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Caro aluno

Ao elaborar o seu material inovador, completo e moderno, o Hexag considerou como principal diferencial sua exclusiva metodologia em pe-
ríodo integral, com aulas e Estudo Orientado (E.O.), e seu plantão de dúvidas personalizado. O material didático é composto por 6 cadernos
de aula e 107 livros, totalizando uma coleção com 113 exemplares. O conteúdo dos livros é organizado por aulas temáticas. Cada assunto
contém uma rica teoria que contempla, de forma objetiva e transversal, as reais necessidades dos alunos, dispensando qualquer tipo de
material alternativo complementar. Para melhorar a aprendizagem, as aulas possuem seções específicas com determinadas finalidades. A
seguir, apresentamos cada seção:

incidência do tema nas principais provas vivenciando

De forma simples, resumida e dinâmica, essa seção foi desenvol- Um dos grandes problemas do conhecimento acadêmico é o seu
vida para sinalizar os assuntos mais abordados no Enem e nos distanciamento da realidade cotidiana, o que dificulta a compreensão
principais vestibulares voltados para o curso de Medicina em todo de determinados conceitos e impede o aprofundamento nos temas
o território nacional. para além da superficial memorização de fórmulas ou regras. Para
evitar bloqueios na aprendizagem dos conteúdos, foi desenvolvida
a seção “Vivenciando“. Como o próprio nome já aponta, há uma
preocupação em levar aos nossos alunos a clareza das relações entre
aquilo que eles aprendem e aquilo com que eles têm contato em
teoria seu dia a dia.

Todo o desenvolvimento dos conteúdos teóricos de cada coleção


tem como principal objetivo apoiar o aluno na resolução das ques-
tões propostas. Os textos dos livros são de fácil compreensão, com-
pletos e organizados. Além disso, contam com imagens ilustrativas aplicação do conteúdo
que complementam as explicações dadas em sala de aula. Qua-
dros, mapas e organogramas, em cores nítidas, também são usados Essa seção foi desenvolvida com foco nas disciplinas que fazem
e compõem um conjunto abrangente de informações para o aluno parte das Ciências da Natureza e da Matemática. Nos compilados,
que vai se dedicar à rotina intensa de estudos. deparamos-nos com modelos de exercícios resolvidos e comenta-
dos, fazendo com que aquilo que pareça abstrato e de difícil com-
preensão torne-se mais acessível e de bom entendimento aos olhos
do aluno. Por meio dessas resoluções, é possível rever, a qualquer
momento, as explicações dadas em sala de aula.
multimídia
No decorrer das teorias apresentadas, oferecemos uma cuidadosa
seleção de conteúdos multimídia para complementar o repertório
do aluno, apresentada em boxes para facilitar a compreensão, com áreas de conhecimento do Enem
indicação de vídeos, sites, filmes, músicas, livros, etc. Tudo isso é en-
contrado em subcategorias que facilitam o aprofundamento nos Sabendo que o Enem tem o objetivo de avaliar o desempenho ao
temas estudados – há obras de arte, poemas, imagens, artigos e até fim da escolaridade básica, organizamos essa seção para que o
sugestões de aplicativos que facilitam os estudos, com conteúdos aluno conheça as diversas habilidades e competências abordadas
essenciais para ampliar as habilidades de análise e reflexão crítica, na prova. Os livros da “Coleção Vestibulares de Medicina” contêm,
em uma seleção realizada com finos critérios para apurar ainda mais a cada aula, algumas dessas habilidades. No compilado “Áreas de
o conhecimento do nosso aluno. Conhecimento do Enem” há modelos de exercícios que não são
apenas resolvidos, mas também analisados de maneira expositiva
e descritos passo a passo à luz das habilidades estudadas no dia.
Esse recurso constrói para o estudante um roteiro para ajudá-lo a
apurar as questões na prática, a identificá-las na prova e a resolvê-
conexão entre disciplinas -las com tranquilidade.

Atento às constantes mudanças dos grandes vestibulares, é ela-


borada, a cada aula e sempre que possível, uma seção que trata
de interdisciplinaridade. As questões dos vestibulares atuais não
exigem mais dos candidatos apenas o puro conhecimento dos diagrama de ideias
conteúdos de cada área, de cada disciplina.
Cada pessoa tem sua própria forma de aprendizado. Por isso, cria-
Atualmente há muitas perguntas interdisciplinares que abrangem
mos para os nossos alunos o máximo de recursos para orientá-los
conteúdos de diferentes áreas em uma mesma questão, como Bio-
em suas trajetórias. Um deles é o ”Diagrama de Ideias”, para aque-
logia e Química, História e Geografia, Biologia e Matemática, entre
les que aprendem visualmente os conteúdos e processos por meio
outras. Nesse espaço, o aluno inicia o contato com essa realidade
de esquemas cognitivos, mapas mentais e fluxogramas.
por meio de explicações que relacionam a aula do dia com aulas
de outras disciplinas e conteúdos de outros livros, sempre utilizan- Além disso, esse compilado é um resumo de todo o conteúdo
do temas da atualidade. Assim, o aluno consegue entender que da aula. Por meio dele, pode-se fazer uma rápida consulta aos
cada disciplina não existe de forma isolada, mas faz parte de uma principais conteúdos ensinados no dia, o que facilita a organiza-
grande engrenagem no mundo em que ele vive. ção dos estudos e até a resolução dos exercícios.

Herlan Fellini

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Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2020
Todos os direitos reservados.

Autores
Eduardo Antônio Dimas
Tiago Rozante

Diretor-geral
Herlan Fellini

Diretor editorial
Pedro Tadeu Vader Batista

Coordenador-geral
Raphael de Souza Motta

Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica


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Editoração eletrônica
Arthur Tahan Miguel Torres
Matheus Franco da Silveira
Raphael de Souza Motta
Raphael Campos Silva

Projeto gráfico e capa


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Imagens
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Shutterstock (https://www.shutterstock.com)

ISBN: 978-85-9542-129-5

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SUMÁRIO
HISTÓRIA
HISTÓRIA GERAL
Aulas 17 e 18: Renascimentos Cultural e Científico 6
Aulas 19 e 20: Reforma e Contrarreforma 17
Aulas 21 e 22: Antigo regime: mercantilismo e absolutismo 26
Aulas 23 e 24: Absolutismo inglês e revoluções inglesas do século XVII 39
Aulas 25 e 26: Iluminismo 53

HISTÓRIA DO BRASIL
Aulas 17 e 18: Primeiro Reinado (1822-1831) 70
Aulas 19 e 20: Regência (1831-1840) e Segundo Reinado: política interna (1840-1889) 82
Aulas 21 e 22: Segundo Reinado: política externa e economia 100
Aulas 23 e 24: Crise do Império 119
Aulas 25 e 26: República da Espada 132

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Competência 1 – Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.
H1 Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura.
H2 Analisar a produção da memória pelas sociedades humanas.
H3 Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos
H4 Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura.
H5 Identificar as manifestações ou representações da diversidade do patrimônio cultural e artístico em diferentes sociedades.
Competência 2 – Compreender as transformações dos espaços geográficos como produto das relações socioeconômicas e culturais de
poder.
H6 Interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos.
H7 Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.
H8 Analisar a ação dos estados nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômico-social.
H9 Comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial
Reconhecer a dinâmica da organização dos movimentos sociais e a importância da participação da coletividade na transformação da realidade
H10
histórico-geográfica.
Competência 3 – Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes
grupos, conflitos e movimentos sociais.
H11 Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço.
H12 Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.
H13 Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa pelo poder.
Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca
H14
das instituições sociais, políticas e econômicas.
H15 Avaliar criticamente conflitos culturais, sociais, políticos, econômicos ou ambientais ao longo da história.
Competência 4 – Entender as transformações técnicas e tecnológicas e seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do
conhecimento e na vida social.
H16 Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social.
H17 Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção.
H18 Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações sócio-espaciais.
H19 Reconhecer as transformações técnicas e tecnológicas que determinam as várias formas de uso e apropriação dos espaços rural e urbano.
H20 Selecionar argumentos favoráveis ou contrários às modificações impostas pelas novas tecnologias à vida social e ao mundo do trabalho.
Competência 5 – Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, fa-
vorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade.
H21 Identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social.
H22 Analisar as lutas sociais e conquistas obtidas no que se refere às mudanças nas legislações ou nas políticas públicas.
H23 Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades.
H24 Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades.
H25 Identificar estratégias que promovam formas de inclusão social.
Competência 6 – Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e
geográficos.
H26 Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem.
H27 Analisar de maneira crítica as interações da sociedade com o meio físico, levando em consideração aspectos históricos e (ou) geográficos.
H28 Relacionar o uso das tecnologias com os impactos sócio-ambientais em diferentes contextos histórico-geográficos.
H29 Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico, relacionando-os com as mudanças provocadas pelas ações humanas.
H30 Avaliar as relações entre preservação e degradação da vida no planeta nas diferentes escalas.

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HISTÓRIA GERAL:
Incidência do tema nas principais provas

A proposta do Enem é interpretativa. Na Idade Média tem sido abordada por meio de análises acerca
maioria das questões, o candidato deve ler os de História da Arte, com enfoque no papel do feminino nas
estruturas sociais, econômicas e culturais. Já Absolutismo
textos propostos atentamente, pois as solu-
e Iluminismo têm apresentado surpresas em relação às
ções quase sempre estarão contidas neles. revoluções inglesas.

Aspectos culturais ligados ao mundo medieval, Não são abordadas questões de História, mas há um grau A análise das estruturas sociais, econômicas e culturais que
como arquitetura e arte gótica, costumam ser de interdisciplinaridade que permite o uso de conhecimentos compõem o período compreendido entre Idade Média,
abordados. Assim como na Fuvest, vale atentar- históricos para auxílio da resolução dos exercícios e escrita Renascimento, Absolutismo e Iluminismo são temas
-se para tais elementos além das estruturas polí- da redação, principalmente no que se refere ao contexto recorrentes em questões interpretativas que combinam
ticas, sociais e culturais, além do Absolutismo e atual. textos e imagens.
do Iluminismo.

É uma prova desafiadora, que prioriza a intertextu- A prova, que tem apresentado questões sobre a A prova aborda as temáticas Idade Média, Rena- Nos últimos três anos, os temas Idade Média,
alidade entre Medicina e História, principalmente Idade Média, a Reforma Protestante e o mercan- scimento Cultural e Antigo Regime por meio da Renascimento, Absolutismo e Iluminismo têm tido
voltada para temas como vacinas e disseminação tilismo, necessita de clareza das definições sobre correlação entre os aspectos sociais, econômicos presença garantida e exigem a análise de imagens,
de doenças, o que tende a intensificar-se frente ao os conceitos abordados para sua resolução. e políticos. documentos escritos e debates historiográficos.
cenário atual de pandemia.

UFMG

Além do tema central que percorre toda a prova, A prova privilegia análises e interpretações sobre Não são abordadas questões de História,
aborda Idade Média, Renascimento Cultural e Ab- diferentes processos históricos e as percepções entretanto, há um grau de interdisciplinaridade
solutismo, por meio das correlações entre aspectos de suas continuidades e rupturas. Idade Média que permite o uso dos conhecimentos históricos
sociais, políticos, econômicos e religiosos, utilizando e Renascimento Cultural são recorrentes por para auxílio da resolução dos exercícios e escrita
textos introdutórios, charges e imagens. meio da correlação entre as realidades sociais, da redação.
econômicas e religiosas.

A prova realiza análises de estruturas históri- Na prova da Unigranrio, não há uma divisão Com uma tendência em abordar temas con-
cas, que propõem uma reflexão sobre temas clara entre História e Geografia, que são temporâneos, a prova apresenta questões de
como Renascimento Cultural e Absolutismo, abordadas como Estudos Sociais. Portanto, não múltipla escolha direcionadas aos candidatos
estabelecendo relações com o contemporâ- existem definições específicas de tema, mas sim que pretendem uma vaga nos cursos de Enfer-
neo. Utiliza textos introdutórios, trechos de bastante interdisciplinaridade com tendência a magem, Biomedicina e Medicina.
registros documentais, mapas e temas contemporâneos.
imagens.

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AULAS RENASCIMENTOS CULTURAL E CIENTÍFICO
17 E 18
1, 4, 5, 8, 9, 11, 14, 15,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 4, 5 e 6 HABILIDADES:
16, 17, 18, 22 e 29

A CRIAÇÃO DE ADÃO. AFRESCO. MICHELANGELO (C. 1511). TETO DA CAPELA SISTINA, VATICANO

1. RENASCIMENTO CULTURAL estruturais estimularam mudanças no comportamento e


na forma de pensar dos europeus, que passaram a ter
E TRANSIÇÃO PARA A uma nova visão de mundo caracterizada pelo humanis-
mo. Desde o século XIV, vivia-se o esforço de trazer o ho-
IDADE MODERNA mem para a posição central do mundo e torná-lo objeto
de estudos e das artes.
Entre os séculos XI e XIV, a Europa experimentou importan-
tes transformações econômicas, sociais, políticas, intelectu- Os homens do Renascimento não nutriam desprezo pelas
ais, artísticas e culturais que promoveram uma gradativa ideias ou pelo período medieval nem eram desligados da
reorganização estrutural e o redimensionamento do seu religiosidade, apenas separaram o mundo da religião do
entendimento do mundo, no qual a valorização do conhe- centro das suas preocupações a ponto de abraçarem o hu-
cimento, o desenvolvimento material e o incremento do manismo sem abandonar a crença em Deus.
comércio se reforçaram mutuamente.
1.1. Renascimento cultural:
Essas mudanças, ocorridas desde o final da Baixa Ida-
de Média, proporcionaram o renascimento urbano, cujo definição e fatores
elemento propulsor foi o comércio, que trouxe consigo O Renascimento foi uma verdadeira revolução cultural que
o surgimento e o crescimento de uma nova classe so- marcou e definiu o final da Idade Média e os primeiros
cial: a burguesia mercantil. Coube à burguesia o papel séculos da Idade Moderna. Nesse período, ganham força
fundamental de consolidar os territórios e as monarquias os ideais e a visão de mundo da nova sociedade emer-
nacionais modernas e financiar a técnica, a ciência e a gente com o desenvolvimento da economia mercantil e do
arte. Esse longo processo histórico marca a passagem da capitalismo. Contudo, em vários aspectos esse movimento
Idade Média para Idade Moderna. Essas transformações cultural representou mais uma continuidade do que uma

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ruptura em relação ao mundo da Baixa Idade Média. Sua
origem data do século XIV, e sua máxima plenitude, dos veicular era uma visão racional, dinâmica e op-
séculos XV e XVI. ulenta do mundo e da sociedade. Uma visão na
qual o modo de vida e os valores da burguesia
O desenvolvimento das atividades comerciais permitiu a
e do poder centralizado aparecessem como única
abertura e a consolidação de rotas comerciais e feiras. Com
forma de vida e o conjunto de crenças mais satis-
elas, a distribuição de produtos na Europa foi dinamizada,
fatório para todas as pessoas. […] Ser eternizado
estimulando a fundação e a evolução de centros comer-
numa tela, com ar altivo, cercado de símbolos de
ciais que se tornaram grandes e importantes cidades. As
poder e de uma clientela subserviente era uma
atividades bancárias e financeiras foram incentivadas, e
tentação a que os ricos e poderosos não poderiam
a burguesia enriqueceu, ocupando posição de prestígio e
mais resistir. Esses atributos simbólicos, glória e
destaque na sociedade europeia.
eternidade, deixaram de ser um privilégio divino e
se tornaram um valor de mercado, à disposição de
quem pudesse adquiri-los.
SEVCENKO, NICOLAU. O RENASCIMENTO.
SÃO PAULO: ATUAL, 1994, P. 26 E 62.

1.2. Características
A cultura renascentista se opõe aos valores clericais teo-
cêntricos e dogmáticos preponderantes na Idade Média,
com destaque para estas características:
O CAMBISTA E A SUA MULHER. DETALHE. 1514. QUINTINO DE METSYS
ƒ Humanismo – valorização do homem, de sua inte-
Como forma de consolidar seu poder em uma sociedade ligência e capacidade criadora. Os humanistas defen-
dominada por nobres e clérigos, a burguesia, apoiada em diam um novo comportamento do homem europeu a
seu poder econômico, passou a financiar atividades cultu- partir da reinterpretação dos modelos estéticos artísti-
rais e artísticas que traduziam e representavam sua visão cos e literários da Antiguidade. O objetivo era a cons-
de mundo. Esses incentivos às artes tornaram-se comuns trução de uma mentalidade na qual o homem tivesse
no período renascentista e receberam a denominação de condições de se superar por meio de seus feitos.
mecenato. É importante observar que clérigos e nobres
ƒ Antropocentrismo – valorização de temas do co-
chegaram a atuar como mecenas, mas em escala reduzida
tidiano humano, do comportamento e da realidade
em relação aos burgueses.
vivenciada nas cidades europeias. Na visão antropo-
No plano intelectual, a retomada dos estudos das obras cêntrica do Renascimento, o homem é a obra-prima
clássicas greco-romanas foi fundamental e se tornou pos- entre as maravilhas da natureza criadas por Deus. Sem
sível graças aos mosteiros medievais, que preservaram esquecer a importância de Deus, as necessidades so-
muitas dessas obras, protegendo-as da destruição pelos ciais, políticas, religiosas e as angústias existenciais do
bárbaros no período das invasões. homem deveriam se tornar o centro das preocupações.
O desenvolvimento da imprensa também foi determinan- ƒ Racionalismo – valorização do conhecimento baseado
te no Renascimento cultural, uma vez que a impressão e na razão, nos sentidos e no que possa ser explicado à
a publicação das obras favoreceram a difusão e a divul- luz dos estudos da natureza e da explicação científica
gação dos novos padrões culturais que se desenvolviam. dos fenômenos; o racionalismo passou a ser privilegiado
em lugar da compreensão sobrenatural dos fenômenos.
Esses financiadores de uma nova cultura – burgue-
São exemplos disso a observação científica, os métodos
sia, príncipes e monarcas – eram chamados mece-
experimentais e a organização racional do Estado.
nas, isto é, protetores das artes. Seu objetivo não ƒ Negação dos valores medievais – a cavalaria,
era somente a autopromoção, mas também a pro- uma das mais importantes instituições da Idade Média,
paganda e difusão de novos hábitos, valores e com- entrou em declínio com o advento da pólvora e das
portamentos. Mais do que sua imagem, que podia armas de fogo. No âmbito filosófico, a Escolástica, que
ou não aparecer nas obras, o que elas deveriam buscava a conciliação da fé com a razão, passou a ser
desdenhada no Renascimento.

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ƒ Valorização da cultura clássica – artistas e intelec- ƒ Naturalismo – ao individualizar e decompor as partes
tuais renascentistas tomaram o humanismo e o racio- por meio do racionalismo, chegou-se à aguda análise e
nalismo greco-romanos como referência e inspiração. percepção da natureza.
ƒ Individualismo – o Renascimento refletiu a realidade do ƒ Hedonismo – valorização do prazer e da felicidade
capitalismo nascente, que estimulava o individualismo, a terrenas sem medo do pecado ou do inferno.
concorrência, o acúmulo de riquezas e a criatividade.

VISÃO DE MUNDO MEDIEVAL VISÃO DE MUNDO RENASCENTISTA


Teocentrismo Antropocentrismo
A verdade é resultado da observação, da exper-
A verdade está na Bíblia, na tradição e na autoridade da Igreja.
imentação e principalmente da razão.
A vida material não importa. A vida dedicada à religião é tudo. A vida terrena e material também é importante. A reali-
Afinal, a realidade é explicada somente pela vontade de Deus . dade terrestre é explicável pelo que acontece na Terra.
Conformismo: todas as mudanças são
O homem pode e deve progredir material e culturalmente.
contrárias à vontade de Deus.
Conhecer para contemplar a realidade. Conhecer para transformar a natureza: saber = poder.
A natureza é fonte do pecado. O caminho é
A natureza é maravilhosa e o homem faz parte dela.
ficar afastado de suas “tentações”.
Hedonismo: valorização do corpo e dos
Ascetismo: vida simples e afastada dos prazeres e desejos.
prazeres materiais e intelectuais.
Filosofia escolástica Filosofia humanista
Adaptação de São Tomás de Aquino ao pensamento do A contestação da Escolástica. Busca de novas ver-
grego Aristóteles – filosofia aristotélico-tomista. dades e questionamento dos dogmas tradicionais.
Dogmatismo: aceitação de certas
Separação entre fé e razão: a fé cuida do céu; a razão, da Terra.
“verdades” sem questionamento.
A razão é serva da fé. Revalorização dos estudos clássicos greco-romanos.

2. PENÍNSULA ITÁLICA: Na época do Império Romano, numerosos templos e mo-


numentos foram levados para a Itália, que se tornou um
O BERÇO DO RENASCIMENTO centro de Antiguidade Clássica. Além disso, o afluxo de
intelectuais bizantinos chegados à Itália depois da tomada
Não foi por acaso que o Renascimento teve origem na Itá-
de Constantinopla pelos turcos otomanos, em 1453, con-
lia. A península Itálica era o centro do dinâmico comércio
tribuiu para o novo clima cultural.
mediterrâneo, que interligava os entrepostos orientais à rota
de Champagne e do mar do Norte. Os centros urbanos se
tornaram ativos e surgiam grandes companhias comerciais
e grupos financeiros.
3. RENASCIMENTO ITALIANO
É comum a divisão do Renascimento Italiano em três fases:
As condições fundamentais para o Renascimento foram Trecento (século XIV), Quattrocento (século XV) e Cinque-
criadas a partir de uma economia dinâmica, mercantil, ge- cento (século XVI). O Trecento se caracterizou pelo empre-
radora de excedentes que podiam ser investidos na pro- go do dialeto toscano e pela forte influência medieval. No
dução cultural. Com o desenvolvimento mercantil ,nasceu Quattrocento houve grande empolgação com a cultura
uma nova classe social: a burguesia italiana, que buscava clássica, retorno ao grego e ao latim e ênfase na filosofia
projeção social e legitimação de seus valores. clássica. No Cinquecento, a língua italiana foi sistematiza-
da e consolidada.

3.1. Literatura
ƒ Na literatura se destaca Dante Alighieri. A Divina
comédia, sua principal obra, prenuncia o Renasci-
mento em alguns aspectos, como a substituição do
latim pelo dialeto toscano – que viria a se tornar o
O NASCIMENTO DE VÊNUS. 1485-1486. SANDRO BOTTICELLI. A ARTE E A padrão da língua nacional italiana – e a citação de
LITERATURA RENASCENTISTAS RECORREM AOS MITOS E DIVINDADES CLÁSSICOS. autores da Antiguidade Clássica.

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ƒ Francesco Petrarca, considerado o “pai do Huma- harmonia artística criada por ele derivava de seu domí-
nismo” e autor de De África e Odes a Laura, levou mais nio da anatomia e do desenho. Entre suas principais
longe a recuperação dos clássicos ao fazer uma tentati- esculturas se destacam Davi, Pietá e Moisés. Patrocina-
va sistemática de descobrir as raízes da retórica italiana do pelo papa Júlio II, Michelangelo projetou a abóbada
medieval. da nova basílica de São Pedro em Roma. Mas sua obra
mais admirável talvez seja o teto da capela Sistina, no
ƒ Giovanni Boccaccio escreveu sua obra mais notá-
Vaticano, encomendada pelo papa Júlio II.
vel por volta de 1348, o Decameron, uma coletânea
de contos. Nela é representada a crise de valores da
época. Diferencia-se da literatura medieval por suas ca-
racterísticas anticlericais e pela utilização do elemento
erótico e picaresco.
ƒ Nicolau Maquiavel é considerado o precursor do
pensamento político moderno. Sua obra O Príncipe é
uma espécie de manual de política destinado a ensi-
nar aos príncipes como conquistar o poder e mantê-lo,
mesmo contra todas as normas da moral cristã. Ma-
quiavel não pretendeu retratar um ideal que levasse em
consideração as ideias de justiça e perfeição; apenas PIETÁ, DE MICHELANGELO
determinou os meios pelos quais os homens de Estado
de sua época alcançariam os fins a que se propunham.
Ao promover a radical separação entre religião e polí-
tica, Maquiavel abriu caminho para a criação de uma
teoria política.

multimídia: letra e música


- Leonardo da Vinci – Sônia Rocha

NICOLAU MAQUIAVEL ƒ Rafael Sanzio realizou uma síntese entre os grandes


mestres de seu tempo. Produziu trabalhos marcados pelo
equilíbrio e suavidade e notabilizou-se pela glorificação
3.2. Artes plásticas da forma e da cor em si mesmas. Entre suas obras mais
ƒ Giotto foi a principal figura do Trecento, considerado importantes estão Escola de Atenas e Madona Sistina.
o precursor da pintura renascentista. Com ele a pintura
alcançou a posição de arte independente da arquite-
tura e assumiu um caráter naturalista. A humanização
das figuras representadas e o cuidado nas proporções
são traços que distinguem sua arte da medieval.
ƒ Sandro Botticelli foi um pintor que procurou conci-
liar o paganismo clássico com os valores cristãos. Seus
melhores trabalhos se baseiam em temas da mitologia
clássica. Entre eles, destacam-se a Alegoria da prima-
vera e o Nascimento de Vênus. DETALHE DA PINTURA ESCOLA DE ATENAS, DE RAFAEL. NO CENTRO,
PLATÃO SEGURA O TIMEU E APONTA PARA O ALTO, REPRESENTANDO
ƒ Michelangelo Buonaroti foi, sem dúvida, um gê- O MUNDO DAS IDEIAS. ARISTÓTELES SEGURA A ÉTICA E TEM A MÃO
VOLTADA PARA O CHÃO, INDICANDO O MUNDO MATERIAL.
nio da escultura, além de grande pintor e arquiteto. A DISPONÍVEL EM: <CIENCIAHOJE.UOL.COM.BR>.

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ƒ Leonardo da Vinci, cientista, engenheiro, excelente
artista, especialista em fortificações e em artilharia,
inventor, anatomista e naturalista, transferiu para suas
pinturas a cuidadosa observação da natureza, combi-
nada com uma poderosa percepção psicológica. Pro-
duziu obras de reconhecida e insuperável genialidade,
entre as quais se destacam A última ceia e La Gioconda
ou Mona Lisa.

MANUSCRITO DE LEONARDO DA VINCI QUE REVELA


A ANATOMIA DE UM FETO NO ÚTERO.

4. EXPANSÃO DO RENASCIMENTO
CULTURAL PELA EUROPA
No início do século XVI, as grandes navegações e o desen-
volvimento comercial e urbano estimularam transforma-
ções culturais em diversos países europeus. Essa expansão
coincidiu com a consolidação de grande parte dos Estados
modernos, que adaptaram a cultura renascentista às suas
condições específicas.

LA GIOCONDA OU MONA LISA, DE LEONARDO DA VINCI 4.1. Península Ibérica


O espanhol Miguel de Cervantes foi um dos maiores
nomes da literatura renascentista europeia. Em sua obra-
-prima, Dom Quixote de La Mancha, o protagonista, D.
Quixote, acredita ser um cavaleiro romântico medieval
que, com seu escudeiro Sancho Pança, viaja pela Espanha
em busca de aventuras. Trata-se de um louco e santo ao
mesmo tempo, cujo humor era desconhecido até então. O
estilo é bastante inovador graças à introdução do diálogo
entre os personagens. Tem-se a clara impressão de que
esse personagem adormeceu na história durante a Idade
Média e acordou numa época em que a cavalaria medieval
multimídia: vídeo já estava completamente derrotada e ultrapassada.
FONTE: YOUTUBE O comportamento de D. Quixote é o de um espanhol que
O código Da Vinci (2006) vive a decadência de seu país, mas guarda na lembrança a
época de opulência da exploração que a Espanha exerceu
Baseado no livro homônimo do escritor esta- sobre as minas e os índios da América. Desse modo, a obra
dunidense Dan Brown, desenrola-se a partir satiriza a nobreza espanhola, que insistia em se considerar
do assassinato de Jacques Saunière, curador a grande dominadora do mundo, o que não podia estar
do museu do Louvre. Robert Langdon, Sophie mais longe da verdade. Nações mais dinâmicas, como In-
Neveu e Leigh Teabing vivem várias aventuras glaterra e Holanda, derrotavam econômica e militarmente
ao tentar desvendar os códigos que levam à a outrora gloriosa Espanha.
resposta para os enigmas que Jacques Saunière
deixou em seu leito de morte. Nas artes plásticas, a Espanha forneceu pelo menos um
grande pintor: El Greco (Domenikus Theotokopoulos).

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Entre suas obras, O enterro do conde de Orgaz é um
destaque. Nela prenunciam-se elementos que seriam do-
4.2. Inglaterra
minantes no Barroco, fase posterior ao Renascimento. No século XVI, a Inglaterra se encontrava em condições
econômicas desenvolvidas e começava a superar as potên-
cias europeias. Os principais autores britânicos da época
são Thomas Morus e William Shakespeare.

multimídia: livros
Don Quijote de la Mancha
Miguel de Cervantes (1605)
O livro surgiu em um período de inovação e
diversidade por parte dos ficcionistas espa-
nhóis. A obra-prima de Cervantes parodiou os
romances de cavalaria, que haviam gozado de
imensa popularidade e se encontravam em LAURENCE OLIVIER, NO FILME HAMLET (1948)
declínio. Trata-se de um dos livros mais conhe-
O intelectual humanista Thomas Morus deixou uma obra
cidos do mundo, e sua influência na história
clássica, Utopia (do grego “em nenhuma parte”), que des-
da literatura e em outras artes é incontestável.
creve as condições de vida da população de uma ilha ima-
ginária sem propriedade privada, ou seja, sem pobres nem
ricos. A sociedade é ideal e igualitária. Morus viveu em plena
Reforma Protestante, quando Henrique VIII rompeu com a
Igreja católica e fundou a Igreja anglicana. Por não reconhe-
cer o monarca como chefe religioso, Morus foi executado.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE

O ENTERRO DO CONDE DE ORGAZ, EL GRECO


Agonia e Êxtase (1965)
Agonia e êxtase é um filme biográfico estaduni-
Gil Vicente e Luís Vaz de Camões foram as figuras mais dense de 1965, produzido e dirigido por Carol
importantes do Renascimento em Portugal. Gil Vicente, te- Reed. O enredo busca retratar os conflitos entre
atrólogo, produziu uma vasta obra com destaque para o o artista Miquelângelo e o papa Júlio II, durante
Auto da barca do inferno e Farsa de Inês Pereira; Camões a realização das pinturas do teto da Capela Sis-
escreveu a epopeia Os Lusíadas, cujo assunto é a viagem tina (1508-1512).
de Vasco da Gama às Índias.

11
4.4. Países Baixos

WILLIAM SHAKESPEARE

William Shakespeare é considerado o maior drama-


turgo de todos os tempos. O auge de sua produção tea-
tral coincide com o reinado da rainha Elizabeth I, que fez
crescer os grandes negócios e enriqueceu uma burguesia
ERASMO DE ROTERDÃ
nascente e uma nova nobreza ligada aos negócios. Essa
nova camada social desejava desfrutar de uma sociedade Erasmo de Roterdã foi um humanista cristão de con-
estável, ordenada e sem agitações ou revoltas coletivas siderável expressão, que pretendia forjar uma Igreja re-
para desenvolver plenamente seus negócios. A obra de novada. Elogio da Loucura, sua principal obra, criticava a
Shakespeare reflete esse contexto sociopolítico, que teme ganância, a imoralidade, o formalismo e a ignorância do
a anarquia e apela constantemente para a ordem. As clero, bem como o comércio de relíquias e indulgências.
tragédias ”Hamlet”, ”Ricardo III”, ”Macbeth” e ”Otelo” Erasmo propunha que a Igreja reorganizasse sua ação com
destacam-se pela forte crítica ao ideal de cavalaria, carac- base nos autênticos princípios evangélicos.
terístico do pensamento medieval.

4.3. França
As manifestações da cultura renascentista na França ocor-
reram principalmente depois que os exércitos franceses in-
vadiram a Itália e trouxeram de lá noções da nova estética
italiana. Na literatura, Rabelais, com seu Gargantua e Pan-
tagruel, foi um importante escritor ao lado de Montaigne,
autor de uma vasta obra filosófica intitulada Ensaios.

A LOUCURA. ILUSTRAÇÃO DE HANS HOLBEIN (1515)

Com exceção de Erasmo, o Renascimento nos Países Baixos


multimídia: livros foi essencialmente dominado pela pintura. Numa das regiões
mais ricas da Europa, a burguesia era disciplinada e trabalha-
A Divina Comédia – Dante Alighieri (1321) dora, sem pretensões aristocratizantes. Investia-se em arte e
O poema – talvez o maior do Ocidente doavam-se pinturas às igrejas como meio de purificação das
– descreve uma viagem do Inferno ao próprias almas. A realidade social aparece de forma autêntica
Paraíso, na qual se sucedem diversos na pintura, que reproduz a miséria e a pobreza ao lado da
acontecimentos. Sua força está na riqueza. As obras do período retratam interiores de templos,
riqueza das alegorias, que tornam o palácios, oficinas e residências, bem como objetos, naturezas-
relato atemporal. -mortas e paisagens. Nessa época se desenvolveu a técnica
do retrato, principalmente o de perfil e o retrato conjugal.

12
Os flamengos foram os inventores da pintura a óleo, por Essa teoria foi confirmada pelo italiano Galileu Galilei,
meio da qual conseguiram efeitos notáveis. Na pintura a que se serviu de uma luneta para estudar os movimentos
óleo O casal Arnolfini, de Jan van Eyck, inaugurou-se o dos astros e acabou descobrindo os satélites de Júpiter. Ga-
retrato conjugal. lileu foi julgado pelo Tribunal da Inquisição por confirmar o
heliocentrismo. Para escapar da morte, abriu mão de suas
Ainda profundamente ligado às raízes góticas da arte fla-
ideias, negando-as publicamente.
menga, Hieronymus Bosch, em O jardim das delícias,
criou uma atmosfera caótica de homens e mulheres besti- O alemão Johannes Kepler realizou estudos sobre o mo-
ficados em situações insólitas. Com preocupação sobretudo vimento dos astros e observou as órbitas dos planetas em
moralizante, o artista critica o caráter dissoluto da sociedade torno do Sol, comprovando que são elípticas e não circula-
de seu tempo. res, como se imaginava até então.
Os estudos do corpo humano estimularam descobertas e
avanços na Medicina. Leonardo da Vinci realizou estudos
de anatomia humana, assim como o médico flamengo An-
dré Vesálio, que pesquisou o corpo humano pela disseca-
ção de cadáveres.

O CASAL AMOLFINI, DE JAN VAN EYCK.


TÍPICO CASAL BURGUÊS EM ASCENSÃO SOCIOECONÔMICA

5. RENASCIMENTO CIENTÍFICO
As ciências, os estudos da natureza e a busca de expli-
cações racionais para os fenômenos naturais foram es-
timulados pelo pensamento renascentista. Em oposição
aos dogmas e verdades incontestáveis impostos pela fé,
foram estimulados o conhecimento racional, a observa-
ção e a experiência como fontes de conhecimento.

HUMANIS CORPORIS FABRICA, DETALHE DE ANDRÉ VESÁLIO

O francês Ambroise Pare descobriu uma nova maneira


de estancar hemorragias, enquanto o médico espanhol
GRAVURA DE HARMONIA MACROCÓSMICA, DE ANDREAS CELLARIUS (1660- Miguel de Servet descreveu o mecanismo da peque-
1661), REPRESENTANDO O MODELO HELIOCÊNTRICO, SEGUNDO COPÉRNICO na circulação.
Na obra De revolutionibus orbium celestium (Sobre a re- Merecem destaque ainda o suíço Paracelso (pseudônimo
volução dos globos celestes), Nicolau Copérnico negou de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohe-
a teoria geocêntrica (a Terra como centro do universo) e nheim), que abriu caminho para a doutrina dos medica-
propôs o heliocentrismo, defendendo que o centro do mentos específicos e da farmacologia, e o médico inglês
universo é o Sol, em torno do qual giram a Terra e todos os Willian Harvey, que descobriu o retorno do sangue ao
outros planetas. coração pelos vasos sanguíneos.

13
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

Artes plásticas
O Renascimento cultural teve início no século XIV, na Itália, e se estendeu por toda a Europa durante os séculos
seguintes. A península Itálica, importante centro comercial da época, possuía uma economia pujante, cujos exce-
dentes puderam ser investidos também na produção cultural.
Duas das mais famosas obras produzidas nesse período são Pietà e David, ambas de Michelangelo. A Pietà retrata a
Virgem Maria com o corpo de Jesus em seus braços, logo depois da crucificação. David retrata o pastor responsável
por derrotar o gigante Golias na famosa passagem bíblica.
Em ambas as obras, são impressionantes o realismo e a riqueza de detalhes. Essas esculturas demonstram, entre
outras coisas, a afeição do artista pela arte sacra, a riqueza presente na arte do período e a revivência de valores
clássicos pelos artistas renascentistas. Embora afirmem alguns que os renascentistas pregavam contra os mitos e
preceitos cristãos, é fácil observar que muitas obras do período refutam esse equívoco histórico.

14
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidades
16 Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social.

O desenvolvimento tecnológico, associado à sofisticação da produção e do comércio, redimensiona em diferentes


graus as relações de trabalho. Uma tecnologia como a do arado manual tende a gerar uma relação de trabalho es-
pecífica – normalmente, no caso do ocidente, a servidão. Já a máquina a vapor, durante a Revolução Industrial, esta-
beleceu a relação assalariada entre operários e burgueses. Não se trata, obviamente, de uma relação determinística,
mas de uma tendência geral.
A habilidade 16 requer a análise de textos, obras de arte ou dados estatísticos que apresentem mudanças no mundo
do trabalho associadas a inovações tecnológicas. O candidato deve ter sua capacidade de interpretação aguçada,
além de compreender as principais inovações científicas e tecnológicas na história.

Modelo
(ENEM) NO INÍCIO FORAM AS CIDADES. O INTELECTUAL DA IDADE MÉDIA – NO OCIDENTE – NASCEU COM ELAS. FOI COM O DESENVOLVIMENTO URBANO
LIGADO ÀS FUNÇÕES COMERCIAL E INDUSTRIAL – DIGAMOS MODESTAMENTE ARTESANAL – QUE ELE APARECEU, COMO UM DESSES HOMENS DE OFÍCIO QUE SE
INSTALAVAM NAS CIDADES NAS QUAIS SE IMPÔS A DIVISÃO DO TRABALHO. UM HOMEM CUJO OFÍCIO É ESCREVER OU ENSINAR, E DE PREFERÊNCIA AS DUAS
COISAS A UM SÓ TEMPO, UM HOMEM QUE, PROFISSIONALMENTE, TEM UMA ATIVIDADE DE PROFESSOR E ERUDITO, EM RESUMO, UM INTELECTUAL – ESSE HOMEM
SÓ APARECERÁ COM AS CIDADES.
LE GOFF, J. OS INTELECTUAIS NA IDADE MÉDIA. RIO DE JANEIRO: JOSÉ OLYMPIO, 2010.
O SURGIMENTO DA CATEGORIA MENCIONADA NO PERÍODO EM DESTAQUE NO TEXTO EVIDENCIA O(A):
a) apoio dado pela Igreja ao trabalho abstrato;
b) relação entre desenvolvimento urbano e divisão de trabalho;
c) importância organizacional das corporações de ofício;
d) progressiva expansão da educação escolar;
e) acúmulo de trabalho dos professores e eruditos.

Análise expositiva - Habilidades 16: O desenvolvimento urbano e o renascimento cultural promoveram trans-
B formações na sociedade, como o surgimento de novas profissões urbanas, possibilitando também uma nova divisão
do trabalho.
Alternativa B

15
DIAGRAMA DE IDEIAS

RENASCIMENTO CULTURAL

CONTEXTO CARACTERÍSTICAS

• CRISE DO FEUDALISMO • ANTROPOCENTRISMO


• CRESCIMENTO DA ECONOMIA DE MERCADO • RACIONALISMO
• FORTALECIMENTO DA BURGUESIA • CLASSICISMO
• HEDONISMO
• NATURALISMO
RENASCIMENTO NA ITÁLIA
• INDIVIDUALISMO
• PRINCIPAL CENTRO BUGUÊS DA EUROPA
• MECENATO - FINANCIAMENTO DE EXPOENTE
ARTISTAS PELA BURGUESIA E IGREJA
• LITERATURA - DANTE ALIGHIERI,
NICOLAU MAQUIAVEL, BOCACIO
TRÊS FASES
• ARTES PLÁTICAS - BITTICELLI,
• TRECENTO (XIV) MICHELANGELO, LEONARDO DA VINCI
• QUATROCENTO (XV)
• CINQUECENTO (XVI)
EXPOENTES

EXPANSÃO PELA EUROPA • ESPANHA - MIGUEL DE CERVANTES


• PORTUGAL - GIL VICENTE, CAMÕES
• CADA LOCAL COM SUAS ESPECIFICIDADES • INGLATERRA - SHAKESPEARE
• FRANÇA - RABELAIS, MONTAGNE
• PAÍSES BAIXOS - ERASMO DE ROTERDÃ

RENASCIMENTO CIENTÍFICO

CONTEXTO EXPOENTES

• ENFRAQUECIMENTO DO • NICOLAU COPÉRNICO (HELIOCENTRISMO)


PENSAMENTO CRISTÃO • GALILEU GALILEI
• ANTROPOCENTRISMO • JOHANNES KEPLER
• LEONARDO DA VINCI
CARACTERÍSTICAS

• RACIONALISMO
• ESTUDO DA NATUREZA
• EXPERIMENTAÇÃO
• OBSERVAÇÃO

16
AULAS REFORMA E CONTRARREFORMA
19 E 20
1, 2, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 4, 5, e 6 HABILIDADES:
13, 14, 15, 22, 24 e 29

1. A CRISE DA IGREJA MEDIEVAL Roterdã, Dante Alighieri e Thomas Morus. No final do século
XIV, ocorreram movimentos contestadores da Igreja Católica
E A REVOLUÇÃO ESPIRITUAL que sinalizaram para as transformações que viriam a ocorrer.
As calamidades que assolaram o período provocaram novas
DA ÉPOCA MODERNA demandas espirituais da população e refletiram o desprepa-
ro da Igreja para atendê-las. Os principais críticos da Igreja
Romana foram o inglês John Wycliffe, ligado à Universida-
de de Oxford, e o boêmio John Huss, da Universidade de
Praga. Ambos teóricos eruditos, denunciaram a riqueza do
clero como violação dos preceitos cristãos e atacaram a base
da autoridade eclesiástica ao argumentar que a Igreja não
controlava o destino do indivíduo. Afirmavam que a salvação
não dependia dos rituais da Igreja ou de seus sacramentos,
mas de aceitar o dom da fé concedido por Deus.
A reforma religiosa foi responsável pela quebra da unidade
cristã ocidental e pelo fim da hegemonia da Igreja Católica
na Europa, bem como pelo surgimento de novas igrejas in-
tegradas às novas realidades da burguesia e dos monarcas
JOHN WYCLIFFE ENTREGA A TRADUÇÃO DA BÍBLIA AOS PADRES. absolutistas.
QUADRO DE WILLIAM FREDERICK YEAMES.

Na transição da Idade Média para a Idade Moderna, o 1.1. Reforma: definição e fatores
mundo passou por grandes transformações, com destaque
A Reforma foi um movimento de revolução espiritual e de
para a Europa, onde ocorreram o Renascimento Comercial
profunda revisão religiosa e política que, no século XVI, deu
e Urbano, o desenvolvimento do capitalismo, o fortaleci-
origem ao protestantismo. Nesse processo, uma parte dos
mento das monarquias nacionais e o Renascimento Cul-
Estados católicos europeus rompeu com a Igreja Católica.
tural. Essas transformações modificaram a visão de mundo
Numa visão geral, o protestantismo foi um movimento reli-
dos homens e criaram uma realidade que se desconectava
gioso e doutrinário que marcou a passagem do feudalismo
da Igreja Católica, alicerçada em bases medievais, as quais
para o capitalismo.
condenavam, por exemplo, o lucro e a usura, elementos
fundamentais do capitalismo nascente, gerando atritos O chamado humanismo evangelista foi uma das causas
com a burguesia. Os reis absolutistas não mais admitiam importantes da Reforma. Seus adeptos defendiam uma
interferência em seus estados nacionais, o que causava renovação da Igreja para aproximá-la do cristianismo pri-
problemas de relacionamento com a Santa Sé. mitivo. Em 1509, Erasmo de Roterdã, em seu famoso livro
Elogio da Loucura, traçou o retrato da Igreja daquele mo-
A nobreza via o seu poder enfraquecido diante do desen-
mento: uma religião de pompa, rica, cujos representantes
volvimento do capitalismo e dos Estados nacionais. Assim, ostentavam um luxo sem par; uma Igreja cheia de vícios,
passou a cobiçar as terras da Igreja como alternativa de abusos e ociosidade. Havia um enorme abismo entre o que
reforçar seu poder. O comportamento de membros do cle- a Igreja pregava e o que fazia. Os membros da alta hierar-
ro se tornou alvo de críticas contundentes com o objetivo quia do clero viviam luxuosamente, totalmente alheios ao
de contestar a Igreja Católica, enfraquecendo-a e abrindo povo. O voto de castidade era habitualmente esquecido,
espaço para a quebra de sua hegemonia. causando escândalo entre a população. Em uma prática
O comportamento do clero era criticado pelos humanistas que ficou conhecida como simonia, as relíquias sagradas
do Renascimento, dentre os quais se destacam Erasmo de (objetos supostamente tocados por Cristo, por Maria ou

17
pelos santos) eram vendidas como mercadorias e os cargos pela Reforma estava perfeitamente adequada aos anseios
eclesiásticos eram objeto de negociatas. da nova classe burguesa, que se encontrava em fase de
expansão.

2. REFORMA NO SACRO
IMPÉRIO ROMANO-GERMÂNICO:
O LUTERANISMO
2.1. As origens da Reforma
Sob a liderança de Martinho Lutero (1483-1546), a Re-
A VENDA DE INDULGÊNCIAS. PINTURA DE AUGSBURG, C. 1530. forma teve início no Sacro Império Romano-Germânico, em
parte da atual Alemanha. Filho de camponeses nascido na
Contudo, o abuso que promoveu maior reação foi o comér- Saxônia, Martinho Lutero cursou filosofia na Universidade de
cio de indulgências. As indulgências eram documentos Erfurt, quando se tornou monge, ingressando na Ordem de
vendidos pela Igreja e assinados pelo papa que absolviam Santo Agostinho, em 1505. Em 1512 doutorou-se em teo-
o comprador de alguns pecados cometidos, diminuindo o logia e passou a lecionar na Universidade de Wittenberg.
tempo de sua pena no purgatório.
A formação das monarquias nacionais foi outro motivo im-
portante que impulsionou o movimento reformista. Duran-
te o feudalismo, a Europa se apresentava fragmentada em
inúmeros pequenos feudos, em que as relações com as re-
giões vizinhas eram pouco comuns. As pessoas não tinham
uma consciência muito clara de nacionalidade, ou seja, não
se imaginavam habitantes de um país. Nos séculos XV e
XVI, formaram-se nações com um rei que exercia total au-
toridade sobre os limites do território. As pessoas que aí
habitavam falavam a mesma língua e tinham consciência
de sua nacionalidade. A Igreja, possuidora de terras e pro-
priedades espalhadas por toda a Europa, passou a ser con-
siderada uma potência estrangeira. Aos poucos, começou a
se formar uma reação contra as possessões eclesiásticas e a
arrecadação de impostos ou taxas pelo clero. Essa situação
causou o declínio da autoridade papal, pois o rei e a nação
passaram a ser vistos como mais relevantes.
Outra causa não menos importante da Reforma foi a as- MARTINHO LUTERO
censão da burguesia. A classe dos comerciantes precisava O comportamento de integrantes do clero e o apego aos
mudar os dogmas da Igreja Católica que proibiam o lucro e bens materiais por parte da Igreja incomodavam Lutero.
a usura. A burguesia necessitava de uma religião que justi- Discípulo de Santo Agostinho, criticava o comércio de in-
ficasse seu amor pelo dinheiro e incentivasse as atividades dulgências e defendendia que a salvação seria alcan-
ligadas ao comércio. çada pela fé, acreditando que as boas obras não eram
Na visão de mundo católica, a única forma de riqueza legí- capazes de afastar o homem do pecado. Suas ideias eram
tima era a terra. O dinheiro, o comércio e as atividades ban- pregadas na Universidade de Wittenberg e entraram em
cárias eram práticas pecaminosas, indignas de um cristão. rota de colisão com a Igreja.
Trabalhar para satisfazer as necessidades era justo, mas Em 1517, o Papa Leão X intensificou a venda de indulgên-
fazê-lo para lucrar, que é a essência do capital, era pecado. cias para arrecadar fundos para a construção da Basílica
A doutrina protestante, criada pela Reforma, pregava exa- de São Pedro em Roma. Esse fato incomodou Lutero pro-
tamente o oposto. A riqueza, materializada principalmente fundamente, que reagiu, publicando suas 95 teses – fi-
no dinheiro, era um dom de Deus. A doutrina estabelecida xando-as na porta da Catedral de Wittenberg – contra a

18
venda de indulgência e propondo alterações na doutrina um tribunal secular. Para proceder o julgamento, foi convoca-
religiosa. Lutero, porém, ainda não havia manifestado um da a Dieta de Worms, em 1521, pelo imperador do Sacro
rompimento absoluto com a Igreja. Império Romano-Germânico, Carlos V, católico devoto e alia-
do do papa. Quando solicitado a se retratar, Lutero respon-
A princípio, Lutero foi convocado a se retratar, sob pena de
deu: “Se eu não estiver convencido de erro pelo testemunho
ser considerado herege. Por se negar a obedecer a referida
das Escrituras ou pela razão clara (...) não posso retratar-me,
retratação, foi excomungado por meio da Bula papal Exsur-
nem me retratarei, de coisa alguma, pois não é seguro nem
ge Domini, que Lutero queimou em praça pública, explici- honesto agir contra a própria consciência. Deus me ajude.
tando seu rompimento com a Igreja Católica. Amém”. Pouco depois desse confronto com o imperador,
Devido à sua excomunhão, Lutero teve que ser julgado por Lutero precisou se esconder para não ser preso.

LUTERO NA DIETA DE WORMS. PINTURA DE ANTON VON WERNER (1843-1915).

