela linguagem individual, por um lado Agora mesmo era-se ainda escravo, carregador, prostituto -
- por .outro trata-se de uma intenção objetiva, pois a intenção podia-se ser chicoteado, vendido, expulso_ - e ~e repe~te encon-
visa a descrição objetiva dos comensais, inclusive de quem fala, tra-se no luxo mais desmedido, como nco latifundiáno e espe-
através de um processo subjetivo. :Bste processo leva a uma culador - e amanhã tudo isto poderia acabar de nôvo. .e claro
ilusão mais sensível e concreta da vida, na medida em que um que êle pergunta: et modo, modo quid f uit?. Não é, ou não. é
dos convidados descreve os comensais, um grupo ao qual êle somente inveja e malquerença, o que fala nele - no fund? ele
pertence interior e 1..~,teriormente; o ponto de vista é introduzido até que é bastante bonachão - mas é o· seu mais verdadeiro e
no próprio quadro, êste ganha em profundidade, e a luz que mais profundo interêsse. Ora, sabemos qu~ as mudan~as da
e, ilumina pllrece provir de algum dos seus cantos. Não é de fortuna têm um lugar muito importante na literatura antga__ em
forma diferente que trabalham os escritores modernos, como geral e que também a ética filosófica se fundamentou frequen-
Proust, só que mais conseqüentemente também dentro do trá- temente nelas. Mas, por estranho que pareça, es!as mu~anças
gico e do problemático, do que falaremos logo mais. O pro- só poucas vêzes transmitem, em outros casos,_ a 1mpressao da
cedimento de Petrônio é, portanto, superlativamente artístico vida histórica. Aparecem, ou bem na tragédia, em forma de
e, se êle não tiver tido precursores, genial. Os comensais são destino singular e prodigioso, ou bem na C?~~dia, co~o res.ul-
medidos com suas próprias escalas; estas escalas regram-se pela tado de uma conjunção totalmente extraordmana de circunstan-
sua mera proferição, além de que a vilania dêstes novos-ricos cias especiais; quer se trate d~ rei . :Bdipo, alca~çado pela
fica iluminada da forma mais crua já pelo fato de que à sua maldição predita há tanto tempo e ~pebdo para a mais espantosa
própria mesa se fala nêles dêsse jeito. Na restante literatura das misérias, quer da pobre rapanga ou do escravo, .. que se
revelam como os filhos de um rico homem, outrora sequestrad~s
satírica antiga certamente se encontram tentativas de uma técni-
ou perdidos num naufrágio, de modo que podem, sem mais
ca semelhante - não conheço, porém, um exemplo semelhante
de consciente concepção e perfeito acabamento. outra contrair as núpcias por êles desejadas; em ambos os
casos' acontece algo extraordinário, algo e~pecialmente p~eparado,
Outra diferença importante com o procedimento homérico que cai fora da marcha normal das cOJsas e que umcamente
consiste no seguinte. :8 muito importante, para o comensal, sa- atinge a um só ou a uns poucos, enquanto o resto '!_o mundo
lientar, na sua descrição, o que tôdas essas pessoas foram, em parece persistir na imobilidade e na ~era ~ontempl~çao ~o ex-
contraste com o que hoje são. Et modo, modo quid fuit, diz êle traordinário acontecimento. Na arte hterànamente 1m1tativa da
de Fortunata; de nihilo crevit, e quam bene se habuit, dos dois Antigüidade, a mudança da sorte tem q__uas~ sempre a_ forma ~e
comensais. Também Homero gosta, como observamos antes, de um destino que irrompe de fora num amb1to de~et?1~nado, nao
intercalar a origem, o nascimento e a história pregressa das suas resultante da movimentação interior do mundo h1stonco - en-
personagens. Mas os seus dados são de espécie totalmente diver- quanto que, é claro, a ·literatura gnomológica pop~ar visa a~
sa. -eles não nos levam ao evolutivo e mutante; ao contrário, mudanças de fortuna de cada um, em cada s1tuaçao, ma~ so
conduzem-nos a um ponto de apoio fixo. O ouvinte grego, as apresenta em forma teórica. As observ~_ções seotei:c1osas
educado na genealogia e na mitologia, deve reconhecer a ascen- acêrcél, das mudanças da sorte terrena são frequen~tes tambem no
dência e a família da pessoa em questão, deve classificá-la banquete de Trimalcião e, por outro lad?, ~a alusao. do_ comensal
desta maneira, da mesma forma como nos tempos modernos, tio incubo, persiste ainda algo da tendenc1a de atnbutr as mu-
num círculo fechado aristocrático ou da velha-burguesia, o re- duncas de fortuna a especiais intervenções exteroas. Mas o que
cém-chegado é definido mediante dados acêrca da sua família predomina na obra de Petrô~o -é .ª visão mais prática e terren~, e,
paterna e materna. Com isto não se quer provocar tanto a
impressão da mudança histórica, quanto, e muito mais, a ilusão
portanto, intrinsecamente histónca, das muda~ças -~º _desuno.
J)c forma extremamente prática e terrena Tnmalc1ao mforma
de uma fundamentação firme e imutável da constituição social, acêrca da origem da sua fortuna, e também em_ outros mo~entos
ao lado da qual a mudança das personagens e do seu destfoo encontramos coisas semelhantes; o que tra~snute a sens~çao de
pessoal parece relativamente insignificante. Mas o nosso comen- hist6ria interior é, contudo, e antes de mais nada, o carater _se-
sal tem em mente o que se modifica historicamente, os reveses 1inJo. Não s6 um ou só uns poucos são atingidos por um des~no
da fortuna ( e nisto, como em tudo o que fala, êle sente de forma singulur e extraordinário, enquant? o resto d?. mundo pers1s~:
idêntica à dos seus semelhantes). Pará êle o mundo está em na imohilid:tdc; senão que só no discurso do v1zmbo de me~a Ja
constante movimento; nada é seguro, mas, mais do que nada, ftfio q 11 utro pcs~on, que nadam nas mesmas águas, que se dedicam
o bem~estar e a posição social são extremamente instáveis. O 11 111~'.sit111 espécie de variável caça à sorte, sendo que t~dos têm um
seu senso histórico é unilateral, pois só gira em tôrno da posse dl•1 tino ~tmclhantc, mas diferente para cad~ u~ deles, e, com
de dinheiro, mas é autêntico. (Também o~ outro~ comcn~u1N 1ótln 11 ~1111 111uv1111cntuçilo, cx.tremumenlc ordinário e comum. €
falam repetidamente da instabilidudc du v1d11). O vnivém dn pnr 11 ,~ dns q1111t ro Jk!MOa8 de,critns, vê-~c II mc~u t8du, c de cnd '
26 MIMESlS FORTUNATA 27

um dos seus membros pode-se supor que leva uma vida seme- quistou; se êle foi o primeiro e o único a fazê-lo, até que ponto
lhante, descritível de forma semelhante. E por trás dêles, nova- foi talvez precedido pelo mimo romano - isto pode ficar de
mente, a fantasia põe todo um mundo de existências semelhantes, lado neste momento.
de tal forma que surge um quadro econômico-histórico extrema- Se Petrônio mostra o limite extremo até o qual chegou
mente animado, um sobe-e-desce constantemente impulsionado o realismo antigo, também pode ser visto na sua obra, aquilo
de dentro, que eleva e rebaixa os caçadores, da sorte, que correm que êste realismo não podia ou não queria dar. O banquete é
atrás da riqueza e do tolo gôzo da vida. É fácil compreender uma obra de caráter puramente cômico. As pessoas que nêle
que uma socied'.lde de comerciantes da mais baixa extração se aparecem individualmente, assim como as ligações do conjunto,
presta muito especialmente para esta forma de representação, para são mantidas conscientemente e de forma unitária no mais
esta visão das coisas - nela espelham, do modo mais claro, baixo dos estilos, tanto na expressão lingüística, quanto no tra-
os altos e baixos dos acontecimentos, sem que nada de sólido tamento; e com isto liga-se necessàriamente o fato de que todo
segure o fiel da balança; pois êles não têm, internamente, tra- o problemático - tudo o que, seja psicológica, seja sociologi-
dição alguma, nem externamente qualquer apoio; sem dinheiro, camente, possa lembrar complicações sérias ou até trágicas
nada são. Neste sentido, dificilmente há, na literatura antiga, - deva ser afastado: destruiria o estilo pelo seu excessivo
outro trecho que mostre tão fortemente êste movimento histórico pêso. Pensemos, aqui, um instante, nos autores realistas do
interno. século XIX, Balzac ou Flaubert, Tolstúi ou Dostoievski. O
E assim chegamos a uma terceira, e talvez à mais importan- velho Grandet (Eugénie Granáet) ou Fedor Pavlovitch Kara-
te diferença diante do estilo homérico, e também, à peculiari- masov não são meras caricaturas, como Trimalcião, mas for-
dade talvez mais significativa do banquete de Trimalcião: apro- midáveis realidades, que devem ser levadas muito a sério, ema-
xima-se mais da moderna representação da realidade do que tudo ranhados em trágicos conflitos, trágicos até êles próprios, ainda
o mais que ficou conservado da Antigüidade, e não, precisamente, que sejam também grotescos. Na literatura moderna, qualquer
em primeira linha, devido à ordinária baixeza do assunto, mas personagem, qualquer que seja o seu caráter ou a sua posição
sobretudo pela fixação exata, nada esquemática, do ineio social. social, qualquer acontecimento, seja fabuloso, político ou limita-
As pessoas que se reúnem em casa de Trimalcião são parvenus

i
damente caseiro, pode ser tratado pela arte imitativa de forma
libertos meridionais do século I. Têm as suas idéias e falam, séria, problemática e trágica, e isto geralmente acontece. Na
quase sem estilização literária alguma, a sua linguagem. É difí- Antigüidade isto é totalmente impossível. Não obstante existam
cil encontrar isto em outro lugar. A comédia reproduz o meio ,na poesia pastoril ou amorosa algumas formas intermediárias,
social de maneira muito mais esquemática e geral, muito menos no conjunto vigoram as regras da separação dos estilos, que já
definida espacial e temporalmente. Apenas proporciona indícios tocamos no primeiro capítulo da nossa pesquisa: tudo o que cor-
sôbre a fala individual das personagens. Na sátira conservou- responde à realidade comum, todo o quotidiano só pode ser
-se certamente bastante coisa que segue o mesmo sentido, mas apresentado de forma cômica, sem aprofundamento problemá-
a representação não é tão amplamente disposta, senão antes tico. Isto, porém, fixa estreitos limites para o realismo; e se
moralista; tende mais à crítica de alguma característica vi- considerarmos a palavra realismo mais rigorosamente, devemos
ciosa ou ridícula. O romance, finalmente, f abula milesiaca, dizer: não poderá ser literàriamente levado a sério qualquer ofí-
gênero ao qual pertence, no fim das contas, a obra de Petrônio, cio, qualquer posição social quotidiana - comerciantes, artesãos,
está, em outros fragmentos ou obras que conservamos, tão for- camponeses, escravos - , qualquer cenário quotidiano - casa,
temente carregado de elementos mágicos, aventurosos, mitoló- oficina, loja, campo - , qualquer costume quotidiano - casa-
gicos e, sobretudo, eróticos, que de maneira alguma pode ser mento, filhos, trabalho, alimentação - numa palavra, o povo e
considerado uma imitação da vida quotidiana de então - sem MIU vida. Relaciona-se com isto também o fato de não serem
falar da estilização irreal e retórica da linguagem. O que mais mostradas nitidamente, no realismo antigo, as fôrças sociais que
se aproxima da representação ampla, verdadeiramente quotidiana ~·onstítuíam a base das circunstâncias apresentadas a cada caso;
da existência, é algo da literatura alexandrina; talvez as duas ,~to só poderia acontecer nos limites do problemático levado a
mulheres do festim de Adônis, em Teócrito, ou o proces.w do ~ério; mas, como as personagens nunca abandonam o terreno do
alcoviteiro, de Rerodas. Mas também êstes dois trechos - com- cômico, u sua relação com a coletividade não pode ser senão
posições em verso - são, com respeito ao realismo, à infra- 1111111 acomodação habilidosa ou uma singularização grotesca e
-estrutura sociológica, mais brincalhões e mais estilizados, na 1q,ruvtlvcl; o indivíduo representado de forma realista nunca tem,
linguagem, do que Petrônio. Sste fixa sua ambição artística, 11u último dos cusos, razão perante a sociedade, e esta aparece
como um realista moderno, na imitação não estilizada de um como 111s111u1çuo dutln, sem necessidade de explicação quanto à
meio quotidiano contemporâneo qualquer, com sua infra-estru• ~1111 unscm e uo~ seus efeitos, permanente e imutável pano de
tura social, deixando que as pessoas falem seu próprio jargão ~ 1umlo do c11d11 11conlcdmcnlo. rsto também mudou muito nos tem-
Com isto êle atinge o limite extremo que o reali1mo antigo r:nn- po• 111111~ rl't1·11ti·!I. Pura 11 litera111ru rcalist11 antigo, n socicdnclc
28 MIMESIS FORTUNATA 29

não existe como problema histórico, mas, na melhor das hipó- senta como se tivesse existido sempre imutadamente assim, como
teses, como problema moral, e, além do mais, o moralismo se êle aparece aqui e agora, com senhores que deixam aos escravos,
refere muito mais aos indivíduos do que à sociedade. A crítica que satisfazem seus gostos sexuais, grande parte das suas fortu-
dos vícios e das excrescências, por mais que sejam muitas as nas, com imensos lucros, que podem ser obtidos no comércio, e
pessoas retratadas como viciosas ou ridículas, coloca o problema assim por diante. O condicionamento temporal, ou a historicidade
de forma individual, de modo que a crítica da sociedade nunca de tôdas estas circunstâncias, não interessam, como tais, nem a
leva ao desvendamento das fôrças que a movem. Portanto, tam- Petrônio, nem aos seus leitores antigos; só nós os constatamos
bém por trás de tôda a engrenagem que Petrônio nos apresenta, e os modernos estudiosos da história econômica tiram dali as
nada se torna sensível que nos deixe compreender as coisas a par- suas conclusões.
tir das suas ligações econômico-políticas, e o movimento histó- Aqui, porém, topamos com uma questão fundamental e mui-
rico, do qual falamos acima, não é senão um movimento de to difícil. Se a literatura antiga não pôde representar a vida
superfície. · Naturalmente, não achamos que Petrônio devesse quotidiana de maneira séria, problemática e inserida num pano
inserir no seu banquete um estudo de economia política. Ele de fundo histórico, mas somente foi capaz de fazê-lo em estilo
nem precisaria ter ido tão longe como Balzac, que no seu ro- baixo, cômico ou, na melhor das hipóteses, idílico, estàticamente
mance recém-mencionado, Eugénie Grandet, descreve a origem e sem história, isto implica não somente um limite do seu rea-
da fortuna de Grandet de tal maneira que ela espelha tôdãa lismo, mas também, e sobretudo, uma limitação da sua consciên-
história francesa, desde a Revolução até a Restauração. Teria cia histórica. Pois, precisamente nas circunstâncias espirituais e
sido suficiente uma ligação totalmente assistemática, mas cons- econômicas da vida quotidiana manifestam-se as fôrças que. se
tante e consciente, com os acontecimentos e as circunstâncias do encontram na base dos movimentos históricos; êstes últimos, se-
tempo. Os modernos Petrônios ligam .a descrição dos traficantes jam guerreiros ou diplomáticos, ou referentes à constituição inter-
de mercado-negro, por exemplo, à inflação posterior à primeira na do estado, são somente o resultado último de modificações
guerra mundial ou a outros conhecidos tempos críticos. Já Tha- da profundidade quotidiana.
ckeray, ainda que se desenvolva mais de forma moralista do que
propriamente histórica, liga o seu grande romance ao pano de Observemos, neste contexto, um trecho da historiografia an-
fundo da época napoleônica e pós-napoleôoica. Nada disto pode tiga; escolho um texto temporalmente não muito longínquo do
ser encontrado em Petrôoio. Quando se fala, por exemplo, dos banquete, e que representa êle próprio um movimento revolucioná-
preços dos produtos alimentícios ( 44), de outras situações urba- rio em profundidade, o comêço da rebelião das legiões germâni-
nas ( 44, 45 e passim), da história da vida ou da fortuna dos cas após a morte de Augusto, nos Anais de Tácito, capítulo XVI
comensais (além do trecho que mencionamos, sobretudo 57 e e seguintes do livro primeiro. Diz assim:
75 s.), falta tôda alusão a um lugar determinado, a um tempo
determinado, a uma dt;terminada situação político-econômica. Hic rerum urbanarum status erat, cum Pannonicas legiones
Certamente, é claro que se trata de uma cidade do sul da Itália seditio incessit, nullis novis causis, nisi quod mutatus princeps
nos primeiros tempos do Império. Podemos comprová-lo fàcil- licentiam turbarum et ex civili bello spem praemiorum ostendebat.
mente; o moderno estudioso da história econômica pode apro- Castris aestivis tres simul legiones babebantur, praesidente Iuoio
veitar as indicações como material, e os contemporâneos é claro 81aeso, qui fine Augusti et initiis Tiberii auditis ob iustitium aut
que também o reconheciam, possivelmente com maior facilidade gaudium intermiserat solita munia. Eo principio Iascivire miles,
do que nós. Mas Petrônio não faz questão nenhuma do aspecto discordare, pessimi cuisque sermonibus praebere aures, denique
histórico da sua obra. Se' êle o tivesse feito, se êle tivesse ligado luxum et otium cupere, disciplinam et laborem asperoari. Erat
as diferentes circunstâncias e os diferentes acontecimentos com in castris Percennius quidam, dux olim theatralium operarum,
situações político-econômicas determinadas dos primeiros tempos dein gregarius miles, procax lingua et miscere coetus histrionali
do Império, teria surgido aos olhos do leitor um pano de fundo studío doctus. Is imperitos animos et, quaenam post Augustum
histórico, que teria sido completado pela memória - teria militiae condicio, ambigentes impellere paulatim noctumis con-
resultado uma profundidade histórica, ao lado da qual o perspec- loquiis aut flexo in vesperam die et dilapsis melioribus deterrimum
tivismo de Petrôoio, do qual falamos acima, parece mera super- quemque congregare. Postremo promptis iam et aliis seditioois
fície; então poder-se-ia falar realmente, e não só relativamente, rnin1!1tris, velut contionabundus interrogabat, cur paucis centurio-
de movimentação histórica. Mas isto teria explodido o estilo, nlbus, paucioribus tribunis in modum servorum oboedirent. Quan-
dentro do qual Petrônio pretendia se manter, e não teria sido do ausuros cxposcere remedia, nisi novum et adhuc nutantem
possível sem uma idéia, que lhe era inacessível : a idéia das princ1pem prccibus vel armis adirent? Satis per tot annos igoavia
"fôrças" históricas. Tal como é o movimento, não obstante tôda pcccnlum, quod tricena aut quadragena stipendia senes et pie-
a sua vivacidade, permanece dentro dos limites do próprio qua- ' 1q111: tr11nc11to ex vulneribus corpore tolerent. Ne dimissis qui-
dro, atrás do qual nada se move, o mundo fica quieto. fl, sem dcm finem c11~c militiue, scd aput vexillum tendentes alio vocabulo
dúvida, nitidamente uma pintura do época, ma, o tempo ~e 11prc- cosdcrn lnhorc, ]lcrfcrrc. Ac 11i quis lol casus vila supcraverit,
30 MIMESIS FORTUNATA 31

trahi adhuc diversas in terras, ubi per nomen agrorum uligines ganhar alguns dias de licença. E para cúmulo, alternavam-se quo-
paludum vel inculta montium a:cipiant. Enimvcro militiam tidianamente golpes e feridas, duros invernos e pesados verões, a
ipsam gravem, infructuosam: denis in diem assibus animam et cruel guerra e a estéril e sempiterna paz. E para tudo isto não
corpus aestimari: hinc vestem arma tentoria, hinc saevitiam cen- haveria outra solução, senão a fixação de condições para a pres-
turionum et vacationes munerum redimi. At Hercule verbera et tação do serviço militar: o jornal deveria ser de um denário, o
vulnera, duram hiemem, exercitas aestates, bellum atrox aut ste- tempo de serviço deveria ser limitado a dezesseis anos; além disto,
rilem pacem sempiterna. Nec aliud levamentum, quam si certis não de·;eriam ser colocados na reserva, mas a sua provisão deveria
sub legibus militia iniretur: ut singulos denarios mererent, sextus ser-lhes paga no próprio acampamento, em dinheiro. Ou seria
que as coortes pretorianas, às quais tinha sido então concedida uma
decumus stipendii annus finem adferret: ne ultra sub vexillis paga de dois denários e que ficavam livres após dezesseis anos de
tenerentur, set isdem in castris praemium pecunia solveretur. serviço, estavam expostas a maiores perigos? Longe dêle a idéia
An praetorias cohortes, quae binos denarios acceperint, quae post de pretender apoquentar a notória importância da guarnição de
sedecim annos penatibus suis reddantur, plus periculorum susci- Roma; contudo, viviam entre selvagens e podiam ver o inimigo do
pere? Non obtrectari a se urbanas excubias; sibi tamen apud próprio acampamento ...
horridas gentes e contuberniis hostem aspici. - Adstrepebat A multidão tributou ruidoso aplauso; cada um lembrou das
vulgus, diversis incitamentis, hi verberum notas, illi canitiem, suas queixas; êste mostrava as marcas dos açoites, aquêle seu ca-
plurimi detrita tegmina et nudum corpus exprobrantes ... belo acinzentado, 09 mais, as roupas rasgadas e os corpos nus ...
* *
Assim estavam as coisas em Roma, quando eclodiu nas
legiões panônicas uma rebelião, não por qualquer causa nova, mas À primeira vista perece que êste texto daria expressão, de
porque a mudança do trono parecia prometer oportunidade para um maneira extremamente severa, a um movimento das camadas mais
levantamento e uma possível guerra civil, esperanças de ganhos. baixas, com exata representação dos motivos prático-quotidianos,
Lá estavam, no mesmo quartel de verão, três legiões, cujo coman- do pano-de-fundo econômico e dos verdadeiros acontecimentos
dante, Júnio Blaeso, ao saber a notícia da morte de Augusto e- na sua eclosão. As queixas dos soldados, da maneira como são
da entronização de Tibério, ordenou a interrupção dos costumeiros expostas no discurso de Percênio - serviço demasiado longo e
trabalhos, devido aos dias de luto e de festa. Com isto, a tropa pesado, paga insuficiente, deficiente previsão para a velhice, cor-
saiu da ordem e da obediência; começou a dar ouvido a discursos·
subversivos, a desejar uma vida confortável e ociosa, a se opor à rupção, inveja da melhor posição das tropas metropolitanas -
disciplina e ao trabalho. Estava no acampamento um certo Per- são apresentadas com uma vivacidade e plasticidade raras até
cênio, que antes tinha sido chefe de uma claque teatral, agora em historiadores modernos - Tácito é um grande artista, em
soldado raso; possuía uma língua procaz e, graças ao seu antigo cujas mãos as coisas se tornam penetrantes e· vivas. O suposto
ofício, uma certa habilidade em dirigir multidões. 1!ste começou a historiador moderno teria procedido de modo muito mais teóri-
incitar os homens inexperientes, que se preocupavam acêrca da co ( e, possivelmente, mais papelório); nesta ocasião, não teria
situação do ofício de soldados após a morte de Augusto, em reu- feito Percênio falar, mas teria feito uma investigação objetiva e
niões noturnas, ou também ao entardecer, quando os mais inteli- documentada das condições salariais e previdenciais, ou teria
gentes já se tinham dispersado, e os piores se reuniam ao seu redor. remetido o leitor a uma investigação semelhante, que se encon-
Finalmente, quando já se tinha achado uma certa quantidade de traria em outro lugar da sua obra ou da obra de um colega; a se-
outros agentes da sedição, êle ordenou uma reunião geral, como guir, teria discutido a legítimidade das exigências, teria feito uma
se fôsse comandante em chefe, e dirigíu aos soldados as seguintes retrospecção acêrca da política governamental posterior nesse se-
perguntas: por que obedeciam como escravos a um pequeno número
de centuriões e um número ainda menor de tribunos? Quando se tor, e assim por diante. Tudo isto, Tácito não faz, e o hodierno
atreveriam a impor uma melhora da sua situação, se não agora, historiador da Antigüidade vê-se na necessidade de reorganizar
quando podiam exercer sôbre o nôvo príncipe, ainda inseguro na totalmente o material que os historiadores antigos lhe oferecem,
sua posição, uma pressão, mediante exigências e ameaças armadas? l·omplernentando-o por meio de inscrições, descobertas arqueo-
Tinha-se suportado, por covardia, durante demasiado tempo, que lól?icas e tôda espécie de testemunhos mediatos, para poder uti-
se estivesse obrigado a servir durante trinta ou quarenta anos, até lizar a sua maneira de ver as coisas. Tácito só traz as queixas
a velhice, e amiúde com o corpo mutilado por feridas. Mesmo ..: as exigências dos soldados, que lançam uma luz sôbre a sua
após a baixa, o serviço não teria acabado, pois iriam para a reserva ~itu11ção quotidiana e objetiva, somente cómo uma declaração do
e teriam de servir do mesmo jeito, sob outro nome. E mesmo l' nbecilha Percênio. ~le não acha necessário discuti-las, pergun-
quando algum suportasse tantas fadigas, êle seria enviado a países tnr 11c e cm que medida eram justificadas; explicar corno a situa-
longínquos, onde receberia pântanos ou terrenos montanhosos in- çllo dos ,old11doa romanos se tinha transformado, por exemplo,
cultos para lavrar. O próprio serviço militar seria esgotador e mal desde II Rcpúhlica, ou coisas semelhantes. Tudo isto não lhe
pago: corpo e alma valiam dez asses ao dia; e disto, seria ainda 1rnrc,c digno de 11cr tratado e, evidentemente, êle podia contar
necessário pagar as vestimentas, as armas e as cabanas, e ainda com que tumhém os seus leitores niio sentiriam falta de nada
pagar subornos para se livrar das pcr,01111içõc:~ do, centuriõc~ e d1at11, Atmln 1111118, fllc dcsvnlori1.11 de nntcmnn n~ mformnçõc~
FORTUNATA 33
MIMESIS
32
to que apresenta como a historiografia antiga não atingiu nunca, nem nunca se propôs

discurso de_ u~ cabec1_lha} ~a -::.e~


o!Sjetivas acêrca das c_ausas do le~~::ª!:nqu~ não os discute mais
a verdadeira causa do motim
adiante, J?OIS lª no prmcipioar fa. nullis no-vis c1U1sis, nisi quod
uma representação das idéias gerais, das idéias que impulsionam
o mundo". - E Rostovtezeff, no seu livro sôbre socieda.d~ e eco-
nomia no Império Romano (edição alemã, I, 78), escreve: "Os
de maneira puramente mor is . . ·1· bello spem prae- historiadores não se interessam pela vida econômica do Império."
. r ( m turbarum et ex c1v1 1
Estas duas manifestações, escolhidas ao acaso, não parecem ter
m~tatus prmcep~ icen~~ é possível dizê-lo de maneira mais,_pe-
m1orum ostende at . ..!-º tudo na-o passa de insolência plebeia e muito em comum, à primeira vista, tnas o que elas exprimem
·
iora t·1va. Na .sua . opm1ao,
. . , da interrupção do serviço · cos- remete à mesma peculiaridade da maneira antiga de ver os acon-
P.\
de falta de d1sc1pl_ma, a cu1 e ·tam diz Faraó dos judeus); tecimentos: ela não vê as fôrças, mas somente vícios e virtudes,
êxitos e erros; a sua maneira de colocar os problemas não é
tumeiro (estão ociosos, ~r istr~b~~ à palavra novis, porventura:
deve-se ter cautela par11; n3:~- a ão de velhas queixas; nada esta espiritual nem materialmente histórico-evolutiva, mas moralista.
o recooheciment_o da Just1d1caT\c1·to 1=:le salienta, uma e outra Isto está, porém, na mais exata das relações com a concepção
mais · Jonge das mtençoes . . ed. 'd"' os ·os que se prestam, de 1ruc10,
· ' · geral, que se manifesta na separação dos estilos entre o trágico-
vez, qu~ são só º~-p~or~~ ipenl~v1lí~er P~rcênio, ex-chefe da cl~que -problemático e o realista; ambas baseiam-se num mêdo aristocrá-
ao movimento se 1cio~ , . w1· que faz como se fosse tico diante do devir que se realiza na profundidade, e que é
seu h1smona1e st ium,
teatra1, com o . b d ) êle nutre O mais profundo des- sentido como sendo vil, orgiástico e carente de lei. Todavia,
general ( velut contwna un us , limitados pelas fronteiras dos nossos temas e do nosso conhe-ci-
prêz.o. . ande vivacidade de Tácito mento, devemos contentar-nos com algumas observações da ordem
Evidencia-se, portant_o, que a. ~ncias dos soldados não se das ciências humanas, que importam, aqui, para a nossa intenção.
na apresentação .das queixas e e:7npreensão destas exigências. A espécie moralista e amiúde, ainda, estritamente cronológica da
baseia, de maneira _alguma, na te a partir da sua peculiar historiografia, que trabalha com categorias de ordem imutáveis,
Isto poderia ser explicado, _natur~_m:.nu~a legião em revolta não não pode produzir formações conceituais sintético-dinâmicas, co-
posição, conseryadora e ansto::s~ca ~em lei. um soldado raso no mo as que empregamos hoje. Conceitos como "capitalismo in-
dustrial" ou "economia de plantações", que são sínteses de carac-
papel de chefe rebel e escapa
blico, pôsto que mes~o . nos em . , ios
t
é, para êle, mais do Jue uma . tôda classificação de direito pú-
pos revolucionários da história
diam perseguir os
terísticas objetivas, mas que também são aplicáveis especialmente
fl determinadas épocas, e, por outro lado, conceitos como Renas-

romana, os mais. rad1~ais revolu:;~:et:a burocrática. Outrossim, cimento, Iluminismo, Romantismo, que, antes de mais nada,
seus fins somente mclumdo-se na . , fôra ameaçadora durante as significam épocas, mas que são também sínteses objetivas e que,
a crescente fôrça das tropas, que ldª . . tôda a estrutura do às vêzes, são também aplicáveis a épocas diferentes daquelas que
. . e mais tarde estruma . - uriginalmente distinguiam, modelam as manifestações no seu mo-
guerras c1v1s,, e qu . d . 't apreensivo. Mas esta exphcaçao
estado, deve te-lo de~a, o ~ui o não tem compreensão, mas ta1!'- vimento; perseguem-se as suas características na sua aparição, ini-
não é suficiente. F'?is e~e na? só objetivo pelas exigências; êle nao cialmente isolada e, logo, aglomerada numa difusão cada vez mais
bém não tem o m1rumo interesse em se dá ao trabalho de densa e, finalmente, no seu refluxo, na sua transformação e no
polemiza objetiv~ent~ ~o~~~~a~~ss, ~o contrário, algumas cm~- seu desaparecimento, e é essencial em tôdaso estas formações con-
demonstrar que se1am IDJUS ! (l' en· tia spes praemiorum, pess,- ceituais que o seu devir e transformar-se, ou seja, a noção evo-
. -
s1deraçoes puramente . morais ,e ' para tirar-
. ') bastam-lhe • Ihes t'd
O
ª fôr- 1utiva, já seja pensada conjuntamente com elas. Em oposição, as
mus quisque, inexpert1 amm1 tempo tivessem existido men- formações conceituais moralistas ou, até, políticas da Antigüidade
ça desde o princípio. ~ra, se no ~e~rvado as ações dos homens de ( aristocracia, democracia, etc.) são imagens modelares fixadas
talidades opost~s, que _ovess.e:f ~a~s baseado na história do desen- e, príori, e de Vico a Rostovtzeff, todos os modernos pesquisado-
urn ponto de vista mais s?ci . , bri ado a considerar a sua colo- res estão empenhados em dissolvê-las, em chegar à forma prá-
volvimento, Tácito ter-se-ta vtsto o godo que no nosso passado tica, compreensível pelo nosso pensamento, forma que se oculta
cação de probl~J!1as - do ~esm;~m se vi~ obrigado a tomar sempre atrás delas, e que só podemos alcançar mediante a pes-
imediato, o pohtico conslerva oros a tratar polêmicamente a co- quisa e a reordenação das características. Na página da obra de
em cons1"deraça-o ou, pe o ,men . d' seus opositores soc1a . 1·tst as, o Rostovtzeff que abri para controlar a citação acima, a primeira
_ dos problemas poht1cos
. os ata penetraçao
_ nos mesmos.
locaçao . . 1ru~e diz assim: "Todavia, coloca-se o problema de como expli-
..
que, frequentemen te , ex1gta
. uma
di ex ois não podia haver tais · car a presença de uma quantidade relativamente grande de proles
Tácito não tinha ne:e~-~1dade nã;t:~i~tiu uma pesquisa histórica lários na Itália." Uma frase como esta, a colocação de semelhante
adversários. Na Antigu1dad;d. mente do desenvolvimento dos 1x·r1tun1a, iicria inimaginável num autor antigo. Ela vai além dos
profurida, que tratasse i_n~t _1ca I 'á foi notado, de passagem, nmvimcnlo~ do primeiro plano e procura as modificações dos
movimentos sociais e espmtuats.. sto J N·orden na sua Antike 11cuntcdmcnto~ histórico-evolutivos que lhe interessam, as quais
por pesquisa • dores modernos • tais .como .. devemos' considerar que ucnh11111 111111,r 1t11tijto pcrcl.'hc11 ou chegou n colocnr em contexto
Kunstpro.rci (II, 647), que escreve. . ..
34 MIMESJS FORTUNATA
35
sistemático algum. Se abrirmos, por exemplo, a obra de Tucí- sensato'. mi:s não mesquinho; às vêzes encontram-se até começos
dides, encontramos, ao lado do relato contínuo dos acontecimen- de explicaç~o d~s caracter.e~ através da sua história pessoal, como
tos do primeiro plano, nada além de considerações de conteúdo n~ ;~ractenza?ª? de Catilma por Salústio, e, sobretudo, na de
estático-apriorístico-moral, acêrca, talvez, do caráter humano ~•beno por Tac1to. Mas aqui está o limite. Moralismo e retó-
ou do destino, as quais, ainda que sejam aplicadas em cada caso r:ca são inconciliáveis com a compreensão da realidade como
a uma situação determinada, não deixam de ter, em si, valor ev~lução de fôrças; a historiografia antiga não nos dá nem a his-
absoluto. tór~a. de ~ povo, nem a história da economia, nem a história do
Voltemos a nosso texto de Tácito. Se êle não se interessava, esp~nto; so de forma mediata podemos obtê-las dos fatos trans-
de maneira alguma, pelas reivindicações dos soldados e não tinha mtlldos. E, por. mais enormemente diferentes que sejam os dois
a menor intenção de enfrentá-las objetivamente, por que as text<?_s . que consideramos, o discurso do vizinho de mesa, em
exprime com tanta vivacidade no discurso de Percênio? Isto Pe_tro01?, e o le~a~te dos soldados panônicos, em Tácito, ambos
tem motivos puramente estéticos. Fazem parte do estilo da grande ev1denc1a~ os hm1tes do realismo antigo e, com isto, também
historiografia os grandes discursos que, na maior parte dos casos, os da antiga consciência histórica.
são fictícios; servem para a evidenciação dramática (illustratio) i:_resu~ir-.se-á qu~, para encontrar um exemplo antitético,
do acontecimento, às vêzes também para a explicação de grandes onde estes hm1tes esteJam ampliados, deverei considerar um texto
pensamentos políticos ou morais: em qualquer caso, devem ser moderno. _Mas mesi:no nesh: :aso estão à minha disposição os
os ápices retóricos da exposição. Permite-se-lhes uma compene- textos da ht~r~tura JUdeo~cnsta. aproximadamente contemporâ-
tração nos pensamentos daquele que é representado discursando, neos de Petro010 e de Tácito. Escolho a história da negação de
também um certo realismo, mas, em essência, são produtos de Ped~o e sigo a redação de Marcos; as diferenças que apresentam
uma determinada tradição estilística, que era cultivada nas escolas os Smópticos são insignificantes.
dos retóricos; redigir discursos que êste ou aquêle teria dito nesta Ap?s a prisão de· Jesus - só êle foi derido e: deixou-se
ou naquela grande ocasião histórica, era um exercício que estava que fugissem os que o rodeavam - , Pedr.:, s.;:gni11 de longe os
na moda. Tácito é um mestre, e os seus discursos não são mera ho'!lens arma_d?s que levavam Jesus e atreveu-se a chegar até 0
ostentação, mas estão realmente carregados do caráter e da si- pát~o do palac10 do sumo sacerdote onde, coinoJ ~e fi',sse um
tuação do homem que é representado discursando; mas também ~uno~o alheio aos fatos, ficou perto do fogo com os criados. Com
êles são, antes de tudo, retórica. Percênio não fala a sua pró- isto, ele_ mostr?u mais valentia que os outros; visto que pertencia
pria língua, mas o tacitéico, extremamente comprimido, magnifi- ao séq~1to mais chegado ao detido, o perigo de ser r<!conhecido
camente disposto e altamente patético. Sem dúvida, nas suas cr~ mu,~o grande; e de fato, enquanto está junto ao fogú, uma
palavras, que, aliás, estão em linguagem indireta, vibra a ver- errada diz na sua cara que êle pertencia ao grupo de Jes11-;. f:le
dadeira agitação dos soldados rebeldes e do seu líder; só que, nega e tenta desaparecer despercebido de perto do fogo· possl-
ainda que admitamos que Percênio fôsse um talentoso orador vclmente, porém, a criada observou isto, segue-o até o ~nte-pá-
popular, nenhum discurso de propaganda revolucionária se com- 110 e repete a sua acusação, de modo que os circunstantes a
porta de maneira tão sucinta, aguda e ordenada; e não há o ouçam; ele_ torna a negar, mas agor~ ~á chamou a atenção o seu
menor traço de gíria soldadesca (Tácito menciona um apelido tl1nl_cto galileu,~e a situação começa a se tornar extremamente
popular, Cedo alteram, no capítulo 23). O mesmo vale para as perigosa para ele. Como escapou dela não é contado· não é
palavras do soldado Vibuleno no capítulo 22, as quais são des- v~ross!mil que s~ tivesse d~do_ mais crédito à sua terceira pro-
valorizadas como mentira já no capítulo seguinte; são por de- tcstoçao do que as duas pnme1ras; talvez a atenção dos circuns-
mais emocionantes, mas, também, retoricamente estilizadas no 1.i~t~s fôsse desviada por algum outro acontecimento; talv~z
mais alto grau. Ainda que, como observa J. B. Hofmann no seu cit1sllssc também a ordem de deixar em paz os acólitos do detido
livro sôbre a linguagem latina coloquial (Heidelberg, 1926, § enquanto n~o oferecessem resistência, de modo que bastou expul:
63), a anáfora muito empregada aqui (quis fratri meo vitam, quis ,.ir o suspeito.
fratrem mihi reddit), tivesse sido muito usada popularmente, À p__rimeira v:ista já se percebe que aqui não se pode falar
não deixa aqui de ser o caso de um movimento retórico de l'lll d1v1sao de es~los. A cena! que pela sua localização e per-
estilo elevado e não da linguagem dos soldados. E esta é a Minngcns considere-se especialmente o seu baixo nível social
segunda característica diferenciadora da historiografia antiga: ela ~ csscncialme~t7 realista, apresenta a mais profunda proble-
é retórica. Moralismo e retórica conferem-lhe um alto grau de 11111t1c1dudc e lrug1c1dodc. Pedro não é uma figura de cena que
ordem, clareza e eficiência dramática; no caso dos romanos, jun- IK'rvc sómente paro a illustratio, como os soldados Vibuleno e
ta-se a isto o seu amplo e unitário olhar sôbre um vasto cenário, ••~•1 cênw, 411c ~l\u 11prcsentados como meros patifes e tratantes,
no qual se desenrolam os acontecimentos políticos e militares; a 1111n é, no 1111111 dcv11do e no mais profundo, no mais trágico
estas qualidades irmana-se ainda, nos grandes autores, um conhe- lloM 11cnt1ll11~. 1111111 111111gcm do homem. Evidentemente, cstn mis-
cimento realista do coração humano, ha~eado na citpcriSnc1a, 111rn d,,- llllllf'OI cMilí~tico, nau 11nplica intcnçao artí~tica 11lgurn11,
36 MIMESIS FORTUNATA 37

mas está baseada, primordialmente, no caráter dos escritos. j~de?- entre pessoas do dia-a-dia, do povo. Coisa semelhante só é con-
cristãos manifestando-se com maior deslumbramento e evidencia cebível na Antigüidade como farsa ou comédia. Por que não
na enc~rnação de Deus num homem do mais baixo nível soci'.11, é assim, por que desperta a participação mais séria e significa-
na sua peregrinação sôbre a terra entre homens comuns e cir- tiva? Porque apresenta algo, que nem a poesia antiga nem a
cunstâncias ordinárias e na sua paixão, ignominiosa segundo os historiografia antiga jamais apresentaram: o surgimento de um
conceitos terrenos, infh....:nciando, evidentemente, da maneira mais movimento espiritual nas profundezas do povo comum, em meio
decisiva, os próprios conceitos do trágico e do sublime, graças aos acontecimentos ordinários e contemporâneos, que ganham,
à grande difusão e repercussão que êstes escritos encontraram_ em assim, uma significação que nunca lhes coube na literatura anti-
tempos posteriores. Pedro, a cujo próprio relato remontaria a ga. Acorda perante os nossos olhos "um nôvo coração e um
narração, era um pescador de Galiléia, da mais simples origem nôvo espírito". O que aqui é dito não se refere somente à ne-
e educação; as outras pessoas que intervêm na cena noturna no gação de Pedro, mas a todos os acontecimentos que são narrados
pátio da casa do grão-sacerdote são criadas e soldados. Pedro nos escritos do Nôvo Testamento. Nêles trata-se sempre da
é convocado, da vulgar quotidianidade da sua vida, para desem- mesma questão, sempre do mesmo conflito, que se apresenta
penhar o mais po~entoso dos papéis; aqui, a ~u~ aparição, ass~ fundamentalmente a todo homem, e que é assim, aberto e infi-
como tudo, aliás, o que tem a ver com a pnsao de Jesus, nao nito - o mundo todo entra em movimento por sua causa -
passa, no contexto histórico-universal_ do Império Romano, de um enquanto que os enredos pelo destino e pela paixão, que a Anti-
incidente provinciano, um acontecimento local ~em . qualquer güidade greco-romana conhece, interessam imediatamente só o
significado, do qual ninguém, a não ser as, pesso~s n~ediatamente indivíduo atingido. Só na relação mais geral, isto é, só porque
envolvidas, toma nota; contudo, como e cons1deravel o mero somos ~êres humanos, ou seja, submissos ao destino e à paixão,
fato, em relação à vida normalmente levada por um pescador do sentimos "temor e compaixão". Mas Pedro e as outras persona-
lago de Genesaret e que imensa oscilação pendular (Harnack gens dos escritos do Nôvo Testamento estão em meio a um mo-
empregou esta mesma expressão quando falav~, _certa ve~, _da vimento geral em profundidade, movimento que se limita, pro-
cena da negação) realiza-se nêle! A~ando~ou _patna e prof1s~ao, "isôriamente, quase que só a êles, e que só muito paulatinamente
seguiu o seu Mestre a Jerusalém, foi_ o pnme1ro ~ re~onhece-lo ( na história dos Apóstolos já aparecem os inícios) avança para
como Messias; quando a catástrofe irrompeu, fo1 mais vale~te o primeiro plano histórico. Todavia, êste movimento pretende,
que os outros; não só foi daqueles que tentaram oferecer resis- já desde o princípio, ser aberto, concernente por igual e imediata-
tência, mas também, quando o milagre que certamente esperav~ mente a todos os homens e absorver em si todos os conflitos
não se deu, teve o impulso de seguir Jesus ainda uma vez. So meramente pessoais. Aqui aparece um mundo que, por um lado,
que se trata somente de um impulso, um seguir pela metade _e 6 reconhecível de maneira totalmente real e quotidiana, espaciai
temeroso talvez motivado pela confusa esperança de ver reali- e temporalmente; por outro lado, .êste mundo é mexido em seus
zar-se ai~da o milagre pelo qual o Messias aniquilaria os seus nliccrces, modifica-se e renova-se perante os nossos olhos. Tuite
inimigos. E visto que o seu seguir só é uma eml?rêsa_ leva?ª até ncontecer temporal, que se desenvolve em meio à vida quotidiana,
a metade, titubeante, temerosa e oculta, Pedro cai mais baixo do é um acontecer revolucionário universal para o redator das escri-
que os outros, que pelo menos não tiveram ocasião de negar turns do Nôvo Testamento, assim como o será mais tarde para
Jesus· a êle acontece, como acreditava mais profundamente do todos os homens. Elucida-se como movimento, como fôrça de
que ~s outros, mas não com profundidade suficiente, o pior que t•l1i.:1êncm histórica, pelo fato de que repetidamente é descrito
pode acontecer a um crente recentemente fervoroso: teme pela o resultado dos ensinamentos da pessoa e do destino de Jesus
sua pobre vida. E é de todo crível que, ~rec~samente~ desta ")hrc pessoas quaisquer. Quando ainda não é totalmente com-
tremenda experiência, resultasse uma nova oscilaçao do pendulo ptcl•nslvcl e exprimível qual a meta real do movimento (êle não
- desta vez em sentido contrário, e ainda mais forte: do deses- i• f/1<.:ilmcnl"e limitável e explicável na sua essência), já se des-
pêro e do r;morso pela sua extrema arrenegaçâo surgiu a pron- < ll'VC com abundância de exemplos o seu efeito impulsionador, o
tidão para as visões, que contribuíram decisivamente para a cons- M'II lhur e refluir entre o povo. A um escritor grego ou romano
tituição do cristianismo; só após esta experiência abre-se ante 111111c11 teria ocorrido descrever tão pormenorizadamente um tal
Pedro o sentido do advento e da paixão de Cristo. ""~111110. P.stcs descrevem um movimento popular só como ati-
Uma figura trágica de tal procedência, um herói de tal de- 111,h: d111nti.: de algum conjunto prático de acontecimentos, como,
bilidade, mas que ganha de sua própria fraqueza a maior das 11111 c~i·mplo, '1'11cíd11.les faz com a atitude dos atenienses perante
fôrças, um tal vaivém do pêndulo, tudo isto é incompatível co~ 11 pl11110 dl• um11 cxpctliçao à Sicília. Tal atitude é caracterizada
o estilo elevado da literatura clássica antiga. Mas também a espe- 1i1luh,tl111rntc como uprovntóriu, rejeitante, titubeante ou, até, tu-
cie e o cenário do conflito ficam totalmente fora dos limites da 111111!1111~,1, dn 111111w1rn como ~cria vista, por assim dizer, por
Antigüidade clássica. Olhando-se de fora, trata-se de uma ação 111,1 1·,p1•1•tr1du1 q111· 11 olhas,c de cima; nunca, porém, poderia
policial e das suas conseqüências desenvolve-se totalmente ti• 1111(1•u•1 11111 M 11·,1çõ1•s ck líio clifrrcntc n11t11rc1.11 cm tnntn~
38 MIMESIS FORTUNATA 39

personagens de extração popular se convertessem em tema central :onceitos histórico-evolutivos da ciência, no horizonte histórico;
da representação. Aquilo que os Evangelhos e a história dos isto é uma diferença decisiva; e, não obstante, seja qual fôr a
Apóstolos descrevem em longos trechos dos seus conteúdos, o espécie do movimento que as escrituras evangélicas introduziram
que se reflete também muito amiúde nas epístolas de Paulo, é, na observação do acontecer, o essencial é ainda o seguinte: que
muito evidentemente, o surgimento de um movimento em pro- as camadas profundas, que nos observadores antigos eram imó-
fundidade, o desfraldar-se de fôrças históricas. € essencial que, veis, entram em movimento.
com isto, apareçam grandes quantidades de pessoas quaisquer, Nesta forma de observação não cabem nem o moralismo,
pois só em muitas pessoas de tôda classe é possível dar vida a nem a retórica, no sentido clássico. Um caso como o da nega-
tais fôrças históricas, nos seus efeitos de fluxo e refluxo. Como ção de Pedro escapa, já pela violenta oscilação do pêndulo no
quaisquer, entendemos pessoas das mais diversas origens sociais, coração do mesmo homem, a todo julgamento baseado em cate-
profissionais e econômicas, que devem o seu lugar na apresenta- gorias imóveis, e, para uma concepção que não procura a justi-
ção somente ao fato de serem atingidas, por assim dizer, casual- ficação nas obras, mas na fé, o moralismo perdeu sua posição
mente pelo movimento histórico e verem-se obrigadas, assim, a condutora. E o mesmo vale para a retórica. E: claro que as
assumil uma determinada atitude diante dêle. Desta maneira, a escrituras do Nôvo Testamento estão redigidas de forma alta-
antiga convenção estilística cai por si só, pois a atitude da pessoa mente efetiva. A tradição dos profetas e dos salmos age nêles, e
atingida não pode ser representada, em cada caso, senão com a nalguns, originários de redatores de formação mais ou menos
mais profunda seriedade. Um pescador, um publicano, um jovem helenística, é comprovável também o emprêgo de figuras de dicção
rico qualquer, uma samaritana qualquer, uma: adúltera qualquer, helênicas Mas o espírito da retórica, que classificava os objetos
são arrancados das circunstâncias vulgares e quotidianas de suas em gêneros, genera, e vestia cada objeto com um determinado
vidas e imediatamente colocados diante da aparição de Jesus, e, estilo, como se se tratasse da roupagem que lhe correspondia pela
seja qual fôr a sua atitude neste instante, necessàriamente haver_á sua essência, não podia predominar, já pelo fato do seu objeto
profunda seriedade e, amiúde, tragicidade. A antiga regra estl· não poder ser classificado em nenhum dos gêneros conhecidos.
lística, segundo a qual a imitação realista, a descrição de qualquer Uma cena como a da negação de Pedro não cabe em nenhum
quotidianidade não poderia ser senão cômica ( ou, quando ~uito, genus antigo; demasiado séria para a comédia, demasiado quoti-
idílica), é, portanto, inconciliável com a representação de forças diano-contemporânea para a tragédia, demasiado insignificante po-
históricas, enquanto esta última formular as coisas concretamente, llticamente para a historio'grafia - e, ainda, adquiriu uma forma
pois então tal representação vê-se obrigada a descer nas profun- de imediação, que não existe na literatura antiga. Isto pode
dezas quotidianas e vulgares da vida do povo e deve levar a sério hCr medido num sintoma que pode parecer insignificante à pri-
o que ali encontrar. Vice-versa, a regra estilística só pode persistir meira vista: na utilização do discurso direto. A criada diz:
quando se renuncia à concretização de fôrças históricas ou quan- "Tnmbém tu estavas com Jesus de Nazaré!" Sle responde:
do nem se sente a sua necessidade. É claro que a evidenciação "Nilo sei, nem compreendo o que dizes." Depois a criada diz
das fôrças históricas nas escrituras evangélicas é, como delas nos circunstantes: "&te faz parte do grupo dêle." E ·diante da
próprias se depreende, profundamente "a-científica"; permanece ~110 renovada negação, os circunstantes intervêm: "Certamente
no concreto e não passa a ordenar sistemàticamente as experiên- 111 és daqueles; pois falas como galileu!" Não creio que haja
cias em imagens conceituais. Mas, de maneira totalmente espon- 1111m historiador antigo uma passagem onde o discurso direto
tânea, formam-se conceitos de ordem, tanto para épocas, como ,,,J11 usado desta forma, num diálogo curto e direto. Em tais
para estados interiores, que são muito mais móveis, em si mais 11111 uR 11ão raras, em geral, as conversações entre poucas pessoas;
dinâmicos do que as categorias da historiografia greco-romana. ,11111nclo muito aparecem na historiografia biográfico-anedótica,
Assim, por exemplo, a divisão dos tempos, em tempos da lei e ,. 1111 truta-se quase sempre de respostas famosas, cujo valor não
tempos do pecado, tempos da graça, da fé e da justiça, os con· 11·~itlu no realista-concreto, mas no retórico-moral, aquilo que
ceitos "amor", "fôrça", "espírito" e semelhantes. ·E até nos con- 11111iH rnrdc, na novelística italiana do século XIII, chamou-se um
ceitos abstratos e estáticos, como, por exemplo, no conceito da /,.-/ 1mrlarc; é o caso das famosas anedotas de Creso e Sólon.
verdade ou da justiça, penetrou um movimento dialético (João, 1 111 l!Cr:il, porém, o discurso direto limita-se, nos historiadores
14, 6; Romanos, 3, 21 ss) que os renovou inteiramente. A isto 1111i11n~, às grandes alocuções concatenadas, dirigidas por alguém
está ligado tudo aquilo que trata da transformação e renovação ,111 St•nntlo, no povo, aos soldados - lembre-se o que foi dito
internas, pelo que as palavras pecado, morte, justiça e outras, não 111 i11111 ncêrcu tio díscurso de Percênio. Nos Evangelhos, porém,
mais exprimem somente ação, acontecimento, qualidade, mas es- 11 d111111~t1cn du lnNluntc cm que as personagens estão frente a fren-
tágios de uma transformação interna e histórica. Naturalmente 11 ~,1111,• w111 11nH1 iinccllutícidade, comparada com a qual mesmo
não se deve esquecer, com isto, que o caminho desta transfor- 111 ,ll11l1111m du trngédm unliga (stlchomythial) têm um efeito
mação leva para fora da história, para os tempos finais ou para 111111111 1.•~11h1,1tl11 cumédiu, Rátirn e outrus coisas semelhantes
a sempiternidade, ou seja, para cima, e niio permanece, como os 11 1111 p111k111 w1 11111!1.mlus pmn compnrn~·l'lo, e mesmo nclus deve-
40 MIMESIS FORTUNATA 41

rá procurar-se bastante para encontrar algo semelhantemente ime- nela, nem o panorama racionalmente ordenador, nem a intenção
diato. Nos Evangelhos, entretanto, encontram~e numerosos artística. O sensível-intuível que aqui aparece não é imitação
diálo~os frent~ a frente. Espero que êste sintoma, o emprêgo consciente e, por isto mesmo, é raramente executado até o fim.
do discurso d1Teto para a conversação viva, caracterize suficien- Aparece porque está aderido aos acontecimentos que devem ser
te~ente, I?~ª os nossos fins, a relação entre os Evangelhos e a relatados, porque se manifesta nos gestos e palavras dos homens
antiga retonca, de modo que não precise entrar em mais detalhes interiormente comovidos, sem que se fizesse o menor esfôrço
acêrca ~o p~~blema _todo, que já foi tratado muitas vêzes (reme- na tarefa de modelá-lo. Mesmo Tácito, tão propositadamente
to ao hvro Ja mencionado de Norden, acêrca da prosa artística conciso, descreve homens exterior e interiormente, pinta situa-
antiga). ções. Ao redator do Evangelho de Marcos falta todo ponto de
Em última análise, as diferenças de estilo entre os textos vista para uma representação objetiva do caráter, digamos, de
antigos e os primeiros textos cristãos residem em que foram es- Pedro. füe está enfiado no meio dos acontecimentos significa-
critos a partir de diferentes pontos de vista e destinados a homens tivos, êle só considera e comunica o que é signüicativo em
diferentes. Por mais diferentes que sejam em outros sentidos relação ao advento e à ação de Cristo, de modo que, no caso
Petrônio e _Tácito !êm o mesmo ponto de vista, quer dizer: em questão, êle nem pensa em nos comunicar como a coisa aca-
ol~am de crma. Tacito escreve a partir de uma visão panorâ- bou, isto é, como Pedro conseguiu escapar. Tácito e Petrônio
mica da pletora de aconteciwentos e afazeres, ordena-os e jul- querem tornar sensivelmente compreensíveis acontecimentos his-
ga-os coi_no um homem da mais alta posição social e educação. tóricos o primeiro, uma determinada camada social o segunde, e
Se com isto nada cai no árido ou ininteligível, deve-se não so- o fazem dentro dos limites de determinada tradição estética; o
mente ao seu gênio, mas também à incomparável cultura do redator do Evangelho de Marcos não tem esta intenção, nem
sensível-inteligível da Antigüidade em geral. Mas o mundo dos conhece uma tal tradição e, por assim dizer, sem a sua colabora-
seus semelhantes, para o qual escreveu, pedia o sensivelmente ção, meramente pela comoção interna daquilo que êle relata, a
intuível nos limites do gôsto fixado por uma longa tradição - narração converte-se e mcontemplação. E o relato dirige-se a to-
sendo que já nêle aparecem sinais de uma transformação dêsse dos; todos são convocados, obrigados até a se decidirem a favor
gôsto, no sentido de um maior relevamento do sombriamente ou contra o relato; já o mero descaso é uma tomada de posição.
horrenqo, sôbre o que voltaremos mais adiante. Também Petrô- Certamente, no princípio havia impedimentos práticos para a sua
nio vê _de cima o mundo que pinta: o seu livro é um produto efetividade. Desde logo, a anunciação era apropriada, pela sua
da mais elevada cultura, e espera leitores que estejam a uma forma lingüística e pelos seus peculiares pressupostos de fé e de
tal altura de formação social e literária, que compreendam ime- vida, sômente para judeus. Mas a rejeição que sofreu por parte
diata e naturalmente tôdas as nuanças das infrações sociais da dos círculos dirigentes em Jerusalém e da maioria do povo levou
b~xeza da língua e do gôsto. Por mais vulg_a r e grotesco 'que o movimento para a magna emprêsa da missão entre os gentios,
seia o assunto, a representação nada tem da grosseira comicidade que, significativamente, foi iniciada por um judeu da diáspora: o
d:l1~ farsas populares. Cenas como, por exemplo, o discurso do npóstolo Paulo. Desta forma, porém, fêz-se necessária uma adap-
lllçi10 da anunciação às condições de um círculo muito mais
vizinho de mesa ou a disputa entre Trimalcião e Fortunata,
mostram, certamente, um pensamento dos mais baixos e vulgares, nmplo de destinatários, um desligamento dos pressupostos espe-
mas o fazem com um tal refinamento de motivos que se entre- cHicos do judaísmo, e ela se deu pelo método já proporcionado pe-
cruzam, c~m .tantos pressupostos sociológicos e psicológicos, que 111 tradição judaica, empregado, porém, desta vez de maneira in-
nenhum publico popular suportá-lo-ia. E o baixo estilo da lin- comparl\.velmente mais audaz, da interpretação reinterpretativa. O
guag~11_: não es~ destinado, certamente, ao riso de uma grande Velho Testamento foi' desvalorizado como história do povo
multidão, mas e o elegante condimento para o gôsto de uma JUtleu e como lei judaica, e converteu-se numa série de "figuras",
1Ntt1 6, prenunciações e alusões prévias do aparecimento de Jesus e
elite sócio-literária que observa as coisas de cima, impassível e
ilus acontecimentos concomitantes. Já falamos brevemente acêr-
desfrutadora, comparável, talvez, com a tagarelice do gerente
l' ll disto no nosso primeiro capítulo. Todo o conteúdo das Sa-
de hotel Aimé e de outras personagens semelhantes no romance
111111!11~ Escrituras foi pôsto num contexto exegético, que freqüen-
de Proust acêrca do tempo perdido, embora tais comparações com lrntcnk ufastava muito o acontecimento relatado da sua base
obras realist~ modernas nunca sejam totalmente corretas, pois lll'llilvcl, enquanto obrigava o leitor ou ouvinte a desviar sua
nela~ há mu~to mais problemática séria. Também Petrônio, pois, nrrnçfiu do ucontecimento sensível, para concentrá-la no seu sig-
escreve de cuna, e para a camada dos muito cultos - uma ca- 11ll 1l·11du O11vo-se, portanto, a possibilidade de que o intuível
ma~ que, evidentemente, nos primeiros tempos do Império, deve 1111N 11t•,m1cc1mcn10~ ficnsse paralisado e sufocado peld estreito
ter sido bastante ampla, mas que diminuiu mais tarde. Ao con- 1 111111 nnhudo dos significados. Eis um exemplo, entre muitos:
trário, a narração da negação de Pedro e, em geral, quase tôda a llrt1N uH1 11 pri111e1111 mulher, Eva, da costela de Adão adormc-
obra do Nôvo Testamento, foi escrita em meio ao próprio devir c1d., : 1111111 Je do um ncontccimento scnsívelmcntc intuível; o
das coisas, e de maneira imediata, paru todos o~ homens. Não há, ntnJmn v11l11 r,11ru o momento cm que um ,oldudo cravo II lonQa
MIMESIS
42
A Prisão de Petrus Valvomeres
no corpo de Jesus, morto na cruz, de modo a fazer manar sangue
e água. Contudo, quando ambos os episódios são postos em
correlação mediante a exegese, ensinando que o sono de Adão é
uma figura do sono mortal de Cristo, e que assim como da feriça
a.o lado de Adão nasce a mãe primordial da humanidade segundo
a carne, Eva, do mesmo modo, da ferida no lado de Cristo nasce
a mãe dos vivos segundo o espírito, a Igreja - sangue e água
são símbolos sacramentais - , volatiliza-se o acontecimento sen-
sível, sobrepujado pela significação figurada. O que o leitor ou
ouvinte e, nas artes plásticas, o contemplador incorporam a si
mesmos, é débil quanto à impressão sensível; todo o seu interêsse
vê-se dirigido para a conexão significativa. Frente a isto, as
representações realistas greco-latinas não são tão sérias e pro-
blemáticas, e muito mais limitadas na sua captação dos movi-
mentos históricos; mas estão asseguradas na sua permanência sen-
sível; descoüuecem a luta entre aparência sensível e significação,
iuta que cumula a visão da realidade dos primeiros tempos do
cristianismo e, a bem dizer, de todo o cristianismo.
Amiano Marcelino, alto oficial e historiador do

3 quarto século depois de Cristo, que, nos trechos que


se conservam da sua obra, informa acêrca dos acon-
tecimentos entre 350 e 380, relata no sétimo capítu-
lo do livro 15 um tumulto da plebe romana. O texto diz assim:

Dum has exitiorum communium clades suscitat turba fe-


ra( is, urbem aetemarn Leontius regens, multa spectati judieis
documenta praebebat, in audiendo celer, in disceptando justissi-
mus, natura benevolus, Iicet autoritatis causa servaodae acer
quibusdam videbatur, et ioclinatior ad amandum. Prima igitur
causa seditions in eum concitandae vilíssima fuit et levis. Philo-
comum enim aurigam rapi praeceptum, secuta plebs omnis velut
dcfcnsura proprium pignus, terribili impetu praefectum in-
ccssebat ut timidum: sed ille stabilis et erectus immissis adparito-
ribus, correptos aliquot vexatosque tormentis, nec strepente ullo
ncc obsistente, insulari poena multavit. Diebusque paucis secutis,
cum itidem plebs excita calore quo consuevit, vini causando ino-
p111m, ad Septemzodium convenisset, celebrem locum, ubi operis
umbitiosi Nymphaeum Marcus condidit imperator, illuc de in-
dustria pergens praefectus, ab ornni toga adparitioneque rogabatur
1.mixius ne in multitudinem se arrogantem immitteret et minacem,
ex commotione pristina saevientem: difficilisque ad pavorem recte
rctcndit, ndeo ut eum obsequentium pars desereret, licet in peri-
culum fostinantem abruptum. Jnsidens itaque vehiculo, cum
~pcciosa fiducia contuebatur acribus oculis tumultuantium undi-
411c cuncorum vcluti scrpentium vultus: perpessusque multa dici
prohrnsa, ugnítum qucmdam inter alios eminentem, vasti cor-
poris nttiliq11c cup,lli, lntcrrogavit an ipse esset Petrus Valvomeres,
ut nmlrcrut, l'Oli!IIOmcnto; cumquc, cum esse sono respondisset
11h111rg111or10, 11t fi1•il1tm11urmn 11ntcs1gnanum olim sibi compcrtum,
11•l·lu1111111t1h11~ 11111l11,, pu,t t1·1g11 11111111'111~ v111d1~ s11~pcntlt prnccc
44 MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 45

pit. Quo viso sublimi tribuliumque adjumentum neq1;1icqua.r_n válido também para êste trecho; aqui aparece de maneira ainda
implorante, vulgus omne paulo ante confertum p~r vana u~b1s mais crassa. Muito menos ainda do que Tácito, Amiano pensa
membra diffusum ita evanuit, ut turbarum acerrnnus conc1tor em apresentar séria, objetiva e problemàticamente as causas da
tamquam in judiciali secret_o exar~tis ~ateribus ad Picenum eji- rebelião e a situação da população romana. Só a estúpida
ceretur; ubi postea ausus enpere v1~g_1rus non o~sc~rae J?Udorem, impudência, segundo lhe parece, leva a plebe romana à inquie-
Patruini consularis sententia supphc10 est cap1tah add1ctus. tação. Mesmo se êle tivesse razão com isto - o que é bastante
provável, pois esta massa metropolitana, corrompida e educada
Quero dar uma tradução que procura imitar o peculiar estilo p ara a ociosidade durante séculos por todos os governos, não
barroco do original : devia, de fato, prestar para nada - um historiador moderno teria
certamente colocado ou, pelo menos, tocado de leve a questão
Enquanto o bando de abutres conjurava estas catástrofes de de como se teria chegado a um tal estado de corrupção da pleb-e.
corrupção geral, Leôncio, governador. da Cid~de Eterna,_ mostr?u Mas isto não interessa absolutamente a Amiano, e nesta posição
muitas qualidades de juiz certo, rápido no mterrogatóno, muito êle ultrapassa largamente o próprio Tácito. Para êste existe, to-
justo na sentença, benévolo por natureza; logo pareceu a alguns davia, um conjunto racional e compreensível de exigências, que
estrito na observação da sua autoridade, e demasiado propenso ao os soldados apresentam, e frente ao qual comandantes e autori-
amor sensual. Ora, a primeira causa de um levantamento que con- dades adotam uma certa posição; há tratativas e se estabelece uma
tra êle eclodiu era muito insignificante e tôla. Pois tôda a plebe relação objetiva, até humana entre os dois partidos. É possível
seguiu a Filocomo, um auriga detido por sua ordem, como se se ver isto, por exemplo, na alocução de Blaeso no fim do capítulo
tratasse de defender o mais caro dos tesouros, e rompeu em selva- 18 ou na cena da partida de Agripina no capítulo 41. Por mais
gem tumulto até o prefeito, para amedrontá-lo; mas êste, impávido inconstantes e supersticiosos que Tácito retrate os soldados, em
e ereto, ordenou à polícia intervir, fêz com que alguns fôssem detidos nenhum momento é possível duvidar que se trate de homens
e chicoteados, e os condenou, enquanto ninguém se atrevia a mur-
murar ou a resistir, à deportação. Quando, poucos dias depois, para os quais decência e honra não são conceitos estranhos. Ao
excitada novamente com o calor costumeiro, tomando como motivo contrário, na cena de Amiano não há qualquer espécie de re-
a escassez de vinho, a plebe afluiu ao Septemzódio, uma praça mo- lação objetiva e racional entre autoridade e sediciosos, e muito
vimentada, onde o imperador Marco tinha erigido o magnífico menos ainda, qualquer espécie de relação humana baseada em
edifício do Ninfeu, o prefeito, que havia partido imediatamente respeito mútuo: a relação é somente sensível, mágica e violenta.
para lá, foi rogado insistentemente por todo o pessoal de f~ci_?- Por um lado, um mero aglomerado dos corpos, tolos e desaver-
nários e •oficiais para que não se atrevesse a penetrar na multidao gonhados, como um monte de adolescentes desamparados; por
insolente, ameaçante, irada ainda desde o último tumulto; njio outro lado, autoridade sugestiva, destemor, decisão férrea, açoi-
fàcilmente conduzível para o temor, êle foi retamente pelo seu ca- tes. E logo que a plebe vê que um dêles é tratado da maneira
minho, de modo que parte do seu séquito o abandonou, não obstante que todos parecem merecer, perde a coragem e desaparece.
êle se lançasse em premente perigo. Ora, sentado na sua carruagem, Amiano, do mesmo modo que Tácito, não dá informação algu-
êle observava com imponente segurança, com olhos cintilantes, os ma sôbre a vida dêste povo - ainda menos que Tácito, pois
olhares serpentinas da multidão que bramia por todo lado; ouviu
sereno muitos discursos injuriosos; depois perguntou a um, a quem falta algo que corresponda ao discurso de Percênio. Nada é dado,
reconheceu, e que pela sua grande estatura e pelos seus cabelos nqui, que nos permita descobrir uma relação interna. :E:le não
vermelhos sobressaía por entre os outros, se não era Pedro, ape- faz o povo falar (só menciona um apelido, Valvo-meres, como
lidado Valvomeres, segundo tinha ouvido dizer; · e quando o outro Tácito Cedo alteram) , mas reveste tudo com a sombria pompa
respondeu, num tom desavergonhado, que o era, êle ordenou que da sua retórica, a menos popular possível. Apesar disto, o
fôsse, como cabecilha dos sediosos, conhecido há tempo, pendurado ucontecimento é conformado de tal modo que nos deixa uma
com as mãos amarradas às costas, para ser submetido à pena dos impressão profundamente sensível, que talvez até impressiona
açoites, enquanto muitos protestavam em altos brados. Quando de modo desagradàvelmente sensível alguns leitores. Amiano o
foi visto, suspenso, suplicando em vão a ajuda dos cúmplices, a desmonto u excluisivamente em gestos: a oposição da massa
multidão que há pouco era ainda apinhada, dissolveu-se pelas vá- uglomerada e do prefeito que a domina pela sugestão. O sensível-
rias artérias da cidade, à medida que ao mais selvagem dos agita-
dores das massas, como num juízo secreto, lhe foram arados os 11,1:stual é preparado desde o princípio - pela escolha das pa-
flancos, após o que foi levado ao território piceno; lá, mais tarde, l11vrus e das imagens, sôbre a qual ainda voltaremos - e atinge
como tinha ousado roubar a virgindade de uma donzela de não o seu ápice na cena no Steptemz6dio, no defrontar-se de Leôncio,
modesta família, foi submetido à pena capital por sentença do ~t1n1udo no seu carro com olhos cintilantes, comparável a um do-
cônsul Patruíno. 1111uJur de feras, com a massa, que sibila "como serpente", que
depois Nc evapo ra tuo ràpidamente. Um tumulto, um homem
Muito daquilo que, no capítulo 1rntcrior, dissemos acêrcn 1wul11do que procura domá-lo com os olhos, que depois inter\
da descrição que Tácito fêz do lcv1111111mcnto dos soldados é vrm 1;\Jllda111l·utc . 11l1'Ullli1~ paluvrns cortantes, o corpo poderoso
46 MIMESTS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 47
do cabecilha, elevado, finalmente, açoites: depois há tranqüili- Tremia _de tal modo que durante longo tempo foi incapaz de
dade e como sobremesa, ainda recebemos a notícia de um falar. Frnalmente começou, com voz entrecortada, a proferir al-
estupro com a conseqüente execução. gumas. palav~as'. como um '!loribundo: que êle, pela sua ori-
Uma comparação com Tácito mostra quanto mais fraco ~em, t~a ,d_1re1to ao trono imperial . .. " Novamente é O gés-
ficou tanto o humano, como o objetivo-racional, e quanto mais tico e 1ma~gehco o que sobressai. Da obra de Amiano é possível
forte ficou o. mágico e o sensível. Algo de pesado e oprimente, compor toda uma coleção de retratos formidáveis e grotescos,
um obscurecimento da atmosfera vital aparece já desde o fim extremamente sensíveis e imagéticos: o imperador Constantino
do primeiro século do Império, é inconfundível cm Sêneca - que não volta jamais a cabeça, nunca se assoava nem cuspia:
e sôbre o sombrio na historiografia de Tácito já se falou muito. tanquam figmentum hominis (16, 190 e 21, 16); Juliano, o
No caso de Amiano, chegou-se a uma desumanização mágica grande vencedor dos alemães, com a sua barba de bode, co-
e sensível; é sobremaneira digno de atenção o fato de que a çando sempre a cabeça e pondo o seu estreito peito para a
evidência sensível dos acontecimentos tire proveito de um tal frente, a fim de parecer mai~ largo, e que dá passos demasiado
~ntorpecirnen~o _do humano .. Talvez pudesse objetar-se que eu opus longos para a sua pequena estatura ( 17, 11 e 2 l, 14); Joviano
a cena de Tac1to um motun plebeu e não um motim militar. de olhar satisfeito, cuja corpulência era tão monstruosa ( vast~
Todavia, a única passagem que poderia entrar em consideração, procer~tate et ardua) que foi difícil, na sua inesperada eleição
o leva~te dos s~Idados no início do livro 20, que leva à pro- para imperador, durante uma campanha encontrar vestes
clamaçao de _Juliano como Augusto, parece-me muito suspeita. imperiais à sua medida, e que logo após 'a sua eleição, aos
Neste caso n~o parece tratar-se, de modo algum, de um movi- 33 anos, morre de modo não esclarecido (25, 10); o sombrio
mento espontaneo dos soldados, mas de uma demonstração de e melancólico conspirador Procópio, que sempre olhava para
massas produzida com premeditação para aproveitar hàbilmen- o chao e que, descendente de distintíssima família inocente-
te os instintos da tropa; uma tramóia que conhecemos bem mente suspeito, oculta-se longo tempo entre as feze~ do povo
demais na história mais recente. Uma passagem semelhante e que, c?mo muitas outras eers~nagens de Amiano, só procura
não podia ser usada para os meus fins; portanto, fui obrigado fazer-se imperador porque nao ve outra maneira de salvar a sua
a escolher o levantamento do povo romano. Mas as caracte- vida, o que, na~uralmente, também assim não consegue (26,
rísticas do seu estilo, que encontramos nêle à. primeira vista 6-9); o secretáno Leão, posteriormente chefe da chancelaria
são comprováveis em qualquer passagem de Amiano. E~ imperial, "um panônico saqueador de cadáveres e ladrão um
todo lugar retrocedem o senslvelmente humano e o racional, vampiro, cuja fauce bestial escorre crueldade (ef/Jantem ierino
em todo lugar avançam o mágico e o sombriamente sensível rictu crudelitatem)" (28, I); o adivinho ou "matemático" He-
o rlgidamente imagético e gestual. Certamente, o Tibério d~ liodo~o, um denunciante profissional, que fêz uma prodigiosa
Tácito é bastante sombrio, mas êle ainda conserva muito de carreira: agora é um gourmet, ricamente provisto de dinheiro
humanidade e dignidade internas. Em Amiano não sobrou nada P_ara as suas meretrizes; passeia o seu obscuro semblante pela
além do mágico, do grotesco e também horrível-patético, e cidade, onde todos o temem; visita diligente e publicamente os
surpreende o gênio, que um alto oficial, sério e objetivamente bordéis - para isso êle é chefe da alcova imperial; cubiculariis
ativo, desenvolve neste sentido. Como devia ser forte a atmos- officiis praepositus - e anuncia que as disposições do amado
fera, se levou, em homens desta classe e experiência vital (evi- soberano serão ainda funestas para muitos; a horrível ironia
dentemente êle passou grande parte da sua vida em campanhas destas palavras lembra um pouco o "Tiberiolus meus", Tácito,
duras e estafantes), ao desenvolvimento de tais talentos! Leia-se, An?is, 6, 5, mas é muito mais repugnante; quando Heliodoro,
por exemplo, a viagem mortal 'de Galo ( 14, 1 J ) ou a jornada mais tarde, morre;: repentinamente, tôda a côrte é obrigada a
do cadáver de Juliano (21, 16) ou a proclamação de Procópio participar do seu solene entêrro, descobertos, descalços e de
como imperador (26, 6): "Como alguém semi-apodrecido, mãos postas (29, 2); o imperador Valentiniano, um soberano
surgido do túmulo, êle estava lá, sem manto (o manto imperial de boa e im~onente aparência, mas de olhar, evidentemente,
não pôde ser encontrado), a túnica bordada de ouro como um obscuro e obliquo, que ordena, num arranque de mau humor.
criado do palácio, das partes pudenda:s para baixo vestido que se corte a mão direita de um lacaio porque êste o ajudara
como um escolar ... ; na mão direita tinha uma lança, na es- desajeitadamente a montar um cavalo espantadiço (30, 9); o
querda agitava um pedaço de pano purpúreo. . . podia-se pen- imperador Valente, lutador contra os godos, prêto, com um
sar que, repentinamente, uma figura da pintura de um pano <ilho coberto com uma pele branca, de barriga algo proeminente
teatral ou uma personagem grotesca de comédia tivesse ganhado l' pernas tortas ( 3 1, 14). Poder-se-ia alongar ainda mais esta
corpo... êle prometeu com servil adulação aos titerciros du l1sla de retratos e completá-la ainda com acontecimentos e des-
sua elevação imensas riquezas e funções. . . Quando subiu a lflÇOC\ de cus111mcs de espécie não menos grotesca e horrível;
tribuna e todos, paralisados pelo assombro, culuram, pensou, l' o puno de fundo de ludo isto é o scgumte: que todos os
como antes temera, que a 'lia úl1i11111 hora llVl'\\C çhc,1u1do lm111c11~ do~ ,11111" 'l' fal11 vivem pcrmnnl•nh:mcnlc entre .1 cm
48 MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 49

briaguez de sangue e o mêdo da morte. Grotesco e sádico, suas mentes. É nesta moldura que Amiano evidentemente parece
fantasmagórico e supersticioso, ávido de poder e simultânea- querer se enquadrar, como resulta de muitas passagens da sua
mente ocultando o bater dos dentes: êste é o aspecto do mundo obra, nas quais êle apresenta como exemplos de moralidade ações
da classe dominante na obra de Amiano. Ainda mereceria ser e palavras de tempos passados. Mas desde o princípio desta
lei:n~rado o seu peculiar humor - leia-se, por exemplo, a des- tradição pode ser sentido que o assunto domina cada vez mais a
cnçao dos senhores que, por altivez, recusam o usual beijo de intenção estilística - e isto é inconfundível no caso de Amiano
saudação, osculanda capita in modum ta11rorum minacium obli- - obrigando o estilo, que procura a retraída distinção, a se ade-
quantes ( que gesto!) adulatoribus offerunt genua suavitmda vel quar ao conteúdo, de maneira que o vocabulário e a sintaxe come-
manus, id illis sufficere ad beate vivendurn existirnantes: et abun- çam a se modificar, tornando-se desarmônicos, sobrecarregados e
d~re ornni cultu humanitatis peregrinum pulantes, cuius forte crus, oprimidos contraditoriamente pelo sombrio realismo do con-
etlam grafia sunt obligati, interrogatum quibus thermi's utatur aut teúdo e pela intenção estilística distinta e irrealista. A escolha de
aquis aut ad quam successerit domum (28,4) - ou a sua observa- palavras torna-se maneirista, e as orações começam, por assim
ç~~ sôbre as lutas dogmáticas na igreja cristã: montes de padres dizer, a deformar e entortar. O equilíbrio da elegância é perturba-
v1a1avam constantemente de cá para lá para assistir aos chamados do, o distinto retraimento converte-se em pompa sombria e, por
sínodos, e enquanto cada qual procura impor a sua interpretação assim dizer, contra a sua vontade, a expressão transmite mais sen-
da fé ao outro, êles não atingem nada, afora o esgotamento e a sibilidade do que anteriormente seria compatível com a ·gravitas,
paralisação dos meios de transporte ( 21, 16). Neste humor há enquanto que a gravitas em si não se perde absolutamente mas,
sempre algo ~e amargo, grotesco, muito freqüentemente, algo de antes pelo contrário, se exílcerba. O estilo elevado toma-se pa-
grotesco-hornvel e desumanamente convulsivo. O mundo de tético e horripilante e sens1velmente pictórico. Os primeiros traços
Amiano é obscuro; superstição, sêde de sangue, esgotamento, disto podem ser encontrados já em Salústio. Importante influên-
mêdo da morte, gestos irados e màgicamente petrificados ocu- cia neste sentido foi exercida por Sêneca, que, ainda que não
pam-no; e como contrapêso nada se mostra além da decisão pertencesse à tradição dos historiadores, exerceu profunda in-
igualmente obscura, patética, no sentido do cumprimento de um fluência geral; também Lucano deve ser mencionado aqui. No
dever que se vai tornando cada vez mais desesperado e difícil : caso de Tácito, o pesado, o obscuro do estilo histórico, que é
proteger o Império, ameaçado de fora, em decomposição por alimentado pela obscuridão dos acontecimentos relatados, já está
dentro. Esta decisão confere às mais fortes dentre as persona- tão carregado de uma visão sensorial, da maneira que faz sobres-
gens atuantes, uma sôbre-humanidade dura, convulsiva, que não sair sugestivamente o espantoso, que esta visão irrompe muito
deixa espaço para nenhum relaxamento, como a que é expressa, amiúde; naturalmente, é ràpidamente reaprisionada pela distinta
por exemplo, pelo moriar stando de Juliano: ut imperatorern e aguçada concisão do estilo, que não admite que tais supurações
decet, ego solus confecto tantorum munerum cursu moriar stando, pululem (um exemplo, entre muitos: a execução dos filhos de
contempturus animam, quam mihi febricula eripiet una (24, 17). Scjano, Anais, 5, 9).
Amian~ como esperamos ter demonstrado, possui uma fôr- Em Amiano há uma hipertrofia da intuição sensível, que se
ça expressiva muito fortemente sensível. Se o seu latim não fôsse ubriu caminho no estilo elevado, não o vulgarizando popular ou
tão dificilmente compreensível e tão intraduzível, êle seria tal- cômicamente, mas exagerando-o desmesuradamente: a linguagem
vez um dos mais influentes escritores da literatura antiga. O começa a pintar a realidade deformada, sangrenta e fantasmagó-
seu processo, todavia, não é abs,olutamente imitativo no sentido rica com palavras cintilantes e pomposas deformações fraseo-
de, por exemplo, construir diante dos nossos olhos e ouvidos os lógicas. Em lugar das palavras distintas, tranqüilas, que comu-
homens a partir dos seus próprios pressupostos, deixá-los pensar, nicam só brevemente o sensível ou só o insinuam moralmente,
sentir, agir e falar segundo a sua essência; não os deixa falar, de uparecem palavras gesticamente descritivas: assim, na descrição
modo algum, na sua linguagem natural própria; ao contrário, êle dos distúrbios romanos, em lugar de uma expressão moral da
pertence à tradição dos historiadores antigos de estilo elevado, impassibilidade : stabilis, erectus, cum speciosa fiducia intuebatur
que contemplam de cima, emitindo juízos morais, aquêles que ocribus oculis; em lugar de "iter non intermisit": recte tetendit;
nunca empregam propositada e conscientemente os meios da imi- cm lugar de "açoitar", latera exarare, que ao mesmo tempo é
tação realista, pois os desprezam como estilo cômico e baixo. A p()mposamente perifrástico e sensível; o mesmo efeito tem pu-
cunhagem desta tradição, que, segundo parece, foi preferida es- tlurcm eripere; e onde Tácito, por exemplo, diz accusatorum maior
pecialmente na Roma tardia, encarnada já em Salústio, mas prin- /11 d/1•.r et infestior vis grassabatur (Anais 4, 66), Amiano diz:
cipalmente em Tácito, tradição esta que era fortemente estóica no cln111 l1<1s exltlorrun communium clades suscitat turba feralis. To-
seu conteúdo disposicional, gosta particularmente de escolher as- doN êstc~ exemplos (e muitos outros semelhantes) mostram que
suntos sombrios, que mostram um elevado grau de corrupção 11 muncirisrno, o rNhlo empolado, não surge somente da tendência

dos costumes, para fazê-los ressaltar violentamente contra um pnrn o 111~ólíl11. 11111~ ~crvc tamb6m, e sobretudo, à evidência scn-
ideal de primordial simplicidade, purczn e virtude. que pnirn cm ,111 i11l Sn111os 11h11j!11clo• 11 11f1g11rn1 noN u cpis6dto, A i,to NO·
50 MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 51

