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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

INSTITUTO DE CULTURA E ARTE

CURSO DE FILOSOFIA

JABER FELIPE FAKER LAVADO

FILOSOFIA DA MENTE E LINGUAGEM PARA DONALD DAVIDSON

FORTALEZA

2017
JABER FELIPE FAKER LAVADO

FILOSOFIA DA MENTE E LINGUAGEM PARA DONALD DAVIDSON

Artigo científico produzido à partir da


apresentação de seminário na disciplina
ICA1693 - HISTORIA DA FILOSOFIA IV
(CONTEMPORANEA 2) ministrada pela
professora Ms. Lilia Palmeira Pinheiro no
segundo semestre de 2017.

FORTALEZA

2017
1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como objetivo abordar a filosofia da linguagem de


Donald Davidson, que está intrinsecamente ligada à sua filosofia da mente. Portanto,
serão inicialmente investigados quais são os problemas contemporâneos à Davidson
que o fizeram produzir sua filosofia, bem como quem são os autores que
influenciaram o filósofo estadunidense. Em seguida, analisar-se-ão os aspectos da
filosofia da mente de Davidson, que condicionam seu entendimento sobre
linguagem.

O trabalho mostrará a crítica de Davidson ao Círculo de Viena e aos


positivistas lógicos e empiristas lógicos. A defesa de Davidson de que a linguagem
não é um meio. Finalmente, será investigada a teoria da comunicação humana
desenvolvida por Davidson – seu método que inclui a interpretação radical e o
princípio da caridade – a fim de estabelecer a relação entre linguagem e mundo.
2 BREVE BIOGRAFIA

Donald Davidson nasceu no ano de 1917, em Springfield, Massachusetts. Foi


formado pela Universidade Harvard, em Cambridge. Lecionou nas universidades de
Stanford de 1951 a 1967; entre 1967 e 1981 nas universidades de Rockefeller,
Princeton, Chicago; e de 1981 até o ano de seu falecimento, 2003, na Universidade
da Califórnia. Em Harvard, Davidson foi aluno de Alfred North Whitehead e Willard
Van Orman Quine, que influenciaram sua trajetória dentro da filosofia. Q uando
conheceu Quine, Davidson deixou de pesquisar temas históricos e passou a se
dedicar a uma filosofia analítica. Também foi muito influenciado pelo lógico polonês
Alfred Tarski, que ofereceu uma teoria semântica da qual Davidson se valeu.

Os escritos de Davidson influenciaram vários autores dentro da filosofia, dos


quais vale destacar Richard Rorty, John McDowell e Robert Brandon. Ele não
costumava escrever livros. O filósofo estadunidense redigia breves ensaios que
eram publicados em revistas e anais de congressos. Recebeu seu Ph.D em filosofia
em 1949 com uma obra sobre a interpretação do ‘Filebo’ de Platão. Seu primeiro
artigo de impacto foi publicado apenas em 1963, relativamente tarde em sua
trajetória acadêmica, intitulado “Actions, reasons, and causes”. Davidson faleceu em
30 de Agosto de 2003.
3 CONTEXTO HISTÓRICO

Davidson nasceu numa época do século de grandes mudanças e guerras. No


ano de 1917 acontecia a primeira guerra mundial e também a revolução russa.
Apesar de não escrever sobre política, Davidson fez política. Isso porque ele lutou
com as forças armadas americanas no mediterrâneo durante a segunda guerra
mundial. No combate contra o nazismo, Donald Davidson atuou como instrutor de
reconhecimento de aviões inimigos. Davidson era filho de comunistas e tinha amigos
comunistas, era partícipe das suas ideias, embora nunca tenha se filiado ao Partido
Comunista. Por isso, enxergava como inevitável a luta contra o nazismo e sua ida
junto da Marinha Americana para a guerra.

