Você está na página 1de 350

A proua do estrangeiro

ED V rê c
l .lll.HH iIn llMlvHmiilNiln li» ritiijHHln Coruglo

_____
EDöSe
Editora da Uníverakiada do Sagrado Coração

Coordenação Editorial
Irmã Jacin ta T u ro lo G arcia

Assessoria Adm inistrativa


Irmã Teresa Ana Sofiatti

Assessoria C om ercial
Irm ã Áurea de A lm eida N ascim ento

Coordenação da Coleção Signum


Luiz E u g ên io V éscio
A n to in e B erm a n

A P R O V A DO

E S T R A N G E I R O

C u ltu ra e trad u ção na

A le m a n h a ro m â n tica

Herder Goethe

Schlegel Novalis Humboldt

Schleiermacher Hölderlin

Tradução de

Maria Em ília Pereira Chanut

f
EDlîëc
Editora da Universidade do Sagrado Coração

B 5 166p.
Berman, Antoine.
A prova do estrangeiro: cultura e tradução na Alemanha român­
tica: Herder, Goethe, Schlegel, Novalis, Humboldt, Schleiermacher,
Hölderlin /Antoine Berm an ; Tradução de M ariaE m ilia Pereira
Chanut - - Bauru, SP: E D U S C , 2002.
3 5 6 p .; 21cm . - - (C oleção Signum)

ISBN 85-7460-137-3
Inclui bibliografia.

T ítu lo o rig in a l: L/épreuve de 1'étran ger: cu ltu re et


trad u ctio n dans rA lle m a g n e ro m an tiq u e: H erd er G o e th e
S c h le g e l N ovalis H u m b o ld t S c h le ie rm a c h e r H ö ld erlin .

1. Tradução e interpretação - Alemanha - História - séc. 19.


2. Romantismo - Alemanha. I.Titulo. II.Série

C D D . 418.020943

ISB N 2 - 0 7 - 0 7 4 0 5 2 - 8 (originai)

C opyrigh t © Éditions Gallim ard, 1984


C opyright © de tradu ção EDUSC, 2 0 0 2

T radução realizada a partir da ed ição de 1984.


D ireitos exclu siv o s de p u blicação em língua portuguesa
para o Brasil adquiridos pela
EDITO RA DA U N IV ER SID A D E DO SAGRADO CORAÇÃO
R ua Irm ã A rm inda, 1 0 -5 0
CEP 1 7 0 1 1 -1 6 0 - Bau ru - SP
F o n e (1 4 ) 2 3 5 -7 1 1 1 - F a x (1 4 ) 2 3 5 -7 2 1 9
e -m a il: ed u sc@ u sc.b r
Para
Isabelle
A arte de traduzir vai mais longe em alemão do que em
qualquer outro dialeto europeu. Voss transportou para a
sua língua os poetas gregos e latinos com uma surpreen­
dente exatidão, e William Schlegel, os poetas ingleses, ita­
lianos e espanhóis, com Lima variedade de coloridos da
qual não havia exemplo antes dele...
Madame de Staêl
D a Alemanha

Cada tradutor deve infalivelmente encontrar um dos


dois escolhos seguintes: ele se limitará com demasiada
exatidão seja ao original, em detrimento do gosto e da
língua de seu povo, seja à originalidade de seu povo, em
detrimento da obra a ser traduzida...
Wiihelm von Humboldt
Carta a Schlegel, 23 de julho de 1796
Sumário

A tradução em m an ifesto..........................................11

In tro d u çã o ...................................................................... 27

capítulo 1
L u tero ou a trad u ção co m o f u n d a ç ã o ......................47

capítulo 2
H erd er: fid elid ad e e am p liaçã o .................................. 67

capítulo 3
A B ildu n g e a ex ig ên cia da t r a d u ç ã o ........................ 79

capítulo 4
G o e th e : trad u ção e literatu ra m u n d i a l................... 97
capítulo 5
R e v o lu ç ã o ro m â n tica e v ersabil idade in fin ita . . 125

capítulo 6
L in g u a g e m de n atu reza e lin g u ag e m de arte . . 157

capítulo 7
A te o ria esp ecu lativ a da trad u ção ...........................185

capítulo 8
A tra d u çã o cò m o m ov im en to c rític o ................... 215

capítulo 9
A u g u st W ilh e lm S c h le g e l:
a v o n ta d e de tu d o t r a d u z ir .....................................229

capítulo 10
F. S c h le ie rm a c h e r e W . von H u m b o ld t:
a tra d u ç ã o no esp aço
h e r m e n ê u tic o -lin g ü ís tic o ....................................... 253

capítulo 11
H ö ld e rlin : o n a cio n a l e o e s tr a n g e ir o ................... 281

Conclusão
I. A arqueologia da tradução ............................................ 313
II. A tradução como novo objeto do s a b e r ................... 325

B ib liog rafia ......................................................................... 343


A T R A D U Ç Ã O
E M M A N I F E S T O

O domínio da tradução é e sempre foi o centro de


uma curiosa contradição. Por um lado, considera-se que se
trata de uma prática puramente intuitiva — meio técnica,
meio literária —, não exigindo no fundo nenhuma teoria, ne­
nhuma reflexão específicas. Por outro lado, existe - pelo me­
nos desde Cícero, Horácio e São Jerônimo - uma abundan­
te massa de escritos sobre a tradução, de natureza religiosa,
filosófica, literária, metodológica ou - recentemente - cien­
tífica. Ora, apesar de numerosos tradutores terem escrito so­
bre seu trabalho, até o presente era inegável que a grande
massa desses textos emanava de não-tradutores. A definição
dos “problemas” da tradução era assumida por teólogos, filó­
sofos, lingüistas ou críticos. Resultaram disso pelo menos três
conseqüências. Por um lado, a tradução permaneceu uma
/t ) atividade subterrânea, oculta, porque ela não falava por si
mesma. For outro’ lado, ela ficou largamente “impensada”)

11
como tal, porque os que dela tratavam tinham tendência a
assiinilá-la a outra coisa: à (sub-)literatura, à (sub-)crítica, à
“lingüística aplicada”. Enfim, as análises feitas quase exclu­
sivamente por não-tradutores comportam fatalmente —/
quaisquer que sejam suas qualidades - numerosos “pontos
cegos” e não pertinentes.
Nosso século viu essa situação alterar-se pouco a
pouco e um vasto corpus de textos de tradutores constituir­
se. Mais ainda: a reflexão sobre a tradução tornou-se uma
necessidade, infe.mq da própria traduçãft, como o havia sido
parcialm ente na Alemanha clássica e romântica. Essa refle­
xão não apresenta forçosamente a feição de uma “teoria”,
com o se pode ver com o livro de Valery Larbaud, Sob a in­
vocação de São Jerónimo. Mas, em todos os casos, ela indi­
ca a vontade de definir-se e situar-se por si mesma e, por
conseguinte, ser comunicada, partilhada e ensinada.

í L História da tradução

A constituição de uma história da tradução é a pri­


meira tarefa de uma teoria m oderna da tradução. Toda
modernidade institui não um olhar passadista, mas um
movim ento de retrospecção que é uma compreensão de
si. Assim, o poeta-crítico-tradutor Pound meditava simul-
taneam ente sobre a história da poesia, da crítica e da tra-
dução. Assim, as grandes re-traduções do século 20 (D an­
te, a Bíblia, Shakespeare, os gregos, etc.) são necessaria­
m ente acompanhadas por uma reflexão sobre as tradu­
ções anteriores,1 Essa reflexão deve ser estendida e apro-

I . Cf. “Pourquoi retraduire Shakespeare?”, de Pierre Leyris, prefâcio das


Œuvres de Shakespeare, Club du Livre.

12
fundada. Não podemos nos satisfazer com as periodiza­
ções incertas que George Steiner reuniu em A/ter B abel
a propósito da história ocidental da tradução. E impossí­
vel separar essa história daquela das línguas, das culturas
ê das literaturas —ou ainda daquela das religiões e das na­
ções. Tam bém não se trata de misturar tudo, mas de mos­
trar como, em cada época ou em cada espaço histórico
considerado, a prática da tradução articula-se à da litera­
tura, das línguas, dos diversos intercâmbios culturais e
lingüísticos. Tomemos um exemplo: Léonard Forster mos­
trou que, no final da Idade Média e no Renascim ento, os
poetas europeus eram freqüentemente plurilingües.2 Eles
escreviam em várias línguas e para um público que era
ele próprio poliglota. Não menos freqüentemente, eles se
auto-traduziam. Tal é o caso emocionante do poeta ho­
landês Hooft que, por ocasião da morte da mulher que
amava, compôs toda uma série de epitáfios, primeira­
mente em holandês, depois em latim, depois em francês,
depois de novo em latim , depois em italiano, depois —
um pouco mais tarde - novamente em holandês. Como
se tivesse tido a necessidade de passar por toda uma série
de línguas e de auto-traduções para chegar à justa expres­
são de sua dor ein sua língua materna. Ao ler L. Forster,
parece claro que os poetas dessa época evoluíam - quer
se trate das esferas cultas ou das esferas populares - ein
um meio infinitam ente mais polilíngüe do que o nosso
(que o é tam bém , mas diferentemente). Havia as línguas
eruditas, as línguas “rainhas", com o diz Cervantes, o la­
tim, o grego e o hebreu; havia as diferentes línguas nacio-

2. The Poet's Tongues. M ultilingualism in Literature. Cam bridge: Cam­


bridge University Press, 1970.

13
nais letradas, o francês, o inglês, o espanhol, o italiano e
a massa, das línguas regionais, dialetos, etc. O homem
que passeava nas ruas de Paris ou de Anvers provavel­
m ente ouvia mais línguas do que as que se ouvem hoje
em Nova York: sua língua não era senão uma língua en­
tre línguas, o que relativizava o sentido da língua mater­
na. Em um m eio como esse, a escritura tendia a ser, pelo
menos parcialm ente, polilíngüe, e a regra medieval que
relacionava certos gêneros poéticos a certas línguas - por
exemplo, no caso dos trovadores do nífrte da Itália, do sé­
culo 13 ao 15, a poesia lírica era relacionada ao proven-
çal e a poesia épica ou de narrativa ao francês - prolon-.
gou-se parcialm ente. Assim, M ilton escreveu seus únicos
poemas de amor em italiano pois, como a senhora italia­
na à qual eles eram dirigidos explica em um de seus poe­
mas, “questa è lingua di cui si vanta A m ore”. É claro que
essa senhora conhecia também o inglês: mas não era a
língua do amor. Para homens como Hooft e M ilton, o
sentido da tradução devia ser diferente do nosso, como
era o da literatura. Para nós, as auto-traduções são exce­
ções, assim com o o fato de que um escritor - pensemos
em Conrad ou em Beckett - escolha uma língua que não
é a sua. Estim am os mesmo que o plurilingüismo ou a di-
glossia tornam a tradução difícil. Em resumo, é toda a re­
lação com a língua materna, com as línguas estrangeiras,
a literatura, a expressão e a tradução que se estruturou de
outro modo.
Fazer a história da tradução é redescobrir paciente-
) m ente essa rede cultural infinitamente complexa e descon­
certante na qual, em cada época, ou em espaços diferentes.
ela se vê presa. E fazer do saber histórico assim obtido uma
abertura de nosso presente. —

14
Uma condição ancilar

Trata-se pois, em última instância, de saber o que


deve significar hoje a tradução em nosso campo cultural.
Problema duplicado por um outro, de uma intensidade
quase dolorosa. Faço referência aqui a alguma coisa que
não pode deixar de ser evocada: a condição ocultada, re­
primida, reprovada e ancilar da tradução que repercute
sobre a condição dos tradutores, a tal ponto que quase
não é mais possível fazer dessa prática uma profissão au­
tônoma. A condição da tradução não é somente ancilar:
ela é, aos olhos do público, assim com o aos olhos dos
próprios tradutores, suspeita. Após tantos êxitos, tantas
obras de arte, tantas pretensas impossibilidades vencidas,
como é que o adágio italiano traduttore traditore ainda
pode funcionar como um juízo final sobre a tradução?
|Entretanto, é verdade que, nesse domínio, trata-se sem­
pre de fidelidade e de traição. “Traduzir, escrevia Franz
Rosenzweig, é servir a dois senhores.” Tal é a metáfora
ancilar. Trata-se de servir à obra, ao autor, à língua es­
trangeira (primeiro senhor) e de servir ao público e à lín­
gua própria (segundo senhor). Aqui surge o que se pode
chamar de drama do tradutor.
Ao escolher por patrão exclusivo o autor, a obra e a
língua estrangeira, ambicionando ditá-los em sua pura es­
tranheza a seu próprio espaço cultural, ele se arrisca a sur­
gir como um estrangeiro, um traidor aos olhos dos seus. E
não há garantias de que essa tentativa radical - Schieierma-
cher dizia: “levar o leitor ao autor” — não caia por terra e
não produza um texto beirando o ininteligível. Se, por ou­
tro lado, a tentativa tem êxito e é até por sorte reconhecida,
não há garantias de que a outra cultura não se sinta “rou­
bada", privada de uma obra que ela julgava ser irredutivel-

15
mente sua. Alcança-se aí o domínio hiper-delicado das re­
lações entre o tradutor e os “seus” autores.
Ao contentar^sèJpÕFõutro Ia3õ7em adaptar conven­
cionalmente a obra estrangeira —Schleierm acher dizia: “le­
var o autor ao leitor” —, o tradutor terá certamente satisfei­
to a parte menos exigente do público, mas ele terá irreme­
diavelmente traído a obra estrangeira e, é claro, a própria
essência do traduzir.
Essa situação impossível não é, eníjetanto, uma rea­
lidade em si: ela esta fundamentada em um certo número
de pressupostos ideológicos. O público letrado do século
16, evocado por Forster, alegrava-se ao ler uma obra em
suas diversas variantes lingüísticas; ele ignorava a proble­
mática da fidelidade e da traição, pois não sacramentava a
sua língua materna. Talvez essa sacralização seja a fonte do
adágio italiano e de todos os “problemas” da tradução. É o
nosso público letrado quem exige que a tradução fique pre­
sa em uma dimensão na qual ela é sempre suspeita. Essa
não é certam ente a única razão do apagamento do tradutor
que procura “não se mostrar muito”, humilde mediador de
obras esüangeiras, sempre traidor, ainda que queira ser a fi­
delidade encarnada.
Está na hora de meditar sobre esse estatuto reprimido
da tradução e sobre o conjunto das "resistências” que ele
testemunha. O que poderia ser formulado assim: toda cul tn-
ra resiste à tradução mesmo que necessite essencialmente
dela. A própria visada da tradução - abrir no nível da escri­
ta uma certa relação com o Outro, fecundar o Próprio pela
mediação do Estrangeiro —choca-se de frente com a estni-
tura etnocêntrica de qualquer cultura, ou essa espécie de
narcisismo que faz com que toda sociedade deseje ser um
Todo puro e não misturado. Na tradução, há alguma coisa
da violência da mestiçagem. Herder sentiu isso quando

16
comparou uma língua que ainda não traduzira a uma moça
virgem. Pouco importa que, no nível da realidade, uma cul­
tura e uma língua virgens sejam tão fictícias quanto uma
raça pura. Trata-se aqui de desejos inconscientes. Qualquer
cultura desejaria ser suficiente em si mesma para, a partir
dessa suficiência imaginária, ao mesmo tempo brilhar sobre
as outras e apropriar-se de seu patrimônio. A cultura roma­
na antiga, a cultura francesa clássica e a cultura norte-ame­
ricana moderna são exemplos marcantes disso.
Ora, a tradução ocupa aqui um lugar ambíguo. Por
um lado, ela se submete a essa injunção apropriadora e re­
dutora, constitui-se como um de seus agentes. O que aca­
ba por produzir traduções etnocêntricas, ou o que podemos
chamar de “má” tradução. Mas, por outro lado, a visada éti-
ca do traduzir opõe-se por natureza a essa iniuncão: a es-
gência da tradução é ser abertura, diálogo, mestiçagem,
descentralização. Ela é relação, ou não é nada.
Essa contradição entre a visada redutora da cultura e
a visada ética do traduzir encontra-se em todos os níveis.
Tanto no dásTSõnas e clos métodos de tradução (por exem­
plo, na sempiterna oposição dos defensores da “letra” e dos
defensores do “sentido”) quanto no da prática do traduzir c
do ser psíquico do tradutor. Aqui, a tradução, para ter aces­
so a seu próprio ser, exige uma ética e uma analítica.

* l_ Ética da tradução

A ética da tradução consiste, no plano teórico, em


resgatar, afirmar e defender a pura visada da tradução
como tal, Ela consiste em definir o que é a “fidelidade”. A
tradução não pode ser definida unicamente em termos de
comunicação, de transmissão de mensagens ou de rewor-

17
ding ampliado. Ela também não é uma atividade puramen­
te literária/estética, mesmo que esteja intimamente ligada à
prática literária de um dado espaço cultural. Traduzir é,
obviamente, escrever e transmitir. Mas essa escritura e essa
transmissão só ganham seu verdadeiro sentido a partir da vi­
sada ética que as rege. Nesse sentido, a tradução está mais
próxima da ciência do que da arte - pelo menos se consi­
derarmos a irresponsabilidade ética da arte.
Definir mais precisamente essa visada ética e, a par­
tir disso, tirar a tradução de seu gueto ideológico, eis uma
das tarefas de uma teoria da tradução.
Mas essa ética positiva supõe por sua vez duas coi­
sas. Prim eiram ente, uma ética negativa, isto é, uma teo­
ria dos valores ideológicos e literários que tende a desviar
a tradução de sua pura visada. A teoria da tradução não j
etnocêntrica é também uma teoria da tradução etnocên- \
trica, ou seja, da má tradução. C ham o de má tradução a
tradução que, geralmente sob pretexto de transmissibili-
dade, opera uma negação sistemática da estranheza da

®— Analítica da tradução

Essa ética negativa deveria ser completada por uma


analítica da tradução e do traduzir. A resistência cultural pro­
duz uma sistemática da deformação que opera no nível lin­
güístico e literário e que condiciona o tradutor, quer ele quei­
ra ou não, quer ele saiba ou não. A dialética reversível da fi­
delidade e da traição está presente neste último até na ambi-
f güidade de sua posição de escrevente: o puro tradutor é aque­
le que tem necessidade de escrever a partir de uma obra, de-s
míia língua e de um autor estrangeiros. Desvio notável. No 1

18
plano psíquico, o tradutor é ambivalente. Ele quer forçar dos
dois lados: forcar a sua língua a se lastrear de estranheza, for­
çar a outra língua a se de-portar em sua língua materna 3 Ele

3. Pode-se comparar essa posição àquela de escritores não franceses que es­
crevem em francês. Trata-se das literaturas de países francófonos, em primei­
ro lugar, mas também de obras escritas em nossa língua por escritores que
não pertencem de forma alguma a zonas francófonas, como Beckett. Nós
agruparemos essas produções sob a categoria do “francês estrangeiro”. Elas
foram escritas em francês por “estrangeiros”, e carregam a marca dessa es­
tranheza ein sua língua e em sua temática. As vezes parecido com o francês
dos franceses da França, sua língua é separada dele por um abismo mais ou
menos sensível, como o que separa nosso francês das passagens em francês
de Guerra e paz e de A m ontanha mágica. Esse francês estrangeiro mantém
uma relação estreita com o francês da tradução. Em um caso, temos estran­
geiros escrevendo em francês e, portanto, imprimindo o cunho de sua estra­
nheza em nossa língua; no outro, temos obras estrangeiras reescritas em
francês, vindo habitar nossa língua e, portanto, marcá-la também com sua
estranheza. Beckett é a ilustração mais surpreendente dessa proximidade
dos dois franceses, pois ele escreveu algumas de suas obras em francês e tra­
duziu ele mesmo algumas outras do inglês. Em um bom número de casos,
essas obras pertencem a espaços bi- ou plurilingües, nos quais nossa língua
vive uma situação particular: língua minoritária dominada, ou dominante,
e, em todos os casos, confrontada a outras línguas, com relações freqüente­
mente antagonistas. Essa situação é muito diferente daquela que reina na
França, visto que nosso país, apesar da existência de línguas regionais, tem
tendência a viver como monolíngtie. Ela engendra obras marcadas por um
duplo signo: enquanto obras estrangeiras, empregando um francês “perifé­
rico”, elas tendem a ser de tipo vernacular, acolhendo a expressividade po­
pular. Enquanto obras escritas em francês, elas tendem - para manifestar
uma dependência e uma oposição às línguas dominantes vizinhas - a em­
pregar um francês mais “puro” que o da França. Essas duas tendências po­
dem se encontrar na mesma obra, e é o caso de um Edouard Glissant ou de
uma Simone Schwartz-Bart. Em todos os casos, o texto francês estrangeiro
parece “outro” em relação ao texto francês da França. Essas duas tendências
antagonistas assemelham-se à escritura do tradutor que, confrontado a um
texto estrangeiro “outro”, fica simultaneamente tentado a defender sua lín­
gua (sobrefrancização) e de abri-la ao elemento estrangeiro. O paralelismo
estrutural é portanto marcante, e não é surpreendente que o objetivo do tra­
dutor, enriquecer sua língua, seja também o de bom núinero desses escrito­
res. O poeta mauriciano Edouard Maunick declara: “Eu gostaria de insemi­
nar o francês” (“Écrire, mais dans quelle langue?”. Le M onde, 11 mar.
1983).

19
quer ser escritor, mas não é senão c&escritor. Ele é autor —e
nunca o Autor. Sua obra de tradutor é uma obra, mas não é
A Obra. Essa rede de ambivalências tende a deformar a pura
visada tradutória e a se inserir no sistema ideológico defor­
mante evocado mais acima. A reforçá-lo.
Para que a pura visada da tradução seja algo mais do
que um voto piedoso ou um “imperativo categórico”, seria
preciso então acrescentar à ética da tradução uma analíti-
I ca. O tradutor deve “colocar-se em análise”, recuperar os
sistemas de defqrmação que ameaçam á*sua prática e-ope-
| ram de modo inconsciente no nível de suas escolhas lin­
güísticas e literárias. Sistemas que dependem simultanea-
\mente dos registros da língua, da ideologia, da literatura e
do psiquismo do tradutor. Pode-se quase falar em psicaná­
lise da tradução , com o Bachelard falava de uma psicanáli­
se do espírito científico: mesma ascese, mesma operação es­
crutadora sobre si. Essa analítica pode ser verificada e efe­
tuada por análises globais e restritas. Por exemplo, a propó­
sito de um rom ance, pode-se estudar o sistema de tradução
empregado. No caso de uma tradução etnocêntrica, esse
sistema tende a destruir o sistema do original. Todo tradu­
tor pode observar em si mesmo a realidade perigosa desse
sistema inconsciente. Por sua natureza, esse trabalho analí­
tico, como todo trabalho de análise, deveria ser plural.
Avançaríamos nesse sentido para uma prática aberta e não
mais solitária do traduzir. E para a instituição de uma críti­
ca das traduções paralela e complementar à crítica dos tex­
tos. Mais ainda: a essa analítica da prática traduzinte deve­
ria ser acrescentada uma análise textual efetuada no hori­
zonte da tradução: todo texto a ser traduzido apresenta
uma sistematicidade própria que o movimento da tradução
encontra, enfrenta e revela. N esse sentido, PouncLpodiat-di-
zer que a tradução era uma forma sui generis de crítica, na

20
medida em que ela toma manifestas as estruturas ocultas
dfium texto. Esse sistema-da-obra é ao mesmo tempo o que
oferece mais resistência à tradução e o que a autoriza e lhe
dá sentido.

A outra vertente do texto

Caberia também analisar nesse âmbito o sistema dos


“ganhos” e das “perdas” que ocorre em toda tradução, mes­
mo acabada. O que se pode chamar de seu caráter “aproxi­
mativo”. Afirmando, pelo menos implicitamente, que a tra­
dução “potencializa” o original, Novalis contribuiu para
nos fazer sentir que ganhos e perdas, aqui, não se situam no
mesmo plano. Em outras palavras: em uma tradução, não
há somente uma certa porcentagem de ganhos e de perdas.
Ao lado desse plano, inegável, exjste um outro, em que ah
guma coisa do original abarece e que não aparecia na jín -
gua de partida. A tradução faz girar a obra, revela dela uma
outra vertente. Qual é essa outra vertente? Eis o que é pre­
ciso perceber melhor. Nesse sentido, a analítica da tradu­
ção deveria nos ensinar alguma coisa sobre a obra, sobre a
relação desta com sua língua e com a linguagem em peral...
Alguma coisa que nem a simples leitura, nem a crítica po­
dem revelar. Re-produzindo o sistema-da-obra ein sua lín­
gua, a tradução provoca nesta uma mudança, e aí existe, in­
dubitavelmente, um ganho, uma “potencialização”. Goe­
the teve a mesma intuição falando, a esse respeito, de “re­
generação”. A obra traduzida é às vezes “regenerada”. E
não somente no plano cultural ou social: em seu falar pró­
prio. A isso corresponderia, por outro lado, o fato de que,
na língua de chegada, a tradução desperta possibilidades
ainda latentes e que só ela, de maneira diferente da litera­
tura, tem o poder de despertar. Hölderlin poeta abre possi­
bilidades da língua alemã que são homólogas, mas não
idênticas, às que ele abre como tradutor.

Visada metafísica e pulsão do traduzir

Gostaria agora de examinar brevemente com o a


pura visada ética da tradução articula-se com outra visa^-
da - a visada m etafísica da tradução e, correlativamente,
com o que se pode chamar de a pulsão do traduzir. E n ­
tendo por isso esse desejo de traduzir que constitui o tra­
dutor com o tradutor e que se pode designar pelo termo
freudiano de pulsão, uma vez que ele tem, como o subli­
nhava Valery Larbaud, alguma coisa de “sexual” no sen­
tido amplo do termo.
O que é a visada metafísica da tradução? Em um tex­
to considerado quase canônico, Walter Benjamín evocou a
tarefa do tradutor. Esta consistiria em buscar, para além da
abundância das línguas empíricas, a “pura linguagem” que
toda língua carrega nela como seu eco messiânico. Uma tal
visada — que não tem nada a ver coin a visada ética - é ri­
gorosamente metafísica, na medida em que, platonicamen­
te, ela procura um além “verdadeiro” das línguas naturais.
Foram os românticos alemães, aliás evocados por Benjamin
em seu ensaio, que encarnaram do modo mais puro essa vi­
sada, mais potadamente Novalis. É a tradução contra B a­
bel, contra o reino das diferenças, contra a empiricidade.
Ora, curiosamente, está aí o que busca, por assim dizer em
estado selvagem, a pura pulsão do traduzir, tal como ela se
manifesta, por exemplo, em A. W. Schlegel ou Armand Ro-
bin. O desejo de tudo traduzir, de ser poli-, onitradutor,
alia-se neles a uma relação problemática - até antagonista
- com sua língua materna. Para A. W. Schlegel, o alemão
é uma língua desajeitada e rígida, obviamente capaz de

22
“trabalhar”, mas não de “brincar”. Para ele, a politradução
tem justamente como visada fazer brincar a “língua mater­
na”. Em um ponto, essa visada confunde-se com a visada
ética, tal como ela se exprime em um Humboldt, para
quem a tradução deve “ampliar” o alemão. Mas, na reali­
dade, a pulsão tradutória fixa um objetivo que deixa bem
para trás qualquer projeto humanista. A politradução torna-
se um objetivo em si, cuja essência é, antes, desnaturalizar
radicalmente a língua materna. A pulsão tradutória parte
sempre da recusa daquilo que Schleiermacher denomina
das heimiches Wohlbefinden der Sprache — o íntimo bem-
estar da língua. A pulsão traduzinte coloca sempre outra
língua .como ontologicamente superior à língua própria.
De fato, não seria uma das experiências primeiras de qual­
quer tradutor ver sua língua como que desprovida, pobre,
diante da riqueza linguageira da obra estrangeira? A dife­
rença das línguas - outras línguas e língua própria —é aqui
hierarquizada. Assim, o inglês ou o espanhol seriam, por
exemplo, mais “soltos”, mais “concretos”, mais “ricos” que
o francês! Essa hierarquização não tem nada a ver com
uma constatação objetiva: é dela que parte o tradutor, é ela
que este encontra em sua prática, é ela que ele não cessa de
reafirmar. O caso de Armand Robin verifica claramente
esse “ódio” da língua materna que é o motor da pulsão tra­
dutória. Armand Robin tinha, por assim dizer, duas línguas
maternas, o fissel - um dialeto bretão - e o francês. Sua ati­
vidade politradutória fundamenta-se claramente no ódio
de sua “segunda” língua matema, língua que, para ele, é
fortemente carregada de culpa:

Eu gostava muito mais das línguas estrangeiras, para


mim puras, tão especiais: em minha língua francesa (mi­
nha segunda língua) houvera todas as traições.
Nela sabia-se dizer sim à infâmia!
É evidente que, aqui, a visada metafísica, ultrapassar
a finitude das línguas empíricas e a de sua própria língua
em um ímpeto messiânico em direção à palavra verdadei­
ra - Robin diz: “ser a Palavra e não as palavras” liga-se à
pura pulsão tradutória que quer transformar a língua ma­
terna confrontando-a a línguas não maternas e, como tais,
sempre superiores: mais “flexíveis”, mais "brincalhonas”,
mais “puras”.
Poder-se-ia dizer que a visada metafísica da tradução
é a má sublimação da pulsão tradutóriá^ ao passo que a vi­
sada ética é o seu transbordamento. C om efeito, a pulsão
tradutória é o fundamento psíquico da visada ética —sem a
qual ela só seria um imperativo impotente. A mimese tra-
duzinte é forçosamente pulsional. Mas, ao mesmo tempo,
ela ultrapassa a pulsão, pois não quer mais precisamente
essa secreta destruição/transformação da língua materna
que esta última e a visada metafísica desejam. No transbor­
damento que representa a visada ética, manifesta-se outro
desejo: o de estabelecer uma relação dialógica entre língua
estrangeira e língua própria.

História da tradução
É tica da tradução
Analítica da tradução,
(•
tais são, portanto, os três eixos que podem definir uma re­
flexão moderna sobre a tradução e os tradutores.

Tradução e transtextual idade

Ao que se acrescentaria um quarto eixo, referente ao


domínio da teoria da literatura e da transtextualidade. Uma
obra verdadeiramente literária desdobra-se sempre em um

24
horizonte de tradução. Dom Quixote é o exemplo mais mar­
cante disso. Cervantes, em seu romance, explica-nos que o
manuscrito das aventuras de seu herói foi traduzido do ára­
be. O original teria sido, por assim dizer, escrito por um
Mouro, Cid Hamet Bengeli. E não é tudo: Dom Quixote e
o pároco dissertam doutamente em várias ocasiões sobre a
tradução, e a maior parte dos romances que desordenam o
espírito do “herói” são também traduções. Há uma ironia fa­
bulosa no fato de que o maior romance espanhol seja apre­
sentado por seu autor como uma tradução do árabe — ou
seja, da língua que havia sido dominante na Península du­
rante séculos. Isso, certamente, poderia nos ensinar alguma
coisa sobre a consciência cultural espanhola. Mas também
sobre o laço da literatura com a tradução. Ao longo dos sé­
culos, esse laço é constatado dos poetas dos séculos I 5 e l 6
até Hölderlin. Nerval. Baudelaire. Mallarmé, George, Ril-
ke, Benjam in. Pound. loyce ou Beckett.
Existe aí, para a teoria da tradução, um campo de
pesquisas fecundo, com a condição de que ele ultrapasse o
âmbito demasiado estreito da transtextualidade e esteja re­
lacionado com os trabalhos sobre as línguas e as culturas
em geral. Um campo pluridisciplinar, no qual os tradutores
poderão trabalhar frutuosamente com os escritores, os teó­
ricos da literatura, os psicanalistas e os lingüistas.

Paris, maio de 1981.

25
I N T R O D U Ç Ã O

O presente ensaio dedicou-se a um exame das teo­


rias que os românticos alemães — de Novalis, Friedrich
Schlegel e A. W. Schlegel a Schleierm acher - consagraram
à tradução. Essas teorias serão brevemente comparadas
com aquelas, contemporâneas, de Herder, Goethe, Hum­
boldt e Hölderlin. E do conhecimento geral que os român­
ticos alemães, pelo menos aqueles que se reuniram em tor­
no da revista Athenäum , produziram uma série de grandes
traduções que se mostraram ser um bem durável do patri­
mônio alemão: A. W. Schlegel (com Ludwig Tieck) tradu­
ziu Shakespeare, Cervantes, Calderón, Petrarca, assim
como numerosas outras obras espanholas, italianas e portu­
guesas. Schleiermacher, por sua vez, traduziu Platão. Exis­
te aí uma empresa de traduçãõ~sisTémática e perfeitamente
seletiva. As traduções de Goethe, de Humboldt e de Höl-

27
derlin apresentam igualmente um alto grau de seletivida­
de, mas suas orientações são sensivelmente diferentes.
Todas essas traduções, feitas no limiar do século 19,
remetem historicamente a um acontecimento que foi deci­
sivo para a cultura, a língua e a identidade alernãs: a tradu­
ção, no século 16, da Bíblia por Lutero. Essa tradução, com
efeito, marcou o início de uma tradição na qual o ato de
traduzir é, a partir de então — e até hoje - , considerado
como uma parte integrante da existência cultural e, mais
ainda, com o um.momento constitutivo âo germanismo, da
Deutschheit. O fato não deixou de ser assinalado por mui­
tos dos grandes pensadores, poetas e tradutores alemães, do
século 18 ao século 20:
Leibniz:

Eu não posso crer que seja possível traduzir as Santas


Escrituras em outras línguas de modo tão delicado como
nós as conhecemos em alemão.1

Goethe:

Totalmente independente de nossas próprias produções,


já atingimos, graças à [...] plena apropriação do que nos é
estrangeiro, um grau de cultura (Bildung) elevadíssimo.
As outras nações aprenderão logo o alemão, porque perce­
berão que assim poderão se poupar, em uma certa medi­
da, da aprendizagem de quase todas as outras línguas. De
quais línguas, com efeito, não possuímos as melhores
obras nas mais eminentes traduções?

Os alemães contribuem há muito tempo para uma me­


diação e um reconhecimento mútuos. Aquele que com­
preende a língua alemã encontra-se no mercado em que
todas as nações apresentam suas mercadorias.

1. In: SD U N . P roblem e und Theorien des Ubersetzens. Munique: Max


Huber, 1967. p. 50.

28
A força de unia língua não está em rejeitar o estrangei­
ro, mas em devorá-lo.2

A. W. Schlegel:

Somente uma múltipla receptividade para a poesia na­


cional estrangeira, que deve, se possível, amadurecer e cres­
cer até a universalidade, possibilita progressos na fiel re­
produção dos poemas. Creio que estamos a ponto de in­
ventar a verdadeira arte da tradução poética; essa glória es­
tava reservada aos alemães.’

Novalis:

Exceção feita aos romanos, somos a única nação a ter


vivido de maneira tão irresistível o impulso da tradução e
a lhe sermos tão infinitamente devedores de cultura (Bil-
dung). [...] Esse impulso é uma indicação da personalida­
de elevadíssima, originalíssima do povo alemão. O germa­
nismo é um cosmopolitismo misturado ao mais vigoroso
dos individualismos. É somente para nós que as traduções
se tomaram ampliações.'1

Schleiermacher:

Uma necessidade interna, na qual se exprime de modo


muito claro um destino próprio de nosso povo, nos levou
à tradução em massa.5

Hum boldt:

Quando se amplia o sentido da língua, amplia-se igual­


mente o da nação.6

2. ln: STRIC H . G oethe und die Weltliteratur. Berna: Francke Verlag,


1957. p. 18 e 47.
3. Athenäum , II. Munique: Rowohlt, 1969. p. 107.
4. Briefe und Dokumente, p. 367.
5. Apud STÖR1G. D as Problem des Ubersetzens. Darmstadt: W issens­
chaftliche Buchgesellschaft, 1969. p. 69.
6. Ibid., p. 82.

29
Ato gerador de identidade, a tradução foi na Alema­
nha, de Lutero até os nossos dias, objeto de reflexões das quais
dificilmente se encontraria o equivalente em outro lugar. A_
gráfica tradutória é acompanhada aqui por uma reflexão, às
vezes puramente empírica ou metodológica, às vezes, cultural
e social, às vezes francamente especulativa, sobre o sentido do
ato de traduzir, sobre suas implicações lingüísticas, literárias,
metafísicas, religiosas e históricas, sobre a relação entre as lín­
guas, entre o mesmo e o outro, o próprio e o estrangeirojf A
Bíblia luterana é em si mesma a auto-afirmação da língua ale­
mã diante do latim de “Roma”, como Lutero assinalou em
sua Epístola sobre a arte de traduzir e sobre a intercessão dos
Santos. Todavia, no século 18, após o rico desabrochar das
traduções do Barroco e até Herder e Voss, a influência do
Classicismo francês trouxe o surgimento de uma corrente de
traduções puramente formais e de acordo com o “bom gosto”
tal como o define o século das Luzes. E o caso de Wieland,
cujas traduções de Shakespeare, nos diz Gundolf, “partem do
público” em vez de “partirem dos poetas”.7 Essa tendência,
que os próprios alemães da época qualificaram como afrance­
sante, é vitoriosamente combatida com a penetração na Ale­
manha da literatura inglesa e o início de um retomo às “fon­
tes” (poesia popular, poesia da Idade Média, filosofia de Jacob
Boehme, etc.) e igualmente com uma abertura cada vez mais
“múltipla”, para retomar o termo de A. W. Schlegel, às diver­
sas literaturas mundiais. E igualmente a época em que se co­
gita, com Lessing, depois com Herder e Goethe, sobre a fun­
dação de uma literatura própria (embora não forçosamente
nacional e menos ainda, como no Romantismo tardio, nacio­
nalista) que definiria claramente suas relações com o Classi-

7. SDUN . Op. cit., p. 32.

30
cismo francês, os enciclopedistas, o século de Ouro espanhol,
a poesia da Renascença italiana, o teatro elisabetano, o ro­
mance inglês do século 18, enfim, e essencialmente, com a
Antiguidade greco-latina, no âmbito da velha querela, reavi­
vada por Winckelmann, dos Antigos e dos Modernos. Dito
isso, trata-se então de saber se são os gregos ou os romanos
que devem ter a precedência. Essa questão, muito importan­
te para os românticos da Athenäum , permanecerá na ordem j
do dia até Nietzsche.
Nessa auto-definição global, nessa situação no inte­
rior do cenário da literatura européia, a tradução desem­
penha um papel decisivo, em grande parte porque ela é
transmissão de formas. A retomada dos contos e das poe­
sias populares, dos cantos e das epopéias medievais, de Her­
der até Grim m , tem o mesmo sentido: trata-se de um tipo
de intra-tradução pela qual a literatura alemã se apodera
de um vasto tesouro de formas, bem mais do que de um
estoque de temas e de conteúdos. A filologia, a gramática
comparada, a crítica e a hermenêutica dos textos que se
constituem na Alemanha na virada do século 18 desem­
penham nessa empresa um papel funcionalmente análogo:
A. W. Schlegel é, ao mesmo tempo, crítico, tradutor, teó­
rico da literatura, filólogo e comparatista. Humboldt é, ao
mesmo tempo, tradutor e teórico da linguagem. Schleier­
m acher é “herm eneuta”, tradutor e teólogo. D aí um nó,
do qual nós veremos o sentido, entre a crítica, a herme­
nêutica e a tradução.
E nesse campo cultural, que os alemães começam a
denominar a Bildung (cultura e formação), que vão se de­
senvolver as empresas dos românticos, de Goethe, de Hum­
boldt e de Hölderlin. As traduções dos românticos, que re­
vestem a forma consciente de um program a , correspondem
simultaneamente a uma necessidade concreta da época (en-

3!
riquecer o repertório das formas poéticas e teatrais) e a uma
visão que lhes é própria, marcada pelo Idealismo tal como
ele foi definido por Kant, Fichte e Schelling. Friedrich
Schlegel, Novalis e Schleiennacher tomam, eles próprios,
parte ativa nesse processo especulativo. Para Goethe, menos
teórico, a tradução integra-se no âmbito da Weltliteratur, da
literatura mundial, cujo medium mais puro bem que pode­
ria ser, como sugere o texto acima, a língua alemã. A tradu­
ção é um dos instrumentos da constituição da universalida­
de. Esta é a visão do Classicismo a le r t o , da qual Goethe é
o grande representante com Schiller e Humboldt. Para os
românticos da A thenaüm, a tradução praticada em grande
escala é um momento essencial, junto com a crítica, da
constituição da “poesia universal progressiva”, ou seja, da
afirmação da poesia como absoluto. Como prática progra­
mática, ela encontrou seus executores em A. W. Schlegel e
L. Tieck e seus teóricos em F. Schlegel e Novalis. Certa­
mente, não se encontra nesses últimos uma exposição siste­
mática da teoria da tradução, não mais. aliás, do que uma
exposição sistemática da teoria da crítica, do fragmento, da
literatura ou da arte em geral. Porém, não deixa de existir,
iia massa dos textos românticos, uma reflexão sobre a tradu­
ção estreitamente ligada àquelas - mais notáveis - sobre a li­
teratura e a crítica. Será nossa tarefa, portanto, reconstituir
essa reflexão situando-a no labirinto de suas teorias, labirin-1
to que, em sua estrutura, se mostrará como tendo algo a ver
com a tradução e a traduzibilidade. Quando Novalis escre­
ve a A. W. Schlegel: “No final das contas, toda poesia é tra­
dução”,8 ele coloca em uma insondável proximidade de es­
sência o conceito de Dichtung (supremo em sua opinião) e

8. Briefe und Dofaimeníe.Wasmuth. p. 368.

32
o de Ubersetzung. Quando F. Schlegel escreve a seu irmão:
“A força de penetrar na singularidade mais íntima de um
grande espírito, você sempre criticou isso em mim com
mau humor, chamando-a ‘talento de tradutor’”,9 ele coloca
na mesma proximidade de essência —ainda que de maneira
psicológica - crítica, compreensão e tradução. Poderíamos
pensar que existe aí um eco das palavras de Hamann em Es-
thetica ín nuce:

Falar é traduzir - de uma língua angelical para unia lín­


gua humana, ou seja, transpor pensamentos em palavras -
coisas em nomes - imagens em signos.1"

Mas é e^Idènte“quéT^ovalis e F. Schlegel, em sua


reflexão sobre a ligação da tradução e da poesia, têm uma
visão mais específica do que aquela que afirma que todo
pensamento e todo discurso são “traduções”. Partilhando
desse ponto de vista tradicional, eles discernem um laço
m ais essencial entre a poesia e a tradução. Nós mostrare-
m os que a tradução significa para eles uma reprodução
estrutural da crítica, no sentido muito particular que re-
^ veste para a Ãthenãum essa noção, e que a traduzibilida-
de é o próprio modo He repliVaçãn do saber, da E nciclo­
p édia. Nos dois casos, traduzir_g a operação “romantizan-
te”, é a essência da vida do espírito, que Novalis chamou
de “versabilidade infinita”." No âmbito de uma tal teo­
ria, puramente especulativa, onde se situam as línguas, a
prática concreta das traduções? Teremos uma idéia do

9. Carta de 11 fev. 1792. In: SDUN. Op. cit., p. 117.


10. Citamos aqui a “excelente tradução” de J.-F Courtine publicada no
n. 13 da revista PoÓ-sie, Paris: Belin, p. 17, 1980.
11. Para a análise dessa expressão, ver nosso Capítulo 5.

33
que acontece quando a tradução se torna emprego da tra-
duzibilidade de tudo em tudo, lendo essa observação de
Rudolf Pannwitz, segundo a qual a tradução de A. W.
Shlegel teria mais “italianizado” do que “germanizado”
Shakespeare:

A tradução de Shakespeare por A. W. Shelegel é su­


perestimada. Schlegel era muito mole e estava mergu­
lhado demais nos versos romanos e goetheanos para
atingir a majestosa barbárie dos versos shakespearia-
nos; seus versos são mais versos italianos do que versos
ingleses.12

Essa afirmação de Pannwitz, evidentemente polé­


m ica, faz alusão em primeiro lugar ao fato histórico de
que os românticos “anexaram à literatura alemã as formas
artísticas romanas”.13 Não podemos esquecer que “roman­
tismo” vem de “rom ance” e que os membros da Athe­
näum jogavam pertinentemente com o duplo sentido de
“rom ance”, referindo-se ao mesmo tempo às formas “ro­
manas” e às formas “romanescas”. Mas ela remete tam­
bém e mais profundamente à relação, por assim dizer,
“versátil” que os românticos estabelecem com as línguas
em geral, como se lhes fosse possível habitá-las todas.
C om o Armei Guerne muito bem observou, Novalis
mantém uma curiosa relação com o latim e o francês (e
as expressões de origem romana que existem em alemão):

12. D ie Krisis der europäischen Kultur, Nuremberg, 1947. p. 192.


13. BENJAMIN. Werke, I, 1. Frankfurt: Suhrkamp, 1974. Der B egriff der
Kunstkritik in der deutschen Romantik, p. 76.

34
A língua de Novalis [...] é curiosamente afrancesada ou
latinizada até em seu vocabulário.H

Em urna certa medida, pode-se dizer que a tradução


romântica procura jogar com as línguas e suas literaturas,
fazê-las “verter” umas nas outras em todos os níveis (parti­
cularmente no das métricas, o que motiva a observação de
Pannwitz: A. W. Schlegel às vezes recorreu a “rimas italia­
nas” em sua tradução de Shakespeare), exatamente como a
Enciclopédia visa a verter as diversas categorias das ciências
umas nas outras:

Uma ciência só se deixa realmente representar por uma


outra ciência.15

Enciclopedística. Há uma Doutrina da Ciência filosófi­


ca, crítica, matemática, poética, química, histórica.16

Mas se comportar deliberadamente ora em tal esfera,


ora em tal outra, como em um outro mundo, e isso não
simplesmente no entendimento ou na imaginação, mas
de toda a sua alma; renunciar livremente ora a essa, ora
àquela outra parte de seu ser, limitando-se totalmente a tal
parte; procurar e encontrar sua unidade e sua própria to­

14. “Hie et nunc". In: “Le Romanisme allemand”. Cahiers du Sud, p.


357, 1949. Guerne desenvolve em outro lugar esse ponto de vista:
“Quantas vezes Novalis, em seus Fragmentos, não sonha com uma lín­
gua mais eufónica que a sua! [...] Essa é a razão [...] que permite com­
preender por que há em Novalis essa tendência a afrancesar o seu alemão
até em seu vocabulário, e de se comportar espiritualmente em latim [...]
È incontestável que a obra de Novalis tinha, interiormente, sua razão de
ser em francês [...] um tipo de necessidade inicial, cuja satisfação lhe dá,
ou lhe ‘devolve’, alguma coisa, a despeito de tudo o que lhe faz perder de
passagem (...] o re-pensar e [...] a tradução”. In: L a Délirante. Paris, n. 4-
5, 1972. Tradução “afrancesante” que Guerne deu de Novalis.
15. NOVALIS. Fragmente I, n. 1.694, p. 448-9.S
16. Ibid., n. 38, p. 18.

35
talidade ora nessa, ora naquela individualidade, esquecen­
do propositadamente todo o resto: para fazê-lo, só haven­
do um espírito que seja, de algum modo, uma quantida­
de de espíritos e que contenha em si mesmo todo um sis­
tema de personalidades.17

Enciclopédia e poesia universal progressiva' jogam o


mesmo jogo. E esse jogo não é fútil, não é somente a ex­
pressão psicológica de um “talento de tradutor”: é o refle­
xo, ou antes, o símbolo do jogo do Espírito consigo mesmo.
A linguagem, para Novalis, joga um jego desse tipo, com o
o enuncia seu famoso M onólogo:

O erro ridículo e surpreendente é que as pessoas imagi­


nam e acreditam falar em virtude das coisas. Mas o pró­
prio da linguagem, ou seja, que ela só cuida simplesmen­
te de si mesma, todos o ignoram. E por isso que a lingua­
gem é um mistério tão maravilhoso e fecundo: o fato de
falar simplesmente por falar, é justamente nesse momen­
to que ela exprime as mais originais e as mais magníficas
verdades [...] Se pudéssemos ao menos fazer as pessoas en­
tenderem que a linguagem funciona como fómiulas ma­
temáticas: elas constituem um mundo porsi sós, para elas
apenas: elas jogam entre si exclusivamente, o que faz jus­
tamente com que sejam tão expressivas, que se reflita ne­
las justamente o jogo estranho das relações entre as coisas.

17. S C H L E G E L , F. In: L’Absolu littéraire (indicado mais adiante por


AL) de Ph. LACOUE-LABARTHE ; NANCY, J.-L. Paris: Le Seuil,
1978. p. 114. Cf. esse texto de F. Schlegel apud Beda Allemann em Iro-
n ie und D ichtung, Pfüllingen: Neske, 1969. p. 58: “O bom crítico e ca-
racterizador deve observar de modo fiel, consciencioso e múltiplo como
o físico, medir precisamente com o o matemático, estabelecer cuidado­
sas exposições como o botânico, dissecar como o anatomista, dividir
com o o químico, sentir como o músico, imitar como o ator, beijar pra­
ticamente como o amante, apoderar-se de tudo com o olhar como um
filósofo, estudar ciclicamente com o um escultor, ser severo como um
juiz, religioso como um antiquário, compreender o momento como um
político, etc.”. Em resumo, verter-se em tudo, ser versado em tudo, e
tudo verter para tudo. Tal é o “talento do tradutor” romântico.

36
É por sua liberdade que elas são membros da natureza e
é somente por seus livres movimentos que se exprime a
alma do mundo, fazendo juntos uma medida delicada
dele e o plano arquitetural das coisas. Ocorre o mesmo
com a linguagem.18

Como se vê, a conquista das métricas estrangeiras, o


afrancesamentò da língua de Novalis, dizem respeito a um
certo jogo com a linguagem e as línguas. Mas em um jogo as­
sim, como fica a intraduzibilidade, ou seja, aquilo que, na di­
ferença das línguas, revela-se ser o irredutível, em um nível
que não precisa ser o da lingüística, e que cada tradutor en­
contra como o próprio horizonte da “impossibilidade” de sua
prática - impossibilidade que ele deve entretanto enfrentar e
habitar? Veremos qual estatuto (ou não-estatuto) lhe dão os
românticos - um estatuto estreitamente ligado à nocão de cri-
ticãHilidade e à de incriticabilidade. Veremos que a traduzi-
•bilidade e a intraduzibilidade são como que determinadas a
priori pela própria natureza das obras. Paradoxo que pode ser
formulado assim:|o que não se já traduziu a si mesmo não é
traduzível, ou não merece ser traduzidoj
E surpreendente constatar que em nenhum lugar a
teoria especulativa da tradução encontra verdadeiramente o
problema da linguagem e das línguas, como é o caso em Goe­
the, Humboldt e Hölderlin. Integrada à teoria da literatura e
da obra como medium do absoluto poético, a tradução perde
aqui sua dimensão cultural e lingüística concreta, salvo quan­
do se trata, em A. W. Schlegel, de reflexões quase técnicas so­
bre a introdução das métricas em alemão. De novo a lingua­
gem, nessa ótica, surge não como uma dimensão, mas como
o instnimento dócil ou indócil de um certo jogo poético:

18. NOVALIS. Fragmente II. Wasmuth. p. 203-4.

37
Estou persuadido, escreve A. W. Schlegel, de que a
língua não pode nada sem a vontade, o zelo e a sensibi­
lidade (Sinn) daqueles que a empregam [...] Nossa lín­
gua é rígida; somos bem mais soltos; ela é dura e rude;
nós fazemos tudo para escolher tons doces e agradáveis;
chegamos até, se necessário, a fazer jogos de palavras,
coisa para a qual a língua alemã é extremamente desajei­
tada, porque ela quer sempre trabalhar, nunca brincar.
Onde se encontram então as qualidades maravilhosas,
tão celebradas, que fariam de nossa língua a única a ser
solicitada a traduzir todas as outras? Uma certa riqueza
de vocabulário, não tão grande que não deixe sentir sua
pobreza na tradução; a capacidade de j^pmpor e, aqui e
acolá, de derivar; uma ordem das palavras um pouco
mais livre do que em algumas outras línguas modernas;
e, enfim, uma certa flexibilidade métrica. No que diz
respeito a essa flexibilidade, ela é bem natural, uma vez
que nossa poesia, desde a época dos provençais, geral­
mente seguiu modelos estrangeiros. Eu já demonstrei
antes que o sucesso da introdução da métrica antiga [...]
deve ser atribuído mais ao zelo e à sensibilidade (Sinn)
de certos poetas do que à própria estrutura da língua.1'1

Tudo se passa como se a língua tivesse de jogar um


jogo - o da flexibilidade - para o qual ela nunca está natu­
ralmente preparada. No mesmo texto, A. W. Schlegel com­
para essa operação às dos romanos, que também “civiliza­
ram" sua língua por um imenso esforço de tradução.
Em relação às tentativas práticas e teóricas da Athe­
näum, as reflexões de Schleiermacher e de Humboldt re­
presentam o momento em que a tradução entra no hori­
zonte da hermenêutica e da ciência da linguagem. É carac­
terístico constatar que esses dois pensadores chocam-se ime­
diatamente com o problema da linguagem e da relação do
homem com a linguagem - como algo que este nunca pode
dominar a partir de uma posição de sujeito absoluto. Nova-

19. Athenäum , p. 108. v. II.

38
lis, com muita freqüência, havia pensado a linguagem
como o instrumento do sujeito pensante:

A linguagem também é um produto do impulso à for­


mação (Bildungstrieb). Assim como esta se forma sempre
de maneira idêntica nas circunstâncias mais diferentes, a
linguagem, pela cultura, por um desenvolvimento e uma
vivificação crescentes, torna-se a expressão profunda da
idéia da organização, do sistema da filosofia. Toda a lin­
guagem é um postulado. Ela é de origem positiva, livre.2“ |

“Postulado” e “positivo” remetein aqui ao fato de que


a linguagem é posta, instituída pelo espírito, como seu
modo de expressão. Em tal concepção, ela nunca pode ser
pensada como essa dimensão indomável do ser humano,
que o confronta com a multiplicidade ao mesmo tempo
empírica e “transcendental” das línguas: o ser-Babel opaco
da linguagem natural. Humboldt e Schleiermacher aproxi-
mam-se ambos dessa realidade da linguagenTsem, no en-
tanto, reconhecê-la como tal. Mas sua iniciativa, sobretu­
do, não é mais especulativa, como a da Athenäum. Ela
inaugura, com Humboldt a partir do Classicismo de Wei­
mar, com Schleiermacher a partir do Pvomantismo de Iena,
uma nova fase da reflexão sobre a tradução, que será reto­
mada na Alemanha por mentes como Rosenzweig e Scha-
dewaldt, quando terá chegado o momento — após um pe­
ríodo de positivismo filológico triunfante —de situar o pro­
blema da re-tradução dos grandes textos literários e religio­
sos do passado. Rudolf Pannwitz tem a noção exata dessa
viravolta do tempo quando declara:

20. Fragm ente II, n. 1.922, p. 53.

39
Nossas versões, mesmo as melhores, partem de um falso
princípio, elas querem germanizar o sánscrito, o grego, o in­
glês, em vez de sanscritizar, de helenizar, de anglicizar o
alemão [...] O erro fundamental do tradutor é o de conser­
var o estado contingente de sua própria língua em vez de
submetê-la à moção violenta da língua estrangeira [...] Não
se imagina até que ponto a coisa é possível; até que grau
uma língua pode se transformar; não há quase mais distân­
cia de língua para língua do que há de dialeto para dialeto,
e isso não quando as tomamos muito despreocupadamen­
te, mas quando as levamos bastante a sério.21

J»'
E é então que as traduções de Hõlderlin, justamen­
te porque tendem a submeter-se à “moção violenta da lín­
gua estrangeira”, passam para o primeiro plano, e com elas
a relação das língúas como acoplam ento e diferenciação,
como nivelamento e mestiçagem. Ou mais precisamente: a
relação da língua materna com as outras línguas, tal como
ela funciona na tradução e tal com o ela determina a relação
da língua m atem a consigo mesma. Evolução que é a nossa,
ou que deveria sê-lo, e que se torna pouco a pouco mais
precisa com o que a lingüística, a crítica moderna e a psi- ’
canálise, entre outros, nos ensinam sobre a linguagem e as
línguas em geral.
| A teoria romântica da tradução, poética e especula-
íj tiva, constitui em muitos aspectos o solo de uma certa
|| consciência literária e tradutória moderna. A visada de
jj nosso estudo aqui é dupla: trata-se, por um IíhLx de revelai...
ojiapp] fiin rla r W c n n h p r ir ln r W sa fporia na economia do
pensamento rom ântico. Mas por outro lado, trata-se de
discutir os seus postulados e de contribuir assim para uma
crítica de nossa modernidade. Teoria “especulativa” da tra­
dução e teoria “intransitiva” ou “monológica” da literatu-

21. PAN N W rrZ. Op. c it, p. 193.

40
ra estão ligadas.22 Podem-se encontrar exemplos surpreen­
dentes no século 20 com Blanchot, Steiner ou Serres. Essa
evolução aberta pela Athenäum encontra-se hoje em sua
fase repetitiva e epigonal: trata-se no presente de se liber­
tar dela para preparar um novo campo da literatura, da crí­
tica e da tradução.
A teoria especulativa da tradução e a teoria “intransi­
tiva” da poesia são profundamente “coisas do passado”,
quaisquer que sejam os ouropéis “modernos” que elas os­
tentem. Elas barram o caminho da dimensão histórica, cul­
tural e linguageira da tradução e da poesia. E é essa dimen­
são que com eça, em nossos dias, a se revelar.
Quanto ao que nos diz respeito, nosso trabalho críti­
co sobre as teorias da tradução na época clássica e român­
tica na Alemanha originou-se de uma dupla experiência.
E m primeiro lugar, de uma longa familiaridade,
quase simbiótica, com o Romantismo alemão.25 Como
muitos outros, com Breton, Béguin, Benjamin, Blanchot,
G uem e, Jaccottet, etc., nós procuramos nele a origem fas­
cinante de nossa consciência literária. O que há de mais
fascinante, ou seja, de mais carregado de imaginário, do
que o Romantismo alemão? Ainda mais fascinante porque
ostenta o duplo prestígio do teórico e do fantástico e porque
acreditamos encontrar nele a união (ela própria imaginá­
ria) do poético e do filosófico. O Romantismo é um de nos­
sos mitos.

22. Para uma discussão do “monológico” e do “intransitivo”, recorrere­


mos a T O D O R O V . Théories du symbole. Paris: Le Seuil, 1977, e a
BAKHTIN, Mikhail. Esthétique et théorie du roman. Paris: Gallimard,
1978.
23. BERM AN, Antoine.“Lettres à Fouad El Etr sur le Romantisme alle­
mand”. In: L a Délirante, Paris, n. 3, 1968.
Uma trajetória literária e intelectual ainda mais ávi­
da de auto-afirmação e de soberania, uma vez que perdia
contato com todo solo histórico e linguageiro, acreditou
encontrar nele sua própria imagem —cada vez mais exan­
gue e privada de vida. Nem tudo são monólogo e auto-re-
flexão na história da poesia e da literatura modernas.z+Mas
trata-se certamente de uma tendência dominante. Pode­
mos perfeitamente nos reconhecer nela. Podemos tam­
bém , e é nossa posição, recusá-la em nome da experiência
de uma outra dimensão literária. Aquêía que encontramos
na poesia e no teatro europeus anteriores ao século 17, na
tradição romanesca e que, evidentemente, nunca desapare­
ceu. Essa dimensão, o Romantismo alemão certamente a
conheceu, pois fez dela o campo privilegiado de suas tradu­
ções e de suas críticas literárias. Mas, ao mesmo tempo, fi­
cou separado dela (veremos isso com A. W. Schlegel) por
um abismo intransponível.
E foi essa dimensão que se abriu para nós quando,
após termos traduzido os românticos alemães, fomos leva­
dos a traduzir obras romanescas latino-americanas moder­
nas. Do mesmo modo que os autores do século 16 euro­
peu, Roa Bastos, Guimarães Rosa, J.-M. Arguedas - para ci­
tar só os maiores - escrevem a partir de uma tradição oral
e popular.25 Eles trazem, assim, um problema para a tradu­
ção: como restituir textos enraizados na cultura oral para
uma língua como a nossa, que seguiu uma trajetória histó­
rica, cultural e literária inversa? Podéríamos ver nisso so-

24. Assim como nem tudo o é no Romantismo. Só falamos aqui do Ro­


mantismo de Iena, incessantemente mistificado.
25. Ver BERM AN , A. “L’Amérique Latine dans sa littérature”. Cultures,
Unesco, 1979, e “La traduction des œuvres latino-américaines”. L en de­
mains. Berlim, 1982.

42
mente um problema técnico, setorial e nada mais. Mas, na
verdade, existe aí uin desafio que coloca em jogo o sentido
e o poder da tradução. O trabalho a ser feito no francês mo­
derno para torná-lo capaz de receber autenticamente, ou
seja, sem etnocentrismo, esse domínio literário mostra bem
que se trata, na e pela tradução, de participar desse movi­
mento de descentralização e de mudança do qual nossa li­
teratura (nossa cultura) precisa, ~se ela quiser encontrar
uma figura e uma experiência de si mesma que em parte
perdeu (não totalmente, é claro!) a partir do Classicismo.
Amela que o Romantismo francês tenha tido a ambição de
reencontrá-las. A tradução, se quiser ser capaz de participar
de um movimento assim, deve refletir sobre si mesm a e seus
poderes. Essa reflexão é inevitavelmente uma auto-afinna-
ção. E esta última, repetimos, está histórica e culturalmen-
fêTsítuada: está a serviço de uma certa víravo/ta da bterahi-
ra. Os problemas apresentados pela tradução latino-ameri-
cana não são de forma alguma setoriais; eles são encontra­
dos facilmente em outros domínios de tradução. Nenhuma
“teoria” do traduzir seria necessária se alguma coisa não de­
vesse mudar na prática da tradução. A Alemanha dos ro­
mânticos, de Goethe, de Humboldt e de Schleiermacher
conheceu à sua maneira uma problemática análoga. Eis a
razão pela qual fomos levados a tentar escrever - mesmo
que parcialmente - um capítulo da história da tradução eu­
ropéia e um capítulo da história da cultura alemã. Capítu­
lo particularmente árduo de sentido, uma vez que reconhe­
cemos nele escolhas que são as nossas, embora nosso cam­
po cultural tenha se transformado.26 Esse trabalho “históri­
co” está, ele próprio, a serviço de um certo com bate cultu-

26. Ver nossa Conclusão.

43
ral, no qual devem se afirmar, ao mesmo tempo, a especi­
ficidade da tradução e a recusa de uma certa tradição lite­
rária moderna. A tradução mereceria seu secular estatuto
ancilar se ela não se tornasse, enfim, um ato de descentra-
mento criador, consciente de si mesmo.
Resta-nos assinalar os estudos aos quais este ensaio
deve muitíssimo. Não existe, pelo que sabemos, nenhum es­
tudo de justas proporções sobre as traduções e as teorias da
tradução dos românticos. Quando muito, encontra-se algu­
ma monografia consagrada a traduçõejfde L. Tieck e de A.
W. Schlegel. Certas teses universitárias alemãs estudam às
vezes a relação desse ou daquele romântico com uma lite­
ratura estrangeira, mas sem nunca abordar de frente a ques­
tão da natureza, da finalidade e do sentido das traduções
que ele possa lhes ter atribuído.27 As raras obras na Alema­
nha consagradas à teoria romântica da linguagem consta­
tam realmente a importância que a tradução tem para ela,
mas não oferecem nenhuma análise da tradução que ultra­
passe o nível de uma paráfrase. Acontece praticamente o
mesmo com Goethe. As traduções de Hölderlin, por outro
lado, foram cuidadosamente estudadas (pelo menos as do
grego), notadamente por F. Beissner e W. Schadewaldt.
O único autor a ter medido plenamente a importân­
cia do assunto e a tê-lo situado no âmbito do conjunto da
reflexão romântica ainda é Walter Benjam in, em Der Be­
griff der Kunstkritik in der deutschen Romantik, talvez a
obra mais penetrante já escrita sobre a Athenäum:

27. O que mostra bem o quanto o tema da tradução permanece cultu­


ralmente e ideologicamente ocultado. Não obstante, cf. H UYSSEN, A.
D ie frü hrom an tischen U topie ein er deutschen W eltliteratur.
Zurique/Freiburg: Atlantis Verlag, 1969.

44
1

Ao lado da tradução de Shakespeare, a obra românti­


ca durável dos românticos consiste em ter anexado à li­
teratura alemã as formas artísticas romanas. Seu esfor­
ço era dirigido, em plena consciência, para a apropria­
ção, o desenvolvimento e a purificação dessas formas.
Mas sua relação com estas era totalmente diferente da­
quela das gerações precedentes. Os românticos não con­
cebiam , com o a A ufklärung, a forma como uma regra
estética da arte e o fato de se submeter a ela como a pré-
condição necessária para que a obra exercesse um efei­
to distrativo ou sublime. A forma, para eles, não era
uma regra e também não dependia de regras. Essa con­
cepção, sem a qual as traduções do italiano, do espa­
nhol e do português de A. W. Schlegel, realmente im­
portantes, seriam impensáveis, foi filosoficamente de­
senvolvida por seu irmão.2*

Em A tarefa do tradutor, W. Benjamin evoca igual­


mente os românticos:

[...] eles possuíram, antes de outros, um discernimen­


to quanto a essa vida das obras cuja tradução é um teste­
munho muito eminente. Certamente não reconhece­
ram esse papel dela e toda sua atenção ficou centrada de
preferência na crítica, a qual representa também, mas
em um grau menor, um elemento na sobrevida das
obras. Entretanto, ainda que eles não tenham podido es­
tudar a tradução de um modo teórico, sua obra impor­
tante de tradução não deixava de ter um sentimento da
essência e da dignidade dessa forma.29

Embora Benjam in subestime o valor dos raros tex­


tos que os românticos consagraram à tradução, não resta
dúvida de que ele circunscreveu com muita exatidão o lu­
gar que esta ocupa entre eles. Além disso, sua própria vi­

28. BENJAMIN, W. Op. cit, p. 76.


29. Id. M ythe et violence. Trad. M. de Gandillac. Paris: Denoêl, 1971. p.
268-9.

45
são da tradução pode ser considerada como uma radicali­
zação das intuições de Novalis e de F. Schlegel.
Utilizamos igualmente os trabalhos de P. Szondi, de
B. Alemann, de M. Thalm ann, de Lacoue-Labarthe e J.-L.
Nancy sobre o pensamento romântico. No que diz respeito
a Novalis e F. Schlegel, retomamos parcialmente as refle­
xões de um texto pessoal anterior, “Lettres à Fouad El Etr
sur le Romantisme allemand”.
Entre as obras consagradas à problemática da tradu­
ção e da literatura, reconhecemos umá'particular afinidade
com as de Mikhail Bakhtin. After Babel, de George Steiner,
é, por sua amplitude e pela abundancia de suas informa­
ções, uma obra básica fundamental sobre a tradução,
embora não partilhemos de suas conclusões teóricas. En­
fim, a coletânea de textos publicada por H. J. Stõrig, Das
Problem des Ubersetzens, dá uma excelente visão de con­
junto sobre as teorias da tradução na Alemanha, de Lutero
até os nossos dias.30
No âmbito prioritariamente teórico de nosso traba­
lho, tivemos de renunciar, com raras exceções, a uma aná­
lise concreta das traduções dos românticos e de seus con­
temporâneos. Essa análise, para ser pertinente, teria exigi­
do mais espaço do que aquele de que dispúnhamos aqui.

30. Após estas linhas terem sido escritas, houve, em 1982, em Marbach
(Alemanha Federal), uma notável exposição intitulada Die Weltliteratur
—D ie Lust am Übersetzen im Jahrhundert Goethes, “A literatura mundial
- o prazer de traduzir no século de Goethe”, organizada pela Deutsche
Schillergesellschaft. O catálogo dessa exposição (700 páginas) reúne,
além de uma iconografia abundante, a quase totalidade dos documen-.
tos disponíveis sobre a prática da tradução no período que estudamos
aqui. E uma obra básica, daqui por diante indispensável para qualquer
trabalho sobre a tradução na Alemanha romântica e clássica.

46
C A P I T U L O

Lutero ou
a tradução como
fundação

E por essa razão que a obra-prima


da prosa alem ã é com justeza a obra-prima
de seu m aior pregador: a B íblia foi até
agora o melhor livro alemão.

E Nietzsche, Par delà le bien et le mal.


Paris, Aubier-Montaigne, 1951, p. 192.

Em suas Notas e reflexões para uma melhor compreensão do


Divã ocidental-orietitàl, Goethe observa:

Como o alemão faz sem cessar novos progressos sobre


o Oriente através de traduções, vemo-nos levados a apre­
sentar aqui algumas considerações que não são novas, mas
que não seria demais repetir.

47
Há três tipos de traduções. O primeiro faz-nos conhecer
o estrangeiro no nosso sentido; para isso, nada melhor que
a simples tradução em prosa. Com efeito, como a prosa
suprime todas as particularidades de cada poesia nacional
e rebaixa a um mesmo nível comum até mesmo o entu­
siasmo poético, ela presta inicialmente os maiores favores
ao nos surpreender no meio de nossa vida doméstica na­
cional, de nossa existência privada comum, mostrándo­
nos os méritos eminentes do estrangeiro, e traz-nos uma
verdadeira edificação que nos eleva acima de nós mesmos
sem que saibamos como isso se faz. A tradução da Bíblia
de Lutero produzirá sempre esse efeito.1
Jr
Um texto de Poesia e verdade repercute com exatidão
essa observação:

O fato de que esse homem notável [Lutero] nos tenha


transmitido como que subitamente uma obra concebida
nos estilos mais diversos e seu tom poético, histórico, im­
petuoso e didático favoreceu mais a religião do que se ele
tivesse querido reproduzir em detalhes as particularidades
do original. Tentou-se em vão tornar acessíveis em sua for­
ma poética o livro de Jó, os Salmos e outros cânticos. Para
a massa sobre a qual se deve agir, uma tradução simples
ainda é o que há de melhor. Essas traduções críticas que
rivalizam com o original só servem, na verdade, para dei­
xar os eruditos ocupados entre eles.3

Esse julgam ento de G oethe, partilhado geralm en­


te por toda a tradição alem ã, diz respeito antes de tudo à
significação histórica da tradução luterana. Ao recusar
fazer uma “tradução crítica” dedicada às “particularida­
des do original”, Lutero soube criar uma obra acessível
ao povo alem ão, capaz de fornecer uma base sólida ao
novo sentim ento religioso, o da Reforma. É evidente-

1. L e divan occidental-oriental. Paris: Aubier-Montaigne, 1963. p. 430.


2. D ichtung und W ahrheit. Art. Ged. Ausgabe, v. 10, p. 540.

48
mente disso que se tratava com a Bíblia. E m que medi­
da essa apreciação corresponde à realidade do trabalho
de Lutero?
D e 1521 a 1534, ele trabalha com uma equipe de
eruditos em sua tradução, recorrendo simultaneamente à
versão latina e à versão grega, assim como, às vezes, ao ori­
ginal hebreu. Existiam naquela época outras traduções ale­
mãs da Bíblia - a primeira tendo aparecido em 1475 —, mas
eram cheias de latinismos. Lutero, por sua vez, visa logo de
início à germanização, à Verdeutschung, dos textos sagra­
dos. Essa intenção está muito explicitamente enunciada
em um texto polêmico, “A arte de traduzir e a intercessão
dos Santos”, no qual defende sua tradução e seus princípios
contra aqueles que acham que

o texto [da Bíblia] foi modificado em muitos lugares ou


até alterado,

o que teria provocado

indignação e horror em muitos cristãos simples e até mes­


mo entre os eruditos que não conheciam as línguas he­
braica e grega.5

A propósito de um pequeno detalhe, a adjunção de


um “somente” em um texto de São Paulo, que não se en­
contra nem na versão latina nem no texto grego, Lutero
declara:

Eu quis falar alemão, não latim e nem grego, pois havia


decidido falar alemão na tradução. Mas o uso da nossa lín­
gua alemã implica que, quando se fala de duas coisas das
quais se afirma uma negando a outra, emprega-se a pala-

3. L U TER O . Œuvres. Genebra: Labor et Fides, 1964. p. 190. t.VI.

49
vra solum, somente, ao lado da palavra “não” ou “ne­
nhum” [...] E assim por diante, de maneira constante, no
uso cotidiano.1

Essa discussão remete a um propósito mais geral: tra­


ta-se de oferecer à comunidade dos crentes um, texto em
bom alemão. Mas o que significa, na época de Lutero, o
bom alemão? Certamente não um alemão que obedecesse
a regras e a cânones predeterminados. Só pode se tratar do
alemão dos dialetos, dos Mundarten. Um pouco mais além,
no mesmo texto, Lutero é muito claro a esse respeito:

Pois não são as letras da língua latina que é preciso in­


vestigar para saber como se deve falar alemão, como fa­
zem esses asnos; mas é preciso interrogar a mãe em casa,
as crianças nas ruas, o homem comum no mercado e con­
siderar sua boca para saber como falam, a fim de traduzir
de acordo com isso; então eles compreendem e notam
que se feia alemão com eles.

Traduzir, portanto, à escuta do falar popular, do fa­


lar de todos os dias, para que a Bíblia possa ser ouvida. O
bom alemão é o do povo. Mas o povo fala uma infinidade
de alemães. Trata-se então de traduzir para um alemão que
se eleve de uma certa maneira acima da multiplicidade dos
Mundarten sem, no entanto, renegá-los ou massacrá-los.
Daí a dupla tentativa de Lutero: traduzir para um alemão
que a priori só pode ser local, o seu, o Hochdeutsch, mas
elevar, no próprio processo da tradução, esse alemão local
a um alemão com um , a uma lengua franca. Para que esse
alemão não se torne por sua vez urna língua separada do
povo, deve conservar nele alguma coisa dos Mundarten e
dos modos gerais de expressão dos falares populares. Have­

4. Ibid., p. 195.
rá, portanto, o emprego constante e deliberado de uma lín­
gua muito oral, carregada de imagens, de locuções, de for­
mas de expressão e, ao mesmo tempo, um trabalho sutil de
depuração, de desdialetalização dessa língua. Assim, Lute­
ro traduz, por exemplo, a palavra de Cristo “ex abundantia
cordis os loquitur” (Mt. 12. 34) não por “a boca fala da
abundância do coração”,'pois isso “nenhum alemão pode
dizer”, mas por: “Quando alguém tem o coração pleno,
isso lhe transborda pela boca”. “A mãe em casa e o homem
comum falam assim”. Nem latim, nem dialeto puro, mas
um falar popular generalizado. Operação difícil, confessa
L u tero ,.

pois as letras latinas impedem, em uma medida muito


grande, que se fale um bom alemão.5

Difícil, mas aparentemente bem-sucedida: logo em seu


aparecimento, a Bíblia luterana faz sensação, apesar de todas
as críticas. As reedições se sucedem. Muito rapidamente, o
povo ao qual ela era destinada decora passagens e a integra em
seu patrimônio. Desde o início, toma-se a pedra angular da
Reforma na Alemanha, como Goethe bem observou. Mas ela
é ainda mais do que isso: transformando o Hochdeutsch em
lengua franca, ela faz dele, durante séculos, o medium do ale­
mão escrito. Na tradução luterana, estabelece-se uma primei­
ra e decisiva auto-afirmação do alemão literário. Grande “re­
formador”, Lutero é doravante considerado como um escritor,
como um criador de língua, e é assim que Herder e Klopstock
o celebram.
Vejamos mais de perto de que se trata na Verdeuts-
chung, porque isso pode esclarecer as problemáticas da

5. Ibid., p. 195-6.

51
trad ução q u e vão c u lm in a r no fin al do sécu lo 18 com as
teorias g o eth e an as, ro m ân ticas e, so b retudo, co m as tra­
duçõ es do grego de H ö ld erlin . O que L utero afasta com
v io lên cia é o la tim com o m edium o ficial da Igreja rom a­
na e, de m a n e ira g eral, da escrita. E stam os aq u i confron­
tados co m u m fen ô m en o próprio do séc u lo 16 (da Refor­
m a e do R en ascim en to ) e que B ak litin descreveu com
e x c e lê n c ia em sua obra sobre R ab elais:

Uma orientação mútua, uma interação, um esclareci­


mento recíproco das línguas se efetuavam. As línguas fi­
xavam direta e intensamente suas feições mútuas: cada
uma reconhecia a si própria, suas possibilidades como
seus limites, à luz da outra. Essa delimitação das línguas
era sentida em relação a cada coisa, cada noção, cada
ponto de vista.6

A d e lim ita ç ã o da qual fala B akh tin diz respeito


e v id e n te m e n te , no caso que nos o cu p a, à confrontação
do alem ã o e do la tim . M as e la diz respeito ao m esm o
tem po

ao território interior das línguas populares nacionais. Pois


a língua nacional única não existe ainda. No decorrer do
processo de passagem de toda a ideologia para as línguas
nacionais e de criação de um novo sistema de língua lite­
rária única, iniciava-se uma orientação mútua intensiva
dos dialetos no interior das línguas nacionais [...] Todavia,
as coisas não se limitavam à orientação recíproca dos dia­
letos. A língua nacional, tornando-se a língua das idéias e
da literatura, devia fatalmente entrar em contato substan­
cial com outras línguas nacionais.7

6. BAKHTIN, M . L’Œuvre de François Rabelais. Paris: Gallimard,


1970. p. 461.
7. Ibid., p. 464.