Entretanto, Lutero não estava sozinho. Ele contava com nobreza, Lutero apoiou o massacre contra os pobres mise-
grande apoio da nobreza alemã, interessada no enfra- ráveis que ousaram contestar sua situação deplorável.
quecimento da Igreja. É importante destacar que, à época,
no Sacro Império Romano-Germânico, existiam inúmeros 2.3. A Paz de Augsburgo (1555)
pequenos principados governados por uma nobreza inte-
ressada em diminuir a influência do imperador e do papa Em 1529, na Dieta de Spira, o imperador Carlos V proibiu
em seus territórios com o intuito de submeter a Igreja e a difusão da doutrina luterana no Sacro Império Romano-
expropriar-lhe os bens. -Germânico, provocando protestos entre seus seguidores,
que passaram a ser chamados de protestantes. Os conflitos
Refugiado sob a proteção do Duque Frederico da Saxônia,
se tornaram inevitáveis, especialmente quando os príncipes
em Wartburg, Lutero traduziu a Bíblia do latim para o ale-
alemães criaram a Liga Militar de Smalkalde.
mão, retirando algumas partes que a compunham.
As lutas só foram encerradas em 1555, com a Paz de Au-
2.2. A revolta camponesa anabatista gsburgo, que estabeleceu que a escolha da religião em
cada região do Sacro Império caberia a seus respectivos
de Thomas Müntzer (1524-1525) príncipes (cujos régio ejus religio). Assim sendo, o norte do
A reforma luterana começou a atrair seguidores de diver- Sacro Império tornou-se protestante, e o sul, católico. Des-
sas classes sociais. Camponeses anabatistas miseráveis se sa forma, a unidade da Igreja romana deixava de existir.
uniram em torno de Thomas Müntzer exigindo as terras da
Igreja, a supressão das obrigações servis (em espécie ou
trabalho) e a devolução das terras comunais. Lutero con-
2.4. A doutrina luterana
denou veementemente os camponeses, referindo-se a eles Os fundamentos do luteranismo estão na Confissão de
como perturbadores da ordem que deveriam ser tratados Augsburgo, exposta, em 1530, por Melanchton – que
como cães raivosos. Comprometido com os interesses da fora monge junto com Lutero. São eles:

19
ƒ A salvação não se alcança pelas obras, mas pela fé e
pela confiança na misericórdia de Deus.
ƒ O culto simples – somente salmos e leitura da Bíblia –
em língua nacional.
ƒ A manutenção de dois (batismo e eucaristia) dos sete
sacramentos do catolicismo.
ƒ A crença de que, durante a eucaristia, há apenas a pre-
sença (consubstanciação) de Jesus no pão e no vinho,
e não a transformação (transubstanciação) do pão e
do vinho no corpo e no sangue de Cristo, como creem multimídia: vídeo
os católicos.
FONTE: YOUTUBE
ƒ O contato direto entre Deus e o fiel por meio das
Lutero
orações, sendo dispensável o clero como “interme-
diário”. Depois de quase ser atingido por um raio, Martim
Lutero (Joseph Fiennes) acredita ter recebido um
ƒ O livre exame, ou seja, o direito de todo cristão interpre- chamado. Ele se junta ao monastério, mas logo
tar as palavras da Bíblia segundo sua própria consciência, fica atormentado com as práticas adotadas pela
equivalendo à emancipação da vontade individual no Igreja Católica na época. Após pregar em uma
plano da ideologia religiosa. igreja suas 95 teses, Lutero passa a ser persegui-
A ética religiosa luterana apresentava poucos atrativos do. Pressionado para que se redima publicamen-
para a burguesia, uma vez que condenava o dinheiro e o te, Lutero se recusa a negar suas teses e desafia a
comércio, associando-os ao demônio. Igreja Católica a provar que elas estejam erradas
e contradigam o que prega a Bíblia. Excomunga-
O luteranismo se expandiu basicamente no Sacro Império do, Lutero foge e inicia sua batalha para mostrar
e nos países escandinavos (Suécia, Dinamarca e Noruega), que seus ideais estão corretos e que eles permi-
regiões essencialmente rurais, pouco desenvolvidas em ter- tem o acesso de todas as pessoas a Deus.
mos comerciais.

3. O CALVINISMO
3.1. A Reforma na Suíça
A Suíça havia se tornado independente em 1499, mas
ainda apresentava forte integração com o Sacro Império
Romano-Germânico no início do século XVI. Assim, as
teses luteranas foram rapidamente difundidas pelo país,
com destaque para Ulrico Zuinglio (1489-1531), que
era seguidor de Lutero. Suas pregações atraíram seguido-
res que se envolveram em uma Guerra Civil (1529-1531),
na qual o próprio Zuinglio foi morto. O conflito foi encer-
rado com a Paz de Kappel, que estabeleceu a liberdade
religiosa no país.
O francês João Calvino – que havia sido perseguido na
CALVINO
França por ser um seguidor da Reforma –, aproveitando-
-se da liberdade religiosa implantada na Suíça, lançou, em Suas ideias e pregações conquistaram cada vez mais adep-
1534, a obra Instituição da Religião Cristã, na qual suplica- tos. A cidade de Genebra, onde Calvino havia adquirido
va ao rei suíço proteção aos protestantes franceses e expu- prestígio e poder, passou a regular a vida das pessoas por
nha sua doutrina religiosa, embasada na ideia de predesti- meio de um órgão denominado Consistório, que vigiava
nação. Assim como Lutero, Calvino condenou o celibato e a disciplina, a moral e as normas de comportamento, que
a maioria dos sacramentos. iam das vestimentas a hábitos que deviam ser seguidos.

20
Rigoroso e autoritário como a Inquisição Católica, o Con- A doutrina calvinista foi a que melhor se adequou aos prin-
sistório aboliu músicas, festas, bares e jogos, além de pro- cípios burgueses e capitalistas. Considerada a teologia do
mover execuções na fogueira, como a do médico Miguel capitalismo, foi a ética reformista que mais se expandiu,
de Servet, preso e queimado em Genebra por defender atingindo diversos países. Na França, seus fiéis ficaram co-
princípios considerados pecaminosos por Calvino. nhecidos como huguenotes; na Inglaterra, como puritanos;
na Escócia, como presbiterianos; e na Holanda, como refor-
3.2. A doutrina calvinista mados. Países como Dinamarca e Holanda adotaram o cal-
vinismo como religião oficial depois de sua independência.

multimídia: vídeo
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Elizabeth - A era de ouro


Inglaterra, 1585. Elizabeth I (Cate Blanchett) está
quase há três décadas no comando da Inglaterra,
Fundamentalmente, o calvinismo se baseou no luteranis- mas ainda precisa lidar com a possibilidade de
mo: aboliu todos os sacramentos, menos o batismo e a traição em sua própria família. Simultaneamente,
eucaristia; defendeu que Cristo se encontra presente ape- a Europa passa por uma fase de catolicismo fun-
nas espiritualmente na eucaristia; acabou com o culto dos damentalista, em que tem como testa de ferro o
santos e das imagens e permitiu o livre exame da Bíblia. O rei Felipe II (Jordi Mollá), da Espanha. Apoiado
calvinismo, entretanto, radicalizou o luteranismo. pelo Vaticano e armado com a Inquisição, Felipe
II planeja destronar a “herege” Elizabeth I, que é
Calvino, como Lutero, defendia que a salvação não se al- protestante, e restaurar o catolicismo na Inglater-
cançava pelas obras, mas pela fé. O homem, segundo Cal- ra. Preparando-se para entrar em guerra, Eliza-
vino, era miserável, corrompido e cheio de pecados, não beth busca equilibrar as tarefas da realeza com
merecedor da graça divina. Somente a fé poderia salvar-lhe uma inesperada vulnerabilidade, causada por
a alma. Mas essa salvação, para Calvino, dependia somen- seu amor proibido com o aventureiro Sir Walter
te da vontade divina. Essa era a ideia de predestinação. Raleigh (Clive Owen).
Para Calvino, Deus havia predestinado os homens de ante-
mão: a minoria seria eleita à salvação, enquanto a maioria
seria condenada à eterna maldição.
Os princípios calvinistas agradaram aos segmentos burgue-
ses do país, pois favoreciam os interesses capitalistas ao 4. REFORMA NA INGLATERRA:
criar uma nova visão de trabalho e da riqueza. Baseado na
O ANGLICANISMO
predestinação, o calvinismo justificava a riqueza, a usura e
estimulava o trabalho – identificado como um dos sinais de Na Inglaterra, a reforma religiosa teve um caráter extrema-
salvação – e o lucro, na medida em que acúmulo de capitais mente político. Conduzida pelo rei Henrique VIII, levou à
era visto como cumprimento de um dever dado por Deus formação de uma igreja nacional que serviu de instrumen-
à burguesia. Além disso, criou modelos de comportamento to de consolidação do absolutismo real no país.
para os trabalhadores, que deviam ser honestos, submissos O poder econômico da Igreja Católica e sua influência fu-
e conformados, devendo cumprir da melhor e mais eficiente giam do controle o Estado. A Igreja acumulava riquezas por
maneira a função que lhes foi dada por Deus. meio de tributos impostos à população e o clero ampliava

21
cada vez mais suas rendas oriundas das vastas terras. Essa Foi adotada a doutrina calvinista, sendo mantidas, porém, a
situação provocava um forte sentimento antipapal nos hierarquia episcopal e a formalidade do catolicismo no culto.
meios políticos do país.
Em 1530, o rei inglês Henrique VIII solicitou ao Papa Cle-
mente VII a anulação de seu casamento com Catarina de
Aragão, pois desejava se casar com Ana Bolena, sob a
justificativa de sua esposa não lhe dar um filho homem
para herdar o trono. Diante da negação papal, Henrique
VIII casou-se, em 1533, com Ana Bolena, dando início a um
processo de ruptura com a Igreja Católica na Inglaterra. O
papa Clemente VII excomungou-o.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE

A outra
Anne (Natalie Portman) e Mary (Scarlett Johans-
son) são irmãs que foram convencidas por seu
pai e tio ambiciosos a aumentar o status da famí-
lia tentando conquistar o coração de Henry Tudor
(Eric Bana), o rei da Inglaterra. Elas são levadas
à corte e logo Mary conquista o rei, dando-lhe
um filho ilegítimo. Porém, isto não faz com que
REI HENRIQUE VIII Anne desista de seu intento, buscando de todas
as formas passar para trás tanto sua irmã quanto
Na verdade, o soberano inglês aproveitou as questões re-
lacionadas a seu casamento para acabar com o poder da a rainha Catarina de Aragão (Ana Torrent).
Igreja Católica na Inglaterra que, de certa forma, concorria
com o poder do rei. Em 1534, o Parlamento aprovou o
Ato de Supremacia, colocando a Igreja sob a autoridade
do rei. Estava nascendo a Igreja Nacional Inglesa – a Igre-
ja Anglicana, que tinha como chefe supremo o monarca
5. A REAÇÃO DA IGREJA
inglês. Os bens da Igreja Católica foram confiscados, pas-
sando para as mãos da nobreza. Assim, os barões ingleses
CATÓLICA: A CONTRARREFORMA1
viram suas terras ampliadas a ponto de multiplicar a cria- A Reforma religiosa foi responsável pelo rompimento da
ção de ovelhas, num momento em que a lã começava a ser unidade cristã no Ocidente. A Igreja Católica perdeu o con-
procurada pelas manufaturas de tecidos. trole da doutrina religiosa cristã devido ao surgimento de
novas igrejas sob orientação luterana e calvinista. A Igreja
O sucessor de Henrique VIII foi seu filho Eduardo VI, que
também viu reduzido seu espaço e seu poder político, além
manteve a Reforma no país, aproximando-se da doutrina
de perder importantes áreas territoriais e bens que foram
Calvinista. Depois de sua morte prematura, em 1553, foi
confiscados em regiões reformadas.
sucedido pela irmã Maria Tudor, que se casou com Felipe
II, rei da Espanha e católico fervoroso, reaproximando o A situação gerou a necessidade de uma reação por parte
trono inglês da Santa Sé e perseguindo violentamente os de Igreja Católica em um movimento denominado Con-
protestantes e calvinistas. A rainha Maria Tudor morreu em trarreforma. A expansão do protestantismo foi um gran-
1558, sendo sucedida por Elisabeth I, que era filha de Ana de estímulo para que a Igreja Católica fizesse uma análi-
Bolena e Henrique VIII. se profunda de suas doutrinas, estruturas e processos de
A Igreja Romana considerava a rainha Elisabeth bastarda e formação. Esse movimento causou uma reestruturação da
fruto do pecado cometido pelo pai. Quando a nova rainha Santa Sé, fundamentada no princípio de moralização do
retomou a Reforma Anglicana, consolidando-a, o rompimen- clero e na reorganização das estruturas eclesiásticas.
to foi definitivo. Em 1563, o Parlamento britânico aprovou
1. O termo “Contrarreforma” está em desuso pois dá a ideia incorreta de
a Confissão dos 39 artigos, definindo o cânone Anglicano. que a reforma católica só ocorreu por consequência da reforma protestante.

22
salvação pela fé e boas obras, fundamentado na epístola
de São Tiago; a intercessão dos santos e da Virgem Ma-
ria; o celibato clerical; a infalibilidade do papa; a hierar-
quia eclesiástica e a infalibilidade do casamento.
ƒ O combate à corrupção do clero, com a proibição da
venda de indulgências e de cargos eclesiásticos, além
da obrigatoriedade dos clérigos frequentarem seminá-
rios antes de sua ordenação.
multimídia: livros ƒ A reativação do Tribunal do Santo Ofício ou Santa Inqui-
sição, com o objetivo de julgar e punir as heresias.
A Reforma Protestante - Coleção O Cotidiano
da História - Luiz Maria Veiga ƒ A criação do Index Librorum Prohibitorum, uma lista de
Durante a Idade Média, os povos europeus cris- livros cuja leitura estava proibida aos católicos, entre
tãos reconheciam a Igreja Católica como a úni- eles alguma obras de autores renascentistas e de orien-
ca autoridade espiritual existente. No entanto, tação religiosa protestante e calvinista.
o alto clero havia acumulado tanto poder que ƒ A busca de novos fiéis, por meio do estímulo à atuação
passou a se preocupar mais com as questões
de ordens religiosas, especialmente no recém-desco-
terrenas do que com as espirituais. Era comum
berto continente americano.
encontrar religiosos envolvidos com nepotismo,
corrupção, luxúria, o que deixava a Igreja cada
vez mais desacreditada perante a população.
Em 1517, no entanto, o Catolicismo sofreu um
grande abalo. Naquele ano, o monge alemão
Martinho Lutero criticou duramente essas prá-
ticas vergonhosas e desencadeou um processo
de reforma religiosa que provocou um verda-
deiro cisma na Igreja Católica. Estava nascendo
o Protestantismo, uma religião que obrigou os INDEX LIBRORUM PROHIBITORUM
católicos a mudarem sua postura para recuperar
o prestígio junto a seus fiéis. Conteúdo histórico: Em relação à busca de novos fiéis, merece destaque a atu-
ação da Companhia de Jesus ou Ordem dos Jesuí-
ƒ Panorama socioeconômico e político da
tas, fundada em 1534 por Inácio de Loyola. A Ordem era
Alemanha no século XVI;
caracterizada pela rígida disciplina e respeito pela hierar-
ƒ Relações entre religião, sociedade, políti- quia, lembrando uma organização militar, o que fez com
ca e economia alemãs; que ficassem conhecidos como “soldados de Cristo”. Pri-
ƒ Lutero e o estopim da Reforma religiosa; morosos educadores, os jesuítas fundaram e organizaram
escolas em diversas regiões, especialmente no continente
ƒ Müntzer e a repressão às revoltas cam-
americano onde sua atuação foi destacada, sobretudo na
ponesas;
catequese dos nativos.
ƒ Abalo na unidade e na autoridade da Ig-
reja Católica;
ƒ Limites da Reforma Luterana.

A Contrarreforma teve início em 1545, quando o Papa


Paulo III convocou o Concílio de Trento. A princípio, fo-
ram convidados teólogos protestantes e calvinistas, mas
sem atuação marcante. O Concílio ocorreu e o clero cató-
lico teve a oportunidade de reavaliar a estrutura da Santa
Sé, tomando algumas decisões que iriam nortear a sua
atuação junto aos fiéis, entre as quais é possível destacar:
ƒ A reafirmação dos dogmas católicos, como o princípio da O PADRE JESUÍTA ANTÔNIO VIEIRA CATEQUIZANDO OS ÍNDIOS.

23
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, o sociólogo alemão Max Weber discorre sobre a importância da
Reforma Protestante para a formação do capitalismo moderno, de modo que relaciona as doutrinas religiosas de cren-
ça protestante para demonstrar o surgimento de um modus operandi de relações sociais que favorece e caracteriza a
produção de excedentes, gerando o acúmulo de capital.
Nesse sentido, pode-se afirmar que o mundo, outrora dominado pela religião católica, era também concebido a
partir da cultura por ela promulgada. Isso significa que o modo de vida pregado no catolicismo era propagado para
além dos limites da Igreja, perpassando a vida dos sujeitos. No entanto, o catolicismo condenava a usura e pregava
a salvação das almas por meio da confissão, das indulgências e da presença nos cultos. Dessa forma, o católico
enxergava o trabalho como modo de se sustentar, e não via problema em também se divertir, buscando modos de
lazer nos quais empenhava seu dinheiro, produzido apenas para seu usufruto. Menos temerário ao pecado que o
protestante, e impregnado pela proibição da usura, o católico pensava que pedir perdão a seu Deus seria suficiente
para elevar-se ao “reino dos céus”. Dessa maneira, seguindo essa cultura religiosa, a acumulação de bens não
encontrou caminhos amplos e permaneceu adormecida.
No entanto, com o advento do protestantismo, a doutrina se modificou, e a salvação passou a ser, para alguns, não mais
passível de ser conquistada, mas sim uma providência divina, em que o trabalho era meio crucial para glorificar-se. Para
o protestante, o trabalho enobrece o homem, o dignifica diante de Deus, pois é parte de uma rotina que dá às costas ao
pecado. Durante o período em que trabalha, o indivíduo não encontra tempo de contrariar as regras divinas: não pratica
excessos, não cede à luxúria, não se dá à preguiça: não há como fugir das finalidades celestiais. E, complementando a
doutrina protestante, é crucial pontuar que nessa religião não há espaço para sociabilidade mundana, pois todo o pra-
zer que se põe a parte da subserviência a Deus foi considerado errado e abominável. Assim, restava a quem acreditava
nessas premissas o trabalho e a acumulação, já que as horas estendidas na produção excediam as necessidades desses
religiosos, gerando o lucro.
Assim, quando se fala em uma concepção tradicional de trabalho, trata-se da concepção católica, que não acumula-
va e pensava o trabalho como meio de garantir subsistência. Já a concepção que vê o trabalho como fim absoluto é a
protestante, que enxerga no emprego de esforços produtivos a finalidade da própria existência humana, interligada
com os propósitos providenciais de Deus.

MAX WEBER

24
DIAGRAMA DE IDEIAS

REFORMA E CONTRARREFORMA

1 - REFORMA

QUANDO FATORES

PASSAGEM DA IDADE MÉDIA PARA A MODERNA • ABUSOS E IMORALIDADES DO CLERO


(TRANSIÇÃO DO FEUDALISMO PARA O CAPITALISMO) • VENDA DE INDULGÊNCIAS
• SIMONIA
• SURGIMENTO DO CAPITALISMO
CONSEQUÊNCIA • CRÍTICA CATÓLICA AOS JUROS E USURA
• FORMAÇÃO DAS MONARQUIAS NACIONAIS
QUEBRA DA UNIDADE CRISTÃ NA EUROPA OCIDENTAL • CRÍTICA AO PODER DA IGREJA NOS TERRITÓRIOS

LUTERANISMO CALVINISMO ANGLICANISMO

ORIGEM: SACRO IMPÉRIO ORIGEM: SUÍÇA ORIGEM: INGLATERRA


ROMANO-GERMÂNI- FUNDADOR: JOÃO CALVINO (1534) FUNDADOR: HENRIQUE VIII
CO (ALEMANHA) DOUTRINA: • 1534 - “ATO DE SUPREMACIA”
FUNDADOR: MARTINHO LUTERO • SALVAÇÃO POR PRE- • ROMPE COM A IGRE-
• 1517 - “95 TESES DE LUTERO” DESTINAÇÃO JA CATÓLICA
• 1529 - PROIBIÇÃO DO • VALORIZAÇÃO DO TRA- • O REI SE TORNA CHE-
LUTERANISMO BALHO E DO LUCRO FE DA IGREJA
• 1555 - PAZ DE AUGSBURGO • CONSISTÓRIO - CÓDIGO • CONFISCO DOS BENS DA IGREJA
DOUTRINA: ÉTICO E MORAL RÍGIDO DOUTRINA:
• SALVAÇÃO PELA FÉ LOCAIS: • MANUTENÇÃO DA HIERARQUIA
• DOIS SACRAMENTOS: BA- • SUÍÇA: CALVINISMO • ECLESIÁSTICA
TISMO E EUCARISTIA • FRANÇA: HUGUENOTES • 7 SACRAMENTOS CATÓLICOS
• CONSUBSTANCIAÇÃO • INGLATERRA: PURITANOS • USO DA LÍNGUA INGLESA
• LIVRE INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA • ESCÓCIA: PRESBITERIANOS • EM CULTOS
LOCAL: NORTE DA ALEMANHA

2 - CONTRARREFORMA

REAÇÃO DA IGREJA
REVISÃO DA DOUTRINA
CATÓLICA À REFORMA

• REAFIRMAÇÃO DOS DOGMAS CATÓLICOS


• PROIBIÇÃO DA VENDA DE INDULGÊNCIAS E SIMONIA
CONCÍLIO
• REATIVAÇÃO DA INQUISIÇÃO
DE TRENTO
• INDEX: LIVROS PROIBIDOS
• “COMPANHIA DE JESUS” (1534) - EXPANSÃO DA FÉ CATÓLICA

25
ANTIGO REGIME:
AULAS MERCANTILISMO E ABSOLUTISMO
21 E 22 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10,
11, 12, 13, 14, 15, 16, 17,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 4, 5 e 6 HABILIDADES:
18, 19, 20, 22, 23, 24, 25,
26, 27 e 28

1. O ESTADO MODERNO

LUÍS XIV E SUA FAMÍLIA, RETRATADOS COMO DEUSES ROMANOS. JEAN NOCRET (1670). NESSA IMAGEM É POSSÍVEL PERCEBER O REI LUÍS XIV
RETRATADO COMO UMA FIGURA MITOLÓGICA, COMO UM DEUS. A CENTRALIZAÇÃO POLÍTICA DE SEU REINADO, EM QUE O REI ERA A ENCARNAÇÃO
DO PODER E DO ESTADO, CHEGOU AO ÁPICE DURANTE A IDADE MODERNA. A ELE É ATRIBUÍDA A AFIRMAÇÃO: “O ESTADO SOU EU”.

a descentralização feudal pelo centralismo monárquico em


1.1. As origens do Estado Moderno vários países da Europa.
Na Baixa Idade Média, paralelamente à crise do feudalis-
mo e à decadência da nobreza senhorial, ocorreu o renas- Na transição da Idade Média para a Idade Moderna, ocor-
cimento do comércio urbano e a formação da burguesia reu o processo de formação dos Estados Modernos, em
nos países do Ocidente europeu. As cidades, por sua vez, contraposição aos feudos, marcados pelo predomínio po-
ainda eram controladas pelos feudos, e os burgueses eram lítico do poder local e diretamente ligados à posse da ter-
controlados pelos nobres. A estreiteza dos mercados locais ra. Os Estados Modernos mantiveram as velhas estruturas
prejudicava o comércio à longa distância. O particularismo feudais, como o predomínio político e social da nobreza e
feudal e os privilégios da nobreza tornavam-se um entrave do clero, que obtiveram privilégios fiscais e jurídicos, asso-
ao crescimento das cidades, à expansão dos negócios e ao ciadas a novos elementos, como a centralização do poder
enriquecimento da burguesia. Só a força e a autoridade de político e práticas econômicas intervencionistas.
uma monarquia centralizada poderiam, suprimindo a inde- A construção da estrutura burocrática dos Estados Mo-
pendência dos feudos e submetendo a nobreza, promover dernos exigia vultosas quantias financeiras, o que incen-
a unificação territorial do país, impor a obediência à sua tivava uma crescente necessidade de tributos diretamente
população e dar proteção à burguesia. arrecadados e administrados pelo governo central, que
No final da Idade Média, essa situação levou à formação controlava as atividades comercias por meio de práticas in-
de uma aliança entre a burguesia e a realeza que substituiu tervencionistas fundamentais para impulsionar o desenvol-

26
vimento da acumulação de capital por meio do comércio e
das atividades artesanais. 2. O ABSOLUTISMO
1.2. As características 2.1. Definição e características
do Estado Moderno A centralização do poder e da autoridade política na figura
do soberano foi uma das principais características do pe-
As principais características do Estado Moderno eram: ter-
ríodo de formação dos Estados Modernos. Chegou-se ao
ritório definido, moeda nacional, idioma comum, centrali-
limite de associar o poder dos reis a desígnios divinos, ou
zação política, organização da burocracia estatal e exército
seja, a supostas linhagens sagradas.
nacional.
Por Absolutismo entenda-se o poder ilimitado, incontes-
tável e inquestionável. Os reis decretavam leis, impunham
tributos, definiam questões de justiça e comandavam os
exércitos. Superiores em relação a todos os demais grupos
sociais e gananciosos por mais e mais prestígio, os sobera-
nos passaram a disputar espaço no Estado Moderno com a
nobreza e a burguesia.
O Estado Absolutista alimentava-se desse conflito, fortale-
cia-se com as disputas e oferecia concessões aos dois la-
dos: privilégios fiscais e jurídicos à nobreza e protecionismo
econômico e política econômica ditada pelo Estado para a
burguesia.

2.2. Os teóricos do Absolutismo


Teóricos e pensadores fundamentaram o poder absolutista,
EXÉRCITOS NACIONAIS DA FRANÇA E DA INGLATERRA EM COMBATE justificaram sua origem e o comportamento autoritário dos
NA BATALHA DE AZINCOURT, NO NORTE DA FRANÇA, DURANTE A reis. Os principais teóricos do Absolutismo foram Nicolau
GUERRA DOS CEM ANOS, EM 25 DE OUTUBRO DE 1415.
Maquiavel, Jacques Bossuet, Jean Bodin e Thomas Hobbes.
A formação das monarquias nacionais surgiu de um pro-
cesso gradual de acumulação de poderes nas mãos dos
reis. A princípio, os soberanos estabeleceram a delimita-
ção do território, no qual exerceriam sua autoridade e in-
fluência. Os poderes locais da nobreza seriam submetidos
à autoridade do monarca, que passou a impor tributos e
regras nacionais.
Outro instrumento de consolidação dos Estados Moder-
nos foi a imposição de um idioma nacional, que deve-
ria ser usado nos limites do território onde o monarca
mantinha sua autoridade, associado a origens, tradições
e costumes comuns.
Os monarcas impuseram moedas nacionais, fundamen-
tais nas trocas comerciais e na arrecadação tributária.
Para garantir a manutenção da autoridade real, foram
formados os exércitos nacionais, que simbolizavam o po-
NICOLAU MAQUIAVEL
der dos reis expresso no monopólio da força pelo Estado.
Esses exércitos nacionais eram disciplinados, remunera- ƒ Nicolau Maquiavel (1469-1527) nasceu em Flo-
dos e diretamente controlados pelos reis, que os usavam rença, cidade italiana e importante palco do Renas-
para impor sua autoridade e garantir o respeito às suas cimento Comercial. Sua obra mais destacada foi O
ordens em todo o país, além de garantir a defesa do ter- Príncipe, dedicada ao governante de Florença, Lou-
ritório contra inimigos externos. renço de Médici. Nela, expressa sua concepção sobre

27
o Estado Moderno. Defende um Estado forte e sobe- concílio, simbolizando que todo poder (secular e religioso)
rano, cujos interesses devem se sobrepor aos valores está nas mãos do soberano, único senhor absoluto.
morais. Ao soberano cabe que seja ao mesmo tempo
“amado e temido”. O príncipe deve estar prepara-
do para “fazer o bem, se possível, e o mal sempre
que necessário”, sem medir esforços para impor sua
vontade. A prioridade do príncipe é manter seu poder,
sem entrar no mérito dos meios para esse fim. A lógi-
ca básica do pensamento de Maquiavel sintetiza-se
na frase: “Os fins justificam os meios”. Maquiavel é
considerado o precursor da ciência política.
ƒ Jacques Bossuet (1627-1704) foi um bispo francês
que viveu na corte e participou da educação do futuro
rei Luís XIV. Bossuet estabeleceu uma teoria sobre o
Absolutismo na obra Política segundo a Sagrada Escri- CAPA DA EDIÇÃO ORIGINAL DE LEVIATÃ (1651).
tura. À luz de princípios religiosos e bíblicos, justificou Nas sociedades primitivas sem Estado nem leis, os homens
a escolha do rei como vontade direta de Deus, assim viviam em conflitos sociais, matando-se uns aos outros
como fez com Saul, personagem do Antigo Testamen- por motivos banais, conflitos esses que comprometiam a
to. O poder do rei emanaria diretamente de Deus. Ser própria existência da humanidade, fenômeno que inspirou
rei era um chamado divino. Contestar o poder do rei a célebre máxima do autor: “O homem é o lobo do pró-
era desobedecer à vontade divina, ou seja, era crime e prio homem”. Num raro momento de lucidez e devido a
pecado. Caso o rei fosse cruel ou incompetente, restava um sentimento de preservação da espécie, as sociedades
ao povo rezar; a maldade de um rei emanaria direta- se organizaram em forma de Estado, que deveria ter força
mente dos pecados do povo. suficiente para impor a ordem. Contra aquela situação de
ƒ Jean Bodin (1530-1596) escreveu a obra Seis livros violência e anarquia, os homens firmaram um pacto – o
da República. Renomado jurista, Bodin apresentou “contrato social” –, renunciaram à liberdade e aos direitos
a teoria da soberania: a “alma” perpétua e absoluta em troca da segurança oferecida pelo Estado, que deveria
de um Estado. Por meio dela justifica-se e impõe-se a reinar soberana e absolutamente sobre seus súditos. Para
coesão política. O soberano estava acima de tudo, de Hobbes, o Estado deveria ser um Leviatã absolutista para
qualquer forma de sujeição, inclusive da lei, criada e re- que fosse possível impor a ordem social e preservar a pró-
vogada por ele e aplicada a quem quer que fosse como pria humanidade.
bem lhe aprouvesse. Guardião da ordem pública, podia
fazer tudo para preservá-la. Para Bodin, a monarquia
era o regime mais apropriado à natureza humana. Da
mesma maneira que a família tem um só chefe, e o céu
tem apenas um sol, somente um poder central poderia
dar harmonia ao corpo político de um país.
ƒ Thomas Hobbes (1588-1679) foi o autor da obra
Leviatã – monstro mitológico todo poderoso que go-
vernava o caos. Esse seria poder do rei absolutista, que
garantiria a ordem social e manteria o controle sobre
a sociedade, constituida por homens maus, egoístas e
mesquinhos.
O leviatã, monstro mitológico mencionado na Bíblia, é re-
“O REI VÊ DE MAIS LONGE E DE MAIS ALTO; DEVE ACREDITAR-SE QUE
presentado na obra de Hobbes como um gigante coroado, ELE VÊ MELHOR, E DEVE OBEDECER-SE-LHE SEM MURMURAR, POIS O
cujo corpo é formado por pequenos indivíduos aglome- MURMÚRIO É UMA DISPOSIÇÃO PARA A SEDIÇÃO.” (JACQUES BOSSUET).

rados. Sua imagem está acima do campo e das cidades.


Nas mãos, uma espada e um báculo, símbolos dos poderes
militar e religioso. Nas colunas de baixo, outros símbolos:
3. O ABSOLUTISMO NA FRANÇA
um forte, uma catedral, uma coroa, uma mitra, armas e Na França, o poder real se estabeleceu gradativamente du-
paramentos litúrgico, além das cenas de batalha e de um rante todo o século XVI. As guerras de religião que abalaram

28
o país nos fins do século XVI retardaram o avanço do Abso- exercido de fato pelo duque de Guise, chefe da facção mais
lutismo. Entretanto, na segunda metade do século XVII, com fanática dos católicos. Os huguenotes – calvinistas – eram
Luís XIV, o Absolutismo francês já se encontrava perfeitamen- violentamente reprimidos pelos Guise, que viam no calvi-
te configurado. nismo um inimigo do poder central. A tensão entre os dois
grupos acabou se transformando em sangrentos conflitos
durante o reinado de Carlos IX (1560-1574).
3.1. As guerras de religião
Até que Carlos IX completasse a maioridade, a regência
Na segunda metade do século XVI, o calvinismo foi introdu- foi ocupada por sua mãe, Catarina de Médici, aliada dos
zido na França e conquistou adeptos entre parte da nobreza católicos e resolvida a exterminar os huguenotes. Em 1572,
e, principalmente, da burguesia. Nessa época, a França era na fatídica Noite de São Bartolomeu (24 de agosto),
governada pelo débil monarca Francisco II, mas o poder era foram mortos cerca de 30 mil huguenotes.

MASSACRE DE SÃO BARTOLOMEU (1576), DE FRANÇOIS DUBOIS.

3.2. A dinastia Bourbon


O processo de consolidação do Absolutismo na França tem
início com o rei Henrique IV, primeiro governante da di-
nastia Bourbon, que substituiu a dinastia Valois.

multimídia: livros
Ivanhoe - “Sir” Walter Scott
Ivanhoe ou Ivanhoé é um romance do escri-
tor escocês Walter Scott, publicado em 1820.
Narra a luta entre saxões e normandos e as in-
trigas de João Sem Terra para destronar Ricar-
do Coração de Leão. É considerado o primeiro
romance histórico do Romantismo.
HENRIQUE IV

29
No poder, Henrique IV promoveu a pacificação entre católi- e a nobreza, que se uniram nas chamadas frondas. A mor-
cos e protestantes por meio do Edito de Nantes (1598), te de Mazzarino precipitou o governo de Luís XIV (1661-
que concedia liberdade de culto e o direito de admissão 1715), que se caracterizaria como o mais emblemático go-
dos protestantes em cargos públicos. verno absolutista, levando ao extremo a ideia de completa
Segundo a tradição da monárquica francesa, somente um identificação entre o soberano e o Estado.
católico poderia assumir o trono. Henrique de Navarra, que Preparado desde a infância por Mazzarino para o exercício
era protestante, só pôde ser coroado Henrique IV depois de do poder real, Luís XIV sintetizou suas convições absolutis-
se converter ao catolicismo, oportunidade em que suposta- tas na frase: “L’État c’est moi” (O Estado sou eu).
mente teria dito a famosa frase: “Paris bem vale uma missa”.

No século XVII, com Luís XIII, o Absolutismo se consolidou


sob a dinastia dos Bourbon. Durante seu governo, o Ab-
solutismo ganhou considerável impulso, graças à política
de seu primeiro-ministro, o cardeal de Richelieu, que,
para fortalecer o poder real, procurou controlar a nobreza
e subordiná-la ao rei. Richelieu desenvolveu a administra-
ção pública mediante um eficaz aparato burocrático e, por
meio dela, facilitou ao rei a fiscalização das províncias.
No política exterior, o objetivo de Richelieu foi tornar a
França a maior potência europeia e enfraquecer a Áustria,
o que levou o país à luta, ao lado dos príncipes protestan-
tes alemães, contra a dinastia católica austríaca dos Ha-
bsburgos na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Depois
da guerra, a França tornou-se a maior potência militar do
continente europeu.
LUÍS XIV (1701), DE HYACINTHE RIGAUD.

Quando assumiu o governo, Luís XIV acumulou em si


as funções do Estado afastando os ministros perma-
nentes e esvaziando o Conselho – base do governo
no período anterior. Nas províncias, foram confirmadas
as intendências, ligadas diretamente ao poder central,
que também exerciam sua autoridade em matéria de
justiça, finanças e política, além de fiscalizar os oficiais
detentores dos cargos públicos locais e supervisionar a
arrecadação tributária.
No plano social, Luís XIV promoveu a ascensão da bur-
guesia, da qual recrutou alguns ministros, como Colbert,
das finanças. Para controlar a nobreza, atraiu-a para a
corte e ofereceu-lhe luxo, festas e pensões. O Palácio de
Versalhes, residência do rei, era cercado de 10 mil pes-
soas, entre cortesãos, soldados, lacaios, etc.. Tornou-se
símbolo do absolutismo francês, cujo grande ideólogo foi
LUÍS XVIII, COM RICHELIEU AO FUNDO. Jacques Bossuet.
No campo religioso, Luís XIV revogou o Edito de Nantes,
em 1685, proibindo o protestantismo. Cerca de 150 mil
3.1.1. Luís XIV, o rei Sol pessoas se viram obrigadas a abandonar o país. Em segui-
Em 1643, depois da morte de Luís XIII, subiu ao trono Luís da, o Luís XIV deu um golpe na Igreja Católica, submeten-
XIV, sob a regência da rainha-mãe Ana d’Áustria e do car- do-a à sua autoridade e obrigando o clero francês a pagar
deal Mazzarino, que governou até 1661. Os aumentos dos impostos ao rei. Essas medidas procuravam reafirmar a
impostos decretados pela regência revoltaram a burguesia autoridade real perante a população francesa.

30
a manutenção da corte, as finanças e a economia foram
arruinadas. Nos últimos anos do governo de Luís XIV e no
reinado de Luís XV, a crise do Absolutismo se intensificou
e assumiu proporções catastróficas no governo de Luís
XVI, quando, em 1789, o Antigo Regime foi destituído
pela Revolução Francesa.

CONSTRUÍDO DURANTE O REINADO DE LUÍS XIV, O “REI SOL”, O PALÁCIO


DE VERSALHES SE TORNOU MODELO DE RESIDÊNCIA REAL NA EUROPA.

multimídia: vídeo
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O Homem da Máscara de Ferro


No século XVII, o cruel Luís XIV (Leonardo DiCa-
prio) manda clandestinamente para a masmorra
o irmão gêmeo que ninguém sabe existir, para
tomar o poder. Mas o mosqueteiro Aramis (Je-
remy Irons) descobre o segredo e convence seus
multimídia: vídeo companheiros a salvar o prisioneiro.
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A Morte de Luís XIV


No ano de 1715, mais especificamente no mês de 4. O ABSOLUTISMO
NA INGLATERRA
agosto, o monarca Luís XIV (Jean-Pierre Léaud) co-
meça a sentir dores na perna. Ele continua a exer-
cer suas funções nos dias seguintes, mas passa a Na Inglaterra, a consolidação e o apogeu do Absolutismo
ter sonos intranquilos, além de problemas com ocorreram durante a dinastia Tudor (1485-1603), que as-
alimentação e febre. Cada dia mais fraco, acom- cendera ao poder no final da Guerra das Duas Rosas
panhamos os lentos e últimos dias da sua vida. (1455-1485). Nessa guerra civil, as duas mais poderosas
famílias da nobreza inglesa – a família Lancaster, represen-
tada por uma rosa vermelha, e a família York, por uma rosa
A economia e as finanças estavam a cargo do ministro
branca – disputaram o poder. Os Lancaster, então no poder,
Jean-Baptiste Colbert, membro ligado à burguesia, que representavam os interesses da velha nobreza feudal; e os
governava junto ao monarca. Sua política mercantilista vi- York, a nova nobreza aliada à burguesia.
sava a autossuficiência do país com uma balança comercial
favorável. Para isso, Colbert lançou mão da concessão do
monopólio de certos produtos a alguns fabricantes bem-
-sucedidos, da vigilância estrita sobre todas as corporações
de ofício e da criação de manufaturas, de propriedade da
coroa, destinadas à produção e à exportação de artigos de
luxo, como cristais e tapeçarias. A DINASTIA TUDOR

A política externa de Luís XIV teve como principal carac- Depois da guerra, Henrique Tudor, descendente dos Lan-
terística as sucessivas guerras para preservar sua supre- caster, casou-se com Elizabeth, de York, unindo sob sua
macia na Europa. Paralelamente aos gastos vultosos para direção as duas famílias.

31
Quase todo o período inicial do governo dessa dinastia foi Com a morte de Eduardo VI, em 1553, vítima de tubercu-
de relativa tranquilidade. A preocupação dominante durante lose aos 16 anos, subiu ao trono sua irmã, Maria Tudor
o reinado de Henrique VII foi a reconstrução do reino. A (Maria I). Católica fanática, imprimiu ao governo uma nova
autoridade do rei se fortaleceu com facilidade, dada a fragi- orientação religiosa: revogou o Ato de Supremacia institu-
lidade da nobreza e devido ao apoio popular a um governo ído por seu pai, Henrique VIII, e promoveu intensa perse-
estável, depois de um período de trinta anos de guerra. guição aos anglicanos e calvinistas (puritanos), o que lhe
rendeu o apelido de Maria “Sanguinária” (Bloody Mary).
Seu reinado foi pontilhado de assassinatos e execuções.
Em 1554, casou-se com Filipe II, rei da Espanha, tradicional
concorrente e rival da Inglaterra. Esse fato provocou em
toda a Inglaterra movimentos de repulsa contra a Igreja
Católica e contra a Espanha. Maria I morreu em 1558 e
deu lugar à sua meia irmã, Elizabeth I, fruto do casamento
de Henrique VIII com Ana Bolena.

HENRIQUE VII

Entretanto, essa autoridade sempre esbarrava no Parla-


mento, notadamente quando se tratava de questões finan-
ceiras. Para decretar novos impostos, o rei era obrigado a
convocar o Parlamento, que tradicionalmente poderia acei-
tar ou não suas propostas.
Depois da morte de Henrique VII, em 1509, o poder foi ELIZABETH I
transmitido ao seu filho Henrique VIII, cujos primeiros
vinte anos de reinado foram marcados pela continuidade Elizabeth I representou um poderoso estímulo para o
fortalecimento do poder real. Com ela, o Absolutismo na
da obra do pai e por um aumento gradativo do poder real.
Inglaterra alcançou seu apogeu. Seu reinado (1558-1603)
No período da Reforma Protestante, o processo de cen- é apontado como a Idade de Ouro da história inglesa. Uma
tralização do poder real se acelerou. Henrique VIII utilizou das primeiras medidas de Elizabeth I foi reorganizar a reli-
questões pessoais relacionadas ao seu casamento para gião na Inglaterra, tornando o anglicanismo a religião ofi-
desencadear a Reforma Anglicana, aumentar o poder real cial. A política de perseguições religiosas teve continuida-
e reduzir drasticamente o poder da Igreja Católica. Com de – embora em menor intensidade, agora voltada contra
o Ato de Supremacia, em 1534, a questão da religião no puritanos e católicos.
país passou a ser atribuição pessoal do rei, e os bens da
Durante todo o reinado de Elizabeth I, o Parlamento se
Igreja Católica foram confiscados, especialmente as terras
mostrou dócil e submisso. A Câmara dos Lordes, ainda sob
dos mosteiros.
influência dos católicos, era o setor que poderia oferecer
Sob Henrique VIII, o Parlamento foi astutamente controla- alguma resistência. Elizabeth I, com a habilidade política
do. O monarca interferia nas eleições e lotava o legislativo que lhe era peculiar, promoveu uma lenta reforma nessa
com seus próprios apaniguados; adulava, lisonjeava ou câmara até dominá-la com membros fiéis ao anglicanismo
amedrontava seus membros, conforme exigisse a situação, e oriundos da nova nobreza.
a fim de obter seu apoio.
Nesse período, a política econômica da Inglaterra foi di-
Em 1547, subiu ao poder Eduardo VI, filho de Henrique tada pelas teorias mercantilistas. Por volta de 1570, de-
VIII com sua terceira esposa, Jane Seymour. Durante seu senvolveu-se a manufatura de tecidos de lã e ocorreu um
curto reinado (1547-1553), o poder na Inglaterra esteve incremento da exploração das minas de carvão. O comércio
virtualmente nas mãos do Conselho Privado, órgão con- internacional se desenvolveu intensamente, estimulando
sultivo de confiança do rei e controlado pelo protestante a construção naval. O avanço da pirataria, legitimada
duque de Somersert. pelo Estado (os corsários), sobre os impérios coloniais de

32
Espanha e Portugal ocasionou enormes lucros. A formação Durante o reinado de Elizabeth I houve a tentativa de in-
de companhias regulamentadas, como a Companhia Ingle- vasão e domínio da Inglaterra pela chamada “Invencível
sa das Índias Orientais, organizou a exploração comercial Armada” espanhola. Tomado de fúria em razão dos ata-
e principalmente o tráfico de escravos negros da costa ques ao comércio espanhol por parte dos navios corsários
da África para a América. Houve também a busca de ingleses, e frustrado pelo fracasso de seus planos para
colônias, objetivo que se concretizou com a fundação da trazer a Inglaterra de volta à fé católica, o rei Filipe II da
primeira colônia inglesa na América do Norte, a Virgínia. Espanha enviou, em 1588, uma poderosa esquadra para
destruir a esquadra da rainha Elizabeth I e invadir a In-
Setores da nobreza passaram a produzir para vender no
glaterra. No entanto, o rei desconhecia as novas técnicas
mercado, dando origem à nobreza progressista, a gentry,
de guerra naval dos ingleses. Uma combinação de perícia
cuja finalidade básica era, por causa do crescimento dos
militar inglesa e de tempestades desastrosas (“Vento Pro-
rebanhos de ovelhas, ampliar as áreas de pastagem, o que
testante”) levou muitos dos 130 navios espanhóis para o
a levou, com o apoio do governo inglês, a cercar as terras
fundo do canal da Mancha. Os restantes debandaram de
comunais usadas pelos camponeses pobres, que foram
volta à Espanha.
expulsos . A agricultura inglesa perdeu suas característi-
cas de agricultura feudal – produção de subsistência – e
se transformou em agricultura capitalista com interesses
ligados ao comércio. O resultado desse fenômeno, conhe-
cido como “cercamentos” (enclosures), foram inúme-
ros camponeses sem terra, famintos e miseráveis que se
concentraram nas cidades inglesas. Criavam-se assim as
condições favoráveis para o desenvolvimento do trabalho
assalariado e das manufaturas.
Em 1601, pretendendo exercer mais controle sobre os po-
bres ingleses, Elizabeth I assinou a famosa “Lei dos Po-
bres” (Poor Law), que os obrigava a trabalhar em “oficinas
de caridade”, que abasteciam de mão de obra barata to-
das as manufaturas inglesas.

SPANISH ARMADA, DE JAMES DE LOUTHERBOURG.

Em 1603, com a morte da rainha que não deixou herdei-


ros, iniciou-se o reinado da dinastia Stuart, caracterizado
pela crise do Absolutismo e pelas revoluções inglesas do
século XVII.