No âmbito acadêmico, Davidson viveu posteriormente das teorias de Frege,


Russell e Wittgenstein. As questões filosóficas que ele se propôs a resolver são
provenientes das obras destes três grandes autores da filosofia contemporânea. No
entanto, seu pensamento se aproxima do pensamento de Quine e Tarski, dos quais
Donald Davidson se diferenciou em alguns aspectos, sendo o suficiente para
elaborar uma filosofia própria, com um pensamento autônomo.
4 INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DA MENTE

Para bem compreender a filosofia da linguagem de Donald Davidson faz-se


necessário entender sua concepção de filosofia da mente, de como a mente se
relaciona com o mundo e como a linguagem funciona nesse processo. As noções da
filosofia da linguagem e da filosofia da mente parecem ser intrínsecas. Em sua
teoria, Davidson se contrapõe aos filósofos do círculo de Viena, sua concepção é
denominada de fisicalismo não redutivista.
4.1 Fisicalismo não redutivista
Davidson seria o responsável pela manutenção do materialismo e do
fisicalismo de modo positivo, sem estar subjugado ao reducionismo e ao
cientificismo. Fez um elo entre os filósofos americanos e alemães, que tendem a ver
o materialismo e fisicalismo associados ao reducionismo e cientificismo. Essa
doutrina se propõe a dar uma explicação, em termos físicos, para os que seriam as
manifestações psicológicas, mas sem invalidar as explicações mais ou menos
tradicionais da psicologia. Ou seja, o fisicalismo, para explicar o mundo mental, não
tem de reduzir todas as explicações a uma linguagem que acredita que não há
qualquer explicação para fenômenos psicológicos enquanto tipicamente
psicológicos. O reducionismo é isto: os “empiristas lógicos” ou “positivistas lógicos”
(círculo de Viena) acreditam que todas as ciências podem ser reduzidas à física.
4.2 Monismo Anômalo
No seu ensaio “Mental Events” de 1970, Davidson defende que o mundo é
feito somente de uma natureza, que é o mundo físico. Como qualquer fisicalista,
Davidson sustenta que há identidade entre o mental e o físico, mas ele não acredita
que o mental possa ser reduzido ao físico. As leis que regem a natureza não são as
mesmas que regem o mental. Eventos mentais, ainda que dentro da causalidade – e
ele insiste que eles estão sob causalidade, como quaisquer outros fenômenos
naturais –, não se apresentam segundo regularidades cabíveis em descrições
formuladas em leis estritas, como as que se encaixam em formulações matemáticas,
por exemplo. Davidson defende que existe a anomalia do mental: não há leis estritas
ou deterministas com base nas quais eventos mentais possam ser previstos ou
explicados. Ou seja, é ‘monismo’ porque só o que existe é de fato o mundo físico, e
é ‘anômalo’ porque as leis que regem o plano físico não podem ser utilizadas para o
domínio do mental. Um evento pode ser descrito de forma física e de forma mental.
De forma física teremos uma descrição que corresponderá às leis da física, que as
obedecerá. No entanto, ao descrever de forma mental um evento não se consegue
fazê-lo submetendo a mente ao domínio das leis físicas. O que existe entre o mental
e o físico é uma superveniência (supervenience). Apesar de o mental seguir uma
causalidade, o mental não funciona de acordo com as leis físicas.
4.3 Teoria Unificada
Davidson estudou com Quine, que desenvolveu uma teoria dos significados.
Esta teoria estudava como que uma palavra significa aquilo que significa. Davidson
então não quis percorrer o caminho de encontrar uma resposta para isso. Ele
desenvolveu então uma teoria que não é analítica, como a dos significados, mas
“construtiva”. A teoria de Davidson não diz o que é o significado, o que faz é gerar
para cada sentença S (real ou potencial) de uma linguagem específica, um teorema
que dá o significado de S e que, em particular, mostra como o significado depende
dos componentes de S.
A teoria elaborada por Davidson é chamada Teoria Unificada. Isso porque
junta uma teoria semântica da linguagem natural; com a teoria verocondicional do
significado, baseadas na teoria de Tarski, que Davidson defenderá no artigo “Truth
and Meaning” de 1967. O objetivo desta teoria davidsoniana é descobrir o que torna
os humanos inteligíveis uns aos outros apenas a partir do comportamental. A partir
destas evidências comportamentais Davidson busca entender o que faz uma palavra
significar o que significa e para os seres humanos como é o pensar e agir. Para
determinar quais são as crenças, os desejos e os significados a partir do
comportamental, Davidson utiliza da lógica, utiliza uma teoria da verdade e uma
teoria da decisão. A racionalidade é fundamental neste ponto, ela é a base de toda
sua Teoria Unificada, pois lhe fornece sua estrutura. Para o filósofo estadunidense
esta é a teoria da mente, do significado e da ação que se pode obter.
Este modo de pensar de Davidson é por conta de seus estudos sobre a
história da filosofia, de como há uma cadeia de relações de poder que movem a
história. Portanto, sua teoria não poderia descartar tal visão. Para Davidson, a
pergunta central é “o que é entender o que um falante disse de uma ocasião
particular?” A teoria de Davidson foi desenvolvida para responder a essa questão.
Quem conhece a teoria está na posição de entender toda e qualquer expressão, real
ou potencial, de uma linguagem particular L.
5 FILOSOFIA DA LINGUAGEM