52
A qui, B akhtin sublin ha com m u ita lógica

a imensa importância das traduções nesse processo [...]


Conhece-se o lugar excepcional que elas ocupam na vida
literária e lingüística do século 16 [...] Além disso, era pre­
ciso traduzir em uma língua que não estava ainda toda
pronta, mas em via de formação. Desse modo, a língua se
formava.”

É exatam ente isso o que acontece com a Bíblia de Lu-


tero. De fato, o cenário descrito por Backhtin é europeu,
embora seu livro seja dedicado à literatura francesa. Mas ne­
nhum a tradução francesa da época - o papel relativamente se­
cundário atribuído às traduções por Du Bellay em sua Defesa
e Ilustração da língua francesa mostra bem isso - poderia assu­
mir a função da Bíblia luterana. Pois não existe na França ne­
nhum a obra que possa, sozinha, desempenhar o papel de
um a fundação do francês literário e nacional. Nós não temos
um a D ivina comédia. Se a Bíblia de Lutero desem penha esse
papel, é porque ela acredita ser um a Verdeutschung das Escri­
turas ligada historicamente a um vasto movimento de refor­
m ulação da fé, de renovação da relação com os textos sagra­
dos, de reinterpretação radical dos Testamentos, assim como a
um a afirm ação religiosa nacional em face do “imperialism o”
de Roma. Inversamente, esse movimento só adquire toda sua
força pela existência efetiva de um a Bíblia “germ anizada” e
acessível a todos. Há nisso um a conjuntura histórica e cultu­
ral decisiva, que instaura na Alem anha um verdadeiro corte:
há de agora em diante um antes e um após Lutero, não somen­
te religiosa e politicam ente, mas tam bém literariamente.1’ A re-

8. Ibid., p. 466.
9. “A criação do alemão escrito se deu em estreita associação com a tra­
dução da Bíblia por Lutero” (BROCH, Herman. Création littéraire et
connaissance. Paris: Gallimard, 1955. p. 301).

53
descoberta do passado literário pré-luterano a partir de Herder
e dos românticos não voltará a questionar esse corte, e Goethe,
no texto citado mais acim a, tem perfeita consciência disso:
para 1er as Nibelungen ou M aître Eckart, os Alemães precisam
de intratraduções de que os Italianos não precisam para 1er
D ante, no entanto contemporâneo de M aître Eckart.
O fato de que a fundação e a formação do alem ão li­
terário com um tenham ocorrido por m eio de um a tradução
é o que perm ite com preender porque vai existir na Alem a­
n h a um a tradição d a tradução para a ffual esta é criação,
transm issão e expansão da lín gu a, fundação de um Sprach-
raum , de um espaço lin güístico próprio. E não será certa­
m ente por acaso que os rom ânticos ligarão suas teorias da
literatura, da crítica e da tradução a um a teoria da B íblia, a
u m “inétodo universal de b iblificação ”.10
Em seu ensaio D ie Sch rift und Luther, Franz Ro-
senzw eig, que trabalhou com M artin Buber em um a nova
Verdeutschung da B íb lia, de acordo com as necessidades da
fé no século 20, explicitou de modo notável a significação
da tradução de Lutero para a cultura, a lín g u a e a literatu­
ra alem ãs. Tomam os a perm issão de citar um a passagem
bem longa de seu texto:

10. Novalis para F. Schlegel, a 7 nov. 1798: “Um dos exemplos mais sur­
preendentes de nossa sinorganização e sinevolução interiores encontra-
se em sua carta. Você me fala de seu projeto de Bíblia, e, em meus estu­
dos da ciência em geral [...], também cheguei à idéia da Bíblia - da Bí­
blia como o ideal de qualquer livro. Desenvolvida, a teoria da Bíblia dá
a teoria da escrita ou da formação das palavras em geral - que é ao mes­
mo tempo a doutrina da construção simbólica e indireta do espírito cria­
dor [...] Toda a minha atividade [...] não deve ser nada além de uma crí­
tica do projeto de Bíblia - um ensaio de um método universal de bibli­
ficação’’ (Briefe und Dokumente. Wasmuth. p. 404).

54
As línguas podem, durante séculos, ser acompanhadas
pela escrita, sem qüe surja o que se designa pela má ex­
pressão de “língua escrita” [...] Chega um dia, na vida dos
povos, um momento em que a escritura, de serva da lín­
gua, torna-se sua dona. E esse momento chega quando
um conteúdo que abraça toda a vida do povo encontra-se
manifestado na escrita, quando, assim, há pela primeira
vez um livro “que todos devem ter lido”. A partir desse
momento, a língua não pode mais seguir em frente de
modo natural [...] E é um fato que o tempo de desenvolvi­
mento da língua fique, a partir de então, mais embotado
do que antes. Compreendemos hoje ainda, grosso modo, o
alemão de Lutero, se o ortografarmos do jeito moderno.
Por outro lado, seria dificílimo para nós lermos a literatu­
ra que lhe é contemporânea, na medida em que ela não
foi influenciada por ele [...]
[...] Essa dominação de um livro sobre a língua não sig­
nifica que o desenvolvimento desta seja detido. Ele fica to­
davia enormemente atrasado [...]
[...] A problemática do Livro clássico e fundador de
uma língua escrita é ainda acrescida pelo fato de que se
trata de uma tradução. Pois, para as traduções, vale a lei
de uma unicidade que está ligada aqui com essa unicida­
de do instante clássico da história da linguagem. Cada
grande obra de uma língua, de um certo modo, só pode
ser traduzida uma vez em uma outra língua. Existe na
história da tradução um movimento totalmente típico.
No início, só se produzem, em abundância, traduções in-
terlineares, sem pretensão, que só acreditam ser uma aju­
da para a leitura do original e livres elaborações, livres re­
formulações, desejando transmitir ao leitor o sentido do
original ou o que elas consideram como tal [...] Depois,
um belo dia, acontece o milagre das núpcias dos dois es-
gíritos da língua. O que nunca acontece sem preparação.
É somente quando o povo destinatário, pelo efeito de sua
própria nostalgia, e por sua expressão própria, vem ao en­
contro [...] da obra estrangeira, quando, assim, a recepção
desta não se dá por curiosidade, por interesse, por impul­
so cultural ou até por prazer estético, mas no âmbito de
um amplo movimento histórico, que o tempo de um tal
hiéros gamos destas núpcias sagradas é chegado. Assim se
deu com o Shakespeare de Schlegel, nos anos em que
Schiller quer criar um teatro próprio para os Alemães, as­
sim como com o Homero de Voss, quando Goethe apro­
xima-se das formas antigas. [...] Assim o livro estrangeiro
torna-se um livro próprio [...] Esse imenso passo na unifi-
cação da Babel dos povos não é atribuído ao tradutor in­
dividual; é um fruto amadurecido pela vida do povo sob
a égide da constelação de um momento histórico total­
mente único. Momento que não pode se repetir. O mo­
mento da história de um povo não volta, porque não pre­
cisa se repetir; nos limites que são os únicos a entrar aqui
em linha de conta, aqueles do horizonte de um presente
nacional determinado, ele é imortal. Enquanto o laço
desse presente com o passado não for quebrado de manei­
ra catastrófica [...] continua homérico para o povo ale­
mão o que Vbss fez de Homero e bíblico o que Lutero fez
da Bíblia. Nenhuma nova tentativa de tradução pode
atingir essa significação nacional [...] A n ^ a tradução de
Homero pode certamente ser bem melhor do que a de
Voss, mas não constitui, não pode constituir, um aconte­
cimento histórico-mundial; ela pode somente procurar
obter as glórias que lhe concede o espírito de seu próprio
povo e não as que lhe concede o espírito do mundo, que
só são concedidas e só podem sê-lo uma vez, porque o tor­
neio do mundo só pode acontecer uma vez, contraria­
mente a esses jogos de treinamento dos povos e dos ho­
mens que acontecem todos os anos ou todos os dias."

Esse im portante texto levanta numerosas questões.


Rosenzweig liga a unicidade histórica de u m a tradução -
nesse caso, a de L utero —à noção vagam ente hegelian a de
espírito do mundo. S e tomarmos o caso de Lutero, não há ob­
viam ente necessidade de se recorrer a essa noção especulati­
va; a historicidade de sua tradução está evidentem ente liga­
da a fatores religiosos, nacionais e lingüísticos precisos. M as
o texto de Rosenzw eig tem o im enso mérito de destacar o
problem a da historicidade g eral da tradução. C om efeito, a
historicidade de u m a obra é coisa, senão evidente, pelo m e­
nos indiscutível. A obra de Hom ero é histórica no sentido de
que a história grega (e não som ente a história da literatura
grega) é im pensável sem ela. Acontece o mesmo com a de

11. In: STÕR1G. Op. cit., p. 199-203.

56
um Dante. Trata-se aqui, além disso, da historicidade que diz
respeito a certos espaços culturais e lingüísticos nacionais.
M as essas obras são igualm ente históricas no nível do espaço
ocidental em seu conjunto e até m esm o além : elas consti­
tuem o que se denom ina “literatura universal”. Universais es­
sas obras certam ente não poderiam ter sido sem a mediação
da tradução. M as observemos duas coisas. Em primeiro lu­
gar, é porque já eram potencialm ente universais que elas fo­
ram universalm ente traduzidas. Isso quer dizer: elas já cane-
gavam em si, no nível de sua forma e de seu conteúdo, sua
própria traduzibilidade. A obra de um Kafka, no século 20,
tem um valor universal e foi traduzida em quase todos os lu ­
gares. M as —em segundo lugar —, isso não quer dizer que as
traduções dessas obras sejam elas próprias históricas. A in­
fluência de Kafka na França, por exem plo, não dependeu de
um a tradução que se tenha feito notar por si m esm a, ou seja,
como um a obra própria. Pode-se dizer o mesm o da tradução
de um Joyce ou de um Dostoiévski. Nessas condições, con­
vém cham ar tradução histórica àquela que faz época enquan­
to tradução, aquela em que a tradução aparece como tal e
tem acesso, assim, estranham ente, à posição de um a obra e
não mais àquela de hum ilde m ediação de um texto ele pró­
prio histórico. Ou ainda: a tradução de um texto essencial,
pleno de história, não é forçosamente ela própria histórica.
E preciso então distinguir entre a historicidade geral da tra­
dução, seu papel de inaparente m ediação que contribui,
bem evidentem ente, ao movim ento da história e essas tradu­
ções, relativam ente raras, que, até por sua operação, mos-
tram-se elas próprias plenas de história. São efetivamente,
como diz Rosenzweig, traduções únicas, o que não impede
que possa haver outras traduções (únicas ou não) de seus ori­
ginais. É justam ente a esse tipo de tradução que pertencem ,
na A lem anha, a B íblia de Lutero, o Homero de Voss, o Só-

57
focles e o Píndaro de H ölderlin, o Shakespeare de A. W.
S ch legel e o Dom Quixote de T ieck. M as não se pode dizer
som ente que essas traduções “vinham na sua hora” (para
H ölderlin, não era o caso), um a vez que as traduções sim ­
plesm ente mediadoras tam bém só podem vir na sua hora -
em virtude dessa seletividade própria às culturas que toma
im possível qualquer onitradução. A lém disso, no caso das
traduções alem ãs citadas, é interessante notar que se tratava
de retraduções: de todas essas obras, já existiam numerosas
traduções de um nível freqüentem ente excelente. C om
certeza, é a partir de um solo histórico preciso que as novas
traduções surgem: a reform ulação da relação com a B íblia e
com a fé revelada (Lutero), o aprofundamento da relação
com os gregos (Voss, H ölderlin), a abertura para as literatu­
ras inglesas e ibéricas (A. W . Schlegel e T ieck). Elas só po­
diam existir sobre um solo assim. O aprofundamento da re­
lação já existente com as obras estrangeiras exigia novas tra­
duções. M as trata-se, nesse caso, de um a visão um pouco de­
term inista, pois podem-se tam bém considerar essas tradu­
ções com o a novidade imprevisível e incalculável que é a es­
sência do verdadeiro acontecim ento histórico. Parece que
tais traduções só poderiam surgir como retraduções: ultra­
passando o horizonte da sim ples com unicação intercultural
operada pelas traduções m ediadoras, elas m anifestam o puro
poder histórico da tradução como ta l que não se confunde
com o poder histórico das traduções em geral. Em um dado
m om ento, é como se a relação histórica com um a outra cu l­
tura, u m a outra obra, passasse bm scam ente pelo aspecto úni­
co da tradução. Não ocorre sem pre assim obrigatoriam ente,
e, por exem plo (voltaremos a isso), a profunda relação que a
cultura francesa clássica m antém com a A ntiguidade pressu­
põe, certam ente, um a grande massa de traduções —as que
foram feitas nos séculos 16 e 17 - mas de modo algum um a

58
tradução ein particular. N em mesmo o Plutarco de Amyot.
O próprio da cultura alem ã é, talvez, ter experim entado vá­
rias vezes esse poder único da tradução. E foi o que aconte­
ceu pela prim eira vez com Lutero.
A esse respeito, por m uito tempo pode parecer se­
cundário saber quais são, notadam ente em relação ao texto
hebraico, os lim ites de sua Verdeutschung. Esses lim ites,
aliás, só se tornaram evidentes no século 20, com o co n jun ­
to das reinterpretações, das releituras e das retraduções dos
Evangelhos e do Antigo Testam ento. C om o assinala Ro-
senzweig - m as isso já estava indicado pelo exem plo de tra­
dução citado m ais acim a Lutero, recorrendo, é verdade,
ao texto hebraico, trabalha no final das contas a partir da
versão latina:

Ao estudar o sentido do texto hebraico, não foi em he­


braico que ele pensou, mas em latim.':

E isso é inevitável, um a vez que é o latim , e não o he­


braico, que constitui o horizonte lingüístico, religioso e cu l­
tural do pensamento luterano. Todavia, a Verdeutschung,
operando a delim itação do alem ão e do latim , não efetua
um a simples gem ianização no sentido em que hoje falaría­
mos depreciativamente, por exemplo, do afrancesarnento de
um texto estrangeiro. Isso é ainda m ais impossível porque, no
caso de um a tradução religiosa como a da Bíblia e de um mo­
vimento de volta às “fontes" como o protestantismo, o origi­
nal hebraico não pode pura e simplesm ente ser deixado de
lado. O recurso ao hebraico tem, nesse caso, mais a função
de reforçar a eficácia do movimento de “reforma”. M esm o es­
tando longe de determ inar toda a empresa luterana, ele suti-

12. In: STÕR1G. Op. cit., p. 215.

59
liza a Verdeutschung e lhe dá um a originalidade suplementar.
Lutero sabe perfeitamente que abrir à com unidade dos cren­
tes a palavra bíblica é, ao mesmo tempo, entregar-lhes essa pa­
lavra na linguagem da “m ulher em casa”, das “crianças nas
m as” e do “hom em com um no m ercado” e transmitir-lhes o
fa la r próprio d a B íblia, quer dizer, o falar hebreu, que exige
que, às vezes, sejam invadidas as fronteiras do alem ão:

No entanto [...] não me desliguei com demasiada liber­


dade das letras, mas esforcei-me muito para ficar vigilante
ao examinar uma passagem, ficar tão páfto quanto possí­
vel dessas letras sem me afastar demais. Assim, quando
Cristo diz em João VI (6. 27): Deus o Pai o confinnou
com seu selo, teria sido um melhor alemão dizer: Deus o
Pai marcou este aqui, ou até: Deus o Pai designou este
aqui. Mas preferi prejudicar a língua alemã a me afastar
da palavra. Ah! Traduzir não é uma arte para todos, como
o pensam os santos insensatos; é preciso para isso um co­
ração verdadeiramente piedoso, fiel, zeloso, prudente,
cristão, sábio, experimentado, aplicado. E por isso que eu
afinno que nenhum falso cristão, nem nenhuma mente
sectária pode traduzir fielmente.'3

Em outro lugar, Lutero escreve a propósito de sua


tradução dos Salm os:

Mais uma vez, traduzimos de vez em quando diretamen­


te as palavras, ainda que tivesse sido possível retomá-las de
modo diferente e mais claro [...] É por essa razão que deve­
mos [...] conservar tais palavras, aclimatá-las e deixar à lín­
gua hebraica o seu espaço quando ela pode fazer melhor do
que o feria o nosso alemão.14

13. LUTERO. OP. CIT., p. 198.


14. In: STÕRIG. Op. cit, p. 196-7. Moise Mendelssohn escreve, em 1783,
a propósito de sua tradução dos Salmos: "Encontrei tão pouca satisfação
com a inovação, no que diz respeito à linguagem, que me detive mais no
Dr. Lutero do que em outros tradutores ulteriores. Quando este traduziu
exatamente, parece-me ter também germanizado com êxito; nem mesmo
temi as expressões hebraicas que às vezes ele introduziu na linguagem, ape­
sar de talvez não serem alemão autêntico” (In: Die Lust... p. 127).

60
No m esm o texto, ele aborda o problem a do “senti­
do” e da “letra” de um a m aneira m ais geral e declara ter

às vezes mantido rigidamente as palavras, às vezes conser­


vado somente o sentido.15

Há nesse caso u m a alusão a São Jerónim o, o tradu­


tor da V ulgata, para quem , na tradução das E scrituras, tra­
tava-se apenas de um a restituição do sentido. Regra que C í­
cero e os poetas latinos, diz ele em sua C a rta à Pamma-
chíus, já haviam am p lam en te instituído:

Não só confesso, mas reconheço com toda clareza que,


traduzindo as Santas Escrituras do grego [...], não traduzi
palavra por palavra, mas sentido por sentido.16

São Jerónim o e sua tradução p erm anecem com o o


horizonte da B íblia luterana, mas esta últim a, entretanto,
acredita deixar à lín g u a heb raica “algum espaço”. A Ver-
deutschung parece, portanto, oscilar entre vários modos de
tradução. É preciso em pregar aqui o termo modo, um a vez
que, com L utero, não se trata nem de um conjunto de re­
gras em píricas, com o ern A m aneira de se traduzir bem de
um a língua p a ra outra de E stienne D olet, tratado escrito
m ais ou m enos na m esm a época, nem de um método no
sentido de um a definição sistem ática dos tipos de tradução,
com o no ensaio de Sch leierm ach er, Über die verschiedenen
M ethoden des Übersetzens.'7 Não escolher entre a literali-
dade e a liberdade, entre o “sentido” e a “letra”, o latim e o
hebreu, não significa um a flutuação m etodológica, m as a

15. In: ROSENZWEIG. Op. cit., p. 1% .


16. Carta a Pammachius. In: STÒRJG, Op. cit., p. 3.
17. Ver nosso Capítulo 10.

61
percepção das aporias fundam entais da tradução e a intui­
ção do que é possível e necessário fazer em urn determ ina­
do m om ento histórico.
Tal com o é, a tradução lu teran a abre um duplo ho­
rizonte: aq u ele, histórico-cultural, que evocamos acim a, e
um outro, m ais lim itado , das futuras traduções alem ãs e de
seu sentido. N enh um a tradução de um a obra e de um a
lín g u a estrangeiras, após L utero, poderá ser feita sem qual­
quer referência à sua tradução da B íblia, nem que seja
apenas para afastar-se de seus princípios e tentar ultrapas-
sá-los. Voss, G oethe e H ölderlin perceberão a m edida exa­
ta disso. S e a B íb lia lu teran a instaura um corte na história
d a lín g u a , da cu ltura e das letras alem ãs, ela instaura igual­
m en te u m outro no dom ínio das traduções. E la sugere,
além disso, que a form ação e o desenvolvim ento de um a c u l­
tu ra p ró p ria e n a c io n a l podem e devem passar pela trad u ­
ção, ou seja, p o r um a relação intensiva e deliberada com o
estrangeiro . 18
A firm ação que pode parecer e é, parcialm ente, de
u m a grande b an alidade. Pelo m enos temos o hábito de

18. Veremos em nosso capítulo sobre Hölderlin como este, muito pro­
fundamente, se prende a Lutero, ao mesmo tempo em sua obra de poe­
ta e em sua obra de tradutor. Herder, Klopstock e A. W. Schlege! fazem
igualmente referência à Bíblia de Lutero, mas somente Hölderlin sou­
be, de uma certa maneira, retomar o trabalho que Lutero havia realiza­
do como tradutor com o alemão. A relação de um Nietzsche com a lín­
gua alemã - como pensador polêmico - também não é mais pensávei
sem um longo intercâmbio com Lutero. A relação desse pensador com
as línguas estrangeiras - principalmente com o francês e o italiano --
mostra também que, como Hölderlin, ele procura em uma certa “expe­
riência" das línguas estrangeiras a verdade de sua própria língua. Falta-
lhe, é certo, o outro pólo, ou seja, o enraizamento no que Hölderlin cha­
ma de “natal”, ou Lutero de língua da “mulher em casa” ou do "homem
comum no mercado”.

62
considerá-la como tal. M as lim a coisa é estim ar que, para
seu próprio desenvolvim ento, de qualquer ordem que seja,
é bom “esfregar seu cérebro com o de outro” (M on taign e),
outra coisa é pensar que qualquer relação consigo e com o
“próprio” passa radicalm ente pela relação com o outro e
com o estrangeiro, de tal m aneira que é por essa alien ação,
no sentido m ais estrito do term o, que um a relação consigo
se torna possível. No plano psicológico, encontraríam os
efetivam ente aí o processo m ental de muitos tradutores,
aq uele que André G ide formulou um dia em um a conver­
sa com W alter Benjam in:

E justamente o fato de ter me afastado de minha língua


materna que me forneceu o entusiasmo necessário para
dominar uma língua estrangeira. No aprendizado das lín­
guas, o que mais conta não é o que se aprende, o que é de­
cisivo é abandonar a sua. É apenas dessa maneira que, em
seguida, a compreendemos a fundo [...] É somente aban­
donando uma coisa que nós a nomeamos.19

M as as coisas adquirem um a feição particular quan­


do essa lei deixa o plano psicológico para ser ap licada ao
plano histórico-cultural. A lém disso, o descom edim ento da
passagem pelo estrangeiro faz pairar a am eaça perpétua,
tanto no nível de um indivíduo, quanto no de um povo e
de um a história, da perda de identidade própria. O que está
então em questão aqui não é tanto essa lei, mas sim o pon­
to em que ela ultrapassa seus próprios lim ites, sem por isso
transformar-se em relação verdadeira com o Outro. E o que
parece ocorrer às vezes na cultura alem ã: quando a “flexi­
b ilid ad e” tão louvada por Goethe e A. W. Sch legel (a da
lín gua pelo prim eiro, a da personalidade alem ã pelo segun-

19. Mythe et violence. “André Gide”. p. 281.

63
do) se transforma em poder ilim itad o e protéico de se la n ça r
n a alteridade. Esse poder é atestado, 110 início do século 19,
p elo desenvolvim ento prodigioso da filologia, da crítica li­
terária, dos estudos com paratistas, da h erm en êu tica e, na­
turalm ente, das traduções. L iterariam en te, autores como
T ieck , Jean Paul e G oethe dão prova da m esm a perigosa
“flex ib ilid ad e” (no vocabulário da época, fala-se h ab itual­
m en te de “versatilidade” para design ar essa agilid ad e m en­
tal e cu ltu ral, sem dar um sentido pejorativo a esse termo).
Esse m ovim ento, m uito produtivo cu ltu ralm en te, parte do
paradoxo, aparente ou não, segundo o qual quanto m ais
u m a com unidade se abre ao que não é ela, m ais tem aces­
so a si m esm a. E m suas In atu ais, N ietzsche considerará
que o que ele resum e na expressão “sentido histórico” é um
verdadeiro desastre - o desastre do século 19 europeu.20
E evidente que um espírito tão “versátil” quanto F.
S ch leg el tin h a perfeitam ente a con sciência da natureza

20. Tomada de posição que é sempre digna de atenção: o progresso atual


da “história das mentalidades”, ou seja, dos alicerces materiais, sociais e
culturais de nossa sociedade e, mais particularmente, de seu passado
oral, no momento mesmo em que esses alicerces, com a oralidade, pa­
recem desabar radicalmente, leva a se perguntar: de que se trata aqui?
De uma nostalgia? De uma busca das origens? De um enterro solene de
valores considerados como atraentes, mas prescritos? Que posição os his­
toriadores do passado oral tomam em relação ao nosso presente e em re­
lação à possível defesa das culturas populares? A mesma pergunta seria
feita a propósito da etnologia. Há nisso um processo extremamente im­
portante, que não é exterior, longe disso, aos interesses próprios de uma
teoria histórica e cultural da tradução. E o Romantismo alemão e fran­
cês conheceu também, à sua maneira, esse conjunto de questões.
Nietzsche viu nessa “faculdade camaleônica” que é o “sentido histórico”
um perigo vital: ele tentou reverter a situação fazendo dela um movi­
mento de apropriação. Essa união da apropriação e da dominação, da
identificação e da redução, etc., caracteriza até hoje a realidade cultural
européia. Ela é questionada agora a partir de vários horizontes.

64
dessa relação. Em seus fragmentos, ele evoca dois povos de
tradutores, os rom anos e os árabes, e o que os distingue a
esse respeito. Os romanos constituíram sua lín gu a e sua li­
teratura com base em um im enso trabalho de tradução dos
gregos, de sim biose, de sincretism o e de anexação: basta
pensar em um autor com o Plauto. Os árabes, segundo F.
S ch legel, procediam de outro modo:

Sua mania cie destruir ou jogar fora os originais, uma vez


feita a tradução, caracteriza o espírito de sua filosofia. Por
isso mesmo, eles eram talvez infinitamente mais cultos,
mas, com toda sua cultura, claramente mais bárbaros do
que os Europeus da Idade Média. Bárbaro é, com efeito, o
que é ao mesmo tempo anticlássico e antiprogressivo.2'

C om efeito, o fato de queim ar os originais - um ato de


uma complexidade insondável, quase mítica —tem um duplo
resultado: o de suprimir qualquer relação com uma literatura
•considerada como modelo histórico (o “anticlássico”) e o de
tomar impossível qualquer re-tiadução (ao passo que toda tra­
dução im plica sua retradução, 011 seja, uma “progressividade”).
Desse modo, a partir do precedente histórico que é a
Bíblia luterana, todo uin conjunto de questões é colocado à
cultura alem ã, referentes à sua própria essência: o que somos,
se somos um povo de tradutores? O que é a tradução e o bem
traduzir, para o povo que somos? Se aceitarmos que a relação
com o estrangeiro é constitutiva de nossa identidade, qual
deve ser para nós essa relação com o estrangeiro? Como inter­
pretá-la? Em que medida, igualm ente, essa relação hipertrófi­
ca e desmedida não constituiria para nós uma am eaça radical?
Não deveríamos, de preferência, voltar-nos para o que, em
nossa cultura, tornou-se estrangeiro para nós, mas constitui,

21. AL, Fragmentos da Athenãum, p. 131.

65
na realidade, nossa “natureza” mais própria - nosso passado?
O que é a Deutschheit, se ela é o lugar de todas essas questões?
Herder, G oethe, os românticos, Schleierm acher, Humboldt e
Hölderlin tentam , cada um à sua m aneira, enfrentar essas
questões, que colo cam a tradução em um a problemática cul­
tural que ultrapassa de longe qualquer “metodologia”. O posi­
tivismo filológico e Nietzsche, no século 19, retomarão essas
questões, e depois, no século 20, pensadores tão diferentes
como Luckács, Benjam in, Rosenzweig, Reinhardt, Schade-
waldt e Heidegger. M

66
G A P ! T U L O

Herder: fidelidade
e ampliação
O presente capítulo, consagrado a Herder e à problemá­
tica da tradução que se instaura na Alemanha na segunda meta­
de do século 18, poderia ser introduzido sob a égide de dois con­
ceitos que retomam freqüentemente nos textos da época: Erwei-
terung e Treiie. Enveiterung é o alargamento, a ampliação. Já en­
contramos essa palavra em Novalis, quando ele afinna que so­
mente na Alemanha as traduções se tomaram “alargamentos".
Treue é a fidelidade. A palavra tem um grande peso na cultura
alemã da época e pode valer como uma virtude cardinal, tanto
no domínio afetivo quanto no da tradução ou da cultura nacio­
nal. A esse respeito, afirmar que a tradução deve ser fiel não é tão
banal quanto pode parecer em uin primeiro momento. Pois tra­
duzir, como diz Roseuzweig, é “servir a dois senhores”:' a obra e

1. In: STÔRIG. Op. cit, p. 194.

67
a língua estrangeiras, o público e a língua próprios. Nesse caso é
necessário, portanto, uma dupla fidelidade, incessantemente
am eaçada pelo espectro de uma dupla traição. M as por outro
lado, a fidelidade ao original não é de modo algum uma cons­
tante histórica. Na época em que, na Alem anha, ela começa a
ser celebrada com entonações quase conjugais por Breitinger,
Voss e Herder, a França traduz sem a menor preocupação com
a fidelidade e prossegue sua tradição, nunca inteiramente aban­
donada, de traduções “embelezadoras” e “poetizantes”. A teoria
alem ã da tradução se constrói conscientemente contra as tradu­
ções “à francesa”. E o que A. W. Sclilegel, no final desse perío­
do, exprimiu enfaticamente:

Outras nações adotaram em poesia uma fraseologia


completamente convencional, de modo que é pura e sim­
plesmente impossível traduzir poeticamente qualquer coi­
sa em sua língua, como por exemplo, em francês [...] E
como se eles desejassem que cada estrangeiro, no país de­
les, devesse agir e se vestir de acordo com seus costumes,
o que significa que eles nunca conhecem, realmente, um
estrangeiro.2

E sse m odo de trad uzir está em p erfeita conform i­


d ade co m a p o sição d o m in an te da cu ltu ra francesa da
ép o ca, q u e não tem n en h u m a n ecessid ad e de passar pela
lei do estran geiro para afirm ar sua id en tid ad e. L o nge de
se ab rir p ara o influxo das lín g u as estran geiras, o francês
ten d e, b em an tes, a su b stitu ir estas ú ltim as com o m odo
de c o m u n icaç ão das esferas in te le c tu ais e p o líticas euro­
p éias. N essas condiçõ es, não há lu g a r para q u alquer
c o n sciên cia da fid elid ad e. A posição dos tradutores a le ­
m ães no séc u lo 18 só acen tu a m ais isso. E la rem ete a

2. SCHLEGEL, A. W. Geschichte des klassischen Literatur. Stuttgart:


Kohlhammer, 1964. p. 17.
um a p ro b lem ática cu ltu ral que é com o a im agem inversa
da fran cesa.3
Essa problemática poderia ser, inicialm ente, formulada
da seguinte m aneira: a língua alem ã carece de “cultura” e,
para adquiri-la, deve passar „por um certo alargamento, o qual
pressupõe traduções marcadas pela fidelidade. Pois em que
um a tradução espelhada no modelo “à francesa” poderia alar­
gar o horizonte da língua e da cultura? Essa é a linha geral em
Breitinger, Leibniz, Voss e Herder. E verdade que, para triun­
far, essa lin h a deve, ao mesmo tempo, combater a influência
francesa e um certo pragmatismo proveniente das tendências
mais planas da Aufklärung. W. Schadewaldt caracterizou mui­
to bem a situação:

Existem francamente certos modos de tradução que


são completamente não problemáticos, que não que­
rem ser, no sentido estrito da palavra, fiéis ou, em todo
caso, não interpretam a fidelidade, em relação à essên­
cia do original, como uma exigência constrangedora.
Quando, na Alemanha, antes do inicio do século 18,
praticava-se a tradução, exatamente como Cícero e
Quintiliano, como um exercício retórico e formal [...],
podia ser indiferente traduzir prosa em poesia ou poe­
sia em prosa [...] Pois o original significava então “mo­
delo de estilo”, e a fidelidade era submetida à arbitra­
riedade de um julgamento de gosto, fosse ele inculto,
fosse deformante. Quando, mais tarde, abordamos
uma obra estrangeira com a finalidade de assimilar
seus conteúdos objetivos e materiais e torná-los acessí­
veis aos contemporâneos, podemos nos considerar

3. A problemática francesa foi notavelmente resumida por Collardeau


no final do século 18: "Se há algum mérito em traduzir, só pode ser o
de aperfeiçoar, se possível, seu original, de embelezá-lo, de apropriar-se
dele, de lhe dar um ar nacional e de naturalizar, de algum modo, essa
planta estrangeira” (ln: Van der Meerschen. “Traduction française, pro­
blèmes de fidélité et de qualité”, apud Tmduzione-tradizione, Lectures.
Milão: Dédalo Libri, n. 4-5, p. 68).

69
como fiéis se nos sentirmos ligados à transmissão dos
conteúdos. As traduções são nesse caso “escritos [cito
uma definição do Aufklärer Venzky, aparecida em
1734 nas Contribuições críticas de Gottsched] que pas­
sam um fato ou um trabalho douto para uma outra [...]
língua, de modo que os que ignoram a outra língua
[...] possam ler esses fatos e esse trabalho com um
maior prazer e uma maior utilidade”. E se uma tradu­
ção dessas “tiver expressado o entendimento de um es­
crito original com clareza e completude, ela é tão boa
quanto o original”. Pois aqui, o original é a soma dos
fatos úteis e dignos de serem transmitidos. É por essa
razão que é perfeitamente compatívej^com a fidelida­
de que se, corrija e complete, se possível, o original,
que se acrescentem observações, que se esclareçam
obscuridades [...] A verdadeira tradução é, entretanto,
nesse caso, uma tarefa essencialmente negativa: o tra­
dutor se esforça para superar a situação crítica que a
confusão babélica das línguas introduziu no mundo.4

Essas correntes racionalistas e empíricas, que não têm


nem mesmo a esplêndida desenvoltura das “não-traduções”
francesas clássicas, não caracterizam, entretanto, as tendências
dominantes da tradução alem ã do século 18; elas representam,
antes de tudo, um fenômeno - quase a-histórico de tal modo
ele é constante - de negação do sentido da tradução.
No que se refere à am pliação da língua e da cultura ale­
mãs, Leibniz, que se interessava de perto pelos problemas da
linguagem e pelos de sua própria língua, tomou posição em
dois textos sem grande originalidade, mas que já anunciam
Herder:

A verdadeira pedra de toque da riqueza ou da pobreza


de uma língua aparece quando se traduzem boris livros de
outras línguas. Aí se mostra o que falta e o que está à nos­
sa disposição.

4. In: STÖR1G. Op. cit., p. 225-6.

70
Certamente não acredito que exista no mundo uma lín­
gua que possa expressar as palavras das outras línguas com
a mesma força e palavras equivalentes [...] Mas a língua
mais rica e mais cômoda é aquela que pode melhor se
prestar a traduções palavra por palavra, traduções que se­
guem o original pé por pé.5

Aqui, a força de um a língua reside precisamente em


sua capacidade de literalidade, e a tradução é o espelho no
qual ela percebe seus próprios limites.
O crítico suíço Breitinger, em sua Arf poétique critique
(1740), defende também a literalidade:

Exige-se de um tradutor que ele exprima os conceitos e


as idéias descobertas em um eminente modelo segundo a
mesma ordem, o mesmo tipo de ligação e de composição
[...] a fim de que a representação dos pensamentos produ­
za a mesma impressão sobre a sensibilidade do leitor. A
tradução [...] merece mais elogios na medida em que é se­
melhante ao original. É por isso que o tradutor deve se
submeter a essa dura lei; é-lhe proibido afastar-se do origi­
nal, tanto do ponto de vista dos pensamentos quanto do da
forma. Estas devem permanecer inalteradas, conservar o
mesmo grau de luz e de força.4

Essa prescrição de fidelidade, que não é precisada de


outra fonna, indica bem a tendência geral das reflexões da
época, apesar de sua linguagem muito racionalista.
M as é com Herder e as Literaturbriefe 7 que a proble­
m ática da am pliação e da fidelidade vai se estabelecer. Her­
der, é sabido, desenvolveu toda um a filosofia da cultura, da
história e da linguagem , na qual noções como as de gênio,

5. in: SDUN. OP. CIT., p. 225-6.


6. Ibid., p. TL
7. As Literaturbriefe, cujo título exato é Briefe, die neueste Literatur betref­
fend, constituem sem dúvida a primeira das revistas literárias alemãs. Les-
sing foi seu principal editor, com Thomas Abt e Moses Mendelssohn.

71
de povo, de poesia popular, de mito e de n ação adquirem
seus títulos de nobreza. E le m esm o traduziu poesias, nota-
dam ente “rom ances” espanhóis. De acordo com seus m últi­
plos interesses poéticos, filosóficos e lingüísticos, ele estava
bem situado para m edir a im portância dessa relação com o
estrangeiro que se m anifestava na A lem anha com um a força
crescente, em particular sob a influência da literatura ingle­
sa e da A ntiguidade greco-roinana. Na m esm a época, inicia-
va-se um retorno às “fontes”, ou seja, à poesia popular e ao
prestigioso passado m edieval. Herder, Í*om suas Volklieder,
desem penhou um papel prim ordial nesse movim ento. Sua
reflexão, essencialm ente centrada na lin guagem e na histó­
ria, representa a prim eira versão do C lassicism o alem ão. Co­
m entarem os aqui brevem ente um a série de textos de Herder
que traçam claram ente o novo cenário da cultura alem ã.8
Trata-se, às vezes, de citações das Literaturbriefe com entadas
pelo pensador.
Os problem as da tradução, no que se refere à relação
da língua m aterna com as línguas estrangeiras, têm freqüente­
mente, para H erder, um a intensidade im ediata que se expri­
m e em termos quase amorosos e sexuais. Assim:

Não é para desaprender minha língua que aprendo ou­


tras; não é para intercambiar meus hábitos de educação
que viajo entre os povos estrangeiros; não é para perder a
cidadania de minha pátria que me lomo um estrangeiro
naturalizado; se eu assim agisse, perderia mais com isso do
que ganharia. Mas passeio nos jardins estrangeiros para co­
lher neles flores para minha língua, como para a noiva na
minha maneira de pensar: observo os costumes eslrangei-

8. Cenário que, para ele, remete a Lutero: “Foi ele quem despertou e li­
bertou a língua alemã, esse gigante adormecido” (Fragmente, apud Höl­
derlins Erneuerung der Sprache aus ihren etymologischen Ursprüngen, Rolf
Zuberbühler. Berlim: Erich Schmidt Verlag, 1969. p. 23).

72
ros a fim de sacrificar os meus ao gênio de minha pátria,
como tantos frutos amadurecidos sob um sol estrangeiro!9

A relação do próprio e do estrangeiro é expressa nesse


texto de modo figurado, mas até na escolha das comparações,
no tom apologético e defensivo do texto parece flutuar o es­
pectro de um a possível traição. Predom inância do estrangeiro:
perda do próprio. Transformação do estrangeiro em puro pre­
texto de enriquecim ento do próprio: traição da própria expe­
riência da estranheza.
Perante os desequilíbrios inerentes a qualquer relação
com o estrangeiro, desequilíbrios que têm sua projeção ime­
diata no domínio da tradução, grande é a tentação de recusar
veem entem ente essa relação. M ais do que Herder, Klopstock
viveu essa tentação, não tanto no nível da tradução quanto no
das outras relações interlingüísticas, como, por exemplo, o
empréstimo de palavras estrangeiras. Esse problema o preocu­
pava como poeta e como gramático, na m edida em que ele
considerava o alem ão um a língua mais pura que o inglês
(abarrotado por um a massa consternadora de palavras latinas)
e mais livre que o francês (prisioneiro de seu classicismo).
Com o para Herder, a língua materna era para ele “uma espé­
cie de cisterna do conceito mais original do povo”.l(’Como tal,
ela devia se delim itar em relação às outras línguas e afirmar
seu próprio territó rio. Daí vem o sonho, para ele e Herder, de
um a língua virgem, protegida de toda sujeira estrangeira e,
mais particulannente, dessa sujeira que cone o risco de ser a
tradução. De novo, aqui, o pensamento de Herder toma uma
curiosa coloração sexual:

9. In: SDUN. Op. cit., p. 49


10. In: MURAT, J. Klopstock. Paris: Les Belles Lettres, 1959.

73
Mesmo que se tenham muitas razões de recomendaras
traduções para a formação (Bildung) da língua, esta últi­
ma tem, no entanto, maiores vantagens em se preservar
de qualquer tradução. Uma língua, antes da tradução, é
semelhante a uma jovem virgem que ainda não tenha tido
comércio com um homem e não tenha ainda concebido
o fruto da mistura de sangues; ela ainda está pura e em es­
tado de inocência, imagem fiel da índole de seu povo.
Embora seja só pobreza, capricho e irregularidade, ela é
língua nacional original."

Texto perturbador em sua utópica ingenuidade, na es­


pécie de profundeza que, no en tan to ,lh e é própria, prove­
niente ao mesmo tempo da im agem da jovem virgem aplica­
da à lín gua materna, e do mito - evidentem ente vertiginoso —
de um a língua fechada em si mesma, sem m anter nenhum
com ércio “bíblico” com as outras línguas. E necessário falar
aqui de utopia, visto que o destino da virgem é evidentemen­
te se tom ar m ulher, exatam ente como, para recorrer a esse es­
toque de imagens vegetais das quais o Classicismo e o Roman­
tismo são tão ricos, o destino do botão é se tornar flor, depois
fruto. Até a própria escolha da im agem de Herder, ainda que
levássemos em conta a valorização cristã, ou talvez rousseauís-
ta, da virgindade, mostra que a relação com o estrangeiro não
pode e não deve ser evitada.
Resta a tentação, para um a cultura e um a língua amea­
çadas dem ais por essa relação, de um puro fechamento sobre
si, exatam ente como no Romantismo tardio pode-se encon­
trar a tentação do inefável, do indizível e, como veremos, do
intraduzível: não somente não traduzir, mas tomar-se a si pró­
prio intraduzível, essa é talvez a expressão mais acabada de
um a língua fechada. Tentação regressiva, se considerannos
que a relação com o estrangeiro é também , e sobretudo, a da

11. In: SD U N .O p. cit, p. 26.

74
diferenciação , da dialética, ou como se queira nomear esse
movimento de constituição de si pela experiência do não-si,
pelo qual veremos que ele forma a própria essência da cultu­
ra para o Classicismo e o Idealismo alemães.
Tentando conservar um a posição de equilíbrio, como
Goethe, entre essa tentação e aquela, inversa, do puro ser-fora-
de-si (tentação da qual certos românticos oferecem igualm en­
te o exemplo), Herder define, a partir das reflexões de certos
colaboradores das Literaturbriefe, a natureza, o papel, as op­
ções do tradutor - todas coisas estreitamente ligadas à am plia­
ção da língua e da cultura. Assim Thomas Abt cita em seus
Fragmente:

O objetivo do verdadeiro tradutor é mais elevado do


que tomar as obras estrangeiras compreensíveis aos leito­
res; esse objetivo o coloca no nível de um autor e, de pe­
queno comerciante, faz dele um mercador que enriquece
realmente o Estado [...] Esses tradutores poderiam se tor­
nar nossos escritores clássicos.12

Homero, Esquilo e Sófocles criaram suas obras-pri-


mas a partir de uma língua que ainda não possuía ne­
nhuma prosa culta; o tradutor dessas obras-primas deve
implantá-las em uma língua que [...], mesmo em hexâ-
metros, permaneça prosa, de tal modo que elas percam
o menos possível. Eles vestiam os pensamentos de pala­
vras e as sensações de imagens; o tradutor, por sua vez,
deve ser um gênio criador se quiser satisfazer seu origi­
nal e sua língua.”

Escritor clássico, gênio criador: vê-se como com Abt e


Herder a tradução se torna pouco a pouco um a categoria lite­
rária, definida pela fidelidade absoluta de seu operador, o tra-

12. Ibid, p. 25.


13. fbid, p. 26.

75
dutor. A propósito de lim a outra Literaturbriefe, Herder vai
m ais longe:

Segundo grau, mais elevado: se houvesse tradutores que


i não somente estudassem o autor para traduzir o sentido
do original para nossa língua, mas que captassem igual­
mente seu tom próprio, que mergulhassem na particulari­
dade de seu jeito de escrever e exprimissem para nós exa­
tamente os verdadeiros traços próprios, a expressão e o
tom do original estrangeiro, seu aspecto dominante, seu
gênio e a natureza de seu gênero poético. Francamente
isso já é muito, mas ainda insuficiente ¡gra o meu ideal de
tradutor Se alguém traduzisse para nós o pai da poe­
sia, Homero: obra eterna para a literatura alemã, obra pre­
ciosa para a musa da Antiguidade e nossa língua [...] Tudo
isso pode se tomar uma tradução homérica, se ela se ele­
var acima do estado de ensaio, tornar-se, por assim dizer,
a vida inteirinha de um sábio e nos mostrar Homero tal
como ele é e tal como ele pode ser para nós [...] Esse foi
o preâmbulo; e a tradução? Ela não pode ser embelezada
S; de modo algum [...] Os franceses, orgulhosos demais de
seu gosto nacional, arrastam tudo para ele, em vez de se
I
.! adaptarem ao gosto de uma outra época [...] Mas, por ou­
tro lado, nós, pobres alemães, ainda privados de público e
í i de pátria, ainda livres da tirania de um gosto nacional,
queremos ver essa época tal como ela é. E a melhor das
Ii traduções não pode conseguir isso com Homero se não
lhe forem acrescentadas notas e explicações de um espíri­
to crítico e elevado.H
; i

As grandes traduções das épocas clássica e rom ântica


alem ãs estão todas anunciadas nesse texto. A noção de fideli­
dade recebe agora uma definição menos racional do que em
Breitinger: o tradutor, que é ao mesmo tempo escritor, gênio
criador, erudito e crítico, deve captar a unicidade do original,
ela própria definida como sua “expressão”, seu “tom”, sua
“particularidade”, seu “gênio” e sua “natureza”. São todos ter­
•'i.! mos que se referem, na verdade, mais a um indivíduo do que
i '!

-i Ü
14. Ibid, p. 27.
j
;i :
76
a uma obra: mas a obra é agora definida como um individuo.
Ponto de vista que os românticos radicalizarão à luz da filoso­
fía fichteana. E essa obra-individuo que o gênio criador deve
traduzir por um movimento centrífugo que Herder opõe, lo­
gicamente, ao movimento centrípeto dos franceses e que não
deve comportar nenhum embelezamento: este, com efeito,
anularía todo o sentido de tal captação. Trata-se de mostrar a
obra “tal como ela é” e tal como ela pode ser “para nós” (o que
é menos claro). M ovimento no qual estão im plicadas a críti­
ca, a historia e a filologia. A fidelidade à individualidade da
obra é im ediatam ente produtora de alargamento lingüístico e
cultural.
De Lutero a Herder, há um a progressão que a influen­
cia francesa e o racionalismo das Luzes só conseguiram, no
máximo, entravar: na hora da constituição de urna literatura e
de um teatro que formariam como que as duas peças mestras
•da cultura alem ã (é exatamente ai que está a preocupação
central de Herder e de Lessing), a tradução é cham ada, pela
segunda vez, a desem penhar um papel central. A bem dizer,
ela partilha esse papel, e, nesse sentido, Herder anuncia os ro­
mánticos, com a crítica. Aliás, pode-se falar, a propósito do
texto que acabamos de comentar, de tradução crítica. Mas a
tradução, na ótica herderiana, desempenha um papel por as­
sim dizer mais imediato, mais concreto, pois ela está direta­
mente ein contato com a linguagem . Está ai um ponto que
jean Paul viu perfeitamente em seu Curso prelim inar de esté­
tica, em urna época, é verdade, em que as traduções que Her­
der venerava já eram históricas:

No Shakespeare de Schlegel e nas traduções de Voss, a


linguagem deixa transparecer sua abundancia e as duas
obras-primas reforçam o desejo do autor dessa obra: que
em geral os tradutores possam saber o quanto eles fizeram
pela sonoridade, a plenitude, a pureza da língua, freqüen-

77
temente até mais do que o próprio escritor, uma vez que
a língua é precisamente o seu objeto, enquanto que o es­
critor às vezes esquece a língua em proveito do objeto.15

Resta perguntar m ais precisam ente: em que m edida a


cultura alem ã, conforme ela se define na segunda m etade
do século 18 com Lessing e Herder, em seguida Goethe e os
rom ânticos, im plica especificam ente a tradução como mo­
m ento essencial de sua constituição? E depois: um a vez dito
que a essência do traduzir é essa fidelidade ao espírito das
obras que ab réu m a cultura ao estrangeiro e, assim, lhe per­
m ite am pliar-se, quais são os domínios de tradução que de­
vem se abrir preferencialm ente à Bildung alem ã? Em outras
palavras, após ter respondido às questões: por que traduzir?
com o traduzir?, é preciso responder à questão: o que tradu­
zir? Essas três questões estão no próprio centro de toda teo­
ria histórica da tradução.

15. PAUL, Jean. Vorschule der Ästhetik. Munique: Carl Hanser Verlag,
1963. p. 304.

78
C A P I T U L O 3
A Bildung e a
exigência da
tradução
O conceito de B ild u n g é um dos conceitos centrais
da cu ltu ra alem ã no final do século 18. É encontrado em
toda parte: em H erder, em G oethe e S c h ille r, nos ro­
m ân tico s, ein H egel, F ichte, etc. Bildung significa geral­
m en te “c u ltu ra” e pode ser considerada com o ã variante
eru d ita da palavra K u ltu r , de origem latin a. M as, para a
fa m ília lex ica l à qual p e rte n c e ,1 esse term o sign ifica m u i­
to m ais e se ap lica a m uitos outros registros: assim , pode-
se fa h r jta jS z / d u n ^ ^ grau de
“form ação”.(ü a m esm a m an eira, B ildung tem um a fortís­
sim a c onotação pedagó gica e ed ucativa: q processcTde

1. Bild, imagem, Einbildungkraft, imaginação, Ausbildung, desenvolvi­


mento, Bildsamkeit, flexibilidade, “formabilidade", etc.

79
Não seria exagero afirm ar que esse conceito resume a
concepção que a cultura alem ã da época tein de si mesma, a
m aneira pela qual ela interpreta seu modo de desdobramento.
Tentaremos mostrar que a tradução (como modo de relação
com o estrangeiro) está estruturalm ente inscrita nq Bildung.
Em um capítulo ulterior, veremos que esta, ainda que co­
m um a todos os escritores e pensadores da época, atingiu sua
forma canônica em Goethe.
Não pretendéniõs proceder aqui a um a análise semân-
tico-histórica do conceito de Bildung, mas propor um tipo de
perfil ideal, a partir dos diversos sentidos que ele reveste, nota-
dam ente em Herder, Goethe, H egel e os românticos.
O que é então a Bildung? Ao mesm o tempo um proces­
so e seu resultado. Pela Bildung, um indivíduo, um povo, um a
nação, mas tam bém uma lín gua, um a literatura, um a obra de
arte em geral se formam e adquirem assim uma forma, urna
Bild. A Bildung é sempre um movim ento em direção a um a
forma que é uma forma brópria. E porque, no início, todo ser
é privado de sua forma. O início, na linguagem especulativa
do Idealismo alem ão, pode ser a particularidade à qual falta a
dim ensão do universal, a unidade à qual falta o momento da
cisão e da oposição, a indiferença aterrorizante que ignora
qualquer articulação, a tese sem a sua antítese e a síntese, o
imediato não mediatizado, o caos que ainda não se tomou
m undo, a posição privada do m om ento de reflexão, o ilim ita­
do que deve se lim itar (ou o inverso), a afirmação que deve
passar pela negação, etc. Essas formulações abstratas têm sua
vertente concreta e metafórica: a criança que deve se tornar
hom em , a virgem que deve se tom ar m ulher, o botão que
deve se tornar flor, depois fruto. O em prego quase constante
de im agens orgânicas para caracterizar a Bildung indica que
se trata de um processo necessário. M as, ao mesmo tempo,
esse processo é tam bém um desdobramento da liberdade.

80
Por ser a Bildung um processo temporal e, portanto,
histórico, ela se adíenla em períodos, em etapas, em m om en­
tos, em épocas. Assim há “épocas” da hum anidade, da cultu­
ra, da historia, do pensamento, da linguagem , da arte e dos in­
dividuos. Essas épocas são quase sempre duais, mas o mais fre­
qüentem ente triádicas. Toda Bildung, no fundo, é triádica. O
que quer dizer que sua estrutura é essencialm ente homologa
ao que Heidegger definiu como

o princípio da subjetividade incondicional da metafísica


absoluta, própria ao pensamento alemão e tal como a
encontramos em Schelling e Hegel, segundo os quais o
ser-em-si-mesmo do espirito exige primeiramente o re­
torno a si, que só pode se efetuar, por sua vez, a partir do
ser-fora-de-si.2

A interpretação desse princípio, naturalm ente, varia se­


gundo os autores. M as tanto se pode dizer que ele fom ece a
base especulativa do conceito de Bildung quanto que este últi­
mo lhe fom ece sua base históríco-cultural.
Nesse sentido, a Bildung é um auto-processo em que há
um “mesmo” que se desdobra até adquirir sua plena dim en­
são. E provável que o conceito mais elevado que o pensamen­
to alem ão da época tenha criado para interpretar esse proces­
so seja o âd expen ência, que Hegel arrancou da estreiteza de
sentido que Kant lhe havia conferido. Pois a experiência é a
ú nica noção que pode abraçar todas as outras. Ela é alarga­
mento e infinitização, passagem do particular ao un iversal,.
prova da cisão, do finito, do condicionado. E viagem, Reise, ou
migração, Wanderung. Sua essência é jogar o “mesmo” em
um a dimensão que vai transformá-lo. Ela é o movimento do

2. HEIDEGGER. Approche de Hölderlin. Paris: Gallimard, 1973. p.

81
“m esm o” que, m udando, encontra-se “outro”. “M orra e
transform e-se”, disse G oethe.
M as e la é tam bém , enquanto viagem , experiên cia
da a lterid a d e do m undo: para ter acesso ao que, sob o véu
de um tom ar-se-outro, é na verdade um torna^-se-si, o
/ m esm o deve fazer a exp eriência do que não é ele, ou pelo
m enos p arece com o tal. Para o Idealism o, a experiência
co n clu íd a é o tornar-se-si do outro e o tornar-se-outro do
m esm o:

Ele ergueu o véu da deusa de Saís. Mas o que viu ele?


V iu —milagre dos milagres - a ele mesmo.5

O Assim fala Novalis em Os discípulos em Sais. M as a


\ experiência seria apenas um fingim ento se não fosse tam -
j bém a experiência da-ap&rente-alíeridade radical. A “cons-
\ ciên cia” deve viver a alteridade como absoluta e depois, em
um outro estágio, descobrir sua relatividade. E por isso que
a experiência é sem pre “atravessada pelas aparências”, na
/ m edida em que descobre que não som ente estas são outras
| que não são elas, mas tam bém que a alteridade não é tão ra-
• dical quanto parece serlProva da alteridade, formação de si 1
pela prova da alteridade, a experiência deve finalm ente
acontecer com o reunião, identidade, unidade, mom ento 1
suprem o m esm o que dem orado, pois a verdade dessa prova
se situa em algum lugar entre o seu encerram ento e a sua ,
infinitude.
Enquanto cam inho do mesmo em direção a si mes­
mo, enquanto experiência, a Bildung reveste a forma de um
romance:

3. NOVALIS. Les Disciples à Sais, trad. Roud. Mermod, 1948. p. 98.


Todo homem culto e em via de se tornar culto carrega
um romance em seu foro íntimo.4

Nada é mais romântico do que o que se nomeia comu-


mente o mundo e o destino. Vivemos em um romance
colossal.5

A vida não deve ser um romance que nos é dado, mas


um romance que nós mesmos fizemos.6

O romance é a experiência da aparente estranheza do


mundo e da aparente estranheza do mesmo para si mesrno.
Progredindo para o ponto em que essas duas estranhezas serão
abolidas, ele tem realm ente uma estrutura “transcendental”.
D aí resultam as polaridades que, em Goethe e nos românti­
cos, o definem: o cotidiano e o maravilhoso (um a das faces da
estranheza), o próximo e o longínquo, o conhecido e o desco­
nhecido, o finito e o infinito, etc.
Essa experiência que retoma ao ponto em que todas as
polaridades inicialm ente hostis vão se unir é necessariamente
progressiva:

Aqui [...] tudo está em constante progresso e nada se


pode perder. Eis porque nenhuma etapa pode ser omiti­
da, porque a de hoje está tão necessariamente ligada à de
ontem quanto à de amanhã e porque o que durante sécu­
los pareceu superado revive com uma nova juventude,
quando é chegado o tempo em que o Espírito deve se re­
cordar de si mesmo e retornar a si.7

Faz parte da natureza dessa progressão ser, de uma cer­


ta maneira, passiva. Novalis: “natureza passiva do herói roma-

4. AL. F. Schlegel, p. 90.


5. NOVALIS. Fragmente I, n. 1.393, p. 370.
6. ld. Fragmente II, n. 1.837, p. 18.
7. Aí,. Op. cit., p. 240

83
“Não fazemos, fazemos com que ele se possa fazer.”9
Essa passividade é, aliás, im plicada pelas im agens orgânicas
da Bildung. E .não deixa de ter conseqüências culturalm ente.
A precedência da passividade no m ovimento da experiência
faz com que a relação do mesmo com o outro não possa ser
um a relação de apropriação. E certo que Novalis, bem antes
de H egel e Nietzsche, desenvolveu um a teoria da apropria­
ção, da Z ueignung.'0 Ele assimila até mesmo pensar e com er.
M as esse-m edeAvfiprnpriação oral, na m edida em que é tan­
to um tom ar-se-mesmo do estrangeiro qifanto um tomar-se-es-
trangeiro do m esm o, não tem nada a ver com um a teoria da
apropriação radical, tal como um Nietzsche a desenvolve." A
agilidade rom ântica, a curiosidade goetheana não são a Von­
tade de Poder.
Essa breve caracterização esq u em ática da B ildung
^'mostra im ed iatam en te que e la está intim am en te relac io ­
n a d a com o m ovim ento da tra d u ç ã o : pois este parte, com
efeito, do próprio, do m esm o (o co n h ecid o , o cotidiano, o
fa m iliar), para ir em direção ao estrangeiro, ao outro (o
d esco n h ecid o, o m aravilhoso, o U n h e im lich) e, a partir
dessa e x p eriên cia, re to m a r a seu p on to de p a rtid a. E m u m 1
m ovim ento regido pela le i da ap ropriação , nurica poderia
se tratar d e u m a experiência do estrangeiro, mas da sim ­
ples a n e x aç ã o ou redução do outro ao m esm o. E assim
m esm o qu e N ietzsch e interpreta o ato de traduzir em A
g a ia ciên cia e com ele a cu ltu ra en quan to tal, evocando a
A n tigu id ad e rom ana:

8. Id. Op. cit., n. 1.409, p. 373.


9. Id. Op. cit., n. 2.383, p. 162.
10. Id. Op. cit., n. 988 e 992, p. 271.
11. NIETZSCHE. Par-delà le Bien et le Mal, 230. p. 168.

84
Pode-se julgar o grau de sentido histórico que possui
uma época de acordo com a maneira pela qual ela faz tra­
duções e procura assimilar para si as épocas e os livros do
passado [...] E quanto à Antiguidade romana: com que
violência e que ingenuidade ao mesmo tempo ela colo­
cou a mão sobre tudo o que a Antiguidade helénica mais
antiga possuía de excelente e elevado! Como os romanos
sabiam traduzi-la em atualidade romana! [...] Como poe­
tas, eles não estavam preparados para a perspicácia do es­
pírito arqueológico prévio ao sentido histórico; como poe­
tas, eles negligenciavam totalmente os defeitos pessoais, os
nomes e tudo o que caracteriza uma cidade, um rio, um
século, como seu traje e sua máscara, para substituir in­
continente sua própria atualidade romana [...] Eles igno­
ravam o gozo do sentido histórico: a realidade passada ou
estiangeira lhes era penosa, ou até apropriada para provo­
car e tomar-se uma conquista romana. Com efeito, anti­
gamente o que contava era conquistar em vez de traduzir,
não somente porque se eliminava o elemento histórico:
acrescentava-se a ele a alusão à atualidade, antes de tudo
suprimindo o nome do poeta para inscrever no lugar o seu
próprio - não com o sentimento de um furto, mas com a
perfeita consciência tranqüila do Imperium Romonum.'2

Palavras que repercutem , conscientemente ou não, as


de São Jerónimo, quando ele declara, a respeito de um de seus
predecessores latinos, que ele “transferiu as significações por
assim dizer cativas para sua própria língua com o direito do
vencedor”.15Aqui, o movimento de expansão imperial da cul­
tura é estritamente equivalente àquele pelo qual ela traz de
volta a si as significações “cativas”. Mas esse ir e vir conquista­
dor não tem nada a ver com o movimento cíclico da experiên­
cia tal como F. Schlegel o exprimiu;

É por isso que, certo de sempre se reencontrar, o ho­


mem não cessa de sair de si, a fim de procurar e encontrar

12. Le Gai Savoir. Paris: Gallimard, 1967. p. 99.


13. Carta a Pammachius. In: STÕRIG. Op. cit, p. 9.

85
o complemento de seu ser mais íntimo na profundeza do
de outrem. O jogo da comunicação e da aproximação é a
ocupação e a força da vida.H

A essência do Espírito é determinar-se a si próprio e, em


urna perpetua alternância, sair de si e voltar a si mesmo."

O verdadeiro meio é somente aquele para o qual sem­


pre se volta a partir das vias excéntricas do entusiasmo e da
energía, não aquele que nunca se deixa.16

Essa natu reza circular, cíclica e altern an te da Bil-


dung im plica em si mesma algu m a coisa como um a tran sla­
ção, um a U ber-Setzung, um colocar-se-além-de-si.
A importância da tradução para a cultura alem ã no final
do século 18 está, portanto, profundamente ligada à concep­
ção que ela faz de si mesma, ou seja, da experiência - concep­
ção absolutamente oposta às da Roma antiga ou da França
clássica. Pode-se certamente ver na Bildung “excêntrica” uma
fraqueza interna, e é assim que Nietzsche a interpreta. Pode-se
ver nela a incapacidade de ser para si mesma seu próprio cen­
tro, e esse é todo o problema da mediação, que constitui um
problema fundam ental em Novalis, F. Schlegel e Schleierma-
cher. Este últim o percebeu perfeitamente “a natureza media­
dora” do estrangeiro para a Bildung.'7 O Wilhelm Meister de
Goethe é a história da formação do jovem herói, formação que
passa por um a série de mediações e de mediadores entre os
quais um se cham a, significativamente, o “Estrangeiro”. Uma
vez que o estrangeiro tem uma função mediadora, a tradução
pode se tom ar um dos agentes da Bildung. Ela partilha essa fun­
ção com um a série de outras “translações" que constituem as

14. AL. Entretien sur la poésie, p. 290-1.


15. ibid., p. 313.
16. Ibid., Sur la philosophie, p. 234
17. In: STÔR1G. OP. CIT., p. 69. Ver nosso Capitulo 10.

86
mesmas relações cíclicas consigo e com o estrangeiro.18Assim
a época de Voss, de Hölderlin, de Schleierm acher e de A. W.
Schlegel vê tomarem impulso a filologia, o orientalismo, a pes­
quisa comparatista, a ciência do folclore, os grandes dicionários
nacionais, a crítica literária e artística; até as memoráveis via­
gens de Alexandre von Humboldt, o irmão de W ilhelm von
Humboldt, se situam nessa dimensão.19 Em todas essas transla­
ções, é a essência da Bildung que se afirma.
Mas para que esse movimento de abertura múltipla
para o estrangeiro não pereça em um a simbiose total com este
últim o, é importante que seu horizonte seja delim itado. A
Bildung é também, e essencialm ente, lim itação, Begrenzung.
Tal é a sabedoria ck> W ilhelm M eister, tal é tam bém a convic­
ção - ainda que marcada pela am bigüidade - dos românticos.

Friedrick Sch legel:


Sem delimitação, nenhuma Bildung é possível.“

E Noval is:
A possibilidade da autolimitação é a possibilidade de
toda síntese - de todo milagre. E o mundo começou por
um milagre.21 ,-...

18. “Nunca os antigos foram tão lidos em nossos dias, os admiradores


compreensivos de Shakespeare não são mais raros, os poetas italianos
têm seus amigos, lêem-se e estudam-se os poetas espanhóis com tanto
zelo quanto possível na Alemanha, pode-se esperar da tradução de Cal­
derón a melhor das influências e pode-se esperar que os cantos dos Pro-
vençais, os Romances do Norte e as flores da imaginação hindu não per­
maneçam por muito mais tempo estranhos para nós [...] Nessas circuns­
tâncias tão favoráveis, talvez seja tempo de se lembrar de novo da antiga
poesia alemã" (Tieck. In: Die Lust... p. 486).
19. Cf. L’Amérique espagnole en 1800 vue par un savant allemand, Hum-
boldt. Paris: Calmann-Lévy, 1965.
20. AL, p. 308.
21. Fragmente I, n. 1.712, p. 458.

87
Não temos limites para nosso progresso intelectual, etc.,
mas devemos nos colocar ad hunc actum dos limites tran­
sitórios - ser ao mesmo tempo limitados e ilimitados.22

F. Schlegel soube formular com m uita precisão, em


um texto no qual ainda nos deteremos, essa relação do lim ita­
do e do ilim itado na obra literária e na Bildung em geral:

Uma obra é culta (gebildet) quando é claramente deli­


mitada em toda parte, mas, em seus limites, ilimitada e
inesgotável; quando ela é perfeitamente fi^l a si, toda igual
e, no entanto, superior a si mesma. O que a coroa e a fi­
naliza é, como na educação de um jovem inglês, a gran­
de viagem. E preciso que ela tenha viajado por três ou qua­
tro continentes da humanidade, não para polir os contor­
nos de sua individualidade, mas para alargar sua visão, dar
ao seu espírito mais liberdade e pluralidade interna e, nes­
se sentido, até mais autonomia e segurança.25

A lim itação é o que distingue a experiência da Bildung


da pura aventura errante e caótica na qual nos perdemos.24 A
“grande viagem ” não consiste em ir a qualquer lugar, mas
aonde é possível se formar, se educar e progredir em direção
a si mesmo.
M as se a B ildun g se realiza por meio de um a translação
de essência cíclica e delimitada, em que direção ela deve se tra­
duzir? M ais precisamente, quais traduções, quais domínios de
tradução podem fu n cion ar aqui como mediação?
A Bildung nunca pode, em virtude de sua natureza de
experiência, ser um a simples im itação do estrangeiro. M as ela
m antém , entretanto, um laço de essência com o que chama-

22. Ibid.
23. AL, p. 141.
24. Como poderia ser, às vezes, a viagem romântica, o que L. Tieck cha­
mou de “Viagem no Azul”.
mos em alem ão Urbild, original, arquétipo, e Vorbild, mode­
lo, do qual ela pode ser a reprodução, o Nachbíld. Isso rem e­
te igualm ente à sua natureza de expenêneia^-aqi iple que se
procura no estrangeiro se vê confrontado a figuras que Funcio­
nam prim eiram ente como modelos, depois como mediações.
Assim como as pessoas que W ilh elm M eister encontra no de-
couer de seus anos de aprendizado, com as quais ele fica ini-
V ialm ente tentado a se identificar, mas que lhe ensinam final­
mente a encontrar-se consigo mesmo.
O Vorbild, manifestação e exem plificação do Urbild,
reúne essa perfeição e essa com pletude que fazem dele um
“clássico”. Ele é a forma, ou até mesmo a norma à qual a
Bildung deve se referir, sem ter de copiá-la. Assim A. W .
Schlegel fala dessa verdadeira im itação que não é “a imitação
simiesca das maneiras exteriores de um hom em , mas a apro­
priação das m áxim as de sua ação”/’ ~ ~ “
1 No que se refere à cultura e à literatura, é toda a
Antiguidade que, a partir de W inckelm ann, toma-se para os
alem ães Urbild e Vorbild:

O primeiro dentre nós [...] que reconheceu com entu­


siasmo o modelo da humanidade perfeita nas figuras da
arte e da Antiguidade foi o santo Winckelmann.26

Pode-se dizer que a Antiguidade funciona a partir de


então como U rbild e Vorbild da própria Bildung - na medida
em que a história da cultura, da literatura e das línguas anti­
gas aparece como “um a história etem a do gosto e da arte”. A
questão da relação com esse m odelo torna-se a partir de en­
tão delicada: é a “necessidade do retorno aos Antigos” como

25. AL, p. 346.


26. AL. F. Schlegel (Idées), p. 216.
aquilo que é ao mesmo tempo originário e clássico. N enhu­
m a outra cultura, passada ou presente, possui tal precedên­
cia. D iante da Antiguidade, a modernidade ainda está se pro­
curando na dor da reflexão inacabada. Para o Classicismo
alem ão, a criação de um a Bildung moderna é determ inada,
prim eiram ente, pela relação com a Antiguidade como mode­
lo. Isso quer dizer que é preciso se esforçar para atingir um
grau de cultura equivalente ao dos Antigos, notadamente
apropriando-se de suas formas poéticas. O estudo destas - a
filologia - adquire desde então um papel*de primeiro plano:

Viver como clássico e na prática realizar em si a Anti­


guidade é o ápice e o objetivo da filologia.27

Quanto às traduções, elas devem se consagrar, antes de


tudo, aos Antigos, e é por essa razão que Herder reivindica
um a tradução de Homero, o “pai da poesia”. Voss responde a
esse desejo traduzindo a Odisséia em 1781, depois a Ilíada em
1793. Sua tradução visa a traduzir os gregos com a maior fide­
lidade possível, mas tam bém a subm eter o alem ão ainda “não
formado” ao jugo “salutar” das formas métricas grecas. A obra
de Voss, ainda que controversa, adquire muito rapidamente
um a significação histórica exem plar, como a de Lutero.

Goethe:

Voss, do qual não saberíamos como estimar suficiente­


mente o mérito [...] aquele que, hoje, abraça de um só
olhar o que foi feito, a que grau de versatilidade chegou o
alemão, que vantagens retóricas, rítmicas, métricas são ofe­
recidas a um jovem de talento [...], tem o direito de espe-
. rar que a história literária proclame, sem rodeios, o nome
daquele que, em meio a obstáculos de toda natureza, aven­
turou-se como o primeiro nesse caminho.28

27. Ibid., p. 117.


28. Le divan occidental-oriental. p. 432.

90
F. Schlegel:

■ Se os poemas, propriamente ditos, de Voss há muito


tempo desapareceram, seu mérito, como tradutor e como
artista da língua [...], continuará a brilhar com tanto mais
esplendor.”

Humboldt:

Pode-se afimnar ter sido ele, Voss., quem introduziu a


Antiguidade clássica na língua alemã.5“

É, com efeito, um processo extremamente importante,


que leva a essa grecização da língua poética alem ã, o Griechis­
che der deutschen Sprache de que fala Hoffmannstahl e do
qual Hölderlin é o m elhor exemplo.
Uma vez estabelecida essa precedência da relação com
os Antigos, coloca-se, entretanto, um a questão que vai agitar
mais ou menos subterraneamente a cultura alem ã do Roman-
tismo até Nietzsche: quem está mais próximo de nós, os gregos
ou os romanos? Evidentemente que essa questão não é quase
nunca colocada desse modo. Por um lado, porque W inckel-
m ann ensinou a considerar a Antiguidade como um “todo",
am algamando assim os gregos e os romanos. Por outro lado,
porque do ponto de vista da originalidade e da Vorbildlichkeit,
da qualidade de modelo, os gregos ganham de longe.31 A Gré­

29. AL. Entretien sur la poésie, p. 309.


30. In: STÖRIG. Op. cit., p. 82.
31. “Nós não queremos possuir a cultura grega, é ela quem deve nos pos­
suir” (Herder, Briefen zur Beförderung der Humanität. In: Die Lust...,
p. 318). Comparar com o que escreve Hammer ein 1812 no prefácio de
sua tradução de Hafiz: “[O tradutor] quis menos traduzir o poeta persa
para o leitor alemão do que traduzir o leitor alemão para o poeta persa”
(Die Lust... p. 398).

91
cia é a terra natal da poesia e de seus gêneros, é o lugar de nas­
cimento da filosofia, da retórica, da história, da gramática, etc.
Sua precedência cultural é, portanto, total. M as, ao mesmo
tempo, ela parece conter em si um elemento profundamente
estranho à cultura moderna, que provavelmente rem ete à sua
relação com o mito. Se a Bildung grega constitui formalmente
um modelo, seu solo, a partir do instante em que nos aventu­
ramos a reconhecê-lo tal como ele é, não pode deixar de m a­
nifestar sua estranheza. F. Schlegel e Nietzsche, ambos filólo­
gos de formação, perceberam isso instintivamente:

F. Schlegel:

Os romanos estão mais próximos de nós e são mais in­


teligentes que os gregos.

Acreditar nos gregos é também uma moda da época.


Apenas gostamos demais de ouvir declamar sobre eles.
Mas chega alguém que diz: há alguns deles aqui - e todo
mundo fica desorientado.’2

Nietzsche:

Não há nada a aprender dos gregos - sua maneira é es­


tranha demais aos costumes, incompreensível demais
também, para que possa ter o efeito de um imperativo,
agir nos moldes de um classicismo.”

In versam en te, os rom anos podem p arecer m ais


próxim os, p recisam en te por causa do caráter derivado,
m isturado, m estiçad o de sua cultura e de sua lite ratu ra.
Para N ietzsch e, assim com o para os rom ânticos, está c la ­

32. AL, p. 86, p.l 38.


33. Crépuscule des idoles. Paris: Mercure de France, 1957. p. 183.

92
ro que a m istura dos gêneros, a paródia, a sátira, o recu r­
so às m ascaras, o jogo indefin ido com as m atérias e as for­
m as próprias à lite ratu ra alexan d rin a e à poesia latin a
são, no fundo, in fin itam en te m ais atraentes que a pureza
grega, seja ao considerarm os do ponto de vista da “perfei­
ção clássica” (G o eth e), seja ao perceberm os sua o rigin a­
lid ad e a rc a ic a (H ö ld erlin ). F. S ch leg el su b lin h o u bem
essa afin id ad e irresistível do R om antism o com o ecletis­
mo latin o:

O amor dos poetas alexandrinos e romanos por uma


matéria árida e pouco poética repousa, no entanto, sobre
esse grande pensamento: tudo deve ser poetizado; de
modo nenhum como intenção do artista, mas como ten­
dência histórica das obras. E a mistura de todos os gêneros
artísticos pelos poetas ecléticos da Antiguidade tardia
apóia-se nesta exigência: deve haver uma só poesia, como
uma só filosofia.”

É exatam en te o “program a” da A th en aü m . Vem


daí, provavelm ente, o gosto rom ântico pelo sincretism o e
a profusão das “sin ativid ad es” preconizadas por N ovalis e
F. S ch leg el (sim p o esia, sinfilosofia, sin crítica), em que o
elem en to d ialó gico im porta m enos que a p rá tica p lu ra l
das m isturas.
M as, nessas condições, a bela un id ad e do conceito
de A n tigu idade se fende: um abism o se abre ao mesm o
tempo entre os gregos e os rom anos e os gregos e os mo­
dernos. O u, de p referên cia, dois m odelos são propostos si­
m u ltan eam en te à B ildu n g: o sincretism o latin o , portador
de um “ap erfeiço am ento crescen te”, e a com pletude gre­
ga, im agem pura de um “ciclo n atu ral”.35

34. AL, p. 132.


35. AL. F. Schlegel (Sur la philosophie), p. 240.

93
M as há ainda outra coisa: o ecletism o romano tem seu
prolongamento histórico nessa literatura moderna que come­
ça com os trovadores, os ciclos medievais - tudo o que pode­
mos cham ar as literaturas romanas arcaicas - e que se expan­
de com Dante, Petrarca, Ariosto, Tasso, Boccacio, Calderon,
Cervantes, Lope de Vega, Shakespeare, etc. De modo que
um a filiação se apresenta: romanidade - culturas romanas —
gênero romanesco - romantismo. Essa é um a coisa da qual F.
Schlegel e Novalis estão perfeitamente conscientes:

Nossa antiga nacionalidade era, parece-me, autentica­
mente romana [...] A Alemanha é Roma enquanto país
[...] A política universal e a tendência instintiva dos roma­
nos também são. encontradas no povo alemão.’6

Filosofia romântica. Língua romana.’7

O romano/romance: tal é precisamente o campo de


ação romântico, o de suas críticas e de suas traduções, a partir
do qual eles edificam suas teorias da nova literatura.
Inversamente, os clássicos (Goethe, Schiller) e Hölder­
lin traduzem sobretudo os gregos, os primeiros porque se tra­
ta de modelos, o segundo porque estes representam em sua
trajetória cultural o inverso do “moderno”, o “estrangeiro”, e
que este últim o, diz Hölderlin, deve ser aprendido ao mesmo
tempo que o que nos é “próprio”.38
Vemos, portanto, delinear-se aqui, com uma precisão
resultante diretamente de escolhas culturais divergentes, o ho­
rizonte da tradução alem ã no fin a l do século 18, assim como o

36. NOVALIS. Grains de pollen. In: Schriften, II, Darmstadt, Samuel,


1965. p.437.
37. Id. Fragmente II, n. 1,921, p. 53.
38. Hölderlin, carta do dia 4 de dezembro de 1801, in: Remarques sur
Œdipe, remarques sur Antigone, Bibl. 10/18, Paris, 1965.