mam-se as muitas comparações de homens com animais (serpente é o comêço da oração insidens itaque vehiculo; totalmente pictó•
e touro gozam de grande preferência), ou entre episódios da rica é a antecipação de contuebatur acribus oculis ao comple-
vida com os do teatro ou do mundo dos mortos. Em tôda parte mento pomposamente movimentado e estrondoso tumultuantium
a escolha das palavras é rebuscada, mas em contraste total com o undique cuneorum veluti serpentium vultus; assim também é o
uso clássico, que encontrava o escolhido e procurado na circuns- desfraldar-se de inter alios eminentem, vasti corporis, rutilique
crição distinta e geral do sensível e permitia a descrição disto capilli, após o descorado agnitum quendam. Uma frase como es-
sômente ao poeta (que devia se manter longe, porém, da vida real ta: Quo viso sublimi tribuliumque adiumentum nequidquam im-
e presente, se quisesse evitar o estilo inferior da sátira ou da co- plorante - cuja particularidade reside na sobrecarga de aposições,
média) - em contraste total com isto, o procurado no elevado pois a quo viso corresponde a aposição de vários membros, sobre-
estilo da historiografia serve agora para a descrição de coisas que carregada no segundo membro, numa relação totalmente oposta à
acontecem presentemente; esta descrição não é, contudo, prô- clássica - dificilmente teria sido escrita por Tácito; mas como
priamente imitativa, pois permanece sempre o historiógrafo mo- é plástica! Vê-se Petrus esperneando e ouvem-se os seus berros.
ralmente sentencioso, que fala em estilo elevado e evita os re- Para uma sensibilidade clássica, o estilo, tanto na escolha
baixamentos do realismo imitativo; só que êle emprega constan- de palavras quanto na construção das frases, é ao mesmo tempo
temente as côres mais berrantes. Na sintaxe de Amiano pode exageradamente refinado e exageradamente sensível; tem um
ser comprovado fato semelhante ao que acontece na sua escolha efeito muito forte, mas êsse efeito é desfigurante. O seu efeito
de palavras; ainda que aqui muita coisa possa ser atribuível à é tão desfigurante como é desfigurada a realidade que representa.
necessidade de encerrar ritmicamente as frases e ao caráter for- O mundo de Amiaoo é muito amjúde como um espelho defor-
temente helenizante do seu estilo (Norden, Antike Kun'Stprosa, mante do costumeiro ambiente humano, no qual nos movimen-
646ss) ainda fica bastante coisa que só pode ser interpretada tamos, é muito freqüentemente como um sonho mau. E não
satisfatôriamente no nosso sentido. Na sua colocação dos subs- o é sômente porque nêle acontecem coisas horríveis, como trai-
tantivos, particularmente do sujeito nominativo, na sua ampla ção, assassínio, tortura, ciladas pérfidas e denunciações; tais
utilização de adjetivos e particípios como apostos, e na sua coisas acontecem quase sempre e em todo lugar, e as épocas de
tendência a delimitar entre si os apostos acumulados pela vida um tanto mais suportável não são demasiado freqüentes.
colocação das palavras, mostra-se o esfôrço de Amiano em su- O opressivo do mundo de Amiano é, antes, a falta de um con-
gerir em tôda parte visões monumentais e geralmente gesticulan- trapêso; pois, por mais verdadeiro que seja que os homens são
tes. Observe-se o relêvo dado aos sujeitos turba feralis, Leontius capazes de tudo o que fôr terrível, é igualmente verdadeiro que
regens, ille, Marcus imperator, praefectus, acerrimus concitor; o terrível produz constantemente fôrças contrárias e que, na
aos objetos urbem aeternam, Philocomum aurigam, multitudinem, maioria das épocas de acontecimentos apavorantes, também se
vultus, agnitum quendam, eumque; a pletora de aposições - manifestam as maiores fôrças vitais da alma: amor e auto-sacri-
Jespersen diria "extraposições" - e de formas aposicionais, cada flcio, heroicidade professa e penetrante pesquisa em busca das
uma exposta da maneira mais independente possível: a Leontius possibilidades de uma existência mais pura. Nada disto se en-
corresponde regens, e também celer, justissimus, benevolus, e contra '!m Amiaoo. Vivaz só no sensível, resignada e como que
depois, em particular revestimento sintático, acer, e novamente paralisada, apesar do rígido pathos, a sua historiografia não apre-
ressaltado inclinatior ad amandum; a causa pertence, com artís- ~cnta, cm lugar nenhum, algo de rernissor, algo que vise um
tica diferenciação, vilíssima e levis; a plebs, diferenciados da futuro melhor; nenhuma figura ou ação é envolvida por ares
mesma maneira, secuta e defensura proprium pignus; a ille cor- rnai, frescos, mais livres ou humanos. Isto já começa com Táci-
responde stabilis e erectus; a multidudinem primeiro arrogantem, to, embora não atinja, de longe, a mesma medida; e a causa disto
e logo, contrapostas e ressaltando-se mutuamente, minacem e a:s1dc, certamente, na posição desesperadamente defensiva à qual
saevientem; depois vem, com referência ao prefeito e continuan- " cultura antiga via-se reduzida mais e mais; incapaz, já, de gerar
do o "pergens', em aguçado relêvo, difjicilis ad pavorem, insidens crn si mesma novas esperanças e nova vida, devia-se limitar a
vehiculo, perpessus; a agnitum quendam juntam-se eminentem, medidas que, na melhor das hipóteses, poderiam deter a decadên-
vasti corporis, rutili capilli, e depois sublimi, implorante; e o pró- rin, manter o existente; e mesmo estas medidas tornaram-se cada
prio nome, Petrus Valvomeres, é mostrado em forma de apôsto vez mais senis, e a sua execução, cada vez mais difícil. Isto é
e extremamente acentuado. Também outras partes descritivas 11110 conhecido, e não preciso aprofundar-me nêle. S6 quero
da oração, como, por exemplo, ut timidum, nec strepente ullo 11crcsccntar que também o cristianismo, frente ao qual Amiano
nec obsistente, operis ambitiosi, enixius, etc., e a impressão apro- 11iio purecin ter uma posição hostil, não significa para êle nada
funda-se quando se observam grupos maiores de palavras. Urbem que pudesse quebrar essa situação de sombria falta de futuro.
aetemam Leontius regens, seguido da sua cauda de aposições, é P ev1dcnle que a modalidade de representação de Amiano
propositadamente monumental, assim como Marcus cmulidit lcv11 110 mai~ 11c11lrndo desenvolvimento algo que se anuncia desde
imperator; dramático e monumental, como i111;1gcni e como 11cs10, S!nccu e T&dto, i~to 6, um estilo altamente patético, no qual o
MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 53

horrivelmente sensível se abriu caminho: um realismo sombrio menta hacc comparasti? Demonstro seniculum; in angulo sede-
e ultrapatético, que é totalmente estranho à Antigüidade clássica. bat. Quem confestim pro aedilitatis imperio voce asperrima
A mistura de artes retóricas, da espécie mais refinada, com increpans: Iam iam, inquit, nec amicis quidem nostris vel ommi-
realismo berrante e fortemente deformante pode ser estudada no ullis hospitibus parcitis, qui tam magnis pretiis pisces frívolos
muito antes, em camadas muito mais baixas do estilo: por exem- indicatis et florem Thessalicae regionis ad instar solitudinis et
plo, em Apuleio, sôbre cujo estilo há na obra já várias vêzes scopuli edulium caritate deducitis! Sed non impune. Iam eoim
mencionada, Antike Kunstproia, de Norden, uma análise bri- faxo scias, quemadmodum sub meo imperio mali debeaot coer-
lhante. O nível estilístico de um romance milésio é, naturalmen- ceri. Et profusa in medium sportula iubet officialem suum
te, totalmente diferente daquele de uma obra histórica, mas, insuper pisces inscendere ac pedibus suus totos obterere. Qua
apesar de tôda a sua frivolidade, brincalhona, galante e amiúde contentus morum severitudine meus Pythias, ac mihi ut abirem
tôla, as Metamorfoses apresentam não só uma mistura semelhan- suadens: Sufficit mihi, o Luci, inquit, seniculi tanta haec con-
te de retórica e realismo, mas também - e Norden não o assi- lumelia. His actis consternatus ac prorsus obstupidus ad balneas
nalou - a mesma tendência para a desfiguração fantasmagórica me refero, prudentis condiscipuli valido consilio et nummis simul
e horripilante da realidade. Não me refiro somente às muitas privatus et cena ...
estórias de transformações e de fantasmas, que transitam tôdas
pelo limite entre Q horrível e o grotesco, mas a muita outra coisa, •
como, por exemplo, o gênero do erotismo; junto à extrema acen- Recolhidas as minhas coisas no meu quarto, quero ir ao bal-
tuação da concupiscência, que, com tôdas as especiarias da arte neário, mas antes passo pelo mercado para comprar alguma coisa
retórico-realista também procura ser despertada no leitor, falta de comer; lá vejo expostos opíparos peixes, pergunto pelo preço e
regateio-o de cem denários a vinte. Na hora de eu ir embora dali,
por completo o espiritual e o familiarmente humano, e há algo encontro Pítias, meu condiscípulo na ática Atenas. Logo que, após
de fantasmagórico e sádico que sempre se imiscui. A r.oncu- uns instantes, êle me reconhece, dirige-se amàvelmente a mim,
piscência está sempre misturada com mêdo e horror; é claro que ubraça-me e beija-me e diz: "Lúcio, há quanto tempo não te vejo!
também entra uma boa dose de tolice. E isto penetra o romance Acho que desde que deixamos o nosso mestre Clíciol Mas como
todo: mêdo, concupiscência e tolice preenchem-no. Se a sensa- chegas aqui?" "Amanhã o saberás", respondo. "Mas o que é isso?
ção da tolice do conjunto não fôsse tão forte, pelo menos para Devo felicitar-te, vejo aguaziles e varas, e a ti mesmo com hábito
um leitor hodierno, poder-se-ia pensar em certos escritores mo- de magistrado!" "Administro a fiscalização do mercado", diz, "sou
dernos, em Kafka talvez, cujo mundo, pela sua horrenda defor- edil; e se queres comprar alguma coisa, posso ajudar-te com prazer."
mação, lembra a loucura sobremaneira coerente. Quero eviden- F.u recuso, pois já tinha comprado bastante peixe para o jantar.
ciar minha intenção a partir de uma passagem muito singela das Mas Pítias vê o meu cêsto, mexe nos peixes para vê-los melhor e
Metamorfoses. Está no fim do livro primeiro (1, 24), e relata diz: "E quanto pagaste por êste rebotalho?" "Com esfôrço", res-
a compra que faz no mercado o narrador, Lúcio, numa cidade pcndo, "obriguei o pescador a aceitar vinte denários". Ouvindo isto,
estranha ( tessál ica) . Diz assim : me pega pela mão direita e me arrasta de volta ao mercado: "E
de quem", pergunta, "compraste estas bagatelas?" Indico o velhinho,
t1ue estava sentado num canto. Imediatamente, em exercício das
rebus meis in cubiculo conditis, pergens ipse ad balneas, ~,ms atribuições edilícias, êle increpa-o com voz aspérrima: "Já
ut prius aliquid nobis cibatui prospicerem, forum cuppedinis chegais ao ponto de", diz, "destratar os meus amigos e os foras-
peto; inque eo piscatum apiparem expositum video. Et percon- lciros em geral; vender peixes tão insignificantes a tal preço! Com
tato pretio, guod centum nummis indicaret, aspernatus viginti º' vossos elevados preços fazeis da flor da Tessália um deserto
denariis praestinavi. lnde me commodum egredientem continua- que ninguém quer visitar! Mas não ficarã impune! Eu já faço
tur Pythias, condiscipulus apud Athenas Atticas meus; qui me l'Ull\ que saibas, como os malandros são castigados quando eu
post àliquantum temporis amanter agnitum iavadit, amplexusque nmndol" Com isso, êle joga ao chão o conteúdo do cêsto e ordena
et comiter deosculatus. Mi Luci, ait, sat pol diu est quod inter- a um dos seus funcionários que pise sôbre os peixes até esmagã-los
visimus te, at hercules exinde cum a Clytio magistro digressi dr todo. Contente com a sua severidade, Pítias aconselha-me que
sumus. Quae autem tibi causa peregrinationis huius? Crastino vil embora, dizendo: "Estou satisfeito, caro Lúcio; com isto fiz
die scies, inquam. Sed quid istud? Voti gaudeo. Nam et lixas 1111111 llrRnde afronta ao velho." Consternado e quase estupefato

et virgas et habitum prorsus magistratui congruentem in te vídeo. 1wlo acontecido, dirijo-me ao balneário; as enérgicas medidas do
1nl"11 prudente amigo tinham-me privado tanto do meu dinheiro
Annonam curamos, ait, et aedilem gerimus; et si quid obsonare ,wn<> do meu jantar
cupis, utique commodabimus. Abnuebam, quippe qui iam cenae
affatim piscatum prospexeramus. Sed enim Pythias, visa sportula •
succussisque in aspectum planiorem piscibus: At bas quisquilias l louw e há, ~em dúvida, leitores que simplesmente riem e
quanti parasti? Vix, inquam, piscatori extorsimus accipere viginti 1td111111 qu~• ~e lrala tk uma farsa, de uma mera brincadeira.
denarios. Quo audito statim arrepta dextra postliminio me in Mu, 1~10 11110 uat• p111ccc NUl'iciente. O comportamento do amigo
1'õrum cuppedinis reducens: Et a quo, inquit, istorum maga- 11·1 /,111 tt•1·11l:11nt111do, do qual nudat mn,~ ~ dito, ~ propo~itadn•
54 MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 55

mente malicioso (mas para isto falta qualquer motivo), ou latur frigus, non quibus nudetur ambitio. Deliciarum quondam
demente - mas em nenhum momento é dito que êle sofra das suppelectilem virtus insumit. Ille caec~s extendens manum, ~~
faculdades mentais. É incontestável a impressão de uma defor- saepe ubi nemo est clamitans, heres Paulinae, coheres Pammachn
mação meio tôla, meio fantasmagórica dos procedimentos nor- est. lllum truncum pedibus, et toto corpore se trahentem, tene-
mais e médios da vida. O amigo alegrou-se pelo inesperado rae puellae sustentant manus. Fores quae prius salutantium
reencontro, ofereceu os seus serviços, até mesmo os impôs: e turbas vomebant nunc a miseris obsidentur. Alius tumenti aqua-
sem se preocupar no mais mínimo pelas conseqüências do seu liculo mortem p~turit; alius elinguis et mutus, et ne hoc quide!11
modo de agir, rouba a Lúcio o seu jantar e o seu dinheiro; nem habens unde roget, magis rogat dum rogare oon potest. lhe
se pode falar de um castigo do vendedor, pôsto que êste fica debilitatus a parvo non sibi mendicat stipem; ille putrefactus
com o dinheiro; e, se entendo bem, Pítias ~conselha Lúcio_ a morbo regio supravivit cadaveri suo.
deixar o mercado porque os vendedores, apos esta cena, nao Non mihi si linguae centum sint, oraque centum,
quererão atendê-lo mais ou até procurarão vingar-se dêle. Com Omnia poenarum percurrere oomina possim. ( Aen. VI,
tôda a sua tolice, a coisa está bem maquinada para embair Lúcio 625, 627).
e pregar-lhe uma peça - mas por que motivo, para que fim? Hoc exercitu comitatus incedit, ia his Christum con-
É tolice é ruindade, é loucura? A tolice não impede ao leitor fovet horum sordibus dealbatur. Munerarius pauperum et egen-
de se se~tir perplexo e intranqüilizado. E que imagem peculiar- tium' candidatus sic festinat ad coelum. Ceteri mariti super
mente penosa, suja e um pouco sádica, essa dos peixes pisoteados tumulos conjugum spargunt violas, rosas, lilia, floresque pur~u-
por ordem superior sôbre o chão do mercado! reos, et dolorem pectoris bis officiis consolantur. Pammachi~s
A irrupção do realismo cruamente pictórico no est~o eleva- noster sanctam favillam ossaque veneranda eleemosynae balsam1s
do, que encontramos em Amiano, e que socava paulatmamente rigat. ..
a divisão clássica dos estilos, também se faz valer nos autores *
cristãos; na tradição judeo-cristã não havia, como mostr:1JJIOS As brilhantes gemas, que outrora ornavam o colo e o rosto,
anteriormente, separação alguma entre estilo elevado e reahsmo, ora saciam os ventres dos necessitados. As séricas vestes entrete-
e, por outro lado, a influência da retórica antiga sôbre os pais cidas com fios de ouro tornaram-se em suaves vestimentas lanares,
da igreja - a qual foi muito forte, como é sabido, tanto mais <JUe servem para repelir o frio, e não para desnudar a ambição do
que muitos dos pais da igreja eram homens de grande cultura, luxo. O que outrora fôra instrumento do luxo, recebe-o agora a
educados na filosofia e na retórica - começou a fazer efeito virtude. Aquêle cego, que estende a mão, e amiúde clama onde
ninguém está, torna-se herdeiro de Paulina e co-herdeiro de Pamá-
somente no momento em que o acima mencionado processo de 411io. Aquêle, de pés mutilados, que se arrasta com todo o corpo,
socavação já estava muito adiantado, não só em relação à sepa- ~ npoiado pelas mãos de uma tenra donzela. As portas, que antes
ração dos estilos, mas, em geral, à conservação da medida e da vomitavam turbamultas de visitantes, ora estão rodeadas de pobres.
harmonia da expressão. Também nos pais da igreja encontra- Um dêles, inchado o ventre, está grávido da própria morte; aque-
mos, portanto, e não raramente, a mistura de pompa retórica loulro sem língua e mudo, que nem tem com que implorar, roga
com crua pintura da realidade; particularmente Jerônimo chega 1u11d11 'mais por não poder rogar. este, enfraquecido desde a infân-
nisto ao extremo. As suas caricaturas satíricas, que sobrepujam du. não mais mendiga pela sua esmola; aquêle, putrefato pela
em muito Horácio e Juvenal, são intensamente pictóricas; ainda doença (icterícia?) , sobrevive ao seu próprio cadáver. "Nem se
mais o são certas passagens onde dá conselhos ascéticos que se ,i.,.es\c cem línguas e cem bôcas, eu poderia enumerar o nome de
referem à comida e à bebida, ao cuidado, ou antes, ao desleixo tntlos os martírios." Acompanhado por esta comitiva êle avança;
do corpo e à castidade, entrando nos mínimos detalhes e sem nc!lc~ êlc reanima Cristo, nas suas imundícies, purifica-se. Assim
se impor qualquer reticência a bem da decência. Até onde ~le .1p1e~sa-se em caminho ao céu o tesoureiro dos pobres, o candidato
(11quêlc que veste a toga branca) dos indigentes. Outros maridos
pode subir na extrema visualização do horrível, dentro do estilo 1·,rurgem violetas, rosas, lilás e purpurinas sôbre o túmulo das suas
pomposo, mostra uma passagem das suas cartas (66, 5; Patro- 11111lhcres, consolando com estas oferendas a dor do seu peito. O
logia lat., 22, 641), que talvez seja a mais efetiva, aindllJ que não nc"so Pamáquio rega as santas cinzas e os veneráveis ossos com
a única do gênero. Uma mulher de família distinta, Paulina, 11 h1íhumo da caridade
faleceu, e o marido sobrevivente, Pamáquio, decidiu deixar os ,,
seus bens aos pobres e fazer-se monje. Na epístola exaltadora A procissão dos enfermos e mendigos rerousa, evidente-
e admoestadora que Jerônimo escreveu com tal motivo, há um 111\'lltc, tnnto no ~c1I conteúdo como no si::u sentido, na Bíblia.
parágrafo que diz assim: o lav111 tk fo, ,~ curn~ dos doentes e a ética da humildade que
"' ~111.:1 if'ica, 110 Nnvo I cstamento, formam as bases para u~1
Ardentes gemmae, quibus ante .collum et facies ornabantur, 1111 ill•~p1l·1i11u de atrornladcs tísicas. Já desde os tempos mais
egentium ventres saturant. Vestes sericae, ct aurum in fila len-
-•~ tescens, in mollia lanarum vestimenta mutatn sunl, quibus rc.lpel-
1, 1111111,s, 11 .il11wg111;110 ptlr doentes repulsivos ( spiran.1· ctulaver,
d1, li•11,11i11111 l' III 11111111 ,,11,s111(~·111) l' l'~pccrnlmcntc o contato
56 MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 57

físico com êles durante os cuidados eram considerados sinais ção clássica. O texto seguinte, com o qual quero demonstrar
importantíssimos que demonstravam a humildade cristã e a pro- ,) que disse, é do capítulo oitavo do sexto livro das Confissões
cura da santidade. Mas é evidente que também as artes retó- de Santo Agostinho; a pessoa da qual se fala é Alípio, amigo
ricas da tardia Antigüidade contribuíram para a crueza do efeito de juventude e discípulo de Agostinho: a pessoa à qual se dirige
do nosso texto - eu até diria que a sua contribuição foi deci- a palavra (tu) é Deus:
siva. A pomposa pintura desta retórica mostra-se logo no comêço
nas expressões de contraste entre o mais desmedido luxo e a mais Non sane relinquens incantatam sibi a parentibus terrenam
lastimável pobreza, onde, na escolha das palavras, pompeia-se viam, Romam praecesserat, ut ius disccrct; et ibi gladiatorii spec-
com os pólos opostos do estilo: ardentes gemmae contra agen- taculi hiatu incredibili et incredibiliter abreptus est. Cum cnim
tium ventres! Aparece também o jôgo antitético das palavras e aversaretur et detestaretur talia. qu1dam eius amici et condisci-
dos conceitos (Ianarum vestimenta quibus repel/atur frigus contra puli, cum forte de prandio redcuntibus per viam obvius esset,
vestes sericae, etc., quibus nudetur ambitio - ubi nemo est cla- recusantem vehementer et resistentem familiari violentia duxerunt
mltans - ne hoc quidem habens unde roget, etc. - supravivit in amphitheatrum, crudelium et funestorum ludorum diebus, haec
cadaveri suo - sordibus dealbatur - e assim por diante), na dicentem: si corpus meum in illum locum trahitis, et ibi constitui-
predileção por adjetivos e imagens pomposas, no uso patético tis, numquid et animum et oculos meos in ilia spectacula potestis
da anáfora (hoc, his, horum). t!. certo que Jerônimo se dife- antendere? Adero itaque absens, ac sic et vos et ilia superabo.
rencia do seu contemporâneo Amiano pelo fato de que as chamas Quibus auditis illi nihilo segnius eum adduxerunt secum, idipsum
da sua pompa - ardentes gemmae - são alimentadas por um forte explorarc cupientes, utrum posset efficere. Quo ubi ven-
ardor amoroso e pela exaltação - o impulso lírico das últimas tum est, et sedibus, quibus potucrunt, locati sunt, fervebant
frases, onde Pamáquio ascende aos céus celeremente e asperge omnia imanissimis voluptatibus. Ille autem ciausis foribus oculo-
as cinzas da amada com o bálsamo da caridade é magnífico, rum interdixit animo, ne in tanta mala procederet, atque utinam
duplamente efetivo após a procissão dos doentes, e as flôres, que ct aures obturavisset. Nam quodam pugnae casu, cum clamor
não são jogadas, mas são enumeradas, contribuem com o seu ingcns totius populi vehementer eum pulsasset, curiositate vic~us
perfume. :8 uma passagem magnífica, uma delícia para os aman- ct quasi paratus quicquid illud esset etiam visu contemnere et vm-
tes daquilo que mais tarde se chamou o barroco, e a magnifi- c.;cre, aperuit oculos; et percussus est graviore vulnere in anima,
cência de Amiano, muito mais rígida e interiormente gelada, nada 4uam ille in corpore, quem cernere concupivit, ceciditque mise-
tem que possa ser-lhe comparado. Mas também a esperança rnbilius, quam ille quo cadente factus est clamor: qui per eius
de Jerônimo, que tão comovedoramente o leva para o lirismo, aurcs intravit, et reseravit eius lumina, ut esset, qua feriretur
não se refere. de maneira alguma, a êste mundo; a sua propa- ct deiiceretur, audax adhuc potius quam fortis animus; et eo
ganda, dirigida expressamente ao ideal ascético e virginal, é 1ní1rm1or, quod de se etiam praesumpserat quod debuit tibi. Ut
contrária à geração e volta-se para a destruição do terrena!; só cn1m vidit illum sanguinem, immanitatem simul ebibit, et non
com dificuldade e parcialmente êle se deixa levar a fazer meias ,e avertit, sed fixit adspectum, et hauriebat furias, et nesciebat:
concessões pela oposição que já então se iniciava. Também a ~·I dclectabatur scelere certaminis, et cruenta voluptate inebria-
sua chama é sombria, e o contraste entre a pictórica pompa do hutur Et non erat iam ille qui venerat, sed unus de turba ad
discurso e o ethos sombrio e suicida, a imersão no horripilante, 4uam vencrat, et verus eorum socius a quibus adductus erat.
naquilo que desfigura a vida e é seu inimigo, chega também nêle Ou1d plura? Spectavit, clamavit, exarsit, abstulit. i?de se~um
a ser amiúde quase insuportável. Não é a última vez que se 111~un1am qua stimularetur redire: non tantum cum 1lhs a qu1bus
defronta, na sua obra, uma disposição ascética e assassina do 1nius abstractus est, sed etiam prae illis, et alios trahens. Et inde
mundo em meio a um estilo pictórico extremamente rico. Isto tnmcn manu validissima et misericordissima eruisti eum tu, et
fica sendo uma tradição cristã; mas nêle isto tem um efeito tl111.:u1sh eum non sui habere, sed tui fiduciam; sed longe postea.
tanto mais sombrio, porque lhe faltam por completo as vous •
contrárias, que cantam as alegrias do mundo, cuja sonoridade Não abandonou certamente a via terrena, que os seus pais
se faz ouvir no barroco posterior, em todo momento, mesmo na 1i11hnm louvado, e tinha ido a Roma para aprender Direito. E lá
mais profunda devoção extática; a sombria e desesperada defen- fie rol arrebatado pela paixão pelos espetáculos de gladiadores, de
siva da Antigüidade decadente não mais era capaz, segundo 1111111 formo e com uma intensidade incríveis. Quando ainda sentia
parece, de produzir tais cantos. 1\/crafio e detestava coisas semelhantes, encontrou certa vez, casual-
111cn1e, nlauns amigos e condiscípulos que voltavam de um banquete,
Mas mesmo nas obras dos padres da Igreja há também tex- 11, quais, 11 pe~ar de \Ua recusa e resistência, arrastaram-no amis-
tos que delatam uma relação totalmente diferente com a realidade 111~,1111c111e no 1111f11cntro, nos dias em que lá tinham lugar os jogos
do seu tempo, uma relação muito mais dramàticamente comba- crn~1 e Íllll<'~ln~ flk, porém, disse: "Ainda que arrasteis o meu
tiva - e ao mesmo tempo, uma forma de expressão muito dife- wqk> 11111 u 1' e o ub111rnds ,, a li ficar, podeis acaso dirigir os meus
11lho1 e u meu npírito JMra aquêlc espetáculo? J,á estarei como
rente, muito menos barr6ca, muito mais influenciada pela trad1- 11111 auknle, e aasim ile111on,tr11rei II minha ~uperioridade sõbre v6,
58 MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 59

e sôbre aquêle espetáculo." Ouvindo isto, arrastaram-no com maior confia nos seus olhos fechados e na sua decidida vontade. Mas
empenho consigo, talvez porque tivessem vontade de ver se êle era a sua autoconsciência individualista e orgulhosa é derrubada ins-
capaz de cumprir o prometido. Chegados ao local, sentaram onde tantâneamente. E não se trata, aqui, de um Alípio qualquer,
puderam; todos ferviam numa horrível volúpia. me fechou as por- cujo orgulho, ou melhor, cuja essência mais íntima é arrebentada,
tas dos seus olhos e proibiu o seu espírito a dedicar-se a coisas tão mas de tôda a cultura racional e individualista da Antigüidade
ruins; ah, se êle tivesse também obturado os seus ouvidos! Pois clássica: Platão e Aristóteles, os estóicos e os epicúreos. O
numa mudança da pugna, como o clamor imenso da multidão o ardente desejo varreu-os, numa única e poderosa tempestade:
atingisse veementemente, foi vencido pela curiosidade e, certo de
ser capaz de vencer e desprezar com a vista o pior, abriu os olhos· et non erat iam il/e qui venerat, sed unus de turba ad quam
então, sua alma foi ferida mais fundamente do que o corpo da~ venerai. O indivíduo distinto, confiante em si mesmo, individual
quele que êle desejava ver, e caiu mais miseràvelmente do que também na sua escolha, hostil a tôda intemperança, converteu-se
aquêle cuja queda tinha provocado a gritaria: esta gritaria entrou em mais um da massa, e não só isso: as mesmas fôrças que lhe
pelos seus ouvidos e abriu os seus olhos para encontrar o cami- permitiram manter-se afastado por mais tempo e mais decidida-
nho para dominar o seu espírito, naquele tempo mais audacioso mente da sugestão da massa, a mesma energia que lhe permitia
do que forte; e êste era tanto mais débil, quanto tinha pôsto em levar uma vida própria e orgulhosa, estas mesmas fôrças êle põe
si a confia~ça que devia a Ti. Pois quando viu aquêle sangue, agora à disposição da massa e da sua essência impulsiva; êle não
bebeu tambem o veneno da ferocidade, e não só não se voltou é sàmente seduzido; converte-se em sedutor: aquilo, que até o
mas fi~ou o espetáculo, absorveu o furor e, sem sabê-lo, começou' momento abominara, agora ama. Não é só com os outros que
a deleitar-se com o celerado espetáculo e ficou embriagado de que êle delira, mas antes dos outros: non tanJum cum illis, sed
cruenta volúpia. E já não era o mesmo qu.e viera mas um da turba prae illis, et alios trahens. ~ mais do que natural que um jovem
à qual se juntara, e, realmente, um sócio daqu'eles que o tinha~
co°:duzido para lá. Qu~ mais? _Olhava, gritava, ardia, levou consigo de grande e apaixonada fôrça vital não ceda sõmente de forma
dali a loucura que est1mulã-lo-1a a voltar: não só com os outros paulatina, mas se precipite na posição extremamente oposta; a
que _antes o tinham arrastado, mas antes dêles e trazend.o outros' reação é total; e uma tal reviravolta de um extremo para o outro
consigo. Mas Tu, com fortíssima e misericordiosíssima mão o é, ao mesmo tempo, muito cristã; assim como Pedro na cena
tiraste de lá, e lhe ensinaste a ter confiança não em si mesmo mas da negação (e, contràriamente, como Paulo no caminho de
em Ti. Mas isto se deu muito mais tarde.' • Damasco), cai tanto mais baixo, quanto mais elevado antes esti-
• vera - como Pedro, êle também reerguer-se-á sàzinho. Pois
Também aqui agem as fôrças do tempo: sadismo, embria- a sua derrota não é definitiva; quando Deus lhe tiver ensinado
guez sangrenta e o predomínio do mágico-sensorial sôbre o u confiar Nêle e não em si próprio -- e no caminho dêste
racional e o ético. Contudo, lut,a-se, o inimigo é reconhecido ensinamento, a derrota é justamente o primeiro passo - então
e as fôrças antagônicas da alma são mobilizadas para enfren- êle triunfará. O cristianismo di~põe, na sua luta contra a em-
tá-lo. O inimigo aparece aqui sob a forma da grande sugestão briaguez mágica, de outras armas que não as da elevada cultura
em massa, da embriaguez sanguinolenta, que ataca todos os sen- racional e individualista da Antigüidade: êle próprio é um mo-
tidos ao mesmo tempo: se a defesa lhe fechar a entrada dos vimento de profundidade, tanto da profundidade dos muitos,
olhos,_ êle abre o seu caminho pelos ouvidos, obrigando, assim, como da profundidade do sentimento imediato; é capaz de com-
a abrir os olhos. A defesa confia, ainda, no seu centro mais halcr o inimigo com as suas próprias armas. Sua magia não
íntimo, na fôrça da sua íntima decisão, na sua consciente vontade ~ menos mágica do que a embriaguez sangrenta, e é mais pode-
de recusa. Mas esta consciência interna não resiste nem um rosa, porque é mais ordenada, mais humana e esperançosa.
instante; inverte-se imediatamente, e as fôrças, até então repre- Um texto como êste, por mais que revele traços sombrios
sadas pela dificultosa tensão da vontade, as quais, até então, da realidade do tempo, apresenta um caráter totalmente dife-
serviam à defesa, passam ao inimigo. Demo-nos razão do que rente do de Amiano e, também, do da passagem de Jerônimo
isto significa. Contra a massificação plebéia, contra os desejos que transcrevemos. O que o diferencia, à primeira vista, dos
irracionais e desmesurados, contra o encanto das fôrças mágicas outros textos é a calidez da luta humana e dramática; Alípio
a esclarecida cultura clássica possuía as armas do autodomíni~ vive e luta; ao seu lado não só as figuras de Arniano, mas
individualista, aristocrático, mesurado e racional; os diferentes tnmhém o Pamáquio do trecho de Jerônimo, são esquemas
sistemas didáticos éticos concordavam em que um homem bem 1fgidos, cujo interior não se abre. ~ isto o d~cisivo, o que
il!struído, consciente de si mesmo, seria capaz, pelas suas próprias [111. sobressair Agostinho decididamente do estilo do seu tempo,
forças, de afastar-se de qualquer descomedimento, e que êste não uté onde o conheço: êle sente e transmite de forma imediata
poderia penetrá-lo contra a sua vontade. Também a doutrina v1d11 humana, que vive diante dns nossos olhos. Os recursos
maniquéia, da qual Alípio já então estava perto, confia no reco- de estilo retórico, que êle não despreza absolutamente, nem
nhecimento do bem e do mal. Por isto êle se deixa arrastar rwNtc tcxtu nem cm nel'huma outra oca~ião, parecem-me estar,
familiari violentia para o anfiteatro, sem mui111 prcocupuçt10; etc n11 1:111111111111, 111111~ perto do antigo gênero clássico ciceroniano
60 MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 61

do que aquilo que encontramos em Amiano ou em Jerônimo; bíblica assim como o conteúdo mesmo, ou seja, a dramática
o extremamente dramático "spectavit, clamavit, exarsit, abstulit aprese~tação de um processo interno, de uma reviravolta interna,
irule etc." lembra a figura da segunda Catilinária ''abiit, excessit, é expressamente cristã. Et non erat iam ille qui venerat, sed
evasit, erupit", & qual, aliás, supera em muito, pelo conteúdo unus de turba ad quam venerat: esta é uma frase que, tanto
real da sua exacerbação e pela imediata passagem para o obje- na sua forma como no seu conteúdo, não é imaginável na Anti-
tivo - e ainda existem, sobretudo na segunda parte do texto, güidade clássica; isto é cristão, e, muito especialmente, . agos!i-
uma grande quantidade de figuras, antiteses e paralelismos. uiano, pois ninguém observou coroo êle, numa pesqwsa tao
O retórico parece mais clássico do que em Amiano ou em Jerô- apaixonada, o fenômeno do conflito : da co7~is_tência ~as, f?rças
nimo; contudo é claro e evidente, à primeira vista, que não internas, a mudança das suas relaçoes antttettca e sintetica e
se trata de um texto clássico; no tom há algo de penetrante- seu efeito; de maneira alguma somente no caso prático, como
mente impulsivo, algo de humanamente dramático, e na forma, aqui, mas também em problemas puramente teóricos, ':lue sob
um predomínio da parataxe; estas duas coisas, tanto isolada- suas mãos se convertem em dramas; o testemunho mais pene-
mente quanto em conjunto, têm um efeito totalmente anticlás- trante disto é dado pelo seu escrito acêrca da Trindade, e se se
sico. Ao observar, por exemplo, a frase nam quodam pugnae ouiser comprovar com mais um exemplo, pequeno mais carac-
caso etc., que contém tôda uma série de membros introduzidos terístico, quão problemáticos e, ao mesmo tempo, quão. clll:1"os
hipotàticamente, resulta que ela é coroada por um movimento são para êle o devir e o desenvolvimento, leiam-se as P:1mAe1r~s
simultâneamente dramático e paratático: aperuit oculos,. et per- frases das Confissões l, 8, onde se fala da passagem da mfanc1a
cussus est, etc. - procurando rastejar a impressão desta passa- para a puberdade; uma passagem como esta seria inconcebível
gem, lembram-se certas passagens bíblicas, que se refletem na antes de Santo Agostinho. A parataxe serve a Agostinho para
Vulgata da seguinte maneira: Dixitque Deus: fiat lux, et facta exprimir o impulsivo e dramático, sendo que se trata, em ger~l,
est lux; ou: ad te clamaverunt, et salvi facti sunt; in te sperave- de processos internos; em contraste, falta quase totalmente ~q~Jlo
runt, et fWt1 sunt confusi (Salmos 22, 6); ou: Flavit spiritus que Amiano e outros autores do tempo, mesmo autores cnstaos,
tuus, et operuit eos mare (E,xodo 15, 10); ou: aperuit Dominus visam, isto é, a pintura sensorial do acontecimento externo,
os asinae, et locuta est (Números 22, 28); em tôdas estas passa- sobretudo do mágico, do doentio e do horrível. No nosso texto,
gens, no lugar da hipotaxe causal ou, pelo menos, temporal, que daria bastante motivo para uma tal pintura, o assunto é
que seria de esperar no latim clássico (seja mediante cum liquidado com um par de palavras poderosas, mas totalmente
ou postquam, seja pelo ablativo absoluto ou mediante uma cons- ..:orrentes.
trução de particípio) aparece a parataxe com et; o que de modo Não obstante, também aqui o processo interior, trágico e
algum enfraquece a ligação entre os dois acontecimentos, mas, problemático, está incorporado na realidade concreta cont~m-
ao contrário, ressalta enfàticamente esta relação; do mesmo porânea; a separação dos campos estilísticos chegou ao seu fim.
modo que, em português, tem maior efeito dramático dizer: Também nos autores pagãos introduziu-se furtivamente, como
abriu os olhos, e foi ferido ... do que formular: quando abriu vimos, a pintura da realidade no campo do estilo elevado, e de
os seus olhos. . . ou ao abrir os olhos. . . Esta-observação acêrca forma muito mais pura ( deformada às vêzes só pelo encontro
do ápice da frase aperuit oculos, et percussus est é só um sinto- com o estilo pomposo da tardia Antigüidade), a mistura de esti-
ma de uma situação muito mais geral: certamente Agostinho los da tradição judeo-:::ristã penetrou nos escritos dos pais da
emprega o estilo do período clássico e as suas figuras de dicção Igreja. O ponto central propriamente dito da doutrina cristã,
( de forma totalmente consciente, como resulta das suas explica- 1incarnação e paixão, era, como já indicamos antes, totalmente
ções no quarto livro do seu De doctrina christiana), mas não incompatível com o princípio da separação dos estilos. Cristo
se deixa dominar por êle. O impulsivo, o penetrante da sua apareceu não como herói ou como rei, mas como um homem
essência exclui uma acomodação no processo comparativamente da mais baixa extração social; os seus primeiros discípulos foram
frio, sensato, que ordena as coisas de cima, próprio do estilo pescadores e artesãos, movimentava-se no mundo quotidiano do
clássico e, especialmente, do estilo romano; em tôda parte do povo palestino, falava com publicanos e prostitutas, com pobres,
nosso texto é possível observar com quanta freqüência êle põe doentes e crianças; e nem por isto suas ações e suas palavras
um membro da oração junto do outro, especialmente quando se deixaram de ter a mais elevada e a mais profunda dignidade;
trata de um desenvolvimento dramático: Trahitis, et ibi consti- toram mais importantes do que tudo o que aconteceu em qual- '
tuitis; adero ac superabo; interdixit, atque utinam obturavisset ljllCr outro tempo. O estilo, no qual isto vem narrado, não pos-
(um movimento não raro em outras ocasiões, aqui, porém, ,uíu nenhuma ou, pelo menos, possuía muito pouca cultura retó-
peculiarmente agostiniano); aperuit, et percussus est, ceciditque; 11c11 no sentido antigo, era "se,-mo piscatorius'', e, contudo, pro-
intravit et reseravit; ebibit, et non se avertit, secl jixit, et ne.1·<'it'- l 11111.hlnicntc comovente e mais eficaz do que a mais elevada
bat, et delectabatur, e/ inebriatur, N 11nr, ,•rllt iam ille. Isto scnu 11l11., rctúm:o lrágicn. E o mais comovente nessas narrações era
impossível no estilo clássico; trat11-sc, ~l'Ill lh1v1tl11, de: pnrnta1iu• 11 pt11Al1u 0111· o Rei d1l\ Rcb tenha sido escarnecido, cuspido,
62 MIMESJS
A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 63

estranho na antiga perspectiva histórica. Quando, por exemplo,


açoitado e pregado na cruz, como um criminoso comum, -
um acontecimento como o do sacrifício de Isaac, é interpretado
êste relato aniquila totalmente, tão logo domina a consciência
como uma prefiguração do sacrifício de Cristo, de maneira que
dos homens, a estética da separação dos estilos. Produz um
no primeiro, por assim, dizer, anuncia-se e promete-se o segundo,
nôvo estilo elevado, que não despreza absolutamente o quotidia-
e o segundo "cumpre" com o primeiro - figuram implere é .ª
no, e que incorpora em si o realismo sensorial, até o feio, o
expressão para isto -,. então se cria uma relação entre os dois
indigno, o fisicamente baixo; ou, se se preferir exprimir isto
acontecimentos, que não estão unidos nem temporal, nem. cau-
de maneira contrária, surge um nôvo "sermo humilis", um estilo
salmente - uma relação que, de forma racional e num decurso
baixo, da espécie que seria aplicável somente à sátira e à comé-
horizontal, se fôr permissível esta expressão para uma extensão
dia, mas que ora se estende muito além do seu território origi-
temporal, não é possível estabelecer.. Só é ~ssível estabel_ecer
nal, atingindo o mais elevado e o mais profundo, até o sublime esta relação quando se unem os d01s acontecimentos, vertical-
e o eterno. Já me referi a estas relações anteriormente e urna mente, com a providência divina, que é a única que pode plane-
vez ("Sacrae Scripturae sermo humílis", Neuphil. Mitteil., Hel-
jar a história desta maneira e a única que pode fornecer a chave
sinki, 1941, 57) indiquei o papel especial de Agostinho; êle, que
se sentia à vontade tanto no mundo retórico clássico como no para a sua compreensão: A co~exão temporal-hor~on!al ~ ca~-
sal dos acontecimentos e dissolvida; o agora e aqm nao e mais
mundo judeo-cristão, foi talvez o primeiro que tomou consciência
elo de um decurso terreno, mas é, simultâneamente, algo que
do problema da antítese estilística dos dois mundos. Assim o
sempre foi e algo que consumar-se-á no futuro. E, a bem dizer,
formulou, de maneira muito expressiva, na sua De doctrina chris-
perante o ôlho de Deus, é algo eterno, de todos os tempos,
tiana ( 4, 18), precisamente, com motivo do copo de água fria
já consumado no fragmentário acontecer terreno. Esta concep-
de Mateus, 10, 42.
ção histórica é de uma unidade grandiosa, mas era totalmente
A mistura estilística cristã não aparece tanto nestes pri- alheia à essência clássico-antiga, a qual destruiu até na estrutura
meiros tempos (na Idade Média é bem mais fàcílmente observá- da sua linguagem, ou pelo menos da sua linguagem literária, que,
vel) porque os pais da igreja só raramente aproveitavam a opor- com as suas sábias e bem matizadas conjunções, com os seus
tunidade de se ocupar pràticamente com a realidade contempo- r1cos instrumentos de ordenação sintática, com o seu sistema de
rânea. Não são poetas nem romancistas e, em geral, também determinação dos tempos, cuidadosamente elaborad~,, to!°ou-~e
não historiadores do seu tempo; as atividades teológicas e, sobre- inteiramente supérflua, a partir do momento em que Ja nao mais
tudo, as apologéticas e as polêmicas, ocupavam-nos por completo importavam as relações terrenas de lugar1 tempo e causalidade;
e ocupam, também, os seus escritos; passagens como as que aqui a partir do momento em que uma relação vertical, ascendente
citamos, de Jerônimo e de Agostinho, que descrevem a realidade de todo o acontecer para o alto, convergindo em Deus, era o
contemporânea, não são muito freqüentes. Tanto mais freqüen- único que importava, que tinha sentido. Necessàri:imentt:, sem-
tes é entre êles a atividade interpretativa da realidade - exegese, pre que ambas as concepções se encontraram: devena surgrr con-
antes de mais nada, das Sagradas Escrituras, mas também dos flito e a intenção de entrar num compromisso: entre, por um
grandes contextos históricos, particularmente da história romana, lado a representação que ligava cuidadosamente os membros do
para adequá-la à visão histórica judeo-cristã. Para isto é quase acontecimento entre si, cumprindo as seqüências temporais e
constante o emprêgo do método figural, do qual já falei antes, causais e permanecendo no campo do primeu:o plan~ terreno -
aqui mesmo e sôbre cuja significação e influência tentei deitar e, por outro, a exposição entrecortada e ~altitante, ~nterrogando
um pouco de luz noutra ocasião ("Figura", Arch. Roman., 22 o alto constantemente à procura de uma mterpretaçao. Quanto
436). A interpretação figural "estabelece uma relação entre dois mais educados no sentido antigo, quanto mais aprofundados na
acontecimentos ou duas pessoas, na qual um dêles não só se cultura antiga estivessem os escritores cristãos dos tempos patrís-
significa a si mesmo, mas também ao outro e êste último com- ticos tanto mais êles deviam sentir a necessidade de verter o
preende ou completa o outro. Ambos os pólos da figura estão cont~údo do cristianismo numa fôrma que não fôsse só mera
separados temporalmente, mas estão, também, como aconteci- tradução, mas uma adaptação às suas próprias tradições concei-
mentos ou figuras reais, dentro do tempo. Ambos estão con- tuais e expressivas. Também aqui Santo Agostinho serve como
tidos no fluxo corrente que é a vida histórica, e somente a sua cx.cmplo; grandes trechos da sua Civitas Dei, especialmente os
compreensão, o intellectus spiritualis da sua relação é um ato livros XV a XVIII, onde se fala do progresso (procursus) do
mental." Na prática, trata-se, primeiramente, quase sempre, da reino de Deus sôbre a terra, mostram o constante afã de com-
exegese do Velho Testamento, cujos episódios isolados são inter- plementar a interpretação figural-vertical com a apresentação de
pretados como figuras ou como profecias reais dos acontecimen- lkcursos que se sucedem historicamente. Leia-se, como exem-
tos do Nôvo Testamento. Encontra-se um exemplo disto no
plo, um capítulo qualquer, onde êle comenta uma ,narr~ção
fim do capítulo anterior, e vários outros exemplos comentados, no
hlblicn, talvez XVI, 12; lá se fala da familia de Tare, pai de
meu trabalho mencionado. Esta espécie de intcrprctnção intn.>"
-\ hrnf1o, t\lo ,... 110 O~nr\i,, 11, 26, o que é completado por S.
duz, como é fácil de ver, um elemento mtcirnmcntc nôvo l'
64 MIMESIS A PRISÃO DE PETRUS VALVOMERES 65

Agostinho mediante outros trechos bíblicos, por exemplo, Josué, quer princípio, segundo o qual poder-se-ia ordená-los e com-
24,2. O tema do capítulo é judeo-cristão, e também a exegese preendê-los - sobretudo depois da ruína do Império Romano,
c; éi o conjunto encontra-se sob o signo da Civitas Dei, que, que, como concepção do Estado, dava uma direção, pelo menos,
prefigurada desde Adão, consumou-se agora em Cristo. Inter- a visão política dos acontecimentos. O que sobrou foi o mero
preta-se a época de Taré-Abraão com um elo do plano divino observar, suportar ou aproveitar do que acontecia pràticamente
da salvação, como um dos estágios da seqüência figural de em cada instante; era material bruto que era recebido também
pré-figurações provisoriamente fragmentárias, anunciadoras da da forma mais bruta. Levou muito tempo até que os germes
Civítas Dei, e, neste sentido, ela é comparada com a época de C<;>ntidos no c~istianismo_ (mistura de estilos, visão em profun-
Noé, muito anterior. Contudo, dentro dêstes limites, apresen- didade no devmte), apoiados pela sensualidade de povos ainda
ta-se a constante preocupação em preencher as lacunas da repre- não carcomidos, pudessem desfraldar as suas fôrças.
sentação bíblica, em completá-la com outros trechos bíblicos ou
com considerações próprias, em produzir uma correlação fluente
dos acontecimentos e, em geral, em dar à interpretação, irracio-
nal em si, uma forma que seja, até o limite mais extremo, racio-
nalmente convincente. Quase tudo o que êle acrescenta ao relato
bíblico serve para esclarecer racionalmente a situação histórica
e para harmonizar a interpretação figural como a idéia da seqüên-
cia histórica ininterrupta. Aquilo que aqui se infiltra de clássico
antigo, manifesta-se também na linguagem, aliás, sobretudo nela:
trata-se de períodos que, ainda que apressadamente construídos
e de efeito não muito artístico (excesso de construções relativas),
estão, com a sua rica elaboração das partículas conectivas, com
hipotaxes temporais, comparativas e concessivas matizadas com
exatidão, com as suas construções participiais, no mais acerbo
contraste com a citação bíblica transcrita, com a sua parataxe
e a sua carência de membros conectivos. E.ste contraste entre
texto e citações bíblicas é freqüentemente encontrável nos pais
da Igreja e, quase em tôda parte, em Santo Agostinho; pois a
tradução latina da Bíblia tinha conservado o caráter paratático
do original. Reconhece-se claramente, num tal trecho da Civitas
Dei, a pugna que, lingüística e objetivamente, tinha lugar entre
os dois mundos, e que também poderia ter levado a uma extensa
racionalização e articulação sintática da tradição judeo-cristã;
só que isto não se deu. A mentalidade antiga já era dema~iado
quebradiça; a obra escrita mais importante e influente, a tradução
da Bíblia, não pôde senão imitar o estilo paratático do original
e veio, assim, ao encontro das tendências da fala popular, enquan-
to decaía a língua literária. E, finalmente, ocorreu a irrupção
dos germanos, os quais, não obstante todo o seu espantado res-
peito diante da cultura antiga, não estavam em condições de
aceitar justamente o que ela tinha de racional, a sua fina malha
sintática.
Assim, a interpretação figural dos acontecimentos venceu
em tôda a linha, mas ela não oferecia uma compensação total
pela perdida visão na conexão racional, fluente e terrena das
coisas, pois não podia ser aplicada a qualquer acontecimento
sem mais nem menos, não obstante, naturalmente, não faltassem
tentativas de interpretar imediatamente, das alturas, tudo o que
acontecia. Estas tentativas deveriam baldar-se diante du multi-
plicidade dos acontecimentos e da incognoscibilidade do~ dcciNõc.,
divinas, e, assim, largos campos do acontecer íicnram 11cm qual
Sicário e Cramnesindo SICÁRIO E CRAMN ESINDO 67

laret. Quibus venientibus coniunctisque civibus, ego aio: "Nolite,


o viri, in sceleribus proficere, ne malum longius extendatur. Per-
dedirnus enim eclesie filius; metuemus nune, ne et alius in hac
intencione careamus. Estote, queso, paeifiei; et qui malu ges-
sit, stante caritate, componat, ut sitis filii pacifici, qui digni sitis
regno Dei, ipso Domino tribuente, percipere. Sic enirn ipse ait:
Beati pacifici, quoniam fiJli Dei vocabuntur. Ece enirn, etsi illi,
qui noxe subditur, minor est facultas, argento eclesie redemitur;
interim anima viri non pereat." Et hee dicens, optuli argenturn
eclesie; sed pars Chramnesindi, qui mortem patris fratresque et
patrui requerebat, accepere noluit. Ris discedentibus, Sicbarius
iter, ut ad regem ambularet, preparat, et ob hoc Peetavum ad
uxorem cernendarn profieiscitur. Cumque servum, ut exerce-
ret opera, commoneret elevatamque virgarn ictibus verberaret,
ille, extracto baltei gladio, dominum sauciare non metuit. Quo
in terram ruente, currentes amici adprehensum servum crudeliter
cesum, truncatis manibus et pedibus, patibolo damnaverunt. Inte-
rim sonus in Toronicurn exiit, Sicharium fuisse defunctum. Cum
autem hec Chrarnnesindus audisset, commonitis parentibus et

4
a.mieis, ad domum eius properat. Quibus spoliatis, interemptis
A seguinte narração consta da História dos Francos de 11onnullis servorum, domus omnes tam Sicharii quam reliquorum,
Gregório de Tours (VII, 47 e IX, 19). qui participes huius ville erant, incendio concremavit, abducens
sccum pecora vel quecumque movere potuit. Tone partes ad
Gravia tunc inter Toronicos cives bella civilia surrexetunt. iudice ad civitatem deduete, causas proprias prolocuntur; inven-
Nam Sicharius, Jobannis quondam filius, dum ad natalis dominici tumque est a iudieibus, ut, qui nollens accepere prius conposi-
solemnia apud Montalomagensem vicum cum Austrigbysilo reli- cionem domus incendiis tradedit, medietatem precii, quod ei
quosque pagensis celebraret, presbiter Ioci misit puerum 11d íuerat iudicatum, amitteret - et hoc contra legis actum, ut
aliquorum hominum invitacionem, ut ad domum eius bibendi
tantum pacifici redderentur - alia vero medietatem eonposi-
gracia venire deberint. Veniente vero puero, unus ex his qu1
invitabantur, extracto gladio, euro ferire non metuit. Qui statim ciones Sicharius reddered. Tone datum ab eclesia argentum,
cecidit et mortuos est. Quod cum Sicharius audisset, qui amici- que iudicaverunt accepta securitate conposuit, datis sibi partês
tias cum presbitero retinebat, quod scilicet puei- eius fuerit inter invicem sacramentis, ut nullo umquam tempore contra alteram
fectus, arrepta arma ad eclesiam petit, Austrighyselum opperien1. r,ars alia musitaret, Et sic altercacio tetminurn feeit.
IUe autem hec audiens, adprehenso armorum aparatu, contra eum ( IX, 19) Bellurn •vero illu d, quod inter cives Toronicus
diregit. Mixtisque omnibus, curo se pars utraque conliderit, füperius diximus terminatum, in rediviva rursum insania surgit.
Sicharius inter clericos ereptus ad villam suam effugit, relictis ln Num Sicharius, cum post interfectionem parentum Cramsindi
domo presbiteri cum argento et vestimentis quatuor pueris sau- 111ognam cum eo amiciciam patravissed, et in tantum se caritate
ciatis. Quo fugiente, Austrighiselus iterum inruens, interfecti, mutua diligerent, ut plerumque simul cibum caperent, ac in uno
pueris aurum argentumque curn reliquis rebus abstulit. Dehim: puritcr stratu recumberent, quandam die cenam sub nocturno
cum in iudicio civium convenissent, et preceptum esset ut Au~- lcmpore preparat Chramsindus, invitans Sieharium ad epulum
trighiselus, qui homicida erat et, interfectis pueris, res ~inC' ~uum. Quo veniente, resideot pariter ad convivium. Cumque
audienciam diripuerat, censura legali condempnaretur. Jnito plu Sicharius crapuJatus a vino multa iactaret in Cramsindo, ad ex-
cito, paucis infra diebus Sicharius audiens quod res, quas Au~ 1remum dixisse fertur: "Magnas mihi debes referre grates, o
trigbiselus deripuerat, curo Aunone et filio adque eius fratrl' d11lcissime frater, eo quod interficerem parentes tuos, de quibus
Eberulfo retinerentur, postposito placito, coniunctus Audino, mot11 ncccptu eomposicione, aurum argentumque superabundat in do-
sedicione, cum armatis viris inruit super eos nocte, elisumquo 111um tuam, et nudus essis et egens, nisi hee te causa paululum
t ohornssit." Hec ille audiens, amare suscepit animo dieta Sichari,
hnspicium, in quo dormiebant, palrem cum fratre et filio mte
ll1xilquc ln cordc suo: "Nisi ulciscar interitum parenturn meo-
remit, resque eorum cum pecoribus, interfcctisque scrvi8, 1lhd11x1t. 111111, nmittcri nomen viri debeo et mulier infirma vocare." Et
Quod nos audientes, vehimenter ex hoc molcsti, ndiuncto i111lko, ,1111im cxtínctiR luminaribus, caput Sichari seca dividit. Qui par-
legncioncm ad cos mittemus, ut in noRtrn prc~cncin w nil·ntC',, vol11tn in ipso vituc tcrminum voecm emittens, cecidit et mortuus
accep..1 racione, cum pnce disccdcrcnt, ne i11rg1um III n111pl111~ pulu l'•I l'1tl'ri wrn, qui c11111 co vcncran1, dilabuntur. C'ramsindus
MIMESIS SICÁRIO E CRAMNESINDO 69
exanimum corpus nudatum vestibus adpendit m sepis stipite, ouvir isto chamou os seus parentes e amigos e correu para a casa
ascensisque aequitibus eius, ad regem petiit. .. de Sicári~. Depois de havê-la saqueado e de havet morto vários
* servos, pôs fogo em tôdas as casas que fazia!" parte da côrte, tanto
Graves lutas c1v1s surgiram, então, entre os habitantes da na de Sicário quanto nas outras, ]~vou consigo os reba~ho_s e tudo
região de Tours. Pois estando Sicário, filho do defunto João, fes- o que podia ser levado. Depois disto, as partes foram mhmadas a
tejando o nascimento do Senhor juntamente com Austregésilo e comparecer perante o juiz da cidade. Aí def:nderam as sua~ causa_s,
com os outros conterrâneos, na aldeia de Mantelão, o pres bítero e os juízes chegaram à senten~a de que aquele que ante~ nao havia
do lugar enviou um môço de serviço para convida r algumas pessoas, aceito a indenização e havia mcendiado as casas, deveria perder a
a fim de que fôssem à sua casa para beberem. Mas quando o metade do resgate que lhe havia sido concedido antes - o que era,
môço chegou, um daqueles que haviam sido convidados puxou a a bem dizer, contrário às leis, mas só foi feito para ap_aziguá-los -;--
espada e não hesitou em ferir o môço, que logo caiu e morreu. devendo Sicário pagar sômente a outra metade. Com isto, a lgreia
Quando Sicário, que tinha amizade pelo presbítero ouviu isto, ou deu o dinheiro, a indenização foi paga segundo a sentença, as partes
seja, que um criado do mesmo havia sido assassinado, pegou em reconciliaram-se e juraram nunca mais levantarem armas contra os
armas e foi à igreja, esperar Austregésilo. ~te armou-se também, outros. Assim terminou a querela.
ao ouvir isto, com tôdas suas armas, e foi ao seu encontro. E quan- (IX, 19) A luta entre os habitantes de Tours,, ~e _cuj~ fi~
do todos se misturaram em combate, e uma e outra parte sofreu falamos acima, voltou a se acirrar com renovada funa. Pms Si-
perdas, Sicário escapuliu-se entre os clérigos e fugiu para a sua cário tinha feito profunda amizade com Cramnesindo, não obstante
côrte, deixando, porém, sua prata, suas roupas e quatro dos seus êste ter morto os seus parentes, e êles chegaram a se amar tão
servos, feridos, na casa do presbítero. Depois da sua fuga, Austre- profundamente, que amiúde comiam juntos e dormiam nu!11 mesmo
gésilo irrompeu nessa casa, matou os servos e levou consigo o ouro, leito. Tendo, certa feita, preparado um jantar, Cramnesmdo con-
a prata e as outras coisas de Sicário. Mais tarde, quando aparece- vidou Sicário. Sicário veio e ambos sentaram-se juntos à mesa.
ram perante o tribunal civil, decidiu-se que Austregésilo seria con- Sicário, porém, escaldado pelo vinho, permitiu-se dizer muitas coi-
denado a pagar a multa legal por homicídio e por ter-se a propriado sas ofensivas para Cramnesindo dizendo, por fim, segundo contam,
das coisas, após ter morto os servos, sem esperar por uma sentença. as seguintes palavras: "Deverias ser-me muito g~ato, irmão _do
Sicário havia aceito estas decisões, porém ouviu, poucos dias de-• meu coração, por eu ter morto os teus parentes_; pois tens recebido
pois, que os objetos que Austregésilo lhe havia tirado estavam uma indenização por sua causa, e agora há mmto ouro e prata na
guardados com Auno, com o seu filho e com o seu irmão Eberulfo; 1ua casa; pobre e necessitado viverias agora, se tudo isto não te
sem respeitar o acôrdo, juntou-se com Audino, quebrou a paz e tivesse fortificado um pouco." O outro ouviu isto, e as palavras
os assaltou com homens armados, à noite. Irrompeu na casa onde encheram o seu ânimo de amargura, e êle falou no seu coração:
do·rmiam, matou o pai, o irmão e o filho, assassinou os criados e "Se eu não vingar a morte dos meus parentes, não mais merecerei
levou consigo todos os objetos e os rebanhos. Ao ouvirmos isto, ~er chamado de homem; merecerei ser chamado de mulher covarde."
ficamos muito aflitos, unimo-nos ao juiz do lugar, enviamos um Apagou imediatamente as luzes e fendeu a cabeça de Sicário com
emissário dizendo que deveriam aparecer perante nós para dirimir um talho. Sicário ainda proferiu um débil grito, antes de cair e
a questão e separar-se em paz, para que a querela não se expan- morrer. Os servos que com êle tinham vindo, porém, fugiram.
disse. Quando vieram, estando reunidos os cidadãos, falei entlio C'ramnesindo arrancou, então, as vestes do cadáver e o penduro_u
assim: "Deixai, ó homens, de cometer mais crimes, para que l!Mr num dos pilares da cêrca, subiu no seu cavalo e apressou-se a ir
mal não se estenda ainda mais! Já perdemos filhos da Igreja nestn ver o rei . . .
luta; receamos que se percam ainda outros. Estai, pois, em paz, e (Esta tradução procura somente tornar compreensível o acon-
quem tiver cometido más ações, que as pague em paz, pois sois filho, ledmento, mas não pretende dar uma idéia do modo de escrever de
da paz, dignos de receber pela graça divina o reino dos céus. Poi~ Gregório.)
~le diz: bem-aventurados os pacíficos, pois serão chamados filhoN *
de Deus. E vêde, se aquêle que fôr culpado, fôr demasiado pobre Ao ler êste trecho, ter-se-á, antes de mais nada, a impressão
para pagar a sua indenização, seja êle resgatado com o dinheiro dn de que aqui se narra uma história já em si muit~ embrul~ada
Igreja, contanto que a sua alma não se perca." Assim ofereci-lhe~ de maneira muito pouco clara. Mesmo quem nao se deixar
o ·dinheiro da Igreja. Mas o partido de Cramnesindo, que quel'in tlcHconcertar pela desordem da ortografia e das terminações fle-
vingar a morte do seu pai, do seu irmão e do seu tio, negou-se 11
aceitar a indenização. Assim, foram embora, e Sicário empreendeu l\10,rnis, terá certa dificuldade em esclarecer totalmente os acon-
uma viagem com o fito de ver o rei. Foi, para tanto, à região de fl'l'tmcntos. "Graves lutas civis surgiram, então, entre os habi-
Poitiers, para visitar a sua mulher. Lá, quando admoestou um t1u11c~ da região de T ours. Pois . .. " Agora dev~ria_m seguir
servo para que fizesse o seu trabalho, levantando a sua vara é 11~ c11U~as das desorde ns, mas o que se segue, em pnmeiro lugar,
e;astigando-o, êste puxou a espada que levava ao cinto e não hesitou ""honlrnndo ao rwm, ó um trecho da pré-história do ~aso, isto
em ferir o seu amo. Ao . cair Sicário à terra, acorreram OR seu~ I', , 1uc num,1 uldeia, o nde muitas pessoas es_tavam reu?1das para
amigo_s, pegaram o servo e o maltrataram c ruelmente, co rtando•lhe 1111111 fc,ti1 de Nutul, o padre da aldeia e nviou um c nado, para
as maos e os pés e levando-o ao patíbulo. Entretonto, chc,aou 11 rnnvi,htt· 11 hl'llCr 11l11un11 do~ que cstnvnm reunidos. Mas esta
Tours o bc;:,.to de que Sicário ha vil1 morrido, e C'rumnc:~indo, 110 11ílo é II l ll\lHII d n~ dc,mdl•n~ l 11111brn u esp écie de reloto que AC
70 MlMESIS SICÁRIO E CRAMNESINDO 71

encontra freqüentemente na língua falada, sobretudo em pessoas pode ser deduzido do que se segue, pois Sicãrio quer vingar-se
po~co cultas, apressadas ou descuidadas, de um tipo semelhante nêle pelo ato; a coisa não é dita; tarrtbém a introdução imediata
a 1st~: "On!em saí mais tarde do escritório. Pois o diretor, 0 dos diferentes edifícios, onde têm lugar os combates - a igreja,
Sr. Silva, es~~ve com o chefe, e então êles falaram do assunto X. a casa do padre - e as palavras inter clericos ereptus dão uma
E quando Ja eram quase cinco, vem o chefe e diz: 'Ah Sr. ima~em só muito confusa dos acontecimentos; sente-se a falta
Cost~. o senhor não poderia, por favor, fazer ràpidamente a de têrmos intermediários explicativos. Outras coisas, ao con-
relaçao, para que possamos dar ao Sr. Silva todo o material de trário, aparecem com demasia de pormenores. Por que Gre-
uma ve:, etc." A visita do Sr. Silva ao chefe informa tão gório não diz simplesmente: um dos convidados matou o criado?
P_?UCO sobr~ o ª!raso_ do Sr. Costa quanto o convite do padre ~le diz:. . . extracto gladio, eum ferire non metuit. Quis statim
sobre a ongem imediata das desordens; só nos dá a primeira cceidit et mortuos est -- de maneira tão pormenorizada êle
parte de um ,es_tado de coisas composto de vários membros, que trata dêste incidente, que só interessa pelas suas conseqüências,
o nar~ador e mcapaz de coordenar sintàticamente: êle tem a mas cujo motivo êle cala; isto teria sido bem mais importante
m~enç_a~ de d!r a conh;cer a cau_sa do resultado antecipado na do que mencionar que o criado caiu antes de morrer! Na frase
pnmeua_ oraçao, mas e confundido pela multidão dos dados seguinte, Gregório teme que o leitor já possa ter perdirlo
necess~nos yara tanto: ~te não tem _a energia de organizá-los o fio, pois acha necessário acrescentar quod scilicet puer eius
num so penodo, com a a1uda de um sistema de orações subordi- fuerit interfectus - só um leitor de ínfima capacidade de apreen-
n_adas, nem a previsão de se livrar do apêrto, uma vez reconhe- são já poderia tê-lo esquecido! Contraditoriamente, êle pres-
cida a sua incapacidade, com uma oração introdutória (por supõe que o mesmo leitor tenha bastante capacidade combina-
exemplo_: _"Is!o_ ocorreu assim"). Tal como aparece, o nam é tória, com o seu Austrighise/ium opperiens, pois êle omitiu
vago e_ tnJustJfJcad?, do ~esmo modo· que na oração posterior, comunicar-nos que Austregésilo está de alguma maneira rela-
~onceb1d_a de manetra m_u1to sell!elhante: nam Sicharius cum posr cionado com o assassinato - e, ainda mais, que todos os par-
mterfectzonem, etc., pois tambem nela o nam não introduz a ticipantes da festa não se encontram num mesmo local, como
causa do renascer das desordens, mas somente a primeirn parte tudo leva a crer. E continua do mesmo jeito. A frase que trata
?e um :stado de coisas muito complexo: em ambos os cas0s a do primeiro processo judicial ( dehinc cum in iudicio . .. ) , não
unpre~s~o da desordem é intensificada ainda mais pela mudança contém verbo principal algum; a frase seguinte é um monstro,
do SUJ~1t_o. E~ ambos, os casos a oração começa tendo Sicário pelas suas formas participiais superpostas, e totalmente carentes
por su1eito, pois Gregorio o considera, evidentemente as duas de sistematização gramatical: iníto placito, postposito placito, co-
vêzes, personagem principal; e em ambos os casos êle se vê niunctus Audino-, mota sedicione, elisumque hospicium; a tradu-
obrigado a introduzir o sujeito correspondente ao mencionado ção e a interpretação histórico-jurídica de ambas as frases são
estado de coisas, e _só é capaz de fazê-lo com outra oração, de
A
extremamente difíceis ( assim como todo êste processo jurídico
modo ~u~ as oraçoes todas se convertem em monstruosidades deu lugar a uma controvérsia outrora muito comentada entre
gramaticais. ç>~a, os comentaris~as (Bonnet, também Loefsted nos Gabriel Monod e Fustel de Coulanges, Revue Historique, XXXI,
seus comen~anos à Peregrfnatzo Aetheriae) ensinaram-nos que 1886 e Revue des Questions Historiques, XLI, 1887), não só
nam, no l~tun vulgar, assim como muitas das partículas conecti- pela multivocidade da palavra p/acitum, mas também pela pouca
vas do . latim'. ?ntes tão c]aras ~ definidas, perdeu a sua fôrçu clareza da estrutura lingüística como um todo; isto, por seu lado,
expressiva ongrnal; que nao mais tem função causal, .mas indica revela que o próprio Gregório é incapaz de ordenar claramente
somente uma descorada continuação ou transição. Mas isto não os acontecimentos.
acontec~ nas duas passagens de Gregório que estudamos. Pelo Austregésilo desaparece, sem que se saiba o que lhe acon-
C_?ntrãno, Greg~rio ainda sente o significado causal, emprega-o, teceu: introduzem-se novas personagens de maneira surpreenden-
so que de manem~ embrulhada e confusa. Talvez seja possível te, e só ocasional e incompletamente ouvimos acêrca da relação
re~nhe_cer, em tais exemplos, como o nam, devido às muitas t(IIC têm com os acontecimentos. O discurso com o qual Gre-
uhhzaçoes laxas, debilitou-se como partícula causal - aqui o iÓrio tenta apaziguar os ânimos é, por seu lado, compreensível
processo de relaxamento está ainda em marcha, ainda não est6 ~ó com um certo talento combinatório, pois quem é illi,, qui noxe
acabado. :B notável que tais processos, que ocorrem constante- ,rnlulltur, e quem o vir, cuja alma não deve se perder? Em con-
mente na língua falada, se infiltrem, aqui, na língua escrita de 1raNlC, a história, secundária em relação ao todo, da viagem de
un:i _ho~e~ como Gregório de Tours, que pertencia a uma fa - Si1,;ário u Poitiers e do seu ferimento por um servo - cujo inte-
m1ha d1stmta e se constituiu numa figura importante dentro dos 1éNse pura o todo do enrêdo consiste somente em que com base.
limites do seu tempo e do seu país. 11el11 com: o boato falso da sua morte - é narrada com riqueza
Prossigamos. O criado que traz o convite é ussassinudo d1· pormenores. Durnntc o segundo processo judicial ou conci-
por\ "um dos convidados": por quê? Isto não é dito. Que o l111tOl'10 é ncçc~s6rio novamente grande esfôrço para esclarecer
ass~ssino deva ter sido Austrcpésilo ou nl~11c111 do ,,·11 séq111to -.ti dr !Jlll' 11111 te 1· d1· <tlll' dinheiro ~e t, 11111 ein cndn caso. E em todo
MIMESIS
SICÁRIO E CRAMNESINDO 73

u primeiro trecho (pertencente ao sétimo livro) aparecem, cer-


,ratado por Gregório de forma yronuncia?ament~ hum~na ~ ~ne-
tamente, muitas subordinações, amiúde muito canhestras - não dótica. Assim, a sua obra adquire um carater mmto mais_ pro:,c1mo
é possível deixar de reconhecer o esfôrço em construir os pe- do das memórias pessoais do que a obra de qualquer h1stonador
ríodos - mas não há nenhuma conjunção claramente causal ou romano - é claro que não será necessário expor aqui até que
concessiva, com exceção do quoniam da citação bíblica, e do
ponto é diferente o caso de César.
etsi, cujo significado não me é de todo claro; contudo, parece
ser mais condicional ( = si) do que causal ou concessivo. O Um historiador antigo anterior não se teria, pois, oc_upado
segundo trecho ( que pertence ao nono livro) não dá exatamente desta história· se ela fôsse necessária para a compreensao d~
a mesma impressão, pôsto que se concentre ràpidamente numa algum contexto político maior! _tê-Ia-ia liqu_idado em não ~a:s
única cena, na qual interessa menos a ordem do que a evidencia- de três linhas. Quando uma sene de atos violentos ganha ~1gn1-
ção. Não obstante, também aqui a oração expositiva Nam Si- ficação política - pense-se no caso ~e Jugur!~ e dos se1:s pnmos,
charius, da qual já falamos, é uma construção monstruosa. em Salústio - o sistema dos motivos pohtJ.cos é pr~viamente
exposto, racionalizado minuciosa~ente e, ~elev~do retõncamente.
Evidentemente, um autor clássico teria ordenado os acon- Os pormenores cênicos sem in~eresse pohti_co sao, na melhor das
tecimentos de modo muito mais claro - supondo-se que êle
hipóteses, ocasionalmente aludidos, como e.º c~so, p_or exemplo,
se tivesse dedicado a um tema semelhante. Pois, tão logo se com as palavras occultans sese tugurio mullebris, ~cillae ,quando
põe a questão de como César, ou Lívio, ou Tácito, ou até Amiano do assassínio de Hiêmpsal (Jugurta, 12). Gregono'. yorem, ~m-
teriam narrado esta história, fica imediatamente claro o seguinte:
penha-se, às vêzes desaj~itad_a e prolixame~te, am1~~e, porem:
êles não a teriam narrado de maneira alguma. Para êles e para o com grande efeito, em v1suahzar os acon!ec1mentos. . _. . o pres
seu público, uma tal história não teria tido o mínimo interêsse. bítero do lugar enviou um môço de serviço para convidar algu-
Quem são Austregésilo, Sicário e Cramnesindo? Não são nem se-
mas pessoas, a fim de que fôssem à sua casa para. beber~11;- Mas
quer príncipes de linhagem, e as suas sangrentas rixas, nos melh o-
quando O môço chegou, um daqueles 9-ue ha~iam sido conv1d~do~
res tempos do Império, nem sequer teriam dado motivo ao gover-
puxou a espada e não hesitou em fenr o ~oço'. que logo cam <>
nador da província para fazer um relatório especial a Roma. Esta
morreu." Isto é, ainda que de modo muito sunp\es, uma nar-
consideração evidencia a estreiteza do horizonte de Gregório, a
ração visualizada; se assim não fôsse, não merecen_am ser men-
sua pouca visão de um todo amplo e estruturado, a sua pouca
cionados O fato do môço chegar, nem o de cair ':!1?rto. O
capacidade de ordenar o seu assunto segundo os pontos de vista
outrora válidos. O Império não mais existe; Gregório não mais mesmo acontece com o ataque vingativo c?nt~a A_ustregestlo~ ~ste'.
está num lugar para onde confluem tôdas as informações do certamente não é muito claro nas suas md1caçoes topo~raf1cas,
sente-se p~rém O esfôrço em visualizar todos os suces~1vos es-
orbis terrarum, selecionadas e classificadas segundo a sua impor-
~ágios cÍo proce~so; e o mesmo é vá~id~ _para a altercaçao entr~
tância para a nação. :Ble não dispõe das fontes de informações
Sicário e o seu servo, totalmente ins1gnif~cante para o prosse~m-
com as quais se contava anteriormente, nem da disposição segun- mcnto da ação. o exemplo mais peculiar e concludent~ _desse
do a qual eram redigidas tais informações. O seu olhar apenas esfôrço de visualização está no trecho_ que narra o assass1mo ~e
abrange a Gália; grande parte da sua obra, sem dúvida a mais
Sicário. Como os dois, um dos quais matar_a os pai:_entes p~o-
valio~a, consiste naquilo que êle próprio viveu na sua diocese, ou ximos do outro bastante recent~m~nte, se a,m1gar~m tao cor~1al-
naquilo de que tem notícia das regiões circunvizinhas. O seu mcnte, se tornaram tão inseparave1s que ate co_m1am 7 d'!rmiam
material limita-se essencialmente àquilo que êle próprio viu. :Ble juntos como mais uma vez Cramnesindo convidara S1cáno para
nã? possui um ponto de vista político no sentido antigo, e se se
11 m b~nquet~, como nesta 'ocasião Si~ário,, ébrio, com as st~::
qmser falar de algo semelhante na sua obra, tal ponto de vista torpes palavras irrita o seu companheiro ate o ponto. de deseJ .
seria o dos interêsses da Igreja. Mas também isto êle só enxerga se vingar de uma vez por tôdas e, finalmente, o assassmato em ~1
num campo limitado; não é capaz de pensar no todo da Igreja de · tudo isto apresenta uma visualização e reyela. um ~mpenho
tal forma que isso surja da sua obra com intensidade· tudo ficu cm imitar imediatamente o acontecido que a histonog_ra~~ ro~a-
circunscrito localmente, tanto material como mentalm'ente. Em 1111 nunca almejara (também o estilo pomposo e _p1ct nco e
compensação, e em contraste com os seus antigos predecessores, A miano não é imitativo), e que dificilme~te p~d_erao ~er enco!1-
que trabalhavam freqüentemente com informações mediatas ou trndos cm tôda a literatura antiga de conteudo seno. At.nda mais,
racionalizadas, Gregório viu êle próprio, ou obteve de relato~ imlo ·isto é psicologicamente grandioso, uma_ cena altamente arre-
orais imediatos a maior parte do que narra na sua história dos hutmlora entre dois homens, e totalmente ~m~regnada da estra-
francos. Isto vai ao encontro do seu instinto natural, pois Olc uhu ntmosfcrn da época merovíngia: a v1olenc1a desen_c oberta, o
se interessa imediatamente pelo que os homens fazem. !'!slcN
~uhitu, que n1,agu tôda lembrança do pass?~º e exclui ~ualquc~
tomam-se interessantes para êle, na medida em que se movimcn
tam ao seu redor, sem considerar o político no1 seu contcx.10 mui~ llll'VIMfiu do f'uturu, e, ['Or outrn lado, o rn1111mo cícito d,1 morn
l"l lNlll qm·, 11pH·w11t111l11 d11 lormn rm11s ' prnrn
· ·1·v·1
1 , , 11"10
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amplo. Também o político, nu medida cm qut• 11pnrl•n• 1 lrn JH"lll'ti.ir 1111 , ,.,1,1111,r, 111111~ l>1111111 l11du 1s10 ~ohrc~,111, 1111
74 MIMESIS SICARIO E CRAMNESINDO 75