Segundo Davidson a linguagem não representa o mundo. Para o americano,


a linguagem nomeia ou descreve o mundo, mas não o representa. A linguagem não
tem autonomia, por isso não entendemos o mundo através dela, e sim com ela. As
significações que são dadas à linguagem são elaboradas por seres humanos, que
partem de crenças. Por esse motivo, fica impossível a linguagem por si mesma
representar o mundo. A linguagem é abstrata, não está entre a mente e o mundo.
Davidson foi considerado relativista. Ele está, na verdade, indo contra isso.
Ofereceu, inclusive, argumentos contra os ceticistas. Davidson pergunta: como
podemos entender o enunciado “vemos através da linguagem”? Entre outras, três
respostas aparecem no horizonte filosófico: 1) a linguagem é um meio que
simplesmente reproduz ou grava para a mente o que lhe é exterior; 2) a linguagem é
muito densa e, portanto, incapaz de falar do mundo como ele é verdadeiramente; 3)
a linguagem é um meio não muito denso, e então o mundo pode se responsabilizar
pelo conteúdo e objetivo de cada linguagem que falamos. Tomando essas respostas
como insuficientes, o filósofo estadunidense acredita que essas insuficiências
surgem antes mesmo da sua própria formulação, em sua raiz comum: todas as três
são devedoras de uma ideia errônea: a de que a linguagem faz o papel de um
“esquema” que deve apreender um “conteúdo”, que é o mundo.
Quem concebe a relação linguagem-mundo como uma relação esquema-
conteúdo termina por falar que cada um tem o seu “ponto de vista” ou sua
“perspectiva” e que não é possível optar de modo seguro entre os enunciados
fornecidos por vários pontos de vista. Davidson acredita que a ideia de que há vários
esquemas diferentes vale para quando falamos de sistemas conceituais. E, de fato,
esquemas de conceitos podem ser, em certo sentido, tomados como
incomensuráveis entre si na medida em que não falam dos mesmos assuntos,
temas e objetos. Ninguém negaria que existem divergências de “ponto de vista”.
Mas quando se aplica a noção de esquema à de linguagem, começa-se a enveredar
por erros da imaginação – de dois modos que, na contabilidade de Davidson, são
equívocos: primeiro, é pensado que, no limite, a comunicação é impossível, uma vez
que os humanos entre si não possuem uma mesma linguagem; ou se aceita que a
comunicação é possível – uma vez que de fato os seres humanos se comunicam – e
assim é obrigado a consentir que estejam de posse de uma e mesma linguagem
previamente dada. O problema todo poderia ser eliminado evitando tomar a
linguagem como algo que ela não é: um meio.
Para defender que a linguagem não é um meio, Davidson faz duas investidas:
uma primeira, contra a ideia da linguagem como órgão mental – defende a tese de
que a linguagem é um órgão especial da percepção; uma segunda, contra o
representacionalismo – defende a tese de que a noção de representação não é útil
para ser aplicada à atividade da linguagem ou do pensamento. Davidson se
posiciona contra a metáfora que diz que “nós vemos o mundo através da
linguagem”. A linguagem, Davidson diz, não é um meio através do qual vemos. Não
se vê o mundo através da linguagem além do que se vê através dos olhos;
entretanto, eis aqui o ponto chave: não se vê através dos olhos, mas com os olhos.
Não se sente através dos dedos ou se ouve através dos ouvidos e nem se vê
através dos olhos. Sente-se com os dedos, ouve-se com os ouvidos e enxerga-se
com os olhos. Então, se é para fazer uma analogia entre linguagem como órgão e
outros órgãos, como os do sentido, que se faça a uma mais correta: os órgãos dos