94
lugar, em todo o caso central, que lhe é reservado no campo cul­
tural concebido como Bildung. Seria possível, a partir de en-
tão, traçar um a espécie de m aba das traduções alem ãs ria épo­
ca, mapa diferencial, seletivo, hierárquico e, por assim dizer,
disjuntivo, no qual o “grego” e o “romano/romance”, o “puro”
e o misturado”, o “cíclico” e o “progressivo” de um a certa
m aneira se excluem .39 Essa oposição remete, aliás, à Q uerela
dos Antigos e dos Modernos, ao conflito do Clássico e do Ro­
mântico, às discussões sobre os gêneros poéticos e sobre os res­
pectivos papéis do teatro, da m úsica e da literatura na cultura
alem ã - discussões que agitarão essa cultura durante todo o sé­
culo 19 e para além dele. Basta pensar, a esse respeito, em
W agner, Nietzsche e Thomas M ann.
Antes de abordar a teoria romântica da Bildung e da
tradução, resta-nos ver como, em Goethe, o conjunto dessa
problemática atingiu sua figura mais clássica.

39. O que Kiopstoek exprimiu com brutalidade: “Não me falem mais de


traduzir alguma coisa do francês ou de alguma outra língua estrangeira;
por mais bonito que seja, vocês não têm mais esse direito. A única tradu­
ção que eu ainda permito a um alemão é uma tradução do grego”, ele
escreve a Gleim em 1769 (In: Littérature allemande. Paris: Aubier, 1970.
p. 354).

95
C A P Í T U L O

Goethe: tradução e
literatura mundial

Os tradutores são como esses casamenteiros plenos de zelo


que exaltam como totalmente digna de amor uma
jovem formosura meio nua: eles despertam uma
inclinação irreprimível pelo original.

Goethe, Kunst und Altertum,


Art. Ged. Ausgabe, v. 3, p. 554.

N enhum outro além de G oethe, na idade do Idealis­


mo alem ão, viveu com tanta intensidade essa n iultiplicida-
de de translações que im p lica a : Bildung; nirtguém mais
além dele contribuiu para dar desta üinäf"imagem harm o­
niosa, viva e com pleta. Enquanto as vidas dos rom ânticos e
de H ölderlin parecem como que devoradas p ela febre espe­
culativa e poética, a de G oethe deixa um a parte considerá­
vel ao que se poderia ch am ar de existência natural, que in­
clu i, 110 seu caso, tanto seus numerosos am ores, sua vida fa-

97
m iliar, sua incansável atividade em W eim ar, quanto suas
viagens, suas correspondências e seus diálogos. S ch iller
pôde caracterizá-lo como “o m ais com unicável de todos os
h om ens”.1 S u a obra é m arcada em relevo p ela m esm a di­
versidade rica e. vital: ele praticou todos os gêneros poéticos
e lite rários, pro duziu trabalhos que julgava estritam ente
cien tífico s, escreveu diários e m em ó rias, d irigiu revistas e
jornais^ Ausentes dessa am pla p aleta estão, é verdade, a crí­
tica e a especulação, apesar de ter escrito numerosos artigos
críticos e textos de aparência teórica, tíín com pensação, as
traduções, às quais um volum e de suas O bras com pletas é
consagrado, lh e pertencem do início ao fim : Benvenuto
C e llin i, D iderot, V oltaire, E urípides, R acine, C o rn eille, as­
sim com o num erosas traduções de poem as italianos, ingle­
ses, espanhóis e gregos. Adm itim os que essas traduções não
se distin guem por um a im portância particular. G oethe não
é nem Voss, n em H ölderlin, nem A. W . Sch legel. M as elas
são testem unhas de um a prática constante (para a qual um
co n h ecim en to das línguas desenvolvido desde a tenra in­
fância o predispunha), prática acom panhada por um a mas­
sa d e reflexões excepcionalm ente rica, dissem inada em
seus artigos, suas resenhas, suas introduções, seus diálogos,
seus diários e sua correspondência, e que encontrou suas
expressões m ais célebres em D ichtung und W ahrheit. No­
ten u n d A b han d lu n gen zu bessern Verständnis des West-Os-
tlichen D ivan s e Zu brüderlichen Andenken W ielands. Goe­
the tam b ém inseriu em duas de suas obras, W erther e W i­
lhelm M eister, fragmentos de traduções, o que não é, certa­
m en te, u m acaso. Mas isso não é tudo: poeta-tradutor, ele

1. STRICH, Fritz. Goethe und die Weltliteratur. Bema: Francke Verlag,


19 46. p. 54.

98
]

tam bém foi, m uito cedo, poeta-traduzido. E esse ser-tradu-


zido alim en tou nele um a reflexão absolutam ente cativante.
O fato de ter consagrado um poem a - E in G leichnis - ao
fato de ter podido se ler em um a lín gu a estrangeira e de
que, desde 1799, ele tenha pensado em realizar um a edi­
ção com parada das traduções dinam arquesa, inglesa e fran­
cesa de H erm ann e D orothée, mostra que ele viveu o ser-tra-
duzido com o um a experiência e n u n ca, é o que parece,
como um a satisfação narcisista de autor. As idéias de Goe­
the sobre a tradução, que são de um a enorm e diversidade,
nunca se reúnem sob a forma de um a teoria, mas possuem
um a coerência própria que deriva de sua visão da realidade
n atural, hum ana, social e cu ltural —visão que se funda­
m en ta, ela própria, em um a interpretação da N atureza
com o processo de interação, de participação, de reflexo, de
troca e de metamorfose. É impossível aqui estudar a fundo
, essa interpretação. Escolhem os, de preferência, abordar a
reflexão goetheana sobre a tradução a partir de um concei-
í to que aparece nele tardiam ente (1827) e ao qual ele deu
i seus títulos de nobreza: o de W eltliteratur, de literatu ra
¡m undial. Essa reflexão integra-se, com efeito, quase que in ­
teiram ente em um a certa visão das trocas interculturais e
internacionais. A tradução é o ato sui s.eneris que en carn a,
ilustra e tam bém perm ite esses intercâm bios, sem ter, bem
e ntendido, o m onopólio deles. Existe um a m ultiplicidade
de atos de translação que asseguram a plenitude das intera­
ções vitais e naturais entre os indivíduos, os povos e as na­
ções, interações pelas quais estes constroem sua identidade
própria e suas relações com o estrangeiro. O interesse de
G oethe vai desse fenôm eno vital e originário que é o inter­
câm bio até suas manifestações concretas. De um modo ge­
ral, seu pensam ento tende a perm anecer no nível dessas

99
m anifestações concretas, apesar de sem pre detectar nelas
“o eternam ente um que se m anifesta m u ltiplam en te”.2
G oethe fundam entou sua visão nesse duplo princípio: in ­
teração e revelação, na e p ela interação , do “geral” e do
“su b stan cial”. Da N atureza, ele já escreve em 1783:

Cada uma de suas obras tem seu ser próprio, cada uma
. de suas manifestações sua idéia mais particular e, no en­
tanto, tudo isso forma um Unico.’

Jtr
M uito cedo tam bém , ele copiou para seu uso pes­
soal esse texto de Kant:

Princípio da simultaneidade segundo a lei da ação recí­


proca ou comunidade. Todas as substâncias, na medida
em que podem ser percebidas ao mesmo tempo no espa­
ço, estão em contínua interação.1

E le declara em outro lu gar:

O homem não é um ser que ensina, mas um ser que


age, vive e faz. E somente na ação e na interação que en­
contramos nossa satisfação.5

A essa visão do presente co-agente é preciso acrescen­


tar a percepção do único no diverso:

Em cada ser particular, seja ele histórico, mitológico,


fabuloso ou mais ou menos arbitrário, o geral será sempre
mais notado.6

2. Ibid., p. 26.
3. Fragment sur la Nature. In: Pages choisies de Goethe. Paris: Sociales,
1968. p. 350.
4. In: STRICH. Op. cit., p. 24.
5. Ibid., p. 56.
6. Ibid., p. 26.

100
O mesm o princípio rege a sua pesquisa do “H om em
originário”, da “Planta o rigin ária” ou, m ais profundam en­
te, a do “Fenôm eno originário”, do U rphãnom en. Tradu­
ção e W eltliteratu r são pensadas nessa dupla dim ensão.
O que é então a literatura m undial? Não se trata da
totalidade das literaturas passadas e presentes acessíveis a
u m olhar enciclopédico, não m ais que da totalidade, m ais
restrita, das obras que, com o as de Homero, de C ervantes
ou de Shakespeare, atingiram um status universal pelo fato
de terem se tom ado o patrim ônio da hum anidade “c u lta ”.
A noção goetheana de W eltliteratu r é um conceito históri­
co que diz respeito ao estado moderno da relação entre as
diversas literaturas nacionais ou regionais. Nesse sentido,
m elhor falar da idade d a literatu ra m u n d ial. É_a idade em
que essas literaturas não se contentam m ais em entrar em
in teração ífenôm eno que m ais ou m enos sem pre existiu),
m as concebem abertam ente su a existência e seu desdobra­
m ento no âm bito de um a interação incessantem ente inten­
sificad a. A aparição de u m a W eltliteratu r é contem porânea
d aquela de um W eltm arkt, de um m ercado m undial de pro­
dutos m ateriais. C om o diz Strich,

ela é um intercâmbio de bens espirituais, um comércio de


idéias entre os povos, um mercado mundial literário, no
qual as nações trocam seus tesouros espirituais. O próprio
Goethe empregou tais imagens, tiradas do mundo do co­
mércio e da troca, para esclarecer sua idéia da literatura
mundial.7

A aparição da literatura m undial não significa o fim


das literaturas nacionais: é a sua entrada em um espaço-
tempo, no qual elas agem um as sobre as outras e procuram

7. Ibid.,p. 17.

101
esclarecer mutuamente suas imagens. Goethe, entre 1820
e 1830, exprimiu-se com clareza a esse respeito:

A literatura nacional não significa mais grande coisa -


| agora, é chegado o momento da literatura mundial e cada
| um deve se empenhar em apressar a vinda dessa época.
| (Conversa com Eckemiann, 31 de janeiro de 1827)

Se nos arriscamos a anunciar um a literatura européia,


até mesmo um a literatura mundial e universal, isso não
quer dizer que as diferentes nações tomem mutuamente
conhecim ento de si mesmas e de suas cmações, pois nesse
sentido a literatura mundial já existiria há muito tempo
[...] Não! Trata-se antes, aqui, do fato de que os homens
de letras vivos [...] se conhecem mutuamente e se sentem
conduzidos, por inclinação e por senso de comunidade, a
agir socialmente (gesellschaftlich).*

A literatura mundial é, assim, a coexistência ativa de


todas as literaturas contemporâneas. Essa contemporaneida-
de, ou essa sim ultaneidade, é absolutamente essencial no
conceito de Weltliteratur.

Strich:

A literatura mundial é o espaço espiritual no qual os


contemporâneos, qualquer que seja sua nacionalidade, se
encontram , se associam e agem em comum.®

Goethe escreve ainda:

Q uando voltamos na história, encontramos em todos os


lugares personalidades com as quais nos entenderíamos e
outras com as quais certam ente entraríamos em conflito.
M as o essencial permanece, todavia, o contemporâneo, por­
que ele se reflete mais puramente em nós e nós nele.9

8. Ibid., p. 24.
9. ibid., p. 25. Grifo nosso.

102
A coexistencia ativada e consciente das literaturas
contemporâneas im plica uma modificação da relação con­
sigo e com o outro. Se ela não provoca o apagamento das
diferenças, exige seu intercâmbio intensificado. Tal é, para
Goethe, a essência da modernidade.
Nesse novo espaço que se anuncia, as traduções de­
sempenham um papel primordial. Goethe escreve a Carly­
le, em 1828, a respeito da tradução inglesa de seu Torqua­
to Tasso:

G ostaria, todavia, de saber de você em que medida


esse Tasso pode valer como um texto inglês. Ficaria
m uito grato por m e esclarecer e m e inform ar sobre isso.
Pois essas relações do original com a tradução são pre­
cisam ente as que exprimem m ais claram ente as rela­
ções de nação para nação e que devemos conhecer e
julgar de preferência [...] para o avanço [...] da literatu­
ra m undial."’

O que significa fazer da tradução, senão o modelo,


ao menos a pedra de toque da literatura m undial. O pen­
samento goetheano oscila aqui entre dois pólos: promover
um a inter-tradução generalizada ou considerar a língua e
a cultura alemãs como o m edium privilegiado da literatu­
ra m undial. Nos dois casos, a tarefa do tradutor permane­
ce primordial:

Aquele que com preende e estuda a língua alem ã en­


contra-se no mercado em que todas as nações oferecem
suas mercadorias, faz o papel de intérprete na medida
em que ele próprio se enriquece. Assim, é preciso consi­
derar cada tradutor como um mediador que se esforça
em promover esse intercâmbio espiritual universal e que
se dá como tarefa fazer progredir esse com ércio genera­
lizado. O que quer que se possa dizer da insuficiência do

10. Ibid., p. 20-1.

103
traduzir, essa atividade não deixa de ser um a das tarefas
m ais essenciais e mais dignas de estim a do m ercado de
intercâm bio m undial universal. O C orão diz: Deus deu
a cada povo u m profeta em sua própria lín gua. Assim,
cada tradutor é um profeta para seu povo."

Em outro lugar, ele escreve:

Pois é a destinação do alem ão elevar-se ao estado de re­


presentante de todos os cidadãos do m undo.12

Segundo essa última direção de pensamento, o espaço


cultural alemão, um a vez que a tradução o abriu sempre mais
aos espaços culturais estrangeiros, poderia se tornar o “mercado
de troca” por excelência da Weltliteratur. Forçando um pouco
as coisas, poderíamos dizer que a língua alemã tomou-se, às ve­
zes, para Goethe, a língiia-da-tradução. Aliás, é o que se encon­
tra expresso em um a de suas conversas com Eckermann. As pa­
lavras de Goethe têm aqui uma certa insipidez, que deixa pen­
sar que ele não acreditava totalmente no que dizia:

Não se pode negar [...] que quando alguém compreen­


de bem o alem ão, pode se privar de muitas outras línguas.
Não falo aqui do francês, que é a língua da conversação e
é particularm ente indispensável em viagens, porque todo
m undo a com preende e pode-se empregá-la em todos os
países no lugar de um bom intérprete. M as no que diz res­
peito ao grego, ao latim, ao italiano e ao espanhol, pode­
mos ler as melhores obras dessas nações em traduções ale­
mãs tão boas que não temos mais nenhum a razão [...] de
perder tempo com o penoso aprendizado das línguas.1’

11. Ibid., p. 18.


12. Ibid., p. 30.
13. ECK E RM A N N . Gespräche mit Goeth. Berlin»: Aufbau Verlag,
1962. p. 153-4.

104
O texto que colocamos como epígrafe deste capítu­
lo poderá utilm ente - e ironicam ente - corrigi-lo. Não
há dúvidas de que Goethe tem consciência do papel pri­
m ordial da tradução para a cultura alem ã: assim como a
França formou sua língua para que fosse a “língua do
m undo” (intercâm bios intelectuais e diplomáticos, até
aristocráticos), os alem ães educaram a sua para que fosse
essa lín gua na qual as outras línguas pudessem fazer res­
soar a própria voz de suas obras. Eis um processo que
está, por assim dizer, acabado para Goethe em 1830, um
processo que ele teve todo o prazer de ver se realizar em
todo o decorrer de sua vida. M as essa constatação histó­
rica — que reencontramos em Schleierm acher, Hum-
boldt e Novalis - não dá realm ente a idéia de que deva
existir um médium único da W eltliteratur, um a espécie
de “povo eleito” da literatura m undial e da tradução. A
W eltliteratur é, muito mais, a idade da inter-tradução g e-'
neralizada, na qual todas as línguas aprendem , a seu pró­
prio modo, a ser línguas-de-tradução e a viver a experiên­
cia da tradução. Processo que Goethe via se manifestar
nos anos 1820-1830 na França e na Inglaterra com, pre­
cisam ente, a tradução da literatura alem ã (a com eçar por
ele m esm o, S ch iller e Herder) e ao qual ele prestava a
m ais extrem a atenção.
Isso im plica, em prim eiro lugar, que, em toda a
parte, a tradução seja considerada como uma tarefa es­
sen cial, digna de estima e, na verdade, como parte da li­
teratura de uma nação. O fato de que Goethe a tenha
considerado assim é o que atesta um a anedota bem no­
tável. Em 1808, ou seja, em plena dominação napoleô-
n ica, certos intelectuais quiseram compor urna coletâ­
n ea das m elhores poesias alem ãs conhecidas pelo

105
“povo”. A intenção nacionalista da proposta era confes­
sa.14 Os autores da futura coletânea pediram conselho a
Goethe para a escolha dos poemas. O único conselho
que este lhes deu foi o de in clu ir também traduções ale­
mãs de poemas estrangeiros, prim eiram ente porque a
poesia alem ã devia ao estrangeiro o essencial de suas for­
mas —e isso desde suas origens - , depois porque se trata­
va, a seu ver, de criações pertencentes autenticam ente à
literatura nacional.
Uma vez assegurados os direitos^ a dignidade e a po­
sição da tradução, Goethe pôde dar o que mais se pareceria
com um a teoria da tradução, sob a forma de uma reflexão
sobre as idades ou os modos desta, reflexão absolutamente
paralela, como veremos, àquela que ele realizou sobre as
“épocas” da Bildung. Se a Bíldung é esse processo no qual a
relação consigo se consolida pela relação com o estrangeiro
e produz um equilíbrio das duas relações por um a passagem
gradua] da infecunda reclusão em si para a interação viva, a

14. A posição goetheana em relação ao nacionalismo está expressa desde


1801 na revista Propylées: ‘Talvez fiquemos logo convencidos de que não
existe arte patriótica e ciência patriótica. Todas as duas pertencem, como
tudo o que tem algum valor, ao mundo inteiro e só podem ser cultivadas
por um a ação recíproca livre e universal de todos os contemporâneos vi­
vos, guardando constantemente no espírito o que nos resta do passado e o
que nos é conhecido dele" (ln: STR1CH. Op. cit., p. 49). O nacionalismo,
de fato, questiona toda a visão das interações culturais de Goethe, o que
não quer dizer que este defenda um cosmopolitismo oco e abstrato. “Não
se cogita que as nações pensem todas da mesma forma. Elas devem somen­
te prestar atenção às outras, se compreender e, se elas não puderem se
amar, que pelo menos consigam se suportar” (ibid., p. 26). “Devemos co­
nhecer as particularidades de cada um para deixá-las a eles e poder preci­
samente entrar em relação com ele; pois as particularidades de uma nação
são como sua língua e suas unidades monetárias, elas facilitam o intercâm­
bio e até a tomam em primeiro lugar possível” (ibid., p. 26).

106
]

tradução, como exemplo dessa relação, é marcada por eta­


pas, as quais se podem considerar como períodos históricos,
ou como momentos e modos, destinados a se repetirem in­
definidamente na história de uma cultura:
l
Há três tipos de tradução: A primeira nos faz conhecer o
estrangeiro em nosso sentido; para isso, nada melhor que a
simples tradução em prosa [...]
Uma segunda época vem em seguida, em que nos esfor­
çamos, é verdade, para nos adaptar às manifestações da
existência estrangeira, mas em que, na realidade, só procu­
ramos nos apropriar do espírito estrangeiro, porém trans­
pondo-o para nosso espírito. Eu cham aria essa época de
parodística, tomando esta palavra em sua significação mais
pura [...] Os franceses empregam esse procedimento na
tradução de todas as obras poéticas [...] O francês, do mes­
mo modo que adapta ao seu falar as palavras estrangeiras,
faz o mesmo com os sentimentos, os pensamentos e até os
objetos; ele exige, a qualquer preço, que para cada fruto es­
trangeiro haja um equivalente que tenha crescido ern sua
própria região [...]
Mas como não se pode perseverar por muito tempo nem
no perfeito, nem no imperfeito, e uma transformação sem­
pre deve suceder a outra, chegamos a um terceiro período
que poderia ser nomeado o supremo e últim o período,
aquele em que gostaríamos de deixar a tradução idêntica
ao original, de modo que ela pudesse valer não no Jugar
(nicht anstatt des andem) do outro, mas em seu próprio lu­
gar (an der Stelle).
Esse modo de tradução encontra de início a maior resis­
tência; pois o tradutor que acompanha de perto seu origi­
nal renuncia mais ou menos à originalidade de sua nação
e resulta disso um terceiro termo ao qual é preciso que o
gosto do público comece por se adaptar [...]
Mas como, em cada literatura, esses três períodos se re­
produzem, às vezes no sentido inverso, e os três modos de
tradução podem ser praticados ao mesmo tempo, um a ver­
são em prosa do Chah Nameb e das obras de Nisami esta­
ria sempre em seu lugar [...]
Agora, seria tempo de dar um a tradução da terceira es­
pécie, que reproduziria os diversos dialetos, as particulari­
dades próprias do ritmo, do metro e da prosa do texto e nos

107
permitiria experim entar e saborear de novo esse poema em
sua plena originalidade [...]
M as a razão de tennos chamado a terceira época de a úl­
tima é o que vamos indicar em poucas palavras. Um a tra­
dução que visa a se identificar com o original tende a se
aproximar, .1 10 final das contas, da versão interlinear e faci­
lita altam ente a compreensão do original; nesse sentido,
somos de algum a maneira involuntariamente levados de
volta ao texto primitivo, e assim se fecha finalmente o ciclo
que se opera com a transição do estrangeiro ao fam iliar, do
conhecido ao desconhecido.15

Esse texto célebre oferece a expressão mais completa


do pensamento clássico alemão sobre a tradução. Nem
Schleiermacher, nem Humboldt puderam superá-lo. Ele re­
quer alguns comentários. Em primeiro lugar, Goethe apresen­
ta os três modos de tradução como modos históricos, ligados
cada um a um certo estado da relação com o estrangeiro. Mes­
mo que o terceiro modo seja considerado “supremo” e “últi­
mo”, ele não constitui, simplesmente por isso, um modo dia-
leticamente superior aos dois outros e, particulamiente, ao se­
gundo. Ele é na verdade “supremo” enquanto constitui uma
última possibilidade do traduzir (a versão interlinear conscien­
te de si mesma) e enquanto com ele se inicia a curva do ciclo
pelo qual tudo volta ao ponto de partida. Do modo um ao
modo três, é toda a translação do próprio ao estrangeiro que se
completou, e para Goethe é evidente que não há outros mo-

15. Le divart occidental-oriental, p. 430-33. O esquem a proposto aqui por


Goethe é tnádico, conforme a noção de Bildung. No texto dedicado a
W ieland, ele é d u al, com o em Schleierm acher, que, aliás, apenas o de­
senvolve rnais sistem aticam ente: “Há duas m áxim as da tradução: um a
pede que o autor de u m a nação estrangeira seja trazido até nós, de tal
modo que possamos considerá-lo como nosso; o outro, em com pensa­
ção, exige que possamos nos dar ao estrangeiro [...] As vantagens das
duas m áxim as são suficientem ente conhecidas por todos os hom ens cu l­
tos através de exem plos memoráveis" (ln : STÕ RIG. Op. cit., p. 34).

108
dos possíveis. Segundo os'diferentes domínios da tradução, es­
ses modos podem, além disso, coexistir: a tradução dos textos
orientais, por exemplo, não está situada no mesmo tempo que
a tradução dos gregos ou de Shakespeare. Mas o que impede
Goethe de privilegiar o terceiro modo, como teríamos tendên­
cia a fazê-lo no século 20, são dois pontos que o texto do Divã
não aborda, mas que o poeta evocou em outro lugar. O pri­
meiro é a relação da tradução com o intraduzível:

Na tradução, escreve ele em 1828 ao chanceler von


M u ller, não se deve entrar em um a luta im ediata com a
língua estrangeira. Deve-se chegar até o intraduzível e
respeitar este últim o; pois é a í que residem o valor e a
personalidade de cada lín g u a.16

A mesma observação é consignada em M aximen und


Reflexionen:

Na tradução, deve-se chegar até o intraduzível; é so­


mente então que se toma consciência da nação estrangei­
ra e da língua estrangeira.17

Ora, o terceiro modo de tradução do Divã parece mes­


mo empenhar-se em uma luta imediata com a língua estran­
geira e tender, precisamente, a traduzir o intraduzível, em
um combate que faz lembrar o “combate espiritual” de Rim-
baud. O intraduzível, na realidade, não é isso ou aquilo, mas
a totalidade da língua estrangeira em sua estranheza e sua di­
ferença. Essa diferença, Goethe procura respeitá-la (é todo o
sentido de seu humanismo), mas também relativizá-la na me­
dida em que, apesar de constituir o valor e a originalidade da
língua estrangeira, ela não é forçosamente essencial para ele.
Foi nesse sentido que ele julgou as tentativas contemporâneas

16. STRICH . Op. c it.,p . 19.


17. Literatur und Leben, v. 9, Art. Ged. Ausg., p. 633.

109
—notadamente as de A. W. Schlegel —de tradução em verso,
e não em prosa, da poesia estrangeira, tentativas cuja legitimi­
dade pode nos parecer evidente, mas que pareceriam na épo­
ca revolucionarias: todo o evangelho de tradutor de A. W.
Shlegel se baseia nisso. Ora, essas tentativas repousam sobre
um a valorização absoluta da forma poética, valorização que
Goethe repugna efetuar, primeiramente porque não admite
separar fonna e conteúdo, em seguida, e sobretudo, porque
atribui um valor, pode-se dizer, transcendental ao conteúdo -
bem entendido, o conteúdo não é aqirt»o que seria simples-
mente apreensível além da forma em urna obra, mas alguma
coisa de mais misterioso. Poderíamos dizer que o conteúdo é
para a forma o que a Natureza é para suas manifestações.
Dois textos de Goethe, em Dichtung und Wahrheit, explici­
tam sua posição a esse respeito:

Respeito o ritmo tanto quanto a rim a, pelos quais ape­


nas a poesia se torna poesia, mas o que há de eficaz no
sentido mais profundo e mais fundam ental, o que é for­
mador e gerador de progresso é o que perm anece do
poeta quando ele é traduzido em prosa. Pois resta então
o puro conteúdo realizado ,ls

C ertam ente, na continuação desse texto, Goethe


apresenta a tradução prosaica da poesia como um pri­
m eiro grau e dá como exem plo dela a tradução luterana
da Bíblia. M as não há duvida de que, colocando adiante
o “puro conteúdo realizado” como princípio “eficaz” e
“formador”, ele justificou am plam ente esse gênero de
tradução. Em um a outra passagem de D ichtung und
W ahrheit - que trata igualm ente da Bíblia e de Lutero -
ele desenvolve sua visão do “conteúdo” da obra:

18. Ibid., p. 540. v. 10. Grifo nosso.

110
Em tudo o que nos é transmitido e, particularmente,
por escrito, o que importa é o fundo, o ser íntimo, o sen­
tido, a direção da obra; é lá que se encontra o que é origi­
nal, divino, eficaz, intangível, indestrutível; nem o tempo,
nem as influências, nem as condições exteriores têm con­
trole sobre esse fundo primitivo, pelo menos não mais do
que a doença do corpo tem sobre uma alma bem feita. A
língua, o dialeto, os idiotismos, o estilo e, enfim, a escritu­
ra deveriam, portanto, ser considerados como o corpo de
toda obra do espírito [...]
Buscar a natureza íntim a, a originalidade de uma obra
que nos agrada particularmente é, portanto, a ocupação
de cada uin e, para isso, antes de qualquer coisa, é preciso
examinar o que ela é em relação à nossa alm a e até que
ponto essa força viva excitará e fecundará a nossa; eín
compensação, todo o exterior, que fica sem ação sobre nós
ou sujeito a uma dúvida, não há outra solução senão aban-
doná-lo à crítica que, mesmo sendo capaz de retalhar e
dispersar o conjunto, no entanto nunca conseguiria nos
arrebatar o fundo propriamente dito, com o qual nos im ­
portamos muito, e nem nos perturbar um instante em
nossa confiança já estabelecida.1’

Esse fundo da obra parece o oposto do intraduzível, se


for precisamente o que, nela, tem definitiva e imediata in­
fluência sobre nós, o que a torna falante para nós, sua
Sprachlichkeit profunda. Disso pode se deduzir a natureza
relativa da tradução vinculada às diferenças da obra, assirn
como a natureza derivada e secundária da crítica. Inversa­
mente, quando a forma se torna o privilégio absoluto, como
nos românticos, traduções poética e crítica adquirem uma
posição primordial.
O esquema triádico goetheano se esclarece sob outro
prisma quando o confrontamos a outros textos, estes consa­
grados à Bildung. Quanto ao resto, não há dúvida de que a
maior parte das reflexões que Goethe consagrou à tradução

19. GOETHE. Ses Mémoires et sa vie. Paris: Le Signe, 1980. p. 17. t.


está inserida nesse quadro. Ura texto escrito pouco antes de
sua morte, em 1831, intitulado Epochen geselliger Bildung,
épocas da formação social, ou sociável, distingue quatro
momentos desta. O primeiro corresponde mais ou menos
a esse estado da língua “virgem” evocada por Herder. Os
outros três correspondem aos modos do Divã:

I. Em um a massa mais ou menos grosseira surgem cír­


culos estreitos de homens cultos; as relações são muito ín­
timas, só se confia no amigo, só se canla a bem -amada,
tudo tem um aspecto fam iliar e domésti»o. Esses círculos
se fecham para o exterior e devem agir assim, pois eles pre­
cisam estar tranqüilos no elem ento grosseiro de sua exis­
tência. Eles se apegam tam bém de preferência à língua
materna, e é por isso que essa época é cham ada, com m ui­
ta precisão, época idílica.
II. Esses círculos estreitos crescem [...] a circulação inter­
na toma-se m ais viva, não se recusa mais a ação das línguas
estrangeiras, os círculos permanecem separados, mas se
aproximam [...] chamaria essa época de social 011 cívica.
III. Finalm ente, os círculos crescem e se alargam sem­
pre mais, entram em contato e se preparam para fundir-
se. C om preendem que seus desejos, suas intenções são os
mesmos, mas não podem ainda dissolver os lim ites que os
separam. Essa época poderia se cham ar a mais geral.
IV. Para que ela se tom e universal, é preciso essa felici­
dade e essa fortuna das quais podemos agora nos vanglo­
riar [...] Foi preciso um a influência superior para produzir
o que vivemos hoje: a união de todos os círculos cultos
que anteriorm ente não faziam outra coisa senão entrar em
contato [...] Todas as literaturas estrangeiras estão coloca­
das em igualdade, e não ficamos na esteira dos outros no
curso do m undo.2"

Se substituirmos aqui a palavra círculo por nação,


teremos exatam ente o processo que leva à constituição da
W eltliteratur. Na introdução da revista Propylée s, Goethe

20. In: STRICH . O p. cit., p. 65.

112
aborda sob um ângulo diferente a relação do próprio e do
estrangeiro, descrevendo o que poderíamos cham ar de lei
da oposição:

Não nos formamos quando nos contentamos em mobi­


lizar com leveza e comodidade o que há em nós. C ada ar­
tista, como cada hom em , é somente um ser particular e,
como tal, sempre dependente de um lado. E por isso que
o hom em deve também acolher nele, na teoria e na prá­
tica, tanto quanto isso lhe seja possível, o que é oposto à
sua natureza. Q ue o frívolo busque o sério e o severo, que
o severo tenha diante de seus olhos um ser leve e fácil, que
o forte seja medido pelo delicado, o delicado pela força, e
cada um desenvolverá ainda mais sua natureza porque pa­
recerá afastar-se de si mesmo.21

Aqui, a relação com o estrangeiro aparece como o


encontro do que nos é oposto, como a cultura do que é an­
tagonista à nossa própria natureza. Tal é, por exemplo, para
Goethe, a relação mútua da cultura francesa e da cultura
alem ã no início do século 19. A Unbãndigkeít alem ã, a
não-sujeição, pode apenas ajudar a cultura francesa a se li­
bertar da armadura de seu classicismo. Mas, inversamente,
a “versatilidade” alem ã tem tudo a ganhar com o rigor for­
mal dos franceses: assim, cada um a dessas culturas deve
buscar no outro o que ao mesmo ternpo lhe falta e o que
lhe é mais oposto. A relação com o estrangeiro é, pois, ca­
racterizada pelo fato de que se busca nele um a diferença
ela própria determinada. Além do mais, a cena da relação
do próprio e do estrangeiro é dominada pelo que, além de
sua oposição, é o elemento de sua coexistência possível: o
estrangeiro nunca é sènão um alter ego e, inversamente, eu
sou o estrangeiro de um a m ultiplicidade de alter ego. O

21. Ibid., p. 55.

113
que faz com que a relação com o estrangeiro seja antes de
tudo um a relação de contemporaneidade: não pode haver
comércio e interação com os mortos.
Todavia, a contemporaneidade dos alter ego precisa
estar fundam entada em um terceiro termo, um termo abso­
luto, pode-se dizer, ao qual todos possam se referir e que
constitui seu fundo: esse fundo, no caso das culturas, deve
ser ele mesmo uma cultura, mas um a cultura que seja a ex­
pressão imediata da Natureza. Essa cultura é a cultura gre­
ga. Os gregos representam para GoethíTa humanidade e a
Bildung realizadas. Do mesmo modo que é sempre neces­
sário voltar à Natureza, é sempre necessário, no ciclo da
Bildung, voltar aos gregos. E o que o poeta declara no dia
31 de janeiro de 1827 a Eckermann:

[...] estimando assim o que é estrangeiro, não devemos


nos apegar a alguma coisa de particular e querer conside­
rá-lo como um modelo, seja a literatura chinesa, ou sérvia,
seja Calderón ou os Nibelungen, mas quando precisamos
de um modelo, devemos nos voltar para os antigos gregos,
cujas obras representam sempre o homem harmonioso.
Devemos considerar o resto unicam ente sob o aspecto his­
tórico e nos apropriar, em toda a medida do possível, do
que há de bom nele.22

A alusão a Calderón e aos Nibelungen é um a crítica


apenas fantasiada da multi-abertura romântica para as lite­
raturas estrangeiras. De fato, os gregos ocupam para Goe­
the um lugar de Urbild e de Vorbild no processo da
Bildung, e esse lugar nunca é discutido por ele. A Grecida-
de é essa manifestação do Eternamente Urn, do Homem
originário, a partir da qual se podem medir todas as cultu­
ras, quer se trate da Germanidade, da Galicidade, da Italia-

22. Ibid., p. 101.

114
nidade ou até mesmo da Latinidade. Todo o resto é “históri­
co”, seja no sentido de passado (sentido para Goethe depre­
ciativo), seja no de contemporâneo. Reencontrarnos aqui en­
tão, uma vez mais, o duplo plano do pensamento goetheano:
Eternidade e Contemporaneidade. Duplo plano que ele reú­
ne no conceito de Natureza.23
A tradução dos gregos, tal como a executam Voss e
Humboldt, este sob a influência direta de Goethe e de
S chiller, revela assim, no espaço seletivo do traduzível,
um a precedência natural. E por isso que Goethe acolheu
com um mau humor crescente a massa das traduções ro­
m ânticas, que não diziam respeito nem aos gregos, nem,
como Strich assinala justam ente, aos contemporâneos:

Pois bem : o Romantism o alem ão tam bém traduziu


de todas as literaturas; mas o que traduziu? D ante, Pe­
trarca, Cervantes, Shakespeare, C alderón, os antigos
hindus. Os próprios contem porâneos das outras nações
perm aneceram quase excluídos do círculo de interesse
do Romantismo alem ão. E le só conhecia o tempo como
sucessão, no fundo só como passado e não com o sim ul­
taneidade e co-sim ultan eidade, com o com unidade
temporal de hom ens vivendo juntos no presente.“

Ele via nisso, com razão, um a outra concepção da


literatura universal. O fato é ainda mais surpreendente
porque, a título pessoal, ele reconhecia plenam ente sua
dívida para com Shakespeare ou Calderón. De seu ponto

23. “Tudo sempre existe nela [...] O presente é sua eternidade” (Pages
choisies, p. 352).
24. In: STRICH . Op. cit., p. 24. Esta observação, justa em si mesma,
está, entretanto, longe de esgotar o problema. Os românticos têm unia
outra percepção do presente em relação a Goethe. M as não podemos
qualificá-los de passadistas. Eles são de preferência futuristas. Ver nosso
capítulo sobre SC H LE CE L, A. W.

115
de vista, os românticos desembocavam em um espaço ao
mesm o tempo passadista e —sobretudo —perigosamente
sincrético. Reencontramos aqui a oposição assinalada
m ais acim a entre as duas visões da Bildung e a estrutura­
ção disjuntiva do campo da tradução. A reserva de Goe­
the, mais um a vez, é ainda mais notável porque as refle­
xões do D ivã propõem um a visão dos modos da tradução
que não difere da de A. W. Schlegel e de Schleierm acher.
M as o Ubersetzungtalent e a vontade rom ântica de tudo
traduzir são com pletam ente exteriores a Goethe.
Se existe um a diferença essencial entre a tradução
dos contemporâneos e a dos autores do passado, isso é
algo que Goethe poderia nos ensinar a avaliar melhor. Do
passado, só temos as obras. Do presente, temos os autores
e tudo o que isso im plica de possível interação viva. Mas
há mais. A contem poraneidade significa que a língua tra­
duzida pode tam bém traduzir, que o traduzinte pode tam ­
bém ser traduzido, que a lín gua, a obra e o autor traduzi­
dos podem viver o ser-traduzido. Ou ainda: se considerar­
mos o traduzir como um a interação entre duas línguas, a
contem poraneidade produz um duplo efeito: a língua tra­
duzinte se m odifica (é o que se observa sempre em pri­
meiro lugar), mas igualm ente a lín gua traduzida. Compe­
te a Goethe o fato de ter se debruçado sobre a totalidade
do jogo do traduzir e do ser-traduzido no espaço da con­
tem poraneidade, de ter medido suas manifestações psico­
lógicas, literárias, nacionais e culturais. O traduzir é ago­
ra tomado no vasto ciclo do se-traduzir. Esse fenômeno,
por sua vez, se reproduz em todos os níveis da translação
cultural (críticas, em préstimos, “influências”, etc.). Goe­
the oferece-nos assim um a visão global das relações mú­
tuas do próprio e do estrangeiro, nas quais se trata do que
é para o estrangeiro o seu próprio e, portanto, de sua rela­

116
ção com esse estrangeiro que nosso próprio é para ele. Po­
deríamos até afirmar: antes da idade da W eltliteratur, a re­
lação com o estrangeiro é ou de recusa, ou de não-reco-
nhecim ento, ou de anexação desfigurante ou “parodísti­
ca” (caso dos romanos, da cultura francesa até o século
19), ou de acolhida fiel e respeitosa (caso da Alem anha a
partir da segunda m etade do.século 18). Com a chegada
da literatura m undial, a relação torna-se mais com plexa,
na medida em que as diversas culturas buscam, a partir de
então, contemplar-se no espelho dás outras, a buscar ne­
las o que não podem encontrar em si mesmas. A com­
preensão de si não passa mais pela compreensão do estran­
geiro, mas pela que o estrangeiro tem de nós. E a versão
goetheana do reconhecim ento mútuo de Hegel, da qual o
poeta não exclui de forma algum a a luta evocada em A fe­
nomenología do espírito.
Essa relação recíproca do próprio e do estrangeiro,
Goethe procurou formulá-la recorrendo a vários concei­
tos, que dizem respeito prim eiram ente à tradução, mas
também a outras relações interculturais ou interlineares
como a crítica: trata-se dos conceitos de Theilnahme, de
participação, de Spiegelung, de reflexo, de Verjiingung, de
rejuvenescimento, e de Auffrischung, de regeneração. A
participação indica um certo tipo de relação que é ao
mesmo tempo de intervenção ativa e de engajam ento, ao
contrário da influência, Influenz, relação passiva que
Goethe sempre julgou severamente, aproximando-a da
doença do mesmo nom e, a Influenza. Assim ele declara
que C arlyle mostra

um a participação p acífica, clara e íntim a nas estréias


poéticas e literárias alem ãs; ele abraça os esforços
m ais próprios da nação , deixa valer cada indivíduo em
seu próprio lu g ar e esclarece assim , de um a certa ina-

117
n eira, o conflito inevitável que se produz na literatura
de um povo. Pois viver e agir significa igu alm en te to­
m ar partido e atacar [...] Se o horizonte de urna lite ­
ratura in terio r se ab ala freqüentem ente por causa des­
se con flito durante numerosos anos, o estrangeiro d ei­
xa a p oeira, as nuvens e as brum as se dissiparem [...] e
avista essas regiões longínquas todas ilu m inad as d ian ­
te d e le , com seus locais de sombra e de lu z, nessa
tran q ü ilid ad e de alm a sem elhan te àqu ela com a qu al,
em um a noite m uito clara, estam os habituados a con­
tem p lar a lu a .25

Assim as literaturas estrangeiras tornam-se m edia­


doras nos conflitos internos das literaturas nacionais e
lhes oferecem um a im agem delas mesmas que elas não
saberiam ter. Goethe desempenhou esse papel, por exem­
plo, nos conflitos que opunham clássicos e românticos
na Itália. Esse tipo de intervenção estrangeira em um a li­
teratura nacion al rem ete, por sua vez, às noções de refle­
xo e de regeneração:

As literaturas nacionais exauridas, anota ele em 1827,


são regeneradas pelo estrangeiro.

E mais decisivamente:

C ad a literatura acaba por se aborrecer consigo mesma,


se não for regenerada por um a participação estrangeira.
Qual sábio não goza das maravilhas que vê produzidas
pelo reflexo e pela reflexão? E o que significa um reflexo
no domínio moral, cada um o viveu, mesmo que de m a­
neira inconsciente, e compreenderá, assim que tiver pres­
tado atenção nisso, que lhe é devedor de urna grande par­
te de sua formação.“

25. In: ST R IC H . Op. cit., p. 37-8.


26. Ibid., p. 34.

11 8
O que responde a um princípio expresso na Morfologia:

A mais bela metempsicose é aquela em que nos vemos


ressurgir em um outro.27

De todos os “reflexos” que podem se produzir entre


duas culturas, a tradução é certamente um dos mais impor­
tantes e o que mais impressionou Goethe, não somente
porque ele mesmo teve essa experiência, mas também por­
que se trata de um reflexo mais criador que o da crítica.
Quando trouxeram a Goethe um a tradução em latim de
Hermann e Dorothée, ele fez o seguinte comentário:

Há anos não havia relido esse poema querido de todos e


agora o contemplo como em um espelho, o qual, como sa­
bemos por experiência e, há pouco tempo, pela entóptica,
tem a capacidade de exercer uma força mágica. Aqui, eu via
meu sentimento e minha poesia ao mesmo tempo idênticos
e mudados em um a língua muito mais formada; me dava
conta de que o latim tende para o conceito e transforma o
que, em alemão, é dissimulado de modo inocente [...].“

Na tradução latina, acrescenta, seu poema

parecia mais nobre, como se tivesse, no que se refere à sua


forma, retomado à sua origem.®

No mesmo sentido, a tradução do Fausto por Nerval


parece-lhe ter “regenerado” o texto alemão. A propósito da
tradução inglesa do Wallenstein de Schiller, ele declara:

Eis aqui uma nova observação, talvez pouco vivida ainda,


talvez nunca expressada: que o tradutor não trabalhe somen-

27. Ibid., p. 33
28. Ibid., p. 36.
29. Ibid.

119
te por sua nação, mas também por aquelas de cujas línguas
ele traduziu a obra. Pois o caso se apresenta com mais fre­
qüência do que se acredita, que um a nação absorva a seiva
e a força de unía obra, tome déla toda sua vida interior de tal
modo que ela não possa mais desfrutar dessa obra, nem tirar
posteriormente alimento dela. Isso diz respeito, antes de tu­
do, aos alemães, que elaboram rapidamente demais o qije
lhes é oferecido e, na medida em que o transformam por to­
dos os típos de imitações, de certa maneira o aniquilam. È
por isso que é salutar que sua obra própria lhes apareça
como se fosse de novo revivificada por um a boa tradução.*1

Essas obse,rvações só teriam um alcance puramente psi­


cológico se se referissem apenas à surpresa de Goethe ao en­
contrar em um a língua estrangeira as suas obras ou as de seu
amigo Schiller; elas não diriam respeito à metamorfose que a
tradução opera quando exibe uma obra em uma outra língua.
Mas não é assim. Para produzir essa impressão de surpresa, é
preciso que a tradução tenha efetivamente colocado a obra em
um espelho de si mesma que a "regenere” e a “vivifique”. É
nesse sentido que o ser-traduzido é fundamental para uma
obra (e em segundo lugar para seu autor). Pois ele a coloca em
um outro tempo, um tempo mais originário, um tempo em
que ela parece nova como em seu início. Nesse sentido, ela
volta a se tomar altamente legível para aqueles que já a conhe­
cem (autores ou leitores) em sua língua materna. Essa essên­
cia da tradução para os outros permanece certamente miste­
riosa, mas já indica que o sentido da tradução não consiste em
mediatizar obras estrangeiras somente para os leitores que ig­
noram a língua destas. Não: a tradução é um a experiência que
diz respeito tanto aos traduzidos quanto aos traduzintes; como
produto acabado, ela é idealmente destinada a ser lida por to­
dos. O efeito retroativo da tradução sobre a obra traduzida é

30. Ibid.

120
sem dúvida um fenômeno fundamental, e é mérito de Goe­
the tê-lo percebido como alguma coisa que nos remete ao
mesmo tempo aos mistérios da vida das línguas, das obras e da
tradução como tal. Esses mistérios são aqui assinalados por es­
sas noções, ao mesmo tempo espaciais e temporais, que são o
reflexo em espelho, a regeneração e o retomo à origem. Sem
essa “participação” do estrangeiro que é a tradução, a obra “se
aboneceria em si mesma”, se esgotaria nos efeitos que ela pro­
duz enquanto obra em seu cenário lingüístico. Nesse sentido,
ela tem necessidade de ser traduzida, de ressurgir, toda juvenil,
no espelho de uma língua estrangeira, para poder oferecer aos
leitores de sua língua materna sua feição de maravilha, ou
seja, sua feição de obra simplesmente. Essa metamorfose, e
até essa metempsicose, remete ao teor simbólico da tradução
como tal, e Goethe sem dúvida soube disso, uma vez que lhe
consagrou um poema —seguramente sem pretensões - intitu­
lado “Ein Gleichnis”, um símbolo:

Jüngst pfliickt’ich einen Weisenstrauss


Trug ihn gedankenvoll nach Haus,
Da hatten von der warmen Hand
Die Kronen sich alle zur Erde gewandt.
Ich setzte sie in frisches Clas
Und welch ein Wunder war mir das!
Die Köpfchen hoben sich empor,
Die Blätterstengel im grünen Flor,
Und allzusammen so gesund
Als stünden sie noch a u f Muttergrund.
So war mir’s als ich wundersam
Mein Lied in fremder Sprache vernahm.’1

31. Ibid., p. 35. Tradução aproximativa [Berm an]: “C olhi recentem ente
um buquê de flores dos prados, trouxe-os pensativamente para casa; o ca­
lor de m inha mão tinha feito cair as corolas; coloquei-as em um copo
d ’água fresca, e que m aravilha foi isso para m im ! As cabecinhas voltaram
a se erguer, talos e folhas reverdejaram , e tudo pareceu tão são quanto
se crescesse ainda sobre o solo materno. Assim se passou comigo quan­
do ouvi, maravilhado, o m eu canto na lín gua estrangeira”.

121
O poeta colheu flores dos campos e as carregou para
casa. Privadas de seu solo materno, elas com eçam a mur­
char. Ele as coloca então em água fresca e eis que elas de­
sabrocham de novo: assim se passou comigo quando ouvi,
maravilhado, meu canto na língua estrangeira. Aquele que
colhe as flores é o tradutor. Arrancado de seu solo, o poe­
ma corre o risco de perder seu frescor. Mas o tradutor o co­
loca na taça fresca de sua própria língua e ele floresce de
novo, como se ainda estivesse sobre o solo materno. Há aí
uma maravilha, pois nem o poema, nem as flores estão
mais sobre seu terreno natal. Mesmo que o desabrochar das
flores simbolize o que se passa com o poema na tradução,
é o poema na totalidade que é um símbolo. Ou ainda: é a
tradução que é um símbolo. Um símbolo de quê? Segura­
mente, da maravilha que se produz todos os dias nas m úl­
tiplas translações que constituem o próprio tecido do mun­
do —da presença, em nossas vidas, dos rostos inumeráveis
da metamorfose e da metempsicose.’2
Mas ao descrever a tradução como uma metamorfose
e inscrevê-la no grande ciclo dos intercâmbios vitais, Goethe
abstém-se de afirmar que tudo é tradução. Certamente, o
“reflexo” que ele fica maravilhado de encontrar aqui existe
também alhures. Principalmente no domínio das relações
humanas - amorosas, amigáveis, sociais, culturais.

32. Hofmannstah! desenvolve a mesm a idéia: “As línguas pertencem às


coisas m ais belas que possa haver no mundo [...] Elas são como maravi­
lhosos instrumentos de m úsica [...] Todavia, não é possível fazê-las vibrar
inteiram ente. Sim , quando ficamos surdos para a beleza de nossa pró­
pria língua, a prim eira língua estrangeira vinda tem para nós um a m agia
indescritível; tudo o que temos a fazer é transbordar nela nossos pensa­
mentos esmaecidos para vê-los tornarem-se vivos como flores quando as
colocamos em água fresca” (HOFMANNSTAHL. Díe prosaischen
Schriften gesammelt. Berlim , 1907. p. 105. t. II.).

122
Era tentador, a partir de então, dar um passo a mais
e formular um a teoria da tradução generalizada de tudo em
tudo, na qual a tradução interlingüística seria apenas um
caso particular. Esse passo, Goethe não deu; ao contrário,
ele mantém, mesmo que im plicitam ente - e apesar de sua
percepção unitária do real os diferentes domínios separa­
dos. Os românticos, por sua vez, não têm essa reserva. Trans­
formando o reflexo goetheano em reflexão elevada à altura
de um princípio ontológico, eles edificam um a teoria da
translação generalizada cuja ilustração mais clara é, corno
•vamos ver, a Enciclopédia de Novalis.
A radicalidade poetológica dos românticos foi perpe­
tuamente oposta à prudência pretensamente “filistina” de
Goethe. Gostaríamos agora, ao contrário, de reler os ro­
mânticos de um ponto de vista muito mais próximo do de
Goethe que do deles e sublinhar tudo o que sua febre espe­
culativa tem de negativo. Não é repetindo simbióticamen­
te o absolutismo poético da Athenäum que ultrapassaremos
o humanismo de um Goethe, mas radicalizando as intui-
ções do homem de Weimar, pois todas acentuam o caráter
social e histórico da tradução.

123
C A P Í T U L O

Revolução
romântica e
versabilidade infinita
Em sua Conversa sobre a poesia, F. Schlegel, após ter
pincelado um rápido quadro das “épocas da poesia” desde os
gregos até Shakespeare, aborda a situação literária na Alema­
nha no final do século 18:

Tam bém resultou disso, entretanto, pelo menos uma


tradição: a necessidade do retorno aos Antigos e à natu­
reza; essa centelha acendeu-se nos alem ães depois que
eles foram progressivamente educados em contato com
os seus modelos. W inckelm ann ensinou a considerar a
A ntiguidade como um todo [...] A universalidade de
G oethe oferece um reflexo suave da poesia de quase to­
das as nações e de quase todas as épocas [...] Com alguns
passos audaciosos, a filosofia conseguiu se com preender
a si mesma e com preender o espírito hum ano, na pro­
fundeza do qual lhe foi necessário descobrir a fonte ori­
gin al da fantasia e o ideal da beleza - e assim reconhe­
cer claram ente a poesia, da qual ela até então sequer ha­
via suspeitado a essência nem a existência. Filosofia e
poesia, as mais altas faculdades do hom em - que mesmo

125
em Atenas, em seu mais vivo esplendor, atuavam separa­
dam ente - se entrem eiam de agora em diante para,- um a
e outra, se vivificarem e se m odelarem , em um a inces­
sante ação recíproca. Traduzir os poetas é restituir seu
ritmo tornou-se um a arte; a crítica fez-se ciên cia, uma
ciência que bane os erros antigos e abre novas perspecti­
vas no conhecim ento da Antiguidade [...]
Só resta aos alem ães continuar a utilizar esses meios e a
seguir o exemplo de Goethe, explorando até a origem as
formas da arte a fim de poder lhes dar um a vida ou uma
com binação novas.1

Esse breve texto de F. Schlegel contém in núcleo, por


assim dizer, toda a visão que os românticos da Athenäum têm
de sua época e das mudanças que ocorreram; retomo à
Antiguidade, aparição de um gênio nacional poético protei-
forme, auto-desdobramento da filosofia, mistura do pensa­
mento e da poesia, surgimento de uma arte da tradução e de
uma ciência da crítica, são essas as novidades culturais do pre­
sente. F. Schlegel faz alusão aqui a eventos históricos perfeita­
mente definidos, mas também a elementos que fazem, de pre­
ferência, parte do programa romântico: unir filosofia e poesia,
fazer da crítica uma ciência e da tradução uma arte, o que é
tambéin e, sobretudo, da ordem da exigência, e da exigência
do grupo do qual ele é o líder teórico. Exigência exposta aqui
com uma falsa simplicidade, pois termos como “filosofia”,
“poesia", “arte”, “ciência”, “crítica” ou “fantasia” têm no cos­
mo tenninológico romântico um sentido muito definido que
não é possível, em hipótese alguma, trazer para o nosso hori­
zonte conceituai ou para aquele imediatamente anterior aos
românticos de lena.
A compreensão desse texto exige, portanto, um per­
curso breve, mas aprofundado, do conjunto das reflexões dos.

1. AL, p. 305-6.

126
membros da Athenäum. É somente assim que poderemos
compreender porque a tradução é mencionada entre as
grandes realizações culturais da época e qual lugar preciso
ela aí ocupa.
Esse percurso deve começar pelo exame da revolução
crítica que ocorre com o Romantismo e da qual F. Schlegel e
Novalis são os principais promotores. Em que sentido pode-
se falar aqui de revolução crítica? A expressão refere-se, evi­
dentemente, a Kant e à sua “revolução copemicana”, da qual
os primeiros românticos, afora Fichte, são os herdeiros. Ela se
refere também à Revolução Francesa. Nos dois casos, um cor­
te histórico se produz. A revolução kantiana introduz a crítica
no coração da filosofia, sob a forma de uma analítica do sujei­
to finito, para o qual qualquer transgressão do campo do sen­
sível é, a partir de então, proibida, e qualquer filosofar ingênuo
doravante impossível. A Revolução Francesa introduz uma ra­
dical perturbação das formas sociais tradicionais, igualmente
em nome da razão. Isso significa que, com Kant e essa revolu­
ção, foi a idade crítica que chegou:

Essa idade, na qual temos também a honra de viver; a


idade que, para expressar tudo com uma só palavra, mere­
ce o nome modesto, mas significativo, de idade crítica, de
modo que no presente tudo será criticado, exceto essa ida­
de, e tudo se tornará cada vez mais crítico.2

Essa idade submete tudo à sua “química”,’ é a idade da


anti-ingenuidade ou, considerada negativamente, da não-sim-
plicidade e do dilaceramento. O pensamento romântico her­
da essa não-simplicidade, a recusa de qualquer ingenuidade: é
um pensamento embriagado de patos crítico. Trata-se para
ele, como para todo o pensamento pós-kantiano, de acabar o

2. SCH LEGEL, F. Kritische Schriften, p. 532.


3. Ibid., p. 83.

127
que Kant só teria esboçado, de tornar, portanto, sua crítica
“cada vez mais crítica”, mas também de soltar o ferrolho que
Kant havia colocado na especulação e no desdobramento da
infinitude do sujeito. Os románticos de lena tomam urna par­
te ativa nesse trabalho de radicalização do pensamento de
Kant na esteira de Fichte e de Schelling.
Mas o seu lugar no campo especulativo pós-kantiano
consiste em desdobrar a problemática do sujeito infinito no
médium da arte e da poesía e a refomiular todas as teorias da
arte, da poesia, da Bildung, da crítica etto gênio existentes na
linguagem da reflexão inaugurada pela Wissentschaftlehre, a
Doutrina da C iência de Fichte. A fecundidade desse projeto,
que revela a forma explícita de um projeto articulado em múl­
tiplas Lehre, ultrapassa de longe as empreitadas contemporâ­
neas de exaltação da arte, as de um Schelling ou, um pouco
mais tarde, de um Solger, porque ocorre em um espaço que
não é precisamente filosófico (no sentido académico) e que
não é também o da simples criação poética. E sabido que as
obras dos primeiros românticos são pouco numerosas, perma­
necem inacabadas, e se Novalis, por exemplo, não tivesse es­
crito seus Fragmentos, talvez seus poemas e seus esboços de
romances não bastassem para consagrá-lo. Quanto a F. Schle-
gel, seus escritos literários (como Lucinda ) nem ultrapassam a
fase de experimentação. Como então caracterizar esse espa­
ço? Provavelmente constatando que esse não é um espaço de
obra, mas de intensa reflexão sobre a obra ausente, desejada ou
porvir. Os únicos textos acabados que os românticos deixaram
são suas críticas, suas coletâneas de fragmentos, seus diálogos,
suas cartas literárias e... suas traduções. Traduções, críticas,
mas também diálogos, cartas e fragmentos. (considerados
como minigênero literário herdado de Chamfort, ou antes,
como fonna de escritura acabada, não como Bruchstück, pe­
daço, esboço inacabado) têm todos em comum o fato de re-

128
meter a um outro ausente: a tradução ao original, os fragmen­
tos a um todo, as cartas e os diálogos a um referente externo
do qual eles tratam, a crítica ao texto literário ou à totalidade
da literatura.4 Não são obras, mas formas de escritura que
mantêm uma relação muito profunda, mas também muito
nostálgica, com a obra. Habitar essa relação com a obra
preexistente, ausente ou sonhada e, nessa relação, pensar a
obra enquanto obra como absoluto da existência, este é o pró­
prio do Romantismo da Athenäum. Mas há mais: na intimida­
de dessa relação, eles pressentem que essas formas de escritu­
ra pertencem também, de uma certa maneira, ao espaço da
obra, permanecendo igualmente exteriores a ela. O que pode­
ria ser formulado assim: o original necessita e não necessita da
tradução, a obra necessita e não necessita da crítica, os frag­
mentos representam o tudo e não são o tudo, as cartas e os diá­
logos são obras e não são obras. Daí o ressurgimento da ques­
tão: o que é a obra literária, se ela é centro de tais paradoxos?
A Revolução crítica dos românticos consiste em se interrogar
sem tréguas sobre essa essência da obra que se manifestou para
eles na intimidade fascinante da crítica e da tradução, da filo­
logia no sentido amplo, tal como Novalis a definiu em um de
seus fragmentos:

4. SCH LEG EL, F., considera, aliás, as cartas e os diálogos coino frag­
mentos: “Um diálogo é um a cadeia ou um a coroa de fragmentos. Uma
troca de cartas é um diálogo em escala maior, e M emoráveis são um sis­
tema de fragmentos” (AL, p. 107). A própria crítica deve ter para ele
urna forma fragmentária: "Um a ausência de forma intencional está aqui
totalmente em seu lugar, e o fragmentário em tais com unicações não é
somente desculpável, mas louvável e muito conveniente” (Kritische
Schriften, p. 4). A tradução, por sua vez, está situada no horizonte das no­
tas e dos com entários: “Notas são epigramas filológicos, traduções, m í­
micas filológicas; muito com entário em que o texto é só o pretexto ou o
não-Eu, idílios filológicos” (AL, p. 90). É evidente que um a mesma for­
ma de escritura é buscada aqui sob diferentes modos:

129
A filologia em gera] é a ciência da literatura. Tudo o què
trata dos livros é filológico. As notas, o título, as epígrafes,
os prefácios, as críticas, as exegeses, os comentários, as ci­
tações, são filológicos. E puram ente filológico tudo o que
trata somente dos livros, só se relaciona com eles e de
modo algum com a natureza como original.5

Esse jogo também é perigoso, pois a crítica e a tradução


podem surgir como uma ausência de criatividade própria, a es­
critura fragmentária como a incapacidade de produzir obras
ou sistemas acabados. E, de uma certa qjaneira, elas são tam­
bém essa ausência, essa incapacidade, repercutindo-se ao infi­
nito. Quando Novalis escreve na margem dos Fragmentos de
F. Schlegel: “não um fragmento”, “não um verdadeiro frag­
mento”,6 não é tanto por um padrão predeterminado que ele
os mede, mas pelo fato de que a escritura fragmentária se re­
verte sem cessar, ou ameaça se reverter, em escritura fragmen­
tada e inacabada no sentido mais banal do termo. A massa dos
cadernos de Novalis e de F. Schlegel, tal como nos é revelada
graficamente pelas últimas edições alemãs, testemunha tanto
incompletude quanto fragmentação intencional. O que faz a
riqueza do pensamento romântico, sua capacidade de se refle­
tir infinitamente, de se virar de todos os lados e, isso feito, de
apreender a totalidade, é também sua absoluta pobreza, sua
profunda incapacidade, mesmo tendo alguma, de pensar sem
rodeios - no sentido da perduração paciente jurito a um tema
ou um objeto. As obras que os românticos da segunda geração
escreveram (pensemos nos romances de Clemens Brentano)
oferecem a caricatura, freqüentemente talentosa, desse pensa­
mento sem parada e sem descanso. É o “mau infinito” de He-
gel, que ele teve o privilégio de criticar no Romantismo sem

5. NOVALíS. Fragmente I, n. 1.256, p. 339.


6. Id. Schriften, v, 11, Sam uel, p. 623.

130
que essa crítica o atingisse totalmente, visto que riqueza e po­
breza, potência e impotência estão aqui absolutamente ligadas.
A Revolução crítica é, portanto, em primeiro lugar, a
instauração de um certo pensamento da obra como médium
da infinidade do sujeito. Esse pensamento toma emprestado
suas armas da filosofia, mas não é ele próprio filosofia. Quan­
do falamos aqui de obra, trata-se exclusivamente da obra escri­
ta ou literária. Sobre os outros domínios da arte, com exceção
da música, veremos que os românticos têm pouco a dizer, sem
dúvida porque eles não mantém com a crítica, a tradução e as
diversas formas de escritura fragmentária essa relação íntima e
paradoxal que é para eles o próprio da literatura; sem dúvida
também porque o médium desta última é a linguagem, o mais
universal de todos os mediumsJ As tentativas esporádicas dos
irmãos Schlegel e de Novalis de se debruçarem sobre as “ma­
ravilhosas afinidades entre todas as artes”8 não ultrapassam o
nível das generalidades. Na realidade, sua paixão é exclusiva­
mente o “filológico”, o escrito. Assim, F. Schlegel escreve em
sua Carta sobre a filosofia:

M as é assim, sou autor e nada além de autor. A es­


critura tem para m im não sei que m agia secreta, ta l­
vez por causa do crepúsculo de eternidade que flutua
ao redor dela. Devo lhe confessar, sim , é um a surpre­
sa para mim a força secreta que ¡az a li, escondida na­
queles traços mortos; e m e surpreendo ao ver a que
ponto as expressões m ais sim ples [...] podem ser tão
carregadas de sentido que elas têm o peso que oferece
um o lh ar claro ou são tão falantes quanto os sons jor­
rados sem arte do m ais profundo da alm a [...] Em seu
m utism o, os traços da escritura m e parecem um véu
mais apropriado para a profundeza dessas exterioriza­
ções m ais im ediatas do espírito do que o barulho dos

7. Kritische Schriften, p. 419.


8. AL. F. Schlegel, p. 176.

131
lábios. G ostaria quase de d izer, na lin g u ag em um
pouco m ística de nosso H. [N ovalis]: viver é escrever;
a única destinação dos hom ens é gravar sobre as tá­
buas da n atu reza os pensam entos da divindade com o
estilete do espírito criad or de formas.''

E Novalis:

Gostaria de ver diante de m im , obra de m eu espírito,


toda um a coleção de livros, sobre todas as artes e todas as
ciências.10

Tenho p razer em d ed icar toda m in h a vida a um ro­
m an ce —que deve co n stitu ir sozinho um a b ib lio teca
in teira - e talvez os anos de ap ren d izagem de um a
Nação."

Essa paixão pelo livro e a escrita se nutre igualm en­


te do fato de que estes tendem espontaneam ente a for­
m ar sistem a, como o atesta a expressão corrente de
“m undo dos livros” que Novalis não deixou de relevar.12
Essa sistem aticidade latente do escrito, que faz, por
exem plo, com que se possam considerar, segundo F.
Sch legel, todas as obras da literatura como um a só obra
em devir, é precisam ente o que deve ser refletido e de­
senvolvido. Há ainda outra coisa: a literatura é o lugar de
um a auto-diferenciação da qual os gregos nos legaram a
forma canônica: a dos gêneros. As outras artes não ofere­
cem o exemplo de uma tal auto-divisão que afirm e sua
própria necessidade. A divisão dos gêneros é inclusive de
um a natureza tal que tende-a-ressurgir cada vez que nos

9. Ibid., p. 225.
10. Ibid., p. 431.
11. NOVALIS. Briefe und Fragmente, p. 459.
12. Fragmente II, n. 1.838, p. 19.

132
esforçamos em negá-la ou considerá-la como prescrita.
M as historicam ente, como vimos mais acim a, há uma
outra possibilidade, a da mistura desses gêneros: é o que
ocorreu, para os românticos, com os poetas alexandrinos
e latinos ou com esses modernos que são Shakespeare e
Cervantes e o que se busca em um a nova figura no lim iar
do século 19. D aí as questões:

A poesia deve ser pura e simplesmente dividida? Ou


deve perm anecer una e indivisível? Ou passar alternativa­
mente da divisão à reunião?”

O programa romântico consiste em transformar em


uma intenção consciente de si mesma o que, historica­
mente, é apenas uma tendência: crítica e tradução, como
veremos, inscrevem-se nesse programa.
Trata-se, portanto, em primeiro lugar, de produzir
uma crítica e uma teoria da literatura de tal modo que,
operando um corte histórico, elas transformem definitiva­
mente a prática literária em uma prática refletida e certa
de seu caráter absoluto. De fato, tudo se passa como se a
uma revolução copernicana da filosofia devesse corres­
ponder uma revolução copernicana da poesia. E pode-se
com preender por quê, sempre a partir de Kant: o em ­
preendimento das três Críticas não significa somente uma
barreira colocada no saber, mas também uma auto-refle-
xão do espírito através da qual este último tem acesso a si
mesmo, ao elem ento de sua autonomia:

C rítica. Sem pre em estado de crítica. O estado de críti­


ca é o elemento da liberdade.14

13. AL, F. Schlegel, p. 174.


14. NOVALIS. Fragmente I, n. 26, p. 15.

133
Eis porque F. Schlegel, em uma evidente alusão a Kant
e a Fichte, podia dizer que, no final do século 18, a filosofia
conseguira compreender-se a si mesma. Mas não é tudo: a crí­
tica kantiana, recuando até a imaginação transcendental, des­
cobriu nela “a fonte original da fantasia e o ideal da beleza”,
obrigando assim a filosofia “a reconhecer claramente a poe­
sia". Isso significa que ela tornou possível, em seu próprio mo­
vimento, o desenvolvimento de uma “geniologia”, de uma
“quimera”15e, conseqüentemente, de uma revolução coperni-
cana da poesia, graças à qual esta última chegará à sua essên­
cia como a razão chegou à sua pelo método transcendental.
Essa segunda revolução, é certo, só pode ser a obra da própria
poesia, exatamente como a da filosofia é uma viravolta no seio
da própria filosofia. Isso acarreta duas coisas: primeiramente,
a crítica não pode ser exterior à poesia, deve ser autocrítica da
poesia. Em seguida, essa autocrítica não pode dispensar a filo­
sofia, porque esse movimento de reflexão sobre si não é, para
os românticos, nada além do próprio filosofar: e é a razão pela
qual a relação da poesia com a filosofia é, ao mesmo tempo,
de fusão e de mistura. Daí os dois famosos fragmentos de F.
Schlegel:

A história inteira da poesia moderna é um comentário


seguido pelo breve texto da filosofia; toda arte deve se
tornar ciên cia e toda ciên cia tornar-se arte; poesia e fi­
losofia devem estar reun id as.16

Q uanto m ais a poesia se torna ciên cia, m ais se tor­


na arte. Se a poesia deve se tornar um a arte, se o artis­
ta deve ter um a in teligên cia e um a ciên cia aprofunda­
das de seus m eios e de seus fins [...] é preciso que o
poeta filosofe sobre sua artè. Se ele deve ser não so­

15. Ibid., n. 1.466, p. 391.


16. AL, p. 95.

134
m ente descobridor e artesão, mas tam bém conhecedor
em sua especialidade [...], é preciso que se torne também
filólogo.17

Nesses dois textos, como em Conversa sobre a poesia,


assiste-se a um vaivém das noções de “arte”, de “ciência”, de
“poesia” e de "filosofia”, no qual se trata da revolução coper­
nicana da poesia: a elevação desta à cientificidade, ao saber de
si e à artificialidade, à formação de si, por intermédio do filo­
sofar como reflexão. Novalis não exprime outra coisa em seus
Poeticismos:

As poesias que existiram até agora referem-se à poe­


sia que deve vir, assim com o as filosofias que existiram
até o presente referem-se à logologia. Até agora, as poe­
sias agiam sobretudo d inam icam en te, a poesia trans­
cen d en tal por vir poderia ser cham ada poesia orgâni­
ca. Q uando ela for inventada, perceberem os que todos
os poetas autênticos criavam organicam ente sem o sa­
ber - mas que essa falta de consciência a respeito do
que faziam tinha um a in flu ên cia essencial sobre o
todo de suas obras, de modo que elas só eram , para a
m aioria, poética no d etalh e, m as com um ente apoéti-
cas em seu conjunto. A logologia introduzirá necessa­
riam ente essa revolução.'8

Aqui aparece essa supervalorização da consciência, ou


antes, do saber sobre si na reflexão, que é o próprio dos român­
ticos de Iena. Um dos Fragmentos logológicos de Novalis ten­
ta enunciar a relação da poesia com a filosofia:

A poesia é o herói da filosofia. A filosofia eleva a poesia


à altura de um príncipe. Ela nos ensina a conhecer o va­
lor da poesia. A filosofia é a teoria da poesia.”

17. Ibid., p. 136.


18. Fragmente ¡1, n. 1.902.
19. Fragmente 1, n. 1.925.

135
M as é que a filosofia tomou-se aqui o filosofar, e que
este é apenas

um a auto-interpelação de um gênero superior - um a ver­


dadeira auto-revelação.®

Esse tornar-se-consciente da poesia só é, entretanto, o


primeiro momento - o momento kantiano —da revolução “lo-
gológica”. Esse momento deve ser seguido por um segundo,
que poderíamos chamar o seu momentj^ pós-kantiano: o des­
dobramento da infinitude da poesia. Na verdade, operação re­
flexiva e operação infinitizante formam apenas uma para os ro­
mânticos. Essa é uma das conseqüências do alargamento ver­
tiginoso que eles impõem ao conceito de reflexão, transfonna-
do por eles em uma categoria ontológica fundamental:

Deveríamos considerar todas as coisas como vemos nos­


so eu - como um a atividade própria.21

Tudo o que podemos pensar pensa por si só.22

Walter Benjamin mostrou de forma excelente como


essa categoria estrutura todo o pensamento romântico, a tal
ponto que F. Schlegel pôde escrever:

O espírito romântico parece, com graça, se fazer ele


próprio objeto de sua fantasia.23

M as essa reflexão não é de forma alguma um movi­


mento psicológico, uma maneira de estar centrado narcisisti-

20. íbid., n. 1.968.


21. Ibid., n. 1.152.
22. Ibid., n. 2.263.
23. AL, p . 168.

13 6
camente em si —pelo menos no sentido vulgar. Uma tal preo­
cupação com seu próprio “si” pessoal parece, aliás, totalmen­
te exterior aos primeiros românticos. A reflexão, aqui, é pensa­
da antes como um processo especular puro, como um se-re-
fletir e não, como diz depreciativamente F. Schlegel,

uma morna contem plação de seu próprio nariz.24

A estrutura formal da reflexão (o movimento pelo


qual passo do “pensamento” ao “pensamento do pensamen­
to”, depois “pensamento do pensamento do pensamento”,
etc.) oferece um modelo de infinitização, na medida em que
essa passagem é concebida como uma elevação: é uma estru­
tura em patamares, em andares, em escadas, em degraus, e
a elevação pode ser ao mesmo tempo considerada como
uma ascensão, uma potencialização (Potenzierung) e uma
amplificação (Eiweiterung). Ela manifesta assim sua plenitu­
de concreta e positiva.
Concreta enquanto cobre a totalidade do real, o qual
aparece como que constituído de uma multiplicidade de mó­
nadas reflexivas a estimularem-se mutuamente para mais re­
flexão, como que feito de cadeias ou de séries de pòtencializa-
ções a percorrerem-se em todos os sentidos:

A força é a m atéria dos materiais. A alm a, a força das


forças. O espírito é a alm a das alm as. Deus é o espírito
dos espíritos.25

Positiva enquanto estrutura reflexiva da realidade que


assegura a verdade do filosofar: todo filosofar revestindo a apa­

24. Ibid., p. 113.


25. Fragmente II, n. 2.281, p. 139.

137
rência de um filosofar sobre o objeto é, de fato, um filosofar
do objeto sobre si mesmo:

Não vemos cada corpo somente na medida em que ele


se vê a si mesmo - e que nos vemos a nós mesmos? Em
todos os predicados nos quais vemos o fóssil, ele nos vê por
sua vez.26

Um dos corolários dessa teoria é que não vemos obje­


tos, mas duplos de nós mesmos:

Os penáamentos só são preenchidos por pensamentos
[...] O olho só vê olhos - o órgão pensante só órgãos
pensantes.27

O universo assim projetado é, no sentido mais rigoroso


do termo, um universo especular, em que qualquer exteriori­
dade, qualquer diferença e qualquer oposição só podem ser
aparentes e transitórias. O fato de que a reflexão seja elevada
à dignidade de um princípio ontológico universal a liberta de
todo subjetivismo fácil, garante-lhe até mesmo a objetividade
mais completa. A objetivização dessa categoria é visível quan­
do, por exemplo, Novalis interpreta a morte ou a doença
como reflexões potencializadoras. Ela o é também no caso de
duas noções literárias, o Witz e a ironia, cuja estrutura é, para
os românticos, reflexiva. Quando F. Schlegel declara que “o
verdadeiro Witz não pode ser representado senão escrito”,28
sentimos sua preocupação em interpretar essa noção como
uma forma da obra, não como um traço psicológico de seu au­
tor. Poderíamos dizer que, paradoxalmente, a subjetividade
como reflexão é uma estrutura totalmente objetiva e sistemá-

26. Ihid., n. 2.263, p. 132.


27. Ibid., n. 2.128, p. 104.
28. AL, p. 164.

138
tica - sistemática enquanto sua essência é se desdobrar seguin­
do os degraus de suas potencializações:

O pensamento de si [...], escreve Novalis, não é nada


mais do que o próprio sistematizar.“

E F. Schlegel:

Não seriam todos os sistemas indivíduos, assim como


todos os indivíduos são igualm ente sistemas, ao menos em
germe e em tendência?’"

O tenno orgânico, que realçamos mais acima nos Poe-


ticismos de Novalis, tem também o sentido de sistemático:
mais que ao organismo, como em Goethe e Herder, ele reme­
te à organização. E é por isso que a reflexão se toma capaz de
suportar a teoria do gênio e a da obra.
Na medida em que a reflexão se tornou uma categoria
ontológica, o pensamento romântico se toma o percurso das
cadeias reflexivas. A Bildung é o movimento pelo qual o ho­
mem se apodera de seu “eu transcendental” sem mais limita­
ções kantianas e pratica “o alargamento de sua existência ao
-infinito”.31 Esse percurso é definido como uma potencializa-
ção. Toda potencialização é uma “elevação ao estado de...” e
também uma “descida ao estado de...”. Essa dupla determina­
ção é inevitável se a reflexão quiser ser realmente infinita. Tal
é a essência daquilo que Novalis chama de romantização:

O mundo deve ser romantizado. Assim reencontrare­


mos o sentido originário. Romantizar não é nada mais do

29. Fragmente 1, n. 1.054, p. 252.


30. AL, p. 133.
31. Fragmente II, n. 1.913, p. 49.

139
que um a potencialização qualitativa. O si inferior, nessa
operação, identifica-se com um si melhor. Assim, nós
mesmos seriamos somente um a série qualitativa de potên­
cias desse tipo. Essa operação é ainda totalmente desco­
nhecida. Na medida em que dou ao com um um sentido
elevado, ao habitual um aspecto misterioso, ao finito uma
aparência infinita, ao conhecido a dignidade do desco­
nhecido, eu o romantizo. Inversa é a operação para o
mais-alto, o desconhecido, o místico, o infinito [...].”