cena, do modo mais agudo. A suspeita fácil, de que Cramnesindo nea, tirando-os das necessidades da sua própria fôrça imagina-
preparou conscientemente uma armadilha para Sicário - de que tiva - êle não estêve ali! Ble se esforça em tomar visível, palpável,
a amizade era somente fingida por êle, para que o inimigo se perceptível por todos os sentidos tudo o que narra. Para isto sei:e,
sentisse seguro - não é considerada por Gregório, e certamente também, a mais peculiar de tôdas as características do seu estilo,
êle tem razão com isto, pois conhecia as pessoas entre as quais os muitos e curtos discursos diretos dos quais se serve, sempre
vivia. No restante da sua obra lemos freqüentemente acêrca de que se apresenta uma ocasião propícia. Desta forma êle faz de
semelhantes atos de inconsciência. Parece que realmente os dois tôda narração, sempre que pode, uma cena. Em anteriores opor-
se lígaram com uma amizade tão honesta e próxima, que as suas tunidades já falamos acêrca do papel do discurso direto na histo-
consciências, que viviam só o instante, não suspeitavam que essa riografia antiga: lá, êle é utilizado quase que exclusivamente
amizade era antinatural e perigosa. Parece que, então, algumas para grandes alocuções de caráter retórico. O que nêles há de
palavras ébrias e torpes trouxeram repentinamente à tona a lem- sentimental ou dramático não é senão retórica; êles ordenam e
brança, fizeram recrudescer o ódio esquecido e que, portanto, o dominam os fatos, mas não os concretizam. Gregório, pelo con-
assassínio não foi senão uma decisão súbita; o que é tanto mais trário, apresenta diálogos e outras breves manifestações dos atô-
verossímil quanto, pelo que se lê a seguir, Cramnesindo fica em res, que irrompem num instante e convertem o instante em cen~.
maus lençóis, em conseqüência do seu ato, pois Sicário tinha na Não posso enumerar aqui a longa série de cenas nas quais
rainha Fredegunda uma poderosa protetora; se Cramnesindo se Gregório faz falar um ou dois homens, no seu latim acidentado
tivesse dado tempo para a reflexão, certamente teria agido de e, às vêzes, embaraçoso, nessa língua que gostaria tanto de ser
maneira diferente. Gregório conta tudo isto sem qualquer co- literária, mas que, aparentemente, deixa surgir, uma e outra vez,
mentário próprio, de forma puramente dramática, mudando o a fôrça concreta da fala vulgar. Gostaria de mencionar, contudo.
tempo verbal e caindo no presente Jogo que se aproXifi!a do alguns exemplos (um dêles já é dado pela cena de assassinato, da
acontecimento decisivo. Então êle passa ao discurso direto, tanto qual acabamos de falar) : na história de Átalo, a conversa entre
para transmitir o pataratear de Sicário, quanto para comunicar o o cozinheiro e o seu senhor (rogo ut facias mihi prandium quod
processo interno de Cramnesindo. Os dois discursos diretos são admirentur et dicant quia in domu regia melius rum aspeximus,
imitação imediata e pura do que realmente foi dito ou sentido, III, 15. Também ali, a conversação noturna entre o cozinheiro
sem qualquer reação retórica; as palavras de Sicário soam como e o genro); na luta pelo bispado de Clermont, as ameaças do
se pertencessem à fala vulgar, em que foram pronunciadas (se• presbítero Cato contra o arcediago Cautino (Ego te removebo,
gundo contam, dixisse fertur), retraduzidas para o desajeitado ego te humiliaho, ego tibi multas neces impendí praeci'piam, IV,
latim de Gregório. Em português poderiam ser reconstruídas 7); a discussão entre o rei Chilperigo e Gregório acêrca da Trin-
aproximadamente assim: "Para dizer a verdade, deverias ser-me dade (ira e sarcasmo do rei nas suas respostas, por exemplo,
muito grato, mano, por eu ter morto os teus parentes; graças à manifestum est mihi in hac causa Hilarium Eusebiumque validos
indenização que embolsaste, ficaste um homem rico, e não terias inimicos habere, ou sapientioribus a te hoc pandam qui mihi
agora de que viver, se esta questão não te tivesse arranjado." E consentiant, V, 44); Fredegunda junto ao leito de enfêrmo do
a rea_ção de Cramnesindo é exposta num monólogo interno, im- bispo Praetextatus, com tôda a cena precedente e a sucessiva
press10nante apesar da sua falta de jeito: "Eu não mais merece- (VIII, 31); a resposta do bispo Bertramno de Bordeaux na ques-
rei ser chamado de homem, mas de covarde mulher, se não vin- tão da sua irmã (requirat nunc eam revocetque quo voluerit, me
gar a morte dos meus parentes" - e imediatamente apagam-se obvium non habebit, IX, 33); a violenta discussão entre a prin-
as luzes, Sicário é assassinado, sem que se esqueçam os seus cesa Rigunda e sua mãe (IX, 34); Guntchram Boso e o
estertôres, e- também aqui lê-se cecidit et mortuus est; Gregório bispo de Tréveris (IX, 10); e, de maneira especialmente emocio-
não prescinde do corpo que cai. nante, o fim de Munderigo, que acaba quando Munderigo apa-
Uma cena, portanto, que um 'historiador antigo nunca teria rece no portão do seu castelo, pela mão do traidor Aregiselo, mo-
considerado digna de ser apresentada, é narrada por Gregório da mento em que o instante de suspense antes do assassinato é
forma mais visualizadora possível; e foi provàvelmente a sua vi ~nlientado com grande fôrça e dramaticidade mediante algumas
~ualizabilidade que o induziu a apresentá-la. Ao ler, por ex.cm rnlnvras em discurso direto: Quid adspicitis tam intenti, populi?
pio, a história da fuga do escravo Átalo (3, 15; ela serviu de A11 n111nquid non vidistis prius Mundericum? (III, 14).
tema para o Weh dem .der lügt (Coitado do que mente, de Em tôdas estas conversações e exclamações aparece a dra-
Grillparzer), topamos com a cena na qual os fugitivos se cs 11111tização mais concreta possível de processos curtos, espontâ-
condem dos seus perseguidores montados atrás de uma moitu dl• neos, que se dão entre sêres humanos: cara a cara, fala c~nt~a
amoras; e justamente diante destas moitas os cavaleiros purnm íulu, 011 ulôres se defrontam, palpitantes - um processo que dific1l-
dixitque unus, dum equi urinam proiecerint . . . Que autor 11ntl 111cntc pode Rcr cncontrndo nu historiografia antiga - até o
go teria dado um tal pormenor! Vê-se como Gregório, pnrn ,·t111 d16lnito do ti.mtro clfl~sico 6 conRtrufdo de maneira mais forte-
ferir fôlego às coisas, inventa l!lis detalhes de n1nnc11·11 t•~pontíl mente , anonul e 1ct61 llll Mn; o difilogo espontâneo r curto
76 MIMESIS SICÁRIO E CRAMNESINDO 77
encontra-se, certamente, nas escrituras bíblicas - compare-se o sempre, apenas sumário e carente de fineza, por exemplo, em
que dissemos antes a respeito. Sem dúvida, o ritmo e a atmos- IX, 19, perto do fim, acêrca de Sicário, essa linguagem pode ex-
fera da Bíblia, sobretudo dos Evangelhos, estão sempre presentes primir da maneira mais forte possível o desejo, a dor, o sarcasmo
para Gregório e são co-determinantes do seu estilo. E elas desa- e a ira, tôdas as outras paixões que ainda rugem dentro daqueles
tam fôrças que, de qualquer modo, estão latentes em Gregório e sêres. Quão mais imediata é esta sua convivência sensível do
na sua época. Pois em tôda parte pode-se sentir inconfundi- que a de um autor antigo pode ser apreendido através de uma
velmente a presença da linguagem vulgar falada, que, apesar de comparação com o mais realista dêsses autores, Petrônio. &te
não poder ainda, nem Ionglnquamente, ser escrita, ressoa, con- imita a linguagem dos seus libertos enriquecidos, deixa que falem
tudo, continuamente, na consciência de Gregório. O latim _e scri- o seu jargão degenerado e repulsivo, imitando com consciência
to de Gregório não está somente degenerado gramatical e sintàti- e exatidão bem maiores do que as de Gregório; mas fica claro
·amente. B também empregado, na sua obra, com uma finalidade que êle manipula êste estilo como um artifício, e que êle escre-
para a qual, originalmente, ou, pelo menos, nos seus temp?S de veria um relatório ou uma obra histórica de forma totalmente
esplendor, parecia pouco adequado, isto é, para imitar realidade diferente. É um senhor grande e culto, que apresenta uma farsa
concreta. Pois o latim rscrito do apogeu, sobretudo a prosa, perante seus semelhantes, com todo refinamento. O que faz é
é uma linguagem quase excessivamente ordenadora, na qual o arte cômica consciente, e êle é capaz de escrever de muitas for-
que as situações fatuais têm de material e de sensível mais é mas diferentes, se quiser. Gregório, porém, não dispõe de outra
visto e ordenado de cima do que tornado inteligível na sua sen- coisa senão êste seu latim, gramaticalmente atrapalhado, sintàti-
sibilidade material. Ao lado da tradição retórica, também o camente pobre e, desta forma, tornado quase escolar; não tem
espírito jurídico-administrativo da latinidade tem, aqui, sua par- registros que possa afinar, e também não tem um público que
te: na prosa romana do apogeu (mesmo nas cartas de Cícero, possa atingir com um tempêro fora do comum, com uma nova
e nelas até de maneira muito marcante; leia-se, por exemplo, a variante de estilo. Mas tem os acontecimentos concretos, que
famosa carta de justificação a P. Lentulo Spinter, ad fam . I, 9, ocorrem ao seu redor, que se desenvolvem diante dêle ou que
especialmente o § 21) predomina a tendência a relatar o real, lhe são relatados "quentinhos do forno", e isto, numa linguagem
o fatual, de forma simples, e até, se possível, de insinuá-lo com coloquial que, ainda que dela não possamos ter uma idéia per-
palavras muito gerais, sem ir além da alusão, mantendo distân- feita, ressoa constantemente nos seus ouvidos, como é evidente,
cia - pondo, em contraste, tôda a fôrça e a agudeza da lingua- servindo de matéria-prima do seu relato, enquanto êle se esforça
gem nos elementos sintáticos e de ligação: de tal forma que o em retraduzi-la para o seu latim semiliterário. O que narra é o
estilo adquire um caráter, por assim dizer, estratégico, com arli seu próprio, o seu único mundo; não tem outro, e vive nêle.
culações extremamente claras, enquanto o mat~rial que se encon Também a estrutura dos acontecimentos que tem a relatar
tra entre elas, apesar de predominar, não chega a ser propria- vem ao encontro do seu estilo. São todos, comparados com
mente descoberto de modo sensível. As ferramentas de lígaçã.o aquilo que os historiadores romanos anteriores tinham a relatar,
sintática atingem, dêste modo, extremo rigor, extrema exatidão ,tcontecimentos locais e se desenrolam dentro de uma camada de
e multiplicidade. Não se trata, com isto, apenas de conjunções pessoas cujos impulsos passionais e sensíveis são muito fortes e
e de outros meios de subordinação, mas também do uso dos cujas considerações racionais são muito cruas e pouco cultivadas.
tempos verbais; a colocação das palavras, a antítese e muitos t certo que, na obra de Gregório, só chegamos a conhecer a
outros elementos retóricos devem servir para o mesmo fim: o concatenação dos processos políticos de forma muito indistinta,
da ordenação exata, rigorosa, porém elástica e rica em nuanças. mas é como se nós cheirássemos o ar dos primeiros séculos do
Esta riqueza de articulações e de instrumentos de ordenação tornn dominio franco na Gália. Reina um terrível embrutecimento; não
possível uma multiplicidade muito grande de representações sub só irrompe a violência onde quer que seja, em cada um dos dis-
jetivas, uma surpreendente maleabilidade do raciocínio acêrca dos tritos, de maneira que os governos não têm a fôrça de empre-
fatos e uma liberdade de subtrair algo dos fatos e de insinua, gá-la com exclusividade - mas também a astúcia e a política
outras coisas, duvidosas, sem exprimi-las com responsabilidade 1,crdcram tôda forma, tornaram-se totalmente primitivas e gros-
- liberdade que, durante longo tempo, n ão tornou a ser alcan ~c, ros. O encobertamento e a perífrase, no comércio entre os sê-
çad.a nesta medida. A linguagem de G regório, pelo contrário, ri.:s humanos, tal como pertencem a tôda cultura elevada, isto é, à
não é capaz de ordenar os fatos senão de maneira muito incom l"mlcsia, o disfarce retórico, os processos indiretos, as regras
pleta. :Êle não é capaz de apresentar de forma nítida qualquc1 purn o dccôro externo, e as formalidades jurídicas, mesmo na
concatenação de acontecimentos que não seja muito simplcN prussccuçüo de um roubo polflico ou comercial, e assim por
Sua linguagem ordena mal, ou não ordena absolutamente. Mns dwntc, tudo iRto está cnfczauo ou, quando ainda existe em forma
ela vive no concreto dos acontecimentos, ela fala junto e dcn11 u 11l- 1 UÍl\ll~, Cl)IIVCl'lell ·NC cm Clll'IClllllnl grosseiro. Ao mesmo tem-
dos sêres humanos que nela se movimentam. Aindu 11wis, cn po, porém, m dl·scios 100 1ll·sridos de tt'ldn forma de véu; t1purc-
quanto o juízo que, ocasionalmente, Gregório cxprnuc é. q111m· u:111 1111~ 1• 11111·1lrut111111•11lr p11lpf1Vl"I~ 11~111 v1d11 c11111 11111111 se
78 MIMESIS SICÁRIO E CRAMNESINDO 79

material e se oferece, àquele que quiser representá-la, de forma tâncias que relata. Pelo seu próprio ofício interessa-se pela in-
desordenada, dificilmente ordenável, mas tangível, saborosa, pal- dividualidade do moral: é o campc presente da sua atividade.
pitante. Gregório é um bispo, isto é, um daqueles cuja tarefa era Da sua atividade nasce a sua observação e a sua vontade de
a construção da civilidade cristã: uma atividade de cuidados emi- anotá-la, e o seu talento, certamente muito pessoal, para o con-
nentemente práticos, na qual os deveres paroquiais se amalgama- creto, nasceu, de forma muito natural também. do seu ofício.
vam a cada instante com questões políticas e econômicas. No Muito evidentemente, não se pode falar, no seu caso. da divisão
período precedente, o maior pêso da atividade eclesiástica recaíra, estética entre os domínios do sublime-trágico e do quotidiano-
ainda, sôbre a fixação do dogma, com o que o espírito e a sa- realista. Quem tem a lidar n,a prática, como eclesiástico, com
gacidade tinham se desenvolvido de maneira amiúde extraordi- os homens, não pode separar êstes campos. Os elementos huma-
nária. No século VI, pelo menos no Ocidente, a atividade ecle- nos trágicos vão ao seu encontro cada dia, no material misturado
siástica se dirige totalmente para a prática e a organização. Des- e não escolhido da vida. E claro que o talento e o temperamento
ta mudança Gregório dá um exemplo vivo. Ele não reivindica do bispo Gregório vão muito além do que se relaciona mera-
qualquer formação retórica, não se interessa pelas controvérsias mente com os deveres pastorais e com o eclesiàsticamente prá-
do dogma. 'Bste existe, para êle, da forma que os concílios e tico. De forma um pouco inconsciente, êle se toma um escritor
determinaram. Mas há lugar, no seu coração, para tudo o que modelador, que tange a própria vida. Qualquer clérigo não po-
puder impressionar o povo - lendas de santos, relíquias e mila- deria ter chegado a tanto; porém, naquele tempo, somente um
gres para a fantasia, proteção contra a violência e a opressão, clérigo poderia chegar a isso. Nisto a cristianização se diferencia
ensinamentos morais simples e temperados com a promessa do da romanização original, no fato de que os seus agentes não se
prêmio futuro. Os homens, entre os quais vivia, nada entendiam limitam a ordenar a administração de cima, deixando o restante
do dogma e tinham apenas uma imagem muita crua dos misté- ao seu próprio desenvolvimento, mas, pelo contrário, est~o obri-
rios da fé. Tinham desejos e interêsses materiais, mitigados pelo gados a se preocupar pela individualidade. dos acontecunen!os
mêdo mútuo e pelo mêdo das fôrças sobrenaturais. Gregório quotidianos. A cristianização dirige-se imediatamente para o m-
parece ter sido o homem mais apropriado para estas circuns- divíduo e para o individual. Parece, aliás, que Gregório era
tâncias. Tinha pouco mais de trinta anos de idade quando foi consciente do significado e até da singularidade da sua profissão
sagrado bispo de Tours. Se fôr possível julgar o homem pclu de escritor. Pois, não obstante se desculpe muitas vêze~ do seu
escritor, deve ter tido coragem e temperamento - com certeza atrevimento de escrever, homem de formação literária insuficiente
não era fácil que alguma coisa que visse o fizesse perder as que é (esta é, aliás, uma fórmula retórica tradicional), acres-
estribeiras. :E.le é um dos primeiros exemplos daquele senso du centa uma vez (IX, 31) o pedido solenemente conjurante de que
realidade, prático e ativo, na Igreja, que fêz dos ensinamentos nenhum dos pósteros mude nada do seu texto: ut nunquam libros
cristãos algo que funcionasse dentro da vida terrena, e qu~· hos aboleri faciatis aut rescribi, quasi quaedam eligentes et quae-
pode ser admirado reiteradamente na igreja católica. Nada do dam praetermittentes, sed ita omnia vobiscum integra inlibataque
que é humano é estranho a Gregório; ilumina qualquer profu11 permaneant sicut · a nobis relicta sunt; tudo fica ainda mais
deza, chama as coisas pelo seu nome, mas conserva, não ohs nítido nas linhas seguintes, que fazem alusão à retórica escolás-
tante, a sua dignidade e certa unção no seu tom; não desdenha, tica e que parecem prever, por assim dizer, a sua posterior evo-
também, de forma alguma, o emprêgo de meios seculares uo lução no latim medieval: '"Se tu, sacerdote de Deus, sejas quem
lado dos clericais. Sabe que a igreja deve ser rica e poder0Ml fores (assim se dirige aos pósteros), fores ainda tão culto - e
se quiser atin.g ir alvos morais duráveis neste mundo, e que, se aqui êle enumera todos os conhecimentos científicos e literários
se quiser ganhar o coração de alguém de modo durável, é nec.cs - que o meu estilo ainda te pareça rústico (ut tibi stilus noster
sário também atá-lo mediante interêsses práticos. Além disto, sit rusticus) - mesmo então, eu te suplico, não destruas o que
a Igreja foi impelida para o prático e efetivo de muitas maneirus eu escrevi." Hoje em dia, quando Gr~gório parece a muitos,
- pelo sistema das esmolas, pela arbitragem de disputas, pela mesmo como estilista, mais valioso do que grande parte dos
administração dos seus bens imobiliários, que cresciam podem mais elegantes humanistas, uma tal apóstrofe não é lida sem emo-
sarnente. Num sentido mais elevado, menos prático, o crislia ção. Em outra ocasião, êle faz com que, em sonhos, sua mãe,
nismo já fôra realista desde o princípio. Já falamos antes em corno que o admoesta a escrever, responda aos seus escrúpulos, no
a vida de Jesus, entre o povaréu, e a sua paixão, simultâneamente st:nlido de que lhe falta a cultura literária, da seguinte ma-
sublime e ignominiosa, estremeceu a antiga imagem do trágico neira: Et nescis, quia nobiscum propter intelligentiam populo-
sublime. Mas o realismo eclesiástico, tal como se apresenta com rum magis, sicut tu loqui pote.ns es, habetur praeclarum? E por
Gregório de Tours, talvez pela· primeira vez de forma literária, ,~to di:dicu-se valorosamente ao seu trabalho, para saciar a sêde
está, além do mais, em meio ao prático, ativo na práticll, uli do [l<WO: s1•d q11id tim<'o ruMicl1c11,,111 meam, cum domir111s Re-
mentado pela experiência quotidiana, e robusto. P\llo seu l"ll 1/1•11111tc11 ,., t/,•11.1· 1m.l'l1•1 111/ d/.1·/r,11•11da111 1111111tla11t1c s<1plentlc,e va•
prio ofício, Gregório tem a ver com tôdus a~ pc~scrnq l' C'1rc1111~ 11ltrlf1•111 111111 11mt11n•1· 1w/ 11/.vn111m·.1·, ,,,., pllilr1sop/1os .l'('d rtt,ttkm
80 MIMESIS SICÁRIO E CRAMNESINDO 81

praelegit? Esta passagem tôda, com a aparição da mãe em e da linguagem periódica, pode desdobrar-se livremente com
sonhos, não é propriamente da História dos Francos, mas do Gregório. Um resto de coação persiste, evidentemente, na sua
prefácio à vida de São Martinho, e se refere. de forma imediata, ambição de, apesar de tudo, ainda querer escrever um latim
aos atos miraculosos dêste santo. Pode, porém, ser referida, sem literário. A língua vulgar ainda não é um instrumento utilizável
escrúpulos, a tudo o que Gregório escreveu: escreve sempre para 1iteràriamente; ela não basta, evidentemente, nem para as mais
o entendimento geral, imediato, material e concreto, tal · como modestas exigências de expressão literária. Mas já existe, como
corresponde ao seu talento e ao seu temperamento, ao seu ofício: língua falada, como língua que apreende o real quotidiano, e
sicut tu loqui potens es. como tal é perceptível em Gregório. O seu estilo mostra-nos
O seu estilo é totalmente diferente daquele dos autores um primeiro e temporão traço do despertar de uma nova maneira
da Antiguidade tardia, mesmo dos cristãos - ocorreu uma trans- de apreensão das coisas que acontecem, de forma material e
formação integral desde a época de Amiano e de Agostinho. sensível, e êste traço é tanto mais valioso para nós, quanto· são
É claro que se trata, como tem sido constatado repetidas vêzes, poucos os textos que ficaram conservados, da sua época e até
de uma degeneração, de uma decadência da formação e da ordem de tôda a segunda metade do primeiro milênio, utilizáveis para
lingüística; mas, contudo, não é somente isto. É um nôvo des- a nossa pesquisa.
pertar do· imediatamente sensível. Tanto o estilo quanto a
conformação do conteúdo tinham se tornado convulsivos na
tardia antigüidade. O excesso de meios retóricos e a tenebrosi-
dade da atmosfera que tinha se espraiado sôbre os acontecimen-
tos conferem aos autores tardios, desde Tácito e Sêneca 'até
Amiano, algo de penoso, violento, extenuado; com Gregório a
convulsão fica liberada. ~le tem muita coisa abominável para
contar, traição, violências e assassínios são ocorrências totalmen-
te quotidianas, mas a vivacidade simples e prática com a qual
as narra não permite que surja a pesada letargia que encontra-
mos nos autores romanos tardios, à qual também os autores
cristãos dificilmente podem escapar. Quando Gregório escreve,
a catástrofe já aconteceu, o Império ruiu, a organização desmo-
ronou, a antiga formação está destruída - mas a tensão está
desfeita, e o seu espírito se defronta com a realidade de maneira
mais livre, mais imediata, não mais aflita por espécie alguma de
exigências irrealizáveis, disposto a agarrar essa realidade de
maneira viva e a agir em seu seio de forma prática. Deite-se
mais um olhar sôbre a frase com a qual Amiano começa a nar-
ração de que se falou no capítulo anterior: Dum has exitiorum
communium cúules, etc. Uma oração como esta domina pano-
râmicamente uma situação real composta de muitas partes, e
dá, além disso, uma ligação exata entre o anterior e o seguinte.
Mas, como é penosa, como é convulsiva esta oração! Não é
um verdadeiro recreio ler, após isto, o comêço de Gregório:
Gravia tunc inter Toronicos beUa civilia surrexerunt ... ? Ê.
evidente que o tunc não é senão uma ligação frouxa e carente
de nitidez, e a expressão tôda é crua, pois bella civilia certamen-
te não é a palavra mais apropriada para as desordenadas pan-
cadarias, para os latrocínios e assassínios de que se trata. Mas
as coisas se apresentam a Gregório de forma imediata, êle não
mais precisa enfiá-las à fôrça na blindagem do estilo elevado,
e elas próprias crescem e vicejam livremente, não mais amarra-
das pelo aparelho da reforma diocleciana-constantina, que foi
somente uma coação e não mais uma revitalização. O rcul-mu-
terial, que irrompe em Amiano, apenas espectral e mctafõricu
mente, agravado pelos grilhões do domínio hierárquico forçudo
A Nomeação de Rolando como A NOMEAÇÃO DE ROLANDO .. . 83
Chefe da Retaguarda LX Quant ot Rollant qu'il ert en la rereguarde
do Exército Franco Ireement parlat a sun parastre:
"Ahi! culvert, malvais bom de put aire,
Quias le guant me cai'st en la place,
765 Cume fist a tei le bastun devant Carle?"

LXI "Dreiz emperere", dist Rollant le barun,


"Dunez mei l'arc que vos tenez el poign.
Men escientre nel me reproverunt
Que il me chedet cum fist a Guenelun
770 De sa main destre, quant reçut le bastun."
Li empereres en tint sun chef enbrunc,
Si duist sa barbe e detoerst sun gernun,
Ne poet muer que des oilz ne plurt.

LXII Anpres iço i est Neimes venud,


775 Meillor vassal n'out en la curt de !ui,
E dist ai rei: "Ben l'avez entendut;
Li quens Rollant, il est mult irascut.
La rereguarde est jugee sur lui:
N' _avez baron ki jamais la remut.

5
LVIll 737 Tresvait la noit e apert la clere albe . ..
P ar mi cel host (sonent menut cil graisle) .
780 Dunez li !'are que vos avez tendut,
Si li truvez ki trés bien li aiut !''
Li reis li dunet e Rollant l'a reçut.
*
A noite passa, a clara alba aparece . ..
Li emperere mult fierement chevalchet. O imperador cavalga mui orgulhosamente. ''Senhores barões",
740 "Seignurs barons", dist li ernperere Caries. diz o imperador Carlos, "vêde os desfiladeiros e as estreitas passa-
"Veez les porz e les destreiz passages: gens: escolhei-me quem ficará na retaguarda." Ganelão responde:
Kar me jugez ki ert en la rereguarde." " Rolando, meu enteado: não tendes barão de igual valentia." Quan-
Guenes respunt: "Rollant, cist miens fillastre: do o rei ouve isto, olha-o ameaçadoramente e lhe diz: "Sois o pró-
N'avez baron de si grant vasselage." prio diabo. Ira mortal entrou em vosso coração! E quem estará
745 Quant l'or li reis, fierement le reguardet, diante de mim, na vanguarda?" Ganelão responde: "Ogier da Di-
Si li ad dit: "Vos estes vifs diables. namarca: Não tendes barão que o faça melhor do que êle."
El cors vos est entree morte! rage. O conde Rolando, quando se ouviu eleger, então falou como
E ki serat devant mei en l'ansguarde?" deve fazê-lo um cavaleiro: "Senhor padrasto, devo-vos profundo
Guenes respunt: "Oger de Denemarche: agradecimento: elegestes-me para a retaguarda! Carlos, o rei que
750 N'avez barun ki mielz de lui la facet." a França tem, não perderá nada com isto, por quanto a mim toque:
nem palafrém, nem cavalo adestrado, nem mulo ou mula que deva
cavalgar, nem rocim nem azêmula, sem que as espadas lutem por
LIX Li quens Rollant, quant il s'oi1 juger, êles." Ganelão responde: "Dizeis a verdade, eu o sei muito bem."
Dunc ad parled a lei de chevaler:
Quando Rolando ouve que vai na retaguarda, falou irado para
"Sire parastre, mult vos dei aveir cher: o seu padrasto: "Ai, patife, mau homem bastardo ... , pensaste com
L a rereguarde avez sur mei jugiet! certeza que a luva me ooiria ao chão, como a ti o bastão, quando
755 N'i perdrat Caries, li reis ki France ticn t, estiveste diante de Carlos?"
Men escientre palefreid ne destrcr,
"Justo imperador", disse Rolando o barão, "dai-me o arco que
Ne mui ne mule que deiet chevalchcr, tende.~ cm punho. Acho que não me poderão reprovar que êle caiu
Ne n'i perdrat ne runcin nc sumcr de m im, como c11iu dn dc~tra dei Ounolüo, quando recebeu o bastão."
Que as espees ne seit einz eslegict." O irnpenuto, tlnh11 n Mm cnbcç1l 11bnixnda, t1cariciou a sua barba e
760 Ouenes respunt: "Veir dite~, jol s111 hi~·n ·• tnrc111 u ~ru h111mlr. ~l<'I 111,0 pl\tll' l'vit111 t111c o~ se11R olhos chorn~~cm
84 MlMESlS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO . . . 85

Após isto, veio Naimes. Não havia na côrte melhor vassalo 740 li emperere Carks, não obstante êste seja também sujeito
do que êle. E disse ao rei: "Bem ouvistes; o conde Rolando está da ~ração anterior). Observemos, agora, os discursos isolados.
muito irado: a retaguarda lhe foi designada; nenhum barão poderá A intimação de Carlos contém um curso causal de idéias: pois
jamais substituí-lo. Dai-lhe o arco que tendestes; e encontrai quem que devemos passar por lugares difíceis, escolhei alguém que ... ;
muito bem o ajude!" O rei lho deu e Rolando o recebeu. mas, em correspondência com a atitude altiva do imperador,
* mult fierement, esta intimação é paratàticamente feita com duas
orações principais, uma oração demonstrativa (eis o terreno di-
Os versos transcritos são do manuscrito de Oxford da Canção fícil) e uma imperativa. Como resposta segue, à guisa de luva
de Rolando. Relatam a escolha de Rolando para uma tarefa de desafio, a proposta de Ganelão, novamente paratática, em
perigosa, isto é, a sua nomeação como comandante da retaguar- três membros: primeiro o nome, depois a menção, plena de
da do exército franco, que, após a campanha espanhola, retira- vingança triunfante, do parentesco (cist miens fillastre, lembran-
se através dos Pireneus. A escolha ocorre por proposição do do o correspondente mis parastre, v. 277 e 287, ço set hom ben
padrasto de Rolando, Ganelão. Corresponde, no seu decurso, que jo sui tis parastres), finalmente, a motivação laudatória,
a um acontecimento anterior, a escolha de Ganelão como em- certamente formal e irônica e iradamente entoada. A isto se-
baixador do rei Carlos junto ao rei dos sarracenos, Marsílio, gue-se a curta pausa dramática com o olhar obscuro de Carlos.
segundo uma proposição de Rolando (verso 274 e segs.). Ambos A sua réplica, também ordenada paratàticamente, começa com
os processos baseiam-se numa antiga inimizade, que resulta de palavras veementes, que mostram que êle adivinha as intenções
disputas por motivos de posses (v. 3758) entre os dois barões: de Ganelão, mas também, que êle, como mais tarde Naimes o
cada um procura a ruína do outro. A embaixada junto a Mar- corrobora, não conta com nenhum meio eficaz de rejeitar a
sílio era, como se sabia por experiências anteriores, extrema- proposta. Talvez a frase com que encerra a sua fala possa ser
mente perigosa. O seu desenvolvimento mostra que também te- interpretada como uma espécie de tentativa d~ contra-a:aqu~:
ria custado a vida a Ganelão, se êle não tivesse oferecido ao preciso de Rolando para a vanguarda! Se esta mterpretaçao for
rei dos sarracenos um trato traidor, que apaziguaria, ao mesmo · correta é certo que Ganelão rechaça imediatamente o contra-
tempo, o seu próprio ódio e sua sêde de vingança: êle promete ataque,' e a estrutura do seu segundo discurso, idêntica à do
ao rei entregar-lhe a retaguarda do exército franco, com Rolan- primeiro, salienta o incisivo de sua aparição. Evidentemente, en-
do e seus amigos mais chegados, os doze pares, os quais êle contra-se numa posição muito forte, e está bem seguro do seu
apresenta ( com razão) como o partido beligerante na côrte. triunfo. Nesta laisse, também sintàticamente, as coisas se dão
Ora êle voltou com as insinceras ofertas de paz e de submissão com dureza.
de Marsilio ao acampamento franco. O retôrno do exército para
França começa, e Ganelão ainda precisa, para tomar realidade Há uma certa contradição entre a agudeza e certeza da
o plano combinado com Marsílio, fazer o necessário para que expressão e o fato de que, na cena, muita coisa não está bem
Rolando vá à retaguarda. Isto acontece nos versos acima tran~ clara. ~ dificilmente admissível o fato de que o imperador se
critos. sinta obrigado a aceitar a proposta de um só dos seus barões.
De fato em outros casos semelhantes (por exemplo, antes, na
O acontecimento é narrado em cinco estrofes (/aisses) . escolha 'de Ganelão v. 278/9 e 321/2, cf. também v. 243) é
A primeira contém a proposta de Ganelão e a imediata reação mencionada expressamente a aquiescência do exército. Pode-se
de Carlos; a segunda, terceira e quarta estrofes ocupam-se da supor que também aqui ela se dê, sem que seja dito, ou que o
atitude de Rolando diante da proposta; a quinta traz a intervcn imperador sabe que ela seria dada, se~ dúvida; mas mesmo se~-
ção de Naimes e a definitiva nomeação de Rolando pelo rei. do assim, se, portanto, a nossa versao encobre algo da tradi-
A primeira estrofe mostra, antes de mais nada, uma introdução ção, isto é, que Rolando também tem inimigos entre os francos,
de três versos, três orações justapostas paratàticameote, que des• que lhe de-sejam uma tarefa perigosa e um afastamento do sé-
crevem a partida matutina do exército (antes falou-se da último quito real, talvez temendo que pela sua influência ainda po~sa
noite e de um sonho do imperador). Logo, segue-se a cena da ser anulada a decisão de suspender a guerra - mesmo assim
proposta, concebida em forma de dois intercâmbios de discurso
é enigmático o fato de o rei se colocar, pela sua intimação, nu-
e réplica: a intimação à escolha, a resposta com a propo:it n,
ma situação da qual não acha saída, sem antes ter-se preocupado
resposta interrogativa, réplica. Os dois pares discursivos cstuu
cm encontrar uma solução que lhe conviesse. Deveria conhecer
emoldurados da mais exterior e estereotipada simplicidade (d/,1·/,
11~ tendências dos seus seguidores e, além do mais, fôra advertido
respunt, dit, respunt). Após o primeiro par, há interrupção oca
sionada pelo verso 745, o único que contém uma curta hipot11xc por um sonho. Isto nos leva a um segundo enigmC até que
temporal; todo o mais é dado em orações principais, que, comu ponto adivinha os planos de Ganelão, at6 que pon~~ sabe com
blocos, estão justapostos e contrapostos, e cujn indcpcntlênch nntoccdllncin o que ncontccerá? Não 6 possivel admitir que este-
paratática é salientada ainda pelo fato de ser no111c11tlo, cniln j11 totnl111cntc n pr11 do J')luno de Gnnclão; mas se não o está,
vez, o sujeito falante (de modo cspcciulrncntc dnro 110 vrr~o l'III r,o , 1111 l l'IIÇbo drunh- 1h1 propust11 ( 110,f t.Stl's 111/s dlablr.r, etc.)
86 MIMESIS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO ... 87
parece exagerada. A atitude tôda do imperador carece de nitidez e contribui p ara evidenciar ainda mais a estreiteza do espaço
e, com tôda a decisão autoritária que às vêzes demonstra, está vital apresentado. O cristianismo dos cristãos é puramente dado
como que letàrgicamente paralisado. A posição importante, por assentado; esgota-se na confissão de fé e nas fórmulas li-
simbólica, semelhante à de um monarca divino, que o faz apa- túrgicas a ela correspondentes. Além disto, está c?locado de
recer como cabeça de tôda a cristandade e como modêlo de per- forma extrema a serviço da vontade de luta cavalherresca e da
feição cavaleiresca, está em estranho contraste com a sua expansão política. O~ francos qu~ !ez_am e re~ebe_m a absol-
impotência. Ainda que hesite e até chore, ainda que pressinta vição antes da luta terao, como pemtenc1a, a obngaçao de bater-
a desgraça futura, em um grau não exatamente determinável, se com violência. Quem cair numa tal luta é um mártir e tem
não pode evitá-la. De~nde dos seus barões, e entre êles não direito certo a um lugar no paraíso. As conversões pela fôrça,
se encontra nenhum que possa mudar em algo a situação (ou que durante as quais os obstinados são mortos, são uma obra que
o queira? isto depende da interpretação do verso 779), da mes- agrada a Deus. Este modo de pensar, que, como cristão, é sur~
ma maneira que, mais tarde, durante o processo contra Ganelão, preendente, e que, como cristão, antes não existia, não telll: aq~1,
deveria deixar inulta a morte do seu sobrinho Rolando, se não na Canção de Rolando, como tinha na Espanha, uma mohvaçao
se encontrasse finalmente um único cavaleiro disposto a tomar baseada numa determinada situação histórica. Em geral, não é
o seu partido. Pode-se arrolar algumas explicações para tudo dada motivação alguma; mas as coisas são como são, uma estru-
isto. Assim, por exemplo, a fraca posição do poder central na tura paratática, feita de colocações muito simples, poré~, amiú-
estrutura social feudal, da forma como ela se desenvolveu ampla- de, contraditórias em si mesmas e extremamente estreitas.
mente, não tanto ainda no tempo de Carlomagno, quanto mais Passemos, agora, à segunda parte do acontecimento, à rea-
tarde, no tempo da composição da Canção de Rolando. Junto a ção de Rolando. Dela se ocupam três laisses. Nas duas pri-
isto, algumas idéias semi-religiosas e semi-lendárias, tais como as meiras fala com Ganelão, na terceira com o imperador. As
que também se encontram para algumas figuras reais do romance suas falas contêm três motivos, de diferente intensidade, e en-
cortês, idéias que unem à figura do grande imperador certos tra- trelaçados de maneiras diferentes. Uma autoconsciência mons-
ços sofridos, martirizados, letàrgicamente paralisados. Com cer• truosamente imponente _e selv~gem, e_ l_ogo, ódio ~on~ra Gan~l~o,
ceza também têm o seu efeito os paralelos cristãos ( 12 apóstolos, e finalmente, com mwto maior debilidade, ded1caçao e ofic10-
Judas, pressentimento e não-impedimento). sidade perante o imperador. Os dois primeiros motivos en!rel~-
O poema em si não dá, porém, qualquer análise ou expli- çam-se de tal maneira, que, ante~ de mais nada, aparece o _Prtme1-
cação para o enigmático dêste e de outros acontecimentos. De - ro com fôrça, mas já está embebido do segundo e do tercetro mo-
vemos aproximá-las nós mesmos, e elas têm um efeito antes tivo. Rolando ama o perigo e o procura; não é possível atemorizá-
daninho para a recepção estética. O poeta nada explica; e, -lo. Além disto, dá muito valor ao seu prestígio; ~ão quer que
contudo, o que realmente acontece é pronunciado com um rigo1 Ganelão goze nem de um instante de triunfo; e por isto faz q~es-
paratático que exprime que tudo devia acontecer como acontc tão antes de mais nada, de mostrar perante todos e com toda
ce, nem poderia ser de outro modo, e não precisa de membro~ ênt'ase que de maneira alguma perderá o contrôle, co~o Gane-
de ligação com fins explicativos. Isto refere-se, como é sabido, Ião o fizera numa ocasião semelhante (v. 332 ss.). Da1 o agr~-
não somente aos acontecimentos, mas também às opiniões e decimento a Ganelão, o qual, vista a inimizade entre o~ ,dois,
princípios, sôbre as quais repousa a ação das personagens. O
conhecida de todos os circunstantes, só pode ter efeito rromc?
cavalheiresco desejo de lutar, o conceito de honra, a mútua fide-
lidade entre companheiros de armas, a comunidade de castas, o ..: zombeteiro. Daí, também, a enumeração dos diferentes ant-
dogma cristão, a divisão do justo e do injusto entre fiéis e infiéis, mais de sela e de carga, nem um só dos quais quer render sem
tudo isto são, certamente, os principais dêstes princípios. São luta - uma imposição poderosa, demonstrati~a e ta~bém exi:o•
poucos. Apresentam um quadro estreito, no qual aparece so- s1t da sua valentia autoconsciente, que tambem obriga Ganelao
ao reconhecimento, reconhecimento que, evidentemente, taI1_1bém
mente uma camada social, e mesmo esta, de maneira muito sim-
plificada. T ais princípios são colocados sem motivação, comu é uma cilada - pois Ganelão justamentt;_ conta com a _confiança
pura tese : assim é. Não é necessária justificação alguma, Cl{p)a temerária de Rolando para acabar com ele! Mas o tnunf? mo-
nação de qualquer espécie, quando é pronunciada, por exemplo, nwntâneo de Ganelão é destruído de qualquer forma; pois de-
a frase paien unt tort et chrestiens unt dreit ( v. 1015) - emboru pois que Rolando fêz conhecer a sua posição a cont~nto, pode
dcil{ar livre curso ao seu ódio cheio de desprêzo, e isto adota,
a vida dos cavaleiros pagãos, é claro, mal se diferencie da dos
então, u forma de um triunfo sardônico pelo seu lad?: vês, cana-
cristãos, com exceção da diferença entre os nomes divinos; aindu lh111 cu não me comportei como tu outrora -:-- e amda quando
que amiúde, e, às vêzes, de maneira fantástica e simbólicn, êlcs c~t(1 dinntc de Carlos para receber o arco, mistura-se na expres-
sejam apresentados como sêres degradados e intimidatóriob, tum Mflu <1 11 sun pronliduo que está composta de _tal forT~ que re-
bém são cavaleiros, e a estrutura social parece ser II rnc<1ma pnru n-lu ir11p1tliê11~•1,1 ma1~ umu vc1. u comparaçao sardomcamcnte
êles e para os cristãos. P.stc pt1rnlclis1110 vu1 até us pm 11n-11111l'' 1111 111J.1I 1•11111• 11 ~1111 1111111dr l' 11 dc C.11ncluo. 1:stn cc1rn tôdu
88 MIMESIS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO ... 89

,_ 1 a de~onstr~ção a~tocon!ciente de Rolando, seguida da longa, processo. Em geral, na Canção de Rolando, tanto o urgente-
r~petida e !nunfa! ,r~pçao de ·sarcasmo e de ódio - está repar- intensivo quanto o múltiplo-simultâneo nos acontecimentos é
tida por_sobre tres la1sses e, como as duas primeiras se dirigem representado pela repetição e adição de muitos acontecimentos
a Ganelao, com fórmulas introdutórias muito semelhantes di- isolados, amiúde artlsticamente variadas. Isto vale também para
fere?ciadas somente pelas determinações adverbiais, uma' vez as séries de cavaleiros e de lutas que aparecem. As laisses 129
a lei de cheva~er, a outra. vez ireement - como, outrossim, após a 13 1, nas quais Rolando propõe, por sua vez, assoprar o côrno
uma observaçao superf1c1al e puramente racional, as duas não (o que é preparado em 128, e exprime de maneira sobremaneira
co~cordam no seu co~teúdo, sendo que a primeira parece ser artística o arrependido embaraço de Rolando), correspondem à
amistosa e a segunda, irada - alguns editôres e críticos duvida- cena anterior, só que os papéis estão trocados; agora é Oliveiros
ram da autenticidade do texto e riscaram uma das duas estrofes, quem responde negativamente três vêzes. Das suas três respostas,
geralmente ª,~gunda. A incorreção desta opinião já foi demons- que estão estruturadas com grande perspicácia psicológica, a
trada por Be~1er no seu comentário (Paris, Piazza, 1927, pág. primeira contém uma repetição teimosa e irônica dos argumen-
151), e est_a e tam_bé~, tal como surge da análise que acabo de tos contrários empregados por Rolando anteriormente, repenti-
fazer'. a mrnha_ opm1ao: a segunda laisse tem a primeira como namente torcidos no sentido de uma espontânea irrupção de
prenussa; a atitude mostrad~ na primeira laisse, que está cm solidariedade ( ou de surprêsa), à vista dos braços de Rolando,
profundo co~traste com ª. atitude de Ganelão naquele aconteci- cobertos de sangue; a segunda começa ainda com ironia, e acaba
mento. anterior, ~á o !llot1vo para o triunfo odioso da segunda. com um estouro de ira; sõmente a terceira formula as suas
Gostaria de apoiar, amda, esta conclusão numa outra conside- censuras e a sua dor de forma ordenada. Nas três /aisses do
r~ção,_ de cará_ter estilísti~o. A retomada repetida da mesma toque de côrno, 133 a 135, onde se trata, presumivelmente, de
s1tuaçao em lmsses sucessivas que aqui encontramos, de tal for- um toque repetido três vêzes, o efeito do côrno sôbre os francos
ma que, à primeira vista, seja possível duvidar se se trata de é desenvolvido cada vez de forma diferente. Os três efeitos tam-
u~ n~vo acont~cimento ou de uma representação completiva da bém dão, contudo, no seu conjunto, uma evolução, isto é, da
prunerra, é muito freqüente na Canção de Rolando (e também primeira estupefação até a compreensão total da situação (o que
nas outras Chansons_ de geste). Disto resulta que, também cm Ganelão tenta impedir), mas esta evolução não é uniformemente
outras passagens, haJa, como nesta que aqui comentamos, sur- progressiva, senão que avança aos trancos, com embates para a
preendentes mudanças nas retomadas. Nas laisses 40 41 e 42 frente e para trás, como o ato da procriação ou do parto. A repe-
Ganelã~ dá à pergunta três vêzes repetida de forma quase iguili tição variante do mesmo tema é uma técnica que provém da
p_elo rei Marsího (quando Carlos, que já é tão velho, cansar-se-1i poética médio-latina, a qual, por sua vez, a toma da velha
fi~almente da_ guerra) três respostas, a primeira das quais nfio retórica. Recentemente, Faral e E. R. Curtius assinalaram
dei.X.a pressentrr as outras: na primeira êle só fala em louvor de êste fato. Mas. com isto, a forma e o efeito estilístico das
Carlos, e só na segunda e terceira, fala de Rolando e do~ "regressões" na Canção de Rolando não se explicam - nem
~us companheiros . <:_orno ~ligerantes, com o que começa a sequer se descrevem. Evidentemente, tanto as séries de acon- D
vuage!.11 para a tra1çao; e somente na estrofe seguinte, na 43", tecimentos semelhantes como as retomadas são fenômenos
Ganelao fala de modo totalmente claro, com o que deixa tam cujo caráter se aproxima do da paralaxe nas formas das orações.
bém de la~o o tom reverente com que se referira a Carlos. )(1 Quer, em lugar de uma representação de massas, apareça a enu-
a,ntes, a atitude de ~anelão diante de Marsílio não é comprcen meração, sempre recomeçada, de cenas isoladas, de conforma-
s1v~l para uma análise puramente racional. Comporta-se, pt1 ção e desenvolvimento semelhantes; quer, em lugar de uma ação
me!f~~nte, de ~orm;.1 tão inamistosa e arrogante, como se qu1 intensiva, apareça a múltipla repetição da mesma ação, come-
sesse_ 1~ntar o rei à força, e como se nem pensasse em tratativa, çando sempre no ponto de partida; quer, enfim, em lugar de um
.e tra,çao. Em outros casos ( laisses 5 e 6; 79 a 81; 83 a 86; 129 acontecimento que se desenvolva em vários membros, apareçam
e 130_; 133 a 135; 137 a 139; 146 e 147, etc.) não se pode fulttr repetidas voltas ao ponto de partida, com, em cada caso, ~
prõpnamente em contradição entre os conteúdos das diferente, adição do desenvolvimento de diferentes membros ou moti-
estrofes, mas também aqui é freqi.iente a partida de um rncs11111 vos: sempre se trata de evitar a recopilação racionalmente
ponto em várias direções ou o avanço até diferentes pontn~ articulada e de preferir um processo estacante, justapositor, que
Quan,do'. na estrofe 80, Oliveiros subiu uma elevação e viu chc1111r avança e retrocede aos empurrões, com o que se dissipam as rela-
o ~x:rc1to sarrac:no, chama Rolando e fala com êle sôhrl' 11 ções causais, modais e até temporais. (Já na primeira laisse do
tra19ao de Gane~ao; ~a estrofe 81, que também começa com 11 poema, o úl timo verso, nes poet guarder que mais ne l'i ateignet,
subida da elevaçao, nao se fala em Rolando, mas Olive1ros dl'\ll"
all,anla-,c mmto no tempo.) Uma e outra vez toma-se impulso,
o _morro o mais depressa possível, para avisar os fruncos Nu,
l'.ttla 1domud,1 ,,olad.i é fechada cm si e independente, a seguinte
la1sses 83 e 85, nas quais Oliveiros pede três vêzc, u lfolund 11
par.a assop!ar o _côrno c obtém três vêze, 11 nw~nrn H·,p11st11 lll' rnlm:11•Sl' nu ',\'li ludo, e fn:qi.icntcmcntc fica cm suspenso a li-
gat1va, a intençao Uil rcpl.'!1ç110 tl·~idc n11111.1 111tcn,ll1l,1c;,l11 llo ,11,11;!111 l-111 Jl· .,mh." 'I 11111hl·m c1t,1 ~ 11mn forma do épico- rotar-
90 MIMESIS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO ... 91

dador, no sentido de Goethe e Schiller, mas não mediante inser- tura, só exteriormente hipotática, mas, em verdade, completa-
ções e episódios, senão pelo avançar e retroceder na ação prin- mente paratãtica, junta-se ainda a articulação do sentido segundo
cipal propriamente dita. ~te processo é muito claramente épico, cada um dos versos, as fortes incisões das assonâncias em u
próprio, até do épico-recitativo, na medida em que o ouvinte e as cesuras no meio dos versos, não tão fortes, mas certamente
que, porventura, se aproximasse durante a narração, receberia de perceptíveis, as quais também marcam nitidamente, em todos
imediato uma impressão completa. Ao mesmo tempo, é uma os casos, a virgulação semântica: neste estilo, não se faz sentir
subdivisão do acontecer em uma série de parcelas pequenas e nada que possa ser chamado fluxo discursivo ou periodicidade.
estáticas, que se seguram umas nas outras mediante fórmulas E de uma admirável unidade, enquanto a atitude das persona-
estereotipadas. gens está tão estreitamente limitada e estruturada pelo apertado
As três falas de Rolando não são tão curtas quanto as do quadro de ordens pré-estabelecidas, nas quais elas se movimen-
imperador e de Ganelão nà primeira laisse, mas também não tam, que os seus pensamentos, sentimentos e paixões acham
proporcionam um fluxo periódico. A longa oração da laísse espaço em tais versos; elas não conhecem um raciocínio extenso
59 não é senão uma enumeração várias vêzes interrompida; em e conectante, daqueles que os heróis homéricos gostam; tam-
tôdas as três !ais-ses, as orações secundárias são muito simples, e bém não hã nêles movimentos expressivos livremente fluentes,
independentes em alto grau; não se constitui um fluxo discursivo impulsionantes e coercitivos. Muitas vêzes já foram compara-
propriamente dito. O ritmo da Canção de Rolando nunca é das as palavras do imperador Carlos, ao ouvir o toque do cômo
fluente, como o das epopéias antigas. Cada verso começa de (v. 1768/9)
nôvo, cada estrofe avança de nôvo. Além da predominância da
parataxe, contribui para êste efeito a construção quase sempre Ce dist li reis: "Jo oi le corn Rollant!
acidentada, a-gramatical, quando, uma vez ou outra, são tenta- Une nel sunast. se ne fust cumbatant"
das algumas hipotaxes mais complicadas, bem como, também, •
a construção das estrofes, com as assonâncias, que fazem pare- Isto diz o rei: "Ouço o côrno de Rolando! Nunca soaria, se
cer cada verso como uma estrutura independente, e cada es_trofe éle não estivesse em combate."
como um feixe de membros independentes, tal como se paus ou
lanças de igual comprimento e de pontas semelhantemente traba- •
lhadas estivessem amarrados em feixe. Observe-se, por exemplo, com os versos correspondentes do poema de Vigny Le Cor:
a fala de Ganelão a favor da aceitação da oferta de paz de
Marsílio (v. 220 ss.), qve contém uma oração longa: Malheur! C'est mon neveu! malheur! car si Roland
Appelle à son secours, ce doit être en mourant 1
222 Quant ço vos mandet li reis MarsiJiun·
Qu'il devendrat jointes ses mains tis hum e esta comparação é muito elucidativa neste sentido. Mas não
E tute Espaigne tendrat par vostre dun, é necessário nenhum exemplo contrário, romântico. Também
225 Puis recevrat la lei que nus tenum, textos antigos e textos europeus posteriores, de épocas pré-ro-
Ki ço vos lodet que cest plait degetuns, mânticas, servem para tanto. Observe-se a prece de Rolando
Ne li chalt, sire, de que! mort nus muriuns. moribundo (v. 2384 ss.) ou a prece, de construção muito seme-
lhante, que o imperador reza antes da batalha contra Baligante
* ( v. 3100 ss.) ; repousam em modelos litúrgicos e apresentam,
Quando o rei Marsílio vos manda diz.er que, com as rni\os
juntas quer ser vosso vassalo e possuir tôda a Espanha como vos~o conseqüentemente, um fôlego bastante longo na construção gra-
feudo, e depois receber a fé que nós ternos, quem vos aconselhar matical. A oração de Rolando diz:
que rejeitemos esta oferta, não se importa de que morte rnorramoN.
Cf. Kudrun 242. 2384 "Veire Paterne, ki unkes ne mentis,
Seint Lazaron de mort resurrexis
* E Daniel des leons guaresis,
A oração principal (ne li chalt . .. ) está no fim; mas o prin-
Guaris de mei l'anme de tuz perilz
cípio do período não toma em consideração a sua construção, de
Pur les pecchez que en ma vie fis!"
modo que, após o desdobramento do conteúdo da mensagem tk
Marsílio, deve ser mudada a construção: a oração do q11t1111, com •
as indicações de conteúdo que dela dependem (que . . . e , . "Vero Pai, que nunca mentiu, que ressuscitou o santo Lázaro
puis . . . ) , a qual já esquece a sua estrutura pelo meio do cn• dn morte, que guardou Daniel dos leões, guarda a minh'alma de
minho (puis recevrat . .. já começa a se soltar do purênlc~c rwlo lodo~ o~ porlsos, por cn11~t1 e.los pecados que em minha vida cometi."
que), fica sendo um anacoluto, e com n oração do k/, t-nfhlku 1 A I 11• 11111111 t 111c 11 ,.,b,h1hol A I dr mlml pob •• Rolando pede soçor r o,
mente antecipada, começa uma novu construçiío A cNtu c~tru .,..~ " ' " ' ft ""''"' ""'ª'
11 11,1,., ,,. d n pf 1lr r,AMIIIII 1nu d<> lrndutur.)
92 MLMESIS
A NOMEAÇÃO DE ROLANDO . .. 93
e a oração de Carlos:
bement, tanto com versos curtos, quanto com versos longos e
3100 "Veire Paterne, hoi cest jor me defend, também se apresenta logo mais no francês arcaico, já no século
Ki guaresis Jonas tut veiremeot XII, precisamente no verso octossílabo rimado do romance
De la baleine ki en sun cors l'aveit, cortês ou das narrativas versificadas menos extensas. Quando
E esparignas le rei de Niniven se compara o octossílabo de uma antiga epopéia heróica, do
E Daniel dei merveillus turment fragmento de Gormund et lsembard, que soa como uma série
de toques de fanfarra, isolados, rigorosamente ritmados ("criant
3105 Enz en la fosse des leons o fut enz, fenseigne al rei baron,lla Loovis, /e fiz Charlun"), com o octos-
Les .III. enfanz tut en un fou ardantl sílabo fluente, às vêzes gárrulo, às vêzes lírico, do romance cor-
La tue amurs me seit hoi en present! tês, compreender-se-á, ràpidamente, a diferença entre a cons-
Par ta mercit, se te plaist, me cunsent trução rígida e a construção fluente e conectante. E daí a pou-
Que mun nevold poisse venger Rollant!" co aparece, no estilo cortês, também o movimento retóricô de
• largo alcance. Do Folie Tristan (cf. Bartsch, Chrestomatie de
"Vero Pai, ajudai-me hoje, neste dia, tu, que guardaste ver- i'ancien Français, 12/ éd. piece 24) constam os versos:
dadeiramente Jonas da baleia, que o tinha no seu ventre, que pou-
paste o rei de Nínive e Daniel do terrível tormento na fossa dos 31 en ki me purreie fier,
leões, na qual se achava; e os três infantes no forno ardente! O teu quant Ysolt ne me deingne amer,
amor me esteja hoje presente! Por tua mercê, se quiseres, concede-me quant Ysolt a si vil me tient
que possa vingar meu sobrinho Rolando!" k'ore de mei ne li suvient?
* •
É certo que na fixação formulista das figuras de redenção De quem poderei me fiar, se Isolda não mais se digna me
(as quais, como mostra a literatura mística, podem ser empre- amar, se Isolda tanto me despreza, que ora não mais se lembra de
gadas de outra forma, totalmente movimentada), assim como mim?
na espécie de súplica apostrofante, quase carente de movimento, •
sempre começando de nôvo, reside forte pathos, mas também êste é um movimento opressivo e doloroso, em forma de uma
há, aí, segurança estreitamente limitada de uma imagem un1vo pergunta retórica, com duas orações secundárias que dela de-
camente fixada de Deus, mundo e destino. Se se contrastar isto pendem, construídas paralelamente, sendo que a segunda se
com qualquer oração da lúada - escolho os v. 305 ss., do Can desenvolve mais largamente e o todo está em ritmo crescente;
to VI: esquemàticamente, bastante parecido (só que bem mais sim-
ples) com os famosos versos da Bérénice de Racine (quinta
n6.vL' 'A&!jvo:(7l tpucsbnoÀL, Srcx .&eáwv, cena do quarto ato) :
~ov 8YJ fyxoç 6LoµfJ8coç iJ8c xo:l CXUTOV
1tp7lvt« lloç necsécLv I:xo:Lwv 1tpo1tápot.&e m>À<Íwv 1 Dans un mois, dans un an, comment souffrirons-nous
Seigneur, que tant de mers me séparent de vous:
• Que le jour recommence et que le jour finisse,
"Ó venerável Atena, defesa de nossa cidade, / quebra tio Sans que jamais Titus puisse voir Bérénice,
forte Diomedes a lança, ou o derruba tu própria / das porta~ CeiM Sans que, de tout le jour, je puisse voir Titus? 3
em frente, de bmços no solo fecundo
• Encerremos ràpidamente a análise do nosso texto. No fim
com o seu movimento de súplica. que se empina tempcstuo~a• da laisse 61 o imperador ainda não pode se decidir a entregar
mente ( iJlle: xcxt cxúT6v n-p7lvécx 8oç necséeLv ) , apreende-se como e o arco a Rolando, que está de pé diante dêle, outorgando-lhe,
possível que os movimentos, cm Homero, sejam mais livn:111c11 nssim, definitivamente a missão. 1:.le inclina a cabeça, puxa sua
te fluentes, mais fortemente impulsivos e suplicante:., e que u barba e chora. A entrada de Naimes, que encerra a cena, está
seu mundo, não obstante esteja também limitado, não aprcM:nh• construída novamente de forma totalmente paratática. As relações
uma estrutura tão rígida. Naturalmente, neste exemplo nuo w modais que estão nas suas palavras, não são expressas grama-
depende da ultrapassagem do fim do verso, que é frcqill•lltl', ticnlmcnte; senão, a oração deveria ser assim: "Já ouvistes quão
aliás, na métrica antiga, mas da movimentaçuo da frase, dr irndo está Rotundo, por ter sido designado para a retaguarda;
amplo vôo e rica em nuanças. Esta pode também aprcsl·rtt,11 "' 11111• como noo há nenhum harão que possa (ou: queira?) tomar
na construção de versos rimados, nu quul nuu uparcn· ""'""'
J J 111 um mfl•, e1n uin ,.."º• ,ornn ,0J'4tttaremu1, 1lcnhot1 quo tanto• mare•
2 Trnduçno d• C-nrl<>N Alhr,11, Nunc, "'" !tl'llltllt ,l11 •1\11 1111• u ,111 '""'"'"' r <111e li 1111\ nc•be, lfnl qu• Jnm~I•
1Un 1•1••• v,, llrtrnh "• um 1111r1 pn, 11nln u lllH,
1 fl1 pu1111111 vtr Tito?
94 MIMESIS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO., . 95

o seu lugar~ dá-lhe o ar~º•,, mas vela, _pelo menos, para que tenha tura social não está, nem de longe, tão solidamente estruturada.
bastantes forças de apoio. E também o belo verso final é pa- Já o fato de as epopéias germânicas mais famosas, desde a Can-
ratático. ção de Hildebrando até os Nibelungos, procurarem a sua atmos-
fera histórica nos tempos selvagens e espaçosos das migrações,
. A c_onst~ção. paratática é, nas línguas antigas, própria do e não no esquema já rígido do alto feudalismo, confere-lhe mais
estilo baixo, e mais falada do que escrita, de caráter mais cô-
mico-realista do que sublime. Mas aqui ela pertence ao estilo amplidão e liberdade. Nos territórios galo-românicos, os temas
elevado. Trata-se de uma nova forma dêste estilo, que não des- germânicos do tempo das migrações não penetraram, ou não
cansa na periodicidade nem nas figuras de linguagem, mas no conseguiram deitar raízes; e o cristianismo é quase insignificante
ímpeto de blocos de discurso, independentes e justapostos. Um para a epopéia germânica heróica. As fôrças livres, imediatas,
ainda não moldadas em nenhuma fôrma estabelecida, e as raízes
e~tilo elevado~ composto de membros paratáticos, não tem, em
s1, nada de novo na Europa; já o estilo bíblico tem êsse caráter humanas, pelo que me parece, são mais profundas. Das com-
( cf. nosso primeiro capítulo). Lembre-se a discussão acêrca posições germânicas do círculo das epopéias heróicas não pode
da sublimidade da frase do Gênesis 1, 3 (dixitque Deus: fiat ser dito, como da Canção de Rolando, que lhes falte o proble-
lux, et facta est lux) que surgiu no século XVII entre Boileau e mático ou o trágico: Hildebrando é mais imediatamente humano
e trágico ~o que Rolando; e quanto mais profundamente motiva-
Huet, em conexão com as palavras 1tEp~ \íljlov8. O sublime da-
dos são os conflitos na saga dos Nibelungos do que o ódio entre
quela frase do Gênesis não reside no grandioso desenrolar
Rolando e Ganelão!
da periodização, nem no ornato de ricas figuras de linguagem
mas na impressionante brevidade, que contrasta com o poderos~ Contudo, encontra-se também a mesma estreiteza e fixação
conteúdo e qu~ tem, por i~so mesmo, algo de obscuro, que do espaço vital quando tomamos em consideração um texto reli-
mfunde no ouvinte estremecimento e veneração. Justamente a gioso românico dos tempos primitivos. Temos vários, que são
omissão da ligação causal, o mero relato do que ocorre, que anteriores à Canção de Rolando. O mais importante é a Canção
coloca, no lugar da ligação e da compreensão, uma maravilhada de Aleixo, uma lenda hagiográfica, que nos deu uma figura
observação, que nem se atreve a querer compreender é o que transmitida no século XI por vários manuscritos em francês ar-
confere à frase a sua grandeza. Mas o caso é totairr:ente dife- caico. Aleixo é, segundo a lenda, o filho único, nascido tardia-
rente na Chanson de geste. O seu objeto não é o formidável mente, de uma nobre casa romana. É educado cuidadosamente,
enigma da criação e do criador, não é a relação da criatura - entra a serviço do imperador e deve casar-se, segundo o desejo
o homem - com ambos. O objeto da Canção de Rolando é do pai, com uma donzela de igual classe; êle cede, mas abandona
e~tre_ito, e pAara os seus homens, nada de fundamental é qucs- a noiva na noite de núpcias, sem tocá-la, e vive durante dezes-
ttonavel. Todas as ordens da vida, e também a ordem do além, sete anos como pobre mendigo no estrangeiro (na cidade de
são unívocas, inamovíveis, fixadas formalmente. Certamente Edessa, no Nordeste da Síria, hoje a cidade turca de Urfa), para
n_ão são acessíveis sem mais nem menos para a penetração ru- somente servir a Deus. Depois, ao abandonar êsse lugar, para
c10nal, mas esta é uma constatação que somente nós fazemos. se furtar à adoração como santo, é levado por uma tempestade
O poema ~ os s_eus ouvintes contemporâneos não se preocupa- de volta a Roma, onde vive outros dezessete anos, novamente
v_a1!1 com isto; vive~ em segu_ra confiança, _dentro da colocação como mendigo desconhecido e desprezado, sob a escadaria da
ngidamente cons~r~13a, espacialmente estreita, na qual os · de• casa paterna, sem se comover com a dor dos pais e da noiva,
veres v1ta1s, a d1v1sao em estamentos (cf. divisão do trabalhl) cujas queixas ouve amiúde, sem dar-se a conhecer. Só após a sua
entre caval~iros e mon_?es, v. 1877 ss.), a essência das fôrçus morte é reconhecido de forma miraculosa e é, então, honrado
sobrenatl!ra1s. e a relaçao _dos hom~ns com elas estão regufadas como santo. Como se vê, a convicção que fala dêste texto é
de manetra s~mples. No mterior deste espaço há riqueza e ter· totalmente diferente daquela da Canção de Rolando; mas apre-
n:1ra de s_entimentos, e também um certo colorido das aparên senta a mesma forma de expressão paratática e fechada, o mes-
c1_a~ .exteriores; mas a moldura é tão estreita e rígida que é mo rígido estreitamento e a mesma colocação indubitável de
d:flcil aparec~rem a problemática ou, menos ainâa, a tragédiu: tôdas as ordens. Tudo está fixo, o branco e o prêto, o bem e o
nao há conflitos que mereçam o nome de trágicos. mal, e não precisa mais de pesquisa nem de justificação alguma;
Também os antigos textos germânicos que conservamos certamente existe tentação, mas não existe problemática. De
apresentam construção paratática. Também nêles domina a um lado está o serviço de Deus, que leva para longe do mundo
ética aristocrática guerreira, com a sua severa fixação da honrn, e para a salvação eterna - do outro, a vida natural no mundo,
da virtude e da luta como juízo divino. Mas, mesmo assim, 11 que leva à "grande tristeza". A consciência não conhece outras
impressão que resulta é totalmente diferente. Os blocos dC1 Ili, situações, e u r1:ulidadc exterior, tudo o mais que o mundo ainda
curso estão mais frouxamente apoiados uns nos outros, o espaço oferece, e dentro do qunl os acontecimentos narrados precisam
ao redor dos acontecimentos e o céu ucim(I d61cs siio i111.:nm1111 ser cncaurndu~ 1ll· 1111&1111111 111a11c1rn, é reduzido de tal forma que
ràvelmente mais nmplos, o destino é m111s cni11111f,11w e 11 ,-~1111 nud11 ftru nli<tn dr 11111 p111m d..: fundo incssencial pura ::i vida do
96 MIMESIS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO 97

santo. Ao seu redor, acompanhando os seus atos com os seus 13 Quant en la chambre furent tuit soul remes,
gestos, o pai, a mãe e a noiva; de maneira ainda mais vaga_ e danz Alexis la prist ad apeler:
indistinta delineiam-se algumas outras personagens, necessánas la morte! vide li prist molt a blasmer,
para a narração; o resto é inteiramente _esquemátic~, tanto d_o de la celeste li mostrat veriet; ·
ponto de v~ta sociológico, quanto geográfico. I!to e tanto mais mais !ui ert tart qued il s'en fust tornez.
surpreendente, quanto a cena parec~ abranger to~a a ampla va-
riedade do Império Romano; de Oriente e de Ocidente nada ~o- 14 "Oz roei, pulcele, celui tien ad espous,
brou além de igrejas, vozes do céu, povo rezando - nada -alem Qui nos redemst de son sane precious.
do ambiente sempre igual de uma vida de santo. Do mesmo mo- en icest siecle nen at parfite amour:
do, ou ainda mais, de modo bem mais marc~nte do que ~na la vide est fraile, m'i ai durable onour;
Canção de Rolando, onde em tôda parte, tanto Junto_ ao~ pa~aos ceste ledece revert a grant tristour."
quanto junto aos cristãos, vige a mesma estrutura social, 1s_to e, o
feudalismo e o mesmo ethos. O mundo tornou-se mmto pe- 15 Quant sa raison li at tote mostrede,
queno e e~treito e nê)<; se trata! rígida e ina;11ovJvelmente, de donc li comandet les renges de sa spede,
uma única, pergunta, Ja respondtda de antemao, a qu~ o ,ho- ed un anel dont il l'out esposede.
mem só deve dar a resposta adequada. Sabe qual o cammho que donc en ist fors de la chambre son pedre;
deve percorrer ou, antes, há um só caminho aberto, não há ou- en mie nuit s'en fuit de la contrede.
tros. Também sabe que encontrará uma encruzilhada. Sabe
também, finalmente, que então deverá escolher a direita, n~o *
obstante o Tentador o alicie para a esquerda.. Tudo ? m~1s, Quando o dia passou e havia anoitecido, isto disse o pai:
"Filho, quero que tu vás te deitar com a tua espôsa, segundo a
0 restante a infinita amplidão do mundo extenor e do mtenor, ordem de Deus do céu." O infante não queria irritar ,seu pai; vai
com o se~ sem-número de possibilidad;!s? imagensA ~ carn~das, ao quarto, à sua gentil mulher.
tudo está submerso. Isto não é, sem duvida, ger~am~o; nao é, Como visse o leito, olhou a donzela, lembrou-se do seu senhor
também, como me parece, cristão, pelo m~nos, nao _e a fo~a celeste, que amava mais que tôda coisa terrestre; "ó, Deus", disse
necessária e original do cristão. ~ste, na_sc~do de m_u1tas e mul- êle, "quão fortemente o pecado me aflige! se eu ora não fugir~
tiplas pressuposições, em disput~ com mulh~las realidade~, mos· temo muito que te perca por isso."
trou-se tanto antes, quanto depois, mcomparave1:tnente _ma_1s eláR: Quando ficaram totalmente sozinhos no quarto, o senhor Alei-
tico, mais rico e mais estratificado. Esta estre1t~za d1fic1l~entc xo começou a falar-lhe: começou a condenar muito a vida terrena,
pode ser algo de original; para tanto, ela_ con~em, demasiados e sôbre a celeste mostrou-lhe a verdade; e já ansiava ver-se longe
elementos herdados, muito diferentes entre s1. Nao ~. ~a estre1 dali.
teza, mas um estreitamento. É o p~ocesso de enn1ec1me~to \: "Ouve-me, donzela, toma corno espôso Aquêle, que nos redimiu
com seu sangue precioso. Neste século não há amor perfeito: a
redução da tardia antigüidade, que Já aparecera nos cap1tul~8 vida é frágil, não há honra que dure; esta alegria reverte em grande
anteriores. Evidentemente, dentro do mesmo, a forma s1mpl1s tristeza."
tamente reduzida que o cristianismo adotou no choque com po Quando lhe mostrou tôda a sua razão, então lhe entregou o
vos, em parte cansados, em parte bárbaros, teve um papel prc cinto da sua espada, e um anel com o qual a esposara. Então foi-se
ponderante. . embora da casa do seu pai; no meio da noite fugiu do país.
Na Canção de Aleixo do francês arcaico, a cen~ da noite *
de núpcias, que se constitui num dos pontos culn~mantes Jo Por mais diferente que seja a mentalidade dos dois poemas,
poema, diz assim (estrofes 11-15, cf. Bartsch, op.clt.): a semelhança estilística com a Canção de Rolando é surpreenden-
te. A parataxe vai, tanto ali como aqui, para muito além da
11 Quant li jorz passet ed il fut anoitiet, . mera técnica de construção das orações: trata-se do mesmo reco-
ço dist li pedre: "filz, quer t'en va colch1er, meçar sempre de nôvo, do mesmo avançar e retroceder aos tran-
avuec ta spouse, ai comant Deu dei ciel." cos, a mesma independência dos acontecimentos isolados e das
ne volst li enfes son pedre corrocier, partes dos acontecimentos. A estrofe 13 retoma a situação do
vait en la chambre o sa gentil moillier. início da estrofe 12, mas conduz a ação de maneira diferente e
mais ampla. A estrofe 14 apresenta, de nôvo, o que é expresso
12 Com vit le lit, esguardat la puJcele, na estrofe 13 ( mas que já estava superado no seu último verso),
donc li remembret de son seignour celeste em discurso direto e de forma mais concreta. Portanto, em lugar
que plus ad chier que tote rien 1cncstrc; de construir: "Qunndo estiveram sozinhos no quarto, lembrou-
"el Deus", dist il, "si forz pechiez m' aprcNNCt! se .. . , e d1~sc : ouve ", nqui constrói-~c da seguinte forma :
s'or ne m'cn fui, molt criem q11c nc l'1m 1,crd~• " 1. "Q11u11dn ,•~têvr 1111 111111rt11, ll·lllhruu St' . . . " 7.. "Qunndo Cffl i
MIMESIS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO ... 99
98

veram no quarto, disse que . .. •· ( discurso indireto) . 3. "Ouve, em geral, faltam totalmente neste caso. Tanto mais forte é,
(disse,) ... " Cada uma das estrofes apresenta um quadro com- tanto na Canção de Rolando como na Canção de Aleixo, o elê-
pleto, fechado em si mesmo; a impressão do processo unitário, mento gestualmente impressionante. A necessidade de ligação e
progressivo, que liga os membros pelo avanço para a frente, é desenvolvimento é fraca. Mesmo dentro de cada cena isolada, o
muito mais fraca do que a da justaposição de três quadros muito desenvolvimento, quando e onde existe, é penoso e estacado, mas
semelhantes, limitados uns dos outros. Pode-se generalizar esta os gestos do instante cênico são de uma energia das mais mar-
impressão: a Canção de Aleixo é uma série de acontecimentos cantes e plásticas. É esta energia dos gestos e das atitudes que
fechados em si mesmos, unidos frouxamente entre si, uma série é mirada, evidentemente, pela representação, ao subdividir os
de quadros, fortemente independentes uns dos outros, de uma acontecimentos em muitas pequenas parcelas plásticas. O ins-
vida de santo, cada um dos quais contém um gesto expressivo, tanu:: ci!m1;0, com os seus gestos, contém tanto ímpeto, que tem
porém simples. O pai, que ordena a Aleixo que vá ao quarto com o efeito de um modêlo moral. Os diferentes estágios da histó-
a sua noiva; Aleixo diante do leito, falando à sua mulher; Aleixo ria do herói ou do traidor ou do santo são concretizados em
em Edessa, repartindo os seus bens entre os pobres; Aleixo como gestos em tal medida, que as cenas plásticas se aproximam muito,
mendigo; os servidores que são enviados em sua busca, que não no seu efeito, do caráter de símbolos ou figuras, também nos
o reconhecem e lhe dão uma esmola; a queixa da mãe; a conver- casos em que não é comprovável qualquer significação simbó-
sação entre a mãe e a noiva; e assim por diante; é um ciclb de lica ou figural. Muito freqüentemente, tal significação é com-
quadros; cada um dêstes acontecimentos contém un:i gesto deter- provável: na Canção de Rolando, no que se refere à figura de
minado, com uma ligação temporal e causal muito frouxa com os Carlos Magno, quando da descrição de algumas características
()utros, anteriores e posteriores. Muitos dêltfs (á queixa da mãe, dos cavaleiros pagãos e, iodubitàvelmente, nos textos das pre-
por exemplo) são decompostos em vários quadros semelhantes, ces; quanto à canção de Aleixo, a excelente interpretação de E.
cada um independente de per si. Cada um dos quadros está como R. Curtius (Zeitschrift für romanische Philologie 56, 113 ss.,
que emoldurado isoladamente; cada um dêles basta-se a si mesmo especialmente, págs. 122, 124) leva totalmente para o caráter
de tal forma, que nada de nôvo nem nada de inesperado ocorre figural da plenitude no além. Esta tradição figural não contrí-
dentro de cada um, · e sem que nenhuma fôrça impulsora nêle buiu pouco para fomentar a desvalorização da coerência horizon-
exija o seguinte; e ·nos espaços intermediários há o vazio, não um tal e histórica dos acontecimentos e para o enrijecimento de tô-
vazio obscuro e profundo, no qual muita coisa acontece e se pre- das as ordens. Desta forma, as preces que transcrevemos acima
para, no qual se contém a respiração de estremecida expectação, mostram o total enrijecimento das figuras da salvação. O par-
como às ;vêzes no estilo bíblico, com as suas pausas, sôbre as quais celamento dos acontecimentos do Velho Testamento, que são
se cisma - mas uma duração plana, pálida, sem substância, às vê- interpretados isoladamente, fora do seu contexto histórico, de
zés .só um instante, às vêzes dezessete anos, às vêzes totalmente forma figural, tornou-se formular. As figuras são justapostas
indefinível. O acontecer está dissolvido, assim, em uma série de paratàticamente, como nos sarcófagos da Antigüidade tardia;
quadros; está como que parcelado. Na Canção de Rolanào tudo não têm mais realidade, mas somente significado. Perante o
está mais comprimid_o. k concatenação é mais rigorosa; o quadro acontecer terreno prevalece uma tendência semelhante: desligá-
isolado é, às vêzes, mais movimentado; mas a técnica da represen- lo do seu contexto horizontal, isolar as partes, estendê-las num
tação - e isto significa mais do que um mero processo técnico, bastidor rígido, torná-las gestualmente impressivas dentro dês-
junta-se à imagem estrutural que o poeta e os ouvintes aproximam tes limites, de modo que apareçam como exemplares, modela-
do acontecimento - é ainda totalmente a mesma: é um enfileirar res, significativas, deixando tudo o mais no campo do insubstan-
de quadros independentes. Nos espaços intermediários, na Can- cial. 8 manifesto que, com isto, só uma parte muito pequena
ção de Rolando (algumas vêzes não são assim planos e vazios), da realidade, extremamente estreita, amarrada pela redução de
introduz-se, talvez, a paisagem, vê-se ou ouve-se cavalgar os exér- tôdas as ordens a fórmulas, pode ser tornada visível. Mas chega
citos por vales e desfiladeiros - mas os acontecimeptO$ -~ão, a ser visível, e é nisto que se evidencia que o ponto máximo do
assim mesmo, enfileirados uns ao lado dos outros, de tal 'for- . processo de enrijecimento já foi ultrapassado; justamente nos
ma que, em cada caso, se formam quadros totalmente fechados quadros isolados é que se encontram os germes da vivificação.
em si, que subsistem por si próprios. A quantidade das perso- O texto latino que deve ter servido de fonte à canção
nagens ativas é, também na Canção de Rolando, muito pequena. francesa de Aleixo - êle é encontrável nos Acta Sanctorum do
Tôdas as outras aparecem, ainda que sejam bem mais coloridas dia 17 de julho, e nós o transcrevemos segundo a versão do
do que na Canção de Aleixo, em séries; os atôres, em cada uma Altfranzoesisches Vb1111gsb11ch de Foerster-Koschwitz, 6" edição,
das cenas, são fixos, e só raramente acrescenta-se algum, e 1921, pp. 299 ss. - provàvclmente não é tão anterior ao texto
quando isto acontece (Naimes ou Turpim, com função equa-
lizadora e encerradora), é feita uma incisão marcante. Os ele
fronces, p,,í, 11 lendo, originário do Slria, s6 pode ser com-
provudn 110 Oc1dt•ntl• h1111tu11te tarde; ma ~ mostra bem mais
mentos variados, intrincados e aventurosos, com srundc qunn
clnramcnte " 111111111 du h·111l11 111• ~.mto tl11 tardrn Antialli<lodc.
tidade de personagens ativas, que \fio tão freqlh'nll-~ 1111 1•porf111
100 MIMESIS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO ... 101

Nêle, a cena da noite de núpcias é representada de uma forma !_atina não conhece qualquer hesitação nem luta, da mesma
que difere de maneira muito característica da versão em francês forma que na noite de núpcias. Aleixo vai à casa do pai porque
arcaico: não quer ser carga para nenhuma outra pessoa.
Yespere autem facto dixit Euphemianus filio suo: "Intra, Somente a poesia em língua vulgar, como parece surgir
filii, in cubiculum et visita sponsam tuam". Ut autem intravit, desta comparação, fêz salientar os quadros isolados, de ma-
coepit nobilissimus juvenis et in Christo sapientissimus instruere neira que as personagens ganharam redondez humana e vida
sponsam suam et plura ei sacrat menta disserere, deide tradidit vida que está, evidentemente, limitada pela rigidez e estreitez~
ei annulum suum aureum et rendam, id escaput baltei, quo das ordens, que permanecem inamovíveis e que pode ser tam-
cingebatur, involuta in prandeo et purpureo sudario, dixitque bém fàcilmente interrompida pela falta de movimento com sen-
ei: "Suscipe haec et conserva, usque dum Domino placuerít, et tido contínuo e que, porém, justamente pela oposição que lhe
Dominus sit inter nos.:• Post haec accepit de substantia sua oferece a moldura das ordens estabelecidas, ganha em efetivi-
ct discessit ad mare ... ., dade e poder. Somente os poetas da língua vulgar viam o
homem vivente e encontraram a forma na qual a parataxe
* fOssui fôrça poética.. Em Iugar de enfileirar debilm~nte, gote-
Quando a noite se fêz, disse Eufemiano ao seu filho: "Entra, Jando com monotonia, agora surge a forma das laisses, que
filho, no quarto e visita a tua espôsa." Mas quando entrou, come- avança e retrocede aos trancos, que cria em tôda parte arran-
çou o jovem, nobilíssimo e pleno da sabedoria de Cristo, a instruir
a sua espôsa e a explicar-lhe muitos ensinamentos sagrados; depois cadas enérgicas, e que se constitui num nôvo estilo elevado. Se
deu-lhe o seu anel de ouro e o talabarte da sua espada, que cingia, a vida, que é tangível nas suas obras é, também, estreitamente
envolto num pano purpúreo, e disse-lhe: "Recebe isto e conserva-o, limitada e sem multiplicidade, ainda assim é uma vida plena,
enquanto apraza a Deus, e o Senhor esteja entre nós." Depois disto humanamente movimentada e vigorosa, uma liberação do estilo
pegou algo da sua fortuna e desceu ao mar . . . pálido e intangível da lenda da tardia Antigüidade. Os poetas
* da língua vulgar também souberam valorizar o discurso direto
Como se vê, também o texto latino é quase totalmente como tom e como gesto. Já falamos da alocução de Aleixo à
paratático; mas não aproveita as possibilidades da parataxe, não sua noiva e da queixa da mãe; pode-se ainda juntar a isto,
as conhece ainda. O texto nivelou tudo uniformemente e o talvez, as palavras com as quais o santo, retornado a Roma
aplainou : sem subidas nem descidas, sem movimentos tonais, solicita guarida e comida do seu pai. Elas têm, na versão'
a narrativa é "monótona", de modo que não somente a moldura, francesa , uma fôrça concreta e imediata que o texto latino
mas o próprio quadro permanece imóvel; é rígido e carente de nunca poderia atingir. A versão francesa diz assim:
fôrça. A luta interna, deslanchada em Aleixo pela tentação,
para a qual a versão francesa encontrou a expressão mais sim- Eufemiiens, bels sire. riches oro,
ples e bela possível, não é mencionada; parece não haver ten- quer me herberge por Deu en ta maison ;
tação alguma; e o grande movimento da fala dirigida direta- soz ton degret me fai un grabaton
mente à noiva ( Oz mei, pulcele, ... ) , um dos movimentos empor ton fil dont tu as tel dotour;
m~is fortes do antigo poema francês, na qual Aleixo se eleva toz sui enfers, sim pais por soue amour ...
em tôda a sua altura e que se constitui na primeira irrupção de •
sua verdadeira essência, foi evidentemente criado pelo poeta Eufemiano, nobre senhor, rico homem, hospedai-me, por Deus,
francês a partir das pálidas palavras latinas do seu modêlo. cm tua casa; sob a tua escada fazei-me um leito, por causa do teu
A própria fuga torna-se dramática no texto francês . A versão filho, pelo qual .. tendes tão grande dor; estou muito doente, alimen-
laüna avança com muito mais lisura e uniformidade; mas os 1:\i-me por amor a êle ...
movimentos humanos são muito fracos, apenas insinuados, co- *
mo se se estivesse tratando de um espírito e não de um ser H a versão latina:
vivo. A impressão fica sendo a mesma quando se lê mais Serve Dei, respice in me et face mecum misericordiam, quia
adiante; uma modelagem propriamente humana só é dada pelo puuper sum et peregrinus, et jube me suscipi in domo tua, ut
lexto em língua vulgar. 1:ste inventa, para só mencionar os pn~cur de mieis mensae tuae et Deus benedicat annos tuos et
pontos mais importantes, a queixa da mãe no quarto aban- ci quem hnbes in percgre misereatur.
donado e, depois, a luta interior do santo, quando é jogado
de volta a Roma. Nela, Aleixo hesita antes de tomar sôbrc

Servo de Deus, olhai-me e fazei-me misericórdia, pois sou
si a mais pesada das provações, a vida como mendigo desco- 1xih1c o Ji('rcarino, e mandai q\le seja recebido em tua casa, para
nhecido na casa paterna, com a visão diária dos seus parentes 11111"1 111c, nltmenlt" thu mlanlhn• de tua mesa, e Deu~ abençoe os teus
mais chegados, que choram a sua ausência. Gostaria. que êstc 11110A e ~r 1111lrdc tltu111ck t111e tc-ntle8 no c~trungciro .
r.álice lhe fôsse poupado; mas mesmo a$~im o tom11, A vcr~l\o •
MIMESIS A NOMEAÇÃO DE ROLANDO ... 103
102