5. O MERCANTILISMO
O mercantilismo foi uma política econômica dos Estados
Modernos europeus que acompanhou o período de forma-
multimídia: vídeo ção das monarquias nacionais e atingiu seu apogeu com
o Absolutismo.
FONTE: YOUTUBE

Mary Stuart, Rainha da Escócia 5.1. Objetivos


Mary Stuart (Katharine Hepburn) assume o trono
Um dos principais objetivos do mercantilismo era promover
da Escócia para a repugnância da Rainha da In-
práticas econômicas executadas pelo Estado nacional com
glaterra Elizabeth I (Florence Eldridge). Em meio a
o objetivo de auferir ganhos e possibilitar o fortalecimento
um grande burburinho sobre seu possível marido,
do Estado. Entretanto, como contava com a burguesia na
Mary escolhe o Lorde Darnley (Douglas Walton) ao
execução da política econômica, o mercantilismo favorecia o
invés do Conde de Bothwell (Fredric March). Um
enriquecimento e o ganho de poder dessa nova classe social.
golpe político leva à guerra civil e a rainha escoce-
sa deverá arcar com duras consequências. A política econômica mercantilista foi a expressão da bus-
ca de poder e riqueza pelo Estado nacional. No início da

33
Idade Moderna, os Estados europeus viviam em lutas pelo determinasse. A essa relação desigual entre metrópole
domínio do comércio mundial e das colônias; por isso, ne- e colônia deu-se o nome de pacto colonial, mediante
cessitavam formar exércitos e marinhas poderosos. Para o qual a balança comercial ficava sempre favorável à
fortalecer o tesouro real com o aumento de impostos, era metrópole.
preciso desenvolver o comércio e as manufaturas. À medi- ƒ Monopólios – graças ao pacto colonial, somente a
da que se processava esse desenvolvimento, a burguesia, metrópole poderia comerciar com seus domínios. O
sua beneficiária, enriquecia. monopólio era condição fundamental para o desenvol-
O mercantilismo exprimia a aliança entre os reis e a vimento do comércio e das manufaturas, uma vez que
burguesia pela unificação e desenvolvimento do poder constituía a única forma possível de realizar grandes
nacional. Foram as regulamentações mercantilistas, com empreendimentos. Os capitais se uniam para controlar
seu rígido controle sobre a economia, que promoveram o com exclusividade um ramo da produção manufaturei-
processo de acumulação de capitais pela burguesia. ra, o comércio de uma localidade ou o comércio colo-
nial. O monopólio, no entanto, pertencia ao Estado que,
em troca de pagamento, transferia-o aos burgueses.
5.2. Características
ƒ Intervencionismo estatal – visava ao fortalecimen-
Nos diversos países, a política econômica mercantilista to do poder nacional. O Estado intervinha na economia
apresentava uma série de características comuns. por meio de incentivo e proteção das manufaturas,
ƒ Metalismo – a riqueza de um país era medida pela altas tarifas alfandegárias e garantia dos monopólios,
quantidade de metais preciosos dentro de suas frontei- além da fixação de uma política de controle sobre os
ras. Quanto mais ouro e prata houvesse no país, mais rico salários, os preços e a qualidade das mercadorias.
e poderoso ele seria. Com metais preciosos, os governos O renascimento da escravidão na época moderna movi-
compravam armas, contratavam soldados, construíam mentava grande quantidade de capitais, sendo uma im-
navios, pagavam funcionários e custeavam as guerras. portante fonte de aceleração da acumulação primitiva de
Para acumular metais preciosos, além de impedir a saída capital, que, ao lado dos demais fatores, compunha a eta-
de ouro e prata, era preciso provocar sua entrada. pa de constituição do capitalismo.
ƒ Balança comercial favorável – esse princípio mer-
cantilista estava intimamente ligado ao anterior. Con- 5.3. Tipos de mercantilismo
sistia em vender mercadorias pelo maior valor possível A prática do mercantilismo na Europa ocidental dos sécu-
para o exterior e comprar pelo menor valor. O valor total los XVI e XVII obedeceu às condições específicas de cada
das exportações deveria sempre superar o das importa- país, mediante as quais cada um procurava aumentar a
ções. Essa era uma das formas de um país provocar a riqueza nacional.
entrada de metais preciosos e promover o metalismo.
ƒ Protecionismo – para manter uma balança comercial 5.3.1.Mercantilismo espanhol (Bulionismo)
favorável, o Estado nacional deveria incentivar as ex-
portações observando uma série de medidas: desvalori-
zação da moeda, proibição da exportação de matérias-
-primas e, principalmente, desestímulo às importações,
cujas tarifas alfandegárias deveriam ser sobretaxadas e
caras para o consumidor nacional.
ƒ Sistema colonial (colonialismo) – com o objetivo
de fortalecer o Estado nacional e, consequentemente, o
poder do rei, alguns países lançaram-se nos séculos XV
e XVI à conquista de novas terras a fim de fazer crescer
suas fontes de riquezas. Essa era a função fundamental
das colônias da América e da África: enriquecer as me- “EXPLORAÇÃO DO MÉXICO”. MURAL, DE DIEGO RIVERA.
trópoles. Das colônias, as metrópoles poderiam retirar No século XVI, a Espanha conquistou vasto império colonial.
as mercadorias de que necessitassem, metais preciosos Grandes quantidades de ouro e prata provenientes do Peru
e produtos tropicais, e ao preço que quisessem. Para- e do México chegavam à Metrópole, o que lhe trouxe duas
lelamente, poderiam obrigar a colônia a adquirir pro- graves consequências: desinteresse pelas atividades indus-
dutos manufaturados da metrópole ao preço que ela triais e agrárias, ocasionando queda na produção; inflação

34
generalizada, resultado da alta vertiginosa do preço das Sua política econômica também buscava acelerar o de-
mercadorias em escassez, conhecida como Revolução dos senvolvimento industrial na França com a criação das
Preços. Obrigada a importar manufaturados, a Espanha manufaturas reais e de grandes companhias comerciais,
transferiu essa inflação para toda a Europa. a concessão de monopólios estatais, a subvenção à pro-
dução de artigos de luxo e a conquista de colônias.
5.3.2. Mercantilismo francês (Colbertismo)
No século XVII, o mercantilismo inglês era fundamental- 5.3.4. Mercantilismo inglês
mente comercial e industrial. A indústria têxtil era a mais No século XVI, a Espanha conquistou vasto império colo-
importante das atividades exportadoras do país. Em razão nial. Grandes quantidades de ouro e prata provenientes do
disso, o Estado proibiu a exportação de lã e elevou as taxas Peru e do México chegavam à Metrópole, o que lhe trouxe
aduaneiras para impedir a concorrência dos tecidos france- duas graves consequências: desinteresse pelas atividades
ses e holandeses. industriais e agrárias, ocasionando queda na produção; in-
A ideia mercantilista de comprar barato e vender caro vi- flação generalizada, resultado da alta vertiginosa do preço
gorou na Inglaterra de vários modos: ganhos no frete, es- das mercadorias em escassez, conhecida como Revolu-
tímulo à indústria de construção naval e, principalmente, ção dos Preços. Obrigada a importar manufaturados, a
formação de grandes companhias de comércio privilegia- Espanha transferiu essa inflação para toda a Europa.
das pelo Estado.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE
“UM PORTO MARÍTIMO FRANCÊS, NO AUGE DO MERCANTILISMO” (1638), Vanity Fair
DE CLAUDE LORRAIN.
Vanity Fair (Feira das Vaidades ou A Feira das Vai-
5.3.3. Mercantilismo dos Países Baixos dades) é um filme de drama e romance de 2004,
dirigido por Mira Nair, adaptado da obra homô-
Por volta do século XVII, os Países Baixos eram o modelo nima de William Makepeace Thackeray (1847
do Estado capitalista. A partir de 1615, grandes possessões - 1848). Esta versão, que é estrelada por Reese
espanholas na Ásia foram dominadas pela Holanda. Witherspoon como Becky Sharp, tem alterações
Na América, os holandeses ocuparam colônias na região substanciais, incluindo um final feliz.
das Antilhas, onde organizaram grandes plantações de O filme foi nomeado para o Leão de Ouro em
cana-de-açúcar. Além de dominarem intensamente o 2004 no Festival de Veneza.
comércio colonial, os Países Baixos eram importantes
regiões manufatureiras de tecidos. Ali surgiram as pri-
meiras instituições financeiras.
De acordo com as concepções de sua época, Colbert,
ministro das finanças de Luís XIV, buscou fazer a rique-
za da França com a acumulação de metais preciosos
obtidos de uma balança comercial favorável. Para isso,
procurou tornar o país economicamente autossuficien-
te, proibiu ou inibiu as importações com elevadas tarifas
alfandegárias e incentivou as exportações de artigos de
luxo – tecidos de seda, cristais, porcelana e tapeçaria.

35
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

Um dos componentes do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é o PIB per capita. Sendo o PIB (Y) toda a ri-
queza produzida por um país em um ano, o indicador PIB per capita é a divisão do PIB pelo número de habitantes
desse país.
Ao se analisar a equação da Renda Nacional, ou PIB, observa-se que há um componente (X–Z), que representa
a Balança Comercial da nação. Esse componente estava presente no mercantilismo. A Balança Comercial Fa-
vorável (X>Z) consiste no fato de o Estado exportar (vender) mais do que importar (comprar), alcançando um
superavit e possibilitando, assim, o acúmulo de metais. Para alcançar esse quadro, os Estados elevavam as barreiras
alfandegárias, ou as tarifas/impostos sobre importações, tornando-as mais difíceis e as desestimulando; essa prática
é denominada protecionismo.

Y = DA = C + I + G + X - Z
EM QUE:
Y = Renda Nacional
DA = Demanda Agregada
C = Consumo das Famílias
I = Investimento dos Empresários
G = Gastos do Governo
X = Exportações e Z = Importações

36
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
11 Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço.

A Habilidade 11 requer dos candidatos interpretação de textos, imagens e fontes documentais em geral. No caso especi-
ficamente tratado, refere-se a um fragmento de uma obra biográfica que não abre mão de discutir o ambiente histórico
do músico biografado Mozart.
O aluno deve SE ater ao texto, além de compreender a estrutura sociológica e a estratificação política do período. Eviden-
temente, a obra trata do período do Antigo Regime, quando havia uma estratificação social estamental da sociedade,
que era dividida entre clero, nobreza e o Terceiro Estado (composto por servos, artesãos, artistas, burgueses, etc.).
É muito comum a presença de textos de suporte para a construção da questão. Cabe ao candidato interpretá-los a fim
de assinalar a alternativa correta.

Modelo
(Enem) O que chamamos de corte principesca era, essencialmente, o palácio do príncipe. Os músicos eram tão indis-
pensáveis nesses grandes palácios quanto os pasteleiros, os cozinheiros e os criados. Eles eram o que se chamava,
um tanto pejorativamente, de criados de libré. A maior parte dos músicos ficava satisfeita quando tinha garantida
a subsistência, como acontecia com as outras pessoas de “classe média” na corte; entre os que não se satisfaziam,
estava o pai de Mozart. Mas ele também se curvou às circunstâncias a que não podia escapar.
ADAPTADO DE: NORBERT ELIAS. MOZART: SOCIOLOGIA DE UM GÊNIO. JORGE ZAHAR, 1995, P. 18.

Considerando-se que a sociedade do Antigo Regime dividia-se tradicionalmente em estamentos: nobreza, clero e
Terceiro Estado, é correto afirmar que o autor do texto, ao fazer referência à “classe média”, descreve a sociedade
utilizando a noção posterior de classe social, a fim de:
a) aproximar da nobreza cortesã a condição de classe dos músicos, que pertenciam ao Terceiro Estado;
b) destacar a consciência de classe que possuíam os músicos, ao contrário dos demais trabalhadores manuais;
c) indicar que os músicos se encontravam na mesma situação que os demais membros do Terceiro Estado;
d) distinguir, dentro do Terceiro Estado, as condições em que viviam os “criados de libré” e os camponeses;
e) comprovar a existência, no interior da corte, de uma luta de classes entre os trabalhadores manuais.

Análise expositiva - Habilidade 11: A alternativa [C] é a única resposta possível, a partir da ideia de que o
C Terceiro Estado era formado majoritariamente pelas camadas populares que viviam em situação de pobreza, as-
sim como os músicos da corte, forçados a aceitar uma situação na qual os serviços eram pagos com alimentação
e moradia. Entretanto, vale lembrar que os burgueses, inclusive os setores mais ricos, também eram membros do
Terceiro Estado.
Alternativa C

37
DIAGRAMA DE IDEIAS

ANTIGO REGIME - ABSOLUTISMO E MERCANTILISMO

1 - ABSOLUTISMO

ESTADO MODERNO CARACTERÍSTICAS

• ALIANÇA ENTRE REI E BURGUESIA


• UNIFICAÇÃO TERRITORIAL
PROCESSO GRADUAL • CONTROLE DO COMÉRCIO
DE CENTRALIZAÇÃO DO • COBRANÇA DE IMPOSTOS
PODER MONÁRQUICO • MOEDA NACIONAL
(SÉCULOS XVI-XVII) • ORGANIZAÇÃO DA BUROCRACIA ESTATAL
• EXÉRCITO NACIONAL

ABSOLUTISMO CARACTERÍSTICAS

• CONTROLE DA RELIGIÃO
REI COM PODER ILIMITADO • CONTROLE DA NOBREZA
E INQUESTIONÁVEL • FORTALECIMENTO MILITAR
TEÓRICOS • COLONIALISMO
• NICOLAU MAQUIAVEL - O PRÍNCIPE • MERCANTILISMO
• JACQUES BOSSUET - LIGAÇÃO DIVINA
• JEAN BODIN - SEIS LIVROS DA REPÚBLICA
• THOMAS HOBBES - LEVIATÃ

ABSOLUTISMO NA FRANÇA

• GUERRAS RELIGIOSAS
DINASTIA VALOIS
• CATÓLICOS X HUGUENOTES

DINASTIA BOURBON

• EDITO DE NANTES (1598)


HENRIQUE IV
DINASTIA VALOIS • CONVERTE-SE AO CATOLICISMO

LUÍS XIII E PRIMEIRO-MINISTRO • ORGANIZA BUROCRACIA ESTATAL


CARDEAL RICHELIEV • CENTRALIZA O PODER

• REVOGA O EDITO DE NANTES


• SUBMETE A IGREJA AO ESTADO
LUÍS XIV (O REI SOL) • APROXIMA-SE DA BURGUESIA (COLBERTISMO)
• CUSTEIA A NOBREZA
• GUERRA DOS TRINTA ANOS (1618-1648)

38
ABSOLUTISMO INGLÊS E REVOLUÇÕES
AULAS INGLESAS DO SÉCULO XVII
23 E 24 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10,
11, 12, 13, 14, 15, 16, 17,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 4, 5 e 6 HABILIDADES:
18, 19, 20, 22, 23, 24, 25,
26, 27 e 28

1. REVOLUÇÕES INGLESAS DO 2. DINASTIA STUART


SÉCULO XVII: ANTECEDENTES O governo de Jaime I (1603-1625) foi marcado por con-
turbações políticas e religiosas e constantes atritos com o
A política econômica mercantilista e o Estado absolutista Parlamento, a burguesia puritana e a nobreza católica.
inglês foram os principais responsáveis pelo grande desen-
volvimento econômico alcançado pela Inglaterra, ao lado O novo monarca inglês defendeu a implantação de um
da Reforma Anglicana, consolidada pelo Ato de Suprema- regime absolutista fundamentado na Teoria do Direito
Divino e se aliou à nobreza anglicana como forma de
cia, em 1534, por Henrique VIII (1509-1547). Elisabeth I
viabilizar seu fortalecimento político. Os resultados foram
(1557-1603) deu continuidade à política de seu pai, inten-
intensos confrontos com o Parlamento, que o renegava por
sificando e ampliando as práticas mercantilistas. A rainha
sua nacionalidade escocesa, e violentas perseguições a ca-
enraizou a autoridade da Igreja Anglicana subordinada ao
tólicos e puritanos, que incentivaram, a partir de 1603, a
monarca, bem como deu início à colonização da América,
emigração dos puritanos para a América e a fundação das
em 1584, com a fundação da colônia de Virgínia, por ini-
primeiras colônias de povoamento na região conhecida por
ciativa de Sir Walter Raleigh. Elisabeth I incentivou ainda
Nova Inglaterra.
o comércio marítimo e a atividade corsária contra navios
espanhóis que transportavam metais preciosos extraídos
de suas colônias na América.
Indignado com a atividade corsária contra navios espa-
nhóis, o rei Felipe II organizou, em 1588, uma frota naval
com o objetivo de derrotar a Inglaterra, destruir sua mari-
nha e confirmar a hegemonia espanhola. A frota espanho-
la era conhecida como “Invencível Armada” e contava com
o apoio de navios portugueses, uma vez que o Estado lu-
sitano estava subordinado à Espanha em virtude da União
Ibérica (1580-1640). Entretanto, contra todos os prognós-
ticos, a Invencível Armada espanhola foi derrotada pela
força britânica, que passou a ter a hegemonia dos mares.
O desenvolvimento econômico trouxe prosperidade para
os grupos mercantis ingleses: burguesia comercial e finan-
ceira, armadores, nobres enriquecidos com a política dos
“cercamentos” e corsários. Todos esses ocupavam cargos
importantes, nomeados pelo próprio governo, e passaram
JAIME I
a buscar maior participação política via Parlamento.
O sucessor de Jaime I, seu filho Carlos I (1625-1648), man-
No seio desses grupos mercantis, crescia a religião puri-
teve e aprofundou a política instituída por seu pai, intensifi-
tana, mais sintonizada com os anseios burgueses. Entre
cando os conflitos, especialmente com o Parlamento, majo-
a nobreza tradicional, prevaleciam o catolicismo e o an-
ritariamente burguês e puritano. Em razão desses conflitos,
glicanismo.
o monarca dissolveu o Parlamento em 1629. O Parlamento
Em 1603, com a morte da rainha Elisabeth I, a dinastia Tudor só foi reaberto em 1640, quando Carlos I o convocou com
chegou ao fim, uma vez que a rainha não deixou herdeiros. o intuito de obter apoio para a aprovação de mais recursos
Em virtude do parentesco, o trono inglês foi entregue ao rei para o exército, que lutava contra revoltosos presbiterianos
da Escócia, Jaime I, que deu início à dinastia Stuart. escoceses.

39
proclamou a queda da monarquia e a instalação do re-
gime republicano. O rei Carlos I foi preso e executado,
selando a vitória da Revolução Puritana em 1649.

CARLOS I
multimídia: vídeo
Com o Parlamento reaberto, ocorreram fortes manifesta-
FONTE: YOUTUBE
ções dos deputados contra as ações do rei e sua insistência
com a política absolutista. Os deputados tentaram obrigar Cromwell, o Homem de Ferro
o rei a assinar a Petição dos Direitos, rejeitada pelo monar- Na primeira metade do século XVII, a Inglaterra se
ca em 1629. O documento oferecia aos cidadãos garantias encontra em plena crise econômica e ideológica, o
contra novos impostos e prisões arbitrárias. Carlos I tentou povo está afundado em miséria e o Rei acaba de
fechar o Parlamento novamente. Dessa vez, no entanto, foi fechar o parlamento. Descrente do Estado absolu-
impedido pelos deputados e pela população de Londres. tista, o puritano Oliver Cromwell (Richard Harris)
irá lutar contra o Rei e seus abusos de poder, de-
3. REVOLUÇÃO PURITANA sencadeando uma guerra civil na Inglaterra.

OU GUERRA CIVIL INGLESA


(1642-1649) Cromwell e o Exército de Novo Tipo
A situação criada por Carlos I mobilizou os cavaleiros e os Com a participação de Cromwell, o Parlamento formou
“cabeças redondas”. Os cavaleiros compunham as tropas o Exército de Novo Tipo, que conseguiu derrotar as for-
reais, formada por católicos e principalmente anglicanos ças realistas.
ligados à nobreza tradicional, que defendia o regime ab- O elmo arrendondado deu origem ao apelido dos mem-
solutista. Os “cabeças redondas”, por sua vez, eram os bros do Exército de Novo Tipo.
parlamentares, os burgueses, os puritanos e uma pequena
Oliver Cromwell auxiliou na formação de um exército
parcela da nobreza mais progressista, todos ligados aos
como defesa do Parlamento, no contexto da Guerra
interesses do capitalismo comercial.
Civil Inglesa, também conhecida como Revolução Pu-
No início da Guerra Civil, os “cabeças redondas” contaram ritana. O chamado Exército de Novo Tipo (New Model
com o apoio de grupos radicais: os levellers (niveladores) e Army) era uma inovação na organização das tropas
os diggers (cavadores). Os levellers pretendiam “nivelar” em relação aos exércitos feudais.
as condições sociais na Inglaterra. Defendiam a população
Os membros desse exército também eram conhecidos
pobre das cidades e do campo e exigiam completa liberda-
como cabeças redondas (round-heads) em decorrên-
de religiosa e igualdade jurídica. Os diggers, por sua vez,
cia do elmo (capacete) de metal de formato arredon-
opunham-se à propriedade privada do solo e exigiam que
dado usado pelos soldados.
as terras da Coroa, os terrenos comunais e ociosos fossem
cultivados pelos pobres. Ficaram assim conhecidos ao se
instalarem num terreno não aproveitado, onde puseram-se
a preparar a terra (to dig: cavar) para a semeadura.
Liderados por Oliver Cromwell, os “cabeças redondas”
obtiveram seguidos triunfos que propiciaram a vitória na
Guerra Civil. Com a ascensão de Cromwell ao poder, ele

40
a imagem desse “nacionalismo”, declarando-se, em 1651,
A escolha de oficiais e cavaleiros baseava-se no mé- Lorde Protetor da Comunidade Britânica (Inglaterra, Escó-
rito, não nos títulos de nobreza, o que proporcionava cia e Irlanda). Commoonwealth, a ideia de comunidade
à organização maior participação popular. Os comitês britânica, foi retomada quase um século depois, quando a
que tomavam as decisões franqueavam ao soldados Inglaterra montava seu império.
certa abertura. Com essa estrutura militar, os soldados
tiveram mais contato com as questões políticas, o que
contribuiu para a formação de uma consciência mais
profunda sobre os motivos da luta.
DISPONÍVEL EM: <MUNDOEDUCACAO.COM/HISTORIAGERAL/CROMWELL>.

4. A REPÚBLICA PURITANA
(1649-1658)
A ascensão de Oliver Cromwell consolidou o regime repu-
blicano na Inglaterra com o apoio do Parlamento majorita-
riamente puritano. O novo regime nascia com o apoio do
exército e da burguesia e com compromisso de consolidar
o capitalismo britânico.

OLIVER CROMWELL

Em 1651, foram promulgados os Atos de Navegação,


cujos objetivos eram consolidar e incrementar o capitalis-
mo comercial inglês, determinando que toda mercadoria
comercializada nos portos ingleses fosse transportada por
navios ingleses. Essa medida visava fortalecer a marinha
e o comércio naval da Inglaterra ao mesmo tempo que li-
mitava a participação econômica e o poder mercantil dos
holandeses. Isso desencadeou uma guerra entre Inglaterra
e Holanda, entre os anos de 1652 a 1654, da qual a Ingla-
multimídia: vídeo terra saiu vencedora, consolidando sua hegemonia naval.

FONTE: YOUTUBE Desde 1653 até sua morte, Cromwell governou como um
verdadeiro ditador. Dividiu a Inglaterra em 12 províncias
Morte ao Rei e entregou o governo de cada uma delas a um militar.
O filme aborda os desdobramentos da Revolução Cromwell dissolveu quatro parlamentos, eliminou grupos
Puritana na Inglaterra, que culminou na conde- radicais, executou os principais líderes niveladores, dizimou
nação e decapitação do rei Carlos I, enfocando a os cavadores e promoveu uma violenta repressão contra os
relação entre o general Fairfax e Oliver Crommwel. católicos irlandeses. Sua política também foi marcada pelo
puritanismo radical, a ponto de criar uma espécie de polí-
tica dos costumes, que proibia os bailes e qualquer atitude
Ainda em 1649, o Exército da jovem República viu-se ame- considerada mundana, em preparação às medidas discipli-
açado por uma rebelião católica na Irlanda, favorável ao nares de educação dos trabalhadores ingleses.
retorno do Absolutismo. Cromwell esmagou essa rebelião
com mão de ferro, confiscou as terras dos católicos irlande-
ses e entregou-as aos protestantes. Foi também impiedoso
5. O RETORNO DA DINASTIA
com as tentativas de separação por parte da Escócia. STUART (1660-1688)
Extremamente poderoso e com grande prestígio entre os Em 1658, com a morte de Oliver Cromwell, seu filho Ri-
militares e puritanos fanáticos, Cromwell desencadeou chard assumiu o cargo de Lorde Protetor. Sem o reconhe-
uma onda de “nacionalismo” extremado. Fez de si mesmo cimento do exército, Richard não tinha condições políticas

41
de continuar a exercer o poder. Foi destituído e o Parlamen-
to foi convocado a legitimar o poder dos generais. Com
o crescimento da mobilização das camadas populares, as
elites assustadas começaram a articular a restauração da
monarquia. Em 1660, Carlos II, filho do rei decapitado, Car-
los I, por meio da Declaração de Breda, prometeu governar
mantendo a tolerância religiosa e respeitando o Parlamen-
to e as relações de propriedade. Com apoio de Luís XIV,
o rei Sol, da França, Carlos II converteu-se ao catolicismo,
provocando o descontentamento da população e do Parla-
mento, que em 1679 aprovou o Habeas Corpus, garantin-
do segurança aos cidadãos em caso de abusos do governo.
Por meio do Ato de Exclusão, ficou proibido a qualquer ca-
tólico exercer funções públicas, incluindo a de rei.
JAIME II
Em todos os níveis, a nação e o Parlamento viam com

6. A REVOLUÇÃO GLORIOSA
desconfiança as tendências absolutistas de Carlos II, que
muitas vezes havia repetido a frase do francês Jacques
Bossuet: “Os reis são, com justiça, chamados de Deus...“.
Na Inglaterra, em virtude das condições políticas do Parla- (1688-1689)
mento, os reis sempre gozaram do poder absolutista sem
se declararem como tal, ao que os historiadores chamaram
de “absolutismo consentido”.

CARLOS II GUILHERME III E MARIA STUART.

Com a morte de Carlos II em 1685, subiu ao trono seu ir- No entanto, em acordo secreto com Guilherme de Oran-
mão, o católico Jaime II, que procurou novamente conduzir ge, príncipe protestante da Holanda e genro de Jaime II,
o país para o catolicismo, fortalecendo seu poder por meio o Parlamento, dominado pela burguesia puritana, mobili-
do Absolutismo, em prejuízo do Parlamento. zou-se contra o rei com o intuito de entregar o poder a
Jaime puniu com rigor quem se revoltava contra o seu go- Guilherme. As tropas abandonaram Jaime II e, em junho
verno, negando o direito de Habeas corpus. Desrespeitou o de 1688, Guilherme de Orange foi consgrado rei com o
Ato de Exclusão, nomeando católicos para funções impor- nome de Guilherme III. Esse episódio ficou conhecido como
tantes no governo. Em virtude dessas ações, a Inglaterra Revolução Gloriosa.
passou a viver uma situação de agravante convulsão social Sem derramamento de sangue e representando um com-
em face das aspirações absolutistas mais pretensiosas que promisso de classe entre os grandes proprietários rurais e
as de Carlos II alimentadas por Jaime II. a burguesia inglesa, a Revolução Gloriosa marginalizava
A burguesia inglesa temia a perda do seu poder e o desen- o povo, além de mostrar que, para acabar com o Abso-
cadeamento de uma rebelião armada que levasse a uma lutismo, não era preciso eliminar a figura do rei, desde
situação como a que chegou o governo ditatorial de Oliver que ele aceitasse se submeter às decisões do Parlamento.
Cromwell. Os burgueses esperavam que o rei morresse, e Representando a transição política de uma monarquia
uma de suas filhas protestantes assumisse o poder. Mas o que insistia em se autoproclamar absolutista para uma
rei teve um filho homem, o que garantiria a sucessão cató- Monarquia parlamentar, a Revolução Gloriosa inaugura-
lica ao trono. Os problemas prometiam continuar. va a atual política inglesa, cujo poder real está submetido

42
ao Parlamento. A partir de então, passou a prevalecer na
Inglaterra o princípio de que “o rei reina, mas não 7. A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
governa”.
Preocupado com qualquer possibilidade de ser restaurada
a autoridade absoluta do rei, o Parlamento promulgou, em
1689, a Declaração de Direitos (Bill of Rights), que
foi aceita pelo rei em 1689 e marcou o fim do choque entre
rei e Parlamento. Essa declaração eliminava a censura po-
lítica e reafirmava o direito exclusivo do Parlamento de es-
tabelecer impostos e de apresentar livremente petições. O
recrutamento e a manutenção do exército somente seriam
admitidos com a aprovação do Parlamento; as reuniões
parlamentares e as eleições seriam regulares; o orçamento
anual seria votado pelo Parlamento; as contas reais seriam
controladas por inspetores; e os católicos seriam afastados
da sucessão. Em 1694, foi criado o Banco da Inglaterra,
fato que organizou o tripé fundamental para o desenvolvi-
mento do capitalismo na Inglaterra: Parlamento, Tesouro e
Banco da Inglaterra.

FERRO E CARVÃO (1855-1860), DE WILLIAM BELL SCOTT.

multimídia: livros
Tempos Difíceis - Charles Dickens
Neste clássico da literatura, Charles Dickens
trata da sociedade inglesa durante a Revo-
lução Industrial usando como pano de fundo
a fictícia e cinzenta cidade de Coketown e a
história de seus habitantes.

DECLARAÇÃO DE DIREITOS (BILL OF RIGHTS)


7.1. Definição
Com a Revolução Gloriosa, a burguesia inglesa libertava-se
A partir da segunda metade do século XVIII, as alterações
do Estado absolutista, que, com seu permanente interven-
no sistema produtivo e o surgimento de máquinas alte-
cionismo, havia sido benéfico numa determinada fase de
raram as relações dos trabalhadores com a fabricação de
constituição do capitalismo, mas tornara-se uma barreira
produtos; suas relações com o ato do trabalho ficaram co-
para a continuidade da acumulação e incremento do ca-
nhecidas como Revolução Industrial.
pitalismo. Aliada à aristocracia rural, a burguesia, passou
a exercer diretamente o poder político pelo Parlamento, A industrialização também contribuiu para a crise do An-
caracterizando a formação de um Estado liberal, adequa- tigo Regime, uma vez que as antigas divisões entre clero,
do ao desenvolvimento do capitalismo e que, conjugado a nobreza e povo não correspondiam à nova ordem eco-
outros fatores, permitiria o pioneirismo inglês na Revolução nômica. Com efeito, diante das condições impostas pela
Industrial em meados do século XVIII. industrialização nascente, havia de ser institucionalizado

43
um aparato político e jurídico que desse sustentação às muitos comerciantes a se dedicarem à produção. Nesse
novas condições de classe, de trabalho e de acumulação caso, o comerciante manufatureiro distribuía a matéria
e reprodução do capital. A burguesia, fundamental em -prima para que os artesãos trabalhassem em suas casas,
diversos episódios políticos na vida europeia desde o recebendo pelo trabalho um pagamento previamente com-
Renascimento Comercial, também se tornara uma classe binado. Gradativamente, o comerciante penetrou na produ-
social mais complexa, formada por grandes proprietários, ção. Primeiro, reuniu alguns artesãos mais especializados
“financistas”, pequenos produtores e comerciantes. para dar acabamento aos tecidos; depois, para tingir; mais
tarde, para tecer; e, por fim, para fiar. Dessa maneira surgi-
Surgiram os proletários – vendedores da força de trabalho
ram verdadeiras fábricas, nas quais os trabalhadores eram
– sem os quais as fábricas, mesmo com as máquinas, não
assalariados e não tinham mais controle sobre o produto de
tinham como funcionar; em contrapartida, as distâncias
seu trabalho, uma vez que já não controlavam os meios de
sociais e econômicas entre eles e os industriais – donos
produção. A produtividade do trabalho aumentou por causa
das condições e dos meios de produção – aumentavam. As
da divisão social da produção, ou seja, cada trabalhador rea-
áreas urbanas, onde passou a se concentrar a população
lizava uma etapa na elaboração de um produto.
trabalhadora das sociedades industriais, tiveram um rápido
crescimento, que ocorreu de forma não planejada, causan- A maquinofatura foi a etapa final. Nela, o trabalhador es-
do diversos problemas sociais. tava submetido ao regime de funcionamento da máquina e
à gerência direta do supervisor. Com a introdução da má-
A Revolução Industrial não se resume a um ato isolado.
quina e a perda total da independência dos trabalhadores,
Trata-se, na verdade, de um fenômeno complexo que ultra-
consolidava-se o que se denominou Revolução Industrial.
passa recortes temporais e espaciais e tem desdobramen-
tos que vão além de seu ponto inicial – fala-se em várias
revoluções industriais em razão de impactos significativos 7.3. O pioneirismo inglês: fatores
no sistema de produção causados pela introdução de no- Em meados do século XVIII, a Inglaterra era uma grande
vas tecnologias, em períodos distintos. potência econômica europeia formada em sua expansão co-
mercial e ultramarina. Graças à acumulação primitiva do
7.2. Os antecedentes: capital (acumulação inicial historicamente determinada)
obtida pelas atividades mercantis e pela política econômica
artesanato e manufatura mercantilista, ocorreu um grande aumento do consumo, que
exigiu mais celeridade da produção. Assim, os ingleses tive-
ram necessidade de investir em novas formas de produção a
partir da sua experiência com as manufaturas.
Nesse novo modo de produção, nas indústrias, as máqui-
nas, as instalações e o capital pertenciam a poucos, os cha-
mados capitalistas. Uma grande massa de trabalhadores
foi perdendo sua independência ao longo do processo de
concentração de capitais nas mãos dos capitalistas. A prin-
cípio, os trabalhadores perderam a matéria-prima; depois,
os instrumentos de trabalho, restando-lhes apenas a força
de trabalho, que eles passaram a vender parceladamen-
te, apresentando-se no mercado para uma ação de troca
entre “iguais”: os trabalhadores vendiam trabalho, que os
capitalistas compravam.
O artesanato se desenvolveu no fim da Idade Média, com
o Renascimento Comercial e Urbano, e definia-se pela pro- Em razão disso, o mercado passou a ser o lugar privile-
giado das relações capitalistas. Assim, as relações sociais
dução independente, em quel o produtor detinha os meios
e jurídicas ganharam concretude. Homens livres juridi-
de produção: instalações, ferramentas e matéria-prima. Tra-
camente desfrutavam do estatuto de cidadãos e iam li-
balhando em sua própria casa, o artesão, sozinho ou com
vremente ao mercado para realizar um ato de vontade:
sua família, realizava todas as etapas da produção, da pre-
trocar mercadorias. Entretanto, o que não ficava transpa-
paração da matéria-prima ao acabamento final.
rente era a desigualdade da troca. Enquanto o trabalha-
A manufatura representou um estágio mais avança- dor trocava sua força de trabalho, expressa em horas tra-
do. Foi resultado da ampliação do consumo, o que levou balhadas, por uma determinada quantidade de dinheiro,
muitos artesãos a aumentarem sua produção, bem como outro, o dono do capital, pagava-lhe.

44
O domínio inglês no comércio marítimo foi con-
solidado no século XVII com a adoção dos Atos de Na-
vegação de 1650 e 1651. Tomadas durante o governo
de Cromwell, essas medidas asseguravam que qualquer
produto importado pelos ingleses só poderia ser trans-
portado por seus próprios navios ou pelas embarcações
dos países que tivessem vendido a mercadoria. Os Atos
de Navegação tiveram forte impacto no principal concor-
rente inglês da época, a Holanda, que sucumbiu diante
do poderio britânico.
Tratados comerciais que abriram mercados para os pro-
dutos manufaturados britânicos foram essenciais para
a sua expansão econômica. Utilizando-se da persuasão CHARGE ILUSTRA A DOMINAÇÃO DO PATRÃO SOBRE UMA FAMÍLIA OPERÁRIA.
DISPONÍVEL EM: <MUNDOEDUCACAO.COM/HISTORIAGÉRAL>
diplomática e da força naval, os ingleses diversificavam
seus mercados e fontes de importação. Com isso, acele- Em outras palavras, havia uma grande população dispo-
rou-se a produção manufatureira, que procurava obter nível para ocupar os postos de trabalho nas fábricas que
maiores lucros com as negociações internacionais e com surgiram na Inglaterra: um grande volume de mão de
as colônias. Foi o caso do grande impacto na economia obra a preço muito baixo satisfazia os interesses dos
portuguesa com o Tratado de Methuen, de 1703. Por ele, capitalistas, que passaram a investir na indústria, esperan-
Portugal e suas colônias, entre elas o Brasil, comprariam do obter grandes lucros.
tecidos ingleses e exportariam vinhos com impostos re- No campo político, desde a Revolução Gloriosa de 1688,
duzidos, numa troca muito vantajosa para os exportado- prevalecia o princípio do liberalismo político e econômico.
res ingleses. O Parlamento tomava medidas que estimulavam a abertura
No início do século XVIII, a Inglaterra consolidava-se econômica e reforçavam o papel dos burgueses como líde-
como a principal economia europeia e, praticamente, não res dos processos econômicos. A adoção do livre comércio
vislumbrava, em médio prazo, ameaças ao seu poderio. e da não intervenção estatal nos negócios ficou conhecida
O sistema financeiro inglês também acompanhou esse pela expressão laissez-faire.
desenvolvimento e passou a disponibilizar capitais para o O estabelecimento de princípios naturais e racionais para
financiamento de novas atividades não mercantis. A ativi- explicar o mundo, de acordo com o pensamento iluminis-
dade industrial configurou-se rapidamente como a mais ta, impulsionou o surgimento da ciência econômica com
importante do país. Ela requeria novas fontes de matéria- o trabalho de Adam Smith (1723–1790). O teórico
-prima e de energia, que eram encontradas em profusão britânico foi um grande crítico da política mercantilista que
no subsolo inglês, como carvão e ferro. O algodão preconizava o controle das relações comerciais pelo Estado
para as tecelagens era proveniente das áreas coloniais, e defendia que a riqueza de uma nação estava associada
como os atuais Estados Unidos, e a lã era encontrada nos aos interesses das pessoas; portanto, a livre iniciativa
campos britânicos e nas colônias. seria mais importante que a ação estatal para promover o
desenvolvimento econômico.
Por outro lado, os cercamentos (enclosures), a introdu-
ção de cercas em áreas rurais para criação de ovelhas, Em poucos anos, com a ajuda do Parlamento, que criou
matéria-prima da produção fabril de tecidos de lã, foram medidas de proteção para as novas invenções, incremen-
responsáveis pelo êxodo rural de milhares de pequenos tou-se a indústria têxtil em expansão. A máquina a va-
proprietários que perderam suas terras. A política de por difundia-se rapidamente, e os teares mecânicos e
cercamentos iniciada no século XIII intensificara-se no hidráulicos, também inventados no último quartel do
século XVII graças à transformação das áreas fundiárias século XVIII, acoplados a ela, garantiram mais eficiência e
comuns em propriedades privadas. A massa camponesa produtividade.
migrou para as cidades, sem emprego e sem ocupação. No campo religioso, a ética calvinista estimulava a acu-
Nesse período, houve crescimento demográfico em virtu- mulação de capital na medida em que transformava o lucro,
de da diminuição da ocorrência de pestes e da introdução a poupança, a usura e o trabalho em virtudes, em pontes
de novas técnicas na produção agrícola, que permitiram para a salvação. A burguesia calvinista inglesa procurava
o aumento significativo das colheitas e da consequente promover, na prática econômica, as virtudes preconizadas
oferta de alimentos. por Calvino, como a vida regrada, disciplinada, longe dos

45
vícios, a dedicação ao trabalho e a obediência. Ao legitimar lento de retirada das madeiras e suas transformações em
e estimular a acumulação de riquezas e enaltecer o traba- carvão não atendiam às necessidades de energia das in-
lho, a ética puritana também contribuiu para o advento da dústrias. Na década de 1780, foi introduzido maciçamente
Revolução Industrial na Inglaterra. o uso do carvão mineral e de métodos de se purificar o
ferro, dando-lhe caráter industrial.

8. CARACTERÍSTICAS DA
REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
As fibras de algodão vieram a ser as mais usadas na fabri-
cação de tecidos para as roupas. No início da produção,
os fabricantes esbarraram em um grande problema técnico
para conseguir clarear as sementes das bolas de algodão.
Contudo, em 1793, o problema foi resolvido com a cons-
trução de uma máquina que clareava o algodão 50 vezes
mais rápido do que se 50 pessoas executassem essa tarefa
simultaneamente.

A máquina a vapor não se limitou à esfera industrial. Por


volta de 1780, o vapor foi aplicado para mover veículos.
Em 1805, o norte-americano Robert Fulton revolucionou
os meios de transporte ao apresentar os navios a vapor. As
viagens marítimas podiam ser impulsionadas por motores,
sem dependerem exclusivamente dos ventos ou de remos.
TEAR MECÂNICO
As viagens fluviais ganhavam novo impulso, encurtando
distâncias e trazendo mais rapidez ao transporte.
Em 1767, a invenção da máquina de fiar por James Hargre- Na década de 1820, um grupo de empresários ingleses de-
aves permitiu a um só artesão fiar de 8 a 80 fios de uma só cidiu construir uma ferrovia, ligando Liverpool a Manches-
vez, mas os fios eram finos e quebradiços. A water frame, ter, e instituiu um prêmio para quem apresentasse o melhor
inventada por Richard Arkwright, em 1769, era muito eco- protótipo para uma locomotiva. O ganhador, em 1829, foi
nômica, porque era movida a água, e seus fios eram finos um engenheiro de minas de nome George Stephenson.
e resistentes. Solucionado o problema da fiação, um novo Sua locomotiva, Rocket, foi capaz de puxar um trem por
desequilíbrio apareceu: sobravam fios e os artesãos não da- mais de 15 quilômetros, numa média de velocidade de 10
vam conta de tecer. Com a invenção do tear mecânico por quilômetros horários. A ferrovia foi inaugurada em 1830.
Edmund Cartwright, em 1785, reequilibrou-se novamente a
As primeiras linhas férreas foram utilizadas para levar
relação entre fiação e tecelagem na indústria têxtil.
produtos de empresas de mineração e metalúrgicas para
Os novos industriais implantaram as unidades fabris em embarcações. Anos mais tarde, os investidores interessa-
áreas próximas às minas de carvão e servidas de água cor- ram-se em construir linhas para o transporte de pessoas
rente. Inicialmente, usou-se o carvão vegetal para mover as – eram ferrovias pequenas que circulavam em grandes
máquinas a vapor. No entanto, os altos custos e o processo centros, como Londres.

46
A introdução das ferrovias teve um impacto enorme na Na Inglaterra, predominava o trabalho feminino e
economia industrial em expansão. O transporte de merca- infantil na indústria têxtil. Em alguns casos, as crianças
dorias em maiores volumes e de forma mais rápida agiliza- começavam a trabalhar a partir dos cino anos de idade.
va a distribuição e a comercialização daqueles bens. Todas
as transformações ocorridas a partir da década de 1760,
como as alterações na indústria têxtil e o uso do ferro e do
carvão, ficaram conhecidas posteriormente como a Primei-
ra Revolução Industrial.

LOCOMOTIVA ROCKET

9. O CRESCIMENTO DAS
CIDADES E AS PRECÁRIAS
CONDIÇÕES DOS OPERÁRIOS
Em 1850, a Europa tinha duas grandes cidades: Londres,
com 2,3 milhões de habitantes, e Paris, com um milhão de
pessoas. Mas elas não ofereciam boa qualidade de vida
TRABALHO INFANTIL E FEMININO NA INDÚSTRIA TÊXTIL E NAS MINAS DE CARVÃO.
aos seus moradores. Uma minoria de industriais e banquei-
ros habitava as regiões nobres da cidade. Em 1835, as indústrias têxteis inglesas empregavam cer-
A maioria da população sobrevivia precariamente em ha- ca de 26,5% de homens, 30,5% de mulheres e 43% de
bitações inóspitas, com alimentação e higiene precárias. adolescentes e crianças. Naquele período, na indústria ou
Em Londres, comprimiam-se milhares de famílias operárias nas minas de carvão, as mulheres recebiam o equivalente
em cubículos imundos, sujeitas ao frio e à intensa fuligem à metade dos salários dos homens, e as crianças, apenas
das fábricas. Além dos migrantes rurais, haviam chegado à um quarto.
capital inglesa centenas de milhares de irlandeses em bus- Inicialmente, sem organização política e sem lideranças, os
ca de trabalho. Doenças e epidemias alastravam-se pela operários e os artesãos empobrecidos reagiram de forma
cidade, matando as pessoas enfraquecidas em virtude do espontânea à superexploração capitalista. Suas manifesta-
seu baixo poder de compra e das exaustivas jornadas de ções eram lideradas por artesãos empobrecidos, que viam
trabalho. A fumaça da queima do carvão tornava o ar das nas máquinas a causa de sua miséria, passando então a
cidades industriais irrespiráveis, agravando ainda mais as destruí-las.
precárias condições de vida.
Entre 1811 e 1812, um artesão empobrecido, Ned Ludd,
Um dos grandes problemas que a Revolução Industrial im- “organizou” o Ludismo – movimento que, além de destruir
pôs ao operariado foi o ritmo de trabalho intenso e com as máquinas, passou a perseguir e atacar os capitalistas. Em
longas jornadas, sem garantias legais. Recrutavam-se razão disso, o Parlamento inglês criou uma lei punindo com
homens, mulheres e crianças para os postos nas fábricas. a pena de morte a destruição das máquinas.

47
multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE

Tempos Modernos
LUDISTAS DESTROEM MÁQUINA DE TEAR. DESENHO (1812).
Um operário de uma linha de montagem, que
O movimento operário inglês amadureceu politicamente com testou uma “máquina revolucionária” para evi-
o surgimento do Cartismo, iniciado em 1838, como conse- tar a hora do almoço, é levado à loucura pela
quência da marginalização política e das péssimas condições “monotonia frenética” do seu trabalho. Após um
de vida dos trabalhadores. Liderados por Willian Lovett, os longo período em um sanatório, ele fica curado
operários redigiram uma carta (Carta do Povo) ao Parlamen- de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele dei-
to inglês em que reivindicavam sufrágio universal e secreto xa o hospital para começar sua nova vida, mas
masculino, remuneração aos políticos – para que operários encontra uma crise generalizada e equivocada-
pudessem ser deputados – e eleição anual do Parlamento. mente é preso como um agitador comunista, que
liderava uma marcha de operários em protesto.
Simultaneamente uma jovem rouba comida para
salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem
garotas. Elas não têm mãe e o pai delas está de-
sempregado, mas o pior ainda está por vir, pois
ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das
órfãs, mas enquanto as menores são levadas, a
jovem consegue escapar.

multimídia: livros
Old Morality - Sir Walter Scott
Romance de Walter Scott, narra a queda do Rei
James VII e a série de conflitos religiosos e polí-
ticos que precederam esse evento histórico.

48
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

A partir das modificações de Watt, os motores a vapor passaram a movimentar as primeiras locomotivas, os barcos
e as máquinas das fábricas, além de serem utilizados em fundições e minas de carvão. Assim, constituíram a base
da Revolução Industrial.
Um típico motor a vapor de pistão funcionava a partir de um válvula corrediça, responsável por permitir que o vapor
em alta pressão entrasse em qualquer lado do cilindro. Para a válvula deslizar, era necessária uma haste de comando,
geralmente conectada a uma ligação com uma cruzeta. O vapor era liberado na atmosfera pela chaminé. Esse fato
explica duas coisas sobre locomotivas a vapor:
ƒ A água era constantemente perdida com a descarga de vapor, razão pela qual são vistas grandes torres de água em
antigas estações; as torres eram empregadas no reabastecimento do trem.
ƒ O som característico de uma locomotiva a vapor advém da válvula que abre o cilindro para liberar a descarga de
vapor, que escapa em pressão muito alta, fazendo o assovio característico quando o vapor sai.
Numa locomotiva a vapor, a cruzeta normalmente se liga à haste motriz, e daí às hastes de acoplamento, responsá-
veis pelo acionamento das rodas da locomotiva, que se conectam a uma das três rodas motrizes. As três rodas são
conectadas por hastes de acoplamento, de modo que girem em uníssono, juntas.

49
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
Reconhecer a dinâmica da organização dos movimentos sociais e a importância da participação da coletividade na
10 transformação da realidade histórico-geográfica.

A Habilidade 10 requer a compreensão das dinâmicas históricas oriundas da participação dos movimentos sociais.
Presentes em todas as sociedades, os movimentos sociais adquiriram também fundamental importância no período
subsequente à Revolução Industrial, permeando a integridade dos séculos XIX e XX. Fruto do descontentamento das
classes operárias, tais movimentos buscaram melhorias na qualidade de vida, nos salários e na participação política
dos trabalhadores.
A prova do Enem exige a compreensão – para além do conteúdo específico da reivindicação de cada movimento
social – da dinâmica histórica por eles imposta, incluindo suas conquistas e seus legados imateriais na coletividade.

Modelo
(Enem) A Revolução Industrial ocorrida no final de século XVIII transformou as relações do homem com o trabalho. As
máquinas mudaram as formas de trabalhar, e as fábricas concentraram-se em regiões próximas às matérias-primas
e grandes portos, originando vastas concentrações humanas. Muitos dos operários vinham da área rural e cumpriam
jornadas de trabalho de 12 a 14 horas, na maioria das vezes em condições adversas. A legislação trabalhista surgiu
muito lentamente ao longo do século XIX e a diminuição da jornada de trabalho para oito horas diárias concretizou-se
no início do século XX.

Pode-se afirmar que as conquistas no início desse século, decorrentes da legislação trabalhista, estão relacionadas com:
a) a expansão do capitalismo e a consolidação dos regimes monárquicos constitucionais;
b) a expressiva diminuição da oferta de mão de obra, devido à demanda por trabalhadores especializados;
c) a capacidade de mobilização dos trabalhadores em defesa dos seus interesses;
d) o crescimento do Estado, ao mesmo tempo que diminuía a representação operária nos parlamentos;
e) a vitória dos partidos comunistas nas eleições das principais capitais europeias.

Análise expositiva - Habilidade 10: A questão refere-se às conquistas do início do século XX. É possível
C considerar que as primeiras conquistas, restritas à Inglaterra, e aquelas que gradualmente se seguiram em difer-
entes países, foram frutos das pressões exercidas pelos trabalhadores, muitas vezes organizados em sindicatos
ou partidos políticos. Vale lembrar que, em muitos países do mundo, essas conquistas são incompletas ou apenas
existem formalmente, mas não na prática.
Alternativa C

50
DIAGRAMA DE IDEIAS

REVOLUÇÃO INGLESA DO SÉC. XVII


E REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

REVOLUÇÃO INGLESA
CONTEXTO: DISPUTA ENTRE PODER ABSOLUTISTA E PARLAMENTO

DINASTIA TUDOR • ELIZABETH I (1533-1603)

JAIME I (1603-1625)
• FORTALECE O ABSOLUTISMO
• DISPUTAS COM O PARLAMENTO
• PERSEGUE CATÓLICOS E PURITANOS
(FUGA PARA AS 13 COLÔNIAS)
DINASTIA STUART
CARLOS I (1625-1648)
(REIS ESCOCESES)
• 1629 - FECHA O PARLAMENTO
• 1640 - REABRE PARA VOTAÇÃO DE MAIS IMPOSTOS
(DEPUTADOS QUEREM APROVAR “PE-
TIÇÃO DOS DIREITOS”)
• 1642 - AMEAÇA FECHAR O PARLAMENTO

TROPAS PARLAMENTARES
(CABEÇAS REDONDAS)
REVOLUÇÃO PURITANA OU TROPAS REAIS
BURGUESIA MERCANTIL, NOVA
CATÓLICOS E ANGLICANOS X
GUERRA CIVIL INGLESA DA NOBREZA TRADICIONAL
NOBREZA, LEVELLERS (GRUPO
RADICAL URBANO), DIGGERS
(1642-1648) (GRUPO RADICAL RURAL)

• 1648 - DECAPITAÇÃO DE CARLOS I

OLIVER CROMWELL
• DITADURA MILITAR
A REPÚBLICA PURITANA • COMUNIDADE BRITÂNICA COMMONWEALTH
(1649-1658) • DISSOLVE QUATRO PARLAMENTOS
• FORTALECE A MARINHA
• ATOS DE NAVEGAÇÃO (1651)

CARLOS II (1660-1685)
• TENSÃO COM O PARLAMENTO
• PARLAMENTO APROVA HABEAS CORPUS E
RETORNO DOS STUART
• ATO DE EXCLUSÃO (1679)
(1660-1688)
JAIME II (1685-1688)
• TENDÊNCIA ABSOLUTISTA
• REVOGA HABEAS CORPUS

51
DIAGRAMA DE IDEIAS

• ACORDO DO PARLAMENTO COM


GUILHERME DE ORANGE (GENRO DE JAIME II)
REVOLUÇÃO GLORIOSA
• HEGEMONIA DO PARLAMENTO SOBRE O PODER REAL
(1688-1689)
• 1689 - DECLARAÇÃO DOS DIREITOS (BILL OF RIGHTS)
• CONSOLIDAÇÃO DO PODER BURGUÊS

REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

ANTECEDENTES

INDÚSTRIA
ARTESANATO MANUFATURA
MODERNA

CARACTERÍSTICAS

• MUDANÇAS TÉCNICAS E AUMENTO PRODUTIVO (MÁQUINA À VAPOR)


• RELAÇÕES SOCIAIS E JURÍDICAS BURGUESAS
• PROPRIEDADE PRIVADA
• TRABALHADORES VENDEM FORÇA DE TRABALHO (PROLETÁRIOS)

O PIONEIRISMO INGLÊS

• ACUMULAÇÃO PRIMITIVA DE CAPITAIS • CERCAMENTOS


• CONSOLIDAÇÃO DA CLASSE BURGUESA • ILUMINISMO INGLÊS (LIBERALISMO ECONÔMICO)
• DOMÍNIO INGLÊS SOBRE O COMÉRCIO • DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO
• MATÉRIA-PRIMA (CARVÃO, FERRO, ALGODÃO) • INDÚSTRIA TÊXTIL

• MIGRAÇÃO DE TRABALHADORES PARA AS CIDADES


CONSEQUÊNCIAS • PRODUÇÃO DE MATÉRIA-PRIMA

• CRESCIMENTO URBANO DESENFREADO


• PROLIFERAÇÃO DE DOENÇAS RESISTÊNCIA DOS
• EXPLORAÇÃO DO TRABALHO TRABALHADORES
• JORNADAS EXAUSTIVAS
• CONCENTRAÇÃO DE RENDA • LUDISMO
• EXPANSÃO DO LIBERALISMO ECONÔMICO • CARTISMO (CARTA DO POVO)
• PROGRESSO MATERIAL SEM PRECEDENTES • SINDICATOS (TRADE-UNIONS)

52
AULAS ILUMINISMO
25 E 26
1, 4, 7, 8, 9, 10, 14, 15,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 4, 5 e 6 HABILIDADES:
16, 18 e 22

surgimento desse pensamento filosófico, político, social e


econômico, que afetaria a cultura ocidental de modo ge-
ral, foram dados durante os cem anos anteriores. Trata-se
uma de série de acontecimentos importantes entre 1400
e 1600: as Grandes Navegações, as descobertas maríti-
mas, a ascensão da burguesia, o Renascimento Cultural
e a Reforma.
As origens do movimento iluminista remontam à Revolu-
ção Científica do século XVII, período em que ocorreram
grandes progressos na filosofia e na ciência (Física, Quími-
ca, Matemática e Mecânica), com destaque para o cres-
cente desenvolvimento e difusão do método experimental.
As bases do pensamento no século XVIII assentavam-se nas
ideias geradas no século anterior. René Descartes, John Locke
e Isaac Newton foram precursores das teorias do chamado
Século das Luzes, como ficou conhecido o século XVIII.