Esse duplo movimento é também o que Novalis cha­


ma em outro lugar de “método de invasão”.” A romantiza-
ção, para ser completa, deve concernir a todos os patamares
e a todas as séries. Ela deve ser enciclopédica. Veremos que
esse enciclopedismo, do qual o projeto romântico de Enciclo­
pédia é uma das ilustrações, não consiste de modo algum em
tudo abarcar em um sistema ou em um “círculo de ciências”,
como dizia du Bellay54 no século 16; mas em tudo percorrer
em um movimento indefinido. É o que Novalis chamou
ainda, por um termo ao qual já fizemos alusão, de versabili-
dade. O fragmento no qual podemos ler esse neologismo,
essa variante da palavra versatilidade em que parecem se unir
versão, inversão, conversão, interversão, versamento, etc., tra­
ta da auto-limitação:

Sín tese fich tean a - au tên tica m istura qu ím ica. F lu ­


tuar. Ind ivid ualidad e e g en eralid ad e dos hom ens —e
das doenças. Sobre o necessário auto -lím itar - versabi-
lid ad e in fin ita do entendim ento culto (gebildete). Po­
dem os tirar tudo de tudo, tudo revirar e tudo inverter,
com o quiserm o s.”

32. Ibid., n. 1.921, p. 53.


33. Ibid., n. 61, p. 236, 1710.
34. Défense et illustration de la langue française. Ill: Poésie. Paris: Gal-
lim ard-H achette, 1967. p. 221.
35. Fragmente 11, n. 2.369, p. 159.

140
A versabilidade infinita é o poder de efetuar a totalida­
de do percurso das cadeias reflexivas, o poder dessa mobilida­
de que Novalis comparou, em Os discípulos em Sais, ao mo­
vimento “voluptuoso” do líquido. Ela é também a capacidade
de estar em todos os lugares e de ser várias. Nesse sentido, po­
demos considerá-la, ainda que a expressão só seja encontrada
uma vez na massa dos Fragmentos, como a categoria que, com
a reflexão, melhor representa a percepção romântica do sujei­
to e, notadainente, do sujeito produtor e poético, o gênio.
Como tal, ela fonnula toda uma nová visão da Bildung e da
própria obra, como veremos. Mais do que a categoria da refle­
xão, ela nos aproxima da teoria especulativa da tradução, se é
verdade que a teoria da versabilidade infinita é também uma
teoria da versão infinita.
O Sturm und Drang havia desenvolvido a noção do gê­
nio artístico como sendo uma força tempestuosa, inconsciente
e natural, que gera obras como se geram crianças na embria­
guez do desejo. Goethe, mas também Shakespeare ou Calde-
rón, nesse caso, podiam passar por forças naturais às quais qual­
quer reflexão teórica era exterior. Afora o Romantismo de lena,
essa teoria será retomada pelo Romantismo europeu no sécu­
lo 19. Mas nada mais exterior à Athenäum do que a idéia de
um gênio-artista produzindo na embriaguez de uma pulsão vi­
tal inconsciente, embriaguez à qual viria se acrescentar, mira­
culosamente, o saber artesanal necessário para compor a figu­
ra final da obra. Novalis diz muito claramente:
O artista pertence à obra e não a obra ao artista.*6

E preciso ver bem, por enquanto, que a “geniologia”


constitui o modelo da teoria do sujeito. E o próprio do gênio

36. Ibid., n. 2.431, p. 172.

141
enquanto expressão suprema da subjetividade é o poder de
tiido poder e o querer de tudo querer. A “versabilidade infinita”.
Raramente, na história do pensamento, o que a psicanálise
chama de onipotência terá sido consagrado, com tanto fervor,
como um valor real e positivo. Ainda que a reinterpretação de
um pensamento a partir de um outro pensamento séja sempre
um ato ocasional, é permitido dizer que a reflexão romântica
é uma reflexão extremamente narcisista, supondo que o nar­
cisismo consiste, sobretudo, em nada poder diferenciar de si
fundamentalmente. Essa recusa ou esse incapacidade de se
diferenciar não deixam de ter conseqüências sobre a visão da
Bildung e das translações que ela implica.
A teoria do gênio, por mais onipotente, mais irrealista
que possa nos parecer, abre, entretanto, uma história cultural
cujos primeiros efeitos se fazem sentir no século 19, mas que
não terminou de agir sobre nós. Uma grande parte da refle­
xão nietzschiana, por exemplo em A gaia ciência, é dedicada
a medir as desastrosas conseqüências do que ele chama de
“sentido histórico”, ou seja, essa capacidade camaleônica de
se introduzir por toda parte, de penetrar, sem verdadeiramen­
te os habitar, todos os espaços, todos os tempos, de imitar de
modo simiesco todos os estilos, todos ós gêneros, todas as lin­
guagens, todos os valores, capacidade que, em seu desenvol­
vimento monstruoso, define tanto o Ocidente moderno
quanto o seu imperialismo cultural e sua voracidade apro-
priadora. Nietzsche continua exemplar para nós na medida
em que reúne, em uma coexistência evidentemente impossí­
vel, todas as correntes culturais de nossa história. A trajetória
de Rimbaud apresenta algo análogo. O Romantismo, na ver­
dade, recua rapidamente diante das conseqüências de sua
concepção do sujeito, da arte e da Bildung, diante dessa mis­
tura de tudo com tudo que vai se realizar efetivamente (mas
sob uma forma negativa que ele certamente não havia previs-

142
to) no século 19 na Europa. Tal é o sentido da volta para a
tradição e o catolicismo operada por Novalis e F. Schlegel
desde o início do novo século.
A versabilidade infinita é apresentada em muitos textos
românticos como uma exigência de pluralidade:

Sobre a vida e o pensamento em massa. - Comunidade


- o pluralismo é a nossa essência mais íntima - e talvez
cada homem tenha uma parte própria no que eu penso e
faço, exatamente como eu nos pensamentos de um outro
hom em .’7

Doutrina das pessoas. Uma pessoa autenticam ente sin­


tética é uma pessoa que é ao mesmo tempo várias pessoas
- um gênio. Cada pessoa é o germe de um gênio infinito

Esse pluralismo interior, essência do gênio, é como o


analogon do pluralismo exterior; de fato, ele serve para apagar
qualquer diferença entre sociedade interior e sociedade exte­
rior (real): exatamente como o indivíduo é uma sociedade, a
sociedade é um indivíduo. Mas o gênio é mais que uma sim­
ples pluralidade de pessoas: é um sistema de pessoas, uma to­
talidade orgânica/organizada:

Até aqui nós temos tido somente um gênio particular -


mas o espírito deve tornar-se gênio total.”

O gênio total é o gênio poético, se a poesia é o que

forma a bela sociedade ou o todo interior,n

37. Fragmente I, n. 1.733.


38. Ibid., li. 1.695.
39. Fragmente II, n. 2.307, p. 143.
40. Ibid., n. 1.820, p. 13.

143
Essa visão de um pluralismo orgânico e sistemático de­
semboca em numerosas teorias da “sociabilidade” esboçadas
pelos românticos, quer se trate das do amor, da amizade, da fa­
m ília ou da “sincrítica”, da “sinfilosofia” e da “simpoesia” -
neologismos formados a partir do grego “sun” e cuja matriz
parece aqui ser o termo de sincretismo. Esse termo —e Nova-
lis o faz no fragmento 147 de sua Enciclopédia - deve ser apro­
ximado do de ecletismo. A subjetividade plural é uma perso­
nalidade sincrética e eclética e é sobre essa base que ela pode,
com seus alter ego, engajar-se nas aventaras da sincrítica e da
simpoesia. Ela hão faz senão prosseguir com outro o que ela
faz consigo mesma. Na idéia de sincretismo, há aquela de
misturar e unir o disparatado, o diverso, o separado; na de
ecletismo, a de tocar um pouco em tudo. Tocar um pouco em
tudo é algo que pode parecer banal; mas na realidade, é pre­
ciso aqui acentuar o tudo. E não somente a denominação de
eclético pode perfeitamente ser aplicada às personalidades de
Schlegel e de Noval is, mas ela corresponde perfeitamente à
sua teoria da subjetividade, da Bildung e da obra: o Witz, por
exemplo, é totalmente eclético e sincrético, e essa ecleticida-
de, essa sincreticidade são elas próprias interpretadas no hori­
zonte da sociabilidade:

M uitas descobertas do Witz são como os reencontros


imprevistos, após um a longa separação, de dois pensa­
mentos amigos/'

D aí a longa série dos textos românticos celebrando o ar­


bitrário, o Wülkiirlich, palavra alemã na qual é preciso ler tan­
to capricho quanto livre arbítrio e que constitui o ideal da sub­
jetividade culta:

41. AL. F. S ch leg el, p. 103.

144
O homem verdadeiramente livre e culto deveria poder,
a seu bem entender, colocar-se no diapasão filosófico e
histórico, crítico ou poético, histórico ou retórico, antigo
ou moderno, muito arbitrariamente, como se afina um
instrumento ou um diapasão; e isso a qualquer momento,
em qualquer escala.'12

O fragmento 121 de F. Schlegel, publicado na Athe­


näum e que citamos em nossa introdução, retoma sintetica­
mente esse tema do arbitrário, da pluralidade e da sistematici-
dadé sincrética do indivíduo culto. Novalis desenvolve a mes­
ma idéia:

O hom em com pleto deve, por assim dizer, viver ao


mesmo tempo em vários lugares e em vários homens [...]
Aqui se forma então o verdadeiro, o grandioso presente
do espírito.4’

O que é particularmente surpreendente nessa teoria é


a ênfase dada à vontade:

Appetitus sensitívus et rationalís. - O appetitus rationa­


les é um querer sintético. Lim itação no querer sintético -
lim itação - delim itação (Eu quero tudo ao mesmo tempo).
A liberdade eletiva e poética - de onde vem que a moral
seja fundam entalm ente poesia. Ideal do Querer-Tudo,
vontade m ágica.41

Esse ideal de onipotência, de onisciência e de ubiqüi­


dade serve para a construção de uma teoria da subjetividade
infinita, que se liberta por uma série, ela própria infinita, de
elevações (irônicas, morais, poéticas, intelectuais e até corpo­
rais) de sua finitude primeira. Mas essa subjetividade infinita

42. Ib id., p. 87.


43. Fragmente II, n. 2.173.
44. Fragmente I, n. 1.711, p. 457. Daf vem o conceito de “idealismo mágico”.

145
não seria absoluta se não fosse também uma subjetividade fi­
nita, quer dizer, uma subjetividade capaz de se auto-limitar e
de se ancorar no limitado. Nessa fase, o pensamento românti­
co opera um duplo movimento, um indo na direção da infi-
nitização, o outro no da finitude. A Bildung completa é a sín­
tese desses dois movimentos. Tal é a teoria dos “limites transi­
tórios” pelos quais Novalis parece operar um retorno a Kant:

Q uanto m ais o horizonte (a esfera) da consciência se


torna incom ensurável e m últiplo —m ais desaparece a
grandeza individual, m ais cresce visivelmente mais
se revela a grandeza esp iritual, racional do hom em .
Q uanto inais o todo é grande e elevado, m ais notável é
o particular. A capacidade de lim itação cresce com a
falta de lim ites.1'

E F. Schlegel:

[...] o valor e a dignidade da auto-limitação, que é, en­


tretanto [...] a tarefa primeira e últim a, a mais necessária
e a mais alta. A mais necessária: pois sempre que não Se
dá o lim ite a si mesmo, o mundo o faz [...] A mais alta: só
se pode dar o limite a si mesmo com relação a pontos e
planos em que se tem um a força infinita.16

No Diálogo I de Novalis, reencontramos sob uma for­


ma mais popularizada o conjunto dessa problemática:

A: [...] C ad a bom livro é para m im portador de um a


ocupação tão longa quanto a vida - ele é para m im o
objeto de um gozo inesgotável. Por que tu lim itas tuas
relações a um pequeno núm ero de hom ens espirituo­
sos e de q u alid ad e? Não é pela m esm a razão? Somos
de qu alq uer m aneira tão lim itados que só podemos go­
zar plen am ente de poucas coisas. E enfim , não é íne-

45. Ibid., n. 291, p. 94.


46. AL, p. 84-5.

146
lhor apropriar-se plenam ente de um só belo objeto do
que passar por centenas deles, bebendo um gole por
todos os lados, em botando rapidam ente os sentidos, às
custas de meios-prazeres freqüentem ente contraditó­
rios, sem ter ganhado o que quer que seja com isso?
B: Tu falas como um hom em de Igreja - mas ai de
m im , tu me vês como um panteísta - para quem a
im ensidade do m undo, justam ente, é bem vasta. L im i­
to-me a alguns hom ens espirituosos e de qualidade por­
que é preciso - O nde posso então ter m ais? - M esm a
coisa com os livros. Para m im , a fabricação de livros
não é ainda, longe disso, feita em grande escala como
seria necessário. Se tivesse a felicidade de ser pai, não
poderia ter filhos o bastante: nem dez ou doze - mas
pelo menos cem .
A: E o mesmo para as mulheres, devorador?
B: Não, uma só e sou sério.
A: Q ue inconseqiiência esquisita!
B: Nem mais esquisita nem m ais inconseqüente do
que um só espírito em m im e não cem . M as do mesmo
modo que meu espírito deve se metamorfosear em cen­
tenas e milhões de espíritos, tam bém m inha esposa em
tantas mulheres quantas existam. Todo hom em é trans-
formável sem medida. E assim como com as crianças, o
mesmo ocorre com os livros. Gostaria de ver diante de
m iin, obra de m eu espírito, toda um a coleção de livros,
sobre todas as artes e todas as ciências. E que seja assim
para todos. Hoje só temos Os anos de aprendizagem de
Wilhelm Meister; deveríamos ter tantos anos mais de
aprendizagem , escritos no mesmo espírito, quanto fosse
possível - todos os anos de aprendizagem de todos os ho­
mens que já tenham vivido.47

47. Ibid., p. 431. Cf. também em Fragmente I o n. 68, p. 29: "M aneira
litteraria. Tudo o que um sábio faz, diz, exprime, sofre, escuta, etc. deve
ser um produto artístico, técnico, científico ou um a operação dessas. Eie
se exprime em epigramas, age em um a peça de teatro, é dialoguista, re­
presenta conferências e ciências - conta anedotas, histórias, contos
(Märchen), romances, sente poeticam ente; quando desenha, desenha
como artista, como músico; sua vida é um romance - assim ele vê e
ouve tudo, assim ele lê. Em resumo, o verdadeiro sábio é o homem com­
pletam ente culto (gebildete) - que dá um a forma científica, idealista e
sincrítica a tudo em que toca e a tudo o que faz”.

147
A ilustração mais surpreendente do princípio da versa-
bilidade infinita no nivel dos projetos de obras românticos é
constituída pelo conceito de Enciclopédia de Novalis e o de
poesia universal progressiva de F. Schlegel. E impossível abor­
dar aqui de modo aprofundado o estudo desses dois conceitos,
mas gostaríamos, pelo menos, de mostrar como a “versabil ida­
de” que se manifesta neles equivale ao princípio da traduzibi-
lidade de tudo em tudo. Ela é, por assim dizer, a versão espe­
culativa desse “Ubersetzungtalent” do qual falava A W. Schle­
gel a respeito de seu irmão. A “poesia âhiversal progressiva”
quer “misturar" e “colocar em fusão” a totalidade dos gêneros,
das fonnas e das expressões poéticas. A Enciclopédia, esta,
quer “poetizar” todas as ciências. Os dois projetos se comple­
tam mutuamente: a poesia universal progressiva é enciclopé­
dica, a Enciclopédia é universal e progressiva.
A poesia universal progressiva

não é som ente destinada a reunir todos os gêneros separa­


dos da poesia e a abordar poesia, filosofia e retórica. Ela
quer e deve tam bém ora misturar, ora fundir juntas poesia
e prosa, genialidade e crítica, poesia de arte e poesia natu­
ral, tom ar a poesia viva e social, a sociedade e a vida poé­
ticas [...] ELa abraça tudo o que é poético, desde o maior
sistema da arte que contém , por sua vez, vários outros, até
o suspiro, o beijo que a criança poeta exala em um canto
sem arte [...].*

É evidente aqui que a versabilidade é o princípio ope­


racional de um a tal figura da poesia: formas e gêneros se der­
ramam uns nos outros, se convertem uns nos outros, se afun­
dam nesse incessante e caótico movimento de metamorfose
que, na verdade, é o processo de absolutização da poesia e,
para F. Schlegel, a verdade do Romantismo. O fato de que

48. AL. Fragmentos d e VAthenàum, p. 112.

148
essa versabilidade seja enciclopédica, quer dizer, centrada no
Tudo, é igualmente evidente. A mesma ambição define, aliás,
em F. Schlegel, o Witz, a ironia e a escritura fragmentária,
cuja sistematicidade aparente é compensada por seu enciclo­
pedismo. A poesia universal progressiva é, ao mesmo tempo,
“poesia da poesia”, “poesia transcendental”, na medida em
que ela “pode melhor flutuar entre o apresentado e o que
apresenta” e, “sobre as asas da reflexão poética, levar sem ces­
sar essa reflexão a uma potência mais alta”.49A mistura das for­
mas, dos gêneros e dos conteúdos é apresentada aqui como a
radicalização consciente de todas as misturas literárias que
existiram historicamente, cujo modelo, como sabemos, é a
sincreticidade da literatura romana tardia. Essa mistura pres­
supõe a não-heterogeneidade das formas e dos gêneros (assim
como a permutabilidade dos conteúdos), a traduzibil idade
destes, uns nos outros ou, para formular mais precisamente
ainda, a possibilidade de jogar até o infinito com sua diferen­
ça e sua identidade.
O conceito de Enciclopédia nos deterá por mais tem­
po, porque talvez ele ilustre esse princípio de modo mais in­
gênuo e mais claro. Como se sabe, Novalis concebeu a idéia
de uma Enciclopédia diferente daquela de D’Alembert e de
Diderot, que teria por objetivo dar uma “visão romántico-poé­
tica das ciências”, segundo o princípio de que “a fonna acaba­
da das ciências deve ser poética”:50

Enciclopedística. Poética universal e sistem a com ple­


to da poesia. Um a ciên cia é com pleta quando: Io ela é
ap licad a a tudo; 2° tudo lh e é aplicado; 3“ quando, con­
siderada como totalidade absoluta, como universo - ela
própria se subordena, enquanto indivíduo absoluto, em

49. Ibid.
50. Fragmente I, n. 40, p. 18; Fragmente II, n. 1.912, p. 48.

149
todas as outras ciências e em todas as outras artes en ­
quanto indivíduos relativos.51

Esse projeto de poetização totalizante das ciências nas­


ceu, sem dúvida, do sonho de Novalis de fomecer um certo
número de "versões” da filosofia fichteana, mais ou menos
como se esta pudesse ser encenada de diferentes maneiras, ou
declinada conforme diferentes casos. A possibilidade de mo­
dular a Wissenschaftlehre, como cenário vazio de qualquer
ciência possível, engendra a idéia da totalização dessas modu­
lações - a Enciclopédia:

Poderíamos pensar em um a série extremamente ins­


trutiva de apresentações específicas do sistema fichteano
e do sistema kantiano, por exem plo, um a apresentação
poética, um a apresentação quím ica, um a m atem ática,
um a m usical, etc.52

A poetização das ciências parte do princípio de que todas


as categorias destas são aparentadas e, portanto, transferíveis:
Todas as idéias são parentas. Cham amos a analogia Ar
de Fam ília.”

As categorias são unas e indivisíveis.51

O que significa que se cada ciência é constituída por


um conjunto x de categorias, estas últimas podem ser substi­
tuídas, representadas, por um conjunto de outras categorias e
assim por diante:

Psicologia e Enciclopedística. Urna coisa só se toma clara


por representação. Compreendemos mais facilmente uma

51. Fragmente I, n. 1.335, p. 358.


52. Ibid., n. 239, p. 79.
53. Fragmente II, n. 1.952, p. 64. “Ar de fam ília” em francês nesse texto.
54. Fragmente I, n. 120, p. 123. “Unas e indivisíveis” em francês nesse texto.

150
coisa quando a vemos representada. Assim só se compreen­
de o eu na medida em que ele é representado pelo não-eu.
O não-eu é o símbolo do eu e só serve para a auto-com-
preensão do eu [...] No que diz respeito à matemática, essa
observação se deixa aplicar de tal modo que a matemática,
para ser compreensível, deve ser representada. Uma ciência
só se deixa representar verdadeiramente por um a outra.5’

Assim obtém-se uma poética da matemática, uma gra­


mática da matemática, uma física da matemática, uma filoso­
fia, uma história da matemática, uma matemática da filosofia,
uma matemática da natureza, uma matemática da poesia,
uma matemática da história, uma matemática da matemáti­
ca.56 O mesmo esquema pode ser aplicado a todas as ciências,
segundo o esquema da reversibilidade á que Novalis chama,
às vezes, Umkehrungmethode,'’7 o método de inversão: poesia
da matemática e matemática da poesia, etc. Esquema que se
redobra por um outro, reflexivo: poesia da poesia, matemática
da matemática. A auto-reflexão de uma ciência é a outra ver­
tente de sua reflexão em uma outra ciência, de sua “simboliza-
ção” por uma outra ciência:
C ada símbolo pode de novo ser simbolizado por seu
simbolizado - contra-símbolo. M as há também símbolos
de símbolos - intereínibolos [...] Tudo pode ser símbolo do
outro - função simbólica.5*

55. Ibid., n. 1.694, p. 448-9.


56. ibid., n. 308, p. 99.
57. Ibid., n. 61, p. 27.
58. Ibid., n. 2.084, p. 93. Novalis prossegue assim: “Sobre a confusão do
símbolo com o simbolizado - sobre a crença em um a representação verda­
deira, completa - e a relação da imagem e do original - do fenômeno e da
substância [ .. . ] - repousam todas as superstições e erros de todos os tempos,
de todos os povos e de todos os indivíduos”. A permutabilidade dos símbo­
los e das categorias exclui sua absolutização. Urna das conseqüências des­
sa posição é que não há verdade natural da linguagem . D aí a crítica român­
tica da Natursprache. Ver próximo capítulo.

151

•Ksimssi
Poderíamos falar aqui tanto de traduzibilidade genera­
lizada quanto de convertibilidade no sentido monetário:59 a
matemática é trocada por poesia como o franco por dólar.
Mas se nos limitarmos a essa metáfora, essa convertibilidade é
hierárquica: exatamente como há moedas mais fortes que ou­
tras, o movimento de conversão das categorias obedece a uma
lei de potencialização. Ele vai de baixo para cima, do empíri­
co para o abstrato, do filosófico para o poético, etc., para cul­
minar com uma operação sobre a qual voltaremos a falar e
que Novalis chama de “elevação ao estacf5 de mistério”.
Mesmo que a validade científica de um tal empreendi­
mento seja mais do que duvidosa e que ela tenha tendência a
deslocar os campos categoria is das ciências, a criar uma espé­
cie de alquimia selvagem, ou ainda a aplicar às ciências obje­
tivas um modo de pensamento que seria mais adequado no
domínio poético,® queremos assinalar, sobretudo, o quanto a

59. Essa metáfora do dinheiro, podemos reencontrá-la no diálogo “Les Ta-


bleaux” de SCHLEGEL, A. W. surgido na Athenäum, em que a cópia de
uma obra antiga é apresentada como um processo de tradução: “Ah, se meu
desenho fosse uma tradução! Ela é apenas uma nota indigente [...] Se eu
quiser tudo traduzir ( Übertragen) do que percebo como contorno, caio fa­
cilmente [...] na mesquinharia; e com cada parte que misturo nas massas
maiores, alguma coisa da significação se perde [...] Observo de modo insis­
tente e repetido; reúno as impressões [...] mas depois, devo traduzi-las inte­
riormente em palavras [...] A sociedade e o contato social mútuo são o es­
sencial [...] Tanto no caso das riquezas espirituais como no do dinheiro. Para
que serve ter muito e trancar em caixas? Para o verdadeiro conforto, é im­
portante que tudo circule rapidamente e múltiplamente” (In: Die Lust... p.
502). Esse texto mostra como os românticos de lena interpretam tudo no ho­
rizonte da tradução e como a tradução, por sua vez, é levada a uma “circu­
lação” mais vasta, na qual a circulação das riquezas e do dinheiro é, como
em Goethe, o símbolo. A “sinfilosofia” romântica é uma tradução.
60. “A árvore pode se tomar urna chama em flor, o homem uma chama fa­
lante - o animal uma chama errante” (Fragmente I, n. 976, p. 267). “Natu­
reza animal da chama” (ibid., n. 994, p. 272). Bachelard falaria aqui das
metáforas da imaginação material.

152
Enciclopédia mostra claramente o lugar estrutural que ocupa
a tradução generalizada no pensamento romântico, ainda que
o conceito de tradução só apareça nele muito raramente.61 Po­
deríamos falar de um conceito operatório que, como tal, não
é tematizado, mas ordena o desdobramento desse pensamen­
to. Nesse sentido, Brentano compreendeu bem a verdade des­
te último quando escreveu em Godwi: “O romântico é ele
próprio uma tradução”.62
Falamos propositadamente de tradução generalizada:
tudo o que diz respeito à “versão” de alguma coisa para outra
coisa. Essa noção esta fundamentada na linguagem corrente:
“Traduzi meu pensamento assim...”, “dei minha versão dos fa­
tos”, “não consigo traduzir o que sinto”, etc. Aqui a tradução
refere-se ao mesmo tempo à manifestação de alguma coisa, à
interpretação de alguma coisa, à possibilidade de formular, ou
de reformular alguma coisa de outro modo. O que Jakobson
chamou de intratradução. Mais geralmente ainda, ela se refe­
re a tudo o que é do domínio da metamorfose, da transforma­
ção, da imitação, da recriação, da cópia, do eco, etc. Trata-se
aí de fenômenos reais, dos quais pode ser tentador buscar a co­
mum raiz ontológica. E é evidentemente a essa tentação que
o pensamento romântico cede, tentando dar à experiência
universal da transformabilidade e da afinidade das coisas um
fundamento especulativo. O problema da teoria da traduzibi-
lidade generalizada é sempre o seguinte: ela tende a apagar to­
das as diferenças. Por outro lado, é verdade que a traduzibili-
dade generalizada corresponde a algo real. E que toda teoria
da diferença encontra o problema inverso: onde se situa o âm­
bito ontológico do transformável, do convertível?

61. “O filósofo traduz o mundo real no mundo do pensamento, e inver­


samente” (Fragmente II, n. 1.956, p. 65).
62. Ver nosso capítulo 6.

153
A tradução restrita (inter-línguas) poderia oferecer
como que o paradigma desse problema: as diversas línguas
são traduzíveis, mas são também diferentes e, portanto, em
certa medida, intraduzíveis. Mas outras questões são coloca­
das. Por exemplo: como se relaciona essa tradução inter-lín-
guas com aquilo que Jakobson denomina a tradução intra-
língua? Ou seja, a reformulação, o rewording? Como a tra­
dução se relaciona no vastíssimo domínio das interpretações
— termo por si só pouco unívoco? Trata-se, em suma, da
questão dos limites do campo da traduçã&e do traduzível.
Seria talvèz o caso de articular uma multiplicidade
de teorias das translações (entre as quais, a das traduções)
recusando um a teoria da translação universal. E grande a
tentação de opor a esta últim a, seja ela psicológica, lingüís­
tica ou epistemológica, uma teoria da diferença generali­
zada. Uma teoria assim é altamente desejável e, de fato, ela
está sendo elaborada atualmente a partir de vários campos
de experiência. Mas é evidente que ela deve se interrogar
sobre a existência, ainda que não seja da translação genera­
lizada, que seja pelo menos a de sua aparência e, mais ain­
da, sobre a fascinação que as teorias da tradução generaliza­
da exerceram regularmente na história.
Os românticos de lena viveram intensamente à sua
maneira essa problemática. Mais do que isso: ela constituiu
o espaço de seu pensamento e de sua poesia. Em primeiro
lugar, eles desenvolveram, com a Enciclopédia, o Witz e a
poesia universal progressiva, uma teoria da traduzibilidade
generalizada que é a transposição especulativa e fantasista
da experiência concreta do campo do transformável. Em se­
gundo lugar, eles propuseram uma teoria da poesia que faz
desta uma tradução e, inversamente, faz da tradução um
duplo da poesia. E nessa óptica que eles interpretaram a re­
lação da poesia com o seu médium, a linguagem : toda poe­

154
sia seria a "tradução” da língua natural em língua de arte.
Posição que anuncia as de M allarm é, de Valéry, de Proust
ou de Rilke. Em terceiro lugar, eles obviamente pressenti­
ram que a tradução restrita constituía talvez o paradigma da
tradução generalizada, mas obscureceram essa intuição ao
privilegiar filosoficamente a tradução generalizada. Desde
então, a tradução era apenas mais um dos nomes (permutá­
veis) da versabilidade infinita - e um nome sem dúvida li­
mitado demais. Em quarto lugar, eles interpretaram a tradu­
ção comó sendo um duplo inferior da crítica e da com­
preensão, porque estas últimas lhes pareciam exalar mais
puramente a essência das obras literárias. Em quinto lugar,
eles viveram de modo apaixonado a experiência da tradução
restrita com A. W. Schlegel e conceberam a idéia de um
programa de tradução total - consagrando-se inteiramente,
assim, a uma fascinação talvez inerente ao traduzir como
tal: se tudo é traduzível, se tudo é tradução, podem-se e
devem-se traduzir todas as obras de todas as línguas, a essên­
cia da tradução é a onitradução.
Todos esses pontos estão ligados entre si, embora seja
importante distingui-los. A tradução generalizada da Enciclo­
pédia não é a tradução transcendental da poesia, mas ela é a
sua condição de possibilidade ontológica. A teoria da crítica
não é a da tradução; mas a crítica é um processo de tradução,
e a tradução um processo de crítica, enquanto que as duas re­
metem à mesma “química espiritual”, ancorada no princípio
da convertibilidade de tudo em tudo. A Enciclopédia é so­
mente um tecido de intratraduções, mas o programa de tradu­
ção restrita de A. W. Schlegel se julga enciclopédico. Por
onde se vê claramente o quanto, na articulação dos diferentes
projetos da Revolução romântica, opera sem descanso o prin­
cípio da versabilidade infinita. Resta agora percorrer os diver­
sos momentos dessa imensa reflexão circular.

155
Linguagem
de natureza e
linguagem de arte
O poeta é uma espécie singular de tradutor que
traduz o discurso comum, modificado por uma emoção,
em “linguagem dos deuses’’.

Pau! Valéry, Œuvres, Paris, Gallimard, La Pléiade, t. I, p. 212.

Roger Ayraut, em sua Gênese do Romantismo alemão,


mostra que não se encontra nem em Novalis, nem em
Friedrich Schlegel nenhum a teoria explícita da linguagem.
Os irmãos Schlegel, filólogos de formação, certamente não
podiam deixar de refletir sobre ela; mas foi após o período
da Athenäum que eles contribuíram, efetivamente, com
Grimm, Bopp, Humboldt e alguns outros, para a formação
da gramática comparada e da ciência da linguagem. Nova­
lis, por sua vez, só dedica na verdade pouco espaço às ques­
tões de linguagem em seus Fragmentos. O que isso quer di­
zer? Em primeiro lugar, que procuraríamos em vão nos pri­
meiros românticos uma filosofia da linguagem como aque-
la de Hamann ou de Herder. Ou melhor, esta surgiria nos
Schlegel bem depois de eles terem abandonado sua reflexão
crítica, especulativa e poetológica.'Tudo se passa como se,
entre tal reflexão e o estudo objetivo da linguagem , existis­
se um a certa incompatibilidade.
Todavia, não é exato afirmar, com Ayraut, que nem
Novalis nem F. Schlegel elaboraram uma teoria da lingua­
gem. Mesmo porque sua teoria da obra é uma teoria da poe­
sia e esta “se relaciona imediatamente com a linguagem”.2
Por outro lado, os românticos afirmaram qrífc a linguagem era
o mais universal de todos os mediums humanos. Isso não quer
contudo dizer que ela seja considerada por si mesma. Se aqui
a obra é, antes de tudo, obra de linguagem, a linguagem só
vale como linguagem da obra. O que significa que a teoria ro­
mântica da linguagem é inteiramente dependente daquela
da obra e da poesia. Ela nunca é autônoma, nem nunca se
cristaliza em um a Sprachlehre independente. Como tal, ela
se articula segundo dois eixos que fazem desaparecer, cada
um à sua maneira, a linguagem como realidade sui generis:
IoTudo é linguagem, “comunicação” e, por conseqüência, a
linguagem humana é um sistema de signos que não é funda­
mentalmente diferente dos outros sistemas de signos existen­
tes, a não ser pelo fato de lhes ser inferior; 2o A “verdadeira”
linguagem, tal como aparece na obra, deve ser concebida a
partir das “linguagens” matemáticas e musicais, ou seja, a par­
tir de formas puras que, em virtude de sua total ausência de
conteúdo, sejam “alegóricas”, ou seja, “mímicas” da estrutu­
ra do mundo e do espírito. Essas formas, liberadas da “tirania”
do conteúdo, o são igualmente do jugo da imitação.

1. Muito precisamente, é em 1808 que F. Schlegel publica o seu Ensaio


sobre a lingua e a filosofía dos indianos.
2. NOVALIS. Fragmente Í, n. 1.394, p. 370.

158
A linguagem real aparece nesse duplo horizonte como
uma Natursprache, uma linguagem de natureza, devendo ser
transformada em linguagem de arte, em Kunstsprache:

A linguagem comum é a linguagem de natureza - a


linguagem dos livros, a linguagem de arte.’

Linguagem natural, mímica, figurada. - Linguagem ar­


tificial, arbitrária, voluntária.1

O próprio da linguagem de natureza é ser puramente


referencial, estar centrada em um conteúdo. E essa primazia
do conteúdo é precisamente, para os românticos, o contrário
da arte.
Novalis:
Quanto mais a arte é grosseira, mais é surpreendente a
opressão do conteúdo.5

É uma grosseria e uma falta de imaginação comunicar-


se unicamente por causa do conteúdo —o conteúdo, o ma­
terial não devem nos tiranizar.6

E F. Schlegel:
Quanto mais tempo o artista se entrega à invenção [...]
mais ele se encontra [...] em um estado não liberal.7

Essa linguagem grosseira deve ser transformada, por


uma cadeia de potencializações, em medium da poesia. A es­
critura enquanto tal desempenha aqui um papel essencial:

3. Ibid., n. 1.272.
4. Ibid., n. 1.277.
5. Fragmente II, n. 1.865, p. 30.
6. Ibid., n. 2.032, p. 83.
7. AL. Fragments critiques, p. 84.

159
Elevação da língua comum para a língua dos livros. A
língua comum cresce sem cessar - a partir dela se forma
a língua dos livros.”

A poesia de natureza é o objeto próprio da poesia de


arte.5

O espírito é o princípio potencializante - donde se tem


que o mundo da escrita seja a natureza potencializada ou
o mundo técnico."1

A poesia implica a linguagem ap»nas como seu supor­


te, seu inevitávèl e imperfeito começo. A tarefa do poeta-filó-
sofo é muito mais produzir, a partir da linguagem de nature­
za, uma pura linguagem a priori - tarefa na qual a matemáti­
ca, a música e até mesmo a filosofia a precederam. Em toda
uma série de textos, Novalis e F. Schelegel esforçaram-se,
aliás, para pensar a totalidade das artes - e notadamente a pin­
tura —como criações apriorísticas. O fundamento dessa oposi­
ção das duas linguagens é evidentemente o da Natureza e do
Espírito, do que Novalis denomina, através de um neologismo
audacioso, a Faktur:
A feitura é oposta à natureza. O espírito é o artista. Fei­
tura e natureza misturadas - separadas - reunidas [...] A
natureza engendra, o espírito faz. E muito mais cômodo
ser feito do que se fazer a si mesmo."

Esse corte natureza/feitura é a afirm ação funda­


m ental da revolução logológica, e as declarações de F.
Schlegel e de Novalis visando relativizar especulativa-
mente essa oposição não a alteram em nada: o que se

8. Fragmente I, n. 1.277, p. 343.


9. Ibid., n. 1.411, p. 373.
10. Ibid., n. 395, p. 123.
11. Ibid., n. 163, p. 55. A última frase está em francés no original.

160
opõe à Kiinstlichkeit do artista, a tudo o que nele é refle­
xão, cálculo, consciência, sobriedade, lucidez, agilidade
e desprendimento, é essa Natürlichkeit inconsciente, obs­
cura e em briagada de si mesma que é o próprio do gênio
do Sturm und D rang, ou, mais profundamente, essa sim­
plicidade popular que “floresce” em produções não refle­
tidas, em “naturações” (outro neologismo de Novalis) in­
gênuas, que são para a arte poética verdadeira o que o
canto dos pássaros ou o murmúrio do vento nas árvores
são para a fuga ou para a sonata: m im etism o, paixão “não
lib eral” para o que é exprimido ou representado.
A crítica romântica do conteúdo é, em primeiro lugar,
uma crítica da relação do artista com o conteúdo; mas essa crí­
tica dificilmente deixa de se transformar em uma crítica da
própria noção de conteúdo, porque os procedimentos utiliza­
dos para abrir essa relação (reflexão, ironia, etc.) tendem a dis­
solver o conteúdo ou a fazer dele um simples suporte destes.
Afirmar, como faz F. Schlegel, que a ironia goetheana, em Wí-
Ihelm Meister, transforma os personagens desse romance em
“marionetes”, em “figuras alegóricas”,12 significa negligenciar
ou considerar como não essencial toda a dimensão realista
dessa obra. Mas é por ser referencial que o conteúdo anasta a
obra para fora de seu elemento próprio, a auto-referência.
Quanto à imitação, sua referência é diretamente o mundo ex­
terior, o dado, o fenomenal. Portanto, a tarefa da poesia é, em
primeiro lugar, a destruição da estrutura referencial natural da
linguagem (da mesma forma, a consciência romântica é cons­
ciência reflexiva, nunca consciência intencional ou transcen­
dência). O não-referencial, o não-conteúdo, o não-imitativo
não significam, entretanto, que a poesia se tome uma forma

12. SCHLEGEL, F. Kristische Schriften. Munique: Cari Hauser Verlag,


1964 . p. 4 7 1 .

161
“vazia”, um a pura formalização - não mais do que a música,
a filosofia e a matemática. Pois a auto-referência enquanto tal
é “simbólica” ou “alegórica” (a Athenäum tende, contraria­
mente aos esforços da época, a empregar indistintamente os
dois termos). Friedrich Schlegel consegue afirmar, no espaço
de algumas páginas, que “toda beleza é alegoria” e que “a lin­
guagem [...] repensada em sua origem é idêntica à alegoria".I!
Princípio que corresponde à estrutura não referencial da rea­
lidade: a auto-reflexão da linguagem reflete, em uma espécie
de referência não referencial, a auto-reflexão do real:

Todos os jogos sagrados da arte são apenas imitações


longínquas do jogo infinito do mundo, essa obra de arte
que se dá eternamente a si mesma sua própria lei.'10

Além disso, a alegoria, princípio da arte, remete tam­


bém ao fato de que a linguagem poética, nunca inteiramen­
te liberta de sua naturalidade, não pode expressar direta­
mente o “Altíssimo”: a escritura alegórica, desnaturalizando
a linguagem por toda um a série de procedimentos, busca
contornar essa enfermidade da linguagem natural, enfermi­
dade que Novalis e seu amigo não deixam de proclamar.

Novalis:

Numerosas coisas são delicadas demais para que as


pensemos; um número muito maior ainda para que se
fale delas.H.

Para o poeta, a linguagem nunca é pobre demais, mas


sempre geral demais.15

13. AL. F. Schlegel (Entretien sur la poésie), p. 318, 338.


14. NOVALIS. Bliithenstaub. p. 440.
15. Fragmente II, n. 1.916, p. 50.

162
E F. Schlegel:
A língua por si só dificilmente dá conta da moralidade.
Nunca ela é tão grosseira e tão pobre como quando se tra­
ta de designar conceitos morais."5

A Revolução crítica instaura assim, com a lingua­


gem, uma nova relação, pela qual se pode dizer que ela
rege, em grande parte, a poesia ocidental modema. Rela­
ção na qual a linguagem natural fica em falta quanto à es­
sência e ao projeto da poesia. Talvez seja necessário escla­
recer, a partir de nosso horizonte, essa noção de linguagem
natural. Dizer que a linguagem é “natural” não é negar sua
origem hum ana, histórica. É dizer que ela representa para
o homem um dado absoluto que o constitui como homem
e que tem sua própria espessura. Isso não significa que te­

16. AL. F. Schlegel (Fragments de YAthenäum), p. 172. É talvez nesse


contexto que se esclareceria melhor a observação de Guerne sobre o re­
lativo afrancesamento da língua de Novalis, fenômeno afinal de contas
visível até na escolha do apelido de “Novalis” para aquele que se chama
na realidade Hardenberg: “Novalis”, que significa em latim uma terra
recentemente desbravada (em francês “nóvale"). O alemão materno se­
ria a Natursprache, o francês a Kunstsprache enquanto francês e, sobre­
tudo, língua outra. O recurso a expressões “romanas” serviria para elevar
a língua natural à condição de língua artificial, para aumentar o distan­
ciamento com a primeira. Movimento inverso do de Lutero, que busca
simultaneamente uma linguagem popular e bem alemã. Novalis obser­
vou bem essa particularidade da língua de Lutero, parecendo confundi-
la com a mistura “romântica” do nobre e do vil: “Mistura do grosseiro,
do comum, do proverbial com o nobre, o alto, o poético. Langage du Dr
Luther [...]” (Fragmente l, n. 1.402, p. 370). Um abismo separa a posi­
ção de Lutero e a de Novalis, ou seja, a da dialética idealista da consti­
tuição de uma língua transcendental poético-filosófica. O mesmo pro­
cesso de des-germanização poderia se observar no nível estilístico em F.
Schlegel: a forma literária do Witz - do fragmento - permanece a “pa­
lavra espirituosa”, o “traço" francês (Chamfort).

163
nhamos com ela um a relação passiva, que estejamos im er­
sos nela ou dominados por suas estruturas: nós criamos na
linguagem , com a linguagem , nós criamos linguagem sem
nunca criar a linguagem . E o que mostram, mais ainda do
que a escrita, as culturas orais nas quais a criação lingüísti­
ca é incessante. A relação oral com a linguagem pode ser
cham ada “natural”: ela se contenta em cultivar as potencia­
lidades desta sem procurar revolucioná-la. A relação escri­
ta, por sua vez, carrega em seu germe uma tal revolução.
Novalis o pressentiu quando anotou em seus cadernos:

Os livros são um gênero moderno de seres históricos -


mas um gênero altamente significativo. Talvez eles te­
nham tomado Olugar das tradições.17

A literatura mantém com a História uma relação de


fundação. E é justamente porque a relação dos homens con­
sigo mesmos e sua história passa a ser mediatizada pela escri­
ta que o solo originário desta, a linguagem natural “oral”,
não parece mais portador de historicidade. Ela fica em falta
em relação aos objetivos filosóficos, culturais, científicos e
até poéticos que se propõe a hum anidade “moderna”. A na­
turalidade originária oral da linguagem implica, com efeito,
sua não-universalidade, sua não-racionalidade, sua referên-
cia-conivência com o hic et nunc, seu retalhamento infinito
em línguas, dialetos, patoás, socioletos, idioletos, etc. Entre­
gue a si mesma e a sua pura essência natural, histórica e so­
cial, a linguagem não cessa de se particularizar, de se dife­
renciar, de se adaptar ao retalhamento infinito dos espaços e
dos tempos. Ficaríamos tentados a ver nisso, obviamente,
um a de suas riquezas essenciais. Mas, no horizonte da mo-

17. Fragmente I, n. 1.360, p. 363.

164
demidade, trata-se antes do que se opõe congenitamente ao
seu próprio desdobramento. Em seu “estado de natureza”, a
linguagem não somente é infinitamente diferenciada, mas
também não fixada: ela não cessa de se alterar, de se modifi­
car, de se renovar. A escritura, como se sabe, introduz uma
brutal fixação dessa onda movediça, ou antes, modifica as
condições de transformação da linguagem, como Rosenz-
weig exprimiu fortemente no texto citado mais acima: estas,
doravante, lhe vêm em parte do exterior. O Romantismo ale­
mão, qualquer que seja sua aversão pelo Classicismo francês,
inscreve-se na mesma dimensão e tira dela as mesmas conse­
qüências radicais para a poesia, colocando uma diferença
abismal (ontológica e não mais estético-social) entre a lin­
guagem de natureza, a linguagem “comum” e a linguagem
poética. Sua própria linguagem poético-crítica é o retrato
dessa diferença: ela é de um lado a outro artificial.18 Essa ar­
tificialidade manifesta-se em primeiro lugar por uma certa
ilegibilidade. A obscuridade de um Heráclito, de um Góngo­
ra, às vezes de um Shakespeare, ou o “trobar clus”, o falar
obscuro dos trovadores, faz parte de um outro registro. Trata-
se 011 de um código decifrável, ou de um conteúdo apresen­
tado voluntariamente de modo obscuro, ou de uma flutua­
ção mais ou menos deliberada entre a linguagem e o que ela
visa a dizer. A ilegibilidade, por sua vez, parece estar profun­
damente ligada ao não-referencial. Quando Novalis afirma

18. Friedrich Schlegel expressou muito bem esse gosto pelo artificial e a
sua ligação com a reflexividade: “E ter um gosto sublime preferir sem­
pre as coisas na segunda potência. Por exemplo, cópias de imitações,
exames de resenhas, aditivos aos apêndices, comentários sobre as no­
tas...” (AL. Fragment n. 110 de YAthenäum, p. 111). Além da impressio­
nante modernidade do texto, a relação com a tradução, chamada, aliás,
de “mímica filológica” (ibid., n. 75, p. 90), salta aos olhos. A artificiali­
dade consiste aqui em afastar-se sempre mais de um original qualquer.

165
que o “mistério” é o “estado de dignidade”, estamos verda­
deiramente no início de um processo que vai culminar com
M allarmé ou Rilke. Esse afastamento infinito da linguagem
natural vai lado a lado com a busca de urna obra total, enci­
clopédica, que seria todas as obras e se refletiria a si própria;
obra que, de urna certa maneira, poderia se desdobrar em
qualquer língua existente, porque ela está “além ” (aparente­
mente) da linguagem. Foi o que Brentano pressentiu em
uma passagem de seu romance Godwi, ao qual ainda volta­
remos posteriormente, quando ele diz,-'? propósito de Dante
e de Shakespeare:

Esses dois poetas dominam tão bem sua língua quanto


sua época [...] Eles se comportam como gigantes em suas
línguas e sua língua não pode sujeitá-los, pois a linguagem
ein geral quase não basta para seu espírito [...].”

Retomemos agora m ais detalhadam ente os dois ei­


xos que estruturam as reflexões de F. Schlegel e de Nova-
lis sobre a linguagem .
Tudo é linguagem. Essa afirmação é encontrada um
pouco em todos os lugares nos textos românticos. Tudo é
“signo”, “sintoma", “tropo”, “representação”, “hieróglifo”,
“símbolo”, etc., designando ora uma interpretação, ora
uma cega imersão. Esse puro significar das coisas e do
mundo, no entanto, não com unica nada de particular; ele
é antes significância bruta:

Gramática. O homem não é o único a falar - o univer­


so também fala - tudo fala - linguagens infinitas. / Dou­
trina das assinaturas.20

19. BRENTANO, C. Werke. Munique: Cari Hanser Verlag, 1963. p. 262.


v. II.

166
Gramática. A linguagem é Delfos.2'

Imagem - não alegoria, não símbolo de alguma coisa


de estranho: símbolo de si mesma.22

Tal é o paradoxo de um a comunicação sem comuni­


cado, de um a linguagem universal e vazia, que propõe ao
ouvido humano a im inência de uma revelação futura ou os
vestígios de uma revelação passada:

Tudo o que nós vivemos é uma comunicação. Assim o


mundo é efetivamente uma comunicação —uma revela­
ção do espírito. O tempo não está mais onde o espírito de
Deus era compreensível. O sentido do mundo perdeu-se.
Ficamos com a letra [...].“

Poderíamos falar aqui de um a poeticidade universal


das coisas, quando a poesia pode parecer, às vezes, ser o
sentido dessa linguagem do mundo perpetuamente silen­
cioso e perpetuamente em instância de palavra. Esse uni­
verso em que tudo é linguagem e em que a linguagem é
sempre linguagem de... (linguagem das flores, da música,
das cores, etc.) remete tanto à teoria das assinaturas quanto
à das correspondências baudelairianas, das quais os irmãos
Schlegel e Tieck forneceram, aliás, um a espécie de primei­
ra versão. Mas também podemos dizer que, se tudo é lin­
guagem, não há linguagem 110 sentido específico e que a
linguagem humana encontra-se perpetuamente em falta
com relação a essa linguagem do tudo. O sistema dos sig­
nos precisamente lingüísticos parece como que atingido
pela pobreza em relação a essa incessante comunicação do

Z l.Ibid., n. 1.296, p. 348.


22. Fragmente II, n. 1.957, p. 65.
23. Ibid., n. 2.228, p. 126.

167
mundo. A tarefa da poesia, a partir de então, é a de reapro-
ximar a linguagem hum ana da linguagem universal. Mas
isso não significa de forma algum a naturalizar a poesia e
suas formas: ao contrário, na medida em que a linguagem
das coisas é puro mistério, pura significancia vazia, a tarefa
da poesia será criar uma Kunstsprache possuindo as mes­
mas características. Foi o que exprimiu Novalis em um
fragmento célebre:

Narrativas, sem conexão, entretante^providas de asso­


ciação, corno sonhos. Poemas - simplesmente harmonio­
sos e repletos de palavras belíssimas - mas igualmente
privados de sentido e de ligação entre eles - no máximo
algumas estrofes isoladas compreensíveis [...] A poesia
verdadeira pode no máximo ter um sentido globalmente
alegórico e um efeito indireto como a música, etc.24

Que tudo seja linguagem ou “alegoria”, isso tem um


corolário: “Os signos lingüísticos [escreve Novalis] não são es­
pecificamente diferenciados (unterschieden) do resto dos fenô­
menos".25 Signo quer dizer aqui ao mesmo tempo: marca que
pennite a designação das coisas e hieróglifo análogo àqueles
que nos oferecem o mundo e a natureza. Para os românticos,
a linguagem humana é o local de uma contradição: por um
lado, como criação do espírito, ela é abstrata demais, geral de­
mais, afastada demais do que ela designa. E nesse sentido que
Novalis pode dizer que ela é para a filosofia, assim como para
a arte, um “médium de representação inautêntico”.26 Mas por
outro lado, como hieróglifo, ela possui um poder ativo e qua­
se mágico:

24. Fragmente I, n. 1.473, p. 392.


25. Ibid., n. 1.285, p. 347.
26. Ibid., n. 1.275, p. 344.

168
A designação por sons e traços é uma abstração digna de
admiração. Quatro letras me designam Deus; alguns tra­
ços, um milhão de coisas [...] A doutrina da linguagem é
a dinâmica do reino dos espíritos [...].27

Quando Novalis escreve brevemente que o “espírito


não pode se manifestar senão em um a forma exterior e aé­
rea’’,27 do que pode se tratar, se não for da linguagem , mas
da linguagem poeticamente purificada e potencializada?
Assim, lemos ainda em seus Fragmentos logológicos:

[...] O poeta desfaz todos os laços. Suas palavras não são


palavras gerais - são sonoridades, palavras mágicas que fa­
zem se moverem ao redor delas belos grupos. Exatamen­
te como as roupas dos santos conservam ainda forças ma­
ravilhosas, muita palavra foi santificada por algum pensa­
mento maravilhoso e tomou-se quase que por si só um
poema. Para o poeta, a linguagem nunca é pobre demais,
mas sempre gera! demais. E!e sempre precisa de palavras
que voltam, palavras gastas pelo uso [...].a

Há aí um a exigência que poderia ser formulada as­


sim: da linguagem mais comum, mais banal, mais cotidia­
na, fazer um instrumento de expressão poética. Longe de
penetrar na espessura significante da língua natural, a poe­
sia deve torná-la cada vez mais “aérea”. Essa operação efe­
tua-se no horizonte de uma teoria das “linguagens” matemá­
ticas e musicais, consideradas como linguagens apriorístícas
e alegóricas.
A propósito da música, é necessário ainda deixar
bem claro que, para Novalis, ela só tem acesso a sua verda­
de sob suas formas mais apuradas:

27. Bliithenstaub.
28. Fragmente II, n. 1.916, p. 50.

169
A dança e a música cantada não são precisamente a ver­
dadeira música. Somente subgéneros desta. Sonatas - sin­
fonias - fugas - variações - eis a música auténtica.®

Esse corte brutal operado pelo apóstolo do Marchen


entre a música popular e a música abstrata esclarece evi­
dentemente a oposição entre a poesia de natureza e a poe­
sia de arte. Ele permite sobretudo propor a música como
modelo da poesia, sem deixá-la entregue a um a pura senti­
m entalidade informe.
A música sozinha pode se tornar o horizonte da poe­
sia e de sua transformação em linguagem não referencial
apenas porque sua essência é matemática. Se Novalis sepa­
ra tão claram ente a música popular da música abstrata, é
porque esta é “matematizada”.
A matemática desempenha um grande papel no pen­
samento romântico, tanto quanto a filosofia, segundo este
principio enunciado por Novalis: “Todo real criado a partir
de nada, como os números e as expressões abstratas, tem
uma maravilhosa afinidade com as coisas de um outro mun­
do [...], por assim dizer com uin mundo poético, matemáti­
co e abstrato”.30 A teoria romântica da matemática situa-se
na interseção de uma teoria puramente formalista e de uma
doutrina especulativa da mística dos números e das figuras
(tal como encontramos também em Franz von Baader).
M as essas duas teorias, na realidade, formam uma só. O ca­
ráter místico da matemática reside, com efeito, em seu ser
formal e apriorístico. Essa afirmação enunciada pelo Monó­
logo, de que as relações e operações matemáticas são, ao

29. Fragmente I, n. 1.327, p. 355.


30. In: FIESEL, Eva. Die Sprachphilosophie der deutschen Romantik.
New York: Hitdesheim, 1973. p. 33.

170
mesmo tempo, ficção e reprodução das relações das coisas,
poderia ser a das ciências positivas modernas. E um ponto
secundário para os românticos que a essa validade ontológi­
ca e gnosiológica se acrescentem significações mais ocultas.
A matemática constitui para Novalis um modelo e até
mesmo um objeto de fascinação/1 na medida em que ela é
um produto do espírito totalmente apriorístico, abstrato e
auto-centrado e na medida em que, igualmente, o trabalho
de produção do espírito é visível nela. É o modelo da “arte”
transcendental instransitiva, cujos jogos de signos, no entan­
to, remetem, como através de uma distância infinita, aos “jo­
gos do mundo”. Essa mimese não mimética e não empírica
deve guiar a revolução copemicana da linguagem e da mú­
sica, a fim de libertá-las da “menor suspeita de imitação”:52

A geometria é a arte transcendental dos signos.”

O sistema dos números é o modelo de um verdadeiro sis­


tema dos signos lingüísticos - nossas letras devem tornar-
se números, nossa linguagem uma aritmética.”

A matemática autêntica é o elemento verdadeiro do má­


gico. Na música, ela aparece formalmente como revela­
ção - como idealismo criador.“

Música. Matemática. A música não teria alguma coisa


da análise combinatória e vice-versa? A linguagem é um
instrumento de idéias musical. O poeta, o retórico e o fi­
lósofo interpretam e compõem gramaticalmente. Uma
fuga é totalmente lógica ou científica [...].“

31. Cf. os surpreendentes “Fragments mathématiques”. In: Fragmente 1,


n. 401, p. 124-126.
32. Fragmente II, n. 1.855, p. 23.
33. Fragmente I, n. 343, p. 111.
34. Ibid., n. 355, p. 109. Cf. também os n. 387 e 391.
35. Ibid., n. 401, p. 125.
36. Ibid., n. 1.320, p. 353.

171
As relações musicais me parecem ser [...] as relações
fundamentais do mundo.”

Os textos escritos em louvor à m úsica são num ero­


sos em Novalis (e tam bém em F. Schlegel). M as esse c u l­
to à m úsica não tem nada a ver com o mito da m úsica
que já está florescendo, na m esm a época, com W acken-
roder; não tem nada a ver (ou indiretam ente) com esse
culto às “sonoridades m ágicas” que vai estar tão em voga
nas outras gerações rom ânticas. Trata-se aqui da m úsica
abstrata: um sistem a com posicional de sons constituindo,
segundo a fórm ula de Kant, um a “finalidade sem fim ”
ou, segundo a fórm ula não menos forte de Novalis, um
monólogo. Sistem a cuja alegoricidade é perfeita, visto
que as sonoridades são, ao mesmo tempo, plenas de sen­
tido e vazias de todo sentido determ inável e definido. Se
o signo m atem ático é vazio, se o signo lingüístico é ple­
no (porém dem ais: ele diz isto ou aquilo), o signo m usi­
cal, por sua vez, é ao mesm o tempo pleno e vazio. D aí a
im portância poética da m úsica sob o triplo aspecto de sua
arquitetura m atem ática, de sua estrutura com posicional
e da significação infinita de suas cadeias sonoras:

Nossa linguagem —era no início muito musical [...] Ela


deve voltar a se tornar canto.™

Composição do discurso. Tratam ento m usical da


escritura.”

Deve-se escrever como se compõe.'*"

37. Ibid., n. 1.326, p. 354.


38. Ibid., n. 1.313, p. 391.
39. Ibid., n. 1.383, p. 369.
40. Ibid., n. 1.400, p. 371

172
E Friedrich Schlegel:

Parece normalmente estranho e ridículo para muitas


pessoas que os músicos falem dos pensamentos inclusos
em suas composições; acontece freqüentemente também
que se perceba que eles têm mais pensamentos em sua
música do que sobre ela. Mas aquele que tem o sentido
das maravilhosas afinidades entre todas as artes e as ciên­
cias, pelo menos, não considerará a coisa do ponto de vis­
ta bem banal de uma pretensa naturalidade, segundo a
qual a música seria apenas a linguagem dos sentimentos,
e não achará de modo algum impossível em si uma certa
tendência para a filosofia de qualquer música instrumen­
tal pura. A música instrumental pura não tem de elaborar
ela própria seu texto? E o tema não é nela desenvolvido,
confirmado, variado e contrastado como o é o objeto da
meditação em uma série de idéias filosóficas?<,

Tal é a tarefa da poesia simbólico-abstrata: fazer can­


tar filosoficamente as palavras em uma composição musi­
cal e matemática, sendo o canto das palavras o que abole o
seu sentido lim itado e lhes dá um sentido infinito. Tal é a
“poesia do infinito” de Novalis, a “poesia universal progres­
siva” de F. Schlegel, quando são tomadas não no sentido de
suas formas textuais, mas de seu tecido verbal. O fragmen­
to de Novalis, citado acim a, sobre as narrativas privadas de
“conexão” define de modo mais aproximado a essência des­
sa linguagem poética musicalizada ein um sentido abstra­
to. Os românticos de lena terão sido, sem dúvida, os pri­
meiros a formular essas exigências, que reaparecerão quase
um século mais tarde em M allarm é, nos Simbolistas e em
Valéry (na França). É preciso, no entanto, acrescentar o se­
guinte: nessa relação doravante ansiosa que a poesia vai
manter com o seu modelo (sua rival), a música monológi-

41. AL. Fragmento da Athenäum, n. 444, p. 176.

173
ca, ela detém um a vantagem essencial: ela pode se tornar
linguagem da linguagem , poesia da poesia, quando só se
pode falar em um sentido derivado de um a música da mú­
sica (ou de um a matemática da m atem ática); a partir do
momento em que ela se livra de toda referência exterior a
si mesma, de toda transcendência imitativa ou temática, a
poesia torna-se uma arte suprema, um sich selbst bildendes
Wesen, um “ser que se forma por si mesmo”.42 Está aí, po­
deríamos dizer, sua essência supra-musical, supra-matemá-
tica, sua capacidade de ser não somenfe apriorística, mas
transcendental no sentido fichteano, o que lhe assegura sua
profunda identidade com a filosofia.43
É estranho constatar, entretanto, que os românticos
não refletiram de modo algum sobre a faculdade da lingua­
gem de se tornar linguagem da linguagem e que o M onó­
logo de Novalis, que constitui a expressão mais completa

42. Fragmente 1, n. 1.398, p. 371.


43. Nenhum texto literário romântico está à altura dessa reflexividade
musicalizante preconizada pela Athenäum. Será preciso esperar o sécu­
lo 20 para ver surgirem tais obras. Em busca do tempo perdido, de Proust,
e A morte de Virgílio, de Broch, são as ilustrações mais surpreendentes
da fecundidade literária dos princípios de Novalis e de Schlegel. No que
se refere a Proust, os trabalhos de Anne Henry e, notadamente, Mareei
Proust: théories pour une esthétique, Klincksieck, 1981, mostraram a in­
fluência que exerceu Shelling, o filósofo mais próximo do grupo da
Athenäum, sobre esse autor e seu projeto literário, por toda uma série de
mediações. A reflexividade é inerente à escritura proustiana e está inscri­
ta no próprio título da obra (recherche). A observação de Proust segundo
a qual a tarefa de um escritor é idêntica à de um tradutor e esta outra
que afirma que toda obra, enquanto obra, parece ser escrita em uma lín­
gua estrangeira são testemunhos de sua vinculação ao “espaço literário"
aberto pela Athenäum. “Com ele, nós entramos em uma nova estética
que não mergulha mais suas raízes na vivência, mas na solidez do teóri­
co” (JACCARD, R. Le Monde, 5 ago. 1983). Essa estética não é nova: é
a da reflexividade elaborada por SCHLEGEL, F.

174
de sua Sprachlehre, contenta-se, nesse domínio, em homo­
logar a linguagem à matemática. Pois a faculdade reflexiva
da linguagem é realmente uma propriedade da linguagem
natural enquanto tal, propriedade indissoluvelmente ligada
a sua faculdade referencial. Do mesmo modo que a cons­
ciência de si é primeiramente consciência intencional, a
linguagem só é auto-referência na medida em que ela é re­
ferência e, inclusive, esse espaço de todas as referências
possíveis no qual se constitui a consciência-sujeito. Os ro­
mânticos, situando-se exclusivamente no domínio da cons­
ciência reflexiva, não conseguem definir o domínio da lin­
guagem propriamente dito. A partir de então, esta só pode
aparecer como o medium imperfeito de um a poesia chama­
da para ser o lugar cla reflexão suprema. A única teoria que
a Athenäum pode dar da linguagem é a de uma linguagem
potencializada, romantizada, linguagem “pura”, não no
■sentido de que ela restituiria a essência escondida das “pa­
lavras da tribo” (M allarm é), mas no sentido de que foi me­
tódica e deliberadamente esvaziada de todos os seus con­
teúdos e laços naturais. Mas isso é provavelmente uma ilu­
são e Novalis o pressente quando diz da poesia:

Com cada traço que a perfaz, a obra é lançada longe do


mestre para além dos espaços; e com os últimos traços, o
mestre vê o que chamamos a sua obra, separada dele por
um abismo espiritual do qual ele mesmo pode pouco
compreender a extensão [ - ]41

M allarm é e Rilke form ularam essa lei do afasta­


mento poético corn um a precisão sem elhante. O prim ei­
ro escreve:

44. Fragmente II, n. 2.431, p. 171,

175
As palavras, por si mesmas, são exaltadas em muitas
facetas, reconhecidas como as mais raras ou válidas
para o espírito, centro de suspensão vibratória, que as
percebe independentemente da seqüência normal, como
se projetadas em paredes de gruta, o quanto dure sua
m obilidade ou princípio, sendo o que não se diz do
discurso: prontas todas, antes da extinção, para uma re­
ciprocidade de fogos distante ou apresentada de Viés
como contingência.45

E o segundo:

Kein Wort im Gedicht (ich meine hier jedes “und” oder


“der”, “die”, “das”) ist identisch mit dem gleichlautenden
Gebrauchs und Konversations Wort; die reinere Gesetz­
mässigkeit, das grosse Verhältnis, die Konstellation, die es
im Vfeis oder im Künstlerische Prosa einnimmt, verändert
es bis in den Kern seiner Natur, macht es nutzlos, un­
brauchbar für den blossen Umgang, unberührbar und
bleibend [...].46

A teoria da linguagem poética estelarmente afastada da


linguagem natural culmina em Rilke com uma teoria do her­
metismo, no sentido do fechamento do poema sobre si; em
Novalis e F. Schlegel, ela leva de modo semelhante a uma teo­
ria do “estado de mistério”, Geheimniszustand. Em sua base
há, primeiramente, a idéia, freqüente no final do século 18, de
uma língua superior, de um sánscrito para iniciados. Mas a teo­
ria do estado de mistério vai mais longe: ela descreve essa ope-

45. In: BLANCHOT, Maurice. La part du feu. Paris: Gallimard, 1949.


p. 41. Grifo nosso.
46. “Nenhuma palavra no poema (ouço aqui cada “e”, “o", “a”, ou “os”,
“as”) é idêntica à palavra correspondente da conversação e do uso; o
arranjo mais puro, a relação mais vasta, a constelação em que ela se
situa no verso ou na prosa poética alteram-na até no centro de sua na­
tureza, tornam-na inútil e imprestável para o comércio comum, intan­
gível e durável.” In: STEINER, George. After Babel. Oxford: Oxford
University Press, 1975. p. 241.

176
ração poética suprema pela qual a linguagem se toma ao mes­
mo tempo familiar e estrangeira, próxima e longínqua, clara e
obscura, compreensível e incompreensível, comunicável e in­
comunicável. Citamos aqui alguns fragmentos de Novalis que,
de diversos horizontes, fazem alusão a essa operação:
Aquele que pode fazer uma ciência - deve também
poder fazer uma não-ciência - aquele que sabe tornar
algum a coisa compreensível —deve também saber tor­
ná-la incompreensível.'17

A arte de [...] reproduzir um objeto estrangeiro e, no


entanto, conhecido e atraente, eis a poesia romântica.''“

Elevar ao estado de mistério. O desconhecido é o estí­


mulo da faculdade de conhecer. O conhecido não estimu­
la mais. Mistificação.'19

O mistério é o estado de dignidade.50

O espírito esforça-se em absorver o estímulo. O estran­


geiro o atrai. Metamorfose do estrangeiro em próprio. A
apropriação é, portanto, a ação incessante do espírito.
Um dia, não haverá mais estímulo e nem estrangeiro - o
espírito deve se tomar para si mesmo estrangeiro e estí­
mulo [...] No presente, o espírito é espírito por instinto -
espírito natural - , ele deve se tornar espírito racional, por
reflexão (Besonnenheit) e por arte (a natureza deve se
tornar arte e a arte uma segunda natureza).51

Tal é também a teoria romântica do Longínquo, da


qual poderíamos talvez encontrar um eco em Walter Benja-
min, quando ele diz em seu ensaio sobre Baudelaire que a be­
leza “é a única aparição de algo longínquo”:

47. Fragmente I, n. 1.043, p. 288.


48. Ibid., n. 1.434, p. 381.
49. Ibid., n. 1.687, p. 446
50. Ibid., n. 1.752, p. 472
51. Fragmente II, n. 2.386, p. 163.

177
O desconhecido, o misterioso são o resultado e o inicio
de tudo [...] A filosofia longínqua ressoa como poesia-
porque cada chamada, no longínquo, torna-se vogal [...]
Assim, tudo, à distância, torna-se poesia - poema. Actio in
distans. Montes longínquos, homens, acontecimentos
afastados, etc., tudo se torna romântico, quod idem est-d e
lá veio nossa natureza originariamente poética. Poesia da
noite e do crepúsculo.52

O lugar da obra é o longínquo, o desconhecido-conhe-


cido, o familiar estrangeiro. Em Henri d’Ofterdingen, Novalis
escreve: “Ouvimos palavras estrangeiras e*sabemos, no entan­
to, o que devem significar”.” Assim reencontramos, mas des­
sa vez em um nível puramente poético e especulativo, a rela­
ção do próprio e do estrangeiro constitutiva da Bildung ale­
mã. Sob esse ponto de vista, pode-se considerar o romance
inacabado de Novalis como a inversão ( LJmkehrung) cons­
ciente da relação do próprio e do estrangeiro, do próximo e
do longínquo tal como ela estrutura o Bildungroman de Goe­
the, Wilhelm Meister. Tal é a culminação da teoria da obra ro­
mântica: elevada ao estado de mistério está a linguagem em
que as palavras familiares tomaram-se estrangeiras, em que
tudo é mergulhado em um longínquo incompreensível e, no
entanto, pleno de sentido.
Mas essa operação literária que é a essência da ro-
mantização5,f não se assemelha ao próprio movimento da
tradução? Ou antes: a tradução não prolonga, não radicali­

52. Fragmente 1, n. 133, p. 43. Cf. também o n. 91, p. 33 e o célebre frag­


mento n. 1.847: “A poesia dissolve o estrangeiro em seu ser próprio”
(Fragmente II, p. 22).
53. Henri d’Ofterdingen. In: Les Romantiques allemands. Paris: Galli­
mard, 1973. La Pléiade, p. 448. t. I.
54. “Romantismo. Absolutização — universalização - classificação do
momento individual, da situação individual, etc., tal é a verdadeira es­
sência da romantização” (Fragmente I, n. 1.440, p. 333).

178
za esse movimento que é da obra na obra romântica? Ela
não arranca a obra estrangeira da finitude de sua linguagem
nativa e natural? Não a afasta “estelannente”, inserevendo-
a em uma outra língua, de seu húmus empírico? Em toda
tradução, todos concordarão, a obra é como que desenraiza­
da. Ora, esse movimento de desenraizamento inerente a
toda tradução, qualquer que seja ela, a opinião corrente o
considera como uma perda, até como um a traição. O texto
traduzido estaria em falta com relação ao original, porque
ele seria incapaz de restituir a rede de conivências e de re­
ferências que faz a vida deste último. Certamente. Mas, na
perspectiva romântica, essa rede é o que consagra a finitude
da obra, cuja vocação é seu próprio caráter absoluto. Se a
ironia é um dos meios imaginados pelos românticos para
elevar a obra acima de sua finitude, é preciso então conside­
rar a tradução como esse procedimento hiper-irônico que con­
clui o trabalho da ironia imanente à obra.”
De fato, esse conjunto de movimentos pelos quais,
na tradução, o estrangeiro se torna familiar, o familiar es­
trangeiro, etc. é idêntico àquele pelo qual a obra (românti­
ca) trabalha para negar a linguagem natural e para se des­
fazer de qualquer aderência em pírica. Nesse sentido, a tra­
dução de um a obra literária é como a tradução de uma tra­
dução. E esse duplo movimento que caracteriza o texto ro­
mântico, tornar o próximo longínquo e o longínquo próxi­
mo, é efetivamente a visada da tradução: no texto traduzi­

55. O que Benjamin efetivamente viu, quando diz da tradução: “Ela


transplanta portanto o original sobre um terreno - ironicamente - mais
definitivo, pelo menos na medida em que não saberíamos mais deslocá-
lo de lá por nenhuma transferência {...] Não sem razão a palavra “irôni­
co” pode evocar aqui os procedimentos dos Românticos” (“La tâche du
traducteur". In: Mythe et violence. Paris: Denoel, 1971. p. 268).

179
do, o estrangeiro certam ente se toma próximo, mas, do
mesmo modo, o próximo (a língua materna do tradutor)
fica como que distanciado e se toma estrangeiro.56
Ora, essa “metamorfose”, essa “inversão”, é isso o
que Novalis cham a de elevação ao estado de mistério. A
tradução aparece, portanto, como o cum e, ou um dos cu­
mes empíricos, da absolutização da obra. Tudo o que esta
perde aí concretam ente, ela ganha em realidade transcen­
dental, ou seja, no nível do que a constitui como “obra”.
A audaciosa afirmação de Novalis s^undo a qual, “no fi­
nal das contas, toda poesia é tradução” - afirmação que um Joé
Bousquet teria perfeitamente podido enunciar - toma-se a par­
tir de então compreensível: se a poesia verdadeira é a elevação
da linguagem natural ao estado de mistério e se a tradução cons­
titui como que um redobramento desse movimento, então

56. BLANCHOT, em La part du feu, exprimiu admiravelmente esse movi­


mento: "Admitamos que um dos objetos da literatura seja criar uma lingua­
gem e uma obra em que a palavra morte seja verdadeiramente morte [...]
ocorre que essa nova linguagem deveria ser em relação à língua corrente o
que um texto a traduzir é para a linguagem que o traduz: um conjunto de
palavras ou de acontecimentos que compreendemos e assimilamos, sem dú­
vida, às maravilhas, mas que, em sua própria familiaridade, nos dão o senti­
mento de nossa ignorância, como se descobríssemos que as palavras mais fá­
ceis e as coisas mais naturais pudessem subitamente se tomar para nós des­
conhecidas. O feto de que a obra literária queira conservar suas distâncias,
de que ela busque afastar-se de todo o intervalo que faz sempre da melhor
tradução [...] uma obra estrangeira, é o que explica (em parte) o gosto do
simbolismo pelos termos raros, a busca do exotismo [...] Traduzido do silên­
cio, esse título de }oe Bousquet é como o desejo de toda uma literatura que
gostaria de permanecer tradução 110 estado puro, uma tradução aliviada de
qualquer coisa a traduzir, um esforço para reter da linguagem a única dis­
tância que a linguagem procura guardar diante de si mesma e que no final
das contas deve terminar com seu desfalecimento” (p. 174). Estamos aqui
muito perto - e a citação de Bousquet o confirma - do Romantismo. Ou an­
tes, a reflexão de Blanchot aparece como totalmente presa 110 espaço literá­
rio aberto pela Athenäum.

18 0
pode-se mesmo afirmar que Dichten é originariamente überset­
zen. Ou ainda: à tradução transcendental operada pela poesia (a
romantização) conesponde a tradução empírica, ou seja, a pas­
sagem da obra de uma língua para outra. A primeira “tradução”
opera sobre a linguagem como linguagem, a segunda, sobre a
língua na qual a linguagem foi assim tratada. Pode-se, a partir
daí, compreender também por que o ato de traduzir pôde exer­
cer tal fascinação sobre os românticos, fascinação que, no en­
tanto, não diz respeito, de modo algum, à relação das línguas en­
tre si, mas ao que, em toda tradução, diz respeito à condenação
à morte da linguagem natural e ao vôo da obra em direção a
uma linguagem estelar que seria sua pura linguagem absoluta.
A teoria da tradução de Walter Benjamin, inconcebível sem sua
longa relação com os românticos, não faz outra coisa senão
enunciar com mais pureza as intuições destes.
Vê-se, portanto, como a teoria da Kunstsprache (exata­
mente como a da versabilidade infinita da poesia universal
progressiva e da Enciclopédia) convida secretamente a uma
teoria da tradução: desse ponto de vista, toda obra é tradução,
seja versão indefinida de todas as formas textuais e categoriais
umas nas outras, seja infinitização das “palavras da tribo”. O
que se considera habitualmente como a negatividade da tra­
dução é a partir de então, para a Athenäum, muito mais sua
positividade poética. Uma tal posição especulativa vai, obvia­
mente, bem além das posições de Herder e de Goethe, que
se prendem firmemente a uma perspectiva cultural e literária
“empírica” e não acreditam que a poesia tenha de ser arran­
cada de seu solo referencial.57

57. Bem ao contrário: a teoria da “poesia de circunstância” de Goethe,


muitas vezes afirmada em suas Conversas com Eckermann, opõe-se radi­
calmente à da poesia romântica. Para ele, a circunstância é o que en­
raíza a poesia na contemporaneidade e na naturalidade.