Já insinuamos que seria um êrro querer pôr simplesmente que foi o país que, dentre êstes últimos, recebeu a maior
na conta do cristianismo o enrijecimento e o estreitamento que influência germânica, ter sido o primeiro que começou a se
aparecem na lenda da Antigüidade tardia, e dos quais os textos liberar.
da língua vulgar se Jíberam só gradualmente. Nos capítulos O primeiro estilo elevado da ldade Média européia pare-
anteriores procuramos demonstrar que o efeito original da ma- ce-me surgir no instante em que o acontecimento isolado é preen-
neira judeo-cristã de modelar os acontecimentos era tudo me- chido de vida. Por isto é tão rico em cenas isoladas, extremamente
nos enrijecedora e estreitante. A ocultação de Deus e, fina1- efetivas, nas quais só poucos sêres se defrontam, nas quais
mente, sua parúsia, a encarnação numa vida quotidiana qual- as falas e os gestos de um acontecimento curto ficam marcan-
quer, isto fêz surgir, como tentamos demonstrar, um movi- temente salientadas. As personagens, postas uma bem junto a
mento dinâmico de contemplação da vida, um movimento outra, uma contra a outra, sem ter muito espaço para se mo-
pendular tanto no moral, como no sociológico, que foram mui- vimentarem, estão, não obstante, cada uma de per si, separa-
to além da imitação do devir e da vida da Antigüidade clássica. das umas das outras. O que delas se diz nunca se torna con-
A tradição não nos mostra os pais da Igreja, sobretudo Agos- versação, mas fica sendo manifestação solene, na qual tôda
tinho, como figuras esquemáticas, que seguem rlgidamente um alocução, tôda oração, tôda palavra, até, tem um valor de per
caminho pré-estabelecido, e o amigo da juventude de Agostinho, si, aspiratório e enfático, sem qualquer suavidade e sem um
Alípio, cuja comoção interna diante das lutas de gladiadores fluxo indolente. Diante da realidade da vida, êste estilo não
discutimos acjma, é uma figura extremamente vivaz, que luta, pode, e também não quer, se eMender em largura ou em pro-
sucumbe, para depois tornar a se elevar. A esquematização rí- fundidade; está limitado temporal, espacial e estamentalmente;
gida, estreita e a-problemática é muito estranha, originalmente, simplifica plástica e idealizadoramente acontecimentos do pas-
à consciência cristã da realidade. Evidentemente, a interpreta- sado. O sentimento que quer evocar no ouvinte é de surprêsa
ção figural dos acontecimentos, que ganhou influência cada vez e admiração por um mundo longínquo, cujos instintos e ideais
maior com o surgimento e a expansão do cristianismo, que des- certamente ainda são os seus, só que aquêles se desenvolvem
botava o teor da realidade dos acontecimentos, deixando-lhes perante as resistências atritantes da vida com urna pureza, com
somente conteúdos significativos, é em muito responsável pelo um vigor e uma liberdade que são inatingíveis na sua existên-
enrijecimento. Quando o dogma ficou estabelecido, quando as cia prática. Movimentos humanos, figuras que se enaltecem
ta,refas da Igreja ficaram serrdd, cada vez mais, de ordem modelarmente aparecem com eficácia. A sua própria vida não
organizadora, quando se tratava de ganhar para o cristianismo está contida ali. Não obstante, justamente no tom da Canção
povos totalmente carentes de preparação, estranhos a todos os de Rolando há muito do presente. Não começa com uma ma-
pressupostos cristãos, a interpretação figural não podia senão nifestação, que afasta os acontecimentos para longe ("faz mui-
tornar-se um esquema simplista e rígido. Mas o problema todo to tempo aconteceu, quero falar de coisas que se deram tempos
do enrijecimento vai mais longe, está ligado ao processo de atrás"), mas com um tom fortemente imediato, como se o
redução da cultura antiga. Não foi o Cristianismo que produ- rei Carlos, nosso grande imperador, estivesse ainda quase vivo.
ziu o enrijecimento, mas êle próprio foi envolvido pelo pro- A ingênua transposição dos acontecimentos que se deram tre-
cesso. Com o desmoronamento do Império Romano do Oci- zentos anos atrás para as concepçót!s da sociedade do alto
dente e da noção de ordem que nêle existia, e que já mostrava, feudalismo dos começos da época das Cruzadas, o aproveitamen-
êle próprio, fazia tempo, traços de paralisação senil, ruiu, tam- to do objeto para a propaganda eclesiástica e feudal, conferem
bém, a estrutura interna do orbis terrarum, e um nôvo mundo uo poema algo de presente e de vivo; até alguma coisa seme-
só podia nascer a partir de pequenas parcelas. Com isto, cm lhante a um germe de sentimento nacional pode ser sentido
tôda parte chocaram-se a essência estatal e humanamente ainda nêlc; e também numa série de outras coisas parece vivei um
crua dos povos de recente aparição com as instituições romana~ presente. Quando, para tomarmos um exemplo ao acaso, se
lê o verso no qual Rolando procura ordenar o iminente ataque
ainda subsistentes e com os restos dà antiga cultura, que pre-
dos cavaleiros francos ( 1165):
servaram, mesmo na decadência e na paralisação, um imenso
prestígio. u m· choque entre o totalmente jo~em e o muito Seignurs barons, suef, le pas tenant!
velho, que produziu, prime iramente, também a paralisação da-
quilo que era jovem, até que conseguiu se arranjar com a sua 111:lc ressou uma cena presente, de um treino contemporâneo
herança, preenchê-la novamente com a sua vivacidade e levá-la p11111 o combate entre cavaleiros feudais. Mas isto são porme-
a um nôvo florescimento. O processo de enrijecimento foi mais 11mcs rclnmpcjant"s; 11 limitação permanente, a idealização e
fraco, evidentemente, nos países em que a cultura antiga tar- ~1111pl1fic111;uo. o lu~co fusco <.111 veladura fabulosa, tudo isto
dia nunca predominou, nos países do interior da Germuniu . Pll'lllllllinn
Foi muito mais forte nos países românicos, onde cfotivnmcntc O 1•~tilo do~ 1:11111.ncs hcrúic,,~ fr;inccscs é, poii,, um csti!u
se deu um choque I e talvez nf10 sejn cnRunl o foto dl· 11 1 rnm;n. ,·lrv11d11, 110 1111111 11 m11111cn1 1•~t rul11rnl du~ 111:ontcc11ncntos r
104 MIMESIS
A Saída do Cavaleiro Cortês
ainda muito rígida e que chega a apresentar uma parte da vida
objetiva, uma parte muito limitada pelo distanciamento tempo-
ral, pela simplificação da perspectiva e pela limitação estamen-
tal. Não dizemos nada de nôvo, mas sómente uma nova for-
mulação do que já foi dito repetidamente, quando acrescenta-
. mos que, para êste estilo, a separação dos campos do heroica-
mente sublime e do quotidianamente prático é natural e evi-
dente. Outras camadas, a não ser a classe alta feudal, nem
sequer aparecem, as bases econômicas da vida nunca são men-
cionadas. Isto é levado muito mais longe do que na poesia
heróica germânica ou do meio-alto-alemão e apresenta, também,
uma diferença muito cbamativa com a poesia heróica espanhola,
que aparece pouco mais tarde. Contudo, a chanson de geste
e, sobretudo a Canção de Rolando, era evidentemente popular.
Esta poesia, não obstante tratar exclusivamente dos atos. da
classe alta feudal, dirige-se também, sem dúvida, ao povo. Isto,
evidentemente, pode ser assim explicado: apesar das impor-
tantes diferençrjs materiais e jurídicas que existem entre as
diferentes camadas da população leiga, ainda não havia um ..
diferença fundamental entre os seus graus de instrução. Mais
ainda do que isto, as representações ideais eram também ainda
No comêço do Yvain de Chrétien de Troyes, um ro-

6
uniformes, ou, pelo menos, outras representações terrenas ideais,
mance cortês da segunda metade de século XII, um dos
afora as cavalheirescas e heróicas, ainda não podiam ganhar cavaleiros da côrte do Rei Artur narra uma aventura
forma e palavras. f. prova da fôrça e da eficácia da chanson que lhe sucedeu. A sua narração começa da seguinte
de geste em tôdas as classes o fato de que o clero, que antes maneira:
não estivera em posição benévola diante da poesia profana em lín-
gua vulgar, procurou aproveitar para os seus fins, a partir do fim 175 li avint, pres a de set anz
do século XI, a épica heróica. A duração secular dos ternas, Que je seus come paisanz
que foram constantemente retrabalhados e que logo desceram Aloíe querant avantures,
à categoria de produtos de feira, comprova o seu duradouro Armez de totes armeüres
favor justamente nas camadas mais baixas da população. Para Si come chevaliers doit estre,
os ouvintes dos séculos XI, Xll e XIII, a epopéia heróica era 180 Et trovai um chernin a destre
História. Nela vivia a tradição histórica do passado. Não ha- Parmi un forest espesse.
via outra, que estivesse ao alcance dos ouvintes. Só ao redor Mout i ot voie felenesse,
de 1200 aparecem as primeiras crônicas em língua vulgar, a~ De ronces et d'espínes plainne;
quais não relatam, porém, o passado, mas um presente vivido A quelqu'enui, a quelque painne
pelo próprio autor, ao mesmo tempo que, ainda, elas mostram 185 Ting cele voie et cel santier.
grande influência do estilo épico. A epopéia heróica é, tam A bieô pres tot Ie jor antier
bém, de fato, história, na medida em que lembra acontecimen- m'an alai chevauchant einsi
tos históricos verdadeiros, ainda que os deforme e simplifique. Tant que de la forest issi,
e na medida em que as suas figuras têm uma função histórico- Et ce fu an Broceliande.
política. Esta essência histórico-política é deixada de lado 190 De la forest an une !ande
pelo romance cortês. :Êle está, conseqüentemente, numa relação Antrai et vi une bretesche
totalmente diferente com o mundo objetivo e real. A demie liue galesche;
Si tant i ot, plus n'i ot pas.
Ccll~ part ving plus que les pas
195 Et vi le baille ct le fossé
foi nnviron parfont et le.
LI sor lc pont un picz estoil
C il llli lo for1crcscc.: c~toit,
S111 Mlll po11111 1111 11Nlt)1- 11111~
106 MIMESIS A SAiDA DO CAVALEIRO CORTÊS 107

200 Ne 1·oi mie bien salué, Dei soper vos dirai briemant,
Quant il me vint a l'estrier prandre, Qu'il fu dei tot ·a ma devise,
Si me comanda a desçandre. Des que devant moi fu assise
Je desçandi; il n'i ot el, 255 La pucele qui s'i assist.
Que mestier avoie d'ostel; Apres soper itant me dist
205 Et il me dist tot maintenant Li vavassors, qu'il ne savoit
Plus de çant foiz an un tenant, Le terme, puis que il avoit
Que beneoite fust la voie, Herbergié chevalier errant,
Par ou leanz venuz estoie. 260 Qui avanture alast querant.
A tant an la cort an antrames, S'an avoit il maint herbergié.
21 O Le pont et la porte passames. Apres ce me pria que gié
Anmi la cort au vavassor, Par son ostel. m'an revenisse
Cui Des doint et joie et enor An guerredon, se je po1sse.
Tant comme il fist moí ceie nuit, 265 Et je li dis: "Volantiers, sirer·
Pandoit une table; je cuit Que honte fust de l'escondire.
215 Qu'il n'i avoit ne fer ne fust Petit por mon oste fe"ísse,
Ne rien qui de cuivre de fust. Se cest don li esconde"isse,
Sur ceie table d'un martel, Mout fu bien la nuit ostelez,
Qui panduz iere a un postei, 270 Et me chevaus fu anselez
Feri li vavassors trois cos. Lues que l'an pot le jor veoir;
220 Cil qui amont ierent anelos Car j'an oi mout proiié le soir;
Oi"rent la voiz et le son, Si fu bien feite ma proiiere
S'issirent fors de la meison Mon buen oste et sa fillle chiere
Et vindrent an la cort aval. 275 Au saint Esperit comandai,
Li un seisirent mon cheval, A trestoz congié demandai,
225 Que li buens vavassors tenoit Si m'an alai lues que je poi ...
Et je vis que vers moi venoit
Une pucele bele et jante. •
An li esgarder mis m'antante: Aconteceu, há perto de sete anos, que eu, sozinho como
Ele fu longue et gresle et droite. um camponês, fui à busca de aventuras, armado com tôdas as mi-
230 De moí desarmer fu admite; nhas armas, assim como um cavalheiro deve estar; e encontrei
Qu'ele !e fist et bien et bel. um caminho à destra em meio a uma espêssa floresta. O caminho
era muito ruim, cheio de mato e de espinhos; apesar de todo o
Puis m'afubla un cort mante!, desgôsto e de tôda a pena, mantive-me neste caminho e nesta senda.
Ver d'escarlate peonace, Durante o dia todo, quase, fiquei cavalgando assim, até que saí
Et tuit nos guerpirent la place, da floresta, e isto se deu em Broceliande. Da floresta entrei numa
235 Que avuec moi oe avuec li charneca e vi uma tôrre, a meia légua gaulesa de distância, quando
Ne remest nus, ce m'abeli; muito. Cavalguei depressa nessa direção e vi em todo o seu redor
Que plus n'i queroie veõir. um muro e fossa, profunda e larga: e sôbre a ponte estava
Et ele me mena seoir de pé aquêle a quem pertencia o castelo; sôbre o seu punho, um
Et plus bel praelet dei monde falcão de caça mudado. Não o tinha ainda bem saudado, quando
240 Cios de bas mur a la reonde. êle veio pegar o meu estribo, e me convidoll a desmontar. Desmon-
La la t-rovai si afeitiee, tei; não podia fazer outra coisa, pois estava precisando albergue:
Si bien pa rlant et anseigniee, e êle me disse imediatamente, mais de cem vêzes de uma tirada, que
De tel san blant et de tel eslrc, fôsse abençoado o caminho pelo qual eu tinha chegado. Enquanto
Que mout m'i delitoil a cslrc. i~'IO, entramos no pátio, e passamos pela ponte e pelo portão. No
245 Ne ja mes por nu! estovoir meio do pátio do cavaleiro. a quem Deus queira dar alegria e
Ne m'an que"ísse removoir. honrn, como êle me dera nessa noite, pendia uma placa; creio que
11111l11 dela era de ferro ou de madeira, mas que era tôda de cobre.
Mes tant me fist la nuil de gucrn·
Li vavassors, qu'il me vint q11cm:, Sl\brc cstn placa o cavalheiro bateu três vêzes com um martelo.
que pcndin de um poste. Os que estavam em cima, na casa, ouvi-
Quant de sopcr fu tans cl u1 e mm o ~0111 e o tom, ~nlrnm da cnsll e desceram para o pátio. Un~
250 N'i poi plus feire 1k clc111ua·,
,~1111111111 no mr11 wvnlo, q11r o ht1111 ~nvah:iro e,tavu ~c1u1nmdo. e
SI fi~ h1c, ,011 ,·1111rnntll•11111111
108 MlMESIS A SAIDA DO CAVALEIRO CORTÊS 109

eu vi que vinha em minha direção uma donzela Jela e amável. Não o bstante só haja um espaço de cêrca de setenta anos
Detive-me a observá-la: ela era alta e esbelta e direita. Ela foi entre êste texto e o anterior, e não obstante também aqui se
destra em desarmar-me, ela o fêz bem e bonito. Depois ela me trate de uma obra épica da época feudal, já à primeira vista
cobriu com um manto curto, coberto de pano escarlate, e todos O\ aparece, aqui, um movimento estilístico quase totalmente mu-
outros deixaram o lugar: só eu e ela ficamos. e ninguém mais, e dado. Narra-se de maneira fluida, leve, quase aconchegante. A
isto causou-me prazer, pois mais ninguém eu queria ver. E ela me narração avança sem pressa, mas com perseverança; os sem:
levou ao mais belo prado do mundo, fechado por um muro baixo membros estão unidos entre si sem interstícios. Todavia, tam-
em volta. Lá eu a achei tão amável, tão bem falante e educada. bém aqui não há períodos retesadamente organizados, passa-se
de tal semblante e de tal jeito, que muito me deliciava ficar lá, e de forma frouxa e sem planificação exata de um membro do
que por nenhum preço queria de lá sair. Mas a chegada da noite processo ao outro; também as conjunções não estão ainda muito
foi contrária aos meus desejos; o cavaleiro veio me buscar, quando fixadas no seu significado, especialmente que tem demasiadas
foi tempo e hora de jantar. Não pude mais me demorar, e segui funções a cumprir, de maneira que algumas engrenagens causais
o seu convite. Acêrca do jantar dir-vos-ei brevemente que êle foi (por exemplo, v. 231, 235 ou 237) têm um efeito um tanto
totalmente a meu contento, pois diante de mim sentou-se a donzela, indefinido. Mas a continuação da narração progressiva não é
que tomou o seu lugar à mesa. Após o jantar, disse-me o cavaleiro afetada por isto, antes pelo contrário, a frouxidão da articulação
que já não podia lembrar desde quando albergara cavaleiros errante, resulta em um estilo narrativo muito natural, e a rima, muito
que estivessem à busca de aventuras: muitos êle já havia albergado livre e independente da articulação semântica, nunca deve inter-
Depois pediu-me, como recompensa, que tornasse a visitá-lo, à mi- romper com violência. Uma ou outra vez, a rima dá ao poeta
nha volta, se pudesse. E eu .lhe disse: "De bom grado, senhor•· motivo para a construção de versos de enchimento ou para com-
Pois teria sido vergonha negá-lo; pouco teria feito pelo meu hóspede, plicadas perífrases (por exemplo, v. 193 ou 211-216), que st:
se lhe tivesse negado êste dom. Durante a noite estive muito bem .:ncaixam no seu estilo sem esfôrço e ainda aumentam a im-
hospedado, e meu cavalo estava selado, logo que se pôde ver o dia:
pressão de amplidão ingênua, fresca e confortável. Quanto mais
pois isto eu tinha pedido com urgência; e meu pedido havia sido
flexível e livre de m ovimentos é esta linguagem do que aquela
cumprido. Despedi-me do meu bom hóspede e da sua cara fi lha,
do ca ntar de gesta, quanto mais àgilmente ela pode chocalhar
encomendei-me ao Espírito Santo. pedi a todos permissão para pnrlil
e saí. tão logo pude ... os movimentos da narração, muito ingênuos ainda, mas já bas-
tante variadamente lúdicos! Isto pode ser observado em quase
tôda oração. Tomemos como exemplo os versos 241-246: La la
No decurso da sua narração, o cavaleiro - que se chum11 trovai si afeitiee, sie bíen parlant et tlnseigniee, de tel sanblant
Calogrenante - conta, ainda, como encontra um rebunho 1k et de tel estre, que mout m'i delitoit a estre, ne ja mes por nu/
estovoir ne m'an queisse removoir; a oração, ligada à anterior
couros e ouve do seu pastor, um "vilain" grotescamente feio t·
pelo la, apresenta um período consecutivo. A sua parte ascen-
enorme, acêrca de uma não muito longínqua fonte mágica . cl11 dente está dividida em três estágios, o terceiro dos quais con-
corre por baixo de uma magnífica árvore; junto a ela pende 11m 1 tém uma formulação antitética (sanblant, estre) , que evidencia
bacia de ouro, e quando se joga a sua água com esta bac m p111 uma formação analítica elevada e, já então, tornada natural e
sôbre uma placa de esmeralda, que se encontra ao seu lmlu. e vidente para o julgamento das pessoas. A parte descendente
ocorrem, no bosque, tremendos ventos e tempestades, das q1111I~ tem dois membros, sendo que os dois apresentam um cuidadoso
ninguém, ainda, conseguiu sair vivo. Calogrenante procuru o aVl'II decrescendo. O primeiro exprime o fato de deliciar-se no indi-
tura, sobrevive a tempestade e goza, com alegria, da s1.nc111d111l1 cativo, o segundo, hipoteticamente, no subjuntivo - construções
subseqüente, embelezada pelo canto de muitos pássaros. M.1\ tão refinadas, intercaladas em meio a uma narração de maneira
aparece um cavaleiro que o increpa por causa dos danos 01,:11\111 leve e fluente, dificilmente seriam encontráveis em qualquer
nados pela tempestade nas suas propriedades, e o vence, de 11111 língua vulgar, antes dos romances corteses. Aproveito a ocasião
neira que êle é o brigado a volta r, a pé e desarmado, p11111 11 para observar que, com o paulatino surgimento de uma êons-
castelo do seu hóspede. Lá é no vame nte muito bem rcc1:h11l1>, 1 trução hipotàticamente mais rica e periodizante, a ligação co~se-
lhe asseguram ser êle o primeiro q ue conseguira sair ~fw l' 111lv11 cutiva parece ter sido a preferida, pelo menos até Dante (tam-
daquela aventura. A narração de Calogrenantc causu prul 11111111 bém naquilo que transcrevemos da Folie Tristan o ápice é dado
impressão aos cavaleiros da côrte de Artur. O próprio 11·1 dn 1 mediante um movimento consecutivo). Enquanto outras ligações
modais estavam ainda pouco desenvolvidas, esta floresceu e ga-
de ir, êle 111esmo, com grande séquito, cm busc11 du 1111111
nhou funções expressivas peculiares, que depois tornaram a se
mágica. Mas um dos seus cavaleiros, o primo tlc C' ul11jltl·11111111, per-der : a êstt· respeito hll um trabalho interessante de A. G .
Yvain, adianta-se-lhe, vence e mala o Cuvnk•11 n da h111h· 1lntchcr ( U1•1•11,• tl,•.1· ht11d1•.1· l mlo-1•11ropét•1111,,,1· li , 30) .
o btém, de um modo um tanto fontústiw. nu" outro 1111110 111111111 C11l111tn·n1111ll' u11111i ~ 'I (1Volu l{cdondu do rcr que, sete 111111,
natural, o amor da ,un vi11v11 111111·1, ~,11rn ., l.1~1!111 •,111!11lt11. i-111 1111~~·11 d,· avcnt11111,, 111111mh1
110 MlMESfS A SAIDA DO CAVALEIRO CORTÊS 111

como corresponde_a um cavaleiro, e que então encontrou um ca- seja avunture - pois que êle não é cavaleiro - mas conhece
as mágicas qualidades da fonte e não cala o que sabe.
minho à direita, atravessando um esp~sso bosque. Aqui espan-
tamo-nos. À direita? Esta é uma indicação de lugar bastante Muito evidentemente, encontramo-nos em meio a um má-
estranha quando, como neste caso, é empregada de forma abso- gico cortto de fadas. O caminho certo através do bosque espi-
luta. Tratando-se de topografia terrena, só pode ter sentido nhoso, o castelo que é como se surgisse do nada, a forma da
quando empregada de forma relativa. Portanto, o seu sentido, recepção, a bela senhorinha, o estranho calor do castelão, o
aqui, é moral; evidentemente, trata-se do "caminho certo", en- sátiro, a fonte mágica - tudo isto é atmosfera feérica. Não
contrado por Calogrenante. E isto é comprovado de imediato, menos feéricas do que as indicações espaciais são as indicações
pois o caminho é penoso, como os caminhos certos soem ser; temporais. Sete anos calou Calogrenante acêrca da sua aventura.
leva, durante o dia todo, através de matos e espinhos e, à noite, Sete é uma cifra mágica, e os sete anos de que se fala no comêço
leva à meta certa: um castelo, onde Calogrenante é recebido da Canção de Rolando lhe conferem também uma atmosfera
com alegria, como se se tratasse de um hóspede esperado há muito lendária: sete anos, set ans tuz pleins, passou o, imperador Carlos
tempo. Só à noite, quando sai do bosque, parece descobrir onde na Espanha. Só que na Canção de Rol(bfldo são, realmente, sete
se encontra: isto é, numa charneca em Broceliande. Broceliande, anos "inteiros"; são tuz pleins, pois serviram ao impetador para
em Armórica, sôbre a terra firme, é um país feérico famoso na subjugar todo o país até o mar, para conquistar todos os seus
tradição bretã, com fontes mágicas e bosques fantástÍcos. De castelos e cidades, com exceção de Saragoça - durante os sete
que maneira Calogrenante que, presumivelmente, partiu das Ilhas anos que vão desde a aventura de Calogrenante junto à fonte
Britânicas, da côrte do rei Artur, chegou à Bretanha, no conti- e o seu relato, nada parece ter acontecido, ou, pelo menos, nós
nente, isto não é indicado. Nada ouvimos acêrca da travessiu nada ficamos sabendo a respeito. Quando Yvain se dispõe a
do mar, assim também, mais tarde (v. 760 ss.), quando da via- passar pela mesma aventura, êle ainda encontra tudo na forma
gem de Yvain, que, pela sua vez, parte indubitàvelmente de como Calogrenante o descreveu: o castelão e sua filha, os touros
Carduel, no País de Gales, e cuja viagem até o "caminho certo'' com o seu gigantesco e horrível pastor, a fonte mágica e o cava-
em Broceliande é descrita de maneira totalmente indefinida e leiro que a defende. Nada mudou, os sete anos passaram sem
fantástica. Logo que Calogrenante descobre onde está, êle já deixar rastos, tudo está como estava, de maneira exatamente
avista o hospitaleiro castelo. Na sua ponte está o castelão, com igual ao que sói acontecer nas histórias de fadas. É uma paisa-
o falcão de caça na mão, e o recebe com alegria, que ultrapass11 gem feericamente encantada; estamos envoltos pelo segrêdo; ao
a expressão da simples hospitalidade, e que nos confirma, m111~ nosso redor há murmúrios e cochichos. Todos os muitos caste-
uma vez, que se tratava do "caminho certo": e/ il me di,1•1 101 los e palácios, lutas e aventuras dos romances corteses, especial-
maintenant plus de çant fois an un tenant, que beneoite fu.11 lo mente dos bretões, são do país dos contos de fadas, pois sempre
voie, par ou leanz venuz estoie. A recepção que se segue de se nos aparecem como brotados do chão. A sua relação geográ-
senvolve-se segundo o cerimonial cavaleiresco, cujas forn1u, fica com a terra conhecida, as suas bases sociológicas e econô-
graciosas já parecem te_r sido estabelecidas há tempo: o castcluu micas ficam sem explicação. Mesmo a sua significação moral
convoca com três golpes sôbre uma placa de cobre tôda a e, m ou simbólica é só raramente determinável com alguma certeza.
dagem, retira-se o cavalo do recém-chegado; aparece urnu bela, Esta aventura junto à fonte mágica tem algum sentido oculto?
donzela, a filha do castelão. Sua tarefa consiste em livrnr 11 Pertence, certamente, àquelas que os cavaleiros da côrte de
hóspede da sua armadura e em cobri-lo, no seu lugar, com 11111 Artur devem empreender, mas em nenhum lugar é dada uma
elegante manto, assim como em fazer com que o tempo pu~w motivação moral da justiça da luta contra o cavaleiro da fonte,
para êle de modo agradável, fazendo-lhe companhia, sôzintrn, Em outros episódios dos romances corteses podem ser reconhe-
num belo jardim, até o jantar estar pronto. Depois d1htl', u cidos, às vêzes, motivos simbólicos, mitológicos ou religiosos.
castelão conta ao seu hóspede que já faz tempo que êlc allwr1111 Assim, a viagem pelo mundo subterrâneo empreendida por Lan-
cavaleiros andantes, que vão em busca de aventuras, Conv,du 11 celote, o próprio motivo da libertação e da salvação em muitos
com ardor a visitar novamente o castelo à sua volta; muN, C\1111 lreohos, e, sobretudo, o motivo da graça cristã na lenda do
nhamente, nada diz da aventura da fonte, não obstante u cun tn· Graal - só que em caso quase nenhum os significados podem
ça, e □ão obstante saiba que os perigos que ali espcrnm pd11 ser estabelecidos com rigor, pelo menos não ainda nos romances
seu hóspede impedirão, ao que tudo indica, a volta lllll' Nl' corteses propriamente ditos. O secreto, o que brota do chão,
ocultando as suas raízes, inacessível a qualquer explicação racio-
parece prever. Tudo isto parece estar, contudo. na m:us pc1 k 11 11
nal, foi tirado pelo romance cortês da lenda popular bretã, que
ordem. Pelo menos, não afeta de forma alguma o louvm 4m·
Calogrenante e, mais tarde, também Yvnin, outorgnm 11 ho~ l:lc rccehcu e pôs H serviço do aperfeiçoamento do ideal cavalei-
resco. A 111atltlr1• d1• flret11R1W mostrou-se, evidentemente, como
pitalidade e às virtudes cavaleiresca~ do cnstclbo. C11lu1i10111111h .
~cndo o 1111:10 mai11 npropriado pura o uescnvolvimento dêslc
pois, sai a cavalo de manh1l. e s6 fica sallcndu uli:o 11n·1~.1 il,1
11lc11l 111111~ 11p1op11111111 111111!.1 do ,1uc, pnr exemplo, o~ ~l:ncrni.
fonte através du sntfrico vilfiu. tstl'. 111d11v111, nuu ,11lll' " qt11
112 MIMESIS A SAlDA DO CAVALEIRO CORTfS 113

antigos, q_ue entraram em voga quase simultâneamente, mas Jogo quanto no romance de aventuras posterior e nas narrativas me-
foram deixados para trás. nores em verso, tanto no século XTI, como ainda no século; XIII.
A auto-representação da cavalaria feudal nas suas formas A sociedade cavaleiresca se apresenta em versos graciosos, amá-
de vida e na! suas concepções ideais é a intenção própria do veis, pintados com extrema fineza e claros como a água. Mi-
romance cortes. Também as formas exteriores de vida são re- lhares de pequenos quadros e cenas descrevem-nos os seus costu-
presentadas com lazer, e em tais ocasiões, a representação aban- mes, as suas opiniões e o tom do seu comércio social. Nestes
?ona a distância nebulosa da história de fadas, para apresentar quadros há muito brilho, muito tempêro realista, muita fineza
imagens ~ºJ~mente presentes de cos.tumes contemporâneos. psicológica e, também, muito humor. É um mundo muito mais
Outr~s ep1_sod1os d?s romances corteses mostram tais quadros de rico, muito mais cheio de variedade, mais pleno do que o mundo
maneira amda mais colorida e pormenorizada do que o trecho dos cantares de gesta, ainda que êle também seja o mundo de
que escolhemos, só que também nêle é observável o essencial do somente um estamento. As vêzes Chrétien parece até quebrar
seu caráter de realidade. O castelão com o falcão, a criadagem as barreiras sociais, como quando fala da oficina das trezentas
chamada com o gongo de cobre, a bela donzela filha do castelão donzelas da Avanture du Chastel de Pesme (Yvain, 510 ss.) ou
que lhe tira a armadura, e lhe veste uma ro~pa confortável ; quando d.a representação daquela rica cidade, cujos cidadãos
c?nversa amàvel~ente com êle até a hora do jantar - tudo isto ( quemune) procuram assaltar o castelo onde se encontra Galvão
s~o quadros grac10sos de um costume já fixado, quase de um (Perceval, 5710 ss.) - mas tais episódios não são senão um
ntual, mostrado pela sociedade cortesã na moldura de um estilo colorido cenário para a vida cavaleiresca. O realismo cortês
de vida bem modelado. A moldura é tão forte e isolante tão oferece uma imagem viva, muito rica e temperada, de urna única
deposta contra as formas de v1da de outras camadas so~iais, classe; uma classe social que se segrega das outras classes dos seus
qu~nto a da chanson de geste, só que é muito mais cultivada e contemporâneos, fazendo-os aparecer, uma ou outra vez, como
mais elegante. A_s _mulheres, têm nela um papel importante; cenários coloridos, geralmente cômicos ou grotescos. Portanto, a
desenvolveu-se o d1stmto conforto da vida social de uma camada separação estamental entre, por um lado, o importante, o signifi-
cultural. Aliás. adotou um caráter que ficará sendo por muito cativo e o elevado e, pelo outro, o baixo, cômico, grotesco, fica
tempo, uma d~s característic~s mais singulares do gôsto francês: em pé do ponto de vista do conteúdo. Somente a classe feudal
o carater gra:1oso, talvez ate um pouco demasiado lavrado. A tem acesso ao primeiro dêstes campos. Contudo, não é possível
cena com a Jovem do castelo - como ela aparece, como êlc falar de uma separação de estilos propriamente dita, enquanto o
a olha, o desarmamento, a conversação no prado - não obstan- romance cortês não conhece um "estilo elevado", isto é, uma dife-
te ~e_,tra~a aqui só de um exemplo pouco elaborado, dá com rença de grau na elevação da forma de expressão. O confor-
suf1~1enc1a a impressão da coqueteria amorosa, graciosa, clara e tável, ágil e elástico octossílabo rimado acomoda-se, sem qual-
s?rn~ente, fresca, elegante e ingênua, na qual justamente Chré- quer esfôrço, a qualquer objeto e a qualquer afinação do senti-
t1en e um dos mestres. Imagens estilísticas desta espécie encon- mento ou do pensamento. Em geral, também já tinha servido
tram-se bastante cedo na França - nas chansons de toi/e, e para os mais diversos fins, para anedotas, tão bem quanto para
mesmo _uma vez na Canção de Rolando, na laisse que trat'-à de vidas de santos. Nos casos em que trata de assuntos muito
Marganz de Sevilha (v. 955 ss.); mas somente a cultura cortesll sérios ou terríveis, fàcilmente apresenta, pelo menos para o nosso
as desenvolveu, e especialmente o grande charme de Chréticn modo de sentir, algo de ingênuo, infantil, e, de fato, há um
repousa, em grande parte, sôbre seu dom de desenvolver l'lsk valor infantil na frescura com que procura dominar um mundo
tom com a maior variedade. :&.te estilo aparece com o seu plenu já tão ricamente diferenciado através de uma linguagem literá-
brilho quando se trata do jôgo amoroso real. Entre as ccnu~ ria tão jovem ainda, apenas carregada de teoria, ainda não libe-
dêste jôgo há, então, um arrazoado antitético acêrca do senti rada da multiplicidade dialética. O problema das altitudes esti-
menta, aparentemente ingênuo, mas de uma amabilidade extn.• lísticas torna-se consciente para a língua vulgar só muito mais
mamente artística. O exemplo mais famoso encontra-se no prin tarde, só com Dante.
cípio do Cliges, onde é representado o amor nascente entre Uma limitação ainda mais forte do que a estamental provém,
Alixandre e Soredamors, com a inicial timidez do mútuo esco11 para o realismo do romance cortês, da sua atmosfera feérica.
der-se e a irrupção final do sentimento, ouu::a série de cenas Fia traz consigo o fato de que todos os quadros vivos e colori-
encantadoras e de solilóquios analíticos. O gracioso e o tHHávl'I dos da realidade contemporânea pareçam brotados do chão, isto
dêste est~lo, cujo atrativo é a frescura e cujo perigo é o meRq11t é, do chão dos contos de fadas, de tal forma que, como já
nho, o tolamente coquete e o frio, dificilmente pode ser 11ch11d11 dissemos, cureccm de tôda base real-política. As circunstâncias
em t_al grau d~ pureza na poesia antiga, é uma criação da f•rnm,u geográficas, econômicas e sociais nas quais repousam, nunca
med1eval. Aliás, êste estilo não se limita somcnlc a epi,nd111' ~lw cxclarccidn-;. llrotnm de forma imediata do feérico e do
am?rosos. Todo o quadro que reprcscnru os a~pccw~ vrl.u~ 1111 IIVl'lll11rc~co A ufic;inn, tüo espantosamente realista, no Yva/11,
sociedade feudal está ufinur.lo no mc~mo tum, tanto rm < h,c-111·11 1111t· 11c,1hn d1• 1111•11u1111111 , 1111 q1111I atf NC fuln cm condições de
114 MIMESIS A SA1DA DO CAVALEIRO CORTI:S 115
trabalho e em salário, não surgiu, porventura, de condições eco- mento colocava exigências práticas determinadas, nas quais aque-
nômicas concretas, mas do fato de que o jovem rei da Ilha das las virtudes se desenvolviam normalmente de forma espontânea.
Virgens, que tinha caído nas mãos de dois irmãos malvados e ~gora precisa, além do nascimento, de uma educação para ser
endiabrados, só conseguira libertar-se dêles pela promessa de llllplantado. e da provação constante, voluntária e incessante-
entregar anualmente trinta de suas virgens para servirem de mente renovada para ser conservado. O meio da provação e da
trabalhadoras forçadas. A atmosfera feérica é o próprio ar que verificação é a aventura, avanture, uma forma extremamente
se respira no romance cortês, que não quer exprimir somente as peculiar e estranha de acontecimento, que foi criada pela cultura
formas exteriores de vida, mas também, e sobretudo, as repre- cortesã. Certamente já existe muito antes a pintura fantástica
sentações ideais da sociedade feudal de fins do século XII. dos milagres e dos perigos que esperam aquêle que é jogado,
Assim chegamos ao cerne da sua essência, na medida em que para além dos limites do mundo conhecido, a paragens ignotas
esta se tornou significativa para a história da apreensão literária e longínquas - assim como há imagens e narrações não menos
do real. fantásticas acêrca dos perigos que, mesmo dentro do mundo
Calogrenaote sai a cavalo sem incumbência e sem encargo geogràficamente conhecido, ameaçam o homem pela ação dos
algum. Busca aventuras, quer dizer, encontros perigosos, nos deuses, espíritos, demônios e outras fôrças doutas nas artes
quais possa pôr-se à prova. Nada disto existe na chanson de mágicas. Também existe, muito antes da cultura cortesã, o
geste. Os cavaleiros que nela cavalgam têm um encargo e se her~i destemido, que se sobrepõe a tais perigos mediante a fôrça,
encontram num contexto político-histórico; 8ste contexto está, a virtude, a astúcia e a ajuda divina, tirando também outros
inegàvelmente, simplificado e deformado, mas está conservado da mesma situação. Mas o fato de que tôda uma classe social,
na medida em que as personagens que se encontram em ação que está em pleno florescimento contemporâneo, veja a supera-
têm uma função no mundo real, a saber, a defesa do reino de ção de tais perigos como a sua genuína vocação, como a vocação
Carlos contra os infiéis. a subjugação e a conversão dos infiéis, exclusiva, na sua representação ideal - o fato de que as dife-
e coisas semelhantes. O ethos da classe feudal, isto é, o ethos rentes tradições len~rias, sobretudo a bretã, mas outras também,
bélico. o qual os cavaleiros reconhecem e aceitam, serve. para são .por ela recebidas para o fim precípuo de criar um mundo
tais fins político-históricos. Calogrenante, ao contrário, não tem cavaleiresco mágico preparado adrede, no qual os encontros e
nenhuma tarefa político-histórica, tão pouco quanto qualquer os perigos fantásticos vão ao encontro do cavaleiro, por assim
outro dos cavaleiros da côrte do rei Artur. O ethos feudal já dizer, em série - esta ordenação dos acontecimentos é urna
não serve a nenhuma função política nem, em geral, a nenhuma criação original do romance cortês. Não obstante os encontros
realidade prática. Tornou-se absoluto. Já não tem nenhum perigosos, chamados avantures, não possuam, absolutamente,
outro fim afora a sua auto-realização. Desta forma, muda ba~e experiencial alguma, não obstante elas não possam ser en-
radicalmente. Até a palavra que, na Canção de Rolando, apa- caIXadas em nenhuma espécie de sistema político existente ou
rece mais freqüentemente e com a significação mais geral para imaginável na prática, não obstante elas apareçam, umas atrás
designá-lo - vasselage - parece sair paulatinamente da moda: das outras, em longas séries, geralmente sem conexão racional,
Chrétien a emprega no Erec só três vêzes, no Cliges e no Lan- a gente não se deve deixar levar pelo significado moderno da
celote encontra-se só uma vez, e depois não mais aparece. A palavra aventura, no sentido de considerá-las simplesmente "for-
nova palavra, que êle prefere, é corteisie, uma palavra cuja tuitas" : o sôlto, periférico, desordenado, ou como Sirnmel certa
história, importante e longa, fornece interpretação mais integral vez disse, o que está fora do sentido em si da existência, que
da representação ideal das classes sociais e do homem na Europa. hoje se relaciona com a palavra aventura, não é o que se tenciona
Na Canção de Rolando esta palavra ainda não pode ser encon- no romance épico; antes, a provação, através da aventura, é o
trada; só o adjetivo curteis aparece três vêzes, das quais du~s próprio sentido da existência cavaleiresca ideal. A demonstra-
com referência a Olivier na combinação li proz e li curte,s. ção do fato de que o mais genuíno do homem cavaleiresco se
Evidentemente, corteisie chegou à sua significação sintética so- manifesta na aventura jã foi tentada, faz alguns anos, por E.
mente na cultura cortesã, que é chamada assim justamente por Eberwein, com relação à Lais de Marie de France (Zur, Deútung
isto. Os significados nela expressos, muito modificados e subli- mittelalterlicher Existenz, Bonn e Koln 1933, pág. 27 ss.). :e.
mados com referência à chanso.n de geste - refinamento das também possível comprová-lo no romance cortês. Calogrenante
regras de Juta, costumes do trato cortês, o preito às damas - procura o caminho certo, e o encontra, como comprovamos
têm todos em mira um ideal pessoal e absoluto; absoluto tanto ucima. 8 o caminho certo para a aventura, e já esta procura
com referência ao aperfeiçoamento ideal, como também em rela- e êstc achado manifestam-nos como um dos eleitos, como um
ção à falta de finalidades terrenas e práticas. O caráter pessoal dos cavaleiros autênticos da Távola Redonda de Artur. Como
das virtudes cortesãs não é dado simplesmente por natureza, cuvulciro autêntico e digno da aventura, êle é recebido pelo seu
hóspede, que tnmhém é cavn.lciro, com alcgrin. e bençãos por
nem é obtido simplesmente por nascença, no sentido cm q\lc n
l'llll!II\ tio lll'hndn dn cominho certo Ambos. cnstclão e h6spcdc,
situação prática conferida pelo nascimento dentro dt' um l.'~111 pctll'lll"t·111 11 1111111 r1111111nid111lt- onlcnudn, 1111 q1111l sr {, 111lr11ititlo
116 MIMESIS A SAlDA DO CAVALEIRO CORT.l:S 117

mediante uma cerimônia de eleição, e cujos membros estão obri- distinguem: é absoluta, pairando por sôbre qualquer contingên-
gados a se ajudarem mutuamente. O ofício próprio do castelão, cia terrena. e dá a quem a ela se submete o sentimento de
o único sentido do seu domicilio neste lugar, parece ser ofer~cer pertencer a uma comunidade de eleitos _- um círculo de soli-
hospedagem cavaleiresca aos cavaleiros que por lá passarem em dariedade separado da massa dos homens (esta expressão é do
busca de aventura. Mas a ajuda que dá ao hóspede é misteriosa onentalista Hellmut Ritter). A ética feudal, a representação
pelo seu calar acêrca da4uilo que espera por Calogren~nte. Evi- ideal do cavaleiro perfeito, conseguiu para si, portanto, um efeito
dentemente, o segrêdo é um dos seus deveres de cavalerro, em to- muito grande e de vida muito longa. As idéias coerentes com
tal contraste com o vilain, que não cala nada do que sabe. O que ela, as idéias de valentia, honra, fidelidade, respeito mútuo,
seja "aventura", isto êle não entende, pois os costumes cavaI13ei- nobres costumes e d.os serviços devidos às damas encantaram,
rescos lhe são estranhos. Calogrenante é, portanto, um genumo ainda, homens de culturas muito diferentes. Classes sociais que
cavaleiro um eleito. Mas há muitos graus de eleição; não é surgiram mais tarde, ascendendo de origens urbanas e burguesas,
êle que~ é capaz de passar pela aventura; somente Yva_in o retomaram êste ideal, não obstante seja não somente exclusivo e
será. Os graus da eleição e a eleição especial para determmada estamental, mas também totalmente vazio de realidade; tão logo
aventura ficam ainda mais claros no Lancelote e no Perceval, ultrapassa os limites do mero costume no trato social e começa
ainda mais acentuados do que no Yvain, mas o motivo pode ser a ocupar-se com os negócios do mundo, torna-se insuficiente e
reconhecido em toâo lugar onde aparece a poesia cortesã. Com necessita de uma complementação, que, amiúde, está em con-
isto, a série de aventuras passa a ocupar a posição de uma traste mais do que penoso com êle mesmo. Mas justamente por
determinação do destino, de uma verificação gradativa do est~do estar tão afastado da realidade, êste ideal deixou-se adaptar,
de eleição. Converte-se, desta forma, na base de u~a doutr!na como tal, a qualquer espécie de situação, pelo menos enquanto
do aperfeiçoamento pessoal atr~vés de um ~esenvolv1mento 1m- existiram classes dominantes. Assim, o ideal cavalheiresco sobre-
pôsto pelo destino, uma doutrma que, mais tarde, _atravessou viveu tôdas as catástrofes que feriram o feudalismo no decorrer
as barreiras sociais da cultura cortesã. É claro que nao se deve dos séculos. Sobreviveu mesmo o Dom Quixote de Cervantes,
esquecer o fato de que, simultân~a~ente co~ a cultura cortesã, que interpretou o problema da maneira mais perfeita. A pri-
outro movimento chegou a expnmlf com ngor e clareza bem meira saída de Dom Quixote, com a sua chegada vespertina
maiores os fenômenos da verificação gradativa de um estado de à tave_rna, que êle toma por um castelo, é uma paródia perfeita
eleição, isto é, a mística victorina e cisterciense. Não estava limi- da sai.da de Calogrenante - e justamente pelo fato de Dom
tada estamentalmente e não precisava da aventura. Quixote não encontrar um mundo especialmente preparado para
O mundo da provação cavaleiresca é um mundo de aven- a provação cavaleiresca, mas um mundo qualquer, quotidiano,
turas. .e.te não contém somente uma série quase ininterrupta real. Pela descrição pormenorizada das circunstâncias da vida
de aventuras, mas também, e sobretudo, nada além do que do seu herói, Cervantes assinalou de maneira muito nítida, já
pertence à aventura. Nada que não seja cenário ou preparação no princípio da sua obra, a localização da raiz da confusão de
para ela. É um mundo criado e preparado adrede para a pro- Dom Quixote: é a vítima de uma estratificação social; pertence
vação do cavaleiro. A cena da partid~ d_e ~alogren~nte mostra a uma classe carente de função. Pertence a esta classe, não
isto com tôda clareza. .Êle cavalga o dia mtelfo, e nao encontra pode se livrar dela, mas não tem, como mero membro de uma
nada afora o castelo, preparado para recebê-lo; nada é dito acêr- classe, sem riqueza e sem ligações nos altos círculos, espécie
ca de tôdas as condições e circunstâncias práticas que podem alguma de atividade ou de tarefa. Sente que sua vida escorre
tornar a existência de um tal castelo, totalmente isolado, possível sem sentido, como se fôsse um aleijado. Somente sôbre um
e congruente com a expenencia comum. Uma tal idealizaç!o ser humano como êle, que vivia de maneira pouco diferente
leva para muito longe da imitação_ d? _real. No roman~e cortes, da de um camponês, mas possui uma certa cultura e não pode
cala-se acêrca do funcional, do htstoncamente verdadeiro sôbrc nem deve trabalhar como tal, os romances de cavalaria poderiam
a classe social e, ainda que destas obras possa ser obtida uma ter tido um efeito tão enteante. A sua saída é uma fuoa. de uma
pletora de pormenores da história ~a cultura? refe:en!es aos situação insuportável, suportada durante demasiado te~po. Quer
costumes e, em geral, às formas extenores de vida, nao e poss1 obter à fôrça a função condigna com o seu estamento. Eviden-
vel obter espécie alguma de visão em profundidade da realidadi: n~cntc, a situação, três séculos e meio antes, na França, é muito
da época, nem no que se refére à classe dos cava~e~ros. Q~ando d1fcrcntc. A cavalaria feudal ainda tem importância decisiva
descrevem a realidade, só descrevem a superf1c1e colorida, o rio campo militar; o desenvolvimento da burguesia urbana ê do
quando não são superficiais, têm outros objetos e outras intcn nhso!utismo, que organizaria um sentimento centralizante, estão
ções que não a realidade do tempo. Contudo, contêm uma él1c11 11ind11 nos seus primórdios. Mas se, realmente, Calogrenante
11w~sc Noido du forma como o narra, já então se teria defroniado
estamental, que, como tal, reivindicava vigêncin no mundo rcul
l'IIIII l 'c11~11ll 111111!0 d1fcrcntcs daqudus que relata. Nn scgunun
terreno e também a obtinha. Pois possui uma grnndc 11111~111 1111 1111 h-ll't'tl'II t 1u111d11, 1111 1111111<10 de llon1iq11c li, 1 uí~ VII
que, s~ vejo cloramentc, dcscan~u cm <lua~ q1111li<ladc, llllC 11 1111 hlqll' ..1\111111~!11, M l 111~,1 ~ M' cl11v11111 cl<· 11l11Ill' lf"a 111111111 dift•
MIMESIS A SAtDA DO CAVALEIRO CORTBS 119
118

rente daquela do romance cortês. :t?,ste não é realidade mode- cedo apareceram tendências que queriam criar tais comunidades
lada poeticamente, mas é um esquivar-se para o fantástico. Bem solidárias não com base na origem, mas com base nas qualidades
no princípio, em plena florescência da sua cultura, esta classe pessoais, na nobreza de modos e costumes. Um comêço disto
dominante dotou-se de um ethos e de um ideal que encobria a já se encontra nas obras mais importantes da própria épica
sua verdadeira função, narrando a sua própria existência de cortesã, que apresentam uma imagem muito interiorizada e muito
forma extra-histórica, livre de função, como uma criação esté- baseada na eleição e na formação pessoal do homem cavalei-
tica absoluta. Certamente há ·uma explicação para tal fenômeno resco. Mais tarde, quando camadas culturais de origem urbana,
na borbulhante fôrça imaginativa e no ímpeto que espontânea- especialmente na Itália, adot,aram e transformaram o ideal
mento se eleva do real para o absoluto neste grande século. cortês, a idéia do ser nobre tomou-se cada vez mais pessoal,
Mas esta explicação é demasiado geral para ser suficiente, sobre- e, como tal, foi muitas vêzes contraposta polêmicamente ao
tudo porque a épica cortesã não mostra somente a aventura e conceito de aristocracia baseado somente na origem. Com isto,
a idealização absoluta, mas também os costumes graciosos e o porém, ela não se tornou menos exclusiva; guardou sempre o ca-
·pomposo cerimonial. Não parece aventuradQ supor que a longa ráter de uma camada de eleitos, às vêzes até o de uma organização
crise funcional da classe feudal já se fizesse sentir então - secreta. Motivos estamentais, místicos, políticos, sociais, educa-
já nos tempos do auge da poesia cortesã. Chrétien de Troyes, tivos, entrelaçaram-se, então, da maneira mais variada. Mas,
que viveu primeiramente na Champanha, onde, justamente no sobretudo, a interiorização não trouxe, de modo algum, urna
seu tempo, as feiras comerciais ganharam importância primor- aproximação com a realidade terrena, antes pelo contrário; o
dial na Europa, e mais tarde em Flandres, cuja burguesia, antes fato de os contatos com a realidade se tornarem cada vez mais
do que em qualquer outro lugar ao Norte dos Alpes, atirigiü fictícios e cada vez mais carentes de função foi condicionado,
importância econômica e política, já devia ter sentido que a
classe feudal não mais era a única classe dominante. em parte, justamente pela interiorização do ideal cavalheiresco.
.nste caráter fictício e carente de função que, como esperamos
A ampla e duradoura difusão do romance cortês cavalei- ter demonstrado com suficiente clareza, já estava contido desde
resco exerceu sôbre o realismo literário uma influência impor- o princípio no ideal cortês, condiciona a sua relação com a
tante, uma influência de caráter limitativo, mesmo antes de que
a d'outrina antiga das diferentes altitudes do estilo tivesse um realidade. Da cultura cortesã resulta a idéia, longamente vigente
efeito na mesma direção limitativa. Finalmente, ambas se reuni- na Europa, de que o nobre, o grande e o importante nada têm
ram na idéia do que seria estilo elevado, que foi se formándo a procurar na realidade comum - uma convicção muito mais
paulatinamente durante o Renascimento. Deveremos voltar o patética e muito mais arrebatadora do que as antigas formas
isto mais adiante. Aqui só falaremos, ainda, sôbre aquelas in- de afastamento do real, tais como as que oferece a ética estóica.
fluências que impediram a apreensão total da realidade empírica ~ claro que existe uma forma antiga de afastamento do real,
e que são características do ideal cavalheiresco. Trata-se, com que é muito mais arrebatadora, isto é, o platonismo. Tentou-se
isto, como já foi mencionado anteriormente, não ainda de ele repetidas vêzes demonstrar que houve tendências platônicas que
mentos estilísticos, no sentido mais restrito. A epopéia cortesa coadjuvaram na formação do ideal cortês. Em tempos poste-
não chegou ainda a criar um estilo elevado da linguagem poética; riores, o ideal cortês e o platonismo complementaram-se brilhan-
ao contrário, não aproveitou os elementos do sublime que jazinm temente - o Cortegíano do Conde Castiglione é certamente o
na forma paratática da epopéia heróica; o seu estilo é mniR melhor exemplo disto. Mas esta forma especial de afastamento
confortàvelmente narrativo do que sublime, é utilizável paru da realidade, que a cultura cortesã criou, com a construção de
qualquer conteúdo. As tendências para uma separação dos esta
um mundo fictício da provação estamental ou da provação
los de linguagem, que somente mais tarde começaram a surg11 , estamental-pessoal, é uma criação total e integralmente, peculiar-
recorrem totalmente às influências da Antigüidade, e não i\1
influências cortesãs e cavaleirescas. Tanto mais fortes são '" mente medieval, apesar do resplendor platônico que a cobre.
limitações de conteúdo. Com tudo isto relaciona-se a peculiar escolha de obje-
São de ordem estamental. Somente as pessoas caval~irc~ tos encontrada pela épica cortesã, uma escolha que exerceu
cas-cortesãs são dignas da aventura e, portanto, só a elas podem aõbrc a poesia européia, durante longo tempo, uma influência
acontecer coisas sérias e importantes. Quem não pertence a cMIII determinante. Há s6 dois que são considerados dignos de um
classe só pode aparecer como parte do cenário, e isto, exc1·ccmln cavaleiro: feitos de armas e amor. Ariosto, que construiu dêste
uma função cômica, grotesca ou desprezível. Nem na Anhglll mundo fictfcio um mundo de alegre ficção, exprimiu isto inte-
dade, nem na epopéia heróica medieval anterior c~ta ~it111u;1'111 11r1lmente nos seus primeiros veraos:
aparece com tanta evidência como aqui, onde Sl' tr:1111 de 1111111
Lo donnc, 1 caval\er, !'arme, ali amor!,
segregação e de uma disciplina consciente~. dentro dl• 1111111 n111111 li: cortcalc, l'Kud11cl lmprc1c io canto . ..
nidadc de classe solidária. Orn, nlls tc1111111~ p11~kr1111n. 111111111
12.0 MIMESIS A SAlDA DO CAVALEIRO CORTfS 121

Outras coisas, afora feitos de armas e amor, nem podem acon- acontecem à procura do favor de uma dama, já está dada em
tecer no mundo cortesão, e mesmo estas duas são de uma suas linhas básicas. Ao mesmo tempo também, está dada a
espécie tôda peculiar - não são acontecimentos ou sentimentos elevação de classe do amor como objeto poético, que se tornou
que possam, também, faltar, de tempos em tempos. Ao con- tão significativa para a poesia européia. A poesia antiga só
trário, estão ligadas constantemente com a pessoa do cavaleiro lhe conferia, em geral, dignidade média; nem nas tragédias nem
perfeito, fazem parte da sua definição, de modo que êle não nas grandes epopéias o amor predomina como objeto. A sua
pode estar nem um instante sem aventuras de armas e nem um posição central da cultura cortesã foi modelar para o estilo
instante sem complicações amorosas - se o fizesse, _perder-se-ia elevado das línguas européias vulgares, que ia se formando paula-
a si mesmo e não mais seria um cavaleiro. Novamente é a tinamente. O amor tomou-se um objeto do estilo elevado (como
versão jocosa ou a paródia, Ariosto ou Cervantes, a que melhor Dante o comprova no seu De Vulgari Eloquentia II_ 2) . e foi
interpreta esta forma de vida fictícia. Sôbre os feitos de armas amiúde o objeto mais importante do mesmo. Com isto ia, de
nada tenho a acrescentar - o leitor entenderá que, seguindo mãos dadas, um processo de sublimação do amor, que leva_ à
o modêlo de Ariosto, escolho estas palavras, e não guerra, pois mística. ou à galanteria; e, em ambos os casos, leva para muito
se trata de feitos realizados a torto e a direito, que não entram longe da realidade concreta do mundo. Para a sublimação do
em nenhum contexto político-funcional. Acêrca do amor cortês, amor, os provençais e o nôvo estilo italiano contribuíram ,de
que é um dos temas mais discutidos da história da literatura maneira mais decisiva do que a épica cortesã, mas tambem
medieval, só preciso acrescentar, também, o que é indispensável esta tem parte importante na elevação de categoria do amor,
para o meu objetivo. Antes de mais nada é preciso lembrar-se enquanto o introduziu no campo do heróico-estamental e o· fün~ -
que a forma por assim dizer clássica, na qual se pensa tão diu com o mesmo.
logo se fala em amor cortês - a amada como senhora, cujos
Assim fica, como resultado da nossa interpretação e das
favores o cavaleiro quer ganhar através de feitos heróicos e da
dedicação total, escravizada - não é a única forma de amor que considerações que a ela se juntaram, a conclusão de que a cu~-
tura cortesã foi decididamente desfavorável para o desenvolvi-
aparece no tempo do florescimento da épica cortesã, nem é a
mento de uma arte literária que abarcasse a realidade em tôda
que predomina. Pense-se tão somente em Tristão e Isolda, em
Erec e Enida, em Alixaodre e Soredamors, em Perceval e Bran- sua amplidão e profundidade. Viviam, porém, nos séculos XII
e XllI, outras fôrças que foram capazes de alimentar tal desen-
caflor, em Aucassino e Nicoleta - nenhum dêstes casais, esco-
lhidos entre os mais famosos pares amorosos, encaixa perfeita- volvimento.
mente no esquema conhecido, e alguns não encaixam de jeito
nenhum. De fato, a épica cortesã apresenta sobretudo uma
pletora de histórias de amor, muito diferentes, extremamente
concretas e permeadas de realidade; elas fazem com que o Iêitor
chegue, às vêzes, a esquecer totalmente o fictício do mundo em
que se desenvolvem. O esquema platonizante da senhora ina-
tingível, inutilmente cortejada, que inspira o herói à distânciu,
que tem sua origem na lírica provençal e se aperfeiçoou no
estilo nôvo italiano, não predomina, em primeiro lugar, na épicu
cortesã. Também a descrição do estado amoroso, as conversa
ções entre os namorados, a descrição da sua beleza e tudo o
mais que pertence ao emolduramento dos episódios amorosos,
apresenta, sobretudo em Chrétien de Troyes, grande art~ gracio
so-sensual, mas dificilmente galanteria hiperbólica. Esta necc~
sita de uma outra altitude estilística que não aquela oforecidu
pela épica cortesã. O fictício e o irreal das histórias amorORP t
está ainda dificilmente nelas mesmas; está muito mais na su11
função dentro da estrutura geral do poema. Já no roinuncu
cortês, o amor é muito freqüentemente o motivo imedialo doN
feitos heróicos. Isto estava bem à mão, à falta total de urna
motivação prática da ação devido a circunstâncias político-hi~lú
ricas; o amor, como parte essencial e obrigatória dtt pcrldçilo
cavaleiresca, serve como sucedâneo para outrn~ pos~ibilíd11d1:1 clc:-
motivação, aqui ausentes. Com isto, 11 ordcnnçuo fil.:1ic111 11118
acontecimentos, na qunl o~ foilo~ mniH 1111po1 t11nll'~ l{l·111l111cnh
!
ADÃO E EVA 123
Adão e Eva
EVA: Tu le saveras;
Nel poez saver sin gusteras.
ADAM: J'en duit!
EVA: Fai le!
ADAM: Nen frai pas.
EVA: Del demorer fai tu que las.
ADAM: Et jo le prendrai.
EVA: Manjue, ten!
300 Par ço saveras e mal e bien.
Jo eo manjerai premirement
ADAM: E jo aprés.
EVA: Seurement.
Tunc commedet Eva partem pomi, et dicet Ade:
Gusté en ai. Deus! quele savor!
Une ne tastai d'itel dolçor,
D'itel savor est ceste pome!

7
. . . Adam vero veniet ad Evam, moleste forens quod ADAM: De quel?
cum ea locutus sit Diabolus, et dicet ei: EVA: I:>'itel nen gusta home.
Or sunt mes oil tant cler veant,
Di moi, muiller, que te querroit Jo semple Deu le tuit puissant.
Li mal Satan? que te voleit? Quanque fu, quanque doit estre
EVA: Il me parla de nostre honor. 310 Sai jo trestut, bien en sui maistre.
280 ADAM: Ne creire ja le tra1tor! Manjue, Adam, ne faz demore;
11 est tra'itre, bien le sai. Tu le prendras en mult bon'ore.
EVA: Et tu coment?
ADAM: Car l'esaiai! Tunc accipiet Adam pomum de manu Eve, dicens:
EVA: De ço que chalt me dei veer? Jo t'en crerrai, tu es ma per.
11 te fera changer saver. EVA: Manjue, nem poez doter.
ADAM: Nel fera pas, car nel crerai
De nule rien tant que l'asai. Tunc commedat Adam partem pomi ...
Nel laisser mais venir sor toi
Car il est mult de pute foi. •
H volt trai:r ja son seignor, Adão deve então dirigir-se a Eva, preocupado porque o diabo
290 E soi poser al des halzor, falou com ela e deve dizer-lhe:
Tel paltonier qui ço ad fait Dizei-me, mulher, o que procurava o malvado Satanás junto
Ne voil ver vus ait nu) retrait. a ti? O que queria de ti?
EVA: Falou-me do nosso proveito.
Tunc serpens attificiose compositus ascendet juxta atipltom ADÃO: Não acredites no traidor! 8le é um traidor, bem o sei.
arboris vetite. Cui Eva propius adhibebit aurem, quasl lp1lu1 EVA: Como o sabes?
ascultans consilium. Dehinc accipiet Eva pomum, porriaet Ada. ADÃO: Porque o oxporlmonteil
Ipse vero nondum eum accipiet, et Eva dicet ei: BVA: Por quo deveria Isso Impedir-mo de vt-lo? Também a ti
!lo fará mudar do saber.
Manjue, Adam, nc acz que cat: ADÃO: Nlo o conseaulrá, porquo nllo acrodltarol n!lo sem provas.
Pornum ço bien que nu1 oat pro1t. Nlo dehte1 mal1 que !lo ,eaproximo do ti, pela 6 um
•uJelln multo malvado. JA qut, trair o ROU wenhor e pôr.ao
ADAM: Eat li tant bon?
124 MIMESIS ADÃO E EVA 125

a si mesmo na sua altura. Não quero que um tal patife pente, que, segundo uma tradição muito antiga, é idêntica ao
tenha qualquer coisa a ver contigo! diabo (cf. Apoc. 12,9). A continuação é puramente informa-
Aqui, uma serpente hàbilmente construída deve subir pelo tronco tiva: vídit igitur mulier quod bonum esset lignum ad vescendum,
da ~rvore. Eva deve aproximar o seu ouvido da serpente, como se et pulchrum oculís, aspectuque delectabil.e; et tulit de fructu illius,
ouvisse o seu conselho; depois deverá pegar a maçã e oferecê-la a et comedit; deditque viro suo, qui comedít. Destas últimas
A:dão. l!ste não deverá querer pegá-la a princípio, e Eva deverá palavras surgiu a nossa cena.
dizer-lhe: Ela decompõe-se em duas partes, uma primeira, que con-
Come, Adão, tu não sabes o que é isto! Peguemos êste tém uma conversação entre Adão e Eva a respeito da desejabi-
bem que nos é dado. lidade do trato com o diabo, durante a qual a maçã ainda
ADÃO: :e. tão bom? não é mencionada, e uma segunda, durante a qual Eva tira a
EVA: Logo o saberás! Não podes sabê-lo sem experimentar. maçã da árvore e seduz Adão a comê-la. As duas partes estão
ADÃO: Tenho mêdo de fazê-lo! separadas entre si pela intervenção da serpente, da serpens arti-
EVA: Fá-lo! Jiciose compositus, que sussurra algo no ouvido de Eva. O que
ADÃO: Não o farei! ela sussurra não é pronunciado, mas nós podemos imaginá-lo,
pois imediatamente depois Eva pega a maçã, oferece-a ao reti-
EVA: Que hesitação covarde é essa!
cente Adão e diz aquilo que será o seu motivo principal, sempre
ADÃO: Então a pegarei. repetido: ~Maniu,e, Adam! E la interrompe, portanto, a primeira
EVA: Come, pega! Assim reconhecerás o bem e o mat. Eu conversaçao, acerca do trato com o diabo inacabada não res-
comerei primeiro. ponde à última fala de Adão, mas cria uma' situação inteiramente
ADAO: E eu depois. nova, um fato consumado, que deve ter um efeito tanto mais
EVA: Naturalmente. surpreendente sôbre Adão, uma ,vez que, até então, êles nunca
Aqui Eva deverá comer um pedaço da maçã e dizer a Adão: tinham falado acêrca da maçã. Evidentemente, isto acontece a
Experimentei. Deus, que sabor! Nunca comi algo tão doce. conselho da serpente, e isto expUca a intervenção da mesma
Que sabor tem esta maçã! nesse preciso instante: pois não mais seria necessário ganhar
Eva para si e para os seus planos. Isso já acontecera na cena
ADÃO: Que sabor? anterior, entre Eva e o diabo, que terminara com a decisão de
EVA: Um sabor que nunca homem algum experimentou . Agora Eva de comer a maçã e de oferecê-la a Adão. A intervenção
os meus olhos tornaram-se tão claros, que eu me sinto
como Deus todo-poderoso. Tudo o que foi, tudo o que da serpente, no meio da conversação entre Adão e Eva, só pode
será, tudo o sei, e sou seu senhor. Come, Adão, niio ter a !i1,1alidade ~e i1,1dicar a ~va as. regras de comportamento
hesites, pegá-la-ás em boa hora. ~e~~ssanas para esse mstante : isto é, mterromper a conversação,
Aqui Adão deverá pegar a maçã da mão de Eva, e dizer: mut1l e pengosa! do ponto de vista do diabo e passar logo aos
atos.. Para.º diabo e para o seu_ plano, a conversação é inútil
Crerei o que dizes, tu és meu par. e pengosa Justamente porque, evidentemente, não está levando
EVA: Come, não temas. ao convencimento de Adão e porque exis~e até mesmo o perigo
Aqui Adão deverá comer um pedaço da maçã . . : de que Eva possa voltar a duvidar.
Observemos, agora, a primeira parte da cena, a conversação
* sôbre a desejabilidade do trato com o diabo. Adão pede contas
Este diálogo pertence ao Mystere d' Adam, uma peça natu
de sua mulher, da mesma forma que o poderia ter feito um
lina de fins do século XII, que foi conservada num único manu~
camponês <:u um burguês francês que, ao voltar ao lar, visse
crito. Dos tempos primitivos do drama litú rgico, ou sur&ido
algo que nao lhe agradasse: sua mulher conversando com um
da liturgia, muito pouco ficou conservado, e dêste pouco, o
sujeito, 30m o qual êle já havia tido más experiências, e com
Mystere d'Adam é uma das peças mais antigas em língua vulga1.
quem nao quer ter nada a ver. Mulher, muiller, êle diz, o que
O pecado original, que nela ocupa o maior espaço (depois 11\nllu
6 que êssc aí queria de você? O que é que êle tem a ver com
é apresentado o assassinato de Abel e a procissão dos profo111~
você? Eva dá uma resposta, que deveria impressioná-lo: ":Ble
que· anunciam a chegada de Cristo), começa com uma tentalivll
infrutuosa do diabo de seduzir Adão. Após isto, o diabo dir1
nos falou do nosso interêsse, do nosso proveito!" (pois "interês-
ge-se a Eva, com a qual tem melhor sorte; sai correndo, p111 1t sc, proveito", deve ser, aqui, o sentido de honor; já na chanson
de l(e,1•t1• cNta palnvru tem um sentido fortemente material). "Não
o inferno, mas é visto, ainda, por Adão. Após seu llCKllpan·cl
mento começa a cena transcrita. Uma cena ns~m, ll111lu11111l11 11c1cthtcs . n~lc, diz. Adlío com energia, êle é um traidor, eu sei
não existe no Gênesis, assim como também nlio cx1~1t· 1111111 trn tl1N,o 11111110 hC'm." P cluro que também Eva sabe disso muito
tativa anterior do diabo de seduzir Adáo. F.m foi 11111 111• di(1lt1K11, ht·111. 1111111 t'ln 11110 d1l'!lUII II llll conscic'.lnci11 de que i6so fôssc
no Gêncsis, apnrcco ~õmcntc a convcrN1.;1m l'nl1l· 1 v11 .- 11 ,i1 1 11111ç1111: 1•111 111111 11111~111 1111111 con~l 18111:i11 ou1r11I , como n de Atl1w,
126 MIMESIS ADÃO E EVA 127

mas tem uma curiosidade ingênua, infantilmente valente, brin- EVA: Nel fera pas, car nel crerai
calhonamente pecadora. A clara classificação e condenação que De nule rien que !'asai.
Adão faz do diabo e das suas propostas coloca Eva numa situa- ADAM: Nel laisser mais ...
ção embaraçosa, e ela se safa mediante uma pergunta insincera,
entre desavergonhada e embaraçada, igual à que foi feita milha- Isto parece-me impossível; o tom tão diferente das d~as per~o-
res de vêzes, em situações semelhantes, por pessoas infantis, nagens fica totalmente misturado; nem Eva pode dizer: bien
saltitantes, prêsas aos instintos: "Como é que tu sabes disso?" le sai, nem Adão pode perguntar como é que ela o sabe, n~rn
A pergunta não lhe serve de nada; Adão sabe muito bem quão Eva pode referir-se à experiência; e a supressão da enérgica
certo êle está: "Eu o sei pela minha própria experiência!" resposta de Adão, "O diabo jamais conseguirá fazê-lo", do meio
Estas palavras não podem ser ditas por Eva, como foi suposto da conversa, interpretando-a como uma afirmação apaziguado-
recentemente por um crítico de textos (ainda voltaremos a êste ra de Eva diante das dúvidas de Adão, parece-me totalmente
ponto), pois somente Adão teve conscientemente a experiência errada. Como justificação da sua versão, Etienne diz que a
em questão. ~ o to~ dê/e que ressoa na enérgica réplica. Eva, resposta de Eva: De ço que chalt me del veer a uma frase an-
ao contrário. não interpretou a sua conversa com o diabo, de teriormente dita por Adão, "eu o sei por experiência própria"
maneira alguma, como uma experiência da sua traição; a sua (como o entendiam os editôres anteriores, e também eu) seria
brincalhona curiosidade não apreendeu o problema moral. Tam- "d'une ma/adresse inconcevable". Dessa forma Eva admitiria,
bém agora ela não o compreendeu, pois não quer compreendê-lo; perante Adão, estar em conluio com o diabo; ayant ainsi ccm-
faz tempo, já, que está decidida a experimentar uma vez o outro vaincu Adam de sa complicité avec le tentateur elle réussirait
partido, o partido do diabo. Mas sente que não pode contradi- des la scene suivante à le persuade,- <laccepter d:elle ce qu'i/, avait
zer seriamente Adão, quando êle diz que o diabo é um traidor; refusé de son compere! Isto seria totalmente inverossímil. Tam-
ela não continua, portanto, pelo caminho que iniciara com a bém seria inverossímil que Eva dissesse: Satanás já te fará pen-
pergunta "Como é que tu sabes", mas se arrisca, entre insolente sar de outra maneira - pois Satan n'intervient plus! Pois não.
e temerosa, a apresentar um pouco dos seus verdadeiros pensa- é Eva que seduz Adão? Etienne entende que Eva seja, portanto,
mentos: "Por que isso deveria impedir-me de vê-lo? Também uma pessoa muito hábil e diplomática, cuja meta seria acalmar
a ti êle levará a pensar de outro modo!" (changer saver refere-se Adão e fazê-lo esquecer Satanás, contra o qual êle nutre um
ao bien le sai, o conhecimento da traição do diabo que só Adão preconceito; ou dar-lhe a entender, pelo menos, que ela não
tem). Com isto, porém, ela errou totalmente o alvo, pois agora confia cegamente em Satanás, mas quer esperar, para ver se as
Adão está seriamente zangado: "Isto êle não conseguirá, pois suas promessas se cumprem.
nunca acreditarei numa só das suas palavras!" E com a auto- Deixando totalmente de lado o fato de que tais manifesta-
ridade de um homem que se sente senhor da sua casa e que sabe ções dificilmente podem ser apropriadas para acalmar Adão -
que, objetivamente, tem tôda razão, justificando claramente a deixando totalmente de lado, também, que a circunstância de o
sua posição, proíbe a Eva todo trato com o diabo ("com um diabo não mais aparecer, nada fala contra a observação de Eva,
patife, que fêz tais coisas, não podes ter trato algum"); com a de que êle fará mudar Adão de opinião - deixando totalmente
lembrança do papel que Deus lhe conferiu perante a mulher: de lado êstes pequeninos defeitos - a versão de Etienne mostra
Tu la governe par raison (v. 21). Neste momento o· diabo acha que êle não compreendeu a importância da intervenção da ser-
que os seus negócios vão mal, e decide intervir. pente, nem a tremenda agitação de Adão pelo cumprimento do
Comentei extensamente êste trecho porque o texto do ma- seu conselho (isto é, tirar a maçã da árvore) - por mais que
nuscrito, no que se refere à divisão das palavras entre os dois estas duas circunstâncias constituam a chave da cena tôda. Por
interlocutores, entrou numa certa desordem; e também porque que intervém a serpente? Porque sente que, do jeito que as
S. Etienne (Romania 1922, p. 592-595) propôs uma certa lei- coisas estavam indo, a sua causa não vai para a frente. Na rea-
lidade, Eva é pouco hábil, muito pouco hábil, ainda que esta fal-
tura para os versos 280-287, que também foi seguida pela, edição ta de habilidade não seja, de forma alguma, difícil de compreen-
de Chamard (Paris 1925), e que não me convence. ~ assim: der; pois sem a ajuda do diabo ela é, apesar de curiosa-pecado~a,
fraca, dirigível pelo seu marido, muito inferior a êle - ass~
280 ADAM: Ne creire le traitorl
II est traitre. como Deus a criou, da costela do homem. Expressamente ele
ordenou a Adão que a dirigisse, e a Eva, que o servisse e obede-
EVA: Bien !e sai. ccs~c. Eva é, diante dêle, medrosa, submissa, acanhada; ela sente
ADAM: E tu coment? que niio pode enfrentar 1.1 sua vontade clara, sensata e máscula.
EVA: Car i'asaiai. Somente atrnvés du ~crpcntc n situação muda; ela inverte a ordem
De ço que chalt me dei vecr'l 1•~111lwlct· 11l11 f'-11" n,,uM, htl da mulher o senhor do homem e leva,
ADAM: 11 to ferra chanaor 111vcr. ilntn lm11111. oN d111~ 11 1w11hçlin
128 MIMESIS ADÃO E EVA 129

Ela consegue tudo isto, aconselhando Eva a abandonar a prio, de tal forma que ela ultrapassa os ~tes fi~ados com a
discussão teórica e a colocar Adão perante um fato consumado audácia da minoridade, tão logo o homem nao mais a tem sob
e totalmente inesperado para êle. Já antes, quando o diabo sua férula, en sa discipline (v. 36). Assim, ela se apresenta se-
falava com Eva, êle lhe havia dado a regra de comportamento: dutora com a maçã na mão, e brinca com Adão, confuso, des-
primes le pren, Adam /e done! Esta regra é o que a serpente concertado; cheia de instâncias e promessas, rindo do seu mêdo,
lembra a Eva. Adão não deve ser atacado no ponto em que é ela o leva cada vez mais longe, e, finalmente, tem uma idéia
forte, mas no seu ponto fraco. :Êle é um bom homem, um genial: ela comerá primeiro! Ela o faz, realmente, e quando,
camponês ou burguês francês. No andamento normal da vida, então, ela torna a se dirigir a êle, louvando o gôsto e o efeito
êle é de confiança e seguro de si; êle sabe o que deve fazer e da fruta e dizendo: manjue, Adam - aí, então, êle não pode
deixar de fazer. Deus ordenou-lhe isto claramente, e a sua de- retroceder; pega a maçã com as palavras comoventes que acima
cência descansa nesta segurança, que o guarda de complicações citamos; novamente ela diz, pela última vez: come, não tenhas
imprevisíveis. Ele também sabe que domina a sua mulher; êle mêdo - e então a coisa estã feita.
não teme os seus ocasionais caprichos, que lhe parecem infantis O aCQntecimento que aqui nos é apresentado de forma dra-
e carentes de perigo. De repente. acontece uma coisa inaudita, mática, é o ponto de partida do drama cristão da salvação; por-
que estremece todo o seu modo de vida. A mulher, que até tanto, para o poeta e para os seus ouvintes, um objeto da mais
há pouco tagarelava de modo tão infantilmente inconsciente, tão elevada importância e da maior sublimidade. Só o objetivo da
insensata e saltitantemente, que êle acaba de repreender com representação é popular: o acontecimento antiquíssimo, sublime,
umas poucas palavras sérias, para as quais não houve resposta, deve tomar-se presente, devetransfornrar-se num ~contecimento
manifesta, subitamente, uma vontade própria, totalmente inde- presente, possível em qualquer tempo, concebível por qual9.1;1er
pendente da sua; manifesta-a numa ação, que se lhe apresenta - õüvmte""é familiar a todos; êleve penetrar fundamente na vida
como monstruosa; ela arranca a maçã da árvore, como se fôsse e no sentimento de qualquer francês contemporâneo. Adão fala
a ação mais fácil e natural do mundo, e insta-o, com a sua quá- e age de maneira que em nada se diferencia daquela que qual-
drupla repetição: manjue, Adam! O horror rejeitante, expresso quer ouvinte está acostumado a ver em sua casa ou na casa do
pela observação latina, destinada à direção, "lpse autem non- seu vizinho; as coisas não se dariam de forma diferente e_.m
dum eum accipiet", não pode ser apresentado de forma sufi- qualquer casa burguesa ou camponesa, se qualquer homem li-
cientemente forte. Mas já não há a tranqüila segurança de antes. mitadamente probo fôsse levado pela sua mulher, frívola e
O estremecimento é demasiado forte para êle; os papéis estão orgulhosa, seduzida pelas promessas de um embusteiro, a come-
trocados; Eva domina a situação. As poucas palavras, entrecor- ter uma ação tôla e comprometedora. A conversação entre Adão
tadas, que Adão ainda fala, mostram-no totalmente perturbado. e Eva, esta primeira conversação histórico-universal entre ho-
~le vacila entre o mêdo e o desejo - não propriamente desejo mem e mulher, converte-se num acontecimento da realidade mais
pela maçã, mas por auto-afirmação: será que êle, como homem, simples e quotidiana; converte-s(,, por mais sublime que seja,
deverá ter mêdo diante de uma coisa que a mulher conseguiu num acontecimento de estilo simples e baixo.
levar a cabo? E quando, finalmente, êle vence o seu mêdo e
pega a maçã, age com um gesto extremamente emocionante: o Na antiga teoria, o estilo de linguagem elevado e sublime
que sua mulher faz, êle também fará, nela êle quer confiar: chamava-se sermo gravis ou sublimis; o baixo, sermo remissus
jo t'en crerrai, tu es ma per; perniciose misericors, como certa ou humilis; ambos deviam permanecer severamente separados.
vez definiu Bernardo de Clairvaux (PL 183, 460). Observe-se. No cristianismo, ao contrário, as duas coisas estão fundidas des-
aqui, como â errada a formulação de Etienne quando êle se sur- de o princípio, especialmente na encarnação e na paixão de
preende com o fato de que Eva, que está de acôrdo com o dia- Cristo, nas quais são tornadas realidade e s~o unidas, tanto a
bo, consiga seduzir Adão, embora o próprio diabo não o tivesse sub/imitas quanto a humilitas, ambas, no mais alto grau.
conseguido - só ela poderia consegui-lo (com ajuda do diabo), &te é um motivo cristão muito antigo, e renasce na litera-
pois só ela está unida a Adão de uma forma tão especial que tura teológica, e sobretudo, mística, do século XII para uma
os seus atos produzem efeitos espontâneos nêle e o estreme- nova vida; é freqüentemente encontrável em Bernardo de Clair-
cem; ela é sa per, o diabo não o é - deixando totalmente de vaux ou nos victorinos, sendo que, tanto humilitas quanto subli-
lado o fato de que faz parte da sedução o fato consumado cio mitas aparecem amiúde em contraste antitético, tanto em relação
maçã ter sido arrancada e oferecida a Adão; e Mte fato só po- n Cristo quanto de forma absoluta. Humilitas virtutum magistra,
deria ter acont.ecido através de um homem, não do diabo, Fn- ,flngularfa filia summi regis (assim diz Bernardo, Epist. CDLXIX,
quanto, pois, na segunda parte da cena Adão parece cstt1r per• 2, PI. 182, 674), " .1·111111110 coe/o cum coelorum domino descen-
turbado e ter perdido o sangue frio, Eva está, como se diz nu d1•11.1·. • Sola rst l111111illrcu quae virtudes beatifica et pere11nar,
linguagem esportiva, em ótima forma; o diabo lhe cnN111011 til• 1111111• 1•/m /arit 1·1·Hrt<> n1t•loru111, quae dom/num majestalis humi-
que modo pode dominar o seu marido, cm que ponto é ~ur1•1 uir /lrn,[t 111·11111• 111/ 11111rtrm, nwrtr111 tw//'m c-rucls. Jl erbum P11i111
a êle: na irreflexão dos atos, no falto. de um ,entido rnornl rn'I /11•i l11 .111/,/11111 1t111.11it11111111 ,,, 11rl 1111.1· dr.1-n•111/rnt, rni111 /mm/
130 MIMESIS ADÃO E EVA 131

litas invitavit. Também nos seus sermões aparece o contraste cimento das categorias estilísticas, contivessem a mais elevada
humilitas-sublimitas uma e outra vez; tanto para a encarnação das verdades. Esta crítica não teve pouco êxito, na medida em
de Jesus, quando êle diz com referência a Lucas 3, 23 ("e era que os pais da Igreja se preocuparam, muito mais do que os
tido por filho de José"): O humilitas virtus Christi! o humilita- escritos cristãos primitivos, em assemelhar-se à tradição estilís-
tis sub/imitas! quantum confundis superbiam nostrae vanitatis! tica antiga. Ao mesmo tempo, porém, esta crítica abriu, tam-
(ln epiph. Domini sermc, 1, 7; PL 183, 146) - quanto também bém, os seus olhos para a verdadeira e peculiar grandeza das
para a paixão e aparição de Cristo como um todo, como objeto Sagradas Escrituras: o fato que elas criaram uma espécie to-
de imitação: Propterea, dilectissimi, perseverate in disciplina talmente nova do sublime, da qual nem o quotidiano nem o
quam suscepistis, ut per humilitatem ad sublimitatem ascendatis, humilde ficavam excluídos, mas faziam parte, de tal forma que
quia haec est via et non est alia praeter ipsam. Qui aliter vadit, no seu estilo, assim como no seu conteúdo, realizou-se uma com-
cadit potius quam ascendit, quia sola est humilitas quae exaltat, binação imediata do mais baixo com o mais elevado. Ligava-se,
sola quae ducit ad vitam. Christus enim, cum per naturam c?m. isto, out!a linha de pensamentos, que se referia ao que era
divinitatis non haberet quo cresceret vel ascenderet, quia ultra d1ficilmente mterpretável, oculto, em muitos trechos das Sa-
deum nihil est, per descensum quomodo crescerei invenit, ve- gradas Escrituras: enquanto elas, por um lado, falam com tôda
niens incarnari, pati, mori, ne moreremur in aeternum . . . (ln simplicidade, como dirigindo-se a crianças, elas contêm, por outro
ascens. Dom. 2,6; PL 183, 304). O trecho mais belo, e mais lado, enigmas e segredos, que se manifestam só a poucos. Mas
característico para o estilo da mística de Bernardo deveria ser também êstes últimos não estão escritos num estilo orgulhoso e
o seguinte, do comentário ao cântico de Salomão: O humilitas cultivado, de tal maneira que o seu significado se manifeste so-
o sub/imitas! Et tabernaculum Cedar, et sanctuarium Dei; et mente aos muito instruídos, que se tornaram altivos por causa do
terrenum habitaculum, et coe/este palatium; et domus lutea, et seu saber; êle manifesta-se a todos os que tiverem humildade e
aula regia; et corpus mortis, et templum luds; et despectio de-
nique superbis, et sponsa Christi. Nigra est, sed formosa, fi-
'~1 fé. Agostinho, que descreveu a sua própria ascensão à com-
preensão das Sagradas Escrituras nas Confissões (especialmente
liae Jerusalem: quam etsi labor et dol<>r longi exilii decolorat, 1 III, 5 e VI, 5), exprime esta questão, numa carta dirigida a
species tamen coelestis exornat, exornant pelles Salorrwnis. Si Volusiano (CXXXVII, 18) da seguinte forma: ea vero quae
horretis nigram, miremini et fo·r mosam; si despicitis humilem, su- 1 (sacra scriptura) in mysteriis occultat, nec ipsa eloquio superbo
blimem suspicite. Hoc ipsum quam cautum, quam plenum erigit, quo non audeat accedere mens tardiuscula et inerudita qua-
consi/ii, plenum discretionis et congrue,ntiae est, quod in sponsa si pouper ad divitem; sed invitat omnes humili sernwne, quos
dejectio ista, et ista celsitudo secundum tempus quidem eo mo- non solum manifesta pascat, sed etiam secreta exerceat veritate
deramine sibe pariter contemperantur, ut inter mundi huius va- fwc in promptis quod in reconditis habens; ou no primeiro ca-
rietates et sublimitas erigat humilem, ne deficiat in adversis; et pítulo de De Trinitate; sacra scriptura parvulis congruens nullius
sublimem humilitas reprimat, ne evanescat in prosperis? Pul- generis rerum verba vitavit ( uma alusão clara à antiga separa-
chre omni'!° ambae res, cum ad invicem contrariae sint, sponsae ção dos estilos), ex quibus quasi gradatim ad divina atque su-
tamen pariter cooperantur in bonum, subserviunt in salutem. blimia 11oster intellectus velut nutritus assurgeret. Entre as mui-
-Sstes importantes trechos tratam da coisa em si não da tas outras passagens semelhantes, que variam êste tema de muitas
sua representaç_ão li~erária; s1:-blimitas e humilitas são, aqui, formas, mencionarei, ainda, uma outra, porque descreve a espé-
sempre categonas ét1co-teológ1cas, não estético-estilísticas· mas cie de compreensão acessível ao humildemente simples; perten-
-t ambém neste último sentido, no sentido estilístico a fusã~ anti- ce às Enarrationes in Psalmos e se refere às palavras suscipiens
tética da~ duas já foi salientada como peculiarid;de das Sagra- mansuetos Dominus no salmo 146: Conticescant humanae voces,
das Escrituras no tempo dos pais da Igreja, especialmente com requiescant humanae cogitationes; ad incomprehensibilia non se
Agostinho. Partia-se, para tanto, de um trecho das Escrituras rxte11dant quasi comprehen.suri, sed tamquam participaturi -
que diz que Deus as ocultou do sábio e do inteligente e a; onde a co-propriedade concreto-sensível e o místico se unem do
modo mais belo, naturalmente com intenção polêmica contra o
revelou aos pequeninos (Mateus 11,25; Lucas 10,25), assim
como do fato de que Cristo n ão elegeu como seus primeiros altivo querer compreender intelectual. Petrus Lombardus, o mes-
apósto~os homens de elevada posição e cultura, mas pescadores tre das sentenças, traslada a passagem quase literalmente, ao
e publicanos e outros homens humildes semelhantes (cf. também redor do meio do século XII, no seu comentário aos salmos;
I Coríntios, 1, 26 ss.); e a questão estilística ganhou em atualidade li viragem total cm direção à mística encontra-se em Bernardo,

quando, durante a expansão do cristianismo, as Sagradas Rscri- 4uc hnsc1n a compreensão totalmente na meditação sôbre a vida
turas e, em geral, a literatura cristã, enfrentaram a crítica csl~- l' li paixão de C'risto: Beati qui 11overunt gustu felicis experien-

tica dos pagãos altamente instruídos. Bstes cspantnvum-!lc diunll" tm·, r,11w11 t/11/C'it,•r, quam mimhili11•r in oratione 1•1 meditatione
da idéia de que escritos que, segundo o ~cu juízo, c"rnv,1111 .ll'tipt11111.1· ,li1111rt111 /)m11i1111.t ri•vt'ltm.' (i11 feria 1/ Paschatfs ser-
redigidos numa llngua impossível, inct,ltn e ~cm q11nlq11l"r u111hr• "'"• 20) ,
132 MIMESIS ADÃO E EVA 133