1.1.1. René Descartes (1596-1650)

FRONTISPÍCIO DA ENCYCLOPÉDIE (1772), DESENHADO POR CHARLES-


NICOLAS COCHIN E GRAVADO POR BONAVENTURE-LOUIS PRÉVOST.
TRATA-SE DE UMA OBRA CARREGADA DE SIMBOLISMO: A FIGURA DO
CENTRO REPRESENTA A VERDADE – RODEADA POR LUZ INTENSA (O SÍMBOLO
CENTRAL DO ILUMINISMO). DUAS OUTRAS FIGURAS À DIREITA, A RAZÃO
E A FILOSOFIA, ESTÃO A RETIRAR O MANTO SOBRE A VERDADE.

1. ILUMINISMO
O século XVIII foi marcado pela consolidação do sistema
capitalista, tendo como elemento central a Revolução
Industrial, bem como a consolidação da burguesia, que
atingiu maturidade econômica e social em busca da deli- RENÉ DESCARTES
mitação de seu espaço, superando definitivamente velhos O filósofo e matemático francês René Descartes, autor
entraves feudais. das Meditações metafísicas e do Discurso sobre o método,
O Iluminismo ou Ilustração é a expressão do pensamento é considerado o fundador da doutrina racionalista moder-
da burguesia. O Iluminismo floresceu primeiro onde o ca- na, assim como do método racional. Descartes afirmava
pitalismo estava consolidado, ou seja, Inglaterra e França. que, na filosofia, era necessário partir de alguns axiomas
– verdades indiscutíveis que não precisam ser demons-
tradas – para depois, mediante o método matemático da
1.1. Origens do Iluminismo dedução, atingir verdades mais amplas. Para chegar a um
Apesar de alcançar o auge no correr do século XVIII, axioma, Descartes recorreu ao princípio da dúvida sistemá-
parece não haver dúvida de que os primeiros passos do tica. Deve-se a ele também a introdução de um conceito

53
mecanicista do universo, segundo o qual todo o mundo 1.1.3. Isaac Newton (1642-1727)
material, orgânico e inorgânico, podia ser definido em ra-
zão da extensão e do movimento.

1.1.2. John Locke (1632-1704)

ISAAC NEWTON

Deve-se a Isaac Newton uma mudança radical na visão do


mundo. Físico, matemático e filósofo inglês, organizou pro-
vas de que o mundo seria regido por leis mecânicas físicas
invariáveis, além de determináveis e cognoscíveis. O papel
JOHN LOCKE da ciência seria determiná-las e conhecê-las.
Autor da obra Segundo tratado sobre o governo civil, John Seu princípio da gravidade, “matéria atrai matéria na razão
Locke é um dos precursores do movimento iluminista. Ele direta das massas e na razão inversa do quadrado das dis-
defendia a ideia de que os homens são portadores de di- tâncias”, revolucionou as concepções e ideias da época. A
reitos naturais, como vida, liberdade, propriedade e resis- filosofia de Newton não excluía a ideia de Deus, mas nega-
tência contra governos tirânicos. Tais direitos deviam ser va sua intervenção no cotidiano do Universo, que funciona-
garantidos pelo Estado. ria por leis próprias sem necessidade de uma intervenção
Em sua obra, o filósofo inglês dá continuidade à lógica divina que zelasse por seu movimento.
contratualista de Hobbes e defende que o Estado seria
legitimado por um consentimento entre governantes e 1.2. Princípios básicos
governados. Contudo, o rompimento desse contrato pelo do Iluminismo
governante para obtenção de vantagens particulares ou
O pensamento iluminista tinha abrangência filosófica, so-
devido à não preservação dos direitos naturais do homem
cial, econômica e política e expressava os interesses da
poderia levá-lo à destituição, no que se opõe às ideias pro-
burguesia do século XVIII. A liberdade, a igualdade, a
postas por Hobbes. Sua teoria política influenciou a Revo-
tolerância, o progresso e o homem (estabelecimento
lução Gloriosa (1688-1689) – que pôs fim ao Absolutis-
de um novo pensamento antropológico), com ênfase para
mo na Inglaterra –, a independência dos Estados Unidos o racionalismo, foram os elementos básicos do Iluminis-
(1776) e os teóricos da Revolução Francesa. mo. A razão foi estabelecida como o único princípio verda-
A maior contribuição de Locke para a filosofia foi sua teo- deiro para se atingir o conhecimento.
ria do conhecimento, em que rejeita a doutrina das ideias Os iluministas estabeleceram a crítica sistemática ao Ab-
inatas defendida por Descartes. De acordo com o pensa- solutismo, ao poder real ilimitado, ao conceito de direito
dor inglês, os homens não nascem com algumas ideias já divino dos reis e aos privilégios da nobreza e do clero.
formadas. A percepção sensorial é o elemento básico para Suas propostas consistiam na limitação do poder real e
aquisição do conhecimento. O empirismo – cuja base é a no fim dos privilégios fiscais e jurídicos do Estado. Com-
experimentação – de Locke fundamenta-se no princípio de batiam também as práticas mercantilistas, baseadas na
que as ideias derivam de duas fontes: a sensação e a per- intervenção estatal, no protecionismo, no colonialismo e
cepção da operação na própria mente. Ora, como só é pos- nos monopólios que limitavam as relações comerciais e
sível pensar com ideias, e como essas ideias procedem da econômicas. Os iluministas faziam ainda criticas à postu-
experiência, conclui-se que nada no conhecimento pode ra da Igreja católica e das religiões reformadas, que sus-
ser anterior à experiência. Essa teoria de que o homem vem tentavam as práticas do Antigo Regime e contrariavam
ao mundo com a mente sem nenhuma ideia preconcebida o pensamento racional, defendendo dogmas, verdades
é conhecida como tábula rasa. incontestáveis e valores místicos e irracionais.

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Apesar das críticas feitas às religiões, o Iluminismo não foi “freios e contrapesos”. Defendia a harmonia e autono-
exatamente um movimento ateu. Deus era visto como o mia entre os poderes que constituem o Estado: Executi-
criador do universo, inclusive das leis naturais que re- vo, Legislativo e Judiciário.
gem a vida, não sendo, porém, um ser pessoal, mas uma
Em O espírito das leis, Montesquieu afirma: “É uma ver-
energia racional universal.
dade eterna: qualquer pessoa que tenha o poder tende a
Os pensadores iluministas defendiam a limitação do poder abusar dele. Para que não haja abuso, é preciso organizar
real por meio de um sistema constitucional: a igualdade as coisas de maneira que o poder seja contido pelo poder”.
fiscal e jurídica, a não intervenção do Estado no
campo econômico e a universalidade dos direitos, ou 1.3.2. Voltaire (François-
seja, sua extensão a todos os seres humanos, independente- Marie Arouet, 1694-1778)
mente de barreiras nacionais, religiosas ou étnicas.
O Iluminismo pregava a individualidade, isto é, afirmava
que as pessoas possuem identidade própria e não são me-
ros integrantes de uma coletividade. Defendia a liberdade
de pensamento e expressão, sem a tutela da religião
ou do Estado, para que os homens pudessem expressar
suas concepções sem barreiras; a tolerância religiosa e
filosófica, ou seja, o respeito por ideias diferentes; a pro-
priedade privada, o livre comércio e a livre iniciati-
va econômica – o liberalismo econômico. Os iluministas
defendiam o racionalismo e o empirismo como fontes do
conhecimento, bem como a percepção de que o mundo é
regido por leis naturais cuja compreensão se alcançaria por
meio da ciência.
VOLTAIRE
1.3. Principais filósofos iluministas Voltaire era dotado de forte espírito anticlerical. Acusava
os membros do clero de hipocrisia, de falta de escrúpu-
1.3.1. Barão de Montesquieu (Charles de los, de usura e preguiça à custa dos impostos pagos pela
Secondat, 1689-1755) burguesia e de omissão por não contribuírem para o bem
da coletividade. Era um grande defensor da igualdade ju-
rídica e da liberdade de pensamento, de expressão e de
associação religiosa. A britânica Evelyn Beatrice Hall, sua
biógrafa, sintetiza a defesa da liberdade pelo filósofo na
frase: “Posso até não concordar com suas palavras, mas
lutarei até a morte por seu direito de dizê-las”, atribuída
equivocadamente a Voltaire.
As teorias defendidas por Voltaire foram bem aceitas pe-
las camadas burguesas da França. Apesar de radicais, suas
ideias não podiam ser consideradas populares, pois Voltai-
re nutria um profundo desprezo pelas camadas mais po-
bres da população.

MONTESQUIEU
Apesar de contrário ao Absolutismo, Voltaire era favorável
ao regime monárquico, desde que ele se mostrasse sensível
As principais obras de Montesquieu foram Cartas persas aos interesses e direitos da burguesia. Inspirou com suas
(1721) e o O espírito das leis (1748) . Contrário ao ab- obras os chamados déspotas esclarecidos. Trocou corres-
solutismo monárquico, ele defendia a divisão de poderes pondência com alguns deles e chegou a viver na corte de
como forma de evitar os abusos resultantes da concen- Frederico II, da Prússia.
tração de poder nas mãos do rei.
Entre suas obras constam Dicionário filosófico (1764), Car-
Sua proposta de divisão de poderes, representada na tas inglesas (1734), Zadig (1748), Cândido (1759), Tratado
monarquia constitucional, celebrizou-se com a teoria dos sobre a Intolerância (1763).

55
Apesar de considerar a aparição da propriedade privada
um mal, Rousseau a reconhecia como inevitável. A solu-
ção que propunha era a limitação da propriedade: “Para
melhorar o estado social, é preciso que todos tenham o
suficiente e que ninguém tenha demasiado”. Suas teo-
rias foram amplamente aceitas entre a pequena burgue-
sia (artesãos e pequenos comerciantes), os camponeses
e as camadas de trabalhadores mais miseráveis que so-
nhavam com um mundo em que todos fossem pequenos
multimídia: livros proprietários.
Cândido (ou o otimismo) - Voltaire Em sua obra, Rousseau defende a ideia de que todos os ho-
Romance de Voltaire, no qual o grande pensa- mens são iguais e livres e, por isso, devem se libertar de suas
dor do iluminismo francês tematiza questões correntes. O filósofo lançou as bases da democracia atual
como a liberdade e a democracia. ao defender a ideia de que as leis devem corresponder aos
interesses dos cidadãos, à vontade geral dos indivíduos.
Adaptação em português do clássico da lite-
Assim, ele estabeleceu o princípio de soberania popular.
ratura francesa, com linguagem acessível para
o público jovem. Sátira do credo otimista dos Em Discurso sobre a origem da desigualdade entre os
filósofos Leibniz e Rousseau, Cândido é uma homens (1755), Rousseau defende a tese da bondade
fábula, inspirada no terremoto de Lisboa de natural dos homens, pervertidos posteriormente pela
1755, e demonstra as calamidades que reca- civilização. Consagra em sua obra a tese da reforma
em sobre o homem. As desventuras do jovem necessária da sociedade corrompida.
Cândido começam quando ele é expulso do Rousseau ainda criticou a opulência de muitos filósofos
castelo do Barão da Vestfália, por ter sido sur- da época, corrompidos nos saloons. Defendeu a educação
preendido namorando Cunegundes, a filha do das crianças para o progresso da sociedade e foi persegui-
barão, seu protetor. Pangloss, tutor do herói, é do durante boa parte da sua vida. Suas ideias influencia-
a personificação do otimismo, e Cândido, em ram a fase mais radical da Revolução Francesa.
meio às desgraças que lhe sucedem a partir da
expulsão, tenta pôr em prática as lições apren-
didas com o mestre.

1.3.3. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

multimídia: música
Jimi Hendrix – A Star Spangled Banner

1.4. Enciclopédia
Organizada por Jean Baptiste d’Alembert (1717-1783)
e Denis Diderot (1713-784), a Enciclopédia foi elaborada
entre os anos de 1751 e 1780. Compreende 35 volumes
ROUSSEAU
com a colaboração de vários pensadores e filósofos. Com
Autor de Do contrato social (1762), Rousseau foi um crítico o objetivo de reunir o conhecimento da época centrado
feroz do Absolutismo e da propriedade privada, o que le- nos ideais iluministas, os filósofos pretendiam divulgar o
vou a burguesia a rejeitar suas ideias. conhecimento racional e criar o “cidadão esclarecido”.

56
Capa da Enciclopédia

QUESNAY

De origem francesa, a corrente fisiocrata teve como princi-


pais defensores François Quesnay (1694-1774), Vincent
de Gournay (1712-1759), Honoré Mirabeau (1749-
1791) e Jacques Turgot (1727-1781).
Para os fisiocratas, a riqueza deveria vir da terra; portan-
to, as atividades econômicas mais importantes de um
país eram agricultura, mineração e pecuária. Ao contrá-
rio do que pensavam os mercantilistas, para os fisiocra-
tas o comércio era considerado uma atividade estéril, já
que não passava de uma troca de riquezas.
Os fisiocratas contestavam as práticas mercantilistas e o
intervencionismo estatal, defendendo a liberdade econô-
mica. São dessa escola as origens do liberalismo econô-
(DISPONÍVEL EM: <CIENCIAHOJE.UOL.COM.BR>.) mico, especialmente o princípio do Laissez-faire.

Instrumento de difusão das ideias iluministas, a Enciclopé-


dia pretendia abranger todos os conhecimentos filosóficos
1.5.2. Liberalismo econômico
e científicos da época, criticando os valores do Antigo Re- O liberalismo econômico desenvolveu-se na Inglaterra, in-
gime. Contou com cerca de 300 colaboradores e reuniu a corporando e adotando alguns princípios fundamentais do
elite intelectual francesa do século XVIII, dentre os quais fisiocratismo, como a existência de leis naturais que regem
Montesquieu e Voltaire. Rousseau colaborou, escrevendo a economia – lei da oferta e da procura, a livre concorrên-
artigos a respeito de economia política e música. cia e o livre cambismo, a defesa da propriedade privada, a
liberdade de contrato e o combate ao mercantilismo.
1.5. Teorias econômicas
As ideias iluministas também se desenvolveram no campo
econômico, com destaque para a crítica ao mercantilismo e
às praticas intervencionistas que limitavam o livre comércio.
De modo geral, os iluministas defendiam o lema: “Laissez
faire, laissez passer, le monde va de lui-même” (Deixai fa-
zer, deixai passar, que o mundo anda por si mesmo). En-
tendiam que a economia era regida por leis naturais e não
deveria sofrer os empecilhos do mercantilismo. O Iluminis-
mo deu origem a duas correntes econômicas: fisiocratismo
e liberalismo econômico.

1.5.1. Fisiocratismo ADAM SMITH

57
O grande destaque do liberalismo clássico foi o britânico ciências [...] e dirigiu pessoalmente a reforma de Berlim,
Adam Smith (1723-1790), autor de Teoria dos sen- capital da Prússia na época” (BOULOS JR, 2011).
timentos morais (1759) e A riqueza das nações (1776),
ƒ Marquês de Pombal, “principal ministro do rei D. José I
sua obra mais difundida e que lança os fundamentos da
[...]. Valendo-se de seu enorme poder, decretou a eman-
economia como ramo independente do pensamento. Se-
cipação dos indígenas na América portuguesa, a aboli-
gundo Smith, a riqueza nacional provém do trabalho, e a
ção da escravidão africana e a fundação da Imprensa
economia é regulada pela lei de oferta e demanda, que
Régia, em Portugal” (Idem, ibidem).
não deve sofrer interferência estatal para regulamentar os
preços dos produtos. A intervenção governamental retarda ƒ Conde de Aranda, presidente do Conselho de Ministros
o progresso econômico e reduz o valor real da produção na Espanha durante o reinado de Carlos III, reorganizou
anual proveniente da terra e do trabalho assalariado. Se as o exército e as universidades e expulsou os jesuítas.
pessoas perseguem seus próprios interesses em busca da ƒ José II, da Áustria, adotou a tolerância religiosa, mas
melhoria de sua condição, elas favorecem naturalmente a manteve intocados o militarismo e a servidão (Idem,
expansão econômica e beneficiam toda a sociedade. Em ibidem).
sua obra, Smith defende especialmente a livre concorrên-
cia. Por esses motivos, ele é considerado o “pai” do libera- ƒ Catarina II, da Rússia, “mandou construir escolas, fun-
lismo econômico. dou hospitais, dirigiu a reforma da capital (São Petersbur-
go) e combateu a corrupção nos meios civis e religiosos”
(Idem, ibidem).
1.6. Despotismo esclarecido
2. INDEPENDÊNCIA DOS
ESTADOS UNIDOS
A Independência dos Estados Unidos tem uma importância
histórica peculiar, pois comprovou ao Antigo Regime que
as ideias iluministas eram viáveis. À época, acreditava-se
que as colônias não teriam capacidade de se autogerir e
que nação alguma conseguiria se expandir sem a gerên-
cia da metrópole. Além disso, a experiência republicana
da Idade Moderna, a Revolução Puritana Inglesa de 1640,
havia sido um fracasso, tanto que o Parlamento britânico
CATARINA II, A GRANDE
incentivou a introdução da monarquia constitucional libe-
ral quando da Revolução Gloriosa de 1688.
O Iluminismo foi uma ideologia burguesa do século XVIII,
cujas origens provêm das regiões em que a burguesia
estava mais consolidada, como a Inglaterra, com a con-
solidação do capitalismo, e a França, com as crescentes
contradições feudais. Apesar das contradições feudais ou
do próprio capitalismo em outros países europeus, a bur-
guesia não tinha poder suficiente para promover questio-
namentos à ordem vigente. Nesse contexto, teve origem o
despotismo esclarecido.
Tratava-se da tentativa de reformar o Estado absolutista
pelo próprio Estado, à medida que se conciliavam Abso-
lutismo e ideais iluministas, principalmente o liberalismo.
multimídia: música
Sem abalar o próprio poder, os déspotas (soberanos abso-
Soundgarden – Fourth of July
lutos) puseram em prática algumas reformas, influenciados
pelo espírito liberal do século XVIII expresso pela filosofia
iluminista. Entre eles, destacaram-se: Outra peculiaridade da independência das Treze Colônias
ƒ Frederico II, da Prússia, “aboliu as torturas aplicadas aos era a crença de que a economia local não teria tido tempo
presos em seu país [...], incentivou as letras, as artes e as de gerar a riqueza que seria utilizada no financiamento das

58
batalhas de independência. A mentalidade econômica da de negligência salutar e permitiu que os colonos obti-
época acreditava na riqueza como resultado do acúmulo vessem maior grau de autonomia.
de ouro por meio do decadente mercantilismo metalista. A economia das colônias conseguiu mais lucros e mais
experiência financeira ao se relacionar diretamente com
2.1. A colonização inglesa da regiões do Caribe, Europa e África sem a interferência do
América do Norte: as Treze Colônias poder britânico. Esses contatos em forma de triângulos
comerciais eram feitos com as colônias inglesas, que ex-
As Treze Colônias
portavam peixe, madeira e gado para as Antilhas, de quem
compravam açúcar, melaço e rum para revenda na Europa,
onde compravam mercadorias manufaturadas. Da África
compravam-se negros, revendidos como escravos nas An-
tilhas ou nas colônias do Sul, a troco do rum como moeda.
Comércio triangular

As colônias da Nova Inglaterra e as do Centro tinham


mais identidade com a ideologia da Ilustração, uma vez
que contavam, entre sua população, com exilados inte-
lectuais, críticos do Absolutismo europeu, e com fugitivos
protestantes. A Pensilvânia representou esse ideal de li-
FONTE: ATLAS HISTÓRICO ESCOLAS. RIO DE JANEIRO: FAE, 1997. berdade, cujo eixo central foi a tolerância entre cristãos,
As Treze Colônias inglesas da América do Norte eram divi- que não foram perseguidos pelo governo local de Penn.
didas em três áreas: as do Norte (Nova Inglaterra) eram as Os calvinistas buscavam mais liberdade econômica no in-
de Massachusetts, New Hampshire, Rhode Island e Con- tuito de gerar riquezas, sinal de salvação. Outro avanço
econômico era o trabalho livre assalariado, que aumenta-
necticut; as do Centro eram as de Pensilvânia, New York,
va a produtividade do trabalhador em relação à do escra-
New Jersey e Delaware; e as do Sul, Virgínia, Maryland, Ca-
vo, bem como contribuía com a formação de um mercado
rolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia. As colônias do
consumidor mais ativo.
Centro-Norte tinham sido colonizadas por povoamento, o
que as aproximava do Iluminismo. No final do século XVIII, Entre os trabalhadores, no entanto, existiram os servos
a população aproximava-se dos 1,2 milhão de habitantes. temporários (indentured servants), que trabalhavam sem
As do Sul eram colônias de exploração com cerca de 980 renda para seus “patrões” pelo período de quatro a sete
mil colonos. No período da independência, as colônias do anos, a fim de ressarci-los do pagamento de suas passa-
Sul eram mais ricas do que as da Nova Inglaterra. gens da Europa para a América. Nesse conjunto de co-
lônias havia um incipiente parque manufatureiro urbano,
Como a economia mercantilista dava importância exces-
que contribuiu para a constituição do capitalismo e o de-
siva ao comércio das especiarias tropicais, escassas nas
senvolvimento da burguesia.
Treze Colônias, o governo inglês não se preocupou em
implantar uma grande exploração colonial, como Por- No interior das colônias havia policultura e pequenas e
tugal e Espanha promoveram na América Latina. Essa médias propriedades camponesas, origens de uma classe
relação política da Inglaterra com sua Colônia, fora dos média rural não atrelada à intervenção do Estado. Essa
padrões mercantilistas típicos da época, foi denominada pequena burguesia rural juntava-se à dinâmica burguesia

59
em busca da ampliação do mercado, numa atitude pró- para a Inglaterra, o que, somado à “negligência salu-
pria do liberalismo clássico. Entretanto, o protecionismo se tar”, provocou um enriquecimento da oligarquia sulista
mostrava indispensável naquele momento para a criação e que superava o capital da burguesia nortista.
desenvolvimento de um mercado interno.
É importante destacar que o grau de integração entre as
colônias era pequeno, pois não havia um governo central
metropolitano dentro das colônias, como no Brasil, em
que Salvador desempenhou esse papel. Essa característica
administrativa foi negativa para a insurreição dos colonos,
que só conseguiram realçar suas pretensões emancipató-
rias depois da convocação do segundo congresso da Fila-
délfia. Mesmo assim, a integração entre os novos Estados,
após a independência, foi rarefeita, pois optaram em se
guiar pela confederação, e não pela federação, que possibi-
litaria maior integração, como foi o caso do Brasil. Somente
multimídia: vídeo depois da Guerra da Secessão, que ocorreria em meados
do século XIX, é que os Estados Unidos constituiriam um
FONTE: YOUTUBE governo central que teria, em vários aspectos, um poder
O Patriota maior do que os dos estados.
Benjamin Martin (Mel Gibson) foi o herói de um
violento conflito. Desde o término da guerra ele 2.2. As causas da independência
renunciou à luta, vivendo em paz com sua família. No século XVIII, a economia britânica entrou em choque
Quando os ingleses levam a guerra da indepen- com a francesa, e o governo inglês passou a buscar áreas
dência americana para dentro de sua casa, Benja- em várias partes do globo terrestre que pertencessem aos
min não vê outra saída a não ser pegar nas armas Bourbons, como aquelas localizadas nas Índias Orientais
novamente, desta vez acompanhado por seu filho
e na América do Norte. Esse atrito ocasionou a Guerra
idealista (Heath Ledger), e liderar uma brava rebe-
dos Sete Anos (1756-1763) contra a França. A Inglaterra
lião em uma batalha contra o implacável e equipa-
venceu e usurpou da França o Canadá. Outros locais que
do exército britânico.
passaram a ser dominados pelos ingleses foram partes do
vale do rio Mississipi (Luisiana) e do rio Ohio, por isso cida-
As colônias do Sul se caracterizaram por uma ocupação des fundadas por franceses, como New Orleans e Detroit,
diferente da ocorrida no Centro-Norte (o que, depois da foram, posteriormente, incorporadas aos EUA.
independência, repercutiu na introdução da forma admi- A Inglaterra, na Guerra dos Sete Anos, buscou ajuda dos
nistrativa de Confederação) Estabeleceu-se nessa área colonos para derrotar os franceses, o que não foi difícil,
a plantation, organização bastante semelhante à plan- pois os norte-americanos já pretendiam ocupar terras
tation brasileira; contudo, sem o monopólio comercial e próximas aos Apalaches. Em troca do apoio, a coroa bri-
sem a complementaridade do Pacto Colonial. Esse mode- tânica prometeu ceder terras aos colonos que lutassem
lo produtivo mercantilista, baseado na grande proprieda- sob a liderança militar de George Washington. Contudo,
de rural, permitiu a criação de uma poderosa aristocracia. os britânicos não cumpriram o trato, ludibriando os colo-
As colônias do Sul estavam voltadas para o mercado ex- nos. Esse fato gerou um profundo ressentimento dos pio-
terno, e a monocultura do algodão, do fumo e do anil sus- neiros em relação ao Parlamento inglês, o que contribuiu
tentava a economia local. Como o Sul não se integrava para o início do processo que desembocou na indepen-
às colônias do Centro e do Norte, a expressão “mercado dência das Treze Colônias. A não doação das terras pro-
externo” não se refere apenas à Europa e ao Caribe, mas metidas aos norte-americanos foi oficializada com o Pac-
também às demais colônias inglesas. Outro fato marcante to de Quebec de 1774, quando se confirmou a orientação
da plantation foi o uso do trabalho negro escravo na eco- de que o povoamento do Canadá seria independente ao
nomia sulista, depois expandido para o baixo Mississipi, das Treze Colônias, pois o Parlamento britânico tinha pla-
sendo uma economia típica do período mercantilista, que nos para a colonização do Canadá, visando à exploração
foi se tornando obsoleta com o tempo em virtude das no- econômica da região por meio do extrativismo, além de
vas exigências da economia capitalista. A produção agrí- manter os seus habitantes distantes da influência liberal
cola de algodão era escoada facilmente do Centro-Sul dos colonos norte-americanos.

60
2.2.1. Leis inglesas e o fim A Lei do Aquartelamento ou Alojamento, de 1765, ge-
rou novos problemas. A lei consistia na exigência inusitada
da negligência salutar
de que os colonos deveriam pagar a estadia dos soldados
No intuito de buscar capital para pagar as dívidas contraídas ingleses em território norte-americano nas missões milita-
com a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), a Inglaterra ini- res de repressão sobre os próprios colonos, que obviamen-
ciou uma política de aumento excessivo da exploração sobre te intensificaram mais ainda as rebeliões.
as Treze Colônias por intermédio de leis que se assemelha-
vam ao Pacto Colonial, o qual, se implantado, destruiria a A política de exploração britânica continuou em 1767, com
relativa liberdade econômica dos colonos, ou seja, seria o fim as Leis Towshend, que consistiam, novamente, em exigir
da “negligência salutar”. Essa política abalou a convivência, que os colonos pagassem taxas à Inglaterra quando impor-
relativamente amigável, entre as Treze Colônias e a Coroa tassem mercadorias vendidas pela própria Inglaterra, como
Britânica. Entre as principais praças políticas de oposição chá, papel, corantes e vidro, o que provocou novo boicote
estavam as colônias do Centro-Norte, como a de Massachu- norte-americano e o recuo inglês, exceto sobre o chá.
setts, devido à maior expansão do ideal iluminista entre seus A Lei do Chá (Tea Act) de 1773 foi o estabelecimento do
habitantes. É interessante observar que, como a implantação monopólio do comércio desse produto à população norte-
dessas leis de exploração inglesa ocorreu em todas as Treze -americana pelo governo inglês, que o cedeu à Companhia
Colônias, a reação dos colonos foi a de se unirem contra a das Índias Orientais. Com a imposição do monopólio, os
Coroa britânica, o que os fortaleceu. colonos não podiam comercializar livremente e, conse-
A Lei do Açúcar (Sugar Act), de 1764, pode ser um in- quentemente, os preços cresceram. É importante observar
dicativo da tentativa britânica de implantação do mono- que o chá é um produto, ainda hoje, muito utilizado pe-
pólio comercial próprio do Pacto Colonial mercantilista, los norte-americanos, que viram seus hábitos alimentares
aumentando excessiva e contraditoriamente os impostos prejudicados pela atitude inglesa. Como consequência, os
alfandegários, pois o Parlamento inglês era liberal. A Lei do norte-americanos vestiram-se de índios e invadiram uma
Açúcar proibiu as Treze Colônias de comprarem açúcar e flotilha de navios ingleses em 1773, no porto de Boston,
melaço das Antilhas, que eram baratos e de excelente qua- que possuía um milionário carregamento de chá, o qual foi
lidade em comparação ao açúcar de beterraba inglês que jogado ao mar. Essa atitude foi um aviso ao Parlamento in-
os colonos eram forçados a comprar. A Lei do Açúcar pro- glês de que os colonos preferiam se abster de usar o chá a
vocou muitos prejuízos, pois impedia os norte-americanos ter que ceder ao monopólio comercial. Essa rebelião, mar-
de continuarem a prática do comércio triangular. O lucro cante na história americana, ficou conhecida como Festa
proveniente do comércio de derivados da cana-de-açúcar do Chá de Boston (Boston Tea Party).
era tão elevado, que a coroa inglesa buscava controlá-lo
desde 1733, com a Lei do Melaço (Molasses Act).
Também em 1764, foi implantada a Lei da Moeda (Cur-
rence Act), que proibiu a emissão de moeda pelos colo-
nos, o que provocou uma crise econômica com a elevação
dos preços de produtos agrícolas, que eram a base da
economia sulista.
A Lei do Selo (Stramp Act), criada em 1765, impunha
THE DESTRUCTION OF TEA AT BOSTON HARBOR. LITOGRAFIA. 1773.
aos colonos a obrigatoriedade de selar ou carimbar os
inúmeros papéis ou documentos de circulação nas Treze A reação inglesa à Festa do Chá de Boston foi a promul-
Colônias, pagando um imposto para a Coroa. Os norte-a- gação, em 1774, das Leis Intoleráveis ou coercitivas, por
mericanos ficaram surpresos com tal medida e ensaiaram meio das quais a Inglaterra fechou o porto de Boston, ocu-
uma união por meio do Congresso da Lei do Selo, em Nova pou Massachusetts e cobrou altíssimas indenizações. Nesse
Iorque, que declarou a ilegalidade do tributo, uma vez que momento histórico, os norte-americanos estavam sufocados
ele havia sido criado pelo Parlamento inglês sem a repre- pelo fim da “negligência salutar” e passaram a trilhar um ca-
sentação de colonos. As mercadorias inglesas passaram a minho de enfrentamento legal ou militar contra os britânicos,
ser boicotadas pelos colonos, o que forçou os comerciantes o que desembocou na luta pela soberania norte-americana.
ingleses a exigirem o recuo do Parlamento, sendo atendi-
dos em parte. A influência das ideias iluministas está cla-
ramente presente na reivindicação dos colonos de terem
2.3. Processo de independência
representação e direito de votarem as propostas inglesas À medida que a exploração inglesa mostrava-se mais abu-
referentes às colônias. siva, os colonos, influenciados e liderados por ideólogos

61
como Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Samuel Adams,
Thomas Paine e Charles Dickson, passaram a querer legali-
zar suas críticas e a articular uma integração política entre
as Treze Colônias para que o Parlamento britânico recuasse
de suas pretensões. Essas articulações geraram os Con-
gressos da Filadélfia, a partir dos quais a independência
das colônias norte-americanas tornou-se viável, bem como
a estrutura do futuro parlamento: estava nascendo o país
Estados Unidos da América.
O Primeiro Congresso da Filadélfia, em 1774, ainda
tentou manter as colônias como parte integrante do terri-
tório inglês, desde que a Metrópole passasse a respeitar as
aspirações dos colonos e aceitasse os representantes das
Treze Colônias no Parlamento em Londres, numa clara vi-
são iluminista. Mas a Inglaterra não aceitou as propostas
de reconhecimento de igualdade de direitos entre a Me-
trópole e as colônias. De volta à Pensilvânia, os colonos,
imbuídos do pensamento de separação, agravado por um
GEORGE WASHINGTON
conflito ocorrido em Lexington, que gerou mortes de norte-
-americanos, fomentaram o ódio contra os ingleses.
Foi nesse ambiente que se realizou o Segundo Con-
gresso da Filadélfia, em 1776, em que surgiram
textos como o Common Sense, de Thomas Paine, que
clamava pela revolta armada como um direito pela liberdade
republicana e cidadã contra um governo despótico. A inde-
pendência deixou de ser um ideal discutido em mesas aca-
dêmicas e passou a ser uma luta real. Os representantes da
Virgínia elaboraram um documento de intendência, redigido
por Thomas Jefferson e assinado pelas outras doze
colônias. Tratava-se da Declaração de Independên-
cia, em 4 de julho de 1776.

BENJAMIN FRANKLIN

A princípio, os colonos eram simplesmente pessoas com


reivindicações pacíficas voltadas para a agricultura e o co-
mércio, sem experiência e estrutura militar para enfrentar o
poderio militar do Império inglês. Formou-se então o exér-
cito continental, contando basicamente com voluntários e
seu comandante-geral, George Washington. Consequente-
mente, eles seriam derrotados.
Entretanto, depois da incipiente vitória de Saratoga, a
luta pela independência tomou novos rumos. Benjamin
Franklin conseguiu atrair os franceses para a causa dos
colonos norte-americanos, uma vez que o trono francês
dos Bourbons ainda nutria ódio aos ingleses desde a der-
rota de Paris, na primeira Guerra dos Sete Anos (1756-
THOMAS JEFFERSON 1763). Outro motivo do apoio francês era a disseminação

62
das ideias iluministas. A França transportou para o territó- protecionismo. Os estados do Sul mantiveram a monocul-
rio americano um contingente militar de 7,5 mil soldados tura agrícola, principalmente algodoeira, e a exploração do
liderados por La Fayette, que, além de promover batalhas trabalho escravo. Essas duas estruturas se confrontariam
vitoriosas, colaborou decisivamente com a estruturação na Guerra da Secessão, no século XIX. Com a vitória do
do exército americano em moldes profissionais, muito Norte, a escravidão e a Confederação seriam proibidas e
além do voluntarismo momentâneo dos colonos. Além a integração seria fortalecida pelo poder central graças à
dessas contribuições militares, as forças continentais con- instituição da Federação.
tariam com apoio de milícias independentes – grupos de
colonos que se armavam por conta própria e lutavam de 2.4. Consequências
maneira heterodoxa. A mais conhecida e atuante des-
sas milícias foi a comandada pelo fazendeiro Benjamin A independência dos EUA serviu para inspirar a aristocracia
Martin (conhecido como a “Raposa Vermelha”), que latino-americana a buscar a separação das metrópoles ibéri-
criou inúmeras e inusitadas táticas de guerrilhas contra cas. Os colonos puritanos passaram a desfrutar de mais liber-
os ingleses. Ele está retratado no filme: “O Patriota”, de dade, principalmente no Centro-Norte, para constituir uma
Roland Emmerich. A Espanha também entrou na guerra. sociedade baseada em costumes conservadores, defensores
A Inglaterra estava invadindo áreas de influência ibérica da acumulação de riqueza material como sinal de salvação.
nas Antilhas. Resultado: a Inglaterra sofreu sua última Segundo o sociólogo Max Weber, ela servia à ideologia ca-
derrota em 1781, na batalha de Yorktown. Em 1783, em pitalista e alimentou os ideais dos nortistas que venceram o
Paris, foi oficializada a independência dos Estados Unidos Sul na Guerra da Secessão, no século XX, conquistaram o
mediante o Tratado de Versalhes. Oeste, instituíram o Destino Manifesto e a Doutrina Monroe
em apoio às independências latino-americanas.

WASHINGTON ATRAVESSANDO O RIO DELAWARE.


RETRATO. 1851. EMANUEL LEUTZE.

Com a separação instituída, o líder militar George Wa-


shington foi indicado pelo parlamento para ser o primeiro
presidente dos Estados Unidos. A declaração de indepen- multimídia: vídeo
dência redigida por Thomas Jefferson tornou-se a espinha
FONTE: YOUTUBE
dorsal da Constituição de 1787. Adotou ideias iluministas
como a República, o presidencialismo, a divisão dos três O último dos Moicanos (1992)
poderes e o voto censitário. Entretanto, as diferenças gri- No meio da luta entre franceses e ingleses pelas
tantes entre o liberalismo do Centro-Norte e a poderosa terras norte americanas, Michael Mann insere
plantation do Sul definiram a Confederação, e os novos es- um toque de romance e dirige Daniel Day-Lewis
tados se mantiveram independentes uns dos outros. Cada impecavelmente. Fora isso, é notável perceber o
região tinha a liberdade de se estruturar da maneira que trabalho detalhado em relação à escolha da trilha
lhe fosse conveniente. Os estados burgueses do Centro- sonora (que faturou o Oscar, naquele ano).
-Norte fortaleceram o trabalho livre, as manufaturas e o

63
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

Charles de Montesquieu (1689- 755) se debruçou sobre o legado do filósofo grego Aristóteles para criar a obra
O Espírito das Leis. Nesse livro, o pensador francês aborda um meio de reformulação das instituições políticas por
meio da chamada “teoria dos três poderes”. Segundo tal hipótese, a divisão tripartite poderia se colocar como uma
solução frente aos desmandos comumente observados no regime absolutista.
Mesmo propondo a divisão entre os poderes, Montesquieu aponta que cada poder deveria se equilibrar entre a auto-
nomia e a intervenção nos demais poderes. Dessa forma, cada poder não poderia ser desrespeitado nas funções que
deveria cumprir. Ao mesmo tempo, quando um dos poderes se mostrar excessivamente autoritário ou extrapolar suas
designações, os demais poderes têm o direito de intervir contra tal situação desarmônica. Nesse sistema, observa-se
a existência dos seguintes poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
O Poder Executivo tem a função de observar as demandas da esfera pública e de garantir os meios cabíveis para que as
necessidades da coletividade sejam atendidas no interior daquilo que é determinado pela lei. Dessa forma, mesmo tendo
várias atribuições administrativas em seu bojo, os membros do executivo não podem extrapolar o limite das leis criadas.
Por sua vez, o Poder Legislativo tem como função congregar os representantes políticos que estabelecem a criação
de novas leis. Assim, aos serem eleitos pelos cidadãos, os membros do Legislativo se tornam porta-vozes dos anseios
e interesses da população como um todo. Além dessal tarefa, os membros do Legislativo contam com dispositivos
por meio dos quais podem fiscalizar o cumprimento das leis por parte do Executivo. Dessa maneira, os “legisladores”
monitoram a ação dos “executores”.
Em diversas situações, é possível observar que a simples presença da lei não basta para que os limites entre o lícito
e o ilícito estejam claramente definidos. Nessas ocasiões, os membros do Poder Judiciário têm por função julgar, com
base nos princípios legais, de que forma uma questão ou problema serão resolvidos. Na figura dos juízes, promotores
e advogados, o Judiciário garante que as questões concretas do cotidiano sejam resolvidas à luz da lei.
Países como Brasil e Estados Unidos adotaram tais prerrogativas de Montesquieu em seu arranjo político e em suas
premissas constitucionais.

64
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de
14 natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

A Habilidade 14 é recorrentemente cobrada pelo Enem. O contexto intelectual de uma época é comumente apre-
sentado por meio de fragmentos de textos escritos por grandes intelectuais. Por esse motivo, o conhecimento prévio
dos grandes intelectuais do Ocidente é cobrado pela prova. O aluno deverá ser capaz de compreender a principal
reivindicação política de cada autor, inserindo-a no contexto histórico e em sua posição social. Questões inseridas
nessa habilidade são comumente interdisciplinares com filosofia e sociologia, o que força o estudante a compreender
as principais vertentes de pensamento abordadas por tais disciplinas.

Modelo
(Enem) O texto abaixo, de John Locke(1632-1704), revela algumas características de uma determinada corrente de
pensamento.

“Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria pessoa
e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o seu
império e sujeitar-se ao domínio e controle de qualquer outro poder?

Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a utilização do mesmo é muito incerta
e está constantemente exposto à invasão de terceiros porque, sendo todos senhores tanto quanto ele, todo homem
igual a ele e, na maior parte, pouco observadores da equidade e da justiça, o proveito da propriedade que possui
nesse estado é muito inseguro e muito arriscado. Estas circunstâncias obrigam-no a abandonar uma condição que,
embora livre, está cheia de temores e perigos constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em
sociedade com outros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e
dos bens a que chamo de propriedade.”
(OS PENSADORES. SÃO PAULO: NOVA CULTURAL, 1991.)

Do ponto de vista político, podemos considerar o texto como uma tentativa de justificar:
a) a existência do governo como um poder oriundo da natureza;
b) a origem do governo como uma propriedade do rei;
c) o absolutismo monárquico como uma imposição da natureza humana;
d) a origem do governo como uma proteção à vida, aos bens e aos direitos;
e) o poder dos governantes, colocando a liberdade individual acima da propriedade.

Análise expositiva - Habilidade 14: John Locke pode ser considerado precursor do ideário iluminista. Um
D dos pontos fundamentais de sua filosofia considera que a origem do governo significa uma superação do estado
de natureza por meio do estabelecimento de um “contrato” entre governantes e governados, em que os direitos
naturais (vida, bens e direitos) são preservados.
Alternativa D

65
DIAGRAMA DE IDEIAS

ILUMINISMO E
INDEPENDÊNCIA DOS EUA

REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
MOVIMENTO FILOSÓFICO - EXPRESSÃO DO CAPITALISMO

ANTECEDENTES

EXPOENTES:
• REVOLUÇÃO CIENTÍFICA DO SÉCULO XVII • RENÉ DESCARTES
• MÉTODO EXPERIMENTAL • JOHN LOCKE
• ISAAC NEWTON

PRINCÍPIOS DO ILUMINISMO

• VALORES: LIBERDADE, IGUALDADE, • CRÍTICA AO COLONIALISMO E MERCANTILISMO


TOLERÂNCIA E PROGRESSO • LIBERDADE DE EXPRESSÃO
• SUPREMACIA DA RAZÃO HUMANA • DEFESA DA PROPRIEDADE PRIVADA
• CRÍTICA AO ABSOLUTISMO • INDIVIDUALISMO
• CRÍTICA AO DOGMA RELIGIOSO

EXPOENTES

MONTESQUIEU (1698-1755)
ROUSSEAU (1712-1778)
• DEFESA DA MONARQUIA CONSTITUCIONAL
• CRÍTICA À CONCENTRAÇÃO DA
• DIVISÃO DOS TRÊS PODERES (EXECUTIVO,
PROPRIEDADE PRIVADA
• LEGISLATIVO E JUDICIÁRIO)
• DEFESA DA SOBERANIA POPULAR
VOLTAIRE (1694-1778)
• “O HOMEM NASCE BOM, MAS A
• CRÍTICA AO ABSOLUTISMO
SOCIEDADE O CORROMPE.”
• CRÍTICA À DOMINAÇÃO INTELECTUAL DA IGREJA

ENCICLOPÉDIA
ECONOMIA
• DIVULGAÇÃO DAS IDEIAS ILUMINISTAS
• CRÍTICA AO MERCANTILISMO • SISTEMATIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
• DEFESA DAS LEIS NATURAIS DA ECONOMIA

LIBERALISMO

FISIOCRATISMO • OFERTA E PROCURA


• LIVRE CONCORRÊNCIA
• A RIQUEZA VEM DA TERRA • DEFESA DA PROPRIEDADE PRIVADA
• CRÍTICA À INTERFERÊNCIA DO ESTADO • LIVRE INICIATIVA (ADAM SMITH)

66
DIAGRAMA DE IDEIAS

DESPOTISMO ESCLARECIDO
REFORMAS DO ESTADO ABSOLUTISTA
• FREDERICO II DA PRÚSSIA
• CONDE DE ARANDA, NA ESPANHA
• MARQUÊS DE POMBAL, EM PORTUGAL
• JOSÉ II DA ÁUSTRIA
• CATARINA II DA RÚSSIA

INDEPENDÊNCIA DOS EUA


AS TREZE COLÔNIAS (COLONIZAÇÃO INGLESA)

COLÔNIAS DO NORTE COLÔNIAS DO SUL


E CENTRO-NORTE
COLÔNIAS DE EXPLORAÇÃO (PLANTATION)
COLÔNIAS DE POVOAMENTO • NEGLIGÊNCIA SALUTAR
• COMÉRCIO • COMÉRCIO TRIANGULAR
• MANUFATURA
• LIBERDADE RELIGIOSA

CAUSAS DA
INDEPENDÊNCIA
• 1764 - LEI DO AÇÚCAR
• 1764 - LEI DA MOEDA
• GUERRA DOS SETE ANOS • 1765 - LEI DO SELO
(1756-1763) - INGLATERRA × FRANÇA LEI DO AQUARTELAMENTO
• LEIS INGLESAS E FIM DA NEGLIGÊNCIA SALUTAR • 1767 - LEI TOWNSHEND
• 1773 - LEI DO CHÁ
FESTA DO CHÁ DE BOSTON

PROCESSO DE
CONSEQUÊNCIAS
INDEPENDÊNCIA

• 1776 - SEGUNDO CONGRESSO DA FILADÉLFIA • INFLUÊNCIA NAS COLÔNIAS IBÉRICAS


• “DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA” • FORÇA DOS PURITANOS NO NORTE
É APROVADA • VITÓRIA NA GUERRA DE SECESSÃO (1861-1865)
• GEORGE WASHINGTON LIDERA • CONQUISTA DO OESTE
EXÉRCITO VOLUNTÁRIO • DESTINO MANIFESTO
• APOIO DA FRANÇA E ESPANHA • DOUTRINA MONROE
• CONSTITUIÇÃO DE 1776

• IDEIAS ILUMINISTAS • 3 PODERES


• ESTADOS DO NORTE: LIBERAIS
CONSTITUIÇÃO • REPUBLICANA • VOTO CENSITÁRIO
• ESTADOS DO SUL: ESCRAVISTAS
• PRESIDENCIALISTA • FEDERALISTA

67
HISTÓRIA DO BRASIL:
Incidência do tema nas principais provas

A proposta do Enem é interpretativa. Na Abordagem conteudista sobre Constituição outorgada de


maioria das questões, o candidato deve ler os 1824, jogo político entre os quatro poderes, representação
eleitoral, cafeicultura e uso de mão de obra escrava. Em
textos propostos atentamente, pois as solu-
relação à República, aborda o processo de transição.
ções quase sempre estarão contidas neles.

Com forte análise social, quando Brasil Imperial Não são abordadas questões de História, mas há interdisci- Aborda aspectos sociais e econômicos, como o desen-
e os anos iniciais da República são apresen- plinaridade que permite o uso dos conhecimentos históricos volvimento da sociedade imperial estruturada em torno
tados. Vale salientar a construção do Estado para auxílio da resolução dos exercícios e escrita da redação, do plantio de café, a partir da segunda metade do século
monárquico constitucional e suas relações com principalmente no que se refere ao contexto atual. XIX. Normalmente, apresenta questões com textos médio/
a sociedade imperial, assim como a transição grandes.
para a República.

É uma prova desafiadora, que prioriza a intertextua- Nos últimos dois anos, a prova apresenta uma A prova aborda as temáticas por meio de uma Nos últimos três anos, Brasil Imperial e República
lidade entre Medicina e História, principalmente em tendência de temas relacionados à História do correlação entre os aspectos sociais, econômicos e da Espada têm sido recorrentes e exigem análise
relação ao Estado brasileiro e ao Período Imperial, Brasil, com ênfase em questões relacionadas ao políticos que ocasionaram a construção de Estado de imagens, documentos escritos e debates histo-
abordando Ciência e História a partir do cenário Período Regencial. no Brasil. riográficos.
atual de pandemia.

UFMG

Há um tema, determinado pela própria organização A prova privilegia análises e interpretações sobre Não são abordadas questões de História,
do vestibular, que percorre toda a prova e que pode diferentes processos históricos e as percepções entretanto, há um grau de interdisciplinaridade
englobar as temáticas abordadas neste caderno, de suas continuidades e rupturas. Brasil Imperial que permite o uso dos conhecimentos históricos
por meio da associação entre os aspectos sociais, é abordado por meio da correlação dos aspectos para auxílio da resolução dos exercícios e escrita
econômicos e políticos. sociais, políticos, econômicos e culturais. da redação.

A prova realiza análises de estruturas Nessa prova, há uma tendência em temas Com uma tendência em abordar temas con-
históricas brasileiras, que propõem uma relacionados à História do Brasil, com certa temporâneos, a prova apresenta questões de
reflexão sobre temas contemporâneos, como interdisciplinaridade que permite o uso dos múltipla escolha direcionadas aos candidatos
preconceito e desigualdade social. Utiliza conhecimentos históricos para auxílio da reso- que pretendem uma vaga nos cursos de Enfer-
textos introdutórios, trechos de registros lução dos exercícios e escrita da redação. magem, Biomedicina e Medicina.
documentais, mapas, tabelas e
imagens.