181
Essa posição é a que orienta o nascimento daquilo
que a época moderna chamou de literatura, como bem
mostrado por M ichel Foucault em As palavras e as coisas:
[...] A palavra é de fresca data, como é recente também
em nossa cultura o isolamento de uma linguagem singu­
lar, cuja modalidade própria é ser “literária”. E que no iní­
cio do século 19, na época em que a linguagem penetra­
va em sua espessura de objeto e se deixava, de um lugar a
outro, atravessar por um saber, ela se reconstituía em ou­
tro lugar, sob uma fomia independente de difícil acesso,
voltada para o enigma de seu nascimento^ inteiramente
relacionada qo ato puro de escrever. A literatura é a con­
testação da filologia (da qual ela é, no entanto, a figura gê­
mea): ela traz a linguagem da gramática para o poder des­
nudo de falar e aí ela encontra o ser selvagem e imperio­
so das palavras. Da revolta romântica contra um discurso
imobilizado em sua cerimônia até a descoberta mallar-
meana da palavra em seu poder impotente, vê-se bem
qual foi, no século 19, a função moderna da literatura em
relação ao modo de ser moderno da linguagem. No fun­
do desse jogo essencial, o resto é efeito: a literatura distin­
gue-se cada vez mais do discurso das idéias e tranca-se em
uma intransitividade radical; ela destaca-se de todos os va­
lores que podiam, na Idade Clássica, fazê-la circular (o
gosto, o prazer, o natural, o verdadeiro) e faz nascer em
seu próprio espaço tudo o que pode garantir a sua nega­
ção lúdica (...] ela rompe com qualquer definição de “gê­
neros” [...] e torna-se pura e simples afirmação de uma lin­
guagem que só tem por lei afirmar - contra todos os ou­
tros discursos - sua existência escarpada; só lhe resta então
recurvar-se em um perpétuo retomo a si, como se seu dis­
curso não pudesse ter como conteúdo outra coisa senão
dizer sua própria fonna: ela dirige-se a si como subjetivi­
dade escrevente, ou procura retomar, no movimento que
a faz nascer, a essência de toda literatura.58

Está claro, ao ler esse texto, que a teoria romântica


da obra e de sua linguagem constitui, por um a série de me­
diações literárias, culturais e históricas, o próprio solo da li­

58. FOUCAULT, M . Les mots et les choses. Paris: Gallimard, 1966. p.

182
teratura “moderna” ou, pelo menos, da tendência domi­
nante daquilo a que chamamos o campo literário. Essa ten­
dência é de ordem intransitiva ou, para retomar uma noção
que Bakhtin desenvolveu recentemente, monológica. Pode­
mos nos perguntar, antes de analisar os textos românticos
que representam o que se pode chamar de teoria monológi­
ca da tradução como o além da obra, se um a tal concepção,
um a tal “tendência” não é o que deve, desde já, ser ques­
tionado. Não seria talvez necessário buscar o que, na litera­
tura ocidental moderna, mas também antes dela e ao lado
dela (nas literaturas que lhe são periféricas), não correspon­
de a essa vocação monológica? Redescobrir essa dimensão
mais fecunda, mais enraizada, que o monologismo român­
tico e moderno sufoca, dimensão esta que se refere tanto ao
domínio “lírico” (domínio que, como aliás bem mostraram
Lacoue-Labarthe e }. L. Nancy, a Athenäum não consegue
integrar) quanto ao “romance”, tal como ele se afirma na
linhagem rememorada por Bakhtin? O Romantismo, é cer­
to, reivindica uma tal linhagem - Cervantes, Ariosto, Boc­
eado , o romance inglês do século 18 - , mas só retém dela
a agilidade formal e não a extraordinária espessura textual.
Bakhtin, em Estética e teoria do romance, distinguiu brutal-
mente o "monologismo” da poesia do “dialogismo” do ro­
mance. Dessa maneira, essa oposição não é aceitável: se
todo romance é de essência dialógica, nem toda poesia é de
essência monológica. Mas é verdade que o monologismo é
um a tentação da poesia - a da “linguagem estelar”, da “lin ­
guagem dos deuses” - e que a época moderna parece ter
conhecido essa tentação mais do que outras e, inclusive, a
partir do Romantismo alemão, tê-la teorizado. Afora todas
as reformulações a se fazerem necessariamente na tese de
Bakhtin, há, entretanto, nela, a indicação de uma dimen­
são, a dimensão dialógica, que pode modificar a nossa ex­

183
í
periência da literatura e, correlativamente, da tradução.
Esta últim a é só o prolongamento potencializante do mo­
nólogo poético ou ela constitui, ao contrário, a vinda para
a obra de uma dimensão dialógica sui generis? Tal seria a
questão proposta, neste trabalho, pela confrontação das
teorias da tradução, seguramente opostas, que são, de um
lado, as dos românticos e as de Goethe e de Hölderlin.
Questão que viria acompanhada por um a outra: onde se si­
tua, na teoria monológica, o lugar próprio tradução? Como
veremos, essa teoria não consegue de iffodo algum distin­
guir a tradução do que não é ela - crítica ou poesia. Em um
caso, traduzir é coisa dos poetas, é 'Nachdichtung. No ou­
tro, é coisa dos filólogos, dos críticos, dos hermeneutas. A.
W. Schlegel ainda consegue ser, ao mesmo tempo, poeta,
tradutor, crítico e filólogo, mas no século 19 a divisão ocor­
re rapidamente. Temos, de um lado, as traduções eruditas,
de outro, as literárias, as dos escritores (Nerval, Baudelaire,
M aliarm é, George). Ora, o que se questiona nessa divisão
é que a tradução como tal, como ato, não tenha campo
próprio claram ente delim itado (como trabalho de lingua­
gem e com a linguagem ), é que ela esteja ora ao lado da
poesia, ora ao lado da filologia. Essa divisão, na qual desa­
parece a tradução como ato específico, vamos ver que foi
Romantismo que a efetuou, ao elevar esse ato até alturas es­
peculativas provavelmente nunca atingidas.

184
C A P Í T U L O

A teoria
especulativa da
tradução
Com a leitura dos textos de F. Schlegel e de Nova-
lis e, principalm ente, de seus fragmentos, somos sur­
preendidos por um a coisa: ainda que um a certa teoria da
tradução seja, como já vimos, im anente à sua teoria da
literatura, as passagens dedicadas ao ato de traduzir são
muito pouco num erosas, sobretudo se as compararmos
àquelas que tratam da crítica literária. Obviam ente, nem
Novalis nem F. S chlegel são tradutores. M as não é estra­
nho constatar que, em seus fragmentos dedicados à teo­
ria do livro e da escritura, não há qualquer referência à
tradução, enquanto que a atividade crítica, esta sim , é
incansavelm ente m encionada? Tomemos por exemplo
esta nota de Novalis:

185
Encidopedística. Meu livro deve conter a crítica meta­
física da resenha, da escritura, da experimentação e da ob­
servação, da leitura, do falar, etc.1

Essa constatação estende-se à massa inteira das notas


não publicadas de Novalis. Tudo o que se encontra nelas é
somente esta observação, jogada apressadamente sobre o
papel com algumas outras:

Cada homem tem sua própria linguagem. A linguagem


é a expressão do espírito. Linguagens individuais. Gênio
da linguagem. Capacidade de traduziypara e de outras
línguas. Riqueza e eufonia de cada língua. A expressão au­
têntica faz a idéia clara. Expressão transparente, que guia.2

Em um outro fragmento, Novalis fala da “tradu­


ção” m útua da qualidade e da quantidade - o que rem e­
te diretam ente à convertibilidade generalizada das cate­
gorias em sua Enciclopédia. M as não há nele nenhum a
reflexão aprofundada.3
Diríamos o mesmo da maior parte dos textos que F.
Schlegel dedicou à tradução. São breves anotações, às vezes
banais, às vezes mais penetrantes, tratando antes de tudo dos
problemas da tradução dos autores antigos, problemas que
Voss havia colocado em pauta.4 Ainda assim, esses textos não
poderiam se comparar, nem qualitativamente nem quantita­
tivamente, aos que ele dedica à noção de crítica. Tudo se pas­
sa na realidade como se essa última noção recobrisse a da tra­
dução, em todos os sentidos do termo e, notadainente, no

1. Fragmente 1, n. 10, p. 11.


2. Ibid., n. 1.280, p. 346.
3. Ibid., n. 489, p. 155.
4. AL, n. 73,76, 119 dos Fragmentos críticos, n. 229, 392, 393 e 402 dos
Fragmentos da Athenäum.

186
sentido em que uma figura recobre exatamente um a outra.
Pois Novalis e F. Schlegel estão muito longe de subestimar o
ato de traduzir em sua dimensão literária, cultural e histórica.
Vimos acima que a apresentação do campo cultural român­
tico não deixa de incluí-la. A continuação de Conversa sobre
a poesia evoca até o “mérito [de Voss] como tradutor e como
artista da língua, que lhe fez desbravar uma terra nova com
um vigor e uma perseverança indizíveis”.5 Um pouco mais
longe, F. Schlegel fala, a propósito dos “artistas alemães”, des­
se “gênio da tradução que lhes pertence”.6 Pode-se adivinhar,
evidentemente, por detrás dessas observações, a presença im­
ponente de A. W. Schlegel. Mas é em Novalis que vamos en­
contrar dois textos que exprimem com a maior audácia a vi­
são romântica da tradução e essa confusão que lhe é própria
entre o ato de traduzir e o de “criticar”. O primeiro desses tex­
tos é um fragmento de Grãos de pólen e foi publicado na
Athenäum em 1798. O segundo é uma carta endereçada a A.
W. Schlegel no dia 30 de novembro de 1797.
Alguns anos mais tarde, Clem ens Brentano, em seu
romance Godwi, dedica um breve capítulo à arte românti­
ca e à tradução, o qual termina com essa afirmação sur­
preendente: “O romântico é ele mesmo um a tradução”.
Afirmação que a crítica literária freqüentemente realçou
mas nunca esclareceu verdadeiramente.
Nossa tarefa agora será a de proceder a um comentário
desses três textos e, primeiramente, dos textos de Novalis, que
representam como que o compêndio da visão que a Athenäum
tem da tradução. Já Brentano não pertence a esse gmpo; mas
seu texto constitui uma espécie de ressonância longínqua, já

5. Ibid., p. 309.
6. Ibid., p. 316.

187
confusa e deformada e, entretanto, no mais alto ponto signifi­
cativo, dessa visão. Uma vez esclarecidos esses três textos, nossa
tarefa será mostrar por que, no pensamento romântico, o con­
ceito de crítica devia necessariamente recobrir, deslocar e em
parte ocultar o de tradução e por que, conseqüentemente, não
se pode encontrar, nesse pensamento, lugar autônomo para o
ato de traduzir. Deveremos também mostrar que essa sobrepo­
sição remete a um problema real, uma vez que a dimensão cul­
tural e lingüística da obra literária é menos tomada em consi­
deração do que spa “natureza” poética absólutizada.
Abordemos agora o texto cronologicamente m ais an­
tigo, ou seja, a carta para A. W. Schlegel de novembro de
1797. Nessa época, este havia acabado de com eçar sua mo­
numental tradução de Shakespeare.

Aquele que fez a resenha de seu Shakespeare é um ho­


mem bem-intencionado. Mas sua resenha não é poesia de
verdade. O que não poderíamos ter dito sobre o seu Shakes­
peare, particulannente em relação com o todo. Entre as tra­
duções, ele é o que Wilhelm Meister é entre os romances. Já
existe uma semelhante? Ainda que traduzamos há muito
tempo e que essa tendência para a tradução seja nacional -
na medida em que quase não há autor alemão importante
que não tenha traduzido e que tenha feito na tradução obra
de criação tanto quanto em uma obra original parece-me
que em nenhum lugar a ignorância é tão grande quanto no
que diz respeito à tradução. Em nosso país, ela pode se tor­
nar uma ciência e uma arte. Seu Shakespeare é um cânone
magnífico para o observador científico. Excluindo os roma­
nos, somos a única nação que terá vivido de modo tão irre­
preensível o impulso (Trieb) da tradução e que lhe terá sido
tão infinitamente grata de cultura ( Bildung). Daí muita se­
melhança entre nossa cultura (Kultiir) e a cultura literária
romana tardia. Esse impulso é uina indicação da personali­
dade muito elevada, muito original do povo alemão. A ger-
manidade é um cosmopolitismo misturado ao mais vigoro­
so dos individualismos. E somente para nós que as traduções
se tomaram alargamentos. E preciso, além disso, moralida­
de poética e um sacrifício de sua própria tendência para se
submeter a uma verdadeira tradução. - Traduzimos por

188
amor autêntico ao belo e pela literatura de nossa pátria. Tra­
duzir é tanto fazer poesia (dichten) quanto produzir obras
próprias - e mais difícil, mais raro. No final das contas, toda
poesia é tradução. Estou convencido de que o Shakespeare
alemão é no presente melhor do que o inglês £...].7

Convém aqui comentar quase cada frase desse texto


essencial. Deixaremos somente de lado a passagem, já es­
clarecida, em que Novalis assinala a dimensão histórica da
tradução na Alem anha, passagem na qual ele não faz outra
coisa senão enunciar o que já sabemos ser um a convicção
comum a todos os escritores alemães.
Observemos primeiramente, a respeito dessa carta, que
Novalis escreve para A. W. Schlegel sobre uma resenha de sua
tradução. Essa resenha, aparentemente favorável, não seria
“poesia”. Por detrás dessa observação, há a exigência românti­
ca de que toda crítica seja também poesia, como o exprimiu F.
Schlegel na Athenäum. Eis portanto a crítica, embora de ma­
neira indireta, apresentada nesse texto como a exigência de
uma resenha da tradução poética que seja a exposição de uma
essência e da verdade dessa tradução. Qual essência? Qual ver­
dade? E o que resta ver. O Shakespeare de A. W. Schlegel apa­
rece para Novalis como um modelo, como uma obra que ocu­
pa entre as traduções a posição do Wilhelm Meister entre os ro­
mances. O Meister tem isso de particular para os românticos,
ele lhes parece ser a primeira obra moderna reflexiva, a primei­
ra obra que se apresenta como obra e tende, através da ironiza-
ção de seu conteúdo e de sua forma, para uma dimensão sim-
bólico-alegórica. Tanto F. Schlegel quanto Novalis lhe dedica­
ram “resenhas” entusiastas, pelo menos na época dessa carta.
Dizer que a tradução de A. W. Schlegel é para as traduções o
que o Meister é para os romances é dizer que a tradução aí tor­

7. Briefe und Dokumente. Wasmuth. p. 366-8.

189
na-se visível como tradução, toma-se auto-apresentada, o que a
eleva ao nível de uma “arte” e de uma “ciência” no sentido es­
clarecido em nossos capítulos precedentes. E dizer também
que o Shakespeare de A. W. Schlegel, de um certo modo, re-
laciona-se com sua forma e com seu conteúdo de uma manei­
ra pelo menos homóloga àquela pela qual o Meister se relacio­
na com estes; reflexividade, ironização, simbolização, elevação
infinita no nível da Kunstsprache. Aproximemos essa passagem
de uma das frases do final da carta: “Estou convencido de que
o Shakespeare alemão é no presente m elter do que o inglês”.
De onde surge uma tal apreciação? De uma comparação com
o original? Absolutamente não, mesmo que suponhamos —o
que é mais do que duvidoso —que Novalis tenha lido Shakes­
peare em inglês, leitura para a qual lhe faltavam conhecimen­
tos lingüísticos e literários suficientes. Trata-se de um julga­
mento do tipo “nacionalista”? Certamente não, uma vez que a
germanidade evocada na carta é antes de tudo concebida, as­
sim como em Herder, Goethe e Schleiennacher, pela capaci­
dade de traduzir. O que permite então dizer que o Shakespea­
re alemão é melhor do que o inglês? Esse Shakespeare, A. W.
Schlegel estava particularmente orgulhoso de tê-lo traduzido
fielmente, ou seja, restituindo exatamente as passagens de pro­
sa e as de poesia.8 Sua tradução, de seu próprio ponto de vista,
era então um equivalente do original, equivalente que, no en­
tanto, como toda tradução, constituía apenas uma aproxima­
ção. O julgamento de Novalis parece, portanto, curioso. Mas
ele não é ¡motivado. O Shakespeare alemão é “melhor” do que
o inglês justamente porque é uma tradução. E certo que as tra­
duções anteriores de Shakespeare são menos boas do que o
Shakespeare inglês. Mas é porque são traduções prosaicas, li­
vres, freqüentemente insípidas, que não enfrentam a poeticida-

8. Ver nosso Capítuio 9.

190
de do texto shakespeariano, como pretendeu fazer A. W. Schle-
gel. De certa maneira, não são traduções conscientes de si mes­
mas, exatamente como os romances anteriores ao Meister não
alcançaram plenamente a essência romanesca. A partir do mo­
mento em que a tradução alemã de Shakespeare se esforça
para “imitar” autenticamente o original, ela só pode superá-lo.
Tentemos esclarecer esse paradoxo. Sobre a operação “mími­
ca” que ocorre ao mesmo tempo na tradução e na crítica, No-
valis nos diz em um fragmento:

O imitar vivifica nele o princípio de uma individualida­


de determinada voluntariamente.
Há uma imitação sintomática e uma imitação genética.
Somente esta última é viva. Ela pressupõe a união mais
íntima da imaginação e do entendimento.
Esse poder de despertar realmente em si uma indivi­
dualidade estrangeira - de não simplesmente enganar por
uma imitação superficial - é ainda totalmente desconhe­
cido - e repousa em uma penetração e em uma mímica
espiritual extremamente surpreendentes. O artista toma­
se tudo o que ele vê e quer ser.9

9. Fragmente II, n. 1.890, p. 4 1 .0 fato de que o ato de traduzir repouse efe­


tivamente sobre uma tal penetração da individualidade estrangeira e sobre
uma “mímica genética” é atestado pela experiência de todo tradutor literá­
rio: a relação do tradutor com o texto que traduz é tal (com seu autor e sua
língua), que ele penetra nessa zona da obra na qual ela está, mesmo acaba­
da, ainda em gênese. O tradutor penetra por assim dizer na intimidade do
autor com sua língua, quando sua língua privada procura investir e meta­
morfosear a língua comum, pública. E é a partir da penetração dessa rela­
ção que o tradutor pode esperar “imitar” em sua língua a obra estrangeira.
O ato crítico, ao contrário, repousa sobre uma abordagem, não sobre uma
penetração. Nesse sentido, não é uma experiência, e o tradutor está mais pró­
ximo do ator ou do escritor do que do crítico. Ou antes, seu modo de iden­
tificação é diferente. Os românticos têm tendência a confundir essas rela­
ções sob o termo genérico de “mímica”. O campo dessa “mímica” é infini­
to e sem delimitações: uma vez mais, reencontramos a teoria da versabilida-
de infinita, teoria que pode talvez explicar a atividade crítica, mas certamen­
te não a atividade tradutória ou, a fortiori, poética. A teoria da auto-limita-
ção, aqui, só constitui um parapeito insuficiente.

191
Essa capacidade m ím ica penetra na individualidade
estrangeira e a reproduz: ela é então “genética”. Em um
outro fragmento, Novalis afirma:

Só compreendemos naturalmente tudo o que é estran­


geiro por meio de um tornar-se estrangeiro - uma modifi­
cação de si.™

F. Schlegel, como vimos, definiu, por sua vez, a tra­


dução como um “imitar filológico” e exprimiu em termos
de criação e de compreensão a dialética da tradução:

Para saber perfeitamente traduzir o antigo em moder­


no, seria necessário que o tradutor dominasse este último
a ponto de poder fazer tudo moderno; e que, ao mesmo
tempo, ele compreendesse o primeiro a ponto de não so­
mente poder imitá-lo, mas também criá-lo."

M as por que essa mímica genética e filológica, longe


de fornecer somente uma modesta aproximação do original,
forneceria um a melhor versão dele? Porque ela constitui, por
seu próprio movimento, um a potencialização dele. O que
ela tem em vista não é simplesmente o original em seu ser
bruto (nesse caso, as peças de Shakespeare em seu inglês do
século 16). O próprio original, no que os românticos cha­

10. Fragmente I, n. 236, p. 77.


11. AL. Fragmentas da Athenäum, n. 393, p. 164. Cf. também o n. 401:
“Para compreender alguém que só se compreende pela metade, é preci­
so primeiramente compreendê-lo a fundo e melhor que ele mesmo, de­
pois pela metade e exatamente como ele” (p. 165). Todos esses axiomas
valem, evidentemente, ao mesmo tempo para a crítica e para a tradução.
Schleiermacher tirará a lição da reflexão de F. Schlegel, edificando uma
teoria sistemática da hermenêutica, ou seja, da interpretação e da com­
preensão, e desenvolvendo sua teoria da tradução no horizonte desta.
Ver nosso Capítulo 9.

192
mam de sua “tendência”, possui uni objetivo a priori: a Idéia
da Obra que a obra quer ser, tende a ser (independentemen­
te ou não das intenções do autor), mas empiricamente nun­
ca é. O original, desse ponto de vista, é somente uma cópia
- a tradução, se preferir - dessa figura a priori que preside
seu ser e lhe dá a sua necessidade.12 Ora, a tradução visa pre­
cisamente a essa Idéia, essa origem do original. Por essa visa­
da, ela produz necessariamente um “melhor” texto que o
primeiro, apenas pelo fato de que o movimento de passagem
de um a língua para outra, o Ubersetzung, necessariamente
afastou, desviou à força a obra dessa camada empírica pri­
meira que a separava de sua própria Idéia: em outros termos,
a obra traduzida está mais próxima de sua visada intema e
mais afastada de seu fardo final. A tradução, segunda versão
da obra, a reaproxima de sua verdade. Tal é a essência do
movimento “mímico”, essa essência que havíamos alcança­
do comparando o movimento interno da obra romântica e o
da tradução. Veremos que a crítica tem o mesmo estatuto e
que F. Schlegel não hesitou ao denominar a sua resenha do
W ilhelm Meister um Ubermeister, um “Super-Meister”
(como Nietzsche disse Ubermensch, “Super-homem”).13
Toda Ubersetzung é um movimento no qual o Uber é uma
superação potencializante: assim pode-se dizer que o Shakes-
peare de A. W. Schlegel é um Uber-Shakespeare. O original
é inferior a sua tradução na medida em que a “Natureza” é
inferior à “Feitura”. Quanto mais nos afastamos do natural,
mais nos aproximamos do núcleo poético absoluto. Recorde­
mos desse fragmento de F. Schlegel sobre as “cópias de imi­

12. Fragmente II, n. 2.411: “Toda òbra de arte tem um Ideal a priori,
uma necessidade em si de estar lá. E somente assim que se torna possí­
vel uma autêntica crítica do pintor” (p. 168).
13. BENJAMIN, Walter. Der Begriff... p. 67.

193
tações”, os “exames de revisões”, etc. Aqui, teríamos cadeias
de obras que potencializam cada uma das precedentes:

romances anteriores Wilhelm Meister (rom ance Hfc*- resenha do M eister


ao Wilhelm Meister do rom ance) ou Ubemieister

Skakespeare ------------- tradução de Shakespeare — resenha da tradução


de Shakespeare

O exame do segundo texto de Njgvalis confirmará tal


interpretação.'M as já podemos compreender melhor as
afirmações de Novalis: que toda poesia seja, no final das
contas, tradução, esse é um ponto que já havíamos abor­
dado. Se a poesia é essencialmente superação, potenciali-
zação da “linguagem natural”, constituição de uma língua
“estelar”, ela já é em si tradução,14 uma vez que a tradução
não é outra coisa senão esse movimento. Enquanto tradu­
ção restrita - passagem de uma língua para outra - , ela só
é, certamente, um a das formas empíricas. Mas essa forma
empírica pode, sem dúvida, ser concebida - e pelo menos
aqui Novalis o pressente - como a forma canônica dessa tra­
dução generalizada que é aplicada à obra no trabalho poé­
tico e, aliás, também científico (a Enciclopédia). Essa tra­
dução im anente que é a poesia só pode ser concebida
como um a auto-tradução: a obra se traduz, setzt sich iiber,
é passagem além de si mesma, em direção ao éter de sua
própria infinidade. A tradução, fazendo passar o original,

14. SCHl.EGEL, A. W. em suas Leçons sur l’art et la littérature, riâo diz


nada além de Novalis e Valéry: a poesia “é o cume da ciência, a intér­
prete e a tradutora dessa revelação celeste, ela que, de direito, era no­
meada pelos Antigos corno urna língua dos Deuses” (AL, p. 350). Ver
nosso Capítulo sobre SCHLEGEL, A. W.

194
não simplesmente de uma língua x para um a língua y, mas
de sua língua materna (ou seja, de aderência empírica)
para um a língua estrangeira em geral (que constitui como
tal a língua “longínqua”, a figura alegórica da linguagem
pu ra ),15 submete-a a essa grande viagem de que nos fala F.
Schlegel. E desse ponto de vista que é preciso reler o frag­
mento 297 da Athenäum:

Uma obra é culta quando é [...] perfeitamente fiel a si,


toda igual e, no entanto, superior a si mesma. O que a co­
roa e a finaliza é, como na educação de um jovem inglês,
a grande viagem. E preciso que ela tenha viajado por três
ou quatro continentes da humanidade, não para polir os
contornos de sua individualidade, mas para alargar sua vi­
são, dar ao seu espírito mais liberdade e pluralidade inter­
na e, nesse sentido, mais autonomia e segurança.16

O que significa dizer que tradução é literalmente


Bildung, mas uma Bildung poética e especulativa e não
mais simplesmente literária e humanista como para Goe­
the. Ou ainda: a tradução é uma Erweiterung, mas em um
sentido agora idealista.
Novalis, nessa carta, parece m ais próximo do que
nunca do caráter de arquétipo da tradução para o traba­
lho poético e literário. Ele pode menos ainda perdê-lo de
vista porque o papel essencial da tradução na cultura ale-

15. Assim surge, nos diz G. Genette, o inglês para Mallarmé: como essa
língua perfeita “na qual se projetam à distância todas as virtudes das
quais é privada a língua própria como língua real {...] qualquer outra lín­
gua, ou antes, qualquer língua outra teria talvez cumprido tão bem o seu
papel, ou seja, o ofício de língua suprema (...] sendo que a língua supre­
ma, para cada um, é sempre aquela diante dele” (Mimologiques. Paris:
Le Seuil, 1976. p. 273). Eis por que o Shakespeare alemão seria melhor
do que o inglês.
16. AL, p. 141.

195
mã não lhe escapa. Ele tem um a consciência bem clara
disso, talvez até m ais do que Goethe. No entanto, essa in ­
versão hiperbólica que faz da poesia um a tradução e até
algo mais “raro” e m ais “d ifícil” não cu lm in a, em Nova-
lis, com um a teoria global do ato de traduzir, porque a es­
pecificidade da tradução “restrita” é sem cessar encober­
ta, ou identificada àquela, mais essencial a seu ver, da
tradução potencializante que, sob os nomes m ais diver­
sos, caracteriza o movimento de afirm ação da obra a par­
tir da destruição da linguagem naturaf*Essas duas tradu­
ções coincidem apenas em um ponto: o fato de o movi­
mento de destruição da N atursprache passar evidente­
m ente, em um a obra, pela destruição de um a lín gua par­
ticular. Poderíamos também dizer que o ato de traduzir
consiste em acen d er o fogo da destruição poética de um a
língua para outra. Tais são as conjecturas, seguram ente
arriscadas, às quais leva o pensam ento de Novalis.
C om o se vê, esse pensam ento culm in a com duas
proposições extrem as, lógicas em seu âm bito, mas feitas
exatam ente para chocar o senso com um : toda poesia é
tradução, toda tradução é superior a seu original. A pri­
m eira afirm ação significa declarar que toda obra é moti­
vada por um m ovimento que se auto-reflete. M as, afinal
de contas, quando um Rilke declara que as palavras, no
poema, estão sideralm ente afastadas das palavras da lin ­
guagem corrente, ele acredita enunciar algum a coisa que
vale para toda poesia. Restaria saber se um a visada dessas
pode ser atribuída a toda poesia. Ou ainda: se toda poe­
sia é de essência m onológica.
A segunda afirm ação está ligad a à prim eira: se
toda tradução é tradução da tradução, esse movimento
de potencialização só pode “coroar” e “fin alizar” o origi­
nal. O essencial não é o que, na obra, é origem , mas o

196
fato de que, através de sua “grande viagem ”, ela se torna
sem pre m ais “universal" e “progressiva”.17 Pode-se dizer
tam bém : a tradução representa um escalão superior da
vida do original. Afirmação hiperbólica? Sem dúvida.
M as pode-se observar o seguinte: ocorre às vezes que
certas traduções dêem a impressão de um a superiorida­
de sobre seu original que não é sim plesm ente de ordem
literária. Pensemos, por exem plo, na tradução que Paul
C elan deu destes versos de Jules Supervielle:

Jésus, tu sais chaque feuille


Qui verdira la forêt,
Les racines qui recueillent
Et dévorent leur secret,
la terreur de l’éphémère
à l’approche de la nuit,
et le soupir de la Terre
dans le silence infini.
Tu peux suivre les poissons
tourmentant les profondeurs,
quand ils tournent et retournent
et si s’arrête leur coeur...

Jesus, du kennst sie alle:


das Blatt, das Waldgriin bringt,
die Wursel, die ihr Tiefstes
aufsammelt und vertrinkt,
die Angst des Taggeschöpfes,
wenn es sich nachthin neigt,
das Seufzen dieser Erde
im Raum, der sie umschweigt.
Du kannst den Fisch begleiten,

17. O fato de que a tradução seja um processo “progressivo” é evidente;


ela nunca é definitiva e acabada e não pode sonhar em sê-lo. Digamos
que as traduções são mais mortais do que as obras. E que toda obra au­
toriza uma infinidade de traduções. O ato de traduzir pertence então a
esse espaço da escritura fragmentária que os românticos buscam definir
e legitimar. A teoria do fragmento deveria incluir uma teoria da escritu­
ra na tradução.

197
dich wühlen abgrundwärts
und mit ihm schwimmen, unten,
iind länger als sein Herz...1“

George Steiner, a quem agradecemos essa confron­


tação, mostra bem conío o universo que Supervielle procu­
rou captar em seus versos um pouco planos e discursivos é
como que recuperado e aprofundado nos versos de Celan.
Poderíamos simplesmente dizer que há aí um a recriação
poética que não pode mais ser considerada um a “tradu­
ção”, mesmo qúe C elan tenha acreditado poder intitulá-la
desse modo. Ou ainda, que existe aí a oposição de duas
poéticas. M as não podemos evitar a impressão de que C e­
lan soube captar precisamente a visada poética de Super­
vielle e que essa captação produziu um poema poetica­
mente superior. Não que Supervielle seja um poeta infe­
rior a C elan (não é o lugar de se discutir sobre isso), mas a
tradução do poeta alemão soube “potencializar” o poema
francês, colocá-lo à altura de sua própria visada, até mesmo
purificá-lo dos defeitos que afetam a poesia de Supervielle
em geral e que dizem respeito, em parte, à sua relação com
a língua e com a enunciação poética como tal. Visto desse
modo, o poema de Supervielle traduzido por C elan repre­
sentaria um IJber-Supervielle. A tradução dos poemas de
Poe por M alllarm é provocou às vezes comentários análo­
gos. A raridade de tais exemplos no campo da tradução sig­
nificaria que, como diz Novalis, traduzir é algum a coisa de
raro e de difícil. Ela poderia também significar que esse
tipo de tradução só é possível em um certo espaço poético,
definido historicamente pelo Romantismo, ao qual perten­

18. STEINER,George. After Babel. p. 404-5.

198
cem tanto Snpervielle e C elan quanto Poe e M allarm é. Es­
tamos bem longe de compreender claramente tudo isso.
Mas o fato de que nenhum a tradução dos Sonetos de Sha-
kespeare seja satisfatória (ainda que grandes poetas e gran­
des tradutores tenham tentado) não indicaria a contrario
que esses poemas, em sua escritura poética, dependem de
uma visada que torna impossível, senão qualquer tradução,
pelo menos qualquer tradução “potencializante”? E essa
tradução potencializante não suporia uma relação da obra
com a sua linguagem e consigo mesma que é, ela própria,
da ordem da tradução e que, portanto, solicita, pennite e
justifica o movimento de sua tradução?
Abordemos agora o segundo texto de Novalis, o dos
Grãos de pólen:

Uma tradução é ou gramatical, ou transformante, ou


mítica. As traduções míticas são as traduções do estilo
mais alto. Elas apresentam o caráter puro, acabado, da
obra de arte individual. Não nos dão a obra de arte real,
mas seu ideal. Não existe ainda, pelo que sei, nenhum
modelo pronto dessas traduções. Mas no espírito de mui­
tas críticas e descrições de obras de arte, encontram-se
claros rastros delas. É preciso uma cabeça na qual o es­
pírito poético e o espírito filosófico tenham penetrado
em toda sua plenitude. A mitologia grega é, em parte,
uma tal tradução de uma religião nacional. A Madona
moderna também é um tal mito.
As traduções gramaticais são as traduções no sentido ha­
bitual. Elas exigem muita erudição, mas somente das fa­
culdades discursivas.
As traduções transformantes pertence, quando são au­
tênticas, o espírito poético mais alto. Elas caem facil­
mente na deturpação, como o Homero de Biirger em
iambos, o Homero de Pope e as traduções francesas em
sua totalidade. O verdadeiro tradutor desse gênero deve,
de fato, ser ele mesmo o artista; ele deve poder dar a
idéia do todo à sua maneira, desse ou daquele outro
modo. Ele deve ser o poeta do poeta e deixá-lo ao mes­
mo tempo falar segundo sua idéia e segundo a idéia do

199
poeta. O gênio da humanidade mantém uma relação se­
melhante com cada homem individual.
Não somente os livros, tudo pode ser traduzido dessas
três maneiras.19

Esse texto de Grãos de pólen faz evidentemente alu­


são ao trabalho de tradutor de A. W. Schlegel; mas supõe
também, de modo apenas disfarçado, o de F. Schlegel e, no-
tadamente, o ensaio deste sobre Wilhelm Meister. A alusão
à Madona, isolada nesse contexto, remete às visitas que o
grupo de Iena havia feito ao museu de "Dresden, onde havia
podido admirar, entre outras coisas, Madonas de Rafael.20
Observemos, primeiramente, que o fragmento de No-,
valis, assim como o de Goethe, está organizado de m anei­
ra triádica: existem três tipos de traduções. O primeiro (na
verdade o segundo no texto), a “tradução gram atical”, pare­
ce corresponder à tradução prosaica de Goethe, aquela que
só alm eja restituir o conteúdo do original e sua fisionomia
geral. Os dois outros tipos de tradução, por outro lado, não
têm nenhum equivalente na tríade goetheana. Novalis cha­
ma a primeira de “m ítica", a segunda de “transformante”
(verändernd). N egligenciando a ordem do texto, examina­
remos prim eiram ente esta últim a. De acordo com os exem­
plos citados —Bürger, Pope, os franceses —, trata-se de tra­
duções que modificam pura e simplesmente o original e
suas formas, ou porque se traduz uma obra versificada em
prosa, ou porque se traduz um tipo de verso por um outro,
etc. É exatam ente esse gênero de tradução que Herder,
Goethe, Schleierm acher e A. W. Schlegel não chegaram a
condenar, mas relegaram ao segundo plano. M as a “trans­

19. Werke. Samuel, II. p. 439-40.


20. Depois disso, W ilhelm e Caroline Schlegel publicaram na Athe­
näum, em 1799, um diálogo intitulado “Tableaux”.

200
formação” operada por esses tradutores só constitui para
Novalis um perigo próprio a esse tipo de tradução e não sua
essência. Na verdade, o tradutor “transformante” é o “poe­
ta do poeta” —expressão reflexiva que nos é agora familiar
e que indica o movimento de potencialização evocado aci­
ma. Da mesma forma, o gênio da humanidade é o homem
do homem, a enésim a potência do indivíduo. O tradutor
“transformante”, ao qual deve pertencer o “espírito poético
mais alto”, é, portanto, aquele que pratica essa “m ím ica es­
piritual” permitindo a reprodução da “individualidade es­
trangeira”, o que bem exprime a frase: “Ele deve [...] deixar
ao mesmo tempo falar [o poeta] segundo sua idéia e segun­
do a idéia do poeta”. A tradução “transformante” é como a
união e a com plementação de duas visadas poéticas, pro­
duzindo a potencialização da obra. Pode-se igualm ente di­
zer: o elem ento “transformante” dessa tradução, devendo
representar não uma operação arbitrária, mas “o espírito
poético mais elevado”, só pode ser a visada poética do tra­
dutor, uma vez que ele se tornou “o próprio artista”. Assim
poderíamos apresentar a tradução de C elan ou a de M al-
larmé como um a tradução “transformante” (mas ao mes­
mo tempo fiel à “idéia” do poeta original), exigindo, efeti­
vamente, “o espírito poético mais elevado”.
M as esse tipo de tradução não é aquele que, para
Novalis, possui o “estilo mais elevado” - ou seja, o nível
de essência mais alto. Esse nível está reservado para a tra­
dução dita “m ítica". Dispomos de poucos textos de Nova­
lis que possam nos esclarecer sobre o sentido que ele dá a
esse termo. Certo, sabemos que, na mesma época, a mito­
logia constituía um dos temas favoritos de F. Schlegel e
que a Conversa sobre a poesia evoca, alguns anos mais tar­
de, a possibilidade da criação de uma nova mitologia des­
tinada a tomar o lugar da antiga - ou seja, a mitologia gre-

201
ga. Novalis, durante essas pesquisas, declara que a mitolo­
gia grega é a “tradução” de um a “religião nacional”. O
que isso quer dizer? Em um dos fragmentos dos Poeticis-
mos, ele escreve:

O romance é, por assim dizer, a história livre - ou sèja,


a mitologia da história. Um a mitologia natural não deve­
ria ser possível? (M itologia, aqui, para mim, como livre in­
venção poética, que sim boliza muito multiplamente a rea­
lidade, etc.)21
jr

No grupo de fragmentos intitulado Sophie ou mulhe­


res, ele declara: “O fatum é a história mistificada”.22
M ito —mistério - místico - mistificação - símbolo:
esses termos, segundo a lei da Enciclopédia, são convertí-
veis e remetem todos à mesma operação romântica, a “ele­
vação ao estado de mistério”. A tradução m ítica é essa tra­
dução que eleva o original ao estado de símbolo, ou seja
ainda ao estado de “im agem de si-mesmo”, de im agem ab­
soluta (sem referente). Tomemos os dois exemplos, segura­
mente bem afastados da tradução em seu sentido comum,
que são a mitologia grega e a Madona.
A mitologia grega seria essa “história livre”, essa “li­
vre invenção poética" que transforma em puro sistema de
símbolos um dado histórico: a religião dos antigos gregos.
Ela produziria um “texto” no qual o essencial desta, ou
seja, sua trama ideal, apareceria. E a Madona? Novalis fala
da “M adona moderna”, ou seja, aquela que ele pudera ad­
mirar no museu de Dresden com seus amigos. Essa Mado­
na em efígie remete, claro, à M adona histórica da religião

21. Fragmente II, n. 1.868, p. 36.


22. Fragmente I, n. 2.100, p. 96. Cf. tam bém n. 1.954: “Os símbolos são
mistificações" (p. 69).

202
histórica, mas ela é a figura purificada dela, a imagem. Essa
imagem, estelarmente afastada da Virgem real do dogma
católico, é símbolo dela mesma, brilha em sua própria luz.
Ela não é alegoria, o signo de outra coisa, ou ainda, ela re­
mete a um ideal. Kantianamente falando, ela é o “esquema
sensível” de uma Idéia, não a representação de um ser real.
Assim ela é celebrada no décimo quinto Cántico espiritual
de Novalis:

Em mil quadros eu Te vejo,


M aria, adoravelmente pintada;
mas ninguém saberia Te mostrar
tal quai Te entrevé m inh’alm a.25

Essa Madona sendo literalmente “elevada ao estado de


mistério” é também o que mostra A Europa e a cristandade:

O véu é para a Virgern o que é o espirito para o corpo:


é o órgão indispensável cujas dobras formam a letra de sua
docílim a anunciação; o jogo infinito de suas dobras é
como urna música cifrada/1

F. Schlegel também evoca a Madona em seus frag­


mentos da Athenäum:

Hoje o Cristo foi diversam ente deduzido a priori;


mas a M adona não deveria, tanto quanto ele, pretender
ser também um ideal original, eterno, necessário, não
digo da razão pura, mas pelo menos da razão fem inina
e m asculina?1'

23. NOVALÍS. Œuvres. Trad. A. G uerne. Paris: G allim ard , 1979.


p. 301. t. I.
24. Trad. A. Guerne. In: Les Romantiques allemands. Desclée de Brou­
wer, 1963. Essa M adona velada é também Sophie, a noiva morta preco­
cem ente. A im agem está ligada à morte.
25. AL, p. 132.

203
A palavra “ideal” volta nos dois autores. No texto de
Grãos de polen, Novalis a define como “o caráter puro é
acabado” de um ser. Esse caráter só aparece pela operação
m ítica, ou seja, pelo que aprendemos a cham ar de “ro-
m antização”. Essa operação é mais alta qne a da tradução
“transformante”, porque une o espirito poético e o filosófi­
co. Na tradução m ítica, a Idéia se manifesta na Im agem ,
torna-se Imagem de si mesma. A M adona de Rafael não é
a im itação da M adona real, mas a apresentação da pura
Idéia da M adona. Reencontramos, ¡Sbrtanto, aqui, ainda
que em um a linguagem distinta, o que Novalis anunciava
em sua carta —com a única diferença de que não existe
mais agora modelo acabado desse tipo de tradução, nem
mesmo o Shakespeare de A. W. Schlegel. E não somente
o trabalho deste não é evocado, mas Novalis dá um outro
exemplo de tradução m ítica: as críticas literárias e artísti­
cas que visam a resgatar a “tendência” das obras e apreen­
der sua necessidade, mais do que a descrevê-las em pirica­
mente (ou a julgá-las).
O fragm ento de G rãos de pólen vai, portanto, m ais
longe do que a carta para A. W. S ch leg el, sem pre desen­
volvendo a m esm a tem ática. A tradução “transcenden­
ta l” atira cada vez mais para o segundo plano a tradução
em pírica. Enquanto tal, ela se torna um a operação u n i­
versal: “T uda pode ser traduzido dessas três m aneiras”. A
visão que Novalis dá em A Europa e a cristandade da
Idade M édia e a que ele dá em Fé e am or do rei e da rai­
nha da Prússia são tam bém , não há como duvidar, tra­
duções m íticas de realidades históricas. Elas não apre­
sentam essas realidades tais como elas são, mas seu “ca­
ráter puro e acabado”.
Mas na medida em que o conceito de tradução sofre
um alargamento desses, ele tende a perder toda especifici­

204
dade e a se confundir com outras noções, como a “elevação
ao estado de mistério”, o “símbolo”, a “mistificação”, etc.
Ele tende até mesmo, no conjunto do pensamento român­
tico, a ser deslocado e encoberto por esses conceitos.26 Na
realidade, quando procuramos o que, em sua teoria da crí­
tica, da poesia e da Enciclopédia, constitui uma teoria da
tradução, certamente não inventamos uma ficção, mas apre­
sentamos, nós tam bém , o “caráter puro e acabado” de al­
guma coisa que esse pensamento preferiu chamar, no final
das contas, por outros nomes e abordar sob ângulos em que
sua especificidade desaparece.
Não resta dúvida de que essa teoria especulativa
determ ina a seu modo a prática traduzinte de A. W.
Shlegel e de L. T ieck, ainda que os princípios destes se­
jam forçosamente m ais concretos. Ela não os determ ina
diretam ente em seus métodos de tradução, mas rege sua
visão profunda da poesia e a própria constituição de seu
campo de traduções. As obras escolhidas por esses dois
tradutores correspondem , efetivam ente, àquelas que a
crítica rom ântica designou como os modelos, ou os es­
boços da “poesia da poesia”, da “poesia transcendental”,
da “poesia do infinito”. Se acrescentarm os a isso que es­
sas traduções são todas duplicadas pelas críticas corres­
pondentes, podemos concluir que elas preenchem a
mesma função que estas: acum ular “materiais” para a lite­
ratura por vir e a teoria que é inseparável dela:

26. Novalis escamoteia o problema dizendo em Grãos de pólen: “Vários


nomes são favoráveis a um a id éia”. O que indica um a flutuação termi­
nológica deliberada - que torna o pensam ento romântico labiríntico - e
mostra o quanto, para esse pensam ento, a linguagem é um a coisa relati­
va. Não se tem aqui um a teoria do “nom e justo”!

205
Um a ta! teoria do romance, escreve F. Sch legel, deve­
ria ser ela própria um romance que devolvesse, em seu
esplendor fantástico, cada um a das tonalidades da fanta- .
sia [...] Os seres do passado reviveriam em novas figuras;
a sombra santa de Dante voltaria de seu inferno, Laura
passaria celeste diante de nós e Shakespeare palestraria
com Cervantes - Sancho brincaria de novo com Dom
Quixote.27

Vejamos agora como aparece o laço da poesia e da


tradução em um outro romântico que, certamente, rece­
beu os impulsos da Athenäum, mas q u e^ ão partilha mais
de seu entusiasmo especulativo: Clem ens Brentano.
Godwi, publicado em 1801, inspira-se de maneira
parodica e subjetiva nos romances da época (os de Goethe,
de Jean Paul, de Tieck, etc.). No texto que vamos citar, três
personagens participam de um diálogo sobre a essência do
Romantismo: o próprio Godwi, M aria, o poeta narrador

27. AL, E n tretien sur la poésie, p. 328. Essas poucas lin h as sonhado­
ras de F. S c h leg el podem ajud ar a com preender m elho r o que é a tra­
dução m ítica: um a tradução que eleva o o rigin al ao nível - segura­
m ente d ifícil de definir - do m ito. Afinal de contas, com tantas tra­
duções e críticas, Dom Q uixote realm ente tornou-se um mito. E esse
m ito, a suposta “Id éia” da obrá, deixa bem longe atrás de si o livro
real. Esse processo é um processo de destruição do o rigin al. O que se
produz com “obras-prim as da literatura un iversal” constitui a verten­
te real do que os Rom ânticos form ulam esp eculativam en te: hiper-tra-
duzidas, h ip er-con hecid as, elas são muito pouco lidas e habitam nos­
so m undo com o som bras m íticas. E in ú til ad erir à d ialética rom ânti­
ca para reco n h ecer que, historicam ente, e la soube “m itificar” D ante,
C ervantes, Petrarca e Shakespeare. Das obras destes, só restou a pura
Idéia, a pura Im agem vazia. Para a crítica e a tradução contem porâ­
neas, trata-se de reencontrar, sob essa im agem vazia, a espessura lin-
guageira e em p íric a dessas obras.
Mas o conceito de “tradução m ítica”, tão afastado quanto ele possa pare­
cer da tradução real, bem que poderia se mostrar um conceito fecundo.
Ele faz alusão a essa relação profunda entre o mito, a história e a tradução
que Rosenzweig e Benjam ín pressentiram cada um a seu modo. Relação
que deveria conseguir se recompor fora do pensamento especulativo.

206
(que fala na primeira pessoa) e, enfim, Haber, o tradutor
“racionalista” de Ariosto e de Tasso.28
E M aria, aqui, que abre esse longo diálogo:

- Tudo o que, na posição de mediador entre os nossos


olhos e um objeto afastado, nos aproxima desse objeto
comunicando-lhe algum a coisa dele é romântico.
- O que há, então, entTe Ossian e suas apresentações?,
disse Haber.
- Se soubéssemos mais além do fato, repliquei, de que
aí se encontra a harpa e de que essa harpa se encontra
entre um grande coração e sua m elancolia, saberíamos a
história do poeta e a de seu tema.
Godwi acrescentou:
- O Romantismo é então um a perspectiva, ou ainda a
coloração do vidro e a determ inação do objeto pela for­
ma deste.
- Então, para você, o Romantismo é privado de forma,
disse Haber. Eu pensava que ele tinha mais do que a arte
antiga, que sua forma em si mesm a, ela sozinha, mesmo
sem conteúdo, produzia um a forte impressão.
- Ignoro, prossegui, o que você entende por forma. A
não-forma, sinceram ente, tem, geralm ente, mais forma
do que pode suportar a forma; e para obter esse acrésci­
mo, só bastaria acrescentar à Vênus algum as formas re­
dondas para tomá-la romântica. M as eu cham o de forma
a justa lim itação de um objeto pensado.
- Eu poderia então dizer, acrescentou Godwi, que a
própria fornia não tem forma, que ela é somente a cessa­
ção determinada de um pensamento que irradia igual­
mente a partir de um só ponto em todas as direções. Esse
objeto pensado podendo sê-lo na pedra, no som, na cor,
nas palavras ou nos pensamentos.
- Um exemplo vem-me à cabeça, repliquei. Perdoe-me se
ele trata dessa alegoria tão repetida a propósito da vaidade do

28. Atrás do qual a crítica alem ã reconheceu Gries, tradutor desses poe­
tas e de C alderón, no início do século 19. E possível que Brentano te­
nha pensado igualm ente em A. W . Schlegel, o m ais “racionalista” dos
membros da Athenäum ; é o que parecem indicar as alusões à tradução
de Dante, de Shakespeare e dos poetas italianos do Renascimento.

207
mundo. Pegue uma bolha de sabão. Imagine que seu espaço
interno é seu pensamento e que sua extensão é, portanto, sua
fonna. Ora, há um momento, no crescimento de uma bolha
de sabão, em que sua aparência e seu ser estão em perfeita
harmonia; sua forma se refere então à matéria, a seu diâme­
tro interior, de todos os lados, assim como à luz, de tal modo
que ela ofereça de si mesma um a bela aparência. Todas as co­
res do mundo ao redor brilham nela e ela própria se encon­
tra no ponto extremo de sua realização. E nesse momento
que ela se solta de seu canudo e começa a flutuar no ar. Ela
constituía o que eu entendo pela palavra fonna, um a limita­
ção que só contém a idéia e não diz nada sobre ela mesma.
Todo o resto é não-forma: ou pouco ou demais.
Aqui, H aber contestou: 19
- Nesse caso, A Jerusalém libertada de Tasso é um a não-
formá.
- C aro Haber, eu disse, você vai m e aborrecer se não
m e disser que não quer m e com preender, ou que não
quer m e aborrecer.
- Não se aborreça, replicou. Não quero nem um nem
outro.' M as não estou satisfeito com a sua não-forma do Ro­
mantismo e é precisamente Tasso que oponho a você, pois
o conheço e apenas sinto muito, infelizm ente, o quanto sua
forma é clara e detemiinada. Sim , apenas sinto muito, pois
em outros tempos arrisquei-me a traduzi-lo.
- Que você sinta muito é para mim um a prova, eu disse.
- Só se sente muito a fomia pura. E cuidado para não dei­
xar o leitor de sua tradução senti-la muito, pois, para mim,
toda obra de arte pura e bela que não faz senão apresentar
seu objeto é mais fácil de traduzir do que um a obra român­
tica, a qual não desenha somente seu objeto, mas dá igual­
m ente a esse desenho um certo colorido. Para o tradutor da
obra romântica, a forma da própria apresentação torna-se
um a obra de arte que ele deve traduzir. Tome por exemplo
Tasso, justamente: com que o novo tradutor deve lutar? Se
possuir a religiosidade, o ardor e a gravidade de Tasso, dese­
jamos de todo coração que ele mesmo escreva; se for des­
provido de tudo isso, ou até se for protestante de coração e
de alm a, deve primeiro traduzir-se em católico, depois tra­
duzir-se historicamente na língua e na sensibilidade de Tas­
so; ele tem de traduzir terrivelmente antes de chegar à tra­
dução propriamente dita, pois os poetas românticos pos­
suem m ais do que a pura apresentação: eles possuem igual­
mente a força de seu ser próprio.
- Nos puros poetas, disse Haber, não é o caso, pois es­
tão ainda m ais afastados de nós.

208
- Não, repliquei, mesmo que estejam de algum modo
afastados de nós e justamente porque essa grande distân­
cia suprim e entre eles e nós qualquer médium que possa
refleti-los im puram ente. A pressuposição de sua tradução
é a pura cientificidade na linguagem e no objeto; se o tra­
dutor não deve simplesmente traduzir a linguagem , sua
tradução deve sempre se referir ao original como o molde
de gesso ao mármore. Estamos todos igualm ente afastados
deles e lemos todos a mesma coisa neles porque eles não
fazem senão representar, mas sua apresentação é privada
de cor, porque ela é forma [...]
- Já as rimas, prossegui, só podem ser traduzidas para
nossa língua sob forma de versalhadas e, veja você, essas
rimas já são um a tal forma da forma. Como você quer tra­
duzir tudo isso? A rima italiana é a sonoridade a partir da
qual se executa o conjunto. Não acredito que você seja
um músico até que você possa traduzir para um outro ins­
trumento todas as sonoridades e todas as chaves sem as
quais o poema [...] se torna cego, assim como um a águia
esplêndida, na qual se colocou um cone de papel sobre a
cabeça, fica como boba em seu canto.
Godwi com eçou a rir e disse:
- Problema para um livro de receitas: como traduzir
um a águia italiana para o alemão? Resposta. Recorte um
cone de papel, coloque-o sobre sua cabeça e eis o anim al
selvagem traduzido em anim al doméstico. Ele não mor­
derá mais. No entanto é a mesma águia e, certam ente, tra­
duzida com total fidelidade!
- Trata-se mesmo de fidelidade, eu disse, pois ei-la ago­
ra sentada no meio das galinhas alem ãs, paciente e fiel
como um anim al doméstico.
- C ada língua, prossegui, se parece com um instrumen­
to em particular. Só podem ser traduzidas aquelas que são
as mais sem elhantes; mas um a música é a própria música
e não um a composição surgida da sensibilidade ( Cemüt )
do músico e de seu tipo de instrumento. Ela é criada ali
quando o instrumento, o músico e a música se unem na
m esm a excelência. M uitas traduções, particularmente as
do italiano, serão sempre sonoridades de harmônica ou de
instrumentos de sopro que se traduziram para o piano ou
para o clarim [...].
- Então você considera Dante totalmente intraduzí­
vel?, disse Haber.
- Precisamente menos intraduzível, prossegui, do que ou­
tros, exatamente como Shakespeare. Esses dois poetas domi­
nam tão bem sua língua quanto sua época. Possuem mais

209
paixão do que palavras, mais palavras do que sonoridades.
Comportam-se como gigantes em suas línguas e sua língua
não pode sujeitá-los, pois a linguagem em geral pouco basta
a seu espírito. Pode-se, portanto, muito bem transplantá-los
em um outro solo mais corajoso. Eles podem crescer aí, só
que é preciso um Sansâo para um a tal operação. Os carva­
lhos transplantados permanecem sempre eles mesmos; é
preciso lhes tirar suas raizinhas para colocá-los em uma ter­
ra nova. M as a maior parte dos outros poetas (Sãnger) italia­
nos tem maneiras totalmente próprias, que residem na natu­
reza mesma de seu instrumento; são jogos de sonoridades,
como ein Shakespeare jogos de palavras. Os jogos de sono­
ridades não podem ser traduzidos, os jogos de palavras sim.
- Como começamos a falar de tradução?, disse Godwi.
- Por causa do canto de Flametten, eu disse. O Român­
tico é ele próprio uma tradução.
Naquele momento, a sala obscura iluminou-se, a fonte
que descrevi derramou um luar doce e verde.
- Veja como isso é romântico, exatamente no sentido
de sua definição. O verde transparente da água da fonte é
o médium do sol.”

Temos aqui um eco, já deformado e confuso, da teoria


romântica da obra: ao contrário das obras “clássicas” definidas
pela forma pura, ou seja, pela pura apresentação de um con­
teúdo, as obras “românticas” se caracterizam por esse “colori­
do” que se interpõe entre a nossa percepção e o representa­
do. Esse “colorido”, no caso de uma obra de linguagem, é
evidentemente a “sonoridade” das palavras (rimas, alitera­
ções, tudo o que se denomina, comumente, a "cor” das pala­
vras). A obra romântica musicaliza o médium da representa­
ção e confunde assim seu conteúdo objetai: na realidade, ela
é apenas a irradiação, a pura ressonância da cor do médium.
Romantizar, é colorir a forma, corno o faz o verde da fonte
evocada no texto. Reconhecem-se aí as teorias da Athenãum,
mas fora do elemento simbólico-abstrato que lhes é próprio,

29. BRENTANO, C . Werke. M u n iq u e: C a ri H anser V erlag, 1963.


p. 258-62. v. II.

210
de modo que a obra romántica cai brutalmente no intraduzí­
vel - com esse paradoxo, entretanto, que a confusão da forma
com sua cor sonora é ela própria interpretada como uma “tra­
dução”. Não é provável que o próprio Brentano tenha medi­
do o sentido de sua frase: “O próprio romântico é uma tradu­
ção”, frase que repercute com exatidão a de Novalis. Ou an­
tes, essa frase é o eco longínquo da verdade mais profunda da
arte romántica —eco isolado no texto. Há aqui uma certa di­
ficuldade em juntar essa afirmação com aquelas que tratam
da tradução poética e que insistem principalmente na intra-
duzibilidade da obra romântica. Certamente, "para o tradu­
tor da obra romántica, a forma da própria apresentação toma­
se uma obra de arte que ele deve traduzir”. Mas se essa forma
é constituida pelo som e pela cor desta, como traduzi-la? Pois,
para Brentano, esse elemento sonoro e colorido é precisa­
mente o que não poderia ser passado de uma língua para ou­
tra. O fato de existir ai um problema real é atestado pela alu­
são aos poetas italianos, assim como à própria poesia de Bren­
tano. Seus dois versos famosos:

O Stern und Blum e, Geist und Kleid,


Li'eb, Leid und Zeit und Ewigkeit!50

não se deixam evidentemente traduzir, pelo menos literal­


mente, sem perder sua aura. Ora, esses versos são um
exemplo esplêndido —um dos mais raros —da poesia ro­
mântica alem ã. Todavia, este é, aliás, o equívoco de Bren­
tano e do Romantismo tardio, esses versos se mantêm
como quê sobre uma linha divisória das águas: trata-se de
uma série de puros vocábulos cujas sonoridades, estírnulan-
do-se umas às outras, produzem um efeito musical efetiva-

30. In: Le Romantisme allemand, p. 220. Tradução literal [Berman]:


"Oh estrela e flor, espírito e hábito, / Amor, dor e tem po e eternidade!”.

2 11
mente intraduzível - ou de um a “associação" em que som
e sentido se infm itizariam m utuam ente, assim como o en­
tende Novalis? Das duas, sem dúvida, mas a “associação”
de Novalis vai bem além da simples m usicalidade de um
poema: essa m usicalidade é a priori trabalhada aí de tal
modo que ela não se apóia simplesmente na felicidade da
língua natural. Ela não é fortuita, ao passo que o poema de
Brentano, em toda sua “m agia”, é como um esplêndido
achado, um magnífico lance de dados jogado com os signi­
ficantes e os significados, que está bem longe de abolir o
acaso. É de preferência um jogo felizardo e momentâneo
com este. É aí que se separam os dois Romantismos, é aí
que se separam a obra traduzível e a obra intraduzível - in­
traduzível porque ela não é obra. Brentano, a seu modo,
percebe a diferença, quando opõe as poesias traduzíveis
(Shakespeare e Dante), cuja traduzibilidade se abre no es­
paço que separa seu “espírito” de sua “linguagem ” e as poe­
sias italianas, cuja aderência à linguagem natural é tal que
ela não autoriza mais nenhum a tradução que não seja uma
traição. A distinção é, sem dúvida nenhum a, importante,
embora possamos duvidar que ela valha verdadeiramente
para Shakespeare e Dante, ainda que possamos igualm en­
te duvidar que seja mais fácil traduzir jogos de palavras do
que “jogos de sonoridades”.
Essa passagem de Godwi é significativa porque Bren­
tano em baralha aí, por assim dizer, as cartas do Romantis­
mo de lena. De um lado, ele re-formula as intuições essen­
ciais deste: a poesia é tradução, o tradutor deve se traduzir
a si próprio (é a “m ím ica espiritual” de Novalis), a obra é
definida por sua m usicalidade e sua não-objetalidade. Sig­
nificativas são aqui as imagens de Brentano, nas quais vol­
ta sem cessar a figura do vazio (a fonte transparente que é
o médium do sol, a bolha de sabão). Essas imagens, quase

2 12
irônicas, derivam por filiação das melhores intuições de F.
Schlegel e de Novalis sobre a obra vazia e intransitiva que
sabe captar o longínquo. Mas o tema da m usicalidade, que
é, no entanto, igualm ente herdado da Athenäum , mais do
que misturar as cartas deste, inverte-as: passa-se da musica­
lidade abstrata, matemática e composta cujo modelo é a
“fuga”, etc., para a musicalidade do canto pretensamente
popular, do Lied, breve, para essa m usicalidade sensorial e
sensual da qual o Primeiro Romantismo abstinha-se de
qualquer emprego, pelo menos teoricamente. E assim apa­
rece o tema da poesia intraduzível, pura avalanche de so­
noridades belas, tema sem dúvida muito antigo, mas que
toma agora toda sua força para situar a poesia à sombra da
música, nesse espaço vazio entre a verdadeira poesia de
arte e a verdadeira poesia popular, em que o essencial da­
quilo a que chamamos Romantismo desenvolve-se e proli­
fera em quase-obras líricas ou romanescas, às vezes felizes,
freqüentemente infelizes. O mesmo achatamento da pro­
blem ática poderia ser constatado a propósito do “fantásti­
co” e do “sonho”.
O fato de que a teoria da traduzibilidade da obra se
transforme brutalmente em teoria de sua íntraduzíbiídade
mostra um a reviravolta dialética talvez inevitável, pela
qual o Segundo Romantismo busca afirmar, à sua m anei­
ra, a absoluta autonomia do poético; como no Primeiro
Romantismo, essa autonomia é buscada além da lingua­
gem natural, no domínio “inefável” da música. E não é
por acaso que os poemas românticos tardios foram às vezes
“traduzidos” em m úsica no século 19, ganhando assim um
renome que até sua própria “m usicalidade” teria sido im­
potente para lhes assegurar. A teoria da Athenäum certa­
mente contém em germe essa inversão, assim como carre­
ga, in núcleo, todas as transformações da história da poesia

2 Í3
moderna. Seria necessário ao menos assinalar esse estra­
nho destino pelo qual aqueles que afirmaram a traduzibi-
lidade a priori da literatura criaram um a poética do intra­
duzível, poética bem menos inocente do que parece à pri­
m eira vista, visto que só pode se tratar, em últim a instân­
cia, de um a poética regressiva do incomunicável. Essa poé­
tica impunha-se necessariamente na ausência de qualquer
teoria positiva da linguagem natural. Compreende-se a
hostilidade que os românticos demonstravam a um Voss,
apesar de sua admiração por ele, quanffo se lê o que este
declarava a Humboldt:

O que não pode ser expresso na linguagem dos homens


não pode ser verdadeiro.”

Resta, entretanto, um a intuição de Brentano que se­


ria desejável retomar, ainda que a transformando: a distin­
ção das obras ligadas à linguagem natural (e que lhe pare­
cem erroneamente intraduzíveis) e daquelas que tentam
instaurar com ela um certo afastamento (e que seriam mais
facilm ente traduzíveis). Voltaremos posteriormente a esse
ponto. O intraduzível, por sua vez, só pode ser desejado: na
intraduzibilidade (relativa) da poesia romântica tardia, há
um a vontade de fechamento sobre si, de incomunicabilida-
de, ou seja, um a vontade de escapar do domínio da lingua­
gem , vontade que passa pela idolatria da música e, tam­
bém , por um a relação essencialmente inautêntica com a
língua materna, chegando, às vezes, aos confins do folclo-
rismo. Essa vontade constitui um dos desequilíbrios pró­
prios ao Romantismo alemão e o que, para Goethe, fazia
dele algo “doentio”.

31. FIESEL, E. Op.cit., p. 40.

214
A tradução como
movimento crítico

Abordaremos agora a questão incessantemente evoca­


da eni nosso capítulo precedente: como situar o encobri­
mento do conceito de tradução pelo de crítica em F. Schle­
gel e Novalis? Está claro que pelo menos duas razões nor­
teiam essa ocultação teórica: se o centro das preocupações
poetológicas da Athenäum é a revolução copemicana da
poesia e se essa revolução passa necessariamente por urna
crítica (110 sentido kantiano), a crítica literária tende, eviden­
temente, a ocupar o primeiro plano nesses autores. Além dis­
so - é a segunda razão —, o ponto de partida da reflexão ro­
mântica, pelo menos dos irmãos Schlegel, é a atividade filo­
lógica e crítica, pouco a pouco elevada ao nível de uma prá­
tica filosófica.1 O próprio Novalis, cuja formação é diferente,

1. Cf. ALLEMANN, Beda. Ironie und Dichtung, p. 63.


definiu o “filológico” como tudo o que se refere ao textual e
ao escrito. Daí dois sentidos da palavra crítica. Em um caso,
trata-se da crítica transcendental, da reflexão da poesia sobre
si mesma, da logologia. No segundo caso, trata-se da crítica
dos textos - ou seja, da crítica literaria. Poderíamos falar de
crítica generalizada e de crítica restrita, exatamente como
para a tradução. M as aqui, esses dois movimentos críticos ten­
dem ao ponto - certamente ideal - em que eles se tornam
idênticos, ou seja, em que parece impossível distinguir litera­
tura e crítica. Com efeito, a literatura porvir carrega em si sua
própria crítica, ela quer, diz-nos F. Schlegel, “ora misturar,
ora fundir juntas poesiajLprosa, genialidade e crítica ”} Mas
a crítica literária, como gênero e disciplina, estabelece um
movimento inverso de poetização:

A poesia só pode ser criticada pela poesia. Um julga­


mento sobre a arte que não é ele próprio um a obra de arte
[...] não tem o direito de cidadania no reino da arte.’

Novalis corrobora a seu modo essa afirmação de seu


amigo:

Aquele que não pode fazer poemas, também só os jul­


gará negativamente. À crítica verdadeira pertence a capa-
cidade de produzir ela própria o produto a criticar. O gos- /
to sozinho apenas julga negativam ente.4
-O

Eis o que repetem fartam ente os textos românticos


e o que a arte do fragm ento presum e, em parte, realizar:
unir a reflexão e a forma poética. Há a í um entrelaça-

2. AL. Fragm ents de YAthenäum, p. 112.


3. AL. Fragm ents critiques, p. 95.
4. Fragmente II, n. 1.869, p. 36.

216
mento que, no século 20, tornou-se fam iliar para nós,
mas que perm anece com plexo. Pois se a crítica im anen­
te da obra aparece, de um lado, como a condição de pos­
sibilidade de sua crítica externa, pode-se da m esm a for­
ma dizer, como não hesita em fazê-lo F. S ch leg el, que
esta ú ltim a, abrindo com seus “fragmentos de fu tu ro ” o
próprio campo da literatu ra, constitui a condição de pos­
sibilidade da obra p o rv ir.
Mas a coisa só é possível quando o conceito de crítica
sofre uma mudança de sentido fundamental. Criticar uma
obra rião é mais enunciar uma série de julgamentos a seu res­
peito, a partir de regras estéticas ou da sensibilidade, com a fi­
nalidade de informar ou de esclarecer o público. E, como
enunciava Novalis em seu fragmento sobre a tradução mítica,
resgatar a pura Idéia dessa obra, seu “caráter puro e acabado”,
é cumprir esse ato de “mímica espiritual” que é o fundamen­
to de toda compreensão da obra literária. É bem verdade que,
com F. Schlegel, a crítica toma-se “divinatória”, ou seja, ato de
compreensão. F. Schlegel enunciou tudo isso da maneira
mais clara em seus ensaios sobre Lessing:

[...] não tanto julgar, quanto compreender e explicar.


Que tenhamos, na obra de arte, não simplesmente de des­
cobrir as belas paisagens, mas assimilar a impressão do
Todo [...] E penso [...] que só se compreende a obra no sis­
tema de todas as obras do artista [...] Assim, o que é indi­
vidual na arte deve levar igualm ente [...] ao Todo inco­
mensurável. Se você quiser esse Todo [...] pode com toda
confiança pensar que em nenhum lugar encontrará lim i­
te natural [...] antes de ter atingido o centro. Esse centro é
o organismo de todas as artes e todas as ciências, a lei e a
história desse organismo. Essa doutrina de formação, essa
física da fantasia e da arte bem que poderia constituir uma
ciência particular, que eu gostaria de cham ar de enciclo­
pédia; fonte de leis objetivas para qualquer crítica positiva,
j Assim sendo, a crítica verdadeira [...] não pode se interes-
| sar por obras que em nada contribuem para o desenvolvi­

217
mento da arte e da ciência. Sim , nem mesmo é possível
fazer um a verdadeira crítica do que não mantem relação
com esse organismo da cultura e do gênio.
S e quiser tentar com preender autores ou obras, 011 seja,
reconstruí-los geneticam ente em relação a esse grande or­
ganismo de toda arte e de toda ciência [...].
A essência da arte superior e da forma superior reside na
relação com o Todo [...] E por isso que todas as obras são
U m a Obra, todas as artes Um a Arte, todo poema Um Poe­
ma [...] C ada poema, cada obra deve significar o Todo,
realm ente e efetivamente significá-lo.5

Compreender uma obra é, portariTo, situá-la no Todo


da arte e da literatura, mostrar sua essência simbólica, que
é a de significar, bedeuten, esse Todo e a própria Idéia da
arte. E resgatar o “sentido infinito” da obra. A crítica que
efetua essa operação só pode ser “positiva”, ou seja, dedicar-
se apenas a essas obras que, em si mesmas, contribuem
para a realização da Idéia da arte. A crítica negativa, por sua
vez, é do âmbito da polêmica. Em um outro texto sobre
Lessing, F. Schlegel retoma essa temática:

A necessidade da crítica para toda literatura não era difí­


cil de mostrar. Mas o conceito de crítica que lhe era cons­
tantemente posto como fundamento era o conceito históri­
co da crítica. Só se falava da crítica que existiu até agora.
M as não pode haver uma totalmente diferente? [...] Não so­
mente isso é possível, mas também provável e pela seguin­
te razão. Entre os gregos, a literatura já existia há muito tem­
po, era quase acabada, quando a crítica começou. Não se
passa assim com os Modernos, pelo menos conosco, ale­
mães. Crítica e literatura nasceram aqui ao mesmo tempo,
sim, a primeira quase nasceu até mais cedo; tínhamos um
conhecimento [...] das obras estrangeiras, até das mais insig­
nificantes, antes de ter um das nossas. E ainda agora, não sei
se não devemos nos vangloriar com mais direitos de ter
mais um a crítica do que uma literatura. Com a modifica­
ção dessa relação, entretanto, dá-se a possibilidade e a idéia

5. Kritische Schriften. p. 377-81.

2 18
de uma crítica de um género totalmente diferente. Urna
crítica que não seria tanto o comentario de urna literatura
já existente, acabada e murcha, mas o órganon de urna lite­
ratura aínda a ser terminada, formada e até mesmo come­
çada. Um órganon da literatura, portanto urna crítica que
não seria somente explicativa e conservadora, mas que seria
ela mesma produtiva, pelo menos indiretamente [...] Daí a
necessidade e a idéia de uma ciência própria, que busca de­
terminar a unidade e a diferença de todas as ciencias e de
todas as artes superiores.6

Texto essencial, em que F. Schlegel define o que se


poderia cham ar a revolução copemicana da crítica: tornar­
se a condição de possibilidade da literatura por vir. Essa re­
volução é paralela àquela pela qual a poesia se constituí
como “poesia da poesia”, isto é, como poesia crítica. Esses
dois movimentos não são somente paralelos: eles tendem a
se confundir. Assim F. Schlegel declara, como vimos, que
a teoria do romance (ou seja o modo formal de realização
da poesia romântica) deve ser ela própria um romance.
A operação crítica é essa compreensão pela qual, diz
W. Benjam ín, “a lim itação da obra individual é metodica­
mente relacionada com a infinidade da arte”.7 Ela abre a
obra para sua própria infinidade, é esse mesmo movimen­
to pelo qual a obra se torna “fiel a si, igual em tudo e, no
entanto, superior a si mesma”.8 E é nesse sentido que F.
Schlegel pode ainda dizer:

Nenhuma literatura pode subsistir no tempo sem crítica.'’

6. Ibid., p. 424-5. Cf. M . de Staël em De l’Allemagne, p. 130: “Talvez a


literatura alem ã seja a única que tenha com eçado pela crítica”.
7. BENJAMIN, W. Der Begriff... p. 67.
8. AL, p, 141.
9. AL, p. 410.

2 19
Colocada antes e após a obra, ela é o agente de sua po-
tencialização. Assim, o ensaio de F. Schlegel sobre Wilhelm
Meister julga-se Ubermeister, ou “versão mítica” dessa obra.
"Mítica”, enquanto a relaciona metodicamente corn a Idéia da
qual ela só é a imperfeita realização, enquanto procura resga­
tar essa “significação infinita” que marca seu sentido simbóli­
co. Com o romance goetheano em sua dimensão realista, que
o incorporaria, por exemplo, à tradição romanesca inglesa do
século 18, a crítica schlegeliana não se preocupa; e quando
Novalis percebe que o sentido do Wühéfin Meister bem que
poderia ser buscado nessa direção (a de seu conteúdo), apressa-
se em condenar a obra em sua totalidade. Da mesma forma, o
ensaio de F. Schlegel sobre Lessing não estuda o Lessing real e
histórico, mas refere-se ao Lessing “tendencial”, isto é, ao que
esse autor abriga como “fragmentos de futuro”.
Ora, esse movimento que ultrapassa a obra em seu
dado imediato, trazendo-a para o Todo da arte, já pudemos
descrevê-lo, com Novalis, como sendo o da tradução míti­
ca. De onde vem então que, quase sempre, ele só apareça
como operação crítica? Observemos inicialm ente isso: a
categoria da “compreensão” vale, ao mesmo tempo, para a
crítica e para a tradução:

Para saber perfeitamente traduzir o antigo em moder­


no, seria necessário que o tradutor dominasse este último
a ponto de fazer tudo desse modo; e que, ao mesmo tem- .
po, ele compreendesse o primeiro a ponto de poder não
somente o im itar, mas também recriá-lo.10

Quando F. Schlegel declara em um fragmento que


já citamos que as traduções são “m ím icas filológicas”, ele
as inclui no âmbito do “filológico” em geral, da mesma

10. AL, p. 164.

220
m aneira que as “notas” e os “comentarios”, ou seja, que os
“géneros críticos”. Inversamente, o fragmento 287 da Athe­
näum faz crítica e tradução se equivalerem:

Só mostro m inha compreensão de um autor a partir do


momento em que posso atuar em seu espírito; em que,
sem dim inuir sua individualidade, posso traduzi-lo e trans-
fomiá-lo de diversas maneiras."

Reencontramos a “m ím ica espiritual” de Novalis,


m ím ica válida para o tradutor e o crítico que devem, am­
bos, inclinar-se sobre um texto estrangeiro e “reconstruí-
lo”. Na verdade, no caso do tradutor, o texto é ao mesmo
tempo outro e estrangeiro; mas essa distinção não tem tan­
ta importância para o filólogo-crítico confrontado a textos
antigos. Se a finalidade de toda m ím ica reconstrutiva da
obra é resgatar seu “caráter puro e acabado”, então não há
dúvida de que a crítica, idêntica em essência à tradução,
lhe é superior, pois ela é somente esse movimento de resgate
elevado à pura consciência de si: obra de arte da superação
da obra de arte, quintessência.1A tradução, por sua vez, é e
perm anece sendo um ato interlingüístico: se ela arranca a
obra de sua em piricidade primeira, é para mergulhá-la de
novo na de um a outra língua. Realm ente, na medida em
que a obra arrancada de sua língua materna encarna-se em
uma outra língua, produz-se como que uma fulguração
que deixa pressentir o que ela seria em seu puro elemento,
longe de todas as línguas terrestres, na linguagem etérea e
diáfana do Espírito. Perspectiva idealista, para a qual a lin­
guagem real não é o justo medium do Espírito e na qual o
Romantismo aproxima-se de Hegel. Mas, da mesma forma

11. AL, p. 140.

221
que para este a filosofia é superior à poesia, para a Athe­
näum a crítica é superior à tradução.'Pode-se ainda formu­
lar a coisa de outro modo: crítica transcendental e crítica
em pírica, crítica restrita e crítica generalizada, crítica im a­
nente e crítica externa tendem a unir-se no texto crítico
acabado, que é tanto resgate da Idéia da obra quanto auto-
teoria da crítica e “pequena obra de arte”.12 Isso leva à con­
seqüência paradoxal, como diz Walter Benjam in, de que,
“na arte romântica, a crítica não é somente possível e ne­
cessária, mas que, inevitavelmente, lia em sua teoria um
paradoxo: nela, a crítica é mais valorizada do que a obra”.13
A posição subalterna da tradução pode ser deduzida aqui
pelo fato de qúe, em toda tradução concreta, o momento
transcendental, a “tradução” pela qual a obra se eleva aci­
ma de si mesm a, acim a de seu autor, de sua empiricidade,
de sua língua própria e até mesmo da linguagem natural,
não é tão puram ente efetuado quanto na crítica. Tornada
possível pela estrutura de obra da obra, ela não lhe é de vol­
ta transcendentalmente necessária. Se a obra crítica - em­
purrando as coisas, com Benjam in, até o lim ite da dialética
idealista —é ao mesmo tempo possível, necessária e ontolo-
gicamente superior à obra literária original, segundo a lei
para a qual todo produto de segunda (ou enésima) potên­
cia é superior a um produto de primeira potência, a tradu­
ção interlingüística mostra-se possível e superior a seu ori­
ginal - mas falta-lhe a profunda necessidade da crítica. No
reino potencializante da filologia romântica, ela é apenas
um sub-gênero, ainda que Novalis tenha podido chamar,

12. Assim SCH LE G E L, F. define o fragmento. Cf. AL, p. 126.


13. DerBegriff..., p. 119. Cf. Lautréamont: “Os julgam entos sobre a poe­
sia têm m ais valor do que a poesia. Eles são a filosofia da poesia [...]”
(Poésies 11, Œ uvres completes. Paris: Garnier-Flammarion. p. 289).