sentidos são elementos de contato direto com o meio ambiente, sem intermediários;
não lidamos com o mundo através da linguagem; mas, sim, enfrentamos o mundo
com a linguagem.
A linguagem, uma vez estabelecida, não deve ser vista como uma habilidade
aprendida corriqueiramente. A fala é eleita por Davidson como um modo de
percepção. Não um órgão a mais, como olfato, audição, visão, etc. simplesmente.
Se os sentidos rendem algum conhecimento proposicional, e considerando que os
sentidos, por eles mesmos, não podem dizer muita coisa, abre-se mão da ideia da
fala comunicacional – da linguagem – como um órgão essencial: ela é o órgão da
percepção proposicional. Por exemplo, se Joana vê uma luz e ouve um som ela está
sem perceber o que há para ser percebido até dizer algo como “Acabei de ver um
cachorro na porta” ou “Escutei um latido”. Joana evoca os verbos “ver” e “ouvir”, o
que requer os sentidos, mas ela acredita que está diante de um cachorro (e não um
gato ou qualquer outra coisa), e essa crença se expressa para ela própria e para
todos por meio de enunciados. Então, para tal, ela acionou uma função
proposicional. O que ela diz, “Acabei de ver um cachorro na porta”, implica
discernimento, isto é, requer perceber como as coisas são o que são. Esta função
perceptiva se desenvolve junto com a linguagem. Em termos mais claros: há de fato
uma cadeia causal entre o cachorro na porta e as retinas de Joana, mas o que
Joana vê e ouve como diz que vê e ouve não são as vibrações na sua retina nem o
tremular de pequenos fios no tímpano, mas são as razões pelas quais ela pode
evocar para dizer que vê e ouve um cachorro. É nesse ponto que o domínio do
mental não se limita ao físico. As reações que ocorrem com Joana são físicas, mas
as razões para tais reações são provenientes da percepção. Para Davidson, o que
explica ou justifica determinada ação é a causa da ação. Esta relação que existe
entre o físico e o mental Davidson denomina como superveniência.
Para o estadunidense o que sustenta uma crença são outras crenças.
Davidson busca entender qual o papel da natureza na determinação do conteúdo
dessas crenças. A questão filosófica aqui é a seguinte: como determinar qual crença
possui mais legitimidade que outra? Qual crença pode-se colocar como garantia
epistêmica, e por que outra não? Davidson acredita que existem sentenças de
percepção: que o ser humano aprende percebendo diretamente o mundo no qual
vive com os sentidos. Por isso, a percepção é diferente para cada ser humano. Uma
pessoa que já foi atacada por um cachorro ao ver um animal grande desta espécie
ficaria horrorizada, enquanto que uma pessoa que nunca viu um cachorro não
sentiria a mesma coisa. Ou seja, cada pessoa possui um repertório único de
percepções do mundo, e sua crença dependerá do que empiricamente essa pessoa
viveu. Isso porque para reconhecer uma sentença é necessário ter conhecimento do
conteúdo da sentença. Por exemplo, ao dizer alta concentração muscular de ácido
lático, apenas alguns entenderão que se refere à câimbra. Para possuir esse
entendimento, é necessário que empiricamente a pessoa já tenha aprendido isso,
caso contrário será um enunciado que não trará essa percepção.
A relação entre um nome e o que ele designa é convencional, contingente, a
posteriori e não depende em nada das propriedades intrínsecas de uma inscrição
concreta sonora ou gráfica do nome em questão. O mesmo vale para as
representações mentais. Como observou o filósofo estadunidense em seu artigo