69
AULAS PRIMEIRO REINADO (1822-1831)
17 E 18
1, 2, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 5 e 6 HABILIDADES:
13, 14, 15, 22, 24 e 29

1. AS GUERRAS DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL (1822-1823)

ACLAMAÇÃO DE D. PEDRO I, DE JEAN-BAPTISTE DEBRET

O processo de Independência do Brasil não foi pacífi- Essas províncias, devido à sua posição geográfica, acredita-
co, pois algumas províncias, como Bahia, Maranhão, vam que a união com Portugal seria mais vantajosa do que
Grão-Pará, Piauí e Cisplatina se rebelaram e não re- a submissão a um Estado que atenderia, prioritariamente,
conheceram a autoridade do Imperador D. Pedro I. aos desejos dos grandes proprietários do sul do Brasil. A
O fato de essas províncias serem governadas por portu- exceção era Cisplatina, que havia sido anexada ao Brasil
gueses fez com que as autoridades quisessem se manter em 1821 e não tinha vínculo com as tradições brasileiras,
fiéis aos interesses portugueses. desejando, por isso, sua autonomia.
Para impor sua autoridade e consolidar a Independência
do Brasil, evitando a fragmentação do território, D. Pedro I
lançou mão da força e enviou tropas às províncias rebeldes.
Entretanto, o Exército Brasileiro não era suficientemente
aparelhado e organizado, assim como não possuía uma
Marinha capaz de enfrentar os navios portugueses que
auxiliavam as províncias rebeladas. A solução foi recorrer
à compra de navios no exterior e contratar mercenários
estrangeiros para ocupar os postos de comando; ao mes-
mo tempo, a população foi convocada a se organizar em
milícias para ajudar na luta. Entre os estrangeiros contra-
tados, destacaram-se os ingleses John Taylor, John Green-
fell e James Norton; o escocês lorde Cochrane; e o francês
RETRATO DE D. PEDRO I. ÓLEO SOBRE TELA, DE BENEDITO CALIXTO (1902). Pierre Labatut.

70
A resistência na Cisplatina, liderada por D. Álvaro da Cos-
ta Macedo, foi a última a ser sufocada, em 1824, pelas
tropas sob o comando de Carlos Frederic Lecór.
Naquela oportunidade, o Brasil enfrentava sérias dificul-
dades econômicas que obrigaram o governo a recorrer a
empréstimos junto a banqueiros ingleses para suportar as
despesas militares. Esse fato resultou no agravamento da
crise econômica do jovem Império, tornando-o mais de-
pendente do capital estrangeiro.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE
Império Brasileiro 1822 a 1889

A Bahia foi um dos principais focos de resistência, onde as


tropas portuguesas eram comandadas pelo general Madeira
de Melo. Depois de violentas batalhas e do cerco do porto
de Salvador por uma esquadra naval comandada por lorde
Thomas Cochrane, as tropas fiéis a D. Pedro I conseguiram a
rendição dos rebeldes no dia 2 de julho de 1823, marco da
vitória definitiva. No Pará, a repressão foi comandada pelo multimídia: música
lorde Grenfell, subordinado de Cochrane. Depois de violen-
tos embates entre os revoltosos e as tropas do Império, mais Hino da Independência – Evaristo da Veiga
de 250 pessoas (há divergências quanto aos números) foram
presas e quase todas morreram asfixiadas no porão de um
navio. No Piauí, a resistência foi organizada pelo governador
major João José da Cunha Fidié, português, e a vitória das
1.1. O reconhecimento
tropas brasileiras ocorreu na Batalha de Jenipapo, em março externo da independência
de 1823. Depois de fugir do Piauí, Fidié foi ao Maranhão jun- Era necessário que a independência política fosse reconhe-
tar-se a outro foco de resistência à independência, quando cida por outros países para que o Brasil pudesse estabele-
foi derrotado por tropas comandadas pelo lorde Cochrane. cer relações políticas e econômicas com o exterior. Apesar
de a Inglaterra se mostrar interessada, tratou-se de um
processo lento e difícil.
Pelo fato de ter sido conduzida pelo herdeiro do trono por-
tuguês, a Independência brasileira suscitava desconfiança
no exterior. Alguns países se questionavam se o rompimen-
to de D. Pedro I com Portugal era para valer, uma vez que,
depois da morte de D. João VI, ele poderia acumular os
tronos brasileiro e português, reunindo outra vez os países
sob seu comando.
A maioria dos países europeus apoiava a postura política
antiliberal e recolonizadora da Santa Aliança, que previa
a intervenção militar em países ou colônias europeias onde
ocorressem movimentos de caráter liberal.
Por outro lado, os países americanos não viam com bons
olhos a adoção do regime monárquico no Brasil, bem
LORDE COCHRANE, IMPORTANTE NA CONSOLIDAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA, FOI como o governo de um príncipe português. O fato de vá-
CONTRATADO PELO IMPERADOR D. PEDRO I PARA ENFRENTAR A ESQUADRA LUSA. rias províncias terem se rebelado contra D. Pedro I e a falta
ARISTOCRATA ESCOCÊS, FORA EXCLUÍDO DA MARINHA BRITÂNICA EM RAZÃO DE UM
ESCÂNDALO OCORRIDO NA BOLSA DE VALORES EM 1814.
de participação popular no movimento de Independência
EM SEGUIDA, TORNOU-SE FIGURA CENTRAL DA INDEPENDÊNCIA DO CHILE E DO PERU. causavam estranheza.

71
Os Estados Unidos foram os primeiros a reconhecer oficial-
mente a Independência do Brasil, em 1824, em virtude da
Doutrina Monroe, que defendia a “América para os ame-
ricanos”, isto é, o direito à soberania e autodeterminação dos
povos americanos em oposição aos interesses antiliberais da
Santa Aliança. Além disso, os EUA ambicionavam ampliar seu
mercado consumidor e sua importância política na região; para
isso, era necessário reduzir a influência inglesa no continente.
Embora a Inglaterra fosse a maior beneficiária da Indepen-
dência brasileira, o reconhecimento oficial dependia do reco-
nhecimento de Portugal. Aos ingleses não interessava abalar multimídia: vídeo
o bom relacionamento diplomático e as alianças políticas
entre os dois países. Portugal ainda nutria a esperança de FONTE: YOUTUBE
recuperar sua antiga Colônia, mas, pressionado pelo Estado Primeiro Reinado (1822-1831)
inglês, acabou aceitando negociar o reconhecimento da au-
tonomia brasileira mediante algumas vantagens.
Em agosto de 1825, Portugal assinou o acordo de reconhe- 1.2. A Assembleia Nacional
cimento da Independência brasileira mediante uma inde- Constituinte (1823)
nização de dois milhões de libras esterlinas e a concessão
do título de Imperador Honorário do Brasil para D. João Embora tenha sido convocada em julho de 1822, antes
VI como forma de homenageá-lo. Além disso, o Brasil se mesmo da Independência, a Assembleia Nacional Consti-
comprometia a não se unir a qualquer outra colônia portu- tuinte ocorreu em maio de 1823. Apenas 14 das 19 provín-
guesa. Sem recursos financeiros para arcar com a indeniza- cias que compunham o Império enviaram seus deputados
ção, o Brasil novamente recorreu aos banqueiros britânicos, para a elaboração da Constituição.
consolidando sua dependência econômica e aumentando
ainda mais a dívida externa da jovem nação. Os deputados representavam diversos segmentos sociais:
aristocracia rural, comerciantes, Igreja Católica, funcioná-
Em 1826, a Inglaterra reconheceu a Independência do
rios públicos, militares e profissionais liberais. Participaram
Brasil. Entretanto, procurou obter vantagens econômicas
da Assembleia os ex-inconfidentes José Resende Costa Fi-
exigindo a manutenção das tarifas alfandegárias preferen-
ciais de 15% para os produtos ingleses e o compromisso lho e o padre Manuel Rodrigues, que tiveram a pena de
do governo brasileiro de extinguir o tráfico negreiro num morte comutada para degredo e depois retornaram ao
prazo de cinco anos. Brasil, e os irmãos Andrada, cuja participação no processo
de Independência foi determinante.
O reconhecimento de Portugal e Inglaterra foi seguido pelo
de vários outros países, como Áustria e França, que tam- O Imperador abriu os trabalhos e, para demonstrar suas inten-
bém buscaram obter vantagens econômicas ou alfandegá- ções, citou as palavras do rei Luis XVIII na abertura da carta
rias. Em 1828, D. Pedro I estabeleceu que as tarifas alfan- constitucional francesa de 1814. Afirmou que aceitaria e ju-
degárias de 15% valeriam para qualquer nação, adotando raria a Constituição desde que ela fosse “digna do Brasil e
uma política livre-cambista e sepultando definitivamente de mim”. E foi o que se viu, uma constituinte marcada por
as chances de sucesso da indústria nacional, incapaz de
acalorados debates entre os deputados pela distribuição das
concorrer com as nações europeias.
atribuições e competências entre os poderes e pela defesa da
concentração de amplos poderes nas mãos do poder executi-
vo. D. Pedro e seus aliados defendiam a centralização política.
O projeto constitucional cujo relator foi Antônio Carlos de
Andrada e Silva ficou conhecido como Constituição da
Mandioca, uma vez que estabelecia o voto censitário, ou
seja, a participação política de acordo com uma renda anu-
al equivalente aos alqueires de mandioca plantados. Além
disso, instituía outras medidas, como eleições indiretas,
TIO SAM PROTEGENDO OS AMERICANOS CONTRA OS EUROPEUS. A PLACA DIZ: “NÃO
ULTRAPASSE – AMÉRICA PARA OS AMERICANOS – TIO SAM”.
manutenção da escravidão, divisão do Estado em Legisla-
DISPONÍVEL EM: <I23.PHOTOBUCKET.COM/ALBUMS>. tivo, Executivo e Judiciário (com predomínio do Legislativo

72
sobre o Executivo: o imperador não poderia vetar as deci- homens casados que votavam a partir dos 21 anos),
sões do Legislativo) e a proibição de portugueses ocupa- com renda mínima anual de 100 mil réis para os eleito-
rem cargos públicos. res de paróquia (primeiro grau), e de 200 mil réis para
Descontente com o projeto, D. Pedro I desentendeu-se com os eleitores de província (segundo grau); candidatos a
os irmãos Andrada e vários outros deputados constituintes deputado e senador, renda mínima de 400 e 800 mil
e determinou o fechamento da Assembleia, que permane- réis, respectivamente;
ceu reunida sob protesto. Era noite do dia 11 para 12 de ƒ senadores vitalícios; morto um senador, eleições
novembro de 1823, episódio que ficou conhecido como seriam convocadas; caberia ao imperador escolher um
noite da agonia. Ao amanhecer, o prédio estava cercado dos nomes da lista de mais votados;
por tropas imperiais, a Constituinte foi dissolvida e diversos
deputados foram presos. ƒ religião católica adotada como oficial pelo Estado;
proibidos templos e manifestações públicas de quais-
Apesar de ter sido uma Constituinte marcada pela pre- quer outras religiões, sendo permitido, nesses casos,
dominância da elite agrária, os embates e seu desfecho apenas culto privado;
deixaram claros os choques de interesses e opiniões con-
flitantes no interior da classe dominante. ƒ padroado; Igreja católica subordinada ao Estado;
ƒ beneplácito; leis da Igreja só teriam validade com a
autorização do imperador.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE
10 Coisas que você não sabe
sobre a Independência do Brasil

1.3. A Constituição de 1824 ALEGORIA DO JURAMENTO DA CONSTITUIÇÃO DE 1824 (D.


PEDRO SALVA A ÍNDIA, O BRASIL DA AMEAÇA DO ABSOLUTISMO).
Depois de dissolver a Assembleia Constituinte de 1823, GIANNI. 1824. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL.
D. Pedro I nomeou um Conselho de Estado composto por
dez membros com a função de elaborar, sob sua supervi-
são pessoal, um novo projeto constitucional para o Brasil.
Apesar de ter adotado alguns pontos do Projeto da Cons-
tituição da Mandioca, a nova Constituição ficou pronta em
1824 e foi outorgada, imposta, por D. Pedro I em 25 de
março com as seguintes características:
ƒ monarquia hereditária constitucional;
ƒ unitarismo, ou seja, centralização do poder político;
províncias sem autonomia com presidentes nomeados
pelo poder central; quatro poderes: Legislativo, Execu-
tivo, Judiciário e Moderador.
IN: NOVAES, CARLOS EDUARDO; LOBO, CÉSAR.
ƒ eleições indiretas, com voto censitário e em dois ní- HISTÓRIA DO BRASIL PARA PRINCIPIANTES: DE CABRAL A CARDOSO,
veis; eleitores homens maiores de 25 anos (exceto para 500 ANOS DE NOVELA. SÃO PAULO: ÁTICA, 1997. P. 147.

73
O Poder Legislativo seria exercido por deputados e sena- mem de todas as revoluções”. Em 1823, dirigia um
dores, e o Judiciário, pelos juízes de paz. O Poder Executi- de seus inúmeros jornais, A Sentinela da Liberdade na
vo seria exercido pelo Imperador, por Ministros de Estado Guarita de Pernambuco, em que atacava violentamen-
e Presidentes das Províncias. Já o Poder Moderador seria te o despotismo de D. Pedro e as ameaças de recolo-
exclusivo do Imperador, com direito a intervir nos demais nização. Foi preso em novembro, antes do início do
poderes como ponto de equilíbrio político do Estado. movimento revolucionário que pregava, e permaneceu
na prisão até 1830.
A Carta de 1824 não era democrática. Guardava os prin-
cípios do liberalismo, desvirtuados pelo excessivo centralis- Joaquim do Amor Divino, o carmelita Frei Caneca, assim
mo do Imperador e pela manuteção da escravidão. Graças conhecido porque vendia canecas nas ruas do Recife quan-
à discrepância entre o avanço da definição dos poderes e do criança, havia participado também da Revolução de
o cumprimento das suas determinações, não passava de 1817. Logo depois da prisão de Cipriano Barata, fundou o
um Estado escravocrata cuja elite costumava fazer suas Tifis Pernambucano, jornal que atacava a Carta outorgada,
próprias leis e o favoritismo marcava as relações sociais em especial seu caráter centralizador, defendendo a neces-
e políticas. A tradição autoritária continuava intocável. Era sidade de uma estrutura federalista para o Brasil.
impossível o exercício do liberalismo real. O movimento revolucionário teve início quando D. Pedro I
destituiu Manoel Carvalho Paes de Andrade do governo de
Pernambuco e nomeou para seu lugar Francisco de Paes
Barreto. Em 2 de julho de 1824, Paes de Andrade rompeu
com o governo e proclamou o regime republicano na pro-
víncia, contando com a adesão de liberais de províncias
vizinhas: Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.

multimídia: música
Hino Nacional Brasileiro – Joaquim Osório
Duque Estrada

1.4. A Confederação do
Equador (1824)
BANDEIRA DA CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR (NOTA-SE A IMPORTÂNCIA DA
A dissolução da Assembleia Constituinte de 1823 e a ou- CANA-DE-AÇÚCAR E DO ALGODÃO PARA A REGIÃO, POIS TAIS
torga da Constituição de 1824 foram grandes exemplos PRODUTOS ESTÃO REPRESENTADOS NA BANDEIRA)

do autoritarismo de D. Pedro I e geraram descontenta-


Os rebeldes pregavam a implantação do regime republi-
mento em várias províncias, especialmente em Pernam-
cano, o federalismo e a adoção provisória da Constituição
buco, que já havia liderado um movimento em 1817 em
da Grã-Colômbia (inspirada em Bolívar). O nome esco-
reação à presença da Corte portuguesa no Brasil e à situ-
lhido para a república nordestina foi Confederação do
ação da província.
Equador, em virtude de sua localização próxima à linha
A crise econômica persistia, especialmente na agromanu- imaginária do equador.
fatura açucareira, atingindo os diversos segmentos sociais
O desembarque de escravos no porto do Recife foi proi-
em Pernambuco. As ações autoritárias do monarca brasilei-
bido, e a questão abolicionista se tornou o centro das
ro frustaram também os liberais, outrora empolgados com
discussões, provocando a insatisfação da elite agrária e
a Independência.
dos demais defensores da escravidão, o que os afastou do
Figuras como Cipiriano Barata e Frei Caneca se manifesta- movimento e o enfraqueceu.
ram publicamente contra D. Pedro I.
O governo imperial organizou uma violenta repressão con-
Veterano da Conjura dos Alfaiates e da Revolução de tra Pernambuco e as demais províncias nordestinas até
1817, Cipriano Barata ficou conhecido como “o ho- derrotar completamente o movimento em novembro de

74
1824. Muitos foram presos e muitos rebeldes morreram
em combate. Paes de Andrade conseguiu fugir do país, e 2. A CRISE DO PRIMEIRO REINADO
Frei Caneca foi preso e condenado à forca. Como os car-
rascos de Recife se recusaram a enforcá-lo, o frei carmelita 2.1. A Guerra da Cisplatina
foi fuzilado por ordem expressa de D. Pedro I. A repressão
demonstrou como o Imperador trataria qualquer movimen-
(1825-1828)
to que contestasse sua autoridade. A posse da Região do Prata tinha grande significado ge-
opolítico para o Brasil. Entretanto, a região da Cisplatina
não poderia continuar como um apêndice do Império, e o
uso da força militar não impediria a consolidação do ideal
nacionalista de emancipação política. Além disso, a inde-
pendência da região, de um modo geral, era vista com
simpatia pelos brasileiros.
Os líderes nacionalistas Juan Antônio Lavalleja e Fuctuoso
Rivera arregimentaram os militares contra os contingen-
tes brasileiros estacionados na Cisplatina. Os uruguaios
reunidos constituíram um regime republicano e decidiram
pela incorporação à atual Argentina, então chamada Pro-
víncia Unida do Prata. O Império brasileiro declarou-lhes
guerra num momento complicado para o país entrar em
luta, pois a situação no Prata era resultado da política
expansionista de D. João VI, que não era popular, o que
provocava críticas a D. Pedro I, acusado de preferir a he-
rança portuguesa de conquista ao verdadeiro interesse
nacional de harmonia e paz.
O clima de desentendimento entre o general Carlos Frede-
rico Lécor, comandante das forças terrestres, e o marechal
Felisberto Caldeira Brandt Pontes, Marquês de Barbacena,
comandante naval, levou D. Pedro a entregar o comando
A EXECUÇÃO DE FREI CANECA. ÓLEO. MURILO LA GRECA.
à Brandt, em 1826. Buenos Aires havia sido bloqueada e
assolada pela fome. O comércio internacional sofria perdas
consideráveis. Ocorriam ataques de piratas de ambos os
lados. As negociações falhavam e as tropas brasileiras acu-
mulavam derrotas.
Por fim, a Inglaterra interveio, intermediando a Convenção
Preliminar de Paz entre os representantes do Brasil e das Pro-
víncias Unidas do Prata, entre os dias de 11 e 27 de agosto
de 1828. A independência da província e o fim da guerra
interessavam à Inglaterra para que garantisse as transações
multimídia: livros comerciais e a ampliação dos mercados consumidores.

Frei Joaquim do amor divino Caneca -


ARGENTINA
Evaldo Cabral de Mello Artigas BRASIL
Os textos reunidos neste livro mostram os pas- Rivera

sos que levaram Frei Caneca, em pouco mais Salto


Tacuarembó
de três anos, da defesa de um governo Paysandú Melo
institucional ao desencanto com a política
de D. Pedro I e, em seguida, à busca de uma Mercedes

saída revolucionária com a Confederação do


Montevideo
Equador, em consequência da qual foi julga-
Maldonado
do e condenado à morte. 30 km

75
Por meio da Convenção Preliminar da Paz, Brasil e Argen- Inicialmente, D. Pedro I foi considerado herói por ter rom-
tina reconheciam a independência da Província Cisplatina. pido com Portugal e liderado o processo de Independência
Em 28 de agosto de 1828, foi assinado o Tratado do Rio do Brasil. Entretanto, em apenas seis anos sua imagem se
de Janeiro, ratificado em 4 de outubro daquele mesmo desgastou, e o Imperador passou a ser criticado por suas
ano, reconhecendo a independência do Uruguai. Segundo atitudes autoritárias, o que provocou a perda de apoio po-
esse Tratado, D. Pedro I renunciou a qualquer direito sobre lítico e de popularidade.
a Província Cisplatina e recuperou as terras das Missões.
A falta de atitudes concretas para resolver a crise econô-
O Uruguai se comprometeu a não se unir à Argentina e,
mica que afetava o país também desagradava. Além dis-
como Estado independente, passou a se chamar Estado
so, a exposição da vida pessoal do imperador, suas várias
Oriental. Somente em 1918 adotou o atual nome: Repú-
amantes, a publicização do seu romance com a marquesa
blica Oriental do Uruguai.
de Santos, Domitila de Castro, a quem chegou a nomear
Os gastos militares agravaram os problemas econômico-fi- camareira da imperatriz, afetavam sua imagem de diri-
nanceiros e a derrota sofrida na Guerra da Cisplatina acaba- gente político e estadista.
ram por comprometer e desgastar politicamente D. Pedro I.
A atuação de D. Pedro I na questão da sucessão do tro-
no português também contribuiu para o desgaste de sua
imagem. Com a morte de D. João VI, em 1826, a Coroa
portuguesa seria herdada por D. Pedro I. Ele renunciou
ao trono luso em nome de sua filha mais velha, D. Ma-
ria da Glória. Como ela era menor de idade quando o
monarca falecera, ficou acertado que D. Miguel, irmão
de D. Pedro I, assumiria o trono português como regente
até sua sobrinha atingir a maioridade. Naquele momento,
os dois se casariam e assumiriam em definitivo o trono.
multimídia: livros Em 1828, descumprindo o acordo, D. Miguel usurpou o
trono luso e autoproclamou-se rei. A situação revoltou D.
Dom Pedro, a história não contada - Pedro, que mobilizou a diplomacia brasileira e ameaçou
Paulo Rezzutti enviar tropas a Portugal. Os brasileiros não aprovaram as
O primeiro imperador do Brasil foi um per- atitudes de D. Pedro I, pois julgavam que o monarca não
sonagem que entrou nos livros de história e devia usar recursos ou tropas nacionais para interferir em
no imaginário do brasileiro, cercado por uma assuntos internos de Portugal.
aura, a um só tempo caricatural e enigmática.

2.2. A crise econômica


2.2.1. A questão sucessória do trono
português e a impopularidade de D. Pedro I
A cada dia aumentavam as dificuldades econômicas do
Brasil. Exportações brasileiras tradicionais, como algodão,
açúcar, couro e fumo, continuavam em declínio no mercado
multimídia:
í livros
internacional, criando uma balança de comércio deficitária. A José Bonifacio de Andrada e Silva -
dívida externa tornava-se cada vez maior em razão da crise Jorge Caldeira
do comércio exterior, da indenização paga à Portugal pela
Este volume, organizado por Jorge Caldeira,
Independência e das despesas com a Guerra da Cisplatina.
traz os textos mais importantes de José Bonifá-
A pobreza do Estado, que padecia da crônica falta de cio, pronunciamentos públicos, correspondên-
recursos, agravava a crise. As rendas do governo central, cias e anotações, além de uma apresentação
dependentes em grande parte do imposto sobre produtos da vida e da obra do autor, possibilitando uma
importados, eram insuficientes. Além de lançar mão de visão acurada da relevância deste formador do
empréstimos externos, o Império recorreu a uma intensa Brasil, o chamado ‘Patriarca da Independência’.
emissão de moeda, produzindo uma inflação desenfreada.

76
D. Pedro I, porém, não desistiu da luta pelo trono luso e, espancamento e a prisão de jornalistas e o impedimento
com apoio de tropas mercenárias, expulsou seu irmão de da investigação acerca do assassinato do jornalista Líbero
Portugal, garantindo o trono a sua filha. No Brasil, muitos Badaró (1830), editor do jornal O Observador Liberal.
se perguntavam de onde vinha o dinheiro para a luta em
solo português em plena crise econômica do Império. 2.3. O fim do Primeiro Reinado
D. Pedro I resolveu tentar melhorar sua imagem no Brasil.
Ele decidiu realizar uma viagem de visita a algumas provín-
cias, onde poderia manter contato com a população. Outra
medida nesse sentido foi a nomeação de um ministério
composto somente por brasileiros, reduzindo a influência
política dos membros do Partido Português.

multimídia: sites
planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/consti-
tuicao24.htm
mapa.an.gov.br
multirio.rj.gov.br/historia/modulo02/noite_
agonia.html
infoescola.com/historia/confederacao-do-e-
quador/
mundoeducacao.bol.uol.com.br/historiadobra-
ABDICAÇÃO DO IMPERADOR D. PEDRO I. AURÉLIO DE FIGUEIREDO (1831).
sil/abdicacao-d-pedro-i.htm
A viagem começou por Minas Gerais, onde o imperador foi
recebido friamente: os sinos das Igrejas tocavam um som
fúnebre e várias casas tinham panos pretos exibidos em
suas janelas, demonstrando luto pela morte do jornalista
Libero Badaró. Insatisfeito e contrariado, D. Pedro I resolveu
voltar ao Rio de Janeiro.
Para animar o Imperador e manifestar seu apoio, os portu-
gueses prepararam uma festa de boas-vindas, no dia 13 de
março. Sabendo da recepção, os brasileiros oposicionistas
foram ao local da festa e entraram em conflito com os por-
tugueses na chamada Noite das Garrafadas.
Diante da situação e das críticas, D. Pedro I percebeu que a
nomeação de um ministério composto somente por brasi-
leiros não surtira o efeito desejado e resolveu substituí-los
por portugueses – o ministério dos marqueses, no dia
5 de abril de 1831. Essa medida provocou o aumento das
CARICATURA DOS DOIS ANTAGONISTAS PORTUGUESES: D. PEDRO (À ESQUERDA) E manifestações contra o Imperador, que se viu politicamente
D. MIGUEL, AMPARADOS E INSTIGADOS PELO REI FRANCÊS LUÍS FILIPE,
QUE REPRESENTAVA O ESPÍRITO LIBERAL, E PELO CZAR NICOLAU DA
isolado e sem apoio popular.
RÚSSIA, QUE REPRESENTAVA A SANTA ALIANÇA E O ABSOLUTISMO.
D. Pedro I resolveu abdicar do trono brasileiro no dia 7
A insatisfação contra o governo era constantemente ex- de abril de 1831, em nome de seu filho D. Pedro de Alcântara,
pressa na imprensa Malagueta e Aurora Fluminense, jor- que, na época, tinha apenas cinco anos de idade. A medida
nais que assumiram a postura de denunciar as arbitrarie- pôs fim ao Primeiro Reinado e há quem veja nela a consolida-
dades do Imperador, fomentando a insatisfação popular. ção da Independência do Brasil, afastando definitivamente o
D. Pedro, por sua vez, ordenou o fechamento de jornais, o perigo da recolonização.

77
multimídia: livros
O MENINO PEDRO DE ALCÂNTARA. ARMAND JULIEN PALLIÈRE. (C. 1830).
A Noite das Garrafadas - Chico Castro
No dia 13 de fevereiro de 1831, os portugue-
Usando do direito que a Constituição me concede,
ses festejavam o regresso da viagem de D.
declaro que hei muito voluntariamente abdicado na
Pedro I a Minas Gerais. Em meio à comemo-
pessoa de meu muito amado e prezado filho o Senhor
ração, brasileiros descontentes com atitudes
D. Pedro de Alcântara.
do soberano e inconformados com a influên-
Boa Vista, 7 de abril de mil oitocentos e trinta e um, cia dos portugueses na vida administrativa do
décimo da Independência e do Império. País investiram contra os lusitanos e usaram
D. PEDRO I pedras e garrafas como arma.

CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

O Poder Moderador (Ciência Política)


O Poder Moderador foi idealizado a partir de um conceito do pensador suíço Henri-Benjamin Constant de Rebeque,
que afirmava que o poder real, durante o período de monarquia constitucional, deveria agir como um mediador
neutro entre os outros três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário).
A Constituição de 1824, em seu artigo 98, afirmava que o Poder Moderador estava “delegado privativamente ao
Imperador, como chefe supremo da nação, e seu primeiro representante, para que incessantemente vele sobre a
manutenção da independência, equilíbrio e harmonia dos demais poderes políticos”. Muitos apontam que o quarto
poder simbolizaria tirania ao invés de estabilidade, uma vez que, caso o imperador achasse necessário ,ele previa a
dissolução de todo o Legislativo.
No Segundo Reinado, alternando os dois partidos aristocráti-
cos no poder, o Poder Moderador assegurou ao país mais de
quarenta anos de paz interna, liberdade de expressão e de
imprensa, práticas eleitorais (que se tornaram pouco fiéis ao
desejo dos eleitores devido aos políticos da época), debates
parlamentares e uma organização representativa. Por outro
lado, promoveu a conciliação das facções em torno e à custa
dos empregos do Estado e tutelou o sistema político nacional.

78
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
12 Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.

A concepção sociológica subjacente a muitas questões do Enem é a de que as leis e o Direito não são neutros, mas
frutos de amplos conflitos econômicos, sociais e culturais e devem ser compreendidos como tal. Diante disso, a prova
lança mão de fragmentos de Constituições ou de livros de historiadores para fundamentar suas questões.
No caso da história brasileira, o aluno deve compreender os embates relativos à redação de nossas principais Constituições.
A Habilidade 12 requer que o aluno saiba como alguns grupos sociais são representados ou sub-representados pelo
Direito em seus distintos momentos históricos.

Modelo
(Enem) Art. 92. São excluídos de votar nas Assembleias Paroquiais:
I. Os menores de vinte e cinco anos, nos quais não se compreendam os casados, e Oficiais militares que forem maiores
de vinte e um anos, os Bacharéis Formados e Clérigos de Ordens Sacras.
IV. Os Religiosos, e quaisquer que vivam em Comunidade claustral.
V. Os que não tiverem de renda líquida anual cem mil réis por bens de raiz, indústria, comércio ou empregos.
CONSTITUIÇÃO POLÍTICA DO IMPÉRIO DO BRASIL (1824). DISPONÍVEL EM: HTTPS://LEGISLAÇÃO.PLANALTO.GOV.BR. ACESSO EM: 27 ABR. 2010 (ADAPTADO).
A legislação espelha os conflitos políticos e sociais do contexto histórico de sua formulação. A Constituição de 1824
regulamentou o direito de voto dos “cidadãos brasileiros” com o objetivo de garantir:
a) o fim da inspiração liberal sobre a estrutura política brasileira;
b) a ampliação do direito de voto para maioria dos brasileiros nascidos livres;
c) a concentração de poderes na região produtora de café, o Sudeste brasileiro;
d) o controle do poder político nas mãos dos grandes proprietários e comerciantes;
e) a diminuição da interferência da Igreja Católica nas decisões político-administrativas.

Análise expositiva - Habilidade 12: A Constituição de 1824 foi imposta pelo imperador e reflete a elitiza-
D ção política. Seu componente mais importante foi o voto censitário, ou seja, baseado na renda do indivíduo.
Dessa forma, apenas aqueles que tinham renda proveniente da terra (os fazendeiros) ou do comércio (geral-
mente indivíduos de origem portuguesa) tiveram garantido o direito político de votar.
Alternativa D

79
DIAGRAMA DE IDEIAS

GUERRAS DE INDEPENDÊNCIA

ELITES BAHIA, MARANHÃO, GRÃO-PARÁ MANUTENÇÃO DO


PORTUGUESAS PIAUÍ E CISPLATINA PORTO COLONIAL

MERCENÁRIOS
MASSACRE E RENDIÇÃO AÇÃO MILITAR
ENDIVIDAMENTO
DOS INOCENTES DE D. PEDRO I
COMPRA DE
NAVIOS

RECONHECIMENTO EXTERNO DA INDEPENDÊNCIA

ESTADOS UNIDOS DOUTRINA MONROE


(1824) “AMÉRICA PARA OS AMERICANOS”

PORTUGAL INDENIZAÇÃO DE
(1825) 2 MILHÕES DE LIBRAS

INGLATERRA FIM DA ESCRAVIDÃO EM 5 ANOS


(1826) E VANTAGENS COMERCIAIS

CONSTITUIÇÃO DE 1823

VOTO CENSITÁRIO EXECUTIVO, LEGISLATIVO E JUDICIÁRIO

CONSTITUIÇÃO
DA MANDIOCA
SUBMISSÃO DO IMPERADOR
ELEIÇÕES INDIRETAS
AO LEGISLATIVO

DISSOLUÇÃO DA ASSEMBLEIA POR


D. PEDRO (NOITE DA AGONIA)

80
DIAGRAMA DE IDEIAS

CONSTITUIÇÃO DE 1824

CENTRALIZAÇÃO MONÁRQUICA

VATO CENSITÁRIO MASCULINO

OUTORGA DE CONSTITUIÇÃO DISSOLUÇÃO DA ASSEMBLEIA POR


D. PEDRO DE 1824 D. PEDRO (NOITE DA AGONIA)

ELEIÇÕES INDIRETAS

EXECUTIVO, LEGISLATIVO,
JUDICIÁRIO E MODERADOR

CONFEDERAÇÃO DO
EQUADOR (1824)

CRISE DO PRIMEIRO REINADO

CRISE POLÍTICA CRISE ECONÔMICA

AUTORITARISMO DO IMPERADOR ENDIVIDAMENTO PÚBLICO

CRISE ENTRE PORTUGUESES


GUERRA DA CISPLATINA (1828)
E BRASILIEROS

“NOITE DAS GARRAFADAS” INDENIZAÇÃO A PORTUGAL

RENÚNCIA DE D. PEDRO I

81
AULAS REGÊNCIA (1831-1840) E SEGUNDO
19 E 20 REINADO: POLÍTICA INTERNA (1840-1889)
1, 9, 10, 11, 13, 14, 15 e
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3 e 5 HABILIDADES:
22

1. PERÍODO REGENCIAL Pedro II, o herdeiro do trono brasileiro, tinha apenas cinco
anos de idade no momento da abdicação de seu pai, a
(1831-1840) instalação da Regência se tornou necessária.

Em 7 de abril de 1831, D. Pedro I abdicou, dando início ao 1.1. Regência Trina Provisória (1831)
Período Regencial, que se estendeu até o Golpe da Maiori-
dade, em 1840, quando, com a antecipação da maioridade A abdicação de D. Pedro I ocorreu num momento em que
de D. Pedro II, iniciou-se o Segundo Reinado. a Assembleia Geral estava em recesso e os deputados e
senadores estavam fora do Rio de Janeiro, em suas res-
O Período Regencial é um dos mais conturbados da história pectivas províncias. Em virtude das dificuldades de comu-
política do Brasil, marcado por crise econômica, instabilida- nicação, agravadas pelas distâncias entre as províncias,
de política e revoltas em várias províncias. Nesse sentido, especialmente, as do Norte e Nordeste, era impossivel a
a unidade do território brasileiro estava ameaçada. Apesar rápida presença dos políticos para que a Assembleia Geral
das dificuldades, as elites nacionais assumiram o controle pudesse se reunir e escolher a regência permanente.
do poder político e afastaram definitivamente o risco de Assim, para que o país não ficasse sem governo, os de-
recolonização do Brasil, consolidando o Estado nacional. putados e senadores que estavam no Rio de Janeiro or-
A Regência foi necessária porque, de acordo com a Consti- ganizaram, em caráter de urgência, uma Regência Trina
tuição de 1824, o imperador era considerado menor de ida- Provisória, que governaria o país até a Câmara eleger a
de até os 16 anos. Caso o trono ficasse vago por qualquer Regência Permanente.
motivo, o governo deveria ser exercido por uma Regência, Os regentes foram escolhidos segundo o critério político
que deveria incluir o parente mais próximo do imperador de contemplar os partidos políticos existentes e as forças
com mais de 25 anos. Caso essa exigência não pudesse armadas. Desse modo, foi escolhido um liberal, o senador
ser atendida, o país deveria ser governado por uma Re- Nicolau Pereira de Campos Vergueiro; um conservador, o
gência trina e permanente escolhida pela Assembleia Geral senador José Joaquim Carneiro de Campos, o marquês de
até que o imperador completasse a maioridade. Como D. Caravelas; e um militar, o general Francisco de Lima e Silva.

DA ESQUERDA PARA A DIREITA: NICOLAU DE CAMPOS VERGUEIRO, JOSÉ JOAQUIM CARNEIRO DE CAMPOS E FRANCISCO LIMA E SILVA.

Nos dois meses e meio em que esteve no poder, a Regência ƒ obrigação de estrangeiros deixarem o Exército;
Provisória adotou as seguintes medidas: ƒ suspensão do Poder Moderador, que era exclusivo do
imperador; e
ƒ reintegração do Ministério Brasileiro que havia sido de-
ƒ aprovação da Lei da Regência, que proibia os regentes
mitido por D. Pedro I;
de dissolver a Câmara, decretar guerra ou conceder tí-
ƒ anistia aos prisioneiros políticos; tulos de nobreza.

82
Em 1831, foi criada a Guarda Nacional, com o objetivo
1.2. Regência Trina de combater os distúrbios que ameaçavam a ordem vi-
Permanente (1831-1835) gente. A Guarda era subordinada ao Ministério da Justiça
e responsável pela manutenção da ordem pública, cujos
membros eram dispensados do serviço militar obrigató-
rio, o que enfraqueceu o Exército nacional, pois também
retirava dele a exclusividade de manutenção da ordem. A
Guarda Nacional era constituída por província e estava su-
bordinada ao governador provincial. Essa
situação permitiu que as funções da Guarda fossem desvir-
tuadas, ou seja, a instituição assumiu um caráter de milícia
e se tornou uma força paramilitar comandada por mem-
bros da elite agrária que compravam a patente de coro-
nel e recrutavam e armavam suas milícias. Dessa forma,
a Guarda Nacional passou a servir como instrumento de
poder das oligarquias agrárias.
O enfraquecimento do Exército foi uma maneira de limitar
suas posições cada vez mais revolucionárias, pois muitos
militares pertenciam à classe média e, em geral, apoiavam
medidas descentralizadoras e republicanas.
Em 1832, o ministro Feijó entrou em atrito com deputados
e senadores que se opunham ao aumento dos seus pode-
res. Tentou destituir José Bonifácio de Andrada do cargo
JOÃO BRÁULIO MUNIZ, JOSÉ DA COSTA CARVALHO E FRANCISCO LIMA E SILVA.
de tutor de D. Pedro II, acusando-o de conspiração por ser
Foram adotados critérios de caráter econômico, geográfico do partido restaurador. Os desentendimentos levaram à re-
e político para a formação da Regência Trina Permanente. núncia de Feijó do cargo de Ministro da Justiça.
Os escolhidos foram: José da Costa Carvalho, marquês de
Monte Alegre, deputado pela Bahia e representante da eli- Também em 1832, foi criado o Código de Processo Cri-
te agrária nordestina; João Braulio Muniz, deputado pelo minal, que ampliou os poderes dos municípios aumentan-
Maranhão; e o general Francisco de Lima e Silva, barão de do sua autonomia judiciária, com os juízes de paz sendo
Barra Grande, senador pelo Rio de Janeiro, representante eleitos pela população local e com a instituição do júri para
do exército como responsável pela manutenção da ordem julgar a maioria dos crimes e dos habeas corpus.
política e social do país.
Ao padre Diogo Antonio Feijó, deputado moderado, coube 1.3. Correntes políticas
a pasta de Ministro da Justiça, cargo para o qual exigiu e Esse período também foi marcado pelo surgimento dos
recebeu dos regentes autonomia de ação para poder en- primeiros partidos políticos do Brasil, originados nos gru-
frentar os motins que pipocavam, principalmente no Rio de pos políticos que existiam no Primeiro Reinado: o parti-
Janeiro, e as agitações políticas e sociais do período. dos português, o partido brasileiro e o partido dos liberais
radicais. Os partidos surgidos na Regência foram os Libe-
rais Moderados, os Liberais Exaltados e os Restauradores.
Mais tarde, esses partidos passariam por transformações,
levando ao surgimento dos Partido Liberal e do Partido
Conservador, os mais importantes durante o Segundo
Reinado (1840-1889).

1.3.1. Liberais Moderados ou Chimangos


ƒ Compunham a principal força política que controlava o
governo na época.
BATALHÃO DE FUZILEIROS DA GUARDA NACIONAL (1840-1845) ƒ Pertenciam à aristocracia rural, especialmente do Su-
DISPONÍVEL EM: <MULTIRIO.RJ.GOV.BR/HISTORIA>. deste, e à classe dos grandes comerciantes.

83
ƒ Eram monarquistas e escravistas que não admitiam a ƒ Eram portugueses, descendentes de portugueses e bu-
volta de D. Pedro I. rocratas ligados ao antigo governo de D. Pedro I.
ƒ Defendiam o voto censitário. ƒ Eram contrários a qualquer reforma política (conserva-
dores).
ƒ Defendiam um forte controle do poder imperial sobre
as províncias (centralizadores). ƒ Eram absolutistas.
ƒ Eram ligados à Sociedade Defensora da Liberdade e da ƒ Defendiam um ubjetivo básico: a volta de D. Pedro I.
Independência Nacional.
ƒ Constituíam um clube político: a Sociedade Militar.
ƒ Eram apoiados pelos jornais A Aurora Fluminense, As-
ƒ Eram apoiados pelos jornais O Caramuru, O Caolho e
trea e O Sete d’Abril.
O Tamoio.

1.3.2. Liberais Exaltados, 1.3.4. Partido Liberal (Luzias)


Farroupilhas ou Jurujubas
ƒ Formado por profissionais liberais urbanos e agriculto-
ƒ Eram proprietários rurais de regiões periféricas ao Rio res ligados ao mercado interno.
de Janeiro ou elementos das camadas médias urbanas.
ƒ Descendentes políticos; defendia a autonomia das pro-
ƒ Defendiam o regime republicano e a extinção do Poder víncias (federalismo).
Moderador.
ƒ Posicionava-se contra o poder moderador e o senado
ƒ Defendiam o federalismo (autonomia provincial). vitalício.
ƒ Defendiam alguns ideais democráticos, como o voto
universal. 1.3.5. Partido Conservador (Saquaremas)
ƒ Eram ligados à Sociedade Federal. ƒ Formado por burocratas do Estado, grandes comercian-
tes e fazendeiros ligados à exportação.
ƒ Eram apoiados pelos jornais: A Malagueta, A Trombeta
dos Farroupilhas e O Grito dos Oprimidos. ƒ Defendia o fortalecimento do poder executivo e a cen-
tralização.
1.3.3. Restauradores ou Caramurus ƒ Defendia a diminuição da autonomia das províncias.

Primeiro Reinado Part. Brasileiro Part. Português


Part. Liberal Exaltado Part. Liberal Moderado Part. Restaurador
Período Regencial
(1831-1840) Progressistas Regressistas

Part. Liberal Part. Conservador


Segundo Reinado
Part. Liberal Part. Conservador
(1840-1889)

1.4. O Ato Adicional (1834) A Regência Trina Permanente foi substituída por uma Re-
gência Una, eletiva e temporária, da qual o regente seria
Em 1834, com o objetivo de minimizar os conflitos regio-
eleito por voto censitário e direto para um mandato de 4
nais e a fim de acalmar as agitações sociais e políticas, foi
anos. Além disso, o Ato Adicional estabeleceu a cidade do
realizada uma reforma na Constituição de 1824: o Ato
Rio de Janeiro como Município Neutro, onde ficaria a cor-
Adicional de 1834, aprovado pela Lei n.º 16, em 12 de
agosto. Ele introduziu mudanças significativas na Consti- te, definindo como sede da Província do Rio de Janeiro a
tuição de 1824: extinguiu o Conselho de Estado, órgão que cidade de Niterói.
assessorava o governo imperial, substituindo-o pelas As- As medidas e mudanças desencadeadas pelo Ato foram
sembleias Legislativas Provinciais, com poderes para consideradas uma “experiência republicana” no
legislar a respeito da organização local no que se referisse Brasil, levando o período a ser considerado um avanço
ao funcionalismo, à polícia e à economia e às questões de liberal.
caráter civil, judiciário, eclesiástico e educacional. O presi-
dente da província, isto é, o chefe do Poder Executivo, con- No mesmo ano, foram marcadas eleições para a escolha do
tinuava a ser indicado pelo imperador ou regente. novo regente, em que foi eleito, concorrendo pelo partido

84
Liberal Moderado e por uma pequena diferença de votos, o renúncia do padre Feijó e foi efetivado no cargo em 1838,
padre Diogo Antonio Feijó, que representava as oligarquias após vencer as novas eleições regenciais.
agrárias sulistas. O governo de Araújo Lima se caracterizou pelo conservado-
rismo, justificado como necessário para conter as revoltas
1.5. Regência Una de cada vez mais graves que agitavam o país e ameaçavam
Feijó (1835-1837) a unidade do território nacional. O liberalismo do Ato Adi-
cional era apontado como principal responsável pelas agi-
O paulista Feijó enfrentou diversos problemas: revoltas nas tações do período e a volta à centralização era vista como
províncias (Cabanagem, Sabinada e Farroupilha), crise eco- necessária para restabelecer a ordem no país.
nômica, divergências com a Igreja Católica (uma vez que
o governo defendia a extinção de ordens eclesiásticas e Bernardo Pereira de Vasconcelos foi nomeado para Minis-
do celibato clerical e mais autonomia para os membros do tro da Justiça, o que significou uma vitória para os adeptos
clero), falta de apoio político, e divisão interna no partido. que questionavam na Câmara dos Deputados e no Senado
a respeito da interpretação do Ato Adicional. Assim, em
O governo não era apoiado por uma parcela significativa 1840, foi aprovada a Lei de Interpretação do Ato Adi-
dos membros do Partido Liberal Moderado, o mesmo do cional, que anulava diversas medidas descentralizadoras
Regente. A divergência provocou uma divisão no partido. do Ato Adicional.
Os feijosistas apoiavam-no na tentativa de criar um novo
O controle do sistema judicial exercido pelas Assembleias
partido, o Partido Progressista, sem êxito. Os demais, con-
Provinciais passou a ser exercido pelo poder central; as
servadores, formaram o partido Regressista, que fez forte
câmaras municipais e as assembleias provinciais tiveram
oposição a Feijó.
suas competências redefinidas e as províncias perderam
sua autonomia. As medidas conservadoras e centralizado-
ras continuaram, como a reconstituição dos Conselhos de
Estado. Por fim, o governo central voltou a ter todo o poder
administrativo e judiciário em suas mãos. Por isso esse pe-
ríodo ter sido definido como Regresso Conservador ou
“Duplo regresso”.

DIOGO ANTÔNIO FEIJÓ, REGENTE ÚNICO DE 1835 A 1837.


MIGUELZINHO DUTRA (1810-1870).

Como o mandato do Regente Uno era de quatro anos,


o mandato de Feijó iria até 1839. Entretanto, diante das
dificuldades econômicas e políticas que seu governo en-
frentava e com a saúde seriamente comprometida, Feijó
renunciou ao mandato em 1837.

1.6. Regência Una de Araújo Lima PEDRO DE ARAÚJO DE LIMA


(1837-1840) Os Progressistas/Liberais, por sua vez, não se deram por
Pedro de Araújo Lima, representante dos regressistas, as- vencidos. Contrários à centralização do regime, funda-
sumiu inteiramente o cargo de Regente Uno depois da ram o Clube da Maioridade, cujo objetivo era antecipar a

85
maioridade de D. Pedro II, permitindo sua imediata ascen-
são ao trono e afastando os Regressistas/Conservadores
do poder. Iniciaram então a Campanha da Maioridade,
que cresceu e ganhou adeptos em todas as províncias,
especialmente no Rio de Janeiro, inclusive entre o grupo
palaciano que gozava de grande intimidade junto ao jo-
vem herdeiro do trono.
Em 22 de julho de 1840, a proposta foi levada ao jovem
herdeiro por uma comissão. O regente Araújo Lima chegou
a propor que a maioridade lhe fosse concedida no próximo
dia 2 de dezembro, quando completaria 15 anos. D. Pedro
de Alcântara respondeu que queria a antecipação de sua
maioridade imediatamente.

1.7.1. Levante dos Malês (Bahia, 1835)


Foi a revolta de escravos mais importante da história da
Bahia. Os malês eram negros muçulmanos africanos. O
nome malê vem de imalê, que significa “muçulmano” na
língua iorubá; na Bahia, os malês são conhecidos como
nagôs. Outros grupos islamizados também participaram da
revolta. Como tantas outras ocorridas no Brasil, foi uma
revolta contra a escravidão.
COROAÇÃO DE D. PEDRO II. ÓLEO SOBRE TELA.
FRANÇOIS-RENÉ MOREAUX (1807-1860).

O Golpe da Maioridade decretou o fim do Período Regen-


cial e marcou o início do Segundo Reinado, que duraria até
1889, quando foi proclamada a República no Brasil.

1.6.1. Versos: Golpe da mariodidade


“Queremos D. Pedro II,
Ainda que não tenha idade.
A nação dispensa a lei.
viva a maioridade!”
“Por subir Pedrinho ao trono,
Não fique o povo contente;
Não pode ser coisa boa
Servindo com a mesma gente.”

1.7. Revoltas regenciais


Os movimentos sociais do período mostram a inquietação, NEGRO DE ORIGEM MUÇULMANA.
VIAGEM PITORESCA E HISTÓRIA DO BRASIL. DEBRET.
por motivos diversos, dos diferentes segmentos sociais e
das elites dominantes. Havia quem desejasse reformas A rebelião contou com aproximadamente 600 partici-
mais profundas, especialmente depois da abdicação de D. pantes. Na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, os
Pedro I, pois o centralismo que vigorava no I Reinado era revoltosos ocuparam algumas ruas de Salvador. A revolta
incompatível com o interesse de diferentes grupos sociais, durou algumas horas. O movimento negro repercutiu no
dos marginalizados aos proprietários de terras no Sul. Império, permanecendo por longo tempo na memória das

86
classes dominantes da Bahia e da Corte, que tomaram 1.7.2. Cabanagem (Grão-Pará, 1835-1840)
diversas medidas para impedir que outro movimento si-
milar ocorresse. A economia do Grão-Pará baseava-se no extrativismo de
drogas do sertão, de madeira e na produção de cacau e
arroz à custa da exploração da mão de obra indígena, uma
vez que o número de escravos era reduzido na Província.
Havia ainda um pequeno comércio controlado por portu-
gueses e seus descendentes. A maioria da população era
formada por mestiços, brancos pobres e índios destribali-
zados que viviam de forma miserável em casas de palafitas,
razão pela qual os rebeldes eram chamados de cabanos.
Era uma região marcada pela miséria, pela exclusão social
e pela fome, terreno propício, portanto, para as revoltas da
população, que provocava constantes levantes no interior
multimídia: música e na capital, Belém.