222
momentaneamente, a operação poético-crítica suprema de
“tradução”, sem dúvida influenciado por uma “sincrítica”
não menos momentânea com A. W. Schlegel, na ocasião
mergulhado na tarefa grandiosa, mas em pírica, de traduzir
Shakespeare.
Ao receber a mesma definição que a crítica, a tradu­
ção não sai, portanto, ganhando com isso. Deslocada, on-
tologicamente relegada a um segundo plano (ao ponto em
que suas possibilidades literárias no campo da escritura
fragmentária são ignoradas, ao passo que as da crítica não o
são), encoberta no sentido indicado acim a, ela tem, no en­
tanto, o mesmo campo de operações que a crítica: as “obras
que contribuem para o desenvolvimento da ciência e da
arte”, ou seja, como sabemos, Shakespeare, Dante, Calde-
rón, Cervantes, etc. Mas mesmo assim, como bem obser­
vou Benjamin, o programa romântico de traduções é hete-
rônomo, é desenhado a priori pelo programa crítico. Inevi­
tável desenlace: na ausência de qualquer teoria dessa troca
interlingiiística e intercultural da tradução que Herder,
Goethe e Humboldt haviam, no entanto, levado em consi­
deração, o ato de traduzir é inevitavelmente esmagado pelo
ato da criação poética e pelo da “reconstrução” crítica.
Entretanto, é preciso sublinhar que, no interior des­
sa perspectiva idealista, os românticos souberam mostrar a
relação profunda que liga a obra enquanto tal à tradução (e
à crítica). Essa relação consiste no fato de que a obra, por
ordem da tensão que a une à língua e, ao mesmo tempo, a
separa dela (ou em um outro nível: na relação de aderên­
cia e de afastamento que a liga à linguagem ), permite a tra­
dução, a requer como uma necessidade própria e, além dis­
so, faz dela um a operação histórica plena de sentido - tan­
to lingüística e culturalm ente quanto psicologicamente.
Essa relação é própria à obra enquanto obra, qualquer que

223
seja a m ultiplicidade de relações que as obras possam, sob
outro ponto de vista, manter com suas línguas e a lingua­
gem. A obra é essa produção lingüística que solicita a tra­
dução como um destino próprio. Vamos nomear proviso­
riamente essa solicitação de traduzibilidade. E importante
distinguir essa noção de traduzibilidade da traduzibilidade
comum ou daquela que a lingüística procura determinar.
Esta últim a é um fato: as línguas são traduzíveis, ainda que
o espaço da traduzibilidade seja investido de intraduzibili-
dade. A intradpzibilidade lingüística fèside no fato de que
cada língua é diferente de um a outra; a traduzibilidade lin ­
güística, no fato de que cada um a é linguagem . D aí ocorre
que, nesse dom ínio, traduzibilidade e intraduzibilidade
perm anecem noções relativas.
M as a traduzibilidade literária é diferente, embora a
tradução literária também conheça, bem entendido, a tra­
duzibilidade (e a intraduzibilidade) lingüística. Ela consis­
te no fato de que a obra, surgindo como obra, institui-se
sempre por um certo afastamento de sua língua: o que a
constitui como novidade lingüística, cultural e literária é
precisamente esse espaço que permite sua tradução para
um a outra língua e, ao mesmo tempo, torna essa tradução
necessária e essencial: é realm ente a “grande viagem”
schlegeliana. Em um sentido, a tradução lhe é exterior, a
obra pode existir sem ela. Em um outro, ela a consuma, a
im pele para além de si mesma, mas essa “alienação” já está
prefigurada em sua relação com a sua língua de origem. A
estranheza nativa da obra se redobra de sua estranheza (efe­
tivamente acrescida) na língua estrangeira. E que a tradu­
ção é para ela um a verdadeira metamorfose, um a real Ve­
ränderung —e m ais ainda quando esta últim a é mais fiel,
mais “literal”. Na verdade, a tradução infiel anula pura e
simplesmente essa dialética. A teoria do próprio e do es­

224
trangeiro, da elevação ao estado de mistério (ao estado de
estranheza, de compenetração do conhecido e do desco­
nhecido) tal como a expõe Novalis, remete a esse movi­
mento de metamorfose, e não é incorreto dizer que as mais
altas traduções são “míticas” e “transformantes”. Esse mo­
vimento pelo qual a obra se torna “m ítica”, é ela. mesma
que o permite; ou, em outros termos, a obra é essa produ­
ção pela qual a tradução se toma uma atividade plena de
sentido. É o que se pode ver pelo inverso examinando o que
se passa (ou não se passa) com as outras traduções - aque­
las que não dizem respeito a obras, sejam estas literárias,
críticas, religiosas, filosóficas, etc., mas a textos que se si­
tuam seja em outros setores do intercâmbio humano, seja
nas categorias degradadas (sem pretensão de escritura pró­
pria) desses diversos domínios. Nesse caso, a tradução pode
ser ou não tecnicam ente “fácil”, ela só encontra textos sem
resistência do ponto de vista lingüístico (textos certamente
corretos, mas sem espessura), ou mesmo textos “mal escri­
tos”, isto é, em que a relação comum com a língua fica
aquém da relação comumente aceita; textos que, neste úl­
timo caso, só podem ser traduzidos por uma re-escritura
que visa a assegurar um a transmissão do sentido que o pró­
prio original apenas efetua com dificuldade. Nos dois ca­
sos, a tradução não é solicitada pelo texto, ela surge sim­
plesmente da necessidade do intercâmbio e da comunica­
ção; ela não é realmente significante como ato próprio. O
sentido passa, bem ou mal flui de um a língua para a outra,
mas tudo isso pertence ao domínio da adaptação, não da
transmutação. A tradução desse tipo de textos, seja ela lite­
rária ou um a forma mais ou menos fantasiada de rewriting,
não encontra nestes nenhum a resistência fundamental.
Ora, é o inverso que se produz com um a obra: a incomen­
surável resistência que ela opõe à sua tradução - tradução

225
que ao mesmo tempo ela permite e solicita - dá todo o seu
sentido, não menos incomensurável, a esta última. E que,
no mesmo movimento, ela se enraíza em sua língua e se ar­
ranca dela, demonstrando a dimensão própria de sua tradu-
zibilidade e de sua intraduzibilidade. Este é um dos para­
doxos da obra, cujo paralelo seria encontrado para a crítica
e a herm enêutica.14
Os românticos souberam descrever essa realidade
desconcertante à sua m aneira, porque eram movidos por
estas incessantes questões: O que é uníâ obra?.O que signi­
fica, em torno da obra como todo consumado, essa prolife­
ração "filológica” de textos no segundo grau, notas, frag­
mentos, críticas, comentários, citações, traduções, todas es­
sas extensões de textos ao redor da obra, antes ou após, que
ora parecem nutrir-se dela como parasitas, ora parecem ser
seus prolongamentos, seu transbordamento em espaços
vertiginosamente infinitos? Quais são esses textos que, vi­
sando a esclarecer a obra, ora a esclarecem , ora a obscure­
cem , ora fazem os dois ao mesmo tempo? Qual é essa plu-
ri-literatura que a leitura faz nascer ao redor das obras e
que, às vezes, as suscita? Não haveria um a obra ou um gê­
nero de obra que, em sua infinidade e sua pluralidade, re­
tomaria em si, já compreenderia em si, enciclopédicam en­
te, essa hiper-literatura da literatura? Tal é a cadeia de ques­
tões que desenvolve o Romantismo de lena até a obsessão.
Retomá-las arrancando-as da sua esfera especulativa é o de­
sejo que suscita sua teoria da literatura - contra a fascina­
ção im aginária que ela exerce. Nesse sentido, contestar
essa teoria é também levar suas intuições para fora do do­

14. Pois a obra solicita as em presas críticas e h erm enêuticas, funda


sua necessidade, mas ao m esm o tempo foge delas, destina-as ao eter­
no inacabam ento.

226
mínio do Idealismo, inscrevê-las nos da linguagem e da
cultura - domínios que Goethe, Herder, Humboldt e
Schleierm acher souberam abordar sem, no entanto, conse­
guir enunciar sempre com a mesma amplitude filosófica as
múltiplas questões que os românticos apresentam. E, nota-
damente, algo que apenas mencionamos aqui: o que, na
obra, torna a tradução possível, necessária e plena de senti­
do, tornando-a ao mesmo tempo supérflua, absurda e im­
possível, fazendo dela uma das maiores utopias da ativida­
de literária e linguageira? O que significa, fora da dialética
idealista, esse movimento de “potencialização” que come­
ça com a obra e prossegue, de um lado, com a crítica, de
outro com a tradução? Se essa potencialização é realmente
uma “reflexão”, qual relação mantém essa “reflexão” ro­
mântica com o “reflexo” goetheano - reflexo pelo qual a
obra readquire juventude, frescor e vida? Podemos caracte­
rizar esse afastamento que marca a obra como obra e abre
o espaço da tradução da mesma maneira que os românti­
cos? Cham ar a ele próprio uma tradução?

227
C A P I T U L O

August Wilhelm
Schlegel: a vontade
de tudo traduzir
A. W. S chlegel é provavelmente um dos maiores
tradutores alem ães que já existiram. Ele conhece profun­
dam ente as principais línguas européias modernas, o gre­
go, o latim , o francês m edieval, o antigo alem ão, as lín ­
guas d'oc, assim como o sánscrito, com o qual ele contri­
bui para ser estudado de modo decisivo no O cidente. A
lista de suas traduções é impressionante: Shakespeare,
Dante, Petrarca, Bocaccio, Calderón, Ariosto, assim como
um a quantidade de poetas italianos, espanhóis e portu­
gueses menos conhecidos. A qual é preciso acrescentar a
B hagavad G ítâ.
Mas A. W. Schlegel não é somente um grande poli-
tradutor: é um em inente filólogo, formado na escola de
Heyne e de Bürger, especialista (entre outras coisas) em
sánscrito e literaturas medievais, com o qual homens mais

229
“cientistas” como Bopp, Diez ou Von der Hagen aprende­
ram muito.
E também um grande crítico, que escreveu numerosos
artigos sobre Shakespeare, Dante, o teatro espanhol do Sécu­
lo de Ouro, Camões, Goethe, Schiller, os trovadores, a índia,
a poesia e a métrica. Ministrou cursos em Berlim (1801) e em
Viena (1808) que desempenharam um papel essencial, não
somente na Alemanha e na Áustria, mas também, em parte
graças à M adame de Staêl, em toda a Europa: pela primeira
vez, as intuições do Romantismo alemâb tornavam-se acessí­
veis e ativas, ultrapassando os círculos estreitos que as haviam
criado.1 A influência desses cursos foi considerável. Todo o
evangelho poético e crítico do século 19 é decorrente deles.
M as A. W. Schlegel também é, com seu irmão Frie­
drich, o fundador da revista Athenäum, cuja influência so­
bre os destinos da literatura e da crítica européias começa
apenas a ser avaliada.2 Produziu igualm ente um a obra poé­
tica, à qual não parece, entretanto, ter atribuído demasiada
importância, sabendo que sua verdadeira criatividade situa­
va-se em outro lugar.
É preciso acrescentar a tudo isso que a personalida­
de de A. W. Schlegel ultrapassa a constelação do círculo de
lena e que sua esfera de atuação o põe em relação com toda
a vida intelectual e literária da época na Alemanha, como

1. Cf. o artigo docum entado e simpático de M arianne T halm ann, “Au­


gust W ilh elm Sch legel”, em A. W. Schlegel 1767-1967, Bad Godesberg,
Internations, 1967, p. 20: “Os cursos de V iena, que tiveram três edições
entre 1809 e 1841, são a obra de história literária mais lida. É traduzida
para todas as línguas [...] e desencadeou em países nórdicos e eslavos mo­
vimentos que correspondem ao Romantismo alem ão. Foi ela que deter­
m inou o julgam ento sobre o clássico e o moderno no estrangeiro".
2. Cf. L’Absolu Littéraire, p. 13-21, e BLANCHOT, M aurice. “L’Athe-
näum ". in : L’Entretien infmi. Paris: G allim ard, 1969.

230
o testemunham suas relações intensas, embora freqüente­
mente tumultuadas, com Schiller, Goethe, Humboldt ou
Shelling. Admirado, adulado, mas também detestado por
causa de seu vigor e de seus dons polêmicos,5 na época ele
supera largamente seu irmão em celebridade, do qual ele
não tem, entretanto, a radicalidade crítica, e Novalis, do
qual ele não tem nem os dons especulativos, nem o talen­
to poético. Daí uma reputação de superficialidade munda­
na bem injustificada. Por um lado, porque, embora não se
tenha certeza de que ele tenha compreendido (mas o com­
preendiam eles mesmos?) o projeto de escritura fragmentá­
ria de Novalis e de Friedrich Schlegel, ele possui o que lhes
falta: a capacidade de concluir, a qual se manifesta, princi­
palmente, em suas traduções. Por outro lado, porque ele
mantém com a filosofia e a poesia um a relação profunda,
embora articulada de outra forma, mais social que seu ir­
mão e que Novalis. F. Schlegel percebeu bem isso quando,
em 1798, escreveu a Caroline Schlegel:

Parece-me que a história moderna só está começando e


que todo o mundo se divide de novo em espirituais e em
temporais. Vocês são os filhos do século, W ilhelm , Hen-
riette e Auguste. Nós somos espirituais, Hardenberg [No­
valis], Dorothéa e eu.''

Como registra M arianne T halm ann, a obra de A.


W. Schlegel mostra um progressivo deslizam ento: a tra­
dução aqui é pouco a pouco suplantada pela crítica, e

3. W ieland, a proposito dos Schlegel, fala de “pequenos deuses exube-


rantes”. Goethe, no final de sua vida, deixa escapar sua rabugice: eie fus-
tiga a Schlegelei, por hom onimia com Flegelei, cafajestice: ärtificialida-
de e versatilidade demais neles para o hom em “natural” que eie quer ser.
4. Cf. THALMANN. Op. cit., p. 13.

231
esta é pouco a pouco suplantada pela filologia e as pes­
quisas comparatistas.. C ertam ente, A. W. Schlegel não
abandona nenhum a dessas três atividades, mas o centro
de gravidade de seus interesses se desloca, em um movi­
mento que vai, grosso modo, da pura paixão literária à
pura paixão erudita. M ovim ento cujo equivalente é reen­
contrado em seu irmão e que m anifesta sua inclusão nes­
sa “figura gêm ea” moderna form ada por literatura e filo­
logia, segundo M ich el Foucault.
M as está claro também que o Séhlegel crítico e filó­
logo tem suas raízes no Schlegel tradutor. E no campo da
tradução que ele atua, cria, demonstra toda sua estatura; é.
nesse campo que ele forma suas intuições poéticas, é aí,
enfim , que ele ocupa, em relação aos outros românticos,
mas tam bém em relação às outras personalidades intelec­
tuais da época, um a posição própria. Ele é fundam ental­
m ente tradutor, o que não são nem Goethe, nem Hölder­
lin , nem Humboldt, nem Voss, nem Schleierm acher, nem
Tieck. Atrás do crítico, conferencista, erudito, é o homem
atrelado à dura tarefa de traduzir quem fala. Obviamente,
essa ordem pode ser, por sua vez, invertida, e diremos da
mesm a forma: atrás do Schlegel tradutor, há o crítico e o
filólogo que guiam suas escolhas em píricas. No final das
contas, A. W. Schlegel representa a unidade das três figu­
ras, o que, mais um a vez, o distingue de todos os seus con­
temporâneos tradutores. E isso explica a razão de ter pro­
posto, ainda que de m aneira ocasional e episódica, um a
teoria da tradução que é, antes de tudo, uma teoria da lin­
guagem poética.
Tudo com eça com a tradução de Shakespeare que
seu mestre Bürger lhe sugere empreender, inicialm ente
com ele, depois sozinho. O projeto de um a tradução poéti­
ca de Shakespeare. Naturalm ente, pois existiam em 1796

232
numerosas traduções do dramaturgo inglês, mas eram em
sua maioria em prosa, a mais conhecida sendo a de W ie-
land.5 Desde o início, em um artigo publicado no mesmo
ano na revista Die Horen e intitulado “Alguma coisa sobre
W illiam Shakespeare por ocasião de W ilhelm M eister”, A.
W. Schlegel propõe fazer uma tradução de Shakespeare
que seja ao mesmo tempo fiel e poética. E preciso, ele de­
clara, mostrar o poeta tal

como ele é, exatamente como os apaixonados não gosta­


riam de ser privados das sardas de suas belas.6

O que significa duas coisas: por um lado, respeitar


escrupulosamente o texto inglês, mesmo em seus “defeitos”
e suas “obscuridades”, e recusar-se a modificá-lo, a em bele­
zá-lo e a corrigi-lo quando, particularmente, ele choca a
sensibilidade da época.7 Por outro lado, é preciso dedicar-se
com ardor para restituir a métrica quando o original está
em verso.8
Exigências que podem parecer normais, elem enta­
res, mas que não o eram na época e que se chocavam de
frente com os temíveis problemas que a tradução.de Sha­
kespeare sempre suscitou.
Restituir Shakespeare nos múltiplos registros de sua
língua - retóricos, poéticos, filosóficos, políticos, popula­
res, etc. —é em si um a tarefa imensa. Além disso, trata-se
de uma obra destinada ao teatro, portanto de uma oralida-

5. Que se auto-intitulava "m ediador rnelhorador”. In: THALMANN.


Op. cit., p. 10.
6. Ibid., p. 9.
7. In: Die Horen, n. 5. Tübingen: Cotta, 1796. p. 110-2.
8. Ibid. O que acarreta, por exem plo, o abandono do alexandrino, que
convém mal no verso shakespeariano.

233
de particular. A tradução poética de Shakespeare deve ser,
ao mesmo tempo, legível e audível, deve ter utilidade sobre
um palco. O fato de que a tradução schlegeliana seja até
hoje utilizada nos teatros alem ães indica que ela soube, de
um certo modo, resolver esse problema. Quanto ao resto,
A. W. Schlegel tinha perfeita consciência.g
M as essa tradução está ela própria fundamentada em
um a releitura crítica da obra de Shakespeare. Ele não é um
gênio grosseiro e informe (que poderia, na tradução, ter as
formas negligenciadas ou melhoradasflevando-se em con­
ta unicam ente a profundeza de sua “visão”), mas um

abism o de intenção m arcada, de consciência de si e de


reflexão.10

Em resumo, um poeta que pesa suas palavras e suas


obras. Essa mesma releitura remete a um texto de A. W.
Schlegel um pouco mais antigo, “Sobre a poesia, a métri­
ca e a língua" (1795), em que ele expõe toda uma teoria da
poesia. A poesia é, antes de tudo, um sistema de formas lin­
güísticas, métricas e rítmicas que o poeta m anipula com
um savoir-faire superior. O poema, no final das contas,

não se com põe apenas de versos; o verso de palavras; as


palavras de sílabas; as sílabas de sons individuais. Estes
devem ser exam inados segundo sua harm onia ou de­
sarm o nia; as sílabas devem ser contadas, m edidas, pe­

9. “M inha tradução transformou o teatro alem ão”, ele escreve a Tieclc


em 3 de setem bro 1837. “Com pare somente os iambos de S ch iller em
Wallenstein com os de Don Carlos e verá a que ponto ele passou por mi­
nha escola”, ln : jO LL E S, Frank. A. W. Schlegel Sommemachtstraum
in der ersten Fassung von Jahre 1789. Göttingen: Vandenhoeck e Ru­
precht, 1967. p. 34.
10. In: THALMANN, Op eit., p. 9.

234
sadas; as palavras escolhidas; os versos, enfim , d elica­
dam ente ordenados e agenciados m utuam ente. M as
não é tudo. Observou-se que o ouvido tem um a agra­
dável sensação de cócegas quando as m esm as term ina­
ções sonoras das palavras voltam em intervalos deter­
minados. O poeta deve tam bém buscar isso e freqüen­
tem ente explorar o domínio da lin guagem de um ex­
tremo a outro [...] por causa de um a só term inação [...]
Tu farás versos com o suor de tua testa! Tu gerarás poe­
mas na dor!"

Essa concepção é encontrada até o final em A. W.


Schlegel e está no coração de sua prática. Assim ele decla­
ra em um a de suas aulas:

A métrica (Silbenmass) não é um ornamento pura­


m ente exterior [...], mas pertence às condições essenciais
e originais da poesia. E um a vez que todas as formas m é­
tricas têm um a significação particular e que sua necessi­
dade, em um lugar determ inado, deixa-se muito bem
mostrar [...], um dos primeiros princípios da arte da tra­
dução é recriar um poema, tanto quanto a natureza da
língua o pem iita, com a mesma m étrica.12

E ern suas Lições sobre a arte e a literatura:

Desde o seu nascimento, a linguagem é a matéria-pri­


ma da poesia; a métrica (no sentido mais amplo) é a for­
ma de sua realidade.”

Poderíamos pensar que esta é um a visão um pou­


co lacônica e formal da poesia, que tem muito pouco a
ver com as principais intuições do Romantismo. Mas se­

11. In: THALMANN, M . Romantiker als Poetologen. H eidelberg: Lo­


thar Stiehin Verlag, 1970. p. 32.
12. A. W . S. Geschichte der klassischen Literatur. Stuttgart: Kohlham-
iner, 1964. p. 17.
13. AL, p. 355.

235
ria um erro: a apologia da forma em poesia leva precisa­
m ente a um a teoria da universalidade das form as poéti­
cas que é o exato complemento da teoria da linguagem e
da tradução de F. Schlegel e de N ovalis.14
Para A. W. Schlegel, o trabalho rítmico e métrico do
poeta (“tu farás versos com o suor de tua testa!”) é rigorosa­
mente da ordem dessa “feitura” da qual fala Novalis: ele “po­
tencializa” a linguagem natural - com a qual A. W. Schlegel
não é mais temo do que seus pares impõe-lhe o jugo das leis
que resultam, antes de tudo, da ação do -poeta. E exatamente
o que ele declarava no posfácio a Tieck citado em nossa Intro­
dução e que reitera em seus cursos sobre a literatura clássica:

Podemos [...] traduzir de todas as lín guas m ais impor­


tantes. M as não quero considerar isso com o um a vanta­
gem que residiria na natureza de nossa lín gua. Foi mais
um a questão de decisão e esforços.15

A própria linguagem , dizem as Lições sobre a arte e a


literatura, nasceu de um trabalho análogo:

A lin g u ag em nasce o tem po todo do regaço da poe­


sia. A lin g u ag em não é um produto da n atu reza, mas
um a reprodução do espírito hum an o , que registra nela
[...] todo o m ecanism o de suas representações. Na poe­
sia, algu m a coisa de já formado é, portanto, de novo
form ado; e a capacidade de seu órgão tom ar forma é
tão ilim ita d a quanto a capacidade do espírito de retor­
nar a si m esm o através de reflexões sem pre levadas à
p otência su perio r.16

14. Essa apologia da forma fundam enta a necessidade da tradução poé­


tica, exatam ente com o a do conteúdo motiva em Goethe sua tolerância
em m atéria de tradução.
15. AL, p. 18.
16. Ibid., p. 349.

236
Eis um a palavra que nos é fam iliar: reflexão. M as
se a lin gu agem já é originariam ente poiesis, a poesia -
no sentido de D ichtkunst, arte da poesia —é apenas o re-
dobram ento reflexivo desta. A. W . Sch legel não hesita,
portanto, em retom ar o conceito de seu irmão: a “poe­
sia da poesia”, transformando-o e, de um a certa forma,
banalizando-o.

C onsiderou-se totalm ente estranho e incom preensí­


vel que se falasse da poesia da poesia; e, no entanto,
para aq u ele que concebe o organism o interno da exis­
tência esp iritual, parece bem sim ples que a mesm a
atividade que realizou algo poético seja reem pregada
sobre seu resultado. S im , pode-se dizer sem exagero
q u e, m ais precisam ente falando, toda poesia é poesia
da poesia; pois ela já pressupõe a lin g u ag em , c u ja in­
venção depende verdadeiram ente da aptidão poética,
e que a própria lin guagem é um poem a do gênero h u­
m ano todo, um poem a em perpétuo devir, ein perpé­
tua m etam orfose, n unca acab ad o .17

Esse texto não faz senão aplicar à linguagem a termi­


nologia do fragmento 116 da Athenäum, consagrado à
“poesia universal progressiva”.

17. Ibid., p. 349. O mesmo texto prossegue introduzindo o tem a da


m itologia e da poesia, intérprete e tradutora da linguagem dos deuses.
A sem elhan ça com Novalis e Valéry é surpreendente. Aqui tam bém a
tradução é tradução da tradução. SC H LE G E L, A. W. mostra-se, as­
sim , fiel ao princípio m onológico rom ântico: a poesia só pode ser poe­
sia da poesia, a tradução só pode ser tradução da tradução, etc. Nessa
fase, é verdade, SCH LE G E L, A. W. perm ite-se, sem rodeios, pasti-
ch ar seu irmão. M as seu terreno próprio de tradutor são as formas
poéticas m étricas; SCH LE G E L, F., por sua vez, estuda (como críti­
co) as formas poéticas e literárias textuais. O prim eiro oferece uma
teoria da m étrica, o segundo um a teoria dos gêneros. As duas teorias
se com pletam e têm em com um seu “form alism o”.

237
M ás a conseqüência de um a tal posição é que toda
lín gu a, como todo hom em , para Novalis, é “transformá-
vel sem m edida” e que as form as produzidas pelo traba­
lho poético sao, em urna certa m edida, transferívéis de
um a lín gua para outra. Ao trabalho de produção das for­
mas (poesia) responde o da reprodução destas (tradu­
ção). E urna vez que a linguagem é obra, “feitura” e não
“natureza”, a tradução é um dos aspectos desse processo
pelo qual a linguagem se torna cada vez m ais obra e for­
ma: Bildung. A teoria da artificialidáFde da linguagem e
de suas formas poéticas fundam enta, portanto, a possibi­
lidade e a necessidade da tradução poética. Se é possível
traduzir essas formas apenas até um certo ponto, é evi­
dentem ente (e A. W. Sch legel, como “prático”, sabe dis­
so m elhor do que ninguém ) apenas empíricamente que a
tradução esbarra sem cessar em lim ites. M as não existe
intraduzibilidade absoluta: as dificuldades encontradas
são da ordem das lim itações do tradutor, de sua língua e
de sua cultura, da com plexidade das soluções a serem
encontradas para traduzir esse ou aquele texto, essa ou
aquela m étrica.18 No pior dos casos, elas rem etem à exis­
tência desse fundo natural da linguagem - mirnético,
onom atopéico - que a poesia enquanto tal busca supe­
rar. O que quer dizer (exatam ente no sentido de Nova­
lis): quanto m ais o texto a ser traduzido é poético, mais
ele é teoricam ente traduzível e digno de ser traduzido.
Essa teoria, da qual só pretendemos traçar aqui as
grandes linhas e que, em A. W. Schlegel, alia-se sem pro­

18. Razão desse axiom a justo, m as indeterm inado : “Até m esm o o


con ceito de fid elid ad e é d eterm in ad o de acordo com a natureza da
obra coru a qual se lida e a relação das duas iín guas". In: STO RIG .
Op. c it., p. 98.

238
blemas a um a consciência pessoal das questões da tradu­
ção,1“ completa, portanto, a teoria da Kunstsprache. Obvia­
mente, ela não chega ao ponto de afirmar que a tradução é
ontologicamente superior ao original, mas parte das mes­
mas bases e fornece à teoria da linguagem natural o que lhe
falta: lim a teoria das formas métricas da poesia.
O princípio da transferibilidade das formas, conside­
radas como a essência da poesia, não resulta de forma algu­
ma, como crê Pannwitz, que o tradutor, utilizando, por
exemplo, “rimas italianas”, “italianizè” o alem ão. Pois ele
não faz senão transplantar em sua língua um a forma que,
sendo efetivamente de origem italiana, tende, por sua pró­
pria natureza, a transcender essa origem —a ser uma espé­
cie de universal poético. O tradutor é, antes, confrontado a
uma multiplicidade de formas métricas estrangeiras que ele
visa a introduzir em sua língua materna para ampliá-la poe­
ticamente. A dialética formadora da Bildung adquire aqui
o sentido de um cosmopolitismo radical: o alem ão, pobre e
rígido demais, deve se valer das métricas estrangeiras para
se tomar cada vez mais Kunstsprache. O resultado disso é
que toda tradução só é e só pode ser politradução. Não exis­
te para ela domínio privilegiado20 ou tabu do ponto de vis-

19. “É evidente que [...] a mais em inente tradução só pode ser um a apro­
ximação" ( Geschichte... p. 18). A tradução é uma ocupação “ingrata, não
somente porque a melhor nunca é tão estimada quanto a obra original,
mas também porque quanto mais o tradutor adquire experiência, mais é
obrigado a sentir a inevitável imperfeição de seu trabalho" (In: STO-
R1G. Op. cit., p. 98). E verdade que três linhas mais adiante o tom muda
e que o tradutor se torna “um mensageiro entre as nações, um mediador
de respeito e de admiração mútuos onde antes só existia indiferença ou
até recusa" (ibid). Eterna oscilação da consciência do tradutor entre o
orgulho absoluto e a hum ildade absoluta, sem dúvida agravada pelo sta-
tus instável e até inferior da tradução no pensamento romântico.
20. Com o, por exemplo, o grego em Hölderlin.

239
ta lingüístico e literário. Veremos adiante como se define a
politradução romântica. Constatemos simplesmente, por
enquanto, que ela se distingue da diversidade goetheana
pelo fato de não visar, de forma algum a, através do horizon­
te das línguas e das obras, a um a com unicação cultural
concreta: ela só trata de um mundo de universais poéticos
absolutizados e indefinidam ente intercambiáveis, mundo
que se assem elha ao da Enciclopédia de Novalis.
O fato de toda poesia, em virtude de sua essência for­
m al, ser traduzível, e A. W. Schlegel dá conta disso, é
uma formidável descoberta, algo que marca época na his­
tória da tradução. E assim como Novalis declarava orgulho­
samente em Grãos de pólen que

a arte de escrever ainda não está inventada, mas está pres­


tes a sê-lo,21

ele é capaz de afirm ar no posfácio de sua tradução do O r­


lando furioso, endereçado a Tieck:

Somente um a múltipla receptividade para a poesia na­


cional estrangeira, que deve, se possível, am adurecer e
crescer até a universalidade, possibilita progressos na fiel
reprodução dos poemas. Acredito que estamos prestes a
inventar a verdadeira arte da tradução poética; essa glória
estava reservada aos alem ães.“

Ele chega mesmo a citar, aludindo à tradução de


Dom Quixote que Tieck acabava de concluir, a célebre fra­
se de Cervantes sobre a tradução, declarando que ela ago­
ra está ultrapassada:

21. SCH R1FTEN. S am uel, p. 250. t. II.


22. Athenãum. p. 107. t. II.

240
Parece-me que traduzindo de uma língua para outra,
contanto que não seja das rainhas das línguas, a grega e a
latina, faz-se justamente como aquele que olha às avessas
as tapeçarias de Flandres; mesmo que se vejam as figuras,
elas estão, no entanto, repletas de fios que as obscurecem,
de modo que não se pode vê-las com a luz do lugar.2’

23. Don Quichotte. Paris: Gamier-Flammarion, 1969. p. 435. t II. Dom


Quixote, que é, diz Blanchot (L’Entretien infini, p. 239), “o livro romântico
por excelência, na medida em que o romance se reflete nele e, sem cessar,
volta-se contra si mesmo”. Com efeito, a obra de Cervantes tem tudo para
seduzir os românticos. E mais ainda porque mantém um a profunda relação
com a tradução, relação que Marthe Robert percebeu muito bem em L’An­
cien et le Nouveau (Paris: Grasset, 1963). A narrativa que Cervantes propõe
a seus leitores é supostamente uma tradução do árabe (é alguém de nome
C id Hamet ben Engeli que escreveu o original e Cervantes deve pagar al­
guém para traduzi-lo). Além disso, Dom Quixote e o Cônego interessam-se
de perto pelos problemas da tradução. SCHLEGEL, A. W. citou pelo me­
nos duas vezes as conversas de Dom Quixote com a tipografia de Barcelona
sobre a tradução. E inúmeros livros que deixaram o herói “louco” são, eles
próprios, traduções. Concebe-se que, nessas condições, os Românticos te­
nham visto nesse livro um exemplo estrondoso de obra reflexiva, de “cópia
de imitação”. O fato de que Dom Quixote seja apresentado como uma tra­
dução pode valer como uma ironização, como uma relativização no senti­
do romântico. É assim que o interpreta Marthe Robert: “A tradução, aqui,
é o sintoma de uma ruptura da unidade da linguagem , ela [a tradução] mar­
ca o retalhamento que ela [a linguagem] a incum be de remediar por um
trabalho ingrato, destinado no melhor dos casos a um meio malogro” (Op.
cit., p. 118-9). Mas na verdade, o fato de que o maior romance da literatura
clássica espanhola seja apresentado por seu autor como um a tradução do
árabe poderia convidar a uma reflexão que se move em uma outra dimen­
são: a do modo de afirmação da língua, da cultura, da literatura espanholas
que o Quixote representa. Auto-afirmação em que, um a vez mais, a "tradu­
ção” (mesmo como ficção) está presente. A reflexividade dessa obra perde
seu sentido se fizermos dela um a pura “mobilidade ágil, fantástica, irônica
e radiante” (BLANCHOT, op. cit.) separada de qualquer solo histórico. De
um outro ponto de vista, o artifício de Cervantes remete a essa categoria de
obras que querem se apresentar como traduções. Há nisso, aliás, mais do que
um artifício: uma das possibilidades de interação do escrever e do traduzir. Ou
ainda: a indicação de que toda escritura está situada concretamerite em um
espaço em que há tradução e línguas. Pensemos, por exemplo, nas obras de
Tolstói, de M ann ou de Kafka.

241
É exatamente o que F. Schlegel exprimia em sua
Conversa sobre a poesia quando dizia que “traduzir os poe­
mas e restituir seu ritmo tomou-se um a arte”. Essa “arte” é
a união da teoria especulativa da poesia-tradução e da teo­
ria literária da poesia-forma métrica universal. Essa união
perrnite a revolução “logológica” da tradução, e a carta de
A. W. Schlegel para Tieck —de tradutor para tradutor - é o
modesto manifesto disso.
Mas se toda poesia é traduzxvel, pode-se agora tudo tradu­
zir, lançar-se em um programa de traduçãolbtal, A. W. Schlegel
declara orgulhosamente a L. Tieck no mesmo posfácio:

M inha intenção é poder tudo traduzir poeticamente


em sua forma e em sua particularidade, qualquer que seja
o nome que lhe seja dado: Antigo e Moderno, obras de
arte clássicas e produtos de natureza nacionais. Não ex­
cluo uma irrupção em seu domínio espanhol, sim, eu po­
deria igualmente ter a ocasião de aprender de modo vivo
o sánscrito e outras línguas orientais para captar, se possí­
vel, o sopro e o tom de seus cantos. Poderia dizer de tal de­
cisão que ela é heróica, se fosse voluntária; mas, infeliz­
m ente, não posso olhar a poesia de meu próximo sem
logo cobiçá-la de todo o m eu coração e eis-ine, assim, pri­
sioneiro de um contínuo adultério poético.24

É impossível não perceber nesse texto o mesmo entu­


siasmo onipotente que animava Novalis em seu Diálogo e em
seu fragmento sobre o “tudo querer".25 Ou antes; que anima
todo o Romantismo de lena. A Enciclopédia quer poetizar to­
das as ciências; a poesia romântica, abraçar em seus “arabes­
cos” todos os gêneros; a tradução schlegeliana, por sua vez,
quer tudo traduzir, o Antigo e o Moderno, o clássico e o na­
tural, o ocidental e o oriental. Ao dom-juanismo livresco do

24 .Athenäum , p. 107.
25. SCH LE G E L, F. diz igualm ente: “E preciso, portanto, tudo saber
para saber algum a coisa” (AL. Lettre sur la philosophie, p. 244).

242
Diálogo de Novalis, responde o “adultério” do tradutor ro­
mântico que não conhece e não pode conhecer nenhum li­
mite para o seu desejo, também enciclopédico, de tradução.
Mais do que de politradução, é preciso, então, falar aqui de
onitradução. Tudo traduzir, eis a tarefa essencial do verdadei­
ro tradutor: ele é pura pulsão do traduzir infinitizada, puro
desejo de traduzir tudo e qualquer coisa.
Mas há uma diferença em relação a F. Schlegel e No­
valis: seus “fragmentos de futuro” permanecem puros proje­
tos, ao passo que a empresa de A. W. Schlegel se realiza26—e
exatamente de acordo com o eixo programático anunciado 110
posfácio a L. Tieck.27 Êxito único na história do Romantismo,
mesmo se, como já vimos, continua inteiramente ligado, em
seu próprio desejo de completude, aos projetos especulativos
e críticos da Athenäum. ‘Tudo traduzir” é traduzir essas obras,
passadas ou estrangeiras, que carregam em germe a literatura
por vir: as obras que pertencem ao espaço “românico” do qual
falamos e as que pertencem ao espaço “oriental”.23 A. W.

26. E, entretanto, o destino do fragmentário parece atingi-lo também


em sua obra de tradutor: “De um a m aneira geral, acontece um a coisa es­
tranha com esse {...] Shakespeare: não posso nem o deixar, nem progre­
dir até o fim ”, ele escreve em 1809 a T ieck (In: Die Lust... p. 149). De
fato, são T ieck e sua filha que prosseguirão e concluirão a grande em­
presa da tradução poética de Shakespeare.
27. O qual colabora com esse programa traduzindo Cervantes, mas tam­
bém ajudando SCH LEGEL , A. W. a terminar sua tradução de Shakes­
peare. Tieck é próximo do grupo de lena. Com o ele não escreveu mais
sobre a tradução, não tratamos dele nesse estudo. M as é um grande tra­
dutor romântico: seu Dom Quixote perm aneceu inigualável.
28. Traduzindo a Bhagavad Gítâ, SCH LEG EL, A. W. segue no fundo
a injunção de Conversa sobre poesia: “E no Oriente que precisamos pro­
curar o romantismo mais elevado” (AL, p. 16). E Tieck: “Acredito cada
vez mais que o Oriente e o Norte estão em estreita conexão e se expli­
cam m utuam ente, que eles elucidam tam bém o antigo e os tempos mo­
dernos” (In: THALMANN. Op. cit., p. 29).

243
Schlegel não traduz contemporâneos, e poucos gregos. No fi­
nal de sua vida, declara sem rodeios:

A literatura contemporânea me é indiferente, não me


entusiasmo m ais do que pela antediluviana.29

Isso requer duas observações. Em prim eiro lugar,


na m edida em que as obras traduzidas parecem represen­
tar ora a prefiguração, ora a quintessência da arte rom ân­
tica, o princípio m onológico age até a a escolha dos tex­
tos a serem traduzidos: a tradução rom ântica só traduz
obras rom ânticas, só traduz o “m esm o”. A experiência do
estrangeiro como estrangeiro lhe é estrangeira. Encon­
tram-se verificados aí os lim ites da Bildung enquanto re­
lação com a alteridade: é ele mesmo que o “próprio” bus­
ca em seus percursos excêntricos, em suas “grandes via­
gens”. No final ele é centrífugo apenas para ser m elhor
centrípeto. L im ite inscrito tam bém na teoria do “querer
tudo”: sou tudo —tudo sou eu —não há outro radical.
Em segundo lugar, é preciso dizer que, do ponto
de vista rom ântico, a acusação de seletividade passadista
form ulada por G oethe, N ietzsche e Strich não atinge
realm ente o projeto da Athenäum . Prim eiram ente (e é
um ponto impossível de ser desenvolvido aqui) porque o
Romantismo não conhece passado que não seja futuro;
para ele, o passado e o futuro possuem sua igual dignida­
de de constituir as dimensões do “longínquo” como lugar
de todas as plenitudes. Frente a esse “longínquo”, o pre­
sente é esse próximo que se trata de transformar; ele é
desprovido de qualquer positividade. O passadismo ro-

29. In: THALMANN. Op. eit„ p. 24.

244
mântico é tam bém um futurismo e até mesmo a fonte de
todos os futurismos modernos.3“
Em seguida, a seletividade da Athenäum não é arbi­
trária, não é lim itativa: só se criticam e só se traduzem as
obras que contribuem “para o desenvolvimento da ciência
e da arte”, mas o resto, na verdade, só pertence ao “negati­
vo", à “falsa tendência”.310 “tudo querer” não é contradito
pelo princípio da seletividade: só são criticadas e traduzidas
as obras que “significam ” o Tudo. A “falsa tendência” não
faz parte do Tudo.
Seria interessante comparar esse desejo de tudo tra­
duzir com a paixão politradutora que devorou certos tradu­
tores modernos, como, por exemplo, Armand Robin. Este
último é um tradutor plurilingüe e, conseqüentemente, al­
tamente “transformante”. No seu caso, a pulsão politradu­
tora liga-se a um a pulsão poliglota e a um a relação magoa­
da com a língua francesa (sendo sua língua materna um
dialeto bretão, o fissel):

30. “O novo autêntico só surge do antigo,


o passado deve fundar nosso futuro,
o presente obtuso não deve me reter.’’
(SCH LEG EL, A. W. dedicatória a Blumenstraüsse italiänischer, spa­
nischer und portuguesischer Poesie, 1804. In: Die Lust... p. 505.)
31. Esse negativo é às vezes encarnado para os românticos alem ães pelo
Classicism o francês. Cf. Entretien sur la poésie:
Cam ille: Você pouco m encionou os franceses (na história da poesia).
Andréa: Foi sem prem editação, não tive a oportunidade para isso.
[...]
Ludoviko: E a m aneira que ela encontroa para, de forma indireta, falar
antecipadam ente sobre m inha obra polêm ica referente à teoria da falsa
poesia”. (AL, p. 306)
M as como mostram o estilo afrancesante de F. Sch legel e a língua
afrancesante de Novalis, a relação do Romantismo alem ão com a cultu­
ra francesa é com plexa.

245
L íngua, seja para mim todas as línguas!
C in qüen ta línguas, mundo de uma voz!

O coração do homem, quero aprendê-lo em russo, árabe,


[chinês.
Para a viagem que faço de você até mim
Quero o visto
D e trinta línguas, trinta ciências.

Não estou contente, ainda não sei os gritos dos homens em


[japonês!

Dou por um a palavra chinesa os prado» de m inha in­


fâ n c ia ,
O lavadouro no qual m e sentia tão grande!”

Em um outro poema, A. Robin liga essa busca das


línguas à da língua verdadeira:

Com grandes gestos,


Joguei durante quatro anos minha alm a em todas as lín-
[guas,
Procurei, livre e louco, todos os lugares de verdade.
Sobretudo procurei os dialetos em que o homem não era do-
[mado.
Pus-me em busca da verdade em todas as línguas.

O martírio de meu povo era-me proibido.


Em francês.
Tomei o croata, o irlandês, o húngaro, o árabe, o chinês
Para me sentir um homem liberto.

O quanto mais eu gostava das línguas estrangeiras


Para mim puras, tão à parte:
Em m inha língua francesa (minha segunda língua) hou-
[vera todas as traições.
Nela sabia-se dizer sim à infâmia!”

32. “Le m onde d ’une voix”, lu : M a vie sans moi. Paris: Poésie/Galli­
mard, 1970. p. 178.
33. Ibid., p. 160.

246
E no poema “A fé que importa":34

Não sou bretão, francês, letão, chinês, inglês


Sou ao mesmo tempo tudo isso
Sou homem universal e geral do mundo inteiro.”

Mas essa consciência alternadamente magoada e tri­


unfante se reverte logicamente em alienação, em exílio in­
finito de si: o inverso desse cosmopolitismo onipotente que
crê poder estar em todos os lugares e ser “a Palavra e não as
palavras”:36

Oh! combate corpo a corpo contra quarenta vidas!


Substituído em minha cam e por duros estrangeiros,

Eu por mim desalojado, substituído.


Por outros mais potentes habitantes

Os casos como Robin não são raros no século 20.


Certam ente, o “tudo querer” romântico constitui um pro­
jeto que vai bem além da tradução. Mas pode-se se pergun­
tar se essa visão onipotente (que, afinal de contas, é reen­
contrada em literatura) não está inscrita na dialética de um
certo tipo de tradução ou se ela não representa um a das
tentações profundas (um dos perigos) de toda tradução em
geral. Qual tradutor, confrontado com a Babel das línguas,
não acreditou às vezes que podia “tudo traduzir”?

34. Ib id ., p. 9 3 .
35. Ib id ., p. 8 1.
36. Ibid., p. 98. Observe-se o duplo movimento pelo qual Robin intitula
suas traduções “Poesia não traduzida” e escreve, por outro lado, uma poe­
sia na qual o ato de traduzir toma-se ele próprio tema poético maior: tra­
dução da poesia e poesia da tradução. A relação de Armand Robin com a
poesia, as línguas, os dialetos e a tradução m ereceria todo um estudo.
Seria lógico perguntar-se agora em que medida as
traduções de A. W. Schlegel refletem, em sua realidade, o
projeto teórico a que se referem. Ou: como A. W. Schlegel
efetivamente traduziu Shakespeare, Dante ou Calderón?
Responder a essas questões exigiria um a confrontação de
suas traduções com os originais. Uma tal confrontação, até
aqui, foi apenas tentada.” Tudo o que temos é um conjun­
to de julgamentos favoráveis, mas vagos, sobre as traduções
schlegelianas e sua importância histórica na Alemanha.
Não caberia, no âmbito teórico dfeste estudo, proce­
der a uma tal confrontação. Aliás, as dificuldades destas sal­
tam aos olhos. Tentaremos sim plesm ente indicar em que
horizonte geral deveria ser efetuada tal confrontação. A
m aneira pela qual podemos hoje julgar um a tradução de
Shakespeare ou de Cervantes está em parte ligada ao modo
pelo qual percebemos culturalm ente esses autores. Diga­
mos assim: para nós, Shakespeare (como Cervantes ou Bo-
caccio) pertence a essa constelação da literatura européia
que, do século 15 ao século 16, se constrói a partir das cul­
turas e das literaturas “populares” - da mesma maneira que
a partir das culturas e das literaturas ditas "eruditas”. Impos­
sível perceber essas obras se não as ligarmos a essas raízes
orais. Verifica-se o mesmo para um Rabelais e também
para um Lutero. Traduzir esses autores é, portanto, para
nós, tentar restituir os múltiplos registros de sua linguagem
oral. E, conseqüentemente, confrontar as possibilidades
atuais de nossas línguas européias —passadas pela peneira
da história e da escrita - com línguas cuja riqueza, flexibi­
lidade e liberdade são incomparavelmente maiores. Reen­
contrarnos, a partir de um horizonte diferente, a idéia de

37. JOLLES.F. Op. cit.

248
“gênio natural" do século 18 - salvo pelo fato de que situa­
mos esse “gênio natural” na própria oralidade da lingua­
gem. O ponto de vista romântico é diferente: contra a no­
ção de “gênio natural”, trata-se de mostrar em um Shakes-
peare a amplidão de um savoir-faire poético capaz de reali­
zar obras infinitamente conscientes de si mesmas. Um Sha-
kespeare “nobre”, que seria uma espécie de Leonardo da
Vinci do teatro. Aqui, pode-se realmente afirmar que o que
conta é o Shakespeare “romântico” que mistura o nobre e
o vil, o cru e o delicado, etc., ou o Cervantes que salpica
seus capítulos de sonetos e de narrativas pastorais, mistu­
rando sabiamente sátira e poesia. Uma vez que a tradução
só havia conservado desses autores sua vulgaridade (seu
fundo popular, pouco atraente), tratava-se - pela crítica e
pela tradução - de mostrar que eles eram grandes poetas
que, quando recorriam a expressões populares, faziam-no
brincando, mais por gosto pela universalidade do que por
afinidade profunda com a oralidade.
Isso significa que, no horizonte romântico, pode-se
certamente afirmar teoricamente que Shakespeare, Cervan­
tes e Bocaccio são a união do alto e do baixo, do vil e do
nobre. Mas, no fundo, não se pode acolher mais que a tra­
dição anterior a dimensão do baixo e do vil: as numerosas
imitações desses autores às quais se entregou o Romantis­
mo europeu mostram, de preferência, que nelas o “vil” é
constantemente eclipsado, ou submetido a um tratamento
hiper-irônico que o aniquila. Na realidade, nada é mais es­
tranho ao Romantismo do que a naturalidade da lingua­
gem, ainda que, diferentemente do Classicismo, ele reivin­
dique uma linguagem “obscura” e carregada de alegorici-
dade (de onde vem, às vezes, o recurso às palavras antigas,
que dão a impressão do “longínquo”). Como poderia então
ele acolher o que, nos autores citados, é da ordem do obs-

249
ceno, do licencioso, do escatológico, da injuria? Nas análi­
ses críticas que os românticos apresentam, isso simples-
mente não é percebido. E nas traduções? Tieck e sua filha
Dorothée, terminando a tradução de Shakespeare, toma­
ram a permissão de censurar passagens ásperas dem ais.58A.
W. Schlegel, por sua vez, parece ter agido diferentemente:
ele sutilm ente poetizou e racionalizou Shakespeare (por
exemplo, em nome das exigências da versificação), mas
sem se permitir infidelidades flagrantes. E a razão de ele
não ter consegtiido traduzir, como diz Pannwitz, a “majes­
tosa barbarie” dos versos shakespearianos. O limite de sua
tradução deve, portanto, ser buscado tanto na visão que o
Romantismo tem da poesia e da tradução quanto na inca­
pacidade geral da época em acolher o que, ñas obras es­
trangeiras, ultrapassa o campo de sua sensibilidade, ou seja,
nesse caso, obrigaria a Bildung a ser outra coisa, não uma
“grande viagem ” educativa e formadora.
A oposição de A. W. Schlegel a Voss vem daí, alias:
este últim o teria “grecizado” brutalmente demais o ale-

38. EM1GHOLZ, Erick em “Trente-cinq fois M acbeth" (SCH LEGEL ,


A. W. 18 6 7 -19 6 7 , p. 33-4), escreve: “A segunda parte da cena do portei­
ro (II, 3) contém obscenidades bem fortes. Elas não constam no texto de
Dorothée T ieck. Com preende-se logo a razão, pois ela traduz ‘lie’ por
‘m entira’, e não pelo que isso pode e o que isso deve significar aqui, a sa­
ber, ‘trapaça’. O resultado não fica longe de um non-sens [...] De um a
certa m aneira, um tal desprezo (ou erro de compreensão) é característi­
co dos rom ânticos. Longe de serem pudicos, não gostavam no entanto
de deixar passar obscenidades em um poeta da estirpe de Shakespeare.
O que é rude dem ais contradizia o sentido poético do Romantismo. E
por essa razão que Dorothée Tieck, no lugar de um a observação direta
de Shakespeare, introduz um a fórmula poeticamente distinta. Aliás, não
é raro que a surdina romântica determ ine também a escolha das pala­
vras”. Pode-se 1er com proveito a análise que Emigholz faz da tradução
de Macbeth por Dorothée T ieck, análise em que os lim ites da tradução
rom ântica aparecem claram ente.

2 50
mão. Ao atropelar os limites de sua própria língua, declara
A. W. Schlegel em uma resenha da tradução da Ilíada por
Voss, corre-se o risco de “não mais falar um a língua válida,
reconhecida como tal, mas uma espécie de gíria (Roth-
welsch) inventada. Nenhuma necessidade pode ser alegada
para justificar uma coisa sem elhante”.” Voss teria transpos­
to esse lim ite entre o “estrangeiro” e a “estranheza” que as­
sinala Humboldt.40 O fato de que a tradução deva, justa­
mente, habitar as fronteiras imprecisas e imprecisáveis do
“estrangeiro” e da “estranheza” é o que ultrapassa o hori­
zonte da Bildung clássica e romântica. Do mesmo modo,
F. Schlegel pôde julgar severamente a tradução luterana da
Bíblia.41 E que Lutero ainda nem sonha em separar a escri­
ta e o oral, o erudito e o popular, ao passo que essa separa­
ção está inteiramente feita na época dos românticos e de
Goethe. Este último declara em suas M emórias:

Eu ouvia dizer que era necessário falar como se escreve


e escrever como se fala, quando m e parecia que a língua
falada e a língua escrita eram, um a vez por todas, duas coi­
sas inteiramente diferentes e que cada um a delas tinha
boas razões para reivindicar seus próprios direitos.42

A teoria da linguagem e da tradução na Alemanha,


no final do século 18, perdeu de vista, apesar de Klopstock,
o que era primordial para Lutero: falar e traduzir na língua
da “mãe em casa”, das “crianças na rua” e do “homem co­
mum no mercado”. Veremos que essa verdade da língua lu­

39. ln: ]enatschen Allgemeinen Litteratur-Xettung, apud JOLLES. Op.


cit., p. 32.
40. Ver nosso capitulo 10.
41. Kritische Schriften, p. 403.
42. In: TONNELAT. Histoire de la littérature allemande. Paris, 1952. p.

251
terana, foi Hölderlin quem soube retomá-la, não certamen­
te sob essa forma literal, mas sob a de uma língua poética
simultaneamente enriquecida pelas línguas estrangeiras e
pelos dialetos. Dessa forma, ele inaugurou uma nova épo­
ca da poesia e da tradução na Alemanha.

252
C A P Í T U L O

F. Schleiermacher e
W. von Humboldt:
a tradução no espaço
hermenêutico-lingüístico
Podemos apresentar simultaneamente F. Schleierma­
cher e W. von Humboldt? Este último, grande representante
do Classicismo alemão, mas na verdade ligado a todas as ten­
dências de seu tempo, passa toda sua vida confinado em um
campo que é próximo da filosofia, da literatura, da filologia,
mas que se deixa definir apenas como uma preocupação cons­
tante com a linguagem.1 Não se trata de filosofia da lingua-

1. S C H IL L E R escreve em 1796 a Humboldt: “Você tem, a m eu ver, uma


natureza tal que proíbe contá-lo entre o número de hom ens de idéias, sá­
bios e especulativos - e uma cultura que o exclui do número de filhos ge­
niais da natureza. Seu cam inho certam ente não é o da produção, mas,
para compensar, você tem o julgamento e o fervor paciente” (In: Introduc­
tion aux œuvres de Humboldt. Trad. Pierre Caussat. Paris: Le Seuil, 1974).
Esse “julgam ento” e esse “fervor” referem-se ao o estudo da linguagem.

253
gern, à maneira de Herder ou de Hamann, nem, evidente­
mente, de lingüística no sentido moderno. Em seus textos es­
tão entremeados reflexão abstrata e estudo empírico das lín­
guas. Tais como são, esses textos emanam ainda hoje - por
essa mistura que às vezes os torna obscuros - um forte poder
de exortação, e assim compreende-se por que eles tenham so­
licitado pensadores tão diferentes quanto Chomsky ou Hei­
degger. Poderíamos talvez adiantar que eles representam a
primeira abordagem moderna daquilo que se chamou desde
então de dimensão simbólica.2 J*
E Schleiermacher? Membro ativo da Athenäum em
sua juventude, ele consagra toda sua maturidade à elaboração,
paralelamente a uma obra de teólogo e de tradutor (Platão),
de uma teoria da hermenêutica. De fato, é preciso considerá-
lo como o fundador dessa hermenêutica moderna que se con­
sidera uma teoria da compreensão.3 De Schleiermacher até
Dilthney, Husserl, o “primeiro” Heidegger, Gadamer e
Ricoeur, há toda uma linha hermenêutica que é necessário
distinguir das teorias da interpretação que são, em um certo
sentido, as obras de Nietzsche e de Freud.4

2. “O sistema sim bólico é formidavelmente intrincado, é marcado por essa


Verschlungenheit [que] designa o entrecruzamento lingüístico - qualquer
símbolo lingüístico facilmente isolado é não somente solidário com o con­
junto, mas é recortado e constituído por toda uma série de afluências, de so-
bredeterminações oposicionais que o constituem ao mesmo tempo em vá­
rios registros. Esse sistema da linguagem, no qual se desloca nosso discurso,
não seria algo que supera infinitamente qualquer intenção que possamos co­
locar nele e que é somente m om entânea?” (LACAN, Jacques. Le Séminai­
re. Paris: L e Seuil, 1975. p. 6 5 . 1.1 ).
3. Ver o artigo de SZ O N D 1, P. In: Poétiques de l’idéalisme allemand. Pa­
ris: M inuit, 1975. p. 291-315.
4. Grosseiramente falando, as teorias da compreensão postulam que o sen­
tido de suas “expressões” é acessível ao sujeito mediante um movimento
hermenêutico de auto-compreensão. As da interpretação postulam que o
sujeito, de um certo modo, não tem acesso enquanto tal a essa compreen­

254
A herm enêutica da compreensão rompe com os li­
mites da herm enêutica tradicional (essencialm ente aque­
la que visa a estabelecer as regras da interpretação dos
textos sagrados) e pretende constituir-se com o uma teoria
da com preensão intersubjetiva. Compreendamos, proces­
sos de “leitura” que se dão no nível da com unicação de
sujeitos-consciências. A compreensão de um texto (obje­
to exclusivo da antiga herm enêutica) é, antes de tudo, a
do produto expressivo de um sujeito. É tam bém a com ­
preensão de um fenôm eno de linguagem objetivo que se
define menos por seu autor do que por sua situação na
história da língua e da cultura.
Teoricamente, a compreensão move-se em todos os
planos que podem se referir à inter-expressividade dos su­
jeitos. Mas descobre-se que seu espaço de ação fundamen­
tal é a linguagem. Primeiramente, este é o seu medium de
explicação. Em seguida, a compreensão é geralmente cen­
trada nas expressões lingüísticas orais ou escritas.5 Em últi­
mo caso, há também uma compreensão dos gestos, dos
atos, etc. Mas a cena de desdobramento destes e da emana­
ção de seu sentido é forçosamente a linguagem. Como diz
Gadamer, tirando a lição das intuições de Schleiermacher:

Devemos ao Romantismo alemão o fato de ter anteci­


pado a significação sistemática que possui o caráter iin-

são. E todo o conflito da psicanálise e da fenomenologia tal com o está ma­


nifestado em Merleau-Pority e Ricceur. O trabalho de Steiner sobre a tra­
dução situa-se no âmbito da teoria da compreensão e é surpreendente que
nunca tenha recorrido às descobertas da psicanálise, que, no entanto, po­
dem mudar nossa visão dos processos inter- e intra-lingtiísticos.
5. Schleierm acher propõe, com efeito, uma leitura das expressões orais,
ou seja, as da “conversação”. C f. S Z O N D I. Op. cit., p. 295 e 297.

255
guageiro da conversação em relação a qualquer ato de
com preender. E le nos ensinou que com preender e inter­
pretar são, no final das contas, um a única e m esm a coisa
[...] A linguagem é mais precisamente o meio universal no
qual se opera a própria compreensão,6

Assim, a herm enêutica reencontra, a partir de suas


próprias exigências, a dimensão da linguagem com o sen­
do sua própria dimensão, essa dimensão com a qual o ho­
mem estabelece, ao mesmo tempo, uma relação de sujei­
ção e de liberdade:

Sem pre que o discurso (Rede) não está totalm ente liga­
do a objetos que se têm sob os olhos ou a fatos exteriores
que se trata som ente de enunciar, sempre que o falante
pensa mais ou menos de m aneira ativa e autônoma e, por­
tanto, quer se expressar, ele se encontra em uma dupla re­
lação com a linguagem , e seu discurso só será exatam en­
te com preendido na medida em que essa relação o será
igualmente. Cada hom em é, por um lado, dominado ( in
der Gewalt) pela língua que fala; ele e todo seu pensamen­
to são produtos desta [...] Por outro lado, cada hom em que
pensa livrem ente e de maneira ativa fonna por sua vez a
língua [...] Nesse sentido, é a força viva do indivíduo que
produz novas formas na matéria flexível da língua [...] D e
modo que todo discurso livre e superior deve ser com ­
preendido de um a maneira dupla.7

Não se trata mais somente da linguagem como ex­


pressão ou “postulado” (Novalis) do pensamento, mas da
linguagem com o m edium último de qualquer relação do
homem consigo mesmo, os outros e o mundo: enfim, des­
sa dimensão da linguagem e da palavra resgatada pela lin-

6. G A D A M E R . M éthode et vérité. Paris: L e Seu il, 1976. p. 235.


7. S C H L E IE R M A C H E R . “Sur les différentes m éthodes de traduction”.
In: S T Ô R 1G . O p. cit., p. 43-4.

256
güística moderna. A hermenêutica é indispensável porque
há opacidade ou até incompreensibilidade nas expressões
inter-humanas. Ela é o resgate do sentido dessas expressões
na medida em que ele não está imediatamente explícito.
A linguagem como meio e não mais instrumento, eis
o que há de novo. Pois todo meio, por natureza, é, como
diz Lacan, “alguma coisa que supera infinitamente qual­
quer intenção que possamos colocar nele”.
As reflexões de Humboldt giram igualmente em tor­
no dessa natureza da linguagem:

A linguagem é assim o meio, senão absoluto, ao menos


sensível, pelo qual o hom em dá forma sim ultaneam ente a
ele m esm o e ao mundo, ou mais precisamente torna-se
consciente dele mesmo projetando um mundo fora dele.8

A língua deve, portanto, tomar o aspecto da dupla natu­


reza do mundo e do homem se quiser converter em inte­
ração fecunda as solicitações mutuas de um e de outro; ou
mais exatam ente, deve abolir a natureza própria de cada
unía délas, tanto a realidade imediata do objeto com o a
do sujeito, para, a partir daí, produzir com novos esforços
seu próprio ser, não conservando mais desse duplo con­
teúdo senão a forma ideal.’

As reflexões dos dois pensadores sobre o ato de traduzir


(vamos nos ater aqui somente às de Schleiermacher, mais de­
senvolvidas) devem estar situadas rigorosamente neste novo
enfoque: a linguagem como meio ou como “ser próprio”.
Pois se nos limitássemos aos princípios técnicos ou éticos da
tradução que eles enunciam, teríamos uma certa dificuldade
para distingui-los dos de Goethe, ou até dos de A. W. Schle-

8. Carta para S ch iller citada por Caussat. Op. cit., p. 17.


9. Ibid., no ensaio “Latium und H ellas", p. 20.

257
gel: mesma exigência de “fidelidade”, de restituição exata dos
valores do texto estrangeiro, mesmo discurso humanista no
qual se reafirmam o movimento da Bildung e a oposição às
traduções “à francesa”. Mesma ênfase sobre a lei da Bildung
que acredita que o acesso a si mesmo só seja possível pela ex­
periência do outro. Foi Schleiermacher mesmo quem prova­
velmente soube formular essa lei da maneira mais exata, evo­
cando “o estrangeiro e sua natureza mediadora”."1
Mas o horizonte é outro de qualquer maneira, por­
que ambos pgssam a ser sensíveis a^relação natural do
hom em com a linguagem, corn a língua materna, com a
realidade da diferença das línguas e, enfim , com a opa­
cidade própria ao m edium lingüístico, opacidade que
não é senão uma das faces da V erschungenheit evocada
por Freud e Lacan.
O resultado para a tradução é um novo campo de
ação, o da linguagem natural e o da infinidade, não menos
entrecruzada, de relações que todo homem pode estabele­
cer com sua língua materna e as outras línguas." A tradu­
ção não é mais encarregada de superar estas (a Athenäum ),
de brincar com elas soberanamente (A. W. Schlegel) ou de
relativizá-las culturalmente no espaço da Weltliteratur
(Goethe). Para a tradução, trata-se de atuar no seio dessa di­
mensão, nem privada nem social, mas simbólica, na qual
se considera o humano na constituição de seu ser.

10. In: ST Ô R 1G ,. Op. cit., p. 69.


11. Assim, S C H L E IE R M A C H E R , F. estuda sim ultaneam ente à tradu­
ção as relações das línguas nacionais; os casos de bi- ou de plurilingüis-
m os, as condições de elevação da língua materna ao estado de língua
“cu lta”. A tradução se vê assim situada ern um espaço “entrecruzado”,
no qual a relação com as línguas pode adquirir mil formas. Hurnboldt
estuda a relação das línguas com seus dialetos, com suas comunidades,

258
No dia 24 de junho de 1823, Schleierm acher faz
uma conferência na Academia Real das Ciências de Ber­
lim intitulada “Sobre os diferentes métodos de tradução”.
Essa conferência, publicada posteriormente em suas Obras
completas, está ligada às pesquisas que ele efetua na mesma
época no domínio da hermenêutica. Pode-se até dizer que
ela constitui um capítulo das mesmas.
Antes de analisar esse texto, é importante ressaltar o
seguinte: trata-se sem dúvida do único estudo dessa época
na Alemanha que constitui uma abordagem sistemática e
metódica da tradução.
Metódica, pois não se trata apenas, para Schleierma­
cher, de analisar, mas de deduzir, a partir de definições, os
métodos possíveis de tradução.
Sistemática: Schleiermacher procura delimitar a ex­
tensão do ato de traduzir no campo total da compreensão,
delimitação que se opera pela exclusão progressiva do que
não é esse ato e por sua situação articulada nesse campo.
Uma vez feita essa delimitação, torna-se então possível pro­
ceder a um exame (ele próprio sistemático) das traduções
existentes e de criar uma metodologia da tradução aplica­
da aos diferentes gêneros de Rede.'2 São esses os passos que
seguem sua Hermenêutica.
Estamos aqui na presença de um discurso sobre a
tradução que se considera racional e filosófico e que visa a
constituir uma teoria da tradução fundamentada em urna
certa teoria da subjetividade. Eis a razão também de se tra­
tar aqui constantemente de pessoas: o tradutor, o intérpre­
te, o autor, o leitor, etc. A esse respeito, veremos que a ma­
neira pela qual Schleiermacher define os dois tipos de tra­

12. Essa sistemática perm anece no estado programático.

259
dução que para ele são possíveis é característica: em último
caso, trata-se de dois tipos culturais, sociais e psicológicos
de tradutores. A tradução tornou-se aqui um ato intersubje-
tivo, o “jorro de uma porção de vida”.15
Schleierm acher com eça por uma reflexão sobre a
tradução generalizada: há sempre “tradução” quando deve­
mos interpretar um discurso: que um estrangeiro nos fale
em uma língua que não é a nossa, que um camponês nos
interpele em patoá, que um desconhecido empregue ex­
pressões que compreendemos mal, orítjue reflitamos sobre
resoluções que tomamos um dia mas que agora nos pare­
cem obscuras... em todos os casos somos conduzidos a um
ato de “tradução” —sendo que o mais difícil não é forçosa­
mente o que diz respeito a uma língua estrangeira. Em re­
sumo, toda comunicação é em algum grau um ato de tra-
dução-compreensão:

Pensam ento e expressão são essencialm ente e intima­


m ente a m esm a coisa e [...] sobre essa convicção repousa
toda a arte da compreensão do discurso e, portanto, tam ­
bém de qualquer tradução.14

Mas Schleiermacher cuida sem demora de distinguir


essa tradução generalizada da tradução restrita, ou seja, a tra­
dução inter-línguas. Entretanto, nem todo ato de transmis­
são inter-línguas é forçosamente tradução. É preciso operar
uma segunda distinção: aquela entre o tradutor e o intérpre­
te. E isso baseando-se no seguinte: a função de intérprete es­
taria mais relacionada com a “vida dos negócios”, e a tradu­
ção mais com os domínios da “ciência” e da “arte" (quer di­

13. In: S Z O N D I. O p . cit., p. 297.


14. In: S T Õ R IG . O p. cit., p. 60.

260
zer, da filosofia e da literatura). Essa distinção acarreta uma
outra: a interpretação é essencialmente oral, a tradução, es­
sencialmente escrita. Trata-se de distinções que têm origem
no simples bom senso, e Schleiermacher vai procurar funda-
mentá-las em uma outra distinção, mais essencial: a do obje­
tivo e do subjetivo:

Quanto rnenos, no original, o próprio autor aparece,


mais ele age unicam ente como órgão de assimilação do
objeto [...] mais se trata, na tradução, de um simples tipo
de função de intérprete.15

Sempre que o autor aparece como o simples servidor


de um conteúdo objetivo, há assim interpretação —oral ou
escrita. Sempre que ele próprio tende a se expressar, no do­
mínio da “ciência” ou da “arte”, há tradução. Um pouco
mais adiante, Schleiermacher tenta aprofundar a sua distin-
.ção. O campo da interpretação é aquele dos discursos em
que a linguagem tende a se tornar pura designação sem es­
pessura. Nesse caso, não somente esta é simplificada ao ex­
tremo, mas não tem valor em si mesma, é apenas o veículo
indiferente de um conteúdo. Mas em literatura e em filoso­
fia, o autor e seu texto estão presos nessa dupla relação com
a linguagem evocada mais acima: há ao mesmo tempo mo­
dificação da língua e expressão do sujeito. A sabedoria filosó­
fica, diz Schleiermacher, deve “desabrochar no sistema da
língua”.16 O discurso literário é tambérn um “novo momen­
to na vida da língua”,17 permanecendo a expressão única do
indivíduo (sua palavra). Esses dois planos são ao mesmo tem­

15. Encontram os a mesm a distinção em herm enêutica, em que nem


tudo m erece um ato de com preensão. C f. S Z O N D I. O p. cit., p. 296.
16. In: S T Ò R IG . Op. cit., p. 65.
17. Ibid., p. 44.

261
po distintos e unidos, e tanto o tradutor quanto o hermeneu-
ta estão envolvidos. Literatura e filosofia são, portanto, do do­
mínio do “subjetivo”, mas esse subjetivo significa também
uma intimidade com a língua própria que não existe no caso
dos textos destinados à interpretação. Aderindo ao subjetivo
do sujeito e ao íntimo da língua materna, o texto literário ou
filosófico afasta-se de qualquer objetividade. Essa é uma vi­
são que prolonga em parte a da Athenäum , mas que está li­
gada também a essa nova percepção da linguagem que nas­
ce na época, segundo a qual esta não é tanto representação
quanto expressão: a linguagem, doravante, pressupõe um
“enraizamento não junto às coisas percebidas, mas junto ao
sujeito em sua atividade”.18
Eis então “deduzida” a extensão da tradução verdadeira:

Na verdade, uma vez que a língua é uma coisa histórica,


não existe sentido autêntico desta sein um sentido de sua
história. As línguas não são inventadas e qualquer trabalho
puramente voluntário sobre elas e nelas é loucura; mas elas
são pouco a pouco descobertas e a ciência e a arte são as for­
ças pelas quais essa descoberta é realizada e concluída.1'*

É o tradutor que é incumbido de transmitir essas obras


da ciência e da arte que fazem a vida histórica de uma lín­
gua. Mas como ele pode passar para a sua língua alguma coi­
sa que depende ao mesmo tempo da intimidade com a lín­
gua estrangeira e com a do sujeito que se exprime nessa lín­
gua? Com o transmitir a interioridade da outra língua e do
autor estrangeiro? “O traduzir, assim considerado, não pare­
ce um louco empreendimento?”2“

18. F O U C A U L T , M. Les mots et les choses. Paris: Gallimard, 1966. p. 301-


4.
19. in : S T Ö R IG . Op, cit., p. 52.

262
Perante essa “loucura”, Schleiermacher menciona
duas práticas que supostamente resolveriam as dificuldades
da tradução, porém esquivando-as: a paráfrase e a recriação
(Nachbildung). Nos dois casos, o problema é contornado, ou
negado.

Mas o tradutor verdadeiro, que quer fazer realmente a


com unicação entre essas duas pessoas inteiramente sepa­
radas, seu escritor e seu leitor, e levar este último, sem
obrigá-lo a sair do círculo da língua materna, a um gozo e
uma compreensão tão justos e completos quanto possível
do primeiro, quais caminhos ele pode tomar?21

A resposta a essa questão, que define da maneira


mais subjetiva possível o processo geral de qualquer tradu­
ção, está praticamente incluída em sua própria formulação.
Suponhamos que eu queira fazer com que um amigo en­
contre alguém que ele não conhece: considerando essas
duas pessoas, ou meu amigo irá ver esse alguém, ou esse al­
guém visitará meu amigo. E assim que raciocina Schleier­
macher para a tradução:

Ou o tradutor deixa o mais possível o escritor em repou­


so e faz o leitor se mõver em direção a ele; ou ele deixa o
leitor o mais possível em repouso e faz o escritor se mover
em direção a ele.22

No primeiro caso, o tradutor obriga o leitor a sair


de si mesmo, a tazer um esforço de descentramento para
perceber o autor estrangeiro em seu ser de estrangeiro;
no segundo caso, eie obriga o autor a se despojar de sua
estranheza para se tornar familiar ao leitor. O que é in-

21. Ibid., p. 47.


22. Ibid.

263
teressante aqui não é tanto a natureza da distinção (tra­
dução etnocêntrica ou não etnocêntrica) quanto a ma­
neira pela qual ela é enunciada: um processo de encon­
tro intersubjetivo.
Desse ponto de vista, não somente não há, não pode
haver outros métodos, mas todas as outras maneiras de co­
locar os “problemas” da tradução estão subordinadas a esta:

Tudo o que se pode então dizer das traduções que se­


guem a letra ou o sentido, que são fiéis ou livres [...], deve
ser trazido para esses dois [métodos], [ ..f f O que há de fiel
e de ligado ao sentido, ou de literal demais ou de livre de­
mais em um dos métodos será diferente do que há de fiel
e de ligado ao sentido, de literal demais ou de livre demais
no outro m étodo.2’

Esse modo de reordenar as coisas só tem sentido por­


que a tradução tornou-se aqui um capítulo da compreen­
são. Mas não é tudo: Schleierm acher dedica o resto de sua
conferência à análise dos dois métodos e à consagração do
primeiro, examinando suas condições e seu sentido, em se­
guida mostrando o absurdo fundamental do segundo. Pois
este poderia ser formulado assim:

Deve-se traduzir um autor com o se ele próprio tivesse


escrito em alem ão.24

E m resumo, a sistemática de Schleierm acher tende


a mostrar que há um a tradução autêntica e uma tradução
inautêntica, exatam ente com o há uma compreensão e
uma com unicação autênticas, uma compreensão e uma
com unicação inautênticas.

23. Ibid., p. 49.


24. Ibid., p. 48.

264
A tradução que se esforça para dar ao seu leitor um
texto tal como o autor estrangeiro o teria escrito se fosse
“alemão” é inautêntica, porque nega a relação profunda
que liga esse autor à sua língua própria. É como se, decla­
ra Schleiermacher, considerássemos a paternidade nula:

Sim , o que responderemos, se um tradutor disser ao lei­


tor: eu lhe trago o livro com o esse hom em o teria escrito
se ele o tivesse escrito em alemão, e o leitor lhe responder:
[...] é com o se você m e trouxesse o retrato desse hom em
tal com o ele teria sido se sua mãe o tivesse concebido com
um outro pai? Pois se o espírito do autor é a mãe das obras
que pertencem [...] à ciência e à arte, a língua natal (vater­
ländisches) é o seu pai.K

Essa teoria é, ao mesmo tempo, a negação das outras


línguas maternas e a negação de sua própria língua materna
- é negação da própria idéia de língua matema. Quem nega
os outros nega a si mesmo. E Schleiermacher mostra (sem to­
davia desenvolver) que esse tipo de tradução está ligado, pelo
menos na Alemanha, a uma situação cultural na qual a lín­
gua nacional ainda não se auto-afirmou, em que não pode
nem acolher as outras línguas em sua diferença, nem se co­
locar como uma língua “culta”; situação na qual ós membros
da comunidade lingüística podem ficar tentados a falar outras
línguas mais “educadas”:

Enquanto a língua materna não está formada, ela per­


m anece sendo a língua m atem a parcial,“

que vêm “com pletar” línguas estrangeiras com o o latim


ou o francês. Assim, o bilingüismo cultural bloqueará, ao

25. Ibid., p. 65.


26. Ibid., p. 61.

265
mesmo tempo e durante um longo período, o desenvolvi­
mento literário da língua materna e o das traduções. Pois
esse bilingüismo não significa uma abertura para o estran­
geiro, mas antes o fato de ser dominado por este último.
Tão logo a língua materna se afirma como língua de cul­
tura, a comunidade que se define por ela pode pensar em
traduzir línguas estrangeiras em vez de as falar. Inversa­
mente, a língua materna não pode se afirmar como língua
de cultura enquanto não tiver se tornado língua de tradu­
ção, enquanto aqueles que a falam n i6 se interessarem li­
vremente por quem é estrangeiro. A tradução inautêntica
corresponde, portanto, a um a relação inautêntica com a.
língua m aterna e as outras línguas. Pelo menos é assim
que seriam formuladas as coisas para a cultura alemã.
Pois, para Sch leierm ach er, a tradução francesa diz
respeito ou à N achbildung , ou à operação etnocêntrica. O
francês é com o

todas as línguas prisioneiras dos laços demasiado estreitos


de um a expressão clássica, fora da qual tudo deve ser re­
jeitado. Essas línguas prisioneiras podem buscar o alarga­
m ento de seu domínio fazendo-se falar por estrangeiros
que necessitam de algo mais do que a sua língua mater­
na [...] Elas podem se apropriar das obras estrangeiras
através de recriações, ou talvez de traduções do outro tipo
[etnocêntricas].27

Vê-se com o o tema da tradução “à francesa” volta


a ser situado aqui em um panorama mais amplo, o do
tipo de relação que uma cultura pode estabelecer com a
língua materna. O que poderia ser resumido nos três es­
quemas seguintes:

27. Ibid., p. 56.

266
1. Língua francesa clássica,“ expansão/dominação das línguas
prisioneira de cânones estrangeiras “parciais"
traduções-adaptações
traduções etnocêntricas

2. Língua alemã pré^clássica ■ língua parcial “completada” pelas línguas


mais “formadas”; bilingüismo intelectual;
sujeição
traduções “levando o autor ao leitor”

3. Língua alemã ~ língua “livre”, “aberta”


clássica/romântica
afirmação da língua materna
e produção de obras próprias
traduções não etnocêntricas

Desse modo podem ser deduzidas a natureza e a pos­


sibilidade histórica da tradução autêntica. Esta, diz
Schleiermacher,

repousa sobre duas co n d içõ es: que a com preensão


das obras estrangeiras tenha se tornado algo c o n h e ci­
do e desejado e que a língua m aterna possua um a c e r­
ta flexibilid ad e.28

Tais são as condições qué prevalecem às vésperas do


século 19 na Alemanha. Ao que é preciso acrescentar uma
outra condição: a da auto-afirmação da língua nacional,
ainda que essa afirmação dependa dialeticamente da nova
relação com o estrangeiro.