Trata-se de vanos pensamentos que, multiplamente ligados há somente trechos parciais, em geral, peças de Natal ou de
entre si, chegam a ser expressos nestas passagens: que as Sagra- Páscoa, tais como surgiram da liturgia; só que o todo é pensado
das Escrituras vão ao encontro daque!P.s que têm o· coração sim- concomitantemente e está sempre expresso figuralmente. A
ples e crente; que êste último é necessário para "participar" nelas, partir do século XIV, todo o ciclo aparece nos Mistérios.
pois é a participação, e não uma compreensão racional, o que O realista-quotidiano é, pois, um elemento essencial da arte
elas querem dar; que o oculto e o obscuro que elas c'Jntêm, tam- ~tá-medieval e, especialmente, da arte dramática cristã. Em
bém não está redigido em "estilo elevado" ( eloquio superbo), contraposição total com a poesia feudal do romance cortês, que
mas em palavras simples, de maneira que qualquer um pode, sai da realidade da situação estamental para levar à fábula e à
quasi gradatim, elevar-se do mais simples ao divino e ao subli- aventura, aqui ocorre um movimento inverso, a partir da lon-
me - ou, como o exprime Agostinho nas Confissões, que é gínqua lenda e a sua interpretação figural para õentro da rea-
necessário lê-las como uma criança: verum tamen ilia erat, quae lidade quotidana contemporânea. No nosso texto, o elemento
cresceret cum parvulis. E o pensamento de que as Sagradas realista se atém, ainda, à atualização dos acontecimentos domés-
Escrituras se diferenciavam nisto tudo dos grandes escritores ticos, uma conversação entre uma mulher e um lisonjeiro sedu-
profanos da Antigüidade, também permaneceu vivo em tôda a tor, e uma conversação entre marido e mulher. Ainda não
Idade Média. Ainda na segunda metade do século XIV, comenta há elementos grosseiramente realistas nem jocosos; talvez a
Benvenuto de Imola o verso de Dante, no qual se fala da forma presença dos espíritos infernais a correr para cá e para lá ( "inte-
de expressão de Beatriz (Inferno 2,56: e comrninciommi a dir rea Demones discurrant per plateas, gestum facientes competen-
soave e piana) com as palavras: et bene dicit, quia sermo divinus tem") tenha dado motivo para algumas brincadeiras grosseiras.
est suavis et planus, non altus et superbus sicut sermo Virgilii et Mais tarde, porém, isto muda; o realismo de maior calibre
... poetarum - não obstante Beatriz, como proclamadora da sa- começa a vicejar e surgem formas de misturas estilísticas, da vi-
bedoria divina, tem muita coisa obscura e complicada a dizer. zinhança imediata da paixão e do gracejo cru, que nos parecem
O teatro cristão medieval está totalmente integrado nesta estranhas e inadequadas. f:. difícil de estabelecer propriamente
tradição: como representãção - viva dos acontecimentos bíblicos, quando isto começou. Provàvelmente muito antes do que os
da forma como, desde um princípio, com elementos dramáticos, textos dramáticos que conservamos nos permitem reconhecer;
estava contido na liturgia, estende convidativamente as mãos para pois as queixas sôbre o embrutecimento das peças litúrgicas (que
receber os incultos e os simples e para levá-los do concreto, do não devem ser confundidas com as condenações destas peças
quotidiano, para o oculto e verdadeiro - de maneira que em como um todo; êste é um problema diferente, que não cabe em
nada difere da grande arte plástica das igrejas medievais, que, nosso estudo) podem ser encontradas já no século XII, por
segundo a conhecida teoria de E. Mâle, deve ter recebido influên- exemplo, com Herrad de Landsberg (citado no livro de Cham-
cias decisivas dos próprios mistérios, isto é, dos_~mas religio- bers sôbre o teatro medieval, II 98, obs. 2.) É bastante prová-
sos. Acêrca da intenção do teatro litúrgico ou, nÜii'isêi'itiao vel que, já nesse tempo, muito disso se fizesse valer, pois é,
mais-amplo, do teatro cristão, chegaram-nos testemunhos de tem- cm geral, o tempo do nôvo despertar do realismo popular. A
pos muito antigos. No século X, St. Ethelwold, bispo de Win- tradição subliterária sobrevivente do antigo mimo e a obser-
chester, descreve uma cerimônia dramática da Páscoa, como vação consciente, mais fortemente crítica e agarradora da vida,
era usual junto a alguns clérigos, "ad /idem indocti vulgi ac neo- que se iniciou, evidentemente, a partir do século XII também
fitorum corroborandam", e a recomenda para ser imitada (citado nas camadas mais baixas, levou, então, a um florescimento da
segundo E. K. Chambers, The Mediaeval Stage, II, 308); e no farsa popular, cujo espírito logo deve ter-se infiltrado também
século XII Suger de Saint-Denis o diz de maneira mais pro- no drama religioso. O público era o mesmo; e também o clero
funda e geral, no verso freqüentemente citado: Mens hebes ad inferior parece ter compartilhado em grande medida do gôsto do
verum per materialia surgit. povo neste sentido. Da literatura dramática cristã que tem con-
~crvado, contudo, resulta claro que os elementos realistas e, em
Voltemos, então, para o nosso texto, a cena entre Adão e
cspccinl, os elementos grotescos e farsescos se fizeram sentir cada
Eva. Esta cena dirige-se humili sermone aos simples e aos po- vez. com mais fôrça, que alcançaram um ponto culminante no
bres de espírito, acomoda o acontecimento sublime na sua vida ~cculo XV, oferecendo suficientes motivos para os ataques, final-
quotidiana, de modo que êle se torna espontâneamente presente mente vitoriosos, do movimento contrário, que achava os misté-
para êles. Contudo, não esquece que se trata de um objeto rios cri,tiios carentes de gôsto e inconvenientes, e que partira do
sublime," leva da realidade mais simples imediatamente para a 11ti~to humanistu e das convicções mais estritas da Reforma (já
verdade mais elevada, escondida e divina. O Mystere d'Ac/11111 é 11 p:11ti1 de Wiclcf) .
introduzido pela leitura litúrgica da Bíblia, do Génesis, com um Nuo talurcrnos 11q11i dn tnrsa popular, pois que o seu rca-
leitor e um côro que responde; logo, scguem-~e os nconlcc1111cn 11~1110 hcn 1k•ntro dos l11nitcs do mcrnmcntc cômico e c11.-cntc
tos dramáticos do pecado original, Ct>m npariç:1n do prnpno lku~. 1k 11rohl1•111111. "'·'" 1111r1~•111u, rn11111crn1 11lg11rn11R ccnt" do, m,~
134 MIMESIS ADÃO E EVA 135

o nomeei? Ajudar-me-á? Eu o encolerizei. Ninguém me ajudará, Estes se estendem até o assassinato de Abel. Tudo se encerra
a não ser o filho que de Maria sairá. De ninguém posso esperar com a procissão dos profetas do Velho Testamento, que anunciam
proteção, pois que tivemos fé em Deus. Que ora tudo aconteça a aparição de Cristo. As cenas nas quais aparece a vida quotidia-
segundo a vontade de Deus! Não há outro conselho, senão morrer. na contemporânea (as mais belas são aquelas em que aparecem
o diabo e Eva e a que nós escolhemos, dois trechos de pureza
Neste texto e, em especial, nas palavras for /e filz que istra exemplar, da mesma estirpe das melhores obras plásticas de
de Marie, fica bem claro que Adão já conhece tôda a história Chartres, Paris, Reims ou Amiens) estão, pois, engastadas nu-
unive~sal cristã de antemão, ou, pelo menos, sabe da Aparição ma moldura bíblica e histórico-universal. O espírito desta mol-
de Cnsto, da remissão do pecado original, que acabou de come- dura permeia-as e êste espírito é o espírito da interpretação fi-
ter. J~ em pleno desespêro sabe da graça que alguma vez virá; gural dos acontecimentos. Isto significa que cada acontecimento,
esta, amda parte do futuro e, até, uma parte determinada e his- em tôda sua realidade quotidiana, é, ao mesmo tempo, membro
toricamente fixável do mesmo, também já é então um presente de um contexto histórico-universal, sendo que todos os membros
sempre co.ohecido; pois é certo que, em Deus, não há diferenças estão relacionados entre si, e, portanto, são também compreensí-
t~mporais. Tudo é, simultâneamente, presente para Êle, de tal veis como sempiternos ou supratemporais. Conhecemos com o pró-
forma que .Ble, como certa vez o exprimiu Agostinho, não tem prio Deus, que aparece após a criação do mundo e do homem, para
o poder da previsão, não sabe com antecipação, mas simples- introduzir Adão e Eva no paraíso e para lhes comunicar a sua
m_ente sabe. D_evem ton:iar-se, portanto, especiais precauções para vontade. :Êle é chamado figura; esta palavra pode ser interpre-
nao ver em tais travessias temporais, nas quais o futuro parece tada simplesmente como referida ao clérigo que devia representar
se introduzir no próprio presente, algo assim como mera inge- ("figurar") esta personagem, e que se hesitava em chamar
nuidade medieval. Isto não é, contudo, falso, pois elas dão, de "Deus", assim como se chamava os outros atôres Adão, Eva, etc.
fato, uma visão de conjunto fortemente simplificada, ajustada à É também possível, porém, e mais veross1milmente, explicar isto
compreensão dos simples - mas esta visão de conjunto é, ao de forma realmente figural, pois, se bem que Deus, no verda-
mesmo tempo, a expressão de uma verdade muito peculiar, ele- deiro acontecimento da peça de Adão, só tem o papel do legis-
vada e oculta, precisamente da construção figural da História lador e do juiz que castiga os culpados, a presença do Salvador
~niversal. Ca~a_E.eça dq teatro medieval, surgido da liturgia, já existe nêle de forma figural. A indicação cênica que comu-
e parte de um contexto e, mais propriamente, do mesmo con- nica a sua aparição diz assim: Tunc veniet Salvator indutus dal-
texto: parte de um drama único e imenso, cujo comêço é a mt,tica, et statuantur choram eo Adam et Eva . . . Et stent ambo
criação do mundo e o pecado original, cujo ponto culminante é coram Figura. . . Deus é chamado, pois, primeiramente, Salva-
ll. encarnação e a paixão, e cujo final, ainda futuro e esperado, lor, e s6 depois, Figum; de maneira que parece ser justo com-
é o retôrno de Cristo e o. Juízo Einal. Os trechos que vão entre pletar: figura salvatoris. Esta interpretação figural supratempo-
os P?los da ação ~ã~ preenchidos pàrcialmente pela Figuração, ral é retomada mais tarde. Quando Adão já comeu a maçã,
parcialmente pela nrutação de Cristo. Antes da sua aparição, assalta-o, imediatamente, profundo arrependimento. .Ble irrompe
trata-se das figuras e dos acontecimentos do Velho Testamento cm desesperadas auto-acusações, que se dirigem, no fim, tam-
o tempo da Lei, nos quais a aparição do Salvador se anunci~ bém contra Eva, e que acabam da seguinte maneira:
em f?rma figural. tste é o sentido da procissão dos profetas;
depo1_s de sua encarnação e paixão, são os santos que se esforçam 375 Par ton conseil sui mis a mal,
em viver segundo o seu modêlo, e a própria cristandade a noi- De grant haltesce sui mis a vai.
va prometida de Cristo, que espera o retôrno do noivo.' Todos N'en serrai trait por home né,
os acontecimentos da história universal estão fundamentalmente Si Deu nen est de majesté.
co!ltidos neste grande drama, e tôdas as posições de altura ou Que di jo, las? por quoi le nomai?
baixeza do comportamento humano, assim corno todos os níveis 380 II me aidera? Corocé l'ai.
da sua manifestação estilística, têm no seu seio a sua justificativa Ne me ferat ja nul a·ie,
moral e estética de existência, justificativa bem fundamentada. De For le filz que istra de Marie.
tal forma, não há motivo para uma separação entre o sublime e Ne sai de nus prendre conroi,
o baixo-quotidiano, os quais já aparecem na vida de Cristo Quant a Deu ne portames foi.
unidos de maneira indissolúvel. Também não hã motivo para 385 Or en soit tot a Deu plaisir!
se preocupar com a unidade de lugar, de tempo ou de ação, N'i ad conseil que dei morir.
pois há sômente um lugar: o mundo; um tempo: o agora, que é
,.
sempiterno, desde o princípio; e uma só ação: queda e sulvuc;au l'rn lt'II t'OO\l"llm cni nu desgrnçu, de grande altura cu! ao
do homem. É claro que o desenvolvimento de tilda .i h1Nlória v1tl 1>111111i 11110 Htrc.-i tlrntlo 11or homem na~cido (mortnl), se ntío
do mundo não é mostflldl) cm cada ~-uso, no~ kmpoN p111111t1voN " lc\1 po1 1>c.-111 lllll ~1111 11111jr."t11tk MM, ni, quo tllao cu? Por ,1ur
136 MIMESIS ADÃO E EVA 137

térios, que deram motivo a um desenvolvimento realista espe- o cego Longino, curado pelo sangue de Cristo, os soldados de
cialmênte chamatívo. Começa com o nascimento no estábulo Pilatos são chamados chivalers ou apostrofados de vaissa/, e todo
em Belém. onde não só aparecem o boi e o burro, mas também, o tom de conversa entre as personagens, por exemplo, entre
às vêzes, parteiras e comadres (juntamente com as conversas Pilatos e José, ou entre José e Nicoderno é, de uma maneira
correspondentes), onde às vêzes se chega a choques bastante totalmente evidente e emocionante, o tom da conversa da França
drásticos entre José e as criadas. Também a anunciação aos do século XIII. Para tanto, a sempiternidade figural dos acon-
pastôres, a chegada dos Reis Magos, o infanticídio, são adorna- tecimentos vai ao encontro, do mais belo dos modos, da fina-
dos reaHsticamente. Mais surpreendentes e, para o gôsto pos- lidade de acomodar a mesma na vida familiar e quotidiana do
terior, mais inconvenientes, são as cenas drásticas relacionadas povo. 1:. claro que também se encontram tentativas muito
com a Paixão: as conversas cruas e, amiúde, chocarreiras entre modestas e ingênuas de separação dos estilos; elas já aparecem
os soldados durante a coroação de espinhos, a flagelação, a via nos mais antigos dramas litúrgicos, até já na seqüência, fre-
crucis e, finalmente, durante a própria crucificação (o jôgo de qüentemente mencionada como origem dos mesmos, Victimae
dados pelas roupas, a cena de Longino, etc.) ; dentre os acon- paschalí, quando, após os versos introdutórios, mais dogmáticos,
tecimentos relacionados com a ressurreição, trata-se sobretudo se inicia, quase imediatamente, o diálogo: Dic nobis Maria ...
da visita das três Marias ao tendeiro (unguentarius), para com- Algo correspondente acontece na mudança do latim para o
prar ungüentos para o corpo de Cristo, que se converte numa francês arcaico em algumas peças de inícios do século XII, por
cena de mercado, e da corrida dos apóstolos ao t4mulo (segundo exemplo, no Sponsus (Romania 22, 177 ss.); o nosso mistério
João, 20,3-4), que se converte numa grande brincadeira. A de Adão apresenta algumas passagens especialmente solenes em
representação de Madalena no auge dos seus pecados é, estrofes de quatro versos decassílabos rimados, que tem uma
às vêzes, pormenorizad.a e exata, e na procissão dos profetas tonalidade mais grave do que o verso usado no restante da
aparecem, vez ou outra, algumas figuras que dão lugar à peça, o octossílabo rimado em pares; de tempos muito poste-
apresentação grotesca (Balaão com o jumento!). Esta enume- riores, do Mistere du vieil Testament, são alguns trechos que
ração é muito incompleta, há conversas entre artesãos os Ferdinand Brunot cita na sua Histoire de la langue française,
quais (por exemplo, durante a construção da tôrre de B~bel) 1, 526 ss., nos quais Deus e os anjos falam um francês muito
fal_am acêrca do seu trabalho e dos maus tempos; há cenas latinizado, enquanto que alguns artesãos e pícaros, mas também
ruidosas e rudes nas tavernas; há brincadeiras farsescas e obs- Balaão na sua conversa com a jumenta, se exprimem numa
cenidades em demasia. Tudo isto leva, finalmente ao abuso linguagem quotidiana bastante apimentada. Tudo isto está, con-
e à desordem. Também é correto que o mundo colorido da vida tudo, demasiado perto um do outro para valer realmente co~o
contemporânea ocupe um espaço cada vez mais amplo; e, con- separação de estilos; ao contrário, contribui para juntar mmto
tudo, leva a mal-entendidos falar de uma progressiva seculari- estreitamente as duas esferas. A estreita justaposição das duas
zação do drama cristão da Paixão, como geralmente acontece. esferas, que resulta numa mistura dos estilos, não se limita à
Pois o "século", o mundo, está incluído desde o princípio e literatura dramática cristã; encontra-se em tôda a literatura cristã
de forma fundamental nestes dramas, e não é o caso de se da Idade Média (em alguns países, especialmente na Espanha,
falar em mais ou menos; uma verdadeira secularização só tem também mais tarde), sempre que ela se destina a um público
lugar quando a moldura é destruída, quando a ação mundana mais amplo. Isto deveria aparecer com maior nitidez nos ser-
se torna independente; isto é, quando são representadas de ma- mões populares, dos quais temos, porém,A exemplos mais_ nume-
neira séria ações humanas, afora aquelas determinadas pelo rosos somente de tempos posteriores. Neles aparece a Justapo-
pecado original, pela Paixão e pelo Juízo Final na história uni- sição da utilização figural das Escrituras e de um rea~smo drásti~o,
versal cristã; quando há outras possibilidades de compreensão e de uma forma que teve efeito grotesco para o gosto post~nor.
de representação dos· acontecimentos humanos ao lado desta, Pode-se ver, para isto, o ensaio muito instrutivo de E. G1lson
que reivindica ser a única verdadeira e válida. Também a trans- sôbrc a 1'eclmique du sermo·n médiéval (na coleção dos seus
ferência dos acontecimentos para um contexto contemporâneo, cn~aios les idées et Jes lettres, Paris, 1932, pág. 93 ss.).
que, aos nossos olhos, é anacrônica, está perfeitamente em ordem. Nos primórdios do século XIII aparece na Itália uma figura
Também isto está apenas insinuado na peça de Adão, na medida nu tJllal a mistura, que aqui tratamos de sub/imitas com humili-
em que Adão e Eva falam como pessoas comuns da França ta.l', de urnu ligação extática e sublime com Deus e da quotidia-
do século XII ("tel paltoníer qui ço ad fait"); em outras peças, nidade humilde e concreta, se materializa de maneira ex:emplar,
mais tarde, isso é muito mais chamativo. Num fragmento de M•mlo que uçi'io e expressão, conteúdo e forma não mais se
urna peça pascal francesa de começos do séc. XIII, também dl•houn sep:ir.ir; ê~tc é São Francisco de Assis. O cerne do seu
conservada num único manuscrito ( utilizo o texto de Foerstcr• ~l'I l' o 1111pl"10 da ~"'' apnríçno huscinm-sc na vontade da imit(l·
-Koschwitz, Altfranzoesisd1es Vbungsbuch, 6' ediçiio, 1921, páa. ~1111 , 11d11·al l' 111 (1tit,1 tk Crbto, c~tn 1,nhu adotado nn Puropu.
214 ss.), no qual se trata das cena~ entre Jo86 de Arimut6h1 P li 11111111 do 111111111·11111 l'III 1\\ll 11110 111111'1 hOllVl" rn/Íf'llf\'~ d:i fr,
138 MIMESIS ADÃO E EVA 139

uma forma predominantemente místico-contemplativa; êlc con- 721)? Quis tam crudelis amor, quae tam iníqua dilectio?
feriu-lhe um rumo para o prático, o quotidiano, o público e Corrumpunt bonos mores colloquia mala (I Cor. 15, 33). Prop-
popular. Por mais que êle próprio fôsse um místico dedicado terea, quantum poteris, fili, confabulationem hospitum declinato,
e contemplativo, a vida entre o povo, entre os mais humiles foi quae, dum aures implent, evacuant mentem. Disce orare Deum,
tanto mais decisiva para êle e para os seus companheiros, como disce Jevare cor cum manibus; disce oculos supplices in caelum
os mais humildes e desprezados de todos: sint minores et subditi erigere, et Patri misericordiarum miserabilem faciem repraesen-
omnibus. Ele não era um teólogo, e sua cultura, ainda que tare in omni necessitate tua. lmpium est sentire de Deo, quod
não fôsse pequena e ainda que fôsse enobrecida pela sua fôrça contioere possit super te víscera sua, et avertere aurem a singuJtu
poética, era de espécie popular, imediata e acessível aos senti- tuo vel clamore. De caetero spiritualium patrum consiliis haud
dos; a sua humildade não era, de forma alguma, daquela espécie secus quam majestatis divinae praeceptis acquiescendum in omni-
que tivesse de temer uma aparição pública, ou até um espetáculo bus esse memento. Hoc fac, et vives; hoc fac, et veniet super
público. Ele empurrava o seu impulso íntimo na aparência te benedictio, ut pro singulis quae reliquisti centuplum recipias,
externa, seu ser e sua experiência converteram-se num aconte- etiam in praesenti vita. Nec vero credas spiritui suadeoti nimis
cimento público, e a partir daquele dia em que devolveu as id festinatum, et in maturiorem aetatem differendum fuisse.
roupas ao pai que o repreendia, diante dos olhos do bispo e de Ei potius crede qui dixit: Bonum est homini, cum portaverit
tôda a cidade de Assis, para livrar-se de todo o terreno, até iugum ab adolescentia sua. Sedebit sotitarius, levavit enim se
aquêle outro, em que, moribundo, fêz com que o deitassem nu supra se (Thren. 3, 27 /8). Bene vale, studeto perseverantiae,
sôbre a terra nua (ut hora illa extrema, in qua poterat adhuc quae sola coronatur.
hostis irasci, nudus luctaretur cum nudo, diz Tomás de Celano, "'
Legenda secunda, 214), tudo o que fazia era uma cena; e suas Se sentires os espinhos da tentação, dirige o teu olhar para
cenas eram de uma tal fôrça, que tôdas as pessoas que as viam, a ênea serpente elevada na cruz; e alimenta-te, não tanto das feridas
ou que até mesmo só ouviam acêrca delas, eram arrastadas quanto do seio do Crucificado. Êle próprio tornar-se-á tua mãe, e
c.:om êle. Também o grande santo do século XII, Bernardo de tu serás o seu filbo; e os pregos não podem ferir o Crucificado· de
Clairvaux, foi um pescador de homens, e a sua eloqüência era outra maneira que chegando, através das suas mãos e dos seus pés
aos teus. Mas os inimigos do homem são os que vivem em sua
arrebatadora; também êle era contrário à sabedoria hwnana própria casa. Êles são os que não amam a ti, mas a sua própria
racional, à sapientia secundum carnem; e,' contudo, quão mais alegria, que a êles chega por tua causa. Se assim não fôsse, ouviriam
aristocrática, quão mais cultivadamente retórica é a sua forma palavras do nosso infante: "se me amásseis, alegrar-vos-íeis, pois
de expressão! Quero mostrar isto com um exemplo, e escolho vou ao Pai." Se o teu pai se tiver prostrado sôbre o limiar, diz o
para tanto duas cartas de conteúdo semelhante. Na carta 322 beato Jerônimo, se, com o peito nu, tua mãe te mostrar os seios
(PL 182, 527 / 8), Bernardo congratula-se com wn jovem aristo- com os quais te alimentara, se o teu pequeno sobrinho se pendurar
crata, que abandonou voluntàriamente o mundo, e entrou num ao teu colo, pisa por sôbre o teu pai, pisa por sôbre a tua mãe, e
convento; louva a sua sabedoria, que é celeste e agradece a apressa-te de ôlho enxuto para junto da bandeira da cruz. Esta é
Deus, que lha concedeu; estimula-o e fortifica-o contra a tentação a maior espécie de piedade: ser, em tais casos, cruel por causa de
futura pela menção da ajuda de Cristo: Cristo. Não te deixes emocionar pelas lágrimas dos frenéticos, que
choram porque, de filho do inferno, passaste a ser filho de Deus.
Ai, que insã paixão têm êstes infelizes! Que espécie de amor cruel
. . . Si tentationis sentis aculeos, exaltatum in ligno serpen- é êste, que espécie de iníquo deleite? Conversas más estragam os
tem aeneum intuere (Num. 21,8; Ioan. 3, 14); et suge non tam bons costumes. Portanto, meu filho, evita o roais que puderes as
vulnera quam ubera Crucifixi. Jpsi tibi erit in matrem, et tu conversas com o teu hóspede, pois enquanto elas enchem o ouvido,
eris ei in filium; nec pariter Crucifixum laedere aliquatenus esvaziam a mente. Aprende a orar a Deus, aprende a levantar o
poterunt clavi, quin per manus eius et pedes ad tuos usque coração com as mãos, aprende a dirigir os teus olhos suplicantes
perveniant. Sed inimici hominis domestici eius (Mich. 7, 6). ao céu e, em qualquer necessidade, a representar o teu rosto mise-
lpsi sunt qui non te diligunt, sed gaudium suum ex te. Alioquin rável ao Pai da misericórdia. ~ ímpio pensar que Deus possa fechar
audiant ex puero nostro: si diligeretis me, gauderetis utique, o ~eu coração para ti, ou afastar o seu ouvido dos teus suspiros ou
clnmores. De resto, lembra-te de seguir em tôdas as coisas os con-
quia vado ad patrem (Ioan. 14, 28). "Si prostratus", ait beatus \elho~ dos teus pais espirituais, de forma não diversa daquela com que
Hieronymus, "jaceat in limine pater, si nudato sinu, quibus te nhcdcccs nos preceitos da majestade divina. Faz isto e viverás; faz isto
lactavit, ubera mater osteodat, si parvulus a colle pendcat ncpos, e ,obrc:vir(I n bênçiio, de tal forma que, cada coisa que abandonaste,
per calcatum transi patrem, per calcatam transi matrcm, ct s1cc1s 11•~t·hl"r:\s centnplicadn, alé mesmo já nesta vida. E não acredites
oculis ad vexillum crucis evola. Summum pictatis cst gcnus, nu t•~plri!o que que, te persuadir de que isto seja prematuro, e que
in hac parte pro Christo esse crudelem." Phrcncticorum lal'ry drvt·r iu\ ti•-lu poslcr11111lu parn un1t1 idade mais madura. Acredita
mis ne movearis, qui te plangunt de gchcnnnc filio f111.:l11111 fi1111111 111111111 11111i~ 1111q11rlr 111w ,li,. 1· horu rarn 11111 homem que ê li: c111
Dei. Hcu! Quncnnm miscris 111111 dirn eup1tlu (VC'r1,t ti ,•11 li, 1q1111 11 1111111 ,k"k 11 ·ulu lr~d•nda St:1 t\ ~ulilclrio, 110i, r lrv.11 sr-u
140 MIMESIS ADÃO E EVA 141

sôbre si mesmo. Passes bem, procura a perseverança, que é a única Ftatri N. ministre. Dominus te benedicat. Dico tibi sicut
que é coroada. possum de facto anime tue, quod ea, que te impediunt amare
Dominum Deum, et quicumque tibi impedimentum fecerint sive
Bste texto é, sem dúvida, vivaz e arrebatador, e alguns dos fratres sive alii, etiamsi te verberarent, omnia debes habere pro
seus pensamentos e formulações - como, por exemplo, aquêle gratia. Et ita velis et non aliud. Et hoc sit tibi per veram
que fala dos parentes, que não amam a ti mas gaudium suum obedientiam Domini Dei et meam, quia firmiter seio, quod ilia
ex te, ou a asseveração de que o prêmio centuplicado dar-se-á est vera obedientia. Et dilige eos, qui ista faciunt tibi, et non
já nesta vida - são, se não me engano, muito peculiarmente velis aliud de eis, nisi quantum Dorninus dederit tibi. Et in
bernardinos. Mas, quão conscientemente tudo isto está com- hoc dilige eos et non velis quod (pro te? só num dos seis MS.
posto, quantos pressupostos exige para a sua compreensão, quan- conservados) sint meliores christiani. Et istud sit tibi plus quam
to contém de forma retórica! Deve ser tomado em conta, con- heremitorium. Et in hoc volo cognoscere, si diligis Deum et
tudo, que as alusões figurais a certas passagens das Escrituras me servum suum et tuum, si feceris istud, scilicet quod non
(a serpente ênea como figura de Cristo, o sangue das feridas sit aliquis frater in mundo, qui peccaverit, quantumcumque po-
tuerit peccare, quod, postquam viderit occulos tuos, unquam
de ·cristo como leite alimentador, a participação dos tormentos
recedat sine misericordia tua, si querit miseri.cordiarn, et si non
da cruz, dos pregos, que perfuram as mãos e os pés de Cristo, quereret misericordiam, tu queras ab eo, si vult misericordiam.
como extático consôlo amoroso na unio passionalís) eram com- Et, si millies postea appareret coram occulis tuis, dilige eum
preendidas de forma imediata nos círculos cistercienses; esta plus quam me ad hoc, ut trahas eum ad Dominum, et semper
forma de pensar e de interpretar deve ter-se arraigado mesmo no miserearis talibus ...
povo, pois todos os sermões estão cheios dela. Mas a pletora *
de citações bíblicas, o seu encadeamento, as citações de Jerônimo Frei N., ministro (da ordem): Deus te abençoe. Falo a ti,
e de Virgílio, conferem a esta carta pessoal uma aparência extre· assim como posso, sôbre a tua alma; tudo aquilo que te impede de
mamente literária; e Bernardo não fica muito atrás de Jerônimo amar a Deus, e todos aquêles que te colocam empecilhos, quer
na utilização de perguntas retóricas, de antíteses e de anáforas; ao sejam irmãos, quer sejam outros, e mesmo os qu,e te açoitam, tudo
isto deves considerá-lo uma graça. E queiras . tudo assim e não de
contrário, até o sobrepuja, na medida em que retoca com maior outro modo. E isto te valha como a verdadeira; obediência diante
rigor as figuras retóricas do original (cf. CSEL, vol. 54, de Deus, Nosso Senhor, e diante de mim, que sei, com firmeza, que
p. 46-47). Quero enumerar as antíteses e anáforas mais chama- esta é a verdadeira obediência. E ama aquêles que te fazem essas
tivas. Entre as antíteses encontramos: non tam vulnera quam coisas, e não queiras outras coisas dêles, afora as que Deus te
ubera; ipse tibi in matrem, tu ei in filium; suas mãos e seus dedicar. E ama-os por si mesmos, e não queiras que sejam melhores
pés e os teus; non te, sed gaudium suum ex te; no trecho de cristãos. E isto te valha mais do que o eremitério. E nisto quero
reconhecer se amas a Deus e a mim, seu e teu servo, em que faças
Jerônimo, pietas - crude/is; depois filius gehennae, filius Dei; isto: que não haja nenhum irmão no mundo, que, havendo pecado
crudelis amor, iníqua dilectio; dum aures implent, evacuant men- o mais que pudesse pecar, e que, depois de ter visto o teu rosto,
tem. Quanto às anáforas, começam com o trecho de Jerônimo, nunca parta de ti sem a tua misericórdia, se procurar a misericórdia,
maravilhoso no seu gênero: si prostratus, si nuda10, si parvulus e se não procurar a misericórdia, que tu procures com êle se deseja
- per calcatum, per calcaram, et siccis oculis . . . e depois vêm a misericórdia. E se, mais tarde, êle aparecer mil vêzes perante o
o próprio Bernardo: quis tam crudelis amor, quae . .. ; disce teu rosto, ama-o mais do que me amas agora, para que o tragas ao
Senhor, e tende sempre misericórdia com tais ...
orare, disce levare, disce erigere; hoc fac et vives, hoc fac et
veniet. A isto juntam-se, ainda, os trocadilhos como patri mise- *
Neste trecho não há nem exegeses das Sagradas Escrituras,
ricordiarum miserabilem faciem repraesentare. nem figuras de linguagem; a construção das orações é apressa-
E agora ouçamos São Francisco de Assis. Só há duas car- da, inábil e sem subdivisão calculada do todo; tôdas as orações
tas pessoais que possam ser-lhe atribuídas com alguma seguran- começam com et. Mas o homem que escreveu estas apressadas
ça; uma '1ad quendam ministrum" do ano 1223, a outra ao seu linhas está evidentemente tão arrebatado pelo seu objeto, o
discípulo preferido dos últimos anos, frei Leo (Pecorella) de mesmo o preenche tão completamente, e a necessidade de se
Assis; ambas são, portanto, da última parte de sua vida, pois 1:onttlnicar e de ser entendido é tão avassaladora, que a parataxe
Francisco morreu em 1225. Escolho a primeira, na qual se Nl' converte numa arma de eloqüência; tal como as poderosas
fala de um conflito dentro da ordem, acêrca do tratamento que ondus 11uc se formurn contlnuamcnte numa forte ressaca, as ora-
deveria ser dado a um irmão que tinha cometido um pccudo i;tlc'I cm ,•t hnkm do coração do santo contra o destinatário, tal
mortal; transcrevo somente a primeira parte, mais gemi, d11 c.:ai tu c.:o11111 é rxpn·1so l01io de infcio com sirnt possum e de facto
(segundo os Analekte11 wr Gesrlticht<' d<•.1· Frt111ds,·11.1· ''º" A.1,1·i.1/ ,111/1111• 1111· l'oiN 11 ,1/n11 /10.m1111 exprime RimultOncamentc a
editados por H. Rochmcr, Tiibingcn e Lcip111i, l ')(lil, P~K, 710 h111111lilt1d1i (1t,Nllll 11111111 pm~o) ,. n 1•11lrc-g11 lolal lll• Ilidas a~
142 MIMESIS ADÃO E EVA 143

fôrças, e de facto anime tue indica que, na questão objetiva, A aparição pública do santo tem sempre, como já dissemos
trata-se também da salvação da alma daquele que deve decidi-la; antes, algo de muito impressivo, evidente, cênico, até. As ane-
e o fato de se tratar de uma questão entre "mim e ti", Francisco dotas que dizem a respeito são numerosas, e entre elas encon-
não o esqueceu ao longo da carta tôda nem por um instante; tram-se algumas que, para uma sensibilidade posterior, têm um
sabe que o outro o ama e admira, e aproveita-se a cada instante efeito quase grotesto ou farsesco. A'ssim, quando se narra que
dêsse amor para levar o outro para o bom caminho (ut trahat êle, durante a festa de Natal no estábulo de Greccio, com boi
eum ad Dominum) : et in hoc vo/o cognoscere si diligis Deum e burro no praesepium, imitou, cantando e pregando, durante a
et me servum suum et tuum, assim o conjura; ordena-lhe amar pronúncia da palavra Bethlehem, o balido de um carneiro; ou
mais o pecador renitente, ainda que lhe apareça outra mil vêzes que, após uma doença, durante a qual recebera alimentos mais
diante dos seus olhos, mais "do que tu me amas neste instante". selecionados, ordenou a um dos irmãos que o passeasse por
O conteúdo da carta é um ensinamento levado até o caso mais Assis amarrado com uma corda, como um criminoso, gritando:
extremo no sentido de não se esquivar do mal e de não se opor aqui está o comilão, que sem que vós o soubésseis, empantur-
a êle; uma súplica, não de abandonar o mundo, mas de se rou-se· de carne de galinha! Mas tais aparições não tinham,
misturar em meio ao seu tormento e de sofrer apaixonadamente naquele tempo e naquele lugar, efeito farsesco: o chamativo,
o mal; êle nem deve desejar outra coisa: et ita velis et non aliu.d. exagerado e garrido não era considerado escandaloso, mas era
São Francisco vai com isto até um extremo quase perigoso do tido como uma manifestação clara e exemplar de uma vida
ponto de vista moral-teológico, quando escreve: et in hoc dilige santa, de uma evidência imediata, compreensível para todos e
eos et non velis quod sint meliores Christiani - pois, será que convidava todos a fazer uma auto-análise comparativa e a
permitido reprimir o desejo de que o próximo se torne melhor experimentar, também, essa vida. Ao lado de tais cenas chama-
cristão, só por amor à própria provação pelo sofrimento? Só tivas e de efeitos amplos, há outras anedotas, que são prova de
pela submissão ao mal pode ser demonstrada, segundo a sua grande ternura e amabilidade, e que delatam uma capacidade
convicção, a fôrça do amor e da obediência: quia f irmiter seio psicológica importante e puramente instintiva. São Francisco
quod ilia est vera obedientia. Isto é mais do que a meditação sabe nos instantes decisivos o que está acontecendo no coração
solitária, longe do mundo: et istud sit tibi plus quam heremito- dos outros, e a sua intervenção toca em cada caso o ponto
rium. O caráter extremo desta visão exprime-se também lin- certo e decisivo; ela comove e agita. Em tôda parte e ocasião
gülsticamente: nos muitos demonstrativos, que têm o sentido de: é a surpreendente e manifesta imediatez do seu ser o que tem
exatamente assim e não de outra forma; ou nos movimentos um efeito tão poderoso, tão exemplificador e inesquecível.
introduzidos com quicumque, etiamsi, quantumcumque, et si Quero transcrever, aqui, ainda mais uma anedota que caracte-
millies, todos os quais significam: até mesmo se ... riza a sua atitude de maneira excelente, mesmo quando de um
A imediatez da expressão, totalmente a-literária, muito pró- motivo quotidiano, e relativamente carente de importância. Está
xima da linguagem falada, apóia, portanto, um conteúdo muito na "Legenda Secunda", de Tomás de Celano (S. Francisco Assi-
radical. Certamente, êste não é nôvo, pois desde o princípio, siensis vita et miracula ... auctore Fr. Thoma de Celano ...
o sofrer-no-mundo e a submissão-ao-mal são dois dos principais recensuit P. Eduardus Alenconiensis. Romae, 1906, p. 217 /8):
motivos cristãos; mas os acentos estão colocados de uma nova
maneira: o sofrimento e a submissão não são mais um martírio Factum est quodam die Paschae, ut fratres in eremo Graecii
patético, mas uma incessante auto-humilhação no decurso quo- mensam accuratius solito albis et vitreis praepararent. Descen-
tidiano nas coisas. Enquanto São Bernardo levava os negócios dcns autem pater de cella venit ad mensam, conspicit alto sitam
mundanos como um grande político da Igreja, e se afastava dêles vaneque ornatam; sed ridenti mensae nequaquam arridet. Fur-
na solidão da contemplação, São Francisco vê nos negócios tim et pcdetentim retrahit gressum, capellum cuiusdam paupe-
mundanos o cenário propriamente dito para a imitação; sendo ris qui tunc aderat capiti suo imponit, et baculum gestans egre-
que, naturalmente, para êle os negócios mundanos não são os ditur foras. Exspectat foris ad ostium donec incipiant fratres;
grandt:s acontecimentos políticos nos quais São Bernardo tinhu Niquidcm soliti erant non exspectare ipsum, quando non veniret
um papel preponderante, mas a agitação quotidiana entre pes- ad s1gnum. Jllis incipientibus manducare, clamat verus pauper
soas quaisquer, seja dentro da ordem, seja em meio ao povo. mi ust111m: Arnorc domini Dei, facite, inquit, eleemosynam isti
Tôda a estrutura das ordens mendicantes e, em especial, as de pl·rcgrn10 paupt.:ri et infirmo. Respondent fratres: Intra huc,
origem franciscana, levava · os irmãos à vida quotidiana cm homo, 1ll111s amure quem invocasti. Repente igitur ingreditur,
público entre o povo, e mesmo se a meditação solitúriu niío ct ~l'M' 1.:rn11clic11l1h11s o1tcrl. Scd quantum stuporem credis pere-
perdeu sua grande importância religiosa com São Frnnc,sco, nem 1(111111111 l'lv1hu~ 1nl11li~sl''l Dutur pclt.:nti scutclla, ct solo solus
com os seus seguidores, ela não podia roubur ~ ordem u M!II 11·n1111l1C11~ d1~u1111 p111111 111 i:innc Modo scdco, nil, 11l frntcr
caráter tão pronuncindamt.:ntc populn1 M111111 ,.,
144 MIMESIS ADÃO E EVA 145

* NUNZIO: Donna dei paradiso


Aconteceu num dia de Páscoa que os irmãos da ermida de lo tuo figliolo ê priso / Jesu Christo beato.
Greccio puseram a mesa com mais cuidado do que de costume, com Accurre, donna e vide / che la gente l'allide,
toalhas e vidros. Quando o padre desce da cela para a mesa, vê credo che llo s'occide / tanto l'on flagellato.
do alto a vã ostentação; mas a agradável mesa não lhe agrada.
Secreta e silenciosamente afasta-se, põe na cabeça o chapéu de um VERGINE: Coroo essere purria, / che non fe mai follia
pobre qualquer, que então lá estava, pega em mãos o báculo e sai Christo la spene mia, / bom }'avesse pilgliato?
da casa. Fora, aguarda diante da porta, até que os irmãos comecem; NUNZIO: Madonna, ell'ê traduto, / Juda si l'à venduto,
pois estavam acostumados a não esperá-lo, quando não vinha ao Trenta dinar n'à 'uto, / facto n'à gran mercato.
sinal. Quando começaram a comer, o verdadeiro pobre chamou à
porta: "Pelo amor de Deus, Nosso Senhor, fazei uma esmola a VERGINE: Succurri, Magdalena; / jonta m'ê adosso pena;
êste pobre e enfêrmo peregrino!" Respondem os irmãos: "Entra Christo figlio se mena / como m'e annuntiato.
aqui, homem, pelo amor daquele que invocaste!" ete entra depressa, NUNZIO: Succurri, donna, ajuta, / ch'al tuo figlio se sputa
e se põe diante dos comensais. Qual não seria o estupor que êste e la gente llo muta, / onlo dato a Pilato.
estranho produziu aos habitantes! A seu pedido, dão-lhe uma es- VERGINE: O Pilato, non fare / il figlio mio tormentare;
cudela, senta-se sozinho no chão e põe o prato sôbre as cinzas. ch'io posso mostrare / como a torto e accusato.
"Estou sentado", diz, "como frade menor ... ''
* TURBA : Crucifi, crucifige / homo che si fa rege
O motivo, como já foi dito, é insignificante, mas que idéia secondo nostra lege / contradice al senato.
cênica genial é pegar o chapéu e o báculo de um pobre e ir VERGINE: Prego che m'entennate, / nel mio dolor pensate,
pedir esmola aos mendicantes! "E: fác_il de imaginar o estupor forsa mo ve mutate / da quel ch'ete parlato.
e a vergonha dos frades, quando se senta com o prato sôbre as NUNZIO: Tragon fuor li ladroni, / che sian sui compagnoni.
cinzas e diz: agora estou sentado como um frade menor . . . TURBA: De spine si coroni, / ché rege s'e chiamato!
A forma de vida e de expressão do santo transmitiram-se VERGINE: O filglio, filglio, filglio! / filglio, amoroso gilglio,
à ordem e criaram uma atmosfera tôda peculiar; ela tornou-se, filglio, chi dà consilglio / ai cor mio angustiato?
no bom e no mau sentido, incdvelmente popular. O excesso O filglio, occhi jocundi, / filglio, co non respundi?
de drástica fôrça expressiva converteu os irmãos em criadores filglio, perche t'ascundi / dai pecto o se' lactato?
e, logo também, em objeto de anedotas cênicas, jocosas e, fre- NUNZIO: Madonna, ecco la croce / che la gente l'aduce,
qüentemente, grosseiras ou obscenas. O realismo mais grosseiro ove la vera luce / dej' essere levato ...
da tardia Idade Média tem muito a ver com a atitude e a ação
dos franciscanos; a sua influência, neste sentido, faz-se :,entir
até o Renascimento. Também isto foi esclarecido, faz alguns • MENSAGEIRO: Senhora do paraíso, o teu filho foi prêso, Jesus
Cristo o beato. Corre, senhora, e vêde, como a
anos, por um ensaio de Etienne Gilson (Rabelais franciscain,
gente o maltrata, creio que o matain, de tanto
no volume já mencionado Les idées et les lettres, p. 197 ss.); que o flagelaram.
ainda deveremos voltar a isto. Por outro lado, a fôrça de expres- VIRGEM: Como pôde acontecer, pois nunca fêz nada de
são franciscana levou a uma representação mais imediata e mais mal, Cristo, esperança minha, que o tenham
quente ainda dos acontecimentos humanos. Ela se faz sentir aprisionado?
na poesia religiosa popular, que, durante o século XIII, descreve MENSAGEIRO: Senhora, êle foi traído. Judas vendeu-o, trinta
em especial a cena da Paixão (Maria junto à cruz) como um dinheiros êle recebeu por isso, êle fêz disso um
acontecimento vivo e dramático, sob a influência dos francisca- grande negócio.
nos e de outros movimentos extáticos populares. A peça mais VlROEM: Socorre-me, Madalena, sobreveio-me uma pena;
importante, transcrita em muitas antologias, é de Jacopone da Cristo, meu filho, é levado embora, como me
Todi, um místico e poeta muito expressivo do tempo imediata- foi anunciado.
mente anterior a Dante (nascido em 1230), e que pertenceu, na MHNSAOElRO: Socorre, senhora, ajuda, pois cospem sôbre o
teu filho, e a gente o leva embora, deram-no
sua vida posterior, à ordem franciscana e, mais precisamente, a Pilatos.
à sua ala mais radical, a espiritual. O poema passional tem VIRGEM: ô Pilatos, não faças atormentar o meu filho;
forma dialogada; falam um mensageiro, a Virgem Mariu, 11 pois cu posso mostrar-te como êle é injustamente
"tÜrba" e. por fim, o próprio Cristo. Transcrevo o comi'.!ço tio 111:IINlldO,
texto, segundo a Crestomazia italíana dei primi st·roli, tlc F Mn 'l lJRIIA : t 111~·,fii:n, 1;.r11cific11 o homem, que se fuz rei;
naci {Città di Castello 1912, p . 479): q111nd11 11 nu~~11 lei, e-10 Vlll contrn o Krn1,do.
146 MIMESIS ADÃO E EVA 147

VIRGEM: Peço que me ouçais, pensai na minha dor, talvez imploração, que têm lugar em Jacopone através do amontoado
mudeis logo a opinião que acabais de manüestar. de vocativos, imperativos e de perguntas urgentes, não deveria
MENSAGEIRO: Trazem para fora os ladrões que serão seus ser possível, se não me engano, em nenhuma outra lingua euro-
companheiros. péia vulgar do século XIII. Pelata uma liberdade cênica de
TURBA: Coronai-o de espinhos, àquele que se chamou rei! inibições, um doce e quente deixar-se-levar-pelo-sentimento, uma
VIRGEM: ó filho, filho, filho; filho, amável lírio; filho, liberação de tôda timidez na expressão pública, ao lado das quais
quem dará conselho ao meu coração angus- as obras anteriores e a maioria das obras contemporâneas da
tiado? ó filho, olhos alegres, filho, por que não Idade Média parecem desajeitadas e inibidas. Até mesmo o
respondes? ó filho, por que te escondes do peito provençal, que desde o princípio, desde Guilhem de Peitieu,
do qual mamaste?
possui uma grande liberdade de expressão, fica atrás de uma tal
MENSAGEIRO: Senhora, eis a cruz que a gente está trazendo,
onde a verdadeira luz deverá ser levantada . .. peça, mesmo porque não conhece temas trágicos desta enver-
gadura. Seria, talvez, imprudente afirmar que o italiano deve
* tal liberdade de expressão dramática a São Francisco, pois, sem
tste texto apresenta, de maneira que não difere daquela dúvida, ela já estava no caráter do povo. Mas pelo menos
do texto francês arcaico comentado a princípio, uma total aco- pode ser dito, sem dúvida, que êle, que foi, em si, um grande
modação do acontecimento sublime e sagrado na realidade, si- poeta e um ator instintivamente magistral, despertou, pela pri-
multâneamente contemporânea e italiana, e sempiterna; o que meira vez, as fôrças dramáticas do sentimento e da língua italiana.
há de popular, nisto, apresenta-se, antes de mais nada, na língua,
com o que não quero dizer somente as formas dialetais, mas,
também, o que há de popular, em sentido sociológico, na expres-
são (por exemplo, jonta m'e adosso pena na bôca da Virgem).
Apresenta-se, outrossim, na livre recriação do acontecimento
bíblico, que adjudica a Maria um papel bem mais amplo e ativo
do que no Evangelho segundo São João, de tal forma que há
oportunidade para o desenvolvimento dramático do seu mêdo,
da sua dor e das suas queixas. Com isto relaciona-se estreita-
mente a grande proximidade dada às cenas e às personagens,
de tal forma que Maria pode dirigir-se imediatamente a Pilatos,
e que, ainda no mesmo quadro, seja trazida a cruz; Madalena,
cujo socorro é solicitado, e João, a quem Cristo confia sua mãe,
no decurso sucessivo da peça, aparecem unidos a Maria COJDO
um grupo de amigos e vizinhos. O elemento popular manifes-
ta-se, finalmente, na concepção ilõgicamente anacrônica, acêrca
da qual já falamos antes, quando da versão francesa arcaica
do pecado original: por um lado Maria é uma mãe temerosa
e que clama indefesa, que não encontra salvação e se põe a
suplicar; por outro, é chamada pelo mensageiro donna del para-
diso, e tudo já lhe foi anunciado com antecedência.
Em tôdas estas coisas, que acomodam os acontecimentos
no quotidiano popular, êstes dois textos, separados por perto
de um século, são parentes próximos; só que é evidente que
também êles apresentam uma diferença de estilos importante e
fundamental. O poema de Jacopone não possui mais quase nada
da encantadora e clara frescura do mistério de Adão; em com-
pensação, é mais quente, mais imediato, mais trágico. Isto não
reside na diferença dos temas, no fato de o poema de Jacopone
ser a queixa de uma mãe; ou antes, não é casual o fato de
a poesia religiosa popular italiana do século XIII ter produ-
zido as suas mais belas obras na recriação desta cena. O
livre fluxo e até o dramático gritar da dor, do mêclo e da
Farinata e Cavalcante FARINATA E CAVALCANTE 149

Poi disse: "Fieramente furo avversi


a me e a miei primi e a mia parte,
48 si che per due fiate li dispersi."

"S'ei fur cacciati, ei tornar d'ogni parte"


rispuosi lui "l'una e l'altra fiata;
5I ma i vostri non appreser ben quell'arte."

Allor surse a la vista scoperchiata


un'ombra lungo questa infino ai mente:
54 credo che s'era in ginocchie levata.

Dintorno mi guardo, come talento


avesse di veder s'altri era meco;
57 e poi che il sospecciar fu tutto spento

piangendo disse: "Se per questo cieco


carcere vai per altezza d'ingegno,
60 mio figlio ov'ê? perché non e ei teco?"
"O Tosco che per la città dei foco
vivo ten vai cosi parlando onesto, E io a lui: "Da me stesso non vegno:
piacciati di restare in questo loco. colui ch'attende là, per qui mi mena.
63 Forse cui Guido vestro ebbe a disdegno."
La tua loquela ti fa manifesto
di quella nobil patria natio Le sue parole e 'l modo de la pena
27 a la qual forse fui troppo molesto." m'avean di costui già letto il nome;
66 pero fu la risposta cosi piena.
Subitamente questo suono uscio
d'una de l'arche; pero m'accostai, Oi subito drizzato grido: "Come
30 temendo, un poco piu ai duca mio. dicesti? elli ebbe? non viv'elli ancora?
69 non fiere li occhi suoi il dolce lome?"
Ed el mi disse: "Volgiti: che fai?
Vedi là Farinata che s'e dritto: Quando s'accorse d'alcuna dimora
33 da la cintola in su tutto 'l vedrai." ch'io facea dinanzí a la risposta
72 supin riccade, e piu non parve fora.
I' avea già il mio viso ncl suo fitto;
ed el s'ergea col petto e con la fronte Ma quell'altro magnanimo a cui posta
36 com'avesse !'inferno in gran dispitto. restato m'era, non muto aspetto,
75 nê mosse coito, ne piego sua costa;
E l'animose man dei duca e pronte
mi pinser tra le sepulture a lui E, "Se'', continuando ai primo detto,
39 dicendo: "Le parole tue sien conte" "egli han quell'arte", disse, "mal appresa,
78 ciô mi tormenta piu che questo letto . ..
Com'io ai pie de la sua tomba fui,
guardommi un poco, e poi, quasi sdegnoso, •
42 mi <limando: "Chi fur li maggior tui?" "ô 'l'o~cuno, que vai~ pela cidade do fogo ainda vivo falando
1110 hrlus 1111l11v111~, comprnzc-tc em ficar neste lugar_. O teu modo
,111 1111111 nmn1fo~1u te como nnlurnl daquela nobre pátria à qual talvez
lo ch'era d'ubidir disideroso, 1111 ,lc11111~111do mulr~tu." S1)hit11rncn10 a~,o som saiu d"uma das arcas;
non gliel celai, ma tutto gliel'a~ersi; p111 1~~11 1111,rrl 111r. tNnr,ulo, 11111 pouco 111111~ 110 meu guia. H êlc
45 ond'ei levo le ciglia un poco m soso. 11111 ,h.-r "Vnll11 fel IJ11r. tr.11,'/ Vl'dr 1(1 1' 111 ín11111, 4111e ttc ulçoll'
FARINATA E CAVALCANTE 151
150 MIMESIS

do cinto para cima todo o verás." Eu já havia fixado meu olhar No estreito espaço de cêrca de setenta versos ocorre, portan-
no seu; e êle se ergueu com o peito e com a fronte como se tivesse to, uma tripla mudança de cena; são quatro cenas, tôdas cheias
o inferno em grão despeito. E as animosas e prontas mãos do de impulso e conteúdo, que se entrechocam estreitamente; nenhu-
guia empurraram-me, entre as sepulturas, para êle, diundo: "As tuas ma delas tem um conteúdo meramente preparatório, nem a pri-
palavras sejam contadas." Quando estive ao pé do seu túmulo, meira, a conversa relativamente calma entre Dante e Virgílio,
olhou-me um pouco, e depois, quase desdenhoso, perguntou-me: que não transcrevemos aqui. Não obstante na primeira cena
"Quem foram os teus maiores?" Eu, que estava desejoso de obe- seja apresentado introdutõriamente, tanto a Dante quanto ao
decer, não lho calei, mas tudo lhe revelei; então levantou um pouco leitor, o nôvo cenário, que se abre diante dêles, o do sexto cír-
os cílios para cima. Depois disse: "Ferozmente foram adversos a culo infernal, a mesma cena também contém um processo psi•
mim, aos meus antepassados e ao meu partido, de modo que por
duas vêzes os exilei." "Se foram expulsos, voltaram de tôda parte", cológico próprio, existente de per si, entre os dois interlocutores.
respondi-lhe, "uma e outra vez; mas os vossos não aprenderam bem Diante da calma teórica e da ternura espiritual dêste prelúdio,
essa arte." Então surgiu à vista descoberta uma sombra ao longo a segunda cena, dramática ao extremo, apresenta um violento
desta, até o queixo: creio que se tinha pôsto de joelhos. Olhou em contraste, introduzido pela voz que ressoa subitamente e pela
tômo a mim, como se desejasse ver se havia outro comigo; mas repentina aparição do corpo que se ergue no caixão, pelo susto
depois que a sua suposição se apagou, chorando, disse: "Se por de Dante e pelas palavras e gê!tos- encorajadores de Virgílio.
êste cego cárcere vais pela fôrça do teu engenho, onde está meu filho? Nela se desenvolve, tão alta e violenta quanto o seu corpo, a
Por que não está contigo?" E eu a êle: "Não venho por mim figura moral, igualmente maior do que o natural, de Farinata,
mesmo: aquêle que lá espera por aqui me leva, talvez vosso Guido
o desdenh.asse." As suas palavras e a forma da pena já me haviam que a morte e os tormentos infernais não puderam atingir; ain-
revelado o seu nome; por isso a resposta foi assim plena. Subita- da é o mesmo que era quando vivo.. São os sons toscanos da
mente erguido, gritou: "Como dissestes? Desdenhasse? Não mais bôca de Dante o que o moveram a se erguer e a deter com
vive êle? Não mais fere os seus olhos o doce lume?" Quando amabilidade orgulhosa e mesurada o passante; quando este se
percebeu uma certa demora que eu fazia antes da resposta, voltou lhe aproxima, pergunta-lhe antes de mais nada acêrca da sua
a cair para trás, e não mais apareceu. Mas aquela outra alma pode- oriaem, para certificar-se com quem está lidando, se com um
rosa, por cuja causa me havia detido, não mudou de aspecto, nem homem de família importante, se com um amigo ou com um
moveu o colo, nem dobrou a cadeira; e "se", continuando o seu inimigo; e quando ouve que Dante é o rebento de uma prole
primeiro discurso, "êles aprenderam mal aquela arte", disse, "isso auelfa, diz, com severa satisfação, que banira por duas vêzes
atormenta-ma mais do que êste leito ... " da cidade êste partido inimigo; o destino da cidade de Florença
* e do partido gibelino é ainda o seu único pensamento. A res•
No início dêste acontecimento, que consta do décimo canto posta de Dante, que o banimento dos guelfos de nada servira,
do Inferno, Virgílio e Dante vão por um estreito caminho, entre no fim das contas, aos gibelinos, pois êstes acabaram ficando
ataúdes abertos e ardentes. Conversam; Virgílio explica que banidos, é interrompido pela emersão de Cavalcante, que ouviu
nesses túmulos há hereges e ímpios e promete a Dante que o 118 palavras de Dante e o reconheceu; a sua cabeça observante
seu desejo, só expresso pela metade, de entrar em comunicação tomo-se vlslvel, pertence a um corpo bem menor que o de
com algum dos ocupantes, será cumprido. Dante está justa- Parinata; procura o seu filho em companhia de Dante, e quan•
mente respondendo, quando de baixo, de um dos ataúdes, come-
do nlo o ve, irrompe em temerosas perguntas; delas resulta que
çando com os escuros sons em "o" de O Tosco, brota uma voz,
de tal forma que estremece assustado. Um dos condenados também ele tem ainda o mesmo caráter e as mesmas paixões
ergueu-se no seu caixão e interpela os passantes; Virgílio diz de quando era vivo, caráter e paixões totalmente diversas, evi-
o seu nome, é Farinata degli Uberti, um chefe do partido gibe- dentemente, das de Farinata: amor pela vida terrena, fé na livre
lino e capitão-general de Florença, que morreu pouco antes 11randcza do espírito humano, e, sobretudo, amor e admiração
do nascimento de Dante. Dante dirige-se ao pé do caixão, e pelo acu filho Guido. Agitado, quase suplicante, e contrastando
começa uma conversa que é interrompida, contudo, poucos ror lato fortemente com a grave e controlada figura de Farinata,
versos adiante (v. 52), de forma tão imediata quanto antes a C11vnlc11nte faz as suas prementes perguntas, e quando acredita
conversa entre Virgílio e Dante: isto acontece pela intervenção ( n!m r11llo) que deve concluir das palavras de Dante que o
de um outro ocupante dos ataúdes, que é reconhecido por Dante seu filho está morto, desfalece; após o que, impávido e sem
imediatamente, devido à sua situação e às suas palavras: o 11tentur pnrn o incidente, Farinata dá uma resposta à última
interruptor é Cavalcante de Cavalcanti, pai do seu amigo de uh1crv11çlio de Dunto o. ele dirialda, que caracteriza totalmente
juventude, o poeta Guido Cavalcanti. A cena que ora se desen- 11 aeu 1cr: ac, como tu dizes, os gibclinoa banidos não conse•
volve entre os dois é breve (21 versos); logo que acaba, quando »u1r11111 volt11r l cidade, i1to E para mim um tormento maior do
Cavalcante volta a se deitar, Farinata continua a conversa inter que o leito no 4u11I j11io.
rompida.
152 MIMESIS FARINATA B CAVALCANTE 153

Neste trecho há mais coisas concentradas do que em qual- e na oração relativa, tão comprimida no seu conteúdo quanto
quer outra das passagens que tratamos até aqui neste livro, e p~de· 0 sentimento e a situãÇ!io de Farinata perante o passante
não só há mais coisas, mais grave e dramàticamente juntadas estão• concentrados pelas três definições per la città del foco ten
num espaço tão estreito, mas também tudo é mais variado. Não vai, vivo, cosl parlando onesto de uma maneira . tão dinâmica,
se trata da narração de um acontecimento, mas de três aconteci- que o mestre Virgílio, se re~lmente houvesse ouvido estas pala-
mentos diferentes, dos quais o segundo, a cena de Farinata, é vras ter-se-ia asssustado mais profundamente do que Dant: no
interrompido pelo terceiro e é partido em duas partes. Não poe~a. As orações reiat!vas que Virgílio jun!a . aos vo_cativ?s,
existe, portanto, unidade de ação, no sentido usual da palavra; ainda que sejam perfeitamente belas e harmomcas, n_ao sao,
aqui também não acontece como na cena de Homero, de que nem de longe, tão agudamente concentr~das. e e?1oc1onant~s
tratamos no primeiro capítulo, onde a menção da cicatriz de (por exemplo, Eneida I, 436: o fortunati _qu1bus 1am moen!a
Ulisses dá lugar a uma narração intermediária longa, explícita, surgunt! ou, mais interessante, pela sua plemtud~ que se ~spra!a
e que leva muito longe: aqui o objeto muda rápida e consecuti- retqricamente, II, 63 8: v8s o quibus integer aev1 / sanguis, ait,
vamente, de forma abrupta; as palavras de Farinata interrompem solidaeque suo stant robore vires, / vos ª?itate fuga~) . ~eve
subitamente a conversa entre Dante e Virgílio, o Allor surse do também ser observado de que forma a antitese entre pela c1~a-
verso 52 rasga em duas, sem ligação, a cena de Farinata, e com de do fogo" e "vivo" é expressa exclusivamente, ~as de °!ane1ra
ma quell'altro magnanimo, ela é retomada de maneira igual- tanto mais efetiva, pela colocação da palavra vivo. Apos. esta
mente imediata. A unidade de tudo isto repousa no cenário, a invocação de três versos segue-se o terc;to no. qua} Fa;mata
paisagem físico-moral do círculo infernal dos hereges e ímpios; se dá a conhecer como compãtrlôta, e so depois, .so apos ter
e a rápida mudança de acontecimentos independentes de per acabado de falar, a oração: subitamente êste s_om saiu_ ... , uma
si, não ligados entre si como cenas isoladas, repousa na estrutura oração que, em geral, seria esperada como. mtro,duçao de ~
total da Comédia. Ela apresenta a peregrinação de um só ho- acontecimento surpreendente, mas que aqm, apos a_s º:açoes
mem com o seu guia através de um mundo cujos ocupantes per- precedentes, resulta relativamente calma, ~orno expbcaçao ~o
manecem nos lugares que lhes foram designados. Apesar desta acontecido, e deveria ser Hõa por um rec1tad~r e~ voz mais
rápida mudança das_ cenas, não se pode falar numa construção baixa, Não é possível falar, pois, numa sucessao un~ormemen-
paratática do estilo de linguagem; em si, cada cena apresenta te paratática entre a cena de Farinata e a cena. anter~or da con-
grandes riquezas de meios de ligação sintática, e nos casos em versa entre os dois peregrinos; por um lado, e isto nao deve ser
que, como aqui, as cenas são contrapostas agudamente e sem esquecido, esta cena já foi anunciada brevemente dura!1te a
ligação entre si, utiliza-se para a contraposição formas de ex- conversa de Virgílio (versos 16-18), e por outro lado, ela e urna
pressão variadas e artísticas, que devem ser tidas antes como irrupção tão violenta, forte, .prt!p~ente, nu°! _outro camEº• no;
comutações do que como parataxes; as cenas não são enfileiradas, sentidos espacial, moral, ps1colog1co e e~teh<:_o, que ~ao está
tesas, umas ao lado das outras, num mesmo tom - pense-se na ligada ao que lhe antecede pela simples llgaçao suc~SSlVa, mas
versão latina da lenda de Aleixo ou mesmo na Canção de Rolando pela relação viva do contraponto, da_ brusca e:upçao_ de algo
- , mas, na peculiar modelagem do tom, em cada caso, elas sur- já levemente suspeitado. Os acontecimentos nao estao, como
gem das profundezas e estão em mútuo contraponto. Para fazer dissemos quando tratamos da Canção de Roland? e da lenda
com que isto apareça com maior clareza, observaremos· mais de de Aleix..o divididos em pequenas parcelas, mas vivem, também
perto as passagens nas quais a cena muda. Farinata interrompe na contradição, e justamente através dela, uns com os outros.
os que passam conversando com as palavras: O Tosco, che A segunda mudança de cena é dada. cótn ~s palavras: Allor
per la città dei foco vivo ten vai . . . Isto é uma invocação, um surse. . . do verso 52; aparece de maneira mais simples e men~s
vocativo introduzido por o, Seguido por uma oração relativa digna de nota do que a primeira; pois,_ o que pode ser mais
que, comparada com a invocação, é bastante pesada e carregada natural do que introduzir um aconteclOlento que ocorre ~e
de conteúdo, e que só depois é seguida pela oração volitiva, car- repente com as palavras: então acontec~u ... ? Mas se for
regada também pela cortesia grave e reservada; não está dito: fcilu a pergunta, acêrca de onde podena ser encontrada, nas
Toscano, detém-te ... ; mas: Toscano, tu que . .. , queiras dig- linguus vulgares medievais a~teriores a I_?ante, uma forma ~e
nar-te a ficar neste lugar. A fórmula "ó tu que ... " é extrema- linguagem semelhante, que mterr?mpe tao _corta~~e : ,?1'ªm~~
mente solene, e provém do estilo elevado da epopéia antiga; 11c·nmcnte uma ação em desenvolvimento com um entao , sen
Dante tem o seu som nos ouvidos, assim como guardou o som de ncccNslirio procurar muito tempo; não conheço nenhum caso.
tanta coisa de Virgílio, Lucano ou Estácio; não acredito que, antes ,t Jlora, no cõmêço dns orações, encontra-se com bastante f~e-
dêle, tenha sido empregada numa língua vulgar medieval. Mas lltl(•ncm 110 it:iliuno pré-dantesco, por cx.cmpl~, nas. narraçoes
êle a emprega à sua maneira: de forma extremamente invocadora, do N11vrll/no, 11111N t·orn Ni111if1cuçúo muito mu1s débil. ~ort7s
tal como na Antigüidade apareceria oponns cm súplicM rcligio~nN ih• tnl vllllt·nd,, 111111 1111~-111 pmk do 1•Mt1lo nem da consc1êncrn
154 MIMESIS FARINATA E CAVALCANTE 155

temporal dos narradores anteriores a Dante, nem nos da épica ouvira, o, seu autocontrôle o abandona; a sua aparição, com os
francesa, onde pode ser encontrado com sentido semelhante, gestos espreitantes, as palavras chorosas e a precipitada deses-
mas muito mais fraco, ez vos ou atant ez vos (por exemplo, ,1eração ao voltar a se deitar, oferece um contraste violento
Rolando, 413, etc.). Quão mais rígida e complicadamente eram frente à tranqüila gravidade de Farinata, que volta a palavra
representadas mesmo as mudanças mais dramáticas dos acon- com a terceira mudança ( verso 73 ss.) . A terceira mudança,
tecimentos, pode ser observado no caso de Villehardouin, que ma quell'altro magnanimo etc., é bem menos dramática do que
introduz a sua narrativa sôbre a intervenção do velhíssimo e as primeiras; é calma, orgulhosa e grave; Farinata domina esta
cego doge de Veneza, quando do assalto de Constantinopla, oca- cena sozinho. Mas o contraste com o precedente fica ainda
sião na qual êste ordena, sob pena de morte, à sua gente, que mais ressaltado; Dante chama-o magnanimo, um têrmo aristo-
hesita antes do desembarque, que êle seja o primeiro a descer à télico, que deve ter chegado a êle através de Santo Tomás de
terra com a bandeira de São Marcos, com as seguintes palavras: Aquino ou, mais provàvelmente, através de Brunetto Latini,
or porrez oir estrange proece - exatamente como se Dante, e que, numa passagem anterior, emprega para designar Virgi-
em lugar do allora, tivesse escrito: então aconteceu algo de ex- lio; sem dúvida, é consciente o contraste com Cavalcante (cos-
traordinário. O ez vos do francês arcaico leva-nos pelo rasto tui); e os três cólons da oração, igualmente construídos, que
certo, quando procuramos a expressão latina correspondente a exprimem a imobilidade de Farinata (non muto aspetto, ne
êste "então" súbito e bruscamente interruptor; não se trata, pre- mosse collo, ne piegà sua costa), não só devem descrever Fari-
cisamente, de tum nem de tunc; em alguns casos, sed ou iam nata em si, mas também contrapor a sua atitude com a de
aproximar-se-iam melhor; mas a correspondência mais apropria- Cavalcante. Isto ressoa também para o ouvinte, a partir das
da, a que possui tôda esta fôrça, é ecce ou, melhor ainda, et orações construídas com regularidade, pois que lhe ficam ainda
ecce; encontra-se menos no estilo elevado do que em Plauto, nas no ouvido as perguntas irregulares e queixosas do outro (para
cartas ciceronianas, em Apuleio, etc., e, sobretudo, na Vulgata; a formulação destas perguntas, versos 58-60 e 67-69, Dante
quando Abraão pega a faca, para sacrificar o seu filho Isaac, certamente teve como modêlo a cena de Andrõmaca, Eneida
está escrito: et ecce Angelus Domíni de caew clamavi, dicens: III, 31 O, isto é, as queixas de uma mulher).
Abraham, Abraham. Parece-me que êste movimento lingüísti- Por mais abruptamente que os acontecimentos se revezem,
co, cortantemente iriterruptor, é demasiado duro para ter sua portanto, não é possível falar numa construção estilística para•
origem no e~tilo elevado do latim clássico; ao contrário, cor- tática; um movimento vivacíssimo agita tudo ininterruptamen,te;
responde perfeitamente ao estilo elevado da Bíblia; além disso, Dante dispõe de meios estilísticos tão ricos como nenhuma lm-
Dante emprega o et ecce bíblico literalmente em outra oportuni- gua européia vulgar conheceu antes dêle; e não os emprega so-
dade, onde uma situação é interrompida subitamente, ainda que mente isolados roas os coloca em ininterrupta relação mútua.
não de forma tão dramática (Purgatório, 21,7: ed ecco, sl come O discurso ani~ador de Virgílio, 31-33, só contém orações prin-
ne scrive Luca . . . ci apparve ... , segundo Lucas, 24,13, et cipais, sem qualquer ligação externa mediante conjun~ões: u~a
ecce duo ex illis ... ) . Contudo, não quero afirmar com cer- curta oração imperativa, uma curta pergunta, outro 1mperattv?
teza que Dante introduziu no estilo elevado o movimento do com objeto e explicação relativa a uma oraç~o ~utura, con_v1-
"então" subitamente interruptor, e que êste movimento pene- dativa, segundo o seu sentido, com determmaçao ad_verb1al.
trou no seu ouvido a partir da Bíblia; mas, pelo menos, deve Mas a rápida sucessão, a composição aguda das partes 1solad_as
ficar claro que o "então" dramàticamente arrebatador, no tem- e a sua mútua afinação, criam o ímpeto completo de um dis-
po em que êle escrevia, não era tão corriqueiro e não estava curso dito com vivacidade: Volta-te! O que estás pensando, e
tão perto da expressão de qualquer pessoa, como hoje; e que o assim por diante. Com isto, há articulações de pensamento da
empregava de maneira muito mais radical do que qualquer mais sutil das espécies; ao lado do causal comum (pero) aparece
outro antes dêle, na Idade Média. De mais a mais, devem o onde, que flutua entre um valor temporal, e o causal hipoté-
ainda ser tomados em consideração o significado e o som do tico, e, segundo a opinião de alguns comentaristas ~ntigos, ~or-
surse, que Dante emprega ainda em outra passagem, com um 1esmcnte moderador forse che; aparecem as mais diversas liga-
efeito sonoro muito grande, para exprimir um súbito levantar-se ções tomporais, comparativas, matizadamente hipotéticas, ap_oia-
(Purgatório, 6, 72/73, e l'ombra tutta in se romita / surse vir dns pol11 maior elasticidade na colocação das formas verbais e
lul ... ) . O allor surse do verso 52 tem, portanto, um pêso em no crnpr6go da sintaxe. Observe-se, por exemplo, com que fa.
nada menor do que as palavras de Farinata, que acarretam n dlid111k Dnnte conserva o domínio sintático sôbre a cena da
primeira interrupção; êste allor pertence àquelas formas parat'• 11p11rlçllo do Cnvalcunte, de tal forma que ela corre, de uma só
ticas, que põem os membros que ligam em relação dinlmica lh11d11, 11trttv~• do tr8s tercetos, at6 o fim da sua primeira fala
entre si; a conversa com Farinata é interrompida; C11v11lcnnte ( vc110 60), A 1111id11do d11 construção descnn~a noR três pilares
não é capaz de esperar o seu fim; ap6R M i'1ltimas p11h1Vr111 que .rn,
ver h11iN 11,., 111111,i/1'1, t//.1•.1·,. no primeiro up6iam-ae o sujeito, o~
156 MIMESIS FARINATA E CAVALCANTE 157

determinantes adverbiais e também, ainda, o parêntese expli- contribui, no nosso texto, a dupla contraposição: por um lado,
cativo credo che; sôbre guardo, os dois primeiros versos do per altez.za d'ingegno, pelo outro, colui ch'attende là; as duas
segundo terceto com a frase do " como se", enquanto o terceiro são perífrases retóricas; uma evita o nome altivamente; a outra,
verso já se dirige para o disse e para o discurso direto de Caval- respeitosamente.
cante, no qual culmina todo o movimento, que começara com O da me stesso origina-se, talvez, da linguagem coloquial,
fôrça para depois diminuir e para, a partir do verso 57, nova- e também, em geral, fica claro que Dante não desdenha as for-
mente crescer. Se alguns dos leitores desta pesquisa forem me- mas coloquiais. O Volgiti! Che fai? , ainda por cima na bôca
nos versados em literatura medieval em línguas vulgares, pro- de Virgílio, e após a solene formulação da invocação de Farina-
vàvelmente surpreender-se-ão pelo fato de eu salientar e louvar ta, tem um efeito muito forte de fala espontânea e não estilizada,
como coisa extraordinária estruturas sintáticas que hoje são tal qual aparece a todo instante no trato dos que se falam todo
empregadas sem esfôrço por qualquer escritor de certo talento, dia. Não é muito diferente o que se dá com a pergunta, dura
e até por alguns epistológrafos de certa cultura lingüística. Mas, e carente de todo enfeite perifrástico, chi Iur li maggior tui?,
quando se parte das anteriores, a língua de Dante parece um ou com as perguntas de Cavalcante, Come dicesti? egli ebbe?
milagre quase inacreditável. Diante da expressão de todos os etc. Continuando a leitura do canto, encontra-se perto do fim
anteriores, entre os quais certamente houve grandes poetas, a a passagem em que Virgílio pergunta perche sei tu si smarrito?
expressão de Dante possui riqueza, presença, fôrça e maleabili- (verso 125). Tôdas estas passagens, desligadas do seu contexto,
dade tão incomparàvelmente maiores, conhece e utiliza uma poderiam ser encontradas em qualquer conversação comum, em
quantidade tão incomparàvelmeó.te maior de formas, compõe os estilo baixo. Junto a elas aparecem formulações do mais eleva-
mais diversos fenômenos e conteúdos com segurança tão incom- do pathos, lingfüsticamente também elevadas, no sentido antigo
paràvelrnente maior, que necessàriamente se chega à convicção da palavra; a intenção estilística do conjunto dirige-se, sem dúvi-
de que êste homem, através da sua lmgua, redescobriu o mun- da, para o sublime; sente-se isto mesmo sem se conhecer as ma-
do. Muito freqüentemente é possível comprovar ou supor de nifestações expressas de Dante, em cada verso do poema, · por
onde êle hauriu esta ou aquela forma de expressão; mas são tan- mais coloquial que seja - a gravidade, gravitas, do tom de
tas as fontes, êle as ouve e emprega de uma maneira tão exata, Dante é mantida de forma tão ininterrupta, que não se pode d':1-
primitiva, mas também, tão peculiar, que tais comprovações ou vidar nem um instante em qual nível de estilo nos encontramos.
suposições só aumentam a admiração pela fôrça do seu gênio Sem dúvida, foram também os poetas antigos os que deram a
lingüístico. Num texto como o nosso pode-se procurar em qual- Dante o modêlo do estilo elevado, a êle antes de qualquer outro;
quer lugar, e em todos encontrar-se-ão coisas surpreendentes, ini- êle próprio diz em muitas passagens, tanto na Comédia quanto
magináveis nas literaturas vulgares até então. Tornemos algo na sua De vulgari eloquentia, quanto lhes deve pelo estilo ele-
aparentemente tão insignificante quanto a oração da me stesso vado da língua vulgar; êle o diz mesmo no texto que estamos
non vegno; é possível imaginar a existência de uma formulação estudando, pois o tão discutido verso onde diz que talvez Guido
tão curta e completa de um tal pensamento, é possível, aliás, Cavalcanti desprezara Virgílio contém, entre outros muitos sig-
imaginar um pensamento tão aguçado e um tal emprêgo do da nificados, também êste; quase todos os comentadores antigos
na poesia de um autor em lmgua vulgar anterior a Dante? .E.ste entenderam-no no sentido estético. Mas, ao mesmo tempo, é
emprega da com êste sentido em muitas outras ocasiões (Pur- mcgável que o conceito que Dante faz do sublime é essencial-
gatório 1, 52, da me ,um venni_; Purgatório 19, 143, buona da mente diferente daquele dos seus antigos modelos, tanto no
se; Paraíso 2, 58, ma dimmi que/ che tu da te ne pensi). O 4uc se refere aos objetos, quanto à sua formulação lingüística.
significado "pela minha própria vontade", "pela minha própria o~ objetos apresentados pela Comédia estão misturados, segundo
fôrça", "por mim só" deve ter-se desenvolvido a partir do sig- I\R medidas antigas, a partir do sublime e do baixo, de maneira
nificado "a partir de . .. "; Guido Cavalcanti escreve na Can- llxccssiva: há, entre êies, personagens da história apenas passada,
zone Donna mi prega: (Amore) non e vertute ma da que/la vene. e 1116 da história contemporânea, entre as quais, apesar de Pa-
Naturalmente, não é possível afirmar que Dante tenha criado 1111110 17, 136-38, pessoas quaisquer e carentes de fama; são
esta variante de significado, pois mesmo se não fôr possível nJHC8l' ntadas, muito freqüentemente, na sua esfera vital plena,
achar nos textos mais antigos nenhuma passagem desta espécie, h111Jrnmcnte realista, sem reservas, e, em geral, como todo leitor
ela poderia ter-se perdido, e mesmo se nada de semelhante ti• aulw, Duntc não conhece barreiras na imitação exata e não
vesse sido escrito antes dêle, poderia ter vivido na língua colo- pL1riln'l111ic11 úo quotidiano, do grotesco e do repugnante; coisas
quial; e assim é realmente, como o demonstra uma passagem t!lll', l"'nl si, nuncn poderiam ser consideradas sublimes, no sen-
caricatural de Liutprando de Cremona. Mas é certo que, quan- tido unliKo, lmnum se sublimes pela maneira como as forma e
do Dante criou ou adotou esta curta formulação, lhe conferiu unk-1111. 1(1 11e folou e.ln 011~t11m lioglilstica no seu estilo; pense-se
uma fôrça e uma profundidade antes inimn11inlivcl ; e pnrn i11lo 11111!111 ~,, 111\• ntL· 110 verso " d L•i,c.11 qlll' êlcs Sl' cocem onde scnlcm
158 MIMESIS FARINATA E CAVALCANTE 159