Revolta dos Malês – Rafael Pondé

“Mestres muçulmanos formaram a liderança do movi-


mento da revolta [...] e, durante o levante, seus segui-
dores ocuparam as ruas usando vestimentas islâmicas
e amuletos contendo passagens do Alcorão, sob cuja
proteção acreditavam estar de corpo fechado contra as
balas e espadas dos soldados.”
JOÃO JOSÉ REIS. "NOS ACHAMOS EM CAMPO A TRATAR DA FONTE: <GUIADOESTUDANTE.ABRIL.COM.BR>.
LIBERDADE: A RESISTÊNCIA NEGRA NOBRASIL". IN: MOTA,
CARLOS G. (ORG.) VIAGEM INCOMPLETA (1500-2000). No início de 1835, os revoltosos tomaram o poder na
VOL.1. 2.ED. SÃO PAULO: SENAC, 2000. P. 241
capital da Província. Eles eram chefiados pelo fazendeiro
Félix Clemente Malcher, que, no entanto, entrou em atrito
A repressão foi violenta, como era de se esperar das auto- com os cabanos mais radicais e jurou lealdade ao Império.
ridades contra um movimento de escravos. Os envolvidos Com isso, Malcher foi deposto e executado pelos rebeldes.
foram condenados a penas de prisão simples, prisão de O poder foi assumido por Francisco Pedro Vinagre. Assim,
trabalho, açoites, morte e deportação para a África. Dos intensificou-se a repressão ao movimento por parte do Go-
16 condenados à morte por fuzilamento, 12 conseguiram verno Regencial.
a comutação da pena. Em 21 de fevereiro, Vinagre foi derrotado pelas forças re-
genciais, mas outro líder, Eduardo Angelim, conseguiu ar-
regimentar cerca de três mil homens e atacar Belém em
14 de agosto de 1835. Angelim derrotou as forças fiéis ao
governo regente e foi aclamado presidente da Província
pelos cabanos da República Independente do Pará. A partir
disso, a Cabanagem se espalhou pela região.
À medida que a participação dos extratos mais pobres e
desfavorecidos da sociedade aumentava, os grupos do-
minantes se afastavam do movimento, temendo o radi-
calismo das massas, enfraquecendo o governo rebelde e
facilitando a ação das tropas repressoras. Os conflitos se
multimídia: vídeo estenderam até 1840, caracterizados pela violência cres-
FONTE: YOUTUBE cente de ambos os lados, mas principalmente por parte das
Revolta dos Malês-180 Anos tropas legalistas. A província foi finalmente pacificada no
começo do Segundo Reinado.

87
1.7.3. Sabinada (Bahia, 1837-1838)
Liderada pelo médico Francisco Sabino Álvares da Rocha
Vieira, a Sabinada teve início em setembro de 1837, re-
sultado da insatisfação de segmentos sociais médios de
Salvador com a realidade da província esquecida pelo
poder central.
Revoltados com o centralismo político regencial e com a
imposição de presidentes à província, os revoltosos procla-
maram a República Bahiense, que se separaria do Império
Brasileiro provisoriamente até que D. Pedro II alcançasse a
multimídia: vídeo maioridade e assumisse o trono.
FONTE: YOUTUBE Os grandes proprietários rurais baianos não apoiaram a
O Cônego – Senderos da Cabanagem revolta e auxiliaram a repressão governamental ao mo-
vimento, que acabou sufocado. Casas foram incendiadas
Uma ficção inspirada em fatos históricos cuja tra-
e rebeldes atirados às fogueiras. As estatísticas apontam
ma tem por base a experiência vivida pelo Cônego
para mais de 2 mil mortos. O líder, o médico Sabino, foi
Batista Campos no período preparatório a eclosão
degredado para Goiás, de onde partiu para Mato Grosso,
da revolução cabana que teve seu desfecho em
onde morreu algum tempo depois.
7 de janeiro de 1835 com a tomada de Belém.
Seguindo a trilha do Cônego, o espectador será le- É importante destacar que os revoltosos baianos auxi-
vado ao encontro com Lavor Papagaio, Manoel Vi- liaram na fuga de Bento Gonçalves do chamado Forte
nagre e diversos homens e mulheres que por sua do Mar (atual Forte de São Marcelo), fugitivo que foi o
condição social e ímpeto revolucionário passariam grande líder da Revolução Farroupilha, ocorrida no Sul
com a alcunha coletiva de Cabanos. do Brasil.

No início da revolta, a província do Pará possuía 100 mil


habitantes, dos quais entre 30 e 40 mil morreram duran-
te a guerra, uma porcentagem enorme (30% a 40%) e
impensável nos dias atuais. Além da implantação de uma
República, do desejo de uma reforma agrária e da luta contra
desigualdades, os rebeldes não tinham um programa políti-
co definido e não mantiveram a unidade necessária contra
a repressão governamental. A Cabanagem foi o único mo-
vimento genuinamente popular do Período Imperial, em multimídia: livros
que camadas populares tomaram e mantiveram por certo
período o poder em uma província. O período das Regências - Marco Morel
Esse volume apresenta o momento-chave que
foi o período das Regências para a construção
da nação brasileira, quando, ao custo de muitas
vidas e despesas, garantiu-se a independência e
o caminho de uma ordem nacional ao mesmo
tempo próspera e desigual.

1.7.4. Balaiada (Maranhão, 1838-1840)


Nas primeiras décadas do século XIX, a economia ma-
multimídia: música ranhense enfrentava uma séria crise, principalmente em
virtude da concorrência norte-americana na produção e
Cabano – Ligia Saavedra exportação de algodão. A retração econômica agravava a
fome e a miséria de grande parte da população local.

88
desorganizados, os rebeldes conseguiram tomar a cidade
de Caxias, promovendo saques e ataques a diversas vilas.
Em 1840, Luís Alves de Lima e Silva, futuro barão de Caxias,
foi nomeado presidente da província, promovendo forte
repressão aos revoltosos. Quando ascendeu ao trono, D.
Pedro II concedeu anistia aos rebeldes que ainda restavam
e pôs fim ao movimento.

1.7.5. Revolução Farroupilha (Rio Grande


do Sul e Santa Catarina, 1835-1845)
multimídia: vídeo
O movimento revolucionário mais longo ocorrido no Brasil
FONTE: YOUTUBE
teve inicio no Rio Grande do Sul e, posteriormente, esten-
Balaiada - uma história de amor e fúria deu-se para Santa Catarina, onde foram proclamadas, res-
pectivamente, as Repúblicas de Piratini e Juliana.

O poder político da província era disputado por liberais


(“bem-te-vis”) e conservadores, que frequentemente recor-
riam à violência para alcançar seus objetivos. Era comum a
impunidade pelos crimes políticos, o que agrava a violência
de ambas as partes. A instabilidade política e social favorecia
as constantes fugas de escravos para quilombos, que, para
sobreviver, saqueavam as fazendas.

PINTURA DE 1893 QUE HOMENAGEIA A CARGA DE CAVALARIA FARROUPILHA.


REPRESENTAÇÕES POSTERIORES TRANSFORMARAM ESSA BRAVURA EM
CARACTERÍSTICA DOS GAÚCHOS. MUSEU JÚLIO DE CASTILHOS.

DISPONÍVEL EM: <REVISTADEHISTORIA.COM.BR>.

Entre as principais causas da Guerra dos Farrapos está a co-


brança, pelo poder central, de altos impostos dos estanciei-
ros, criadores de gado, e dos charqueadores, dificultando a
concorrência com o charque platino. Além disso, a excessiva
centralização política do Império, que nomeava presidentes
para a província sem consultar, desagradava diversos setores
da elite local. Os revoltosos queriam mais autonomia provin-
cial e o direito de escolher governantes mais sensíveis aos
FABRICANTES DE BALAIOS, SÉCULO XIX. problemas da região e comprometidos com a solução deles.
A revolta teve início quando o vaqueiro Raimundo Go- Por isso, a revolta foi encabeçada pelos grandes estancieiros,
mes, ligado aos “bem-te-vis”, e alguns companheiros charqueadores, comerciantes e representantes da cúpula
atacaram a cadeia para libertar seu irmão preso e acu- militar rio-grandense, interessada em atender aos interesses
sado de assassinato. Alguns soldados reuniram-se a eles dessa elite, de caráter separatista e republicano. Sem pre-
e iniciaram uma marcha que receberia adesão por onde ocupação social, não deveria haver divergências entre os
passasse, notadamente de mulatos, escravos e quilom- farroupilhas. Aqueles preocupados com questões sociais e
bolas, chefiados pelo negro Cosme e por artesãos, entre econômicas, inclusive com a abolição da escravidão, con-
eles Francisco dos Anjos Ferreira, de cujo ofício – fazer e frontavam-se com os defensores de seus interesses pessoais.
vender balaios – derivou o nome da revolta. O Ato Adicional de 1834, embora determinasse a criação
Como resultado da insatisfação das camadas populares das Assembleias Legislativas Provinciais, não resolveu o pro-
com a miséria e a falta de compromisso das autoridades, blema das insatisfações gaúchas, uma vez que o presidente
o movimento não tinha objetivos bem definidos. Mesmo da província continuava a ser nomeado pelo governo central

89
da Regência. Já na primeira reunião da Assembleia Gaúcha, auxiliado pelo estancieiro Davi Canabarro e por seus ho-
em 1835, houve sérias divergências entre os deputados mens, conseguiu estender a revolução até Santa Catarina,
estancieiros, liderados por Bento Gonçalves, e o presidente em 1839. A princípio, tomaram a cidade de Laguna e procla-
nomeado para a província, Antonio Rodrigues Braga. maram a Republica Juliana. Em Laguna, Giuseppe conheceu
e se apaixonou por Anita Garibaldi, habilidosa amazona que
chegou a lutar ao lado das tropas republicanas.

multimídia: música
Hino Rio-Grandense

Insatisfeitos, os estancieiros formaram uma tropa que ata-


cou Porto Alegre, depôs o presidente da província e procla-
mou a República Rio-grandense ou República de Piratini,
nomeando Bento Gonçalves para presidente. A República
gaúcha estimulou a criação de gado e a exportação do
charque e do couro.
A resposta do Governo Regencial foi imediata: enviou tro-
pas para a região, que venceram os rebeldes em batalha GIUSEPPE GARIBALDI, BENTO GONÇALVES E DAVI CANABARRO.
próxima a Porto Alegre, prenderam Bento Gonçalves e o
conduziram a uma prisão na Bahia. O prisioneiro recebeu
ajuda dos rebeldes da Sabinada, conseguiu fugir da prisão
e retornar ao Rio Grande do Sul, onde reassumiu a presi-
dência da República de Piratini.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE

O Tempo e o Vento
O filme retrata uma história de 150 anos da famí-
multimídia: música lia Terra Cambará e da oponente família Amaral,
a partir da perspectiva da personagem Bibiana. A
Céu Farroupilha – Mariê Nunes história de lutas entre as duas famílias começa nas
Missões e vai até o final do século XIX. O longa
metragem apresenta também o período de forma-
ção do estado do Rio Grande do Sul e a disputa de
A partir de 1837, as forças rebeldes passaram a contar com território entre as coroas portuguesa e espanhola.
a ajuda do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, que,

90
ƒ devolução de terras confiscadas durante a guerra;
ƒ proteção ao charque gaúcho da concorrência externa
com sobretaxa sobre o charque importado; e
ƒ libertação dos escravos envolvidos.
O Governo Imperial era contrário à libertação dos escravos
do exército republicano. Entretanto, firmou-se a promessa
de libertação que os rebeldes não aceitavam quebrar. A so-
lução foi enviar soldados negros para outras regiões, onde
multimídia: livros foram trucidados pelas forças imperiais. Dessa maneira, re-
duziu-se o número de escravos alforriados na região.
A Casa das Sete Mulheres - Letícia Wierz-
chowski
Um envolvente romance histórico sobre a Re-
volução Farroupilha de 1835 e sete mulheres
da família de Bento Gonçalves, comandante
das tropas revolucionárias.
O livro descreve as aventuras de sete gaúchas
da família do general Bento Gonçalves, chefe
da revolução que pretendia separar o Sul do
resto do país.

multimídia: vídeo
Em 1840, simultaneamente ao início do Segundo Reinado, FONTE: YOUTUBE
a Revolução Farroupilha perdia força, e se agravavam as
discordâncias entre os revoltosos. Então, foi definida sua A Casa das Sete Mulheres – O Filme
divisão em dois grupos: os “majoritários”, progressistas, e Ambientada na década de 1830, durante a
os “minoritários“, conservadores favoráveis a manter o Rio Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, a
Grande do Sul como província do Império. trama conta a história da Guerra dos Farrapos a
partir da visão das mulheres da família do líder
Entre 1841 e 1842, o poder de decisão do conflito passou
dos revolucionários, Bento Gonçalves (Werner
para as mãos dos conservadores. Em 1842, Luiz Alves de
Schünemann). Durante os dez anos que durou o
Lima e Silva, o duque de Caxias, foi nomeado pelo Impera-
conflito, Ana Joaquina (Bete Mendes), Maria (Ní-
dor presidente e comandante de armas da província. A sua
vea Maria), Manuela (Camila Morgado), Rosário
missão era estabelecer a paz na região e a reintegração do
(Mariana Ximenes), Mariana (Samara Felippo),
Rio Grande do Sul e de Santa Catarina ao Império. Com esse
Caetana (Eliane Giardini) e Perpétua (Daniela
objetivo em mente, Caxias traçou uma estratégia dúbia, os-
Escobar) se refugiaram em uma estância para
cilando entre violentos combates e concessões aos rebeldes.
esperar a volta dos homens. O diário de Manuela
A posição social de prestígio e o poder econômico das conduz a narrativa.
lideranças rebeldes fizeram o Império tratar a revolução
Farroupilha de maneira diferente dos outros movimentos
populares. Apesar de combater o movimento, Caxias pro-
curava uma solução negociada, atendendo a várias reivin-
dicações dos rebeldes, o que não aconteceu com outros 2. SEGUNDO REINADO
movimentos populares.
(1840-1889)
Em 28 de fevereiro de 1845, foi firmado o Acordo de
Em julho de 1840, graças ao Golpe da Maioridade, D. Pe-
Ponche Verde, que estabelecia: dro II se tornou imperador do Brasil com apenas 14 anos.
ƒ anistia dos envolvidos gaúchos; Era o início do Segundo Reinado. Tratava-se de uma hábil
manobra dos liberais, que desejavam retomar o controle
ƒ incorporação dos farrapos ao exército nacional;
do poder central, do qual foram afastados desde a ascen-
ƒ permissão para escolher o presidente de província; são do regente Araújo Lima. Por intermédio da figura do

91
imperador, em que se conjugavam prestígio e poder, e por
meio da restauração do poder Moderador, esperava-se
resgatar a estabilidade política do Império e controlar as
rebeliões que ameaçavam a integridade do território.
O estudo do Segundo Reinado pode ser dividido em três
fases:

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE
O Brasil por Eduardo Bueno - A Sabinada

2.1. Política interna do


Segundo Reinado
O Segundo Reinado se caracterizou pela disputa política e
alternância à frente dos ministérios e gabinetes entre os par-
tidos Liberal e Conservador. Este último era adepto de mais
centralização política. Fora isso, eram poucas as divergências
ideológicas entre os dois partidos, que representavam basi-
camente os mesmos grupos sociais: grandes proprietário ru-
rais, comerciantes e funcionários públicos ávidos pelo poder.
Em 1840, D. Pedro II formou o primeiro ministério, compos-
to por políticos do Partido Liberal responsáveis pelo Gol-
pe da Maioridade. Ficou conhecido como Ministério dos
Irmãos, pois dele faziam parte os irmãos Antonio Carlos e
Martim Francisco de Andrada, os viscondes de Suassuna e
O JOVEM PEDRO, AOS DOZE ANOS DE IDADE. FÉLIX ÉMILE TAUNAY (1837). Albuquerque, a família Cavalcanti e os irmãos Aureliano e
ƒ Estruturação (1840-1850) – período de consolida- Antonio Coutinho.
ção do governo, marcado pela pacificação das revoltas No mesmo ano, foram realizadas as primeiras eleições do
que surgiram na regência e no próprio Segundo Reina- Segundo Reinado. No poder, os liberais utilizaram a coação,
do, pela criação de leis voltadas para o equilíbrio interno a fraude e a violência para garantir a vitória dos deputados
e pela estruturação de dois grandes partidos (Liberal e de seu partido e a maioria das cadeiras no Congresso. Em
Conservador).
função disso, essas eleições ficaram conhecidas como as
ƒ Apogeu (1850-1870) – fase de prosperidade e de- “eleições do cacete”. Dois anos depois, os incidentes
senvolvimento econômico, realizações modernizantes e levaram D. Pedro II a anular as eleições e a dissolver o ga-
surto industrial, resultado das grandes rendas geradas binete liberal, nomeando outro, dessa vez composto pelos
pela exportação de café. Nesse período, o Império se conservadores. No poder, eles restauraram o Conselho de
envolveu em questões na Região Platina e na Guerra Estado (Órgão do Poder Moderador extinto na Regência), o
do Paraguai (1864–1870), vencendo-as todas, apesar Código de Processo Criminal, modificado em 1841, e todo
de a última ter deixado grandes sequelas. o aparelho judicial e administrativo foi novamente concen-
trado pelo poder imperial. Todavia, as práticas eleitorais
ƒ Declínio (1870-1889) – período de crescimento dos
fundamentadas nas fraudes e na violência continuaram
movimentos Abolicionista e Republicano, bem como
por todo o Segundo Reinado, sempre procurando favorecer
de prestígio do Exército. O Império se envolveu em
o partido que estava no poder.
questões que solaparam importantes bases de sua
sustentação, o que contribuiu para sua queda e para a Revoltados com a saída do poder e com a anulação das
Proclamação da República. “eleições do cacete”, os liberais passaram a fomentar

92
revoltas em algumas províncias, conhecidas como Re-
voltas Liberais de 1842.
Eclodiram movimentos em São Paulo, sob a liderança do
ex-regente Feijó e do senador e ex-regente provisório Ni-
colau Pereira de Campos Vergueiro. Em Minas Gerais, o
movimento teve início na cidade de Barbacena, liderado
por Teófilo Otoni. Reprimidos por Luís Alves de Lima e Silva,
suas lideranças foram presas e anistiadas em 1844, quan-
do um gabinete liberal ascendeu novamente ao poder.
Em 1853, por iniciativa de Honório Hermeto Carneiro Leão,
o Marquês do Paraná, foi formado o gabinete da Concilia-
multimídia: vídeo
ção, composto por liberais e conservadores. A conciliação FONTE: YOUTUBE
se caracterizou pela alternância política pacífica entre libe-
Netto Perde Sua Alma
rais e conservadores, que adotavam a mesma política no
governo e na oposição. Antônio de Souza Netto, general brasileiro, é fe-
rido durante a Guerra do Paraguai (1861-1866)
e recolhido ao Hospital Militar de Corrientes, na
2.1.1. Partidos políticos Argentina. No hospital, o general percebe que
Atribuída ao político pernambucano Holanda Cavalcanti, coisas estranhas acontecem ao seu redor. Um pa-
uma famosa frase diz: “Nada se assemelha mais a um ‘sa- ciente, o capitão de Los Santos, acusa o cirurgião
quarema’ do que um ‘luzia’ no poder”. “Saquarema” era de amputar suas pernas sem necessidade. Nessa
o apelido dos conservadores e deriva do município flumi- mesma noite, Netto recebe a visita de um antigo
nense de Saquarema, onde os principais chefes do partido camarada, o sargento Caldeira, ex-escravo.
possuíam terras e se tornaram famosos pelos desmandos
eleitorais. “Luzia” era o apelido dos liberais, em alusão à
Vila de Santa Luzia, em Minas Gerais, onde ocorreu a maior
Ainda que as diferenças entre os partidos Liberal e Conser-
derrota deles durante as Revoltas Liberais de 1842.
vador não fossem marcantes, seus programas apresenta-
vam pontos que os distinguiam.
Os liberais defendiam mais autonomia provincial, justiça
eletiva, separação da política e da justiça, redução do po-
der moderador, eleição direta nas cidades maiores, senado
temporário, abolição da Guarda Nacional, liberdade de
consciência, de educação, do comércio e da indústria. A
composição social dos liberais contava com profissionais li-
berais, comerciantes e donos de terras de São Paulo, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul.
Os conservadores defendiam o fortalecimento do poder
central e moderador e o controle centralizado da magis-
tratura e da polícia. Coube a eles imprimirem o tom e defi-
nirem o conteúdo político do Estado Imperial. Em geral, os
conservadores eram donos de terras e burocratas.
Tanto liberais quanto conservadores não tinham problemas
em mudar de lado ou defender propostas que lhes interes-
sassem pessoalmente, o que criou um perfil ideologicamente
frouxo e de pouca convicção para os partidos do período.
A manutenção da estrutura escravista de produção e a alie-
nação das massas do processo político era o denominador
comum dos partidos. Ao mesmo tempo em que se manti-
D. PEDRO II REPRESENTADO COMO O PODER MODERADOR ENTRE OS PARTIDOS nham os privilégios da elite, evitava-se a ascensão social dos
LIBERAL E CONSERVADOR. GRAVURA DE HENRIQUE FLEIUSS (1824-1882) menos favorecidos, mantendo a estrutura quase intacta.

93
A pacificação do país depois do fim da Guerra dos Farra- garantir a vitória dos conservadores; se fosse Liberal,
pos, em 1845, fez o Sul voltar a fazer parte da nação. No fazia-se o mesmo para garantir a maioria liberal no Le-
fim da década de 1840, o Império estava suficientemente gislativo. Por funcionar de maneira diferente do modelo
calmo e assentado no revezamento dos partidos no poder. clássico inglês, o parlamentarismo brasileiro era chamado
de “parlamentarismo às avessas”. Daí a frase:”O rei rei-
na, governa e administra”.
Funcionamento do parlamentarismo no Brasil

multimídia: livros
Rebelião Escrava no Brasil - João José Reis
Na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835,
em Salvador, enquanto os católicos comemo- 2.3. Revolução Praieira
ravam, na igreja do Bonfim, a festa de Nossa
Senhora da Guia, negros africanos celebravam
(Pernambuco, 1848)
o Ramadã em suas senzalas. A celebração Entre as principais causas da Revolução Praieira é possível
evoluiu para uma revolta, da qual não partici- destacar a situação de Pernambuco, os movimentos libe-
param exclusivamente muçulmanos, mas que rais ocorridos em 1848 (“Primavera dos povos”) na Europa
foi por eles concebida e liderada. e a excessiva centralização política do Império.
A concentração de terras e a exclusão social e política da
maioria da população predominavam na província. Cerca
2.2. O parlamentarismo de um terço dos engenhos concentrava-se em poder da
família Cavalcanti, o que bem atesta uma trovinha popular
“às avessas” da época:
Em 1847 foi criado o cargo de Presidente do Conselho Quem nascer em Pernambuco,
de Ministros – primeiro-ministro –, que formalizava a im- Deve ser desenganado,
plantação do sistema Parlamentarista no Brasil. A pouca Ou há de ser Cavalcanti
idade e inexperiência do Imperador D. Pedro II e a influên- Ou há de ser cavalgado...
cia inglesa no Brasil foram as razões para a implantação O restante das melhores terras estava em poder das famí-
do novo sistema. lias Rego Barros, Souza Leão e Albuquerque Maranhão. A
Contudo, o parlamentarismo brasileiro funcionava de ma- concentração fundiária provocava a miséria e a depen-
neira diferente do britânico. No sistema britânico, o povo dência da maioria da população. O comércio na província
elegia os membros do Parlamento, e o partido que obtives- era controlado por portugueses, que se recusavam a ofe-
se mais votos ganhava o direito de indicar o primeiro-mi- recer trabalho a brasileiros, agravando a exclusão social
nistro, que, por sua vez, indicava os demais ministros. Além na região.
disso, o primeiro-ministro tornava-se Chefe de Governo, A política pernambucana era controlada pelos Cavalcanti,
enquanto o rei era Chefe de Estado, que representava o que comandavam tanto o Partido Liberal quanto o Con-
país no exterior e resguardava internamente o sistema com servador, garantindo sua perpetuação no poder. Os liberais
o poder de demitir o primeiro-ministro, dissolver o parla- mais radicais, revoltados com a situação, fundaram um
mento e convocar novas eleições. Daí a frase: “O rei reina, novo partido para se opor aos latifundiários. Como a sede
mas não governa”. do novo partido ficava situada no prédio do jornal Diário
No Brasil, o Imperador se utilizava do Poder Moderador Novo, na Rua da Praia, no Recife, o partido ficou conhecido
para nomear o primeiro-ministro e os demais ministros como partido da Praia, e seus membros, como os praieiros.
e, somente depois, convocava eleições. Se o primeiro-mi- Suas ideias comportavam propostas do socialismo utópico,
nistro fosse Conservador, procurava-se a qualquer custo do nacionalismo e do liberalismo.

94
A liberdade de imprensa foi concedida na província. Em
1852, os rebeldes presos foram anistiados, encerrando de-
finitivamente o movimento e inaugurando um período de
paz e estabilidade no Segundo Reinado.

A REBELIÃO COMEÇOU EM OLINDA E LOGO SE


ALASTROU PELO INTERIOR DA PROVÍNCIA. multimídia: livros
O movimento praieiro eclodiu em novembro de 1848,
A Noite dos Cristais - Luís Fulano de Tal
quando o liberal Antonio Pinto Chichorro da Gama foi
A partir de um relato encontrado na Guiana
demitido da presidência de Pernambuco e substituído
Francesa, escrito pelo negro Gonçalo, conhe-
pelo conservador Herculano Pena. Os principais líderes
cemos a história dessa personagem que viveu
do movimento foram o próprio Chichorro da Gama, o
na primeira metade do século XIX, foi escravo
capitão Pedro Ivo Veloso, os deputados Nunes Machado
em um engenho de Pernambuco e conseguiu
e Felix Peixoto de Brito e o jornalista e proprietário do
fugir para a Guiana, depois de dez anos.
Jornal Diário Novo, Antonio Borges da Fonseca, autor do
“Manifesto ao Mundo”, que trazia as principais rei-
vindicações dos revoltosos: República, federalismo, voto
universal, liberdade de imprensa, nacionalização do co-
mércio, extinção do senado vitalício e do Poder Mode-
rador, independência dos poderes, garantia de emprego
para os brasileiros, expulsão dos portugueses e reforma
do Poder Judiciário de forma a assegurar os direitos indi-
viduais dos cidadãos.
O programa não trazia proposta de grandes mudanças
nas estruturas sociais, como abolição da escravatura ou
limites ao latifúndio, mesmo porque era liderado por
membros da elite revoltados com o autoritarismo e o
multimídia: sites
centralismo do Império.
www.multirio.rj.gov.br/historia/modu-
Ocorreram combates em Recife, Olinda e no interior, lo02/rev_norte.html
com constantes derrotas dos rebeldes, numa das quais mundoeducacao.bol.uol.com.br/histori-
morreu Nunes Machado. Pedro Ivo e Borges da Fonseca adobrasil/periodo-regencial.htm
decidiram atacar a Paraíba, onde o último foi morto e sala19.wordpress.com/2009/08/06/o-se-
o primeiro ofereceu resistência até ser preso em 1850. gundo-reinado-brasileiro-1840-1889-a-po-
Conhecido como “Capitão da Praia”, Pedro Ivo foi leva- litica-interna/
do para o Rio de Janeiro, de onde conseguiu fugir em histfacil.blogspot.com.br/2009/09/segun-
um navio com destino à Europa. Faleceu logo depois de do-reinado-politica-interna.html
o navio zarpar.

95
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

O desejo de autodeterminação dos povos, muito fortalecido no momento de vacância do trono nacional, fez com que
eclodissem inúmeras revoltas pelo Brasil. As revoltas de cunho social (Cabanagem e Balaiada) desejavam alcançar me-
lhores condições de vida, além de conseguir auxílio do governo federal, que negligenciava essas populações. Outras re-
voltas tiveram caráter político, buscando autonomia frente à instabilidade da regência e desejando a autodeterminação.
Ainda deve ser destacada a Revolta dos Malês, escravos muçulmanos que desejavam a liberdade e, apesar de mas-
sacrados em uma noite, expuseram uma questão que estaria na pauta de discussões nos anos seguintes: a abolição
da escravidão.

JEAN BAPTISTE DEBRET, NEGRO DE ORIGEM MULÇULMANO,


VIAGEM PITORESCA E HISTÓRICA AO BRASIL.

96
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa
13 pelo poder.

A Habilidade 13 é muito cobrada em questões da história brasileira, uma vez que se trata de um tema repleto de
manifestações políticas e profundamente marcado pela atuação de movimentos sociais. O período tratado especi-
ficamente aqui, a Regência (1831-1840), foi notadamente marcado por diversas manifestações que colocaram a
unidade territorial brasileira em xeque. Em geral, as questões do Enem não exigem conhecimentos específicos de
cada manifestação, mas uma contextualização geral desse período.

Modelo
(Enem) Após a abdicação de D. Pedro I, o Brasil atravessou um período marcado por inúmeras crises: as diversas forças
políticas lutavam pelo poder e as reivindicações populares eram por melhores condições de vida e pelo direito de par-
ticipação na vida política do país. Os conflitos representavam também o protesto contra a centralização do governo.
Nesse período, ocorreu também a expansão da cultura cafeeira e o surgimento do poderoso grupo dos”barões do
café”, para o qual era fundamental a manutenção da escravidão e do tráfico negreiro.

O contexto do período regencial foi marcado:


a) por revoltas populares que clamavam a volta da monarquia;
b) por várias crises e pela submissão das forças políticas ao poder central;
c) pela luta entre os principais grupos políticos que reivindicavam melhores condições de vida;
d) pelo governo dos chamados regentes, que promoveram a ascensão social dos “barões do café”;
e) pela convulsão política e por novas realidades econômicas que exigiam o reforço de velhas realidades sociais.

Análise expositiva - Habilidade 12: O período regencial é normalmente entendido como “de crise”, per-
E ceptível pelas grandes rebeliões que ocorreram nas diversas regiões do Brasil, levadas a cabo pelas camadas
excluídas do poder e agravadas pela exclusão econômica e social em alguns casos.
O tráfico ainda existiu por quase 20 anos após a abdicação de D. Pedro I. A Lei de 1831 do ministro Feijó não
foi cumprida, dada a tendência da elite tradicional em manter o braço escravo na lavoura (situação que se
modificou, em grande parte, fruto das pressões inglesas).
Alternativa E

97
DIAGRAMA DE IDEIAS

PERÍODO REGENCIAL
1831 (ABDICAÇÃO DE D. PEDRO I ) / 1840 (GOLPE DA MAIORIDADE)

• DISPUTAS PARTIDÁRIAS PELO PODER


• REVOLTAS NAS PROVÍNCIAS
CARACTERÍSTICAS
• AMEAÇA À UNIDADE TERRITORIAL
• MANUTENÇÃO DA GRANDE PROPRIEDADE ESCRAVOCRATA

CORRENTES POLÍTICAS

PRIMEIRO PARTIDO PARTIDO


REINADO BRASILEIRO PORTUGUÊS

PARTIDO LIBERAL PARTIDO LIBERAL PARTIDO


EXALTADO MODERADO RESTAURADOR

PERÍODO PARTIDO
PARTIDO LIBERAL
REGENCIAL RESTAURADOR

PROGRESSISTAS REGRESSISTAS

SEGUNDO PARTIDO
PARTIDO LIBERAL
REINADO CONSERVADOR

98
DIAGRAMA DE IDEIAS

REGÊNCIA
MECANISMO CONSTITUCIONAL

REGÊNCIA TRINA REGÊNCIA UNA


PROVISÓRIA (1831) PERMANENTE (1831-1834)

• SUSPENDE O PODER MODERADOR • CRIAÇÃO DA GUARDA NACIONAL


• ATO ADICIONAL (À CONSTITUIÇÃO) DE 1834
MEDIDAS LIBERAIS
AUTONOMIA PROVINCIAL
CRIA A REGÊNCIA UNA

REGENTE FEIJÓ REGENTE ARAÚJO LIMA


(1834-1837) (1837-1840)

• AVANÇO LIBERAL • REGRESSO CONSERVADOR


CRISE INSTITUCIONAL LIMITA PODER DO ATO ADICIONAL
CRISE ECONÔMICA RETORNO DO PODER MODERADOR
REVOLTA
1837 - RENÚNCIA

GOLPE DA MAIORIDADE
(1840)

REVOLTA QUANDO PROVÍNCIA AMBIENTE QUEM

ESCRAVOS NEGROS
MALÊS 1835 BAHIA URBANO (SALVADOR)
ISLÂMICOS
ELITE, COMERCIAN-
BELÉM E INTERIOR TES, LIBERTOS,
CABANAGEM 1835-1840 GRÃO-PARÁ
DA PROVÍNCIA ÍNDIOS, ESCRA-
VOS NEGROS

SABINADA 1837-1838 BAHIA URBANO (SALVADOR) SETORES MÉDIOS

RURAL POBRES LIVRES


BALAIADA 1838-1841 MARANHÃO
(SUL DO MARANHÃO) E ESCRAVOS
RIO GRANDE INTERIOR DO RS E
FARROUPILHA 1835-1845 ELITE
DO SUL PORTO ALEGRE

99
AULAS SEGUNDO REINADO: POLÍTICA
21 E 22 EXTERNA E ECONOMIA
1, 4, 7, 8, 9, 10, 14, 15,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 4 e 5 HABILIDADES:
16, 18 e 22

1. POLÍTICA EXTERNA DO no Brasil, William Christie, que transformou questões sérias


em um escândalo diplomático. Os problemas começaram
SEGUNDO REINADO em 1861, quando o navio inglês Prince of Walles, que
naufragou no litoral do Rio Grande do Sul, teve a carga
Durante o Segundo Reinado, a política externa brasileira saqueada. Além disso, a tripulação desaparecera. O em-
foi marcada por uma aproximação mais estreita entre o baixador exigiu uma indenização pela carga e uma inves-
Brasil e a Inglaterra. Esse fato aumentou a dependência tigação acompanhada por um oficial inglês para punir os
brasileira em relação ao capital britânico, especialmente responsáveis pelo saque. O Brasil admitiu, depois de muita
depois da Guerra do Paraguai, não obstante o rompimento relutância, pagar a indenização, mas não aceitou a interfe-
de relações diplomáticas entre os dois países em virtude da rência britânica nas investigações, contrariando o embaixa-
Questão Christie (entre 1863 e 1865). dor William Christie.
Nesse período, o Brasil consolidou sua hegemonia na Amé-
rica do Sul em meio a diversos conflitos na Região Platina, “Em um quadro de forte sentimento antibritânico ha-
com destaque para a Guerra do Paraguai, que atingiu dire- via décadas, Daryle Wiliams, professor da Universida-
tamente o Império e contribuiu significativamente para sua de de Maryland, nos Estados Unidos, mostrou que foi
posterior queda. por denunciar as tentativas de burlar a proibição ao
tráfico negreiro e à escravização ilegal de africanos e
seus descendentes na década de 1850 que Christie e
outros diplomatas britânicos caíram em desgraça no
país e fizeram com que os incidentes de 1863 ganhas-
sem uma proporção muito maior do que mereciam.”

KEILA GRINBERG. DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.
DISPONÍVEL EM: <CIENCIAHOJE.UOL.COM.BR/COLUNAS>.

Em 1862, para agravar a situação, oficiais da marinha bri-


tânica que serviam na fragata Fort foram presos no Rio de
Janeiro por embriaguês e desordem. A prisão dos oficiais
desagradou o embaixador Christie, que exigiu a punição
dos policiais brasileiros responsáveis por elas e voltou a exi-
gir a indenização pela carga do navio naufragado.
Como o governo imperial se recusava a atender às exigên-
cias do embaixador e protelava uma resposta pela inde-
DOM PEDRO II, IMPERADOR DO BRASIL, EM 1850. FRANÇOIS RENÉ
MOREAUX (1807-1860). MUSEU IMPERIAL, RIO DE JANEIRO (RJ). nização, em represália, a Inglaterra ordenou o bloqueio
naval dos portos do Rio de Janeiro. Aprisionou cinco navios
brasileiros, fato que gerou grande manifestação popular
1.1. A Questão Christie (1861-1865) antibritânica no Rio de Janeiro e em algumas províncias.
Em 1863, um incidente diplomático que ficou conhecido Temendo mais represálias por parte dos ingleses, D. Pedro
como Questão Christie provocou o rompimento das rela- II procurou acalmar os ânimos pagando a indenização pe-
ções entre Brasil e Inglaterra. O incidente foi resultado da dida (6.525 libras e 19 cents em valores da época), mas
absoluta falta de habilidade política do embaixador inglês rompeu relações com a Inglaterra e submeteu o conflito à

100
arbitragem internacional do rei belga Leopoldo. O rei ou- Em 1851, o Brasil interveio no Uruguai para derrubar
viu as duas partes e concedeu parecer favorável ao Brasil, Manuel Oribe, do Partido Blanco, e entregar o poder ao
determinando que a Inglaterra pedisse desculpas oficiais Partido Colorado, comandado por Frutuoso Rivera e alia-
pelo incidente. Em face da recusa britânica de se desculpar, do brasileiro.
o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com a
Em 1864, os Blancos retomaram o poder no Uruguai, li-
Inglaterra em 1863.
derados por Atanásio Aguirre, que apoiou os ataques de
Para o governo de Londres, ficou claro que era mau negócio pecuaristas locais às fazendas gaúchas da fronteira e, pos-
a ruptura com o Brasil, país que dava grandes vantagens teriormente, recusou-se a pagar as indenizações exigidas
aos ingleses pelas importações e empréstimos tomados. pelo governo brasileiro. Essa recusa levou tropas brasilei-
Em 1865, com a Guerra do Paraguai em curso, o governo ras, comandadas pelo general Mena Barreto, a invadirem o
britânico tomou a iniciativa de pedir desculpas formais e Uruguai, depor Aguirre e recolocar os Colorados no poder
reatar relações com o Império brasileiro. Em seguida, ban- com Venâncio Flores, que assinou A Convenção de Paz, em
queiros ingleses fizeram um grande empréstimo ao Brasil 20 de fevereiro de 1865, atendendo às exigências brasilei-
para financiar a guerra. ras, ao mesmo tempo em que o Brasil devolvia ao Uruguai
as terras sob seu controle.
1.2. As questões platinas
1.2.2. A intervenção contra
Rosas (Argentina, 1852)
A ditadura de Juan Manuel Rosas teve início na década de
1830, em meio à luta entre federalistas e unitaristas que,
durante longos anos, ensanguentou a Argentina.
Os federalistas representavam as províncias do interior do
país e lutavam por mais autonomia provincial e descentra-
lização política. Os unitaristas defendiam a centralização,
com a hegemonia comercial e política da região do porto
de Buenos Aires sobre o restante do país.
A política do ditador argentino, que ameaçava a livre nave-
gação dos rios e a independência do Uruguai, contrariava
os interesses do Brasil. Em razão disso, o governo imperial
MAPA DA BACIA PLATINA
passou a ajudar os adversários de Rosas, liderados por Jus-
O Brasil se envolveu em questões com o Uruguai e a Ar- to José de Urquisa, governador da província de Entre Rios.
gentina, intervindo na política interna de ambos para
Em 1852, o Império brasileiro interveio na Argentina e
garantir o poder a seus aliados com os seguintes ob-
depôs o ditador Francisco Rosas, do partido federalista.
jetivos: manter livre a navegação dos rios platinos, es-
Vitoriosos, os unitaristas assumiram o poder no país, que
senciais à comunicação com as províncias do Centro
passou a ser governado por Urquiza.
-Oeste e Sudeste (principalmente o Mato Grosso); evitar
a reconstituição do Vice–Reinado do Prata (Argentina,
Uruguai, Paraguai e Bolívia); e garantir sua hegemonia na 1.3. Guerra do Paraguai (1864-1870)
Região Platina.
1.3.1. As causas da guerra
1.2.1. A intervenção contra Oribe e Aguirre O estopim do maior e mais sangrento conflito na América
(Uruguai, 1851-1854) do Sul teve início com o ato de represália do ditador para-
Depois da independência, o Uruguai viu-se mergulhado guaio Solano López contra a deposição de seu aliado, Ata-
num período de intensa disputa política entre dois parti- násio Aguirre, do Partido Blanco, no Uruguai. Em novembro
dos: o Colorado, representante dos comerciantes de Mon- de 1864, López determinou a apreensão do navio brasi-
tevidéu, chefiados por Frutuoso Rivera, e o Blanco, liderado leiro Marquês de Olinda, que navegava pelo rio Paraguai
por Manuel Oribe, que representava os interesses dos pe- em direção ao Mato Grosso, e não atendeu ao ultimato
cuaristas do interior do país. Oribe contava com a ajuda do brasileiro pela libertação do navio. López rompeu relações
ditador argentino Juan Manuel Rosas, enquanto o governo com o Império brasileiro em dezembro de 1864 e atacou o
de Rivera, em Montevidéu, era ajudado pelo Brasil. sul do Mato Grosso e do Rio Grande do Sul.

101
A atitude paraguaia dava início à concretização do sonho Em 1867, as tropas aliadas passaram a ser comandadas
de Solano López de criar o “Paraguai Mayor”, ou seja, de por Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias. Naque-
estender o território do país até o litoral do oceano Atlânti- le mesmo ano, Argentina e Uruguai se retiraram da guer-
co, conquistando uma saída para o mar pelas terras brasi- ra alegando problemas econômicos. Caxias reorganizou e
leiras, uruguaias e argentinas. reaparelhou as tropas, comprou armas e canhões, filtros
de água para evitar a epidemia de cólera e estendeu ca-
“No Brasil, a partir da década de 1960, havia uma in- bos telegráficos até a região do combate para facilitar as
terpretação que culpava o imperialismo britânico por comunicações. Sob seu comando, ocorreram as vitórias
fomentar a guerra a fim de destruir a suposta auto- brasileiras de Itororó, Avaí e Lomas Valentinas. Em 1869,
nomia econômica do Paraguai. Por isso, tanto o Bra- Assunção foi tomada, e Solano López se retirou para o
sil quanto a Argentina teriam sido meros fantoches a interior, de onde continuou a resistir. Alegando problemas
serviço do capitalismo britânico, que se constituiria no de saúde, Caxias solicitou seu desligamento do comando
único vencedor do conflito. das tropas e foi substituído pelo genro de D.Pedro II, Gas-
tão de Orléans, o Conde d’Eu. Perseguiu Solano López
Segundo o historiador Francisco Doratioto, a guerra fez
até Cerro Corá, onde, derrotado, o ditador paraguaio se
parte do processo de consolidação dos Estados nacio-
suicidou, encerrando definitivamente o conflito em 1870.
nais da região. A livre navegação dos rios Paraná e Pa-
raguai era fundamental para o Império Brasileiro, única
entrada para a Província de Mato Grosso. Desde sua
independência, a Argentina tinha a aspiração de formar
uma grande nação com a incorporação do Uruguai
(independente do Brasil em 1828) e do Paraguai, cuja
independência só foi reconhecida em 1852. Tratou-se,
portanto, de uma relevante questão geopolítica.”

(PRADO, MARIA LIGIA; PELLEGRINO, GABRIELA. HISTÓRIA


DA AMÉRICA LATINA. SÃO PAULO: CONTEXTO, 2014, P. 68).

BATALHA NAVAL DO RIACHUELO, DE VICTOR MEIRELLES.

1.3.2. A guerra
Em maio de 1865, foi firmada uma aliança militar entre
Argentina, Brasil e Uruguai denominada Tríplice Aliança e
apoiada pela Inglaterra. No início da guerra, o exército pa-
raguaio contava com cerca de 90 mil homens, além de pól-
vora e armamentos fabricados em seu território, enquanto
os exércitos da Tríplice Aliança contavam com mais ou me-
nos 30 mil homens e dependiam totalmente de armas e
munições importadas da Inglaterra. Para reforçar o exército multimídia: livros
brasileiro, D. Pedro II convocou os escravos, prometendo a
eles e às suas esposas e filhos a garantia da liberdade ao A Guerra do Paraguai - Luiz Otávio de Lima
fim da guerra. Um épico latino-americano de interesse uni-
A Tríplice Aliança foi comandada inicialmente pelo presi- versal. Maior confronto armado da história
dente argentino Bartolomé Mitre. Sob seu comando, os da América do Sul, a Guerra do Paraguai é
aliados venceram a batalha naval do Riachuelo, em junho uma página desbotada na memória do po-
de 1865, bloqueando a ofensiva Paraguaia. A partir daí, vo brasileiro. Passados quase 150 anos das
todas as batalhas ocorreram em território paraguaio. últimas batalhas deste conflito sangrento
que envolveu Brasil, Argentina, Uruguai e
Durante o conflito, as forças da Tríplice Aliança cresceram, Paraguai, o tema se apequenou nos livros
com predominância de aproximadamente dois terços de didáticos e se restringiu às discussões aca-
brasileiros, entre 135 mil e 200 mil, para uma população dêmicas.
brasileira masculina estimada, à época, em 4,9 milhões de
indivíduos.

102
1.3.3. Consequências da guerra
A guerra custou ao Paraguai consequências devastadoras:
dizimação quase total da sua população, economia em ruí-
nas e perda de parte de seu território para Brasil e Argenti-
na, que passaram a fazer ingerências em suas questões in-
ternas. Estima-se que morreram 99% da população adulta
masculina e 55% da feminina. Mergulhado em grave crise
econômica, o Paraguai nunca mais conseguiu se recuperar.
multimídia: livros A vitória na guerra consolidou a hegemonia do Brasil no
continente, mas agravou sua situação econômica em virtu-
A Guerra É Nossa - a Inglaterra Não Provo-
de da elevação da dívida externa e do aumento da depen-
cou a Guerra do Paraguai - Alfredo da Mota
dência brasileira em relação à Inglaterra. O Exército saiu
Menezes fortalecido. Grande parte de seus membros assumiram po-
Este livro conta a história das mudanças na sições abolicionistas e republicanas, passando a contestar
sociedade e na economia brasileiras a partir o regime imperial.
da segunda metade do século XIX, depois da
transformação do café no principal produto
de exportação brasileiro. Aborda o processo
de desenvolvimento econômico e social em
virtude da expansão da lavoura cafeeira e as
transformações ocorridas no campo e na ci-
dade: a substituição da mão-de-obra escrava
pelo trabalho dos imigrantes, a expansão das
ferrovias, da indústria e da fronteira agríco-
la, a urbanização, os novos setores sociais, o
avanço tecnológico e a industrialização e in-
tensificação da vida artística e cultural.
MAPA DOS TERRITÓRIOS PERDIDOS PELO PARAGUAI NA GUERRA.

103
expansão cafeeira. Assim, assumiu-se definitivamente a li-
“Uma charge famosa de Ângelo Agostini, publicada derança das exportações conjugada às transformações do
em 1870, dá em parte a dimensão dos fatos. Ela mos- capitalismo internacional.
trava um soldado negro que retornava do teatro de O café, embora um gênero agrário, exigiu um conjunto de
operações, vitorioso, fardado, com medalhas no peito, ações que resultaram em uma modernização do conjunto
e encontrava a mãe amarrada a um tronco e sendo da população e em melhorias na infraestrutura e no desen-
açoitada. Uma contradição havia emergido de manei- volvimento do mercado interno (bancos, portos, ferrovias,
ra muito nítida – não era mais possível associar em urbanização, iluminação, comércio). Os avanços só não
uma mesma equação a exaltação da nacionalidade e foram maiores porque esbarraram na mentalidade con-
a existência do cativeiro.
servadora das elites agrárias que detinham o poder. Não
A oposição à escravidão, que já existia entre os próprios obstante, é possível destacar algumas iniciativas, como as
escravos, espalhou-se em outros setores da sociedade. de Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, que teve
Enquanto o governo imperial ponderava que a extin- papel fundamental no relativo surto industrial vivido na-
ção do cativeiro era ‘questão de oportunidade’, como quele momento.
escreveu o próprio D. Pedro II, a imprensa, os estudan-
A propósito da mão de obra, a pressão dos ingleses pela
tes e a esmagadora maioria dos profissionais liberais
abolição da escravidão se intensificou, pois a Inglaterra
exigiam uma imediata solução para a ‘questão servil’.
necessitava que os capitais investidos no tráfico fossem
O fim da guerra marcou o início do fim de um mo- liberados para aplicação na infraestrutura a fim de que se
delo político e social. Ainda em 1870, fundou-se no expandissem os mercados consumidores dos produtos in-
Rio de Janeiro o Partido Republicano, cuja versão mais dustrializados. Havia, ainda, a necessidade de que o trabalho
aguerrida surgiria três anos depois, em São Paulo. Era, assalariado se tornasse a forma dominante da exploração
em grande parte, a reação de uma elite política fede- da força de trabalho. Com a proibição do tráfico negreiro
ralista e escravocrata – as fileiras republicanas foram por meio da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, os senhores
engrossadas na medida em que eram aprovadas as de escravos precisaram criar alternativas para a substituição
leis anticativeiro.” do trabalho escravo. Nesse sentido, a alternativa imigrantista
surgiu como a solução ideal dos problemas da transição do
trabalho escravo para o trabalho livre e assalariado.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE
ELIAS, RODRIGO. BRAVA GENTE. DISPONÍVEL
EM: <REVISTADEHISTORIA.COM.BR>.
Brasil Império - O ciclo do café brasileiro
no século XIX

2. ECONOMIA E SOCIEDADE 2.2. A economia cafeeira


2.1. As transformações na estrutura Depois da independência política, o Brasil manteve sua eco-
nomia estruturada em bases coloniais, com predominância
socioeconômica brasileira do latifúndio agrário-exportador e escravista, o que agravava
A partir dos anos 1850, o Brasil passou por um conjun- a sua dependência externa. Ao longo do Primeiro Reinado e
to de transformações econômicas e sociais em virtude da do Período Regencial, a grande lavoura exportadora entrou

104
em crise, provocando sérias dificuldades econômicas: baixa expunham ao risco de investir em um país que se debatia
arrecadação devido às baixas taxas alfandegárias pratica- em profunda crise econômica. A situação não foi a mesma
das em virtude dos acordos realizados com várias nações, da época açucareira, quando os capitais flamengos foram
especialmente a Inglaterra, em troca do reconhecimento da responsáveis pelo financiamento.
Independência brasileira.
As somas iniciais investidas no plantio eram significativas.
Com a transformação da lavoura cafeeira na principal base Em geral, os pioneiros na implantação das culturas cafeeiras
da economia nacional, o cenário da crise econômica come- foram os comerciantes da capital, enriquecidos pela inter-
çou a mudar no final da Regência, alterando-se significati- mediação de compra e venda de produtos agrícolas. Comer-
vamente durante o Segundo Reinado. cializavam a própria produção e retinham a maior parte da
renda gerada.
As condições gerais da economia favoreciam a lavoura
cafeeira. Havia mão de obra escrava ociosa graças à deca-
dência das minas. As terras continuavam à disposição em
larga escala e a baixo preço. A facilidade de obtenção dos
fatores de produção encorajou os investidores a tentarem
o café. Além disso, não havia grandes opções para inver-
sões dos capitais obtidos no comércio. Ao mesmo tempo,
difundia-se o hábito de beber café. O produto brasileiro ga-
O RAMO DE CAFÉ, QUE PASSOU A FAZER PARTE DA BANDEIRA DO BRASIL IMPERIAL, nhava os mercados da Europa e dos Estados Unidos.
ATESTA A IMPORTÂNCIA DO PRODUTO NA ECONOMIA NACIONAL À ÉPOCA.