28. Ibid., p. 58.

267
A tradução inautêntica não com porta evidente­
mente nenhum risco para a cultura e a língua nacionais,
a não ser o de se privar de qualquer relação com o es­
trangeiro. M as ela não faz outra coisa senão refletir ou
repetir ao infinito a má relação com este que já existe. A
tradução autêntica, por sua vez, evidentem ente com por­
ta riscos. Enfrentar esses riscos supõe uma cultura que já
tenha confiança em si, em sua capacidade de assimila­
ção. Falando da tradução autêntica, Sehleierm aeher diz:
-Nr
Fazer isso com arte e com m edida, sem se prejudicar
e sem prejudicar a língua, essa é talvez a m aior dificul­
dade que nosso tradutor tenha de transpor.w

Pois

apresentar o estrangeiro na língua materna1"

pode ameaçar o que Sehleiermaeher chama, de modo ad­


mirável, das heimische Wohlbefinden der Sprache, o bem-es­
tar familiar (assim podemos traduzir aqui heimische ) da lín­
gua. O que Herder chamava de “sua virgindade”:

Sem pre se ouviram queixas de que um certo tipo de tra­


dução devia necessariam ente causar danos à pureza da
língua e a seu pacífico desenvolvimento interno.'*1'

Todo o pensamento de Sehleierm aeher mostra


aqui que esse “pacífico desenvolvimento interno” da lín ­
gua materna é um mito. Pois o que existe não é um tal
desenvolvimento separado, mas relações de dominação
eutre as línguas que devem ser substituídas por relações

29. Ihid., p. 55.


30. Ihid., p. 56.

26 8
de liberdade. O alemão que quer preservar sua virginda­
de é uma língua já culturalmente investida e dominada
pelo francês. Justamente, quando se fazem traduções, liá
menos relações de dominação. Mas o risco de passar bru­
talm ente de um extremo a outro e, portanto, de desequi­
librar a relação com a língua materna existe:

Pois tão verdadeiro quanto isto, falta dizer [...] que é so­
m ente pela compreensão de várias línguas que o homem
se torna de algum modo culto e cidadão do mundo, deve­
mos entretanto confessar que, do mesmo modo que não
consideramos o estado de cidadão do mundo com o a ci­
dadania autêntica, assim tam bém , no domínio das lín­
guas, um tal amor universal não é também o amor verda­
deiro e realm ente formador (...) Assim com o o hom em
deve se decidir quanto a pertencer a Um país, ele deve se
decidir quanto a pertencer a Uma língua oti a Uma outra,
sob pena de flutuar sem descanso em um desagradável
m eio-term o.’1

Esse desagradável meio-termo é o risco que correm


o tradutor e seus leitores ao quererem se abrir ao estrangei­
ro, mas é esse o preço de qualquer Bildung verdadeira. E
essa é, para Schleiermacher, uma certeza decorrente tanto
de sua consciência de hermenêutico quanto de sua consciên­
cia de intelectual alemão.
Tomemos um exemplo um pouco diferente para es­
clarecer isso. Pode-se interpretar o Anligo Testamento de
modo a extrair sua verdade própria, sem prejulgar a priori
a natureza dessa verdade, ou querer logo ler, entre as li­
nhas, a verdade do Novo Testamento. Pode-se também es­
colher uma relação aberta e dialógica com o outro, ou pre­
ferir uma relação de dominação. A tradução inautêntica,

31. Ibicl., p. 63. Não nos esqueçam os de que Schleierm acher falava para
a Academia de Berlim .

269
como diria Heidegger, é um “existencial” possível. Ela é
também, como Schleierm acher mostra bem, algo cultural­
mente determinado. Mas quaisquer que sejam essas deter­
minações históricas ou culturais, há sempre 11111 momento
que é da ordem da escolha, mesmo que essa escolha não
seja forçosamente consciente. A Bilclung, com seus limites,
seus perigos e sua positividade próprios, é uma escolha: a
do humanismo clássico alemão. “Apresentar 0 estrangeiro
em sua língua materna”, aceitar que esta seja ampliada, fe­
cundada, transformada por esse “estrangeiro”, aceitar a “na­
tureza mediadora” deste, essa é uma escolha que antecede
qualquer consideração estreitamente metodológica. Ora,
uma escolha é sempre uma escolha de um método, de 11111
m efhodos, de um caminho, é sempre o traçado de um
campo a ser percorrido, esquadrinhado, cultivado. E é mé­
rito apenas de Schleierm acher o fato de ter apresentado
essa escolha como a da autenticidade, confrontando-a a
uma outra escolha possível, a da inautenticidade. Pois esses
dois conceitos unem a dimensão ética e a dimensão onto­
lógica, a justiça e a justeza.
Com base nisso, Schleiermacher pode dizer que a
tradução autêntica deve ser um processo maciço:

Esse tipo de tradução exige um processo grandioso,


mviu implantação de literaturas inteiras em uma língua e
só tem sentido e valor em 11111 povo que tem uma tendên­
cia decidida a se apropriar do estrangeiro. Os trabalhos iso­
lados desse gênero só têm 11111 valor de signo precursor.

Digamos que se deve tratar de um processo ao mesmo


tempo sistemático e plural: traduções de várias línguas, de vá­

32. ibid., p. 57.

270
rias literaturas, traduções múltiplas de uma mesma obra, cer­
tamente de acordo com o caminho indicado, podendo se
completar mutuamente, ocasionar confrontações, discussões,
etc. A tradução em grandes proporções é na realidade a consti­
tuição de um campo da tradução no espaço lingüístico e lite­
rário. E a tradução só tem sentido em um campo desses.
Sclileiermacher, falando de tradução “grandiosa”,
pensa evidentemente no que acaba de acontecer na Alema­
nha com Voss, A. W. Schlegel e ele próprio, e nessa esco­
lha histórica que a cultura alemã fez, desde Herder pelo
menos:

Uma necessidade interna, na qual se exprime bem cla­


ramente um destino próprio de nosso povo, empurrou-nos
para a tradução em massa; não podemos mais recuar, é
preciso avançar f...] Assim, sentimos igualmente que nos­
sa língua |...] só pode realmente crescer e desenvolver ple­
namente sua plena força pelos contatos mais múltiplos
com o estrangeiro [...] Em razão de seu respeito pelo es­
trangeiro e sua natureza mediadora, nosso povo está talvez
destinado a unir todos os tesouros das ciências e das artes
estrangeiras com os seus em sua língua, formando, por as­
sim dizer, um grande todo histórico no centro e no cora­
ção da Europa |...| Esse parece ser, de fato, o verdadeiro
objetivo histórico da tradução grandiosa, tal com o ela é
agora familiar em nosso país. Mas para isso, apenas é apli­
cável o método que consideramos primeiramente [...] Não
se devem temer grandes danos para nossa língua por cau­
sa de todos esses esforços. Pois é bom constatar que, em
uma língua em que a tradução é praticada em tão grandes
proporções, existe também um domínio de linguagem
( Spracligebiet) próprio para as traduções e que muitas coi­
sas que lhes são permitidas não seriam consideradas possí­
veis alhures |...) Não podemos deixar de reconhecer que
muitas coisas belas e vigorosas de nossa língua só se desen­
volveram graças à tradução, ou só foram tiradas do esque­
cim ento graças a ela.”

33. íbid., p. 69-70.

271
É preciso um Sprachgebiet particular para as tradu­
ções, tun campo que lhes seja próprio uo interior do cam­
po cultural, para que o estrangeiro possa cumprir sua fun­
ção mediadora. A criação desse Sprachgebiet não se define
como um projeto titânico e poetizante, como em A. W.
Schlegel, mas com o a realização dessa Erweiterung da lín­
gua materna que reivindicavam Herder, Leibniz e Lessing.
Não há duvidas de que a reflexão de Schleiermacher
resume a experiência de toda sua época em matéria de tra­
dução (com exceção da de H öld erlin^de que ela fornece
a formulação mais completa da lei da B ildung, de que ela
nos convida a uma reflexão sobre a tradução firmada em
valores éticos. Desse ponto de vista, os textos de Humboldt
que vamos examinar brevemente não acrescentam grande
coisa; mas têm o mérito de traçar muito claramente os limi­
tes da teoria humanista da tradução, limites que só Hölder­
lin soube, nessa época, ultrapassar.
Em 1816, Humboldt publica sua tradução do Aga­
m em non de Esquilo, na qual ele trabalhava há numerosos
anos, acompanhando-a de uma introdução na qual ele ex­
põe simultaneamente sua visão da tragédia grega, da lin­
guagem e da tradução. E'.ssa introdução distingue-se dos
textos contemporâneos de A. W. Schlegel 110 ponto em que
liga a teoria da tradução a uma teoria da linguagem. Teoria
que vai bem além da teoria da linguagem-poesia de A. W.
Schlegel e tenta expressar o que é talvez inexprimível: a in­
timidade do pensamento e da linguagem:

Um;» palavra é tão pouco uin signo de 11111 conceito que


o próprio conceito não pode surgir sem ele e, por uma ra­
zão ainda mais forte, manter-se sem ele; a ação indetermi­
nada da força pensante é reunida em uma palavra com o
nuvens leves surgem do fundo do céu sereno. Ei-la agora
com o um ser individual, possuindo urn caráter e uma for­
ça determinados [...] Se quiséssemos pensar luim anam en-

272
le o nascimento de uma palavra (o que já é em si impos­
sível, porque a expressão desta supõe tam bém a certeza de
ser compreendido e porque a linguagem em geral só pode
ser pensada como um produto de uma ação recíproca e si­
multânea na qual um dos termos não está em condições
de ajudar o outro e na qual cada 11111 deve enfrentar seu
próprio trabalho e todos os outros), este se assemelharia ao
surgimento de uma figura ideal na fantasia do artista.
Esta, igualmente, não pode ser tirada de algo de real, ela
surge por uma pura energia do espírito e, 110 sentido mais
próprio, do nada; mas a partir desse instante, ela é viva,
real e durável.”

Notemos que esse “trabalho” do espírito (trata-se do­


ravante de “trabalho", não de “jogo poético", apesar da com­
paração com o artista), Humboldt não procura defini-lo li­
nearmente, mas compreendê-lo em toda sua inílica com­
plexidade. Um pouco mais adiante, ele escreve:

Todas as formas da linguagem são símbolos, não as pró­


prias coisas, não signos convencionados, mas sons que
m antêm com as coisas e os conceitos que eles represen­
tam relações realmente místicas, se pudermos dizer
assim, relações que contêm os objetos da realidade, por as­
sim dizer, em estado de dissolução nas idéias e que po­
dem, de uma maneira pela qual não é possível imaginar
nenhum lim ite, mudar, determinar, separar e religar.”

Raramente descreveu-se tão bem a desconcertante es­


pessura da dimensão lingüística, na cjual 0 produtor (o es­
pírito) é como que mil vezes superado por seu produto e
seus infinitos emaranhamentos.
Essa dimensão que os termos de “representação” e
de “expressão” não bastam para determinar é uma dimen­
são que se retalha ela própria em outros tantos produtos

34. Ihid., p. 81.


35. Ihid., p. 82.

273
“locais” do espírito: as línguas. E tal é a pluralidade das vi­
sadas internas na linguagem em geral (representar? simbo­
lizar? significar? revelar? nomear? designar? expressar? li­
gar? separar? determinar?) e, portanto, das línguas, que ne­
nhuma língua, por sua própria idiossincrasia, é inteiramen­
te “traduzível”, isto é, inteiramente “correspondente” a
uma outra:

Com o uma palavra cu jo sentido não é dado imediata­


mente pelos sentidos poderia ser pletnuyfnte idêntica a
uma palavra de uma outra língua?’6

Em Hellas uncl Latium, Humboldt vai ainda mais longe:

[...] mesmo no caso de objetos puramente sensíveis, os


termos empregados por línguas diferentes estão longe de ser
verdadeiros sinônimos e [...] pronunciando irotoç, equus ou
cheval, não sc diz exatamente a mesma coisa. Acontece as­
sim a fortiorí no caso dos objetos não sensíveis.'

Aqui, a diferença das línguas adquire uma profunde­


za abissal. Pois o que acontece, se Ittttos, equus e cheval não
dizem a mesma coisa? Talvez eles visem à mesma coisa e
não digam a mesma coisa? O que significa então dizer?
A tradução, nesse caso precedida pela literatura, é o
que promove a Bildung da língua:

A tradução, precisamente aquela dos poetas, é [...] um


dos trabalhos mais necessários em uma literatura, em par­
te porque ela abre, àqueles que ignoram as línguas estran­
geiras, formas da arte e da humanidade que lhes permane­
ceriam , sem isso, totalmente desconhecidas f ...j, em par­
te, e, sobretudo, porque ela conduz à ampliação da capa­
cidade significante e expressiva da língua própria.11

3 6 . Ibid.
37. In: C A U SSA T . Op cit., p. 22
38. In : S T Õ R ÍG , p. 81.

274
Essa tarefa é a da literatura em primeiro lugar: qual­
quer língua e até o mais humilde dos dialetos, diz Hum-
boldt, é capaz de expressar

o mais alto e o mais profundo, o mais forte e o mais ierno.

Mas

esses sons estão adormecidos com o em um instrumento


que não se toca, até que a nação os desperte.

O que quer dizer que a literatura faz sutilmente osci­


lar o edifício inteiro dos símbolos para afiná-los, ou seja,
torná-los capazes de sempre mais “significabilidade” e de
expressividade:

Pode-se dar a esses símbolos um sentido mais alto,


mais profundo, mais delicado [...] e assim a linguagem,
sem uma mudança realm ente perceptível, é elevada até
um sentido superior e amplia-se até um sentido que se
representa de maneira m últipla.”

A tradução, aqui, não faz senão prolongar essa afina­


ção do instrumento simbólico. Historicamente, Humboldt
sabe disso, essa afinação da língua pela tradução desempe­
nhou na Alemanha um papel maior.40 E em algumas linhas
decisivas, características do Classicismo alemão, tão fortes,
ou até mais, quanto as de Goethe ou de Schleiermacher,
ele define o que se passa com a “fidelidade” da tradução,
tentando propor um conceito desta que evite tanto a via
“francesa” quanto a da “literalidade” bruta:

39. lbicl., p. 82.


40. Ibid.
Se ;i tradução deve trazer para a língua e o espírito da
nação o que não possuem, ou possuem diferentem ente, a
primeira exigência é a da fidelidade. Essa fidelidade deve
estar dirigida para o verdadeiro caráter de original e não
[...] para o que há de acidental nele; da mesma forma, de
um modo geral, toda boa tradução deve nascer de um
amor simples e sem pretensão pelo original [...] A esse
/ ponto de vista está necessariam ente ligado o fato de que a
tradução carrega em si um certo colorido de estranheza,
mas os limites a partir dos quais isso se torna um erro [...]
são aqui muito fáceis de traçar. Por mais que se tenha sen­
tido o estrangeiro, mas não a estranheza, a tradução terá
atingido seus objetivos supremos; mas ncàJtigar em que
aparece a estranheza com o tal, obscurecendo talvez o es­
trangeiro, o tradutor denuncia que não está à altura de seu
original. O sentim ento do leitor não prevenido não deixa­
rá de notar aqui a linha divisória.41

Releiamos a frase decisiva desse texto; “Por mais


que se sinta o estrangeiro, mas não a estranheza, a tradu­
ção terá atingido seus objetivos supremos; mas no lugar
em que aparece a estranheza com o tal, obscurecendo tal­
vez o estrangeiro, o tradutor denuncia que não está à al­
tura de seu original”. Por um lado, o que enuncia Hmn-
boldt é a própria verdade: há uma literalidade inautênti­
ca, uma estranheza insignificante que não tem nenhum a
relação com a verdadeira estranheza do texto. Da mesma
forma, há uma relação inautêntica com a estranheza,
que a rebaixa ao que é exótico, incompreensível, etc. Ill
exatamente o que A. W. Schlegel reprovava em Voss: ter
criado 11111 pidgin de grego e de alemão “estranho” de­
mais. Mas o problema é saber se a linha divisória entre o
estrangeiro, das Frem de, e a estranheza, die Vrem dheit,
pode ser “facilm ente” traçada. Se respondermos sim,

41. Ibid„ p. 83-4.

276
como? E por quem? Huniboldt responde: pelo leitor “não
prevenido”. Mas quem é o leitor não prevenido? Um lei­
tor não prevenido, o que é l Além disso: se a tarefa da tra­
dução é ampliar a capacidade significante e expressiva
de uma língua, de unía literatura, de urna cultura, de
uma nação e, portanto, do leitor, ela não pode ser total­
mente definida pelo que a priorí a sensibilidade deste úl­
timo pode acolher; justam ente, todo o preço da tradu­
ção é (teoricam ente) o de ampliar essa sensibilidade. A
Frem dheit não é somente a insignificancia daquilo que é
inútilm ente ch ocan te; ou, para evocar um problema que
qualquer tradutor conhece bem , uma tradução que
“cheira a tradução” não é forçosam ente ruim (enquanto
que, inversamente, se poderia dizer que uma tradução
que não cheira de modo algum a tradução é forçosam en­
te ruim). A Frem dheit é também a estranheza do estran­
geiro em toda sua força: o diferente, o não-semelhante,
ao qual só se pode dar a sem elhança do mesmo matan­
do-o. Pode estar aí o terrível da diferença, mas também
sua maravilha; o estrangeiro apareceu sempre assim: de­
mônio 011 deusa. A linha divisória entre o estrangeiro,
das Frem de , e a estranheza, die F rem dh eit (que pode ser
a U nheim lichkeit de Rilke e de Freud, a “inquietante-es-
tranheza”), é tão difícil de traçar quanto aquela entre a
estranheza inautêntica e a estranheza autêntica. Ou m e­
lhor, é uma linha que se desloca sem cessar, continuan­
do a existir. E é nessa linha, muito precisam ente, que o
Classicismo alem ão (mas tam bém o Romantismo) se se­
para de H õlderlin. Ou ainda, pode-se dizer que Hõlder-
lin conseguiu fazer estender essa linha além do que era
pensável, concebível para um H um boklt ou um Goethe
(que eram, 110 entanto, mais liberais do que um A. W.
Schlegel e aceitavam os grecismos de Vóss). O que fiz

277
pensar que a tradução se situa justam ente nessa região
obscura e perigosa, na qual a estranheza desmedida da
obra estrangeira e de sua língua corre o risco de se aba­
ter com toda a sua força sobre o texto do tradutor e sua
língua, arruinando assim a sua empresa e deixando ao
leitor apenas uma Frem dheit inautêntica. Mas se esse pe­
rigo não for enfrentado, corre-se o risco de cair imedia­
tam ente em outro perigo: o de m atar a dimensão do es­
trangeiro. A tarefa do tradutor consiste ern enfrentar esse
duplo perigo e, de uma certa m aneirarem traçar ele pró­
prio, sem nenhum a consideração pelo leitor, a linha di­
visória. Humboldt, ao exigir da tradução que ela nos faça
sentir o estrangeiro, mas não a estranheza, traçou os lim i­
tes de toda a tradução clássica. Traçou também os limi­
tes do que, na concepção clássica cla cultura e da relação
das línguas, deve ser o essencial: promover o equilíbrio
do movim ento da B ildu ng, mas sem expor esse movi­
m ento à desmesura da “m oção violenta” do estrangeiro.
O que significa talvez, 110 final das contas: recusar a es­
tranheza do estrangeiro tão profundamente quanto o et-
nocentrism o do Classicismo francês.42

42. No domínio da tradução, os limites da teoria herm enéutica- d e Schleier-


niacher a Steiner—parecem ser os seguii ites: dissolver a especificidade do tra­
duzir fazendo dele um caso particular de processo interpretativo, ser incapaz
de abordar, enquanto teoria da consciência, a dimensão inconsciente na qual
se entrecruzan! os processos lingüísticos - e portanto a tradução.
No que diz respeito ao primeiro ponto, afirmar que a tradução é uma in­
terpretação, um ato de “com preensão”, etc. é uma evidência enganosa.
O fato de haver interpretação em toda tradução não significa que toda
tradução seja apenas interpretação 011 se baseie essencialm ente 11a inter­
pretação. A relação com a obra e a língua estrangeiras que se trava na tra­
dução é sui generis, só pode ser com preendida a partir de si mesma. A
interpretação visa sempre a um sentido. O ra, a tradução depende tão
pouco de uma captação total do sentido que, afinal de contas, é preciso
sempre trackizir textos e línguas que não se “com preendem ” totalm en­
te. O ato de traduzir produz seu próprio modo de com preensão da lín­
gua e do texto estrangeiros, que é diferente de um a com preensão herme-
nêutico-crítica. Presume-se disso que a tradução nunca se baseia em
uma interpretação preexistente. Por exem plo, a garantia de uma tradu­
ção filosófica não depende da com preensão crítica do texto a ser tradu­
zido, mesmo que um trabalho de interpretação e de análise seja, bem
entendido, indispensável. Poderíamos dizer que a análise textual à qual
um tradutor deve se entregar - com o resgatar em um rom ance a rede
dos termos e das associações fundam entais, o “sistem a” de sua escritura,
etc. - é, a priorí, determinada pelo fato de que ele vai traduzir: ler para
traduzir é ilum inar o texto com uma luz que não é da ordem da herm e­
nêutica som ente, é operar uma leitura-tradução - uma pré-traclução.
Essa pré-tradução pode aparecer se olharm os as palavras, as frases 011 os
segmentos de frases que um tradutor sublinhou na obra a ser traduzida
antes de com eçar a tradução propriam ente dita: não som ente as palavras
e as passagens que ele não “com preende” (que se presumirá serem pou­
co numerosas), mas tam bém as que, 11a primeira leitura, colocam um
problema de tradução por causa de sua grande distância em relação à
“língua de chegada”. Tem os aí as linhas de saliência da estranheza da
obra, ou sua linha de resistência à tradução. E essa linha coincide em
grande parte com o sistema original da obra em sua língua. A partir daí,
é possível uma certa leitura da obra, que pode se transformar em leitura
“crítica”. Traduzir é nesse sentido um conhecimento da obra.
O criticism by translation é um modo de crítica irredutível à crítica inter­
pretativa. A teoria hermenêutica desconhece essa dimensão. Logicamente,
ela chega ao ponto de considerar o tradutor com o o parente pobre do crí­
tico. Ela não percebe a positividade da leitura traduzinte. Para ela, seria
sempre melhor ler a obra em sua língua original. A tradução seria um pa­
liativo. Mas isso é falso: exatamente com o, para a obra, o ser-traduzido é
um movimento enriquecedor, e não um desenraizamento, a leilura de
uma tradução é para 0 leitor uma operação original; não somente porque
se traía de uma obra estrangeira, mas também porque é um tipo de escri­
tura e de texto particulares.
Digam os assim: o modo de leitura ‘'norm al” de um texto estrangeiro é 0
de sua tradução. L er um livro em sua língua de origem constituirá sem ­
pre uma exceção e tuna operação plena de lim itações. Tal é a situação
cultural norm al, que nenhum aprendizado das línguas pode nem deve
remediar, pois não tem nada de negativo. Trata-se aqui de proceder a
uma radical inversão dos valores.

27 9
1

A tradução não é um paliativo, mas o modo de existência pelo qual uma


obra estrangeira chega até nós com o estrangeira. A boa tradução mantém
essa estranheza tornando a obra acessível para nós.
D e fato, pressupõe-se sempre que aquele que pode ler a obra em sua lín­
gua de origem está em m elhor situação para prová-la e conhecê-la do que
aquele que deve se contentar com 11111a tradução. Esta seria para o original
o que uma foto de mulher é para unia m ulher real. Mas os dois leitores es­
tão diante de 11111 texto estrangeiro, que perm anece sempre estrangeiro para
eles, traduzido ou não. Essa estranheza é irredutível. Nós, franceses, nun­
ca leremos um poema inglês como o lê 11111 inglês. A diferença entre os dois
leitores é apenas de grau.
Com bater a ocultação sempiterna desse estado de coisas (que é um fenô­
m eno histórico que seria preciso estudar, exatamente com o se com eçou a
estudar o que é, culturalmente falando, uma ‘'m á” tradução) é uma das ta­
refas de uma teoria da tradução.
D izer que a tradução que “cheira” a tradução é por isso considerada com o
má é 11111 contra-senso que desconhece que a escritura de uma tradução é
um modo de escritura irredutível: uma escritura que acolhe em sua própria
língua a escritura de uma outra língua e que não pode, sob pena de impos­
tura, esquecer que ela é essa operação. E preciso até ir mais longe e dizer
que em toda escritura literária há sempre a marca de uma tal relação. As­
sim com o em nossas falas, diz Bakhtin, há sempre a fala de outrem, e esse
entrelaçam ento das duas falas constitui a estrutura dialógica da linguagem
hum ana. Se toda escritura implica 11111 horizonte dc tradução (tal seria,
profundamente, o sentido da Weltliteratar goetheana), é 11111 absurdo se pe­
dir a uma tradução para surgir com o 11111a “pura’' escritura que é, ela pró­
pria, um mito. Uma disciplina com o a literatura comparada vive da ocul­
tação ou do esquecim ento dessa problem ática, que já mencionamos a pro­
pósito de Dom Quixote.

280
C A P I T U L O

Hölderlin: o
nacional e o
estrangeiro
As traduções de Hölderlin, assim como as relações que
elas mantêm com o conjunto de sua obra poética e de suas
reflexões, tomaram-se objeto de estudos aprofundados.1Dada
a grande raridade desse tipo de estudos, é preciso ver neles
um sinal claro de sua profunda singularidade. Não temos
aqui a intenção nem a pretensão de proceder a uma contron-
tação das traduções hôlderlinianas com seus originais. Que­
remos simplesmente tentar mostrar o que constitui ao mes­
mo tempo a singularidade, a historicidade e também a sur­
preendente modernidade dessas traduções - o que só é possí­
vel examinando, nem que seja de modo sumário, seu cenário
próprio, cenário que é o da poesia, do pensamento e até mes-

1. B E iS S N E R , F. ! lolderlin, Übersetzungen aus dem Griechischen, Stutt­


gart, 1961; SC H A D E W A L D T , W. Préface atix tmductions de Sophocle
de Hölderlin. Fisch er Verlag, 1957, etc.

281
í

oio da existência de Hölderlin. Queremos igualmente mos­


trar que, mesmo estando na época à qual pertenceram e ten­
do até precedentes (particularmente Voss), as traduções do
poeta suábio anunciam uma problemática da tradução que já
é a nossa. Em seu tempo, essas traduções foram consideradas,
notadamente por Schiller, como a “obra de um louco”, em­
bora personalidades como Brentano e Bettina von Arnim te­
nham sabido saudá-las com entusiasmo. Mas é somente no
século 20, a partir de N. von Hellingrath, que elas foram re­
conhecidas como marcos de época na História da tradução,
não somente alemã, mas ocidental. Assim, elas acederam à
posição pouco freqüente de traduções históricas. O impacto
da tradução de Antígona, por exemplo, pode ser medido pelo
fato de que ela serviu de libreto para uma ópera de Cari Orff,
Antígona, e que, sob uma forma adaptada por B. Brecht, foi
encenada numerosas vezes 110 teatro, notadamente por uma
das trupes mais importantes c!a segunda metade do século 20,
o Living Theatre.
Como sublinhou W. Benjamin, as traduções de Hölder­
lin, pelo menos aquelas de Sófocles, são as últimas obras que o
poeta produz antes de mergulhar 11a esquizofrenia. Se acredi­
tarmos em W. Benjamin, haveria um laço entre a radicahdade
dessas traduções e 0 desmoronamento de Hölderlin:

Essas traduções são arquétipos de sua forma [,..J E é


precisamente por isso que elas estão expostas, mais do que
outras, ao imenso perigo que, desde o início, espreita toda
tradução: o de que as portas de uma linguagem tão am­
pliada e tão dominada recaiam e aprisionem o tradutor 110
siiêncio [...] Aqui o sentido soçobra de abismo em abismo,
até correr o risco de se perder nos precipícios sem fundo
da linguagem .1

2. “La T â c h e du Traducteur”, lu: Mythe et violence. Paris: D enoël, 1971.


p. 275.

282
Podemos talvez medir melhor a ligação que existe
entre a esquizofrenia, a relação com as línguas e a tradução
graças à psicanálise.3
As traduções de Hölderlin pertencem inteiramente à
sua trajetória poética, à concepção que ele tem da lingua­
gem, da poesia e do que ele próprio chama de “a prova do es­
trangeiro”. A tal ponto que as categorias habituais de poesia e
de tradução aplicam-se desconfortavelmente aqui. Hölderlin
é um grandíssimo poeta; é também um grandíssimo tradutor,
um grandíssimo “pensador” e igualmente (se nos permitem
dizer) 11111 grandíssimo esquizofrênico.'1Apesar de ter partici­
pado decisivamente na construção do Idealismo alemão com
seus amigos Schelliiig e Hegel, ele segue um caminho pró­
prio que o afasta cada vez mais desse campo e o leva a uma
reformulação da Bildung que, na verdade, faz literalmente
transpor seus limites.
Hölderlin tradutor não se explicou sobre os princí­
pios de suas traduções. Encontramos, nas Notas sobre Edi-
po e nas Notas sobre Antígona, assim como em cartas do
mesmo período, algumas observações muito breves. Mas
que, veremos, são de peso. Os difíceis textos especulativos
consagrados à poesia também não abordam diretamente as
questões da tradução. Antes de estudar a complexa proble­
mática do “próprio” e do “estrangeiro” que domina as N o­
tas e as cartas para Böhlendorff, Wilmans e Seckendorf,
gostaríamos de evocar uma dupla particularidade da língua

3. LA PLA N C H E, Jean. Hölderlin et la question du père. Paris: P.U.F.,


1969. C f. tam bém VVOLFSON, Louis. L e Schizo et les langues, onde
aparece essa relação negativa coni a lingua materna que im pele o esqui­
zofrênico para as línguas estrangeiras e uma espécie de língua m ítica
destinada a neutralizar a língua da “m ãe”.
4. LA PLA N CH E: “Poeta porque abre a esquizofrenia com o questão e
abre essa questão porque é poeta” (Op. cit., p. 133).

283
poética de Hölderlin que nos permitirá um melhor acesso
ao espaço de suas traduções.
Nada mais transparente, mais claro - mesmo em sua
obscuridade —, nada mais “casto” e mais “puro”, é o que sem­
pre se disse, do que a poesia holderliniana. Nada menos sen­
sual, menos carnal. No entanto, essa poesia não é absoluta­
mente abstrata, etérea ou mesmo simbólica no sentido dos ro­
mânticos. Da mesma forma, sua temática geral não poderia
ser mais clara, precisa e delimitada em suas diversas polarida­
des: o Limitado e o Ilimitado, o Alto e o Baixo, o Grego e o
Hesperio, a Pátria e o Estrangeiro, o Céu e a Terra, etc., todas
polaridades tomadas geralmente de um modo quase “geográ­
fico”, mesmo que se trate aqui de uma geografia poética, mí­
tica e até histórica. Os grandes rios alemães e europeus, os Al­
pes, a Suábia natal, as cidades alemãs, a Grécia e seus lugares
altos, o Oriente e o Sul: seria possível estabelecer aqui um
mapa dos lugares hölderlinianos. Ora, a língua do poeta pare­
ce estar em profundo acordo com essa temática geográfica
pelo fato de que, em seu despojamento, ela tende a incorporar
simultaneamente elementos lingüísticos “gregos” e “nativos”,
nesse caso um alemão que soube integrar o dialeto materno
de Hölderlin, o suábio, mas também todo um tesouro lingua-
geiro que remete, afora Klopstock, Voss e Herder, a Lutero e
ao antigo alemão. Em um livro modesto, mas muito esclare-
t cedor, Rolf Zuberbühler explorou pacientemente o que cie
chama de “a renovação da linguagem em Hölderlin a partir
de suas origens etimológicas”.5
Essa renovação, totalmente consciente em Hölderlin,
consiste em ir até o fundo lingüístico da língua alemã, em uti-
lizar as palavras dando-lhes de volta no poema o seu sentido,

5 .Hölderlins Erneuerung der Sprache aus ihren etymologischen Ursprün­


gen. B erlim : E rich Schm idt, 1969.

2S4
talvez não “original” mas pelo menos “antigo”. Assim, quan­
do Hölderlin emprega a palavra Fiirst, príncipe, ele lhe devol­
ve sen sentido de Vordester, de Erster, de anteprimeiro ou pri­
meiro/’ O advérbio gern, de bom grado, essencial para ele, re­
mete à sua raiz, gehren, begehren, desejar.' Ort, lugar, é fre­
qüentemente empregado nos poemas no velho sentido que
se encontra em Lutero, de Ende, fim.8 Hold, favorável, gracio­
so, propício, aproxima-se do alemão dialetal helden, que sig­
nifica pender, e de Halde, a encosta.9 M einen remete ao an­
tigo alemão minneri.'" R. Zuberbíilher multiplica os exem­
plos dessa abordagem “etimológica” da língua em Hölderlin.
E verdade que este tipo de abordagem é freqüente no final do
século 18, notadamente em Klopstock e Herder. Mas em
I lölderlin, esse recurso, não tanto à etimologia quanto às sig­
nificações mais falantes que puderam ter as palavras alemãs
naquela que poderíamos chamar sua época dialetal (idade
Média, Lutero), torna-se uma lei de criação poética original
e complexa. E essa lei remete a Lutero e a sua fundação da
língua. E um verso de juventude do poeta que atesta que essa
remissão é consciente:

Sprechen will ich, wie dein Lutero spricht."

Hölderlin pede emprestado à Biblia de Lutero nu­


merosas palavras12 (Blik, Arbeit, B eru f Zukunft, Geist) e al­
guns de seus versos são inspirados diretamente nela. Assim,

6. Ibid., p. 18.
7. Ibid., p. 78.
8. Ibid., p. 81.
9. Ibid., p. 94.
10. Ibid., p. 101.
11. “Q uero falar com o fala teu Lutero" (G rande édition de Stuttgart, I,
15, 12)
12. In: Z U B E R B Ü H L E R . Op. cit., p. 24.
D o ch uns ist gegeben
A uf keiner Stätte zu mhn

reproduz ritm icam ente a tradução luterana de F l . l , 29:

D en n euch ist gegeben um Christus willen zu thun*..1'

Aqui, o recurso ao velho falar luterano, freqüente na


época," encontra-se situado em um movimento poético
que vai bem além da busca das origens nacionalistas de
Kiopstock e de Herder. Esse movimento visa a reencontrar
a Sprachlichkeit, a força falante da língua comum, força fa­
lante que vem de seu enraizamento pluri-dialetal. Pois res­
gatar os múltiplos empréstimos que Hölderlin tomou de
Lutero, de Kiopstock, do Pietismo, etc., é indicar o mesmo
ímpeto que o leva a integrar em sua língua poética elemen­
tos de seu dialeto materno, o suábio.15 Nesse plano, a proxi­
midade de Hölderlin com o pai fundador do alemão, o tra­
dutor l.utero, salta aos olhos. Mas esse movimento, nós po­
demos lh e dar um nome: é o retorno à língua natural, à Na-
tursprache e a sem poderes. Salvo que essa língua natural é
também a língua natal ou, para falar como Hölderlin, “na­
tiva”. Na verdade, o poeta suábio nos ensina que a língua
natural é sempre também língua natal. Mas não é tudo. Se­
ria estúpido ver em Hölderlin um poeta “localista” como
Hebel. E le não escreve em dialeto, mas na Hoch- und

13. Ibid.
14. “T u d o o que é velho não é en velh ecid o, escreve A. W. Schlegel
em seu artigo sobre Shakespeare, e a língua sentenciosa de Lutero é
agora aind a m ais alem ã do que m uitas preciosidades na m oda” (In:
Die Horen . p. 1 12).
I 5. Sobre a influência dos dialetos, ver K E M P T E R , Lothar. Hölderlin in
Hauptwil. Sain t-G all, 1946.

286
Schrift- Sprache.'*' Além disso, sua poesia integra - não me­
nos decisivamente — uma multidão de elementos lexicais,
métricos e rítmicos de uma língua estrangeira: o grego.
Aqui ainda, a obra de Zuberbühler fornece muitos exem­
plos reveladores: a expressão, ou melhor, o neologismo um-
tädtisch traduz o grego ano/aç, ou des Tages E ngel traduz
o grego ayyeXoç, etc. Podemos então dizer que a língua
poética líolderliniana constitui-se num duplo movimento
de retorno às significações da língua natural e natal, e da
apropriação da Sprachlichkeit de uma língua estrangeira, o
grego, ela própria de essência dialetal. Esse movimento,
em sua radicalidade, não tem nenhum equivalente na poe­
sia da época, que busca com o Romantismo edificar uma
Kuntsprache ou, com Goethe, uma poesia solidamente alo­
jada 110 domínio da Schriftsprache clássica.
Ora, esse caráter único da poesia líolderliniana pode
ser definido pelas duas expressões que Heidegger empre­
gou a propósito do poema “M emória”: “A prova do estran­
geiro e o aprendizado do próprio".'7 Há nelas uma dupla lei
da qual Hölderlin formulou a essência em uma carta para
Böhlendorff datada de 4 de dezembro de 1801:

16. C f. ii poesia de H O PK IN S, C . M .: “A mistura do latim e do anglo-


saxão era um fato histórico [...] Entretanto, podia-se tentar, não fosse ex­
cluir inteiram ente o latim, pelo m enos reduzir singularmente parte dele
f...| enfeudando-o ao elem ento saxão original predominante. Está aí o
que fez Hopkins [,..| E m Intsca dessa nova dosagem [...] adveio-lhe fazer
suas palavras ou acepções caídas em desuso [...] Da mesma forma, tal ex­
pressão recolhida dos lábios de um cam ponês gaulês perde inteiram en­
te nele seu caráter regional lim itado [...] E que Hopkins apropriou-se
desse dizer da região, dessas palavras antigas, por razões profundas, e que
ele as coloca em jogo segundo leis de bronze” (H O P K IN S, G . M . í’oè-
mes. Trad. e inir. de P. Levris. Paris: Le Seu il, 1980. p. 10-1).
17. H E ID E G G E R . Approche de Hölderlin. Paris: Callim ard, 1973. p.
Não aprendemos nada que seja mais difícil do que o li­
vre uso do nacional. E , acredito, é justam ente a clareza da
apresentação que é, para nós, originalm ente tão natural
quanto o é para os gregos o fogo do céu. E precisamente
por essa razão que eles serão ultrapassáveis mais no brilho
da paixão |...| do que em sua hom érica presença de espí­
rito que é dom de apresentação.
Isto soa co m o um paradoxo. Mas afirmo mais uma vez
[...] com o progresso da cultura (Bildung), o que é preci­
sam ente nacional perderá sempre mais de sua primazia. E
por isso que os gregos são menos mestres do patos sagrado,
porque ele lhes era nato; eles superam ao contrário 110
dom da apresentação, a partir de H o m e » , porque este ho­
mem extraordinário tinha alma suficiente para trazer de
volta ao sen im pério de Apoio a proa da sobriedade de Juno
e do Ocidente, apropriando-se assim verdadeiramente do
elem ento estrangeiro.
Para nós é o inverso. Eis porque é igualmente tão peri­
goso tirar as regras de nossa arte somente da perfeição gre­
ga. Penei com isso durante muito tempo e sei agora que,
à parte o que deve ser, para os gregos e para nós, o mais
alto, a saber, a relação viva, o destino, não nos é de modo
algum permitido ter com eles algo idêntico.
M as 0 que é próprio deve ser aprendido tanto quanto o
que é estrangeiro. É por isso que os gregos nos são indispen­
sáveis. Só que não poderemos alcançá-los precisamente no
que nos é próprio, nacional, porque, mais uma vez, o livre
uso do que nos é próprio é o que há de mais difícil.1"

Essa carta célebre remete a uma das viravoltas da


poesia hölderliniana: 11a origem, lia certamente no poeta
uma imensa fascinação pelo mundo grego, que adquire fre­
qüentemente a feição da nostalgia. Mas, pouco a pouco,
Hölderlin passa da imagem, afinal muito corrente desde
W inckelm ann, de uma Grécia que seria 0 lugar da perfei­
ção natural, para uma Grécia cujo “próprio”, o elemento
original, seria o que ele busca delimitar com expressões
como o '‘fogo do céu", 0 “patos sagrado”, 011 ainda o “aór-

18. Œuvres, La P lêiade. Paris: G allim ard, 1967. p. 6 4 0 .


gico”. Ou seja, unia Grécia que se aproxima mais cía visão
nietzscliiaua 011 , de mu modo geral, moderna: o mundo
violento do mito. Por todos esses traeos, a Grécia aparece
como o que, em sua origem e sua trajetória, nos é estran­
geiro e, mesmo, o estrangeiro. E é exatamente isso, como já
havíamos assinalado, o que havia pressentido F. Sclilegel.
Se a trajetória grega vai do “patos sagrado” à “sobriedade de
ju no”, a do Ocidente moderno consiste antes em conquis­
tar o “patos” que llie é estrangeiro, uma vez que seu “pró­
prio” é precisamente esta mesma “sobriedade de Juno”. Se
os gregos não tivessem conquistado essa “sobriedade”, eles
teriam sido como que devorados pelo “fogo do céu” (a ten­
tação de Empédocles); mas sem este mesmo fogo do céu,
o Ocidente corre o risco de cair num mortal prosaísmo, 110
que Hõlderlin chama “vacância da partilha”, o Schicksaal-
lose.V) As duas trajetórias são, portanto, literalmente opos-
■las, resultando que a Grécia não pode ser um modelo:

E assim os modos de representação gregos e suas formas


poéticas se subordinam mais àquele da pátria.20

Assim Hõlderlin escreve a Seckendorf no dia 12 de


março de 1804:

A fábula, feição poética da história e arquitetônica do


céu, ocupa-me nesse momento mais que tudo e, particular­
m ente, o nacional na medida em que ele difere do grego.:l

Mas isso não quer absolutamente dizer que o poeta des­


prezaria os gregos para se dedicar à “alta e pura exaltação dos

19. Remarques sur CEdipe et Aiitígone, p. 80.


20. Ibid., p. 81.
21. Ibid., Cartas, p. 125.

289
cantos da pátria”.22 Se fosse assim, teríamos uma fase grega em
Hölderlin e depois nina fase nacional. O que não é o caso. Tra­
ta-se muito mais de um duplo movimento simultâneo - aque­
le mesmo que havíamos assinalado no nível da língua hölder-
liniana - que liga “a prova do estrangeiro” (do fogo do céu, do
patos sagrado, do aórgico, do Sul, da Crécia, do Oriente) e o
“aprendizado do próprio” (a pátria, o natal, o nacional).
Heidegger escreve em seu comentário de “Memória":

O am or pelo exílio desejado com « o b jetiv o de se en­


contrar um dia em casa, no que se tem de seu, tal é a lei
essencial do destino que destina o poeta a fundar a histó­
ria de sua pátria.2’

Esta formulação não define exatamente a lei hölder-


liniana, e Heidegger sem dúvida se dá conta disso quando,
em uma nota acrescentada ao seu comentário, escreve:

Em que medida jo que diz Hölderlin] pode se deixar de­


rivar do princípio da subjetividade incondicional da metafí­
sica absoluta própria ao pensamento alemão e tal como a
encontramos em Sheliing e Hegel, segundo os quais o ser-
em-si-niesmo do espírito exige primeiramente o retorno a si
m esm o, que não pode ser efetuado por sua vez senão a par­
tir do ser-fora-de-si, em que medida portanto uma tal refe­
rência à metafísica, mesmo se ela faz surgir relações “histo­
ricamente exatas”, não obscurece a lei poética bem mais do
que a esclarece, é a questão que nos contentamos de entre­
gar à meditação de qualquer pensamento.11

Com efeito, o movimento de saída e de entrada em si


do Espírito, tal como o definem Schelling e Hegel, mas
igualmente F. Schlegel, como vimos, é também a re-formu-

22. Ibid., p. 119.


23. H E ID E G G E R . Op. cit., p. 111.
24. Ibid., p. 114.

290
T

lação especulativa da lei da Bildung clássica: o próprio só


tem acesso a si mesmo pela experiência, ou seja, pela prova
do estrangeiro. Ejssa experiência pode ser o Reine, a viagem
romântica de Henri d'Ofterdingen, no final da qual o pró­
prio e o estrangeiro descobrem sua identidade poética, ou os
Anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, quando este des­
cobre lentamente a solidez de uma existência burguesa en­
tregue à sua obsessão pelo infinito e celebra as virtudes da
auto-limitação, longe dos acometimentos do “demoníaco”.
O pensamento de Hölderlin não depende de nenhuma
das duas leis; mais complexo, ele faz resplandecer a simplicida­
de do esquema da Bildung: não se trata nem da aprendizagem
do infinito nem da do finito. De fato, ele faz aparecer algo mais
profundo e mais arriscado. For um lado, o movimento em di­
reção ao próprio e aquele em direção ao estrangeiro não são
movimentos que se sucederiam linearmente, 110 sentido de
que o segundo seria como a simples condição do primeiro. O
poema “Migração” canta de preferência simultaneamente a
prova do estrangeiro e o apego ao próprio:

Suábia afortunada, oli mãe,


C om o tua irmã mais resplendorosa
A Lombardia lá longe
Por cem rios irrigados!
[...] pois tu habitas
Perto do lar da morada
I...I E é lá de onde procede
Tua nativa fidelidade. Pois o que vive
Perto do jorro original sóeuiigra
D e um tal lugar a grandes penas. E' teus filhos, as
( ’ idades às margens do longínquo lago pálido,
De ribanceiras ervosas do Neckar, à beira do Remo:

Certo, nenhum oulro lugar, diz-se cada uma delas,


Poderia ser para mim uma melhor morada.
Mas eu, é o Caucaso que eu quero!

291
Todavia, um pouco mais longe, após ter celebrado o
“país de Homero”, Hölderlin declara:

F, no entanto nem sonho em perm anecer.


In clem en te, difícil de conquistar é a
Taciturna, aquela de quem escapei, a M ãe.”

Na primeira versão de “O U nico”, ele recorda ainda


esse amor pelo estrangeiro que, sem cessar, tende a suplan­
tar o amor pelo próprio:

Q u e é então, com
Antigas bordas felizes
O n e me rodeia assim, para que eu lhes dê
M aior am or ainda que à minha pátria?“

Outros poemas, ao contrário, celebram a pátria como


o bem mais próprio do poeta:

[...] M eu é
O discurso da pátria. Q ue não
M o inveje ninguém.2'

Mas essa pátria, enigmaticamente, parece o mais di­


fícil, pelo menos em seu “livre” usufruto:

Um dia eu interroguei a M usa e ela


M e respondeu:
No final vais encontrá-lo
N enhum mortal pode prendê-lo.

25. CEuvre. p. 846-8.


26. Ibid., p. 8 4 8 .
27. Ibid., p. 9 3 3 .

292
Kruto proibido, com o o louro, no entanto, é
Mais a pátria [...]*

“M nem ósine”, mais cjue qualquer outro poema de


I lõlderlm, enunciou o perigo que jaz no amor pelo estran­
geiro e que só o amor pela “pátria” pode conjurar:

11 ui signo, tais nós somos, e de sentido nulo,


Mortos para todo sofrimento, e quase
Perdemos nossa linguagem em país estrangeiro
1 ,-1

M as o que amamos? Um brilho de sol


No solo, é o que vêem nossos olhos e a poeira ressecada,
E as umbrosas florestas da pátria |...I”'

O final do poema retorna ao país estrangeiro, todavia


apresentado como nma paisagem de morte:

Aquiles sob a figueira, meu Aquiles


Está morto,
E perto das grutas marinas, riachos
Vizinhos do Xanto,
O corpo de Ajax está estendido...

O que se abre aqui, simultaneamente, é uma dimen­


são da qual cada 11111 dos pólos, o próprio e o estrangeiro, to­
mado em sua imediação, é igualmente perigoso: o estran­
geiro, o fogo do céu, poderia aniquilar aquele que se apro­
ximasse demais, mas o próprio, a pátria, encobre também o
perigo de um devassamento. Nos dois casos, há perigo de
uma queda no puro Indiferenciado, de uma fusão mortal
com a lmediatez. E o perigo que evoca a terceira versão de
“O U nico”:

28. tbid., p. 895.


29. Ibid., p. 879- 80.

29}
[...] Sim , o inundo sem cessar, com um grito
D e alegria, é arrancado desta terra, deixando-a
Despojada onde o hum ano não pode retê-la’11

Toda essa problemática é como que resumida em


iuna das últimas versões de “Pão e vinho”:
[...] pois o espírito não está nele
No início, nem na fonte. A pátria o devora,
O espírito ama a colônia e um esquecim ento valente.
Nossas flores e as sombras de nossas florestas alegram
O en fraquecid o. A quele que dá a alm a seria quase
/consumado. ” **

Aqui se encontra expressa com um intransponível ri­


gor a dupla lei do “espírito”: por um lado, “a pátria o devo-

30. Ibid., p. 866.


31. Ibid., p. 1.206. A colônia, diz Heidegger, em seu comentário de ‘'M e­
mória” (op. cit., p. 118), “é o estrangeiro, mas o estrangeiro que faz ao mes­
mo tempo pensar na pátria”. “A colônia é a filha que recorda a mãe pátria”
(ibid.). Notável é o surgimento em Hölderlin, em um poema que trata do
próprio e do estrangeiro, da noção de “colônia”. Esta faz tanto alusão, no
horizonte do poeta, às “colônias gregas”, antigas (a cena de Empédocles é
Agrigente, uma colônia), colônias que, com efeito, eram com o as “filhas”
da “mãe pátria”, quanto às modernas colônias das “índias”, evocadas, com
Colom bo ou Vasco da C am a, em muitos poemas tardios de Hölderlin (cf.
LesTitaití, p. 893). Ora, essas modernas colônias, que se estabelecem nas
“ilhas odorantes” da Asia e da América (as antigas e as novas índias),
mantêm uma relação diferente com a “mãe pátria”: esta se perpetua nelas,
mas as “filhas”, poderíamos dizer, se mestiçam com elas: a colônia moder­
na é o lugar onde o próprio e o estrangeiro se unem. Filha, ela casou-se
com o estrangeiro. E.isso é algo que uão pôde escapar de Hölderlin por oca­
sião de sua estada no porto “colonial” de Bordeaux.
As “Índias” do poeta não têm , nesse sentido, nada a ver com aquelas do Ro­
mantismo: elas designam o imenso espaço histórico aberto pelos grandes
navegadores e os conquistadores, que instituíram uma nova figura da “colô­
nia” e, portanto, da relação com o estrangeiro. Essa relação, vivida histori­
cam ente com o referência às viagens dos colonizadores gregos, é mostrada
em Os Lusíadas de Cam ões, que a Alemanha descobria na época em que
Hölderlin escrevia seus poemas. A viagem de A. von Humboldt na Améri­
ca do Sul é uma exploração do reino da moderna colônia.

294
ra”, por oulro lado, “as sombras de nossas florestas” o salvam.
O movimento pelo qual o “espírito” escapa da mortal ime-
diatez (devoraute) da pátria é também aquele que corre o ris­
co de consumi-lo na ardente luz do estrangeiro. Por conse­
guinte, da mesma forma que a prova do estrangeiro protege
da pátria má, o aprendizado da pátria protege do fogo do céu
—do estrangeiro. Os dois movimentos são inseparáveis: a ta­
refa da poesia consiste portanto em dominar os desequilí­
brios inerentes à experiência do próprio e à experiência do
estrangeiro. Tarefa que “Patmos” exprime com toda clareza:

Veneramos a Terra, nossa mãe,


E há pouco, a luz do sol,
Nem sabendo, mas o Pai deseja, o
Mestre do mundo, antes de qualquer coisa,
O ue a letra em sua firmeza seja mantida
C om cuidado; que do que perdura torne-se visível
O sentido profundo. E o canto alemão lhe obedece.'2

O mesmo, “Vaticano”:

Guardar Deus em sua distinta


Pureza é a tarefa que nos foi confiada,
A fim de que, pois se ligam nela tantas coisas,
Na expiação, em uma
Transgressão do Signo,
Nenhum julgamento de Deus seja instituído.”

Instituir um equilíbrio, uma medida nessa dimensão,


operar uma tarefa de diferenciação. Ou antes, a poesia, o can­
to, instaura “o que permanece” (“Memória”), ou seja, essa di­
mensão diferenciada na qual a experiência do estrangeiro e a
experiência do próprio conseguem ser dominadas. A poesia

32. (E urres. p. 780.


33. Ibicl., p. 915.

295
r

pcxle desempenhar esse papel de fundação porqne ela é lin­


guagem ,-letra e signo, porque ela resiste, diz Hölderlin,

sob o rein o do Zeus que [...] não som ente erige um li­
mite en tre esta terra e o m undo inacessível dos m ortos,
mas tam b ém força mais decisivamente em direção à ter­
ra o im pu lso de pânico etern am en te hostil ao hom em ,
o im pulso sem pre a cam in h o do outro m undo.’1

A poesia, enquanto prática do diálogo (Gespräch ) que é


a linguagem no canto (Gesang), é o lugar desse combate pelo
qual se institui o reino do Diferenciado. Como lugar desse
combate, da instauração da Diferença, a linguagem é “dos
bens mais perigosos”,3’ porque ela pode ser ela mesma a presa
dessa indistinção que ela está encarregada de conjurar. Höl­
derlin sabia bem disso, tanto que pôde dizer em “Vaticano”:

Turco. E a coruja, familiar às Escrituras,


Tal uma m ulher rouca, discursa nas cidades em ruína.
/Todos
Aqueles são guardiães do Sentido. M as com freqüência,
/tal qual um incêndio,
Explode a confusão das línguas.“’

34. Remarques sur Œdipe et Antigone. p. 79.


35. Œuvres, p. 926.
36. Ibid., p. 9 1 5 . C onfusüo da quai talvezencontrem os um exem plo lies­
se fragmenta da ép oca de T ü b in g en :
“Tende Strômfeld Sim onetta.
Teufen Amyklée Aveiro au fleuve
Vouga la fam ille A lencastro le
nom de là Am alasuntha Zentegon
Anathème Ardhingellus Sorbon ne Célestiu
Et Innocent ont le discours inter­
rompu et lui nom m é jardin
botanique des évêques français -
Aloïsia Sigea différentiel vitae
urban e et rusticae T herm odon
un fleuve en Cappadoce Val-
telino Schônberg Scotits Schônberg Ténériffe

296
Essa problemática geral da poesia liõlderliniana, ex­
posta aqui muito sumariamente, tem sua rigorosa corres­
pondência no movimento cle sua língua. Esta deve passar
tanto pela prova da língua estrangeira (o grego) quanto
pelo aprendizado da língua natal (o alemão e suas raízes
dialetais). Forçando 11111 pouco as coisas, poderíamos dizer
que ela deve simultaneamente se “suabizar” e se “grecizar”
para se tornar mais precisamente ela mesma, para poder se
tornar o canto da 'ferra Natal, instituição de uma “Nação".
No âmbito da língua materna, o dialeto é o que, pelo
menos potencialmente, melhor exprime a essência do pró­
prio e do “natal”. A língua materna 011 nacional é “filha” de
seus dialetos; mas, dominando-as de sua amplitude de lín­
gua comum, ela é também sua “mãe”. A relação da língua
com seus dialetos é uma relação mútua e diferenciada; os
dialetos são dialetos dessa língua, só têm sentido de serem
dialetos 110 espaço desta última.
Mas inversamente, a língua comum tem necessida­
de dos dialetos, sob pena de empobrecer infinitamente, de
cair 11a “vacância da partilha”. Os dialetos e, de modo mais
geral, a criatividade dialetal constituem a mesma quantida­
de de fontes da língua, de um lado porque toda língua tem

Su laco Venafro
contrée
De rO iym pe Weissbrunn en Basse-
Hongrie Zaniora Yacca B aecbo
Imperiali G ên es Larissa en Syrie” (Œuvres, p. 935).
Confusão das línguas, cios lugares - próprios e estrangeiros. O médico
que examinou Hölderlin em 1805 declarou “que é impossível com preen­
der sua linguagem , que parece uma mistura de alem ão, de grego e de la­
tim ” (Œuvres, p. X X V I). Poderíamos interrogar a partir daí a esquizofre­
nia do poeta.

297
uina origem dialetal, de outro lado porque os dialetos, liga­
dos a ela, mas diferentes dela, a alimentam assim como
tantos rios alimentam o “grande rio” da língua nacional.
Os dialetos, em sua Sprachlichkeit, seu “falar” próprio, são
os mais próximos possíveis do ser terrestre do homem, de
sen ser “natal”. Mas, por outro lado, só podem desdobrar
esse “falar” na língua comum. Voltar, mesmo que parcial­
mente, até com pudor,5 ao suábio e ao passado dialetal do
alemão é, portanto, para Hölderlin (como, mais tarde, para
um G. M. Hopkins) efetuar esse “lrfre" aprendizado do
próprio - do próprio dessa mesma língua que ele faz can­
tar em seus poemas.
Mas “grecizar” o alemão é fazê-lo passar pela prova
do estrangeiro, da língua mais estrangeira que seja, uma
vez que ela carrega consigo o que é o mais estrangeiro para
“nós”, o “fogo do céu”, e que no entanto soube se tornar a
língua da “sobriedade de Juno”, do logos racional.
Se Hölderlin “dialetizasse” ou “grecizasse” pura e
simplesmente a sua língua poética, a dupla dimensão equi-
librante desta e seu poder diferenciador desapareceriam:
teríamos uma obra localista (ou pseudo-tal), ou um pidgin
de grego e alemão. No final das contas, tais casos são fre­
qüentes na literatura. Mas a poesia, como dimensão do Di­
ferenciado, do Articulado, do Medido, só pode ter como
elemento a língua comum: ou seja, essa língua que se deli­
mitou ao mesmo tempo em relação aos dialetos que ela
“encobre” sem os sufocar e em relação às outras línguas.
De uma certa maneira, a dupla delimitação da qual fala
ßakhtin e que evocamos a propósito de Lutero reproduz-se

37. “M ém oire”: “Muito hom em / Tem m edo de voltar até à fonte”


(( Euvres. p. 876).

298
aqui. Pelo “diálogo" com o grego e o “retorno” ao elemen­
to dialetal do alemão, a poesia faz a língua comum ter aces­
so à sua dimensão própria, a essa dimensão de equilíbrio
entre a língua estrangeira e o dialeto que é sua origem.M
Em semelhante contexto, as traduções que Hölder­
lin faz dos poetas gregos obedecem, em todos os níveis, a
uma total necessidade. Elas assinalam o ponto mais extre­
mo dessa “grecização" do alemão na obra em sua poesia.
Mas pode-se dizer também, inversamente, que é o ale­
mão mais “nativo” que é utilizado para devolver a força fa­
lante do grego. Assim re-assistimos, já no simples plano das
palavras, ao mesmo duplo movimento. O verso

Was ists, du scheinst ein roles Wort zu färben

traduzido com unta literalidade que confina ao absurdo o


verso de A ntfgona:

Tí ó ’é c m ;ô t] X o íç t l K a ^ x c ú v o u a ’ è jto ç .

KaXy/xivu, na realidade, significa originariamente


ter a cor da púrpura, ier urna tez sombria. Daí vem seu des­
lize de sentido para: estar melancólico, atormentado, etc.
No lugar em que Mazon, por exemplo, traduziu (de acor­
do com o dicionário, que aliás remete ao verso 20 de Antí-
gona para o sentido derivado desse verbo):

De que se truta então? Algum propósito te atorm enta, é claro.”

38. G oethe, por sua vez, quer antes mantê-la em igual distância dos dia­
letos e das línguas estrangeiras.
39. Antigune. Lcs Bell es Lettres. 1967.

299
Hölderlin prefere restituir o primeiro sentido da pa­
lavra grega:

O que há? Pareces m acerar um púrpuro d e s e jo *

A tradução literal significa portanto aqui: traduzir o


primeiro sentido.
Mas, por outro lado, numerosas palavras gregas são
traduzidas por termos que remetem ao Mittelhochdeutsch
ou ao alemão luterano. noÇcõvXçsTõué traduzido por mit...
der Fiisse T ugend, com a “virtude” dos pés, no lugar de mit
der Kraft der Fiisse, com a força dos pés, que seria mais evi­
dente. Tugend, aqui, é tomado em seu sentido etimológico,
que remete ao verbo taugen, valer, ter valor." nóvoç, nor­
malmente traduzido por M ühsal, pena, é traduzido por Ar-
heit, trabalho, labor, no sentido antigo, ôéêjtoiv a, H errin,
senhora, é traduzido por Frau, mulher, no sentido que essa
palavra adquire ein Mittelhochdeutsch. Zuberbühler forne­
ce uma lista impressionante desses exemplos e mostra que
se trata, nesse caso, de uma escolha deliberada do poeta.
Assim, o alemão da Idade Média e da Bíblia de 1,utero ser­
viria para traduzir Píndaro e Sófocles, não em virtude de
um gosto arbitrário pelo “antigo”, mas porque Hölderlin
quer encontrar toda a força falante das palavras alemãs.
Duplo movimento, portanto, no qual o alemão deve
dizer literalmente um grego literal, deve ser como que força­
do, violentado, transformado e talvez fecundado pela língua
estrangeira. Essa literalidade, poderíamos encontrá-la tanto
no nível sintático quanto no nível lexical, e é ela que dá à tra-

4 0 -T rad . Lacoue-Labarthe. Paris: Bourgoís, 1978.


4 L Z U B E R B Ü H L E R . Op. c i t , p. 18-21.

300
dução hölderliniana seu arcaísmo soberano e violento. Toda­
via, insistimos que essa literalidade seria mal compreendida
se não víssemos que, para traduzir o que ele interpreta como
a literalidade do texto original - ter a cor da púrpura, no lu­
gar de ser atormentado Hölderlin voltava às fontes etimo­
lógicas do alemão, ao que, nessa língua, é literalidade e ori­
gem. A tradução torna-se, a partir daí, o encontro —choque e
fusão - de dois arcaísmos, e é isso, não uma literalidade vaga,
que dá à sua operação todo o seu sentido e que a liga, bem
evidentemente, ao resto da empresa hölderliniana. Salvo que,
aqui, um dos pólos dessa empresa, a brutal transferência do
grego para o alemão, parece empurrá-lo para o outro: como
se Hölderlin, justamente no momento em que desenvolvia
sua problemática da diferenciação, do “retorno natal", avan­
çasse perigosamente nessa zona em que delimitação das lín­
guas e confusão das línguas se cotejam.
Esse movimento, entretanto, complica-se e aproxima-
se de sua maestria da seguinte maneira: em várias ocasiões, é
o texto original, em sua língua e em seu conteúdo, que é vio­
lentado, violentado em um sentido preciso, o cle uma tendên­
cia fundamental que ele teria, segundo Hölderlin, reprimido:

Espero oferecer cia arte grega, que nos é estrangeira


pelo fato cle sua adaptação à natureza grega e de defeitos
com que ela sempre soube se conformar, uma apresenta­
ção mais viva do que de hábito, fazendo ressaltar mais o
elem ento oriental que ela renegou e corrigindo o seit de­
feito artístico 110 lugar em que ele se encontra.^

A tradução é encarregada de revelar o elemento ori­


ginário do texto original: “o elemento oriental”. Jean Beau-
fret escreve a esse respeito:

42. Remarques sur Œdipe et Antigone, p. 111.

301
O rientalizar a tradução de Sófocles é, portanto, tornar
a tragédia gregu mais ardente do que ela pode parecer para
o leitor moderno que, ao contrário dos gregos, se sobressai
culturalm ente no entusiasmo excêntrico.'"

Todavia, as coisas não são tão simples, pois Hölderlin


escreve ao seu editor alguns meses mais tarde:

C reio ter escrito bem ao encontro do entusiasmo ex­


cêntrico e assim ter alcançado a simplicidade grega.*

E ßeaufrel acrescenta com muita precisão ao seu


com entário:

Orientalizar a tradução é, portanto, subtrair a tragédia


grega de seu meio, conservando também sua inigualável
sobriedade. As “correções” de Hölderlin vão assim em du­
pla direção, e é nessa óptica complexa que é preciso exa­
m inar todos os "desvios de tradução”, pois se é como um
traidor, é também como um santo que o poeta moderno se
comporta relativamente ao original grego.4'

D uplo movimento, portanto, de “orientalização” da


tradução, mas também de captação da “simplicidade”, ou
seja, da “sobriedade” pela qual a obra original é o que ela é:

[...] balanço de dois excessos, diz ainda Jean Beaufret,


da Unförmliches e da Allzuförmliches, da desmesura aórgi-
ca e do respeito excessivo pelas form as.*

Sob esse ponto de vista, traduzir KaÀ.Xai.vou6’èjroç


por ein rotes Wort zu färben é, efetivamente, fazer sobressair, ao
menos num ponto de detalhe, o que as palavras de Antígona

4?. Ibid., p. 35.


44. Ibid.
4 5. Ibid., p. 37.
46. Ibid., p. 39.

302
1

contêm, para empregar a expressão surpreendente de Hölder­


lin em suas Notas, de tödtendfactische, de “bmtalmente assas­
sino”.'' E nesse sentido, exatamente com o em alemão, retornar
a uma certa literalidade originária do texto. À tradução literal
vai em direção a essa literalidade e, inclusive, numa espécie de
movimento hiperbólico, a restaura quando a tendência do tex­
to original é encobri-la, ou “renegá-la”. O original não é, com
efeito, um dado inerte, mas o lugar de uma luta, em todos os
seus níveis. Essa luta, Hölderlin a descreveu com o a do “patos”
e da “sobriedade”, ou da Unförmliches e da Allzuförmliches. A
tradução re-produz essa luta e até a re-ativa, mas, por assim di­
zer, às avessas: se Sófocles vai do fogo do céu até a sobriedade
de Juno (trajetória grega), o tradutor moderno, por sua vez, vai
dessa sobriedade ao fogo do céu (trajetória ocidental). Mas esse
movimento permanece ele próprio comedido, pelo fato de que
tenta também “atingir a simplicidade grega”. Sófocles, ao rene­
gar o fogo do céu, o oriental que é seu próprio, só o faz até um
certo ponto; o tradutor, por sua vez, renega a sobriedade em
sua tradução só até 11111 certo ponto.
D irem os que Hölderlin, com base em uma certa “in­
terpretação” dos gregos, modificou arbitrariam ente Sófo­
cles, com o parece ser o caso na passagem dc Antigona de­
dicada a D anaé, 11a qual ele traduz 0 verso:

E de Zeus ela conservava a sem ente em chuva de ouro*

47. Ibid., p. 80. Indo do sentido figurado ao sentido próprio, literal, do


verbo grego. O mesmo percurso que em poesia com as palavras alemãs.
Encontrarem os no anexo à tradução de Antigona por Lacoue-Labarthe
vários exemplos análogos.
48. Trad. M azon. Op. cit,: “Ela tinha de velar pelo fruto de Zeus nasci­
do da chuva de ouro” (p. 108). C f. a discussão desse ponto por Beaufret
em sua introdução às Notas, p. 36-7. O próprio Hölderlin justifica esse
desvio de tradução dizendo: “para aproximar [a figura de D anaé] de nos­
so tipo de representação” (ibid., p. 75).

303
por:
Et;i contava para o pai do tempo
As batidas da hora no sino de ouro,

e que, assim, ele produziu um a mistura ao m esm o tempo


fascinante e aberrante de literal idade objetiva e de recria­
ção subjetiva? C erto, toda tradução de uma obra parte de
um a leitura desta, e as traduções de H ölderlin são determ i­
nadas por sua visão da poesia e dos gregos. M as talvez o
con ceito de interpretação seja insuficiente aqui. Io d a inter­
pretação é a reconstrução de um sentido cjue opera um su­
jeito. E m que essa reconstrução se fundam enta? N o cam ­
po de visão desse sujeito, em sua “perspectiva”. O perspec-
tivismo é uma realidade. M as quando lem os um a obra,
nem tudo é interpretação. Aquém ou além desta, há esta
pura apreensão da obra à qual G o eth e fazia alusão em Poe­
sia e verdade quando evocava longam ente seu “fundo”.
Pode-se dizer desse “fundo” que ele é irradiante e que, por
sua vez, ilum ina a perspectiva do sujeito. A visão hölclerli-
niana dos gregos, nesse sentido, não é um a interpretação; é
antes uma experiência que precede qualquer interpretação.
Isso é tão verdadeiro que, desde H ölderlin, todos os que
abordaram o m undo grego abordaram (quaisquer que te­
nham sido suas form ulações) a mesma realidade.'w
Mas isso não é tudo. Essa experiência que precede qual­
quer interpretação e a garante de qualquer arbitrariedade sub­
jetiva, de onde ela surge? E preciso responder aqui: dessa leitu­
ra que é a própria tradução. Do contrário, seria preciso dizer
que Hölderlin escamoteou uma teoria da arte grega, da tragé-

49. Basta pensar em N ietzsche, em Hoffm aim stahl ou no Sófocles de K.


Reinhardt.

304
dia, etc., que ele aplicou ein suas traduções. Mas na verdade, a
visão que ele tem dos gregos e da tragédia surge, por 11111 lado,
de sua experiência de poeta e, por outro lado, de sua experiên­
cia de tradutor. Apenas o tradutor (e não o simples leitor, mes­
mo sendo crítico) pode perceber o que, em um texto, é da or­
dem do “renegado”, porque só 0 movimento da tradução faz
aparecer a luta que se desenrolou no original e que conduziu
ao equilíbrio cjue ela é . E o que Valéry pressentiu bem:

O trabalho de traduzir, conduzido pela preocupação


com uma certa aproximação da forma, faz-nos de certa
maneira buscar colocar nossos passos sobre os vestígios da­
queles do autor, e de forma alguma talhar um texto a par­
tir de um outro, mas deste aqui, voltar à época virtual de
sua form ação.5"

As correções, as modificações, etc., de Hölderlin proce­


dem dessa relação profunda, possível apenas na tradução, com
a obra em seu período virtual de formação; é por isso que elas
não são nem arbitrárias, nem do domínio da interpretação; 110
mais, pode-se dizer que pode haver outras traduções que, par­
tindo dessa mesma relação profunda, possam chegar a resulta­
dos diferentes. Nesse sentido, Hölderlin abriu uma possibili­
dade e até mesmo uma necessidade essenciais do ato de tradu­
zir, em sua relação com a língua e a obra estrangeiras, e for-
mulou-as com um enorme rigor. Pelo fato de "voltar à época
virtual de sua formação”, uma tradução estabelece com uma
obra uma relação não somente sui generis, mas mais profun­
da, mais “responsável” que as outras relações: ela tem o poder
de revelar o que, nessa obra, é origem (inversamente, ela tem
o poder de ocultar de si mesma essa possibilidade), e isso indi­
ca que mantém com ela uma certa relação de violência. Onde

50. ln: After Babel. p. 346.

305
há revelação <le alguma coisa escondida, há violência. Essa
violência da tradução remete igualmente à imediatez não me­
nos violenta que norteia a delimitação mútua das línguas e sua
mestiçagem. O fato de haver aqui mestiçagem e não pacífica
aclimatação, de aqui as imagens do sexo e da luta vencerem
as de jardinagem e de cultura (Herder, G oethe), é justamen­
te o que mostra Hölderlin em uma passagem dedicada à es­
sência do trágico:

A apresentação do trágico repousa principalmente 110


fato de que o insustentável - com o Deus e hom em se fun­
dem , e com o, abolidos todos os lirnites, a potência aterro­
rizadora da natureza e o âmago do hom em tornam-se Um
110 furor - concebe-se assim que o devir-um ilimitado pu­
rifica-se por uma separação ilimitada [...] .Tudo é discur­
so contra discurso, cada um invalidando o outro.”

A tradução aparece com o um dos lugares nos quais se


enfrentam medida e desmedida, fusão e diferenciação —como
um lugar de perigo (a “confusão das línguas”), mas também
dc fecundidade. Sendo também a poesia um lugar assim, isso
significa que a tradução é um ato poético: não, com o para os
românticos, que a poesia é um ato de tradução, ainda que
“transcendental'’, mas que a tradução pertence ao espaço dife-
renciador do poético, espaço que pode ser tanto aquele da
confusão das línguas quanto o de sua delimitação. As tradu­
ções de Hölderlin são históricas porque, desde L,utero, são as
primeiras na Alemanha a habitarem esse lugar no qual as lín­
guas e as culturas se delimitam. Não devemos nos enganar se
essas traduções, a priori, parecem estar postas sob um signo
oposto àquela de Lulero - de um lado a Verdeutschung, de ou­
tro a Gríechischung pois se, por um lado, uma secreta Ver-

51. Remarques sur CEdipe et Antigone, p. 63.

306
cleutschung opera ein Hölderlin, por outro lado, o tipo de Ver­
deutschung de Lutero mantém com a própria palavra da Bí­
blia uma relação de correspondência que passa pela oralidade
e que é mais estieita que a da tradução latina. O que havíamos
chamado de tradução histórica com Rosenzweig só pode ser
“histórica” porque ocorre nela esse tipo de relação mestiçante-
diferenciante com a língua e a obra estrangeiras.
Por esse tipo de historicid ad e, as traduções de H öl­
d erlin surgem para nós ao m esm o tem po enraizadas em
um a tradição, ancoradas em um a origem (L u tero ) e cons­
tituidoras do cenário da tradução ocidental m oderna. D e
fato, elas são testem unha de um a escolh a que, o tempo
todo, está inerente ao ato de traduzir. O u esse ato se do­
bra às in ju n çõ es cu lturais que, desde o in ício da tradição
o cid en tal (de São Jerón im o até N ietz sch e), visam à
apropriação e à redução do estrangeiro, ou en tão, dada a
situ ação privilegiada de entrem eio que é a sua, e le co n ­
testa essas in ju n çõ es e se torna por isso m esm o um ato
cu ltu ral criador; e essa co n testaçã o , elevada à altura de
u m a co n sciê n cia , co m o vem os por exem plo em uin
Panmvitz, é a essência da tradução m oderna. Essa m o­
dernidade, na realidade, não tem nada a ver com aquela
da A thenä u m , aquela da poesia-tradnção m o n o ló g ica .52

52. tila deve estar situada, antes de tudo, na m aneira pela qual a essên­
cia da poesia é concebida: abrir um espaço de diferenciação na dupla re­
lação com o “nativo” e o “estrangeiro”, isso não é de modo algum pró­
prio de Hölderlin e sugerimos que se pudesse encontrar em um G . M.
Hopkins uma visão análoga. Aqui, a poesia é concebida com o diálogo
(Gespräch), e seu elem ento perm anece mais do que nunca a Naturspra-
che. O ra, o espaço da Natursprache é tanto o das línguas quanto o de B a­
bel. A poesia moderna encontra dificuldades em habitar esse espaço, na
medida em que se apega em grande parte ao pensam ento rom ântico. E
a tradução poética conhece a mesma dificuldade.

307
Podem os medir m elhor aind a sua natu reza se exam inar­
m os brevem en te eertas tradu ções do sécu lo 20 que se si­
tuam , evid en tem en te, na lin h ag em de H ölderlin.
Pensemos, por exem plo, na E neida de Klossowski.”
Desde os primeiros versos, o leitor, de início atordoado pe­
las subversões sintáticas que Klossowski, ao tentar restituir
literalm en te o latim de V irgílio, impõe ao francês, vive
um a estranha experiência: certo, ele opera com um francês
latinizado, com o o desejava R. Pannwitz, mas o que é estra­
nho é que essa latinização produz, no sentido forte da pala­
vra, um a série de manifestações. Em prim eiro lugar, é a
epopéia virgiliana que aparece, tal com o ela pôde surgir no
m om ento de sua “form ação”. O que pode nos ajudar a m e­
dir a im portância das notas de G o eth e sobre o “rejuvenes­
cim en to ” que co n h ece um a obra por ocasião de sua tradu­
ção. C ontrariam ente, as traduções m enos literais fecham -
nos todo o acesso à verdade e à im ediatez do dizer épico:

O poema épico de Virgílio é, com efeito, um teatro


onde são as palavras que imitam os gestos [...] São as pala­
vras que tomam uma atitude, não o corpo; que se tecem ,
não as roupas; que cintilam , não as armaduras [...} E por
isso que quisemos, antes de qualquer coisa, nos cingir à
textura do original.’ 1

M as há mais: em um a espécie de reflexo m útuo (ain­


da a Spiegelung goetheana!), são as duas línguas que, no
com bate a que se entregam , aparecem com o que nos con­
fins de si mesmas: o latim no irancês (primeira face da tra­
dução) e o francês investido pelo latim (segunda face) m os­
trando-nos, paradoxalm ente, um puro latim è um puro

53. V IR G IL E . L ’È m ide. Trad. P. Klossowski. Paris: G allim ard, 1964.


54. Ibid., intr. de Klossowski, p. X I - XII.

30 8
francês. Notável, para o leitor que aceita confiar no movi­
mento da tradução de Klossowski, é essa m etam orfose do
francês que o faz aparecer não com o nina infra-uiestiça-
gem de francês e de latim , mas muito mais com o um a lín ­
gua nova, on antes, rejuvenescida e renovada, elevada a um
nível de poder qne lhe era até então desconhecido. Assim,
há certam ente acoplamento de línguas, mas estas, mistu­
rando-se, manifestam tam bém sua pura diferença. O fran­
cês, de um lado, o latim , de outro, e os dois, no entanto,
unidos nesse espaço de m estiçagem que é a tradução e tal­
vez apenas ela.
Pois está claro que quando essa mistura ocorre em
outros lugares, grande é o risco de que ela seja tom ada nas
relações de poder inter-lingüísticas.55 R elações que ten ­
dem a anular a diferença das línguas e, freqü en tem en te,
a sufocar a especificidade da língua dom inada, taxada de
“inferior”. Q uando na verdade o sentido da tradução é
um profundo igualitarism o. Coisa que G o eth e havia pres­
sentido, mas que H ölderlin realizou, assumindo ao m áxi­
mo os riscos que ela com portava: a perda da linguagem
(da linguagem própria, da linguagem sim plesm ente) para
o “país estrangeiro”.