comichão", numa das passagens mais solenes do Paraíso (17, tinuavam a vegetar nas obras dos teóricos medievais da arte
129), para tornar clara tôda a distância que o separa, por exem- retórica. Nunca se liberou totalmente destas opiniões; senão,
plo, de Virgílio. Muitos críticos importantes, até séculos intei- não teria chamado sua grande obra Comédia, em nítido contras-
ros de gôsto Qlássico, não se sentiram bem com esta proximida- te com a definição de Virgílio da Eneida como alta tragédia
de presente demasiado violenta, no meio do sublime, com a (Inferno 20, 113); parece, portanto, que não quer incomodar a
"grandeza repulsiva, amiúde detestável" de Dante (são palavras dignidade do estilo trágico elevado para a sua grande obra; a
de Goethe, Annale, 1821) - e isto é muito compreensível. Pois isto junta-se, ainda, a justificação que dá Ill'l décima parte da
em nenhum outro lugar fica tão claro o choque entre as duas sua carta a Cangrande para o nome C~média. T ragédia e _con_ié-
tradições, a antiga, de separação dos estilos, e a cristã, de mis- dia diferenciam-se, assim diz na mencionada carta, em pnme1ro
tura dos estilos, do que neste poderoso temperamento, para o lugar pela marcha da ação, que . levaria} na tragédia, , d~ um
qual as duas, ~ambém a antiga, a qual êle se esforça em atingir, comêço tranqüilo e nobre a um fim ternvel, e _na co~edia, ~e
sem poder deixar de lado a outra, tornam-se novamente cons- forma contrária, de um comêço amargo a um f!m feliz; depois,
cientes; em nenhum lugar a mistura de estilos chega tão perto e isto é para nós o mais irnporta_nte, pelo _estilo, pelo ~odus
da ruptura de estilos. As pessoas cultas da Antigüidade tardia /oqueruli: elate et sublime tragedea; comedia vero remisse et
entendiam que havia ruptura estilística também nas escrituras humiliter; e por isto o seu poe~a ~ever_ia chama!•se c?média;
bíblicas; da mesma maneira devem ter reagido os humanistas por um lado, por causa do começo 11;1-fehz e_ do fim feliz; pelo
posteriores diante da obra do seu maior predecessor, daquele outro, por causa do modus loquend1: re~issus est mod~s et
que foi o primeiro a ler novamente os poetas antigos por causa humilis, quia locutio vulgaris in qua et multercule commumcant.
da sua arte e recebeu em si próprio o seu tom, daquele que foi Deve-se acreditar, antes de mais nada, que isto se refere ao em-
o primeiro a formular e a realizar o pensamento do Volgare prêgo da língua italiana; então, ~ estil~ seria baix_o sirnple~mente
illustre, da grande poesia em lígua materna; e a sua reação por isto, porque a Comédia esta escnta em italiano e nao em
se devia, exatamente, ao fato de ter feito tudo isso. A mistura latim· mas uma tal declaração seria dificilmente crível em Dante,
de estilos da poesia medieval anterior, do teatro cristão, por que defendera a nobre dignidade ~a língua vulgar, a partir do
exemplo, era perdoável, por causa da sua ingenuidade; parecia De eloquentia, e que baseou o estilo elevado da lmgua vulgar
não ter pretensões a grande dignidade poética, justificava-se ou, nas suas Canzoni, e que, finalmente, já havia completado a
pelo menos, perdoava-se, por causa do seu fim e do seu caráter Comédia no tempo da carta a Cangrande; por isto, numerosos
populares; nem entrava propriamente no campo daquilo que pesquisadores modernos entenderam locutio não como Jíngu~,
devia ser considerado e julgado com seriedade. Aqui, porém, mas como modo de expressão, de tal forma que Dante tena
não se podia falar em ingenuidade ou em falta de pretensões: querido dizer que a forma de e~pressão da ~bra não . seria a
muitas palavras textuais de Dante, tôdas as apelações ao modêlo do italiano elevado, do vulgare 11/ustre, cardinale, aulicum et
virgiliano; as invocações às musas, a Apolo, a Deus; a relação <·uriale, para usar as suas próprias palavras (De vulg. el. 1, 17 ) ,
com a própria obra, cheia de tensão, que transparecia em muitas mas a da linguagem popular quotidiana qualquer. Em todo
passagens; e, mais do que tudo isto, o tom de cada um dos coso também aqui não requer o estilo trágico elevado para a
versos da obra, tudo isto é testemunho da mais elevada preten- ~un ~bra mas, no melhor dos casos, um estilo médio, e mesmo
são. Não é surpreendente que o fato extraordinário desta obra 1sto êle ;xprime de forma sô~ente ind~ti~ta, na medida em que
fôsse incômodo para muitos humanistas posteriores, e para mui- c ita a passagem da Ars poet1ca de Hor~c10. (93 ss.) , na qual se
tas pessoas educadas no humanismo. dii. que a comédia emprega também, as vezes, tons trágicos, e
O próprio Dante mostra nas suas declarações teóricas uma vice-versa. Declara que a sua obra, como um t~d~, yertence
certa insegurança na questão da classificação estilística da Co- 110 estilo baixo; logo após ter falado na sua mult1phc1dade ?e
média. Na sua De vulgari eloquentla, na qual trata da poesia ~l•ntidos - o que não corresponde, de forma alguma, ao e~ttlo
das Canzioni, e sôbre a qual a Comédia não parece ter ainda bu1xo e apesar de que repetidamente fale da parte que, Jlln·
deitado qualquer sombra, Dante faz ao estilo elevado e trágico tumcnte com a carta dedica a Cangrande, o Paraíso, como sen-
exigências muito diferentes daquelas que cumpre mais tarde do nuitil'll sublimis, designando a sua materia como sendo admi-
na Comédia: muito mais estreitas com respeito à escolha do 1t1hllis. Nu própria Comédia persiste a incerteza, mas aqui pre-
objeto, muito mais puristas e fazendo maior questão da separa- llu11111111 n consciência de que tanto o objeto quanto a forma
ção dos estilos quanto à escolha da forma -e das palavras. Esta- prnkn, reivindicar a mais elevada dignidade poética. Já enu-
va, então, sob o efeito da poesia do tardio provençal, extrema- """ amo~. ac11rn1, tudo aquilo que fala a favor da sua plena cons-
mente artificiosa e destinada exclusivamente a um círculo esco- c1l!nci11 dn c~~êndn e da ditinidadc do seu estilo. Mas, não
lhido de iniciados, e do estilo nôvo italiano, e uniu com isto uh~11111to r~rnlhu Vir~ílm co1110 JilltU, não obslunte invoque Apolo
a antiga doutrina da separação dos estilos, da forma como con• e "" 11111811~. 1>unh l'V1t11 1(1l111 ,h·~i1,tnaçiio do ~cu pocmu como
FARINATA E CAVALCANTE 161
160 MIMESIS

uma obra sublime no antigo sentido; para exprimir a sua pecu- O temperamento de Benve~uto ab;e. par~ si ~m caminho
liar sublimidade, forma uma palavra especial: il poema sacro, al reto através do matagal da teoria escolasttc~: es!e hvro ,c~ntém
quale ha posto mano e cielo e terra (Par. 25, 2/3). difícil :e tôda espécie de poesia, assim como contem toda espec1~ de
saber· o seu autor chamou-o Comédia, porque o seu estilo é
acreditar que, após ter encontrado esta palavra e ter completado
a obra, tenha se exprimido de forma tão escolar acêrca da sua baixo' e vulgar; mas pertence, todavia, na sua especial forma de
essência, como na passagem da carta a Cangrande que acabamos ser, ao gênero da poesia sublime.
de comentar, de cuja autenticidade duvidou-se repetidamente. Já pela plenitude dos objetos tratados, o problema do estilo
Todavia, o prestígio da antiga tradição, obscurecida naquele elevado coloca-se, para a Comédia, de maneir~ tot~lmente ?º~ª·
tempo ainda pela sistematização pedante, assim como a ten- Para os provençais e para os poetas do estilo novo, o umc,o
dência para posições teóricas firmes e, aos nossos olhos, absur- tema grande era o amor sublime; quando Dante enumera tres
das, eram tão grandes, que a coisa pode também parecer veros- dêstes temas no seu livro De eloquentia (salus, venus, virtus,
símil. Os comentadores seus contemporâneos ou, antes, os seus isto é, feitos de armas, amor e virtude), os dois outros estão
sucessores imediatos, manifestaram-se, também, num sentido pu- subordinados, em quase tôdas as grandes Can~oni, ao amor,, ~u
ramente escolar acêrca da questão do estilo, por mais que haja, estão disfarçados numa alegoria amorosa. Amd~ na Comedia,
naturalmente, algumas exceções: Boccaccio, por exemplo, cujas êste bastidor é conservado pela figura e pelo efeito de Beatnz;
explicações espirituosas, que atestam um conhecimento humanis- o bastidor, porém, cinge um domínio imenso. A Comédia é,
ta já sério da Antigüidade, não convencem, pois eludem o pro- entre outras coisas, um poema didático enciclopédico, no qual
blema; e, sobretudo, o extremamente vivaz Benvenuto de Imola, são apresentadas conjuntamente as ordens universais físico-cos-
que, depois de ter explicado a clássica tripartição dos estilos (o mológica, ética e histórico-política; é, também, uma obra de arte
elevado-trágico, o médio-polêmico-satírico, o baixo-cômico), con- imitativa da realidade, na qual aparecem todos os campos con-
tinua da seguinte forma: cebíveis da realidade: passado e presente, gra~d~za subli~e. e
desprezível vulgaridade, história e lenda, tragedia e con_ied1a,
Modo est hic attente notandum quod sicut in isto Iibro est homem e paisagem; é, finalmente, a história do desenvolvimen-
omnis pars philosophiae ("tôda espécie de filosofia"), ut dictum to e da salvação de um único homem, Dante, e, com~ tal,
est, ita est omnis pars poetriae. Unde si quis velit subtiliter uma história figurativa da história da salvação da humanidade
investigare, hic _e st tragoedia, satyra et comoedia. Tragoedia em geral. Nela aparecem figuras da mit~logia antiga, ~s. vê~s,
quidem, quia describit gesta pontificum, principum, regum, ba- mas não sempre, fantàsticamente demomzadas; pers~mficaçoes
ronum, et aliorum magnatum et nobilium, sicut patet in toto alegóricas e animais simbólicos originários da Antigüidade tar-
libro. Satyra, it est reprehensoria; reprehendit enim mirabiliter uia e da Idade Média; anjos, santos e beatos como portadores de
et audacter omnia genera viciorum, nec parcit dignitati, potes- um significado, do mundo do cristianismo; aparecem Apolo,
tati vel nobilitati alicuius. ldeo convenientius posset intitulari Lúcifer e Cristo, Fortuna e a Senhora Pobreza, Medusa como
satyra (talvez aqui o pensamento vá também aos Sirventes) quam emblema dos círculos mais profundos do Inferno e Catão de
tragoedia veJ comoedia. Potest etiam dici quod sit comoedia, ütica como guardião do Purgatório. Mas nada_ dist~ tudo _é,
nam secundum Isidorum comoedia incipit a tristibus et termi- no contexto de um esfôrço pelo estilo elevado, tao novo e tao
natur ad laeta. Et ita liber iste incipit a tristi materia, scilicet problemático quanto o imediato agarrar da ~ealidade presen~e
ab Inferno, et terminatur ad laetam, scilicet ad Paradisum, sive da vida não escolhida nem pré-ordenada mediante escalas este-
ad divinam essentiam. Sed dices forsan, lector: cur vis mihi t icaR, a;ravés do qual, justamente, surgem tôdas as fo~mas ime-
baptizare librum de novo, cum autor nominaverit ipsum Comoe- díut ns de linguagem, inusuais no estilo elevado, cuia d~reza
diam? Dico quod autor voluit vocare librum Comoediam a ~nwrnvu espécie ao gôsto clássico. E todo êste realismo nao _se
stylo infimo et vulgari, guia de rei veritate est humilis respectu
movunenta dentro de uma só ação, mas numa pletora de açoes
litteralis (sic), quamvis in genere suo sit sublimis et excellens ...
(Benvenuti de Rambaldis de Imola, Comentum super D. A. que se revezam nos mais diferentes níveis de tom.
Comoediam . . . curante Jacobo Philippo Lacaita, Tomus Pri- T odavia, a unidade do poema é convincente. Desc~sa
mus, Florentiae 1887, p. 19) . 1 ~•lln c O tema geral, sôbre o status animarum post mort~m; este
1kvc Mll t , como sentença divina final, uma unidade perfeitamente
1 Deve-se observar, aqui, atentamente que, assim como neste livro há
tôda espécie de filosofia, como já foi dito, assim também há tÕda espécie de
1, 1111111111 hldo1<1 11 coniédh, começa com coisas tri~tes e ter~ina com coisas
poesia. Com efeito, quem quiser investigá-lo mais sutilmeote, encontrará nêlc • '• ~, r■. 1 M•lni, ~alr livro ct,mcça com muéria triste, _ou seia, o Inferno, e
a tragédia, a sátira e a comédia. A tragédia, porque descreve os feitos dos ho n1ln ,, 111111 111wu nlcwor, "'' ,cJn, o Pare.(10 dn css6nc,a divina . Mas talvez
pontífices, príncipes, reis, barões e outros magnatas e nobres, como d pbtento •lhi•• 11-11,11 1 1,.., ,111r 1111~••• q 11r cu hntl1.c este livro de nõvo, se o seu autor
no livro todo. A sátira, porque é repreensõrio, porque repreende 1dmlr4vct o IA 11 ' .irnnu ,11 ,h !'n uifoll a"I lllMn 1111• t1 au1or qula chnnmr o lblvro dhc ~:fédJ~
audazmente t ôda esp,cie de vícios, e nem perdoo dlMnldnde, p,,1e•t11do ou nn ,or um ulllu hilinm e vulU,,u cntn cfcho. 6 ,uu t> ra um e
breza de nln11uém. Por l~so poderia c hnm nr•.c 11\llrn mnl• 1m,11rl~111onlr tfo
q ue 1rni édh1 o u comé,lln MM rnmh~m ~ r<>•dvcl <11111114 111 ti• ,.,.,.,fdh,, 111•1•
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1111 ti, ""-' •
C':, íl
llh•1,,a; 11llhlit 1401, 11u aro ttPntnl, acJ1t •uhlhnc o cxcrlcintc • •
162 MIMESIS FARINATA E CAVALCANTE 163

ordenada, tanto como sistema teórico, quanto como realidade portanto, predizer o futuro, enquanto são cegos para o presente
prática e, portanto, também como criação estética; deve repre- terreno; êste é o motivo da hesitação de Dante diante da per-
sentar a unidade da ordem divina de uma forma ainda mais pu- gunta de Cavalcante sôbre se o seu filho ainda vive; surpreende-
ra e atual do que o mundo terreno, ou algo que nêle acontece, se por causa da ignorância de Cavalcante, tanto mais quanto,
pois que o além, ainda que inacabado até o Juízo Final, não
já antes, outras almas profetizaram-lhe coisas futuras. Êles
apresenta, na medida em que o faz o mundo terreno, desenvol-
vi.mento, potencialidade e provisoriedade, mas é o ato completo possuem, portanto, a sua própria vida terrena, completa, na me-
do plano divino. A ordem unitária do além, assim como Dante mória, não obstante tenha acabado; e não obstante se encon-
no-Ia apresenta, é tangível da maneira mais imediata como sis- trarem numa situação que não só pràticamente ( estão deitados
tema moral, na repartição das almas nos três reinos e suas sub- em ataúdes ardentes), senão também fundamentalmente, devido
divisões: o sistema segue em tudo a ética aristotélico-tomista; re- à sua imutabilidade espacial e temporal, é diferente de qualquer
parte os pecadores no Inferno, antes de mais nada, segundo a situação terrena concebível, não parecem mortos, como o estão,
medida da sua má vontade e, dentro desta divisão, segundo a mas vivos. Aqui chegamos ao mais surpreendente, ao paradoxal
gravidade dos seus atos; os penitentes no Purgatório segundo os naquilo que é chamado o realismo de Dante. Imitação da rea-
maus impulsos dos quais devem se purificar; e os venturosos, lidade é imitação da experiência sensível da vida terrena, a cujas
no Paraíso, segundo a medida da teofania da qual participam. características essenciais parecem pertencer a sua historicidade,
Neste sistema moral há entretecidos, contudo, .outros sistemas a sua mutação e o seu desenvolvimento; por mais liberdade que
de ordenação, físico-cosmológicos e histórico-políticos. A si- se queira dar ao poeta imitativo para a sua criação, esta quali-
tuação do Inferno, do Monte da Purificação e das Abóbadas dade, que é a sua própria essência, êle não deve tirar da realidade.
Celestes oferece, juntamente com uma visão moral, uma visão Os habitantes dos três reinos de Dante encontram-se, porém,
física do universo; a ciência espiritual, que serve de base à numa existência imutável (esta palavra é usada por Hegel numa
ordem moral, é também, simultâneamente, uma antropologia das mais belas páginas que jamais foram escritas acêrca de
fisiológica psicológica, e também de muitas outras maneiras, a Dante, nas suas conferências sôbre a estética), e, todavia, Dan-
ordem moral está ligada fundamentalmente com a ordem física. te introduz "o mundo vivo do agir e do sofrer humanos, e mais
O mesmo ocorre com a ordem histórico-política; a comunidade perto dos atos e dos destinos individuais, nesta exis\ência imutá-
dos venturosos na rosa branca do Empíreo é, também, ao mesmo vel". Perguntamo-nos, diante do nosso texto, como isto acontece.
tempo, o alvo da história da salvação, para o qual se dirigem tô- A existência dos dois sepulcrais habitantes e o cenário onde ela
das as teorias histórico-políticas, e segundo o qual devem ser julga- be realiza são, certamente, definitivos e eternos; não são, porém,
dos todos os acontecimentos histórico-políticos; isto é expresso carentes de história. Ao Inferno desceram Enéias e Paulo, e
constantemente no poema, às vêzes muito claramente (por exem- também Cristo; nêle passeiam Virgílio e Dante; nêle há paisa-
plo, nos acontecimentos simbólicos no cume do Purgatório, no gens e nas paisagens movimentam-se espíritos infernais; diante
Paraíso terrestre) ; de tal forma que, de modo sempre presente e
dos ~ossos olhos realizam-se fatos acontecimentos, até mudan-
e sempre comprovável, os três sistemas da ordem, o moral, o ças. As almas dos condenados, no seu corpo espectral, têm, º?
físico e o histórico-político, aparecem como uma só figura. 11eu eterno lugar, aparência, liberdade de palavra e de gestos, h-
Para compreender, agora, de forma prática, de que maneira hcrdade para realizar alguns movimentos, e portanto, dentro da
se realiza a unidade da ordenação do além como unidade do es- imutabilidade, liberdade para certo grau de mudança; abandona-
tilo elevedo, devemos voltar ao nosso texto. A vida terrena de mos o mundo terreno, estamos num lugar eterno, e, todavia, en-
Farinata e de Cavalcante chegou ao seu fim; a mudança do seu contramos nêle aparências concretas e acontecimentos concretos.
destino acabou; estão numa situação definitiva e imutável, na qual l~lo é diferente daquilo que aparece e acontece na Terra, e, con-
só acontecerá uma única modificação, ou seja, a recuperação dos 111do, um está em relação evidentemente necessária poderosa com
seus corpos quando da ressurreição, no Juízo Final. Assim como o outro. A realidade das aparições de Farinata e Cavalcante é
são encontrados aqui, são, portanto, almas separadas do corpo, percebida na situação na qual se encontram e nas suas manifes-
tuçws. Na sua situação de habitantes dos ataúdes ardentes
às quais Dante confere, contudo, uma espécie de corpo espectral,
t•llpnmc-sc a condenação que Deus concebeu para tôda a cate-
de forma que possam ser reconhecidos, que possam exprimir- MUJ III de pecadores à qual pertencem, a dos hereges e infiéis; nas
se e sofrer (cf. Purg. 3, 31 ss.). A sua relação com a vida ter- Mm1 nlllnifc~taçõcs, porém, a sua essência pessoal aparece com
rena limita-se à memória; além disto, como Dante discute no 1t1da fôrça. Isto é especialmente claro no caso de Farinata e de
nosso canto, possuem certos conhe.cimentos do passado e do C11v.,k11ntc, pcm ~no pecadores da mesma categoria, e se encon-
futuro, que ultrapassam as medidas terrenas; vêem com nitidez, 1111111 1111 1m•~111u •ill111\jl10; como indivlduos de caráter diferente,
como se fôssem hipermétropes, os acontecimentos que se dão ,fo <liícH•nlt· d,•Nhnu nu vidn prc"rcimt e de lliferentcs tendências,
na Terra, num passado ou num futuro algo longínquo, podendo, li,,,,
111 Mfio pu~l111 cm c11é1wr11 nmtrnNlt" O seu dc~tlno eterno
164 MIMESIS FARINATA E CAVALCANTE 165

e imutável é o mesmo; mas só no sentido de terem ambos de divina; e têm apaixonado interêsse pelo esta~o .present~ das
sofrer a mesma pena, só no sentido objetivo; pois ambos a coisas sôbre a Terra, o qual lhes é oculto. (Mwto 1mpress_10nan-
recebem de forma diferente; Farinata não dã a mínima atenção te neste sentido ao lado de Cavalcante e de outros, e Guido de
à sua situação, Cavalcante chora no cego cárcere a luz perdida; Montefeltro, qu~ fala penosamente at!av~ da i:onta da cham_a
e ambos mostram em total configuração, por gestos e palavras, da sua cabeça no Canto XXVII, cuia u~vocaçao longa,_ supli-
uma essência peculiar .para cada um dêles, que não pode ser, e cante, embebida de lembrança e de que~ume, no. sentido de
também não é outra senão aquela que outrora possuíram na vida que Virgílio se detenha e converse com ~le, culmma com as
terrena. Mais do que isso: pelo fato de que a vida terrena está palavras do verso 28: dimmi se i Romagnuoh hOJt pace o guerra!)
detida, de tal forma que nada nela pode ser desenvolvido ou mu- Dante transferiu, portanto, a historicidade terrena para o
dado, enquanto as paixões e tendências que a movimentaram seu além; os seus mortos estão privados ~o pre_sente te_r~eno _e
continuam a persistir, sem descarregar-se pela ação, ocorre co- das suas mudanças mas a lembrança e a rntens1va part1c1paçao
mo que um tremendo armazenamento das mesmas; toma-se vi- no mesmo os arrebatam de tal forma, que a pà!s~gem do alé~
sível uma figura muito exacerbada, fixada para a eternidade estã cheia disso. Isto não é tão forte no Purgatono e no Para!-
numa medida tremenda da essênci~ individual de cada um, tal so pois lá a vista não estã dirigida, como no Inferno, exclus1-
como não poderia ter sido encontrada, com tanta pureza e niti- va'mente para trás, para a vida terrena, mas para a frente e i:ara
dez, em nenhum momento da vida terrena de outrora. Não há 0 alto, de tal forma que êle, à medida que nos elevamos, ve a
dúvida que também isto faz parte da condenação que Deus existência terrena mais claramente concentrada com a sua m~-
pronunciou sôbre êles; as almas não foram somente classificadas ta divina. Mas a existência terrena fica sempre co~servada, _pois ·
em categorias e distribuídas correspondentemente entre os três cm tôda parte é a base da sentença divina e, com, isto, da situa-
reinos, mas foi concebida uma situação individual para cada ção eterna na qual a alma se encontra; e em toda parte_esta
uma delas, na medida em que a forma individual de cada uma situação não é somente um estar classificado num determ10ado
não fo~ destruída, mas, ao contrário, foi fixada na sentença eter- grupo de penitentes ou de venturosos, mas uma estampa cons-
na, completando-a definitivamente só mediante êste último to- ciente da essência terrena de outrora e do lugar que lhe corres-
que e livrando-a, finalmente, à observação. Farinata é, no meio ponde no plano geral divino. É justamente na co~~l~ta atua-
do Inferno, maior, mais poderoso e nobre do que nunca, pois hzuçilo do caráter outrora terreno no lugar _q1:1e defm1hvamepte
nunca, durante a sua vida, teve a oportunidade de manifes- lhe corresponde, que consiste a sentença d1vma. E em t_oda
tar, assim, a fôrça do seu coração; e se os seus desejos e r,orlc, as almas dos mortos têm liberd~de ~asta~te para manifes:
pensamentos ainda circulam imutados ao redor de Florença e lar a sua essência individual e peculiar; as vezes, é claro, so
dos gibelinos, dos prêmios e dos erros da sua ação de outrora, mm esfôrço, pois às vêzes a pena ou a pe~t~ncia ou i:nesmo_ º.
esta continuidade da sua essência terrena, na sua grandeza e na hr ilho da sua ventura dificulta a sua apançao e manifestaçao,
sua desesperançada inutilidade, pertence, sem dúvida, à sentença mus estas aparecem, então, de maneira ainda mais arrebatadora,
que Deus pronunciou a seu respeito. A mesma desesperada inu- vencendo 'b obstãculo.
tilidade na continuação da sua essência terrena é apresentada flslcs pensamentos encontram-se na página de. Heg~l q~e
por Cavalcante; com certeza, nunca durante a sua vida sentiu mcncaonci acima, e fiz dêles uma base para uma mvestt~açao
tão fortemente e exprimiu tão arrebatadoramente a sua fé no
1111 Jl'llli~mo de Dante, que publiquei em 1929 (Dante ais D1c!_iter
espírito do homem, o seu amor pela doce luz e pelo seu filho
Guido, como agora, quando tudo isso é inútil. Também não
,1,.,. fnllscl,en Welt). Entretanto, tenho me per~_?tad~ ~o.bre
que:- v1~no <ltt estrutura do acontecer, sôbre q_ue v1sao histonca,
deve ser esquecido que, para as almas dos mortos, a peregrina- pnrtlmlo, repousa êste realismo de Dant~, proietado para ~ eter-
ção de Dante é a oportunidade única e última, para tôda a
1111h11ll· Imutável; esperei, com isto, avenguar algo de mais ~re-
eternidade, de conversar com um ser vivo; uma circunstância
~ 1111 11cerc11 dos fundamentos do estilo elevado de ~ante, pois o
que leva muitos a se exprimirem com extrema intensidade e que NCll c~lllo elevado consiste, precisamente, na ordenaçao do carac-
introduz na imutabilidade do seu destino eterno um instante 1e, i~r K11mc1Hll individual, às vêzes cruel, feio, grotesco e qu~-
de dramática historicidade. Da especial situação dos habitantes 11111111111, dentro da dignidade, que ultrapassa qualquer sublim1-
do Inferno ainda faz parte o campo peculiarmente restrito e 1f11tll, tt·rrc!ltrc, <ln sentença divina. Evidentemente, a su~ con;
ampliado do seu conhecimento; perderam a visão de Deus, que ce,içllo do, ucontccimcntos não é idêntica ~quela que hoJ~ esta
foi outorgada a todos os sêres, na Terra, no Pu.rgatório e no ,11 111111itl11, c-111 gcrul, pelo mundo, na medida em qu~ nao os
Paraíso, em diferentes graus, e, com ela, perderam tôda espe- ve 1111:,umcntc comu dc~cnvolvimcnto terreno, como sistema de
rança; conhecem o ·passado e o futuro dos acontecimentos tcrre- rii.:or I êni:111• llll Tcrr11, 11111~ cm constante conexão com um plano
'ilOS e, com isto, a inutilidade da forma pessoal que lhe foi con- ,liv111o do oronkcc,, p11r11 c111n mct11 o acontecer terreno avança
servada, mas que nunca poderá dcscmbocnr 1111 comunidndc n, 11~rrmh:menh:, IMo 111\11 1l1·w IIOI cnm1Ht·cndido 11õmcntc no
166 MIMESIS FARINATA E CAVALCANTE 167

sentido ~e que a sociedade humana, como um todo, se aproxima, pressão habitual, é consumada, da mesma forma aparece, aqui,
~n_i movimento progressivo, do fim do mundo e da plenitude do o Império Romano secular como figura da consumação celeste
1~,~~ de _Deus, com o que, portanto, todos os acontecimentos no reino de Deus. No meu ensaio, já anteriormente mencionado,
dm~lf-se-1am ho~izontalmente para o futuro, mas também no sôbre a figura, demonstrei, espero, convincentemente, que a
sentido de um~ ligação sempiterna, independente de todo movi- Comédia está baseada, absolutamente, na interpretação figural.
mento pi:_ogress1vo, entre qualquer acontecimento terreno qual- Tentei demonstrar, com base em três das suas mais importantes
quer fenomeno terreno e o plano divino; portanto, tod~ fenô- personagens, Catão de útica, Virgílio e Beatriz, que a sua apa-
me_no t~rre~o, através de uma série de ligações verticais, está re- rição no além é uma consumação da sua aparição na vida ter-
fend_o ~ed!at~ente ao plano de salvação da providência. Pois rena, e que esta é uma figura daquela. Ainda salientei o fato
a c'?açao toda e uma constante multiplicação e irradiação do de que a estrutura figural dos seus dois pólos, da figura e da
~OV!mento do _amor divino. ( non e se rnm splendor di que/la consumação, permite que continue a existir o seu caráter de rea-
tdea_ che partor1sce amando 1/ nostro Sire, Par. 13, 53/ 4), e êste lidade histórica, independentemente das suas formas simbólicas
mov1':Ilento de amor é atemporal e opera em todos os fenômenos ou alegóricas; de tal forma que, não obstante figura e consumação
semp1te131amente. A ~eta da história da salvação, a rosa branca se "signifiquem" mutuamente, o seu conteúdo significativo não
do Emplfeo, a comurudade dos eleitos na visão não mais velada exclui, de maneira alguma, a sua realidade. Um acontecimento
~-e ~us, não é somente uma esperança segura no futuro, mas que deve ser interpretado figuralmente preserva o seu sentido
Ja esta, desde sempre, completada em Deus e pré-figurada para literal, histórico; não se converte em mero signo; continua sen-
os homens, assim como Cristo o estava em Adão; fora do tempo do acontecimento. Já os pais da Igreja, especialmente Tertu-
ou em_ todo tem~, no Paraíso se dá o triunfo de Cristo e a liano, Jerônimo e Agostinho, defenderam vitoriosamente o rea-
coroa~ª?. de Mana, e em todo tempo a alina, cujo amor não h<imo figural, quer dizer, a conservação fundamental do caráter
está dmg1do par~ uma meta falsa, vai para o seu amado, Cristo, hi,tórico real das figuras, contra as tendências espiritualistas-
que a ela se prometera através do seu sangue. ulegóricas. Tais tendências, que, por assim dizer, socavam o
!=-ncontram-se na (!~média diversas aparições terrenas, cuja curátcr real do acontecer e não vêem nêle senão um signo e uma
r~açao ~m o _P~ano d1vmo da salvação é explanado com exati- 11nportância extra-históricos, transbordaram da Antigüidade tar-
dao também teoncamente; dentre elas, a mais surpreendente para 1h11 para a Idade Média. O simbolismo e o alegorismo medie-
um observado_r modem~ é a monarquia romana universal; ela v111~ às vêzcs são, como se sabe, extremamente abstratos, e tam-
é, segundo a 1~terpretaçao de Dante, a pré--anunciação concreta hém na Comédia encontram-se muitos traços disto. Mas o que
e terre~a do re_mo de_ J?eus. Já a viagem de Enéias pelo mundo prl•pondcra, de longe, na vida cristã da alta Idade Média é o
subterraneo fo1 perID.Jtlda em vista da vitória secular e espiritual 1l·11li~mo figural, que é encontrado em pleno florescimento nos
d~ Roma (!nf. 2, 13 ss.); R~ma está destinada, desde o princí- •e• mócs, no!> hinos, nas artes plásticas e nos mistérios ( cf. o
pio, a. dom.mar o mundo; Cristo aparece quando O tempo está- 1:11pít11lo anterior); e é êle, também, o que domina a visão de
c~pndo, isto é'. quando o mt_1ndo habitado está em paz, nas 1);111tc. O além é, como já dissemos acima, o ato consumado
maos de Augusto, Brutus e Cáss10, ,os assassinos de César, penam ,lo plnno divino; em relação a êle, os fenômenos terrenos ~ão,
ª? lado de Jud~ _nas ~a~ces de Lucifer; o terceiro César, Tibé- cm tudo, figurais, potenciais e carentes de consumação; isto
':1º• é, como legit~o JU1z.do pomem Cristo, o vingador execu- v11lr. l,1mbém, para cada uma "das almas dos mortos; só aqui,
tivo do pe_cado ongmaI; Tito e o legítimo executor da vingança 1111 11lém, elas ganham a plenitude, a verdadeira realidade da

';º~ra os Judeus; a águia romana e a ave de Deus, e O Paraíso 111111 forma; a sua aparição na Terra não foi senão uma figura
e c amado, uma vez, quella Roma onde Cristo e Romano (cf ,l~sll1 l'on,urnução; e na própria consumação encontram o cas-
Par. 6; Pur~. 21, 82 ss.; lnf. 34, 61 ss.; Purg. 32, 102, etc. ~ 11111, u penitência ou o prêmio. A noção da provisoriedade e da
também muitas passagens da M<XN1rchia) · e além do · cnrf11c111 de consumação no além, da figura humana na Terra,
1 d V' ilº ' ' m~, o 111111hfm corresponde à antropologia tomista, se fôr integralmente
pape e . !rg 10, no poema, só é compreensível a partir desta
pressupos1çao. Isto lembra a figura da Jerusalém terrena e te1111 n 4uc H. Gilson escreveu certa vez a respeito desta última;
celeste, e está pensad? de forma essencialmente figural. Assim '""'R"
11111' Jfl/'/1• i/1• 110us tient que/que peu e11 deçà de notre
como no método de mterpretação judeo-cristão, realizado cabal- /ITO(lrc il~fi11itim1, tU1c11n de 11ous 11e réalise plé11ierement l'essen-
mente por Paulo e pelos pais da Igreja, com referência ao Velho 1 r J11111w/11e 11i méme la notion complete de sa propre indivi-
Testam~nto, ~dão era uma figllfa de Cristo, Eva uma figura ,l,1t11/1rf 11,r 1/1111111.mu·. Jc td., Paris 1927, p. 300). Precisamen-
da _IgreJa, assim como absolutamente tô"da aparição e todo acon- h' 1\111 : '" 1111111111 1"m11p/~1,• de /1•11r prnpre individualité é o que
t~c1mento do Velho Testamento é interpretado como sendo uma 111 111111111 1ccchc111 110 al~111 de Dante, através da sentença de
figura,_que sôm?nte pela aparição e pelos acontcc1mcnto~ da cn- l>cu1, e 1110 11c ,IA ,te 1111111 torn111 411c corresponde tanto à 1ntc-
carnaçao de Cnsto é cabalmente rcali1.ada ou, rnmu diz n CJI• 1uatnçlio l1auu1I, ,1111111h1 1111 co11cci111 11111ilolél11:o lonusln de for•
168 MIMESIS FARlNATA E CAVALCANTE 169

ma, como realidade atual. A relação da figura consumada mática, sena e problemática, não mais existe. Na Comédia,
na qual se . encontram os mortos de Dnte, com respeito só Dante pode sentir essa tensão. Os muitos dramas acabados
ao seu própno passado terreno, é comprovável com maior fa- unem-se numa só e grande peça, na qual se trata dêle mesmo
cilidade aos casos em que não só se cumpre o caráter e a e da humanidade. Todos êles só são exemplos, exempla, para
essência, mas também um significado já reconhecível na figura o ganho ou a perda da eterna bem-aventurança. Mas as pai-
terrena: assim, nor exemplo, no caso de Catão de útica, que xões, os tormentos e as alegrias ficaram preservados, encon-
cumpre a sua função de guarda da liberdade política terrena, tram expressão na situação, nos gestos e na palavra dos mortos.
que era somente figural, ao pé do Purgatório, como guardião Diante de Dante, todos os dramas são apresentados mais uma
da liberdade eterna dos eleitos (Purg. I, 71 ss.: libertà va cer- vez, extremamente concentrados, às vêzes em poucas linhas,
cando; e_ também Archiv. Roman. XXII, 478-81). Aqui, a in- como o de Pia de' Tolomei (Purg. 5, 130), e nêles se clesdo-
terpretaçao figural desvenda o enigma da aparição de Catão num bra de forma aparentemente dispersa e parcelada, mas, toda-
lugar onde é surpreendente achar um pagão. Uma tal prova via dentro de um certo plano, a história florentina, italiana
pode ser achada só raramente; contudo, a partir dos casos nos e ~niversal. Tensão e desenvolvimento, as características do
quais pode ser encontrada, é possível reconhecer a noção fun- acontecer terreno, acabaram, mas, todavia, as ondas da história
damental de Dante acêrca do indivíduo no aquém e no além. rolam até o além, em parte como lembrança de um passado
Caráter e função do homem têm o seu lugar determinado no terreno, em parte como participação de um presente terre,:10,
pensamento divino da ordem, da forma como figuram na Terra cm parte como preocupação com um futuro terreno, em toda
e se cumprem no além. parte como temporalidade, figuralmente cons~rva~a na eter-
nidade atemporal. Cada morto sente a sua s1tuaçao no além
Figura e consumação têm, ambas, como já dissemos a
essência de acontecimentos e fenômenos reais e históricos; a como o último ato, inacabado e sempiterno, do seu drama
i;onsumação a !e~ em grau ainda mais elevado e intenso, pois terreno.
e,. comparada a fi~ura, forma perfectior. A partir daqui, ex- Dante diz a Virgílio no primeiro canto do poema: só
plica-se o sobrepuJante realismo do além dantesco. Quando a ti devo agradecer o belo estilo, que me trouxe a fama. Isto
dizemos "a partir daqui explica-se", não esquecemos natural- certamente é correto, e o é, aliás, muito mais para a Comédia
mente, o gênio do poeta, que foi capaz de produzir 'tais cria- do que para as obras anteriores e para as Canzoni. O motivo
·ções; para dizê-lo com as palavras dos antigos comentaristas, da viagem através do mundo subterrâneo, grande quantid~de
que ( conforme Boécio) diferenciavam causa efficiens, mate- de motivos isolados e muitas formas de linguagem, tudo isto
rialis, formalis e fina/is no poema: causa efficiens in hoc opere, Dante deve a Virgilio; até a mudança da sua concepção esti-
velut in donw facienda aedificator, est Dantes Allegherii de lística com respeito ao tratado De vulgari eloquentia, que o
Florentia, gloriosus theologus, philosophus et poeta (Pietro Ali- h:vou do meramente lírico-filosófico para a grande epopéia e,
ghieri e, de . forma s~melhante, também Jacopo della Lana) ; ,om isto, para a grande representação dos acontecimentos hu-
mas a maneITa especial segundo a qual o seu gênio realista manos, só se pode ter realizado com base nos modelos antigos
ganhou ~orma, nós a explicamos a partir da visão figural; e, cm especial, no de Virgílio. füe foi o primeiro, dentre os
ela permite entender que o além é eterno e é contudo também que conhecemos, que teve acesso imediato ao poeta Virgílio.
f:nô~e~o; imutàveI1;11ente se1!1pitemo, mas também pleno de e ·om êle, muito mais do que com a teoria medieval, forma-se o
h1stonc1dade. Permite, tambem, esclarecer como êste realismo ,cu sentido estilístico e a sua noção do sublime. Através dêle
do além é diferente de todo e qualquer realismo puramente 1111 capaz de romper a moldura da "suprema constructio" pro-
te~eno. No além, o homem não mais está prêso a qualquer Vl"IIÇIII e contemporâneamente italiana, ainda demasiado estreita.
açao ou trama terrenas, como acontece em qualquer mera M,ls enquanto se dedicava à elevad~ obra, q:Ue está sob o s_igno
imitação terrena de acontecimentos humanos; antes, está prêso 1ll• Virgilio, foi ainda a outra tradição, mais presente e vivaz,
a uma situação eterna que é a soma e o resultado de tôdas as ., que o subjugou: o seu grande poema tomou-se figural e
suas ações terrenas, e que, simultâneamente, lhe evidencia o mm mistura de estilos, com base na interpretação figural; tornou-
que houve de decisivo na sua vida e na sua essência; com o uc unlil comédia e também, como criação estilística, cristã.
que a sua memória, embora seja levada por um caminho desa- lkpui~ de tudo o que dissemos a respeito. no decorrer destas
gradável e infrutuoso para os infernícolas, êste caminho não 1111, 1p1l'luc;õcs, não é mais necessária uma nova explicação acêr-
deixar de ser o certo em todos os casos, um caminho que re- c.1 1k- que, e de porque a interpretação de todo o acontecer
vela, sempre, o que foi decisivo na vida. B em tal situação 1c11c:1111, ~omo ~ublime imagem figural, misturando os estilos e
que os mortos se apresentam a Dante; o suspense diante do al.'111 llnutaçao quanto ao objeto ou quanto a expressão, é de
futuro ainda não revelado, que é essencial para tôdu situação o~pía 110 e dl, orrlll'll\ ensinos J11nta-,e 11 isto, ainda, a unidade
terrena e para a sua imitação artística, cspcci.,lmenlll se drn- il11 p1w11111 todo, lllll' coluc,1 uorn f'll'lorn de aêncros e de nçõcs
170 MIMESIS FARINATA E CAVALCANTE 171

num único contexto universal, que une Céu e terra: il poema sobressair a figura ainda mais eficazmente. Devemos admirar
sacro, ai quale ha posto mano e cielo e terra. E, por outro Farinata, e chorar com Cavalcante. O que realmente nos co-
lado, foi o primeiro que sentiu e realizou, e até exacerbou a move não é o fato de Deus tê-los condenado, mas o fato de
gravitas peculiarmente antiga do estilo elevado. :Ble próprio que o primeiro permanece vigoroso e de que o outro clama tão
pode dizer o que quiser, que o seu poema é baixo, grotesco, cortantemente pelo seu filho e pela doce luz. A terrível situação
horrível, ou irônico: permanece no tom elevado; nunca o rea- da sua condenação serve, por assim dizer, só de meio para exa-
lismo da Comédia poderia cair, como o do teatro cristão, no cerbar êstes movimentos totalmente terrenos. O problema fica,
farsesco; nunca poderia servir para o divertimento vulgar. O porém, em limites demasiado estreitos se fôr reduzido, como
nível do tom de Dante é impensável em obras épicas medievais aconteceu freqüentemente, à mera admiração ou compaixão de
anteriores, e está formado, como pode ser comprovado com base Dante por alguns infernícolas. O que queremos dizer de essen-
em muitos exemplos, segundo modelos antigos (um belo exem- cial não se limita ao Inferno nem, por outro lado, à simpatia ou
plo, a sua fórmula invocatória com se a partir da forma clás- admiração de Dante. Em tôda parte há exemplos nos quais _o
sica com sic, acêrca do qual falou recentemente G. Bonfante, efeito da situação e do destino terrenos ultrapassa o da si-
nas Publications of the Med. Lang. Assoe. LVII, 930). A poe- tuação eterna ou põe esta última a seu serviço. Certamente,
sia pré-dantesca em línguas vulgares, sobretudo a cristã, é, no os nobres condenados como Francesca da Rimini, Farinata, Bru-
seu todo, bastante ingênua em questões estilísticas, apesar da netto Latini ou Pier della Vigna são bons exemplos para o meu
influência da retórica escolástica, que foi recente e repetida- pensamento; mas coloca-se mal o acento, acho, se só se tomar
mente assinalada; Dante, porém, não obstante pegue o seu êstes em consideração, pois, para uma doutrina que faz depen-
material da língua popular mais viva, às vêzes até da mais der o destino eterno da graça e do arrependimento, tais figuras
baixa, perdeu essa ingenuidade. Força tôdas as formas de lin- no Inferno são tão ineludíveis quanto os virtuosos pagãos no
guagem na gravidade do seu tom, e quando canta a ordem Limbo. Tão logo é feita, porém, a pergunta, por que Dante
universal divina, põe a serviço desta tarefa construções perió- foi o primeiro a sentir o trágico de tais figuras, e por que
dicas e instrumentos sintáticos que dominam imensas massas chegou a exprimi-lo com tôda sua fôrça sobrepujante, amplia-
de pensamentos e concatenações de acontecimentos. Nada seme- sc, de imediato, o círculo de observação, pois Dante tratou todo
lhante existiu na poesia, desde a Antigüidade (um exemplo dentre o terreno que estava ao seu alcance com igual fôrça. Cavalcante
muitos: lnf. 2, 13-36). Será que o estilo de Dante é ainda um não é grande, e pessoas como o devasso Ciacco ou como Fi-
sermo remissus et humilis, como êle próprio diz e como deve ser lippo Argenti, desfigurado pela ira, são tratados por êle seja
o estilo cristão também no sublime? Talvez se pudesse responder com compassivo desprêw, seja com abominação. Isto não im-
afirmativamente; também os pais da Igreja não desprezaram & pede que, também nestes casos, o quadro das paixões terrenas
arte consciente do discurso; nem mesmo Santo Agostinho o fêz; sobrepuje o quadro da pena coletiva, na sua consumação ulte-
o decisivo, porém, são a causa e as convicções a cujo serviço rior e totalmente individual e que a pena sirva, muito freqüen-
estão os meios artísticos. temente, só para maior efeito do primeiro quadro. Jsto vale
No nosso trecho, são dois condenados os que são intro- mesmo para os que são mencionados no Purgatório e no Pa-
rniso. Casella, que canta uma Canzone de Dante, e os seus
duzidos em estilo elevado, e cujo ser terreno é conservado, em
ouvintes (Purg. 2); Buonconte, que narra a sua morte e o des-
tôda sua realidade, no local ulterior. Farinata é grande e or-
tino do seu corpo (Purg. 5); Estácio, que se prostra diante do
gulhoso como sempre, e Cavalcante não ama menos a luz do
~cu mestre, Virgílio (Purg. 21); o jovem rei dos húngaros,
mundo e o seu filho, mais ardentemente até, na sua desespe-
Cnrlos Marte! de Anjou, que tão encantadoramente anuncia a
ração, do que outrora, na Terra. Assim Deus o quis, e assim 111m nfeição por Dante (Par. 8); Cacciaguida, o orgulhoso ante-
encaixa no realismo figural da tradição cristã. Só que nunca,
1rnssado de Dante, patriarcal, pleno da história urbana de Fio•
até então, êste foi levado a tal extremo; nunca foi empregada 1t·nça (Par. 15-17), até mesmo o apóstolo Pedro (Par. 27), e
tanta arte nem tanta fôrça expressiva, nem mesmo, quase, na
q1111ntos outros ainda, desdobram diante de nós um mundo de
Antigüidade, para tornar a forma terrena da figura humana vida terreno-histórica, de atos, empenhos, sentimentos e paixões
de uma evidência quase dolorosamente penetrante. Justamente terrenos, de uma forma tão plena e forte como o próprio ce-
a indestructibilidade cristã do homem inteiro permitiu isto; e 11111 lo terreno dificilmente poderia oferecer. Certamente, todos
justamente, na medida em que êle o executou com tanta fôrça ~ êlc~ cstdo firmemente ensamblados na ordem divina; certamen-
com tattta realidade, abriu caminho para a tendência do ser
h: um gronde poeta cristão tem o direito de manter a humani-
terrestre para a autonomia. Criou, em meio ao além, um mun-
tlhde terrena no nlém, de manter a figura na consumação e de
do de sêres e paixões terrestres que, no seu efeito, sai da mol
n1l\·rfcu;oá-la na mcd1dn dns suas fôrças. Mas a grande arte
dura e se torna independente. A figura ultrapassa 11 consumu dr Dunll' vai tiio longe, que o efeito reverte sôbrc o terreno,
ção, ou, mais prôpriamente, a consunrnçlio scrvci pnrn flln·1
172 MIMESIS FARINATA E CAVALCANTE 173

e que a consumação da figura arrebata demasiadamente o ou- mais forte, concreta e peculiar do que, por exemplo, na poesia
vinte; o além torna-se teatro do homem e das suas paixões. antiga. Pois, da autoconsumação que compreende tôda a vida
Pense-se na arte figural anterior, nos mistérios, nas artes plás- passada, tanto objetivamente, como na memória, faz parte um
ticas eclesiásticas, que não se atreveram a se afastar, ou se afas- desenvolvimento histórico-individual, uma história, em cada
taram muito timidamente daquilo que era dado pela história caso individual, de um devir cujo resultado está diante de nós
bíblica de forma imediata; que começaram a imitar a realidade como coisa pronta, mas cujos estágios são apresentados, porém,
e o indivíduo somente para tornar vivos os acontecimentos bí- em muitos casos, pormenorizadamente; nunca ela permanece
blicos; e contraponha-se a isto Dante, que faz com que ganhe totalmente oculta diante de nós; averiguamos, de maneira muito
vida, dentro da moldura figural, todo o universo histórico e, mais exata do que a poesia antiga era capaz de representar, no
dentro dêle, fundamentalmente, tôda figura humana que está ser atemporal, o devir histórico interno.
ao seu alcance! Isto, contudo, não deixa de ser a reivindicação
da exegese judeo-cristã dos acontecimentos, desde os primór-
dios; reivindica validade universal; mas a plenitude da vida
encaixada nesta exegese é tão rica e forte, que as suas aparições
conquistam o seu lugar na alma do ouvinte, também indepen-
demente de tôda e qualquer interpretação. Quem ouvir o grito
de Cavalcante: non fiere li occhi suoi il dolce . fome? - Olt
quem ler o belo, suave e tão encantadoramente feminino verso
dito por Pia de' Tolomei, antes de pedir a Dante que se lembre
tlela na Terra (e riposato de la lunga via, Purg. 5, 131) - a
sua emoção dirigir-se-á para o ser humano e não, imediata-
mente, para a ordem divina, na qual acharam o seu cumpri-
mento; a sua situação eterna na ordem divina só se torna cons-
ciente como cenário, cuja irrevocabilidade somente exacerba o
efeito da sua humanidade, mantida em tôda a sua fôrça. Che-
ga-se a uma experiência imediata da vida, uma experiência que
sobrepuja tôdas as outras, a uma concepção do ser humano que
tanto se espraia multiplamente, quanto penetra profundamente
até as raízes do sentimento, um esclarecimento das suas emoções
e paixões, que leva, sem inibições, à cálida participação e até à
admiração da sua multiplicidade e grandeza. E, dentro desta
participação imediata e admirada do ser humano, a indestruti-
bilidade do ser humano total, histórico e individual, baseada na
ordem divina, dirige-se contra a ordem divina; põe a mesma a
seu serviço e a obscurece; a figura do ser humano coloca-se à
frente da figura de Deus. A obra de Dante tornou realidade a
essência cristã-figural do homem e a destruiu na mesma reali-
zação; a poderosa moldura rompeu-se pela supremacia dos
quadros que envolvia. As grosseiras desordens, em direção às
quais levou o realismo farsesco dos mistérios, na Idade Média
posterior, não são nem longlnquamente tão perigosas para a
manutenção de uma interpretação cristã-figural dos aconteci-
mentos como o estilo elevado de um tal poeta, no qual os
homens se vêem e se reconhecem a si próprios. Nesta consu-
mação a figura torna-se independente de tal forma, que mesmo
no Inferno ainda há grandes almas, e que no Purgatório algumas
almas esquecem, por alguns instantes, o caminho da purifica-
ção, por causa da doçura de um poema, da obra de um ser
humano. E, em conseqüência das peculiares condições do I\Uto-
cumprimento no além, u figura humana se impõe de mn11e1ru
Frate Alberto FRATE ALBERTO 175

per le piaghe di Dio egli il fa meglio che mio marido; e dicemi


che egli si fa ancbe colassu; ma perciocche io gli paio piu bella
che niuna che ne sia in cielo, s'e egli innamorato di me, e
viensene a star meco ben spesso: mo vedi vu? La comare par-
tita da madonna Lisetta, le parve mille anni che ella fosse in
parte ove ella potesse queste cose ridire; e ragunatasí ad una
festa con una gran brigata di donne, ]oro ordinatamente rac-
contõ la novella. Queste donne il dissero a' mariti et ad altre
donne; e quelle a quell'altre, e cosi in meno di due dl ne fu
tutta ripíena Vinegia. Ma tra gli altri, a' quali questa cosa
venne agli orecchi, furono i cognati di lei, li quali, senza alcuna
cosa dirle, si posero in cuore di trovare questo agnolo, e di
sapere se egli sapesse volare; e piu notti stettero in posta.
A vvenne che di questo fatto alcuna novelluzza ne venne a frate
Alberto agli orecchi, il quale, per riprender la donna, una notte
andatovi, appena spogliato s'era, che i cognati di lei, che veduto
ravean venire, furono all'uscio della sua camera per aprirlo. II
che frate Alberto sentendo, e avvisato cio che era, levatosi, non
avendo altro rifugio, aperse una finestra, la qual sopra il mag-

9
Numa f~mosa novela do Decameron (4, 2) Boccaccio gior canal rispondea, e quindi si gittõ nell'aqua. II fondo v'era
conta acerca de um homem de Imola, que tinha feito a grande, et egli sapeva ben notare, si che male alcun non si
sua vida impossível na sua cidade natal pela sua devassi- fece: e notato dall'altra parte dei canale, in una casa, che
, dão e_ ~!as suas falcatru~s, de tal forma que preferiu aperta v'era, prestamente se n'entrô, pregando un buono uomo,
aba~dona-Ja. Dmgrn-se a Veneza; la tornou-se monge franciscano, che dentro v'era, cbe per !'amor di Dio gli scampasse la vita, sue
e at;,sa~erdote; c~amou-se Frate Alberto e conseguiu, mediante favole dicendo, percbe quivi a quella ora et ignudo fosse. II
pemtencias chamat1vas e gestos e sermões pios, pôr-se em cena de buono uomo mosso a pietà, convenendogli andare a far sue
~ forma, que era _tid_? por homem grato a Deus e digno de con- bisogne, nel suo letto il mise, e dissegli cbe quivi infino alia
fiança. ,ora, um dia ele conta a uma confessada, pessoa especial- sua tornata si stesse; e dentro serratolo, ando a fare i fatti
n:iente tola e presunçosa, mulher de um comerciante, ausente da suoi. I cognatí della donna entrati nella camera trovarono che
c1da~e,_ qu~ .º, anj~ G~brie! estaria apaixonado pela sua beleza e l'agnolo Gabriello, quivi avendo lasciate l'ali, se n'era volato:
deseJana v1s1ta-Ja a n01t~; ele próprio a visita como anjo Gabriel, di che quasí scomati, grandíssima villania dissero alla donnll, e
e goza com ela. Isto vai em fren~e dessa maneira por um tempo, lei ultimamente sconsolata lasciarono stare, et a casa lor tornarsi
con gli arnesi dell'agnolo.
mas acaba por levar um mau fim, da seguinte forma: ..
Pure avenne un giorno che, essendo madonna Lisetta con Ora aconteceu um dia, estando madona Lisetta com uma sua
una su~ com~re, et ~sieme di_ bellezze quistionando, per porre comadre, falando juntas acêrca de beleza, que, para pôr a sua à
~a sua mna1:1z1 a~ ogm ~ltra, s1 come colei che poco sale aveva frente de tôdas as outras, e como ela tivesse pouco sal na cabeça,
m ~~cca,_ disse: Se vo1 sapeste a cui la mia belleza piace, in disse: Se soubesses a quem apraz a minha beleza, em verdade
calarias acêrca de tôdas as outras. A comadre, sequiosa de ouvir,
ven~a vot tacereste dell'altre. La comare vaga d'udire, si come como bem a conhecia, disse: Madona, poderíeis dizer a verdade,
colei che _ben la cono~cea, disse: Madona, voí potreste dir vero, mus todavia, não sabendo quem seja êste, não poderei mudar de
ma tuttavrn non sapp1endo chi questo si sia, altri non si rivol- opinião tão depressa. Então a mulher, que pouca inteligência tinha,
gerebbe. cosi di leggiero. Allora la donna, che piccola levatura tli~se: Comadre, não deveria dizê-lo, mas o meu bem-amado é o
ª".ea,, d1,sse: Comare,_ egli _non si vu_ol dire, ,ma l'intendimento unjo Gabriel, que me ama mais do que a si próprio, pois sou a
m10_,e I agnolo Gabnello, il quale p1u che se m'ama, si come nud~ bela mulher, pelo que me diz, que há no mundo ou no pântano.
la piu_ bella donna, per quello che egli mi dica, che sia nel mon- A conrndre teve, então, vontade de rir, mas se conteve para faz.ê-la
do o _m maremma. La comare allora ebbe voglia di ridere ma folur mais, e disse: Pela fé em Deus, madona, se o anjo Gabriel é
pur s1 tenne per faria piu avanti parlare, e disse: ln fe di 'oio, o vosso bem-amado, e vos disse isto, isso bem deve ser assim; mas
madonna, ~e l'agnolo Gabriello e vostro inlendimcnto, e diccví cu nllu pensei que os anjos fi1.essem estas coisas. Disse a mulher:
C'i111111drc, e~t11is erruda; pelas chagas de Deus, êle o faz melhor que
questo, egh dee ben ess~r cosi; ma io non crcdcva chc li ugnolc
11 mr.11 mnrido; e tli;, (llle iNNo Ne fnz também lá em cima; mas como
facesson queste cose. Disse la donna: C'omnrc, voi s1ctc ,·rruta; lhl'I p111e1;0 111111• lll"lu llu 1111e nc:nh11rn11 du• 411c esmo no céu, enu
176 MIMESIS FRATE ALBERTO 177

morou-se de mim, e vem ter comigo muito amiúde: que dizeis nal. A conversa entre as duas mulheres é uma v1v1ss1IDa cena
agora? Tendo a comadre deixado madona Lisetta, pareceu-lhe que do quotidiano, psicológica e estilisticamente formulada com mes-
se passaram mil anos antes que chegasse onde pudesse recontar tria. Tanto a comadre, que, com maliciosa cortesia, reprimindo o
estas coisas; e chegada a uma festa com um grande grupo de riso, exprime algumas dúvidas, para levar Lisetta a tagarelar
mulheres, contou-lhe pormenorizadamente a novidade. Estas nm- cada vez mais, como também esta última, que se deixa atrair.
lheres contaram-nas aos maridos e a outras mulheres, e estas, por
sua vez, a outras, de tal forma que, em menos de dois dias, tôda levada pela ostentação, para além dos limites da• sua tolice
Veneza estava cheia disso. Mas entre aquêles a cujos ouvidos esta inata, parecem extremamente legítimas e naturais. Contudo, .os
coisa chegou, estavam os cunhados de Lisetta, e êstes tomaram, recursos estilísticos que Boccaccio utiliza não são, de maneira
sem nada dizer-lhe, a decisão de encontrar êste anjo e de averiguar alguma, puramente populares. A sua prosa, formada por mo-
se sabia voar; e durante várias noites ficaram de guarda. Aconteceu delos antigos e pelas prescrições da retórica medieval, põe em
que dêste fato alguma notícia chegou aos ouvidos de frate Alberto jôgo todos os seus recursos: sumário de muitos fatos num só
o qual, para repreender a mulher, foi urna noite ter com ela. Porém: período, mudança e interferências sintáticas para salientar o
apenas se havia despido, os cunhados dela, que o haviam visto mais importante, ou tempo mais rápido ou mais lento da pro-
chegar, já estavam à porta do quarto, para abri-la. Ao ouvir isto, gressão, isto é, o efeito rítmico-melódico. Já a oração intro-
frate Alberto, que estava avisado, levantou-se e, não tendo outro dutória é um período rico, e os dois gerúndios essendo e quis-
refúgio, abriu uma janela que dava sôbre o Canal Maior e se jogou
tionanào, um no comêço e outro no fim, com o confortável
n~ água, que ali era funda. .Êle sabia nadar bem, de tal forma que
nao sofreu dano: e, tendo nadado até o outro lado dó canal entrou espaço que abrangem, são tão bem calculadas como a evidencia-
ràpidamente em uma casa que estava aberta, pedindo a u~ bom ção sintática de la sua como fim da primeira de duas cláu-
homem, que estava dentro, que pelo amor de Deus lhe salvasse a sulas de construção rítmica bem semelhante, a segunda das
vida, dizendo suas fábulas acêrca do porque estava lá àquela hora quais se encerra com ogni altra. Quando, depois, começa a
e nu. O bom homem sentiu piedade, e, tendo que .partir para cuidar fala, a boa Lisetta, de tanto entusiasmo, começa quase a cantar:
de, seus negócios, colo~ou-o no seu leito, e lhe disse que ali ficasse se voi sapeste a cui la mia bellezza piace. . . Ainda mais bela
ate a sua volta. Depois, encerrou-o e foi cuidar dos seus negócios. é a sua segunda fala, com as várias partes da oração, curtas,
Os c~nhados da ~ulher, entrando no quarto, acharam que o anjo de número quase igual de sílabas, nas quais predomina o assim
~abnel, tendo deixado no lugar as suas asas, tinha voado; sen- chamado cursus velox; a mais bela delas; ma l'intendiménto
tmdo-se escornados, disseram as maiores grosserias à mulher e dei- mío/e fág,no/o Gabriéllo, ressoa como eco na resposta da co-
xaram-na estar, finalmente, desconsolada e voltaram à sua c~sa com madre: se l'ágnolo Gabriéllo/e vóstro intendiménto. Nesta se-
os arnêses do anjo. '
gunda fala aparecem, pela primeira vez, vulgarismos: intendi-
.. mento, de colorido antes social do que local, dificilmente teria
A história acaba, como disse, de maneira muito ruim para pertencido, com esta acepção (algo como desiderium; no Libro
frate Albert_o. O seu hospedeiro ouve, no Rialto, o que acon- dei buen a,:nor, "entendedera"; em português talvez, "namo-
teceu de n01te na casa de madona Lisetta e adivinha quem está rada"), à linguagem distinta, tampouco como a forma (que
albergando. Extorque de Frate Alberto uma grande soma, mas também constrói uma bela frase) nel mondo o in maremma.
o trai assim mesmo, e de uma forma tão vil, que o frade acaba Quanto mais se esforça, tanto mais freqüentes se tornam as
sendo o centro de uma cena pública, de cujas conseqüências mo- formas de linguagem vulgar ou até dialetal: o veneziano ma-
rais e práticas nunca mais se recupera. Chega-se a sentir pena rido, na encantadora frase que reforça o preço das proezas
d!le, sobretu_do considerando com que contentamento e aprova- eróticas do anjo Gabriel com a fórmula conjuratória per le
ç~o Boccacc10 conta ~utros feitos eróticos de clérigos, que• não piaghe di Dio, assim como o efeito final, também veneziano,
sao melhores do que este (por exemplo 3,4, a história do mon- mo vedi vu, cujo tom ordinàriarnente triunfal tem um efeito
ge Dom Feiice, que convence o marido da sua amante a fazer tnnto mais cômico, quanto ela acaba de cantar docemente: ...
uma penitência ridícula, de modo que fica fora de casa à noite, m" perciocche io gli paio piu bella che niuna che ne sia in cielo,
ou 3,8, a história de um abade, que envia o marido da sua s•~ egli innamorato di me . . . Os dois períodos seguintes re-
amante por um tempo para o purgatório, e, ainda mais, lá o faz sumem a difusão do boato pela cidade em duas etapas; a pri-
fazer penitência). rncirn leva de la comare até a brigata di donne, a segunda de
O trecho que aqui transcrevi traz a crise da novela. Está q11e.vt1• dorine até Vinegia; ou, se se quiser, a primeira de par-
constituído pela conversação de madona Lisetta com a sua co- 1/111 uté mccontõ, a segunda de dissero até fu tutta ripiena; ambas
madre e pelas suas conseqüências: a difusão do estranho boato tem grande emoção interna; a primeira, pela impaciência da
pela cidade; a decisão dos parentes, a cujos ouvidos também rnmudrc de pn~~n, 11d1,mlc n história, uma impaciência cuja ur-
chegou, de caçar o anjo; e a cena notuma, na quul o frndr 11c ~l'nl'lu e cujo 11p111ig1111n1cnlo f mui uparcce excelentemente num
salva dos perigos do momento pelo nuduz pulo no Grundc Ca 111ovi111l'nto corrCK(llllllkntr dn~ verbos (p11rtit(l le par111•
FRATE ALBERTO 179
178 MIMESIS

mille anni che ella fosse . . . dove potesse . . . e ragunatasi ... chos que estão entre os verbos são curtos e prementes; extrema-
ordinatamente raccontà); a segunda pela gradual ampliação, ex-
mente concentrado, o trecho quivi a que/la ora e if{nudo. De-
pois há uma vazante; as orações seguintes ainda estão repletas
pressa paratàticamente, do campo de difusão. Daqui em diante,
de indicações fatuais e, portanto, também, de hipotaxes parti-
a narração torna-se mais rápida e dramática. Já a oração se- cipiais, mas já há o predomínio de orações principais que pro-
guinte vai do momento em que o boato chega aos ouvidos dos gridem com mais regularidade, unidas por "e": mise, et dis-
parentes, até o momento da sua espreita noturna, não obstante segli, e andà; ainda bastante dramàticamente entrato . . . trovano
nela sejam t_ambém ditos alguns pormenores em parte objetivos, che . . . se n' era volato; relaxando-se gradualmente na seqüência
em parte ps1colõgicamente descritivos. Esta oração parece, con- paratática, dissero, e ultimamente lasciarono stare, e tornarsi.
tudo, relativamente vazia e calma, quando comparada com as
duas subseguintes, que deixam transcorrer tôda a cena notur- Nada destas artes pode ser encontrado em narrações mais
na na casa de Lisetta, até o audaz pulo de frate Alberto em antigas. Tomemos, em primeiro lugar, um exemplo qualquer
dois períodos, que, juntos, constituem, contudo um só 'mo- das narrações burlescas em verso, em francês arcaico, as quais,
vimento. Isto acontece pelo encadeamento de f~rmas hipotáti- na sua maior parte, surgiram aproximadamente um século antes
cas, sendo que as construções participiais, muito empregadas de Boccaccio. Escolho um trecho do Fablel du prestre qui ot
em geral, por Boccaccio, têm, aqui, um papel preponderant;. mere a force (do manuscrito berlinense Hamilton 257, segundo
A primeira oração começa, ainda, calmamente com o verbo o texto de G. Rohlfs, Sechs altfranzoesische Fablels, Halle 1925,
principal avenne e com a oração-sujeito corres;ondente che . .. pág. 12) . Fala-se, aí, num sacerdote que tem uma mãe muito
venne . . . mas na oração relativa seguinte, il quale, isto é malvada, feia e avarenta, que êle mantém afastada da sua casa,
urna oração secundária de segundo grau, desencadeia-se a c~- enquanto mima muito a sua amante, especialmente dando-lhe
tástrofe: ... andaJovi, appena spogliato sera, che i cognati ... vestimentas. A velha briguenta queixa-se a respeito, e êle res-
fu~ono all'uscio. E então segue uma tempestade de formas ver- ponde;
bais que se perseguem: sentendo, e avvisato, levatosi, non aven- "Tesiez", dist il, "vos estes sole;
do, ap!r~e, e si_ gittà. Isto tem um efeito extremamente rápido 25 De quoi me menez vos dangier,
e prec1p1tado, Já pelo pouco comprimento das partes, que se Se du pein avez a mengier,
e~purram u!llas às outras; e justamente por isso, e apesar da De mon potage et de mes pois;
onge~ e~d1t?mente ant_iga das formas estilísticas empregadas, Encor est ce desor mon poi~,
o _efeito nao e, de mane!fa alguma, o próprio da linguagem es- Car vos m'avez dit mainte honte."
cnta, mas permanece no tom da narrativa, tanto mais quanto a
colocação dos verbos e, com ela, o comprimento e o tempo dos 30 La vieille dit: "Rien ne vos monte
trechos de orações que estão entre êles, mudam constantemente Que ie vodre d'ore en avant
de uma maneira artisticamente espontânea: sentendo e avvisato Que vos me teigniez par covent
estão muito próximos entre si, assim também /evatosi e non A grant honor com vostre mere."
averufo; logo mais segue:s~ aperse, mas somente após a oração Li prestre a dit: "Par seint pere,
relativa correspondente a Janela, aparece o conclusivo se gittà. 35 James du mien ne mengera,
Aliás, não me parece muito claro por que Boccaccio faz com Or face au pis qu'ele porra
que o frade !enha _ouvido algoA dos. bo_atos que andavam por aí; Ou au mieus tant com il li loist!"
um homem tao ladmo quanto ele difictlmente se arriscaria numa "Si ierai, roes que bien vos poist",
situação tão perigosa como essa, só para repreender Lisetta, se Fet ceie, "car ie m'en irai
pressentisse o perigo. Seria muito mais natural, segundo me 40 A l'evesque et li conterai
parece, que não suspeitasse nada; não é necessária nenhuma mo- Vostre errement et vostre vie,
tivação especial através de uma suspeita anterior para a sua Com vostre meschine est servie
rápida e audaciosa fuga. Ou Boccaccio tinha um outro motivo A mengier a ases et robes,
para esta observação? Não vejo nenhum. - Enquanto o frade Et moí volez pestre de lobes;
atravessa o· canal, a narração torna-se um pouco mais calma 45 De vostre avoir n'ai bien ne part."
mais relaxada e lenta; aparecem verbos principais no imperfeit~ A cest mot la vieille s'en part
descritivo, em ordem paratática; mas apenas atingiu a outra Tote dolente et tot irée.
margem do canal, o apressado mecanismo dos verbos recomeça Droit a J'evesque en est allée.
especialmente com a sua entrada na casa estranha: prestamellt,; A li s'cn vicnt et si se claime
se n'entrà, pregando ... che per l'amor d,' /),'o gli ,1·c,m1pa.1·.w· 50 De 80n fiuz qui noient ne l'aimc,
la vita, sue favo/e di'cendo, perr:h~ . fo.m•. 1nmhérn º" Ire N1• ph1\ 1111r il frroil un chicn,
180 MIMESIS FRATE ALBERTO 181

Ne li veut il fere nul bien. sua côrte; êle o terá de rédea curta, se não der à sua mãe o que
" De tot en tot tient sa meschine ê de direito; temo muito que deverá pagá-lo caro. Quando chegou
Qu'il eime plus que sa cosine; o dia e a hora, em que o bispo fazia o seu juízo, havia lá muitos
55 clérigos e outras pessoas, de padres só havia mais de du:zentos. A
Ceie a des robes a plenté." velha não calou, foi diretamente ao bispo e conta-lhe novamente a
Quant la vieille ot tot conté sua necessidade. O bispo diz que não se afaste, que tão logo o seu
A l'evesque ce que li pot, filho chegue, saiba que o suspenderá e lhe tirará todo o seu be-
II li respont a un seu) mot, nefício . ..
A tant ne li vot plus respondre,
60 Que il fera soo fiz semondre,
Qu'il vieigne a court le jour nommé. A velha entende a palavra soupendra erradamente; acre-
La vieille l'en a encliné, dita que o seu filho será enforcado. Arrepende-se, então, de
Si s'en part sanz autre response. tê-lo acusado e, no seu terror, mostra o primeiro clérigo que
Et l'evesque fist sa semonse entra como sendo seu filho. O bispo dirige-se a êste incauto de
65 A soo fil que il vieigne a court; maneira tão violenta, que êste nem consegue abrir a bôca; or-
II le voudra tenir si court, dena-lhe que leve sua velha mãe imediatamente consigo e que
S'il ne fet reson a sa mere. a trate de ora em diante decentemente, como se deve; ai dêle,
Je criem trop que il le compere. se chegarem aos seus ouvidos novas queixas! O homem, estu-
Quant Ie termes et le jor vint, pefato, carrega a velha consigo no seu cavalo e encontra, no
70 Que li evesques ses plet tint, seu caminho de volta, o verdadeiro filho da velha, a quem conta
Mout i ot clers et autres genz, a sua aventura, enquanto a velha faz sinais ao filho para que
Des proverres plus de deus cens. não se dê a conhecer. O outro encerra a sua narrativa com a
La vieille ne s'est pas tue, asseveração de que daria àquele que o livrasse dêste encargo qua-
Droit a l'evesque en est venue renta libras, e de boa vontade. Bem, diz o filho, o negócio
75 Si li reconte sa besoigne. está feito; dai-me o dinheiro, eu fico com a velha. E assim
L'evesque dit qu'il ne s'esloigne, acontece.
~ar tantost com ses fiz vendra, Também aqui a narração transcrita começa com uma con-
Sache bien qu'i le soupendra versa realista; uma cena do quotidiano, a briga entre mãe e
Et toudra tot son benefice .. . filho, e também aqui a conversa contém um aumento gradativo
,. muito vivaz: assiro como lá a comadre leva Lisetta a tagarelar
cnda vez mais, mediante as suas observações maliciosamente
_ ~lai-vos, disse êle, vós sois tôla; de que vos queixais, se umáveis, até que esta desvende o seu segrêdo, aqui a velha
heis pa~ para comer, e também minha sopa e minhas ervilhas; e 1rríta o seu filho de tal forma, com as suas falas rabugentas, que
mesmo isso faço de má vontade, porque dizeis muita coisa vergo-
nhosa a meu respeito. - A velha diz: Tudo isto não vos adiantará C~tc acaba por estourar e por ameaçá-la com deixar de dar-lhe
de nada, quero que d'ora em diante vos comprometais a ter-me em nllmcntos, diante do qual a velha, também irada, corre ao bispo
grande honra,_ como V?ssa mãe., - O padre disse: Pelo santo pai, p11rt1 se queixar. Não obstante não seja fácil determinar o dia-
esta nada mais comera do que e meu; faça o que fizer, o pior que leto desta peça (Rohlfs acha provável que seja o da Ile-de-
possa, ou o melhor, como ela quiser! - Sim, assim farei falou ela Jtrnucc), o tom da conversa certamente é muito mais pura-
d~ m<?do 9ue muito vos pese, pois irei ao bispo e contar-lhe-ei ~ 111t·n1c popular, muito menos estilizado do que o de Boccaccio.
vida hc~nc1osa que levais, como a vossa amante é servida, como ela
tem mmto para C_?mer e bastantes vestidos, e a mim quereis alimentar LJ niformcntc, é assim que o povo, ao qual também pertence o
com palavras; nao tenho a menor parte do vosso haver. _ Com dr.lO inferior, sói falar: geralmente de forma paratática, com
estas palavras a velha partiu, tôda dolorida e irada. Foi diretamente 1w, 1i1mtns e exclam ações vivazes, com muitas expressões po-
falar co~ o bispo; vai a êle e clama que o seu filho a trata sem p11l11n.·~ c de forma extremament~ franca. Também o tom do
amor, nao melhor do que trataria um cão, e que não quer fazer-lhe 111 úJII 10 nnrrndor não difere muito do das suas personagens;
nenhum b~m. Gosta mais da sua amante do que de tudo o mais; t11111Mm êlc narra neste tom simples e vivazmente sensível, des-
ama-~ mais do que aos seus parentes; ela tem vestidos em grande
l.lrVl"ndo tL situação com os recursos mais modestos e com as
quantidade. -;-- Quando a velha contou ao bispo tudo o que podia, êle
res~ondeu so com ui:na palavra,_ que mais não lhe queria responder p11l,1v1 ,tN muig corriquciraA. A única estilização à qual recorre
e~tao; que_ convocaria o seu filho para aparecer diante dêle num ~ u vo1hu, u uctoKsílaho rimado par a par, que favorece as cons-
dia de~ermmado. A velha inclinou-se e partiu sem outru respo~tn. 1, 11c;l'lll• 1i111(1t1i:11-. muito 111mplcs e curtas e ainda não pressente
E o b1sp0 mandou uma convocação n seu filho, p11rn yue v1eN\e 11 ,1111111 1h1 1hvr11hh11k I itmii:11 de futurnN c\péclcs de verso norrn-
182 MlMESIS FRATE ALBERTO 183

tivo, como o de Ariosto ou o de Lafontaine. A ordenação da condicionadas pela casualidade do local de origem da peça em
narração que segue a conversa torna-se, desta forma, totalmente questão. No caso de Boccaccio, porém, temos um autor que, ao
;:arente de arte, ainda que seja agradável pela sua frescura; na lado dêste cenário veneziano, escolheu muitos outros cenários pa-
sucessão paratática, . sem epítase nem desenlace, sem nenhum ra as suas estórias burlescas: por exemplo, Nápoles, na novela de
su~ário_ do secundário, sem nenhuma mudança do andamento, Andreuccio da Penigia (2,5) ; Palermo, na de Sabaetto ( 8,10) ;
a htstóna corre, ou tropeça, em frente; para acomodar o qüi- Florença e seus arredores numa longa série de estórias. E o
proquó do soupendre, a cena da velha diante do bispo precisa que vale para os cenários, vale também para o meio social :
ser repetida, e o próprio bispo deve assumir a sua posição três Boccaccio examina e descreve da maneira mais concreta tôdas
vêzes. Não há dúvida de que com isto e, em geral, com os as camadas sociais, todos os ofícios e as classes do seu tempo.
muitos pormenores e versos de recheio, que são intercalados A distância entre a arte do fablel e a de Boccaccio não se ma-
para vencer dificuldades rímicas, a narração ganha uma amplidão nifesta, absolutamente, tão só no aspecto estilístico: a caracte-
agradàvelmente confortável; mas a sua composição é crua, e o rização das personagens, o cenário local e o social são, simul-
seu caráter é meramente popular, no sentido de que o próprio tâneamente, muito mais rigorosamente individualizados e espa-
narrador faz parte do povo, acêrca do qual está falando e, na- cialmente amplos; o consciente entendimento artístico de um
turalmente, também daquele ao qual está se dirigindo. O seu homem que está por cima dos seus objetos e que só mergulha
próprio círc~lo visual não é, nem social nem moralmente, maior nêles na medida em que êle próprio quer, modela as estruturas
do que aquele das suas personagens ou dos seus ouvintes, cujo narrativas segundo a sua vontade.
riso quer provocar com a sua narração; narrador, narração e No que se refere às narrações italianas, que conhecemos do
ouvintes, todos pertencem ao mesmo mundo, o· do povo miúdo, tempo de Boccaccio, elas têm antes o caráter de anedotas mo-
inculto, estética e moralmente despretensioso. Disto também rais ou cômicas; tanto os seus recursos lingüísticos, quanto o
depende a caracterização das personagens, que, apesar de ser círculo da sua visão e das suas representações, são demasiado
vivaz e manifesta, é, comparativamente, crua e carente de ma- limitados para conseguir uma representação peculiar das per-
tizes: são tipos populares que todos conheciam: um padre rús- ~onagens ou dos cenários. Freqüentemente apresentam uma
tico, aberto aos gozos terrenos de tôda espécie, uma velha ran- certa elegância frágil na expressão; ficam, porém, muito atrás
zinza; as personagens secundárias nem estão caracterizadas co- do Ja.blel quanto à fôrça de ataque aos sentidos. Eis um exem-
mo sêres especiais; sômente o seu comportamento o é, como
resulta da situação. plo:
Com respeito ao frade Alberto, ao contrário, é narrada Uno s'andô a confessare ai prete suo, ed intra l'altre cose
tôda a história pregressa, através da qual se explica a espécie di~se: lo ho una mia cognata, e'I mio fratello e lontano; e
tôda peculiar da sua astúcia maligna e picante; a pouca inteli- ~,uando io ritorno a casa, per grande domistiche~za, el(a mi si
gência de madona Lisetta e a sua tôla jactância dos seus dotes pune a sedere in grembo. Come debbo fare? R1spose 1I prete:
físicos são, nesta peculiar mistura, únicas na sua espécie. Não A me il facesse ella ch'io la ne pagherei bene! (Do Novellino,
é diferente o que se dá com as personagens secundárias; a l d , Lctlerio di Fra~cia, Torino 1930, Novella 87, pág. 146).
comadre ou o buon uomo, junto ao qual frate Alberto procura
a salvação, possuem vida e essência próprias, nltidamente reco- *
nhecíveis, apesar de serem levemente insinuadas; até mesmo Um homem foi confessar com o seu padre, e entre outras coisas
acêrca do gênero e dos sentimentos dos parentes de Lisetta Llr~~o : tenho uma minha cunhada, e o meu irmão está longe; e
nos é revelado algo de muito característico no ferino gracejo si q1111 ndo volto para casa, por grande familiaridade, ela senta-se no
11lt"U I cgaço. Como devo fazer? Respondeu o padre: Se ela fizesse
posero in cuore di travare questo agnolo e di sapere se egli sapes-
,~~o comigo, eu lhe daria boa paga!
se vo/are; as últimas palavras aproximam-se, na forma, daquilo
que ultimamente é chamado fala vivenciada. A tudo isto junta-se, *
ainda, o fato de que o cenário de todo o acontecimento está mui- Nl·stu pequena peça tudo gira em tôrno da resposta cômica-
to mais rigorosamente determinado do que no fablel; êste pode 1m 11ll' amblgua do padre; todo o resto só é preparação, e é
ter lugar em qualquer região rural da F rança e a sua peculiarida- n l11t11do numa estreita parataxe, sem qualquer representação
de dialetal, mesmo se pudesse ser determinada com maior exati- w 11, 1wl, cm linha reta; muitas o utras narrações do Novellino
dão, seria totalmente casual e sem significado; a narração de Boc- - no nnl·tlotus c urlus semelhantes, que têm como objeto uma
caccio é pronunciadamente veneziana. Com isto, lembra-se que hd,1 htl,1111111tc: 11m dos subtítulos do livro diz, de forma corres-
o fablel francês está ligado, de forma muito geral, a um certo p1111d1·nw, l.ihm tli Novi'/lt• 1• di bd parlar Rentlle. Também con-
meio dê camponeses e pequenos burgueses, cuja~ diferenças lo- h 111 p,·i;111 111t1iM lrn11111~. esta~, cm gcrol, niio têm car:hcr bur-
cais, na medida em que se possa realmente pcrccbê-111~, cslflo f,•~r11, 11111, ~1lu 111111 :1i_:rn·1 nu11 a is c d1dàt icus; o csl ilo, pú rém ,
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184 MIMESlS