2.2.1. Café: das origens à expansão


Originário da Etiópia, o café ganhou significativa aceitação
entre os povos árabes, que conheceram o produto por volta
do século XV. Da Arábia, o produto foi introduzido na Euro-
pa em meados do século XVI, onde fez muito sucesso gra-
ças ao sabor e às propriedades estimulantes e medicinais.
O café chegou à América por volta do século XVII e passou
a ser produzido em larga escala na América Central, tendo
o Haiti como seu principal produtor.
No Brasil, o café chegou no início do século XVIII, contraban-
deado da Guiana Francesa pelas mãos do oficial português
Francisco de Melo Palheta, que trouxe as primeiras mudas TRANSPORTE DE CAFÉ POR ESCRAVOS. GRAVURA. JEAN-BAPTISTE DEBRET.
e instalou as primeiras grandes lavouras no Rio de Janeiro,
onde a cultura cafeeira alcançou grande desenvolvimento. Na primeira metade do século XIX, a lavoura cafeeira se
expandiu no Vale do Rio Paraíba do Sul, em territórios do
Os instrumentos básicos de trabalho eram baratos. Em Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Minas Gerais,
compensação, o cafeeiro, além de ser uma planta frágil, embora as principais culturas tenham se estabelecido nas
sensível às geadas, não produz imediatamente após o terras do extenso Vale do Paraíba, em São Paulo e no
plantio, exigindo grandes e constantes investimentos de Rio de Janeiro. Nelas, a produção de café estruturou-se nos
capitais. Dado o modelo agroexportador baseado na gran- moldes da plantation, caracterizada pelo latifúndio agrá-
de propriedade escravista, os pequenos proprietários fica- rio-exportador escravista. Por volta da década de 1830, o
ram de fora da possibilidade de cultivá-lo. produto já se destacava em primeiro lugar nas exportações
O capital investido no início da expansão cafeeira foi re- brasileiras, representando aproximadamente 25% delas.
colhido internamente, uma vez que os estrangeiros não se Nas décadas seguintes, essa porcentagem só aumentou.

Brasil – Exportação de mercadorias (% do valor dos oito produtos principais sobre o valor total da exportação)
Decênio Total Café Açúcar Cacau Erva-mate Fumo Algodão Borracha Couro e Peles

1821-1830 85,8 18,4 30,1 0,5 – 2,5 20,6 0,1 13,6

1831-1840 89,8 43,8 24,0 0,6 0,5 1,9 10,8 0,3 7,9

105
1841-1850 88,2 41,4 26,7 1,0 0,9 1,8 7,5 0,4 8,5

1851-1860 90,9 48,8 21,2 1,0 1,6 2,6 6,2 2,3 7,2

1861-1870 90,3 45,5 12,3 0,9 1,2 3,0 18,3 3,1 6,0

1871-1880 95,1 56,6 11,8 1,2 1,5 3,4 9,5 5,5 5,6

1881-1890 92,3 61,5 9,9 1,6 1,2 2,7 4,2 8,0 3,2

1891-1900 95,6 64,5 6,6 1,5 1,3 2,2 2,7 15,0 2,4

Explica-se o crescimento das exportações brasileiras gra- Nas três últimas décadas do século XIX, a região do Oeste
ças à queda da produção haitiana, à difusão do hábito de paulista se tornou a principal área produtora e exportado-
tomar café na Europa e nos EUA e à boa adaptação do ra de café do país, e os fazendeiros da região passaram a
produto ao solo e ao clima brasileiros, destacadamente na amealhar mais poder econômico e prestígio político, o que
Região Sudeste. lhes favoreceria o predomínio político nacional.

A produção de café se expandiu do Vale do Paraíba para Apesar de a produção do Oeste Paulista seguir as carac-
o chamado Oeste Paulista, nas regiões das cidades de terísticas gerais da agricultura do Vale do Paraíba, como o
Campinas, Rio Claro, Limeira, Itu, Ribeirão Preto, Catanduva uso de grandes propriedade e diversas técnicas de produ-
e Franca. Nessas regiões, observava-se, entre os produtores ção, os solos de terra roxa eram mais propícios e mais bem
de café, uma mentalidade mais adequada às exigências do aproveitados racionalmente para a lavoura cafeeira. Além
disso, no Oeste Paulista foram introduzidas importantes
capitalismo de meados do século XIX, pois os senhores pro-
modernizações na produção, como o arado, as máquinas
curavam se adequar cada vez mais às exigências do merca-
e a mão de obra livre dos imigrante, compostos principal-
do externo e modernizar a produção.
mente por italianos, espanhóis e alemães.

A MARCHA DO CAFÉ

Também ocorreram tentativas da criação de fazendas de


2.3. A imigração europeia procriação de escravos. Nessas fazendas, buscava-se a aqui-
para o Brasil sição de novos escravos por meio de relações sexuais não
A necessidade de extinção do trabalho escravo impôs à consentidas pelas mulheres, com abortos e suicídios sendo o
classe dominante brasileira, particularmente aos fazendei- resultado comum dessa prática, que levou o Brasil a criar a
ros de café, o desafio de pensar como promover a passa- Lei do Ventre Livre (1871), extinguindo o processo.
gem do trabalho escravo para o livre. Ao perceberem a proximidade do fim da escravidão no
A aprovação da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, trouxe Brasil, mesmo porque o tráfico interprovincial não con-
como consequência imediata o tráfico interprovincial de seguira atender à demanda de escravos para os cafezais,
escravos da região Nordeste para o Sudeste, especialmen- os prósperos fazendeiros do Oeste Paulista começaram a
te para os cafezais do Vale do Paraíba e do Oeste paulista. pensar na possibilidade de importar trabalhadores brancos

106
europeus para substituírem os escravos.

TRABALHO DE IMIGRANTES NAS LAVOURAS DE CAFÉ.


multimídia: livros
ACERVO DO MUSEU DA IMIGRAÇÃO.
O Café e a Imigração - Sônia Maria de Freitas
Paralelamente aos projetos de promoção da imigração,
Este livro conta a história das mudanças na
o governo fazia aprovar, em 1850, a Lei de Terras, que
sociedade e na economia brasileiras a partir
determinava que as terras devolutas (desocupadas) passa-
da segunda metade do século XIX, depois da
riam para o controle do Estado, que poderia vendê-las. A
transformação do café no principal produto
Lei de Terras subiu o custo para a aquisição e regularização
de exportação brasileiro. Aborda o processo
da terra de acordo com seu objetivo: criar obstáculos para
de desenvolvimento econômico e social em
o acesso às terras pelas populações pobres nacionais, prin-
virtude da expansão da lavoura cafeeira e as
cipalmente os imigrantes.
transformações ocorridas no campo e na ci-
A ideia de estimular a imigração europeia para o Bra- dade: a substituição da mão-de-obra escrava
sil não era nova, pois já tinham sido realizadas algumas pelo trabalho dos imigrantes, a expansão das
experiências no período joanino e no Primeiro Reinado. ferrovias, da indústria e da fronteira agrícola, a
Naquela época, os imigrantes europeus eram vistos como urbanização, os novos setores sociais, o avan-
solução para duas questões: escassez de mão de obra e ço tecnológico e a industrialização e intensifi-
desejo, disseminado entre a classe dominante da época, cação da vida artística e cultural.
de branqueamento da população brasileira. Produziram-
-se vários documentos com projeções de quantos anos
seriam necessários para os brasileiros tornarem-se bran- Na teoria, as condições do sistema pareciam benéficas
cos A crença de que os trabalhadores assalariados eram para os dois lados, mas a prática se revelou diferente. Os
mais produtivos do que os escravos era um argumento juros de 6% eram acumulativos e a dívida crescia muito,
ideológico a fim de fundamentar os projetos imigran- pois os pés de café só começam a produzir depois de
tistas. Vale destacar que as teorias raciais do século XIX quatro anos de plantio. Durante esse tempo, os imigran-
consideravam o branco europeu uma raça superior, mais tes eram obrigados a consumir produtos no armazém da
evoluída e desenvolvida. Essas teorias davam força para a fazenda a preços mais altos do que os regulares, geran-
defesa do branqueamento da população brasileira como do uma dívida crescente. Na hora do acerto de contas,
base para o desenvolvimento do pais. praticamente tudo que caberia ao imigrante era utilizado
Antes da publicação da Lei Eusébio de Queirós, o senador para pagamento de suas dívidas. Como o contrato de-
Nicolau Pereira de Campos Vergueiro criou, em 1847, um terminava que eles só poderiam sair da fazenda depois
sistema de parceria com o intuito de trazer imigrantes eu- de quitar todas as dívidas, os imigrantes eram obrigados
ropeus para trabalhar nos seus cafezais na fazenda Ibica- a trabalhar anos e anos sem renda. Além disso, muitos
ba, no interior de São Paulo. O funcionamento do sistema fazendeiros, acostumados ao trato com os escravos, ti-
era aparentemente simples: mediante uma firma fundada nham dificuldades de entender que o trabalhador livre
pelo senador, a Vergueiro e Cia., os imigrantes seriam trazi- tinha uma série de direitos. Dessa forma, os fazendeiros
dos da Europa, receberiam um adiantamento em dinheiro maltratavam os imigrantes como faziam com os escravos,
a juros de 6% para os custos de viagem de sua família e não reconhecendo seus direitos, impondo-lhes castigos
físicos e privando-os da sua liberdade.
se instalariam na terra que receberiam para cultivar. Os imi-
grantes receberiam também determinado número de pés Muitos imigrantes mandavam cartas do Brasil para a Eu-
de café para cultivar e dividiriam os lucros da venda com ropa denunciando a situação; por esse motivo, durante
o dono da fazenda. Por volta de 80 famílias de imigrantes alguns períodos, os europeus se recusaram a vir para o
oriundos da Alemanha e da Suíça foram trazidas por Ver- Brasil. Em 1859, o governo prussiano chegou a proibir o
gueiro para trabalhar em suas terras. embarque de imigrantes para o Brasil.

107
Colono dividia lucros e prejuízos e Camponês recebia dois salários: um
ficava com metade do produzido fixo anual e outro por produtividade
Colonos endividavam-se
Governo paulista pagava
(passagens, mantimen-
as passagens
tos, juros elevados)
Permitida uma pequena Garantido um pedaço de roça
roça ao imigrante para subsistência ou comércio

FONTE: PRADO JUNIOR, CAIO. HISTÓRIA


ECONÔMICA DO BRASIL. P. 190-191.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE
Hospedaria do Imigrante - São Paulo

O fracasso do sistema de parceria e a péssima imagem bra-


sileira no exterior levaram o governo a interferir na imigra-
ção europeia, financiando a viagem dos imigrantes e inter- multimídia: vídeo
ferindo na contratação deles pelos fazendeiros. O custeio
FONTE: YOUTUBE
da viagem dos imigrantes foi uma vitória dos imigrantistas
paulistas, que conseguiram transferir para o conjunto da
A Imigração em São Paulo
sociedade os custos com o financiamento da importação
da mão de obra européia. Por meio de um decreto assina-
do por D. Pedro II, o Estado custeava as passagens e per- 2.4. A questão da escravidão
mitia que os fazendeiros se credenciassem para contratar no século XIX
os imigrantes, que só poderiam ser levados para as suas
Por volta de 1880, ficava cada vez mais evidente que a
fazendas depois de acertado, diante de representantes do
abolição da escravidão estava iminente. O movimento abo-
Império, os salários e as condições de trabalho. O número
licionista tornou-se irresistível nas áreas cafeeiras, onde es-
de imigrantes cresceu consideravelmente, com destaque
tavam concentrados quase dois terços da população escra-
para alemães, italianos, suíços, poloneses e japoneses.
va. Cada vez mais conscientes de si mesmo e encontrando
O projeto imigrante paulista foi vitorioso, e os fazendeiros apoio em segmentos da população que simpatizavam com
puderam contar com uma relativa abundância de mão de a causa abolicionista, muitos escravos fugiam das fazendas
obra para substituir os escravos mantendo as taxas de lu- ou se tornavam mais rebeldes. A escravidão se tornou uma
cro e sem elevar os custos do trabalho. instituição difícil de se manter. Quase ninguém se opunha à
ideia da abolição, embora houvesse quem reivindicasse in-
Imigração no Brasil (1820-1975) denização para os fazendeiros pela perda de seus escravos.
No Parlamento, o único grupo que resistiu até o último
minuto à abolição da escravidão foi o dos representantes
dos fazendeiros das antigas áreas cafeeiras, para quem os
escravos representavam um terço do valor de suas hipote-
cas. Em maio de 1888 votaram contra a lei que aboliu a
escravidão no Brasil.
As questões relativas à urgência de se extinguir o trabalho
escravo estavam no campo da economia, da política e da
FONTE: WWW.IBGE.GOV.BR sociedade.
Os fazendeiros reagiram diferentemente nas diferentes
Parceria (fracasso) Colonato (sucesso)
áreas. Entretanto, por volta de 1880, a maioria deles
Primeiro sistema Oeste Paulista (c, 1870),
introduzido (1847) subvencionada pelo governo estava convencida de que a escravidão era uma causa
Trabalho familiar camponês Trabalho familiar camponês perdida. Além disso, outro tipo de investimentos tinha se
aberto a eles: estradas de ferro. Com o preço dos escravos

108
aumentando vertiginosamente, o custo de manutenção superavit comerciais brasileiros a partir da segunda me-
da escravidão parecia, em algumas áreas, igualar-se ou tade do século XIX.
mesmo exceder o nível salarial local.
Expansão das ferrovias brasileiras no século XIX
O desenvolvimento da sociedade brasileira durante a se-
gunda metade do século XIX e o processo de modificação
das relações de produção proporcionaram mais diversifi-
cação social, que resultou no surgimento de segmentos
sociais não vinculados diretamente aos interesses dos pro-
prietários agrícolas. Comerciantes, médicos, funcionários,
advogados, artesãos, engenheiros, jornalistas compunham
setores sociais urbanos cujos interesses levaram-nos a
questionar a escravidão e a propor a abolição como condi-
ção para sua própria liberdade.
Os fazendeiros das áreas em expansão haviam encontrado
na imigração a resposta para seus problemas de extinção
da escravidão e formação do mercado de trabalho basea- ADAPTADO DE: CAMPOS, FLÁVIO DE; DOLHNIKOFF, MIRIAM.
do na força de trabalho livre. Numa sociedade em que os ATLAS HISTÓRIA DO BRASIL. SÃO PAULO: SCIPIONE, 1998. P. 25.
homens precisam confrontar-se como juridicamente livres Os recursos gerados foram investidos pelo governo e pelos
– condição do exercício da cidadania, ainda que exista de- próprios cafeicultores. Algumas ações de responsabilidade
sigualdade por determinação do processo de produção –, do Estado foram: a modernização dos transportes com a
a escravidão desnuda a desigualdade e entranha o ato do construção de estradas de ferro ligando áreas produtoras
trabalho de negatividade: o ato do trabalhador pertencer a de café aos portos, a modernização e a construção de por-
outrem e a dor do ato do trabalho pelo castigo. tos para atender ao crescimento das exportações, a mo-
Para que o Brasil pudesse se transformar em uma Monar- dernização das cidades com iluminação a gás nas ruas e
quia constitucional ou em uma República democrática, fa- praças, o favorecimento do comércio e de outras atividades
zia-se necessário enfrentar a abolição da escravidão como urbanas e o estímulo à imigração europeia.
pressuposto da sociedade democrática, ambição de parce- Os cafeicultores, por sua vez, particularmente os do Oeste
las significativas da classe dominante e da “classe media” Paulista, foram responsáveis pelo investimento na produ-
em formação. A abolição foi resultado de um processo lon- ção e na mecanização da agricultura, por oferecer novas
go que serviu às conveniências da elite proprietária. condições de trabalho aos imigrantes e pelas primeiras
experiências do assalariamento.
2.5. Surto industrial e
processo de modernização
Em meados do século XIX, o Brasil foi marcado por intenso
desenvolvimento, caracterizado pelo surto industrial e pela
modernização, responsáveis pela montagem das primei-
ras fábricas brasileiras, com destaque para os setores de
tecelagem, fiação, alimentos e calçados. Construíram-se
estradas de ferro na região Sudeste; barcos a vapor pas-
saram a ser utilizados em larga escala no transporte de
mercadorias e passageiros; importaram-se máquinas para
beneficiamento do café; fundaram-se bancos, companhias multimídia: vídeo
de transportes urbanos, crédito e seguro; introduziu-se
FONTE: YOUTUBE
também o trabalho livre assalariado dos imigrantes euro-
“ENTRE RIOS” - a urbanização de São Paulo
peus. O mercado interno crescia e se diversificava.

2.5.1. Lucros provenientes


das exportações de café 2.6. Tarifa Alves Branco (1844)
A exportação de café gerou vultosos lucros para os ca- Desde a Independência, o Brasil adotava taxas alfandegárias
feicultores e foi a principal responsável pelos constantes baixas para os produtos importados, reflexo dos tratados de

109
1810, assinados entre Portugal e Inglaterra, em virtude da resultado desse acordo foi a Lei Antitráfico de 1831, pro-
dependência brasileira em relação ao capital estrangeiro e mulgada pela Regência Trina Permanente, mais conhecida
da necessidade de o Brasil obter o reconhecimento externo como lei para “inglês ver”, ou seja, o Brasil fazia de conta
da sua autonomia política. Em 1828, D. Pedro I assinou que proibia o tráfico, mas na prática ele continuava a existir.
um decreto que estabelecia taxas alfandegárias de 15%
ad valorem para todos os produtos importados pelo Brasil,
o que contrariava os privilégios ingleses e rendia baixa ar-
recadação para o Estado, obrigando-o a elevar os impostos
para a população.
Esse “liberalismo alfandegário” foi extinto em 1844 com
a entrada em vigor da Tarifa Alves Branco, que elevava as
taxas alfandegárias brasileiras a dois patamares: 20% a
30% sobre o valor dos produtos importados não produzi-
dos no Brasil, com variação para alguns produtos especi-
ficados; 60% sobre o valor dos produtos importados que
foram produzidos no Brasil.
As novas taxas alfandegárias tinham por objetivo garantir
o protecionismo alfandegário e o aumento da arrecadação
do Estado brasileiro. A maior parte da captação de recur-
sos foi utilizada pelo Império em políticas públicas e no
desenvolvimento de mais fábricas no Brasil (destaque para
o empreendedorismo do Barão de Mauá), além da con-
corrência com produtos estrangeiros. Apesar de algumas
modificações, a tarifa Alves Branco vigorou até o final do
Segundo Reinado.

COMO MINISTRO DA JUSTIÇA (1848-1852), EUSÉBIO DE QUEIRÓS


FOI O AUTOR DE UMA DAS MAIS IMPORTANTES LEIS DO IMPÉRIO.

Em virtude da falta de ação eficaz do Brasil para reprimir o


tráfico e em represália à Tarifa Alves Branco, o parlamento
inglês aprovou, em 1845, o Bill Aberdeen, que dava à
marinha inglesa a permissão para aprisionar navios ne-
greiros, prender os traficantes, libertar os negros e afundar
o navio utilizado no tráfico. Essa medida foi considerada
multimídia: vídeo arbitrária pelos brasileiros, pois afetava a soberania do país
em suas águas territoriais. Diante da situação, o governo
FONTE: YOUTUBE brasileiro resolveu aprovar, em 1850, a Lei Eusébio de
Caminhos de Pedra - Tempo e Memória na Queirós, que determinava a extinção definitiva do tráfico
Linha Palmeiro internacional de escravos.

Quadro do tráfico negreiro no Brasil

2.7. Lei Eusébio de Queirós (1850) Ano N.o de escravos

Desde os tratados assinados em 1810 entre Inglaterra e 1849 54.000

Portugal, o Brasil era pressionado pela Inglaterra para ex- 1850 23.000
tinguir o tráfico negreiro. Para reconhecer a Independên- 1851 3.000
cia brasileira, em 1825, os ingleses exigiram a manuten-
1852 700
ção das tarifas alfandegárias em 15% e o compromisso
do Brasil de extinguir o tráfico negreiro em cinco anos. O FONTE: PRADO JUNIOR, CAIO. HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL, P. 152.

110
As consequências mais diretas dessa medida foram a ele- O empreendedorismo de Mauá contrastava com a
vação dos preços dos escravos, o intenso tráfico interpro- estrutura agrária da economia brasileira, dependente dos
vincial de escravos da região Nordeste para os cafezais do interesses externos contrários à industrialização do Brasil.
Vale do Paraíba e do Oeste Paulista, e o favorecimento dos Além disso, algumas iniciativas governamentais prejudica-
processos de modernização e do surto industrial do perío- vam seus negócios, como a Tarifa Silva Ferraz, de 1860, que
do, na medida em que os recursos utilizados na compra de reduzia as taxas alfandegárias de produtos como navios,
escravos puderam ser investidos na compra de máquinas, ferramentas e armas.
na infraestrutura e na modernização.

2.8. A importância do Barão de Mauá


O processo de modernização e o surto industrial ocorridos
no Segundo Reinado foram marcados pela atuação desta-
cada de um empresário empreendedor e visionário: Irineu
Evangelista de Sousa, o Barão e Visconde de Mauá.
Nascido no Rio Grande do Sul, em 1813, aos nove anos
foi levado para o Rio de Janeiro por um tio. Aos vinte
anos passou a trabalhar na firma britânica Casa Carru-
thers, que atuava no ramo de importação e exportação.
Chegou a se tornar sócio da empresa. Em 1839, foi à Entretanto, os principais fatores que frustraram as inicia-
Inglaterra, onde conheceu o sistema de fábricas e passou tivas de Mauá e impediram a efetiva industrialização do
a alimentar o desejo de trazê-lo para o Brasil. período foram a falta de uma indústria de base, a concor-
Mauá fundou vários empreendimentos, com destaque para rência britânica e o reduzido mercado consumidor interno.
o Estabelecimento de Fundição e Companhia Estaleiro Pon- Em 1875, Mauá decretou moratória após a falência de seu
ta da Areia, que fabricava navios, guindastes, peças, caldei- banco. Depois de vender quase todas as suas indústrias
ras para máquinas a vapor e engenhos de cana-de-açúcar. e bens pessoais, terminou a vida fazendo corretagem de
Criou ainda a Companhia Fluminense de Transportes, a café. Morreu em 1889, aos 76 anos.
Companhia de Navegação a Vapor do Rio Amazonas, a
Companhia de Bondes do Jardim Botânico e a Companhia 2.9. O desenvolvimento das cidades
de Iluminação a Gás do Rio de Janeiro. No final da década
de 1850, fundou o Banco Mauá, que chegou a ter agências
em Londres, Paris, Nova Iorque, Montevidéu e Buenos Ai-
res. Construiu a Estrada de Ferro Barão de Mauá e instalou
um cabo telegráfico submarino ligando o Brasil à Europa.

multimídia: livros
Tijolo Sobre Tijolo: Os Alemães Que Construí-
ram São Paulo - Adriane Acosta Baldin
As grandes cidades são resultantes de comple-
xos processos históricos, econômicos, sociais e
têm uma sólida base na geografia natural e
humana. Uma enorme quantidade de pesso-
as teve participação ativa em sua formação,
deixando sua marca no que foi edificado e na
cultura que as caracteriza.
BARÃO DE MAUÁ FUNDOU O BANCO MAUÁ, MACGREGOR &
CIA, COM FILIAIS EM VÁRIAS CAPITAIS BRASILEIRAS, BEM COMO EM
LONDRES, NOVA IORQUE, BUENOS AIRES E MONTEVIDÉU.

111
Durante a segunda metade do século XIX, ocorreu o de- das sacas de café, além de agenciadores, corretores, inter-
senvolvimento dos centros urbanos no Brasil. O processo mediários e armazéns de estoque.
de concentração urbana já havia sofrido um impulso signi-
Os fazendeiros não permaneciam todo o tempo em suas
ficativo no início do século. Novas atividades urbanas, de-
fazendas. Gerentes e administradores cuidavam das con-
senvolvimento comercial, imigração estrangeira e reforma
tas e da produção. Os proprietários passavam boa parte
dos núcleos administrativos impulsionaram as cidades.
do ano em confortáveis casas nas cidades, desfrutando as
Com o advento do café, os centros urbanos tomaram seu comodidades dos serviços, o burburinho social e a proje-
maior impulso. Nos núcleos urbanos, localizavam-se as ca- ção política. Nas fazendas mantinham a velha residência
sas de exportações e as bolsas que estabeleciam o preço senhorial, símbolo de seu status.

VISTA DA PRAÇA D. PEDRO II, A PARTIR DO MORRO DO CASTELO. RIO DE JANEIRO. FOTO: MARC FERREZ, C.1870.

O poder aquisitivo dessa camada social privilegiada refletia como antes. Apenas o país havia alcançado a independência
nas importações do Brasil. Entre 1839 e 1875, a média política. Os padrões de comportamento e organização so-
de importações de calçados e vestuários atingiu 51,1% do cial e familiar moldavam-se pela velha sociedade colonial.
total importado pelo país, enquanto os alimentos ocupa-
O café conseguiu fazer o que a separação de Portugal não
ram 20,3% do total importado; máquinas e carvão, apenas
conseguiu: alterou alguma coisa na sociedade brasileira.
3,8%. Tratava-se de uma queima de preciosas divisas com
produtos de consumo, divisas que poderiam ter custeado o Durante a Colônia, os proprietários rurais ligados ao açú-
desenvolvimento do país, que, no entanto, não fazia parte car e ao tabaco, sediados no Nordeste, detinham as ré-
das perspectivas das camadas dominantes. deas do poder. Sua preocupação consistia em criar uma
estrutura administrativa voltada para a facilitação de suas
As cidades tiveram os melhoramentos da época. As co-
exportações para o mercado mundial e a importação de
municações diminuíram as distâncias graças ao telégrafo.
escravos a baixo preço. Esses fatores compunham as se-
Portos desenvolveram-se graças às estradas de ferro e à
ções dinâmicas do processo agroeconômico, uma vez que
melhoria das instalações portuárias. A alta concentração
os latifundiários já eram donos das melhores terras.
econômica e a diversificação das atividades e serviços pro-
porcionaram trabalho para os bacharéis, funcionários bu- A participação política dos aristocratas escravistas, sem vi-
rocratas, liberais e artesãos. Segundo Heitor Ferreira Lima, são alguma do conjunto político nacional, girava em torno
a renda per capita nacional elevou-se no século XIX. Em do controle das câmaras municipais. Contudo, aliados aos
consequência desse crescimento geral, as classes sociais interesses ingleses, realizaram a independência política do
aumentavam e assumiam contornos mais nítidos. país no início do século XIX.
O império nasceu para preservar a estrutura de privilégios,
2.10. Sociedade: o fim do domínio na qual os aristocratas estavam instalados.
da aristocracia do açúcar O Estado brasileiro foi articulado por uma burocracia po-
A Independência do Brasil não havia trazido profundas trans- lítica que lançou as premissas da constituição do Império.
formações estruturais à sociedade. Grosso modo, tudo estava Os desentendimentos posteriores não assumiram caráter

112
contestatório das estruturas sociais pelos menos por parte Havia necessidade de adequar as arcaicas estruturas eco-
da aristocracia rural. nômicas do país à nova realidade do capitalismo mundial
livre cambista. A concorrência econômica entre as potên-
cias despontou em todo século. No final do século XIX, o
agravamento das disputas internacionais fez reviverem as
velhas práticas do protecionismo. Era a gênese do capita-
lismo monopolista.
Os cafeicultores cariocas, mineiros e paulistas davam à so-
ciedade imperial uma conotação mais burguesa, europeia
e moderna.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE
Globo Repórter - A Imigração Italiana

As origens da coffee society


Durante o Segundo Reinado, o desenvolvimento das cultu-
ras cafeeiras transferiu a hegemonia política do Nordeste
para o Centro-Sul. O eixo econômico do país já havia se
deslocado no Período Colonial. Todavia, desde o renasci-
mento agrícola, no final do século XVIII e início do XIX,
o Nordeste revela sua preponderância. Apenas a presença
física da capital estava no Centro-Sul.
HENRIQUE DUMONT (1832-1892), FILHO DE IMIGRANTES
A partir da terceira década do século XIX essa situação se FRANCESES, FOI CONSIDERADO UM DOS TRÊS REIS DO CAFÉ DA
inverteu. A capital do Império foi engolida pelas plantações SUA ÉPOCA. ERA PAI DE ALBERTO SANTOS DUMONT.
de café. A Corte imperial passou a ser formada pelos fazen-
deiros de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
O centro agrário-exportador estava assentado definitiva-
mente na região Centro-Sul da nação. Novas necessidades
faziam-se presentes. A aristocracia cafeeira apossou-se do
aparelho burocrático do Estado, transformando a máquina
administrativa em um instrumento de seu interesse.

multimídia: livros
Maldita Guerra - Francisco Doratioto
Escrito em linguagem clara e objetiva, este li-
vro é fruto de quinze anos de pesquisas em
arquivos e bibliotecas do Brasil, do Rio da Pra-
ta e da Europa. Francisco Doratioto, graduado
em história pela USP e doutor em história das
relações internacionais pela Universidade de
multimídia: vídeo Brasília, viveu durante três anos no Paraguai,
FONTE: ADORO CINEMA
o que lhe permitiu visitar locais e conhecer a
Andiamo In’merica - Os Italianos no Brasil memória oral ainda existente sobre a guerra.

113
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

A entrada do Brasil na Guerra do Paraguai (1864-70) e o massacre da população guarani demonstram que a política
imperialista não ocorreu somente sobre populações africanas e asiáticas. Os números de mortos no Paraguai depois
da guerra são assombrosos, levantando um questionamento sobre crimes contra a humanidade.

(BATALHA DO RIACHUELO, IMPORTANTE VITÓRIA SOBRE OS GUARANIS DURANTE A GUERRA DO PARAGUAI)

Também cabe a análise da campanha governamental à vinda de imigrantes europeus para o Brasil, os quais fugiam
de instabilidades em suas terras natais em busca de melhor condição de vida. O Brasil apresentava novamente seu
lado preconceituoso, pois buscava somente europeus para minimizar os efeitos da miscigenação racial com os negros.
É importante lembrar que ocorreu a ocupação de boa parte das terras do sul do Brasil, que o governo tinha interesse em
ocupar para garantir suas fronteiras, o que explica o grande número de descendentes de alemães e italianos na região.
No mesmo período, o Brasil passava por um surto industrial, impulsionado pelo fim do tráfico negreiro (1850),
e vivia a “era Mauá”, na qual o senhor Irineu Evangelista de Souza investiu toda a sua fortuna na tentativa de
modernizar o país, investindo principalmente no setor de transportes (ferrovia) e comunicação (telégrafos).

(PRIMEIRAS LOCOMOTIVAS INSTALADAS NO BRASIL, SONHO FRUSTRADO DE MAUÁ E IMPLANTADO POR COMPANHIAS ESTRANGEIRAS)

114
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de
14 natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

O uso de fontes históricas das mais distintas é recorrente dentro da Habilidade 14. Em História do Brasil, são utiliza-
dos muitos fragmentos de grandes obras brasileiras, como, nesse caso, de O abolicionismo, do político e intelectual
Joaquim Nabuco. Ele, como tantos outros pensadores abordados pelo vestibular, procura narrar e expressar seu
ponto de vista acerca da questão da escravidão no Brasil. O aluno deve compreender o contexto histórico vivido
pelo autor, bem como seu posicionamento diante do fato. Trata-se de uma análise da história brasileira por meio dos
intelectuais que a viveram ou a estudam. Para responder às questões desse gênero, o aluno deve ser perspicaz ao
interpretar a mensagem passada pelos fragmentos dados no enunciado.

Modelo
(Enem) TEXTO I

Já existe, em nosso país, uma consciência nacional que vai introduzindo o elemento da dignidade humana em nossa
legislação, e para qual a escravidão é uma verdadeira mancha. Essa consciência resulta da mistura de duas correntes
diversas: o arrependimento dos descendentes de senhores e a afinidade de sofrimento dos herdeiros de escravos.
ADAPTADO DE: NABUCO, J. O ABOLICIONISMO. DISPONÍVEL EM: WWW.DOMINIOPUBLICO.GOV.BR. ACESSO EM: 12 OUT 2011.

TEXTO II

Joaquim Nabuco era bom de marketing. Como verdadeiro estrategista, soube trabalhar nos bastidores para impulsionar
a campanha abolicionista, utilizando com maestria a imprensa de sua época. Criou repercussão internacional para a
causa abolicionista, publicando em jornais estrangeiros lidos e respeitados pelas elites brasileiras. Com isso, a campanha
ganhou vulto e a escravidão se tornou um constrangimento, uma vergonha nacional, caminhando assim para o seu fim.
ADAPTADO DE: COSTA E SILVA, P. UM ABOLICIONISTA BOM DE MARKETING.
DISPONÍVEL EM: WWW.REVISTADEHISTORIA.COM.BR. ACESSO EM: 27 JAN. 2012.

Segundo Joaquim Nabuco, a solução do problema escravista no Brasil ocorreria como resultado da:
a) evolução moral da sociedade;
b) vontade política do imperador;
c) atuação isenta da Igreja católica;
d) ineficácia econômica do trabalho escravo;
e) implantação nacional do movimento republicano.

Análise expositiva - Habilidade 14: Como ambos os textos deixam claro, Nabuco associou o “ter escravos”
A ao “constrangimento”, deixando claro que, para a sociedade do Segundo Reinado, a escravidão era uma herança
moral vergonhosa.
Alternativa E

115
DIAGRAMA DE IDEIAS

SEGUNDO REINADO
1840 (GOLPE DA MAIORIDADE) / 1889 (PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA)

TRÊS FASES

ESTRUTURAÇÃO APOGEU DECLÍNIO


(1840-1850) (1850-1870) (1870-1889)

POLÍTICA INTERNA

SISTEMA POLÍTICO “PARLAMENTARISMO ÀS AVESSAS”

NOMEIA IMPERADOR NOMEIA


PODER MODERADOR

CONSELHO DE ESTADO ESCOLHE SENADO


(ÓRGÃO CONSULTIVO) (PODER LEGISLATIVO)
PRESIDENTE DO
ORGANIZA CONSELHO DE
MINISTROS
(PODER EXECUTIVO)
ELEIÇÕES ESTRUTURAÇÃO
(VOTO CENSITÁRIO) (1840-1850)

CÂMARA DOS
APROVA
DEPUTADOS
(PODER LEGISLATIVO)

ELEGEM

REVOLTA

REVOLUÇÃO PRAIEIRA (PERNAMBUCO - 1848)

• FEDERALISMO
• REPÚBLICA
• VOTO UNIVERSAL
PAUTAS
• LIBERDADE DE IMPRENSA
• NACIONALIZAÇÃO DO COMÉRCIO
• FIM DO PODER MODERADOR E DO SENADO VITALÍCIO
DERROTADA

116
DIAGRAMA DE IDEIAS

POÍTICA EXTERNA

INGLATERRA GUERRA DO PARAGUAI


QUESTÃO CHRISTIE (1864-1870)
(1861-1865)
MOTIVO - EXPANSÃO PARAGUAIA
QUESTÕES PLATINAS TRÍPLICE ALIANÇA × PARAGUAI
(BRASIL, ARGENTINA E URUGUAI)

URUGUAI - INTERVENÇÃO CONSEQUÊNCIAS


CONTRA ORIBE E AGUIRRE
(1851-1854) • DESTRUIÇÃO DO PARAGUAI
• FORTALECIMENTO DA INFLUÊNCIA BRASILEIRA
ARGENTINA - INTERVENÇÃO • AUMENTO DA DÍVIDA EXTERNA COM INGLATERRA
CONTRA ROSAS (1857) • FORTALECIMENTO DO EXÉRCITO

ECONOMIA E SOCIEDADE

• EXPANSÃO - VALE DO PARAÍBA E OESTE PAULISTA


ECONOMIA CAFEEIRA • BAIXO CUSTO PRODUTIVO
• CRISE DE EXPORTAÇÃO NO • OFERTA DE TERRAS
1º REINADO E REGÊNCIA • EXPANSÃO DO MERCADO CONSUMIDOR INTERNACIONAL
• CAFÉ ENQUANTO • AUMENTO DA MÃO DE OBRA ASSALARIADA IMIGRANTE
ALTERNATIVA • MODERNIZAÇÃO

• TERRAS PASSAM A SER VENDIDAS


ESTRUTURA FUNDIÁRIA • MANUTENÇÃO DA GRANDE PROPRIEDADE
• POUCOS PROPRIETÁRIOS
• LEI DE TERRAS (1850)
• PRESSÃO INGLESA PARA ABOLIÇÃO
MÃO DE OBRA
LEI BILL ABERDEEN (1845)
LEI EUSÉBIO DE QUEIROZ (1850)
ESCRAVA • COMÉRCIO INTERNO DE ESCRAVOS
NORDESTE PARA SUDESTE
• FORÇA DO MOVIMENTO ABOLICIONISTA
EXÉRCITO E PROFISSIONAIS LIBERAIS

• ESTÍMULO À IMIGRAÇÃO (GOVERNO)


• EXPANSÃO DA MÃO DE OBRA LIVRE NAS
FAZENDAS DE CAFÉ (OESTE PAULISTA)
IMIGRANTE
SISTEMA DE PARCERIA (FRACASSO)
SISTEMA DE COLONATO (SUCESSO)
• TENTATIVA DE EMBRANQUECIMENTO DA POPULAÇÃO

117
DIAGRAMA DE IDEIAS

• TARIFA ALVES BRANCO (1844)


MODERNIZAÇÃO • SURTOS INDUSTRIAIS
• CRESCIMENTO URBANO

• CONSTRUÇÃO DE PORTOS E FERROVIAS


CONSEQUÊNCIAS DA • ACUMULAÇÃO DE CAPITAL
ECONOMIA CAFEEIRA • FORMAÇÃO DE BANCOS
• NOVAS ELITES

118
AULAS CRISE DO IMPÉRIO
23 E 24
1, 7, 8, 10, 11, 13, 14, 15,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 4 e 5 HABILIDADES:
20, 21, 22, 23 e 25

1. INTRODUÇÃO Embora tenha sido um movimento comandado por uma


fração da classe dominante, o movimento republicano con-
A partir da década de 1870, o Império brasileiro passou a seguiu envolver setores da classe média nascente, a quem
enfrentar uma propaganda republicana organizada e efeti- interessava o estabelecimento de um novo estatuto políti-
va, particularmente nas províncias do Rio de Janeiro e de co e jurídico que garantisse o exercício da cidadania.
São Paulo, perdendo importantes apoios da suas bases de
sustentação. A crise política que afetava o Império foi pro-
vocada por frações da classe dominante que conseguiram
se organizar e ansiavam por ter o poder para executar o seu
projeto político. Essa situação tem relação direta com a mo-
dernização pela qual o país passava e com as transforma-
ções econômicas resultantes, principalmente a expansão da
lavoura cafeeira e o desenvolvimento de uma nova mentali-
dade econômica, especialmente no Oeste Paulista. A vitória
militar na Guerra do Paraguai fortaleceu o Exército, que exi- multimídia: livros
gia cada vez mais espaço e não era atendido plenamente, o
que colocava alguns militares contra o Império. As Barbas do Imperador - Lilia Moritz Schwarcz
O isolamento político do Império cresceu com a questão Misto de ensaio interpretativo e biografia de
religiosa, que opôs setores da Igreja ao governo, e a aboli- d. Pedro II, As barbas do imperador, de Lilia
ção da escravidão, que afastou grandes proprietários rurais Moritz Schwarcz, foi um marco na historiogra-
escravistas e políticos conservadores do Império. Segundo fia brasileira, apresentando uma visão nova e
alguns historiadores, a perda das bases religiosa, militar reveladora de nosso passado. O livro mate-
e sociopolítica foi antes o resultado do enfraquecimento rializava o mito monárquico ao descrever, por
da monarquia do que propriamente o efeito da força do exemplo, a construção dos palácios, a mistura
movimento republicano. de ritos franceses com costumes brasileiros, a
maneira como a boa sociedade praticava a ar-
te de bem civilizar-se, a criação de medalhas,
emblemas, dísticos e brasões, a participação
do monarca e o uso de sua imagem em festas
populares.

2. A QUESTÃO RELIGIOSA
A Constituição de 1824 estabelecia o padroado (indicação
de pessoas a cargos na igreja) e o beneplácito (direito de
analisar qualquer decreto antes de entrar em vigor no Bra-
sil, autorizando-o ou não), subordinando a religião católica
“O REI, NOSSO SENHOR E AMO, DORME O SONO DA... INDIFERENÇA. OS JORNAIS, ao Estado, cujos governos passariam a pagar os membros
QUE DIARIAMENTE TRAZEM OS DESMANDOS DESTA SITUAÇÃO, PARECEM PRODUZIR
EM SUA MAJESTADE O EFEITO DE UM NARCÓTICO. BEM AVENTURADO, SENHOR! da Igreja como se fossem funcionários públicos. Esses dis-
PARA VÓS, O REINO DO CÉU, E PARA O NOSSO POVO... O DO INFERNO!” positivos constitucionais distanciavam o clero brasileiro de
(ANGELO AGOSTINI. REVISTA ILLUSTRADA, 5 FEV.1887. ADAPTADO). Roma. Uma parcela dos padres passou a adotar posturas

119
pouco condizentes com sua função: desrespeito ao voto de Em 1875, os bispos foram anistiados, não sem a insatis-
castidade, constituição de família, acúmulo de riquezas, e fação da Igreja com o beneplácito. Desde então, clérigos
participação ativa da política imperial. e fiéis católicos deixaram de prestar apoio ao governo de
Os conflitos entre o Estado imperial brasileiro e a Igreja tive- D. Pedro II, que via mais uma das bases de sustentação
ram inicio em 1848, com as novas diretrizes estabelecidas política do Império fragmentar-se.
pelo papa Pio IX, condenando as “liberdades modernas” e
defendendo o monopólio espiritual da Igreja. Em 1864, a
Bula Syllabus papal proibiu católicos e membros do clero
3. A QUESTÃO MILITAR
de participarem de sociedades secretas. No Brasil, a ordem O Exército brasileiro havia crescido e se fortalecido com a
papal atingiu diretamente a maçonaria, uma sociedade se- Guerra do Paraguai, superando a posição secundária que
creta que tinha padres, membros de irmandades católicas e passara a ocupar desde a criação da Guarda Nacional pelo
principalmente políticos e pessoas da elite brasileira como Ministro da Regência Padre Diogo Feijó. A vitória brasileira
membros. Pelo dispositivo constitucional do beneplácito, o na Guerra do Paraguai levou os militares a exigirem a valo-
Imperador proibiu a aplicação da bula papal no Brasil. rização da instituição, que crescera e organizara-se.
Nos anos de 1869 e 1870, realizou-se o Concilio Vaticano Os oficiais do Exército eram geralmente originários das ca-
I, que proclamou a “infalibilidade” do papa e reafirmou madas médias urbanas e não tinham recursos suficientes
seu poder. Apesar da atitude do Imperador e da resistência para arcar com a educação superior, razão pela qual se-
do Estado brasileiro ao poder papal, a Igreja passou a exer- guiam a carreira militar, que lhes oferecia estudos.
citar mais disciplina e vigilância religiosas, reivindicando A visão política dos oficiais era geralmente progressista, con-
autonomia perante o Estado. trária aos políticos reacionários do Império. Com a Guerra
Desse modo, embora parte do clero brasileiro insistisse do Paraguai, a base das tropas passou a ser constituída por
em apoiar a decisão do Imperador, alguns bispos resolve- brancos pobres, mestiços, escravos e ex-escravos, que, ao
ram seguir a orientação papal. Em 1872, o bispo do Rio final da guerra, com o apoio de oficiais, passaram a lutar
Janeiro suspendeu o padre Almeida Martins, que era ma- contra a escravidão.
çom, por ter participado de uma cerimônia maçônica que Além disso, muitos militares haviam entrado em contato
homenageava o Visconde do Rio Branco pela assinatura com regimes republicanos durante a guerra e passaram a
da Lei do Ventre-Livre.
defender a implantação desse regime no Brasil. Nas esco-
Ainda em 1872, os bispos de Olinda e de Belém, respecti- las militares, difundia-se e ganhava cada vez mais adeptos
vamente D. Vital de Oliveira e D. Antonio de Macedo, orde- o positivismo, teoria com a qual os militares se identificam,
naram que os padres que participassem da maçonaria em considerando-se os únicos capazes de, graças à ordem e
suas dioceses deveriam abandonar a sociedade ou seriam à disciplina, “salvar” o Brasil do atraso e da estagnação
suspensos de suas ordens. Diversos padres se recusaram a econômica e social.
abandonar a maçonaria e foram suspensos ou suas irman-
A filosofia positivista é uma corrente ideológica cujos princí-
dades foram fechadas.
pios foram elaborados pelo pensador francês Auguste Com-
Em virtude da pressão do Visconde do Rio Branco, que era te. Tendo como referências a tradição romana e a experiência
maçom, o governo interveio e ordenou a prisão dos bispos, jacobina na Revolução Francesa de 1789, Comte conside-
condenando-os a quatro anos de prisão com trabalhos for- rava ser a ditadura republicana a melhor forma de governo
çados. A prisão dos bispos foi considerada arbitrária pelos para as condições de seu tempo. Era contrário à República
católicos, obrigando o imperador a transformar a pena em liberal, que se baseia na ideia de soberania popular, cujo po-
prisão simples. der é exercido em nome do povo por meio de um mandato.
A ditadura republicana concebida por Comte implicava a
ideia de um governo de salvação no interesse do povo.

CHARGE COM A LEGENDA, “AFINAL... DEU A MÃO À PALMATÓRIA”.


BORDALLO PINHEIRO. 1875. OFICIAIS BRASILEIROS AO LADO DE UM CANHÃO (1886). MARC FERREZ.

120
Nos meios militares brasileiros, a ditadura republicana preco- O caso repercutiu em todo o Brasil. No Rio Grande do Sul, o
nizada por Comte adquiriu a forma da defesa de um Executi- tenente-coronel Sena Madureira atacou novamente o Minis-
vo forte e intervencionista, capaz de modernizar o país. Além tro da Guerra pela imprensa, o que provocou uma reunião de
disso, a atração dos militares brasileiros por essa ideologia oficiais gaúchos exigindo do Marechal Deodoro da Fonseca
pode ser explicada pelo fato de os positivistas defenderem mais autonomia para os militares que ocupavam os cargos de
a separação entre Igreja e Estado, a formação técnica e a comandante das armas e vice-presidente da província. Deodo-
ciência como meios de se promover o desenvolvimento da ro foi convocado pelo Ministro da Guerra a prestar esclareci-
nação. Assim, o positivismo apresentava uma fórmula de mentos no Rio de Janeiro.
modernização conservadora que era muito atraente para os
Na capital do Império, Deodoro foi festejado pelos mi-
militares do país. Contudo, a ideia republicana vencedora na
litares, que exigiam, pela imprensa, a revogação das
propaganda e no movimento republicano foi uma mistura
punições e da proibição das manifestações dos ofi-
das ideias de Comte e do liberalismo.
ciais. D. Pedro II não atendeu às exigências e demitiu o
Ministro da Guerra. Ainda assim, a oposição dos mili-
tares a seu governo não deixou de crescer.

4. A QUESTÃO SOCIAL: ABOLICIONISMO


No final da década de 1870, o movimento em prol da abo-
lição da escravidão cresceu significativamente no Brasil.
Foram fundados clubes e sociedades abolicionistas que
denunciavam as arbitrariedades da escravidão e colhiam
apoio da sociedade civil a favor da libertação dos escravos.
O movimento abolicionista atuava de diversas formas. Era
comum a realização de rifas e leilões, além do reconheci-
mento de doações para a compra de escravos e concessão
“AMOR COMO PRINCÍPIO, ORDEM COMO BASE E PROGRESSO COMO de alforria. Na imprensa e na literatura, intelectuais critica-
FIM”, AUGUSTE COMTE. ESSAS IDEIAS INSPIRARAM OS MILITARES vam a escravidão, lembrando a vergonha que era para o
QUE PROCLAMARAM A REPÚBLICA DO BRASIL EM 1889.
Brasil ser o único país americano livre a possuir escravos e
Os militares brasileiros não admitiam a subordinação a po- o atraso que isso representava. Caifazes atacavam fazen-
líticos civis. Por isso, entraram em atrito diversas vezes nas das para libertar os negros das senzalas e jangadeiros ce-
chamadas questões militares. A primeira delas ocorreu em arenses e ferroviários se recusavam a transportar escravos.
1883, quando o tenente-coronel Sena Madureira, criticou
Homens como André Rebouças, Luis Gama, José do Patro-
pela imprensa as reformas propostas pelo governo ao mon-
cínio e Joaquim Nabuco foram grandes expoentes sociais
tepio militar, uma espécie de aposentadoria dos oficiais. Insa-
na luta pela abolição da escravatura.
tisfeito, o Ministro da Guerra Carlos Afonso de Assis Figueire-
do proibiu militares de se manifestarem pela imprensa. É importante lembrar que muitos soldados que haviam
atuado na Guerra do Paraguai eram negros, e grande parte
Em 1884, Sena Madureira prestou uma homenagem na uni-
do Exército passou a defender abertamente a abolição, in-
dade que comandava, a Escola de Tiro de Campo Grande,
clusive prestando homenagens a integrantes do movimen-
no Rio de Janeiro, ao jangadeiro cearense Francisco José do
to abolicionista. De modo geral, militares se recusavam a
Nascimento, o Dragão do Mar, abolicionista que havia lide-
rado um grupo de jangadeiros que se recusaram a embarcar caçar escravos fugitivos, não aceitando o humilhante papel
escravos para os navios. O Ministro da Guerra demitiu o te- de capitão do mato.
nente-coronel e enviou-o para o Rio Grande do Sul. Os grandes proprietários rurais estavam divididos: enquan-
Em 1886, o coronel Cunha Matos percebeu irregularidades to uma parcela dos fazendeiros nordestinos e paulistas
na compra de fardamentos ao inspecionar um quartel no percebia a necessidade de adotar o trabalho livre em apoio
Piauí. Pediu o afastamento do comandante da unidade, ca- à abolição, representantes das lavouras mais tradicionais,
pitão Pedro José de Lima, e o caso foi parar na imprensa. O como os donos de velhos engenhos nordestinos e os ca-
coronel Cunha Matos foi acusado de perseguição política. feicultores do Vale do Paraíba, eram contrários à abolição.
Ao se defender pela imprensa sem a autorização do Minis- Eles temiam os prejuízos que teriam com a abolição da
tro da Guerra, Cunha Matos foi advertido e condenado a escravidão, pois perderiam o dinheiro que haviam aplicado
48 horas de prisão. na compra dos escravos e não tinham capital para investir

121
em projetos imigrantistas. Alguns fazendeiros até eram ca-
pazes de aceitar a libertação dos escravos, desde que fosse
gradativa e o Estado se encarregasse de indenizá-los.

multimídia: livros
O Abolicionismo - Joaquim Nabuco
Redigido em 1883, O Abolicionismo é um
clássico do pensamento político brasileiro.
Nele não há apenas uma defesa apaixonada
e engenhosa da libertação dos escravos, mas
um amplo programa de reforma da sociedade
imperial e uma corrosiva crítica de suas estru-
turas e instituições.