“Subjective, Intersubjective and Objective” a palavra serpente, por exemplo, passou
a ser usada para se referir a serpentes simplesmente porque ela foi utilizada pela
primeira vez em contexto onde existiam serpentes. Portanto, o que dão a
capacidade de representação de determinada palavra, ou seja, seu significado são
as relações causais com os elementos do meio ambiente. Em outras palavras, toda
representação, física ou mental, adquire sua capacidade de representar através de
relações causais envolvendo o agente cognitivo (humano) e objetos – elementos,
substâncias – do meio ambiente.
Segundo Davidson há um processo de construção da fala. A fala não é uma
dádiva, uma descoberta. Ninguém adquire fala por si só. As pessoas, desde o
nascimento, são tutoradas, de maneira intencional ou não, por seus pais, familiares,
amigos, colegas, professores, televisão e internet. Neste processo de aprendizado, o
método da recompensa e castigo é amplamente utilizado. As crianças são
melhoradas ou pioradas de acordo com um determinado ponto de vista. Não existe
certo ou errado neste ponto, são apenas pontos de vista. Treinar uma criança para ir
ao banheiro não se trata de ser certo ou errado. Aprender a ir ao banheiro não é o
comportamento correto, é um comportamento. Nesse sentido, o filósofo americano
defende que os conceitos são provenientes da classificação de objetos ou
propriedades, eventos e situações. Para esta classificação ser feita, já se parte de
diversas crenças, já preestabelecidas.
5.1 Teoria da Comunicação Humana
Davidson começou os seus escritos sobre a questão da interpretação em
1973, em seu artigo “Radical Interpretation”. Neste artigo, Davidson se interessa em
transformar uma linguagem desconhecida em uma linguagem conhecida. Para tal,
ele desenvolve um método que permitirá que a linguagem ocorra da melhor forma
possível, evitando possíveis erros desnecessários de comunicação.
a) Interpretação radical
A interpretação radical é aquilo com o qual Davidson inicia um processo de
entendimento de uma linguagem. É o modo como pretende ficar sabendo do
significado dos enunciados de uma linguagem considerando que vai partir de um
grau zero de informação a respeito do conteúdo da linguagem que quer interpretar.
Isto é, nada sabe sobre o falante. O problema básico de que a interpretação radical
trata é o fato de não podermos atribuir significado às enunciações dos falantes sem
sabermos quais são as suas crenças e, ao mesmo tempo, não podermos identificar
as suas crenças sem sabermos o que as suas enunciações significam. É, portanto,
necessário fornecer ao mesmo tempo uma teoria da crença (mente) e uma teoria do
significado (linguagem). É isto que se pretende com o Princípio da Caridade.
Construir sentenças-T que vão ligar o que o falante diz e o que ele, intérprete, diz.
Tais ligações exigem que as sentenças ligadas tenham o mesmo valor de verdade
b) Princípio da Caridade
O princípio da caridade combina duas noções: uma suposição holística de
racionalidade na crença a que se chama coerência; e uma suposição de relação
causal entre as crenças (especialmente perceptivas) e os objetos das crenças,
chamado correspondência. Aplicar o “princípio de caridade” é o que o intérprete faz
ao conceder ao falante o que Davidson considera racionalidade. Trata-se de
conceder ao falante o seguinte: primeiro, deve-se supor que o falante que acredita
que p e q então não acredita que não-p; segundo, considerando tudo que é possível
e plausível de ser considerado, deve-se supor que cada falante sempre escolherá