55. Basta pensar nessa massa crescente de textos modernos, ultrapassan­


do largamente a área do técnico ou do diplomático, certam ente “redigi­
dos” em francês, em espanhol, em alem ão, etc., mas parecendo más tra­
duções de um m au inglês que, no entanto, é sen mestre supremo e para
o qual, finalm ente, eles são destinados a ser retraduzidos. “Confusão das
línguas”, verdadeiro “incên dio”, com efeito, o inverso de tuna m estiça­
gem . Ouando lima língua cerca as outras em virtude de sua posição do­
m inante e consente ela própria em se transformar para se tornar uma
“língua universal”, ocorre um processo de destruição generalizado. As
m estiçagens lingüísticas, por outro lado, são fecundas: pensem os, no
âmbito francês, nos falares crioulos, ou nessa língua renovada e enrique­
cida que se elabora pouco a pouco na África negra.

309
E n tre ta n to , a natureza da tradução “lite ra l” (e m ­
pregam os essa palavra na falta de u m a outra, mais nuan-
çad a) é tal q u e ela não pode, em hipótese algum a, se
tra n sfo rm a re m m odelo ou em receita m etod ológica. Da
m esm a m an eira que excede qualquer “in terp retação ”,
ela exced e qu alqu er m etodologia. D igam os que essa tra­
d ução m anifesta-se p rim eiram ente em certos m om entos
históricos e cu ltu rais determ inados, ju stam en te com o
disse R osenzw eig, Bjla surge de um a necessidade pro­
funda da lín g u a, da cultura e da literatu ra, e é essa n e­
cessidade h isto ricam en te perceptível que a preserva da
arbitraried ad e de uma tentativa de exp erim en tação indi­
vidual (c u ja história da tradução, co m o m ostrou Steiner
em After B a h el, c o n h e ce m uitos exem plos). As traduções
de H ö ld erlin , adiantadas para a sua ép oca, eram co n tu ­
do h isto ricam en te motivadas. E este é o caso, em nossos
dias, das tradu ções de um Klossowski. E las correspon­
d em , co m toda a evidência, a um a crise de nossa cu ltu ­
ra e, em p rim eiro lugar, a um abalo de sua posição etn o­
cè n trica . È a crise de um a posição id eológica, cu ltu ral,
literária e p o ética que chegou agora às suas últim as co n ­
seq ü ên cias. Isso não significa que toda tradução deva se
tornar “lite ra l”, porque esse tipo de tradução só tem sen­
tido para um certo tipo de obras, cu ja relação com suas
línguas é tal que ela exige esse aco p lam en to diferencial
da tradu ção literal. Não há caso que seja m ais claro que
o da E n e id a , e Klossowski explicou isso p erfeitam en te.
O co rre o m esm o com a (re)trad u ção da B íb lia , dos gre­
gos, das obras do O rien te e do E xtrem o O rien te e de um
certo n ú m ero de obras ocid en tais. M as, por exem plo,
um a tradu ção literal, ou an glicizan te, de H enry Jam es
não teria sen tid o . N ão se trata obviam en te de “afrance-

310
sar” Jam es, mas sua tradução so licita um outro tipo de
abord agem .56
Estamos ainda longe de dominar toda essa problemáti­
ca, e grande é o perigo de se querer escapar do infinito empi­
rismo da maior parte dos tradutores (a tradução seria coisa de
“intuição”, diferiria de obra para obra, não toleraria teoriza­
ções, etc.), de constituir tipologias um pouco apressadamente.
Resta que Hõlderlin é o primeiro que, pela radicali-
dade de sua empresa, abriu-nos para a necessidade de uma
reflexão global e aprofundada sobre o ato de traduzir na
desconcertante multiplicidade de seus registros.57

56. A qual dependeria, talvez, da psicanálise e da análise textual. Pensemos


nas “correções” que Lacan trouxe para a tradução “canônica” que Baudelai­
re fez de Edgar Poe: elas mostram claramente que a tradução baudelairia-
na, em total proximidade coin o Romantismo, não percebe o jogo comple­
xo dos siguificantes em Poe (Écrits. Paris: Le Senil, 1966. p.33).
57. R EIN H A RD T, Karl em “Hölderlin et Sophocle”, publicado em Po&sie,
li. 23, Paris, 1982, resgatou de forma excelente o sentido da empresa de Höl­
derlin: “As traduções de Hölderlin diferem radicalmente de todas as outras
traduções do grego, até de qualquer outra tradução em geral [...] Traduzir
consiste com efeito, para o poeta, em dar a palavra a uma voz que até então
permanecera muda ein razão da insuficiência de todas as formas sucessivas
de humanismo: Barroco, Rococó ou Classicismo...” (p. 21). tvlais adiante,
fala justamente da “literalidade freqüentemente abrupta e sem arrumação
de suas traduções”, de “seu desvio enigmático, e não menos freqüente, em
relação ao iexto grego original” (ibid). “Se para o purismo clássico o grego
nunca é grego o bastante, a tradução hölderliniana caracteriza-se, inversa­
mente, por sua vontade de reforçar, no grego, o elemento não grego, o
‘oriental”' (p. 24). A esse respeito, e a propósito dos “desvios enigmáticos”, o
autor evoca “a falta de escrúpulos do tradutor que substitui os nomes dos
deuses gregos pelas denominações forjadas em sua própria língua hínica.
Sua poética hespéria, consciente de sua proveniência oriental, autoriza-o a
transpor a etapa intermediária do “confonnismo nacional" dos gregos. Se­
não, Zeus, Perséfone, Ares, Eros, etc. permaneceriam prisioneiros de sua
língua poética convencional, e o ouvido hespério não poderia ser atingido
com o deveria se-lo” (ibid). Assim Hölderlin traduz Zeus por “Pai do Tem ­
po” (ibid). O apagamenlo dos nomes dos deuses, prisioneiros da língua
poética “conven cionai" (hum anista), é, ao lado do retorno às significa­
ções arcaicas do grego, uma outra vertente dessa acentu ação do elem en ­
to “oriental” que caracteriza essencialm ente a tradução hölderliniana de
Sófocles. Literalklade abrupta e sem arrum ações, de um lado, desvio
enigm ático, de outro, vão portanto no mesmo sentido. Nos dois casos, tra­
ta-se de acentuação. Para nós, a acentuação (em um outro contexto, Jac­
ques D errida diz: “a boa tradução deve sem pre ‘abusar’”) é o princípio
fundam ental que Hölderlin tacitam ente legou à tradução ocidental. E
ela que clã o seu espaço de atuação a toda literalklade, singularmente
sintática, que a distingue de toda im itação servil^É ela tam bém que au­
toriza os desvios de tradução que, sem isso, ficam uo dom ínio da varia­
ção estética e tramtextuai. É ela que anula o fenôm eno de “perda” su­
posto de am eaçar qualquer tradução e que motivou o tempo todo sua
desvalorização literária e ética. E ela que, por sua invasão violenta, traz
para nossas margens, em sua pura estranheza, a obra original e, ao mes­
m o tem po, a lera devolta para si mesma, co m o G oeth e o pressentia tam­
bém . Pois toda obra, em seu solo de origem , afasta-se de si mesma de
uma forma ou de outra. E o perigo cio “natal”. A “prova do estrangeiro"
diz respeito à obra enquanto obra tam bém . Q uan to mais ela está anco­
rada em seu elem ento “natal”, mais rica é a promessa, para ela e para
nós, da tradução. E , naturalmente, mais grave é o risco.
Mas o princípio da acentuação, Hölderlin nos ensina também a contraba­
lançá-lo pelo princípio oposto, o da “sobriedade de Juno e do O cidente”.
Só há abuso, invasão, no espaço de uma sobriedade. A sobriedade vela,
por assim dizer, o que a acentuação des-vela. O equilíbrio desses dois prin­
cípios é o que constitui o êxito maior da Eneida de Klossowski e o que dis­
tingue sua literalklade de um palavra por palavra servil e absurdo.
Aprofundar esses dois princípios, a acentuação e a sobriedade, esta é a ta­
refa da reflexão m oderna sobre a tradução.

312
C O N C L U S A o

... I. A arqueologia da tradução

Toda conclusão é uma releitura que se esforça para re-


traçar o cam inho aberto, balizado e articulado pela introdu­
ção, mas cujo percurso mostrou-se parcialmente diferente da­
quilo que estava inicialmente previsto. O presente estudo es­
forçou-se para analisar a teoria da tradução dos românticos ale­
mães, situando-a, por um lado, no conjunto das teorias ou dos
programas destes e, por outro lado, confrontando-a com outras
reflexões que lhe são contemporâneas; as de Herder, de G oe­
the, de Schleierm acher e de 1 lumboldt, que são teorias da Bil­
dung, e a de Hölderlin, que ultrapassa os limites desta e de
toda a sua época. Tentamos igualmente mostrar como a tradi­
ção da tradução na Alemanha, que tem sua origem em Lute-

313
ro, definiu-se com o oposição a uma cultura - a cultura fran­
cesa clássica - cu jo modo de desdobramento não passava de­
cisivamente pela tradução.
Constatou-se, em seguida, que todas as teorias da tradu­
ção elaboradas na época romântica e clássica na Alemanha
constituem o solo das principais correntes da tradução moder­
na ocidental, quer se trate da tradução poética, tal com o ela se
manifesta em um Nerval, um Baudelaire, um M allarmé, um
S. George ou um W. Benjam in, cuja origem deve manifesta­
mente ser procurada na Athenäum, ou das grandes re-tradu-
ções efetuadas na Alemanha no século 20, que podem ser tes­
temunhadas por Humboldt 011 Schleiermacher. As traduções
de Hölderlin, por sua vez, inauguraram uma época da tradu­
ção ocidental que ainda está dando os seus primeiros passos.
Nesse sentido, nosso estudo pode surgir com o uma ar­
queologia da tradução européia, centrada em uma fase-chave
desta no lim iar do século 19. Arqueologia que pertence a essa
reflexão da tradução sobre si mesma - ao mesmo tempo histó­
rica, teórica e cultural doravante inseparável da prática tra-
dutória. Q u e a tradução deva se tornar uma “ciência” e uma
“arle”, com o pensavam da crítica os românticos de lena, esse
é, com efeito, seu destino moderno. Mas isso quer dizer, em
primeiro lugar: aparecer, manifestar-se. A literatura teve, há
dois séculos, seus manifestos. A tradução, por sua vez, sempre
habitou o não-manifesto. “Seja o apagamento a minha manei­
ra de resplandecer”, disse uma vez o poeta tradutor Philippe
Jaccottet.1 Sim , desde tempos imemoriais, foi uma prática

1. Em relação a este apagamento do tradutor, M atthias Claudius deu-lhe


lim a expressão quase trágica: “Wer iihersezt, der untersetzt”, aquele que
traduz fica subm erso. A tradução é o reino das sombras.
O “m anifesto” que constitui o posfácio de A. W. Schlegel para T ieck é
de uma irremediável modéstia se o compararm os com os manifestos crí­
ticos e literarios de seu irmão e de Novalis.

314
ocultada e rejeitada, ao mesmo tempo por aqueles que a rea­
lizavam e por aqueles que se beneficiavam dela. A Alemanha
clássica e romântica, nesse sentido, constitui uma exceção
sobre a qual vale a pena meditar. M as qualquer que tenha sido
a inegável intensidade de sua relação com a tradução, é tam­
bém inegável o fato de que ela não soube, ou pôde, oferecer
senão fragmentos de uma verdadeira teoria da tradução. O fato
de que G oethe, Hõlderlin, os românticos e Humboldt nos te­
nham oferecido, a partir de diversos horizontes, “materiais”
inestimáveis para uma tal teoria foi pressentido, no século 20,
por pensadores como W. Benjam ín, W. Schadewaldt ou F.
Rosenzweig. Mas esses “materiais”, que se referem principal­
mente à dimensão poética e cultural da tradução, devem ser
re-pensados à luz de nossa experiência do século 20 e recolo­
cados 110 campo que é o nosso.
O século 20, com efeito, viu a problem ática da tra­
dução manifestar-se (com a da linguagem e das. línguas) a
partir de diversos horizontes.
E preciso, em prim eiro lugar, m en cio n a r a ques­
tão da re-tradução das obras que são fu n d am en tais para
a cultura o cid en tal: a B íblia p rin cip alm en te, mas tam ­
bém a poesia e a filosofia gregas, a poesia latina e os gran­
des textos que nortearam o nascim en to da literatura m o­
derna (D a n te , Shakespeare, R abelais, C ervan tes, etc.).
E v id en tem en te, toda tradução é so licitad a a en velh ecer,
e é o destino de todas as traduções dos “clássico s” da li­
teratura universal serení, cedo 011 tarde, retraducidas.
Mas a retradução, no sécu lo 20, possui um sentido his­
tórico e cu ltu ral mais esp ecífico : o de nos reabrir o aces-
so a obras c u jo poder de co m o ção e in terp elação acab a­
ra por ser am eaçado ao m esm o tem po por sua “g lória”
(clareza dem ais o b scu rece, brilho dem ais causa) e por
tradu ções p erten cen tes a um a fase da co n sciê n cia o ci­
d ental que não corresponde m ais à nossa. Assim, com o
vimos, nossa visão dos gregos, do Antigo T estam en to 011
até de Sltakespeare é fu n d am en talm en te d iferente da­
quela do C lassicism o , do H u m anism o ou do R om antis­
m o. E ssa vontade de reabrir o acesso aos grandes textos
de nossa tradição histórica co bre ao m esm o tem po o
cam po da tradu ção, da h erm en êu tica e da filosofia. Isso
está claro 110 caso da B íblia: pensem os em B uber, Ro-
senzw eig 011 M e sch o n n ic. M as basta lem b rar das gran­
des re-leitu ras da filosofia grega tentad as por H eidegger
para ver q u e, aqui tam bém , a tarefa do pen sam en to tor­
nou-se um a tarefa da tradução. D a m esm a m aneira que
a h e rm e n ê u tica dos textos sagrados é im pensável sem
um a re-trad u ção destes, não se co n c e b e a rei ei tu ra dos
gregos em H eidegger e seus discípulos sem um a tradu­
ção dos gregos para nós e de nós para os gregos, um a tra­
d ução que se d eclare (para em pregar o v o cab u lário hei-
d eggeriano) “à escuta da palavra grega". E é evidente
que essa o p eração de tradução agora im an en te à filoso­
fia teve (na A lem an h a, mas tam b ém em outros lugares)
um a en o rm e ressonância cu ltu ral. O que é im portante
ressaltar é com o a tradução se torna no século 2 0 um a
preocupação do pensam ento até em seu esforço de releitu-
ra da tradição religiosa ou filosófica ocidental. E nessa
perspectiva que o ato de traduzir se vê, en fim , p ou co a
pou co re co n h e c id o em sua essên cia h istórica. Falando
das grandes tradu ções da história da filosofia, H eidegger
escreve em O Principio da razão:

Q uerem os referir-nos às traduções que, 11a época em


que o tempo delas é chegado, transpõem ( iibertragen )
uma obra do pensamento ou da poesia [...] E 111 tais casos,

316
a tradução não é somente interpretação (Auslegung), mas
tam bém tradição ( Überlieferung). Enquanto tradução, ela
pertence ao movimento mais íntim o da História.2

M as essa preocupação da tradução não diz respeito


som ente, em nosso século, à filosofia e ao pensam ento re­
ligioso. Nós a encontram os tam bém no cam po das “ciên­
cias hum anas” ou, mais precisam ente, nos domínios da psi­
canálise, da etnologia e da lingüística.
As relações da psicanálise co m a tradução são muito
com plexas e não temos a pretensão de medir toda a sua am­
plidão. E bem conhecido que Freud chegou à França por
interm édio de traduções que tendiam a desnaturar o essen­
cial de sua inventividade conceituai e terminológica. Foi
preciso que Lacan, com a mesma paciência de um Heideg­
ger com os textos gregos, interrogasse a escritura de Freud
num esforço de leitura-tradução para nos abrir, por um
lado, os Grundwörter freudianos (Trieb, A nlehnung, Vernei­
n u n g, etc.) e, por outro lado, a infinita complexidade da tra­
ma de sua língua e de suas imagens. Nesse caso, vemos a
(re)tradução se tornar igualm ente um a das maiores preocu­
pações de uma reflexão e o cam inho que reabre o acesso au­
têntico de um pensam ento. M as a psicanálise m antém , sem
dúvida, uma relação ainda mais profunda com a tradução,
na medida em que interroga a relação do hom em com a lin­
guagem , as línguas e a língua dita “materna” de uma manei­
ra fundam entalm ente diferente daquela da tradição. Inter­
rogação que é acom panhada por uma reflexão sobre a obra
e a escritura, convocada, evidentem ente, a abalar pouco a
pouco nossa visão destas e, sem dúvida, contribuir para uma
viravolta da literatura. As poucas notas ainda esparsas que se

2. Ill: S T Ö R 1 G . O p. cit., p. 370.

317
podem encontrar em L acan, O. M annoni, Abraham e ' I b-
rok, etc., a propósito, da tradução tam bém poderiam, se de­
senvolvidas, mudar uma certa consciência do ato de tradu­
zir e dos processos que estão em jogo nisso - certam ente 110
nível do próprio tradutor (o tradutor é este indivíduo que re­
presenta, em sua pulsão de traduzir, toda uma comunidade
em sua relação com uma outra comunidade e suas obras),
mas igualm ente no nível do que cham am os traduzibilidade
da obra. R enan dizia:
u**-

U nia obra não traduzida só é publicada pela m etade.1

Q ual é — profundam ente - essa falta que a tradução


julga suplantar? Q ual face escondida da obra, qual reverso
do texto devem por ela aparecer? Se quisermos ir além da
noção rom ântica de “p otencialização”, aprofundar a per­
cepção goetheana do “reflexo” rejuvenescedor, precisare­
mos talvez de uma teoria da obra e da tradução que recor­
ra ao pensam ento analítico.
A etn o lo g ia, à sua m an eira, en co n tra tam bém o
problem a das línguas, das culturas e da tradução. Seria
talvez porque ela tam bém , enquanto discurso sobre o es­
trangeiro (e sobre o que se presum e ser o mais estrangei­
ro: o “selvagem ”), con stitu i um tipo de tradução, expos­
to à m esm a alternativa que o tradutor de S ch le ie m ia -
ch er: levar o leito r ao estrangeiro, ou levar o estrangeiro
até o leitor. E evidente que o tradutor m oderno, p reocu ­
pado em lu tar contra o etn o cen lrism o (um a luta in fini­
ta), pode aprender m uito co m as reflexões, por exem plo,
de um C lastres ou de urn Ja u lin . A coisa é tão clara

3. Ibid., p. VIU.

318
quanto o fato de que a escritura etn o ló g ica deva se tornar
even tu alm en te (e essen cialm en te) um a tradução: pense­
mos na obra Le G ra nd Parler de C lastres4 ou nas tradu­
ções que o escritor-etnólogo peruano J.-M . Arguedas fez
das poesias quéchnas.
A lingüística (à qual convém acrescentar as próprias
pesquisas, orientadas para questões lingüísticas, da filosofia
analítica anglo-saxã) tam bém encontra, por sua vez, a tra­
dução com o uma realidade que lhe é im anente. Pensemos
neste texto célebre de R. Jakobsou, “Aspectos lingüísticos
da tradução”:

A equivalência na diferença é o problem a cardinal da


linguagem e o principal objeto da lingüística. C o m o todo
receptor de mensagens verbais, o lingüista se comporta
com o intérprete dessas mensagens. N enluim espécim e
lingüístico pode ser interpretado pela ciência da lingua­
gem sem uma tradução dos signos que o com põem para
outros signos pertencentes ao mesmo sistema ou a um ou­
tro sistema. Assim que se comparam duas línguas, questio­
na-se sobre a possibilidade de tradução de uma para a ou­
tra e reciprocam ente; a prática estendida da com unicação
interlingual, em particular das atividades de tradução,
deve ser um objeto de atenção constante para a ciência da
linguagem .’

E notável que, nesse texto, Jakobsou defina ao mes­


mo tempo o objeto da lingüística (a linguagem e seus pro­
cessos de “equivalência na diferença”) e a prática dessa
ciência em termos de tradução. Na verdade, trata-se nova­
m ente aqui de tradução generalizada:

4. C L A S T R E S . Le grand parler. Paris: Le Seu il, 1974. p. 15: “Traduzir


os guaranis é traduzi-los ein guarani [...] Fidelidade à letra a fini de con­
servar o espírito”.
5. Essais de linguistique générale. Paris: Points-Seuil, 1978. p. 80.

319
Para o lingüista, assint com o para o usuario com um da
linguagem , o sentido de um a palavra não é nada mais do
que sua tradução para lan outro signo que pode snbstituí-
lo, especialm ente um signo “110 qual ele se encontra mais
com pletam ente desenvolvido”, com o ensina Peiree [...]
Distinguimos três maneiras de interpretar um signo lin­
güístico, conform e o traduzimos para outros signos, da
m esm a língua, muna outra língua, ou num sistema de
símbolos não lingüísticos.6

Essa tradução generalizada, no interior da qual Ja-


kobson situa a “reform ulação”, a “tradução propriamente
dita” e a “transm utação”, num a tentativa de dom inar o ca­
ráter indom ável do conceito de tradução, está ela própria li­
gada, para ele, ao que havíamos denom inado, a propósito
dos rom ânticos, a estrutura reflexiva da língua:

A faculdade de falar unja dada língua im plica a de falar


dessa língua.7

D e novo vemos ligadas, com o para Novalis (mas


num rewording que não tem mais nada de especulativo), a
reflexividade e a traduzibilidade.
A lingü ística não é, sem dúvida, apenas urna discipli­
na que se d eclara “científica” e cu jos conh ecim en tos per­
m aneceriam tão exteriores à nossa experiência quanto a-
queles, por exem plo, da física m atem ática. Ela é uma cer­

6. Ibid., p. 7 9 . Esse m ovimento pelo qual um signo vem a ser traduzido


por um outro que o “desenvolve mais co m p letam en te” não poderia evo­
car a “pofenciaÜ zação" rom ântica? A lingüística m oderna julga certa­
m ente o poem a intraduzível, mas não poderíamos refletir sobre o que o
m ovim ento da reform ulação tradutória possui de positivo em vez de ape­
nas sublinhar perpetuam ente a sua insuficiência? G an h o e perda, des­
perdício e desenvolvimento “mais com pleto" estariam situados 110 mes­
m o plano? Essa é urna dimensão que é preciso explorar.
7. Ibid.

320
ta percepção da linguagem e da relação do hom em com a
linguagem , ainda que não seja, com o a tradução, uma ex­
periência. Nesse sentido, é preciso afirmar que a tradução
nunca pode constituir um simples ramo da lingüística, da
filologia, da crítica (com o acreditavam os românticos) ou
da herm enêu tica: ela constitui - quer se trate de filosofia,
de religião, de literatura, de poesia, etc. — um a dimensão
sui generis. El' produtora de um certo saber. Mas essa expe­
riência (e o saber que ela engendra) pode ser, em com pen­
sação, esclarecida e em parte transformada por outras expe­
riências, outras práticas, outros saberes. É claro que a lin­
güística, no século 20, pode enriquecer a consciência tra-
dutória; o inverso, aliás, é igualm ente verdadeiro. A lingüís­
tica de um Jakobson interroga os poetas, ela poderia tam ­
bém interrogar os tradutores. È exatam ente esse jogo recí­
proco que propõe, no Brasil, um Haroklo de C am pos.9
As traduções e as reflexões sobre a poesia, a crítica e
a tradução de Ezra Pound são aqui de uma importância
fundam ental e seria interessante confrontar a teoria da crí-
tica-tradução (critícism hy translation) com as teorias ro­
m ânticas da tradução-crítica. As reflexões de Pound, com o
as de M esch onn ic, de Po&sie, de C h a nge, tentam definir o
que podem ser, no século 20, uma teoria e uma prática da
tradução poética.
Nosso objetivo aqui não era o de mostrar um panorama
(forçosamente muito sumário e parcial) dos esforços atual­
mente feitos em matéria de teoria da tradução, mas, antes de
tudo, sublinhar isto: o campo da tradução, que praticamente

8. C A M P O S , Haroklo de. “D e la traduction com ine création et com m e


Critique”, Gliciuge, “Transform er, Traduire”, n. 14, fev., 1973. O que é
apresentado nesse artigo é o problema da relação da tradução com a
criação literária, a crítica e a lingüística.

321
se descentralizou e se estruturou 110 nível internacional,'' co­
meça lentam ente, muito lentam ente, a se desocultar e a se
afirmar como 11111 campo próprio, 11a medida em que os diver­
sos dominios nos quais “problemas” de hadução são colocados
interrogam-se (freqüentemente pela primeira vez) sobre o tra­
duzir e seus diversos registros. Pois a tradução não é 11111a sim­
ples mediação: é 11111 processo no qual entra em jogo toda nos­
sa relação com o Outro. Essa consciência, que a Alemanha ro­
mântica e clássica já possuía, ressurge com 11111a força tão
grande que todas as certezas de nossa traUição intelectual e até
de nossa “modernidade” ficam abaladas. Esperamos que seja
necessário retraduzir muito; que seja necessário passar, sem
cessar, pela prova da tradução; que, nessa prova, tenhamos de
lutar sem tréguas contra nosso reducionismo nato, mas tam­
bém permanecer abertos para o que, em toda tradução, per­
m anece misterioso e indomável, precisamente falando in-visí-
vel (a face da obra estrangeira que vai surgir em nossa língua,
nós ignoramos a sua natureza, quaisquer que sejam os nossos
esforços para fazer falar, a qualquer preço, a voz dessa obra em
nossa língua); que possamos esperar muito dessa empresa de
tradução “excêntrica", talvez 11111 enriquecimento de nossa
língua, talvez até mesmo um redirecioiiamento de nossa cria­
tividade literária; que possamos interrogar o ato de traduzir em
todos os seus registros, abri-lo às outras interrogações contem­
porâneas,111 refletir sobre a sua natureza, mas também sobre a

9. Certo. M as as características nacionais sobrevivem. A França continua


sendo uma zona cultura! onde se traduz menos do que na Alemanha e
onde a tradução etnocêntrica, cada vez mais perseguida, conserva sóli­
dos bastiões.
10. N otadam ente àquelas que procuram enunciar as condições de um
diálogo com as outras culturas - com as culturas outras. Pensemos nas
obras de um Massignon, de um B erqu e, de 11111 Clastres, etc. A tradução
moderna deve ser dialógica.
sua história, assim com o sobre a de sua ocultação - eis o que
nos parece caracterizar a idade atual da tradução.
Quando lemos tudo o que a idade clássica e rom ân­
tica alem ã pôde escrever sobre o ato de traduzir e as suas
significações (culturais, lingüísticas, especulativas, etc.),
não encontram os som ente um certo núm ero de teorias que
continuam , de uma forma ou de outra, a bem ou mal de­
terminar nosso presente. Encontram os nelas uma cons­
ciência e, sobretudo, tuna habitação da linguagem essen­
cialm ente menos ameaçadas que as nossas.
Tom em os, por exemplo, o caso da am pliação de nos­
sa língua que esperamos da tradução não etnocêntrica. E
claro que a Alem anha de G oethe e de Schleierm ach er es­
perava os mesmos ganhos de suas empresas de tradução,
ainda que o horizonte dessas empresas nos pareça hoje li­
mitado demais. M as, nesse intervalo, ocorreu um fenôm e­
no que muitos autores de nosso século denunciaram e que
diz respeito à destruição da Sprachlíchkeít, da capacidade
falante das grandes línguas modernas, em proveito de uma
língua-sistema de com unicação cada vez mais exaurida de
espessura e de significâucia próprias. Pode-se pensar aqui
no em pobrecim ento da criatividade oral, na morte dos dia­
letos, no afundamento da literatura em um espaço cada vez
mais cerrado, no qual ela se torna cada vez m enos capaz de
“figurar” o mundo. A degradação da linguagem (da lingua­
gem natural), este é certam ente um lugar-comum. Nosso
lugar-comum. Steiner, no final de After Bahel, soube evo­
car os perigos que am eaçam o inglês pianetarizado. Esses
perigos referem-se, a bem dizer, a todas as línguas e a todas
as dimensões de nossa existência. Eles situam doravante a
tarefa de traduzir sob uma nova luz ou, se não for nova,
peio menos infinitam ente mais ampla: trata-se de defender
a língua e as relações inter-línguas contra a hom ogeneiza­
ção crescente dos sistemas de com u nicação. Pois é todo o
reino das pertinências e das diferenças que estes colocam
em perigo. A niquilam ento dos dialetos, dos falares locais;
banalização das línguas nacionais; nivelam ento das dife­
renças entre estas em proveito de um m odelo de não-lín-
gua para o qual o inglês serviu de cobaia (e de vítim a), mo­
delo graças ao qual a tradução autom ática se tornaria pen-
sável; proliferação cancerosa, no seio da língua com um ,
das línguas especiais" - há nisto uni processo que ataca
profudam ente a linguagem e a relação natural do hom em
com a linguagem . Re-abrir os cam inhos da tradição; abrir
um a relação en fim exata (não dom inante, não narcisista)
com as outras culturas e, notadam ente, com aquelas da­
quele que se tornou agora o “Terceiro M u n d o ”; m obilizar
os recursos de nossa língua para colocá-la à altura dessas di­
versas aberturas é evidentem ente lutar contra esse fenôm e­
no destruidor, m esm o que h aja outras maneiras de co n ju ­
rá-lo. Isto talvez seja o essencial da con sciên cia tradutória
m oderna: um a exigência m áxim a de “saber” ao serviço de
uma certa re-alunentação da capacidade falante da lingua­
gem , cle um a certa m aneira lúcida de habitar e de defender

] 1. “Pois enquanto as línguas especiais - elas sem pre existiram - se jus­


tapunham outrora m uito bem à língua conm m , eis qite elas a penetram
bem além cias necessidades que poderiam justificá-la. A palavra ‘'douta”
suplanta m enos a palavra apropriada do que confirm a a sua superfluida­
de: ninguém precisa significar apropriadamente - mostrar alguma coisa.
Fala-se de “novos recortes” para o que é apenas a interpretação do ‘'real"
com o “recortável” em problemas que nem m esm o são mais “novos ob­
jetos” (M A R T IN E A U , E . “La langue, creation collectiv e”. Po&sie, n. 9,
Paris: B elin ). Esse processo, ligado a todos os outros, inaugura vastas di­
m ensões de não-tradnção na vida cultural, ou antes, de dimensões nas
quais a tradução perdeu todo o seu sentido.
Babel na hora cm que a Tòrre-das-M últiplas-Línguas (isto
é, a das D iferenças) está am eaçada pela expansão de um
jargão destruidor que não é nem m esm o o esperanto, esse
sonho hum anista ingênuo que revela agora sua verdadeira
face de pesadelo.
A história da tradução ocidental ainda não foi escri­
ta. A consciência tradutória moderna é impensável sem um
saber de sua história: de suas origens, de suas épocas, de
seus extravios. Possa o presente trabalho constituir pelo m e­
nos o esboço da escritura de um dos capítulos mais cativan­
tes dessa história.

s .... II. A tradução com o novo objeto do saber

A tradução com o novo objeto de saber: isso significa


duas coisas. Prim eiram ente, o fato de que, com o experiên­
cia e operação, ela é portadora de um saber sui generis so­
bre as línguas, as literaturas, as culturas, os m ovimentos de
intercâm bio e de contato, ctc. Esse saber suí generis, seria
o caso de m anifestá-lo, de articulá-lo, de confrontá-lo com
os outros modos de saber e de experiência a que se referem
esses dom ínios. E nesse sentido, é preciso considerar antes
a tradução com o sujeito de saber, com o origem e fonte de
saber.
Em segundo lugar, esse saber deveria, para se tornar
um “saber” no sentido estrito, tomar um a forma definida,
quase institucional e estabelecida, própria a permitir seu
desdobramento num cam po de pesquisa e de ensino. E o
que quisemos cham ar às vezes de “tradutologia” (outros no­
mes m enos felizes foram igualm ente sugeridos). Mas isso
não quer dizer, pelo m enos de início, que a tradução se tor­
naria o objeto de uma “disciplina” específica referindo-se a
uma “região” ou um “dom ínio” separados, na medida mes-

3 25
ma em que, justam ente, ela não é alguma coisa de separa­
do. D e fato, a tradutologia, com o forma ou cam po de sa­
ber, poderia ser, prim ordialm ente, aproximada dessas for­
mas de “discursos” recentes que são a “arqueologia” de M i-
cliel Foucault, a “gram atologia” de Jacques D errida ou a
“poetologia” desenvolvida na Alem anha por Beda Ale-
mann. Pois, mais do que disciplinas “regionais”, trata-se
aqui da em ergência de tipos de reflexão que se referem a di­
mensões já recortadas por outras disciplinas constituídas,
mas recortadas de tal modo (ou justam ente porque houve
recorte) que a riqueza im anente de seu conteúdo não pode
mais aparecer plenam ente.
A tradução constitui um a tal dimensão. Portadora de
um saber próprio, ela só pode ser o sujeito desse saber se
der acesso a uma tradutologia 110 sentido aqui esboçado.
Será o caso, assim, de fundar - 011 de radicalizar as
tentativas de fundação já existentes, freqüentem ente deci­
sivas —um espaço de reflexão e, portanto, de pesquisa. Esse
espaço, com o havíamos indicado no início desta obra, co­
brirá sim ultaneam ente o cam po da tradução 110 seio dos
outros cam pos de com u n icação interlingüísticos, interlite-
rários e interculturais, a história da tradução e a teoria da
tradução literária, “literária” englobando tanto a literatura
no sentido estrito quanto a filosofia, as ciências humanas e
os textos religiosos. O saber que tomará com o tema esse es­
paço será autônom o: não dependerá em si nem da lingüís­
tica pura ou aplicada, nem da literatura com parada, nem
da poética, nem do estudo de línguas e literaturas estran­
geiras, etc., ainda que todas essas disciplinas reivindiquem,
cada uma a sua m aneira, o cam po da tradução. Entretan­
to, na m esm a medida em que esse cam po cruza, por sua
natureza, um a m ultiplicidade de domínios e, principal­
m ente, os das disciplinas m encionadas, haverá forçosam en­

326
te interação entre estas e a tradutologia. N enhum a reflexão
sobre a tradução pode fazer a econom ia dos beneficios da
lingüística e da teoria da literatura. A tradutologia é por ex­
celen cia interdisciplinar, precisamente porque se sitúa en­
tre disciplinas diversas, freqüentem ente afastadas umas das
outras.
Seu ponto de partida se baseia em algum as hipó­
teses fu n dam entais. A prim eira é a seg u in te: sendo 11111
caso p articular de co m u n icação in terlin g ü ística, Ínter-
cultural e interliterária, a tradução é tam b ém o modelo
de qualquer processo desse gênero. G o eth e nos ensinou
isso. Isso significa que todos os problem as que essa co­
m u n icação pode trazer surgem claram en te, co m o se es­
tivessem concentrados na operação da tradu ção, e que é,
por consegu inte, possível com p reend er e analisar os ou­
tros modos de in terco m u n icação a partir do h orizonte da
tradução. Podemos dizer que esta ocupa 11111 lugar análo­
go ao da lingu agem no seio dos outros sistem as de sig­
nos: co m o disse B enveniste, a lingu agem é, em um cer­
to sentido, apenas 11111 sistem a de signos en tre outros;
mas, em um outro sentido, é o sistem a dos sistem as,
aqu ele que perm ite interpretar todos os outros. E n co n ­
trarem os a confirm ação desse fato 11a relação de encaixe
recíp ro co que possuem a teoria generalizada da tradução
e a teoria restrita. D e Novalis a C eo rg e S tein er e M icliel
Serres, vim os edificarem -se teorias nas quais-qualquer
tipo de “troca” (de “translação”) é interpretado com o
uma tradução, não som ente 110 d om ínio estético , mas
tam bém 110 das ciências e, fin alm en te, 110 da experiên­
cia hum ana em geral. D essa singular extensão do co n ­
ceito de tradução, encontram os igu alm ente uin traço 110
texto clássico que R om an Jakobson consagrou à tradu­
ção. Essa teo ria generalizad a da trad u ção, ou, co m o diz
M ic h e l Serres, da “d u cçã o ”, foi re ce n te m e n te criticad a
por H enri M e sc h o n n ic . A extensão do c o n c e ito acabaria
por privá-lo de qu alqu er co n teú d o e haveria, ao co n trá­
rio, vantagem em elaborar unia teoria restrita da tradu­
ção. Todavia, é u m fato que esse c o n c e ito não cessa de
transbordar q u alq u er d efin ição que se possa dar dele.
E sse transborciam ento sem ân tico - e ep istem o ló g ico -
p arece inevitável e correspond e, além disso, à p ercep ção
co rren te: a trad u ção é sem pre bem m ais qu e a tradução.
C on vém portanto articu lar um a teoria restrita e uma
teoria g en eralizad a da tradução, sem todavia dissolver
(co m o é o caso nos rom ânticos alem ães) a prim eira na
segunda. O que rem ete a dizer que essa teoria restrita
deveria fu n cio n a r co m o o arquétipo de qu alqu er teoria
das “trocas” ou das “tran slações”. A posição desse arqué­
tipo caracteriza-se por um paradoxo: sua u nicidade. A re­
lação que liga u m a tradução ao seu original é ú nica em
seu g ên ero. N e n h u m a outra relação - de um texto para
um outro, de u m a língua para um a outra, de um a cu ltu ­
ra para uma outra — lhe é com parável. E é ju stam en te
essa u nicid ad e q u e faz a espessura significante da tradu­
ção ; in terp retar os outros in tercâm b io s em term os de tra­
d ução é q u erer (co m ou sem razão) lhes dar essa m esm a
espessura sig n ifican te.
A segunda hipótese da tradutologia é que a tradução,
quer se trate de literatura, de filosofia ou até de ciências hu­
m anas, desem penha um papel que não é o de simples
transmissão: esse papel, ao contrário, é teiidencialrnente
constitutivo de toda literatura, de toda filosofia e de toda
ciência hum ana. G iordano Bruno exprimiu-o com todo o
lirism o próprio a sua época:

328
D a tradução vem toda ciência.

O caráter hiperbólico dessa frase não deve mascarar


a verdade de seu conteúdo. Explicitarem os aqui brevem en­
te em que a tradução desempenha esse papel constitutivo e
em que - esse corolário é decisivo - ela perm aneceu ocu l­
ta e negada com o m om ento constitutivo, para apenas sur­
gir com o um a simples operação de m ediação (do sentido).
Se a tradução não fosse ocultada com o fator constitutivo (e
portanto histórico) da literatura e do conhecim en to, algu­
m a coisa com o a “tradutologia" existiria h á muito tempo,
do m esmo m odo que a “crítica”.
Mas, com o vimos, assim que se toca na tradução,
aborda-se um dom ínio rechaçado, rico em resistências.
No âm bito da literatura, a m oderna poética e até
m esm o a literatura com parada12 mostraram que a relação
das obras (escritura primeira) com a tradução (escritura se­
gunda) caracteriza-se por uma produção recíproca. Longe
de ser som ente, com o a define ainda o Direito, a simples
“derivação” de um original suposto absoluto, a tradução
está a priori presente em todo original: toda obra, quão lon­
ge possamos recuar, já é, em diversos graus, um tecido de
traduções ou uma criação que tem algum a coisa a ver com
a operação tradutória, na medida mesma em que ela se co­
loca com o “tradu/.ível”, o que significa sim ultaneam ente:
“digna de ser traduzida”, “possível de traduzir” e “devendo
ser traduzida” para atingir sua plenitude de obra. Possibili­
dade e in ju n ção de tradução não definem um texto ulte­
riorm ente: elas constituem a obra com o obra e, de fato, de-

.12. Ver por exem plo os trabalhos de BAK H T1N , de G E N E 1 T E , G „


de L A M B E R T, J.

329
vem levar a um a nova definição de sua estrutura. Isso pode
ser facilm ente verificado ao se analisarem a literatura lati­
na ou as obras medievais.13
Isso não deixa de ter conseqüências para disciplinas
com o a poética, a literatura com parada ou o estudo das lín ­
guas e literaturas estrangeiras. A análise das Iranstextua!ida­
des em preendida m etodicam ente pela poética supõe, ao
lado das pesquisas referentes à bipertextualidade, a inter-
textualidade, a paratextualidade e a m etatextualidade, uma
reflexão sobre essa transtextualidade específica que é a tra­
dução, seguindo o fio condutor intuitivamente indicado
por J. L. Borges:

Ningún problema tan consustancial con Ias letras y con


su modesto misterio com o el que propone una traducción.14

Novalis e A. W. Selílegel, mas tam bém Baudelaire,


Proust e Valéry, tiveram a intuição dessa relação “consubs­
tancial” entre as “letras” e a tradução. Eles chegaram até
m esm o a afirmar que a operação do escritor e a do tradutor
eram idênticas.15 Entretanto, convém marcar os limites des-

13. BAKH TIN: “Podemos dizer sem rodeios que a prosa romanesca euro­
péia nasce e s e elabora em um processo de tradução (transformadora) das
obras de outrem ” (Esthétique et théorie da ruinan, Paris, G all¡m ard,J978, p.
193). “Uní dos melhores conhecedores da parodia medieval. Paul Leh-
niann, não hesita ao afirmar que a historia da literatura medieval, e a lati­
na ém particular, é 'a história da adoção, do remanejamento e da imitação
do bem de outrem’” (ibid., p. 4 26). A historia das traustexlualidades e das
traduções constitui um domínio que Baklitin só faz aflorar.
14. B O R G E S , j. L. “Las versiones hom éricas",apud ST E 1N E R . After
Babel. p. 4.
15. VALERY, P.: “Escrever o que quer que seja f...| é um trabalho de
tradução exatam ente comparável àquele que opera a transmutação de
um texto de unia língua para unia outra” (Variations sur les Bucoliques.
Paris: G alliniard, 1957. p. 24).

330
sa identificação tão tipicamente romântica: esses limites são
definidos pela irredutibilidade da relação original-tradução.
Q ualquer tradução só tem sentido com o tradução de um ori­
ginal. A literatura, por sua vez, não conhece nenhum a rela­
ção desse gênero, mesmo que tenha a nostalgia dela.16
A literatura comparada, de modo sem elhante, supõe
a “tradutologia” com o um com plem ento parcialm ente in­
tegrável. O estudo comparado das diferentes literaturas se
baseia evidentem ente em sua interação. O ra, esta tem
com o condição de possibilidade as traduções. Não há “in­
fluências” sem traduções, ainda que (de novo o encaixe re­
cíproco) possamos afirmar tam bém o inverso.
No domínio filosófico, a tradução desempenha igual­
m ente um papel essencial. Historicamente, a filosofia desen-
volveu-se, dos gregos aos romanos, da Idade Média ao Renasci­
mento e mais além, por uma série de traduções que constituí-
,ram bem mais que uma simples “transferência de conteúdos”.
C om o Heidegger mostrou, a propósito da tradução dos concei­
tos aristotélicos ou do “princípio da razão”, as principais
Gmndwort (palavras fundamentais) que articulam o discurso
filosófico foram sempre traduzidas por um processo no qual in­
terpretação e neologia, empréstimo e reformulação coexistiam
ou alternavam. E toda tradução de um Gmndwort ocasionou
uma nova percepção das filosofias passadas ou presentes: pen­
semos na Aufhehung hegeliana transformada em “releve" com
Jacques Derrida. Á história dos “erros” de tradução filosófica
constitui um dos capítulos mais cativantes desse processo. Pois
esses “erros” nunca são insignificantes.17 No século 20, a tradu­

16. Disso se conclui, com o mostrou Walter Benjam ín, que a tradução de
uma tradução é impossível, pois desprovida de sentido.
17. C f. K O Y R E , A. para as ciências. “Traduttore-traditore: à propos de
C opernic et de G aliiée". Is/s, n. XX X IV , 1943.
ção entrou no horizonte filosófico como uma questão explícita
e cnicial com pensadores tão diferentes quanto Wittgenstein,
Karl Popper, A. Q uine, í leidegger, Gadamer e, mais recente­
m ente, M icliel Serres e sobretudo Jaeques Derrida,
R eencontram os nas modernas ciências hum anas o
m esm o “círcu lo ”, o m esm o entrelaçam ento essencial entre
a tradução e a constituição de uma disciplina. A psicanáli­
se, com o já vimos, encontrou inicialm ente a tradução
com o um dos problem as de sua própria renovação. Mas
isso a levou, sem cessar, a se in te r r o g a i na is sobre a essên­
cia da tradução e — o que nos importa aqui - a redescobrir
o lugar que ocupava, no próprio interior do pensamento de
Freud, o conceito de tradução com o conceito operacional.
E o que testem unha um a carta endereçada a Fliess pouco
antes do surgim ento da Traiandeutiing:

Para mim, a explicação da particularidade das psico-


neuroses é que a tradução, para certos materiais, não se
efetuou, o que tem certas conseqüências [...] A supressão
da tradução é o que se cham a clinicam ente recalque. O
motivo deste é sempre um desligamento do desprazer que
ocorreria pela tradução, com o se esse desprazer provocas­
se uma perturbação do pensam ento que; não admitisse o
trabalho de tradução,'*'

O O rientalism o tam bém supõe a problem ática da


tradução. Por 11111 lado, a própria pesquisa é acom panhada
por traduções, seja de obras, seja de citações, seja de

18. In: “C o m m e n tp e u t-011 traduire Hafiz... ou Freud?”, de Bernard T h is


e Pierre T hèves, p. 41 do importantíssimo núm ero de Meta (jornal dos
tradutores) sobre “Psicanálise e tradução", publicado em m arço de 1932
em M ontreal, a qual traz elem entos decisivos sobre a relação da psica­
nálise com a tradução. Para o lugar do conceito de tradução na obra de
Freud, rem eterem os nesse núm ero ao artigo de M A H O N Y , Patrick. “To-
ward the Understanding o f Translation in Psychoanalysis”. p. 63-71.

332
Grundwõrter. Por outro lado, a própria essência de sen pro­
jeto supõe, com o indicado por Massignon, 11111 certo “des-
centram ento" que é ele próprio um m om ento essencial da
operação de tradução: traduzir-se-em-direção-a...

Para com preender o outro, não se deve anexá-lo, mas


tornar-se sen hóspede [...] Compreender alguma coisa de
outrem não é se anexar à coisa, é traitsferir-se, por um des-
centram ento, para o próprio centro do outro.1''

Edwárcl Saíd, em O Orientalismo —obra por sinal mui­


to controversa —, mostrou que o Orientalismo encontrou-se his­
toricamente mal armado para enfrentar a problemática de seu
necessário descentramento, na medida em que uma certa so­
brecarga ideológica, no século 19, conduziu-o a traduções “et-
nocêntricas”. Essa “supressão de tradução”, para retomar a ex­
pressão de Freud, assinala uma “supressão” orgânica dessa dis­
ciplina, da qual ela se desfaz progressivamente. Mas assinala
também o ponto em que uma tradutologia pode cooperar com
ela. C om efeito, um dos eixos desta é elaborar uma teoria da
tradução não etnocêntrica cujo campo de aplicação é generali­
zado. Essa teoria é simultaneamente descritiva e nonnativa.
Descritiva na medida em que analisa muito precisa­
m ente os sistemas de deformação que pesam sobre toda
operação de tradução e pode, a partir dessa análise, propor
um contra-sistem a.2" Normativa na medida em que as alter-

19. In: M P S C H O N N IC . Pour la Poétique II. Paris: Gallimard, 1973. p. 411-


2.
20. O sistema de deform ação pode ser definido em primeira instância
por tendências co m o a racionalização, o esclarecim ento, o alongamen­
to, o em pobrecim ento qualitativo, o em pobrecim ento quantitativo, a ho­
m ogeneização, a destruição dos ritmos, a destruição das redes significan­
tes subjacentes, a destruição dos sistematismos de um texto, a destruição
dos termos vernaculares ou sua exotização, o «pagam ento das superposi­
ções de línguas, o funcionam ento de horizontes literários inadequados.
Para uma análise parcial dessas tendências, ver nosso artigo “La traduc­
tion des œuvres latino-am ericaines’Mn: Lendemains. B erlim , 1982.
nativas que ela define a respeito do sentido da tradução são
constrangedoras. Essas alternativas ultrapassam de longe as
tradicionais divisões da teoria da tradução entre “defensores
da letra” e “defensores do sentido”. Cada dom ínio pode as­
sim elaborar uma metodologia própria de tradução a partir
desse quadro. Por exemplo, não cabe à tradutologia estatuir
sobre os problemas da tradução na poesia chinesa, pois, se
ela descesse a esse nível, está claro que sua tarefa seria em ­
piricam ente infinita. Mas existe 11111 nível em que os pro­
blemas são os mesmos para um sinólogo, 11111 especialista
da literatura sérvia 011 dos trágicos gregos. Esse nível diz res­
peito à própria problem ática da tradução e o sistema de
constrangim entos que o francês (e sem dúvida qualquer
grande língua “nacional”) traz à tradução. Esse nível é o da
pura competência tradutória. E é o que faz falta ¿1 maior
parte dos especialistas de 11111 dom ínio; que macula suas
tentativas de tradução de ingenuidade epistemológica. Isso
ocorre porque, ao reconh ecer que a problem ática da tradu­
ção é para eles essencial (trata-se parcialm ente do devir de
sua disciplina), eles acabam por rebaixar essa problemática
ao nível de um simples procedim ento técnico. Nessa fase,
somos confrontados mais um a vez com o estatuto oculta­
do, negado, da tradução e com as violentas resistências que
ela suscita.
Essas resistências constituem 11111 capítulo essencial
da tradutologia. Elas parecem ser originariam ente de or­
dem religiosa e cultural. E m 11111 prim eiro nível, elas se or­
denam ao redor do intraduzível como valor. O essencial de
um texto não é traduzível, ou, supondo que o seja, ele não
deve ser traduzido. No caso da B íblia, é a tradição judaica
que representa essa posição extrema. Exatam ente com o a
“L ei” não deve ser “traduzida” do oral para o escrito, o tex­
to sagrado não deve ser traduzido para outras línguas, sob

334
pena de perder seu caráter “sagrado”. Essa dupla recusa in­
dica em profundidade o laço essencial do escrilo e da tra­
d ução, para m elhor questionar os dois. A rejeição da tradu­
ção atravessa toda a história do O ciden te, com o dogma,
nunca explicitado, praticam ente sem cessar refutado, da
intraduzibilidade da poesia, sem falar da famosa “objeção
antecipada” feita à tradução em geral.21 Um exemplo re­
cen te mostrará a surda persistência dessa rejeição. E m mu
artigo consagrado à necessidade da difusão da língua e da
literatura francesas, Bernard Catry evoca a possibilidade de
estimular, em caráter oficial, “a tradução em língua estran­
geira das obras francesas”. Isso poderia conduzir, estima o
autor, os leitores estrangeiros a ler ulteriorm ente essas m es­
mas obras em sua língua de origem e, assim, a aprender o
francês. E ele acrescenta de passagem:

Bem entendido, Sartre em inglês não é mais Sartre.21

O “bem entendido” que abre essa pequena frase in­


dica que Catry considera a tradução com o um paliativo e
com o uma total traição. Há nesse caso uma desvalorização
que não c de forma alguma explicitada. E evidentem ente
toda uma cultura (nesse caso, a da França) que defende
seus próprios “monstros sagrados” contra o “exílio” que é a
tradução.
Com preende-se, por conseguinte, que a tradução
seja considerada com o suspeita e finalm ente negativa cu l­
turalm ente. Em um outro pólo, é antes sua espessura signi-

21. C f. a esse respeito 1ADM IRAT., J. -R. Traduire: théorèmes pour la


traduction. Paris: Payot, 1979.
22. C A T R Y , Bernard. "L ’édition française face à B abel”. Le Débat, n.
22, p . 8 9 8 , 1982.

335
ficante que é negada, pelo axiom a inverso da traduzihilida-
de universal. O essencial da tradução seria a tradução do
“sentido", ou seja, do conteúdo universal de qualquer tex­
to. Assim que se postula isso, a tradução adquire a estreite­
za de um a hum ilde m ediação do sentido. Hegel declarava
em sua Estética que a poesia podia ser traduzida sem ne­
nhum a perda de um a língua para outra (e m esm o em pro­
sa), porque ela primava pelo conteúdo espiritual. M as
quando se afirma, mais m odestam ente, que

não se traduzem palavras, mas idéias,1’

apenas se repete, em um nível não especulativo, o que di­


zia H egel. C ada vez que a tradução se rebela contra esse
estreitam ento dessa operação e afirm a ser um a transmis­
são de formas, de significantes, as resistências se m u ltipli­
cam . Essas resistências, todo tradutor as co n h ece b em : se­
ria o caso de dar um a tradução que “não cheira a tradu­
çã o ”, de propor u m texto “tal co m o o autor o teria escrito
se tivesse sido fran cês”, ou, m ais trivialm ente, de produzir
um a tradução “em francês claro e elegan te". O resultado
disso é que a tradução surge ou com o um a transmissão
inap arente do sentido, ou co m o um a atividade suspeita
de in je ta r “estranheza” na lín g u a.24 Nos dois casos, ela é
negada e ocultada.

23. M G S K O W 1 T Z , D an iel. In: Ladmiral. Op. cit., p. 220.


24. Jean Dutourd d eclara por ocasião do 111 Congresso da Federação
In ternacion al dos Tradutores: “Penso qu e a tradução, há uns quinze ou
vinte anos, d esem penhou um papel catastrófico na vida literária fran­
cesa, pois ela habitu ou o público ao jargão e contam inou os escritores”
(in Van der M ee rsch en , “T rad uction française, problèrnes de fídelité et
de q u alité”. In : Traduzione, Tradizione, Lectures. M ilão: D éd alo Lifari,
n . 4-5, p. 68).
Uma das tarefas fundam entais da tradutologia é
com bater essa ocultação, que se manifesta, além do mais,
perniciosam ente pela o bjeção antecipada feita à reflex ão so­
bre a tradu ção. Essa reflexão se ch o ca com uma série de
oposições: o conflito dos tradutores não teóricos e teóricos,
dos tradutores e dos teóricos da tradução. No primeiro
caso, uma maioria de tradutores proclama que a tradução
é urna atividade puram ente intuitiva, que não pode ser ver­
dadeiramente conceituada. No segundo caso, há oposição
entre teóricos sem prática e “práticos” sem teoria. Resulta
disso um tenaz questionam ento da possibilidade de uma
tradutologia que cubra ao m esm o tempo um cam po teóri­
co e prático, a qual seria elaborada a partir da ex p eriên cia
da tradução; mais precisam ente, a partir de su a p róp ria n a ­
tureza d e exp eriên cia. Teóricos abstratos e práticos em píri­
cos coincidem na afirm ação de que a experiência da tradu­
ção não é teorizável, não deve e não pode sê-lo. O ra, essa
pressuposição é uma negação do sentido do ato de traduzir:
este, por definição, é um a atividade segu n d a e reflexiva. A
reflexividade lh e é essencial e, com ela, a sistematicidade.
D e fato, a coerência de um a tradução é medida pelo seu
grau de sistematicidade. E esta é impensável sem reflexivi­
dade. Essa reflexividade vai desde a leitura interpretativa
dos textos até a elaboração racional de todo um sistema de
“escolha” de tradução. N aturalm ente, ela é acom panhada
por uma necessária intuitividade. M as esse jogo mútuo da
reflexividade e da intuitividade aproxima bem mais, com o
já vimos, a tradução de uma “ciên cia” do que de uma
“arte”. D o mesmo modo que, no caso da ciên cia, todo um
sistema de deformação deve ser superado antes que ela pos­
sa se constituir em um sistema categorial rigoroso, assim
tam bém a tradução deve enfrentar um cam po de deforma­
ção lingüístico, literário e cultural para poder realizar sua

337
r

pura visada. O fato de que este fim seja raram ente atingido
apenas confirm a a necessidade dc lim a tradutologia que
cum priria a “revolução copernicana” da tradução.
P recisem os, para term inar, a situação da tradutologia
em relação à abordagem lingüística da tradução. Partimos
da pressuposição de que as duas abordagens são, ao mesmo
tempo, distintas e com plem entares. E m seus Problemas
teóricos da tradução, Georges M ounin apresenta o proble­
ma dos intraduzíveis: as línguas, m orfologicam ente, sinta-
ticam ente, lexicalm ente, etc., tendem ^ to rn a r impossível
qualquer tradução, salvo em um nível de aproximação em
que as “perdas” são mais elevadas que os “ganhos”. Assim,
diz M o u n in , a tradução das mais ou m enos cinqüenta pa­
lavras que designam diversas variedades de pão na região de
Aix-en-Provence colocaria “problem as insolúveis” se “um
rom ance francês de algum valor tivesse com o am biente
uma padaria nessa região”.25 Os exem plos desse gênero po­
dem ser m ultiplicados até o infinito e, bem entendido, até
outros níveis além deste dos “cam pos sem ânticos” do autor.
A constatação é irrepreensível e indiscutível, ainda que
M ounin se esforce, na últim a parte de seu livro, para m ini­
mizar a sua importância. Estam os, lingiiisticam ente falan­
do, diante de um mar de intraduzibilidade. Mas se nos co­
locarm os no nível da tradução de um texto, o problema
muda com p letam ente. Q ualquer texto, evidentem ente, é
escrito em um a língua; e, cle fato, a m ultiplicidade dos ter­
mos m encionados, aparecendo em uma seqüência oral ou
escrita, p erm anece em si “intraduzível”, nesse sentido de
que u m a outra língua não possuirá os termos correspon-

25. Les Problèmes théoriques de la traduction. Paris: G allim ard, 1967.


p. 6 5 -6 .

338
denles. Mus no nivel de unia obra, o problema não é saber
se esses termos possuem 011 não equivalentes. Pois o plano
da traduzibilidade é outro. D iante de um a multiplicidade
de termos sem correspondência em sua pròpria língua, o
tradutor será confrontado a varias escolhas: o afrancesa-
]liento (Julio Verne, em Les enfants du capitarne Grant, tra­
duz “pampa” por “les plaines pam pasiennes”), o emprésti­
m o (“porteño, habitante de Buenos Aires, dà “portégne”). A
pretendida intraduzibilidade dissolve-se em traduzibilidade
por inteiro, pelo simples recurso a modos de relações exis­
tentes naturalm ente e históricam ente entre as línguas, mas
modulados aqui segundo as exigências da tradução de uní
texto: o empréstimo e a neologia para o dominio lexical. E
a pròpria estrutura do texto com o texto que ditará aqui o
que é preciso “traduzir” ou “não traduzir” (110 sentido cor­
rente), a não-tradação de um termo valendo como um modo
em inente de tradução. Outras modalidades vêm com pletar
esse recurso nos tipos de trocas interlínguas. Será, por
exem plo, a supressão de um termo ou de uma estrutura x
para um ponto X do texto, que serão eventualm ente substi­
tuídos por 11111 termo ou uma estrutura y em 11111 ponto Y do
texto: procedimento de compensação, já preconizado por
D u Bellay. Será a posição de uni term o ou de uma estrutu­
ra x situados em 11111 ponto X do texto em 11111 outro ponto
Y desse texto, 110 qual a língua de chegada pode acolhê-lo
m elhor: procedimento de deslocamento. Será ainda a subs­
tituição homóloga: 11111 elem ento x, literalm ente intraduzí­
vel, é substituído por uni elem ento v, que lhe é homólogo
110 texto. Não se trata aqui, com o é tendência se acreditar,
de paliativos, mas de modalidades que definem o próprio
sentido de toda tradução literária, no sentido de que ela e n ­
contra algum intraduzível lingüístico (e às vezes cultural) e
o dissolve em real traduzibilidade literária sem passar, é cla-

339

J
ro, pela perífrase ou por urna líteralidade opaca. Essas m o­
dalidades se baseiam em grande parte no que Efim Etkind
cham ou de “linguagem poten cial”.26 Para qualquer língua,
pode-se postular uma correspondência rigorosa com uma
outra língua, mas em um nível virtual. Desenvolver essas
potencialidades (que variam de língua para língua), esta é
a tarefa da tradução, que progride assim para a descoberta
do “parentesco” das línguas. Essa tarefa não poderia ser
sim plesm ente artística; ela supõe um con h ecim en to exten­
so de todo o espaço diacrônico e sincroíiico da língua de
chegada. Assim, a tradução dos diminutivos espanhóis exi­
ge um estudo aprofundado dos diminutivos franceses (sua
história, seu modo de form ação e de integração, etc.), sem
o qual se acredita estar diante de “intraduzíveis”. O teórico
prático da tradução e o prático intuitivo encontram a m es­
ma lim itação , que vem do fato de que eles não têm cons­
ciên cia da riqueza “heterológica” da língua de chegada.
Classificam -se com facilidade as modalidades m en ­
cionadas acim a - por exem plo, Jakobson ou M ax Bense -
na categoria não mais da tradução, mas da “transposição
criadora”, a definição desta p erm anecend o, aliás, indeter­
m inada. M as na verdade, essa “transposição” é a própria es­
sência da tradução e só seria possível opô-la a esta tomando
por base um conceito estreito e im aginário (a perfeita cor­
respondência, a adequatio), até m esm o especulativo, da tra­
dução. C on vém , ao contrário, definir a tradução a partir de
sua operação real, o que não significa, de modo algum , que
todas as m odalidades sejam válidas e que não existam ou­
tras que sejam equivalentes a não-traduções ou a más tradu­

26. Efim E T K IN D . Un art en crise, essai de poétique de la traduction


poétique. Paris: R een co n iré, 1982. p. 99.

34 0
ções. C om o já vimos, o fenôm eno das não-traduções e das
más traduções deve ser tomado em consideração pela tra-
dutologia, urna vez que, com o disse sem demasiado exage­
ro G eorge Steiner,

é preciso admitir que, desde Babel, noventa por cento das


traduções são errôneas e que assim permanecerá.27

Essas observações visam a mostrar que a abordagem


lingüística e a abordagem tradutológica são diferentes e, ao
m esm o tem po, com plem entares, urna vez que a tradução
só pode realizar sua pura visada coin base em co n h ecim en ­
tos lingüísticos, ao m enos se quiser superar nina em pirici-
dade que destina noventa por cento de seus produtos a se­
rem “errôneos”. E m outros termos, a “revolução copernica-
na” das ciências da linguagem deve permitir a “revolução
copernicana” da tradução, sem ser, de forma alguma, o
único fundam ento desta e sem que esta se torne algum dia
um ramo da “lingüística aplicada”. À tradutologia só pode­
rá ser constituída em cooperação com a lingüística e a poé­
tica; ela tem muito o que aprender com a socio- e a etno-
lingüístiea, assim com o com a psicanálise e a filosofia.
Ciência da tradução teria, a partir de então, um du­
plo sentido: ciência que toma o saber da tradução com o ob­
jeto, “cientifização” da prática da tradução. A esse respeito,
é preciso notar que a França perm anece muito atrasada
nesse dom ínio em relação a outros países, com o a Alema­
nha, os países anglo-saxões, a União Soviética e os países do
Leste. Esse atraso teórico tem com o corolário um atraso no
plano prático, ao m esm o tempo quantitativo e qualitativo.
A abertura de um dom ínio de reflexão tradutológica virá,

27. hi: After Babel. p. 365.

Ml
portanto, preen ch er um vazio cujas graves conseqüências
surgem pou co a pouco e que contribui para uma crise crô­
nica ao m esm o tempo da tradução e da cultura na França.

342
1! I li L I O c; R A 1' I A

1. Obras dos principais autores estudados:

L’A TH E N Ä U M . M unique, Rowohlt: [s.n.J1969. 2 t.

B R E N T A N O , C . Werke. M unique: Carl Hauser Verlag, 1963. v. II.

G O E T H E , J. W. Werke. Zurique/Stuttgart: Artemis Verlag, 1954.

________ . Eckermann, Gespräche mit Goethe, ßerlim : Aufbau


Verlag, 1962,

. Le divan occidental-orientcil. Trad. Lichtenberger. Paris:s


Aubier-M outaigne, 1963.

________ . Pages choiües. Paris: Sociales, 1968.

H AM AN N., ). G . Schriften zur Sprache. Frankfurt: Suhrkarnp,


1967.

H E R D E R , Sämtliche Werke, ß. Sup lien, C . Red lich e: R. Steig,


1817-1913, reimpressão 1967-1968.

343
1

H Ö L D E R L IN , Sämtliche Werke. Stuttgart: K olilliam m er, 1972.

________ . Oemres. Paris: Gallim ard, 1967.

H U M B O L D T . Gesammelte Werke, 1841-1852. Berlin) Reimer.

________ . Introduction à l’oeuvre sur le kavi et autres essais. Trad.


e intr. P. C aussat. Paris: Le S e u il, 1974.

N O V A LIS, Werke Wasmuth. H eidelberg: Verlag L am bert Sch n ei­


der, 1954.

________ . Werke, Sam u el. Wissentschaftlïth e Buchgesellschaft,


Darm stadt, 1965.

___________ . Oeuvres. Trad. G u erne. Paris: G allim ard, 1975.

________ . Les Disciples ci Sais. Trad. Rond, éd. Lausanne, M em iod:


[s.u.], 1948.

S C H L ,E G E L , A. W . Geschichte der klassischen Lite-ratur.


Stuttgart: K ohlham m er, 1964.

___________ . D ie Kunstlehre, Stuttgart: K o h lh am m er, 1963.

___________ . L eço n s sur l’art et la littérature. Trad. Lacoue-Labarthe


e j.-L . N ancy. I n :________ . L ’Absolu littéraire. Paris: L e Seuil, 1978.

S C H L E G E L , F. Kritische Schriften. M im ique: Carl Hanser Verlag,


1971.

S C H L E IE R MAC,’ 11ER, F. Sämtliche Werke. B erlim : Reim er, 1838.

TEXTES et fragm ents traduits par L aco u e-L ab arth e e J.-L .


N ancy, ln : L’A B S O L U liltéraire. Paris: Le S e u il, 1978.

344
2. Textos sobre o Romantismo alem ão:

A L E M A N N , B. Ironie und Dichtung. P fu lling en: N eske, 1969.

AYRA ULT, R. La Genèse du Romantisme allemand. Paris: Aubier-


M ontaigne: 1961-1976. 4 v.

B E N JA M IN , W . D e r Begriff der Lunstkritik in der deutschen


R om antik, l n : ________ . Werke, I 1. Frankfurt: Suhrkam p, 1974.

B E R M A N , A. Lettres à Fouad E l-E tr sur le Rom antism e allem and.


L a Délirante, Paris, n. 3, 1968.

B L A N C H O T , M . L’A thenäum . I n : ________ . L ’Entretien infini.


Paris: G allim ard, 1969.

D E S T A Ë L . De L ’Allemagne. Paris: G arnier, 1868.

D IE W E L T L IT E R A T U R . D ie Lust am Übersetzen in jahrhun-


dert G oethes. M arbach: D eu tsch e Schillergesellschaft, 1982.

K IE S E L , E . D ie Sprachphilosophie der deutschen Romantik.


Uildeshiem/Nova York: O lm s, 1973.

G U E R N E , A. H ie et N u n c, ln: Le Romantisme allemand.


C ahiers du Sud, 1949.

________ . Novalis. La Délirante, Paris, n. 4-5, 1972.

11 LA S S E N , A. D ie frühromantische Konzeption von Übersetzung


und Aneignung. Studien zur frühromantischen Utopie einer
deutschen Weltliteratur. Zürique/Freiburg: Atlantis Verlag, 1969.

JO L I ,E S , F. A. W. Schlegel Sommemachtstraum in der ersten


Fassung von fahre I7S9. G öttingen : Vanderhoeck et Ruprecht,
1967.

L A C O U E -L A B A R T H E , P. ; N A N CY, J.-L. L ’A bsolu littéraire.


Paris: L e S en il, 1978.

L E R O M A N T IS M E allem and. C ahiers du Sud, 1949.


S Z O N D I, P. Poésie et poétique de l’idéalisme allemand. Paris:
M inuit, 1975.

TH A L M A N N , M . In: A. W. Schlegel 1767-1967. Bad Godesberg:


In to n ation s, 1967.

________ . Romantiker als poetologen. H eidelberg: Lothar Stiehm


Verlag, 1970.

T O D O R O V , L . Théories du symbole. Paris: L e S e n il, 1977.

W 1 L H E M , D . L es Romantiques allemands, ftiris: L e Seu il, 1980.

3. Obras sobre G oeth e, Humboldt e Schleierm acher:

G A D A M E R , H. G . M éthode et vérité. Paris: L e S eu il, 1976. (para


Sch leierm acher).

M E S C H O N N IC , H. Le Signe et le Poème. Paris: G allim ard , 1975.


(para H um boldt).

S C H A D E W A L D T , W. Goethe Studien. Zurique: Artemis, 1963.

S T R IC H , F. G oethe und die Weltliteratur. B em a: Francke Verjag,


1946.

4. Obras e textos sobre Hölderlin:

B E A U F R E T , J. H ölderlin et Sophocle. Prefácio à tradução das


Remarques sur Œdipe et Antigone, 10/18, 1965.

B E IS S NF, R, F. Hiilderlim Übersetzungen aus dem Griechischen.


Stuttgart, 1961.

B E R T A U X , P. Hölderlin. Frankfurt: Suhrkam p, 1978.

346
H E ID E G G E R , M . Approche de Hölderlin. Paris: G allim ard, 1973.

L A P L A N C H E , ]. Hölderlin et la question du père. Paris: P.U .F.,


1969.

R E IN H A R D T , K. Hölderlin et Sophocle, Po&'sie, n. 23, 1982.

SC H A D E W A L D T , W. Préface aux traductions de Sophocle de


Hölderlin. F isch er Verlag, 1957.

Z U B E R B Ü H L E R , R. Hölderlins Erneuerung der Sprache aus


ihren etymologischen Ursprüngen. B erlim : E rich Schm idt, 1969.

5. Obras citadas ou utilizadas sobre a tradução:

B E N JA M IN , W . La tâche du traducteur. I n : ________ . Mythe et


violence. Traci. M . de G andillac. Paris: D e n o ë l, 1971.

B L A N C H O T M . Traduit de... I n : ________ . L a Part du feu. Paris:


G allim ard, 1965.

________ . Traduire. I n : ________ . L ’A mitié. Paris: G allim ard, 1967.

B R O C H , H. Q uelques rem arques à propos de la philosophie et de


la tech nique de la traduction, l u : ________ . Création littéraire et
connaissance. Paris: G allim ard, 1955.

C A M P O S , H. de. D e la traduction co m m e création et com m e


critique. C hange (Transformer, traduire), Paris, n. 14, 1973.

E T K 1N D , E . Un art en crise. Essai de poétique de la traduction


poétique. Paris: L ’Age d’hom m e, 1982.

JA K O B S O N , R. Aspects linguistiques de la traduction. lu:


________ . Essais de linguistique générale. Paris: Points-Seuil, 1977.

K O Y R E , A. Traduttore-traditore: à propos de C opern ic et de


G alilée. Isis, n. X X X IV , 1943.

347
L A D M IR A L, J.-R . Traduire: théorèm es pour la traduction. Paris:
Payot, 1979.

L A R B A U D , V . Sous l ’invocation de Saint férôm e. Paris: G allim ard,


1946.

L EY R 1S, P. introduction à Gérard M anley H opkins, Poèmes, Paris:


L e Seuil, 1980.

___________. Pourquoi retraduire Shakespeare?Prefacio as Œuvres


de Shakespeare, C lu b du Livre.

M E S C H O N N IC , H . Les Cinq Rouleaux. Paris: G allim ard , 1970.

________ . Pour la Poétique I!. Paris: G allim ard , 1973.

________ . Pour la Poétique III. Paris: G allim ard , 1973.

________ . Pour la Poétique V. Paris: G allim ard, 1978.

M E T A (journal des traducteurs). Psychanalyse et traduction.


M ontreal, 1982.

M O U N 1N , G . Les Belles Infidèles. C ahiers du Sud , 1955.

________ . Les Problèmes théoriques de la traduction. Paris: G alli­


mard, 1963.

PA N N W 1TZ, R. D ie Krisis der europäischer Kultur. N urem berg,


1947.

PAZ, O. Traducción: literatura y literalidad. Barcelona: Tusquet, 1971.

R O S E N Z W E IG , F. D ie Schrift und Luther, ln : S T Ö R IG , H. J.D as


Problem des Ubersetzens. Dannstadt: W issen sch aftlich e B uchge­
sellschaft, 1969.

S C H A D E W AL D T , W . Das Problem des Libersetzens. Die Antike,


n. III (1 9 2 7 ). Repris in Störig, op. cit.

S D U N , W. Probleme lind Theorien des Ubersetzens in Deutschland


von 18. bis 20 Jahrhundert. M im ique: M ax H uber, 1967.

34 S
S T E IN E R , G . After Babel. Oxford: University Press, 1976.

S T Ö R IG , H . j. Das Problem des Ubersetzens (nós citam os sempre


os textos de G o e th e , de A. W . S ch leg el, de H um boldt, de Schleier-
m ach er e de Schadew aldt pela tradução reunida nesta excelente
antologia).

VA LERY, R Variations sur les Bucoliques. Paris: G allim ard, 1967.

VAN D E R M E E R S C H E N . La traduction française, problèm es de


fidélité et de qualité. Traduzione-Tradizione, lectures, M ilão:
D edalo L ibri, n. 4-5.

6. Obras diversas citadas ou utlizadas:

B A K H T IN , M . L'Œuvre de François Rabelais. Paris: Gallim ard,


1970.

________ . Esthétique et théorie du roman. Paris: Gallim ard, 1978.

B E N JA M IN , W . G ide, in Mythe et violence. Paris: D enoël, 1971.

B E R M A N , A. L’Amérique Latine dans sa littérature. Cultures,


U nesco, 1979.

________ . Histoire et fiction dans la littérature latino-am éricaine.


Canal, Paris, 1980.

________ . La traduction des oeuvres latino-am éricaines. Lende­


mains, B erlim , 1982.

D U BELLA Y, J. Défense et illustration de la langue française. Paris:


G allim ard, 1967.

CAT'RY, B. L’édition française face à Babel. Le Déhat, Paris, n. 22,


1982.

C E R V A N T E S . Don Quichotte. Paris: G arnier-Fiam m arion, 1969.

349
F O R S T E R , L.. The Poet's Tongues, Multilingualism in Literature.
Cam bridge: C am bridge University Press, 1970.

FO U C A U L T , M . Les mots el les choses. Paris: G allim ard, 1966.

G E N E T T E , G . Mimologiques. Paris: L e Sen il, 1976.

JA C C A R D , R. Proust théoricien. Le Monde, Paris, 5 Aug. 1982.

JA C C O 'IT E T , P. Poèmes. Paris: G allim ard, 1976.

K L O S S O W S K I, P. L ’Enéide. Paris: G allim ard, 1964.


J*r

LACAN , J. Le Séminaire, I. Paris: L e S eu il, 1975.

________ . Ecrits. Paris: Le Seu il, 1966.

L U T H E R . Œuvres complètes. G en ebra: Labor et Fides, 1964.

M A RTIN EA U , E . Poesie, “La langue, création collective”. Paris, 11. 9.

M U R A T, J. Klopstock. Paris: Les Belles Lettres, 1959.

N IE T Z S C H E , F. Par-delà le Bien et le Mal. Paris: Aubier-


M ontaigne, 1951.

________ . Le G ai Savoir. Paris: G allim ard, 1967,

________ . Le Crépuscule des idoles. Paris: M ercure de France, 1957.

R O B E R T , M . L ’Ancien et le Nouveau. Paris: Grasset, 1963.

R O B IN , A. Ma vie sans moi. Paris: G allim ard, 1970.

T O N N E L A T . Histoire de la littérature allemande. Paris: [s.n.j,


1952.

V O N H O FM A N N S T A H L , H. Die prosaische Schriften gesammelt.


B erlini: [s.ii], 1907. t. II.

W O L F S O N , L. Le Schizo et. les langues. Paris: Gallim ard, 1970.

350
“ Uma coisa não pode deixar de ser evocada: a
condição ocultada, reprimida, reprovada e ancilar da
tradução que repercute sobre a condição dos tradu­
tores, a tal ponto que quase não é mais possível
fazer dessa prática uma profissão autônoma.
A condição da tradução não é somente ancilar: ela é,
aos olhos do público, assim como aos olhos dos
próprios tradutores, suspeita.”

ISBN ôS?Mt.0137-3

A
signum