EMANCIPAÇÃO: UMA NUVEM QUE NÃO PARA DE CRESCER. ILUSTRAÇÃO


DE ÂNGELO AGOSTINI. CAPA DA REVISTA ILUSTRADA, JAN. 1880. Em 1871, foi assinada a Lei Visconde do Rio Branco, conhe-
cida como Lei do Ventre-Livre, que declarava livres os es-
4.1. As leis abolicionistas cravos nascidos a partir de setembro daquele ano. Os negros
recém-nascidos poderiam ficar com seus pais até completa-
As pressões internas e externas levaram o governo imperial rem oito anos, estando, portanto, sob a autoridade do se-
a assinar leis de caráter abolicionista, respondendo à de- nhor. Quando a criança atingisse tal idade, o senhor poderia
manda dos abolicionistas e aos interesses dos proprietários decidir se a libertaria a troco de uma indenização do Estado
escravistas. ou se usaria o trabalho do jovem até que completasse 21
anos, quando então seria libertado sem custos.
Apesar da repercussão inicial, a lei suscitou muitas críti-
cas; não alterava a estrutura da escravidão, beneficiando
apenas os senhores de escravos. Em resposta às críticas,
o governo decretou em 1885 a Lei Saraiva-Cotegipe, que
libertava os escravos com mais de sessenta e cinco anos de
idade, por isso chamada Lei dos Sexagenários. Depois
de muitas críticas, a idade foi reduzida para 60 anos.
multimídia: livros
A Abolição - Emília Viotti da Costa
Esta 8ª edição, revista e ampliada, do livro A
Abolição, da professora Emilia Viotti da Costa,
aborda o processo de luta pela abolição da
escravidão no Brasil e desmistifica a imagem
da abolição como doação da Princesa Isabel
em 1888 e não como exigência de um sistema
de produção. A autora relata os diversos mo-
mentos, personagens e aspectos do processo
abolicionista que libertou os brancos do fardo
REVISTA ILLUSTRADA. ILUSTRAÇÃO DE ÂNGELO AGOSTINI. CRÍTICA
da escravidão e abandonou os negros à sua ÀS MEDIDAS ABOLICIONISTAS, LEI DOS SEXAGENÁRIOS, QUE ADIAVAM
própria sorte. A SOLUÇÃO DEFINITIVA. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL.
DISPONÍVEL EM: <REVISTADEHISTORIA.COM.BR>.

122
A lei foi considerada desnecessária e alvo de severas e va-
riadas críticas. Dificilmente um escravo chegava a essa ida-
de e, se chegasse, provavelmente não teria mais condições
de trabalhar. Além disso, os escravos sexagenários teriam
de trabalhar de três a cinco anos para indenizar seu senhor.
Sem condições de manter a escravidão por mais tempo,
o governo imperial acabou extinguindo totalmente a es-
cravidão no Brasil no dia 13 de maio de 1888, quando a
princesa regente Isabel sancionou a Lei Áurea. multimídia: livros
Os Bestializados - José Murilo de Carvalho
Lei Áurea
1888: Abolição do trabalho escravo. 1889:
Declara extinta a escravidão no Brasil Proclamação da República. Neste livro, José
A princesa Imperial Regente, em nome de Sua majesta- Murilo de Carvalho convida-nos a revisitar o
de, o Imperial, o Senhor D. Pedro II, faz saber a todos os Rio de Janeiro em suas primeiras encenações
súditos do Império que a Assembleia Geral decretou e ela como Capital Federal. Cidade Maravilhosa, se
sancionou a lei seguinte: acrescentarmos ao belo, o terrível; ao cômico,
o trágico; à lógica, a loucura.
Art. 1o. É declarada extinta desde a data desta lei a escra-
vidão no Brasil.
Art. 2o. Revogam-se as disposições em contrário. 4.2. Consequências da abolição
Manda, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhe- A libertação dos escravos não foi acompanhada de políti-
cimento e execução da referida Lei pertencer, que a cum- cas públicas que garantissem a integração dos negros na
pram, e façam cumprir e guardar tão inteiramente como sociedade e no mercado de trabalho; não foi elaborado um
nela se contém. O secretário de Estado dos Negócios da programa de inserção dos negros que contemplasse edu-
Agricultura, Comércio e Obras Públicas e interino dos Ne- cação, saúde, terras ou empregos. Como foram deixados à
gócios Estrangeiros, Bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do sua própria sorte, os ex-escravos tiveram dificuldade em se
Conselho de Sua Majestade o Imperador, o faça imprimir, integrar ao mercado de trabalho.
publicar e correr. Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em
13 de maio de 1888, 67 o da Independência e do Império.
Princesa Imperial Regente. Rodrigo Augusto da Silva Carta
de lei, pela qual Vossa Alteza Imperial manda executar o
Decreto da Assembleia geral, que houve por bem sancio-
nar, declarando extinta a escravidão no Brasil, como nela
se declara. Para vossa Alteza Imperial ver. Chancelaria-mor
do Império – Antônio Ferreira Viana. Transitou em 13 de
maio de 1888. José Júlio de Albuquerque.
multimídia: livros
Da Senzala à Colônia - 5ª Ed. 2012 - Emília
Viotti da Costa
Neste livro fundamental, a autora demonstra
que a abolição dos escravos no Brasil repre-
sentou apenas uma etapa na liquidação da
estrutura colonial, mas golpeou duramente a
velha classe senhorial e coroou um processo
de transformações que se estendeu por toda
a primeira metade do século XIX.

No Sudeste, particularmente no Oeste Paulista, o trabalho


nas fazendas foi ocupado pelos imigrantes europeus, bem

123
como nas cidades, de acordo com a crença de que eles eram trabalhadores mais preparados para o trabalho industrial, o que
não era verdade, uma vez que a maioria dos imigrantes era proveniente de regiões rurais na Europa.
A abolição da escravidão não foi um golpe na economia do país. No entanto, os decadentes cafeicultores do Vale do Pa-
raíba e alguns grandes proprietários rurais que dependiam do trabalho escravo não perdoaram o governo. Reclamavam
especialmente da indenização que nunca existiu. Em represália, passaram a engrossar as fileiras do movimento republicano,
retirando seu apoio político ao Império e sendo conhecidos depois disso como “Republicanos do 13 de maio”, em alusão
a data da lei Áurea.

Em dezembro de 1870, foi publicado no Rio de Janeiro o


Manifesto Republicano, que defendia o federalismo em
oposição ao unitarismo que caracterizava o Império. Além
disso, os republicanos defendiam o fim do senado vitalício da
união Estado-Igreja. As ideias republicanas logo ganhariam
força nas províncias de São Paulo e do Rio Grande do Sul.
Depois da publicação do manifesto, foram fundados par-
tidos republicanos com expressão mais regional ou pro-
vincial, ao contrário dos partidos do Império, fortemente
unidos em âmbito nacional.
multimídia: música Em 1873, numa convenção na cidade de Itu, foi fundado o
Partido Republicano Paulista (PRP), que capitaneou a
100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão propaganda republicana e veio a ser o mais forte da cha-
– Beth Carvalho mada Primeira República, dominada pelos grandes cafei-
cultores do Oeste Paulista.

5. O MOVIMENTO REPUBLICANO
(1870-1889)
O crescimento do movimento abolicionista estava vincula-
do aos avanços das ideias e da organização do movimento
republicano. Vale lembrar que a classe mais prejudicada
pela abolição, os barões do café na província do Rio de
Janeiro e no Vale do Paraíba, constituiu, junto à decadente
aristocracia açucareira, a oligarquia dominante na política
do Segundo Reinado.
RETRATO DE BENJAMIN CONSTANT.
Os ideais republicanos não eram suficientemente represen- ÓLEO SOBRE TELA. 1890. DÉCIO VILLARES.

tativos para se impor como um movimento político na épo- À medida que aumentavam em número, os republicanos
ca da Independência e do período regencial, ao contrário dividiam-se em dois grupos: históricos (evolucionistas) e re-
do que ocorreu a partir da dissidência no interior do Partido volucionários. Os históricos, liderados por Quintino Bocaiuva,
Liberal, em 1868, quando surgiu um movimento capaz de estavam ligados aos cafeicultores paulistas e eram chama-
ganhar força política. dos de evolucionistas por pretenderem chegar à República

124
por meio de reformas graduais. Os revolucionários, ligados
às camadas médias urbanas, liderados por Silva Jardim, ad-
vogavam a luta armada de caráter popular para derrubar o
Império. As ideias de Silva Jardim eram tidas como radicais e
incomodavam a direção do Partido Republicano, interessada
na mudança pacífica sem pôr em risco os anseios da classe
dominante. Assim, no congresso realizado em São Paulo, em
maio de 1889, venceu a proposta de Bocaiuva.
O grupo militar, distanciado da agitação partidária, tinha
entre seus líderes o tenente-coronel Benjamin Constant,
professor da Escola Militar que, assim como inúmeros
militares, havia sido fortemente influenciados pelas ideias
positivistas.

6. A PROCLAMAÇÃO DA
REPÚBLICA (1889) PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA. HENRIQUE BERNARDELLI.
ACERVO DO MUSEU DA REPÚBLICA.
Sob o comando de D. Pedro II, o mais longo governo bra-
A relação do Trono com a Igreja também estava desgas-
sileiro enfrentava sérias dificuldades para manter a esta-
tada depois dos episódios envolvendo a Igreja, o Estado
bilidade, especialmente depois da Guerra do Paraguai, da
e a maçonaria.
qual os militares saíram fortalecidos e com maior consciên-
cia política. Além disso, a participação dos escravos naque- A condição de continuidade da monarquia parecia cada vez
le conflito contribuiu para mudar a visão de alguns milita- mais remota em razão da saúde do Imperador e da questão
res, que passaram a simpatizar com a causa abolicionista. de gênero da sucessora, a Princesa Isabel, a tal ponto que
O avanço dessas ideias comprometia muito a relação do o fim do Império foi, no dizer de alguns historiadores, uma
Imperador com os proprietários de escravos, que cobravam simples parada militar sem tentativas de reação.
uma atuação mais enérgica do Estado a fim de que não O ano de 1889 foi marcado por grandes agitações políticas
tivessem seus interesses econômicos contrariados. nos meios civis e militares brasileiros. O movimento republi-
cano crescia e ganhava mais adeptos a cada dia, enquanto
o Império fraquejava e D. Pedro II perdia bases políticas.
O desgaste da monarquia demandava reformas urgentes.
Para efetuá-las, foi nomeado um novo presidente para o
Conselho de Ministros, o Visconde de Ouro Preto.

multimídia: livros
1889 – Como Um Imperador Cansado, Um
Marechal Vaidoso e Um Professor Injustiçado...
- Laurentino Gomes
Nas últimas semanas de 1889, a tripulação
de um navio de guerra brasileiro ancorado
no porto de Colombo, capital do Ceilão multimídia: música
(atual Sri Lanka), foi pega de surpresa pelas
notícias alarmantes que chegavam do outro Hino da Proclamação da República – Me-
lado do mundo. O Brasil havia se tornado deiros e Albuquerque & Leopoldo Augusto
uma república. Miguez

125
Preto tinha ordenado a prisão do marechal Deodoro da
Fonseca e do tenente-coronel Benjamim Constant. Em res-
posta, vários militares aquartelaram-se, enquanto Deodoro
preparava uma reação. Liderando uma marcha iniciada na
madrugada do dia 15 de novembro, o marechal conduziu
seus homens ao Ministério da Guerra, onde se encontrava
o Visconde de Ouro Preto, para exigir sua renúncia e não
para derrubar a monarquia.
A marcha pela cidade do Rio de janeiro fez a população
pensar que se tratava de uma parada militar, reflexo da
multimídia: vídeo falta de participação popular no movimento, como resume
FONTE: YOUTUBE muito bem a famosa frase atribuída a Aristides Lobo: “E o
Proclamação da República | Nerdologia 190 povo assistiu bestializado...”.
Diante dos acontecimentos, o Visconde de Ouro Preto foi
deposto e a República proclamada em meio a gritos repe-
Afiliado ao Partido Liberal, ele era consciente da difícil situa- tidos dos militares que acompanhavam Deodoro: “Viva a
ção enfrentada pela monarquia e da necessidade de refor-
República!”. Ainda no dia 15 de novembro de 1889, a
mas políticas urgentes para evitar seu fim. Apresentou à Câ-
Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro se reuniu sob a
mara um projeto de reforma política cujas principais medidas
liderança de José do Patrocínio e lavrou a ata de Procla-
eram o fim do senado vitalício, a elaboração de um código
mação da República.
civil e a concessão de mais autonomia para as províncias.
D. Pedro II estava em Petrópolis e voltou imediatamente
Composto majoritariamente por membros do partido con-
servador, o Legislativo não aprovou as medidas. No dia 17 para o Rio de Janeiro, mas não conseguiu reverter a situ-
de julho de 1889, a Câmara foi dissolvida e novas eleições ação. A república já era um fato consumado e o Segundo
legislativas foram convocadas. O impasse aumentou a turbu- Reinado chegava ao fim.
lência política no país e levou os republicanos militares e civis
a tramarem um golpe de Estado para derrubar D. Pedro II.

multimídia: livros
Essa Tal Proclamação da República - Edison
multimídia: livros Veiga
A Proclamação da Republica - Descobrindo o A República foi proclamada em 15 de novem-
Brasil - Celso Castro bro de 1889. Porém, você sabe o que aconteceu
15 de novembro de 1889: um grupo de mi- meses antes do fim do Império? Com linguagem
litares derruba a Monarquia e “proclama” a irreverente, o autor revela os fatos que antece-
República no Brasil. Nesse livro, o autor acom- deram a expulsão de dom Pedro II e da família
panha passo a passo o golpe republicano e imperial – como a ascensão da cafeicultura, a
retrata seus protagonistas, desvendando os promulgação da Lei Áurea, a Guerra do Para-
motivos que os levaram à conspiração e nar- guai, o baile da Ilha Fiscal, a briga entre a maço-
rando como se forjou um dos momentos mais naria e a Igreja Católica, a revolta dos militares
importantes da história brasileira. –, apresenta os personagens que participaram
da queda da Monarquia, faz um panorama da
sociedade brasileira do século XIX e conta a his-
No dia 14 de novembro, o major Sólon Ribeiro plantou tória dos hinos e da bandeira nacional.
nos meios militares o boato de que o Visconde de Ouro

126
O golpe republicano em 1889 foi resultado da conjugação de interesses convergentes entre cafeicultores, classe média e milita-
res, oportunidade em que, mais uma vez, a maioria da população esteve alijada do processo político do país.

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA. 1893. ÓLEO SOBRE TELA. BENEDITO CALIXTO (1853-1927). ACERVO DA PINACOTECA MUNICIPAL DE SÃO PAULO.

multimídia: música
multimídia: música
Hino à Bandeira – Olavo Bilac & Francisco Braga
Os Cinco Bailes da História do Rio – d. Ivone
Lara

multimídia: música
multimídia: vídeo Liberdade, Liberdade, Abre as Asas Sobre
FONTE: YOUTUBE Nós – Imperatriz Leopoldinense (samba-en-
Proclamação da República #1 redo 1989)

127
multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE

La Cecilia, une commune anarchiste au Brèsil


Este filme de Jean-Louis Comolli, lançado em
1975, já está disponível em DVD. “O Cecilia, no
final do século 19, os anarquistas italianos, dez ho-
mens, uma mulher, libertário, coletivista, emigrou
para o Brasil para iniciar uma comunidade sem
liderança, sem hierarquia, sem patrões, sem polí-
cia, mas não sem conflitos, ou paixão. Esta utopia
ontem convocou alguns dos temas candentes da
atualidade: o de uma organização não-repressivo,
o da libertação das mulheres ea luta contra a uni-
dade familiar ... “Jean-Louis Comolli

multimídia: sites
www.ahistoria.com.br/crise-do-impe-
rio-1870-1889/
www.colegioweb.com.br/segundo-reina-
do-governo-de-d-pedro-1840-1889/a-
queda-do-imperio.html
alunosonline.uol.com.br/historia-do-brasil/
leis-abolicionistas-no-imperio.html
educacao.uol.com.br/disciplinas/histo-
ria-brasil/questao-religiosa-igreja-e-esta-
do-entram-em-conflito.htm

128
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

O fortalecimento das ideias republicanas e do positivismo de Augusto Comte foram determinantes para a derrocada
do Segundo Reinado e para a Proclamação da República. Essas ideologias ganharam espaço na jovem oficialidade
do exército brasileiro e, somadas às ideias abolicionistas adquiridas pelos militares depois da Guerra do Paraguai,
pressionaram o monarca D. Pedro II até sua queda, em 1889.

(CARICATURA DE D. PEDRO II ILUSTRADA NA REVISTA ILUSTRADA, REPRESENTANDO UM LÍDER VELHO, CANSADO E DESATENTO AO MOMENTO POLÍTICO NACIONAL)

É importante destacar que a abolição, apesar de extinguir oficialmente a escravidão (1888), não acabou com o sofri-
mento dos negros no Brasil, pois não houve nenhuma ação do governo para integrar os negros como cidadãos. Essa
camada da sociedade vive até os dias atuais as consequências dessa marginalização sofrida no início da República.
Também é possível analisar a produção literária da época, em autores como: Castro Alves atacando a instituição
escravista; Machado de Assis relatando suas observações de uma sociedade racista; José de Alencar defendendo a
manutenção do escravismo.

(RARA FOTOGRAFIA DO MOMENTO APÓS A ASSINATURA DA LEI ÁUREA (13 DE MAIO DE 1888), NA QUAL É POSSÍVEL OBSERVAR A PRINCESA ISABEL AO CENTRO)

129
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
11 Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço.

Fundamentais à historiografia, as fontes históricas assumem diversas formas, como relatos históricos ou obras lite-
rárias – que, por muitas vezes, podem se confundir. O Enem, ciente disso, exige dos estudantes algo além de uma
simples memorização dos eventos históricos, como a capacidade de interpretar registros escritos em tempos preté-
ritos. A Habilidade 11 requer a capacidade de interpretação de texto e a sua devida associação ao período histórico.

Modelo
(Enem) O texto abaixo foi extraído de uma crônica de Machado de Assis e refere-se ao trabalho de um escravo.

“Um dia começou a Guerra do Paraguai e durou cinco anos, João repicava e dobrava, dobrava e repicava pelos mor-
tos e pelas vitórias. Quando se decretou o ventre livre dos escravos, João é que repicou. Quando se fez a abolição
completa, quem repicou foi João. Um dia proclamou-se a república. João repicou por ela, repicaria pelo Império, se o
Império retornasse.”
(ASSIS, MACHADO DE. “CRÔNICA SOBRE A MORTE DO ESCRAVO JOÃO”, 1897.)

A leitura do texto permite afirmar que o sineiro João:


a) por ser escravo tocava os sinos, às escondidas, quando ocorriam fatos ligados à Abolição;
b) não poderia tocar os sinos pelo retorno do Império, visto que era escravo;
c) tocou os sinos pela República, proclamada pelos abolicionistas que vieram libertá-lo;
d) tocava os sinos quando ocorriam fatos marcantes, porque era costume fazê-lo;
e) tocou os sinos pelo retorno do Império, comemorando a volta da princesa Isabel.

Análise expositiva - Habilidade 11: A narrativa enfatiza a atividade rotineira do escravo João, encarregado
D de tocar o sino sempre que algum acontecimento importante ocorria no país. Ao apresentá-lo como personagem
apático e desinteressado quanto à relevância política que este ou aquele acontecimento poderia apresentar para
alterar a sua condição de escravo, Machado de Assis expõe, ironicamente, a falta de participação do povo bra-
sileiro nos eventos históricos que o afetam diretamente. Ou seja, o sineiro João tocava os sinos quando ocorriam
fatos marcantes apenas porque era costume fazê-lo.
Alternativa D

130
DIAGRAMA DE IDEIAS

CRISE DO IMPÉRIO

• PADROADO E BENEPLÁCITO (1824)


QUESTÃO RELIGIOSA
• BULLA SYLLABUS (1864)
D. PEDRO II APOIA PADRE
MAÇOM E PERDE APOIO DA IGREJA

• FORTALECIMENTO DO EXÉRCITO
QUESTÃO MILITAR • IDEOLOGIA PROGRESSISTA (POSITIVISMO)
TENSÕES ENTRE • PENSAMENTO REPUBLICANO
MILITARES E O GOVERNO • PENSAMENTO ABOLICIONISTA (EX-ESCRAVOS NO EXÉRCITO)

ABOLIÇÃO • FORÇA DO MOVIMENTO ABOLICIONISTA


(EXÉRCITO E CAMADAS URBANAS)
LEIS: • FUGA DE ESCRAVOS DAS FAZENDAS
1845 - BILL ABERDEEN • OESTE PAULISTA - MÃO DE OBRA LIVRE
1850 - EUSÉBIO DE QUEIROZ • VALE DO PARAÍBA - BARÕES DO CAFÉ QUEREM INDENIZAÇÃO
1871 - LEI DO VENTRE LIVRE * NÃO HÁ POLÍTICA DE AUXÍLIO AOS LIBERTOS
1885 - LEI DOS SEXAGENÁRIOS
1888 - LEI ÁUREA

• 1870 - MANIFESTO REPUBLICANO


MOVIMENTO
• FORÇA EM SP, RJ E RS
REPUBLICANO
• MUDANÇA POLÍTICA SEM AFETAR ELITE
(1870-1889)
• 1873 - CRIAÇÃO DO PARTIDO REPUBLICANO PAULISTA (PRP

• ALIANÇA ENTRE CAFEICULTORES, CLASSE MÉDIA E MILITARES


PROCLAMAÇÃO
• SEM PARTICIPAÇÃO POPULAR
DA REPÚBLICA
• SEM MUDANÇAS ESTRUTURAIS
(1889)
• PROCLAMADA PELO MARECHAL DEODORO DA FONSECA

131
AULAS REPÚBLICA DA ESPADA
25 E 26
1, 9, 11, 13, 14, 15, 18,
COMPETÊNCIAS: 1, 2, 3, 4 e 5 HABILIDADES:
22 e 24

1. INTRODUÇÃO Apesar da grande instabilidade política e da ocorrência de


alguns motins, inclusive militares, o período foi marcado
Nas próximas aulas será estudada a Primeira República no pela consolidação do regime republicano, do qual foram
Brasil, tradicionalmente conhecida como República Ve- afastados os últimos resquícios monarquistas e seus dese-
lha (1889–1930). jos de reação.
A história da República brasileira é marcada por golpes, rup-
turas e permanências sem nenhuma ou com pouquíssima
participação popular direta. Os primeiros anos da República,
2. GOVERNO PROVISÓRIO
que chegaram carregados de expectativas por parte dos seg- (1889–1891)
mentos menos favorecidos da população, foram marcados
por decepções, especialmente pelo projeto da Constituição
de 1891, que excluía a grande maioria da população do di-
reito ao voto, ou seja, do exercício da cidadania. O próprio
equilíbrio entre os poderes proposto naquele projeto durou
pouco, uma vez que Deodoro da Fonseca, cujos interesses
centralizadores encontravam resistência no Congresso, de
maioria civil e de ideais federalistas, optou pelo fechamento
do poder Legislativo, numa clara atitude golpista.
Embora a atuação popular pelo voto fosse limitada, a Re-
pública Velha presenciou diversos movimentos sociais que,
de alguma forma, representavam uma reação ao latifún- PRIMEIRA BANDEIRA REPUBLICANA, CRIADA POR RUI BARBOSA.
VIGOROU ENTRE 15 E 19 DE NOVEMBRO DE 1889.
dio, à miséria e à repressão política das oligarquias domi-
nantes, como nos movimentos messiânicos de Canudos e Proclamada a República em 1889, iniciou-se um governo
do Contestado. provisório, com um ministério formado por republicanos
históricos, positivistas e militares, mas não por revolucio-
nários. Compunham o ministério: Rui Barbosa (Fazenda),
almirante Eduardo Wandenkolk (Marinha), tenente-coro-
nel Benjamin Constant (Guerra), Demétrio Nunes Ribeiro
(Agricultura), Campos Sales (Justiça), Quintino Bocaiuva
(Relações Exteriores) e Aristides Lobo (Interior).
As primeiras medidas do Governo Provisório foram os decre-
tos de implantação do regime republicano e o banimento da
família imperial, publicados no Diário Oficial no dia seguinte
à Proclamação. Ao receber a notícia de que teria de deixar
o Brasil em 24 horas, D. Pedro II não resistiu e embarcou
multimídia: vídeo com sua família para a Europa. O embarque sem resistência
FONTE: YOUTUBE frustrou os monarquistas que imaginavam poder reverter a
PANORAMA DA REPÚBLICA DA ESPADA situação, especialmente na Bahia, onde a proposta de resis-
tência previa até mesmo a separação da Província.
Como os dois primeiros presidentes brasileiros eram milita- As câmaras municipais e assembleias legislativas provinciais
res, convencionou-se chamar o período de República da foram dissolvidas e seus presidentes destituídos. As provín-
Espada (1889–1894). cias foram transformadas em estados. Foram nomeados

132
interventores para governá-los. Adotaram-se também as
seguintes medidas. ƒ Amarelo – a partir de 1250, após a conquis-
ta da região do Algarve, o amarelo passou a
ƒ A naturalização em massa de estrangeiros residentes no
figurar no brasão de armas de Portugal. Essa
Brasil, que residiam no Brasil no dia 15 de novembro de
cor também representava os castelos con-
1889 e que não declarassem, no período de seis meses
quistados dos mouros.
depois de entrar em vigor a Constituição, o desejo de
ƒ Azul e branco – muitos donatários de ca-
conservar a nacionalidade de origem.
pitanias hereditárias usavam a combinação
ƒ A separação entre Estado e Igreja. para representar seu território.
ƒ A administração de cemitérios pelas prefeituras. ƒ Estrelas – presentes na bandeira, nas armas
e nos selos nacionais. As constelações re-
ƒ O catolicismo deixou de ser a religião oficial no Brasil,
presentam os Estados brasileiros e o Distrito
que oficializou o livre culto de crenças religiosas.
Federal e retratam o céu carioca no dia da
ƒ A criação do registro civil para nascimento e falecimen- Proclamação da República.
to das pessoas. ƒ Ordem e Progresso – trata-se da redução
de um lema positivista do filósofo francês
ƒ A instituição do casamento civil.
Auguste Comte (1798–1857), que proclama:
ƒ A criação da bandeira da República, mantendo-se as “O amor por princípio e a ordem por base, o
cores da bandeira do Império. progresso por fim”.
ƒ A mudança do nome do país para República dos Estados DISPONÍVEL EM: <REVISTAESCOLA.ABRIL.COM.
BR>. ACESSO EM: 7 MAR. 2015.
Unidos do Brasil, francamente federalista.
ƒ A reforma financeira de Rui Barbosa (Encilhamento).
É interessante observar que a própria bandeira da Repú-
ƒ A promulgação da Constituição de 1891.
blica está simbolicamente marcada por continuidades e
descontinuidades históricas, trazendo até o presente uma
Quando foi criada a bandeira nacional e o que série de superposições conflitantes.
significam suas cores?
2.1. A Constituição de 1891

Ainda não se parecia com a atual, a primeira bandei-


ra brasileira foi criada em 19 de setembro de 1822
por decreto de D. Pedro I (1798–1834). Mas foi em
1889, com a Proclamação da República, que as armas
do Império foram substituídas pela esfera azul, em-
blema republicano. O losango amarelo, considerado
único entre as bandeiras nacionais, foi concebido pelo
pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768–1848), fun-
dador da Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro.
Muito além da associação com o verde das matas e o
CONSTITUIÇÃO DE 1891.
amarelo do ouro, as cores da bandeira têm profundo
significado histórico. Em 3 de dezembro de 1889, o Governo Provisório nomeou
ƒ Verde – escolhido por dom Pedro I como uma comissão para elaborar o projeto da Constituição
a cor do Império. Foi o tom da bandeira de republicana, a ser submetido ao futuro Congresso Consti-
várias batalhas portuguesas na Europa, uma tuinte. Foram elaborados três projetos, finalmente fundidos
forte associação com as lutas libertárias. em um, que foi entregue ao governo em maio de 1890.
ƒ Rui Barbosa foi o responsável pela redação final do projeto.

133
Em setembro de 1890, foi eleito o Congresso Constituinte, Governo Provisório tentou realizar uma reforma financeira
que discutiu, emendou, votou e aprovou a primeira Cons- com o objetivo de desenvolver a industrialização do Brasil,
tituição Republicana, em 24 de fevereiro de 1891, cujo reduzir a dependência em relação ao capital estrangeiro e
modelo foi a Constituição norte-americana. Propunha para aumentar o meio circulante – quantidade de moeda em
o Brasil uma república federativa, presidencialista e libe- circulação no país. À época, ela era incompatível com as
ral. O princípio federativo, defendido desde o Império por novas realidades do trabalho assalariado e do ingresso em
grupos exaltados e republicanos e incorporado ao primeiro massa de imigrantes no mercado de trabalho.
decreto do Governo Provisório, foi finalmente consagrado
na Constituição, garantindo ampla autonomia aos estados,
que passariam a:
ƒ ter sua própria Constituição;
ƒ eleger seus governadores;
ƒ criar orçamentos e impostos votados pelas assembleias
estaduais;
ƒ contrair empréstimos no exterior; e
ƒ organizar forças militares próprias.
À União caberia cobrar os impostos de importação, criar
bancos emissores de moeda, organizar as forças armadas
nacionais e intervir nos estados para restabelecer a ordem
a fim de que se mantivesse a forma republicana federativa.
A Constituição estabeleceu os três poderes – Execu-
tivo, Legislativo e Judiciário – “harmônicos e inde-
pendentes entre si”. O Poder Executivo seria exercido por
um presidente da República, eleito por um período de RUI BARBOSA
quatro anos. Como no Império, o Legislativo foi dividido Para conseguir realizar seus objetivos, o Governo adotou
em Câmara dos Deputados e Senado, mas os senadores uma política de emissão monetária para garantir a circu-
deixaram de ser vitalícios. Os deputados seriam eleitos lação monetária e o pagamento dos operários, bem como
nos estados em número proporcional ao de seus habi- para facilitar a concessão de créditos para a criação de
tantes, por um período de três anos. Os senadores teriam empresas. As tarifas alfandegárias foram elevadas e a en-
um mandato de nove anos, com três representantes por trada de matérias-primas no país foi facilitada.
estado e três do Distrito Federal, capital da República.
O crédito e a emissão de dinheiro, que também foram
Para as eleições, fixou-se o sistema de voto direto e universal
realizados por bancos privados, levaram a uma especu-
masculino e suprimiu-se o censo econômico (voto censitá-
lação financeira desmedida. Empresas fantasmas ven-
rio). Foram considerados eleitores todos os cidadãos brasilei-
diam desenfreadamente ações na bolsa de valores. Da
ros maiores de 21 anos, com exceção dos analfabetos, men-
noite para o dia, especuladores acumularam grandes
digos, praças militares e religiosos de ordens monásticas.
fortunas explorando o dinheiro de pessoas ludibriadas.
Essa nova Constituição apresentava um caráter liberal que
não foi posto em prática pelas oligarquias rurais, que con-
tinuavam cometendo uma série de práticas fraudulentas e
opressivas contra a população. A Constituição de 1891 era
a expressão de uma República que, proclamada em 1889,
não havia alterado a estrutura socioeconômica do Brasil,
mas preservara o poder das oligarquias. Assim, apesar da
adoção do sufrágio universal masculino, a maioria da po-
pulação permaneceu à margem da vida política e do pleno
exercício da cidadania.
CHARGE DE PEREIRA NETO, PUBLICADA NA REVISTA ILUSTRADA EM DEZEMBRO DE
1890, SATIRIZA A ESPECULAÇÃO FINANCEIRA CAUSADA PELO ENCILHAMENTO.
2.2. A crise do Encilhamento A vultosa emissão monetária que desvalorizava cons-
Ocupado por Rui Barbosa, o Ministério da Fazenda do tantemente o mil-réis provocou uma crise inflacionária

134
que refletia diretamente no aumento do custo de vida Wandenkolk (vice); a outra, pelo cafeicultor Prudente de
da população e na alta constante dos preços, ao mesmo Moraes e o Marechal Floriano Peixoto (vice).
tempo em que prejudicava as empresas que importa-
Havia uma clara tendência no Congresso para a escolha de
vam produtos e matérias-primas, levando-as à falência
Prudente de Moraes. Contudo, a forte pressão dos militares
e aumentando o desemprego.
sobre os parlamentares poderia levar a não aceitação de
Na tentativa de socorrer empresas falidas e compensar a um presidente civil.
especulação financeira na bolsa de valores, o Governo au-
Devido à pressão, Marechal Deodoro foi eleito com pequena
mentou ainda mais a emissão monetária, aprofundando a
diferença de votos. No entanto, o vice escolhido foi o ma-
espiral inflacionária. A especulação e a inflação descontro-
rechal Floriano Peixoto, da chapa oposicionista, com mais
ladas deixaram clara a falência da política econômica de
votos do que o próprio Deodoro da Fonseca. Isso foi possível
Rui Barbosa, que ficou conhecida como Encilhamento.
devido ao fato de a eleição ser realizada com chapa aberta,
Essa desvalorização monetária favoreceu inicialmente os ou seja, os eleitores podiam votar no presidente e no vice de
cafeicultores, que produziam gastando em mil-réis e ven- chapas diferentes.
diam em moeda estrangeira valorizada. Entretanto, a ins-
tabilidade econômica prejudicava seus negócios internos
e a proteção dada à indústria desagradava-lhes, posicio- 3. GOVERNO DE DEODORO
nando-os contra a política financeira do Governo Provisó-
rio. Os importadores também exigiam estabilidade cam-
DA FONSECA (1891)
bial, uma vez que, com as constantes desvalorizações da O primeiro presidente brasileiro, ex-chefe do Governo Pro-
moeda nacional, as importações ficavam cada vez mais visório, foi eleito indiretamente, a contragosto de um Con-
caras e o mercado consumidor de produtos importados gresso pressionado pelo Exército, que evitou o uso da força
decrescia aceleradamente. e as divergências entre o Executivo e o Legislativo.
Alvo de muitas críticas, especialmente pelo autoritarismo,
centralismo e pelas acusações de corrupção que envolviam
membros do governo, Deodoro também era apontado
como responsável direto pela crise econômica e pela infla-
ção herdadas do Encilhamento.

multimídia: vídeo
FONTE: YOUTUBE

Policarpo Quaresma - Herói do Brasil


Policarpo Quaresma, herói do Brasil é um filme
brasileiro de 1998 dirigido por Paulo Thiago, base-
ado na obra Triste Fim de Policarpo Quaresma, de
Lima Barreto, adaptado por Alcione Araújo.
DEODORO DA FONSECA

Sem o apoio da maioria do Legislativo, indispensável para a


administração pública, Deodoro dissolveu o Congresso no
2.3. As eleições indiretas e a início de novembro de 1891 e decretou estado de sítio para
escolha do primeiro presidente fortalecer o poder Executivo, medida apoiada por todos os
Como determinava a Constituição de 1891, a Assembleia presidentes de províncias, exceto por Lauro Sodré, do Pará.
Constituinte transformou-se em Congresso Nacional, que Contestado por membros da Marinha, o estado de sítio
teve de escolher o primeiro presidente e o vice. Duas cha- levou-os a organizarem uma revolta – Primeira Revolta
pas foram inscritas para a eleição: uma encabeçada pelo da Armada –, liderada pelo contra-almirante Custódio
Marechal Deodoro da Fonseca e o Almirante Eduardo de Melo, que obteve apoio de Eduardo Wandenkolk e do

135
vice-presidente Floriano Peixoto. Navios de guerra foram indústria, como a isenção de impostos para a importação
posicionados na Baía da Guanabara, com seus canhões de máquinas, a concessão de empréstimos e financiamen-
apontados para a cidade, e foi enviada uma mensagem ao tos e a adoção de tarifas alfandegárias protecionistas, que
presidente Deodoro: se não renunciasse à presidência, o elevariam os preços dos produtos importados e incentiva-
Rio de Janeiro seria bombardeado pela Armada. riam o consumo dos produtos nacionais.
A situação tornou-se insustentável para o presidente, que Floriano Peixoto adotou também medidas de grande al-
preferiu renunciar ao cargo em 23 de novembro de 1891. cance popular, como o tabelamento de preços de aluguéis
A presidência da República foi assumida pelo vice-presi- e alimentos. O presidente contava com o apoio de setores
dente, o Marechal Floriano Peixoto. militares e das oligarquias agrárias.
Não obstante, o mandato de Floriano sofria contestações
em virtude do artigo 42 da Constituição de 1891, que esta-
belecia mandato presidencial de quatro anos e a assunção
do vice-presidente caso o presidente não pudesse concluir
seu mandato e caso já tivesse decorrido mais da metade
de seu mandato; se faltassem mais de dois anos para que
se completasse o mandato, o vice-presidente deveria con-
vocar novas eleições.
A primeira contestação à permanência de Floriano Peixoto
na presidência foi um manifesto assinado por 13 generais,
tornado público em abril de 1892, que exigia o cumpri-
multimídia: música mento da Constituição de 1891 e a convocação de elei-
ções presidenciais, uma vez que Deodoro renunciara com
Sessenta e um Anos de República – Império menos de um ano de mandato.
Serrano (samba-enredo 1951)
A resposta do “Marechal de Ferro” foi a exoneração, o
afastamento e até a determinação da prisão de alguns
desses generais. Floriano alegava que o artigo em ques-

4. GOVERNO FLORIANO
tão deveria valer somente para o próximo presidente a
ser eleito pelo voto direto, uma vez que sua escolha e a

PEIXOTO (1891–1894) de Deodoro haviam sido feitas pelo Congresso, de acordo


com as disposições transitórias da Constituição de 1891.
Assim que assumiu a presidência da República, Floriano
Peixoto determinou a reabertura do Congresso Nacional, 4.1. A Segunda Revolta da
suspendeu o estado de sítio e destituiu todos os presidentes
dos estados que apoiaram o golpe de Deodoro da Fonseca.
Armada (1893–1894)
Outra contestação à continuidade de Floriano Peixoto na
presidência da República constituiu a Segunda Revolta da
Armada (1893–1895), liderada pelo contra-almirante Cus-
tódio de Melo, que exigia a convocação de eleições presi-
denciais, para as quais ele desejava se candidatar.
Assim como haviam feito com Deodoro, o contra-almirante
Custódio de Melo estacionou navios de guerra na Baía de
Guanabara e ameaçou bombardear o Rio de Janeiro caso
Floriano não renunciasse. A resposta do “Marechal de Fer-
ro” foi diferente da de seu antecessor: decretou estado de
sítio e ordenou o deslocamento de tropas do Exército para
o litoral para combater os rebeldes e defender a cidade.
Os combates foram intensos, e os revoltosos decidiram se
retirar da Baía de Guanabara, rumando em direção ao Sul
FLORIANO PEIXOTO
do país, onde se encontraram, à altura de Santa Catarina,
Para aliviar os efeitos da crise econômica que o país atra- com membros da Revolução Federalista que vinham do Rio
vessava, o novo presidente adotou medidas de incentivo à Grande do Sul.

136
Com uma esquadra formada de velhos navios adquiridos de Castilhos. Partiram da fronteira com o Uruguai e con-
nos Estados Unidos e Inglaterra e adaptados para o com- tavam com grande número de uruguaios em suas tropas,
bate, Floriano iniciou em março de 1894 a ofensiva final. razão pela qual passaram a ser chamados de “maragatos”,
Centenas de rebeldes, muitos deles vitimados pelo beribéri, ou seja, estrangeiros.
abandonaram as armas e pediram asilo político em navios
portugueses ancorados no Rio de Janeiro.

MARECHAL FLORIANO PEIXOTO E A REVOLTA DA ARMADA. BICO DE


PENA. ANGELO AGOSTINI. REVISTA D. QUIXOTE, 29 JUN. 1895.

JÚLIO DE CASTILHOS, FUNDADOR E LÍDER DO PARTIDO


REPUBLICANO RIO-GRANDENSE.
4.2. Revolução Federalista
Os combates foram intensos e violentos, com relatos de
(Rio Grande do Sul, 1893–1895) atrocidades praticadas pelos dois lados. Com o apoio do
O poder político no Rio Grande do Sul era controlado pelo Governo federal, as tropas castilhistas derrotaram os federa-
Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), liderado por Jú- listas, apesar de ainda restarem alguns focos de resistência.
lio de Castilhos, o presidente do estado. Os membros do Ainda sob a liderança de Gumercindo Saraiva, os federalistas
partido eram chamados “castilhistas” ou “pica-paus”, em atribuíram sua derrota ao apoio dado por Floriano Peixoto
virtude das fardas azuis e quepes vermelhos de suas tropas. aos castilhistas e resolveram marchar em direção ao Rio de
Como a Constituição gaúcha permitia reeleições ilimitadas Janeiro com o intuito de derrubar o presidente da República.
para presidente do estado, Júlio de Castilhos usava a má-
quina pública estadual para se reeleger indefinidamente. Quando os rebeldes gaúchos encontraram-se com os revol-
tosos da Armada, resolveram se unir na luta contra Floriano
A oposição aos castilhistas era liderada pelo Partido Fede- Peixoto. Dominaram a cidade de Desterro (atual Florianópo-
ralista, que exigia alterações na Constituição gaúcha que
lis), a capital de Santa Catarina, e se dirigiram para o Paraná,
impedissem a reeleição para presidente do estado.
onde Custodio de Melo e Gumercindo Saraiva planejaram a
tomada da cidade de Lapa, que conseguiu resistir.
O almirante Saldanha da Gama aderiu à revolta e com ele
grande parte de marinheiros, que colocaram mais navios
à disposição dos rebeldes. Para combatê-los, Floriano ad-
quiriu navios de guerra junto aos EUA e à Inglaterra, muito
caros e em péssimo estado de conservação, o que lhes ren-
deu apelido de “Esquadra de Papelão”.
As tropas federais e a nova (velha) esquadra conseguiram
derrotar os rebeldes, que tentaram fugir ou pediram asilo po-
lítico a Portugal, o qual foi concedido. Em represália, Floriano
multimídia: vídeo Peixoto rompeu relações diplomáticas com os portugueses.
FONTE: YOUTUBE
Contrariando temores de que continuaria por meio da for-
Guerra da Degola’, resistência no Sul à
ça na presidência da república, Floriano Peixoto convocou
Proclamação da República
eleições para o seu sucessor no prazo legal e passou regu-
larmente a faixa presidencial para Prudente de Morais, que
No início de 1893, os federalistas, liderados por Gumercin- venceu as eleições, garantindo a ascensão dos cafeiculto-
do Saraiva, pegaram em armas para tentar derrubar Júlio res ao comando do poder federal.

137
Essas revoltas ocorridas no início do período republicano
deixaram claro que a chamada “Proclamação da Repúbli-
ca” foi um golpe comandado por alguns setores militares
e civis que excluiu do processo significativos segmentos da
sociedade.

multimídia: livros
Triste fim de Policarpo Quaresma - Lima de
Barreto
Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-
1922), filho de um tipógrafo da Imprensa Na-
cional e de uma professora pública, era mesti-
ço e foi iniciado nos estudos pela própria mãe.
multimídia: sites Ainda estudante, começou a publicar seus tex-
tos em pequenos jornais e revistas estudantis,
www.planalto.gov.br/ccivil_03/consti-
incrementando mais tarde sua militância na
tuicao/constituicao91.htm imprensa, lutando contra as injustiças sociais
educacao.uol.com.br/disciplinas/histo- e os preconceitos de raça, de que ele próprio
ria-brasil/encilhamento-politica-eco- era vítima.
nomica-tentou-impulsionar-a-industri- Publicado inicialmente em folhetins no ano
alizacao.htm de 1911, Triste fim de Policarpo Quaresma é
www.historiadobrasil.net/resumos/re- um romance do período do pré-modernismo
volta_armada.htm brasileiro.
www.todamateria.com.br/revolucao-
federalista/

138
CONEXÃO ENTRE DISCIPLINAS

Em 1891, foi promulgada a primeira Constituição da República, que era mais includente do que a Constituição de
1824, pois acabava com o critério censitário do voto. Entretanto, não significava que a Carta de 1891 ampliaria
muito o conceito de cidadania, pois o voto continuava restrito somente aos homens com mais de 21 anos e alfabe-
tizados. Isso excluía as mulheres e boa parte dos homens, pois os alfabetizados no Brasil compunham um número
pouco significante.

(CAPA DA PRIMEIRA EDIÇÃO DA CONSTITUIÇÃO DE 1891, A PRIMEIRA DO PERÍODO REPUBLICANO E QUE EXTINGUIU O VOTO CENSITÁRIO E O PODER MODERADOR)

139
ÁREAS DE CONHECIMENTO DO ENEM

Habilidade
2 Analisar a produção da memória pelas sociedades humanas.

A produção da memória pelas sociedades humanas, principalmente no Ocidente, é em boa parte constituída pela
construção de uma narrativa histórica. Em geral, trata-se da escrita de uma história nacional que nem sempre busca a
objetividade e a atenção aos documentos históricos. Isso ocorre devido ao fato de a construção de uma memória nacio-
nal ser fruto de disputas entre diversos grupos políticos, que tendem a valorizar-se e a atacar os respectivos adversários.
A Habilidade 2 exige essa percepção dos candidatos. Eles devem ser capazes de compreender as motivações e os
resultados da produção das narrativas históricas. O aluno normalmente vai se deparar com um texto ou imagem de
base para analisar, refletir e assinalar a alternativa correta.

Modelo
(Enem) O instituto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos Inconfi-
dentes, e colocou os seus parceiros a meia ração de glória. Merecem, decerto, a nossa estima aqueles outros; eram
patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecadores de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada
a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nele, o enforcado, o esquartejado, o decapita-
do, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.
ASSIS, M. GAZETA DE NOTÍCIAS, N. 114, 24 ABR. 1892.

No processo de transição para a República, a narrativa machadiana sobre a Inconfidência Mineira associa:
a) redenção cristã e cultura cívica;
b) veneração aos santos e radicalismo militar;
c) apologia aos protestantes e culto ufanista;
d) tradição messiânica e tendência regionalista;
e) representação eclesiástica e dogmatismo ideológico.

Análise expositiva - Habilidade 2: Os agentes proclamadores da República buscaram forjar novos heróis na-
A cionais para legitimar o novo regime. Dentre os heróis escolhidos estava Tiradentes, cuja figura, para ser exaltada,
foi aproximada da imagem crística e colocada como defensora da soberania nacional.
Alternativa A

140
DIAGRAMA DE IDEIAS

REPÚBLICA DA ESPADA
1889 (PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA) / 1894 (ELEIÇÕES DIRETAS)

CARACTERÍSTICAS

• CONSOLIDAÇÃO DO REGIME REPUBLICANO


• MILITARES NO PODER

GOVERNO PROVISÓRIO
(1889-1891)
• LIBERAL
• PRINCÍPIO FEDERATIVO CONSTITUIÇÃO
• 3 PODERES DE 1891
(EXECUTIVO, LEGISLATIVO E JUDICIÁRIO) • INTERVENÇÃO NOS ESTADOS
• PRESIDENCIALISTA • EXPULSÃO DA FAMÍLIA REAL DO BRASIL
• ESTADO LAICO • REFORMA FINANCEIRA (ENCILHAMENTO)
• VOTO DIRETO, ABERTO E PARA HOMENS • MUDA O NOME DO PAÍS
BRASILEIROS, ALFABETIZADOS, (ESTADOS UNIDOS DO BRASIL)
MAIORES DE 21 ANOS • ELEIÇÃO DE ASSEMBLEIA CONSTITUINTE
• ELEIÇÕES INDIRETAS PARA O
PRÓXIMO PRESIDENTE

REFORMA FINANCEIRA CRISE


A CRISE DO
“ENCILHAMENTO” • EMISSÃO DE PAPEL MOEDA • INFLAÇÃO
• EXPANSÃO DO CRÉDITO • ESPECULAÇÃO FINANCEIRA

ELEIÇÕES DE 1891 PRESSÃO DO EXÉRCITO • MARECHAL DEODORO DA FONSECA (PRESIDENTE)


(CHAPA ABERTA) • MARECHAL FLORIANO PEIXOTO (VICE)

GOVERNO FLORIANO
GOVERNO DEODORO (1891)
PEIXOTO (1891-1894)
(MARECHAL DE FERRO)
• NÃO TEM APOIO NO CONGRESSO • COMBATE À INFLAÇÃO
• DECLARA ESTADO DE SÍTIO • SETORES MILITARES QUEREM NOVAS ELEIÇÕES
• 1ª REVOLTA DA ARMADA • 2ª REVOLTA DA ARMADA (1893-1894)
• RENÚNCIA • REVOLUÇÃO FEDERALISTA (RS: 1893-1895)

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