esta frase teria sido dita por um outro florentino, chamado frade
é o mesmo em tôda parte: estreitamente paratático, enfileirando Paulo Milmoscas, da ordem dos frades menores.
os acontecimentos como ao longo de um fio, sem amplidão sen-
sível e sem o espaço vital das personagens. O inegável entên- *
dimento artístico do Novellino preocupa-se principalmente pela Também aqui trata-se de uma resposta hilariante, de um
formulação curta e nítida dos dados principais do acontecimento bel parfare; mas trata-se, ao mesmo tempo, de uma cena ver-
narrado em cada caso; nisto, segue o exemplo das coleções me- dadeira; uma paisagem hibernal, o monge que escorregou, e
dievais de exemplos morais em língua latina, as exempla, e as está deitado os florentinos, que estão ao seu redor e fazem
' ,,.
gracejos. A caracterização das personagens e muito ma1S vivaz,
. . .
supera em ordem, elegância e frescura de expressão; quase não
se preocupa com a apresentação sensível, mas fica claro que e ao lado da graça central (interrogantis uxorem) encontram-se
esta limitação, no seu caso e no dos seus contemporâneos ita- ainda outras palavras divertidas e vulgarismos (utrum plus vellet
habere sub se,· benedicatur ipse quia de nostris est; frater Pau-
lianos, está condicionada pela situação lingüística e espiritual
lus Millemusce; e já antes, trufatores), que pel? ~eu tra~spa-
na qual êles se encontravam. O vulgare italiano era ainda de-
rente disfarce latino tem um efeito duplamente com1co _e p1ca~-
masiado pobre e desajeitado, o horizonte visual e conceitua! te. A evidenciação sensível e a liberdade de expressao estao
era ainda demasiado estreito e carente de liberdade como para aqui bem mais desenvolvidas do que no Novellino.
permitir uma livre manipulação dos fatos e uma representação Mas, seja o que fôr procurado nos tempos anterior~s, a
sensível de fenômenos ricos em variedade; tôda a fôrça de re- amplidão rústica, crua e sensível dos fabliaux, ou a e~tre1t_a e
presentação sensível concentra-se num qüiproquó, como no ca- seoslvelmente pobre elegância do Novellino, ou o gracejo vivaz
so do nosso exemplo, na resposta do padre. Se fôr possível e plástico de Salimbeoe, nada disto tudo é ~omparável ~ 1:lºc:
tirar uma conclusão de um só caso, o do cronista Fra Salim- caccio; sômente com êle o mundo dos feoomenos s~ns1ve1s e
bene de Adam, um franciscano que escrevia em latim, escritor inteiramente dominado, ordenado segundo uma c'?nsc1ente con-
de grandes dotes, no fim do século XIII, o latim, sempre que vicção artística e apreendido pela lin?uagem.. -~omente o seu
fortemente carregado de vulgarismos italianos, como o de Salim- Decameron fixa, pela primeira vez apos a Antiguidade, u~ cer-
bene, parecia ser capaz de dar uma fôrça expressiva bem maior to nível estilístico dentro do qual a narração de acontecimen-
do que o italiano escrito de então. A crônica de Salimbene está tos reais da vida ~resente se pode converter numa, diver~ão cu!-
cheia de anedotas; uma delas, que já foi citada repetidamente ta; não mais serve como exemplo i:ioral, e tambem nao. ma!s
por outros, e por mim mesmo, trata de um franciscano de no- serve à despretensiosa vontade d_e nr do. f>?VO, mas ao d1vert1-
me Detesalve e narra o seguinte a seu respeito: mento de um círculo de pessoas Jovens, d1stmtas e cultas, damas
e cavaleiros que se deleitam com o jôgo sensível da vida, e q_ue
Cum autem quadam die tempore yemali per civitatem Flo-
possuem sensibilidade, gôst~ e Aopini~o refinados; para anun~iar
rentie ambularet, contigit, ut ex Iapsu glatiei totaliter caderet.
esta intenção na sua narraçao, ele cn?u a suAa moldur~. O mvel
Videntes hoc Florentini, qui trufatores maximi sunt, ridere ce- estilístico do Decameron lembra muito o genero ~ntl~o corres-
perunt. Quorom unus quesivit a fratre qui ceciderat, utrum pondente, o antigo romance de amor, ~ /abula ~1les1a~a. Isto
plus vellet habere sub se? Cui frater respondit quod sic, scili- não é surpreendente, pois que a posiçao do escntor d1a°:te do
cet interrogantis uxorem. Audientes hoc Florentini non habue- ~cu objetivo e a camada do público, ,à qual a obra !e destmava,
runt malum exemplum, sed commendaverunt fratrem dicentes: correspondiam-se bastante nas ~uas epocas'. e tambem pelo fato
Benedicatur ipse, quia de nostris est! - Aliqui dixerunt quod uc q ue, também para Boccacc1?,. o conceito da arte de escre-
alius Florentinus fuit, qui dixit hoc verbum, qui vocabatur fra- ver relacionava-se com o da retonca. Da mesma forma que no
ter Paulus Millemusce ex ordine Mino rum. ( Chronica, ad antigo romance, a arte lingüística de Boccaccio descansa numa
annum 1233; edição Monumenta Germaniae historica, Scrip- lor111ulação retórica da prosa, da mesma forma que . naqueles
tores XXXII, p. 79.) , omancés O estilo chega, às vêzes, aos limites do poético; ta1:1-
h6m dá à conversação uma vez ou outra, a forma de um d1s-
c;mso bem composto; ~ o quadro geral de um estilo "médio" ou
Quando certo dia de inverno passeava por Florença, acon- misturndo, que combina realismo e erotismo co~ uma elegante
teceu que escorregou no chão gelado e liso e caiu quão longo era. Jo1mulação da língua, é muito semelhante no~ d01s casos. M~s,
Quando os florentinos, que são os maiores brincalhões, viram isto, 1:miunnlo o romance antigo é _u ma forma tardia,, que se m~tena-
começaram a rir, e um dêles perguntou ao frade, se não queria que hrn cm lfnguus que já deram muito tempo_ atras o que tmh~m
deitassem algo em baixo dêle. O frade respondeu que sim, e que
ilL· 1111,lho r. a vonrndc estilística de Boccacc10 encon~ra uma hn-
fôsse a mulher daquele que o interrogava. Quando os florentinos
ouviram isto, não o levaram a mal, mas louvurnm o fr1uJe, di1,cndo: y11u lilcní ria apcnn~ nnscidu, qua~c não ~o_ri:nada ainda; a tr:-
Abençoado seja êlcl este é um dos nosso~! Al11un, níi, 11111111 que d,1w11u l l'h)iicn, (!llt' 11,1 1110~!.1· mcu1cvnl ~ohd1f1cou-sc até se con -
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tituir num mecanismo quase espedralmente senil, e que no tem- observando-.o criticamente de cima. Justamente nos objetos mais
po de Dante justamente era experimentada, tímida e fràgilmente, popularmente realistas e até grosseiramente farsescos é mais fá-
pelos primeiros tradutores de autores antigos, no volgare italia- cil de reconhecer a peculiaridade do estilo médio elegante; pois
no, torna-se, nas mãos de Boccaccio, um instrumento maravi- da formulação de tais narrações é possível deduzir que existe
lhoso, que faz surgir, com uma só manobra, a prosa artística uma camada que, mesmo estando por cima das zonas mais bai-
italiana, a primeira prosa literária da Europa posterior à Anti- xas da vida quotidiana, diverte-se com a sua representação vi-
güidade. Surgiu no decênio que foi das suas primeiras obras de vaz, e o faz com uma alegria que se dirige para o individual
juventude até o Decameron. e humano e para o sensual, e não para o tipo de classe social;
A disposição de Boccaccio é espontâneamente sensível, ten- todos os Calandrinos, Cipollas e Pietros, as Peronellas, Cateri-
dendo para a formulação amàvelmente fluente, embebida de nas e Belcolores são, assim como Frate Alberto e Lisetta, sêres
sensualidade; foi criado, desde o princípio, não para o estilo humanos individualizadas vivazmente de forma totalmente dife-
elevado, mas para o estilo médio; e a sociedade da côrte de rente à do villain ou da pastôra, que tinham acesso, uma vez
Anjou em Nápoles, onde, muito mais do que no resto da Itá- ou outra, à poesia cortesã; são até muito mais vivazes e, na
lia, se apreciavam as formas tardias, Iudicamente elegantes, da sua forma peculiar, mais exatos, do que as figuras da farsa
cultura cavaleiresca do norte da França, e onde êle passou a sua popular, como vimos acima; não obstante o público, ao qual
juventude, alimentou ricamente esta sua tendência. Suas pri- devem gostar, seja de uma classe social diferente da dêles. Evi-
meiras obras são adaptações de romances de amor franceses, dentemente, no tempo de Boccaccio há uma classe social que,
aventurosos e cavalheirescos, do tardio estilo cortês, e no seu sendo ela própria de nível elevado, ainda que não feudal, como
gênero sente-se, segundo me parece, algo de francês : o caráter é claro, mas pertencente à aristocracia urbana, sente um prazer
mais amplamente situacional das suas descrições, o refinamento culto com a realidade colorida da vida, seja onde fôr que apa-
ingênuo e as tenras modulações do jôgo amoroso, o caráter mun- recer. Certamente, a separação dos campos fica conservada,
dano tardiamente feudal das suas descrições sociais, o malicioso na medida em que as peças grosseiramente realistas têm lugar,
da sua graça; mas, à medida que amadurece, tanto mais forte em geral, entre pessoas das classes sociais mais baixas, enquanto
torna-se, ao lado disto tudo, o elemento burguês e humanista e so- que as que sentimentalmente se aproximam do trágico ocorrem
bretudo, o domínio do fortemente popular. Em todo cas~, a nas mais elevadas; só que mesmo isto não é cumprido estritamen-
tendência para a saliência retórica, que também para êle tor- te, pois que o caráter burguês e o caráter sentimental-idílico_ fàcil-
nou-se um perigo, serve, nas suas obras juvenis, exclusivamente mente apresentam casos limítrofes; em geral, e neste sentido, a
para a representação do amor sensual, à qual também serve o mistura é freqüente (por exemplo, na novela de Grisei da, 10, 10).
excesso de didatis1:110 mitológico e o alegorismo convencional, As condições sociais necessárias para a aparição de um
que se fazem sentir em algumas das suas obras de juventude. estilo médio no sentido antigo da palavra, já existiam na Itá-
Com isto fica dentro dos limites do estilo médio, ainda que, às lia a partir' da primeira metade do século XIV; nas cidades
vêzes, tente ultrapassá-los (Teseida); êste estilo, pela união dó surgira uma camada elevada de burgueses patrícios, cujos cos-
idílico e do realista, destina-se à representação do amor sensual. tumes, certamente, estavam ainda muito ligados às formas e
A sua última obra juvenil, e também, de longe, a mais bela, é conceitos da cultura feudal-cortês, mas que lhe conferiram rà-
também de estilo médio, idílico: o Ninfa/e fiesolano; e também pidamente, em conseqüência da estrutura social totalmente di-
forcnlc e sob a influência das primeiras tendências humanistas,
de estilo médio é o grande livro das cem novelas. Para a de-
caracteristicas novas, menos baseadas em divisões de classe e
terminação do nível estilístico não importa saber- quais das mais fixadas nas características pessoais e na visão realista. A
suas obras de juventude estão escritas total ou parcialmente em visão interna e externa ampliou-se, deitou fora os grilhões das
verso, e quais em prosa; em tôda parte a atmosfera é a mesma. limitações de classe, penetrando até no campo do saber, ante-
Dentro do nível estilístico médio, as modulações do De- ' lormcnte reservado aos especialistas do clero, dando-lhe gra-
cameron são, evidentemente, muito diversas, e os limites são d11t 1vamente a forma agradável, amável e propícia ao trato
muito amplos; mas mesmo quando as narrações se aproximam Nm:ial da instrução. A linguagem, que recentemente ainda era
do trágico, o tom e a atmosfera conservam o seu caráter sen- 1rt\yll e desajeitada, tornou-se maleável, rica, matizada e fio-
timental e sensual, evitando o sublime e o grave; e também nas ' L""l·cntc, e colocou-se a serviço das necessidades da vida social,
part~s em que aproveitam, muito mais do que nosso exemplo, ckn>lhidu e preenchida de elegante sensualidade; a literatura so-
motivos da farsa grosseira, a forma lingüística e a apresentação l inl ohtcvc o que até então nunca possuíra: um mundo real
continuam sendo distintas, na medida em que, sempre e incon- llll'~1:11tc. Sem dt1vidu, êste ganho está cm ligação direta com
fundlvelmente, o narrador e o ouvinte permanecem muito por 11 1,11111hu 11111w1~111, n111ito mnis importante, obtido num nível
cima do objeto, deliciando-se leve e elegantemente 11 ,1111 custo, 1·,tilíNlll'u 111111N dL•vmlo 11111 o;frulo 11111c, por Dunto; e é esta
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ligação que ora trataremos de analisar. Para tanto, voltamos tirnentos que Dante teria desdenhado tratar. O que deve a Dante,
ao nosso texto.
é a possibilidade de fazer uso do s~u talento com tal liberdade;
O mais evidentemente peculiar nêle, quando o compara- a obtenção de uma posição, a partir da qual todo o mundo
mos com narrações mais antigas, é a segurança com que os presente dos fenômenos pode ser visto, tôda a sua multiplici-
fatos multipartidos são por êle dominados, tanto na sua visão, dade pode ser apreendida e reproduzida mediante uma lingua-
qua~to na articulação sintática, e a flexibilidade com que adapta gem flexível e rica em expressões. Graças à fôrça de Dante,
o mvel do tom e o tempo da narrativa aos movimentos internos que foi capaz de fazer justiça a tôdas as figuras humanas da
e externos dos acontecimentos; acima, tentamos demonstrar isto sua obra, a Farinata e a Brunetto, Pia de' Tolomei e Sordello,
pormenorizadamente. A conversa entre as duas mulheres a Francisco de Assis e Cacciaguida, de fazê-los surgir das suas
difusão do boato pela cidade e a dramática cena noturna na dasa próprias condições e falar na sua própria língua, tornou-se pos-
de Lisetta, estão compostas dentro de uma estrutura claramente sível que Boccaccio conseguisse o mesmo para Andreuccio e
~rceptíve!, dentro da qual cada parte possui o seu próprio mo- para Frate Cipolla ou seu criado, para Ciappelletto e o padeiro
vimento, independente, rico e livre. No capítulo anterior, em Cisti, para Madonmt Lisetta e Griselda. Desta fôrça da visão
base ao exemplo dos acontecimentos no início do décimo canto sintética do mundo também faz parte urna consciência crítica
do Inferno, procurei demonstrar exatamente que Dante possuía sólida e, ao mesmo tempo, elástica e perspectiva, a qual, sem
a mesma capacidade de dominar uma realidade tanto mais mul- reflexões morais abstratas, confere aos fenômenos o seu valor
lipartida e matizada, e a possuía num grau que não foi atingido, moral peculiar, cuidadosamente matizado, ou até, faz com que
nem de longe, por qualquer escritor medieval de nosso conheci- êsse valor moral brilhe de per si de dentro delas. Boccaccio
mento. O encadeamento de tudo, as mudanças do tom e do continua com a nossa narrativa, depois que os cunhados volta-
ímpeto rítmico, por exemplo, entre a conversa inicial e a apa- ram para casa, con gli arnesi dei agnolo, da seguinte forma:
rição de Farinala, ou quando da emersão de Cavalcante e nas
suas falas, a soberana disposição dos instrumentos sintáticos da ln questo mezzo, fattosi il dl cbiaro, essendo il buono uomo
língua foi analisada anteriormente com a maior exatidão possí- in sul Rialto, udi dire come l'agnolo Gabriello era la notte
vel. O domínio de Dante sôbre os fenômenos tem um efeito andato a giacere con Madonna L isetta, e da cognati trovatovi,
muito menos flexível, porém, mais significativo, do que a mes- s'era per paura gittato nel canale, nê si sapeva che divenuto se
ma capacidade de Boccaccio; já o pesado ritmo dos tercetos ne fosse.
com a sua severa articulação das rimas não lhe permite um *
movimento tão livre e leve quanto o que Boccaccio se consente, Entretanto fêz-se dia claro, e tendo o bom homem ido ao
e, além do mais, Dante teria desdenhado um tal movimento. Rialto, ouviu dizer como o anjo Gabriel tinha ido de noite dormir
Mas é inegável que a obra de Dante abriu, pela primeira vez, com Madonna Lisetta, e, tendo sido descoberto pelos cunhados, jo-
a visão sôbre o mundo geral e múltiplo da realidade humana. gara-se, de mêdo, no canal, não se sabendo o que tinha sido dêle.
Pela primeira vez, desde a Antigüidade, ela se apresenta livre
e multifacética, sem limitações estamentais, sem estreitamento
*
do campo visual, numa visualização que se dirige para todo O tom de seriedade aparente, que nem diz que os venezia-
lado, livre de empecilhos, num espírito que ordena vivazrnente nos morrem de rir no Rialto, insinua com tôda nitidez, sem
pronunciar uma só palavra de ordem moral ou estética ou
todos os fenômenos e numa língua que faz justiça tanto à ma-
terialidade dos fenômenos quanto à sua engrenagem multipla- c rítica cm qualquer outro sentido, a valorização do aconteci-
mente ordenada. Sem a Divina Comédia, o Decameron nunca mento e o estado de ânimo dos venezianos; se em lugar disto
pod~ria ter sido escrito. Isto é evidente, e também é claro que Boccaccio tivesse dito quão ardiloso era Frate Alberto, quão
o nco mundo de Dante é transposto para um nivel estilístico tôla e crédula Madonna Lisetta, quão ridícula e absurda era a
mais baixo por Boccaccio; isto fica especialmente claro quando situação tôda, e corno os venezianos se divertiam com isso tudo
110 Rialto, êste procedimento não somente teria sido muito mais
se comparam dois movimentos semelhantes, como, em nosso
pesado, mas também não teria esclarecido a atmosfera moral,
texto, a frase de Lisetta: Comare, egli non si vuol dire, ma
,1uc não pode ser exaurida por nenhuma quantidade de adje-
l'intmdimento mio e l'agnolo Gabriel/o, com l nf. 18,52, onde
hvos, com uma fôrça expressiva nem de longe comparável à que
Venedico Caccianimico diz: Mal volentier lo dico;/ ma s/orzam, c:ícllvamentc existe no texto. O recurso estilístico que Boccac-
la tua chiara /avella,/ Cite mi /a sovvenir dei mondo amico. l'iu emprega foi muito apreciado oa A~tigüidade, e já então
É claro que Boccaccio não deve a Dante a capacidade de ob- l'lll chamado "ironia"; urna tal forma discursiva, mediata e indi-
servação nem a fôrça de expressão estas qualidades possuía ll'l11111cntc rnsinuantc, tem como pressuposto um sistema com-
de per si, e elas eram de umu espécie totulmcnte diferente 11lcJm e m111l1facctu:11 til• pos\lb1l1dadcs de valori1ação e, lam-
das de Dante; o wu interê,~1.: dirt"c '>l' Jlar.1 h:n11111c111h ,· ,1·11 hé111, 11111.t t11n,l ,êm:ia JlCI pccllVII, 411l', Jlllllamcntc l'llD1 li IICllll
190 MIMESIS FRATE ALBERTO 191

tecimento, insinua o sell efeito; ao lado disto, Salimbene, que do cercado, com o qual descreve a lenta solução da ~urprêsa do
i~clui ?ª. an~dota que citamos acima a frase: videntes hoç grupo do pré-purgatório diante da aparição de Virgilio e Dante
r-_lorent1m: q~1 t:ufatores maximi sunt, ridere coeperunt, parece (Purg. 3). Comparado com êstes métodos de caracterização,
amda _mu1_to mg~n_uo. ~ tonalid~q~ de ~occa:cio aqui presente, que procedem pela mais minuciosa observação do individual e
a da 1rorua mal1c10sa, e caractenst,ca dele; nao se encontra na utilizam os recursos mais variados e sutis da linguagem, tudo
Comédia; Dante não· é malicioso. Mas criou a amplidão da o que lhes antecede parece estreitamente grosseiro e, também,
visão; o rigor na rep~o~ução d_e uma valoriz~ção complexa e carente de uma ordem certa, tão logo tenta se aproximar dos
determmada com exat1dao, mediante recursos mdiretamente in- fenômenos; pense-se, por exemplo, nos versos com os quais o
sinuantes; a consciência perspectiva no resumo de acontecimen- poeta tenta descrever a velha mãe do sacer?lote, no fable/ que
to e efeito. Não nos diz quem é Cavalcante, o que sente e como citamos:
tudo isto deve ser julgado; deixa-o emergir e faJar e somente
a~~escenta_: le sue paro/~ e il modo de la pena m'avean di costl,/i Qui avoit une vieille mere
gra letto 1l nome. Mmto antes de averiguarmos qualquer por- Mout felonnesse et mout avere;
menor, Dante já fixa a tonalidade moral do espisódio de Bru- Bochue estoit, noire et bideuse
netto (lnf. 15): Et de tou7, biens contralieuse.
Tout li mont l'avoit contre cruer,
Cosl adocchiato da cota] famiglia Li prestres meisme a nul fuer
fui conosciuto da un che mi prese Ne vosist pour sa desreson
per lo 1embo e grido: Qual maraviglia! Qu'el entrast ja en sa meson;
E io, quando 'l suo braceio a me distese, Trop ert parlant et de pute ere ...
ficcai li occhi per lo cotto aspetto,
s'l che 'I viso abbrucciato non difese ~le tinha uma velha mãe, muito ruim e muito avarenta; era
la conoscenza sua ai mio inteletto; corcunda, preta e nojenta e contrária a todo bem. Todo o mundo
e chinando la mia a la sua faccia a detestava; até o próprio padre não queria, por c~usa da sua
rispuosi; Siete voi qui, ser Brunetto? loucura, que ela jamais entrasse em sua casa; era demasiado faladora
E quelli: O figliuol mio . .. e repulsiva ...
* *
Assim olhado por . tal f~~ília, fui reconhecido por um, que Isto, de nenhum modo, é difícil de visualizar, e a passagem
me pegou pel~ aba e gntou: Que maravilha!" E eu, quando o seu da característica geral para o seu efeito sôbre o meio ambiente,
br~ço para num estendeu, cravei os olhos no seu abrasado aspecto e logo mais, a intensificação dada pelo "até o próprio padre ... ",
ate que o rosto queimado não mais impediu o seu reconheciment~ mostram uma seqüência natural e vivaz; mas tudo é dito da
ao ~eu }ntel~cto; ~ inclinando a minha face em direção à sua, res- forma mais grosseira e primária, sem nenhuma concepção pes-
pondi: Estais aqui, senhor Brunetto?" E aquêle: "ô filho meu ... " soal ou acurada; os adjetivos, que devem arcar com a maior parte
* do trabalho da caracterização, parecem ter sido espalhados a
Sem uma palavra de comentário, Dante nos dá Pia de' êsmo · nos versos, segundo o permitiam a quantidade de sílabas
Tolomei tôda em suas próprias palavras (Purg. 5, cf. a nossa e as rimas, misturando despreocupadamente qualidades morais
citação anterior) : e físicas. Evidentemente, a caracterização tôda é dada direta-
mente. 8 claro que Dante não despreza, absolutamente, a ca-
Deh, quando tu sarai tornato ai mondo racterização imediata mediante adjetivos, adjetivos êstes que, às
e riposato de Ia lunga via vêzes, possuem um conteúdo muito geral; mas isto tem, então, o
(seguito il terzo spirito ai secando), HcJuintc aspecto:
ricorditi di me che son la Pia ...
.. La mia sorella che tra bella e buona
"Ah, quando estiveres de volta ao mundo e descansares do non so qual fosse piu .. .
longo caminho" (assim continuou o terceiro espírito ao segundo), (Purg. 24, 13/4)
lembra-te de mim, que sou a Pia ... *
* Mlnh~ irmii, que, entre bela e boa, não sei o que fôsse mais ...
E entre a multidão de exemplos, nos quais Dante ilustrn o ,(>

efe(to dos fenômenos, ou ilustra os fenômenos a pnrlir dos ~cus 'l 111nro11cu lloc1.:11ccio dcRpre:r.11 o método imediato de ca-
efeitos, escolho o famoso símile com ns ovclhos •llll' l''l' 1tp11111 1ul 1,·1 itnçtlo No nnR~o ll•xto, ,·ncontromos logo de in!cio duus
192 MIMESIS FRATE ALBERTO 193

formas populares de linguagem para a evidenciação direta da motti e di ciance e di scede si veggono, estimai che quegli me-
bobeira de Madonna Lisetta: che poco sale avea in zucca e desimi non stesser male nelle mie novelle, scritte per cacciar
che piccola le'Vatura avea. Lendo-se o princípio da novela, la malinconia delle femmine.
encontra-se tôda uma coleção da mesma espécie e intenção: una *
giovane donna bamba e sciocca; sentiva de/lo scemo; donna mes- Eu confesso ser pesado, e tê-lo sido a maior parte dos meus
tola; donna zucca al vento; la quale era anzi che no un poco dias· e portanto falando com aquêles que nunca me pesaram, afirmo
dolce di sale; madonna baderla; donna poco fila. Esta peque~ que ' não sou g;ave, aliás, -sou tão leve que fico boiando na água:
na coleção é como um jôgo divertido, que Boccaccio faz com e considerando que os sermões feitos pelos frades, para remorder· os
o seu conhecimento de caçoadas populares, e serve também, homens pela sua culpa, estão, boje em dia, cada vez mais cheios de
talvez, para descrever o vivaz humor da narradora Pampinea, graças e de brincadeiras e de caretas, estimei que as mesmas coisas
que quer alegrar novamente o grupo, comovido até as lágrimas não estariam fora de lugar nas minhas novelas, escritas para afastar
pela narração anterior. Em todo caso, Boccaccio gosta dêste a melancolia das mulheres.
jôgo com as variadas locuções que têm sua origem na fôrça
enérgica e inventiva da fala popular; pense-se, por exemplo, Boccaccio certamente tem razão com esta sua pequena malícia
na maneira como é caracterizado Guccio, o criado de Frate contra os predicadores ( que aparece, aliás, quase com as mesmas
Cipolla, na décima novela do sexto dia, em parte diretamente, palavras, mas num nível de tom totalmente diferente, em Dante,
em parte pelo seu senhor; trata-se de um exemplo modelar Par. 29, 115); mas esquece ou nem tem consciência de que a
da mistura própria de Boccaccio entre vulgaridade e malícia jocosidade vulgar e ingênua dos sermões não é senã~ uma for-
sutil, e que acaba num dos períodos mais belos e extensos que ma do realismo cristão-figural, uma forma, é claro, Ja um pou-
Boccaccio escreveu (ma Guccio Imbratta il quale era etc.), co deteriorada e em início de apodrecimento; esta não é a ques-
indo do nível estilístico do mais encantador movimento lírico tão, no seu caso; e justamente aquilo que o justifica, a par!ir
(piu vago di stare in cucina che sopra i verdi rami /'usignolo), do seu próprio ponto de vista ("se até os pregadores fazem pia-
através do realismo mais crasso (grassa e grossa e piccola e das e gracejos, por que não o de,,verei fazer eu, neste meu livro,
mal f atta e con un paio di poppe che parevan due ceston da destinado ao divertimento"), justamente aquilo faz com que o
letame etc.) até chegar a tocar no pateticamente horrível (non seu empreendimento pareça perigoso, do ponto de vista cristão-
altramenti che si gitta l'avoltoio alia carogna), o conjunto é orde• medieval; aquilo que o sermão pode muito bem fazer, sob o
nado pela malícia do escritor, que tudo transpassa. signo da figuralidade cristã (os exageros podem chocar, ~mas o
Sem Dante, tal riqueza de tonalidades e de perspectivas direito fundamental é indiscutível), um autor profano nao po-
dificilmente teria sido possível. Mas da visão figural-cristã, de· tanto menos, quanto a sua obra, no fim das contas, não é
que preenchia a imitação dantesca do mundo terreno e humano tíi~ leve como diz; justamente, não é tão ingênua e tão care~te
e lhe conferia a sua fôrça e profundidade, nada mais aparece de uma ideologia fundamental quanto a farsa popular. ~e ass1_m
no livro de Boccaccio. As suas personagens vivem sôbre a fôsse, poderia ser considerado, a partir ~o ponto ~e vista cns-
Terra, e só sôbre a Terra; vê a abundância de aparições, de t ão-medieval, como uma desordem toleravel, do tipo das que
maneira imediata como um rico mundo de formas terrenas. surgem da vida impulsiva e da necessidade de diversão dos ho-
E tinha direito a fazê-lo, pois que não tinha de escrever nenhu- mens, como um signo da sua imperfeição e da sua fraquez~;
ma obra grande, grave e sublime; com muito mais direito do mas êste não é o caso do Decameron. O livro de Boccacc10
que Dante, chama o estilo do seu livro "umilissimo e rimesso" é de nível estilístico médio e possui, com tôda a sua leveza e
(introdução ao quarto dia), pois escreve realmente para di- liraça, uma ideologia muito definida e, de maneira alguma, um_a
versão dos incultos, para consôlo e divertimento das nobilissime ideologia cristã. Com isto não me refiro tanto ao escarneci-
donne que não vão a Atenas, Roma ou Bolonha para estudar. mento das superstições e das relíquias, nem a tais gracejos blas-
Com muito humor e graça se defende, no seu posfácio, contra tcmutórios como, por exemplo, la resurrezion della ca~ne ~om
aquêles que dizem que fica mal um homem grave e sério (ad rm 1l'fcrência à excitação sexual do homem (3, 10); tais c01sas
uom pesato e grave) escrever um livro com tantas piadas e pertencem ao repertório burlesco medieval e não p~ecisam ter,
gracejos: ucccssàriamentc, uma significação fundamental, nao obstante
1i1111hurcm, naturalmente, grande efeito propagandístico tão Io-
lo confesso d'essere pesato, e molte volte de' miei dl esser lilº 11c criou um movimento anticristão e antieclesiástico; Rabe-
stato; e perciô, parlando a quelle che pesato non m'hanno, h111i, por exemplo, ns emprega inegàvelmente com~ arma (u1!1
affermo che io non son grave, anzi son io si lieve che io sto a 11111l·cJO bl11sfcm1116rio semelhante encontra-se no fim do cap1-
galla nell'acqua: e considerato che le predichc falte da' írnti, 111l11 \ X do <ial'l(tlllfll/1 , onde silo empregadas palavras do Salmo
per rimorder delle lor colpe gli uomini, il pi(1 011g1 picnc d1 1 1, mi ,,. 1c,,,11 ,,f, ,om ~•l(nil ll'nuo ~cmclhantc; mas disto também
194 MIMESIS FRATE ALBERTO 195

surge, novamente, o caráter tradicional e de repertório desta ca de validade doutrinal; o livro só raramente abandona o nível
espécie de brincadeiras; cf., p. ex., também Tiers livre, 31, per- estilístico do divertimento leve; mas às vêzes o faz, especialmente
to do fim). O realmente importante na ideologia do Deca- quando Boccaccio se defende de ataques. Isto acontece na in-
meron, o que vai absolutamente contra a éticà cristã-me<iieval, trodução ao quarto dia, onde, dirigindo-se às mulheres, diz:
é a doutrina erótica e natural, certamente apresentada, quase
sempre, em tom muito leve, mas muito segura de si mesma. Na E, se mai con tutta la mia forza a dovervi in cosa alcuna
história do surgimento e na essência do cristianismo, fundamen- compiacere mi disposi, ora piú che mai mi vi disporrô; per-
ta-se o fato de que a moderna revolta contra os seus ensina- ciocche io conosco che altra cosa dir non potrà alcun con
mentos e as formas de vida por êle preconizadas pôde experi- raggione, se non che gli altri et io, che vi amiamo, naturalmente
mentar com bom êxito a sua fôrça prática e a efetividade da operiamo. Alie cui leggi, cioe della natura, voler contrastare,
sua propaganda, no campo da moral sexual; aqui tornava-se troppe gran forze bisognano, e spesse volte non solamente in
agudo o conflito entre a vontade mundana de viver e a tole- vano, ma con grandissimo danno dei faticante s'adoperano. Le
rância cristã, tão logo a primeira chegava a ter consciência de quali forze io confesso che io non l'ho ne d'averle disidero in
si. Doutrinas naturais, que louvavam a vida sexual impulsiva questo; e se io l'avessi, piú tosto ad altrui le presterei, che i~
e promoviam a sua liberdade, já tinham tido um papel impor- per me l'adpperassi. Per che tacciansi i morditori, e, se ess1
tante em relação com a crise teológica de Paris, na década de riscàldar non si possono, assiderati si vivano; e ne' lor diletti,
setenta do século XIII; encontraram, também, expressão literá- anzi appetiti corroti standosi, me nel mio, questa brieve vita, che
ria em língua vulgar, na segunda parte do Roman de la Rose posta n'e, lascino stare.
de Jean de Meun - mas Boccaccio nada tem a ver, imediatamente
com isto; não se preocupa com estas controvérsias teológicas, E se até agora me dispus com tôda minha fôrça a compra-
ocorridas dezenas de anos antes; não é um mestre-escola semi- zer-vos, d'ora em diante, mais do que nunca, a isso dispor-me-ei; por-
escolástico, como Jean de Meun. A sua moral amorosa é uma que reconheço que outra coisa não poderá dizer qualquer pessoa com
transformação do amor trovadoresco, afinado alguns graus mais razão, se não que os outros e eu, que vos amamos, agimos natural-
para baixo quanto ao nível estilístico e dirigido puramente para mente, Para querer se opor às suas leis, isto é, às da natureza,
necessitar-se-iam fôrças demasiado grandes, e serão postas em uso,
o sensual e o real; trata-se agora, sem lugar a dúvida, do amor muitas vêzes, não somente em vão, mas com grandíssimo dano
terreno. Ainda paira um resplendor da magia trovadoresca sô- daquele ·que se esforçar. As quais fôrças confesso que não as tenho,
bre algumas das, novelas, nas quais Boccaccio exprime com nem quero tê-las para isto; se as tivesse, ante's as emprestaria a
maior nitidez a sua ideologia; assim, a estória de Cimone ( 5, 1), outro, que as adotaria para mtm. Portanto, calem-se os mordedores,
na qual, como antes, com Ameto, é tratado o tema central e se não puderem se aquecer, continuem a viver enregelados; e,
da educação pelo amor, mostra claramente a sua descendência ficando com os seus deleites, aliás, com os seus cor.rompidos apetites,
da épica cortesã. A doutrina segundo a qual o amor é a mãe e eu ficancjo com o meu, deixem estar esta breve vida, que nos
de tôdas as virtudes e de tôda nobre disposição, segundo a qual é dada.
êle confere valentia, autoconsciência, capacidade de sacrifício, *
forma a inteligência e os bons costumes, tudo isto é parte da Esta é, creio, uma das passagens mais agudas e enérgicas
herança da cultura cortesã e do estilo nôvo. Aqui, porém, é que Boccaccio escreveu em defesa da sua moral amorosa. A
apresentado como moral prática, válida para tôdas as classes, opinião que quer exprimir não pode ser mal entendida; mas
e a amada não mais é a senhora inatingível ou urna encarna- tombém é indubitável o fato de que ela não tem qualquer pêso.
ção do pensamento divino, mas o objeto do desejo sexual. Até Uma tal luta não pode ser levada seriamente com apenas algu-
nos casos particulares forma-se, é claro que sem tôda coerência, mas palavras acêrca da irresistibilidade da natureza e algumas
uma espécie de moral amorosa. Uma de suas regras poderia insinuações maliciosas acêrca dos vícios pessoais dos seus ini-
ser que, contra terceiros, por exemplo,· contra os ciumentos ou 1111aos, e Boccaccio nem queria fazê-lo. Não se lhe faz justiça
contra os pais, ou contra outras fôrças avêssas ao amor, é per- ~ aplica-se-lhe uma escala errada quando se mede a ordem
mitida tôda astúcia e todo embuste, o que não é permitido vital que surge da sua obra, comparando-a com a de Dante ou
entre os amantes. Se Frate Alberto goza tão pouco da simpa- de obras posteriores do Renascimento propriamente desenvol-
tia de Boccaccio, isto se deve ao fato de ser um hipócrita e vido. A unidade figural do mundo terreno quebrou-se no ins-
de não ter obtido o amor de Lisetta honestamente, mas Lê-lo t 1111h: cm que, com Dante, ela ganhou domínio total sôbre a reali-
ganho perfidamente. No Decameron desenvolve-se, pois, umu itudc terrena; o domínio da realidade na sua multiplicidade sen-
determinada moral ética, baseada no direito ao amor, cssenciul- "1vd pcrmnnl•ccu conquistodo, mas a ordem, na qual estava
mente prática-terrena, e que, pela sutt essênciu, é nnticristli. cn1,1111ç111l11, j(1 c~tt,v11 11cinlid11 e, num primeiro momento, nada
Ela é apresentada com muitu graça e ~cm rcivind1cuç11<> cnértt•· 1111111111 o 11cu h1K111 hl11 ntto quer Ncr, como jn foi dito, uma
196 MlMESIS FRATE ALBERTO 197

crítica a Boccaccio, mas deve ser fixado como fato histórico, santo. O escárnio da confissão antes da morte, o qual, segundo
que vai além da sua pessoa: o primeiro Humanismo não possui, tudo leva a pensar, é dificilmente representável sem uma ideo-
diante da realidade da vida, qualquer fôrça ética construtiva; abai- logia fundamentalmente anticristã por parte daquele que o co-
xa o realismo novamente para um nível estilístico médio, não pro- mete e sem uma tomada fundamental de posição do escritor
blematizado e não trágico, o qual, na Antigüidade clássica, se diante do problema, seja condenado cristãmente, ou permitindo,
constituía no seu limite extremo superior, e fixa, da mesma for- anticristãmente, serve, aqui, tão somente para a elaboração de
ma que lá, como seu tema principal, quase como seu tema único, duas cenas de comicidade farsesca: a confissão grotesca e o
o erotismo. No entanto, há nêle agora algo que não era possí- solene entêrro do pretenso santo. O problema nem chega a
vel na cultura antiga, um germe extremamente desenvolvível de ser colocado. Ser Ciappeletto decide-se com tôda leviandade a
problema e de conflito, um ponto de partida prático para o agir como age, só para livrar os seus hóspedes de um perigo,
movimento que estava se preparando contra a cultura medieval- mediante um último truque astucioso, digno do seu passado;
-cristã; mas num primeiro momento o erotismo, de per si, não dá, para isto, uma justificação que, na sua tôla leviandade,
é, ainda, suficientemente forte para formular a realidade de demonstra que jamais pensara seriamente acêrca de si mesmo
forma problemática ou trágica. Tão logo Boccaccio quer repre- ou de Deus ("já ofendi a Deus tantas vêzes durante a minha
sentar tôda a múltipla realidade da vida presente, renuncia à uni- vida, que pouco mais ou pouco menos, diante da morte, pouca
dade do conjunto: escreve um livro de novelas, no qual há muita diferença vai fazer"), e igualmente levianos, considerando so-
coisa justaposta, amarrada somente pelo fim comum do diverti- mente o instante, são os dois florentinos proprietários da casa,
mento cultivado. Os problemas políticos, sociais ou históricos, que que ficam ouvindo a confissão às escondidas e dizem um para
eram totalmente penetrados pelo figuralismo de Dante e refun- o outro: que espécie de homem é êste que, estando velho e
didos na mais quotidiana das realidades, desaparecem por com- · doente e perto da morte e muito perto de ter de aparecer diante
pleto; qual é a situação da problemática metafísica e da proble- do tribunal de Deus, não deixa de fazer as suas trapaças e quer
mática erótica, qual é o grau de nível estilístico e de aprofun- morrer assim como viveu - mas logo mais, quando vêem que
damento humano que atingem na obra de Boccaccio, isto é fà- u fim, isto é, um entêrro em regra, é alcançado, não voltam a
cilmente verificável mediante comparações com Dante. qe preocupar. Ora, é absolutamente verdade e corresponde com
Encontram-se no Inferno várias passagens, nas quais almas 11 experiência, que muitos homens cometem as ações mais im-
condenadas desafiam Deus, escarnecem-no ou malôizem-no; portantes sem um convencimento pleno correspondente à ação,
assim, por exemplo, a importante cena do Canto XIV, na qual ~•mplesrnente levados pela situação do instante, pela inércia dos
Capaneo, um dos Sete contra Tebas, desafia Deus em meio à seus hábitos, por um impulso passageiro; mas, pelo menos de
chuva de fogo, gritando: Qual io fu vivo, tal son. morto - ou um escritor, que relata algo desta espécie, espera-se uma decisão
o gesto sardônico do ladrão de igreja Vanni Fucei, que acaba ordenadora. E Boccaccio, efetivamente, faz com que o narra-
de ressurgir da horrível transformação que segue à mordida a dor, Pânfilo, tome uma posição no fim da sua história, com
serpente, no Canto XXV. Em ambos os casos trata-se de uma algumas palavras; só que estas palavras são fracas, indecisas e
revolta consciente, correspondente à história, ao caráter e à cun·ntes de pêso; nem são atéias, nem decididamente cristãs,
lUITIO a situação o requereria; é inegável que Boccaccio narrou
situação dos dois condenados. No caso de Capaneo é a porfia
invicta da rebelião prometeica, a sôbre-humanidade inimiga da 11 tremenda aventura somente por causa do efeito cômico das
divindade; no caso de Vanni Fucei, a maldade exacerbada até duus cenas acima mencionadas, evitando qualquer ordenação
o incomensurável pela desesperação. A primeira novela de 1111 quulquer tomada de posição sérias.
Boccaccio ( 1, 1) conta a história do vicioso e trapaceiro no- N.1 história de Francesca de Rimini, Dante pôs, de forma
tário Ser Ciappelleto, que adoece gravemente no estrangeiro, ,am· currcsponde à sua espécie e ao estágio da sua evolução, o
na casa de dois usurários florentinos; os seus hóspedes, que co- t1111111lc e o verdadeiro; trata-se, pela primeira vez na Idade Mé-
nhecem a sua péssima vida, temem más conseqüências para êles dm. de ulgo que não é aventure, não é mágico conto de fadas,
próprios caso morra sob o seu teto sem confissão nem absol- al110 ,111c está livre de coqueteria amorosa e picante e do ceri-
vição; e acham certo que esta última ser-lhe-á negada, se con- 1110nrnl amoroso da cultura cortesã, que também não fica irre-
fessar conforme a verdade. Para livrar os seus hóspedes dêste 1.;1111hcclwl, oculta por trás do véu do significado secreto, como
incômodo, o velho doente engana um ingênuo confessor com 1111 estilo nl'\vo; trata-se de uma ação realmente presente, no
uma confissão mentirosa, ridkulamente beata, na qual êle pró- 11111is dcvudo c.Jos tons, tão imediatamente real corno memória
prio se apresenta como um santarrão virginal, quase desprovido di.: 11111 destino terreno quanto como encontro no além. Nas estó-
de pecado~, torturado, todavia, por excessivos escrúpulo~; desta 11113 1unmma1, que Roccuccio quer construir de maneira trá-
forma não só consegue a absolvição, mus é honrado após a l!lL'íl 1111 nobre (cncontrum-~c. subrctudo, entre as novelas do
sua morte, segundo as manifestações do conÍl·~sm, como 11111 ,1111irh1 ,lin ), p1c-punilcrn o nvcnturo~o e o sentimental, ~cndo
198 MIMESIS
Madame du Chastel
que a aventui-a já não mais é, como na épica cortês no seu
florescimento, a provação do eleito, internamente necessária,
refundida no conceito ideal de cortesia (cf. mais acima), rrtas,
efetivamente, nada mais do que o casual, o duradouramente
inesperado no rápido e violento mudar dos acontecimentos. O
relêvo dado à aventura casual pode ser demonstrado até em
novelas relativamente pobres em acontecimentos, como a pri-
meira do quarto dia, a de Guiscardo e Ghismonda. Dante des-
denhou mencionar as circunst.âncias nas quais Francesca e Pao-
lo foram surpreendidos pelo marido; despreza, quando trata de
um tema semelhante, tôda casualidade ressaltada à fôrça, e a
cena que descreve, à da leitura em comum do livro, é a mais
corriqueira do mundo, interessante somente por aquilo que ela
desencadeia. Boccaccio dedica uma parte do seu texto ao pro-
cesso complicado e aventuroso que os amantes devem empregar
para ficarem juntos sem serem incomodados e à casual con-
catenação de circunstâncias que leva à sua descoberta pelo pai
Tancredi. São aventuras como as do romance cortês, seme-
lhantes, por exemplo, à de Cliges e Fenice no romance de
Chrétien de Troyes; mas a atmosfera feérica da épica cortês
Antoine de la Sale, um cavaleiro originário da Pro-
volatilizou-se e a ética da provação cavaleiresca tornou-se uma
moral natural e amorosa de caráter geral, que se manifesta de
forma extremamente sentimental. Pelo seu lado, o elemento
sentimental, freqüentemente unido a objetos sensíveis (o cora-
ção da amada, o falcão), o que lembra os motivos feéricos, é
provisto, na maioria dos casos, de um excesso de retórica; pen-
10 vença, do tipo do tardio feudismo, soldado, cortesão,
educador de príncipes e perito em heráldica e e~
ginástica, nasceu ao redor de 1390 e morreu der01s
de 1461 . Estêve a maior parte da sua vida a serviço dos Aniou,
que até cêrca de 1440 lutaram pelo seu reino ~e Nápoles, pos-
suindo simultâneamente, também, grandes propriedades na Fr_an-
se-se, por exemplo, no longo discurso defensivo de Ghismonda. çu: abandonou-os em 1448 para educar os filhos_ do conde Samt-
Tôdas estas novelas não possuem unidade estilística decisiva; Pol, Luís de Luxemburgo; êste último teve um importante papel
são demasiado aventurosas e feéricas para serem reais, dema- nas vicissitudinárias relações entre os reis da França e os duques
siado desencantadas e retóricas para serem feéricas, e sentimen- dn Horgonha. Antoine de la Sale particip~m,_ na sua, juvcn~de, ~e
tais demais para serem trágicas. As novelas que têm em mira uma expedição portuguêsa ao norte da Afnca, esteve muitas ve-
o trágico não são imediatas, nem no real, nem no sentimento; 1,es com os Anjou na Itália, conhecia as côrtes d~ _França _e ~a
são, quando muito, aquilo que se chama comoventes. Borgonha. Segundo parece, começo~ ~s suas a!w~dades litera-
Justamente nas passagens em que Boccaccio tenta pene- nn, com compêndios para os seus _prm:11:escos d1sc1pulos; talvez
trar no campo do problemático ou do trágico, reconhece-se a descobriu com isto o talento e a d1spos1çao para narrar. A ~ua
pouca clareza e a insegurança da sua ideologia, do seu huma- nhrn mais conhecida é um romance de amor e d~ ed,ucaçao,
nismo prematuro. O seu realismo, livre, rico e magistral no do- /'ll v.l'foyrl! ,., plaisanre Cronique du Petil J~han de ~azntre, talv.ez
mínio dos fenômenos, totalmente natural nos limites do estilo 1 1 1-us vivo documento literário do tardio feudalismo frances.
;lu~i:nte certo tempo foram-lhe atribuídas também outras obri:s,
médio, torna-se frouxo e superficial tão logo roça na proble- u~ ()uinu Joyes de Mariage e as Cent Nouvelles Nouvelles,, n~o
mática ou na tragicidade. Na Comédia de Dante, a exegese fi- uh,1untc nenhuma destas duas obras possuíyem nada da essencia
gural cristã tornou realidade o realismo humano-trágico, tendo 11111110 peculiar e muito claramente apreensavel de La Sale. R:e-
sido destruída ela própria ao mesmo tempo; mas também o lc iilc im·ntc, 11 muior parte dos pesquisadores_ parec,em ter des1s-
realismo trágico perdeu-se logo -mais; a mundanidade de ho- 11tlo ,k~tn idéia (t1p6s o livro de W. SoederhJelm sobre a novela
mens como Boccaccio era ainda demasiado insegura e instável t1 11111'l'S,1 <lo século XV, Paris 1910) .
como para poder oferecer uma base que, como aquela exegese, 1 i11 h 11 jú uprmdmadamcnte setenta anos de i~ade q~ando
permitisse ordenar, interpretar e representar o mundo todo como n ·clt,1:11 11 11 11c11 consolatório para uma dama que havia perdido e,
realidade. pi 11uc1ru ltlhu r:~tl· ,,,crilo, lt· Rh:-011/or~ de Ma~ame du_ Fres:
nr 1111 pithhlluln 11111 J. N~vc no seu hvro ~ôb1e Antomc de
1, 'suh (l'nrtN cl llrnkdlc-. [IJ(J', pfl 101 - 1'\'\ ) Começo com
200 MIMESIS MADAME DU CHASTEL 201

u~a intro~uçã~ de_tom mui~o _cordial '!ue, além de admoestações cieu filz, que au dist de chascun, de raaijc de XIII ans
pias, contem c1taçoes da Bibha, de Seneca e de São Bernardo ne s'cn trouvoit ung te!, doubta que son seigneur n'en preist
de Clairvaux, assim como a estória do sudário e o prêmio de la mort. Lors en son cuer se appensa et en soy meismes dist:
um santo co_ntemp~râneo, recentemente falecido; depois seguem Helasse moy dollente! se il se muert, or as-tu bien tout perdu.
Et en cc penssement elle l'appella. Mais il riens n'entendit.
du~ n,arraçoes acerca ~e. mães valorosas. Das duas, a pri-
meira e, de longe, a mais importante. Narra, aliás com muitos Alors elle, en s'escriant, !ui dist: "Ha! Monseigneur, pour
erros e confusões, um episódio da Guerra dos Cem' Anos. Dieu, aiez pitié de moy, vostre povre femme, qui sans nul ser-
vice reprouchier, vous ay sy loyalment amé, servy e honnouré,
Os inglêses, sob o comando do Príncipe Negro, sitiam a vous à jointes mains priant que ne veuillez pas vous, nostre
f~rtale~a de Brest, e o seu comandante, o Seigneur du Chastel, filz et moy perdre a ung seul cop aiussy.'· Et quand Je sire
ve-se fmalmrnte obrigado a fazer um tratado, segundo o qual entend de Madame son parler, à chief de piece luy respondit:
se compromete a entregar a fortaleza ao príncipe num certo "Helasse, m'amye, et que est cecy? Ou est le cuer qui plus
prazo, se até então não tiver recebido auxílios. Como refém ne amast la mort que vivrc ainssi ou je me voy en ce tres
entre~i: o seu ú_nic_o filho, de treze anos de idade; e sob estas dur party?" Alors, Madame, cornme tres saige et prudente, pour
c~nd1çoes, o prmc1pe concorda com uma trégua. No quarto le resconfforter, tout-à-cop changa son cruel dueil en tres ver-
dia anterior ao vencimento do prazo, chega um navio com ali- tueulx. parler et !ui dis: "Monseigneur, je ne diz pas que vous
mentos ao pôrto; reina grande alegria e o comandante envia ne ayez raison, mais puisque ainssi est te voulloir de Dieu, il
um arauto ao príncipe, intimando-o a devolver o refém pois , uelt et commande que de tous les malvaiz partis le mains pire
chegara ajuda e, simultâneamente, segundo o costume ca~alhei- cn soit prins." Alors, le seigneur !ui dist: "Doncques, m'amye,
resco, convidando-o a servir-se das provisões que haviam chc- conseilliez moy de tous deux le mains pire à vostre advis."
g_'.1do. (? príncipe,_ ,irritad~ por ver que lhe escapa a fortaleza - "A! Monseigneur, dist-elle, il y a hien grant choiz. Mais
tao deseJada, que Ja acreditava estar em suas mãos não reco- de ceste chose, à jointes rnains vous supplie, pardonnez moy,
nhece a chegada de alimentos como auxílio no sentido do acôr car telles choses doivent partir des nobles cuers de vertueulx
d_o e exige a entrega da fortaleza no prazo fixado; caso contrá- hommes et non pas de femelins cuers de femmes qui, par l'or-
r:º• o refém estaria perdido. As diferentes etapas do processo donnance de Dieu, sommes à vous, hommes, subgettes, especia-
s~o narradas com gr~de insistência, com um pouco de pedan- lcment les espouseez et qui sont meres des enffants, ainssi que
tismo, com reproduçao exata da aparição cerimonial dos arau- jc vous suis et à nostre filz. Sy vous supplie, Monseigneur, que
tos que trazem as ~iferentes ~ensagens: como o príncipe env,n de ce la congnoissance ne s'estende point à moy." - "Ha,
uma resposta negativa, mas amda não totalmente clara· comu m'am)'C, dist-il, amour et devoir vuellent que de tous mes prin-
o senhor du Chastel, cheio de maus pressentimentos, re'úne O\ 1,:ipaux. affaires, cornme ung cuer selon Dieux. en deux corps,
seu~ parentes e am~gos para se aconselhar, e como êles, no pri vuus cn doye deppartir, ainssi que j'ay toujours fait, pour les
me1ro mom~nt~, so se en~reor?-am em silêncio; ninguém qu1.:1 hicns que j'ay trouvez en vous. Car vous dictes qu'il y a bien
fala.r, en:,- pnmt;iro lugar; n~gue~ qu~r realmente acreditar qu1: choiz. Vous estes la mere et je suis vostre mary. Pourquoy
o pnnc1pe ~sta falando séno; runguem que dar um conselho. vous pne à peu de parolles que le choiz m'en declairiez." Alors,
como devena ser o caso: Touteffoiz, conclurent que re11dre /11 la Ires desconffortée dame, pour obeir luy dit: "Monseigneur,
place, sans entier deshonneur, à loyalement conseillier n',·11
0
Jluisque tant voullez que le chois vous en die" - alors renfforça
veoient point la fachon. Então é narrado como, à noite, a 11111 lu prudencc de son cuer par la três grande amour que elle
lher do Acomandante percebe a sua preocupação e acaba "' a lui avoil, et lui dist: "Monseigneur, quoy que je dye, il me
beD;do dele a ver?ade; como ela, em conseqüência disto, tks• Mlit purdonné, des deux consaulx. que jc vous vueil donner, Dieux.
maia; como, no dia anterior ao vencimento do prazo, aparcctm avant, Nostrc Dame et monseigneur saint Michiel, que soient en
os arautos do príncipe com a exigência inequivoca do cumpri mu pcnscc ct en mon parler. Dont le premier est que vous
mento do tratado; como são recebidos e despedidos com ccn l111ss11,:1, tous vos dueilz, vos desplaisirs et vos pensers, et ainssy
monial e cortesia, que estão em contraste com a inimizade 1tns tcray•JC. Et les remettons tous es mains de nostre vray Dieu,
palavras tr~cadas; como o senhor du Chastel mostra nos p11 q111 l:111 tout pour le mieulx. Le Ilme et derrain est que vous,
rentes e amigos uma cara alegre e decidida· mas como à no1h' Monsdp,ncur. el chascun homme e~femme vivant, savez que,
sozinho com a sua mulher, no leito, perd~ a composiura e ,1: ,L 1011 droit de naturc ct cxperíence des yculx, est chose plus appa-
entrega totalmente ao desespêro. Aqui está o ponto culnun1111fl' 1,1n11.: l[llC lcs cnffans sont filz ou filies de leurs meres que en leurs
da narração: 111111s lcN ont port1.:z 1,:t cnífontcz que ne sont de leurs maris, ne
dl• cc11lx Íl qu, ont li;, donnt l a4uclle chosc, Monscigncur, jc
Madame, qui de l'autrc tez son trê~ grand ducil l.,b,,11,
voyant perdre de son Reigncur l'onneur 1111 ~1111 1n'~ ln·I cr ~• 11 .t,~ 1111111 n: q111· ,11ns~1 1111Nt rl' lilt. cst plus appurant mon vray
202 MlMESIS MADAME DU CHASTEL 203

filz qu'il n'est le vostre, nonobstant que vous en soyez le vray "Ai de mim, miserável! Se também êle morrer, terei perdido real-
pere naturel. Et de ce j'en appelle nostre vray Dieu à tesmoing au mente tudo.'' E com êste pensamento, dirigiu-se a êle. Mas êle não
tres espouventable jour du jugement. Et car pour ce il est mon vray a ouvia. Então ela elevou sua voz e disse: "Oh, meu senhor, pelo
filz, qui moult chier m'a ç.ousté à porter l'espasse de IX mois en amor de Deus, tende piedade de mim. vossa pobre mulher, que sem
mes flans, dont en ay receu maintes dures angoisses et par mains nada reprochar-vos, vos amou lealmente, vos serviu e vos honrou:
peço-vos com as mãos juntas, não percais a vós mesmo, ao vosso
jours, et puis comme morte à l'enffanter, leque! j'ay sy chierement filho e a mim de um só golpe, assim." E quando o senhor ouviu
nourry, amé et tenu chier jusques au jour et heure que il fut esta fala de Madame, finalmente respondeu: "'Ai, minha amiga,
livré. Touttefoiz ores, pour toujours mais, je l'abandonne es para que serve tudo isto? Qual é o coração que não preferiria
mains de Dieu et vuei~ que jamais il ne me soit plus riens, ainssi morrer a viver num dilema como o meu?" Então Madame, que era
que se jamaiz je ne le avoye veu, ains liberalement de cuer et muito sábia e prudente para reconfortá-lo, mudou logo o seu cruel
franchement, sans force, contrainte ne viollence aucune, vous duelo em fala muito virtuosa e disse-lhe: "Meu senhor. não digo
donne, cede et transporte toute la naturelle amour, l'affection et que não tenhais razão, mas, pois que assim é a vontade de Deus,
le droit que mere puelt et doit avoir à son seu! et tres amé filz. êle quer e manda que de todos os males seja escolhido o menor''.
Et de ce j'en appelle à tesmoing le trestout vray et puissant Dieu, Então o senhor lhe disse: "Então, minha amiga, aconselhai-me qual
qui !e nous -a presté Je espasse de XIII aos, pour la tincion et gar- é o menos pior dos dois, em vossa opinião.'' - "Ah, meu senhor.
disse ela, esta é uma escolha difícil. Mas desta decisão, com as
de de vostre seu! honneur, à tous jours mais perdu se aultrement mãos juntas vos peço, livrai-me, pois tais coisas devem partir dos
~st. Vous ne avez que ung honneur leque! apres Dieu, sur nobres corações dos homens virtuosos e não dos femininos corações
femme, sur enffans et sur toutes choses devez plus amer. Et sy das mulheres que, por ordem de Deus, estamos a vós, homens, su-
ne avez que ung seul filz. Or advisez duque! vous avez la plus jeitas, especialmente as espôsas e as que são mães de crianças, assim
grande perte. Et vrayement, Monseigoeur, il y a grant choiz. como eu o sou de vós e de nosso filho. Por isto vos suplico, meu
Nous sommes assez en aaige pour eo avoir, se à Dieu plaist; senhor, que esta decisão não parta de mim." - "Ah, minha amiga,
mais vostre honneur une foiz perdu, lasse, jamais plus ne te disse, amor e dever querem que todos os meus principais negócios.
recouvrerez. Et quant mon conseil vous tendrez, Jes gens diront sendo como somos um só coração em dois corpos, segundo a vontade
de vous, mort ou vif que soiez: C'est !e preudomme et tres loyal de Deus, vos tenha deixado ter parte, assim como o tenho feito,
chevallier. Et pour ce, Monseigneur, sy tres humblement que jc pelo bem que achei em vós. Pois dissestes que havia uma escolha.
scay, vous supplie, fetes comme moy, et en Jui ne penssés que se Vós sois a mãe e eu sou vosso marido. Pelo que vos peço que, em
poucas palavras, me digais a vossa escolha." Então a infeliz mulher,
ne l'euissiez jamaiz eu; ains vous resconffortez, et remerciez Dieu para obedecer, disse: "Meu senhor. pois que tanto quereis que vos
de tout, qui le vous a donné pour votre honneur rachetter." diga a minha escolha'' - e aqui ela juntou tôda a prudência de
Et quant le cappitaine oist Madame si haultement parler, seu coração pelo grande amor que lhe tinha, e disse: "Meu senhor,
avec un contemplatif souspir remercia Jhesus-Crist, le tres hault que o que eu disser me seja perdoado; e que para os dois conselhos
et puissant Dieu, quant du cuer de une femeline et piteuse crea- que quero dar-vos, Deus antes de tudo, Nossa Senhora e meu senhor
ture partoient sy haultes et sy veriueuses parolles comme cclles São Miguel estejam em meu pensamento e na minha fala. O primeiro
é que deixeis todo o vosso luto, vosso desprazer e vossos pensa-
que Madame disoit, ayant ainssy du tout abandonné Ie grant
mentos, e assim farei eu. E ponhamos tudo nas mãos de nosso
amour de son seu! et três aimé filz, et tout pour l'amour de lui. verdadeiro Deus, que faz tudo para melhor. O segundo e último é
Lors en briefves parolles luy dist: "M'amye, tant que l'amour que vós, meu senhor, e todo homem e mulher vivente, saibais que,
de mon cuer se puelt estendre, plus que oncques mais vous ~egundo o direito da natureza e segundo a experiência dos olhos,
remercie du tres hault et piteux don que m'avez maintenant r coisa mais evidente que as crianças são filhos ou filhas de suas
fait. J'ay ores oy la guette du jour comer, et ja soit que nc niães, que as carregaram no seu seio e que as pariram, mais do que
dormissions à nuit, sy me fault-il Iever; et vous aucum peu rcpo tle seus maridos, ou de outros (?) , a quem são dados. E digo isto,
serez." - "Reposer, dist-elle, hellas, Monseigneur, je n'ay cucr, meu senhor, porque assim nosso filho é mais evidentemente meu
filho verdadeiro do que o vosso, não obstante v6s sejais o seu
reul ne membre sur mon corps qui en soit d'accord. Mais JC verd11deiro pai natural. E disto chamo como testemunha nosso ver-
me leveray et yrons à messe tous deux remerchier Nostre Sei d11tlciro Deus, no terrível dia do Juízo. E por isto é meu verdadeiro
gneur de tout." 1ilho, que muito caro me custou carregá-lo pelo espaço de nove
1m·,c~ cm meu ventre, pelo qual sofri muitas duras angústias durante
Madame, que do outro~ado se entregava à sua grande dc>1. 1111,itos dias, e depois quase morri ao pari-lo, o qual tão caramente
enquanto pensava que ora estava perdida ou a honra do seu mlll ido, ulnncnlci, 11me1 e cuidei até o dia e a hora em que foi entregue.
ou o seu filho mais belo e mais amado (do qual todo mundo di:,i11, 1ud11vi11 01 a, para sempre jamais, abandono-o nas mãos de Deus e
que em nenhiun lugar podia se achar alguém quo se lhe n~somcll111',c '111r1t1 1111e de j1111111is Ncja nada para mim, assim como se eu jamais
com a idade de treze anos), temia que o seu espô~o nílo ~ohrcvlvc1~c;, 11 llvc•.•,c 11,lu, 1• de livre cornçuo e frnncamenle, sem fôrça, constran-
a tal tormento. Ent5o elo pensou no $cu cornçuo e 11i~,c 11 ~i 11w~n111 : 111111~1110, 11r111 vmknnn nl1111m11 1 vos dou, cedo e transfiro lodo o
204 MIMESIS MADAME DU CHASTEL 205

amor natural, afeição e direito que uma mãe pode e deve ter sôbre Mais l'enffant qui, au resconffort des gardes, cuidoit que
o seu filho único e muito amado. E disto chamo como testemunha on le menast vers le chastel, quand il vist que vers le mont
o muito verdadeiro e todo-poderoso Deus, que no-lo emprestou pelo Reont alloient, Jors s'esbahist plus que oncques mais. Lors
espaço de treze anos, para a manutenção e guarda de vossa única tant se prist à plourer et desconfforter, disant à Thomas, !e
honra, que estaria perdida para todo o sempre se assim não fôsse.
Não tendes senão uma honra, a qual deveis amar, depois de Deus, chief des gardes: "Ha! Thomas, mon amy, vous me menez
mais do que a vossa mulher, filho ou qualquer outra coisa. E, sim, morir, vous me menez morir, hellas! vous me menez morir!
também não tendes senão um único filho. Ora, pensai qual das Thomas, vous me menez morir! hellas! monsieur mon pere, já vois
duas perdas seria maior para vós. E, em verdade, meu senhor, aqui morir! hellas! madame ma mere, je vois morir, je vois morir!
há uma escolha a fazer. Nós estamos ainda na idade de ter outros hellas, hellas, hellas, je vois morir, morir, morir, morir!" Dont
filhos, se Deus quiser, mas vossa honra, uma vez perdida, nunca en criant et en plourant, regardant devant et derriere et entour lui,
mais podereis recuperá-la. E quando seguirdes o meu conselho, as à vostre coste d'arme que je portoye, lasse my! et il me vist, tt
gentes dirão de vós, estejais morto ou vivo: êste é um homem probo quant il me vist, à haute voix s'escria, tant qu'il peust. Et lors
e um muito leal cavaleiro. E por isto, meu senhor, peço-vos muito me dist ; "Ha! Chastel, mon ami, je voiz morir! hellas! mon
humildemente, fazei como eu e nunca mais penseis nêle, como se amy, je voiz morir!" Et quant jc ainssi le oys crier, alors,
nunca o tivésseis tido; e reconfortai-vos e agradecei a Deus de tudo, c..omme mort, à terre je cheys. Et convint, par l'ordonnance,
pois êle vo-lo deu para salvar a vossa honra."
que je fusse emporté apres luy, et là, à force de gens, tant
E quando o capitão ouviu Madame falar tão nobremente, com
um suspiro contemplativo agradeceu Jesus Cristo, o nobre e poderoso soustenu que il eust prins fin. Et quant il fust sur !e mont descen-
Deus, porque de uma criatura feminina e triste partiam tão nobres du, là fust un frere qui, par belles parolles esperant en la grãce
e virtuosas palavras como as que Madame dissera, que havia, assim, de Dieu, peu à peu Ie eust confessé et donné l'absolucion de
abandonado totalmente o grande amor do seu único e muito amado ses menus pechiez. Et car il ne povoit prendre la mort en
filho, e tudo por amor a êle. Logo, em breves palavras disse-lhe: gré, lui convint tenir !e chief, les bras et les jambes lyez, tant
"Minha amiga, tanto quanto o amor do meu coração pode se es- se cstoit jusques aux os des fers les jambes eschiees, ainsi que
tender, mais do que jamais por outra coisa, agradeço-vos o grande depuis tout me fut dit. Et quand ceste sy tres cruelle justice
e triste dom que ora me tendes feito. Acabo de ouvir o toque do [ut faitte, et à chief de piece que je fus dt pasmoison revenu,
côrno do vigia do dia, e ainda que não dormimos esta noite, é lors je despouillay vostre coste d'armes, et sur son corps la
necessário que me levante; e vós podeis repousar ainda un1 pouco." mis
- "Repousar, disse ela, ai, meu senhor, não tenho coração, nem
ôlho nem membros no corpo que queiram fazê-lo. Mas eu me
levantarei e iremos à missa os dois, para agradecer Nosso Senhor Mas o menino, que acreditava que seria levado para o cas-
por tudo:• telo (pois isto tinham-lhe dito os guardas para consolá-lo), quando
* viu que iam em direção ao monte Réont, assustou-se mais do que
nunca. Começou, então, a chorar e a horrorizar-se e disse a Tomás,
Depois desta cena, a narração ainda se estende longamente, o chefe da guarda: "Ah, Tomás, meu amigo, vós me levais à morte!
novamente aparecem os arautos do príncipe, para exigir a entre• Vó~ me levais à morte! Tomás, vós me levais à morte! Ai, senhor
ga e ameaçar com a execução da criança; novamente êles são meu pai, eu vou morrer! Ai, senhora minha mãe, eu vou morrer,
mandados embora; então o comandante decide ordenar uma cu vou morrer! Ai, ai, ai, eu von morrer, morrer, morrer, morrer!''
surtida, para fazer uma tentativa violenta de salvação; depois u E quando êle assim chorava e gritava e olhava ao seu redor, à sua
narração passa para o campo inimigo, onde o príncipe faz con frente e atrás, também me viu, infeliz de mim, com a vossa cota
duzir a criança acorrentada para a execução, e obriga o arauto J'armas, e quando me viu, gritou com tôda a sua fôrça e disse-me:
'Oh, Chastel, meu amigo, eu vou morrer! Ai, meu amigo, eu vou
do senhor du Chastel (que também se chama Chastel), apesar du morrer!'' E quando o ouvi gritar assim, caí ao chão como morto.
sua resistência, a unir-se ao cortejo; aqui relata-se como, na Mns h11via sido ordenado que eu fôsse arrastado atrás dêle, e assim
fortaleza, a mulher do comandante tenta impedir a surtida e fui ~egurado por muitas pessoas até que tudo chegou ao fim. E
desmaia, quando os guardas já observam a volta do destacamento quundo chegaram ao monte, lá havia um frade que, com belas pala-
inimigo que levara a criança para a execução, de tal forma qm;, vr,I\ \Õbre a esperança na graça de Deus, pouco a pouco o confessou
de qualquer modo, é tarde para a ação planejada; como o e lhe: deu a absolvição dos seus pequenos pecados. E, pois que êle não
q11erh1 absolutamente morrer, foi necessário que lhe segurassem a ca-
comandante faz com que sua mulher seja levada para a cumu hcç11 e lhe amarrassem pernas e braços, tão fortemente que as pernas
e como a consola; como o arauto Chastcl volta à fortalct.a e t 11:nrurn feridns até os o~sos, o que me contaram mais tarde. E quando
narra os acontecimentos ao comandante, com o que repete ~e eMn muito cruel condenação foi executada, e acabei por recuperar
muita coisa anteriormente dita de forma algo tliíercnle; l1lil'I o lllnhe~·111wnfo, dc~pojci •mr do voss:\ cota d'arm11s e a pus sôbrc
ainda quero transcrever textualmente ti descrição tia morte d.1 li 6CII ,oi 1,0,

criança, tal como ela é tlcscnta pelo arauto •


206 MIMESJS
MADAME DU CHASTEL 207

Esta impressão é espontânea no leitor, e é muito forte; quero


O arauto encerra o seu relato com as ásperas palavras que foram
tentar o esclarecimento dos elementos isolados que fazem surgir.
trocadas entre êle e o príncipe, quando pediu o cadáver do
No que se refere à forma, tanto a sintaxe quanto a com-
menino, e o obteve. Descreve-se, então, como o seigneur que
ouviu isto tudo, diz urna oração: posição do conjunto nada mostram da flexibilidade, multiplici-
dade, clareza e ordem antigas-humanistas. Apesar de as orações
Beaux sires Dieux, qui le me avez jusques à aujourd'uy não estarem construídas preponderantemente de forma paratá-
presté, vueillez en avoir l'âme et )ui pardonner de ce que il tica, a hipotaxe é freqüentemente inábil, cheia de pesada ênfase
a la mort mal prinse cn gré, et à moi aussi, quant pour bien e, às vêzes, pouco clara nos membros de ligação. Uma oração
faire l'ay mis en ce party. Hellasse! povre mere, que <liras-tu como a seguinte, da fala da mulher: Et car pow· ce il est mon
quant tu saras la piteuse mort de toa chier filz, combien que vray filz, qui moult chier m'a cousté à porter l'espasse de IX
pour moy tu le avoyes de tous poins abaadonné pour acquittier mois en mes f Ians, dont en ay receu maintes dures angoisses et
moo. honneur. Et, beau sires Dieux, soiez en ma bouche pour par maints jours, et puis comme morte à l'enffanter, lequel j'ay
l'en resconforter. si chierement nourry, amé et tenu chier jusques au jour et heure
* que il /ut livré - já mostra na cadeia das ligações relativas certa
Nobre senhor Deus, que mo emprestastes até hoje, recebei a falta de clareza nas relações de concordância; as palavras et puis
su!l. alma e perdoai-lhe o fato de ier recebido a morte de mau grado comme morte à renffanter caem totalmente fora da ordem sin-
e perdoai-me a mim também, pois que, para fazer o bem, o pus tática; enquanto o conjunto todo não é concebido, de maneira
em tal situação. Ai, pobre mãe, que dirás quando souberes da alguma, como manifestação emocionadamente desordenada, mas
triste morte do teu caro filho, não obstante o tenhas abandonado como discurso cuidadoso e solene. O caráter pesadamente sole-
totalmente por minha causa, para salvar a minha honra. E, nobre ne, pomposamente cerimonial dêste estilo repousa, em última
senhor Deus, estai na minha bôca para reconfortá-la. análise, também nas tradições retóricas antigas, nas suas trans-
* formações pedantes medievais e não numa renovação humanista
Depois segue-se o solene entêrro, e a cena na qual êle do seu caráter primordial. Para isto também contribui o solene
comunica à mulher, de quem tinha ocultado até então o acon- amontoar de. sinônimos, ou de expressões quase sinônimas, como
tecido, diante de muitas pessoas, à mesa, a morte do filho; ela nourry, amé et tenu chier, que encontramos a todo passo, como,
permanece resignada. Alguns dias mais tarde o príncipe neces- por exemplo, logo na oração seguinte: liberalement de cuer et
sita levantar o sítio; o comandante encontra, ainda, a oportuni- /ranchement, sans force, contrainte ne viollence aucune, vous
dade para um assalto exitoso, durante o qual é feito um grande donne, cede et transporte toute la naturelle amour, l'affection et
número de prisioneiros. Doze dos mais distintos entre· êles, que /e droit . . . Isto lembra o estilo pomposo dos documentos ofi-
querem resgatar-se com grandes somas de dinheiro, são enfor- ciais ou das escrituras jurídicas, com o qual casam brilhante-
cados num cadafalso elevado, visível a grande distância; aos mente as muitas invocações a Deus, a Nossa Senhora e aos
restantes é vazado o ôlho direito e cortada a orelha e a mão santos. Assim como em tais solenes documentos, a coisa em
direitas, depois do que são enviados de volta: si é introduzida freqüentemente por uma multidão de fórmulas,
alocuções, determinações adverbiais e, às vêzes, até de um des-
"Allez à vostre seigneur Herodes, et luy dittes de par vous file de orações preparatórias, de tal forma que ela aparece como
grant mercis des autres yeul.x, oreilles et poings senestres que um pr!ncipe ou como um rei, solenemente precedido pelos seus
je vous laisse, pour ce que il donna le corps morts et innccnt arautos, guardas-costas, oficiais da côrte e porta-estandartes.
de mon filz à Chastel mon herault.'· O diálogo noturno traz suficientes exemplos disto; encontram-se
incessantemente quando os arautos entregam as suas mensagens,
Ide ao vosso senhor Herodes e dizei-lhe do vosso grande agrn- e, ainda que o processo seja conseqüência necessária do objeto,
decimento pelos outros olhos, orelhas e mãos esquerdas que vok oeste último caso, é impossível deixar de observar com quanta
deixo, porque êle deu· o corpo morto ·e inocente de meu filho a dedicação La Sale se delicia com êle, tão logo se lhe apresenta
Chastel, meu arauto. 1l oportunidade. Quando se lê: Monsei~eur /e cappitaine de
c·,•.1·t1• p/ace, nous, comme o!ficiers d'armes et personnes public-
Êste texto, que tenho apresentado de forma mais extensa tfllt'.V, de par le prince de Galles, nostre tres redoubté seigneur,
- em parte porque na sua extensão e circunstancialidade reside 1·1•,1(1• /0/1. pour tantes à vous nous mande, de par sa clemence
uma parte importante da sua essência, cm parte, também, porqm· tlc /11"i11cl', 11011.v slgni/icr, a,lviser et sommer ... , é inconfundível
êle não deveria ser tão fàcilmentc acessfvel para u maioria dn~ 11 luto de que, mesmo num instante cm que êle está estreme-
meus leitores quanto os que comentamos lllé uqui , 1: nu11~ cido 1• rcvoltndo contrn o cnrcldadc do príncipe, La Sale delei-
do que um século mais jovem que o D1·ccum·1w1 de Boccm:do: 111 lll' c1n'rl•vcmlo t•~la pornpil estnmentol enfático, mas sintàticn-
parece, porém, incomparàvclmcntc mm, nwdicval 1• 11111iq11nilo,
208 MIMESIS MADAME DU CHASTEL 209

mente confusa. Com isto fica dito: a sua linguagem é estamen- de que um acontecimento po_lítico-militar, que se encontra num
tal; e tudo o que é estamental é anti-humanista. A ordem contexto histórico conhecido, seja visto meramente como pro-
estamental fixa da vida, dentro da qual tudo tem e conserva o blema estamental. Nunca se fala acêrca da importância objetiva
seu lugar e a sua forma, reflete-se na retórica solene, compli- da fortaleza, quais conseqüências negativas teria a sua perda
cada, cheia de fórmulas e demasiado abundante em gestos e para a causa da França e do rei; pelo contrário, trata-se exclusi-
invocações. Cada pessoa tem o seu vocativo correspondente; vamente da honra de cavaleiro do senhor du Chastel, trata-se
Madame du Chastel chama o seu marido Monseigneur, êle lhe da palavra empenhada e da sua interpretação, da fidelidade do
diz m'amye; cada pessoa faz o gesto condigno com o seu estado vassalo, do juramento e da fiança pessoal; o comandante até
e as suas circunstâncias, como de acôrdo com um modêlo eterno, chega a oferecer ao príncipe, uma vez, o combate singular, para
fixado para todo o sempre (à jointes mains vous supplie); quan- decidir sôbre a diferença de interpretação do tratado. Tudo o
do o príncipe obriga o arauto do comandante a presenciar a que é objetivo é sufocado por cerimônias solenes e cavalheirescas,
execução do menino ( a cena é relatada duas vêzes), isto soa o que não impede que reine uma crua crueldade, que não é
assim:. . . alors, en genoulx et mains jointes je ·me mis .et lui ainda, de forma alguma, moderna, ligada a um fim determinado
dis: "A! tres redouté princ:e, pour Dieu, souffrez que la c:larté e, por assim dizer, racionalizada, mas continua sendo puramente
de mes malheureux yeulx ne portent pas à mon tres dollent c:uer pessoal e emocional. A execução da criança é um ato de bar-
la tres piteuse ,wuvelle de la mort de l'innocent filz de mon bárie totalmente carente de sentido, assim como também é um
rnaistre et seigneur; il souffist bien trop se ma langue, au rapport ato de barbárie totalmente carente de sentido a vingança do
de mes oreilles, /e fait à ice/ui monseigneur vrayment." Lors comandante na pessoa de mais de cem inocentes, que são enfor-
dist /e prince: "Vous yrez, veuilliez ou non." A tradição dentro cados ou aleijados - e que em outros casos, não havendo a neces-
da qual se está aqui faz-se sentir com máxima nitidez nas passa- sidade pessoal de vingança do comandante, teriam sido devol-
gens especialmente solenes, nas quais, como acabamos de dizer, vidos contra um certo resgate em dinheiro. Tudo isto dá a
a coisa a ser comunicada é rodeada por um cinturão fortificado impressão de que a direção política e militar da guerra não
de fórmulas solenemente introdutórias. Em tais passagens fica conta com nenhuma espécie de racionalização; de que nem
claro que se trata de formações decadentes da tardia Antigüi- existe espécie alguma de direção central das operações bélicas,
dade, que, a partir da baixa Idade Média, foram admitidas e de tal forma que as medidas que são tomadas dependem, em
elaboradas nas culturas estamentais. Nas línguas vulgares, esta grande parte, das circunstâncias pessoais das emoções e dos
tradição vai desde a pesada e grandiosa retórica dos juramentos conceitos de honra cavalheiresca dos comandantes que se enfren-
de Estrasburgo até os preâmbulos dos editos reais (Louis par tam em cada ação parcial. Isto, certamente, ainda era assim,
la grâce de Dieu, etc.). No que se refere à construção da de fato, durante a Guerra dos Cem Anos. Mesmo muito mais
narrativa, quase não é possível falar de uma ordem consciente; tarde, até nas épocas do absolutismo totalmente desenvolvido,
a tentativa de relatar cronologicamente leva a muita confusão encontram-se precisamente na guerra, onde as convenções do
e repetição; e, mesmo que se puder tomar em consideração o espírito cavalheiresco se conservaram durante mais tempo - traços
fato do autor ter sido um homem muito velho (há algo de nítidos de relações totalmente pessoais e cavalheirescas entre ami-
senilmente maçante no estilo da obra), o caráter paratático e go e inimigo. Contudo, é justamente no século XV, na época de
um tanto confuso da composição pode ser encontrado também La Sale, que começa a se fazer sentir a mudança. Os métodos
no romance do pequeno Jehan de Saintré, que foi escrito alguns políticos e militares cavalheirescos fracassam, o seu ethos torna-se
anos antes; é um estilo de crônica, que enumera os aconteci- quebradiço e o seu papel, pouco a pouco, meramente decorativo.
mentos uns após os outros, pulando com freqüência um tanto O romance de La Sale sôbre _o pequeno Jehan de Saintré dá
repentinamente de um cenário para outro. A ingenuidade dêstc um lcstemunho eliqüente e evidentemente despropositai da
processo é salientada ainda mais pela fórmula mediante a qual fnlta de sentido, ostentatória e parasitária, dos feitos de armas
é introduzida cada uma das mudanças dêsse tipo: e agora deixa- nessa época. Da mudança que está se preparando, La Sale,
mos de narrar acêrca dêste assunto e nos voltamos para aquêlc. contudo, nada quer saber; vive envolto na atmosfera estamental,
A mistura entre a pesada pompa da linguagem e a enumeraçao nu~ seus conceitos de honra, nas suas cerimônias e na pompa
ingênua na composição produz uma impressão de arrastada e hc-r:íld1ca. Mesmo a sua erudição, que aparece mais claramente
pesada monotonia quanto ao tempo, que não carece de grandio- 11,111 suas outras obras do que no Réconfort, é um mosaico de
sidade; é uma espécie de estilo elevado; mas é estamental, nno c1t.u,;õcs mornl~. pertencente em espírito ao escolasticismo tardio,
é humanista, não é clássico e é essencialmente medieval. uu, mnis prôpriumcntc, é uma compilação escolástica estamental,
A mesma impressão de uma visão mcdicvol-cslnml·ntul é pnslu .1 lll'tvlço da cducaçao feudal e cavalheiresca.
produzida pelo conteúdo da nnrrução, e nqu1 quero t1R~11rnla1 c,pc- l'nrn l 11 Salt•, portarllu, o movimento que levou os grandes
cialmente quão surprcémknlc.: é, parn um leitor 111odc1110, o tntu ••~l 11t111c!i i1nli111111~ do M~Culo '< IV o IIJlíl'l.'nsno dn íntcgralidnd~
210 MIMESIS MADAME DU CHASTEL 211

da realidade contemporânea, ainda não teve efeito. A sua lin- cu renuncio, agora, ao meu amor por êle, assim como se nunca
guagem e, em geral, a sua arte são estamentais; o seu horizonte o tivesse tido; sacrifico o meu amor por êle; pois poderemos,
é estreito, embora tenha viajado muito. Viu em tôda parte certamente, ter outros filhos; mas se a vossa honra se perder,
muita coisa notável, mas em tudo o que viu só percebeu o nunca poderá ser recuperada. E se seguirdes o meu conselho,
cortês e o cavalheiresco. e. neste espírito que está escrito a pessoas vos louvarão: e'est k preudomme et tres loyal cheva-
também o Réconfort; mas em meio ao seu estilo feudal e pom- lier . . . B difícil decidir o que deve ser mais altamente louvado
poso, já um tanto alquebrado, encontra-se, como o texto acima neste discurso: se a abnegação ou o autodomínio, se a bondade
o mostra, um acontecimento legitimamente trágico da mais alta ou a clareza. O fato de que uma mulher, em meio a tal
dignidade, que nos é relatado, sem dúvida, com certa cerimônia calamidade, não se entregue à desesperação, mas apreenda a
e pedanteria, mas, sem dúvida também, como grande calidez e situação real com tôda nitidez; o fato de ela reconhecer_ que
simplicidade de coração, tal como lhe corresponde. Na literatu- nunca poderia se pensar em entregar a fortaleza, que a cnança
ra medieval encontra-se dificllmeote um segundo exemplo de um estaria perdida em qualquer caso, se o príncipe levar a coisa
conflito tão simples, tão extremamente real, tão modelarmente a sério; o fato de perceber que pode dar ao seu marido, pela
trágico, e tenho ficado perplexo, mais de uma vez, pelo fato intervenção a segurança interna, pelo seu exemplo o valor para
desta bela peça ser tão pouco conhecida. O conflito não é, de se decidir e pela alusão à fama que ganhará, ainda um certo
forma alguma, esquemático, não tem nada a ver com qualquer consôlo e, sem dúvida, uma orgulhosa consciência de si que
dos motivos tradicionais da poesia cortês; e trata de uma mulher, lhe facilita tôda a sua atitude; tudo isto junto é de uma beleza
mas não de uma amada, mas de uma mãe; não é româtico-como- simples e de uma grandeza somente comparável à de um te~to
vente, como a estória de Griseldis, mas é um acontecimento clássico. E também é muito bela a conclusão na qual ele,
prático, palpável na sua realidade. O pano de fundo cavalhei- havendo perdido totalmente a sua tensão, é cap_az de orar e de
resco-cerimonial não causa nenhum dano à sua simples grandeza, agradecer-lhe e até de convidá-la a repousar amda um pouco:
pois permite-se a uma mulher, sobretudo nesse tempo, sem mais Reposer, dit-elle, hellas, Monseigneur, je n'ay cuer, (J!Ul, ne mem-
nem menos, que se integre nas circunstâncias que lhe são dadas; bre sur mon corps qui en soit d'accord . ..
e até o caráter tolhido, humilde, que se inclina obedientemente Fica claro que o estilo pomposo do tardio feudalismo pode
à vontade do marido, mostra mais efetivamente a fôrça pura visualizar uma tal cena, legitimamente trágica e legitimamente
e a liberdade do seu ser, que se realça na necessidade. O con- n~al; tão superficial quanto possa ser com referência aos elemen-
flito atinge, no fundo, somente a ela, pois, ainda que êle se tos poHticos ou militares, onde não mais é capaz de apreencter
mostre indeciso e queixoso, não há dúvidas acêrca da decisão IIR verdadeiras relações e circunstâncias, quando se trata de, u~a
que deve tomar; ao contrário, é da atitude da mulher que depen-
nção muito simples, imediatamente humana, tem bom extto.
de se e como êle ultrapassará êste estremecimento; e com uma Isto é tanto mais notável quando se trata, no nos~o exempl_o, de
acomodação bem sentida, rápida e clara às circunstâncias, ela
um cenário muito doméstico-quotidiano, de um casal que d1sc~te
retoma o domínio de si mesma através da reflexão: se il se muert,
rm carna, à noite, as suas preocupações; segundo as concepçoes
or as-tu bien tout perdu. E imediatamente ela se decide a liber-
clássicas antigas, êste não seria, de maneira alguma, um local
tá-lo da inútil autotortura; decide-se a mostrar-lhe o caminho
que ela sabe que êle deve escolher, precedendo-o. Tão Jogo upropriado para uma ação trágica de _estilo elevado. Os el~-
consegue captar a atenção do marido, a mulher lhe dá, antes muntos trágicos e seriamente problemátti;<:s apres:ntam-se, aqui,
de mais nada, aquilo de que tem mais necessidade: ordem nos 1:m meio à quotidianidade de uma familia, e, nao obstante se
seus pensamentos, consciência da situação que deve enfrentar: trutnr de pessoas da alta nobreza, qu~ viv:m r'igidament: segundo
118 formas e tradições feudais, a s1tuaçao em que sao encon-
deve-se escolher entre dois males, e êle deve escolher o menor.
1radoR, isto é, à noite, na cama, e não como amante~,, ~as como
Quando êie, ainda perplexo, pergunta qual seria o menor, ela
nrnrido e mulher clamando em meio à grande mtsena e pro-
começa por se furtar à resposta: isto não deve ser decidido
<.:urando ujudar-s; mutuamente, _é de uma espécie que parece
por uma fraca mulher, deve sê-lo pela virtude e pelo valor
muito mais burguesa, ou antes, hu°:1ana,_ criatura!, ~o que_ feudal.
rn.asculinos; com o que obriga-o a ordenar-lhe, imediatamente, Â JlCNflr da linguagem solene e cenmomosa, as coisas dao-se d_e
que exprima os seus pensamentos, recolocando-o, ainda que só lll(ltlClnt muito simples e ingênua; poucos pensamentos e sen:1•
aparentemente, na posição costumeira de quem dirige e decide; mcntos a11nplcs apresentam-se justapostos ou cont~apostos;. nao
já com isto tira-o da lamúria incontida, que socava a sua fôrça ftl' pode fnhir cm separação de esttlos entre tragédta e realismo
e sua consciência de si. E depois dá-lhe o exemplo que êlc No tempo do seu florescimento, no. século Xll: a
111111 t1d,11no.
deve seguir: as crianças, assim diz ela, são mais filhos du suu llll'l'lllltll1 fcullnl nndn nos deixou de tão real e cnatural; mando
mãe, que as carregou, deu à luz e alimentou, do que uo Nt'U pui: ~- mulht·• 1111 1:1111111, islo poderio ter aparecido, cm_ úlli~o caso,
11 pt•rr 11 ~ ,w lara.i p11p11li11
o nosso filho é mais meu filho do que vos~o: C' mesmo 11~~1111 P o t111c dcvcrin ser dito, t11nda, da
212 MIMESIS MADAMB OU CHASTEL 213