realizar algo que ele julga ser o melhor. Davidson tem um projeto de ampliar ao
máximo as possibilidades de explicar racionalmente o nosso comportamento, de um
modo filosófico sem, no entanto, qualquer apelo para uma metafísica do tipo da de
Platão ou da de Hegel; trata-se apenas de conceder ao que vai ser interpretado
aquilo que o intérprete possui na sua linguagem, ou seja, a metalinguagem, como o
básico que a faz funcionar. Isso é o suficiente, se ajudado pela construção holística
das sentenças, para que o intérprete possa vir a escolher os enunciados que vão
ficar dos dois lados das sentenças-T.
c) Holismo
O holismo é a perspectiva que diz que a interpretação envolve a consideração
de um número de elementos interdependentes, e que está limitada pela necessidade
da manutenção da coerência do todo. Assim, uma sentença verdadeira como “a
neve é branca” tem de estar no campo de outras sentenças, também verdadeiras,
que dizem, por exemplo, que “isto é neve”, “isto é branco”, “a tela do computador é
boa se é branca”, “as páginas dos livros são, em geral, brancas” etc. Os teoremas,
que são sentenças-T (sentenças da forma da Convenção T), apenas colocam em
equivalência as sentenças que possuem igual valor de verdade, ou seja,
correlacionam sentenças com valores de verdade não diferentes.
CONCLUSÃO
Davidson valeu-se das teorias contemporâneas a ele e também das
anteriores, lançadas com Frege, Wittgenstein e Russell, para desenvolver uma
filosofia da linguagem e da mente bem singular. Davidson sem dúvida propôs um
pensamento autônomo, principalmente se valendo de autores como Tarski e Quine.
De acordo com a filosofia apresentada por Davidson, fica evidente que para o
autor não se pode representar o mundo através da linguagem. A linguagem depende
do mundo, está inserida nele. O processo de conhecimento do mundo e o processo
de desenvolvimento da linguagem dão-se ao mesmo tempo. Como diferentes
experiências vão produzir diferentes percepções nos humanos, não podemos
submeter a mente ao domínio do físico, pois as leis que regem o mundo não regem
a mente. Esta relação é preciosa no âmbito da linguagem. A linguagem não pode
então ser universal, para cada linguagem deverá existir uma série de convenções, a
fim de estabelecer o vínculo entre os falantes. Partindo-se de diferentes crenças e
possuindo diferentes conceitos sobre uma mesma palavra uma conversa não será
proveitosa até que se estabeleça um referencial.
REFERÊNCIAS
DAVIDSON, D. Actions, reasons, and causes. In: Essays on Actions & events.
Oxford: Oxford University Press, 1980.

____________. Seeing through Language. In: Truth, language, and history.


Oxford: Oxford University Press, 2005.

____________. Subjective, Intersubjective, Objective. Oxford, Clarendon Press,


2001

____________. The social aspect of language. In: Truth, language, and history.
Oxford: Oxford University Press, 2005.

____________. Truth and meaning. In: Inquires into truth and interpretation.
Oxford: Oxford University Press, 2001.

GHIRALDELLI Jr, P. Para compreender a filosofia de Donald Davidson. São


Paulo: 2007.

MIGUENS, S. Filosofia da Linguagem – uma introdução. Porto: Capflup, 2007.


ISBN: 9789728932282

QUINE, W. V. O. Two dogmas of Empiricism. In: Martinich, A. P. The philosophy of


language. New York: Oxford University Press, 1996.

TARSKI, A. The semantic conception of truth and the foundations of semantics.


In: Martinich, A. P. (org.). The philosophy of language. Nova York: Oxford University
Press, 1996.

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