apresentação do menino que chora e grita enquanto é levado Sagradas Escrituras. No século XV, a acomodação dos acon-
à morte! Não quero louvá-la; nem para o leitor nem para o tecimentos da história da salvação dentro da vida presente e
coitado do pai, a quem se dirige o relato do arauto, é necessário quotidiana do povo tinha atingido um tal grau, que o realismo
pintar os pormenores do acontecimento com tanta evidência religioso apresenta sinais de exacerbação e de crua corrupção;
sensível. Tanto mais surpreendente é verificar que grande quan- já mencionamos isto anteriormente, e também foi apresentado
tidade de realismo criatura] desencoberto é possível juntar, em freqüentemente, por exemplo, de maneira muito rigorosa e im-
meio a êste pomposo estilo heráldico, a um acontecimento trági- pressiva por Huizinga, de maneira que não teremos de voltar
co. Tudo está urdido com o intuito de evidenciar a contradição a tratá-lo.
entre a inocência do menino e a horrível execução, entre a sua Contudo, dentro do nosso contexto, há outras coisas a
vida até então totalmente preservada e a realidade, que nela serem salientadas com referência ao realismo do fim da Idade
irrompe, súbita e impiedosamente: a compaixão dos · guardas, .Média; a saber, antes de mais nada, que a imagem do homem
que se tornaram amigos do menino durante a sua curta prisão realmente vivo, que tinha sido criada pela mistura cristã dos
como refém, a sua gritaria infantilmente desconcertada, que estilos, ou seja, a imagem criatura!, ora surge também fora do
irrompe duas vêzes sôbre o leitor, agarrando-se a todos os possí- círculo considerado cristão, no sentido mais estrito do têrmo;
veis protetores, presentes e ausentes, repetindo sempre as mesmas encontramo-la na nossa narração, que relata um acontecimento
palavras, a sua revolta contra a morte até o último instante, feudal-militar. Outrossim, deve ser assinalado o fato de que
apesar do monje que o consola e confessa, de tal forma que, a representação da vida real-presente se dirige agora com espe-
pelo desesperado espernear dos membros amarrados, formam-se cial amor e grande arte para os elementos íntimos, domésticos
feridas que vão até os ossos; o senhor du Chastel e o leitor e quotidianos da vida familiar. Também isto origina-se, como
em nada são poupados. acabamos de dizer, da mistura cristã dos estilos, e os motivos
O que aqui acabamos de verificar, o concurso do pomposo que estão em relação com o nascimento de Maria e com o de
estilo cavalheiresco-cerimonial e do realismo fortemente criatura!, Cristo constituem-se em modelos conceituais para tal desenvol-
aue não recua diante de um efeito crasso, mas, evidentemente, vimento. Por outro lado, o simbolismo tipológico continua
gosta de desfrutá-lo, não é nada nôvo. Desde o Romantismo operando durante muito tempo, dentro destas representações
esta combinação pertence à concepção corrente da Idade Média; "realistas".
a pesquisa mais acurada comprovou que foi principalmente O desenvolvimento realista também foi promovido pelo
durante o fim da Idade Média, durante o século XN e, sobre- ~urgimento da cultura da alta burguesia, que se fazia sentir com
tudo, durante o século XV, que tal combinação se formou com fôrça, perto do fim da Idade Médi_a, sobretudo no norte da
maior fôrça e sobressaiu com maior nitidez nas suas caracterís- França e na Borgonha. Esta cultura não tinha, ainda, plena
ticas. Faz algumas décadas que possuímos uma excelente e consciência de si mesma (levou muito tempo até que se formas-
muito difundida pesquisa sôbre esta época, o Outono da Idade se, cm teoria, uma articulação do "terceiro estado" correspon-
Média, de Huizinga, na qual êste fenômeno é analisado repeti- d1Jn te às circunstâncias reais), e ela ficou, durante muito tempo
damente e em diversos contextos. O elemento comum, que ninda, tanto na sua atitude, quanto no seu estilo de vida, antes
une ambos os aspectos, é o pesado e o obscuro, o que se arrasta pequeno- do que alto-burguesa, apesar do seu notável bem-
no tempo e carrega nas côres, do gôsto sensível daquela época; estar e da sua fôrça crescente; mas fornecia motivos para as
de tal forma, o seu estilo pomposo possui amiúde algo de dema- nrtes imitativas, e, justamente, tratava-se de ·motivos íntimo-do-
siado intensivamente sensível, e o seu realismo, às vêzes, algo mésticos : tanto como interieur plástico, quanto como represen-
de formalmente pesado e, ao mesmo tempo, algo de imediata- tuç!\o de problemas e situações domésticas e econômicas. O
mente criatura] e carregado de tradição; algumas formas realis- cortíter doméstico, íntimo, quotidiano da vida pessoal faz-se
tas, como as danças da morte, têm o caráter de urna procissão ~l•nt1r, às vêzcs, mesmo nos casos em que se trata de círculos
ou de um cortejo. A grande carga de tradição do realismo feudais ou aristocráticos, ou até principescos. Também nestes
criatura! sério desta época explica-se pela sua origem; provém círculos são representados, com maior freqüência, exatidão e
da visão figural cristã, e pede emprestado do cristianismo quase lltl\llldinnidade do que antes, acontecimentos íntimos, como é o
todos os motivos conceituais e artísticos. A criatura que sofre c·nso do nosso texto e também, freqüentemente, dos cronistas
está presente, para êle, na Paixão de Cristo, ciuja pintura e Frn,,Harl, Chastcluin, etc.) ; de tal forma, a arte e a literatura,
torna-se cada vez mais crassa e cuja sugestão scnsivel-rníslica 11pt~11r d11 sua preferência pelo fausto feudal-heráldico, apre-
torna-se cada vez mais forte, ou nas Paixões dos mártires. A ~r111,1, 110 hCU conjunto, um caráter muito mais burguês do que
intimidade domiciliar, o interieur sério ("sério" cm contraste 1111\ 1111111c1rn~ tcmpoH medievais. Finalmente deve ser ressaltado,
com o interieur das farsas) brota nêlc a partir du Anunciuçüo 11111,111, 11111 t1·1n·11u l'lcnwnto, csst:nc,al pura o realismo da tardia
e de outras cenas domésticas que p()dlum ser cncont,adas IHI\ ldmk tvktli11, j11~l111m•nlc ,11111l•lc llllc me levou " introduzir neste
214 MIMESIS MADAME DU CHASTEL 215

capítulo uma expressão até agora não empregada: "criatural'', tudo, já então foram tiradas conclusões isoladas de _caráter pol~-
É, desde os primórdios, uma das peculiaridades da antropologia tico-econômico (na Inglaterra com bastante energia) a partir
cristã o fato de ela i-essaltar o homem, sujeito a sofrimentos e desta doutrina igualitária, mas a ideologia que predominava
à mortalidade; isto foi conferido obrigatoriamente pelo conceito amplamente somente lia na criaturalidade do homem a inutili-
modelar da Paixão de Cristo, relacionada com a história da dade e a vaidade de todo esfôrço terreno. Para muitos homens
salvação. Mas nos séculos XII e XIIT ainda não se relacionava dos países ao norte dos Alpes, a consciência da inelut~vel ruín_a
com isto uma tal desvalorização e desvirtuação da vida terrena, de si próprios e de tôdas as suas obras teve um efeito parali-
como a que ora se fazia sentir. Nos primeiros séculos da sante sôbre a formação dos pensamentos, no tocante ao plane-
Idade Média ainda estava muito vivo o conceito segundo o qual jamento prático da vida terrena; uma atividade dirigida para o
a sociedade terrena tinha valor e metas; tinha tarefas específicas futuro no aquém parece-lhes carente de todo valor e digni~ade,
a cumprir, devia tornar real, na terra, uma determinada forma um mero jôgo do~ instintos e das paixões; e o seu relac1ona-
ideal, para preparar os homens para o reino de Deus; no campo namento com a realidade terrena compõe-se do reconhecimento
desta pesquisa, Dante oferece um exemplo com o qual pode re- da sua forma existente como um teatro sensivelmente expres-
conhecer-se quão importante, eticamente relevante, e decisiva para sivo e do radical desvendamento do mesmo como passageiro e
a salvação eterna era a atividade terrena, planejadora e política, vão; com o que os contrastes entre vida e morte, juventude e
de cada um dos homens e da sociedade, não só para êle, como velhice, saúde e doença, triunfal pompa do papel terreno e
para muitos dos seus contemporâneos. Ora,. seja porque os calamitosa defesa contra a inelutável destruição, foram ressal-
conceitos sociais ideais daqueles primeiros séculos medievais tados com os recursos mais extremos. Queixando-se enfadonha
tivessem perdido fôrça e prestígio, porque os fatos os contradi- ou apaixonadamente, pia ou dnicament_e, ou as ?~as coisas jun-
ziam teimosamente e novos desenvolvimentos, que não se deixa- tas, êstes temas simples são sempre variados; ammde, com fo~ça
vam unir àqueles, estavam abrindo o seu caminho; seja porque arrebatadora; a vida média e quotidiana, com as suas alegnas
os homens não conseguiam interpretar e ordenar estas novas sensuais, as suas penas, a sua decadência pela velhice e pela
formas políticas e econômicas de vida; seja, ainda, porque as enfermidade, o seu fim, raramente foi representada de_ for~a
correntes popular-extáticas, a mística-passional, que cada vez se tão impressionante como nesta época, e estas represt:,ntaç~s tem
tornava mais apaixonadamente realista, a religiosidade, que cada um caráter estilístico que se diferencia fortemente nao s<:> do da
vez mais degenerava em superstição e fetichismo, paralisavam urtc antiga, o que é evidente, mas também da arte realista dos
a vontade de apreender teoricamente a vida terrena prática : nos primeiros séculos da Idade Média.
últimos séculos da Idade Média, de qualquer forma, faz-se sen- . Há, nesta época, uma grande quantidade de_ representações
tir um cansaço e uma esterilidade no pensamento construtivo- literárias, de conversações noturnas entre mand~ _e mulher.
-teórico, sobretudo na medida em que se refere à ordem da Daquelas que eu conheço, é especial?tente caracter1st1ca a cena
vida prática, de tal forma que aquêle lado "criatura!" da antro- <ltt primeira das Quinze Joyes de Mariage._, na qual a mul~e: quer
pologia cristã, a sua sujeição ao sofrimento e à mortalidade, apa- ter um vestido nôvo. A minha citaçao segue a ed1çao da
recem ressaltados de fonra crassa e em nada morigerada. O 11iblioth~que e/zévirienne (2e. éd., Paris 1857, P· 9 ss.):
que há de peculiar nesta imagem radicalmente criatura) do
homem, o que está em contraste especialmente forte com as Lors regarde lieu et temps et heure de parler de la matiere
características do antigo humanismo, reside no fato de que, por 11 son mary: et voulentiers elles devroient p~rler de le_urs choses
mais respeito que demonstre diante da roupa terrena e social que C'lpcciallcs là ou leurs mariz sont ylus subJets et do1vent estre
o homem veste, perde todo o respeito diante dêle mesmo, tão plus enclios pour octrier: c'est ?u ht, ouqy~l le co~pagnon do?,t
logo a despe; por baixo desta vestimenta não há nada além da j'ny parlé veult atendre à ses delitz et pla!S!rs, e_t lu_1 s~mble qu d
carne, que será ofendida pela idade e pela doença, que será n'n nultrc chouse à faire. Lors commence et d1t ams1 la Dame:
destruída pela morte e pelo apodrecimento. Trata-se, se assim "Moo amy, lessez-moy, car je suis à grand mal-ai~e. - M'allli~,
se quiser, de uma teoria radical da igualdade de todos os homens, cht 11, ct de quoy? - Certes, fait-elle, je le. doy b1en estre, mais
mas não no sentido político ativo, mas como desvalorização da jc nc vous cn dirny jà rie.n, car vous ne fattes compte de chose
vida, que toca a todos e cada um de forma imediata: tudo o que jc vous dye. - M'amie, fait-il, dites_-moy p~ur ~uo~ vo~~
que o homem faz é vão; embora os seus instintos o obriguem a llll' dites tcllcs paroles? - Par Dieu, fa1t-elle, s1Te'. II n e~t Jª
agir e a aferrar-se à vida terrena, ela não tem valor nem digni- 111l·stier que je Jc vous dye: car c'est une cho~e, pms que Je l_a
dade. Não é em relação mútua, nem "perante a lei" que todos vou, uurnyc dite, vous n'en feriez compte, et 11 vo~s. semblero1t
os homens são iguais, pelo contrário, Deus dispôs de tal formn l(IIC jc lc fci~sc pour autrc chosc. - Vrayement,. fa1t-1I, vou~ me
que êles sejam desiguais na vida terrena; iguais, ~lcs o são drnntc ll• d1tl'/" 1 mll dll• dit: "Puis qu'íl vous plcsl, JC lc vous dirny:
da morte, diante da decrepitude crinturnl, cli1111tc de lk11, C'on M 1111 ,1111y, í111t l•lk, vn11~ Nuvct. que jc fuz 'lautrc jour à tcllc foste,
216 MlMESJS MADAME OU CHASTEL 217

ou v?u~ m'envoi~~tes; qui ~e me plaisoit gueres; mais quand je chamberieres que celles que je porte aux dimanches. Ne je me
fu~ la, Je ~roy qu 11_ 1: y avo1t fe1?1lle (tant fust-elle de petit estat) scey que c'est à dire dont il meurt tant de bonnes gens, dont
qu1 fust s1 mal abillee c~mme_ Je estoy_e: combien que je ne dy c'est grand dommage: à Dieu plaise que je ne vive gueres! Au
pas pour moy louer! mais, D1eu merc1, je suis d'aussi bon lieu moins fussés vous quite de moy, et n'eussés plus de desplesir
comm: dame, damotselle ou b?urgeoise qui y fust; je m'en rap- de moy. - Par ma foy, fait-il, m'amie, ce n'est pas bien dit,
porte a ce~lx que scevent les hgnes. Je ne le dy pas pour mon car il n'est chose que je ne feisse pour vous; mais vous devez
estat, ~ar il ne m'en chaut comme je soye; mais je en ay honte regarder à nostre fait: tournez vous vers moy, et je feray ce q~e
pour 1 amour de vous et de mcs amis. - Avoy! dist-il m'amie vous vouldrez. - Pour Dieu, fait-elle, lessés moi ester, car, par
~ue) estat_ ª"'.oien~-elles ~ ceste feste? - Par ma toy,' fait-elle: ma foy, il ne m'en tient point. Pleust à Dieu qu'il ne vous en
II n Y avo1t s1 pe!1te de I estat dont je suis qui n'eust roba d'écar- tenist james plus que il fait à moy; par ma foy vous ne me
late, ou de ~ahgnes, ou de fin vert, fourrée de bon gris ou toucheriez james. - Non? fait-il. - Certes, fait-elle, non." Lors,
de menu-ver, a grands manches, et chaperon à l'avenant, à grant pour l'essaier bien, ce lui semble, il lui dit: "Si je estoie tres-
cr~ch~, avecques un tes~u _de soye rouge o~ vert, traynant jus- passé, vous seriez tantoust mariée à ung aultre. - Seroye! fa1t-
ques a terre, et tout fa,t a la nouvelle guise. Et avoie encor -elle: ce seroit pour le plaisir que g'y ay eu!_ Par le sacremen~
la robe ~e ll'l:es nopces, laquelle est bien usée et bien courte, pour Dieu, jamês bouche de homme ne touchero1t à la moye; et s1
~e que _ie suts creue depuis qu'elle fut faite; car je estoie encore je savoye que je deusse demourer aprê.s vous, je feroye chouse
Jeune filie quand_ je vous .fus donnée, et si suy desja si gastée, que je m'en iroye la premiere." Et commence à plorer ...
tant ay eu de peme, que Je sembleroye bien estre mere de telle
à qui i_e seroye bien fille. Et certes je avoye si grant honte
quand Je estoye entre elles, que je n'ousoie ne savoye faire con- Então ela reflete sôbre o lugar e a hora de falar sôbre a
t~nance. Et encore me fit plus grand mal que la Dame de tel matéria com o seu marido: e com muito prazer elas falam das suas
lieu, et la femme de tel, me disrent devant tous que c'estoit coisas pessoais lá, onde os seus maridos são mais fracos e mais
g:and'honte que je n'estoye ~ielx abillée. Et par ma foy, elles fàcilmente inclinados· a ceder: isto é, na cama, onde o camarada
do qual eu falava quer se dedicar a suas alegrias e divertimentos
n ont garde de ~ y trouv7r mes en piece. - Avoy! m'amie, fait
e pensa que não tem out~a coisa a '.azer. . E~,tão ~' dama com~ç~
le proudomme, J~ vous d1ray: vous savez bien, m'amie, que nous e diz: "Deixai-me, ora, pots estou mll:1to .~flita. - Mas ,por que?
avons assez affaue, et savez, m'amie, que quant nous entrames diz êle. - "Eu já tenho os meus motivos , responde ela, mas n~da
en nostre menage nous n'avions gueres de meubles, et nous a vos direi dêles pois que vós nunca vos preocupais com as coisas
convenu achapter liz, couchez, chambres, et moult d'autres cho- que eu digo." '_ "Minha amiga", responde êle, "dizei-me por que
ses, et n'avons pas grant argent à present; et savez bien qu'il falais assim." - "Sabe Deus", diz ela, "não tem sentido, que v~-lo
tault achapter deux beufs pour notre mestoier de tel lieu. Et diga· pois vós não vos preocuparíeis com o que eu dissesse, e iul-
encore chaist l'autre jour Je pignon de nostre grange par faulte garfeis • a minha intenção de forma en-ad" a. - "E~. ve_rdd"re
a e , _s-
de couverture, qu'il faut reffaire la premiere chouse. Et si me ponde êle, "dir-me-lo-eis." - E então ela começa: Pois 9ue assim
fault aller à l'assise de tel lieu, pour le plait que j'ay de vostrc o quereis, dfr-vo-lo-ei. Vós sabeis que recentemente estive numa
terre mesme de tel lieu, dont je n'ay riens eu ou au moins bien fcstn, tt qual me mandastes, e que não me causou nenhum prazer;
111as quando estive lá, não havia, cre(o, nenh?ma mulher! nem que
p~tit, et m'y fault faíre grand despence. - Haa! sire, je savoyc fl\sse do mais baixo estado, que estivesse tao mal vestida qu_anto
b1en que vous ne me sauriez aultre chose retraire que ma terre." cu; ní\o o digo para me gabãr, mas graças a Deus sou de ongem
Lo~s elle se to~ne de l'aultre part, et dit: "Pour Dieu, Jessés ttfo bou como qualquer uma das damas ou burguesas que lá estavam;
m01 ester, car Je n'en parleray ja mais. - Quoy dea, dit le npelo àqueles que entendem de linhagens. Não o digo por n:iim
proudomme, vous vous courroucez sans cause. - Non fais sirc me~rno, pois para mim é indiferente o jeito como eu ando v~stid~_;
fait_-elle: car si vous n'en avez rien eu, ou peu, je n'en' pui; 11111~ tive vergonha por vossa causa e por causa de meus am.1gos.
mais. Car vous savez bien que j'estoye parlée de marier à tel - "Pois é,", diz êle, "e o que vestiam as mulheres na festa?" -
ou à tel, et en plus de vingt aultres lieux, qui ne me demendoyent "l•u vos asseguro", responde ela, "não havia nenhuma do meu estado,
seullement que mon corps; et savez bien que vous alliez et por mois insignificante que fôsse, que não tivesse um vestido d~
l'NCl11 lntc, ou de pano de Matinas, ou de fín vert, f,orrado ?e gns
veniez si souvent que je ne vouloie que vous; dom je fus bicn ou de pele coloridn com grandes mangas, e um chapeu comb!Ilando,
~al de __Monsei~eur mon pere, et suis encor, dont je me doy ilt' g1 unde v611, co:n um tecido de sêda vermelha ou v~rde. até o
b1en ha1r; car Je ~roy que je suy la plus maleurée fcmme qui ,hílo, e tudo segundo a moda mais recente. E eu vestia a!Ilda o
fust oncques. Et Je vous demande, sire, fait-elle, si lcs fcmmcs rr1ru vc.-~tido de núpciM, que já está todo gasto e demasiado curto,
de te! et de te], qui me cuiderent bien avoir, sont cn tcl estai pol~ r11 ,1 ~sd dcHdc que foi feito, pois eu ainda era menina quando
comme je suy. Si ne sont-ellcs pas du lieu dofll jc suy. Pur vu~ 1ui ,1111111, e c.-,1011 11wom j{1 wo gnsta, por tôdas os penas que
Sainct Jehan, miculx vallcnr les robes que dlc~ lc~,cnl 1\ leu,~ thr. q11r p111ri,:11 11 111ftr tlr 111111111111N, tlc quem podcril\ ~cr fílhn, F.,
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218 MIMESlS MADAME OU CHASTEL 219

realmente, passei tanta vergonha enquanto estava entre elas, que diferente do acontecer, e está, portanto, escrito num nível esti-
fiquei tôda temerosa e nem sabia como me comportar. E o que lístico totalmente diferente daquele da cena entre o senhor e a
depois ainda me causou grande desgôsto, foi que a baronesa Fulana
e a senhora Sicrana me disseram, diante de todo mundo, que era senhora du Chastel. Nesta última, trata-se da vida do filho único,
uma vergonha que eu não andasse melhor vestida. Mas uma coisa na cena das Quinze Joyes, de um vestido nôvo; no Réconfort,
é certa, essas não me encontrarão tão cedo novamente (?) ". - marido e mulher estão em bons têrmos, vivem em real comu-
"Certo, querida amiga", diz o homem, "mas aqui devo dizer-vos nidade; nas Quinze Joyes não há confiança entre êles, mas cada
urna coisa: vós sabeis, minha amiga, que temos bastantes preocupa- um segue os seus próprios instintos, enquanto, ao mesmo tempo,
ções e sabeis também que quase não tínhamos móveis quando fun- observa os do outro, mas não para entendê-los e ir ao seu
damos o nosso lar, e que tivemos de comprar camas, as armações encontro, senão para usá-los em seu próprio proveito; a mulher
e os quartos (?) e muitas outras coisas, e por isso não temos agora faz isto com grande habilidade, um pouco infantil e tôla, o
muito dinheiro contante; e também sabeis que devemos comprar dois homem de forma muito mais crua e inconsciente; mas também
bois para o nosso arrendatário de tal lugar. E depois faz pouco
caiu a trave do nosso celeiro, porque o telhado não estava em nêle falta o sentiinento que faz parte do amor legítimo, isto é,
ordem, e isso tem de ser consertado antes de mais nada. E depois, o sentimento daquilo que pode causar alegria ao outro; diante
tenho de viajar ao juizado em tal outro lugar, por causa do processo da maneira como êle trata das preocupações dela com a sua
que estou tendo pelas vossas terras em tal lugar, que não me ren- roupa, também uma mulher menos tôla irritar-se-ia, por mais
deram nada, ou muito pouco, e isto causa grandes despesas." - que êle possa ter razão, objetivamente. Finalmente, na história
"Ah, ah, senhor, eu já sabia, que não viríeis com outra coisa senão do casal du Chastel, a mulher é a heroína; nas Quinze Joyes
com as minhas terras." Então ela se vira para o outro lado e diz: ela também o é, mas não pela grandeza e pureza do seu coração,
"Deixai-me em paz, pelo amor de Deus, eu nunca mais falarei sôbre senão pela superioridade das suas perfídias e pela sua fôrça na
isso." - "Mas o que é isso", diz o homem, "irritais-vos sem razão." eterna luta que, segundo é apresentado, constitui o matrimônio.
- "Não é isso", diz ela, "pois se as minhas terras nada vos deram, Em correspondência com isto, também o nível do estilo é total-
ou pouco, isso não é minha culpa; vós sabeis que eu poderia ter-me mente diferente; às Quinze Joyes falta tôda pretensão a um tom
casado com êste ou com aqueloutro e que eu tinha ainda pelo
menos outros vinte partidos que nada queriam além de meu corpo elevado; o diálogo entre marido e mulher não quer reproduzir
e também sabeis que tanto íeis e vínheis que acabei não querendo nada além do tom da conversa quotidiana, e somente nas pala-
outro que não vós; e por isso acabei brigando com o senhor meu vras introdutórias encontra-se algo de moralismo didático, o
pai, e a·inda estou brigada com êle, pelo que muito me censuro; qual, contudo, é alimentado, muito mais do que o moralismo
acho que sou a mulher mais infeliz que já viveu. E pergunto-vos, medieval em geral, de experiência prático-psicológica e concreta.
senhor", continua ela, "se a mulher dêste ou daqueloutro, que qui- O caráter cerimonial, pomposamente elevado, que confere ao
seram me ter, vivem na mesma situação que eu. E elas nem são Réconfort o seu aspecto estamental característico está em claro
de tão boa família quanto eu. Por São João, os vestidos que elas contraste com o aspecto coloquial, desencobertamente médio e
dão de presente às suas camareiras são melhores do que os que burguês da expressão da conversa sôbre o vestido nôvo.
eu visto aos domingos. E eu não sei porque morre tanta gente boa,
de quem tenho tanta pena; ah, se Deus quisesse que eu não mais E mesmo assim, uma reflexão de caráter histórico mostra
tivesse de viver. Então, pelo menos, ver-vos-íeis livre de mim e não que aqui duas espécies de estilo estão se aproximando uma da
teríeis mais aborrecimentos por minha causa." - "Pela fé que eu outra. Já dissemos, acima, que a literatura feudal, no seu auge,
tenho", diz êle, "querida mulher, não é certo que faleis . assim, pois nada pode apresentar de tão real e de tão domesticamente íntimo
não há nada que eu não faça por vós; mas deveis pensar em nosso como a cena entre a senhora e o senhor du Chastel; um proble-
interêsse. Mas agora, virai-vos para mim e eu farei o que quiserdes." ma trágico, representado numa conversação noturna entre ma-
- "Oh, Deus'°, diz ela, "deixai-me em paz, não tenho vontade ne- rido e mulher, é algo tão imediato, que a pompa gótica-feudal
nhuma de fazê-lo. Deus queira que fizésseis tão pouca questão disso du língua antes aumenta de forma comovente a impressão de
como eu, então, em verdade, nunca mais me tocaríeis." - "Então humanidade e de criaturalidade do que a enfraquece. Por outro
é não?" diz êle. - "Certamente não", diz ela. - E depois, diz
êle, pois acha que pode pô-la à prova dessa maneira: "Se eu estivesse Indo, o tema que é tratado pela nossa cena das Quinze Joyes
morto, estaríeis casada logo com um outro." - "Isso é o que vós uma mulher que, de noite, na cama, obtém mediante a sua
achais", diz ela; "seria pelo prazer que achei nisto! Juro por Deus t111i111rclicc um vestido do marido - , é, propriamente, um tema
que nunca a bôca de um homem tocará novamente a minha; e se lurscsco; mas aqui o tema é tomado seriamente, e não somente
eu soubesse que vos sobreviveria, faria alguma coisa para ir-me em 11n Sllll sentido grosseiro e geral, como ilustração ou exemplo,
primeiro lugar". E então ela começa a chorar ... lllll~ numo representação concreta, que reproduz com exatidão
11~ modulações e peculiaridades da situação material e espiritual.
" l'rn,, oind11 que o uutor tenha composto a sua obra como uma
:Êste texto, que deve ter sido escrito algun1us décadas unte~ 1:uleçfu, de r.xcn1plus, ela nuo tem nada a ver com as antigas
do Réco11fort, faz parte, evidentemente, de um cnmpo lutalmcnlL' n1l1·c;1'\\•, dr ,. 1r111,,l11, 111111l111t·111c ~·arcnlcs, de realismo e mcrn
220 MIMESIS MADAME DU CHASTEL 221

mente didáticas, do tipo dos sete mestres sábios ou da Disciplina um caráter trágico; não é uma tragicidade muito sublime, nem
Clericalis; para tanto, é demasido concreta; e também nada tem constante; para tanto, o miúdo dos problemas é demasido estreito
a ver com as farsas; para tanto, é demasiado séria. Esta e mesquinho; para tanto o caráter da vítima, isto é, do marido,
pequena obra, cujo autor não conhecemos, é um documento é demasiado prêso; não tem nem bondade nem dignidade, nem
muito importante da pré-história do realismo moderno; ela apn~- humor nem domínio de si; não é nada além de um sofrido
senta a vida quotidiana ou, pelo menos, um dos campos mats pai de família, e o seu amor pela espôsa é totalmente egoísta,
importantes da mesma, matrimônio e família, em tôda sua forma sem qualquer compreensão pela essência da companheira; êle se
real e sensível, e leva a sério êste tema do quotidiano, chegando considera meramente como o seu proprietário, cuja propriedade
até lfo problemático. Certamente, trata-se de uma espécie pecu- está constantemente ameaçada. Mesmo querendo, portanto,
liar de seriedade; já anteriormente, a tendência misógina e evitar a palavra trágico, não é possível deixar de reconhecer
misógama do moralismo clerical produziu uma espécie de lite- que, aqui, a miséria prática do ser humano, na sua situação
ratura realista, que, com enfadonha e rabugenta didática, enfei- quotidiana, achou uma expressão literária que antes não existia;
tando as representações com alegorias e exemplos, enumerava e existe, realmente, uma aproximação entre o nível estilístico do
as misérias e os perigos da vida matrimonial e doméstica, da Réconfort, que está escrito segundo a tradição feudal, e o nível
educação dos filhos, etc.; de forma especialmente penetrante e, estilístico das Quinze Joyes, que haurem os seus motivos das
às vêzes, muito concreta, êstes temas foram tratados por Eusta- farsas e do moralismo clerical de baixo nível: surge um nível
che Deschamps, que tinha morrido pelos começos do s!culo estilístico, dentro do qual o cenário da vida corrente merece
XV; desta tradição muniu-se o redator das Quinze Joyes nao ,só uma representação mais exata e séria, estendendo-se para o alto,
de quase todos os motivos isolados da sua obra, màs tambem por vêzes, até o trágico, quase tocando, por baixo, em outras
da posição, ainda um pouco moralista, satírica e mais enfadada ocasiões, o satírico-moralista; tratando com penetração bem
do que séria, no sentido trágico. maior do que antes o imediato da existência humana, o corpo-
Entretanto, o próprio Eustache Deschamps (compare-se, por ral-sensível, o doméstico, o gôzo diário da vida, a sua decadência
exemplo, as peças 15.ª, 17.ª, 19.ª, 38.ª ou 40.ª do seu Mi~oir e o seu fim; e com isto tudo, não se receia procurar os efeitos
de Mariage) não chegou a criar uma cena real entre mando mais crus.
e mulher, na qual o jôgo das engrenagens que movime°:tª1!1 _as O presente sensível, que aparece graças a isto, movimenta-se
profundezas da consciência, êsse jôgo a_ dois _que é o matnmomo, inteiramente nas formas estamentais de então, mas também se
ganhasse consistência; o elemento reahsta ftca, na sua obra, na_ manifesta em tôda parte como uma realidade geral, que une a
superfície; é algo assim como aquilo que, no século XIX, foi todos os sêres humanos pelas condições vitais criaturais comuns
chamado "scene de genre". Os motivos do trecho acima trans- ("la co11dition de l'homme", como mais tarde será dito). Já
crito encontram-se, quase todos, também na sua obra. Também a partir do século XIV encontram-se exemplos dêste realismo
nela, a mulher quer ter vestidos novos, também nela apela para imediato, mais sensível e exato. São numerosos na obra de
o fato de outras mulheres estarem melhor vestidas do que ela, Eustache Deschamps, e Froissart narra episódios, nos quais se
embora não sejam de tão boa família quanto ela. Mas a cena lrnta da vida e da morte, com uma circunstancialidade sensível
uão se desenrola à noite, na cama, não em conexão com o jôgo que não difere muito da forma como La Sale relata a morte do
das relações sexuais, com o motivo do nôvo casamento, após jovem du Chaste!. Quando os seis burgueses mais distintos de
a morte do marido, com tôdas as alusões à realização d? matri- Calais, vestidos sõmente com calça e camisa, com uma corda
mônio e às terras que ela trouxe como dote e que, ate agora, 110 pescoço e as chaves da cidade na mão, ajoelham-se diante
nada produziram, mas originaram um custoso processo. Des- do rei da Inglaterra, que quer executá-los, ouvimos ranger os
champs enumera os motivos, às vêzes com grande vivacidade, dentes dêste último; a rainha, que se joga aos seus pés pedindo
geralmente tagarelando demais; o autor das Quinze Joyes sab! clemência pelos prisioneiros, está em avançado estado de gravi-
o que é um matrimônio; êle o sabe tanto no mau, quanto no 1lt•z, e êlc concede a graça, de mêdo que ela sofra algum dano
bom sentido, pois na Quatorziesme Joye (p. 116) aparece a no seu éSlado, dizendo: "Ha! dame, j'aimasse trop mieux que
frase: car ilz sont deux en une chose, et nature y a ouvré talll 1•1111.1· /ussi<'Z llllfre part que ci." (Chroniques I, 321). · Ainda
par la douceur desa forse, que si l'un avoit mal, l'autre /e se111irolt. 111u1, marcantes no seu exato realismo são os episódios do ter~
Ble faz com que os casais vivam realmente juntos, combitrn n·1rn livro, que tratam da morte do jovem Gaston de Foix, que
os motivos de tal forma que o "deux en une chose" ganhe lornrn ndmirudos por Rilke e aos quais Huizinga (Outono da
forma, e isto, geralmente, no mau sentido, como possibilidade /t/(1111' MNlia, p. 404) reconhece "fôrça quase trágica": relata-se,
de se ferir mutuamente da maneira mais profunda, como etcrnu 11~lcN, aci-rcn de 11111.1 trugédin fomiliar na côrte de um princi-
luta dos que estão acorrentados um ao outro, comn fruude e p11d11 il11 ftlll <111 Frnnça, 111111111 NC:rie de ccnus cxtrcmumcntc
traição contra n comunidndc. Atrnvé~ disto, u ,~•u l1vw 11d41111l· pl11\l1cn~, l'l.tl'II~ t• 11h1d,I\ L'lll todo!! os Nt'IIS po,mcnorcs: o v1vfs
MlMESIS MADAME DU CHASTEL 223
222

simo conflito entre pai e filho adquire total imediatez nos quadros a realidade universal, corno Dante ou, até, Boccaccio; cada um
de costumes da côrte (os dois príncipes, que brincam e brigam só conhece o seu próprio campo, e êste é limitado, mesmo no
entre si, o duque, com o seu galgo à mesa, etc.) . Durante o caso daqueles que, como Antoine de la Sale, viajaram muito. e
século XV, o realismo torna-se ainda mais sensível, as côres necessária uma ideologia, uma vontade ativa de conferir uma
tornam-se ainda mais berrantes; mas a representação permanece forma ao mundo, para que a capacidade de entender e reproduzir
sempre dentro dos limites do estamental_ medie~al e do cristão. os fenômenos da vida ganhe a fôrça necessária para atravessar os
O aperfeiçoamento extremo de um realismo cnatural, que per- limites do estreito campo da vida individual. A morte do pe-
manece totalmente no campo sensível e que, apesar de todo queno du Chastel ou do príncipe Gaston de Foix não apresentam
o radicalismo dos sentimentos e da expressão, não apresenta ne- nada além das experiências muito concretas da juventude, do en-
nhum traço de fôrça mentalmente ordenada ou de caráter revo- rêdo e da morte cruel; quando tudo passou, nada fica ao leitor
1ucionário, nenhum vontade de formular o mundo terreno ~e afora o horror sensível, por assim dizer, carnal, diante da vivên-
outra forma, diferente da que êle tem, é encontrado em François cia da caducidade; afora isto, os narradores nada mais oferecem;
Villon. nenhum juízo que tenha pêso, nenhuma perspectiva, nenhuma
ideologia; e até mesmo a sua psicologia, amiúde muito penetran-
Aqui ainda se trata, e isto é nitidamente reconhecível em
te, dirigida para o imediato, para a coisa em si - lembre-se a
Villon dos efeitos da mistura cristã de estilos; sem ela, a espécie
de reitlismo que denominamos criatural não seria imaginável. conversação entre marido e mulher nas Quinze Joyes - é muito
Mas êste realismo já se liberou do serviço ao pensamento ordena- mais criatura! que individual. ~ evidente que necessitavam da ex-
periência sensível que o seu círculo vital lhes oferecia, e que,
dor cristão-universal; não serve a nenhum pensamento ordenador;
por outro lado, não almejavam ir além, pois que todo e qual-
tornou-se independente, tornou-se fim em si mesmo. No decor-
quer círculo vital oferece material suficiente em quanto a des-
rer da nossa pesquisa, já nos deparamos com um casal, Adão e
tinos criaturais. Boccaccio era conhecido, na França, sobretudo
Eva no Mistério de' Adão. Lá, a imitação imediata da realidade
pela tradução de Laurent de Premierfait (1414), e, talvez. con-
con;emporânea servia a uma intenção atemporal e universal, isto
temporâneamente com o Réconfort, surgiu nos círculos borgo-
é, à visualização da história da salvação, e não ia além disto.
nheses uma coleção de narrativas, segundo o modêlo do Deca-
Mesmo agora o laço entre aquém e além, entre o m~ndo te,~e~o
meron, as Cent Nouvelles Nouvelles (edição de Th. Wright,
e a salvação eterna, não está, de forma alguma, roto; a cna-
Paris 1857/58). Mas a peculiaridade de Boccaccio não é imitada
turalidade" inclui, forçosamente, uma tal referência à ordem
e, provàvelmente, nem é percebida. As Cent Nouvelles são uma
divina, apela-se constantemente à mesma; ali~, o sécu}~ XV é coleção de estórias fortes, que é servida• a um grupo de senhores,
justamente a época das gr:ndes repre~ntaçoes dramattcas da
e êstes senhores, ainda que sejam de estado cortês e do alto feu-
Paixão, e está sob a impressao de uma m1shca que se regala co~
dalismo, alguns até de famílias principescas, sentem-se perfeita-
quadros criaturais-realistas; mas o acento mudou de lugar, recai
mente à vontade na atmosfera do estilo burlesco popular; nada
com fôrça bem maior sôbre a vida terrena, e esta é co,ntr~posta
sobrou do elegante e humanista "estilo médio'' de Boccaccio, nem
com maior chamatividade e efetividade contra a decadenc1a ter-
da sua doutrina amorosa, do seu serviço de damas, da perspecti-
rena e contra a morte, do que contra a salvação eterna. O pro•
va humana, crítica e dominadora de um campo muito amplo do
cesso de visualização dedica-se agora muito mais imediatamente
Decameron, da diversidade dos seus cenários e dos seus relatos
aos acontecimentos terrenos, penetra no seu conteúdo sensível;
vitais; evidentemente, a linguagem também é saborosa e expres-
procura o seu suco e o _seu ternpêro, pr_?c~ra ~ alegria e o tor- siva, mas carece de tôda transformação humanista e é tudo me-
mento, que brotam imedia_t~mente df prop~1~ ~ida terrena. Com nos poética; a prosa de Alain Chartier, falecido cêrca de duas
isto a arte realista adqumu um ctrculo 1hm1tado de matérias,
décadas antes, é bem mais elegante e cuidada do ponto de . vista
assi:U corno possibilidades de expressão muito mais sutis. Mas
do ritmo. Entre as estórias, encontra-se uma grande quantidade
o seu desenvolvimento limita-se, nesta época, ao sensível; enquanto que trata de motivos já tratados pelo Decameron; o motivo do
as velhas ordens se decompõem lentamente, não há no realismo arcanjo Gabriel encontra-se (como na 14~ novela) na segumte for-
franco-borgonhês nenhum germe para a construção de uma nova ma: um eremita, com a ajuda de um bastão ôco, que faz. passar
ordem; o realismo é pobre de pensamentos, incapaz de uma ideo- pela parede durante a noite, incute numa viúva beata, repetidas
logia construtiva, e não tem vonta~e para tanto; ela exaure .ª
vazes a ordem divina segundo a qual ela deve levar sua filha ao
realidade do quo existe e do que esta em processo de decompos1-
crcm;ta; desta união surgiria uma criança eleita para a dignidad~
ção, ela a exaure até o fundo, de tal forma que ~s s~ntid~s e o
papnl e paru a reforma da Igreja; a viúva e a f~ha obedecem.ª
sentimento por êles excitado podem degustar a vida 1med1ata, e
urdem, n cremitn faz com que o seu consentimento lhe seJll
não quer mais nada. A própria sensualidade é estreita, apcs.111 de
11rrunc11du com dificuldodc; mas, depois de êlc se ter deleitado
tôda a intensidade da sua expressão, o seu hor11..0111~ é l11n1tndo.
1111111111c um ll'111J1n cu111 11 menina, c~h1 ficn grávida e dá i\ lur.
nenhum dos escritores dêstcs círculo., culturn1~ vf! l' d1m111111 1!\d11
MlMESlS
224
O Mundo na Bôca de.Pantagruel
uma menina! A novela está muito grosseiramente composta
(tripla ordem noturna, tripla visita do eremita); as caracteriza-
ções da mulher, da filha e do eremita, comparadas com as de
Frate Alberto e Lisetta, são meramente "criaturais", isto é, não
são, de forma alguma, carentes de vivacidade, antes pelo con-
trário, são bem autênticas, mas sem qualquer individualização;
a estória tôda é bastante eficaz como reprodução sensível de um
acontecimento cômico, contém muito humor popular e idiomá-
tico (la vieille, de joye emprise, cuidant Dieu tenir par /es piez),
mas é também incomparàvelmente mais crua, mais estreita, de
nível ideológico e formal muito mais baixo do que Boccaccio.
O realismo da cultura franco-borguinhã do século XV é,
portanto, estreito e medjeval; não tem nenhuma ideologia nova,
conformadora do mundo terreno, e dificilmente percebe que as
ordens medievais estão perdendo gradativamente as suas fôrças
construtivas; ela apenas percebe como estão se executando mo-
dificações importantes na estrutura da vida, e fica muito atrás,
quanto à amplidão do seu horizonte, quanto à cultura da língua
e quanto à fôrça formativa. daquilo que já tinha sido criado um
século antes, pelo apogeu italiano do fim da Idade Média ~ do No trigésimo-segundo capítulo do seu segundo livro
primeiro humanismo, através de Dante e de Boccaccio. Contudo,
nela ressaltou um aprofundamento do elemento sensível-criatura!,
c esta herança cristã foi por ela guardada e levada até o Renas-
cimento. Na Itália, Boccaccio e o primeiro humanismo não mais
sentiam aquela seriedade criatura! na experiência da vida; na
11 ( que foi, porém, escrito e publicado corno primeiro),
Rabelais narra como o exército de P antagruel, em
campanha contra o povo dos Almirodes (os ·'salga-
dos"), é surprêso, no meio do caminho, por uma forte chuva;
como Pantagruel ordena que ·êles se ponham uns bem juntos dos
própria França, e em tôda parte. ao norte dos Alpes, todo rea- outros, pois êle vê por cima das nuvens que se trata de urna chu-
lismo sério estava ameaçado de morte por sufocação, causada va passageira; enquanto isso, êle lhes dará abriga. Então, põe
pela trepadeira da alegoria; mas a fôrça espontânea do sensível a língua de fora (seulement à demi), e os cobre como uma ga-
era mais forte, e desta forma o realismo medieval-criatura! alcan- linha os seus pintinhos. Só o próprio narrador (ie, qui vous fais
çou o século XVI; conferiu ao Renascimento um forte contra- ces tant veritables contes), que já antes encontrara proteção em
pêso oposto às fôrças separadoras dos estilos, que brotaram da outro lugar, e que ora sai de onde está, não encontra mais lugar
imitação humanista da Antigüidade. embaixo da língua-telhado:
Doncques, le mieulx que je peuz, montay par dessus, et che-
minay bien deux lieues sus sa langue tant que entray dedans sa
bouchc. Mais, ô Dieux et Deesses, que veiz je Jà? Jupiter me
confonde de sa fouldre trisulque si j'en mens. Je y cheminoys
commc l'on faict en Sophie à Constantinoble, et y veiz de grans
rochicrs comme les mons des Dannoys, je croys que c'estoient
M!S dentz, et de grands prez, de grandes forestz, de fortes
él grosscs villes, non moins grandes que Lyon ou Poic-
t,crs. Lc premier que 'y trouvay, ce fut un homme qui plantoit
de, choulx. Dont toul esbahy luy demanday: "Mon amy, que
lu1s Ili icy? - Je plante, dist-il, des choúlx. - Et à quoy ny
co111111cnl, dis-jc? - Ha, Monsieur, dist-il, chascun ne peut avoir
lc1 couillons uussi pcsunt qu'un mortier, et ne pouvons estre tous
11d1c~ k 11nl1tnc ninsi ma vic, et les porte vendre au marché en la
l 1lt· qui cst ity de, ncrc Jesus, tlis-jc, il y a icy un nouveau mon-
dr'1 Cc1 ll',, tl"t il, il u't•'il mill nouvcau, mais I'on dist bien
que h<111 1l'1i.;y v 11 11111• k1 ,,. ncul'vc oü ilz ont et solcil ct hmc
226 MIMESIS O MUNDO NA BOCA DE PANTAGRUEL 227

et tout plein de belles besoignes; mais cestuy cy est plus ancien. tourner, et passant par sa barbe, me gettay sus ses epaulles, et
- Voire mais, dis-je, comment a nom ceste ville ou tu portes de Ià me devallé en terre et tumbé devant Juy. Quand il me
vendre tes choulx? - Elle a, dist il, nom Aspharage, et sont chris- apperceut, il de demanda: "D'ont viens tu, Alcofrybas? -
tians, gens de bien, et vous feront grande chere." Bref, je deli- Je luy responds: De vostre gorge, Monsieur. - Et depuis
beray d'y aller. Or, en mon chemin, je trouvay un compaignon qui quand y es tu, dist il? - Despuis, dis je, que vous alliez contre
tendoit aux pigeons, auquel je demanday: "Mon amy, d'ont vous Jes Almyrodes. - li y a, dist il, plus de six moys. Et de quoy
viennent ces pigeons icy? - Cyre, dist il, ils viennent de l'aultre vivois tu? Que beuvoys tu? - Je reponds: Seigneur, de mesme
monde." Lors je pensay que, quand Pantagruel basloit, les vous, et des plus frians morceaulx qui passoient par vostre gor-
pigeons à pleines volées entroyent dedans sa gorge, pensans que ge j'en prenois le barraige. - Voire mais, dist il, ou thioys tu?
teust un colombier. Puis entray en la ville, laquelle je trouvay - En vostre gorge, Monsieur, dis-je. - Ha, ha, tu es gentil
belle, bien forte et en bel air; mais à l'entrée Jes portiers me compaignon, dist il. Nous avons, avecques l'ayde de Dieu,
demanderent mon bulletin, de quoy je fuz fort esbahy, et leur conquesté tout !e pays des Dipsodes; je te donne la chatellenie
demanday: "Messieurs, y a il icy dangier de peste? - O, Seig- de Salmigondin. - Grant mercy, dis je, Monsieur. Vous me
neur, dirent ilz, l'on se meurt icy aupres tant que le charriot faictes du bien plus que n'ay deservy envers vous."
court par les rues. - Vray Dieu, dis je, et ou?" A quoy me di-
rent que c'estoit en Laryngues et Pharyngues, qui sont deux Então trepei o melhor que pude por êle acima e andei boas
grosses villes telles que Rouen et Nantes, ricbes et bien mar- duas léguas sôbre a sua língua, até que, enfim, entrei na sua bôca.
chandes, et la cause de la peste a, esté pour une puante et infecte Mas, ó deuses e deusas, o quê vi eu lá! Júpiter me confunda com
exhalation qui est sortie des abysmes des puis n'a gueres, dont o seu raio tridente se eu minto. Caminhei por ela como se faz em
ilz sont mors plus de vingt et deux cens soixante mille et se~ e Santa Sofia, em Constantinopla, e vi lá grandes rochas, grandes corno
personnes despuis huict jours. Lors je pensé et calculé, et trouvé as montanhas da Dinamarca; acho que eram os dentes; e grandes
qu~ c'estoit une puante balaine qui estoit venue de l'estomach prados, grandes florestas, cidades fortes e grandes, não menores do
de Pantagruel alors qu'il mangea tant d'aillade, comme nous que Lyon ou Poic.tiers. O primeiro que lá achei, foi um homem
avons dict dessus. De là partant, passay entre les rocb iers, qu1 que plantava repolhos. Muito surprêso por isso, perguntei-lhe: "Meu
amigo, o que fazes aqui? - Eu planto, diz êle, repolhos. - E para
estoient ses dentz, et feis tant que je montay sur une, et là que, e como, digo eu? - Ai, senhor, diz êle, não todos podem ter
trouvay les plus beaux lieux du monde, beaux grands jeuz de os colhões pesados como morteiros, e não podemos todos ser ricos.
paulme, belles galeries, belles praries, force vignes et une infi- Ganho a minha vida assim, e os levo a vender no mercado na
nité de cassines à la mode italicque, par les champs pleins de cidade que fica cá trás. - Jesus, digo, há aqui um nôvo mundo?
delices, et !à demouray bien quatre moys, et ne feis oncques telle - Bom, diz êle, não há nada de nôvo nêle, mas bem que o pessoal
chere pour lors. Puis descendis par les dentz du derriere pour diz que fora daqui há uma terra nova onde têm sol e lua e tudo
venir aux baulievres; mais en passant je fuz destroussé des bri- cheio das melhores coisas; mas esta aqui é mais velha. - Está
gans par une grande forest que est vers la partie des aureilles. certo, digo eu, qual é o nome da cidade onde levas teus repolhos
Puis trouvay une petite bourgade à la devallée, j'ay oublié son para vender? - Ela se chama, diz êle, Aspárago, e são cristãos,
gente de bem, e vos receberão càlidamente." Enfim, decidi ir lá.
nom, ou je feiz encore meilleure chere que jamais, et gaignay Ora, em meu caminho, encontrei um camarada que estava pondo
quelque peu d'argent pour vivre. Sçavez-vous cornment? A armadilhas para pombos, ao qual perguntei: "Meu amigo, donde
dormir; car l'on loue les gens à la journée pour dormir, et gai- vêm estas pombas para cá? - Senhor, diz êle, vêm do outro mundo."
gnent cinq et six solz par jour; mais ceulx qui ronflent bien fort Então pensei que, quando Pantagruel bocejava, os ~mbos entravam
gaignent bien sept solz et demy. Et contois aux senateurs com- em grandes revoadas na sua goela, pensando que fosse um colum-
ment on m'avoit destroussé par la valée, Iesquelz me dirent bário. Depois entrei na cidade, a qual achei bela, bem fortificada
que pour tout vray les gens de delà estoient mal vivans et bri- e com bons ares· mas à entrada os guardas pediram-me o meu
gans de nature, à quoy je cogneu que, ainsi comme nous avons passaporte, com ~ que fiquei muito surprêso, e lhes pe:guntei:
les contrées de deçà et delá les montz, aussi ont ilz deçà ''Senhores há por aqui perigo de peste? - Ah, senhor, disseram,
por aqui •perto o pessoal morre tanto, que o carroção corre pelas
et delà les dentz; mais il fait beaucoup meilleur deçà, et y a nms sem parar. - Santo Deus, digo, e onde é isso?" Ao que me
meilleur air. Là commençay penser qu'il est bien vray ce que dissenun que era em Larynges, e Pharynges, que são duas grandes
l'on dit que la moytié du monde oe sçait comment l'autre vit, cidades tais como Rouen e Nantes, ricas e de bom comércio, e a
veu que nul avoit encores escrit de ce pais là, ausquel sont plus c11u1n da peste foi por uma fedorenta e infecta exalação que vinha
de XXV royaulmes habitez, sans Jes desers et un gros bras de 1108 abismos desde há pouco tempo atrás, e da qual morreram mais
mer, mais j'en ay composé un grand livre intitulé l'Histoire dcs de vinte e dois centos e sessenta mil e dezesseis pessoas em oito dias.
l•ntile> perN•i e c11k11lci e nchci que era um hálito fedorento que tinha
Gorgias, car ainsi les ay-je nommez parce qu'ilz demourent en vmilo tio l"~I01111ti!O 110 l'11nl11grucl depois que êle comera tanto alho,
la gorge de mon rnaistre Pantagruel. Finablcmcnl voulu1 rc ,·011111 11i~srn1111 1111111.1. 'ln indo dt" lá, pnssei entre as rochas, que são
228 MIMESIS O MUNDO NA BôCA DE PANTAGRUEL 229

seus dentes, e tanto fiz que acabei subindo num dêles, e lá encontrei do livro primeiro, onde Gargantua engole seis peregrinos junto
os mais belos lugares do mundo, lindos e grandes jogos de bola, belas com um pé de alface. ) Além desta fonte francesa, lembra,
galerias, belas pradarias, muitas vinhas e uma infinitude de casinhas nesta passagem, um autor antigo, que êle muito apreciava, Lu-
à moda italiana, pelos campos cheios de delícias, e lá fiquei quatro ciano, que em suas Histórias Verdadeiras (I, 30 ss.) informa
bons meses, e nunca vivi tão bem na minha vida como lá. Depois acêrca de um monstro marinho que engole um navio com todos
desci pelos dentes de trás,. para chegar aos beiços de baixo; mas, de
passagem, fui roubado por bandidos em meio a uma grande floresta os seus ocupantes; na sua goela encontram florestas, montanhas
que fica perto da parte das orelhas. Depois encontrei, ainda, uma e lagos, lá habitam diversos povos semi-animalescos e também
pequena aldeia, vale abaixo; esqueci o seu nome; lá passei melhor dois sêres humanos, pai e filho, que foram jogados para lá por
ainda, e ganhei um pouco de dinheiro para viver. E sabem como? um naufrágio, 27 anos antes; também êles plantam repolhos
Dormindo; porque lá pagam as pessoas por jornada para dormirem, e elevaram um santuário a Posseidon. êstes dois modelos fo.
e ganham cinco ou seis sous por dia; mas aquêles que roncam bem ram refundidos por Rabelais a seu modo, de tal forma que em-
forte ganham seus bons sete sous e meio. E contei aos senadores butiu na bôca do gigante do livro popular, a qual, apesar do
como tinha sido roubado no vale, os quais me disseram e assegu- seu monstruoso tamanho, não perde totalmente o caráter de
raram que o pessoal de lá levava uma vida má e eram ladrões por bôca, o quadro paisagístico e social de Luciano; êle até o exage-
natureza, do que deduzi que, assim como temos condados de aquém ra (25 reinos com grandes cidades, enquanto que Luciano se
e além os montes, também êles têm aquém e além os dentes; mas
a vida é bem melhor do lado de cá e o ar é bem melhor também. limitava a pouco mais de mil sêres fabulosos), sem se preocupar
Lá comecei a pensar que é bem verdade o que se diz, que a metade muito, aliás, com o entrosamento dos dois motivos: não há rela-
do mundo não sabe como vive a outra metade. E como ninguém ção entre a medida do tamanho que uma bôca tão povoada pres-
jamais escreveu nada daqueles países lá, os quais são mais de vinte supõe e a velocidade da viagem de retôrno; menor ainda é a
e cinco reinos habitados, sem os desertos e um grande braço de relação com o fato de que o gigante o percebe, após a sua volta,
mar; mas compus sôbre isso, um grande livro intiulado A História e fala com êle; e, ainda menor, a relação com as informações
de Goelas, pois assiro os chamei porque vivem na goela do meu sôbre a sua alimentação e digestão durante a permanência no
mestre Pantagruel. Finalmente, eu também queria voltar, e, passando interior da bôca, que parecem ter esquecido ou propositalmente
pela sua barba, pulei sôbre os seus ombros e de lá desci à terra calado a desenvolvida agricultura e economia que se encontra-
e tombei diante dêle. Quando se apercebeu de mim, perguntou-me: va no interior da bôca; evidentemente, a conversa com o gigan-
"Donde vens tu, Alcofribas? - E lhe respondo: Da vossa goela, te, que encerra a cena, serve meramente para dar uma diver-
senhor. - E desde quando estás aí, diz êle? - Desde, digo eu,
que vós marchastes contra os almirodes. - Disso já faz mais de tida caracterização de Pantagruel, que demonstra ter um so-
seis meses, diz êle. E do que vivias? O que bebias? - Respondo: licito interêsse pelo bem-estar físico dos seus amigos, especial-
Senhor, do mesmo que vós, e, dos mais saborosos bocados que pas- mente pelo fornecimento de boa bebida, e que premia bona-
savam pela vossa goela, cobrava o direito de trânsito. - Muito bem, chonamente a destemida confissão acêrca da digestão com a
diz êle, mas onde cagavas? - Em vossa goela, senhor, digo eu. - concessão de um castelanato - embora o bom Alcofribas tenha
Ah, ah, tu és um bom camarada, diz êle. Nós, com a ajuda de escolhido, durante a guerra, um pôsto não muito arriscado.
Deus, conquistamos todo o país dos Dipsódios; dou-te a castelania A maneira pela qual o presenteado agradece (eu não merecia
de Salmigôndia. - Muito obrigado, digo, senhor. Vós me fazeis um isto) não é, neste caso, mero palavreado, mas corresponde estri-
bem muito maior do que mereço. tamente às circunstâncias.
O motivo desta divertida aventura não foi inventado pelo Apesar da lembrança de modelos literários, Rabelais cons-
1rui11 o mundo, na bôca, de uma forma que lhe é totalmente
próprio Rabelais. No livro popular sôbre o gigante Gargantua
(o exemplar que tenho diante de mim é de Dresden, da edição pec11liar. Alcofribas não encontra sêres fabulosos semi-anima-
de W. Weigand, da tradução de Gottlob Regis, 31J. edição, Ber- h:11eo~ e alguns poucos sêres humanos, que se adaptam às cir-
lim, 1923, tomo 2, pág. 398 ss.; e/., também, a nota 7 na edição 1:unstflncias com dificuldade, mas uma sociedade e uma econo-
mia desenvolvidas, nas quais tudo acontece como na terra dêle,
crítica de Abel Lefranc, IV, 330) narra-se como os 2943 ho-
1111 Frm,ça. Num primeiro instante surpreende-se pelo fato de
mens armados que devem estrangular Gargantua durante o sono
caem dentro da sua bôca, cujos dentes tomam por grandes ro• hí huvcr sílrcs humanos; mas também, e sobretudo, pelo fato
chas, e como, mais tarde, quando êle mata a sua sêde, ao acor- llL· us coisas não serem lá estranhas e diferentes, mas exatamen-
dar, todos morrem afogados, menos três, que se salvam num lt· do jeito que são no mundo ao qual estava habituado. Isto
dente ôco. Também dentro de um dente ôco, numa passagem n>lllL'Çll j6 com o primeiro encontro. O que é espantoso, para
posterior, Gargantua guarda provisoriamente cinqüenta prisio- ~Ir, nllo é NÓ o fnto de encontrar lá um homem (antes já vira
neiros; lá até encontram uma sala para jôgo de bola, um je11 t/1• 118 ctdndc• de longe), mas de ~ssc homem estar tranqüilamente
paume, para o seu divertimento. (O dente ôco é empregado pl1111t11111to 1c.-pulh111, 1:omo ~e.- 11 gente estivesse cm Touraine. Por
por Rabelais, numa outrn passagem, no trigé~imo 011:ivu c:tpí111lo lnu, pc1K11nl11 1111,, "tt1111 r1'hal,y" Amtgo, o que e11tá1 fn1entlo'!,
230 MIMESIS O MUNDO NA BôCA DE PANTAGRUEL 231

e recebe uma resposta, do tipo que poderia também ter rece- de cinco ou seis sous por dia, com pagamento extra para bons
bido de um camponês de Touraine, calma e sonsa, assim como roncadores ( uma lembrança dos contos da carochinha), as coi-
muitos tipos soem aparecer em Rabelais: Je plante, dist iL, des sas acontecem à maneira européia; quando os senadores se com-
choulx. Isto lembra-me a fala de um menininho, que certa vez padecem dêle, porque foi roubado enquanto estava a caminho,
ouvi; falando pelo telefone pela primeira vez na sua vida, para numa floresta montanhosa, dão-lhe a entender que as pessoas
que a sua avó, que vivia em outra cidade, pudesse ouvir a sua "do lado de lá" não são senão bárbaros incultos, que não sabem
voz, respondeu à pergunta sôbre o que estava fazendo, da se- como viver, do qual êle deduz que na goela de Pantagruel há
guinte forma orgulhosa e objetiva: estou telefonando. Aqui a países que estão do lado de cá e do lado de lá dos dentes, assi.m
situação é um pouco diferente: o camponês não é somente in- como n6s temos países que estão aquém e além das montanhas.
gênuo e limitado, tem também o humor um tanto matreiro tão Enquanto Luciano transmite essencialmente uma fantás-
característico dos franceses e, sobretudo, de Rabelais. Pressente tica aventura de viagens e o livro popular só tem em mira a
muito bem que o visitante vem do outro mundo, a respeito do grotesca intensificação das proporções, Rabelais faz com que
qual também já ouviu alguma coisa; mas assume a aparência de joguem entre si, constantemente, diversos cmários, diversos mo-
quem nada notou, e responde à nova pergunta, que é, também, tivos vivenciais e diversos campos estilístic~. Enquanto Alco-
uma exclamação de surprêsa (algo como: mas como? como é fribas, o abstractor da quintessência, realiz a sua viagem de
possível?), novamente de forma ingênua, com UIJla suculenta descoberta pela bôca de Pantagruel, êste e o seu exército fazem a
expressão idiomática camponesa, que informa qU~ êle não é guerra contra os almirodes e os dispódios; e na própria viagem
rico; graças aos repolhos que vende na cidade vizinha, pode de descoberta misturam-se pelo menos três diferentes catego-
ganhar a vida. Ora, finalmente o visitante começa a entender a rias de experiência. A moldura é dada pelo grotesco motivo
situação; Jesus, exclama, isto aqui é um nôvo mundo! Não, das monstruosas proporções, que não é perdido de vista em
nôvo êle não é, diz o camponês, mas as pessoas dizem que ha- nenhum instante e que é retomado urna e outra vez mediante
veria lá fora um nôvo mundo, onde há sol e lua e, em geral, idéias absurdo-cômicas sempre novas; pelas pombas que voam
uma série de coisas muito boas; mas êste daqui é mais velho. bôca adentro, quando o gigante boceja; pela explicação da peste
- O homem fala do "nôvo mundo" como as pessoas em Tou- em base à refeição de alhos, que faz surgir vapôres venenosos
raine ou em qualquer outro lugar da Europa ocidental e central das profundezas do estômago de Pantagruel; pela transforma-
devem ter falado naquele tempo acêrca das terras recém-des- ção dos dentes numa paisagem montanhosa; pela forma da
cobertas, América ou lndia; mas também é o suficientemente viagem de regresso e pela conversa final. No meio disto, po-
esperto como para pressupor no estranho um habitante daquele rém, ressoa um tema totalmente diferente e nôvo, de grande
outro mundo, pois o acalma com respeito aos habitantes da ci- atualidade naquele tempo, o tema do descobrimento de um
dade: são bons cristãos e não vos receberão mal; com isto dá nôvo mundo, com tôda a surprêsa, o deslocamento do horizonte
por certo, e tem razão neste caso, que a denominação "bons e a mudança da imagem do mundo que seguiram a tal desco-
cristãos" constitui também para o visitante uma garantia tran- brimento. "Êste é um dos grandes temas do Renascimento e
quilizadora. Em resumo, êste habitante dos arredores de As- dos dois séculos seguintes, um dos motivos que serviram de
párago comporta-se da mesma forma como um seu igual em alavanca para a revolução política, religiosa, econômica e filo-
Touraine, e assim a coisa vai em frente, freqüentemente inter- Nófica. Sempre reaparece; quer os escritores façam uma ação
rompida por explicações grotescas, as quais, novamente, não. se desenrolar naquele mundo ainda nôvo e semi-desconhecido,
respeitam as proporções; pois quando Pantagruel abre a bôca, enqunnto lá constroem uma situação mais pura e primordial do
que abriga tantos reinos e cidades, as dimensões da abertura q110 u européia, o que lhes permite uma forma eficaz e, ao
dificilmente permitiriam uma confusão com um pombal. Mas mesmo tempo, um tanto graciosamente velada de crítica às si-
o motivo "tudo é como lá em casa" permanece imutável. Quan- f ultÇOCs locais; ~uer introduzam um habitante daqueles estranhos
do à porta da cidade lhe é pedido o seu atestado de saúde, por- puíscs no mundo europeu, fazendo então brotar a sua crítica
que nas grandes capitais da região grassa a peste, isto é uma ~ôbre a situação européia constituída da sua ingênua surprêsa
alusão à epidemia que grassou durante os anos 1532 e 1533 nas 1111, cm geral, das suas reações diante do que vê na Europa, em
cidades do norte da França (cf. a introdução de A. Lefranc à 11111hos os casos, o motivo tem uma fôrça revolucionária, uma
sua edição crítica, pág. XXXI); a bela paisagem montanhosa t'ôrçu que sacode a situação existente, pondo-a num contexto
dos dentes mostra a imagem das culturas européias ocidentais, 11111i~ umplo e tendo, portanto, um efeito relativizante. No tre-
e as casas rurais são construídas no estilo italiano, que então d10 que trnnscrcvcmos, Rabelais s6 fêz alusão a isso tudo, não
também começava a ser moda na França; e no lugarejo, onde u L'Xl'lt1tm1; ,1 surprêsn de Alcofribas ao ver o primeiro orícola
transcorre o último tempo da sua estada n:i bôca de Pantagruel, p1•1ll'lll:l' 11 c~t11 c11tc~ur111 de experiências, e sobretudo a rcfle-
afora a grotesca forma de RC ganhnr dinheiro dormindo, 11 rn7m> x111, 11111· 1111 11n t 1m dn ,1111 v1ngl1m : t.:ntao entendi como é ver·
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dade quando dizem que metade do mundo não sabe como ções, criaturalmente realistas, e sábios e edificantes no sentido
vive a outra metade. Encobre o motivo imediatamente com bíblico-figural-interpretativo. A partir do espírito dos sermões
outras piadas grotescas, de tal forma que no episódio todo não de fins da Idade Média e, sobretudo, a partir da atmosfera que
predomina. Mas lembre-se que Rabelais chamou o país dos envolvia as ordens mendicantes, populares no bom e no mau sen-
seus gigantes inicialmente de Utopia, um nome que pediu em- tido do têrmo esta mistura de estilos foi retomada pelos hu-
prestado da obra de Thomas Morus, aparecida dezesseis anos manistas, espe~ialmente para os seus escritos polêmico-satíricos
antes, homem ao qual, dentre todos os seus contemporâneos, contra a Igreja; da mesma fonte, Rabelais a hauriu, com maior
talvez mais devesse e que foi um dos primeiros a empregar o "pureza" do que êles, pois que na sua juventude tinha sido
motivo do país longínquo na forma modelar-reformista acima franciscano; estudou esta forma de vida e de expressão na fonte
descrita. Não é só o nome: o país de Gargantua e Pantagruel, e apropriou-se delas à sua maneira; não pôde mais se separ~r
com as suas formas de vida política, religiosa e pedagógica não dela; por mais que odiasse a ordem mendicante, tanto mais
só se chama, mas é Utopia: um país longínquo, ainda não bem sua espécie estilística, saborosa e criatura], visualizadora até
descoberto, um país que, como o de Thomas Morus, fica em o farsesco, correspondia ao seu temperamento e à sua intenção,
algum lugar do longínquo Oriente, embora às vêzes, é claro, pa- e ninguém soube tirar dela, como por encanto, tanto ,quan!o
reça poder ser encontrado em plena França. Voltaremos a isto . êle. Esta filiação foi comprovada, para todos os que ate ent~o
Baste isto acêrca do segundo dos motivos que se entrelaçam em não a viram com nitidez, por E. Gilson no seu belo ensato
nosso texto; êle não se pode desenvolver livremente aqui, em Rabelais franciscain; ainda voltaremos a esta questão estilística.
parte porque as grotescas piadas do primeiro o atrapalham cons- A passagem que aqui comentamos é relativamente simples.
tantemente, em parte porque é imediatamente aprisionado e e comparativamente fácil de visualizar; o jôgo entre os cená-
paralisado, por assim dizer, pelo terceiro motivo: o motivo rios os motivos e os níveis estilísticos e a análise não requer
"tout comme chez nous". O mais surpreendente e absurdo dês- co~plicadas investigações. Outras passag~ns são 1:mito mais
te mundo goelano é justamente o fato de que não é totalmente complicadas, por exemplo, aquelas nas q~a1s Rab~lais desabafa
diferente do nosso, mas igualzinho ao nosso, tintim por tintim a sua erudição, os seus milhares de alusoes a coisas e pessoas
- superior aó nosso na medida em que tem conhecimento do contemporâneas, e os seus furacões formadores de palavras.
nosso, enquanto nós nada sabemos dêle - mas no restante, é Nossa análise permitiu, com meios limitados, reconhecer um
totalmente igual. Assim Rabelais tem a oportunidade de trocar princípio essencial para o seu modo de ver e de apr~nder o
os papéis, isto é, de fazer aparecer o cultivador de repolhos co- mundo: o princípio do redemoinho baralhador, que mistura as
mo europeu nato, que recebe o estranho vindo do outro mundo categorias do acontecer, da experiência, dos campos ~o saber,
com ingenuidade européia; antes de mais nada, tem a oportuni- das proporções e dos estilos. Os exei:nplos p~ra o coniunto ou
dade de desenvolver uma cena realista e quotidiana, isto é, um para o particular podem ser mult1plicados a vontade na _sua
terceiro motivo que não casa com os outros dois, a grotesca obra. Abel Lefranc demonstrou que os acontecimentos do hvro
farsa do gigante e o descobrimento de um nôvo mundo, e que primeiro, sobretudo a guerra contra Picrochole, se ~esenvolve~
está em contradição absurda proposital com os outros dois; por- nas poucas milhas quadradas de uma zona que rodeia L~ Dev1-
tanto, tôda a maquinaria das proporções monstruosas e da nicrc, uma propriedade da família paterna de Ra~la1s; mas
audaz viagem de descoberta só parece ter sido posta em movi- também quem não sabe ou sabia disto tão porm~nonzadament~,
mento para nos apresentar um camponês de Touraine plantando 11cntc que os nomes dos lugares e alguns aco?tec1mentos agrada-
repolhos. Assim como os níveis de cenário e os motivos, tam- velmente locais, que ocorrem antes e depois da. guerra, suge-
bém os estilos mudam; o que predomina, correspondendo ao rem um local limitado e provinciano. Enquanto isso, marcham
motivo grotesco emoldurante, é o nível estilístico grotesco-cô- exércitos de centenas de milhares de soldados, e gigantes, !m
mico e baixo, a saber, na sua forma mais enérgica, na qual des- cujos cabelos se prendem como seva~dijas as b~~s de canhao,
filam as expressões mais fortes; trançados junto e dentro disto, parlicipam da luta; enumera-se o equipamento _behco e _as pro-
aparecem relatos objetivos, relampejam pensamentos filosóficos VIMlCS cm quantidades tais que, na ~poca,, nao pode_nam ter
e, em meio a tôda a engrenagem grotesca, eleva-se o espectro "dei ,untadas por nenhum grande remo; _so a qua~ttdade de
criatura! da peste, durante a qual os mortos são levados às car- ,oldudos que penetram na vinha do mosteiro de Semllé, e que
retas das casas. Esta espécie de mistura de estilos não foi inven- ln Híl<> liquidados por Frere Jean, é especificada como sendo _de
tada por Rabelais; contudo, êle a pôs a serviço do seu tempera- 1 u,n sem contar mulheres e crianças pequenas. O ~otivo
mento e dos seus fins, mas a sua origem, paradoxalmente, está du~ medidas giguntcscas serve a Rabelais para a obtenç~~ ~e
nos sermões de fins da Idade Média, nos quais a tradição cristli l'll·1111~ tk conlrnstc cm pcrspcctiva, que estremecem o equi11~no
da mistura de estilos tinha se exacerbado ulé o cxlrcmo· êslc!. 1111 lt-11111 111L·ll11111tc u111 h111nor com segundas intenções; o leitor
sermões são, simultâneamente, populares, nn mui\ crua dn~ a~Tll é ,11 11~1autt·1111·nh' 1111,1;1!111 parn l'IÍ e p11rn lá, cnlrc formas de vidu
234 MIMESIS O MUNDO NA BOCA DE PANTAGRUEL 235

provincianamente saborosas e confortáveis e acontecimentos mons- sico contínuo; quarto, intenso estudo espiritual - cada um
truosos e grotescamente supra-reais, além de pensamentos utó- dêstes quatro remédios é analisado com uma imensa demons-
pico-humanitários; nunca deve poder chegar a descansar no ní- tração de erudição médica e humanista ao longo de muitas pá-
vel habitual dos acontecimentos. Também os elementos forte- ginas, enquanto as enumerações, anedotas e citações chovem
mente realistas ou obscenos tornam-se, pelo tempo do discurso como garoa fina - ; quinto, continua Rondibilis, o ato sexual . ..
e das alusões que se seguem umas às outras, um redemoinho es- Alto! diz Panurgo, é isto o que eu estava esperando, êste remé-
piritual; as tempestuosas gargalhadas que tais passagens ocasio- dio é bom para mim; que os outro~ fiquem para quem tenha
nam, estremecem todos os conceitos da ordem costumeira da- vontade. Sim, diz o irmão João, que ficou ouvindo, êste re-
quele tempo. Quando se lê um texto curso, como, por exemplo, médio era chamado pelo irmão Scyllino, prior de São Victor,
o discurso do irmão Jean des Entommeures no princípio do 429 junto a Marselha, a mortificação da carne. . . Tudo não é
capítulo do 19 livro, encontra-se nêle duas piadas fortes. A senão uma brincadeira maluca, mas Rabelais a encheu das suas
primeira refere-se à bênção que protege contra a artilharia pe- pilhérias sempre em mudança, que chacoalham propositalmente
sada; Frere Jean não diz apenas que não acredita nessa bênção, os campos do saber e do estilo. Não é diferente o que se dá
mas muda brincalhonamente o nível de visão, coloca-se no nível com a grotesca defesa do juiz Bridoye (capítulos 399-429 do
da Igreja, que exige a fé como cÓndição para o auxílio divino mesmo livro), que elaborava esmeradamente os seus processos,
e diz, a partir desta perspectiva: a bênção de nada me servirá, deixava-os descansar durante longo tempo e depois os julgava
pois nela não tenho fé. A segunda piada refere-se aos efeitos com um lance de dados; e assim, durante quarenta anos, pro-
do hábito monacal; frei João começa com a ameaça de pôr o seu nunciou somente sentenças sábias e justas. Neste discurso mis-
hábito sôbre qualquer um que se mostre covarde. Naturalmen- turam-se os desatinos senis e sabedoria da vida, cheia de ironia
te, acha-se, num primeiro instante, que se trata de um castigo e de segundas intenções; são contadas as mais belas anedotas;
ou de uma humilhação; seria como se fôssem negadas as qua- tôda a terminologia jurídica é derramada sôbre 6 leitor em gro-
lidades masculinas a quem fôsse assim vestido. Mas não é tescas cascatas de palavras, e tôda afirmação evidente ou absur-
assim; num abrir e fechar tle olhos, muda o ponto de vista; da é acompanhada de um monte de citações cômicas do direito
o hábito é um remédio para homens pouco masculinos; tomam- romano ou dos glossários; é uma demonstração pirotécnica de
se homens na hora de vesti.J.o; o que quer dizer com isto é que graça, experiência jurídica e humana, sátira do tempo e histó-
a privação acarretada pelo voto monacal e pelas prescrições ria dos costumes; uma educação para o riso, para a rápida mu-
referentes à vida monacal não faz senão exacerbar as capaci- dança do ponto de vista, para a riqueza de modos de ver.
dades masculinas, tanto o valor, como a potência sexual; e Escolhamos, finalmente, do quarto livro, a cena do navio,
encerra o seu discurso com a anedota do galgo desancado do onde Panurgo regateia com o comerciante Dindenault por cau-
senhor de Meurle, que foi coberto com um hábito; dessa hora sa de um carneiro ( capítulo 69-89). Esta é, em tôda a obra
em diante não perdia rapôsa nem lebre, e cobriu tôdas as cade- de Rabelais, talvez a cena mais forte que apresenta um jôgo
las das redondezas, embora antes fizesse parte dos "frigidis et entre dois homens. O dono do rebanho de carneiro, Dinde-
maleficiatis" (êste é um dos títulos decretais). Ou leia-se a nault, comerciante da Saintonge, é um homem colérico e en-
muito extensa apresentação dos objetos que podem servir para tatuado, mas possui a graça engenhosa, idiomática e cheia de
a limpeza do ânus, com a qual o jovem Gargantua nos regala segundas intenções que é característica de quase tôdas as per-
no 139 capítulo: que riqueza de improvisações! Aqui bá poe- sonagens de Rabelais; já no primeiro encontro, agrediu o tra-
mas e silogismos, medicina, zoologia e botânica, sátira do tem- vêsso Panurgo de forma tão grosseira, que sem a intervenção
po e história das vestimentas; no fim, a êxtase que as vísceras do patrão, do navio e de Pantagruel teria havido a maior pan-
comunicam ao corpo todo quando o procedimento em questão cadaria. Depois, aparentemente reconciliados, sentam-se com
é levado a cabo com um jovem gansinho vivo e de suave pluma- os outros para beber vinho, quando Panurgo lhe pede que lhe
gem, é comparada com a bem-aventurança dos heróis e dos semi• venda um carneiro. Então, Dindenault começa a se gabar da
deuses nos Campos Elísios, e yrandgousier compara a sagaci- ~ua mercadoria ao longo de muitas páginas, e recai, mais ainda
dade demonstrada pelo seu filho, nesta ocasião, com a do jovem do que antes, numa fanfarronice que fere Panurgo, a quem
Alexandre na conhecida anedota de Plutarco, que narra como sÕ• 1rntn com uma mistura de desconfiança, desfaçatez, bonomia
mente êle conseguiu descobrir o motivo do espanto de um cavalo:
t ' dcsdérn, como a um bôbo ou a um trapaceiro, que nem me 7
o mêdo diante da sua própria sombra. Observamos algumas pas-
t t•cc ln! mercadoria, digna de um rei. Panurgo, pelo contrário,
sagens a êsmo nos livros posteriores. No capítulo 31 \> do 39 livro, o
médico Rondibilis, inquirido por Panurgo por causa dos seus pla- pcrmnnl!cc desta vez cortês e calmo, repetindo somente, de
nos matrimoniais, enumera os meios que mitigam o impulso NC- cmlu vc,., o pedido de um carneiro. Finalmente, cedendo às
xual demasiado intenso: primeiro, o consumo exaserado do vi- ptl'~fül'~ do~ 1.:i1c1111~tantc~, Dindcnault diz um preço bem s11l-
nho; segundo, certos produtos medicinais; ter~ciro, trnhalho li• ~11d11, 111111111111 !11111111 i-!'' ,i 11v1~;1 11111• m11i~ de um niio teve sorte
236 MIMESIS O MUNDO NA BôCA DE PANTAGRUEL 237

quando tentou ficar rico demasiado depressa, Dindenault tem cosmológica, religiosa e moralmente fortemente emoldurados;
um ataque de raiva e de vitupérios. Está certo, diz Panurgo; dão das coisas só um aspecto, caso por caso; quando têm a
paga o preço, escolhe um caraei~o gr,ande e b~nito, e, e_nquanto ver com uma multiplicidade de aspectos, procuram forçá-la na
Diodenault continua a troçar dele, Joga o arnmal subitamente forte moldura da ordem geral. Todo o esfôrço de Rabelais di-
ao mar. Todo o rebanho pula atrás; o desesperado Dindenault rige-se para o jôgo com as coisas e com a multiplicidade de vi-
procura detê-los, mas é em vão; é arrastado por um bode muito sões posíveis e para atrair o leitor, acostumado a determinadas
forte e morre afogado, na mesma posição em que outrora Ulis- maneiras de ver o mundo, através do redemoinho dos fenô-
ses fugira da caverna de Polifemo; a mesma sorte têm os seus menos, para que se aventure sôbre o grande mar do mundo,
pastôres e peões. Panurgo, armado de um longo remo, im- sôbre o qual pode nadar-se livremente, e também em direção
pede que aquêles que querem se salvar atinjam o navio, e pro- a todo e qualquer perigo. Parece-me que não se está apontando
fere um belo discurso dirigido aos moribundos, acêrca da bem- exatamente para o essencial quando, como certos críticos, se dá
-aventurança da vida eterna e a miséria da vida terrena. Assim, valor decisivo à separação de Rabelais do dogma cristão; cer-
esta brincadeira acaba de forma feroz e um tanto atemoriza- tamente, não é mais um crente no sentido da Igreja; mas está
dora, considerando-se o grau da necessidade de vingança de muito longe de se fixar, como um iluminista dos tempos pos-
Panurgo, que sempre está de bom humor. Mas é sempre uma teriores, a determinadas formas da falta de fé; também não se
brincadeira, dentro da qual Rabelais, como de costume, enfiou deve tirar conclusões demasiado amplas da sua sátira de obje-
um monte de erudição grotesca e colorida; des.t a vez, sôbre os tos cristãos, pois oeste sentido já a Idade Média oferece exem-
carneiros, a sua lã, a sua pele, os seus intestinos, a sua carne plos que não se diferenciam essencialmente das suas piadas blas-
e tôda uma outra série das suas partes, tudo ornado, como de femas. O elemento revolucionário da sua ideologia não está,
costume também, com mitologia, medicina e estranhas magias propriamente, no que ela tem de anticristão,, mas · no que
q{iímicas. Mas êste colorido mecanismo de engenhosidades, oferece de afrouxamento da visão, do sentir e do pensar, pro-
que Dindenault apresenta durante a sua louvação dos carneiros, duzido pelo seu constante jôgo com as coisas, e que convida o
não é, desta vez, a coisa principal, mas é a ampla auto-repre- leitor a entrar em relação imediata com o mundo e com a ri-
sentação da sua essência, que motiva a forma da sua destruição: queza dos seus fenômenos. Num ponto, é claro, Rabelais se
é enganado e morre porque não sa